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O CASO DA Drª FORRESTER / Henry Denker
O CASO DA Drª FORRESTER / Henry Denker

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

O CASO DA Drª FORRESTER

 

‑           CHAMEM a Dra. Katherine Forrester! ‑ ouviu‑se gritar freneticamente no serviço de urgência do City Hospital. ‑ Temos aqui um ferido a tiro! Está a esvair‑se em sangue!

            Dois auxiliares empurravam a maca à desfilada em direcção à sala de cuidados intensivos, ao fundo do corredor. Um deles voltou a chamar:

            ‑ Dra. Katherine Forrester!

            Numa das salas de observação, a Dra. Kate Forrester afastou‑se do doente que estivera a examinar e disse à enfermeira:

            ‑ Vai ter de me substituir. Mande esta amostra de sangue para o laboratório. Chame‑me logo que os resultados chegarem!

            Kate Forrester saiu a correr da sala e percorreu o corredor. O seu cabelo louro solto e despenteado, a falta de maquilhagem e a bata amarrotada testemunhavam as muitas horas de serviço que já prestara no serviço de urgência. As noites de sábado na urgência daquele grande hospital da cidade de Nova Iorque eram sempre de uma actividade febril. Naquela noite, a actividade ainda era maior porque o médico escalonado para o mesmo turno que Kate estava com gripe. Tinham‑lhe prometido que lhe enviariam ajuda, mas até então não recebera nenhuma. Por isso, fez aquilo que os médicos fazem sempre ‑ o melhor que podia em circunstâncias aparentemente impossíveis.

            Quando passou a correr pela sala de observações C, a enfermeira Adelaide Cronin chamou‑a:

            ‑ Sra. Doutora, quando tiver um minuto

            Mas Kate continuou a correr para os cuidados intensivos, onde um rapaz de catorze anos se esvaía em sangue devido a um tiro que levara no braço ao ser apanhado no meio de um tiroteio entre dois traficantes de droga numa rua da zona ocidental da cidade.

            Consciente de que a Dra. Kate Forrester se encontrava muito ocupada, a enfermeira voltou para junto da doente na sala C para iniciar a história clínica. Ela teria preferido levar a cabo essa tarefa sem interferências, mas a mãe da doente persistia em pairar protectoramente em torno da filha.

            ‑           Então, conte‑me lá ‑ pediu Adelaide Cronin à doente, uma jovem de dezanove anos com cabelo escuro - o que é que a trouxe cá?

            ‑           Gostaria que chamasse um médico. Quero que a minha filha receba os melhores cuidados médicos ‑ interpôs a mãe.

            ‑           Já chamei uma médica ‑ retorquiu a enfermeira e, dirigindo‑se novamente à doente, insistiu: ‑ Então, o que a trouxe ao hospital?

            ‑           Sentia‑se enjoada e vomitava ‑ respondeu a mãe.

            Consciente da preocupação natural de qualquer mãe, a enfermeira resolveu explicar.

‑           Stuyvesant ‑ respondeu a mulher. ‑ Mrs. Claude Stuyvesant.

            Adelaide reconheceu imediatamente o nome, mas não alterou a sua atitude.

            ‑           Mrs. Stuyvesant, tenho que anotar estas informações na ficha da doente. Uma vez que ela se encontra capaz de responder, é melhor ser ela a descrever‑nos os sintomas pelas suas próprias palavras. Por isso, por favor

            ‑           Desculpe ‑ disse Nora Stuyvesant, recuando um pouco.

            Pela maneira como o cabelo escuro da doente se colava à testa transpirada, pelo modo irregular como ela respirava, a enfermeira apercebeu‑se de alguns indícios de perturbação na rapariga. Retomou o inquérito, tomando o pulso e medindo a tensão arterial da doente.

            ‑           Diga‑me lá então o que a trouxe cá.

            ‑           Começou... começou por volta das seis da manhã ‑ respondeu a jovem numa voz entrecortada e toldada pela dor.

            ‑           O que é que começou? ‑ perguntou‑lhe a enfermeira.

            ‑           A dor de estômago. Depois, eu... eu comecei a ficar enjoada ‑ disse a doente numa voz prostrada.

            ‑           Vomitou? ‑ indagou a enfermeira.

            ‑           Sim. Foi nessa altura que eu... que eu comecei a transpirar.

            ‑           Claudia, querida, não te esqueças da diarreia ‑ lembrou‑lhe a mãe.

‑ Eujá lá ia, mãe.

            ‑           Muita?

            Claudia Stuyvesant fez um esforço para se lembrar antes de dizer:

            ‑           Não, nem por isso ‑ e fechou os olhos como se fosse adormecer.

            Nessa altura, já Adelaide Cronin determinara que a doente tinha 110 de pulsação: taquicardia; transpiração abundante: diaforese; tensão arterial: máxima, 10, mínima, 6. A enfermeira enfiou o termómetro digital num novo invólucro de plástico esterilizado.

            ‑           Ponha por baixo da língua, por favor ‑ disse ela, depois foi ao armário de parede buscar o material para uma injecção. A associação da diarreia e taquicardia indicavam que a rapariga estava desidratada.

            Os trinta e oito graus de febre vinham reforçar este diagnóstico. Quando a enfermeira acabou de preparar a injecção Mrs. Stuyvesant perguntou‑lhe:

            ‑           Não lhe vai dar nada?

            ‑           Só o médico é que pode prescrever alguma coisa ‑ respondeu Adelaide Cronin.

            - Então, onde é que ele está? ‑ perguntou a mulher. ‑ Já chegámos há quase meia hora. Primeiro na recepção, depois aqui consigo.

            ‑           Mrs. Stuyvesant, na urgência examinamos os doentes o mais depressa possível. A doutora não demora. ‑ E dito isto, a enfermeira saiu da sala.

            ‑           Ora vejam só! ‑ exclamou a mulher.

            Apesar do mal‑estar, a filha abriu os olhos e implorou:

            ‑           Mãe, por favor, não faça uma cena das suas.

            ‑           Podes estar certa de que, se o Dr. Eaves estivesse cá, teria ido imediatamente ao teu apartamento. Mas resolveste ficar doente logo num sábado à noite. Não gosto de to lembrar, Claudia, mas quem é que disse há um ano atrás "Mãe, eu já tenho dezoito anos e sou muito bem capaz de tomar conta de mim própria. Vou viver sozinha"? Não fui eu nem o teu pai.

            Nesse momento, depois de já ter controlado a hemorragia na vítima do tiroteio e de a ter enviado para a cirurgia, Kate Forrester foi ter à porta da sala C com a enfermeira Adelaide Cronin, que lhe explicou o caso, e entraram na sala.

            Kate avaliou de imediato a relação: mãe nervosa, filha constrangida. "Primeiro, é preciso pô‑las à vontade. Estabelecer uma relação pessoal", pensou Kate, perguntando à doente:

            ‑           Bom, como é que te chamas?

Antes que ela pudesse responder, a mãe disse:

            - Ela já foi interrogada por uma enfermeira. Queremos que seja vista por um médico.

            - Eu sou médica ‑ respondeu Kate Forrester.

            A mulher parecia pronta a contestar o facto até ver a chapa de identificação de plástico na lapela da bata de Kate.

            ‑           Oh! ‑ disse Mrs. Stuyvesant, exprimindo num único som a sua surpresa e o seu embaraço. - Tenho a certeza de que fará o melhor que puder.

            Meio aborrecida, meio divertida com a resposta da mulher, Kate voltou a concentrar-se na doente.

            ‑           Como é que te chamas?

            ‑           Claudia Stuyvesant ‑ respondeu a doente um pouco ofegante.

            Kate reparou que a doente tinha dificuldade em fixar o olhar. Pegou‑lhe no pulso enquanto a observava: jovem, dezanove anos, talvez vinte; sintomas sistémicos; com dores e simultaneamente prostrada; sob considerável tensão emocional. Estará tensa por causa da mãe ou por recear estar gravemente doente? De certeza que a presença da mãe não está a ajudar.

‑           Muito bem, Claudia, agora diz‑me porque é que cá vieste. - Parece‑me que é óbvio porque é que ela cá veio.

‑           Por favor, Mrs. - começou Kate.

            ‑           Mrs. Stuyvesant. Mrs. Claude Stuyvesant - respondeu a mãe, esperando que Kate a reconhecesse imediatamente.

            Mas a importância daquele nome interessava muito menos a Kate do que o estado da sua doente. Por isso, sugeriu:

            ‑           Mrs. Stuyvesant, porque é que não aguarda lá fora na sala de espera? ‑ Quando viu que ela não fazia quaisquer tenções de sair, Kate pediu: ‑ Não se importa?

            ‑           Não... não faz mal, Sra. Doutora. disse a jovem.

            ‑           Se fica aqui, Mrs. Stuyvesant, por favor, deixe a doente responder às minhas perguntas. ‑ Kate voltou‑se novamente para a jovem. ‑ Bom, Claudia, diz‑me lá o que é que te trouxe cá.

            ‑           Dores de estômago.

            ‑           Quando começaram?

            ‑           Hoje de manhãzinha.

            ‑           Já algumas vezes tiveste dores de estômago assim? ‑ perguntou Kate.

            - Não. Assim nunca.

            Kate examinou a ficha onde a enfermeira registara as respostas.

            ‑           Aqui diz que vomitaste. Quantas vezes? Quando?

            ‑           Várias vezes. Desde manhã.

‑           Claudia, quando é que comeste pela última vez?

                        A jovem tentou lembrar‑se e respondeu:

                        ‑           Foi ontem à tarde.

                        A médica tentava associar um conjunto de sintomas e sinais vagos para chegar a um diagnóstico provisório: a doente é demasiado jovem para se pensar num ataque cardíaco; os sinais e sintomas que apresenta apontam provavelmente para uma gastrenterite por uma intoxicação alimentar qualquer, mas também podem indicar uma apendicite ou dezenas de outras doenças.

                        ‑           Claudia, mostra‑me exactamente onde é que a dor começou.

                        A rapariga indicou o abdómen em geral.

                        ‑           Não foi no centro do abdómen? ‑ Claudia abanou a cabeça.

‑           E não desceu até aqui? ‑ Kate apontou o quadrante inferior direito do abdómen.

                        Claudia voltou a abanar a cabeça. Apesar de aquele facto afastar a hipótese de uma inflamação do apêndice, não ajudava em nada a médica a fazer o diagnóstico. Dado que os sintomas eram tão vagos, Kate pediu à enfermeira o material para fazer uma análise. A enfermeira antecipara‑se‑lhe. Kate atou um garrote em torno do braço de Claudia, um pouco acima do cotovelo, fazendo sobressair as veias. Introduziu cuidadosamente a agulha, puxou a seringa até o plástico transparente se encher de sangue escuro e deu o tubo à enfermeira.

                        ‑           Hemograma e ionograma. Diga ao laboratório que é muito urgente! E vamos mandar também uma amostra de urina. Entretanto, vamos colocar‑lhe um soro até chegarem os resultados.

                        Depois de a enfermeira ter saído apressadamente com as amostras de sangue e de urina, Kate disse:

                        ‑           Claudia, enquanto estamos aqui à espera, vamos lá tirar a camisa que eu quero auscultar‑te.

                        Quando Claudia começou a desabotoar a blusa, ouviu‑se o grito aflito de uma enfermeira ao fundo do corredor:

                        ‑           Dra. Kate!

                        O tom urgente indicou a Kate que os seus serviços estavam a ser necessários numa situação de vida ou de morte. Avançou para a porta, dizendo apressadamente:

                        ‑           Eu volto já!

                        Mrs. Stuyvesant pôs‑se à porta, barrando‑lhe a saída.

                        ‑           Sra. Doutora! Não vai deixar a minha filha sozinha, pois não?

                        ‑           Lamento muito. Precisam de mim ‑ respondeu Kate, roçando Mrs. Stuyvesant muito ao de leve, quase sem lhe tocar.

                        ‑           Nunca imaginei... Abandonar assim um doente... ‑ queixou‑se a mulher.

                        ‑           Mãe, por favor ‑ disse Claudia Stuyvesant numa voz fraca.

KATE FORRESTER dirigiu‑se a correr à enfermeira que se encontrava à porta de uma das salas de observações. Kate entrou e viu um homem que ela calculou não ter mais de trinta e três, trinta e quatro anos. A enfermeira tinha‑lhe colocado no peito, braços e pernas os eléctrodos para fazer um electrocardiograma e informou rapidamente:

            Uma dor intensa mesmo por baixo do esterno. Diaforese.

            A Dra. Kate Forrester já detectara esses sinais. A expressão do rosto por barbear, a transpiração que lhe escorria da testa, indicavam‑lho. Ambos podiam ser sinais de um ataque cardíaco.

            Kate leu o electrocardiograma que revelava o ritmo cardíaco do doente. Enquanto o papel continuava a sair da máquina, os olhos do homem imploravam: "Diga‑me, Sra. Doutora, eu vou morrer?"

            Kate ficou aliviada por poder dizer‑lhe:

- O seu coração está óptimo. Óptimo. Não vai morrer.

            - Mas a dor

                        A dor já não tarda a desaparecer - assegurou-lhe Kate, ordenando em seguida à enfermeira: - Demerol. Cem miligramas. E mande imediatamente uma amostra de sangue para o laboratório. Quero a contagem de bilirrubina o mais depressa possível. Se não estou em erro, ele está com cálculos biliares, possivelmente alojados no canal biliar. Entretanto, leve‑o aos raios X e chame‑me assim que tiver a chapa.

            Sorriu ao doente para o tranquilizar, depois foi‑se embora.

            Kate dirigiu‑se novamente à sala C e encontrou Mrs. Stuyvesant à porta a olhar para ela. Quando Kate se aproximou, a mulher disse:

            ‑           Penso que agora se vai dignar prestar atenção exclusiva à minha filha.

            Kate não se deu sequer ao trabalho de olhar para ela e aproximou‑se da marquesa.

            - Vamos então fazer o tal exame agora. Tira a blusa e senta‑te, por favor.

            Claudia acabou de desabotoar a blusa e torceu‑se para a despir.

            ‑ Sentiste‑te febril hoje de manhã?                     - perguntou Kate enquanto começava a auscultar o peito da doente.

            ‑           Não ‑ respondeu Claudia.

- Alguém em tua casa está com os mesmos sintomas?

            ‑           Não há ninguém lá em casa. Isto é, eu... eu vivo sozinha.

‑           E o resultado está à vista - acrescentou a mãe.

- Mãe, por favor.

            ‑           Já alguma vez tiveste problemas de estômago? ‑ perguntou Kate.

            ‑           Não. Assim nunca ‑ respondeu Claudia.

‑           Algum problema de vesícula?

            ‑           Não.

            Kate sabia que o resultado das análises lhe haveria de dar mais informações. Tentou aparentar um ar normal e rotineiro ao fazer uma pergunta muito importante.

            ‑           Tomas regularmente algum medicamento? Receitado pelo médico ou não?

            Houve um momento de hesitação antes de Claudia responder.

            ‑           Não. Não tomo drogas.

            Kate Forrester foi forçada a pensar: "Estará ela a negar o uso de drogas por a mãe estar presente?"

            Em vez de insistir no assunto, Kate continuou a fazer o exame. Auscultou os pulmões da doente em busca de sons indicadores de bronquite ou pneumonia. Percutiu as costas e o peito da jovem, provocando um som semelhante ao de um tambor, excluindo assim a hipótese de líquido nos pulmões.

            Kate desferiu então vários golpes ligeiros no fundo das costas para ver se ela se retraía de dor. Não o fez, afastando assim a possibilidade de um problema de rins. Kate reparou, com efeito, que a doente estava prostrada e quase não reagia de forma nenhuma.

            Kate examinou o abdómen da jovem. Tremia ligeiramente ao subir e ao descer, o que reflectia uma dor abdominal moderada. Não tinha ferimentos nem vestígios de qualquer intervenção cirúrgica anterior, por isso não havia razão para se suspeitar de obstrução intestinal devido a aderências pós-cirúrgicas.

            Kate encostou o estetoscópio ao abdómen da jovem, ouvindo os ruidos intestinais normais. Tendo em vista as circunstâncias, não se encontravam demasiado reduzidos. Carregou suavemente ao longo do quadrante inferior esquerdo do abdómen de Claudia ‑ a área do cólon descendente ‑, suspeitando que houvesse alguma inflamação. A colite pode provocar sintomas generalizados, mas aparece normalmente acompanhada de um historial de sintomas crónicos, e a doente dissera que nunca sentira uma dor igual. Por isso, esse diagnóstico parecia pouco provável.

            Com sinais e sintomas tão vagos e nada específicos, Kate não podia permitir‑se ignorar quaisquer possíveis causas. Decidiu utilizar a fase seguinte do exame como pretexto para se livrar da mãe nervosa.

            ‑           Mrs. Stuyvesant, vou fazer um exame ginecológico. Creio que a doente gostaria de privacidade.

            ‑           Eu sou a mãe dela. Não há necessidade de privacidade entre nós as duas ‑ respondeu Mrs. Stuyvesant.

            Kate enfiou luvas de plástico transparentes e efectuou o exame com ambas as mãos, fazendo ao mesmo tempo perguntas que evitara devido à presença da mãe.

            - Claudia, és sexualmente activa?

            ‑           Não ‑ respondeu‑lhe a jovem.

            ‑           A tua última menstruação... foi regular? ‑ perguntou Kate.

            ‑           Sim.

            Kate terminou o exame. A doente não evidenciara quaisquer sinais de dor pélvica, por isso podia eliminar‑se a possibilidade de uma doença pélvica inflamatória. Embora o útero de Claudia estivesse ligeiramente aumentado, não o estava suficientemente para indicar a existência de uma gravidez. Além disso, não se notava nenhuma descoloração no cérvix. E Kate não notara alterações significativas nas trompas de Falópio, eliminando essa área como causa dos sintomas de Claudia.

            Uma coisa era evidente: Claudia Stuyvesant não era uma urgência cirúrgica. Kate decidiu que até chegarem os resultados do laboratório o que havia de melhor a fazer era continuar com o soro e aguardar o desenrolar dos acontecimentos.

            Enquanto anotava os resultados e conclusões dos exames na ficha da doente, ouviu‑se um grito estridente vindo da admissão:

            ‑ Dra. Katherine Forrester! Dra. Katherine Forrester!

            Kate parou de escrever e dirigiu‑se para a porta.

            ‑ Não vai abandonar outra vez a minha filha, pois não? ‑ perguntou Nora Stuyvesant. ‑ Sem fazer alguma coisa?

            ‑ Até chegarem os resultados do laboratório, não há mais nada que possamos fazer por ela, Mrs. Stuyvesant.

            A mulher seguiu Kate até lá fora ao corredor.

            ‑ Sra. Doutora! Queria que soubesse que o meu marido conhece vários membros importantes da administração deste hospital e...

           O que pretendia ser um aviso, se não mesmo uma ameaça, não obteve o efeito desejado. A Dra. Kate Forrester desatou a correr em direcção à sala de tratamento do serviço de cardiologia, junto à admissão. Deitado na marquesa, encontrava‑se um homem robusto que aparentava cinquenta e muitos anos, com o rosto suado e pálido e o enorme peito com movimentos irregulares. A enfermeira já tinha fixado os eléctrodos do ECG no peito, braços e pernas, enfiado uma sonda de oxigénio nas narinas e aguardava, com uma auxiliar ao lado, o diagnóstico e as ordens de Kate.

            A médica desapertou rapidamente o cinto das calças do doente, correu o fecho e puxou as calças para baixo para ter acesso ao abdómen. Enquanto ele arfava penosamente, Kate carregou‑lhe na barriga protuberante para se certificar de que não estava distendida nem dura. Não estava. Não era obviamente um problema abdominal. Todos os sinais apontavam para um enfarte do miocárdio. Uma injecção de nitroglicerina era o indicado para aumentar o fluxo sanguíneo ao coração e reduzir a dor. Kate mediu‑lhe a tensão e viu que estava elevada.

            ‑           Nitro ‑ ordenou ela à enfermeira.

            Kate estudou o traçado do ECG à medida que ia saindo da máquina. As irregularidades confirmavam que se tratava na realidade de um enfarte do miocárdio de proporções perigosas. Tinha que considerar a hipótese de lhe administrar estreptoquinase para recanalizar as artérias ocluídas. Mas tinha de obter algumas informações antes de se decidir em segurança.

            Inclinou‑se sobre o homem, cujos olhos apavorados imploravam que o sossegassem.

            ‑ Já teve alguma úlcera? ‑ perguntou ela. O homem pareceu não perceber. ‑ Uma úlcera ‑ repetiu Kate. ‑ Já alguma vez... Kate pressentiu problemas e gritou: ‑ Chamem o Juan Castillo!

            ‑           Juan! Precisam de ti na cardiologia ‑ ouviu‑se gritar no corredor.

            Passado um minuto, um jovem magro de cabelo preto entrou de rompante na sala.

            ‑ Sim, doutora? ‑ perguntou ele com pronúncia espanhola.

            ‑ Juan, pergunta‑lhe se já teve alguma úlcera.

            Juan traduziu. O homem respondeu, arfando espasmodicamente:

            ‑ Não.

            ‑ Já teve algum enfarte?

            Juan traduziu de novo, e o homem voltou a responder:

            ‑           Não.

            Kate ordenou à enfermeira:

            ‑ Mande analisar as fezes para ver se têm sangue. Quero os resultados urgentemente.

                        -streptoquinase? ‑ antecipou‑se a enfermeira.

            ‑ É melhor medir‑lhe novamente a tensão. ‑ Kate accionou a bomba do aparelho de medir a tensão. Pousou o estetoscópio no braço, escutou e depois disse: ‑ Catorze‑nove. Não é suficientemente elevada para contra‑indicar a estrepto. Chame‑me assim que chegarem os resultados das fezes. Entretanto, dê‑lhe uma injecção de morfina para as dores.

            Mesmo antes de Kate ter acabado de dar as ordens à enfermeira, ouviu chamarem‑na na admissão:

            ‑ Dra. Katherine Forrester! Dra. Katherine Forrester!

            Ela dirigiu‑se rapidamente para a porta.

            Quando chegou à admissão, deparou com um homem de cerca de setenta anos com uma respiração ofegante similar à do doente que acabara de deixar. A barba grisalha e esbranquiçada nas faces encovadas indicava que já não se barbeava há três dias ou mais. As suas roupas eram velhas e estavam sujas. Quando Kate lhe pegou na mão para contar as pulsações, reparou que a orla da manga do velho casaco estava puída e já não tinha remendo.

            A pulsação era lenta, mas regular; no entanto, ele queixou‑se:

            ‑ A dor, Sra. Doutora. Dê‑me qualquer coisa para a dor.

            Ela abriu‑lhe o casaco e a camisa para lhe examinar o peito e o abdómen; aplicou cuidadosamente o estetoscópio enquanto ele repetia:

            ‑ A dor. É a dor.

            ‑ Onde? ‑ perguntou ela.

            ‑ Em todo o lado. E dói muito. Muito mesmo.

            Na faculdade de medicina, tinham‑lhe inculcado a máxima: dor generalizada é sinal de ausência de dor. Podia ser muito bem o caso daquele idoso. Mas também a tinham avisado contra a insensatez de optar precipitadamente pelo diagnóstico mais fácil.

            Auscultou‑lhe as costas e o peito ‑ não havia sinais de fluido. Concentrou‑se no ritmo cardíaco: regular, forte e lento. Carregou com os dedos no abdómen, escutou os ruídos do estômago. Para além de indicações da falta de uma refeição recente, não encontrou nada de alarmante. Mal acabara de completar o exame quando reparou que Clara Beathard, uma das enfermeiras mais velhas, lhe fazia sinais.

            Kate afastou‑se da marquesa.

            ‑ Está a perder o seu tempo, doutora ‑ sussurrou Beathard. - Já cá o vi mais de uma vez. São sempre os mesmos sintomas e sempre em noites de chuva. Eu encarrego-me de o despachar.

            ‑ Está bem ‑ concordou Kate. ‑ Mas antes de o fazer, dê‑lhe café quente e uma sanduíche, se a conseguir arranjar.

            ‑ Isso só serve para o encorajar ‑ avisou Beathard.

            ‑ Não me importo de correr esse risco ‑ disse Kate, e depois voltou ao seu doente cardíaco.

 

DE REGRESSO à sala de tratamento de patologia cardíaca, Kate encontrou o doente menos tenso do que quando ela de lá saíra. A morfina tinha‑lhe aliviado a dor. Já não parecia tão receoso de morrer. Não se apercebia de que a morte continuava a ser uma ameaça iminente.

            ‑           Quando os resultados das análises chegarem ‑ disse ela à enfermeira ‑, leve‑o imediatamente lá para cima para a UTIC com ordens para lhe administrarem estreptoquinase, se os resultados o permitirem.

            Aproximou‑se do doente.

            ‑           Vai ficar bom. Acalme‑se ‑ disse ela. Apesar de ele não compreender as palavras, ela pretendia tranquilizá‑lo com a sua atitude.

            Ia a sair da sala, mas parou devido a um grito histérico de mulher vindo da zona da admissão.

‑           Acudam! Por favor! Mi nina! O meu bebé!

            Ao voltar‑se na direcção do grito, viu Mrs. Stuyvesant de pé à porta da sala de observação C, olhando‑a com uma expressão fulminante. Kate ignorou‑a e correu para a admissão. Deparou com uma jovem de origem hispânica com uma pequenita de três ou quatro anos que parecia adormecida ao colo.

            Kate abriu as pálpebras da criança para testar a reacção das pupilas à luz. Verificou que não reagiram de forma normal. Kate começou a despir a criança para fazer um exame sumário, pedindo:

            ‑           Conte‑me o que se passou.

            ‑           Não se passou nada ‑ protestou a mãe, torcendo um rosário nos dedos. ‑ Maria estava a dormir e eu vi que ela não estava a respirar bem. Por isso, achei melhor vir ao médico. Trouxe‑a cá.

            Enquanto a mãe ia falando, Kate colocara a criança numa maca e começara a examinar‑lhe os braços, as pernas e o tronco. Descobriu com tristeza vários hematomas e duas outras marcas que pareciam ser cicatrizes de queimaduras. Kate suspeitava de traumatismos anteriores em ambos os membros inferiores.

            ‑           Costuma bater na Maria? ‑ perguntou Kate.

            ‑           Nada! Nunca! Nunca bato! ‑ protestou a mulher.

            ‑           Alguém já lhe bateu?

            ‑           Não. Ninguém ‑ insistiu a mulher. ‑ Mas a Maria cai. Magoa‑se.

            Kate ficara suficientemente perturbada com o que vira para concluir que era imprescindível fazer radiografias a todo o corpo da criança antes de a enviar para o serviço de neurologia pediátrica para uma observação mais pormenorizada. Se as suas suspeitas se confirmassem, o neurologista faria um electroencefalograma e uma TAC cranioencefálica à criança.

            ‑           Tem que a deixar cá esta noite ‑ disse Kate.

            ‑           Não, não! Não posso deixar ‑ protestou a mãe.

            ‑           Se quer que ela viva, é melhor deixá‑la! ‑ ordenou Kate.

            ‑           Não, não... Não posso deixar. Não... ‑ A mulher começou a chorar, bastante mais receosa e perturbada.

Naquele preciso momento, ouviu‑se a voz irada e rouca de um homem que insistia:

‑           Felicia! Dónde estás?

            ‑           Por favor, tenho de levar Maria. Tenho mesmo ‑ disse a mulher a tremer. ‑ Ele vai fazer‑me mal.

            Naquela altura, já o homem as tinha encontrado. Era baixo, mas robusto e forte. Os olhos ‑ pretos e penetrantes ‑ estavam hostis e enfurecidos, como os de um homem traído.

            ‑           Felicia! ‑ ordenou ele. ‑ Pega na Maria!

            A mulher não sabia se havia de obedecer ao homem ou ao abanar de cabeça de Kate. Estava paralisada de medo.

            ‑           Já disse para pegares nela. Vamos para casa. ‑ A mulher hesitou, e ele gritou: ‑ Rápido!

            A mulher cedeu. Avançou para pegar na criança ao colo, mas Kate interveio, colocando‑se entre a mãe e a maca onde estava a criança.

            ‑           A Maria fica aqui. Está muito doente ‑ declarou Kate.

            ‑           Eu sou o pai ‑ respondeu o homem. ‑ Eu é que decido se ela está doente ou não.

            ‑           Se a levarem, ela pode morrer ‑ avisou Kate.

            O homem colocou as suas enormes e fortes mãos nos ombros de Kate, tentando empurrá‑la para o lado. Ela resistiu, não se deslocando nem um centímetro.

            ‑           Segurança! ‑ gritou Kate enquanto lutavam.

            Furioso, o homem empurrou Kate com tanta força que ela foi de encontro à parede, batendo violentamente com a cabeça. Noutras circunstâncias, poderia ter caído no chão com a pancada, mas estava determinada a manter aquela criança afastada das mãos que certamente poriam fim à sua vida. Atirou‑se de encontro ao homem, que voltou a empurrá‑la e conseguiu tirar a criança da maca e ficar com ela ao colo, exactamente quando aparecia um segurança fardado a correr.

            ‑ Chamou, Sra. Doutora?

            O guarda apercebeu‑se rapidamente da situação, mesmo antes de Kate responder.

            ‑           Ponha já essa criança na maca ‑ ordenou ao homem.

            ‑           Ela é minha. Eu tenho o direito! ‑ insistiu o homem.

            ‑           Sra. Doutora? ‑ O guarda esperava ordens de Kate.

            ‑           Esta criança recebeu maus tratos. Vai cá ficar o tempo que considerarmos necessário. Use a força se for preciso ‑ ordenou ela.

            ‑           Muito bem. Ponha‑a na maca! ‑ ordenou o guarda, e levou a mão ao coldre. Não era um gesto vão, e o homem sabia‑o, pois, lentamente, voltou a deitar a criança na maca. ‑ Agora, afaste‑se!

O homem moreno afastou‑se.

            A Dra. Kate Forrester aproximou‑se da pequena Maria e completou o exame. Enquanto o fazia, o homem resmungou:

            ‑           Ela caiu. Anda sempre a cair. Tem alguma coisa?

            ‑           Vamos fazer‑lhe radiografias. Radiografias ao corpo todo e depois um exame ao cérebro.

            ‑           O que é isso? ‑ perguntou a mãe, assustada.

            ‑           Pode haver algum problema aqui em cima. ‑ Kate apontou para a cabeça da criança.

            Olhando para o marido, a mulher benzeu‑se e murmurou:

‑ Hombre maio... maio

            Kate levou a mulher para um canto.

            ‑           Quer contar‑me agora o que se passou? ‑ Dado que a mulher não respondia, Kate avisou‑a: ‑ Depois vai ter de contar às autoridades.

            A mulher recomeçou a chorar. Foi uma resposta suficiente para Kate, que gritou:

            ‑           Enfermeira Beathard!

            Quando a enfermeira apareceu, Kate disse:

            ‑           Leve a Maria para os Raios X. Radiografias completas ao corpo de uma criança que parece ter quatro anos de idade.

            ‑           Seis ‑ corrigiu a mãe.

            Não era surpreendente para Kate Forrester: as crianças maltratadas são muitas vezes raquíticas, parecendo muito mais novas do que na realidade são. Kate acrescentou ainda:

            ‑           Também quero que façam imediatamente um electroencefalograma e uma TAC crânioencefálica. Peça ao Dr. Golding para se encarregar pessoalmente deste caso.

            Clara Beathard começou a empurrar a maca em direcção à porta de vaivém dupla que conduzia ao edifício principal do hospital, onde se encontrava situado o serviço de pediatria.

            O homem permanecera sempre em silêncio, observando tudo com uma expressão irada. Só a presença do guarda armado o impedia de intervir fisicamente. Quando a maca desapareceu, Kate voltou‑se para ele e disse:

            ‑           Agora, o senhor vai‑se embora. Em breve, será contactado pelas autoridades.

            O homem foi‑se embora, e a mulher começou a segui‑lo com relutância.

            ‑           A senhora não precisa de ir ‑ disse Kate. Felicia voltou‑se para ela com os olhos cheios de lágrimas. ‑ Se quiser ficar, podemos ajudá‑la.

            ‑           Felicia! ‑ gritou o homem, furioso.

‑ Ajudam? ‑ perguntou a mulher. ‑ Ele não pode bater‑me outra vez?

            ‑           Eu telefono às nossas assistentes sociais e elas levam‑na para um centro onde não correrá perigo. Ninguém lhe voltará a bater.

            A mulher pensou na oferta de Kate, enquanto o homem continuava a insistir:

            ‑           Felicia, ven aqui!

            Dividida, ela lançou um olhar implorador a Kate.

            ‑           Não correrá qualquer perigo, prometo‑lhe ‑ garantiu Kate.

            ‑           Eu... eu fico ‑ decidiu finalmente a mulher.

            Kate voltou‑se para o segurança.

            ‑           Por favor, leve‑a aos serviços sociais.

            ‑           Sim, Sra. Doutora. Tem a certeza de que se sente bem? perguntou ele. ‑ Foi uma grande pancada na cabeça.

            ‑           Estou óptima ‑ confirmou Kate, embora sentisse a cabeça a latejar.

            ‑           Espero que não me leve a mal, mas acho que a Sra. Doutora se arrisca demais. Podia ter ficado muito magoada.

            ‑           Ele só levava aquela criança se me matasse primeiro ‑ disse Kate. Voltou‑se para se afastar e deparou com Mrs. Stuyvesant fitando‑a.

            ‑ Doutora, eu quero que venha ver a Claudia imediatamente.

Ficou tão agitada que arrancou a agulha do braço.

            Sem comentários, Kate dirigiu‑se à sala C com uma nova preocupação. Uma doente de aparência prostrada e que subitamente se tornava agitada podia ser indício de uma instabilidade emocional associada a privação de barbitúricos. Kate suspeitava agora que Claudia mentira quando negara o uso de drogas.

            Quando Kate chegou à porta da sala C, estava um empregado de laboratório à sua espera com os resultados das análises de Claudia Stuyvesant. Kate examinou‑os imediatamente.

            Infelizmente, os resultados não eram especialmente reveladores. Um hematócrito de 33 indicava uma ligeira anemia. Uma contagem de glóbulos brancos de 14 000 era um pouco elevada, mas não era alarmante nem indicava a existência de infecção grave. A análise de urina não revelava quaisquer vestígios de sangue nem dava qualquer indicação de cálculos nos rins.

            Perante tais resultados, a única coisa inteligente a fazer era manter a doente hidratada, continuar a verificar os seus sinais vitais e fazer outra contagem de glóbulos para ver se tinha havido alguma alteração. Kate voltou a inserir a agulha do soro e fixou‑a com adesivo ao braço de Claudia.

            Entretanto, Mrs. Stuyvesant manteve‑se ao lado da filha, exigindo silenciosamente que Kate lhe revelasse os resultados das análises. Como isso não aconteceu, abandonou a cabeceira da filha, pegou no braço da médica e levou‑a para um canto da sala.

            ‑           Eu sei que é grave... ‑ começou a mulher.

            Kate Forrester interrompeu‑a:

            ‑           Mrs. Stuyvesant, antes de tirar conclusões precipitadas, devo dizer‑lhe que os resultados laboratoriais não são conclusivos.

            ‑           Eu pretendo que ela seja vista por um médico mais velho. Já que é a vida da minha filha que está em jogo, quero o melhor!

            ‑           A esta hora, neste serviço de urgência deste hospital, eu sou o melhor ‑ respondeu Kate.

            ‑           Então, pelo menos... ‑ começou Mrs. Stuyvesant.

            ‑           Eu sei. Faça alguma coisa! ‑ respondeu Kate.

            ‑           Exactamente! ‑ confirmou Mrs Stuyvesant.

            ‑           Mrs. Stuyvesant, acredite em mim. Até os sintomas da sua filha e os relatórios do laboratório permitirem que eu chegue a um diagnóstico definitivo, o melhor e clinicamente mais seguro é não fazer nada.

            ‑           Bom, então vou ver se consigo entrar em contacto com o Dr. Eaves.

            ‑           Pode utilizar o telefone ao fundo do corredor ‑ disse Kate.

            ‑           Não se preocupe. Nós temos telefone na limusina ‑ disse Mrs. Stuyvesant, encaminhando‑se para a rua, onde se encontrava o seu carro.

            Na expectativa de que, liberta da vigilância da mãe, Claudia falasse mais abertamente, Kate voltou para junto da sua doente. Para que as suas perguntas parecessem casuais, Kate foi escrevendo na ficha de Claudia enquanto dizia:

            ‑           Claudia, preciso que me respondas a umas perguntas. Prometo que nada daquilo que disseres será revelado à tua mãe.

            Claudia acenou ligeiramente, mas não pareceu ficar mais à vontade.

            ‑           Primeiro, tens sido sexualmente activa ultimamente?

            ‑           Não. Já lhe disse que não.

            ‑           E as menstruações?

            ‑           Regulares ‑ afirmou Claudia.

            ‑           Agora, passemos às drogas, qualquer tipo de droga: legal, ilegal, com ou sem receita médica. Tomas alguma droga regularmente?

            ‑           Não ‑ insistiu a jovem.

            Kate teria continuado os seus esforços, mas ouviu‑se um grito desesperado de socorro vindo da admissão, e ela saiu da sala dizendo apressadamente a Claudia:

‑           Volto já.

            Enquanto se dirigia a correr à admissão, viu aproximar‑se uma equipa do Serviço de Emergência Médica empurrando uma maca onde vinha deitada uma jovem. A seu lado, vinha um rapaz de vinte e poucos anos segurando‑lhe na mão.

            Kate fez sinal aos funcionários do SEM para entrarem numa sala de observações vazia. Quando puseram a maca ao lado da marquesa, o jovem acompanhante e um dos maqueiros ajudaram a doente a passar de uma para a outra. Pela maneira como ela reagiu, era óbvio que se encontrava demasiado fraca e com dores bastante fortes para conseguir fazê‑lo sozinha.

            Kate fez uma observação sumária: a mulher suava abundantemente, estava pálida e tinha os lábios descorados; respirava com muita dificuldade e era evidente que tinha dores fortes.

            ‑           Diga‑me o que se passa. Quando é que isto começou?

            ‑           Eu... Eu não... Eu não posso... Eu... ‑ Ela tentou explicar, mas acabou por virar a cabeça, incapaz de terminar o raciocínio.

            O homem explicou:

            ‑           Ela estava bem hoje de manhã, mas por volta do meio‑dia começou a sentir‑se... não sei... um pouco estranha. Isto é, ela esteve adoentada. Muitas vezes. Mesmo antes de casarmos.

            Kate mediu a tensão da doente: nove‑cinco. Significativamente baixa. Enfiou uma capa de plástico no termómetro electrónico e colocou‑o na boca da doente.

            ‑ Por baixo da língua, por favor ‑ disse Kate, observando a temperatura registada no mostrador: trinta e sete e oito. Febre baixa.

‑           Sente‑se, por favor. ‑ O marido avançou para a ajudar, mas Kate impediu‑o. ‑ Não. Deixe‑a sentar‑se sozinha.

            O jovem recuou com ar culpado. A mulher começou a erguer‑se. Kate observou que ela evidenciava sinais de dores na base das costas. Mal conseguira sentar‑se, deixou‑se logo cair para trás, exausta do esforço e de dor.

            O marido disse:

            ‑           Ela esteve assim quase todo o dia. Sempre que a ajudo a sentar‑se, fica enjoada e tonta. Sra. Doutora, por favor. Pode fazer alguma coisa?

            Pela maneira como ele lhe implorou, Kate percebeu que estava apavorado com a ideia de perder a mulher. E com muita razão, pensou Kate. Embora os sinais e sintomas apresentados pela doente não fossem conclusivos, eram maus e exigiam atenção imediata.

            Colheu uma amostra de sangue e gritou para o corredor:

            ‑           Juan! Juan Castillo! à sala A. Imediatamente!

            O empregado entrou a correr na sala:

‑           Sim, doutora? ‑ perguntou, ofegante.

            ‑           Leva já esta amostra para o laboratório. Quero uma contagem completa de glóbulos. Com electrólitos. E espera pelos resultados!

            ‑           Sim, doutora ‑ disse Juan, pegando nos tubos de ensaio selados, e saiu.

            ‑           Sra. Doutora? ‑ implorou o marido.

            Kate virou‑se novamente para a doente e foi falando com o homem que não largava a mão da mulher, enquanto ela utilizava o estetoscópio para determinar o estado dos pulmões e coração da doente.

            ‑           Disse que ela já esteve adoentada muitas vezes. O que quis dizer com isso?

            ‑           Ela tinha estes ataques. Tinha dificuldade em respirar.

            Kate voltou‑se para o marido da doente.

            ‑           O que é que os médicos chamaram a esta dificuldade em respirar? Asma?

            ‑           Sim. Asma.

            Agora, os sinais e sintomas começavam a assemelhar‑se a uma síndroma.

            ‑ O médico dela receitou‑lhe algum remédio para a asma? - perguntou Kate.

            ‑           Receitou, sim ‑ assegurou‑lhe o marido. ‑ E resultavam. Como já lhe disse, ela estava a sentir‑se lindamente. Não percebo o que aconteceu.

            ‑           Que tipo de medicamentos é que ela estava a tomar? Esteróides?

            ‑           Sim, é isso mesmo. Foi isso que o farmacêutico lhes chamou.

            ‑           O senhor disse: "Resultavam." Ela já não está a tomá‑los?

            ‑           Já há várias semanas que ela não tinha um ataque, por isso perguntámos ao médico se ela podia parar de os tomar, e ele disse que sim.

            ‑           E deixou de os tomar de repente?

            ‑           Bem, quando o médico disse que podia parar, ela parou - replicou o jovem.

            Kate pegou na mão da mulher. Examinou‑lhe cuidadosamente os dedos, todas as pregas entre os dedos. Descobriu o que suspeitava. Manchas na pele. Embora nunca tivesse visto pessoalmente nenhum caso, ouvira o seu professor de Medicina Interna explicá‑lo com tanta precisão que era capaz de relacionar os sintomas: tensão baixa, febre baixa, tonturas, prostração, dor aguda na base das costas e pernas, desorientação e a última pista: pregas da pele escuras.

            Um verdadeiro caso de crise de Addison provocado pela cessação repentina da cortisona que a doente andara a tomar, seguido da incapacidade de as próprias glândulas endócrinas produzirem a quantidade normal de cortisol e corticosterona. Para evitar um colapso vascular total, era preciso fazer imediatamente duas coisas:

restabelecer os fluidos e fornecer esteróides.

            Depois de ter administrado as doses indicadas para corrigir ambas as situações, Kate entregou a doente à enfermeira com instruções para que a observasse até chegarem os resultados do laboratório.

            ‑           E quando chegarem, chame‑me ‑ disse Kate, saindo para ver os doentes que já se encontravam sob os seus cuidados.

 

DUAS horas depois, ou seja às duas da manhã, a Dra. Kate Forrester começou a aperceber‑se do seu próprio cansaço. Um café bem quente e forte não lhe renovara as energias conforme esperara. Só na última hora vira oito doentes, que tratara e enviara para os cuidados de outros, e vira outros sete, que mandara para casa depois de lhes receitar um tratamento paliativo e os tranquilizar.

            Ainda havia o desconcertante caso de Claudia Stuyvesant, que estava na sala C. Os resultados das segundas análises não se tinham alterado o suficiente para permitir um diagnóstico. Das duas últimas vezes que Kate fora vê‑la, Claudia parecia estar com mais dores, mas o terceiro conjunto de análises que Kate pedira ainda não tinha chegado, por isso não era aconselhado qualquer outro tratamento. Uma vez que não conseguia chegar a nenhuma conclusão quanto ao diagnóstico, resolveu chamar o cirurgião de serviço para obter uma segunda opinião. Pegou no telefone e pediu:

            ‑           Chamem o Dr. Briscoe. Peçam‑lhe para vir à sala C do serviço de urgência.

            Quando desligou, deparou com a mãe da doente a olhar fixamente para ela, como que a dizer: "Já não era sem tempo, minha jovem. Já não era sem tempo."

            Poucos minutos depois, Eric Briscoe entrou na sala C, perguntando:

            ‑           Chamou‑me, Kate?

            ‑           Chamei. ‑ Transmitiu‑lhe os dados que tinha e mostrou‑lhe os resultados das análises.

            O Dr. Briscoe efectuou um exame abdominal e ginecológico, sempre com Mrs. Stuyvesant por perto. Ignorando o olhar inquiridor da mulher, ele disse a Kate:

            ‑           O abdómen está doloroso, mas não o suficiente para apontar para uma patologia específica.

‑ O útero? ‑ perguntou Kate.

            ‑           Ligeiramente aumentado. O cérvix não apresenta quaisquer manchas.

            ‑           Há algum motivo para intervenção cirúrgica?

            ‑           Neste momento, não ‑ disse Briscoe. ‑ Repita as análises e comunique‑me

            Antes de Kate ter sequer tempo para explicar que já o fizera, Mrs. Stuyvesant interrompeu:

            ‑           Repetir as análises, repetir as análises. Os médicos não sabem fazer mais do que isso? ‑ Quando o jovem cirurgião se voltou na sua direcção, ela censurou: ‑ Estava à espera de um médico mais velho. Alguém com mais experiência.

            Sem se dignar responder‑lhe, Briscoe disse calmamente:

            ‑ Doutora, por favor, avise‑me quando chegarem as próximas análises.

 

            As 3 DA MANHÃ, a Dra. Kate tinha visto mais vinte e seis doentes. Agora, ia novamente ver Claudia Stuyvesant. O seu caso ainda estava por resolver, seis horas depois de ter dado entrada na urgência.

            Quando entrou na sala, Mrs. Stuyvesant lembrou‑lhe rapidamente:

            ‑ Os resultados do laboratório já cá estão há quase meia hora!

            ‑ Estive a ver outros doentes, Mrs. Stuyvesant. ‑ Dito isto, Kate examinou os resultados do terceiro conjunto de análises.

            Desta vez havia alterações significativas. A contagem de glóbulos brancos subira para vinte e um mil. O seu hematócrito descera para dezanove. Embora a reidratação por via intravenosa devesse normalmente reduzir a contagem de glóbulos vermelhos, aquela descida era demasiado acentuada para se dever a uma coisa tão simples. Para confundir ainda mais Kate, a doente parecia ter menos dores e estar mais prostrada.

            Kate decidiu efectuar outro exame abdominal. Dessa vez encontrou o abdómen de Claudia Stuyvesant consideravelmente distendido, um pouco tenso. Os ruídos intestinais estavam fracos. Em conjunto, aqueles sinais podiam indicar uma grave infecção abdominal. Foi imediatamente assaltada por uma suspeita.,

            ‑           Claudia, quero que sejas muito franca comigo. É importante. Tens sido sexualmente activa nos últimos meses?

            ‑           Não. A sério que não.

            ‑ Tiveste a última menstruação?

            ‑ Tive e foi regular ‑ insistiu Claudia.

            ‑ Ela não está grávida, se é aí que quer chegar ‑ disse Mrs. Stuyvesant.

