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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


O CASAMENTO IDEAL / Sara Wood
O CASAMENTO IDEAL / Sara Wood

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

O CASAMENTO IDEAL

 

DIMITRI ANGELAKI cruzava as pernas fortes enquanto seu iate se aproximava do pequeno porto pesqueiro de Olímpia, cortando o mar azul com o casco branco e impecavelmente limpo. Cantarolava uma antiga canção grega de amor com a voz rouca, celebrando sua paixão pela vida e pelo amor.

Tinha sido um dia estranho, de contraste entre prazer e ansiedade. Dia em que todos os seus sentidos foram saciados — e todos os seus nervos postos à prova.

Observando a paisagem, permitiu-se um momento furtivo de pra­zer e passou os olhos pelo corpo incrível de sua esposa, com a pele divina e dourada que brilhava no banco luxuoso de couro. Para sua felicidade, ela vestia um biquíni minúsculo: três pequenos triângulos azuis, mal cobrindo a essência da sua feminilidade.

A luz ofuscante do sol transformava seu cabelo em chamas bran­cas soltas sobre os ombros, fazendo-o sentir um aperto no peito ao se lembrar por onde aqueles cabelos haviam passado naquele dia, desli­zando sobre a parte mais sensível do seu corpo numa dança erótica que o levou além do paraíso.

Sua boca marcante curvou-se sensualmente e sentiu seu sexo pul­sar. Aquele era o prazer do sexo com Olívia. Primeiro, a expectativa: olhares quentes que o faziam perder a cabeça, mensagens de desejo e ardência nos olhos azuis da cor do mar. Depois, assim como o sol segue a lua, vinha o ato de amor sem pudor, selvagem, carinhoso — mas sempre pleno e despressurizando a válvula de calor daquela pai­xão mutua.

Um gemido de prazer crescia na garganta e suas mãos tremiam quando conseguiu voltar sua atenção para o leme e retomar uma linha reta. Ela sempre atingia o seu íntimo e Dimitri adorava isso porque o fazia sentir vivo e viril.

Às vezes sentia vontade de socar o ar depois de fazer amor, e gritar como um menino que acaba de marcar um gol. Riu sozinho. Ele, um empresário bem-sucedido, conhecido e admirado no mundo inteiro por manter a calma sob muita pressão! Mas os encontros de negócios não o excitavam tanto quanto aqueles encontros perfeitos com sua esposa. Infelizmente, seu trabalho o tirava muito de casa, e a natureza hiperativa de sua agenda lotada impedia que Olívia viajasse com ele.


Naquele dia, tinham ancorado para nadar nus no mar límpido e azul. Depois, fizeram amor num campo de limoeiros, com o aroma pene­trante de centenas de árvores floridas que completavam seu delírio,

Era surpreendente como ainda podia sentir o toque emocionante dos dedos de Olívia na sua boca, garganta, peito... Em tudo o mais. Cada centímetro dele pulsava com vida, carregando a impressão dela. Fora uma das experiências mais sensuais em todos os seus trinta e dois anos de vida.

Tudo teria sido perfeito — se não fosse sua crescente preocupação com Athena. Sua testa bronzeada estava franzida, e ele queria que Athena ligasse do hospital e dissesse que estava bem. Com a tensão que o consumia, as memórias daquele dia ficavam comprometidas. Mas era compreensível. Ele amava Athena com todo o seu coração...

Olívia suspirou quando escutou o toque do celular de Dimitri, que naquele dia estava tocando mais que o normal, e ele se recusava a desligar.

— Magnatas gregos — dizia, pomposo e pretensioso, referindo-se a uma piada entre eles — precisam manter contato com seus empre­gados.

— Então encontre um empregado a quem possa delegar — teria protestado, se não fosse interrompida pelo beijo firme que a aquietou e a deixou sem ar.

Porém, analisando a situação, poderia ter sido mais objetiva. Aquela devoção obsessiva pelo trabalho tinha sido um problema por algum tempo. Quando ele estava fora, e ela ficava somente com a sogra, Marina, que não a desejava como companhia, sentia-se com­pletamente solitária e infeliz. Sua insegurança e suas dúvidas sobre os verdadeiros sentimentos de Dimitri eram dolorosamente instiga­das pelos comentários maliciosos de Marina sobre as longas ausên­cias de Dimitri.

Olívia cerrou os punhos. Desde o dia do casamento, seis meses antes, Marina a provocava.

— Todos os homens gregos têm amantes — dizia Marina. — Não pense que meu filho é diferente.

Uma amante. Isso explicaria a falta de consideração dele? Mesmo esta viagem tão esperada ao antigo teatro grego em Epidauro fora arruinada pelo descaso dele. Suspirou. Poderia ter sido deliciosamen­te romântico. Dimitri tinha demonstrado a acústica do teatro de du­zentos anos sussurrando "Eu te amo" do meio da arena, bem longe.

Espantosamente, ela ouvira cada sílaba apaixonada do lugar em que estava sentada, 44 fileiras acima.

Encantada, chegou a se levantar para jogar-lhe um beijo. Infeliz­mente, justo naquela hora ele recebeu outra de suas irritantes ligações e correu para fora da arena para que ela não pudesse bisbilhotar a conversa.

Lembrando-se do quão ofendida ficara e com os olhos brilhando de raiva, enroscou-se nos bancos luxuosos do iate e encarou Dimitri.

Embora ele estivesse de costas, ela viu a tensão no corpo dele quando o telefone tocou. E agora que estava envolvido numa conver­sa séria, Olívia imaginava o motivo do alívio que se refletia nos mús­culos relaxados que conhecia tão bem. Algo estava acontecendo.

Sentiu um aperto no coração. Ele estava quase acariciando o tele­fone. Olívia mal conseguia respirar. Talvez sua sogra estivesse certa.

Mesmo assim, Dimitri não conseguia tirar as mãos dela. Desde o tempo em que se tornara secretária dele, há dois anos, quando tinha vinte e quatro anos, eram loucos um pelo outro. Perdiam a cabeça quando se entregavam aos sentimentos intensos que os acometiam.

Pensar naqueles momentos maravilhosos de paixão fez com que Olívia se acendesse de desejo. Fechou as coxas finas e pressionou fortemente as pernas pára controlar o calor pulsante que começara a massageá-la num ritmo irresistível.

Imersa num desejo desamparado pelo corpo de Dimitri, percebeu que a pressão de seus seios sobre o biquíni se tornara insustentável.

Olhando para ele, percebeu seu riso. Os ombros dourados se agita­vam contentes enquanto murmurava palavras íntimas ao celular mi­serável.

Um ciúme dilacerante a tomou, Dimitri era dela! Alma e corpo, mente e coração! Sentiu um medo imediato de suas suspeitas irracio­nais e, arrependida, levantou-se, parou ao lado dele e envolveu seus braços na pele quente e suave de seu quadril fino, num gesto de remorso, pressionando a ponta dos seios contra as costas dele de maneira provocante.

Dimitri pulou de susto, como se tivesse sido pego numa embosca­da, gemeu algo breve e incompreensível em grego — que pode ter sido "vejo você amanhã", embora entendesse muito pouco o grego — e, com um "Adeus!" apressado, desligou.

Sob suas mãos, o coração dele batia rápido e alto. Será que estava com medo?, ela se perguntava. Talvez tivesse uma amante. Passava tanto tempo fora de casa por causa do trabalho que poderia ter mil amantes!

Porém, quando se virou, seus olhos estavam embevecidos de dese­jo. Puxando o corpo esguio contra o dele, pele com pele, beijou-a de maneira lenta e decidida. Uma das mãos tentava desligar o motor enquanto a outra desamarrava o laço do biquíni.

Estava tomado de excitação. Explodindo de desejo, sedento. En­quanto ela se deleitava na virilidade rígida dele, não parava de pensar se era tudo para ela ou para a mulher no telefone.

— Quem era? — indagou e teve medo da resposta, o que a fez franzir a testa.

Deitaram-se no chão era meio ao delicioso perfume do pequeno ramo florido do limoeiro que havia tirado para fazer uma coroa para ela. Sua boca maliciosa mordeu a pele dourada da garganta dela antes de responder, com a voz rouca e sem pressa:

— Um amigo.

Mas para uma mente desconfiada, aquilo soou muito casual. Além do mais, ele não olhara em seus olhos.

— Eu o conheço? — perguntou, com uma indiferença ainda mais forçada.

Houve uma breve hesitação, porém longa o suficiente para ela perceber que seria econômico com a verdade.

— Não. Esqueça, minha querida. Que tal se concentrar no que pretendo fazer com você?

Ela cerrou os lábios, mas ele os separou facilmente com a língua. A magia dos dedos másculos agia com sedução e tentação enquanto calava os suspiros da desconfiança e garantia o esquecimento. A glo­riosa entrega do seu corpo começava. Sussurrando com a voz rouca no seu ouvido e descrevendo com detalhes o que planejava, Dimitri conduziu-a gentilmente à aconchegante proa do barco.

Corno amante, ele era insaciável. Às vezes, sua ânsia a assustava, mas ela também sabia ser selvagem e fogosa. Havia ocasiões, como hoje, em que os carinhos de Dimitri preenchiam todo o seu coração e seus pensamentos, proporcionando-lhe um prazer sem fronteiras.

Olívia perdeu o controle quando os dedos provocantes de Dimitri deslizaram de maneira habilidosa e suave para dentro do poço molha­do do seu sexo, cheio de prazer e de sensações. Ele realmente a ama­va, pensou num instante de êxtase. Afinal, tinha se casado com ela.

Naquela noite, na companhia da estrela maior, vermelha como se flamejasse no espaço em crepúsculo, ela, Dimitri e a recém-viúva Marina estavam sentados, tomando o forte café grego no terraço da mansão de Dimitri e admirando a vista da baía de Olímpia.

Marina tinha uma expressão amarga desde que haviam retornado colados um ao outro como mariscos, depois de terem passado o dia fora. O coração de Olívia tinha se enclausurado no mais profundo do seu ser ao avistá-la. Não era fácil viver com uma sogra hostil! Ainda assim, sabia o quanto Marina estava sozinha desde o recente faleci­mento do marido. Sentira a mesma solidão quando seus pais morre­ram num acidente de moto na estrada.

— É um lindo pôr-do-sol — disse Olívia, tentando aliviar o am­biente.

— Sempre é — foi a resposta amarga que recebeu. — Creio que amanhã vocês dois me deixarão sozinha novamente. Lembrei que farão compras em Atenas.

— Ah — Dimitri pousou sua xícara no pires.

Pelo olhar, Olívia sabia que ele cancelaria a viagem. Esta seria a terceira vez depois de ter dito que não a desapontaria novamente.

— Negócios, não! — protestou. Ele pareceu um pouco irritado.

— Uma reunião... perto, mas não posso evitar. E depois disso, terei de viajar para Tóquio por uma semana. Desculpe-me. Eu a com­pensarei. — Seu sorriso foi superficial, como se seus pensamentos estivessem em outro lugar. — Quando retornar, com certeza iremos às lojas e estouraremos nossos cartões de crédito.

— Não sou uma criança para ser subornada e se aquietar — disse, magoada. Ele partiria mais uma vez. A tristeza pesava em seus om­bros.

— Não é. Mas isto é importante. Por falar nisso — disse, levantando-se —, tenho de fazer algumas ligações para preparar a reunião.

— Empregados — resmungou ela.

Dimitri parou enquanto se encaminhava para a porta. Estava ansioso para ligar para Athena e saber se as falsas contrações tinham realmente passado e não tinha recebido bem o ressentimento de Olívia.

Virando-se ligeiramente, ele a encarou. Olívia não entendia. Ti­nha tudo: dinheiro, marido e segurança. Por outro lado, a pobre Athena tinha tão pouco — mas ele asseguraria que não passasse necessi­dade. Ele mesmo tinha conhecido a pobreza e o medo angustiante que a acompanhava. Quando nascesse — a qualquer momento —, o filho de Athena carregaria o sangue dos Angelakis nas veias. Dimitri pro­tegeria a ela e à criança mesmo que não tivesse prometido ao falecido pai que assim o faria.

Athena dera a Theo, seu pai, o amor e o carinho que faltavam no casamento. Dimitri tinha visto a felicidade de seu pai com sua jovem amante e, mesmo com os sentimentos confusos, estava feliz por ele. Mas manteria a promessa de nunca contar à mãe para que não sofres­se com a verdade humilhante. Era uma questão de honra — e respeito pelos sentimentos da mãe.

Preocupado com a necessidade imediata de conforto e segurança por parte de Athena, irritou-se com a aparente insatisfação de Olívia com a vida.

— Lembre-se de que graças ao meu trabalho árduo você pode aproveitar a minha riqueza — disse, com raiva, e rumou para dentro da mansão.

Calada depois daquelas palavras injustas, Olívia endireitou-se na cadeira e bebeu um gole de café. Queria Dimitri, e não seus milhões. Até seu casamento, ela sempre trabalhara, tinha sempre algo que ocu­passe sua cabeça. Agora experimentava o tédio pela primeira vez na vida, esperando ele voltar para casa dia após dia.

Aquilo não era saudável. Não é de admirar que não desgrudara dele depois do retorno da última viagem. Seu grego não era suficiente para trabalhar e lhe dar algo mais interessante — e Dimitri também não permitiria.

Marina cuidava da casa, e os jardineiros, do gramado, portanto, tudo que restava a Olívia era visitar locais turísticos e fazer compras. E aguardar que ela e a casa inteira voltassem à vida com o retorno de Dimitri.

O paraíso, ela refletia, tem seu lado obscuro. Contemplava, infe­liz, a vista milionária. O sol, agora uma fornalha amarela, baixava no horizonte. Por alguma razão, estava quase chorando. E sentiu uma súbita saudade dos amigos.

— Minha querida! — exclamou Marina, com uma falsa preocupa­ção. — Sua primeira briga!

— Somos pessoas intensas — disse Olívia calmamente.

— Dimitri não gosta que nenhuma mulher discuta com ele.

— Ele sabe com quem se casou. Trabalhamos e dormimos juntos durante dois anos — lembrou a Marina. — Ele adora a minha inde­pendência; adora quando o enfrento.

— Oh, naquela época podia ser — continuou Marina. — Mas agora você é esposa. Ele quer obediência.

— Ele pode querer o que quiser — disse Olívia, esgotada.

— Então deve saber que ele se interessará por uma mulher mais branda e agradável. Como a amante dele. Aposto que é para onde ele irá agora — argumentou Marina, com satisfação.

— Amante? Ele não teria energia suficiente para satisfazer outra mulher — disse Olívia, numa honestidade incomum, atingida pela provocação de Marina.

A velha mulher pressionou os lábios, desaprovando um conheci­mento tão íntimo.

— Meu filho é mais homem do que imagina. Darei o endereço dela. Acho que o nome é Athena. Você pode tirar suas próprias con­clusões.

Olívia sentiu um frio na barriga. Aquilo foi dito com tanta certe­za... Por favor, não, ela pensou. Não agüentaria. De repente, sentiu que deveria sair de perto de Marina.

— Vou me deitar. Boa noite.

Tremendo de apreensão, dirigiu-se à suíte principal, onde encon­trou Dimitri estendido sobre a ampla cama, rindo e murmurando ao telefone. No momento em que a viu, cortou a ligação rapidamente e ela sentiu uma terrível dor em todo o corpo.

Encararam-se como dois boxeadores no ringue. Olívia percebeu o desapontamento dele antes que pulasse da cama e passasse correndo por ela.

— Aonde você vai? — perguntou, odiando a si mesma por parecer uma esposa dependente.

— Sair.

— A esta hora?

Oh, que idiotice! Mas agora entendia por que as mulheres agiam assim. Não confiavam nos maridos. E geralmente tinham razão.

Ele a olhou fixamente, chegou a tremer os lábios e quase contou a verdade. Mas engoliu as palavras que estavam na ponta da língua e disse, ríspido:

— A esta hora.

E sumiu antes que perdesse o controle.

Olívia ficou parada no meio da suíte luxuosa, dona de tudo que estava à vista e co-proprietária daquela mansão e de todo o seu valio­so conteúdo, de uma cobertura em Atenas com vista para a Acrópole, de uma casa no estilo georgiano na praça de Berkeley, de um iate, um avião particular e aparentemente inúmeros títulos. Ainda assim, nun­ca se sentira tão pobre, tão afastada de tudo o que mais valorizava.

A riqueza e suas conseqüências eram o mesmo que nada sem o amor de Dimitri. Se ele não a amasse, ela não teria nada. Olhou para suas mãos trêmulas. O enorme diamante no anel de noivado cintilava como se zombasse dela. O colar de diamantes, desenhado para ser um campo de margaridas brilhantes em seu pescoço, subitamente parecia uma coleira de escrava.


Ela era a esposa. Uma propriedade. E, de acordo com a cerimônia do casamento, deveria adorar e respeitar seu marido. Franziu a testa quando se lembrou de que ele fora instruído a amá-la como se fosse parte do próprio corpo. Era isso. Ele tinha de decidir se a amava ou não. Ela não seria usada como um mero objeto sexual ou uma gerado­ra de filhos Angelakis enquanto ele brincava por aí. Em momentos como este, o que restaria era afundar ou nadar, e ela nunca afundaria.

Cerrou os lábios de maneira determinada. Se ele tivesse uma amante, ela o deixaria; não o partilharia com outra. Amanhã, engoli­ria seu orgulho e pediria o endereço a Marina.

Nenhum homem a faria de tola nem a usaria apenas para satisfazer seu apetite sexual. Era melhor ter uma vida sem Dimitri do que isso.

Olívia notou que o ramo do limoeiro colocado na concha do ba­nheiro havia secado e morrido. Seria um sinal? Viu o reflexo de seus olhos azuis da cor do mar e de sua boca fina no espelho barroco: o enorme problema era real. A esta hora, amanhã, poderia estar no avião voltando para a Inglaterra.

 

FAZIA TRÊS anos que estivera em Atenas pela última vez. Três intermináveis anos desde que deixara Dimitri depois de destruir o quarto num ataque de raiva, arremessando objetos valiosos como se fossem suvenires baratos. Embora não tivesse contribuído em nada para amenizar sua dor.

Ele a traíra. Vira com seus próprios olhos. Marina a levara a um vilarejo próximo à antiga Micenas, onde testemunhou o momento exato em que Dimitri, carinhoso com a amante, a conduzia até entrar no carro.

Sua amante enormemente grávida. Por um momento, não conse­guiu respirar, tamanho o choque. A mulher estava obviamente en­trando em trabalho de parto. Aquela cena a magoara demais. Preferia ter visto os dois nus na cama. Vê-lo tão cuidadoso com a mulher que daria a luz a seu filho era infinitamente pior.

— Acredita em mim agora? — indagou Marina.

Quando saíram dali, Olívia sabia que jamais se esqueceria da trai­ção do marido.

Ficou arrasada. Quando chegaram em casa, Marina lembrou-a de que Dimitri deveria estar a caminho de Tóquio.

— Vá para casa — sugeriu Marina. — Vá viver com as pessoas que a amam.

— Sim — sussurrou ela, desesperada por um abraço carinhoso. — Preciso dos meus amigos.

O bilhete que deixara para Dimitri tinha sido breve, mas profunda­mente sentido. "Quando não há amor num casamento, é um erro mantê-lo." Uma pequena parte dela ainda esperava que seu casamen­to pudesse ser salvo. Talvez ele fosse até a Inglaterra para se descul­par e implorar por perdão, de maneira que pudessem recomeçar.

Mas ele não fizera nenhum contato. Era como se alguém tivesse apagado uma luz dentro dela. Os homens pareciam sombras pálidas comparados a Dimitri. A Inglaterra era mais cinza do que se lembra­va, e a vida era menos exuberante. A vida grega e um certo grego em particular tinham preenchido todos os seus desejos, mas ela tinha de ir em frente. O divórcio era o primeiro passo.

— Como está se sentindo? — Paul Hughes, seu advogado e ami­go, tentou, num gesto solícito, alcançar sua mão.

Ela evitou, sob o pretexto de ajeitar os cabelos.

— Pronta para a batalha — respondeu, seca.

— No próximo mês, você poderá ser uma das mulheres mais ricas e poderosas da Europa! — vibrou Paul.

Dinheiro e poder. Era só isso que interessava aos homens? Por que não priorizar o amor, como as mulheres? Recostou-se no assento, perdida em seus questionamentos.

Com as mãos trêmulas, Olívia encarava a nuca do chofer, reunin­do o máximo de coragem ao provocar, com raiva e frieza, as lembran­ças do terrível momento em que seu amor por Dimitri havia se despe­daçado.

Em seu iate, ancorado próximo ao porto de Pireus, Dimitri lidava com seus e-mails, despachando instruções para os corretores imobi­liários espalhados pelo mundo inteiro. Os negócios estavam bem — não podia ser diferente, uma vez que destinava dezoito horas por dia ao trabalho nos últimos três anos.

Afastando seu metro e oitenta de músculos tonificados da cadeira apertada, saiu da mesa, incapaz de se concentrar e de continuar senta­do como um leão enjaulado por mais um minuto. Olhou para o reló­gio impacientemente. Em dez minutos, ela estaria aqui.

Ela não saía de sua mente desde o telefonema. O cheiro do seu corpo, o olhar provocante quando o abraçava, fisgando-o em sua teia sedosa.

— Quero o divórcio — dissera Olívia friamente, dois dias antes.

— Venha buscá-lo — respondeu e desligou o telefone.

Ficara sentado, sem se mover, durante uma hora, soltando vapor. Tinha tantas perguntas na ponta da língua. Onde esteve? Por que fugiu como uma covarde? Por que, afinal, se casou comigo — pelo sexo e pelo dinheiro, como todos me disseram tantas vezes até eu duvidar dos nossos melhores momentos? E a pior pergunta: em al­gum momento você se importou comigo?

Fitava o mar reluzente e se perguntava por que ela havia esperado para pedir o divórcio. Talvez tivesse medo da reação dele. E com razão. Embora sua mãe dissesse que ela estava sem dinheiro, isso era estranho, pois a pensão que depositava mensalmente na antiga conta conjunta era mais que generosa.

As vezes, acordava no meio da noite e se imaginava colocando suas mãos em volta do pescoço macio de Olívia e enforcando-a. Ou jogando-a no chão e...

Tinha repulsa por si mesmo. E vergonha dos próprios sentimen­tos. A natureza animal de sua fúria o aterrorizava. Acreditava ser um cavalheiro, mas Olívia o reduzira a seus instintos mais primiti­vos. Estava tomado pela raiva, pela vingança e por desejos desgo­vernados.

Seu punho bateu na mesa com tanta força que tudo à volta balan­çou. Seus olhos flamejavam. Ele estava pronto.

Subiu três degraus de escada por vez, em largas passadas, e che­gou ao convés, onde encontrou Eleni, filha de seu sócio. Estava ali havia tempo demais. Ele concordara em trazê-la, sob a pressão insis­tente de sua mãe, naquela viagem pela costa.

Com a mente constantemente voltada para Olívia, ele era péssima companhia. Eleni o havia irritado além da imaginação. Menina de­mais. Muito grudenta e com os olhos brilhantes. E, aos dezenove anos de idade, nova demais para ser uma companhia para qualquer coisa. Pobre criança.

Respirou fundo para acalmar os nervos. Seu encontro com Olívia teria de ser decidido e breve. Seria um golpe de misericórdia para um casamento que morrera com a breve confissão de que Olívia não o amava.

— Hora de ir — anunciou, num tom seco e autoritário. — Você tem o compromisso de almoçar com seu pai.

Contrariada, Eleni se levantou. Vestia um biquíni minúsculo so­bre o corpo bronzeado e voluptuoso, aumentado com silicone; seus cabelos louros soltos sobre os ombros traziam fortes lembranças do último dia que passou com a esposa.

Odiando recordar um segundo daquele dia ilusório, travou as mandíbulas com raiva. Era a memória dos últimos momentos perfei­tos que passaram juntos. E o tempo todo, mesmo durante o sexo, ela devia estar planejando sua partida. Rangeu os dentes, numa fúria incontrolável.

Olívia o havia enganado, e isso era imperdoável.

Para ela, o relacionamento tinha sido somente mentiras, luxúria e cartões de crédito. Quanto às mentiras, poderia apagá-las com des­prezo. A conta bancária poderia pagar suas despesas — que ele havia estimulado, admitia, deliciado em vê-la vestida com as fabulosas criações dos melhores estilistas. Além de adorar despi-la. Sua mão tremia só de pensar.

Mas quanto à luxúria... Era uma perda insuportável. Desesperado para esquecê-la, fez amor com várias mulheres provocantes, mas ne­nhuma chegava aos pés de Olívia. E ficava desesperado só de pensar que ela era incapaz de viver sem sexo. Passara muitas noites imaginando-a com outro homem.

Eleni se esticou e beijou seu rosto. Sua boca macia pareceu pres­sionar mais firme que o normal e percebeu que seus medos eram reais. Ela estava definitivamente se oferecendo para ser sua futura esposa.

Amaldiçoou internamente o carro que se aproximava do lugar em que o iate estava ancorado. Tinha se enganado quanto à duração da viagem.

— Minha esposa chegou — disse, ríspido. — Vista-se e fique fora de vista. Vá!

Ele a escutou bufar irritada quando saiu sem nenhuma pressa. Li­vrar-se de uma esposa era uma coisa. Adquirir a futura quando a assinatura nos papéis do divórcio ainda nem tinha secado era outra.

Assim que o carro entrou na marina, Olívia identificou imediata­mente o iate luxuoso de Dimitri — e sua figura altiva e arrogante em pé no convés. Seu coração disparou assim que o viu.

Mas diminuiu o ritmo quando viu sua companheira: uma loura aguada, com os cabelos iguais aos dela e vestindo um biquíni minús­culo, balançando os quadris vagarosamente em direção a ele, beijan­do seu rosto e murmurando algo sedutor ao pé do ouvido. Havia algo familiar nela que não descobriu, como se já a conhecesse. Talvez de alguma festa na época em que estava casada...

— Que bela bonequinha — comentou Paul.

Os olhos de Olívia reviraram, fazendo pouco caso. Mas se enfure­ceu silenciosamente. Estavam prestes a discutir o divórcio, e ele que­ria exibir sua última conquista para demonstrar que pouco se impor­tava!

Ela também não se importava.

— E uma das bonequinhas de Dimitri. Aquele é o barco dele, provavelmente sua mulher mais recente, e é ele que está no convés — disse, orgulhosa por não tremer a voz.

— Uau. Quantos milhões vale aquilo? — Impressionado, Paul fixou o olhar no iate luxuoso, e com mais cuidado na presença intimidante de Dimitri.

— Não tenho idéia, mas ele trabalhou para ganhar cada centavo — disse brevemente. — Levantou-se sozinho do nada, passou de filho de camponês a empresário bem-sucedido. Trabalhava dia e noite sem cessar, quebrando a cabeça contra a concorrência e as adversidades, e chegou ao topo com objetivo, determinação e uma forte perso­nalidade.

— Você fala como se admirasse até as calças dele — comentou Paul, insinuando algo mais.

Sentindo-se insultada, fitou o advogado com os olhos brilhando e disse:

— Detesto cada fio de cabelo dele! Prefiro deitar num cubículo cheio de cobras venenosas e virar comida de rato do que ficar numa sala com ele!

Olívia retomou o fôlego e controlou sua irritação. Precisava ficar calma e séria. Na privacidade de seu pequeno apartamento, tinha ensaiado as palavras certas até ficar rouca.

Quando chegou à parte mais alta do portal, esperou, altiva e ma­jestosa, que Dimitri fosse até ela. De maneira irritante, ele continuou parado feito rocha, com seu jeito convencido, as pernas afastadas e plantadas no chão, cabelos negros e o brilho dos olhos basálticos.

Chamas esquecidas começaram a incendiar cada vez mais seu cor­po. Para seu desalento, teve aquela maravilhosa e ardente sensação de embrulho no estômago. Percebeu que o desejo por ele ainda existia, espalhando-se como uma doença.

Abafou deliberadamente sua emoção, mas continuou atraída pelo magnetismo de Dimitri, a força do seu tronco sob a camisa branca impecavelmente limpa por dentro da calça cor de areia* além da in­tensa virilidade daquela boca cínica que costumava percorrer seu cor­po inteiro tão livremente e com um efeito tão devastador.

Usando os óculos como escudo, ela o examinava a distância. Per­cebeu o ar de riqueza que ò cobria, além da elegância — em oposição ao jeito desleixado de Paul, vestido às pressas e sem capricho.

Um pedaço de mau caminho. Extremamente másculo e com uma aparência selvagem e magnética, ainda conseguia tocá-la profunda­mente e inebriar seus sentidos.

Dimitri era um poderoso invicto, um homem cuja personalidade e vitalidade ocupavam um salão e atraíam todos os olhares. Um ho­mem raro.

O ar fugiu de seus pulmões, sua boca ficou seca. Paul, talvez pen­sando que ela estava nervosa, apoiou a mão nas suas costas e a impul­sionou para a frente. Ela teve de escolher entre seguir com aquele impulso ou tropeçar, e naturalmente optou por se mover — mas, em silêncio, amaldiçoou Paul por dar vantagem a Dimitri.

— Este é Paul Hughes, meu advogado — disse friamente e sem titubear.

Com os olhos zombando dela, Dimitri fez um gesto frio e indife­rente com a cabeça e virou-se para alcançar uma toalha no convés, ignorando completamente a mão estendida de Paul.

Fervendo de irritação, pois nada parecia acontecer da maneira como planejara, fitou a nuca de Dimitri. O cabelo negro e brilhante tinha sido cortado com a precisão habitual, formando uma moldura na faixa de pele bronzeada que contrastava de maneira provocante com a gola de sua camisa feita a mão. E as costas... Seu corpo reagia em diversas partes ao contemplar aquele triângulo irresistível...

Que agora pertencia a outras mulheres. Aquela loira extravagante o aguardava lá embaixo, talvez esperando que os dedos sensíveis de Dimitri a levassem a um deleite frenético de prazer. Uma terrível onda de ciúme dilacerou seu peito.

Escutou Paul pigarrear e pulou com os dois pés para dentro do barco. Disparou seu primeiro comentário antes que o advogado tives­se chance de falar. Infelizmente, o que saiu não era o que tinha inten­cionado, mas uma pergunta que tinha de ser feita antes que a quei­masse e destruísse a postura de dama que deveria manter na conversa.

— Aquela que vi há pouco era sua secretária? —perguntou cal­mamente.

Foi imediatamente transportado ao passado. Viu Olívia entrando no seu escritório para ser entrevistada para o cargo de secretária. Esbelta e formosa, transpirava sensualidade mesmo num modesto terninho bege com blusa creme e com uma postura apropriada. Mas seus olhos o encantaram, profundos e misteriosos como o mar. E sua boca, com o arco superior acentuado e a parte de baixo carnuda, o levara a imaginar como seria tê-la ajoelhada a sua frente com aquela boca macia sugando-o e se lambuzando, seus cabelos claros e finos entre seus dedos...

Nunca se esqueceria da entrevista, durante a qual tinha ficado tão ardente que teve de abrir as janelas e pedir uma garrafa de água bem gelada. Dali em diante, sabia que não importavam suas habilidades profissionais; ele tinha de tê-la.

Surpreendentemente, ela era tão eficiente quanto bonita. Imagens dela como sua secretária inundavam sua mente. A palpável tensão durante os momentos em que ela anotava seu ditado apressado. De repente, viu-a se esparramando sobre a mesa, seus olhos e seu corpo fabuloso seduzindo-o enquanto ele tirava lentamente as roupas dela, tremendo dos pés à cabeça.

Sua mandíbula enrijeceu e sentiu um aperto no peito. Chega. Esta­va tudo acabado. Virou-se, apertando os olhos enquanto enterrava as mãos nos bolsos em um gesto agressivo.

Conheço seu jogo, ele pensou. Havia utilizado o mesmo jogo mui­tas vezes em seu trabalho para não reconhecê-lo. Desarme seu adversário. Tire-o do eixo de equilíbrio. Encontre seu calcanhar-de-aquiles. E ela sabia bem demais que o sexo entre eles era tão incrível que a mera recordação o incendiaria em poucos segundos.

O mesmo, pensou sem piedade, servia para ela. Ele também sabia jogar e, desta vez, estava disposto a ganhar.

— Não. Não é... minha secretária — murmurou, lançando-lhe um olhar fixo e cheio de memórias.

A força daquela voz preencheu o espaço entre os dois com resso­nâncias provocantes. A curva da boca de Dimitri prendeu o olhar de Olívia, e ela teve de disfarçar o calor interno que a tomava.

— Uma qualquer, então — disse, com desprezo.

Teria percebido uma pontinha de ciúme?, perguntou-se Dimitri. Um certo prazer debochado brilhou nos olhos sedutores de Dimitri. Ela não havia reconhecido Eleni. Por outro lado, Olívia conhecera a menina antes de ela ter aumentado o busto até o desproporcional tamanho atual, tingido o cabelo e gastado uma parte da fortuna do pai numa lipoaspiração.

