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Poesia & Contos Infantis

 

 

 


O CARDEAL DO KREMLIN / Ton Clancy
O CARDEAL DO KREMLIN / Ton Clancy

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

O CARDEAL DO KREMLIN

Parte I

 

Ameaças ¯ Velhas, Novas e Eternas

Eles o chamavam de Arqueiro. Era um título honorífico, já que fazia mais de um século que seus compatriotas Acham abandonado os ar­cos recurvos, passando a utilizar armas de fogo. O apelido, em parte, traduzia a natureza eterna da luta. O primeiro dos invasores ociden­tais ¯ pois assim os consideravam ¯ fora Alexandre, o Grande, e des­de então muitos outros o seguiram. Definitivamente, todos fracassaram. As tribos afegãs tinham na fé islâmica uma grande motivação para re­sistir, e a coragem obstinada que demonstravam fazia parte de sua he­rança racial tanto quanto os olhos escuros e impiedosos.

O Arqueiro era um homem jovem e velho ao mesmo tempo. Nas ocasiões em que lhe ocorria não apenas o desejo mas também a opor­tunidade de banhar-se num riacho de montanha, podia-se observar a musculatura jovem de seu corpo de 30 anos. Eram músculos flexí­veis de um homem para quem uma escalada de trezentos metros em rocha nua equivalia a uma tarefa tão insignificante quanto uma cami­nhada ao correio.

Seus olhos é que haviam envelhecido. Os afegães são um povo belo e altivo, cujas feições francas e a pele lisa sofrem rápido os efeitos do vento, do sol e da poeira, que os fazem parecer mais idosos. Só que no caso do Arqueiro o desgaste não fora causado pela ação do vento. Professor de matemática até três anos antes, formado em curso supe­rior num país onde a maioria julgava suficiente saber ler o sagrado Corão, casara-se jovem, como era o costume local, e tornara-se pai de duas crianças. Mas a mulher e a filha acabaram mortas, assassinadas por foguetes lançados por um caça de combate Sukhoi-24. Seu filho desaparecera. Seqüestrado. Depois que os soviéticos arrasaram o vila­rejo da família de sua mulher com bombardeio aéreo, vieram as tro­pas terrestres, matando os adultos remanescentes e recolhendo todos os órfãos, para embarcá-los para a União Soviética, onde seriam edu­cados e treinados segundo outros pontos de vista mais modernos. Tu­do porque a mulher quisera que a mãe conhecesse os netos antes de morrer, recordava-se o Arqueiro, tudo porque uma patrulha soviética fora atacada a poucos quilômetros da vila. No dia em que ficara sa­bendo da tragédia ¯ uma semana depois do ocorrido ¯, o professor de álgebra e geometria empilhara cuidadosamente seus livros sobre a escrivaninha e partira da pequena cidade de Ghazni em direção às montanhas. Uma semana depois refornaria à cidade após o escurecer com outros três homens e provaria ser digno de seus ancestrais, ma­tando três soldados soviéticos e apoderando-se de suas armas. Ainda trazia consigo aquele primeiro Kalashnikov.

Mas não fora por isso que ele ficara conhecido como o Arqueiro. O chefe de seu pequeno bando de mudjahidin ¯ cujo significado é "guerreiros da liberdade'' ¯ era um líder perspicaz e não menospre­zara o recém-chegado que consumira a juventude em salas de aula, assimilando costumes estrangeiros. Nem levara em conta a falta de con­fiança que aquele jovem demonstrara inicialmente. Quando iniciara no grupo, o professor possuía um conhecimento muito superficial do islamismo, mas o chefe acabou por recompensá-lo pelas lágrimas amar­gas que vertera copiosamente por seus olhos inocentes enquanto o imã o aconselhava a seguir a vontade de Alá. No período de um mês, o jovem professor tornara-se o mais implacável ¯ e o mais eficiente ¯ guerreiro do grupo, obviamente um instrumento da vontade divina. E fora ele o escolhido pelo líder para viajar ao Paquistão, onde pode­ria usar seus conhecimentos científicos e matemáticos para aprender a utilizar os mísseis terra-ar, SAM. Os primeiros mísseis SAM com que aquele homem sério e calado do "Amerikastão" equipou os mud­jahidin foram os modelos soviéticos SA-7, conhecidos pelos russos co­mo strela, "flecha". Como eram os primeiros SAM do tipo "portátil", não se revelaram muito eficazes, a menos que fossem utilizados com grande habilidade. Poucos homens possuíam tal habilidade. Dentre eles, o professor de aritmética era o melhor, e por seus sucessos com as "flechas" russas os companheiros passaram a chamá-lo de Arqueiro.

Naquele momento, ele estava de tocaia, com um novo míssil, um modelo americano denominado Stinger, "ferrão", apesar de que ago­ra todos os mísseis terra-ar em seu grupo ¯ e na realidade em toda a região ¯ eram conhecidos tão-somente como flechas: arsenal do Ar­queiro. Aguardava de bruços numa saliência estreita e pontiaguda, cem metros abaixo do topo da montanha, de onde dominava a vista de um vale desértico. A seu lado estava Abdul, seu batedor. O nome signifi­cava "criado", apropriadamente, uma vez que o adolescente carrega­va dois mísseis adicionais para seu tubo lançador de foguetes e, mais importante, tinha olhos de falcão. Eram olhos ardentes. O rapaz era órfão.

O Arqueiro esquadrinhava o terreno montanhoso, especialmente as bordas elevadas, com uma expressão que refletia uma experiência mi­lenar de combate. Embora bastante amigável, era raro vê-lo sorrir; não demonstrava interesse em conseguir uma nova esposa, nem mesmo em unir sua solidão à de alguma viuva recente. Em sua vida só havia lugar para uma paixão.

¯  Ali ¯ declarou Abdul, estendendo o braço.

¯  Já vi.

A batalha que se desenrolava no fundo do vale ¯ uma das muitas daquele dia ¯ já durava cerca de trinta minutos, tempo suficiente pa­ra que os soldados soviéticos recebessem o apoio de sua base de heli­cópteros, que ficava 20 quilômetros além da próxima fileira de montanhas. O sol refletiu brevemente na cabine envidraçada do Mi-24, o bastante para que os dois guerrilheiros identificassem a presença do helicóptero a uns 15 quilômetros de distância, avançando ao longo da borda da escarpa. Muito acima deles, fora de alcance, circulava solitá­rio um avião de transporte bimotor Antonov-26, dotado de equipa­mento de observação e radiotransmissores para coordenar as ações terrestres e aéreas. Mas os olhos do Arqueiro focalizavam apenas o Mi-24, um helicóptero de ataque Hind, carregado com foguetes e ca­nhões de bombardeio, que naquele instante mesmo recebia informa­ções do avião de comando circulante.

O Stinger fora uma surpresa desagradável para os russos, que vi­nham mudando diariamente suas táticas aéreas para fazer frente à no­va ameaça. O vale era profundo, porém mais estreito do que os demais. Para o piloto atingir os companheiros de guerrilha do Arqueiro, pre­cisaria vir pelo fundo da apertada passagem rochosa. Ele tinha de per­manecer no alto, pelo menos a 1 000 metros do fundo rochoso, por recear a presença de um lançador de mísseis entre os combatentes ar­mados de fuzis. O Arqueiro observava o vôo em ziguezague do heli­cóptero, enquanto o piloto se aproximava fazendo um reconhecimento do terreno e escolhendo sua rota de ataque. De acordo com o espera­do, aproximava-se contra o vento, de maneira a que o som dos rotores por foguetes lançados por um caça de combate Sukhoi-24. Seu filho desaparecera. Seqüestrado. Depois que os soviéticos arrasaram o vila­rejo da família de sua mulher com bombardeio aéreo, vieram as tro­pas terrestres, matando os adultos remanescentes e recolhendo todos os órfãos, para embarcá-los para a União Soviética, onde seriam edu­cados e treinados segundo outros pontos de vista mais modernos. Tu­do porque a mulher quisera que a mãe conhecesse os netos antes de morrer, recordava-se o Arqueiro, tudo porque uma patrulha soviética fora atacada a poucos quilômetros da vila. No dia em que ficara sa­bendo da tragédia ¯ uma semana depois do ocorrido ¯  o professor de álgebra e geometria empilhara cuidadosamente seus livros sobre a escrivaninha e partira da pequena cidade de Ghazni em direção às montanhas. Uma semana depois retornaria à cidade após o escurecer com outros três homens e provaria ser digno de seus ancestrais, ma­tando três soldados soviéticos e apoderando-se de suas armas. Ainda trazia consigo aquele primeiro Kalashnikov.

Mas não fora por isso que ele ficara conhecido como o Arqueiro. O chefe de seu pequeno bando de mudjahidin ¯ cujo significado é "guerreiros da liberdade'' ¯ era um líder perspicaz e não menospre­zara o recém-chegado que consumira a juventude em salas de aula, assimilando costumes estrangeiros. Nem levara em conta a falta de con­fiança que aquele jovem demonstrara inicialmente. Quando iniciara no grupo, o professor possuía um conhecimento muito superficial do islamismo, mas o chefe acabou por recompensá-lo pelas lágrimas amar­gas que vertera copiosamente por seus olhos inocentes enquanto o imã o aconselhava a seguir a vontade de Alá. No período de um mês, o jovem professor tornara-se o mais implacável ¯ e o mais eficiente ¯ guerreiro do grupo, obviamente um instrumento da vontade divina. E fora ele o escolhido pelo líder para viajar ao Paquistão, onde pode­ria usar seus conhecimentos científicos e matemáticos para aprender a utilizar os mísseis terra-ar, SAM. Os primeiros mísseis SAM com que aquele homem sério e calado do "Amerikastão" equipou os mud­jahidin foram os modelos soviéticos SA-7, conhecidos pelos russos co­mo strela, "flecha". Como eram os primeiros SAM do tipo "portátil", não se revelaram muito eficazes, a menos que fossem utilizados com grande habilidade. Poucos homens possuíam tal habilidade. Dentre eles, o professor de aritmética era o melhor, e por seus sucessos com as "flechas" russas os companheiros passaram a chamá-lo de Arqueiro.

Naquele momento, ele estava de tocaia, com um novo míssil, um modelo americano denominado Stinger, "ferrão", apesar de que ago­ra todos os mísseis terra-ar em seu grupo ¯ e na realidade em toda a região ¯ eram conhecidos tão-somente como flechas: arsenal do Ar­queiro. Aguardava de bruços numa saliência estreita e pontiaguda, cem metros abaixo do topo da montanha, de onde dominava a vista de um vale desértico. A seu lado estava Abdul, seu batedor. O nome signifi­cava "criado", apropriadamente, uma vez que o adolescente carrega­va dois mísseis adicionais para seu tubo lançador de foguetes e, mais importante, tinha olhos de falcão. Eram olhos ardentes. O rapaz era órfão.

O Arqueiro esquadrinhava o terreno montanhoso, especialmente as bordas elevadas, com uma expressão que refletia uma experiência mi­lenar de combate. Embora bastante amigável, era raro vê-lo sorrir; não demonstrava interesse em conseguir uma nova esposa, nem mesmo em unir sua solidão à de alguma  recente. Em sua vida só havia lugar para uma paixão.

¯  Ali ¯ declarou Abdul, estendendo o braço.

¯  Já vi.

A batalha que se desenrolava no fundo do vale ¯ uma das muitas daquele dia ¯ já durava cerca de trinta minutos, tempo suficiente pa­ra que os soldados soviéticos recebessem o apoio de sua base de heli­cópteros, que ficava 20 quilômetros além da próxima fileira de montanhas. O sol refletiu brevemente na cabine envidraçada do Mi-24, o bastante para que os dois guerrilheiros identificassem a presença do helicóptero a uns 15 quilômetros de distância, avançando ao longo da borda da escarpa. Muito acima deles, fora de alcance, circulava solitá­rio um avião de transporte bimotor Antonov-26, dotado de equipa­mento de observação e radiotransmissores para coordenar as ações terrestres e aéreas. Mas os olhos do Arqueiro focalizavam apenas o Mi-24, um helicóptero de ataque Hind, carregado com foguetes e ca­nhões de bombardeio, que naquele instante mesmo recebia informa­ções do avião de comando circulante.

O Stinger fora uma surpresa desagradável para os russos, que vi­nham mudando diariamente suas táticas aéreas para fazer frente à no­va ameaça. O vale era profundo, porém mais estreito do que os demais. Para o piloto atingir os companheiros de guerrilha do Arqueiro, pre­cisaria vir pelo fundo da apertada passagem rochosa. Ele tinha de per­manecer no alto, pelo menos a 1 000 metros do fundo rochoso, por recear a presença de um lançador de mísseis entre os combatentes ar­mados de fuzis. O Arqueiro observava o vôo em ziguezague do heli­cóptero, enquanto o piloto se aproximava fazendo um reconhecimento do terreno e escolhendo sua rota de ataque. De acordo com o espera­do, aproximava-se contra o vento, de maneira a que o som dos rotores fosse ouvido alguns segundos mais tarde, vantagem essa que poderia ser decisiva. O rádio no avião acima devia estar monitorando as fre­qüências usadas pelos mudjahidin, de forma que os russos saberiam quando o helicóptero fosse avistado e talvez obtivessem uma indica­ção de onde o lançador de mísseis poderia estar. De fato, Abdul carre­gava um radiotransmissor, desligado e guardado nas dobras da roupa.

Vagarosamente, o Arqueiro levantou o lançador e apontou a mira de dois elementos para o helicóptero que se aproximava. Deslizando o polegar para o lado e para baixo, pressionou a chave que ativava o sistema e apoiou o rosto na barra de condutância, escutando o suave apito eletrônico da unidade de busca do lançador. O piloto já fizera a estimativa e tomara sua decisão. Aproximava-se pelo lado oposto do vale, um pouco além do alcance de um míssil, para a primeira carga sobre o inimigo. O nariz do Hind vinha abaixado, e o artilheiro, sen­tado à frente e um pouco abaixo do piloto, apontava as armas na dire­ção dos combatentes. Do chão do vale brotaram pequenas colunas de fumaça. Os soldados soviéticos utilizavam o fogo de morteiros para indicar as posições atacantes e o helicóptero alterou o curso levemen­te. Chegava o momento. Dos suportes de foguetes do helicóptero ir­romperam chamas e a primeira salva de artilharia partiu para o solo.

Nesse momento, um outro rastro de fumaça lançou-se para cima. O helicóptero guinou para a esquerda, bem longe da trajetória do pro­jétil, que o piloto interpretou como inofensivo no momento, mas ain­da assim um sinal de perigo. O Arqueiro firmou as mãos no lançador. O helicóptero fazia um desvio que o trazia mais para perto, aumen­tando de tamanho no anel interior da mira. Agora estava dentro do alcance. O Arqueiro golpeou o botão dianteiro com o polegar esquer­do, "liberando" o míssil e permitindo que a ogiva infravermelha de busca do Stinger tivesse a sua primeira "visão" do calor que se irra­diava das turbinas do Mi-24. O som que penetrava pelo osso malar até seus ouvidos mudou de freqüência. O míssil agora rastreava o al­vo. O piloto do Hind resolveu atingir a área de onde o "míssil" fora lançado, trazendo o aparelho ainda mais para a esquerda numa curva suave. Inadvertidamente, virou de tal maneira que o escape dos jatos ficou voltado para a posição em que estavam os guerrilheiros na encosta.

O míssil emitia agora um apito de prontidão, mas o Arqueiro não se moveu. Tentou pensar como o piloto inimigo, julgando que ele ain­da tentaria aproximar-se mais antes de ter a posição ideal de tiro con­tra os odiados guerrilheiros afegães. E foi o que aconteceu. Quando o Hind encontrava-se à distância de 1 000 metros, o Arqueiro inspi­rou profundamente, elevou um pouco a mira e sussurrou uma breve oração de vingança. Foi como se o gatilho se movesse espontaneamente.

O lançador saltou em suas mãos quando o Stinger partiu num arco suave para cima, antes de riscar os ares em busca do alvo. Os olhos do Arqueiro eram penetrantes o suficiente para distinguir o fino e quase invisível rastro de fumaça. O míssil exibiu suas aletas de direção, que se moveram por poucas frações de milímetro, obedecendo às ordens de comando do cérebro computadorizado ¯ um microchip do tama­nho de um selo. Nas alturas, a bordo do circulante An-26, um obser­vador distinguiu a minúscula nuvem de fumaça e estendeu o braço na direção do microfone para dar o alerta, mas sua mão mal tocou o instrumento plástico antes que o míssil se chocasse com o alvo.

O míssil entrou diretamente num dos motores do helicóptero e ex­plodiu, deixando-o instantaneamente fora de combate. O eixo trans­missor do rotor traseiro partiu-se, e o Hind começou a girar para a esquerda, enquanto o piloto tentava desesperadamente entrar em auto-rotação, procurando abaixo um local plano, e o artilheiro emitia um estridente pedido de socorro pelo rádio. O piloto colocou o motor em marcha lenta, ajustando o manche para torque controlado, avistou um espaço relativamente plano abaixo, desligou os comutadores e ativou o sistema extintor de bordo. Como todos os homens que voam, temia o fogo acima de tudo, embora fosse verificar seu erro mais cedo do que esperava.

O Arqueiro observou o Mi-24 bater de nariz contra a base do pe­nhasco, 150 metros abaixo de seu posto na encosta. Surpreendente­mente, o helicóptero não irrompeu em chamas ao se despedaçar. Capotou violentamente, a cauda projetada para a frente, sobre a cabi-ne, antes de imobilizar-se de lado no solo rochoso. O Arqueiro come­çou a descer a encosta com Abdul a seu lado. Os dois demoraram cinco minutos para chegar ao local.

O piloto lutava com as correias que o prendiam de cabeça para bai­xo ao assento. Estava sentindo dores, mas sabia que só os vivos sen­tem dor. O novo modelo de helicóptero tinha aperfeiçoados sistemas internos de segurança. À custa deles e da própria habilidade conse­guira salvar sua vida. Mas não a de seu artilheiro, como constatou olhando para o lado. O homem estava imóvel, com o pescoço quebra­do e os braços pendendo em direção ao chão. Só que agora não havia tempo para lamentar coisa alguma, com o assento destroçado e a ar­mação metálica da cabine amassada transformada em verdadeira jaula. O fecho de emergência tinha enguiçado e os parafusos explosivos recusavam-se a detonar. Apanhou sua pistola do coldre no ombro e começou a atirar metodicamente na grade. Perguntava-se se o An-26 acima tinha recebido sua chamada de emergência. Imaginou se o he­licóptero de apoio da base já estaria a caminho. O rádio de salvamento estava num bolso de sua calça, e ele o ativaria assim que saísse do apa­relho danificado. Cortou as mãos ao afastar as tiras de metal, abrindo espaço suficiente para passar o corpo. Agradeceu a sorte de não ter­minar seus dias numa pira funerária de graxa e metal enquanto solta­va as correias e saía do aparelho para o solo pedregoso.

Sua perna esquerda estava quebrada. A ponta afiada e esbranquiça-da de um osso perfurava o macacão; embora não sentisse dor ainda devido ao choque, a simples visão do ferimento deixou-o horrorizado. Guardou a pistola descarregada na cartucheira e apanhou um pedaço de metal para usar como bengala. Precisava sair logo dali. Rastejou penosamente até a encosta íngreme, onde divisou o que parecia ser uma trilha. As forças aliadas estavam a 3 quilômetros de distância. Dispunha-se a iniciar o longo percurso quando ouviu um ruído e se voltou. A esperança transformou-se rapidamente em terror, e ele per­cebeu que uma morte rápida teria sido uma bênção.

O Arqueiro abençoou o nome de Alá ao sacar a faca da bainha.

Não podem ter deixado muita coisa aí dentro, pensou Ryan. O casco parecia intacto ¯ pelo menos à primeira vista ¯, mas exibia sinais de remendos malfeitos, tão evidentes quanto as cicatrizes do monstro do barão Frankenstein. Uma comparação bastante apropriada, refle­tiu ele. O homem construía dessas coisas, que podiam um dia des­truir seu criador no espaço de uma hora.

¯  Meu Deus, é impressionante como eles parecem grandes por fora...

¯  E pequenos por dentro? ¯ completou Marko, com uma ponta de tristeza.

Não fazia muito tempo que o capitão Marko Ramius, da Voyenno Morskoi Flot, trouxera o submarino para o dique seco onde se encon­trava. Não permanecera para presenciar os técnicos da Marinha ame­ricana dissecando a embarcação, como médicos-legistas debruçados sobre um cadáver, removendo os mísseis, o reator nuclear, os sonares, os computadores de bordo e equipamentos de comunicação, os peris-cópios e até mesmo os fogões da cozinha, tudo destinado a ser anali­sado em bases espalhadas pelos Estados Unidos afora. A autorização para ausentar-se fora concedida a seu próprio pedido. O ódio que Ra­mius devotava ao regime soviético não se estendia às embarcações que construíam. Navegara bem naquele submarino ¯ e o Outubro Verme­lho, em russo Krazny Oktyabr, salvara sua vida.

E a de Ryan também. Jack passou os dedos sobre o cicatriz na testa, ao lado do couro cabeludo, e imaginou se teriam limpado seu sangue do console em frente ao timão.

¯  Pensei que fosse oferecer-se para levá-lo ¯ declarou ele a Ramius.

¯  Não. ¯ Marko balançou a cabeça. ¯ Só queria me despedir. Era um bom barco.

¯  Bom mesmo ¯ concordou Jack, baixinho.

Procurou com o olhar o buraco mal remendado que o torpedo Alfa fizera no casco a bombordo, e balançou a cabeça em silêncio. Bom o suficiente para salvar meu rabo quando aquele torpedo explodiu. Os dois homens observavam em silêncio, um pouco afastados dos marinhei­ros e fuzileiros navais que cuidavam da segurança da área desde de­zembro anterior.

O dique seco começava a ser alagado, a água imunda do rio Eliza-beth penetrando lentamente no tanque de concreto. Eles o levariam aquela noite. Seis submarinos americanos de ataque rápido estavam agora "varrendo" a área oceânica a leste da Base Naval de Norfolk, participando ostensivamente de um exercício que também envolvia al­gumas belonaves de superfície. Eram 9 horas de uma noite sem lua. Iria demorar pelo menos uma hora para inundar o dique seco. A tri­pulação de trinta homens já se encontrava a bordo. Acionariam os mo­tores diesel e a embarcação partiria em sua segunda e última viagem, rumando para a profunda fossa ao norte de Porto Rico, onde seria afun­dada em 7 500 metros de profundidade.

Ryan e Ramius observavam enquanto a água cobria os dormentes de madeira que suportavam o casco, molhando a quilha do submari­no pela primeira vez em quase um ano. A água chegava com mais ra­pidez agora, subindo pelas marcas de flutuação máxima pintadas a vante e a ré e na proa. No convés, um punhado de marinheiros usan­do coletes salva-vidas de cor alaranjada berrante preparava-se para soltar as catorze amarras que mantinham firme a embarcação.

O submarino em si continuava imóvel. O Outubro Vermelho acolhia a água com indiferença. Talvez saiba do destino que o aguarda, disse Ryan a si mesmo. Era um pensamento bobo ¯ mas também sabia que há milênios os homens do mar atribuíam personalidade ao navio no qual serviam.

Finalmente o submarino se moveu. A água fez o casco flutuar aci­ma dos dormentes de madeira. Seguiu-se uma série de ruídos ocos e abafados, mais sentidos através do piso que escutados, à medida que o casco se elevava alguns centímetros de cada vez.

Minutos depois, os motores diesel da embarcação roncaram com vida e os homens que manejavam os cabos começaram a recolhê-los. Ao mesmo tempo, a lona que cobria a saída voltada para o mar foi retirada e todos puderam ver a névoa suspensa sobre o rio lá fora. As condições eram perfeitas para a operação. Tinham de ser, a Marinha aguardara seis semanas por uma noite sem lua e pelo espesso nevoeiro que costumava cobrir a região da baía de Chesapeake naquela época do ano. Quando a última amarra foi solta, um oficial na torre do sub­marino levantou uma buzina a ar comprimido e produziu um único e lamentoso som.

¯  A caminho! ¯ gritou ele, enquanto os marinheiros na proa reti­ravam a bandeira.

Pela primeira vez, Ryan percebeu que era o pavilhão soviético. Sor­riu. Era um toque simpático. Na popa, outro marinheiro hasteava a bandeira naval soviética, com a brilhante estrela vermelha adornada pelo escudo da Esquadra do Norte. A Marinha, sempre zelosa de suas tradições, saudava o homem que estava a seu lado.

Ryan e Ramius observaram o submarino quando ele começou a mover-se impulsionado pelos próprios motores, as duas hélices de bron­ze girando suavemente em rotação inversa à medida que a embarca­ção penetrava de marcha a ré no curso do rio. Aproveitando o apoio de um dos cabos, virou para o norte. Em mais um minuto tinha desa­parecido de vista. Só o ronco dos motores era audível por sobre a água oleosa do estaleiro.

Marko assoou o nariz e piscou meia dúzia de vezes. Quando des­viou os olhos da água, sua voz estava firme.

¯  Então, Ryan, trouxeram você da Inglaterra para isso?

¯  Não, já faz algumas semanas que voltei. Um novo trabalho.

¯  Pode dizer que trabalho é? ¯ interessou-se Marko.

¯ Controle de armamentos. Querem que eu coordene a parte de Inteligência para a comissão de negociações. Teremos que partir em janeiro.

¯  Moscou?

¯  Isso. E uma sessão preliminar: organizar a agenda, fazer um pou­co de trabalho técnico, esse tipo de coisas. E você?

¯  Eu trabalho nas Bahamas com o AUTEC, o Centro de Avaliação e Testes de Submarinos no Atlântico. Bastante sol e praia. Não repa­rou no meu bronzeado? ¯ Ramius sorriu. ¯ Venho a Washington a cada dois ou três meses. Daqui a cinco horas vou pegar o vôo de vol­ta. Estamos trabalhando em um novo projeto, bastante tranqüilizador. ¯ Deu outro sorriso. ¯ É sigiloso.

¯  Ótimo! Então quero que apareça em minha casa. Ainda estou

lhe devendo um jantar. ¯ Jack estendeu um cartão. ¯ Aqui está meu número. Telefone alguns dias antes de chegar e eu providencio as coi­sas com a Agência.

Ramius e seus auxiliares estavam sob um regime muito severo de proteção pelos agentes da CIA. O que realmente surpreendia era o fa­to de que a história não houvesse vazado. Nenhum dos meios de co­municação ficara sabendo, e, se a segurança era tão boa quanto parecia, provavelmente os russos não tinham idéia do paradeiro de seu subma­rino lançador de mísseis, o Outubro Vermelho. A essa altura, ele devia estar guinando para leste, pensou Jack, para passar além do túnel de Hampton Roads. Mais ou menos dali a uma hora, mergulharia e se­guiria para sudeste. Ele balançou a, cabeça.

A tristeza de Ryan com o destino  da embarcação diminuiu quando ele recordou o propósito de sua construção. Lembrava-se ainda da sen­sação que tivera um ano antes, a primeira vez que estivera tão perto daqueles acontecimentos tenebrosos. Jack concordava com o fato de que as armas nucleares mantinham a paz ¯ se é que se podia chamar de paz as condições em que o mundo se encontrava ¯, porém, como a maioria das pessoas, acreditava que devia haver uma maneira me­lhor de preservá-la. Bem, de qualquer maneira era um submarino, vinte e seis mísseis e cento e oitenta e duas ogivas nucleares a menos. Estatisticamente, disse Ryan a si mesmo, não faz tanta diferença assim.

Mas já era alguma coisa.

A 16 000 quilômetros de distância dali e 2 600 metros acima do ní­vel do mar, o problema era o tempo ruim. O lugar era a República Socialista Soviética do Tadjiquistão, e soprava um vento forte do sul, trazendo a umidade do oceano Índico que caía na forma de uma garoa fina e gelada. Em pouco tempo chegaria o inverno de verdade, que ali sempre vinha cedo, logo após o verão causticante, e do céu cairia continuamente a neve fria e gelada.

A maioria dos trabalhadores era constituída de jovens e ambiciosos membros do Komsomol, Liga da Juventude Comunista, trazidos pa­ra terminar um projeto de construção iniciado em 1983. Um deles, candidato a mestrado em física na Universidade Estatal de Moscou, afastou a chuva dos olhos e endireitou as costas doloridas de permane­cer na mesma posição. Aquela não era maneira de se ocupar um jovem e promissor engenheiro, pensou Morozov. Em vez de ficar brincando com instrumentos de observação, poderia estar construindo geradores de laser em seu laboratório, contudo pretendia tornar-se membro efetivo do Partido Comunista da União Soviética, e desejava evitar o serviço militar. A combinação do adiantamento escolar e do trabalho para o Komsomol conduziria a esse último objetivo.

¯  Então?

Morozov voltou-se para um dos engenheiros locais. Um engenheiro civil, ao que parecia, que se qualificava como um homem que enten­dia de concreto.

¯  A posição está correta, camarada engenheiro.

O homem mais velho inclinou-se para observar através do visor.

¯  Concordo. E graças ao bom Deus este é o último.

Os dois tiveram um sobressalto ao escutar uma explosão distante. Engenheiros do Exército Vermelho destruindo mais uma formação ro­chosa fora do perímetro delimitado. Não é necessário ser soldado para entender o que está acontecendo, pensou Morozov.

¯  Você tem jeito para lidar com instrumentos ópticos. Talvez ve­nha a tornar-se um engenheiro civil também, hein? Construir coisas úteis para o Estado!

¯ Não, camarada. Eu estudo física avançada... Principalmente la­ser. ¯ Também são conhecimentos úteis.

¯ Nesse caso talvez ainda volte para esses lados... ¯ O engenheiro grunhiu, balançando a cabeça. ¯ Deus o ajude.

¯  E isso...

¯  Você não ouviu nada de mim ¯ declarou o engenheiro com firmeza.

¯  Compreendo... ¯ admitiu baixinho Morozov. ¯ Já suspeitava.

¯  Se fosse você, eu seria muito cuidadoso ao externar essas suspei­tas ¯ aconselhou o engenheiro, voltando o rosto para o caminho de volta.

¯  Esse deve ser um ótimo lugar para ver as estrelas ¯ observou Morozov, aguardando a resposta correta.

¯  Eu não saberia dizer... ¯ O engenheiro civil sorriu. ¯ Nunca encontrei um astrônomo.

Morozov também sorriu interiormente. Ele tinha razão em suas su­posições, afinal. Eles haviam acabado de marcar a posição onde se­riam montados espelhos, todos eqüidistantes de um ponto central na construção fortemente guarnecida por guardas armados. Uma tama­nha precisão, ele sabia, só poderia ter duas aplicações. Uma delas era a astronomia, que captava a luz vinda do céu. A outra aplicação en­volvia luz subindo para o céu. O jovem engenheiro disse a si mesmo que era esse o lugar para onde queria ir. Esse local mudaria o mundo.

 

A Recepção do Partido

Os negócios estavam em andamento. Todos os tipos de negócios. To­dos ali sabiam disso. Todos ali participavam deles. Todos ali depen­diam deles. E ainda assim todos ali se dedicavam de uma maneira ou de outra a obstruí-los. Para cada pessoa ali no Salão São Jorge do Gran­de Palácio do Kremlin, o dualismo era um componente normal da vida.

Os participantes eram principalmente russos e americanos, e dividiam-se em quatro grupos.

Em primeiro lugar vinham os políticos e diplomatas. Podiam-se dis­tingui-los facilmente pelas roupas caras e bem confeccionadas, pela postura ereta, e pelos sorrisos mecânicos, automáticos, além da pro­núncia cuidadosa, mesmo depois de várias doses de álcool. Eles eram os superiores, sabiam disso, e sua atitude o denunciava.

Em segundo, os militares. Não se podiam realizar negociações so­bre armamentos sem incluir os homens que controlavam as armas, faziam sua manutenção, os testes e as mimavam, repetindo o tempo todo que os políticos que controlavam os homens nunca dariam a or­dem de disparar. Os militares com seus uniformes permaneciam so­bretudo em pequenos grupos homogêneos por nacionalidade e patente, cada um segurando um copo de bebida pela metade e um guardanapo na mão, enquanto examinavam o salão com olhares inexpressivos, co­mo se procurassem uma ameaça num campo de batalha desconheci­do. Pois era exatamente essa a impressão que tinham, de um campo de batalha sem sangue onde seriam definidos os verdadeiros comba­tes se os figurões políticos chegassem a perder o controle, a perder a calma, a perder a perspectiva, a perder o que quer que existia no interior de um homem que tenta evitar o desperdício inútil de vidas jovens. Os militares confiavam apenas uns nos outros, e em alguns casos confiavam mais nos inimigos que usavam uniformes diferentes do que em seus superiores de roupas finas. Pelo menos sempre se po­dia saber de que lado estava um militar. Não se podia dizer o mesmo dos políticos, mesmo dos compatriotas. Os militares conversavam en­tre si em voz baixa, sempre observando para saber se alguém estava escutando, parando ocasionalmente para um rápido gole, acompanhado de mais um olhar pelo salão. Eles eram as vítimas, mas também os predadores ¯ os cães, talvez, mantidos na coleira por aqueles que se intitulavam donos dos eventos.

Os militares também tinham problemas para acreditar nisso.

Em terceiro lugar, vinham os jornalistas. Também podiam ser reco­nhecidos pelas roupas, que sempre se encontravam amassadas, em vir­tude de serem dobradas repetidas vezes em malas menores do que o desejável. Eles careciam do refinamento dos políticos, assim como dos sorrisos permanentes, substituídos por olhares inquisidores infantis, combinados ao cinismo dos dissolutos. De preferência, mantinham o copo na mão esquerda, algumas vezes com um pequeno bloco fa­zendo as vezes de guardanapo, enquanto uma caneta ficava meio dis­farçada na direita. Circulavam como aves de rapina. Se um deles encontrava alguém disposto a falar, os outros notavam e vinham be­ber as informações. Um observador casual poderia perceber quão in­teressante era a informação pela velocidade com que o grupo saía em busca de uma nova fonte. Nesse sentido os americanos e os outros jor­nalistas ocidentais tinham um comportamento diferente do de seus co­legas soviéticos, que na maior parte se mantinham solidários aos seus senhores, como condes de outras épocas, não só por mostrar lealdade ao Partido, como também agindo como proteção contra os colegas de outros países. Mas, juntos, formavam a platéia na peça teatral que ti­nha lugar ali.

Em quarto lugar, vinha o grupo final, invisível, aqueles que não se podiam identificar com facilidade. Eram os espiões, e os agentes da contra-espionagem que os caçavam. Distinguiam-se dos agentes de se­gurança, que encaravam a todos abertamente com ar de suspeita. No interior do salão, os espiões ficavam tão invisíveis quanto os garçons que circulavam com pesadas bandejas de prata cheias de taças de cris­tal com champanhe e cálices de vodca, requisitados à Casa dos Roma-nov. Alguns dos garçons eram agentes de contra-espionagem, é claro. Esses tinham que circular pelo salão, de ouvido atento a trechos de conversa, a uma voz baixa demais, ou alguma palavra que não se en­caixasse ao espírito da reunião. Não era uma tarefa nada fácil. Num dos cantos, um quarteto de cordas tocava música de câmara, à qual ninguém parecia prestar atenção, mas, como aquilo era próprio das recepções diplomáticas, a ausência de músicos seria notada com cer­teza. Depois havia ainda o volume da voz humana. No interior do sa­lão circulavam por volta de cem pessoas, cada uma falando pelo menos durante a metade do tempo. Os que estavam próximos ao quarteto eram obrigados a falar mais alto para serem ouvidos. Todo o barulho resul­tante estava contido num salão de 15 metros de comprimento por 20 de largura, com o piso de tacos formando desenhos, e paredes de es-tuque que refletiam e reverberavam o som, até que este atingisse ní­veis de ruído que fariam doer os ouvidos de uma criança pequena. Os espiões usavam sua invisibilidade e o barulho para se tornarem os fantasmas da festa.

Mas os espiões estavam ali. Todos sabiam disso. Qualquer um em Moscou poderia falar sobre espiões. Se você se encontrasse regular­mente com um ocidental, o mais prudente seria relatar o fato, pois, se um policial da Milícia de Moscou ¯ ou um oficial do Exército com sua maleta ¯ passasse pelo local, voltaria a cabeça e faria anotações. Talvez superficiais, talvez não. Os tempos haviam mudado desde Stá-lin, claro, porém a Rússia ainda era a Rússia, e a desconfiança em relação aos estrangeiros e suas idéias era muito mais antiga do que qual­quer ideologia.

A maior parte das pessoas no salão tinha conhecimento de tudo isso, mas procurava não pensar muito no assunto ¯ exceto os que realmente participavam do jogo. Os diplomatas e políticos estavam mais acostu­mados a tomar cuidado com o que diziam e não pareciam especialmen­te preocupados no momento. Para os jornalistas, tudo não passava de um jogo fabuloso que na verdade não os interessava, embora cada jor­nalista ocidental soubesse ipso facto que aquele ou aquela fosse na ver­dade um agente da espionagem do governo soviético. Os militares eram os que mais se preocupavam. Sabiam a importância da Inteligência, precisavam dela, avaliavam-na e, acima de tudo, desprezavam os que reuniam as informações pela sujeira em que estavam metidos.

Quem eram os espiões?

Claro que um punhado de pessoas não se encaixava em nenhuma das categorias ¯ ou encaixava-se em mais de uma.

¯ E o que achou de Moscou, doutor Ryan? ¯perguntou um russo.

Jack interrompeu o exame que fazia do belo relógio do Salão São Jorge.

¯  Fria e escura, receio ¯ respondeu Ryan, depois de dar um gole em sua taça de champanhe. ¯ Não que nós tivéssemos tido chance de ver muita coisa.

O grupo de americanos não veria muita coisa mesmo. Estavam há apenas quatro dias na União Soviétiva e voariam de volta no dia se­guinte, depois de concluírem a sessão técnica que precedia a sessão plenária.

¯  É uma pena ¯ comentou Sergey Golovko.

¯  É verdade ¯ concordou Jack. ¯ Se toda a arquitetura por aqui é bonita assim, gostaria de ter alguns dias só para admirá-la. Quem quer que tenha construído essa casa tinha classe.

Indicou aprovadoramente com um gesto as paredes brancas e uni­formes, a cúpula do teto e os adornos de ouro. Na verdade ele achava um pouco exagerado, mas sabia que os russos tinham uma tendência nacional a exagerar em muitas coisas. Para os russos, que raramente tinham o bastante de qualquer coisa, "ter o suficiente" significava ter mais do que os outros; de preferência, mais do que todos os outros. Ryan considerava esse modo de pensar a evidência de um tipo de com­plexo de inferioridade nacional, e lembrou a si mesmo que as pessoas que se sentiam inferiores tinham um desejo patológico de questionar as próprias percepções. Esse fator dominava todos os aspectos do pro­cesso de controle de armas, deslocando a própria lógica como a base para se alcançar um acordo.

¯  Os decadentes Romanov! ¯ observou Golovko. ¯ Tudo vindo do suor dos camponeses.

Ryan riu polidamente.

¯  Bom, pelo menos algum dinheiro dos impostos foi aplicado em algo belo, inofensivo... e imortal. Se quer saber minha opinião, é me­lhor do que comprar armas feias que se tornam obsoletas em dez anos. Aí está uma idéia, Sergey Nikolayevich. Precisamos redirecionar nos­sas competições político-militares para a beleza, em vez de para as ar­mas nucleares.

¯  Está satisfeito com os progressos, então?

Negócios. Ryan encolheu os ombros e continuou e apreciar o salão.

¯  Acho que já concordamos sobre a agenda. Depois, aquele pes­soal ao lado da lareira vai tratar dos detalhes. ¯ Olhou para um dos enormes candelabros de cristal, imaginando quantos anos de esforço teria custado e como devia ter sido difícil pendurar um objeto que pe­sava tanto quanto um automóvel pequeno.

¯  Está satisfeito com o aspecto da "verificabilidade"?

Está confirmado, pensou Ryan, com um sorriso. Golovko é da GRU,

a agência soviética de Inteligência militar. E a ela estavam afetos os Meios Técnicos Nacionais, expressão que designava satélites-espiões e outros métodos de observação de países inimigos, assuntos que nos Estados Unidos eram tratados pela CIA. A despeito de a minuta do acordo mencionar inspeção no local, a maior parte desse item, no tex­to final do acordo, versaria sobre os satélites-espiões. Essa devia ser a área de Golovko.

Não era nenhum segredo que Jack trabalhava para a CIA, nem ti­nha que ser, pois ele não era um agente de campo. Sua ligação com o grupo de negociações devia-se a uma questão de lógica. Sua função atual estava relacionada ao controle de certos sistemas de armas estra­tégicas no interior da União Soviética. Antes de assinar qualquer tra­tado, cada lado precisava satisfazer sua própria paranóia institucionalizada, certificando-se de que nenhum truque estava sen­do aplicado ao outro. Jack aconselhava o chefe das negociações nesse sentido. Isto é, quando ele estava disposto a ouvir.

¯  A verificabilidade é uma questão técnica e difícil ¯ replicou de­pois de um momento. ¯ Receio que eu não tenha competência para falar sobre isso. O que o seu pessoal achou da nossa proposta de limi­tar o número de equipamentos baseados em terra?

¯  Nós dependemos mais dos mísseis baseados em terra do que vo­cês ¯ declarou Golovko baixando a voz, mais cauteloso ao abordar o cerne da posição soviética.

¯  Não entendo por que não colocam mais ênfase nos submarinos, como nós...

¯  Confiabilidade, como bem sabe.

¯  O que é isso, os submarinos são confiáveis... ¯ provocou Jack, con­tinuando a examinar o relógio. Era simplesmente magnífico. Um militante com jeito de camponês estendia uma espada a outro camarada, incitando-o para que ele fosse à luta. Não ê exatamente uma idéia nova, pensou Jack, o velho espertalhão mandando algum garoto para morrer em seu lugar.

¯  Lamento dizer que tivemos alguns acidentes.

¯  Ouvi dizer, aquele ianque que naufragou nas Bermudas...

¯  E o outro.

¯  Como? ¯ Jack foi obrigado a voltar-se, fazendo um esforço para não sorrir.

¯  Por favor, doutor Ryan, não insulte minha inteligência. Conhece a história do Outubro Vermelho tão bem quanto eu.

¯  Como é o nome? Já sei: o Typhoon que vocês perderam ao largo das Carolinas. Nessa época eu estava em Londres. Não recebi infor­mações sobre o caso.

¯  De qualquer modo acho que os dois acidentes ilustram bem os problemas que nós, soviéticos, enfrentamos. Não podemos con­fiar em nossos submarinos tão completamente quanto vocês confiam nos seus.

¯  Hum. ¯ Isso sem mencionar os pilotos, pensou Ryan, tendo o cui­dado de manter o rosto impassível.

¯  Posso fazer uma pergunta objetiva? ¯ insistiu Golovko.

¯  Claro, desde que não espere uma resposta objetiva ¯ retrucou Ryan.

¯  Sua comunidade de informações vai aprovar nossa proposta de tratado de desarmamento?

¯  E agora, como é que eu poderia saber a resposta a uma pergunta dessas? ¯ Jack interrompeu-se. ¯ E quanto à sua Inteligência?

¯  Eles farão o que nossos órgãos de segurança estatal disserem pa­ra fazer ¯ assegurou Golovko.

Ele tem razão, disse Ryan a si mesmo.

¯  Em nosso país, se o presidente decide apoiar um tratado de li­mitação de armamentos, e acha que pode aprová-lo no Senado, então não importa muito o que a CIA e o Pentágono achem...

¯  Mas seu complexo industrial-militar... ¯ interrompeu Golovko.

¯  Meu Deus, vocês adoram bater nessa tecla! Sergey Nikolayevich, você, melhor do que ninguém, devia saber...

Mas Golovko era um agente de Inteligência militar, e talvez não sou­besse, lembrou-se Ryan tarde demais. A extensão dos pontos nos quais os Estados Unidos e a União Soviética se desentendiam era um assun­to ao mesmo tempo divertido e incrivelmente perigoso. Jack perguntou-se se a comunidade de informações dali tentava obter a verdade, como a CIA fazia agora, ou simplesmente dizia o que seus senhores que­riam ouvir, como a CIA tinha feito demasiadas vezes no passado. Achou que a última hipótese era mais provável. As agências russas de Inteli­gência eram politizadas, exatamente como a CIA costumava ser. Um ponto a favor do juiz Moore foi que ele deu duro para pôr fim a essa situação. Mas ele não ambicionava de modo algum ser presidente, o que o distinguia de seus equivalentes soviéticos. Um diretor da KGB, Comissão para a Segurança do Estado, conseguira chegar até o topo, e pelo menos um outro tentara. Isso fazia da KGB um organismo po­lítico, o que lhe afetava a objetividade. Jack suspirou em seu champa­nhe. Os problemas entre os dois países não terminariam se as falsas percepções desaparecessem, mas pelo menos as coisas ficariam mais fáceis de controlar.

Talvez. Ryan admitiu para si mesmo que essa solução poderia ser

tão falsa quanto todas as outras; afinal de contas, nunca tinha sido tentada antes.

¯Posso fazer uma sugestão?

¯Certamente ¯ respondeu Golovko.

¯  Vamos deixar de lado os negócios e você me conta tudo so­bre esta sala enquanto eu saboreio o meu champanhe. ¯ Isso vai economizar tempo a nós dois quando formos escrever nossos relatórios amanhã.

¯  Talvez queira um cálice de vodca.

¯  Não, obrigado. Esse champanhe é muito bom. É fabricado aqui mesmo?

¯ É feito aqui na Geórgia ¯ informou Golovko orgulhosamente. ¯ Pessoalmente, acho melhor que o francês.

¯  Não me importaria nem um pouco em levar algumas garrafas para casa ¯ arriscou Jack.

Golovko deu um riso curto, numa manifestação de divertimento e poder.

¯  Vou providenciar, não se preocupe. Pois bem. O palácio foi aca­bado em 1849, ao custo de 11 milhões de rublos, uma boa quantia naquele tempo. Foi o último grande palácio construído, na minha opi­nião o melhor...

Ryan não era o único que não conhecia o salão. A maior parte da delegação americana nunca estivera ali. Russos aborrecidos passavam pelo aposento acompanhando os visitantes e fornecendo explicações. Várias pessoas da embaixada seguiam junto, mantendo um olhar ora distraído, ora atento aos detalhes.

¯  Então, Misha, o que acha das mulheres americanas? ¯ pergun­tou o ministro da Defesa, Yazov, a seu ajudante-de-ordens.

¯  Essas que vêm vindo não são nada feias, camarada ministro ¯ observou reservadamente o coronel.

¯  É, mas tão magrinhas... Ah, é verdade, eu sempre esqueço. Sua bela esposa Elena era esguia. Que boa mulher ela foi, Misha.

¯  Obrigado por lembrar-se, Dmitri Timofeyevich.

¯  Olá, coronel! ¯ cumprimentou uma das mulheres americanas, em russo.

¯  Como vai, senhora...

¯  Foley. Encontramo-nos no jogo de hóquei, em novembro último.

¯  Conhece essa mulher? ¯ perguntou o ministro ao ajudante-de-ordens.

¯  Meu sobrinho... quer dizer, meu sobrinho-neto Mikhail, neto da irmã de Elena... joga hóquei na liga juvenil, e fui convidado para assistir a um jogo. Aconteceu que eles permitiram o ingresso de um imperialista no time. ¯ O coronel levantou a sobrancelha.

¯  Seu filho joga bem? ¯ indagou o marechal Yazov.

¯  É o terceiro artilheiro de toda a liga ¯ informou a sra. Foley.

¯  Mas que ótimo! Então precisa permanecer em nosso país, e seu filho pode jogar para o time do Exército da região central quan­do crescer. ¯ Yazov sorriu. Era quatro vezes avô. ¯ O que faz aqui?

¯ Meu marido trabalha na embaixada. Ele está por ali, levando os repórteres a algum lugar. Mas o importante é que vim aqui esta noite. Nunca vi nada tão bonito! ¯ Os olhos brilhantes revelavam muitos copos de alguma coisa. ¯ Esse assoalho é tão bonito que me parece um crime andar em cima dele. Não temos nada parecido por lá.

Ela provavelmente tinha bebido champanhe. Parecia mais o tipo que bebia champanhe, mas era bem atraente, e falava bem o russo, fato raro nas mulheres americanas.

¯  Nunca tiveram czares, o que foi uma sorte ¯ respondeu Yazov, como bom marxista. ¯ Mas, como russo, sou obrigado a admitir que aprecio o senso artístico que eles demonstraram.

¯  Não o vi mais nos outros jogos, coronel ¯ comentou a sra. Fo­ley, voltando-se para Misha.

¯  Não tenho tido tempo.

¯  Mas trouxe boa sorte. Naquela noite o time ganhou, Eddie fez um gol e deu o passe para um outro.

¯  E nosso pequeno Misha só conseguiu duas faltas por usar o taco alto demais.

¯ Não estava usando essas medalhas quando nos encontramos ¯ comentou a americana, apontando as três estrelas de ouro no peito do coronel.

¯  Talvez eu não tivesse tirado o sobretudo...

¯  Ele sempre as usa ¯ assegurou o marechal. ¯ Sempre se usa uma medalha de Herói da União Soviética.

¯  É o mesmo que a nossa Medalha de Honra?

¯  As duas são mais ou menos equivalentes ¯ respondeu Yazov, pois Misha era estranhamente modesto sobre esse assunto. ¯ O coronel Filitov é o único homem vivo que ganhou três em batalha.

¯  É mesmo? ¯ interessou-se a sra. Foley. ¯ Como é que alguém consegue ganhar três?

¯  Lutando contra alemães ¯ disse secamente o coronel.

¯  Matando alemães ¯ corrigiu Yazov. Quando Filitov já desponta­va como uma das estrelas do Exército Vermelho, ele não passava de

tenente. ¯  Misha é um dos melhores oficiais de tanque que já

¯Só cumpri meu dever, como muitos soldados naquela guerra ¯ respondeu o coronel, corando com o elogio.

¯  Meu pai também foi condecorado nessa guerra ¯ comentou a americana. ¯ Liderou duas missões para salvar pessoas dos campos de prisioneiros nas Filipinas. Não gostava muito de falar sobre isso, mas o fato é que lhe deram algumas medalhas. Conversa com seus filhos sobre essas cruzes de ouro?

Filitov enrijeceu-se por um momento e pareceu sem ação. O mare­chal veio em seu auxílio. ¯Os filhos do coronel Filitov faleceram há alguns anos.

¯  Oh! Oh, desculpe, coronel. Sinto muitíssimo. ¯ A sra. Foley parecia mortificada.

¯  Já faz muito tempo... ¯ Misha sorriu e mudou de assunto. ¯ Lembro-me bem de seu filho no dia do jogo, um ótimo jovem! Ame suas crianças, minha cara, pois não vai conservá-las a seu lado para sempre. Agora, se me desculpam por um momento...

Misha partiu na direção das salas de descanso. A sra. Foley olhou angustiada para o ministro.

¯  Senhor, não tive intenção...

¯ Certamente que não. Como poderia saber disso? Misha perdeu seus filhos há alguns anos, e logo depois a mulher. Cheguei a conhecê-la, quando eu era muito jovem... Uma mulher adorável, dançarina do Balé Kirov. É uma história triste, mas o povo russo está acostuma­do a grandes tristezas. Só que não precisamos falar agora sobre essas coisas... Em que time seu filho joga? ¯ O interesse de Yazov pelo hó­quei foi grandemente ampliado pela beleza do rosto a sua frente.

Misha chegou rapidamente à sala de descanso. Americanos e russos tinham salas diferentes, claro, e o coronel Filitov encontrava-se sozi­nho no que deveria ter sido o banheiro privativo de um príncipe, ou da amante de algum czar. Lavou suas mãos e observou-se no espelho de bordas lapidadas. Só tinha um pensamento: Mais uma vez. Outra missão. Filitov suspirou profundamente, endireitou o corpo e se re­compôs. Um minuto mais tarde estava de volta à arena.

¯ Desculpe ¯ falou Ryan. Voltando-se, dera um encontrão num soviético mais idoso que saíra da sala de descanso.

Golovko disse algo em russo que Jack não entendeu. O outro oficial pronunciou algumas palavras em tom educado e continuou caminhan­do até o ministro da Defesa.

¯Quem é ele? ¯ indagou Jack ao companheiro russo. ¯os americanos sabem de alguma coisa que desconhecemos? Ou, melhor ainda: será que Ryan sabia de alguma coisa que Golovko ignorava? O coronel franziu a testa, depois lembrou-se de que era ele quem sa­bia, e não Ryan. Sorriu levemente ao pensar que tudo era parte de um grande jogo. O maior que havia.

¯  Vocês devem ter andado a noite inteira.

O Arqueiro concordou gravemente, depositando o saco que carre­gara durante cinco dias nos ombros. Era quase tão pesado quanto o que Abdul trouxera. O homem da CIA pôde observar que o jovem encontrava-se à beira de um colapso por exaustão. Os viajantes acomodaram-se em almofadas.

¯  Bebam alguma coisa.

O nome do contato da CIA era Emilio Ortiz, suficientemente mo­reno para passar por nativo de qualquer região do Cáucaso. Tam­bém tinha cerca de 30 anos, estatura mediana e porte atlético, com musculatura de nadador. Fora assim que conseguira uma bolsa de estudos para a Universidade do Sul da Califórnia, onde se formara em línguas. Ortiz tinha um dom muito raro nesse campo: depois de ouvir uma língua, dialeto ou sotaque, era capaz de falar como um nativo em qualquer parte do mundo. Demonstrava principalmente um profundo respeito pelos costumes das pessoas com as quais trabalha­va. Isso significava que a bebida oferecida não era e nem poderia ser alcoólica. Era suco de maçã. Observou o guerrilheiro beber tudo com a consideração que um conhecedor de vinhos dedicaria a um novo bordeaux.

¯ Que as bênçãos de Alá caiam sobre esta casa ¯ disse o Arqueiro quando terminou o primeiro copo.

O fato de que tivesse esperado até tomar seu suco de maçã era o mais próximo que ele chegaria de uma piada. Ortiz percebeu a fadiga no rosto do guerrilheiro, embora não a demonstrasse de qualquer ou­tra maneira. Ao contrário de seu jovem companheiro, o Arqueiro pa­recia imune às provações do mundo. Isso não era verdade, mas Ortiz compreendia a força interior que o levava a suprimir os sentimentos humanos.

Os dois homens estavam vestidos de maneira quase idêntica. Ortiz considerou a vestimenta do Arqueiro e notou a semelhança com a dos índios apaches da América e do México. Um de seus ascendentes fora oficial das tropas de Terrazas quando o Exército mexicano esmagara as forças de Victorio, nas montanhas Três Castillos. Os afegães tam­bém usavam calças rústicas sob as tangas. E também, apesar da pequena estatura, eram guerreiros ágeis. Além disso, tratavam seus prisioneiros como ruidosas diversões para suas facas. Olhou para a fa­ca do Arqueiro e imaginou como ela seria usada. Depois resolveu que seria melhor não saber. ¯Quer alguma coisa para comer?

¯  Pode esperar ¯ declarou o Arqueiro, enfiando a mão na mochi­la Ele e Abdul haviam trazido dois camelos carregados, mas o mate­rial realmente importante estava em sua mochila. ¯ Disparei oito mísseis, atingi seis aparelhos, mas um tinha dois motores e conseguiu fugir. Dos cinco destruídos, dois foram helicópteros e três, caças-bombardeiros. O primeiro helicóptero que destruímos era o modelo novo de 24 de que você tinha falado. Tinha razão. Uma parte do equi­pamento era nova. Aqui tem alguma coisa.

Era irônico que os equipamentos mais sensíveis da aviação militar estivessem intactos, ao passo que a tripulação morrera. Enquanto ele observava, o Arqueiro revelou seis placas verdes de circuitos integra­dos, usadas para os localizadores laser que agora eram equipamento-padrão para os Mi-24. Um capitão do Exército americano, que até aquele momento permanecera nas sombras em silêncio, adiantou-se na direção das placas. Suas mãos tremiam quando ele apanhou os cir­cuitos.

¯  Também tem o laser? ¯ perguntou ele, em imperfeito pashtu ou pata, dialeto majoritário no Afeganistão.

¯  Estava muito estragado, mas trouxemos assim mesmo. ¯ O Ar­queiro voltou-se e deu com Abdul roncando a seu lado. Quase sorriu, porém lembrou-se de que também tinha um filho.

Ortiz entristeceu-se. Ter sob suas ordens um homem educado co­mo o Arqueiro era bastante estranho. Provavelmente fora um bom pro­fessor, que agora não poderia voltar mais a ensinar. A guerra mudara a vida do Arqueiro tão completamente como se ele tivesse morrido. Era um grande desperdício.

¯  Os novos mísseis? ¯ perguntou o Arqueiro.

¯  Posso te dar dez. Um modelo aperfeiçoado, com um alcance adi­cional de 500 metros. E alguns foguetes de fumaça também.

O Arqueiro concordou gravemente, movendo de modo quase im­perceptível os cantos da boca, no que teria sido um sorriso em outros tempos.

¯ Talvez agora eu consiga derrubar um avião de transporte. Os fo­guetes de fumaça funcionaram muito bem, meu amigo. A cada vez traziam os invasores mais perto de mim. Ainda não descobriram essa tática.

 Ele não dissera truque, dissera tática, reparou Ortiz. Agora ele quer ir atrás dos transportes, matar centenas de russos de uma só vez. Meu Deus, em que monstro transformamos esse homem! O agente da CIA balançou a cabeça, afastando o assunto que não lhe dizia respeito.

¯  Parece cansado, meu amigo. Descanse agora, podemos comer de­pois. Honre minha casa dormindo sob meu teto.

¯  É verdade, estou cansado ¯ admitiu o Arqueiro. Dois minutos depois estava dormindo.

Ortiz e o capitão começaram a fazer o inventário das peças recebi­das. Havia um manual de manutenção para o equipamento laser do Mi-24 e folhas de código para o rádio, além de outros itens que já ti­nham visto anteriormente. Por volta do meio-dia já haviam cataloga­do tudo e começaram a fazer os arranjos para embarcar o material para a embaixada; de lá seria enviado para a Califórnia, onde o avaliariam adequadamente.

O VC-137 da Força Aérea americana decolou no horário. Era uma versão modificada do Boeing 707. O "V" do prefixo significava que fora preparado para transportar VIPs ¯ pessoas muito importantes ¯, e o interior refletia exatamente isso. Jack recostou-se no sofá e aban­donou-se à fadiga que o envolvia. Dez minutos mais tarde alguém sa­cudiu seu ombro.

¯  O chefe quer ver você ¯ informou um membro da equipe.

¯  Será que ele não dorme nunca? ¯ resmungou Jack.

¯  Você é que deve saber.

Ernest Allen estava nas acomodações VIP da aeronave, uma cabine situada exatamente sobre a longarina da asa, com seis poltronas acol-choadas. Havia também uma cafeteira sobre a mesa. Ryan sentia que, se não tomasse uma xícara, logo começaria a ficar incoerente; por ou­tro lado, se tomasse, não conseguiria mais dormir. Decidiu que o go­verno não o pagava para dormir, e serviu-se de uma xícara cheia.

¯  Pois não, senhor?

¯  Podemos verificar? ¯ Allen dispensou as formalidades.

¯  Ainda não sei ¯ respondeu Jack. ¯ Não é somente uma ques­tão de Meios Técnicos Nacionais. Verificar a eliminação de tantos lan­çadores...

¯  Mas eles estão propondo inspeção local limitada ¯ observou um dos membros mais jovens do grupo.

¯  Sei disso ¯ respondeu Jack. ¯ A pergunta é: será que significa alguma coisa? A outra pergunta é: por que eles subitamente concordaram com alguma coisa que queríamos por trinta anos?

¯  O quê? ¯ insistiu o rapaz.

¯  Os soviéticos trabalharam um bocado em seus novos lançadores móveis. E se possuírem muito mais do que acreditamos? Pensa que é viável localizar algumas centenas de mísseis em movimento pelo país?

¯  Mas nós temos radares apontados para a superfície nos novos pás­saros e...

¯  E eles sabem disso, o que significa que podem evitar se quise­rem ¯ objetou Ryan. ¯ Sabemos que nossos porta-aviões iludem os radares dos satélites de vigilância oceânica. Se a gente pode fazer isto com um navio, eles podem muito bem fazer com um trem.

Allen prestava atenção, abstendo-se de fazer qualquer comentário, permitindo que Jack continuasse para ver aonde chegaria. Uma velha raposa, Ernie Allen.

¯  Então a CIA vai ser contra! Mas essa foi a melhor concessão que já fizeram!

¯  Ótimo. E uma boa concessão, e todos aqui sabem disso! Antes de aceitarmos, vamos checar se o que eles concederam ainda tem al­guma importância. E existem ainda outros aspectos.

¯  Então vai mesmo se opor! ¯ espantou-se o jovem.

¯  Não vou me opor a coisa nenhuma. Só estou dizendo para ir com calma, e não aceitar correndo como se fosse um presente.

¯  Mas esse esboço do tratado é... quase bom demais para ser ver­dade. ¯ Com isso o jovem acabava de provar o ponto de vista de Ryan, sem se dar conta.

¯  Doutor Ryan ¯ disse Allen ¯, se os detalhes técnicos puderem ser resolvidos satisfatoriamente, como analisa o tratado?

¯  Senhor, falando de um ponto de vista estritamente técnico, uma redução de cinqüenta por cento no número de ogivas nucleares não tem efeito algum no balanço estratégico. É...

¯  Mas isso é loucura! ¯ interrompeu o rapaz, indignado.

Jack estendeu o braço na direção do jovem, esticando o indicador como se fosse o cano de uma arma.

¯  Vamos dizer que eu tenha uma pistola apontada para o seu peito agora. Pode ser uma Browning 9 milímetros, com um carregador de treze balas. Concordo em remover sete balas, mas ainda tenho a arma carregada, com seis tiros e apontada para seu peito. Está se sentindo mais seguro agora? ¯ Ryan sorriu e abaixou a "arma".

O outro não disse nada, e Jack continuou, voltando-se para Allen.

¯  Eu pessoalmente não me sentiria. É exatamente sobre isso que estamos falando. Se ambos os lados reduzirem seus efetivos pela me­tade, isso deixaria cerca de cinco mil ogivas nucleares para atingir nosso país. Pense no que esse número representa. Esse acordo todo serve para reduzir a sobremorte. A diferença entre cinco mil e dez mil diz respeito apenas à extensão da destruição. Se começarmos a falar em reduzir o número para mil em cada lado, então talvez eu possa come­çar a acreditar que estamos chegando a algum lugar.

¯  Acredita que é possível atingir o limite de mil ogivas nucleares? ¯ quis saber Allen.

¯  Não acredito, senhor. Eu gostaria que fosse, mas me disseram que o limite de mil ogivas nucleares seria capaz de tornar a guerra "vencível", seja lá o que quiserem dizer com isso. ¯ Ryan encolheu os ombros. ¯ Senhor, o que quero dizer é que, se o acordo passar, as coisas ficam melhores do que estão. Talvez o significado simbólico do acordo tenha valor em si mesmo; isto é um fator a ser considerado, mas foge ao meu campo. A economia será real para ambos os lados, se bem que pequena se comparada aos gastos globais militares. Todos mantêm metade de seus arsenais atuais, e isto significa ficar com a metade mais moderna e eficiente, é claro. A constante permanece: num conflito nuclear, os dois lados estão igualmente mortos. Não vejo co­mo este tratado possa reduzir a "ameaça de guerra", seja lá o que for isso. Para fazer isto de verdade, precisamos eliminar completamente essas coisas, ou então inventar algo que as impeça de detonar. Se al­guém me perguntar, acho que devíamos tentar a segunda alternativa. Então o mundo seria um lugar um pouco mais seguro. Talvez...

¯  Seria o início de uma nova corrida às armas.

¯  Senhor, essa corrida começou há tanto tempo que dificilmente pode ser chamada de nova...

 

Tea Clipper

¯ Estão chegando mais fotografias de Dushanbe ¯ informou a Ryan uma voz pelo telefone.

¯  Certo, daqui a alguns minutos estarei chegando aí.

Jack levantou-se e atravessou o corredor em direção ao escritório do almirante Greer. Seu superior estava de costas para o branco ofuscan-te da espessa camada de neve que cobria tudo à volta do quartel-general da CIA. Ainda limpavam o estacionamento, e até mesmo a plataforma gradeada do lado de fora das janelas do sétimo andar tinha mais de 20 centímetros de neve.

¯  O que houve, Jack? ¯ perguntou o almirante.

¯  Dushanbe. O tempo limpou de repente. O senhor pediu para ser avisado assim que isso acontecesse.

Greer olhou para o monitor de vídeo no canto do escritório. Estava próximo ao terminal de computador que ele se recusava a usar, pelo menos quando havia alguém por perto para observar suas tentativas de digitar com os dois indicadores, auxiliado por um dos polegares nos dias de inspiração. O almirante poderia, se quisesse, ter as foto­grafias dos satélites, em tempo real, transmitidas "ao vivo" para seu escritório, mas ultimamente vinha evitando fazê-lo, e Jack não sabia o motivo.

¯  Muito bem, vamos até lá.

Ryan manteve a porta aberta para que o vice-diretor dos Serviços de Informações passasse, e ambos tomaram a esquerda até o final do corredor da ala executiva no último andar do prédio, onde ficava o elevador que os conduziria até lá. O bom era que não se precisava es­perar muito.

¯  Como estão seus horários? ¯ perguntou Greer, referindo-se aos longos vôos que Ryan realizara há menos de vinte e quatro horas.

¯  Já estou completamente recuperado, senhor. Voar para o oeste não me incomoda muito, para o leste é que acaba comigo. ¯ Puxa, como é bom estar em terra firme!

A porta se abriu, e os dois andaram em direção ao novo anexo, que abrigava o Setor de Análise de Imagens. Este departamento era priva­tivo do Diretório de Inteligência, separado do NPIC, o Centro Nacio­nal de Informações Fotográficas, o qual representava um esforço conjunto da CIA e da DIA, a Agência de Informações da Defesa, ser­vindo a toda a comunidade de Informações.

A sala de projeção contentaria um produtor de Hollywood. Trinta poltronas estofadas ficavam em frente a uma tela de 2 metros quadra­dos na parede oposta à cabine do projetor. Art Graham, o chefe da unidade, esperava por eles.

¯  Calcularam muito bem o tempo. Teremos as imagens em mais um minuto. ¯ Ele levantou o fone de comunicação com a cabine de projeção e pronunciou algumas palavras. A tela iluminou-se imedia­tamente. Aquilo era chamado de "Imagem Aérea", lembrou-se Jack.

¯  Foi mesmo uma sorte. Aquele sistema siberiano de alta pressão fez uma volta brusca para o sul e parou a frente quente como se fosse uma parede de tijolos. Condições perfeitas de visibilidade. A tempe­ratura ao nível do solo é de zero grau, e a umidade relativa do ar não pode ser muito maior do que isso. ¯ Graham sorriu. ¯ Manobramos o satélite para aproveitar a oportunidade. Faltam três graus para ficar exatamente acima do local, e não acho que Ivã tenha tido tempo para perceber a manobra que já está em andamento.

¯  Aí está Dushanbe. ¯ Jack respirou fundo quando parte da Re­pública Socialista Soviética do Tadjiquistão apareceu na tela.

A primeira imagem era vista através da câmera grande-angular. O satélite de reconhecimento KH-14 em órbita tinha um total de onze câmeras. O "pássaro" representava o primeiro da mais nova geração de satélites e estava orbitando havia apenas três semanas. Dushanbe, conhecida por um curto período como Stalinabad ¯ isso deve ter dei­xado o povo contente, pensou Ryan ¯, provavelmente surgira na rota das antigas caravanas. O Afeganistão ficava a menos de 160 quilôme­tros. A legendária Samarcanda de Tamerlão situava-se a noroeste da­li, não muito distante... e talvez Scheherazade tivesse viajado por aquelas estradas mil anos antes. Jack perguntou-se por que a História sempre se repetia, os mesmos nomes e lugares parecendo saltar de um século para o outro.

Só que o interesse atual da CIA por Dushanbe não tinha nenhuma relação com o comércio da seda.

A imagem mudou para uma das câmeras de alta definição do satéli­te, mostrando a princípio um vale profundo e montanhoso, onde um rio estava represado pela parede de rocha e concreto de uma barragem hidrelétrica. Embora se localizasse 50 quilômetros a sudeste de Dus­hanbe, as linhas de transmissão elétrica não se dirigiam para a cidade de 800 000 habitantes, mas para alguns picos de montanhas quase à vista das instalações.

¯  Aquilo parece uma fundação para outro conjunto de torres ¯ observou Ryan.

¯  Paralelas às primeiras ¯ concordou Graham. ¯ Estão instalan­do novos geradores. Bem, sabíamos desde o princípio que só estavam obtendo a metade do potencial utilizável da represa.

¯  Quanto tempo levaria para colocar o restante da energia em li­nha? ¯ indagou Greer.

¯  Eu teria de verificar com um dos consultores. Mas acho que não vai levar mais do que algumas semanas para estender os cabos, e a casa de força já está pronta. Eu diria que os alicerces para os novos geradores devem estar prontos, e, se isso for verdade, tudo o que têm a fazer é montar o novo equipamento. Seis meses, talvez oito, se o tempo não ajudar.

¯  Tão rápido assim? ¯ espantou-se Ryan.

¯  Eles desviaram o pessoal de outras duas hidrelétricas. Ambas fa­ziam parte do projeto Herói. Nunca se comentou nada sobre esta obra; as tropas de construção foram retiradas de dois locais para trabalhar nesse. Ivã sabe muito bem concentrar seus esforços quando quer, dou­tor Ryan. Seis ou oito meses é uma estimativa otimista. Acho que po­de ser feito mais depressa do que isso ¯ declarou Graham.

¯  Qual será a potência total disponível quando terminarem?

¯  A estrutura não é tão grande assim. O total de saída no pico com os novos geradores? Por volta de 1 100 megawatts, eu diria.

¯  Pois isso é um bocado de energia, e vai toda para aquelas monta­nhas ¯ comentou Ryan, como se falasse consigo mesmo.

O pico a que a Agência chamava de "Mozart" era alto, mas, como aquela região configurasse o limite ocidental da cordilheira do Hima­laia com suas altitudes gigantescas, parecia insignificante. Haviam cons­truído uma estrada até o topo à custa de explosões ¯ não existiam entidades de controle ambiental na União Soviética ¯ e também um heliporto para receber as personalidades importantes que chegavam aos dois aeroportos de Dushanbe. Dezesseis construções destacavam-se na imagem projetada. Uma delas era um prédio de apartamentos, de onde a vista devia ser fantástica, ainda que tivesse sido construído segundo o estilo arquitetônico padrão soviético, tão atraente quanto um bloco cúbico de concreto. Terminado seis meses atrás, muitos en­genheiros já moravam ali com suas famílias. Parecia deslocado um pré­dio daquele tipo num lugar tão inacessível, mas a mensagem que passava era clara: as pessoas que viviam ali eram privilegiadas. Enge­nheiros e acadêmicos, profissionais tão habilitados que o Estado qui­sera cuidar de seu conforto e necessidades. A comida era transportada em caminhões para o alto ou, quando o tempo se tornava muito ruim, ia por via aérea. Outra das construções era um teatro, e a terceira um hospital. A programação de televisão era fornecida por uma estação rastreadora de satélites localizada ao lado de um edifício que continha muitas lojas. Esse tipo de mordomia não era muito comum na União Soviética, mas limitado aos altos oficiais do Partido e pessoas que tra­balhavam em projetos essenciais de defesa. Aquela não era uma esta­ção de esportes de inverno.

Tal fato também se tornava óbvio pela presença da cerca que cir­cundava todo o perímetro, além das torres de vigia, ambas de cons­trução recente. Um dos itens facilmente reconhecíveis nos complexos militares soviéticos eram as torres de vigia; Ivã tinha verdadeira fixa­ção por esse tipo de controle. Três cercas encerravam dois espaços in­ternos de uns 10 metros de largura, sendo o mais exterior geralmente minado e o interior patrulhado por cães. As torres de vigia ficavam no círculo interno, a intervalos regulares de 10 metros. Os soldados que as guameciam estavam alojados em barracões de concreto, me­lhores do que a média.

¯ Consegue focalizar um dos guardas? ¯ perguntou Jack.

Graham falou ao bocal e a imagem mudou. Um dos técnicos já trabalhava naquele sentido, mais para testar a regulagem da câme-ra e as condições ambientes do que para o propósito que Ryan ti­nha em mente.

Assim que a câmera começou a aproximar a imagem, o que era um ponto móvel transformou-se numa silhueta humana envolta num so­bretudo e provavelmente usando gorro de peles. Levava um grande cão de raça incerta pela coleira e um fuzil de assalto Kalashnikov pen­durado ao ombro direito. Homem e cachorro soltavam uma pequena nuvem de vapor ao exalarem o ar. Ryan inclinou-se para a frente, co­mo se aquilo o ajudasse a ver melhor.

¯  A ombreira desse sujeito não parece verde? ¯ perguntou ele a Graham.

¯  É ¯ concordou o perito em reconhecimento. ¯ Ele é mesmo

da KGB.

¯  Tão perto assim da fronteira do Afeganistão? ¯ espantou-se o almirante. ¯ Eles sabem que temos gente operando naquela zona. Pode ter certeza de que levarão a sério as medidas de segurança.

¯  Eles deviam querer muito esses picos ¯ comentou Ryan. ¯ A pouco mais de 100 quilômetros vivem milhões de pessoas que acredi­tam em matar soviéticos como expressão da vontade divina. Esse lu­gar é muito mais importante do que pensamos de início. Não pode ser simplesmente uma nova instalação, com tal tipo de segurança. Se fosse, não iriam construir tudo num lugar assim, tendo que puxar no­vas linhas elétricas e ficar tão perto de forças hostis. No momento po­de ser um centro de pesquisa e desenvolvimento, mas eles devem ter planos mais ambiciosos para o futuro.

¯  O quê, por exemplo?

¯  Ir atrás dos meus satélites, talvez. ¯ Art Graham sempre se re­feria aos satélites como se pertencessem a ele.

¯  Eles "cutucaram" algum recentemente? ¯ quis saber Jack.

¯  Não, desde que abalamos Ivã, em abril. Parece que o bom senso prevaleceu pelo menos uma vez.

Aquela era uma velha história. Em inúmeras oportunidades, nos úl­timos anos, os satélites americanos de reconhecimento tinham sido "cu­tucados" com feixes de raios laser ou energia de microondas, focalizados nos satélites apenas o bastante para "cegar" os receptores, mas não para causar danos sérios. A grande dúvida era o motivo que teria levado os soviéticos a procederem assim. Poderia ser um tipo de teste para ver como reagiria o Comando de Defesa Aeroes­pacial da América do Norte, o NORAD, no monte Cheyenne, no Co­lorado? Seria uma forma de saber quão sensíveis eram os satélites? Ou uma demonstração, como aviso da capacidade de destruí-los? De qual­quer forma, era sempre muito difícil saber o que os soviéticos esta­vam pensando.

Eles invariavelmente protestavam inocência, é claro. Quando um sa­télite americano ficara momentaneamente cego ao passar sobre Sary Shagan, disseram que uma tubulação conduzindo gás natural se in­cendiara. O fato de que o oleoduto Chimkent-Pavlodar nas proximi­dades  transportava principalmente petróleo escapara à imprensa

ocidental. A passagem do satélite acabara de completar-se. Numa sala vizinha, as fitas de vídeo estavam sendo rebobinadas e dali por diante as cenas poderiam ser examinadas à vontade.

¯  Vamos dar uma olhada em Mozart outra vez, e em Bach tam­bém, por favor ¯ ordenou Greer.

¯  É uma bela troca, essa ¯ declarou Jack.

A área residencial e industrial em Mozart distava apenas um quilô­metro das instalações em Bach, o pico seguinte, porém a estrada pare­cia assustadora. A imagem parou em Bach. A fórmula das cercas e torres de vigia repetia-se aqui, só que dessa vez a distância entre a cerca externa e a interna era de pelo menos 200 metros. Aqui a superfície do solo parecia ser formada de rocha nua. Jack perguntou-se como fariam para instalar minas num terreno como aquele ¯ ou talvez não o fizessem, pensou ele. Parecia óbvio que a área fora nivelada com má­quinas e explosivos até ficar plana como uma mesa de bilhar. Das tor­res de vigia, devia-se ter a sensação de estar numa galeria de tiro.

¯  Não estão brincando, estão? ¯ murmurou Graham.

¯  Então é isso que estão guardando... ¯ comentou Ryan. Havia um total de treze prédios no perímetro delimitado pela cerca

interior. Numa área do tamanho aproximado de dois campos de fute­bol ¯ cujo solo também fora nivelado ¯ dispunham-se dez escava-ções, em dois grupos. Um dos grupos era composto de seis buracos, um alinhamento hexagonal, cada qual com 10 metros de diâmetro. O outro grupo, de quatro buracos, fora arranjado de modo a formar um losango, as escavações ligeiramente menores, talvez com 8 metros de diâmetro. No interior de cada um dos buracos havia um pilar de con-creto com 5 metros de diâmetro solidamente alicerçado na rocha, a uns 10 metros de profundidade ¯ mas não se podia precisar pela ima-gem vista do alto. Sobre cada pilar via-se um domo de metal, aparen-temente formado por inúmeros segmentos em forma de meia-lua.

¯  Eles abrem. Gostaria de saber o que tem ali dentro... ¯ conjetu-rou Graham.

Umas duzentas pessoas em Langley estavam a par de Dushanbe, e todas elas queriam saber o que existia abaixo daqueles domos de metal, instalados no lugar apenas há alguns meses.

¯  Almirante, gostaria de levantar um novo assunto ¯ declarou Jack.

¯  Qual assunto?

¯  Tea Clipper.

¯  Está pedindo demais! ¯ objetou Greer. ¯ Eu mesmo não tenho acesso a essas informações.

¯  Almirante, se o que eles estão fazendo em Dushanbe for a mes-ma coisa que estamos tentando em Tea Clipper, nós precisamos saber.

¯Ryan recostou-se na poltrona. ¯ Que diabos, como podemos saber o que procurar se nem sabemos como deve ser a aparência de um lu-gar desses?

¯  Tenho dito isso há algum tempo ¯ O vice-diretor dos Serviços de Informações riu. ¯ O diretor-geral não vai gostar nem um pouco. O juiz vai ter de ir até o presidente para conseguir isso.