Kate decidiu fazer um teste que iria corroborar ou afastar a sua suspeita de que a infecção pudesse estar relacionada com uma gravidez, Possivelmente até com uma gravidez ectópica. Impaciente por causa do tempo que levaria a obter uma amostra de urina, Kate recorreu a um método mais rápido, ordenando à enfermeira:

            ‑           Tesoura.

            A enfermeira entregou-lhe uma tesoura cirúrgica de bicos redondos, e Kate começou a cortar a perna dos jeans de Claudia.

            ‑           Mas o que é que julga que está a fazer? ‑ perguntou Nora Stuyvesant.

            ‑ A obter uma amostra de urina ‑ respondeu Kate. Rasgou os Jeans até à virilha e cortou as cuecas da doente. A enfermeira já tinha preparado uma sonda que Kate inseriu. Deitou cuidadosamente um pouco de urina no tubo de ensaio que a enfermeira Adelaide Cronin lhe estendeu.

            ‑ Material de análise ‑ pediu‑lhe Kate.

            Adelaide Cronin já abrira a embalagem e tirara uma pipeta de plástico transparente e um tubo redondo de plástico. Quando ia a retirar o restante conteúdo e a deitar fora a embalagem de cartão, Kate perguntou:

            ‑ Validade?

            A enfermeira leu na etiqueta:

            ‑           30 de Dezembro.

            Assim, com a certeza de que o conteúdo estava em boas condições, Kate mergulhou a pipeta no tubo de ensaio para recolher gotas de urina. Apertou a borracha da pipeta e depois largou‑a para aspirar a urina até poder transferi‑la para o tubo de plástico redondo. Apertou novamente, deixando que as gotas pousassem numa membrana que atravessava a abertura do tubo redondo.

            ‑           O que é que está a fazer, Sra. Doutora? ‑ perguntou Mrs. Stuyvesant.

            ‑           Estou a fazer um teste imunoenzimático para a detecção semiquantitativa de GCH na urina da sua filha.

            ‑           Essa coisa imuno não sei quê... GCII. Para que serve isso? - perguntou a mãe, desconfiada.

            ‑           A GCH é uma gonadotrofina conónica humana. Uma hormona que é produzida logo que se dá a fertilização. Este teste vai descobrir se ela existe na amostra de urina da sua filha ‑ explicou Kate.

            ‑           E se existir, isso vai ajudá‑la a descobrir o que ela tem?

            ‑           Não. Mas vai dizer‑me se ela está ou não grávida.

            ‑           A minha filha já lhe disse que não é sexualmente activa! - protestou Nora Stuyvesant.

Kate adicionou à amostra algumas gotas do líquido contido num pequeno frasco que dizia REAGENTE A.

            ‑ Então não faz mal verificar ‑ disse Kate, adicionando algumas gotas de reagente B para eliminar quaisquer moléculas soltas de GCH da amostra de urina, deixando apenas a GCH a ser testada pelo reagente C. Confiante de que o resultado iria corroborar a sua suspeita, Kate adicionou cuidadosamente pequenas gotas do reagente C à amostra de urina. Se a suspeita se concretizasse, a mistura ficaria azul, indicando uma concentração de GCH na urina da doente.

            Kate observou o conteúdo do tubo de plástico, à espera de que a mistura ficasse de um azul intenso. Não ficou de um azul intenso. Não havia sequer vestígios de azul.

            ‑           Então? ‑ perguntou Mrs. Stuyvesant, pressentindo que estava vingada.

            ‑ Não há sinais de gravidez. ‑ Kate foi forçada a admitir.

            ‑           Em vez de andar em busca de teorias impossíveis, Sra. Doutora, faça alguma coisa!

            ‑ Sim, Mrs. Stuyvesant. ‑ "Mas o quê?", interrogou‑se Kate.

            Havia alguma coisa naquele caso que não batia certo. O que reavivava a sua suspeita de que Claudia se drogava. Eram muitas as drogas que podiam estar a dissimular ou a diminuir a dor, ocultando a gravidade da situação tanto à doente como à médica.

            Kate colheu outra amostra de sangue e enviou‑a ao laboratório para uma pesquisa de resíduos tóxicos. Uma análise deste tipo demorava pelo menos vinte e quatro horas, portanto não tinha qualquer utilidade para o diagnóstico imediato, mas podia vir a ser importante para o posterior tratamento da doente.

            Apesar do teste de gravidez negativo, a suspeita continuava a importuná‑la. Através do exame que lhe fizera, percebera que Claudia era sexualmente activa. Por maior que fosse a tensão entre mãe e filha, resolveu investigar a sua suspeita. Pegou no telefone de parede e ligou para uma extensão de três dígitos.

            ‑ Radiologia? Daqui fala a Dra. Katherine Forrester. Preciso de uma ecografia para eliminar a possibilidade de uma gravidez ectópica.

            ‑           Mas já chegou à conclusão de que ela não está grávida - protestou Mrs. Stuyvesant.

            Kate ignorou a interrupção e ouviu o técnico de raios X dizer:

            ‑ Espero que isso possa ficar para amanhã à tarde.

            ‑           Porquê amanhã à tarde?

            ‑ As ecografias para detectar as ectópicas são muito complicadas, por isso só a Dra. Gladwin é que as faz. E ela só cá está amanhã à tarde.

            Consciente de que mesmo feitas nas melhores circunstâncias e por um profissional experiente as conclusões das ecografias não eram perfeitas, Kate desligou e marcou outra extensão.

            ‑ Laboratório? ‑ perguntou Kate. ‑ Daqui fala a Dra. Katherine Forrester do banco. Acabei de enviar uma amostra de sangue para uma pesquisa de tóxicos. Queria que fizessem também um teste de gravidez com soro.

            ‑ Espero que não queira já os resultados ‑ replicou o técnico do laboratório. ‑ Os testes de gravidez com soro requerem equipamento especial e um técnico especial. Costumamos esperar para fazer várias juntas. Diria que só terá os resultados daqui a dia e meio.

            ‑           Façam‑na à mesma. Os resultados podem vir a ser úteis.

            Depois de pedir as análises, Kate repetiu o exame abdominal. Para sua surpresa e alarme, descobriu que o abdómen de Claudia se encontrava agora distendido ao ponto de estar rígido. Kate voltou para junto do telefone, mas depois decidiu ir fazer a chamada da sala das enfermeiras. Não valia a pena aumentar a ansiedade de Mrs. Stuyvesant.

            ‑           Chamem o Dr. Briscoe! Imediatamente! Digam‑lhe que venha urgentemente à sala C do banco. Repito: imediatamente!

            Kate esperou à porta da sala C para interceptar Briscoe e informá‑lo a sós do que acabara de constatar. Ficou aliviada ao vê‑lo transpor as portas de vaivém que separavam a urgência do edifício principal do hospital menos de cinco minutos depois.

            Briscoe ouviu atentamente o relatório de Kate e depois disse:

            ‑           Uma agulha cirúrgica comprida. Vou penetrar o abdómen para ver se há hemorragia interna.

            Entraram na sala e viram a enfermeira a medir a tensão da doente, o que se transformara num processo contínuo. Consciente da presença da mãe ansiosa, Adelaide Cronin disse baixinho:

            ‑           A tensão está a baixar.

            ‑           Administre mais soro. Depois, vá buscar uma agulha comprida para o Dr. Briscoe ‑ disse Kate, substituindo a enfermeira no controle da tensão da doente.

            Ao ouvir a palavra "agulha", Mrs Stuyvesant perguntou:

            ‑           O que é que vão fazer?

            ‑           Minha senhora, peço‑lhe que saia ‑ disse Briscoe. A mulher olhou desafiadoramente para ele ‑ Por favor, saia!

            Nora Stuyvesant cedeu finalmente, quase colidindo com a enfermeira, que voltava com a agulha cirúrgica comprida e uma seringa hipodérmica. Enquanto Adelaide Cronin retomava o seu lugar junto ao aparelho de medir a tensão, Briscoe preparou‑se para retirar o sangue que eventualmente se acumulara na cavidade abdominal, se houvesse de facto hemorragia interna.

            No preciso momento em que começou a introduzir a agulha, subitamente a enfermeira sussurrou, agitada:

            ‑           Não lhe sinto o pulso! Ela não tem pulsações!

            Kate Forrester e Eric Briscoe entraram imediatamente em acção. Levantaram a doente da marquesa e puseram‑na numa maca que se encontrava ali perto.

            ‑           Reanimação cardiorrespiratória! ‑ ordenou Kate.

            A enfermeira apressou‑se a obedecer. Kate Forrester e Eric Briscoe empurraram apressadamente a maca para fora da sala, seguidos de Adelaide Cronin, passando pela mãe da doente, que ficou muito espantada, e seguiram pelo corredor até à sala de cuidados intensivos, onde se encontrava o equipamento de urgência. Mrs. Stuyvesant seguiu‑os, perguntando:

            ‑           O que foi? O que é que aconteceu à minha filha?

            Ninguém podia parar para a informar. à porta da sala de cuidados intensivos, Kate impediu Mrs. Stuyvesant de entrar, apesar da sua argumentação:

            ‑           Ela é minha filha. Eu tenho o direito

            ‑ Só iria atrapalhar ‑ disse Kate, e fechou a porta.

            Dentro da sala de cuidados intensivos, a equipa de dois médicos e três enfermeiras trabalhou simultaneamente. Kate ordenou:

            ‑           Três soluções intravenosas. Abundantes infusões salinas e de lactato de Ringer para substituir os electrólitos. Enfermeira, continue com a reanimação cardiorrespiratória. ‑ Kate voltou‑se para uma das enfermeiras dos cuidados intensivos e disse: ‑ Eléctrodos de ECG! ‑ Quando a enfermeira começou a fixar os eléctrodos ao peito da doente, Kate ordenou: ‑ Uma ampola de epinefrina!

            A segunda enfermeira dos cuidados intensivos foi buscar a ampola e a seringa hipodérmica. Kate atou um garrote de borracha ao antebraço da doente, encontrou a veia e injectou a epinefrina para estimular a actividade cardíaca.

            Entretanto, Briscoe pegou num tubo de plástico comprido, abriu a boca da doente e enfiou cuidadosamente o tubo, passando pelas cordas vocais e descendo pela garganta até à traqueia. Fixou um ambu e ordenou à segunda enfermeira:

            ‑ Introduza ar!

            A enfermeira pegou no ambu e forçou o ar a entrar nos pulmões da doente, tendo cuidado para não o fazer ao mesmo tempo que a enfermeira Adelaide Cronin carregava no peito da doente.

            Briscoe dirigiu‑se à porta, abriu‑a e gritou:

            ‑           Castillo! Juan Castillo!

‑           Já vou, doutor ‑ ouviu‑se ao fundo do corredor.

            ‑           Juan! Sangue do tipo O! Um litro e meio! ‑ ordenou Briscoe.

            Ao ouvir a palavra "sangue", Mrs. Stuyvesant encostou‑se à parede em busca de apoio. Estava agora demasiado assustada para fazer perguntas ou protestar.

            Voltando para dentro da sala, Briscoe aproximou‑se de Kate, que tentava furiosamente medir a tensão da doente. E pouco depois tornou‑se óbvio que, apesar dos sinais de actividade cardíaca no monitor, os medicamentos não tinham restabelecido nem o pulso nem a tensão arterial da doente.

 

DEM ‑ admitiu Kate num murmúrio triste.

            DEM ‑ dissociação electromecânica. A DEM é um estado em que o coração continua a bater reflexamente, mas não existe pulsação, porque já não há sangue suficiente no sistema arterial devido a uma hemorragia interna.

            ‑           Onde diabo estará o sangue? ‑ gritou Briscoe.

            Instantes depois, Juan chegou com um litro e meio de sangue tipo O. Kate preparou imediatamente a transfusão, forçando o sangue revitalizador a entrar em Claudia antes que o seu sistema sucumbisse completamente. Mas mesmo depois da transfusão de um litro de sangue, continuava a não haver pulso. Nem tensão. Era óbvio que aquele sangue fresco não conseguia substituir o sangue que ela continuava a perder.

‑           Vou abrir ‑ disse Briscoe. ‑ Tenho de parar a hemorragia. Dirigiu‑se ao armário que continha os instrumentos cirúrgicos.

Enfiou as luvas de borracha, depois escolheu um bisturi. Enquanto Kate continuava a administrar sangue, uma enfermeira a forçar o ar a entrar nos pulmões e Adelaide Cronin a aplicar a reanimação cardiorrespiratória, Briscoe fez uma grande incisão exploratória no abdómen da doente.

            Uma torrente de sangue fresco e vermelho brotou da incisão. Briscoe ordenou instintivamente:

            ‑           Sucção! ‑ Isso ia permitir‑lhe limpar o sangue e também ter acesso à origem da hemorragia. Mas apercebeu‑se imediatamente de que nos cuidados intensivos não havia equipamento de sucção. Teria que trabalhar tacteando. Inseriu as mãos com as luvas de borracha na abertura em busca da origem da hemorragia.

            Passados minutos, Kate foi forçada a anunciar:

            ‑           Não há pulso. Ela não tem pulso. ‑ No entanto, continuou a fazer a transfusão de sangue, enquanto Adelaide Cronin prosseguia a reanimação cardiorrespiratória.

            Foi Adelaide Cronin quem finalmente disse o que ambos os médicos se tinham recusado a admitir:

‑           Morreu. Ela morreu.

            ‑           Não pode ter morrido! ‑ protestou Kate. ‑ Continue. Nós vamos reanimá‑la. Nós vamos reanimá‑la.

            Briscoe afastou‑se da mesa.

            ‑           Esqueça, Kate. Não há nenhuma esperança.

            Quando as enfermeiras pararam de administrar os medicamentos, Kate tomou o lugar de Adelaide Cronin na reanimação cardiorrespiratória. Com o suor a escorrer pelo rosto e o cabelo louro a cair para a frente, carregava no peito da doente num esforço desesperado, embora inútil, para lhe restituir a vida.

            ‑           Kate! ‑ ordenou Briscoe com firmeza. ‑ A doente morreu. Não há qualquer hipótese de a ressuscitar. Por isso, pare. Eu disse‑lhe para parar!

            Mas teve de tirar as luvas ensanguentadas e rodeá‑la com os braços para a afastar da mesa. Quando a parte profissional da sua mente recobrou o controle, ela perguntou:

            ‑           Descobriu a causa?

            ‑           Nem sequer descobri a origem da hemorragia ‑ admitiu Briscoe.

            Nove horas depois de ter dado entrada no serviço de urgência do City Hospital, quarenta e cinco minutos após o seu pulso ter falhado e apesar de todos os esforços para a reanimar, Claudia Stuyvesant, uma rapariga de dezanove anos, morreu.

            Morreu de causa desconhecida, mas que passaria a ser conhecida depois de a autópsia obrigatória ter sido feita. De acordo com a lei do estado de Nova Iorque, sempre que um doente entra no serviço de urgência de um hospital e morre nas vinte e quatro horas seguintes, é necessário fazer uma autópsia.

            ‑           É melhor eu ir comunicar à mãe ‑ disse Briscoe.

            ‑           Não ‑ disse Kate. ‑ A responsabilidade é minha. ‑ Olhou para a sua jovem doente, de cujo corpo as enfermeiras removiam agora todo o equipamento médico que se revelara tão inútil.

            Quando saiu pela porta, não foi necessário dizer nada. A mãe, aflita, leu‑o nos olhos de Kate.

            ‑           Mataram‑na! Vocês mataram‑na!

            ‑           Mrs. Stuyvesant nós fizemos tudo o que era possível.

            ‑           Tudo?! Análises, injecções... chama a isso tratamento? - gritou a mãe, desesperada. ‑ Trago para cá uma jovem de dezanove anos saudável, com um simples problema de estômago, e vocês matam‑na em poucas horas. Dezanove anos. Com a vida toda pela frente. A minha filha, a minha única filha... Claudie

            ‑           Por favor, Mrs. Stuyvesant ‑ disse Kate, aproximando‑se para a acalmar.

‑           Não me toque! E não pense que isto vai ficar assim! Existem leis para punir médicos como você!

            Apesar das ameaças da mulher, Kate sentia uma grande compaixão por ela.

            ‑           Mrs. Stuyvesant, deseja telefonar a alguém?

            Por entre as lágrimas, a mulher fulminou‑a com um olhar acusador e cheio de ódio. Foi o Dr. Briscoe quem finalmente a acompanhou corredor fora até ao sinal de néon encarnado‑vivo que dizia URGÊNCIA. Mrs. Stuyvesant saiu, chorando e gemendo:

            ‑           Ele vai dizer que a culpa foi minha... Ele vai dizer que a culpa foi minha.

            Quando passaram pela recepção, a enfermeira de serviço levantou‑se da cadeira e ficou a olhá‑los até os ver desaparecer. Em seguida, dirigiu‑se a Kate.

            ‑           A doutora sabe quem ela era?

            ‑           Mrs. Stuyvesant ‑ respondeu Kate.

            ‑           Não é apenas "Mrs. Stuyvesant", doutora. É Mrs. Claude Stuyvesant ‑ informou a enfermeira.

            ‑           Ela disse exactamente isso mais de uma vez ‑ comentou Kate. ‑ É um magnata do sector imobiliário, não é?

            ‑           Em Nova Iorque, ele é o sector imobiliário ‑ disse a enfermeira. ‑ Para além de possuir meia dúzia de outras indústrias e poder na Câmara e em Albany.

            ‑           Mas onde estava ele quando a filha precisou dele? ‑ perguntou Kate, sem esperar resposta.

            Entorpecida, exausta, voltou para a sala de cuidados intensivos. Na maca, jazia o corpo da jovem Claudia Stuyvesant, envolto num lençol verde. Kate não resistiu e levantou‑o para fitar o rosto pálido, os olhos fechados, o cabelo escuro despenteado e húmido da doente morta. Da sua doente.

            Falhara. A doente estivera sob os seus cuidados durante nove horas, tendo ela à sua disposição os recursos de um grande hospital moderno e bem equipado. No entanto, perdera uma jovem de dezanove anos que tinha todas as condições para viver.

            Eric Briscoe regressou depois de acompanhar Mrs. Stuyvesant ao carro. Leu nos olhos de Kate a derrota e auto‑recriminação.

            ‑           Katie, todos nós perdemos alguns. Este não foi por falta de esforço ‑ consolou ele.

            Ela abanou a cabeça.

            Briscoe não pôde deixar de pensar: "Se ela está a levar isto assim, ainda bem que não ouviu as ameaças que aquela mãe histérica fez antes de eu conseguir metê‑la na limusina. Pobre Kate. Acho que este caso ainda vai dar que falar."

 

JÁ ERA de madrugada quando a Dra. Kate Forrester, depois de completar a ficha do caso Stuyvesant e assinar a certidão de óbito, pôde finalmente terminar o seu serviço.

            Mas ainda havia outro caso que apelava insistentemente para a sua consciência profissional. Transpôs a porta dupla, entrou no edifício principal do hospital e apanhou o elevador para o serviço de pediatria. Procurou o Dr. Harve Golding e encontrou‑o no seu gabinete estudando às escuras uma série de radiografias de corpo inteiro de uma criança pequena.

            ‑           Harve? ‑ chamou Kate.

            Sem se virar da parede onde visionava as radiografias, Golding respondeu:

‑           Kate, anda cá ver.

            Ela aproximou‑se do vidro iluminado por trás.

            ‑           Vossa Excelência tinha toda a razão! ‑ exclamou então Golding. ‑ Olha para estas duas fracturas consolidadas na perna esquerda.

            ‑           Esta aqui, na perna direita, é a mais recente de que eu suspeitava? ‑, perguntou Kate.

            ‑           E ‑ confirmou Oolding. ‑ Quase que tenho medo dos resultados do exame cerebral. Precisamos de um exame neurológico completo para descobrir a extensão dos danos, se os houver.

            ‑           Pobre Mariazinha ‑ disse Kate. ‑ Como é que alguém foi capaz de fazer isto?

            ‑           Imagina o que teria acontecido se os tivesses deixado levá‑la para casa ‑ disse Golding. ‑ Podes orgulhar‑te de ti própria, Kate. Salvaste uma vida esta noite.

            "Salvei uma e perdi outra", pensou Kate. "Em termos matemáticos, está equilibrado, mas o que se sente é diferente."

            ‑           Por isso, vai para casa, Katie. Vai dormir ‑ recomendou Oolding num tom animado. ‑ Bem mereces. ‑ Esperando uma réplica, voltou‑se para lhe perguntar: ‑ Aconteceu alguma coisa, Katie?

            ‑           Foi apenas uma má noite ‑ respondeu Kate, saindo do gabinete.

            QUASE sempre que saía de madrugada da urgência, Kate apanhava um táxi para casa, o modesto apartamento que partilhava com Rosalind Chung. Naquela manhã, embora exausta, preferiu ir a pé. As ruas da zona ocidental de Manhattan ainda estavam molhadas da chuva que caíra durante a noite. Soprava uma brisa forte provocada pelo ar frio vindo do outro lado do rio Hudson.

            Ao longo da Nona Avenida, vários camiões faziam entregas nas pequenas mercearias de bairro, nos modestos restaurantes e nos mercados de carnes e legumes. A zona ocidental de Nova Iorque despertava para um novo dia.

            Kate abriu caminho por entre os camiões que estavam a ser descarregados pelos condutores e seus ajudantes. Os homens presenteavam‑na com olhares apreciadores e comentários aparentemente brejeiros.

            Oriunda de uma pequena quinta no Illinois, Kate ainda não se habituara totalmente a este tipo de gracejo bem‑humorado praticado pelos condutores de camiões, taxistas e operários da construção civil de Nova iorque. Primeiro, começara por ofender‑se. Mais tarde, passara a divertir‑se. Naquele dia, só estava consciente da morte de Claudia Stuyvesant.

            Kate chegou à porta de entrada, destrancou ambas as fechaduras e entrou, chamando:

            ‑ Rosie?

            Não houve resposta. Lembrou‑se então de que Rosie estava de serviço e só chegava a casa à tarde. Kate foi para o seu quarto e começou a despir‑se, só então se apercebendo de que ainda não pusera o banho a correr. Abriu a torneira de água quente, acabou de se despir e ia entrar na banheira quando deu por si a chorar. Limpou as lágrimas enquanto recordava Claudia Stuyvesant, com o seu rosto pálido, o seu cabelo preto colado à testa pelo último suor da morte.

            Kate decidiu pôr tudo para trás das costas. Em medicina, aquelas coisas aconteciam. Nenhum médico consegue salvar todos os doentes. Um banho quente para acalmar, um sono bem longo e à noite já estaria fresca e descontraída.

            Mas quando se deitou, e embora estivesse cansada, Kate não conseguia adormecer. Apesar dos seus esforços para afastar do pensamento o caso desastroso, começou a reviver tudo o que se passara. Reviu as suas primeiras perguntas e as respostas de Claudia, tão genéricas e, em última análise, enganadoras. Reviu todos os procedimentos, as injecções, os resultados das análises, o teste de gravidez, que era claramente negativo.

            Subtilmente, o seu espírito passou da revisão dos acontecimentos à sua explicação, argumentação, justificação. Se Claudia fosse tão saudável como parecera à primeira vista, não teria morrido. Porque é que aquela hemorragia fortíssima se mantivera tão oculta, tão indetectável? Briscoe estivera lá e concordara com as observações e conclusões de Kate. Ou seria mais correcto dizer falta de conclusões, incapacidade de chegar a um diagnóstico?

            Foi forçada a admitir que não aliviava a dor tentando deitar as culpas, ou parte delas, para cima de Briscoe. Claudia Stuyvesant fora sua doente desde o início. Se alguma coisa correra mal, a falha fora da Dra. Kate Forrester.

            Kate Forrester, que sempre fora uma excelente aluna, sempre a primeira da turma. Sempre a primeira a levantar a mão quando os professores pediam voluntários. Kate Forrester que saíra do liceu da sua terra, com louvores, para a Universidade do Illinois, onde tirara em três anos o curso de quatro para ser mais rapidamente admitida na faculdade de medicina. Durante o liceu, trabalhara como voluntária no hospital. Quando concorrera à faculdade de medicina, o seu pedido de admissão fora acompanhado de recomendações de três médicos, todos eles chefes de diferentes serviços do hospital.

            O curso de Medicina revelara‑se mais difícil do que ela esperara. O que apenas significou que trabalhou ainda mais, sempre ansiando pela altura em que poria em prática todo o saber e experiência acumulados. Em seguida, escolhera deliberadamente um dos maiores e melhores dos grandes hospitais ‑ o City Hospital para fazer o internato. Queria aprender com os melhores médicos e cirurgiões e competir com os melhores e mais inteligentes dos jovens médicos e cirurgiões. Era quase como se tivesse regressado à escola, acenando ansiosamente a mão ao professor, implorando:

"Chame‑me a mim. Eu sei a resposta!"

            Só que naquela manhã, atormentada e sem conseguir dormir, Kate Forrester teve de admitir: "Não, eu não sei todas as respostas. Não as sabia ontem à noite quando, por qualquer razão desconhecida, deixei a vida de uma jovem escapar‑me por entre os dedos."

            Kate tentou consolar‑se: "Estou tão cansada que nem sequer consigo pensar como deve ser, sinto‑me demasiado culpada para conseguir raciocinar logicamente. O que eu preciso é de dormir. Dormir. "

            Uma pergunta insistente recusava‑se a permiti‑lo: "Terei feito tudo aquilo de que me lembro de ter feito?"

            Quanto mais se interrogava, mais desperta ficava. Acabou por atirar a roupa da cama para trás, decidida a voltar ao hospital para ler a ficha de Claudia Stuyvesant e ver o que escrevera exactamente.

            ENTROU na urgência vinda da rua, dirigiu‑se imediatamente à recepção central e começou a procurar a ficha.

            A ficha de Stuyvesant não estava lá. Esquisito.

            As fichas só acompanhavam o doente quando ele era transferido para outro serviço. Mas Claudia fora transferida para a morgue. A ficha não acompanharia o corpo. Quando Kate perguntou pela ficha, a enfermeira de serviço explicou:

            ‑           Ah, essa ficha. O Dr. Cummins mandou buscá‑la de manhã.

            "O Dr. Cummins?", pensou Kate. Porque é que o administrador do hospital iria perder tempo a ler aquela ficha? O Dr. Cummins andava sempre tão ocupado com a angariação de fundos que até os próprios chefes dos vários serviços quase não conseguiam falar com ele. "Mas se é ele quem a tem, é com ele mesmo que eu vou falar."

            QUANDO chegou ao gabinete de Cummins, teve a desagradável sensação de que a sua visita já era esperada. Foi imediatamente conduzida ao impressionante gabinete do administrador, uma sala apainelada a madeira, com estantes repletas de obras de medicina. Ele estava precisamente a examinar a ficha e a tomar apontamentos. Sem levantar os olhos, disse‑lhe:

            ‑ Sente‑se, doutora.

            Cummins continuou a sua análise, enquanto Kate esperava pouco à vontade. Quando terminou, ele disse com certo alívio:

            ‑ Bom. ‑ Olhou para ela. ‑ Pois muito bem, as suas anotações nesta ficha parecem‑me bastante adequadas. Exaustivas, até. É claro que há uma coisa: pelo que aqui está escrito, não havia razão nenhuma para a doente ter morrido. Mas tenho a certeza de que será tudo esclarecido quando recebermos o relatório da autópsia.

‑           Posso ver essa ficha? ‑ perguntou Kate.

            ‑           Claro. Mas não posso permitir que saia do meu gabinete. Se a quiser ler lá fora na sala de espera... ‑ Estendeu‑lhe a ficha, mas antes de lha entregar, acrescentou: ‑ Uma ficha muito bem preenchida, o que poderá ser útil dadas as circunstâncias.

            Embora as palavras de Cummins tivessem sido pronunciadas num tom elogioso, a expressão dos olhos dele sugeria a eventualidade de problemas. Kate pegou na ficha e dirigiu‑se para a porta, onde parou para perguntar:

            ‑ Dr. Cummins, posso perguntar‑lhe porque é que mandou buscar esta ficha?

            ‑ Ah ‑ respondeu Cummins ‑, eu não lhe disse? Recebi um telefonema de Claude Stuyvesant hoje de manhã bem cedo. Para dizer a verdade, até me telefonou para casa.

            Kate ficou então duplamente ansiosa para ler a ficha.

            REviu todas as entradas da ficha, os resultados de todos os exames, o que a fez recordar não só o que tinha feito, baseada no estado da doente, como também as razões por que adoptara cada um dos procedimentos. Os únicos resultados que faltavam eram os da pesquisa de resíduos tóxicos e o teste de gravidez com soro, mas esses seriam acrescentados mais tarde.

            Kate saiu do gabinete de Cummins bastante mais tranquila. Podia justificar todas as suas decisões no caso de Claudia Stuyvesant.

            Parou no serviço de pediatria para ver como estava a pequena Maria Sanchez. Golding já não estava de serviço, por isso Kate foi até ao quartinho onde a criança fora instalada. Maria estava a dormir, muito sossegada, como se soubesse que agora estava protegida.

            No PRECISO momento em que Kate Forrester saía do quarto de Maria, o Dr. Cummins, no seu gabinete, situado vários andares acima, preparava‑se para a árdua tarefa que o esperava.

            ‑           Ligue‑me para Claude Stuyvesant ‑ ordenou ele à secretária.

            Quando a secretária lhe passou a ligação, Cummins foi verdadeiramente simpático.

            ‑ Mr. Stuyvesant não pode calcular como lamento a tragédia da sua filha.

            ‑ Outra coisa não seria de esperar ‑ foi a resposta directa e curta de Stuyvesant. ‑ Mas não foi em busca de consolo que lhe telefonei esta manhã. Eu quero saber porque é que a minha filha morreu.

            A aspereza e franqueza das palavras de Stuyvesant confirmaram os piores receios de Cummins. Claude Stuyvesant, um dos homens de negócios mais influentes e com maior poder político de bastidor de Nova iorque, estava no seu estado de espírito mais vingativo quando adoptava aquele tom frio e directo.

            "Tenta minimizar os estragos", pensou ele cautelosamente. Respondeu da maneira mais agradável que conseguiu, aquela que empregava quando apelava para enormes financiamentos aos mais abastados da cidade.

            ‑           Mr. Stuyvesant, passei as últimas horas a estudar meticulosamente todos os detalhes do caso da sua filha. Neste momento, não sabemos porque é que ela morreu, para além da existência de uma hemorragia cuja origem se desconhece.

            ‑           Cummins, mas que raio de hospital é que você está a gerir? Um doente esvai‑se em sangue até à morte e ninguém sabe porquê?!

            ‑           Estou a tentar explicar‑lhe. Foi a Dra. Katherine Forrester quem tratou da sua filha. De acordo com a ficha, ela fez tudo o que devia

            ‑           Ela? O médico é uma mulher? ‑ interrompeu Stuyvesant.

‑           E ‑ respondeu Cummins.

            ‑           E aposto que a contrataram para cumprir todas as malditas regras federais e estaduais que dizem que é preciso empregar não sei quantas mulheres, não sei quantos pretos, não sei quantos hispânicos. O que é feito dos dias em que a competência de uma pessoa contava para alguma coisa?

            Harvey Cummins sentiu‑se suficientemente provocado para discutir abertamente com Stuyvesant.

            ‑           Mr. Stuyvesant, Katherine Forrester é um dos jovens médicos mais bem preparados deste hospital. Eu garanto‑lhe que nada do que ela fez causou a morte da sua filha.

            ‑           Cummins, eu sei que tem de defender o seu pessoal, por mais negligente que ele seja. Mas como você sabe muito bem, sou amigo íntimo de vários membros do conselho de administração desse hospital. Ainda vai ouvir falar muito neste caso. E a Dra. Katherine Forrester também!

            Antes de Cummins ter tempo de responder, já Stuyvesant tinha desligado. Após um momento de indecisão, Cummins ordenou:

            ‑           Miss Hopkins, por favor, ligue‑me para o juiz Trumbuíl.

            Embora todos lhe chamassem juiz por deferência ao cargo que outrora ocupara no tribunal, Lionel Trumbuíl era um dos sócios fundadores da importante firma de advogados da Wall Street chamada Trumbuíl, Drummond e Baines. Era considerado um advogado dos mais sagazes e menos emotivos.

            Depois de ter ouvido o relato de Cummins da conversa tida com Claude Stuyvesant, Trumbuíl disse:

            ‑           Convoque essa jovem para o seu gabinete o mais depressa possível para falar comigo. Com um homem como Claude Stuyvesant é preciso ter muito, muito cuidado. Poderá pôr‑nos um processo por negligência no exercício da medicina que custaria milhões. Milhões!

            ‑           Lionel, eu garanto‑lhe, eu examinei a ficha. Não houve negligência nenhuma... ‑ tentou ele explicar.

            ‑           Com os júris de hoje em dia ‑ interrompeu Trumbuíl ‑ é tudo negligência. Uma simples tosse, um simples espirro, servem de base para um processo dispendioso. Já para não falar no mal que Stuyvesant pode causar ao hospital e à sua reputação. Eu quero falar com essa rapariga!

            às duas DA TARDE de segunda-feira, exactamente como combinado, Kate Forrester apresentou‑se no gabinete do Dr. Cummins. O administrador encontrava‑se sentado à cabeceira da mesa de reuniões, que ocupava uma das extremidades da grande sala. Ficou surpreendida quando viu que lá estava outro homem, de idade avançada, praticamente careca, não fossem uns poucos cabelos grisalhos. Tinha uma expressão severa no seu rosto rosado, como se estivesse a avaliá‑la.

            ‑           Doutora, apresento‑lhe o juiz Trumbuíl, advogado do hospital.

            A palavra "advogado" fez que Kate se apercebesse de que não se tratava de uma reunião para discutir assuntos de medicina, como julgara. As ameaças feitas por Mrs. Stuyvesant há duas noites tornaram‑se mais reais.

            ‑           Sente‑se, doutora. Por favor, sente‑se ‑ insistiu Cummins.

            ‑           Isto tem a ver com o caso Stuyvesant, não tem? ‑ perguntou Kate, deslizando para uma cadeira em frente a Trumbuíl.

            ‑           Tem ‑ admitiu tristemente Cummins.

            ‑           Cummins, acho que você devia pôr a Dra. Katherine Forrester a par da gravidade da situação ‑ disse o juiz Trumbuil. ‑ Pode ser que ela queira tomar medidas.

            ‑           Tomar medidas? ‑ perguntou Kate, espantada. ‑ Que tipo de medidas?

            ‑           Sra. Doutora ‑ respondeu Trumbuíl. ‑ Dado que sou advogado deste hospital, a minha firma encarregar‑se‑á da sua defesa. Mas numa situação como esta, alguns médicos gostam de contratar o seu próprio advogado.

            ‑           Defesa? Contra quê? ‑ perguntou Kate.

            ‑           Doutora, como a senhora é do Midwest, o nome Stuyvesant pode não ter nenhum significado especial para si ‑ disse Cummins.

            ‑           Eu sei que é um magnata do sector imobiliário ‑ respondeu Kate.

            ‑           "Magnata do sector imobiliário" é uma definição bastante modesta ‑ disse Cummins. ‑ O homem é proprietário de casinos em Atlantic City e Las Vegas, de hotéis numa dezena de cidades, de edifícios de escritórios em número suficiente para formarem uma cidade.

            ‑           O que é que eu tenho a ver com iSSO? ‑ perguntou Kate.

            ‑           O homem tem poder: financeiro, social e, especialmente político. Já se disse que ninguém consegue ser eleito ,nayor desta cidade sem o apoio de Claude Stuyvesant. Se ele achar que a filha faleceu devido a negligência, poderá retaliar de alguma maneira. - Trumbuíl acrescentou: ‑ A minha firma já lidou com ele e, conhecendo‑o como conheço, tenho a certeza de que vai propor uma acção por exercício negligente da medicina.

            ‑           Eu fiz tudo o que podia pela filha dele ‑ protestou Kate.

            ‑           Eu acredito que sim. O Dr. Cummins também ‑ disse Trumbuíl. ‑ Mas temos de estar preparados para o provar perante um júri.

            - E provamos            - afirmou Kate, indignada.

            ‑           Aí está uma boa razão para pensar naquilo que acabei de lhe dizer. Embora a Trumbuíl, Drummond e Baines esteja pronta a defendê‑la, pode desejar contratar o seu próprio advogado.

            ‑           Os advogados custam dinheiro ‑ respondeu Kate. E eu ainda estou endividada por causa do curso de Medicina.

            ‑           Então, conte com a minha firma - tranquilizou-a Trumbuil.

‑           Entretanto, não discuta este caso com ninguém, a não ser com o homem ou a mulher que eu designar para ser seu advogado. Nunca se sabe quando se faz uma declaração perfeitamente inocente se ela não poderá vir um dia a ser utilizada contra nós.

            - Eu não fiz nada de errado ‑ declarou Kate. ‑ E posso prová‑lo. Quando é que posso falar com o advogado?

            - A minha secretária vai telefonar‑lhe hoje à tarde a marcar uma hora ‑ disse Trumbuíl.

            KATE FORRESTER saiu da entrevista zangada, mas ao mesmo tempo abalada pela ameaça que Trumbuíl tornara tão clara. O seu ressentimento continuou a crescer enquanto se dirigia para casa. Não era justo. Depois de todos os seus sacrifícios, de todos os seus esforços, de todos os anos de estudo, não era justo que um homem qualquer, de cuja existência ela mal se apercebera, pudesse surgir repentinamente na sua vida e ameaçá‑la.

            Empurrou a porta do apartamento e ouviu Rosalind a gritar do chuveiro:

            ‑           És tu, Kate?

            ‑           Sou, Rosie ‑ respondeu ela numa voz tão desanimada que a sua companheira saiu do chuveiro para lhe perguntar o que acontecera.

            ‑           Vão designar‑me um advogado ‑ disse Kate. ‑ Parece que têm a certeza de que vou ser processada por ter agido com negligência.

            ‑           Negligência? ‑ ecoou Rosie, irada. ‑ As horas que passamos a trabalhar, as condições em que o fazemos... Devíamos ser nós a propor uma acção! ‑ Depois, apercebendo‑se de que Kate precisava era de consolo e encorajamento, e não de uma explosão de raiva, deu‑lhe um beijo. ‑ Não fiques assim tão em baixo, querida. Não há um único médico naquele hospital que não se prontifique a defender‑te. Iríamos adorar trazer a lume as nossas queixas em tribunal. Ouve, acabei agora de fazer café. Queres?

            Kate acenou vagamente com a cabeça. O que a sua companheira dissera com o intuito de a encorajar apenas viera aumentar o seu fardo. Kate não queria que a sua situação se transformasse num caso. Preferia mil vezes que a coisa passasse despercebida para poder prosseguir a sua carreira.

            Quando Rosie lhe deu uma chávena fumegante, Kate disse:

            ‑           Continuo a pensar

            ‑           Pára de pensar! ‑ aconselhou Rosie. ‑ Não há um só médico que não tenha tido um caso destes. Os doentes morrem. A morte é o preço da vida. E a maneira como ocorre nem sempre faz cientificamente sentido, como acontece nos nOSSOS manuais de medicina.

            Kate tentou beber o café, mas em vez disso abanou lentamente a cabeça.

            ‑           Tenho de telefonar para casa a contar o que aconteceu.

            ‑           Não podes esperar até as coisas estarem mais esclarecidas? - sugeriu Rosie.

            ‑           Queres dizer esclarecidas, ou piores? ‑ indagou Kate. - Não. Vou telefonar. O meu pai tem o direito de saber. No fim de contas, vendeu parte da sua propriedade para pagar os meus estudos.

‑           Olhou para o relógio. ‑ O meu pai deve estar a voltar agora dos campos para jantar.

            Kate aproximou‑se do telefone, que estava junto a uma das pofitas do sofá. Imaginava o que estava a passar‑se na cozinha da casa dela no Illinois: o pai à cabeceira da mesa, ladeado pelos seus ajudantes e Clint, o irmão dela. A mãe a trazer para a mesa tigelas fumegantes cheias de guisado e dois pães feitos por ela.

            Kate marcou o número. Ouviu o telefone tocar. Duas vezes, três vezes, quatro. O sexto toque foi interrompido.

            ‑           Estou? ‑ Era a voz da mãe.

            ‑           Mãe, sou eu.

            ‑           Katie! ‑ A mãe ficou encantada quando lhe reconheceu a voz, mas também ficou preocupada. ‑ Aconteceu alguma coisa, minha querida?

            ‑           Não. Não aconteceu nada ‑ negou Kate. Preferia não ter começado assim a conversa.

            ‑           Estás a fazer uma chamada de tão longe, com as tarifas tão elevadas, e não aconteceu nada? ‑ indagou a mãe.

            ‑           O pai está? Posso falar com ele?

            Então, a mãe teve a certeza de que acontecera alguma coisa, percebeu‑se pela sua voz.

- Está, sim, querida. Vou já chamá‑lo.

            Kate esperou um instante, depois ouviu o pai pigarrear.

            ‑Pai?

            ‑           Sim, minha jóia. É bom ouvir a tua voz outra vez. Quase nunca telefonas desde que foste para esse serviço de urgência.

            "Ele está a fazer conversa", pensou Kate, "está a tentar parecer tranquilo por minha causa, mas pressente que a coisa é séria. É melhor contar‑lhe."

            Fez‑lhe uma breve descrição de leigo da situação. Kate ouvia a mãe lá atrás a perguntar:

            ‑           O que foi, Ben? O que é que a Katie está a dizer?

            Imaginava a mãe ao lado do pai, mal lhe chegando ao ombro, mesmo em bicos de pés. Kate herdara o cabelo louro do pai e a estatura frágil da mãe ‑ o melhor de ambos, costumavam eles dizer.

            Quando Kate acabou de contar o que se passara, Ben Forrester perguntou:

            ‑           Seria útil eu ir para aí?

            ‑ Não, pai. Nós ainda nem sequer temos a certeza de que vai acontecer alguma coisa. Só telefonei para lhes contar ‑ explicou Kate. ‑ Este Claude Stuyvesant é um homem muito importante em Nova Iorque.

            ‑           Diz a esse filho da mãe "importante" que, se ele fizer alguma coisa à minha filha, eu vou aí e dou‑lhe um murro ou dois no seu importante nariz!

            ‑ Não vai acontecer‑me nada ‑ prometeu Kate. Não tencionara alarmá‑lo, mas era óbvio que o fizera. ‑ Calma, pai, eu mantenho‑o informado.

            ‑ Isso mesmo concordou ele. Depois, acrescentou: ‑ Sabes uma coisa, estou sempre a pensar: que diabo estás tu a fazer num sítio como Nova iorque? As pessoas aqui precisam de um bom médico e iam apreciar‑te muito mais do que esses selvagens aí. Porque não pensas em voltar para casa, em te estabeleceres aqui no meio da tua gente?

            ‑           Não tenciono voltar para casa, pai ‑ disse Kate. ‑ Vou ficar e lutar.

            ‑           Estás a esquecer‑te do que as pessoas aqui pensam de ti, Katie. Não vou uma única vez à cidade sem que alguém pare para me perguntar: "E como é que vai a nossa Kate?" É como se pertencesses à cidade inteira. Quando lhes disse que tinhas sido aceite no City Hospital, não ficaram nada surpreendidos. Acharam natural que tivesses sido aceite pelo maior e melhor. Se for preciso, enfrenta‑me esse estupor do Stuyvesant. Dá‑lhe com força, ouviste?

            ‑           Sim, pai, ouvi ‑ disse Kate.

            Kate desligou ainda mais deprimida do que estava antes. No seu esforço para a encorajar, o pai atirara‑lhe com mais um fardo: o de merecer a consideração que os amigos e vizinhos tinham por ela.

            O advogado... ela tinha que falar com o advogado.

 

APESAR de estar acostumada a grandes universidades e hospitais, Kate Forrester nunca entrara num escritório tão imponente como o da firma de advogados Trumbull, Drummond e Baines. A recepção era no sexto dos onze andares que a firma ocupava. Kate perguntou por Scott Van Cleve, o nome que a secretária do juiz Trumbuíl lhe dera. A recepcionista chamou um funcionário, que conduziu Kate do sexto ao segundo andar, passando primeiro por vários gabinetes grandes e bem mobilados dos sócios e depois por um grupo de gabinetes mais pequenos e menos imponentes. Ao fundo de um comprido corredor atapetado, ele introduziu‑a num pequeno gabinete e foi‑se embora. O gabinete estava num tal estado de desarrumação que ela achou que não era de certeza ocupado por ninguém com uma mente sã e organizada. Havia livros de direito espalhados pela secretária e empilhados no chão. Estavam três blocos de notas amarelos em cima da secretária com alguns rabiscos. Num dos cantos da secretária, estava uma sanduíche meio comida e uma chávena de café que já arrefecera. Kate ficou a suspeitar que o seu caso fora entregue a um dos advogados menos competentes da firma. Estava a pensar em ir‑se embora quando um jovem alto entrou de rompante na sala. Ficou visivelmente surpreendido ao encontrá‑la.

                        ‑           Ah! ‑ deixou ele escapar um tanto aborrecido, como se ela lhe tivesse interrompido um raciocínio. ‑ Você é... uh... ‑ Tentou lembrar‑se. ‑ Você é a tal médica?

Sufocando uma resposta rápida e irada, Kate respondeu:

                        ‑           Sou. E você é o "tal" advogado com quem eu vinha falar?

                        O olhar preocupado dele desfez‑se num sorriSO.

                        ‑           Desculpe. Eu sou Scott Van Cleve ‑ começou ele a dizer. - Mas é óbvio que sabe o meu nome, caso contrário não teria perguntado por mim. E você chama‑se

                        Então, Kate pensou: "Ele nem sequer sabe o meu nome, não deve saber nada sobre o meu caso. Tenho de me ir embora." Mas decidiu pelo menos ouvir o que aquele jovem preocupado tinha para dizer e, simultaneamente, fez a sua observação clínica. Ele era magro e encontrava‑se aparentemente de boa saúde. Tinha maus hábitos alimentares, como testemunhava aquela sanduíche meio comida, mas isso também poderia significar que era um profissional extremamente consciencioso. Era muito alto, tinha o cabelo escuro, mas não propriamente preto.

                        Ia a meio da sua observação clínica quando ele a surpreendeu com um brusco:

‑           Muito bem, vamos lá começar! ‑ Pôs todos os livros e blocos de notas a um canto da secretária e depois abriu uma gaveta para tirar um bloco novo. Tentou novamente saber o nome dela. - Miss... é miss, não é?

            ‑           Pessoalmente, prefiro que me trate por Dra. Katherine.

            ‑           Muito bem, Doutora, vamos lá começar. Primeiro, considero ser minha obrigação explicar‑lhe a sua situação legal. Prevemos que seja proposta uma acção judicial baseada no exercício negligente da medicina contra o hospital e contra si pessoalmente.

            ‑           Pensei que o seguro do hospital cobria todos os médicos do quadro ‑ replicou Kate.

            ‑           E cobre ‑ afirmou Van Cleve. ‑ Mas não imuniza.

            A expressão preocupada dela fez o jovem advogado aperceber‑se de que, relativamente à sua situação legal, Kate era uma perfeita ignorante.