— Na última vez em que a vi, era um mulherão — respondeu, curvando a boca num gesto sexy e malicioso, num típico deleite mas­culino.

E deixou o olhar perdido e contemplativo. Antes que ela pudesse protestar, ele tirou seus óculos escuros, colocando-os no bolso. Ago­ra poderia ver os olhos dela. Sorriu quando os viu.

— Preciso ver a sua alma — explicou.

Olívia lançou-lhe um olhar penetrante, mesmo com o punhal do ciúme cravado no peito. Dimitri era o homem mais sensual que já tinha conhecido. Ocorreu-lhe que talvez ele sempre a tivesse traído, mesmo no início do relacionamento, pois era um homem de grandes paixões e de intensas necessidades sexuais.

Será que Athena sabia dessa loura — ou ele já a abandonara para procurar novos pastos? Sua cabeça girava. Este era o homem com quem se casara — aparentemente um homem com a moral de um cachorro de rua. A lembrança de ter sido enganada sem nenhum es­crúpulo provocava-lhe dor e embrulhos no estômago. Havia momen­tos em que decidia se torturar e pensava nele brincando com o filho.

Seus olhos brilhavam como bolas de vidro azul em sua face dissi­mulada.

— Você é um chauvinista de marca maior quando se trata de mu­lheres — foi tudo o que conseguiu dizer dentro da frieza que tanto se esforçava para manter, e sem revelar o quanto estava despedaçada.

— Olívia... — começou Paul, meio sem jeito.

— Deixe-me falar! — Olívia recusou a intervenção, passando à frente de Paul de modo tão brusco que ele foi forçado a dar um passo para trás e levantar as mãos como se estivesse rendido, chocado pela veemência dela.

Naquele momento, Dimitri percebeu que Paul jamais satisfaria uma mulher como ela nem por um segundo. Olívia gostava de ho­mens fortes e intensos, capazes de domar sua natureza fogosa e trazer calma e serenidade para sua vida. Paul poderia tratá-la com Afrodite, a deusa grega do amor, mas a entediaria em pouquíssimo tempo.

Com a cabeça trabalhando a todo vapor, começou a planejar e arquitetar. Havia muitas coisas que precisava saber, e isso levaria tempo. Primeiro, precisava se livrar do advogado. Depois, comunica­ria a ela que deveria residir na Grécia durante o processo do divórcio.

Dimitri sorriu. Viraria Olívia do avesso para ter as respostas que queria para todas as perguntas que deixara de fazer nos últimos três anos e que o atormentavam. Feito isso, encontraria um jeito de impe­di-la de usar suas garras no próximo homem desavisado. Talvez uma ameaça. Uma cláusula no divórcio proibindo-a de se casar durante os próximos anos... Ele inventaria algo. Sempre o fizera.

Olívia não sabia o que estava por vir. Estava nas mãos dele.

 

— VOCÊ quer o divórcio, eu compreendo — disse ele de maneira bastante amável, e apontou para a espreguiçadeira com um gesto au­toritário.

Com um movimento gracioso do corpo esguio, Olívia recostou-se na almofada fina sem perceber que, assim, ela e Paul estariam em desvantagem por estarem sentados. Dimitri parecia uma torre incli­nada sobre eles, dominando-os, satisfeito com a própria esperteza.

Ela queria bater nele.

— O mais rápido possível — concordou, com um sorriso que derra­mava mel. — E com o mínimo de contato com você — disse, ácida.

Arrebatada pela intensa e rebelde vontade de fazê-lo perder o con­trole, tirou as sandálias de salto alto e esticou os dedos dos pés, fazen­do com que a pele rosada brilhasse sob a luz do sol. Depois, acomo­dou-se e desabotoou a jaqueta antes de levantar seus braços por trás da cabeça, sedutoramente.

Dimitri permitiu-se devorá-la naquele momento. Ao levantar os braços, a curva suave e harmoniosa dos seios se mostrou de maneira provocante no decote da blusa branca enlaçada no pescoço. Delicio­so. Seus sentidos se abalaram. Ela fazia seu joguinho com todas as cartas.

Agachando-se próximo a ela e de costas para Paul, esquadrinhou lentamente o corpo de Olívia com o olhar, percebendo sua resposta, conhecendo bem a força daquelas coxas e contemplando a sensuali­dade exuberante dos bicos dos seios que a traíram ao reagir ao olhar faminto. Ele queria que ela o desejasse — para que pudesse rejeitá-la.

Desejando-a mais que nunca, deixou que seus olhares se encon­trassem. Por um momento, esqueceu-se de onde estava e do que fa­zia. Ela o chamava para dentro de si, guiado por olhos azuis tão doces que diziam tudo que ele precisava saber. Sentiu uma onda de excitação pelo corpo.

Lutando contra a pesada atmosfera que os envolvia, Dimitri lan­çou-lhe um sorriso sedutor e pousou a mão sobre o ombro de Olívia.

— O que está disposta a fazer para me encorajar a obedecê-la? — murmurou, resistindo ao ímpeto de deslizar seus dedos para um lugar mais interessante. Apesar disso, olhava fixamente para as tentadoras curvas dos seus seios e imaginava-os preenchendo a concha de suas mãos.

— O que for pr-preciso — gaguejou ela, e ele ficou extasiado ao vê-la de boca seca e voz trêmula. O toque da ponta da língua dela nos próprios lábios quase impeliu Dimitri a umedecer aquela boca como só ele sabia fazer.

— Você sempre entrou de corpo e alma em todos os seus projetos, não é? — disse Dimitri, em contemplação.

— Olhe — interrompeu o advogado com petulância, atrás de Di­mitri —, podemos ir a um local mais apropriado? Queremos uma lista de suas propriedades...

— Oh! — disse Dimitri com um leve risinho, olhos vidrados nos lábios de Olívia, ligeiramente separados. Lembrava-se do gosto, da maciez dos lábios dela entre seus dentes. Sua voz engrossou com o desejo. — Creio que Olívia sabe tudo sobre minhas propriedades.

— Sei que uma delas fica abaixo do cinto e é uma propriedade pública à mercê de qualquer mulher bonita que passar — disse ela, em tom crítico.

Dimitri lançou-lhe um sorriso sarcástico, e seus olhos negros pa­receram se mover com malícia, fazendo-a se morder de desejo. Seus dedos apertavam o ombro de Olívia, num gesto possessivo.

— Não consigo resistir à minha virilidade. Nosso sexo era extraor­dinário, não era? — murmurou. — Continentes inteiros se moviam. Chamas cobriam nossos corpos...

— Olhe aqui! — começou Paul, irritado e vermelho por desapro­var aquela atitude.

— Venha. — Dimitri levantou-se rapidamente e tirou o advogado da cadeira e do convés antes que pudessem perceber o que estava acontecendo.

— Dimitri! — gritou Olívia, irritada, levando as pernas até o chão.

Tudo estava arruinado. Durante horas praticara o que diria, esco­lhera cada palavra para fazer uma análise fria do caráter doentio de Dimitri. Para nada. Ele a transformara em um conjunto indefeso de hormônios simplesmente ao olhá-la. Ela trincou os dentes e fechou os punhos com raiva.

— Não se preocupe, Voltarei logo — falou Dimitri por cima dos ombros, deixando-a fervendo de raiva diante de sua alegria e sua atitude despreocupada.

— Limonada, madame?

Ainda desconcertada, virou-se e viu um homem em um uniforme branco impecável, segurando uma bandeja prateada com uma jarra de cristal e dois copos.

Dois copos! Dimitri deve ter planejado se livrar de Paul...

— Madame?

Sua polidez inata fez com que ela desfizesse a carranca. Sorriu e aceitou com a cabeça.

— Sim. Obrigada.

Ela daria um jeito em Dimitri. Suas necessidades eram poucas — algumas verdades, o divórcio, obrigada e tchau. Olívia deu um gole na bebida refrescante e sentiu sua temperatura baixar e chegar mais perto do normal.

Inquieta, foi até a amurada e fitou o mar. Mil ilhas faziam parte daquele mar e das belezas da Grécia. Sentiu-se invadida por uma nostalgia no coração e na alma. Se ao menos ele não a tivesse traído. Daria tudo para voltar a viver nesta linda parte do mundo.

Fechou os olhos e sonhou com o promontório do Olimpo que flutuava no mar azul-safira na costa do Peloponeso — uma península extensa ao sul de Atenas. No Olimpo, casas brancas e azuis eram cercadas de oliveiras e videiras.

A luz deslumbrante dava às praias e às clássicas ruínas uma clari­dade surpreendente. Nada era moderado ou suave. Tudo era repleto de paixão, risos e dramas. E Olívia, com suas paixões explosivas, se sentia em casa. As pessoas eram receptivas ao extremo...

Ela franziu o cenho. Receptivas até demais, principalmente quan­do se tratava de Dimitri! Onde estava ele, afinal?

— Olívia, perdoe-me por deixá-la.

Ela olhou para trás. Exalando uma energia vital que a deixou sem ar, veio na direção dela. Sozinho. Ela se virou por completo para olhá-lo, e encostou-se na amurada em busca do apoio de que precisa­va desesperadamente.

— Onde está Paul?

Dimitri riu para si mesmo, serviu-se de um copo de limonada e aproximou-se com um passo particularmente gracioso. Acenou com a cabeça para o lado e escutou. Ela fez o mesmo e logo depois identi­ficou o som de um carro sendo ligado. Naquele momento, Dimitri vibrou de prazer e respondeu:

— A caminho de Nova York. Olívia arregalou os olhos e disse:

— Nova... York? — engasgou. E teve certeza de que era o carro de Dimitri que vira sumir em uma curva.

— Mmm. — Ele tomou um prolongado gole que deixou sua boca brilhante e irresistível. Ela inconscientemente lambeu os lábios para umedecê-los e, antes que conseguisse parar, sentiu o olhar dele pou­sar no que fazia e ficou excitada.

— Estava muito entusiasmado.

— Aposto que sim. Por quanto você o subornou? — perguntou ela, em um tom seco, detestando-o.

— Não muito — admitiu alegremente. Seus olhos brilhavam, fa­zendo o coração de Olívia bater mais forte ao se lembrar dos momen­tos felizes que passaram juntos. — O preço de um vôo de primeira classe, hospedagem e todas as despesas pagas...

— Por quê? — questionou ela, odiando-o mais a cada segundo que passava.

Os olhos de Dimitri se arregalaram inocentemente.

— Meu advogado está lá.

— Entendo. Não é porque você acha que pode me manipular en­quanto ele estiver ausente e me fazer concordar com algum esquema ardiloso que tem em mente?

Ao ver a expressão de Dimitri, Olívia percebeu que alguém que visse a surpresa e o horror com que ele reagira poderia acreditar que jamais tivesse havido um homem tão honesto e confiável na face da Terra.

— Que mente pervertida você têm! — contestou ele. — Imaginei que ficaria grata por adiantar a papelada. Os dois podem fazer as listas das minhas propriedades e chegar a um valor conveniente para ambos.

— Eu só quero o divórcio — disse, num gesto impaciente. — Nada mais.

As sobrancelhas de Dimitri se arquearam.

— Você quer dizer... nada de dinheiro? Propriedades? Jóias?

— Exatamente.

— Por favor, não ofenda minha inteligência dizendo que não está interessada nos meus bens — zombou ele. — Nenhuma mulher larga­ria a chance de enriquecer. E nenhum tribunal permitiria que eu a deixasse sem nada. — Seus lábios se curvaram em descaso. — Além do mais, você trabalhou e esperou muito tempo pela sua parte na minha fortuna.

Ela se revoltou.

— O que quer dizer com isso?

— Você lançou sua rede e me pescou — disse ele, com uma voz fria como aço. — Agora veio buscar sua recompensa. Para me livrar de você, estou preparado para lhe dar um bom dinheiro. Sei que ado­raria gozar da independência que isso lhe daria...

— Tenho essa independência em dobro, com ou sem dinheiro — reagiu ela, fervendo com tamanho insulto. — E posso me sustentar. Não preciso de um homem para isso.

— Essa é a sua jogada? — debochou ele. — Pretende impressio­nar o tribunal com sua ausência de ganância para que eles a recom­pensem generosamente por suas exigências modestas? Sabemos bem que você merece receber pelo prazer quase profissional que me dava no quarto, no chão, contra a...

— Profissional? Não sou uma das suas prostitutas para ser paga por esses serviços! — gritou, antes que ele listasse todos os lugares em que tinham feito amor.

— Não? — Seu olhar insolente sugeria que ela poderia ser. — É isso que parece, Olívia. Pode chamar como quiser, mas se casar com um homem por dinheiro é um tipo de prostituição.

— Também acho — esbravejou ela, tão irritada que suas trancas se desmanchavam, fazendo com que o cabelo sedoso lhe cobrisse o rosto. Respirou fundo e completou: — Só que, para sua informação, eu me casei com você por...

— Sexo — disse suavemente, deixando-a com os pêlos da nuca em pé e com o corpo inteiro vibrando. — Foi só isso. Não vamos mentir que havia mais alguma coisa. Éramos ótimos na cama. E em todos os lugares. — Lançou-lhe um sorriso malicioso e completou:

— Lembra-se...

— Não quero me lembrar de mais nada! — inflamou-se ela, odian­do-o por trazer à tona imagens eróticas que esquentavam seu corpo e sua mente. Odiava-o também por destruir até os momentos mais feli­zes que passaram juntos, reduzindo o relacionamento a uma necessi­dade selvagem.

Dimitri nunca a amara. Finalmente admitia. Sexo. Era só isso. Bem, agora ela sabia, e a verdade a machucava mais do que poderia ter imaginado.

— Nada?

A boca de Dimitri se curvara numa forma repleta de sensualidade, e isso a fez sentir um fluxo de desejo por todo o corpo antes que pudesse retomar o controle.

— Nada! Era tudo mentira, não? Aquelas declarações de amor. As flores, os presentinhos, os bilhetes deixados por toda parte para que eu os encontrasse... Tudo parte da sua técnica de sedução, praticada à perfeição para... quantas mulheres? — exclamou tempestuosamente.

— Oh, devem ter sido centenas! Era tão fácil! Deve ter filhos bastar­dos por toda a Grécia. Imagino que em Nova York também! Você me humilhou com sua traição e sua mentira, e senti um enorme prazer por desaparecer no mundo de forma que você não pudesse se casar com outra mulher desiludida e traí-la também!

Meu Deus, pensou ela. O que acontecera com o autocontrole frio e calculista para irritá-lo? Seu discurso tinha desaparecido da memó­ria. Ele simplesmente a deixara louca, esse era o problema.

— Eu? Traí-la? — Franziu a testa como se não soubesse do que ela falava. Depois contraiu o rosto. — Entendi. Você percebeu que dizer que não houve amor no nosso casamento não vai causar impacto. Pretende alegar ao juiz que me deixou porque fui infiel.

—Alegar? — esbravejou. — Não insulte a minha inteligência! Se pretende continuar fingindo que é inocente, você é mais cretino do que eu imaginava!

O olhar de Dimitri a atingiu como um tapa.

— Se pretende minar minha reputação para atingir seus objetivos...

— Minar! — disparou ela, levantando a cabeça, sentindo-se ofen­dida e soltando os últimos grampos que ainda prendiam o cabelo. — Eu não teria como minar mais a sua reputação, mesmo se a mergu­lhasse no esgoto e a enchesse de ratos mortos!

Era comum, mesmo no auge da raiva, ele se divertir com as pala­vras impetuosas dela. Todas as brigas dos dois sempre terminavam em risadas, geralmente provocadas por alguma bobagem dita por ela. E após as risadas, faziam as pazes...

— Sempre uma frase pitoresca na ponta da língua — lembrou-se ele, concentrando-se nos momentos de reconciliação apaixonada. A sombra voltou aos seus olhos. — Mas estou lhe avisando para não fazer falsas acusações contra mim.

— Não farei — disse, destemida, e ele balançou a cabeça como se tivesse vencido aquela batalha. Ela não esclareceu o assunto. A prova da infidelidade dele poderia lhe ser útil para garantir o divórcio. Se assim fosse, ela a usaria. — Não quero discutir sua vida sórdida. Quero me livrar de você. O mais rápido possível. Entendeu?

— Seus olhos estão quase roxos de raiva — divertiu-se ele. — E você está tão vermelha que eu poderia pensar que está...

— Nem tente flertar comigo! — disse abruptamente, furiosa com o tom sussurrado que ele usara.

Ele levantou inocentemente a sobrancelha, como um pirata, fazen­do um arrepio percorrer o corpo de Olívia.

— Não consigo me controlar...

— Não mesmo. Porque não valoriza as mulheres como seres inte­ligentes — retrucou ela, com um toque de desprezo em cada linha do rosto contraído. Dimitri nunca se sentiu tão desorientado em toda sua vida. — Você as vê como conquistas em potencial esperando que se ajoelhem e implorem por você. É só o que lhe interessa: vê-las de joelhos, não é mesmo?

— De joelhos? Errado, Olívia — murmurou ele. — Tente uma outra posição.

Impaciente, ela ajeitou os cabelos que haviam caído sedutoramen­te sobre um dos olhos enquanto esbravejava:

— Escute aqui. Palavras simples, solução simples: eu quero o di­vórcio. Faça isso... Rápido.

— Mas há tanto para discutir! — protestou. — Seu advogado está pedindo cinqüenta por cento de...

— Ele não tem esse direito! — gritou, indignada.

— Sério? — Ele arrastava as palavras. — Desculpe-me, Olívia, mas não acredito que ele tenha inventado o que você merece. Sei que bancará a esposa doce, arrasada e traída e tentará conseguir o máximo possível em suas mãos ambiciosas.

A boca de Dimitri ostentava um sorriso cínico. Queria bater nele e em Paul. Dimitri claramente não acreditava nos seus protestos, pois pensava que ela estava ali para levar metade de sua fortuna. E Paul tinha reforçado essa impressão.

Amaldiçoando silenciosamente seu advogado por tirar proveito da situação, decidiu que deixaria Dimitri sofrer um pouco, temendo que seu império caísse. A verdade seria dita no momento adequado.

— Só quero me livrar de você — enfatizou ela.

— Venha sem armaduras, Olívia, e assim poderemos negociar. Sei que não espera sair dessa com as mãos vazias; não depois de todo o esforço para me deixar louco de desejo a ponto de, num momento de fraqueza, pedi-la em casamento — argumentou.

Olívia se irritou:

— Oh, pobre coitado. Quer dizer que era incapaz de raciocinar naqueles momentos, não é mesmo?

— Eu já disse: você me enfeitiçou. E sabe muito bem disso. — Os olhares se encontraram, e ela teve medo de não resistir à tentação, como naquele primeiro dia em que entrou no escritório dele. — Sinto que lhe devo algo — acrescentou Dimitri. — Você me deu uma lição.

— Qual foi? — ela aguardou a resposta.

— Que não sei julgar uma mulher quando meu sexo está em brasa — rosnou ele.

Um momento de silêncio caiu sobre os dois. Olívia lutava para manter o controle. Dimitri lançava sua magia, e ela o odiava cada vez mais. A pressão atmosférica parecia subir, e ela se sentiu sufocada. Furiosamente, Dimitri não se abalara, pois quebrou o silêncio opres­sor e falou casualmente:

— Diga-me. O que fará quando for uma mulher desimpedida de novo?

— Começarei uma vida nova — ela respondeu com audácia, desafiando-o a obstruir seu intuito.

— Com Paul? — interrogou.

— O que isso tem a ver com você?

Tudo, ele pensou, tomado pela raiva por qualquer homem que pudesse olhar para aqueles profundos olhos azuis e deslizar para den­tro daquele corpo quente e esguio. Conseguiu dar de ombros, o que lhe deu o tempo necessário para engolir a raiva que arranhava sua garganta.

— Odiaria vê-la frustrada.

— Sem chance — assegurou ela, e se surpreendeu com o ódio que acendeu os olhos dele.

— Então ele te excita? — perguntou Dimitri, em tom agressivo.

— Não perca seu tempo! Não estou aqui para discutir minha vida pessoal — respondeu com o que veio à cabeça e virou ligeiramente o corpo, interrompida por um aperto no braço.

— Ele está muito interessado no meu dinheiro... e em quanto você vai receber — disse, com voz macia. — Diga-me, Olívia. Eu preciso saber... foi isso que a fez se casar comigo? O sexo gostoso era um bônus? Pensou que nos divertiríamos por um tempo até você achar que poderia dividir meus bens legalmente para ficar independente e rica? Se foi isso, admiro sua ambição, sua tenacidade e sua paciência durante tanto tempo.

Como ele podia pensar isso dela? Era um absurdo sugerir que teria se casado na perspectiva de um divórcio lucrativo. Rato miserável. Profundamente insultada, retirou os dedos dele, um por vez, a boca cerrada de desprezo.

— Você realmente não me conhece — falou, de maneira brusca e áspera.

— Conheço o suficiente para saber que Paul não chega aos pés do homem de que você precisa — ele a instigou.

— Ao menos não é mulherengo — retrucou ela. Ele deu um sorriso forçado.

— Concordo. Ele não tem cacife para isso. — Ficou feliz quando a boca de Olívia se torceu, confirmando o que dissera. — Pode estar procurando briga.

Ela olhou para ele, alarmada.

— O que quer dizer? Dimitri deu uma risada baixinha.

— Oh, não vou desafiá-lo a um duelo por você. Não estou interes­sado em ter uma prostituta como esposa...

— Não sou! — gritou, vermelha de indignação.

— Questão de opinião. Mas quero dizer que posso contestar o divórcio. Dificultar as coisas para você.

— Isso é desprezível e muito baixo — resmungou.

— Mmm. Esse pode ser o meu interesse — vangloriou-se. — O que poderei ganhar com a legalização da nossa separação... além de dividir minha fortuna pela metade?

— Liberdade — disse, agitada.

— Isso eu já tenho — respondeu. — Faço o que quero. Sempre fizera.

— Casar de novo?

— Talvez eu não queira.

— Você quer ter filhos — disse ela, bruscamente. — Nem você é capaz de gerar herdeiros de sangue sem a ajuda de uma mulher. E mesmo que já tenha alguns do lado errado da cama, sei que gostaria que ao menos alguns fossem legítimos. Definitivamente, é do seu interesse se divorciar, portanto, não me diga que não é.

Ele sorriu.

— Está tentando me dizer que está me fazendo um favor?

— Bem, não podemos continuar desse jeito, sem sermos solteiros nem casados! — disse, irritada. — Quero sair dessa relação, Dimitri. Quero que você suma da minha vida e não quero vê-lo nunca mais. Você é influente. Tente agilizar o divórcio. A partir de então, poderá fazer o que quiser com a consciência limpa. Aliás, caso não saiba, consciência é aquela voz que fica dentro da sua cabeça e lhe avisa quando você faz algo moralmente errado — acrescentou, fulminando-o.

Ele sorriu, claramente divertido com a chacota dita para ofender.

— Não creio que o divórcio vá me apagar instantaneamente da sua cabeça — provocou Dimitri.

— Sinceramente, espero que consiga — disse Olívia obstinada­mente. — Agora, quanto ao divórcio...

— Si-i-m. Há um porém. Receio que levará um certo tempo — completou, fingindo arrependimento.

— Então mexa os pauzinhos. — Ela não cairia nessa armadilha. Dimitri deu de ombros, como se nada pudesse fazer.

— Fiz alguns contatos depois que você ligou. A justiça está atola­da de trabalho. — Aproximou-se de Olívia e retirou uma mecha de cabelo que lhe caía sobre o rosto. Sua respiração a atingia num sus­surro provocativo que instalou o caos nas batidas do seu coração. — Espero que entenda que precisará ficar aqui enquanto o processo ca­minha.

— Isso é ridículo! — ela clamou. — Estou voltando amanha de

manhã...

— Como quiser. Mas não haverá divórcio. Se trabalho é um pro­blema...

_ Não. — Ela franziu a testa. — Não é. Só não quero ficar perto de você...

Dimitri balançou a cabeça, como se estivesse arrependido.

— Você escolhe, claro. Há autoridades para encontrar, papéis para assinar... Não imagina o quanto é complicado. Mesmo que fique, pode levar três ou quatro meses até que nosso caso chegue ao juiz. Depois, pode demorar mais um ano até...

— Um ano? Isso não é assim! — protestou e fechou os olhos, desanimada.

— Isso seria um problema? — murmurou ele. — Ficar aqui, dis­cutir cada etapa comigo...

Ela não poderia fazer isso. Mesmo agora, sua voz sedutora causa­va estragos. Achou que poderia se afogar. Seus sentidos a domina­vam. Os olhos de Dimitri estavam tão líquidos quanto seus ossos. Cada pedaço dela urrava por uma explosão sexual — um beijo, um toque, alojar-se nos braços dele...

Olívia se debatia, tentando manter a cabeça acima d’água. Não estava tudo acabado entre eles, pensou, triste. Ela o odiava e o des­prezava, mas a ligação ainda era muito forte.

— Poderia, talvez — veio a voz dele, perigosamente junto à boca de Olívia —, acelerar as coisas... se eu assim o desejasse.

Era como se ela tivesse mergulhado e, na volta, descoberto que o rosto dele estava tão próximo que poderia beijá-lo. A profundidade do olhar e a provocação dos lábios dele espalharam toda a razão pelos quatro ventos.

Impiedosamente, travou os dentes e lembrou-se de que ele ficaria insuportável se ela cedesse ao toque dele. Dimitri não prestava nem para lamber a sola dos seus sapatos, quanto mais para ter acesso ao seu corpo. Adúltero. Homem de má índole... Buscava palavras para fortalecer sua decisão. Além disso, ela pensou, um homem sem ne­nhum auto controle!

— Então deseje. Arranje um trevo de quatro folhas, um gato preto, uma fada-madrinha. Não me importa, mas desejei Suborne alguém, se necessário, mas agilize tudo — disse ela, num tom deliberadamente ácido.

O sorriso dele a teria divertido, em outras épocas. Ele pegou o copo que estava nas suas mãos trêmulas e colocou junto ao dele na mesa ao lado das espreguiçadeiras. Pegou as mãos dela e acariciou sua pele com o polegar. Tudo o que restava era olhá-lo, sentindo seu corpo se transformar numa fornalha.

— Farei isso — concordou Dimitri.

— Ótimo — sussurrou Olívia.

— Mas tem um preço — disse eles, com a voz grossa.

Seu corpo baixou a guarda. Sim. Se for sexo, pensou, num aluci­nado momento de fraqueza, ela diria que sim. Um último momento juntos antes de acabar com a ânsia de tê-lo e voltar a ser celibatária.

Que horrível!, pensou, estarrecida por sua fraqueza. O que estava imaginando?

Desesperada, tentou ficar indiferente. Mas ele a tomara nos braços e seu corpo quase a tocava. Cada centímetro dela desejava sentir o tronco másculo e firme contra a suavidade dos seios e ter prazer com a pressão dos quadris estreitos sobre a pélvis dela.

— Não vou pagar o seu preço! — retrucou ela. Eles se encaixavam tão bem. Sempre fora assim. Sua cabeça girava.

— Acho que vai — reagiu ele, com uma suave certeza.

Ele estava exultante. A excitação de Olívia o deixara perplexo. Sem dúvida, Paul não a satisfazia. Dimitri estava louco para apagar todos os amantes da cabeça e do corpo dela.

Ela definitivamente pagaria o preço pedido. Dimitri faria tudo para isso. Tocou a boca trêmula de Olívia e uma facada de excitação o preencheu quando ela sufocou um gemido. Ah, sim. Ter aquele corpo fabuloso na cama com ele e lembrá-la o quanto o sexo entre eles era maravilhoso diminuiria sua dor. Ele a faria perder a cabeça. E quando estivesse totalmente entregue, lhe daria um pontapé tão grande que seus pés nem tocariam o chão.

Mas que droga. Ele a desejava. Agora! Por enquanto, uma retirada rápida seria adequada.

— Espere aqui. Deixe-me ver o que posso fazer — sussurrou. Não resistiu e tocou os lábios dela com os seus, dando-lhe um beijo inten­cionalmente rápido e casual.

Mas em alguns segundos estavam atados um ao outro. A ferocida­de da paixão assustou até a Dimitri. Uma voz cautelosa o alertou de que deveria se afastar antes que demonstrasse seu desespero.

— Hum. Muito bom, mas preciso dar um telefonema. — Tudo latejava. O sangue dele corria desvairado pelo corpo. Passou a mão pelos cabelos e se organizou mental, física e emocionalmente. — Vou ver o que posso fazer para acelerar as coisas.

Sem saber como, conseguiu entrar na cabine, embora se sentisse intoxicado como um bêbado. Ela era seu vício e, quanto mais a tinha, mais a queria. Desta vez, entretanto, seria do seu jeito e ele seria emocionalmente mais cauteloso. Esse era o modo mais seguro, já que tinha uma meretriz como esposa.

Não era à toa que tinha vindo "da sarjeta", um apelido do canal de Corinto, que cortava a península do Peloponeso desde o interior da Grécia e a transformava, tecnicamente, em uma ilha. Os nascidos nessa área eram conhecidos por sua espetacular agilidade mental. Podiam analisar uma situação e torná-la vantajosa rapidamente, e era por isso que a maioria dos políticos gregos saía dali.

Seguiu para a sala, com o cérebro fritando como se estivesse liga­do numa tomada e com o corpo vibrante e cheio de vitalidade. Uma idéia simples e brilhante surgira, deixando-o sem ar. Resolveria os problemas de Olívia e Eleni ao mesmo tempo.

Foi invadido por uma euforia alegre que quase o faz gritar e se viu rindo sozinho. Faria uma grande viagem de montanha-russa com Olí­via. Quando terminasse, ela imploraria para continuar a ser sua espo­sa, e ele a faria sentir na própria pele a humilhação de ser rejeitado. Além disso, faria de tudo para que ela fosse tratada como merecia alguém como ela.

 

POR ALGUNS momentos depois que Dimitri sumira para dentro da cabine, Olívia continuou apoiando todo o peso do corpo no parapeito porque suas pernas não tinham condições para lhe servir de pilares.

Não era surpresa ela não ter se interessado por outros homens que se aproximaram. Nos dois últimos anos, aceitara alguns convites para jantar, na esperança de se esquecer de Dimitri nos braços de outro homem. Logo descobrira que os encontros experimentais apenas re­forçavam a ligação entre eles.

Andou pelo convés, amedrontada por sua excitação e profunda­mente envergonhada pelo fato de seu apetite sexual ter sido capaz de superar seu desprezo por Dimitri. Ele realmente acreditava que ela se jogaria na cama com ele, se tivesse a oportunidade — e talvez se jogasse mesmo, pensou, emitindo um gemido.

Ao escutá-lo abrir a porta da cabine novamente, Olívia deu uma meia-volta aflita, e seu coração quase pulou ao avistá-lo, com os olhos negros e determinados se aproximando do seu corpo trêmulo.

— Posso lhe oferecer uma rapidinha, se quiser. — Ele sorriu, le­vantando uma sobrancelha.

Olívia respirou com força e levantou a mão para lhe dar um tapa no rosto, mas Dimitri a pegou, rindo, e suas rugas nos olhos e sua expres­são acolhedora fizeram com que os joelhos dela ficassem moles.

— Como ousa? — sussurrou ela.

— Desculpe-me. Sua linguagem tem muitos significados. Eu quis dizer um divórcio rapidinho — disse, divertindo-se.

Ela o fitou com ceticismo. Dimitri sabia exatamente o que dissera. Seu inglês era impecável. Se ela tivesse reagido com timidez, ele a teria levado para dentro da cabine sem pensar duas vezes. Porém, o que a loura aguada pensaria disso tudo, Olívia jamais saberia.

— Faça isso, então — disse friamente, soltando a mão.

— E você concordará com o que eu quiser?

— Se não for nada ilegal ou imoral! — declarou.

— Absolutamente não — disse, soando formal e chocado. Ela o fitava, e ele riu ironicamente. — E então?

— Depende. Penso em várias coisas que não faria com você — disse, com os olhos desconfiados em busca de uma resposta, mas encontrando apenas uma parede de suavidade.

— Não se preocupe. É algo de que é perfeitamente capaz — repli­cou, sem acalmar suas suspeitas. — Explicarei durante o almoço. — Mostrou-lhe a cabine, mas ela continuou onde estava.

— Isso é um pretexto para me levar para dentro de sua cabine e para sua cama? — perguntou, tentando puxar as rédeas do desejo que a consumia.

— É assim que quer conversar? — indagou ele docemente. Ela corou do pescoço até a raiz dos cabelos.

— Certamente que não!

— Hum-hum — Ele não pareceu muito convencido.

— Eu o odeio, Dimitri. Acha realmente que eu dividiria os lençóis com você? — zombou dele.

Seus ombros se levantaram num gesto tipicamente grego.