¯  Pois que vá ao presidente. E se essa atividade que vimos aqui estiver ligada ao esboço de tratado que eles apresentaram?

¯  Acha que sim?

¯  Quem pode saber? ¯ respondeu Ryan. ¯ E uma coincidência, e isso me preocupa.

¯  Muito bem, vou falar com o diretor.

Duas horas mais tarde, de volta para casa, Ryan dirigia seu Jaguar XJS no tráfego da Rodovia George Washington. O carro era uma das boas lembranças que trouxera do tempo de serviço da Inglaterra. Ele gostava tanto da sensação produzida pelo ronronar suave do motor de doze cilindros que chegara a aposentar seu velho Rabbit. Como sem­pre, deixou Washington e os negócios de lado, engatando as cinco mar­chas sucessivamente e concentrando-se em dirigir.

¯  E então, James? ¯ perguntou o diretor-geral dos Serviços de In­formações.

¯  Ryan acha que a atividade recente em Bach e Mozart pode estar relacionada ao novo tratado. Também acho que isso seja possível. Ele quer as informações de Tea Clipper. Eu disse que você teria de ir ao presidente. ¯ O almirante Greer sorriu.

¯  Tudo certo, vou arranjar uma permissão por escrito para ele. Vai deixar o general Parks mais feliz, de qualquer jeito. Eles têm um teste marcado para o fim de semana e vou arranjar para que Jack o acom­panhe. ¯ O juiz Moore sorriu preguiçosamente. ¯ O que acha?

¯  Acho que ele tem razão: Dushanbe e Tea Clipper são na essência o mesmo projeto. Vejo muitas similaridades aparentes, um número mui-to grande para ser simples coincidência. Devíamos atualizar nossos conhecimentos.

¯  Certo. ¯ Moore voltou-se para olhar pela janela. O mundo vai mudar outra vez. Talvez ainda leve dez anos, mas vai mudar. Daqui a dez anos não vai ser problema meu, disse a si mesmo o juiz, mas com certeza vai ser um problema de Ryan. ¯ Vou providenciar para que ele tome um avião para lá amanhã. Talvez tenhamos sorte com Dushan­be. Foley conseguiu avisar o Cardeal de que estamos muito interessa­dos naquele lugar.

As fitas de vídeo estavam sendo rebobinadas e dali por diante as cenas poderiam ser examinadas à vontade.

¯  Vamos dar uma olhada em Mozart outra vez, e em Bach tam­bém, por favor ¯ ordenou Greer.

¯  É uma bela troca, essa ¯ declarou Jack.

A área residencial e industrial em Mozart distava apenas um quilô­metro das instalações em Bach, o pico seguinte, porém a estrada pare­cia assustadora. A imagem parou em Bach. A fórmula das cercas e torres de vigia repetia-se aqui, só que dessa vez a distância entre a cerca externa e a interna era de pelo menos 200 metros. Aqui a superfície do solo parecia ser formada de rocha nua. Jack perguntou-se como fariam para instalar minas num terreno como aquele ¯ ou talvez não o fizessem, pensou ele. Parecia óbvio que a área fora nivelada com má­quinas e explosivos até ficar plana como uma mesa de bilhar. Das tor­res de vigia, devia-se ter a sensação de estar numa galeria de tiro.

¯  Não estão brincando, estão? ¯ murmurou Graham.

¯  Então é isso que estão guardando... ¯ comentou Ryan. Havia um total de treze prédios no perímetro delimitado pela cerca

interior. Numa área do tamanho aproximado de dois campos de fute­bol ¯ cujo solo também fora nivelado ¯ dispunham-se dez escava­ções, em dois grupos. Um dos grupos era composto de seis buracos, em alinhamento hexagonal, cada qual com 10 metros de diâmetro. O outro grupo, de quatro buracos, fora arranjado de modo a formar um losango, as escavações ligeiramente menores, talvez com 8 metros de diâmetro. No interior de cada um dos buracos havia um pilar de con­creto com 5 metros de diâmetro solidamente alicerçado na rocha, a uns 10 metros de profundidade ¯ mas não se podia precisar pela ima­gem vista do alto. Sobre cada pilar via-se um domo de metal, aparen­temente formado por inúmeros segmentos em forma de meia-lua.

¯  Eles abrem. Gostaria de saber o que tem ali dentro... ¯ conjetu-rou Graham.

Umas duzentas pessoas em Langley estavam a par de Dushanbe, e todas elas queriam saber o que existia abaixo daqueles domos de metal, instalados no lugar apenas há alguns meses.

¯  Almirante, gostaria de levantar um novo assunto ¯ declarou Jack.

¯  Qual assunto?

¯   Tea Clipper.

¯  Está pedindo demais! ¯ objetou Greer. ¯ Eu mesmo não tenho acesso a essas informações.

¯  Almirante, se o que eles estão fazendo em Dushanbe for a mes­ma coisa que estamos tentando em Tea Clipper, nós precisamos saber.

¯Ryan recostou-se na poltrona. ¯ Que diabos, como podemos saber o que procurar se nem sabemos como deve ser a aparência de um lu­gar desses?

¯ Tenho dito isso há algum tempo ¯ O vice-diretor dos Serviços de Informações riu. ¯ O diretor-geral não vai gostar nem um pouco. O juiz vai ter de ir até o presidente para conseguir isso.

¯  Pois que vá ao presidente. E se essa atividade que vimos aqui estiver ligada ao esboço de tratado que eles apresentaram?

¯  Acha que sim?

¯  Quem pode saber? ¯ respondeu Ryan. ¯ É uma coincidência, e isso me preocupa.

¯  Muito bem, vou falar com o diretor.

Duas horas mais tarde, de volta para casa, Ryan dirigia seu Jaguar XJS no tráfego da Rodovia George Washington. O carro era uma das boas lembranças que trouxera do tempo de serviço da Inglaterra. Ele gostava tanto da sensação produzida pelo ronronar suave do motor de doze cilindros que chegara a aposentar seu velho Rabbit. Como sem­pre, deixou Washington e os negócios de lado, engatando as cinco mar­chas sucessivamente e concentrando-se em dirigir.

¯  E então, James? ¯ perguntou o diretor-geral dos Serviços de In­formações.

¯  Ryan acha que a atividade recente em Bach e Mozart pode estar relacionada ao novo tratado. Também acho que isso seja possível. Ele quer as informações de Tea Clipper. Eu disse que você teria de ir ao presidente. ¯ O almirante Greer sorriu.

¯  Tudo certo, vou arranjar uma permissão por escrito para ele. Vai deixar o general Parks mais feliz, de qualquer jeito. Eles têm um teste marcado para o fim de semana e vou arranjar para que Jack o acom­panhe. ¯ O juiz Moore sorriu preguiçosamente. ¯ O que acha?

¯  Acho que ele tem razão: Dushanbe e Tea Clipper são na essência o mesmo projeto. Vejo muitas similaridades aparentes, um número mui­to grande para ser simples coincidência. Devíamos atualizar nossos conhecimentos.

¯  Certo. ¯ Moore voltou-se para olhar pela janela. O mundo vai mudar outra vez. Talvez ainda leve dez anos, mas vai mudar. Daqui a dez anos não vai ser problema meu, disse a si mesmo o juiz, mas com certeza vai ser um problema de Ryan. ¯ Vou providenciar para que ele tome um avião para lá amanhã. Talvez tenhamos sorte com Dushan­be. Foley conseguiu avisar o Cardeal de que estamos muito interessa­dos naquele lugar.

¯  O Cardeal? Ótimo!

¯  Mas se acontecer alguma coisa... Greer assentiu.

¯  Por Deus, espero que ele tenha cuidado ¯ disse o vice-diretor dos Serviços de Informações.

Desde a morte de Dmitri Fedorovich que o Ministério da Defesa não tem sido o mesmo, escreveu com a mão esquerda o coronel Mikhail Sem-yonovich Filitov em seu diário. Tendo acordado cedo como sempre, sentara-se à escrivaninha de carvalho, com um século de idade, que sua esposa lhe comprara pouco antes de morrer, há... quanto tempo? Trinta anos, disse Misha a si mesmo. Completaria 30 anos em feverei­ro próximo. Seus olhos se fecharam por um momento. Trinta anos.

Não se passou um só dia sem que se lembrasse da sua Elena. A fotografia da esposa estava sobre a mesa, o tom sépia apagado pela ida de, e emoldurada em prata enegrecida. Nunca arranjava tempo para polir a moldura oxidada, e não queria ser incomodado com a presen-ça de uma empregada. A imagem ainda nítida mostrava uma jovem com as pernas girando como fusos, os braços elevados acima da cabe­ça graciosamente inclinada para o lado. O rosto eslavo arredondado era iluminado por um sorriso amplo e convidativo, demonstrando per­feitamente a alegria que sentia quando dançava com o Balé Kirov.

Misha sorriu ao lembrar-se de sua primeira impressão como jovem oficial dos blindados a quem haviam dado a entrada como recompen­sa por ter o tanque com a melhor manutenção na divisão: Como é que eles conseguem fazer isso? Dançam na ponta dos pés como se tivessem pernas de pau com ponta afiada. Lembrou-se de seus tempos de crian­ça, quando brincara desajeitadamente com suas pernas de pau, mas nunca com tanta graça e equilíbrio! Então ela sorrira para o belo e jo­vem oficial na primeira fileira. Os olhos de ambos encontraram-se pe­lo breve espaço que teria durado uma piscadela, e o sorriso dela se alterara. Não era mais para a audiência: naquele instante eterno, o sor­riso era só para ele. Uma bala no coração não teria um efeito mais de­vastador. Misha não conseguiu depois lembrar-se do resto da apresentação, e a partir de então não soubera a qual dança havia assis­tido. Recordava-se de ter ficado ali sentado durante o resto do espetá­culo, enquanto sua mente planejava o que faria a seguir. O tenente Filitov já estava marcado como um homem destinado ao sucesso, para quem a brutal ação de Stálin contra o corpo de oficiais significava opor­tunidade e promoção rápida. Escrevera artigos sobre táticas de com­bate motorizado e praticava exercícios inovadores com os tanques, contestando veementemente as falsas "lições" da Espanha com a se­gurança de um homem nascido para aquela profissão.

O que vou fazer agora?, indagara-se então. O Exército Vermelho não lhe ensinara a se aproximar de uma artista. Aquela não era nenhuma camponesa entediada com seu trabalho no kolkhoz a ponto de se ofe­recer a qualquer um ¯ principalmente um jovem oficial que poderia desviá-la de seu caminho. Misha ainda se recordava de suas atitudes vergonhosas na juventude ¯ embora não as achasse nada vergonho­sas na época ¯ quando apelava para as divisas de oficial a fim de levar para a cama todas as garotas que lhe chamassem a atenção.

Mas nem sei o nome dela, lembrara a si mesmo. O que faço agora? O que fizera na época, é claro, fora encarar o assunto como um exercí­cio militar. Assim que a apresentação terminou, ele abriu caminho até o banheiro e lavou o rosto e as mãos. Com um canivete, removeu cui­dadosamente os restos de graxa abaixo das unhas. Molhou os cabelos e penteou-os, examinando a seguir o uniforme, como o faria um rigo­roso general, esfregando alguns pontos e removendo fiapos. Afastou-se do espelho para examinar o brilho das botas, sem perceber que os outros homens o observavam com um sorriso divertido e uma ponta de inveja, tendo adivinhado suas intenções. Satisfeito com sua apa­rência, Misha saiu do teatro e perguntou ao porteiro onde era a saída dos artistas. Pagou um rublo pela informação e deu a volta ao quartei­rão ate a porta indicada, onde encontrou outro porteiro, um velho de barbas longas cujo capote ostentava dragonas por serviços prestados durante a Revolução. Misha esperou algum tipo de deferência por parte do homem, como camaradagem de um soldado para outro, mas logo descobriu que ele encarava as bailarinas como suas próprias filhas, e não como prostitutas prontas a se atirar aos pés do primeiro militar que aparecesse. Misha havia considerado a possibilidade de oferecer dinheiro ao ancião, mas teve o bom senso de não o fazer, evitando in­sinuar que ele era um alcoviteiro. Em vez disso, falou com moderação e sinceridade, contando que estava encantado por uma donzela dan­çarina cujo nome não sabia, e gostaria simplesmente de encontrá-la.

¯  E por quê? ¯ indagou secamente o velho.

¯  Vovô, ela sorriu para mim ¯ respondeu Misha, com o ardor de um menino.

¯  E você se apaixonou, é isso? ¯ A voz ainda era severa, mas o rosto do veterano se abrandava. ¯ Sabe quem é ela?

¯  Ela estava na fila, com as outras... quer dizer, não é uma das im­portantes, eu acho. Como é que costumam dizer? Vou me lembrar da­quele rosto até o dia em que eu morrer. ¯ Ele já tinha consciência disso.

O porteiro encarou o jovem oficial a sua frente, verificando que seu uniforme estava impecável, e as costas permaneciam eretas. Não pa­recia um daqueles porcos suados dos oficiais da NKVD, a polícia se­creta de Stálin, cujo hálito arrogante recendia a vodca. Este parecia ser um verdadeiro soldado, jovem e bem-apessoado.

¯  Camarada tenente, é um homem de sorte. Sabe por quê? Tem sorte porque um dia já fui jovem, e mesmo velho como estou tenho lembrança disso. Elas vão sair em dez minutos. Fique em pé ali, adian­te, e não faça nenhum barulho.

Os dez minutos transformaram-se em trinta. Os artistas começaram a sair aos pares, ou em grupos de três. Misha vira os homens que par­ticipavam da companhia e pensava deles o que pensaria qualquer sol­dado. Sua hombridade ficava ofendida pela maneira como eles davam as mãos às belíssimas bailarinas. A cada vez que as portas se abriam, ele ficava ofuscado pela quantidade enorme de luz amarelada que se projetava do interior para a viela às escuras e quase não a reconheceu, tão diferente estava sem maquilagem.

Misha olhou-a no rosto, indeciso sobre se se tratava da pessoa certa, e aproximou-se de seu objetivo com mais cuidado que o faria sob o fogo dos canhões alemães.

¯  Você estava na cadeira doze ¯ disse ela, antes que ele reunisse coragem suficiente para falar.

Ela tinha voz!

¯  Sim, camarada artista ¯ replicou ele automaticamente.

¯  Gostou da apresentação, camarada tenente? ¯ a pergunta foi acompanhada de um tímido sorriso, ainda que convidativo.

¯  Foi maravilhosa!

¯  Não é sempre que vemos jovens e belos oficiais na fileira da frente ¯ comentou ela.

¯  Ganhei o ingresso como recompensa por mérito em minha uni­dade. Sou piloto de tanque ¯ declarou ele orgulhoso. Ela me chamou de belo!

¯  E o camarada tenente-piloto de tanques tem um nome?

¯  Sou o tenente Mikhail Semyonovich Filitov.

¯  Eu sou Elena Ivanova Makarova.

¯  Está muito frio esta noite para alguém tão delicada, camarada artista. Existe um restaurante aqui por perto?

¯  Restaurante? ¯ O riso dela era cristalino. ¯ Não vem muito fre­qüentemente a Moscou, vem?

¯  Minha divisão está baseada aqui, mas não venho muito até a ci­dade ¯ admitiu ele.

¯  Camarada tenente, existem muito poucos restaurantes mesmo em Moscou nestes dias. Pode vir até o meu apartamento?

¯  Bem... claro! ¯ gaguejou Misha enquanto a porta se abria no­vamente.

¯  Marta! ¯ disse Elena à bailarina que acabava de sair. ¯ Temos escolta militar para casa hoje.

¯  Tânia e Resa também vêm.

Misha na verdade ficara aliviado com aquilo. A ida ao apartamento demorou trinta minutos, pois, como o metrô de Moscou ainda não estava completo, preferiram caminhar a esperar um bonde àquela ho­ra da noite.

Ela era muito mais bonita sem maquilagem, lembrou Misha. O vento frio do inverno coloria as bochechas de maneira mais natural. Seu an­dar era tão gracioso quanto dez anos de treinamento intensivo podiam proporcionar. Ela deslizava pelas ruas como uma aparição, enquanto ele progredia ruidosamente com suas botas pesadas. Sentia-se um tan­que ele mesmo, rolando ao lado de um puro-sangue, e tomava cuida­do para não chegar muito perto, com medo de atropelá-la. Ainda não conhecia a força que se escondia por trás da graça e leveza de Elena.

A noite nunca lhe parecera tão esplêndida, embora nos... ¯ quanto tempo fazia? ¯ vinte anos seguintes tivesse passado muitas noites se­melhantes, depois mais nenhuma nos últimos trinta. Meu Deus, pen­sou ele, teríamos completado cinqüenta anos de casamento em... 14 de julho. Inconscientemente esfregou os olhos com o lenço.

Trinta anos, entretanto, era o número que ocupava sua mente.

O pensamento o afligia, e os dedos ficaram esbranquiçados ao re-dor da caneta. Misha ainda se surpreendia com o fato de que amor e ódio eram emoções finamente mescladas. Voltou a escrever em seu diário...

Uma hora mais tarde ele levantou da escrivaninha e foi até o armá­rio do quarto. Vestiu a farda de coronel da Divisão de Tanques. Tecni­camente estava na lista de oficiais reformados, e já estava antes que muitos coronéis da lista atual tivessem nascido. Mas trabalhar no Mi­nistério da Defesa tinha suas prerrogativas, e Misha fazia parte da equi­pe pessoal do ministro. Essa era uma razão. As outras três pendiam de sua túnica, três estrelas de ouro sob galões púrpura. Filitov era o único soldado na história do Exército soviético que conquistara por três vezes a condecoração de Herói da União Soviética, por bravura demonstrada em campo de batalha em face do inimigo. Existiam ou­tros com tais medalhas, porém agora eram com freqüência concedi­das por motivos políticos, como sabia o coronel. Ficava esteticamente ofendido com isso, pois aquela não era uma medalha para premiar tra­balho de gabinete, e muito menos para que um membro do Partido oferecesse a outro como enfeite de lapela. Herói da União Soviética era uma honraria que devia ser reservada a homens como ele, que en­frentaram a morte, sangraram, e até morreram pela Rodina. Lembrava-se disso a cada vez que envergava o uniforme. Sob sua camiseta escondiam-se as cicatrizes com aparência de plástico que trouxeram sua última medalha de ouro, quando um projétil 88 alemão perfurou a blindagem de seu tanque, incendiando a munição e sua própria rou­pa, enquanto ele manobrava o canhão 76 milímetros para acertar um último tiro e estourar a guarnição de "chucrutes" no canhão. As quei­maduras reduziram pela metade os movimentos de seu braço direito, porém Misha liderou o que restara de seu regimento por mais dois dias no saliente de Kursk, em 1943. Se tivesse saído com os feridos ¯ ou fosse evacuado imediatamente da área, como o cirurgião do regi­mento recomendara ¯, teria tido uma chance de se recuperar por com­pleto; contudo, sabia que não podia desistir e abandonar seus homens no meio da batalha. Por esses atos, ele poderia ter sido promovido a general, ou até a marechal. Teria feito alguma diferença? Filitov era um homem muito prático para demorar-se em conjeturas. Lutara em mui­tas campanhas e poderia ter morrido em qualquer uma. Da maneira como acontecera, tivera mais tempo ao lado de Elena, que o visitava praticamente todos os dias no Instituto de Queimadura», em Moscou; a princípio horrorizada com a extensão de seus ferimentos, viera de­pois a orgulhar-se deles quase tanto quanto Misha. Ninguém podia questionar o sacrifício que seu homem fizera pela pátria.

Agora, fazia seu dever perante sua Elena.

Filitov saiu do apartamento e encaminhou-se para o elevador, uma pasta de couro pendendo da mão direita. Era apenas para isso que uti­lizava esse lado do corpo. A babushka ¯ avozinha ¯ que operava o elevador saudou-o como sempre. Ambos eram idosos, sendo ela a viúva de um sargento que estivera no regimento de Misha, e também mere­cera a medalha de ouro, colocada em seu peito pelo próprio co­mandante.

¯  Como é sua nova neta? ¯ perguntou o coronel.

¯  Um verdadeiro anjo! ¯ foi a resposta entusiasmada.

Filitov sorriu, concordando. Será que existia alguma criança que pa­recesse feia aos olhos da avó? Sorriu também porque expressões como "anjo" haviam resistido a setenta anos de "socialismo científico".

O carro esperava por ele em frente ao prédio. O motorista era um rapaz recém-saído da academia de sargentos e da auto-escola. Saudou

cerimoniosamente o coronel, mantendo a porta aberta com a outra mão.

¯ Bom dia, camarada coronel.

¯ É o que parece, sargento Zhdanov ¯ respondeu Filitov.

A maior parte dos oficiais de alta patente teria grunhido em respos­ta ao cumprimento, mas Misha era um ex-combatente cujo sucesso resultava, em grande parte, da maneira como tratava seus homens. Essa era uma lição que infelizmente muito poucos oficiais entendiam. Era uma pena.

O interior do carro apresentava uma temperatura agradável, resul­tante do aquecedor ligado ao máximo quinze minutos antes. Filitov tornava-se cada vez mais sensível ao frio, um sinal da idade avançada. Acabara de ser hospitalizado com pneumonia pela terceira vez nos úl­timos cinco anos. Sabia que uma das próximas vezes seria a derradei­ra. Afastou esse pensamento. Estivera próximo da morte demasiadas vezes para temê-la. A vida ia e vinha num movimento constante. Será que saberia quando viesse o último segundo? Iria importar-se com isso?

O motorista partiu em direção ao Ministério da Defesa antes que o coronel pudesse responder a essa pergunta.

Ryan tinha certeza de que já trabalhara para o governo por tempo demasiado. Não aprendera a gostar de voar, mas já apreciava a conve­niência de fazê-lo. Estava a apenas quatro horas de Washington, onde embarcara num Learjet C-21 da Força Aérea, cujo capitão era uma mulher, com aparência de quem ainda cursava o segundo ano da fa­culdade.

Está ficando velho, Jack, dissera ele a si mesmo. O vôo desde o campo de aviação até o topo das montanhas fora realizado de helicóptero, ta­refa não muito fácil na altitude em que se encontravam. Ryan nunca estivera no Novo México antes. Os picos eram desprovidos de vegeta­ção, e o ar parecia rarefeito demais, obrigando-o a respirar com maior freqüência, mas o céu estava tão límpido que ele imaginou por um momento ser um astronauta olhando para as estrelas no espaço frio e sem nuvens.

¯  Café, senhor? ¯ ofereceu um sargento, estendendo um copo térmico.

¯  Obrigado. ¯ Ryan aceitou o líquido fumegante despejado pela garrafa térmica, iluminada somente por alguns raios da lua nova.

Deu um pequeno gole e olhou a sua volta. Havia poucas luzes para se ver. Talvez existisse algum agrupamento de construções atrás do próximo agrupamento de picos; podia distinguir até mesmo o halo de luz formado por Santa Fé, embora não houvesse maneira de precisar a distância. Sabia que a plataforma rochosa em que se encontrava elevava-se a mais de 3 600 metros acima do nível do mar ¯ o oceano mais próximo estava a 150 quilômetros de distância. Era tudo muito bonito e agradável, a não ser pelo frio intenso. Seus dedos estavam rígidos ao redor do copo plástico. Ryan esquecera por engano as luvas em casa.

¯  Dezessete minutos! ¯ anunciou uma voz. ¯ Todos os sistemas operantes. Rastreadores em automático. ADS em oito minutos!

¯  ADS? ¯ estranhou Jack, achando-se um pouco ridículo. Sentia tanto frio que as bochechas começavam a ficar amortecidas.

¯  Aquisição de Sinal ¯ explicou o major a seu lado.

¯  Mora por aqui?

¯  Sessenta e cinco quilômetros naquela direção ¯ o jovem major apontou vagamente. ¯ Praticamente do outro lado da rua pelos pa­drões daqui. ¯ O sotaque do Brooklyn justificava o comentário.

Era esse quem tinha feito doutorado na Universidade Estadual de Nova York, em Stony Brook, lembrou Ryan. Com apenas 29 anos de idade, o major não parecia nem mesmo um militar, quanto mais um oficial graduado. Na Suíça ele seria comparado a um gnomo, com 1, 65 me­tro, a pele alva e macilenta, e algumas espinhas marcando-lhe o rosto anguloso. No momento fixava os olhos profundos na porção do hori­zonte onde deveria aparecer o ônibus espacial Discovery, Ryan recordou-se do documento que examinara sobre o major, achando que ele prova­velmente não se lembrava de que cor era a parede de sua sala de estar. O major morava no Laboratório Nacional de Los Alamos, conhecido localmente como The Hill, a Colina. Fora o primeiro de sua classe na Academia de West Point, e dois anos depois concluíra o doutorado em física de alta energia, com uma tese considerada altamente sigilosa. Jack a lera e não entendera por que eles se incomodaram: as duzentas pági­nas pareciam ter sido escritas em curdo. Já se falava em Alan Gregory no mesmo tom que se usava para referir-se a cientistas como Stephen Hawking, de Cambridge, ou Freeman Dyson, de Princeton. A única diferença era que poucas pessoas sabiam seu nome. Jack imaginou se não iriam considerar até isso como segredo de Estado.

¯  Está tudo pronto, major Gregory? ¯ perguntou um general da Força Aérea.

Jack notou o tom respeitoso que o oficial usara. Gregory não era um simples major.

¯  Sim, senhor ¯ respondeu Gregory com um sorriso nervoso, en­xugando na calça as mãos suadas, apesar da temperatura de 15 graus abaixo de zero. Era bom saber que o rapaz tinha emoções.

 

¯  É casado? ¯ quis saber Ryan, que não se lembrava de ter visto nada sobre isso no dossiê.

¯  Noivo, senhor. Ela é especialista em óptica de laser, na Colina. Vamos nos casar no dia três de junho. ¯ A voz dele era trêmula, en-trecortada.

¯  Parabéns! A família trabalhando unida, não é? ¯ brincou Jack.

¯   Sim, senhor ¯ respondeu distraidamente Gregory, ainda exa­minando o horizonte a sudoeste.

¯  ADS! Já temos o sinal! ¯ anunciou alguém atrás deles.

¯  Os óculos! ¯ avisou uma voz metálica através do alto-falante. ¯ Todos coloquem a proteção ocular.

Jack assoprou as mãos antes de apanhar os óculos de plástico no bolso, onde lhe recomendaram que os colocasse para que permane­cessem aquecidos. Mesmo assim pareceram frios demais ao contato. Ryan ficou efetivamente cego. As estrelas e a lua haviam desaparecido.

¯  Rastreando! Enquadramos o alvo. Discovery estabeleceu a liga­ção. Todos os sistemas operando.

¯  Aquisição do alvo ¯ anunciou outra voz. ¯ Iniciar seqüência de correção... primeiro alvo enquadrado... circuitos de disparo auto­mático ativados.

Não houve nenhum som para indicar o que tinha acontecido. Não vi nada, pensou Ryan, ou vi? Teve a impressão fugaz de que alguma coisa... Será que foi imaginação? A seu lado, o major soltava o fôlego, aliviado.

¯  Teste concluído ¯ avisou a voz pelo alto-falante. Jack tirou os óculos.

¯  É só isso? ¯ O que vimos? O que eles fizeram? Será que estava tão por fora, mesmo depois da explicação, que não era capaz de en­tender o que se passara perante seus olhos?

¯  A luz do laser é quase impossível de ser vista ¯ explicou Gre­gory. ¯ A essa altitude, não existe poeira ou umidade para refleti-la.

¯  Então por que colocamos os óculos?

¯  É que, se um pássaro estiver na hora e no lugar errados, o im­pacto poderia ser, bem, algo espetacular. ¯ Gregory sorriu, tirando os óculos. ¯ Poderia ferir os olhos.

Três mil e duzentos quilômetros acima de suas cabeças, o Discovery prosseguia em direção ao horizonte. O ônibus espacial continuaria em órbita por mais três dias, conduzindo "missões científicas de rotina", principalmente estudos oceanográficos, segundo os comunicados dis­tribuídos à imprensa, além de alguma coisa secreta para a Marinha. Os jornais, que vinham especulando há semanas, afirmavam que era algo relacionado com o rastreamento orbital de submarinos transpor­tadores de mísseis. Na verdade, não havia melhor maneira de escon­der um segredo do que encobri-lo com outro, e os assessores de imprensa da Marinha, a cada vez que eram procurados para falar so­bre o assunto, usavam a rotina do "sem comentários".

¯  Funcionou? ¯ indagou Jack, olhando para cima e tentando avis­tar o ponto luminoso que indicava a nave de 1 bilhão de dólares.

¯  Precisamos verificar. ¯ O major encaminhou-se para a caminho-nete com pintura de camuflagem, estacionada próximo a eles, segui­do pelo general de três estrelas e por Ryan.

No interior do veículo, a temperatura estava mais próxima de zero e o oficial chefe de segurança rebobinava uma fita de vídeo.

¯  Onde estavam os alvos? ¯ perguntou Jack. ¯ Isso não constava do relatório.

¯  Mais ou menos a 45 graus sul, 30 graus oeste ¯ respondeu o general, enquanto o major Gregory se debruçava sobre um monitor de televisão.

¯  É perto das ilhas Malvinas, não é?

¯  Na verdade é mais perto da ilha Geórgia do Sul ¯ corrigiu o general. ¯ É um lugar bem sossegado, fora das rotas, e a distância é adequada.

E os soviéticos não possuem nenhum artefato de busca de informações num raio de quase 5 000 quilômetros, pensou Ryan. O teste em Tea Clip­per fora programado para um momento em que todos os satélites so­viéticos se encontrassem abaixo do horizonte visível. Finalmente a posição do alvo fora calculada para ser idêntica à distância até as ins­talações de mísseis dispostas ao longo da principal ferrovia leste-oeste.

¯  Está pronto ¯ disse o oficial de segurança.

A imagem na tela não estava muito boa, vinha de um ângulo ao ní­vel do mar, especificamente de uma câmera postada no convés do Ob-servation Island, uma embarcação dotada de instrumentação de longo alcance que retornava de alguns testes com mísseis Trident no oceano Índico. Ao lado do monitor de vídeo, outra tela reproduzia a imagem do radar rastreador de mísseis "Cobra Judy", também no Observa-tion Island. Os dois monitores mostravam quatro objetos, dispostos em linha irregular. No canto direito da tela, um cronômetro apresen­tava os números como numa competição esportiva, com três dígitos à direita da marca dos segundos.

¯  Acertou! ¯ Um dos pontos desapareceu numa explosão de luz verde.

¯  Errou. ¯ Nada de perceptível aconteceu na tela.

¯  Errou.

Jack estava um pouco desapontado com aquilo. De certa forma, es­perara ver raios de luz pelo céu, como acontecia no cinema. Não ha­via partículas suficientes no ar para demarcar a trajetória da linha de energia.

¯  Acertou. ¯ Mais um ponto desapareceu na tela.

¯  Acertou. ¯ Agora só restava um.

¯  Errou.

¯  Errou. ¯ O último não queria morrer, pensou Ryan.

¯  Acertou. ¯ Mas acabou morrendo. ¯ Tempo total: 1 segundo e 806 milésimos.

¯  Cinqüenta por cento... ¯ disse baixinho o major Gregory. ¯E ele corrigiu a si mesmo, não foi? ¯ O oficial concordou com a cabeça. ¯ Funciona!

¯  Qual o tamanho dos alvos? ¯ quis saber Jack.

¯  Três metros. Balões esféricos, é claro. ¯ Gregory quase não con­seguia controlar seu entusiasmo. Parecia um garoto a quem o Natal tivesse apanhado de surpresa.

¯  O mesmo diâmetro de um míssil terra-terra SS-18.

¯  Alguma coisa em torno disso ¯ desta vez foi o general quem res­pondeu.

¯  Onde está o outro espelho?

¯  Dez mil quilômetros acima, no momento sobre a ilha de Ascen­são. Oficialmente é um satélite meteorológico que não chegou a al­cançar sua órbita. ¯ O general sorriu.

¯  Eu não sabia que podíamos mandar a energia tão longe.

¯  Nem nós... ¯ O major Gregory riu.

¯  Então o que fizeram foi enviar o raio daqui até o espelho do Dis-covery, onde foi refletido até o outro espelho sobre o equador, e de lá até o alvo?

¯  Exatamente ¯ concordou o general.

¯  Então o sistema de mira e aquisição de alvo está no outro satéli­te, é isso?

¯  É ¯ admitiu secamente o general.

¯  Isto quer dizer que se pode distinguir um alvo de 3 metros de diâmetro a... ¯ Jack fez mentalmente alguns cálculos ¯ 10 000 qui­lômetros. Não sabia que podíamos fazer isso. Como é que conse­guimos?

¯  É algo que não precisa saber ¯ replicou com frieza o general.

¯  Tiveram quatro tiros no alvo e quatro erros... oito tiros em me­nos de dois segundos, e o major disse que o sistema de mira corrigiu os erros ¯ continuou Ryan. ¯ Muito bem, se em vez do alvo fossem quatro mísseis SS-18 lançados da Geórgia do Sul, teriam sido neutra­lizados pelos disparos?

¯  Provavelmente não ¯ disse Gregory. ¯ Esse gerador de laser pro­duz apenas 5 megajoules. Sabe quanto vale 1 joule?

¯  Dei uma recordada em minha física dos tempos de faculdade antes de vir para cá. Um joule vale 1 newton. metro por segundo, ou 0, 102 quilogramas-força, mais alguns quebrados, certo? ¯ O outro anuiu. ¯ Muito bem, 1 megajoule é um milhão de vezes maior, o que totaliza... 102 000 quilogramas-força. Em termos que eu pos­sa entender...

¯  Um megajoule equivale, mais ou menos, a um bastão de dina­mite. A energia real transferida no processo equivale a 1 quilo de ex­plosivos, mas os efeitos não são exatamente comparáveis.

¯  Está me dizendo que o efeito do raio laser não é exatamente quei­mar o alvo, mas seria mais parecido com um choque? ¯ Ryan espre­mia até os limites seus conhecimentos técnicos.

¯  Exatamente ¯ respondeu o general. ¯ Na verdade chamamos de "morte por impacto". Toda a energia chega em alguns milionési-mos de segundo, muito mais rápido do que uma bala.

¯  Então essas histórias de que o polimento especial nos mísseis ou a rotação exagerada podem impedir...

¯  Gostei dessa quando ouvi. ¯ O major Gregory riu novamente. ¯ Uma bailarina rodopiando em frente a uma espingarda teria o mes­mo efeito defensivo. O que acontece é que a energia tem de ir para algum lugar e esse lugar só pode ser o corpo do míssil. Quase todos os mísseis deles usam combustível líquido, certo? Só o efeito do cho­que hidrostático é suficiente para estourar os tanques de pressão. Ca-buuml Acabou-se o míssil. ¯ O major sorria como se estivesse descre­vendo uma peça pregada em seu professor.

¯  Certo. Agora quero saber como funciona.

¯  Escute, doutor Ryan... ¯ começou o general, logo interrompi­do por Jack.

¯  General, tenho acesso a Tea Clipper. O senhor sabe disso, por­tanto chega de rodeios.

A contragosto, o general acenou com a cabeça para o major Gre­gory, que retomou a explicação.

¯  Senhor, temos cinco laser de 1 megajoule...

¯ Onde?

¯  Está na frente de um deles, senhor. Os outros quatro estão en­terrados ao redor deste pico. A taxa de energia é pulsante, é claro. Cada um deles emite uma pulsação e produz 1 milhão de joules em alguns milionésimos de segundo.

¯  E em quanto tempo eles recarregam?

¯  Quarenta e seis milésimos de segundo. Podemos enviar vinte "ti­ros" por segundo, em outras palavras.

¯  Mas não dispararam a essa velocidade.

¯  Na verdade não precisamos, senhor. O fator limitante presente nesse caso é a programação do sistema localizador do alvo. Estamos trabalhando nisso. Um dos propósitos deste teste era realizar uma ava­liação do software envolvido. Sabemos que os laser funcionam, já os temos há três anos. Os raios convergem para um espelho a aproxima­damente 50 metros para aquele lado, onde são convertidos num único raio.

¯  Eles precisam estar... quero dizer, os raios todos precisam estar sintonizados, certo?

¯  Tecnicamente chamamos de Phased-Array Laser ¯ disse Gregory.

¯  Todos os raios laser têm de estar perfeitamente em fase.

¯  E como diabos conseguem fazer isso? ¯ Ryan fez uma pausa.

¯ Deixe para lá, eu não ia entender mesmo. Então o que temos é um único raio refletido por aquele espelho...

¯  O espelho é especial. É composto por milhares de segmentos, cada um deles controlado por um chip piezelétrico, chamado "óptico adaptável". Enviamos um raio exploratório ao espelho, que hoje foi emitido pelo ônibus espacial, e fazemos uma leitura das distorções at­mosféricas. O computador analisa a maneira como o raio é curvado pela atmosfera e corrige todos os espelhos. Só então disparamos o tiro verdadeiro. O espelho no Discovery também possui ópticos adaptáveis. Recolhe o raio e o focaliza no satélite-espelho Flying Cloud, que o re­flete para o alvo. Pronto!

¯  E simples assim? ¯ espantou-se Ryan, sacudindo a cabeça.

Sabia que aquela simplicidade só se tornara possível porque nos úl­timos dezenove anos haviam sido gastos 40 bilhões de dólares em pes­quisa de base, cobrindo vinte campos diferentes só para que aquele teste pudesse ser realizado.

¯  Ainda precisamos acertar alguns detalhes ¯ acrescentou Gregory. Aqueles pequenos detalhes levariam pelo menos cinco anos, e Deus

sabe quantos bilhões de dólares a mais. O que interessava era que no momento tinha-se uma chance real de atingir o objetivo. Tea Clipper não era mais um projeto nas nuvens depois do teste que haviam pre­senciado.

¯  E foi você o cara que conseguiu nosso avanço no sistema de localização do alvo ¯ declarou Jack. ¯ Descobriu uma maneira para que o raio gerasse suas próprias informações de rastreamento.

¯  É mais ou menos isso ¯ confirmou o general. ¯ Dr. Ryan, essa parte do sistema está classificada tão alto que não podemos fornecer mais detalhes sem autorização por escrito.

¯  General, o propósito de minha vinda até aqui foi fazer uma ava­liação deste programa em relação aos esforços soviéticos em armamentos similares. Se quiser que o meu pessoal descubra o que eles estão fa­zendo, tenho de saber que diabos procurar!

Como sua argumentação não provocasse nenhuma resposta, Ryan encolheu os ombros e retirou um envelope do interior do sobretudo, entregando-o ao general. O major assistiu à cena, intrigado.

¯  Ainda não gosta da idéia ¯ comentou Jack, quando o general dobrou o documento, depois de examiná-lo.

¯  Nem um pouco ¯ confessou o general, de cara fechada.

¯  General, quando eu estava no Corpo de Fuzileiros, ninguém nun­ca disse que eu devia gostar das ordens, só obedecer. ¯ Ryan mudou de tom ao notar que o general estava a ponto de perder a paciência. ¯ Estou do mesmo lado que o senhor.

¯  Pode continuar, major Gregory ¯ disse por fim o general Parks.

¯  Eu chamo de: "a dança dos leques do algoritmo" ¯ começou Gregory, assumindo o tom entusiasmado de um garoto explicando seu projeto na feira de ciências. Não demorou a expor a idéia básica por trás do funcionamento.

¯  Só isso? ¯ comentou Ryan, verdadeiramente impressionado com a simplicidade do raciocínio, consciente de que cada especia­lista em computação no projeto Tea Clipper devia ter se perguntado por que não pensara naquilo. Não era à toa que chamavam aquele Gregory de gênio. Ele tinha feito um avanço enorme na tecnologia do laser em Stony Brook e depois disso aperfeiçoara o software. ¯ É simples mesmo!

¯  É verdade, senhor, mas demorou quase dois anos para entrar em condições de funcionamento, e um computador Cray-2 para conse­guir desenvolvê-lo numa velocidade compatível com as necessidades. Ainda temos mais algum trabalho pela frente, depois de analisar o que saiu errado esta noite. Acho que levaremos uns quatro ou cinco meses para colocar tudo em ordem.

¯  E qual será o próximo passo?

¯  Construir um laser de 5 megajoules. Um outro grupo já está pró­ximo desta fase. Juntaremos vinte deles e poderemos enviar um pulso de 100 megajoules vinte vezes por segundo, e atingir qualquer alvo que desejemos. A energia de impacto será da ordem de, digamos, 20 a 30 quilos de explosivos.

¯  E isso derruba qualquer míssil que alguém possa construir.

¯   Sim, senhor. ¯ Gregory sorriu, satisfeito.

¯  Então o que está me dizendo, major... é que Tea Clipper funciona!

¯  Ele está dizendo que validamos a arquitetura do sistema ¯ ata­lhou o general. ¯ Desde que começamos, cinco anos atrás, havia on­ze barreiras técnicas. Agora existem apenas três, e em mais cinco anos não restará nenhuma. Então poderemos começar a construí-lo.

¯  As implicações estratégicas... ¯ Ryan interrompeu-se, a mente trabalhando com rapidez. ¯ Meu Deus!

¯  Vai mudar o mundo ¯ afirmou Parks.

¯  Sabe que estão fazendo a mesma coisa em Dushanbe?

¯  Sei ¯ admitiu o major. ¯ E sei também que eles devem ter con­seguido resolver algum problema que ainda não solucionamos.

Ryan concordou. O rapaz era esperto o suficiente para saber que existiam outros mais espertos. Aquilo era muito bom.

¯  Cavalheiros, no helicóptero que me trouxe existe uma maleta. Será que podiam pedir para que alguém a traga até aqui? Trouxe al­gumas fotografias de satélite que vão achar interessantes...

¯  Quando foram tiradas essas fotografias? ¯ indagou o general Parks cinco minutos mais tarde.

¯  Há uns dois dias ¯ informou Jack.

O major Gregory continuou examinando as imagens por mais al­gum tempo antes de se pronunciar.

¯  Acho que temos aqui duas instalações ligeiramente diferentes. Chamamos de sparse array. Essa disposição esparsa hexagonal com os seis pilares é um transmissor. A construção no centro da estrutura de­ve ser projetada para abrigar seis geradores laser. Os pilares são ban­dejas opticamente estáveis para os espelhos. O raio laser é emitido no interior da construção e se reflete nos espelhos, que são controlados por computador para concentrar os raios no alvo.

¯  O que quer dizer com "opticamente estáveis"? ¯ perguntou Ryan.

¯  Os espelhos precisam ser controlados com um alto grau de pre­cisão, senhor ¯ explicou Gregory. ¯ Isolando completamente o meio, eliminam-se as vibrações provenientes de um carro passando, e até do andar de um homem. Se o espelho balançar, mesmo por uma fra­ção da freqüência do raio laser, o efeito se altera completamente. Aqui usamos montagens especiais contra choque, para aumentar o fator de isolamento. É uma técnica originalmente desenvolvida em submarinos. Certo até aqui? Essa outra disposição em losango deve ser o receptor.

¯  O quê? ¯  O raciocínio de Jack pareceu ter esbarrado em uma barreira de pedra.

¯  Vamos dizer que você queira fazer uma boa fotografia de alguma coisa. Quero dizer, boa mesmo, com alto poder de resolução. Nesse caso usa-se o laser como fonte de iluminação para tirar a foto.

¯  Mas... por que quatro espelhos?

¯  Porque é mais barato e mais fácil construir quatro espelhos pe­quenos do que um grande. ¯ Gregory fez uma pausa. ¯ Por outro lado, talvez estejam tentando obter uma imagem holográfica em três dimensões. Se puderem manter por muito tempo os raios em fase... é possível, pelo menos teoricamente. Ainda precisariam resolver mais alguns pontos delicados, mas os soviéticos gostam desses desafios... Que idéia! ¯ Os olhos do major brilharam. ¯Uma idéia muito inte­ressante. Preciso depois pensar nisso.

¯  Está me dizendo que eles construíram tudo isso só para tirar fo­tografias de nossos satélites?

¯  Não, senhor. Mas podem usá-lo para fazer isso, se quiserem. E uma cobertura perfeita. Um sistema que consiga rastrear e fotografar um satélite em órbita geoestacionária pode com certeza derrubar um em órbita mais próxima à Terra. Se pensar nesses quatro espelhos co­mo um telescópio, é só lembrar que um telescópio pode servir de len­te a uma câmera, ou servir de mira num fuzil. Quer dizer que seria um ótimo sistema de mira. Quanta energia é fornecida a esse labo­ratório?

¯  A potência atual fornecida pela barragem é alguma coisa em tor­no de 500 megawatts. ¯ Ryan abaixou a fotografia que estivera exa­minando. ¯ Mas...

¯  Estão instalando novas linhas elétricas ¯ completou o major. ¯ Por quê?

¯  A usina geradora tem dois andares, desse ângulo não dá para ver. Parece que estão ativando a metade superior agora. Isto iria elevar a potência total de pico para 1 100 megawatts aproximadamente.

¯  Quanto dessa potência vai para as instalações.

¯  Chamamos esse lugar de Bach ¯ esclareceu Jack. ¯ Talvez uns 100 megawatts. O resto vai para Mozart, a cidade que fica na elevação seguinte. O que significa que estão dobrando a potência.

¯  É muito mais do que isso, senhor ¯ observou Gregory. ¯ A me­nos que dobrem o tamanho da cidade, podemos presumir que toda a potência restante vai para os geradores laser.

Jack quase engasgou. Como é que eu não pensei nisso antes?

¯  O que estou querendo dizer ¯ continuou o major ¯ é que vão injetar mais 500 megawatts no sistema. Meu Deus, e se eles consegui­ram algum avanço na área de potência? É muito difícil saber o que está se passando lá?

¯  Dê uma olhada nas fotos e me diga se acha fácil infiltrar alguém no local ¯ sugeriu Ryan.

¯  Oh... ¯ exclamou Gregory, desanimado. ¯ É que seria muito bom saber quanta energia eles conseguem colocar na ponta do seu sis­tema. Há quanto tempo esse lugar existe, senhor?

¯  Há mais ou menos quatro anos, mas ainda não está pronto. Mo­zart é nova. Até pouco tempo atrás os trabalhadores estavam alojados em barracas e instalações provisórias. Começamos a reparar quando os apartamentos foram construídos ao mesmo tempo que as cercas de segurança. Quando os soviéticos paparicam seus trabalhadores, sabe­mos que o projeto tem prioridade total. Se possui cercas e torres de vigia, sabemos que é militar.

¯  Como encontraram o lugar?

¯  Foi por acidente. A Agência estava revendo alguns dados meteo­rológicos sobre a União Soviética e um dos técnicos decidiu fazer uma análise em computador dos melhores locais para observações astronô­micas. Este é um deles. Nos últimos meses, o tempo tem se apresen­tado encoberto, mas geralmente lá é tão claro quanto aqui. O mesmo vale para Sary Shagan, Semipalatinsk, e o mais novo, Storozhevaya. ¯ Ryan espalhou novas fotos sobre a bancada.

¯  Eles andam ocupados por lá...

¯  Bom dia, Misha ¯ cumprimentou o marechal da União Soviéti­ca Dmitri Timofeyevich Yazov.

¯  Para o senhor também, camarada ministro da Defesa ¯ respon­deu o coronel Filitov.

Um sargento ajudou o ministro a tirar o sobretudo, enquanto outro entrou com uma bandeja contendo um serviço de chá. Ambos se reti­raram quando o coronel abriu sua pasta.

¯  Então, Misha? Como está o meu dia hoje?

Yazov serviu duas xícaras de líquido fumegante. Ainda estava escu­ro fora do prédio do Conselho de Ministros. O perímetro interno das paredes do Kremlin estava iluminado por lâmpadas branco-azuladas e as sentinelas apareciam e desapareciam como borrões escuros nos focos de luz sobre a neve.

¯  Parece um dia bem cheio, Dmitri Timofeyevich ¯ respondeu Misha. ¯ Hoje temos a delegação que veio da estação experimental do Tadjiquistão.

Yazov não era o homem que Dmitri Ustinov fora, mas Filitov preci­sava admitir que ele começava o dia como um verdadeiro soldado. Ya-zov havia iniciado a carreira como oficial de tanques, e, embora nunca se tivessem encontrado durante a guerra, cada um conhecia a reputa-ção do outro. Misha era melhor oficial de combate, e os puristas afir-mavam que ele representava o mesmo que um oficial de cavalaria da velha-guarda, embora Filitov odiasse cavalos; Dmitri Yazov logo ficara famoso como organizador, revelando-se um oficial de gabinete muito hábil também em política. Antes de mais nada, Yazov era um homem devotado ao Partido, de outra forma jamais teria conseguido o posto de marechal.

¯  Ah, Estrela Brilhante. A reunião está marcada para hoje.

¯  Acadêmicos ¯ resmungou Misha. ¯ Eles não reconheceriam uma arma de verdade nem que tivessem uma encostada na bunda.

¯  O tempo das lanças e sabres já passou, Mikhail Semyonovich ¯ declarou Yazov com um sorriso. Sem possuir o brilhante intelecto de Ustinov, o atual ministro tampouco era um tolo, como seu predeces-sor Sergey Sokolov. Sua falta de conhecimentos na área de engenharia era contrabalançada por um reconhecimento dos méritos das novas ar­mas e uma perspicácia incomum para o pessoal do Exército soviético. ¯ Essas invenções são extraordinariamente promissoras.

¯  É claro. Eu só gostaria que tivéssemos um soldado dirigindo o projeto, e não esses professores de olhos esbugalhados.

¯  Mas o general Pokryshkin,..

¯  Ele era um piloto de caça. Eu disse um soldado, camarada mi­nistro. Pilotos apoiam qualquer coisa que tenha botões e reloginhos. Além do mais, Pokryshkin tem passado mais tempo sentado nas bi­bliotecas das faculdades do que em assentos de aviões. Acho que nem voa mais. Pokryshkin deixou de ser um soldado há dez anos, e agora é procurador dos mágicos. ¯ Também está construindo lá o seu império particular; mas é melhor deixar esse assunto para outro dia.

¯  Gostaria de ser designado para uma nova missão, Misha? ¯ per­guntou argutamente Yazov.

¯  Não essa, muito obrigado ¯ riu Filitov. ¯ O que estou tentando dizer, Dmitri Timofeyevich, é que o progresso conseguido em Estrela Brilhante fica... empanado pelo fato de não termos um militar de ver­dade no comando. Alguém que entenda as sutilezas de combate e que saiba o que deve ser esperado de uma arma.

¯  Estou entendendo o que quer dizer ¯ assentiu o ministro pensativamente, balançando a cabeça. ¯ Eles raciocinam em termos de instrumentos em lugar de armas. Isso é verdade. Fico preocupado com a complexidade do projeto.

¯  Quantas partes móveis possui esta nova montagem?

¯  Não tenho idéia. Milhares, eu suponho,

¯  Um instrumento não se transforma numa arma até que possa ser manejado por um soldado raso... bem, pelo menos por um tenente. Alguém de fora do projeto fez um estudo de viabilidade? ¯ pergun­tou Filitov.

¯  Não que eu me lembre.

¯  Ai' está, Dmitri Timofeyevich ¯ declarou Filitov, apanhando sua xícara de chá. ¯ Não acha que o Politburo pode vir a interessar-se por isso? Até agora eles têm aprovado fundos para esse projeto experimental, mas... ¯ O coronel deu um pequeno gole. ¯ Eles vêm para obter mais verbas a fim de tornar o projeto operacional, e nós não te­mos nenhuma avaliação independente de viabilidade.

¯  E o que você faria para resolver isto?

¯  Obviamente não tenho capacidade para fazê-lo. Estou muito ve­lho e não tenho os conhecimentos necessários, mas existem alguns jo­vens coronéis brilhantes no ministério, especialmente na seção de sinalização. Não são oficiais combatentes, mas são soldados, e bastante competentes para analisar essas pequenas maravilhas eletrônicas. Mas é apenas uma sugestão, camarada ministro. ¯ Filitov achou me­lhor não insistir muito. Havia plantado a semente de sua idéia, e Ya­zov era muito mais fácil de manipular do que Ustinov.

¯  E quanto aos problemas em Chelyabinsk, com os tanques? ¯ indagou Yazov, mudando de assunto.

Ortiz observou o Arqueiro subindo o morro a 800 metros de dis­tância. Dois homens e dois camelos. Certamente não seriam tomados por algum comando de guerrilheiros. Não que aquilo importasse muito, porque os soviéticos haviam chegado a um ponto em que atacavam praticamente tudo que se movesse. Vaya com Dios.

¯  Bem que eu tomaria uma cerveja ¯ reclamou o capitão. Ortiz voltou-se para ele.

¯  Capitão, a única coisa que me permite negociar com esses ho­mens e obter sucesso é que vivo como eles vivem. Observo suas leis e as respeito, e isso significa: não beber nada alcoólico, não comer porco e respeitar as mulheres deles.

¯  Merda! ¯ resmungou o oficial. ¯ Esses selvagens ignorantes não...

¯  Capitão! ¯ cortou Ortiz. ¯ Da próxima vez que disser isso, ou mesmo pensar em voz alta, será o seu último dia aqui. Essas pessoas estão trabalhando para nós e arranjando coisas que não podemos con-seguir em nenhum outro lugar. Você irá tratá-los com todo o respeito que merecem. Está claro?

¯  Sim, senhor. ¯ Que merda! Esse cara virou um fanático muçulma-no de tanto viver como esses "negros da areia"

 

A Raposa Cansada

¯  E impressionante... se se conseguir adivinhar o que estão fazendo.

¯  Jack bocejou. Havia tomado o mesmo transporte da Força Aérea de Los Alamos para Andrews, e seu sono estava novamente atrasado. Não sabia lidar com aquilo, como das outras vezes em que acontece­ra. ¯ Esse rapaz, o Gregory, é esperto como o diabo. Demorou mais ou menos dois segundos para identificar a instalação em Bach, prati­camente com as mesmas palavras do pessoal do NPIC, o Centro Na­cional de Informações Fotográficas. ¯ Com a diferença de que os técnicos do NPIC haviam levado quatro meses e preparado três rela­tórios para chegar às mesmas conclusões.

¯  Acha que ele pertence ao grupo de avaliação? ¯ quis saber o al­mirante Greer.

¯  Senhor, isso seria como perguntar se queremos um cirurgião nu­ma sala de operações. A propósito, ele gostaria que infiltrássemos al­guém em Bach. ¯ Jack girou os olhos nas órbitas.

O almirante quase deixou cair sua xícara.

¯  Esse garoto deve ver muitos filmes de Kung-fu.

¯  É bom saber que alguém ainda acredita em nós ¯ brincou Jack, assumindo um tom sério depois. ¯ De qualquer forma, Gregory quer saber se eles fizeram algum avanço com a potência de saída do laser. Desculpe, acho que o termo correto é throughput. Ele suspeita de que a maior parte da potência adicional produzida pela hidrelétrica vai para Bach.

Os olhos de Greer se estreitaram.

¯  Esse é um mau pensamento. Acha que ele tem razão?

¯  Existe muita gente competente em tecnologia de laser do lado de lá, senhor. Nikolay Bosov, lembre-se, desde que ganhou o Prêmio Nobel, vem se dedicando à pesquisa de armamento laser, ao lado de Yevgeniy Velikhov, que é um ativista da paz; e o chefe do Instituto Laser é o filho de Dmitri Ustinov, por Deus! A instalação de Bach é um emissor sparse array laser, com certeza. Precisamos determinar ainda que tipo de laser estão usando. O rapaz acha que é do tipo elé­tron livre, mas diz que é apenas uma suposição. Fez cálculos que mos­travam as vantagens de montar os dispositivos nessa montanha, onde ficariam acima de metade da atmosfera, e sabemos quanta energia é necessária para fazer algumas das coisas que eles querem. Disse que vai tentar reconstituir os dados no computador, para ver se descobre a quantidade total de energia do sistema. A estimativa será pessimis-ta. Considerando tudo o que o major Gregory disse e a recente fase de acabamento das instalações residenciais em Mozart, teremos de pre­sumir que o local vai entrar em fase de teste formal e avaliação num futuro próximo, talvez até operacional em dois ou três anos. Se isso acontecer, Ivã pode ter em pouco tempo um laser capaz de riscar do espaço um de nossos satélites. O major diz que provavelmente será uma morte atenuada, apagando as lentes das câmeras e as células fo-tovoltaicas. Mas o próximo passo...

¯  Certo. Estamos mesmo numa corrida.

¯  Qual é a chance de que Ritter e o pessoal de Operações consigam descobrir alguma coisa no interior de uma das construções em Bach?

¯  Acho que posso discutir com ele as possibilidades ¯ disse Greer sem muita convicção, mudando a seguir de assunto: ¯ Você parece um pouco cansado.

Ryan entendeu a mensagem: ele não precisava saber o que o pessoal de Operações iria fazer.

¯  Todas essas viagens foram muito cansativas. Se não se importa, senhor, gostaria de ser dispensado pelo resto do dia.

¯  Parece justo. Vejo você amanhã, então. Mas antes... Jack? Rece­bi um telefonema do pessoal da Comissão de Valores Mobiliários.

¯  Ah, eu já tinha esquecido deles. ¯ Jack inclinou a cabeça. ¯ Ligaram para mim logo antes da viagem a Moscou.

¯  Sobre o quê?

¯  É sobre uma das companhias da qual possuo ações, os agentes estão sendo investigados por compra e venda internamente. Comprei minhas ações ao mesmo tempo que eles, e a Comissão quer saber co­mo foi isso.

¯  E como foi? ¯ quis saber Greer. A CIA já tinha escândalos sufi-cientes, e o almirante não queria nenhum começando em seu setor.

¯  Alguém me deu um palpite de que aquela poderia ser uma com­panhia interessante para investir, e quando fui verificar descobri que a própria empresa estava comprando suas ações. Isso tudo é legal, chefe. Tenho as cópias dos relatórios em casa, porque faço tudo isso por computador... Bem, pelo menos fazia antes de vir trabalhar no Departa-mento, e tenho cópias impressas de todos os dados. Não infringi nenhuma regra, senhor, e posso provar.

¯  Vamos tentar resolver tudo nos próximos dias ¯ sugeriu Greer.

¯   Sim, senhor.

Cinco minutos depois, Jack estava em seu carro. O percurso até sua casa em Peregrine Cliff foi mais fácil do que normalmente, levando apenas cinqüenta minutos em vez de uma hora e quinze. Cathy estava trabalhando, como sempre, e as crianças estavam na escola ¯ Sally em St. Mary's e Jack na pré-escola. Ryan serviu-se de um copo de leite na cozinha. Quando terminou de beber, subiu as escadas, tirou os sapatos e caiu na cama, sem ao menos se incomodar em tirar a calça.

O coronel Gennady Iosifovich Bondarenko, do Serviço de Comuni­cações do Exército, estava sentado em frente a Misha, as costas eretas e orgulhoso, e tão jovem quanto se esperava de um oficial de campa­nha. Não se mostrava nem um pouco intimidado pelo coronel Filitov, que possuía idade suficiente para ser seu pai e cujo passado era uma verdadeira lenda viva no Ministério da Defesa. Então era esse o vetera-no guerreiro que participara de praticamente todas as batalhas de tanques durante os primeiros dois anos da Grande Guerra Patriótica. Viu nos olhos do homem a tempera que a idade e a fadiga jamais apagariam, e repa­rou na falta de movimento no braço direito, lembrando-se de como tinha acontecido. Diziam que o velho Misha ainda visitava as fábricas de tanques com alguns homens de seu antigo regimento, para verifi-car se o controle de qualidade dos tanques ainda correspondia aos pa­drões estabelecidos e certificar-se de que seus frios olhos azuis ainda eram capazes de distinguir e acertar o alvo da cadeira do artilheiro. Bondarenko tinha uma espécie de respeito por esse homem, que era um exemplo entre os soldados, e acima de tudo sentia-se orgulhoso por usar o mesmo uniforme que ele.

¯  Em que posso servi-lo, coronel? ¯ perguntou ele a Misha.

¯  Sua ficha diz que você é muito bom com aparelhos eletrônicos, Gennady Yosifovich. ¯ Filitov apontou uma pasta de arquivo sobre sua mesa.

¯  E meu trabalho, camarada coronel. ¯ Bondarenko era mais do que "muito bom", ambos sabiam disso. Ele ajudara a desenvolver rniras a laser para os campos de batalha, e até pouco tempo atrás estivera envolvido com um projeto de utilização de laser em vez de radiotrans­missores para tornar mais seguras as comunicações na linha de frente.

¯  O que estamos a ponto de discutir foi classificado como ultra-secreto. ¯ O jovem coronel concordou gravemente e Filitov continuou. ¯ Durante os últimos anos, o ministério vem financiando um projeto chamado Estrela Brilhante... o nome em si também é sigiloso, é claro. Seu objetivo original é obter fotografias de alta resolução dos satélites ocidentais, embora quando completamente desenvolvido seja capaz de cegá-los... ao tempo em que tal ação seja politicamente desejável. O projeto é dirigido por acadêmicos e por um ex-piloto de caça da Defe­sa Aérea... Esse tipo de instalação infelizmente fica sob a autoridade das forças de defesa aérea. Eu pessoalmente teria preferido que fos­sem dirigidas por um verdadeiro soldado, mas...

Misha parou e fez um gesto em direção ao teto. Bondarenko sorriu em concordância. Política, comunicaram-se ambos em silêncio. É de espantar que se consiga realizar alguma coisa.

¯  O ministro deseja que você voe até lá e faça uma avaliação do potencial dos armamentos nas instalações, particularmente sob o ponto de vista de viabilidade. Se vamos tornar esse local operacional, seria bom sabermos se a merda toda vai funcionar na hora em que precisar­mos dela.

O jovem oficial concordou pensativamente, enquanto sua mente dis­parava. Aquela era uma missão para a qual fora escolhido ¯ mais do que isso. Deveria responder ao ministro através de seu mais confiável auxiliar. Se fizesse um bom trabalho, teria a insígnia pessoal do mi­nistro no paletó. Aquilo lhe garantiria estrelas de general, um aparta­mento maior para a família, boa educação para os filhos e muitas das coisas pelas quais lutava havia anos.

¯  Camarada coronel, devo presumir que eles sabem da rninha ida? Misha gargalhou ruidosamente.

¯  É assim que o Exército Vermelho faz agora? Avisam as pessoas quando elas vão passar por uma inspeção? Não, Gennady Iosifovich, se vamos avaliar viabilidades, devemos fazer a inspeção de surpresa. Tenho uma carta aqui para você do próprio marechal Yazov. Será mais do que suficiente para que possa passar pela segurança... A seguran­ça do local está a cargo de seus colegas da KGB ¯ informou Misha friamente. ¯ Vai lhe permitir acesso a todas as dependências da insta­lação. Se tiver qualquer tipo de dificuldade, telefone para mim imediatamente. Posso ser encontrado neste número. Mesmo se estiver na sauna, meu chofer virá me chamar.

¯  A que nível de detalhes deve chegar a avaliação, camarada coronel?

¯  O suficiente para que um velho piloto de tanques como eu possa entender toda essa feitiçaria que andam fazendo por lá ¯ declarou Mis­ha. ¯ Acha que tem condições de entender tudo aquilo?

¯  Se não tiver, o senhor será informado, camarada coronel. ¯ Era uma boa resposta, reparou Misha. Bondarenko iria longe.

¯  Excelente, Gennady Iosifovich. Eu prefiro mesmo que um ofi-cial me diga que não sabe, em vez de tentar me impressionar com um monte de mudnya. ¯ Bondarenko entendeu muito bem a mensagem. Circulavam boatos de que o tapete do escritório do coronel era vermelho-ferrugem do sangue de oficiais que tentaram enganá-lo e pas­sar por cima dele. ¯ Quando pode partir?

¯   São muito grandes as instalações?

¯  São. Acomodam quatrocentos acadêmicos e engenheiros, mais uns seiscentos homens do pessoal de apoio. Pode levar uma semana para fazer sua avaliação; a velocidade no caso não é tão importante quanto a precisão.

¯  Nesse caso vou colocar mais um uniforme na bagagem. Posso estar a caminho em duas horas.

¯  Excelente. Está dispensado. ¯ Misha abriu uma nova pasta.

Como geralmente acontecia, Misha trabalhou alguns minutos a mais do que o ministro. Trancou os documentos pessoais no cofre, e o res-, tante foi levado por um mensageiro, cujo carrinho rodou em direção aos Arquivos Centrais, alguns metros ao longo do corredor. O mesmo mensageiro lhe entregou um bilhete, informando que o coronel Bon­darenko havia embarcado no vôo 1730 da Aeroflot para Dushanbe e que ele providenciara transporte terrestre do aeroporto civil até Estre-la Brilhante. Filitov prometeu-se lembrar de parabenizar Bondarenko por sua argúcia. Como membro da corregedoria interna do ministé­rio, ele poderia ter requisitado transporte especial e voado até o aero­porto militar da cidade, mas o oficial de segurança em Estrela Brilhante sem dúvida teria lá alguns de seus homens, que informariam a chega­da de tal vôo. Da forma como foi feito, um coronel de Moscou poderia perfeitamente passar pelo que geralmente eram os coronéis na capital ¯ garotos de recados. Aquilo ofendia Filitov. Um homem que traba­lhara duro o suficiente para obter o posto de comandante de um regi­mento ¯ que era o melhor trabalho em qualquer Exército ¯ não devia ser um escravo de gabinete a preparar bebidas para seu general. Mas sabia também que era assim que a coisa funcionava em qualquer or­ganização militar. Pelo menos Bondarenko teria a chance de experi­mentar seus dentes naqueles vadios do Tadjiquistão.

Filitov levantou-se e apanhou o casaco. Um momento depois, com a maleta pendendo da mão direita, saiu do escritório. Seu secretário ¯ um oficial de segurança ¯ automaticamente apanhou o interfone e chamou a garagem para que o carro estivesse pronto. Já estava aguar­dando quando Misha saiu pela porta da frente.

Quarenta minutos depois, Filitov vestia roupas confortáveis. A tele­visão ligada transmitia qualquer coisa absurda o suficiente para ter vindo do Ocidente. Misha sentou-se sozinho à mesa da cozinha. Ao lado de sua refeição noturna, uma garrafa aberta de meio litro de vod­ca. Comia salsicha, pão preto e vegetais em conserva, uma refeição não muito diferente das que partilhara em campanha com seus ho­mens, duas gerações antes. Descobrira depois que seu estômago se dava melhor com aquele tipo de comida do que com pratos mais deli­cados, um fato que confundira o pessoal do hospital durante sua últi­ma crise de pneumonia. Depois de cada mordida, dava um pequeno gole na vodca, olhando para as persianas, reguladas de forma a per­mitir que se visse através das janelas. As luzes da cidade de Moscou brilhavam, além dos incontáveis retângulos amarelos das janelas de apartamentos.

Ele conseguia lembrar-se dos odores à vontade. O cheiro viçoso da boa terra russa, o aroma delicado da grama verde, entremeados com os vapores desagradáveis do óleo diesel, e acima de tudo o fedor ácido da pólvora dos canhões do tanque, que permanecia no macacão, não importando quantas vezes se tentasse lavá-lo. Para um piloto de tan­ques essa mistura era o cheiro de combate, isso e o cheiro mais desa­gradável dos veículos em fogo e das tripulações no interior. Sem olhar, ele levantou a salsicha e cortou um pedaço generoso, trazendo-o à bo­ca com a faca. Olhava pela janela, como se fosse uma tela de televisão, e o que enxergava era o vasto e distante horizonte colorido pelo pôr-do-sol e colunas de fumaça que se elevavam em meio ao verde e azul, alaranjado e marrom. A seguir, uma mordida na textura rica e mais compacta do pão preto. Como sempre acontecia nas noites anteriores às ocasiões em que cometia traição, os fantasmas voltavam para visitá-lo.

Mostramos a eles, não foi, camarada capitão?, perguntou uma voz fa-tigada.

Fomos obrigados a recuar, cabo, ele ouviu a própria voz responder. Mas pelo menos mostramos a esses cabeças-de-merda que não podem brincar com os nossos T-34. É muito bom esse pão que você roubou, cabo.

Roubei? Mas, camarada capitão, é um trabalho muito pesado defender esses fazendeiros, não é?

E dá muita sede, não acha, cabo?

É verdade, camarada. O cabo riu. Das costas, uma garrafa foi passa­da para baixo. Não era a vodca produzida pelo Estado, e sim Samo-gan, o destilado caseiro que Misha conhecia muito bem. Todo russo verdadeiro que fosse consultado diria que adorava o sabor, embora nin­guém o tocasse se houvesse vodca por perto. Mesmo assim, no mo­mento Samogan era o que desejava, ali em solo soviético, compartilhado com o que restava das tropas de tanques que resistiam entre uma fa­zenda estatal e os panzers de Guderian.

Eles vão atacar outra vez pela manhã, afirmou o piloto.

E amanhã estouramos mais alguns tanques cinza, completou o car­regador.

Depois do quê, Misha não falou em voz alta, recuamos mais 10 quilô­metros. Só 10 quilômetros... se tivermos sorte novamente, e se o quartel-general conseguir controlar as coisas melhor do que fizeram esta tarde. De qualquer maneira, esta fazenda amanhã vai estar além das linhas alemãs ao pôr-do-sol. Mais terreno perdido.

Não era um pensamento que se dissesse aos homens. Misha limpou cuidadosamente as mãos antes de desabotoar o bolso da túnica. Agora chegara a hora de alimentar a alma.

Muito delicada, observou o cabo, olhando por sobre o ombro do ca­pitão pela centésima vez, como sempre com uma ponta de inveja. De­licada como cristal. E um filho tão bonito o senhor tem. Sorte para o senhor, camarada capitão, que ele seja parecido com a mãe. Ela é tão pequenina, como é que pode ter gerado um rapaz tão grande desse jeito e não ter se machucado?

Deus sabe como, foi sua resposta inconsciente. Era muito estranho que depois de alguns dias de guerra até o ateu mais convicto invocasse o nome de Deus. Mesmo alguns dos comissários, para divertimento dos soldados.

Voltarei para você, prometeu ele à fotografia. Nem que tenha de pas­sar por todo o Exército alemão, através de todos os fogos do inferno, eu voltarei para você, Elena.

Nesse instante chegou o correio, uma ocorrência cada vez mais rara na frente de batalha. Havia apenas uma carta para o capitão Filitov, mas a textura do papel e a delicada caligrafia denunciavam sua im­portância. Ele abriu o envelope com o fio brilhante da faca de comba­te e extraiu a carta tão cuidadosamente quanto o permitiu sua pressa, para não manchar as palavras do seu amor com a graxa do tanque de batalha. Segundos depois levantou-se de um salto e gritou para as es­trelas no céu do crepúsculo.

Serei pai novamente na primavera! Deve ter sido naquela noite da par­tida, três semanas antes de começar essa loucura...

Não estou surpreso, disse o cabo alegremente. Depois da fodida que demos nos alemães hoje! Esse e' o homem que lidera essa tropa. Nosso ca-pitão é um verdadeiro garanhão!

Você é um grosso, cabo Romanov. Sou um homem casado!

Então talvez eu possa me pôr no lugar do camarada capitão?, pergun­tou o cabo esperançoso, passando novamente a garrafa. A mais um bom fílho, e à saúde de sua bela mulher. Lágrimas de alegria brilhavam nos olhos do homem, uma alegria misturada à tristeza de saber que ape­nas uma sorte muito grande permitiria que ele fosse pai. Mas ele nun­ca diria tal coisa. Romanov era um bom soldado e um bom camarada, pronto para comandar seu próprio tanque.

E Romanov conseguira seu próprio tanque, recordou Misha, obser­vando o crepúsculo em Moscou. Em Vyasma, ele ousadamente colo­cara seu tanque entre o indefeso T-34 de seu capitão e um Mark-IV alemão que atacava, salvando a vida do comandante enquanto a sua própria terminava num turbilhão de labaredas alaranjadas. Aleksey Ilych Romanov, cabo do Exército Vermelho, ganhou naquele dia a Or­dem da Bandeira Vermelha. Misha imaginou se seria uma compensa­ção justa para com a mãe pelos olhos azuis e pelas sardas do filho.

A garrafa de vodca estava agora três quartos vazia, e, como ele fize-ra tantas vezes, Misha soluçava, sozinho em sua mesa.

Tantas mortes...

Esses idiotas no Alto Comando! Romanov assassinado em Vyasma. Iva-nenko perdido perto de Moscou. O tenente Abashin em Kharkov... Mir-ka, o belo poeta, o delicado e sensível j0vem oficial que tinha o coração e a coragem de um leão, morto enquanto liderava o quinto contra-ataque, mas livrando a rota de fuga para que Misha passasse com o resto do regi-mento através do Donets antes que o martelo alemão caísse sobre eles.

E sua Elena, a última de todas as vítimas... Todos mortos não pelo inimigo, mas pela brutalidade indiferente da própria Mãe Pátria.

Misha tomou um último e longo gole da garrafa a sua frente. Não era a Mãe Pátria. Não a Rodina, nunca a Rodina. Foram os putos de­sumanos que...

Levantou-se e cambaleou em direção ao quarto, deixando acesas as luzes da sala de estar. O relógio na cabeceira marcava 9h45, e alguma parte distante do cérebro de Misha encontrou conforto no fato de poder dormir nove horas para recuperar-se dos abusos que infligira ao que tinha sido um corpo magro e resistente, que tinha suportado ¯ e até se desenvolvido ¯ sob as desgastantes condições das prolonga­das operações de combate. Mas o stress que Misha suportava agora fa­zia o combate parecer férias, e seu subconsciente parecia se alegrar com a certeza de que logo tudo terminaria, e o descanso viria fi-nalmente.

Cerca de meia hora depois, um carro passou pela rua. No assento do passageiro, uma mulher levava seu filho de um jogo de hóquei pa­ra casa. Éla olhou para cima e reparou que as luzes de uma certa jane­la estavam acesas e as persianas abertas.

O ar era rarefeito. Bondarenko levantou às 5 horas em ponto, como sempre fazia, vestiu o abrigo de malha e tomou o elevador para descer de seu quarto de hóspede, no décimo andar. Por um instante ficou surpreso ¯ os elevadores funcionavam. Isso significava que os técni­cos podiam ir e vir percorrendo as instalações, dia e noite. Bom, pen­sou o coronel.

Saiu do prédio com uma toalha pendurada ao pescoço e consultou o relógio. Franziu as sobrancelhas ao começar. Em Moscou ele tinha uma rotina matinal regular de exercícios, uma distância medida entre os quarteirões da cidade. Ali não podia ter certeza da distância, quan­do terminariam os 5 quilômetros habituais. Bem ¯ ele encolheu os ombros ¯, aquilo era esperado. Começou em direção ao leste. A vista, ele observou, era de tirar o fôlego. Ém breve o sol iria levantar-se, mais cedo do que em Moscou, em virtude da menor latitude, e os pi­cos recortados das imponentes montanhas estavam delineados em ver­melho, como dentes pontiagudos de dragão; sorriu interiormente. Seu filho mais novo gostava de desenhar dragões.

O vôo no qual chegara terminara de forma espetacular. A lua cheia havia iluminado a planície deserta de Kara Kum sob o avião ¯ e en­tão a paisagem arenosa acabara num monumental paredão que pare­cia construído pelos deuses. No espaço de 3 graus de longitude, o relevo mudara de planícies com 300 metros de altitude para picos de 5 000 metros. De seu vantajoso ponto de observação pudera notar o brilho de Dushanbe, cerca de 70 quilômetros a noroeste. Dois rios, o Kafir-nigan e o Surkhandarya, passavam ao lado da cidade de meio milhão de habitantes, e, como um homem a meio caminho da volta ao mun­do, o coronel Bondarenko perguntou-se por que a cidade teria surgi­do aqui, e que história antiga provocara tal aparecimento entre os rios alimentados pelas montanhas. Certamente parecia um local inóspito, mas talvez as longas caravanas de camelos bactrianos descansassem ali, ou talvez tivesse sido o cruzamento de estradas, ou... interrompeu seu devaneio. Bondarenko percebeu que só estava adiando seu exercí­cio matinal. Amarrou a máscara cirúrgica sobre a boca e o nariz, co­mo proteção contra o ar frígido. O coronel começou as longas flexões de joelhos para aquecer os músculos, depois esticou as pernas contra a parede antes de partir correndo num passo fácil e lento.

Imediatamente notou que respirava mais fortemente do que o nor­mal através do tecido da máscara no rosto. Era a altitude, claro. Bem, aquilo encurtaria um pouco o exercício. O prédio de apartamentos já ficara para trás e ele olhou à direita, passando pelo que seu mapa in­dicava como lojas de aparelhos e artigos ópticos.

¯  Alto! ¯ gritou uma voz em tom de urgência.

Bondarenko praguejou. Não gostava nem um pouco de interrom­per seus exercícios matinais. Especialmente, notou ele, por quem usasse as ombreiras verdes da KGB. Espiões... assassinos... brincando de soldados.

¯  O que foi, sargento?

¯  Seus papéis, por favor, camarada. Não estou reconhecendo você. Por sorte a esposa de Bondarenko havia costurado vários bolsos no

agasalho Nike que conseguira obter no "mercado cinza" de Moscou, um presente por seu último aniversário. O coronel manteve as pernas em movimento enquanto entregava sua identificação.

¯  Quando chegou o camarada coronel? ¯ indagou o sargento. ¯ E o que pensa que está fazendo a esta hora da manhã?

¯  Onde está seu oficial? ¯ retrucou Bondarenko.

¯  No posto principal, a 400 metros naquela direção. ¯ O sargento apontou.

¯  Então venha comigo, sargento, e falaremos com ele. Um coronel do Exército Soviético não dá explicações a sargentos. Vamos indo, acho que precisa de um pouco de exercício também! ¯ desafiou ele, pondo-se em movimento.

O sargento devia ter por volta de 20 anos, mas usava um pesado so­bretudo e carregava o fuzil e o cinto de munição. Depois de 200 me­tros, Gennady ouviu-o resfolegando.

¯  Aqui, camarada coronel! ¯ balbuciou o jovem um minuto depois.

¯  Não devia fumar tanto, sargento ¯ observou Bondarenko.

¯  Que diabos está acontecendo aqui? ¯ berrou um tenente da KGB de trás de sua escrivaninha.

¯  Seu sargento me desafiou. Sou o coronel G. I. Bondarenko e es­tou fazendo minha corrida matinal.

¯  Usando roupas ocidentais?