            ‑           Sra. Doutora, se houver uma acção por exercício negligente da medicina, os advogados irão processar todos os envolvidos no caso. E isto porque não sabem qual será a reacção do júri. Podem considerar que o hospital é responsável por causa das suas regras e procedimentos ou que os médicos são pessoalmente responsáveis

            ‑           Para que é que serve um seguro profissional se não cobre o médico? ‑ interrompeu Kate.

            ‑           Mas o seguro cobre os médicos... até certo limite. Encarrega‑se da defesa legal e paga a indemnização por danos causados estipulada pela sentença dentro de certos limites. Mas se a quantia estipulada pelo tribunal exceder o montante coberto pela apólice, então o hospital e os médicos serão responsáveis pela diferença.

            ‑           Quer dizer que posso ser considerada pessoalmente responsável, que durante o resto da minha carreira... ‑ disse Kate, tentando compreender.

            ‑Achei que devia estar a par do perigo potencial inerente à situação ‑ informou Van Cleve o mais delicadamente possível.

            ‑           Claro ‑ disse Kate em voz baixa. ‑ Com certeza.

            ‑           Agora que já está a par, vamos prosseguir. Gostaria de ouvir a sua versão dos acontecimentos.

            ‑           O meu primeiro contacto com a doente foi cerca das nove horas da noite de sábado... ‑ Kate prosseguiu o relato, contando tudo aquilo de que se lembrava sem ter a ficha da doente à frente.

            Van Cleve escutou‑a, tomando de vez em quando algumas notas no seu bloco amarelo. Quando ela acabou o relato dos acontecimentos, Van Cleve fez um aceno de cabeça, pensativo.

            ‑           Até a doente ter morrido, qual fora o seu melhor diagnóstico?

            ‑           Uma provável gastrenterite ‑ respondeu Kate.

‑           Se eu interrogasse seis médicos e lhes apresentasse os mesmos sintomas

            ‑           E sinais ‑ corrigiu Kate.

            ‑           Sintomas... sinais... qual é a diferença?

            ‑           Sintoma é aquilo que o doente descreve. Sinal é aquilo que o médico descobre e observa. Depois, juntam‑se os dois para se chegar a um diagnóstico ‑ explicou Kate.

            ‑           Obrigado, Sra. Doutora ‑ disse o jovem advogado. ‑ Agora deixe‑me repetir: se eu interrogasse seis médicos sob juramento, lhes apresentasse os mesmos sintomas e sinais que me descreveu, qual seria a opinião deles?

            ‑           A mesma que a minha, tenho a certeza. Uma gastrenterite.

            Van Cleve tomou notas no seu bloco.

            ‑           O Dr. Briscoe concordou?

            ‑           Ele não chegou propriamente a dizer que concordava ‑ disse Kate ‑, mas não descobriu outra causa. Aqueles sintomas... nauseas, vómitos, diarreia, dores no estômago... podem indicar muitas coisas: apendicite, gravidez, úlceras. O processo de diagnóstico num caso destes é testar e ir excluindo cada uma das possibilidades até se chegar à verdadeira ‑ explicou Kate.

            ‑           à qual, infelizmente, nunca chegou ‑ sublinhou Van Cleve.

            ‑           A medicina não é uma ciência exacta! ‑ lançou ela na defensiva.

            ‑           E vai ser esse o nosso problema ‑ disse Van Cleve sombriamente. ‑ Os doentes, e os júris são compostos por doentes, partem do princípio de que a medicina é perfeita. Portanto, se alguma coisa corre mal, é de certeza culpa do médico. Começamos por aí e tentamos combater esse conceito. Nem sempre se consegue ganhar.

            Kate acenou com ar grave.

            ‑           E é tudo por agora, Sra. Doutora.

            Kate levantou‑se e voltou‑se para a porta.

            ‑           É verdade, só mais um aviso. O Stuyvesant não só vai contratar os melhores advogados nesta matéria para o representarem, como também vai ter a simpatia de todos os juizes e funcionários públicos que eventualmente possam ser úteis no processo.

            ‑           Pode ser que sim, mas continuo a acreditar que a verdade é a minha melhor defesa ‑ insistiu Kate.

            ‑           Por enquanto, a sua melhor defesa, minha senhora, é o facto de o City Hospital, a companhia de seguros e a nossa firma de advogados estarem todos envolvidos neste caso. Vão gastar muito dinheiro para se defenderem, o que quer dizer que estarão a defendê‑la a si. Se estivesse por sua conta, uma defesa destas endividava‑a para o resto da vida. Entrarei em contacto consigo, Sra. Doutora.

MAIS TARDE, depois de Scott Van Cleve ter feito o relato da reunião com a sua cliente, o juiz Trumbuíl ligou para o Dr. Cummins.

            ‑           Harvey ‑ começou o advogado. ‑ É só para mantê‑lo a par. Um dos nossos associados mais novos, o Van Cleve, teve uma reunião com a Dra. Katherine Forrester. Não houve nenhuma revelação especial.

            ‑           O que não me espanta nada ‑ disse Cummins.

            ‑           No entanto ‑ avisou Trumbuíl ‑, talvez seja boa ideia limitar por uns tempos as actividades da Dra. Katherine Forrester.

            ‑           Limitar‑lhe as actividades? ‑ disse Cummins. ‑ Ela é uma residente qualificada, e nós precisamos de todos os médicos que temos.

            ‑           Harvey, poderemos ter de justificar, mais cedo ou mais tarde, a conduta do hospital

            Cummins interrompeu:

            ‑           Não há nada a recriminar quanto à conduta deste hospital. Nem à da médica, tanto quanto sabemos.

            ‑           Exactamente, Harvey, "tanto quanto sabemos" ‑ salientou Trumbuíl.

            ‑ Não quero tomar nenhuma medida que possa reflectir‑se na competência profissional da Dra. Katherine ‑ insistiu Cummins.

            ‑           Não estou a aconselhar nada desse género. Afaste‑a apenas do contacto com os doentes por uns tempos, mas faça‑o discretamente. Neste momento, acima de tudo, não podemos arriscar‑nos à má publicidade.

 

            NA MANHÃ seguinte, Kate Forrester levantou‑se mais cedo que o necessário. Resolveu chegar ao hospital antes da hora a que se devia apresentar no seu novo serviço. Ter visto a pequenita Maria Sanchez meio consciente, com sinais evidentes do sofrimento por que passara, impressionara profundamente Kate. Planeara passar pelo quarto dela para ver se a criança estava a fazer progressos.

            Soube que Maria fora transferida para os cuidados do Dr. Nate Sperber, um especialista em problemas neurológicos neonatais e pediátricos. Embora Kate nunca tivesse tido qualquer contacto com ele, foi óbvio que Sperber já ouvira falar dela.

            ‑           Tenho o prazer de conhecer a nova campeã de pesos‑leves do mundo hospitalar? ‑ perguntou Sperber quando ela apareceu à porta do quarto de Maria enquanto ele a examinava.

            ‑           Não compreendo.

            ‑           Golding contou‑me que fez frente ao pai desta pobre criança. Fez bem. Ela está mesmo na fronteira. Mais um episódio e eu não apostaria na sua recuperação.

‑ E agora? ‑ perguntou Kate.

            Sperber fez um gesto a Kate para que entrasse no quarto. Quando se aproximou da cama, ele pegou‑lhe na mão e pousou‑a no rosto da criança. A criança recuou, dando a Impressão de se ter contraído, mas a pouco e pouco foi reagindo favoravelmente à mão macia e quente de Kate e agarrou‑lhe no dedo indicador.

            ‑ Dra. Katherine, faz‑me um favor? Pegue nela ao colo. Temos que começar a ensinar‑lhe que nem todos os adultos são perigosos, que é seguro confiar.

            Kate instalou‑se na cama e pegou na criança ao colo. Maria resistiu, mas aos poucos foi‑se abandonando nos braços de Kate. Passado um bocado, parecia agradar‑lhe estar encostada ao peito dela.

            ‑           óptimo ‑ disse Sperber. ‑ Agora, peço‑lhe que faça isso várias vezes por dia, mesmo que seja só por uns minutos. Talvez com o tempo possamos reconquistá-la para uma vida normal.

            ‑           Qual é o estado neurológico dela? ‑ perguntou Kate.

            ‑           Ainda estamos na fase de avaliação. Vejo alguns sinais que nos levam a ter esperança. Mas são apenas sinais ‑ disse Sperber.

 

            KATE FORRESTER já estava um pouco atrasada quando consultou a lista de funções no quadro do pessoal médico. Não encontrou o seu nome na lista de nenhum dos tutores nem de outro tipo de asSistência aos doentes. Em vez disso, reparou que ao lado do seu nome, "Forrester, K.", apareciam as palavras "Departamento de Eficiência dos Serviços. Dr. Nicholas Troy, sala B‑22." Apesar de ter ficado espantada, Kate não tinha outra alternativa senão desempenhar a tarefa que lhe fora destinada.

            A sala B‑22 ficava na cave do edifício do hospital. Embora o gabinete de Troy fosse espaçoso, Kate ficou com a impressão de que estava atulhado por causa dos enormes computadores já antigos e dos vários armários‑arquivos muito altos. Troy, que parecia ter sessenta e muitos anos, estava a estudar umas folhas impressas pelo computador, que começavam na extremidade da secretária e lhe caíam para o colo. Tinha o cabelo branco, crespo e despenteado. Dirigiu‑se a Kate sem levantar os olhos.

            ‑           Sim? ‑ perguntou.

            ‑ Sou a Dra. Katherine Forrester. Fui colocada no seu serviço.

            ‑           Ah! ‑ exclamou ele, lembrando‑se. ‑ O Cummins falou‑me de si. Que crime terrível é que cometeu para a colocarem na Sibéria? Para uma jovem médica, este meu serviço, que apenas lida com números a seco, deve funcionar como exílio.

            Resolveu finalmente levantar os olhos para avaliar Kate.

            ‑ Hum ‑ disse ele, bastante impressionado. ‑ Se tivesse conhecido uma médica como você quando era novo, não seria agora um velho solteirão rabugento.

            Troy fez sinal a Kate para que se sentasse, depois apercebeu‑se de que não havia nenhuma cadeira vazia. Libertou uma delas tirando‑lhe de cima uma pilha de papéis, que deixou cair no chão.

            ‑ Que tal uma chávena de chá? ‑ perguntou ele. ‑ A mim apetece‑me.

            Kate acenou que sim.

            Enquanto esperava que a água fervesse na cafeteira colocada sobre a placa eléctrica, Troy admitiu:

            ‑           Dra. Katherine, tenho que lhe confessar uma coisa. Eu soube do seu caso. ‑ Depois, enquanto, mergulhava uma saqueta de chá na água fumegante, continuou: ‑ É por isso que aqui está. É por terem medo que esteja marcada que não a querem lá em cima nas urgências, nem nas consultas, nem nas enfermarias. No fim de contas, se lhe acontecesse outro acidente, a companhia de seguros iria lançar as culpas ao hospital por tê‑la mantido ao serviço.

            ‑ Então, porque é que não me mandam embora? ‑ perguntou Kate.

            ‑ Se a mandassem embora agora, estariam a admitir publicamente que é incompetente. O que significaria que a culpa era deles por a terem contratado. Por isso, não a podem mandar embora.

            ‑ Vou despedir‑me! ‑ ameaçou Kate, começando a levantar‑se da cadeira.

            ‑ Isso seria sem dúvida uma admissão de culpa. E não me parece que uma mulher que chegou onde você chegou tenha por hábito desistir das coisas. Se bem entendi, você adoptou o procedimento correcto no tratamento da tal Stuyvesant. ‑ Olhou fixamente para ela durante uns instantes. ‑ Adoptou, não adoptou?

            ‑           Sim, adoptei. O que escrevi na ficha da doente é a prova disso

‑           declarou Kate.

            ‑           Então, fique e lute ‑ disse Troy. ‑ Entretanto, vai trabalhando aqui. ‑ Sorriu. ‑ Ouça, minha querida, o que é uma semana ou um mês na sua curta vida? Pense só no que significa para um velho chegar aqui todas as manhãs e ver o seu rosto adorável. Agora acabe o seu chá e vamos trabalhar.

 

            A NOTÍCIA da morte da filha única de Claude Stuyvesant tinha sido divulgada por todos os jornais locais e noticiários televisivos. A central telefónica do City Hospital fora bombardeada durante dois dias pelos órgãos de comunicação social. Claire Hockaday, responsável pelas relações públicas, respondera a todas as questões com uma declaração única e concisa, previamente preparada: Claudia Stuyvesant deu entrada no serviço de urgência deste hospital na noite do passado sábado, sofrendo de doença não diagnosticada. Morreu na madrugada de domingo de causa ainda desconhecida de momento.

 

            Livres para darem largas à imaginação, cada um dos departamentos de informação das televisões locais apresentou a história sob um ângulo diferente. Um dos canais deu a entender que a morte de Claudia se devera a uma overdose, outro sugeriu que fora suicídio. Decorridos três dias, sob a incessante avalancha de violações, assaltos e homicídios que constituem a rotina diária dos serviços noticiosos na televisão de Nova iorque, a maior parte das televisões já abandonara a história.

            Apenas llank Daniels, editor do noticiário das 18 horas no Canal 3, lhe dedicava mais do que um interesse passageiro. Há já alguns dias que Daniels e Ramon Galíante, o seu repórter de investigação, vinham acumulando uma Série de entrevistas reveladoras sobre os serviços de saúde na área de Nova Iorque.

            Galíante gravara conversas com vários doentes, familiares de vítimas e empregados descontentes dos hospitais da cidade. Incitara‑os a revelarem os defeitos, o baixo rendimento, os custos elevados e os procedimentos ruinosos em várias instituições de saúde. Mas nem Galíante nem Daniels consideravam que as entrevistas fossem suficientemente fortes para obterem audiência para uma série com a duração de uma semana.

            ‑ Ray ‑ disse Daniels. ‑ Achas que conseguíamos obter uma entrevista com Claude Stuyvesant?

            ‑           É difícil, a não ser que ele tenha algum daqueles seus negócios para anunciar. Nessa altura, é ele quem te manda chamar.

            ‑           E se conseguirmos assegurar-nos de que ele nos vai chamar?

‑           perguntou Daniels, sorrindo.

            ‑ Hank, tens alguma ideia? ‑ perguntou Galíante, tentado.

            ‑           Há dois dias, o Canal Dois rotulou a morte de Claudia Stuyvesant como tendo ocorrido em "circunstâncias suspeitas". O que pode significar suicídio. O Canal Quatro apelidou a morte de "súbita e devida a circunstâncias ainda por esclarecer que estão a ser averiguadas". O que sugere que ela foi vítima de uma overdose.

            ‑           Estou a compreender, Hank ‑ disse Galíante. ‑ Vou telefonar ao Stuyvesant para lhe dar uma oportunidade de refutar as calúnias lançadas sobre a filha inocente, que já não pode defender a sua reputação.

            ‑           Estamos a servir a mais nobre causa do bom jornalismo ajudando a esclarecer as coisas ‑ concordou Daniels.

‑           Vou já tratar do assunto ‑ prometeu Galiante.

- Se conseguires isso, eu depois já planeei o que vem a seguir.

‑           E que será...?

            ‑           Não há nada como um pouco de controvérsia para atrair uma multidão e aumentar os índices de audiência. Quando tivermos a gravação do Stuyvesant, eu telefono para o City Hospital e

            ‑           Dás‑lhes o mesmo tempo de antena ‑ disse Galíante, fazendo um grande sorriso. ‑ Hank, mas que belo arranque para a série!

 

            NA QUARTA‑FEIRA à tarde, por volta das 4.15, já Ramon Galíante e a sua equipa tinham regressado para os estúdios do Canal 3 vindos do gabinete de Claude Stuyvesant.

            ‑           Como é que a coisa correu, Ray? ‑ perguntou Daniels.

            ‑           Controvérsia, Yank? Falaste em controvérsia? Bem, já cá canta. Tão acesa que à vinda para cá parei no City Hospital e filmei uns exteriores.

            ‑           Posso telefonar para o City Hospital e pedir‑lhes para esclarecerem as coisas?

            ‑           Telefona‑lhes, telefona‑lhes ‑ disse Galíante.

            Pelo entusiasmo na voz de Galíante, Daniels percebeu que a entrevista com Stuyvesant mais do que justificara o seu palpite. Foi com considerável satisfação que levantou o auscultador.

            ‑           Maggie, liga‑me ao Dr. Cummins, no City Hospital.

 

            NA MANHÃ seguinte, a Dra. Kate Forrester apresentou‑se ao serviço no gabinete do Dr. Troy, situado na cave. Ele estava como de costume com a secretária cheia de folhas de computador e o tufo de cabelo despenteado.

            ‑           Bom dia, Sr. Doutor ‑ disse ela.

            O cansaço na sua voz fê‑lo olhar para ela por cima dos aros dos seus óculos de ver ao perto.

‑           Dormiu mal?

            ‑           Não, nem por isso ‑ disse Kate, tentando negá‑lo.

            ‑           Não dormiu o suficiente, então'? ‑ Voltou a olhar para ela e então alterou o diagnóstico. ‑ Não dormiu mesmo nada. Passou a noite a dar voltas e voltas na cama, pensando no que irão decidir na reunião de hoje de manhã

            Kate interrompeu‑o.

‑           Reunião? Qual reunião?

            ‑           Ah ‑ replicou Troy, perturbado. ‑ Desculpe, pensei que sabia. Marcaram uma reunião extraordinária dos directores clínicos do hospital.

‑           Para discutirem o meu caso? ‑ perguntou Kate.

            Ele encolheu tristemente os ombros.

            ‑ Sem me darem oportunidade de me defender? Isso é que vamos ver! ‑ declarou ela, saindo porta fora.

 

            O DR. HARVEY CummINS juntara em torno da mesa de reuniões os chefes de todos os serviços médicos para uma reunião de emergência. Consciente de que a decisão por eles tomada poderia envolver consequências jurídicas, convidara também Lionel Trumbuil. Foi com uma expressão séria que Cummins deu início à reunião.

            ‑           Minhas senhoras e meus senhores, o que eu esperava que se mantivesse um problema interno ameaça agora transformar‑se num escândalo público. O Canal Três vai iniciar uma série intitulada É a Sua Vida que Está em Jogo: Quais São as Suas Hipóteses de Sobrevivência Num Hospital da Cidade de Nova iorque?

            A Dra. Eleanor Knolte, chefe do serviço de pediatria, observou asperamente:

            ‑           Então, agarraram‑se com unhas e dentes ao caso Stuyvesant, não?

            ‑           Pior ainda ‑ disse Cummins. ‑ Ontem recebi um telefonema do produtor. Ramon Galíante gravou uma entrevista com Claude Stuyvesant sobre o caso da filha. Galíante tenciona iniciar a sua série com essa entrevista hoje no noticiário das 18 horas. O produtor de Galíante só telefonou para saber se queríamos ou não dar resposta. É isso que tem de ser decidido nesta reunião.

            Houve imediatamente uma torrente de opiniões a favor e contra dar uma resposta a quaisquer acusações que Stuyvesant pudesse fazer.

            O Dr. Solomon Freund, que fora em tempos chefe do serviço de neurologia e era agora professor emérito, aguardou que Cummins restabelecesse a ordem antes de falar.

            ‑           Minhas senhoras e meus senhores, deixem‑me salientar que, antes de tomarmos qualquer decisão, precisamos de saber a causa da morte da rapariga. Ainda não recebemos o relatório da autópsia, e eu considero desaconselhável dizermos seja o que for a quem quer que seja antes de termos conhecimento dos factos.

            ‑           Quer então dizer ‑ perguntou Harold Wildman, chefe do serviço de cirurgia torácica ‑ que é capaz de deixar um homem poderoso como Claude Stuyvesant acusar este hospital do que bem lhe apetecer sem o refutar?

            ‑           Quero dizer ‑ respondeu Freund ‑ que, até termos conhecimento dos factos, não devemos comprometer‑nos fazendo declarações que podem vir a revelar‑se falsas. Eu acho que não devemos refutar.

            Lionel Trumbuil deu a sua opinião.

            ‑           Srs. Doutores, por vezes há mais desvantagens do que vantagens em responder a acusações desta natureza. As respostas fazem surgir refutações e um não acabar de má publicidade. Eu sugiro que assistamos à entrevista de Stuyvesant e depois, se decidirmos responder, alguém irá à televisão divulgar o número de casos tratados anualmente na urgência, o número de doentes que vão para casa curados ou tratados, de modo a apresentar aos telespectadores um testemunho do bom e eficiente serviço prestado na urgência.

            O conselho de Trumbuíl pareceu ser bem aceite por todos os que se encontravam sentados à mesa.

            ‑ Então, posso concluir ‑ disse Cummins ‑ que o consenso desta reunião é o de que, a refutarmos, será com uma resposta repleta de factos, sem qualquer intenção de entrar em luta aberta com Stuyvesant.

            ‑           Posso então também concluir que não planeiam defender a Dra. Katherine Forrester? ‑ perguntou o Dr. Freund.

Cummins respondeu imediatamente:

            ‑           Este hospital apoia sempre o seu pessoal E é o que faremos no caso da Dra. Katherine Forrester.

            ‑           De facto ‑ acrescentou Trumbuíl ‑, ela até já teve uma reunião com o advogado da minha firma encarregado de preparar a sua defesa.

            ‑           Desde que ela esteja a ser protegida ‑ disse o Dr. Freund com algum alívio ‑, concordo com este consenso.

            ‑           Óptimo ‑ disse Cummins.

            Quando Kate Forrester chegou à sala de espera de Cummins, a reunião já acabara. Quando pediu para falar com o administrador, mandaram‑na entrar imediatamente.

            ‑           Dr. Cummins, aquela reunião tinha alguma coisa a ver comigo?

            ‑           De certo modo, tinha ‑ disse Cummins.

            ‑           Então, gostaria de saber o que decidiram ‑ disse Kate. ‑ É o mínimo a que tenho direito.

            ‑           Também tem o direito de saber que hoje, às seis horas da tarde, no Canal Três, Claude Stuyvesant vai ser entrevistado a respeito da morte da filha.

            ‑           O Stuyvesant pretende tornar isto público?

            ‑           Não estava a pensar que ele ia guardar segredo, pois não? Um homem com todo aquele prestígio e poder?

            ‑           Sabe se ele vai atacar‑me? ‑ perguntou Kate.

‑           Não fazemos a menor ideia do que ele vai dizer, mas ficaremos todos mais bem informados depois das seis da tarde.

 

A DRA. KATE FORRESTER sentou‑se sozinha no seu apartamento em frente do aparelho de televisão, assistindo ao noticiário com grande ansiedade. Teve de suportar um meteorologista com umas piadas horríveis e um jornalista desportivo cujas piadas eram piores ainda. Finalmente, uma locutora anunciou:

            ‑           E agora é a Sua Vida que Está em Jogo, o primeiro programa da Série de pesquisa de Ramon Galíante sobre a assistência médica na cidade de Nova Iorque. Ramon.

            A câmara focou Ramon Galíante, de microfone na mão, em frente ao City Hospital. Ao fundo, viam‑se enfermeiras e outro pessoal hospitalar a entrar e a sair.

            ‑           Encontro‑me à porta do City Hospital, considerado por muitos como uma das mais prestigiadas instituições de assistência médica da área metropolitana. Possui o melhor, mais actualizado e mais dispendioso equipamento e um pessoal cuidadosamente seleccionado, supostamente o melhor que há. E, no entanto, será que é assim tão bom? Será que é suficientemente bom para que lhe possa confiar a sua vida? Ou a vida dos seus filhos?

            Enquanto continuava a ouvir‑se a voz de Galíante, a imagem da televisão passou a ser a da Torre Stuyvesant, na Wall Street. A câmara focou novamente Galíante, que se encontrava em frente ao edifício.

            ‑           Agora, encontro‑me em frente de outro edifício no horizonte de Manhattan: a poderosa Torre Stuyvesant, um marco na capital da finança mundial. Não serão muitos aqueles de entre vós que poderão alguma vez entrar neste enclave dos ricos e poderosos. Eu vou entrar apenas para me encontrar com Claude J. Stuyvesant, o homem que deu o nome a este edifício de vidro e aço, e ouvir a história trágica da experiência de um pai no City Hospital.

            Enquanto Galíante se voltava e fingia entrar no edifício, a imagem deu lugar a Claude Stuyvesant, sentado atrás da sua enorme secretária. Era um homem alto e musculado, com a pele bronzeada, testemunho das muitas horas que passava no mar alto ao leme do seu iate em regatas transoceânicas. Por detrás dele via‑se uma parede de vidro, do lado de lá da qual se estendia o porto da cidade de Nova Iorque.

            ‑           Mr. Stuyvesant ‑ começou Galíante. ‑ A sua filha, Claudia não era propriamente o doente típico do serviço de urgência de um hospital da cidade, pois não?

            ‑           Suponho que as pessoas acham que, quando um Stuyvesant adoece, há sempre uma comitiva de médicos dispendiosos à sua disposição dia e noite. Acontece que o médico da família estava fora na noite em questão. O que não é desculpa para o que aconteceu à minha filha. ‑ Stuyvesant prosseguiu, visivelmente emocionado:

‑           Cria‑se uma filha durante dezanove anos e conseguem matá‑la numa noite. Crime! Foi um crime!

            ‑           Mr. Stuyvesant, não quer com certeza dizer com isso que se tratou de uma conspiração por parte do pessoal do City Hospital para matar a sua filha?

            ‑           Conspiração? Não, mas considero‑os responsáveis. Puseram a minha filha nas mãos de uma médica... uma mulher chamada Katherine Forrester. ‑ O maxilar cerrado, os olhos cinzentos vingativos, a sua própria postura, projectavam ódio.

            Sozinha na sua sala de estar, ouvindo aquele homem denunciá‑la em termos tão veementes, Kate Forrester levantou‑se da cadeira, furiosa, mas ao mesmo tempo magoada, quase à beira das lágrimas.

            ‑           Mr. Stuyvesant, já foi determinada a causa da morte da sua filha? ‑ perguntou Galiante.

            ‑           Não. Temos de esperar pela autópsia ‑ respondeu Stuyvesant. ‑ Não pode imaginar... a dor, o sofrimento de um pai quando a sua jovem e inocente filha jaz numa câmara frigorifica, na morgue, à espera de ser autopsiada para se determinar a causa da sua morte. E pensar que tudo isto poderia ter sido evitado com uma assistência médica adequada.

            ‑           Acha que é justo fazer uma afirmação dessas sem saber mais detalhes sobre o caso? ‑ incitou Galíante.

            ‑           Justo? ‑ contra‑atacou Stuyvesant. ‑ Neste caso, os factos são evidentes. Uma rapariga de dezanove anos, com uma simples dor de estômago, é tratada num hospital da cidade e morre passadas algumas horas.

            ‑           Então, posso concluir que o senhor vai propor uma acção baseada no exercício negligente da medicina?

            ‑           É a única maneira de fazer que os hospitais desta cidade cumpram o seu dever: processá‑los! Fazendo‑os compreender que a negligência tem de se pagar. E a arrogância também. A rapariga, além de negligente, também foi arrogante ‑ acusou Stuyvesant.

            ‑           Então, também vai processá‑la? ‑ perguntou Galíante.

            ‑           E não vou ficar por aí ‑ disse Stuyvesant. ‑ Quero que essa mulher seja proibida de exercer medicina nesta cidade, neste estado, em qualquer sítio, para sempre!

‑           E como é que pretende consegui‑lo? ‑ perguntou Galíante.

            ‑           Os meus advogados aconselharam-me a fazer uma queixa ao delegado de saúde e a solicitar à comissão de deontologia médica que aprecie o caso. Quando os factos lhes forem apresentados, eu garanto‑lhe que vão tirar‑lhe a cédula profissional.

            ‑           Muito obrigado ‑ disse Galíante.

            Mal acabou a entrevista, Kate pegou no telefone e marcou o número de Van Cleve.

            ‑           Estou? ‑ atendeu Van Cleve num tom distante.

            ‑           É a Dra. Kate. Aquela que anda por aí a matar doentes.

            ‑           Oh, então assistiu ao programa ‑ concluiu Van Cleve.

            ‑           Sim, assisti. E o que vamos nós fazer?

            ‑           Por enquanto, nada ‑ disse Van Cleve.

            ‑           Mas o público tem de saber a verdade ‑ respondeu Kate. Eu quero contar‑lhes a verdade. No fim de contas, a médica envolvida sou eu.

            ‑           Exactamente! E por causa disso está a levar a coisa demasiado a peito. Galíante iria certamente induzi‑la a dizer coisas que prejudicariam a sua defesa ou, pior ainda, alguma coisa que difamasse Stuyvesant. E então Stuyvesant pôr‑lhe‑ia outra acção. Para ele, isso seria um passatempo divertido, e a si arruinava‑a financeiramente para sempre.

            Kate nem sequer principiara a pensar em consequências daquele tipo.

            ‑           Mas se as acusações dele... ‑ começou ela.

            ‑           Nós vamos refutar as acusações dele nos únicos dois sítios que interessam: no tribunal, se for intentada acção por exercício negligente da medicina; perante a comissão de deontologia médica, se houver inquérito. Entretanto, esperamos pelo relatório da autópsia.

            ‑ Muito bem. Assim será ‑ concedeu ela relutantemente.

            Depois de ter desligado, Kate continuou sentada em frente ao ecrã escuro da televisão a pensar nas ultrajantes acusações de Stuyvesant.

            Pouco depois, ouviu a porta abrir‑se e Rosie Chung chamar:

            ‑           Kate, estás aí?

            Kate levantou os olhos quando Rosie entrou na sala.

            ‑           Eu vi aquilo tudo na televisão ‑ disse Rosie ‑, depois enfiei‑me logo num táxi e vim para casa. ‑ Beijou Kate. ‑ Não te preocupes, queridinha. O pessoal do hospital sentiu‑se todo ultrajado. Os internos já falam em juntar dinheiro para te contratarem um advogado.

            ‑           Eu já tenho um advogado ‑ salientou Kate.

‑           Mas um advogado pago por ti, que seja responsável apenas perante ti ‑ disse Rosie. ‑ Podes processar Stuyvesant por calúnia e difamação.

            ‑           Claro, vou processar Stuyvesant. O caso demora cinco anos até ao julgamento, mas não há dinheiro que pague esses cinco anos da minha vida. Alguma coisa tem de ser feita, e tenho de ser eu a fazê‑la.

            ‑           Fazer o quê, Katie?

            ‑           Contar à cidade inteira o que aconteceu. Na televisão ‑ disse Kate com determinação.

            ‑           Acho que devias falar primeiro com o teu advogado.

            ‑           Já falei ‑ admitiu Kate. ‑ Disse‑me para não fazer nada.

            ‑           Então, talvez isso seja o melhor ‑ avisou Rosie.

            ‑           Pois sim ‑ zombou Kate, repentinamente zangada. ‑ E muito fácil para ele dar‑me esse conselho. Não é a reputação dele que está em causa. É a minha. As pessoas desta cidade têm de saber a verdade.

            Kate procurou o número na lista enquanto Rosie avisava:

            ‑           Katie, podes estar a piorar as coisas.

            Mas Kate já estava a marcar o número. Passados instantes, a telefonista atendeu.

            ‑           Cadeia de Televisão WNYO, Canal Três.

            ‑           Queria falar com Ramon Galíante, por favor.

            ‑           Mr. Galíante não atende chamadas.

            ‑           Então, ligue‑me ao produtor do noticiário das seis horas.

            Passados instantes, ouviu uma voz cansada e irritada do outro lado da linha.

            ‑           Estou, é Daniels. Quem fala? O que é que deseja?

            ‑           Sou a Dra. Katherine Forrester.

            ‑           Ouça, se telefonou para se queixar da entrevista que fizemos a Mr. Stuyvesant, nós não fabricamos as notícias, limitamo‑nos a divulgá‑las. O homem tinha uma queixa legítima a fazer a propósito de um tema sobre o qual Galíante tem presentemente uma série de programas de investigação. Pensámos que a entrevista era oportuna e utilizámo‑la. Só isso. Agora, tenho de desligar.

            ‑           Quer dizer que não vão dar‑me oportunidade de explicar o lado do médico? ‑ perguntou Kate.

            A voz de Daniels passou de cansada e agressiva a interessada e atenta.

            ‑           Quer pôr‑se à frente da câmara e explicar?

            ‑           Sim!

            ‑           Dê‑me o seu número de telefone. Vou dizer a Galíante para lhe telefonar.

Não foram precisos mais de três minutos para o telefone tocar.

            - Dra. Katherine Forrester? Fala Galiante. Segundo parece, a senhora quer refutar as acusações que Stuyvesant lhe fez?

            - Sim, quero.

            ‑           Sra. Doutora, para ser franco ‑ continuou Galíante ‑, gostaríamos de poder apresentá‑la no seu local habitual de trabalho, tal como fizemos com Mr. Stuyvesant, no serviço de urgência. isto é, no hospital, de preferência.

            ‑           Graças à entrevista que fez a Mr. Stuyvesant, pressinto que o hospital não irá permiti‑lo.

            ‑           E que tal à porta do hospital? Posso lá estar amanhã à tarde com uma carrinha e uma equipa de filmagem e fazemos a coisa ao vivo.

            ‑           Desde que eu tenha a Possibilidade de refutar o ataque injustificado feito à minha reputação ‑ concordou Kate.

            ‑           óptimo! Encontramo-nos à porta do hospital às seis menos um quarto.

            ‑           Lá estarei ‑ assegurou-lhe Kate.

            Quando Kate desligou o telefone, Rosie disse‑lhe:

            Espero que não estejas a cometer um erro, Katie.

            ‑           Alguém tem de impedir que este veneno continue a espalhar‑se ‑ afirmou ela.

 

            No DIA seguinte, o Canal 3 explorou ao máximo a entrevista com Kate. Transmitiu anúncios insistentes prometendo "um convidado surpresa na série de programas de Ramon Galíante sobre a assistência médica em Nova iorque". A partir das 5 horas, os anúncios prometiam "uma entrevista ao vivo com a médica que Claude Stuyvesant acusou de ter morto a sua filha".

            A notícia espalhou‑se rapidamente pelo City Hospital. Antes das 6 horas, já chegara ao administrador Cummins, que mandou imediatamente a secretária chamar Kate Forrester para a desaconselhar a aparecer na televisão, mas ela já saira do hospital. Cummins resignou‑se a assistir à entrevista pela televisão.

            Noutras áreas do hospital, as pessoas que não se encontravam ocupadas a prestar assistência aos doentes estavam às janelas a olhar para a equipa de Galíante, que montava o equipamento de filmagem do outro lado da rua. Foi o próprio Galíante quem posicionou as câmaras para os ângulos de filmagem que pretendia.

            ‑           Vamos abrir com um grande plano do hospital na câmara um. Depois, passa‑se à câmara dois para o meu close‑up. Eu faço a apresentação e a introdução. Em seguida, recuem o suficiente para incluir a médica na imagem.

Afastou‑se tão depressa dos operadores de câmara que chocou com Kate.

            - Ouça minha senhora, vamos fazer umas filmagens para a televisão, por isso é melhor sair daqui! ‑ disse ele, recuando.

            ‑           Mr. Galíante? Eu sou a Dra. Katherine Forrester ‑ disse ela.

            ‑           É a mal‑afamada Dra. Katherine Forrester? Pensei que as médicas só eram assim tão louras e tão bonitas nas telenovelas. É um prazer conhecê‑la. ‑ Abanou a cabeça, incrédulo. ‑ Vamos ver algumas perguntas para já estar preparada com as respostas.

            ‑           Está bem ‑ disse Kate.

            ‑           Mr. Stuyvesant queixou‑se publicamente na televisão do tratamento dispensado à filha neste hospital, que resultou na sua morte. Vai ser a primeira coisa que eu vou dizer. Depois, poderá refutar à sua vontade. A seguir, faço‑lhe umas perguntas sobre a assistência médica dispensada neste hospital. Poderá comentá‑las como desejar, pois isto é uma entrevista livre. Mas nunca pare de falar. Nas notícias televisivas há uma coisa para que nunca há tempo: pausas.

            ‑           Não tenciono fazer pausas ‑ disse Kate, decidida a utilizar todo o tempo de antena que Galíante lhe concedesse.

            ‑           Muito bem. Temos de esperar que iniciem as notícias lá do estúdio; depois, dão‑nos a nossa deixa e entramos no ar.

            Galíante assistiu ao genérico das notícias no monitor instalado na parte de trás da carrinha antes de se juntar a Kate no exterior. Colocou‑a em frente às câmaras de modo a ficar com o hospital como fundo e, de microfone em punho, ficou à espera da sua deixa. A operadora da câmara um fez‑lhe sinal.

            ‑           Ramon Galíante aqui, no City Hospital, para a continuação da nossa série de pesquisa É a Sua Vida que Está em Jogo. Comigo, esta tarde, está a Dra. Katherine Forrester, a médica que Claude Stuyvesant considera responsável pela morte da sua filha de dezanove anos, Claudia, no serviço de urgência deste hospital. A Dra. Katherine Forrester encontra‑se aqui para refutar as acusações de Mr. Stuyvesant. Sra. Doutora?

            ‑           As acusações de Mr. Stuyvesant contra mim e este hospital são totalmente falsas e infundadas. Tudo o que podia ser feito à filha dele foi feito de acordo com o melhor desempenho profissional.

            ‑           Mas ela morreu, não morreu, Sra. Doutora?

            ‑           Morreu, mas ninguém sabe porquê.

            ‑           Ela esteve aqui nove horas, foi tratada com as técnicas médicas mais recentes e acaba por morrer sem ninguém saber porquê?

            ‑           Claudia Stuyvesant não apresentava sinais e sintomas suficientes que permitissem a um médico fazer um diagnóstico preciso.

- Neste hospital enorme não havia nenhum médico que conseguisse fazer um diagnóstico? - perguntou Galíante.

            - Era eu que estava de serviço. Fui eu que não consegui fazer um diagnóstico - respondeu Kate. - E duvido que houvesse algum médico capaz de o fazer. Pura e simplesmente, não havia dados suficientes nem resultados laboratoriais conclusivos.

            - A Sra. Doutora afirma que era impossível fazer o diagnóstico no caso Stuyvesant e, no entanto, ela foi tratada com as últimas técnicas da medicina

            Kate interrompeu:

            - Foi o senhor que disse isso. Não fui eu!

            - Está então a dizer aos nossos telespectadores que nem sequer a tratou? - perguntou Galíante.

            - Nós tratámo‑la! - insistiu Kate.

            - Como é que se trata uma doença não diagnosticada? Existe algum comprimido mágico que os médicos aqui no City Hospital administram em todos os casos misteriosos? - Galíante lançou um SOrriso superior em direcção à câmara.

            - Até se chegar a um diagnóstico, a única coisa que se pode fazer é tentar reduzir a temperatura do doente, administrar fluidos para evitar a desidratação e fazer todos os testes laboratoriais que se considerarem úteis para se chegar a um diagnóstico correcto - explicou Kate com firmeza.

            - Isso não soa muito melhor que "tome duas aspirinas e telefone‑me amanhã de manhã" - comentou Galíante. - Mas, infelizmente, na manhã seguinte Claudia Stuyvesant já estava morta.

            - Nas circunstâncias, tudo o que foi possível fazer sob o ponto de vista clínico foi feito - protestou Kate.

            - Então, porque é que ela morreu? - desafiou Galíante.

            - Infelizmente, ninguém sabe. Mas o médico legista vai descobri‑lo.

            - Isso é seu costume, Sra. Doutora? - perguntou Galíante.

            - Isso, o quê? - perguntou Kate, espantada.

            - Depender do médico legista para que faça o diagnóstico por si? - perguntou Galíante e, antes de Kate ter tempo de responder, terminou: - Ramon Galíante, City Hospital.

 

            O TELEFONE estava a tocar quando Kate abriu a porta do apartamento. Correu para o atender, preparada para se defender contra as críticas do Dr. Cummins.

            - Sra. Doutora - disse Scott Van Cleve. - Acabo de ver a sua entrevista na televisão e...

-           E não aprova - antecipou‑se Kate.

‑           Se se recusa a seguir os meus conselhos, então não estou aqui a fazer nada - disse Van Cleve. ‑ Talvez seja melhor arranjar outro advogado cujos conselhos respeite.

            ‑           A minha decisão não teve nada a ver consigo. Teve a ver comigo. Eu recuso‑me a ficar calada perante falsas acusações feitas por um homem só pelo facto de ele ser Claude Stuyvesant!

            Van Cleve sabia que discutir com uma rapariga tão zangada e cheia de princípios seria inútil. Em vez disso, perguntou‑lhe:

            ‑           Por vezes, não diz a um doente para evitar alguns alimentos ou para não tomar o pequeno‑almoço antes de fazer uma análise de sangue ou de urina, Sra. Doutora?

            ‑           É claro que digo ‑ concordou Kate.

            ‑           O que eu lhe peço não é diferente. Até sabermos ao certo quais serão as medidas legais que Stuyvesant vai tomar, não faça mais nenhuma declaração pública. Amaldiçoe-o, insulte‑o, faça magia negra, mas

            Kate acabou‑lhe a frase:

            ‑           Nem uma palavra sobre ele em público.

            ‑           Pois é, Sra. Doutora. Agora, vamos procurar entender‑nos como advogado e cliente. Está bem?

            Após um longo momento de silêncio, Kate concordou:

            ‑           Está bem.

            EM CONSEQUÊNCIA da entrevista dada por Kate Forrester na televisão, Cummins convocou outra reunião de chefes dos serviços do hospital e voltou a convidar Lionel Trumbuíl para estar presente.

            Assim que foram solicitadas opiniões, o Dr. Harold Wildman foi o primeiro a responder.

            ‑           Eu era todo a favor da defesa da Forrester quando isto rebentou, mas ao aparecer na televisão ela deu a ideia de que os médicos deste hospital eram todos desastrados e estavam mal preparados. Mesmo que tenha agido mal no caso Stuyvesant, devia ter deixado a coisa passar. As pessoas não tardariam a esquecer tudo.

            ‑           Eu não seria tão optimista, atendendo a que Claude Stuyvesant está envolvido no assunto ‑ replicou a Dra. Eleanor Knolte. - Todavia, o seu erro requer medidas para minimizar os estragos.

            O emérito professor Sol Freund, que anunciara recentemente que ia reformar‑se, via as coisas por outro prisma.

            ‑           Não fazemos outra coisa senão falar do "erro dela". Eu diria que estamos a falar de nós. Pelo que percebi, o que aconteceu à Kate Forrester podia ter acontecido a qualquer um de nós. Temos de continuar a defendê‑la, e ao fazê‑lo, estaremos a defender todos os médicos conscienciosos.

- Você pode dar‑se ao luxo de ser compreensivo - contrapôs Wildman. - Mas aqueles de entre nós que enfrentam anos de altíssimos prémios de seguro contra risco profissional têm de pensar no futuro. Este tipo de má publicidade só pode ter uma consequência: o aumento desses prémios. Eu acho que a posição a tomar será dizer que o que aconteceu a Claudia Stuyvesant foi uma falha de um só médico, que foi incapaz de aguentar a pressão na urgência.

            Freund olhou fixamente para o outro lado da grande mesa de reuniões, para o seu colega mais jovem.

            - Sugere então que a atiremos aos lobos?

            - Estou apenas a dizer que devemos considerar a hipótese de nos dissociarmos.

            ‑           No meu dicionário, "dissociar" e "atirá‑la aos lobos" são sinónimos. Que tal um pouco de lealdade para com os nossos jovens médicos? - perguntou Freund.

            ‑           Há alturas em que temos de fazer uma escolha entre as lealdades ‑ retorquiu Wildman. ‑ Lealdade à Forrester ou lealdade a este hospital? Eu acho que devemos lealdade a este hospital!

            Antes que a reunião se tornasse numa batalha pessoal azeda entre Freund e Wildman, Cummins interveio.

            ‑           Meus senhores, não são só os prémios de seguro contra riscos profissionais que estão em jogo. Nós temos camas para ocupar. Se não as ocuparmos, teremos de fechar as portas. Com a má publicidade de que já fomos alvo, os doentes sentirão relutância em procurar‑nos ‑ avisou Cummins sombriamente.

            A seguir, interveio Wallace Simons, chefe do serviço de obstetrícia e ginecologia do City Hospital.

            ‑           Receio ser forçado a concordar. A nossa principal responsabilidade é para com este hospital. Dos quatrocentos e sessenta e três médicos que cá trabalham, só um foi acusado. Temos uma ovelha negra, vamos abatê‑la e explicar porque o fizemos. Depois, os doentes já não recearão vir ter connosco para se tratarem.

            O juiz Trumbuíl disse num tom baixo, mas preocupado:

            ‑           E o que é que acontece se Kate Forrester for ouvida pela comissão de deontologia médica e a ilibarem? Ela poderá perfeitamente processar o hospital e cada um dos senhores individualmente.

            ‑           Então, como é que poderemos dissociar‑nos? ‑ perguntou Wildman.

            ‑           Deixem Claude Stuyvesant condená‑la. Deixem‑no ser ele a arriscar‑se a uma acção dispendiosa por calúnia e difamação - aconselhou Trumbuíl. ‑ Se a comissão concluir que a médica é culpada de conduta não‑profissional, podem ver‑se livres dela sem recearem represálias nem acções judiciais.

‑           E entretanto? ‑ perguntou Simons.

            ‑           Mantenham‑na longe dos doentes, o que reduzirá os nossos riscos ‑ disse Trumbuíl.

            ‑           Por outras palavras ‑ interpôs Sol Freund ‑, vamos manter esta jovem isolada numa cela até ao enforcamento público. E depois vamos enforcá‑la de uma maneira anti‑séptica, segura, cirúrgica e legal para que ninguém seja processado.

            ‑           Eu não classificaria tomar medidas contra um médico que a comissão de deontologia médica considera incompetente um "enforcamento público" ‑ replicou Cummins.

            ‑           Claro que não ‑ retorquiu Freund. ‑ Não podemos utilizar termos que possam vir a ser usados contra nós se nos for posto um processo. Eu diria que é uma cobardia abandonar uma jovem médica inteligente para salvarmos a pele.

            Pela expressão dos rostos em torno da mesa, era óbvio que muito poucos dos presentes concordavam com ele.

 

            No DIA seguinte à tarde, Kate apareceu no piso de neurologia do serviço de pediatria. Apesar dos seus problemas pessoais, resolvera seguir diariamente o caso da pequena Maria Sanchez. Sempre que a visitava, levava um presentinho barato à criança, geralmente uma boneca de trapos ou um livro para colorir.

            Como era seu costume, Kate espreitou antes de entrar no quarto de Maria para se certificar de que a criança não estava a dormir nem a ser examinada por um dos internos. Nesse dia, Maria estava acordada, sozinha, e parecia bastante deprimida.

            ‑           Maria? ‑ chamou Kate baixinho.

            A criança voltou‑se logo para a porta e sentou‑se, com os olhos pretos brilhando de expectativa. Kate deslizou para dentro do quarto com o presente escondido atrás das costas, depois estendeu‑lhe o embrulho de papel colorido com um floreado. A criança, entusiasmada, rasgou o papel vermelho e dourado e viu um livro. Kate trouxera‑o para ensinar Maria a ler.

            Excitada, a criança pôs os braços à volta do pescoço de Kate. Estavam abraçadas quando o Dr. Harve Golding entrou apressado no quarto com uma expressão de visível embaraço.

