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O CAVALEIRO DA ESTRELA GUIA / Rubens Saraceni
O CAVALEIRO DA ESTRELA GUIA / Rubens Saraceni

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

O CAVALEIRO DA ESTRELA GUIA

 

O ESTRANHO PESCADOR

Por volta de 1630, numa aldeia à beira-mar, vivia um pescador solitário que quase não conversava. Passava a maior parte do seu tempo a contemplar o mar e suas ondas em eterno vaivém.

Olhava e meditava, pensando num tempo que passara. Ora sor­ria, ora chorava em silêncio. Lágrimas silenciosas se misturando com a água do mar, ambas salgadas. E eram doloridas suas lágrimas, lembravam um tempo que jamais voltaria para ele.

Nos seus dias de tristeza, lembrava-se do pai ardendo na fogueira da Inquisição, na mãe desesperada aos prantos, sem nada poder fazer para salvá-lo. O único que poderia ter feito algo era o Pescador, que agora cho­rava em silêncio, envergonhado de si mesmo por sua omissão e covardia. Não soube agir como um filho.

Melhor explicar um pouco o passado do Pescador.

Seu pai era um cidadão espanhol de origem persa, sua mãe espa­nhola, filha única de um rico mercador daquela terra.

Seu nome, que todos na aldeia ignoravam, era Simas de Almoe­da, mas todos o chamavam de Pescador e nada mais.

Simas estudara com os padres jesuítas e se formara juiz ligado à Igreja, juiz da inquisição espanhola. Ostentava uma batina negra como o breu, com uma cruz de ouro a enfeitar-lhe o peito. Esse era seu brasão, sua razão de ser.

Já vira muitas pessoas morrerem por este símbolo e outros ainda morreriam; mas ele não, vivia por este símbolo, servia a ele como um servo fiel, sem nada opor a ele.

Agora recordava sua tragédia como juiz.

Seu pai, como mercador que era, vivia em constantes viagens pelo Oriente Médio, a Pérsia, seu país de origem, e até o Cáucaso. Tinha contato com outros povos, outras culturas e religiões. Tinha a mente aber­ta ao conhecimento não cristão, o que era considerado heresia pela lei vi­gente na Espanha.

Duas vidas opostas, o mesmo sangue, mas duas maneiras dife­rentes de ser.

D pai, em suas viagens, sempre trazia consigo algum amigo do

Oriente para conhecer as terras de Espanha.

Em sua última viagem, trouxe um grupo de senhores idosos, sisudos e de olhar penetrante, porém calados, que o observavam com inte­resse, sem nada dizerem. Isto o irritava muito, pois só respondiam a seus cumprimentos com uma saudação estranha: "Que o Criador de tudo e de todos o abençoe, filho".

Certa noite, ao ouvir cantos em uma ala afastada da casa, foi observar o que estava acontecendo. O que viu o deixou perturbado.

Lá estavam aqueles senhores com seus turbantes coloridos, cada um com uma pedra preciosa, de cores diferentes. Tinham pedras verdes, vermelhas, cristalinas, amarelas, roxas, azuis, cores-de-rosa e, em seus anéis na mão esquerda, as pedras eram negras.

Estavam todos em profunda concentração e, entre eles, o seu pai, tão próximo e tão estranho naquele momento, alheio a tudo que estava à sua volta.

Ficou a observar por um longo tempo o estranho ritual, até que, ao mesmo tempo, todos fizeram estranhas saudações e se levantaram. Vi-rando-se para ele, ficaram a observá-lo por um instante para, em seguida, voltarem a si, como se nada estivesse acontecendo. Ficaram calados, po­rém preocupados, principalmente seu pai, que conduziu seus hóspedes para outro quarto da casa e lá confabulou por algum tempo com eles. Chamou, em seguida, dois serviçais e, com uma ordem, mandou que os acompa­nhasse.

Levou consigo três baús que mantinha ocultos de todos; dentro dos baús havia alguns manuscritos e uma grande fortuna em ouro e jóias.

Ao chegar ao porto, ordenou imediatamente ao capitão que fizes­se todos os preparativos para partir para a Pérsia ao amanhecer.

O capitão tentou argumentar que seria impossível uma partida tão rápida, ao que ele atalhou com um gesto brusco:

-Toma, aqui tens o que necessitas para partir - e deu-lhe uma pesada bolsa com moedas de ouro.

Ao ver as moedas, o capitão sorriu e disse:

Não se preocupe, meu Senhor, ao amanhecer partiremos. O que não pudermos adquirir de provisões esta noite, nos abasteceremos em algum porto adiante.

Capitão, não quero que digas a ninguém para onde vais. Quero segredo desta viagem, para que nenhum concorrente me passe para trás no negocio que vamos fazer. Cumpre bem as ordens que meus hóspedes te

derem e poderás, como recompensa de tua lealdade para comigo e com eles, ganhar este navio de presente.

Pois não, meu Senhor. Não se arrependerá de confiar em mim, tenha certeza!

Vamos, Capitão, acomoda meus amigos no navio com suas bagagens e serve-lhes boa comida. Não economizes migalhas, pois poderás perder o cesto de pães.

Não se preocupe, meu Senhor, não o decepcionarei.

Pois então mexe-te, capitão. Talvez dentro em breve sejas um homem rico. E até à volta, meu amigo!

E o capitão ficou a dar ordens aos seus homens, despachando uns e outros com gritos e empurrões. A possibilidade de ficar rico o deixa­ra eufórico. Ia seguir à risca as ordens dos amigos do seu senhor.

Após se despedir de seus amigos, o nobre voltou para casa, pre­ocupado com o seu filho. Qual atitude tomar, que palavras dizer, como explicar-lhe sem violentar a sua formação?

Ao chegar em casa, procurou seu filho e não o encontrou. Per­guntou à sua esposa onde ele estava:

Ele saiu há pouco.

E não sabes para onde ele foi?

Não, não disse nada. Saiu muito apressado.

Bem, eu vou esperar por ele; se quiseres, vai dormir, eu estou sem sono.

Boa noite, meu Senhor.

Boa noite, minha Senhora. Boa noite, minha querida Senhora!

As horas iam passando e nada de seu filho voltar. Isto o preocu­pava. O que teria acontecido? O que estaria ele fazendo, ou pior, falando, agora?

Pensamentos funestos passavam por sua mente, como pressági­os a avisá-lo sobre o pior.

Talvez fosse melhor partir junto com seus amigos para o Oriente, então mais tarde enviaria alguém para saber como teria agido seu filho.

Não, isso não! Se seu filho o traísse, sua vida valeria nada. Como viver sem alguém a quem tanto amava?

Ao amanhecer, os serviçais voltaram e lhe disseram que o navio havia partido. Esta notícia o aliviou um pouco. Menos mal! Assim era me­lhor, pois fora ele quem insistira com seus amigos para acompanhá-lo. Seria melhor não criar-lhes embaraços perigosos.

Em seguida, saiu atrás do filho. Mal acabara de sair de sua casa e

01 abordado por um capitão com uma escolta. Levaram-no sem explicação nenhuma à prisão da Inquisição.

Ficou três dias sem ver ninguém, além do carcereiro, que vez ou outra aparecia com uma refeição horrível ao seu paladar.

Meditava na solidão do cárcere sobre qual teria sido a ação do filho, pois como tal não agira. Do contrário não estaria ali, prisioneiro da Inquisição, tão temida por todos.

No quarto dia foi levado diante dos juizes e não viu o seu filho. Isto o deixou mais preocupado ainda. O que teria acontecido a ele? Onde estaria naquele momento?

Interrogaram-no com perguntas e mais perguntas, com acusações que nada tinham a ver com sua vida, seu modo de ser, agir ou pensar.

Nada respondia, apenas ouvia, não queria se defender; seu filho1 o traíra. Por que viver? Para que argumentar? Eles não o entenderiam mes­mo! Tinha diversos inimigos por causa de sua fortuna, e alguns estavam sentados na banca dos juízes, apesar de suas altas contribuições à Santa Igreja.

Quando a sentença foi pronunciada, o juiz-chefe perguntou se tinha algo a dizer ou a pedir.

- Sim, tenho algo a pedir. Quero ver meu filho. -Negado o pedido. O seu filho não quer vê-lo.

- Mas eu preciso vê-lo, pois tenho um grande tesouro oculto, preciso dizer-lhe onde encontrá-lo.

- Pois diga a nós, e o avisaremos onde encontrá-lo.

Não, meus senhores! O tesouro eu enviei com meus amigos só direi como achá-lo a meu filho.

Levem-no de volta à masmorra, carcereiros - falou o juiz-chefe.

Mais tarde o juiz-maior foi falar com o nobre persa e tentou com palavras arrancar-lhe onde estava o tesouro, como conseguir chegar até ele.

Nada demovia o condenado a dizer uma palavra. Nem a tortura física que lhe aplicaram o fez dizer onde encontrar o tesouro. Por fim, vendo que não adiantava persistir, pois isto poderia matá-lo, o juiz desistiu. Mandou buscar o filho do nobre, que seria executado ao amanhecer.

Quando o filho chegou e viu seu pai naquele estado, começou a chorar. Não era isto o que queria para seu pai. Não fora isto que seu amigo, o bispo, dissera que iria fazer, não isto!

Ao chegar perto do pai, quase não o reconhecia, tal o seu estado. Todo ferido, em pele e osso, olhos profundos a fitá-lo num olhar mortiço.

- Pai, eu só queria livrá-lo dos perigos a que seus amigos, servos, do demônio, o estavam levando. Só isso, pai, nada mais que isso.

- Como assim, filho? Em perigo eu estou agora, não com meus amigos O que fizeste? Por que não falaste comigo antes? Por quê, filho

Pai, só fui me aconselhar com o bispo, saber como ajudá-lo a se livrar dos bruxos persas. O bispo disse-me que talvez sua conversão no passado tenha sido somente para enganar a Igreja e para poder casar com mamãe, que o senhor também os enganara. Eu argumentei que não, que o senhor era um bom cristão, temente a Deus, que ele poderia ajudá-lo a se livrar do poder daqueles bruxos. Só isso e nada mais! O senhor sempre me falou de Deus com amor e reverência e de Jesus com amor. Foi quando ele me disse que iria ajudá-lo, que não me preocupasse com mais nada.

Bem, filho, parece-me que me entregaste ao demônio, pois duvido que Deus fizesse isto que fizeram a mim a qualquer filho Seu.

Uma outra coisa, filho meu. O bispo falou a verdade quando disse que eu me converti somente para casar com sua mãe. Essa era a única forma de consegui-lo. E não me arrependo do que fiz, pois foi por amor a ela que assim agi. Talvez esta seja a forma d'Ele me castigar. Sem­pre respeitei a Jesus Cristo como o filho de Deus, e também me considero filho de Deus. A Cristo eu amo como a um Irmão mais velho que, com suas palavras santas, nos tem guiado, filho meu!

- Como assim, pai?

Ora, filho, quem foi anunciar a vinda de Jesus Cristo? Não foram os Magos?

Sim, foram os Magos, mas o que isto tem a ver com tudo o que está acontecendo agora, meu pai?

Tem tudo a ver, meu filho. Os meus amigos não são bruxos, mas sim Magos. Da mesma escola daqueles que anunciaram a vinda do Cristo para regenerar a humanidade. Eles são os Guardiães dos Mistérios Sagrados e não bruxos que vivem a prejudicar os seus semelhantes. Eles só dão boas palavras. Palavras de consolo, de conforto e esclarecimento. Dominam o lado negro e não se servem dele para o mal. São Guardiães das Leis Eternas, em que muitos vão buscar o verdadeiro saber. O saber Divi­no, do Sagrado, da Elevação, nada mais que isto, filho meu.

Mas, meu pai, por que não me disse nada, então? Por que não me esclareceu a respeito deles para que nada disso tivesse acontecido?

- Eu sempre te ensinei o saber sólido, não ilusões passageiras. Ensinei-te como amar a Deus, como eu aprendi, isto eu te ensinei! Quando

quiseste ir para o colégio sacro, não te impedi, pois tens o teu destino e não seria justo eu impor o que achava melhor para ti. Como tornar alguém que gostava de ler e estudar em um comerciante? Melhor deixar a água correr pelo seu caminho natural do que represá-la, não?

Pai, me perdoe, pois, apesar do meu saber, sou um tolo. Errei e viverei com isso eternamente.

Filho meu, não te magoes nem te tortures, pois tudo está aca­bado. Sob a minha cama encontrarás um buraco coberto por uma laje, levanta-a e acharás um baú com um pouco de moedas e instruções a se­guir. Enquanto te aguardava, dei instruções aos servos para que te sirvam; como me serviram. Cuida de tua mãe. Eu te perdôo, mas busca em ti o| perdão que precisas, filho meu, pois este eu não posso te dar, só tu mesmo o acharás.

No dia seguinte, eis que logo cedo foi executada a sentença.

O filho chorou por dias seguidos, junto à mãe que já adoecera. Parecia que as Trevas tinham tomado conta daquela casa outrora tão radi­ante, tão alegre, e que agora só tinha lágrimas e dor.

Que destino funesto era esse que tinha sido reservado a eles! Que castigo medonho!

Logo sua mãe veio a falecer e a solidão tomou conta de tudo, naquela casa. Os criados foram dispensados, o vazio tomou conta de tudo.)

O padre-juiz foi ver o bispo. Devolveu-lhe a cruz de ouro, o anel de juiz, a batina de padre. Nada mais existia que o segurasse naquele lugar. Para que ficar ali?

Simas voltou para a sua casa, afastou a cama e retirou a laje para ver o que havia oculto. Ao abrir o pequeno baú, encontrou uma sacola com muitas moedas de ouro e um pequeno pergaminho, no qual somente havia um símbolo: três cruzes sobre um monte. Nada mais que isto.

Fechou o baú e partiu para longe daquele lugar, jurando nunca mais voltar ali.

Ao sair do portão de sua casa, dois emissários do bispo vieram ao seu encontro, convidaram-no a acompanhá-los. Ao chegar diante do bispo, foi inquirido sobre o tesouro que o pai lhe deixara. Qual o valor deste tesouro? Simas mostrou a sacola com as moedas. Isto decepcionou o bis­po, que imaginava uma grande fortuna. Aquilo não era uma grande fortuna.

Quis saber o que significava o pergaminho, porém Simas não soube explicar.

O bispo quis saber para onde ia. Ele disse não saber, que ia viajar para algum lugar bem solitário, para poder chorar, sem que ninguém pu­desse ouvi-lo.

Partiu e àquele lugar nunca mais voltou. Dele ninguém mais ou­viu falar. Simas de Almoeda desaparecera. Outrora juiz da Inquisição, já não julgava. Estava sendo julgado por um juiz invisível. Um juiz que deixa que cada um pronuncie a sua própria sentença e que a execute de acordo com a própria vontade. O juiz era o seu destino; a sentença, o resto da sua existência. Podia escondê-la dos outros, mas não de si mesmo.

Que juiz implacável esse que se chama consciência! Um juiz que não deixa que se esqueça a sentença um instante sequer.

Eis quem era o Pescador sem nome, solitário e triste, vazio mes­mo sem nada a perguntar nem a dizer, só a solidão.

Olhava o mar sem nada dizer, aguardando um sinal do alto, do Criador de tudo e de todos, como se referiam a Deus aqueles magos. O tempo passava e o sinal não vinha.

Só lhe restava orar para si e para seus semelhantes, na esperança de que suas preces um dia fossem ouvidas por Deus.

Até que um dia teve, a impressão de ver sair do mar uma mulher, uma linda mulher com uma coroa pontilhada por sete lindas estrelas. Vinha em sua direção com um sorriso meigo nos lábios, observando-o entre zom­beteira e carinhosa.

Sentou-se ao seu lado, mantendo uma certa distância. Começou a conversar com o Pescador, como se o conhecesse há muito tempo. Rai­os de luz saíam de todo o seu corpo, suas unhas se prolongavam dos dedos em raios azulados.

O Pescador, depois de muito tempo conversando com ela, per­cebeu que as lendas eram falsas. Que as sereias não eram lendas, mas realidade, pois ele poderia tocá-la se quisesse, apesar de não ousar, já que sua aparência era majestosa. Não eram más, muito pelo contrário. Seu encanto vinha de sua pureza, de sua beleza e nobreza.

E o Pescador, sempre que precisava de algo do mar que não podia pescar, pedia à Sereia. Esta mergulhava e ia buscar, ainda que fosse no lugar mais profundo dos oceanos, pois estimava aquele Pescador tão humilde, que sempre ficava a conversar com ela.

Ele procurava não depredar seu reino. Não trazia sujeira às suas águas. Não tirava ou pedia nada mais do que necessitava para sua existên­cia. E todas as vezes que entrava no mar, para não sujar as águas da Sereia, banhava-se antes em uma cachoeira que existia muito próxima.

Por tudo isto, ela o tinha em grande estima. Sim, o amava e o respeitava. O amor dos seres elevados que sabem cultivar a amizade pura sem nada que a macule ou destrua.

 

O PRESENTE RECEBIDO

Um dia, a Sereia lhe deu um presente, uma estrela do mar, lindai brilhante, que ele guardou no baú, junto com o pergaminho que seu pai lha dera.

Era uma estrela que ora brilhava como um diamante, ora como a mais linda das esmeraldas. Outras vezes, como uma ametista ou uma safira. Dependendo de onde se encontrasse o Pescador, o brilho da estrela mudava de cor.

Se ele ia na mata, ela ficava verde; se fosse às montanhas, ela parecia um rubi em chamas, de tão brilhante que ficava. Quando passava na cachoeira para se banhar, antes de ir ao mar, onde sempre via a Sereia a estrela ficava dourada, e assim por diante, em todos os lugares aonde ele fosse.

Quando o Pescador ia dormir, tinha por hábito orar ao Criador tanto por si como pelos seus semelhantes. Neste momento, a estrela se transformava. Adquiria uma luz viva, um brilho cristalino, que ia crescendo à medida que ele orava, e se irradiava a distâncias enormes.

Parecia-se com um pequeno sol. Se ele orava por alguém, partia um raio de luz até essa pessoa.

O Pescador passou a orar por todos aqueles que se aproximavam e estavam doentes ou desesperançosos da vida.

Alguns melhoravam um pouco, outros ficavam bons. Porém, outros não, e isto o intrigava cada vez mais. Até que um dia, ao ir ao mar, decidiu-se a perguntar à Sereia sobre o fenômeno.

Quando a encontrou, parecia que ela já estava a esperá-lo, pois o, seu olhar era calmo e sua voz mais suave que das outras vezes.

Quando ele quis perguntar, ela fez um sinal com a mão, convi-dando-o a sentar-se ao seu lado, e começou a falar-lhe:

- Pescador, desde a primeira vez que vieste à beira-mar, eu te observo. Muitas vezes não me viste. Quando eu me mostrei, já conhecia o teu modo de ser, agir e pensar.

Conhecia, também, os teus desejos, as tuas vontades, o teu pran­to e o teu desespero. Enfim, conhecia tudo sobre ti!

Eu me mostrei a ti porque sabia que não taparias os ouvidos ao meu canto, nem fecharias os olhos à minha beleza, nem ambicionarias as minhas riquezas. E olha que o mar abriga muitos tesouros!

Sabes, Pescador, que o mar abriga muitos mistérios, encantos, magias segredos e poderes, tudo isto dado pelo Criador, quando fez este mundo que habitamos?

A uns eu dou um presente quando me agradam, a outros dou outros presentes quando me desagradam. Mas a nenhum que venha até o mar, eu deixo de presentear.

Aos que me agradam pelo que trazem de bom em si, a um eu dou uma concha, a outro um pouco de paz; a outros pérolas, ou alimentos.

Aos que me desagradam, dou um pouco de sal para que passem nos ferimentos de seus corpos ou almas, e assim jamais me esquecem.

Alguns dizem que sou ruim, mas na verdade eles é que são im­perfeitos, e não vêem os meus encantos. Então não acham nada de belo no mar.

Não conseguem colher ostras com pérolas. Colhem apenas suas conchas que, se não tomarem cuidado, os ferirão, as águas-vivas que os queimarão ou serpentes marinhas que os engolirão.

Outros dizem que sou boa. Eles me pedem ajuda para, com meus encantos, solucionar os seus problemas e eu não nego ajuda a eles. Assim, um dia, eles me amarão, não por encantamento, mas por amor puro. O tempo fará sua transformação interior.

Ainda há outros que vêm até o mar sem nada pedir ou temer. Sentem-se bem em estar à beira-mar ou em suas águas, a admirar sua grandeza e profundidade, em descobrir os seus mistérios e encantos, os seus segredos e magias. Com isso, adquirem a maior riqueza que o mar pode oferecer a quem se faz por merecer, que é a purificação de suas almas.

Sabes, Pescador, que enquanto olhavas para o mar, com o olhar perdido nas ondas, o mar já estava a purificar-te e absorver-te sem te tocar. Já te encantava sem te encantar. As sereias já cantavam o seu canto encan­tado sem que tu as ouvisses.

O mar já se revelava a ti sem que visses.

Tudo isto eu te digo agora, Pescador, para que entendas por que te dei uma estrela-do -mar de presente. Quero que saibas que muitos colhem com suas próprias mãos, muitas estrelas-do-mar, porém elas não brilham. Apenas aquelas que dou de presente possuem a luz encantadora que brilha eternamente.

As estrelas que dou de presente, eu as ganhei do Criador para dá-

las a quem se fizer por merecer.

Eu tenho muitas delas, mas poucas a quem dá-las. merecê-las? Sendo puro nos ideais, nobre nas ações e simples na vida.

Eis como merecê-las, Pescador!

E tu tens tudo isto contigo. Por isso eu te dei uma Estrela Encantada, Pescador.

Agora vens com perguntas que as respostas estão nelas própria Por que uns ficam bons e outros não?

Porque alguns são como os pescadores que pescam muitos peixes e os perdem antes de poderem comê-los; outros são como os pescadores que jogam a linha com o anzol e nunca pescam nada. Outros são aqueles que pescam muito e dividem os seus peixes com quem não tem o que comer.

A esses últimos a Estrela ilumina com o seu brilho. Aos primeiros ela nunca ilumina; aos outros, de vez em quando ela os ilumina, mas eles não veêm o seu brilho e ela se apaga novamente.

O Pescador perguntou à Sereia:

O que me impulsiona a orar e a me preocupar mais e mais com meus irmãos?

É o poder contido na Estrela que te dei, Pescador. A tua vida s transforma à medida que aumenta o brilho de tua Estrela Encantada. Por tudo, és duplamente favorecido. Quanto mais fazes, mais brilho ela irradia sem cessar.

O Pescador se despediu da Sereia com lágrimas nos olhos. Pelo que entendera de tudo que ouvira, a Estrela, em verdade, pertencia ao Cri­ador e a Sereia o presenteara com uma dádiva sua, porque se agradara com o seu modo de ser e agir para com tudo e com todos.

Eis que sua vida se modificava depois deste encontro. Agora ele sabia que era portador de um tesouro da Rainha dos Mares, a Guardiã dos Mistérios do Mar.

A medida que o tempo passava, o Pescador mais e mais era solicitado a orar pelos enfermos, pelos fracos de espírito, pelos doentes da alma.

Ele se fazia presente em muitos lares de amigos e até de desconhecidos, pois sua fama havia se espalhado rapidamente. Muitos perguntavam como ele conseguia, com suas preces, curar os enfermos e levantar| os fracos que haviam caído no caminho. Ele, na sua modéstia, respondia sempre com um sorriso e uma frase curta: - a minha Boa Estrela".

O tempo passou rápido para o Pescador. Não lhe sobrava mais tempo para olhar para si mesmo, somente para seus semelhantes. Muitas vezes ele gostaria de voltar a falar com a Sereia, contar-lhe como a Estrela que ela lhe dera era milagrosa, que sempre que ele orava ela respondia com

seu brilho encantado, que mais parecia uma voz falando em seu coração, incentivando-o a continuar no caminho em que estava. Com o passar do tempo, o Pescador foi convidado a ir a lugares

distantes para orar por pessoas desconhecidas, em alguns casos até importantes. Viajou por muitas cidades desconhecidas para ele.

Com isso, passou a ser invejado, odiado mesmo, para dizer a verdade Alguns que se diziam sacerdotes do Criador, não podiam aceitar que aquele pescador tão humilde tivesse sucesso onde eles falhavam, sen­do que ele só olhava para uma simples estrela-do-mar. Orava em silêncio e os enfermos se curavam, e eles, com seus rituais seculares, nada conse­guiam.

Alguns até o convidaram a visitar os seus templos para assim descobrirem o seu segredo, a sua magia, seu poder, e, dessa forma, serem como ele.

Especulavam sobre o seu passado. Ele lhes dizia que fora um pescador, mas agora já não podia mais pescar, pois tinha se afastado muito do mar, onde sempre vivera. Por isso estava um pouco triste! O mar lhe fazia falta, sentia saudades das suas ondas, em seu eterno balançar.

Especulavam sobre o seu poder curador. De onde vinha tal fonte de poder? Ele novamente respondia com um sorriso de alegria interior e uma frase curta: - "É a minha Estrela-do-Mar".

Tentaram descobrir como uma simples estrela-do-mar podia fa­zer aquelas curas maravilhosas. Ele lhes explicou que bastava orar por quem necessitasse e a Estrela respondia com sua luz curadora, que ali estava o seu poder verdadeiro.

Eles não se satisfaziam com as suas respostas. Secretamente já haviam mandado buscar, no mar distante, muitas estrelas-do-mar, de todos os tamanhos, e nada acontecia quando eles oravam aos enfermos com a estrela ao lado, como fazia o Pescador.

Tentaram-no com riquezas imensas, com prazeres inimagináveis, com postos elevados e com muitas promessas. Ele nada aceitou, pois nada disso tocava seu coração. Queriam saber tudo sobre ele. Mas ele lhes dizia que seu único poder era a Estrela-do-Mar, e nada mais.

À medida que o tempo passava, ele angariava mais inimigos ocul­tos, que sorriam na sua frente, mas, às escondidas, tramavam como tirar- lhe o poder curador. Tramavam uma ação oculta, com magia negra, para tirar-lhe o poder, mas assim mesmo as suas estrelas continuavam sem Poder algum.

O Pescador começou a sentir o efeito dessas tramas. Estava sendo envolvido por forças negras muito poderosas. Seu ânimo se abateu, seu sorriso se apagou, não sabia o que estava acontecendo. Parecia que ouvia a Sereia chorar ao longe. O choro vinha num canto de lamento, por ver o que estava acontecendo com o seu querido Pescador, que tanto se afastara do seu reino.

O Pescador já não sentia mais a sua Estrela responder às suas preces. O seu poder esvaía-se em prantos. Já não conseguia mais as curas milagrosas; não tinha mais ânimo para dar aos que fraquejavam no cami­nho. Algo estava acontecendo que ele não entendia! Não sabia como voltar a ser o Pescador alegre de antes.

E o canto a cada dia se tornava mais choroso, mais desespera­dor.

Foi quando os grandes sacerdotes estabelecidos começaram a dizer que ele era um grande falsário, ilusionista; que iludia a todos com suas palavras simples, mas sem poder algum. O que ele deveria fazer era jogar fora a sua falsa Estrela da sorte e do poder, pois para nada lhe valia aquela Estrela, senão para lhe trazer dor e sofrimento.

Isso não, respondeu-lhes o Pescador! No íntimo ele sabia que, se assim fizesse, aí sim, começaria o seu martírio.

Os sacerdotes queriam a sua Estrela, mas não podiam tomá-la, porque sabiam que era encantada, e um encanto não pode ser tomado; precisa ser recebido de um doador de livre e espontânea vontade, e isto ele não queria fazer. Então começaram a injuriá-lo ante aos seus amigos, e, pouco a pouco, o Pescador foi ficando solitário. As pessoas foram se afas­tando, algumas até fazendo chacota da sua Estrela-do-Mar.

Nada o abalava em seu amor à Estrela, ainda que ela não brilhas­se e não lhe respondesse como antes. Ele a amava, pois ela o fazia lembrar-se da Sereia do mar, tão distante agora.

Os grandes sacerdotes tramaram mais uma vez. Com a traição negra da magia maligna invocaram os grandes senhores das Trevas para que quebrassem, de uma vez por todas, as forças do Pescador, até que ele lhes desse o seu talismã, a sua preciosa Estrela-do-mar.

E assim o Pescador começou a definhar. Seu corpo ficou todo em chagas, seus ossos doíam como se estivessem quebrados.

Todos se afastaram dele, por sua aparência mortiça, por suas chagas, por tudo o que lhe estava acontecendo. Alguns ainda se lembravam do tempo em que ele os ajudara, e lhe davam um prato de comida ou um copo de água. Outras vezes um pedaço de pão, mas ninguém mais o con­vidava a cear em suas mesas ou a dormir sob seu teto.

E como só vivera, só estava no seu infortúnio.

Vendo que ninguém mais o procurava e poucos o comprimenta­vam, resolveu partir daquele lugar, levando consigo a sua amada Estrela-do-mar.

Caminhou sob o sol e sob a lua por muito tempo, passou fome e frio, sede e solidão. Todos que o viam, dele se afastavam, como se ele fosse um leproso ou coisa pior.

O tempo não contava mais para o Pescador. Para ele, o tempo não existia. Sua dor era imensa, sua solidão infinita. Não tinha destino al­gum! Nada mais tinha além da sua Estrela-do-Mar tão amada. Um dia, conseguiu embarcar em um navio cargueiro e partiu para terras distantes, que não conhecia. Ao chegar, partiu do porto sem rumo algum, pois rumo a sua vida não tinha.

 

ENCONTROU UM AMIGO

(OS SACERDOTES)

Caminhou sem rumo, até que um dia, num bosque, viu um case­bre humilde, mas bem cuidado.

Em princípio, pensou em se afastar, mas a dor e a fome eram maiores que o medo de ser expulso, ou até mesmo espancado, como acon­teceu muitas vezes quando tentou se aproximar de alguém.

E assim se aproximou vagarosamente do casebre. Ao chegar di­ante da porta, não teve coragem de chamar por ninguém. Pensou: "Se já. fora expulso de tantos lugares, por que insistir mais uma vez? Comerei folhas ou alguma raiz que encontrar no bosque e irei embora".

Mas ao se virar para partir, a porta se abriu e de dentro do case­bre saiu um negro, velho e corpulento, de olhar grave e penetrante, que ficou a olhá-lo por longo tempo, sem nada dizer.

Ao falar com o Pescador, a primeira coisa que disse foi:

- Entra, meu filho. Estou preparando o meu almoço e podes comer comigo, se quiseres. Ou talvez minha humilde casa não te agrade, e por isso ias embora...

Ao ouvir estas palavras, o Pescador se ajoelhou reverente e beijou as suas mãos, mas foi interrompido bruscamente por uma voz grave que mandou que se levantasse, pois estava lhe oferecendo um prato de comida e não escravidão.

O Pescador se levantou e se desculpou, já que sua intenção fora só de agradecimento por tê-lo acolhido em sua casa e oferecido um prato de comida para saciar sua fome.

- Entra então, Pescador, pois a comida já está na mesa!

O Pescador entrou e sentou-se à mesa com o negro de olhar inquiridor, sem tocar em nada. Estava sujo e todo maltrapilho, com chagas por todo o seu corpo.

- Por que não te serves, Pescador? Ou queres que eu te sirva também? - perguntou o negro.

- Não quero empestar a sua comida, nem sujar a sua mesa, meu

senhor.

- Se fosses sujar algo ou empestar alguém, eu não te teria mandado entrar, meu amigo. Vamos serve-te logo pois tua fome é maior que a minha.

E o Pescador se serviu com muito gosto. Sentiu-se diante de um nobre verdadeiro.

Após a refeição, o Pescador pediu licença ao negro e foi para o quintal. Lá desenrolou sua Estrela-do-Mar e agradeceu ao Criador por ter ganho tão boa refeição. Espantado, viu que novamente sua Estrela brilhava, um brilho tão forte que o envolvia por inteiro.

Ao terminar suas preces, percebeu que o negro o observava. Envolveu novamente, e com rapidez, sua Estrela-do-Mar no seu pedaço de couro.

O negro falou:

- Não te preocupes, Pescador, pois não quero a tua Estrela-do-Mar, não que ela não seja bonita ou valiosa, mas é que eu tenho a minha Cruz, a qual guardo com muito zelo e amor. Com ela eu faço o que você fazia com a sua Estrela-do-Mar.

Só então o Pescador notou que o negro sabia que ele fora um pescador, e que assim o chamava.

Não sabia o que dizer, mas se sentiu pequeno e infantil diante do homem à sua frente. Parecia que eleja o conhecia de longa data, que sabia tudo sobre ele.

Então perguntou:

Como se chama, bom homem?

João de Mina - respondeu-lhe o negro.

E tu como te chamas, meu filho?

Simas de Almoeda, meu amigo João de Mina. Como já me conhecia, se eu não o conhecia? Acolheu-me quando todos me expulsa­vam, me alimentou quando todos me negavam ao menos um pedaço de pão?

Ora, é simples, meu filho, aquilo que faz na fé simples e pura, sem nenhum conhecimento, além da tua Estrela-do-Mar, eu faço com fé e conhecimento. Tu confiaste no teu modo de ajudar ao semelhante e não procuraste saber nada sobre o teu poder, mas eu confio na minha Cruz e quis saber o porquê dela me dar o poder de curar.

- Como assim, bom amigo?

- Simples. Tu ganhaste a tua Estrela pela tua pureza de espírito, eu ganhei a minha Cruz pela minha consagração ao Senhor dos Mortos.

- Senhor dos Mortos?

- Sim, o Senhor dos Cemitérios, aquele que recebe os corpos e almas dos que partem desta vida, filho meu.

- Fale-me mais, meu amigo, fale-me sobre o Senhor dos Mortos.

Bem, filho meu, vai descansar agora, mais tarde conversare­mos.

Como? Diz que posso ficar hoje contigo, meu amigo?

Sim, por que não? A não ser que isto não te agrade, filho meu!

Agrada-me sim, e muito, meu amigo!

Pois então vai descansar! Lá dentro tem uma cama; vai te dei­tar e dorme.

O Pescador não dormia em uma cama há tanto tempo que, ao se deitar, foi como um sonho. Só podia estar sonhando mesmo: ganhara um almoço, a sua Estrela voltara a brilhar e agora uma cama macia para dormir. Sim, só podia estar sonhando, nem suas chagas doíam mais, nem sentia os seus ossos a incomodá-lo. Só um sonho mesmo, e era melhor não inter­rompê-lo agora. E, pensando nisto, adormeceu.

Quando acordou, já era manhã avançada. Levantou-se apressa­do, sem saber por quanto tempo dormira.

Só sabia que há muito tempo não dormia tão bem, sem nenhum pesadelo a incomodá-lo no seu sono, sem aparição de qualquer ser mons­truoso a persegui-lo.

Sua Estrela-do-Mar tinha sido limpa de todo o pó e estava sobre um pano branco, brilhando como no passado ela brilhava no momento de suas preces.

Sua roupa estava limpa e costurada, seu corpo estava todo lim­po, suas chagas estavam tratadas com unguentos e ervas.

Qual a graça divina que lhe estava acontecendo para que, de um dia para outro, sua vida mudasse tanto?

Seria um milagre do Criador, respondendo às suas preces? Não importava, o importante é que se sentia bem.

Olhou para o negro, que estava a observá-lo, enquanto preparava algo para ele comer e não soube o que dizer. O velho João disse:

Não precisas dizer nada ou agradecer, que a nossa obrigação, quando alguém precisa de ajuda, é ajudá-lo, não dele se afastar. Eis a Lei de Deus, Pescador.

Sim, esta Lei eu conheço, mas tão poucos a praticam que, quando encontramos alguém, não sabemos reconhecê-lo de fato. Eu lhe sou eternamente agradecido, meu amigo João de Mina.

Não tens nada que me agradecer. Quando fazemos o nosso dever para com nossos semelhantes não devemos esperar por recompen­sas; senão, que valor haveria nessa ação diante de Deus, se tivesse que haver recompensa por servir às suas leis?

- Sim, mas você não se preocupou com minhas chagas. Não pensou que talvez fosse contagiado por elas. E agora, eu quase não sinto as dores e os meus ossos já não doem. Como pode ser isto?

- Simples, meu filho! Enquanto descansavas, preparei ervas para limpar tuas chagas, chá que bebeste sem acordar. Orei ao Senhor dos Mortos, pois só Ele poderia ajudar-te neste caso.

- Como assim, meu amigo? Cada vez entendo menos o que me

sucede.

- Come um pouco. Enquanto comes, eu explico para que enten­das melhor. Estás ferido, ferida está a tua alma! Não caistes por causa da tua Estrela, e por causa dela eu te ajudo agora e te ajudarei sempre que precisares. Tuas chagas foram provocadas pelas forças negras que impe­ram na parte escura do Reino Maior. Estavas enfeitiçado por magia negra da pior espécie, magia que nós conhecemos muito pouco, pois não é prati­cada nesta terra onde vivo, nem no lugar de onde vim. Mas é sempre uma magia, e com magia pode ser cortada. Onde as preces falham, as magias funcionam, meu filho. Lembra-te sempre disto e muito aprenderás em tua caminhada nesta terra.

- E o que o senhor fez por mim, meu amigo?

- Despachos a quem de direito, oferenda a quem auxiliasse e para combater as invocações das forças negras.

E como são esses despachos, oferendas e orações, meu ami­go?

Isto só é revelado a quem é iniciado no nosso culto, meu filho. Não está escrito. Não sabemos escrever. De onde venho, tudo é transmiti­do de chefe para seguidor da tradição.

Não há uma escola para ensinar como combater o mal, meu

amigo?

Não, não há uma escola. Há uma tradição que se perde no tempo. Não marcamos o tempo, que em verdade não existe. Todas as noites são iguais e todos os dias são iguais. O que muda somos nós. Uns para melhor, outros para pior, mas o tempo não muda. Ele é eterno, é o Criador do mundo. Ao tempo tu não podes pará-lo, nem tocá-lo, nem mo­dificá-lo, podes?

Não, não podemos. E verdade, só podemos nos transformar, não o tempo.

E nem a Deus tu podes tocar. Podes senti-Lo em ti, transfor­mar-te diante de Sua grandeza, amá-Lo pelo dom da vida que nos dá, mas nunca vê-Lo ou tocá-Lo. Não é mesmo?

Sim, é verdade. Mas às vezes Ele parece tão distante de nós! Sentimo-nos tão desamparados diante d'Ele que só nos resta o consolo de um talismã, como a minha Estrela, a quem me apeguei como a um pedaço de Deus, meu amigo.

Ora, não foi Deus que se afastou para longe, filho, foste tu que te afastaste d'Ele, que rompeste com Sua lei e Seus mandamentos. Tu, que és cristão! Por isso, na nossa tradição, cultuamos os Orixás como ligação com Deus. E nos momentos que nos parece distante o Pai Maior, cantamos aos nossos Orixás para que eles intercedam para aplacar a fúria de Deus com nossas falhas.

Orixás? O que são, meu amigo?            -           Diria que são como anjos. Talvez sejam, quem sabe? Eles através da natureza, dos ventos, do fogo, das águas, da terra e, por fim, da magia também.

Como disse? Pelo que aprendi dos anjos, não é nada disso que eles fazem.

Será que não, Pescador? Podes mudar o nome e o lugar, mas as forças de Deus são sempre as mesmas, onde quer que estejam.

Bem, se Deus é um só, e nisso eu acredito sem discutir, então deve estar certo. Sabe que parece um filósofo falando, meu amigo?

- E o que é um filósofo? Algum iniciado em algum culto, Pesca­dor? É a primeira vez que ouço esse nome.

- Não, não é um culto ou religião, mas uma ciência, a ciência da razão, que discute muito para chegar a alguma conclusão. Ás vezes, discutem por séculos sem chegar a um fim, pois vivem a discutir tudo.