¯  E o que você tem a ver com as roupas que eu uso quando faço exercício? Idiota! Será que pensa que os espiões fazem cooper?

¯  Coronel, sou o oficial do turno na segurança. Não o reconheço, e meus superiores não me alertaram sobre sua presença.

Gennady enfiou a mão em outro bolso e tirou de lá seu passe espe­cial de visitante, junto com a identificação.

¯  Estou aqui na qualidade de representante especial do ministro da Defesa. O propósito de minha visita não é assunto de sua alçada. Aqui represento a autoridade pessoal do marechal da União Soviética D. T. Yazov. Se tiver mais alguma pergunta, pode chamá-lo direta­mente neste número telefônico.

O tenente da KGB leu escrupulosamente os documentos de identi­ficação para certificar-se de que eram o que lhe fora dito.

¯  Por favor, desculpe-me, camarada coronel, mas temos ordens de levar a sério as medidas de segurança. Além do mais, é fora do co­mum por aqui encontrarmos um homem em roupas ocidentais cor­rendo ao amanhecer.

¯  Presumo que também seja fora do comum seus soldados corre­rem a qualquer hora ¯ observou secamente Bondarenko.

¯  Na verdade quase não há espaço aqui no alto da montanha para um regime apropriado de treinamento físico, camarada coronel.

¯  É mesmo? ¯ Bondarenko sorriu enquanto retirava um pequeno bloco e um lápis de um dos bolsos na perna. ¯ Diz que leva a segu­rança a sério, mas não cumpre as normas de treinamento físico para seus soldados. Muito obrigado pela informação, camarada tenente. Dis­cutiremos esse assunto com seu oficial comandante. Posso ir agora?

¯  Tecnicamente tenho ordens para escoltar todos os visitantes oficiais...

¯  Esplêndido! Gosto de companhia quando corro. Será que o se­nhor teria a bondade de me acompanhar, tenente?

O oficial da KGB estava numa armadilha e sabia disso. Cinco mi­nutos mais tarde, ele bufava como um peixe fora dágua.

¯  Qual é a principal ameaça à segurança? ¯ perguntou Bondaren­ko maliciosamente, pois não diminuiu a marcha.

¯  A fronteira afegã fica a apenas 110 quilômetros naquela direção ¯ apontou o tenente com a respiração entrecortada. ¯ Eles enviam ocasionalmente alguns agressores fora da lei ao território soviético, como talvez tenha ouvido falar...

¯  Eles fazem contato com os cidadãos locais?

¯  Não, ao que saibamos, mas essa é uma preocupação. A população local é em grande parte muçulmana. ¯ O tenente começou a tos­sir. Gennady parou.

¯  Nesse ar gelado descobri que usar uma máscara ajuda ¯ disse ele. ¯ Esquenta um pouco o ar antes que seja respirado. Endireite o corpo e respire profundamente, camarada. Se pretende levar tão a sério as disposições de segurança, você e seus homens deveriam estar em boa forma física. Posso garantir que os afegães estão. Dois inver-nos atrás passei muito tempo com os comandos especiais Sperznaz, perseguindo-os por mais de meia dúzia de montanhas miseráveis. Não conseguimos apanhá-los. ¯ Mas eles nos apanharam, ele não disse. Bon-darenko nunca esquecera aquela emboscada.

¯  Não puderam usar helicópteros?

¯  Nem sempre eles podem voar com tempo ruim, meu jovem ca­marada, e em meu caso tentávamos provar que também podíamos lu-tar nas montanhas.

¯  Aqui temos patrulhas circulando o dia inteiro, é claro.

Foi alguma coisa na maneira como ele disse aquilo que incomodou Bondarenko, e o coronel prometeu-se verificar esse ponto mais tarde.

¯  Quanto já corremos?

¯  Dois quilômetros ¯ estimou o tenente.

¯  A altitude dificulta mesmo as coisas. Venha, vamos andar de volta. O nascer do sol era espetacular. A esfera flamejante elevava-se sobre

uma montanha sem nome a leste, e sua luz descia pelas encostas mais próximas, perseguindo vagarosamente as sombras pelos vales profun­dos e desérticos. Aquelas instalações não eram um objetivo fácil, mes­mo para os bárbaros e desumanos mudjahidin. As torres de vigia eram bem localizadas, com amplos corredores de tiro que se estendiam por vários quilômetros. Não usavam holofotes, em consideração aos civis residentes, mas os dispositivos para visão noturna eram uma escolha melhor de qualquer maneira, e ele tinha certeza de que os soldados da KGB os utilizavam. Além disso, ele deu de ombros, a segurança do local não era o motivo que o trazia ali, embora fosse uma boa des­culpa para esmiuçar os detalhes da segurança da KGB.

¯  Posso saber como obteve essa roupa de exercícios? ¯ perguntou o oficial da KGB assim que voltou a respirar em ritmo normal.

¯  É um homem casado, camarada tenente?

¯  Sou, sim, camarada coronel.

¯  Pessoalmente não costumo interrogar minha esposa sobre onde ela compra presentes de aniversário para mim. Mas não sou um che-kista. ¯ Bondarenko fez algumas flexões para demonstrar que era, entretanto, um homem melhor.

¯  Coronel, embora nossos deveres não sejam exatamente os mes­mos, ambos servimos a União Soviética. Sou um oficial jovem e inex­periente, como o senhor mesmo já deixou claro. Uma das coisas que me perturbam é a rivalidade desnecessária entre o Exército e a KGB.

Bondarenko voltou-se para encarar o tenente antes de responder:

¯ Muito bem observado, meu jovem camarada. Talvez se lembre desse sentimento algum dia, quando usar estrelas de general.

Deixou o tenente da KGB de volta ao seu posto e voltou rapidamen­te ao prédio de apartamentos, a brisa gelada ameaçando congelar o suor sobre seu pescoço. Entrou e tomou o elevador. Sem surpresa, cons­tatou que àquela hora da manhã não havia água quente para seu ba­nho matinal de chuveiro. O coronel suportou o frio, que ajudou a espantar os últimos vestígios de sono, barbeou-se e vestiu-se antes de caminhar para a cantina, a fim de tomar a primeira refeição.

Ele não precisava chegar antes das 9 horas ao ministério, e no cami­nho havia um banho turco. Uma das coisas que Filitov aprendera ao longo dos anos fora que nada podia curar uma ressaca e clarear a ca­beça melhor do que o vapor. Já tinha prática suficiente. Seu sargento levou-o aos Banhos Sandunovski, na Kuznetsky Most, a seis quartei­rões do Kremlin. Não estava sozinho, mesmo àquela hora da manhã. Um punhado de outras pessoas presumivelmente importantes subia as escadarias de mármore que levavam às instalações de primeira clas­se ¯agora não mais chamadas assim, é claro ¯do segundo andar, desde que milhares de moscovitas partilhavam com o coronel tanto seu mal quanto sua cura. Alguns deles eram mulheres, e Misha con-jeturou se as instalações femininas seriam muito diferentes das que ele estava a ponto de usar. Era estranho. Vinha àquele lugar desde quan­do ingressara no ministério, em 1943, e nunca dera uma espiada na ala das mulheres. Bem, agora estou velho demais para isso.

Seus olhos estavam injetados de sangue e pareciam pesados enquanto o coronel se despia. Nu, apanhou uma volumosa toalha na pilha que havia próximo à saída, mais um punhado de ramos de vidoeiro. Fili­tov respirou o ar puro e frio do vestiário antes de abrir a porta que levava as salas de vapor. O piso que fora inteiramente de mármore agora apresentava grandes remendos feitos com azulejos alaranjados. Podia lembrar-se da época em que o assoalho estivera praticamente intacto, Dois homens nos seus 50 anos discutiam sobre alguma coisa, pro­vavelmente política. Podia ouvir as vozes exaltadas acima do assobio ao vapor saindo da grande caixa que ocupava o centro da sala. Misha contou mais cinco homens, as cabeças inclinadas, cada um deles curtindo a ressaca numa solidão mal-humorada. Escolheu um assento na fileira da frente e sentou-se.

¯  Bom dia, camarada coronel ¯ cumprimentou uma voz, a 5 me­tros de distância.

¯  Igualmente, camarada acadêmico ¯ respondeu Misha ao com­panheiro de banho.

Apertava fortemente com as mãos o feixe de ramos enquanto espe­rava que o suor começasse. Não demorou muito ¯ a temperatura am­biente alcançava 60 graus centígrados. Ele respirava cuidadosamente, como faziam os mais experientes freqüentadores. As aspirinas que havia tomado com o chá matinal começavam a fazer efeito, embora a cabeça ainda parecesse pesada, e os seios nasais estivessem latejando. Bateu levemente as folhas contra as costas, como se assim exorcizasse os ve­nenos do corpo.

¯  Como está esta manhã nosso herói de Stalingrado? ¯ insistiu o acadêmico.

¯  Quase tão bem quanto nosso gênio do Ministério da Educação

¯  respondeu Misha, provocando uma gargalhada.

Nunca conseguia lembrar direito o nome do sujeito... Ilya Vladimi-rovich Qualquer coisa. Que tipo de idiota riria daquele jeito durante uma ressaca? O homem dissera que bebia por causa da mulher. Você bebe para se livrar dela, não é? Você se gaba das vezes em que trepou com a secretária, enquanto eu daria minha alma por mais um olhar ao rosto de Elena. E ao rosto dos meus dois filhos, disse a si mesmo. Meus dois belos filhos. Não havia problema em lembrar-se daquelas coisas em tais manhãs.

¯  O Pravda de ontem falava das negociações sobre armamentos ¯ insistiu o homem. ¯ Alguma esperança de progresso?

¯  Não tenho a menor idéia ¯ respondeu Misha.

O atendente entrou. Era jovem, por volta de 25 anos, e de baixa estatura. Contou as cabeças no recinto.

¯  Alguém deseja alguma bebida? ¯ perguntou ele. Beber era ab­solutamente proibido nos banhos, mas, como diria qualquer russo de verdade, aquilo só melhorava o sabor da vodca.

¯  Nãão! ¯ veio a resposta em coro dos freqüentadores. Ninguém parecia interessado em curar a mordida com o veneno, reparou Mis­ha, levemente surpreso. Bem, ainda estavam no meio da semana. Nu­ma manhã de sábado teria sido diferente.

¯  Muito bem ¯ disse o atendente retirando-se em direção à saída.

¯ Temos toalhas limpas aqui fora e o aquecedor da piscina já foi con­sertado. Nadar é um ótimo exercício, camaradas. Lembrem-se de usar os músculos que estão aquecendo e ficarão refrescados pelo resto do dia. Misha olhou para o rapaz. Então esse é o novo homem.

¯  Por que será que eles têm que ser tão alegres assim? ¯ pergun­tou um homem no canto.

¯  Ele está alegre porque não é um velho bêbado! ¯ respondeu um outro. Aquilo provocou um coro de gargalhadas.

¯  Cinco anos atrás a vodca não me deixava assim ¯ disse o pri­meiro homem. ¯ Para mim, o controle de qualidade já não é o mesmo.

¯  Nem o seu fígado, camarada!

¯  Envelhecer é uma coisa terrível.

Misha olhou para trás a fim de ver quem havia falado. Era um ho­mem que mal atingira seus 50 anos, cuja barriga inchada tinha a cor de peixe morto e que fumava um cigarro, também infringindo as regras.

¯  Uma coisa mais terrível ainda é não envelhecer, mas vocês jo­vens se esquecem disso! ¯ disse ele automaticamente, perguntando-se a seguir por quê.

Cabeças se voltaram e viram as cicatrizes em seu peito e nas costas. Mesmo os que não sabiam quem era Mikhail Semyonovich Filitov per­ceberam que aquele não era um homem do qual se zombasse. Misha permaneceu mais dez minutos em silêncio antes de sair.

O atendente estava ao lado de fora da porta quando ele saiu. O co­ronel passou-lhe o feixe de ramos e a toalha usada, depois foi até os chuveiros de água fria. Dez minutos depois, sentia-se um novo ho­mem, sem a dor e a depressão causadas pela ressaca, o cansaço ultra­passado. Vestiu-se rapidamente e desceu as escadas até o carro, que estava esperando. O sargento notou a mudança no andar do coronel e perguntou-se o que havia de tão revigorante em ficar cozinhando como um pedaço de carne.

O atendente tinha sua própria tarefa. Ao perguntar novamente so­bre as bebidas um minuto depois, descobriu que duas pessoas na sala de vapor tinham mudado de idéia. Passou pela porta traseira do edifí­cio, em direção a uma pequena loja, cujo proprietário ganhava mais dinheiro com a venda clandestina de bebidas do que lavando roupas a seco. O atendente voltou com uma garrafa de meio litro de "Vodca" ¯ não havia nenhuma marca nela: a premiada Stolychnaya era vendi­da apenas fora do país e para a elite ¯ a um pouco mais do que o dobro do preço de mercado. A restrição nas vendas das bebidas al­coólicas havia criado um novo e extremamente lucrativo campo no mer­cado negro. O atendente também passara um pequeno cartucho de filme, que seu contato lhe passara entre os ramos de vidoeiro. De sua parte, o atendente dos banhos também se sentia aliviado agora. Aquele era o seu único contato. Não sabia o nome do homem e dissera a frase em código, com o medo natural de que essa parte da rede da CIA em Moscou estivesse infiltrada pelo departamento de contra-espionagem da KGB, o temido Segundo Diretório. Sua vida estava comprometida e ele sabia disso. Mas precisava fazer alguma coisa. Des­de o ano que passara no Afeganistão, as coisas que vira e as que fora obrigado a fazer... Imaginou por um instante quem seria aquele velho com as cicatrizes, mas lembrou a si mesmo que sua identidade e o teor da informação não eram assuntos de sua alçada.

A pequena loja de limpeza a seco servia principalmente a estrangei­ros, uma clientela de repórteres, executivos e uns poucos diplomatas, além de alguns soviéticos extravagantes, querendo proteger as roupas adquiridas fora do país. Uma mulher que parecia pertencer a este úl­timo grupo apanhou um sobretudo inglês, pagou 3 rublos e saiu. An­dou duas quadras até a mais próxima estação de metrô, desceu pela escada rolante e tomou o trem da linha Zhdanovsko¯ Krasnopresnenskaya, que era marcada em cor púrpura nos mapas lo­cais. O trem estava cheio, e ninguém a viu passar o filme. Na verda­de, ela mesma não viu o rosto do homem. Por sua vez, ele desceu na estação seguinte, Pushkinskaya, e atravessou para a estação Gor'kovs-kaya. Mais uma transferência foi realizada dez minutos depois, desta vez para um americano a caminho da embaixada, um pouco atrasado naquela manhã, tendo permanecido até tarde na recepção diplomáti­ca na noite anterior.

Seu nome era Ed Foley; ele era adido à imprensa na embaixada na Ulitsa Chaykovskogo. Ele e sua mulher, Mary Pat, outra agente da CIA, residiam em Moscou havia quase quatro anos, e ambos ansia­vam em sair daquela cidade austera e cinzenta de uma vez por todas. Tinham dois filhos, a quem já haviam sido negados cachorros-quentes e jogos de bola por tempo suficiente.

Não que ambos não fossem bem-sucedidos em seu dever. Os russos sabiam que a CIA utilizava um certo número de duplas marido-mulher em campo, mas a idéia de que espiões levassem suas crianças para o exterior não era uma coisa que os soviéticos aceitassem com facilida­de. Havia ainda a questão da cobertura. Ed Foley fora repórter no New York Times antes de ingressar no Departamento de Estado ¯ porque, como explicava ele, o pagamento era aproximadamente o mesmo, e um repórter policial nunca viajava mais longe do que ao Presídio de Attica. Sua esposa passava a maior parte do tempo em casa com as crianças ¯ embora quando necessário trabalhasse como professora-substituta no Colégio Anglo-Americano, no número 78 da Avenida Lênin ¯, freqüentemente saindo com elas na neve. O filho mais velho jogava hóquei no time juvenil, e os agentes da KGB que costumavam segui-los tinham anotado em seus arquivos que Edward Foley II era um ponta-esquerda muito bom. O pior aborrecimento do governo so­viético com a família tinha a ver com a curiosidade desordenada do Foley mais velho a respeito dos crimes nas ruas da capital, que era na pior das hipóteses um eco das atividades anteriores em Nova York. Mas isso só vinha provar que ele era relativamente inofensivo. Ele de­monstrava uma curiosidade óbvia demais para ser qualquer tipo de agente secreto. Eles, afinal de contas, faziam o possível para passar despercebidos.

Foley percorreu a pé os poucos quarteirões da estação do metrô até a embaixada. Acenou educadamente para o miliciano que guardava os portões sobriamente decorados, depois para o sargento dos fuzilei­ros navais no interior antes de entrar em seu escritório. Não era mui-to. A embaixada fora descrita oficialmente no Boletim do Departamento de Estado da URSS como "acanhada e de manutenção difícil". O mes­mo autor provavelmente chamaria um sótão semidestruído na pior parte do Brooklyn de "cobertura", pensou Foley. Na última reforma da em­baixada, refizeram seu escritório a partir de um depósito de vassouras e materiais de limpeza transformado numa minúscula sala de traba­lho isolada com pouco mais do que 1 metro quadrado de área. O anti­go depósito de vassouras, entretanto, tornara-se sua câmara escura, sendo esse o motivo pelo qual um homem da CIA ocupava aquele apo­sento em particular durante os últimos vinte anos, embora Foley fosse o primeiro chefe de setor a ocupá-lo.

Com apenas 33 anos, alto e bastante magro, Edward Foley era um irlandês de Queens cuja inteligência brilhante, combinada a uma taxa extraordinariamente baixa de batimentos cardíacos e um rosto inex­pressivo de jogador de pôquer, ajudara-o a abrir caminho além das montanhas Holy Cross, no Colorado. Recrutado pela CIA no último ano de faculdade, passara quatro anos no Times para construir uma "história" pessoal. Era lembrado na redação como um repórter com­petente, um tanto preguiçoso, capaz de se esmerar em seus textos, mas que não chegaria a lugar nenhum. Seu editor não se importara nem um pouco em perdê-lo para o serviço do governo, desde que em seu lugar entrara um recém-formado da Faculdade de Jornalismo de Co-lúmbia que tinha faro e disposição para descobrir notícias. O atual correspondente do Times em Moscou o descrevera aos colegas como intrometido, e bastante aborrecido por sinal, fazendo assim um dos mais almejados elogios no ramo da espionagem: Quem, ele? Não é esperto o suficiente para ser espião. Por essa e várias outras razões é que Foley estava encarregado do agente local mais antigo e mais produtivo da Agência, o coronel Mikhail Semyonovich Filitov, nome de código: Cardeal. O próprio codinome, é claro, era secreto de tal maneira que apenas cinco pessoas no interior da Agência sabiam que significava mais do que um religioso de chapéu vermelho, com categoria diplo­mática principesca.

A informação que vinha diretamente do Cardeal era considerada In­formação Especial/Exclusiva-Delta e só seis funcionários tinham acesso a Delta em todo o governo americano. A cada mês a palavra-código para receber os dados era alterada. O nome naquele mês era CETIM, para o qual menos de vinte homens estavam liberados. Mesmo sob esse título, os dados eram invariavelmente parafraseados e sutilmente alterados depois de saírem da fraternidade Delta.

Foley retirou o filme do bolso e trancou-se na sala escura. Poderia efetuar todos os passos do processo de revelação mesmo que estivesse bêbado e com sono. Na verdade tinha feito aquilo algumas vezes. Em seis minutos o trabalho estava realizado, e Foley limpou-se meticulo­samente. Seu antigo editor em Nova York teria ficado surpreso com tanto capricho.

Foley seguia procedimentos que haviam permanecido inalterados por quase trinta anos. Examinou os seis negativos expostos com uma lupa do tipo usado para observar dispositivos de 35 milímetros. Decorou cada quadro em poucos segundos e começou a datilografar uma tra­dução em sua própria máquina de escrever portátil. Era um modelo mecânico, cuja fita de algodão estava muito gasta e não seria útil a nin­guém, principalmente à KGB. Como muitos repórteres, Foley não era um bom datilógrafo. Suas páginas continham muitos erros cobertos pela letra "X". O papel era quimicamente tratado e não se podia usar nenhum tipo de borracha. Levou quase duas horas para terminar a transcrição dos dados. Quando acabou, verificou cuidadosamente o texto original nos negativos para certificar-se de que não esquecera de nenhum dado, nem cometera erros gramaticais graves. Satisfeito, mas com um tremor do qual nunca conseguira se livrar, amassou a tira de celulóide numa bolinha, colocou-a num cinzeiro de metal, onde um fósforo de madeira destruiu as únicas evidências diretas da exis­tência do Cardeal. Então ele fumou um charuto para disfarçar o odor típico de celulóide queimado. As páginas datilografadas, dobradas, foram para seu bolso, e Foley subiu as escadas em direção à sala de comunicações da embaixada. Lá, ele expediu um comunicado inocente para a caixa postal 4108, Departamento de Estado, Washington: "Referência seu comunicado de 29 de dezembro. Relatório de despesas a caminho via malote. Foley. Final". Como adido à Imprensa, Foley precisava recolher muitas notas de bares de ex-colegas que o encara­vam com uma simpatia que ele não se preocupava em retribuir; tinha de fazer vários relatórios de despesas para os "almofadinhas" de Foggy Bottom, e divertia-se grandemente com o fato de que seus colegas de imprensa trabalhassem tanto para manter-lhe a imagem de cobertura. A seguir, Foley foi ao encontro do correio-residente da embaixada. Embora poucos soubessem, aquele era um aspecto da vida em Mos­cou que não se havia alterado desde a década de 30. Sempre havia um mensageiro para levar o malote, embora atualmente ele tivesse tam­bém outras incumbências. O mensageiro era uma das quatro pessoas na embaixada que sabiam para qual agência do governo Foley real­mente trabalhava. Oficial de segurança reformado do Exército, ele ti­nha uma medalha de Mérito Militar e quatro condecorações por ferimentos em combate, em acidentes de vôo nos campos de batalha do Vietnã. Quando sorria, fazia-o à maneira soviética, usando a boca, mas quase nunca os olhos.

¯  Está a fim de ir para casa esta noite? Os olhos do homem brilharam.

¯  Com a final do campeonato de futebol americano neste domin­go? Está brincando! Passo na sua sala às quatro?

¯  Combinado. ¯ Foley fechou a porta e voltou para seu escritório. O mensageiro reservou um lugar no vôo das 17h40 pela British Air­ways, para o Aeroporto de Heathrow.

A diferença de fusos horários entre Washington e Moscou garantia que as mensagens de Foley chegassem à capital americana de manhã bem cedo. Às 6h00, um agente da CIA entrou na sala de correspon­dência do Departamento de Estado e apanhou as mensagens de uma dúzia de caixas diferentes, e prosseguiu em seu carro para Langley. Veterano agente de campo no Diretório de Operações, estava impedi­do de realizar missões no exterior em virtude de um ferimento recebi­do em Budapeste ¯ onde um delinqüente de rua lhe fraturara a cabeça, tendo sido trancafiado por cinco anos pela irada polícia local. Se eles soubessem, pensou o agente, teriam dado uma medalha ao cara. Entre­gou as mensagens aos escritórios correspondentes e foi para o próprio gabinete.

O formulário estava sobre a escrivaninha de Bob Ritter quando ele chegou, às 7h25. Ritter era o vice-diretor de Operações da Agência. Seu setor, tecnicamente denominado Diretório de Operações, incluía todos os agentes de campo da CIA, e todos os cidadãos estrangeiros que recrutavam e empregavam como agentes. A mensagem de Mos­cou ¯ como sempre havia mais que uma, mas aquela era a que conta­va ¯ foi imediatamente colocada em seu arquivo particular, e Ritter preparou-se para a reunião diária das 8h00, realizada todos os dias pe­los oficiais do plantão noturno.

¯  Entre, está aberto. ¯ Em Moscou, Foley levantou os olhos ao ouvir as batidas na porta. O mensageiro entrou.

¯  O avião sai em uma hora. Preciso me apressar.

Foley abriu uma gaveta e apanhou o que parecia ser uma cara cigar-reira de prata. Passou-a ao mensageiro, que a apanhou com delicade­za antes de colocá-la no bolso de dentro do paletó. As páginas datilografadas estavam dobradas no interior, juntamente com uma pe­quena carga pirotécnica. Se a caixa de prata fosse aberta de maneira não adequada, ou sofresse uma aceleração violenta ¯ como uma que­da ao chão ¯, a carga explodiria e destruiria o papel inflamável no interior. Poderia também incendiar o terno do mensageiro, o que ex­plicava o carinho ao manusear a caixa.

¯  Devo estar de volta na terça-feira de manhã. Quer que lhe traga alguma coisa, senhor Foley?

¯  Eu soube que saiu um novo livro de Far Side... ¯ Isso produziu uma gargalhada, pelo trocadilho entre Far Side, "facção oposta", e o nome Forsyth, do escritor de romances de espionagem.

¯  Tudo bem, vou verificar. Pode me pagar na volta.

¯  Faça uma viagem segura, Augie.

Um dos motoristas da embaixada levou Augie Giannini para o Ae­roporto Sheremetyevo, a 30 quilômetros de Moscou, onde o passaporte diplomático do mensageiro permitiu que ele passasse pelos postos de controle e fosse diretamente ao avião da British Airways destinado ao Aeroporto de Heathrow. Ele subiu para o setor da segunda classe, ao lado direito da aeronave. O correio diplomático acomodou-se na pol­trona próxima à janela, com Giannini na poltrona do meio. Os vôos para fora de Moscou raramente estavam lotados, e a poltrona à sua esquerda permanecia vazia. O Boeing começou a mover-se pontual­mente no horário. O comandante anunciou a hora e o destino do vôo, e a aeronave começou a taxiar pela pista. No momento em que deixou o solo soviético, os cento e cinqüenta passageiros aplaudiram, como sempre acontecia. Era um fato que divertia o mensageiro. Giannini apanhou um livro de bolso e começou a ler. Não podia beber durante o vôo, é claro, e muito menos dormir, e decidiu esperar pelo jantar no vôo seguinte. A aeromoça, entretanto, conseguiu servir-lhe uma xícara de café.

Três horas depois, o 747 aterrissou no Aeroporto de Heathrow. Mais uma vez, Giannini passou diretamente pelo controle alfandegário. Sen­do um homem que passava mais tempo no ar do que muitos pilo­tos comerciais, tinha acesso livre às salas de espera de primeira classe na maioria dos aeroportos do mundo. Ali aguardou por uma hora a chegada de outro 747 para o Aeroporto Internacional Dulles, em Washington.

Atravessando o Atlântico, o correio saboreou um jantar da Pan Am e assistiu a um filme que ainda não tinha visto, o que acontecia cada vez mais raramente. Quando acabou seu livro, o avião fazia as mano­bras de aterrissagem em Dulles. O mensageiro passou a mão no rosto, tentando lembrar-se que horas seriam em Washington. Quinze minu­tos mais tarde, entrava num Ford não identificado a serviço do gover­no, que seguiu para sudeste. Augie ia na frente para poder esticar as pernas.

¯  Que tal o vôo? ¯ quis saber o motorista.

¯  O mesmo de sempre: chatóvski. ¯ Por outro lado, era melhor do que realizar missões de resgate e salvamento no Vietnã. O governo pagava a ele 20 000 por ano para sentar-se nos aviões e ler livros, o que, combinado à sua aposentadoria do Exército, lhe permitia um pa­drão de vida razoável. Nunca chegara a incomodar-se pensando sobre o que carregava na mala diplomática, ou na pequena caixinha metali-ca que transportava no bolso. Estava convencido de que era uma per­da de tempo de qualquer forma. O mundo não mudara tanto assim.

¯  Está com a caixa? ¯ perguntou o homem no banco traseiro.

¯  Claro. ¯ Giannini enfiou a mão no bolso e passou a caixa ao com­panheiro com ambas as mãos.

O agente da CIA recebeu a caixa, usando as duas mãos, enfiando-a num recipiente forrado de espuma. O agente era um instrutor do De­partamento de Serviços Técnicos, parte do Diretório de Ciência e Tec­nologia. O setor realizava um bocado de trabalho burocrático, mas esse agente especial era perito em armadilhas e explosivos em geral. Em Langley, ele tomou o elevador para o escritório de Ritter e abriu a pe­quena caixa sobre a escrivaninha, depois voltou à sua sala sem olhar o conteúdo.

Ritter foi até sua copiadora Xerox e produziu várias cópias dos pa­péis datilografados por Foley, os quais foram queimados em seguida. Não tanto por medida de segurança, mas por simples precaução. Rit­ter não queria um maço de material inflamável em seu escritório. Começou a ler antes mesmo de terminar todas as cópias. Como sempre, balançou a cabeça para a esquerda e para a direita no final do primei­ro parágrafo. O vice-diretor de Operações andou até a escrivaninha e pressionou o botão do intercomunicador em linha com o escritório do diretor.

¯  Está ocupado? O pássaro pousou.

¯  Pode subir ¯ respondeu a voz do juiz Moore sem demora. Nada era mais importante do que informações do Cardeal.

Ritter apanhou o almirante Greer no caminho, e os dois entraram no espaçoso escritório do diretor da Agência Central de Informações.

¯  A gente tem que adorar esse cara ¯ disse Ritter, passando os papéis. ¯ Ele conseguiu convencer Yazov a mandar um coronel até Bach para fazer um "estudo de viabilidade" do sistema inteiro. Esse coronel Bondarenko deve preparar um relatório sobre o funcionamento de tudo, usando vocabulário leigo para que o ministro possa entender e relatar aos colegas do Politburo. Naturalmente ele encarregou Mis­ha de ajudá-lo, e portanto o relatório passa antes pela mesa dele.

¯  Esse garoto que o Ryan foi ver... Gregory, se não me engano... ele queria que nós infiltrássemos um agente em Dushanbe ¯ disse Greer, sorrindo. ¯ Ryan disse a ele que era impossível.

¯  Ótimo. Todos sabem como é aquele pessoal do Diretório de Ope­rações. ¯ Toda a CIA tinha um orgulho perverso do fato de que ape­nas os fracassos chegavam aos noticiários.

O Diretório de Operações necessitava particularmente da vexação pública que a imprensa atribuía a eles. As falhas da KGB nunca cha­mavam tanto a atenção quanto as das CIA, e essa imagem pública era amplamente aceita, até mesmo pela comunidade de informações so­viética. Nunca ocorreu a ninguém que os vazamentos de informação fossem propositais.

¯  Eu gostaria muito que alguém dissesse a Misha que existem agen­tes audaciosos e agentes velhos ¯ disse o juiz Moore. ¯ Mas muito poucos agentes velhos e audaciosos,

¯  Ele é um homem muito cuidadoso, chefe ¯ disse Ritter.

¯  É, eu sei. ¯ O diretor olhou para os papéis.

Desde a morte de Dmitri Fedorovich, está tudo diferente no Ministério da Defesa, leu o diretor. Às vezes eu me pergunto se o marechal Yazov leva a sério os novos avanços tecnológicos, mas a quem posso confidenciar minhas dúvidas? Será que a KGB acreditaria em mim? Preciso ordenar meus pensamentos antes de fazer qualquer acusação. Mas posso quebrar algumas regras de segurança...

Porém que escolha me resta? Se não puder documentar minhas dúvidas, quem irá acreditar em mim depois? E uma coisa difícil quebrar regras de segurança, mas a segurança do Estado fica acima de tais regras. É preciso.

Assim como os poemas épicos de Homero sempre iniciavam com uma invocação da Musa, as mensagens do Cardeal invariavelmente co­meçavam dessa maneira. A idéia se desenvolvera no final da década de 60. As mensagens do Cardeal começavam como fotografias de seu diário pessoal. Os russos são diaristas inveterados. A cada vez que ele começava, expressava seu cri de coeur eslavo, exprimindo suas preocu­pações pessoais com as decisões políticas do Ministério da Defesa. Al­gumas vezes expressava inquietação com a segurança de determinado projeto, ou desempenho de um novo tanque ou aeronave. A cada ca­so, os detalhes técnicos de um equipamento ou de uma decisão políti­ca eram descritos minuciosamente, mas sempre focalizando um suposto problema burocrático interior do ministério. Se algum dia o aparta­mento de Filitov fosse revistado, seu diário seria encontrado facilmen­te, com certeza não escondido como faria um espião, e, enquanto quebrava definitivamente algumas regras de segurança, seria certamen­te advertido por isso, mas havia pelo menos a chance de ser bem-sucedido em sua defesa. Ou essa era a idéia geral.

Quando eu tiver o relatório de Bondarenko, em mais uma ou duas se­manas, talvez possa persuadir o ministro de que esse projeto é muito impor­tante para a Rodina, finalizava o Cardeal.

¯  Então parece que eles fizeram mesmo progressos quanto à po­tência de saída do laser ¯ comentou Ritter.

¯  O termo em uso é throughput ¯ corrigiu Greer. ¯ Pelo menos foi o que Jack me disse. As notícias não são muito boas, cavalheiros.

¯  È o seu olho aguçado para detalhes, James ¯ declarou Ritter. ¯ Meu Deus, o que acontece se eles chegarem lá primeiro?

¯  Também não é o fim do mundo. Lembre-se de que são precisos dez anos para desenvolver o sistema depois que o conceito for valida­do, e eles ainda não estão nem perto disso ¯ afirmou o diretor. ¯ O céu não está caindo sobre nossas cabeças ainda. Aliás, isso pode até trabalhar a nosso favor, não acha, James?

¯  Se Misha conseguir uma descrição utilizável do avanço deles, sim. Na maioria das áreas estamos mais avançados que eles ¯ respondeu o vice-diretor de Informações. ¯ Ryan vai precisar disso para fazer seu relatório.

¯  Ele não está liberado para essas informações! ¯ reclamou Ritter.

¯  Ele já examinou as informações Delta antes ¯ lembrou Greer.

¯  Uma vez. Só uma vez, e tivemos uma boa razão para fazer isso... E verdade que ele se saiu muito bem para um amador. James, não há nada aqui que ele possa utilizar, a não ser que temos razão para suspeitar de que Ivã conseguiu um... throughput na área de potência. Aliás, aquele rapaz, o Gregory, já suspeita disso. Diga a Ryan que con­firmamos as suspeitas através de outras fontes. Juiz, o senhor pode dizer pessoalmente ao presidente que alguma coisa está acontecendo, mas é preciso esperar umas semanas. É bom não entrar em detalhes por algum tempo.

¯ Parece razoável ¯ anuiu o juiz Moore. Greer cedeu sem discutir.

Agora restava a tentação de mencionar que aquela seria a missão mals importante do Cardeal, porém isso seria dramático demais para os três executivos de altos cargos; além do mais, o Cardeal proporcionara à CIA um bom volume de informações importantes ao longo dos anos. O juiz Moore releu os relatórios depois que os outros saíram. Foley acrescentara que Ryan literalmente esbarrara no Cardeal, logo depois que Mary Pat lhe passara a nova missão ¯ e bem na frente do mare­chal Yazov. O juiz sacudiu a cabeça. Que casal, os Foley. E que admi­rável o fato de Ryan ter feito contato com o coronel Filitov. Era um mundo louco.

 

Estrelas Brilhantes e Navios Ligeiros

Jack não se incomodou em perguntar que "fontes" haviam confir­mado as suspeitas do major Gregory. As operações de campo eram uma coisa pela qual lutara ¯ na maior parte das vezes com sucesso ¯ para manter sob controle. O que importava era que a informação era apresentada como Classe-1 em termos de segurança ¯ a CIA ado­tara recentemente um sistema de gradação utilizando os números de 1 a 5 em vez das letras de A até E; certamente o produto de seis meses de trabalho de algum assistente de diretor formado na Faculdade de Administração de Harvard.

¯  E quanto às informações técnicas específicas?

¯  Eu aviso vocês, assim que chegarem ¯ respondeu Greer.

¯  Tenho duas semanas para entregar o relatório, chefe ¯ observou Ryan. Deixar para a última hora não teria sentido. Especialmente por­que o documento a ser preparado era para o presidente.

¯  Parece que eu me lembro de ter lido a respeito em algum outro lugar, Jack ¯ observou o almirante. ¯ O pessoal da ACDA liga todos os dias pelo mesmo motivo. Acho que mandaremos você até lá para apresentar tudo pessoalmente a eles.

Ryan estremeceu. Seu Relatório Especial sobre Informações Confi­denciais tinha como objetivo ajudar a preparar o cenário para a próxi­ma sessão de negociações. A ACDA, Agência de Controle de Armas e Desarmamento, precisava dele, claro, para saber o que exigir e quanto conceder com segurança. Aquilo representava um peso adicional em seus ombros, mas, como o almirante Greer gostava de mencionar, Ryan trabalhava melhor sob pressão. Jack chegou a pensar em cometer al-guns erros propositais, só para desmentir essa crença.

¯  Quando terei de ir até lá?

¯  Ainda não decidi.

¯  Será que pode me avisar alguns dias antes?

¯  Vamos ver.

O major Gregory estava em casa no momento. Embora esse fato em si já fosse bastante incomum, havia ainda mais: ele estava tirando o dia de folga. Mas não fora por sua iniciativa. Seu general decidira que o excesso de trabalho, sem nenhuma diversão, começava a abater o jovem cientista. Só não lhe ocorrera que Gregory podia também tra­balhar em casa.

¯  Você nunca pára? ¯ perguntou Candi.

¯  Bem, o que vamos fazer no intervalo? ¯ sorriu Gregory, ao te­clado do microcomputador.

O conjunto de alojamentos chamava-se "Vista da Montanha". Não era propriamente um nome original. Naquela parte do país a única maneira de não ver montanhas era fechar os olhos. Gregory tinha seu próprio computador pessoal ¯ um Hewlett-Packard de grande capa­cidade, fornecido pelo Projeto ¯ e ocasionalmente trabalhava lá em seu "código". Precisava ser muito cauteloso com a classificação da se­gurança em seu trabalho, embora ele sempre brincasse dizendo que ele mesmo não estava autorizado a ver o que fazia. Não seria uma si­tuação insólita no interior do governo.

A dra. Candance Long, esguia, e com os cabelos castanho-escuros cortados curtos, era quase 15 centímetros mais alta que o noivo. Ti­nha os dentes levemente salientes, pois nunca quisera sofrer com um aparelho corretor, e usava óculos ainda mais grossos do que os de Gregory.

EÍa era magra porque, como muitos acadêmicos, envolvia-se tanto com o trabalho que na maioria das vezes esquecia a hora das refei­ções. Conheceram-se durante um seminário para candidatos a mes­trado na Universidade de Colúmbia. Ela era especialista em óptica, mais especificamente em espelhos de ópticos adaptáveis, um campo que escolhera para complementar o passatempo de sua vida, a astro­nomia. Morando na região montanha do Novo México, ela podia fa­zer observações num telescópio Meade de 5 000 dólares e, quando fosse o caso, utilizar os instrumentos do Projeto para perscrutar os céus ¯ porque, como ela dizia, era a única maneira eficiente de calibrá-los. Tinha pouco interesse na obsessão de Alan pela defesa contra mísseis balísticos, mas não tinha dúvida de que os instrumentos que estavam desenvolvendo teriam todo o tipo de aplicações "reais" no campo de interesse dele.

Nenhum dos dois estava muito vestido no momento. Ambos os jo­vens se classificavam alegremente como solitários e desajustados e, co­mo acontecia muitas vezes, despertavam reciprocamente os sentimentos adormecidos ¯ sentimentos que os colegas mais atraentes não teriam julgado possíveis.

¯  O que está fazendo? ¯ perguntou ela.

¯  Analisando os erros que tivemos. Acho que o problema é no có­digo de controle dos espelhos.

¯  É mesmo? ¯ Era o espelho dela. ¯ Tem certeza de que o pro­blema é no software?

¯  Tenho. Verifiquei as leituras de Flying Cloud no escritório. Esta­va focalizado muito bem, só que no lugar errado.

¯  Quanto tempo acha que vai demorar para encontrar o erro?

¯  Algumas semanas. ¯ Ele franziu as sobrancelhas para o moni­tor, depois desligou-o com uma careta. ¯ Para o diabo com isso! Se o general descobrir que estou fazendo isso, ele é capaz de não me dei­xar voltar para o trabalho.

¯  É o que sempre digo. ¯ Ela circundou-lhe a nuca com as mãos. Inclinando-se para trás, Alan Gregory apoiou a cabeça nos seios de

Candi. São muito bonitos, pensou. Para ele fora uma descoberta notá­vel que as mulheres pudessem ser interessantes. Saíra ocasionalmente com algumas garotas no colegial, mas durante a maior parte de sua vida em West Point, depois Stony Brook, levara uma existência mo-nástica, devotado aos estudos e aos modelos nos laboratórios. Quando conhecera Candi, interessara-se inicialmente pelas idéias que ela de­senvolvia sobre configurações de espelhos, mas durante o café na União de Estudantes começara a reparar que ela parecia... bem... atraente ¯ além de rápida e criativa em física óptica. O fato de que as coisas que discutiam na cama só podiam ser entendidas por menos de 1 por cento da população era irrelevante. Eles achavam tão interessantes quan­to as outras coisas que faziam na cama ¯ ou quase. Havia muito o que experimentar ali também, e como bons cientistas chegaram a com­prar livros "didáticos" ¯ como os classificavam ¯ para explorar to­das as possibilidades juntos. Como em qualquer novo campo de estudos, acharam tudo muito excitante.

Estendendo os braços, Gregory segurou a cabeça da dra. Long, fazendo-a aproximar o rosto do seu.

¯  Acho que não estou mais com vontade de trabalhar.

¯  Não é bom tirar o dia de folga?

¯  Talvez eu arranje mais um na semana que vem...

Boris Filipovich Morozov desceu do ônibus uma hora depois do pôr-do-sol. Ele e catorze outros jovens engenheiros e técnicos recentemente designados para o projeto Estrela Brilhante ¯ embora não soubessem o nome ainda ¯ foram recebidos no Aeroporto de Dushanbe pelo pes­soal da KGB, que verificou escrupulosamente seus papéis de identi­dade e fotografias. Durante a viagem de ônibus, um capitão, também da KGB, fizera uma preleção sobre segurança, séria o bastante para prender a atenção de todos. Não podiam discutir seu trabalho com ninguém fora das instalações; não podiam escrever a ninguém sobre o que faziam, nem mesmo mencionar o local onde estavam. O ende­reço para correspondência era uma caixa postal em Novosibiirsk ¯ a mais de 1 500 quilômetros de distância. O capitão não precisou men­cionar que as cartas seriam lidas pelos oficiais de segurança da base. Morozov procurou lembrar-se de não selar seus envelopes. Sua famí­lia podia ficar preocupada se percebesse que a correspondência estava sendo aberta e selada novamente. Mas ele não tinha nada a esconder. A investigação da segurança para aquele trabalho demorara quatro me­ses. Os oficiais da KGB em Moscou que esmiuçaram sua vida não en­contraram nada que o desabonasse, e mesmo as seis entrevistas a que fora submetido terminaram em tom amigável.

O capitão da KGB também terminou sua preleção de forma amena, descrevendo os esportes e atividades sociais na base, e a hora e local das reuniões quinzenais do Partido, que Morozov tinha intenção de freqüentar regularmente se o trabalho o permitisse. As acomodações, continuou o capitão, é que ainda constituíam um problema. Morozov e os outros recém-chegados seriam acomodados no dormitório ¯ os barracões originalmente levantados pela turma de construção que ex­plodira a rocha para erigir as instalações. Não ficariam apertados, dis­se ele, e os barracões possuíam sala de jogos, biblioteca, e até mesmo um telescópio no telhado para observação astronômica; tinham aca­bado de fundar um pequeno clube amador de astronomia. De hora em hora, partia um ônibus fazendo a ligação com as instalações resi­denciais permanentes, onde havia um cinema, uma lanchonete e um bar. Existiam exatamente trinta e uma mulheres solteiras na base, con­cluiu o capitão, mas uma delas era sua noiva, "e qualquer um que se engraçar com ela será fuzilado". Aquilo produziu muitas gargalha­das. Era muito raro encontrar um oficial da KGB com senso de humor.

Já escurecera quando o ônibus atravessou os portões das instalações, e todos a bordo sentiam-se fatigados da longa viagem. Morozov não chegou a ficar muito desapontado com as acomodações. Todas as ca­mas eram beliches. Ele foi designado para um leito superior, num canto do quarto. Avisos nas paredes pediam silêncio na área dos dormitó­rios já que os trabalhadores alternavam-se em três turnos, ininter­ruptamente. O jovem engenheiro estava contente ao mudar de roupa para dormir. Fora designado para a Seção de Aplicações Direcionais durante um mês, depois do quê, faria um contrato permanente. Esta­va imaginando o que significava aplicações direcionais quando o sono chegou.

Uma boa coisa sobre as caminhonetes fechadas era que cada vez mais pessoas as possuíam, e não se podia enxergar quem viajasse em seu interior, pensou Jack, enquanto o veículo branco estacionava em sua entrada de carros. O motorista era da CIA, claro, assim como o segu­rança no banco direito. Ele desceu e examinou a área por um instante antes de abrir a porta lateral. Revelou-se um rosto familiar.

¯  Oi, Marko! ¯ cumprimentou Ryan.

¯  Então esta é casa do espião! ¯ comentou alegremente o capitão de primeira classe da Marinha soviética Marko Aleksandrovich Ra­mius (reformado). Seu inglês havia melhorado, mas ele ainda esque­cia alguns artigos. ¯ Não, casa de timoneiro?

Jack sorriu e balançou a cabeça.

¯  Marko, não podemos falar sobre isso.

¯  Seu família não sabe?

¯  Ninguém sabe. Mas pode ficar tranqüilo. Minha família não está.

¯  Entendo.

Marko seguiu Jack para o interior da casa. Em seu passaporte, no cartão do Seguro Social e na licença de motorista da Virgínia constava o nome de Mark Ramsey. Mais uma demonstração de originalidade da CIA, embora fizesse sentido perfeitamente; é preciso que as pes­soas lembrem do próprio nome. Jack observou que ele estava mais magro, agora que comia uma dieta com menos farinha. E bronzeado. Quando se encontraram pela primeira vez, no tubo de escape de proa do submarino lançador de mísseis Outubro Vermelho, Marko ¯ Mark! ¯ ostentava a pele branca e lívida dos oficiais de submarinos, e agora parecia um freqüentador inveterado do Club Méditerranée.

¯  Parece cansado ¯ observou "Mark Ramsey".

¯  Tenho passado muito tempo dentro de aviões ultimamente. O que está achando das Bahamas?

¯  Está vendo meu bronzeado, não está? Areia branca, sol quente, calor todo dia. Parece Cuba quando estive lá, mas as pessoas são mais simpáticas.

¯  AUTEC, certo? ¯ perguntou Jack.

¯  É, mas não posso discutir isso ¯ respondeu Mark.

Os dois trocaram um olhar. AUTEC, o Centro de Avaliação e Testes de Submarinos no Atlântico, era o local onde a Marinha testava os sub­marinos, onde homens e navios se empenhavam em exercícios cha­mados miniguerras. O que ocorria ali era secreto, naturalmente. A Marinha protegia com empenho suas operações submarinas. Certa­mente Marko trabalhava desenvolvendo táticas para a Marinha, sem dúvida representando o papel de comandante soviético nos exercícios, proferindo conferências, ensinando. Ramius fora conhecido como "o mestre-escola" na Marinha soviética. As coisas realmente importan­tes nunca mudam.

¯  O que está achando?

¯  Não diga a ninguém, mas eles me deixaram ser capitão do sub­marino americano por uma semana... Capitão verdadeiro deixou eu fazer tudo, entende? Eu afundei porta-aviões! Sim! Afundei a Forres-tal! Eles iam ficar orgulhosos na Esquadra do Norte, não iam?

Jack riu.

¯  E a Marinha, o que achou disso?

¯  Capitão do submarino e eu ficamos bêbados. Capitão do Forrestal ficou zangado, mas... bom esportista. Vai se juntar a nós na semana que vem e discutimos todo o exercício. Ele aprendeu alguma coisa, en­tão foi bom para todos. ¯ Ramius fez uma pausa. ¯ Onde está família?

¯  Cathy foi visitar o pai. Joe e eu não nos damos muito bem.

¯  É porque você é espião?

¯  Razões pessoais. Aceita uma bebida?

¯  Cerveja, por favor ¯ pediu o soviético.

Ramius olhou à sua volta enquanto Ryan ia até a cozinha. O teto abobadado da sala elevava-se a uns 5 metros acima do carpete macio. Tudo naquela casa refletia o dinheiro gasto para construí-la tão luxuo­sa. Ele estava de sobrancelhas franzidas quando Ryan voltou com as cervejas.

¯  Ryan, não sou bobo ¯ disse ele severamente, indicando o am­biente. ¯ A CIA não paga tão bem assim.

¯  Já ouviu falar do mercado de ações? ¯ perguntou Ryan com um sorriso.

¯  Claro. Parte do meu dinheiro está aplicada lá. ¯ Todos os ofi­ciais do Outubro Vermelho tinham dinheiro suficiente investido para não precisar trabalhar mais.

¯  Bem, eu ganhei um bocado de dinheiro com ações, depois re­solvi largar e fazer outra coisa.

Essa foi uma nova idéia para o capitão Ramius.

¯  Mas você não é... como se diz? Ambicioso. Não tem mais

ambição?

¯  De quanto dinheiro será que um homem precisa? ¯ perguntou Ryan, enfaticamente. O soviético balançou a cabeça, concordando pen-sativamente. ¯ Escute, gostaria de fazer algumas perguntas.

¯  Ah, os negócios ¯ riu o soviético. ¯ Essas coisas você não esquece.

¯  No seu depoimento, você mencionou um exercício no qual dis­parou um míssil, e depois outro míssil foi disparado contra você.

¯  Sim. Foi em 1981... em abril. Isso mesmo, era 20 de abril. Eu comandava submarino classe Delta, e disparamos dois mísseis do mar Branco, um no mar de Okhotsk, outro em Sary Shagan. Foi um teste dos foguetes, claro, mas também do radar de defesa e do sistema anti-míssil... eles simularam disparo contra o submarino.

¯  Você disse que falhou. Marko assentiu.

¯  Os foguetes do submarino funcionaram perfeitamente. O radar em Sary Shagan funcionou, só que devagar demais para interceptar... disseram que era problema no computador. Disseram que iam arran­jar novo computador. A terceira parte do teste quase funcionou.

¯  A parte de interceptação. Foi a primeira vez que ouvimos falar desse tipo de testes ¯ observou Ryan. ¯ Como é que foi conduzido?

¯  Eles não dispararam os foguetes de terra, é claro ¯ disse Marko, com o indicador apontando para o alto. ¯ Se fizerem isso, vocês per­cebem a natureza do teste, certo? Os soviéticos não são idiotas como você pensa. É claro que sabe que a fronteira da União Soviética é co­berta por uma rede de radar. Eles detectam um lançamento e compu­tam a localização do submarino... isso é muito fácil. Depois eles avisam o Quartel-General da Força de Foguetes Estratégicos, que tem uma bateria de velhos foguetes em alerta para isso. Estavam prontos para disparar três minutos depois de captar míssil-foguete no radar. ¯ Ele parou por um instante. ¯ Não tem isso na América?

¯  Não que eu saiba. Mas nossos mísseis disparam de uma distân­cia muito maior do que essa.

¯  É verdade, mas ainda é boa coisa para soviéticos, entende?

¯  Qual é o grau de confiabilidade do sistema?

¯  Não muito confiável. ¯ Ramius encolheu os ombros. ¯ O pro­blema é o estado de alerta. Em tempos de... como se diz? Tempos de crise, é isso? Em tempos de crise todos estão em alerta, e o sistema funciona algum tempo. Mas cada vez que funciona, muitas, muitas bombas não explodem na União Soviética. Isso é importante para a liderança soviética. Centenas de milhares de escravos a mais para se ter no fim da guerra ¯ acrescentou Marko para expressar seu desa­grado com o governo de sua antiga pátria. ¯ Não há nada assim nos Estados Unidos?

¯  Não que eu saiba ¯ disse Ryan com sinceridade.

¯  Eles dizem que existe. Depois que disparamos mísseis, mergu­lhamos fundo e navegamos em linha reta para qualquer direção late­ral, a toda a velocidade.

¯  No momento estou querendo descobrir quanto a União Soviéti­ca está interessada em copiar nossas pesquisas da Iniciativa de Defesa Estratégica.

¯  Interessada? Vinte milhões de soviéticos morreram na Grande Guerra Patriótica. Pensa que querem tudo acontecendo de novo? Eu lhe digo, nesse ponto soviéticos são mais inteligentes que americanos... tivemos lições mais duras, e aprendemos melhor. Algum dia vou con­tar sobre minha cidade natal depois da guerra, tudo destruído. Sim, tivemos boas lições para proteger a Rodina.

Essa é uma outra coisa que devemos lembrar sobre os soviéticos, pensou Ryan. Não era exatamente uma história antiga; existiam episódios re­centes que eles jamais esqueceriam. Esperar que os soviéticos esque­cessem as perdas da Segunda Guerra Mundial era tão fútil e tão irrazoável quanto pedir aos judeus que esquecessem o Holocausto.

Então, pouco mais de três anos atrás, os russos testaram seus foguetes antibalísticos ABM contra mísseis lançados por submarinos. A aquisição de alvo e o sistema de radar funcionaram, mas o sistema falhou devido a problemas com o computador. Isso era importante, mas...

¯  Qual o motivo pelo qual o computador não funcionou direito?

¯  Isso é tudo que eu sei. Só posso garantir que foi um teste honesto.

¯  Como assim?

¯  Nossas primeiras... sim, nossas ordens originais eram para dis­parar de um local conhecido. Mas mudaram ordens assim que o sub­marino saiu do porto. Novas ordens só para capitão, assinadas pelo ajudante-de-ordens do ministro da Defesa. Acho que era coronel do Exército Vermelho. Não lembro nome. Ele queria um teste... como se diz?

¯  Espontâneo? ¯ arriscou Ryan.

¯  Isso! Não espontâneo. O teste real devia ser surpresa. Portanto, minhas ordens me enviaram a um lugar diferente numa hora diferente. Tínhamos um general da Defesa Aérea a bordo, e quando viu no­vas ordens ele ficou maluco. Muito, muito zangado, mas que tipo de teste é se não há surpresa? Submarinos de mísseis americanos não avi­sam os russos pelo telefone onde vão cair. Ou se está pronto, ou não

¯  concluiu Ramius.

¯  Não fomos avisados de sua vinda ¯ observou secamente o gene­ral Pokryshkin.

O coronel Bondarenko teve o cuidado de manter o rosto impassível. Apesar de possuir ordens por escrito do Ministério da Defesa, e ape­sar de pertencer a uma arma completamente diferente, estava tratan­do com um general protegido por membros da Comissão Central. Mas o general também precisava ser cauteloso. Bondarenko trajava seu me­lhor uniforme, com várias fileiras de galões, incluindo duas condeco­rações por bravura no Afeganistão, e a divisa especial nas ombreiras usada pelos oficiais de gabinete do Ministério da Defesa.

¯  Camarada general, lamento qualquer inconveniência que tenha causado ao senhor, mas tenho minhas ordens.

¯  É claro ¯ concordou Pokryshkin, com um sorriso aberto. Apon­tou uma bandeja de prata. ¯ Chá?

¯  Aceito, obrigado.

O general serviu pessoalmente duas xícaras de chá em vez de cha­mar o ordenança.

¯  Como ganhou esse galardão vermelho que estou vendo? Afega­nistão?

¯  Exatamente, camarada general. Passei algum tempo lá.

¯  E como foi que a ganhou?

¯  Participei de uma unidade Spetznaz como observador espe­cial. Estávamos seguindo um pequeno grupo de guerrilheiros. In­felizmente eles eram mais espertos do que julgava o comandante de nossa unidade, e ele deixou que caíssemos numa emboscada. Metade dos companheiros foram dizimados ou feridos, incluindo o comandante. ¯ Que foi atrás da própria morte, pensou Bondarenko.

¯  Assumi o comando e chamei reforços. Os guerrilheiros se reti­raram antes que pudéssemos trazer forças maiores, mas deixaram oito cadáveres atrás.

¯  E como é que um perito em comunicações...

¯  Fui voluntário. Estávamos tendo dificuldades com as comunica­ções táticas, e eu resolvi ver a situação de perto. Não sou um comba­tente, camarada general, mas existem coisas que precisamos verificar pessoalmente. Aliás, estamos perigosamente próximos à fronteira com o Afeganistão, e seu sistema de segurança parece... não relaxado, mas confortável demais. Pokryshkin concordou com um gesto de cabeça.

¯  É verdade. A força responsável pela segurança pertence à KGB, como já deve ter notado. Eles estão subordinados a mim, mas não di­retamente sob minhas ordens. Para um alerta antecipado de possíveis ameaças, tenho uma combinação com a Aviação Frontal. A escola de­les de reconhecimento aéreo utiliza os vales aqui ao redor como área de treinamento. Um colega meu de Frunze conseguiu cobertura para toda essa região. É um trecho longo do Afeganistão até aqui e, se al­guém tentar se aproximar, saberemos bem antes que cheguem.

Bondarenko aquiesceu com aprovação. Procurador dos feiticeiros ou não, Pokryshkin não tinha se esquecido de tudo, como muitos gene­rais no comando tendiam a fazer.

¯  Muito bem, Gennady Iosifovich, o que exatamente está procu­rando? ¯ indagou o general. Agora que o profissionalismo fora esta­belecido por ambos, a atmosfera entre os dois era mais amena.

¯  O ministro deseja uma estimativa de eficácia e confiabilidade de seus sistemas.

¯  Seu grau de conhecimento sobre laser? ¯ perguntou o general, levantando uma sobrancelha.

¯  Tenho alguma familiaridade com aplicações práticas. Participei do grupo com o acadêmico Goremykin, que desenvolveu o novo siste­ma de comunicações a laser.

¯  É mesmo? Temos alguns aqui.

¯  Não sabia disso ¯ disse Bondarenko.

¯  É verdade. Nós os utilizamos nas torres de vigia, e para ligar os laboratórios com as lojas. É muito mais fácil do que estender linhas telefônicas, e também mais seguro. Sua invenção provou ser muito útil, Gennady Iosifovich. Muito bem, camarada. Sabe qual é nossa mis­são, é claro.

¯  Sim, camarada general. Está perto do seu objetivo?

¯  Temos um teste de todo o sistema dentro de três dias.

¯  É mesmo? ¯ Bondarenko ficou bastante surpreso com aquilo.

¯   Só ontem recebemos permissão para fazê-lo. Talvez o ministério não tenha sido completamente informado. Pode ficar para acompanhá-lo?

¯  Não o perderia por nada.

¯  Excelente. ¯ O general Pokryshkin levantou-se. ¯ Vamos, ve­nha ver os meus feiticeiros.

O céu estava límpido e azul, o azul intenso que se vê nos locais acima da maior parte da atmosfera. Bondarenko ficou surpreso em ver que o próprio general guiava seu UAZ-469, o equivalente soviético

do jipe.

¯  Não precisa perguntar, coronel. Eu mesmo dirijo porque não te­mos espaço aqui em cima para pessoal desnecessário, e além disso... bem, eu fui piloto de combate. Por que deveria confiar minha vida a um jovem imberbe que mal sabe mudar as marchas? O que está achando de nossas estradas?

Não estou gostando nem um pouco, pensou Bondarenko sem dizer na­da, enquanto o general disparava por uma descida perigosamente in­clinada. A estrada mal possuía 5 metros de largura, com um precipício ao lado do passageiro.

¯  Devia ver como fica isso com gelo! ¯ riu o general. ¯ Temos tido sorte com o tempo ultimamente. No último outono choveu du­rante duas semanas. O que, aliás, é muito difícil por aqui, pois as mon­ções deveriam despejar toda a água na índia. Mas o inverno tem sido agradavelmente seco e claro. ¯ Ele mudou de marcha quando a estra­da começou a nivelar-se.

Um caminhão vinha em sentido contrário e Bondarenko fez tudo o que pôde para não se encolher, enquanto as rodas do lado direito do jipe giravam lançando cascalhos pela borda irregular da estrada. Pokryshkin estava se divertindo com aquilo, mas isso era de esperar. O caminhão cruzou com eles a uma distância de talvez 1 metro, e o general voltou para o centro de piso escuro. Mudou de marcha nova­mente quando chegaram a um aclive.

¯  Não temos nem espaço para um escritório adequado aqui... pa­ra mim, pelo menos ¯ declarou Pokryshkin. ¯ Os acadêmicos têm prioridade.

Bondarenko vira apenas uma das torres quando correra naquela ma­nhã pela zona residencial, e, quando o jipe terminou a subida, toda a área de Estrela Brilhante tornou-se visível.

Havia três postos de controle. O general Pokryshkin parou o veícu­lo e mostrou seu passe em cada um deles.

¯  As torres de vigia? ¯ indagou o coronel.

¯  Todas guarnecidas vinte e quatro horas por dia. É duro para os chekistas. Fui obrigado a instalar aquecedores elétricos nas tor­res. ¯ O general riu. ¯ Temos mais energia elétrica aqui do que podemos usar. Originalmente deixávamos cães de guarda soltos en­tre as cercas também, mas tivemos de parar com isso. Duas sema­nas atrás, muitos morreram congelados. Não achei mesmo que iria funcionar. Ainda conservamos alguns, mas agora eles fazem a patrulha junto com os guardas. Pretendo livrar-me deles assim que te­nha uma chance.

¯  Mas...

¯  Mais bocas para alimentar ¯ explicou Pokryshkin. ¯ Assim que começa a nevar, precisamos trazer comida de helicóptero. Para man­ter os cães de guarda felizes, eles precisam comer carne. Faz uma idéia do efeito que causa ao moral dos homens alimentar os cães com carne enquanto nossos cientistas não têm o suficiente? Os cachorros não va­lem a amolação que causam. O comandante da KGB concorda. Está tentando obter permissão para dispensá-los. Usamos visores noturnos starlight em todas as torres. Podemos ver e identificar um intruso an­tes que os cães tenham oportunidade de ouvi-los ou farejá-los.

¯  Qual o total de guardas?

¯  Uma companhia reforçada e armada com fuzis. Cento e dezes­seis oficiais e soldados, comandados por um tenente-coronel. Existem pelo menos vinte homens em serviço dia e noite. Metade fica aqui, metade no outro morro. ¯ O general indicou uma torre. ¯ Nesse ponto temos dois homens permanentemente em cada torre, mais quatro em patrulha constante e, é claro, o pessoal dos postos de verificação para os veículos. A área é segura, coronel. Uma companhia inteira com fu­zis de assalto e armas pesadas no alto dessa montanha... para ter cer­teza, tivemos um grupo de Spetznaz fazendo um ataque simulado em outubro passado. Os observadores declararam todos mortos antes que chegassem a 400 metros de nosso perímetro externo. Aliás, um deles quase morreu de verdade. Um tenente de rosto branquelo, que quase caiu da montanha. ¯ Pokryshkin voltou-se para o coronel. ¯ Sa­tisfeito?

¯  Sim, camarada general. Por favor, desculpe minha natureza cau­telosa.

¯  Não ganhou essas belas condecorações sendo covarde ¯ obser­vou o general suavemente. ¯ Estou sempre aberto a novas idéias. Se tem algo a dizer, minha porta nunca está trancada.

Bondarenko resolveu que iria gostar do general Pokryshkin. Ele es­tava suficientemente longe de Moscou para não ser um burocrata em-proado e, ao contrário da maioria dos generais, evidentemente ele não via um halo refletido no espelho quando se barbeava. Talvez houvesse uma esperança de que o projeto funcionasse, afinal. Filitov gostaria de saber disso.

¯  Me sinto como um rato com um gavião no céu em cima de mim ¯ disse Abdul.

¯  Então faça o que faz um rato ¯ respondeu prontamente o Ar­queiro. ¯ Fique nas sombras.

Olhou para ô alto, em direção ao An-26. Encontrava-se a 5 000 me­tros acima de suas cabeças, o zunido das turbinas ainda não chega­vam até eles. Muito longe para um míssil, o que era uma pena. Outros mudjahidin com lançadores já haviam abatido alguns Antonov, mas não o Arqueiro. Podia-se matar quarenta russos dessa maneira. Os so­viéticos estavam aprendendo a utilizar os transportadores modifica­dos para vigilância terrestre. Isso tornava mais difícil a vida dos guerrilheiros.

Os dois homens seguiam uma trilha estreita ao longo da encosta ín­greme de mais uma montanha, e o sol ainda não os havia alcançado, embora a maior parte do vale estivesse completamente iluminada sob o céu sem nuvens de inverno. As ruínas de uma vila bombardeada erguiam-se às margens de um rio modesto. Talvez duzentas pessoas tivessem vivido lá até o dia em que vieram os bombardeiros de grande altitude. Ele podia ver as crateras, espalhadas a intervalos irregulares de 2 ou 3 quilômetros. O vale fora assolado pelas bombas e quem não morreu foi embora ¯ para o Paquistão ¯ deixando apenas o vazio atrás de si. Não sobrara comida para ser partilhada com os guerreiros da liberdade, nem hospitalidade, e nem mesmo uma mesquita onde se pudessem dizer as preces. No fundo, o Arqueiro ainda se pergun­tava por que a guerra tinha que ser tão cruel. Uma coisa era um ho­mem lutar contra outro; havia honra nisso, que às vezes podia até ser partilhada com um inimigo valoroso. Mas os russos não lutavam as­sim. E eles nos chamam de selvagens...

Tanta coisa já fora perdida. Tudo o que ele havia sido, mais as espe­ranças de um futuro que não chegou a existir, sua vida passada diluindo-se a cada dia. Parecia que ele apenas pensava nelas quando dormia, como agora ¯ e, quando acordava, os sonhos de uma vida pacífica e satisfatória deslizavam para longe de seu alcance, como ne­blina matinal. Mas mesmo esses sonhos estavam desaparecendo. Ain­da podia ver o rosto da esposa, de sua filha e de seu filho, mas agora eles lembravam uma fotografia antiga, sem profundidade e sem vida, memórias de tempos que não existiam mais. Pelo menos davam um sentido a sua luta. Quando sentia piedade por suas vítimas, quando questionava a aprovação de Alá pelo que ele fazia ¯ das coisas que o enojavam a princípio ¯, ele fechava os olhos por um instante e se lembrava por que os gritos dos inimigos moribundos eram tão doces ao seu ouvido quanto os gemidos apaixonados da esposa.

¯  Está indo embora ¯ informou Abdul.

O Arqueiro voltou-se para olhar. O sol brilhou por um instante no leme vertical ao passar além dos picos das montanhas longínquas. Ain­da que ele estivesse sobre aqueles picos rochosos, ainda assim o An-26 voava alto demais. Os russos não eram tolos. Não voavam mais baixo do que o estritamente necessário. Se ele quisesse mesmo derrubar um desses, teria de se aproximar de um aeroporto... ou talvez criar um tática nova. Era uma idéia. O Arqueiro começou a equacionar o pro­blema em sua mente enquanto percorria a trilha pedregosa que pare­cia não ter fim.

¯  Vai funcionar? ¯ perguntou Morozov.

¯  É exatamente esse o propósito do teste. Para saber se funciona

¯ explicou pacientemente o engenheiro veterano. Lembrou-se de quan­do era jovem e impaciente.

Morozov tinha um bom potencial. Sua ficha da universidade provava-o claramente. Filho de um operário de Kiev, sua inteligência e capaci­dade de trabalho conquistaram-lhe uma indicação para a faculdade mais conceituada da União Soviética, onde merecera as mais altas honras

¯  suficientes para conseguir dispensa do serviço militar, o que era muito incomum para alguém sem proteção política.

¯  Então esse é o novo revestimento óptico... ¯ Morozov olhou pa­ra o espelho de uma distância de poucos centímetros. Os dois homens usavam aventais, máscaras e luvas, para que não danificassem a su­perfície refletora do espelho número quatro.

¯  Como já deve ter adivinhado, esse é um elemento do teste. ¯ O engenheiro voltou-se para o alto. ¯ Pronto!

¯  Evacuar o local! ¯ avisou um técnico.

Subiram por uma escada fixa à lateral do pilar, passando depois atra­vés da abertura para o anel de concreto que circundava a concavidade.

¯  É bem fundo ¯ comentou Morozov.

¯  Precisamos determinar a eficiência das medidas de isolamento das vibrações ¯ comentou o engenheiro, preocupado. Escutando o ruído do motor de um jipe, viu o comandante do campo conduzindo outro homem para o interior do prédio do laser. Mais um visitante de Moscou, deduziu ele. Como podemos trabalhar com todos esses caras do Partido bisbilhotando por aqui?

¯  Já conhecia o general Pokryshkin? ¯ perguntou a Morozov.

¯  Não. Que tipo de homem ele é?

¯  Já encontrei piores. Como todos os outros, ele acha que os laser são a parte importante. Lição número um, Boris Filipovich: a parte importante do projeto são os espelhos, e os computadores. O feixe de laser será inútil, se não pudermos focalizar sua energia em algum ponto do espaço.                                                                              

Essa lição informou a Morozov qual a parte do projeto sob a autori­dade desse homem, mas o jovem engenheiro recém-formado já apren­dera a lição principal ¯o sistema inteiro tinha de funcionar perfeitamente. Qualquer segmento que falhasse transformaria o equi­pamento mais caro da União Soviética numa coleção de brinquedos curiosos.

 

O Olho da Serpente A Face do Dragão

O Boeing 767 modificado tinha dois nomes. Originalmente conheci­do como Anexo Óptico Aerotransportado (AOA), agora era chamado de Cobra Belle, que pelo menos soava melhor. A aeronave era pouco mais do que uma plataforma móvel para um telescópio infravermelho tão grande quanto possível para caber no corpo largo da aeronave comercial. De uma certa forma, os engenheiros haviam improvisa­do, é claro, dando à fuselagem uma deselegante espécie de corcova, que começava logo atrás da cabine de comando, estendendo-se por metade do comprimento do 767, o que lhe conferia a aparência de uma serpente que tivesse acabado de engolir algum animal grande demais.

Entretanto, o que parecia ainda mais notável a respeito da aeronave eram os dizeres pintados em sua cauda: U. S. ARMY. Esse fato, que irritava o pessoal da Força Aérea, era o resultado de uma previsão in-comum ou obstinação por parte do Exército, que mesmo nos anos 70 nunca abandonara suas pesquisas sobre defesa contra mísseis balísti­cos, cujos hobby-shops ¯ como eram conhecidos tais lugares ¯ ha­viam inventado os sensores infravermelhos agora usados no AOA.

Agora, porém, faziam parte de um programa da Força Aérea, cujo nome genérico era Cobra. Trabalhavam em coordenação com o radar Cobra Dane, em Shemya, e freqüentemente voavam em conjunção com uma aeronave chamada Cobra Belle ¯um 707 modificado -, porque Cobra era o nome em código da família de sistemas dirigida para ras-trear mísseis soviéticos. O Exército ficava presunçosamente satisfeito pelo fato de a Força Aérea precisar de sua ajuda, embora consciente das tentativas em andamento para apropriar-se do programa.

A tripulação de vôo conferia sua lista de verificações calmamente, já que tinha tempo de sobra. Toda ela era da Boeing. Até aqui o Exér­cito resistira com sucesso à pressão da Força Aérea para colocar o pró­prio pessoal na cabine de comando. O co-piloto, que pertencera à Força Aérea corria o dedo pela lista de coisas a fazer, anunciando as tarefas numa voz nem excitada nem entediada, enquanto o piloto e a navegadora-engenheira de bordo apertavam os botões, checavam me­didores e aprontavam a aeronave para um vôo seguro.

A pior parte da missão era o tempo em terra. Shemya era uma das menores ilhas das Aleutas ocidentais, com aproximadamente 6 quilô­metros de comprimento por 3 de largura, cujo ponto mais alto elevava-se a apenas 72 metros acima do nível das águas acinzentadas. O que ali era considerado um tempo razoável teria fechado a maioria dos ae­roportos de boa reputação, e o que aqui era chamado de mau tempo fazia a tripulação do Boeing desejar estar num trem. Era crença geral na base que os soviéticos haviam escolhido o mar de Okhotsk para fazer seus testes de ICBM apenas para tornar tão miserável quanto pos­sível a vida dos americanos que os monitoravam. Naquela manhã o tempo estava razoavelmente bom. Podia-se enxergar quase até o fim da pista, onde as luzes azuladas eram circundadas por pequenos glo­bos de neblina. Como a maioria dos que voavam, o piloto preferia a luz do dia, mas no inverno essa era a exceção por ali. Calculou suas vantagens: devia haver um teto de nuvens a aproximadamente 500 me­tros, e ainda não estava chovendo. Os ventos de través também cons­tituíam um problema, mas nunca sopravam como seria de desejar ¯ o que era equivalente a dizer que as pessoas que construíram a pista não sabiam ou não se importavam nem um pouco com a influência do vento no vôo dos aviões.

¯  Torre de Shemya, aqui é "Charlie Bravo", pronto para taxiar.

¯  "Charlie Bravo", tem permissão para taxiar. Ventos de dois-cinco-zero a quinze graus. ¯ A torre não precisava anunciar nenhuma prio­ridade de trânsito para o Cobra Belle. No momento, o 767 era o único avião na base. Deveria estar na Califórnia realizando testes no equipa­mento e viera depressa de lá há apenas vinte horas.

¯  Entendido. "Charlie Bravo" a caminho. ¯ Dez minutos depois o Boeing rodou pela pista, iniciando o que parecia ser mais uma mis­são de rotina.

Vinte minutos mais tarde, o AOA atingiu sua altitude de cruzeiro, a 15 000 metros. O vôo não diferia muito do suave deslizar de um avião comercial, porém, em vez de receber bebidas e escolher o cardápio do jantar, as pessoas a bordo da aeronave desafivelaram os cintos e co­meçaram a trabalhar.

Havia instrumentos a ativar, computadores a reciclar, ligações de da­dos a estabelecer e de vozes a verificar. A aeronave estava equipada com todos os tipos de sistemas de comunicação inventados pelo ho­mem, e teria também um telepata a bordo se esse programa do De­partamento de Defesa ¯ existia mesmo um ¯ tivesse progredido conforme o esperado. O homem que comandava tudo isso era um ar­tilheiro com mestrado em astronomia na Universidade do Texas. Seu último comando fora o de uma bateria de mísseis Patriot, na Alema­nha. Enquanto a maioria das pessoas olhava os aviões e desejava pilotá-los, seu interesse sempre fora derrubá-los. Sentia-se da mesma ma­neira a respeito dos mísseis balísticos, e ajudara a desenvolver as mo­dificações que permitiam ao míssil Patriot atingir também outros mísseis, além das aeronaves soviéticas. Isso também lhe dera certa fa-milíaridade com os instrumentos utilizados para rastrear mísseis em vôo.

O livro da missão nas mãos do coronel era uma cópia exata do que estava arquivado na DIA, a Agência de Informações da Defesa, infor­mando que dentro de quatro horas e dezesseis minutos os soviéticos levariam a cabo um disparo de teste do ICBM SS-25. O livro não men­cionava como a DIA obtivera a informação, embora o coronel soubes­se que não fora lendo um anúncio no Izvestia. A missão do Cobra Belle era monitorar o disparo, interceptar as transmissões de telemetria dos instrumentos de teste do míssil e, o mais importante, fotografar as ogivas em vôo. Os dados coletados seriam analisados mais tarde para deter­minar o desempenho do míssil, e particularmente a precisão das ogi­vas, um assunto de grande interesse em Washington.

Como comandante da missão, o coronel não tinha muita coisa a fa­zer. Seu painel de controle apresentava uma série de luzes coloridas, que mostravam a situação dos vários sistemas a bordo. Uma vez que o AOA era um aparelho relativamente novo, tudo a bordo funcionava bem, No momento, o único problema era uma conexão de dados de apoio, e um dos técnicos trabalhava para estabelecer a ligação enquanto o coronel bebericava seu café. Era um esforço para ele parecer inte­ressado em tudo, sem ter nada em particular para fazer; se tivesse uma aparência chateada, seria um mau exemplo para o pessoal. Abriu o zíper de uma da mangas do macacão e apanhou um caramelo. Eles eram mais saudáveis do que os cigarros que fumava quando era te­nente, embora fossem piores para os dentes, como costumava dizer o dentista da base. O coronel chupou caramelos por cinco minutos, depois decidiu que precisava fazer alguma coisa. Soltou o cinto que o prendia à cadeira de comando e foi até a cabine do piloto, na proa da aeronave.

¯  Bom dia, pessoal. ¯ A hora era 0004-Lima, ou 12h04 em horá­rio local.

¯  Bom dia, coronel ¯ respondeu o piloto pela tripulação. ¯ Tudo está funcionando direito lá atrás, senhor?

¯  Até agora, sim. Como está o tempo na área de patrulha?

¯  Uma sólida camada de nuvens entre 4 e 5 000 metros ¯ respon­deu a navegadora, segurando uma fotografia do satélite. ¯ Ventos de 30 nós a três-dois-cinco. Nosso sistema de navegação checou os dados com a pista em Shemya ¯ acrescentou ela.

Geralmente o 767 operava com uma tripulação de dois oficiais de vôo. Mas não este. Desde que o vôo 007 da Korean Airlines fora der­rubado pelos soviéticos, todas as aeronaves do Pacífico ocidental eram especialmente cuidadosas com a navegação. Isso era duplamente leva­do a sério no caso do AOA; os soviéticos detestavam as plataformas avançadas de informações. Nunca tinham chegado a menos de 80 qui­lômetros do território soviético, nem dentro do Zona de Identificação da Defesa Aérea Russa, porém por duas vezes os soviéticos haviam enviado caças para mostrar ao AOA que estavam alerta.

¯  Bem, desta vez não vamos chegar muito perto ¯ observou o coronel.

Inclinou-se entre o piloto e o co-piloto para observar através dos vi­dros. As duas turbinas funcionavam a contento. Ele teria preferido um avião com quatro motores em vôos longos sobre o mar, mas a de­cisão não fora sua. A navegadora levantou uma sobrancelha perante o interesse do coronel e recebeu um tapinha no ombro à guisa de des­culpas. Era hora de deixar a cabine.

¯  Quanto falta para chegarmos à área de observação?

¯  Três horas e dezessete minutos, senhor; e três horas e trinta e nove minutos para o ponto orbital.

¯  Acho que tenho tempo para tirar um cochilo ¯ declarou o coro­nel no caminho para a porta.