            ‑           Kate, posso falar contigo?

            ‑           Claro.

            Ela afastou suavemente os braços de Maria e foi ter com ele ao corredor.

            ‑           Cá estou eu, Harve, o que é que se passa?

            ‑           Cummins fez uma ordem de serviço dizendo que não deves ser vista em nenhuma zona do hospital em que haja doentes.

‑           Ele não pode fazer isso! ‑ protestou Kate. ‑ Eu não estou a tratar ninguém. Estou apenas a visitar uma criança Solitária. Que mal há nisso?

            ‑           Está muito preocupado com o tipo de boatos que a tua presença possa suscitar. Desculpa, Kate, mas não tenho outra alternativa.

            ‑           É claro. Eu compreendo ‑ disse Kate. ‑ Vou só lá dentro despedir-me.

            Encontrou Maria a passar as pequenas mãos pela capa lustrosa do livro. Maria levantou o rosto e sorriu‑lhe. Abriu o livro, convidando Kate a lê‑lo.

            ‑           Maria, este presente é especial. É o que os adultos chamam um presente de despedida.

            ‑           Despe dida ‑ repetiu a criança. ‑ Vou‑me embora agora?

            ‑           Não, Mamã. Eu é que vou.

            As lágrimas inundaram os olhos pretos da criança.

            ‑           Vai embora?

            A dor estampada no rosto aflito de Maria e os seus olhos suplicantes fizeram que Kate tomasse uma decisão.

            ‑           Não, eu não me vou embora ‑ disse ela enquanto se sentava na cama, pegava na criança ao colo e abria o livro. ‑ Maria, isto é umA despedida.

            Tinham chegado à letra E quando Kate ouviu passos atrás de si. Voltou-se e viu Harve Golding à porta. Preparou-se para receber uma reprimenda.

            ‑           Katie, pelo menos tem o bom‑senso de fechares a porta - disse Golding. Sorriu e depois foi‑se embora, fechando a porta atrás de si

            Kate voltou-se para Maria e disse:

            ‑           E. Esta é a letra E.

            Ao MESMO tempo que Kate Forrester encorajava Maria a mostrar o que aprendera recentemente, um dos telefones confidenciais na mesa da secretária executiva do mayor tocava insistentemente.

            ‑           Gabinete do mayor. Fala Madelaine ‑ disse ela em voz baixa. Eram poucas as pessoas que tinham acesso àquele número confidencial que não vinha na lista.

            ‑           Queria falar com ele ‑ disse uma voz masculina.

‑           Dr. Schwartzman?

‑           Sim ‑ respondeu o médico legista.

‑           Vou já passar a chamada.

            Segundos depois, Schwartzman ouviu o mayor dizer:

‑           Ah?

‑           Ouve, esperar pelo funeral da rapariga Stuyvesant para revelar os resultados do relatório da autópsia é uma coisa. Não me importo de o fazer. Mas não posso alterar os resultados ‑ avisou Schwartzman.

            ‑           Desagradáveis? ‑ perguntou o mayor.

            ‑           Stuyvesant não vai gostar. A causa da morte não pode ser abafada.

            ‑           Qual foi?

            ‑           Hemorragia abundante devido à ruptura de uma gravidez ectópica.

            ‑           Tens razão, Stuyvesant não vai gostar. ‑ O mayor ponderou a situação por instantes e depois disse: ‑ Ah, quando revelares os resultados à imprensa, minimiza a gravidez. Dá ênfase ao facto de a morte ter sido causada por uma hemorragia interna abundante ou qualquer coisa assim.

            ‑           Está bem ‑ concordou Schwartzman. ‑ Por falar nisso, quando falares com Stuyvesant, sugere‑lhe que mande cremar o corpo. Se puser uma acção, com certeza não quererá que exumem nem examinem o corpo.

            ‑           Porquê? O que é que encontraste mais?

            ‑           Nada. Mas achei melhor nem sequer procurar.

 

O MAYOR ordenara que mandassem um pequeno destacamento de agentes da Polícia fardados para a St. Thomas Church, na Quinta Avenida, para assegurar que o funeral de Claudia Stuyvesant decorria com a mínima interferência possível da imprensa e da multidão de curiosos que se esperava ali acorresse.

            As celebridades começaram a instalar‑se nos bancos meia hora antes de começar a cerimónia, marcada para as 10 horas. As chefias das 500 empresas citadas pela Fortune encontravam‑se bem representadas entre os presentes, mas o grupo principal era constituído pelos empregados de Stuyvesant e pelos vários membros das organizações cívicas e caritativas que dependiam das doações dele.

            Quando os convidados já se encontravam todos sentados, as portas da igreja abriram‑se ao público. A Dra. Kate Forrester estava no meio da multidão. Entrou com os outros na igreja imponente e olhou fixamente para o altar, esculpido e ornamentado, em frente do qual repousava o caixão simples de madeira escura polida, que estava fechado.

            O pastor entrou pela porta de um dos lados do altar ao som de um cântico suave do coro. Depois, pela porta do lado oposto, entrou um sacristão, seguido da mãe e do pai de Claudia Stuyvesant. Nora Stuyvesant estava vestida de preto e a seu lado vinha Claude Stuyvesant envergando um fato também preto.

            Ele ajudou a mulher a sentar‑se no banco da frente. Quando se sentaram o coro ergueu a voz entoando um hino. Enquanto isto, os olhos de Kate, que percorriam vagamente a multidão, depararam com um rosto que a surpreendeu.

            Scott Van Cleve, o seu advogado, encontrava-se sentado junto à coxia, algumas filas à frente dela. O que estaria ele a fazer ali?, pensou ela. Não era amigo dos Stuyvesants. Ou seria? Os seus pensamentos foram interrompidos quando o cântico terminou e o pastor ocupou o seu lugar no púlpito para fazer o elogio fúnebre.

            Foi profuso nas condolências apresentadas aos Stuyvesants, elogiando‑lhes a dedicada conduta paternal. Abordou de passagem e em termos muito gerais a vida de Claudia Stuyvesant, passando mais tempo a enumerar as coisas que Claudia poderia ter feito se tivesse uma vida mais longa. Kate encarou aquela parte do sermão como uma acusação à sua pessoa e apertou com força as mãos no colo, determinada a afastar quaisquer sentimentos de culpa.

            No final da cerimónia, o pastor anunciou que o funeral seria privado, limitado apenas à família mais chegada. Os homens encarregados de levarem o caixão levantaram-no e percorreram a coxia em direcção à enorme porta, seguidos de Claude Stuyvesant e sua mulher. Tinham dado apenas alguns passos quando Nora Stuyvesant começou a cambalear. Antes de ter tempo de cair, o marido segurou‑a por um braço, e do outro lado da coxia Scott Van Cleve deu um salto em frente para lhe agarrar no outro braço. Foi assim amparada que Nora Stuyvesant percorreu a coxia.

            Quando se aproximaram do banco onde Kate aguardava respeitosamente, a expressão triste de Stuyvesant alterou‑se repentinamente, dando lugar a uma expressão de raiva. Kate apercebeu-se de que ele a reconhecera da entrevista que dera na televisão. Retribuiu o olhar dele com a convicção dos inocentes.

            Do outro lado de Stuyvesant, Scott Van Cleve lançou‑lhe um olhar de reprovação que parecia perguntar: mas que diabo está a fazer aqui, Sra. Doutora?

            Para escapar ao olhar reprovador de Scott, Kate desviou os olhos para as pessoas que estavam nos bancos do outro lado da coxia. Um dos rostos que viu intrigou-a: o de um jovem que não tirava os olhos do caixão. Devia ter vinte e poucos anos, era esquelético, muito moreno e tinha o cabelo castanho e comprido apanhado num rabo‑de‑cavalo desordenado. Envergava uma camisa azul desbotada e um blusão de ganga. Não se podia dizer que a indumentária fosse adequada para a ocasião, pensou Kate.

            Claude Stuyvesant, a sua mulher e Scott Van Cleve chegaram à porta da rua. Kate ouviu o grito das equipas de televisão lá fora.

            ‑           Lá vêm eles. Comecem a filmar!

            Kate abriu caminho por entre a multidão a tempo de ver Ramon Galíante apontar um microfone a Claude Stuyvesant. Não conseguiu ouvir a pergunta de Galíante, mas estremeceu ao ouvir a resposta em voz bem alta e exaltada de Stuyvesant.

            ‑           Eu já iniciei o processo contra ela.

            Enquanto o caixão era metido no carro funerário, o motorista de Stuyvesant ajudou‑o a instalar a mulher na limusina preta. Kate viu o carro funerário afastar‑se, seguido pela limusina dos Stuyvesants.

            Quando desapareceram, Kate viu Scott Van Cleve agarrar no braço de um dos carregadores do caixão. Trocou algumas palavras com o homem, que pareceu espantado, mas era óbvio que Van Cleve descobrira o que queria, pois voltou a misturar‑se na multidão. Passou pelo jovem de rabo‑de‑cavalo em que Kate reparara dentro da igreja. Ficou a observá‑lo enquanto o rapaz olhava em volta furtivamente e depois descia rapidamente os degraus da igreja e a avenida, embrenhando‑se no meio dos transeuntes.

            Kate estava a pensar naquela estranha conduta quando Van Cleve a obrigou a voltar‑se, perguntando‑lhe:

            ‑           O que é que está a fazer aqui?

            ‑           Eu podia fazer‑lhe a mesma pergunta.

            ‑           Vim em serviço ‑ explicou ele. ‑ Queria saber umas coisas.

            ‑           Tais como? ‑ perguntou Kate.

            ‑           O caixão, para começar.

            ‑           O que é que tem? ‑ perguntou Kate. ‑ Madeira polida, simples e de muito bom gosto.

            ‑           Exactamente ‑ disse Van Cleve. ‑ Um Stuyvesant sem caixão de metal eternamente resistente à deterioração? E porque é que o corpo não esteve exposto ao público em nenhuma igreja nem casa funerária? Isso deu‑me que pensar. E ainda fiquei mais perturbado ao ver o modo como aqueles carregadores levavam o caixão.

            ‑           Foi por isso que agarrou um deles? ‑ perguntou Kate.

            ‑           Perguntei‑lhe se o caixão era pesado.

            ‑           E o que é que ele respondeu?

            ‑           Deu‑me uma resposta interessante: "Era muito mais leve do que eu esperava."

            ‑           Dr. Van Cleve, e o que é que isto tudo significa?

            ‑           Sabe o que é que eu acho? Não estava nenhum corpo naquele caixão.

‑           Nenhum corpo? ‑ perguntou Kate, perplexa.

            ‑           Nenhum corpo. então apenas as cinzas que restaram depois de o cremarem ‑ disse Van Cleve. ‑ O que é que Stuyvesant estará a encobrir?

            ‑           Droga? ‑ sugeriu Kate.

            ‑           Disse‑me que pediu um teste de resíduos tóxicos naquela noite. Qual foi o resultado?

            - Não cheguei a ver. Não estava na ficha dela da última vez que a vi.

            ‑           Então, vamos lá buscá‑lo. Agora! ‑ disse Van Cleve.

            EMBORA o Dr. Cummins estivesse renitente em facultar a ficha a alguém para além de Lionel Trumbuíl, acabou por dar a sua permissão. Kate e Scott folhearam‑na ansiosamente, mas não descobriram os resultados de nenhum exame de resíduos tóxicos.

            - Que estranho! ‑ comentou Kate.

            A única coisa a fazer era ir falar com Carmelita Espinosa, a técnica que testara as amostras de sangue que ela enviara para o laboratório no sábado à noite. Mrs. Espinosa respondeu às perguntas de Kate com frases curtas e incisivas. Mrs. Espinosa lembrava‑se de ter feito a análise de Stuyvesant? Nunca se lembrava das análises pelos nomes dos doentes. Lembrava-se da noite do caso Stuyvesant? Sim. Tinha feito alguma análise de resíduos tóxicos nessa noite? Sim. Tinha feito três. Todos os resultados tinham sido Positivos.

            ‑           E a folha do computador, mandou‑a para a urgência?

            ‑           Mando sempre a folha do computador para O sítio de onde veio o pedido ‑ confirmou Mrs. Espinosa.

            Kate e Van Cleve olharam um para o outro com a mesma ideia em mente: os resultados deviam constar na ficha de Claudia. Onde estariam?

 

            A DRA. KATE FORRESTER ficou aliviada quando a secretária do Dr. Cummins telefonou para o gabinete do Dr. Troy, situado na cave do hospital. Tinha esperanças de que o Dr. Cummins a tivesse mandado chamar para a reintegrar como residente de clínica geral.

            Quando a mandaram entrar no gabinete do Dr. Cummins, ele encontrava-se de pé à sua espera. Limitou‑se a saudá‑la com um aceno de cabeça condoído. Tinha na mão umas folhas. Bastou‑lhe olhar de relance para reconhecer o selo do Instituto de Medicina Legal do estado de Nova iorque.

            ‑           Será melhor sentar‑se antes de ler isto ‑ sugeriu Cummins.

            Kate pegou no relatório com cautela, sentou‑se e começou a ler. Ainda não passara do primeiro parágrafo quando se sentiu compelida a olhar para cima, para Cummins. Ele apontou para o relatório, indicando-lhe que continuasse.

            ‑           "Gravidez ectópica" ‑ leu Kate em voz alta, incrédula - "causando ruptura na trompa de Falópio esquerda.."

            ‑           "Resultando em abundante hemorragia interna e morte" - terminou Cummins. ‑ Quando voltar a ler o que anotou na ficha, os sinais e os sintomas dela, verá que são perfeitamente coincidentes.

            ‑           Os sinais e sintomas dela eram também coincidentes com dezenas de outras doenças ‑ salientou Kate. ‑ E ela negou duas vezes ser sexualmente activa.

            ‑           Devia pelo menos ter suspeitado de que ela estava a mentir.

            ‑           E suspeitei, e fiz um teste de gravidez com base na urina. Deu negativo!

            ‑           É óbvio que obteve um resultado errado ‑ respondeu Cummins. ‑ Se chegámos alguma vez a ter esperanças de evitar uma acção baseada em negligência, este documento veio destruí‑las. Kate, lamento muito este curso dos acontecimentos. É claro que continuaremos a fazer o que nos for possível para ajudá‑la.

            Mas a sua atitude fora tão lúgubre que Kate não pôde deixar de recordar um professor da faculdade que uma vez lhe dissera: "Um homem só diz que fará o que for possível quando acha que não vai conseguir. "

            PERTURBADA com as descobertas do médico legista, Kate apressou‑se a percorrer Os túneis subterrâneos do edifício do hospital até ao seu gabinete, na cave, onde encontrou um recado escrito na folha de computador que se encontrava na sua secretária: "Telefonar para o advogado. Urgente."

            ‑           Van Cleve ‑ atendeu o advogado num tom de voz preocupado. Mas ao ouvir a voz dela, apressou‑se logo a dizer: ‑ Sra. Doutora, preciso de falar consigo. Hoje à tarde. E prepare‑se para uma longa reunião. Acabo de ler uma cópia do relatório da autópsia. É importante que esteja no meu gabinete o mais tardar às seis horas.

            Sentindo‑se desafiada pelo tom brusco de Van Cleve, Kate respondeu na mesma moeda.

            ‑           Seis horas, Dr. Van Cleve. Lá estarei!

            ANTES de iniciar o interrogatório, ele certificou-se de que Kate estava confortavelmente instalada do outro lado da sua secretária.

            ‑           Muito bem ‑ declarou Van Cleve, recostando-se na sua cadeira. ‑ Todos aqueles que conhecem Stuyvesant têm a certeza de que ele vai propor uma acção. E que vai queixar‑se de si à comissão de deontologia médica. Bom, sabemos que não podemos contestar o relatório do médico legista, o que nos vai obrigar a explicar porque é que você não descobriu o que ela tinha.

            ‑           Nem sempre é fácil detectar uma gravidez ectópica ‑ protestou Kate.

            Van Cleve não levou em conta a interrupção dela.

            ‑           Fácil de detectar ou não, temos de provar aos médicos, e ao público também, que tudo o que você fez estava de acordo com o correcto exercício da profissão. É esse o critério legal.

            ‑           E estava insistiu Kate.

            - Então, porque é que não detectou o que ela tinha?

            ‑           Eric Briscoe também não detectou ‑ replicou ela.

            ‑           Isso não é desculpa. Além disso, Stuyvesant não acusou Briscoe de nada. Stuyvesant concentra toda a sua atenção em si. Por isso, eu tenho de saber exactamente o que é que você fez e porque é que o fez.

            ‑           Nem sequer sei por onde começar.

            ‑           Comece pelo princípio. Pelo instante em que a viu pela primeira vez.

            ‑           Para dizer a verdade, quem eu vi primeiro foi a mãe dela.

            - Da mãe dela falamos depois ‑ disse Van Cleve. ‑ Comece pela primeira vez que viu a sua doente. Não omita nada.

            Kate começou a relatar o mais detalhadamente que conseguia os acontecimentos daquela noite.

            Quando terminou, Van Cleve observou:

            ‑           No início, disse que tinha visto primeiro Mrs. Stuyvesant antes de ter visto a filha. Isso pareceu ser bastante significativo para si. Porquê?

            ‑           Era óbvio que havia fricção entre elas. Uma tensão qualquer de que só vim a aperceber‑me mais tarde. Demasiado tarde.

            ‑           E que tensão era essa? ‑ perguntou Van Cleve.

            ‑           Depois de Claudia ter falecido, várias pessoas ouviram a mãe dizer "Ele vai dizer que a culpa foi minha... ele vai dizer que a culpa foi minha". Na altura, achei estranho ela estar a dizer aquilo num momento tão trágico, mas pelo que posteriormente vim a saber de Stuyvesant, compreendo como a mulher deve ter imenso medo dele.

            ‑           Ela receava que ele a culpasse pela morte da filha?

            ‑           O que poderia também explicar a preocupação dela quando a vi pela primeira vez ‑ assentiu Kate. ‑ A filha saíra de casa, estava a viver sozinha, muito provavelmente contra a vontade do pai. Pressenti que esse conflito impedia que Claudia se sentisse totalmente à vontade para falar.

            ‑           Caso se sentisse à vontade, o que poderia ela ter‑lhe dito?

            ‑           Que era sexualmente activa e que se drogava.

‑           Vamos supor que ela lhe mentiu em relação ao uso de drogas. De que forma é que isso poderia ter afectado o desenlace final? - perguntou Van Cleve.

            ‑           Isto requer que se compreenda a diferença entre uma gravidez normal e uma gravidez ectópica. Numa gravidez normal, sente‑se o útero distendido por palpação, mas numa ectópica não é assim tão fácil. Numa gravidez normal, o cérvix fica manchado, o que não acontece necessariamente numa ectópica. E poderá detectar‑se um inchaço brando.

            ‑           Poderá detectar‑se? ‑ perguntou Van Cleve.

            ‑           Nem sempre é possível senti‑lo ‑ explicou Kate. ‑ Neste caso, nem eu nem Briscoe o detectámos.

            ‑           No entanto, existia ‑ disse Van Cleve num tom sombrio. - E quais são os efeitos da droga numa gravidez ectópica?

            ‑           A utilização de drogas poderá ter dissimulado ou diminuído as dores.

            ‑           Ela morreu de uma hemorragia interna abundante. Isso não deveria ter apresentado sinais importantes?

            ‑           O hematócrito dela poderia ter sido um sinal ‑ disse Kate.

            ‑           Hematócrito? O que é isso?

            ‑           Uma parte de todas as CCG, ou seja contagem completa de glóbulos ‑ explicou Kate. ‑ Indica a percentagem de glóbulos vermelhos no sangue. O normal nas mulheres é entre os trinta e sete e os quarenta e oito por cento.

            ‑           E a de Claudia nessa noite? ‑ perguntou Van Cleve.

            ‑           Trinta e oito, se não me engano.

            ‑           Então, encontrava‑se sem dúvida dentro dos limites normais.

            ‑           O que se provou ser bastante enganador ‑ salientou Kate.

            ‑           Porquê? ‑ perguntou Van Cleve, começando a ficar um pouco frustrado.

            ‑           Vamos rever tudo desde o princípio ‑ disse Kate. ‑ Ela entrou a queixar‑se de náuseas, vómitos e diarreia, o que significava provavelmente que estava desidratada. A desidratação diminui o teor de humidade do sangue. O que vai reduzir a quantidade de plasma, fazendo que a contagem de glóbulos vermelhos pareça mais elevada do que na realidade e.

            Começando a entender, Van Cleve disse:

            ‑           Consequentemente, a contagem dos glóbulos vermelhos, que devia ser baixa devido à hemorragia, pareceu no entanto normal devido à desidratação.

Van Cleve afastou o seu bloco amarelo e começou a andar de um lado para o outro no seu pequeno gabinete. De repente, voltou‑se para Kate.

            ‑           Havia um facto que poderia ter explicado todos os outros: o teste de gravidez. Como é que o resultado foi negativo?

            ‑           Nenhum teste médico é cem por cento perfeito ‑ explicou Kate. ‑ Tentei fazer uma ecografia para confirmar o resultado, mas não havia nenhum técnico qualificado para a fazer. Tem que pensar nas condições em que somos obrigados a trabalhar nas urgências:

horas a fio sem intervalos; escassez de salas de observação; há sempre doentes a mais e pouco tempo para os examinar. Dispensamos sempre aos doentes os melhores cuidados possíveis.

            ‑           Dra. Kate, tem consciência do que acaba de admitir? ‑ perguntou Van Cleve com a atitude acusadora de um advogado de acusação. ‑ Disse taxativamente que, devido às condições, não dispensou a Claudia Stuyvesant bons cuidados médicos.

            ‑           Mas eu dispensei‑lhe bons cuidados médicos! ‑ protestou Kate.

            ‑           Dispensou‑lhe "os melhores cuidados possíveis" ‑ salientou Van Cleve. ‑ O que não significa cuidados perfeitos, nem sequer bons cuidados. Apenas os melhores que pôde em condições difíceis. Sra. Doutora, pode dar graças a Deus por ter uma companhia de seguros a defendê‑la na acção baseada em exercício negligente da medicina.

            ‑           E quanto ao inquérito e à minha carreira? Passei quase metade da vida a preparar‑me para exercer medicina. Foi o que sempre quis fazer. Não vou permitir que me privem disso!

            ‑           Farei o que estiver ao meu alcance para a ajudar ‑ assegurou‑lhe Van Cleve. A honestidade obrigou‑o a acrescentar: ‑ Mas não posso prometer‑lhe nada.

            Kate Forrester saiu dos escritórios da Trumbuíl, Drummond e Baines sentindo‑se bem mais ameaçada do que quando lá entrara.

            Scott Van Cleve viu‑a partir, sentindo‑se ainda mais perturbado do que admitira na presença dela. Ainda mais do que da primeira vez que a vira, estava ciente da expressão resoluta dela, que reflectia a determinação de consagrar a vida à medicina. Mas essa determinação só servia para aumentar os receios do advogado.

            "Não posso deixar que isto vá a julgamento", apercebeu‑se ele. "Nem sequer que haja um inquérito. Deve haver alguma maneira de evitar ambas as coisas."

            Ao sair do escritório naquela noite, Scott tinha uma certeza: ter‑lhe‑ia sem dúvida agradado conhecer uma rapariga tão atraente e com as mesmas convicções de Kate Forrester em quaisquer circunstâncias, excepto naquelas.

 

A DIVULGAÇÃO do relatório da autópsia de Claudia Stuyvesant também teve repercussões noutros sectores.

            Na manhã seguinte, houve uma reunião geral na Trumbuíl, Drummond e Baines. Estavam presentes os três sócios principais, para além do Dr. Cummins e de Marcus Naughton, presidente do conselho de administração do City Hospital. Scott Van Cleve também fora convocado.

            Lionel Trumbuíl deu início à reunião com uma declaração simples, clara e que não se poderia apelidar propriamente de legalista.

            ‑           Meus senhores, estamos em apuros.

            ‑           E eu não sei! ‑ concordou Naughton severamente. Aquele relatório da autópsia deixa‑nos desarmados, sem qualquer defesa.

            ‑           É melhor não entrarmos em pânico ‑ avisou Drummond. Creio que com uma abordagem adequada ainda podemos convencer Stuyvesant a resolver tudo a bem. Vai custar‑nos alguns milhões, é claro.

            ‑           Quanto é que a companhia de seguros está disposta a dar? É a primeira coisa que temos de saber ‑ declarou Trumbuíl.

            ‑           E a segunda qual é? ‑ perguntou Cummins.

            ‑           Quem é que vai falar com Stuyvesant ‑ respondeu Trumbuíl. Voltou‑se para Naughton. ‑ Marc, Stuyvesant é sócio do teu clube de golfe não é?

            ‑           E, mas não posso propriamente dizer que o conheça ‑ descartou‑se Naughton. ‑ Além disso, o golfe não é o desporto preferido dele. O que ele gosta é de fazer regatas com o seu iate.

            ‑           Bom, e conhecemos alguém que esteja próximo dele nesse campo? ‑ perguntou Trumbuíl.

            ‑           Temos um tipo na administração do hospital que é muito bom em regatas, é o Harry Lindsay ‑ sugeriu Naughton.

            ‑           Entra em contacto com o Lindsay. Vê lá se ele está disposto a falar com Stuyvesant ‑ disse Trumbuíl. ‑ Entretanto, temos de pensar em arquitectar um cenário que o convença. Estou pronto a ouvir as vossas ideias.

            Scott Van Cleve interveio:

            ‑           Para um homem como Stuyvesant, alguns milhões não constituem qualquer incentivo.

            ‑           Nós já sabemos isso ‑ disse Trumbuíl, não escondendo o seu aborrecimento por Van Cleve enunciar o que era óbvio.

            No entanto, Van Cleve prosseguiu:

            ‑           Pretendia apenas dizer que Stuyvesant é muito cioso da sua imagem pública. Quando Lindsay for falar com ele, deve sem dúvida ter uma atitude de compaixão. Foi uma tragédia terrível o que aconteceu à filha dele, mas, e é nesta tecla que Lindsay tem de bater, um grande homem tira sempre proveito da adversidade.

                        ‑           Como é que se pode tirar proveito da morte de uma filha? - perguntou Cummins.

                        ‑           Dr. Cummins, ouvi a minha cliente dizer muita coisa sobre o vosso serviço de urgência. Com o devido respeito, as instalações estão velhas, deterioradas e sobrecarregadas.

                        ‑           Fazemos o melhor possível com os fundos disponíveis! - protestou Cummins.

                        ‑           Exactamente, Sr. Doutor ‑ continuou Van Cleve. ‑ E se Lindsay lhe dissesse: "Você é um homem importante nesta cidade e, com os milhões que tem, o dinheiro não tem grande significado para si. Uma das maneiras de honrar a memória da sua filha, simultaneamente beneficiando o povo da cidade, será pegar nos dois milhões da companhia de seguros e doá‑los ao Serviço de Urgência Claudia Stuyvesant, do City Hospital." É claro que Lindsay terá de salientar subtilmente a grande aclamação que um tal serviço de utilidade pública lhe iria granjear.

                        ‑           Nada mal, Van Cleve, nada mal ‑ admitiu Trumbuíl.

                        ‑           É claro ‑ concluiu Van Cleve ‑ que ele desiste de todas as queixas contra o hospital e todos os envolvidos.

                        ‑           É claro ‑ concordou Trumbuíl.

                        Van Cleve recostou‑se na cadeira, confiante de que lançara uma estratégia que iria igualmente libertar a sua cliente da ameaça de o estado de Nova iorque lhe retirar a cédula profissional.

                        Trumbuíl dirigiu‑se a Naughton.

                        ‑           Marc, tenho a certeza de que irás entrar o mais rapidamente possível em contacto com Lindsay.

                        ‑           Assim que chegar ao meu gabinete ‑ assegurou Naughton.

                        QUANDO Harry Lindsay telefonou a pedir um encontro com Claude Stuyvesant, o empresário partiu logo do princípio de que se tratava de uma estratégia com vista a formar uma sociedade para construir um novo iate para entrar na America' 5 Cup, por isso convidou Lindsay para almoçar no New York Yacht Club. A conversa durante o almoço tomou o rumo que Stuyvesant antecipara. Foi durante o café que Lindsay abordou finalmente o assunto que o levara ali.

                        ‑           por respeito pelos seus sentimentos, abstive‑me de falar na dolorosa perda que sofreu. Mas, no entanto, há alturas em que da tragédia pode advir um grande bem público.

‑           Diga‑me como é que a perda de uma filha única pode resultar num bem público, e eu dir‑lhe‑ei que você está louco ‑ disse Stuyvesant amargamente.

            Sem se sentir encorajado, mas reconhecendo a oportunidade esperada, Lindsay continuou:

            ‑           E se houvesse um modo de fazer que as pessoas se lembrassem do nome de Claudia Stuyvesant? E, simultaneamente, o abençoassem?

            ‑           Como? ‑ perguntou Stuyvesant de má vontade.

            ‑           Já alguma vez esteve na urgência do City Hospital?

            ‑           É claro que não!

            ‑           Devia lá ir uma noite destas para ver como o serviço está apinhado, como o pessoal está sufocado de trabalho e como as instalações estão velhas e deterioradas. E depois perceberia como um novo serviço de urgência podia beneficiar os pobres desta cidade e as outras pessoas que dele dependem.

            ‑           Harry, se está a tentar convencer‑me a fazer uma doação, tem o cheque amanhã. É só dizer a quantia.

            ‑           Dois milhões de dólares ‑ disse Lindsay em voz baixa.

            ‑           Dois milhões... ‑ repetiu Stuyvesant, espantado.

            ‑           a companhia de seguros está disposta a despender dois milhões de dólares com a sua acção. Se doar esse dinheiro ao City Hospital para o Serviço de Urgência Claudia Stuyvesant, o nome dela ficará para sempre gravado na memória das pessoas.

            ‑           Serviço Claudia Stuyvesant... ‑ disse Stuyvesant baixinho. Encheu novamente a chávena de café.

            ‑           Estou a sugerir que ponha para trás das costas este episódio tão triste da sua vida. Deixe que as pessoas se lembrem apenas que a morte de Claudia resultou num maravilhoso acto de caridade em benefício desta cidade.

            Stuyvesant tamborilou com os dedos na toalha engomada de linho branco e finalmente fez um aceno de cabeça.

            ‑           Combinado, Harry.

            ‑           óptimo! ‑ disse Lindsay, sentindo que cumprira a sua missão.

            ‑           Mas aquela médica... ‑ disse Stuyvesant.

            ‑           Ela também se encontra coberta pelo seguro do hospital. A companhia de seguros não vai aceitar meios‑termos.

            ‑           Não foi isso que eu quis dizer. Bolas, uma sentença de condenação por exercício negligente da medicina contra ela não vale o papel que se gasta. Eu quero é que a sua conduta no caso da minha filha seja julgada pelos próprios colegas! ‑ declarou Stuyvesant.

            ‑           Quer dizer pela comissão de deontologia?

‑           Os meus advogados já fizeram a queixa. Vou fazer tudo para que ela não possa exercer medicina!

            ‑           Não sei como é que o hospital vai reagir a isso.

            ‑           Ou me deixam fazer à mulher o que eu quiser, ou não haverá nenhum serviço Claudia Stuyvesant!

            Conhecendo Claude Stuyvesant há muitos anos, Harry Lindsay sabia que aquela era a sua última palavra.

            O DR. CummINS, Scott Van Cleve e o advogado da companhia de seguros estavam a ouvir o relato de Harry Lindsay do seu encontro com Claude Stuyvesant em torno da pequena mesa de reuniões no gabinete de Trumbuíl.

            ‑           Portanto, meus senhores, foi este o acordo. Dois milhões para o City Hospital para o serviço de urgência em memória de Claudia Stuyvesant.

            ‑           Trabalhou bem, Harry ‑ disse Trumbuíl. Voltou‑se para o advogado da companhia de seguros. ‑ O que é que vocês pensam disto?

            ‑           Temos muita sorte em resolver a coisa por essa soma ‑ confessou o advogado da companhia de seguros. ‑ Vou preparar os documentos.

            Scott Van Cleve interveio:

            ‑           O acordo também inclui a Dra. Kate, não inclui?

            ‑           Só no que diz respeito à acção judicial ‑ admitiu Lindsay. - Stuyvesant reserva‑se o direito de requerer que o caso seja levado à comissão de deontologia médica. Para dizer a verdade, ele até já apresentou a queixa.

            ‑           Ele não pode fazer um acordo por um lado e prosseguir com a sua vingança ‑ protestou Van Cleve. ‑ Não foi isso que eu propus na nossa última reunião. O acordo destinava‑se a resolver os problemas de toda a gente!

            Trumbuíl sentiu‑se obrigado a intervir.

            ‑           Van Cleve, legalmente, a obrigação que o nosso cliente, o City Hospital, tem para com a Dra. Katherine Forrester é defendê‑la em qualquer acção baseada em exercício negligente da medicina. Foi o que fizemos.

            ‑           Exactamente ‑ confirmou Cummins. ‑ Estamos dispostos a deixar que Katherine termine o contrato, que ainda é válido por dez meses, a menos que a comissão conclua que é culpada. Se isso acontecer, o contrato cessa automaticamente.

            ‑           Não sente nenhuma obrigação em relação a ela? Ela é uma jovem médica leal, dedicada e altamente competente, que só honra a sua profissão ‑ insistiu Van Cleve.

- É difícil dizer‑se que tenha sido uma honra para o nosso hospital neste caso ‑ replicou Cummins, corado de indignação

            Trumbuíl veio em seu auxílio.

            ‑           Van Cleve, não é você que tem de dirigir o City Hospital, mas sim o Dr. Cummins. Por isso, vamos acatar a sua decisão. Agora toca mas é a preparar os documentos do acordo antes que Stuyvesant mude de ideias.

            Após os apertos de mão de congratulações a Lindsay, a reunião foi encerrada. Quando todos iam a sair do gabinete Trumbuíl disse:

            ‑           Van Cleve, se não se importa, queria falar um minuto consigo.

            ‑           De que se trata? ‑ perguntou Scott, aproximando-se novamente da mesa de reuniões.

            ‑           É óbvio que está a agir emocionalmente neste caso da Kate

Forrester. Isso pode dever‑se ao facto de se dedicar sempre tanto a defender os oprimidos. Ou ‑ fez uma pausa antes de continuar - ou dever‑se-á ao seu interesse pessoal pela médica?

            O impulso de Van Cleve foi negá‑lo, mas a observação de Trumbuíl era suficientemente verdadeira para o manter calado.

            ‑           Bom, meu filho, não tenho nada a ver com a sua vida particular, mas quero falar consigo noutro nível. Quando o contratei para esta firma, ouvi‑o falar das suas sublimes ambições de trabalhar de borla para os clientes necessitados. E disse para comigo: "É um dos da nova leva, cheio de aspirações idealistas e grandiosas" Mas também pensei: "Depois de trabalhar nesta firma e ver outros jovens dedicarem-se ao direito comercial e ganharem três, quatro e cinco vezes mais do que ele, vai mudar. Mudam todos." Mas você é o único que não mudou. Nem sei dizer‑lhe quantas vezes já tive de o defender nas reuniões de sócios.

            ‑           Eu sempre cumpri a minha parte do acordo ‑ salientou Scott.

            ‑           Ninguém diz o contrário. Mas pensámos que ia amolecer. - Trumbuíl abanou a cabeça em vão. ‑ É por isso que vou ter de estabelecer os limites. Assim que estabelecermos o acordo com o Stuyvesant, a nossa responsabilidade para com a médica cessa.

            ‑           E isso significa que...?

            ‑           O inquérito da comissão de deontologia médica é um assunto puramente pessoal. Ela terá de tomar as devidas providências para se defender.

            E se eu insistir em continuar? ‑ perguntou Van Cleve.

            - Não será como membro da firma ‑ disse Trumbuíl com firmeza.

            Van Cleve não respondeu, limitou-se a acenar solenemente a cabeça e saiu.

SCOTe Van Cleve voltou para o seu pequeno e atulhado gabinete para ponderar sobre a escolha que Trumbuil lhe impusera.

            Pegou no telefone, marcou o número e disse:

            ‑           Sra. Doutora, tenho que falar consigo. Hoje à tarde, se for possível.

            ‑           Hoje à tarde? A que se deve a urgência? ‑ perguntou Kate.

            ‑           Não é assunto que se possa discutir ao telefone. Passo a buscá‑la no hospital às três.

            KATE atrasou‑se a sair do hospital. Scott Van Cleve andava de um lado para o outro no passeio em frente, ensaiando mentalmente a maneira menos dolorosa de lhe dar a notícia. Tinha a certeza de que, apesar do choque inicial, ela iria compreender o que acontecera. Talvez demorasse mais tempo a perceber por que razão ele decidira o que decidira, mas estava preparado para isso.

            Avistou‑a. Ela atravessou rapidamente a rua com um ar determinado, quase desafiador, apesar do sinal encarnado. Quando Kate se aproximou, o primeiro e inesperado impulso dele foi beijá‑la. Mas isso deitaria por terra tudo o que ali fora fazer.

- Oque é que aconteceu? ‑ perguntou Kate sem rodeios.

            ‑           Vamos para um sítio onde possamos conversar calmamente ‑ sugeriu ele. ‑ Está um dia lindo. O Central Park não é muito longe.

            ENTRARAM no parque, afastando‑se do barulho das buzinas dos automóveis, do chiar de pneus que travavam repentinamente. Embrenharam‑se tanto no parque que quase podiam alhear‑se da cidade que os rodeava.

            Ele levou‑a até a um banco protegido da intensidade do sol por um grande carvalho. Quando ela se sentou, ele começou:

            ‑           Não resultou.

            ‑           O que é que não resultou? ‑ perguntou Kate.

            Ele explicou‑lhe a sua estratégia bem delineada para afastar a hostilidade de Stuyvesant. O encontro de Lindsay com Stuyvesant. O modo como Stuyvesant reagira e concordara em doar todo o dinheiro que recebesse para a construção de um novo serviço de urgência.

            ‑           Então resultou às mil maravilhas ‑ comentou Kate. ‑ Porque é que está a dizer que não resultou?

            ‑           A parte que não resultou refere‑se a si ‑ admitiu Van Cleve.

‑ Stuyvesant insiste no inquérito da comissão de deontologia médica.

            Kate acenou, assimilando o triste facto, e depois disse:

‑           É claro que vamos ter de lutar contra ele!

            ‑           Teria sido melhor para si eu nunca ter sugerido o meu plano

‑ confessou Van Cleve. ‑ Antes havia uma convergência de interesses. A companhia de seguros, o hospital, a nossa firma de advogados, todos tinham tanto em risco como você. Mas agora eles estão de fora

            ‑           Estamos sozinhos ‑ disse Kate.

            ‑           O pior não é isso. Trumbuíl fez‑me um ultimato... ‑ começou Scott a explicar, mas não era preciso.

            ‑           Ou você abandona o meu caso ou sai da... ‑terminou Kate.

            Ele fez um aceno de cabeça afirmativo. Os olhos dela toldaram‑se. "Por favor, não chores", pensou Van Cleve.

            ‑           Será... será possível indicar‑me outro advogado? ‑ perguntou Kate.

            ‑           Ainda nem sequer tinha pensado nisso.

            ‑           Então, pense e diga‑me qualquer coisa.

            ‑           Ouça, queria pedir‑lhe desculpa ‑ deixou ele escapar.

            ‑           Não é preciso ‑ disse Kate. ‑ Tenho a certeza de que a sua intenção foi boa. Mas, afinal de contas, você também tem de proteger a sua carreira. Ninguém sabe melhor do que eu o que isso significa.

            ‑           Ouça ‑ implorou Van Cleve. ‑ Farei tudo o que puder. Posso aconselhá‑la a falar com o advogado que arranjar. Só não posso é ser o seu advogado, só isso.

            Kate não respondeu, levantou‑se e começou a andar.

            ‑           Espere, por favor! ‑ gritou ele. Ela parou, voltou‑se e fitou‑o. ‑ A culpa não é minha ‑ protestou ele. ‑ Será que nem sequer me deixa acompanhá‑la a casa?

            ‑           Preferia estar sozinha ‑ disse ela, depois virou as costas e foi‑se embora.

            "Será que é a última vez que a vejo?", pensou Scott, vendo‑a afastar‑se.

 

            ROSIE saíra para fazer a noite de banco no hospital. Kate estava sozinha já há algumas horas. Tinha feito uma sanduíche, mas não conseguira comê‑la. Tinha feito café e bebera café a mais. Andou de um lado para o outro na sala, a ponderar nas alternativas que se lhe punham, até achar que ia acabar por desgastar o tapete: um novo advogado? Dispendioso. Demasiado dispendioso, provavelmente. "Não posso permitir que o pai saiba. A primeira coisa que ele faria era vender mais terras. Mas isso é a herança de Clint. Não tenho o direito de lhe pedir mais nada. Para que é que eu preciso de um advogado? Porque é que não compareço perante a comissão sozinha? Conto‑lhes a verdade. Vão acreditar em mim. Têm de acreditar!"

            Mas acabou por cair na realidade; se fosse assim tão simples, porque é que a firma de Scott Van Cleve iria pensar que era um processo de tal forma complicado e moroso que o obrigara a abandonar o seu caso?

            Só sabia uma coisa. Era melhor tentar dormir um pouco. A falta de sono poderia roubar‑lhe as forças na altura em que mais precisava delas.

            Deitar‑se era uma coisa; mas conseguir dormir era outra. Adormeceu várias vezes, mas acordava logo passado pouco tempo, lembrando‑se da triste situação em que se encontrava.

            O telefone tocou. Procurou‑o às apalpadelas no escuro.

            ‑           Estou? ‑ disse ela.

            ‑           Doutora, passei grande parte da noite a pensar em hoje à tarde ‑ começou Van Cleve.

            ‑           E já descobriu o nome de um bom advogado para mim - disse Kate. ‑ Espere que eu vou buscar papel e lápis.

            Pouco depois, ele perguntou‑lhe:

            ‑           Já tem?

            ‑           Já.

            ‑           Preste bem atenção. Scott...Van... Cleve ‑ disse ele.

            Kate ficou espantada.

            ‑           Está ciente do que isso significa?

            ‑           Estou. Na minha carreira, isto será apenas uma interrupção. Mas para si pode significar a sua vida, a sua carreira. Se me quiser como seu advogado, quero começar a trabalhar já.

            ‑           Agora? Já passa da meia‑noite ‑ observou Kate.

            ‑           Eu sei. Mas se for para começar a trabalhar no caso amanhã de manhã, preciso de fazer‑lhe umas perguntas agora. Posso ir aí?

            ‑           É claro, venha ‑ disse ela.

            ‑           Vou já. Estou aqui na cabina telefónica da esquina ‑ disse ele, e desligou.

            Ela saltou da cama e foi direita à casa de banho para examinar o rosto e o cabelo ao espelho. Não tinha tempo para se maquilhar, mas podia modificar um pouco o aspecto desarranjado do cabelo. Mal começara a pentear‑se quando tocaram à campainha. Kate agarrou no roupão e ainda estava a vesti‑lo quando abriu a porta.

            Ele ficou parado uns instantes, de olhos fitos nela, antes de dizer:

            ‑           Está sempre assim tão bonita quando se levanta da cama?

            ‑           Sou obrigada a responder? ‑ replicou ela.

            ‑           Como seu advogado, tenho de saber tudo sobre si.

‑           Entre e pare de fazer figuras tristes ‑ disse ela, conseguindo finalmente rir. ‑ Já jantou?

            ‑           Estive a andar por aí a noite toda... como é que podia?

            ‑           Eu também não jantei. Vou arranjar qualquer coisa ‑ disse ela, dirigindo‑se à pequena cozinha.

            Conversaram enquanto ela fazia café, ovos mexidos, torradas e bacon. Ele sentou‑se num banco, admirando todos os gestos que ela fazia, mesmo os mais simples.

            Scott pediu a Kate que revisse detalhadamente o caso Stuyvesant em busca de algo por onde começar as suas investigações. Precisava principalmente de testemunhas cujo depoimento confirmasse os procedimentos seguidos por ela naquela noite. Quando acabaram de comer, Van Cleve concluíra que a sua melhor testemunha de defesa era Eric Briscoe.

            Já passava das 4 da manhã quando Scott se foi embora.

            HORAS depois, Scott Van Cleve virou da Quinta Avenida para a Rua Quarenta em direcção à Avenida Madison. Era um quarteirão de edifícios de escritórios ‑ uns velhos, outros novos. O edifício que Scott procurava, onde se situavam as instalações da comissão de deontologia médica em Nova iorque, era um dos mais velhos.

            Consultou as listas no átrio. Sob ESCRITÓRIO DA COMISSÃO DE DEONTOLOGIA MÉDICA DE NOVA IORQUE, viu o nome HOSKINS, ALBERT, ADVOGADO. Scott sabia que Hoskins ia ser o advogado de acusação no caso Kate Forrester.

            Scott entrou no velho elevador e carregou no botão do andar. O elevador começou a subir com um ligeiro solavanco. Ele saiu no andar que queria e encontrou uma recepcionista a escrever à máquina numa secretária atravancada.

            ‑           Dr. Hoskins, por favor? ‑ perguntou Scott.

            Sem parar de trabalhar, a recepcionista respondeu:

            ‑           Está numa reunião. Tem hora marcada?

            ‑           Não. Mas eu espero ‑ disse Scott.

            ‑           Qual é o seu nome, por favor?

            ‑           Scott Van Cleve. Sou advogado. Vim por causa de um caso que vai ser apreciado pela comissão. O caso da minha cliente, a Dra. Katherine Forrester.

            A rapariga parou imediatamente de escrever.

            ‑           Ah, esse! ‑ Inconscientemente, informara‑o da importância que todo o pessoal dava à queixa de Claude Stuyvesant. ‑ Sim, acho que é melhor esperar, Dr. Van Cleve.

            Passados alguns minutos, o telefone na secretária da recepcionista tocou e ela atendeu.

‑           Sim, Sr. Doutor, está aqui uma pessoa. É o Dr. Van Cleve. Diz que representa a Dra. Katherine Forrester.

            Ela desligou o telefone e apontou para o fundo do corredor, à esquerda.

            ‑           O gabinete do Dr. Hoskins é lá ao fundo.

            Scott encontrou Albert Hoskins sentado atrás de uma grande secretária repleta de dossiers. Hoskins era um homem corpulento que parecia mover‑se com dificuldade quando se levantou para estender a mão por cima da secretária.

            ‑           Dr. Van Cleve, não é? Bem, sente‑se, sente‑se. Esteja à vontade ‑ convidou Hoskins calorosamente.

            Demasiado calorosamente até, pensou Scott.

            ‑           Ora bem, queria falar comigo sobre o caso Forrester? ‑ perguntou Hoskins.

            ‑           Eu tenho conhecimento de que Claude Stuyvesant apresentou uma queixa contra a minha cliente. Também sei que, antes de haver qualquer inquérito, o vosso primeiro passo será formar uma comissão de inquérito.

            ‑           A fim de proteger os médicos inocentes e as suas reputações, a comissão estuda todos os registos clínicos e consulta peritos médicos. Se for considerado que a queixa não tem fundamento, damos logo o assunto por encerrado.