- Bem, então não é melhor que minha religião, porque ela te diz: "isto é assim, foi assim e sempre será assim!" O que tem que mudar és tu, não ela. Só isso! Simples e sem discussão, pois a lei dos Orixás não permite que se discuta sobre a sua essência, o seu ser. Ao dizer qual é o Orixá que o rege, tu ou o aceitas e passas a recorrer a ele no teu dia-a-dia, ou não aceitas, e ele te vira as costas.

- Mas como? Ou aceita ou fim?

- Sim, ou acredita e tem fé, ou não adianta nada ficar especulando de onde vem, nem para onde vai. Podes conhecer, com muita dedicação e respeito, o segredo do seu poder, sua vontade e seus desígnios, mas nunca sua razão de ser. Pois eles são como são, não se modificam, mas podem nos modificar. Depende de nós, se para melhor ou para pior, mas só depende de nós e de ninguém mais.

- Bem, nós temos que estudar muito os livros sagrados, as leis canônicas, para sermos um sacerdote, e o senhor não precisa de nada disto para ter o seu Orixá?

- Não é bem assim, Pescador. Quando alguém nasce, é observa­do, e o elemento que reinar sobre a sua cabeça, a este será consagrado. O Orixá cuidará dele enquanto na terra ele viver, basta respeitar o que manda o seu Orixá, pois os Orixás têm as suas leis. Aquele que assume a função de sacerdote é preparado desde o nascimento. Quando atinge a idade certa, começa a sua iniciação nos segredos dos Orixás, nas suas magias e seus encantos. Recebe, com o passar do tempo, a força do seu Orixá e só quando completar a sua formação poderá ser um sacerdote, a quem nós chamamos de Babalorixá, somente aí ele poderá iniciar a outros com seus Orixás.

- Bem, no fundo é a mesma coisa, sempre precisa ser ensinado, como na minha religião!

- Não é assim tão fácil. Quem se consagra não pode quebrar a consagração, senão quebra a sua própria força, e sua vida deixa de ter motivo de ser, pois sua cabeça pertence ao Orixá. Ele a vira ao se sentir ofendido com seu filho, se este quebrar a consagração.

- Tenho muito a aprender com o Senhor, pena que eu tenha que

partir.

Partir, por quê? Se quiseres ficar, basta que, quando melho­rares de tuas chagas e esqueceres um pouco o teu passado, ajudes a colher na minha roça o que comer. Nós somos simples na vida que levamos, mas somos generosos no coração. Se um dia quiseres partir, a porta de saída é a mesma por onde entraste.

Aceito, porque vejo que sabe que nada tenho além da minha Estrela e do pergaminho que guardo há muito tempo como lembrança de um passado que não volta mais.

Nós não ligamos muito para o passado, pois, se ele foi bom e o dia de hoje não o é, sofremos pelo que perdemos. Assim, o hoje nunca será bom. Se o passado foi ruim, procuramos esquecê-lo, senão fará parte do presente quando já é passado, e o hoje também não será bom. Não é verda­de? Guarda um lugar na tua mente para o passado, mas nunca toda a tua mente para o passado, senão nunca viverás o hoje, que será sempre o ontem, meu filho.

Sábias palavras, meu amigo. Sim, você é um sábio, um verda­deiro filósofo!

Bem, seja como quiseres, mas tua comida já esfriou e não tocaste nela, será que é assim tão ruim?

Não, não! A comida é boa, mas suas palavras são muito melho­res, elas alimentam a minha alma, que está mais faminta que meu estôma­go. Sim, como elas me fortalecem!

- Então come, que vou sair um pouco, filho. Mais tarde eu volto.

E o Pescador ficou pensando, enquanto comia. Que homem es­tranho, que saber simples, mas objetivo e racional, claro até demais! Um surdo não deixaria de ouvi-lo. Quem seria este homem? Um santo perdido no meio do bosque? Um mago igual aos amigos de seu falecido pai? Quem seria ele?

Muitos pensamentos vieram à sua mente. Ele até se esqueceu do

tempo.

Já era tarde, quando o velho negro voltou. Vinha acompanhado de uma moça, negra como ele, de seus vinte e cinco a trinta anos, no máximo. Vinham conversando animados, quando o viram sentado ao pé de uma árvore.

O Pescador se levantou e os cumprimentou com alegria. Já se sentia muito melhor agora.

Boa tarde, Pescador, como estás?

Bem, meu amigo, muito bem mesmo, obrigado.

Pescador, esta é minha filha Ruth. Ruth, este é nosso convida­do, de quem você tratou ontem. Parece o mesmo?

Só pelas chagas, mas ele hoje parece outro, não é aquele que estava deitado na minha cama ontem.

Como? Aquela cama é sua? E foi você que me limpou todo e me tratou com as ervas?

Ao dizer isto, o Pescador ficou rubro de vergonha. Nunca havia tocado ou fora tocado por uma mulher.

Oh! Não precisa ficar com vergonha, porque eu fiz somente o que era necessário, nada mais. Eu não ouvi nada além dos seus gemidos de dor, quando o sumo das ervas queimava suas feridas.

Muito obrigado, fico-lhe eternamente agradecido pelo que me fez. Muitos nem perto de mim chegavam com medo de pegar minha lepra.

O velho atalhou ríspido.

- Quem disse que tens lepra? Eu já te falei do que sofrias! Não digas mais nada, vamos entrar.

Ao cair da noite, começaram a chegar outros negros, que se sentavam na frente da casa aguardando que o velho João de Mina os aju­dasse. E foram chegando mais e mais.

Até que ele saiu e saudou a todos, desejando que Deus os aben­çoasse.

Sentou-se em um banco próximo do fogão e, um a um, foi rece­bendo a todos. Fazia suas orações e passava ervas verdes em seus corpos. Em alguns aspergia água. Dava conselhos diferentes a cada um, ouvia as suas queixas e seus pedidos calado, e sempre tinha uma palavra a dar. E todos saíam contentes da sua casa, já tarde da noite.

Ao terminar de atender a todos, o velho negro se ajoelhou, reve­rente e cantou por um bom tempo em uma língua estranha ao Pescador, que conhecia muitas línguas, mas nenhuma parecida com aquela. Ora era um canto alegre, ora um canto choroso.

Ao terminar, bateu três vezes a cabeça no chão, como a saudar a alguém invisível aos olhos do Pescador, mas bem visível ao negro velho.

Levantou-se, apanhou um vaso com água e um prato de comida e se foi bosque adentro, demorando-se para voltar. Quando voltou, parecia cansado, mas seu rosto tinha uma felicidade que parecia brilhar como bri­lhava novamente a Estrela do Pescador.

Este nada perguntou, esperando alguma palavra, mas o velho negro nada disse além de "Boa noite", pois era tarde. E foi dormir.

Ruth mandou que tirasse a roupa, pois ia passar-lhe um pouco mais de unguento de ervas para que suas feridas se curassem logo. Assim feito, mandou que ele se deitasse na cama, que ela ia dormir sobre uma esteira, no chão.

O Pescador não quis, mas ela praticamente o obrigou a se deitar. Ele ainda tentou argumentar que não era justo que ela dormisse no chão, enquanto ele, um estranho, ficava com sua cama.

Mas de nada adiantou. E assim foram todos dormir.

Os dias se passavam, e o Pescador começou a ajudar ao pai e à filha em sua roça, que era pequena mas bem variada. Ali tinha um pouco de tudo que uma pessoa precisava para viver, além das ervas sagradas.

Começou a aprender com eles o poder curador de cada planta. Para que servia cada uma delas, como prepará-las, as dosagens corretas. Ao fim de algum tempo, já estava preparando os elixires junto com Ruth para que o velho João de Mina os desse aos seus fiéis necessitados, escra­vos dos engenhos, que vinham até ele para curarem suas doenças, com o consentimento dos senhores de engenho que assim tinham a sua mão-de-obra saudável e produtiva.

Melhor explicar: para a produção de açúcar, os portugueses trazi­am milhares e milhares de negros da costa africana para trabalharem em suas lavouras de cana-de-açúcar. Quando os negros que trabalhavam pró­ximo ficavam doentes, eram trazidos até o casebre do velho João de Mina, para serem tratados, pois custavam caro e os senhores dos engenhos não queriam perder dinheiro. A fama do curador ia longe, acontecendo algumas vezes de os próprios senhores virem buscar o atendimento com ele. Isto o deixava em uma situação cômoda para praticar o seu culto sem ser moles­tado.

A amizade se consolidou entre os três. O Pescador começou a aprender um pouco da magia africana, os encantamentos, as rezas, enfim, de tudo um pouco, até ajudando ao velho João de Mina no atendimento aos negros escravos.

Ficou admirado com o poder que o curador possuía. Como suas preces eram atendidas pelo Criador! Era o homem certo no lugar certo. Sem ele, aquelas pessoas, sem nada além de um pedaço de pano para se cobrirem e a alimentação horrível dos engenhos, não teriam esperança al­guma na existência de um Deus a ampará-los no sofrimento, na falta de liberdade e na busca de um futuro melhor.

Uma noite, ao ver a multidão que aguardava para ouvir os seus conselhos, aos quais eles acatavam com muita fé, o curador convidou o Pescador a usar sua fé em sua Estrela e auxiliá-lo com todas aquelas pesso­as. Em princípio o Pescador não sabia o que fazer, mas, se um dia a Estrela fizera milagres com suas preces a Deus, quem sabe era a hora de voltar a servi-Lo, em agradecimento pela graça recebida.

E assim viu que o brilho de sua Estrela era enorme e se expandia sobre os enfermos como um bálsamo sagrado enviado dos céus aos que ali estavam.

Seus olhos se encheram de lágrimas, o pranto brotou espontâ­neo, a mágoa que estava contida em seu peito foi lavada pelas lágrimas que escorriam dos seus olhos como duas fontes de água sagrada a lavar-lhe a alma de todo o sofrimento que tinha passado. Novamente Deus respondia a suas preces, como a dizer que, apesar de tudo, ainda confiava nele, dando-lhe nova oportunidade de servi-Lo.

Olhou à sua volta e sentiu que estava sendo observado com curi­osidade. Para aqueles negros, um branco chorar era a última coisa que pensariam ver um dia.

Alguns chegaram a dizer que era uma manifestação do Orixá sobre o filho. Por fim, sentiu-se como se a sua Sereia cantasse alegre novamente.

Depois daquela noite, voltou a sorrir com alegria para a vida.

Certa noite, a reunião no casebre estava diferente. Chegaram diversos negros, cada um de um lado do campo. Parecia que vinham de lugares distantes, pois demonstravam cansaço, além de estarem todos em­poeirados.

Chegaram e fizeram estranhas saudações ao velho João de Mina, como se fossem sinais de identificação. Mais tarde, o Pescador veio a saber que aquela era a forma de se saudarem os sacerdotes africanos.

Comeram um pouco, após se lavarem, e ficaram a conversar em sua língua por longo tempo. O Pescador pediu licença e se afastou para o terreiro da casa, lá ficando a pensar sobre quem seriam aqueles senhores de rostos sofridos, corpos arqueados pelo tempo, mas com uma força interior incomum.

Pouco depois foi convidado a entrar por Ruth.

Senta-te conosco, filho - disse-lhe o velho João de Mina.

Conheças meus irmãos, que também estão curiosos para co­nhecer-te, Pescador.

Foi apresentado, um a um, a seus amigos: André, João, Ansel­mo, M'Gomo, Moisés, José e Aristides.

Antes eram treze, mas seis ficaram na África, e deles não te­mos notícias, desde que fomos de lá tirados.

Como assim? - perguntou o Pescador.

Bem, é uma longa história, uma longa e triste história. Éramos treze pais que abriam o culto ao nosso povo, que se espalhava por uma grande região. Uma vez a cada quarenta e nove luas nos reuníamos, como hoje estamos reunidos, para trocarmos idéias, ensinamentos e informações sobre nossas aldeias.

Nós oito já estávamos reunidos quando surgiu um grande exér­cito, de tribo desconhecida, acompanhado de muitos brancos. Capturaram quase toda a minha aldeia. Passamos por muitos sofrimentos e humilha­ções, até que fomos embarcados em navios e viemos aportar nesta terra por nós desconhecida, cheia de homens cruéis que nos mantinham em correntes como feras selvagens. Logo apareceram alguns negros iguais a nós que nos diziam que éramos escravos, que íamos trabalhar para aqueles brancos a troco de nossas vidas, ou então iríamos sofrer muito. Foram muitos que tentaram fugir e o castigo foi cruel, alguns vieram a morrer. Nós não sabíamos o porquê daquele sofrimento, mas prometemos nos encontrar assim que fosse possível.

Fomos, quase todos, para um único engenho, e às escondidas, conseguíamos nos reunir. Procuramos conservar nossas vidas e aconse­lhamos nossos irmãos para que tomassem muito cuidado, pois ali éramos como os burros de carga: ou trabalhávamos, ou não comíamos, e ainda íamos para o tronco, apanhar com o chicote do feitor.

Nossas mulheres eram violadas por aqueles homens cruéis, nossas filhas usadas como bem entendessem. Chorávamos de desgosto e tristeza. Parecia que Zâmbi, o nosso Deus, nos abandonara. Reduziam-nos a farrapos.

- Alguns, de tanto desgosto, procuravam a morte como forma de não sofrerem mais. Sabe o que é isso, Pescador? Não, você não sabe o que é ser escravo depois de ser livre.

- Bem, o mal existe em todos os lugares, não? - argumentou o

Pescador.

- Sim, o mal existe, mas essa é a pior forma de crueldade. Em nossa aldeia, um homem caçava ou plantava raízes para comer e não obri­gava ninguém a fazer isso por ele apenas para acumular riquezas. Isto é o pior que pode haver, pois, se você não pode fazer uma coisa, não deve obrigar outro a fazê-la por você. Esta é a lei, a nossa lei.

- Bem, aprendemos como agradar aos amos brancos. Bastava

trabalhar.

Por que os brancos, que dizem ter um Deus tão bondoso, agem assim? - perguntou o velho Aristides.

Não sei, meu amigo, talvez sua ambição seja maior que sua fé em Deus. - disse o Pescador.

Pois eu digo que eles não têm Deus algum - disse o que se chamava João. Chegamos aqui amarrados, e nos põem para trabalhar a troco de nossas vidas. Que homens são esses? Diga-nos.

Não sei dizer ao certo, pois onde nasci era quase igual. Os senhores tudo podiam, os camponeses nada podiam. Faziam, dos pobres, quase escravos, só que de uma forma diferente.

Ora, eles não têm Deus algum! Seu Deus chama-se ouro, ri­queza, poder, nada mais. Como podem dizer que rezam a Deus? Isto é ofensa a Zâmbi!

Vamos devagar, meus irmãos, pois o Pescador é diferente de­les. E branco, mas é diferente. Não vamos ofendê-lo. Ele não é o culpado do nosso sofrimento - disse-lhes o velho João de Mina.

Após estas palavras, os outros velhos se acalmaram e ficaram em silêncio.

Sim, ele traz a Estrela de Iabá Inaê, então é diferente! E por isso não vamos magoá-lo com nossas mágoas.

Perdoe-nos, amigo, temos visto nosso povo ser destruído por tanto sofrimento, e isto nos machuca o coração. De que adianta curarmos suas feridas e doenças, se nosso poder não pode lhes dar a liberdade? -falou o velho Moisés.

Sim, nós os acalmamos, damos bons conselhos e os ajudamos, mas é muito pouco para quem perdeu a liberdade. Só lhes resta orar e esperar, nada mais. Entende-nos, não, filho?

- Sim, eu entendo, mas não sei como ajudar. -Ninguém pode nos ajudar, a não ser Deus. Ninguém mais!

Bem, mas conte como conseguiu o símbolo de Iabá Inaê

Foi num tempo em que eu também chorava e orava a Deus pelo Seu perdão. Aí, uma sereia do mar apareceu, e depois de algum tempo, me deu esta Estrela. Disse-me que só dava aquela Estrela a quem a merecesse. Eu entendi isto como um sinal de Deus para mim.

Quando descobri sua utilidade, usei seu poder em benefício de muitos, até que o perdi e teria morrido, não fosse pela bondade do senhor João de Mina, que me acolheu, curou minhas chagas e devolveu o poder de minha Estrela, que voltou a brilhar.

Acho que foi tocado pelo Orixá das águas, filho - disse-lhe pai

José.

-           Todo aquele que se sente perdido e clama, terá um Orixá para responder-lhe. É só aguardar!

Passaram quase toda noite conversando sobre muitos assuntos.

Bem, meus amigos, não sei como ajudá-los, mas também oro a Deus por vocês. Boa noite!

Boa noite! - responderam os velhos ali reunidos.

Ao orar para dormir, o Pescador viu sua Estrela brilhar intensa­mente. Viu naquilo um sinal divino. Sim, faria alguma coisa por eles!

Após algumas semanas, o Pescador se informou de como che­gar a algum vilarejo dos brancos e partiu para lá.

Ao chegar, viu que ali não havia miséria, que todos trabalhavam muito, mas que estavam bem vestidos, quase como na Europa. Apenas não havia o mesmo luxo. Encontrou portugueses, espanhóis, alguns italianos e, principalmente, negros havia muitos, um pouco de índios e mestiços.

Travou conhecimento com alguns que queriam saber quem era ele. Explicou que chegara há uns meses, e que viajara muito por aquelas terras sem parar em lugar algum, até que encontrou aquele vilarejo. Pedi­ram-lhe notícias da Europa, mas ele lhes explicou que há muito, quase oito anos, abandonara a Europa. Fora para a Grécia e outros países e, finalmen­te viera parar nestas terras.

Foi até a igreja e se ajoelhou para orar, quando viu um padre que o observava.

Levantou-se e foi cumprimentá-lo. Ficaram a conversar por lon­go tempo. O Padre o convidou a pernoitar na sua casa, ao lado da igreja. Passaram longo tempo a conversar sobre a missão da Igreja.

O Padre falou que ser cristão nestas paragens era muito difícil que ali era tudo selvagem. Difícil falar de Deus àquelas pessoas, pois os negros tinham os seus deuses, os índios também. E os brancos pouco ligavam para Deus. Estavam ali sonhando com riquezas que nunca vinham.

Ficou por alguns dias com o Padre, até que este o convidou a visitar uma aldeia indígena.

Partiram cedo, no lombo dos cavalos. Já era tarde do dia quando lá chegaram. Foram bem recebidos pelos índios, que acorriam de todos os lugares para vê-los.

Foi-lhes servido um pouco de comida dos índios. Comeram. O Pescador perguntou ao Padre se todos os índios andavam daquele jeito, nus ou seminus, inclusive as mulheres.

O Padre respondeu que sim. Para eles isto era o normal, pois eles andavam pela floresta a caçar e a pescar e a roupa só os atrapalhava; que às vezes, ele lhes trazia roupas, mas que eles não as usavam após sua partida. Só tornavam a vesti-las quando voltava para visitá-los.

Nada mais me surpreende nesta terra, Padre. Tudo aqui é dife­rente!

Sim, tudo é diferente, o novo é sempre diferente. Mas também é fascinante, meu amigo. Você tem a oportunidade de pregar o cristianismo em sua forma pura, sem dogmas e rituais, como na Europa. Aqui você tem um pouco de liberdade para pôr em prática sua própria concepção do cris­tianismo. Mas saiba que não somos bem vistos pela igreja de Roma. Eles querem que catequizemos, mas também contribuamos com algum tipo de riqueza. Diga-me, como pedir algo a quem nada acumula?

Como tirar algo desta terra que tem muitas riquezas, mas onde tudo está por fazer?

De lá, nada nos mandam, só nos pedem. Mas tem o lado bom: aqui servimos ao Cristo com amor e liberdade, sem ninguém a nos sufocar com regras com que, às vezes, não concordamos.

 

COM OS ÍNDIOS

(O DILEMA)

Já era tarde da noite quando chegou um grupo de índios de outra tribo bem distante, mais para o interior. .Vieram pedir ajuda, pois sua aldeia estava triste. Seu chefe estava muito ferido e o velho pajé estava muito doente. Não tinham como salvar o chefe e vinham buscar ajuda com seus amigos.

O Cacique juntou um grupo de guerreiros e o Pajé de sua aldeia e convidou o Padre e seu amigo para acompanhá-los até lá. O Padre disse que não poderia, pois tinha que voltar ao arraial ao amanhecer, mas seu amigo poderia ir, se ele assim o desejasse.

O Pescador ficou preocupado, porque nada conhecia sobre aquelas pessoas, seus costumes, nada, e disse isto ao Padre. Mas este o tranqüili­zou, assegurando-lhe que eles eram bons e, se gostassem dele, esta era uma maneira de ter muitos amigos por aquelas paragens. Aquelas tribos faziam parte de uma grande nação indígena que abrangia toda a Capitania e isto seria bom para ele, caso pretendesse ficar por ali.

O Pescador pensou um pouco e depois aceitou. Pegou seus per­tences, que consistiam numa bolsa de couro com umas peças de roupa que ganhara do velho João de Mina, sua Estrela e nada mais.

Despediu-se do Padre com um abraço afetuoso, sem saber que ali novamente o destino estava a conduzi-lo. Como mudaria sua vida!

Caminharam por toda a noite e, ao amanhecer, já dava para avis­tar a aldeia no fundo de um vale. O lugar era muito bonito. Os índios ainda não tinham tido contato com os brancos. Só ouviam falar deles, sem nunca tê-los recebido.

Ao chegarem à aldeia, foram rapidamente conduzidos para a oca do chefe da tribo.

Era um homem forte, mas estava muito ferido. Fora atacado por uma onça e seu corpo tinha muitos cortes e mordidas muito profundas.

O pajé visitante começou a fazer suas rezas, a encantá-las com seus cantos e a cuidar do corpo do cacique. Enquanto isto, o Pescador foi ver o pajé que estava doente. Ao olhar para ele, sentiu um arrepio que percorreu-lhe o corpo. Já vira alguém assim, abatido, quase desfalecido, apenas a mente a mantê-lo vivo. esse alguém era ele próprio, o Pescador.

Pediu a um dos índios que os acompanhara, e que falava um pouco da sua língua, que o ajudasse a se comunicar com o chefe feiticeiro. Este o olhou com um brilho estranho nos olhos, como a dizer que tomasse cuidado, pois ele, um feiticeiro, estava enfeitiçado.

O Pescador ouviu o que o pajé dizia ao índio, sem nada entender. Quando este disse do que se tratava, teve confirmado o que pressentiu quando viu o velho índio. Sim, já se sentira assim. Sabia como era horrível, porém agora sabia como auxiliar alguém, porque aprendera muito durante o tempo em que estivera com o velho curador negro. E agora, ainda que distante, sentia sua presença invisível a dizer: "Saibas como usar tua Estre­la, tua força, tua magia. E assim sempre sairás vencedor contra as magias negras".

Orou ao Céu e à Sereia Encantada, clamou pelo auxílio invisível do Senhor dos Mortos, a quem aprendera a amar, pelo seu poder e por estar sempre disposto a ajudar a quem quer que fosse. Até a ele, com respeito, se fosse merecedor.

Orou a Deus e pediu sua bênção no que ia fazer. Afastou-se um pouco da aldeia, foi até à beira do córrego e cantou o canto dos negros. Viu sua Estrela ficar com uma cor dourada tão forte que quase não conseguia olhá-la: sua luz quase o cegava. Apanhou um pouco de água num pote de barro e voltou à oca do pajé. Ao chegar, depositou por um instante a Estrela sobre a água e orou ao Criador. A água ficou cintilante, como se raios dourados agora brotassem dela. Em seguida, deu um pouco da água ao pajé, que bebeu com sofreguidão, sentindo o poder do homem que estava à sua frente. Tinha certeza de que ele fora enviado por Tupã para salvá-lo.

A seguir, o Pescador molhou a sua cabeça com um pouco da agua, e o resto espargiu por todo o seu corpo. O velho pajé estremecia, tinha convulsões violentas, contorcendo-se todo. O Pescador tinha a sen­sação de que demônios horríveis estavam sendo destruídos com sua água benta, que o corpo daquele homem estava sendo purificado como um dia o seu o fora, ainda que ele não tivesse visto como. Quando o velho se acal­mou, caiu num desmaio, mas seu corpo respirava compassado. O Pesca­dor pegou sua Estrela e a colocou primeiro sobre a cabeça do pajé, orando em silencio por um longo tempo. Depois colocou-a sobre seu peito e co­meçou a cantar o canto dos negros.

Lentamente o velho abriu os olhos e parecia ser outro homem. Ficou a olhar para a Estrela à sua frente,sobre o seu peito, com respeito. sobre Ele também via o seu brilho dourado, que o envolvia como uma veste sagrada. Quando o Pescador parou o seu canto, olhou para o velho e deu um sorriso alegre. Seu rosto estava banhado de suor, mas de seus olhos corriam lágrimas em abundância, pois passara por uma forte experiência e saíra vencedor. Isto o deixou muito feliz.

Pegou sua Estrela e o velho começou a se levantar, um pouco cansado, mas estava bom novamente. O Pescador deu-lhe um abraço de­morado. Quando olhou para seu rosto, viu que também estava chorando.

Falou umas palavras que não foram entendidas pelo Pescador. O guerreiro que a tudo assistira traduziu. Ele disse: Que Tupã guarde sempre a você, que ele é seu devedor para sempre, que não sabe como agradecer. O Pescador disse que não tinha nada a agradecer, que tudo era vontade de Deus e, portanto, só devia agradecer a Deus. O guerreiro falou ao pajé as palavras do Pescador e este novamente o abraçou.

O Pescador pediu para deitar e descansar um pouco.

Viajara o dia anterior e a noite toda, e o esforço o tinha deixado cansado, gostaria de dormir um pouco. O pajé ofereceu uma rede e ele se deitou como se fosse a melhor cama do mundo, tal o seu cansaço. O guerreiro se afastou com o pajé para lhe dar algum alimento.

Já era tarde quando o Pescador foi acordado pelo guerreiro ami­go. Pedia-lhe para ir à oca do chefe. Estavam chamando-o de lá.

Ao chegar, ficou pensando no que iriam dizer. Mas qual não foi sua surpresa ao ver o estado do chefe. Seus ferimentos estavam inflama­dos, ardia em febre e delirava.

Pediram sua ajuda para salvá-lo. Ficou a indagar o que já tinham

feito.

Disseram que quando o encontraram na floresta já fazia tempo que tinha sido ferido, por isso suas ervas e raízes não faziam efeito. So­mente ele poderia salvá-lo. Tinha salvo o pajé, então poderia salvá-lo também.

O Pescador ficou um instante a pensar no que fazer, tirou sua Estrela e orou a Deus para que o guiasse, pois não sabia o que fazer. Viu o brilho crescer e isto, para ele, era um sinal do Criador.

Saiu com o guerreiro pela mata a procurar umas ervas que co­nhecera com os negros, para curar ferimentos infeccionados. Não sabia se existiam por ali, mas foi procurá-las.

Tinha a sensação de estar sendo guiado. Parou e se abaixou reve­rente ao Orixá das Matas e das Ervas, como aprendera com o velho João de Mina: "Quando estiveres em dificuldade, ore aos Orixás e eles te guia­rão". E assim aconteceu. Logo achou as ervas de que precisava. Arrancou umas raízes que serviam para baixar a febre, e voltaram rapidamente à aldeia.

Preparou as ervas e as raízes, auxiliado pelos outros pajés. A seguir, tirou o lenço do pescoço e, com água morna, limpou as feridas, aplicando sobre elas as ervas maceradas e cozidas em grande quantidade. Rasgou sua camisa em tiras, amarrando-as sobre as feridas.

Depois, deu-lhe um pouco de raiz cozida para comer. Foi difícil fazê-lo engolir, pois o gosto era horrível.

Feito isto, voltou à sua Estrela e orou ao Criador por aquele ho­mem. Pediu-lhe que, se fosse possível, permitisse que ele vivesse, pois parecia ser muito necessário à sua tribo. Sua Estrela brilhou intensamente.

Passou a noite ao lado do cacique. A febre foi cedendo aos pou­cos. Ao amanhecer, o cacique despertou do seu sono agitado, tentou se levantar e não conseguiu. Estava fraco ao extremo, apesar de ser forte, muito forte.

O Pescador lhe disse que era necessário que se alimentasse e repousasse.

O chefe aquiesceu com a cabeça e tornou a deitar-se.

Outras vezes o Pescador o tratou com as ervas dos negros. Após quatro dias a infecção cedeu e o chefe começou a se recuperar rapidamen­te.

Durante esses dias, começou a aprender um pouco da língua daquele povo. Não era difícil para ele, que falava diversas línguas, aprender rapidamente. Em pouco tempo já conseguia se comunicar sem o intérprete.

Falou seu nome ao pajé. Disse-lhe que era chamado de Pescador, o que tira os peixes da água. Era o que significava seu nome.

O pajé lhe disse que se chamava Anhanguara, que significava o que dominava os gênios do fogo. O Pescador quis saber o que eram esses gênios e o pajé lhe explicou a sua magia. Pediu em troca que o Pescador lhe falasse da sua magia, de sua Estrela que ele viu brilhar sobre o seu peito, a livrá-lo do encantamento que sofrera, e que ainda estava a brilhar ao seu lado, como a dar-lhe uma luz viva, forte! O Pescador contou-lhe como conseguira sua Estrela. Falou do seu poder. Falou também do pajé negro que o ajudara e o salvara um dia, e depois ainda ensinou um pouco de sua magia e muito sobre as ervas e raízes e sobre seus cantos, que eram rezas aos Orixás; que o Chefe tinha sido salvo com a bênção de Deus e com a ajuda das ervas e raízes; que o pajé negro havia ensinado um dia que deví­amos pedir ajuda a Deus, mas que também devíamos fazer a nossa parte, não ficarmos esperando só d'Ele o milagre. Que, às vezes, nós somos parte dos milagres e das curas, pois Deus espera isso de nós. Os dias se passavam e os índios já o tratavam como um membro da tribo. Era respeitado por todos, sentia-se entre amigos verdadeiros. O velho pajé lhe ensinara suas rezas, suas magias, suas ervas-remédios e ele ensinava ao pajé o pouco que conhecia.

Já se tinham passado duas semanas desde que ali chegara, e ago­ra o cacique andava normalmente, apesar de ainda ter algumas feridas a incomodar. O pajé da aldeia já o tratava junto com o Pescador e sabia como fazê-lo. E isto o deixava muito feliz.

Os guerreiros e o pajé visitante partiram. O Chefe não deixou o Pescador partir. Disse que ele era um amigo, por isso gostaria que ficasse mais um pouco. Eles se sentiriam muito felizes. Quando estivesse bom, iam lhe fazer uma festa.

O Pescador aceitou, pois estava gostando daquela gente. Eles se pareciam com os negros, não tinham ambição ou cobiça. Como o Padre dissera, nada tinham, mas tinham um tesouro enorme, que era a sua alegria e sua simplicidade. Ficaria ali para sempre, se algo não o incomodasse tanto: o seu passado.

Estava aprendendo bem a língua e os costumes daquele povo. Sua lealdade e o espírito comunitário o encantara.

Quando o Cacique fez a festa, convidou diversos caciques ami­gos para virem dela participar. Disse ao Pescador que ia dar-lhe um presen­te de que jamais se esqueceria. Era sua maior riqueza e lhe daria naquele dia. Por coincidência, o Padre veio junto com os índios da tribo a que estava tentando catequizar. Abraçaram-se com entusiasmo. O amigo viera para ver como estava aquele que os índios diziam ser um "Pajé Branco" muito poderoso. Isto o intrigara. Queria ouvir de viva voz o que tinha se passado na sua ausência. Mas foram interrompidos pelos chamados do Cacique, que o convidava para sentar-se ao seu lado. Todos já haviam chegado e a animação era geral. Quando um cacique vai dar um presente, todos ficam curiosos para saber o que é. O Pescador disse-lhe que mais tarde contaria tudo. Sentou-se entre o cacique e o velho Pajé Anhanguara, seu bom e inseparável amigo.

Houve cantos, danças e muitas brincadeiras, até que, em dado momento, o Cacique se levantou e ordenou silêncio, pois não queria deixar o homem que o salvara esperando por mais tempo. Devia a ele sua vida e nada como dar-lhe algo vivo como gratidão.

O Pescador pensou que iria ganhar algum animal exótico ou al­guma ave bonita. Quem sabe!

Todos ficaram em silêncio, aguardando para ver qual era o pre­sente.

O Cacique mandou que fossem buscar o presente do Pescador. Duas índias entraram na oca do Cacique e saíram com uma jovem ainda muito nova, dos seus quinze anos no máximo, e deixaram-na perto dele. O Pescador já vira muitas vezes aquela jovem. Achava-a muito alegre, bonita mesmo, mas nunca se fixara muito nela. Ainda guardava as marcas do passado na mente.

O Cacique virou-se e disse:

- Pajé Branco, um dia meu espírito ia partir, pois meu corpo estava fraco. Você trouxe ele de volta à vida e por isso eu fiquei muito feliz, mas não sabia como agradecer. Pensei em muitas coisas e nenhuma delas me satisfez. Fiquei a pensar no que oferecer a alguém que nada pedia em troca de sua ajuda. Vi que é um homem solitário, que precisa de uma com­panhia a lhe tirar a solidão, dar-lhe companhia, alegria e ajudá-lo sempre nas suas caminhadas. Então pensei: por que não dar a vida a quem me devolveu a vida?

Eis a minha filha, minha alegria e riqueza, meu orgulho como pai. Eis seu presente, Pajé Branco! Ela está muito contente. Espero que possa fazê-lo muito feliz na sua vida.

O Pescador empalideceu, sentiu a sua cabeça a rodar, os sentidos escapavam-lhe. Sentiu que ia desmaiar.

O velho Pajé Anhanguara o abraçou, dando-lhe os parabéns. Fi­cara contente pelo presente que ele recebera. Ia ser muito feliz com ela, pois a conhecia bem, era como sua filha também. Todos gostavam muito de Raios-de-Lua. Este era seu nome indígena.

O Pescador nada dizia, enquanto todos na aldeia faziam grande festa à sua volta, dando muitos gritos, pulando e dançando.

O Cacique, que estava olhando para ele, vendo que nada dizia, que mudara de cor, o sangue fugira de seu rosto e tremia todo, perguntou-lhe se gostara do seu presente de gratidão. Ao não obter resposta, ficou bravo. Será que não havia gostado do presente que ele dera? O Padre, vendo o estado do Pescador, falou ao Cacique que talvez ele estivesse fica­do muito feliz com o presente e que não conseguisse falar. Puxou o Pesca­dor pelo braço até se afastarem a um canto isolado.

- O que há com você, Pescador? Perdeu a língua? Por que não

responde?

Lentamente ele foi recuperando o raciocínio. Ao se sentir me­lhor, disse ao Padre.

- Preciso fazer uma confissão, Padre.

-Espere um momento, ou não sairemos com vida daqui!

O Padre conhecia o costume dos indígenas. Sabia que não se recusa um presente deles, principalmente de um cacique. Ainda mais que o

presente é sua própria filha, seu orgulho, sua riqueza. Voltou-se ao Chefe e pediu-lhe um tempo, pois seu amigo ficara muito contente com o presente, mas não sabia o que dizer. Ia conversar com ele e logo voltaria. Logo estava junto do Pescador.

- Pois faça a sua confissão, Pescador, estou pronto para ouvi-la. E o Pescador se sentou e começou a contar toda a sua história

rapidamente, desde o começo, sem omitir que fora também um juiz religi­oso, que um dia fizera os votos de castidade perante a Igreja Católica. Apesar de não ostentar a batina nem a cruz no peito, guardava o voto dado em juramento.

Nunca tivera contato carnal com nenhuma mulher. Como que­brar um juramento feito de livre consciência, principalmente agora que já beirava os quarenta anos de idade? Como olhar para aquela menina como sua mulher? Como errar novamente diante de Deus?

O Padre pensou um pouco, sem saber o que responder. Depois, bem mais calmo, disse:

- Filho, digo-lhe como sacerdote que sou, sua vida não é comum como a dos outros. Conheceu a Igreja Católica muito bem. Serviu-a como achou que devia e, em um certo momento, abandonou, pois já não lhe satisfazia. Estava desiludido, arrasado e tinha um peso a atormentar a sua consciência. Foi traído pelas suas idéias a respeito do que era certo ou errado. E quantos já não sofreram o mesmo tormento em suas vidas?

Quando o Cristo apareceu na terra com a sua mensagem, o mun­do já existia há milênios, e ainda por milênios existirá. Em dado momento. Deus achou por bem enviar alguém com uma mensagem nova, porque Sua Lei estava pervertida, Sua palavra sagrada estava se desintegrando. Era mal compreendida nos Seus desígnios maiores.

O Cristo trouxe uma renovação nos corações que não aceitavam aquela existência sem tolerância com o semelhante, sem amor, a não ser para consigo mesmo. Ele trouxe uma palavra de esperança aos que nada tinham além do direito de respirar, aos que viviam na escravidão da carne ou do poder, tanto do estado quanto das religiões estabelecidas. Ele era a água que aplacava a sede dos que tinham sede, o alimento dos famintos, o bálsamo que curava as almas dos enfermos da alma. Era a esperança em Deus Pai renovada. Sua mensagem era boa, verdadeira e divina, e assim muitos O seguiram através dos séculos, e O seguirão por toda a eternidade, pois de fato era o Filho de Deus, como também nós somos filhos de Deus.

O tempo empoeirou Sua mensagem. Os homens se fizeram po­derosos com o Seu nome. Catedrais foram erguidas em Seu nome. Servi-Lo, -para uns é o sacerdócio verdadeiro, puro. Levar Sua mensagem é a razão de ser de muitos seres humanos identificados com Seus ensinamen­tos. São puros no que fazem, por isso são abençoados por Deus Pai.

Outros não. Usam o poder do Seu nome para construírem seu próprio poder material para. com isso, serem respeitados como grandes homens, quando nada são além de aproveitadores.

A mensagem do Cristo é perfeita, porque é divina, enviado que foi dos céus a quem queira segui-Lo.

Às vezes, os portadores da mensagem é que não estão à Sua altura. Esta é a verdade única, o resto é criação dos homens que se arvoram em seus protetores. Criaram hierarquia para dela poderem melhor se servi­rem. Impuseram suas idéias acima do próprio Mensageiro Divino. Altera­ram Sua essência no decorrer dos séculos. O Cristo não pedia a ninguém a castidade para que propagassem Sua mensagem, apenas que honrassem a mensagem da qual eram portadores. Não exigia abstinência de ninguém, apenas que honrassem a companheira com que se unissem. Só isso e nada mais! Os homens é que criaram os votos de castidade, as leis canónicas, o poder papal. Quantos não sofrem por causa disso? Muitos querem ser mensageiros do Cristo, mas têm que pagar um preço alto pelo seu amor à Mensagem. Quantos já não sofreram o mesmo drama de consciência que você sofre agora? Quantas dúvidas há, ainda sem respostas? Somente nós podemos respondê-las, com confiança. Nossas vidas e destinos pertencem ao Pai Maior, ao Doador da Vida, Senhor da Eternidade, que não vem até nós para respondê-las. Nós somos, às vezes, guiados por caminhos difí­ceis de serem trilhados. Conhecemos o caminho já percorrido, mas não o que teremos que percorrer. Retroceder não podemos. Parar, também. Seria como água represada que não se renova: uma hora ou outra arrebenta o dique, e então vem o estrago.

Deixe sua vida correr como as águas de um rio. Elas não sabem o caminho, que se fez por si mesmo. Não tente desviar o curso. A beleza de um rio está em suas curvas sinuosas, seus momentos de calma, suas quedas que criam lindas cachoeiras e agradam a tantos quantos nelas se banham, ou que simplesmente contemplam a água que desce rápido para, adiante, correr mansa novamente. Percorrem caminhos sinuosos, longos, mas sempre estão a levar vida em sua passagem. Não são inúteis, como a agua parada que se torna fétida, pantanosa, um lodo mesmo. Não! Elas se renovam sempre e assim servem a muitos no seu leito natural. Um dia chegam aos oceanos e se juntam a muitas outras águas e no sal se purifi­cam, para, mais tarde, voltarem a ser rios caudalosos novamente. pense, pescador! Você tem domínio sobre seu destino? Conduz ou é conduzido? Caminha ou é encaminhado? É o cavaleiro ou o burro, que

carrega um fardo muito pesado? O que é você, Pescador?