— Não precisa ser debaixo dos lençóis. Tenho uma mesa bem grande... Ainda que — ele acelerou ao vê-la irritada — esteja pre­parada para o almoço e para negociarmos. Está com fome? — per­guntou.

Fazia horas desde a sua última refeição, pois seu nervosismo a afastara do café-da-manhã — e até mesmo do jantar da noite anterior.

— Poderia comer um cavalo — admitiu.

— Acho que teremos algo menos cruel para comer que um dos nossos amigos eqüinos.

Olívia quase sorriu com seu comentário seco, mas recuou a tempo, lembrando-se de que a tal loura estava por perto e que não estariam sozinhos. Havia uma certa segurança com o triângulo à mesa, embora não estivesse muito animada com a idéia de Dimitri esfregando a perna em uma de suas fãs por baixo da mesa.

Ele pegou as sandálias de Olívia e as entregou gentilmente, conduzindo-a até a cabine.

Olívia ficou nervosa de repente.

— A tal loura, sua... amiga, nos fará companhia? Dimitri fez uma careta.

— Não se eu puder evitar. — Ofereceu a mão para ajudá-la a descer, mas ela o ignorou.

— Na verdade, não quero encontrar nenhuma de suas bonequinhas — começou. Sua boca entortou quando Dimitri riu das palavras esco­lhidas. — Todavia, seria grosseiro comer separadamente...

— Acredite — disse Dimitri, a caminho da sala de refeições. — Quero ficar longe da... bonequinha. Ela é o motivo por que preciso da sua ajuda. Um dos meus funcionários a está levando, discretamente, para fora do barco neste momento.

Bruto insensível, ela pensou, sentindo um pouco — bem pouco — de pena da mulher. Imaginou que Dimitri escondia suas amantes por toda parte para que nunca se encontrassem. Que ridículo.

Comeram tira-gostos, escolhendo iguarias de inúmeros pratinhos. Também foi servido um salmonete antes de Dimitri terminar seus comentários sobre os prazeres da culinária grega.

Durante seu monólogo, Dimitri se inclinava em direção a ela. Devi­do à música ensurdecedora, ela era forçada a fazer o mesmo para escu­tá-lo. Isso provocou uma intimidade embaraçosa durante a refeição.

A música enchia sua cabeça e agitava suas emoções. Imaginava se tudo era premeditado e tentava se manter indiferente, mas era muito difícil com o lindo rosto de Dimitri tão próximo, o cheiro de sua loção pós-barba no ar cada vez que jogava a cabeça para trás e ria.

O garçom colocou uma porção de alcachofra, pepino e vagem ao lado de cada prato principal e saiu, fechando a porta discretamente. Ela quase o chamou de volta, pois era muito arriscado ficar sozinha com Dimitri.

A carne macia do peixe seduzia o paladar, mas Olívia acabou adotando uma formalidade digna de uma reunião de negócios e en­trou na descrição lírica e sensual que Dimitri fazia dos pratos. Antes que ela notasse, ele mudaria de um assunto para outro...

— Tenho de dar entrada no hotel esta tarde. Não tenho tempo para as delícias da gastronomia grega agora — ela o censurou. — Diga-me o que quer que eu faça em troca do divórcio rápido. E não sugira sexo. Isso você tem em qualquer lugar.

Em um movimento calmo, Dimitri recostou-se na cadeira e olhou-a por cima da taça. Parecia muito satisfeito consigo mesmo.

— Pode me tirar de uma situação complicada — disse casualmen­te, suspirando como se o peso do mundo estivesse sobre seus ombros. — E a minha mãe.

Os olhos de Olívia piscaram, surpresos. Achava que a tal loura era o problema.

— Continue.

Tentando parecer preocupado, embora quisesse comemorar a es­perteza de seu plano, franziu o cenho e suspirou de novo.

— Quando estiver livre, ela vai querer me casar com uma mulher apropriada...

— Ao contrário de uma desapropriada como eu — disse Olívia secamente.

— Nunca entendi por que vocês nunca se deram bem... O fato é que, todos esses anos, ela insistiu para que eu a procurasse para assinar o divórcio, casar-me novamente e ter herdeiros para o império Angelaki.

— Você... não me procurou em nenhum momento? — Parecia surpresa e desapontada.

Ele fez uma careta, odiando se lembrar daqueles tempos. Claro que não. Ela deixara bem claro que não o amava. O que ganharia com isso, a não ser um coração partido e uma série de discussões calorosas?

— Para quê? — respondeu rispidamente.

Olívia estremeceu. A indiferença dele doía. Ele nem se preocupara em encontrá-la para tentar salvar o casamento. Era a confirmação do que mais temia. Desanimada, baixou a cabeça. Tudo que podia fazer era se desvencilhar o mais rápido possível e tentar esquecer que ele tinha sido parte de sua vida. Parecia bem difícil no momento, mas o tempo cura tudo, é o que dizem.

— Eu o odeio, Dimitri. Cada milímetro desse seu orgulho. Quanto mais cedo eu puder sumir daqui, melhor. — Não lhe dava prazer nenhum dizer aquilo. Inquieta, encontrou seus olhos negros. — Diga-me seu preço. O que quer que eu faça.

Os músculos tensos de sua boca se relaxaram, curvando-se em triunfo.

— Quero que represente um papel que já representou.

Joguinhos, ela pensou e sentiu o coração afundar. Não. Na verda­de, estava saltando para fora da boca. Seu lábio inferior tremia. Ele a queria para satisfazer algum jogo sexual e achava isso excitante! De alguma forma, conseguiu trazer à tona um olhar de desdém.

— Secretária?

O sorriso irônico era deliberadamente libidinoso.

— Por falar nisso... Deseja experimentar minha mesa?

— Não se iluda — resmungou, embora o pulsar de seu corpo urrasse para fazer exatamente aquilo. — Não andaria mais com um caderninho debaixo do braço levantando a saia para satisfazer suas fantasias sórdidas.

—. Pensar em você tomando meu ditado enquanto devoro suas pernas com os olhos é certamente uma idéia atraente — admitiu. — Mas não é isso que quero, no momento.

Ela não gostou de ouvir "no momento".

— O que é, então? — perguntou, desconfiada.

— Infelizmente minha mãe achou uma mulher apropriada para mim. Uma jovem herdeira grega.

Olívia sentiu um tremor por todo o corpo. Era por isso que ele precisava dela com a Srta. Aguada?

— Não é... aquela loura que você escondeu a bordo?

— Eleni, sim — respondeu, segurando o riso. — Não se lembra dela? A filha do Nikos Kaloyirou, o antigo sócio do meu pai...

— Lembro! — disse, surpresa. — E me lembro dele. Muito aristo­crático, mas um doce de pessoa.

Dimitri lançou-lhe um sorriso irônico.

— Ele também falava muito bem de você. O rosto de Olívia revelava sua surpresa.

— Está me dizendo que a mulher que acabei de ver é a Eleninha? Ela... — Olívia se lembrou de uma menina nariguda e queixuda que, quando adolescente, vivia perto de Dimitri, como se ele fosse um presente dos deuses para as mulheres. — Ela está muito diferente! — declarou, espantada.

— Cortesia de um bom cirurgião e um pai cheio de dinheiro. Mas... — parou um pouco, fez uma careta e sacudiu a cabeça.

— Não me diga que ela não é atraente — disse Olívia, descrente. A mulher era maravilhosa. Bem do tipo de Dimitri.

— Oh, fisicamente ela está deslumbrante — respondeu, causando nela um arrepio de ciúmes. — Mas isso não basta, pelo que aprendi com você. — Lançou-lhe um sorriso afável, respondido com um olhar debochado e incrédulo.

— Qual o problema em desposá-la e ter amantes? — perguntou Olívia, afiada. Afinal, ele já tinha feito isso antes.

Ele revirou os olhos.

— Tudo. Ela é burra e boba alegre, acabaria estrangulando-a. Odiaria que meus filhos herdassem o jeito afetado dessa cabeça de inseto. Meus filhos terão de ser espertos para tocar os negócios da família Angelaki e afastar os interesseiros que nos rondam. Veja mi­nha situação.

Havia algo no sorriso largo de Dimitri que a intrigava. Não na constância do sorriso, mas no brilho malicioso em seus olhos.

Lembrou-se de ele ter lhe contado sobre uma negociação de pro­priedade em que conseguira superar os poderosos inimigos com suas estratégias. Percebeu que o olhar daquele dia era o mesmo de agora, fervendo de excitação a ponto de seus olhos dançarem. Ficou ainda mais desconfiada.

— O que aconteceu com sua conhecida arte de persuasão? Não pode usar sua famosa habilidade diplomática? — sugeriu cinica­mente.

— Estou usando... através de você, Olívia — respondeu com voz sedosa. — Mantenhamos nossas predisposições fora disso. Você precisa de algo e eu também. Podemos trocar favores. Quero me livrar de Eleni com delicadeza, sem insultar meu amigo e sócio/provocan­do uma rixa que afetaria os negócios. A honra da família é um assun­to importantíssimo para um grego. Não posso ofender Eleni. Meu sócio seria obrigado a desfazer os negócios comigo, gerando demis­sões em massa e arruinando muitas vidas.

— Onde eu entro? — perguntou, cabisbaixa, franzindo a testa e olhando-o com desconfiança.

Ele se aproximou com os olhos brilhando com mais intensidade ainda.

— Já sabe que terá de residir aqui enquanto a papelada do divórcio correr. Durante esse tempo, você pode me ser útil.

— Oh, dizendo a ela para tomar cuidado com você, é isso? — Seus olhos brilharam. — Poderia dizer a ela como você foi um marido terrível. Que me entregava aos cuidados da língua traiçoeira da sua mãe enquanto excursionava pelo mundo testando seu vigor na cama de outras mulheres...

— Não, obrigado, prefiro algo que mantenha minha boa reputação intacta — disse Dimitri, rindo.

Olívia lançou-lhe um olhar incrédulo.

— Boa reputação! Hum. Onde?

Ele respirou fundo e disse suavemente:

— Quero que finja que, quando nos encontramos, nos apaixona­mos novamente.

Ela arregalou os olhos, estupefata.

— Você está brincando.

— Nunca falei tão sério.

— Mas... essa é a coisa mais ridícula que já ouvi...!

— Não, Olívia, as pessoas acreditariam. Podemos proporcionar a eles um bom espetáculo...

— Não! — Empalideceu ao pensar no tipo de espetáculo que ele visualizava.          

— Você poderia jogar coisas em mim num lugar privado. — Ofe­receu ele, enquanto sua boca se torcia de maneira divertida.

— Seria difícil me segurar para não vomitar em público — res­mungou Olívia.

Ele deu um risinho.

— Posso lhe medicar para que isso não aconteça. Valerá a pena. O divórcio mais rápido em toda a história da Grécia.

— É um bom motivo — concordou ela. — Mas fingir que amo você...!

— Uma idéia bizarra, não é mesmo? Mas pense no resultado final.

— Vai adorar me ver com cara de apaixonada. Eu, por outro lado, odiarei todos os momentos.

Apesar de dizer aquilo, sabia que não estava sendo totalmente honesta consigo mesma, o que fez com que o protesto soasse pouco veemente.

— Olívia — disse, numa voz encantadora e doce. E mesmo saben­do que era tudo mentira, sentia-se inevitavelmente seduzida. — Po­demos fazer uma boa troca. Talvez até sem rancor. Preciso que aceite para tirar Eleni do meu pé. Se conseguirmos convencer a todos que estamos juntos novamente, Eleni, minha mãe e o pai dela terão de aceitar esse fato.

— Terão?

Dimitri inclinou-se na direção dela com sinceridade, fazendo com que seus olhos relutantes se fixassem.

— Não poderiam, por nenhuma razão no mundo, intervir entre um homem e sua esposa — argumentou. — Imediatamente se voltariam para outro homem. O resultado é que Eleni largaria do meu pé sem fazer escândalo. No fundo, é uma boa menina, apesar de jovem, mi­mada e inexperiente. Não ficaria magoada, e meus funcionários se­riam mantidos em seus empregos. — Suas pálpebras baixaram e le­vantaram vagarosamente. — Você não gostaria de ver pessoas na linha de pobreza só porque não se permitiu tentar, quer?

— Não me venha com chantagem emocional! — gritou, indigna­da. — Só falta me dizer que, se eu não concordar, centenas de pessoas implorarão para comer até mato enquanto famílias inteiras se jogarão pelas janelas de prédios...

— Que exagero — deu uma risadinha, deliciado. Olívia ficou hip­notizada por aquele sorriso, e ele deve ter percebido, pois se inclinou ainda mais em direção a ela. — Contudo — murmurou —, posso antever problemas de desemprego se insultar Eleni e o pai dela, rejei­tando-a como noiva. Você pode me ajudar, Olívia...

— Está enganado! Não posso! — protestou, apavorada pela idéia de ficar perto dele por muito mais tempo.

Uma voz maliciosa dentro dela já gritava para que concordasse, a fim de ficar com ele. Mas não confiava em suas emoções oscilantes e não tinha nenhuma intenção de se apaixonar por Dimitri novamente.

— Você pode — ele a seduzia. — Não será por muito tempo. Quando Eleni estiver seguramente fora do cenário, você será uma mulher livre e nunca mais me verá. Não será uma tarefa difícil fingir que me ama. — Seu tom ficou ainda mais cínico. — Afinal, conse­guiu fazer isso por seis meses enquanto estávamos casados.

Olívia mal captou o que ele dissera; sua cabeça se recusava a engrenar nesse assunto.

— É... terrivelmente manipulador.

— Obrigado! Estou lisonjeado — Mostrando os dentes novamen­te, levantou seu copo insinuando um brinde e bebeu.

Sua boca estava umedecida e relaxada. Olívia fitou-a, hipnotiza­da, imaginando os dois juntos novamente. Fingindo...

— Quanto...? — Pegando seu copo, tomou um grande gole para aliviar a secura na garganta. — Quanto tempo isso deve durar?

— Acredito que duas semanas. No máximo. Tire umas férias...

— Acabei de sair de um trabalho e ainda não comecei outro — respondeu. Odiou a si mesma quando viu a expressão exultante de Dimitri.

— Então não há problema, certo? Nem precisará mentir sobre seus sentimentos. Faça um olhar de cachorrinho aqui, solte um suspiro ali... — Entusiasmado, espetou com o garfo uma verdura do prato e mergulhou-a no molho exótico, fechando os olhos em êxtase. — Per­feito — insinuou. E quando levantou as pálpebras, queimou-a com seu olhar lança-chamas.

Olívia teve a irritante impressão de que ele não se referia à comi­da, mas sim à chance de tê-la nas mãos.

— Não acho — murmurou.

— É sim. Prove — disse, optando por deixá-la confusa.

Levou o próprio garfo à boca de Olívia. Embevecida, abriu os lábios antes de perceber que estava entrando no jogo. O peixe des­manchou em sua boca; o molho cremoso estimulou suas papilas gustativas. Os olhos de Dimitri se desmanchavam nos dela, estimulando todos os sentidos.

A atmosfera escaldante parecia borbulhar entre eles, conectando seus corpos num circuito fatal. Sentindo-se fraca, alcançou seu copo, percebendo que de alguma forma havia sido completado.

Sua cabeça girava. Não sabia se era o efeito do álcool ou da proxi­midade de Dimitri. Sabia apenas que devia encerrar aquela aconche­gante proximidade antes de chegar ainda mais perto e...

— Olívia.

Engoliu em seco enquanto a voz rouca vibrava profundamente dentro dela. O som da música os envolvia de maneira erótica, devo­rando persistentemente seu cérebro. Num gesto agonizante e suave,

Dimitri acariciou levemente a bochecha de Olívia, que fechou os olhos contra a própria vontade.

— Você tem medo — disse suavemente — que acabemos juntos na cama?

Os olhos se abriram num pulo.

— Não! — mentiu, com um grito agudo.

— Então não há por que recusar — disse ele, retirando uma folha da alcachofra e mergulhando-a na manteiga.

Observou, hipnotizada, ele sugar delicadamente a manteiga e co­locar na boca a parte suculenta da folha. O sorriso desafiante fez seu sangue ferver. Dimitri pensava que ela seria ótima para uma transa rápida. A arrogância masculina! Talvez ela caísse toda hora nas téc­nicas de sedução dele. Mas não havia sucumbido.

Olívia adoraria provar que Dimitri não era tão irresistível quanto pensava. Bastava lembrar que tinha um filho bastardo — e que pen­sava nas mulheres como meros brinquedos destinados ao seu bel-prazer. Isso era suficiente para evitar que ela passasse por boba diante daquele homem adúltero.

Ela o odiava mais que tudo.

— Minha única resistência é que terei de fingir que gosto de você

— disse Olívia, ironicamente atacando o peixe, dilacerando-o com o garfo como se ali estivesse o corpo dele. — E quanto a sua mãe? Não ficará muito feliz.

— Ela detesta você por ter me deixado — concordou Dimitri. — Mas ela deve entender que tenho minha vida. Um dia poderei me apaixonar. Precisa estar preparada para aceitar a mulher que amo, seja quem for. Quero sua bênção quando esse dia chegar.

Olívia estremeceu e sentiu seu peito se rasgar. Ciúmes, imaginou. Invejava essa tal, fosse lá quem fosse. Como podia ser tão burra, pois não o queria, mas não agüentava pensar nele apaixonado por outra.

Imaginava se ele desejava se casar com Athena e legitimar seu filho. Ou se tinha se cansado dela e a deixado há muito tempo.

Estava difícil pensar com a música alta e os pensamentos disper­sos.

— Não sei...

— Aceite ou providenciarei um divórcio que leve anos para acabar

— disse, em um tom frio e duro.

Seu coração se encolheu. Ele cumpriria o que estava dizendo, pois tinha o dinheiro, o poder e a crueldade necessários para isso.

— Você é um porco oportunista!

— Sou mesmo.

Ficava incomodada em saber que ele tinha o domínio da situação. Teve vontade de chutar alguma coisa. De preferência, Dimitri. Que­ria o divórcio assinado, selado e em mãos para começar uma nova vida. Talvez duas semanas rondando Dimitri não fosse muito.

— Preciso pensar. — Desesperadamente vulnerável e frágil, ela empurrou seu prato.

— Claro.

Ele consentiu, e os dois comeram o doce em silêncio. Ao menos, ele. Tentando ser objetiva, Olívia só brincou com seu bougatsa, mes­mo sendo sua sobremesa preferida.

Tudo conspirava para que ela dissesse "sim". Além do mais, não parecia haver outro jeito. Sem contar que tudo trazia ótimas lembran­ças: a música, a comida, o lugar.

Se tivesse de permanecer na Grécia por um tempo, admitiu que adoraria voltar à mansão, mesmo tendo de se fazer passar por uma esposa amorosa. Tinha tantas saudades daquela casa antiga que chegava a se assustar. Era perfeita. A vista de Saronikos era espetacular, e os móveis eram luxuosos e confortáveis.

Poderia rever lugares adoráveis como a pequena cidade de Nafplion, com suas casas no estilo veneziano, fontes e fortalezas que protegiam a enseada. As praias douradas e os penhascos selvagens, as ruínas espetaculares da Grécia Antiga no topo dos montes verdejantes. Cada caminho e cada pedra eram repletos de drama e história.

Era a terra de Agamênon e de Helena de Tróia. De Hércules, de deuses e deusas. Uma terra mágica.

Pensou nas clareiras silenciosas e nos rios com água cristalina, no perfume intoxicante das flores silvestres e no aconchego convidativo do mar, de um azul tão profundo quanto os olhos dela, Dimitri dissera certa vez.

Tudo perdido e sepultado pela infidelidade. Por duas semanas, poderia voltar a usufruir daquilo tudo, filmar e rir no futuro, quando a dor e a emoção se transformassem em longínquas lembranças.

— Venha. — A mão máscula tocou seu braço e ela se levantou da cadeira, cega e obediente. — Precisamos de uma xícara de café — murmurou, guiando-a para o salão.

A porta, falou brevemente em grego com o garçom, que preparava o café e arrumava chocolates mentolados numa mesa baixa com mo­saico. O som comovente de Maria Callas cantando a traição do seu amante na ópera Madame Butterfly enchia o espaço e seguia, em notas puras, até o fundo do coração machucado de Olívia, despeda­çando suas emoções.

— Olívia, não temos muito tempo. Chegou a uma decisão? — perguntou Dimitri tranqüilamente, girando seu corpo para encará-la.

Ela o olhou de baixo e, num ímpeto, desviou o olhar. Mesmo assim, podia sentir o cheiro da loção pós-barba e se sentir contagiada pela força dele. Estava perto demais. A qualquer momento, levanta­ria o rosto para ser beijada — e completamente humilhada por sua falta de consciência. O pânico tomou seu corpo. Ansiosa para escapar para a segurança de uma cadeira, falou sem pensar:

— Sim. Aceito. — E como num desafio, acrescentou: — Por mim, não por você.

Ele sorriu, os cantos dos lábios se curvaram de maneira provocan­te. Ela poderia se afogar naqueles olhos suaves. Morria de medo de não dar conta do compromisso que estava assumindo.

— Por você?

Ciente do perigo de continuar fitando-o, dirigiu friamente seu olhar para o terceiro botão da camisa dele.

— Por que não? — retrucou, assumindo milagrosamente um ar casual. — Terei ótimas férias. Rodeada de luxo, com um carro à minha disposição, e nisso eu insisto, além da chance de explorar o lugar.

— Não pouparei custos para entretê-la — disse sem pressa. Estava certo. Ela podia ser comprada. Ao que parecia, quase toda mulher tinha seu preço. Ficou tão desapontado que perdeu o prazer de tê-la sob seu domínio. — Em troca, dará sua palavra de honra de que não voltará atrás. Preciso ter certeza que meu plano terá chances de sucesso.

Olívia revirou os olhos. Eram de um azul tão escuro quanto o mar perto das cavernas da costa leste do promontório de Olympos. Tenta­dor. Inexplicável.

— Toque aqui — disse ele, mais seco do que gostaria, e estendeu a mão. — Prometa que irá até o final.

— Prometo.

Hesitantemente, os dedos dela tocaram primeiro na palma dele para depois apertar a mão.

Não era bem o que ele pretendia no momento, mas mesmo assim, encontrou um jeito de puxá-la para perto de si até abraçá-la. Vozes o avisavam para não assustá-la nesse estágio delicado, e para sua sur­presa, descobriu que não era capaz de se segurar.

De repente, beijos quentes e frenéticos, que queimavam e ardiam. As mãos se apertavam, os corpos colados num desejo desesperado de que cada centímetro fosse tocado, acariciado e liberado de tão terrível e insaciada voracidade.

A falta de sutileza de ambos surpreendeu Dimitri, que sempre se orgulhara de ter uma aproximação sutil, quando se tratava de mulhe­res. Mas seus sentidos o embriagavam, aniquilando seu raciocínio, sua mente focada somente na sensação gloriosa daquela boca macia, daquele corpo se encaixando no seu como se existissem um para o outro.

Sua boca firme encontrou o suave calor da garganta dela, que virou a cabeça para trás, gemendo de tanto prazer. O choque de ver a beleza de Olívia estremeceu todo o seu corpo. Era tão linda que che­gava a doer e provocar calafrios que o cortavam da cabeça aos pés.

Moveu-a de costas até pressioná-la contra a parede revestida, ge­rando um som abafado. Deslizando as mãos para baixo, levantou a saia dela e permitiu que seus dedos sentissem a suavidade daquelas coxas. Com um leve arrepio, ela levantou a perna e enganchou-a nas costas dele. Incapaz de conter sua excitação, ele se concentrou em levantar a camiseta dela.

A esticada lânguida dos braços dela fez seu coração bater mais forte. Ela deixou os braços levantados acima da cabeça. Era um claro convite para uma invasão.

— Você é inacreditavelmente linda — sussurrou Dimitri, e mer­gulhou a cabeça entre os seios perfumados, beijando-os.

Ele fechou os olhos, sentindo o arquear das costas dela, o balanço urgente dos quadris, e respondeu com um ataque violento de beijos apaixonados que o deixaram sem fôlego e mais desesperado que nun­ca para possuí-la.

Este era o sexo em seu estágio mais selvagem. Ele sentia seu cora­ção fervendo por algo mais e a deixou puxar sua camisa, rasgando-a e arremessando botões para todos os lados.

A boca de Olívia se movia por todo o tronco nu de Dimitri, deixan­do-o louco, os toques da língua e as mordidas dos dentes afiados comandavam todo seu corpo num frenesi enquanto os cabelos dela deslizavam com uma delicadeza provocante, trazendo lembranças de quando ele pensava que era amor o que faziam, como um casal apai­xonado.

Atormentado e torturado pela traição, Dimitri agarrou um bolo de cabelo e levantou a cabeça de Olívia. Entreolharam-se, ardendo de paixão, ônix líquido se encontrando com safiras selvagens. Algo den­tro dele se rompeu. Seu coração, seu controle, todo e qualquer conta­to com a realidade.

Olívia sabia que era tudo loucura, mas não conseguia se conter. Todas as suas solenes decisões escaparam naquele momento em que ele a pegou nos braços. Havia tanto prazer no seu coração que, quan­do ele a olhava e a tocava, era como se tivesse certeza de que ela ainda o amava e sempre amaria. Feito um animal sedento por água, necessitava dele para se sentir viva e inteira. Sem ele, não era nin­guém.

Suplicando num gemido confuso de aflição e prazer, ela tentou desatar os ganchos do sutiã com dedos ansiosos e confusos, até que Dimitri a abraçou e alcançou suas costas, soltando-os. Seus seios nus tocaram o peito dele com os bicos escuros, imediatamente duros e doloridos. Ela mexia o corpo para esfregá-los nos músculos defini­dos, deleitando-se com o som da rápida respiração dele.

Eles fariam amor. O sentimento de um pelo outro tinha sido resga­tado. Seria como nos velhos tempos, sonhava ela.

Enquanto isso, os dedos de Dimitri passeavam incessantemente entre suas coxas, mexendo-se para a frente e para trás num ritmo enlouquecido, que estava se tornando insuportável.

Ela o tocou. Seu gemido respondeu ao dela quando suas mãos se fecharam em torno da quente rigidez apontada para ela quando, de repente, ele tirou sua mão e a penetrou com uma urgência que tirou o fôlego de Olívia.

Nunca tinha sido assim, tão incontrolável, primitivo ou desespera­do. Ela prendeu os braços na nuca dele e enterrou a cabeça nos om­bros largos e másculos, sentindo-o roçar sensivelmente cada milíme­tro de suas entranhas, maravilhada com o êxtase e a fúria que duelavam em seu coração.

Suas bocas se chocavam. Dentes e línguas lutavam juntos enquan­to todos os anos de desejo é raiva a faziam ferver por dentro. Ela gritava, chamava seu nome, escutava-o sussurrar enquanto sua pene­tração se acelerava e se tornava mais vigorosa, apagando o passado e trazendo-a para o aqui e agora.

Ela engoliu em seco e sentiu a agitação do orgasmo, incrementado pelos dedos habilidosos e ágeis que a estonteavam. No auge do orgas­mo, ela flutuava no espaço e acabou se entregando, atingindo-o mui­tas outras vezes.

Começou a ter uma vaga percepção do carpete por baixo de seu corpo. Depois, percebeu que rolavam, presos num abraço apaixona­do, incapazes de se soltarem até que a pressão quente e gostosa trans­bordasse mais uma vez e atingissem o clímax juntos.

Aos poucos, a loucura dava lugar à calmaria. Exausta e animada num delírio delicioso, deitou-se quieta e acomodada nos braços de Dimitri, sonhando com seu amor revitalizado. Nunca esteve tão certa de algo em toda a sua vida. Ele estivera tão excitado por ela, sussur­rando o que pareciam ser palavras de amor em grego.

Depois de respirar fundo, ele rolou para o lado. Ao ouvir Dimitri se levantar, Olívia sorriu e se alongou com luxúria, convicta de que era adorada. Abriu os olhos preguiçosamente.

Olívia piscou. Em vez de sorrir para ela, Dimitri ia em direção à porta. Havia algo nos lindos músculos das costas dele que lhe dizia que ele estava contendo suas emoções. Suas veias congelaram.

— Dimitri? — sussurrou ela. Um pânico repentino tomou conta de Olívia.

Ele parou e se virou subitamente, como se tivesse sido pego de surpresa.

— Não esperava que agisse como uma esposa devotada com tanto entusiasmo — disse ele, em voz trêmula e rouca.

Era como se ela tivesse levado um soco no meio do estômago. Mesmo assim, lutou contra seu pavor. Dimitri jamais deveria saber o que ela sentia.

— Sempre tive prazer com atos sexuais saudáveis — lançou, es­traçalhada.

— Talvez seja esse o motivo de o sexo ser tão bom com você. Sem compromisso. O sonho de todo homem... Tome uma ducha. Você sabe para onde ir. — Saiu batendo a porta de maneira irritante.

 

SENTIA um frio desesperado, muito embora os raios quentes do sol banhassem seu corpo nu através das enormes janelas panorâmicas. Tremia, descontrolada e envergonhada, e começou a procurar e catar suas roupas jogadas por toda a sala.

Ao se mover, sentia as pernas tremerem. Primeiro, pensou que era o efeito colateral do amor com Dimitri; depois, percebeu que o barco estava se movendo e não havia terra à vista.

Sua mente se esvaziou, como se tivesse dado um mergulho. Agita­da, percebeu que provavelmente a música abafara o som dos motores, e ela ficara extasiada pela maravilhosa sensação de ser amada, a pon­to de não sentir o movimento sutil do barco sobre o mar azul translú­cido.

Amada! Antes fosse.

Naquele momento, todos os seus instintos lhe garantiam que ele a amava. Estava errada. Era apenas uma técnica. Dimitri tivera o que queria e agora zombava da sua desenvoltura.

Uma dor aguda, resultado da percepção da dura realidade, esfacelava seu coração. Não havia futuro para os dois. Era uma fantasia. Interpretara mal a ansiedade de Dimitri. Não havia carinho. Somente sexo. E ela fora enganada. Pensou amargamente se algum dia se per­doaria por aquilo.

Recusando-se a pensar no que acontecera, segurou as roupas de maneira a cobrir estrategicamente sua nudez e saiu para a ducha. Ficou ali e deixou que o jato de água incessante acalmasse sua pele ardida.

Sua cabeça estava tão tumultuada que mal sabia no que pensar. Preferiu se desligar, concentrando-se apenas no ato de se ensaboar com um vigor punitivo.

— Olívia!

Ficou surpresa com o chamado brusco de Dimitri e pensou que ainda não estava pronta para receber visitas. Tentando abafar as bati­das na porta, aumentou a ducha, deixando-a em força máxima.

— Quero privacidade! — gritou.

Tinha os olhos cheios de lágrimas de raiva e não queria ser vista assim, vulnerável e humilhada.

A porta se abriu, chamando sua atenção. Irritou-se com o fato de que Dimitri passara por cima dela, como se tivesse esse direito. Mas ele sempre fazia o que queria, sem se importar com a opinião dos outros. Desta vez, prometeu Olívia, ela faria o mesmo.

Arrumando a toalha amarrada na cintura, Dimitri baixou a cabeça e fitou-a.

Magnífico em sua seminudez, entrou no banheiro com seu corpo bronzeado cintilando com o reflexo das gotas de água.

Parecia estar se recompondo, embora seus olhos estivessem duros como ônix. O contorno da boca e o movimento do peito e dos ombros sugeriam que ele ainda se esforçava para controlar fortes emoções. Olívia, com os nervos à flor da pele, procurava imaginar quais se­riam. O triunfo da sedução? Escárnio, repulsa...

A pergunta estava na ponta da língua. Apenas o orgulho a impe­dia. Evitando o olhar irritante de Dimitri para não demonstrar sua tristeza, Olívia fechou a ducha e pegou a toalha mais próxima, enrolando-a firmemente no corpo.

— O que é tão urgente que não pode esperar eu me vestir? — resmungou.

— Quero lhe dizer que nada mudou. Espero que cumpra sua pro­messa — declarou, com uma perigosa luz nos olhos apertados. — Com ou sem sexo.

Olívia deu de ombros, como se todo o episódio tivesse sido um mero deleite por parte dela.

— Não quero desconcertá-lo com meu entusiasmo — disse, pro­vocante.

— Não estou reclamando. Entusiasme-se o quanto quiser — res­mungou ele.

— Não, obrigada. Acho que não repetirei aquilo — acrescentou.

— Pouco me importa — desprezou-a de maneira ofensiva. — Sua promessa é o que me importa. Então?

Pensou no que acontecera em duas horas com ele, imaginando o que seriam duas semanas. Sentiu um frio correr pela espinha, eletrizando todas as partes que ele havia tocado com resultados tão devas­tadores.

Por mais que dissesse o contrário, sabia que, se decidissem levar o plano adiante, não conseguiriam ficar longe um do outro. Haveria noi­tes de inacreditável prazer. Depois viria o vazio do sexo sem amor.