            ‑           É exactamente por iSSO que aqui estou ‑ replicou Scott. - Pelo que a Dra. Katherine Forrester me disse, fiquei plenamente convencido de que todos os passos por ela dados se coadunam com os mais elevados padrões do exercício da medicina. Estou certo de que o Dr. Briscoe irá corroborar tudo aquilo que a Dra. Katherine Forrester me disse. Queria que me desse a sua palavra de que, quando isso acontecer, o assunto será encerrado, por forma que nem a reputação nem a carreira da Dra. Katherine Forrester venham a ser mais prejudicadas ainda.

            ‑           Com que então quer a minha palavra, não é? ‑ replicou Hoskins. ‑ Pois bem, Dr. Van Cleve, lamento dizer‑lhe que a ficha da doente, o material de apoio e as opiniões de vários peritos médicos já foram entregues a uma comissão de inquérito.

            ‑           Agem sempre assim tão rapidamente? ‑ perguntou Scott.

            Um ligeiro rubor subiu às faces carnudas de Hoskins.

            ‑           Tratamos de todos os casos com rapidez e profundidade.

            ‑           Mesmo quando o queixoso não é Claude Stuyvesant?

            O rubor acentuou‑se.

            ‑           Dr. Van Cleve, se está a acusar esta comissão de ceder a pressões políticas, posso pedir que o impeçam de representar seja quem for perante esta comissão!

Scott percebeu que era inútil insistir no assunto.

            ‑           Vejo que não temos mais nada a discutir.

            ‑           Concordo consigo ‑ disse Hoskins. ‑ Mas já que aqui está, podia fazer‑me um favor.

            ‑           Qual é? ‑ perguntou Scott, desconfiado.

            Hoskins entregou‑lhe um documento oficial. Scott hesitou, depois pegou nele. Era um aviso dirigido a Katherine Forrester para comparecer perante a comissão de deontologia médica. Em anexo vinha o relatório da acusação.

‑ Pode poupar‑me o trabalho de entregar isto à sua cliente.

 

LIONEL Trumbuíl, ainda cheio de esperanças de conseguir convencer o seu protegido a pensar como ele, persuadira os seus sócios a permitirem que Scott utilizasse o escritório enquanto preparava a defesa de Kate Forrester. Isso não incluía, no entanto, a utilização de outros serviços, como, por exemplo, os dos investigadores contratados pela firma. Scott viu‑se, portanto, obrigado a fazer esse trabalho.

            O tempo também era um factor de pressão. A audiência de Kate Forrester estava marcada para dali a duas semanas, por isso Scott tinha muito pouco tempo para entrevistar potenciais testemunhas e formular a sua defesa.

            A primeira testemunha tinha de ser, a todo o custo, o Dr. Eric Briscoe. Scott teve de esperar quase uma hora no gabinete de Briscoe até o jovem cirurgião entrar finalmente, apressado, pedindo desculpas.

            ‑           Desculpe, mas estive a ajudar a uma ressecção do cólon.

            Quando Scott se levantou para lhe apertar a mão, Briscoe disse‑lhe:

            ‑           Por favor, não se incomode. ‑ Sentou‑se atrás da sua secretária, depois continuou: ‑ Eu quero fazer tudo o que for possível pela Kate. Ela é uma médica excelente. Odeio vê‑la metida nesta confusão. Sabe, isto é o tipo de coisa que podia ter acontecido a qualquer um de nós.

            ‑           Agrada‑me ouvi‑lo dizer isso, Sr. Doutor, porque por enquanto essa é a melhor teoria de defesa que posso utilizar: a de que qualquer médico teria feito exactamente a mesma coisa que Kate Forrester fez.

            Briscoe acenou com firmeza, mas acrescentou:

            ‑           Dr. Van Cleve, vou ter de assistir um dos cirurgiões cá do hospital numa extracção complicada, por isso espero que a nossa conversa não demore muito tempo.

            ‑           Só preciso de ficar com uma ideia do que vai dizer quando for depor no inquérito.

            ‑           Depor? Você... você quer que eu vá depor? ‑ perguntou Briscoe.

            ‑           A versão da Dra. Kate obviamente não será considerada isenta, por isso necessitamos de corroboração. Quem melhor do que o senhor para o fazer? O Sr. Doutor estava lá. O Sr. Doutor examinou a doente.

            Briscoe fez um aceno de cabeça, mas mostrou‑se notoriamente mais reservado.

            ‑           Dr. Briscoe, a questão crucial é a seguinte: se lhe apresentassem os resultados laboratoriais, os sintomas e sinais da doente tal como foram observados pela Dra. Kate, a sua opinião profissional seria a de que o tratamento por ela seguido foi o apropriado?

            ‑           Ela agiu bem. Isto é... ‑ Briscoe parecia não conseguir encontrar as palavras certas.

            ‑           Dr. Briscoe, permita‑me que lhe faça a pergunta de outra maneira: Kate Forrester agiu como uma boa profissional dadas as circunstâncias? ‑ Perante a hesitação de Briscoe, Scott insistiu: - Não deve ser assim tão difícil de responder. É claro que durante a inquirição a pergunta será feita em termos mais jurídicos.

            ‑           Dr. Van Cleve, quando me telefonou, pensei que só quisesse obter informações. Mas depor como testemunha... eu nunca servi de testemunha na minha vida.

            Consciente da crescente relutância de Briscoe, Scott foi obrigado a adoptar uma nova estratégia.

            ‑           Por enquanto, vamos esquecer o depoimento, responda‑me só a algumas perguntas. ‑ Tirou o bloco‑notas amarelo da pasta. Ora vejamos, quando a Dra. Kate o chamou, o senhor considerou que era uma conduta normal, razoável, cautelosa, por parte de uma residente de serviço na urgência?

            ‑           Bom... ah, sim. Considerei razoável. Com aqueles resultados laboratoriais, os sinais vitais da doente, e atendendo a que ela não conseguia chegar a um diagnóstico preciso, e... ah... normal chamar um cirurgião para determinar se é ou não necessária uma intervenção cirúrgica ‑ concordou Briscoe.

            ‑           E qual foi a sua opinião? ‑ perguntou imediatamente Scott.

            ‑           Bom, tem de compreender que a minha opinião foi em grande parte condicionada pelo que a Dra. Kate me dissera. Quando me dizem que a doente não é sexualmente activa, que não teve nenhuma falta menstrual, eu não suspeito de uma gravidez ectópica.

Scott apercebeu‑se de que Eric Briscoe tinha como intenção proteger‑se de qualquer envolvimento.

            - Mas examinou Claudia Stuyvesant naquela noite, não examinou, Sr. Doutor?

            ‑           Examinei - respondeu Briscoe rispidamente.

            ‑           Durante esse exame, descobriu alguma coisa que indicasse o estado da jovem?

            ‑           Eu fiz o meu exame baseado num determinado conjunto de factos. Confiei nos resultados dos exames da Dra. Kate.

            ‑           A Dra. Kate não estava a agir baseada no mesmo conjunto de factos, sendo as conclusões profissionais dela idênticas às suas?

            A preocupação de Briscoe emergiu numa onda de rubor nas faces.

            ‑           Ouça, Dr. Van Cleve, eu não sou acusado de nada e não tenciono vir a sê‑lo! Vou terminar o meu contrato no City Hospital, vou sair daqui com uma boa reputação e regresso ao Cobrado para formar uma sociedade com umas pessoas que estão à minha espera.

            Scott ficou a olhar para Briscoe durante um bom bocado.

            ‑           Alguém o aconselhou a não cooperar com a minha investigação?

            ‑           Não. Ninguém ‑ afirmou Briscoe após uma hesitação.

            Scott percebeu que Briscoe estava a mentir. Mas confrontá‑lo não ia servir de nada e indicar uma testemunha tão relutante seria um desastre completo. Seria possível que Claude Stuyvesant tivesse conseguido silenciá‑lo através de influências ou até de ameaças?

            Scott enfiou o bloco‑notas amarelo na pasta, dizendo:

            ‑           Muito obrigado pelo seu tempo, Dr. Briscoe.

            NÃo TENDO conseguido a cooperação nem a corroboração do Dr. Briscoe, Scott Van Cleve decidiu consultar vários médicos especialistas de obstetrícia e ginecologia. No decorrer de cada uma das entrevistas, Scott avaliava o potencial do médico como testemunha de defesa ‑ desde que, obviamente, o médico se mostrasse disposto a ser testemunha.

            O primeiro médico com quem falou foi Stephen Willows. Willows estava perto dos sessenta anos, tinha cabelo branco e óculos e um ar eficiente. Uma testemunha ideal, concluiu Scott.

            Willows interrompeu os apontamentos que fazia na ficha de um doente e levantou os olhos, dizendo:

            ‑ Diga, jovem. Você é o advogado que tentou falar comigo ontem pelo telefone?

            ‑           Sou, Sr. Doutor. O assunto é um inquérito da comissão de deontologia médica.

‑           Ah, uma coisa dessas ‑ observou Willows.

            ‑           É verdade, uma coisa dessas. E, neste caso, injustificada.

            ‑           Isso é o que os advogados normalmente dizem. ‑ A seguir a este comentário, Willows avisou: ‑ Não sou testemunha profissional. Para dizer a verdade, a única vez que depus num tribunal foi contra um médico.

            ‑           Mesmo assim, gostava de ouvir a sua opinião.

            ‑           Então, diga lá ‑ pediu Willows.

            Quando Scott acabou de fazer o resumo dos acontecimentos, com base no que Kate lhe dissera e na ficha de Claudia Stuyvesant, Willows pareceu ficar muito pensativo.

            ‑           Se lá estivesse naquela noite, perante este mesmo caso, qual seria a sua conclusão, Sr. Doutor?

            ‑           Diagnosticaria uma simples gastrenterite.

            ‑           E não uma gravidez ectópica? ‑ perguntou Scott.

            ‑           As ectópicas são difíceis de diagnosticar. São poucas as que apresentam sintomas idênticos ‑ disse Willows.

            ‑           Portanto, na sua opinião, o que a minha cliente fez naquela noite seria considerado um correcto desempenho profissional?

            ‑           Agora está a falar como um advogado a tentar seduzir‑me a depor ‑ comentou Willows. ‑ Eu não vou depor, mas, na minha opinião, essa médica, seja ela quem for, fez o que a maior parte dos bons médicos teria feito nas mesmas circunstâncias.

            ‑           Se a doente fosse toxicodependente, haveria alguma diferença?

            ‑           Oh, é claro! ‑ exclamou Willows. ‑ Isso teria de certeza dissimulado o grau e extensão da sua doença.

            ‑           Dr. Willows, sabendo que é a carreira de uma jovem médica que está em jogo, não poderia reconsiderar e depor? ‑ perguntou Scott.

            ‑           Nos tempos que vão correndo, quanto menos um médico se envolver em problemas legais, melhor. Lamento. Diga à médica que eu desejo sinceramente que ela saia disto com a sua reputação intacta.

            SCOTT Van Cleve não teve mais sorte ao tentar obter a cooperação dos outros especialistas com quem falou. Mas de uma coisa ficou convencido: o facto de Claudia Stuyvesant ser ou não toxicodependente podia ser crucial para a defesa de Kate.

            QUANDO Scott apareceu na antecâmara do consultório do médico legista dizendo que desejava falar com ele sobre o caso Stuyvesant, a recepcionista achou que ele era um jornalista.

‑           Lamento muito, mas todas as informações sobre o caso Stuyvesant são confidenciais. O Dr. Schwartzman não recebe ninguém que deseje discutir o caso.

            Só quando Scott ameaçou recorrer a um mandado judicial para ter acesso ao relatório da autópsia de Claudia Stuyvesant é que foi recebido pelo médico legista.

            O Dr. Abner Schwartzman estava ao telefone a discutir com um funcionário público insistente quando mandaram entrar Van Cleve. Esta circunstância deu ao jovem advogado a oportunidade de o examinar. Era um homem baixo, mas suficientemente forte para encher a sua cadeira giratória, que rangia, e bastante agressivo e argumentativo.

            ‑           Discorda do nosso relatório? ‑ urrou Schwartzman ao telefone, fazendo sinal a Scott para que se sentasse. ‑ Então, chamem vocês um médico legista! ‑ Escutou durante instantes, depois terminou a conversa com um ríspido: ‑ Vemo‑nos no tribunal!

            Desligou e girou a cadeira de modo a ficar de frente para Scott Van Cleve.

            ‑           Então, meu jovem, qual é a sua queixa?

            ‑           Sou advogado e estou aqui para indagar sobre o relatório do caso Claudia Stuyvesant.

            ‑           O relatório já foi tornado público ‑ disse o médico num tom áspero, como se aquilo encerrasse o assunto.

            ‑           Ao que sei, foi mesmo o senhor quem fez a autópsia.

            ‑           Fui. Tudo o que descobri consta do relatório ‑ explicou o homem.

            ‑           Não havia nada no seu relatório sobre os resultados da pesquisa de resíduos tóxicos ‑ salientou Scott.

            ‑           Eu não fiz essa pesquisa ‑ disse Schwartzman. ‑ Uma vez descoberta a causa da morte, não era necessário continuar.

            ‑           Não era necessário? Ou ia contra as ordens que recebeu? perguntou Scott.

            ‑           Ouça lá, se está a confundir uma "cortesia" para com Mr. Stuyvesant com uma manobra de camuflagem, está muito enganado.

            ‑           O que entende exactamente por "uma cortesia", Sr. Doutor?

            ‑           O mayor contactou‑me, e eu acedi ao pedido de Mr. Stuyvesant para que a autópsia fosse feita por mim pessoalmente e para que os resultados só fossem divulgados após o funeral da filha. É um pedido razoável, tem de admitir.

            ‑           Pode ao menos dizer‑me... se o corpo for exumado, ainda poderão detectar‑se vestígios de drogas? ‑ perguntou Scott.

            ‑           Neste caso, não ‑ disse Schwartzman. ‑ Assim que terminei a autópsia, o corpo foi levado por um carro de um crematório de Long Island.

            Scott lembrou‑se repentinamente do que o carregador do caixão lhe respondera quando ele lhe fizera a tal pergunta: "Era muito mais leve do que eu esperava."

            ‑           PENSE ‑ insistiu Scott. ‑ Existe alguma coisa que um médico possa observar que constitua prova de que o doente é toxicodependente sem a confirmação de uma pesquisa de resíduos tóxicos ou de qualquer outra análise laboratorial?

            ‑           Depende da droga. Ou drogas ‑ disse Kate. ‑ Por exemplo, a cocaína pode provocar náusea e vómitos. E também excitação seguida de depressão, suores, ansiedade.

            ‑           E Claudia apresentava todos esses sinais ‑ lembrou‑lhe Scott. ‑ Poderia declarar sob juramento que os sinais e sintomas que Claudia apresentava eram os provocados pela cocaína?

            Kate hesitou, depois abanou a cabeça.

            ‑           Honestamente? Não.

            ‑           Precisamos dessa prova, precisamos mesmo muito ‑ salientou Scott. ‑ Parte da nossa defesa reside no facto de você ter sido enganada por um falso resultado do teste de gravidez, mas a outra parte reside na impossibilidade de se chegar a um diagnóstico correcto pelo facto de a doente ser toxicodependente. Agora, como é que vamos conseguir prová‑lo?

            ‑           O médico dela deve saber ‑, disse Kate. ‑ O tal Dr. Eaves que Mrs. Stuyvesant mencionou. É claro que pode não querer falar.

            ‑           Vamos ver ‑ disse Scott. Tinha lá as suas ideias.

            O         CONSULTÓRIO do Dr. Wilfred Eaves ocupava todo o rés‑do‑chão de um dos edifícios mais prestigiados de Park Avenue. O consultório era dirigido com bastante eficiência por um funcionário administrativo e quatro enfermeiras.

            Quando entrou na sala de consultas do Dr. Eaves, Scott Van Cleve já estava bastante impressionado. Dado que muitos dos novos doentes do Dr. Eaves vinham indicados por outros colegas, o médico perguntou-lhe imediatamente:

            ‑           Trouxe consigo radiografias, ecografias ou ressonância nuclear magnética?

            ‑           Não estou aqui na qualidade de doente. Sou advogado.

            Eaves empurrou a cadeira para trás e levantou‑se.

            ‑           Se tem alguma queixa ou acusação a fazer por exercício negligente da medicina, faça favor de falar com o meu advogado. Agora, saia!

Scott permaneceu sentado.

            ‑           Dr. Eaves, não vim queixar‑me nem fazer quaisquer acusações. Vim obter informações relacionadas com o caso de uma jovem médica que tem de se defender de queixas apresentadas à Ordem dos Médicos.

            ‑           Está a falar da Dra. Katherine Forrester, presumo.

            ‑           Estou. Como foi médico de Claudia Stuyvesant durante grande parte da vida dela, o senhor deve saber: ela era toxicodependente ou consumia habitualmente drogas?

            ‑           Não posso responder a perguntas relacionadas com nenhum dos meus doentes ‑ respondeu Eaves bruscamente.

            ‑           Se eu o indiciar, terá de comparecer e depor.

            ‑           E pode ter a certeza de que vou apoiar‑me no dever que assiste aos médicos de não revelarem informações confidenciais sobre os seus doentes.

            ‑           A doente já morreu. A invocação desse dever pode já não ser válida ‑ disse Scott.

            ‑           Deixarei essa decisão ao presidente da comissão de inquérito

‑ retorquiu Eaves. ‑ Bom, Dr. Van Cleve, eu sou um homem muito ocupado.

            ‑           Sim, é claro ‑ disse Scott. ‑ Obrigado pelo tempo que me dispensou.

            Assim que Scott Van Cleve saiu da sala, Eaves pegou no telefone.

            ‑           Ms. Berk, ligue‑me para Mr. Claude Stuyvesant.

            SCOTT Van Cleve tinha a certeza de uma coisa: Eaves agira como um homem que guardava um segredo. Já não lhe restavam dúvidas sobre a toxicodependência de Claudia Stuyvesant. Do que precisava agora era de provas. Munido da última morada conhecida de Claudia, Scott procurou o apartamento dela na zona de Greenwich Village, em Manhattan.

            No pequeno átrio de entrada, Scott consultou os doze nomes ao lado dos botões de campainha. Seria provavelmente inútil tocar à campainha ao lado do nome STUYVESANT, C- Mas também não perdia nada em fazê‑lo. Para seu espanto, a porta abriu‑se. Ele entrou e subiu as escadas escuras. Subira dois andares quando deparou com uma mulher debruçada no corrimão a olhar para baixo, para ele.

            Era magra, tinha cinquenta e muitos anos e cabelo escuro mas já grisalho e estava obviamente na defensiva e bastante desconfiada de alguém que tocara à campainha de uma inquilina que morrera.

            ‑           O que deseja? ‑ perguntou ela.

            ‑           Chamo‑me Scott Van Cleve. ‑ Scott já se encontrava nessa altura no terceiro andar, frente a frente com a mulher. ‑ Sou advogado e represento

            Mesmo antes de ter pronunciado o nome da sua cliente, a mulher disse:

            ‑           Não sei de nada. Estava a inspeccionar o apartamento para ver se precisava de ser pintado antes de o alugar outra vez.

            ‑           Importa‑se que eu dê apenas uma vista de olhos? ‑ perguntou Scott. ‑ Prometo que não toco em nada.

            ‑           Bem ‑ disse matreiramente a mulher ‑, se é só para dar uma vista de olhos... embora não haja nada para ver, faça favor. ‑ Afastou‑se da porta aberta atrás dela.

            As palavras dela redobraram de significado quando Scott entrou no apartamento de uma só assoalhada. Estava completamente vazio: não havia mobília, nem espelho na parede, nem vestígios de roupa no armário vazio. Era como se ninguém lá vivesse há muito tempo.

            ‑           Nada, mesmo nada ‑ disse Scott em voz baixa. ‑ Normalmente, quando alguém morre

            A mulher antecipou‑se‑lhe.

            ‑           Neste caso, nada foi normal. A pobre rapariga morreu no domingo de manhã e segunda‑feira à tarde apareceram dois homens das mudanças que traziam um papel qualquer com aspecto oficial. Esvaziaram o apartamento. Levaram tudo, incluindo a roupa dele.

            ‑           Diga‑me, quem era "ele"?

            ‑           Vivia aqui com ela. Ela chamava‑lhe Rick. Claro que ficou danado quando descobriu que tinham levado as coisas dele juntamente com as dela.

            ‑           Rick ‑ repetiu Scott. ‑ Não sabe o apelido?

            ‑           Thomas, creio eu. Rick Thomas ‑ disse a mulher.

            ‑           Sabe alguma coisa sobre ele? Como é que ganhava a vida? Quais eram os seus hábitos?

            ‑           Cá para mim, ele só tinha um hábito ‑ respondeu a mulher, dando ênfase à última palavra.

            ‑           Drogava‑se? ‑ perguntou Scott.

            ‑           Eu conheço os sinais ‑ declarou a mulher.

            ‑           E ela? Também se drogava?

            ‑           Não gosto de falar dos inquilinos ‑ respondeu ela com tanta determinação que Scott percebeu que tinha de passar adiante.

            ‑           Esse Rick... Será que pode descrever‑mo?

            ‑           Deixe‑me ver ‑ disse ela. ‑ Tem a pele muito morena talvez como os Italianos. Tem vinte e poucos anos, é alto e exageradamente magro. Usava o cabelo comprido, num rabo‑de‑cavalo. Ajuda?

- É melhor que nada ‑ disse Scott, pensativo. ‑ Vou dar‑lhe cartão. Se ele cá voltar, peça‑lhe para me telefonar.

            ‑           Ele não volta ‑ disse a mulher. ‑ Mas se voltar, eu digo‑lhe.

            ‑           É importante. A carreira de uma médica pode depender disso ‑      disse Scott.

 

ROSIE CHUNG estava a vestir‑se para ir entrar de banco à noite quando Kate voltou do seu dia de trabalho no gabinete do Dr. Troy. Rosie gritou‑lhe do quarto:

            ‑           Kate, o teu advogado telefonou.

            Kate correu até à porta do quarto de Rosie.

            ‑           O que é que ele disse?

            ‑           Disse para ires ter com ele ao cruzamento da Rua Oito com a Quinta Avenida hoje, às nove da noite ‑ respondeu Rosie. ‑ E disse para levares roupa quente e sapatos resistentes e confortáveis.

            ‑           O que quererá isso dizer? Ele disse‑te porque é que queria encontrar-se comigo hoje à noite?

            ‑           Não ‑ respondeu Rosie. ‑ Mas digo‑te uma coisa, ele tem uma voz linda. O aspecto físico corresponde?

            ‑           E que tipo de voz é essa? ‑ perguntou Kate.

            ‑           Imagino que seja um belo exemplar, tipo Spencer Tracy. Bem constituído, um metro e setenta

            ‑           Um metro e oitenta e cinco ‑ interrompeu Kate. ‑ E muito magro.

            ‑           E louro. Um típico americano louro.

            ‑           Moreno ‑ contradisse Kate. ‑ O cabelo dele é castanho.

            ‑           Bem ‑ insistiu Rosie ‑, com uma voz daquelas tem de ser bem‑parecido, educado e atraente.

            ‑           Feições grosseiras ‑ corrigiu Kate mais uma vez.

            ‑           Feições grosseiras? ‑ repetiu Rosie, surpreendida ‑ Imaginava‑o com uma covinha no queixo, tipo Cary Grant.

            ‑           Não tem covinha, mas é simpático. E... digamos, dedicado.

            ‑           Dedicado? ‑ Rosie afastou‑se do espelho, cheia de curiosidade. ‑ Queres dizer que existe alguma coisa entre vocês os dois, para além de conselhos jurídicos?

            ‑           Quero dizer dedicado ao trabalho. Ao meu caso.

            ‑           Oh! ‑ disse Rosie, visivelmente desapontada. ‑ Tem voz de namorado ideal. ‑ Antes de Kate ter tempo de comentar, Rosie afirmou: ‑ Tenho que me despachar. ‑ Abraçou Kate, dizendo: - Não te atrases. Van Cleve disse às nove horas. ‑ Dirigiu-se para a porta, gritando: ‑ Não lhe digas que eu o imaginava completamente diferente.

 

                        KATE FORRESTER saiu da estação de metropolitano da Rua Quatro vestindo um casaco quente e calçando um par de sapatos castanhos resistentes, próprios para andar. Percorreu a rua escura, ainda húmida da chuva primaveril que caíra ao princípio da noite, em direcção ao cruzamento indicado.

                        Avistou Van Cleve de pé sob o candeeiro. Alto como era e vestido com um grosso impermeável assertoado, era uma personagem intrigante que podia ter saído de um romance ou filme policiais.

                        Depois de se cumprimentarem, ele estava tão absorvido pelo seu plano que partiu do princípio de que ela sabia mais do que na realidade sabia.

                        ‑           Rick. Chama‑se Rick Thomas.

                        ‑           Quem? ‑ perguntou Kate.

                        ‑           O homem com quem Claudia vivia. O homem que você viu no funeral. Agora resta saber se seria capaz de o reconhecer se o visse novamente.

                        ‑           Acho que sim. Se o visse outra vez. Consegue arranjar isso?

                        ‑           É isso que vamos tentar esta noite. Vamos embora.

                        ‑           Rabo‑de‑cavalo, rosto pálido e magro, moreno, de jeans. Não se pode dizer que sejam características raras nestas bandas de Nova iorque.

                        ‑           Falei com Dan Farrell, um inspector da Polícia, já reformado, que faz investigações para a firma de advogados. Deu‑me uns conselhos sobre como descobrir um homem cuja morada se desconhece e do qual só temos o nome e uma descrição geral.

                        ‑           E como é?

                        ‑           Farreli diz que algures numa esquina, não longe do sítio onde eles viviam, há um traficante que costumava vender droga a Rick e a Claudia. Com o desaparecimento dela, Rick já não tem onde ir buscar dinheiro e vai bater os traficantes que o conhecem para o fornecerem a crédito. Aqueles que não o conhecem não lhe fiam. FarreIl disse‑me: "Se descobrires o tal traficante, descobres esse Rick Thomas."

                        ‑           E você descobriu‑o?

                        ‑           Acho que sim ‑ disse Van Cleve. ‑ Falei com todos os traficantes aqui das redondezas. É claro que todos eles negaram conhecer alguém chamado Rick ou Thomas. Excepto um, ou melhor, ele também negou, mas percebi que estava a mentir. É esse que vamos vigiar na esperança de que Rick tente comprar droga hoje à noite.

                        Chegaram à esquina que Van Cleve escolhera. Ele fez sinal a Kate para descer os três degraus que davam acesso à zona aberta à frente da cave de um prédio de onde podiam vigiar um homem que estava de pé, sozinho, sob a luz de um candeeiro.

            Foram vários os carros desportivos caros que encostaram e pararam só o tempo suficiente para o condutor entregar dinheiro ao traficante e receber uns envelopes pequenos. Vários clientes aproximaram‑se a pé para efectuar o mesmo tipo de transacção. Sempre que o cliente era um rapaz solitário, Van Cleve sussurrava insistentemente:

            ‑           E aquele?

            Kate observava então o rapaz sob a luz do candeeiro, e era sempre forçada a responder:

            - Não.

            Passado um bocado, Van Cleve murmurou:

            ‑ Se quando eu andava na faculdade de direito alguém me tivesse dito que iria acabar por vigiar uma pessoa numa noite húmida em Greenwich Vilíage, teria dito que esse alguém era louco. Devia ter ficado em Shenandoah.

            - Shenandoah? perguntou Kate.

            ‑           É o nome da cidade de onde eu sou. Uma pequena cidade na Pensilvânia. Mas desde miúdo que acalentava o sonho de ser advogado e vir para Nova iorque. Acho que a maior parte dos miúdos sonha em conquistar a grande cidade. Você também, é claro.

            ‑           É aqui que se pratica a melhor medicina do Mundo ‑ disse Kate. ‑ Por isso, vim aprender. E acabei por me sentir traída, ofendida e magoada.

            ‑           Eu sei como se sente ‑ disse Van Cleve.

            ‑           Não sabe, não. Ninguém sabe, a não ser que lhe aconteça a mesma coisa.

            ‑           Como é que acha que se sente uma pessoa que vai trabalhar para uma grande firma de advogados com a promessa expressa de que lhe será permitido dedicar parte do seu tempo a pessoas que precisam de ajuda, mas não têm dinheiro para pagar, e que depois, por cumprir o combinado, a firma lhe diz que está despedido? Talvez tenhamos mais em comum do que qualquer um de nós pensa.

            Começou a chover um pouco. Kate trazia um casaco de tweed, e não uma gabardina. Van Cleve começou a desabotoar o seu impermeável para lho oferecer, mas ela recusou.

            ‑           Cabemos aqui os dois ‑ disse ele, abrindo o casaco e rodeando‑a com parte da gabardina, de modo a protegê‑la. ‑ Está melhor assim?

            ‑           Estou ‑ disse Kate, embora não se sentisse à vontade tão perto de um homem que afinal mal conhecia.

ESTIVERAM de sentinela, em pé, durante mais de três horas. Os clientes vinham a pé ou de carro, faziam a sua compra furtiva e iam‑se logo embora. Alguns pareciam‑se com Rick Thomas, mas só superficialmente como, por exemplo, na indumentária ou no penteado.

            Kate esticou o braço para fora da gabardina de Scott para ver como estava o tempo.

            ‑           Já parou de chover ‑ disse ela.

            Van Cleve, com certa relutância, abriu o impermeável para a libertar. Ele sentia‑se pouco à vontade e precisava de falar para disfarçar o embaraço.

            ‑           A sua família... Disse‑me que o seu pai era agricultor. O que é que ele cultiva?

            ‑           Milho ‑ explicou Kate. ‑ Soja. Algum trigo.

            ‑           É uma vida difícil?

            ‑           Não é fácil, mas dá uma grande satisfação. Arar, semear, jogar com as condições atmosféricas e cuidar da plantação até à colheita; parar no meio de um campo de milho e vê‑lo mais alto que nós... faz que uma pessoa se sinta verdadeiramente realizada.

            ‑           Gosta muito do seu pai.

            ‑           Gosto e admiro ‑ confirmou Kate. ‑ É um homem bom. Um bom pai. Um bom marido. E contribui com alguma coisa para este mundo. Nesta civilização em que vivemos onde o que conta é O dinheiro, isso é muito importante para mim.

            ‑           E o que é que pensa dos advogados? ‑ perguntou ele.

            ‑           Acho que são necessários ‑ admitiu Kate.

            ‑           Só isso? A imagem de um advogado no meio de uma biblioteca com uma pilha de livros de direito mais alta que ele não lhe dá a mesma sensação de realização ‑ concluiu Van Cleve ironicamente.

            Ela voltou‑se para fitar os olhos cinzentos dele. O brilho que detectou neles confirmou a sua suspeita de que estava a brincar.

            ‑           E o seu pai ‑ disse Kate. ‑ Nunca me disse o que é que ele faz.

            ‑           Fazia ‑ corrigiu ele.

            ‑           Ah, desculpe ‑ disse Kate. ‑ O que é que aconteceu?

            ‑           Era maquinista dos caminhos de ferro no troço que ia dar às fábricas de aço nos arredores de Pittsburgh. Uma noite, quando ia fazer uma curva, descarrilou. Ia depressa demais, segundo disseram os peritos dos caminhos de ferro.

            ‑           Ah, lamento muito ‑ compadeceu‑se Kate. ‑ Quantos anos é que você tinha?

            ‑           Sete.

‑           Como é que a sua mãe se desenvencilhou? O que é que ela fez?

            ‑           Graças aos homens da equipa dele, recebeu a pensão.

            ‑           O que quer dizer com isso? ‑ perguntou Kate.

            ‑           Mantiveram a boca calada. O meu pai estava bêbado naquela noite ‑ disse Scott, hesitando antes de admitir. ‑ Estava bêbado quase todas as noites. Se isso se tivesse sabido, talvez não tivesse havido pensão.

            ‑           Só tinha sete anos e já sabia ‑ comentou Kate num tom triste.

            ‑           Sempre soube desde que me lembro de existir. A maneira como ele tratava a minha mãe.. Gritava‑lhe sempre que ela lhe implorava que bebesse menos e batia‑lhe. Uma vez, quando tentei impedi‑lo, ele bateu‑me com tanta força que fui de encontro à parede do outro lado da sala. Quando voltei a mim, estava no colo dela. Embalava‑me sentada no chão a chorar.

            ‑           Mas que recordações tão trágicas para se ter de um pai - disse Kate baixinho. ‑ Isso ainda o atormenta, não é?

            ‑           Pois é, principalmente porque é a primeira vez que falo - Mas interrompeu abruptamente o que ia a dizer, exclamando: - Olhe!

            Kate olhou para o outro lado da rua, onde o traficante estava a ser abordado por outro cliente: um rapaz terrivelmente magro, de jeans, rabo‑de‑cavalo, moreno.

            ‑           É ele? ‑ sussurrou Van Cleve.

            - Acho que sim ‑ sussurrou Kate por sua vez.

            Van Cleve saltou imediatamente do esconderijo e atravessou o beco húmido, gritando:

            ‑           Rick! Rick Thomas! ‑ O suspeito voltou‑se, viu Van Cleve e desatou a fugir rua fora, com Kate e Scott no seu encalço. Acabou por enfiar o pé num buraco, tropeçou e estatelou‑se na sarjeta, deixando cair os preciosos envelopes transparentes. Antes de conseguir levantar‑se, já Van Cleve estava em cima dele, imobilizando-o contra o pavimento molhado, torcendo-lhe o braço por detrás das costas.

            ‑           Ouve lá, pá, és doido? Eu não sou o Rick Thomas.

            Van Cleve levantou‑o e arrastou‑o até à luz do candeeiro mais próximo para que Kate pudesse olhar bem para ele.

            ‑           Muito bem, Sra. Doutora, é ele ou não?

            Kate olhou para o rosto apavorado do

rapaz. Queria acabar com aquilo, mas foi forçada a admitir:

‑           Não, não é.

            Van Cleve largou o braço do rapaz e libertou‑o, proferindo um embaraçado e nada apropriado:

‑           Desculpe.

            ‑           És completamente doido, meu! ‑ lançou o rapaz, cheio de raiva. ‑ Onde é que eles estão? Onde é que estão os meus envelopes? ‑ Atirou‑se para o chão e pôs‑se de gatas a vasculhar a sarjeta.

            Van Cleve olhava‑o, abanando a cabeça.

            ‑           A droga transformou‑o num animal. Olhe para ele. Isto enoja‑me!

            Desapontados, Van Cleve e Kate dirigiram‑se novamente ao posto de vigia, mas, antes de lá chegarem, o traficante barrou‑lhes a passagem. Scott estava preparado para um ataque físico. Kate receou que o homem estivesse armado e esperava que Scott não resistisse.

            ‑           Enlouqueceste? ‑ desafiou o traficante. ‑ A perseguir um tipo que nem sequer conheces. Por estas bandas pode morrer‑se por muito menos que isso. Tiveste muita sorte em ele não estar armado.

            ‑           Obrigado pelo aviso ‑ respondeu Van Cleve.

            O traficante sentiu‑se picado pelo sarcasmo.

            ‑           Ouve, mas presta bem atenção. Correr atrás de um tipo qualquer e armar confusão já é estúpido. Mas pior que isso é estares a interferir no meu negócio, e isso é muito mais perigoso. Compreendeste?

            ‑           Eu sei reconhecer um aviso ‑ admitiu Van Cleve.

            ‑           Muito bem. Vou dizer‑te uma coisa. Não sei qual é a tua relação com Rick Thomas. Nem me interessa. Só não quero é que andes por aqui a estragar‑me o negócio. Bom, querem apanhar esse Rick Thomas, é?

            ‑           Precisamos dele. E muito ‑ disse Van Cleve.

            ‑           Muito bem ‑ respondeu o traficante. ‑ Ele é um dos meus clientes regulares. Ou era até há duas semanas, quando ficou sem dinheiro. Se eu passar palavra de que, por ser um cliente muito antigo, estou disposto a fiar‑lhe por uns tempos, ele volta.

            ‑           Podes entregá‑lo? ‑ disse Scott.

            ‑           Posso. E vou fazê‑lo. Mas temos de combinar uma coisa. Quando o apanharem, nenhum dos dois volta a aparecer por aqui. Certo?

            ‑           Certo ‑ disse Van Cleve, ansioso por concordar.

            ‑           Amanhã à noite, entre as nove e a meia‑noite.

            ‑           Cá estaremos.

            Van Cleve e Kate afastaram‑se, aliviados.

            ‑           E que tal esta grande lealdade para com um cliente antigo? - observou Kate.

            ‑           Não me interessa como é que a coisa é feita, desde que obtenhamos o depoimento de Rick Thomas.

NA NOITE seguinte, quando Kate Forrester e Scott Van Cleve chegaram ao ponto de observação previamente combinado, o tempo estava húmido e havia uma neblina. Dessa vez, Kate fora preparada: levava uma gabardina e um chapéu impermeável. A aba do chapéu estava virada para cima de um modo tão atraente, realçando os traços correctos e graciosos do seu rosto, que Scott lamentou que ela tivesse trazido gabardina, mas disse para consigo: "Nunca te envolvas muito com um cliente. Pode distorcer a tua perspectiva profissional. Além disso, se perderes o caso dela, acabas por perder todas as hipóteses de a conquistares."

            Quanto a Kate, descobriu que já não pensava nele como Van Cleve, mas sim como Scott.

            Posicionaram‑se atrás de um dos carros estacionados do outro lado da rua estreita, em frente ao traficante, e aguardaram, alerta. à medida que os minutos, e depois as horas, iam passando, foram falando deles próprios e das suas ambições.

            ‑           A medicina é tudo aquilo que julgava que era? perguntou Scott.

            ‑           É muito mais. Depois de ter trabalhado como voluntária num hospital durante o liceu, fiquei com uma ideia bastante exacta - disse Kate.

‑           Nunca sentiu vontade de voltar para o Illinois e exercer lá?

            ‑           às vezes, sinto. Mas para mim a necessidade é a questão determinante. Quero exercer onde a necessidade é maior ‑ disse Kate com convicção.

            ‑           Era capaz de viver aqui? Casar aqui? Criar os seus filhos aqui?

            ‑           Ainda... ainda não pensei nisso admitiu ela.

            ‑           Mas tenciona casar‑se, não?

            ‑           Sim, com o homem certo, na altura certa, um dia mais tarde. Mas primeiro tenho de ser a médica que eu sei que consigo ser.

            ‑           Nunca pensa nesse homem certo? Como é que ele

            Antes de Scott terminar aquele pensamento, ficaram ambos imóveis. O traficante fizera‑lhes um sinal do outro lado da rua. Observaram um rapaz de jeans desbotados e rabo‑de‑cavalo a aproximar‑se sob a luz da esquina. Era excessivamente magro.

            ‑           É ele? ‑ sussurrou Scott.

            ‑           Acho que sim.

            ‑           Rick! Rick Thomas! ‑ chamou Scott.

            O jovem voltou‑se instintivamente, depois desatou a correr. Scott e Kate correram atrás dele. Meio quarteirão à frente, conseguiram apanhá‑lo. Scott empurrou‑o contra a grade de ferro defronte de uma pequena casa particular e imobilizou‑o, apesar dos esforços do rapaz para se libertar. Passado pouco tempo, Rick deixou de resistir. A sua respiração estava rápida e entrecortada e tremia de frio ou de carência de droga.

            ‑           Calma, pá, calma ‑ disse Scott. ‑ Não queremos fazer‑te mal. Sou advogado, esta é a minha cliente e precisamos da tua ajuda.

            Rick Thomas olhou para os dois.

            ‑           Não foi ele quem os mandou, pois não?

            ‑           Ele? ‑ perguntou Scott, espantado.

            ‑           Sim, ele. O pai dela.

            ‑           Claude Stuyvesant?

            ‑           Sim. Esse ‑ disse Rick Thomas com considerável veemência. ‑ Ficou com tudo o que era meu. Se não tivesse amigos, estava a dormir debaixo da ponte.

            ‑           Rick, queres um café, comida, uma bebida, talvez?

            ‑           Não como nada desde o pequeno almoço ‑ admitiu ele.

            Rick comeu com tanta voracidade num pequeno restaurante barato e aberto toda a noite na Sexta Avenida que era óbvio que não fizera muitas refeições nos últimos dias. Por vezes, Rick respondia às perguntas de Scott com a boca cheia de comida.

            ‑           Rick, na noite em que a Claudia ficou doente, onde é que tu estavas?

            ‑           Estava lá ‑ respondeu ele. ‑ Não ia deixá‑la quando ela precisava de mim.

            ‑           Mas foi a mãe dela que a levou ao hospital ‑ salientou Kate.

            ‑           Ela achou que era melhor, mais seguro, ser a mãe a levá‑la. Principalmente porque o médico dela não estava cá.

            ‑           Rick, a Claudia tinha tomado alguma coisa naquela noite?

            Rick bebeu um gole de café antes de admitir:

            ‑           Tomou, tomámos os dois. Sabem, foi assim que nos conhecemos. Numa festa por estas bandas, onde havia todo o tipo de drogas.

            ‑           Tais como? ‑ perguntou Scott.

‑           Yelloiv jackets, blues, rainbows, coca, pó de anjo.

            ‑           Ela estava muito dependente, não estava? - perguntou Scott.

            ‑           Tinha sempre uma dúzia de receitas de vários médicos: valium, darvon, barbitúricos. Tinha tudo o que se pode imaginar. E foi também por isso que ela não quis que fosse eu a levá‑la ao hospital. Se descobrissem que ela tomava coisas, não queria que me acontecesse nada a mim. Ela pensava sempre nessas coisas. Era uma miúda impecável e eu amava‑a.

            ‑           Rick ‑ perguntou Scott. ‑ Sabias que ela estava grávida?

            ‑           Ouvi dizer isso depois. É verdade?

‑           É ‑ disse Kate.

            ‑           Ela estava preocupada. Quero eu dizer, o período não lhe apareceu. Mas só uma vez, por isso estava à espera de ver o que é que acontecia no mês seguinte.

            Pela expressão dos olhos dele, tanto Kate como Scott tiveram a certeza de que estava a dizer a verdade.

            ‑           Ouçam, como é que eu sei que não foi ele quem vos mandou? ‑    perguntou Rick repentinamente.

            ‑           Rick, estamos aqui a falar contigo porque esta senhora é a médica que tratou Claudia na noite em que ela morreu.

            ‑           Você? ‑ perguntou Rick, olhando fixamente para Kate. ‑ É a médica de que falaram na televisão? O que é que quer de mim?

            Scott explicou sucintamente as acusações que Claude Stuyvesant fizera contra Kate. E consequentemente a enorme importância do testemunho dele de que Claudia se drogava.

            ‑           A única coisa que precisas de fazer, Rick, é dizer a verdade a uma comissão de inquérito. Tal como a disseste agora a nós.

            ‑           Stuyvesant é um homem poderoso. Uma vez, quando me recusei a deixar de ver Claudia, mandou os chuis atrás de mim.

            ‑           Não vai poder fazer nada contra ti agora. Só precisas de dizer a verdade, sabendo que estás a fazê‑lo para salvar a carreira da médica que tentou salvar a vida de Claudia.

            Como Rick evitou responder, Scott insistiu:

            ‑           Não te preocupes com o depoimento. Eu passo umas horas contigo para te preparar para as perguntas que te vão fazer. Rick, a carreira desta médica depende de ti. Tens de dizer a verdade.

            ‑           Vou dizer! Vou dizer! Faço tudo para me vingar do estupor do Stuyvesant.

            ‑           Muito bem! Ouve lá uma coisa, Rick. Já que ficaste sem sítio onde dormir, porque é que não ficas em minha casa até à inquirição?

‑           sugeriu Scott

            Rick pensou na oferta de Scott e finalmente disse:

            ‑           Eu agora estou a partilhar um apartamento com uma pessoa. Mas se você... isto é, eu estou nas lonas.

            ‑           Claro. Eu compreendo ‑ respondeu Scott. Enfiou a mão no bolso e tirou duas notas de vinte dólares, mas antes de lhas entregar, disse:

            ‑           Diz‑me onde é que moras e vou lá buscar‑te no dia em que pretendo que deponhas, de manhã. Deve ser lá para o princípio da próxima semana. O inquérito começa na segunda‑feira.

            ‑           No princípio da próxima semana ‑ repetiu Rick.

            ‑           Isso mesmo. Entretanto, vou visitar‑te todos os dias. Onde é que posso encontrar‑te?

- Charles Street, número noventa e sete. O apartamento está no nome de Marty Lengel. Toque quatro vezes... três toques curtos e um longo. Assim já sei que é você e não os gorilas dele.

            Assim que Scott acabou de anotar o novo número de telefone de Rick, saíram do restaurante. à porta, Rick fez um V de vitória com os dedos e foi‑se embora. Depois de ele ter dobrado a esquina e desaparecido, Kate comentou:

            ‑           Tinha ficado mais descansada se ele tivesse aceitado a oferta para ficar em sua casa.

            ‑           Eu também ‑ disse Scott. ‑ Pensei em mandar‑lhe uma intimação. Mas, assustado como está, acho que um documento oficial o faria fugir da cidade.

            ‑           Sabe o que vai acontecer àquelas duas notas de vinte, não sabe?

            ‑           Calculo ‑ concordou Scott. ‑ Venha daí. Ainda temos de fazer mais uma coisa.

            Enquanto avançavam pelas ruas estreitas da zona, Kate explicou os termos que Rick utilizara e com os quais Scott não estava familiarizado.

            - Os nomes referem‑se às cores das cápsulas que contêm a droga. Os yellow jackets são pentobarbital. Os blues são amobarbital.

            ‑           E os rainbows? ‑ perguntou Scott.

            ‑           Uma mistura de amobarbital e de secobarbital.

            ‑           Todos necessitam de receita médica ‑ concluiu Scott.

            Chegaram à Charles Street e descobriram o número 97. Subiram as escadas e entraram na soleira escura da porta. Scott examinou o painel das campainhas: descobriu o nome LENGEL, M.

            ‑           Que alívio ‑ disse Scott. ‑ Tinha de ter a certeza de que a morada e a pessoa existiam. Sem uma testemunha que prove que Claudia se drogava, não teríamos muitas hipóteses.

 

Os TRÊS membros da comissão de deontologia médica que iriam julgar a Dra. Katherine Forrester foram seleccionados no mesmo dia em que Hoskins, o advogado da Ordem dos Médicos, entregou a intimação e o relatório da acusação a Scott Van Cleve.

            De acordo com a lei, dois dos membros tinham de ser médicos ou cirurgiões escolhidos entre os médicos membros da comissão. O terceiro membro tinha de ser um leigo seleccionado entre os membros leigos da comissão. Um dos três membros teria de ser designado presidente, a fim de presidir ao inquérito.

O primeiro médico a ser nomeado foi o Dr. Maurice Truscott, um médico de familia de White Plains. Truscott já atingira a idade em que se recusava a aceitar novos doentes, por isso tinha mais tempo livre que a maior parte dos médicos.

            Devido à causa da morte de Claudia Stuyvesant, o segundo médico nomeado foi uma especialista em obstetrícia e ginecologia chamada Gladys Ward, que, com quarenta e poucos anos, já era considerada um dos cirurgiões mais importantes da área metropolitana de Nova iorque.