Pense e dê a resposta ao Chefe que a aguarda. Se quer se livrar do fardo pesado, esta é a hora, pois sua recusa será uma ofensa àquele que o honrou com sua filha, pensando em torná-lo feliz, como felizes são eles. Aceitá-la será a tentativa de mudar sua vida, dar-lhe rumo novo, ter alguém com quem dividir suas alegrias e tristezas, suas derrotas e vitórias. Alguém para dividir-se sem precisar se lamentar, apenas para crescer, pois somente cresce quem se divide. Esta é a Lei de Deus: "Crescei e multiplicai-vos".

Nada mais disse o Padre.

O Pescador estava surpreso com suas palavras. Elas tinham a profundidade que só os sábios sabem dar à palavra. Eram ensinamentos para alguém como ele. O Padre se inflamara ao falar. Saíam do mais pro­fundo de sua alma, aquelas palavras. Sua vida estava precisando disso. Alguém que o motivasse a lutar por algo além do seu passado.

Levantou-se e foi até o chefe índio. Tomou as mãos de sua filha com delicadeza, um pouco trêmulo, e disse:

- Eu aceito o presente. Um presente que talvez seja divino para

mim!

Voltou-se para o Cacique e disse:

- Obrigado, meu amigo, muito obrigado. Saberei honrá-lo como me honrou com seu presente vivo. A vida só traz a vida! - e o abraçou emocionado.

Após estas palavras, houve muita alegria na aldeia. O Cacique ficou feliz por sua filha, que olhava o Pescador com um pouco de medo, e muito respeito.

Não sabendo como agir, o Pescador pediu conselho ao amigo Padre. Este lhe disse que poderia casá-lo, se assim o desejasse. O Pescador assentiu com a cabeça e comunicou ao Cacique que, independente de seus rituais, gostaria de ter as bênçãos do Padre. O Cacique consentiu, dizendo que assim ficava duplamente unido à sua filha, pela lei indígena e pela lei dos brancos.

 

O PÓ AMARELO

(O SEGREDO)

Após as festas da união, o Pescador sentou-se a um canto para meditar: e agora? Como agir? Bem, o tempo trará as soluções, deixe a água correr para ver que rumo ela tomará.

Os dias foram se passando, a amizade com o velho pajé virou uma ligação muito forte. Este começou a iniciar o Pescador nas magias indígenas, como se fosse seu discípulo.

A cada dia aprendia um pouco daquele homem, que, apesar de não ter nada escrito, tinha em sua mente um saber enorme a respeito da natureza, da espiritualidade, dos mistérios das matas, dos rios, da terra e principalmente dos mistérios do fogo, sua especialidade. Tocava o fogo sem nada sentir, como se fogo fosse também. E o iniciou nos mistérios do fogo.

Em troca, ele ensinou ao Pajé sobre o cristianismo, falou dos negros que conhecera e a quem devia sua vida, passou o conhecimento que adquirira com eles sobre as ervas, os Orixás, sua religião.

Queria aprender a sobreviver naquelas selvas, pois não se sentia bem comendo na casa do Pajé ou do Cacique, como um parasita. Pediu para ir caçar com os índios.

Partiram ao amanhecer, e só voltariam quando conseguissem boa caça. Caminharam por alguns lugares distantes, desconhecidos do caçador aprendiz. Os índios eram bons caçadores, não erravam o alvo ao atirar suas flechas, e ficavam a rir do novato, que não acertava em nada. Caçaram diversos animais pequenos, nada que os satisfizesse.

Ao cair da noite, pararam para descansar à beira de um riacho, acenderam uma fogueira e assaram algumas aves. Os índios ficaram a contar casos das florestas até altas horas da noite. Eram muito superstici­osos, mas estavam tranqüilos, porque o Pajé Branco estava com eles. Ad­miravam o seu poder, e se sentiam seguros junto a ele.

Ao amanhecer, partiram. Caminhavam pelo leito do riacho quan­do viram um bonito veado. Atiraram suas flechas. O animal correu um pouco e caiu à entrada de uma caverna. Todos foram para lá. Estavam alegres. Agora tinham uma boa caça, mas o que chamou a atenção do Pescador não foi o tamanho do veado e sim um pó amarelo que brilhava como raios de Sol.

Entrou um pouco na caverna e o que viu deixou-o espantado. Aquilo era ouro, sim, ouro puro! Em outros lugares, as pessoas brigavam por ele, mas ali existia em tão grande quantidade, que o deixara com o coração descompassado.

Saiu e pediu que lhe dessem uma pele das maiores. Fez uma bolsa com ela. Quanto aos índios, não entendiam o que ele fazia. Explicou-lhes que aquele pó amarelo tinha um grande valor entre os brancos. E que ia levar um pouco dele.

Parou diante de um guerreiro e indagou:

Você sabe voltar aqui?

Sim, Pajé Branco, por quê?

Talvez eu precise de mais um pouco deste pó amarelo.

Quando quiser, eu o trarei aqui.

Os índios foram caçar rio abaixo, o caçador novo os aguardaria ali até a volta.

Fez uma tocha e penetrou mais naquela caverna, o que viu no seu interior deixou-o feliz. Encontrara uma mina de ouro à flor da terra.

Aquilo era o maior veio de ouro que podia haver na terra. Era um tesouro imenso. Dava para pegar com a mão, sem precisar lavar o ouro.

Apanhou o suficiente para encher a bolsa improvisada. Calculou uns vinte quilos, mais ou menos.

Aquilo era suficiente para os seus planos. Agora precisava agir com cautela, quando voltasse.

Já era tarde, quando os índios voltaram.

Como vai, Pajé Branco? Apanhou muito pó amarelo?

Sim, apanhei o suficiente.Outro dia voltaremos aqui para pegar

mais.

Os índios haviam caçado mais um veado e um javali. Limparam ali mesmo, ataram em varas e partiram. Voltariam rápido para a aldeia, havia carne para todos.

Ao chegar, todos vieram ao seu encontro. Faziam muita festa, a caçada tinha sido boa. Atribuíram a sorte ao Pajé Branco.

- Só que ele caçou pó amarelo, em vez de animais - disse o chefe

do grupo.

Quiseram ver e o Pescador mostrou.

- Isto se chama ouro! Os brancos de além-mar dão muito valor

a ele.

E para que serve isto? - quis saber o chefe da tribo.

Eles fazem enfeites para suas esposas, moedas, enfim muitas coisas são feitas com este pó amarelo.

- Ora, nós sempre olhamos para ele como coisa brilhante, nada

mais.

- Chefe, amanhã vou partir bem cedo para encontrar o Padre o mais breve possível. Ele me ajudará. Com este pó amarelo conseguirei o que as preces não têm conseguido.

- E o que é, Pajé Branco?

- Pagar uma dívida, Chefe. Pagar uma dívida a quem me ajudou um dia, quando eu também estava morrendo. Isto eu devo a um pajé negro muito bom. Faz tempo que não o vejo, mas não o esqueço nunca. Ele está sempre em minhas preces a Deus.

- Então você vai embora, Pajé Branco?

Não, Chefe, só por uns dias. Poderia emprestar três dos seus guerreiros para irem comigo? Assim chegarei mais rápido, já que eles co­nhecem bem o caminho.

Sim, eu mando três com você, mas não nos deixe, pois aqui todos gostam de você. Vai levar Raios-de-Lua com você?

Sim. Eu não gostaria de me separar dela por muitos dias. Sabe, Chefe, no começo eu a olhava como uma simples menina, com o passar do tempo, vi o seu lado de mulher, sua coragem, sua vontade de viver como mulher, e isto a fez mudar de aparência diante dos meus olhos. Hoje ela é a minha mulher. Eu a amo e não a deixarei para trás nunca. Aonde eu for, ela vai, será sempre assim.

Escute, Pajé Branco, ela está grávida, longa caminhada não é bom para ela. Deixe-a aqui, senão vai prejudicar a ela e à criança que vem.

Está bem, Chefe. Cuide dela para mim, como sua filha e como minha mulher.

- Fique tranqüilo, quando voltar, ela estará aqui.

Depois de comerem, o Pescador foi junto com Raios-de-Lua ver o velho Pajé Anhanguara.

Parece que está triste, Pajé Anhanguara?

Sim, estou triste, porque vai partir.

- Vou, mas volto! Este é o paraíso que eu procurava, mas tenho um passado, e nele há coisas que eu preciso pagar, Pajé.

- Como assim, filho?

- Sabe, Pajé, que a oito dias de viagem a pé há um lugar onde vivem homens negros? Homens que não têm liberdade como nós, que tra­balham do amanhecer ao pôr-do-sol, em troca de nada, ou seja, apenas para continuarem vivendo.

Nada e tudo, ao mesmo tempo. Nada, porque não fui eu que os escravizei, e tudo, porque Deus me deu uma forma para mudar suas vidas.

O que pretende, filho?

Com o pó amarelo eu compro a liberdade deles. Pajé Anhanguara.

E acha que é certo comprar homem negro?

Não, não acho certo, mas eu os vi chegarem à casa do pajé negro, chorando, alguns com o corpo marcado e, por vezes em chagas pelo castigo que os patrões brancos lhes aplicam quando não trabalham, ou quando estão doentes, cansados ou velhos. Isto dói no meu coração, Pajé Anhanguara!

Sim, filho, você tem coração bom. Faça o que manda sua cabe­ça, mas cuidado, pois eu pressinto coisas ruins no contato com os bran­cos.

Não se preocupe, eu conheço as suas fraquezas, sei como comprá-los também. Sim, isto não esqueci. Desde o dia em que vi o olhar do bispo ao ver o tesouro que o meu pai me deixou.

Então, que os espíritos das matas o acompanhem, filho!

Obrigado, meu irmão mais velho, muito obrigado!

E se retirou para a sua oca. Viu lágrimas nos olhos de Raios-de-Lua, abraçou-a e tranqüilizou-a.

Por que chora, Raios-de-Lua?

Tenho medo que não volte mais.

Voltarei. Até lá, você guarda a minha Estrela, com o mesmo cuidado com que a tenho guardado estes anos todos, desde que a ganhei. Ela é parte de mim. Enquanto você estiver só, eu estarei junto a você, na Estrela.

Eu tomarei conta dela como tomo conta de você, mas não é a mesma coisa.

Sim, eu sei. Também vou sentir sua falta nas noites em que estiver na minha rede. Isto fará com que eu volte mais rápido. Eu a amo muito, Raios-de-Lua, não se esqueça disto na minha ausência!

Como posso esquecer aquilo que também sinto? - e o abraçou forte, como se fosse perdê-lo.

Ao amanhecer, o caçador dividiu em quatro bolsas de couro, o ouro que trazia. Cada um levaria um pouco, assim andariam mais rápido. Viajaram por três dias, até atingirem o arraial onde morava o Padre. Antes de entrar no arraial, o Pescador escondeu o ouro em algum lugar e avisou aos guerreiros que não falassem sobre o pó amarelo a ninguém.

Entraram no arraial e logo chegaram na pequena igreja, onde o Padre os recebeu com alegria.

O que o traz aqui. Pescador?

Bom, primeiro gostaria de comer um pouco, meu amigo. Eu e meus amigos índios estamos cansados e famintos.

Vão lá no fundo se lavar, enquanto eu preparo uma boa refeição para vocês.

Ao voltarem para a cozinha, o Padre estava atarefado cozinhando uma comida cheirosa, que há muito tempo o Pescador não comia.

O que tem para me dizer, Pescador? - perguntou o Padre.

Padre José, o senhor é um homem dedicado ao seu rebanho, não?

Sim, vivo por isto. Eu gosto do que faço. Há quanto tempo o senhor vive aqui?

Há mais ou menos quinze anos, Pescador, por quê?

Padre, explique-me. Como alguém pode ter um engenho nesta

Capitania?

- Ora, quem manda aqui é o Governador Geral, por quê?

- Ele é quem dá permissão para fazer engenhos, negociar terras e tudo mais?

Sim, é ele. Quase todos os engenhos são dele. É um homem muito ambicioso, por isso é que tem tantos escravos negros por aqui. Qua­se tudo é dele

Padre José, eu conseguiria comprar dele dois engenhos que existem ao sul daqui?

- Sim. Se tivesse dinheiro o bastante, ele os venderia. Mas com o

que pretende comprar? Acaso você tem algum tesouro oculto e que nin­guém saiba?

Padre, jura guardar um segredo?

Seu segredo? E por que jurar, meu filho?

Sim, é meu segredo, e é preciso jurar. Somente assim eu saberei que guardará segredo, pois não pode ser revelado. - Eu já o conheço bem, Simas! Sim, eu juro. Agora conte o segredo.

- Padre José, o senhor vive em um lugar distante de sua terra natal, só pensa na sua catequização. Eu o ajudarei muito, se o senhor me

ajudar agora. Eu descobri uma mina de ouro. Quero usar este ouro para pagar um pouco do que devo a Deus e nada mais. Se eu conseguir o que quero, eu o ajudarei também.

- Está querendo me comprar, amigo Simas? Não, não, Padre José. Apenas que, se eu conseguir o que pre­tendo o senhor poderá trazer um pouco de progresso para este lugar, um colégio, mais padres para ajudá-lo. Enfim, trazer um pouco de paz para estas bandas.

- Está bem, Pescador, coma agora e descanse, amanhã partire­mos para a capital e vamos tentar falar com o Governador Geral.

Após a refeição conversaram muito, fizeram planos. Ficou acer­tado que o Pescador seria apresentado como José Macedo, um português nascido na fronteira com a Espanha, para justificar um pouco do seu sota­que, e que há alguns anos se enveredara pelas florestas à procura de ouro e finalmente encontrara. O local é distante demais e quase inatingível, senão a pé, através da floresta, muitos dias após os últimos arraiais. Precisavam ocupar o lugar.

Após dois dias a cavalo em trote rápido, chegaram ao vilarejo que era capital da Capitania.

O Padre, que já conhecia o Governador Geral pessoalmente, pro­curou-o em sua residência e marcou uma audiência para seu amigo José Macedo. Ficou acertado que no outro dia pela manhã ele o receberia.

Foram a uma estalagem guardar seus cavalos. Os índios, que nunca tinham andado a cavalo, estavam todos esgotados, com as costas doloridas e as pernas duras. Pediram para ficar ali mesmo.

Os dois amigos saíram e foram procurar uma pensão para se lavarem e comerem, trariam alguma coisa aos índios mais tarde.

No outro dia, cedo, foram à casa do Governador Geral. O Padre apresentou o seu amigo José Macedo, de onde viera, como estava vivendo nos sertões e tudo mais.

Pediu licença dizendo que, enquanto eles conversavam, ele iria visitar uns amigos na cidadezinha.

O Pescador percebeu que era para não atrapalhar seus planos.

- Bem, senhor José Macedo, o que o traz até aqui para falar

comigo?

- Senhor Governador, eu tenho, por muitos anos, andado por estas florestas à procura de fortuna. Foi difícil, mas consegui um pouco. Gostaria de saber como é possível investir em sua Capitania um pouco da minha fortuna.

E em que consiste a sua fortuna, senhor José Macedo?

Em um pouco de ouro, meu senhor.

E onde o senhor pretende investir?

- Senhor Governador. Estive perguntando quem é o dono dos dois engenhos ao sul dos Três Montes. Disseram-me que são seus, como tudo o mais também.

Ora, mas para montar um engenho é preciso muito gasto, se­nhor Macedo. Não custa pouco, teria o senhor ouro suficiente para com­prá-los?

Senhor Governador, pelo pouco que pude observar, os seus feitores não estão conseguindo muito sucesso por lá. São negros que fo­gem, índios que não gostam de trabalhar, estradas ruins para escoar o açúcar produzido. Enfim, um mau empreendimento, não?

Sim, os feitores não são bons, mas as terras por lá são as melhores da Capitania. Isto vale alguma coisa, não?

Sim, vale alguma coisa. Qual o preço que o senhor pediria pelos dois engenhos, com todos os animais, e os negros também?

Os dois, o senhor quer?

Sim, os dois. Eu tenho minhas ambições, quero me tornar um homem respeitável, após tantos anos vivendo como um silvícola, perdido na selva.

Bem, eu não saberia o que pedir.

Ora, senhor Governador Geral, o senhor é um homem muito esperto e inteligente, além de fino cavalheiro. Duvido que não saiba o preço dos dois engenhos.

Simas tentava tocar na vaidade do Governador Geral.

E como o senhor me pagaria, senhor Macedo?

Com ouro, meu senhor, com ouro puríssimo em pó. Agradaria ao senhor assim?

Simas pôde ver o brilho nos olhos do Governador, que chegou a tossir, como se fosse engasgar.

Então, senhor Governador? Agrada-lhe?

Sim, sim, agrada-me muito! Mas seria interessante, pois o se­nhor mesmo disse que quer se instalar por estas bandas, que nosso negócio ficasse em segredo, não?

Concordo, por que mandar ao rei o que pode ficar oculto? Afinal, enquanto o rei se diverte na Europa, o senhor fica neste lugar horrí­vel, não?

Sim, é verdade. Eu tenho que pensar no futuro de minha filha, não, senhor Macedo?

Em seguida o Governador chamou um criado e mandou servir uma bebida a ele e ao amigo senhor José Macedo.

- Sabe, senhor Governador, acredito que faremos bons negócios

juntos.

- Sim, creio que sim, senhor Macedo - levantou sua taça e brindou à sorte do seu novo amigo ao que o pescador também levantou sua taça e brindou a uma vida longa, e à amizade dos dois.

Após beberem, o Governador disse-lhe que queria sete quilos de ouro puro pelos dois engenhos e mais quatro quilos pelos animais e escra­vos e que tudo seria escriturado como doação ao senhor José Macedo, pelos seus feitos em favor do desenvolvimento da Capitania, sem nada custar-lhe, além de vinte por cento, que era a parte do Rei no açúcar retira­do das suas terras. Terras estas que seriam doadas a ele pelo senhor Gover­nador Geral, no seu direito de executar as Leis Reais naquela Capitania. Dessa forma, nunca poderiam ser tomadas do senhor José Macedo. Bebe­ram mais uma taça em meio à conversa, como se fossem velhos amigos.

O Governador viu que aquele homem era esperto e isto era bom, pois haveria de fazer bons e rendosos negócios com ele. Talvez começasse a ganhar algo, enfim, naquela terra, além de picadas de mosquitos e dores de cabeça com a corte em Portugal.

O Pescador viu a ambição do Governador e isto era bom. Com um homem ambicioso, é fácil de se negociar. Pediu licença para se retirar, voltaria mais tarde com o ouro.

Foi até à estalagem onde encontrou o Padre conversando com os

índios.

Meu amigo Padre José, está feito! O homem é bom de negócio. Os seus olhos brilharam tanto ou mais que o ouro, quando lhe disse com o que poderia pagar-lhe.

Simas, cuidado. Este homem não tem escrúpulos, é muito ambicioso. Muito cuidado.

Ora vamos, Padre. Peguemos as duas maiores bolsas e vamos até lá. Almoçaremos com o Governador hoje.

Partiram e, ao chegarem na residência, foram recebidos caloro­samente pelo Governador, que os tratou como nobres, o que eles não eram até o dia anterior.

Quando o Governador viu o ouro, ficou pálido. Aquilo era tudo que queria quando viera para esta terra. Fortuna para um dia voltar a Portu­gal e viver como um príncipe. Ouro, muito ouro!

Ao pesarem, deu treze quilos. O Pescador disse que ia precisar de muitas coisas para os engenhos, que estavam um pouco abandonados e os dois quilos ele queria em bois, cavalos, roupas, alimentos, sementes, ferramentas e muitas coisas mais, inclusive carroções para transportar tudo.

O Governador disse:

- Pegue tudo o que precisar, meu senhor. O depósito do porto está aberto ao senhor para o que precisar. Ele está abarrotado de mercadorias que nos vem de Portugal.

Senhor Governador, tenho certeza, que faremos muitos negó­cios!

Sim, senhor Macedo, faremos com certeza. Mas diga-me onde é sua mina de ouro?

Eu não tenho uma mina de ouro. Tenho, a vinte dias, sendo oito a cavalo e doze a pé pelas matas, algumas tribos que o apanharam para mim, pois são meus amigos há anos.

Então o senhor não garimpa?

Não preciso, ensinei-os. Eles o fazem por mim. Prometi com­prar-lhes suas peles em troca de produtos dos brancos, mas antes eu pre­cisava de ouro para comprar os seus presentes. Isto foi o bastante para me ajudarem no garimpo.

De certa forma os tem em seu poder, não, senhor Macedo?

Sim, meu Governador, sim. E por isto vamos fazer ainda bons negócios. Só espero tomar posse dos engenhos para que me tragam ouro e peles, as quais, junto com o açúcar, espero que o senhor me ajude a mandar para a Metrópole.

Como não? Ajudarei, sim. Seu açúcar será sempre o primeiro a ser embarcado.

Então está certo. O senhor já tem o documento?

O Governador tocou um sino e entrou o escrivão real com um pergaminho no qual cedia os direitos ao senhor José Macedo, pela livre vontade do Governador Geral, para que ele fizesse progredir aquela região.

O Pescador pediu-lhe também um documento no qual dizia que todos os negros que haviam fugido e que ele conseguisse recapturar no meio da floresta seriam seus.

O documento foi feito. O Governador mandou chamar o Chefe da Intendência e deu-lhe ordens para que tudo de que o senhor Macedo precisasse poderia pegar, que nada lhe fosse negado, e que providenciasse uma guarda para acompanhá-lo até os engenhos, pois ele era um velho amigo de Portugal.

Despediram-se com um abraço. O Governador desejou-lhe sor­te em suas novas propriedades, dizendo que, quando voltasse à capital seria seu hóspede com muita honra. E o Pescador prometeu trazer um lindo presente à sua esposa e filha.

 

COMEÇA VIDA NOVA

(CRUELDADE E CASTIGO)

Ao chegar à Intendência, disse ao Padre que pegasse o que pre­cisava para sua paróquia. O Padre não se fez de rogado e encheu dois carroções com o que precisava.

O Pescador pegou de tudo um pouco, principalmente roupas, , alimentos, ferramentas, muitas sementes, pólvora, alguns mosquetões, pa­pel e panelas, muitas coisas enfim! Havia ali muitas mercadorias que a Metrópole mandava para a Capitania ser desenvolvida, e o Governador guar­dava quase tudo para si. Levou também alguns caldeirões para fundição e batéias para garimpar ouro. Ao sair, chamou o intendente e, escondido, deu-lhe meio quilo de ouro e disse-lhe que, quando voltasse, daria outro tanto se, dentro de dois meses, lhe mandasse mais umas quatro carroças com roupas, alimentos e algumas botas. O intendente, que não era tolo, disse que ficasse tranqüilo, receberia tudo certinho, no prazo combinado.

Partiram vinte e um carroções para os engenhos, com a escolta a protegê-los.

Ao chegarem no engenho principal, o Pescador mandou que des­carregassem tudo e que as vacas que tinha trazido fossem colocadas no cercado, junto com os outros animais. Sim, havia comprado dezoito vacas também, pois isto lhe interessava. Comprou, dos carreteiros, seis carro­ções com as parelhas completas de bois. Pagou-os bem por eles.

Saiu a cavalo e disse aos feitores que agora eram seus emprega­dos, que fossem até o outro engenho e trouxessem os outros escravos e empregados. Queria todos lá, todos mesmo! Partiu em galope e foi atrás do velho João de Mina, levando mais dois cavalos.

Duas horas depois chegou perto do casebre do negro. Este esta­va sentado num banco recostado à parede, calmo, como se estivesse a esperá-lo.

O Pescador desceu do cavalo e correu em sua direção, sorrindo e chorando ao mesmo tempo.

- Que Deus te abençoe, meu filho. Pensei que me enganara a teu respeito, mas vejo que minha confiança não foi em vão. Muito me alegra ver-te novamente. Esperava por ti ontem. O que houve?

- Choveu muito e isto atrasou um pouco os carroções. Mas, como me esperava ontem, se eu nem sabia quando chegaria no engenho?

Eu sabia, só isto, está bem?

Sim, meu amigo, para mim tudo o que disser está bom. Tenho tanto a dizer-lhe, que não sei como começar.

Pois então senta-te e começa. Ruth, traga algo para o Pesca­dor! - gritou o velho.

Ao sair do casebre, Ruth era só alegria. Abraçou o Pescador e o beijou no rosto com lágrimas nos olhos. Não conseguia falar nada.

Oh minha amiga, como fico feliz em vê-la bem! - e apertou-a contra o peito, ao que ela deu um forte gemido.

O que foi, machuquei você, Ruth?

Não, Pescador. Quem me machucou foi o feitor com o seu chicote - e mostrou-lhe as costas, levantando sua blusa.

Ao ver o estado de sua amiga tão querida, o Pescador deixou rolar lágrimas em abundância, sufocando os soluços de compaixão. Fosse quem fosse, pagaria caro, se pagaria!

Enxugou-lhe as lágrimas com o lenço que tinha no pescoço e beijou-lhe as duas faces, dizendo-lhe:

- Acabou-se o cativeiro, minha amiga. Eu comprei os dois enge­nhos do Governador. Tudo é meu, acabou-se o sofrimento do seu povo. De hoje em diante o chicote será destruído por aqui.

Virando-se, viu o velho benzedor chorando alto. Tinha o rosto banhado em lágrimas e olhava para a cruz de madeira como se agradecesse a ela.

- Calma, meus amigos, eu vim trazer alegria, não prantos. Vamos parar com as lágrimas, eu quero ver sorrisos.

Após algum tempo, os soluços foram se acalmando. Ainda com lágrimas nos olhos, o velho João de Mina disse:

- Meu filho, nem sempre as lágrimas servem para mostrar dor, às vezes elas demonstram alegria.

Após contar-lhes tudo, o Pescador pediu-lhe:

Meu amigo, lembro-me dos seus amigos que aqui um dia vie­ram para uma reunião comigo. Sei que são venerados pelo poder que têm, e eu os quero no engenho hoje à noite.

Por que, meu filho?

Porque eu preciso deles para que os negros que por aqui traba­lham tenham liberdade. Ruth, você sabe onde eles moram, não?

Sim, eu sei, Pescador. Alguns moram bem distante.

Pois então, vamos logo para o engenho. Depois você vai buscá-los a cavalo, está bem?

- Sim, Pescador, para mim está bem.

Foram para o engenho rapidamente. Era quase meio-dia quando lá chegaram. Já havia muitos negros e negras reunidos, todos esperando para ver o novo amo, com curiosidade.

O Pescador chamou alguns feitores e pediu a Ruth que apontasse aquele que havia lhe batido. Ruth não o viu. O Pescador perguntou por ele aos outros feitores. Ninguém soube dizer onde estava. O velho negro que se chamava João, que o Pescador já conhecia, chamou-o a um canto e disse-lhe que ele já se encontrava no inferno, ajustando as suas contas, porque fizera um feitiço para matá-lo e tinha certeza de que ele já estava morto.

Conte-me tudo depois, agora preciso dar umas ordens. Mas o que houve com sua perna, meu amigo?

Depois eu te conto, é uma longa história e estás muito ocupa­do. Faz o que tens a fazer.

Chamou os feitores e disse-lhes que Ruth diria onde encontrar alguns amigos seus. Que fossem até eles e dissessem que o velho João de Mina queria vê-los esta noite no engenho de cima.

Mandou que as cozinheiras fossem à despensa e pegassem ali­mento suficiente para alimentar bem a todos no almoço. E à tarde, quando chegassem os outros, fizessem bastante comida. Queria que todos fossem bem alimentados.

Até à tarde, ficou a distribuir ordens:" arrumem estas roupas aqui, aqueles bois lá, vacas no outro pasto, cavalos acolá, guardem bem estas ferramentas!" Ao entardecer começaram a chegar os negros do outro engenho, vinham assustados, com medo. Ao verem que o velho João de Mina sorria sentado ao lado do novo amo, ficaram mais calmos.

Logo que chegavam, era-lhes servida comida à vontade, em tal quantidade, que desde a África não se via tanto.

Eram oito horas da noite quando chegaram os últimos velhos, com Ruth e os feitores.

A vida deles iria mudar, era o que diziam.

O Pescador chamou os feitores e deu-lhes algum dinheiro. Tinha muito, pois vendera o resto do ouro a um comerciante judeu que havia na capital. Não recebera tudo, porque o comerciante não tinha tanto dinheiro, mas prometeu pagar-lhe o resto em mercadorias, uma parte, e outra parte em moedas, assim que vendesse o ouro.

Mandou que fossem com a escolta e os carroções, que já esta­vam de partida. Ordenou-lhes que levassem os carroções e na volta trou­xessem as mercadorias que o comerciante lhe devia, e mais alguns animais que havia comprado do Engenho da Lagoa.

Podiam ficar alguns dias na capital, mas que voltassem! Logo depois haveria muito o que fazer.

Quando todos já haviam partido, ficando só os negros, convidou os velhos amigos de João de Mina para conversar.

Explicou que comprara os engenhos para acabar com o sofri­mento deles. Agora não andariam mais seminus, nem mal alimentados, nem apanhariam mais para trabalhar.

Precisava que eles trabalhassem, mas contentes. Não poderia mandá-los de volta à sua terra natal, mas poderia tornar aquelas terras, que agora eram suas, um lugar em que vivessem felizes.

- O que os senhores acham, meus amigos?

Pensaram um pouco, sem saberem o que responder. Era algo que almejavam há tempos, e agora não sabiam como agir. Por fim, falou o velho João de Mina:

- Filho, não penses que se voltássemos para a África seríamos felizes novamente. Lá já não temos os nossos lares. Sabias que quando capturam os negros para a escravidão, queimam suas aldeias? Prendem-nos e os vendem para o mercador branco. Então, que adiantaria voltar? Já não chega de sofrimentos? Melhor viver em paz aqui mesmo, se isto nos for possível.

Espero que sim, meus amigos, por isto estou aqui.

Então o que quer de nós, Pescador?

- Gostaria que falassem com todos, pois os senhores são respei­tados. Expliquem que serão tratados dignamente, terão boa alimentação, poderão descansar no domingo, pararão para comer, e descansarão mais cedo. Com o tempo, farei casas para todos. Quem quiser, fica; quem não quiser, pode partir.

- Então, vamos lá falar com eles.

Os velhos negros falaram o que o Pescador queria fazer. Se eles cooperassem, seria bom para todos. Dormiriam sem correntes a prendê-los, não haveria mais chicote nem tronco para o suplício. Teriam o que não lhes fora dado ter até agora, uma família. O que ele pede é que cada um faça sua parte, sem precisar ser obrigado a isto. Quem ficar, estará prote­gido nestas terras. Quem não quiser ficar, pode ir para as florestas e come­çar sozinho.

O velho João virou-se para o Pescador e disse:

- Se o senhor quiser falar, a maioria o compreende.

- Bom, meus amigos, isto não será um paraíso de descanso. Todos terão que trabalhar, porém cada um no seu lugar. Fiquem sentados orno estão aqueles que querem ficar, os outros podem sair.

Houve muita conversa entre eles. Não sabiam também o que es­colher Tinham sido muito maltratados, e por tanto tempo, que não acredi­tavam no que ouviam. Mas ninguém se levantou, pois, se os velhos esta­vam com ele, também ficariam. Estava resolvido.

Vendo que ninguém se levantava, o Pescador disse:

Esta noite é de festa. Vamos festejar! O que sugere meu amigo João de Mina?

Uma festa do jeito africano, é como eles entenderiam a liberda­de, meu amigo.

- Então que assim seja - retrucou o Pescador.

Os escravos foram se descontraindo e, pouco depois, já havia muito batuque e danças.

O Pescador voltou para o lugar onde estavam sentados os guer­reiros índios e ficou a conversar com eles.

- O que acham do que estão vendo, amigos?

Eu nunca tinha visto homem desta cor, Pajé Branco. Mas eles dançam como nós, cantam e riem como nós, disto eu gosto. Não são como o branco, que não canta e nem dança como nós.

Sim, é isto mesmo, eu não tinha notado. Vocês têm cor e ori­gem diferentes, mas a religião é a mesma. Os cantos são em outra língua, e a dança um pouco diferente, mas o sentido é o mesmo.

- Eu gosto disto, Pajé Branco. Vou chegar mais perto para ver

melhor.

- Amanhã, dois de vocês partem para a aldeia a cavalo, o outro e eu ficaremos mais uns dias, logo estaremos lá também.

No dia seguinte o Pescador chamou Ruth. Juntos saíram a olhar toda a propriedade.

O Pescador ia anotando num papel determinados lugares e falava o que queria que fosse feito ali. Passou o dia todo fazendo anotações e distribuindo as tarefas.

Ruth, eu comprei muitas sementes que vieram de Portugal. Quero que sejam plantadas para que o alimento nunca falte e ainda possa trocar um pouco com os outros engenhos mais ao longe. Eles pagarão bem pelo que produzimos aqui. Isto será nossa força. Quando voltarem os feito­res, eu conversarei com eles. Tudo mudará por aqui, Ruth! Esta terra é muito boa, teremos muita fartura, sinto isto como um presságio, uma bên­ção de Deus!

Sim, Pescador, é uma bênção de Deus. Pena que chegou um Pouco tarde para meu pai.

Por que diz isto?

Viu as marcas em minhas costas, foi um maldito feitor que fez isto e causou a desgraça toda.

Vamos, não chore, conte-me o que houve.

Lembra-se como meu pai era contente quando o viu da outra vez? Reparou como é triste agora? O antigo feitor geral, o que mandava nos outros, gostava muito do meu pai. Deixava que cuidasse dos nossos irmãos doentes, fazia os partos das mulheres, benzia a todos. Ele protegia meu pai. Um dia nasceu um irmão meu, muito fraco, quase morreu após o nascimento, mas com a ajuda de Deus ele viveu. Era muito triste porque suas pernas não eram como as dos outros meninos, pois ele era paralítico. O feitor gostava dele e tratava-o bem. Era um homem bom. Quando meu pai ficou velho demais para trabalhar com os bois, isto há uns oitos anos atrás, veio para a cabana onde você o encontrou. Meu irmão ficou comigo na casa grande, a do feitor-chefe. Lá ele vivia, se arrastando sobre muletas, ou sentado na varanda olhando o movimento do engenho e sempre que alguém passava, brincava com ele. Isto era a sua alegria. Ver os outros andarem, correrem. Se divertia com isso.

Vamos, não pare agora, Ruth, conte-me o resto.

Bem, logo depois que você partiu, o feitor-chefe veio a falecer e foi mandado outro para cá, um homem muito ruim. Não gostava de nós, odiava os negros, dizia que não éramos gente e sim animais. O tronco voltou a ser usado quase todos os dias. Qualquer coisa servia de motivo para alguém ser chicoteado, ficar sem comer ou andar com as correntes a ferir-lhe os tornozelos.

O meu irmão foi posto para fora da casa. Ele dizia que não iria tratar de um negrinho imprestável, que o melhor seria que morresse, por­que assim seria uma boca a menos para comer. Pai João, aquele que você conhece, o acolheu em sua choupana, próxima ao engenho de baixo, e dividia com ele sua comida. Uns quinze dias atrás, o novo feitor ia passan­do e viu o meu irmão na choupana e perguntou o que fazia ali aquele negri­nho que ele havia mandado embora. Desceu do seu cavalo e o agarrou com violência das mãos de Pai João. Este tentou tirar-lhe o menino e foi agredi­do até ficar desfalecido. Quando voltou a si, estava amarrado no tronco de suplício, junto com o meu irmão, que estava pendurado, pois não podia ficar em pé. O feitor bateu-lhes tanto, que o velho Pai João foi tirado des­maiado, e o meu irmão, ao ser desamarrado, já estava sem vida: tinha mor­rido no tronco do suplício. Pai João foi levado até meu pai, que o ajudou, e meu irmão ficou estirado lá perto do tronco mesmo. Quando cheguei, com os outros da roça, pois eu também já não ficava mais na casa do senhorio, vi meu irmão morto. Chorei muito, levei o seu corpo até a casa de meu pai, e lá, entre lágrimas, nós o enterramos.

Ruth chorava muito e o Pescador a consolou com palavras mei­gas. Por fim, ela continuou:

- O feitor foi atrás de mim. Achou-me na casa de meu pai e quis me levar à força. O meu pai tentou argumentar, foi derrubado. Pai João foi acudir meu pai e foi ferido na perna, com um golpe de espada. Ficou caído no chão a sangrar. Eu fui levada para o engenho e lá ele mesmo me chico­teou. Fiquei caída no chão, sem conseguir me mexer, pois o corpo todo doía. Por fim, ele se recolheu e os outros escravos me pegaram e cuidaram de mim.

- Onde se esconde ele agora, Ruth?

- Não sei, mas ele não levantará a mão para mais ninguém, por­que ao bater em meu pai, seu braço partiu-se como se fosse de pedra. Por isso ele me bateu tanto, para se vingar dessa coisa invisível que quebrou seu braço esquerdo. No dia seguinte ele levantou-se gritando. O braço esta­va preto de sangue pisado. Dizia que tinha sido enfeitiçado, o que não duvi­do. Pai João é vingativo e deve tê-lo trabalhado durante a noite com Lebará.

- O que é Lebará, Ruth?

- É aquele que executa os trabalhos para os Orixás e também para o filho do Santo. Ele deve ter levado o feitor para o inferno, onde ele acertará as contas do que deve a Deus. Saiu de casa gritando e, sem rumo, foi embora. Ninguém o viu mais. Os outros feitores ficaram com medo. Você não viu como ficaram contentes quando os mandou ir para a capital?

- Vamos, Ruth, já é tarde, quero falar com seu pai.

Ao chegarem no engenho, o Pescador procurou o velho João de Mina para falar-lhe.

- Meu amigo, desculpe eu não estar aqui para ajudá-lo. Poderia ter sido diferente!

- Pescador, quando tu chegaste, eu vi a esperança chegando tam­bém. Não sabia como seria, mas eu via uma resposta do Senhor Abaluaiê, o Senhor dos Mortos, às minhas preces por liberdade para meus irmãos. Tu trazias as marcas dele na pele, que são as chagas. Pensei comigo mes­mo: "Eis o nosso Salvador!" Depois que partiste, fiquei esperando tua volta. Orava aos Orixás todos os dias para que facilitassem a tua vitória, pois seria a nossa vitória. Por isto, eu te ensinei muitas coisas a respeito da magia africana, para que vencesses. Sempre recebia mensagens dos Ori­xás, dizendo que estavas vencendo, e pedindo que eu tivesse paciência. A liberdade viria para todos.

Parou de falar um pouco, respirou fundo, depois continuou:

Nos últimos tempos, já estava aflito, pois demorava a resposta às nossas preces, e o novo feitor era muito cruel. Odiava a todos! Talvez até a si mesmo. Foi quando a tragédia se abateu sobre mim. Acho que Ruth já te contou tudo, não?

Sim, ela já me contou, sinto não ter chegado antes.

Não é tua culpa, meu filho. É o destino de cada um que deve ser cumprido até a última lágrima. Não importa o preço, tem que ser cum­prido.

Lembra-se que um dia me falou para não olhar para trás, meu amigo? Que, à frente, poderia encontrar alegria e paz? Pois eu peço agora: não olhe para trás, ajude-me a trazer um pouco de alegria e paz a estes que aqui estão. Precisam mais de você do que de mim. Eu tenho a terra, mas você é o seu líder. Juntos, nós lhes daremos ao menos a paz. Parece que tudo tem um preço a ser pago com lágrimas, mágoas e muita dor. Isto eu conheço bem, meu amigo. Vamos até o túmulo de seu filho, gostaria de orar por sua alma.