Depois de fechá-la atrás de si, ele dirigiu-se a ré, atravessou a área ocupada pelo telescópio para a cabine principal. Por que será que as tripulações de vôo são tão jovens agora? Provavelmente estão pensan­do que eu preciso dormir um pouco em vez de ficar entediado.

A frente, o piloto e o co-piloto trocaram um olhar de entendimento. O velho bundão não confia em nós para pilotar o avião. Acomodaram-se melhor nas poltronas, procurando com o olhar as luzes de outros aviões, enquanto o piloto automático mantinha o Cobra Belle na rota programada.

Morozov vestia-se como todos os outros cientistas na sala de contro­le, com um avental branco adornado com um passe de segurança. Ain­da estava sob orientação, e sua designação para o grupo de controle de espelhos era provavelmente temporária. Naquele momento era que começava a apreciar a importância daquela parte do programa. Em Moscou ele aprendera como o laser funcionava e fizera um bom tra­balho de laboratório com modelos experimentais, mas nunca lhe ocor­rera considerar o fato de que a tarefa estava apenas começando quando a energia saía do equipamento. Além do mais, Estrela Brilhante real­mente tivera um avanço significativo na quantidade de energia trans­mitida pelo laser.

¯  Reciclar ¯ disse o engenheiro-chefe ao microfone.

Testavam a calibragem do sistema apontando os espelhos para uma

estrela. Não importava qual estrela fosse, e escolhiam uma ao acaso para cada teste.

¯  É um ótimo telescópio, não acha? ¯ observou o engenheiro, olhando para o monitor de vídeo.

¯  Estava preocupado com a estabilidade do sistema. Por quê?

¯  É que necessitamos um alto grau de precisão, como pode ima­ginar. Nunca chegamos a testar o sistema completo. Podemos ras-trear estrelas com facilidade, mas... ¯ O engenheiro encolheu os ombros. ¯ Esse é um programa muito jovem ainda, meu amigo. Como você.

¯  Por que não usam o radar e escolhem um satélite para continuar rastreando?

¯  Esta é uma ótima pergunta! ¯ O homem mais velho riu. ¯ Já me perguntei isso também. Tem alguma coisa a ver com os tratados de controle de armas, ou outra besteira qualquer. Por enquanto, eles dizem, é suficiente que nos forneçam as coordenadas dos alvos por terra. Não devemos procurá-los nós mesmos. Bobagem!

Morozov recostou-se em sua cadeira para olhar ao redor. Do outro lado da sala, todos os componentes do grupo de controle do laser mo­viam-se de um lado para o outro atarefados, enquanto um contingen­te de soldados uniformizados conversava entre si atrás deles. A seguir examinou o relógio ¯ sessenta e três minutos até o início do teste. Um a um, os técnicos saíam para a sala de repouso. Ele não sentia necessi­dade alguma de descansar e, pelo jeito, nem o engenheiro-chefe, que finalmente se dava por satisfeito com o funcionamento de seus siste­mas e colocava todos eles em estado de prontidão.

A 35 000 quilômetros de altura sobre o oceano Índico, um satélite do Programa de Apoio à Defesa (DSP) estava em órbita geoestacioná-ria sobre um ponto fixo no mar. Seu enorme telescópio Schmidt de foco cassegrainiano apontava permanentemente para a União Soviéti­ca, e sua missão era dar o primeiro aviso do lançamento de mísseis na direção dos Estados Unidos. Seus dados eram recebidos via Alice Springs, na Austrália, e enviados para vários locais nos Estados Uni­dos. No momento, as condições de visibilidade eram excelentes. Quase todo o hemisfério visível estava imerso na escuridão, e o chão frio de inverno destacava com facilidade a menor fonte de calor com defini­ção incomum.

Os técnicos que monitoravam o DSP em Sunnyvale ¯ o Vale do Silício, na Califórnia ¯ entretinham-se em contar instalações indus­triais. Havia a Usina de Aço Lênin, em Kazan, e havia aquela grande refinaria perto de Moscou, e também...

¯  Atenção! ¯ anunciou um sargento. ¯ Temos uma fonte de ener­gia em Plesetsk. Parece que um "pássaro" está levantando vôo do cam­po de testes de ICBM.

O major que estava de serviço nesse turno da noite imediatamente ligou para o "Palácio de Cristal", o quartel-general do NORAD, ins­talado sob o monte Cheyenne, no Colorado, a fim de certificar-se de que eles estavam gravando os dados do satélite. É claro que estavam.

¯  Esse foi o lançamento sobre o qual nos avisaram ¯ disse baixi­nho, para si mesmo.

Enquanto observavam, a imagem brilhante do calor despejado pelo foguete começou a tomar um rumo oriental, enquanto o ICBM des­crevia a trajetória balística que dava nome ao míssil. O major sabia de cor todas as características dos mísseis soviéticos. Se esse fosse um SS-25, o primeiro estágio deveria separar-se... agora.

A tela ficou brilhante quando uma bola de fogo de 550 metros de diâmetro apareceu. A câmera orbital realizou o equivalente mecânico de uma piscada, alterando a sensibilidade de seus sensores, cegados temporariamente pela súbita liberação de enormes quantidades de ener­gia térmica. Três segundos depois já rastreava uma nuvem de frag­mentos curvando-se em direção à terra.

¯  Parece que esse explodiu ¯ observou desnecessariamente o sar­gento. ¯ De volta à prancheta, Ivã...

¯ Ainda não resolveram o problema com o segundo estágio ¯ acres­centou o major.

Imaginou por um momento qual teria sido o problema, mas deci­diu que não importava tanto. Os soviéticos haviam apressado a pro­dução da série-25 e já começavam a instalá-los em vagões ferroviários para maior mobilidade, porém ainda tinham problemas com o míssil de combustível sólido. O major estava contente que fosse assim. Não fosse pela falta de confiabilidade nos novos mísseis, o seu uso deixaria de ser uma coisa arriscada. Essa incerteza ainda era a maior garantia de paz.

¯   "Palácio de Cristal", o teste falhou cinqüenta e sete segundos após o lançamento. Cobra Belle monitorou o teste do alto?

¯  Afirmativo ¯ respondeu o oficial do outro lado. ¯ Vamos chamá-los de volta.

¯  Certo. Boa noite, Jeff.

A bordo do Cobra Belle, dez minutos depois, o comandante da mis­são acusou recebimento da mensagem e cortou o canal de rádio. Veri­ficou o relógio e suspirou. Não tinha vontade de voltar para Shemya ainda. O capitão encarregado dos equipamentos sugeriu que aprovei­tassem o tempo para calibrar os instrumentos. O coronel pensou por um instante e aprovou a idéia com um aceno de cabeça. A aeronave e a tripulação eram novas o bastante para adquirir mais experiência. Os sistemas de rastreamento foram ajustados para o MTI, Indicador de Alvos Móveis. O computador que registrava todas as fontes de ener­gia que o telescópio acusava começou a destacar apenas os pontos que se moviam. Os técnicos observaram as telas de vídeo enquanto o MTI eliminava rapidamente as estrelas e planetas, começando a indicar al­guns satélites de baixa altitude e fragmentos de sucata espacial em ór­bita. O sistema da câmera era suficientemente sensível para detectar o calor de um corpo humano a 1 600 quilômetros de distância, e logo uma série de alvos se apresentou. A câmera se fixava em um deles de cada vez, obtendo imagens fotográficas em código digital e gravando-as em fita de computador. Embora fosse apenas um exercício, os da­dos eram enviados automaticamente ao NORAD, onde iriam atuali­zar o registro de informações sobre objetos orbitais.

¯  A potência que conseguiram aplicar ao sistema é impressionan­te! ¯ comentou o coronel Bondarenko em voz baixa.

¯  É verdade ¯ concordou com entusiasmo o general Pokryshkin. ¯ O mais impressionante é como essas coisas acontecem. Um dos meus feiticeiros descobre alguma coisa e comenta com o vizinho, que con­versa com um terceiro, e o terceiro diz alguma coisa que vai novamen­te ao primeiro, e assim por diante. Temos as mentes mais brilhantes do país aqui conosco, e o processo de descoberta mesmo assim parece tão científico quanto uma topada com o dedão numa cadeira. É essa a parte estranha. Mas é o que torna tudo fascinante. Gennady Iosifo-vich, essa é a coisa mais excitante que me aconteceu desde que ganhei meu breve de piloto! Esse lugar vai mudar o mundo! Depois de trinta anos de trabalho, acho que estamos muito perto da base de um siste­ma capaz de proteger a Rodina contra mísseis inimigos.

Bondarenko pensou que aquilo parecia um exagero, mas o teste de­monstraria quanto de verdade havia ali. Uma coisa era certa: Pokrysh­kin parecia o homem certo para o posto que ocupava. O ex-piloto era um verdadeiro gênio para coordenar e direcionar os esforços dos cien­tistas e engenheiros, muitos dos quais possuíam um ego tão grande quanto um tanque de guerra, e infinitamente mais frágil. Quando o general precisava se impor, ele se impunha. Quando precisava lison-jear, ele lisonjeava. Fazia o papel de pai, tio ou irmão para todos eles. Era necessário um homem com um grande coração russo para reali­zar isso. O coronel adivinhou que comandar pilotos de caça fora uma ótima preparação, e Pokryshkin devia ter sido um comandante de es­quadrão brilhante. O equilíbrio entre pressão, autoridade e encoraja­mento era muito difícil de atingir, mas para esse homem parecia tão natural quanto respirar. Bondarenko agora observava com atenção. Mui­tas lições ali ele poderia usar em sua carreira futura,

A sala de controle ficava separada do prédio do laser em si e era muito pequena para a grande quantidade de homens e equipamentos que continha. Ali se encontravam por volta de cem engenheiros ¯ sessenta deles com mestrado em física ¯, e mesmo aqueles chamados de técnicos poderiam lecionar em qualquer universidade da União So­viética. Sentavam-se aos painéis, ou andavam à sua volta. A maioria fumava, e o sistema de ar condicionado utilizado para manter cons­tante a temperatura nos computadores desenvolvia um grande esforço para manter o ar relativamente limpo. Por todos os lados viam-se mos-tradores digitais. A maioria marcava a hora: a hora média de Green-wich, usada para rastrear os satélites; a hora local; e, é claro, a hora-padrão de Moscou. Outros mostradores apresentavam as coor­denadas precisas do satélite-alvo, Cosmos-1810, que levava a numera­ção internacional de satélite 1986-102A. Fora lançado do Cosmódromo de Tyuratam em 26 de dezembro de 1986 e ainda estava no alto por­que sua reentrada na atmosfera com seu filme falhara. A telemetria mostrava que seus sistemas elétricos ainda funcionavam, embora sua órbita estivesse decaindo, com um perigeu atual ¯ o ponto mais bai­xo da órbita ¯ de 180 quilômetros. No momento, aproximava-se do perigeu, diretamente sobre Estrela Brilhante.

¯  Nível de energia subindo ¯ avisou o engenheiro-chefe pelo sis­tema fone-microfone que usava à cabeça. ¯ Verificação final do sistema.

¯  Câmeras rastreadoras em linha ¯ informou um técnico. ¯ Flu­xo de criogênio nominal.

¯  Controle de rastreamento dos espelhos em automático ¯ anun­ciou o engenheiro ao lado de Morozov. O jovem engenheiro estava na ponta da cadeira giratória observando ansiosamente o monitor de ví­deo ainda sem imagem.

¯  Seqüenciamento do computador em automático ¯ disse um terceiro.

Bondarenko deu um gole em seu chá, tentando acalmar-se sem re­sultado. Sempre quisera presenciar um lançamento espacial, mas nunca tivera a oportunidade. Aqui acontecia o mesmo tipo de coisa. A exci-tação era difícil de dominar. Ao seu redor os equipamentos e os ho­mens estavam se unindo numa só entidade para realizar um único objetivo, enquanto um após o outro anunciava sua prontidão e a de seus equipamentos. Finalmente:

¯  Todos os sistemas laser em linha com energia total.

¯  Estamos prontos para disparar ¯ o engenheiro-chefe concluiu a ladainha.

Todos os olhares se voltaram para o lado direito da construção, on­de o grupo responsável pelas câmeras rastreadoras dirigia os instru­mentos para uma seção do horizonte a noroeste. Um ponto brilhante surgiu, subindo vagarosamente pela abóbada negra do céu.

¯  Aquisição de alvo!

Ao lado de Morozov, o engenheiro levantou as mãos do painel de controle para certificar-se de que não acionaria inadvertidamente ne­nhum botão. A luz que indicava funcionamento automático piscava intermitentemente.

A 200 metros de distância, os seis espelhos dispostos ao redor do prédio que emitia o laser giraram juntos, ficando numa posição quase vertical em relação ao solo, enquanto focalizavam o alvo, logo acima do horizonte irregular de picos montanhosos. Na colina seguinte, os quatro espelhos responsáveis pela imagem fizeram o mesmo. Do lado de fora soaram sirenes de alarme, e luzes vermelhas rotativas avisaram a todos para que se afastassem da área.

No monitor em frente ao engenheiro-chefe agora havia uma ima­gem do Cosmos-1810. Como medida final de segurança, ele e mais três técnicos precisavam fazer uma identificação visual positiva do alvo.

¯  Aquele é o Cosmos-1810 ¯ dizia o capitão ao comandante do Cobra Belle. ¯ Um "pássaro" de reconhecimento quebrado. Deve ter havido uma falha nos motores de reentrada, porque não voltou quando mandaram. Está em órbita degenerativa e deve ter mais uns quatro meses de vida. Ainda envia dados de telemetria de rotina. Na­da de importante, que a gente saiba. Só para mostrar ao Ivã que ainda está lá.

¯  Os painéis solares ainda devem estar funcionando ¯ observou o coronel. ¯ O calor vem da energia interna.

¯  É. Fico pensando por que será que não o desligaram ainda... De qualquer forma, a leitura da temperatura de bordo é de 15 graus centígrados. Ótimo fundo frio para fazer a leitura. Se fosse a luz do sol, acho que não captaríamos a diferença entre o aquecimento solar e o do satélite...

Os espelhos na estrutura transmissora do laser rastreavam muito len­tamente, mas o movimento podia ser percebido nas seis telas de tele­visão que os monitoravam. Um laser de baixa potência refletia num dos espelhos, partindo em direção ao alvo... Além de servir para apon­tar todo o sistema, enviava uma imagem de alta resolução para o con­sole de comando. A identidade do alvo estava confirmada agora. O engenheiro-chefe girou a chave que "liberava" todo o sistema. Estre­la Brilhante estava agora fora do controle de mãos humanas, coman­dado inteiramente pelo complexo principal de computadores.

¯  Já se fixou no alvo ¯ observou Morozov a seu superior.

O engenheiro concordou com um aceno de cabeça, sem tirar os olhos da tela. Sua leitura de alcance estava decrescendo rapidamente à me­dida que o satélite vinha na direção deles, circulando a 18 000 quilô­metros por hora na direção de sua destruição. A imagem que aparecia no monitor era de uma bolha levemente oblonga, branca em virtude do calor interno, contrastando fortemente contra um céu sem calor. Localizava-se exatamente no centro da retícula de alvo, como uma oval branca no centro da alça de mira.

Eles não escutavam nada, é claro. O prédio que abrigava os gerado­res de raios laser era completamente isolado térmica e acusticamente. Também não enxergavam nada ao nível do solo. Mas, observando as telas de televisão na sala de controle, os cem homens cerraram os punhos no mesmo instante.

¯  Que diabos! ¯ exclamou o capitão. A imagem do Cosmos-1810 subitamente ficara brilhante como um

sol. O computador ajustou a sensibilidade no mesmo instante, mas por vários segundos não conseguiu acompanhar as mudanças de tem­peratura no satélite.

¯  Mas que diabo acertou... Senhor, isso não pode ser calor inter­no. ¯ O capitão digitou um comando no teclado a sua frente e obteve uma leitura digital da temperatura aparente do satélite. Radiação in­fravermelha é uma função de quarto grau. O calor cedido por um ob­jeto é o quadrado do quadrado de sua temperatura. ¯ Coronel, a temperatura foi de 15 graus centígrados para... parece que 1 800 graus em dois segundos. Ainda está subindo... espere, está diminuindo. Ago­ra sobe de novo. A taxa de aumento é irregular, quase.,. Agora está caindo. Que porra foi essa?

À esquerda do homem, o coronel começou a pressionar alguns bo­tões no seu console de comunicação, ativando uma ligação em código via satélite com o monte Cheyenne. Quando falou, foi no tom frio e profissional que os militares reservam apenas para os piores pesade­los. O coronel sabia exatamente o que havia visto.

¯  Palácio de Cristal, aqui Cobra Belle. Fiquem alerta para copiar uma mensagem Superflash.

¯  A postos. Pode falar.

¯  Tivemos uma ocorrência de alta energia. Repito, estamos acom­panhando um evento de alta energia. Cobra Belle declara um Drops-hot. Acuse recebimento. ¯ Olhou para o capitão ao lado, e seu rosto estava pálido.

No quartel-general do NORAD, o oficial graduado do turno da noite teve de vasculhar rapidamente sua memória para lembrar o significa­do de Dropshot. Dois segundos depois um "Jesus" foi dito baixinho ao sistema fone-microfone preso a sua cabeça.

¯ Cobra Belle, acusamos recebimento do Dropshot. Fique a postos enquanto a gente toma algumas providências por aqui. Jesus! ¯ disse ele outra vez, voltando-se para seu auxiliar. ¯ Transmita um alerta Dropshot ao NMCC, e diga para eles permanecerem alertas para rece­ber os dados impressos. Encontre o coronel Welch e traga-o aqui. ¯ O oficial levantou o telefone a seu lado e digitou o código do CINC-NORAD, comandante-chefe do NORAD.

¯   Sim? ¯ uma voz rouca disse ao aparelho.

¯  General, aqui é o coronel Henriksen. Cobra Belle relatou um Alerta Dropshot. Dizem que acabam de presenciar um evento de alta energia.

¯  Já informou o NMCC? ¯ Referia-se ao Centro Nacional de Co­mando Militar.

¯  Sim, senhor, e estamos trazendo Doug Welch também.

¯  Já têm os dados?

¯  Estarão aqui quando o senhor chegar.

¯  Muito bem, coronel, estou a caminho. Mande um avião para Shemya, para trazer aquele cara do Exército até aqui.

O coronel a bordo do Cobra Belle estava ordenando a seu oficial de comunicações que enviasse os dados via comunicação digital para o NORAD e o Vale do Silício. A tarefa foi realizada em cinco minu­tos. A seguir o comandante da missão disse à tripulação para voltar a Shemya. Ainda tinham combustível para duas horas de patrulha, mas achou que nada mais aconteceria essa noite. O que acontecera até aqui era o suficiente. O coronel acabara de ter o privilégio de tes­temunhar um acontecimento que muito poucos homens haviam pre­senciado na história da humanidade. Tinha visto o mundo mudar e, ao contrário da maioria dos homens, ele entendia o significado dessa mudança. Era uma honra, pensou ele, que dentro em pouco seria obriga­do a esquecer completamente.

¯  Capitão, eles chegaram primeiro. ¯ Meu Deus!

Jack Ryan estava a ponto de tomar a saída pelo trevo da rodovia 1-495 quando o telefone do seu carro tocou.

¯   Sim?

¯  Precisamos de você aqui.

¯  Certo. ¯ Jack ouviu a linha ser desligada do outro lado. Jack tomou a saída, mas continuou a curva, passando sob o viaduto

e retornando à Washington Beltway, o caminho de volta à CIA. Aqui­lo nunca falhava. Ele tirara a tarde de folga para encontrar-se com o pessoal do SEC. Descobrira que os agentes da companhia foram investigados e liberados de qualquer suspeita, o que se estendia a ele também ¯ ou deveria, se os investigadores do SEC chegassem mesmo a encerrar sua ficha. Ele nutrira a esperança de tirar o resto do dia de folga e ir para casa. Ryan resmungava enquanto se encaminhava de volta a Virgínia, perguntando-se qual seria a crise daquela vez.

 O major Gregory e mais três membros de seu grupo de software es­tavam em pé ao lado de um quadro-negro, diagramando o fluxo do pacote de programas de controle do espelho quando um sargento en­trou na sala.

¯  Major, o senhor está sendo chamado ao telefone.

¯  Estou ocupado. Não pode esperar?

¯  É o general Parks, senhor.

¯  A voz do dono ¯ resmungou Al Gregory. Atirou o giz ao ho­mem mais próximo e saiu da sala. Em pouco mais de um minuto esta­va ao telefone.

¯  Há um helicóptero a caminho para apanhá-lo ¯ informou o ge­neral sem rodeios.

¯  Senhor, estamos tentando resolver...

¯  Em Kirtland haverá um Lear esperando por você. Não temos tempo para esperar um vôo comercial. Não vai precisar fazer as ma­las. A caminho, major!

¯  Sim, senhor.

¯  O que aconteceu de errado? ¯ indagou Morozov. O engenheiro a seu lado olhava com cara de bravo para o painel.

¯  Distorção térmica. Merda! Pensei que já tínhamos superado isso. Do outro lado da sala de controle, o laser de baixa energia produzia

outra imagem do alvo. A imagem monocromática era uma fotografia de aproximação em preto-e-branco, só que o preto aparecia como mar­rom. Os técnicos em vídeo haviam dividido a tela, colocando a ima­gem antiga ao lado da atual, para comparação.

¯  Nenhum furo! ¯ disse Pokryshkin, amargamente.

¯  E daí? ¯ quis saber Bondarenko, sem entender. ¯ Meu Deus! O laser derreteu aquela coisa! Aquilo parece que foi mergulhado no aço fundido.

Parecia mesmo. As superfícies planas estavam agora retorcidas em virtude do calor intenso que ainda se irradiava. As células solares dis­postas ao redor do corpo do satélite ¯ projetadas para absorver ener­gia luminosa ¯ pareciam ter se queimado completamente. Num exame mais cuidadoso podia-se constatar que todo o corpo do satélite apresentava-se distorcido pela energia que o atingira. Pokryshkin concordou, mas sua expressão não se alterou. ¯ Tínhamos de fazer um furo no satélite. Se tivéssemos consegui­do, teria dado a impressão de que algum pedaço de sucata espacial tinha se chocado com ele. Esse é o tipo de concentração de energia que estávamos procurando.

¯  Mas agora pode destruir qualquer satélite que desejar!

¯  Estrela Brilhante não foi construída para destruir satélites, coro­nel. Já podemos fazer isso com facilidade.

Só então Bondarenko entendeu a mensagem. De fato, Estrela Bri­lhante na verdade havia sido construída com um propósito específico, mas o avanço na energia excedera as expectativas por um fator de qua­tro, e Pokryshkin queria matar dois coelhos com uma só cajadada, demonstrando a capacidade de interceptação de satélites e um sistema que podia ser adaptado à defesa contra mísseis balísticos. Era um ho­mem ambicioso, ainda que não no sentido comum da palavra.

Bondarenko deixou de pensar no assunto e concentrou-se no que acabara de presenciar. O que tinha acontecido de errado? Devia ter sido distorção térmica. Ao serem transmitidos pela atmosfera, os raios laser transferiram uma quantidade fracionária de sua energia na for­ma de calor para a atmosfera. Tal distorção provocara uma "turva-ção" do ar, alterando suas propriedades ópticas, movendo o feixe para cima e para baixo do alvo, e alargando o feixe laser num diâmetro maior que o pretendido.

Mas, a despeito disso tudo, ainda teve potência suficiente para derreter metal a 180 quilômetros de distância, pensou o coronel. A missão não era um fracasso. Representava, isso sim, um salto gigantesco em dire­ção a uma nova tecnologia.

¯  Algum dano ao sistema? ¯ perguntou o general ao diretor do projeto.

¯  Nenhum, de outra maneira não teríamos conseguido a imagem logo a seguir. Parece que as medidas de compensação da atmosfera foram suficientes para o feixe de imagem, mas não para a transmissão de alta energia. Meio sucesso, camarada general.

¯  É verdade. ¯ Pokryshkin esfregou os olhos por um momento, depois disse com firmeza: ¯ Camaradas, demonstramos grande pro­gresso esta noite, mas ainda há muito trabalho a fazer.

¯  E esse é meu trabalho ¯ disse baixinho o engenheiro ao lado de Morozov. ¯ Vamos resolver esse filho da puta!

¯  Precisa de mais alguém no grupo?

¯  Trata-se em parte de espelhos e em parte de computadores. Quan­to sabe sobre esses assuntos?

¯  Isso é o senhor que decide. Quando começamos?

¯  Amanhã. O pessoal da telemetria vai levar umas doze horas para organizar os dados. Pretendo apanhar o próximo ônibus para a área residencial e beber alguma coisa em meu apartamento. Minha família foi passar a semana fora. Quer me acompanhar?

¯  O que pensa que foi isso? ¯ perguntou Abdul. Haviam acabado de chegar ao topo de uma serra quando o meteoro apareceu. Pelo menos a princípio parecia com o rastro de um meteoro entrando na atmosfera. Porém a linha fina e dourada permanecera ali e dava a impressão de ir da terra para o céu ¯ rápida, mas nitidamente. Uma linha fina e dourada, pensou o Arqueiro. O ar em si parecia ter brilhado. Mas o que teria provocado tal reação no ar? Por um mo­mento ele esqueceu quem era e onde estava, retornando aos seus dias na universidade. Calor provocava aquele tipo de efeito. Apenas o ca­lor. Quando um meteoro caía, a fricção de sua passagem... Mas aqui­lo não fora um meteoro. Mesmo que o sentido de baixo para cima não passasse de uma ilusão ¯ e ele não tinha certeza disso; os olhos enga­nam a gente ¯, a luz dourada durara aproximadamente cinco segun­do. Talvez um pouco mais, refletiu o Arqueiro. É muito difícil medir o tempo com a mente. Hum... Sentou-se abruptamente e apanhou o bloco de anotações. O homem da CIA lhe dera aquele bloco e lhe dis­sera para anotar os eventos, como um diário. Era um instrumento útil; não lhe ocorrera antes. Anotou cuidadosamente a hora, data, local e a direção aproximada. Dentro de mais alguns dias voltaria ao Paquis­tão, e talvez o homem da CIA achasse aquilo interessante.

 

Um "Se" a Menos

Já estava escuro quando ele chegou. O motorista que conduzia o carro de Gregory saiu da Rodovia George Washington em direção à avenida de acesso ao Pentágono. A sentinela levantou o portão, permitindo que o Ford do governo sem identificação ¯ o Pentágono estava compran­do automóveis Ford naquele ano ¯ subisse a rampa, desse a volta ao punhado de carros estacionados e deixasse seu passageiro logo atrás de um ônibus. Gregory já conhecia bem a rotina: mostrar seu passe ao guarda, passar através do detector de metais, andar ao longo de um corredor cheio de bandeiras dos Estados, depois descer ao longo da rampa que conduzia à área de compras, uma galeria construída e iluminada ao estilo de um calabouço do século 12. Na verdade, Gre­gory jogara "Dragões e Labirintos" quando estava no colegial, e a primeira vez que fora à grande construção poligonal convencera-se de que o autor do jogo inspirara-se naquele lugar.

O escritório da Iniciativa de Defesa Estratégica ficava exatamente sob a área de lojas comerciais ¯ na verdade a entrada ficava direta­mente sob a confeitaria ¯, num espaço com cerca de 300 metros, que anteriormente servira como ponto para ônibus e táxis ¯ antes que o advento dos carros-bombas persuadisse a comunidade de defesa da na­ção do fato de que automóveis não eram uma boa coisa para se ter debaixo da marquise em forma de "E". Essa parte do edifício, por­tanto, era a mais nova e a mais segura, o que era apropriado para o programa militar mais recente e menos seguro. Nesse ponto, Gregory apanhou seu outro passe. Mostrou-o às quatro pessoas na mesa de segurança, depois colocou-o contra o painel na parede, que, depois de interrogar eletromagneticamente seu código, permitiu o ingresso do major. Isso levou-o a uma sala de espera com portas duplas de vidro. Sorriu para a recepcionista enquanto prosseguia, depois para a secre­tária do general Parks, que devia estar de mau humor por ficar até tarde no trabalho e não tinha vontade de sorrir.

O general Bill Parks tampouco estava com vontade de sorrir. Seu amplo escritório continha uma escrivaninha, um pequena mesa de cen­tro para o café e conversas mais íntimas, além de uma mesa maior para conferências. As paredes estavam cobertas de fotografias emol­duradas de várias atividades espaciais, modelos reais e imaginários de veículos... e de armas. Parks era geralmente um homem cordial. Ex-piloto de testes, sua carreira correra tão bem que se poderia imaginá-lo como uma figura bajuladora e popular, apertando as mãos de todo mundo. Em vez disso, Parks tinha o aspecto de um monge, com um sorriso que era ao mesmo tempo encantadoramente tímido e intenso. Suas muitas divisas não adornavam a camisa de mangas curtas, que somente ostentava uma miniatura das asas de piloto-comandante. Não precisava impressionar as pessoas com o que tinha feito, mas com o que era. Parks era um dos mais inteligentes homens no governo, cer­tamente entre os dez mais, talvez até o mais brilhante. Gregory viu que o general tinha companhia aquela noite.

¯  Então nos encontramos outra vez, major ¯ disse Ryan, voltando-se. Ele tinha nas mãos uma brochura de duzentas páginas, aberta na metade.

Gregory ficou em posição de sentido ¯ para Parks ¯ e apresentou-se formalmente ao general.

¯  Que tal o vôo?

¯  Fantástico. Senhor, aquela máquina de refrigerantes ainda fica no mesmo lugar? Estou morrendo de sede.

O general sorriu rapidamente antes de responder:

¯  Pode ir até lá. Não estamos com tanta pressa assim. ¯ Gregory saiu para o corredor e fechou a porta atrás de si. ¯ A gente só pode adorar esse garoto.

¯  Será que a mãe dele sabe o que ele anda fazendo depois da esco­la? ¯ brincou Ryan, ficando sério logo em seguida. ¯ Ele ainda não viu nada disso, certo?

¯  Não, e nem teve tempo. Além do mais, o coronel do Cobra Belle deve demorar mais cinco horas para chegar aqui.

Jack assentiu. Era por isso que ele e Art Graham da unidade de sa­télites eram os únicos membros da CIA presentes; os outros teriam uma noite de sono decente enquanto os dois preparavam o relatório dos acontecimentos para a manhã seguinte. O próprio Parks podia ter tirado o corpo fora, deixando o trabalho para seu cientista-chefe, mas ele não era esse tipo de homem. Quanto mais Ryan conhecia de Parks, mais o apreciava. O general preenchia os requisitos de um bom líder. Era um homem com um ideal ¯ ideal esse que Ryan partilhava. Ali estava um comandante militar graduado que odiava armas nucleares. Isso em si não era um fato tão incomum ¯ militares tendiam a apre­ciar um mundo organizado, e as armas nucleares provocavam uma si­tuação bastante imprevisível. Mas muito poucos soldados, marinheiros e pilotos tinham engolido suas opiniões pessoais e construído a carrei­ra em torno de armamentos que esperavam nunca ser utilizados. Parks passara os últimos dez anos de sua carreira tentando achar uma ma­neira de eliminá-los. Jack apreciava as pessoas que nadavam contra a corrente. Coragem moral era um atributo mais raro do que a cora­gem física, um fato tão verdadeiro na profissão militar quanto em qual­quer outra.

Gregory reapareceu com uma lata de Coca-Cola, retirada da máqui­na próxima à porta. Gregory não gostava de café. Era hora de trabalhar.

¯  O que está acontecendo, senhor?

¯  Temos uma fita de vídeo gravada por Cobra Belle. Eles decola­ram para acompanhar um teste de ICBM soviético. O "pássaro" de­les, um SS-25, explodiu, e o comandante da missão resolveu ficar lá em cima e testar seus brinquedinhos. Isso foi o que ele viu. ¯ O ge­neral pressionou o botão do controle remoto do videocassete e a ima­gem surgiu na tela.

¯  Esse é o Cosmos-1810 ¯ explicou Art Graham, passando uma fotografia ao major. ¯ Um satélite de reconhecimento que não fun­cionou direito.

¯  Imagem infravermelha na tevê, não é? ¯ Gregory deu um gole em seu refrigerante. ¯ Meu Deus!

O que fora um simples ponto de luz expandiu-se como uma estrela explodindo num filme de ficção científica. Só que não era ficção. A imagem mudou enquanto o sistema de imagem computadorizado adaptava-se ao súbito aumento de energia. No canto inferior apareceu uma série de dígitos, mostrando a temperatura aparente do satélite. Em poucos segundos a imagem desapareceu e novamente o computa­dor precisou ajustar-se para acompanhar o Cosmos.

Houve um segundo ou dois de estática na tela, depois uma nova imagem começou a se formar.

¯  Isso foi feito noventa minutos atrás. O satélite passou sobre o Havai algumas órbitas depois. Temos câmeras lá para monitorar os saté­lites soviéticos ¯ declarou Graham. ¯ Dê uma olhada na fotografia que lhe entreguei.

¯   "Antes e depois", certo? ¯ Os olhos de Gregory passeavam de uma imagem para outra. ¯ Os painéis solares se foram... puxa! Do que é feito o corpo do satélite?

¯  A maior parte é de alumínio ¯ esclareceu Graham. ¯ Os russos acreditam mais em construções resistentes do que nós. As estruturas internas talvez sejam feitas de aço, mas acho mais provável titânio ou magnésio.

¯  Isso pode nos dar uma base de cálculo para uma estimativa da transferência de energia envolvida no processo ¯ afirmou Gregory. ¯ Eles destruíram o "pássaro". Conseguiram calor suficiente para der­reter os painéis solares e provavelmente para romper os circuitos elé­tricos no interior. A que altura ele estava?

¯  Cento e oitenta quilômetros.

¯  Foi de Sary Shagan, ou daquele lugar novo que o senhor Ryan me mostrou?

¯  Dushanbe ¯ disse Ryan. ¯ O novo.

¯  Mas as linhas de força ainda não estão prontas.

¯  É verdade ¯ concordou Graham. ¯ Eles ainda podem dobrar a potência que acabamos de ver demonstrada. Ou pelo menos acham que podem. ¯ A voz parecia com a de quem acabava de saber que um membro da família tinha uma doença fatal.

¯  Posso ver a primeira seqüência de novo? ¯ disse Gregory. Pare­cia mais uma ordem de Gregory do que uma pergunta, e Jack notou que o general a realizou sem perda de tempo.

Nos quinze minutos seguintes, Gregory permaneceu a 1 metro do monitor, bebericando seu refrigerante sem tirar os olhos da tela. Nos últimos três minutos a imagem foi avançada quadro a quadro, enquanto o jovem major fazia anotações a cada mudança. Finalmente terminou.

¯  Posso fazer uma estimativa mais precisa em meia hora, mas acho que eles enfrentaram problemas.

¯  Distorção ¯ disse Bill Parks.

¯  E também dificuldades no sistema de mira, senhor. Pelo menos, é o que parece. Preciso de algum tempo para trabalhar e de uma boa calculadora. Deixei a minha no escritório ¯ admitiu Gregory sem gra­ça. Graham passou-lhe uma Hewlett-Packard programavel.

¯  E quanto à energia? ¯ quis saber Ryan.

¯  Preciso de algum tempo para dar números exatos ¯ informou pacientemente o major. ¯ No momento, posso afirmar que excederam em oito vezes tudo o que podemos fazer. Preciso de um lugar tran­qüilo para trabalhar. Posso usar a sala de lanches? ¯ perguntou ele a Parks. O general assentiu, e ele deixou a sala.

¯  Oito vezes... ¯ repetiu Art Graham, impressionado. ¯ Meu Deus, isso quer dizer que podem deixar fora de ação qualquer satélite do DSPS. Aliás, podem acertar qualquer satélite de comunicações, se quiserem. Bem, sempre existem maneiras de protegê-los...

Ryan sentiu-se um pouco marginalizado. Sua formação em história e economia não incluía a linguagem técnica das ciências físicas, que ele ainda não dominava completamente.

¯  Três anos ¯ declarou o general Parks, servindo mais um café. ¯ Pelo menos três anos à nossa frente.

¯  Mas só em potência... ¯ disse Graham.

Jack olhava de um para outro, sabendo o significado geral do que eles discutiam, mas não entendendo o conteúdo. Gregory voltou em vinte minutos.

¯  Calculei o pico da potência de saída deles entre 25 e 30 milhões de watts ¯ anunciou ele, sem rodeios. ¯ Se assumirmos que usam seis geradores laser para a transmissão, isso faz... bem, mais do que o suficiente, não é? E só uma questão de focalizar e dirigir todos para o mesmo alvo. ¯ Gregory fez uma pausa. ¯ Estas são as más notí­cias. As boas são que eles definitivamente estão enfrentando proble­mas de distorção pela atmosfera. Conseguiram chegar à potência de pico apenas nos primeiros milésimos de segundo, depois o raio come­çou a ser distorcido. A potência média no impacto ficou entre 7 e 10 megawatts. Ao que parece, eles também tiveram problemas de mira além da distorção. Ou os suportes contra vibrações não foram bem instalados, ou eles não conseguiram corrigir completamente o balan­ço de rotação da Terra. Talvez as duas coisas. Qualquer que seja a causa, tiveram problemas para apontar com uma precisão maior do que três segundos de arco. Isso significa que só podem ter uma precisão de 240 metros a mais ou a menos para um satélite em órbita geossincrô-nica, é claro que esses alvos são relativamente estacionários, e o fator de movimento pode influenciar para qualquer dos lados.

¯  Como é isso? ¯ indagou Ryan.

¯  Os satélites de órbita baixa se movem no espaço com uma velo­cidade razoável, algo em torno de 8 000 metros por segundo. Se você está tentando atingir um alvo móvel, são 1 400 metros por cada grau de arco, portanto seguimos um alvo que progride no espaço à razão de 5 graus por segundo. Está me acompanhando? ¯ Jack concordou com um aceno e o major continuou. ¯ A distorção térmica significa que o laser está cedendo uma parte apreciável de sua energia para a atmosfera. Se você está rastreando rapidamente para acompanhar o satélite, precisa abrir um novo orifício continuamente na camada de ar. Mas demora um pouquinho para que os efeitos da distorção se tor­nem ruins... e isso ajuda. Por outro lado, os problemas de vibração adicionam variáveis a cada vez que o ponto visado é alterado, o que muda a geometria do alvo e torna a situação ainda pior. Acertar um alvo razoavelmente estacionário, como por exemplo um satélite de co­municações, simplifica o problema de mira, mas em compensação a gente fica perfurando sempre a mesma camada até que quase toda a energia é dissipada no ar. Entende o que eu digo?

Ryan assentiu, embora sua mente estivesse atingindo novamente o limite. Mal entendia a linguagem que o garoto usava, e a informação que Gregory tentava transmitir estava num campo que ele simples­mente não dominava. Graham interferiu.

¯  Está dizendo que não devemos nos preocupar com isso por en­quanto?

¯  Não, senhor! Se a potência está disponível para ser utilizada, sem­pre se pode alcançar os meios para fazer isso. Que diabos, nós já re­solvemos esse problema. Essa é a parte mais simples.

¯  É como eu disse ¯ afirmou o engenheiro a Morozov. ¯ O pro­blema não está na quantidade de energia que o feixe laser pode carre­gar, essa é a parte fácil. O difícil é levar essa energia até o alvo.

¯  O computador não pode corrigir a... exatamente o quê?

¯  Deve ser uma combinação de fatores. Vamos repassar os dados ainda hoje. O erro principal? Provavelmente o programa de compen­sação atmosférica. Pensamos que poderíamos ajustar o processo de mira para eliminar a distorção... mas não conseguimos. Três anos de traba­lho teórico foram embutidos no teste de ontem. Meu projeto. E não funcionou. ¯ O engenheiro olhou na direção do horizonte, franzindo as sobrancelhas. A operação em sua criança doente não fora bem-sucedida, mas os médicos achavam que ainda havia esperança.

¯  Então foi daí que partiu o aumento da potência de saída do la­ser? ¯ quis saber Bondarenko.

¯  Foi. Dois dos mais jovens entre o pessoal, ele com 32 e ela com 28, descobriram uma maneira de aumentar o diâmetro da cavidade do laser. O que precisamos, entretanto, é de um controle melhor dos eletroímãs ¯ disse Pokryshkin.

O coronel concordou. A vantagem do laser de elétron livre no qual os dois lados estavam trabalhando é que ele podia ser "sintonizado" da mesma forma que um rádio, oferecendo a possibilidade de escolha da freqüência luminosa que se queria transmitir... ou pelo menos as­sim afirmava a teoria. Na prática, porém, a maior potência de saída ficava sempre na mesma zona de freqüência... que era a errada. Se no dia anterior tivessem tido a possibilidade de escolher uma freqüência ligeiramente diferente, que penetrasse com mais eficiência na atmos­fera, a distorção térmica poderia ter sido reduzida em 50 por cento ou mais. Mas isso significaria controlar melhor os ímãs supercondu-tores. São chamados de wigglers, ou oscilantes, porque induzem um campo magnético oscilante através dos elétrons carregados na cavida­de do laser. Infelizmente, o mesmo avanço que aumentou a cavidade teve também um efeito inesperado sobre a capacidade de controlar o fluxo do campo magnético. Ainda não descobrimos nenhuma expli­cação teórica para isso, e a opinião dos cientistas mais experientes é de que houve um pequeno problema de engenharia, ainda insuspeita-do, no projeto do ímã. Os engenheiros graduados, é claro, alegam que o erro está nas explicações teóricas para o que acontecia, porque eles sabem que os ímãs funcionam perfeitamente. As discussões que já agi­tavam as salas de conferências eram vigorosas, porém cordiais. Um bom número de pessoas donas das mentes mais brilhantes lutavam jun­tas para descobrir a Verdade ¯ do tipo científico que não dependesse da opinião humana.

A mente de Bondarenko repassava os detalhes enquanto fazia as ano­tações. Ele se julgara um homem com conhecimento de tecnologia la­ser ¯ afinal de contas, havia ajudado a projetar uma aplicação completamente nova ¯, mas, ao examinar o trabalho que estava sen­do realizado ali, imaginou-se como uma criança a vagar por um labo­ratório de universidade, maravilhando-se com as luzes brilhantes. O avanço principal, escreveu ele, era no projeto da cavidade do laser. Aquilo permitia o grande aumento na potência de saída e fora conce­bido numa mesa de cantina, quando um engenheiro e uma física tro­peçaram juntos num pedaço da Verdade. O coronel sorriu interiormente. Pravda fora a palavra usada, na realidade. Verdade era a tradução exata, e os dois jovens acadêmicos pronunciavam-na de ma­neira bastante simples. Ultimamente, essa era uma palavra que vinha ganhando popularidade em Estrela Brilhante, e Bondarenko per­guntou-se quanto daquilo se constituía numa piada particular, de um jeito ou de outro.

"Mas é pravilno?", perguntavam sobre um fato. É "verdadeiro"?

Bem, disse o coronel a si mesmo, uma coisa é bastante verdadeira.

 

Aquelas duas pessoas que se encontraram para discutir sua vida amo­rosa ¯Bondarenko já escutara a história em detalhes ¯ numa mesa da cantina haviam se juntado para permitir um colossal salto para a frente em relação à potência do laser. O resto viria a seu tempo, disse Bondarenko a si mesmo. Sempre vinha.

¯  Então parece que o problema principal é o controle do compu­tador, tanto do campo de fluxo magnético quanto do conjunto de es­pelhos.

¯  Correto, coronel ¯ concordou Pokryshkin. ¯ E precisamos de verbas adicionais para corrigir essas dificuldades. Precisa dizer a eles em Moscou que o trabalho mais importante já foi realizado e provou funcionar.

¯  Camarada general, já me conquistou.

¯  Não, camarada coronel. O senhor simplesmente possui a inteli­gência necessária para perceber a verdade. ¯ Os dois deram uma boa gargalhada enquanto apertavam-se as mãos.

Bondarenko mal podia esperar para voar de volta a Moscou. Já se fora o tempo em que um oficial soviético temia ser portador de más notícias, porém a divulgação de notícias boas sempre ajudava a car­reira de quem as trazia.

¯  Bem, eles não podem estar usando ópticos adaptáveis ¯ decla­rou o general Parks. ¯ O que eu quero saber é de onde vêm as cama­das ópticas deles.

¯  É a segunda vez que escuto isso. ¯ Ryan levantou-se e andou ao redor da mesa para ativar a circulação. ¯ Qual é o problema com o espelho? É um espelho de vidro, não é?

¯  De vidro, não. O vidro não suporta a quantidade de energia. No momento, estamos usando cobre ou molibdênio ¯ informou Gregory. ¯ Um espelho de vidro possui sua superfície refletora na parte de trás. No nosso tipo de espelho, a superfície refletora fica na face frontal. Há um sistema de resfriamento na parte de trás.

¯  Como? ¯ Você devia ter feito mais cursos de ciências na Universi­dade de Boston, Jack.

¯  A luz não se reflete diretamente sobre o metal ¯ disse Graham. Ryan sentiu que era o único tapado na sala. E fora o escolhido, é claro, para escrever o Relatório Especial sobre Informações Confi­denciais. ¯ O que reflete é a camada óptica. Para aplicações muito precisas, como por exemplo um telescópio astronômico, a camada sobre o espelho tem a aparência de um pouco de gasolina sobre uma poça d'água.

 

¯  Nesse caso, por que usar o metal? ¯ quis saber Jack. O major respondeu:

¯  Usa-se metal para manter a superfície refletora tão refrigerada quanto possível. Na verdade estamos tentando abandonar os metais. Projeto AD-AMANT, ou seja, Desenvolvimento Acelerado de Mate­riais Avançados e Novos Grupos de Tecnologia. Esperamos que o pró­ximo espelho seja feito de diamante.

¯  O quê?

¯  Diamante artificial feito de puro carbono-12, que é um isótopo do carbono comum e serve perfeitamente para nós. O problema é a absorção de energia ¯ continuou o major. ¯ Se a superfície retém muita luz, a energia térmica pode arrancar a camada refletora do vi­dro e então o espelho se quebra. Vi isso acontecer uma vez com um espelho de meio metro de diâmetro. Soou como Deus estalando os dedos. Com o diamante de carbono-12 podemos ter um material que é quase um supercondutor de calor. Permite um aumento na densida­de de potência, com um espelho menor. A General Electric acaba de desenvolver um método para obter diamantes com a qualidade de pe­dras preciosas a partir do carbono-12. Candi já está trabalhando para ver como podemos montar um espelho com esse material.

Ryan deu uma olhada em suas trinta páginas de anotações, depois esfregou os olhos.

¯  Major, com a permissão do general, o senhor vem a Langley co­migo. Gostaria que atualizasse os conhecimentos de nosso pessoal de Ciência e Tecnologia, e queria que tomasse conhecimento de todas as informações que possuímos sobre o projeto soviético. Tudo bem para o senhor? ¯ Jack perguntou a Parks. O general concordou com um aceno de cabeça.

Ryan e Gregory saíram juntos. Precisava-se de um passe para sair, também. Os guardas haviam trocado de turno, mas encaravam a to­dos com igual seriedade. Quando chegaram ao estacionamento, o ma­jor disse que o Jaguar XJS de Ryan era "bárbaro". Ainda usam esse termo?, perguntou-se Jack.

¯  Como é que um fuzileiro chega a trabalhar para a Agência? ¯ indagou Gregory, admirando o estofamento de couro. E onde consegue grana para comprar um carro desses?

¯  Eles me convidaram. Antes disso eu lecionava história em An-napolis. ¯ Nada como ser o famoso Sirjohn Ryan. Bem, em compensa­ção não terei o nome em nenhum livro didático sobre laser...

¯  Que escola freqüentou?

 

¯  Bacharelado na Universidade de Boston, e fiz mestrado aqui, bem do outro lado do rio, em Georgetown.

¯  Você não disse que era doutor ¯ observou o major. Ryan soltou uma risada antes de responder:

¯  É um campo muito diferente, amigo. Tenho um bocado de difi­culdade para entender que diabos você estão fazendo, mas apesar dis­so fui incumbido de explicar o que significa para os... bem, para as pessoas envolvidas nas negociações sobre redução de armamentos. Te­nho trabalhado com eles nos últimos seis meses.

Gregory soltou um grunhido.

¯  Aquela turma quer me colocar para fora dos negócios. Querem entregar tudo.

¯  Eles também têm um emprego ¯ concedeu Jack. ¯ Preciso de sua ajuda para convencê-los de que seu trabalho é importante.

¯  Os russos acham que é importante.

¯  É. Aliás, foi o que acabamos de ver, não foi?

Bondarenko desceu do avião e teve uma surpresa agradável ao en­contrar um carro oficial aguardando por ele. Era da Defesa Aérea. O general Pokryshkin havia se adiantado. O dia de trabalho tern^inara, e o coronel pediu ao motorista que o levasse para casa. Escreveria o relatório no dia seguinte, apresentá-lo-ia ao coronel Filitov, e talvez depois fosse explicá-lo ao próprio ministro. Perguntou-se depois, sa­boreando um copo de vodca, se Pokryshkin não o teria manobrado ¯ não conhecia a expressão ocidental "engraxado" ¯ o suficiente pa­ra causar uma falsa impressão. Não era o suficiente, pensou o major. O general fizera um bom trabalho vendendo a imagem do programa e a sua própria, mas nada disso era pokazhuka. Não falharam no teste e tinham sido honestos ao detalhar seus problemas. Tudo que pediam era o que realmente necessitavam. Não, Pokryshkin tinha uma mis-são a realizar, disposto a colocar sua carreira, senão em segundo pla­no, pelo menos ao lado de seus ideais; e isso era tudo o que se podia pedir razoavelmente de alguém. Se estava construindo seu próprio im­pério, pelo menos era um império que valia a pena construir.

A rampa de acesso fora construída de maneira a parecer ao mesmo tempo singular e corriqueira. A alameda tinha uma aparência comum, com um passeio coberto que abrigava noventa e três lojas, mais um agrupamento de cinco pequenas salas de projeção. Havia seis lojas de sapatos e três joalherias. Combinando com a localização oeste do con­junto, existia uma loja de artigos esportivos que possuía uma parede cheia de rifles de caça Winchester Modelo 70, um artigo que não se via freqüentemente na Costa Leste. Três estabelecimentos de roupas masculinas pontilhavam a alameda, além de sete lojas femininas. Uma delas ficava ao lado da loja de armas.

Tal fato era conveniente para a proprietária de Folhas de Eva, uma vez que a loja de armas possuía um sofisticado sistema de alarme con­tra roubos, o que, combinado à segurança da galeria, perniitia que ela mantivesse um estoque razoável de roupas femininas exclusivas, sem aumentar muito a taxa do seguro. A loja começara com pouco movimento ¯ a moda de Paris, Roma e Nova York não era muito bem aceita a oeste do rio Mississípi, exceto talvez na orla do Pacífico ¯, porém uma boa parte da comunidade acadêmica vinha de ambas as costas e procurava manter seus hábitos. Não foi necessário muito tempo de uso nos clubes de campo para que Ann Klein II se tornasse uma marca procurada, mesmo nas montanhas Rochosas.

Ann entrou na loja. A proprietária sabia que se tratava de uma cliente fácil de vestir. O manequim 42 lhe caía perfeitamente, e Ann só expe-rimentava as roupas para ver como ficavam. Nunca precisava fazer ajus­tes ou alterações, o que facilitava a vida de todos e permitia que a proprietária lhe concedesse um desconto de 5 por cento em tudo que comprava. Além disso, a cliente costumava gastar um bom dinheiro, nunca menos de 200 dólares por visita. Ela vinha regularmente, a ca­da seis semanas. A proprietária não sabia exatamente qual era a profissão da freguesa, mas ela agia como uma médica. Era muito precisa e cuidadosa em relação a todos os detalhes. Estranhamente, pagava em espécie, o que se constituía em mais um motivo para o desconto no preço, pois as companhias de cartões de crédito sempre retinham uma percentagem em troca da garantia de pagamento. Isso devolvia os 5 por cento à proprietária, e mais um pequeno lucro. Era uma pe­na, pensou ela, que todos os clientes não fossem assim. Ann tinha olhos de um castanho límpido, e cabelos da mesma cor levemente ondula­dos, que lhe chegavam até os ombros. Era meio baixa e magra, e seus movimentos eram firmes e precisos. Outra coisa que chamava a aten­ção era o fato de que nunca usava qualquer tipo de perfume, motivo pelo qual a proprietária acreditava que a cliente era médica. Isso e as horas que escolhia para visitar a loja ¯ nunca vinha nas horas de mo­vimento, como se não tivesse patrão e controlasse os próprios horá-rios. A profissão de médica encaixava-se perfeitamente com esses fatos, e isso agradava à proprietária.

Ela escolheu uma combinação de saia e blusa, saindo em direção aos provadores no fundo da loja. Embora a proprietária não se desse conta, a cliente utilizava sempre o mesmo cubículo. No interior, Ann abriu o zíper da saia e desabotoou a blusa, porém antes de vestir as roupas novas enfiou a mão sob o banco de madeira maciça onde se podia sentar e extraiu de lá um magazine de microfilme, colocado ali na noite anterior com fita adesiva. Guardou-o na bolsa. A seguir ves­tiu o novo conjunto, saindo depois para admirar-se nos espelhos.

Como é que as mulheres americanas conseguem usar esse lixo?, pergun­tou Tânia Bisyarina à própria imagem sorridente no espelho. Tinha o posto de capitão no Departamento S do Primeiro Diretório da KGB, também conhecido como "Estrangeiro", respondia perante o Depar-tamento T, que cuidava da espionagem científica, e trabalhava em coo­peração com a Comissão Estatal de Ciência e Tecnologia. A exemplo de Edward Foley, ela "dirigia" um único agente, o de codinome Livia.

O preço do conjunto era de 273 dólares, e Bisyarina pagou em di­nheiro. Disse a si mesma que precisava lembrar-se de usar aquela roupa quando viesse da próxima vez, mesmo que ficasse um lixo.

¯ Até breve, Ann ¯ despediu-se a dona da loja.

Esse era o único nome pelo qual era conhecida em Santa Fé. Tânia voltou-se e acenou em resposta. A proprietária era uma mulher agra­dável, em toda a sua estupidez. Como qualquer bom agente de infor­mações, a soviética tinha uma aparência comum e agia normalmente. No contexto daquela região, aquilo implicava vestir-se de forma mo­deradamente requintada, dirigir um carro decente mas não extrava­gante e viver num estilo que aparentava conforto sem ostentação. Sob esse aspecto, a América se constituía num objetivo fácil. Se a pessoa tivesse o estilo de vida apropriado, ninguém questionava sua origem. O ato de atravessar a fronteira tinha sido um exercício quase cômico. Havia passado um longo tempo preparando seus documentos e deco­rando sua "história pessoal", e tudo o que a Patrulha de Fronteira fizera fora deixar que um cachorro farejasse o carro à procura de dro­gas ¯ ela havia entrado através da fronteira mexicana em El Paso ¯ e com um sorriso dera o sinal para que atravessasse. E por isso ¯ ela sorriu interiormente, já passados oito meses do acontecido ¯ fiquei toda excitada.

Levou quarenta minutos para chegar em casa, verificando como sem­pre se ninguém a seguia, e uma vez lá revelou o filme e tirou cópias; não exatamente da maneira de Foley, mas de forma muito parecida. Nesse caso, ela obteve fotografias de documentos verdadeiros do go­verno. Colocou a tira revelada num pequeno projetor e focalizou a imagem na parede branca de seu quarto. Bisyarina tivera uma formação técnica, um dos motivos de sua missão atual, e tinha idéia de como avaliar o material recebido. Teve certeza de que seus superiores ficariam muito contentes com as informações.

Na manhã seguinte ela fez a entrega, e as fotografias viajaram atra­vés da fronteira do México numa carreta pertencente a uma compa­nhia de transportes pesados com sede em Austin. Estavam entregando maquinaria de perfuração de petróleo. Por volta do fim do dia, as fotografias estariam na embaixada soviética na Cidade do México. No dia seguinte, chegariam a Cuba, onde seriam colocadas a bordo de um avião da Aeroflot diretamente para Moscou.

 

Catalisadores

¯ Então, coronel, qual é sua avaliação? ¯ perguntou Filitov.

¯  Camarada, Estrela Brilhante pode ser o programa mais impor­tante na União Soviética ¯ afirmou Bondarenko com convicção. En­tregou quarenta páginas escritas à mão. ¯ Aqui está o primeiro esboço do meu relatório, que escrevi no avião. Terei uma cópia datilografada corretamente hoje, mas achei que o senhor...

¯  Agiu bem. Soube que realizaram um teste...

¯  Foi há trinta e seis horas. Assisti ao teste e me foi permitido ins­pecionar grande parte do equipamento antes e depois. Fiquei profun­damente impressionado com as instalações e as pessoas que as dirigem. Se me for permitido um comentário, o general Pokryshkin é um exce­lente oficial, e o homem ideal para o posto que ocupa. Decididamente ele não parece um militar de carreira, mas um oficial progressista da melhor qualidade. Lidar com aqueles acadêmicos no alto da monta­nha não é uma tarefa fácil.

Misha concordou com um grunhido.

¯  Sei tudo sobre acadêmicos. Está me dizendo que eles os organi­zou como uma unidade militar?

¯  Não, camarada coronel, mas Pokryshkin aprendeu como mantê-los relativamente felizes e produtivos ao mesmo tempo. Existe um cer­to... senso de missão em Estrela Brilhante que raramente encontra­mos, mesmo entre os militares. Não digo isso levianamente, Mikhail Semyonovich. Fiquei impressionado com todos os aspectos da opera­ção. Talvez aconteça o mesmo nas instalações de programas espaciais.

 

Pelo menos foi o que ouvi falar, mas, como nunca estive em nenhuma delas, não posso tecer comparações.

¯  E quanto aos sistemas?

¯  Estrela Brilhante ainda não é uma arma. Persistem certas dificuldades técnicas. Pokryshkin as identificou e explicou-as a mim com detalhes. Por enquanto ainda não passam de um programa em fase experimental, porém os avanços importantes já foram obtidos. Den­tro de mais alguns anos será uma arma de grande potencial.

¯  E quanto ao custo? ¯ indagou Misha, provocando um encolher de ombros.

¯  Impossível avaliar. Irá custar muito no total, porém a parte mais cara do programa, relativa à pesquisa e desenvolvimento, está em gran­de parte completa. Os custos reais de produção e engenharia devem ser menores do que se poderia esperar, quero dizer, da arma em si. Não posso avaliar os custos do equipamento de apoio, os radares e sa­télites de vigilância. De qualquer modo, isso não fazia parte da minha missão. ¯ Como os militares em qualquer parte do mundo, o coronel pensava em termos de missão, e não de orçamento.

¯  E quanto à confiabilidade do sistema?

¯  Isso será um problema, mas possível de manejar. Os geradores de laser, individualmente, são complexos e difíceis de manter. Por ou­tro lado, se forem construídos em maior número do que o sistema real­mente utiliza, poderíamos facilmente realizar um programa de manutenção alternada, de maneira a termos sempre o número necessário em linha. Na verdade, foi esse o método proposto pelo engenheiro-chefe do projeto.

¯  Isso quer dizer que eles resolveram o problema da potência de saída?

¯  Meu esboço descreve genericamente esse ponto. O relatório final será mais especifico.

¯  Em termos que até eu possa entender? ¯ perguntou Misha, permitindo-se um sorriso.

¯  Camarada coronel, sei que possui um conhecimento maior de assuntos técnicos do que demonstra ¯ respondeu Bondarenko, sério. ¯ Os aspectos importantes de nosso avanço na potência aplicada são na verdade teoricamente simples. Os detalhes de engenharia envolvi­dos podem ser bastante complexos, mas são facilmente confirmados através de um novo projeto do dispositivo gerador de laser. A exem­plo da primeira bomba atômica, uma vez que a teoria foi estabelecida, a construção pôde ser realizada.

Excelente! Pode terminar seu relatório até amanhã?

 

¯  Sim, camarada coronel.

Misha levantou-se e Bondarenko fez o mesmo.

¯  Pretendo ler seu relatório preliminar esta tarde. Traga-me o do­cumento final até amanhã, e vou estudá-lo durante o fim de semana. Na semana que vem vamos apresentá-lo ao ministro.

Os caminhos de Alá certamente são misteriosos, pensou o Arquei­ro. Por mais que desejasse abater um avião de transporte soviético, tudo o que deveria fazer no momento era retornar ao seu lar, a cidade ribeirinha de Ghazni. Havia apenas uma semana que deixara o Pa­quistão. Uma tempestade local mantivera as aeronaves soviéticas em terra nos últimos dias, permitindo que viajasse rapidamente. Chegara com o novo carregamento de mísseis e encontrara seu líder planejan­do um ataque ao aeroporto retirado da cidade. O inverno era incle­mente com todos, e os infiéis haviam deixado os postos avançados de sentinela para os soldados afegães a serviço do governo traidor em Ka-bul. O que ignoravam, entretanto, era que o major comandante do batalhão que patrulhava o perímetro externo no campo trabalhava pa­ra os mudjahidin. Quando chegasse a hora, uma parte estaria desguar­necida, permitindo que trezentos guerrilheiros atacassem diretamente o acampamento soviético.

Seria uma grande ataque. Os guerreiros da liberdade estavam organizados em três companhias de cem homens cada uma. Todos iriam atacar; o líder compreendia perfeitamente a necessidade de uma re­serva tática, porém tinha uma grande área a cobrir com poucos ho­mens. Representava um risco, mas seus homens vinham aceitando riscos como esse desde 1980. O que importava mais um? Como de hábito, o líder estaria no local de maior perigo, e o Arqueiro ficaria bem próximo. Iriam dirigir-se para o aeroporto pelo lado a favor do vento. Os soviéticos tentariam decolar com suas aeronaves ao menor sinal de perigo, tanto para retirá-los da área de perigo, como para pro­videnciar apoio defensivo. O Arqueiro avistou através dos binóculos quatro helicópteros MI-24, todos equipados com armamentos penden­tes das asas curtas de suporte. Os mudjahidin só possuíam um lança­dor de morteiros capaz de atingi-los no chão, e por esse motivo o Arqueiro ficaria um pouco atrás da onda de assalto para fornecer apoio. Não havia tempo para montar sua armadilha habitual, porém à noite isso não era importante.

Cem metros à frente dos outros, o líder dos guerrilheiros encontrou-se no local combinado com o major do Exército afegão. Abraçaram-se e louvaram o nome de Alá. O filho pródigo retornara ao rebanho islâmico. O major informou que dois dos comandantes em sua companhia prontificavam-se a agir conforme o planejado, porém o coman­dante da Companhia Três permanecia fiel aos soviéticos. Um sargen­to de confiança mataria esse oficial em poucos minutos, permitindo que o setor fosse usado para a fuga. Ao redor deles, os homens aguardavam no vento cortante. Quando o sargento tivesse cumprido sua mis-são, devia disparar um foguete de iluminação.

O capitão soviético e o tenente afegão eram amigos, o que surpreendia a ambos nos momentos de reflexão. Uma das coisas que ajudava era que o oficial soviético fazia um esforço real no sentido de respeitar os hábitos dos moradores locais, e seu companheiro afegão acreditava que o marxismo-leninismo era o caminho do futuro. Qualquer coisa seria melhor do que as rivalidades e vendetas tribais que caracteriza-ram seu povo infeliz durante todo o período histórico do qual tinha lembrança. Reconhecido há algum tempo como receptivo a conversas ideológicas, fora levado para a União Soviética, onde lhe mostraram como a vida era boa ¯ comparada ao Afeganistão ¯, especialmente nos serviços de saúde pública. O pai do tenente morrera, quinze anos antes, de infecção proveniente de um braço quebrado, e, como ele não gozava da simpatia do chefe local, seu filho único não tivera uma ado­lescência muito agradável.

Juntos, os dois homens examinavam um mapa, decidindo quais se-riam as atividades das patrulhas na semana seguinte. Precisavam guar-dar constantemente a área contra ataques dos bandidos mudjahidin. Naquele dia, as patrulhas estavam a cargo da Companhia Dois.

Um sargento entrou na casamata com um formulário. Seu rosto não demonstrou a surpresa que sentiu ao encontrar dois oficiais em vez de um. Passou o envelope ao tenente afegão com a mão esquerda. Na palma da mão direita estava a empunhadura de uma faca, escondida verticalmente na manga larga de sua túnica em estilo russo. Tentou permanecer impassível enquanto o capitão soviético olhava para ele e ficou observando o oficiai cuja morte era sua responsabilidade. Fi­nalmente, o soviético desviou o olhar para a estreita abertura de tiro da casamata. Quase como uma deixa, o tenente afegão jogou a mensagem sobre a mesa de mapas, delineando sua resposta.

O soviético voltou-se abruptamente. Algo o alertara, e ele soube que alguma coisa não estava correndo bem antes que tivesse tempo de determinar exatamente o quê. Viu o braço do sargento subir num rápido movimento ascendente em direção à garganta de seu amigo. O capitão soviético mergulhou na direção de seu fuzil, enquanto o tenente recuava para evitar o primeiro golpe. Só teve sucesso porque a faca do sargento prendeu-se na longa manga da túnica. Soltando uma imprecação, ele liberou a lâmina e projetou-a para a frente, atingindo seu alvo na altura do abdômen. O tenente gritou, mas conseguiu agarrar o braço do sargento antes que a faca atingisse seus órgãos vitais. Os rostos dos dois homens estavam próximos o suficiente para que cada um sentisse o hálito do outro. A face de um parecia muito chocada para sentir medo, e a do outro expressava raiva. No final, a vida do tenente foi salva pelo tecido largo da manga, enquanto o soviético li­berava a trava de segurança do seu fuzil e disparava dez projéteis no flanco do assassino. O sargento caiu sem um gemido. O tenente levou a mão ensangüentada aos olhos. O capitão gritou, dando o alarme.

O ruído seco e metálico dos disparos do Kalashnikov percorreu os 400 metros até o local onde os mudjahidin aguardavam. O mesmo pen­samento passou pela mente de todos: o piano fora por água abaixo. Infelizmente, não havia alternativas para o plano original. Do lado es­querdo, as posições da Companhia Três iluminaram-se subitamente com as chamas saídas do cano das armas. Disparavam no vazio ¯ não havia nenhum guerrilheiro lá ¯, porém o ruído certamente colocaria de sobreaviso as posições soviéticas a 300 metros dali. O líder man­dou que os guerrilheiros avançassem assim mesmo, apoiados por apro­ximadamente duzentos soldados do Exército afegão, para quem a mudança de lado tinha vindo como um verdadeiro alívio. Os comba­tentes adicionais não fizeram tanta diferença quanto se poderia espe­rar, pois os novos mudjahidin não tinham armamento pesado, à exceção de algumas metralhadoras antigas, e o único morteiro do líder era de montagem lenta.

O Arqueiro xingou ao ver as luzes se apagando no campo de pouso, a 3 quilômetros de distância. Foram substituídas pelos irrequietos pon­tos lun^iosos dos faroletes que as tripulações levavam ao correr na direção das aeronaves. Um momento depois, foguetes de iluminação foram disparados, transformando a noite em dia no campo abaixo. O vento forte que soprava de sudeste carregava rapidamente para longe os pequenos pára-quedas dos foguetes, porém os dispositivos lumino­sos continuavam sendo disparados. Não havia nada que o Arqueiro pudesse fazer, a não ser ativar o lançador de mísseis e esperar. De on­de estava podia avistar os helicópteros... e o grande transportador An-6. Com a mão esquerda empunhou os binóculos e examinou o avião bi­motor de asas altas, parado ali, como um grande pássaro sem prote­ção adormecido no ninho. Várias pessoas corriam a toda velocidade na direção do aparelho. Virou as lentes para a área reservada aos heli­cópteros.

Enquanto um helicóptero Mi-24 decolava primeiro, lutando contra o ar rarefeito e o vento forte para ganhar altitude, os projéteis do mor­teiro começaram a atingir o interior do perímetro do aeroporto. Uma carga incendiaria de fósforo caiu a poucos metros de outro Hind, sua luz branca e Cante ateando fogo ao combustível do Mi-24, fazendo com que a tripulação saltasse, um dos homens em chamas. Mal ti­nham chegado a uma distância segura quando o helicóptero explo­diu, levando outro Hind com ele. O último aparelho levantou vôo pouco depois, balançando para trás e desaparecendo na noite escura, com as luzes apagadas. Ambos retornariam ¯ o Arqueiro tinha certe­za ¯, porém os homens conseguiram eliminar dois ainda no chão, o que ia além de sua expectativa.

Notou que todo o resto corria mal. Cargas de morteiro caíam em frente às tropas de assalto. Viu as chamas provenientes do cano das armas e dos explosivos. Acima dos ruídos veio outro som do campo de batalha: os gritos de guerra dos combatentes e os lamentos dos feri­dos. A essa distância era difícil distinguir os soviéticos dos afegães. Mas não era um assunto que o preocupasse.

O Arqueiro não precisava pedir a Abdul que perscrutasse os céus à procura dos helicópteros. Tentou usar o lançador de mísseis para localizar o calor invisível das turbinas. Não encontrando nada, voltou os olhos para a única aeronave que ainda podia ver. Cargas de mortei­ros explodiam agora ao redor do An-26, mas a tripulação já acionara os motores. Dentro de instantes começou a perceber um movimento lateral do aparelho. O Arqueiro fez uma avaliação do vento e concluiu que o avião de transporte tentaria decolar contra o vento e depois faria uma volta para a esquerda, na direção da área mais segura do aero­porto. Não seria fácil decolar naquele ar rarefeito, e quando o piloto fizesse a curva iria diminuir o poder de sustentação das asas à procura de velocidade. O Arqueiro bateu no ombro de Abdul e começou a cor­rer para a esquerda. Quando parou para olhar novamente, o avião so­viético havia percorrido 100 metros. Agora a aeronave se movia entre nuvens de poeira mais escura, balançando fortemente ao acelerar, em virtude do solo desigual e congelado.

O Arqueiro pôs-se de pé para dar ao míssil uma visão melhor do alvo, e imediatamente o rastreador sinalizou, ao "avistar" os motores aquecidos contra a noite fria e sem lua.

¯ U-Um! ¯ gritou o co-piloto acima dos ruídos dos motores e da batalha. Seus olhos estavam presos aos instrumentos enquanto o pilo­to lutava para manter firme o avião. ¯ V-R... rotação!

O piloto afrouxou a pressão no manche. O nariz se ergueu, e o An-26 bateu pela última vez na pista desigual e dura. O co-piloto imediatamente retraiu os trens de pouso para reduzir a resistência do ar, per­mitindo que a aeronave subisse mais depressa. O piloto realizou uma pequena curva para a direita, tentando evitar o que parecia ser uma maior concentração de fogo inimigo. Uma vez fora de perigo, tomaria o rumo norte para Kabul e a segurança. Atrás dele, o navegador não examinava as cartas. Em vez disso, lançava foguetes de iluminação pro­vidos de pára-quedas a cada cinco segundos. Não se destinavam a au­xiliar as tropas terrestres e sim a enganar os mísseis lançados de terra. O manual dizia para lançá-los a cada cinco segundos.

O Arqueiro mediu cuidadosamente os intervalos entre os foguetes de iluminação. Podia perfeitamente escutar a mudança de tom no si­nal emitido pelo rastreador quando eles caíam pela porta do compar-timento de carga ao lado direito do avião e se incendiavam. Se quisesse atingir o alvo, precisava apontar diretamente para o motor esquerdo e calcular a hora do disparo com precisão. Mentalmente já havia me­dido o ponto de maior aproximação, cerca de 900 metros, e um pouco antes do local estimado mais um foguete foi lançado. Um segundo mais tarde o tom do rastreador voltou ao normal, e ele apertou o gatilho.

Como sempre, sentiu um prazer quase sexual quando o lançador recuou em suas mãos. Os sons de batalha ao redor desapareceram en­quanto o Arqueiro se concentrava na pequena chama amarela que aumentava de velocidade.

O navegador acabara de soltar mais um foguete quando o Stinger atingiu o motor esquerdo. Seu primeiro pensamento foi de ultraje: o manual estava errado! O engenheiro de vôo não tinha tais pensamen­tos. Automaticamente acionou o botão de emergência que desligava a turbina número um. Esse procedimento cortava o abastecimento de combustível, desligava a eletricidade, fazia com que a hélice girasse solta, e acionava os extintores de incêndio. O piloto pressionou o pe-dal de leme para compensar o balanço produzido pela perda de po­tência a bombordo e abaixou o nariz. Era uma manobra arriscada, mas precisava escolher entre velocidade e altitude, e decidiu que pre­cisava acima de tudo de velocidade. O engenheiro avisou que o tan-que esquerdo de combustível estava furado, mas Kabul ficava a apenas 100 quilômetros de distância. O que ouviu a seguir foi muito pior:

 

¯  Luz de alerta de incêndio no número um!

¯  Acione os extintores.

¯  Já acionei! Despejou tudo. O piloto resistiu à tentação de olhar para o lado. Estavam apenas

a uma centena de metros do chão, e não podia deixar que nada inter­ferisse em sua concentração. Sua visão periférica captou uma língua de fogo amarelo-alaranjada, mas forçou os olhos a se dirigirem do ho­rizonte para o medidor de velocidade do ar, para o altímetro e de volta ao horizonte.

¯  Perdendo altitude ¯ anunciou o co-piloto.

¯  Inclinar os flaps mais 10 graus ¯ ordenou o piloto, consideran­do que tinha velocidade suficiente para arriscar a manobra. O co-piloto abaixou-se para cumprir a ordem e assim fazendo condenou a aerona­ve e seus passageiros.

A explosão do míssil danificara a tubulação hidráulica de comando dos flaps do lado esquerdo. O aumento de pressão necessária para mu­dar a inclinação arrebentou os dois tubos, e o flap da asa esquerda retraiu-se de uma vez, sem aviso. A perda de sustentação de apenas um dos lados quase fez com que a aeronave girasse no ar, porém o piloto percebeu e conseguiu nivelar. Muitas coisas erradas aconteciam ao mesmo tempo. O Antonov começou a perder altitude, e o piloto gritou, pedindo mais potência, sabendo que o motor do lado direito já estava em seu limite. Rezou para que pudesse ainda salvar seu avião, porém mantê-lo nivelado era praticamente impossível, e perdiam alti­tude rapidamente no ar rarefeito. Precisava aterrissar. No último mo­mento, o piloto acendeu as luzes, à procura de um lugar plano. Avistou apenas um campo repleto de rochas, e usou sua última reserva de con­trole para apontar a aeronave em queda para um espaço entre as duas maiores. Um segundo antes que o avião atingisse o chão, ele soltou uma imprecação, não de desespero, mas de pura raiva.

Por um instante o Arqueiro pensou que a aeronave pudesse escapar. A luz produzida pelo míssil não dava margem a enganos, mas por vá­rios segundos nada aconteceu. A seguir veio a língua de fogo anun­ciando que o alvo fora fatalmente atingido. Trinta segundos depois, houve uma explosão no solo, talvez a 10 quilômetros de distância, não muito longe da rota planejada de fuga. Seria capaz de observar o que havia feito antes do amanhecer. No momento voltou-se novamente para o céu escuro, ouvindo o ruído desigual de um helicóptero acima de sua cabeça. Abdul já havia retirado o tubo de lançamento utilizado e prendera a unidade de rastreamento e aquisição de alvo a um novo tubo, tudo com uma velocidade que encheria de orgulho um soldado treinado. Passou o conjunto ao companheiro, e o Arqueiro começou a procurar o novo alvo na escuridão acima.

Embora ainda não soubesse, o ataque em Ghazni estava se desman­telando. A Companhia Três do Exército afegão ainda atirava no vazio, e o oficial soviético presente não conseguia fazer com que as coisas corressem bem. O comandante soviético reagira instantaneamente ao som do fogo inimigo e colocara seus homens em posição ao cabo de dois minutos de confusão. Os afegães agora enfrentavam um batalhão completo e alerta de tropas regulares, apoiados por armas pesadas e abrigados em casamatas. Disparos intimidatórios de metralhadoras con­servaram a frente de ataque a 200 metros das posições soviéticas. O líder dos guerrilheiros e o major afegão que aderira tentaram avançar dando o exemplo pessoal. Um feroz grito de guerra ecoou por toda a linha atacante, porém o líder ficou exposto diretamente a uma raja­da de projéteis que o imobilizaram por quase um segundo antes de atirá-lo longe, parecendo um brinquedo de criança. Como geralmen­te acontece com tropas primitivas, a perda do comandante atingiu o moral dos atacantes. A noticia se espalhou entre os homens, antes mes­mo que os lideres das unidades recebessem o aviso por rádio. Os mud-jahidin se desarticularam, disparando a esmo suas armas enquanto se retiravam. O comandante soviético percebeu o que estava acontecen­do, mas não ordenou a perseguição dos fugitivos. Tinha helicópteros para fazer isso.

O Arqueiro percebeu que alguma coisa estava errada quando os mor­teiros russos começar a atirar foguetes de iluminação num lugar di­ferente. Um helicóptero disparava foguetes e suas metralhadoras sobre os guerrilheiros, porém não conseguia manter a pontaria sobre o alvo. A seguir ouviu os gritos de seus camaradas. Não os berros excitados de incentivo ao ataque, mas os gemidos de alerta dos homens em reti-rada. Abaixou-se e concentrou-se em sua arma, consciente de que agora seus serviços seriam mais necessários do que nunca. O Arqueiro man­dou que Abdul encaixasse sua unidade rastreadora de reserva em ou­tro tubo lançador. O jovem fez em menos de um minuto o que lhe fora ordenado.

¯  Lá! ¯ disse Abdul. ¯ Do lado direito.

¯  Estou vendo.

Uma série de clarões lineares apareceu no céu. O Hind disparava seus foguetes. Apontou o lançador para o local e foi recompensado com o sinal de aquisição do alvo. Não sabia exatamente a distância ¯ é muito difícil julgar distâncias à noite ¯, porém resolveu arriscar. O Arqueiro aguardou até que o som se estabilizasse, e disparou o se­gundo Stinger da noite.

O piloto do Hind avistou o lançamento. Estivera pairando uma cen­tena de metros acima dos foguetes de iluminação que desciam de pára-quedas, e puxou seu controle para mergulhar entre eles. Funcionou. O míssil perdeu o alvo inicial e atingiu diretamente um dos foguetes incandescentes, errando o helicóptero por apenas 30 metros. O piloto imediatamente girou o aparelho e ordenou ao artilheiro que disparas­se uma salva de dez foguetes na direção da qual viera o míssil.