            Ao examinar a lista dos leigos, o presidente da Ordem dos Médicos escolheu Clarence Mott, um homem de negócios que se reformara depois de ter vendido todos os seus bens imobiliários a Claude Stuyvesant. O presidente nomeou também Mott para presidir ao inquérito de Katherine Forrester.

            A última nomeação era a de um funcionário administrativo do departamento de pessoal jurídico do Ministério da Saúde, que superintenderia nas questões processuais ou de admissibilidade de apresentação de provas ou depoimentos. Tinha portanto os poderes de juiz, embora, na realidade, não presidisse nem votasse.

            Logo que se soube que ia haver uma nomeação para um inquérito no qual Claude Stuyvesant estava muito interessado, o senador Francis Cahill utilizou a sua influência para que o seu sobrinho Kevin fosse o escolhido.

            Kevin Cahill, um advogado de trinta e poucos anos, obtivera originalmente a sua posição no departamento jurídico do Ministério da Saúde através da intervenção do tio. Kevin era um funcionário dedicado, mas sem se distinguir especialmente.

            Por vezes, o tio Francis sentia que desperdiçara um pouco da sua valiosa influência política na obtenção do cargo para o sobrinho. Por isso, mal o senador conseguiu assegurar a nomeação do sobrinho para o inquérito de Katherine Forrester, convidou‑o para almoçar.

            ‑           Kevin, chegou a altura de termos uma conversa de homem para homem. Recorri a um grande favor político para te conseguir esta nomeação, por isso não deites tudo a perder. Ouvi dizer que o próprio Stuyvesant vai estar presente nas audiências.

            ‑           Já li o relatório da comissão preliminar de inquérito ‑ respondeu Kevin. ‑ Este inquérito pode ter dois desfechos.

            ‑           Não se pode permitir que os tenha! ‑ declarou o senador. - Kevin, ouve. Queres vir a ser o chefe do departamento jurídico um dia, não queres? Durante esse inquérito, não deverás nunca tomar nenhuma atitude que colida com os interesses de Claude Stuyvesant. Quero que ele te fique a dever um favor. Resumindo e concluindo, se queres o cargo, faz por merecê‑lo durante o inquérito. Compreendido?

            ‑           Compreendido, tio Francis.

 

            CONFRONTADO com o inquérito iminente e com o facto de estar a representar uma cliente que nunca se vira envolvida em quaisquer processos judiciais, Scott Van Cleve considerou vital elucidar Kate Forrester sobre os aspectos legais do caso.

            Para evitar que ela fosse até à zona deserta da Wall Street à noite, Scott combinou encontrar‑se com Kate no seu apartamento. Ele vivia no quarto andar de um edifício castanho‑avermelhado. O facto de ocupar todo o quarto andar parecera mais impressionante a Kate do que realmente era. O edifício só tinha seis metros e meio de largura. O andar todo consistia apenas numa sala de estar, numa cozinha estreita e num pequeno quarto com casa de banho.

            Scott trouxe sanduíches e fez um grande cerimonial a preparar o café numa máquina estrangeira muito complicada. Depois, instalaram‑se para trabalhar. Scott não tardou a levantar‑se, andando de um lado para o outro a discursar.

            ‑           Esqueça tudo o que viu até agora na televisão sobre julgamentos em tribunal. Um inquérito não é um julgamento. Advogados? Sim. Testemunhas? Sim. Mas em vez de um juiz, existe um presidente da comissão, que preside, e um funcionário administrativo, que regulamenta. E em vez de um júri, temos uma comissão constituída por três membros, que tomarão a decisão final.

            ‑           Estou aliviada por não ser um julgamento ‑ disse Kate. ‑ É bom.

            ‑           Não, não, é mau ‑ corrigiu Scott. ‑ As regras que regulamentam a apresentação de provas são mais flexíveis. O que quer dizer que os depoimentos desfavoráveis que eu poderia excluir num julgamento podem ser aceites numa audiência. Em vez de ser julgada por um júri constituído por cidadãos normais, será julgada pelos seus pares. E neste momento a sua profissão está a ser alvo de ataque. Ouve‑se em todo o lado: "Os médicos cobram demais pelas consultas", "Os médicos não pensam na saúde dos seus doentes, só pensam em carros estrangeiros caros", "Os médicos estão a viver à conta da assistência social dos idosos".

            ‑           Isso não se aplica à maioria dos médicos ‑ protestou Kate.

            ‑           O público acha que sim. O que implica que os médicos se unem para defender a sua profissão contra o público, contra Os mass media e contra qualquer colega que atraia a atenção para eles. O que, infelizmente, agora inclui

            ‑           A minha pessoa ‑ antecipou‑se Kate.

‑           Exactamente. Descobriu alguma coisa sobre os antecedentes dos dois médicos membros da comissão?

            Kate fez um aceno afirmativo de cabeça e explicou:

            ‑           Truscott frequentou o City College e a Corneil Medical School. Fez o internato no Beilevue Hospital, foi residente no Lenox Hili Hospital e começou a exercer clínica privada em 1953. Não fez especialidade.

            ‑           Bom ‑ disse Scott. ‑ Vamos considerá‑lo neutro. E agora o que é que descobriu sobre a Dra. Gladys Ward?

            ‑           Universidade de Harvard, Yale Medical School. Especialista em obstetrícia e ginecologia e também em cirurgia oncológica informou Kate. ‑ Trabalha no Women' 5 Hospital, em St. Luke' 5. Publicou dois livros e vários estudos. Muito activa em movimentos que defendem os direitos das mulheres.

            ‑           Que bom! ‑ entusiasmou‑se Scott.

            ‑           Não estou tão certa disso ‑ comentou Kate. ‑ Rosie assistiu uma vez a uma conferência dela e disse‑me que ela não esconde a sua lealdade para com a causa feminina, mas também exige mais de uma mulher do que exigiria de um homem nas mesmas circunstâncias.

            ‑           Complicado ‑ concordou Scott. Fez um enorme ponto de interrogação junto ao nome Ward, Gladys.

            Depois de dar uns conselhos a Kate sobre o modo como devia agir, o que devia e não devia dizer durante o desenrolar do inquérito, enfiou‑a num táxi e voltou para o seu apartamento. Livre para fazer a sua própria avaliação do caso, Scott começou a espalhar todos os papéis e documentos relativos ao inquérito pela ordem em que esperava que fossem apresentados por Hoskins: fotocópias da ficha de Claudia Stuyvesant, cópias das anotações no livro de registo sobre cada passo dado e medicação prescrita, relatórios laboratoriais das várias análises sanguíneas que pedira, o que fora feito e administrado na tentativa de salvar Claudia Stuyvesant. E, finalmente, o relatório da autópsia, que revelava a causa da morte.

            Se ao menos os colegas de Kate a apoiassem... Não os internos e residentes, que a apoiavam incondicionalmente, mas os médicos mais idosos, mais prestigiados, cujo apoio teria peso perante a comissão. Mas nenhum acedera a comparecer.

            O relatório da autópsia era a única prova desfavorável a Kate. Mesmo se Scott tivesse conseguido convencer vários médicos a deporem a favor dela, eles não teriam conseguido explicar aqueles resultados.

            Tinha uma arma importantíssima no seu arsenal legal: o depoimento de Rick sobre a toxicodependência de Claudia. No entanto, Scott não conseguia menosprezar a necessidade imperiosa de arranjar um médico famoso disposto a depor para comprovar que todo o procedimento de Kate naquela noite fora correcto do ponto de vista clínico.

            O único candidato possível era Sol Freund. Kate soubera que Freund tentara defendê‑la na reunião dos chefes dos vários serviços do hospital há várias semanas atrás. Recentemente reformado, já não tinha qualquer obrigação para com o City Hospital nem para com o Dr. Cummins. Nem era provável que devesse algum favor a Claude Stuyvesant.

 

            No DIA seguinte, quando Scott entrou no seu gabinete no hospital, o idoso médico tinha lá ido apenas buscar os seus vários diplomas e certificados, deixando nas paredes vinte e seis rectângulos desbotados onde os documentos haviam estado pendurados durante anos.

            ‑           Bom, meu rapaz, deseja alguma coisa? ‑ perguntou o médico.

            ‑           Sou advogado ‑ começou Scott. ‑ Vim pedir a sua ajuda para o caso de Kate Forrester.

            ‑           A minha ajuda? O que é que eu posso fazer? ‑ perguntou Freund.

            ‑           Não consegui encontrar nenhum médico neste hospital que aceitasse depor a favor da Dra. Katherine Forrester.

            ‑           É claro que não. Cummins passou palavra de que qualquer médico que defendesse a sua cliente não permaneceria muito tempo neste hospital. Mas quem é que pode censurá‑lo? Ele tem de proteger o hospital. Uma das razões por que decidi reformar‑me foi exactamente porque a medicina já não é medicina. No meu tempo, pensava‑se primeiro nos doentes e só depois no negócio.

            ‑           Sr. Doutor, eu preciso de uma pessoa que confirme que o que Kate Forrester fez no caso Claudia Stuyvesant não foi um acto de negligência nem constitui um desvio ao estabelecido como bom tratamento médico.

            ‑           Sabe, é que eu sou neurologista e estou muito afastado de casos como o da jovem Stuyvesant.

            ‑           Abordei vários especialistas em obstetrícia e ginecologia e não consegui nenhuma ajuda ‑ confessou Scott.

            ‑           Não admira. Um médico depor a favor da sua cliente é o mesmo que dizer: "Se eu lá estivesse, tinha feito exactamente a mesma coisa que ela." O que significa: "Se o fizesse, Claudia Stuyvesant teria morrido nas minhas mãos." Nenhum médico vai admitir isso.

‑           Mesmo assim, seria uma grande ajuda se eu conseguisse obter o depoimento de um médico respeitado.

            Freund ignorou o pedido de Scott. Começou a tirar os livros de medicina das estantes, olhando para os títulos nas lombadas e depois separando‑os em duas pilhas.

            ‑           Esse... esse inquérito... Quando é?

            ‑           Começa na segunda‑feira ‑ disse Scott, cheio de esperanças.

            ‑           Segunda... ‑ ponderou Freund. ‑ Mas que pena. Na segunda‑feira estarei a caminho de umas férias na praia na Florida. Nettie e eu saímos de cá na segunda‑feira de manhã.

            Pegou noutro volume de medicina, olhou para o título e colocou‑o na pilha mais pequena.

            ‑           Sabe, ser mulher de médico não é nada fácil ‑ disse Freund, debatendo‑se visivelmente com a sua consciência profissional. - Nos primeiros anos, quando era interno e depois residente, a Nettie teve de habituar‑se a esperar, a ter desapontamentos. Eu não tinha horas para nada e costumava prometer‑lhe: "Nettie, quando começar com o consultório, as coisas vão ser diferentes." E foram mesmo: pioraram. Um jovem médico tinha de estar disponível a todas as horas do dia e da noite. Depois, quando se consegue ser finalmente professor de Medicina, as coisas melhoram? Não! Por isso tive de prometer à Nettie: "Acredita em mim, querida, quando me reformar..." Ela riu‑se e disse: "Só acredito quando estivermos dentro do avião e nunca antes disso."

            ‑           Eu compreendo ‑ disse Scott complacentemente.

            ‑           Não compreende nada! ‑ explodiu Freund, depois acalmou‑se. ‑ Acha que gosto de dizer não à Dra. Katherine Forrester? Mas não tenho outra alternativa. Prometi a mim mesmo que desta vez a Nettie não ia ficar desapontada. Lamento muito, meu rapaz.

            Scott percebeu que o assunto estava encerrado. Embora tivesse deixado o seu número de telefone a Sol Freund, riscou o último nome possível da sua lista de médicos potenciais peritos.

            Scott estava dependente de três coisas: de Kate e do modo como agiria quando fosse interrogada, da sua própria habilidade para derrubar as testemunhas que Hoskins iria apresentar e de Rick Thomas. O passo imediato seria preparar Kate para a provação que iria suportar nos dias seguintes.

 

            QUANDO Kate se encontrava confortavelmente instalada no apartamento dele, Scott explicou:

            ‑           A sua função é relatar factos: o que aconteceu, o que observou, o que fez. Só isso. Não vá além disso.

            ‑           Já compreendi. Devo apenas responder às perguntas.

‑           Mais do que isso ‑ avisou‑a Scott. ‑ Por mais que Hoskins deturpe as suas respostas, não discuta. Agora vamos ensaiar. Vamos começar pela altura em que chamou Briscoe. O que é que a levou a fazê‑lo, Sra. Doutora?

            ‑           Dado que os sinais e sintomas da doente eram bastante vagos e a dor abdominal podia ser um indicativo de infecção interna, achei que era aconselhável a opinião de um cirurgião para determinar se era ou não necessário efectuar uma cirurgia exploratória.

            ‑           Quer então dizer que não estava certa quanto à validade da sua opinião, Sra. Doutora, é isso? ‑ perguntou Scott.

            ‑           Não é uma questão de validade de opinião. Os sinais, os resultados laboratoriais não conduziam a nenhum diagnóstico definitivo. Queria certificar‑me de que não deixara passar nenhuma possibilidade.

            Scott lançou‑se sobre as suas infelizes palavras.

            ‑           Então, admite que pode ter descurado alguma possibilidade neste caso.

            ‑           Não admito, não! ‑ insistiu Kate, levantando a voz.

            Scott não reagiu. Após uns instantes de silêncio, Kate perguntou num tom moderado:

            ‑           Falei demais, não foi?

            ‑           Foi ‑ salientou ele. ‑ A resposta correcta à pergunta "Porque é que chamou Briscoe?" é simples: "Para obter uma segunda opinião." Só isso. Uma segunda opinião é um procedimento antigo e respeitado em medicina. Não se meta em coisas do género ter descurado alguma possibilidade.

            Kate acenou, resolvida a não cair naquela ratoeira outra vez.

            ‑           Agora, vamos continuar ‑ disse Scott. ‑ O que é que se passou quando o Dr. Briscoe chegou?

            ‑           Relatei‑lhe os sinais vitais da doente e mostrei‑lhe os resultados laboratoriais. Depois, ele efectuou o seu exame e chegou à mesma conclusão que eu.

            ‑           Qual foi?

            ‑           Até o estado da doente se tornar mais definido, nada mais se podia fazer a não ser continuar com o soro, repetir as análises e continuar a verificar regularmente os sinais vitais ‑ respondeu Kate. ‑ Além disso... ‑ Parou bruscamente. ‑ Já ia falar demais, não ia?

            ‑           Ia ‑ disse Scott. ‑ Tem de aprender a vencer isso. Vamos continuar. Quanto tempo passou desde o momento em que enviou a terceira amostra de sangue para o laboratório e a chegada dos resultados, Sra. Doutora?

            ‑           Duas horas, um pouco mais ‑ disse Kate.

‑           Isso quer dizer que durante duas horas não fez nada pela doente?

                        ‑           Fizemos o indicado para uma doente naquele estado: continuámos com o soro e a verificar os sinais vitais.

                        ‑           Isso mesmo. Precisa. Correcta. Sem dar qualquer Oportunidade de ataque a Hoskins.

                        ‑           Pelo menos, estou a aprender ‑ constatou Kate, sorrindo.

                        ‑           Pois está. E peço desculpa por estar a ser tão duro consigo. Irá agradecer‑me mais tarde ‑ dizia ele quando o telefone tocou. Impaciente por causa da interrupção, Scott atendeu bruscamente: - Van Cleve!

                        ‑           Olá, rapaz ‑ disse a voz afável do Dr. Freund ‑, não é preciso gritar. Pode cumprimentar‑me de uma maneira mais simpática.

                        ‑           Boa noite, Sr. Doutor ‑ disse Scott mais delicadamente.

                        ‑           Ouça, estive a falar com a Nettie. Parece que ela tem andado a seguir o caso Stuyvesant na televisão e disse‑me: "Depois de cinquenta e um anos à espera, podemos esperar mais uns dias por uma rapariga tão simpática." Portanto, se me garantir que a minha inquirição é na segunda‑feira, fica combinado.

                        ‑           Oh, que maravilha, Sr. Doutor! Nem sei como agradecer!

                        ‑           Não me agradeça a mim, agradeça à Nettie. Diga‑me apenas a que horas é que devo lá estar, mas primeiro quero ver a ficha da jovem Stuyvesant.

                        ‑           Com certeza. E mais uma vez obrigado, Sr. Doutor ‑ Scott desligou. ‑ Sol Freund. Ele vai depor.

Sentindo‑se aliviada e encorajada, Kate disse:

‑           É bem simpático da parte dele fazer isto por uma mulher que é praticamente uma desconhecida.

                        ‑           Creio que ele não considera nenhum jovem médico um desconhecido ‑ disse Scott. ‑ Bom, vamos lá continuar. Já não falta muito para segunda‑feira.

 

Scot e Kate subiram até aos escritórios da comissão de deontologia médica no mesmo elevador decrépito utilizado por Scott aquando da sua primeira visita. Quando a porta do elevador se abriu, Albert Hoskins ia a passar a caminho da sala de audiências.

                        ‑           Ah, Van Cleve! ‑ cumprimentou efusivamente Hoskins. - E esta é a Dra. Katherine Forrester? ‑ Sorriu e fez‑lhe um gesto para que seguisse à sua frente até à sala de audiências.

                        Kate imaginara uma sala parecida com as salas de audiência de um tribunal, mas aquela era muito mais pequena e a disposição das mesas e cadeiras era diferente. Havia três mesas compridas dispostas em U. A mesa da base tinha quatro cadeiras: três seguidas e a outra junto à extremidade direita da mesa. As outras duas mesas estavam de frente uma para a outra, formando as pernas do U. No espaço aberto entre as mesas, encontrava‑se uma cadeira para as testemunhas. Junto à parede, estava sentada uma estenógrafa para registar os trâmites legais.

            Quando Kate se sentou, apercebeu‑se de que estava apenas a três metros da comissão que iria julgá‑la e a pouco mais de três metros e meio do tal Hoskins, que era o advogado de acusação.

            Scott detectou a preocupação dela. Tocou‑lhe na mão por baixo da mesa: estava fria, gelada. Apertou‑a para a tranquilizar.

            Depois de se instalar, Kate teve oportunidade de examinar os seus juizes. Clarence Mott, o leigo, que fora nomeado para presidir, encontrava‑se ao centro, ladeado pelo Dr. Maurice Truscott e pela Dra. Gladys Ward. O Dr. Truscott tinha cabelo grisalho farto e era baixo e roliço. Embora a audiência ainda não tivesse começado, ele já estava ocupado a tomar notas. A Dra. Gladys Ward parecia mais nova do que os seus quarenta e dois anos, tinha cabelo escuro e bem arranjado, feições miúdas e correctas e os seus olhos pretos eram muito vivos e penetrantes.

            Clarence Mott recostou‑se na cadeira, esperando impacientemente a chegada de Kevin Cahill, o funcionário administrativo. Cahill não tardou a entrar apressado na sala, carregado com uma pasta demasiado cheia.

            ‑           Lamento, mas o avião atrasou‑se ‑ desculpou‑se ele.

            Logo que Cahill se sentou no seu lugar na mesa da presidência, Mott deu início à audiência.

            ‑           Presumo que todos sabemos porque nos encontramos aqui, por isso não são necessárias quaisquer introduções. Dr. Hoskins?

            Hoskins assumiu uma expressão séria e ponderada.

            ‑           Sr. Presidente, o assunto que aqui nos traz reveste‑se de uma grande importância para a arguida e queria expressar a grande simpatia que tenho por ela neste momento tão difícil que atravessa. Mas estou convicto de que os membros desta comissão não se esquecerão de que o nosso objectivo não é proteger os médicos, mas sim proteger o povo deste estado dos médicos que se revelem incompetentes para prestar uma digna assistência e que, portanto, constituam um perigo para toda a comunidade. Os depoimentos que iremos apresentar irão provar que a Dra. Katherine Forrester é uma dessas pessoas e que esta comissão deveria recomendar que lhe fosse interdito o exercício da medicina.

‑           Dr. Van Cleve? ‑ inquiriu Mott.

            ‑           Mr. Mott, a arguida não sente qualquer necessidade de fazer uma declaração nesta altura.

            Mott voltou‑se para Hoskins.

            ‑           A sua primeira testemunha, Sr. Doutor?

            Em vez de dizer o nome da testemunha, Hoskins dirigiu‑se rapidamente à porta e trocou algumas palavras com o guarda que lá se encontrava. O guarda desapareceu, regressando instantes depois com Mrs. Claude Stuyvesant. Atrás dela vinha o marido.

            Scott levantou‑se.

            ‑           Sr. Presidente, permite‑me que pergunte se o Dr. Hoskins pretende, apresentar esta senhora como sua primeira testemunha?

            ‑           É exactamente isso ‑ declarou Hoskins, acompanhando Mrs. Stuyvesant até à cadeira das testemunhas.

            ‑           Nesse caso ‑ continuou Scott ‑, oponho‑me à presença da senhora aqui, baseando‑me no facto de ela não ter nada de importante ou relevante a oferecer a esta comissão. Esta senhora não é médica e portanto não é competente para julgar nenhum dos acontecimentos em questão. O seu depoimento só serviria para introduzir um elemento emocional neste processo.

            ‑           Muito pelo contrário ‑ protestou Hoskins. ‑ Embora o depoimento desta senhora pudesse não ser julgado relevante num tribunal, estou seguro de que os membros desta comissão querem compreender as condições que envolveram a morte prematura da sua jovem filha. Apelo para a intervenção do Dr. Cahill.

            Todos os olhos se voltaram na direcção de Kevin Cahill. Totalmente consciente das instruções do seu tio, Cahill pigarreou antes de pontificar:

            ‑           Sr. Presidente, a comparência desta testemunha irá introduzir um forte elemento emocional neste processo. No entanto, ela é uma testemunha ocular dos acontecimentos em questão. Se ficar bem claro que o Dr. Hoskins não lhe poderá formular perguntas de carácter técnico, então ela constitui uma testemunha perfeitamente qualificada.

            Clarence Mott fez sinal a Mrs. Stuyvesant para se sentar na cadeira das testemunhas. Logo que ela se sentou, a estenógrafa fê‑la prestar juramento e perguntou‑lhe o nome e a morada.

            ‑           Nora Stuyvesant. Park Avenue, número novecentos e oitenta e sete, cidade de Nova iorque ‑ respondeu ela.

            Mott aproveitou a ocasião para dizer:

            ‑           Mrs. Stuyvesant, quero que saiba que os membros desta comissão estão cientes de como isto deve ser difícil para si. Por isso, se precisar de fazer um intervalo, não hesite em pedi‑lo.

‑           Obrigada, Mr. Mott ‑ respondeu ela formalmente.

            Mott indicou a Hoskins que podia iniciar o interrogatório.

            ‑           Minha querida senhora, ninguém se compadece mais de si do que eu. Deve ser o pior dos pesadelos uma mãe levar uma filha, jovem, com queixas ligeiras e insignificantes, a um hospital presumivelmente excelente e vê‑la morrer em menos de uma dúzia de horas.

            Scott interveio.

            ‑           Mr. Mott, foi exactamente à introdução deste tipo de carga emocional que objectei. Será que não podemos evitar estes sentimentalismos e passar à suposta prova que o Dr. Hoskins pretende apresentar?

            Mott voltou‑se agressivamente para Scott.

            ‑           Dr. Van Cleve, não encontro nada de ofensivo na expressão de pêsames do Dr. Hoskins. Permitirei que a declaração conste do processo.

            Kate reparou que, mal Mott terminou o seu breve discurso, olhou logo na direcção de Claude Stuyvesant, que se encontrava sentado na extremidade da mesa de Hoskins com uma expressão empedernida. Stuyvesant, sem proferir uma única palavra, viera dominar o desenrolar do processo.

            Hoskins avançou com a sua primeira pergunta.

            ‑           Mrs. Stuyvesant, conte‑nos, por favor, o que antecedeu a sua chegada ao City Hospital naquela trágica noite.

            ‑           Por volta das oito da noite de sábado, a minha filha, Claudia, telefonou‑me a pedir para ir a casa dela. Ela vivia sozinha há quase um ano. Não estava a sentir‑se bem: tinha náuseas, vómitos e uma ligeira diarreia. Tomara os medicamentos habituais, mas não tinham resultado. Eu telefonei para o nosso médico, mas o Dr. Eaves estava fora, por isso decidi levá‑la ao City Hospital.

            ‑           Quando lá chegou, o que é que aconteceu? ‑ incitou Hoskins.

            ‑           Fomos admitidas no serviço de urgência e depois levaram‑nos para uma sala de observações. É claro que pedi para falar com um médico, mas em vez disso mandaram‑me uma enfermeira, que viu a temperatura e o pulso à minha filha. Quando voltei a pedir um médico, ela disse‑me que não tardaria a vir, mas não apareceu nenhum médico até eu ter protestado bastante.

            ‑           E quando esse médico chegou... ‑ insistiu Hoskins.

            Mrs. Stuyvesant olhou fixamente para a mesa da arguida.

            ‑           Era aquela mulher.

            ‑           E o que é que ela fez?

            ‑           Não fez muito mais do que a enfermeira. Começou a tomar o pulso de Claudia e fez‑lhe umas perguntas. Depois, abandonou a minha filha para ir ver outro doente.

            ‑           Quer dizer que ela se limitou a fazer umas perguntas e depois foi‑se embora? ‑ Hoskins fingiu que aquele facto era uma surpresa para ele.

            ‑           E quando lhe implorei que não fosse, ela agrediu‑me.

            ‑           Agrediu‑a? ‑ A expressão simulada de incredulidade de Hoskins convidava a mais detalhes.

            ‑           Empurrou‑me grosseiramente para o lado e foi‑se embora.

            ‑           O que aconteceu depois de a Dra. Katherine Forrester a ter agredido?

            Scott levantou‑se para protestar.

            ‑           Mr. Mott, por favor, diga ao Dr. Hoskins para não fazer juízos de valor sobre a conduta da minha cliente! Gostaria que ficasse registado que não há quaisquer provas de violência e oponho‑me a uma valoração deste género.

            Mott dirigiu‑se, impaciente, à estenógrafa.

            ‑           Providencie para que fique registado. ‑ Voltou‑se para Hoskins. ‑ Prossiga.

            ‑           Mrs. Stuyvesant, por favor, conte‑nos o que aconteceu depois.

            ‑           A médica voltou finalmente. Fez mais perguntas, disse à enfermeira para continuar com o soro e a tomar o pulso e a medir a tensão de Claudia.

            ‑           Foi só isso que a Dra. Katherine Forrester fez?

            ‑           Não. Depois de ter voltado várias vezes e não ser capaz de decidir o que devia fazer, mandou finalmente chamar outro médico.

            ‑           Mrs. Stuyvesant, quando é que algum dos médicos começou realmente a fazer alguma coisa pela sua filha, para além da administração do soro?

            ‑           Eles nunca chegaram a fazer nada por ela! ‑ afirmou a mulher. ‑ A única vez que fizeram menção de o fazer, o Dr. Briscoe pediu uma agulha e ia introduzi‑la para ver se havia alguma hemorragia quando... foi nessa altura que Claudia deixou de respirar.

            ‑           E depois?

            ‑           Levaram‑na à pressa para outra sala ao fundo do corredor. Tentei segui‑los, mas aquela mulher fechou‑me a porta.

            ‑           Quando é que voltou a ver a Dra. Katherine Forrester?

            ‑           Ela... ‑ apontou para Kate ‑ ela saiu daquela sala e eu adivinhei logo pela expressão do seu rosto. Ela disse‑me: "Mrs. Stuyvesant, fizemos tudo o que nos era possível." Tudo o que era possível! Não fizeram nada! ‑ Começou a chorar, destroçada.

            Scott estava revoltado por dentro. Já vira alguns advogados recorrerem a tácticas vis como aquela, utilizarem uma testemunha para produzir um efeito puramente emocional, mas tinham sido raras as vezes que as vira serem usadas tão descaradamente. Hoskins estava não só a jogar com a comiseração dos membros da comissão, como também, olhando de vez em quando para Stuyvesant, a assegurar‑se de que o magnata não o esqueceria quando o inquérito terminasse.

            Quando Mrs. Stuyvesant recuperou o suficiente para levantar o seu rosto choroso do lenço molhado, Hoskins prosseguiu:

            ‑           Portanto, fecharam‑lhe a porta quando a sua filha estava a morrer. Depois, esta senhora veio cá fora informá‑la do sucedido e a seguir?

            ‑           Alguém me levou lá para fora até à minha limusina, na qual eu chegara com uma filha ligeiramente indisposta. Mas quando parti, a minha filha estava morta, e eu, sozinha.

            Sentindo que extraira o máximo impacte emocional da testemunha, Hoskins proferiu o comentário que preparara para aquele preciso momento.

            ‑           Minha senhora, tenho a certeza de que os membros desta comissão compreendem os seus sentimentos neste terrível momento. Não desejo fazer‑lhe mais perguntas.

            Aliviada por não ter de depor mais, Nora Stuyvesant deixou que as lágrimas lhe corressem livremente pelo rosto.

            ‑           Dr. Van Cleve? ‑ disse o presidente Mott. ‑ Deseja interrogar esta testemunha? ‑ Mas, pela sua atitude, o que realmente estava a perguntar era: "Atreve‑se a interrogá‑la?"

            PLENAMENte consciente da ratoeira que sempre aguardava um advogado que decidia interrogar uma mãe desesperada, Scott Van Cleve respondeu:

            ‑           Mr. Mott, estou disposto a conceder um intervalo a Mrs. Stuyvesant antes de lhe fazer algumas perguntas.

            Nora Stuyvesant esfregou os olhos e fungou.

            ‑           Estou pronta para continuar. Farei o que for possível.

            Hoskins voltou para a sua cadeira, convencido de que, quanto mais Van Cleve atacasse Nora Stuyvesant, maior simpatia ela teria da comissão.

            Consciente desse perigo, Scott aproximou‑se da testemunha.

            ‑           Mrs. Stuyvesant, quando levou a sua filha para o City Hospital, as queixas dela eram ligeiras, moderadas ou graves?

            ‑           Diria que eram... para o moderado ‑ respondeu ela.

            ‑           Não eram alarmantes? ‑ Scott tentou reduzir a escolha.

            ‑           Moderadas ‑ repetiu ela.

- Não eram de molde a parecer que estava em perigo de vida?

‑           indagou Scott.

                        Hoskins levantou‑se.

                        ‑           Sr. Presidente, como é que uma mãe como Mrs. Stuyvesant, que não é um perito médico qualificado, pode responder a uma pergunta que requer uma opinião sobre o estado da doente?

                        ‑           É exactamente essa a questão, Dr. Hoskins! No entanto, há apenas uns minutos esta senhora disse... ‑ Scott consultou os seus apontamentos. ‑ "Tinha chegado com uma filha que estava ligeiramente indisposta." Se esta opinião foi válida há cinco minutos, creio que também o será agora. Mrs. Stuyvesant tentou dar a impressão a esta comissão de que a filha estava apenas ligeiramente doente e que, devido ao procedimento da Dra. Katherine Forrester, ela morreu. A verdade é que a jovem estava gravemente doente quando chegou ao hospital, mas o seu estado foi ocultado à médica.

                        Kevin Cahill interveio:

                        ‑           Dado que a testemunha não é um perito qualificado, não se lhe pode pedir que dê uma opinião. Só pode testemunhar em relação aos factos.

                        ‑           Deferido ‑ declarou Mott. ‑ Continue, por favor, Dr. Van Cleve.

                        ‑           Mrs. Stuyvesant, tanto quanto percebi, na altura em questão a sua filha já não residia em sua casa. Há quanto tempo é que Claudia não vivia em casa dos pais?

                        ‑           Há quase um ano ‑ respondeu Mrs. Stuyvesant.

                        ‑           Houve algum contacto entre a sua filha e a senhora durante esse período?

                        ‑           A Claudia telefonava‑nos de vez em quando.

                        ‑           Ela alguma vez mencionou um rapaz chamado Rick Thomas?

                        ‑           Rick Thomas? ‑ repetiu a mulher.

                        ‑           Esse nome tem algum significado para si?

                        Nora Stuyvesant fez uma pausa antes de responder:

                        ‑           Não, não tem.

                        ‑           Ficaria surpreendida se soubesse que a sua filha e Rick Thomas viviam juntos na altura em que

                        Antes de Scott completar a pergunta, Claude Stuyvesant levantou‑se da cadeira, de dedo apontado para ele, gritando:

                        ‑           Não consinto isso! Não consinto que utilize esses truques de advogadozinho barato para difamar o nome da minha defunta filha!

                        ‑           Mr. Stuyvesant, Mr. Stuyvesant. ‑ Mott interrompeu a explosão. ‑ Acredite que estamos todos conscientes do estado de tensão em que se encontra, mas temos de conduzir o processo ordeiramente.

De rosto corado e olhos a brilharem de fúria, Stuyvesant deixou‑se cair lentamente na cadeira.

            Mott fez sinal a Scott para continuar.

            ‑           Mrs. Stuyvesant, estava a fazer‑lhe uma pergunta sobre Rick Thomas.

            Hoskins levantou‑se para objectar.

            ‑           Mr. Mott, uma vez que Mrs. Stuyvesant já respondeu que não conhece ninguém chamado Rick Thomas, não vejo como poderá responder a qualquer pergunta sobre ele. Se o Dr. Van Cleve não tem mais perguntas a fazer, peço‑lhe que ponha termo a uma experiência que é claramente dolorosa tanto para a testemunha como para o seu marido.

            ‑           Tenho mais algumas perguntas, Mr. Mott ‑ replicou Scott.

            ‑           Continue ‑ disse Clarence Mott.

            ‑           Mrs. Stuyvesant, estava ao corrente do facto de que a sua filha se drogava regularmente?

            Stuyvesant levantou‑se novamente.

            ‑           Bolas! Insisto que pare de difamar a minha filha!

            ‑           Sr. Presidente, tenho uma razão muito forte para acreditar que a minha declaração é de facto verdadeira.

            ‑           Mas, nesse caso, o relatório da autópsia teria com certeza revelado esse facto ‑ argumentou Hoskins. ‑ No entanto, não contém qualquer menção nesse sentido. Como é que explica isso, Dr. Van Cleve?

            ‑           Tal como me foi explicado, uma vez determinada a causa da morte, o médico legista não tinha necessidade de determinar esse facto ‑ respondeu Scott.

            ‑           E o relatório do laboratório do hospital? ‑ desafiou Hoskins.

‑ Se existisse um tal relatório, o Dr. Van Cleve apressar‑se‑ia certamente a introduzi‑lo no processo.

            ‑           A minha cliente pediu uma análise de pesquisa de resíduos tóxicos e essa análise foi feita. Mas, por qualquer razão desconhecida, ela não consta da ficha da doente ‑ respondeu Scott.

            ‑           Não consta da ficha ‑ imitou Hoskins. ‑ Primeiro, o Dr. Van Cleve fala‑nos de uma pessoa inexistente chamada Rick Thomas. Agora refere‑se a um relatório laboratorial que "não consta" da ficha da doente. Desafio o Dr. Van Cleve a apresentar esse tal Rick Thomas e a trazer‑nos uma prova dessa análise laboratorial "desaparecida".

            ‑           Farei os possíveis para atender o pedido do Dr. Hoskins - disse Scott. Sentindo que criara a situação ideal para a comparência de Rick, prosseguiu o interrogatório à testemunha.

            ‑           Mrs. Stuyvesant, há pouco acusou a Dra. Katherine Forrester de a ter "agredido". Sabe para onde é que a médica se dirigia quando ocorreu esse incidente?

            ‑           Não faço a menor ideia.

            ‑           Não ouviu uma enfermeira chamá‑la para socorrer outro caso?

            ‑           Sim, ouvi dizer qualquer coisa sobre outro doente ‑ admitiu Nora Stuyvesant.

            ‑           Então, será ou não justo dizer‑se que a médica não estava a "abandonar" a sua filha, mas apenas a ausentar‑se momentaneamente para socorrer outro doente?

            ‑           Eu só estava interessada na saúde e segurança da minha filha.

            ‑           Foi por isso que se pôs à porta tentando bloquear com o seu corpo a saída da Dra. Katherine Forrester? ‑ perguntou Scott.

            ‑           Não podia permitir que ela abandonasse a minha filha, que estava ainda mais doente do que eu supunha ‑ respondeu Mrs. Stuyvesant.

            Sentindo‑se encorajado, uma vez que a testemunha estava a reagir, Scott continuou:

            ‑           Mrs. Stuyvesant, naquela noite, a Dra. Katherine Forrester tinha muitas vidas sob a sua responsabilidade. Uma vez que a senhora se pôs à frente dela, ela passou por si, tocando‑lhe, para tentar cumprir as suas obrigações. Continua a considerar isso uma agressão?

            A testemunha fitou‑o e não respondeu.

            ‑           Mrs. Stuyvesant? ‑ insistiu Scott. Como ela continuasse sem responder, ele prosseguiu: ‑ Lembra‑se do que disse quando o Dr. Briscoe a acompanhava até à sua limusina?

            ‑           Não me lembro de ter dito nada ‑ negou ela rapidamente.

            ‑           É estranho, porque várias pessoas, entre as quais o Dr. Briscoe e a Dra. Katherine Forrester, ouviram‑na dizer: "Ele vai dizer que a culpa foi minha... Ele vai dizer que a culpa foi minha." Lembra‑se disto?

            ‑           Já lhe disse que não me lembro de ter dito nada!

            ‑           Então, devo concluir que o Dr. Briscoe, a Dra. Katherine Forrester e as outras pessoas que dizem tê‑la ouvido mentiram?

            ‑           Porque não? ‑ A mulher começou a levantar‑se da cadeira. ‑ Todos eles contribuíram para a morte da minha filha. Agora todos mentem para se proteger a si próprios. Para a protegerem a ela! ‑ Já de pé, gritou, dirigindo‑se a Kate: ‑ Você matou‑a! E agora o seu advogado está a dizer uma data de mentiras para a proteger! Fique a saber que não se vai livrar desta! ‑ Tendo dado largas à sua ira, Nora Stuyvesant voltou a sentar‑se na cadeira das testemunhas.

            Scott Van Cleve perguntou em voz baixa:

‑           Mrs. Stuyvesant, lembra‑se de a Dra. Katherine Forrester ter perguntado à sua filha se era sexualmente activa? ‑ A mulher acenou quase imperceptivelmente. Scott voltou‑se para o presidente:

‑ Mr. Mott, poderá ficar registado que a testemunha fez um aceno de cabeça em resposta à minha pergunta?

            ‑           Sim, é claro. Faça favor de prosseguir, Dr. Van Cleve.

            ‑           Mrs. Stuyvesant, lembra‑se de qual foi a resposta da sua filha a essa pergunta? ‑ Nora Stuyvesant não respondeu. ‑ A sua filha negou ser sexualmente activa, não é verdade?

            A mulher acenou novamente com a cabeça.

            ‑           A médica também lhe perguntou se tinha tido alguma falta menstrual? ‑ Mrs. Stuyvesant voltou a acenar. ‑ E a resposta da sua filha foi negativa? ‑ Mrs. Stuyvesant acenou novamente. - Dado que sabemos agora pelo relatório da autópsia que ambas as respostas eram falsas, poderá dar‑me alguma razão para a sua filha ter mentido à médica que estava a tratá‑la?

            ‑           Não. Eu... eu desconheço a razão ‑ disse Mrs. Stuyvesant numa voz que a estenógrafa mal ouviu.

            ‑           Obrigado, Mrs. Stuyvesant. É tudo. ‑ Scott afastou‑se.

            Hoskins aproximou‑se de Mrs. Stuyvesant e ajudou‑a a levantar‑se enquanto a consolava.

            ‑           Eu sei que foi uma dura provação. Se quiserem, podem retirar‑se ambos.‑ Deixou‑a entregue ao marido.

Stuyvesant acenou gravemente. Beijou a mulher, indicando que

ela podia retirar‑se, mas que ele não tencionava fazê‑lo.

            ‑           Eu preferia ficar ‑ afirmou ela debilmente.

            ‑           Já sofreste o suficiente por hoje, minha querida ‑ disse Stuyvesant. ‑ Vai para casa e tenta recompor‑te disto tudo.

            Ela demorou‑se uns instantes até ele dizer:

            ‑           Nora, vai‑te embora!

            Ela seguiu obedientemente a sugestão do marido.

 

TAL COMO fora previamente combinado com o presidente Mott e Hoskins, o advogado de acusação, o decurso normal da inquirição foi interrompido para permitir que o Dr. Sol Freund depusesse a favor da arguida, a fim de poder depois partir para a sua reforma na Florida.

            à excepção da ligeira orla de cabelo branco que circundava o seu couro cabeludo rosado e brilhante, Freund era careca. Tinha a cara magra e bem barbeada, e a estrutura óssea do rosto era quase tão visível como numa radiografia. Envergava um fato azul‑escuro e óculos de aros dourados simples.

                        Depois de Freund ter prestado juramento, Mott acenou a Scott Van Cleve para iniciar o interrogatório.

                        ‑           Quantos anos é que levou a preparar‑se para ser médico e quanto tempo exerceu a profissão?

                        ‑           Ao todo, cinquenta e dois anos.

                        ‑           Sr. Doutor, está a par dos procedimentos e práticas levados a cabo nos grandes hospitais da cidade e no City Hospital em especial?

                        ‑           Há já muitos anos que trabalho nos hospitais desta cidade, primeiro como interno, depois como residente e finalmente como membro do quadro. E nestes últimos trinta e quatro anos trabalhei no City Hospital.

                        ‑           Dr. Freund, teve tempo para se familiarizar com a ficha de Claudia Stuyvesant?

                        ‑           Estudei‑a com grande interesse ‑ respondeu Freund.

                        ‑           Considera que a ficha foi elaborada com competência profissional?

                        ‑           Não só com competência, mas também bastante detalhadamente.

                        ‑           Tendo isso em vista, Sr. Doutor, haveria alguma coisa que tivesse feito de maneira diferente se fosse o médico responsável por Claudia Stuyvesant naquela noite?

                        ‑           Não. Os indícios não eram suficientes para se chegar a um diagnóstico preciso. Febre, náuseas, vómitos, diarreia... quem é que já não teve estes sintomas?

                        ‑           Classificaria esses sintomas de alarmantes?

                        ‑           Oh, não ‑ respondeu Freund.

                        ‑           Dado que sabemos agora que havia na realidade uma abundante hemorragia interna ‑ disse Scott ‑, como é que explica o facto de os sintomas e sinais não reflectirem esse estado?

                        ‑           São vários os factores que podem distorcer os sintomas e sinais. A desidratação, por exemplo. O estado da doente pode também ter sido afectado pelos medicamentos que tomou antes de chegar à urgência.

                        Scott Van Cleve fez uma longa pausa antes de dizer:

                        ‑           Não tenho mais perguntas.

                        Hoskins fez sinal que queria interrogar a testemunha.

                        ‑           Dr. Freund, qual é exactamente a sua relação pessoal com a arguida?

                        ‑           Não tenho qualquer relação pessoal com a Dra. Katherine Forrester. Pensa que vim aqui interceder por uma protegida? Pois bem, engana‑se. Só que eu detesto ver jovens carreiras destruidas por acusações infundadas.

            ‑           Sr. Doutor, qual foi a última vez que esteve de serviço na urgência?

            ‑           Há quarenta e nove anos ‑ respondeu Freund.

            ‑           E qual foi a última vez que teve de fazer a história clínica de um doente novo na urgência ou em qualquer outro sítio?

            ‑           Não o fiz recentemente ‑ admitiu Freund. ‑ Nos últimos trinta e um anos como neurocirurgião, quando um caso chega ao meu gabinete, esse doente já foi examinado por vários médicos, neurologistas e até psiquiatras. Por isso, o doente já vem com um historial completo.

            ‑           Sr. Doutor, já se passaram muitos anos desde a última vez que passou por uma experiência igual à ocorrida naquela noite na urgência?

            ‑           É claro ‑ respondeu o velho médico, obviamente irritado.

            ‑           Portanto, a sua opinião sobre o acontecido não se baseia nem no conhecimento da competência profissional da Dra. Katherine Forrester, nem no da situação em si, dado que já se encontra afastado desse género de serviço há muitos anos ‑ declarou Hoskins.

            ‑           A minha opinião baseia‑se no que se encontra escrito na ficha.

            ‑           Confia plenamente naquela ficha? ‑ perguntou Hoskins.

            ‑           Parece escrita em conformidade com um bom desempenho profissional. Não tenho razão nenhuma para não confiar ‑ declarou Freund.

            ‑           Permita‑me que lhe mostre esta anotação sublinhada na ficha da doente ‑ disse Hoskins, apresentando uma cópia ao médico.

            Freund examinou umas linhas sublinhadas a vermelho.

            ‑           Ah, sim. O teste de gravidez negativo.

            ‑           Também já viu a cópia do relatório da autópsia?

            ‑           Sim, vi. Ruptura de uma gravidez ectópica, provocando uma hemorragia interna abundante ‑ respondeu Freund.

            ‑           Sr. Doutor, não acha que somos forçados a interrogar‑nos sobre o que é que a Dra. Katherine Forrester terá feito para obter um resultado negativo no teste de gravidez?

            ‑           Não se apresse a atribuir o engano à médica ‑ resmungou Freund. ‑ Nenhum teste é perfeito.

            ‑           Baseando‑se na ficha, o Sr. Doutor diria que os sintomas e sinais que a doente apresentava eram consentâneos com uma gravidez ectópica?

            ‑           Sim ‑ admitiu Freund. ‑ Eram.

            ‑           Só mais uma pergunta: se a Dra. Katherine Forrester tivesse feito o diagnóstico correcto, teria, ela ou qualquer outro médico, conseguido salvar a vida de Claudia Stuyvesant?

            ‑           Nunca ninguém saberá a resposta a essa pergunta ‑ respondeu Freund.

            ‑           Pode negar a possibilidade?

            Freund explodiu de impaciência:

            ‑           Não, não posso negar. Ninguém pode!

            Sentindo que neutralizara o testemunho favorável de Freund, Hoskins estava bastante satisfeito quando concluiu:

            ‑           Obrigado, Sr. Doutor. É tudo.

            ‑           Ah, é? ‑ respondeu o idoso médico, irado, levantando‑se da cadeira. ‑ Bom, fique a saber que, no que me diz respeito, não é tudo.

            Hoskins tentou interromper.

            ‑           Sr. Doutor, por favor, o seu depoimento já terminou.

            Freund voltou‑se para Hoskins.

            ‑           Você! ‑ acusou ele, apontando‑lhe o dedo. ‑ Você é advogado, por isso não se meta nisto! Isto é um problema para os médicos resolverem.

            Voltou‑se para a Dra. Gladys Ward e para o Dr. Truscott.

            ‑           Caros colegas, tem sido com grande preocupação que, na qualidade de membro da comissão de admissão da faculdade de medicina, tenho examinado, ao longo destes últimos anos, as candidaturas que passam pela minha secretária. Quando as analiso cuidadosamente, vejo que a qualidade dos estudantes que se candidatam já não é a mesma. Os melhores alunos, os mais inteligentes, já não escolhem medicina. Porquê? Porque as outras áreas são mais aliciantes. A avalancha de processos por exercício negligente da medicina, as exigências rigorosas da nossa profissão... os nossos melhores jovens já não estão para suportar tudo iSSO.