Partiram para lá, e no caminho o Pescador foi falando sobre tudo o que aconteceu desde que partiu. Que tinha muitos amigos entre os índios. Contou, também, como foi que encontrou o ouro. Era uma fonte enorme de riqueza e poder. Tanto, que havia usado uma parte ínfima dele para conseguir o que tanto queria, que era ajudá-los. Pena que chegara tarde. A tristeza havia voltado.

Ao chegarem no velho casebre, o velho o conduziu até uma ár­vore que havia no bosque. Lá estava o túmulo do seu filho.

Eis aí, Pescador, onde nenhum poder valeu, nenhuma magia funcionou e nem minha prece foi ouvida por Deus. Eis onde um homem falha com tudo o que ele sabe, ou pode. Eis onde o homem é reduzido à sua verdadeira dimensão, onde ele clama e não é ouvido, onde chora e ninguém ouve o seu lamento. Eis onde ele tem seus sonhos, suas ilusões, seu orgu­lho e soberba dobrados pelo Criador. Na própria criação de Deus os ho­mens são reduzidos ao seu verdadeiro tamanho, nem maior e nem menor.

Por que diz isto tudo, meu amigo, se ele sofreu tanto em tão pouco tempo?

Porque eu era um homem a quem todos buscavam socorro para seus problemas, e a todos eu ajudava com meu poder curador. Mas para meu filho nada pude fazer, nem para curá-lo, nem para cuidar dele. Na hora em que mais precisou de mim, eu estava longe. Como posso ir adian­te, se tudo está contra mim? Como pode pedir que eu continue, se minha alma já cansada pede descanso. Se, depois de tudo o que fiz nesta terra,

ao servi para nada na hora em que meu filho mais precisou de mim? Como reagir num momento como este? Onde buscar forças, se a fonte da vida se esgotou?

Nisto ouviram gemidos horríveis vindos do bosque. Foram até o lugar de onde partiam os gemidos. O que viram deixou-os assustados:

Meu Deus! - gritou o Pescador.

Zâmbi, meu Criador! - gritou o velho João de Mina.

Caído estava o feitor-chefe, com diversas cobras enroladas em seu corpo, todas a picá-lo. Não tocavam apenas em seu rosto. Do pescoço para baixo estava todo mordido.

O que é isto, meu Pai? Por que elas só picam do pescoço para baixo, e por que ele não morre? Qualquer um teria morrido com apenas uma picada de qualquer dessas cobras, são todas venenosas.

Isto é magia negra, meu filho. Isto é obra de João. Na sua dor e humilhação, ele caiu. Também se vingou, não ouviu minhas palavras. Fez o que o ódio, que tomou conta de sua alma, pedia.

As cobras não se afastavam do homem por nada. Estavam como que atadas a ele, que era presa delas, mas não conseguia morrer.

Este homem, ao ter sua alma arrancada do corpo, se transfor­mará em cobra também. E como tal rastejará por toda a eternidade, até que Zâmbi lhe dê uma oportunidade de se redimir dos seus pecados.

Façamos então com que estas cobras se afastem dele, para que possa morrer em paz, ao menos - retrucou o Pescador.

O que podemos fazer? A reação foi causada pelas suas ações. Se fossem boas, não estaria assim.

O homem gemia, mas não morria. Sentia cada picada como se fossem as chicotadas que dera nos escravos. Cada mordida parecia a co­brança de uma vida que tirara, de uma dor que fizera alguém sofrer.

O Pescador ajoelhou-se e começou a orar:

- Deus Pai, que se compadece de todos, olhai por vosso filho que caiu um dia no pecado, e nele permaneceu. Olhai por ele, que clama pela morte, meu Pai!

O velho olhou para o Pescador e viu que dele saíam raios de luz em direção ao moribundo. Eram raios cristalinos, aos milhares. O Pescador foi se aproximando do homem caído no chão.

Filho, cuidado com as cobras, elas estão enraivecidas e enfeiti­çadas, podem picar-te também.

Não, meu amigo. Venha comigo, pois a Força Divina me guia, e contra Ela nada tem poder.

Foi se aproximando lentamente e orando. A luz que saía de seus olhos era dourada.

Primeiro olhou para o homem caído, que pediu-lhe:

Ajude-me, pelo amor de Deus. Eu me arrependo dos meus erros, que Deus me perdoe!

Deus ouve teus pedidos, homem, e responde a eles agora.

O velho ficou um pouco atrás, um pouco temeroso. O Pescador olhou para uma enorme cascavel e ordenou-lhe:

- Vem aos meus pés, te enroles e fica quieta!

A cobra saiu de cima do homem e, chocalhando os guizos, veio até perto dele. Bem devagar, enrolou-se toda, como se fosse dar um bote. O Pescador olhou para o alto e clamou:

- Meu Deus, o primeiro demônio me atendeu, que os outros venham também calmamente, se enrolem e fiquem quietos.

Uma a uma as cobras foram chegando perto do Pescador e se enrolando. O Pescador olhou-as e falou-lhes:

-Vos já cumprirdes o que alguém vos pediu. O ódio que envene­na, com veneno foi combatido. A Lei se cumpriu! Agora partais em paz, pois assim eu vos ordeno, em nome de Deus!

Levou a mão direita sobre a primeira cobra, a cascavel, que bai­xou a cabeça e parou de chocalhar o guizo. Ele fez o sinal da cruz sobre a cabeça dela, que lentamente foi saindo, até sumir no mato. Repetiu o mes­mo ritual com as outras seis cobras, que também foram embora lentamen­te. O homem caído à sua frente pediu-lhe perdão por tudo que fizera. O Pescador chamou o velho para junto de si:

João de Mina, este homem foi conduzido até aqui para te pedir perdão. As cobras o trouxeram porque o pedido do outro João foi este: que ele viesse aqui rastejando pedir perdão. Somente quando tu o perdoares, ele morrerá.

Depois do que eu vi, não tenho dúvidas sobre o poder de Deus.

Homem, pede perdão a quem deve perdoar-te.

Perdoe-me, velho João de Mina, e que teu filho me perdoe também, esteja onde estiver.

Eu te perdôo, em nome de Deus. Do meu coração não terás o ódio nem a mágoa a perseguir-te e, pelo meu filho, peço a Deus que te perdoe.

Homem santo, me perdoais, em nome de Deus e pelo amor que tendes a Ele?

- Homem, tu que viveste do ódio e pelo ódio, terás toda a eterni­dade para saldar teus pecados para com teus semelhantes, cometidos dian­te dos olhos de Deus. Eu te perdôo em nome de Deus, e que agora partas para o mundo onde reina absoluto o Eterno. Vai em paz, e em paz aceita a Lei de Deus. Ela agirá por Si mesma sobre ti. Que tua alma parta para o lugar aonde a Lei Divina te conduzir.

Homem santo, ide um dia me buscar. Eu vos seguirei e farei o que me ordenardes para redimir meus erros.

Que assim seja!

O Pescador pôs a mão direita sobre a cabeça do homem, que estremeceu todo, deu um grito horrível e desfaleceu. Estava morto.Os dois tiveram a impressão de que uma cobra enorme saía do corpo, uma cobra etérea. Outra cobra imensa, que até aquele instante permanecia invisível a eles, a aguardava.

O Pescador orou a Deus por aquela alma, pediu que o Todo-Poderoso se compadecesse dele. Que um dia aquele homem pudesse voltar a ser um homem diante dos olhos de Deus.

O corpo do feitor começou a sangrar por todas as picadas que recebera e, em pouco tempo, não tinha mais sangue algum. O sangue su­mia na terra.

O Pescador virou-se para o velho e disse:

Vamos enterrar este homem aos pés do seu filho. O réu e a vítima se encontram novamente. Ele será as pernas que seu filho não pode usar. Diante da alma de seu filho, ele sempre rastejará.

Por que dizes isto?

Porque eu sei que é assim, pois assim diz a Lei do Criador: "Pagarás até a tua última dívida". Assim está escrito no Livro da Lei.

Cavaram uma vala e enterraram o corpo aos pés do menino, mas em sentido transversal.

O Pescador fez uma prece pelo menino e outra pelo feitor. As últimas horas tinham sido dramáticas para os dois homens. O Pescador ajudou o velho a subir na cela do cavalo. Partiram para o engenho.

 

A ORDEM DOS SETE ANCIÃOS

(UM ENCONTRO PROVIDENCIAL)

No caminho, o velho perguntou ao Pescador, onde estava a sua Estrela, pois não a vira desde que ele chegara. O que havia acontecido a ela?

-           Oh! não aconteceu nada com a Estrela. Deixei-a com minha mulher. Senti vontade de deixá-la ao seu lado e assim fiz. Isto me dá certeza de que ela estará bem.

- Gostaria de conhecer tua mulher, Pescador.

- Quando for possível, a conhecerá. Verá que é uma mulher maravilhosa.

- Parece-me que gostas muito dela.

Sim, gosto muito e, nestes dias em que estou distante, sinto sua falta. Seu sorriso franco e sua alegria me encantam, sua doçura serve para apagar o amargor do meu passado.

Não penses no teu passado, e eu não pensarei no meu; está bem, Pescador?

Sim, que seja assim. Vamos pensar no futuro dos que esperam algo de nós. Certo, meu amigo?

Ao chegarem no engenho, já era tarde da noite. Ruth os aguarda­va sentada na varanda da casa principal.

O que houve, aonde foram, por que demoraram tanto?

Só demos umas voltas, minha filha. Tem algo para comermos?

Vou esquentar, pensei que não voltariam mais! Ao sentarem para comer, Ruth inquiriu:

Por que estão calados? O que realmente houve?

Conte a ela, amigo João de Mina. Ela gostará de saber, e isto tirará as mágoas do seu coração.

Está bem, Pescador, vou contar - e começou a narrar tudo o que acontecera.

Ao terminar, disse que guardava tristeza no coração, mas não mágoas. Ruth concordou, também estava triste, mas o ódio se fora. Per­guntou ao Pescador:

Não sentiu medo das cobras, Pescador?

Não, não senti. Eu não via cobras, mas apenas demônios na forma de cobras, executando uma ordem dada a eles. Os índios têm lendas dizem que há um grande espírito mau que rasteja, e que, onde existe o mal ele sempre está por perto, para levar o espírito de alguém. Aqueles a quem ele leva vão rastejar também. Eu não acho que seja uma lenda, depois do que vi hoje.

Pescador, já ordenei tudo aos empregados. E assim que você os chama, não?

Sim, é assim que quero que sejam chamados e, se possível, pelos seus nomes. Quando vão começar?

Amanhã mesmo. Hoje distribuí as ferramentas e expliquei tudo o que o novo amo quer que façam.

Ruth, quero que me traga, logo cedo, aqueles que lideram os outros, quero conversar com eles.

O velho João de Mina deu uma gargalhada.

Por que ri assim, meu amigo?

Porque sei o que queres. Os líderes são meus filhos-de-santo - e continuou a sorrir.

Como sabe o que quero? Diga-me.

Quando chegaste aqui, mandaste os brancos para a cidade. Sabias que os negros não iam embora, não é verdade?

Sim, é verdade, sabia que eles iam ficar, quando dei a oportuni­dade de irem para a floresta. O que tem a ver isto?

Ora, os líderes sabem onde se refugiam os negros que fogem dos engenhos, tanto destes como dos outros mais além, próximo do mar. Vai chamá-los para cá, não?

Sim, é verdade. Quem foge não é o mais corajoso, o mais valente, o que mais quer a liberdade? Então que venham para cá e vivam em paz, tragam sua gente, suas forças, e liderança. Logo eu os transformarei em homens livres, sem correntes nos pés, sem chicote e com oportunidade de terem famílias que não mais serão separadas.

Achas que o Governador vai aprovar um homem como tu por

aqui?

Meu amigo, estamos mais afastados que todos os outros enge­nhos, mais para o interior, esquecidos. Meu ouro fará com que ele só se lembre de mim para enriquecer mais. O que eu fizer, ele não tomará conhe­cimento.

Cuidado, Pescador - falou Ruth - o antigo feitor dizia que a esposa dele é uma serpente das mais venenosas, e muito ambiciosa tam­bém!

- Eu conheço essas pessoas, Ruth. Dos vinte e três anos de idade até os trinta e dois, eu fui juiz. Da Inquisição, o que é pior! Lá, você vê todo tipo de pessoas. Boas, más, ruins, ambiciosos que chegavam a extremos que, às vezes, me enojavam. Tínhamos que ser cautelosos para não ser­mos envolvidos. Vi muitos serem corrompidos com moedas de ouro, com jóias e com terras. Outros com títulos que não encobriam sua podridão. Outros davam suas próprias filhas em troca de suas vidas, erradas desde o nascimento. Sim, isto eu conheço bem. E, por não ser deste tipo de pessoa, eu traí meu pai sem querer. Hoje eu carrego esta mágoa, por ter confiado num religioso de alto grau que eu julgava meu amigo e conselheiro fiel.

O Pescador parecia não estar vendo nada. Enquanto falava, com o olhar distante, as palavras vinham como o desabafo de um homem que falhara por confiar. Sentia-se um tolo. Continuou.

- Líamos processos e mais processos, livros e muitas coisas mais. Tínhamos que agradar aos poderosos e tentar não penalizar demais os inocentes. Mas nem todos eram assim, este foi meu erro. Muitos mor­reram, e outros tantos ainda morrerão, até que a Igreja deixe de ser juiz e volte a ser somente o sacerdócio a serviço da cristandade.

- Ruth, vá e chame os meus treze filhos aqui - falou o velho

Mina.

Pouco depois chegavam os treze. Ficaram a olhar o velho Mina, esperando suas palavras.

- Filhos, peguem cavalos e partam rápido. Vão até os que estão fugidos e digam-lhes que voltem, que os sete anciãos assim ordenam, que estejam logo cedo aqui, pois queremos falar com eles. Digam-lhes o que está acontecendo aqui. Diga também que o amo branco é filho de Inaê Iabá, que conhece a Lei do Santo, que quer nos ajudar. Venham sem medo!

Os negros se ajoelharam diante do velho Mina e, após pedirem sua bênção, partiram rápido.

Pescador, vais ter o que queres. Vamos ver se pagarás o preço do teu sonho.

Meu amigo, eu pagarei, tenha certeza que pagarei. E muito bem pago - e deu uma sonora gargalhada.

Era cedo, quando todos já estavam no grande terreiro. Daí a pouco começaram a chegar os negros fugitivos, mas a maioria dos que vinham não pertencia àqueles dois engenhos.

Havia fugitivos de todos os engenhos distantes. Quando os treze já estavam ali com os fugitivos, estes contavam quase oitocentas pessoas, entre homens, mulheres e crianças. Muitos estavam velhos, doentes e can­sados.

O Pescador se assustou. Não esperava que houvesse tantos assim Ficou preocupado: o que fazer com tanta gente? Os engenhos já ti­nham quase trezentos empregados, agora seriam mais de mil. Tinha que pensar rápido, e agir com cautela.

Chamou os treze filhos e, junto com os velhos, começou a falar:

- Meus amigos, a tarefa é maior do que eu imaginava. Temos que alojar toda esta gente, ou eles não confiarão em nós. Peçam que, os mais novos e fortes peguem machados e cortem as árvores mais ou menos finas para construirmos casas o mais rápido possível. Aos de meia idade, Ruth mostrará as terras que escolhi, onde plantarão as sementes de alimentos que trouxermos da capital: está no tempo da plantação do milho e do arroz. Preparem a terra o quanto antes, não podemos perder nem um dia sequer. O feijão logo poderá ser plantado. Os mais velhos cuidarão das vacas e cria­rão galinhas. O leite irá para as crianças e os idosos, os demais vão comer mandioca e uma ou outra coisa. Juntem um grupo e mande-o às florestas para caçar um tipo de porco que eu já vi por lá, procurem capturar mais fêmeas, vamos iniciar sua criação para ter carne para todos, em breve. Dos filhotes que nascerem arranquem suas presas, pois são perigosos. Cacem também animais, para que se tenha um pouco de carne, pelo menos uma vez por semana. No começo, será como os índios em suas aldeias, tudo é de todos. Alguns meninos saiam para pescar e que tragam os peixes aqui para a sede, para que sejam divididos entre todos. Aqueles que estavam trabalhando nos canaviais, que continuem a trabalhar neles com afinco, pois temos que vencer.

Ruth, diga aos que fugiram dos outros engenhos que não preci­sam temer, porque tenho um documento do Governador Geral que me dá direito sobre todos os fugitivos que eu capturar, e eles que digam que eu os capturei. Se precisar, depois eu indenizarei os seus antigos amos. Que não temam nada, eu os protegerei!

Saíram fora do casarão e o Pescador gritou:

- Quem de vocês conhece armas de fogo?

Diversos negros disseram que conheciam, alguns até mostraram

as suas.

- Isto é bom. Eu trouxe diversas armas e muita pólvora, venham comigo até o depósito. Ruth e o amigo João de Mina, distribuam este povo todo e ordene-o da melhor maneira possível.

O Pescador foi com os negros até o galpão que servia de depósi­to e deu-lhes armas novas, pólvora, espadas e punhais.

- Meus amigos, vocês são os guardas agora. Fiquem, quatro de vocês, na entrada da fazenda. Os outros peguem cavalos e fiquem andando nas divisas, dando guarda àqueles que estão aqui. Vamos, homens, mexam-se! Não fiquem aí como bobos. Vamos! Vamos!    Os negros partiram rapidamente. Aquele homem era decidido, e conquistou o respeito deles. O Pescador ficou mais tranqüilo. Agora estavam protegidos, pois aqueles homens não temiam a morte. Protegeri­am a todos.

Ao voltar à sede, havia grande movimentação entre os negros. Estavam felizes. Não sabiam muito bem o que estava acontecendo, mas estavam felizes. O dia correu tranqüilo. As mulheres prepararam uma área enorme próxima ao rio, para ser uma grande horta. Os homens abriram a grande área para o plantio. Mais uns três ou quatro dias e a terra estaria pronta para ser cultivada. Eram uns cinqüenta alqueires, mais ou menos calculou o Pescador, e, se Deus ajudasse, logo o alimento não seria problema. A primeira colheita daria para alimentar aquela gente por uns dois anos, ou mais. Orou a Deus por isso. Pediu sua bênção para sua terra e sua gente, pessoas que, só por vontade divina, seriam colocadas em suas mãos tão rapidamente.

À tarde, o Pescador viu se aproximarem diversos carroções, numa fila enorme que chegava lentamente. Foi ao seu encontro e viu que apenas um era conduzido por um homem branco, os outros eram conduzidos por negros.

Ao chegar mais perto, viu o homem de barbas longas, que con­duzia o grupo. Perguntou-lhe quem era.

- Sou filho de Natanael.

(Este era o comerciante que viria trazer as mercadorias pedidas

por ele).

Mas... e os meus empregados? Cadê eles? Eu mandei que me trouxessem as mercadorias, só vejo negros, onde estão eles?

Não vieram. Disseram que o feitor tinha sido enfeitiçado e aqui eles não voltariam mais. Meu pai mandou que eu trouxesse as suas merca­dorias.

Foram para a sede, e lá o Pescador chamou alguns negros e os mandou descarregar tudo e guardar no galpão. Que tomassem cuidado com as mercadorias.

- Quem é você, meu amigo?

Eu me chamo Abraão, filho de Natanael. E você dever ser o senhor José Macedo, não?

Sim, sou José Macedo, dono destas terras. Mas diga-me, se­nhor Abraão, por que tantos carroções com tantas mercadorias? Eu não pedi tudo isso a seu pai.

- Bem, senhor Macedo, ele não conseguiu vender todo seu ouro, então uma parte ele mandou em mercadorias variadas, e outros quatro carroções em alimentos.

- E o pedido que eu fiz, ele me conseguiu?

- Sim, custou muito caro, mas está aí. Aqui nestas bolsas estão as moedas portuguesas, dinheiro bom.

Diga-me, senhor Abraão, estes carroções são seus?

São de meu pai, meu senhor.

Eu vou precisar deles, poderia vendê-los para mim?

Não sei se meu pai concordaria com a venda.

Ora, diga o preço! Eu os compro à vista. Dê-me o recibo, que eu lhe pago agora mesmo.

Vamos combinar o preço, meu senhor. Parece que tem grandes idéias, não?

Sim, senhor, grandes idéias! Mas eu gostaria que o senhor e seu pai soubessem guardar segredo. Quem sabe no futuro poderemos fa­zer bons negócios?

Sim, bons negócios era o que estava faltando por aquelas ban­das. E ele, o senhor José Macedo, era um bom cliente, pois confiara o seu ouro a seu pai, sem conhecê-lo. Pagara tudo adiantado, num momento em que seu pai tinha muitas mercadorias e poucos clientes. Por ser judeu, era evitado por muitos.

Vamos entrar, meu amigo, temos muito a conversar. Gostaria de pernoitar aqui hoje?

Com prazer, meu senhor. Não gosto de viajar à noite. Confesso que vim com medo. Por aqui sempre há saques dos negros fugitivos.

Não se preocupe. Destas bandas, de agora em diante, eu toma­rei conta. Não haverá mais saques, isto eu lhe garanto!

O senhor Abraão fez o recibo dos carroções ao Pescador, depois comeram algo e ficaram a trocar idéias.

- Diga-me, senhor Macedo, como vai tocar os engenhos sem os feitores brancos?

Ora, colocarei feitores negros, e tudo se resolverá.

Como conseguirá isto?

Quem faz o açúcar, não são os negros? Então, eles continuarão

a fazê-lo.

- Mas, sem ninguém a obrigá-los, como farão?

- Eles farão por mim, porque eu os compreendo e eles me res­peitam por isto.

Não tem medo de ser morto por eles, que odeiam brancos?

Não, não tenho medo. Já morei com eles, sei o que querem, o que pensam e sentem. Querem apenas ser tratados como seres humanos normais. Só isto, meu amigo.

O judeu ficou pensativo.

- No que pensa, meu amigo?

- Em nada, meu senhor, só estou pensando em suas palavras, "ser tratado como ser humano", só isto.

Sei o que pensa, isto eu sei bem.

Como saberia o que penso, meu senhor?

Não me chame de "meu senhor", que eu não gosto desta pala­vra. Diga apenas Macedo, e só.

O senhor é quem manda. Como poderia saber o que eu pensa­va?

Você não me conhece? Ou faz que não me conhece? Apesar de sua barba longa, eu o reconheci no primeiro instante, apesar de terem se passado dez anos que não o via.

Abraão teve um sobressalto.    

- Como me conhece, se eu nunca o vi antes?

- Ora, lembra-se de quando foi julgado por assassinato em Espa­nha, anos atrás?

- Como o senhor sabe disto, se aqui nestas terras ninguém nos

conhece?

Eu o julguei, meu amigo.

Agora me lembro, juiz Simas de Almoeda!

- Isto mesmo, Simas de Almoeda. O mesmo Simas que libertou-o da forca um dia, quando já pensava que estava condenado à morte.

O senhor Abraão ficou sério, a cabeça era um redemoinho. Seus pensamentos voltavam ao passado. Ficou calado, com medo daquele ho­mem.

O Pescador percebeu isto e o tranqüilizou.

Não se preocupe, meu amigo. Eu já sabia quem era seu pai quando o vi. Está mais velho e sofrido, mas não mudou muito. Fiquei contente por vê-lo bem, e melhor por ver você igualmente bem. Desde que terminou o julgamento, eu não os vi mais.

Posso fazer-lhe uma pergunta, meu senhor. Digo, senhor Si­mas.

- Senhor Macedo, por favor.

- Sim, senhor Macedo. Por que, apesar de eu ter matado um rapaz e ferido o outro, o senhor me deu a liberdade, e não a forca, sendo um juiz severo, como era?

- Pela justiça! Não a justiça comum, mas a minha justiça, senhor

Abraão. Sua irmã foi desrespeitada por aqueles homens. O senhor apenas a defendeu. Foi isto o que eu disse na minha sentença, somente a verdade e nada mais. Era minha prerrogativa como juiz, eu a usei com todas as minhas forças.

Mas aqueles homens disseram que minha irmã era uma mulher à toa, uma vadia, e o senhor não acreditou neles. Preferiu acreditar nela e em mim, que éramos sub-humanos. Não éramos tratados como gente, a exemplo dos negros aqui.

Meu amigo, lembra-se da fonte que havia na praça, em frente à casa de meu pai?

Sim, como não. Lá jorrava água o ano todo. Foi seu pai que a fez, não?

Sim. Ela nascia da nossa casa. Como era muita água escorren­do, ele fez uma bela fonte. A água era muita, e vinha gente de longe buscá-la ali.

Eu me lembro bem disto. Minha irmã ia buscar água lá todos os dias pela manhã.

Como vai Sarah?

O senhor lembra-se do seu nome?

Sim. A primeira vez que a vi pegando água na fonte, devia ter uns catorze ou quinze anos, mais ou menos e eu uns vinte anos, mais ou menos. Posso confessar-lhe uma coisa, meu amigo?

Pode sim, quero ouvi-lo.

Pois eu ficava a observá-la todos os dias da janela de meu quarto. Eu a achava muito bonita, um encanto de moça. Não saberia expli­car muito bem o que sentia, mas gostava do seu jeito, sempre quieta, muito recatada, quando as outras moças na sua idade já eram um tanto assanha­das, eu diria. Mas nunca falei com ela. Eu tinha um voto a cumprir, e isto era um freio na boca do cavalo fogoso. Então, me recolhia nas minhas preces e pedia perdão a Deus pela minha fraqueza. Hoje eu acredito que Ele não deveria se incomodar muito comigo. Acho que Ele tinha coisa mais importante para cuidar do que vigiar uma simples paixão, de um tolo como eu. Por isto não acreditei neles e o livrei da forca. Sabia que ela era uma moça decente, e também conhecia a fama daqueles moços, que se valiam do título de nobres para abusarem dos outros.

Isto me deixa mais tranqüilo, senhor Macedo. Só não me livra do julgamento divino.

Bem, deixe isto para Deus, meu amigo. Quem julga é Ele, não se julgue. Se você não tivesse aparecido, eles teriam matado sua irmã e ficariam impunes, pois ninguém iria acreditar que um nobre pudesse fazer aquilo. Por que foram embora?

Meu pai ficou com medo. Começamos a ser ameaçados pela família deles. Foi quando meu pai vendeu tudo e partimos para Lisboa, onde não estava bom para os judeus. Partimos para cá, para tentar a vida, mas tem sido difícil vencer aqui também.

Eu os ajudarei, tenha certeza disto! Guarde segredo de nossas origens e nos ajudaremos uns aos outros. Tenho muitos planos em mente.

- Diga-me por que, sendo sacerdote e juiz conceituado, largou

tudo?

Porque um dia eu cometi um erro e pedi ajuda ao meu bispo. Este erro condenou meu pai à morte, como bruxo. Então, me desiludi com tudo e renunciei ao cargo de juiz e ao sacerdócio, e parti para longe daquela cidade. Nunca mais voltei lá. Mudei de nome, assim esqueço um pouco minha tragédia pessoal. Por isso, sou hoje José Macedo, um homem sem passado, que tem apenas presente, e espero, um futuro longo. Só eu falei até agora, você não disse nada, por enquanto.

Sarah está bem. Ela é muito triste pelo que lhe aconteceu, não conseguiu esquecer. A vergonha, a desonra e a desgraça que aquilo trouxe sobre nossa casa deixou-a como que ausente do mundo. Este é o motivo de nossa tristeza. Ela vive isolada, sem se juntar às outras pessoas de nossas relações. Sente-se infeliz e culpada pelo que nos aconteceu.

- O tempo a curará, senhor Abraão.

- Duvido, já faz muito tempo que aconteceu e até hoje nada mu­dou. Já não lhe falamos mais, porque, cada vez que tocamos no assunto para animá-la, ela se tranca e não quer ver ninguém.

- Bem... e seu pai, seus irmãos, como vão?

- Meus irmãos estão espalhados. Isaque está em Gênova, é um próspero comerciante, faz comércio com o Oriente, e meu irmão mais novo é rabino. Ele sempre foi muito religioso, não puxou ao pai, que gosta de comerciar.

- Entendo, e sua mãe?

- Mamãe morreu já fazem dois anos.

Meu amigo Abraão, viu o que encomendei ao seu pai, não?

Sim, fui eu quem separou tudo.

- Olhe, eu tenho planos, muitos planos. Não sei até onde irei, mas, se puder contar com sua ajuda, todos lucraremos muito.

- Como assim?

- Bem, eu pretendo montar aqui um curtume para tratar as peles dos animais que os índios matam para comer, e também uma fundicão, para o ouro. Pretendo trabalhar o ouro e também pedras preciosas.

Como vai conseguir isto sozinho, meu senhor.

Com a ajuda dos negros e dos índios. Eles me ajudarão. Os negros com o trabalho e os índios com o ouro e as pedras preciosas.

Vão trazer de graça? Sem cobrar nada?

Não, eu não pretendo ter escravos, apenas empregados, como tínhamos na Espanha. Aos índios, darei mercadorias em troca das peles, ouro e pedras. Aos negros, darei uma vida digna.

O senhor tem grandes planos.

Sim, são enormes. Espero sua ajuda para realizá-los. Você tam­bém lucrará muito com isso.

Como posso ajudá-lo na sua empreitada?

Primeiro, com lealdade, pois não quero ser traído novamente; segundo, com a ajuda de seu irmão, comerciante em Gênova.

Pois conte com a minha lealdade. Nossa comunidade também o ajudará, desde que isto não lhe cause mais problemas.

Não causará, disto tenho certeza. Só terão a lucrar.

Então, está combinado. O que quer de mim?

Esta bolsa de dinheiro dá para levá-lo até Gênova?

Sim, e é até demais. Trarei o que sobrar, fique certo disto.

O Pescador entrou no seu quarto, apanhou uma pequena bolsa de couro e abriu-a na frente do amigo que arregalou os olhos de espanto com tamanha riqueza em diamantes, rubis, safiras e outras pedras. Aquilo valia uma fortuna, uma imensa fortuna.

- Sabe o quanto vale isto, meu amigo?

Não sei ao certo, mas sei que em Gênova, que é um mercado próprio para estas pedras, valerá muito. Muitos nobres pagariam uma fábu­la por uma destas pedras.

Então, está resolvido! Você irá a Gênova e levará essas pedras para que seu irmão venda-as para mim.

Por que confia em mim? Eu poderia fugir e seria um homem muito rico na Europa, com estas pedras. O senhor jamais me encontraria.

- Sei disto, mas quero confiar em você, pois sei que não me

trairá.

Agradeço sua confiança. E o que quer que eu faça com o di­nheiro?

Compre-me um, dois ou três, enfim quantos navios mercantes for possível, e que sejam armados com canhões. Não quero que um pirata qualquer os capture em alto mar. Vou fazer uma relação do que deve com­prar para mim em Gênova, ou outros lugares. Onde tiver, você compra. Quando voltar, já terei o armazém construído no porto. Depois seremos mercadores, meu amigo. Contrate bons capitães, que sejam bastante com­petentes e tenham uma boa origem, está certo?

- Sim, está combinado!

Chamou o índio, que era como um guarda-costas seu, e apresen­tou-o a Abraão.

Abraão, este índio o procurará antes que você parta e lhe entre­gará mais ouro em pó. Quero que traga os navios abarrotados de mercado­rias, mas não diga para onde vão os navios, assim ninguém tentará saqueá-los em alto mar. Isto eu aprendi com meu pai: ele nunca dizia para onde iam seus navios. Na hora da partida ele dava a rota e o local de desembarque. Nunca foi assaltado.

Vou guardar isto na memória. Pedirei a meu irmão que me arrume uma boa tripulação e bons capitães.

Certo. Quando o índio procurá-lo, olhe para as penas em sua cabeça, são três penas amarelas. Ele não fala sua língua, portanto terá ape­nas que acompanhá-lo até o local fora da cidade onde receberá o ouro e, talvez, mais algumas esmeraldas. Cinco por cento do dinheiro que arreca­dar será seu, cinco do seu irmão. Com o restante, comprará o que eu preciso. Está bom?

Bom, o senhor diz? Para mim, é um presente do céu que me foi dado na hora em que eu mais precisava.

Então, meu amigo, aguardarei ansioso a sua volta. Agora va­mos descansar, partirá cedo para providenciar a viagem.

Vou me deitar, senhor Macedo, mas duvido que consiga dor­mir.

Conte moedas em pensamento, logo se cansará e adormecerá -falou o Pescador dando uma sonora gargalhada.

Ao amanhecer, o judeu partiu a galope com os negros que o ajudaram com os carroções.

O Pescador estava contente, tudo estava correndo bem até ago­ra. Seus planos dariam certo, tinha confiança nisto.

Os negros começavam a sair para o trabalho sem que ninguém mandasse. Todos sabiam o que fazer. As novas parelhas de bois foram juntadas às outras, para o transporte da madeira.

Ruth se aproximou e começou a conversar com o Pescador. Dis­se que tinha tudo sob controle, que não se preocupasse com nada, pois os negros não sabiam ler ou escrever, mas, lidar com a terra, isto eles sabiam. Já sabiam de sua façanha com o antigo feitor. Havia se espalhado na noite o que ele fizera. Eles achavam que era um Pai Branco.

- O que é um Pai Branco, Ruth?

Os velhos curadores são chamados de pai. São considerados sábios nas magias e encantos, são chefes do culto, e acham que você, apesar de ser branco, é um pai.

Então, diga a eles que sou o Pai Pescador! - falou sorrindo, ao que Ruth também sorriu. Ela gostava do seu jeito, sentia-o como um irmão mais velho.

Ruth, tome conta de tudo, sim? Vou me despedir de seu pai e dos outros velhos e depois tenho que partir. Preciso voltar à aldeia, ver como está minha mulher.

É, meu pai falou que você se casou, fico contente com isso. árvores boas sempre dão bons frutos.

Bem, até a vista, Ruth. Fique morando nesta casa e cuide para que os alimentos sejam bem conservados e bem usados, para que não venham a faltar, está bem?

Fique tranqüilo. Sabia que o antigo feitor me ensinou a ler e a escrever?

- Não, não sabia. Pois aí tem papel e tinta. Se quiser anotar algu­ma coisa, use-os, está bem?

Deu um abraço afetuoso em Ruth. Era uma boa mulher, tinha a vida no sangue, era uma guerreira. Depois foi despedir-se do velho:

- Velho amigo, vou partir, não posso me demorar mais. Estou há muito tempo longe de minha mulher e sinto saudades, além de estar preo­cupado.

- Vá com Deus, meu filho, que Ele guarde tua caminhada de volta à tua tribo.

O Pescador e o guerreiro partiram a galope. Tinham pressa de chegar. Estavam há muito tempo fora e isto os apressava ainda mais. No caminho, o guerreiro perguntou:

- Pajé Branco, por que faz tudo isto?

- O porquê eu não sei dizer, sei apenas que sinto que tenho que fazê-lo. Algo me impele a isso.

São os espíritos ancestrais, Pajé Branco.

Como assim, Sol-da-Manhã? - este era o nome do guerreiro.

- São eles, eu os vi ontem à noite, quando conversava com o homem branco.

- Você viu o quê?

- Muitos homens, atrás e a seu lado. Brilhavam como o Sol. Eu sempre vejo espíritos na floresta, perto do Pajé Anhanguara, e vejo perto de você também.

- Ora, bobagem, Sol-da-Manhã, que é isto? Está cansado com os dias corridos que tivemos?

- Bom, se quer acreditar, acredite. Se não quer, não vou mais falar nisto, mas que é verdade, é!

Ao anoitecer, pararam para descansar e deixar os cavalos des­cansarem também. Forçaram muito os animais durante o dia.

No dia seguinte, ao meio-dia, chegaram à aldeia. O Chefe veio ao seu encontro sorridente. Estava contente com a volta do Pajé Branco, que retribuiu o abraço do amigo. Também gostava muito do Chefe. Logo apare­ceu Raios-de-Lua, correu a abraçá-la. Sim, amava-a muito, sentia-se bem junto a ela. Tinha muito a contar-lhe, ela era só curiosidade.

Ao entardecer, fizeram grande festa pela volta do Pajé Branco e Sol-da-Manhã. Todos queriam ouvir sua história, tudo o que acontecera. Ficaram em silêncio para ouvi-lo.

O Pescador começou a contar. Falou por muito tempo, às vezes, Sol-da-Manhã também falava. Disse que agora o Pajé Branco tinha tribo de negros, dando uma gargalhada.

Por fim, o Pescador falou que, com o pó amarelo, iria proteger para sempre as terras que eles, índios, habitavam há séculos.

- Por que vai protegê-las, Pajé Branco, se são nossas?

- Chefe, olha os brancos perto do mar. São conquistadores! Eles estão aqui para tomar estas terras dos índios. Com o tempo, outros bran­cos virão. Eles são maus, prendem os negros, que trazem de muito longe para trabalhar as terras para eles; derrubam florestas e depois queimam tudo para plantar cana e outras coisas. O tempo chegará, e eles virão para cá. Eu vi muitos índios na cidade dos brancos. Hoje seu povo não corre perigo, mas, futuramente, serão desalojados de suas terras.

- E como você vai nos ajudar?

- Comprando toda esta região. Pela lei dos brancos, eu posso ser dono delas, e então vocês viverão aqui para sempre, sem serem incomoda­dos.

- Faça como achar melhor, nós acreditamos em suas palavras. Dois dias depois, o Pescador mandou Sol-da-Manhã, junto com mais três guerreiros, levar o ouro para o senhor Abraão. O guerreiro partiu rapidamente, prometendo voltar logo.

O Pescador saiu com sua mulher e foi até onde o rio tinha uma correnteza forte. Ia procurar mais pedras preciosas, sabia onde encontrá-las. Elas valiam muito, e precisaria de muitos diamantes, se quisesse com­prar o Governador. E iria comprar aquele homem. Depois que lhe desse os presentes que prometera, ele não lhe negaria mais nada.

Caminharam por umas três horas. Raios-de-Lua estava com a gravidez adiantada, iam devagar. Ela estava muito contente por estarem juntos novamente, amava muito ao Pescador, não queria mais ficar longe dele O Pescador também não queria isto, mas teria que fazê-lo.

Ao chegar ao lugar onde já apanhara algumas pedras, sentaram-se e descansaram, enquanto ele apanhava alguns peixes para comerem. Teve tempo para observar o lugar com calma. Era um lugar muito bonito, encantador mesmo. Se pudesse, ficaria ali para sempre.

Depois de algum tempo, o Pescador começou a procurar as pe­dras. Achou algumas, mas não muito grandes. Ficou decepcionado, parece que aquelas pedras eram as únicas que havia por ali.

Raios-de-Lua notou sua decepção e falou:

- Vamos descer o rio. Sei onde tem muitas pedras verdes, bri­lhantes. Quem sabe, é isto que você procura.

Caminharam, mais ou menos, por uma hora, quando surgiu uma grande cachoeira. Desceram, e o que o Pescador viu deixou-o admirado. Ali estava o que procurava, e precisava. Havia uma variedade de pedras preciosas imensa, mas predominavam esmeraldas, muitas esmeraldas.

- Aqui é onde elas param, quando caem lá de cima, trazidas pelas cheias dos rios. Se cavar estas areias, vai achar muitas que estão encober­tas há muito tempo.

O Pescador começou a recolher as pedras preciosas. Havia muitas.Encheu sua sacola até à boca. Depois começou a pegar todas as pedras que via, colocando-as na margem. Ficou quase uma hora apanhan­do pedras por cima da areia. Quando ficou difícil encontrá-las na superfí­cie, cavou com as mãos em um lugar mais raso e topou com um enorme brilhante: aquilo valia uma fortuna. Seu valor daria para comprar um caste­lo em Espanha.