Talvez pudesse viver com isso. Já sabia o placar. Ele não a amava.

Para sua eterna vergonha, ela o desejava com uma voracidade que a consumia de maneira assustadora. Mas não queria sofrer. Olívia mordeu os lábios. A situação era: ou duas semanas com ele ou passar anos lutando para se livrar dele como uma condenada.

Além do mais, tinha feito uma promessa. Ela o examinou. Arro­gante, implacável e com o queixo rígido. Um rasgo de raiva passou por todo o seu corpo. Era assim que ele sobrevivia no mundo dos negócios — e com as mulheres.

Talvez ele se sentisse diferente se estivesse do outro lado da moe­da. Apertou os olhos e fechou seu coração para ele. Não havia nada de errado em fazer sexo com o marido.

Ela pegaria o que ele tinha para oferecer, se assim o desejasse, e o surpreenderia com uma despedida fria logo após a assinatura dos papéis. Isso o deixaria perplexo. Seu ego ficaria mordido quando ela acenasse um alegre adeus. Riu consigo mesma.

Duas semanas. Ela o faria porque precisava dele e o odiava com a mesma intensidade. Dimitri era completamente incapaz de ser fiel. E Olívia nunca amaria verdadeiramente um homem que não a pusesse no centro do seu universo. Podia sentir qualquer coisa por ele, mas não amor. Talvez obsessão. Fascinação. Mas nada profundo e espiri­tual.

Era algo que tinha de ser feito, como uma prova de fogo. Ia se aproveitar dele até enjoar. A distância não ajudara. Talvez isso aju­dasse.

Percebendo a tensão dele, sorriu e disse, em tom casual:

— Tudo bem. Não voltarei atrás em minha palavra.

— Então... ficaremos juntos.

A vibração dos músculos tensos de Dimitri fez com que ela sentis­se um arrepio.

— Claro. Concordamos em suportar o desconforto temporário para atingir um fim específico, não foi? — disse ela, dando de om­bros.

Houve uma grande pausa, e fixaram os olhos um no outro. Ele foi em direção a ela, que sentiu seu coração bater nas costelas.

Naquele momento, o barco foi para a frente e para trás, fazendo com que ela perdesse o equilíbrio e caísse nos braços de Dimitri. Embora tenha tentado se recompor, ele a segurou com tanta força que, por um segundo, sentiu seu corpo amolecer. Quieta, olhou-o cuidadosamente, permitindo que seu corpo respondesse, mas não suas emoções.

— Iuu-hu! — chamou alguém no convés. — Ti yinete? Dimitri congelou. Olívia arregalou os olhos ao som dos passos que se aproximavam.

— Atracamos — explicou, apressado.

— Mas quem...? — perguntou, com a boca seca.

— Pedhimou...

Olívia imediatamente reconheceu a voz. Chamando em grego o equivalente a "meu menino", a mãe de Dimitri, corada e animada, chegava à porta aberta do banheiro. Olívia virou-se, e o rosto feliz de Marina se transformou em horror ao ver Dimitri aparentemente abra­çando sua ex-mulher mal coberta pela toalha.

— Você! — resmungou Marina. Olívia enrubesceu.

— Sim, eu. — Seus olhos se estreitaram ao ver a decepção estam­pada no rosto de Marina. — Pensou que fosse outra pessoa. Quem esperava encontrar? — desafiou.

A surpresa não era ver seu filho com uma loura seminua nos bra­ços. Talvez, pensou negativamente, a relação de Dimitri e Eleni esti­vesse mais longe do que ele dissera.

— Eleni! E-eu pensei que fosse ela! — hesitou Marina, confir­mando as suspeitas de Olívia.

Ela apertou os lábios. Talvez Dimitri já fosse amante de Eleni, mas plantara a idéia de casamento na cabeça da menina. Ridículo!

— Ela saiu para encontrar o pai — explicou Dimitri. — Boa tarde, mãe. Desculpe-nos desconcertá-la. Não esperávamos que ninguém chegasse sem avisar — adicionou secamente.

Uma leve repreensão, embora afetuosa, fazendo o corpo esquelé­tico de sua mãe enrijecer. Olívia sentiu pena dela, muito embora se lembrasse de que sua sogra sempre os interrompia, destruindo deliberadamente os piqueniques românticos e as caminhadas silenciosas, intrometendo-se nos momentos de maior privacidade.

— O que está acontecendo? — questionou Marina. — Por que ela está aqui...?

— Conversaremos em particular — disse Dimitri, gentilmente. — É sobre o divórcio. Encontro você nos fundos da casa e lhe contarei tudo com detalhes mais tarde. Olívia, sugiro que se vista. Sabe onde fica o quarto.

Dito isso, ele a virou e deu-lhe um leve tapinha no traseiro. Olívia girou nos calcanhares e, antes de poder dar o troco, ele tapou seus lábios com os dedos e a alertou com o olhar.

— Lembre-se da sua promessa — sussurrou-lhe ao pé do ouvido. — E deixe que eu conto a novidade para minha mãe. Ela saberá em breve.

Ela ficou desconfiada, imaginando se ele teria armado este mo­mento. Pois seria muito conveniente que sua mãe os encontrasse an­tes de se vestirem.

Seus olhares colidiram. Estava satisfeito por deixá-la à mercê dos seus caprichos. Ela pensava em jogar tudo pelos ares e acabar com aquela história. Um formigamento tomou seu corpo, iluminando-a com excitação. Nunca se sentira tão acesa.

Certo, pensou, aceitando o desafio que viria. Quer uma esposa adorável, então se segure, pois terá uma além do que imagina.

Languidamente envolveu os braços no pescoço dele e o beijou na boca. Tinha uma arma: seu corpo. E o usaria para obter bons resultados.

— Como quiser... querido — murmurou, feliz por vê-lo tremer e virar os olhos.

— Dimitri! — gaguejou Marina, alarmada.

— Não se preocupe, mãe. Ela é uma atrevida, eu cuido disso — murmurou.

Lançando a ele um olhar maravilhosamente quente e amoroso, Olívia olhou para a mulher que ajudara a arruinar seu casamento. Marina parecia estarrecida e em pânico. Sua expressão se entristeceu por pena daquela mulher. A mãe de Dimitri viveria um verdadeiro inferno nas próximas duas semanas.

— Por favor, me dêem licença para secar meu cabelo e ficar apresentável — disse, com doçura. Fez um bico e completou: — Vejo você daqui a pouco, querido.

Aparentemente fria e controlada, deu um tapinha no bumbum dele, juntou suas roupas e passou pela sogra ofendida.

Dimitri observou o balanço do corpo de Olívia. Delicioso. O tra­seiro mais gostoso que já tinha visto, costas definidas e pele com brilho dourado.

Todo o seu corpo vibrou com as lembranças do amor que fizeram. Ela instigara sua paixão no modo mais espetacular. Passara perigosa­mente perto dos sentimentos mais bem lacrados do seu peito, porém se lembrara a tempo de que ela o havia usado — e continuava usando para satisfazer seu apetite insaciável.

— Ela está tentando seduzi-lo de novo! — declarou sua mãe, an­siosa.

Olívia havia desempenhado o papel de mulher vampiresca para Marina com uma sinceridade alarmante. Uma mulher que mentia com tanta convicção jamais seria confiável.

— Preciso me vestir — disse Dimitri com uma gentileza fora do comum. Dirigiu-se a Marina e abraçou o corpo magro de maneira amável. Beijou seu rosto e fingiu não ver as lágrimas que se acumu­lavam em seus olhos. — Não há com que se preocupar. Eu juro. Tudo acabará bem. Tenho um plano — Viu o rosto da mãe se iluminar. — Nos veremos em casa, já disse. Conversaremos.

— Não há tempo para isso! Estou ocupada demais! Preparei uma festa surpresa para você. Será hoje à noite — disse, numa voz irreco-nhecivelmente baixa. — Para celebrar seu divórcio. Você virá, não é?

Desanimado, sabia que não poderia envergonhar sua mãe pedindo que cancelasse.

— Claro. — Pegou carinhosamente na mão dela. — Obrigada.

Mesmo no vestido branco caro, feito por estilistas, com o cabelo penteado e a maquiagem feita por especialistas, Marina parecia inse­gura. Como se nunca estivesse à vontade com a fortuna e talvez fosse mais feliz se continuasse esposa de um pastor.

Ele se enterneceu. Seu pai tinha adotado a nova vida, trabalhado para construir o que agora era um império de bilhões de dólares, com empreendimentos do império Angelaki por todo o mundo. Mas sua mãe sofria de uma insegurança intensa, temerosa por falar ou fazei algo errado, preocupada com as ocasiões sociais em que deveria ser co-anfitriã. E gradualmente se escondera em uma couraça de arrogância para disfarçar a insegurança e raramente baixava a guarda.

Dimitri adoraria reencontrar a mãe alegre e carinhosa de sua infância. Aquela que assava para ele biscoitos com formato de gente, que corria descalça pelo jardim para ver o pôr-do-sol com o filho.

Tomou sua mão e a beijou carinhosamente.

— Vejo-a em instantes — disse, amigável, seguindo para a sala d< vestir.

Quando Olívia saiu do barco em direção ao brilho do sol da tarde cerca de vinte minutos depois, confirmou suas suspeitas: tinham ancorado no pequeno porto pesqueiro de Olímpia. Dimitri, debruçada no parapeito, observava a cidadela serena cujas casas eram em forma de cubos por toda parte.

— Sua mãe já foi? — perguntou Olívia, aproximando-se.

— Voltou para casa.

— O que disse a ela?

— Que você ficaria conosco para manter nosso acordo o mais privado possível.

— Como ela recebeu a notícia?

— Mal. Tem medo que eu não consiga resistir a você — disse lentamente.

Ela balançou a cabeça e lançou-lhe um olhar sedutor.

— Talvez esteja certa.

Dimitri acariciou-a com o olhar e ela se rendeu ao delicioso derretimento dos ossos do seu corpo.

— Acho que nós dois gostaremos desse jogo. Você sabe que é só um jogo, não?

Ela bufou e retrucou com veemência:

— Quero me ver livre de você.

— Olívia... — Estranhamente, Dimitri parecia lutar para encontrar as palavras certas.

— O quê? — perguntou, enrugando a testa.

— Não quero anunciar nossa volta imediatamente. Quero que mi­nha mãe veja o que está acontecendo por si mesma e aceite de manei­ra espontânea.

— Ela não vai aceitar! Nunca! — disse Olívia, queimando. Ele franziu o cenho.

— Está errada. Ela aceitará se achar que é o que quero. Acabou aceitando meu casamento...

— Você está enganado. Ela não aceitou.

— Isso é ridículo! Sei o que você pensa dela. Já me disse várias vezes...

— Tudo que eu disse era verdade — disse obstinadamente. Mari­na tinha sido o pomo da discórdia durante todo o breve tempo de casados. — Você nunca acreditou porque ela era muito cuidadosa o suficiente para fazer seus comentários ácidos quando você não estava por perto. Mas ela me destruía aos poucos e fazia da minha vida um inferno quando você viajava...

Ele a interrompeu com um aceno impaciente:

— Não quero saber de águas passadas. Apesar de ter suas suspei­tas, ela jamais disse uma palavra contra você depois que nos casamos. O que sei é que nunca se esforçou para ser amiga dela.

— Me esforcei sim — insistiu Olívia. — Tentei me encaixar, ser uma boa nora, mas... oh, para que isso tudo? Não importa mais.

— Isso. Não importa — retrucou ele. — Mas não quero magoá-la. Ela sabe da química sexual entre nós, mas nossa volta deve ser mais que isso. Precisamos convencer a todos que estamos apaixonados. Entendeu?

— Concordo — disse calmamente e, ao sentir os nervos aflorados, preferiu direcionar sua atenção ao cenário à frente.

— Acha que dará conta do recado? — perguntou Dimitri.

— Vale a pena para me livrar de você rapidamente. E a vista compensa — sussurrou ela, soltando um suspiro de prazer. Não havia lugar no mundo igual àquele.

Um pescador remendava uma rede cabisbaixo, concentrado em seus dedos ágeis. A água batia suavemente no iate. Ouvia o som de crianças alegres brincando na praia.

Viu o olhar concentrado de Dimitri para as crianças e o espasmo de dor que passou pelo rosto dele, ao mesmo tempo que uma do invadiu seu coração. Seria ótimo ter crianças para amar. De olhos cabelos escuros, fortes e vigorosas como Dimitri...

Saiu impacientemente do seu sonho fútil, imaginando se ele ainda via Athena e o filho.

— Vamos? — sugeriu ela, num tom ríspido e dissimulado.

Estou ansiosa para rever a casa e nadar naquela piscina fantástica.

— Devo avisá-la que minha mãe preparou uma festa para mim hoje. Para comemorar o divórcio.

— Ela não perde tempo — resmungou Olívia. — Ficarei escondida no quarto.

— Quero que esteja lá.

— A esposa desnaturada? As pessoas não acharão isso estranho?

— Talvez achem estranhamente civilizado. Mas uma ocasião pú­blica é ideal para o nosso objetivo. Tenho a impressão de que Ele estará lá.

— Até onde iremos?

— Olhares prolongados. Dançar colado. Muitos toques — disse arrastando as palavras.

Olívia podia lidar com isso. Seria sincero da parte dela. Só precisava manter em mente que, da parte dele, todos os sentimentos viria da cintura para baixo.

— Tudo bem — disse levemente.

— Não tem problema? — interrogou Dimitri, claramente surpresa por ela conseguir ficar com um homem sedutor como ele sem sucumbir ao seu charme.

— Há. Um. — Sorriu abertamente e seus olhos reviraram de satisfação ao vê-lo interpretar seu comentário como um reconhecimento de que ele era irresistível. Soltou um suspiro e continuou: — Não tenho nada para vestir!

Ele riu, mas desafiou-a com o olhar.

— Se meus problemas fossem assim tão pequenos — observou. Contudo, todas as roupas que você deixou ainda estão no seu armário.

— Estão? Pensei que tivesse jogado tudo fora anos atrás — disse surpresa.

— O quarto foi trancado no dia em que você partiu — disse ele, bruscamente. — Venha. Vamos para terra.

 

Olívia podia ouvir os acordes agradáveis da música ao vivo en­quanto provava um vestido atrás do outro e os descartava numa inde­cisão frenética. Correndo à janela, tentou enxergar o terraço da pisci­na, onde seria a festa. Garçons alinhados passavam apressadamente por entre as estátuas clássicas, carregando bandejas de prata com comida para a enorme mesa do bufê. Uma pequena orquestra grega mudava sutilmente de uma música folclórica para uma balada senti­mental, e um famoso cantor local entoava letras apaixonadas de amor e desejo.

Marina corria de um lado para o outro, seu corpo magro resplan­decendo em um lindo vestido longo de festa que devia ter custado uma fortuna a Dimitri. Era uma festa para uni-lo a Eleni, pensou Olívia. Marina estava sendo muito insensível ao tentar praticamente vender seu filho a uma família grega aristocrática!

As pessoas começaram a chegar. Convencidas e elegantes, passea­vam em volta da piscina, admirando as plantas exóticas e as estátuas com iluminação romântica.

Seu nervosismo aumentou. Entrou em desespero enquanto viu to­das as roupas espalhadas sobre a cama. Estava indecisa entre usar algo que parecesse discreto e sereno para uma esposa ou seguir seus instintos e vestir-se como uma mulher sedutora e vistosa, tirando Eleni do páreo. Seria divertido explodir num evento como esse. E no fundo, sabia que queria deixar Dimitri boquiaberto.

— Não se vestiu ainda?

Ela se virou de maneira estabanada e se iluminou quando percebeu que Dimitri a tateava com os olhos, examinando-a da ponta dos pés até o elástico preto da meia-calça na cintura. Ele continuou a levantar o olhar até seus seios, erguidos pelo sutiã meia-taça.

— Que dedução fantástica — criticou, assim que recuperou o fô­lego. — Você nunca bate à porta?

— Estou na minha casa.

— Mas não sou sua mulher! — respondeu, agressiva.

— Para todos os efeitos, é sim — salientou ele.

Olívia tentava não olhar para ele. Um olhar daqueles já tinha sido o suficiente. Seu coração quase saía pela boca quando ele usava um traje a rigor, e desta vez não foi diferente.

A maneira como o paletó se moldava sobre seu peito maravilhoso fazia com que ela quisesse passar a mão por todo o seu tronco. Seu rosto macio recém-barbeado a convidava ao toque ou à pressão dos seus lábios. Desejava-o mais uma vez, e nem tinham começado o joguinho daquela noite. Soltou um gemido.

— Estamos em particular, posso lhe jogar coisas, você mesmo disse — murmurou, obstinada, contemplando uma estatueta de már­more com um ar de ameaça.

— Jogue o que quiser — retrucou ele, em prontidão. — Mas as pessoas devem me ver entrando e saindo do seu quarto para que possam fofocar.

— Imagino — disse, relutante, e cegamente pegou um dos vesti­dos estendidos na cama.

— Este não — interrompeu Dimitri, tirando-o de suas mãos. — Uma freira usaria este sem nenhum pudor. Este aqui.

Segurou o pano escarlate que ela tanto ignorara e rejeitara sem sequer prová-lo. Era seu favorito — e o dele também. Mas não ousa­ria vestir algo tão chamativo.

Torceu o nariz, em dúvida.

— Não acha um pouco apelativo?

— Paguei caro por ele — disse. — É um nocaute. Todos os olhares se voltarão para você. Ninguém ficará surpreso por me ver ao seu lado a noite inteira.

— Não está preocupado que Eleni e seu pai se sintam ofendidos?

— Todos, menos eles, desejam nossa reconciliação — disse en­quanto segurava o vestido para ela. — As pessoas são sentimentais. Meu sócio não poderá demonstrar sua decepção em público, não por uma instituição tão importante e sagrada como o casamento.

Sagrado. O lábio inferior de Olívia se contraiu. Se era tão especial assim, por que ele o destruíra?

— Sua mãe subirá pelas paredes!

— Não em público. E se consolará com o fato de a família não passar pela vergonha de um divórcio.

— Até que ela saiba da verdade, e nós realmente terminemos o casamento — salientou ela.

Dimitri sorriu com uma autoconfiança irritante.

— Estou certo de que conseguirei persuadi-la, na época, de que a única saída para todos é o divórcio.

— Oh, tenho certeza de que ela concordará prontamente com você

— disse, ironizando. — E o ajudará a espalhar a notícia pelos quatro ventos. — Dimitri deu uma gargalhada, mas ela não. Estava enjoada.

— Duas semanas. E estaremos livres — refletiu Olívia.

— Então vamos apostar nessa liberdade — comentou, encorajando-a a entrar no vestido. — Quanto mais cedo começarmos, mais cedo nos livraremos um do outro. Vista este.

— Usei este vestido somente uma vez — disse ela, hesitante.

— Em Nova York — disse, com a voz rouca e os olhos brilhantes derretendo feito chocolate. — Naquele baile beneficente — lembrou, sorrindo encantado e olhando fixamente para seus lábios entreabertos. — Entre todas aquelas celebridades, você foi quem mais chamou a atenção. Todos falavam de você. Me senti um gigante por tê-la nos meus braços.

Fechou os olhos para encobrir sua tristeza. Tinha sido um acessó­rio para ele, e de quebra, também era boa de cama.

Isso a ajudou a decidir: usaria o vestido e mostraria o que ele tinha perdido. Uma mulher rara, que o amava mais que a própria vida. Que lhe daria filhos e filhas para brincar e mimar por todo o jardim. Se ele não tivesse sentido a necessidade de ser cobiçado por outras mulheres.

O vestido deslizou pelo seu corpo, passando por suas curvas e apertando-as de maneira possessiva. A pretexto de ajeitar o vestido, as mãos de Dimitri se moldaram nas curvas do seu corpo e quadris, apertando sua cintura.

Ele mal respirava. Obedeceu naturalmente ao gesto de fechar seu vestido nas costas, assim que ela se virou. Seus dedos encostaram em seu traseiro quente e, ao fechar o gancho e olhar para a base de sua espinha, onde o vestido terminava, agarrou-a como um adolescente desajeitado frente a sua primeira chance de tocar a nudez de uma mulher.

— Deixe-me ver! — rosnou ele.

Os olhos de Olívia brilhavam quando se virou. Tentou olhá-la de maneira objetiva, mas não conseguiu. Sabia que estava excitado. Seus dentes estavam travados e seu sexo estava rígido, fazendo com que se esquecesse de que tinha cérebro.

Naquele momento, Olívia suspirou, fazendo seus seios generosos provocarem curvas deliciosas no decote do vestido. Ele não se conte­ve. Mergulhou a cabeça e deixou os lábios se movimentarem por eles enquanto suas mãos cobriam seu traseiro pequeno e redondo.

Ela estava ofegante, e seus lábios encontraram os dele. Ele a do­brou para trás, deitando-a sobre o material sedoso que se esfregava sensualmente em seu corpo esguio. A pressão do joelho dela entre as pernas de Dimitri fez com que ele gemesse e buscasse os lábios dela com muito mais intensidade e desespero.

Os dedos de Dimitri passeavam pelas costas nuas de Olívia, fazen­do-a arquear a coluna na direção dele. Seus braços puxavam a cabeça dele com vigor e satisfação.

— Dimitri! — sussurrou.

Isso o trouxe de volta à razão. Ele se levantou e se arrumou.

— Isso não basta como prova? Seu vestido me deixa em chamas — comentou, com firmeza. — Hoje todos os homens se perguntarão por que não a coloco sobre os ombros e a levo embora. Ninguém me culpará por desejá-la.

— Que motivo fútil — retrucou, respirando pesado e arrumando o vestido. Ele notou o bico do seio escuro e rígido e desejou poder chupá-lo até fazê-la implorar por misericórdia. Ela percebeu seu olhar. — Sou só um corpo para você, não é isso? — disse, quente e perturbada.—Ninguém se importa com o que sinto...

— Eu me importei — objetou ele, indo em direção à janela aberta para se refrescar. — Muito tempo atrás — adicionou, antes que ela entendesse o que não devia. — Está pronta agora? — perguntou, com um tom arrogante.

— Quase. Sua voz parecia trêmula, mas ele não se preocupou em saber por que, pois precisava relaxar os nervos. Muitas vezes, nos velhos tempos, ficara quase doente de tanta apreensão diante de uma grande negociação. Mas nunca se sentira como agora.

Naquela noite, precisava controlar sua luxúria selvagem e desen­terrar com cuidado aqueles gestos e olhares de amor há muito tranca­dos no coração. Sabia que era perigoso. Olívia o machucara tanto que jurara para si mesmo que jamais deixaria nenhuma mulher chegar perto do seu coração novamente.

Observou a escuridão da noite, inalando o aroma noturno. Atrás dele, Olívia mexia nas jóias. Talvez escolhesse o colar de rubis que dei­xara guardado no cofre, e que ele colocara na penteadeira mais cedo, junto com o resto das jóias que escaparam de suas mãos vorazes.

— Dimitri. Ele enrijeceu com a maciez da voz.

— O quê? Olívia engoliu em seco. Seus nervos estavam em frangalhos, e ele estava rosnando para ela!

— Preciso da sua opinião — conseguiu falar com uma voz tran­qüila. — Esta noite é importante para nós dois.

Com um suspiro irritado, saiu da janela e olhou para ela. Por um momento, sua feição amarrada se desfez, e ela viu admiração nos olhos dele. A frieza substituiu o calor.

— Você já está ótima.

— Oh, obrigada — murmurou ela, deixando a escova cair.

Suas mãos tocaram os ombros dela. Os dois queimavam, sentindo a pele arder. No espelho, ela viu o rosto escuro e enigmático de Dimitri junto ao dela.

Olívia levantou a cabeça numa tentativa inconsciente de permane­cer calma e relaxada, olhando para os brincos que balançavam sutilmente. Os rubis brilhavam como se estivessem pegando fogo.

— Você parece uma rainha. O que mais deseja? — ele a elogiou. Ela fez uma careta, odiando o jeito como a tratava. Quando queria sexo, ele a mimava e adulava. Em todos os outros momentos, ele a atropelava.

Sentindo-se ofendida, respondeu:

— Só queria saber se os rubis estão bem...

— Estão. Temos de ir.

Olívia queria enforcá-lo. Mas teria sua vingança de outro jeito. Ficou de pé graciosamente e levantou a saia justa, mostrando uma parte generosa das pernas. Fez isso de maneira lenta, ouvindo a respiração de Dimitri por todo o quarto. Colocou os pés dentro de um par de sandálias com pedras preciosas antes de deixar a saia escorregar, acariciando-a até os tornozelos.

— Estou pronta — anunciou com um doce sorriso. Não houve resposta.

— Descerei antes. Apareça daqui a dez minutos.

— Mas...!

— Não podemos chegar juntos. Você precisa fazer uma entrada triunfal. Tenho certeza de que será memorável. — Dimitri a desnu­dou com um olhar faminto, fazendo seu estômago revirar. — Contu­do, não tenho dúvida de que ficaremos juntos e teremos uma noite inesquecível. Você se renderá a mim como nunca. E lhe darei tanto prazer até que acredite que é possível morrer disso. — Seus olhos incendiaram os dela. — Tenha isso em mente por toda a noite. Pense nisso, deseje isso. — E depois de dizer essas palavras, saiu antes que ela pudesse voltar a respirar.

 

DE UM lugar privilegiado, e com as mãos trêmulas segurando firme no parapeito da janela, observou Dimitri fazer sua entrada ao descer a escada e chegar ao terraço da piscina.

Todos pararam de falar por um instante. As mulheres olhavam fixamente para ele. Os homens o fitavam com inveja e admiração declarados. Dimitri lançou a todos os convidados um sorriso vago e passeou por entre eles. Era um anfitrião genial e fascinante, o que trazia lembranças das festas organizadas por eles tempos atrás.

Olívia viu Eleni se desvencilhar de um grupo de meninas afetadas e seguir determinada em direção a Dimitri, praticamente empurrando as pessoas que estavam no caminho. Ele cambaleou com o abraço entusiasmado de Eleni e deu um passo para trás, repelindo o ímpeto voraz da garota.

Basta, pensou ela, odiando a maneira como Eleni se derretia para ele. Ela o alisava, a pretexto de admirar o paletó. Olívia reagiu como se seu território tivesse sido invadido.

Porém, devia se lembrar de que seu papel naquela noite era agir como a esposa adorável, e não sentir como tal. Ela se incomodava por ter de parecer tão caída por ele. Isso ajudaria a inflar ainda mais seu ego.

Ainda vibrando com a promessa de Dimitri, repetiu para si mesma que aquelas palavras não passavam de parte do jogo dele. Queria que a paixão dela parecesse real para todos. Era o que ela também preten­dia. Esta seria uma noite que ele jamais esqueceria. Ela também tinha suas armas. E ele iria para a cama frustrado.

Será que Athena estaria na festa com o filho de Dimitri? Seria insuportável se estivesse. Porém, uma vez que a festa fora preparada por Marina, Athena não seria convidada, não com Eleni no centro das atenções. Será que Athena participava de tudo isso? Ela gostaria de saber — precisava saber.

Escutou as risadas vindas de baixo e sentiu o estômago embrulhar. Mas tudo aquilo era muito importante. Não deixaria que calafrios impedissem a realização de seu objetivo.

Enfrente, disse para si mesma. Tenha prazer rendendo seu mari­do arrogante ao desejo incontrolável de tê-la! Hoje à noite ela seria "a outra", embora tecnicamente fosse a esposa! Olívia deu uma risadinha.

Ajeitou os cabelos displicentemente, de modo que uma mecha caísse sobre um dos olhos, e ensaiou olhares sensuais. Achando graça do resultado, aproveitou o momento de humor que aliviara um pouco sua tensão e saiu do quarto impetuosamente, coberta de sensualidade.

A descida pelos degraus de mármore parecia nunca terminar. Seu corpo doía com a tensão enquanto examinava a multidão agora silenciada, apoiando-se em cada degrau com a parte de trás dos torno­zelos.

Para seu alívio, Dimitri caminhou até o começo da escada, ofere­cendo-lhe a mão. Eleni, abandonada, tinha os olhos esbugalhados e estáticos.

Podia-se ouvir um alfinete cair.

— Olívia — disse ele, frio como um pepino, beijando-a no rosto. — Seja bem-vinda.

— Olá, querido — disse com a voz rouca, jogando os braços em volta do pescoço dele para que não fugisse. Piscou várias vezes, fler­tando com Dimitri. — Que festa adorável. Será muito divertido.

Os olhos dele brilharam.

— Posso ver — comentou secamente. — Venha cumprimentar minha mãe — disse implacavelmente, indo em direção à figura está­tica de Marina.

Olívia engoliu em seco e estampou um sorriso ao dar um beijo forçado naquele rosto frio e maquiado.

— Boa noite, Marina — disse, controlando o tremor na voz. Marina tremia, e Olívia sentiu pena. Dimitri havia colocado am­bas em uma situação bastante delicada.

— Você está linda, Marina — disse, com sinceridade. — E vejo que preparou a festa com o talento e a eficiência de sempre. Tudo está maravilhoso, com uma iluminação mágica.

— Obrigada — disse Marina, inclinando a cabeça. — Sabe o mo­tivo desta festa?

— Sim — respondeu alegremente. — Para comemorar o divórcio. Uma ótima idéia.

Marina piscou os olhos, desconcertada pelo tom suave na voz de Olívia.

— Eu... achei que você não gostaria de vir — disse, ansiosa e nervosa.

— Dimitri insistiu — respondeu Olívia, sorrindo e jogando a cul­pa nele.

— Não poderia deixá-la no quarto enquanto celebramos aqui em­baixo. Seria uma ofensa à minha hospitalidade grega — explicou Dimitri gentilmente. — Mãe, tenho certeza de que todos apreciarão sua tolerância e maturidade quanto ao divórcio. Imaginarão que você a convidou pessoalmente e aplaudirão seu espírito generoso.

Marina sentiu-se um pouco acuada, e Olívia sabia que ele consegui­ra fazer a mãe se sentir melhor em relação à situação constrangedora.

— Suponho que não se importe com a presença de Eleni. — Mari­na apoiou a mão nos ombros de Olívia, como amigas trocando confi­dencias. — Ela e Dimitri têm estado muito próximos nos últimos meses — sussurrou.

— Quer dizer amantes? — perguntou com tanta sinceridade que surpreendeu os dois.

— Oh! Isso não sei — Marina garantiu a ela, embora tenha deixa­do claro que acreditava que sim. — Como homem, Dimitri tem ne­cessidades...

— Mãe! — disse Dimitri rapidamente. Apertou a mão de Olívia para que não explodisse numa gargalhada, e ela percebeu que ele também estava controlando a própria risada. — Não devemos afastá-la dos seus convidados. Nós dois vamos dar uma volta por aí. Com licença.

— Como homem, Dimitri tem necessidades! — murmurou Olívia ao se afastarem. — Você tem carta branca para fazer o que quiser, não é mesmo?

— Exatamente — concordou, sorrindo. — E quando não tenho, faço o que quero do mesmo jeito.

— Não me surpreende que você ache que o mundo gira à sua volta.

— Não enrugue a testa. Pensarão que estamos discutindo. Sorria amavelmente e me adore — ordenou ele.

— Fingir que adoro você — corrigiu, piscando desesperadamente para ele até que perdesse o controle e ambos caíssem na gargalhada.

— Será uma noite longa e fantástica! — disse Dimitri, com deleite.

— Longa, não. — Ela queria abalar sua autoconfiança. Sentia prazer em rejeitar seus avanços. — Cinderela partirá à meia-noite, e o príncipe voltará a ser um rato.

Dimitri deu uma piscadela.

— Repito quantas vezes for necessário: será longa. Muito longa — murmurou no ouvido dela. — E acho que está confusa em relação aos contos de fadas. O príncipe é sempre o mocinho...

— Não na minha história. Aqui ele tem todas as características de um roedor de primeira — retrucou, deliciando-se com a Situação.

— Não pode me acusar de ter sangue-frio — protestou ele.

— Coração frio. E pega qualquer pedaço de mulher que passar...

— Cinderela — disse Dimitri, sorrindo —, temos deveres sociais a cumprir. Continuaremos esse assunto na cama.

— Certamente que não!

Mas eleja cumprimentava seus amigos, e ela foi forçada a segurar a língua.

— Olívia — disse ele, com carinho convincente. — Creio que já conhece várias pessoas aqui, mas talvez não conheça meus amigos de trabalho mais recentes. Minha esposa, Olívia. — Ela sorriu para to­dos, um pouco tensa. — Está aqui para assinarmos o divórcio.

A princípio, houve um momento de choque e silêncio; depois, as pessoas começaram a se apresentar. Durante as intermináveis con­versas, ela e Dimitri narravam animadamente seus planos futuros quando separados, ao mesmo tempo que trocavam olhares e insinua­ções. Olívia continuava a pestanejar ocasionalmente, flertando com ele.