O Arqueiro deixou-se cair no chão atrás do rochedo que escolhera como abrigo. Os foguetes caíram a uma centena de metros de sua po­sição. Então desta vez a luta era de homem para homem... e esse pilo-to parecia muito habilidoso. Apanhou o segundo lançador. O Arqueiro sempre rezava por uma situação como essa.

Mas o helicóptero tinha desaparecido agora. Onde estaria?

O piloto virará o Hind a favor do vento, utilizando essa manobra, como lhe fora ensinado, para encobrir o ruído do motor. Pediu pelo rádio que fossem atirados mais foguetes de iluminação desse lado do aeroporto e foi atendido quase imediatamente. Os soviéticos faziam de tudo para apanhar um lançador de mísseis. Enquanto o outro heli­cóptero no ar atacava os mudjahidin em retirada, este concentraria seus esforços sobre o atirador de SAM. A despeito do perigo envolvido, era uma missão que o piloto desejava acima de tudo. Os lançadores de mísseis constituíam-se em seus inimigos pessoais. Conservou o apa­relho fora do alcance conhecido dos Stinger e aguardou que os fogue­tes iluminassem o terreno baixo.

O Arqueiro usava novamente a unidade rastreadora para tentar lo­calizar o inimigo. Não era uma forma muito eficiente de busca, po­rém o Mi-24 devia estar em algum lugar do arco que seu conhecimento das táticas soviéticas podia prever com facilidade. Em duas oportuni­dades obteve um breve sinal sonoro, à medida que o helicóptero dan­çava para a esquerda e para a direita, alterando também a altitude, num esforço consciente para tornar impossível a tarefa do Arqueiro. Esse era um inimigo experiente, disse para si mesmo o guerrilheiro. Sua morte seria mais do que satisfatória. Clarões pontilhavam o céu acima, porém ele sabia que a luminosidade desigual produziria con­dições ruins de visibilidade enquanto ele ficasse imóvel.

¯  Estou vendo um movimento ¯ informou o artilheiro. ¯ Posi­ção: dez horas.

¯  É o lugar errado ¯ afirmou o piloto.

 

Moveu o controle para a direita e deslizou horizontalmente enquan­to seus olhos perscrutavam o solo rochoso. Os soviéticos haviam cap­turado vários Stinger americanos e os testaram exaustivamente com o fim de determinar sua velocidade, alcance e sensibilidade. O piloto calculou que estava pelo menos 300 metros além do raio de ação do míssil, e, se mais algum fosse disparado, ele poderia utilizar a esteira de fumaça para localizar o alvo, depois apressar-se a atingi-lo antes que disparasse novamente.

¯  Apanhe um foguete de fumaça ¯ disse o Arqueiro.

Abdul só tinha um deles. Tratava-se de um dispositivo de plástico com aletas, pouco mais do que um brinquedo. Fora desenvolvido pa­ra o treinamento de pilotos da Força Aérea americana, para simular a sensação ¯ o terror ¯ de sentir-se sob o fogo de mísseis. Ao custo de 6 dólares, tudo o que o pequeno artefato podia fazer era voar em linha reta por alguns segundos, desprendendo um rastro fino de fu­maça. Tinham sido fornecidos aos mudjahidin meramente para assus-tar os pilotos soviéticos quando os SAM acabassem, porém o Arqueiro encontrara um uso real para eles. Abdul correu aproximadamente 100 metros e fixou no terreno o lançador simples, feito de arame de aço. Voltou depois para o lado de seu companheiro, estendendo atrás o fio que acionaria o mecanismo.

¯  Agora, russo, onde está você? ¯ perguntou o Arqueiro à noite.

¯  Tem alguma coisa na frente. Tenho certeza de que alguma coisa se moveu ¯ disse o artilheiro.

¯  Vamos ver. ¯ O piloto ativou seus próprios controles e disparou dois foguetes, que atingiram o solo a 2 quilômetros de distância, bem à direita do Arqueiro.

¯  Agora! ¯ gritou o Arqueiro. Avistara o ponto de onde o soviéti­co lançara, e apontara o lançador. O receptor infravermelho começou a sinalizar.

O piloto apavorou-se quando viu a chama rápida de um foguete, mas antes que realizasse qualquer manobra percebeu que não iria atingi-lo. Tinha sido lançado próximo ao ponto onde ele disparara mo­mentos antes.

¯  Peguei você! ¯ gritou do interior da cabine. O artilheiro come­çou a disparar na direção do local com a metralhadora.

O Arqueiro viu as balas traçadoras e escutou os projéteis batendo contra a rocha, à direita. Agora, sim! Sua pontaria era quase perfeita. Usando suas próprias armas, o Hind deu ao Arqueiro uma mira per­feita. E o terceiro Stinger foi lançado.

¯  Dois deles! ¯ gritou o artilheiro pelo intercomunicador.

 

O piloto já estava mergulhando e desviando, mas desta vez não ha­via nenhum foguete de iluminação por perto. O Stinger explodiu con­tra uma das lâminas dos rotores, e o helicóptero caiu como uma pedra. O piloto conseguiu ainda retardar a velocidade da queda, mas mesmo assim bateu no chão com muita força. Miraculosamente, não houve fogo. Um momento depois apareceram homens armados à sua janela. O piloto percebeu que um deles era um capitão soviético.

¯  Está bem, camarada?

¯  Minhas costas... ¯ gemeu o piloto.

O Arqueiro já se movia. Havia abusado o suficiente da boa vontade de Alá por uma noite. Os dois lançadores deixaram para trás os tubos vazios e correram a se juntar aos guerrilheiros em retirada. Se os sol­dados soviéticos os tivessem perseguido, poderiam tê-los alcançado. Mas, em vez disso, o comandante ordenou que ficassem onde esta-vam, e o único helicóptero sobrevivente contentou-se em circular so­bre o perímetro do aeroporto. Meia hora depois, o Arqueiro soube que o líder morrera. A claridade do dia traria as aeronaves soviéticas para apanhá-los no aberto, e os guerrilheiros precisavam atingir logo a proteção dos campos rochosos. Porém ainda havia mais uma coisa a fazer. O Arqueiro partiu com Abdul e mais três homens para encon­trar os destroços do Antonov abatido. O preço dos mísseis Stinger era a inspeção de cada aeronave derrubada, para procurar equipamentos que pudessem interessar à CIA.

O coronel Filitov terminou suas anotações no diário. Como Bondaren-ko dissera, seus conhecimentos sobre assuntos técnicos eram muito mais amplos do que se poderia suspeitar ao examinar suas credenciais acadê-micas. Depois de quarenta anos nos altos escalões do Ministério da De­fesa, Misha tornara-se um autodidata em assuntos técnicos que iam desde trajes de proteção contra gases até equipamentos de comunicação em có-digo, e... geradores de laser. O que eqüivale a dizer que ele não compre-endia a teoria tanto quanto desejava, mas podia descrever o equipamento em si tão bem quanto os engenheiros que o haviam montado. Levou qua-tro horas para transcrever tudo em seu diário. Aqueles dados precisavam ser enviados. As implicações eram por demais assustadoras.

O problema com o sistema de defesa estratégica era que nenhuma arma fora considerada "ofensiva" ou "defensiva" por si só. A natu­reza de qualquer arma, como a beleza de qualquer mulher, residia nos olhos de quem a contemplava ¯ ou na direção para a qual estava apon-tada ¯, e através da história o sucesso militar era determinado pelo equilíbrio de elementos ofensivos e defensivos.

 

A estratégia nuclear soviética, disse Misha a si mesmo, fazia mais sentido do que a do Ocidente. Os estrategistas soviéticos não conside­ravam a guerra nuclear inimaginável. Aprenderam a ser pragmáticos: o problema, ainda que complexo, possuía uma solução ¯ mesmo que não fosse perfeita ¯, e, ao contrário de muitos pensadores ocidentais, partiam do princípio de que viviam num mundo imperfeito. A estra­tégia soviética mudara muito desde a Crise dos Mísseis em Cuba, em 1962 ¯ o evento matara o homem que recrutara Filitov, o coronel Oleg Penkovsky ¯, e estava baseada numa simples frase: "Limitação de Danos". O problema não residia em destruir o inimigo com armas nucleares. Quando se tratava de armas nucleares, era mais uma ques­tão de não destruir tanto, eliminando todos que poderiam negociar a fase de "término da guerra". O problema que ocupava as mentes so­viéticas era o de impedir que armas nucleares inimigas destruíssem a União Soviética. Com vinte milhões de mortos em cada uma das duas guerras mundiais, os soviéticos já haviam provado destruição suficiente e não desejavam mais.

Tal tarefa não era considerada fácil, mas a razão de sua necessidade era tanto política quanto técnica. O marxismo-leninismo apresenta a História como um processo: não mera coleção de fatos passados, mas uma expressão científica da evolução social do homem, que irá ¯ pre­cisará ¯ culminar no reconhecimento coletivo da humanidade de que o marxismo-leninismo é a forma ideal para toda a sociedade humana. Um marxista convicto acreditava na total supremacia do seu credo com tanta fé quanto cristãos, judeus e muçulmanos acreditavam na vida após a morte. Da mesma maneira que as comunidades religiosas atra­vés da História demonstraram sua vontade de espalhar suas boas no­vas com ferro e fogo, também era dever do marxista tornar realidade sua visão, da maneira mais rápida possível.

A dificuldade do caso, claro, se constituía em que nem todos no mun­do partilhavam da mesma visão histórica que o marxismo-leninismo. A doutrina comunista atribuía esse distanciamento às forças reacioná­rias do imperialismo, do capitalismo, da burguesia, e de todo o seu panteão de inimigos, cuja resistência era previsível, mas cujas táticas não eram. Como um jogador cuja mesa de jogo estivesse "prepara­da", os comunistas "sabiam" que iriam ganhar, mas, também como um jogador, nos piores momentos admitiam relutantemente que a sorte ¯ ou mais cientificamente o acaso ¯ poderia alterar sua equação. Na ausência de uma visão mais científica, as democracias ocidentais tam­bém não possuíam senso comum, o que as tornava imprevisíveis.

Mais do que qualquer outro motivo, era por isso que o Leste temia o Oeste. Desde que Lênin assumira o controle ¯ e alterara o nome ¯  da União Soviética, o governo comunista havia investido milhões de dólares na espionagem do Oeste. E com todos os meios de infor­mações, seu propósito mais importante era poder prever o que o Oes­te poderia fazer, e o que faria.

Mas, a despeito de inúmeros sucessos táticos, o problema funda­mental prevalecia: vez por outra, o governo soviético interpretara mal algumas ações e intenções ocidentais; e na idade nuclear a imprevisi-bilidade podia significar que um líder americano desequilibrado, in­glês ou francês em menor proporção, poderia decretar o fim da União Soviética ou o adiamento do socialismo mundial por várias gerações

¯ para um soviético, a última alternativa era mais grave, uma vez que nenhum russo autêntico queria ver o mundo levado ao socialismo sob a liderança chinesa. O arsenal nuclear ocidental era a maior ameaça ao marxismo-leninismo; anular esse arsenal era a maior tarefa dos mi­litares soviéticos. Contudo, ao contrário do Ocidente, os soviéticos não enxergavam a prevenção desse arsenal como a simples prevenção da guerra. Desde que os soviéticos viam o Ocidente como politicamente imprevisível, sentiam que não podiam satisfazer-se em impedir o seu uso. Precisavam ser capazes de eliminar, ou pelo menos degradar, o arsenal ocidental se uma crise ameaçasse avançar além das meras pa­lavras.

O arsenal nuclear soviético era concebido precisamente com essa ta­refa em vista. Aniquilar cidades e seus milhões de habitantes seria sem­pre um simples exercício. Destruir os mísseis que os inimigos possuíam não era. Anular mísseis americanos tinha significado o desenvolvimento de gerações de foguetes de alta precisão ¯ e de alto custo ¯ como os SS-18, cuja única missão era reduzir a pó os esquadrões de mísseis americanos Minuteman, bem como os submarinos e bases de bom­bardeiros. À exceção desses últimos, todos se encontravam distantes dos grandes centros populacionais; conseqüentemente, um ataque des­tinado a desarmar o Ocidente poderia ser lançado sem que isso resul­tasse necessariamente num holocausto em escala mundial. Ao mesmo tempo, os americanos não possuíam ogivas suficientes para ameaçar da mesma forma os mísseis soviéticos. Os soviéticos, portanto, tinham a vantagem de poder lançar um potencial ataque interceptador ¯ do tipo dirigido às armas, e não às pessoas.

A deficiência era naval. Mais da metade das ogivas americanas esta­vam depositadas nos submarinos nucleares. A Marinha americana acre­ditava que os submarinos de mísseis nunca haviam sido rastreados pelos seus correlativos soviéticos. Tal informação era incorreta. Foram rastreados exatamente três vezes em 27 anos, e nunca por mais de quatro horas. Apesar de uma geração inteira de trabalho realizado pela Mari­nha soviética, ninguém podia prever se esse objetivo seria alcançado. Os americanos admitiam que eles mesmos não conseguiam rastrear os próprios boomers, como eram conhecidos os submarinos portadores de mísseis. Por outro lado, os americanos podiam rastrear os submarinos soviéticos que levavam mísseis, e por esse motivo os soviéticos nunca depositaram neles mais do que uma fração de suas ogivas, e até recen­temente nenhum dos lados conseguira basear armas interceptadoras em submarinos.

O jogo, porém, estava mudando novamente. Os americanos haviam produzido mais um milagre técnico. Seus artefatos lançados por sub­marino logo seriam mísseis Trident D-5, com capacidade de estourar alvos bem protegidos. Isso ameaçava a estratégia soviética com um re­flexo do seu próprio potencial, ainda que um dos elementos cruciais do sistema fossem os Satélites de Posicionamento Global, sem os quais os submarinos americanos seriam incapazes de determinar suas pró­prias posições com precisão suficiente para atingir instalações subter­râneas de lançamento de mísseis. A lógica distorcida do equilíbrio nuclear estava novamente voltando-se sobre si mesma, como tinha de acontecer pelo menos uma vez a cada geração.

Já fora reconhecido antes que os mísseis eram armas ofensivas com uma missão defensiva e que a capacidade de destruir os oponentes era a fórmula clássica de evitar a guerra e alcançar os objetivos em tempo de paz. O fato de que tal poder, acumulado por ambos os lados, trans­formara a fórmula historicamente provada da intimidação unilateral em desencorajamento bilateral é que tornava indigesta essa solução.

Desencorajamento Nuclear: prevenir a guerra pela ameaça do holo­causto mútuo. O que os dois lados diziam era, em essência: se mata­rem nossos civis indefesos, mataremos os seus. A defesa não era mais a proteção da sociedade e sim a ameaça de violência mútua. Misha sor­riu. Nenhuma tribo de selvagens havia ousado formular tal idéia ¯ mesmo os povos mais bárbaros eram avançados demais para abrigar tais pensamentos, embora fosse isso precisamente o que os povos mais avançados do mundo haviam decidido, ou encontrado pelo caminho. Embora o desencorajamento funcionasse, significava que a União So­viética ¯ e o Ocidente ¯ vivia sob a ameaça de vários gatilhos. Nin­guém achava que esta fosse uma situação satisfatória, porém os soviéticos haviam realizado o que consideravam o melhor dentro de uma barganha não vantajosa, projetando um arsenal estratégico com que podiam desarmar em grande escala o outro lado, se assim o exigisse uma crise mundial. Adquirindo a capacidade de eliminar gran­de parte do arsenal americano, tinham a vantagem de ditar as condições sob as quais seria disputada uma guerra nuclear, o que se constituía em termos clássicos um passo na direção da vitória, e, segundo a con­cepção soviética, a negativa do Ocidente de que a "vitória" era uma possibilidade na guerra nuclear era o primeiro passo na direção da pró­pria derrota. Os teóricos de ambos os lados sempre reconheceram a natureza insatisfatória de toda a questão nuclear e sempre trabalha­ram em silêncio para lidar com ela de outras formas.

Por volta dos anos 50, tanto os Estados Unidos quanto a União So­viética tinham iniciado as pesquisas de defesa contra mísseis balísti­cos, a última em Sary Saga, no sudoeste da Sibéria. Um sistema operacional soviético quase fora colocado em uso no final da década de 60, porém o advento das MIRV (ogivas múltiplas de reentrada in­dependente) invalidara o trabalho de quinze anos ¯ perversamente, para os dois lados. A luta pela supremacia entre sistemas ofensivos e defensivos sempre tendia aos últimos.

Mas isso terminara. As armas laser e outros sistemas de projeção de energia, combinados à maior capacidade dos computadores, foram um verdadeiro salto quântico no campo da estratégia. Uma defesa con­fiável, como mencionava o relatório de Bondarenko ao coronel Fili­tov, transformava-se agora em possibilidade real. E o que significaria isso?

Significava que a equação nuclear estava destinada a retornar ao equi­líbrio clássico entre ataque e defesa, e que ambos os elementos agora poderiam tomar parte na mesma estratégia. Os soldados profissionais achavam esse sistema satisfatório em teoria ¯ que homem deseja pen­sar em si mesmo como o maior assassino da História? ¯, mas agora as possibilidades táticas começavam a despertar em suas cabeças feias. Vantagem e desvantagem, movimentos e contramovimentos. Um sis­tema americano de defesa estratégica poderia invalidar toda a postura nuclear soviética. Se os americanos pudessem evitar que os SS-18 de­colassem de suas bases em terra, então o primeiro ataque de desarma­mento do qual dependiam os soviéticos para evitar os danos à Rodina não seria mais possível. Isso significava que todos os bilhões gastos na produção de mísseis balísticos teriam se tornado tão úteis quanto dinheiro jogado no mar.

Porém ainda havia mais. Da mesma maneira que o scutum dos le-gionários romanos era encarado pelos seus inimigos bárbaros como uma arma que lhes permitia golpear impunemente, nos dias atuais a Iniciativa de Defesa Estratégica poderia ser encarada como um escudo atrás do qual o inimigo podia lançar seu primeiro ataque para de­sarmar o oponente, usando depois suas defesas para reduzir ou mes­mo eliminar os efeitos do ataque retaliatório resultante.

Esta visão, claro, era simplista. Nenhum sistema poderia ser à pro­va de falhas ¯ e mesmo que o sistema funcionasse, Misha sabia, os líderes políticos encontrariam uma maneira de usá-lo da pior manei­ra, pois sempre se podia contar com os políticos para isso. Um esque­ma viável de defesa estratégica teria o poder de acrescentar um novo elemento de incerteza à equação. Seria muito difícil que qualquer país no mundo pudesse eliminar todas as ogivas atacantes, e a morte de uns "poucos" vinte milhões de cidadãos seria uma coisa horripilante de se ver, mesmo para a liderança soviética. Mas até mesmo um siste­ma rudimentar de escudo espacial seria o bastante para invalidar qual­quer idéia de contra-ataque.

Se os soviéticos possuíssem tal sistema, o escasso arsenal de contra-ataque dos Estados Unidos poderia ser anulado mais facilmente do que o soviético, assim como a situação estratégica que a União Sovié­tica trabalhara durante trinta anos para manter inalterada. O governo soviético possuiria o melhor dos dois mundos, uma força de mísseis de precisão muito maior, com a qual eliminaria ogivas americanas, e um escudo para anular a maior parte do ataque retaliatório contra suas bases de mísseis de reserva ¯ e os sistemas americanos baseados no mar poderiam ser neutralizados com um ataque aos satélites de nave­gação GPS, sem os quais ainda poderiam atingir as cidades, mas a pos­sibilidade de acertar silos de mísseis se perderia irrecuperavelmente.

O coronel Mikhail Semyonovich Filitov divisava o cenário que ser­viria de caso de estudo padrão para os soviéticos. Algumas crises ir­romperiam (a do Oriente Médio era a favorita, já que ninguém podia predizer o que aconteceria lá) e, enquanto Moscou se movimentasse para manter a situação estabilizada, o Ocidente interferiria ¯ desajei­tada e estupidamente, claro ¯ e começaria a falar abertamente à im­prensa sobre um iminente confronto nuclear. Os órgãos de Inteligência imediatamente passariam a Moscou a informação de que a possibili­dade era real. O contingente de mísseis SS-18 da Força de Foguetes Estratégicos entraria secretamente em alerta, bem como as guarnições das novas armas laser baseadas em terra. Enquanto os altos escalões do Ministério das Relações Exteriores ¯ nenhuma das forças milita­res apreciava seus colegas diplomatas ¯ lutavam para ajeitar as coi­sas, o Ocidente fincaria pé e faria ameaças, talvez, de ataque a uma frota soviética para mostrar sua firmeza, e certamente mobilizando os exércitos da OTAN para uma ameaça de invasão à Europa Oriental.

 

O pânico começaria a espalhar-se de verdade ao redor do mundo. Quando o tom de retórica do Ocidente atingisse o máximo, as ordens de lançamento seriam enviadas à força de mísseis e trezentos SS-18 partiriam, enviando três ogivas para cada um dos silos de Minuteman americanos. Armas menores perseguiriam os submarinos e as bases de bombardeiros para limitar as perdas ao mínimo possível ¯ os so­viéticos não desejavam exacerbar a situação mais do que o necessário. Simultaneamente, as armas laser desarmariam tantos satélites de re­conhecimento e navegação quanto fosse possível, poupando entretan­to os satélites de comunicações ¯ um gesto calculado como prova de "boas" intenções. Os americanos não seriam capazes de responder ao ataque antes que as ogivas soviéticas os atingissem. ¯ Misha preo­cupava-se com isso, mas fontes da KGB e da GRU tinham informado que havia sérias falhas no sistema de comando e controle americanos, além dos fatores psicológicos envolvidos. Provavelmente os america­nos manteriam suas armas submarinas na reserva e lançariam os Mi­nuteman restantes em direção aos silos soviéticos, porém era esperado que não mais de duzentas ou trezentas ogivas permanecessem após o primeiro ataque; muitas delas atingiriam silos vazios de qualquer forma, e o sistema de defesa destruiria muitas das armas atacantes.

Ao final da primeira hora, os americanos iriam perceber que a utili­dade de seus mísseis baseados em submarinos estava grandemente re­duzida. Mensagens constantes e cuidadosamente preparadas¯seriam enviadas pela Linha Quente entre Moscou e Washington: NAO PO­DEMOS DEIXAR QUE ISSO CONTINUE. Provavelmente os ame­ricanos iriam parar e pensar. Era esse o ponto importante: fazer as pessoas pararem e pensarem. Um homem poderia atacar cidades por impulso, ou num momento de raiva, mas não depois de refletir sensa­tamente sobre o assunto.

Filitov não estava preocupado com o fato de que cada um dos lados visse seus sistemas de defesa como um motivo de apoio para ataques ofensivos. Numa crise, entretanto, sua existência poderia diminuir o medo que antecede o lançamento ¯ se o outro lado não tiver defesa. Portanto, ambos os lados precisavam de seus sistemas de defesa. Eles tornariam o primeiro ataque muito improvável, e "isso" sim faria do mundo um lugar mais seguro. Os sistemas defensivos não poderiam mais ser contidos agora. Seria mais fácil deter a maré. Agradava ao velho soldado a idéia de que os mísseis intercontinentais, tão ofensi­vos à ética do guerreiro, poderiam finalmente ser neutralizados, e a morte na guerra retornaria a homens armados no campo de batalha, ao qual pertencia...

Bem, pensou ele, você está cansado, e é muito tarde para esse tipo de pensamento profundo. Terminou seu informe com os dados do relató­rio final de Bondarenko, fotografou-o e colocou o filme na caixa da tomada de força na parede.

 

Transferência de Documentos

O dia estava amanhecendo quando o Arqueiro encontrou os destroços do avião. Dez homens o acompanhavam, além de Abdul. Tinham pre­cisado mover-se com rapidez. Tão logo o sol se erguesse sobre as mon­tanhas, os soviéticos viriam. Observou de um outeiro os restos da aeronave. Ambas as asas haviam sido arrancadas ao primeiro impac­to, e a fuselagem projetara-se para a frente ao longo de um aclive sua­ve, rolando e se arrebentando, de modo que somente se podia reconhecer a cauda. Não havia como saber que fora preciso um piloto brilhante para conseguir tal efeito e que descer o avião mantendo al­gum tipo de controle fora praticamente um milagre. Gesticulou aos homens e andou rapidamente em direção ao corpo principal dos des­troços. Ordenou a eles que procurassem armas, depois qualquer tipo de documentos. O Arqueiro e Abdul dirigiram-se ao que restara da cauda.

Como sempre, a cena do desastre apresentava contradições. Alguns dos corpos estavam despedaçados, enquanto outros permaneciam apa­rentemente intactos, a morte causada por traumatismos internos. Es­tranhamente, os cadáveres tinham uma aparência pacífica, rígidos mas ainda não congelados pela temperatura baixa. Ele contou seis corpos na parte traseira da aeronave. Viu que todos eram soviéticos, todos uniformizados. Um deles usava o uniforme de capitão da KGB e per­manecia ainda preso pelo cinto ao seu assento. Havia uma espuma cor-de-rosa em volta de seus lábios. Devia ter sobrevivido por algum tempo à queda e tossido sangue, pensou o Arqueiro. Chutou o corpo e percebeu que havia uma valise algemada ao pulso do homem. Aquilo pare­cia promissor. O Arqueiro curvou-se para verificar se as algemas po­deriam ser retiradas com facilidade, mas não teve essa sorte. Enco­lhendo os ombros, desembainhou a faca. Teria de cortar o pulso fora. Girou a mão e começou...

... quando o braço se retraiu e um grito agudo fez o Arqueiro colocar-se de pé num salto. Será que aquele ainda vivia? Curvou-se para o rosto do homem e foi recompensado com respingos de sangue espa­lhados pela tosse. Os olhos azuis se abriram, arregalados de choque e de dor. A boca moveu-se para produzir ruídos inteligíveis.

¯  Verifique se mais alguém está vivo ¯ ordenou o Arqueiro a seu assistente. Voltou-se depois para o oficial da KGB, balançando a lâmi­na a poucos centímetros de seus olhos, e disse em dialeto pashtu: ¯ Oi, russo.

O capitão começou a tossir outra vez. Agora estava completamente acordado e sentindo dores consideráveis. O Arqueiro revistou-o à pro­cura de armas. Enquanto suas mãos se moviam, o corpo retorceu-se de dor. Devia ter pelo menos algumas costelas quebradas, embora os membros parecessem intactos. Com esforço, disse algumas palavras. O Arqueiro entendia um pouco de russo, mas teve problemas para compreendê-las. Não devia ser tão difícil, pois a mensagem era óbvia, embora o guerrilheiro demorasse quase meio minuto para reconhecê-la.

¯  Não me mate...

Uma vez entendido o apelo, o Arqueiro continuou sua busca. Apa­nhou a carteira do capitão e examinou o conteúdo. Foram as fotogra­fias que fizeram com que parasse. O homem tinha uma esposa. Ela era pequena, com um rosto redondo, e morena. Não parecia bonita, com exceção do sorriso. Era o tipo de sorriso reservado para o homem a quem se ama, e o rosto estava iluminado de uma maneira que o pró­prio Arqueiro conhecera no passado. Mas o que realmente chamou sua atenção foram as duas fotografias seguintes. O homem tinha um filho. A primeira teria sido tirada com a idade de 2 anos talvez, mos­trando um garotinho com cabelo desgrenhado e um sorriso travesso. Não se podia odiar uma criança, mesmo sendo o filho de um oficial da KGB. A fotografia seguinte era tão diferente que foi difícil estabe­lecer uma relação entre as duas. O cabelo tinha desaparecido e a pele do rosto estava esticada... transparente como as páginas de um velho Corão. A criança estava morrendo. Com três, quatro anos talvez?, perguntou-se ele. O rosto da criança moribunda ostentava um corajo­so sorriso de dor e amor. Por que a ira de Alá precisa visitar os pequeni­nos? Voltou a foto para o rosto do oficial.

 

¯  Seu filho? ¯ indagou o Arqueiro, em russo.

¯  Morto. Câncer ¯ explicou o homem, percebendo depois que o bandido não estava entendendo. ¯ Doença. Doença longa. ¯ Por um breve instante toda a dor desapareceu das feições, deixando apenas uma tristeza profunda.

Aquilo salvou sua vida. Ficou surpreso ao ver o bandido embainhar a faca, porém estava sentindo muita dor para demonstrá-lo de manei­ra visível.

Não. Não trarei mais mortes à vida desta mulher. A decisão surpreen­deu o próprio Arqueiro. Foi como se a voz de Alá o lembrasse de que a piedade perde apenas para a fé, na lista das virtudes humanas. Aquilo em si não bastava ¯ seus companheiros de guerrilha não se deixariam convencer por um versículo da Escritura ¯, mas a seguir o Arqueiro encontrou um chaveiro no bolso da calça. Usou uma das chaves para abrir as algemas e outra para abrir a valise, que estava cheia de pastas para documentos, cada uma ostentando uma fita multicolorida com alguma versão da palavra SECRETO. E essa era uma palavra russa que ele conhecia.

¯  Meu amigo ¯ disse o Arqueiro em pashtu ¯, vai visitar um ou­tro amigo meu... Se viver o bastante.

  ¯  E muito sério? ¯ perguntou o presidente.

¯  Potencialmente, é muito sério ¯ respondeu o juiz Moore. ¯ Gos­taria de trazer algumas pessoas para colocá-lo a par de tudo.

¯  Ryan já não está preparando uma avaliação?

¯  Ele será uma das pessoas. A outra é esse major Gregory do qual já ouviu falar.

O presidente abriu sua agenda de mesa.

¯  Posso lhe conceder quarenta e cinco minutos. Esteja aqui às onze.

¯  Estaremos aí, senhor. ¯ Moore desligou o telefone. A seguir cha­mou sua secretária. ¯ Mande entrar o doutor Ryan.

Ryan entrou um minuto depois. Nem chegou a ter tempo de sentar-se.

¯  Vamos ver o "Homem" às onze. Como está seu material?

¯  Sou o cara errado para falar em física, mas acho que Gregory pode tomar conta disso. Ele está conversando agora com o general Parks e o senhor Ritter. O general também vai?

¯  Vai.

¯  Certo. Quanto apoio visual quer que eu leve? O juiz Moore pensou por um momento.

¯  Não queremos que ele fique tonto com muito material. Um par de fotografias gerais e um bom diagrama. Você também acha que é muito importante?

¯  Não se trata de uma ameaça imediata, mesmo usando a imagi­nação, mas podíamos perfeitamente passar sem esse desenvolvimen­to. Os efeitos sobre as conversações de controle de armas são difíceis de analisar. Não acho que exista uma ligação direta...

¯  Não existe, temos certeza disso ¯ o diretor-geral fez uma pausa e sorriu. ¯ Pelo menos achamos que temos certeza.

¯  Juiz, existem alguns dados no ar sobre esse assunto que eu ain­da não vi.

Moore sorriu com benevolência.

¯  Como sabe disso, filho?

¯  Passei a maior parte da sexta-feira examinando velhos arquivos sobre o programa soviético de defesa contra mísseis. Em 1981, eles realizaram um teste importante em Sary Shagan. Sabíamos bastante sobre o assunto... por exemplo, sabíamos que os parâmetros da mis­são foram alterados do interior do Ministério da Defesa. Essas ordens foram seladas em Moscou e entregues pessoalmente ao comandante do submarino que atirou os mísseis: Marko Ramius. Ele me contou o outro lado da história. Com isso, e mais alguns trechos de informa­ção que encontrei, comecei a pensar que devemos ter um homem den­tro do ministério e nos altos escalões.

¯  Que trechos de informação? ¯ quis saber o juiz.

Jack hesitou por um momento, mas decidiu continuar a expor suas deduções.

¯  Quando o Outubro Vermelho desertou, o senhor me mostrou um relatório que vinha bem de dentro, também do Ministério da Defesa; o nome de código no arquivo era WILLOW, como me recordo. Só vi mais um outro arquivo com esse nome, sobre um assunto inteira­mente diferente, mas também relativo à defesa. Isso me fez imaginar que havia uma fonte interna com um ciclo de codinomes que muda rapidamente. Só se faz isso com uma fonte muito delicada, e se for alguma coisa para a qual eu não esteja liberado, bem... só posso con­cluir que é uma informação muito bem guardada. Há apenas duas se­manas, o senhor me disse que as afirmações de Gregory sobre as instalações em Dushanbe foram confirmadas através de "outras fon­tes". ¯ Jack sorriu. ¯ O senhor me paga para descobrir ligações, juiz. Não me importo em ficar por fora em assuntos que não tenho necessi­dade de saber, mas estou começando a pensar que aí está parte do que eu estou tentando fazer. Se quiser que informe o presidente, senhor, eu deveria entrar lá com as informações corretas.

 

¯  Sente-se, doutor Ryan. ¯ Moore não se importou em perguntar se Jack tinha discutido o assunto com mais alguém. Será que já era tempo de admitirem um novo membro na fraternidade Delta? Depois de um momento, permitiu-se um sorriso sagaz. ¯ Você deu um en­contrão nele.

Jack inclinou-se em sua cadeira e cerrou os olhos. Depois de pensar por um instante, conseguiu ver o rosto do homem novamente.

¯  Meu Deus! E ele está obtendo as informações... Mas seremos capazes de utilizá-las?

¯  Ele já nos passou dados técnicos antes. A maior parte colocamos em uso.

¯  O presidente sabe de tudo isso? ¯ indagou Jack.

¯  Não. A idéia é dele, e não nossa. Ele nos disse algum tempo atrás que não queria os detalhes das operações secretas, só os resultados. É como a maioria dos políticos... fala demais. Pelo menos é esperto o suficiente para saber disso. Já perdemos agentes porque os presi­dentes falaram demais. Sem mencionar aquele estranho senador.

¯  Para quando espera a chegada do relatório?

¯  Logo. Talvez por esta semana, talvez demore mais três...

¯  E, se funcionar, podemos pegar o que eles sabem e juntar ao que nós sabemos... ¯ Ryan olhou através da janela, para os galhos pela­dos das árvores. ¯ Desde que estou aqui, juiz, pergunto a mim mes­mo pelo menos uma vez por dia: o que é mais admirável neste lugar, as coisas que sabemos ou as que não sabemos?

Moore concordou com um aceno de cabeça.

¯  O jogo é assim, doutor Ryan. Traga suas anotações de apoio. Não faça nenhuma referência ao nosso amigo. Eu mesmo tratarei disso se achar necessário.

Jack voltou a seu escritório, meneando a cabeça. Suspeitara algumas vezes de que tinha acesso a informações que o presidente ignorava. Ago­ra tinha certeza. Perguntou a si mesmo se essa era uma boa idéia e admi­tiu que não sabia. O que enchia sua mente era a importância desse agente e suas informações. Havia precedentes. O brilhante agente Richard Sor-ge no Japão em 1941, cujos avisos a Stálin não foram ouvidos. Oleg Pen-kovsky, que fornecera ao Ocidente informações sobre os militares soviéticos que podiam ter prevenido uma guerra nuclear durante a Crise dos Mís­seis em Cuba. É agora mais um. Não refletiu sobre o fato de que era o único na CIA a conhecer o rosto do agente, mas não seu nome verda­deiro nem o de código. Não ocorreu a ele que o juiz Moore não conhe­cia o rosto do Cardeal, tendo evitado olhar sua fotografia por motivos que nunca explicara, mesmo a seus diretores.

 

O telefone tocou e uma mão saiu de baixo do cobertor para apanhá-lo.

¯  Alô?

¯  Bom dia, Candi ¯ disse Al Gregory, de Langley.

A mais de 3 000 quilômetros de distância, a dra. Candance Long virou na cama e olhou para o relógio de cabeceira.

¯  Você está no aeroporto?

¯  Ainda estou em Washington, meu bem ¯ sua voz parecia cansa­da. ¯ Se tiver sorte, posso voltar hoje para casa.

¯  O que está acontecendo afinal? ¯ perguntou ela.

¯  Oh, alguém fez um teste, e preciso explicar a algumas pessoas o que isto significa.

¯  Certo. Me avise quando for chegar, Al. Vou apanhar você. ¯ Can­di Long estava muito zonza para reparar que seu noivo tinha quebra­do uma regra de segurança ao responder a sua pergunta.

¯  Claro. Amo você.

¯  Também te amo, meu bem. ¯ Ela desligou o telefone e olhou novamente para o relógio.

Ainda havia tempo para dormir por mais uma hora. Procurou lembrar-se de pegar uma carona com um amigo para o trabalho. Al tinha deixado seu carro no laboratório antes de voar para o leste, e ela poderia usá-lo para buscá-lo no aeroporto.

Ryan acabou levando o major Gregory em seu carro novamente. O general Parks foi com o juiz Moore na limusine da Agência.

¯  Já perguntei isso a você antes: quais são as chances de descobrir o que Ivã está fazendo em Dushanbe?

Jack hesitou um pouco, antes de responder, mas compreendeu que Gregory iria ouvir tudo no Salão Oval.

¯  Temos alguns trunfos que estão trabalhando para descobrir co­mo eles conseguiram aumentar a potência de saída.

¯  Adoraria saber como vocês fazem essas coisas ¯ observou o jo­vem major.

¯  Acho que não. Pode acreditar. ¯ Ryan tirou os olhos do trânsito por instantes, para encarar o companheiro. ¯ Se você soubesse coisas como essa e cometesse um pequeno engano, podia matar pessoas. Já aconteceu antes. Os soviéticos são duros com espiões. Ainda corre por aí uma história sobre como eles cremaram um sujeito... com isso que­ro dizer que puseram o coitado no crematório ainda vivo.

¯  Qual é! Ninguém é tão...

¯  Major, um desses dias seria muito bom que saísse do seu labora­tório e descobrisse como o mundo pode ser sujo e mau. Cinco anos atrás, algumas pessoas tentaram matar minha esposa e meu filho. Pre­cisavam voar quase 5 000 quilômetros para tentar, mas vieram assim mesmo.

¯  É isso mesmo! Você foi aquele cara que...

¯  É uma velha história, major ¯ interrompeu Jack, cansado de repetir o relato de suas aventuras.

¯  Como é, senhor? Quer dizer, estar em combate de verdade, pra valer.

¯  Não é nada divertido. ¯ Ryan quase riu de si mesmo por expressar-se dessa forma. ¯ É como se fosse uma representação tea­tral, só isso. Ou você representa direito, ou perde. Se tiver sorte, não entra em pânico até tudo acabar.

¯  Disse lá no laboratório que foi fuzileiro...

¯  É, isso ajudou. Pelo menos alguém se lembrou de me ensinar um pouquinho sobre combate, uma vez. ¯ Mais ou menos quando vo­cê estava no colegial, pensou Jack. ¯ Já encontrou o presidente algu­ma vez?

¯  Não, senhor.

¯  Pode me chamar de Jack, certo? Ele é um bom homem, presta muita atenção e sempre faz perguntas. Não se deixe enganar pelo as­pecto sonolento dele. Acho que faz isso para enganar os políticos.

¯  Eles se deixam enganar tão fácil assim? Aquilo provocou uma gargalhada.

¯  Alguns deles. O sujeito que é chefe do controle de armas tam­bém vai estar lá. O tio Ernie. Ernest Allen, antigo diplomata de car­reira, formado em Dartmouth e Yale; é muito esperto.

¯  Ele acha que devemos barganhar meu trabalho. Por que o presi­dente fica com ele?

¯  Ernie sabe negociar com os soviéticos, é um profissional. Não deixa que suas opiniões pessoais interfiram em seu trabalho. É como um médico nesse ponto. Um cirurgião não precisa gostar de você pes­soalmente. Ele só precisa consertar o que está errado. Com o senhor Allen, a vantagem é que ele sabe enxergar através de todas as babosei­ras que são ditas durante as negociações. Nunca aprendeu nada sobre isso, não foi? ¯ Jack sacudiu a cabeça e sorriu. ¯ Todos pensam que é dramático, mas não é. Nunca vi nada mais chato. Os dois lados re­petem exatamente as mesmas coisas por horas a fio. Repetem a si mes­mos a cada quinze ou vinte minutos o dia inteiro, todos os dias. Então, depois de mais ou menos uma semana, um dos lados faz uma peque­na alteração e fica repetindo isso por muitas horas. O outro lado veri­fica com o próprio governo, faz uma pequena alteração no texto e começa a repetir isso. As coisas continuam desse jeito por semanas, meses e até anos. Mas o tio Ernie é bom nisso. Ele acha tudo muito excitante. Eu pessoalmente, depois de agüentar uma semana, tenho vontade de começar uma guerra só para acabar com o processo de ne­gociação. ¯ Ryan sorriu novamente. ¯ Não me culpe por isso. É tão excitante como ver tinta secar. Ainda que seja monótono, é uma tarefa importante, e é preciso um tipo especial de inteligência para isso. Er­nie é um velho seco e duro de roer, mas sabe realizar esse trabalho como ninguém.

¯  O general Parks diz que ele quer acabar com nossas pesquisas.

¯  Porra, major, pode perguntar pessoalmente a ele. Eu mesmo gos­taria de descobrir isso. ¯ Jack saiu da Avenida Pennsylvania, seguin­do a limusine da CIA.

Cinco minutos mais tarde, ele e Gregory sentavam-se na sala de recepção da Ala Oeste, sob uma cópia da famosa pintura de George Washington atravessando o rio Delaware, e o juiz conversava com o conselheiro de Segurança Nacional do presidente, Jeffrey Pelt. O pre­sidente terminava uma audiência com o secretário do Comércio. Por fim, um agente do Serviço Secreto chamou-os e os conduziu através dos corredores.

Como acontece com os estúdios de televisão, o Salão Oval é menor do que a maioria das pessoas espera. Ryan e Gregory foram conduzi­dos até um sofá na parede norte, mas nenhum dos dois sentou; o pre­sidente estava em pé, ao lado de sua escrivaninha. Ryan reparou que Gregory parecia um pouco mais pálido agora e lembrou-se da primei­ra vez em que estivera naquela sala. Mesmo os que trabalhavam na Casa Branca ocasionalmente admitiam ficar impressionados com a sa­la e o tremendo poder que ela continha.

¯  Oi, Jack. É bom vê-lo de novo. ¯ O presidente adiantou-se para cumprimentar Ryan. ¯ E você deve ser o famoso major Gregory.

¯  Sim, senhor. ¯ Gregory quase desafinou e teve de limpar a gar­ganta. ¯ Quero dizer, sim, senhor presidente.

¯  Sente-se e relaxe. Quer um pouco de café? ¯ O presidente foi até o canto da mesa, e Gregory arregalou os olhos quando a xícara foi estendida em sua direção.

Ryan fez o que pôde para controlar a vontade de rir. O homem que tornara a presidência "imperial" novamente, ou o que quer que isso signifique, era um mestre na arte de deixar as pessoas à vontade. Ou pelo menos aparentando, pensou Jack. A rotina do primeiro café fre­qüentemente os deixava ainda mais sem graça.

¯  Major, ouvi referências muito boas em relação ao senhor e seu trabalho. O general diz que o senhor é sua maior estrela. ¯ O presi­dente sentou-se ao lado de Jeff Pelt, enquanto o general se remexia na cadeira. ¯ Muito bem, vamos começar.

Ryan abriu a pasta e retirou uma fotografia, colocando-a sobre a mesa baixa. A seguir tirou um diagrama.

¯  Senhor presidente, isto é uma fotografia tirada por satélite dos locais que chamamos de Bach e Mozart. Estão sobre uma montanha a sudeste da cidade de Dushanbe, na República Socialista Soviética do Tadjiquistão, cerca de 110 quilômetros da fronteira com o Afega­nistão. A montanha tem 2 500 metros de altitude. Nós a estamos vi­giando há dois anos. Este aqui ¯ Jack depositou outra fotografia sobre a mesa ¯ é Sary Shagan. Os soviéticos têm realizado trabalhos de de­fesa contra mísseis balísticos nesse lugar durante os últimos trinta anos. Este ponto bem aqui é suspeito de ser um local de testes com laser. Acreditamos também que os soviéticos tenham feito um grande avan­ço em relação à potência do laser aqui, há dois anos. Depois, transfe­riram suas atividades para Bach, a fim de acomodá-las melhor. Na semana passada levaram a cabo um teste com potência total.

¯  Essa disposição aqui em Bach é um transmissor laser.

¯  E eles explodiram um satélite com isso? ¯ quis saber Jeff Pelt.

¯   Sim, senhor ¯ respondeu o major Gregory. ¯ Eles o "derrete­ram", como dizemos no laboratório. Enviaram até o satélite tanta ener­gia que, bem, derreteu parte do metal e destruiu completamente as células solares.

¯  Não conseguimos fazer isso ainda? ¯ perguntou o presidente a Gregory.

¯  Não, senhor. Ainda não conseguimos colocar tanta energia na ponta do sistema.

¯  Como eles passaram à frente? Estamos aplicando um bocado de dinheiro em pesquisa de laser, não estamos, general?

Parks não estava contente com os recentes desenvolvimentos, mas sua voz era neutra.

¯  Os russos também, senhor presidente. Eles conseguiram alguns avanços como fruto dos esforços dirigidos para a fusão. Há anos inves­tigam física de alta energia, como parte de um grande esforço para conseguir bons reatores de fusão nuclear. Quinze anos atrás, esse es­forço foi combinado com o programa de mísseis de defesa. Se a gente coloca tanto tempo e esforço em pesquisa de base, pode esperar um retorno, e eles tiveram um bocado. Inventaram o RFQ, o quadripolo de freqüência de rádio, que usamos em nossas experiências com ar­mamentos de partículas neutras. Inventaram o dispositivo de contenção magnética Tokamak que copiamos em Princeton e inventaram o Gyrotron. São três avanços significativos em física de alta ener­gia, dos quais ouvimos falar. Usamos alguns deles em nossas pró­prias pesquisas SDI, e com toda a certeza podemos presumir que fa­zem o mesmo.

¯  Certo, e o que sabemos sobre esse teste que eles fizeram? Era a vez de Gregory novamente.

¯  Senhor, sabemos que veio de Dushanbe, porque os outros locais que pesquisam física de alta energia, em Sary Shagan e Semipalatinsk, estavam abaixo do horizonte visível... quero dizer, não podiam enxer­gar o satélite. Sabemos que não foi laser infravermelho, porque o raio seria detectado pelos sensores do Cobra Belle. Se tivesse de fazer uma dedução, diria que o sistema utiliza laser de elétrons livres...

¯  Usa mesmo ¯ confirmou o juiz Moore. ¯ Acabamos de confir­mar esse ponto.

¯  É o mesmo sistema no qual estamos trabalhando em 7éa Clipper. Parece oferecer o maior potencial para aplicações em arma­mentos.

¯  Posso perguntar por quê, major? ¯ indagou o presidente.

¯  Eficiência na transmissão de energia, senhor. O efeito laser ocorre numa corrente de elétrons livres, o que significa que não estão presos a nenhum átomo como habitualmente, senhor, isso no vácuo. Usa-se um acelerador de partículas para produzir uma corrente de elétrons, e os disparamos no interior de uma cavidade, que possui um raio la­ser de baixa energia ao longo do eixo. A teoria é que podemos usar eletroímãs para oscilar os elétrons ao longo do campo. O que se ob­tém é um raio de luz coincidente com a freqüência oscilatória dos ímãs, o que significa que se pode sintonizar como um rádio, senhor. Alterando-se a energia do feixe de laser inicial, pode-se escolher a fre­qüência exata que se quer gerar. Depois os elétrons são reciclados de volta ao acelerador de partículas e atirados outra vez à cavidade do laser. Uma vez que os elétrons já estão em estado de alta ener­gia, aqui se ganha uma grande eficiência de transmissão de energia. Em resumo, senhor, teoricamente se consegue uma saída de quaren­ta por cento da energia injetada no sistema. Se pudermos realizar isso de forma viável, poderemos destruir tudo aquilo que virmos... e, quando falamos em níveis altos de energia, falamos em termos re­lativos, senhor. Comparada à energia elétrica que este país utiliza para cozinhar, a quantidade necessária para um sistema de defesa la­ser é irrisória. O truque é só fazer tudo isso funcionar. Não consegui­mos isso ainda.

¯  Por que não? ¯ O presidente inclinava-se levemente para a fren­te em sua cadeira, interessado no assunto.

¯  Ainda estamos aprendendo a fazer o laser, senhor. O problema fundamental é a cavidade do laser... onde a energia sai dos elétrons e se transforma em raio luminoso. Ainda não conseguimos construir uma que fosse suficientemente larga. Se for muito estreita, obteremos uma densidade de energia tão grande que derreterá as camadas ópti­cas da própria cavidade, e dos espelhos usados para apontar o raio formado.

¯  Mas eles resolveram o problema. Como acha que conseguiram?

¯  Eu sei o que eles estão tentando fazer. Quando a energia passa para o feixe de raios, os elétrons se tornam menos energéticos, certo? Isso significa que o campo magnético que os contém precisa ser dimi­nuído, e sem esquecer que a ação oscilatória do campo precisa conti­nuar também. Ainda não conseguimos resolver esse problema. Eles provavelmente conseguiram, e a solução deve ter vindo das pesquisas sobre energia de fusão. Todas as idéias sobre retirar energia de fusão controlada se utilizam de um campo magnético para conter a massa de plasma em alta energia. Em princípio é a mesma coisa que fazemos com os elétrons livres. A maior parte da pesquisa de base nesse cam­po é originária da União Soviética. Eles estão à frente porque gasta­ram mais tempo e dinheiro no lugar mais importante.

¯  Certo, muito obrigado, major. ¯ O presidente voltou-se para o juiz Moore. ¯ Arthur, o que a CIA acha de tudo isso?

¯  Bem, não pretendemos discordar do major Gregory, que acaba de passar o dia atualizando os conhecimentos do nosso pessoal de Ciên­cia e Tecnologia. Confirmamos que os soviéticos possuem de fato seis emissores laser de elétron livre nesse local. Fizeram um grande avan­ço em potência de saída, e estamos tentando descobrir exatamente qual foi.

¯  Podem fazer isso? ¯ perguntou o general Parks.

¯  Disse que estamos tentando, general. Se tivermos sorte, teremos uma resposta lá pelo final do mês.

¯  Certo, então sabemos que podem construir um laser muito po­deroso ¯ disse o presidente. ¯ Próxima pergunta: será que é mesmo uma arma?

¯  Provavelmente não, senhor presidente ¯ afirmou o general Parks. ¯ Pelo menos ainda não. Ainda há um problema com a distorção pela camada de ar, porque ainda não copiaram nossos ópticos adaptáveis. Dominam muita tecnologia do Ocidente, mas até agora não possuem esta. Até que o façam, não podem usar os armamentos laser baseados em terra como nós, ou seja, enviar o feixe de raios passando por um espelho orbital até um alvo distante. Contudo, com o que possuem no momento podem causar grandes danos a um satélite em órbita bai­xa. Existem maneiras de proteger os satélites, é claro, mas é o velho compromisso entre uma couraça mais pesada, ou ogivas mais pesa­das. No final geralmente a ogiva vence.

¯  Que é exatamente o motivo pelo qual deveríamos negociar a eli­minação desse tipo de armamento ¯ afirmou Ernie Allen, intervindo na conversa pela primeira vez. O general Parks olhou para ele sem disfarçar sua irritação. ¯ Senhor presidente, estamos apenas tendo uma amostra, uma pequena amostra de como essas armas podem ser peri­gosas e desestabilizadoras. Se considerarmos meramente que esse lo­cal em Dushanbe pode ser uma arma anti-satélite, vejam as implicações que isso trará para a verificação do cumprimento do tratado e para a reunião de informações de uma forma geral. Se não pararmos essas coisas agora, iremos todos para um verdadeiro caos.

¯  Não se pode parar o progresso ¯ observou o general Parks.

¯  Progresso? ¯ fez Allen. ¯ Que diabos, temos um tratado na mesa de negociações que pode reduzir o número de armas pela metade. Is­so é progresso, general. No teste que realizaram no sul do Atlântico erraram a metade dos disparos... Posso retirar de ação tantos mísseis quanto vocês.

Ryan pensou que Parks fosse pular da cadeira ao ouvir essas pala­vras, mas em vez disso ele adotou seu tom intelectual.

¯  Senhor Allen, esse foi o primeiro teste de um sistema experimen­tal, e metade dos tiros acertou o alvo. Na verdade, todos os alvos fo­ram eliminados em menos de um segundo. O major Gregory aqui vai resolver esse problema até o verão, não vai, jovem?

¯  Claro, senhor ¯ respondeu Gregory, desafinando. ¯ Tudo o que precisamos fazer é reelaborar uma parte do código.

¯  Certo. Se o pessoal do juiz Moore puder nos dizer o que os rus­sos fizeram para aumentar a potência do laser, já temos o resto da ar­quitetura do sistema testado e validado. Em dois ou três anos, podemos ter tudo... e depois podemos pensar seriamente em aplicações.

¯  E se os soviéticos começarem a abater nossos espelhos no espa­ço? ¯ perguntou secamente Allen. ¯ Poderíamos ter o melhor siste­ma de armamentos a laser em terra, mas só iríamos conseguir defender o Novo México.

¯  Primeiro, eles teriam de encontrar nossos satélites, o que é uma tarefa bem mais difícil do que o senhor pensa. Podemos colocá-los em órbitas muito mais altas, entre 480 e 1 600 quilômetros. Podemos usar tecnologia de evasão para fazê-los mais difíceis de localizar no radar. Não se pode fazer isso com a maioria dos satélites, mas com esse tipo é possível. Os espelhos são relativamente pequenos e muito leves, o que significa que podemos lançar vários deles. Sabe o tamanho do es­paço lá em cima e quantos milhares de fragmentos estão em órbita? Eles nunca conseguiriam pegar todos ¯ concluiu Parks confiante.

¯  Jack, você esteve de perto com os soviéticos. O que acha? ¯ in­dagou o presidente.

¯   Senhor presidente, a verdadeira força com que nos defrontamos neste caso é a fixação dos soviéticos em defender seu país... e com isso quero dizer defender contra qualquer ataque. Já investiram nisso cerca de trinta anos de trabalho e uma pilha enorme de dinheiro, por­que acreditam que vale a pena. Na época da administração Johnson, Kosygin disse: "Defesa é moral, ataque é imoral". Esse é um provér­bio russo, senhor, e não apenas comunista. Para falar francamente, acho que é uma idéia da qual é difícil discordar. Se entrarmos numa nova fase de competição, pelo menos será defensiva em vez de ofensiva. É meio difícil matar milhares de civis com um feixe laser ¯ observou Jack.

¯  Mas vai alterar todo o equilíbrio de poder ¯ objetou Ernest Allen.

¯  O equilíbrio atual pode ser razoavelmente estável, mas ainda é fundamentalmente louco. ¯ disse Ryan.

¯  Mas funciona. Mantém a paz.

¯  Senhor Allen, a paz em que vivemos não passa de uma crise cons­tante. Diz que podemos reduzir os arsenais pela metade... e daí? Se cortássemos dois terços do arsenal soviético, eles ficariam com ogivas suficientes para transformar nosso país num crematório. A recíproca é verdadeira. Como eu disse quando voltava de Moscou, o acordo de redução é apenas cosmético. Não traz nem um pouco mais de segu­rança. Pode ser um símbolo... talvez um símbolo importante, mas ainda assim sem substância.

¯  Não sei, não ¯ observou o general Parks. ¯ Se reduzirem mi­nha carga de alvos pela metade, não iria me importar nem um pouco. ¯ Isso lhe valeu um olhar assassino por parte de Allen.

¯  Se descobrirmos exatamente o que os soviéticos estão fazendo diferente de nós, o que conseguiremos com isso? ¯ quis saber o pre­sidente.

¯  Se a CIA nos fornecer dados que possamos usar? Major? ¯ Parks voltou-se para Gregory.

¯  Nesse caso, teremos um sistema de armamento pronto para demonstração em três anos, que seria colocado em operação de cinco a dez anos depois disso ¯ respondeu o jovem major, com convicção.

¯  Parece seguro ¯ comentou o presidente.

¯  Tão seguro quanto possível, senhor. É parecido com o Programa Apollo; não tanto uma questão de inventar uma ciência nova, mas de aprender a utilizar engenharia tecnológica que já possuímos. Só jun­tar as porcas e parafusos.

¯  É um jovem muito confiante, major ¯ disse Allen, com ares de professor.

¯  Sou mesmo, senhor. Acho que podemos realizar tudo isso. Se­nhor Allen, nosso objetivo não é diferente do seu. O senhor quer livrar-se das armas nucleares, e nós também. Talvez possamos ajudá-lo, senhor.

Na mosca, pensou Ryan com um sorriso mal disfarçado. Uma bati­da discreta soou à porta. O presidente consultou o relógio.

¯  Vamos ter de encerrar por aqui. Preciso dar uma olhada em al­guns programas antidrogas durante o almoço com o procurador-geral. Obrigado por cederem seu tempo. ¯ Ele apanhou uma fotografia de Dushanbe e pôs-se de pé. Todos fizeram o mesmo. Saíram pela porta lateral, oculta na parede de estuque branco.

¯  Boa, garoto ¯ disse Ryan baixinho a Gregory.

Candi Long apanhou o carro em frente a sua casa. Era dirigido por sua amiga da Universidade de Colúmbia, a dra. Beatrice Taussig, ou­tra física especializada em óptica. A amizade vinha desde os tempos em que não eram formadas. Ela era mais extravagante do que Candi. Taussig dirigia um Nissan 300Z esportivo e tinha multas de trânsito para prová-lo. O carro combinava com suas roupas, com seu cabelo oxigenado e com o temperamento fogoso, que parecia ligar os homens como um interruptor.

¯  Oi, Bea. ¯ Candi Long entrou no carro e afivelou o cinto antes de fechar a porta. Quando se andava de carro com Bea, sempre se afivelava o cinto... embora a própria motorista não se incomodasse em fazê-lo.

¯  Teve uma noite ruim, Candi?

Aquela manhã a amiga trajava um terninho de lã, severo mas não muito masculino, completado com uma echarpe de seda ao pescoço. Long não conseguia entender. Quando se passava o dia inteiro cober­ta com um avental barato de laboratório, quem se importava com o que estava embaixo? Exceto Al, é claro, porém ele se interessava pelo que ficava embaixo do que estava embaixo, pensou ela, sorrindo.

¯  Durmo melhor quando ele está aqui.

¯  Para onde ele foi? ¯ perguntou Taussig.

¯  Washington ¯ bocejou ela. O sol nascente delineava longas som­bras na estrada à frente.

¯  A troco de quê? ¯ Bea reduziu a marcha e acelerou o carro, su­bindo o acesso que conduzia à auto-estrada. Candi sentiu-se pressio­nada lateralmente contra o cinto de segurança. Por que será que a amiga dirigia daquele jeito? Não estavam disputando o Grande Prêmio de Mônaco.

¯  Ele disse que alguém realizou um teste, e ele precisava explicar tudo para mais alguém.

¯  Hum! ¯ Beatrice fez um muxoxo, olhou de relance o retrovisor e deixou o carro em terceira marcha enquanto procurava uma brecha no tráfego pesado da hora do rush. Com habilidade, combinou sua ve­locidade com a da outra fila e deslizou para um espaço apenas 1 metro maior que seu modelo Z. Aquilo provocou uma buzinada irritada do automóvel de trás. Ela simplesmente sorriu. No íntimo, considerou o fato de que qualquer que fosse o teste a ser explicado por Al não era americano. E não havia muitas pessoas realizando testes que pre­cisassem ser explicados por aquele menino prodígio em particular. Bea não conseguia entender o que Candi tinha visto em Al Gregory. O amor, disse a si mesma, é cego, isso sem mencionar surdo e tapado... espe­cialmente tapado. Pobre e modesta Candi Long, podia ter se saído mui­to melhor... Se ao menos tivesse tido a chance de dividir o quarto com Candi na faculdade... se houvesse alguma maneira de dizer a ela... -t Quando é que Al volta?

¯  Talvez hoje à noite. Vai ligar antes. Vou apanhar o carro dele. Ele o deixou no laboratório.

¯  Coloque uma toalha no banco antes de sentar ¯ brincou ela. Gregory tinha um Cheevy Citation. O carro perfeito para um menino

prodígio, pensou Bea Taussig. Estava cheio de embalagens amassadas de jujubas e ele o lavava somente uma vez por ano. Imaginou como seria ele na cama, mas reprimiu o pensamento. Nem de manhã, nem logo depois de acordar. A idéia de sua amiga... envolvida com aquilo fazia sua pele arrepiar-se. Candi era tão ingênua, tão inocente... e tão burra! Bem, talvez ela superasse isso. Ainda havia esperança.

¯  Como está indo o trabalho do seu espelho de diamante?

¯  Projeto AD-AMANT? Daqui a um ano saberemos. Gostaria que você ainda estivesse trabalhando em minha equipe ¯ disse a dra. Long.

¯  Me dou melhor com trabalho administrativo ¯ respondeu Bea com incomum honestidade. ¯ Além do mais, não sou tão inteligente quanto você.

¯  Só mais bonita ¯ observou Candi, ansiosamente.

Bea dirigiu o olhar para a amiga. Sim, ainda havia esperança.

Misha recebeu o relatório final por volta das 4 horas. Estava atrasa­do, explicara Bondarenko, porque todas as secretárias liberadas para documentos ultra-secretos encontravam-se ocupadas com outro mate­rial. Possuía 41 páginas, incluindo os diagramas. Filitov notou que o trabalho do jovem coronel era tão bom quanto sua palavra. Ele tra­duzira todo o jargão técnico de engenharia para linguagem clara e cor­rente. Misha passara as últimas semanas lendo tudo o que conseguira encontrar sobre laser. Se não chegara a entender os princípios de ope­ração tão claramente quanto gostaria, tinha os detalhes de engenharia guardados na memória treinada. Isso fazia com que se sentisse como um papagaio. Podia repetir as palavras sem compreender seu signifi­cado. Bem, por enquanto era o bastante.

Lia vagarosamente, decorando à medida que prosseguia. Apesar de sua voz de camponês e do vocabulário grosseiro, sua mente era ainda mais aguçada do que julgara o coronel Bondarenko. Da maneira co­mo as coisas se encaminhavam, nem precisaria ser assim. A parte im­portante do avanço parecia bastante simples, não tanto uma questão de aumentar a cavidade do laser, mas de adaptar sua forma ao campo magnético. Com o formato adequado, a cavidade podia ser aumenta­da quase à vontade... e o novo fator limitante passou a fazer parte da montagem supercondutora do controle de pulso magnético. Misha sus­pirou. O Ocidente conseguira novamente. A União Soviética não pos­suía os materiais adequados. Portanto, como de costume, a KGB assegurara seu fornecimento do Oeste, desta vez embarcados através da Tchecoslováquia, via Suécia. Será que não aprenderiam nunca?

O relatório concluía afirmando que os problemas remanescentes es­tavam na parte óptica e nos sistemas de computador. 7erei de verificar o que nossos organismos de informações estão fazendo acerca desse assun­to, disse Filitov a si mesmo. Finalmente, passou vinte minutos estu­dando o diagrama do novo laser. Quando chegou ao ponto em que podia fechar os olhos e lembrar cada detalhe, guardou novamente o relatório em sua pasta. Verificou o relógio e pressionou um botão, cha­mando o secretário. O oficial de segurança apareceu na porta em ques­tão de segundos.

¯  Sim, camarada coronel?

¯  Leve esta pasta ao Arquivo Central. Seção 5, Segurança Máxi­ma. Ah, sim, onde está a sacola com o material a ser queimado?

¯  Está comigo, camarada.

¯  Vá buscar para mim. ¯ O homem foi até a ante-sala e voltou um momento depois, trazendo a sacola de lona que ia diariamente pa­ra a sala de destruição de documentos. Misha apanhou-a e começou a colocar papéis no interior. ¯ Dispensado. Eu mesmo a levarei quando sair.

¯  Obrigado, camarada coronel.

¯  Você já trabalha bastante, Yuri Ilych. Boa noite.

Quando a porta se fechou atrás do secretário, Misha apanhou algu­mas páginas a mais, documentos que não se originavam do ministé­rio. A cada semana ou duas, ele mesmo se encarregava da sacola com os documentos a incinerar. O oficial de segurança que passara a obri­gação quase clerical para Filitov presumia que o motivo para isso fos­se a bondade do coronel, e talvez se relacionasse a alguns papéis especialmente secretos a serem destruídos. De qualquer forma, era um hábito que antecedia de longa data seu trabalho para o coronel, e os serviços de segurança o encaravam como rotina. Três minutos de­pois, a caminho do carro, Misha entrou na sala de destruição. Um jovem sargento cumprimentou o coronel como teria cumprimentado seu avô e abriu a porta do incinerador. Observou o Herói de Stalin­grado pousar a valise no chão e usar o braço aleijado para abrir a saco­la, enquanto o outro se elevava, despejando talvez um quilo de documentos sigilosos nas chamas a gás do aquecedor no porão do mi­nistério.

Não poderia saber que estava ajudando um homem a destruir pro­vas de alta traição. O coronel assinou o livro, declarando ter destruído os documentos de sua seção. Com um aceno amigável, Misha pendu­rou a sacola em seu cabide e saiu pela porta, a caminho de seu carro particular.

Misha sabia que naquela noite os fantasmas viriam novamente, e na manhã seguinte ele tomaria sauna outra vez, e outro pacote de infor­mações iria para o Ocidente. A caminho de seu apartamento, o moto­rista parou num empório especial que abria somente para a elite. Ali os artigos eram restritos. Misha comprou salsicha, pão preto e uma garrafa de meio litro de vodca Stolychnaya. Num gesto de camarada­gem, comprou mais uma para o motorista. Para um jovem soldado, vodca era melhor do que dinheiro.

Em seu apartamento, quinze minutos mais tarde, Misha extraiu seu diário da gaveta e antes de mals nada reproduziu o diagrama que acom­panhava o relatório de Bondarenko. Á intervalos de poucos minutos ele passava um segundo ou dois olhando para a fotografia emoldurada da esposa. A maior parte do relatório final seguia a versão inicial escrita à mão; teve que escrever apenas dez páginas novas; inserindo cui­dadosamente as fórmulas críticas enquanto prosseguia. Os relatórios do Cardeal eram sempre modelos de concisão e clareza, uma qualida­de adquirida durante toda uma vida escrevendo instruções operacio­nais. Quando terminou, calçou um par de luvas e foi até a cozinha. Presa magneticamente ao painel traseiro de aço de sua geladeira pro­veniente da Alemanha Ocidental estava uma pequena câmera. Misha manuseava com facilidade a câmera, a despeito da inconveniência das luvas. Levou apenas um minuto para fotografar as novas páginas, de­pois rebobinou o filme e extraiu o cassete. Colocou-o no bolso e reco­locou a câmera no esconderijo antes de tirar as luvas. A seguir ajustou as persianas das janelas. Misha não seria nada se não fosse cuidadoso. Um exame acurado da porta de seu apartamento mostraria arranhões na fechadura, indicando que tinha sido aberta por um perito. Na ver­dade, qualquer um poderia ter feito os arranhões. Quando recebesse a confirmação de que seu relatório tinha atingido Washington ¯ mar­cas de pneus numa parte predeterminada de uma curva ¯, ele rasga­ria as páginas do diário, as levaria em seu bolso até o ministério, depois as colocaria no interior da sacola e as jogaria pessoalmente no incine-rador. Misha supervisionara a instalação do sistema de destruição de documentos, vinte anos atrás.

Quando a tarefa se completou, o coronel Mikhail Semyonovich Fi­litov olhou novamente para o retrato de Elena, perguntando se havia feito a coisa certa. Elena, porém, continuou sorrindo, como sempre fizera. Todos esses anos, pensou ele, e minha consciência ainda se pertur­ba. Sacudiu a cabeça. Seguiu-se a parte final do ritual. Comeu salsicha com pão enquanto seus camaradas mortos na Grande Guerra Patriótica vinham visitá-lo, mas não conseguiu reunir coragem para perguntar aos que tinham morrido pelo seu país se tinha razão em traí-lo. Achou que eles entenderiam melhor do que Elena, porém ti­nha receio de descobrir. O meio litro de vodca tampouco trouxe a res­posta. Pelo menos arrastou seu cérebro à insensibilidade, e ele cambaleou até a cama logo depois das 10 horas, deixando as luzes acesas.

Pouco depois das 11, um carro passou pelo amplo bulevar em fren­te ao apartamento e um par de olhos azuis verificou a janela do coro­nel. Desta vez era Ed Foley. Ele notou as persianas. A caminho de seu próprio apartamento, outra mensagem secreta foi passada. Um tra­balhador sanitário de Moscou encarregou-se de fazer uma série de si­nais. Eram coisas inócuas, como por exemplo uma marca feita com giz num poste de iluminação, cada uma das quais informando um dos membros da corrente de mensageiros para que estivesse em seu posto predeterminado. Um outro membro do pessoal da CIA em Moscou verificaria as marcas ao amanhecer, e, se faltasse alguma coisa, o pró­prio Foley podia abortar a operação, se desejasse.

Mesmo com seu trabalho tenso como era, Ed Foley achava muitos aspectos divertidos. Por um lado, os soviéticos facilitavam as coisas, dando ao Cardeal um apartamento numa rua com muito trânsito. Por outro, fazendo tamanha confusão com a reforma do novo edifício da embaixada que não permitiram que ele e sua família morassem no in­terior, e aquilo forçava Foley ou sua esposa a passar por aquele bule­var todas as noites. Ambos estavam muito felizes em ter seu filho no time de hóquei soviético. Aquela era uma coisa da qual iriam sentir saudades quando partissem, disse Foley a si mesmo enquanto saía do carro. Ele agora gostava mais de hóquei da divisão juvenil do que de beisebol. Bem, sempre havia o futebol. Não queria que seu filho jo­gasse futebol americano. Muitos garotos acabavam se machucando, e ele jamais seria grande o suficiente. Mas isso estava no futuro, e ele ainda precisava se preocupar com o presente.

Precisava ser cuidadoso com as coisas que dizia em voz alta no inte­rior de seu apartamento. Presumia-se que cada sala de cada aparta­mento ocupado por americanos tinha mais microfones do que uma estação de rádio, mas ao longo dos anos Ed e Mary Pat fizeram disso também uma piada. Depois que ele entrava e pendurava o paletó, bei­java a mulher e mexia ao mesmo tempo no lóbulo de sua orelha. Ela dava um risinho de reconhecimento, embora ambos já estivessem can­sados da tensão que vinha com esse sinal. Faltavam só alguns meses.

¯  Como foi a recepção? ¯ perguntou ela, dirigindo-se mais aos mi­crofones embutidos.

¯  A mesma coisa de sempre ¯ foi a resposta gravada.

 

Oportunidades

Beatrice Taussig não chegou a fazer um relatório, embora consideras­se significativo o erro cometido por Candi. Com acesso a praticamen­te tudo o que acontecia no Laboratório Nacional de Los Alamos, não fora informada sobre testes não programados, e, se bem que uma par­te do programa da Iniciativa de Defesa Estratégica se desenvolvesse na Europa e no Japão, nada requeria a interpretação de Al Gregory. Isso levava à conclusão de que o teste era russo, e se eles levaram de avião o menino prodígio para Washington ¯ o carro dele, como ela se lembrava, permanecera no estacionamento do laboratório; portan­to, enviaram também um helicóptero ¯ tinha de ser muito importan­te. Antipatizava com Gregory, contudo não tinha motivos para duvidar da capacidade de sua mente. Ficou imaginando que tipo de teste se­ria, mas não tinha acesso ao que os russos realizavam e sua curiosida­de era bem disciplinada. Tinha de ser. O que ela estava fazendo era perigoso. Mas era parte do divertimento, não era? Ela sorriu sozinha.

¯  Com isso ficam faltando três. ¯ Após os afegães, os russos ins­pecionavam os destroços do An-26. O homem que falara era major da KGB. Nunca estivera num desastre aéreo, e apenas o vento gelado em seu rosto conseguira manter no estômago seu café da manhã.

¯  Um de seus homens?

O capitão de infantaria do Exército soviético ¯ até pouco tempo atrás um conselheiro militar dos títeres no Exército afegão ¯ olhava em volta, para certificar-se de que seus soldados guameciam adequa­damente o local. Seu estômago estava tão estável quanto possível nas circunstâncias. Presenciar de perto o camarada afegão quase estripa-do em frente a seus olhos fora o maior choque de sua vida, e imagina­va se o amigo sobreviveria à cirurgia de emergência.

¯  Ainda desaparecido, eu acho.

A fuselagem do avião partira-se em vários pedaços. Os passageiros da seção dianteira ficaram banhados em combustível quando a aero­nave atingira o chão, e estavam queimados além de qualquer possibi­lidade de reconhecimento. Ainda assim, os soldados montaram os pedaços de quase todos os corpos. Todos menos três, na verdade, e os especialistas em medicina legal determinariam quem tinha morri­do e quem continuava desaparecido. Normalmente não eram tão solí­citos com as vítimas dos desastres aéreos ¯ tecnicamente o An-26 fazia parte da Aeroflot, e não da Força Aérea soviética ¯, mas faziam um grande esforço naquele caso. O capitão desaparecido pertencia ao No­no Diretório ¯ os "Guardas" ¯ da KGB. Era um oficial da adminis­tração que estivera percorrendo a região, verificando o pessoal e as atividades de segurança em certas áreas sensíveis. Seus documentos de viagem incluíam alguns papéis altamente secretos e, o que era mais importante, ele possuía um amplo conhecimento sobre numerosos ofi­ciais e atividades da KGB. Os papéis poderiam ter sido destruídos ¯ os restos do conteúdo de muitas valise foram encontrados reduzidos a cinzas, mas até que a morte do capitão fosse confirmada muita gente iria ficar inquieta no Centro de Moscou.

¯  Ele deixou família... bem, uma viúva. O filho morreu no mês passado, segundo me disseram. Algum tipo de câncer, ao que parece ¯ observou baixinho o major da KGB.

¯  Espero que o senhor cuide apropriadamente da esposa ¯ res­pondeu o capitão.

¯  Claro, temos um departamento encarregado desses assuntos. Se­rá que eles o arrastaram daqui?

¯  Bem, sabemos quem são eles. Sempre revistam os locais dos aci­dentes, procurando armas. ¯ O capitão encolheu os ombros. ¯ Esta­mos lutando contra selvagens ignorantes, camarada major. Duvido que tenham interesse em documentos de qualquer tipo. Talvez tenham re­conhecido o uniforme de oficial da KGB e o tenham levado para mu­tilar o corpo. Não acreditaria nas coisas que eles são capazes de fazer com os prisioneiros.

¯  Bárbaros! ¯ resmungou o homem da KGB. ¯ Abater um avião de transporte desarmado. ¯ Olhou em volta. Soldados "leais" afegães... um adjetivo muito otimista para essa gente, considerou ele... Colocavam os corpos e os pedaços encontrados em grandes sacos plás­ticos, para que fossem embarcados de helicóptero de volta a Ghazni e depois levados a Moscou para identificação. ¯ E se arrastaram da­qui o corpo do meu companheiro?

¯  Nesse caso nunca o encontraremos. Existe uma chance, é claro, mas é muito pequena. Podemos mandar um helicóptero verificar ca­da abutre voando em círculos, mas... ¯ O capitão balançou a cabeça. ¯ As chances são de que o corpo esteja aqui, camarada major. Só pre­cisamos de algum tempo para confirmar o fato.

¯  Pobre coitado... um homem de gabinete. Nem mesmo era seu território, mas o oficial da região foi internado no hospital com pro­blemas na vesícula biliar, e ele aceitou esse trabalho além do próprio.

¯  Qual é a área em que trabalhava normalmente?

¯  Tadjiquistão. Acredito que ele quis um pouco de trabalho extra para tirar seus problemas da cabeça.

¯  Como está se sentindo, russo? ¯ perguntou o Arqueiro a seu prisioneiro.

Não podiam fazer muito na área de assistência médica. A equipe mais próxima de médicos, composta de profissionais e enfermeiras fran­ceses, estava numa caverna perto de Hasan Khél. Os feridos que po­diam andar dirigiam-se agora para lá. Os mais graves... bem, o que podiam fazer? Tinham um bom suprimento de analgésicos e ampolas de morfina fabricadas na Suíça, e aplicaram injeções aos moribundos, para aliviar as dores. Em alguns casos a morfina os ajudava, e qual­quer um que mostrasse esperança de recuperação era colocado numa lliteira e carregado para sudeste, na direção da fronteira com o Paquis­tão. Aqueles que sobrevivessem à viagem de quase 100 quilômetros receberiam cuidados no local mais próximo a um hospital de verdade, perto do aeroporto desativado de Miram Shah. O Arqueiro liderava esse grupo. Havia argumentado com sucesso junto aos companheiros, dizendo que o russo valia mais vivo do que morto, e que o homem do "Amerikastão" lhes daria muito em troca de um membro da polí­cia política soviética e seus documentos. Apenas o líder poderia ter derrotado sua argumentação, mas ele estava morto. Deram ao corpo um enterro tão apressado quanto permitia sua fé, porém agora ele es­tava no Paraíso. Isso fazia do Arqueiro o combatente veterano mais confiável do bando.

Quem poderia supor, baseado nos olhos azuis inflexíveis e nas pala­vras frias, que pela primeira vez em três anos seu coração sentia piedade? Ele mesmo se espantava com isso. Por que tais pensamentos ecoavam em sua cabeça? Seria a vontade de Alá? Tinha de ser, pensou ele. Ç2uem mais poderia ter me impedido de matar um russo?

¯ Dói ¯ respondeu o russo finalmente.

Mas a piedade do Arqueiro não chegava a tanto. A morfina que os mudjahidin levavam era destinada somente a eles. Depois de verificar em volta se ninguém olhava para eles, passou ao russo as fotografias da família. Por um breve instante seus olhos se abrandaram. O oficiai da KGB o encarou com uma expressão de surpresa que suplantou a dor. Sua mão sadia apanhou as fotografias, apertando-as contra o pei­to. Havia gratidão em seus olhos, gratidão e perplexidade. O homem pensava no filho morto e contemplava seu próprio destino. O pior que podia acontecer, decidiu em meio à nuvem de dor, era reunir-se à crian­ça, onde quer que ela se encontrasse. Os afegães não podiam feri-lo mais do que estava, no corpo ou na alma. O capitão encontrava-se na­quele ponto em que a dor se tornara como uma droga, tão familiar que a agonia tornara-se tolerável, quase confortável. Havia escutado que isso era possível, mas não acreditara até então.

Seus processos mentais ainda não funcionavam normalmente. Num estado de semiconsciência, perguntava-se por que não fora assassina­do. Ouvira muitas histórias em Moscou sobre como os afegães trata­vam seus prisioneiros... e foi por isso que você se ofereceu como voluntário para aceitar essa viagem além de seu trabalho?... Agora divagava sobre seu destino e como ele o procurara.