Pediu a ajuda de Raios-de-Lua e, num lugar escondido, cavou um grande buraco. Apanhou as pedras e as colocou dentro dele. Tapou-o com terra e procurou algumas flores, tirou umas mudas e plantou-as em cima e à sua volta, fazendo um círculo. Estava marcado o lugar onde esta­va enterrado um tesouro imenso. Não podia calcular o seu valor. Ficaria ali até o dia em que, ao passar por alguma necessidade, precisasse dele. Volta­ria outro dia e garimparia aquelas areias, pois ali havia muito o que apanhar. A sorte estava com ele.

Apanhou sua sacola, que estava muito pesada, tomou o braço da mulher e partiram. Chegaram à noite na aldeia. Raios-de-Lua preparou um pouco de raízes e comeram. O Pescador estava feliz e sua mulher estava alegre por vê-lo assim. Esta noite seria muito boa, sorriu marota ao se aproximar dele.

 

A LUTA CONTRA O MALIGNO

Dias depois, quando Sol-da-Manhã já havia voltado, foram bus­car mais ouro. O Pescador precisaria de mais pó amarelo. Pretendia trazer uma grande quantidade, por isto levou o cavalo e ferramentas. Sol-da-Manhã disse-lhe que via o espírito da grande cobra, e que agora ela os acompanhava a uma certa distância.

- Como você a vê, se eu não a vejo?

- Eu já disse um dia. Ás vezes vejo espíritos das florestas e fico preocupado. Sempre querem dizer alguma coisa,ou fazer alguma coisa. Tome cuidado, Pajé Branco, ela é perigosa.

O Pescador ficou preocupado, pois vinha sonhando todas as noites com cobras, desde que ajudara o feitor a morrer. Nos sonhos sempre esta­va sendo perseguido por elas.

- Sol-da-Manhã, quando voltarmos vou falar com o Pajé Anhan­guara. Ele saberá me explicar o que está acontecendo.

Demoraram dois dias para tirar todo o ouro de que o Pescador precisava. O cavalo voltou com uma carga pesada. Isto seria o suficiente. Por algum tempo não precisaria voltar ali.

Quando chegaram na aldeia, o Pescador guardou tudo em sua oca. Tinha o que precisava, ouro e pedras preciosas. Possivelmente era o homem mais rico da Capitania. Agora, teria que transformar esta riqueza em poder, e estaria concluído o seu plano.

Após descansar da viagem, foi falar com o velho Pajé.

Pajé Anhanguara, preciso falar-lhe.

Diga, filho, eu ouço.

Pajé, quando fui ao engenho fiz algo que não sei explicar ao certo, mas de lá para cá sonho todas as noites com cobras, muitas cobras a me perseguirem. Sol-da-Manhã me falou que viu o espírito da grande cobra rondando minha oca, e que também ele estava seguindo-nos quando fui buscar ouro.

Conte-me o que houve no engenho, filho. Talvez eu possa aju­dá-lo quando souber o que houve.

E o Pescador começou a contar-lhe tudo. Quando terminou, o velho Pajé apanhou um chocalho com o crânio de algum tipo de animal e começou a cantar diante da fogueira. Ficou cantando por longo tempo,Quando parou, estava ofegante e preocupado.

Filho, o que você fez foi guiado por Tupã, mas o espírito que rasteja não gostou de perder para você.

Como assim, se eu fazia como que movido por uma força muito grande, Pajé, uma força que me guiava?

Sim, era a força de Tupã, e o grande espírito do mal não pôde reagir. Mas agora ele quer ver se você pode realmente com ele. Em seus sonhos, é ele quem o persegue, quando seu espírito vai para os campos eternos. Terá que lutar com ele, filho, senão ele tira sua força e mata você.

Como? Eu não lhe fiz mal algum, por que ele quer o meu mal?

Ele não quer o seu mal, ele quer é seu espírito. Você terá que lutar.

Como lutar com algo que não vejo?

Na hora, você o verá! Não tenha dúvidas. Mas, se você perder, você morre, e ele leva seu espírito.

Entendo. E se eu ganhar, o que acontece?

Você domina ele. Daí em diante, todo animal que rasteja respei­ta você. Onde tiver alguém sofrendo por causa da mordida de um deles, você canta, põe a mão e cura.

Como sabe disto, Pajé?

Porque eu já lutei com ele. Por que acha que sou Pajé? Só não pude com os espíritos do ar, que me venceram.

Quando foi isto? E como foi?

Quando você chegou, eu estava doente. Meu espírito já estava sendo levado embora, quando você o tirou deles e me trouxe de volta. Pajé de outra aldeia queria matar Anhanguara, por isso fez encanto com ventos contra mim. Você não sabe, mas tem domínio sobre os espíritos dos ven­tos, como eu tenho sobre os do fogo.

Eu tenho este poder, Pajé?

Sim, só não sabe. Quando souber usá-lo, ninguém o pegará. Você poderá cegar seus inimigos com os ventos.

Pode ensinar-me como usá-lo?

Sim, mas só se você vencer o espírito da Grande Cobra.

Por quê? Eu não quero lutar com a Grande Cobra.

Se você vence, você é forte. Senão, não adianta nada. Você tem que lutar e vencer, senão ele o prejudica. Se ele não pode atingir você por causa de Tupã, então ele sabe que Raios-de-Lua é sua companheira e um dia ele a atinge. Atingindo ela, ele atinge você e o vence depois.

Como vencê-lo, Pajé? Ensine-me! Não quero que alguém sofra o que eu tenho que sofrer.

Já começou a lutar, filho. Este é seu grito de luta. A sua bonda­de pode vencê-lo. Mas é preciso mais que ser bom para vencer, terá que ser corajoso. E isto eu não posso dar, você tem que ser.

Vou tentar, Pajé Anhanguara, vou tentar.

Não vai tentar. Vai vencer! Precisa vencer! Eu já vi outros tentarem e suas mortes foram horríveis.

Quando eu o encontrarei?

Na próxima lua redonda, nós vamos encontrá-lo.

O Pescador ficou pensativo, isto não fazia parte dos seus planos. Por que era conduzido a isto contra a sua vontade? Quem o empurrava a esses perigos, a essas magias que punham sua vida em perigo, e até a vida de Raios-de-Lua? Tudo isto o preocupava.

Despediu do Pajé e foi falar com sua mulher, que, depois de ouvi-lo, começou a chorar. Poderia perder seu companheiro, pois já ouvira falar desse espírito do mal.

Demoraram a dormir naquela noite. E novamente o Pescador sonhou com cobras. Cada noite era pior.

No outro dia, falou com o Cacique Pena Dourada sobre o que teria de fazer.

- Pajé Branco vai vencer, eu sinto isto. Você traz Estrela da Vida, você vence.

Nas noites seguintes, o Pescador procurou lembrar-se dos ensi­namentos dos curadores negros, e do que já aprendera com os índios. Orou à noite, como sempre fazia, e viu sua Estrela iluminar sua oca, viu nisto um sinal divino. Iria ao encontro da Grande Cobra com fé em Deus e na sua Estrela, que estava a dizer-lhe: "Eu estou com você". Sentiu sauda­des da Sereia. Quando voltaria a vê-la? Já fora à beira-mar algumas vezes e ela não aparecera mais. Parecia que ela lhe dera a Estrela com algumas limitações. O resto, teria que aprender e fazer sozinho.

- Pois que seja assim então. Se vencer, domino a grande cobra do mal, se perder, só eu sofro as conseqüências, ninguém mais - falou o Pescador para si mesmo.

No outro dia, avisou que naquela noite iria ao encontro do espíri­to que rasteja.

À noite o Pajé já o aguardava, enquanto ele se despedia de sua mulher. Chamou o guerreiro Sol-da-Manhã e pediu:

- Meu amigo, se eu não voltar, gostaria que cuidasse de Raios-de-Lua para mim. Vá até o engenho e conte ao Pajé Negro o que tiver acontecido. Aqui tem um papel assinado por mim que liberta a todos e deixa aquelas terras para eles.

- Pode deixar, Pajé Branco. Se não voltar, eu faço o que me pede, mas sei que vai voltar.

- Por que fala assim?

- Porque vejo aqueles espíritos atrás de você, todos brilham muito. Isto é sinal de vitória.

Até a volta, meu amigo.

Até a volta, Pajé Branco. E que Tupã o proteja!

O Pescador apanhou sua Estrela das mãos de Raios-de-Lua e partiu com o Pajé Anhanguara. Caminhavam por longo tempo, quando surgiu uma grande clareira.

O Pajé tirou toda a sua roupa e mandou o Pescador fazer o mes­mo. Depois mandou que pegasse muitos galhos para fazer uma fogueira. O Pescador apanhou muitos galhos secos. O Pajé os colocou num grande círculo. Pediu mais, muito mais. Iam precisar de muita madeira, pois a fogueira tinha que ser grande. Separou algumas folhas bem secas e fez uma pequena fogueira no meio do grande círculo.

Quando viu que já tinha madeira suficiente, chamou o Pescador para o centro do círculo. Colocaram suas roupas num canto, dentro do círculo. O Pajé sentou-se a um lado da pequena fogueira, depois mandou o Pescador colocar fogo no círculo de galhos e também sentar-se ao lado da pequena fogueira.

- Vou ensinar o mistério da magia do fogo, para sua proteção. Se vencer o espírito que rasteja, vai também caminhar no fogo sem se quei­mar, e terá domínio sobre os espíritos do fogo - e começou a revelar os mistérios do fogo, suas forças, seus poderes, seu encantamento, sua ma­gia. Tudo ensinou ao Pescador.

Quando terminou, mandou o Pescador fazer seu primeiro teste com o fogo.

O Pescador se concentrou o máximo que sua mente podia, e o fogo o atendeu. Viu levantarem-se formas parecidas com humanos, mas sem detalhes, que vieram em sua direção, à espera de ordens; viu as cha­mas, sem vento algum, se voltarem para ele, e a uma ordem sua, se afasta­rem. Também as viu subirem e, depois ficarem em brasas, sem nenhuma chama, para, em seguida, se erguerem em enormes labaredas. Bastava pen­sar e era atendido. O Pajé sorriu imperceptível ao Pescador. O Pajé Branco era poderoso, venceria o espírito do mal. Bastava ser inteligente.

- Filho, vou convocar o espírito que rasteja. Agora é com você, eu só olho. Não posso intervir. Use os seus poderes e sua inteligência.

E começou a cantar um canto estranho, entremeado de silvos, como os silvos das cobras.

De todos os lados da clareira começaram a aparecer cobras, de todos os tamanhos e espécies. Era assustador. O Pescador pegou sua Es­trela entre as mãos e começou a fazer uma prece a Deus. Ao terminar, à sua volta, havia centenas de cobras, todas raivosas.

Pareciam-se com as cobras que estavam em volta do feitor. Ago­ra elas queriam a ele. Seu corpo se arrepiou todo.

Lembrou-se do que dissera Sol-da-Manhã e pediu intuição aos espíritos de luz que o acompanhavam, que o instruíssem a agir correta­mente.

Sentiu como que alguém colocando a mão sobre o seu ombro direito. Olhou, e não viu nada, mas as idéias vinham.

- Fogo! que se levante - ordenou, e do braseiro, em círculo, levantaram-se grandes labaredas que avançavam na direção das cobras, fazendo-as retroceder.

Sim, isto as manteria afastadas, sem perigo de que alguma pulas­se dentro do grande círculo, porque as cobras têm medo de fogo. Elas podem nadar, mas não rastejar sobre brasas, e as labaredas consumiriam aquelas que tentassem entrar. Pensou forte, e as labaredas cresceram mais ainda. Mentalmente ordenou que os espíritos do fogo se levantassem às centenas e o protegessem de qualquer espírito que tentasse entrar pelo ar ou subir pela terra. Viu que uma infinidade desses elementos desciam pela terra, formando um escudo por baixo do círculo, e, pelo alto, centenas voavam por sobre suas cabeças.

Lembrou-se de que o Pajé lhe dissera que tinha poder sobre os espíritos do ar. Assim como fizera com o fogo, invocou os espíritos do ar, para que viessem em seu auxílio, e viu formas que passavam sibilando sobre si, formando um redemoinho ao redor do grande círculo de fogo, aumentando ainda mais as chamas e jogando labaredas sobre as cobras, que se afastaram mais um pouco. O combate estava equilibrado: ele não podia sair, mas elas não podiam entrar. Nisso ouviu um barulho que arre­piou os seus cabelos.

Era algo assustador, mesmo para quem se dissesse corajoso ao

extremo.

Sabia que estava cercado por algo monstruoso, muito maior que o círculo de fogo.

Prestou atenção e sentiu a mão sobre seu ombro aumentar a pres­são. Levantou a Estrela à altura do coração e aguardou.

Algo começou a tomar forma. Era uma enorme serpente que tinha dezenas de metros. Mais tarde viria a saber que eram setenta e sete metros de comprimento, por sete de diâmetro.

Ficou gelado dos pés à cabeça. Estava no meio de um enorme rolo de cobras. Suas voltas ficavam fora do círculo de fogo.

Ouviu o seu sibilar ensurdecedor, que o deixava sem poder pen­sar Levantou mais a Estrela, até a altura da cabeça, como a cobri-lo. Cla­mou a Deus e à Sereia. Da Estrela brotou uma luz intensa que o envolveu por inteiro. Levantou-se e procurou ver a cabeça da serpente. Já que che­gara até ali, ou vencia ou morreria lutando. Aquilo era algo sobrenatural. Era um ente infernal, um demônio, tal qual aqueles que vira nos livros que os juízes da Inquisição apreendiam de quem praticava a magia negra na Europa. Era isto! Estava lutando contra um demônio infernal. Orou a Deus com toda a sua fé. Sentia um hálito fétido, pestilente, como querendo enve­nená-lo, mas a luz da Estrela o envolvia como um filtro de luz.

Levantou sua mão direita e fez o sinal da cruz no ar. Viu sairem de sua mão estrias de luz, marcando o espaço. Encorajou-se mais, e orde­nou ao demônio que mostrasse sua face. Imediatamente, o rolo se afastou e a serpente ficou em posição de ataque, à sua frente. Era como um coelho diante de um elefante.

O que viu o assustou. A serpente tinha sete cabeças, seus olhos eram como fogo incandescente, brilhavam na noite. Sentiu que poderia ser encantado e atraído por aqueles olhos, como fazem as cobras comuns a pequenos pássaros, que ficam paralisados de medo. Tirou o medo da men­te e colocou a Estrela à sua frente. Se a serpente tinha poderes malignos, ele tinha poderes divinos. A luz seria sua arma. Iria usá-la bem.

A serpente não o assustava mais. Queria vencer pela força divi­na. Perguntou:

- O que queres, ser maligno que vens das profundezas do infer­no para me incomodar?

- Eu quero tua alma, falso Pescador.

Ouviu nitidamente a voz que saía no sibilar das sete cabeças me­donhas e aterradoras, com suas enormes presas, de onde pingavam gotas venenosas que, ao cair no chão, produziam uma fumaça fétida.

Por que queres minha alma, senhor das Trevas?

Porque ela me pertence.

- Minha alma pertence ao meu Criador, meu Deus e Senhor. Só Ele pode tirá-la de mim, e quando assim achar por bem.

- Como podes dizer isto, tu que carregas a maldição da traição ao

teu pai?

O Pescador tremeu. Sentiu sua mente fraquejar. O ente o atingira em cheio. Devia isto. Perante Deus e seu pai, era um pecador. Sentiu a mão Sobre o seu ombro pressionar forte. A luz da Estrela estava dimunuindo. Recobrou os sentidos e fez o fogo aumentar de altura. Elevou o pensamen­to a Deus e clamou:

Deus meu! Tu me deste o dom da vida. Minha vida Te pertence e, um dia, a Ti prestarei conta dos meus atos. Se traí a meu pai, foi por ignorância. Também fui traído por quem eu confiava, que, ao invés de me ajudar no que eu pedira, deu vazão ao ódio que nutria por meu pai. A Ti prestarei conta por meus atos, não a este ser infernal.

Por que clamas a Ele agora, falso Pescador? Achas que Ele vai salvar-te de mim?

Sim, Ele, o meu Deus, Criador de tudo e de todos, vai me salvar de ti, ser maligno. Não só me salvará, como vai subjugar-te a mim, por hoje e por todo o sempre.

Pois tentes, falso Pescador. Se não conseguires, eu devorarei tua alma e porei um ovo do qual nascerás um espírito rastejante para todo o sempre.

Pois é o que farei, ser maligno, é o que farei - e o Pescador ajoelhou-se.

Já estás clamando perdão a Ele por tua alma, Pescador? Como fez o homem que tu libertaste do sofrimento e tormento das minhas escra­vas venenosas? Pois sabe que sua alma agora é uma serpente que rasteja invisível no meu reino. Tu o libertaste da dor da carne, mas não do meu poder sobre ele.

Isto eu sei. Mas ele havia se envenenado antes de tu o envene­nares. Ele já era teu escravo em vida, um instrumento do mal sobre a terra, não era um filho obediente à Lei de Deus.

Tu também deves a Ele.

Não, não devo a Ele, o meu Deus. Devo a mim mesmo, pois o meu erro foi inconsciente e o resgatarei auxiliando aos que sofrem o suplí­cio dos que te servem.

Eis quem diz! O que julgava os semelhantes em nome d'Ele, sem ver se estava certo ou errado em seus julgamentos. Quantos inocentes não sofreram pelas tuas sentenças, falso Pescador?

Eu me baseava na palavra de testemunhas. Se mentiam, não competia a mim saber, mas apenas ouvi-las e dar o meu parecer. Esta é a lei dos homens.

Como podes dizer isto, se um caso é o bastante para te desmoronar

Pois então, digas um.

Digo sim. Lembras-te da pobre velhinha que mandaste à fogueira?

Qual delas, ser maligno? Pois foram várias que eu condenei.

- A que não tinha o polegar direito, lembras-te?

Sim, lembro-me bem. Ela vivia a tirar dinheiro dos que nada tinham, com suas falsas orações, com sua falsa proteção e com seu falso poder, pois era escrava do maligno. Quem sabe não era tua escrava, ser maligno?

Sim, era minha escrava. Por isto muitos morriam envenena­dos. Ela usava o seu veneno, ó mesmo veneno que injetarei em ti, ao tirar a tua alma do corpo.

Então, Deus tem mais um motivo para me guardar da tua ira, ser infernal, pois, ao queimá-la, muitos inocentes deixaram de ser atingidos por suas bruxarias.

Como sabes que eles não deveriam sofrer, como sofreu o feitor há dias atrás?

Sei, sim. Somente a Deus pertence o julgamento sobre o que devemos sofrer. Um semelhante não pode usar da magia negra para se transformar em juiz do que é certo e o que é errado, do que alguém deve sofrer ou não. O destino de cada um a Deus pertence. Quem usa dos poderes da magia negra para prejudicar ao seu semelhante, merece, não o fogo que se consome logo, mas sim o fogo eterno, ente do mal!

Vejo que com palavras não te convenço de que és meu, então vou passar à ação e cobrar tua petulância com o meu poder maligno. Olhe para mim, falso Pescador!

O Pescador imediatamente lembrou-se da lenda da Medusa e le­vou a Estrela diante dos olhos para se proteger.

- Não, ente do mal. Quem vai subjugar-te serei eu, com o poder que Deus me deu. Tu reinas absoluto nas Trevas, mas estás submetido à lei maior d'Aquele que é o Criador de tudo e de todos, o Deus Todo-Poderoso. Pois agora eu clamo a Ele, que é minha Estrela da Guia, que me ilumine diante de ti. Se tu tens o encantamento nos olhos malignos, que meus olhos brilhem com a luz divina para encantar-te.

Em seguida, o Pescador olhou para o céu e viu que um raio de luz descia sobre sua cabeça. Era uma luz cristalina. Olhou para sua Estrela e ela brilhava com a mesma luz. Sentiu que Deus agia sobre ele como nunca agira antes. Sentiu que de sua Estrela saíam luzes que iam até os olhos da serpente do mal. De lá, partiam raios escuros, rubros como sangue, em sua direção. Levou a Estrela à altura da testa, um pouco acima de seus olhos, e forçou o choque da luz contra a treva. A serpente se sacudiu toda, queria fugir mas não conseguia, queria atacar e não podia. As outras cabeças caíram sem vida, apenas a do meio lutava. O Pescador então ordenou:

- Abaixa tua cabeça até o solo, eu te ordeno, ente do mal que rasteja sobre a terra envenenando os seres humanos para que cometam o pecado diante dos olhos de Deus.

O ser tentou se afastar. O Pescador enviou ondas mentais, dizen­do: "Tu tentas fugir, mas não podes. Tu tentas me atacar, mas não conse­gues. Eu te domino pelo poder da Estrela da Guia, que ilumina os meus caminhos. Tu me servirás pela Lei de Deus de hoje em diante, e por toda a eternidade, ser que rasteja. E diante de mim, pelo poder do Criador, sempre rastejarás. Que, por onde eu passar, os que rastejam se afastarão. A mim não picarão e, onde tiverem feito o mal, eu, com o bem, os combaterei. Que os espíritos que por ti foram levados por terem quebrado as leis divi­nas, submetam-se a mim, e tu nada oporás. Que aqueles que eu quiser ao meu serviço, a uma ordem minha, tu entregarás. Tua força é a força da Lei, minha força é a força da Lei. Servimos à mesma Lei que diz: "Quem deve, paga, e quem merece, recebe". Tu nas Trevas e eu na Luz, tu no Mal e eu no Bem, tu na dor e eu no amor. O Criador é o mesmo, mas as criações são diferentes. Eu levo o nome de Deus aos meus semelhantes e tu tentas apagar o Seu nome das mentes. Mais força tem quem pode levantar, do que quem pode derrubar. Por isto tudo, ainda que sejas maior, eu sou mais forte. E por isto eu te ordeno que voltes a teu reino sem entrar nunca mais no meu caminho, sem mais atentares contra mim. Com minha mente eu te enviarei ordens do que quero e tu as acatarás, hoje e por toda a eternidade, em carne ou espírito. Vá em nome de Deus e pelo poder da Estrela da Guia, que ilumina o meu caminho na Senda da Luz."

Neste momento, houve como que um estouro e o ente maligno desapareceu.

O Pescador ordenou ao fogo que abaixasse até às brasas. As cobras, às centenas, estavam à volta do Pescador. Sem tirar a Estrela da testa, foi orando e caminhando em sua direção. Dele saíam raios de luz em abundância. Ao se aproximar das brasas, as serpentes que estavam próxi­mas se afastaram. O Pescador abaixou a mão esquerda e virando a palma para elas, ordenou: "Pelo símbolo que agora está impresso em minha mão, invisível aos olhos encarnados mas não a vocês, eu vou sair do círculo e vocês se afastarão do meu caminho". As cobras se enrolavam todas, e se afastavam. Ele passou por cima das brasas e disse:

- Sete voltas eu darei. Ao final, nenhuma de vocês mais eu verei - s foi caminhando pelo meio das cobras, que foram se afastando rapida­mente, abrindo caminho.

O Pescador não olhava onde pisava, apenas orava a Deus, segu­rando a Estrela à altura de sua testa, como um farol a iluminar seu caminho, ao se preocupava com as cobras, não as temia. Tinha o domínio sobre elas Sabia disto, confiava na força da Estrela da Guia.

Ao terminar as sete voltas, tornou a entrar no círculo de brasas. Olhou em volta e já não havia mais nenhuma cobra ali. A lua cheia brilhava como prata, a clareira estava limpa e iluminada por sua luz. Olhou para o velho Pajé e viu lágrimas escorrerem dos seus olhos. Sabia que tinha mais provas a passar. Foi ao lado do Pajé e pediu a sua bênção. Este o abençoou:

- Que Tupã te guarde para sempre, tu pertences a Ele.

O Pescador, com os pés nus, como nu estava, pisou com confi­ança sobre o braseiro, onde pequenas labaredas ainda se levantavam. Cami­nhou sete voltas sobre o círculo, sempre orando. Na sétima volta saiu do braseiro e voltou para junto do Pajé. Abraçou-o apertado. Vencera!

Filho, sinto orgulho de ti, venceste o mal e o medo, venceste o fogo e dominas o ar. Hoje é uma noite feliz para este velho Pajé. Tu és um Pajé também. Atingiste o poder que só os que têm a Fé maior conseguem. Eu te abençoo como um Pajé.

Obrigado, meu amigo Pajé Anhanguara. Que nossos espíritos sejam para sempre unidos na mesma fé.

Serão sim, meu filho. Será assim para sempre. Vamos voltar para a aldeia. Estão nos esperando.

Vestiram-se e partiram. No caminho o velho Pajé perguntou-lhe:

- Por que ele o chamava de falso Pescador?

- Bem, primeiro porque eu era um pescador quando ganhei a Estrela de uma sereia e já fui um padre cristão. O Cristo era simbolicamente um pescador. Na realidade, Ele não pescava peixes, apesar de seus primei­ros discípulos serem pescadores de verdade, Ele era o pescador de Deus. No vasto oceano da vida Ele caminhava sobre suas ondas, simbolicamente também, para pescar os peixes para o Deus Todo Poderoso. Ele servia a mesa do pai com os peixes que pescava.

- Não entendi direito.

Ora, meu amigo, os peixes eram os homens do seu tempo. Os maiores engolindo os menores, num mar agitado por ambição, paixão, ódio, desejo e egoísmo. Aos peixes que não mais queriam morrer na boca dos maiores como alimento, Deus Pai enviou o Seu Pescador. O Cristo é cha­mado de Pescador Divino, que pesca os peixes que estão sendo devorados neste mar que eu descrevi. E como eu era, além de juiz, também sacerdote, ele tentou me fazer acreditar que eu era um falso seguidor do Cristo, um falso pescador.

Entendo, um dia você me fala desse Cristo. Quero conhecê-lo, Pois às vezes também me sinto um peixe sendo pescado.

- É nós nunca sabemos se estamos pescando para servir à San­ta Ceia, ou se fomos pescados e seremos nós a Santa Ceia. Bem, pelo menos estamos tentando descobrir se somos peixes ou pescadores, en­quanto a maioria nada quer saber. Falarei sobre Ele, sim, meu amigo!

Eu gosto de saber, filho, pois os tolos se contentam com pou­co. Eu não: quanto mais sei, mais procuro aprender.

Em outra civilização, o senhor seria um sábio, Pajé. Aqui, tendo só a natureza à sua volta, é um "grande sábio" que conhece tudo da forma mais pura. Sem ter nenhum livro à mão, parece saber tudo - e se calaram, pois estavam se aproximando da aldeia. Começou uma imensa gritaria, quan­do viram os dois chegando.

O Pajé Branco vencera onde muitos pajés índios falharam. Ele era um forte e merecia todo o respeito dos índios da aldeia. Sol-da-Manhã se aproximou correndo e disse:

- Não falei que ia voltar? Fico feliz por sua vitória, Pajé Branco. Eu sabia que ia vencer o espírito que rasteja. Eu estarei sempre com você. Quando precisar de mim, é só chamar, irmão meu.

- Obrigado, Sol-da-Manhã!

Ao entrarem na aldeia, foi grande a festa para os dois pajés. Rai­os-de-Lua aproximou-se do Pescador e o abraçou. Não tinha dormido a noite toda e estava com os olhos vermelhos, em lágrimas.

- Por que chora, minha querida?

- Porque temi por você. Não sei dizer como me sinto, só sei que minha felicidade é grande, sai pelos meus olhos nas lágrimas que caem.

O Pescador também chorou. O que mais precisava do mundo, se tinha tudo o que queria? Amigos leais, uma mulher que o amava, a natureza por morada. Sim, era feliz também. Descobrira como é bom dividir a vida com alguém que se ama.

O Cacique se aproximou e colocou em sua cabeça um cocar todo colorido, que caía pelas suas costas.

Você merece, Pajé Branco. Você é forte. Tupã o protege. Eu estou orgulhoso de você, traz muita alegria a meu povo.

Cacique, é o contrário. Vocês é que me tornam feliz, pois só tenho recebido o que de melhor alguém pode querer. Se não fosse pelos meus amigos negros, não sairia mais deste lugar!

Sol-da-Manhã estendeu-lhe o papel com a libertação dos negros e a doação das terras.

- Não, amigo, guarde este documento. Se eu morrer, entregue-o a Ruth ou a outro dos negros velhos. Está bem?

Sim, vou guardá-lo bem.

Eu peço licença, vou descansar um pouco, estou exausto.

 

UMA CURA E PLANOS

Alguns dias depois o Pescador partiu. Iria ver como estavam as coisas nos engenhos, e também visitar o Governador Geral. Tinha mais negócios a fazer com aquele homem. Levou uma parte do ouro e pedras preciosas.

Quando partiu, Sol-da-Manhã e os outros dois guerreiros o acom­panharam. Gostavam de viajar com o Pescador. O Pescador se sentia se­guro com a presença deles. Durante o caminho, começou a ensinar-lhes sua língua.

Ao chegar no engenho, logo viu Ruth, que corria ao seu encon­tro. Ficara feliz com a sua volta, tinha muito a lhe contar. Sentaram-se na varanda. Enquanto uma empregada servia algo para comerem, Ruth come­çou a falar. O Pescador ficou feliz com o que ouvia. Os negros estavam se saindo melhor do que imaginara. Ia tudo muito bem.

Mais tarde, o Pescador foi até o galpão e, com a ajuda de alguns negros, montou uma caldeira e pôs fogo debaixo dela. Dentro ele colocou ouro em pó e esperou até que ficasse líquido. Depois colocou o ouro der­retido em fôrmas para fazer barras. Ao final da fundição, calculou por alto uns cento e vinte quilos de ouro em barras. Ouro puríssimo!

No dia seguinte, saiu com Ruth para olhar as plantações e os trabalhos de construção das casas de madeira para os ex-escravos.

- Pescador, precisamos de mais alimentos, o que temos não vai durar até a colheita. Todos estão trabalhando muito e eu os tenho alimenta­do bem.

- Ruth, como vão aqueles que mandei ir à caça?

- Não muito bem. Eles não sabem caçar como na África, Pesca­dor. Seus sentidos já não são os mesmos.

- Sol-da-Manhã! Chamou o Pescador. Ensine-os a caçar nestas

florestas.

Sim, Pajé Branco, vou ensiná-los como conseguir muita caça. Por aqui existem muitos animais, basta saber caçá-los.

Ensine-os como pegar porcos do mato. Quando estava na casa do velho pajé negro, vi um bando deles por aquelas paragens.

O guerreiro índio saiu com os outros dois amigos e foram para junto dos negros que saíam para caçar.

No cercado feito para criar os porcos selvagens, só havia alguns presos, todos machos. O Pescador viu e não ficou satisfeito.

Ruth, precisamos de muitos desses.

Vamos conseguir, não se preocupe.

- Sim, eu sei, mas temos pressa. O tempo está contra nós, temos que vencê-lo.

Após olhar todas as terras, o Pescador perguntou a Ruth:

- Como será a colheita de açúcar, Ruth? Será boa?

- Você tem sorte, Pescador. Com o antigo feitor as pessoas não trabalhavam bem, e o mato tomava conta de tudo. Agora não! Está tudo bem cuidado. Teremos uma grande colheita e os carroções ajudarão muito. Os montes de cana não serão mais carregados nas costas dos negros. Os bois carregarão tudo rapidamente, acabaremos toda a colheita antes que qualquer outro engenho.

- Ótimo, então embarcaremos o nosso açúcar primeiro que to­dos, e talvez em nossos próprios navios.

- Por quê? Você comprou navios?

Mandei comprar. Não sei quando virão, mas pressinto que te­remos alguns à nossa disposição. Eles trarão alimento da Europa, também.

Vou controlar o que temos até a chegada deles. Meu pai disse que consultou os Orixás e viu você vencer, apesar de sofrer muitas dores em sua alma.

- Como assim?

- Os Orixás falaram: "Pescador vence, mas sofre; ganha, mas perde; traz alegria, mas chora muito". É o seu destino, Pescador.

- Onde está seu pai? Estava tão ocupado que o esqueci. Como vai ele?

- Ele está bem. Não quis ficar aqui e voltou para sua cabana no bosque. Lá ele é mais feliz, pois pode ficar sozinho. Vem aqui apenas nos dias do batuque de santo.

- Então já temos um lugar para o culto?

- Sim, foi a primeira coisa que fizeram na sua ausência! Disse Ruth sorrindo. Você não acha ruim, acha?

-Não, Ruth! Não acho ruim, todos têm direito de cultuar a Deus à sua maneira. Vou assistir ao próximo culto, se estiver aqui.

- Eu avisarei quando será. O meu pai ficará muito feliz com isto. Continuaram a falar sobre como solucionar o problema com a chegada de mais uma centena de negros.

- Ruth, eu trouxe muito ouro, você viu, não? Quero que o guarde para mim. Escolha um lugar que ninguém saiba e guarde-o bem, as pedras preciosas também.

- Deixe comigo, eu sei como guardá-lo, Pescador. Você saberá onde estará guardado. É sua arma contra o Governador, não?

- Sim, é minha única arma. Agora vou ver seu pai. Até mais tarde, Ruth.

- Até a vista, Pescador.

O Pescador saiu para encontrar o velho João de Mina. Estava preocupado com o aviso: "vence, mas sofre". O que eles queriam dizer com isso? Só perguntando...

Ao chegar ao casebre, avistou o velho amigo chegando com um monte de ervas.

Salve, meu amigo! Como vai?

Bem, Pescador. E como têm sido os teus dias?

Bons, meu amigo, muito bons. Estou confiante no meu próxi­mo negócio com o Governador Geral.

Eu sei. Ele está em tuas mãos. Eu já vi isto. A ambição dele é maior que sua visão. Tu o dominarás com o que a natureza está te ofere­cendo de graça.

Explique-me, amigo. Quero saber de seus lábios o que sabe a respeito do meu futuro. Conte-me tudo, não deixe nada oculto.

- Então vamos nos sentar, a conversa será longa. Sentaram-se e o velho João de Mina começou a falar.

Tu, filho, um dia apareceste em minha humilde casa, doente, cheio de chagas, mas foste conduzido até aqui pelo invisível para cumprir a Sua vontade. Nós clamávamos pelo auxílio divino, dos Orixás e dos Le-barás. Estávamos sofrendo muito. Os escravos ficavam doentes, porque não comiam bem. Alguns até passavam fome. Sabíamos que era nosso destino sofrer, mas tínhamos o direito de, em nossa dor, clamar aos céus por ajuda. Em um sonho, eu já havia visto como estavas, doente, mas confiante em Deus. Pagavas os teus erros sem blasfemar contra Sua Lei. Quando chegaste aqui, eu já te esperava. Sentia, dia a dia, tua aproximação. Eras o nosso salvador! Ajudei-te como ajudaria a qualquer outro que bates­se a minha porta, mas eu já te esperava. Quando disseste que querias co­nhecer o arraial, eu sabia que ias buscar o auxílio que ansiávamos. Orei ao Pai e pedi que Ele te guiasse. Clamei aos Orixás para que eles mostrassem o que a natureza guarda em suas entranhas, e que tanto desperta a ambição dos brancos: o ouro, as pedras preciosas, as riquezas minerais. Lembras-te onde achaste o ouro?

Sim, lembro-me bem, em uma gruta, e estava exposto aos raios do Sol, brilhando como tal.

- Então, havia um rio próximo? E mais abaixo, não há uma cachoeira pequena? E não estava no meio de uma floresta, numa elevação?

- Sim, é verdade. Como sabe?

- Eu vi o lugar em sonho, no dia em que tu o encontraste. Então a gruta é o túmulo, lugar onde guardam os corpos, não é assim?

- É, o Cristo foi enterrado em uma gruta.

E as florestas não são do Orixá caçador Oxóssi? E as cachoei­ras não são de Oxum? E os montes não são de Xangô? Quem abre os caminhos não é Ogum? Ele te guiou para onde a natureza tinha algo a dar-te, para que usasses bem. Eu temia que fraquejasses, mas foste forte, mui­to forte mesmo. Resististe à ambição. Tua alma é limpa. Voltaste até nós, já com a liberdade nossa em tuas mãos.

Sim, esta foi a idéia que me ocorreu assim que vi o ouro. Ali estava a oportunidade de devolver um pouco, ainda que muito pouco, do que eu havia recebido, meu amigo. Não podia falhar. Eu também orei a Deus para que me ajudasse a encontrar uma forma de ajudá-los. Quando vi o ouro ali exposto, era como se Ele tivesse aberto o Seu corpo e dado a oportunidade que eu pedira.

E quando tu voltaste, Pescador, montado neste cavalo todo branco, sorridente, eu agradeci a Deus por ter nos enviado o Seu cavaleiro, o Cavaleiro da Estrela da Guia, o cavaleiro que liberta as almas em nome do Criador. Eu chorava pelo meu filho, mas sorria interiormente por meus irmãos negros. Isto era o que importava. O Cavaleiro da Estrela da Guia voltara para nos ajudar!

O Pescador estava com o rosto coberto de lágrimas. Fora guia­do, disto não tinha dúvidas. Não ansiava por riquezas, somente paz. Mas a paz só é conseguida quando se dá paz aos outros que também a procuram, pois ao pacificar os que sofrem, pacificamos a nós mesmos. Não tinha palavras a dizer. O velho Mina sabia o que ele queria dizer sem abrir a boca. Por fim, falou:

É um homem santo, meu amigo. Seu sofrimento somente o purifica, pois sofre, e da dor tiras forças para continuar. Eu o amo muito, meu amigo João.

Eu também te amo, meu filho. Oro pela tua vitória. Sei que vencerás. A terra responde ao teu pedido. As colheitas serão melhores que todas as anteriores. A terra manda sua força em teu auxílio, o Sol ilumina e aquece as plantações, o tempo manda a água na hora certa. Tu tens o Criador ao teu lado. E quem O tem consigo, vence sempre.

Diga-me, meu amigo. Ruth disse algo que me intrigou: "vence, mas sofre".

- Vencerás, isto eu sei, mas vejo-te muito triste e derramando muitas lágrimas. Apenas não sei o tempo certo, por isso toma cuidado. Talvez o Criador te prove novamente com a dor, para ver se cai ou segue em frente. Não importa o que aconteça, não pares no meio do caminho, pois tua jornada é longa. Isto eu sei.

O Pescador ficou em silêncio. Não sabia o que era chorar há um bom tempo. Sua vida, agora, era só alegria, sentia finalmente o prazer de viver.

- Meu amigo, amanhã tenho que partir para a capital e ainda tenho o que fazer esta noite. Vamos para o engenho, amanhã você volta para cá.

O velho aceitou o convite, se pôs na garupa e partiu em direção ao engenho. Ao chegarem, viram um grupo de negros ao redor de uma menina que estava deitada e que sofria muito. Algumas mulheres chora­vam. Aproximou-se rapidamente, para ver o que tinha acontecido.

Ao ver a menina, sentiu um forte arrepio percorrer-lhe o corpo de alto a baixo: "a serpente" - pensou.

Informaram que a menina havia sido picada há instantes por uma cobra com uma cruz na cabeça. O Pescador lembrou-se das palavras do Pajé Anhanguara: "Se vencer, curará os que forem picados pelos que raste­jam".

Pediu que se afastassem, colocou sua mão direita sobre a cabeça da menina e a esquerda sobre a picada de cobra, e orou ao Criador com toda sua fé. A menina estava quase morta.

À medida que orava, brotava sangue da picada da cobra. Eram dois filetes de sangue negro como breu que escorriam. O veneno estava saindo. O poder era real. Aos poucos a menina começou a recobrar os sentidos e parou de gemer, abriu os olhos e o primeiro rosto que viu foi o do Pescador, que estava com os olhos marejados de lágrimas. A menina estava curada! Levantou-se, tirou seu lenço do pescoço e limpou o sangue da sua perna. Só restavam dois pequenos orifícios, sinal das presas da cobra.

Sorriu para a menina e perguntou-lhe o nome.

Meu nome é Ana, meu amo.

Diga: meu nome é Ana, meu amigo.

Meu nome é Ana, meu amigo.

- Assim é melhor. Ana, vá tomar um chá bem quente para tirar o frio que está sentindo, depois estará tudo bem.