Percebeu que a mão de Dimitri estava deslizando por suas costas nuas. E que estava se aproximando. E às vezes ele parecia procurar as palavras por estar hipnotizado por ela.

Sorriu para ele com os olhos arregalados, que falavam por si mes­mos. Seu corpo em breve estaria sob o dele. Era como nos velhos tempos, e isso machucava, mas ela continuaria o jogo porque era o que devia fazer.

Aos poucos ficou mais ousada e flertou às claras, lembrando-o constantemente de como viviam no passado. Embora ele parecesse rir com os amigos das provocações e dos gracejos dela, algumas ve­zes percebia um alerta nos olhos de Dimitri. Que a incentivavam a desafiá-lo ainda mais.

— Você já conhece meu sócio, Nikos Kaloyirou — murmurou, tirando-a de um grupo de pessoas fascinadas pela integração entre os dois.

Olívia rapidamente ficou séria. Era o pai de Eleni, um homem distinto, grisalho, de feição agradável e olhar investigativo.

— Sim — disse calorosamente a Nikos, que, galanteador, pegou sua mão e a beijou. — Encontrei-o em Londres algumas vezes, quan­do era secretária de Dimitri. E claro, veio ao nosso casamento com sua filha Eleni. Mas nossos caminhos não se cruzaram depois disso.

Nikos concordou amavelmente com a cabeça.

— Já deve saber que logo depois disso deixei os negócios de Nova York nas mãos de Eleni. — Propôs um brinde silencioso com seu copo. — Lembro-me dos seus cuidados comigo quando peguei uma gripe em Londres. Visitava-me todos os dias, perguntava sobre o que eu gostava, meus passatempos, e procurou livros e revistas para me entreter. Além disso, levou minha filha Eleni para fazer compras.

Tinha se esquecido daquilo. A garota era terrível, mimada, petu­lante, a adolescente de quinze anos mais desagradável que conhecera.

— Foi divertido — disse, pensando no tempo que passou cuidan­do dele naquela época. — Nunca me esquecerei do rosto do jornaleiro quando saí com um maço de revistas sobre pescaria, como prender suas próprias iscas, um livro sobre...

— Câmbio negro durante a procura de orquídeas na América Latina e um especialmente mórbido sobre a pesca de baleias no século XVIII — Nikos finalizou com uma gargalhada gostosa. — Gostei tanto de sua seleção que quase lamentei ter melhorado!

Olívia não desejava enganar aquele homem decente e honesto. Estava a ponto de inventar uma desculpa para sair quando Eleni le­vantou a voz, surpreendendo a todos. Parecia gritar com um garçom cabisbaixo. Dimitri franziu o cenho e se afastava de Olívia, mas Ni­kos segurou seu braço.

— Minha filha querida age com tanta paixão! — disse com amor.

— Ela lhe daria um grande avanço nos negócios, Dimitri!

— Tenho certeza que sim — concordou ele.

Nikos sorriu, piscou para Dimitri de maneira expressiva e se reti­rou para acalmar a filha.

— Ele a adora — comentou Olívia.

— E é cego diante do mau comportamento dela.

— Ele sabe que você dormiu com ela? — Olívia ousou perguntar. ; Dimitri engasgou.

— É a segunda vez que me acusa disso. O que a faz pensar assim?

— irritou-se.

— Coisas — resmungou Olívia, acenando vagamente com a mão.

— Você disse que ela é fisicamente estonteante. Já que isso é tudo o que lhe interessa nas mulheres, imaginei...

— Sorria — murmurou ele. — Suas garras estão aparecendo. Ela vestiu uma expressão especialmente apaixonada, e ele deu uma risada seguida de um beijo na ponta do nariz.

— Você não confirmou nem negou seu relacionamento com Eleni

— insistiu ela.

— Não preciso. A única coisa que precisa saber é que não quero ofender meu sócio Nikos. E que estou decidido a não ser arrastado para um casamento. Preciso fazer Eleni e minha mãe entenderem que não estou interessado numa adolescente de dezenove anos com acessos de raiva. Como esse último — adicionou, com um sorriso forçado.

Por um momento, observaram Eleni bater o pé, com o rosto ver­melho, enquanto seu pai a advertia de maneira ineficaz.

Olívia deu um risinho de satisfação.

— Quase tenho pena de você — disse, irônica. — Se eu fosse mesmo vingativa, pensaria em deixá-lo entregue aos caprichos de Eleni.

— Caprichos? — comentou ele, em tom pesado. — Cometeria suicídio em uma semana.

— Que mentira. Você ama demais a vida para isso. Vamos. — Amarrou-se à cintura dele e sentiu-se extremamente feliz. Era mara­vilhoso ser a outra! — Vamos encenar mais um pouquinho. Querido.

— Sua bruxa — resmungou, mordendo-lhe a orelha.

Olívia permitiu que seu arrepio de prazer fosse visível, pois sabia que estavam sendo observados e que as pessoas próximas se curva­vam para escutá-los.

— O que seu advogado dirá a respeito de seu comportamento?

— Neste momento, pouco me importa — disse, num gemido sen­sual. — Hoje à noite você é minha mulher, e pretendo exigir meus direitos.

Puxou-a com força contra seu corpo, e ela manteve a compostura, lembrando-se de que tudo não passava de uma cena para os outros. Levantou as sobrancelhas e disse sensualmente:

— Ohhh! Adoro quando você é dominador como um soberano pomposo!

Os lábios de Dimitri se curvaram ao ouvir o elogio duvidoso. E sussurrou-lhe ao pé do ouvido:

— Cuidado. Pode se arrepender desse comentário no café-da-manhã.

— Que excitante — disse ela, com os olhos brilhantes e travessos.

— Será mesmo. Eu prometo.

Ela riu com prazer e o arrastou para perto de quatro amigos dele. Todos estavam à volta dela como formigas no doce, e não desgruda­vam os olhos do seu decote.

Dimitri se tornou mais possessivo. Ela adorava cada minuto de atenção dele, e muitas vezes se pegava olhando para o marido com adoração, esquecendo-se de que ele estava apenas fingindo ter ciúme.

Ficou surpreso com a facilidade de flertar de Olívia. Anos de prá­tica, supôs. E ainda assim, lançava-lhe olhares repletos de amor, que atiçavam seu desejo de agarrá-la. Agora ele sabia como ela o engana­ra todos esses anos. Até seus olhos mentiam de maneira convincente.

— Diga-me, Olívia — disse seu amigo Vangelis, com voz delica­da e persuasiva. — Você ficará na Grécia depois do divórcio?

— Será muito bem-vinda — interrompeu Andros, vidrado em seus seios. — Especialmente na minha casa.

— Eu toda ou alguma parte específica? — perguntou ela sorrindo, e a irritação de Dimitri se escondeu atrás de um sorriso forçado.

— Oh, você toda, claro! — disse Andros, vibrando. Dimitri preo­cupou-se cinicamente com a pressão alta do amigo.

— Muito gentil da sua parte — murmurou Olívia, sorrindo. — Obrigada.

— Hora de circular — ordenou Dimitri, e todos os homens olha­ram preocupados para a expressão ameaçadora. — Devo dizer-lhes que Olívia não tem mais tanta certeza sobre o seu futuro depois que nos encontramos novamente. E estou ficando cada vez mais incerto do meu também — comentou, deixando o olhar repousar profunda­mente nos olhos dela.

— Isso que dizer que... vocês dois...? — Vangelis deixou o resto das palavras no ar.

As mãos de Dimitri pegaram os ombros de Olívia, e ela o fitou com adoração escancarada, antes de piscar e adotar um olhar mais apaixonado.

Olhos mentirosos! Provocações falsas!, pensou ele, quase perden­do a calma. Tocou seus lábios entreabertos com o dedo, cinicamente admirando a mulher que enfeitiçara seus amigos.

— Não posso dizer nada ainda. Guarde o nosso lugar — disse, de maneira breve, e a arrastou para um canto silencioso fora de vista.

Adoraria poder colocá-la sobre os joelhos e dar-lhe umas palma­das. Droga. Por que estava com tanto ciúme?

— Sabia que você causaria impacto — resmungou, por baixo de um sorriso irônico. — Mas não esperava que meus amigos intelec­tuais jogassem o cérebro fora tão prontamente.

— Esse é o problema com homens e seios às vezes — disse, deli­ciada. — Tudo é resto, não interessa. Toda a comunicação se volta para baixo.

— Você os provocou — rosnou ele.

— Estava apenas fazendo o que concordamos — respondeu, de­fendendo-se.

— E muito bem — zombou ele. — Mas isso não inclui olhar para qualquer um que esteja usando calças.

— É ótimo que as pessoas o vejam enciumado — disse, recatada. Ele a segurou impacientemente.

— Não quero que os homens pensem que está livre. Você ainda é minha mulher. Comporte-se com decoro e não traga sua moral lon­drina para cá.

— Isto é verdadeiro ou está apenas encenando a síndrome do Ma­rido ciumento — perguntou, com os olhos arregalados de surpresa na semi-escuridão.

Dimitri percebeu que estava a ponto de se trair e demonstrar que era tudo verdadeiro. Vestiu um sorriso fino e tentou iluminar os olhos.

— Eu? Ciumento? Se eu a quisesse, poderia tê-la. Não haveria páreo para mim.

Olívia tocou o queixo de Dimitri.

— Que pretensão infundada.

— Mentira!

Levado ao limite, ele a beijou. Forte no começo, depois amaciando os lábios quando ela começou a se render. Quando a soltou, viu que os olhos dela tinham um brilho fora do comum.

— Que espetáculo estamos dando — comentou ela, desesperada para esconder sua tristeza. A boca queimava. O coração palpitava. Mas nunca deixaria que ele soubesse o que sentia.

— Creio que minha intenção está clara — retrucou ele, colocando a mão no traseiro dela e acrescentando: — Não está?

— Dolorosamente sim. A minha está? — perguntou Olívia, doce­mente.

E arriscou esfregar os quadris nele antes de também apertar o traseiro duro, enquanto o beijava de volta. Afastou-se quando ele tentou prolongar o contato dos lábios.

Dimitri pareceu perturbado.

— Claro como cristal. Parece que temos o mesmo objetivo em mente — resmungou.

Não, pensou ela. O seu é a dominação e a cama. O meu é escapar de um relacionamento obsessivo e ridículo que está me destruindo.

— Isso vai ser interessante — disse ele, antes que ela viesse com algum gracejo. — Eleni está vindo para cá. Acha que pode lidar com ela sozinha?

— Covarde — censurou-o.

— Com boas razões. Estou me prevenindo de manchar meu paletó com uma camada grossa de maquiagem — retrucou.

— Então, desapareça — disse, empurrando-o. Também não queria que Eleni se esfregasse nele.

Ele hesitou.

— Acho — disse com pressa antes que Eleni chegasse — que seria uma boa idéia se nos olhássemos por entre as pessoas algumas vezes. Pode ser?

Olívia concordou com a cabeça. Sempre rápido no gatilho, Dimitri riu, beijou seu rosto e sumiu assim que Eleni se livrou do último obstáculo: duas adolescentes falando de Dimitri como se fossem comê-lo vivo.

— Olá, Eleni — Olívia se adiantou alegremente. — Há séculos não nos vemos. Lembro-me de levá-la para fazer compras...

— Eu era uma menina. Foi antes de ter estes — Eleni desafiou Olívia, chocando-a ao mostrar seus seios fartos e cobri-los novamen­te. — Devo dizer que não tem escrúpulos por flertar com Dimitri! Não sabe que ele é meu amante! Não se meta ou arrancarei seus olhos.

Amantes. Quem dizia a verdade: Eleni ou Dimitri? Ele mentira no passado, por isso preferia acreditar na palavra de Eleni. Parecia que ele aceitaria qualquer tipo de sexo, mesmo desprezando a mulher envolvida.

Olívia estremeceu. Dimitri a ignorava e ainda assim queria fazer amor com ela. Talvez sentisse isso por todas as mulheres.

Olívia olhou seriamente para Eleni. A garota parecia muito con­fiante, mas olhando-a de perto viu, debaixo da maquiagem pesada, uma mulher muito jovem e possivelmente insegura. Analisando o rosto sisudo e indignado, decidiu que não a culparia por adorar Dimi­tri. Ele virava a cabeça de qualquer mulher.

Sorriu com uma certa simpatia, sem visualizá-la como amante dele. Mesmo com o ciúme fervendo dentro dela.

— Faz três anos que não nos vemos — disse, tranqüila. — Esta­mos nos divertindo com as reminiscências.

— É assim que você chama isso? Olívia deu de ombros.

— É gostoso provocá-lo. Muitas pessoas o tratam como um deus. Ele precisa de alguém que o puxe para a terra.

— Pode fazer isso sem se atirar nele! — protestou Eleni. Olívia não ousou comentar. — Quanto tempo ficará aqui? — indagou bru­talmente.

— O tempo necessário para o divórcio.

— Nesse caso, por que está olhando tanto para ele? Você não o ama! — gritou Eleni. — Nunca o amou!

Ela olhou triste para Eleni. Cada ferida parecia estar subitamente exposta.

— Ele foi minha vida. Minha alma gêmea...

Algo a fez olhar para trás. E quando o fez, procurou Dimitri desesperadamente. Ele a fitava. O impacto do olhar apaixonado fez com que retomasse o fôlego e seguisse em sua direção, como se impulsio­nada por uma força desconhecida.

Lembrando-se de sua educação, olhou para Eleni por cima dos ombros, um tanto confusa.

— Com licença.

Eleni estava estática e piscou ao ouvir o murmúrio rouco de Olívia.

— Devo ir. Sabe como é — sussurrou Olívia.

E saiu, vendo Dimitri ir obstinadamente em direção ao jardim, respondendo breve e educadamente aos comentários dos convidados que estavam em seu caminho, checando a todo momento se ela via para onde ele estava indo.

A sua volta, podia ouvir cada vez mais alto os cochichos sobre eles, sobre essa força estranha que os unia.

Mas tudo fazia parte do plano. O resultado era o público perceber que o encantamento entre eles não tinha acabado. E era verdade.

Abaixando-se para tirar os sapatos, apoiou-se na mesa de bilhar de Dimitri, sentindo que seu corpo fluía em direção ao dele como um rio fluía para o mar.

O azul de seus olhos estava escuro quando o encontrou. Ele se arrepiou com o desejo que ardia em cada centímetro dos seus múscu­los tensos.

— Quero fazer amor com você aqui e agora — murmurou ele, com a voz repleta de paixão. — Quero ver seu corpo jogado na grama, seus braços tentando me alcançar.

Ela sentiu um arrepio, e ondas de prazer passaram por seu corpo flexível.

— É um jeito extremo de anunciar que voltaremos a ficar juntos — disse, seduzindo-o.

— Também acho. Infelizmente.

Olívia sentiu-se fraca. Teriam essa química incrível para todo o sempre. Nada nem ninguém poderia afetá-la tão profundamente quanto Dimitri. Falou a primeira coisa que veio à cabeça:

— Tive de me afastar. Pareceu-me... uma boa idéia vir até aqui — disse ela, com os olhos bem abertos na escuridão ao contar essa mentirinha, e continuou: — Pensei que Eleni ia jogar sua bebida em mim. Não quis arruinar meu vestido.

Seu coração começou a bater forte quando os braços dele se levan­taram e alcançaram sua cintura.

— Imagine. Seria péssimo. Fica tão lindo em você — disse abrup­tamente. Retirando as mãos e colocando-as no bolso, franziu o cenho e limpou a garganta. — Receio que ela ache que é dona de mim.

A atmosfera entre os dois pesou como se o ar estivesse repleto de mensagens silenciosas que não ousaram trocar. Ela engoliu em seco e tentou manter a linha da conversa em sua mente confusa. Sim. Eleni.

— Com alguma razão.

— Não sou de ninguém.

— Não. Mas algumas pessoas têm direitos sobre você — disse rispidamente.

Era assustador vê-lo tratar suas amantes com tanto desdém. Pri­meiro Athena, agora Eleni. E Deus sabe quantas outras nesse meio tempo.

— Ela foi malvada com você? — perguntou ele, ignorando o últi­mo comentário.

— Não era uma conversa que eu quisesse continuar — admitiu ela.                                                                                              

Dimitri respirou profundamente.

— Sei que ela é difícil, mas teve uma infância difícil. Sua mãe morreu quando era muito pequena. Muitas babás a mimaram — dis­se, gentilmente. — E não pude fazer nada, já que minha mãe lhe deu a impressão que esta era a chance de ela brilhar, porém, todos estão falando sobre você.

— Oh — disse, aturdida, com o rosto corado pelo elogio. — Não acho...

— Posso garantir que sim. Estão todos reverenciando sua beleza, sua conversa e sua postura. Constantemente me dizem que sou um tolo.

Conseguiu corar ainda mais, debilitada por aquela voz baixa e excitante.

— Não me surpreendo por estarem fofocando sobre nós — disse levemente. — Não é comum um homem entreter a atual esposa e a futura na mesma festa.

Ele deu uma risadinha.

— Com sorte, a futura esposa não vingará.

— Ela ficará arrasada. — Olívia franziu o cenho, preocupada com a garota que perdera a virgindade com um monstro. — Não devia ter dormido com ela — repreendeu-o.

— Quantas vezes mais devo dizer? Não dormi com ela! — Fez uma careta que insinuava que tinha se ofendido.

— Não foi isso que ela disse! — insistiu.

— Ela mentiu. Sonhou. Eu juro. Eleni tem uma queda por mim e quis afastar você. Sou velho demais para ela — retrucou ele, e Olívia teve certeza de que essa era a verdade. Sentiu um alívio. Talvez ele não fosse tão canalha. — Há muitos homens da idade dela que adora­riam estar no meu lugar e seriam mais adequados. Não teria de pare­cer sofisticada nem colocar quilos de maquiagem e poderia ser ela mesma, natural.

— Espero que esteja certo. Não gosto de magoar as pessoas — disse Olívia, devagar.

— Sério?

Seus olhos piscaram com o comentário incrédulo.

— Abri uma exceção para você. O sorriso dele brilhou no escuro.

— Foi o que imaginei. Agora, para escandalizar os convidados um pouco mais e fazer os sentimentais suspirarem, sugiro andarmos jun­tos para que todos nos vejam — ele a conduziu. — Dê-me seu braço e converse comigo.

Atravessaram o jardim iluminado por grandes velas. Toda aquela beleza afetou a resistência do coração de Olívia e aumentou o turbi­lhão de emoções que prejudicava seu raciocínio. Mal conseguia res­pirar.

Dolorida pelo esforço de andar sem tropeçar, relaxou quando pa­raram para ver as luzes da cidade de Olympos piscando na escuridão e as lâmpadas que contornavam a baía. Aromas tentadores vindos com a brisa atiçaram seus sentidos. Podia sentir o perfume intenso e inebriante das flores dos limoeiros, e começou a tremer com as me­mórias trazidas.

— Quero voltar à festa — disse, enfraquecida, com os joelhos bambos e louca para sair antes que se arrependesse de dizer algo. Como Eu te amo e sempre te amarei.

— Pode sair a qualquer hora — murmurou Dimitri, como se en­tendesse a razão do súbito incômodo. — Tenho certeza de que as pessoas já entenderam o recado.

Aquela expressão gentil tocou seu coração. Num momento de lou­cura, alcançou Dimitri e puxou-o, beijando-o carinhosamente. De­pois, empurrou-o bruscamente antes que confessasse o que realmente sentia.

— Caso ainda não tenham entendido, espero que isso sirva — resmungou e afastou-se rapidamente dele, como se estivesse esca­pando de um animal perigoso. E realmente estava, pensou.

— O que você quer? — perguntou Eleni em tom de briga.

— Não tenho idéia — respondeu Olívia, sinceramente. — Tam­bém gostaria de saber.

Atravessava cegamente a multidão, indo sabe-se lá para onde, e estava no meio da pista de dança vazia quando Dimitri a pegou pelo braço.

— Quer dançar comigo? — perguntou, num tom irrecusável. Não que ela quisesse recusar. Caiu nos braços dele antes que seu

cérebro pudesse avisar que estava sendo tola. Amava aquela situação. Sua cabeça aninhada no pescoço dele. O corpo glorioso de Dimitri a envolvia, fazendo com que suas curvas se rendessem a ele e seus seios pontudos roçassem suavemente no paletó. O pilar em chamas na pélvis enrijecia, e o aperto em suas mãos ficava cada vez mais forte, enquanto sua respiração se acelerava.

— Olhe para mim! — comandou ele, sussurrando.

Sem forças, foi o que ela fez. Dimitri parou no meio do salão, colocou a face de Olívia entre as mãos e a olhou, perdendo a noção do tempo. Os olhos de Olívia ficaram absortos no olhar apaixonado dele, até que voltou a abraçá-la e continuaram a dançar, mais perto do que antes.

Isso não podia continuar. A dor de amá-lo começava a machucar a ponto de ela quase se desmanchar em prantos.

— Espere. — Olívia dirigiu-se para onde estava a orquestra. Deu um jeito de pedir para o maestro tocar algo mais agitado.

Dimitri ria quando ela voltou.

— Não se agüenta de vontade — murmurou.

— Não agüento ser alisada, querido! — sussurrou, estampando um sorriso doce.

— Prefere mais ação? — retrucou. Pegando-a nos quadris, ele a girou tanto que a fez perder o fôlego.

Mesmo relutante, começou a gostar de dançar animadamente com um homem que sabia guiar, cujos movimentos poderia adivinhar como se tivessem ensaiado por horas. E era um alívio para suas emo­ções reprimidas.

Logo a pista estava vazia e eles continuaram dançando ao som das músicas agitadas.

Com os olhos brilhando, rindo e exaustos, finalizaram num giro, arrancando uma chuva de aplausos dos convidados. Dimitri olhou para o rosto vermelho de Olívia e seu coração estremeceu.

Tinha esquecido como era a sensação de ter o coração e a mente comprometidos com algo diferente de apartamentos luxuosos e casas de executivos. Olívia fizera seus ossos cantarem. Bruxinha. Preten­dia prolongar aquele sentimento por muito tempo. Tudo era prazero­so demais para deixá-la partir tão brevemente da Grécia, embora ti­vesse de manter seu auto controle. Ela devia dançar conforme a mú­sica dele e, para isso, precisava de uma pausa.

— Devo dançar com minha mãe — disse, relutando por dentro, querendo ficar com ela a noite inteira.

— Nesse caso, também arrumarei outro par.

Os lábios de Dimitri enrijeceram de maneira involuntária.

— Sem muito entusiasmo — resmungou. E acrescentou um aviso ríspido: — Você está apaixonada por mim.

— Oh, sim, lançarei muitos olhares ardentes e insinuantes — co­mentou, acariciando-o feito um cão.

Com os dentes rangendo até doer, observou Olívia de perto por toda a noite. Parecia que ela se divertia mais do que devia. Seus amigos a chamavam um atrás do outro, abraçando-a com força e fitando-a com expressões entorpecidas.

Apoiado no bar, Dimitri fervia ao vê-la receber tanta admiração. Eleni estava pendurada em seus braços, falando sem parar. Às vezes ele concordava com a cabeça ou fazia um comentário sobre o falatório.

Mas sua mente estava longe, capturada e amarrada por uma mu­lher linda e extraordinária que fazia seu sangue ferver, cujo corpo curvilíneo queimava atrás de suas retinas, fazendo-o vê-la por toda a parte e ouvir sua voz musical e suas pequenas risadas.

— Dimitri! Você não está me escutando! — Eleni sacudiu seu braço.

— Desculpe-me — respondeu, trazendo a cabeça de volta. — O que você disse?

— Não importa. Está preso a ela, não é mesmo? E ela está ten­tando provocar seu ciúme deliberadamente. Não vê isso? — bradou Eleni.

Havia dor nos olhos da garota. Carinhosamente, ele a pegou pela mão.

— Olívia e eu...

— O jogo dela é proposital! Ela sabe que sou sua rival! — disse, começando a chorar.

— Eleni! — disse, consternado.

Olívia beliscava canapés na mesa do bufê no terraço quando viu Eleni desaparecer para dentro da casa, seguida por Dimitri.

Sentiu um frio no estômago e descansou seu prato na mesa com as mãos trêmulas. Ele não podia. Não iria. Jurara que não eram amantes. Ainda assim, o jeito de correr atrás da filha do sócio — como se quisesse alcançá-la para beijá-la e abraçá-la — sugeria outra coisa.

Ela descobriria. Murmurou um pedido de licença a Andros e se­guiu para dentro da casa.

Lá, encontrou Eleni envolvida pêlos braços de Dimitri.

 

SILENCIOSAMENTE, afastou-se antes que fosse vista. Seu coração pulava dentro do peito e sua mente estava repleta de pensamentos confusos. Como puder ser tão estúpida em amar aquele homem e ainda lhe dar seu coração e sua alma tão passivamente? Nunca tinha sido verdadeiro nem honesto.

E o mais estúpido era que sabia que estavam num jogo. Ele deixa­ra claro que Olívia era apenas um corpo contratado para se livrar da futura esposa indesejada. Ainda assim, somente agora, coberta de vergonha, reconhecia que inconscientemente escondia uma louca e idiota esperança de talvez... talvez...

Tinha sido terrivelmente ingênua. A experiência do passado deve­ria ter bastado para mostrar que o que ele queria era sexo sem com­promisso.

Claro que ele a desejava. Tanto quanto desejava qualquer outra mulher, pensou, arrasada. O que a fizera pensar que era especial?

Abraçada a uma pilastra de mármore na parte superior do terraço, aos poucos se recuperava da cena impressionante. Olhou para seu lindo vestido e suspirou. Trocaria tudo por um homem que a respei­tasse e fosse fiel.

Esgotada, entrou na mansão e correu para seu quarto. Lembrando-se da promessa de Dimitri, de uma noite de paixão, encaixou uma cadeira embaixo da maçaneta.

Podia cumprir sua promessa com Eleni, pensou, abrindo violenta­mente o vestido e pendurando-o na cadeira, de onde escorregou e ficou caído no chão.

Cansada demais para pensar, vestiu a camisola de seda preta e se jogou nos lençóis macios com um suspiro de alívio. Porém, quando se deitou, repassou a noite toda, como um filme.

Lá estava Dimitri, moreno, bonito, aparentemente adorável e rin­do. Amando falsamente. Chegava a doer, de tão desejável e bonito.

Botou as mãos na cabeça, desesperada para se livrar dele. Num gemido, levantou-se e pegou a taça de vinho ao lado da cama, supon­do que uma boa dose de álcool a deixaria sonolenta. Mas não.

Resmungando amargamente, andava de um lado para o outro do quarto, tentando esquecê-lo. Nada. Resignada, apoiou-se na janela para ver os convidados restantes. Não havia sinal de Eleni.

Surpreendentemente, Marina estava ainda de pé, dançando com Nikos. Olívia achou que sua sogra estava um pouco bêbada, pois se derretia nos braços do parceiro, com o rosto relaxado e feliz.

Dimitri também estava lá, conversando amavelmente com um pu­nhado de amigos. Estava sentado numa cadeira de vime, com todo o jeito de um magnata grego, os braços encostados nos braços da cadei­ra e as pernas cruzadas. Parecia imaculado e tranqüilo, como se não tivesse passado a última hora com uma garota de dezenove anos.

De repente, virou-se e olhou para a janela, como se soubesse que ela o fitava. Olívia saiu de vista rapidamente, irritada por ter sido vista. Com um ego gigante, Dimitri provavelmente achava que ela o estava admirando, como uma tola apaixonada. Na verdade, estava lançando mísseis em direção àquele coração de aço.

A cabeça de Dimitri girou. Os ombros caídos de Olívia indicavam que algo não estava bem. As alças da camisola estavam caídas. Ape­sar da distância, percebia que sua boca estava rígida. Devia ir até ela. Não sabia por que, mas devia.

Usando suas táticas, persuadiu os últimos convidados a partir. Contendo a impaciência, agradeceu à orquestra e ao organizador dó bufê, e abraçou a mãe.

— Não se preocupe comigo. Está tudo sob controle — disse, an­sioso por apaziguá-la.

— Não estou preocupada — respondeu, antes mesmo que conti­nuasse. Deu um sorriso estranhamente caloroso para Nikos, que tra­zia mais duas bebidas. — Sei que planeja alguma coisa. Além do mais, decidi que tenho de cuidar da minha vida e que você deve aprender com seus próprios erros.

Surpreso, Dimitri olhou para os dois, percebendo uma nova suavi­dade no rosto da mãe. Nikos sorriu timidamente e deu de ombros. Um pouco tonto, Dimitri se despediu e os deixou.

Tudo que tinha em mente era Olívia. Subiu correndo as escadas e tentou abrir a porta. Percebeu que não abria mais que um centímetro.

— Olívia — chamou. — Sou eu.

— Nem passou pela minha cabeça que fosse outra pessoa! — retrucou.

Dimitri franziu o cenho.

— Deixe-me entrar.

— Se pensa que lhe darei diversão depois de ter se esfregado com outra, está completamente enganado! — gritou.

Do que ela estava falando? Irritado, empurrou a porta, que abriu um pouco mais.

— Abra a porta, senão arrombo — ordenou.

— Você tem assistido a muitos filmes americanos — retrucou. — Volte para sua amante e me deixe em paz!

Recusando-se a discutir as acusações a distância, deu dois passos para trás e se jogou contra a porta. Algo se quebrou, e ele entrou no quarto.

— Saia daqui! — gritou ela, chocada.

Agarrou-se ao dossel da cama como se defendesse a própria vida. Estava tão assustada que ele se acalmou imediatamente. Chutou a cadeira quebrada para o lado, empurrou a porta para fechá-la e se encostou ali mesmo, tentando parecer inofensivo.

— Além de você, com quem mais acha que avancei hoje à noite? — perguntou com prazer, desfazendo a gravata-borboleta e desabo-toando o primeiro botão da camisa.

— Essa é ótima! Não sabe? — perguntou, sarcástica.

— Não! Acho que saberia — respondeu, sorrindo com ironia.

— Engraçadinho! Permita-me refrescar sua memória — disse ela, fervendo. — Loura de cabelo enrolado. Corpo espetacular. Ri muito.

— Eleni?! — Ele riu só de pensar. — Deus me livre! Já lhe disse que ela seria a última mulher no mundo que me interessaria. — Seus olhos brilharam. — Como poderia gostar de alguém com seios de mármore?

— Como sabe que são de mármore? — exigiu ela.

— Não sei — respondeu com grande paciência. — Imagino que sejam porque não se mexem muito — disse, olhando para os seios dela, que se moviam tanto que ele mal podia acompanhar.

— Você não nega que olhou, então? Dimitri suspirou.

— É difícil não olhar para duas bolas de canhão no topo do vesti­do. Olívia, estou lhe dizendo: não estou interessado nela...

— Então foi uma sósia que vi no salão em seus braços...

— Ah! Foi isso.

— Não vai negar agora, vai? — esbravejou, se acalmando.

— Olívia, Eleni esteve nos meus braços. Mas estávamos vestidos e assim ficamos.

— Ah, é? — resmungou ela.

— Vi que ela estava chateada — explicou. — E decidi conquistar uma aliada.

— Isso é ridículo! Está mentindo para mim — acusou-o.

— De jeito nenhum. Deixei claro que eu e ela somos bons amigos j e que sempre a vi como uma irmã mais nova...

— Aposto que ela odiou isso.

— Isso a fez piscar — concordou. — E enquanto ela estava tem­porariamente em silêncio, falei sobre a união sagrada do casamento.

— Que mentiroso! — reclamou Olívia.

— Disse também — insistiu ele — que devia guardar o segredo de estarmos voltando. Ela chorou, e eu disse que ficava feliz por ela me desejar o bem a ponto de chorar. Imagino que foi esse o momento em que nos viu, porque logo depois ela se afastou, secou os olhos e saiu para dançar com Vangelis.

Queria que ela acreditasse. Mas não contou o resto da conversa com Eleni.

— Você... não... fez mais nada? Como... beijá-la? — perguntou Olívia, abaixando o tom de voz.

O que mais precisava fazer para convencê-la?

— Juro que não, em nome do meu pai.

Não havia como questionar. Dimitri jamais usaria o nome do pai para apoiar uma mentira. Ela mordeu os lábios, culpando-se por ante­cipar conclusões. Dimitri agira de maneira gentil com Eleni, rejeitan­do-a com delicadeza.

— Desculpe-me — murmurou ela.

— Foi um erro compreensível.

— Foi mesmo, considerando sua reputação! — resmungou.

— Que reputação é essa? — perguntou ele, cuidadosamente.

— De mulherengo.

— Ah. Ele não negou, pensou ela.

— Você não é confiável quando se trata de mulheres.

— É mesmo? Ela lhe lançou um olhar furioso.

— Não me diga que está solteiro desde que parti!

— Não.