Você não pode morrer, Valery Mikhailovich, precisa viver. Tem uma mu­lher, e ela já sofreu o suficiente, disse a si mesmo. Ela já está passando por... O pensamento se interrompeu sozinho. O capitão colocou a foto no bolso da túnica e rendeu-se à inconsciência enquanto o corpo tra­balhava para curar-se. Não acordou quando foi amarrado a uma tá­bua e colocado sobre um travois, uma espécie de maça. O Arqueiro liderou a partida do grupo.

Misha acordou com sons de batalha reverberando dentro da cabe­ça. Ainda estava escuro lá fora ¯ o sol demoraria algum tempo para se levantar ¯ e a primeira ação considerada foi a ida ao banheiro, on­de jogou água fria no rosto e engoliu três aspirinas. Ânsias de vômito seguiram-se, porém tudo o que expeliu foi bilis amarelada. Ele levan­tou a cabeça para olhar no espelho e constatar o que a traição fizera ao Herói da União Soviética. Ele não podia ¯ e não queria ¯ parar, claro, mas... mas veja o que está fazendo a si mesmo, Misha. Os olhos que tinham sido azuis encontravam-se injetados de sangue e sem vida, a compleição corada agora acinzentada como a de um cadáver. Sua pele estava flácida, e a superfície cinza em suas bochechas maculava um rosto que fora considerado bonito. Estendeu o braço direito, e co­mo sempre o tecido das cicatrizes, com aparência de plástico, estava dolorido. Lavou a boca e andou penosamente até a cozinha para fazer café.

Pelo menos tinha um pouco de grãos, também adquiridos numa lo­ja que abastecia os membros da nomenklatura, e uma máquina ocidental onde prepará-lo. Considerou a possibilidade de comer alguma coisa, mas resolveu ficar só com o café. Podia depois comer um pedaço de pão em sua escrivaninha. O café ficou pronto em três minutos. Bebeu a xícara de um só gole, ignorando os danos do líquido quente, depois levantou o fone para chamar seu carro. Queria ser apanhado cedo e, embora não dissesse que desejava visitar a casa de banhos, o sargento que atendeu ao telefone na garagem sabia o motivo.

Vinte minutos mais tarde Misha saía pela porta principal do edifí­cio. Seus olhos lacrimejavam, e ele os estreitou dolorosamente contra o vento noroeste que tentava empurrá-lo de volta. O sargento pensou em alcançá-lo e firmar seu coronel, mas Filitov inclinou o corpo para contrabalançar os efeitos da mão invisível da natureza e entrou no car­ro da maneira que sempre fazia, como se estivesse embarcando em seu velho T-34 para combater.

¯  Para os banhos, camarada coronel? ¯ quis saber o sargento, de­pois de acomodar-se no banco da frente.

¯  Você vendeu a vodca que eu lhe dei?

¯  Bem... sim, camarada coronel ¯ respondeu o jovem.

¯  Bom para você, é muito mais saudável do que bebê-la. Aos ba­nhos. Rápido ¯ declarou o coronel, fingindo seriedade ¯, e talvez eu sobreviva.

¯  Se os alemães não conseguiram matá-lo, meu coronel, duvido que uma pequena quantidade de boa vodca russa consiga fazer isso ¯ disse alegremente o rapaz.

Misha permitiu-se uma risada, aceitando com bom humor a ponta-da em sua cabeça. O motorista até mesmo se parecia com o cabo Romanov.

¯  O que acha de ser um oficial, algum dia?

¯  Obrigado, camarada coronel, mas desejo voltar à faculdade para terminar meus estudos. Meu pai é engenheiro químico e gostaria de seguir sua carreira.

¯  Pois então ele é um homem de sorte, sargento. Vamos andando. O carro chegou ao prédio desejado em dez minutos. O sargento deixou que o coronel descesse, depois estacionou num dos espaços reser­vados de onde ele podia observar as portas. Acendeu um cigarro e abriu um livro. Era um bom emprego esse, muito melhor do que arrastar-se na lama com uma companhia de combate. Pobre coitado, pensou ele, ser assim tão sozinho. Que sorte miserável um herói chegar a esse ponto.

No interior, a rotina era tão rígida que Misha poderia tê-la realiza­do dormindo. Depois de despir-se, apanhou sua toalha, os chinelos, os ramos de vidoeiro e foi até a sala de vapor. Viera mais cedo do que de costume. A maior parte dos freqüentadores regulares ainda não che­gara. Melhor assim. Aumentou o fluxo de água nos tijolos refratários e sentou-se para permitir que sua cabeça latejante se desanuviasse. Três outros espalhavam-se pela sala. Reconheceu dois deles, mas não eram amigos e nenhum parecia ter vontade de falar. Para Misha estava óti­mo assim. O simples fato de mover a mandíbula doía, e a ação da as­pirina parecia mais lenta naquela manhã.

Quinze minutos mais tarde, o suor brotava do corpo branco. Le­vantou os olhos para observar o atendente, ouviu a cantilena de sem­pre sobre as bebidas ¯ ninguém quis nada ainda ¯, mais a parte sobre a piscina. Parecia uma coisa natural para um homem naquele traba­lho dizer, mas o que a combinação exata de palavras significava era: Tudo certo. Estou pronto para a transferência. Em resposta, Misha lim­pou o suor das sobrancelhas num gesto exagerado e comum aos ho­mens de sua idade. Pronto. O atendente saiu. Vagarosamente, Misha começou a contar até trezentos. Quando chegou a 257, um de seus companheiros alcoólatras levantou-se e saiu. Misha reparou no fato, mas não se preocupou. Tinha muita prática para isso. Quando che­gou a trezentos, ergueu-se com um movimento oscilante dos joelhos e deixou a sala sem uma palavra.

O ar estava muito mais frio no vestiário, mas ele notou que o outro homem ainda não saíra. Falava sobre algum assunto com o atendente. Misha esperou com paciência que o atendente reparasse nele, o que aconteceu logo. O jovem veio em seguida, e o coronel andou alguns passos para encontrá-lo. Misha tropeçou num ladrilho solto e quase caiu. Seu braço bom projetou-se para a frente. O atendente o segu­rou, ou quase o fez. Os ramos de vidoeiro caíram ao chão.

O jovem apanhou-os num instante e ajudou Misha a firmar-se. Em mais alguns segundos deu-lhe uma toalha limpa para o banho de chu­veiro e colocou-se a caminho.

¯ Está bem, camarada? ¯ indagou o outro homem do canto dis­tante do aposento.

¯  Sim, obrigado. São meus velhos joelhos, e esse velho assoalho. Eles deviam cuidar melhor do assoalho.

¯  Deviam mesmo. Venha, vamos tomar uma ducha juntos ¯ con­vidou o homem. Tinha cerca de 40 anos, e não havia nada notável nele, à exceção dos olhos injetados. Mais um bebedor, reparou ime­diatamente Misha. ¯ Esteve na guerra, então?

¯  Como tanquista. O último canhão alemão me acertou... mas eu também o acertei, no saliente de Kursk.

¯  Meu pai esteve lá. Ele serviu no Sétimo Exército, sob o coman­do de Koniev.

¯  Eu estava do outro lado: Segundo de Tanques, sob o comando de Konstantin Rokossovsky. Minha última batalha.

¯  Posso ver por quê, camarada...

¯  Filitov, Mikhail Semyonovich, coronel da Divisão de Tanques.

¯  Sou Klementi Vladimirovich Vatutin, mas não sou herói. É um prazer conhecê-lo, camarada.

¯  É bom para um velho ser tratado com respeito.

O pai de Vatutin havia servido na campanha em Kursk, mas como agente político. Ele havia se aposentado como coronel da NKUD, e seu filho seguira suas pegadas naquela agência de segurança interna que depois se tornou a KGB.

Vinte minutos depois, o coronel saiu para seu escritório, e o aten­dente dos banhos esgueirou-se pela porta traseira e entrou na lavan­deria a seco. O gerente da loja precisou ser chamado na sala de equipamentos, onde estivera lubrificando uma bomba. Como simples medida de segurança, o homem que apanhou o filme não deveria sa­ber o nome do outro, nem onde ele trabalhava. Embolsou o magazi­ne, passou três garrafas de meio litro de bebida e voltou a lubrificar a bomba, seu coração batendo rápido, como sempre acontecia em tais dias. Achava muito divertido o fato de que seu trabalho de cobertura como "agente" da CIA ¯ um soviético trabalhando para a agência americana de informações ¯ funcionava em seu próprio benefício fis­cal. O comércio ilícito de álcool pagava em rublos "certificados", que poderiam ser utilizados para comprar bens ocidentais e gêneros ali­mentícios de primeira nas lojas de moeda estável. Pesou aquilo contra a tensão de sua missão enquanto retirava o óleo da superfície da má­quina com as mãos. Fazia parte daquela corrente de "elos" há seis meses, e, embora não soubesse ainda, seu trabalho na corrente logo estaria terminado. Ainda seria usado para passar informações, mas não para o Cardeal. Em pouco tempo o homem dos banhos estaria procu­rando outro emprego, e aquela corrente de agentes sem nome seria dissolvida ¯ e impossível de seguir, mesmo para os incansáveis agen­tes de contra-inteligência do Segundo Diretório da KGB.

Quinze minutos mais tarde, uma cliente habitual apareceu com um de seus casacos ingleses. Era um modelo Aquascutum, com o forro de náilon removido. Como sempre, ela disse alguma coisa sobre to­mar um cuidado especial e ser especialmente delicado com o casaco, e como sempre ele protestou afirmando que aquela era a melhor la­vanderia em toda a União Soviética. Mas não possuía formulários im­pressos, e ele escreveu três vias à mão, usando folhas de papel carbono. A primeira foi presa ao casaco com um alfinete, a segunda foi para uma pequena caixa e a terceira... mas primeiro ele verificou os bolsos.

¯  Camarada, esqueceu alguns trocados aqui. Agradeço, mas não precisamos do dinheiro extra. ¯ Ele passou as moedas e o recibo. E mais alguma coisa. Era tão fácil... Ninguém verificava os bolsos, co­mo no Ocidente.

¯  O senhor é de fato um homem honrado ¯ disse a mulher, com estranha formalidade, muito comum na União Soviética. ¯ Bom dia, camarada.

¯  Igualmente ¯ respondeu o homem. ¯ O próximo!

A mulher ¯ seu nome era Svetlana ¯ andou até a estação de me­trô, como sempre. Seu horário lhe permitia um andar vagaroso no ca­so de problemas em algum estágio da entrega. As ruas de Moscou estavam sempre cheias de pessoas apressadas que não sorriam, muitas das quais olhavam para seu casaco com uma ponta de inveja. Ela pos­suía uma vasta coleção de roupas inglesas, tendo viajado ao Ocidente em várias oportunidades como parte de seu trabalho no Gosplan, ór­gão soviético de planejamento econômico. Na Inglaterra fora recruta­da pelo Serviço Secreto Britânico de Inteligência. Fora utilizada na corrente do Cardeal porque a CIA não tinha muitos agentes disponí­veis na Rússia, e ela realizava trabalhos cuidadosamente escolhidos para ficar no centro da corrente, nunca perto das pontas. Os dados que ela mesma proporcionava ao Ocidente eram informações econômicas de baixo nível, e seus serviços ocasionais como mensageira eram na ver­dade mais úteis do que as informações das quais tanto se orgulhava. Seu controlador nunca lhe dissera aquilo, claro; cada espião julga que possui as informações mais vitais que já saíram do país. Isso tornava o jogo mais interessante, e, por todas as motivações ideológicas (ou outras) envolvidas, os espiões viam sua obra como o maior de todos os jogos, uma vez que precisavam ludibriar os mais formidáveis apa­ratos de seus próprios países. Svetlana na verdade apreciava o fato de viver perigosamente entre a vida e a morte, embora não soubesse por quê. Também acreditava que seu pai, altamente colocado ¯ um mem­bro já antigo do Comitê Central ¯, poderia protegê-la de qualquer coisa. Afinal de contas, sua influência permitia que ela viajasse para a Europa ocidental duas ou três vezes por ano, não era? Um homem pomposo, seu pai, mas Svetlana era sua única filha, a mãe de seu neto e o centro de seu universo.

Ela entrou na estação Kuznetsky Most a tempo de ver um trem par­tindo. Calcular o tempo era a parte mais difícil. Na hora do rush, os trens do metrô soviético corriam de trinta em trinta segundos. Svetla­na verificou seu relógio, e mais uma vez calculou sua chegada com perfeição. O contato estaria no próximo trem. Andou ao longo da pla­taforma para o local exato onde estaria a porta dianteira do segundo carro daquele trem, assegurando-se de que seria a primeira a embar­car. Suas roupas ajudaram. Freqüentemente passava por estrangeira, e os moscovitas tratavam os estrangeiros com deferência geralmente reservada à realeza ¯ ou os gravemente enfermos. Não teve que espe­rar muito tempo. Logo escutou o rumor de um trem que se aproxima­va. As cabeças se voltaram, como faziam sempre, para ver as luzes do primeiro carro que se aproximava, e o ruído dos freios encheu a esta­ção abobadada com um guincho agudo. As portas se abriram e uma pequena multidão saiu. Svetlana então embarcou e deu alguns passos em direção à traseira do carro. Agarrou a barra de apoio no alto ¯ todos os assentos encontravam-se ocupados, e nenhum homem lhe ofe­receu lugar ¯ e ficou de frente antes que o trem andasse novamente. Sua mão esquerda, sem luva, permaneceu no bolso do casaco.

Nunca vira o rosto do seu contato no trem, mas sabia que ele já vira o seu. Quem quer que fosse, ele apreciava sua figura esguia. Ela sabia disso por causa do sinal. No aperto do carro apinhado, uma mão es­condida por uma cópia do Izvestia correu ao longo de sua nádega es­querda e parou para apertar suavemente. Aquilo era novidade e ela lutou contra o impulso de ver o rosto do contato. Seria um bom amante? Até que poderia ter mais um. Seu ex-marido era tão... mas não. Des­sa maneira era mais poético, mais russo, que um homem cuja face nun­ca vira a achasse bonita e desejável. Ela agarrou o filme entre o polegar e o indicador, aguardando dois minutos para que o trem parasse em Pushkinskaya. Seus olhos estavam fechados, e um milímetro de sorri­so se formava em seus lábios enquanto ela imaginava a identidade e os atributos do contato cujas mãos a acariciavam. Teria horripilado seu agente controlador, mas não exteriorizou sinal algum.

O trem diminuiu a velocidade. Pessoas levantaram dos assentos, e os que estavam em pé prepararam-se para sair. Svetlana tirou a mão do bolso. O magazine estava escorregadio, ela não sabia se era água ou alguma substância oleosa da lavanderia. A mão abandonou seu qua­dril ¯ uma longa e vagarosa trilha de pressão suave ¯ e elevou-se pa­ra receber o pequeno cilindro metálico enquanto seu rosto virava para a direita.

Logo atrás dela, uma mulher idosa tropeçou nos próprios pés e foi de encontro ao contato. A mão dele bateu no magazine, arrancando-o de Svetlana. Por um momento ela não percebeu o que acontecera, e no instante seguinte o homem estava de quatro apanhando o filme. Ela olhou para baixo, mais surpresa do que assustada, vendo a parte traseira da cabeça do contato. Ele estava ficando careca, e o cabelo em volta de suas orelhas era cinza ¯ era um velho! Em um momento ele apanhou o magazine e ficou em pé. Velho mas ágil, pensou ela, vendo de relance a forma do maxilar. Um perfil forte ¯ sim, ele seria um bom amante, e talvez do tipo paciente, o melhor de todos. Ele des­ceu do trem, e ela aclarou a mente. Svetlana não reparou que um ho­mem sentado ao lado esquerdo do carro levantara-se e andava contra as pessoas que entravam, saindo um segundo antes que as portas se fechassem novamente.

Chamava-se Boris, um agente do turno da noite no quartel-general da KGB, e estava a caminho de casa. Geralmente lia um jornal de es­portes ¯ o Sovietsky Sport ¯, mas nesse dia esquecera-se de comprar seu exemplar na banca do prédio do quartel-general, e acidentalmen­te enxergara no chão sujo e preto do vagão um objeto que só poderia ser um magazine de filme, e pequeno demais para vir de uma câmera comum. Não vira a tentativa de mudá-lo de mãos, e não sabia quem o deixara cair. Presumiu que fosse o homem na casa dos 50, notando a habilidade demonstrada ao recuperá-lo. Uma vez fora do carro, com­preendeu que ocorrera uma transferência, porém ficara surpreso de­mais para reagir prontamente, surpreso e cansado demais depois de uma longa noite de serviço.

Ele era um ex-agente controlador que agira na Espanha até voltar para casa depois de um ataque do coração, sendo destacado para o turno da noite em sua seção. Seu posto era o de major. Achava que merecia o coronelato pelo trabalho que realizara, mas esse pensamento tam­bém não estava em sua mente no momento. Seus olhos percorriam a plataforma, procurando pelo homem de cabelos grisalhos e casaco marrom. Lá estava] Ele começou a andar, sentindo uma pequena pon-tada do lado esquerdo do peito enquanto se movia atrás do homem. Ignorou aquilo. Havia deixado de fumar há alguns anos, e o médico da KGB dissera que estava indo bem. Chegou a 5 metros do homem, e não se aproximou mais. Era hora de ter paciência. Seguiu-o através da passagem para a estação Gorkovskaya e sobre a plataforma. Ali as coisas ficavam difíceis. Á plataforma estava apinhada de gente que se­guia para o escritório, e ele perdeu contato visual com sua presa. O agente da KGB era um homem baixo e tinha dificuldade entre multi­dões. Ousaria aproximar-se mais? Isso significaria ter que abrir cami­nho na multidão... e chamar atenção sobre si. Era perigoso.

Havia sido treinado para isso, é claro, mas aquilo ficara mais de vinte anos atrás, e ele procurava freneticamente os procedimentos em sua mente. Conhecia a técnica de campo, sabia como identificar e despis­tar um perseguidor, mas era um homem do Primeiro Diretório, e as técnicas de sombreamento usadas pelos furões do Segundo Diretório não constavam de seu repertório. O que faço agora? Irritou-se consigo mesmo. Aquela era uma chance e tanto! Os homens do Primeiro Di­retório tinham tendência a odiar naturalmente seus equivalentes do Segundo, e apanhar um deles em... Mas e se houvesse um agente do "Dois" por perto? Será que presenciava um exercício de treinamen­to? Será que naquele momento ele estaria sendo objeto da ira de um agente do "Dois" que tinha seu caso naquele mensageiro? Poderia lhe acontecer tal desgraça? O que faço agora? Olhou em volta, espe­rando identificar o homem da contra-inteligência que pudesse estar "trabalhando" o mensageiro. Não tinha esperança de reconhecer o rosto, mas talvez divisasse um gesto sinalizador. Achou que ainda se lembrava do código. Nada. O que faço agora? Estava suando na fria estação do metrô, e a dor em seu peito aumentava para piorar seu di­lema. Existia um sistema de linhas telefônicas ocultas em cada esta­ção do sistema de metrô. Todos os agentes da KGB sabiam utilizar-se delas, porém sabia que não tinha tempo para encontrar e ativar o sistema.

Tinha de seguir o homem. Tinha de correr o risco. Se a decisão provasse ser errada, bem, ele era um agente de campo experiente exer­cendo seu próprio direito e tinha procurado algum sinal. O pessoal do "Dois" iria criticá-lo, mas sabia que podia contar com seus superio­res para protegê-lo. A decisão fora tomada, e a dor no peito aquietou-se. Mas restava ainda o problema de localizar o homem. O oficial da KGB abriu caminho através da multidão, suportando as reclamações à medida que progredia, mas finalmente teve o caminho bloqueado por um grupo de trabalhadores que discutia calorosamente sobre al­gum assunto. Esticou o pescoço para procurar a presa ¯ Sim! Ainda em pé, olhando para a direita... O som do trem do metrô veio como um verdadeiro alívio.

 

Permaneceu em pé, tentando não olhar com muita freqüência para o alvo. Ouviu as portas dos carros se abrirem com um assobio, ouviu a mudança súbito no barulho quando os passageiros saíram, depois o rumor arrastado de pés quando as pessoas avançaram em direção às portas.

O carro estava lotado! Seu homem achava-se no interior, mas as por­tas estavam bloqueadas por corpos. O agente da KGB correu para al­cançar a porta traseira e lutou para entrar um momento antes que elas se fechassem. Compreendeu com um arrepio que talvez tivesse sido óbvio demais, porém não havia nada que pudesse fazer quanto a isso. Quando o trem começou a andar, abriu caminho em direção à frente. Pessoas sentadas e em pé repararam no movimento inconveniente. En­quanto observava, alguém ajeitou um chapéu. Três ou quatro jornais foram dobrados ¯ quaisquer desses sinais poderia servir de aviso ao mensageiro.

Um deles serviu. Ed Foley olhava para outro lado depois de ajeitar os óculos com a mão direita enluvada, segurando a outra luva. O men­sageiro virou as costas para a frente do carro e repassou seus procedi­mentos de fuga. Foley repassou os seus. O mensageiro iria livrar-se do filme, expondo-o primeiro ao puxar a tira para fora do invólucro de metal, depois atirando-o na lata de lixo mais próxima. Isso havia acontecido duas vezes anteriormente, ao que ele soubesse, e em am­bos os casos o "elo" conseguira fugir sem problemas. São treinados para isso, disse Foley a si mesmo. Sabem como fazê-lo. O Cardeal seria avisado, outro filme seria feito e... mas isso nunca acontecera no tur­no de Foley, e ele precisou usar de toda a sua disciplina para manter o rosto impassível. O mensageiro não fez nenhum movimento. Desce­ria no ponto seguinte de qualquer jeito. Não fizera nada fora do co­mum, nada que parecesse anormal. Ele diria que encontrara essa coisa pequena e engraçada, com a ¯ era um filme, camarada? ¯ tira para fora no assoalho do carro, e pensou que fosse simplesmente lixo para ser jogado fora. No interior do bolso, o homem tentava puxar o filme para fora do magazine. Quem quer que o tivesse utilizado, sempre dei­xava alguns milímetros para fora a fim de que se pudesse puxá-lo in­teiro para fora ¯ ou assim lhe foi dito. Mas o magazine estava escorregadio, e ele não conseguia segurar com firmeza a ponta expos­ta. O trem parou novamente e o mensageiro saiu. Não sabia quem o estava seguindo. Não sabia nada, além de que recebera o sinal de fuga, e esse sinal também lhe dizia para destruir o material que levava da forma combinada ¯ mas nunca tivera de fazer isso antes. Tentou não olhar ao redor e saiu da estação tão rapidamente quanto qualquer um na multidão. De sua parte, Foley nem ao menos olhou para fora pela janela do trem. Era quase inumano, mas conseguiu controlar-se, temendo acima de tudo colocar seu agente em perigo.

O mensageiro subia sozinho num dos degraus da escada rolante. Ape­nas mais alguns segundos e ele estaria na rua. Encontraria um beco para expor o filme e um esgoto para jogá-lo fora, junto com o cigarro que acabava de acender. Um movimento suave da mão, e mesmo que fosse apanhado não haveria provas, e sua história, decorada e pratica­da diariamente, era boa o bastante para confundir a KGB. Sua carrei­ra como espião estava terminada agora. Sabia disso e ficou surpreso com a onda de alívio que o envolveu como um banho quente e con­fortável.

O ar era um frio lembrete da realidade, mas o sol se elevava e o céu estava límpido. Voltou-se para a direita e começou a andar. Havia uma viela a meio quarteirão de distância, e uma grade de esgoto que pode­ria utilizar. Seu cigarro terminaria exatamente ao chegar lá, outro as­pecto que havia praticado. Agora, se conseguisse tirar o filme do magazine e expô-lo à luz do sol... Merda. Retirou sua outra luva e esfregou as mãos. O mensageiro usou as unhas para apanhar a ponta do filme. Pronto! Ele amassou o filme, colocou o magazine de volta ao bolso, e...

¯  Camarada! ¯ A voz era forte para um homem de sua idade, pen­sou o mensageiro. Os olhos castanhos brilhavam em sinal de alerta, e a mão em seu bolso parecia forte. A outra, notou, escondia-se no bolso do homem. ¯ Quero ver o que tem na mão.

¯  Quem é você? ¯ retrucou o mensageiro. ¯ O que significa isso? A mão direita balançou dentro do próprio bolso.

¯   Sou o homem que vai matar você aqui na rua, a menos que veja o que tem na mão. Sou o major Boris Churbanov. ¯ Churbanov sabia que isso logo seria falso. Pela expressão no rosto do homem, sabia que tinha assegurado o posto de coronel.

Foley chegou ao escritório dez minutos depois. Mandou um de seus homens ¯ na verdade uma mulher ¯ sair às ruas para procurar sinais de que a dispensa do material fora bem-sucedida, e tinha esperança de haver bancado o bobo, apenas reagindo exageradamente a um pas­sageiro habitual com pressa de chegar ao trabalho. Mas... havia algu­ma coisa naquele rosto que dizia profissional. Foley não sabia exatamente o quê, mas estivera lá. Tinha as mãos estendidas sobre a escrivaninha e ficou olhando para elas durante vários minutos.

O que fiz de errado?, perguntava a si mesmo. Fora treinado para realizar aquilo também, analisar as ações passo a passo, procurando fa­lhas procurando erros, procurando... Fora seguido? Freqüentemente o era é claro, como todos os americanos que trabalhavam com o pes­soal da embaixada. Chamava "George" ao homem que sempre o se­guia. Mas George não estava presente com muita freqüência. Os russos não sabiam quem era Edward Foley. Tinha certeza disso. Esse pensa­mento lhe ficou atravessado na garganta. Ter certeza sobre qualquer coisa no negócio de espionagem era o caminho mais certo para o de­sastre. Esse era o motivo pelo qual nunca falhara nos procedimentos, nunca se desviara do treinamento que fora introduzido nele em Camp Peary, no rio York na Virgínia, e depois colocado em prática pelo mun­do inteiro.

Bem. A próxima coisa a fazer estava predeterminada. Foi até a sala de comunicações e enviou um telex para Foggy Bottom. Este, entre­tanto, foi para um número cujo tráfego nunca era rotina. No espaço de um minuto de seu recebimento, um agente de plantão em Langley dirigiu até State para apanhá-lo. As palavras da mensagem eram inó­cuas, mas O significado não: PROBLEMAS NA LINHA DO CARDEAL. DA­DOS COMPLETOS A CAMINHO.

Eles não o levaram para a Praça Dzerzhinsky. O quartel-general da KGB, usado como prisão há tanto tempo ¯ um calabouço, conside­rando tudo o que acontecia lá ¯, era agora exclusivamente um prédio de escritórios, uma vez que a agência se expandira em obediência à lei de Parkinson, absorvendo todo o seu espaço disponível. Agora os interrogatórios eram realizados no Presídio Lefortovo, a um quartei­rão do Cinema Sputnik. Havia muito espaço ali.

Ele estava sentado sozinho numa sala contendo uma mesa e três ca­deiras. Nunca ocorrera ao mensageiro a idéia de resistir, e mesmo agora ele não compreendera que, se tivesse corrido ou lutado com o homem que o prendera, podia estar livre ainda. Não era a idéia de que o ma­jor Churbanov estivesse armado ¯ não estava ¯, mas simplesmente que aos russos, quando privados de liberdade, freqüentemente faltam os conceitos necessários para uma resistência ativa. Assistira sua vida acabar. Aceitava isso. O mensageiro tinha temores, mas temia apenas o que tinha de ser. Não se pode lutar contra o destino, disse a si mesmo.

¯  Então, Churbanov, o que temos aqui? ¯ quem fez a pergunta foi um capitão do Segundo Diretório, com cerca de 30 anos de idade.

¯  Peça para alguém revelar isso. ¯ Ele entregou o magazine. ¯ Acho que este homem é um agente mensageiro. ¯ Churbanov descre­veu o que tinha visto e o que tinha feito. Não disse que havia rebobinado o filme de volta ao magazine. ¯ Foi pura sorte eu ter descoberto o homem ¯ concluiu.

¯  Não sabia que o pessoal do "Um" fazia esse tipo de coisa, ca­marada major. Muito bem!

¯  Estava com receio de estragar alguma operação de vocês, e...

¯  A essa altura já saberia. É necessário que faça um relatório com­pleto. Se quiser acompanhar o sargento, ele o levará até uma estenó-grafa. Vou convocar também uma equipe completa de verificação. Isso vai levar algumas horas. Talvez queira avisar sua esposa.

¯  O filme ¯ insistiu Churbanov.

¯  É claro. Eu mesmo vou levá-lo ao laboratório. Se você acompa­nhar o sargento, vou ao seu encontro em dez minutos.

O laboratório ficava na ala oposta da prisão. O Segundo Diretório tinha uma pequena instalação ali, uma vez que a maior parte do tra­balho centralizava-se em Lefortovo. O capitão surpreendeu o técnico do laboratório entre dois serviços, e o processo de revelação foi ime­diatamente iniciado. Enquanto esperava, telefonou para seu coronel. Ainda não havia maneira de saber o que aquele homem do "Um" descobrira, mas era quase certo que se tratava de um caso de espiona­gem, e todos eles eram tratados como assuntos de grande importân­cia. O capitão balançou a cabeça. Um veterano ex-agente de campo tropeçando num assunto como aquele.

¯  Terminado. ¯ O técnico voltou. Havia revelado o filme e pro­duzido uma ampliação, ainda úmida do processamento. Ele devolveu também o filme revelado, no interior de um pequeno envelope de pa­pel manilha. ¯ O filme foi exposto à luz e rebobinado. Consegui sal­var parte de uma exposição. E interessante, mas não tenho idéia do que seja.

¯  E quanto ao resto?

¯  Nada pode ser feito. Uma vez que o filme foi exposto à luz solar, os dados foram totalmente destruídos.

O capitão examinou a ampliação enquanto o técnico dizia mais al­guma coisa. Tratava-se principalmente de um diagrama, com títulos em letras de fôrma. As palavras no alto do diagrama diziam: COM­PLEXO ESTRELA BRILHANTE 1, e um dos pedaços de outro ca-beçalho era DISPOSIÇÃO DO LASER. O capitão disse um palavrão e deixou a sala.

O major Churbanov tomava chá com a equipe de verificação quan­do o capitão voltou. O cenário era de camaradagem. Ficaria ainda mais.

¯  Camarada major, o senhor descobriu algo da mais alta impor­tância ¯ afirmou o capitão.

¯  Sirvo à União Soviética ¯ respondeu tranqüilamente Churba­nov. Era a resposta perfeita, a recomendada pelo Partido. Talvez pu­lasse o posto de tenente-coronel e se tornasse um coronel...

¯  Deixe-me ver ¯ pediu o chefe da equipe de verificação. Era um coronel, e examinou cuidadosamente a ampliação. ¯ Isso é tudo?

¯  O resto foi destruído.

O coronel grunhiu. Aquilo iria criar um problema, mas não tão gran­de assim. O diagrama seria suficiente para identificar o local, onde quer que fosse. O desenho parecia ser o trabalho de uma pessoa jo­vem, provavelmente uma mulher em virtude do capricho. O coronel fez uma pausa e olhou através da janela por alguns segundos.

¯  Isso precisa ir para o alto, e depressa. O que está descrito aqui é... bem, eu nunca ouvi falar nisso, mas deve ser um assunto do mais alto sigilo. Comecem vocês a verificação, camaradas. Preciso dar al­guns telefonemas. Você, capitão, leve o magazine para o laboratório verificar as impressões digitais e...

¯  Camarada, eu o segurei com as mãos nuas ¯ disse Churbanov, envergonhado.

¯  Não tem nada de que se desculpar, camarada major, sua vigilân­cia foi mais do que exemplar ¯ afirmou generosamente o coronel. ¯ Verifique as impressões de qualquer modo.

¯  O espião? ¯ perguntou o capitão. ¯ Que tal interrogá-lo?

¯  Precisamos de alguém com experiência. Conheço o homem cer­to. ¯ O coronel levantou-se. ¯ Vou telefonar para ele também.

Muitos pares de olhos o observavam, avaliando-o, ao seu rosto, sua determinação, sua inteligência. O mensageiro ainda estava só na sala de interrogatório. Os cordões de seus sapatos foram retirados, é claro, além do cinto, os cigarros e tudo o mais que pudesse lhe servir de ar­ma contra si mesmo. Não havia maneira de medir o tempo, e a falta de nicotina o deixava irritado e ainda mais nervoso do que deveria es­tar. Correu o olhar pela sala e viu um espelho, que permitia a visão do outro lado, embora ele não soubesse disso. A sala era completa­mente à prova de sons, negando-lhe até mesmo a possibilidade de medir o tempo através do som das passadas no corredor externo. Seu estô­mago roncou algumas vezes, mas fora isso não produziu nenhum som. Finalmente a porta se abriu.

O homem que entrou tinha por volta de 40 anos e estava bem vesti­do com roupas civis. Trazia algumas folhas de papel. O homem deu a volta até o outro lado da mesa e não olhou para o mensageiro até sentar-se. Quando o fez, seus olhos mostravam desinteresse, como alguém no zoológico examinando uma criatura de uma terra distante. O mensageiro tentou manter o olhar impassível, mas não conseguiu. O interrogador já sabia que aquele seria fácil. Depois de quinze anos, ele sempre podia prever.

¯  Você tem uma escolha ¯ declarou ele, depois de pouco mais de um minuto. Sua voz não era dura, mas tinha um tom decidido. ¯ Po­de ser fácil para você, ou pode ficar muito desagradável. Você come­teu traição contra a Mãe Pátria. Não preciso dizer o que acontece com traidores. Se deseja viver, vai me dizer agora, hoje, tudo o que sabe. Se não fizer isso, vamos descobrir de qualquer maneira e você morre­rá. Se nos disser tudo hoje, sèr-lhe-á permitido viver.

¯  Vocês vão me matar de qualquer jeito ¯ observou o mensageiro.

¯  Isso não é verdade. Se cooperar hoje, será na pior das hipóteses sentenciado a uma pena extensa num campo de trabalho de regime rigoroso. É até possível que o utilizemos para desmascarar outros es­piões. Se for assim, será enviado para um campo de regime modera­do, para cumprir uma pena menor. Mas, para que isso aconteça, você precisa cooperar, hoje. Vou explicar. Se retomar sua vida normal ime­diatamente, as pessoas para as quais trabalha podem não ficar saben­do que o prendemos. Portanto, continuarão a utilizá-lo e isso nos permitirá usar você para apanhá-los no ato de espionar a União Sovié­tica. Você testemunhará contra eles nos tribunais, e isso permitirá que o Estado demonstre clemência. Demonstrar clemência em público é uma coisa útil ao Estado. Mas para que tudo isso aconteça, para sal­var sua vida e expiar seus crimes, precisa cooperar hoje. A voz parou por um instante, e suavizou-se ainda mais.

¯  Camarada, não tenho nenhum prazer em produzir dor nas pes­soas, mas, se meu trabalho assim o exigir, darei a ordem sem hesita­ção. Não pode resistir ao que faremos com você. Ninguém pode. Não importa o quanto seja corajoso, seu corpo tem limitações. O meu tam­bém. É só uma questão de tempo. O tempo é importante para nós apenas nas primeiras horas, compreende? Depois disso podemos de­morar todo o tempo que quisermos. Um homem com um martelo po­de quebrar a mais dura das rochas. Poupe-se da dor, camarada. Salve sua vida ¯ concluiu a voz. Os olhos, que eram estranhamente tristes e determinados ao mesmo tempo, fixaram-se no mensageiro.

O interrogador percebeu que tinha vencido. Sempre se podia saber pelos olhos. Os desafiadores, os difíceis, não desviavam os olhos. Po­diam encarar os seus, ou mais freqüentemente um ponto fixo na pare­de atrás, porém os resolutos fixavam um ponto e retiravam dali sua força. Mas não esse. Seus olhos passeavam pela sala, buscando força e não encontrando nada. Bem, ele esperara mesmo que fosse fácil. Talvez mais um gesto...

¯Gostaria de fumar? ¯O interrogador retirou um maço do bolso e sacudiu-o, derrubando um cigarro sobre a mesa.

O mensageiro apanhou-o, e o papel branco do cigarro foi sua ban­deira de rendição.

 

Avaliação de Danos

¯ O que sabemos? ¯ indagou o juiz Moore.

Passava um pouco das 6 horas da manhã em Langley, antes do alvo­recer, e a vista do lado de fora das janelas combinava com o desânimo que o diretor e seus principais subordinados sentiam.

¯ Alguém estava seguindo o "elo" número quatro ¯ disse Ritter. O vice-diretor de Operações folheou os papéis em sua mão. ¯ Ele avis­tou o perseguidor poucos antes que a transferência fosse realizada, e deu o sinal para que o agente saísse. O perseguidor provavelmente não viu seu rosto e saiu atrás do agente. Foley disse que o homem parecia desajeitado... Isso é estranho, mas Foley usou o instinto, e ele é muito bom nisso. Colocou um agente na rua para procurar o sinal de que o "elo" despistara o perseguidor, mas não foi encontrado. Temos de presumir que o "elo" foi "queimado" e temos de presumir que o fil­me está nas mãos deles também, até provarmos o contrário. Foley que­brou a corrente. O Cardeal será notificado para nunca mais usar seu receptador. Vou dizer a Ed para usar a rotina de dados perdidos, e não a de emergência.

¯  Por quê? ¯ quis saber o almirante Greer. O juiz Moore respondeu.

¯  A informação que estava a caminho é muito importante, James. Se dermos o sinal de emergência, ele pode... bem, dissemos a ele que, caso isso acontecesse, ele deveria destruir tudo o que pudesse incriminá-lo. E se ele não puder recriar as informações? Precisamos delas.

¯  Além do mais, Ivã precisa fazer muita coisa para chegar até ele ¯continuou Ritter. ¯ Quero que Foley receba os dados restaurados e os envie, depois... depois quero retirar o Cardeal de uma vez por todas. Ele já pagou suas dívidas. Depois que obtivermos os dados, então daremos o sinal de emergência, e, se tivermos sorte, vai assustá-lo o suficiente para convencê-lo a sair.

¯  Como quer fazer isso? ¯ perguntou Moore.

¯  Pela via molhada, no norte ¯ respondeu o vice de Operações.

¯  Alguma sugestão, James? ¯ indagou Moore ao vice de Inteli­gência.

¯  Faz sentido. Leva algum tempo para preparar. Dez a catorze dias.

¯  Vamos fazer isso hoje. Você liga para o Pentágono e faz o pedido. Certifique-se de que eles nos dêem um bom meio.

¯  Certo ¯ concordou Greer, depois sorriu. ¯ Já sei que barco vou pedir.

¯  Logo que soubermos qual é, enviaremos nosso homem para lá. Usaremos o senhor Clark ¯ disse Ritter. Cabeças afirmaram sua con­cordância. Clark era uma pequena lenda no Diretório de Operações. Se havia alguém que podia fazê-lo, esse alguém era ele.

¯  Muito bem, envie a mensagem a Foley ¯ declarou o juiz. ¯ Te­nho que dar conhecimento disso ao presidente. ¯ Não estava ansioso para fazê-lo.

¯  Ninguém dura para sempre. O Cardeal já teve sorte por três ve­zes ¯ disse Ritter. ¯ Lembre-se também de dizer isso a ele.

. ¯ Certo. Muito bem, cavalheiros; ao trabalho. O almirante Greer foi imediatamente para seu escritório. Eram quase 7 horas, e ele ligou para o OP-02, no Pentágono, o gabinete do sub­chefe de Operações Navais (Guerra Submarina). Depois de identificar-se, fez a primeira pergunta:

¯  O que o Dallas está fazendo?

O capitão Mancuso também já estava trabalhando. Sua última mis­são no USS Dallas começaria em cinco horas. Ele zarparia com a ma­ré. Avante, os engenheiros já colocavam a postos o reator nuclear. Enquanto seu oficial imediato colocava as coisas em andamento, o ca­pitão examinava novamente as ordens da missão. Iria ' 'para o norte'' uma última vez. Na Marinha dos Estados Unidos e na Marinha Real britânica, ' 'para o norte'' significava o mar de Barents, o local de ma­nobras da Marinha soviética. Uma vez lá, conduziria o que a Marinha oficialmente denominava pesquisa oceanográfica, e no caso do USS Dal­las significava que passaria todo o tempo possível seguindo submari­nos soviéticos lançadores de mísseis. Não era um trabalho fácil, mas Mancuso era perito naquilo, e tinha certa feita observado um boomer russo mais de perto do que qualquer outro comandante de submarino americano. Não podia discutir o assunto com ninguém, claro, nem mesmo com seus colegas comandantes. Sua segunda medalha de mé­rito em serviço, conquistada nessa missão, era sigilosa e ele não podia usá-la; embora sua existência constasse na parte confidencial de sua ficha pessoal, a medalha em si não existia. Mas tudo aquilo ficara pa­ra trás, e Mancuso era um homem que sempre olhava para a frente. Se tinha de cumprir mais uma missão, bem que podia ser "para o norte". Seu telefone tocou.

¯  Capitão falando ¯ atendeu ele.

¯  Bart, Mike Williamson ¯ disse o comandante do Grupo Dois de Submarinos. ¯ Preciso de você aqui, imediatamente.

¯  A caminho, senhor. ¯ Mancuso desligou, surpreso. Em um mi­nuto ele subia a escada, saía do barco e andava ao longo do cais betuminoso no Tâmisa, onde o carro do almirante aguardava. Entrou no escritório do Grupo Dois quatro minutos depois.

¯  Mudança nas ordens ¯ anunciou o contra-almirante William­son tão logo a porta foi fechada.

¯  O que há?

¯  Você vai fazer uma corrida a toda velocidade para Faslane. Al­gumas pessoas vão encontrá-lo lá. Isso é tudo que eu sei, mas as or­dens foram originadas em OP-02 e vieram através de um dos nossos submarinos no Atlântico em cerca de trinta segundos. ¯ Williamson não precisou dizer mais nada. Alguma coisa muito "quente" estava acontecendo. Assuntos "quentes" chegavam ao Dallas com freqüên­cia. Na verdade vinham para Mancuso, mas afinal ele encarnava o Dallas.

¯  Minha seção de sonar ainda está um pouco crua ¯ informou o capitão. ¯ Tenho alguns jovens bons, mas meu novo chefe está no hospital. Se esta missão vai ser especialmente "cabeluda"...

¯  O que precisa? ¯ quis saber o almirante Williamson, escutando depois a resposta. ¯ Muito bem, vou trabalhar nisso. Você tem cinco dias para chegar à Escócia, e posso conseguir alguma coisa até lá. Dê duro no comando, Bart.

¯  Sim, senhor! ¯ Ele descobriria o que se passava quando che­gasse a Faslane.

¯  Como está, russo? ¯ perguntou o Arqueiro. Ele estava melhor. Nos dois dias anteriores tivera certeza de que iria

morrer. Agora já não parecia tão convicto. Esperança falsa ou não, era algo que não existia antes. Churkin perguntava-se agora se haveria real­mente um futuro em sua vida e se existiria alguma coisa que pudesse lhe provocar medo. Medo. Havia esquecido isso. Enfrentara a morte por duas vezes num curto período de tempo. Uma vez no avião em chamas que caía, atingindo o chão e assistindo ao instante em que sua vida terminara; depois, acordando da morte para encontrar um ban­dido afegão debruçado sobre ele com uma faca, encarara a morte ain­da uma vez, apenas para vê-la parar e partir. Por quê? Aquele bandido, o que tinha um olhar estranho, duro e suave ao mesmo tempo, sem piedade e cheio de compaixão, queria que ele vivesse. Por quê? Chur­kin tinha tempo e energia para fazer a pergunta agora, mas eles não lhe deram resposta.

Estava sendo transportado em algum veículo. Churkin percebeu que estava deitado sobre metal. Um caminhão? Não, havia uma superfície plana sobre sua cabeça, também metálica. Onde estou? Tinha de es­tar escuro lá fora. Nenhuma luz passava atrás das seteiras no lado do... estava num carro blindado de transporte! Onde os bandidos teriam conseguido um daqueles? Para onde o estavam...

Eles o levavam para o Paquistão! Pretendiam entregá-lo aos... ame­ricanos? A esperança transformou-se em desespero. Tossiu novamen­te, e sangue fresco saiu de sua boca.

De sua parte, o Arqueiro sentia-se com sorte. Seu grupo encontrara outro, que levava dois transportadores soviéticos blindados de infan­taria BTR-60 para o Paquistão, e ficaram contentes em carregar os fe­ridos de seu bando com eles. O Arqueiro era famoso, e não faria nenhum mal ter um atirador de SAM protegendo-os, se helicópteros russos aparecessem. Mas era pequena a possibilidade de que isso acon­tecesse. As noites eram longas, o tempo havia piorado, a média de ve­locidade era de quase 15 quilômetros por hora nos lugares planos, e não menos de 5 em terreno pedregoso. Chegariam à fronteira em uma hora, e aquele trecho era controlado pelos mudjahidin. Os guerrilhei­ros começavam a relaxar. Logo teriam uma semana de relativa paz, e os americanos pagavam bem por equipamento soviético. Este pos­suía dispositivos de visão noturna que o motorista utilizava para esco­lher o caminho através da estrada na montanha. Em troca poderiam obter foguetes, munição para morteiros, algumas metralhadoras e su­primentos médicos.

As coisas corriam bem para os mudjahidin. Havia rumores de que os russos poderiam realmente retirar-se do país. Seus soldados não procuravam mais combate direto com os afegães. Os soviéticos usa­vam a infantaria principalmente para obter contato, depois chamavam a artilharia e apoio aéreo. Colocando de lado alguns bandos de pára-quedistas maldosos e os odiados comandos Spetznaz, os afegães sentiam que haviam adquirido a superioridade moral nos campos de batalha ¯ devida, claro, à sua causa sagrada. Alguns de seus líderes na verdade falavam em vencer, e a conversa chegara até os combatentes. Agora tam­bém eles tinham esperança de outra coisa além da continua guerra santa.

Os dois transportadores atingiram a fronteira à meia-noite. Dali em diante seria mais facial. A estrada que levava ao Paquistão era protegi­da agora pelas próprias forças. Os pilotos do APC poderiam aumen­tar a velocidade e chegavam a divertir-se com o que faziam. Alcançaram Miram Shah três horas depois. O Arqueiro desceu primeiro, levando com ele o prisioneiro russo e seus feridos.

Encontrou Emilio Ortiz esperando por ele com uma lata de suco de maçã. Os olhos quase saíram das órbitas quando percebeu que o homem carregado pelo Arqueiro era um russo.

¯  Meu amigo, o que trouxe para mim?

¯  Está gravemente ferido, mas aqui está o que ele é. ¯ O Arquei­ro passou uma das divisas de ombro, depois uma valise. ¯ E isso é o que ele levava.

¯  Filho da puta! ¯ xingou Ortiz em inglês. Viu o sangue coagulado ao redor da boca do homem e percebeu que

suas condições de saúde não eram promissoras, mas... que captura! Levou mais um minuto acompanhando os feridos até o hospital de campanha antes que a próxima pergunta viesse à sua cabeça: Que dia­bos vamos fazer com ele?

A equipe médica ali era composta principalmente de franceses, com poucos italianos e alguns suíços. Ortiz conhecia a maioria e suspeita­va de que muitos deles enviavam informações ao DGSE, o departa­mento francês de contra-espionagem. O que importava, entretanto, era que havia ali alguns ótimos médicos e enfermeiras. Os afegães tam­bém sabiam disso e os protegiam como protegeriam a própria pessoa de Alá. O cirurgião que fazia a seleção colocou o russo em terceiro lugar na lista de operações. Uma enfermeira o medicou e o Arqueiro deixou Abdul encarregado de manter um olho nas coisas. Não tinha trazido o russo de tão longe para que morresse assassinado. Ele e Or­tiz afastaram-se para conversar.

¯  Fiquei sabendo o que aconteceu em Ghazni ¯ disse o agente da CIA.

¯  Foi a vontade de Deus. Esse russo perdeu um filho. Não conse­gui... talvez eu tenha matado o suficiente para um dia. ¯ O Arqueiro deu um longo suspiro. ¯ Ele será útil?

 

¯  Isto aqui é. ¯ Ortiz já folheava os documentos. ¯ Meu amigo, você não sabe o que fez. Bem, vamos falar sobre as últimas duas semanas?

O relato durou até o amanhecer. O Arqueiro apanhou seu pequeno diário e repassou tudo o que tinha feito, parando apenas quando Or­tiz mudou a fita do gravador.

¯  Aquela luz que você viu no céu.

¯  É... parecia muito estranha ¯ disse o Arqueiro, esfregando os olhos.

¯  O homem que trouxe ia para lá. Aqui está o diagrama da base.

¯  Aonde é, exatamente... e o que é?

¯  Não sei, mas fica a apenas cerca de 100 quilômetros da fronteira afegã. Posso mostrar a você no mapa. Quanto tempo vai ficar deste lado?

¯  Talvez uma semana ¯ respondeu o Arqueiro.

¯  Preciso relatar isso aos meus superiores. Talvez eles queiram vê-lo. Meu amigo, será amplamente recompensado. Faça uma lista do que precisa. Uma longa lista.

¯  E o russo?

¯  Vamos falar com ele, também. Se sobreviver.

O mensageiro andava ao longo da Lazovsky Pereulok, aguardando seu contato. Suas próprias esperanças oscilavam. Na verdade acredi­tava em seu interrogador. Por volta do fim da tarde apanhara o giz que usava e fizera a marca apropriada no lugar combinado. Sabia que fi­zera o sinal cinco horas mais tarde do que devia, mas esperava que seu controlador adiasse o processo de evasão. Não fizera a marca fal­sa, a qual alertaria o agente da CIA sobre quem se tornara. Não, agora jogava um jogo muito perigoso. Portanto, andava ao longo da temida calçada, esperando pelo controlador para um encontro clandestino.

O que não sabia era que o controlador estava sentado em seu escri­tório na embaixada americana e não iria àquela parte de Moscou por várias semanas. Não havia planos para entrar em contato com o men­sageiro durante esse espaço de tempo. A corrente do Cardeal já não existia. No que tocava à CIA, era como se nunca tivesse existido.

¯  Acho que estamos perdendo tempo ¯ disse o interrogador. Ele e outro agente graduado do Segundo Diretório sentavam-se ao lado da janela de um apartamento. A janela seguinte estava outro agente "Dois" com uma câmera. Ele e outro agente ficaram sabendo de ma­nhã o que era Estrela Brilhante, e o general que comandava o Segundo Diretório havia dado a maior prioridade possível àquele caso. Um vazamento de proporções colossais fora descoberto por aquele veterano alquebrado do "Um".

¯  Acha que ele mentiu para você?

¯  Não. Esse foi fácil de dobrar e... não, não foi fácil demais. Ele se entregou ¯ disse o interrogador com confiança. ¯ Acho que erra­mos ao mandá-lo para a rua tão rapidamente. Penso que eles sabem, e acho que quebraram a corrente.

¯  Mas o que saiu errado... quero dizer, do ponto de vista deles po­deria ter sido rotina.

¯  Da ¯ concordou o interrogador. ¯ Mas sabemos que a infor­mação é altamente importante. Isto significa que a fonte também deve ser. Eles devem, portanto, ter adotado medidas extraordinárias para protegê-la. Agora não podemos fazer as coisas da maneira mais fácil.

¯  Vamos apanhá-lo, então?

¯  Sim. ¯ Um carro aproximou-se do homem. Eles o observaram entrar antes de se dirigirem ao próprio veículo.

No espaço de trinta minutos estavam todos de volta ao Presídio Le­fortovo. O rosto do interrogador demonstrava tristeza.

¯  Diga-me, por que acho que você mentiu para mim?

¯  Mas eu não menti. Fiz tudo o que tinha de fazer. Talvez estives­se atrasado, mas isso eu já disse.

¯  E o sinal que deixou, era aquele para avisá-los de que pegamos você?

¯  Não! ¯ O mensageiro quase entrou em pânico. ¯ Expliquei tu­do isso, também.

¯  Veja bem, o problema é que não podemos distinguir entre uma e outra marcas de giz. Se você está bancando o espertinho, pode ter nos enganado. ¯ O interrogador inclinou-se para a frente. ¯ Cama­rada, você pode nos enganar. Qualquer um pode... por algum tempo. Mas não por muito tempo. ¯ Fez uma pausa para deixar a idéia no ar por um minuto. Era tão fácil interrogar os mais fracos. Dar espe­rança, depois tomá-la; restaurá-la e tirar outra vez. Elevar o ânimo e baixar até que não soubesse mais em que ponto estavam... E, na falta de uma medida dos próprios sentimentos, esses sentimentos tornavam-se do interrogador para usá-los como quisesse.

¯  Vamos começar de novo. A mulher que encontra no trem... quem é ela?

¯  Não sei o nome. Ela tem uns 30 anos, mas aparenta ser mais jovem. Cabelo bonito, esguia e atraente. Sempre está bem vestida, co­mo uma estrangeira, mas não é estrangeira.

¯  Vestida como estrangeira... como assim?

 

¯ O casaco é geralmente ocidental. Dá para saber por causa do corte e do tecido. Ela é bonita, como já disse, e ela...

¯  Continue ¯ encorajou o interrogador.

¯  O sinal é que eu coloque a mão no traseiro dela. Ela gosta, eu acho. Às vezes ela se aperta contra minha mão.

O interrogador não ouvira antes esse detalhe, mas imediatamente classificou-o como verdadeiro. Detalhes como esse nunca se inventa­vam, e encaixavam-se perfeitamente. A contato era uma aventureira. Ela não era uma verdadeira profissional, nem reagia como tal. E isso provavelmente ¯ quase com certeza ¯ levava a crer que era russa.

¯  Quantas vezes encontrou-a dessa maneira?

¯  Só cinco. Nunca no mesmo dia da semana, nem no mesmo ho­rário, mas sempre no segundo carro do mesmo trem.

¯  E o homem ao qual você passa o filme?

¯  Nunca vi seu rosto, quero dizer, o rosto inteiro. Ele sempre fica com a mão no apoio de cima, e move o rosto de jeito a manter o braço entre nós. Vejo parte do rosto, mas não inteiro. Ele é estrangeiro, eu acho, mas não sei de que nacionalidade.

¯  Cinco vezes, e diz que nunca viu o rosto! ¯ a voz gritou, e um punho bateu sobre a mesa. ¯ Está achando que eu sou idiota?

O mensageiro encolheu-se de medo, depois começou a falar rapi­damente.

¯  Ele usa óculos; um ocidental, tenho certeza. Ele sempre está de chapéu. E também leva sempre um jornal dobrado. Izvestia, sempre o Izvestia. Entre isso e o braço não se pode ver mais do que um quar­to do rosto dele. O sinal de vá-em-frente é dobrar um pouco o jornal, como se fosse para seguir uma história, depois se vira para esconder o rosto.

¯  Conte outra vez como é feita a transferência.

¯  Quando o trem pára, ele vem para a frente como se fosse descer no próximo ponto. Eu fico com a coisa na mão, e ele tira de lá por trás quando eu me vou.

¯  Então você conhece o rosto dela, mas ela não conhece o seu. Ele conhece o seu rosto, mas você não conhece o dele... ¯ O mesmo méto­do que este aqui usa para fazer a transferência. E uma bela estratégia, mas por que eles usam a mesma técnica duas vezes na mesma corrente? A KGB utilizava essa técnica também, claro, mas era mais difícil do que os outros métodos, e duplamente no metrô repleto de gente, no frenético horário de pico. Estava começando a achar que um dos meios mais comuns de transferir informações, o dead-drop, não fazia parte dessa corrente. Esse fato também era curioso. Devia haver pelo menos um dead-drop, de outra forma a KGB poderia seguir a corrente. Talvez...

Já estavam tentando identificar a origem do vazamento de informa­ções, claro, mas precisavam ser cuidadosos. Sempre havia a possibili­dade de que o espião fosse ele próprio ¯ ou ela própria ¯ um agente de segurança. Essa era, sem dúvida, a atividade ideal para um espião, desde que o trabalho dava acesso a tudo, mais conhecimento adianta­do das operações de contra-espionagem em andamento. Já acontecera antes ¯ a investigação de um vazamento alertara o espião, um fato des­coberto muitos anos depois do término da investigação. A outra coisa estranha era que a única fotografia que possuíam não era um verda­deiro diagrama, e sim desenhada à mão.

Feita à mão ¯ seria esse o motivo para não haver dead-drops? O es­pião poderia ser identificado desta maneira, não poderia? Que manei­ra estúpida de...

Mas não existia nada de estúpido por ali, havia? Não, e nada aci­dental tampouco. Se as técnicas naquela corrente eram estranhas, eram também profissionais. Havia um outro nível em tudo isso, algo que o interrogador ainda não tinha.

¯ Acho que amanhã vamos dar uma voltinha de metrô.

O coronel Filitov acordou sem latejamento na cabeça, o que já era agradável. Sua rotina matinal "normal" não era muito diferente da outra, só que sem a dor e a visita aos banhos. Depois de vestir-se, verificou o diário enfiado na gaveta da escrivaninha esperando poder destruí-lo, de acordo com o procedimento usual. Já tinha um novo diário em branco, que iniciaria depois da destruição do antigo. Houve rumores sobre novos desenvolvimentos na área do laser no dia ante­rior, mais um relatório sobre sistemas de mísseis que examinaria na semana seguinte.

Ao entrar no carro, recostou-se, mais alerta do que normalmente, e olhou para o lado de fora da janela durante o percurso até o traba­lho. Como era cedo, havia um bom número de caminhões na rua, e um deles bloqueava sua visão de um certo trecho de curva. Esse era o lugar do sinal para "dados-perdidos". Ficou um pouco aborrecido por não poder enxergar o local, mas seus relatórios raramente se per­diam, e não o incomodavam muito com isso. O sinal de "transferên­cia bem-sucedida" ficava num lugar diferente, sempre fácil de ver. O coronel Filitov acomodou-se no banco, olhando através da janela à medida que se aproximavam do local... ali. Moveu a cabeça para acompanhar o ponto, procurando a marca... mas não estava lá. Esquisito. Será que a outra marca fora colocada? Teria que verificar isso na viagem de volta a casa esta noite. Em todos os seus anos de traba­lho para a CIA, vários de seus relatórios foram perdidos de uma for­ma ou de outra, e o sinal de perigo não fora colocado, nem recebera o telefonema perguntando por Sergey, que lhe diria para abandonar o apartamento na mesma hora. Portanto, provavelmente não havia pe­rigo. Apenas um incômodo. Pois bem. O coronel relaxou e meditou sobre seu dia no ministério.

Dessa vez o metrô estava completamente guarnecido. No total, cem homens do Segundo Diretório se encontravam naquele distrito, a maio­ria vestida como moscovitas comuns, alguns como trabalhadores. Os últimos operavam a linha "negra" de telefones instalada ao longo dos painéis elétricos de serviço através do sistema. O interrogador e seu prisioneiro andavam em trens de um lado para outro da linha "púr­pura" e "verde", procurando uma mulher bem vestida num casaco ocidental. Milhões de pessoas viajavam pelo metrô diariamente, mas os agentes de contra-espionagem estavam confiantes. Tinham o tem­po trabalhando a seu favor, e o perfil do alvo ¯ uma aventureira. Ela provavelmente não era disciplinada o bastante para separar as rotinas diárias das atividades encobertas. Tais coisas já haviam acontecido an­tes. Como questão de fé ¯ compartilhada com os colegas em todo o mundo ¯ os agentes de segurança acreditavam que as pessoas que es­pionavam sua terra natal eram deficientes em algum aspecto funda­mental. Com toda a sua malícia, tais traidores provocariam, mais cedo ou mais tarde, a própria destruição.

E eles tinham razão, pelo menos nesse caso. Svetlana chegou à pla­taforma da estação carregando um pacote embrulhado em papel mar­rom. O mensageiro reconheceu seu cabelo de imediato. O penteado era comum, mas havia algo na maneira como ela movia a cabeça, uma coisa indefinível que o fez apontar, apenas para ter a mão forçada para baixo. Ela se virou, e o coronel da KGB conseguiu ver-lhe o rosto. O interrogador percebeu que ela estava completamente calma, mais ainda do que os passantes que demonstravam a apatia mal-humorada do moscovita. Sua primeira impressão foi de ver alguém que aprecia­va a vida. Isso mudaria.

Ele falou num pequeno radiotransmissor, e, quando a mulher em­barcou no trem seguinte, tinha companhia. O homem do "Dois" que subiu com ela usava um fone de ouvido, quase como um aparelho de surdez. Atrás dele na estação, os homens trabalhando nos circuitos de telefone alertaram os agentes em cada estação. Quando ela desceu, uma equipe completa de sombreamento estava a postos. Eles a seguiram na subida da longa escada rolante até a rua. Um carro já estava à espe­ra, e mais agentes iniciaram a rotina de vigilância. Pelo menos dois homens sempre mantinham contato visual com o sujeito, e os que es­tavam próximos alternavam-se rapidamente entre o grupo, enquanto mais agentes se juntavam à perseguição. Eles a seguiram até o prédio Gosplan, na Avenida Marksa, do lado oposto ao Hotel Moscou. Ela não percebeu que era seguida e nem ao menos tentou procurar algum sinal disso. No espaço de meia hora, vinte fotografias foram reveladas e mostradas ao prisioneiro, que a identificou positivamente.

Depois disso o procedimento foi ainda mais cauteloso. Um guarda do prédio forneceu o nome a um agente da KGB que o advertiu para não discutir o assunto com ninguém. De posse do nome dela, a iden­tidade completa estava estabelecida por volta da hora do almoço, e o interrogador, que agora dirigia todos os aspectos do caso, ficou estar­recido ao saber que Svetlana Vaneyeva era filha de um membro supe­rior do Comitê Central. Seria uma complicação a mais. Rapidamente o coronel montou outro conjunto de fotografias e reavaliou o prisio­neiro, porém este reconheceu a mulher certa num grupo de seis. Um membro da família de um homem do Comitê Central não era alguém que se... mas eles tinham identificação positiva, e o caso era muito importante. Vatutin foi conferenciar com o chefe de seu diretório. O que aconteceu a seguir foi complicado. Embora tida como todo-poderosa pelo Ocidente, a KGB sempre estivera submetida ao meca­nismo do Partido; mesmo a KGB precisava de permissão para investi­gar um parente próximo de um homem tão importante. O chefe do Segundo Diretório subiu as escadas até o chefe da KGB. Voltou trinta minutos depois.

¯  Pode apanhá-la.

¯  O secretário do Comitê Central...

¯  Ele não foi informado ¯ afirmou o general.

¯  Mas...

¯  Aqui estão suas ordens. ¯ Vatutin apanhou a folha de papel es­crita à mão, assinada pessoalmente pelo diretor da KGB.

¯  Camarada Vaneyeva? Ela levantou os olhos e deparou com um homem em roupas civis.

¯ Gosplan era uma agência civil, claro ¯ que a olhava de modo es­tranho.

¯  Posso ajudá-lo?

¯  Sou o capitão Klementi Vladimirovich Vatutin, da Milícia de Moscou Gostaria que me acompanhasse. ¯O interrogador observou cuidadosamente a reação, mas não percebeu nada.

¯  Qual o motivo? ¯perguntou ela.

¯É possível que nos ajude na identificação de alguém. Não posso dizer mais aqui ¯ disse o homem, em tom de desculpa.

¯  Vai demorar?

¯  Provavelmente algumas horas. Podemos mandar alguém levá-la

de carro para casa.

¯  Muito bem. Não tenho nada muito urgente em rninha mesa no momento. ¯ EÍa levantou sem dizer mais nada.

Seu olhar a Vatutin traía um certo senso de superioridade. A Milí­cia de Moscou não era uma organização vista com respeito pelos cida­dãos, e o mero posto de capitão para um homem de sua idade dizia muito sobre sua carreira. Em um minuto ela vestira o casaco, sobraça-ra o pacote e os dois saíram do prédio. Pelo menos o capitão era kul-tumy, notou ela, em segurar a porta aberta para ela. Svetlana presumiu que esse capitão Vatutin sabia quem ela era ¯ mais precisamente quem era seu pai.

Um carro os aguardava, e partiram imediatamente. Ela ficou sur­presa com o caminho, mas só teve certeza quando passaram pela Pra­ça Khokhlovskaya.

¯  Não vamos ao Ministério da Justiça? ¯ indagou ela.

¯  Não, vamos para Lefortovo ¯ respondeu Vatutin, de imediato.

¯  Mas...

¯  Não quis assustá-la no escritório, entende? Na verdade sou o co­ronel Vatutin do Segundo Diretório. ¯ Houve uma reação a essas pa­lavras, mas Vaneyeva recuperou a compostura num instante.

¯  E o que posso fazer pelo senhor, nesse caso?

Ela era boa, notou Vatutin. Esta seria um desafio. O coronel era leal ao Partido, mas não necessariamente a seus representantes. Ele odia­va a corrupção mais ainda do que a traição.

¯  Um assunto não muito importante... sem dúvida estará em casa para jantar.

¯  Minha filha...

Um dos meus homens a apanhará. Se as coisas atrasarem, seu pai não vai ficar aborrecido em vê-la, vai? Ela sorriu ao ouvir aquilo.

¯  Não, meu pai adora mimar a neta.

¯  De qualquer forma não vai demorar tanto assim ¯ declarou Va­tutin, olhando pela janela. O carro passou pelos portões do prisídio. file a auxiliou a sair do carro, e um sargento abriu a porta do edifício para ambos. Dar esperança, depois tirá-la. Tomou-lhe delicadamente o braço. ¯ Meu gabinete é por aqui. Soube que viaja sempre ao Ocidente.

¯  Faz parte do meu trabalho. ¯ Ela agora parecia em guarda. Po­rém não mais do que qualquer pessoa que entrasse naquele edifício.

¯  É, eu sei. Seu departamento lida com tecidos. ¯ Vatutin abriu a porta e conduziu-a para o interior.

¯  É ela! ¯ disse uma voz.

Svetlana Vaneyeva estacou, como se o tempo tivesse parado. Vatu­tin tomou novamente seu braço e a conduziu até uma cadeira.

¯  Sente-se, por favor.

¯  O que significa isso? ¯ disse ela, finalmente alarmada.

¯  Este homem foi apanhado transportando cópias de documentos secretos do Estado. Ele nos disse que você as entregou a ele ¯ decla­rou Vatutin, sentando-se à sua mesa.

Vaneyeva voltou-se e encarou o mensageiro. 

¯  Nunca vi esse rosto em toda a minha vida! Nunca!

¯  É verdade ¯ concordou Vatutin, com frieza. ¯ Sabemos disso.

¯  O que... ¯ Ela procurava as palavras. ¯ Mas isto não faz sentido.

¯  Você foi muito bem treinada. Nosso amigo aqui diz que o sinal para passar a informação é que ele passe a mão no seu traseiro.

Ela voltou o rosto para seu acusador.

¯  Govnoedl Essa coisa disse isso! Esse... ¯ ela engasgou por um instante. ¯ Inútil! Mentira!

¯  Então nega a acusação? ¯ perguntou Vatutin. Seria um prazer dobrar a vontade dela.

¯  E claro! Sou uma leal cidadã soviética. Sou membro do Partido. Meu pai...

¯  Sabemos sobre seu pai.

¯  Ele vai saber disso, coronel Vatutin, e se o senhor me ameaçar...

¯  Não a estamos ameaçando, camarada Vaneyeva, pedimos apenas informações. Por que estavam ontem no metrô? Sei que tem o pró­prio carro.

¯  Sempre ando de metrô. É mais simples do que dirigir, e eu tive de fazer uma parada no caminho. ¯ Ela apanhou o pacote do chão. ¯ É muito inconveniente estacionar o carro, entrar e depois continuar. Por isso tomei o metrô. Foi a mesma coisa hoje, quando apanhei o casaco. Pode verificar na lavanderia.

¯  E você não passou isto ao nosso amigo aqui? ¯ Vatutin segurava o magazine do filme.

¯  Nem sei o que é isso.

¯   É claro. ¯ O coronel Vatutin balançou a cabeça. ¯ Bem, aqui estamos. ¯ Pressionou um botão em seu aparelho intercomunicador. A porta lateral abriu-se um momento depois. Três pessoas entraram. Vatutin acenou para Svetlana. ¯ Preparem-na.

As reações dela não foram tanto de pânico quanto de descrença. Sve­tlana Vaneyeva tentou pular da cadeira, mas dois homens a agarraram pelos ombros, mantendo-a ali. O terceiro enrolou-lhe a manga do ves­tido e enfiou-lhe uma agulha no braço antes que ela tivesse presença de espírito suficiente para gritar.

¯  Não pode fazer isso! ¯ disse ela. ¯ Não pode... Vatutin suspirou.

¯  Ah, podemos sim. Quanto tempo?

¯  Isso vai mantê-la desacordada por duas horas pelo menos ¯ res­pondeu o médico. Ele e os dois auxiliares retiraram-na da cadeira. Va­tutin deu a volta e apanhou o embrulho. ¯ Ela estará pronta para o senhor assim que eu fizer um check-up, mas não prevejo nenhum pro­blema. A ficha médica dela é boa.

¯  Excelente. Vou descer para comer alguma coisa. ¯ Fez um ges­to na direção do outro prisioneiro. ¯ Podem levá-lo. Acho que já ter­minamos com ele.

¯  Camarada, eu... ¯ começou o mensageiro, apenas para ser cortado.

¯  Nunca mais ouse pronunciar essa palavra. ¯ A reprimenda pa­receu mais forte pela suavidade com que foi dita.

O coronel Bondarenko agora dirigia o setor de armas laser do mi­nistério. Fora por decisão do ministro da Defesa Yazov, claro, e reco­mendado pelo coronel Filitov.

¯  Então, coronel, que notícias nos traz? ¯ perguntou Yazov.

¯  Nossos colegas da KGB nos entregaram planos parciais do espe­lho americano de ópticos adaptáveis. ¯ Ele passou duas cópias sepa­radas dos diagramas.                                                                               

¯  Não podemos fazer isso nós mesmos? ¯ quis saber Filitov.

¯  O projeto é na verdade muito engenhoso, e o relatório afirma que um modelo mais avançado está em estágio de projeto no momento. As boas novas são que o espelho precisa de menos acionadores...

¯  O que é isso? ¯ perguntou Yazov.

¯  Os acionadores são os mecanismos que alteram os contornos dos espelhos. Diminuindo seu número, também diminuímos as exigên­cias do sistema de computador que controla a montagem dos espe­lhos. O espelho existente... este aqui... requer o controle de um supercomputador, que não podemos ainda reproduzir na União So­viética. O novo espelho é projetado para necessitar de um quarto da potência de computador. Isto permite que um computador menor opere o espelho e também um programa de controle mais simples. ¯ Bon­darenko inclinou-se para a frente. ¯ Camarada ministro, como meu primeiro relatório indicou, uma das principais dificuldades em Estre­la Brilhante é o sistema de computadores. Mesmo que pudéssemos fa­bricar um espelho como esse, ainda não possuímos hardware e software para operá-lo com eficiência máxima. Acredito que poderíamos fazer isso se tivéssemos o novo espelho.

¯  Mas ainda não temos os planos do novo espelho? ¯ indagou Yazov.

¯  Não. A KGB está trabalhando nisso.

¯  Não podemos nem duplicar esses novos "acionadores" ainda ¯ reclamou Filitov. ¯ Temos as especificações e diagramas há vários me­ses, e nenhuma fábrica conseguiu ainda...

¯  Tempo e fundos, camarada coronel ¯ censurou Bondarenko. Já estava aprendendo a falar com confiança na atmosfera mais rarefeita.

¯  Fundos ¯ resmungou Yazov. ¯ Sempre fundos. Podemos cons­truir um tanque invulnerável... com fundos suficientes. Podemos al­cançar a tecnologia ocidental de submarinos... com fundos suficientes. Cada projeto menor de cada acadêmico na União Soviética vai produ­zir a arma mais nova... se pudermos ceder fundos suficientes. Infeliz­mente não temos o suficiente para todos. ¯ Aqui está um aspecto no qual acompanhamos o Ocidentel

¯  Camarada ministro ¯ disse Bondarenko. ¯ Sou um soldado pro­fissional há vinte anos. Servi em batalhão e em corpo de auxiliares de Divisão. Sempre servi o Exército Vermelho, e somente o Exército Vermelho. Estrela Brilhante pertence a outro ramo de serviço. A des­peito disso, eu lhe digo que, se for necessário, devemos negar fundos para tanques, navios e aeronaves, a fim de conduzir Estrela Brilhante ao seu término. Possuímos suficientes armas convencionais para con­ter qualquer ataque da OTAN, mas não temos nada que impeça os mísseis ocidentais de despejarem resíduos sobre nosso país. ¯ Ele mu­dou de tom. ¯ Por favor, perdoe-me por impor minha opinião tão forçosamente.

¯  Nós lhe pagamos para pensar ¯ observou Filitov. ¯ Camarada ministro, encontro-me em posição de concordar com esse jovem.

¯  Mikhail Semyonovich, por que será que pressinto uma conspi­ração palaciana entre meus coronéis? ¯ Yazov concedeu um de seus raros sorrisos e voltou-se para o homem mais jovem. ¯ Bondarenko, entre estas paredes espero que me diga o que pensa. Se conseguiu per­suadir esse veterano da cavalaria de que seu projeto de ficção científi­ca vale a pena, então preciso pensar nele seriamente. Está dizendo que deveríamos dar prioridade total a esse projeto?

¯  Camarada ministro, deveríamos considerar o assunto. Resta um pouco da pesquisa de base, e sinto que a prioridade de fundos deveria ser drasticamente aumentada. ¯ Bondarenko parou um pouco antes do que Yazov sugeria. Aquela decisão era política, um terreno onde um simples coronel não deveria aventurar-se. Ocorreu ao Cardeal que ele havia subestimado aquele jovem e brilhante coronel.

¯  A taxa de batimentos cardíacos está aumentando ¯ disse o mé­dico quase três horas depois. ¯ Hora zero, paciente consciente. ¯ Um gravador de carretei registrava suas palavras.

Ela não percebeu o ponto em que terminava o sono e começava a consciência. E uma zona indistinta para muitas pessoas, particular­mente na ausência de despertador ou do primeiro raio de luz do sol. Ela não recebeu nenhum sinal. A primeira emoção de Svetlana Vaneyeva foi de espanto. Onde estou?, perguntou a si mesma depois de quinze minutos. O efeito residual de dormência dos barbitúricos diminuiu, mas nada substituiu o relaxamento confortável do sono sem sonhos. Ela estava... flutuando?

Tentou movimentar-se, mas... não pôde? Estava em repouso total, cada centímetro quadrado do corpo apoiado uniformemente, de ma­neira que nenhum músculo parecia distendido ou contraído. Nunca conhecera tamanha sensação de relaxamento. Onde estou?

Não podia ver nada, mas isso tampouco era correto. Não era exata­mente negro, mas... cinza... como uma nuvem à noite refletindo as luzes da cidade de Moscou, sem forma, mas com alguma textura.

Não conseguiu ouvir nada, nem o ruído do tráfego, nem os sons de água correndo ou portas batendo...

EÍa voltou a cabeça, mas a vista permaneceu a mesma, um vazio acinzentado, como o interior de uma nuvem, ou uma bola de algodão, ou...

Ela respirou. O ar não trazia nenhum odor, nem gosto, nem umida­de, e tampouco uma temperatura que pudesse distinguir. Ela falou... mas incrivelmente não ouviu nada. Onde estou?

Svetlana começou a examinar o mundo com mais cuidado. Passou cerca de uma hora de experiências cautelosas. Svetlana manteve con­trole das emoções, forçou-se a manter a calma, a relaxar. Tinha de ser um sonho. Nada de inconveniente poderia estar acontecendo na verdade, não a ela. O medo real não começara ainda, mas ela já sentia sua aproximação. Ela reuniu toda a sua determinação e lutou para conservá-la. Explore o ambiente. Os olhos se voltaram para a direita e para a esquerda. Havia luz suficiente apenas para negar-lhe a escu­ridão. Os braços estavam lá, mas pareciam afastados do corpo, e ela não conseguia aproximá-los, embora tentasse durante um tempo que lhe pareceu horas. O mesmo acontecia com as pernas. Tentou fechar a mão direita em punho... mas não conseguiu nem fazer com que os dedos se encontrassem.

Sua respiração estava mais rápida agora. Era tudo que tinha. Podia sentir o ar entrando e saindo, podia sentir o movimento do peito e nada mais. Fechar os olhos lhe dava a escolha de um vazio negro em vez do cinza, mas era tudo. Onde estou?

Movimento, disse ela a si mesma, mais movimento. Ela rolou de la­do, procurando resistência, procurando cada sensação tátil fora de seu próprio corpo. Foi recompensada pela ausência total de estímulos, ape­nas a mesma resistência fluida ¯ para todos os lados que se voltava, a sensação de flutuar era a mesma. Não importava ¯ ela não sabia dizer ¯ se a gravidade a levava para cima ou para baixo, para a es­querda ou para a direita. Era tudo a mesma coisa. Gritou tão alto quanto conseguiu, apenas para ouvir alguma coisa real e próxima, apenas pa­ra certificar-se de que podia contar pelo menos com a própria compa­nhia. Tudo o que ouviu foi o eco distante e fraco de um estranho.

O pânico começou a se instalar.

¯  Tempo: doze minutos... e quinze segundos ¯ disse o médico ao gravador. A cabine de controle ficava a 5 metros sobre o tanque. ¯ Taxa de batimentos cardíacos subindo, agora 140, respiração: 42, rea­ção de ansiedade aguda iniciando. ¯ Ele olhou para Vatutin. ¯ Mais cedo do que o normal. Quanto mais inteligente o paciente...

¯  Tanto maior a necessidade de impulsos sensoriais, eu sei ¯ res­mungou Vatutin. Havia lido o relatório sobre os procedimentos, mas estava cético. Era uma técnica novíssima e exigia um tipo de auxílio especializado do qual nunca precisara em sua carreira.

¯  A taxa de batimentos cardíacos parece ter-se estabilizado em 177, sem grandes irregularidades.

¯  Como consegue impedi-la de ouvir a própria voz?

¯  É uma coisa nova. Usamos um dispositivo eletrônico para du­plicar a voz e repeti-la exatamente fora de fase. Isso neutraliza quase completamente o som emitido, como se ela gritasse no vácuo. Levou dois anos para ser aperfeiçoado. ¯ Ele sorriu. Assim como Vatutin, apreciava seu trabalho, e aqui via uma chance de validar anos de es­forço, para subverter a política institucional com alguma coisa nova e melhor, que levaria o seu nome.