A menina foi fazer o que o Pescador mandou. Ficou a observá-la, enquanto ela caminhava. Estava curada. Depois, afastou-se um pouco do grupo de pessoas e sentou-se, como o velho Pajé costumava sentar-se, e fez uma oração. Logo, uma perigosa cobra veio até ele e ficou há um metro, mais ou menos, à sua frente, como que hipnotizada. O Pescador falou com a cobra, que partiu rapidamente. Ao se levantar e voltar para perto do velho Mina, este lhe perguntou:

- O que fizeste, filho meu?

- Ordenei à cobra que fosse embora e levasse todas as outras consigo. Aqui nesta terra ninguém mais morrerá por picada de cobras, nunca mais.

Como podes fazer isto?

Oh! é uma longa história, meu amigo, um dia eu lhe conto.

Vou querer saber. Vou, sim.

Os negros ficaram calados o tempo todo. Agora olhavam o amo com mais respeito. Era um feiticeiro poderoso.

- Vamos, minha gente, voltem aos seus afazeres, não há mais perigo. Vamos entrar para a casa, meu amigo, tenho algo a fazer ainda hoje para conseguir o que quero.

- E o que estás querendo agora, filho?

- Comprar as terras da aldeia dos meus amigos índios. E o que vou fazer vai me facilitar. Ruth, ajude-me a apanhar um pouco de lenha, vou precisar de muito fogo.

Mais tarde, o Pescador pediu que Ruth trouxesse uma das barras de ouro e as pedras. Escolheu vários diamantes e duas esmeraldas. Lapidou as pedras com as ferramentas que comprara do judeu Abraão. Ficaram lindas. Depois, com barro, fez umas fôrmas para modelar o ouro, que já estava fervendo no fogo. Trabalhou até tarde para polir as peças que fizera e prender-lhes as pedras. Ficaram as mais lindas jóias aos seus olhos.

Ruth, viu como se faz? Aprendeu?

Sim, Pescador, vi. Não sei se aprendi. Como pode fazer isto tão bem?

- Aprendi com meu pai quando era criança, e ainda me lembro como se faz. às vezes, ele queria presentear alguém e sempre o fazia com jóias. Dizia que assim aquela pessoa jamais o esqueceria. Sempre que visse ou usasse a jóia, iria se lembrar dele. Faça algumas para aprender. Se errar o ouro pode ser derretido novamente, as pedras, não. Portanto, preste mais atenção na pedra a ser lapidada. Não corte demais senão estraga. Não deixe ninguém ver você fazendo isto.

-Vou me lembrar disso. Mas, para que fez estas peças?

Para presentear à esposa e à filha do Governador.

Vai conquistá-la, Pescador?

O Pescador deu uma gargalhada.

- Não, Ruth, eu que não a conheço e nem à sua mãe. Eu quero con­quistar é ao Governador. E nada melhor que agradar à mulher e à filha para isto.

- Mas como?

- Ora, Ruth, elas vão ficar ao meu lado quando eu pleitear aque­las terras, e com pouco dinheiro eu compro tudo ao Norte e Oeste daqui, que é onde está a aldeia onde vivo tão feliz.

O velho João de Mina falou:

Pescador, se não soubesse qual o teu objetivo e como é teu coração, diria que és um grande aproveitador.

- Sim, é isto mesmo meu amigo. Dou-lhes o que querem e eles me darão o que quero.Simples comércio de sentimentos. Eu me preocupo com os índios, eles com riquezas. E agora vamos dormir, pois estou

cansado.

No outro dia, o Pescador pegou uma das bolsas com o dinheiro da venda do ouro anterior mais algumas gemas e duas barras de ouro, e junto com os índios,partiu. Iria negociar agora.

Ao chegar à capital foi direto até a casa do velho judeu. Chegando, fo. recebido com todas as honras.

- Senhor Macedo, que prazer em revê-lo! Como tem passado?

- Bem, meu amigo. Venho lhe fazer uma visita de negócios. Ficaria contente se ficasse em minha casa. Seria uma honra para mim e minha família.

O Pescador lembrou-se de Sarah. Como estaria ela agora?

- Aceito o seu convite, meu amigo, contanto que possa alojar meus amigos índios.

- Ah! Tem lugar para todos. Vamos entrar, por favor.

O Pescador entrou na casa do velho comerciante e, depois de algum tempo conversando, indagou-lhe se sabia algo de seu filho.

- Não, ainda não tive notícias. Mas pode ficar despreocupado, que ele fará o que o senhor mandou que fizesse, da melhor forma possível, e muito esperto para se deixar enganar, mas também honesto o bastante para não enganá- lo.

Ele estará aqui no tempo prometido.

Eu sei disto, meu amigo senão, não lhe confiaria a minha for- tuna.    

Senhor Macedo, queria agradecer pelo que fez em Espanha por

nos. Sou eternamente grato, nunca me esquecerei disto.

- Não falemos do passado, está bem meu amigo? Vamos falar a

respeito do futuro. Preciso de um sócio para gerir os meus negócios, e o senhor e a pessoa certa.

Por que diz isto? Não lhe parece que a sorte não tem sido boa companheira de minha casa?

A sorte muda, meu amigo. A sua pode ser mudada com a minha ajuda, e a minha melhorará com sua experiência. O que me diz?

Estou a ouvi-lo. O que me propõe?

Eu financio tudo. O senhor já tem a casa comercial. Comprarei um, ou farei outro depósito para guardar as mercadorias que virão da Euro­pa para serem vendidas aqui, e para estocar aquelas que mandaremos para lá. Ganharemos muito dinheiro com isto.

Já tem quem faça isto, senhor Macedo. É um nobre português instalado aqui há anos. Ele não gostará da concorrência, pois tem o mono­pólio. Chama-se Henrique.

Eu pensarei em alguma maneira de tirar-lhe o monopólio, meu amigo. Ele é muito rico?

Não, está falido. Alguns membros de nossa comunidade têm dinheiro emprestado a ele. Veio falido. Pelo que soube, um nobre o ajudou a tentar a sorte aqui, através dos favores de sua jovem esposa. Dizem que é muito bonita, mas muito vaidosa e consumiu a fortuna que o pai deixou para ele. Só não falhou aqui também porque tem o monopólio do comércio com a Metrópole. Em compensação, é um cego no comércio. Foi criado na nobreza, não entende nada de negócios.

- Vou falar com ele, quem sabe eu lhe devolva a boa vida e assu­ma o monopólio em seu lugar.

Nisto entrou Sarah na sala. O Pescador ficou a observá-la: tinha a mesma beleza. Mais madura, mas conservava o seu encanto, algo que sempre o perturbara. Estava com a feição triste, os olhos perderam a viva­cidade de outrora. As marcas deviam ser muito profundas. Comprimentou-a com um aceno de cabeça, não queria falar-lhe nada.

Como vai, senhor Macedo?

Já me conhece, dona Sarah?

Sim, eu o vi a primeira vez que falou com meu pai. O senhor nos tem ajudado muito.

Não, eu não os tenho ajudado. São vocês que têm ajudado a mim. Sem seu pai e seu irmão provavelmente eu não conseguiria fazer o que quero. Uma mão lava a outra, não é assim que dizem?

Oh! Todos nos evitam nesta cidade. Parece que somos lepro­sos. Só vêm até nós em último caso, quando não têm mais aonde irem.

Não é bem assim, filha, o senhor Macedo tinha aonde ir, mas preferiu vir até nós.

- Sim, é por isto que eu disse que esta nos ajudando muito, papai.

O Pescador achou melhor mudar o rumo da conversa. Não queria causar embaraço algum.        

_ Dona Sarah, a senhora poderia, por favor, dar algo de comer meus amigos índios? Estão famintos e não querem se afastar daqui. - Vou providenciar. O senhor aceitaria também?

- Sim, com muito prazer, pois também estou faminto. Enquanto Sarah foi preparar a comida, os dois acertaram como seriam os negócios dali por diante. O velho mercador ficaria com uma comissão de cinco por cento sobre o valor das mercadorias, tanto quanto seu filho ganhara nos negócios que estava fazendo em Gênova.

Será bom. Falta apenas o senhor adquirir o monopólio.

Isto eu consigo amanhã, não tenha dúvidas.

Não tenho. O senhor é muito convincente. Sabe o que quer, e tem o que por aqui é escasso.

O que é escasso por aqui?

O ouro! Todos o procuram e não acham, e parece que o senhor tem o segredo de onde encontrá-lo.

Não sou eu, meu amigo, são os índios que me dão o ouro.

Simplesmente dão?

Sim, eu sou casado com a filha do Cacique. Ele é muito bom para mim e quando os índios encontram ouro em suas caçadas mata aden­tro trazem-no para mim.

E o que o senhor dá em troca?

Nada. Fazem isto, porque um dia salvei seu chefe de morte certa, com o auxílio de umas ervas que os negros me ensinaram a usar.

Não lhe contou do poder de sua Estrela, que estava junto de sua mulher, a protegê-la.

- O senhor é um homem de sorte, senhor Macedo, o Criador o abençoou por suas boas ações quando juiz inquisidor.

Sarah entrava na sala neste momento, e ouviu a última conversa.

O senhor é um juiz inquisidor? - perguntou pálida como cera. Ela os temia.

Não, dona Sarah. Já fui, mas abandonei há muito tempo o cargo. Sinto remorsos ao lembrar do passado. Tento esquecê-lo, mas ele me persegue implacável. Tudo o que eu quero é esquecê-lo!

É. O passado é difícil de ser esquecido, principalmente se nos traz lembranças amargas. Isto eu sei muito bem.

Sim, é difícil, mas devemos lutar contra ele. Senão, sempre o traremos para o presente. E passado é passado, devemos deixá-lo lá atrás, dona Sarah. Caso contrário, ele nos tortura por toda a vida. É melhor dei­xá-lo para trás e olharmos para a frente, pois a vida continua e não pode­mos parar no tempo, para não sermos eternos amargurados.

Com o senhor, não sei o que aconteceu, mas comigo jamais poderei esquecer. Fui muito magoada. Alimentava sonhos que me foram arrancados com minha honra. Trouxe a desgraça sobre a casa de meu pai e a tristeza ao coração de minha mãe, que morreu de desgosto. Como lutar contra isto, senhor Macedo, se nada mais me sobrou?

Com fé em Deus! Confiante em que Ele nos vigia com seus olhos invisíveis e nos julga pelas nossas ações e reações. Somos provados a cada momento e temos que mostrar que nada nos abate, pois confiamos n'Ele como nosso Senhor Eterno, dono dos nossos destinos.

É só por esta fé que tenho n'Ele que ainda não morri. Sem Ele, não teria agüentado tanto sofrimento. E o que aconteceu com o senhor para ter lembranças amargas do passado, senhor Macedo?

Você chora pela honra ofendida, os sentimentos magoados, mas sua desgraça não é nada comparada à minha, pois, por pior que tenha sido para você, ainda estão todos vivendo. Preferia não falar no passado e esquecê-lo para sempre.

Enxugando as lágrimas que corriam por suas faces, Sarah insis­tiu que contasse.

Quem sabe, trocando tristezas, possamos ter um pouco de alegria? Conte-me, senhor Macedo, senão vou pensar que sou a única que sofre.

Está bem, mas me chame só de Macedo, certo?

Certo, mas fale logo.

Lembra-se do mercador persa, que tinha a casa defronte à fonte aonde você ia pegar água todos os dias pela manhã?

Simas? Então você é Simas? - perguntou Sarah, espantada.

Sim, eu sou o juiz Simas. Sinto vergonha de mim mesmo. Eu, sem querer, levei meu pai à morte na fogueira. O pior dos suplícios da Santa Inquisição. Vocês já não estavam mais morando lá.

E contou-lhe, como tudo se passou. Sua dor, o remorso que o perseguia e que, apesar de aparentar alegria, era vazio por dentro. Ao termi­nar o relato, continha a todo custo os soluços. As lágrimas teimavam em brotar, apesar de seu esforço em contrário.

Por que não enxuga suas lágrimas, senhor Macedo? Por que não se perdoa um pouco?

Só depois que você enxugar as lágrimas, que estão a escorrer na sua face, puser um sorriso em seu rosto triste e perdoar a si também.

Senhor Macedo - falou o pai de Sarah - o senhor não conhecia o procedimento do bispo?

- Como assim?

-Não sabia que ele nos extorquia dinheiro para podermos cultuar a Deus nas nossas sinagogas?

Não, isto desconheço.

Pois era isto que acontecia, e ainda acontece. Tínhamos que colaborar com algum dinheiro, para não sermos perseguidos. Pelo menos aqui não pagamos nada, somos apenas segregados.

E como eu poderia saber disso? Ele era como um protetor meu.

Pois ele tirava proveito de sua confiança para obter vantagens junto a seu pai. Sempre pedia grandes somas para a Igreja, e seu pai contri­buía. O dinheiro ia para uma bolsa particular.

Disso, eu nunca soube.

Por isso, você era o juiz mais jovem que havia lá.

Talvez meu pai tenha até comprado o meu cargo. Sim. É isto mesmo. Como eu nunca desconfiei? Eu ia me dedicar apenas ao sacerdó­cio, quando fui convidado pelo bispo, com palavras elogiosas à minha inte­ligência e cultura, à minha integridade e nobreza, a fazer parte dos juízes da Igreja. Tudo parece um pesadelo.

Foi um pesadelo, um amargo pesadelo. Não sei o que seu pai pretendia ao guiá-lo para este caminho, já que podia ter dado outro rumo à sua vida. Condições ele tinha, era muito rico. É daí que vem sua fortuna? -perguntou o velho judeu.

Não, muito ao contrário. Quando ele estava no cárcere, disse-me que havia um tesouro oculto sob sua cama. Quando fui pegá-lo, havia apenas um pequeno baú com umas moedas de ouro e um pergaminho. Apenas isto. Ele me disse que era um grande tesouro.

O que estava escrito no pergaminho?

Nada, só haviam três cruzes desenhadas.

O senhor o tem consigo? Gostaria de vê-lo.

Não, agora não, mas eu o tenho bem conservado. Quando voltar aqui, trarei para o senhor vê-lo. Quem sabe possa decifrar o enigma para mim.

Continuaram a conversar e a acertar detalhes dos negócios que o Pescador pretendia fazer. Este, vez por outra, olhava para Sarah, que pare­cia mais alegre. A nuvem negra sobre sua vida estava se desfazendo lenta­mente. Simas! Como não o reconheceu logo? Talvez, pela longa barba que ostentava agora, ou as marcas do tempo no rosto o tivessem modificado. Mas a atração, o magnetismo permanecia. Sim, nem tudo era somente dor, havia motivo para sonhar um pouco. Mais tarde, foram dormir.

 

BOAS COMPRAS

(UM VELHO AMOR)

No dia seguinte, o Pescador se dirigiu para a residência do Go­vernador Geral. Era hora de dar o lance certeiro, e nada como tornar o dia de um homem feliz logo cedo.

Quando chegou, pediu para ser anunciado ao Governador. Pou­co depois o empregado voltava, pedindo que entrasse. O Governador o convidou ao desjejum da manhã. Os três índios ficaram na rua, juntos aos cavalos.

Senhor José Macedo, quanta honra tê-lo em minha casa!

A honra é minha, Excelência. Fico muito feliz de vê-lo bem.

Vamos, meu amigo, venha comer conosco. A mesa está posta. Já chegam minha senhora e minha filha para nos fazer companhia.

Obrigado, Excelência. Estava para visitá-lo há tempo, mas não foi possível. Tenho tido muito trabalho com os engenhos, pois os feitores me abandonaram no dia em que cheguei. Tudo ficou difícil sem a presença deles. Tive que preparar os escravos para assumirem as suas funções.

E como estão se saindo, senhor Macedo?

Eu agi com muito tato. Mandei derrubar o tronco do suplício, o pelourinho e os fiz prometer lealdade.

Como conseguiu a sua lealdade?

Simples. Fiz se sentirem responsáveis por todos os outros ne­gros. Disse que deles dependia o bem de todos. Se agissem bem, todos estariam bem. Apesar de serem escravos, eles sabem quando estão ga­nhando algo. Por isso, hoje tudo funciona melhor do que quando havia os feitores.

Soube que muitos negros apareceram em seu engenho.

Sim, é verdade. Mandei alguns negros com os índios às flores­tas para procurá-los. Viviam como feras, e aqueles que aceitaram a minha oferta voltaram. Os feitores negros falaram bem do novo amo. Agora não havia chicote. Voltaram muitos que não pertenciam aos meus engenhos. Creio que há muitos mais pelas matas. Devagar, ficarei sabendo, pelos índios, onde se encontram e os trarei de volta. Não se preocupe, os outros engenhos serão pagos pelos escravos que eram seus. É evidente que não pelo preço de mercado, mas uma pequena indenização, eu lhes darei.

Nisto entrou a esposa e a filha do Governador. O Pescador se levantou para cumprimentá-las. A filha era muito bonita, sorriu para o Pes­cador. "Sorriso encantador" - pensou ele.

Sentaram-se e o Governador apresentou ao Pescador sua senho­ra, dona Amélia, e sua filha, senhorita Ângela.

_ José Macedo, à vossa disposição, minhas senhoras. Muito me honra conhecê-las.

_ O senhor é muito gentil em nos visitar, senhor Macedo - falou a filha Ângela, que sorrindo, continuou:

Parece um nobre, apesar de ter ouvido falar do senhor como um homem que vive entre os índios.

Oh! senhorita Ângela, eu só tenho um pouco de cultura porque tive oportunidade de viajar muito. E o tempo, ao bom observador, ensina. Basta querer aprender.

Nisto o senhor tem razão - falou dona Amélia - nem sempre o nobre tem boas maneiras.

Por falar em boas maneiras, já ia me esquecendo das minhas dêem-me licença por um instante.

O Pescador saiu acompanhado do empregado e foi ter com os índios. Pegou uma bolsa e tornou a entrar.

- Senhora e senhorita, eu vos trouxe um presente. Eu mesmo as fiz. Espero que seja do vosso agrado.

O Pescador abriu a bolsa tirando dois conjuntos de jóias que estendeu, um a dona Amélia e outro à filha, que ficaram extasiadas diante da beleza das jóias, e de seu valor, principalmente.

- Papai, olhe que maravilha! Nunca tinha visto nada igual.

- Isto deve ter-lhe custado uma fortuna, senhor Macedo - falou dona Amélia.

Só um pouco de trabalho, dona Amélia, nada mais.

O senhor mesmo as fez?

Sim, eu mesmo as fiz. Aprendi há muitos anos atrás, com um velho ourives, a trabalhar com ouro e pedras preciosas. Estou um pouco sem prática, mas ainda não me esqueci.

Como consegue pedras tão preciosas, senhor Macedo? - per­guntou o Governador.

Senhor Governador, se soubermos falar com a pessoa certa, conseguimos o que queremos, não é verdade? - olhou significativamente para as jóias e o Governador.

Senhor Macedo, não sei como agradecer tão lindo presente -falou Ângela.

Senhorita Ângela, só em ver como ficou contente com o meu humilde presente, já me sinto gratificado. Quando dou um presente, e este agrada, fico muito feliz. As vezes damos presentes que não agradam ao presenteado, e, se não damos alegria, também não a recebemos.

Boas palavras, senhor Macedo _ disse o Governador - Como eu poderia recompensá-lo por trazer alegria logo pela manhã à minha casa?

Bom, senhor Governador. Um dia eu lhe disse que faria muitos negócios, mas tenho tido alguma dificuldade para adquirir certas mercado­rias devido a, digamos, um pouco de falta de vontade de fazer bons negó­cios da parte do senhor Henrique. Gostaria de ver o comércio florescer por aqui, fornecer a outras capitanias, se fosse possível. Mas, com o monopó­lio nas mãos dele, estou amarrado em meus projetos.

O que tem em mente, senhor Macedo?

Eu gostaria de ver crescer esta Capitania através da melhor exploração do seu potencial econômico, mas como monopólio nas mãos do senhor Henrique isto não é possível. Não adianta ter capital e boas idéi­as. É preciso ter o acesso, e nisto somente o senhor pode me ajudar. Não pense que as jóias têm a ver com isto, por favor,pois eu tinha as jóias prontas há tempo, e esta idéia só me surgiu ontem à noite. Gostaria de ter o apoio do senhor.

Mas eu não posso tirar do senhor Henrique o monopólio que lhe foi concedido na Metrópole, assim como o meu Governo também o foi.

Não quero que o tire dele. Eu quero comprá-lo. Talvez com seu auxílio eu possa fazê-lo. Então, isto aqui mudará muito. Pretendo aumentar o comércio com a Metrópole e com outras cidades da Europa. Ganho eu, ganha a Coroa, com o aumento do comércio e da arrecadação de impostos, ganha a Capitania, com o aumento das atividades econômicas e, por fim, ganha o senhor também.

E o que eu ganho, senhor Macedo?

O senhor tem negócios na Metrópole?

Sim, tenho meus irmãos lá que cuidam deles por mim.

Então eles distribuirão os produtos que enviaremos para lá e mandarão para cá o que precisamos. O senhor será um sócio indireto. Seus interesses não aparecerão legalmente, mas serão da sua casa em Portugal.

Interessante sua idéia, continue, por favor.

Senhor Governador, esta é uma terra que tem muito a oferecer, basta ter vontade de procurar as coisas certas nos lugares certos. Açúcar, fumo, couros, madeiras, enfim uma infinidade de produtos que têm bom valor na Europa. Por outro lado podemos trazer, em boa quantidade, o que precisamos para desenvolver as capitanias.

- E o senhor teria condição de bancar a empreitada, senhor Macedo?

- Se eu puder contar com seu apoio, bancarei tudo com o meu

capital Pessoas certas e de minha confiança para administrar eu conseguirei só não posso perder tempo com pequenos problemas. Os grandes eu resolverei.

Certo. O comércio em Portugal fica com meus irmãos. Nos outros países eu terei uma comissão fixa de dois por cento. Está bem?

Acho razoável, com isto já são sete por cento.

Por que sete por cento?

Dois são do senhor, cinco serão do velho comerciante judeu Moisés, para ativar uma vasta rede na Europa. Ele tem as pessoas certas para vendermos nossas mercadorias. São todos de longa tradição, e não pense que sejam só judeus, há católicos também. Em sua maioria são de comerciantes católicos italianos e espanhóis.

Mas a Espanha já tem o seu próprio comércio, senhor Macedo.

Mas o senhor Moisés tem os contatos e isto nos abrirá muitas portas em toda a Europa. E pense: são só dois por cento, porém sobre muitos milhares não serão apenas dois. Também serão milhares! Não con­corda?

Sim, concordo. O senhor é um homem que sabe o que quer e como consegui-lo.

Espero consegui-lo, senhor Governador. Não gosto de deixar as idéias novas ficarem velhas, não podemos usá-las depois de estarem superadas.

Papai, por que o senhor não vende o outro engenho ao senhor Macedo? Assim ele ficaria mais próximo das suas plantações. Poderia vir nos visitar com mais freqüência.

Boa idéia, minha filha - falou a senhora Amélia.

Isto deixamos para depois, não é, senhor Macedo?

Sim, senhor Governador, cada coisa a seu tempo. Primeiro o monopólio desta Capitania. É mais importante.

Depois de se despedir do Governador e de sua esposa e filha, o Pescador partiu ao encontro do senhor Henrique. Ia comprá-lo também, ouro não lhe faltava.

Após conversar longamente com o mercador, acertou o preço a ser pago e assumiu as suas dívidas, que não eram poucas. O homem estava falido há muito tempo. O senhor Macedo fizera um grande favor a ele ao comprar o monopólio do comércio da Capitania. Estava salvo de um erro na Corte. Após os documentos serem lavrados diante da pessoa do Governador, o Pescador pagou-lhe com a bolsa de moedas que trouxera. Após a partida do senhor Henrique, o Governador comentou:

Senhor Macedo, é um comerciante nato. Onde esteve oculto este tempo todo?

Aprendendo, senhor Governador, só aprendendo - e se despe­diu, prometendo que logo o velho Moisés traria notícias.

Após a partida do Pescador, o Governador comentou com a sua

senhora:

- Ou este homem é um gênio, ou é um louco. Suas idéias são grandes, só faltam funcionar na prática.

- Acha que ele falhará, meu senhor?

Não, ele vencerá, pois lida com os negros sem o chicote, faz com que os índios o protejam e ajudem, tem a confiança dos judeus, e sabe como conquistar o Governador com palavras que são agradáveis de se ouvir. Só pode vencer. Um louco, já teria mostrado que é um louco.

Não acha que, se ele fosse agraciado com algum título de no­breza, seria mais fácil vencer alguns obstáculos e melhor visto em nossa residência? Pois a mim parece que ele vai vir aqui muitas vezes.

- Vou ver o que posso fazer.

A filha, que tudo ouvia em silêncio, por fim falou:

Lindas jóias! Ele tem bom gosto ao presentear uma mulher. Não acha, mamãe?

Sim, filha, na Corte todos nos olhariam com inveja se vissem estas jóias. Valem uma fortuna!

O Pescador passou na casa do senhor Moisés e contou-lhe dos sucessos obtidos. Este ficou admirado com a facilidade com que consegui­ra o que queria.

Senhor Moisés, a partir de amanhã o senhor assume o coman­do do monopólio do comércio com a Metrópole. Preciso que o senhor venda para mim um pouco de ouro, porque precisamos investir. Aqui estão os recibos das dívidas do senhor Henrique. Ele estava falido há muito tem­po! Deu graças por ter aparecido alguém para salvá-lo do escândalo. Pro­cure pagar com ouro. Mandarei ao senhor ouro suficiente para saldar as dívidas e encher os depósitos com mercadorias. Comece a empregar as pessoas certas para o comércio e contacte os seus amigos na Europa. Vamos movimentar uma grande frota mercante!

Não se preocupe, tenho as pessoas certas. Logo este porto estará fervilhando de gente a trabalhar. Em breve, seremos os mercadores mais ricos e poderosos de todas as capitanias.

- Disto não tenho dúvidas.

O Pescador fez o documento dando procuração ao senhor Moi­sés para ser seu agente comercial com plenos poderes de direção.

Quando Abraão voltar, vai ficar surpreso com o andamento dos negócios por aqui, senhor Macedo.

Creio que sim, pois acredite meu amigo, até eu estou espantado com o andamento das coisas. Espero não falhar.

Mais tarde, chegou um mensageiro do Governador com um rolo de pergaminho. O Pescador sorriu satisfeito. Aquilo, sim, lhe interessava, o resto era só uma forma de obtê-lo.

Posso saber por que está tão contente, senhor Macedo? - per­guntou Sarah.

Sim, pode saber. Senhor Moisés, daria licença de caminhar um pouco com sua filha?

Fico contente que ela finalmente se interesse por alguém. Po­dem passear, vou ver uns amigos. Voltarei tarde Sarah, deixe algo para eu comer quando voltar.

Sim, papai, estarei a esperá-lo - e saiu com o Pescador. Foram até próximo do mar.

Isto, Sarah, é a concessão das terras onde moram os índios, amigos meus. É onde eu gosto de viver. Não quero que alguém, um dia, se aposse das terras e venha a expulsar os meus amigos de lá. Agora, aquelas terras me pertencem para sempre, e para sempre eles terão onde morar, sem serem molestados. Isto eu devia a eles. Muitas tribos já foram dizima­das por causa das terras em que se localizavam.

Fico feliz em ver que se preocupa com eles. Deve ser por isto que eles o querem tão bem.

Não é só isto, mas também é isto.

Como assim, tão enigmático?

Vou começar falando do passado primeiro. Lembra-se de quan­do você ia à fonte pegar água.

Sim, como me lembro! Havia sempre alguém a olhar para mim do alto de uma janela, ou pensa que eu não o via lá debaixo? Olhava com o canto do olho, mas olhava.

Pois é, eu devo ter pecado muito diante de Deus, porque todos os dias ficava a observá-la à distância. Eu sabia que era pecado, mas não conseguia resistir. Era a mais bela moça. Eu a admirava à distância. Não podia me aproximar por causa da batina. O coração batia mais rápido, quando você chegava na fonte, sempre no mesmo horário, todos os dias. Acho que eu a amava. Só podia ser amor. Então, rezava, pedindo perdão pelas minhas fraquezas. Espero que Deus tenha me perdoado, senão o inferno me espera.

Eu também ia no mesmo horário só para vê-lo. Eu sabia que era impossível, mas sonhava em poder chegar perto algum dia.

É, acho que fomos dois tolos ao alimentar nossos sonhos de amor. Quantas vezes não pensei em abandonar o hábito, apenas para poder me aproximar, quantas dúvidas no coração, quanto sentimento de culpa em minha mente! Devia ter seguido o coração e não a mente. Tudo teria sido diferente, Sarah.

Sim, tudo teria sido mais fácil. Ou talvez fosse só ilusão, não acha, Simas?

Não me chame mais de Simas, sou José Macedo. Não podem saber meu nome.

Desculpe-me, mas de todos estes anos de mágoas só este nome me trouxe boas lembranças. Simas, o que ficava a me espiar da janela do seu quarto sem ter coragem de se aproximar. Por que nunca tentou ao menos?

Não sei. Pergunto a mim mesmo até hoje, e não tenho a respos­ta. Talvez fosse medo, vergonha ou timidez. Quem sabe?

Eu guardo daquele tempo boas recordações em minha mente. Sempre me perguntava: Onde estará Simas? Como estará? Já terá se casa­do? Com quem terá se casado? Será feliz? Ainda que não tenha sido comi­go, espero que seja feliz. Não sabia que você era padre. Nunca o vi fora de sua casa, só na janela. Então, imaginava que tivesse casado há muito tem­po.

Não queria que soubesse que eu era um religioso, senão pode­ria se afastar da fonte. Então, não a veria mais. Talvez fosse o medo de não vê-la mais que me conteve.

E, talvez tenha sido melhor assim. Duas pessoas se amam, mas não se magoam. Isto faz o amor ser bonito.

Devo confessar uma coisa.

O que é?

Sarah, apesar da conversa, estava calma. Era uma mulher já madura, não alimentava mais sonhos.

Eu me casei.

O que é que você disse? - e seus olhos se encheram de lágri­mas.

Desculpe ter tirado sua alegria. Não queria magoá-la.

Não magoou, apenas estou chorando. Ou não posso chorar mais? - e tentou sorrir.

Sabe, eu vaguei pelo mundo em busca de mim mesmo. Foram anos de dor e solidão. Até que, um dia, o destino me trouxe a estas terras. Vaguei por muitos meses, sem rumo. Fui ajudado por negros, porque os brancos se afastavam de mim. Achavam que eu era um leproso. Um negro me curou. Um dia, parti em busca de algo. Não sabia o quê, mas tinha que encontrar algo. Encontrei um padre que me levou a conhecer os índios. Dali, fui junto com o seu pajé ajudar o chefe de outra tribo que estava doente. Quando os pajés falharam, eu passei a ajudá-lo e, após ele ficar bom, disse que me daria um presente. Pensei que fosse uma coisa qual­quer, mas o presente era sua filha. Quis recusar, mas o padre me ensinou uma lição de vida. Aceitei o presente, sem saber o que fazer com ele, pois nunca tinha tocado em uma mulher. Com o tempo eu mudei, passei a gos­tar dela. Seu jeito fazia com que me lembrasse de você, alegre, meiga, e também tímida. Passei a amá-la. É minha mulher hoje e eu a respeito muito. Logo teremos um filho. Acho que a vida mudou muito, pois consegui, através dela, o ouro para comprar os engenhos e ajudar os negros que me ajudaram. Deus tem sido generoso comigo ultimamente.

- Apesar de tê-lo perdido, fico feliz em vê-lo feliz. Ela deve ser uma boa mulher.

Sim, ela é. Gostaria de ir comigo e conhecê-la?

Eu, ir com você conhecê-la? como poderia?

- Indo junto conosco, quando nós voltarmos. Você nunca foi a uma tribo de índios? Quem sabe, ao ver outras pessoas, outro modo de vida, saia do seu mundo de passado e olhe para o futuro. Creio que Raios-de-Lua ficaria contente em conhecê-la. Já falei a ela sobre você.

Falou sobre mim?

Sim, falei muito sobre você.

Ela, o que achou de mim?

Disse que, se eu gostava de você, então era uma boa mulher.

Assim mesmo? Não está mentindo para mim?

Posso ter muitos defeitos, mas não mentir.

- Vou com você. Ainda que meu pai não queira, eu vou! Gostaria de conhecer quem lhe dá tanta alegria de viver.

- Falarei com seu pai, quando ele regressar. Vamos voltar para

sua casa?

- Vamos. Não sei por que, mas me sinto muito feliz. Talvez por saber que, apesar de tudo que aconteceu, você ainda conseguiu encontrar a felicidade.

Mais tarde, após o velho Moisés voltar e comer, Sarah lhe falou de sua intenção. Iria com o senhor Macedo para conhecer como era uma aldeia indígena. Ficaria lá, enquanto o senhor Macedo lá permanecesse.

Quando ele voltasse, viria com ele.

Senhor Macedo, é um homem estranho. Quando eu tinha mui­tas mercadorias e poucos fregueses, o senhor apareceu e comprou quase tudo o que eu tinha. Confiou-me seu ouro para vendê-lo pelo senhor. Quan­do meu filho levou ao senhor as mercadorias, mais o produto da venda do ouro, que era uma fortuna, o senhor lhe confiou uma fortuna cem vezes maior. Vem até minha casa, propõe sociedade num negócio grandioso e me deixa encarregado de comercializar seu ouro e pedras preciosas. Faz, de mim, seu procurador na nova companhia de comércio. Torna-me da noite para o dia, um dos homens mais poderosos desta colônia, e o mais rico da minha comunidade. Traz minha filha, que era motivo de tristeza para minha casa, de volta à vida, e isto eu vejo em seus olhos, o que me torna um homem muito feliz, pois a alegria de meus filhos é minha alegria. Quem é, senhor Macedo? Por que traz a fortuna e a felicidade por onde passa?

Senhor Moisés, os índios me chamam de Pajé Branco e os negros de Cavaleiro da Estrela da Guia. Não sei o que sou, sei apenas o que quero. Isto eu sei!

E quer a minha filha?

Não, o senhor sabe que sou casado e ela também, pois eu lhe contei a respeito. Gostaria que ela conhecesse minha esposa, sua tribo e seu modo de vida. Isto mostrará a ela que a vida é boa, e que Deus fica feliz com a nossa alegria de viver. Isto eu descobri quando já não tinha alegria em meu coração.

Bem. O senhor confiou cegamente em mim, acho que devo retribuir o que já nos trouxe de bom. Leve-a consigo e me traga de volta uma filha que não viva chorando por causa do passado. Eu serei o mais feliz dos homens sobre a terra.

Tentarei atender ao seu desejo, meu amigo.

 

SARAH ENTRE OS INDIOS

(A MAGIA COM O AR)

No dia seguinte, o Pescador carregou diversos animais de carga com muitas mercadorias e partiu com os guerreiros índios, levando Sarah. Ao entardecer, chegou ao arraial onde vivia o padre, amigo seu.

Foi um momento de alegria o encontro dos dois. Eram como dois irmãos.

-           Vejo que tem trabalhado muito, Padre.

Você é o culpado disto, Pescador. Se não tivesse me dado tanto dinheiro, provavelmente a esta hora eu estaria a ver o pôr-do-Sol, tranqüi­lamente.

Ora, o senhor não é homem de ficar parado, meu amigo. Sua alma é maior que seu corpo e nunca conseguirá ficar parado.

Como você, não, Pescador? Mas quem é a senhorita que os acompanha?

Oh! desculpe-me. Sarah, este é o padre de quem falei no cami­nho.

Muito prazer em conhecê-la, senhorita, bem-vinda à minha paróquia. Vamos entrar, temos muito a conversar. Vocês também, meus amigos - falou o Padre aos índios.

Padre, uma dessas cargas é para o senhor.

O que me traz desta vez, Pescador?

Abra e veja.

O Padre abriu o pacote e sorriu contente.

- Então, não comerei mandioca por uns tempos? Finalmente al­guém se lembrou de que também gosto de comer outras coisas - deu uma gargalhada - vamos entrar, vocês devem estar famintos, depois conversa­remos.

Conversaram sobre seus empreendimentos. O Padre contou que já tinha uma escola funcionando, que agora tinha condições de ensinar alguma coisa às crianças do arraial. Tinha uns índios que ajudavam-no em sua pequena roça e não passaria mais necessidade de alimentos. O Pesca­dor contou-lhe dos últimos negócios que fizera. O Padre ficou feliz ao ouvi-lo.

- Eu sabia que conseguiria. Eu pressenti em você um destino grandioso. Vou lhe dar algo que guardo há anos. Já há muito não preciso dela, hoje minha arma é outra.

Entrou em um cômodo e, quando saiu, trazia uma bela espada, muito bonita mesmo.

Eis, meu amigo, você precisa mais dela do que eu. Agora é um homem muito rico, e algum salteador poderá querer atacá-lo. Com isto poderá se defender.

Não, Padre. Eu nem sei manejar uma faca, quanto mais uma espada. Sou capaz de me ferir com ela.

- Eu ensinarei como usá-la. É só uma questão de treinamento.

Mas o senhor me conhece bem. Por que me dá algo que pode tirar a vida alheia?

Eu tenho ouvido falar da sua boa sorte, então fico feliz. Outros podem não pensar como eu. E como você anda desarmado, um imbecil qualquer pode, num ato insano, tirar-lhe a vida por causa da cobiça. E você tem muito a fazer para morrer antes que termine. Vamos, aceite este pre­sente hoje, como um dia aceitou minhas palavras quando lutava consigo mesmo a respeito de Raios-de-Lua. Hoje, creio que me agradece em silên­cio, não?

Sim, eu nunca me esqueço do senhor nas minhas orações. Foi uma luz no meu caminho. Mas, uma espada?

Acredite em mim de novo, será para o seu próprio bem. Como não tenho muito a fazer aqui, uns dias de descanso me farão bem. Irei com você até sua aldeia e lhe ensinarei como usá-la. Já fui um mestre no seu manejo, lembra-se?

- Sim, lembro-me. Vou ouvi-lo, espero não me arrepender.

- Ótimo, vou avisar o velho Jorge para cuidar da paróquia na minha ausência.

Como vai ele, Padre?

Vai muito bem. Está feliz por morar aqui.

- Deixe que eu vou falar com ele. Gosto muito dele, sabe, Padre? Quero que seu fim de vida seja tranqüilo.

O Pescador ficou um bom tempo conversando com o velho Jor­ge, que era um dos amigos de João de Mina. O Pescador o protegera, mandando-o aos cuidados do Padre. Assim, ele ajudava aos negros escra­vos sem despertar a atenção de ninguém. O velho Jorge agradeceu-lhe por todos os velhos do grupo, que agora estavam sob sua proteção.

- Pescador, quando for a hora das lágrimas, nós estaremos com você. Pediremos aos nossos santos para que o Cavaleiro não caia.

-Por que me diz isto, meu amigo? O velho João de Mina já me

avisou de algo parecido, agora você me diz isto. Por que não me dizem tudo, se sabem de tudo?

- Porque nem tudo pode ser dito. O que não pode ser evitado, não pode ser dito. Só podemos prepará-lo para que se lembre, quando chegar a hora, de que nada podia ser feito para desviá-lo do caminho que deve seguir. Tentamos tornar este momento menos doloroso para o Cava­leiro da Estrela da Guia, que veio tirar um pouco da nossa dor, mas não podemos fazer nada. Isto pertence a Deus.

O Pescador se despediu do velho Jorge. Viu os olhos dele bri­lhando, estavam lacrimejantes. Era o segundo aviso em pouco tempo. Re­tirou-se com o rosto sombrio. Talvez o destino fosse lhe pregar uma peça. O que seria?

Ao entrar na sala, onde estavam os outros, sentou-se a um canto e ficou calado. Sarah perguntou-lhe:

- O que houve com você? Saiu daqui sorridente e voltou som­brio.

- Não é nada, não - mais, não falou.

O Padre olhou o amigo calado e perguntou:

Notícias más?