Olívia vacilou diante de sua honestidade, imaginando quantas, com que freqüência e se eram bonitas. Tentou controlar sua tristeza,

As mãos de Dimitri se apoiaram gentilmente sobre seus ombros, provocando espasmos de prazer. Tudo o que ela queria era amá-lo. Confiar nele. Ser a única mulher na sua vida. Ter uma chance.

Ao tentar virá-la, ela resistiu e escapou, recuando com olhos bem abertos e apreensivos.

— Quero que você saia — disse, em tom baixo.

— Não, você não quer.

A arrogância de Dimitri soou como um desafio. Ele sorriu e deu um passo em direção a ela, que jogou nele o vinho que estava na taça.

— Quero sim! — esbravejou, pois a maior parte do vinho caíra no chão.

Sem se abalar, Dimitri tirou o paletó e a camisa.

— É mentira — disse calmamente.

Alarmada pela determinação nos olhos negros, pegou a garrafa e jogou o vinho nele, recuando enquanto ele ia em direção a ela. O vinho brilhava no seu peito, escorria e molhava os pêlos negros, de­senhando um caminho até o sexo.

— Farei você lamber tudo isto — ameaçou, tirando o cinto.

— Dimitri... não! — disse, sem fôlego, tonta ao pensar em deslizar a língua por aqueles contornos rígidos... Tapou a boca com as pró­prias mãos e corou, vendo que a ponta da linguaja umedecia os lábios como se estivesse se preparando para isso.

— Será um ótimo jeito de ficar bêbada — provocou.

O olhar de Dimitri enviava pulsos elétricos para todos os nervos do seu corpo. Podia sentir sua carne amolecer sob o impacto daquele olhar sensual.

— Por que eu iria querer fazer isso? — perguntou ela, tentando manter a postura.

— Para perder essa inibição que adquiriu na última vez em que fizemos amor. Você não era assim.

O desejo a consumia, atiçada pelas lembranças de prazeres sem fim. Dimitri pegou seus pés em cima da cama e explorou cada centí­metro com a boca, chupando-lhe o dedão enquanto lançava-lhe olha­res ardentes.

Trêmula, largou a jarra na mesinha de mármore.

— Não era isso que eu pretendia! — sussurrou.

— Ah, não?

Sem saber como, negou com a cabeça em vez de se soltar dos braços de Dimitri.

— Não. Combinamos de fingir nossa paixão em público. Não há ninguém aqui. Podemos nos comportar normalmente...

— Eu estou normal — disse ele, levantando os braços em sinal de inocência.

— Tenho certeza de que sim. Você chegaria com essa força em qualquer mulher desejável...

— De jeito nenhum. Sou muito seletivo — gemeu. — Só gosto de mulheres que esquentam meu corpo com um mero olhar. Que têm consciência de sua sensualidade. Que abandonam os sentidos e tortu­ram um homem até ele pensar que está ficando louco. Mulheres que respondem ao meu toque. Que tremem, gemem e amam o contato corporal...

— Pare! — sussurrou ela, assustada com o que ele estava fazendo.

Ele falava de mulheres. Quantas teriam dado a ele tamanho pra­zer? E... como tinha chegado tão perto dela? Não tinha notado sua aproximação. Recuou e sentiu a espinha tocar a parede. Sem saída. Podia contar apenas com as palavras para detê-lo — e as palavras pareciam ter abandonado sua mente.

— Vá e encontre uma dessas mulheres, então — debochou ela, jogando os cabelos para trás. — Só estou aqui por um motivo: nosso divórcio! E pretendo continuar sua farsa idiota em público, mas não pense que participarei do seu jogo para fazer um amorzinho de vez em quando em particular.

— Não será amorzinho e não será de vez em quando.

Aquele murmúrio rouco e gostoso correu por dentro dela como um bafo quente que a derretia onde quer que tocasse. Cada vez mais ofegante, ela quase se inclinou para beijar seus lábios e fazê-lo calar, de lembrá-lo que poderia ser escravo dela no sexo. Porque não queria que procurasse outra mulher. Ela o desejava para si, com exclusivida­de. E sabia que era um sonho impossível.

— Saia daqui — ordenou.

Dimitri riu da ordem ofegante, sem se convencer.

— Seria um desperdício sair enquanto você estiver aqui, com es­ses lindos olhos azuis que me enviam mensagens provocantes que não consigo ignorar...

— Eles estão dizendo para você sair! — gritou e baixou os olhos, sabendo que eles não diziam isso. A sede de beijá-lo era forte demais.

— Olívia, seja sincera — murmurou ele, enquanto ela cerrava os punhos. — Admita o que está sentindo. Eu vejo em todas as linhas do seu corpo. A maneira como treme, o inchaço dos seus lábios, a rigi­dez no bico dos seus seios forçando tanto a seda preta que mal consi­go conter minhas mãos. Não imagina o quanto é difícil esperar você se decidir em vez de arrancar sua camisola e jogá-la no chão para que eu possa ver e tocar o seu corpo. — Fez uma pausa e, com a voz rouca, continuou: — Somos livres. Podemos fazer o que quiser­mos — sussurrou. — E neste momento, quero você com todo o meu coração.

Ela engoliu em seco, furiosa. A última fala dele fora um balde de água fria.

— Neste momento! — reagiu ela. — Obrigada! Estou satisfeita por ser uma diversão para você neste momento. E quem desejará em qual­quer outro momento? Esta tarde, esta noite, amanhã? Que atrevimento! Não estou à sua disposição! Talvez você não quisesse passar a noite com Eleni pendurada no ouvido, mas isso não significa que servirei de objeto sexual porque não havia ninguém melhor por perto!

Nunca estivera tão bonita, com os olhos brilhando, a boca entreaberta pronta para ser beijada, além do adorável pescoço à mostra. Nunca a desejara tanto, ou estivera tão determinado a tê-la.

— Não estou substituindo ninguém — disse, com uma voz gutural de tanto desejo. — Passei a noite inteira esperando por este momento.

Seus braços se esticaram para despi-la, e se surpreendeu com o tremor de suas mãos. Colocou-as na curva dos ombros e depois su­biu, roçando levemente os dedos no pescoço sedoso de Olívia, que soltou um gemido que o encorajou a se aproximar.

— O amor entre nós pode ter morrido — disse ele, baixinho. — Mas a atração sexual está mais quente que nunca, não é?

Ela não respondeu, mas o fitou consternada. Isso bastava para ele. Mas queria que ela o dissesse. Inclinou-se um pouco, com delicade­za, e a beijou levemente.

— Não é? — insistiu ele, provando-a com a ponta da língua. Seus olhos se fecharam, aparentemente em desespero. Depois de um momento sem respirar, ela sussurrou:

— Sim!

A seda deslizou por seu corpo em um movimento altamente eróti­co. Dimitri sentiu uma pontada no peito. Ali, nua e maravilhosa, ela parecia vulnerável. Vencida.

— Olívia!

Ele a pegou nos braços e a abraçou. Primeiro, ela ficou tensa e rígida, embora tremesse como uma folha. Depois, como ele não fez nada além de abraçá-la, relaxou. E quando o olhou, Dimitri reconhe­ceu a antiga Olívia, uma mulher apaixonada e vaidosa, que adorava sentir a extraordinária química que existia entre eles.

De repente, o celular dela tocou.

Dimitri murmurou, enquanto beijava seu pescoço:

— Deixe.

— Não...

Respirou profundamente enquanto ele mordia e chupava o lóbulo de sua orelha. Sem conseguir resistir, pulou para pegar sua bolsa. Sentou-se na cama, evitando os olhos de Dimitri, e puxou a colcha para cobrir sua nudez.

Era a chance de se acalmar. De arejar a cabeça em vez de se afun­dar no desejo.

— Alô? — hesitou, com a voz falhando.

— Olívia? — Paul parecia confuso.

— Oh, sim! — disse alegremente. — Paul! Que ótimo ouvir você. — Dimitri sentou-se na cama. Tampando o celular com a mão, ela lhe lançou um sorriso irônico. — É Paul! — disse desnecessariamente e, fulminada pelo olhar de Dimitri, virou o rosto e se voltou para o que o advogado estava dizendo.

— ...um acordo brilhante. Angelaki tem um arranha-céu exclusivo para a empresa...

— Mas...

— Você se livrará dele em breve — comemorou Paul. — E será uma multimilionária! Que tal? Gostou do que fiz?

— Paul, eu... — Deu um tapa na mão de Dimitri, que tinha entrado embaixo da colcha e estava subindo por sua perna.

— Tudo bem. Não me agradeça. Espero você em Nova York — disse Paul, num tom presunçoso. — Tenho ótimas notícias! Adivi­nhe, Olívia!

Ela agarrou a ponta da colcha que Dimitri estava puxando. Irrita­da, gritou ao telefone:

— O quê?

— Você está bem? — perguntou Paul na hora em que Dimitri jogou seu peso em cima dela, trazendo-a para cama. — Está muito tarde aí? Tentei ver o fuso horário, mas sou péssimo nessas coisas e não sei se...

— Está tudo bem — disse, atormentada, resistindo à determinação de Dimitri em atacar suas coxas. Suas mãos a acariciavam num ritmo irritante, roubando seu ar e deixando-a cada vez com mais desejo.

— Bom. Aqui vai a novidade — disse Paul.

— Ai, meu Deus! — sussurrou ela, sentindo que cedia aos beijos apaixonados no pescoço e no queixo.

— Eu — anunciou Paul, orgulhoso — fui convidado para traba­lhar no escritório Angelaki em Nova York.

— Para... trabalhar? — repetiu, sem acreditar. A notícia a conge­lou. Rígida e contrariada, olhou para Dimitri, que escutava a conver­sa abertamente enquanto beijava seu queixo.

— Isso. E você sabe que os advogados americanos ganham muito dinheiro! E a minha chance, Olívia! Bem... não preciso dizer isso, pois sei que nos entendemos bem... juntos poderíamos formar um ótimo time...

— Paul — murmurou Dimitri, tirando o celular dela —, pegue o trabalho e fique feliz. Contudo, você não terá Olívia. Terá, minha querida?

— Me dê isso! — exigiu ela, lutando. Dimitri riu, impedindo-a de alcançar o telefone.

— Mais uma coisa — disse Dimitri, num tom um pouco mais severo. — Entenda o fuso horário se quiser manter seu trabalho. Está muito cedo aqui e estamos na cama.

— Cama ? — Olívia escutou a surpresa de Paul.

— Por sorte não estávamos dormindo... se é que você me entende — Dimitri riu e desligou, deixando o celular cair no chão. — Agora, onde estávamos? — perguntou, voltando-se para Olívia. — Aqui? Ou aqui...?

Ela virava o rosto para os lados, e ele tentava não beijar o traves­seiro.

— Não toque em mim! — gritou, furiosa.

Ele agarrou seu queixo e forçou-a a olhar para ele. Seus olhos estavam perigosamente negros.

— Sua consciência está pesada? — sussurrou Dimitri. — Caso não saiba, é aquela voz que diz ser indecente falar no telefone com o ex-amante enquanto seu marido está a ponto de bala.

Ela cerrou os lábios com força.

— Por que arrumou trabalho para Paul? — perguntou, furiosa. — Sei que há alguma coisa por trás disso...

— Acertou. Estou garantindo que ele fique fora do páreo. — Di­mitri beijou-a com força e demoradamente, tirando seu ar. — Era óbvio o que ele tinha em mente. Quer se casar com você, e não permi­tirei isso.

— Por quê? — ela o desafiou, como se contemplasse a idéia.

— Porque ele não é homem suficiente para o cargo.

— E você é?

Os olhos negros brilhavam.

— Definitivamente sim, e quero lembrá-la disso. Agora mesmo.

 

O CALOR do sol a bronzeava gentilmente. Sabia que devia se virar de costas, mas não tinha forças para isso... graças a Dimitri.

Levantou a aba do chapéu para ver como ele estava. Também estava sem forças, largado numa espreguiçadeira ao lado da piscina havia mais de uma hora.

Estava muito fraca para levantar o chapéu, portanto contentou-se com as imagens mentais de Dimitri. Uma sensação agradável a inva­diu quando o imaginou com o corpo definido brilhando ao sol e os braços pendurados, caídos de exaustão. Abrir os olhos e ver sua boca sensual a fez pensar se ele estaria relembrando os momentos que passaram na cama — e fora dela — até o meio-dia.

Arrepios deliciosos corriam-lhe pela pele, passando pelos canais sensíveis do seu corpo, embora estivesse bastante saciada para ficar excitada.

Escutou a criada, Maria, oferecer uma limonada. Ouviu o som delicioso do despejar do suco no copo por entre os cubos de gelo.

— Olívia — murmurou Dimitri.

O copo gelado tocou seus dedos, as gotas de suor da bebida pinga­ram na sua barriga e Olívia fez um pequeno "mmm" em agradeci­mento. Dimitri pegou sua mão e a beijou. Ouviu os passos dele vol­tando para a espreguiçadeira, e seu suspiro contente ao se acomodar.

Ela o amava. Não somente pelo sexo selvagem e avassalador, em­bora isso fizesse qualquer mulher sentir o paraíso na Terra, mas por­que conversaram e deram boas gargalhadas. Estava verdadeiramente feliz e à vontade com ele.

Todos os sentimentos da época em que se conheceram e trabalha­ram juntos estavam vivos novamente, porém muito mais fortes.

Dimitri a amara e acariciara até fazê-la pensar que seria possível morrer de tanto prazer. Ao se lembrar disso naquele momento, um suspiro de prazer escapou por entre seus lábios. Mas para ela, o sexo era parte de algo maior, que envolvia suas emoções mais profundas. Era mais que um vício — ele era essencial para sua felicidade.

O pensamento a alarmou. Sentou-se e bebeu um gole da bebida gelada, tentando estabilizar sua mente confusa. Se isso fosse verdade, teria de lutar por ele. Fazer com que ele a amasse mais do que a liberdade de sair com outras mulheres. E como faria isso?

Dimitri, preguiçoso, esticava a mão para alcançá-la.

— Nunca me esquecerei de ontem à noite.

— Nem eu.

Ela hesitou, pensou em expressar seus sentimentos, correndo o risco de ouvi-lo rir. Mas uma voz familiar os interrompeu: Eleni chegava por trás. Olívia gemeu, cerrou os lábios e não disse mais nada.

— Tirei Paul da sua cabeça? — interrogou ele.

— Sim...

— Dimitri! — Vestindo uma blusa de crochê e uma saía mínima por cima do biquíni, Eleni jogou seus braços em volta do pescoço de Dimitri. Olívia rosnou. — Que festa adorável, querido — Eleni co­meçou a falar ao pé do ouvido.

— Pare, menina impossível! — reclamou ele.

Olívia colocou o copo sobre a mesa e foi nadar. Estava sem forças, mas podia ao menos boiar na água e se desligar do que escutava.

Depois de um momento, dois grandes espirros de água a avisaram que eles lhe fariam companhia. Levantou a cabeça e os viu brincando feito velhos amigos. Não, pensou ela, vendo como Eleni se esforçava para roçar nele. Era como se fossem amantes em potencial, aprovei­tando todas as oportunidades para se tocarem.

Lágrimas cobriram sua visão. Toda vez que pensava que Dimitri gostava dela, descobria que era tudo parte da sua técnica de sedução. Se gostasse realmente dela, não perderia tempo com Eleni.

Ela se virou e começou a nadar para a outra ponta, mas de repente foi puxada para baixo. Chutou e emergiu rapidamente, ouvindo a risada de Eleni bem de perto.

— Peguei você — vibrou Eleni.

— Certamente — disse Olívia, sem graça.

— Está com ciúmes? — provocou Eleni. Procurou Dimitri. Tinha desaparecido.

— Deveria?

— Oh, sim. Sou grega, filha do sócio dele, e entendo que os ho­mens do meu país são apaixonados e têm muitos casos.

Olívia ficou surpresa.

— Você deixaria que ele tivesse casos?

— Claro. Se me garantisse que manteria o casamento. Há rumores dizendo que o pai dele tinha uma amante. Eu teria de aceitar que Dimitri também tivesse.

Olívia sabia que Dimitri idolatrava o pai. Depois que Theo fale­ceu, conversou com Dimitri por horas a fio, tentando consolá-lo. Quando ele voltou à Inglaterra, do funeral, Olívia fez o que pôde para aliviar o sofrimento dele. Uma semana depois, Dimitri a pedira em casamento.

Talvez tenha sido um erro se casar logo depois da tragédia. Talvez Dimitri precisasse de apoio emocional depois de perder seu amado pai, è achasse que o casamento lhe traria isso. Não foi uma base boa o suficiente para um relacionamento duradouro e estável.

De uma coisa ela sabia: se seu pai tinha uma amante, Dimitri acha­ria isso normal. Não seria muita surpresa se ele não acreditasse que fidelidade era importante. Sentiu um frio na espinha, como se um cubo de gelo corresse por ela.

— Não sei como você suportaria dividi-lo — disse, sensata. Eleni deu de ombros.

— Melhor que nada, contanto que seja discreto. Além do mais, se ele me desrespeitar no casamento ou se machucar um fio do meu cabelo, meu pai fará com que o império Angelaki entre em colapso.

Olívia ficou horrorizada com a crueldade da menina. Eleni havia decidido o que fazer com Dimitri e não seria facilmente derrubada.

— No meu caso — disse, num tom baixo —, prefiro ter a devoção de um homem porque ele me adora, e não porque foi ameaçado com a ruína financeira.

Olívia nadou para longe e saiu da piscina. Eleni era muito mima­da. Podia idolatrar Dimitri e imaginar que sua vida de casada seria um mar de rosas, mas não o amava. Amar era mais do que atração sexual e olhares sonhadores.

Pensativa, secava o cabelo com uma toalha... O amor ultrapassava todas as dificuldades. Crescia... Fez uma pausa, sorriu e se abaixou, aproximando-se dos gerânios num vaso ao lado dela. Crescia como uma flor. Tinha se apaixonado perdidamente por Dimitri logo na primeira vez em que o vira. As sementes do amor já estavam planta­das, mas seu amor crescia cada vez mais, com o passar do tempo.

Sentiu um aperto no coração. Talvez estivesse desistindo com muita facilidade. Ao menos, Eleni lutava pelo homem que queria.

Talvez valesse a pena o risco da dor. Poderia tentar convencê-lo que um relacionamento profundo e carinhoso com alguém é infinita­mente mais satisfatório que manter alguns casos. Esfregava a toalha nos braços lentamente enquanto decidia se devia seguir seu coração ou sua cabeça. Será que ela pensava como uma mulher, esquecendo-se de que os homens agiam de maneira completamente diferente?

De dentro da casa, Dimitri observava Olívia um pouco tensa, sa­bendo que ela remoia algo que a perturbava, pois secava a mesma parte do traseiro há longos minutos.

Com dificuldade, arrastou o olhar daquelas curvas tentadoras, irri­tado consigo mesmo por ser atraído por elas com tanta facilidade.

Bateu a palma da mão na testa, furioso e desesperado. Olívia inva­dira tanto sua cabeça que o fazia acreditar que estava estampada em todas as células do seu cérebro.

Seu olhar ganancioso acompanhava o movimento repetitivo das mãos, e uma onda de lembranças de uma doce agonia passava por todo o corpo. Podia deixá-lo louco com aqueles dedos delicados e travessos.

Olívia mordeu o lábio e franziu a testa. Dimitri esperava que ela não estivesse preocupada com o comportamento de Eleni — aquela menina precisava de uns bons tapas. Se não tivesse saído da piscina naquela hora, sabia que ela faria algo tão ousado que ele seria obriga­do a dar os merecidos tapas, com conseqüências desastrosas. Sa­bia como Eleni era vingativa.

Sua tensão amenizou ao ver Olívia pensativa. A estranha comuni­cação psíquica entre eles fez com que Olívia levantasse a cabeça na hora certa e o visse olhando para ela. Engoliu em seco, soltou a toa­lha, amarrou uma canga colorida no corpo e se dirigiu para o salão onde ele estava, ainda em roupa de banho.

Ele sorriu, antecipando o beijo que viria em seguida. Quando Olí­via se aproximou, ele abriu a porta dupla do salão que dava para o terraço.

— Sua conversinha com Eleni não serviu para nada. Ela ainda pretende se casar com você — disse bruscamente, passando por ele tão rápido que seus cabelos resvalaram nos ombros dele.

Ele diminuiu as expectativas que o aqueciam, porém ela deixara um aroma no ar para provocá-lo, trazendo memórias da noite passada e enfraquecendo-o de desejo.

— Eu sei — limpou a garganta para não mostrar o que sentia. — Foi o que ela me disse agora há pouco. Tentei desconversar com uma risada, mas parece que não adiantou. — Seus olhos negros brilhavam com um prazer contemplativo. — Temos de ser mais convincentes para que ela acredite que voltamos e saiba que não tem nem uma chance.

Olívia franziu a testa e molhou os lábios com a ponta da língua.

— Sim. Ou eu nunca... — disse, mordendo o lábio. — Nunca conseguirei o divórcio, não é assim? — concluiu, um pouco agitada.

Ele sentiu a relutância dela, que era exatamente o que queria. Se continuasse a dar as cartas conforme o planejado, viraria o jogo até se livrar daquele vício. Um ano, talvez. Analisando os grandes olhos azuis e os cílios, sentiu um arrepio subir pela espinha e por todo o corpo.

O rosto de Olívia assumiu uma expressão de desejo. Dimitri co­meçou a planejar um dia de sexo sem restrições. Seu olhar passeava pelas curvas dela. Olívia engoliu em seco, quase sem respirar.

— Olívia! — sussurrou ele.

— Sim?

Ele se viu impelido a lhe dar um longo beijo.

Sua mão passava pelo cabelo dela. Levantou o queixo de Olívia e sorriu, tremendo com os sentimentos que tinha por ela. Sexuais, cla­ro. Nada mais. Tinha trancado seu coração três anos atrás, e ela seria a última pessoa a destrancá-lo. Mas Olívia acendia cada célula do seu corpo, e não permitiria que ela partisse até que esgotasse aque­la paixão.

— Mais paixão — ordenou ele, cutucando-a.

— O quê? — sua voz tremeu.

— Eleni está vendo — sussurrou, dando-lhe um beijo explosivo e apaixonado, fazendo-a gemer de desejo. — Precisamos convencê-la.

— Sim.

Tonta de amor, ela se contorcia nos braços seguros que lhe davam prazer. Por um momento, podia fingir que ele a amava. Se houvesse uma chance sequer de Dimitri reconhecer que nasceram um para o outro, talvez aprendesse a amá-la.

Levantou a perna nua, roçando-a entre as coxas de Dimitri, que sentiu um arrepio. Com a mão no coração dele, ela o sentia acelerado.

— É bom, não acha? — sussurrou ela.

Ele gemeu, odiando-a e desejando-a. Com a boca, devorava seu pescoço enquanto ela suspirava e se esfregava no corpo dele. Sentia queimar a própria pele contra a dela.

Ele tinha de dizer. Ela tinha de aceitar ficar. A incerteza o sufoca­va, fazendo-o pensar que estava enlouquecendo.

— Você sabe que sim. Sabe que me deixa louco — sussurrou.

— Deixo? — murmurou, com um sorriso lânguido. Seus dentes afiados beliscaram o lábio inferior dele.

Ele a puxou para dentro do salão, fora de vista, e colocou a cabeça de Olívia entre as mãos para que prestasse atenção.

— Não quero que você vá embora — disse, com a voz rouca. — Fique comigo.

Ela engoliu em seco.

— Dimitri... — sussurrou ela.

— Fique.

Viu os olhos dela se encherem de lágrimas. Era o que ela queria, pensou desesperado. Pensava que o teria para sempre, mas era só até ele se saciar. A mãe dos seus filhos nunca seria uma caloteira loura.

— Por... quanto tempo? — perguntou, com os olhos cobertos de lágrimas à procura dos dele.

Respirou profundamente e beijou-a, perdendo-se no gosto da boca, na textura e no cheiro dela.

— Não sei — disse sinceramente.

— Tenho medo.

Ele franziu p cenho, com os dedos indo para cima e para baixo no bico do seio dela.

— De quê?

— De ser... — Um gemido inebriado partiu de seus lábios entreabertos. Ela o conduziu para o outro seio e, tomando fôlego, disse: — De ser div-v-vidida. — Sua voz tremia.

— Olhe para mim.

Ele olhou de cima para seus olhos fechados. Sua cabeça pendia para trás, a boca umedecida pelo beijo dele. Prometeria qualquer coi­sa para fazê-la ficar. Pensava nela dia e noite. Algum dia voltaria a cabeça para os assuntos do trabalho, mas enquanto ela o possuísse por inteiro, era um inútil.

Deu um passo para trás. Segurou-a à distância dos braços.

— Olívia, não me interessaria por nenhuma mulher se voltásse­mos a ficar juntos. Não sou esse mulherengo que você acha — acres­centou, com um sorriso, e sentiu-se lisonjeado quando ela pareceu não acreditar. — Você sempre me deixa saciado. Até olhar para mim com esses olhos famintos e me fazer ter vontade de devorá-la. Não haverá outra mulher, eu juro.

— Nem mesmo... um breve romance... com uma dessas com as quais se envolveu quando parti? — perguntou, num tom baixo e ansioso.

Sua face se iluminou.

— Absolutamente não! — Ele riu. — Só me decepcionei. Acho que as comparei com você e perdi o interesse.

— Nenhuma... especial? — interrogava ela com uma expressão preocupada.

Ele a puxou para si.

— Não. Você será a única. Juro em nome do meu pai. Fique, por favor.

E esperou, segurando o ar enquanto ela o fitava, talvez tentando decidir, talvez mantê-lo em suspense. Ele não sabia nem se importa­va; só queria ouvir um “sim".

Ela prendeu o ar. Valia a pena tentar esquecer o passado e pensar apenas no futuro. Talvez estivesse jogando com a própria felicidade, mas nunca se perdoaria se não tentasse.

Sorriu, e o peito de Dimitri se encheu de esperança. Aquele sorriso aberto e a luz nos seus olhos brilhavam como jóias.

— Sim — murmurou ela, e um estranho delírio tomou conta dele.

Calma, avisou a si mesmo. Mas as mãos dela o acariciavam deli­cadamente enquanto ela chupava seu mamilo. A selvageria tomou conta de Dimitri. Olívia seria dele e de mais ninguém. Extasiado, levantou o rosto dela e lhe deu um beijo forte, enquanto seus dedos procuravam desatar o nó do biquíni. A mão dela se fechou, cobrindo a dele.

— Aqui não. Não com Eleni nos espionando. Vamos para outro lugar — murmurou ela, corada e com olhos brilhando. — Um lugar romântico.

Ele sorriu e encheu seu rosto de beijos.

— Já sei onde — sussurrou. — Direi a ela que estamos saindo. Vista-se e pegue o que precisar. Faremos uma viagem de barco, para longe de Eleni e de minha mãe. Só nós dois, curtindo a vida. De quebra, será perfeito sairmos juntos e escondidos.

Parecia maravilhoso. E talvez fosse a chance de provar a ele o quanto o amava. Passariam o dia juntos como faziam antigamente. Queria lembrar a ele como se davam bem. Se conseguisse reviver nele aquele sentimento de união, de convicção de que eram feitos um para o outro, talvez ele percebesse o que estava perdendo.

Seu sorriso sonhador iluminou seu rosto de felicidade. Estava qua­se certa de que ficariam juntos para sempre, pensou. E soltou um longo suspiro de satisfação.

— Eu adoraria isso, Dimitri — murmurou ela. Pendurou-se no pescoço dele e o olhou com admiração declarada. Iam conversar. Fazer amor. Esquecer de tudo, menos do futuro. — Um lugar deserto, onde possamos nadar e... pegar sol.

— Vá — ordenou. — Mal posso esperar.

Ela se arrepiou, passando os dedos nos braços dele, seus olhos demonstrando o amor que sentia.

— Volto em dez minutos — sussurrou ela, com a felicidade es­tampada no rosto.

De mãos dadas, seguiram pelo porto. Ela vestia uma blusa simples azul-celeste com um laço amarrado na frente e uma saia combinando que dançava sobre suas pernas. Dimitri estava delicioso com uma camisa creme aberta até o peito e uma bermuda caqui.

Alegre, ela acompanhou Dimitri nos cumprimentos a um casal de senhores gregos no caminho.

— Kroniapola — disse ela, feliz. Quanto tempo.

— Epsis — responderam. Para vocês também.

Olívia pensava em todos os anos que passaria com Dimitri e não continha o sorriso.

Seus sentidos pareciam aguçados. Sentia o cheiro de alho e limão e ouvia o som de fritura vindo de uma pequena taverna próxima ao cais.

Seu coração parecia se expandir. Era tudo o que queria. Este era o homem com quem queria passar o resto da vida. Se ele se entregasse a ela.

Um tremor de incerteza destronou sua confiança, mas quando se virava para ele e recebia um sorriso, seguido de um aperto de mão carinhoso, lembrava-se do que ele tinha jurado e achava desnecessá­ria aquela neurose.

Num silêncio agradável, entraram no barco, e Olívia o abraçava enquanto passavam por um grupo de barcos pesqueiros.

— Para onde vamos? — perguntou ela, gostando do vento que soprava em seus cabelos.

Ele a fitou com carinho.

— Aguarde e verá.

Abraçada a ele, Olívia sentiu os músculos das costas se expandi­rem ao manobrar o barco pelas rochas no caminho antes de seguirem ao mar aberto, berço dos tubarões.

Depois de um tempo, passaram pela ilha vulcânica de Methana e também pelo que parecia ser a ilha de Poros. Seguiram pelo canal estreito entre Poros e o continente, contornando a costa. Olívia sabia para onde iam.

Não parava de sorrir. Ele se lembrava de tudo.

Dimitri deixou o barco na faixa de areia e carregou-a no colo, como se fossem noivos chegando ao recanto nupcial. Simbólico, pen­sou ela, com o coração explodindo de felicidade.

Colocando-a no chão com cuidado, pegou a mochila que ela trazia e deram-se as mãos.

— Sinto o cheiro das flores dos limoeiros — disse suavemente. Ele sorriu.

— Pensei que seria um ótimo lugar para um piquenique.

— Perfeito. — Imersa no forte aroma dos limoeiros, mal podia falar de tanta felicidade.

Sentaram-se numa colina baixa com vista para o intenso azul do mar e de costas para uma parede com pequenos lagartos expostos ao sol. Olívia encostou a cabeça nos ombros de Dimitri e assim ficaram por muito tempo: quietos e abraçados.

Era tudo tão tranqüilo que não parecia existir nada além deles no mundo inteiro. Olívia sonhava que Dimitri era o único no mundo para ela. Bastava estar com ele para sua mente se aquietar.

— Olhe as borboletas.

Seguiu o dedo de Dimitri e viu várias passeando por entre as flo­res. Podia ver as azuis sobrevoando os arbustos de lavandas e rosas perto do chão.

Entorpecida pelo aroma das flores do limoeiro e repleta de felici­dade, deixou seu olhar passear por entre as orquídeas, lírios, anêmonas e várias papoulas coloridas.

— Pensei neste lugar tantas vezes quando estive na Inglaterra — disse, num suspiro.

Ele a beijou — o primeiro de tantos beijos que viriam naquele dia. Os dois se beijavam, se tocavam e se abraçavam a todo momento, e ela teve a impressão de que ele também estava vivendo um sonho.

Comeram sem pressa. Rolinhos de folha de parreira com ervas, keftedes frios, queijo e roscas de canela banhadas em mel. Dimitri lambia o mel dos dedos e da boca de Olívia e a alimentava com cerejas e laranjas. Ficaram ali sentados por um longo tempo, bebendo vinho e conversando.

— Você disse que estava saindo de um trabalho. Espero que seu último chefe não tenha sido um homem — comentou.

Olívia riu e fez uma expressão de quem iria usar a situação para provocá-lo.

— Era sim. Mas tinha setenta e um anos e nunca conseguia me pegar quando eu corria em volta da mesa!

Dimitri fez uma careta e fincou gentilmente os dentes nos ombros de Olívia.

— Estou brincando — disse ela. — Ele se aposentou e o filho assumiu seu lugar. Eu não gostava do jeito como me olhava e falava comigo, fazendo insinuações o tempo todo, e me demiti. Foi então que decidi pedir o divórcio.

Dimitri olhava fixamente para o mar, com o coração batendo for­te. Uma leve suspeita passou por sua mente.

— Então não está trabalhando agora.

— Não. Isso quer dizer que posso ficar.

Dimitri ficou quieto. Será que ela havia planejado tudo isso? Pe­diu demissão e resolveu criar uma nova armadilha para ele?

Ela começou a beijar a lateral do seu rosto e, depois de um mo­mento, ele se virou para Olívia com os olhos fechados.

— Felizmente — disse Dimitri com uma voz irritante, empurrando-a para o chão.

Estava tonta com o ar perfumado, com o vinho, com a boca famin­ta de Dimitri. Seus braços enlaçaram o pescoço dele enquanto o co­bria de olhares deliciosos.