            E quando estão...? Vejam o caso desta jovem. Esta jovem dedicada e bem preparada vê‑se agora obrigada a defender‑se por ter agido como um bom médico deve agir. E é posta no banco dos réus como uma criminosa, é atacada e difamada. Chamam‑lhe assassina, como já aconteceu na televisão. ‑ Virou‑se repentinamente. Sim, foi o senhor, Mr. Stuyvesant!

            Voltando‑se novamente para os seus colegas, Freund concluiu:

            ‑           Tem de se pôr termo a esta perseguição, a esta inquisição. Senão, os jovens mais inteligentes e mais motivados, como a Dra. Katherine Forrester, irão empregar as suas capacidades noutro sítio. Aviso‑os, é preciso pôr termo a este género de coisas!

            Olhou com algum desdém para Hoskins e acrescentou:

            ‑           Agora é que terminei o meu depoimento.

Freund ia a retirar‑se, mas parou para dizer a Kate:

            ‑           Minha querida, tentei ajudá‑la, mas já não tenho paciência para estas macacadas jurídicas. Tenho fé em si e creio que vai tudo acabar em bem. Depois, informe‑me sobre o que aconteceu.

            Quando Freund abandonou a sala de audiências, o presidente Mott perguntou:

            ‑           Meus senhores e minhas senhoras, vamos fazer um intervalo para o almoço?

            Aceitaram todos a sugestão, menos a Dra. Gladys Ward, que disse:

            ‑           Quero que o Dr. Van Cleve me explique uma coisa.

            ‑           Com certeza, Sra. Doutora ‑ respondeu Scott, levantando‑se.

            ‑           Fiquei surpreendida por ter apresentado o Dr. Freund como testemunha. A especialidade dele não é esta. Já há muito tempo que se encontra afastado do serviço de urgência. Sou forçada a perguntar‑lhe porque é que o fez?

            ‑           Não conseguimos arranjar nenhum outro médico que aqui viesse depor. Houve um bloqueio total de informações no City Hospital. Desencorajaram o pessoal a vir defender a Dra. Katherine Forrester.

            ‑           E não houve mais nenhum médico que se dispusesse a vir?

            ‑           Com a hostilidade e suspeita com que os médicos encaram agora o sistema jurídico, não consegui encontrar nenhum especialista nesta área que quisesse ver‑se envolvido.

            Kate julgou ver o Dr. Truscott a acenar em sinal de simpatia e compreensão, mas a Dra. Gladys Ward não deixou transparecer nenhum sinal que indicasse a sua reacção à declaração de Scott.

            Após a interrupção feita para permitir que o Dr. Freund depusesse, o inquérito seguiu o seu curso normal. Hoskins continuou a fundamentar a acusação contra Kate Forrester. A sua testemunha seguinte foi o médico legista.

            As respostas do Dr. Schwartzman às perguntas de Hoskins foram breves e parcimoniosas. Recitou com ar decidido as suas habilitações e experiência profissional. Depois, passou a recordar os acontecimentos relativos ao caso Stuyvesant. O cadáver fora enviado para a morgue com um pedido especial para que fosse ele próprio a fazer a autópsia. Dado que a Polícia e o Ministério Público tinham previamente requisitado os seus serviços, a autópsia foi adiada vários dias, mas o resultado era indubitável: Claudia Stuyvesant morrera de uma hemorragia interna devido à ruptura de uma gravidez ectópica.

‑           Dr. Schwartzman ‑ continuou Hoskins. ‑ Fez mais alguma observação no decurso da autópsia?

            ‑           Bom ‑ começou o médico ‑, face à evidência dos resultados, não consegui perceber porque é que não fora feito o diagnóstico correcto.

            ‑           Posso concluir das suas palavras que, na sua opinião, um médico competente deveria ter sido capaz de fazer um diagnóstico correcto enquanto a doente ainda estava viva?

            ‑           É exactamente isso que estou a dizer ‑ declarou Schwartzman, concluindo assim o seu depoimento.

            Scott não podia deixar o médico legista escapar sem o interrogar.

            ‑           Dr. Schwartzman, aceito sem qualquer reserva os resultados da autópsia. Só há uma coisa que me intriga.

            ‑           Tudo o que eu puder fazer para o esclarecer, Sr. Doutor - disse Schwartzman espontaneamente. ‑ Estou aqui para ajudar.

            ‑           Sr. Doutor, quando é que tratou pela última vez um doente? Mais especificamente, uma jovem de dezanove anos?

            Schwartzman fitou‑o com uma expressão de indignação.

            ‑           Logo que me especializei em medicina legal, deixei de tratar doentes.

            ‑           E quando foi isso, Sr. Doutor?

            ‑           Há uns vinte e dois, vinte e três anos.

            Hoskins disse da mesa:

            ‑           Mr. Mott, atendendo a que o Dr. Schwartzman veio aqui na qualidade de médico legista, com um soberbo currículo profissional, as perguntas do Dr. Van Cleve parecem‑me bastante ridículas.

            Scott voltou‑se para ele.

            ‑           Não são mais ridículas do que perguntar‑lhe se um médico que está a lidar com um doente vivo deveria ou não ter detectado um estado que estava longe de ser óbvio na altura em questão. Principalmente, no caso de uma doente que estava a dar informações falsas e se encontrava, muito provavelmente, sob o efeito de drogas!

            Stuyvesant levantou‑se logo, gritando:

            ‑           Mr. Mott! Creio que tínhamos combinado

            Stuyvesant interrompeu bruscamente o seu discurso. Scott voltou‑se para olhar fixamente para ele e depois para Mott. Tornara‑se bem claro que Stuyvesant e Mott tinham combinado, em particular, que não haveria referência a drogas durante o inquérito.

            Mott corou ligeiramente.

            ‑           Dr. Van Cleve, a menos que possa apresentar prova de que este caso envolve a presença de drogas, iremos considerar qualquer alusão a esse assunto como inaceitável. Entendido?

‑           Sim, senhor ‑ respondeu Scott. ‑ Dr. Schwartzman, como é que explica o facto de não virem mencionados nenhuns resultados relacionados com drogas no seu relatório?

            Mott bateu na mesa com o seu martelo.

            ‑           Dr. Van Cleve, eu impus limites em relação a esse assunto!

            ‑           Mr. Mott, o senhor disse que era inaceitável a menção da presença de drogas. Eu estou a interrogar sobre a ausência das mesmas neste relatório.

            Obedecendo a um sinal de Mott, Schwartzman dirigiu‑se à estenógrafa.

            ‑           Gostava que ficasse registado que, uma vez descoberta a causa da morte, não eram necessárias mais pesquisas.

            ‑           Dr. Schwartzman, lembra‑se do dia em que fui falar consigo ao seu gabinete? ‑ perguntou Scott.

            ‑           Lembro.

            ‑           E não admitiu nessa altura que o mayor lhe tinha pedido pessoalmente para não revelar os resultados senão depois do funeral de Claudia Stuyvesant?

            ‑           Foi uma cortesia, um acto de consideração para com uma família enlutada. Isso não alterou os resultados da autópsia ‑ protestou Schwartzman.

            ‑           Dr. Schwartzman, é possível detectar, no decurso de uma autópsia, danos residuais provocados pelo uso regular de drogas mesmo sem efectuar uma análise de pesquisa de resíduos tóxicos?

            ‑           Se se estiver à procura deles, é.

            ‑           Seria possível agora detectá‑los se o corpo de Claudia Stuyvesant fosse exumado?

            ‑           Meu caro jovem, eu disse‑lhe naquele dia no meu gabinete que o corpo foi cremado mal terminou a autópsia.

            ‑           Pois disse ‑ concordou Scott. ‑ Foi outra "cortesia", Sr. Doutor? Entregar o corpo tão rapidamente para que fosse cremado? Deve haver uma linha telefónica bastante ocupada entre o seu gabinete e o escritório do mayor.

            Com o rosto vermelho de raiva e embaraço, Schwartzman voltou‑se para o presidente.

            ‑           Mr. Mott, terei de honrar esta pura especulação com uma resposta?

            Hoskins já se encontrava de pé.

            ‑           Não, Sr. Doutor, não tem!

            Pretendendo estar derrotado, Scott disse:

            ‑           É tudo.

            Do seu lugar à mesa, Kate Forrester estudou os rostos dos dois médicos membros da comissão. Truscott não parara de tirar apontamentos durante a troca de palavras. Gladys Ward, que escutara com um ar desinteressado o interrogatório, interveio quando Schwartzman ia a levantar‑se da cadeira de testemunhas.

            ‑           Sr. Doutor ‑ disse ela rispidamente. ‑ Na sua opinião, se Claudia Stuyvesant tivesse sido uma consumidora esporádica ou até habitual de drogas, em que é que isso teria afectado este caso?

            ‑           Sabe uma coisa, Dra. Gladys Ward, já fiz essa pergunta a mim mesmo ‑ respondeu Schwartzman. ‑ No meu entender, as drogas não poderiam ter causado uma gravidez ectópica. Nunca ouvi dizer que isso alguma vez tenha acontecido.

            ‑           Nem eu ‑ concordou Gladys Ward.

            ‑           E as gravidezes ectópicas, quando não são detectadas, provocam ruptura e hemorragia, quer a doente consuma drogas ou não. Por isso, não vejo qual a relevância deste alarido todo em torno das drogas ‑ afirmou Schwartzman.

            Nessa altura, Kate Forrester levantou‑se para perguntar:

            ‑           Sr. Doutor, é possível as drogas disfarçarem os sintomas e sinais de um doente e influenciarem os resultados laboratoriais, induzindo assim o médico em erro?

            ‑           Dra. Katherine Forrester, Dra. Katherine Forrester ‑ disse Mott, tentando intervir, mas Kate não se calou.

            ‑           Sr. Doutor, as drogas podem disfarçar a dor e os outros sintomas e sinais? ‑ insistiu Kate. ‑ Exijo uma resposta!

            Schwartzman olhou fixamente para ela, exaltado e corado.

            ‑           Quer mesmo saber o que eu penso? Acho que, dado que não existem provas conclusivas da utilização de drogas, a senhora e o seu advogado estão a tentar utilizar o assunto como cortina de fumo para afastar a atenção do seu grave erro clínico.

            E com isto o médico legista saiu da sala, mas não sem antes trocar olhares com Claude Stuyvesant.

            Depois de ele sair, Mott voltou‑se para Kate Forrester.

            ‑           Minha jovem, não voltaremos a tolerar uma conduta tão pouco ortodoxa durante esta audiência! ‑ Em seguida, voltou‑se para o advogado de acusação. ‑ Agora, Dr. Hoskins, faça favor de chamar a próxima testemunha.

            ‑           Sr. Presidente, dado o adiantado da hora, gostaria de solicitar que esta inquirição fosse adiada até amanhã de manhã.

            ‑           Dr. Van Cleve? ‑ perguntou Mott.

            ‑           Não tenho qualquer objecção ‑ respondeu Scott.

            ‑           Então, a audiência fica suspensa até amanhã às dez ‑ declarou Mott, e bateu com o martelo.

            Scott agarrou rapidamente na mão de Kate e levou‑a para fora da sala de audiências. Antes de ele dizer o que quer que fosse, ela disse:

‑           Está bem, devia ter ficado de boca fechada. E se continuar assim, serei responsável por perder. Já está! Já disse tudo para lhe poupar trabalho.

                        ‑           Obrigado ‑ disse Scott. ‑ Só mais uma coisa ‑ acrescentou ele. ‑ Não volte a fazê‑lo. Pode ser perigoso.

 

KATE mal introduzira a chave na segunda fechadura da porta de entrada, quando esta se abriu e Rosie Chung lhe perguntou ansiosamente:

                        ‑           Então? Como é que correu?

                        ‑           Receio que não tenha corrido lá muito bem ‑ admitiu Kate.

                        Rosie seguiu à frente para a sala de estar, insistindo:

                        ‑           Contem lá, contem‑me tudo!

                        Scott explicou em breves palavras o objectivo legal dos depoimentos introduzidos por Hoskins naquele dia.

                        ‑           O depoimento de Mrs. Stuyvesantjá foi mau ‑ disse Kate - mas quando a Dra. Gladys Ward interveio, as coisas ainda ficaram piores.

                        ‑           Kate! ‑ interveio Scott com ar reprovador. ‑ Vamos lá ver as coisas como elas são. Ora bem, o Hoskins terá ganho alguns pontos hoje? Ganhou. Mrs. Stuyvesant foi uma testemunha que atraiu muitas simpatias. Acabara de perder uma filha adolescente. Mas tenho a certeza de que a comissão está ciente de que isso influencia a versão dela do acontecido naquela noite.

                        ‑           Mas Mr. Clarence Mott não está ciente disso ‑ interveio Kate.

                        ‑           Certo, ele está na mão do Stuyvesant. Mas existem dois outros membros naquela comissão ‑ salientou Scott. ‑ Agora, em relação ao Schwartzman

                        ‑           Teve uma resposta convincente para todas as perguntas que você lhe fez ‑ lembrou Kate. ‑ Foi isso que me fez interrogá‑lo.

                        ‑           Tu interrogaste uma testemunha? ‑ perguntou Rosie. ‑ E isso é permitido?

                        ‑           Desta vez, ela safou‑se ‑ disse Scott. ‑ Mas não se apercebeu de que eu estava deliberadamente a espremer Schwartzman, dando‑lhe todas as oportunidades para ele insistir em que não existiam provas de que Claudia Stuyvesant se drogava. Isto porque, quando eu mandar entrar Rick Thomas naquela sala de audiências, a comissão ficará não só a saber que estávamos a dizer a verdade, como irá também aperceber‑se de que há uma conspiração.

‑           E quando o fizer, isso será a cartada final - concluiu Rosie.

            ‑           Espero bem que sim ‑ disse Scott. ‑ Agora, Kate, gostava de uma bebida bem forte para descontrair. Estou mesmo a precisar.

            Scot e Kate deixaram Rosie no hospital, pois ela ia fazer o turno da noite. Depois, compraram umas sanduíches e foram para o apartamento de Scott para continuar a preparação do depoimento de Kate.

            Scott começou.

            ‑           Amanhã, Hoskins vai chamar Os peritos a depor. Depois, é a nossa vez. Vou começar pelas enfermeiras Adelaide Cronin e Clara Beathard. Não que elas possam fazer grande coisa para além de corroborarem algumas das coisas que você vai dizer, mas vou chamá‑las para ter uma ideia de qual é o plano de Hoskins para interrrogar as nossas testemunhas. Porque, no fim de contas, este inquérito resume‑se a uma só coisa: você Primeiro, no banco dos réus, a contar a sua história e depois a ser capaz de aguentar o interrogatório de Hoskins.

            ‑           E você acha que eu não vou aguentar.

            ‑           Para ser franco, não sei ‑ admitiu Scott. ‑ Já vi grandes empresários e membros do Governo a irem‑se abaixo sob a pressão do interrogatório de um advogado hábil. As testemunhas esquecem‑se repentinamente de tudo. Esquecem‑se dos factos mais óbvios ou subitamente contam versões diferentes das anteriores.

            ‑           Ponha‑me à prova ‑ desafiou Kate.

            Ele fez‑lhe sinal para se levantar do sofá e se sentar na cadeira de braços, que se transformara na cadeira de testemunhas durante aquelas sessões. Depois de se sentar, Kate preparou‑se para o ataque dele.

            Scott massacrou‑a durante mais de três horas com perguntas sobre o depoimento de Mrs. Stuyvesant e o relatório da autópsia. Por vezes, as perguntas fluiam em sequência; outras vezes, ele fazia deliberadamente uma afirmação que nada tinha a ver com o que fora dito antes. Fez e tornou a fazer as mesmas perguntas até que ela protestou:

            ‑           Eu já respondi a isso! ‑ disse‑o num tom de voz mais exaltado do que pretendia. A fadiga começava a fazer‑se sentir.

            Já passava da meia‑noite. Ele percebeu que Kate estava exausta, mas resolveu não ceder. Quando se sentasse na cadeira de testemunhas, ficaria lá o dia todo. Para a preparar, Scott decidiu arrastar Kate até ao limite.

            ‑           Sra. Doutora ‑ continuou ele. ‑ Já ouvimos falar muito durante este inquérito no teste de gravidez que diz ter efectuado. Anotou‑o na ficha da doente juntamente com o resultado, que foi negativo. Será que pode explicar à comissão porque é que obteve um resultado falso?

            ‑           Não ‑ disse ela. ‑ Penso muitas vezes... ‑ Parou. ‑ Não. Para além do facto de testes como este apresentarem uma reconhecida percentagem de erro, não sei como explicá‑lo.

            ‑           A Sra. Doutora disse: "Penso muitas vezes..." No que é que pensa muitas vezes? ‑ prosseguiu Scott.

            ‑           Penso muitas vezes... por vezes interrogo‑me... aqueles três passos tão simples do teste, tê‑los‑ei eu efectuado correctamente?

            ‑           O que quer dizer com isso? ‑ insistiu Scott.

            ‑           Depois de ter trabalhado tantas horas consecutivas, estava tão exausta que posso ter cometido um erro.

            ‑           Que tipo de erro? ‑ perguntou rapidamente Scott.

            ‑           Os três reagentes... Tê‑los‑ei aplicado incorrectamente? Na sequência errada, talvez. Estava tão cansada que tudo pode ter acontecido ‑ admitiu Kate.

            ‑           Tudo? ‑ perguntou Scott. ‑ No entanto, anotou na ficha da doente ter efectuado correctamente o teste. Está a dizer que escreveu coisas naquela ficha que não correspondem à verdade, Sra. Doutora?

            ‑           Está a deturpar as minhas palavras ‑ respondeu Kate. ‑ Só dias mais tarde, quando soube que o resultado negativo era falso, é que comecei a pensar no que se passara e a tentar descobrir porque é que isso acontecera.

            Scott recusou‑se a parar.

            ‑           Então, é possível que, quando escreveu esse apontamento na ficha, ele estivesse errado. Talvez deliberadamente errado!

            ‑           Nunca na minha vida falsifiquei nada do que escrevi nas fichas dos doentes! ‑ protestou Kate, levantando‑se para o confrontar. ‑ Nunca, está a ouvir? Nunca! ‑ Nessa altura, desatou a chorar.

            Scott abraçou‑a, levou‑a até ao sofá e obrigou‑a a sentar‑se. Cobriu‑a com uma manta e disse baixinho:

            ‑           Teve uma noite difícil. Agora, descanse.

            Passados minutos, quando o ritmo da sua respiração se alterou, Scott apercebeu‑se de que ela adormecera. E porque não? Vivia numa extrema tensão há várias semanas e nas últimas dezanove horas tinha virtualmente visto o seu futuro em julgamento. Deixá‑la dormir.

 

            AINDA era muito cedo. Kate acordou lentamente, depois percebeu de repente que não estava na sua cama, mas num sofá, que nem era o seu sofá. Atirou a manta para trás, olhou em volta e depois levantou‑se rapidamente. Scott devia tê‑la ouvido, pois gritou:

            ‑           Kate, já se levantou?

            ‑           Já ‑ respondeu ela.

            ‑           Tem uma escova de dentes nova na casa de banho ‑ disse ele. -   O café está pronto e as panquecas e o bacon também.

            Ela lavou‑se e penteou‑se. Desejava ardentemente ter ali a maquilhagem à mão, mas estava na sua carteira na sala. Decidiu passar sem ela.

            Quando entrou na cozinha, a mesa já estava posta. A sua caneca de café fumegava, exalando um agradável aroma. Ao lado, encontrava‑se um copo com sumo de laranja acabado de fazer. Mal ela acabou o sumo, Scott tirou‑lhe o copo e substituiu‑o por um prato de panquecas ladeadas de tiras de bacon estaladiças e depois sentou‑se à frente dela.

            ‑           Bom dia! ‑ disse ele alegremente. Ela sorriu e começou a comer. ‑ Estava com um ar tão abatido ontem à noite que não tive coragem de a acordar ‑ explicou ele.

            ‑           Devia estar exausta.

            ‑           Como é que estão as panquecas?

            ‑           Excelentes ‑ respondeu ela. ‑ É um óptimo cozinheiro.

            ‑           Os homens solteiros têm muita prática. ‑ Sorria. ‑ Quer mais café?

            ‑           Se faz favor.

            Acabaram de tomar o pequeno‑almoço em silêncio.

            ‑           É melhor ir a casa mudar de roupa para o inquérito ‑ disse Kate.

            ‑           Eu levo‑a ‑ disse ele. ‑ Deixe‑me só levantar a mesa e podemos ir embora.

            ‑           Eu posso ajudar ‑ ofereceu‑se ela.

            ‑           Tenho imenso jeito para levantar a mesa ‑ disse ele ‑, principalmente a do pequeno‑almoço.

            ‑           É evidente que se tem relacionado com o tipo errado de mulher ‑ brincou Kate. ‑ Eu diria que, quanto mais não fosse por apreço, elas deviam ao menos oferecer‑se para ajudar. Mas nesta era de mulheres libertadas, elas agem exactamente como os homens costumavam agir: fazem amor e toca a andar.

            ‑           Se me dessem a oportunidade, eu não me punha a andar - disse ele num tom sério.

            ‑           É melhor irmos andando ‑ disse Kate em voz baixa.

 

            Todos os outros participantes, incluindo Claude Stuyvesant, já estavam reunidos quando Scott e Kate chegaram à sala de audiências. O presidente Mott olhou para o seu relógio de ouro pousado em cima da mesa para sublinhar que eles tinham chegado seis minutos atrasados. Bateu ao de leve com o martelo.

            ‑           Vamos começar? ‑ Olhou na direcção de Hoskins.

            O corpulento instrutor levantou‑se da cadeira, demasiado pequena para ele. Apresentou com ar grave a sua testemunha seguinte, o Dr. John Vinmont, especialista em obstetrícia e ginecologia que fazia parte do quadro do Columbia Presbyterian Medical Center. Citando o excelente currículo académico e profissional de Vinmont, Hoskins não demorou muito tempo a qualificá‑lo como perito.

            Hoskins levou‑o gradualmente a contar o que sabia sobre o caso. Sim, analisara a ficha que a Dra. Katherine Forrester tinha escrito, estudara as fotocópias do livro de registos, lera cuidadosamente o relatório da autópsia.

            Hoskins chegou então à pergunta para a qual tudo o que fora dito servira de prólogo.

            ‑           Dr. Vinmont, suponha que um médico observara tudo o que está escrito nesta ficha, que esse médico recorrera a todos os procedimentos aqui anotados e ainda que a doente morrera da causa apontada pelo médico legista. Na sua opinião profissional, diria que a morte de uma tal doente poderia ser considerada evitável e que, consequentemente, se deveria a negligência e a incompetência profissional da parte do médico?

            A resposta de Vinmont foi tão breve como a pergunta fora longa.

            ‑           Sim.

            ‑           Dr. Vinmont, na sua opinião de especialista, qual teria sido o desfecho se tivesse sido feito um diagnóstico correcto logo nas primeiras horas em que a doente esteve sob os cuidados da Dra. Katherine Forrester?

            ‑           Uma cirurgia rotineira teria quase de certeza tido um resultado favorável ‑ respondeu Vinmont.

            ‑           Obrigado, Sr. Doutor.

            Vinmont permaneceu impassível, mesmo sob o duro interrogatório de Scott. Menosprezou as perguntas relacionadas com as respostas falsas de Claudia Stuyvesant sobre a actividade sexual e as faltas menstruais. Quando Scott tentou introduzir perguntas relacionadas com o consumo de drogas, Hoskins opôs‑se com base em que as provas nesse sentido ainda não tinham sido apresentadas, e Cahill aprovou as objecções de Hoskins.

            Scott voltou frustrado para a mesa da defesa.

            Não obteve melhores resultados com as outras duas testemunhas de Hoskins, a Dra. Florence Neary e o Dr. Harold Bruno. Os seus pareceres coincidiram com o de Vinmont. Quando Scott os interrogou sob as mesmas restrições, as respostas por eles dadas foram as mesmas.

            Hoskins apresentara habilmente o que parecia à primeira vista um incontestável caso de falha profissional por parte do médico que levara à morte prematura de uma rapariga de dezanove anos, a qual poderia ter sido evitada se tivesse sido feito o diagnóstico correcto.

            ‑           Dr. Hoskins, poderei concluir que isto encerra a acusação apresentada à comissão contra a Dra. Katherine Forrester? ‑ perguntou Scott.

            ‑           Pode ‑ respondeu Hoskins, continuando depois: ‑ Tendo a comissão de deontologia médica apresentado os factos nesta matéria e provas reveladoras do modo negligente como a Dra. Katherine Forrester tratou do caso de Claudia Stuyvesant, que resultou posteriormente na sua morte, está concluida a acusação. E esperamos que o Dr. Van Cleve responda agora com factos em vez de acusações e com testemunhas credíveis em vez de sugestões e insinuações.

            ‑           Dr. Van Cleve? ‑ disse o presidente Mott.

            ‑           Necessito de tempo para reunir as minhas testemunhas. Poderemos prosseguir depois de amanhã?

            ‑           A audiência fica então adiada para essa data. ‑ Mott bateu com o martelo.

            Scott Van Cleve dirigiu‑se imediatamente a um telefone público ao fundo do corredor. Meteu uma moeda e marcou o número. Ouviu três, quatro, cinco toques, mas ninguém atendeu. Começou a sentir náuseas, até que finalmente, ao sexto toque, ouviu a voz que lhe permitiu descontrair‑se.

            ‑           Rick? É Scott Van Cleve.

            ‑           Ah, sim. Olá! ‑ respondeu Rick Thomas.

            ‑           Rick, talvez seja depois de amanhã, por isso é melhor amanhã passarmos o dia juntos. Vou aí buscar‑te amanhã de manhã, às dez horas. Está bem?

            ‑           Combinado, meu ‑ concordou Rick, entusiasmado.

            ‑           Até amanhã, às dez.

            ‑           Ah, a propósito ‑ disse Rick ‑ Estou outra vez liso.

            ‑           Compreendo ‑ disse Scott. ‑ Eu não apareço de mãos vazias.

 

            PASSAVAM vinte minutos da uma da manhã. Scott ficara exausto ao planear a ordem precisa da apresentação das suas duas testemunhas cruciais, elaborando as perguntas e a estratégia de modo a provocar o máximo impacte na comissão. "O que seria mais dramático e eficaz?", ponderou ele. Primeiro o depoimento de Kate, seguido do aparecimento surpresa de Rick Thomas? Ou primeiro Rick Thomas, para convencer a comissão de que ele dissera a verdade e predispô‑la assim mais favoravelmente para o depoimento de Kate?

            Scot ainda ponderava qual seria a estratégia mais eficaz de apresentação quando começou a descer a Charles Street. Chegou ao número 97. Entrou no pequeno átrio escuro e examinou o painel das campainhas até encontrar LENGEL, M. Três toques curtos, depois uma pausa e outro toque mais longo, tal como combinara com Rick. Ninguém abriu.

            Rick devia estar a dormir, concluiu Scott. Repetiu o toque combinado. Voltou a não obter resposta. Scott começou a ficar preocupado. Tocou mais uma vez: três toques curtos, depois um toque tão longo que o dedo ainda se encontrava na campainha quando ouviu finalmente a porta a abrir‑se. Subiu rapidamente as escadas.

            Scott apercebeu‑se de que alguém estava debruçado no corrimão do quarto andar. Olhou para cima e viu uma rapariga a enfiar um quimono coçado. Estava despenteada, e piscava os olhos, com uma expressão curiosa e visivelmente desconfiada.

            Scott entretanto chegou ao quarto andar e ficaram frente a frente. Ela estava de costas para a porta entreaberta.

            ‑           Estou à procura do apartamento quatro C, Marty Lengel - disse Scott. ‑ Rick Thomas veio passar uns dias aqui com ele.

            ‑           Não existe nenhum ele ‑ disse a mulher. ‑ Eu sou Marty Lengel.

            ‑           Então, o Rick está cá em sua casa ‑ disse Scott, um tanto perplexo. ‑ Combinei encontrar‑me com ele às dez.

            ‑           Ele não está ‑ disse Marty Lengel.

            ‑           Tem de estar ‑ insistiu Scott. ‑ Falei com ele ainda ontem e combinámos encontrar‑nos aqui hoje de manhã. Ele vai depor amanhã.

            ‑           Lamento, mas ele não está cá ‑ repetiu ela.

            Scott passou por ela, empurrando‑a, e entrou na pequena sala. Estava escuro, as persianas corridas. Viu uma cama desfeita num dos cantos. Havia uma pequena kitchenette com uma pilha de pratos sujos no lava‑louça. Apercebeu‑se de um odor que indicava que tinham fumado ali marijuana há pouco tempo. Não havia sinais de Rick Thomas.

            Melindrada por ele ter forçado a entrada, a rapariga regozijou-se.

            ‑           Eu disse‑lhe que ele não estava cá.

‑           Por acaso, sabe para onde é que ele terá ido? ‑ perguntou Scott.

            ‑           Eu nem sequer cá estava ‑ disse ela.

            ‑           Rick disse‑lhe alguma coisa da última vez que falou com ele?

            ‑           Que se ia embora, não ‑ respondeu ela. ‑ Foi você quem telefonou ontem à noite. Era você, não era?

            ‑           Era.

            ‑           Ouvi‑o dizer que se ia encontrar consigo ‑ disse Marty Lengel. ‑ Depois, recebeu outra chamada, mesmo antes das sete horas. Disse que era um tipo que ele conhecia que lhe tinha prometido material do bom.

            ‑           Material?

            ‑           Coca. Coca pura ‑ disse ela. ‑ Acenar‑se com coca ao Rick é o mesmo que acenar‑se com um pano vermelho a um touro. Vai onde quer que seja.

            ‑           E foi buscá‑la ‑ concluiu Scott.

            ‑ É claro. E não voltou mais ‑ disse Marty Lengel. ‑ A última vez que o vi foi quando saí para o trabalho. Sou empregada de mesa num restaurante italiano na Rua Quatro. Ele provavelmente saiu da cidade.

            ‑           Faz alguma ideia de quem era o homem que lhe telefonou?

            ‑           Ele disse um nome, mas eu não prestei atenção, lamento - disse ela.

            Scott acenou com ar grave. Parte da sua defesa ‑ a parte crucial ‑ tinha‑lhe sido roubada. Quando Hoskins o desafiasse a apresentar Rick Thomas, iria com certeza parecer que ele de facto inventara uma testemunha fictícia. Era a sua própria credibilidade profissional que estava agora em jogo.

            ‑           E ele não disse mais nada? ‑ persistiu Scott.

            ‑           Disse, disse uma coisa ‑ respondeu ela. ‑ Uma coisa qualquer sobre reaver as coisas dele.

            ‑           As coisas que perdeu quando esvaziaram o apartamento da Claudia?

            ‑           Que eu saiba, ele não tinha mais nada.

            ‑           Você conhecia a Claudia? ‑ perguntou Scott.

            ‑           Mais ou menos. Porquê? ‑ Ela estava novamente na defensiva, desconfiada.

            ‑           Ela drogava‑se? ‑ perguntou Scott.

            ‑           Deve ser novo nestas bandas ‑ observou ela. ‑ Senão já sabia que, quando um está mesmo metido na droga, o outro também se droga. É assim que as coisas funcionam por aqui.

            ‑           Diga‑me uma coisa, Ms. Lengel, se pudesse ajudar uma jovem médica a defender‑se de Claude Stuyvesant, salvar a carreira dela, estaria disposta a depor dizendo o que acabou de me dizer agora?

            ‑           Hum‑hum ‑ recusou‑se ela, abanando firmemente a cabeça.

‑ Quem é que quer ser inimigo de um homem como Claude Stuyvesant?

            ‑           Se o Rick voltar... ‑ começou Scott a sugerir.

            ‑           Não volta ‑ interrompeu ela.

            ‑           Como é que pode ter essa certeza?

            ‑           Não gostei nada daquela chamada. Se alguém se quisesse ver livre do Rick, a maneira mais fácil de o fazer seria dar‑lhe toda a coca pura que ele quisesse. Ele vai onde for preciso e faz tudo o que for preciso para a ter.

            ‑           Ms. Lengel, acha possível que Claude Stuyvesant tenha alguma coisa a ver com o desaparecimento dele?

            ‑           Porque é que pergunta isso?

            ‑           Foram os homens de Stuyvesant que esvaziaram o apartamento de Claudia. Se o homem que telefonou prometeu devolver as coisas a Rick, tem de haver uma ligação.

            Embora fosse bem claro para Scott o que acontecera, ainda era mais claro que só lhe restava um depoimento importante: o de Kate.

            Mas como é que ia dizer‑lhe aquilo a ela?

 

            A PRIMEIRA pergunta de Kate quando viu Scott foi:

            ‑ Como é que correram as coisas com Rick?

            Com muita simplicidade, com o menor dramatismo que conseguiu, Scott contou‑lhe.

            Ela ficou perplexa.

            ‑           O quê... quais são as consequências? Em que é que isso vai afectar... Oh, Scott! ‑ Kate começou a tremer.

            Ele abraçou‑a para lhe dar o apoio e coragem de que ela necessitava.

            ‑ Rick constituía a parte mais forte da nossa defesa ‑ disse Kate.

            ‑ Agora já não, agora já não ‑ respondeu Scott, tentando desesperadamente avaliar as suas reduzidas opções.

 

QUANDO a sessão se iniciou na manhã seguinte, Scott apresentou como primeira testemunha a enfermeira Adelaide Cronin. Quando ela acabou de prestar juramento, Scott relatou o seu currículo académico e profissional. Depois, fê‑la rever os acontecimentos daquela noite de sábado. Adelaide Cronin afirmou que Mrs. Stuyvesant funcionara de facto como um obstáculo na sala de observações e declarou que, baseando‑se na sua experiência, considerava que o procedimento de Kate estava de acordo com o que se fazia normalmente no serviço de urgência.

            Quando Scott entregou Adelaide Cronin a Hoskins para que este a interrogasse, o instrutor limitou‑se a dizer:

            ‑           Não tenho perguntas a fazer.

            Scott percebeu que o advogado de acusação estava a guardar o seu ataque para Kate e não fazia tenções de dar a entender qual seria a sua estratégia.

            Após uma experiência semelhante com a enfermeira Beathard, Scott ofereceu o seu último depoimento. Por causa da estenógrafa, teve de anunciar.

            ‑           Chamo a Dra. Katherine Forrester.

            Quando Kate acabou de prestar juramento, as primeiras perguntas que Scott lhe fez relacionaram‑se com a sua infância na quinta da família, com as notas na faculdade de medicina, com a sua experiência como interna e depois como residente. Apresentou‑a como uma médica inteligente, estável e bem preparada, merecedora do apoio da comissão. Depois, começou a interrogá‑la sobre alguns dos casos que ela teve de tratar na noite em questão.

            Chegou finalmente ao caso de Claudia Stuyvesant. Scott conduziu lentamente Kate através do primeiro contacto com a doente: a verificação dos sinais vitais observados pela enfermeira, a anotação do historial clínico de Claudia, a constatação da insuficiência de sinais e sintomas para chegar a um diagnóstico exacto.

            Scott chegou então às perguntas mais pertinentes e à consequente morte de Claudia.

            ‑           Dra. Katherine Forrester, fez algumas averiguações sobre a vida privada da doente? Se o fez, explique‑nos porquê.

            ‑           No caso de uma rapariga da idade dela, era importante saber se era sexualmente activa, e se fosse, era necessário saber se houvera ou não faltas menstruais. As respostas verdadeiras a estas perguntas poderiam ter um papel importante para se chegar a um diagnóstico preciso ‑ explicou Kate.

            ‑           E o que é que a doente respondeu? ‑ perguntou Scott.

            ‑           Em ambos os casos, as respostas foram negativas ‑ respondeu Kate.

            ‑           Existem alguns factos sobre a doente ou as suas observações que não constem da história clínica? ‑ continuou Scott.

            ‑           Achei que as minhas suspeitas não deviam constar da história da doente ‑ disse Kate.

‑           Suspeitas? De quê, Sra. Doutora? ‑ perguntou Scott.

            ‑           Suspeitei que a doente estivesse com medo da mãe e, consequentemente, pudesse não estar a dizer a verdade.

            ‑           Se a mãe lá não estivesse e a doente lhe tivesse respondido com a verdade, teria conseguido chegar a um diagnóstico correcto a tempo de intervir?

            ‑           Actividade sexual e faltas menstruais teriam sido factores cruciais para chegar a um diagnóstico correcto. Foi por isso que senti que a presença da mãe teve um efeito negativo no

            Claude Stuyvesant levantou‑se.

            ‑           Sr. Presidente, oponho‑me a que permita que esta mulher responsabilize a minha esposa!

            ‑           Mr. Stuyvesant ‑ respondeu Mott. ‑ A Dra. Katherine Forrester tem o direito de apresentar a sua defesa. Depois disso, competirá a esta comissão avaliar o seu depoimento e determinar se deve ou não acreditar nela.

            Stuyvesant pareceu apaziguado, embora continuasse a fitar Kate com um ar furioso.

            Scott fez que Kate relembrasse rapidamente os outros acontecimentos daquela noite: a recolha de sangue de Claudia e o seu envio para o laboratório; o tratamento de outros doentes até os resultados chegarem; a repetição do mesmo procedimento por mais duas vezes, por os resultados se revelarem inconclusivos.

            Depois, Scott fez a seguinte pergunta:

            ‑           Dra. Katherine Forrester, pensou alguma vez em pedir outra opinião?

            ‑           Agindo sob a suspeita de que a doente pudesse estar grávida, efectuei um exame ginecológico, mas não descobrindo nada de conclusivo, mandei chamar o Dr. Eric Briscoe.

            ‑           E o que é que ele fez?

            ‑           Repetiu o exame, obtendo os mesmos resultados.

            ‑           Fez algum teste de gravidez, Sra. Doutora?

            ‑           Fiz. Utilizei um cateter para obter uma amostra de urina e fiz o teste de gravidez do hospital, que se divide em três fases.

            ‑           E o resultado?

            ‑           Foi negativo.

            ‑           Tendo em vista o relatório da autópsia, como é que explica esse resultado?

            ‑           Nenhum teste clínico é cem por cento perfeito.

            ‑           Sra. Doutora, quando é que se apercebeu pela primeira vez de que o estado da doente se tornara realmente grave?

            ‑           O Dr. Briscoe ia penetrar na cavidade abdominal para ver se havia alguma hemorragia interna oculta quando a enfermeira disse que a doente não tinha pulso. Iniciámos imediatamente a reanimação cardiorrespiratória, levámo‑la rapidamente para a sala de cuidados intensivos e empregámos todos os meios disponíveis. Ela acabou por morrer devido a dissociação electromecânica.

            ‑           Sra. Doutora, quando reviu a ficha, nas semanas que se seguiram a este trágico caso, arrependeu‑se de alguma coisa?

            ‑ Arrepender, não me arrependi. Mas senti‑me culpada.

            Não só Stuyvesant, mas também Hoskins e os três membros da comissão reagiram com surpresa. Truscott interrompeu os seus meticulosos apontamentos. Gladys Ward olhou fixamente para Kate durante um grande bocado antes de fazer uma anotação.

            Scott perguntou‑lhe:

            ‑           Porque é que se sentiu culpada, Sra. Doutora?

            ‑           Espero nunca chegar a uma altura na minha carreira em que ao perder uma doente de dezanove anos não sinta que tanto eu como a minha profissão somos de certa maneira culpadas. E isto porque, apesar de todos os progressos, ainda podem ocorrer mortes tão prematuras.

            Scott entregou Katherine Forrester a Hoskins, para que a interrogasse.

            Hoskins agarrou na pilha de apontamentos e aproximou‑se da testemunha, sorrindo paternalmente.

            ‑           Sra. Doutora, vamos lá ver se conseguimos ajudá‑la a esclarecer o mistério do que aconteceu naquela noite na sala C do serviço de urgência. A Sra. Doutora já descreveu a variedade de casos que tratou naquela noite. Diria que foi uma noite mais agitada do que é costume nas urgências?

            ‑ Foi uma noite normal num sítio onde todas as noites são fora do normal.

            Hoskins sorriu.

            ‑ Muito bem expresso. Posso concluir que isso explica porque é que adiou durante tanto tempo a ida à sala onde se encontrava Claudia Stuyvesant.

            ‑           Não, não pode ‑ atirou Kate. ‑ Eu não adiei nada!

            ‑           Desculpe ‑ disse Hoskins, fingindo arrependimento. ‑ Sra. Doutora, não é verdade que, mesmo depois de ter arranjado finalmente tempo para examinar Claudia Stuyvesant, acabou por não o fazer?

            ‑           Eu efectuei um exame físico completo ‑ protestou Kate.

            ‑           Sra. Doutora, permite‑me que lhe avive a memória? Baseado no depoimento de uma testemunha anterior, a senhora mal começara a fazer‑lhe perguntas quando se apressou a deixá‑la para ir tratar de outro doente. É ou não verdade?

‑           Houve outro caso, um caso em que os sintomas eram alarmantes ‑ explicou Kate.

                        ‑           Sintomas alarmantes? ‑ ecoou Hoskins.

                        ‑           O doente queixava‑se de dores fortes mesmo por baixo do esterno, transpirava abundantemente e estava em sofrimento - respondeu Kate. ‑ Esses sintomas são os sintomas clássicos de problemas cardíacos. Um caso desses tem precedência sobre todos os outros.

                        ‑           Portanto, abandonou Claudia Stuyvesant para ir tratar desse outro caso. Posso perguntar‑lhe o que é que concluiu?

                        ‑           Afinal ele estava com um cálculo biliar ‑ disse Kate.

‑           E o que é que fez em relação a esse caso, Sra. Doutora?

                        ‑           Mandei‑o lá para cima para a cirurgia e para que determinassem se seria ou não indicada uma intervenção cirúrgica ‑ respondeu Kate.

                        ‑           Sabe o que é que aconteceu ao doente, Sra. Doutora?

                        ‑           Logo que o caso seguiu para a cirurgia, deixei de ter contacto com o doente. Esse é um dos aspectos lamentáveis do trabalho no serviço de urgência. Quase nunca vem a saber‑se o que aconteceu.

                        ‑           Então, permita‑me que a informe do que realmente aconteceu ao doente. Foi examinado na cirurgia e decidiram não operar. Mandaram‑no para casa na manhã seguinte ‑ concluiu Hoskins, brandindo uma pilha de relatórios na direcção de Kate. ‑ Bom ‑ prosseguiu Hoskins ‑, quando finalmente achou que era conveniente voltar para junto de Claudia Stuyvesant, o que é que observou?

                        Embora tivesse ficado melindrada com o facto de Hoskins ter utilizado o termo "conveniente", Kate decidiu não morder o isco.

                        ‑           Tal como já disse, a enfermeira já sabia os sintomas dela, já verificara os sinais vitais e já iniciara a administração de soro.

                        ‑           Então, o que é que a Sra. Doutora fez?

                        ‑           Comecei a anotar a história clínica.

                        ‑           E a doente respondeu às suas perguntas?

                        ‑           Respondeu, mas, infelizmente, não disse a verdade. Negou ser sexualmente activa e ter tido faltas menstruais

                        Ainda Kate ia a meio da resposta, já Hoskins estava a acenar.

                        ‑           Pois, pois, Sra. Doutora, eu já sei. Estamos agora prestes a transferir a responsabilidade da morte da doente do médico para a mãe.

                        Scott levantou‑se, gritando:

‑           Sr. Presidente, oponho‑me a este tipo de comentários!

                        Hoskins respondeu:

                        ‑           Retiro o comentário. Sra. Doutora, houve alguma altura em que Mrs. Stuyvesant tenha saído da sala C?

‑ A dada altura, saiu para ir fazer um telefonema da limusina - respondeu Kate.

            ‑           Uma vez que tinha a doente sozinha e liberta da influência da mãe, voltou a fazer‑lhe as mesmas perguntas tão pessoais?

‑ Sim, voltei.

‑           E o que é que ela respondeu? ‑ perguntou Hoskins.

            ‑           Ela... ela continuou a afirmar que não era sexualmente activa e que não tivera faltas menstruais ‑ replicou Kate.

            ‑           Sra. Doutora, vamos supor que Claudia respondera: "Sim, eu sou sexualmente activa. Sim, a última menstruação ainda não me veio." O que é que teria feito nesse caso?

            ‑           Teria feito o teste de gravidez mais cedo ‑ respondeu Kate.

            ‑           E se o tivesse feito? ‑ perguntou Hoskins. ‑ O que é que teria acontecido?

            Kate apercebeu‑se de que Hoskins lhe armara uma ratoeira para a qual ela não tinha uma saída lógica.

            ‑           Sra. Doutora, o que é que a faz pensar que, se tivesse feito esse teste mais cedo, o resultado teria sido diferente? ‑ disparou Hoskins.

            ‑           Não... não sei. ‑ Kate foi forçada a admitir.

            ‑           Está a tentar dizer a esta comissão que, se tivesse feito o teste uma ou duas horas mais cedo, estaria menos tensa e portanto mais capacitada para o fazer correctamente? ‑ indagou Hoskins.

            ‑           Sentia‑me perfeitamente capacitada e controlada quando efectuei o teste! ‑ protestou Kate.

            "Ele está a aguilhoá‑la, e ela a deixar‑se levar", pensou Scott. Percebeu que tinha de intervir.

            ‑           Mr. Mott, a minha cliente já está a depor há várias horas. Peço‑lhe que façamos um pequeno intervalo.

            Hoskins acolheu o pedido de Scott com um ligeiro Sorriso.

            ‑           Sr. Presidente, não ponho qualquer objecção. É óbvio que a arguida precisa de uma interrupção. De um intervalo, quero eu dizer. ‑ Ao voltar‑se, foi recompensado por um aceno aprovador de Claude Stuyvesant.

            Mott já pegara no martelo para declarar que ia fazer‑se um intervalo quando a Dra. Gladys Ward levantou a mão.

            ‑           Sim, Sra. Doutora? ‑ perguntou Mott.

            ‑           Antes de fazermos o intervalo, posso fazer uma pergunta à arguida?

            Scott levantou‑se imediatamente.

            ‑           Sr. Presidente, tenho que me opor! Não se deve permitir que um membro da comissão que irá mais tarde ser chamado a julgar a arguida, aja como instrutor.

Mott voltou‑se para o assessor para saber qual seria a sua decisão.

            ‑           Mr. Mott, pode permitir à Sra. Doutora que faça a pergunta - decretou Cahill.

            ‑           Dra. Katherine Forrester ‑ começou Gladys Ward. ‑ Estando a par da percentagem de erro destes testes, porque é que se contentou em aceitar o resultado como final?

            ‑           Eu não me contentei, pedi também uma ecografia ‑ respondeu Kate.

            ‑           Mas então porque é que não aparece qualquer referência ao resultado dessa ecografia na ficha da doente? ‑ perguntou Gladys Ward.

            ‑           Porque não chegou a ser efectuada nenhuma ecografia. O serviço de radiologia informou‑me de que só a Dra. Gladwin é que estava autorizada a fazê‑las, e ela só entrava de serviço na tarde do dia seguinte.