Mais ou menos. O tempo dirá!

No dia seguinte, partiram ao amanhecer. Sol-da-Manhã, o índio que sempre o acompanhava, aproximou-se e começou a conversar com o Pescador.

Pajé Branco, eu já o conheço há algum tempo. Sei quando está triste, bravo ou preocupado. O que o preocupa tanto?

O futuro me preocupa, Sol-da-Manhã. Porque eu não consigo saber o futuro, ele me preocupa.

Não se preocupe com o futuro, Pajé Branco, pois, se fosse possível saber o futuro, para que o presente? A vida não teria prazer. Um guerreiro, se soubesse que vai morrer na batalha, não iria guerrear com seus inimigos; o caçador, se soubesse que não vai caçar, não iria à caça; e assim por diante. Ninguém faria nada, todos saberiam o que iria acontecer e a vida perderia o encanto.

Tem razão, meu amigo! Para que se preocupar com o futuro? Vamos viver o presente. Isto é o que importa realmente.

A sombra saiu do rosto do Pescador, que voltou ao seu humor

normal.

À noite, depois de uma longa marcha forçada, chegaram à aldeia. A chegada despertou a todos. O Pescador começou a distribuir as mercadorias que trouxera para seus amigos. Quando terminou, todos tinham recebido algo. O Pescador era bom, diziam eles. O Pescador amava muito aquele povo. Não trazia mais coisas para não destruir sua naturalida­de. Pegou um pacote que guardava e foi, com o Padre e Sarah, para a sua oca.

Por que a princesa não saiu hoje? - perguntou o Pescador a Raios-de-Lua.

Você estava muito ocupado com os presentes. Eu não estou em condição de ficar andando muito.

O Pescador abraçou carinhosamente sua mulher. Depois apre­sentou Sarah a ela.

Você é Sarah? O Pajé Branco me falou de você muitas vezes.

Como? Ele falou de mim?

- Sim, ele gosta de você. Tem você no coração. Seu coração é muito grande, tem lugar para muitos.

- E você, sendo sua mulher, não sente ciúmes?

- O que é ciúme? Eu não conheço esta palavra. O que significa, Pajé Branco?

O Pescador explicou o que era ciúmes. Ela respondeu a Sarah.

- Eu não sinto ciúmes. Se ele tem um lugar no coração para você, tem também para mim, como tem para meu pai. Todos aqui também têm um lugar no coração do Pajé Branco. Quantos mais moram em nossos corações maiores somos nós. Você também mora no meu coração, Sarah. Aqui também tem um lugar para você. Se o Pajé Branco gosta de você, eu também gosto.

Sarah não soube o que dizer. Tinha sido colocada em uma situa­ção sem argumentos. Ali não morava o ciúme, a posse ou a falsidade. Tudo ocorria às claras. Nisto, chegou o velho Pajé Anhanguara.

- Filho, como vai? Já que não vai me ver, eu venho ver você.

- Eu ia lá visitá-lo, meu amigo. Estava esperando ter um tempo. Trouxe algo especial para o senhor, muito especial.

- O que é tão especial assim, Pajé Branco?

- Isto aqui, meu amigo, é para descansar o seu corpo nas horas do sono - e desenrolou um colchão que guardara assim que chegou.

O Pajé sorriu. Aquilo era macio. Ia gostar de dormir ali em cima . Seus ossos doíam ao dormir na rede ou na esteira.

- Vejo que trouxe o Padre junto, Pajé Branco - falou o velho

índio.

- Oh! Ele quis visitá-los. Eu fico contente por ele ter vindo, pois poderá falar melhor que eu a respeito do Cristo que quer conhecer.

- Padre, então vamos à minha oca. Lá tem lugar para o senhor descansar e podemos conversar melhor e mais à vontade, sem mulher por perto.

- Eu aceito o convite, meu amigo. Ate a vista, Pescador! Raios-de-Lua, dona Sarah, vejo-os amanhã.

- Até amanhã, meu amigo!

O Pescador tirou os embrulhos que trouxe e começou a mostrar a Raios-de-Lua. Eram panos muito bonitos para o filho que vinha. Ela sor­riu contente. Ele teria tudo o que poderia dar um pai como o Pescador. Seria um filho feliz, com a Estrela a protegê-lo.

Comeram um pouco e foram dormir. Sarah dormiu em uma rede. Acordou no dia seguinte com o corpo dolorido.

O Pescador acordou feliz. Foi até o rio que havia próximo e to­mou um banho. Logo chegou Raios-de-Lua com Sarah. A índia entrou na água e convidou Sarah a fazer o mesmo. Sarah não estava acostumada a ver as pessoas nuas, e isto a estava encabulando. Todos, por lá, andavam com minúsculas coberturas no corpo. Apenas ela e o Pescador usavam roupas. Não tinha coragem de olhar para eles. Ficava com o olhar distante, tentando achar uma forma de conversar sem ter que encarar as pessoas.

- Venha, a água está boa, Sarah - insistiu Raios-de-Lua. O Pescador falou-lhe:

- Sarah, olhe à sua volta. O que vê? Todos vivem assim aqui, por isto quis trazê-la. Ninguém se incomoda com o que tanto se envergonha. Nós, quando estamos todos cobertos com tecidos, é que os incomodamos, pois eles nos acham estranhos. Perguntam se escondemos algum defeito em nossos corpos. O nu não os incomoda, nem atiça os seus desejos, que provêm de outra realidade que não a nossa. Os sentimentos são diferentes, provêm de qualidade de caráter espiritual e não carnal. Tudo aqui é diferen­te. Esqueça os seus valores seculares de repressão ao corpo e liberte sua alma para o estado puro da natureza. Então, não sentirá vergonha de si ante os outros, como eles não sentem vergonha diante de você. O que você considera uma vergonha, eles aceitam como natural. O que desperta a ver­gonha aqui é a falta de honra, de caráter, a traição e a covardia.

Quando um homem deseja uma mulher ou vice-versa, não age como aqueles que se dizem civilizados, e olham para a beleza do corpo. Aqui os valores são outros. Eu trouxe você comigo para que olhe a vida de forma diferente, não porque queria vê-la nua, ou a desejasse. Trouxe para que lave aquilo que acha que manchou sua vida. Nem todos agem como agiram com você. Não são os outros que nos guiam, pelo que possa nos acontecer. Nós temos que nos guiar nesta vida. Se quiser, venha aqui co­nosco e lave sua honra ofendida na pureza desta gente, ou então viva com o corpo e a alma eternamente sujos pela imundície que lhe fizeram. Mas lembre-se de uma coisa, este é o melhor lugar para se purificar.

Sarah sentou-se no barranco do rio e ficou pensativa. Outros índios começaram a pular na água. Saíam nadando e brincando naquela água cristalina.

Depois de algum tempo, Sarah subiu rio acima, tirou seu vestido e pulou na água com suas roupas íntimas. Veio, pelo barranco, se arrastan­do por baixo da água até o Pescador. Ao se aproximar de onde estavam os indígenas, alguns que iam até o lugar mais fundo a chamaram, mas ela não entendia sua língua, ficou apenas olhando. Mais tarde, quando todos já haviam saído, ela tomou coragem e saiu de dentro do rio. Raios-de-Lua a aguardava com suas roupas nas mãos.

Mais tarde, Raios-de-Lua convidou Sarah para um passeio pela aldeia. Ela aceitou, e começaram a conversar.

Diga-me, Raios-de-Lua, como você fala tão bem a minha lín­gua?

O Pajé Branco me ensinou. Ele ficava mostrando coisas e fa­lando em sua língua, eu aprendia. Eu falava em minha língua, ele aprendia. Foi fácil assim. Eu não falo muito bem, mas o bastante para compreender.

Ele a ensinou antes de se casarem?

Não. Antes de casar, ele quase não falava a nossa língua. Pajé Anhanguara estava ensinando um pouco a ele. Ficavam juntos o tempo todo. Comiam juntos, andavam juntos, dormiam na mesma oca. São muito parecidos. Eu só falei com ele depois de casada, por ordem de meu pai.

E como era ele antes de se casarem? Olhava muito para você?

Não, ele não olhava para nada. Só sorria um pouco quando falava com o pajé da tribo, o resto do tempo ficava sentado à beira do rio vendo a água correr por horas e horas. Era um homem vazio.

E não se interessava pelas outras mulheres da aldeia?

Não. Ficava só e dormia só. Mesmo que alguma o procurasse para aquecê-lo, ele recusava. Então meu pai achou melhor me casar com o Pajé Branco, para curá-lo da tristeza. Ele não queria, mas o Padre o con­venceu. Nos primeiros dias ficava me olhando por muito tempo, sem cora­gem de me tocar. Tinha medo de alguma coisa. Falei com Pajé Anhanguara e ele me mandou fazer que dormia. Quando Pajé Branco ia dormir na estei­ra eu ia aquecê-lo, quando ele acordava, eu fingia dormir. Ele se levantava, ia ao no, aonde foi hoje. às vezes, eu ficava lá também, sentada ao seu lado, sem falar nada. Até que uma noite ele despertou e não saiu, ficou esperando eu acordar. Daí para frente ele mudou.

E você gosta dele?

Sim, eu gosto muito dele! Sinto falta quando ele sai, fico com saudade. Ele sabe tratar Raios-de-Lua com amor. Ele também gosta de mim, diz que eu lhe devolvi a vida que não havia mais nele.

E você não se incomoda que ele saia tanto de perto de você?

Sinto falta, mas ele tem que fazer isto. Outro não pode fazer por ele. Pajé da tribo diz que os Gênios das Matas o protegem por onde ele anda.

Não tem medo que ele arrume outra mulher e deixe você, e não volte mais aqui?

Não, ele não me deixa. Eu sei que ele gosta de mim. No começo me chamava de criança, hoje não, diz que eu sou sua mulher.

Quantos anos você tem, Raios-de-Lua?

Dezesseis anos, Sarah, e você?

Perto de trinta anos, o dobro da sua idade.

E não tem companheiro para aquecer à noite?

Não, eu não sei o que é ter um companheiro.

Então, é por isso que você é assim triste como era Pajé Branco.

É, deve ser por isto, quem sabe?

Gostaria que Pajé Branco aquecesse você à noite? Eu estou quase no tempo de ter filho, já não posso aquecer Pajé Branco, então vocês se aquecem.

Oh! Isto não. Eu fui criada diferente de você. Tudo na cidade dos brancos é diferente daqui. Quando você vai ter filho?

Filho não, Pajé Anhanguara diz que vão ser três filhos. Eu sou muito feliz de ter três filhos de uma vez.

Três filhos? Como ele sabe? Está certo que seu ventre está grande, mas três de uma vez?

Pajé sabe de tudo. Ele é muito velho e nada fica oculto para ele.

E quando será o nascimento das crianças?

Pajé diz que na próxima lua grande. Vai dar muita força para filhos.

Interessante. Mas, me diga por que você oferece seu marido para mim só porque você está grávida?

Quando tudo passar, ele volta. Até lá, ele fica aquecido.

Vou pensar no caso, está bem? Se resolver alguma coisa, eu aviso.

- Não precisa me dizer. É só se aquecer com ele, se ele quiser. Vamos voltar, que minha barriga está doendo. Andei muito hoje.

Ao chegar na oca, o Pescador estava sentado, fazendo umas anotações.

Aonde foram, que demoraram tanto a voltar?

Estava conhecendo a aldeia. Raios-de-Lua me mostrou tudo, e também falou dos costumes de seu povo. Fiquei encantada com o modo de viverem. Dividem tudo o que têm.

Eu não disse? Se você é inimiga, é tratada como tal e lhe tiram tudo, inclusive a vida. Mas, se é amiga, então dividem tudo com você, sem restrições. São muito diferentes de nós.

É, eu percebi isto.

Olhando para Raios-de-Lua, o Pescador perguntou:

Por que todas estas pedras e este ouro aqui, Raios-de-Lua?

Porque não quero que fique muito longe de mim. Logo vão vir filhos, eu quero você junto de mim. Tenho medo. Você perto, eu não tenho medo.

-Não vou estar longe, fique tranqüila. O que tenho que fazer, em sete dias estará feito. Depois, não precisarei sair por um bom tempo.

- Eu fico tranqüila, sei que vai estar comigo.

Nisto, lá fora, ouviu-se um grito de alerta e todos começaram a se movimentar. O Pescador saiu rápido e se assustou com o que viu. Do outro lado do rio estavam muitos guerreiros de outra tribo. Eram inimigos, há muito tempo, dos seus amigos da aldeia.

Foi para junto do Cacique, que estava armado para a guerra. Não deixaria aqueles guerreiros atravessarem o rio. Foi quando, do meio dos guerreiros inimigos, saiu o seu chefe com um menino nos braços. Gritou que queria falar com o Pajé Branco.

O Cacique e o Pescador se aproximaram para saber o que queria o chefe inimigo.

Eu venho pedir ajuda para meu filho. Ele está quase morto, o pajé de nossa tribo não conseguiu curá-lo. Preciso de ajuda de Pajé Branco. Ele pode salvar a vida de meu filho.

Depois de guerrear contra nós por tantas luas, vem aqui pedir ajuda, Pedra Negra? - perguntou o cacique da aldeia.

Cura meu filho, Pajé Branco. Eu não vim para guerra. Se meu filho ficar bom, não haverá mais guerra entre nós.

O que acha, Pajé Branco? Se curar há paz, se falhar ele morre e vamos guerrear hoje mesmo.

Espere, Chefe, vou falar com ele.

E o Pescador nadou até a outra margem do rio, para ver a crian­ça. Ao vê-la, ficou assustado com seu estado. Estava seco de tão magro, e desmaiado. Quase não respirava, fazia muito esforço para puxar o ar dos pulmões.

Chefe Pedra Negra, o senhor demorou para trazer seu filho, não sei se minha magia ainda pode trazer seu espírito de volta. Vou fazer o possível, mas, se não conseguir, não quero guerra aqui. Promete partir em paz, se eu falhar?

Você não falha, Pajé Branco, eu sei, mas prometo sair em paz.

Então traga-o até minha oca, rapidamente.

Ao depositarem o corpo do menino na esteira, parecia morto. Pajé Anhanguara falou:

É magia negra com o ar. Veja como não pode respirar. Estão tirando o ar do peito dele.

Vou tentar, Pajé. Se conseguir, vai ser um milagre.

Pediu que todos saíssem. Ficaram apenas ele, o Padre e o Pajé. O Pescador pegou sua Estrela, colocou-a ao lado da criança e iniciou suas preces. O Padre também orava em voz baixa.

O tempo ia passando sem resultado. Foi quando clamou aos céus para que enviassem ajuda à criança, para que o ar o ajudasse e levantou a sua Estrela até sua cabeça. O brilho da Estrela começou a se expandir até envolver totalmente a oca. O Padre ficou espantado, o Pajé sorriu contente.

Lentamente, o Pescador foi abaixando a Estrela sobre a criança, correndo o seu corpo da cabeça aos pés. Depois voltou lentamente e depo­sitou-a sobre o peito da criança. Orou com muita fé.

O menino começou a respirar melhor, com mais facilidade e, pouco a pouco, foi ficando corado. O Pescador pediu que o velho Pajé fizesse um chá com folhas verdes. Quando o velho Pajé voltou, o menino estava com os olhos abertos, mas mal se movia, tal sua fraqueza.

Devagar, o Pescador foi dando o chá, e ele foi se reanimando. Algum tempo depois sentaram-no na esteira. Estava muito fraco, mas esta­va curado. Cada um, a seu modo, agradeceu a Deus pela cura do menino. Foi quando este falou:

- Cadê meu pai?

O Pajé velho saiu e chamou o Cacique Pedra Negra.

Filho, você está bem?

Estou muito cansado, pai. Não agüento ficar de pé.

Então não está curado ainda, Pajé Branco?

Já esta curado, sim, só que está muito fraco. Há quantos dias ele não come?

Há sete dias não come e não bebe água. Estava secando.

É por isto que ele não se agüenta em pé, Chefe. Assim que se alimentar um pouco, vai se sentir melhor. Logo andará. Preciso que o se­nhor o deixe comigo para que eu cuide bem dele.

Está certo, Pajé Branco, eu confio em você. Eu o deixo aqui e volto daqui a sete dias para buscá-lo.

Está bem, chefe. Vai em paz! Não há mais motivo para triste­zas.

Eu vou, mas deixo alguns guerreiros aqui para me levarem notícias do meu filho. Minha filha fica junto até ficar bom.

Está bem, eu não me incomodo de dividir minha casa com seu filho e sua filha, mas os guerreiros ficam lá fora.

Sim, eles guardam sua oca. Não quero que alguém venha se vingar e matar filho meu.

Ninguém toca nele enquanto estiver comigo, Chefe. Pode ficar sossegado.

Até daqui a sete dias Pajé Branco.

E o Cacique Pedra Negra partiu com seus guerreiros. O Pesca­dor ficou olhando aqueles homens indo embora, preocupado. Não podia deixar o menino morrer. Haveria guerra. Seria este o aviso dos velhos ne­gros? Seriam estes os dias de lágrimas? Ficou preocupado. Foi falar com o velho Pajé. Ao chegar, o Pajé já foi falando com ele.

Cuidado, Pajé Branco, a reação vai ser forte. Os espíritos do vento virão até você, vão tentar tirar sua alma.

Mas o senhor não falou, um dia, que eu tinha poder sobre eles?

Sim, inas somente sobre os luminosos, não os escuros. Terá que vencê-los, como venceu o espírito que rasteja.

Então, é uma luta eterna. Não tem fim.

Sim, não tem fim. Por que acha que sou pajé desde criança? Ou pensa que eu não gostaria de sair como outros homens da tribo e caçar, pescar, guerrear, sem preocupações? Mas não, eu tenho que ser o pajé e aprender de tudo. Lutar para trazer saúde e felicidade à tribo. Se eu falho, a tribo sofre. Então, eu luto a minha luta. É uma guerra diferente das outras. Eu não uso lança, flecha ou zarabatana, nem tacape. Eu uso meu espírito para lutar. Ele sai do corpo no sono e luta. às vezes o espírito volta cansado e ferido para o corpo. Então eu sinto dor, fico cansado, mas eu sempre luto. Com o espírito do ar, eu não tenho poder. Você me salvou uma vez, lembra-se? Agora vai ter que lutar por si, eu não posso ajudá-lo. Cantarei a Tupã por você. Esta noite eles vêm lutar. Esteja preparado.

O Pescador ficou pensativo. O tempo de lágrimas chegara. Se morresse o menino, haveria guerra. Nao podia perder, mas como lutar contra o que é invisível? Deus daria a ajuda necessária? Confiava n'Ele. Saiu à procura de Sol-da-Manhã. Ao encontrá-lo, chamou-o para conver­sarem.

Cadê os documentos que dei para você guardar?

Estão em minha oca, Pajé Branco.

Vá buscá-los e me encontre lá em minha oca.

O guerreiro saiu apressado. Logo estava junto ao Pescador.

Aqui estão, Pajé Branco.

Você já consegue ler, Sol-da-Manhã?

Sim, com dificuldade, mas entendo o que está escrito.

Então, leia o documento que fala sobre as terras de sua tribo, e o outro, em que eu passo tudo ao seu nome.

Sol-da-Manhã leu tudo atentamente. Algumas palavras que não entendia, o Pescador explicava devagar.

Ao terminar, o índio perguntou:

Por que tudo isto, Pajé Branco?

Porque agora ninguém tira vocês daqui. Aí tem a assinatura do Governador Geral. Podem vir muitos brancos, mas eles não poderão entrar nestas terras. No registro da Capitania, elas são minhas e no outro papel eu as passo a você. Assim, você é dono das terras, segundo a lei dos portu­gueses. Ninguém poderá tirá-las de você.

Você é inteligente, Pajé Branco: toma de nós o que é nosso, compra do Governador Geral e nos dá outra vez o que já era nosso por muito tempo. Só que agora o branco não entra. Nós somos os donos, segundo a lei dos brancos.

Agora quero que leve o que vou escrever para Ruth, junto com este ouro e estas pedras. Estará tudo escrito, ela entenderá. Entregue a ela o papel que eu deixei com você há tempos atrás. Vou tomar as medidas para protegê-los para sempre.

Depois de tudo escrito, o Pescador entregou a Sol-da-Manhã. Este chamou os outros dois guerreiros e mandou que pusessem nos cava­los as bolsas com o ouro e as pedras, e que pegassem um pouco de alimen­to, pois não iam parar no caminho.

Por que a pressa, meu amigo? - perguntou o Pescador.

Porque sei que vai lutar novamente. Senão, não me mandaria fazer tudo isto. Tem medo de morrer, não?

Sim, eu tenho. Agora o Pajé Anhanguara não pode me ajudar. Estarei sozinho desta vez.

Você pensa que estará sozinho, mas eu vejo que não. Os espí­ritos estão chegando novamente. A luta vai ser grande, Pajé Branco.

Está bom, mas agora vá fazer o que tem que ser feito. Que Deus o proteja!

Até à volta, Pajé Branco. Que Tupã o proteja na sua luta!

O guerreiro partiu. O Pescador ficou em silêncio. Muitas idéias vinham à sua mente.

Raios-de-Lua, que a tudo ouvira a um canto, em silêncio, aproxi­mou-se e sentou ao lado do Pescador, perguntando:

- Você tem medo de perder a luta, Pajé Branco?

Sim, eu tenho. É uma luta eterna, não tem fim. Até quando terei que lutar? Oh! Deus! Até quando?

Você é o guerreiro que eu tenho. Não quero perdê-lo. Lute por mim também. Não quero ficar só agora. Nossos filhos vão precisar de você vivo.

Nossos filhos? Como assim?

O Pajé Anhanguara não lhe falou que vão nascer três filhos?

Não, não me falou nada. Por que será que não me contou? Nisto Sarah entrou na conversa:

Talvez, por ser seu amigo, ele não quisesse estragar a surpresa

que teria.

- É, talvez seja isto. Depois eu falo com ele.

Não, Pajé Branco, não fale. Ele me pediu que não falasse com você, que ele mesmo falaria. Melhor esperar ele falar primeiro - de seus olhos corriam dois fios de lágrimas. Procurou disfarçar e mudou de assun­to - você tem a proteção da Estrela, ela o ajudará na hora certa.

Tudo aqui é tão estranho. Não entendo do que vocês estão falando. Explique-me o que vai acontecer, Simas.

Você não entenderia, Sarah. É melhor não falar - levantou-se e foi caminhar um pouco.

Conte-me o que é a Estrela e o que vai acontecer, Raios-de-Lua.

Raios-de-Lua começou a lhe contar porque o chamavam de Pajé Branco, onde tinha conseguido sua Estrela, porque era tão respeitado e querido, tanto pelos índios como pelos negros escravos. Ao terminar, esta­va com os olhos vermelhos. Começou a chorar.

- Por que chora, depois de tudo o que me contou?

- Porque eu vou perdê-lo. Ele não será mais o meu Pajé Branco. Os campos eternos vão nos separar.

Você acha que ele vai morrer?

Ele? Não! Quem vai sou eu.

Como sabe, quem disse?

- O pajé da tribo. Eu tenho vontade de contar-lhe, mas sei que ele ficaria muito triste. Então eu choro em silêncio, para que ele não desconfie de nada.

Mas diga-me, por que vai morrer? Como pode ter certeza?

O Pajé só me contou, porque sou como uma filha para ele, senão não contaria.

Mas por que ele lhe contou? E o que vai acontecer de mal para que você morra?

- Contou para eu me preparar melhor para a hora de partir. Será depois de os filhos virem à luz. Não viverei para criá-los. Isto me deixa triste. Não crio os meus filhos e perco o meu Pajé Branco. Como encobrir tanta tristeza em meu coração, sem chorar? Como é difícil mentir a quem a gente ama.

- Vai até o Pajé e diz para ele não contar ao Pajé Branco. Diga-lhe que quase falei sem querer, mas que isto não vai mais acontecer.

Sarah saiu e foi ter com o velho Pajé Anhanguara. No caminho foi pensando: que mulher forte! Lutava contra o destino com uma determi­nação inflexível. Era ainda uma menina, mas tinha uma fibra que faltava a muitas mulheres maduras, inclusive ela, que vivera tantos anos trancada junto com suas mágoas, como se dentro de um baú do qual não pudesse sair. Simas, o Pescador, o Pajé Branco ou o Cavaleiro da Estrela da Guia, ou quem quer que fosse, estava com a razão: ali estava o exemplo vivo a mostrar que, a vida, Deus nos dá para ser vivida, não lamentada. Eis um exemplo que não precisava de palavras para ser explicado: uma mulher traria à vida três filhos, ia morrer em silêncio, mas não queria magoar a quem amava. Sim, ela merecera ter Simas como companheiro, pena que por pouco tempo. Jamais a esqueceria. Viveria em seu coração por toda a eternidade.

Ao chegar à oca do Pajé, contou o que acontecera. O Pajé ficou preocupado. O Padre perguntou a Sarah se ela agora entendia o que estava acontecendo.

Sim, e estou preocupada, Padre. Se ela não morrer agora, de­pois vai sofrer muito. É uma situação difícil.

Filha, você entende dos negócios do Pajé Branco? - perguntou o velho Pajé.

Sim, mas muito pouco. Quem está cuidando de tudo por lá são meu pai e meu irmão. Sei apenas que é um negócio muito grande.

Então, está decidido! Você será a tutora dos filhos do Pescador. Cuidará da herança até eles terem idade suficiente, isto caso ele venha a sucumbir diante dos desafios que tem pela frente. E se eu bem conheço o Pescador, isto é o mais fácil de ser superado. Duvido é que ainda sinta ânimo após a morte de Raios-de-Lua.

- Mas diga-me? Como tem certeza da morte dela?

Vou dizer-lhe, já que não acredita em nossas palavras. Há al­gum tempo eu sonhei com o Pescador chorando sobre o túmulo de Raios-de-Lua. Acordei assustado. No outro dia, comentei com o velho Jorge, que cuida da igreja na minha ausência, e ele me disse que na mesma noite, à mesma hora, sonhara a mesma coisa. Alguns dias depois, o velho Jorge foi visitar o velho João de Mina e contou-lhe sobre nossos sonhos. O velho Mina disse-lhe que tinha recebido o mesmo aviso em sonho, e os outros velhos que fazem o seu círculo religioso também o tinham recebido. Então, quando aqui cheguei, o Pajé Anhanguara me chamou para sua oca e o que me disse era o que eu já ouvira dos negros. Ele vai sofrer muito, pois quem o trouxe realmente à vida foi Raios-de-Lua. O mesmo aviso, na mesma noite, a tantos, não é conicidência, é um aviso verdadeiro! O Pescador ajuda a todos nós com sua boa estrela, e não estou falando da sua Estrela-do-Mar, apesar de ser dali que provém sua fé e sua força espiritual.

Vou tentar ajudá-los, pois ele também ajudou meu pai e meu irmão quando estavam à beira da falência. Surgiu como um anjo salvador, atendendo às preces deles e às minhas também. Ele está me devolvendo à vida, estou mudando também. Sinto que agora posso lutar contra os desa­fios que a vida nos impõe.

Sim, é isto mesmo. Ele traz de volta à vida aqueles que já se sentem mortos, aqueles que morrem no seu íntimo, não na carne. Amanhã vou partir cedo, para, de minha igreja, orar por ele e comunicar a Ruth tudo o que está para acontecer. Ela também ajudará.

A noite chegou, e o Pescador voltou para junto de sua mulher. Lá estava o Pajé velho, o menino índio e sua irmã, Raios-de-Lua e Sarah. Ao entrar, todos se calaram.

O que é isto? Parece o enterro de alguém, e vocês tratando de como enterrá-lo.

Não é isto, filho. Estávamos falando sobre o que seu espírito vai encontrar nos escuros campos eternos.

Eu já me decidi, Pajé. Vou vencer mais esta luta. Eu usarei as minhas armas, que são a minha boa Estrela e a minha fé em Deus. Com isto, eu sempre venci.

O Pajé sorriu. O Pescador era um guerreiro de Tupã, não tinha dúvida. Comeram um pouco e ficou acertado que alguém ficaria acordado, enquanto os outros dormiam. Isto era o melhor a ser feito.

O tempo passava, e ninguém conseguia dormir. Já era tarde quan­do caíram no sono. Só o Pajé velho estava acordado.

 

NOVA LUTA

Algumas horas depois, por volta da meia-noite, o Pescador co­meçou a gemer e a ter tremores. O Pajé se levantou, pegou uma manta de couro e o cobriu até o pescoço. O Pescador tremia, mas ao mesmo tempo transpirava.

Seu suor era frio. O Pajé ficou a observar por longo tempo. Ven­do que os tremores aumentavam, acordou Raios-de-Lua, que despertou assustada.

- O que foi, Pajé velho?

- A luta começou. O Pajé Branco está nos campos escuros. Eu sinto isto, quase posso apalpá-lo. Está distante, e está próximo. Eu sei como é, quase levaram o meu espírito para os campos escuros.

- O que fazer, Pajé velho?

Nisso as outras pessoas acordaram. O Padre pegou seu rosário e fez uma prece para seu amigo: onde quer que estivesse seu espírito, que recebesse o auxílio de Jesus Cristo.

O Pajé falou:

Precisamos aquecê-lo. Ele está muito frio, se o corpo gelar muito, o coração pára de bater. Aí, o espírito não tem lugar para voltar.

Eu vou aquecê-lo, Pajé velho. Eu me deito ao seu lado e passo o meu calor para ele.

Não, você não pode, Raios-de-Lua. Você traz vida no seu ven­tre. Tem que ser um de nós.

- Eu me deito ao seu lado - falou o Padre.

Ao se deitar, o suor que escorria do corpo do Pescador molhou sua roupa, e ele também ficou gelado.

- Não está adiantando, Pajé. Eu também estou frio.

-É por causa de sua roupa, ela molha e não deixa o calor passar. A índia que ficara com o irmão se ofereceu para aquecê-lo. O Pajé concordou, com um aceno de cabeça. Ela se deitou por trás do Pesca­dor e o envolveu com os braços. Raios-de-Lua enxugava o seu rosto. Olha­va preocupada para seu marido. Onde andaria seu espírito agora? Que luta estaria travando? Contra quem seria esta luta? Sarah perguntou:

Pajé, não podemos acordá-lo? Assim ele sai deste estado.

Não pode ser acordado. Quando ela o envolveu, moveu seu corpo e não o acordou. Não pode ser acordado. Só quando o espírito voltar, ele acorda. Aí será sozinho.

- Por que não fazemos fogueira perto para aquecê-lo melhor?

- Você não compreende, filha. Não vê que o espírito está longe e que, se faz fogo para aquecê-lo, o corpo fica doente porque está gelado? -falou o Pajé, bravo.

- Desculpe, eu só quis ajudar.

- Está bom. Agora deite. Eu fico vigiando. O corpo já está se aquecendo um pouco, o suor já não escorre tanto.

Todos se deitaram. Um pouco mais tarde, estavam todos dor­mindo. O velho Pajé ficou acordado. Vigiava tudo o que acontecia com o Pescador.

Quando viu que o Pescador havia parado de gemer, e que seu corpo secara, também se deitou e dormiu. Tinham sido cinco horas de luta. Por volta das oito horas começaram a acordar.

Todos, com exceção da jovem índia que dormia a seu lado, se levantaram. Ela ainda dormia abraçada ao Pescador.

O Pajé falou:

- Vamos sair para não acordar o Pajé Branco. Deixe ele descan­sar bastante, a luta foi grande.

Saíram e foram preparar algo para comer. O Padre, depois de comer, se despediu e partiu para sua paróquia. Ia preocupado.

Quando o Pescador acordou, a índia já havia acordado, mas per­manecia ao seu lado.

- O que você faz aqui comigo? - perguntou, bravo.

Eu dormi junto de seu corpo, Pajé Branco. Ele estava frio, precisava de alguém para aquecer.

Desculpe eu ter ficado bravo. Eu agradeço por ter me aqueci­do, minha amiga.

Raios-de-Lua, que ouvira a conversa e vira o sorriso de satisfa­ção da índia por ter ajudado o seu marido, ficou preocupada. Mais tarde chamou Sarah e começou a falar-lhe:

- Mulher de outra aldeia vai tomar lugar no coração do Pajé Bran­co.

- O que você quer dizer com isto?

- Eu vi como ela ficou feliz quando ele agradeceu por ter sido aquecido quando seu espírito estava nos campos escuros. Ela gosta de Pajé Branco. Se ele vencer a luta, ela tira você do pensamento dele.

- Como você sabe disto?

- Eu conheço quando alguém gosta de alguém, e ela é muito bonita. Se Pajé Branco vence luta, ela fica como eu diante dele. Ajudou a aquecer ele quando precisava, então quando eu partir ela toma meu lugar, e você perde lugar.

Mas eu não quero o seu lugar, Raios-de-Lua. Só quero que ele fique bom o mais rápido possível.

Eu sei que ele vai vencer. Ele sempre me falava que sua Estrela brilhava. Eu nunca tinha visto o brilho, mas esta noite eu a vi brilhar. Sua luz era grande, cobria todos nós. Pajé velho também viu luz, não foi só eu. Esta noite você aquece Pajé Branco em meu lugar.

Sarah ficou rubra. Como ficar nua e abraçar, à noite, a quem ela mais temia tocar? Não sabia como fazer isto, ficar nua diante de todos. E não sabia o que sentiria depois disto.

- Vou pensar, Raios-de-Lua. à noite, eu digo se aceito.

- Se não aceitar, você o perde para sempre. Acredite em mim, eu sei o que estou falando.

Enquanto isto, o Pescador falava com o velho Pajé:

Eu não sei dizer aonde fui, só sei que era puxado por uma força muito grande. Lutava para me soltar, não sei por quanto tempo, mas pare­cia uma eternidade. Por fim, reuni todas as minhas forças e me libertei. Foi horrível! Depois não conseguia despertar.

Você foi levado para o lugar escuro do tempo, filho. Precisa dominar a eles. Você tem força na parte branca, tem que usar este poder no meio das Trevas. Não impeça que o levem, apenas procure ver quem o está levando. Quando puder ver, então você o dominará com sua força branca.

- Como, Pajé Anhanguara?

Quando você estava diante do espírito que rastejava, não sentiu que alguém o ajudava?

Sim, tinha uma mão sobre meu ombro. Ela me dava força para encarar o grande espírito que rasteja.

Então, aí está seu poder. Eles, na verdade, não podem com você. Eles são a parte escura do seu lado branco. Não tendo medo, você os domina. Então, servem-no como escravos e o temem.

- Como o senhor sabe disto?

Eu sei muitas coisas. Quase tudo eu sei, mas meu poder está no fogo e na terra, o seu está na água e no ar. Se eu tivesse poder no ar, eu não tinha sofrido feitiço do ar. Eu o teria derrotado. Mas, como não tinha, se não fosse você eu teria morrido. Meu espírito seria levado para os campos escuros.

Hoje à noite vou ver o caminho, e tentar ver quem me leva. Amanhã, eu lhe conto, se voltar.

Sem medo, você sempre volta. O que precisa é vencer o medo.

Vou tentar, meu amigo. Agora vou até o rio, para pensar um

pouco.

O Pescador foi ao rio, sentou-se na margem e ficou a pensar. Tinha que haver um meio de dominar o que o puxava, mas como saber?

Enquanto a água corria pelos seus pés, uma sombra se projetou na água. Não dava para distinguir a forma, nem a feição do rosto. Ficou a observá-la por um longo tempo. O contorno não lhe era estranho, mas não se lembrava de onde vira algo parecido. Parecia que a sombra queria lhe dizer algo, já que se movia à sua frente, para lá e para cá, num vaivém contínuo e interessante. Por fim, ela desapareceu. O que seria aquela som­bra? O que quis transmitir? Não tinha resposta.

Tirou a roupa e mergulhou na água, que estava deliciosa. A água lhe dava energia. Sentia-se bem na água. Logo apareceu Raios-de-Lua. Estava à sua procura.

Venha cá, Raios-de-Lua. Fique aqui comigo um pouco. A água está muito gostosa.

Vou entrar, mas fico aqui no barranco. Não quero me afogar, indo no fundo com o peso de minha barriga.

O Pescador sorriu e pegou sua mão, ajudando-a a entrar no rio. Ficaram a conversar por muito tempo. Estavam sentados, quando apare­ceu Sarah com o menino e sua irmã, a índia que aquecera o Pajé Branco.

- Como vai, criança? - perguntou o Pescador.

- Sinto-me bem melhor, Pajé Branco. Salvou a minha vida, eu a devo a você. Quando eu for cacique de minha tribo, será recompensado.

-Não é preciso, meu amigo. Só de estar bem, já me sinto recom­pensado. Gostaria de nadar um pouco comigo?

- Vamos! Faz tempo que não entro na água.

Entraram na água e o Pescador ajudou o menino, que ainda esta­va fraco. Logo ele já dominava os movimentos e ficou nadando sozinho. Sua irmã entrou também. Os três ficaram a se divertir na água. Raios-de-Lua convidou Sarah a entrar, mas esta recusou.

- Você perde o Pajé Branco com o seu pudor.

Sarah ficou a olhar ele se divertindo a valer na água. Por que ela não ia também? Tirou sua roupa, meio escondida, e pulou dentro do rio. Todos se viraram para ver. Ela ficou um pouco envergonhada, sem saber o que fazer. Foi quando o Pescador a chamou para vir até onde eles estavam.

Não sei nadar como vocês. Vou me afogar, se tentar. Todos vieram para perto dela.

Vamos ensiná-la a nadar como os índios nadam, Sarah. Dê-me suas mãos - falou o Pescador.

Ela estendeu as mãos, e o Pescador puxou-a lentamente sobre a água, mandando-a bater os pés compassadamente.

Quando já conseguia pairar sobre a água, mandou-a tentar nadar sozinha, batendo as mãos como batia os pés.

Depois de várias tentativas, conseguiu, meio desajeitada, nadir sozinha.

- Você tem que se sentir leve sobre a água, assim você a domina, Sarah. Tem que flutuar mesmo parada. Apenas com pequenos movimentos das mãos e das pernas, você flutua. Tente, e você domina a água.

Depois de muitas tentativas, conseguia flutuar parada no lugar.

Agora vá devagar para onde quiser.

Eu vou tentar atravessar o rio.

Espere, nós vamos com você. Venha, criança, lá do outro lado tem frutas, vamos apanhá-las.

Raios-de-Lua foi até à margem e ficou a observar os três nadan­do. Lágrimas corriam de seus olhos. O seu mundo ia terminar logo. Quan­do voltaram, ela não estava mais ali.

- Aonde será que foi Raios-de-Lua? - perguntou o Pescador.

- Estava aqui há pouco. Vamos, crianças, é hora de sair da água. Ajudou o menino a subir no barranco, depois sua irmã e, por fim,

tomou a mão de Sarah para ajudá-la.

Até ali ela se mantivera dentro da água, agora teria que sair. Pre­cisava vencer a vergonha que sentia, mas não tinha coragem. Olhou à sua volta e a índia e seu irmão já estavam indo embora. Tomou coragem e subiu o barranco. Ficou frente a frente com o Pescador, que olhou para seu corpo, mas não disse nada, apenas um pequeno sorriso aflorou em seus lábios. Este apanhou as roupas de Sarah e as estendeu a ela. Em seguida apanhou a sua calça e chamou-a para irem para a oca. Depois de secos, vestiriam as roupas.

Assim nus? - perguntou.

Eu visto as calças aqui, porque gosto de usá-las, mas não sinto vergonha como você. Os índios andam seminus desde que nascem. Usam alguma proteção, não por pudor, mas para evitar algum acidente, disse sorrindo. Vamos!

Vamos - respondeu Sarah, pondo a roupa na frente, para cobrir uma parte do corpo. Foram para a aldeia.

Por que eles me olham, se as outras mulheres estão nuas e não chamam a atenção? Até elas me olham. Estou envergonhada.