— Vamos nadar — disse, levantando-a antes que pudesse falar.

Olívia o amava e, por isso, o agradava. Tiraram as roupas e anda­ram até o mar deliciosamente morno. Estava muito sonolenta para fazer qualquer coisa além de boiar sobre a água. Dimitri, ao contrá­rio, nadou para longe e voltou diversas vezes, como se sua vida de­pendesse daquilo. Encantada, esperou que saísse do mar, com o cor­po molhado, para se unir a ele na praia.

Secaram um ao outro, e Olívia sentia tanto amor por Dimitri que achou que seu coração ia se partir. Andaram até a ponta da colina para ver o pôr-do-sol. Contemplaram as mudanças sutis do crepúscu­lo ao anoitecer, anunciado pelo coro de cigarras. Os vaga-lumes bri­lhavam na escuridão enquanto voltavam para o barco.

Olívia ajeitou-se no banco de couro suntuoso, um pouco fraca de tanto êxtase. Nem tinham feito amor. O sexo foi substituído por algo mais profundo: o prazer de estar em companhia um do outro. Suspi­rando, Olívia relaxou a cabeça e concentrou-se no profundo azul aveludado do céu e no brilho salpicado das estrelas. Queria que este fosse seu destino. E desejava ardentemente que fosse para sempre.

 

SONOLENTA, mas ciente da luz matinal, Olívia se espreguiçou na cama e esticou o braço para onde Dimitri estaria. Seus olhos se abri­ram rapidamente, pois sua mão pousou no vazio. Tudo estava silen­cioso, exceto pelas vozes lá embaixo, no terraço.

Curiosa, levantou-se nua, com o corpo ainda pulsando do carinho­so ato de amor com Dimitri.

Ele fazia o desjejum com a mãe, bebendo sketo, o café amargo de que gostava, e conversava com ela com franqueza. Olívia sorriu, achando que ele dava a notícia da reconciliação.

Bocejando, tropeçou para dentro do chuveiro e escolheu um vesti­do branco simples, que realçava o bronzeado do dia anterior. Parou apenas para colocar o par de brincos de pérola e correu para o terraço.

— Olívia!

Dimitri se levantou quando ela apareceu e beijou seu rosto.

— Olá, querido! — disse, com um sorriso exultante. — Olá, Ma­rina — abaixou-se para beijar a sogra. — Como está? — perguntou, sentando-se na cadeira que Dimitri puxara para ela.

— Muito bem. — Marina sorriu vagamente, deixando Olívia um pouco surpresa. Depois descobriria a razão de vê-la tão distraída. Nikos apareceu cumprimentando a todos, mas fixou um olhar cari­nhoso em Marina.

Dimitri e Olívia trocaram olhares surpresos. Nikos havia passado a noite lá. Em qual cama?, sinalizaram entre eles.

— Nikos — disse Dimitri, num tom baixo. — Quero que seja o primeiro a saber que Olívia e eu voltamos. Como sei dos seus senti­mentos sobre os votos do matrimônio, espero que fique feliz.

Nikos pareceu chocado por um momento, mas sua cortesia inata veio resgatá-lo.

— Claro. Parabéns — disse, um tanto formal.

— Imagino que consiga organizar o casamento de Eleni em breve — continuou Dimitri, com muito tato. — Há muitos homens rondando-a, prontos para disputar sua filha.

Nikos sorriu com orgulho, o que amenizou a decepção.

— Ela é um ótimo partido.

Voltou-se para Marina, e Olívia imaginou se ele não se casaria antes da filha. Começou a relaxar e tomou seu café-da-manhã en­quanto Marina e Nikos conversavam feito crianças felizes.

— Acho que nem notaram que saímos — comentou Olívia, quan­do saiu da mesa com Dimitri.

— Minha mãe está diferente — disse ele suavemente. — Estar apaixonada muda tudo.

— Sim. Muda tudo.

Esperou que Dimitri lhe fizesse uma declaração. Ou que sugerisse um lugar romântico, onde pudesse falar sobre seu amor. Com o cora­ção acelerado, esperou em vão e mordeu o lábio para disfarçar a decepção.

Chegaram à sala, e Dimitri estava quieto, perdido em pensamen­tos. Naquele momento, o celular dele tocou. Olívia automaticamente se enrijeceu, e seu coração afundou ao ouvir o som familiar que tanto odiava. No passado, aquele toque muitas vezes mudara os planos entre eles. Ela não deixaria que isso acontecesse novamente, pois tinha muito a conversar sobre o futuro.

— Só um momento. — Olhou para o visor e enrijeceu. — Suba. Já encontro você. — Preocupado, fez um leve carinho no seu rosto, abriu a porta do escritório e entrou.

Virou-se, desanimada, e sentiu seu brinco cair. Ajoelhada para procurá-los, Olívia olhou pela fresta da porta entreaberta do escritó­rio. Seu estômago embrulhou quando viu Dimitri, que obviamente não imaginava sua presença ali embaixo.

Congelou. Percebeu que a voz estava macia e que seu rosto indica­va prazer. Estava murmurando num tom aveludado.

Ele se encostou numa maleta e estava bastante relaxado e contente quando virou de costas para a porta. Mesmo assim, Olívia ouviu o que ele disse.

— Athena.

Por um momento, ela parou de respirar. Tinha certeza de que, entre as palavras gregas, havia escutado aquele nome. Murmurado com um carinho imenso, que atravessou seu coração como uma faca.

— Avrio — disse ele. Amanhã. Ela sabia o suficiente de grego. Entrou, pisando no carpete sem ser ouvida, com a intenção de perguntar o que estava acontecendo. Foi quando viu um cartão de aniversário. Sem acreditar, piscou os olhos e notou um elefante com três balões e um bolo com o número três em cima e três velas. Poderia ser para qualquer criança, argumentou para si mesma, tentando con­trolar as batidas fortes do coração e amenizar a dor física que sentia.

Ou, pensou com grande frustração, poderia ser um cartão para o filho de Athena. O filho de Dimitri. Afinal, fazia três anos que ela o vira ajudando Athena a entrar no carro.

Naquele dia, a testa da mulher estava repleta de suor. Pararam um pouco quando teve uma contração, e Dimitri beijara o rosto bonito de Athena, segurando-a em seus braços fortes e murmurando algo que a acalmou e encorajou.

Tudo o que ele fizera demonstrava o quanto amava sua amante grávida.

Olívia estremeceu. Estava paralisada de horror, incapaz de falar e se mexer. Afinal, se estavam casados há seis meses, ele sabia da gravidez da amante quando entrou na igreja e prometeu amá-la como à própria vida. Tudo mentira.

Torturada, Olívia quase caiu do carro depois que Dimitri saiu le­vando sua amante grávida. Ficara muito doente. O homem que idola­trava, respeitava e amava profundamente provara ser indigno e sórdi­do. Não chorou, pois sua raiva era intensa demais para dar espaço a lágrimas.

Teve medo que Athena ainda estivesse em cena. Se estivesse, ele teria mentido para ela mais uma vez.

Tremendo, tomou fôlego com os olhos tristonhos e olhou para Dimitri. Era óbvio que ele sentia amor pela mãe do seu filho. Será que era ela a futura esposa que Dimitri queria persuadir Marina a aceitar?

Seu mundo pareceu virar de pernas para o ar. Estremeceu ao se lembrar de que quase declarara seu amor por ele, arriscando-se à humilhante rejeição de Dimitri.

Sem dizer nada, ela saiu, com os sentimentos presos à garganta, como um nó. Lágrimas enchiam seus olhos e acabou tropeçando no próprio pé.

— Olívia!

Gemeu baixinho ao ouvir o tom autoritário de Marina. A mãe de Dimitri era praticamente a última pessoa que queria ver naquele mo­mento. Incapaz de falar, dispensou Marina com a mão e continuou andando.

— Você está bêbada? O que aconteceu? — insistiu Marina.

— Dimitri! Quem mais? — respondeu, indignada, e seguiu para as escadas.

— Espere. — Marina pegou-a pelo braço.

— Não! Deixe-me! — Desesperada por um lugar calmo para cui­dar de sua ferida, tentou se soltar, mas sua sogra estava forte e deter­minada.

— Quero saber o que ele fez — disse Marina, rispidamente. — Insisto.

— Para rir da minha cara? — disparou Olívia.

— Não. Porque quero que ele fique tão feliz quanto eu.

Olívia rendeu-se. Por que não contar a ela? Nada mais importava.

— Aqui não — disse bruscamente, cheia de ódio. Olhou para a porta do escritório. — Do jeito que estou, se ele aparecer, posso danificar o rosto dele para sempre.

Marina ficou chocada.

— Venha para o salão. Preciso saber o que está acontecendo. Aprisionada pelos dedos rígidos que seguravam seu pulso, como

se ela fosse uma criança, Olívia seguia atrás do corpo fino e ereto de Marina até o salão ensolarado. Sabia que teria de tomar cuidado com as palavras. Se Marina soubesse que o casamento estava acabado de vez, Eleni retornaria à cena. Demoraria anos para que o divórcio saísse e ficaria presa na Grécia, com a vida em suspenso.

Mas não conseguiria manter a encenação com Dimitri. Não agüen­taria viver ao lado dele, trocando beijos e olhares apaixonados. Não confiava mais nele.

Droga, pensou amargamente, ele jamais saberia o que era o amor.

— Estou esperando.

Olívia encheu os pulmões. Determinada a não liberar as lágrimas de raiva, levantou o queixo.

— Eu... pensava que Dimitri e eu pudéssemos esquecer o passado e começar de novo...

— Foi o que ele me disse no café-da-manhã. Você não o ama?

— Não — disse, sem emoção. — Não amo. Marina arregalou os olhos.

— Então eu estava certa!

— Não exatamente. Pensei que ele tivesse mudado de verdade. Mas já não tenho tanta certeza. As vezes acho que ele tem a moral de um cachorro de rua.

— Parece que você o odeia — disse Marina.

— Eu o odeio! — retrucou, com ênfase.

— Diga-me então: se o odeia, por que está triste? -- interrogou sua sogra. — É porque está perdendo a chance de viver com luxo de novo?

— Não! — gritou Olívia. — Porque eu o amava loucamente!

— Estou confusa. O recado que você deixou quando foi embora dizia o contrário — comentou Marina.

Olívia franziu a testa.


— Claro que não. Eu disse que não havia motivo para continuar porque ele não me amava mais! Meu Deus, você viu como fiquei transtornada ao vê-lo com a amante! Sempre o amei, de burra que fui. Sei que você achava que eu estava com ele pelo dinheiro. Para come­ço de conversa, nem sabia que ele era rico. íamos a restaurantes sim­ples, o apartamento dele era prático e nada luxuoso. Ele dirigia um carro caro, mas os homens têm tanta paixão por carros que até se endividam. E quando soube que ele comandava o gigantesco império Angelaki, já estava apaixonada e nem ligava para isso. Só queria ficar junto dele.

E continuou:

— Sempre que estou com ele penso que sou a única mulher no mundo, e é a melhor sensação que já tive, mas ele me manipula feito um fantoche. Tenho sentimentos, Marina! Eu amo e odeio Dimitri porque ele me machucou tanto que mal consigo pensar em continuar vivendo! — Colocou a mão na testa latejante. — Preciso ir — disse, sem forças. — Não posso mais ficar perto de Dimitri. Ele está me destruindo. Quero que me ajude a encontrar um lugar para morar aqui na Grécia, enquanto espero o divórcio. Tenho certeza de que também quer isso — acrescentou ela, amargamente.

Sua sogra parecia atordoada com o desabafo de Olívia.

— Eu... não tinha idéia de que você se sentia assim — disse. Seguiu-se um longo silêncio.

— Você acredita em mim? — perguntou Olívia.

— Sim — disse Marina suavemente. — Sei do que está falando. Sentia o mesmo pelo meu Theo. — Sorriu quando Olívia piscou, surpresa. — Sim. Homens Angelaki têm o hábito de rejeitar o amor de suas esposas. Você deixou meu filho porque ficou magoada ao ver que ele tinha um caso com a mulher que vimos...

— Acho que eles ainda se encontram. — Olívia não conseguiu esconder sua dor. — Talvez por causa da criança. Talvez porque... — Não conseguiu expressar mais um de seus medos.

Marina franziu a testa.

— Minha querida, vou lhe dar um conselho que pode surpreen­dê-la.

— Quero ajuda prática, não conselho — pediu Olívia. Para sua surpresa, os olhos de sua sogra se suavizaram.

— Você terá. Mas... antes, há algo que lhe interessa... pode não acreditar, mas Dimitri ficou péssimo desde que você partiu. Mal-hu­morado, difícil de agradar e sem tempo para a família e os amigos.

— Por que está me dizendo isso?

— Porque Nikos tem falado muito sobre você. Ele gosta muito de você, e confio no julgamento dele. Estou lhe dizendo que Dimitri foi profundamente afetado pelo seu desaparecimento.

Por que ela se importava?

— Deve ter ficado com o orgulho ferido.

— Ou talvez tenha ficado arrasado por você ter partido, querendo-a de volta. — Marina suspirou. — Quem sabe? Tudo que posso dizer é que ele não estava feliz e que sua amante obviamente não o satisfa­zia. Contudo, ele tem estado feliz desde que você voltou. Vou lhe dizer uma coisa: se realmente o ama, aceite-o do jeito que é.

— Um traidor? — explodiu Olívia.

— Você não seria a primeira a fazer vista grossa ao adultério — disse Marina, com um olhar infeliz. — Olívia, eu sabia que meu Theo tinha uma amante em algum lugar. Mas não vi motivo para deixá-lo só porque encontrou uma mulher mais nova e mais sexy do que eu.

Olívia estava surpresa.

— Você não se importava?

— Claro que sim. Mas eu o queria — disse simplesmente. Parecia um casamento horrível. Será que era por isso que Marina era tão amarga?

— Vocês eram ao menos um pouco felizes? — perguntou Olívia gentilmente, abismada com a confidencia íntima da sogra.

Havia um traço de angústia no rosto dela.

— Não — admitiu ela. — E confesso que provavelmente fiz mal em dizer tudo que eu pensava, afastando-o cada vez mais de mim. Mas não agüentava; eu o amava e precisava muito dele. Talvez até o tenha empurrado para os braços de outra mulher. Eu era extremamen­te possessiva.

Olívia percebia a tristeza de Marina porque sentia a mesma dor de humilhação e rejeição. Num impulso, abraçou sua sogra de maneira compreensiva.

— Eu não poderia fazer o mesmo. Você é muito mais forte que eu — confessou.

— Ou mais cabeça-dura — disse Marina, com um suspiro triste. Afastou-se ligeiramente e olhou para Olívia com simpatia, prenden­do uma mecha solta do seu cabelo atrás da orelha, num gesto maternal. — Mas não suportaria ser deixada, então preferi fingir que não sabia de nada. Parece que Dimitri puxou ao pai. Deixe-o ter essa liberdade. Você deve decidir sua vida. Ou se divorcia ou se mantém casada e ignora suas ausências.

Olívia olhou para Marina com o olhar perdido.

— Não consigo viver sem ele — admitiu. — Mas também não posso viver com ele e seus casos. Isso me destruiria. E ainda assim, não me sinto viva sem ele. Oh, Marina! — sussurrou quando a con­versa estava se concluindo. — Preciso ir. Me ajude, eu imploro...

— Aí estão vocês! — As duas mulheres pularam ao ouvir a voz forte de Dimitri. Ele as fitou, sem entender o abraço fraternal. — O que está acontecendo aqui?

A boca de Olívia se fechou até virar uma linha dura e fina.

— Indício de um homicídio de minha autoria.

Ficou confuso com toda aquela hostilidade. Os joelhos de Olívia tremiam. Ela o desejou desesperadamente ao vê-lo passar a mão no cabelo.

— Mas... pensei que você... Nós íamos sair hoje...

— Oh, isso ainda está de pé? — perguntou friamente. — Imaginei que tivesse coisas melhores para fazer ou outras pessoas para visitar.

Seu rosto enrijeceu. Fechou e abriu os olhos lentamente e lançou um olhar indignado para sua mãe. Para Olívia, parecia que ele não sabia o que fazer e estava bastante envergonhado. Prova, se é que ela precisava disso, da culpa de Dimitri.

— A ligação no celular! Claro. Desculpe-me por tê-la deixado. — Seu sorriso extremamente carinhoso deixou-a derretida como sem­pre, com o coração pulsando de amor, mas por outro lado, sua cabeça explodia de raiva incontrolada. — Mas agora estou aqui, e temos o dia inteiro para nós. Você escolhe aonde vamos...

— Nós não vamos a lugar nenhum. Estou saindo desta casa e da sua vida para sempre — disse, fria como gelo em todas as palavras.

Dimitri ficou totalmente alarmado.

— Saindo? De jeito nenhum — desafiou-a.

Com muito cuidado, Marina murmurou algo e saiu da sala, pas­sando pela feição de pedra de Dimitri.

— Então veja! — retrucou Olívia.

Dimitri cruzou os braços, assumindo uma postura ameaçadora.

— Você se importa de me dizer o que a fez mudar de idéia?

— Com todo o prazer! Estou cheia e cansada — esbravejou — de ser usada por você!

— Pode estar cansada, eu entendo, mas acho que foi o entusiasmo exagerado de ontem à noite — retrucou ele, parecendo ofendido por Olívia ter esquecido o que acontecera.

— Eu gosto de sexo! — disse ela, em tom agressivo. Gostava? A verdade é que adorava o sexo apaixonado com ele até ouvir a conversa no telefone e entender que não passava de um brinquedo nas mãos dele!

Os olhos de Dimitri se estreitaram. Ela reduzira um dia e uma noite ao estágio da luxúria. O coração de Dimitri bateu mais forte e entristeceu-se ao perceber que, para ele, tinha sido uma experiência inesquecível e profunda. Como era burro! Sabia que ela não o amava e deixara isso bem claro.

Cerrou os pulsos. Seus instintos lhe diziam para puni-la. Fazê-la pagar na mesma moeda. Nenhuma mulher o trataria com tanto desca­so.

— Não precisa me dizer que gosta de sexo. Já havia notado — respondeu ele.

Ela corou.

— Eu simplesmente respondia à sua boa performance. Mas o que fizemos ontem à noite não significa que eu goste de você, ou que aceite sua moral peculiar...

— Só um minuto. O que a minha mãe lhe disse? — Tentando unir as peças do quebra-cabeça, aproximou-se até ficar a um passo dela, estudando-a com olhos de lince. Olívia mudara completamente de idéia sobre o acordo que fizeram. Só havia uma explicação.

— Achei que ela estivesse feliz por você ficar. Mas... ela lhe ofe­receu dinheiro para me deixar?

Olívia engoliu em seco e deu-lhe um tapa. Ele não conseguiu im­pedir, pois a pegou tarde demais. Por um instante, ela teve medo do brilho negro em seus olhos. Mas Dimitri fez algo inesperado: puxou-a contra seu corpo, segurou sua cabeça para trás e beijou-a à força.

Ela lutou contra ele — e contra si mesma. Sentia seu corpo se moldando ao dele. O coração de Dimitri batia forte. Ele pegou um dos seios de Olívia e dobrou seu corpo para trás, dominando-a com força e agilidade, até que ela desistisse de escapar, vencida pelo pró­prio desejo.

— Você me quer! — insistiu ele. — Isso é óbvio. Tudo bem. Vamos negociar. Devo lhe oferecer mais dinheiro para ficar?

Encarou-o com os olhos repletos de raiva.

— Não estou à venda nem posso ser subornada! — rosnou ela. — Não quero o seu dinheiro nem o da sua mãe...

— Mas pegou a mesada que eu mandava — comentou ele, com um sorriso cínico.

Os olhos dela se arregalaram de surpresa.

— Que mesada?

— A que era depositada no banco inglês em que tínhamos uma conta conjunta, lembra? Ou era muito pouco para você? — pergun­tou, sarcástico.

— Você nem sabe em que banco tenho conta! Mudei para o... — Fechou a boca, lembrando-se de que não diria por onde andara nos úl­timos três anos. — Se depositou dinheiro no banco antigo, ainda deve estar lá, intocado, com tudo o que depositamos antes. Seu endereço em Londres deve estar repleto de extratos bancários. Não esteve lá?

— Não. Evitei como se fosse uma doença contagiosa — murmu­rou, com os olhos apertados. — Está me dizendo que não pegou nem um centavo?

Ela o aplaudiu.

— Muito bem.

Ele fez uma careta pelo sarcasmo, mas ficou sem jeito.

— Pensei...

— Eu sei o que pensou — rebateu ela. — Que eu adoro dinheiro.

— E não?

— Nada fora do normal. É claro que gosto de roupas novas, de comer em restaurantes e de viajar para Nova York. É claro que era bom ter segurança financeira. Mas o que eu valorizava era...

— Eu.

— Você — concordou, decidindo não dizer mais nada. Sua boca se enrijeceu.

— Como se manteve depois que saiu daqui? Ela o fitou.

— Já lhe disse. Com meu trabalho. Não preciso que homem ne­nhum me sustente. Isso lhe diz alguma coisa sobre minhas táticas para dar o golpe do baú? Serve para lhe mostrar que eu talvez não aceitasse suborno de sua mãe?

Obviamente surpreso, Dimitri tocou o rosto, onde ainda sentia o tapa de Olívia.

— Parece que eu mereci isso — disse, num tom formal.

— Isso é pouco! — resmungou ela. Ele concordou com a cabeça.

— Peço desculpas. Mas isso não explica por que decidiu voltar para casa. Ontem mesmo parecia determinada a se divertir comigo por muito tempo.

— E agora quero ir para casa — murmurou, sem acrescentar que as atitudes cavalheirescas dele com as mulheres não a agradavam. Ele poderia achar que ela estava com ciúmes, e essa era a última coisa que queria que ele soubesse.

— Esta é uma tentativa de conseguir uma pensão maior, não é? Sei que não tocou na conta conjunta, mas só porque não sabia que eu depositava. Você mesma admitiu que gosta da segurança que o dinheiro lhe dá. Seu advogado já aceitou uma soma substancial em seu nome e você quer aumentar ainda mais...

— Não quero nada! — retrucou ela.

Suas sobrancelhas se arquearam em surpresa.

— Sério? Então ligue para ele. Vou tirar sua máscara, Olívia.

— Não sei que horas são em...

— Desculpas, mais desculpas.

— Certo!

Com os olhos brilhando, pegou o telefone e discou, explicando a Paul, espantado, que não queria nem um centavo de Dimitri.

— Ele forçou você a fazer isso! — protestou Paul. — Olívia, se ele a seduziu com o único objetivo de...

— Talvez sim, talvez não — rebateu ela. — Não me interessa mais. Só quero me livrar de tudo o que estiver ligado a ele o quanto antes. Recuso-me a ser chamada de prostituta. Tudo o que diz respei­to ao império Angelaki é venenoso. — Tremendo, desligou o telefo­ne. — Satisfeito? — perguntou, dirigindo-se a Dimitri. — Não pode mais me acusar de ter me. casado por dinheiro. Ou me divorciar por isso.

— Por que, então, se casou comigo? — perguntou, com raiva.

— Droga! Se ainda não sabe, juro que não lhe direi! — gritou ela. Ele ficou parado. Seus olhos procuravam os dela.

— Por amor?

Foi o tom de voz que a abalou, imbuído de tanto afeto que seu coração parecia se rasgar.

— Por amor — concordou, com o rosto triste. — E é horrível quando ele morre.

Então era isso. Ela o amara — talvez nos primórdios do relaciona­mento. Mas durante o casamento, ela estava insatisfeita. E depois de ter partido, o tempo deve ter aniquilado todo o sentimento que tivera por ele. Ao menos agora ele sabia a verdade e podia agir de maneira coerente. Ela se arrependeria por ter insinuado que o amor entre eles tinha reacendido.

Seus dentes se cerraram com força. De repente, ela parecia vulne­rável. A boca parecia cravada de tristeza, e ele teve vontade de beijá-la, provocando sorrisos. Em vez disso, fechou a cara e tentou mantê-la por perto. Porque ainda tinha muito a fazer.

— Não estamos chegando a lugar nenhum. Conforme o planejado, você não pode sair daqui — disse, ríspido. — Isso quebraria a sua promessa.

Ela o fitou com ódio.

— Não prometi que moraria aqui!

— Não — disse, num tom selvagem. — Mas concordou que fingi­ríamos estar apaixonados até Eleni desistir de ser a futura Sra. Angelaki. E amantes não moram em casas separadas durante a tentativa de reconciliação.

Ela engoliu em seco. Tentou ignorar a náusea que surgia no estô­mago. Ele parecia grosso e determinado, seus olhos e seu corpo ten­tando intimidá-la. Queria realmente que ela ficasse para inflar seu ego na cama e fora dela, enquanto ela morria por dentro!

— Não pode me obrigar a isso! — gritou Olívia, perturbada.

— Acredite em mim: eu posso e vou — retrucou ele, com as so­brancelhas negras contraídas. — Foi uma promessa. E farei você cumprir.

— Não suporto ficar perto de você! — disse, destruída por dentro. Os olhos de Dimitri enviaram um alerta, e suas mãos pousaram nos ombros dela, como se pensasse em quebrar seus ossos finos.

— Cumpra sua promessa — disse ele. —: É o único jeito desse casamento falso acabar em tempo recorde.

— Não consigo mais mentir! Fico enjoada só de pensar no se toque...

— Então — disse ele, com um olhar ameaçador e cheio de raiva devo parabenizá-la por sua performance até hoje. Quase me convenceu que adorava.

— Me deixe — disse ela, esgotada.

— Não. Você não vai se livrar dessa. Ela gemeu, indefesa.

— Por favor, Dimitri!

— Nada me daria maior prazer que vê-la pelas costas — provo­cou. — Mas você tem um trabalho a fazer. No entanto, pretendo facilitar sua vida. Você continua aqui. Sairemos para viajar juntos e voltaremos juntos. Este lugar é um poço de fofocas, e Eleni logo saberá que não desgrudamos um do outro...

— Não passarei um dia inteiro com você...

— Fará tudo o que eu disser — retrucou. — À noite...

— Não dormirei com você!

— Não temos dormido tanto assim — disse, num tom seco. — Mas faremos o seguinte: você dormirá no meu quarto para manter as aparências, e eu dormirei em outro lugar...

— Onde? — interrogou ela, pensando em Athena.

— Qualquer lugar. Isso importa? — perguntou, impaciente. — Concorde com isso e farei meus advogados trabalharem contra o relógio. Logo se livrará de mim. E eu de você — concluiu, tomando fôlego.

Se ao menos ela não tivesse dado a sua palavra. Ele a prendera numa situação impossível. Levantou a face com horror.

— Não tenho opção — sussurrou. E saiu correndo da sala antes de se debulhar em lágrimas.

 

O BARCO correu mais uma vez pelo mar azulado, deixando para trás o vilarejo onde encontrara e perdera a felicidade pela segunda vez.

O contraste entre o que sentia neste dia e o que sentira no dia anterior era doloroso demais.

Ela sabia que Eleni os assistira partir pela porta de vidro da sala. Pensou na menina com certa simpatia, sabendo que aquele desespero consumia e destruía qualquer um. Não gostava do que estava fazendo — e desejava que acabasse o mais breve possível.

Seguiram para uma costa litorânea curvilínea, coberta de árvores de tamarindo, onde haviam passado muitas horas maravilhosas jun­tos, tempos atrás. Olívia tentava com todas as forças não pensar nes­ses dias. Para quê? No fundo, eram somente uma fantasia que ela criara.

Dimitri desligou o motor e deixou o barco flutuar lentamente em direção à faixa de areia. Assim como Olívia, ele vestia uma bermuda bege, embora sua camiseta fosse azul e não branca, e mais apertada, ajustando-se às curvas do seu peitoral.

— Pegue a minha mão.

— Não.

Determinada a ser independente, ficou em pé e se preparou para pular na água rasa.

— Olívia, ela pode nos ver da casa — disse ele, indicando com a cabeça a direção do promontório. Era óbvio: ela podia ver a mansão por entre as árvores. — Venha.

Deu a mão a ele. Sem saber como, num momento estava em pé e noutro tinha caído na água à altura dos joelhos. No colo de Dimitri. Chegaram à praia molhados. Dimitri a segurava com firmeza. Até demais.

Por um momento, ela procurou pela boca de Dimitri, num reflexo. Até onde seus instintos estariam errados?

— Muito bem — respondeu ele, seco, encostando sua boca fecha­da na dela.

Ela sentiu a raiva dele e lutou para se livrar, engasgando quando a água espirrou em seus corpos parcialmente submersos.

— Já está bom.

Ele a soltou bruscamente. Pegando-a pelo quadril, Dimitri a er­gueu. Do seu rosto tenso, escorria água. Seus olhos eram como dois pedaços de vidro preto, e sua boca era uma linha fina e contraída.

Ela nunca o vira à beira de um ataque de nervos. Dimitri soltou uma única palavra com tanto veneno que dava medo.

— Desgraçada.

Sem ver nada na frente, ela seguiu para a areia, concentrando-se em torcer o cabelo para tirar o excesso de água. Tinha tanto medo do que ele poderia fazer que chegava a tremer. Percebeu que não poderia passar o dia todo naquela praia, sob os olhos de Eleni. Ele a obrigaria a representar o papel de amante, e ela se arrepiou ao pensar até onde ele iria.

— Recuso-me a sentar na praia o dia todo enquanto me usa de isca para os olhares da pobre Eleni — disse, obstinada. — Não sou exibicionista. E não deixarei você chegar mais perto do que já está! Leve-me para outro lugar.

Irritado, passou a mão no rosto para se secar.

— Para onde, então?

— Não sei. Qualquer lugar seria um inferno — respondeu, agressiva.

— Seria um ótimo lugar — corrigiu ele. Seu nervosismo aumentou.

— Se temos de ir a algum lugar juntos, prefiro que seja a uma colina. Eu fico de um lado, e você do outro, longe da minha vista — disse Olívia friamente.

— Certo — concordou ele, surpreendendo-a. — Prefiro não tocá-la. Vá para o barco. Voltaremos para casa, mudaremos de roupa... e de destino.

Ela obedeceu, muda. Num silêncio mortal, voltaram ao cais. Com o humor claramente alterado, Dimitri a ajudou a subir no barco.

— Olhe para mim.

— Não.

Ele pegou seus braços de maneira grosseira e a olhou nos olhos.

— Sorria, nem que seja forçada. Precisamos ficar abraçados até chegar na casa. Encoste a cabeça no meu ombro. Se acha que estou gostando disso, está muito enganada. Finalmente descobri quem você é, Olívia: uma vagabunda de coração frio, que procura apenas satisfazer suas necessidades egoístas.

— E você — rebateu ela — é um valentão arrogante, sem a menor noção do que é amor ou decência, e que deve odiar as mulheres por­que só sabe traí-las e magoá-las!

Para seu alívio, não havia sinal de Eleni na casa. Dimitri descobriu que ela havia saído com um rapaz num carro esportivo. Talvez o truque estivesse funcionando, pensou.

Quando entraram na casa, ela colocou um vestido leve de algodão azul e encontrou Dimitri na garagem.

— Essa droga de viagem é mesmo necessária? — perguntou Olívia.

— Não a faria, se não fosse. Preferia sentar à minha mesa e lidar com uma pilha de correspondências — retrucou ele. — Mas estou preparado para fazer tudo que puder para tirá-la da minha cabeça. Entre.

No momento em que Dimitri entrou no carro, ela se sentiu enclau­surada. Um olhar furtivo e disfarçado para aquele rosto de pedra indicou que a hostilidade entre os dois tomara proporções homéricas.

Dimitri dirigiu em direção às montanhas, concentrado. Olívia, de­pressiva, olhava pela janela sem prestar atenção à paisagem.

A cabeça de Olívia doía com tanta tensão e tristeza reprimidas. Era uma situação absurda.

— Aonde estamos indo? — murmurou entre os dentes.

— Não tenho idéia. Olívia respirou fundo.

— Encontre logo um lugar onde possamos parar. Não quero pas­sar o dia inteiro entalada neste carro com você.

— Estou matando tempo. Se tiver alguma sugestão, fale — disse, com sarcasmo.

— Qualquer colina serve, desde que você fique de um lado e eu do outro.

Ele ligou o rádio. O leve acorde de uma música triste abalou o silêncio gelado. Olívia fechou os olhos, apertando-os bem para que as lágrimas não escapassem. Incapaz de segurar sua emoção, desli­gou o rádio e afundou no assento.

Ele olhou para ela pelo canto do olho e se arrependeu. Seus cílios estavam úmidos das lágrimas e uma ainda escorria pela maçã do rosto até o canto da boca. Por que o tormento dela o perturbava? Não deveria, mas incomodava. Queria abraçá-la e acalmá-la, dizer que tudo ficaria bem — apesar de saber que dentro de poucos dias os dois se separariam para sempre.