            Embora parecesse satisfeita com a explicação de Kate, Gladys Ward ainda não dera o assunto por encerrado.

            ‑           Dra. Katherine Forrester, dado que suspeitou desde o início das respostas da doente, o que a levou a fazer o teste de gravidez, diga‑me, se puder, em que é que a presença de Mrs. Stuyvesant afectou, modificou ou alterou realmente a maneira como tratou este caso?

            Kate tentou responder, mas teve dificuldade em encontrar as palavras.

            ‑           Se... se eu não tivesse tido que a confrontar, as coisas podiam ter sido diferentes.

            ‑           Diga‑me uma coisa, Sra. Doutora, alguma vez durante o seu estágio ou especialização tratou uma gravidez ectópica?

            ‑           As ectópicas são na realidade raras, embora nos tempos que correm já não o sejam tanto... ‑ começou Kate.

            Gladys Ward interrompeu‑a:

            ‑           Sra. Doutora, já tratou ou nunca tratou um caso desses?

            ‑           Não. Não tratei. ‑ Kate foi obrigada a admitir.

            ‑           Então, estava a basear‑se simplesmente nos conhecimentos adquiridos através dos livros e das aulas ‑ concluiu Gladys Ward.

            ‑           Sim, mas nessa mesma noite eu diagnostiquei e tratei um caso de crise de Addison sem ter tido previamente qualquer experiência dele ‑ disse Kate, tentando rebater.

            Gladys Ward não lhe respondeu, limitando‑se a fazer uma anotação no seu bloco. Pelo seu ar resoluto e sobrolho carregado, tanto Kate como Scott concluíram que não era uma anotação favorável.

            Mott bateu com o martelo.

‑           Intervalo de cinco minutos!

            Quando Kate se levantou da cadeira de testemunhas, viu Claude Stuyvesant de pé a olhar fixamente para ela, com um brilho de vitória nos olhos.

            Scot e Kate precipitaram‑se para fora da sala para que o advogado pudesse dar alguns conselhos e avisos à sua cliente.

            ‑           Lembre‑se do que eu lhe disse... ‑ começou ele.

            Kate interrompeu‑o:

            - Já sei. "Não riposte!" Mas não posso permitir que Hoskins continue a fazer os seus comentários e insinuações falsas. E ninguém me pode impedir de ripostar.

            ‑           Calma aí, Kate. Eu estou do seu lado ‑ respondeu Scott, agarrando‑lhe na mão. ‑ Assustada? ‑ perguntou ele baixinho.

            ‑ Morta de medo ‑ admitiu ela num murmúrio, com as lágrimas assomando‑lhe aos olhos.

            ‑           As coisas não vão melhorar. Hoskins já sentiu o sabor do sangue. Continue a dizer a verdade. É a única hipótese que temos.

            Ela acenou. Ele levantou‑lhe o rosto, pondo‑lhe o seu dedo por baixo do queixo. Limpou‑lhe as lágrimas dos olhos, depois beijou‑a nos lábios. Ela afastou‑se, olhando para cima, para os olhos dele, como se quisesse perguntar: "É o que eu penso?" Os olhos dele responderam: "Sim, é isso mesmo."

            ‑           Agora, entre naquela sala e enfrente‑os ‑ disse‑lhe Scott.

            HOSKINS fê‑la rever os passos do tratamento administrado a Claudia Stuyvesant, fazendo constantemente referência à ficha da doente. Por mais que tentasse, não foi capaz de detectar nenhuma falha de memória. Depois, seguiu outro rumo.

            ‑ Sra. Doutora, quanto tempo decorreu entre os acontecimentos e a altura em que fez as anotações na ficha de Claudia?

            ‑           Eu anotei logo no livro de registos todos os pedidos relacionados com o tratamento. E ia anotando todas as observações do estado da doente e o meu plano de tratamento na ficha quando podia - respondeu Kate.

            ‑           As regras do hospital não exigem que o médico faça as anotações na ficha do doente sempre que o examina, Sra. Doutora?

            ‑           Exigem.

            ‑           No entanto, está agora a dizer a esta comissão que o fez "quando" podia ‑ escarneceu Hoskins.

            ‑           No serviço de urgência faz‑se tudo "quando" se pode. Parece nunca haver tempo suficiente, mas no fim consegue‑se sempre fazer tudo.

‑           É possível que durante esse lapso de tempo o médico tenha a oportunidade de reconsiderar o que fez e adequar depois as anotações na ficha ao que finalmente tenha acontecido?

            ‑           A sua insinuação de que eu escrevi aquela ficha para justificar o que fiz é uma mentira! ‑ ripostou Kate. ‑ Tudo o que escrevi naquela ficha está de acordo com as minhas observações, com o que fiz e com as razões que me levaram a fazê‑lo.

            ‑           Então, isto que tenho aqui na minha mão é uma cópia do registo completo e preciso do caso de Claudia Stuyvesant?

            ‑           É ‑ respondeu Kate.

            Hoskins fingiu examinar a ficha e perguntou, sem olhar para cima, para Kate:

            ‑           Diga‑me uma coisa, acha que, se um médico levasse uma forte pancada na cabeça, isso poderia incapacitá‑lo?

            ‑           Depende da gravidade da pancada, pode ser que sim ‑ admitiu Kate, confusa em relação ao objectivo da pergunta.

            ‑           Não é verdade que a senhora se viu envolvida num confronto físico com o enraivecido pai de uma doente, durante o qual sofreu uma forte pancada na cabeça, Sra. Doutora?

            ‑           Uma mãe levou às urgências uma criança que estava quase em coma. Suspeitei que fosse vítima de maus tratos e decidi manter a criança no hospital. O pai apareceu resolvido a levar a criança para casa, sem dúvida para esconder os maus tratos. Recusei‑me a deixá‑la sair e ele atirou‑me contra a parede. Sim, é verdade que bati com

a cabeça.

            ‑           A pancada foi suficientemente forte para provocar um traumatismo?

            ‑           Não ‑ respondeu Kate.

            ‑           Suficientemente forte para provocar tonturas?

            ‑           Uma ligeira tontura, talvez ‑ admitiu Kate.

            ‑           Mas continuou a tratar de doentes como Claudia Stuyvesant como se nada tivesse acontecido ‑ comentou Hoskins.

            ‑           Se está a tentar sugerir que não me encontrava no pleno uso das minhas capacidades quando a tratei, engana‑se! ‑ ripostou Kate.

            Hoskins acenou com cepticismo.

            ‑           Mas não será verdade que se envolveu tanto nesse caso que privou Claudia Stuyvesant dos cuidados de que necessitava com resultados fatais?

            ‑           Isso é mentira! ‑ replicou Katherine Forrester.

            ‑           E não foi essa a verdadeira razão porque insistiu tanto em que Mrs. Stuyvesant saísse da sala, para que não visse os cuidados inadequados e negligentes que estava a dispensar à filha?

‑ Ela devia ter aguardado na sala de espera. A sua presença dificultou o tratamento.

            ‑           Sim, sim, já sabemos ‑ disse Hoskins, depreciando‑a. - Acho que a Dra. Gladys Ward já destruiu esse argumento perante a comissão. Na realidade, acho que já todos ouvimos o suficiente.

            ‑ Pois bem, eu não acho! ‑ protestou Kate, levantando‑se do banco dos réus, apesar do gesto desesperado de Scott para a silenciar. ‑ É muito fácil estarem tranquilamente sentados numa sala de audiências e julgarem os meus actos numa noite em que os casos chegavam a um ritmo maior do que era possível tratá‑los. Mas é muito diferente ter lá estado a tratá‑los. Terá Claudia Stuyvesant recebido todo o tempo e atenção que a mãe teria gostado? Não. Terá ela recebido todo o tempo e atenção que o seu estado clínico parecia requerer? Sim!

            Kate voltou‑se de modo a incluir Claude Stuyvesant no seu campo de visão.

            ‑           Eu devia ter percebido naquela noite em que ouvi Mrs. Stuyvesant dizer: "Ele vai dizer que a culpa é minha", que era dele que ela tinha medo.

            O rosto de Stuyvesant corou de ira e indignação.

            Mott tentou interromper, batendo com o martelo.

            ‑           Sra. Doutora! Dra. Katherine Forrester! Dr. Van Cleve, por favor, controle a sua cliente!

            Mas Scott não fez menção de intervir.

            Kate prosseguiu:

            ‑ Era dele que Claudia Stuyvesant realmente tinha medo. Não era da mãe, mas do facto de ela lhe ir depois contar a ele. Foi por causa dele que a filha me mentiu. Se quiserem culpar alguém pela morte dela, culpem‑no a ele!

            Tendo dito tudo o que pretendia e mais ainda, Kate Forrester deixou‑se cair na cadeira, tremendo de ira.

O Dr. Truscott abanou a cabeça gravemente.

            A Dra. Gladys Ward comentou:

‑           Depois de a ter visto na televisão, não estou surpreendida.

            ‑ Dr. Hoskins? ‑ perguntou Mott. ‑ Mais alguma pergunta?

            ‑ Creio que a arguida nos mostrou tudo o que precisávamos de ver. Não tenho mais perguntas a fazer‑lhe.

 

ROSIE CHUNG já estava a fazer café quando Kate e Scott regressaram ao apartamento.

‑ Como é que correu? ‑ gritou Rosie da cozinha.

            ‑ Acho que não correu lá muito bem ‑ respondeu Kate.

            ‑ Também não correu mal ‑ disse Scott.

            Os olhos azuis de Kate contradisseram‑no tão claramente que ele foi forçado a admitir:

            ‑ Não, não correu bem. Desde que saí de lá que estou a tentar elaborar as minhas conclusões. Tentei ser tão duro para consigo como a comissão vai ser. Cá para mim, Mott é como um trunfo que se desperdiça num jogo de bridge: um trunfo que se tem a certeza de que se vai perder. Por isso, estava a contar com Truscott e Gladys Ward. Mas Gladys Ward hoje revelou qual era a sua posição: não parece nada estar do nosso lado. Por isso, as nossas hipóteses dependem do que eu conseguir argumentar para a fazer mudar de ideias. Tentem pôr‑se na posição de Gladys Ward. O que é que as convenceria?

            Foi Rosie quem falou primeiro:

            ‑           O teste de gravidez.

            ‑ Gladys disse que Kate não devia ter aceitado o resultado como definitivo.

            ‑ Mas ela não o aceitou ‑ argumentou Rosie. ‑ Ela pediu uma ecografia. Não foi possível fazê‑la.

            Frustrado, Scott pensou em voz alta enquanto andava de um lado para o outro entre as duas mulheres.

            ‑ Há uma coisa que não compreendo desde que soube que as drogas podiam ter disfarçado as dores de Claudia, a ponto de ela poder esvair‑se em sangue sem ter dores suficientes que alertassem para o seu estado. Ela esteve lá nove horas. As drogas, entretanto, não perderiam o efeito?

            ‑ Está a partir do princípio de que ela as tomou antes de entrar no hospital ‑ salientou Kate.

            ‑           Se é que tomou, teve de ser antes de ir para o hospital ‑ respondeu Scott.

            ‑ Não necessariamente ‑ contradisse Kate. ‑ às vezes, os toxicodependentes andam com droga.

            ‑ Mesmo para irem para o hospital?

            ‑ Ah, sim, sem dúvida ‑ disse Rosie. ‑ Já os apanhei, e Kate também.

            ‑ Ponha‑se na posição de Claudia ‑ sugeriu Kate a Scott. Está suficientemente aflita para chamar a mãe, que andava a evitar há meses, porque sabe que está doente. Talvez até tenha a noção da gravidade, o que apenas vem aumentar a necessidade de drogas. Além disso, vai a caminho do hospital, onde não sabe se lhe darão ou não medicamentos. Por isso, toma uma dose aumentada antes de sair. Para se assegurar de que não lhe vai faltar, esconde alguma no corpo e toma‑a à socapa sempre que pode.

            ‑ Pode ser uma hipótese razoável a apontar ‑ disse Scott. - Só há uma coisa: sem o depoimento de Rick, não podemos provar que ela se drogava.

            Ao ouvir falar no nome de Rick Thomas, Kate lembrou‑se.

            ‑ Rick disse que ela tinha sempre uma dúzia de receitas de vários médicos: valium, darvon, barbitúricos. "Tudo o que se pode imaginar... "

            ‑ "... ela tinha" ‑ acabou Scott.

            ‑ Receitas! ‑ explodiu Rosie. ‑ Analgésicos, sedativos, barbitúricos, todas essas drogas que a Claudia tomava... um médico só as pode prescrever através de uma receita especial em triplicado.

            ‑ E depois? ‑ perguntou Scott.

            ‑ Uma das cópias vai para o Ministério da Saúde ‑ explicou Kate. ‑ Para que o Estado possa controlar os médicos que passam essas receitas demasiado livremente ou os doentes que andam de médico em médico para alimentar a sua toxicodependência.

            ‑ Então ‑ disse Scott, começando a encaixar as peças ‑, se Claudia o fazia realmente, deve haver um registo no ministério. Deixem‑me fazer um telefonema!

            Scott passou a hora e meia que se seguiu a telefonar para o Ministério da Saúde. Falou primeiro com a secção de informática. Depois, a chamada foi transferida para o departamento jurídico, a seguir para outra secção e ainda para mais outra. De cada uma das vezes, teve de explicar que era o advogado da Dra. Katherine Forrester, que estava a ser alvo de um inquérito da comissão de deontologia médica, e todas as vezes foi aconselhado a falar com outro funcionário hierarquicamente superior.

            Subindo na hierarquia, Scott ficou finalmente em contacto com o gabinete do próprio ministro da Saúde. Scott sentiu‑se pela primeira vez um pouco desencorajado quando o alto funcionário interrompeu a sua introdução, comentando:

            ‑ Poupe‑me os detalhes, Sr. Doutor. Eu conheço muito bem o caso Kate Forrester.

            ‑ Então, deve saber também como essa informação é vital para poder defender a minha cliente ‑ declarou Scott.

            ‑ Oh, não tenho dúvidas de que seria muito útil, mas, infelizmente, a informação que deseja é de tal forma confidencial que não pode ser‑lhe fornecida.

            Antes de Scott ter tempo de argumentar, ouviu o telefone desligar‑se. Não foi necessário contar o que acontecera a Kate e Rosie.

            ‑ Você não pode fazer nada? ‑ perguntou Rosie.

‑           Posso. Pensar! ‑ disse ele. ‑ Preciso de tempo para pensar. - Dito isto, despediu‑se e foi‑se embora.

            Só às 4 da manhã é que Scott decidiu finalmente qual a estratégia a adoptar. Sabia que teria de resultar antes da data marcada para as alegações finais para que a carreira de Kate fosse salva.

            ScoT VAN CLEVE regressou ao seu gabinete a fim de começar a minutar, em nome de Katherine Forrester, um requerimento para obter acesso aos registos oficiais de todas as receitas passadas em nome de Claudia Stuyvesant por qualquer médico no estado de Nova iorque. Já era quase noite. Dado que lhe fora negado o apoio do serviço de secretariado, foi obrigado a escrevê‑la com dois dedos no seu pequeno computador.

            Após ter‑se debatido a noite toda com um documento que qualquer secretária decente teria dactilografado num décimo do tempo, Scott ficou finalmente satisfeito com o resultado dos seus esforços. Observou as folhas a serem cuspidas pela impressora. Depois de as ter todas na mão, enfiou‑as numa capa azul própria e em seguida olhou para o relógio. Eram quase 8 da manhã. Kate já devia estar a pé.

            Scott marcou o número dela; tocou quatro vezes, e ela atendeu a meio do quinto toque.

            ‑ Kate, preciso que venha ter comigo.

‑           Hoje de manhã? Onde? ‑ perguntou Kate.

            ‑ Ao Supremo Tribunal de Justiça de Nova iorque. Apanha o metro até à Estação da Chambers Street, depois pergunta o caminho a alguém. Reconhece logo o edifício. É aquele que tem aquela escadaria de pedra enorme que vai dar lá acima aos altos pilares em que se encontram inscritas as palavras: "A verdadeira administração da justiça é o pilar mais firme de um bom governo." Bom, esta manhã vamos descobrir se estas palavras têm realmente significado. Vá lá ter comigo antes das nove e meia.

            SCOTT estava de pé no último degrau do edifício do tribunal a olhar para a rua lá em baixo, viu Kate e acenou para lhe chamar a atenção, mas ela não o viu. Admirou a maneira como ela começou a subir a escadaria: com firmeza e resolução. Podia parecer pequena e desarmantemente feminina, mas era uma mulher que sabia o que queria.

            Ao olhar para cima, para os últimos degraus, Kate viu Scott. Enquanto subia, admirava a estatura alta e magra dele. Quando chegou ao último degrau, perguntou:

            ‑           O que é que viemos aqui fazer?

‑ Viemos falar com um juiz ‑ disse Scott, agarrando‑lhe na mão e entrando no tribunal.

            ‑           O juiz Wasserman está numa reunião ‑ proclamou firmemente a fastidiosa secretária de óculos.

            ‑ Nós esperamos ‑ disse Scott.

            ‑ Ele vai ter de ir para a sala de audiências daqui a pouco anunciou a mulher.

            ‑ Nós esperamos ‑ insistiu Scott. ‑ É importante. Estamos aqui para apresentar um requerimento solicitando autorização para consultar uns registos oficiais.

            ‑           Pode deixá‑lo cá que eu mostro‑o ao juiz quando ele sair da sala de audiências.

            ‑           Não posso esperar tanto tempo ‑ informou‑a Scott.

            ‑           Vai ter de esperar ‑ insistiu a secretária.

            Nesse preciso momento, a porta do gabinete do juiz abriu‑se. Sairam de lá dois homens e duas mulheres ‑ obviamente clientes e advogados ‑ muito zangados. As duas mulheres dirigiram‑se para a porta de saída, e os homens seguiram‑nas. Quando a porta se fechou, ouviu‑se a voz zangada do juiz Wasserman gritar lá de dentro.

            ‑           Freda, quantas vezes é que tenho de dizer isto? Não quero casos de partilha de bens matrimoniais logo pela manhã. Estragam‑me o dia todo!

            Freda gritou em voz alta:

            ‑           Sr. Doutor, estão aqui duas pessoas para falar consigo; trazem uma petição, mas não têm hora marcada.

            Antes que o juiz os impedisse de entrar, Scott já se encontrava à porta.

            ‑           É a carreira de uma médica que se encontra em jogo e o tempo é crucial, Meritíssimo. Tal como verá se nos der a oportunidade de explicar.

            Scott fez sinal a Kate para se lhe juntar e entraram os dois no gabinete do Juiz Wasserman.

            O juiz estava em mangas de camisa e com um colete de malha desabotoado, mas a ausência da sua indumentária formal em nada contribuía para diminuir a sua impaciência judicial.

            ‑ Não tenho tempo. Estão à minha espera na sala de audiências para investir um júri.

            ‑           Eu represento uma médica que está a ser alvo de um inquérito da comissão de deontologia médica, Meritíssimo. É esta a médica em questão.

            O juiz olhou para Kate, depois concentrou toda a sua atenção em Scott.

‑           Bom, prossiga lá, Sr. Doutor, mas veja lá se não demora o dia todo.

            Scott explicou o mais resumidamente possível os acontecimentos que tinham provocado o inquérito e depois relatou a recusa dos funcionários do Ministério da Saúde em revelarem dados confidenciais. A seguir, apresentou ao juiz a ordem que acompanhava a petição para que este a assinasse.

            O juiz examinou os documentos e olhou para Scott.

            ‑           Com tantos juizes que há neste tribunal, o que é que o fez escolher‑me a mim, Sr. Doutor?

            Scott decidiu adoptar o conselho que dava sempre a Kate: dizer a verdade.

            ‑           Escolhi‑o porque o senhor é um independente. Precisava de um juiz que estivesse disposto a arriscar‑se a ver a sua ordem rejeitada ao aventurar‑se numa matéria sem precedentes, pondo a justiça acima da lei.

            ‑           Mas que grande elogio, meu rapaz ‑ disse Wasserman. Voltou‑se para Kate. ‑ Diga‑me uma coisa, doutora, está realmente convencida de ter dispensado a Claudia Stuyvesant os melhores cuidados possíveis?

            ‑           Naquelas circunstâncias e com as informações ao meu dispor, fiz o que qualquer bom médico teria feito.

            ‑           Há mais alguma coisa que gostasse de me dizer antes de eu decidir?

            ‑           Há, sim, Meritíssimo ‑ respondeu Kate. ‑ Não estamos apenas a pedir‑lhe que assine uma ordem do tribunal. É a minha vida que está em jogo, aquilo que eu nasci para fazer: exercer medicina, curar doentes.

            Wasserman acenou com a cabeça, pensativo. Pegou na caneta, mas, antes de assinar a ordem, disse:

            ‑ Nunca conseguiria adivinhar o que me convenceu a assinar, Sr. Doutor. Foi a sua descrição do papel que Claude Stuyvesant desempenha nisto tudo. Já é altura de alguém o fazer encarar as verdades desagradáveis da sua vida.

            Após ter assinado, Wasserman sorriu e estendeu o documento a Scott.

            ‑           Aqui tem. Agora vá imediatamente para o ministério. Arranje os registos e esfregue‑os na cara de Stuyvesant.

 

            As TORRES altas e gémeas do Centro Comercial Rockefeller dominavam a cidade e os seus arredores num raio de vários quilómetros. Kate e Scott viram‑nas logo que saíram da Estação de Caminho de Ferro de Albany. Era naquele edifício que se encontravam os serviços da maior parte dos ministérios do estado de Nova iorque.

            Descobriram os serviços do Ministério da Saúde. Scott apresentou a ordem do juiz Wasserman à funcionária encarregada dos registos de estupefacientes. Após um exame minucioso e muita conversa, foi‑lhes entregue uma cópia de todas as receitas relacionadas com estupefacientes passadas em nome de Clau'dia Stuyvesant. Scott submeteu‑se à especialidade de Kate.

            ‑           O Dr. Eaves vem mencionado várias vezes. E outros médicos, como Tompkins, Henderson, Goldenson, Fletcher, Davidoff, Grady, Fusco

            ‑           Pobre Claudia, ela andou mesmo de mão em mão ‑ comentou Scott.

            ‑ E tinha mesmo de andar, tendo em vista o número e tipo de drogas ‑ disse Kate. ‑ Dalmane, pentobarbital, amobarbital e amobarbitalsecorbarbital: estão todas aqui. Tudo o que Rick diz que a viu tomar. Mas as mais significativas são estas ‑ acrescentou Kate, atraindo a atenção de Scott para as últimas linhas do papel. Ele leu‑as.

            ‑ O que é que estas têm de tão significativo ou diferente? - perguntou Scott.

            ‑           Estas receitas foram todas passadas nas suas duas últimas semanas de vida: percodan, codaína, valium. Ela devia estar encharcada nestas drogas quando a levaram para o hospital.

            ‑ E as que ela provavelmente conseguiu levar para a urgência ‑     acrescentou Scott. ‑ Eram suficientes para disfarçar a dor?

            ‑           Considerando o efeito dessas drogas tomadas em conjunto, podem disfarçar a mais intensa das dores ‑ explicou Kate.

            ‑           Meu Deus, ela estava mesmo perdida ‑ disse Scott, sentindo uma certa pena da rapariga.

 

No COMBOIO de regresso a Manhattan, Scott passou o tempo

a estudar a história da toxicodependência de Claudia e a delinear a sua estratégia jurídica. Mesmo com esta nova prova, podia não ser muito fácil convencer os dois médicos membros da comissão de que a doente é que era a culpada em última instância no caso da Dra. Katherine Forrester.

            Quando o comboio estava a percorrer os últimos quilómetros até Manhattan, Scott perguntou:

            ‑           Há alguma hipótese de ser questionável que a combinação destas drogas tenha suprimido suficientemente a dor de Claudia, fazendo que o seu estado parecesse menos grave do que na realidade era?

‑ Nenhuma ‑ disse Kate. ‑ Eu posso declarar isso.

            ‑ Isso não serve ‑ contrapôs Scott. ‑ Um depoimento desse tipo tem de vir de um especialista independente.

            Ele permaneceu calado o resto do caminho, embrenhado nos seus pensamentos. Apesar da sua curiosidade, Kate não lhe interrompeu a meditação.

            Quando iam a sair da Estação Grand Central para a Rua Quarenta e Dois, Scott disse:

            ‑           Kate, preciso de saber tudo o que é possível sobre gravidezes ectópicas: a importância da dor para o diagnóstico, o efeito das drogas na dor, sinais, sintomas e resultados laboratoriais. E preciso de saber tudo isto até amanhã de manhã!

            Kate passou o resto da tarde e a noite, com a ajuda de Rosie, a ensinar Scott como se ele fosse um estudante do primeiro ano de Medicina. Não fizeram intervalos. Enquanto Rosie descrevia as gravidezes e as gravidezes ectópicas, Kate foi fazer café. Enquanto Kate procurava referências nos livros de estudo, Rosie fez as sanduíches. Não pararam durante seis horas, até Scott se recostar, exausto.

            ‑           Não tinha uma noite assim desde a altura em que andei a estudar para o exame da Ordem dos Advogados ‑ disse ele. ‑ Agora, tenho de ir para casa e transformar isto tudo em munições jurídicas.

            Pegou nos seus apontamentos e nos quatro livros de estudo que Kate e Rosie tinham utilizado e foi‑se embora.

            Quando ele saiu, Rosie disse:

            ‑ Não sei o que tu pensas, Kate, mas eu gosto deste homem. Tenho muita confiança nele.

            ‑           Eu também.

            ‑           Também gostas dele? Ou tens só confiança nele? ‑ perguntou Rosie.

            ‑           Ambas as coisas em abundância. Só espero, quase tanto por ele como por mim, que, seja lá o que for que ele tenha em mente, resulte, porque ele sente o mesmo pela advocacia que eu sinto pela medicina.

 

QUANDO Kate e Scott entraram na sala de audiências, a primeira pessoa que se lhes deparou foi Claude Stuyvesant pairando sobre a mulher, que se encontrava sentada na extremidade da mesa de Hoskins. Enquanto Scott pousava os documentos e livros que pretendia utilizar, Mott deu início à sessão.

‑           Dado que já foram apresentadas todas as testemunhas, esta comissão está agora pronta a ouvir as alegações dos advogados. Dr. Van Cleve, pela arguida, primeiro.

            Scott levantou‑se lentamente, consciente de que ia causar furor.

            ‑           Sr. Presidente, em vez de proferir alegações, gostaria de pedir para reiniciar a inquirição.

            ‑           Reiniciar! ‑ exclamou Hoskins. ‑ Oponho‑me, Sr. Presidente! O advogado de defesa já teve mais que oportunidade de apresentar a sua tese. Reabrir agora seria ir contra as regras. Dr. Cahill, exijo que intervenha.

            Cahill advertiu:

            ‑           Dr. Van Cleve, nesta fase, a inquirição só pode ser reiniciada se houver novas provas a apresentar.

            ‑           Acontece que tenho uma nova prova a apresentar ‑ disse Scott. ‑ E além disso, gostaria de apresentar outra testemunha.

            ‑           Nova prova? ‑ repetiu Cahill. ‑ E uma nova testemunha? Espero que não se trate de outro homem invisível, como Rick Thomas.

            ‑           Desta vez, a testemunha está pronta a depor imediatamente

‑           respondeu Scott.

            ‑           Um momento, Dr. Van Cleve ‑ disse Mott asperamente.

            Depois, com um gesto brusco e irado, Mott chamou Cahill até ao canto da sala para uma curta troca de palavras.

            ‑           Mas que raio, Cahill, isto é um truque! Agora, vá lá, diga que não é possível e acabe de uma vez por todas com isto!

            ‑           Calma ‑ disse Cahill. ‑ Se isto fosse um julgamento em processo criminal e aparecessem novas provas antes das alegações finais, nenhum juiz deste estado o impediria. A não ser que pretenda que eles levem o caso a tribunal, o melhor será autorizar.

            Depois de regressar à sua cadeira, Mott declarou:

            ‑           Esta comissão vai reiniciar os trabalhos para apresentação de novas provas e testemunhas por parte do advogado de defesa. Dr. Van Cleve?

            Scott levantou‑se para anunciar:

            ‑           Mr. Mott, a arguida deseja chamar a Dra. Gladys Ward.

            Gladys Ward olhou para Scott com uma raiva surpreendida. O Dr. Truscott pousou o lápis com força. Mott olhou ansiosamente para Cahill.

            Hoskins levantou‑se para protestar.

            ‑           Sr. Presidente, em todos os meus anos como instrutor em processos de inquérito nunca vi nenhum membro da comissão de inquérito ser chamado a depor. Oponho‑me a que transformem este processo num circo!

Scott voltou‑se para Hoskins para lhe perguntar:

            ‑           Sr. Doutor, porque é que a Dra. Gladys Ward foi escolhida para integrar esta comissão?

            ‑           É costume pelo menos um dos membros médicos da comissão ser especialista no campo em causa. Foi devido à sua proeminência no campo da obstetrícia e ginecologia que a Dra. Gladys Ward foi designada.

            ‑           Muito obrigado, Dr. Hoskins ‑ disse Scott ‑, por ter qualificado a Dra. Gladys Ward como especialista proeminente, porque é exactamente nessa qualidade que a chamo a depor. Dra. Gladys Ward, importa‑se de vir ocupar a cadeira de testemunhas?

            Com relutância, a Dra. Gladys Ward sentou‑se na cadeira e prestou juramento.

            Scott aproximou‑se dela.

            ‑           Dra. Gladys Ward, passemos directamente ao ponto que, espero, vá elucidar os outros membros desta comissão sobre a complexidade deste caso. Para começar, poderia enumerar os sintomas clássicos de uma gravidez ectópica?

            ‑           Sr. Doutor, creio que foi mal informado. Não existem nenhuns sinais nem sintomas clássicos das gravidezes ectópicas.

            Scott pareceu ficar espantado.

            ‑           Se as gravidezes ectópicas não apresentam sinais nem sintomas, como é que um médico pode diagnosticá‑las?

            ‑           A combinação de observações e de exames poderá ser sugestiva.

            ‑           O que é que seria "sugestivo"?

            Gladys Ward começou a enumerar impacientemente:

            ‑           Náusea, vómitos, contracções. Fraqueza, principalmente em movimento. Faltas menstruais.

            ‑           Então, Sra. Doutora, seria correcto da minha parte concluir que são poucas as gravidezes ectópicas que se apresentam exactamente da mesma maneira?

            ‑           Eu diria que apenas dez, possivelmente quinze, por cento apresentam um quadro razoavelmente idêntico.

            ‑           A Sra. Doutora mencionou náusea, vómitos e contracções - observou Scott. ‑ Esses são geralmente os sintomas de uma gravidez ectópica?

            ‑           São ‑ respondeu Gladys Ward.

            ‑           Poderá citar outras doenças que provoquem os mesmos sintomas, Sra. Doutora?

            ‑           Oh, claro ‑ concordou rapidamente Gladys Ward. ‑ Úlceras, gastrites, gastrenterites, apendicites, cálculos renais

            ‑           Ora bem, Sra. Doutora, se um médico se vê confrontado com sinais e sintomas "sugestivos" de uma gravidez ectópica, o que é que deve fazer?

            ‑           Deve fazer imediatamente um exame ginecológico bimanual.

            ‑           E isso irá provar a existência de uma ectópica?

            ‑           Não necessariamente. ‑ Gladys Ward foi forçada a dizê‑lo.

            ‑           Porque não?

            ‑           Para começar, numa gravidez normal o cérvix fica descolorado, mas isso não acontece necessariamente numa gravidez ectópica.

            ‑           Durante esse exame bimanual, o médico consegue pela palpação concluir a existência de uma ectópica?

            ‑           às vezes, mas nem sempre ‑ disse Gladys Ward.

            ‑           Portanto, Sra. Doutora, seria justo dizer‑se que não houve negligência da parte da Dra. Katherine Forrester por não detectar uma massa no exame ginecológico de Claudia Stuyvesant?

            ‑           Sim, seria justo ‑ admitiu Gladys Ward.

            ‑           Sra. Doutora, gostaria de lhe ler uma passagem de um livro sobre obstetrícia e ginecologia muito conceituado. Passo a citar:

"São frequentemente sinais e sintomas vagos, para além da quantidade de outras doenças que imita, que fazem da gravidez ectópica um desafio complicado ao diagnóstico. Na realidade, pode muito bem designar‑se a gravidez das trompas como a doença das surpresas." A Sra. Doutora concorda com estas afirmações?

            Gladys Ward fitou Scott com um ligeiro sorriso de superioridade.

            ‑           Não só concordo com essas afirmações, como fui eu que as escrevi, Dr. Van Cleve. Está a citar um texto meu sobre o assunto.

            ‑           Pois estou, Sra. Doutora ‑ admitiu Scott. ‑ Agora que determinámos a grande dificuldade que existe em diagnosticar uma gravidez ectópica, posso perguntar‑lhe se, durante a sua experiência como médica residente no serviço de urgência, alguma vez tratou doentes toxicodependentes?

            Mott e Hoskins e depois Hoskins e Stuyvesant trocaram olhares preocupados. O advogado de acusação levantou‑se e protestou.

            ‑           Dr. Cahill, o depoimento estende‑se a campos especulativos que nada têm a ver com este processo.

            Scott virou‑se para ele.

            ‑ Dr. Hoskins, antes de terminar, provarei a sua relevância a esta comissão!

            ‑           Permitiremos que o Dr. Van Cleve continue desde que prove a relação com o processo ‑ determinou Cahill.

            Enraivecido, Hoskins não teve outro remédio senão sentar‑se novamente na cadeira, pronto a protestar novamente se lhe dessem pretexto para isso.

            Scott prosseguiu:

            ‑           Dra. Gladys Ward, vou repetir. Alguma vez tratou doentes toxicodependentes no serviço de urgência?

            ‑           Todos os médicos já o fizeram ‑ respondeu Gladys Ward.

            ‑           Já alguma vez detectou ou soube de doentes que tomavam drogas enquanto se encontravam no hospital? ‑ perguntou Scott.

            ‑           Já assisti a casos desses ‑ admitiu Gladys Ward.

            ‑           Sra. Doutora, se um doente fosse realmente toxicodependente e se visse privado de toda e qualquer droga durante nove horas, poderia ele ou ela sofrer de sintomas de privação? ‑ perguntou Scott.

            ‑           Essas horas todas seriam um período bastante longo para um verdadeiro drogado.

            ‑           Se acrescentasse a esse quadro uma situação em que o doente estava a sofrer uma grande hemorragia interna, mas apenas sentia dores ligeiras e algum mal‑estar, a que conclusão é que chegaria?

‑ A de que o doente tivera, de uma maneira ou de outra, acesso a drogas durante essas nove horas ‑ disse Gladys Ward.

            Hoskins levantou‑se de repente, gritando:

            ‑           Sr. Presidente! Ainda não foi apresentada aqui qualquer prova que justifique estas perguntas. Não foi apresentada nenhuma prova relativamente à toxicodependência da vítima!

            Antes que Mott pudesse bater com o martelo impedindo que se continuasse a discutir o assunto, Scott protestou:

            ‑           Sr. Presidente, uma vez que a Dra. Gladys Ward foi qualificada como especialista proeminente, é‑lhe permitido responder a perguntas hipotéticas e assiste‑me o direito de as formular.

            ‑           Desde que, se o Sr. Doutor não apresentar um fundamento factual para as suas perguntas, o depoimento não seja considerado! ‑    salientou rapidamente Hoskins.

            ‑           É claro ‑ concordou Scott.

            ‑           Então, pode prosseguir, Dr. Van Cleve ‑ decretou Mott.

            ‑           Dra. Gladys Ward ‑ retomou Scott. ‑ Suponha que o doente andava a tomar grandes doses de percodan, codaína, valium e possivelmente também cocaína

            ‑           Todas elas tomadas em conjunto durante um período de tempo relativamente curto? ‑ perguntou Gladys Ward, revelando considerável preocupação.

            ‑           Neste caso, sim ‑ confirmou Scott. ‑ Sra. Doutora, o efeito sinergético destas drogas, tomadas em conjunto durante as últimas e cruciais nove horas da vida da doente, teria sido suficiente para dissimular a dor de uma gravidez ectópica, por mais forte que tivesse sido noutras circunstâncias?

            ‑           Não há dúvida de que, em conjunto, cada uma delas aumentando o efeito das outras, poderiam facilmente ocultar uma tal dor ao médico.

            Scott recuou até à sua mesa, onde Kate lhe entregou prontamente um maço de folhas. Ele voltou para junto da Dra. Gladys Ward e perguntou:

            ‑           Sra. Doutora, fazia‑me o favor de examinar estas folhas. Principalmente a última página, que contém os dados mais recentes.

            Enquanto o documento trocava de mãos, Hoskins objectou:

            ‑           Eu tenho o direito de ver isso!

            ‑           Logo que a Dra. Gladys Ward acabe de as examinar ‑ respondeu Scott.

            Gladys Ward necessitou apenas de uns instantes para ler a última página. A seguir, devolveu as folhas a Scott, deixando escapar num tom abalado:

            ‑           Meu Deus, não admira

            ‑           Sr. Presidente, desejo apresentar este relatório do Ministério da Saúde como prova.

            ‑           Insisto em ver primeiro esse documento! ‑ exigiu Hoskins.

            ‑           Faça favor, Dr. Hoskins. ‑ Scott estendeu‑lho.

            Hoskins arrancou‑lho das mãos e começou a examiná‑lo impacientemente. Tanto Mott como Cahill se aproximaram dele. E juntos estudaram o relatório do historial de toxicodependência de Claudia Stuyvesant.

            Claude Stuyvesant avançou para junto deles, exigindo o documento. Hoskins não teve outra alternativa senão dar‑lho. Stuyvesant examinou‑o o tempo suficiente para que os factos repugnantes se lhe gravassem na mente e depois regressou para junto da mulher, perguntando:

‑           Tu sabias?

‑           Sabia. Por isso, agora podes parar de fingir.

            Normalmente, o olhar feroz dele teria sido suficiente para a silenciar, mas pela primeira vez em muitos anos Nora Stuyvesant conseguiu arranjar forças e coragem para o enfrentar.

            ‑           Sim. Pára de negar, porque tu também sabias. Sempre soubeste. Mas em vez de tentares ajudá‑la, afastaste‑a de nós.

‑           Foi ela quem nos abandonou ‑ protestou Stuyvesant.

            ‑ É nisso que queres que o mundo acredite. A verdade é que ficaste contente por te veres livre dela, porque ela nunca foi a filha perfeita que tu querias. O filho perfeito.

            ‑           Bolas, Nora! Cala‑te! ‑ ordenou ele.

‑           Tu nunca quiseste a Claudia, por isso afastaste‑a de ti, deixaste‑a à deriva. Fizeste dela o que ela era. Quando te apercebeste disso, tiveste de esconder a tua verdade asquerosa, por isso culpaste‑me a mim, culpaste a Dra. Katherine Forrester, engendraste a destruição de registos, impediste depoimentos.

            O rosto normalmente corado de Stuyvesant, sempre tão determinado, parecia cinzento e envelhecido. Ficou ali parado como se o tivessem despido: à exposição da tirania por ele exercida sobre a família, a sua hostilidade contra Katherine Forrester revelada como escudo para a sua própria culpa. Kate apenas conseguiu sentir piedade dele, mas sentia ainda mais pena de Nora Stuyvesant.

            Sem proferir palavra, Stuyvesant avançou para a porta. A mulher correu atrás dele, chamando:

            ‑           Claude... Claude, espera! ‑ Ele não parou para a escutar.

            Como que para se desculpar por partir assim tão abruptamente, ela gritou‑lhes:

            ‑           Ele vai precisar de mim... Ele vai precisar de mim.

            E desapareceu.

            Quando a porta se fechou, Mott, que ficara sem palavras, fez um gesto a Scott Van Cleve para que continuasse.

            Scott perguntou com um tom de voz e uma atitude mais moderados:

            ‑           Dra. Gladys Ward, considerando a dificuldade pouco usual que existe em diagnosticar uma gravidez ectópica, acrescida das respostas falsas da doente e do resultado falso de um teste, para além da dor suprimida artificialmente pelo uso exagerado de drogas, a senhora diria que o tratamento administrado pela Dra. Forrester a Claudia Stuyvesant se coadunou com o bom exercício da medicina?

            ‑           Com todas as provas agora à nossa disposição, sou forçada a dizer que nada há a apontar ao procedimento da Dra. Katherine Forrester naquela noite ‑ concordou Gladys Ward.

            ‑           E quanto às acusações que lhe foram feitas? ‑ perguntou Scott.

            ‑           Voto a favor da absolvição total ‑ anunciou Gladys Ward.

            Hoskins protestou:

            ‑           Os membros não podem anunciar os seus votos antes das alegações finais!

            O Dr. Maurice Truscott disse em voz alta:

            ‑           Depois de ouvir o depoimento da Dra. Gladys Ward, não preciso de ouvir as alegações finais. Eu também voto a favor da absolvição total.

            Libertos da presença dominante de Claude Stuyvesant, Hoskins e Caíl concordaram que as alegações seriam desnecessárias. Os votos da Dra. Gladys Ward e do Dr. Truscott seriam registados tal como constavam dos apontamentos da estenógrafa. Mott pôde também expressar oralmente o seu voto. Após alguns momentos de embaraço, votou a favor da absolvição de Kate. A seguir, batendo pela última vez com o seu martelo, encerrou oficialmente o inquérito referente ao processo de Katherine Forrester, licenciada em Medicina.

            Kate deu um suspiro lento. Pousou a cabeça na mesa de defesa, exausta. Não viu a Dra. Gladys Ward aproximar‑se.

            ‑           Doutora ‑ disse Gladys Ward num tom brusco. ‑ Deve provavelmente considerar‑me bastante severa, mas a meu ver, quando uma médica falha, desgraça todas as suas colegas. Temos que provar que somos melhores que qualquer homem antes de eles finalmente nos aceitarem como suficientemente boas. Tendo passado pelo que passou, já está à altura. ‑ Ríspida e profissional, como era seu hábito, saiu da sala em grandes passadas.

            Hoskins aproximou‑se de Kate e de Scott.

            ‑           A deliberação desta comissão será transmitida ao ministro da Saúde. Com o que ficou aqui registado neste inquérito hoje, creio que não tem mais nada a recear. Vou entrar imediatamente em contacto com o Dr. Cummins. Poderá retomar automaticamente a sua actividade profissional.

            ‑           PELO menos ficámos a saber o que aconteceu ao relatório da pesquisa de resíduos tóxicos que tinha desaparecido ‑ disse Kate enquanto ajudava Scott a juntar a papelada toda.

            ‑           E porque é que o médico legista não chegou a fazer nenhum teste ‑ acrescentou Scott. ‑ O factor 5. Com o que sabemos agora, temos mais que fundamentos para pôr uma acção por difamação contra Stuyvesant.

            ‑           Não, obrigada. Já tive que me chegue. Estou farta. Agora só quero é continuar a minha carreira e viver a minha vida ‑ respondeu Kate.

            KATE FORRESTER e Scott Van Cleve saíram das instalações da comissão de deontologia médica e depararam com o trânsito barulhento, poluído, de carros colados uns aos outros da Rua Quarenta. Olhando para cima, Kate conseguiu ver pedaços de céu azul por entre os altos edifícios.

            ‑           Apesar do barulho e dos fumos dos tubos de escape, nunca vi um dia tão bonito. É como se recomeçasse tudo de novo. Nem sei como lhe agradecer, Scott.

‑           Para já, pode deixar de me tratar por Scott. As pessoas que são importantes para mim chamam‑me Van.

            Kate tentou cautelosamente:

            ‑           ............ Nada mal.

            ‑           Quanto mais vezes o disser, melhor lhe soa ‑ disse Scott. Depois, perguntou: ‑ Estou cá a pensar se... isto é... Tem alguns planos?

            Ela sorriu‑lhe.

            ‑           Não, não tenho planos nenhuns ‑ disse francamente. Ela sabia o que ele lhe estava a perguntar, e ele sabia o que ela estava a responder. ‑ Olhe ‑ disse ela. ‑ Tenho que ir telefonar para casa.

            Dirigiu‑se a um táxi que estava a deixar passageiros. Ele gritou‑lhe:

            ‑           Jantar?

            ‑           Está bem ‑ respondeu ela.

            ‑           Hoje à noite?

            Imediatamente antes de fechar a porta do táxi, ela gritou:

            ‑           Hoje à noite!

            KATE entrou de rompante no apartamento, gritando:

            ‑           Rosie! Rosie! ‑ Não houve resposta. Então, lembrou‑se de que Rosie estava de serviço naquela semana. Kate dirigiu‑se ao telefone, marcou o número de casa dos pais e esperou, impaciente, enquanto o telefone tocava.

            ‑           Estou? ‑ respondeu a voz da mãe.

            ‑           Mãe, já acabou tudo! Tudo! ‑ berrou ela ao telefone. - Correu tudo bem. Lindamente!

            ‑           Oh, minha querida, fico tão contente, tão contente! ‑ A mãe começou a chorar de alívio e contentamento.

            ‑           O pai está? ‑ perguntou Kate.

            ‑           Vou chamá‑lo ‑ disse a mãe, gritando com a voz embargada pelas lágrimas. ‑ Ben! Ben! É a Kate. Com notícias maravilhosas!

            Ouviu o pai pigarrear antes de dizer:

            ‑           Katie, é verdade o que a tua mãe disse?

            ‑           É, pai. Votaram unanimemente a favor da absolvição!

            ‑           Que bom, querida, que bom! ‑ disse o pai. ‑ Com que então o jovem advogado trabalhou bem, não foi?

            ‑           Melhor do que bem ‑ disse Kate.

            ‑           Agradece‑lhe por nós.

            ‑           Pode ser que o possam vir a fazer pessoalmente um dia destes ‑   disse Kate. ‑ Agora, tenho de telefonar para o hospital para voltar a trabalhar.

            ‑           Sim, querida. Entretanto, eu também tenho umas chamadas para fazer. Há muitas pessoas por aqui que vão ficar contentes com a notícia.

            Ela desligou e telefonou para o hospital. Antes de pedir para ligarem ao Dr. Cummins, pediu uma ligação para o serviço de pediatria. Felizmente, o Dr. Harve Golding estava de serviço.

            ‑           Harve? ‑ perguntou Kate.

            ‑           Kate! ‑ disse ele entusiasticamente. ‑ A notícia já cá chegou. Parabéns! O pessoal está todo exultante.

            ‑           Como é que está a pequena Maria? ‑ perguntou Kate.

            ‑           Foi observada por uma junta médica ontem. Vai levar tempo, vai ser um processo lento, mas ela vai ficar boa.

            ‑           Não há danos irreparáveis? ‑ perguntou Kate.

- Nenhuns ‑ respondeu Golding. ‑ Bom, talvez um.

            ‑           Qual? ‑ perguntou Kate, visivelmente alarmada.

            ‑           Desde que o maldito inquérito começou que ela anda a perguntar por ti. Tem medo que a tenhas abandonado.

            ‑           Eu vou aí, Harve. Eu vou aí! ‑ prometeu Kate. ‑ Passo por aí antes do jantar.

 

                                                                                Henry Denker  

 

                      

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