Svetlana estava à beira da hiperventilação, mas o médico alterou a mistura de gases que lhe era fornecida. Precisava ficar de olho nos sinais vitais da paciente. Aquela técnica de interrogatório não deixava marcas no corpo, nem cicatrizes ou qualquer evidência de tortura ¯ na verdade não se tratava absolutamente de tortura. Pelo menos fisi­camente. O inconveniente da privação sensorial, entretanto, era que o terror induzido podia levar as pessoas à taquicardia ¯ o que poderia matar o paciente.

¯ Assim está melhor ¯ disse ele, examinando a leitura do eletro-cardiograma. ¯ Taxa cardíaca estabilizada em 138... acelerado, po­rém normal. A paciente está agitada, mas estável.

O pânico não ajudava. Embora sua mente estivesse frenética, o cor­po de Svetlana reagiu para evitar danos. Ela lutou para exercer con­trole e tornou-se estranhamente calma, outra vez.

Estou viva ou morta? Ela procurou em toda sua memória, em suas experiências, e não encontrou nada... mas...

Havia um som.

O que era?

Tum-tum, tum-tum... o que era?

Era o coração! Isso mesmo!

Seus olhos ainda estavam abertos, procurando a origem do som na escuridão. Havia alguma coisa lá, se apenas ela pudesse encontrá-la. Sua mente procurou uma maneira. Tenho de chegar lá. Preciso agarrar algo.

Porém ela estava presa no interior de uma coisa que não sabia des­crever. Começou a mover-se outra vez. Novamente não encontrou na­da a que se agarrar, nada que pudesse tocar.

EÍa estava apenas começando a perceber quão sozinha estava. Seus sentidos imploravam por sensações, dados, por alguma coisa! Os cen­tros sensoriais do cérebro buscavam alimentação e encontravam ape­nas um grande vácuo.

E se eu estiver morta?, perguntou a si mesma.

Será que é isso o que acontece quando a gente morre... um grande va­zio.... A seguir veio um pensamento ainda mais perturbador:

Aqui é o inferno?

Mas havia alguma coisa. Havia som. Ela concentrou-se nisso, ape­nas para descobrir que quanto mais tentava prestar atenção, mais difícil se tornava escutar. Era como tentar agarrar uma nuvem de fumaça, que só estava lá quando ela não tentava ¯ mas precisava agarrá-la.

E assim ela tentou. Svetlana cerrou os olhos com força e concentrou toda a sua força de vontade no som repetitivo do coração humano. Tu­do o que conseguiu foi apagar o som dos próprios sentidos. Desapa­receu, até que somente a própria imaginação o ouvia, depois isso também tornou-se tedioso.

Ela gemeu, ou pensou ter gemido. Não escutou quase nada. Como era possível falar e não escutar?

Será que estou morta? A pergunta exigia uma resposta, porém a res­posta poderia ser aterradora demais para se encarar. Tinha de haver algo... Ela ousaria? Sim!

Svetlana Vaneyeva mordeu sua língua tão forte quanto conseguiu. Foi recompensada com o gosto salgado do sangue.

Estou vivai, disse a si mesma. Alegrou-se com sua revelação por um tempo que lhe pareceu bastante longo. Mas até os períodos longos ter­minavam:

Mas onde estou? Será que fui enterrada... viva?  ENTERRADA VIVA!

¯ Taxa de batimentos cardíacos aumentando novamente. Parece ser o início do período de ansiedade secundária ¯ disse o médico para a gravação. Era uma pena, pensou ele.

Ajudara a preparar o corpo. Uma mulher jovem muito atraente, o ventre macio marcado apenas pelos pontos da maternidade. Haviam passado óleo em sua pele, vestindo-a depois com o traje feito especial­mente de borracha Nomex da melhor qualidade, tão macia que não se podia senti-la quando seca sobre a pele ¯ quando molhada, sim­plesmente parecia não estar ali. Mesmo a água no interior do tanque fora especialmente formulada, com alto conteúdo de sais para que a paciente tivesse flutuabilidade neutra. Seus giros em volta do tanque a tinham deixado de cabeça para baixo e ela não se dava conta. O úni­co problema real é que ela podia embaralhar os tubos de ar, porém um par de mergulhadores no tanque evitava que aquilo acontecesse, sempre tomando cuidado para não tocar a paciente, nem permitir que as mangueiras o fizessem. Na verdade, os mergulhadores ficavam com o trabalho mais difícil de toda a unidade.

O médico lançou a Vatutin um olhar presunçoso. Muitos anos de trabalho foram empregados naquela parte mais secreta da ala de inter­rogatórios em Lefortovo. A piscina, com 10 metros de largura e 5 de profundidade, a água formulada especialmente, os trajes desenhados com exclusividade, muitos homens-ano de experiência para apoiar o trabalho teórico ¯ tudo isso para possibilitar um método de interro­gatório que era melhor sob todos os aspectos do que os antiquados meios que a KGB utilizava desde a Revolução. A exceção de um pa­ciente que morrera de ataque cardíaco, induzido pela ansiedade... Os sinais vitais mudavam novamente.

¯ Lá vamos nós. Parece que estamos no segundo estágio. Tempo: uma hora e seis minutos. ¯ Ele se voltou para Vatutin. ¯ Geralmente essa é a fase mais longa. Será interessante ver quanto dura com esta paciente.

Parecia a Vatutin que o médico era uma criança brincando com um jogo elaborado e cruel; por mais que desejasse o que a paciente sabia, no íntimo estava horrorizado com o que via. Perguntou-se se essa sen­sação vinha do medo de que um dia aquilo fosse aplicado nele...

Svetlana sentia-se fraca. Os tremores das longas horas de terror ha­viam deixado seus membros exaustos. A respiração vinha em arque-jos curtos, como o de uma parturiente controlando os espasmos do nascimento. Mesmo seu corpo a abandonara agora, e a mente procu­rava escapar de seus limites e explorar o próprio interior. A consciên­cia tinha a impressão de se ter separado do inútil invólucro de carne, e o espírito, alma, ou o que fosse, estava só, agora, só e livre. Mas a liberdade era uma maldição tão grande quanto a sensação que se fora.

Podia mover-se livremente, podia ver o espaço a seu redor, porém tudo estava vazio. Moveu-se como se estivesse nadando ou voando num espaço tridimensional cujos limites não pudesse distinguir. Sentiu os braços e as pernas movendo-se sem esforço, mas, quando olhou para os membros, descobriu que ficavam fora de seu campo de visão. Po­dia senti-los a se moverem, mas... simplesmente não estavam lá. A parte da mente que ainda permanecia racional lhe dizia que tudo não passava de uma ilusão, que ela nadava em direção à própria destrui­ção ¯ mas mesmo isso seria preferível a ficar sozinha, não seria?

Esse esforço durou uma eternidade. A parte mais gratificante era a falta de fadiga em seus membros invisíveis. Svetlana desligou seus infortúnios e alegrou-se com a liberdade, em poder enxergar o espaço à sua volta. Aumentou o ritmo. Imaginou que o espaço à sua frente era mais brilhante do que atrás. Se havia uma luz, ela precisava encontrá-la, e uma luz faria muita diferença. Parte dela lembrava da alegria de nadar quando era criança, algo que não tinha feito nos últi­mos... quinze anos, talvez. Fora a campeã de nado subaquático na es­cola, podia segurar o fôlego por muito mais tempo do que todos os outros. As lembranças remoçaram-na outra vez, jovem, ágil, mais bonita e mais bem vestida do que as outras. Seu rosto sorriu com ex­pressão angelical e ignorou os avisos do que restava de seu intelecto.

Ela teve a impressão de nadar por dias, ou por semanas, sempre na direção do espaço luminoso à sua frente. Levou mais alguns dias para compreender que o espaço nunca ficava mais brilhante, porém ignorou esse último aviso de sua consciência. Nadou com maior vigor e sentiu fadiga pela primeira vez. Svetlana Vaneyeva ignorou isso tam­bém. Ela precisava usar a liberdade em sua vantagem. Tinha de saber onde estava, ou, melhor ainda, achar uma saída daquele lugar. Da­quele lugar horrível.

Sua mente moveu-se ainda uma vez, viajando para longe do corpo, e quando atingiu altitude suficiente olhou para baixo, na direção da figura distante que nadava. Mesmo de sua elevada altitude não conse­guia ver os limites daquele mundo amplo e amorfo; entretanto, enxer­gava a pequena figura abaixo, nadando sozinha no vácuo, movendo os membros espectrais num ritmo fútil... sem ir a nenhum lugar.

O grito que saiu do alto-falante na parede quase fez com que Vatu­tin saltasse da cadeira. Talvez os alemães tivessem escutado uma coisa parecida, o grito das vítimas nos campos de concentração quando as Portas eram fechadas e os cristais de gases aspergidos. Mas isso era pior. Já vira execuções. Já vira tortura. Ouvira gritos de dor, raiva e desespero, mas nunca tinha escutado o grito de uma alma condenada a algo pior do que o inferno.

¯  Aí está... deve ser o começo do terceiro estágio.

¯  O quê?

¯  Acontece ¯ exlicou o médico ¯ que o animal humano é um ani­mal sociável. Nossos seres e nossos sentidos foram projetados para reu­nir dados que nos permitam reagir tanto ao meio ambiente quanto a outros seres humanos. Tire a companhia humana, tire os impulsos sensoriais, e a mente fica completamente sozinha consigo mesma. Exis­tem muitos dados disponíveis para se constatar o que acontece. Esses idiotas ocidentais que velejam sozinhos ao redor do mundo, por exem­plo. Um número surpreendente enlouquece, e muitos desaparecem, provavelmente suicídio. Mesmo os que sobrevivem, aqueles que utili­zam diariamente seus radiotransmissores, precisam muitas vezes de médicos para aconselhá-los contra os perigos psicológicos de tal soli­dão. E eles podem ver a água em volta. Podem ver o barco. Podem sentir o movimento das ondas. Tire tudo isso... ¯ O médico balan­çou a cabeça. ¯ Eles durariam no máximo três dias. Nós tiramos tu­do, como vê.

¯   Qual o tempo mais longo que alguém agüentou aqui?

¯  Dezoito horas... Ele foi voluntário, um jovem oficial do Primei­ro Diretório. O único problema é que o paciente não deve saber o que está acontecendo. Isso altera o efeito. Ele também desiste, é claro, mas não tão completamente.

Vatutin respirou fundo. Essas foram as primeiras boas notícias que ele havia escutado.

¯  E esta, quanto vai demorar?

O médico limitou-se a consultar seu relógio e sorrir. Vatutin queria odiá-lo, mas reconheceu que aquele médico, aquele homem dedicado à cura, simplesmente fazia o que ele vinha fazendo há anos, mais rapi­damente e sem danos visíveis que pudessem embaraçar o Estado nos julgamentos públicos que a KGB agora era obrigada a suportar. De­pois havia ainda certa vantagem adicional que nem mesmo o médico esperara ao iniciar o programa...

¯  Então... o que é esse terceiro estágio?

Svetlana os viu nadando ao redor de sua forma. Tentou avisá-los, mas aquilo a traria de volta para o interior, ela não ousava. Não era tanto uma coisa que ela pudesse enxergar, mas havia formas, vultos predatórios flutuando no espaço ao redor de seu corpo. Um deles aproximou-se, mas depois virou. Então voltou outra vez. Ela também. Tentou lutar, mas algo a arrastou de volta ao corpo que logo se extinguiria. Ela chegou bem a tempo. Enquanto comandava às pernas que nadassem mais rápido, aquilo veio de trás. As mandíbulas se abriram e envolveram seu corpo inteiro, depois fecharam-se lentamente sobre ela. A última coisa que viu foi a luz na direção da qual tinha nadado ¯ a luz, ela percebeu finalmente que nunca estivera lá. Sabia que seu protesto seria em vão, mas explodiu de seus lábios.

¯  Não! ¯ ela não ouviu, é claro.

Ela retornara agora, condenada a usar seu inútil corpo real, de volta à massa cinza perante seus olhos, e aos membros que só se moviam sem propósito. De alguma forma ela entendeu que sua imaginação tentara protegê-la, libertá-la ¯ e falhara completamente. Mas ela não conseguia desligar a imaginação, então seus esforços se tornaram realmente destrutivos. Choramingou sem fazer ruído. O medo que sentia agora era pior do que somente pânico. Pelo menos o pânico era uma escapatória, uma negativa do que ela enfrentava, uma retira­da para o interior de si mesma. Mas não havia um ego que pudesse encontrar. Ela o teria visto morrer, se estivesse lá quando aconteceu. Svetlana estava sem o presente, com certeza sem futuro. Tudo o que possuía agora era um passado, e sua imaginação escolhia apenas as piores partes...

¯  Sim, estamos no estágio final agora ¯ disse o médico. Levantou o fone e pediu um pote de chá. ¯ Esta foi mais fácil do que pensei. Ela se encaixa no perfil melhor do que imaginei.

¯  Mas ela não disse nada ainda ¯ protestou Vatutin.

¯  Ela vai dizer.

Ela vira todos os pecados de sua vida. Isso a ajudava a entender o que estava acontecendo. Aquele era o inferno cuja existência o Estado negava, e ela sofria sua punição. Tinha de ser isso. E ela colaborava. Precisava fazê-lo. Precisava ver tudo de novo e entender o que tinha feito. Precisava participar do julgamento no interior da própria men­te. Seu choro não parava. As lágrimas corriam por dias a fio, enquan­to ela observava a si mesma fazendo coisas que nunca deveria ter feito. Cada transgressão de sua vida passou diante de seus olhos com todos os detalhes. Especialmente aquelas que cometera nos últimos dois anos... De alguma forma sabia que foram elas que a levaram para lá. Svetlana assistiu a todas as vezes em que traíra a Mãe Pátria. Os pri­meiros flertes tímidos em Londres, os encontros clandestinos com ho­mens sérios, os avisos para que não fosse frívola, depois os tempos em que usara sua importância para atravessar impunemente a alfân­dega, fazendo o jogo e divertindo-se enquanto cometia os piores cri­mes. Seus gemidos assumiram um timbre reconhecível. O tempo todo ela repetira aquilo sem se dar conta.

¯  Sinto muito...

¯  Agora vem a parte delicada.

O médico colocou na cabeça os fones. Fez alguns ajustes no console de comando.

¯  Svetlana... ¯ sussurrou ele ao microfone.

A princípio ela não ouviu, e demorou algum tempo até que seus sentidos fossem capazes de reconhecer que havia algo chamando.

Svetlana... chamou a voz. Ou teria sido sua imaginação?...

Sua cabeça girou em volta, procurando o que quer que fosse.

Svetlana... sussurrou a voz novamente. Ela segurou o fôlego pelo tempo que conseguiu, ordenando ao corpo que ficasse parado, mas novamente ele a traiu. O coração disparava, e o sangue latejava em suas orelhas, abafando o som, se é que havia um. Deixou escapar um gemido de desespero, imaginando que a voz não existisse, imaginan­do que só estava piorando... ou será que existia mesmo uma es­perança?...

Svetlana... um pouco mais do que um murmúrio, o suficiente para demonstrar conteúdo emocional. A voz parecia tão triste, tão desa­pontada... Svetlana, o que você fez?

¯  Eu não... eu não... ¯ gaguejou ela, e não escutava a própria voz enquanto chamava da sepultura. Foi recompensada apenas com a re­novação do silêncio. Depois do que lhe pareceu uma hora de intervalo ela gritou: ¯ Por favor, por favor, volte para mim!

Svetlana, repetiu a voz finalmente, o que você fez?....

¯  Sinto muito... ¯ repetiu ela, com a voz embargada pelas lágrimas.

¯  O que você fez? ¯ perguntou novamente. ¯ E quanto ao filme?

¯  Fui eu! ¯ respondeu ela, e em poucos momentos contou tudo.

¯  Tempo: onze horas, quarenta e um minutos. Exercício concluí­do. ¯ O médico desligou o gravador. A seguir acendeu e apagou vá­rias vezes as luzes da piscina. Um dos mergulhadores no tanque acenou em resposta e introduziu uma agulha no braço da paciente Vaneyeva. Assim que o corpo amoleceu, ela foi retirada. O médico deixou a sala de controle e desceu para vê-la.

Ela estava deitada numa maça quando ele chegou, o traje já retira­do. Ele sentou ao lado da forma inconsciente e segurou-lhe a mão en­quanto um técnico administrava um estimulante fraco. Ela era bonita, pensou o doutor observando a respiração normalizar-se. Acenou para que o técnico saísse, deixando os dois a sós.

¯  Olá, Svetlana ¯ disse ele com sua voz mais gentil. Os olhos azuis se abriram, enxergaram a luz no teto e as paredes. Depois a cabeça se voltou para ele.                                                                                          

Ele sabia que estava sendo indulgente consigo mesmo, mas traba­lhara muito durante uma noite e um dia naquele caso, que era prova­velmente a mais importante aplicação do seu programa até agora. A mulher nua saltou da mesa para os seus braços e quase o estrangulou com um abraço. Não porque fosse particularmente bonito, como o mé­dico sabia, mas simplesmente porque era um ser humano, e ela que­ria tocar um. Seu corpo permanecia escorregadio de óleo enquanto as lágrimas caíam no seu avental branco de laboratório. Ela nunca co­meteria outro crime contra o Estado, não depois de tudo aquilo. Era uma pena que tivesse de ser enviada para um campo de concentração. Tamanho desperdício, pensou enquanto a examinava. Talvez pudesse fazer alguma coisa a respeito. Depois de dez minutos ela foi novamen­te sedada, e ele a deixou dormindo.

¯  Dei a ela uma droga chamada Versed. É um novo produto oci­dental, que provoca amnésia.

¯  Por que essa em especial? ¯ indagou Vatutin.

¯  Vou lhe dar outra opção, camarada coronel. Quando ela acordar durante a manhã, vai lembrar muito pouco do que aconteceu. Versed age como a escopolamina, porém é mais eficiente. Ela não vai se lem­brar de nenhum detalhe. Tudo parecerá um sonho ruim. Versed tam­bém é hipnótico. Por exemplo, posso voltar a ela e fazer a sugestão de que não se lembre de nada, mas que nunca traia novamente o Es­tado. Existe, grosso modo, uma possibilidade de oitenta por cento que nenhuma das sugestões seja violada.

¯  Está brincando!

¯  Camarada, um dos efeitos dessa técnica é que ela foi condenada com mais rigor do que o Estado o faria. Ela sente mais remorso pelo que fez do que sentiria enfrentando um pelotão de fuzilamento. Cer­tamente leu 1984? Talvez tenha sido um sonho quando Orwell escre­veu, mas, com a tecnologia moderna, já podemos fazê-lo. O truque não é quebrar a pessoa do exterior, mas do interior.

¯  Quer dizer que podemos usá-la agora?...

 

Procedimentos

¯  Ele não vai sobreviver. ¯ Ortiz ouvia o médico da embaixada, um cirurgião do Exército cujo verdadeiro trabalho consistia no tratamen­to de afegães feridos. Os pulmões de Churkin estavam muito danifi­cados para combater a pneumonia que se instalara durante o transporte.

¯ Ele provavelmente não vai durar até o final do dia. Desculpe, mas houve muito dano ao pulmões. Um dia mais cedo, e poderíamos tê-lo salvado, mas... ¯ O médico balançou a cabeça. ¯ Gostaria de man­dar um padre a ele, mas provavelmente é perda de tempo.

¯  Ele consegue falar?

¯  Não muito. Mas pode tentar. Não vai fazê-lo sentir mais dor já do que está sentindo. Ficará consciente por mais algumas horas, de­pois vai desmaiar.

¯  Obrigado por tentar, doutor ¯ disse Ortiz. Quase suspirou de alívio, mas a vergonha de tal gesto o deteve. O que teriam feito se ele sobrevivesse? Devolvê-lo? Ficar com ele? Trocá-lo?, perguntou a si mes­mo. Imaginou por que motivo o Arqueiro o teria trazido. ¯ Bem ¯ disse a si mesmo. Em seguida entrou na sala.

Duas horas depois ele saiu. Ortiz apanhou o carro e foi até a embai­xada, cuja cantina servia cerveja. Fez seu relatório a Langley e, pelas cinco horas seguintes, permaneceu sozinho sentado ao lado de uma mesa que reservou exclusivamente às garrafas, e embebedou-se lenta e completamente.

Ed Foley não podia se dar a esse luxo. Um de seus mensageiros desaparecera três dias antes. Outro deixara a escrivaninha no Gosplan e voltara dois dias depois. Agora de manhã, o homem da lavanderia ligara afirmando estar doente. Enviara um alerta para o garoto na casa de banhos, mas não sabia se fora recebido ou não. Não havia apenas uma perturbação na rede do Cardeal, e sim um verdadeiro desastre. A vantagem em usar Svetlana Vaneyeva residia em sua suposta imuni­dade contra as medidas mais severas da KGB, e ele contara com uma resistência de vários dias para remover seu pessoal. Ordens de aviso para a fuga do Cardeal haviam chegado, mas ainda aguardavam o mo­mento de serem transmitidas. Não via nenhuma vantagem em assustá-lo antes que tudo estivesse completamente pronto. Depois disso, seria fácil para o coronel Filitov arranjar uma desculpa para visitar o Dis­trito Militar de Leningrado ¯ uma coisa que fazia a cada seis meses ¯ e tirá-lo do país.

Se isso funcionar, lembrou Foley. Só fora feito duas vezes antes, que ele soubesse, e mesmo que tivesse corrido bem... não havia nenhuma certeza, havia? Não mesmo. Era hora de sair. Ele e sua mulher preci­savam de algum tempo para descansar, longe de tudo aquilo. Os pró­ximos trabalhos deveriam ser com o pessoal de treinamento da "Fazenda", no rio York. Mas tais pensamentos não ajudavam a resol­ver seu problema atual.

Considerou se deveria alertar o Cardeal de alguma forma, para que fosse mais cuidadoso ¯ mas nesse caso ele destruiria os dados de que Langley precisava desesperadamente, e os dados eram essenciais. Aque­la era a regra, uma regra que Filitov conhecia e aceitava, supostamen­te tão bem quanto Foley. Porém espiões eram mais do que simples objetos que produziam informações, não eram?

Agentes de campo como Foley e sua esposa deviam encará-los como bens valiosos mas dispensáveis, distanciando-se de seus agentes, e tratando-os bondosamente quando possível, mas impiedosamente quando necessário. Tratá-los como crianças, na verdade, com uma mis­tura de indulgência e disciplina. Só que eles não eram crianças. O Car­deal era mais velho do que seu próprio pai, e já era um agente quando Foley cursava o segundo grau! Poderia não demonstrar lealdade a Fi­litov? Claro que não. Precisava protegê-lo. Mas como?

Operações de contra-espionagem freqüentemente não passavam de trabalho policial, e como resultado disso o coronel Vatutin sabia tanto sobre investigação quanto os melhores homens da Milícia de Moscou. Svetlana entregara a ele o gerente da lavanderia, e, depois de dois dias de vigilância cerrada, decidira trazer o homem para ser interrogado. Não usaram o tanque com ele. O coronel ainda não confiava na nova técnica, e além do mais não havia necessidade de ir devagar com ele. Incomodava a Vatutin que Vaneyeva agora tivesse a chance de ficar livre ¯  livre, depois de trabalhar para os inimigos do Estado! Alguém queria usá-la como peça de barganha por algum favor do Comitê Cen­tral mas aquele não era um assunto da alçada do coronel. Agora o homem da lavanderia fornecera a descrição de outro membro daquela corrente infindável.

A parte que mais incomodava Vatutin era que ele pensava ter visto o rapaz! O gerente tinha contado logo sobre sua suspeita de que o ra­paz trabalhasse nos banhos, e a descrição combinava com o atendente com quem conversara pessoalmente! Mesmo não sendo um contato profissional, enraivecia Vatutin que ele tivesse encontrado um traidor naquela manhã da semana que passara, sem reconhecê-lo pelo que parecia...

Qual era mesmo o nome daquele coronel?, perguntou subitamente a si mesmo. Aquele que tropeçara? Filitov ¯ Misha Filitov? Ajudante pessoal do ministro da Defesa Yazov?

Devia estar com uma tremenda ressaca para não fazer a ligação! Fili­tov de Stalingrado, o tanquista que matara alemães enquanto queimava em seu tanque atingido: Mikhail Filitov, três vezes Herói da União So­viética... Tinha de ser o mesmo. Seria ele o...

Impossível, disse a si mesmo.

Mas nada era impossível. Se é que aprendera alguma coisa, Vatutin aprendera isso. Clareou sua cabeça e considerou friamente as possibi­lidades. As boas notícias eram que qualquer pessoa preeminente na União Soviética possuía um arquivo no número 2 da Praça Dzerz­hinsky. Era simples obter a ficha de Filitov.

O dossiê revelou ser grosso, como verificou quinze minutos mais tarde. Vatutin compreendeu que não sabia nada sobre o homem. Co­mo a maioria dos heróis de guerra, feitos realizados no breve espaço de alguns minutos expandiram-se para marcar a vida inteira. Mas ne­nhuma vida era assim tão simples. Vatutin começou a ler o arquivo.

Pouca coisa tinha relação com suas façanhas de guerra, embora essa época fosse inteiramente coberta, incluindo as citações por todas as suas medalhas. Como ajudante-de-ordens de três ministros da Defe­sa, Misha tinha passado por verificações rigorosas de segurança, al­gumas das quais Filitov tivera conhecimento, outras não. Aqueles Papéis também estavam em ordem, claro. Voltou sua atenção para a pasta seguinte.

 

Vatutin ficou surpreso ao saber que Filitov envolvera-se no caso do infame Penkovsky. Oleg Penkovsky fora um agente graduado na GRU, a agência soviética de Inteligência militar, recrutado pelos ingleses, de­pois "dirigido" conjuntamente pelo SIS e pela CIA, traíra seu país tão completamente quanto um homem poderia fazê-lo. Sua penúlti­ma traição fora deixar vazar para o Ocidente o estado de alerta ¯ ou falta de preparo ¯ das Forças de Foguetes Estratégicos durante a Cri­se dos Mísseis em Cuba; essa informação permitira ao presidente ame­ricano Kennedy forçar Kruschev a retirar os mísseis que tão imprudentemente haviam sido baseados naquela maldita ilha. Mas a lealdade torcida de Penkovsky aos estrangeiros o forçou a assumir ris­cos em demasia para entregar aquelas informações, e um espião só pode assumir muitos riscos. Já estivera sob suspeita. Geralmente se pode prever quando o outro lado se torna esperto demais, porém... Filitov tinha sido o responsável pela primeira acusação real...

Filitov fora quem denunciara Penkovsky? Vatutin espantou-se. A investigação estava razoalmente adiantada naquela época. A vigilância contínua mostrou que Penkovsky andava fazendo algumas coisas fora do comum, incluindo pelo menos um dead-drop possível, mas... Va­tutin sacudiu a cabeça. As coincidências que a gente encontra nesse negó­cio. O velho Misha fora ao oficial de segurança e denunciara uma curiosa conversa com seu conhecido da GRU, que talvez fosse inocen­te, dissera ele, mas que o colocara de antenas ligadas de uma forma estranha, tanto que se sentira compelido a falar sobre ela. Instruído pela KGB, ele continuara ouvindo, e a conversa seguinte já não fora assim tão inocente. Àquela altura o caso contra Penkovsky se firmara, e as provas adicionais não foram necessárias na verdade, embora fizes­sem com que todos os envolvidos se sentissem um pouco melhor...

Era uma estranha coincidência, pensou Vatutin, mas dificilmente lan­çava qualquer tipo de suspeita sobre o homem. A seção pessoal do relatório afirmava que ele era viúvo. Uma foto de sua esposa estava ali, e Vatutin admirou-a por algum tempo. Havia também uma foto­grafia do casamento, e o homem do Segundo Diretório sorriu quando viu que o velho combatente fora mesmo jovem um dia, e um tipo de fazer inveja! Na página seguinte havia informação sobre os dois filhos ¯ ambos mortos. Aquilo chamou sua atenção. Um nascera imediata­mente antes da guerra, o outro assim que esta se iniciara. Mas não haviam morrido como resultado da guerra... O que então? Ele folheou o maço de páginas.

O mais velho morrera na Hungria, descobriu Vatutin. Em virtude de sua confiabilidade política, fora tirado da academia militar juntamente com um punhado de outros cadetes e enviado para reprimir a contra-revolução de 1956. Como um dos tripulantes de um tanque ¯ seguindo as pegadas do pai ¯, morreu quando seu veículo foi des­truído. Bem, soldados corriam riscos. Certamente seu pai havia corri­do. O segundo ¯ também tripulante de tanques, notou Vatutin ¯ morrera quando da explosão da culatra do canhão em seu T-55. A fa­lha do controle de qualidade de fábrica, a maldição da indústria soviética, matara toda a tripulação... E quando morrera sua mulher? No mês de julho seguinte, de tristeza provavelmente, qualquer que tenha sido a explicação médica. O arquivo mostrava que os dois filhos foram modelos da nova juventude soviética. Todas as esperanças e so­nhos morreram com eles, pensou Vatutin, e logo depois perdera a espo­sa também.

Que pena, Misha. Acho que você usou toda a boa sorte da família con­tra os alemães, e os outros três tiveram de pagar a conta... É triste que um homem que fez tanto deva...

Deva ter um motivo para trair a Rodina? Vatutin olhou para cima e para fora da janela do escritório. Podia divisar a praça do lado de fora, os carros passando ao redor da estátua de Félix Dzerzhinsky. "Félix de Ferro", fundador da Cheka. Polonês e judeu por nascimento, com sua barba curta de formato esquisito e seu intelecto impiedoso, Dzerz­hinsky repelira os primeiros esforços do Ocidente para penetrar na União Soviética e subvertê-la. Estava de costas para o prédio, e os brin­calhões diziam que Félix fora condenado ao isolamento perpétuo ali, como Svetlana Vaneyeva fora isolada...

Ah, Félix, o que me aconselharia nesse momento? Vatutin sabia muito bem a resposta. Félix mandaria prender e interrogar impiedosamente Misha Filitov. A mera possibilidade de suspeita teria sido o suficiente naqueles dias, e quem poderia saber quantos homens e mulheres ino­centes foram subjugados e morreram inocentes? As coisas eram dife­rentes agora, e até mesmo a KGB tinha regras a seguir. Não se podia simplesmente apanhar as pessoas na rua e torturá-las até que disses­sem o que se queria ouvir. Assim era melhor, pensou Vatutin. A KGB era uma organização profissional. Precisavam trabalhar mais agora, por isso treinava melhor os agentes e melhorava o desempenho... Seu telefone tocou.

¯  Coronel Vatutin.

¯  Suba até aqui. Vamos apresentar o assunto ao diretor-geral em dez minutos. ¯ A linha foi desligada.

O quartel-general da KGB era um construção antiga, erigida na vi­rada do século para ser a sede da Companhia de Seguros Rossiya. As paredes exteriores eram de granito cor de ferrugem, e o interior era um reflexo da época em que fora erigido, com tetos elevados e portas imensas. Os corredores longos e acarpetados, entretanto, eram mal ilu­minados, desde que supostamente ninguém teria interesse em ver o rosto das pessoas que transitavam por eles. Havia muitos uniformes em evidência. Aqueles oficiais eram membros do Terceiro Diretório, que ficavam de olho nos serviços armados. Um detalhe que destacava o prédio era o silêncio. Aqueles que andavam por ali faziam-no de bo­ca fechada e expressão séria, para que não deixassem escapar inadver­tidamente um dos milhões de segredos que o edifício guardava.

O escritório do diretor também tinha vista para a praça, embora fosse uma visão muito melhor do que a sala de Vatutin. Um secretário le­vantou de sua escrivaninha e acompanhou os dois visitantes, passan­do pelos dois guardas de segurança que sempre permaneciam nos cantos da sala de recepção. Vatutin inspirou profundamente enquan­to atravessava os umbrais da porta aberta.

Nikolay Gerasimov estava em seu quarto ano de chefia da Comissão para a Segurança do Estado, a KGB. Não era um espião de profissão, mas um militante que passara quinze anos imerso na burocracia do Partido Comunista da União Soviética antes de ser indicado para um dos postos de nível médio no Quinto Diretório, cuja missão era a su­pressão dos dissidentes internos. Sua habilidade em desincumbir-se dessa delicada missão conquistou-lhe promoções sucessivas e a indi­cação para primeiro subchefe anos depois. Lá aprendeu o ramo de informações internacionais do lado administrativo, atuando suficien­temente bem para conquistar o respeito dos agentes de campo por seus instintos. Antes de mais nada, entretanto, ele era um homem do Par­tido, e isso explicava seu posto. Aos 53 anos, era razoavelmente jovem para seu trabalho, e parecia mais jovem ainda. Seu rosto jovial nunca fora marcado pela contemplação de derrotas, e seu olhar voltava-se con­fiante para a frente, antevendo mais promoções. Para um homem que tinha um lugar tanto no Politburo quanto no Ministério da Defesa, mais promoções significava que ele se considerava na disputa pelo posto mais alto de todos: secretário-geral do Partido Comunista da União Soviética. Como o homem que brandia a ' 'espada e o escudo'' do Par­tido ¯ era esse na verdade o lema oficial da KGB ¯, sabia tudo o que havia para saber sobre os outros homens na disputa. Sua ambi­ção, embora nunca expressa abertamente, era murmurada pelo pré­dio, e um bom número de jovens e brilhantes oficiais da KGB tentava ligar seus destinos ao daquela estrela em ascensão. Um homem encan­tador, pensou Vatutin. Naquele momento, o superior levantou-se da cadeira e indicou aos visitantes as cadeiras do outro lado da enorme escrivaninha de carvalho. Vatutin era um homem que controlava seus pensamentos e emoções; era também honesto para se deixar impres­sionar por pessoas encantadoras. Gerasimov segurava uma pasta.

¯  Coronel Vatutin, li o relatório de sua investigação em curso. Óti­mo trabalho. Pode me colocar a par dos progressos atuais?

¯  Sim, camarada diretor. Estamos atualmente procurando por Eduard Vassilyevich Altunin. Ele á atendente nos Banhos Sandunovski. O interrogatório do homem da lavanderia nos revelou que esse era o próximo "elo" da corrente de mensageiros. Infelizmente ele desapa­receu trinta e seis horas atrás, mas devemos apanhá-lo até o fim da semana.

¯  Eu mesmo vou aos banhos ¯ observou Gerasimov com ironia. Vatutin acrescentou seu comentário.

¯  Eu ainda vou, camarada diretor. E vi esse jovem. Reconheci sua fotografia no arquivo que estamos montando. Ele foi cabo numa com­panhia de artilharia no Afeganistão. Sua ficha do Exército mostra que fez objeções ao uso de certas armas usadas lá: aquelas que usamos pa­ra desencorajar os civis de ajudarem os bandidos. ¯ Vatutin referia-se às bombas disfarçadas como brinquedos e projetadas para serem apanhadas pelas crianças. ¯ O supervisor político de sua unidade nos enviou um relatório, mas a primeira repreensão verbal calou-o, e ele terminou seu serviço sem mais incidentes. O relatório foi o suficiente para lhe negarem um emprego nas fábricas, e ele foi de um emprego de criado para outro. Companheiros de trabalho o descreveram como um tipo comum, razoavelmente quieto. Exatamente como deveriam ser os espiões, é claro. Ele nunca se referiu ao seu "problema" no Afeganistão, mesmo quando bebia. Seu apartamento está sob vigilân­cia, bem como os membros de sua família e seus amigos. Se não o apanharmos logo, saberemos que é um espião. Mas vamos apanhá-lo, e deverei falar com ele pessoalmente.

Gerasimov concordou pensativamente.

¯  Vi que usou a nova técnica com essa mulher, Vaneyeva. O que achou?

¯  Interessante. Certamente funcionou nesse caso, mas preciso di­zer que tenho minhas dúvidas quanto a soltá-la novamente nas ruas.

¯  Essa decisão foi minha, no caso de ninguém ter-lhe dito ¯ afir­mou Gerasimov desajeitadamente. ¯ Dada a natureza sensível des­te caso, e a recomendação do médico, acho que essa jogada é uma que vale a pena no momento. Concorda que não devemos chamar muita atenção para o caso? As acusações contra ela permanecem em aberto.

Oh, e nesse caso se pode usá-la contra seu pai, não é? A desgraça dela também é a dele, e que pai desejaria ver sua única filha no GULAG? Nada como uma pequena chantagem, não é, camarada diretor?

¯  O caso é muito delicado, e pode ficar mais ¯ replicou Vatutin cuidadosamente.

¯  Continue.

¯  A única vez que vi esse rapaz, Altunin, ele estava ao lado do co­ronel Mikhail Semyonovich Filitov.

¯  Misha Filitov, o ajudante de Yazov?

¯  O mesmo, camarada diretor. Dei uma olhada no arquivo esta manhã.

¯  E então? ¯ esta pergunta veio do superior de Vatutin.

¯  Nada que eu possa apontar. Eu não estava a par de seu envolvi­mento no caso Penkovsky... ¯ Vatutin calou-se, e pela primeira vez seu rosto demonstrou algo.

¯  Alguma coisa o incomoda, coronel ¯ observou Gerasimov. ¯ O que é?

¯  O envolvimento de Filitov no caso Penkovsky logo depois da mor­te de seu segundo filho e da esposa. ¯ Vatutin encolheu os ombros depois de uma pausa. ¯ Uma estranha coincidência.

¯  Filitov não foi a primeira testemunha contra ele? ¯ perguntou o chefe do Segundo Diretório. Ele na verdade trabalhara à margem do caso.

Vatutin concordou.

¯  Foi, mas aconteceu depois que já tinham o espião sob vigilân­cia. ¯ Ele fez uma pequena pausa. ¯ Como eu disse, apenas uma estranha coincidência. Estamos agora atrás de um mensageiro suspei­to que transportava informações da Defesa. Eu o vi de pé ao lado de um oficial graduado do Ministério da Defesa que se envolveu em ou­tro caso similar quase trinta anos atrás. Por outro lado, Filitov foi o primeiro a delatar Penkovsky, e é um famoso herói de guerra... que perdeu a família sob circunstâncias desafortunadas... ¯ Foi a primei­ra vez que reuniu todos os pensamentos.

¯  Houve alguma sombra de suspeita sobre Filitov? ¯ indagou o diretor-geral.

¯  Não. Dificilmente sua carreira poderia ser mais impressionante. Filitov foi o único ajudante que permaneceu com o finado ministro Ustinov através de sua carreira, e desde então ficou ali. Ele faz o pa­pel de inspetor-geral para o ministro.

 

¯  Eu sei ¯ disse Gerasimov. ¯ Tenho aqui um pedido com a assi­natura de Yazov para nosso arquivo sobre os progressos americanos em SDI. Quando telefonei para falar sobre o assunto, o ministro me disse que os coronéis Filitov e Bondarenko estavam reunindo dados para um relatório completo ao Politburo. O nome de código naquela fotografia que conseguiram recuperar era Estrela Brilhante, não era?

¯  Era, camarada diretor.

¯  Vatutin, temos agora três coincidências ¯ observou Gerasimov. ¯ O que recomenda?

Aquilo era fácil demais.

¯ Deveríamos colocar Filitov sob vigilância. Provavelmente esse Bondarenko também.

¯  Muito cuidadosamente, porém com todo o rigor. ¯ Gerasimov fechou a pasta. ¯ Esse foi um ótimo relatório, e parece que seus ins­tintos de investigação encontram-se mais aguçados do que nunca, co­ronel. Você me manterá informado sobre esse caso. Espero vê-lo três vezes por semana até sua conclusão. General ¯• disse ele ao chefe do "Dois". ¯ Esse homem terá todo o apoio que precisar. Pode requisi­tar fundos de qualquer parte da Comissão. Se tiver algum empecilho, por favor venha a mim. Pode estar certo de que existe um vazamento de informações nos altos níveis do Ministério da Defesa. A seguir: es­te caso é restrito aos meus e aos seus olhos. Ninguém, e repito, nin­guém deve saber sobre esses fatos. Quem sabe onde os americanos conseguiram colocar seus agentes? Vatutin, dirija bem esse caso e vo­cê terá suas estrelas de general por volta do verão. Mas... ¯ Ele levan­tou o indicador. ¯ Acho que deveria parar de beber até que acabasse esse caso. Precisamos de sua mente clara.

¯   Sim, camarada diretor.

O corredor estava praticamente vazio quando Vatutin e seu supe­rior saíram.

¯  E quanto a Vaneyeva? ¯ perguntou o coronel, em voz baixa.

¯  E o pai dela, é claro. O secretário-geral Narmonov vai anunciar sua indicação para o Politburo na próxima semana ¯ respondeu o ge­neral numa voz neutra e baixa.

E não vai fazer mal algum ter mais um amigo da KGB na corte, pen­sou Vatutin. Talvez Gerasimov esteja preparando alguma jogada...

¯  Lembre-se do que ele disse sobre não beber ¯ disse o general a seu lado. ¯ Ouvi dizer que anda entornando as garrafas com vonta­de, ultimamente. Essa é uma área de concordância entre o diretor e o secretário-geral, caso ninguém lhe tenha dito.

¯  Sim, camarada general ¯ respondeu Vatutin. E claro, é provavelmente a única área de concordância. Como qualquer bom russo, Vatutin achava que vodca fazia parte da vida tanto quanto o ar. Ocorreu a ele que fora sua ressaca que o levara a tomar um banho de vapor naquela manhã e reparar na coincidência, mas refreou o impulso de mencionar a ironia envolvida. De volta à própria escri­vaninha alguns minutos mais tarde, Vatutin apanhou um bloco e começou a planejar a vigilância sobre os dois coronéis do Exército soviético.

Gregory tomou vôos de rotas comerciais ao voltar para casa, mu­dando de avião em Kansas City, depois de uma espera de duas ho­ras. Dormira durante a maior parte do trânsito e andava direto pa­ra o terminal, pois não possuía bagagem para cuidar. Sua noiva o aguardava.

¯  Como estavam as coisas em Washington? ¯ perguntou ela, de­pois do beijo habitual de boas-vindas.

¯  Nunca muda. Me mandaram de um lugar para outro por lá. Acho que pensam que os cientistas nunca dormem. ¯ Ele apanhou a mão dela na caminhada até o carro.

¯  Então, o que aconteceu? ¯ quis saber ela, assim que saíram.

¯  Os russos fizeram um grande teste. ¯ Ele parou, olhando ao re­dor. Aquela era uma violação técnica de segurança.... mas Candi fa­zia parte do grupo, não fazia? ¯ Eles acertaram um satélite com o laser baseado em Dushanbe. O que sobrou parecia um modelo de plástico que derreteu no forno.

¯  Isso é ruim ¯ comentou a dra. Long.

¯  Claro que é ¯ concordou Gregory. ¯ Mas eles tiveram proble­mas ópticos. Distorção térmica e balanço, os dois. Com certeza não têm por lá ninguém como você para construir espelhos. Se bem que deve ter gente boa na área do laser.

¯  Boa quanto?

¯  Boa o suficiente para que estejam fazendo algo que ainda não conseguimos. ¯ Al resmungou ao alcançar seu Chevy. ¯ Você dirige, estou um pouco dopado.

¯  Nós vamos conseguir? ¯ perguntou Candi, girando a chave na porta.

¯  Mais cedo ou mais tarde. ¯ Não podia ir mais longe do que is­so, noiva ou não.

Candi entrou e esticou-se para puxar a trava da porta à direita. As­sim que Al entrou e colocou o cinto, abriu o porta-luvas e tirou de lá um saquinho de jujubas. Sempre tinha um estoque delas. Estavam um pouco passadas, mas ele não se importou. Às vezes Candi se per­guntava se o amor dele por ela não resultava do fato de que seu apeli­do significava, em inglês, confeitos ou balinhas.

¯  Como está indo o trabalho com o novo espelho? ¯ quis saber ele, depois de engolir metade do saquinho.

¯  Marv tem uma nova idéia que estamos tentando executar. Ele acha que deveríamos afinar a camada óptica em vez de engrossá-la. Vamos experimentá-la na semana que vem.

¯  Marv é um cara bem original para um coroa ¯ observou Al. O dr. Marv Greene tinha 42 anos.

Candi riu.

¯  A secretária dele acha que ele é bem original, também.

¯  Ele devia se comportar melhor do que ficar andando por aí com as colegas de trabalho ¯ disse Gregory sério. Um momento depois encolheu-se.

¯  Claro, querido. ¯ Ela voltou-se para olhar na direção dele, e os dois caíram na risada. ¯ Está muito cansado?

¯  Eu dormi no vôo.

¯  Ótimo.

Um pouco antes de abraçá-la, Gregory amassou a embalagem va­zia de jujubas e atirou-a ao chão, onde foi juntar-se a quase trinta ou­tras. Ele voara um bocado, mas Candi tinha um metódo seguro para curar enjôo.

¯  Bem, Jack? ¯ perguntou o almirante Greer.

¯  Estou preocupado ¯ admitiu Ryan. ¯ Foi por pura sorte que ficamos sabendo do teste. O horário foi muito bem escolhido. Todos os nossos satélites de reconhecimento estavam bem abaixo do hori­zonte óptico. Não deveríamos saber de nada... o que não é surpresa nenhuma, desde que o teste é uma violação técnica do Tratado ABM. Bem, provavelmente é. ¯ Jack deu de ombros. ¯ Tudo depende de como se lê o tratado. Agora vamos chegar ao ponto de discutir a inter­pretação "livre", ou "ao pé da letra". Se tentássemos fazer algo pare­cido, o Senado iria botar a boca no mundo.

¯  Eles não iriam gostar do teste que você viu. ¯ Muito poucas pes­soas sabiam o que era Tea Clipper. O programa era "negro". E os pro­gramas "negros", mais sigilosos do que a classificação máxima de segurança, simplesmente não existiam.

¯  Talvez. Mas estávamos testando o sistema de mira, e não uma arma de verdade.

¯  E os soviéticos estavam testando um sistema para ver se... ¯ Greer sorriu e balançou a cabeça. ¯ É como falar sobre metafísica, não é? Quantos feixes de laser podem dançar sobre a cabeça de um al­finete?

¯ Tenho certeza de que Ernie Allen poderia nos dar uma opinião sobre isso. ¯ Jack sorriu. Ele não concordava com Allen, mas era obri­gado a gostar do homem. ¯ Tenho esperança de que nosso amigo em Moscou consiga entregar suas informações.

 

Sucesso e Fracasso

Um dos problemas em manter qualquer indivíduo sob vigilância é que se precisa determinar como ele ou ela em geral passam o dia, antes de se poder estabelecer que recursos serão necessários para a opera­ção. Quanto mais solitária a pessoa ou sua atividade, mais difícil é man­ter uma vigilância dissimulada. Por exemplo, os agentes da KGB que seguiam o coronel Bondarenko já o odiavam completamente. Sua ro­tina diária de corridas ao ar livre era uma atividade ideal para um es­pião, pensavam todos. Ele corria inteiramente só pelas ruas da cidade, em grande parte vazias ¯ vazias o suficiente para que todos fora de casa fossem com certeza conhecidos de vista e vazias o suficiente para que ele notasse imediatamente qualquer coisa fora do comum. Enquan­to corria pelos quarteirões residenciais daquela parte de Moscou, os três agentes designados para segui-lo perderam contato visual por na­da menos que cinco vezes. As árvores esparsas que poderiam ocultá-los estavam desfolhadas e os prédios de apartamentos jaziam isolados na terra plana e deserta como grandes lápides. Em qualquer uma da­quelas cinco vezes, Bondarenko poderia ter parado para receber um contato dead-drop, ou ele mesmo poderia ter passado alguma informa­ção. Era mais do que frustrante, e ainda havia o fato de que o coronel do Exército soviético possuía uma folha de serviços tão imaculada co­mo um floco de neve recém-caído: exatamente a cobertura que qual­quer espião idealizaria para si próprio, é claro.

Eles o localizaram outra vez ao dobrar a esquina de sua casa, mo­vendo as pernas vigorosamente, o hálito condensando-se no ar atrás de si em pequenas nuvens de vapor. O homem encarregado daquela parte do caso decidira que seria necessária tão-somente meia dúzia de agentes do "Dois" para as corridas matinais do suspeito. E eles te­riam de chegar uma hora antes do horário esperado para o início da corrida, suportando o frio seco e cortante das madrugadas de Mos­cou. Os agentes do Segundo Diretório nunca se considerariam sufi­cientemente reconhecidos pelas agruras do trabalho.

A muitos quilômetros dali, outro grupo de três estava bem satisfei­to com seu suspeito. Naquele caso haviam obtido um apartamento no oitavo andar, em frente ao prédio onde residia o suspeito ¯ o diplo­mata que morava ali estava no exterior. Um par de teleobjetivas foi focalizado nas janelas de Misha, e ele não era do tipo que se preocu­passe em abaixar persianas, ou mesmo ajustá-las para diminuir a luz. Observaram-no realizando a rotina matinal de um homem que bebera em demasia na noite anterior, familiar aos homens do "Dois" que observavam do outro lado da rua, confortavelmente aquecidos.

Misha também era suficientemente importante no Ministério da De­fesa para utilizar um carro com motorista. Fora fácil transferir o sar­gento e substituí-lo por um rosto jovem e desconhecido da escola de contra-inteligência da KGB. Um microfone no telefone gravou seu pe­dido para ser apanhado cedo.

Ed Foley saiu de seu apartamento mais cedo do que habitualmente. A esposa o levou ao trabalho, com as crianças no banco traseiro do carro. O arquivo soviético sobre Foley relatava com certa ironia o fato de que era ela que ficava com o carro na maioria dos dias, para levar as crianças e geralmente encontrar-se com as mulheres de outros di­plomatas ocidentais. Um marido soviético ficaria com o carro para uso próprio. Pelo menos não estava fazendo com que ele usasse o metrô hoje, observaram eles; fora decente da parte dela. O miliciano à entra­da do conjunto diplomático ¯ ele pertencia à KGB, como era do co­nhecimento de todos ¯ registrou a hora da partida, bem como os ocupantes do carro. Era um pouco fora do comum, e o guarda do por­tão olhou em volta para verificar se o agente da KGB que seguia Foley estava presente. Não estava. Os americanos "importantes" tinham vi­gilância mais assídua.

Ed Foley usava um gorro de peles em estilo russo e seu sobretudo era suficientemente usado para que não parecesse terrivelmente estran­geiro. Um cachecol de lã, que contrastava um pouco com o casaco, protegia-lhe o pescoço e escondia a gravata listrada. Os agentes de se­gurança russos que o conheciam de vista repararam que, a exemplo do que acontecia com a maioria dos estrangeiros, ele também fora in­fluenciado pelo clima local, o grande nivelador. Quem quer que passe por um inverno russo, logo começa a vestir-se e agir como um russo, até o ponto de olhar levemente para baixo ao andar.

Em primeiro lugar, deixaram as crianças na escola. Mary Pat Foley dirigia normalmente, desviando o olhar da pista ao espelho retrovisor a cada três ou quatro segundos. Dirigir ali até que não era tão mau, comparado às cidades americanas. Embora os motoristas russos fizes­sem as coisas mais inesperadas, as ruas não eram muito movimenta­das e, tendo aprendido a dirigir em Nova York, ela podia se arranjar em qualquer lugar. Como os agentes faziam no mundo todo, percorria um caminho cheio de atalhos, que evitava os piores pontos de engar­rafamento, economizando alguns minutos à custa de 1 ou 2 litros a mais de combustível.

Imediatamente após dobrar uma esquina, ela manobrou com habi­lidade junto à calçada e o marido desceu. O carro já estava em movi­mento quando ele bateu a porta e afastou-se, não muito rapidamente, em direção à entrada lateral de um prédio de apartamentos. Dessa vez, o coração de Ed Foley batia acelerado. Havia feito aquilo apenas uma vez anteriormente e não gostava nem um pouco. No interior do pré­dio, evitou os elevadores e dispôs-se a subir os oitos lances de escada, consultando o relógio.

Não sabia como a mulher fazia aquilo. Incomodava seu ego admitir que ela dirigia com muito mais precisão do que ele e podia ir de carro a qualquer lugar escolhido com uma precisão de cinco segundos a mais ou a menos. Tinha dois minutos para chegar ao oitavo andar. Foley conseguiu fazê-lo com alguns segundos de folga. Abriu a porta corta-fogo e procurou com olhos ansiosos o corredor. Maravilhosos os cor­redores, especialmente os que eram retos e vazios, nas construções an­tigas e altas. Com um conjunto de elevadores no centro e escadas de incêndio em ambas as extremidades, não havia lugar para se oculta­rem câmeras de vigilância. O agente avançou além da área dos eleva­dores, dirigindo-se para a outra extremidade. Poderia medir o tempo com as batidas de seu coração agora. Vinte metros à frente, a porta de um dos apartamentos se abriu e um homem trajando uniforme saiu. Voltou-se para trancar a porta, depois apanhou sua valise e prosse­guiu na direção de Foley. Um observador, se houvesse algum ali, teria achado estranho que nenhum dos dois homens se movesse para evitar o outro.

Durou apenas um instante. A mão de Foley tocou a do Cardeal, apa­nhando o magazine de filme e passando uma minúscula tira de papel.

 

Pensou ter visto uma ponta de irritação nos olhos do agente, e nada além disso, nem mesmo um "Desculpe, por favor, camarada", enquan­to o oficial prosseguia em direção aos elevadores. Foley foi diretamen­te até as escadas de incêndio. Desceu devagar.

O coronel Filitov saiu do prédio na hora marcada. O sargento que segurava a porta do carro notou que ele mastigava alguma coisa, tal­vez uma migalha de pão entre os dentes.

¯  Bom dia, camarada coronel.

¯  Onde está Zhdanov? ¯ indagou Filitov entrando no veículo.

¯  Ficou doente. Eles acham que é o apêndice. ¯ Isso provocou um grunhido.

¯  Bem, vamos indo. Quero tomar um banho de vapor essa manhã.

Foley saiu pelos fundos do edifício alguns minutos depois e passou por mais dois prédios de apartamentos, encaminhando-se para a pró­xima rua. Estava chegando à esquina quando sua mulher apareceu, apanhando-o quase sem parar o carro. Ambos respiraram profunda­mente algumas vezes enquanto ela guiava em direção à embaixada.

¯  O que vai fazer hoje? ¯ perguntou ela, os olhos verificando o retrovisor.

¯  O de sempre ¯ foi a resposta resignada.

Misha já estava na sala de vapor. Notou a ausência do atendente e a presença de rostos não familiares. Aquilo explicava a transferência especial aquela manhã. Não deixou transparecer nada ao trocar pala­vras amigáveis com os freqüentadores. Era uma pena que a câmera tivesse ficado sem filme. Havia ainda a considerar o aviso de Foley. Se ele estivesse novamente sob vigilância ¯ bem, a cada ano ou dois algum oficial de segurança resolvia mostrar serviço e verificava nova­mente todo o pessoal do ministério. A CIA percebera e quebrara a cadeia de mensagens. Era divertido, ele pensou, ver o olhar no rosto do jovem no corredor. Sobraram tão poucas pessoas que sabiam o que era combater... As pessoas se assustavam facilmente. O combate ensi­na a um homem o que temer e o que ignorar, disse Filitov a si mesmo.

Do lado de fora da sala de vapor, um homem do "Dois" revistava as roupas de Filitov. No carro, sua valise também sofria uma verifica­ção. Em cada caso, a tarefa foi realizada rápida e meticulosamente.

Vatutin em pessoa supervisionara a revista no apartamento de Fili­tov. Fora um trabalho realizado por peritos com luvas cirúrgicas de borracha, e eles passaram a maior parte do tempo procurando "pistas". Poderia ser um pedaço de papel, uma migalha, ou até mesmo um fio de cabelo humano deixado num local específico, cuja remoção alertaria o homem que morava no apartamento sobre o fato de que alguém estivera no local. Tiraram numerosas fotografias que levaram para revelar. O diário foi encontrado quase imediatamente. Vatutin inclinou-se para examinar o caderno de aparência comum que estava bem visível na gaveta da escrivaninha, a fim de certificar-se de que o local não possuía nenhuma marcação oculta. Ao cabo de um ou dois minutos, apanhou-o e começou a ler.

O coronel Vatutin estava irritado. Não dormira bem na noite ante­rior. Como todos os bebedores inveterados, ele precisava de álcool pa­ra adormecer, e a excitação do caso, aliada à falta do remédio apro­priado, lhe proporcionara uma noite maldormida, debatendo-se de um lado para o outro; esse fato estava suficientemente aparente em seu rosto para que seu grupo permanecesse de boca fechada.

¯  Câmera ¯ ordenou ele secamente. Um homem avançou e come­çou a fotografar as páginas do diário enquanto Vatutin as virava.

¯  Alguém tentou arrombar a fechadura ¯ informou um major. ¯ Arranhões ao redor do buraco da chave. Se desmontarmos a fechadu­ra, acredito que encontraremos arranhões nas lingüetas também. Pro­vavelmente alguém esteve aqui.

¯  Tenho o que eles vieram procurar ¯ atalhou Vatutin de mau hu­mor. Cabeças viraram-se pelo apartamento. O homem que examinara a geladeira retirou o painel frontal, verificou a parte de baixo do apa­relho, depois recolocou o painel no lugar. ¯ Este homem escreve a porra de um diário! Será que ninguém lê mais os manuais de se­gurança?

Agora entendia. O coronel Filitov usava diários pessoais para esbo­çar relatórios oficiais. De alguma forma, alguém ficara sabendo e vie­ra até o apartamento para fazer cópias...

Mas qual é a probabilidade de isso acontecer?, Vatutin perguntou a si mesmo. Tão provável quanto um homem que escreve suas lembranças dos documentos oficiais quando pode copiá-las em sua mesa no Ministério da Defesa.

A busca demorou duas horas, e os homens do grupo partiram aos pares ou sozinhos, depois de recolocarem tudo exatamente no local encontrado.

De volta ao escritório, Vatutin leu o diário fotografado na íntegra. No apartamento, apenas folheara o material. O fragmento do filme capturado combinava perfeitamente com uma das páginas do início do diário de Filitov. Gastou uma hora examinando as fotografias das páginas. Os dados em si já eram impressionantes. Filitov descrevia o projeto Estrela Brilhante com um nível considerável de detalhes. Na verdade, a explicação do velho coronel era ainda melhor do que o re­sumo que recebera como parte da investigação. No meio encontravam-se detalhes de observações do coronel Bondarenko sobre a segurança do local, e algumas queixas sobre a maneira como as prioridades eram distribuídas pelo ministério. Ficava evidente que ambos os coronéis eram entusiastas de Estrela Brilhante, e Vatutin já começava a concor­dar com eles. Mas o ministro Yazov, ele leu, não tinha tanta certeza. Queixava-se de problemas com os fundos ¯ bem, mas aquela era ou­tra história, não era?

Ficou claro que Filitov violara as regras de segurança ao manter re­gistros sobre material ultra-secreto em sua casa. Isso apenas seria mo­tivo suficientemente sério para que qualquer burocrata iniciante ou de nível médio perdesse o emprego, mas Filitov era tão antigo quanto o próprio ministro, e Vatutin sabia muito bem que os veteranos enca­ravam as regras de segurança como inconvenientes a serem ignorados no Interesse do Estado, do qual se julgavam árbitros supremos. Ima­ginou se o mesmo seria verdadeiro em algum outro lugar. De uma coisa tinha certeza: antes que ele ou qualquer outro membro da KGB pudesse acusar Filitov de qualquer coisa, precisava de algo mais sóli­do do que isso. Mesmo que Misha fosse um agente estrangeiro ¯ Por que estou tentando negar isso?, perguntou Vatutin a si mesmo, um tanto surpreso. Transportou-se de volta ao apartamento do homem, recordando-se das fotografias nas paredes. Devia haver uma centena delas: Misha em pé sobre a torre de seu T-34, binóculos sobre os olhos; Misha com seus homens nas neves do lado dos arrabaldes de Stalin­grado; Misha e a tripulação de seu tanque apontando os furos feitos na blindagem lateral de um tanque alemão... e Misha numa cama de hospital, com Stálin em pessoa prendendo sua terceira medalha de He­rói da União Soviética ao travesseiro, com a mulher e ambos os filhos ao lado. Aquelas eram as recordações de uma patriota e herói.

Nos velhos dias isso não teria importância, lembrou Vatutin. Nos ve­lhos dias suspeitávamos de todos.

Qualquer um poderia ter arranhado a fechadura. Assumiu que pode­ria ter sido o atendente dos banhos desaparecido. Sendo ex-técnico em material bélico, ele provavelmente sabia como fazê-lo. E se for uma coincidência?

Mas, se Misha fosse mesmo um espião, por que não fotografar ele mes­mo os documentos oficiais? Na qualidade de ajudante do ministro da Defesa, podia solicitar quaisquer documentos que desejasse, e penetrar no ministério com uma câmera miniatura era brincadeira.

Se tivéssemos um filme com uma fotografia de tal documento, Misha já estaria no Presídio Lefortovo...

E se ele estiver bancando o espertinho? E se ele quiser que pensemos que alguém tem roubado material de seu diário? Posso levar tudo pa­ra o ministro agora, mas não podemos acusá-lo de nada além de viola­ção das regras internas de segurança. Se ele responder que estava trabalhando em casa e admitir que quebrou a regra, e o ministro de­fender seu ajudante ¯ o ministro defenderia Filitov?

Sim. Vatutin tinha certeza disso. Por um lado, Misha era um aju­dante de confiança e um destacado soldado profissional. Por outro, o Exército sempre cerrava fileiras para proteger um dos seus contra a KGB. Os putos nos odeiam mais do que odeiam os ocidentais. O Exérci­to soviético nunca esqueceu o final da década de 30, quando Stálin usou a agência de segurança para matar quase todos os oficiais gra­duados, quase perdendo Moscou para o Exército alemão em conse­qüência direta disso. Agora, se formos a eles apenas com esse material, vão rejeitar nossas provas e lançar a própria investigação através da GRU.

Quantas irregularidades vão aparecer neste caso?, perguntou-se o co­ronel Vatutin.

Foley perguntava-se algo parecido em seu cubículo a alguns quilô­metros dali. Revelara o filme e estava lendo o conteúdo. Notou com irritação que o Cardeal ficara sem filme e não fora capaz de reprodu­zir o documento inteiro. A parte que tinha perante si, entretanto, afir­mava que a KGB possuía um agente no interior de um projeto americano chamado Tea Clipper. Evidentemente Filitov considerava isso de maior interesse imediato para os americanos, em detrimento do que seus compatriotas pretendiam fazer, e ao ler os dados Foley estava inclinado a concordar. Pois bem. Ele arranjaria para o Cardeal mais alguns magazines de filme, obteria o restante do documento, de­pois passaria a mensagem dizendo que já era tempo de se aposentar. A fuga estava marcada para dali a dez dias ou mais. Bastante tempo, disse a si mesmo, a despeito de um sentimento incômodo na nuca, que afirmava outra coisa.

Qual o próximo truque? Como passaremos o filme novo para o Cardeal? Com a corrente de mensageiros destruída, levaria várias semanas para estabelecer uma nova, e ele não queria arriscar-se novamente a um contato direto.

 Ele sabia que aquilo teria de acontecer, eventualmente. Claro, tudo havia corrido tão suavemente durante todo o tempo em que dirigira aquele agente, porém mais cedo ou mais tarde alguma coisa acontece­ra. Foi o acaso, disse a si mesmo. Eventualmente os dados rolaram para o lado errado. Quando fora designado para o posto pela primeira vez e ficara sabendo da história do Cardeal, maravilhara-se com o fato de que o homem durara tanto tempo e que rejeitara três ofertas de fuga. Até quando se podia forçar a própria sorte? O velho bastardo devia pensar que era invencível. Aqueles a quem os deuses destruiriam, primeiro os fariam orgulhosos, pensou Foley.

Deixou o pensamento de lado e continuou com as tarefas do dia. Por volta do fim da tarde, o mensageiro se dirigia para Oeste com um novo relatório do Cardeal.

¯  Está a caminho ¯ disse Ritter ao diretor-geral da CIA.

¯  Graças a Deus ¯ sorriu o juiz Moore. ¯ Agora vamos nos con­centrar em tirá-lo de lá.

¯  Clark já foi notificado. Ele vai de avião para a Inglaterra amanhã e encontra o submarino um dia depois disso.

¯  Esse é outro que já abusou da sorte ¯ observou o juiz.

¯  É o melhor que temos ¯ respondeu Ritter.

¯  Não é o suficiente para que possamos fazer alguma coisa ¯ afir­mou Vatutin ao chefe da KGB depois de expor os resultados da vigi­lância e busca. ¯ Estou designando mais pessoal para a operação. Também colocamos aparelhos de escuta no apartamento de Filitov...

¯  E esse outro coronel?

¯  Bondarenko? Não conseguimos entrar lá. Sua mulher não tra­balha e fica em casa o dia inteiro. Hoje descobrimos que o coronel corre alguns quilômetros todas as manhãs, e mais alguns homens fo­ram designados para esse caso. A única informação que temos atual­mente é uma ficha limpa, na verdade é exemplar, e uma porção saudável de ambição. Ele agora é representante oficial do projeto Es­trela Brilhante junto ao ministro e, como deve ter notado pelas páginas do diário, um admirador entusiasta do projeto.

¯  Suas impressões sobre o homem? ¯ As perguntas do diretor-geral eram feitas de modo abrupto, mas não ameaçador. Era uma pes­soa ocupada, que valorizava seu tempo.

¯  Até agora, nada que nos levasse a suspeitar de coisa alguma. Foi condecorado por serviços prestados no Afeganistão: liderou um co­mando especial Spetznaz que sofreu uma emboscada e rechaçou um ataque perigoso dos bandidos. Enquanto esteve em Estrela Brilhante, censurou a guarda da KGB por displicência, mas seu relatório formal ao ministro explica os motivos, e é difícil rejeitar suas razões.

¯  Alguma coisa já foi feita a respeito disso? ¯ quis saber Gerasimov.

¯  O oficial enviado para resolver esse assunto morreu num desas­tre aéreo no Afeganistão. Um outro será mandado brevemente, foi o que me informaram.

¯  O atendente dos banhos?

¯  Ainda estão procurando por ele. Sem resultado ainda. Estamos vigiando tudo: aeroportos, estações de trem, tudo enfim. Se surgir al­gum sinal dele, mandarei avisá-lo imediatamente.

¯  Muito bem. Dispensado, coronel. ¯ Gerasimov voltou aos pa­péis em sua mesa.

O diretor-geral da Comissão para a Segurança do Estado permitiu-se um sorriso depois que Vatutin saiu. Ficou espantado ao saber co­mo tudo corria bem. O golpe de mestre era o caso Vaneyeva. Não era comum descobrir uma rede de espiões em Moscou, e, quando aquilo acontecia, as congratulações sempre vinham acompanhadas da per­gunta: Por que demorou tanto? Dessa vez isso não aconteceria. Não, não com o pai de Vaneyeva a ponto de ser indicado para o Politburo. E o secretário Narmonov achava que ele seria leal ao homem que ar­ranjara a promoção. Narmonov, com todos os seus sonhos de reduzir os armamentos, de relaxar o aperto que o Partido mantinha sobre a nação, de "liberalizar" o que fora legado ao Partido... Gerasimov pre­tendia mudar tudo isso.

Não seria fácil, claro. Gerasimov possuía apenas três aliados pode­rosos no Politburo, mas entre eles incluía-se Alexandrov, o idealista a quem o secretário não fora capaz de aposentar depois que ele muda­ra sua fidelidade. E agora tinha um outro, completamente desconhe­cido do camarada secretário-geral. Por outro lado, Narmonov tinha o apoio do Exército.

Esse era um legado de Mathias Rust, o jovem alemão que pousara seu Cessna alugado na Praça Vermelha. Narmonov era um político sagaz. Rust penetrara no espaço aéreo da União Soviética no Dia do Guarda de Fronteira, uma coincidência que ele não soubera explicar ¯ e Narmonov negara à KGB a oportunidade de interrogar adequa­damente o delinqüente! O jovem encenara seu vôo no único dia do ano em que se podia ter certeza de que enorme força de guardas de fronteira da KGB estaria gloriosamente bêbada. Isso permitira que pas­sasse sem ser notado através do golfo da Finlândia. Depois, a Defesa Aérea falhara em detectá-lo, e o rapaz aterrissara bem em frente à Catedral de São Basílio.

O secretário-geral Narmonov agira rapidamente depois disso: exo­nerara o comandante da Defesa Aérea e o ministro da Defesa Sokolov depois de uma agitada reunião do Politburo, onde Gerasimov fora in­capaz de levantar objeções, para não colocar em perigo sua posição. O novo ministro da Defesa, D. T. Yazov, era um homem do secretá­rio, um joão-ninguém em posição inferior na lista de oficiais superio­res; um homem que, tendo falhado em merecer seu posto, dependia do secretário para permanecer nele. Isso havia coberto o flanco mais vulnerável de Narmonov. A complicação adicional que o fato trazia era que Yazov estava ainda aprendendo, e dependia de veteranos como Filitov para ensiná-lo.

E Vatutin pensa que esse é simplesmente um caso de contra-espionagem, resmungou Gerasimov para si mesmo.

Os procedimentos de segurança que envolviam os dados do Cardeal impediam Foley de enviar qualquer informação pelas vias normais. Mesmo códigos de despistamento, teoricamente impenetráveis, pareciam-lhe arriscados. Sendo assim, a folha da capa de seu último relatório alertaria a fraternidade Delta de que as informações despa­chadas não eram exatamente o esperado.

Tal constatação obrigou Bob Ritter a se levantar de sua cadeira. Fez suas fotocópias e destruiu os originais antes de dirigir-se à sala do juiz Moore. Greer e Ryan já estavam lá quando chegou.

¯  Ele ficou sem filme ¯ informou o diretor de Operações, tão lo­go fechou a porta.

¯  O quê? ¯ espantou-se Moore.

¯  Surgiu uma nova informação. Parece que nossos colegas da KGB possuem um agente infiltrado em Tea Clipper que acabou de conse­guir a maior parte do projeto sobre esse novo e miraculoso espelho, e o Cardeal decidiu que esse dado era mais importante. Não tinha fil­me para fotografar tudo, por isso decidiu-se por relatar as intenções da KGB. Temos apenas metade dos planos do laser.

¯  Metade pode ser suficiente ¯ observou Ryan.

Ritter fechou a cara. Não estava nem um pouco satisfeito com o fato de que Ryan agora tivesse acesso a informações Delta.

¯  Ele discute os efeitos da mudança no projeto, mas não há nada sobre a alteração em si.

¯  Podemos identificar a fonte do vazamento de informações em nos­so lado? ¯ indagou o almirante Greer.

¯  Talvez. E alguém que entende muito de espelhos. Parks precisa providenciar isso bem rápido. Ryan, você esteve lá em pessoa. O que acha?

¯  O teste a que assisti validou o desempenho do espelho e do pro­grama de computador que o controla. Se os russos puderem duplicá-lo... Bem, sabemos que eles têm a parte do laser completamente re­solvida, certo? ¯ Ele parou por um momento. ¯ Cavalheiros, isso tudo é assustador. Se os russos chegarem lá primeiro, isso acaba com todos os critérios de controles de armas e nos deixa com uma situação estratégica em deterioração. Quero dizer, levaria vários anos antes que o problema em si aparecesse, mas...

¯  Bem, se nosso homem conseguir outro maldito filme ¯ disse o diretor de Operações ¯, podemos trabalhar nisso nós mesmos. As boas novas são que esse sujeito, Bondarenko, que Misha escolheu pa­ra dirigir o setor de laser no ministério, vai manter nosso homem in­formado sobre o que está acontecendo. As más notícias...

¯  Bem, não precisamos discutir isso agora ¯ disse o juiz Moore. Ryan não precisava saber de nada sobre esse assunto, diziam seus olhos a Ritter, que imediatamente concordou. ¯ Jack, disse que tinha mais alguma coisa?

¯  Vai haver uma nova indicação para o Politburo na segunda-feira: Ilya Arkadyevich Vaneyev. Idade: 63, viúvo. Tem apenas uma filha, Svetlana, que trabalha no Gosplan; ela é divorciada e tem uma filha. Vaneyev é uma pessoa bem direta, honesto pelos padrões deles, não muito metido com a roupa suja que conhecemos. Ele está sendo pro­movido de uma vaga no Comitê Central. Foi ele o cara que assumiu o cargo na Agricultura que Narmonov ocupou com um sucesso razoá­vel. A idéia corrente é que ele seja um homem de Narmonov. Isso daria quatro membros com direito a voto a favor de Narmonov, e...

¯  Ele parou quando viu o olhar doloroso no rosto dos outros três.

¯  Algo errado?

¯  Essa filha dele ¯ observou o juiz Moore. ¯ Ela está na folha de pagamentos de Sir Basil.

¯  Cancelem o contrato ¯ disse Ryan. ¯ Seria ótimo conservar es­se tipo de fonte de informação, mas um escândalo agora poderia amea­çar Narmonov. É melhor aposentá-la. Podem reativá-la dentro de alguns anos, mas no momento desativem-na.

¯  Talvez não seja assim tão fácil ¯ comentou Ritter, deixando o assunto nesse ponto. ¯ Como vai o relatório?

¯  Terminei ontem.

¯  É apenas para o presidente e mais uns poucos. Esse vai ser bas­tante restrito.

¯  É justo. Posso imprimi-lo esta tarde. Se isso é tudo...

Era. Ryan deixou a sala. Moore aguardou a porta se fechar e falou:

¯  Ainda não contei a ninguém, mas o presidente Ernie Allen anda preocupado com a posição política de Narmonov outra vez. Ele teme que a última mudança de posição dos soviéticos indique enfraqueci­mento de apoio interno, e convenceu o patrão de que agora não é um bom momento para impor certos itens. A implicação disto, se trou­xermos agora o Cardeal, bem, talvez provoque um efeito político in­desejável.

¯  Se Misha for apanhado, teremos os mesmos efeitos políticos ¯ ressaltou Ritter. ¯ Sem mencionar o efeito pernicioso que teria sobre nosso homem. Arthur, estão atrás dele. Talvez tenham chegado até a filha de Vaneyev...

¯  Ela está de volta ao trabalho no Gosplan ¯ afirmou o diretor-geral.

¯  Claro, e o homem da lavanderia desaparecido. Eles chegaram até ela e a fizeram falar ¯ insistiu o diretor de Operações. ¯ Precisamos tirá-lo de lá de uma vez por todas. Não podemos deixá-lo exposto à sorte, Arthur. Devemos a esse homem.

¯  Não posso autorizar a remoção dele sem aprovação do presidente. Ritter quase explodiu.

¯  Então arrume! Foda-se a política... nesse caso, foda-se a políti­ca. Existe um lado prático em tudo isso, Arthur. Se deixarmos um homem como ele ser apanhado e não levantarmos um dedo para protegê-lo... Que diabos, os russos vão fazer uma minissérie de televi­são sobre o assunto! Vai nos custar muito a longo prazo do que esse lixo político temporário.

¯  Espere um pouco ¯ pediu Greer. ¯ Se eles fizeram falar a filha do cara do Partido, como é que ela voltou ao trabalho?

¯  Política? ¯ ponderou Moore. ¯ Acha que a KGB é incapaz de magoar a família do sujeito?

¯  Certo! ¯ atalhou o diretor de Operações. ¯ Gerasimov está na facção oposta, e ele deixaria passar uma oportunidade para negar um lugar no Politburo a um homem de Narmonov? Isso me cheira a polí­tica, sim, mas não desse tipo. É mais provável que Alexandrov tenha o rapaz no bolso do colete e Narmonov não saiba de nada sobre isso.

¯  Então acha que ela falou, mas a deixaram ir e a estão usando para fazer pressão contra o pai? ¯ indagou Moore. ¯ Faz sentido. Mas não há provas.

¯  Alexandrov está muito velho para ocupar o cargo ele mesmo, e de qualquer maneira o idealista parece nunca querer atingir o lugar mais alto... é mais divertido brincar de criador de reis. Gerasimov era seu preferido, entretanto, e sabemos que possui ambição suficiente para fazer-se coroar Nicolau III.

¯  Bob, você acaba de dar outra ótima razão para não balançar o barco agora. ¯ Greer saboreou um gole de café por um instante. ¯ Também não gosto da idéia de deixar Filitov onde está. Quais são as chances de que ele possa ficar abaixado? Quero dizer, da maneira que as coisas estão, ele talvez consiga se livrar das acusações que possam levantar contra ele.

¯  Não, James. ¯ Ritter sacudiu enfaticamente a cabeça. ¯ Não podemos deixar que ele "fique abaixado", porque precisamos do res­to desse relatório, certo? Se ele corre o risco de enviar o material ape­sar da atenção que anda despertando, não podemos deixá-lo entregue à própria sorte. Não é justo. Lembre-se do que esse homem fez ao longo dos anos. ¯ Ritter argumentou por vários minutos, demons­trando a feroz lealdade ao seu pessoal que aprendera como jovem agente controlador. Embora os agentes precisassem ser tratados como crian­ças, encorajados, apoiados e disciplinados, eles se tornavam como suas crianças, e qualquer perigo que os ameaçasse precisava ser combatido.

O juiz Moore terminou a discussão.

¯ Seus argumentos estão bem estabelecidos, Bob, mas mesmo as­sim preciso falar com o presidente. Isso não é mais uma operação de campo.

Ritter fez pé firme.

¯  Vamos deixar tudo preparado.

¯  Certo, mas não vai ser colocado em prática até que obtenhamos aprovação.

O tempo em Faslane estava péssimo, mas naquela época do ano ge­ralmente era assim. Um vento de quase 55 quilômetros por hora açoi­tava a costa escocesa com chuva e neve quando o Dallas subiu à superfície. Mancuso ocupou seu posto ao alto da torre e examinou as colinas rochosas no horizonte. Acabara de completar uma travessia em velocidade, cruzando o Atlântico a uma média da trinta e um nós, for­çando as máquinas tanto quanto ousava por um longo período de tem­po, sem mencionar a navegação submersa muito mais perto da costa do que ele teria preferido. Bem, era pago para obedecer às ordens, não para gostar delas.