E quanto à sua vingança? Tinha planejado fazê-la depender dele, desejá-lo e implorar para ser amada. Depois a rejeitaria, para que soubesse como era se sentir perdidamente apaixonada por alguém e ser cruelmente dispensada, como fizera com ele. Mas agora não con­seguiria fazer isso, pois suas emoções estavam conturbadas. Olívia o destruía aos poucos. Todos os seus instintos diziam para que parasse imediatamente com o jogo combinado.

— Olívia — começou ele, com a voz rouca.

Ela parecia arisca. Percebendo rapidamente onde estavam, saiu da estrada, entrou numa ruela e continuou descendo. Tinham de encerrar aquela situação da maneira mais rápida — e menos dolorosa — pos­sível.

Eleni já estava arrumando novos pretendentes. Isso significava que estava livre dela e que poderia colocar Olívia no avião naquela mesma noite. O pensamento provocou uma forte dor de cabeça em Dimitri. Freou bruscamente, levantando poeira e provocando um for­te cheiro de borracha queimada.

— Que foi? — gritou ela, colocando a mão no peito. — O que pensa que está fazendo? Quase quebrou minhas costelas!

Dimitri virou-se lentamente, tonto e surpreso por sua reação. Quando estava com raiva, ela ficava ainda mais linda, com seus gran­des olhos azuis fitando-o com fúria escaldante. Tinha algumas sardas no nariz bronzeado, salpicadas de maneira provocante nas boche­chas. Antes de pensar no que estava fazendo, sua mão tentou tocá-la.

— Tire suas mãos de mim! — esbravejou ela, dando-lhe um tapa na mão. — E explique por que está treinando freadas bruscas!

Que boca macia, pronta para ser beijada. O calor em seu sexo au­mentava. Precisava pensar, conversar com ela, sugerir algo fenomenal.

O risco para seu orgulho era incalculável, mas se não tentasse, jamais se perdoaria.

— Desculpe-me. É que tive uma idéia — disse com cuidado, a boca seca de tanto nervosismo.

— Espero que seja relativa a uma separação imediata. Resmungando qualquer coisa, cruzou os braços e aguardou ele sair com o carro.

Demorou alguns instantes antes que ele pudesse encontrar o câm­bio do carro. Seus olhos pararam nas longas linhas das pernas de Olívia e, dali em diante, sabia que faria qualquer coisa para mantê-la.

Olívia sentiu o calor do olhar e puxou a saia para cobrir as coxas.

— Nem pense nisso.

Sem dizer uma palavra, Dimitri ligou o carro e dirigiu cuidadosa­mente pelo caminho esburacado, estacionando no final.

— Acho que precisamos conversar — disse, tranqüilo.

— Será? Um: não confio em você — resmungou ela. — Dois: é um pouco tarde para isso. Três: não tenho nada para dizer.

— Mas eu tenho. E acho que ficará surpresa.

Bastou olhar rapidamente para o rosto dele depois de ouvir o tom de voz sedutor para que Olívia confirmasse seus temores.

— Então fique aqui sentado e surpreenda a si mesmo — disse, abrindo a porta. — Vou caminhar. Sozinha.

O jeito como seu corpo se movia o deixou sem ar. Estava linda e parecia irritada e orgulhosa.

Não havia mulher como Olívia. Inebriado, olhou a figura resoluta da esposa, o cabelo louro voando com a brisa, e se preparou para usar todas as armas possíveis para convencê-la a ficar.

Quando chegou ao topo da colina, Olívia encontrou um teatro de arena, parecido com o de Epidauro, mas com apenas dez fileiras de assentos em mármore. Estava mal conservado e repleto de grama e flores silvestres, embora a parte central — onde os atores ficavam, há uns dois mil anos — ainda estivesse intacta. Foi em direção à última fileira do teatro.

Seu coração palpitava. Sentiria muitas saudades. Restavam-lhe mais dois ou três dias antes de ir para casa. Para longe de Dimitri...

A dor no coração já machucado deixou-a sem ar, e sentou-se no mármore frio dos bancos. Tudo fora tão perfeito. Dimitri, o amor que achava que tivessem, o lindo céu azul, o calor do sol no corpo dolori­do, a paisagem fabulosa e a fascinante história local.

— Quero que me ouça, Olívia.

Piscou e olhou para baixo, procurando pela voz. Dimitri estava no centro do teatro, como naquele dia inesquecível em Epidauro, onde dissera que a amava, pouco antes de ela descobrir seu caso com Athena. A acústica era perfeita. Embora ele falasse baixo, podia escutar cada palavra.

Olhava friamente para Dimitri. Nada que dissesse a tocaria. Não mais.

— Não importa que não me ame — disse ele, com o rosto levanta­do para onde ela estava. Olívia ficou tensa. Parecia que ele falava de peito aberto. — O fato é que... — suspirou, abrindo os braços num gesto de desespero. — Acho que não suportarei se você for...

Mentiroso! Raiva e dor a queimavam. Virou o rosto. O que ele queria? Mais meia hora de sexo? Ela o teria deixado lá, lançando suas mentiras, mas de repente sentiu-se muito cansada. Podia falar à von­tade. Nada mudaria.

— Quando percebi que você partiria em um ou dois dias, eu... Que esperto, pensou, analisando a postura de Dimitri. Que ótimo ator! Seja não o conhecesse, teria se convencido de sua tristeza.

Principalmente quando levantou a cabeça. Do lugar onde ela esta­va, podia ver que seus olhos brilhavam um pouco mais que o normal.

Seu coração apaixonado se contraiu, mas logo voltou à razão e a raiva tomou conta de cada célula do seu corpo. Deixou-o continuar para ver até onde iria para ter o que desejava.

— É verdade, Olívia. Não posso viver sem você! — disse ele, com uma voz gutural. — Faça o que quiser. More onde quiser, contanto que não seja muito longe. Mas deixe-me vê-la de vez em quando. Deixe-me provar que... — O peito dele se expandiu e se retraiu nova­mente, e ela ouviu o longo chiado do seu peito quando esvaziou os pulmões. — Eu amo você mais do que jamais imaginei. Sempre a amei, sempre a amarei. Deixe-me amá-la. Cuidar de você. — Ajoe­lhou-se no chão empoeirado de pedra, e ela o fitou, hipnotizada. — Eu amo você, Olívia. Com cada centímetro do meu corpo, todo o ar que respiro, todos os pensamentos da minha cabeça. Quero que seja a mãe dos meus filhos...

Olívia levantou-se num impulso, sem agüentar aquilo. Voltou para o carro. Tarde demais, pensou tristemente. A declaração vinha no momento errado, porque se sentiu muito magoada ao ouvi-lo ex­pressar seu amor e falar da chance de ter filhos com ele.

Com as pernas bambas, tropeçou e caiu no caminho de pedras. Soltou um grito de dor quando bateu a cabeça numa pequena pedra. Por um momento, ficou deitada, esvaziada pela cruel pretensão de Dimitri. De repente, ele estava ao lado dela, virando-a gentilmente e colocando-a nos braços.

— Me deixe! — gritou ela, batendo com o pulso sem forças no peito dele.

— Você está machucada — murmurou, assustado.

Ele passou os dedos pela testa de Olívia, que estremeceu. Seus olhos se contraíram ao ver a expressão arrasada de Dimitri. Por que ele parecia tão triste? Não fazia sentido. A menos que estivesse triste por ter sido rejeitado.

— Machucou mais algum lugar? — perguntou, com a voz gutural. O coração. Foi esmagado além do recuperável, era isso que queria dizer. Mas ele limpava com cuidado seus cotovelos e as palmas das suas mãos, que estavam brancos de tanta poeira, e Olívia mordeu o lábio para não soltar um suspiro de autopiedade.

Porque o cuidado e a preocupação no rosto dele a machucavam muito.

— Quero voltar — disse, num tom sem vida como seus olhos. — Não quero mais fazer isso. Cheguei ao meu limite.

— Claro. — Ele engoliu a saliva e olhou para ela como se o mundo tivesse acabado. — Eu amo você, Olívia.

Ela virou a cabeça para o lado e olhou para o nada. Depois de um momento, suas mãos se afastaram, e ele a ajudou a ficar de pé.

— Há um kit de primeiros socorros no carro — murmurou. Olívia tirou o braço do apoio de Dimitri, e mal se manteve ereta.

Em sua mente, deixava para trás as belezas da Grécia e um grego em particular.

Quando ele chegou ao lugar onde ela estava sentada, trazendo o kit de primeiros socorros, ela o ignorou claramente e passou o creme de calêndula na testa. O silêncio parecia esmagá-la, de tão pesado. Olhou rapidamente para Dimitri para ver por que continuava ali para­do, olhando para ela, e parou de respirar.

Seu rosto estava morto. A vitalidade e a energia tinham desapare­cido. A pele estava pálida e os olhos não brilhavam; ao contrário, estavam frios e nebulosos. A boca vigorosa ficou triste e com a linha caída. Aquela transfiguração fez com que tivesse vontade de chorar.

— Você dirige — resmungou.

Ela aceitou e ele se sentou no assento do passageiro. Olívia se levantou devagar, perturbada com a queda da vibração de Dimitri. E não conseguia entender por que, a menos que fosse o medo iminente de se casar com Eleni.

Dimitri só voltou a falar quando pararam na mansão.

— Marcarei seu vôo para a Inglaterra esta noite — disse, num tom estrangulado. — Meu avião está em Paris. Terá de ser um vôo comer­cial.

— Tudo bem — disse, entorpecida de tristeza. Quando Olívia saiu do carro, ele passou imediatamente para o banco do motorista.

— Aonde você vai? — perguntou, preocupada por ele dirigir na­quele estado.

— Acho que não lhe interessa — disse, num tom estranho, e pisou fundo no acelerador.

Ela o viu sair com desgosto. Sabia para onde ia. Para Athena, a amante eterna, mãe do seu filho, que ficara ao lado dele todos esses anos.

Os olhos de Olívia ficaram escuros. Achou a chave do carro que Dimitri dera a ela e foi pegá-lo na garagem.

Durante todo o tempo em que ele falava de amor — e parecia acreditar em suas próprias palavras —, ainda tinha a intenção de manter Athena na relação, como um estepe.

Seus dedos agarraram o volante como se fosse a própria vida, e decidiu confrontá-lo na casa de Athena, onde seria forçado a admitir que tudo o que dissera era uma grande mentira.

 

ATHENA acariciava-lhe a testa, mas seus dedos delicados não ame­nizavam a dor que o corroía. Era profunda demais. Inalcançável.

Ela engolira em seco quando o vira. Perturbado pelos pensamen­tos que o rondavam, vira seu reflexo de relance no espelho da sala e entendera o choque de Athena.

Mal se reconheceu no zumbi que o fitava com olhos de pedra.

Agora, estava sentado de maneira apática aos pés de Athena no jardim sobre a baía de Selonda, com duas taças de vinho cheias dei­xadas de lado, enquanto o pequeno Theo brincava alegre com seus carrinhos.

Acolhedora e amorosa como sempre, Athena não perguntou nada. Esperava que Dimitri falasse, e ele mal sabia por onde começar. Seu futuro parecia apático e desinteressante. Faria qualquer coisa por Olí­via. Daria a ela tudo o que quisesse. Mas ela o deixara.

Fraco de tanto tentar organizar suas emoções, deitou a cabeça nos joelhos de Athena e fechou os olhos. Ainda via Olívia. Se doesse tanto quanto da última vez em que o deixara, ficaria naquele colo por muito tempo.

Gemeu de dor. Os dedos de Athena afagavam levemente seu rosto. Os dois ficaram subitamente rijos.

Ao olhar para cima, Dimitri ficou boquiaberto ao ver Olívia. Pis­cou os olhos, pensando que fosse uma alucinação. Afinal, ela supos­tamente não sabia onde Athena morava ou aonde ele tinha ido, mas definitivamente estava lá, ao lado do portão que dava para o jardim. Abriu-o com raiva e deu passos largos em direção a ele, com os cabelos esvoaçando.

— Que cena linda! — debochou ela. — E você ainda diz que me ama?

— Sim.

Foi tudo o que conseguiu dizer — e não era muito coerente.

— Você vive num mundo de fantasias, Dimitri! — gritou ela.—

Acorde! Enquanto está com uma mulher, você a ama. Parece acredi­tar nisso sinceramente. Cinco minutos depois está com outra, e ofere­ce amor eterno a ela Isso não é normal — acrescentou. — Ou você sabe muito bem o que está fazendo e, neste caso, é a pessoa mais baixa do mundo, ou é um lunático que precisa de um psiquiatra...

— Não sou louco — disse Dimitri em voz baixa. — Eu amo você. É simples assim.

Olívia parecia chocada. Olhava para Athena e depois para ele.

— Você diz isso na frente dela? Não entendo como as mulheres gregas aceitam a infidelidade de maneira tão passiva.

— Não aceitam — disse Athena, tranqüila. — O que está queren­do dizer, Olívia?

Ao ouvir a voz doce da outra mulher, os olhos de Olívia se enche­ram de lágrimas.

— Eu o amei — disse, soluçando. — Ele era tudo para mim! Quando voltei para a Grécia e o vi novamente, sabia que o amaria para sempre! Mas ele mentiu e me ofendeu, fingiu me amar enquanto vivia uma outra vida! Não agüento isso! Odeio chorar deste jeito por um idiota! Você estraçalhou meu coração! Espero que seja muito infeliz e que outra mulher o machuque tanto quanto me machucou...

Ela se debulhava em lágrimas. Athena levou-a para dentro de casa, pedindo com um aceno de mão que Dimitri não as acompanhasse, assim que tentou segui-las.

—Este é o meu banheiro — disse gentilmente a Olívia. — Procure se acalmar aqui para depois conversarmos. Dimitri não é o tipo de homem que você está pensando...

— Você foi iludida por ele, como eu!

Olívia apoiou-se na pia e viu a imagem de Athena no espelho. A mulher era mais velha do que parecia de longe. Talvez tivesse uns quarenta e cinco anos, com vários cabelos brancos. Deve ser boa de cama, pensou Olívia amargamente. Molhou o rosto e o secou.

Notou uma fotografia dela com Dimitri. Não... não era Dimitri...

Virou-se e estudou a fotografia de perto. Era de Athena com o pai de Dimitri, Theo, olhando-se carinhosamente. Respirou fundo e olhou em redor. Havia uma prateleira com uma foto de Theo com um olhar abobalhado, característico dos amantes.

Seguiu na direção da suíte e engoliu em seco. Havia fotos por todos os lados. Theo numa praia, sorrindo. Theo...

Com os olhos arregalados, fitou Athena, que estava confusa.

— O pai de Dimitri? — sussurrou Olívia. Athena sorriu abertamente e pegou uma das fotos.

— Meu querido Theo — disse suavemente.

Era demais para Olívia. Saiu da casa e encontrou Dimitri nitida­mente tenso, com uma taça de vinho na mão. Assim que a viu, tomou tudo num gole. Parecia agitado.

— De quem é essa criança? — perguntou ela.

Dimitri franziu a testa.

— Não posso lhe dizer.

— Eu digo — interrompeu Athena. — É filho do Theo. Mas Ma­rina nunca poderá saber. Não queremos magoá-la. Espero que não revele o nosso segredo. Seria muito cruel.

Trêmula, Olívia tentou se acalmar. Os princípios de Dimitri eram piores do que imaginava.

— Não acredito em vocês! E uma tradição grega herdar a amante do pai? — perguntou, com raiva.

Dimitri piscou. Lentamente, um sorriso se espalhou pelo seu ros­to, e riu com Athena. Os dois se contorciam de tanto gargalhar, como se nunca tivessem escutado algo tão engraçado na vida.

A intimidade dos dois era um insulto a Olívia. Teve de se sentar na murada para controlar a dor aguda que a atingia. Como podiam rir dela?

Estava triste e com os punhos cerrados. Parecia que se preparava para bater nele a qualquer momento. Dimitri ficou sério, odiando vê-la sofrer tanto.

— Athena não é minha amante. Nunca foi...

— Eu vi vocês dois! — sussurrou Olívia, com os olhos arregala­dos de sofrimento. — Ela estava em trabalho de parto e você a ajuda­va a entrar no carro...

— Que droga! Então foi isso! — gemeu, sentindo um certo arre­pendimento. — Como foi que nos encontrou?

— Sua mãe me levou — disse Olívia, com a voz tensa.

— Minha... mãe? — Ele e Athena se entreolharam, preocupados.

— Sim. — Olívia levantou a cabeça, desafiando-o. — Ela me dizia que você tinha uma amante desde o dia em que nos conhece­mos. Finalmente, comecei a desconfiar de seus telefonemas secretos. Ela se ofereceu para me levar até a casa da sua amante.

— Foi nesse dia que você me deixou...?

— Claro!

Olívia tremia, enquanto o coração dele se inundava de amor e carinho.

— Olívia — disse gentilmente. — Por que não me disse o que tinha visto? Eu poderia ter explicado...

— Eu não teria acreditado! — respondeu firmemente. — Você era gentil e carinhoso com Athena. Era óbvio para mim que ela era a mãe do seu filho... — Olívia parecia confusa. — Ele é filho do Theo. Não entendo.

— Garanto a você que é filho do Theo. Nunca amei nem fui para a cama com outro homem senão meu Theo em toda a minha vida. Por que não conversam sobre isso num lugar reservado? — sugeriu Athe­na, enquanto o pequeno Theo corria para os braços da mãe com os olhos arregalados.

— Desculpe-me! Não queria ter assustado seu filho...

Olívia levantou-se e ficou deslumbrada com o sorriso simpático de Athena.

— Está tudo bem. Eu explico a ele. Vão. Conte tudo a ela, Dimitri. Tudo mesmo — pediu Athena. Beijou Dimitri no rosto e pegou o pequeno Theo no colo. Dimitri fez cócegas em seu meio-irmão até ele rir.

— Olívia — disse, tranqüilo. — Temos muito o que conversar. Pode confiar em mim e me dar uma hora do seu tempo?

Ela fez que sim com a cabeça.

Com o coração batendo forte, ele a levou para um templo em ruínas perto do mar, dedicado a Afrodite. Sentaram-se em uma colu­na caída, entre lírios e o perfume de ervas.

— Começarei por Athena. Ela é da cidade do meu pai — disse Dimitri. — Eles se conheciam desde a infância. Meu pai sempre foi um homem simples e era feliz com os amigos de lá. No começo, ele saía com Marina, e ela o adorava. Mas era muito possessiva, e quando ele percebeu que não a amava, tentou se separar. Bebeu muito para criar coragem, mas minha mãe, sabendo o que ele faria, o seduziu. Ele começou a namorar Athena, mas minha mãe lhe disse que estava grávida.

— De você!

— Sim — concordou, sorrindo. — E meu pai, por ser um homem honrado, casou-se com a mãe do seu filho.

— Marina teve o que pediu — começou Olívia.

— Mas ela sabia que estava arruinando a vida dele. Olívia suspirou.

— Que triste.

— Ela pagou por isso — disse Dimitri, com simpatia pela mãe. — No começo, ela transferiu seu amor para mim. Mas não era suficien­te. Meu pai nunca deixou de amar Athena. Eram felizes juntos. Athe­na não permitiu que ele pedisse o divórcio. Quando ele morreu, pro­meti que cuidaria dela.

Olívia estava sentada, fitando-o com seus olhos azuis, enquanto tentava entender a história.

— Aquele dia no barco, em que fomos ao teatro em Epidauro e você disse que me amava, houve vários telefonemas secretos...

— Athena fora levada às pressas para o hospital, com contrações. Mas eram falsas, e brinquei que ela era muito dramática. As dores no dia seguinte eram reais, quando nos viu juntos. No dia em que o peque­no Theo nasceu. — Sorriu com carinho. — Olívia, Athena estava sozi­nha e tinha perdido o homem que amava. Precisava do meu apoio...

— Claro que sim. Mas Dimitri — lamentou ela —, por que não me disse?

— Tinha prometido a ela que não contaria a ninguém — disse gentilmente. — Minha mãe já me acusara de ser amante de Athena. Sabia onde morava e acho que chegou a ver meu carro estacionado no lado de fora. Não podia magoar minha mãe. Ela era infeliz o suficien­te. Creio que quando ela conheceu você e viu sua felicidade, ficou com muito ciúme. Invejava a intensidade do nosso amor. Mas agora ela é amada, e sua amargura passou.

Vendo como Olívia ficara transtornada, Dimitri se aproximou. Pe­gou sua mão e sentiu seu tremor.

— Está me dizendo que deixei você porque foi gentil com a aman­te de seu pai? Dimitri, eu tinha tanta certeza... — Escondeu o rosto nas mãos e depois olhou novamente para ele. — Não sei se posso voltar a acreditar em você. Disse... que nosso casamento era baseado no sexo e só! — Seus olhos pegavam fogo.

— Não da minha parte. Eu falava sobre você. Parecia que você só sentia isso — disse, magoado.

— Não é verdade! — protestou, indignada. — Eu amo você desde o dia em que o conheci! Sempre o amei!

Ele queria acreditar. Mas Olívia podia estar arquitetando tudo para voltar a ter uma vida confortável. Já dissera repetidas vezes que não sentia mais nada.

— Quero a verdade, Olívia. Nada de mentiras. Você se esqueceu do seu bilhete de despedida — lembrou ele. Era necessário saber a verdade, por mais dolorido que fosse. — Dizia que, quando não há mais amor num casamento, é um erro permanecer. Essas palavras estão gravadas em meu coração. — Sua voz tremia, mas ele não se importava. Queria expor suas emoções.

Procurou olhá-la bem fundo nos olhos e tentou não se enganar com o amor que parecia existir ali. Mas a esperança pulsava em seu coração.

— Dimitri, não era ao meu amor que me referia quando escrevi o bilhete, e sim ao seu. Parecia claro na época, mas agora vejo que não. Acreditei que você amava Athena, e não a mim. Não confiava mais em você, e isso me atormentava.


— Mas você não podia duvidar de mim — disse, num tom grave.

— Queria muito que fosse assim! Mas me recuso a dividir o ho­mem que eu amo! Tem de acreditar em mim, Dimitri. Aconteça o que acontecer, qualquer que seja nossa decisão, uma coisa é certa e você deve saber: amo você com todo o meu coração. Já não sabe disso?

Não percebe?

Era a vez dele de duvidar e hesitar. Estava dividido e confuso.

— Quero acreditar em você. Mais do que pode imaginar — disse. Olívia ficou nitidamente tensa. Ele continuou: — Mas quando está­vamos casados, você às vezes parecia muito distante. Quando eu vol­tava de viagens longas, nosso sexo era fantástico, mas você estava sempre muito reticente...

— Estava muito sozinha — explicou ela sinceramente. — Tudo o que eu fazia era conhecer o país e comprar. Parecia que não tinha objetivo na vida, só ser sua esposa. E isso era maravilhoso, mas não suficiente.

Dimitri a abraçou.

— Desculpe-me. Achei que amasse ter uma vida de luxo...

— Não sem você por perto para aproveitar comigo — suspirou ela. — Preciso manter minha mente ativa. Eu era alimentada pelas terríveis histórias de sua mãe sobre o que você podia estar fazendo. Ela aumentava minhas desconfianças.

— Desculpe-me. Minha mãe parecia tão bem com você que eu mal podia acreditar que estivesse fazendo jogo duplo e deixando-a infe­liz. Mas você tem de acreditar quando digo que nunca tive outro amor na vida. Só pensava em você. Nunca deixei de amá-la, mesmo quan­do desejei sua infelicidade. E quando a vi novamente... Mal podia respirar de tanto desejo. Queria jogar aquele advogado no mar, só por ter passado um tempo com você e pela suspeita de ele ter...

— Não tive outro amante a não ser você — disse suavemente, tocando o rosto de Dimitri. — Jantei com alguns homens para tentar começar uma vida sem você! — deu um risinho. — Nenhum deu certo. Eu amava você mesmo nos momentos em que tentava esquecê-lo. Sempre amarei. Mas... você... — Mordeu os lábios. — E quanto a você? Teve outras mulheres?

— Sim. Saí com outras mulheres — disse, com o rosto colado ao dela. — Fiz amor com três delas. Um erro atrás do outro. Você sem­pre esteve lá, provocando-me com seus olhos... — Seus braços se apertaram em volta de Olívia. — Acho que consegui afastar Eleni com isso. Disse a ela que era obcecado por você...

— Mas não disse que me amava? — murmurou, com os olhos brilhando.

— Não queria admitir isso nem para mim mesmo. Sabia que você estava fora de questão e tinha de aceitar isso. Reconhecer meu amor por você teria me destruído. Eleni pensou que ocuparia o seu lugar, mas eu não queria ninguém ali. Só você.

Satisfeita, Olívia encostou a cabeça no ombro dele.

— Ela continuou tentando porque não sabia o que você realmente sentia.

— Mas sabia que eu esbravejei e quebrei a casa quando você foi embora.

— Talvez pensasse que era por orgulho ferido — disse ela, seca.

Ele sorriu.

— Talvez. Mas... por que você fugiu? Se tivesse me confrontado, eu poderia ter explicado...

— Eu mal sabia o que estava fazendo — confessou. — Fiquei muito magoada. Imagine o que eu vi, Dimitri! Imagine as meias-verdades que sua mãe me dizia! Estava muito solitária, infeliz e insegura quanto ao seu amor e, ao vê-lo com Athena, confirmei meus maiores medos.

— Fui um tolo — disse baixinho. — Tentei manter o ritmo de trabalho de antes do casamento. Achei que você gostava de ter uma vida tranqüila.

— Eu sentia que não fazia parte da sua vida. — Sua expressão ficou séria ao se lembrar dos momentos de solidão. — No dia em que o vi com Athena, a única coisa que eu quis foi voltar para as pessoas que me amavam. Meus amigos. E... — hesitou — para ser sincera, pensei que me contaria sua versão da história e eu estaria tão desespe­rada para acreditar que faria qualquer coisa e fingiria não saber da sua amante e da criança.

— Eu a teria convencido — comentou tristemente. — Mostraria as fotos de Athena e Theo, e você não teria dúvida».

— Eu sei. Às vezes não sou racional quando se trata de você.

— Também perco toda ã razão.

— Para onde...? — Engoliu em seco. Será que poderiam recome­çar ou todas as chances tinham sido queimadas? — Para onde isso nos leva, Dimitri?

—Você confia em mim?—perguntou ele. Olívia fez que sim com a cabeça. — Estou completamente atado a você e sempre estive. Ar­rependo-me das longas viagens de negócios. Durante esse tempo que passamos juntos, percebi o quanto preciso de você e que deve me acompanhar, ou terei de aprender a delegar mais.


— Isso significa...? — Respirou fundo, sem arriscar dizer mais. Com carinho, ele a virou para se olharem de frente.

— Eu amo você e você me ama. Quero que passemos o resto das nossas vidas juntos. Mas nunca mais devemos esconder nossas dúvi­das ou preocupações. Mas não haverá mais nenhuma no futuro, não é mesmo?

O sorriso de Olívia a iluminou tanto que o deixou sem ar. Beijou sua boca quente e convidativa, e se esqueceram de tudo.

Algum tempo depois, ela o interrompeu, ansiosa por ter se lembra­do de algo.

— Eleni.

— Ela encontrará alguém. Estava apaixonada por mim, mas há vários jovens querendo amá-la — assegurou ele. — Seremos toleran­tes com ela. Daremos uma festa para ela e convidaremos alguns rapa­zes para adorá-la.

— E sua mãe?

Ele tocou a boca suave de Olívia.

— Está feliz com Nikos. Se eu estiver feliz, ela também estará. Acho que voltará a ser a mãe que conheci quando criança — disse, contente. — O amor a acalmará. E não vamos nos esquecer de você. Precisa de um projeto, de algo útil...

— Acho — sussurrou ela, passando a mão por baixo da camisa dele — que a maternidade pode me manter muito ocupada.

— Oh, minha querida — disse, beijando-a apaixonadamente. — Vamos ter um ano só para nós dois, primeiro. Venha comigo para todos os lugares. Seja minha secretária pessoal. Encante e galanteie meus clientes. Depois — disse com carinho, enquanto abria o zíper do vestido — começaremos nossa família. Por enquanto — suspirou, beijando sua garganta — vamos praticando nossa técnica.

Ela lançou a ele um sorriso, ficou de pé e deixou o vestido cair. Dimitri gemeu e a abraçou fortemente. Apaixonada, agarrou seus cabelos negros. Filhos, pensou ela alegremente. De cabelos negros, olhos escuros e lindos.

— Meu amor — sussurrou ela, extasiada com a felicidade que sentia. — Só me ame por toda a sua vida como eu também o amarei, meu Dimitri.

 

— TODOS na praia devem estar pensando que somos malucos! — Olívia ria, vermelha de tanto esforço.

— Cale a boca, mulher, e pule! — resmungou Dimitri, seus olhos atentos à linha da chegada.

Mas Olívia estava rindo demais. Presos pelo nó nos tornozelos enquanto cambaleavam na areia, ela finalmente se desequilibrou e arrastou Dimitri para o chão.

— Ha! — exclamou Lukas, triunfante, passando por eles pulando, vibrando por estar prestes a ganhar a corrida de três pernas com a irmã, Helen, e gritando: — Nós somos os melhores! Oba!

Dimitri riu e fingiu que pegava o pé do filho, mas Lukas era bas­tante ágil e correu para pegar a fita que sua orgulhosa avó, Marina, segurava com seu avô postiço, Nikos.

— Os vencedores! — comemorou Marina, levantando as mãos dos netos com alegria.

Olívia e Dimitri ainda gargalhavam, rolando pelo chão com os pés amarrados.

— Onde está Eleni? — perguntou Olívia, olhando para trás.

— Hum. Está escondida com Vangelis. E estão casados! Eca! — disse Lukas, debochado como todo menino de dez anos, certo de que vencer uma corrida no dia do seu aniversário era muito mais impor­tante que beijar.

— Você mudará de idéia em cinco anos — advertiu Athena, ainda pulando amarrada a Theo, que já estava mais alto que ela.

— Nunca — declarou Lukas.

Os olhos de Dimitri se enterneceram quando colocou a mão nos ombros do filho.

— Nunca diga nunca. Tudo é possível. Um dia, o amor lhe dará uma flechada com a velocidade de uma bala, se tiver puxado a mim — disse, olhando com carinho para Olívia, que abraçava sua filha de cabelos dourados. — E viverá uma felicidade plena daquele momen­to em diante.

— Humph. Agora é hora da corrida de saco. Vamos! — declarou Lukas, dispensando as baboseiras do pai.

— Depois brincaremos de passar as laranjas — anunciou Helen.

— Eu monto os times.

Dimitri sabia que essa brincadeira envolvia colocar a fruta debai­xo do pescoço e tentar passar à próxima pessoa. Era necessário bas­tante contato físico, e se prontificou a ficar ao lado de Olívia para aproveitar a intimidade. Riu consigo mesmo. Todos esses anos e ain­da procurava desculpas para tocá-la. Ele a amava mais que nunca.

— Homens e meninos contra mulheres e eu — insistiu Helen. Olívia riu ao ver o rosto triste de Dimitri. Sabia o que ele tinha em mente.

— Guarde para mais tarde — murmurou. Os olhos de Dimitri se acenderam.

— Para depois uma ova. Entra no saco comigo?

— Mas que coisa! Assim não teremos chance de ganhar!

— Quem liga para ganhar? — Ele a pegou nos braços, sem atender ao filho, que gritava para chamar a atenção. — Eu amo você — disse, afastando as mechas douradas de cabelo de seu rosto.

— E eu amo você — sussurrou Olívia, com o olhar feliz, esque­cendo-se de tudo à volta.

— Corrida de saco, mãe! — Lukas puxava os braços dela com o rosto dominador, igual ao de Dimitri. Ela não resistiu e caiu na risada.

— Está gostando do seu aniversário, meu querido? — perguntou ela, puxando obedientemente o saco até o quadril.

Carinhoso como sempre, ele beijou sua mãe e seu pai impulsiva­mente.

— Está ótimo. O bolo é enorme. Tenho tanta sorte de ter vocês, a vovó e Nikos, Eleni e Vangelis, Athena e Theo.

Olívia abraçou seu filho e Helen que, aos oito anos, já desabrochava sua beleza.

— Seu pai e eu tivemos sorte — disse suavemente. — Tivemos uma segunda chance, e esta família amorosa é o resultado disso.

Dimitri a beijou.

— Sorte não. Tivemos muito amor.

— Sim — ela sorriu, olhando para ele.

— Caramba! Agora nada os separa — suspirou Lukas, extrava­gante. — Acho melhor começarmos sem eles. Que tal, Helen?

— Definitivamente — concordou Helen. Mas antes, seus olhinhos azuis encontraram os da mãe e ambas sorriram carinhosamente, acre­ditando no poder do amor verdadeiro.

 

                                                                                Sara Wood  

 

                      

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