As vagas eram de cerca de 5 metros e o barco ondulava com elas, balançando em sua rota a doze nós. O mar passava diretamente sobre a proa esférica e subia ao vir de encontro à superfície rombuda da tor­re. Mesmo o traje de tempestade não ajudava muito. Em poucos mi­nutos ele ficou encharcado e tremendo. Um rebocador da Marinha Real britânica aproximou-se e tomou posição a estibordo da proa, con­duzindo o submarino para o lago, enquanto Mancuso lidava com o balanço. Um dos seus mais bem guardados segredos profissionais era um toque ocasional de enjôo. Estar na torre ajudava, mas os tripulan­tes no interior do casco cilíndrico do submarino lamentavam agora o almoço pesado servido algumas horas antes.

Em uma hora estavam em águas abrigadas, fazendo a curva em "S" para o interior da base que abrigava submarinos nucleares ingleses e americanos. Uma vez lá, o vento mudou para melhor, facilitando a entrada da grande massa cinzenta do submarino no ancoradouro. As pessoas que os aguardavam lá permaneciam abrigadas em alguns car­ros, enquanto os cabos eram jogados e amarrados pela tripulação de convés do submarino. Logo que as amarras foram passadas, Mancuso desceu para sua cabine.

Seu primeiro visitante foi um comandante. Esperava um oficial de submarino, mas esse não trazia nenhum tipo de divisas. Aquilo o de­nunciava como alguém da Inteligência.

¯  Como foi a travessia, capitão? ¯ perguntou o homem.

¯  Sossegada. ¯ Vamos logo com isso!

¯  Você zarpa em três horas. Aqui estão suas ordens de missão. Ele entregou um envelope de papel manilha com lacres e uma nota

na frente que instruía Mancuso sobre a hora em que poderia abri-lo. Embora fosse coisa freqüente em filmes, era a primeira vez que isso acontecia a ele como comandante. Geralmente se podiam discutir as missões com as pessoas que as ordenavam. Mas não dessa vez. Man­cuso assinou o recibo pelas ordens, trancou-as no cofre sob o olhar atento do indivíduo e dispensou-o.

¯  Merda! ¯ desabafou o capitão para si mesmo. Agora os convi­dados podiam subir a bordo.

Eles eram dois, ambos em roupas civis. O primeiro desceu pela escotilha de carregamento de torpedos com a agilidade de marinheiro profissional. Mancuso logo viu por quê.

¯  Oi, capitão!

¯  Jones, que demônios está fazendo aqui?

¯  O almirante Williamson me deu uma escolha: ou ser chamado novamente para um serviço ativo temporário, ou vir a bordo como "técnico civil". Paga melhor. ¯ Jones abaixou a voz. ¯ Este aqui é o senhor Clark. Ele não fala muito.

E não falou. Mancuso designou-lhe o beliche de reserva no camaro­te do engenheiro. Depois que seu equipamento desceu pela escotilha, o sr. Clark entrou no quarto, fechou a porta atrás de si e foi tudo.

¯  Onde quer que eu coloque minhas coisas? ¯ perguntou Jones.

¯  Há um beliche sobressalente na despensa, mas ela fede ¯ res­pondeu Mancuso.

¯  Ótimo. Sempre se pode comer melhor, de qualquer jeito.

¯  Como vai a escola?

¯  Mais um semestre até o meu mestrado. Já estou recebendo pro­posta de alguns fornecedores. E fiquei noivo. ¯ Jones puxou a cartei­ra e mostrou uma fotografia ao capitão. ¯ O nome dela é Kim, e trabalha numa biblioteca.

¯  Parabéns, senhor Jones.

¯  Obrigado, capitão. O almirante me disse que o senhor precisava mesmo de mim. Kim compreende. O pai dela é do Exército. Então, o que aconteceu? Aparece algum tipo de operação especial e você não conseguiu ficar sem mim, certo? ¯ "Operações especiais" era um eu­femismo que cobria todo tipo de atividade, a maior parte delas perigosa.

¯  Não sei. Ainda não me disseram.

¯  Bem, mais uma viagem "para o norte", até que não seria ruim ¯ observou Jones. ¯ Para ser honesto, até que eu senti falta disso.

Mancuso não acreditava que fossem para lá, mas refreou seu impul­so de dizê-lo em voz alta. Jones foi a vante para arrumar suas coisas. Mancuso foi até o camarote do engenheiro.

¯   Senhor Clark?

¯  Sim, senhor. ¯ Ele pendurou a jaqueta, revelando que usava uma camiseta de manga curta. O homem tinha pouco mais de 40, avaliou Mancuso.

A primeira vista, ele não parecia assim tão especial, pouco mais de 1, 80 metro, de compleição magra, porém Mancuso reparou que ele não tinha as gorduras da meia-idade ao redor da cintura e os ombros eram mais largos do que pareciam com o paletó. Foi a segunda olhada para o braço que juntou mais uma peça ao quebra-cabeça. Meio es­condida sob os pêlos do antebraço, estava uma tatuagem, que parecia uma foca vermelha com um sorriso largo e impudente.

¯  Conheci um cara com uma tatuagem como essa. Um agente. Es­tá com o Grupo-Seis agora.

¯  São histórias, capitão. Não tenho permissão para falar sobre is­so, senhor.

¯  Do que se trata, afinal?

¯  Senhor, suas ordens vão...

¯  Sem essa. ¯ Mancuso sorriu. ¯ Eles levam tudo ao pé da letra.

¯  Envolve fazer um pick-up.

Meu Deus! Mancuso acenou, impassível.

¯  Vai precisar de mais algum apoio?

¯  Não, senhor. Tiro solitário. Só eu e meu equipamento.

¯  Certo. Podemos estudar os detalhes depois de zarparmos. Você vai comer na copa. Descendo a escada aí do lado de fora, depois uns metros a ré, a estibordo. Mais uma coisa: o tempo é problema?

¯  Não, a menos que se importe de esperar. Parte desse assunto ainda está no ar... e é só isso que posso dizer agora, capitão. Desculpe, mas também tenho minhas ordens.

¯  É justo. Você fica na cama de cima. Durma um pouco se precisar.

¯  Obrigado, senhor. ¯ Clark observou o capitão saindo, mas não sorriu até a porta se fechar.

Ele nunca subira a bordo de um submarino classe Los Angeles. A maior parte das missões eram realizadas pelos menores e mais ágeis Sturgeon. Ele sempre dormia no mesmo lugar, sempre no beliche su­perior do camarote do engenheiro, a única cama sobressalente na em­barcação. Teve o problema de sempre ao acondicionar seu equipamento, mas "Clark" já fizera aquilo muitas vezes e conhecia todos os tru­ques. Estava cansado do vôo e precisava descansar algumas horas. A cama era sempre a mesma, presa ao casco do submarino. Era como dormir num caixão com a tampa meio aberta.

¯  A gente precisa admirar os americanos pela sua esperteza ¯ dis­se Morozov.

Tinham sido algumas semanas bem ocupadas em Dushanbe. Ime­diatamente após o teste ¯ mais precisamente, logo após a partida do representante de Moscou ¯, dois dos seis geradores de laser foram de­sativados e desmontados para reparos, e descobriu-se que as partes ópticas estavam bastante chamuscadas. Então ainda havia um proble­ma com a camada óptica, afinal de contas. Provavelmente controle de qualidade, observara o chefe de sua seção, despachando o problema para outro grupo de engenheiros. O que tinham agora era muito mais excitante. Ali estava o projeto do espelho americano do qual tinham ouvido falar durante anos.

¯  A idéia veio de um astrônomo. Ele queria uma forma de obter fotografias estelares que não sofressem "cintilações". Ninguém se in­comodou em dizer-lhe que isso era impossível, portanto ele foi em frente e conseguiu. Eu conhecia a idéia básica, mas não os detalhes. Você tem razão, meu jovem. Isso é muito engenhoso. Engenhoso demais para nós. ¯ O homem resmungou enquanto folheava as páginas que continham a especificação dos computadores. ¯ Não temos nada que possa obter esse desempenho. Só para construir esses atuadores... Nem sei se conseguimos fazer isso.

¯   Os americanos esta construindo o telescópio...

¯  Eu sei, no Havaí. Mas esse do Havaí fica muito aquém deste, tecnicamente falando. Os americanos fizeram um avanço que ainda não penetrou na comunidade científica em geral. Observe a data no diagrama. Eles podem estar operando com esse agora mesmo. ¯ Ele balançou a cabeça. ¯ Estão à nossa frente.

¯  Você precisa partir.

¯  Certo. Obrigado por me proteger por tanto tempo. ¯ A gratidão de Eduard Vassilyevich Altunin era sincera. Ele tivera um canto onde dormir e várias refeições quentes que o sustentaram enquanto fazia seus planos.

Ou tentou. Não tentou nem mesmo apreciar as condições desvantajosas sob as quais trabalhava. No Ocidente ele poderia ter arranjado facilmente novas roupas, uma peruca para disfarçar o cabelo, e até mes­mo um conjunto de maquilagem teatral que vinha com instruções so­bre como alterar a aparência. No Ocidente ele poderia ter-se escondido no banco traseiro de um carro e ser transportado 300 quilômetros em menos de quatro horas. Em Moscou não tinha nenhuma dessas op­ções. A KGB já teria revistado seu apartamento àquela hora, e deter­minado que roupa usava. Eles sabiam como era seu rosto e a cor de seu cabelo. A única coisa que evidentemente não conheciam era seu pequeno círculo de amizades do serviço militar no Afeganistão. Nun­ca falara com ninguém sobre eles.

Ofereceram a ele um tipo de casaco diferente, mas não serviu, e ele não desejava comprometer aquela gente mais do que já estavam. Ti­nha sua história pronta: escondera-se com um grupo de criminosos a algumas quadras de distância. Um fato pouco conhecido a respeito de Moscou no Ocidente era a situação do crime, que era ruim, e pio­rava cada vez mais. Embora Moscou ainda não se equiparasse às cida­des americanas do mesmo tamanho^ havia regiões onde não era muito prudente andar sozinho à noite. Mas, uma vez que os estrangeiros não as visitavam freqüentemente, e já que os criminosos de rua raramente importunavam estrangeiros ¯ fazê-lo provocaria uma resposta rosa e imediata da Milícia de Moscou ¯, o conhecimento da situação se espalhava devagar.

Ele saiu de Trofimovo, uma via pública encardida perto do rio. Altunin maravilhou-se com o tamanho de sua estupidez. Sempre disse­ra a si mesmo que, se precisasse escapar da cidade, ele o faria numa barcaça de carga. Seu pai trabalhara numa delas a vida inteira, e Eduard sabia de esconderijos que ninguém encontraria ¯ mas o rio congelara-se, o tráfego das barcaças estava paralisado e ele não havia pensado nisso! Altunin enraivecia-se consigo mesmo.

Não faz muito sentido preocupar-me com isso no momento, disse a si mesmo. Tem de haver outra maneira. Ele sabia que a fábrica de auto­móveis Moskvich, por onde os trens passavam o ano todo, ficava a apenas 1 quilômetro dali. Tentaria apanhar um que fosse para o sul, talvez num vagão de carga carregado de autopeças. Com sorte chega­ria à Geórgia soviética, onde ninguém faria questão de inspecionar seus documentos com muita meticulosidade. As pessoas podiam de­saparecer na União Soviética. Afinal de contas, é um país com 280 mi­lhões de habitantes, ele disse a si mesmo. As pessoas sempre perdem ou danificam seus documentos. Perguntou-se quantos desses pensa­mentos eram realistas e quantos eram apenas uma tentativa de animar a si mesmo.

Mas não podia parar agora. Havia começado no Afeganistão e ima­ginou se iria parar algum dia.

No começo conseguira controlar-se. Como cabo numa companhia de artefatos militares, trabalhava com o que os soviéticos chamavam eufemisticamente de "dispositivos antiterroristas". Eram distribuídos pelo ar ou com mais freqüência pelos soldados soviéticos completan­do uma "varredura" numa vila. Alguns eram bonecas típicas russas, as matryoshka, uma figura de traseiro volumoso enrolada em lenços coloridos; um caminhãozinho; ou uma caneta-tinteiro. Os adultos aprendiam rápido, mas as crianças eram tão amaldiçoadas com a curiosidade quanto com a incapacidade de aprender com o erro dos outros. Logo se verificou que as crianças apanhavam qualquer coisa, e o número de bonecas-bombas distribuído diminuiu. Uma coisa, porém, permaneceu constante: quando apanhados os objetos, 100 gramas de explosivos detonavam. Seu trabalho consistia em montar as bombas e ensinar aos soldados como usá-las de modo adequado.

Altunin não pensara muito nisso, a princípio. Era seu trabalho, e as ordens para fazê-lo vinham lá do alto; os russos não são, por tem­peramento ou por condicionamento na educação, inclinados a ques­tionar ordens superiores. Além do mais, tratava-se de um trabalho seguro e fácil. Ele não precisava andar carregando um rifle naquele país de bandidos. Os únicos momentos de perigo para ele foram nos bazares de Kabul, e ele sempre fora cuidadoso para andar em grupos de cinco ou mais. Mas numa daquelas excursões ele vira uma criança ¯ menino ou menina, ele não sabia ¯ cuja mão direita era agora um coto, e cuja mãe olhara para ele e seus companheiros de uma forma que jamais conseguiria esquecer. Ele ouvira histórias sobre como os bandidos afegães tinham um prazer especial em esfolar vivos os pilo­tos soviéticos capturados, e de como as mulheres costumavam cuidar completamente do assunto. Ele achava que essa era uma clara evidên­cia do barbarismo desses povos primitivos ¯ mas uma criança não era primitiva. O marxismo afirmava isso. Tome qualquer criança, for­neça escola e liderança adequadas, e terá um comunista por toda a vida. Mas não aquela criança. Ele lembrava tudo sobre aquele dia quen­te de novembro, dois anos atrás. A ferida estava completamente cura­da, e a criança na verdade sorria, muito jovem para entender que seu defeito duraria a vida inteira. Mas a mãe sabia, e sabia como e por que sua criança seria punida por ter... nascido. E depois disso o tra­balho seguro e fácil não fora mais o mesmo. Cada vez que parafusava a parte dos explosivos, via uma pequena e rechonchuda mão infantil. Começou a vê-las em seus sonhos. A bebida e até uma experiência com haxixe não conseguiram fazer com que as imagens desapareces­sem. Conversar com seus amigos técnicos também não ajudara ¯ em­bora tivesse atraído a ira do zampolit, o supervisor político de sua companhia. Era uma coisa difícil de fazer, o supervisor explicara, mas necessária para evitar uma perda maior de vidas, compreende? Recla­mar sobre isso não iria mudar nada, a menos que o cabo Altunin qui­sesse transferência para uma companhia de combate, a fim de verificar por si mesmo por que tais medidas eram necessárias.

Ele sabia agora que deveria ter aceitado aquela oferta e odiou-se pe­la covardia que o impedira. Serviço numa companhia na linha de frente poderia ter ajudado a restaurar sua auto-imagem, poderia ¯ poderia ter feito muitas coisas, disse Altunin a si mesmo, só que não fizera a escolha, e não fizera diferença nenhuma. No final, tudo o que conse­guira para si fora uma carta do zampolit, que viajaria com ele o resto de sua vida.

Agora tentava expiar o mal que fizera. Disse a si mesmo que talvez já o tivesse expiado ¯ e agora, com muita sorte, poderia desaparecer, e talvez pudesse esquecer os brinquedos que preparara para sua mis­são maldosa. Esse era o único pensamento positivo para o qual havia espaço em sua mente, nessa noite fria e encoberta.

 Andou em direção ao norte, mantendo-se afastado das calçadas sujas, permanecendo nas sombras, longe da luz da rua. Trabalhadores de um dos turnos, voltando para casa vindo da fábrica Moskvich, tornavam as ruas agradavelmente apinhadas, mas quando chegou ao pátio de mano­bras ao lado de fora da fábrica o movimento cessara. Começou a nevar fortemente, reduzindo a visibilidade para 100 metros mais ou menos, com pequenos globos de flocos em volta de cada uma das luzes sobre os vagões de carga estacionados. Um trem parecia estar se formando mais acima, provavelmente em direção sul, disse a si mesmo. Locomotivas de manobras empurravam vagões fechados de um lado para outro. Ele fi­cou alguns minutos escondido por um vagão, certificando-se de que sa­bia o que estava acontecendo. O vento amainou enquanto ele observava, e Altunin procurou um melhor ponto de observação. Havia um grupo de vagões fechados a uns 50 metros de distância, de onde poderia enxer­gar melhor. Um dos vagões tinha a porta aberta, e ele precisava inspe­cionar o mecanismo da fechadura, se pretendia entrar no interior de um deles. Andou até lá com a cabeça abaixada para proteger o rosto do ven­to. A única coisa que ouvia, além do ranger da neve esmagada por suas botas, eram os silvos de sinalização das locomotivas de manobras. Era um ruído amigável, disse a si mesmo, o som que iria mudar sua vida, talvez mostrando o caminho que o levaria a algo parecido com liberdade.

Ficou surpreso ao verificar que havia pessoas no interior do vagão. Três indivíduos. Dois seguravam caixas dp autopeças As mãos do terceiro estavam vazias, até que enfiou uma delas no bolso e voltou empunhando uma faca.

Altunin começou a dizer alguma coisa. Não se importava se eles esta­vam ou não roubando peças para vender no mercado negro. Não estava nem um pouco preocupado, mas, antes que pudesse falar, o terceiro ho­mem pulou sobre ele. Altunin ficou tonto quando sua cabeça bateu num trilho de aço. Estava consciente, porém não conseguiu mover-se por um segundo, surpreso demais para estar com medo. O homem voltou-se e disse alguma coisa. Altunin não conseguiu entender, mas o tom era agu­do e urgente. Ainda tentava entender o que estava acontecendo quando seu atacante voltou-se e cortou sua garganta. Não chegou nem mesmo a sentir dor. Quis explicar que não estava... interessado... não se impor­tava... só queria... Um deles ficou sobre ele, com duas caixas nos bra­ços, claramente amedrontado. Altunin achou isso muito estranho, desde que era ele quem estava morrendo...

Duas horas depois, uma locomotiva de manobras não pôde parar a tempo quando seu maquinista notou uma forma estranha nos trilhos, coberta de neve. Ao ver o que havia passado, chamou o manobrista.

 

Conferências

¯ Belo trabalho ¯ comentou Vatutin. ¯ Os filhos da puta. ¯ Que­braram as regras, disse para si mesmo. As regras não estavam escritas, mas eram bem reais: a CIA não mata soviéticos na União Soviética; a KGB não mata americanos, ou mesmo fugitivos soviéticos nos Esta­dos Unidos. Tanto quanto Vatutin sabia, a regra nunca fora quebrada por nenhum dos dois lados ¯ pelo menos não tão obviamente. A re­gra fazia sentido: o trabalho das agências de Inteligência era reunir informações; se os agentes da CIA e da KGB gastassem o tempo ma­tando pessoas ¯ com a inevitável retaliação e contra-retaliação ¯, o trabalho principal não seria feito. Portanto, o negócio de Inteligência era civilizado e previsível. Nos países do Terceiro Mundo aplicavam-se regras diferentes, claro, mas nos Estados Unidos e na União Sovié­tica as regras eram seguidas ao pé da letra.

Quer dizer, até agora ¯ a menos que eu esteja disposto a acreditar que esse pobre coitado tenha sido assassinado por ladrões de peças! Vatutin imaginou se a CIA havia contratado os serviços de um bando de cri­minosos ¯ ele suspeitava 4e que os americanos usavam criminosos soviéticos para assuntos sensíveis demais para as próprias mãos ima­culadas. Isso não seria uma violação técnica das regras, seria? Perguntou-se se os homens do Primeiro Diretório nunca se utilizaram de uma manobra similar...

Tudo o que sabia no momento era que o próximo passo na cadeia de "elos" da corrente de mensageiros estava morto a seus pés, e com ele a única esperança de fazer a ligação entre o microfilme e o espião americano no Ministério da Defesa. Vatutin corrigiu-se: também sa­bia que precisava informar o diretor-geral dentro de aproximadamen­te seis horas. Precisava de uma bebida. Vatutin sacudiu a cabeça e olhou para baixo, na direção do que restava de seu suspeito. A neve caía tão rapidamente que não se podia mais ver o sangue.

¯  . Sabe, se eles tivessem sido um pouquinho mais espertos quando colocaram o corpo nos trilhos, talvez tivéssemos catalogado como aci­dente ¯ observou outro agente da KGB. Apesar do horrendo traba­lho executado no corpo pelas rodas da locomotiva, ficava patente que a garganta fora habilmente cortada com uma faca de lâmina estreita. A morte, segundo o relatório do médico designado, não demorara mais do que um minuto. Não havia sinal de luta. As mãos da vítima ¯ do traidor! ¯ não estavam cortadas ou machucadas. Ele não reagira contra quem quer que o tivesse matado. Conclusão: o assassino era provavelmente conhecido da vítima. Poderia ter sido um americano?

¯  Primeira coisa ¯ disse Vatutin. ¯ Quero saber se algum ameri­cano estava ausente da residência entre 18 e 23 horas. ¯ Ele se vol­tou. ¯ Doutor!

¯  Sim, coronel?

¯  Qual foi mesmo a hora da morte?

¯  A julgar pela temperatura dos pedaços maiores, entre 9 horas da noite e meia-noite. Mais perto das 9, eu acho, mas o frio e a neve dificultam muito. ¯ Sem mencionar o estado dos restos, pensou ele.

Vatutin voltou-se para seu assistente principal.

¯  Qualquer um que não estivesse em casa nesse horário, quero sa­ber quem, onde, quando e por quê.

¯  Aumentamos a vigilância sobre todos os estrangeiros? ¯ pensou em voz alta o homem.

¯  Precisarei ir ao diretor-geral para isso, mas estou pensando em fazê-lo. Quero que você fale com o chefe dos investigadores da Milí­cia. Isso deve ser classificado como ultra-secreto. Não precisamos de uma multidão de policiais desajeitados atrapalhando esse assunto.

¯  Entendido, camarada coronel. Eles só estão interessados em re­cuperar as peças roubadas, de qualquer jeito ¯ observou acidamente o homem. Esse negócio de perestroika está transformando todo mundo em capitalista!

Vatutin foi até o maquinista.

¯  Está frio, não?

A mensagem foi recebida.

¯  Sim, camarada. Talvez gostasse de alguma coisa para espantar o frio?

¯  Seria muita bondade sua, camarada engenheiro.

¯  O prazer é todo meu, camarada coronel. ¯ O maquinista exibiu imediatamente uma pequena garrafa. Logo percebeu que o homem era um coronel da KGB e pensou que estivesse perdido. Mas o ho­mem parecia bastante decente. Seus colegas tinham a aparência de ne­gociantes, as perguntas que faziam pareciam razoáveis e o homem parecia quase à vontade, até que percebeu que poderia ser punido por manter uma garrafa no trabalho. Observou o homem dar um longo gole, depois devolver a garrafa.

¯  Spasibo ¯ agradeceu o homem da KGB e afastou-se na neve.

Vatutin estava aguardando na antecâmara da sala do diretor-geral quando ele chegou. Ouvira que Gerasimov era um trabalhador dedi­cado, sempre à sua mesa às 7h30. As histórias se confirmaram. Ele passou pela porta às 7h25 e acenou para que o homem do "Dois" o seguisse para o interior do escritório.

¯  Bem?

¯  Altunin foi assassinado na noite passada, no pátio de manobras exterior da fábrica de automóveis Moskvich. A garganta foi cortada e o corpo foi colocado nos trilhos, onde foi atropelado por uma loco­motiva de manobras.

¯  Tem certeza de que era ele? ¯ perguntou Gerasimov com um franzir de sobrancelhas.

¯  Sim, ele foi identificado positivamente. Eu mesmo reconheci seu rosto. Ele foi encontrado próximo a um vagão ostensivamente arrom­bado, em que algumas peças estavam faltando.

¯  Oh, quer dizer que ele tropeçou numa súcia de bandidos do mer­cado negro, e eles convenientemente o mataram?

¯  E o que está parecendo, camarada diretor-geral ¯ concordou Va­tutin. ¯ Achei a coincidência inconsistente, mas não há nenhuma prova física para contradizê-la. Nossas investigações continuam. Agora es­tamos verificando o endereço dos companheiros do serviço militar de Altunin, para saber se algum mora na área, mas não tenho muita es­perança de conseguir alguma coisa por esse lado.

Gerasimov apertou o botão para mandar vir o chá. O secretário apa­receu num instante, e Vatutin compreendeu que aquilo deveria fazer parte de uma rotina matinal estabelecida. O diretor-geral aceitava as coisas mais facilmente do que o coronel pensara. Homem do Partido ou não, ele agia como um profissional.

¯  Portanto, até agora temos três mensageiros de documentos se­cretos que confessaram e mais um identificado positivamente, só que infelizmente assassinado. O que morreu foi visto nas proximidades do ajudante de confiança do ministro da Defesa, e um dos vivos identifi­cou seu contato como sendo estrangeiro, mas não pôde identificar po­sitivamente o rosto. Em pouco tempo teremos o meio dessa corrente, mas nenhuma das pontas.

¯  Exatamente, camarada diretor-geral. A vigilância sobre os dois coronéis do ministério continua. Proponho que intensifiquemos a vi­gilância sobre a comunidade da embaixada americana.

Gerasimov acenou positivamente.

¯  Aprovado. Está na hora da minha reunião matinal. Continue pres­sionando para encontrar uma brecha no caso. Está com aparência me­lhor agora que parou de beber, Vatutin.

¯  Sinto-me melhor, camarada diretor-geral ¯ admitiu ele.

¯  Ótimo. ¯ Gerasimov levantou-se, e seu visitante fez o mesmo. ¯ Acha mesmo que nossos colegas da CIA mataram o próprio agente?

¯  A morte de Altunin foi conveniente demais para eles. Compreen­do que isto seria uma violação do nosso... nosso acordo nesse campo, mas...

¯  Mas estamos lidando com um espião altamente colocado, e sem dúvida eles têm o maior interesse em protegê-lo. Sim, eu entendo is­so. Continue pressionando, Vatutin ¯ repetiu Gerasimov.

Foley também já se encontrava no escritório. Sobre sua mesa esta­vam três magazines de filmes para o Cardeal. O próximo problema era entregar as malditas coisas. O negócio da espionagem era uma mas­sa interligada de contradições. Algumas partes eram diabolicamente difíceis. Algumas situações carregavam o tipo de perigo que o fazia desejar não ter saído do New York Times. Outras, porém, eram tão simples que poderia confiá-las a um de seus filhos. Isso lhe ocorrera várias vezes ¯ não que tivesse levado a sério a possibilidade, mas, nos momentos em que sua mente estava afetada por alguns copos a mais, imaginava que Eddie poderia apanhar um pedaço de giz e fazer uma certa marca num certo lugar. De tempos em tempos, o pessoal da em­baixada andava por Moscou fazendo coisas levemente fora do normal. Durante o verão usavam flores nas lapelas e as removiam sem nenhum motivo aparente ¯ os agentes da KGB que os observavam procura­vam ansiosamente pelas calçadas pela pessoa a quem o "sinal" era dirigido. Por todo o ano alguns vagavam, tirando fotografias de cenas comuns nas ruas. Na verdade, nem lhes era preciso pedir. Alguns dos membros da embaixada só precisavam liberar o lado excêntrico de sua personalidade americana para deixar os russos loucos da vida. Para um agente de contra-espionagem, qualquer coisa poderia ser um sinal secreto: um protetor solar abaixado num carro estacionado, um paco­te deixado no banco da frente, a direção em que as rodas ficavam. O efeito de rede de todas essas medidas, algumas deliberadas, outras me­ramente ao acaso, mantinha os homens do "Dois" vasculhando a ci­dade à procura de coisas que simplesmente não existiam. Era uma missão que os americanos desempenhavam melhor do que os russos, que eram muito organizados para agir verdadeiramente ao acaso, e que tornava a vida miserável para os homens do Segundo Diretório.

Mas havia milhares deles, e apenas setecentos americanos ¯ con­tando os dependentes ¯ designados para a embaixada.

E Foley ainda tinha o filme a entregar. Perguntou-se por que o Car­deal sempre se recusara a usar os dead-drops. Seria o expediente per­feito no caso. O dead-drop era tipicamente um objeto que poderia parecer uma pedra comum, ou qualquer outra coisa corriqueira e ino­cente, tornada oca para conter o objeto que se queria transferir. Tijo­los eram preferidos em Moscou, pois a cidade possuía essencialmente casas de tijolos, e muitos deles estavam soltos, devido à má qualidade da mão-de-obra local, porém a variedade de tais dispositivos era in­findável.

Por outro lado, a variedade de maneiras para fazer uma entrega sub-reptícia era limitada e dependia do tipo de sorte envolvido num jogo de cara-ou-coroa. Bem, a Agência não lhe dera aquele emprego por ser fácil. Não podia arriscar-se novamente. Talvez sua mulher pudes­se fazer a transferência...

¯  Então, onde é o vazamento? ¯ perguntou Parks a seu chefe de segurança.

¯  Poderia ser qualquer um dentre cem pessoas, mais ou menos ¯ respondeu o homem.

¯  Boas notícias ¯ comentou secamente Pete Wexton. Ele era ins­petor no departamento de contra-espionagem do FBI. ¯ Só uma centena.

¯  Pode ser alguém do nosso pessoal científico, ou a secretária de um deles, ou alguém no setor de orçamento... isso só no interior do programa. Existem outras vinte e poucas pessoas que sabem o sufi­ciente sobre Tea Clipper para ter visto esse material, mas são todos ve­teranos. ¯ O chefe.de segurança da Organização da Iniciativa de Defesa Estratégica era um capitão da Marinha que geralmente usava trajes civis. ¯ Mais provavelmente, a pessoa que procuramos está no Oci­dente mesmo.

¯   E são quase todos do tipo erudito, com menos de 40 anos. ¯ Wexton fechou os olhos. Que vivem no meio de computadores e pensam que o mundo não passa de um grande videogame. O problema com os cientistas, principalmente com os mais jovens, era simplesmente que eles viviam num mundo diferente do que aquele entendido e aprecia­do pela comunidade de segurança. Para eles, o progresso dependia da transferência livre de informações e idéias. Eram as pessoas que ficavam excitadas com as coisas novas, e falavam entre si sobre elas, inconscientemente buscando o sinergismo que espalhava as idéias co­mo sementes no jardim desordenado do laboratório. Para um agente de segurança, o mundo ideal seria aquele em que ninguém falasse com ninguém. O problema com isso, claro, é que tal mundo nunca produ­ziria nada que valesse a pena proteger em primeiro lugar. O equilíbrio seria praticamente impossível de atingir, e o pessoal da segurança sem­pre seria apanhado exatamente no meio, odiado por todos.

¯  E quanto ã segurança interna dos documentos do projeto? ¯ in­dagou Wexton.

¯  Está se referindo a "arapucas de canário"?

¯  Que diabos é isso? ¯ perguntou Parks.

¯  Todos esses papéis são processados em editores de texto. Usa-se a máquina para fazer sutis alterações em cada cópia dos papéis impor­tantes. Dessa forma, pode-se seguir cada um e identificar precisamente qual foi passada para o outro lado ¯ explicou o capitão. ¯ Não temos feito muito disso, ultimamente. Consome muito tempo.

¯  A CIA tem uma sub-rotina no computador que faz isso automa­ticamente. Eles a chamam de Spookscribe, ou algo parecido. É um se­gredo muito bem guardado, mas se você perguntar pode chegar a operá-la.

¯  Como são bonzinhos em nos contar ¯ resmungou Parks. ¯ Fa­ria alguma diferença neste caso?

¯  No momento, não, mas é preciso jogar todas as cartas ¯ obser­vou o capitão ao seu superior. ¯ Já ouvi falar sobre o programa. Não pode ser usado em documentos científicos. A maneira como usam a linguagem é muito precisa. Qualquer coisa a mais do que uma vírgu­la... bem, pode mudar completamente a porra do significado.

¯  Presumindo, em primeiro lugar, que alguém possa entendê-lo ¯ disse Wexton, balançando a cabeça pesarosamente. ¯ Bem, com certeza os russos podem. ¯ Ele já estava pensando sobre os recursos que aquele caso exigiria... possivelmente centenas de agentes. Seriam muito evidentes. A comunidade em questão era muito pequena para absorver um influxo tão grande de pessoas sem que alguém reparasse.

A outra coisa óbvia a fazer seria restringir o acesso às informações nas experiências com os espelhos, mas tal atitude traria o risco de alertar o espião. Wexton perguntou-se por que não tinha ficado com missões simples como seqüestras e combate à Máfia. Porém recebera as pri­meiras informações sobre Tea Clipper do próprio Parks. Era um tra­balho importante, e ele era o melhor homem para fazê-lo. Weston tinha certeza: o diretor Jacobs em pessoa o dissera.

Bondarenko reparou primeiro. Experimentara um sentimento estra­nho alguns dias antes, enquanto fazia o exercício matinal. Era um sen­timento que sempre o habitara, mas aqueles três meses no Afeganistão haviam transformado um sexto sentido latente num outro, completa­mente desenvolvido. Havia olhos voltados para ele. De quem?, perguntou-se.

Eles eram bons. Disso ele tinha certeza. Também suspeitava de que havia cinco ou mais homens. Isso os tornava russos... provavelmente. Não com certeza. O cel. Bondarenko já correra 1 quilômetro e deci­diu realizar uma pequena experiência. Mudou de caminho, virando à direita onde normalmente virava à esquerda. Isso o levaria a passar em frente a um novo prédio de apartamentos, cujas janelas do primei­ro andar ainda permaneciam polidas. Sorriu para si mesmo, mas sua mão desceu inconscientemente para o quadril, procurando pela pisto­la automática de serviço. O sorriso morreu quando compreendeu o que sua mão havia realizado, e sentiu o desapontamento amargo de não ter nada com o que defender-se além das próprias mãos. Bonda­renko sabia se virar bem com elas, mas o alcance de uma pistola am­pliava grandemente o raio de ação. Não era medo, nem mesmo perto disso, mas Bondarenko era um soldado, acostumado a saber os limi­tes e regras de seu próprio mundo.

Girou a cabeça, olhando para os reflexos nas janelas. Um homem estava a 100 metros atrás dele, com uma das mãos próxima ao rosto, como se estivesse falando num pequeno radiotransmissor. Interessan­te. Bondarenko voltou-se e correu de costas por alguns metros, mas, no momento em que a cabeça se voltou, a mão estava ao lado do ho­mem, que andava normalmente, parecendo desinteressado do oficial que se exercitava. O coronel Bondarenko voltou-se e retomou o passo normal. Seu sorriso agora era fino e apertado. Ele confirmara. Mas confirmara o quê? Bondarenko prometeu a si mesmo que saberia isso uma hora depois de chegar ao escritório.

Trinta minutos mais tarde, em casa, depois de banhado e vestido, ele lia seu jornal matinal ¯ para ele era o Krasnaya Zvesda (Estrela Vermelha), o diário militar soviético ¯, enquanto saboreava uma xíca­ra de chá. O rádio tocava, enquanto sua mulher preparava as crianças para a escola. Bondarenko não prestava atenção, e seus olhos mera­mente passeavam pelo jornal com a mente agitada. Quem são eles? Por que estão me observando? Estou sob suspeita? Se for assim, suspeita de quê?

¯  Bom dia, Gennady Iosifovich ¯ cumprimentou Misha entrando em seu escritório.

¯  Bom dia, camarada coronel ¯ respondeu Bondarenko. Filitov sorriu.

¯  Me chame de Misha. Da maneira que as coisas vão, logo vai ul­trapassar o posto dessa velha carcaça. O que foi?

¯  Estou sendo vigiado. Algumas pessoas me seguiram esta manhã quando fiz minha corrida.

¯  Ah, é? ¯ Misha voltou-se. ¯ Tem certeza?

¯  Você sabe como é quando nós estamos sendo vigiados... ¯ ob­servou o jovem coronel. ¯ Tenho certeza de que você sabe, Misha!

Mas ele estava errado. Filitov não tinha notado nada de anormal, nada que despertasse seus instintos até aquele momento. Então lembrou-se do fato de que o atendente dos banhos ainda não retorna­ra. E se o sinal significasse alguma coisa a mais do que uma simples verificação de rotina? O rosto de Filitov mudou por um instante antes que ele conseguisse recuperar o controle.

¯  Você notou alguma coisa também, então? ¯ perguntou Bon­darenko.

¯  Ah! ¯ Um aceno da mão e um olhar irônico. ¯ Deixe que eles olhem à vontade; vão achar esse velho mais maçante do que a vida sexual de Alexandrov. ¯ A referência ao chefe idealista do Politburo estava ficando popular no Ministério da Defesa. Um sinal, perguntou-se Misha, de que o secretário-geral Narmonov planejava dar-lhe trégua?

Eles comiam à maneira afegã, todos servindo-se com as mãos de um prato em comum. Ortiz servira um verdadeiro banquete como almo­ço. O Arqueiro ocupava o lugar de honra, com Ortiz à sua direita pa­ra fazer o papel de tradutor. Quatro homens altamente graduados da CIA estavam presentes também. Ele pensou que estavam exagerando, mas, por outro lado, o lugar que lançara a luz para o céu devia ser muito importante. Ortiz iniciou a conversa com as frases cerimoniais costumeiras.

¯  Vocês me honram em demasia ¯ respondeu o Arqueiro.

¯  Nem tanto ¯ disse o visitante mais graduado por intermédio de Ortiz. ¯ Sua habilidade e sua coragem nos são bem conhecidas, mes­mo entre nossos soldados. Estamos envergonhados por só poder con­ceder a pobre ajuda que nosso governo nos permite.

¯  É a nossa terra que lutamos para recuperar ¯ afirmou o Arquei­ro com dignidade. ¯ Com a ajuda de Alá, ela será nossa outra vez. É bom que os crentes se unam contra os sem-Deus, mas essa tarefa é do meu povo, não do seu.

Ele não sabe, pensou Ortiz. Ele não sabe que está sendo usado.

¯  Então? ¯ prosseguiu o Arqueiro. ¯ Por que viajaram até o ou­tro lado do mundo para falar com esse humilde guerreiro?

¯  Queremos falar com você a respeito da luz que viu no céu. O rosto do Arqueiro mudou. Ele ficou surpreso com isso. Esperava

que lhe perguntassem sobre o desempenho dos mísseis.

¯  Foi uma luz... sim, uma estranha luz. Como um meteoro, só que parecia subir em vez de descer. ¯ Ele descreveu com detalhes o que vira, dando o tempo, o local, a direção da luz e a maneira como ela cortara o céu.

¯  Você viu o que ela atingiu? Viu mais alguma coisa no céu?

¯  Atingiu? Não estou entendendo. Era apenas uma luz. Outro dos visitantes falou.

¯  Me disseram que já foi professor de matemática. Sabe o que é um laser?

O rosto dele mudou com o novo pensamento.

¯  Sim, li sobre eles quando estava na universidade. Eu... ¯ O Ar­queiro deu um gole em seu copo de suco. ¯ Eu sei pouco sobre laser. Projetam um feixe de luz e são usados para medições e vigilância. Nun­ca vi um, só li sobre eles.

¯  O que você viu foi o teste de uma arma laser.

¯  Qual a finalidade?

¯  Nós não sabemos. O teste que você viu usou o sistema laser para destruir um satélite em órbita. Isso significa...

¯  Eu sei o que são satélites. Um laser pode ser usado com essa fi­nalidade?

¯  Nosso país está trabalhando num projeto similar, mas parece que os russos estão à nossa frente.

O Arqueiro ficou surpreso. Então a América não era a líder mun­dial em tecnologia? O Stinger não era prova disso? Por que aqueles homens haviam voado quase 20 000 quilômetros... meramente por­que ele vira uma luz no céu?

¯  Vocês temem esse laser?

¯  Temos grande interesse nele ¯ respondeu o mais graduado. ¯ Alguns dos documentos que encontrou nos deram informações que não tínhamos sobre o local, e por esse motivo estamos em débito com você.

¯  Agora eu também tenho interesse. Você tem os documentos?

¯  Emílio? ¯ O homem gesticulou a Ortiz, que apresentou um mapa e um diagrama.

¯  Este local está em construção desde 1983. Estamos surpresos de que os russos tenham construído instalações importantes tão perto da fronteira do Afeganistão.

¯  Em 1983 eles ainda pensavam que iriam ganhar ¯ observou som­briamente o Arqueiro.

A idéia de que eles tivessem acreditado naquilo era tomada como um insulto. Ele notou a posição no mapa, o pico de montanha quase cercado por uma curva do rio Vakhsh. Imediatamente percebeu por que estava ali. A represa hidrelétrica de Nurek ficava apenas a alguns quilômetros. O Arqueiro sabia mais do que dissera. Sabia o que era laser, e um pouco sobre a forma como funcionava. Sabia que a luz deles era perigosa, que podia cegar...

Destruíra um satélite? Centenas de quilômetros acima no espaço, muito mais alto do que voavam os aviões... o que faria com as pessoas no chão?... talvez tivessem construído tão perto de seu país por outro motivo...

¯  Então você simplesmente viu a luz? Não ouviu histórias sobre tal lugar, nenhuma história sobre luzes estranhas no céu?

O Arqueiro balançou a cabeça sobriamente.

¯  Não, foi apenas essa vez. ¯ Viu os visitantes trocarem olhares de desapontamento.

¯  Bem, isso não importa. Estou autorizado a lhe oferecer os agra­decimentos do meu governo. Três caminhões de armas estão sendo en­viados para seu grupo. Se existe mais alguma coisa de que precise, tentaremos conseguir para você.

O Arqueiro concordou com sobriedade. Ele esperara uma grande recompensa pela entrega do oficial soviético, depois ficara desaponta­do com sua morte. Mas os homens não tinham vindo até ele por aquele motivo. Era tudo sobre os documentos e a luz ¯ seria aquele lugar tão importante que a morte de um russo fosse julgada trivial? Os ame­ricanos estariam mesmo com medo?

E, se os americanos estavam com medo, como devia ele sentir-se?

¯  Não, Arthur, não gosto disso ¯ afirmou o presidente, tentando resistir.

O juiz Moore pressionou novamente.

¯  Senhor presidente, estamos a par das dificuldades políticas de Narmonov. O desaparecimento de nosso agente não terá tanto efeito como sua prisão pela KGB, possivelmente menos. Afinal de contas, a KGB não pode cantar vitória se o deixarem escorregar entre os de­dos ¯ afirmou o diretor-geral.

¯  Mesmo assim é um risco muito grande ¯ disse Jeffrey Pelt. ¯ Temos uma oportunidade histórica com Narmonov. Ele realmente pre­tende fazer mudanças no sistema deles... que diabos, vocês mesmos fizeram a avaliação.

Tivemos a chance e a desperdiçamos, durante a administração Kennedy, pensou Moore. Mas Kruschev caiu e tivemos vinte anos de picaretas do Partido. Agora talvez haja outra chance. Você tem medo de que nunca consigamos outra oportunidade tão boa como esta. Bem, é uma maneira de se ver o problema, admitiu para si mesmo.

¯  Jeff, sua posição não será mais afetada se retirarmos nosso ho­mem do que pela sua captura...

¯  Se estão atrás dele, por que ainda não o agarraram? ¯ indagou Pelt. ¯ E se estivermos exagerando?

¯  Esse homem tem trabalhado para nós há trinta anos... trinta anos! Sabe dos riscos que correu por nós, das informações que obtivemos dele? Pode imaginar a frustração que sentiu das vezes que ignoramos seus conselhos? Consegue imaginar como é conviver com uma sen­tença de morte por trinta anos? Se abandonarmos esse homem, onde ficam as coisas que defendemos nesse país? ¯ disse Moore com calma determinação. O presidente era um homem que sempre podia ser con­vencido por argumentos baseados em princípios.

¯  E se derrubarmos Narmonov nesse processo? ¯ indagou Pelt. ¯ E se o grupo de Alexandrov tomar o poder e voltarmos outra vez aos velhos dias... mais tensões, mais corridas armamentistas? Como vamos explicar ao povo americano que sacrificamos essa oportunida­de pela vida de um homem?

¯  Por um lado, eles nunca saberão, a menos que alguém deixasse passar a informação ¯ retrucou friamente o diretor-geral. ¯ Os rus­sos não deixam que os fatos venham a público, e você sabe disso. Por outro lado, como vamos explicar o fato de jogarmos fora esse homem, como um lenço descartável?

¯  Eles também não saberiam disso, a menos que alguém deixasse a informação vazar ¯ respondeu Pelt numa voz igualmente fria.

O presidente hesitou. Seu primeiro impulso fora o de deixar a ope­ração de extradição aguardando. Como poderia explicar isso? Por ação ou omissão, estavam discutindo a melhor maneira de evitar que um acontecimento desfavorável sucedesse ao principal inimigo dos Esta­dos Unidos. Mas não se pode dizer isso em público, refletiu o presiden­te. Se dissermos em voz alta que os russos são nossos inimigos, os jornais fariam um escândalo. Os soviéticos possuem milhares de ogivas nucleares apontadas para nós, mas não podemos correr o risco deferir a sensibilida­de deles...

Lembrou-se de seus dois encontros frente a frente com o homem, Andrey Ilych Narmonov, secretário-geral do Partido Comunista da União Soviética. Mais novo do que ele, lembrou o presidente. As con­versações iniciais haviam sido cautelosas, cada homem sentindo o ou­tro, procurando, tanto por fraquezas como por pontos em comum, vantagens e compromissos. Um homem com uma missão, um homem que provavelmente queria mesmo mudar as coisas, pensou o pre­sidente...

Mas seria uma boa coisa? E se ele conseguisse descentralizar a eco­nomia, introduzir forças de mercado, dar um pouco de liberdade ¯ não muito, claro, mas o suficiente para manter as coisas andando? Vá­rias pessoas o estavam alertando contra essa possibilidade: imagine um país, com a vontade política dos soviéticos, apoiado por uma econo­mia que poderia entregar bens de consumo tanto no setor civil quanto no militar. Isso faria o povo russo acreditar novamente em seu siste­ma; iria reviver o senso de missão que tiveram nos anos 30? Poderemos nos ver enfrentando um inimigo muito mais perigoso do que antes.

Por outro lado, haviam lhe dito que não existe algo como apenas um pouco de liberdade... Poder-se-ia questionar Duvalier no Haiti, Marcos nas Filipinas, ou o fantasma do xá Mohammed Reza Pahlavi. O impulso dos acontecimentos poderia trazer a União Soviética de uma era de trevas para o interior do moderno pensamento político no sécu­lo 20. Poderia demorar uma geração, talvez duas, mas e se o país re­solvesse se envolver em alguma coisa que se aproximasse de um Estado liberal? Havia outra lição de história a ser aprendida: democracias li­berais não fazem guerras umas às outras.

Que escolha tenho eu?, pensou o presidente. Posso ser lembrado como o idiota retrógrado que trouxe de volta a Guerra Fria, com toda a sua tris­te majestade ¯ ou como Pollyanna, que esperou o leopardo mudar suas pintas, apenas para descobrir que ele ficou maior e com as presas mais afia­das. Meu Deus, disse ele a si mesmo enquanto encarava seus dois in­terlocutores, não estou pensando nem um pouco sobre sucesso, só nas conseqüências da derrota.

E nessa área que América e Rússia têm histórias paralelas ¯ nossos govemos no pós-guerra nunca sobreviveram às expectativas de nossos povos. Eu sou o presidente, deveria saber qual é a Coisa Certa. Foi por isso que as pessoas me elegeram. É para isso que me pagam. Meu Deus, se eles soubessem em que fraudes estamos todos metidos.... Não estamos discutin­do aqui como vencer. Estamos discutindo quem vai deixar escapar o moti­vo do fracasso da política. Bem aqui, no Salão Oval, estamos discutindo sobre quem vai levar a culpa se alguma coisa sobre a qual ainda não resol­vemos der errado.

¯  Quem mais sabe sobre isso? O juiz Moore estendeu as mãos.

¯  O almirante Greer, Bob Ritter, e eu, na CIA. Alguns entre o pes­soal de campo sabem sobre as operações propostas... Tivemos de man­dar um sinal de alerta, mas eles não sabem dos aspectos políticos e nunca saberão. Não precisam saber. À parte isso, somente nós três na Agência temos o quadro inteiro. Acrescente o senhor, e o doutor Pelt, e perfazem cinco.

¯  E já estamos falando em vazamento de informações! Mas que mer­da! ¯ xingou o presidente com entusiasmo surpreendente. ¯ Como é que fomos ficar tão fodidos assim?

Todos ficaram mais sóbrios. Não havia nada como uma explosão presidencial para acalmar as pessoas. Ele olhou para Moore e Pelt, o principal conselheiro de Inteligência, e o conselheiro de Segurança Nacional. Um pedia pela vida de um homem que servira fielmente aos Estados Unidos, com perigo de vida; o outro observava distante e friamente a realpolitik e encontrava uma oportunidade histórica mais importante do que qualquer vida humana.

¯  Arthur, está dizendo que esse agente... e eu não quero nem sa­ber o nome dele... nos tem fornecido dados crucialmente importantes nos últimos trinta anos, incluindo esse projeto laser que os russos vêm operando; você diz que ele provavelmente está em perigo, e é hora de correr o risco de tirá-lo de lá, e que temos a obrigação moral de fazê-lo.

¯  Sim, senhor presidente.

¯  E você, Jeff, diz que a hora é ruim, e a revelação de um vaza­mento de informações tão elevado no governo poderia colocar Nar­monov em perigo político, poderia retirá-lo da liderança e substituí-lo por um governo menos atrativo a nós.

¯  Sim, senhor presidente.

¯  E se esse homem morrer porque não o ajudamos?

¯  Perderíamos informações importantes ¯ disse Moore. ¯ Pode­ria não fazer nenhuma diferença apreciável de efeito em Narmonov.

E estaríamos traindo a confiança de um homem que nos serviu bem e fielmente durante trinta anos.

¯  Jeff, você consegue viver com isso? ¯ perguntou o presidente ao seu conselheiro de Segurança Nacional.

¯  Sim, senhor, consigo viver com isso. Não gosto, mas consigo vi­ver com isso. Com Narmonov já possuímos um acordo sobre armas nucleares intermediárias, e temos a chance de conseguir um sobre for­ças estratégicas.

E como ser um juiz. Tenho aqui dois advogados que acreditam firme­mente em suas posições. Imagino se os princípios deles seriam tão firmes se estivessem em minha cadeira, se precisassem tomar a decisão.

Mas eles não haviam se candidatado à Presidência.

Esse agente vem servindo aos Estados Unidos desde que eu era promotor público iniciante, acusando prostitutas em tribunais noturnos.

Narmonov pode ser a melhor chance que já tivemos de garantir a paz no mundo desde Deus sabe quando.

O presidente levantou-se e andou até as janelas atrás de sua escriva­ninha. Elas eram bastante grossas, para protegê-lo de pessoas armadas. Não poderiam protegê-lo contra os deveres de seu cargo. Olhou para o gramado ao sul, mas não encontrou respostas. Voltou-se novamente.

¯  Não sei. Arthur, deixe tudo preparado, mas quero sua palavra de que nada acontecerá sem minha autorização. Sem erros, sem ini­ciativas, sem ações até que eu determine. Vou precisar de tempo para essa decisão. Temos tempo, não temos?

¯  Sim, senhor. Vai levar mais alguns dias até que encaixemos to­das as peças no lugar.

¯  Comunico a vocês quando tomar minha decisão. ¯ Ele apertou as mãos dos dois homens e observou-os partindo.

O presidente ainda tinha cinco minutos antes da sua próxima entre­vista e usou o tempo para ir até o banheiro anexo ao escritório. Imagi­nou se haveria algum simbolismo oculto no ato de lavar as mãos, ou era apenas uma desculpa para poder observar a própria imagem no espelho. E você é supostamente o homem que precisa dar cada porra de resposta!, a imagem disse a ele. Você nem mesmo sabe por que veio ao banheiro! O presidente sorriu. Aquilo era engraçado. Engraçado de uma maneira que poucos homens entenderiam.

¯  Então o que digo a Foley? ¯ sibilou Ritter vinte minutos depois.

¯  Calma, Bob ¯ avisou Moore. ¯ Ele está pensando sobre o as­sunto. Não necessitamos de uma decisão imediata, e um "talvez" é bem melhor do que um "não".

¯  Desculpe, Arthur. É só que... merda, já tentamos tirá-lo de lá antes. Não podemos deixá-lo ser apanhado.

¯  Tenho certeza de que ele não vai tomar uma decisão final até que eu tenha uma chance de falar novamente com ele. Por enquanto, diga

Foley que continue com a missão. E quero uma nova apreciação da vulnerabilidade política de Narmonov. Tenho a impressão de que Alexandrov está de saída... ele está muito velho para assumir o posto; o Politburo não apoiaria a substituição de um homem relativamente jo­vem por um muito idoso, não depois do cortejo fúnebre que tiveram alguns anos atrás. Quem ocuparia o lugar?

¯  Gerasimov ¯ respondeu imediatamente Ritter. ¯ Dois outros poderiam estar no páreo, mas ele é o mais ambicioso. Impiedoso, mas muito suave. A burocracia do Partido o aprecia porque fez um belo trabalho com os dissidentes. Se ele quiser se mexer, terá de ser logo. Se o tratado sobre armamentos for aprovado, Narmonov ganhará muito prestígio e a força política que sempre acompanha essas vitórias. Se Alexandrov não tomar cuidado, vai perder o barco de uma vez, ser aposentado, e Narmonov ficará belo e seguro em sua cadeira por mui­tos anos.

¯  Isso vai demorar quase cinco anos para acontecer ¯ observou o almirante Greer, falando pela primeira vez. ¯ Pode ser que ele não dure cinco anos. Temos mesmo indicações de que Alexandrov pode estar saindo. Se isso é mais do que um rumor, ele pode forçar a mão.

O juiz Moore olhou para o teto.

¯  Com certeza seria mais fácil lidar com esses putos se eles tives­sem uma maneira previsível de dirigir as coisas. ¯ E claro que nós te­mos, e eles não conseguem predizer o que fazemos.

¯  Anime-se, Arthur ¯ disse Greer. ¯ Se o mundo fizesse algum sentido, todos teríamos de procurar trabalho honesto.

 

Mudanças

A passagem pelo estreito de Kattegat, entre a Jutlândia e a Suécia, é sempre difícil para um submarino, e duplamente quando precisa manter-se oculto. A água é rasa, rasa demais para navegar submerso. Os canais podem ser traiçoeiros, mesmo à luz do dia. São muito pio­res à noite, e ainda piores sem um piloto. Como a passagem do Dallas era supostamente secreta, um piloto estava fora de questão.

Mancuso ocupava o passadiço. Abaixo, seu navegador suava à mesa de cartas náuticas, enquanto o contramestre-chefe manobrava o periscópio e gritava as posições dos vários pontos de referência em terra. Não podiam usar o radar para auxiliar na navegação, porém o periscópio possuía um amplificador de luz, que não transformava exata­mente a noite em dia, mas pelo menos fazia a escuridão sem estrelas parecer um crepúsculo. O tempo era ideal, quase um presente, com nuvens baixas e nevoeiro, que reduzia a visibilidade o suficiente para que a forma baixa e escura do submarino classe 688 fosse difícil de ser avistada da terra firme. A Marinha dinamarquesa sabia sobre a pas­sagem do submarino e mantinha algumas embarcações pequenas pa­ra afastar possíveis bisbilhoteiros ¯ não havia nenhum ¯, porém, à parte isso, o Dallas estava por conta própria.

¯  Navio pela proa, a bombordo ¯ avisou um vigia.

¯  Já achei ¯ respondeu Mancuso imediatamente. Ele segurava um visor amplificador de luz que parecia uma pistola, e via através dele o navio cargueiro de porte médio. As chances eram de que pertences­se ao Bloco Oriental. No período de um minuto, o curso do navio que se aproximava estava traçado com um CPA ¯ ponto de aproximação máxima ¯ de 700 metros. O capitão xingou e deu suas ordens.

O Dallas estava com as luzes de navegação acesas ¯ os dinamar­queses haviam insistido nesse ponto. A luz giratória âmbar acima da luz no topo do mastro identificava positivamente um submarino. A ré um marinheiro arriava a bandeira americana e a substituía por uma dinamarquesa.

¯  Todo mundo parecendo escandinavo ¯ ironizou Mancuso.

¯  Ia-Ia, capiton ¯ brincou um jovem oficial na escuridão. Seria difícil para ele parecer escandinavo. Ele era negro. ¯ Pequena mu­dança no curso do nosso amigo. Não acho que esteja desviando, se­nhor. Veja...

¯  É, estou vendo. ¯ Duas das embarcações dinamarquesas avan­çavam de maneira a ficar entre o navio de carga e o Dallas. Mancuso achou que isso ajudaria. A noite todos os gatos são pardos e um sub­marino na superfície parece... com um submarino na superfície, uma forma negra com a torre vertical.

¯  Acho que é polonês ¯ observou o tenente. ¯ Estou vendo a cha­miné agora. Maersk Line.

As duas embarcações se aproximavam a uma razão de 800 metros por minuto. Mancuso voltou-se para observar, apontando o visor para a ponte de comando do navio. Não viu nenhuma atividade fora do comum. Bem, eram 3 horas da manhã. A tripulação na ponte tinha uma navegação difícil pela frente, e provavelmente o interesse deles no submarino era relativo à mesma preocupação que ocupava a mente do capitão sobre o navio mercante ¯ por favor, não me acerte, seu idio­ta. Passou surpreendentemente rápido, e logo depois ele via as luzes de popa do navio. Ocorreu a Mancuso que manter acesas as luzes de navegação fora uma boa idéia. Se estivessem apagadas e fossem avis­tados, despertariam mais atenção.

Navegavam no mar Báltico praticamente uma hora depois, em cur­so zero-seis-cinco, utilizando-se das águas mais profundas que pudes­sem encontrar, enquanto o Dallas abria caminho para o leste. Mancuso levou o navegador ao seu camarote e juntos elaboraram a melhor rota de aproximação e o lugar mais seguro na costa da União Soviética. Quando terminaram, o sr. Clark juntou-se a eles e os três discutiram a parte delicada da missão.

Num mundo ideal, pensou Vatutin amargamente, eles levariam suas preocupações ao ministro da Defesa, e ele cooperaria totalmente com a in­vestigação da KGB. Mas o mundo não era ideal. Além das esperadas rivalidades institucionais, Yazov permanecia sob o controle do secretário-geral e estava a par das divergências entre Gerasimov e Narmonov. Não, o ministro da Defesa ou assumiria toda a investigação através do seu próprio órgão de segurança, ou usaria seu poder políti­co para encerrar completamente o caso, para que a KGB não desgra­çasse Yazov com o fato de possuir um traidor como ajudante, ameaçando assim Narmonov.

Se Narmonov caísse, na melhor das hipóteses o ministro da Defesa voltaria a ser o chefe de pessoal do Exército soviético; mais provavel­mente seria aposentado em silenciosa humilhação após a remoção de seu protetor. Mesmo se o secretário-geral sobrevivesse a essa crise, Ya­zov seria o boi de piranha, como Sokolov fora recentemente. Que es­colha tinha Yazov?

O ministro da Defesa também era um homem com uma missão. Sob a cobertura da iniciativa de "reestruturação" do secretário-geral, Ya­zov esperava utilizar seu conhecimento do corpo de oficiais para re­construir o Exército soviético ¯ supostamente na esperança de profissionalizar toda a comunidade militar. Narmonov dissera que pre­tendia salvar a economia soviética, porém uma autoridade como Alexandrov, o alto sacerdote do marxismo-leninismo, afirmava que ele estava destruindo a própria pureza do Partido. Yazov gostaria de re­construir completamente a organização militar, partindo do zero. Tam­bém teria o efeito, pensou Vatutin, de tomar o Exército pessoalmente leal a Narmonov.

Aquilo preocupava Vatutin. Historicamente, o Partido usara a KGB para manter os militares sob controle. Afinal de contas, os militares possuíam todas as armas, e se se dessem conta de seu poderio e sen­tissem o controle do Partido afrouxando... era uma idéia muito dolo­rosa para se considerar. Um Exército leal exclusivamente ao secretário-geral em vez de ao Partido em si era ainda mais penoso pa­ra Vatutin, já que alteraria a relação entre a KGB e a sociedade sovié­tica como um todo. Então não haveria mais nenhum controle sobre o secretário-geral. Com o apoio dos militares, ele poderia curvar a KGB a sua vontade e usá-los para "reestruturar" o Partido todo. Ele pode­ria ter o poder de um outro Stálin.

Como fui enveredar por esse lado?, perguntou-se Vatutin. Sou um agente de contra-informação, não um teórico do Partido. Durante sua vida in­teira, o coronel Vatutin nunca se intrometera nas Grandes Questões de seu país. Confiara em seus superiores para lidar com as decisões de grande porte, permitindo a si próprio resolver os pequenos deta­lhes. Não mais. Ter sido incluído na confiança do diretor-geral Gerasimov tornara-o inextricavelmente aliado do homem. Havia acontecido com tanta facilidade! Virtualmente da noite para o dia ¯ é preciso ser notado para obter estrelas de general, pensou ele com um riso sardônico. Você sempre quis ser notado. Pois agora, Klementi Vladimirovich, vo­cê com certeza foi notado. Veja agora onde se meteu.

Bem no meio de uma briga pelo poder entre o diretor-geral da KGB e o secretário-geral em pessoa.

Na verdade era engraçado, disse a si mesmo. Sabia que seria muito menos se Gerasimov errasse o cálculo ¯ a ironia suprema em tudo aquilo era que, se o diretor-geral da KGB caísse, as influências libe­rais já colocadas em prática por Narmonov atuariam em proteção de Vatutin, que estava em última análise apenas cumprindo as tarefas es­tupidamente ordenadas pelos seus superiores. Não acreditava que fosse aprisionado, e muito menos fuzilado, como já acontecera no passado. Sua ascensão profissional terminaria. Seria transferido, para dirigir o escritório regional da KGB em Omsk, ou a tarefa menos agradável que pudessem encontrar, desde que nunca mais voltasse à Central de Moscou.

Até que não seria assim tão ruim. Por outro lado, se Gerasimov ob­tivesse sucesso... chefe do "Dois", talvez? E isso não seria mesmo na­da mau.

E você acreditava mesmo que poderia progredir em sua carreira sem tomar-se "político". Só que essa não seria mais uma das opções. Se ten­tasse sair, estaria liquidado. Vatutin estava numa armadilha e sabia dis­so. A única escapatória seria fazer o seu trabalho com o melhor de sua habilidade.

O devaneio terminou quando ele voltou a seus relatórios. O coronel Bondarenko estava completamente limpo, ele pensou. Sua ficha fora exa­minada e reexaminada, e não havia nada que sugerisse que ele fosse menos do que um patriota e um oficial acima da média. É Filitov, pensou Vatutin. Tão absurdo quanto pudesse soar à primeira vista, esse herói de guerra condecorado era um traidor.

Mas como diabos provamos isso? Como fazemos para conduzir uma investigação adequada sem a cooperação do ministro da Defesa? Esse era outro aspecto. Se falhasse em sua investigação, então Gerasimov não veria. com bons olhos suas promoções; mas a investigação esbar­rava nas restrições impostas pelo diretor-geral. Vatutin lembrava-se da época em que sua promoção a major quase passara do prazo, e já la­mentava a sorte quando o quadro de promoções o fizera mudar de idéia.

Estranhamente, não se deu conta de que todos os seus problemas resultavam do fato de possuir um diretor-geral da KGB que tinha ambicões políticas. Vatutin reuniu seus oficiais subordinados. Eles che­garam em alguns minutos.

¯  Algum progresso com Filitov? ¯ indagou ele.

¯  Nossos melhores homens o estão acompanhando ¯ respondeu um oficial de nível médio. ¯ Seis deles, vinte e quatro horas por dia. Estamos alternando os turnos para que ele não veja os mesmos rostos freqüentemente, se os vir. Agora temos completa vigilância com cir­cuito fechado de televisão em todos os pontos do quarteirão de seu edifício, e meia dúzia de pessoas verificam as fitas todas as noites. In­tensificamos a vigilância sobre as atividades de espiões americanos e ingleses, e também da comunidade diplomática em geral. Estamos can­sando os homens e arriscando sermos percebidos, mas não há manei­ra de evitar isso. A única coisa que tenho a relatar é que Filitov fala dormindo de vez em quando... parece que falou com um camarada chamado Romanov. As palavras estão muito distorcidas para enten­der, mas tenho um fonoaudiólogo trabalhando no assunto, e talvez ob­tenhamos algum resultado. De qualquer forma, ele não pode nem peidar sem que saibamos disso. A única coisa que não posso fazer é manter contato visual contínuo sem aproximar demais nosso pessoal. Todos os dias, virando uma esquina ou entrando numa loja, ele fica fora de visão por um tempo de cinco a quinze segundos... o suficiente para fazer uma entrega pessoal ou um dead-drop. Não há nada que possamos fazer quanto a isso, a menos que se queira correr o risco de alertá-lo.

Vatutin concordou. Mesmo a melhor vigilância tinha suas limitações.

¯  Bem, há uma coisa estranha ¯ disse o major. ¯ Fiquei sabendo ontem. Por volta de uma vez por semana, Filitov leva a sacola de incineração para o incinerador pessoalmente. Está tão integrado à rotina que o homem na sala de incineração esqueceu de mencionar o fato até a noite passada. É um jovem, e veio até nós para falar... depois do expediente, em roupas civis. Rapaz brilhante aquele. Descobrimos que Filitov cuidou da instalação do sistema há muitos anos. Examinei pessoalmente os planos, nada de suspeito. Instalações completamente normais, como as que temos aqui. E isso é tudo. Para todos os propó­sitos práticos, a única coisa de anormal com Filitov é que ele já devia ter-se aposentado a essa altura.

¯  E quanto à investigação sobre Altunin? ¯ indagou Vatutin a seguir.

Outro oficial abriu seu livro de anotações.

¯  Não temos idéia onde ele estava antes de ser assassinado. Talvez estivesse escondido sozinho em algum lugar, talvez tenha sido protegido por amigos que não conseguimos identificar. Não estabelecemos nenhuma correlação entre sua morte e o movimento dos estrangeiros. Não carregava nada que o comprometesse ou incriminasse, com exce­ção de alguns documentos falsos que parecem um trabalho amador, mas bom o suficiente para as repúblicas afastadas. Se é que ele foi as­sassinado pela CIA, foi um trabalho surpreendentemente perfeito. Sem nenhuma ponta solta. Nenhuma.

¯  Sua opinião?

¯  O caso Altunin é um beco sem saída ¯ respondeu o major. ¯ Existe ainda meia dúzia de coisas para verificar, mas nenhuma delas parece muito promissora. ¯ Ele fez uma pausa. ¯ Camarada...

¯  Continue.

¯  Acredito que isso foi uma coincidência. Acho que Altunin foi vítima de um assassinato simples, ao tentar subir a bordo do vagão errado na hora errada. Não tenho nenhuma prova disso, mas é o que me parece.

Vatutin levou aquilo em consideração. Era preciso um bocado de coragem moral para um oficial do Segundo Diretório dizer que o caso não era de contra-espionagem.

¯  Qual seu grau de certeza?

¯  Acho que nunca saberemos ao certo, camarada coronel, mas, se a CIA tivesse feito o trabalho, eles não tentariam se livrar do corpo... ou se estavam tentando usar essa morte para proteger um espião alta­mente colocado, por que não deixar provas que o implicassem num caso totalmente diferente? Não havia nenhuma pista falsa, embora pa­recesse a ocasião exata para fazer isso.

¯  É verdade, nós teríamos feito isso. Bom argumento. Mas mesmo assim vá atrás de suas pistas.

¯  E claro, camarada coronel. Calculo uma demora de quatro a seis dias.

¯  Mais alguma coisa? ¯ perguntou Vatutin. Cabeças se agitaram negativamente. ¯ Muito bem, de volta aos seus departamentos, ca­maradas.

Faria a transferência durante o jogo de hóquei, pensou Mary Pat Fo­ley. O Cardeal estaria lá, alertado por uma chamada telefônica pretensamente para um número errado, feita de uma cabine pública. Ela mesma faria a transferência. Tinha três magazines de filme na bolsa, e um simples aperto de mão seria o suficiente. Seu filho jogava no ti­me da liga juvenil, como o sobrinho-neto de Filitov, e ela comparecia a todos os jogos. Seria fora do comum que ela não fosse, e os russos contavam com que as pessoas continuassem suas rotinas. Estava sen­do seguida e sabia disso. Evidentemente os russos haviam intensifica­do a vigilância, mas o homem que a seguia não era tão bom assim ¯ ou pelo menos estavam usando a mesma "sombra", e Mary Pat sabia quando via um rosto mais de uma vez no mesmo dia.

Maria Patrícia Kaminsky possuía ancestrais que eram produto da típica miscigenação americana, e alguns aspectos disso estavam regis­trados em seus documentos. Seu avô fora cavalariço na casa dos Ro­manov e havia ensinado o príncipe Aleksey a cavalgar ¯ não fora uma tarefa sem importância, já que o jovem tragicamente sofria de hemo­filia e necessitava de cuidados supremos para não se ferir. Aquele fora o ponto alto de uma vida sem outras distinções. Ele fora um fracasso como oficial do Exército, embora amigos na corte tivessem assegura­do sua ascensão até o posto de coronel. Tudo o que conseguira fora a destruição total de seu regimento nas florestas de Tannenberg e sua captura pelos alemães ¯ e a sobrevivência além de 1920. Depois de saber que sua mulher morrera no tumulto revolucionário que se se­guira à Primeira Guerra Mundial, ele nunca retornara à Rússia ¯ ele sempre a chamara Rússia ¯ e eventualmente viera ter aos Estados Uni­dos, onde se estabelecera nos subúrbios de Nova York, casando-se de­pois de montar um pequeno negócio. Vivera até a avançada idade de 97 anos, sobrevivendo a uma mulher vinte anos mais nova do que ele, e Mary Pat nunca esquecera suas histórias mirabolantes. Quando en­trara para a faculdade e interessara-se por História, ela entendera, claro. Aprendera que os Romanov eram irrecuperavelmente incapazes, e sua corte irremediavelmente corrupta. Um detalhe, porém, que ela nun­ca esquecia era a maneira como seu avô chorava quando chegava à parte sobre como Aleksey, um jovem corajoso e determinado, fora fu­zilado como um cachorro, juntamente com a família, pelos bolcheviques. Essa história, repetida cem vezes a ela, dera a Mary Pat uma visão da União Soviética que nenhum período de estudos, instrução acadêmica ou realismo político poderia jamais apagar. Seus sentimen­tos para com o governo que dominava a terra de seu avô eram comple­tamente delineados pela cena do assassinato de Nicolau II, a esposa e os cincos filhos. Intelecto, dizia ela a si mesma nos momentos de reflexão, tinha muito pouco a ver com a maneira que as pessoas sentiam.

Trabalhar em Moscou, trabalhar contra o mesmo governo,. era o maior desafio de sua vida. Gostava daquilo ainda mais do que o mari­do, a quem tinha encontrado enquanto era estudante em Colúmbia. Ed juntara-se à CIA porque ela decidira desde cedo ingressar na CIA.

 

Seu marido era bom, Mary sabia disso ¯ com instintos brilhantes e habilidade administrativa ¯, mas a ele faltava a paixão que ela dedi­cava ao trabalho. A ele também faltavam os genes. Ela aprendera a língua russa nos joelhos do avô ¯ o russo mais elegante e mais rico que os soviéticos transformaram na algaravia correntemente em uso ¯, porém o mais importante era que ela entendia as pessoas de uma forma que muitos livros não poderiam relatar. Ela entendia a tristeza racial que permeava o caráter russo, e a contraditória expansividade em particular, a total exposição da personalidade e da alma reservada apenas aos amigos mais próximos e negada a um transeunte moscovi­ta. Como resultado desse talento, Mary Pat recrutara cinco agentes bem colocados, apenas um evitando o serviço em tempo integral. No Dire­tório de Operações da CIA, ela era conhecida ocasionalmente como Supergirl, um termo com o qual não se importava em absoluto. Afinal de contas, Mary Pat era mãe de dois filhos, com as marcas dos pontos para prová-lo. Sorriu para si mesma no espelho. Você conseguiu, garo­ta. Seu avô ficaria orgulhoso.

A melhor parte: ninguém tinha a menor suspeita do que ela era real­mente. Fez um ajuste final na roupa. Mulheres ocidentais em Moscou precisavam estar mais atentas ao trajar do que os homens do Ociden­te. Suas roupas eram sempre um pouco exageradas. A imagem que projetava era cuidadosamente concebida e meticulosamente executa­da. Educada mas frívola, bonita mas superficial, uma boa mãe e pou­co mais do que isso, rápida nas demonstrações ocidentais de suas emoções, mas não era levada muito a sério. Flanando como ela fazia, ocasionalmente substituindo alguma professora na escola dos garotos, comparecendo a várias funções sociais e vagando interminavelmente como uma eterna turista, ela se encaixava perfeitamente na preconce­bida noção soviética da mulher americana de cabeça oca. Mais um sorriso ao espelho: Se os bastardos soubessem...

Timmy aguardava com impaciência, o taco de hóquei balançando para cima e para baixo no carpete da sala de estar. Ed estava com a televisão ligada. Deu um beijo de despedida na mulher, disse a Timmy para chutar alguns traseiros ¯ o Foley mais velho fora fã dos Rangers antes mesmo que aprendesse a ler.

Era um pouco triste, pensou Mary Pat no elevador. Eddie tinha feito bons amigos ali, mas era um erro agir amigavelmente com as pessoas em Moscou. Podia-se esquecer de que constituíam o inimigo. Ela sentia que Eddie estava recebendo o mesmo tipo de doutrinação que sofre­rá, só que do lado errado. Bem, isso será facilmente remediado, disse a si mesma. No depósito em casa tinha a fotografia do czaréviche Aleksey, autografada para seu professor favorito. Tudo o que tinha a fazer era explicar como ele morrera.

Dirigir até o estádio foi um ato de rotina, a excitação de Eddie au­mentando à medida que se aproximavam do horário do jogo. Ele esta­va cotado como o terceiro artilheiro da liga, apenas seis pontos atrás do centroavante do time contra o qual jogariam naquela noite, que era o primeiro, e Eddie queria mostrar a Ivã Quem-quer-que-fosse que os americanos podiam vencer os russos no próprio jogo.

Era surpreendente como o estacionamento estava lotado, mas por outro lado não era um estacionamento muito grande, e hóquei no gelo era a coisa mais próxima de uma religião na União Soviética. O jogo daquela noite iria decidir os padrões de desempate para o campeonato da liga, e muitas pessoas tinham vindo assistir a ele. Tudo bem com Mary Pat. Ela mal tinha acabado de puxar o breque de mão quando Eddie empurrou a porta, apanhou a sacola de equipamento e esperou impacientemente que a mãe trancasse o carro. Conseguiu controlar-se e andar devagar o suficiente para que a mãe o acompanhasse, de­pois disparou para o vestiário enquanto ela se dirigia ao rinque.

Seu lugar estava reservado, claro. Embora relutante em ficar tão pró­xima a estrangeiros, num jogo de hóquei as regras eram diferentes. Alguns pais a cumprimentaram, e ela acenou de volta, o sorriso ape­nas um pouco exagerado. Verificou o relógio.

¯  Não vejo um jogo da liga juvenil há dois anos ¯ declarou Yazov enquanto saíam do carro oficial.

¯  Também não venho muito, mas minha cunhada disse que esse é muito importante, e o pequeno Misha exigiu minha presença ¯ sor­riu Filitov. ¯ Eles acham que eu dou boa sorte... talvez o senhor tam­bém, camarada marechal.

¯  É bom fazer alguma coisa diferente ¯ concedeu Yazov fingindo seriedade. ¯ A droga do escritório vai estar lá amanhã do mesmo jei­to. Eu joguei hóquei quando era garoto, sabia?

¯  Não, não sabia. Era bom nisso?

¯  Eu jogava na defesa, e as outras crianças se queixavam que eu entrava muito duro. ¯ O ministro da Defesa riu e acenou para que seu pessoal da segurança avançasse.

¯  Não tínhamos rinque onde eu cresci... e a verdade é que eu era muito desajeitado quando criança. Os tanques foram perfeitos para mim... servem para destruir as coisas. ¯ Misha riu.

¯  Esse time é bom?

¯  Eu prefiro os times juvenis aos oficiais ¯ respondeu o coronel Filitov. ¯ São mais... combativos. Acho que apenas gosto de ver as crianças se divertindo.

¯  É verdade.

Não havia muitas poltronas ao redor do rinque ¯ além disso, qual o verdadeiro fã de hóquei que queria ficar sentado? O coronel Filitov e Yazov encontraram um lugar conveniente ao lado de alguns dos pais. Os sobretudos do Exército soviético com as brilhantes divisas nos om­bros garantiram a eles uma boa visão do campo e espaço para respirar. Os quatro oficiais de segurança espalharam-se, tentando não olhar mui­to acintosamente para a quadra. Não estavam muito preocupados, desde que a ida ao jogo fora uma decisão de última hora da parte do ministro.

O jogo foi excitante desde o começo. O centroavante do outro time movia-se como uma doninha, controlando o disco de borracha com passes habilidosos e patinação impecável. O time local ¯ no qual jo­gavam o americano e o sobrinho-neto de Misha ¯ foi pressionado em seu campo de defesa durante a maior parte do primeiro tempo, mas o pequeno Misha era um defensor bastante agressivo, e o rapaz ameri­cano interceptou um passe, avançando até o outro lado do rinque, on­de foi desarmado por uma defesa impressionante, que provocou murmúrios de admiração dos torcedores de ambos os lados. Embora sejam um povo insolente como qualquer outro, os russos possuem um grande senso de esportividade. O primeiro tempo terminou empata­do, sem abertura de contagem.

¯  Que pena ¯ comentou Misha, enquanto as pessoas se dirigiam para as salas de descanso.

¯  Um belo ataque, mas a defesa foi maravilhosa ¯ disse Yazov. ¯ Preciso do nome desse rapaz para o Exército da Região Central. Mis­ha, obrigado por me convidar. Tinha esquecido como pode ser exci­tante um jogo escolar.

¯  Sobre o que acha que estão conversando? ¯ perguntou o agente mais velho da KGB. Ele e outros dois homens estavam na parte supe­rior, escondidos acima das luzes que iluminavam o rinque.

¯  Talvez sejam apenas fãs de hóquei ¯ retrucou o homem com a câmera. ¯ Porra, parece que estamos perdendo um belo jogo. Veja só aqueles guardas de segurança... Os putos estão olhando o gelo. Se eu quisesse matar Yazov...

¯  Ouvi dizer que não seria má idéia ¯ observou o terceiro homem. ¯ O diretor-geral...