- Não se preocupe. Eles estão olhando sua cor. Sua pele é muito branca e isto os deixa curiosos. Nada mais que isto. Olham a sua cor, não seu corpo. E olhe que ele é muito bonito.

Sarah, que já estava com vergonha, ficou mais vermelha ainda. Seu rosto parecia que estava em brasa.

- Por que está rindo? - perguntou.

- Porque você parece uma criança boba, e não uma mulher ma­dura. Só por isto.

Ao entrarem na oca, Raios-de-Lua sorriu, com o rosto triste, mas sorriu.

- Agora você é como nós. Venceu seu medo de ser como nós. Eu fico contente por você.

O menino se aproximou e tocou em sua pele.

- Como você é branca! Sua pele parece pena de garça.

Rapidamente ela se vestiu. Não gostou de ver que todos a olha­vam com tanta curiosidade. O olhar que mais a incomadava era do Pesca­dor. Não era um olhar lascivo, mas a incomodava.

- Vou falar com o Pajé Anhanguara sobre o que vi sobre a água antes de vocês chegarem. Talvez ele possa me explicar - falou o Pescador.

- Volte logo, pois vou fazer carne de veado que meu pai nos mandou.

- Está bem, não demoro muito.

Quando a noite chegou, todos estavam reunidos novamente. Sa­rah disse que poderiam dormir. Ela ficaria acordada.

Quando todos dormiam, ela foi para perto do Pescador, que ain­da não dormira. Estava tenso demais. O Pajé não soube explicar a sombra na água, e isto o deixou tenso o resto do tempo. Poderia ser algum tipo de aviso de perigo.

Por que não relaxa e dorme, Simas?

Estou com receio. Tenho medo de não voltar.

- Durma, eu fico ao seu lado para aquecê-lo se seu corpo ficar frio novamente. Eu o protejo. Fique sossegado e vá à sua luta. Vença-a por todos nós. Todos queremos vê-lo bem. Então, você vence o desafio.

- Você fala como o velho Pajé, Sarah!

- Acho que estou aprendendo com ele, e com todos aqui tam­bém.

- Vou dormir. Até amanhã! - e pegou na mão de Sarah.

Algum tempo depois, estava em profundo sono. Seu corpo co­meçou a tremer. Eram calafrios horríveis. Ele tremia mais que na noite anterior. Com a conversa, a moça índia acordou e veio para junto deles.

- Vou aquecer o Pajé Branco, Pajé. Ele está frio demais.

Sim. É preciso fazer isto. Ele pode ter a respiração paralisada.

Sarah vai aquecer hoje, Pajé - falou Raios-de-Lua.

Pode deixar que eu aqueço. Fiz isto ontem e já sei como fazer. O Pajé olhou para Raios-de-Lua, e depois para a índia jovem.

Vamos decidir logo! Ele está piorando, enquanto vocês ficam discutindo quem vai.

Eu vou, falou Sarah resoluta. Você já se esforçou ontem, deixe que hoje eu fico com ele. Dê-me um pano para enxugar o suor do seu corpo e, tirando seu vestido, entrou embaixo da manta de couro.

Enxugou o suor que escorria por todos os poros do corpo do Pescador. Não sabia por que o segurava em seus braços com tanto aperto. O corpo tremia todo, os dentes batiam. Puxou o seu cabelo para a frente e passou por cima do pescoço dele. Isto ia aquecê-lo mais rapidamente, pen­sou.

- Vão dormir - falou o Pajé velho.

As outras duas mulheres deitaram-se. A moça índia dormiu logo. Raios-de-Lua perdera o sono. Estava temerosa, porque hoje ele estava pior. Chamou o Pajé.

Pajé velho, pode ficar perto de mim? Estou com medo.

Não tenha medo. A Estrela está com a luz muito forte. É sinal que a luta é grande. Se a luz se apagar, o Pajé Branco perdeu. Senão, está lutando. A Estrela é sua alma, sua força e sua fé.

Sim, eu vejo sua luz. Por que só agora eu vejo sua luz, Pajé?

Não sei, filha. Tupã quer dizer-lhe algo que não sei explicar. Quem sabe não esteja dizendo para que fique tranqüila, que Ele está toman­do conta de tudo. Vamos, durma!

Sarah já dormiu, Pajé?

Não, Raios-de-Lua, eu ainda não dormi. Quando ele não tiver mais tremores, eu dormirei. Pode dormir em paz, eu tomo conta dele para você.

Você é boa, Sarah. O Pajé Branco gosta de você também. Eu sinto que gosta. Não deixe o seu espírito escapar. Preciso que ele viva para olhar nossos filhos.

Não se preocupe, eu o seguro. Ele não vai partir e deixar tantos desamparados. Deus não há de permitir. Simas ainda tem muito a fazer na terra.Quem sabe até você viva para partilhar de sua ventura, Raios-de-Lua.

Ela já dormiu, Sarah. Está falando para mim - falou o Pajé velho.

O senhor não vai dormir?

Depois que ele se acalmar, eu durmo. Está bem?

- Está bem. Assim eu fico mais calma. Temo que algo de ruim aconteça.

- Não vai acontecer nada de ruim. Do centro da Estrela está saindo uma luz que vai até à cabeça dele. Sua Sereia manda ajuda, eu sinto isto. Parece até que o espírito da água está aqui agora. Gostaria de ver como ela é. Deve ser muito bonita! O Pajé Branco disse que é uma beleza, que não pode ser descrita. Quem sabe, quando eu partir para os campos eternos possa vê-la.

- Por que este desejo, Pajé?

- Porque o Pajé Branco fala com tanto amor e tanta alegria, que eu tenho vontade de conhecer.

Ficaram a conversar por mais algum tempo, depois ficaram em silêncio. Sarah ainda estava abraçada bem forte ao Pescador. Como expli­car o que sentia?

Os pensamentos voltaram ao passado. Um dia sentira o contato de corpos de homens. Foi violento, dolorido e repugnante. Isto a matara por dentro, tirara a sua alegria de viver. Quantas vezes não pensara em se matar. Somente não o fizera por respeito às leis de Deus: não ia quebrá-las, nem desrespeitar aos sagrados mandamentos.

Agora era ela que nua estava, com uma tanga índia a cobri-la, abraçada ao homem que amava tanto. E não era para amá-lo, mas para tentar salvar sua vida. Tinha que aquecê-lo não com o calor do amor, mas com o calor da fé que havia dentro de si. Não tinha mais o medo de ser tocada, nem de tocar em um homem. Bem, pelo menos não naquele que estava em seus braços, quase agonizando, de tanto que tremia. Outros, não teria coragem, sentiria nojo. Como já sentia há tanto tempo. Seus pensa­mentos foram interrompidos pelos comentários do Pajé.

- Abelha costuma ferroar a quem toca nela, mas, se souber tirar o mel de sua colmeia, ela não se incomoda. Então a abelha não é perigosa, só a maneira de tirar o mel é que tem que ser correta. Assim, terá o mel doce que alimenta o corpo e adoça os sentidos. É assim que tem que ser, minha filha.

Sarah assustou-se com o comentário do Pajé. Tudo o que pensa­ra, ele resumira em uma lição de vida, em poucas palavras. Ouvira os seus pensamentos. Perguntou-lhe, trêmula, com a voz quase sumida:

- O senhor ouve o pensamento da gente, Pajé?

- Só quando está tudo em silêncio. Se quero ouvir, então eu sei o que estão pensando. Por isto, sou pajé. Um pajé tem que saber até os pensamentos dos outros, senão não é um bom pajé. Pajé para tribo é como o médico e o padre dos brancos, unidos na mesma pessoa. Tem que cuidar do corpo e do espírito. É um sacerdote também, filha. Não é como os brancos dizem, filha. Não somos o que dizem de nós, este é apenas o nosso modo de vida. Foi assim que Tupã quis, é assim que somos.

O senhor é um sábio. Traz em si todo o saber dos livros, con­densado em suas palavras simples, mas objetivas e certeiras. Só os sábios falam como o senhor.

Pajé Branco também já me falou isto. Um dia vou conhecer quem é sábio e ver como é ser sábio.

O senhor é um sábio, não precisa procurar. Eu agradeço que tenha ouvido meus pensamentos. Ajudam muito suas palavras - e começou a soluçar.

O velho ajeitou Raios-de-Lua e foi para perto dela. Passou a mão em sua cabeça como um pai acariciando sua filha, a quem ama muito, e disse-lhe:

Filha, não tenha medo de viver! Não é pecado viver! Pecado, diante de Tupã, é viver errado. Isto não é bom, mas viver certo agrada os olhos de Tupã. Então, ele nos abençoa a boa terra com colheita farta.A terra que ele abençoa dá o melhor alimento. Os frutos das árvores são mais doces. Ali é onde os pássaros cantam mais bonito, e com mais alegria. Na terra fértil, todos querem plantar, pois sabem que terão boa colheita. Não perderão seus esforços, como quem cultiva a terra estéril, onde vem a formiga do orgulho e come suas plantas, as moscas e outros insetos da vaidade e destroem os frutos. A terra estéril é onde as cobras com os piores venenos fazem morada. E quem mora em terra estéril, também se torna, com o tempo, estéril.

O que o senhor quer dizer com isto? - perguntou Sarah, solu­çando.

Que você deve se tornar terra fértil, para ser abençoada por Tupã, que dará bom agricultor para ará-la e nela plantar sementes, que no tempo certo darão bons frutos. É isto que eu quis dizer. Tupã abençoa e protege a terra que deseja ser cultivada. E o corpo da mulher é onde o Criador realiza sua maior obra. As plantas dão sementes que se reprodu­zem, às vezes mais fortes, às vezes mais fracas. Os animais procriam, por um instinto de preservação. Fazem tudo no seu tempo, por uma Lei de Tupã, mas já são mais aperfeiçoados que as plantas. Porém, no corpo do homem e da mulher, Ele não economizou Sua generosidade criadora. Fez tudo perfeito. Não falta nada. É ali que Ele mais se faz presente. Seja fértil, e terá Tupã a conduzir você aos eternos campos do Espírito.

Sarah havia parado de soluçar. Estava ouvindo as palavras com

atenção.

Fale mais para mim, Pajé. Quero ouvi-lo mais um pouco.

Já está começando a clarear o dia e o Pajé Branco parou de tremer e suar. Ele voltou ao corpo. Durma agora, você está cansada, ficou a noite toda acordada. Eu também estou cansado. Agora vou dormir.

Logo estavam dormindo. O Pajé se aconchegou perto de Raios-de-Lua e abraçou-a. Queria a ela como a uma filha. Como iria sentir sua partida!

o Sol já estava alto, quando Raios-de-Lua acordou. Tirou o braço do Pajé de cima de seu ombro e se levantou. Foi até perto do marido e viu que respirava profundo, mas compassado. Acariciou o seu rosto suave­mente.

Sarah acordou repentinamente e ficou meio sem jeito.

Ele está bem, Raios-de-Lua. Vou me levantar, você fica aqui com ele, isto vai lhe fazer bem.

Não, fique você mesma. Está com os olhos fundos, não dor­miu. Precisa dormir mais.

Eu vou cozinhar alguma coisa para todos. Venha, deite-se aqui. Ele está bem, só cansado. Ficará contente, ao te ver quando acordar.

Ao falar, já estava em pé se vestindo.

Sarah, não é bom aquecer a quem se ama? - perguntou Raios-de-Lua.

Sim. É bom, sim. Eu fico triste, porque você sofre por perdê-lo. Deus queira que todos estejam errados.

E saiu para fora da oca de Raios-de-Lua. Mais tarde, quando o Pescador acordou, sentiu mãos tão conhe­cidas a acariciá-lo. Virou-se e sorriu cansado, triste mesmo.

Por que está triste, Pajé Branco?

Porque quando me livrei do pesadelo e me vi solto, meu espíri­to voava, até que pairou sobre você, que dormia.

Isto é bom. Não é motivo para estar triste.

Só que você não acordava. Era como se estivesse morta, en­tende? Então eu chorei muito.

Não fala assim. Eu fico com medo.

O Pescador se levantou e a ajudou a ficar de pé. A cabeça girava como se estivesse em um redemoinho. Devagar, a sensação foi passando, e começou a sentir-se melhor.

à tarde, voltou à beira do rio e estava meditando sobre o pesade­lo, quando o Pajé se aproximou.

Em que está pensando, filho?

Na noite que passou, Pajé. Fui a um lugar muito longe. Eu descia, e não tinha fim esta descida.

É onde eles prendem os espíritos. Eu fui levado até lá e estava preso quando você me trouxe de volta. Está chegando mais próximo do lugar da batalha. É lá que você vai vencer.

Mas como? Eu me sinto preso. Algo me mantém como que pesado. Cada vez eu desço mais. Não consigo parar de cair. Então, eu luto para subir, Pajé.

Você conseguiu ver alguma coisa ou alguém?

Sim. Eu me lembrei de suas palavras, e por alguns momentos não lutei. Tentei ver o lugar onde estava. Era escuro e frio, as formas eram horríveis, pareciam monstros voadores tentando me atingir.

Isto é bom. Você já conhece o lugar e viu com quem luta. Só falta juntar forças neste lugar para vencer.

Vou tentar. Pajé, a sombra na água novamente, vai e vém, como se estivesse dançando à minha frente! Eu a vejo, mas ela não diz nada.

Nisto chegaram Raios-de-Lua e Sarah.

Viemos para entrar na água. Não vem, Pajé Branco? - pergun­tou Raios-de-Lua.

Daqui a pouco. Ainda tenho o que falar com o Pajé.

Esta noite foi Sarah quem aqueceu seu corpo, não foi a índia da outra tribo. Eu não deixei que ela o aquecesse.

Você fez isto, Sarah? Obrigado por me ajudar. Fico contente -e deu um sorriso.

Sarah despiu-se ali mesmo, e lentamente entrou na água junto com Raios-de-Lua. Começou a nadar.

- Sarah! - gritou o Pescador - tente flutuar primeiro, depois você consegue ir aonde quiser com os movimentos do braço a lhe puxar para a frente.

Enquanto ficava a observá-la nadando na margem, começou a ter uma idéia. Foi até à margem e chamou Sarah:

Flutue e depois vá até o lugar mais fundo.

Eu tenho medo! Não sei nadar muito bem. Ainda estou apren­dendo, Simas.

Faça isto por mim, por favor! Eu nado bem, se você correr Perigo, eu a salvo.

Sarah deitou-se na água, foi flutuando e começou a bater os bra­ços.

-Não bata muito rápido. Bata compassado, mas lento, assim não cansa e não afunda - e ficou olhando. Quando ela chegou na parte mais funda, ele gritou:

Agora tente flutuar movimentando apenas as pernas, mas com cuidado - e ela foi usando o braço para manter o equilíbrio do corpo.

Agora, com os braços, mantenha o equilíbrio e tente ficar em pé na água.

Não vou conseguir - gritou Sarah.

Vai, sim! Faça devagar, usando os braços como asas sobre a água, e conseguirá. Não se apresse, faça com calma.

Ela fez como ele mandou. Logo estava em pé, na água. Não afundava. Bastava mover os braços como asas e as pernas como nadadei­ras que se mantinha no lugar.

Sarah, como está se sentindo?

Leve, muito leve. Não afundo, tenho o ponto de equilíbrio ago­ra.

Venha para cá, mas tente vir em pé, dentro da água.

Ela veio lentamente, em pé, até que não deu mais, e teve que estender o corpo, para chegar na margem.

O Pescador estendeu a mão e puxou-a para fora do rio. Também puxou Raios-de-Lua.

Estava sorridente.

Diga-me: qual foi a sensação desde que saiu da margem flutu­ando e foi até o lugar mais fundo do rio?

Bom, no começo foi difícil flutuar. E muito raso e o corpo afunda. Mas, à medida que avançava, o corpo ficava mais leve, os movi­mentos mais fáceis.

E quando eu mandei que ficasse em pé dentro da água? Como foi?

A princípio faltava equilíbrio, mas depois que consegui o equi­líbrio, fiquei leve e os braços me mantiveram flutuando. Usei apenas as pernas para que a correnteza que vem por baixo não me tirasse do lugar. As pernas me conservaram reta e os braços me fiseram flutuar.

Graças a Deus! A Sereia me mostrou como vencer os espíritos

do ar.

Como, filho? - perguntou o Pajé.

A sombra na água era a Sereia me mostrando que eu preciso flutuar no ar. A sombra flutuava na água como se dançasse, não se lembra?

Sim, lembro. Estou começando a compreender o seu raciocí­nio. Sarah fez a experiência para você, não?

Sim, ela fez. Não sabia nadar, mas ouviu o que eu mandei que fizesse. No raso somos pesados, mas à medida que vamos para o fundo, ficamos leves. Se tivermos calma e soubermos nos movimentar, então flu­tuamos sem sair do lugar. Compreendeu?

Está claro. Ao sair do corpo estamos pesados, mas ao nos distanciarmos dele vamos ficando leves. É só ter calma e procurar o lugar mais fundo, o centro de tudo, e nos equilibrarmos, que teremos o domínio das nossas forças sobre a água, ou o ar.

Sim. Isto mesmo, meu amigo. Já sei como derrotá-los. Eu os farei, esta noite, meus escravos.

Estava feliz. Raios-de-Lua sorriu feliz: novamente o Pajé Branco vencia. Sarah nem ligava mais para sua nudez, pois tinha ajudado Simas a vencer. Foram todos para a aldeia. A noite já se aproximava. Sarah notou que desta vez quase ninguém olhava para ela, apesar de não cobrir o corpo. Trazia a sua roupa na mão. A curiosidade estava acabando, já era mais uma na aldeia, não despertava maior interesse.

Ao chegarem na aldeia, o guerreiro Sol-da-Manhã estava che­gando também. Foi até o Pescador e começaram a conversar.

Vejo que você foi e voltou voando, Sol-da-Manhã.

Quase, Pajé Branco. Tinha que ficar perto de você na hora da sua luta final.

Como sabe que hoje é a luta final? E não tem medo?

Eu sei porque vi seu espírito ontem à noite em luta. Quero estar junto esta noite. Vou tentar acompanhar seu espírito, quando ele for levado. Eu luto com meu irmão. Esta noite, se meu irmão morre, eu morro tam­bém.

Obrigado, meu irmão. Mas como vai Ruth, o velho João de Mina e tudo mais?

Eles estão bem. Ela controla tudo, os negros a chamam de

princesa.

Ela é mesmo uma princesa. Sabe comandar os negros.

Aqui está o papel com tudo escrito. Ela escreve bem, Pajé Branco. O pai dela manda dizer a você que seja forte, pois a luta apenas começou.

Quem sabe logo termine, meu amigo.

Conversaram ainda por um longo tempo sobre os engenhos. Depois de saber de tudo, o Pescador comentou:

Sol-da-Manhã, Deus é bom!

Por que fala assim? Não sabia que Ele é bom?

Não foi isto que eu quis dizer. E que aqui tenho a você, que é leal e prestativo; na cidade tenho o irmão e o pai de Sarah, que são leais, e no engenho tenho Ruth, que, além de leal, é muito esperta, sabe como conseguir as coisas. Deus dá a ajuda certa, na hora certa.

É porque você não pensa só em você, mas no bem-estar dos outros. Por isso Ele o ajuda. Eu sei que é por isto, acredite em mim.

Eu acredito, meu amigo, pois sozinho eu não faria nada. Mas chega de conversa. Vamos nos juntar aos outros que nos esperam.

Enquanto conversavam, o Pescador notou que o guerreiro olha­va muito para a moça índia. Ele gostara dela. Era um homem solitário, precisava de uma companhia, e ninguém melhor do que aquela moça. Ela era filha do Cacique Pedra Negra e irmã do menino, que agora estava bom. Seria uma boa aliança. Perguntou ao amigo:

Sol-da-Manhã, como você acordou ontem à noite?

Gelado, Pajé Branco, e meu corpo estava molhado de suor.

Então, está decidido!

O que está decidido, Pajé Branco? - perguntou Raios-de-Lua.

Lua Branca - este era o nome da moça - aquecerá Sol-da-Manhã esta noite. Ele quer ir comigo aos escuros campos eternos.

O velho Pajé falou sério:

Mas você pode não voltar, Sol-da-Manhã.

Se Pajé Branco fica preso lá, eu fico ao seu lado. Não vou querer viver depois de ver meu irmão branco morrer assim.

O Pescador olhou significativamente para sua mulher e comen­tou:

- O que acha de ela aquecer Sol-da-Manhã, Raios-de-Lua? Esta entendeu seu olhar e o que queria dizer. Sol-da-Manhã era

um guerreiro forte e bonito.

- Você aquece o corpo dele, Lua Branca? A moça sorriu e respondeu:

Se ele quiser, eu posso aquecê-lo todas as noites de sua vida, não só esta. Mas, não sei se ele quer minha companhia.

Eu aceito, por esta noite. Se gostar de sua companhia, eu res­pondo amanhã - falou o guerreiro.

O velho Pajé só olhava, e sorria levemente. Entendeu o plano do Pescador. Lua Branca era muito bonita e agradava ao guerreiro. Seria um bom motivo para não haver mais guerras entre as tribos irmãs. O Pescador pensava sempre no futuro, nunca só no presente. Era muito esperto, o Pajé Branco. Os espíritos do lado escuro que se cuidassem, pois ele os derrota­ria.

Ficaram a conversar até tarde da noite, quando o Pajé falou: -E hora de dormir. Sinto a presença de espírito negro do ar por perto.

Todos se calaram, e cada um foi para o seu lugar de dormir. O silêncio era opressivo, já que, nesta noite, a luta teria um desfecho.

Quando o Pescador adormeceu, todos estavam dormindo. So­mente o velho Pajé se mantinha vigilante.

Pouco tempo depois, o Pescador começou a gemer alto. Os es­píritos negros do ar tinham ouvido suas palavras de vitória e vinham deci­didos a ganhar a luta também. Seus gemidos eram altos, todos acordaram, mas o guerreiro permaneceu dormindo. Não gemia, mas seu corpo estava começando a ficar molhado e frio.

Raios-de-Lua perguntou ao Pajé:

Por que não tremem hoje, Pajé?

Porque não têm medo, filha. Vão para a luta sem medo. Espíri­to que não tem medo, o corpo não treme.

Mas, por que ficam frios e molhados? - tornou a perguntar.

Frio, porque o espírito voa para baixo, no escuro, e molhado porque o corpo fica mandando força para o espírito lutar, compreende?

Sim, eu compreendo agora, Pajé.

Lua Branca se deitou atrás de Sol-da-Manhã e o protegeu com o calor do seu corpo. Sarah olhou para o Pajé e depois para Raios-de-Lua. Vendo seus olhares, entendeu o que queriam dizer. Poderia acordar no ou­tro dia com um cadáver nos braços. Esta idéia a assustou. Então o Pajé falou:

Se você tem medo, eu o aqueço com meu corpo, mas eu já não tenho tanto calor a oferecer, e preciso ficar acordado até eles voltarem.

Eu vou, Pajé, não se preocupe, eu o aqueço.

Despiu o vestido, ficando apenas com a tanga de couro, e se deitou ao lado do Pescador. Iria manter o corpo dele aquecido, enquanto lutava nas Trevas.

- Eu agradeço, Sarah. Você é muito boa. Que Tupã a guarde

sempre!

Não fale nada, Raios-de-Lua. Não é preciso agradecer. Eu es­tou retribuindo o que ele fez por mim. Pena que não possa fazer por ele tanto quanto fez por mim e minha família.

Você tem toda a vida para retribuir. Aqueça-o bem hoje, e terá todo o tempo que precisa para retribuir.

O Pajé falou a Raios-de-Lua:

- Fique aqui perto de mim e do menino, filha. Eu agora vou ver como estão os espíritos deles. Façam silêncio.

 

O PERIGO E A VITORIA

(COMO CULTIVAR A TERRA)

O tempo foi passando. Os gemidos cessaram de forma instantâ­nea. O Pajé se assustou e foi até perto do Pescador para ver o que tinha acontecido. Viu que ainda estava respirando, mas não transpirava mais. Isto era sinal de perigo. Foi até Sol-da-Manhã que estava respirando, mas não transpirava também.

Pediu a proteção de Tupã para a luta de seus filhos. Temia perder os filhos que nunca tivera, de uma só vez.

Voltou ao seu lugar, puxou uma manta sobre os ombros e ficou em silêncio. Nada podia fazer.

O menino estava abraçado a Raios-de-Lua, os dois já dormiam há algum tempo.

Mais tarde, o Pajé tornou a olhar. Os dois estavam secos e respi­ravam, mas continuavam gelados. Nada tinha mudado.

-           Procurem dormir, vocês duas. Não adianta vocês ficarem acor­dadas. Fiquem tranqüilas, a luta ainda continua - falou o Pajé.

Algum tempo depois, ao tornar a olhar os dois, as mulheres esta­vam dormindo. Viu que tudo estava igual: respiravam, mas estavam frios. Era como se já estivessem mortos, deviam estar no centro, no lugar mais profundo, como disse o Pajé Branco.

Ao amanhecer, Raios-de-Lua acordou. Ao olhar para o Pajé, viu preocupação em seu rosto. Isto a assustou.

- O que aconteceu durante o tempo em que dormi, Pajé?

-Nada, filha. O Pajé Branco parou de gemer, e os dois não solta­ram mais água do corpo. Isto faz bastante tempo, e continuam frios. Eu estou preocupado, já deveriam ter voltado.

- O senhor acha que voltam, Pajé?

- Não sei, filha. Mesmo elas estão frias. Os corpos deles não estão recebendo o calor delas. Estão esfriando seus corpos.

Raios-de-Lua aproximou-se do Pescador e acariciou sua testa. Estava com a pele seca, igual à do menino quando chegou na aldeia. Come­çou a chorar baixinho, para não acordar Sarah, nem Lua Branca. Então, começou a falar no seu ouvido.

dos campos eternos. É só ilusão, Pajé Branco. Volte para mim! Eu sou real! Volte para criar seus filhos. Lute e vença por eles, Pajé Branco. Flutue no ar como Sarah flutuou na água para você, ou já esqueceu como é? Flutue como os pássaros no ar, e voe como eles. Seu espírito é forte. Você é o Pajé Branco. Você tem a Estrela da Sereia do Mar. Use sua Estrela, Pajé Branco. Ela o ilumina na escuridão e cega os espíritos do escuro. Pegue sua Estrela e vencerá facilmente sua luta. Ela agora está azul, e a Sereia está cantando o seu canto encantador. O canto manda você lutar com sua Es­trela. Ela é sua força nas Trevas. Voe como os pássaros no ar e, com sua Estrela na mão, cegue a todos eles, faça-os caírem de joelhos à sua frente, pedindo perdão por terem atacado. Dobre os seus corpos com sua fé, meu Pajé Branco! Lute por mim, que não posso lutar mais. Lute com sua Estre­la, pelos filhos que eu guardo no meu ventre. Lute pela sua Sereia Encanta­da, Pajé Branco. Ela espera que o seu guerreiro vença mais esta luta, com sua Estrela Encantada. Eu rezo a Tupã pela sua vitória. Sei que é mais forte que eles. Eles são só vento, você é vida e força. Sua Estrela agora não pode ser olhada, pois seu brilho cega, Pajé Branco. Então, eles também estão cegos, dobre-os agora. Não os deixe fugirem! Busque-os com sua Estrela, Pajé Branco. Eu sei que estão com medo de você. Agora eles temem a você, pois a Estrela Encantada é sua. Vença por Raios-de-Lua, e pelos filhos que Tupã lhe envia. Lute e volte, e nunca mais precisará lutar com eles, pois, aí, eles o temerão e o servirão por toda a eternidade. Eu rezo por você, Pajé Branco, e espero sua volta.

Depois destas palavras, os soluços viraram um pranto alto. Ela não podia controlar seus sentimentos, suas lágrimas caíam no rosto frio do seu amado.

O Pajé estava calado. Raios-de-Lua era o seu nome. Ela brilhava sobre ele, na penumbra, como uma lua enviando sua luz para guiá-lo na escuridão.

Sarah, que estava acordada há tempo ouviu todas as suas pala­vras em silêncio. Quis dizer algo, mas o Pajé, com um sinal, fê-la calar-se. Não era hora para falar. Agora tinha que se fazer silêncio.

A Sereia Encantada fez Raios-de-Lua cantar o seu canto de luta. Era o canto da vida, o canto do amor, o canto que encantava a quem o ouvia. E ela cantava pelos lábios de Raios-de-Lua. Como era lindo o canto da Sereia Encantada! O velho Pajé não tinha ouvido nada igual em toda sua vida. Nenhuma magia era tão linda, ou forte, como o canto da Sereia. De seus olhos, já cansados pelo tempo, corriam lágrimas. A Sereia também o encantava com seu canto. Como ela era linda de ser vista! Agora estava sobre Sarah e Raios-de-Lua. Cobria-as com seu manto azul. Sua luz brilha­va tanto, que envolvia a todos. O Pajé Branco era um homem de sorte, pensou. Ali, ao seu lado, estavam duas mulheres que o amavam, e o Espí­rito do Mar. A Sereia Encantada também o amava. Sim, ele ganharia a luta, pelo amor que as três tinham por ele. O guerreiro empunhava a sua arma, a Estrela da Guia. O Pajé então, pôs a mão no seu rosto, que estava quente como fogo. Foi até Sol-da-Manhã, que também estava quente como fogo. Seus filhos voltariam vitoriosos. A luta estava ganha!

Depois de algum tempo, a Sereia foi sumindo devagar, até desa­parecer por completo. Raios-de-Lua parou de soluçar, enxugou os olhos, e só então notou que o Pajé Branco estava quente. Era um calor agradável, aquele que saía de seu corpo. Foi até Sol-da-Manhã e sentiu seu corpo quente também.

Pajé, eles venceram. Os corpos não transpiram mais e estão quentes. Não precisam de calor, têm calor para nos dar.

Sim, filha, eu sei. Eu vi a Sereia do Pajé Branco. Ela saiu de dentro da Estrela e ficou sobre vocês. Ela é linda e seu canto me encantou. Nunca tinha visto nada igual. Estou contente.

O menino falou também:

- Pajé, eu também vi o Espírito da Água. É muito bonita. Ela sorriu para mim, Pajé. Você viu, Lua Branca?

- Sim, eu vi e achei muito bonita. Ela encantou a todos nós,

penso eu.

Sim, acho que estamos todos encantados agora - falou Sarah.

Você a viu, Sarah? - perguntou Raios-de-Lua.

- Sim, eu a vi. Ela cantava, através de você, para o seu filho Pescador. Agora vou me levantar, ele já não precisa mais ser aquecido, logo estará de volta. Suas lágrimas de amor o aqueceram, Raios-de-Lua.

-Nosso amor o aqueceu e deu forças para ele vencer. Fique, e se aqueça você em seu calor, agora.

Não, é seu marido. Ele deve encontrar quem o ama ao seu lado, quando voltar.

Então, vai encontrar a quem o ama quando voltar. Vamos ficar as duas nos aquecendo no seu calor.

O Pajé pegou o menino nos braços e falou:

- Vamos, criança. Vou contar sobre a verdadeira magia do amor, a única que devíamos conhecer.

Saiu levando o menino consigo. Era um velho feliz. Vira a Sereia do Mar ainda em vida. Quem sabe, quando partisse para os campos eter­nos, não a encontraria novamente? Estava muito contente.

Algum tempo depois, o Pescador abriu os olhos: estava voltando à vida novamente. Sol-da-Manhã também acordara e foi logo dizendo:

Você venceu, Pajé Branco. Agora eles o temem.

Nós vencemos, meu irmão! Eles temem a nós dois agora. Não virão mais, a não ser que sejam chamados, e eu não pretendo chamá-los nunca em minha vida.

Então notou que as duas mulheres estavam ao seu lado.

Eu agradeço sua ajuda. Não sei como agradecer às palavras, ou lembranças, que me chegavam de longe, dando ânimo para vencer. Não sei como, mas alguém levou-me a Estrela até lá.

Bom, vou me levantar agora - falou Sarah - acho que está tudo bem agora.

Por que não fica mais um pouco, Sarah? Eu não sinto ciúme de você. Ajudou a salvá-lo, pode ficar junto a nós.

Não, é melhor eu me levantar e deixá-los sozinhos.

Pajé Branco, ela tem vergonha de você. Se você pedir, ela fica junto de nós.

E você quer que ela fique junto de nós?

Sim, mas ela só fica se você pedir. Não adianta eu mandar.

Fique um pouco conosco, Sarah, eu lhe peço. Seu calor me salvou quando eu precisava.

Sarah tornou a se aconchegar junto ao Pescador. Era bom ficar junto dele, pensou.

O Pescador passou o braço sobre seu ombro e a acolheu. Outro braço estava sobre os ombros de sua esposa.

Cada um tinha no que pensar naquele momento: Raios-de-Lua pensava na partida; o Pescador, na vitória contra os espíritos do ar; e Sa­rah, em como seria bom ter alguém para aquecê-la também. Foi quando Sol-da-Manhã falou:

Pajé Branco, eu gosto de Lua Branca. Vou querer ficar com ela para sempre.

Deixe isto comigo. Eu arrumo tudo para você. Quando o pai vier buscar o menino e ela, vai levar somente o menino. Ela fica!

Será que meu pai deixa eu ficar? - perguntou Lua Branca.

Se eu já conheço um pouco o Pajé Branco, ele deixa - disse sorrindo o índio - Até agora não vi ele falhar, e não vai ser comigo que vai acontecer, não é, meu irmão?

Não falharei, não, meu irmão. Ela fica, só levam o menino - e deu uma gargalhada. Todos o acompanharam nos risos.

Raios-de-Lua perguntou a Sarah e a Lua Branca se queriam saber como conquistara o coração do Pajé Branco. Elas concordaram em ouvir a sua história.

Quando Pajé Branco apareceu aqui, eu não passava de uma menina. Depois que salvou meu pai e o velho pajé, eu ficava a olhar, à distância, aquele homem branco com tantos cabelos no corpo. Era diferen­te de nós. Não brincava, nem sorria. Era muito sério e triste. Eu não tinha coragem de chegar perto. Então, escondida, eu ficava a espiá-lo, sem que me visse. Quando meu pai comentou que gostaria de dar um presente a ele, mas um presente que agradasse, eu pedi a meu pai que me desse em casa­mento ao Pajé Branco. Meu pai olhou para mim e perguntou se eu sabia o que estava dizendo. Respondi que sim, que o achava muito triste e solitário e que poderia torná-lo um homem feliz com meu amor. Meu pai, que gos­tava do Pajé Branco, pensou um pouco e depois concordou. Afinal, agra­daria a mim e poderia retribuir ao que recebera do Pajé Branco com um presente de igual valor: alguém que queria dar a ele alegria e prazer de viver. Assim seria não só um homem com poder, mas também feliz.Depois de tudo feito e casada, não sabia como fazer o Pajé Branco me tocar. Eu estava infeliz, não conseguia agradar a ele e não podia falar com meu pai, pois isto o ofenderia, pela recusa do presente que recebera e não usava para ser feliz. Então, fui falar com o Pajé velho. Ele era sábio, iria me ensinar como conquistar o amor do Pajé Branco. Depois de contar tudo, ele ficou em silêncio. Eu esperava sua resposta, até que ele falou:

Filha, tem alguns homens que não sabem cultivar a terra, por­que nunca aprenderam, e não sabem como plantar suas sementes. A estes, a terra precisa acolher, ainda que de forma imperfeita, sua semente e dar-lhes toda sua força de vida para que sintam vontade de plantar mais, e, com o tempo, vejam que é fácil plantar. Basta ir aprendendo, cada vez mais. Existem outros que até sabem como plantar, mas têm medo de violar a terra, acham que não devem tocá-la por ser uma terra virgem, e que seria melhor plantar em uma terra já cultivada, o que seria mais fácil, pois não teriam que arar a terra primeiro e virá-la, para depois plantarem. Acham que a terra ainda virgem não deve ser tocada. E há ainda outros que não sabem plantar suas sementes, mas gostariam. Porém, como a terra é nova e virgem, não têm coragem. A terra é fértil, mesmo que mal cultivada da primeira vez. O lavrador experiente, que ama a terra e sabe revirá-la corre­tamente, faz com que ela se sinta contente, e dê boa colheita. Qual o seu lavrador, filha?

- Acho que é o terceiro, Pajé velho - respondi.

- Então, a terra tem que atrair o lavrador com sua força, e ir fazendo com que ele tome a iniciativa de lançar sua semente, como no primeiro caso. Depois, deve agir como no segundo caso, mostrando que não quer ficar virgem, senão não adianta ser uma terra boa e ficar incultivada E por fim, mostrar que ele revolveu a terra de forma errada, e não conseguiu plantar bem suas sementes. A terra está lá ainda fértil, esperando que ele, numa segunda vez, are melhor e, então, sinta o prazer de plantar correto sem ofendê-la, pois o que ela quer é ser cultivada. Basta ele tentar novamente.

Eu agradeci ao Pajé e fiz como ele falou. Deu certo. Eu con­quistei o meu lavrador que agora vai colher os seus frutos. Espero que ele goste dos frutos que vai colher. Sol-da-Manhã, vamos falar com meu pai sobre seu desejo de se casar com Lua Branca? Ele também precisa aceitar, para que tudo saia bem.

Esperem, eu vou com vocês - falou o Pescador.

Não, você fica mais um pouco com Sarah e explica a ela como a terra que foi mal cultivada pode voltar a ser fértil. Basta que ela deixe que o lavrador lhe abra novamente os sulcos e plante corretamente. Então, ela dará bons frutos.

E por que você não explica? Você sabe melhor do que eu como a terra deve e gosta de ser cultivada.

Só o lavrador pode explicar para a terra. Uma terra não pode ensinar à outra como é o cultivo.

Raios-de-Lua saiu e deixou os dois a sós. O Pescador se levantou também. Não gostara do rumo da conversa. Tinha a impressão de que a sua mulher estava tramando algo. O que pretendia ela com aquela conversa toda? Estava falando como o velho pajé da aldeia. Foi quando os seus pensamentos foram interrompidos pela pergunta de Sarah.

- Você vai sair, Simas?

Este olhou para ela e viu que ela estava toda encolhida, embaixo da manta de couro. O olhar mostrava uma insegurança e um medo muito grande.

Sim, Sarah, vou sair. Eu percebi o que Raios-de-Lua pretende. Ela acha que, por estar nesse estado, me deixa infeliz. Então, quer me agradar, conduzindo-me a você. Mas não é isto que eu quero, sinto que não devo trilhar este caminho.

Mas eu não quero nada além de um pouco de apoio, Simas, só isto, nada mais - buscou as últimas palavras e ainda tinha coragem para dizê-las, pois estava envergonhada do que estava fazendo.

Sabe, Sarah, quando eu a vi em sua casa, meu coração acele­rou, meu sangue circulou mais rápido pelas veias. Vi que você não mudara nada, amadurecera, mas estava mais linda. Não sabia, ao certo, o que pen­sar.

Por que me convenceu a acompanhá-lo até aqui, Simas?

Porque você estava morta por dentro. Eu achei que poderia ajudá-la, tirando-a daquele lugar. Trazendo você até aqui, poderia mudar os seus pensamentos mais íntimos.

Mas você me ajudou bastante, creia-me. Vi aqui muitas coisas que alteraram o que eu sentia no meu íntimo.

Sim, eu creio que você tenha mudado, mas como posso ajudar e não magoá-la, como já fizeram uma vez com você. Eu não a trouxe com esta intenção, e não quero ter em minha consciência este pecado.

Seria pecado amar um pouco a quem o ama, Simas?

Não vê que eu tenho uma mulher a quem eu respeito, Sarah? Eu não quero magoá-la também. Ela merece todo meu respeito, apesar de que eu não sei muito bem o que ela pretende com isto.

Desculpe-me, Simas, mas eu não pretendia criar problemas. Não sei como deixei que acontecesse. Perdoe-me. Já fez muito por mim -e levantou para se vestir. Não se sentia bem em andar como as índias, apenas com uma tanga a cobrir-lhe o corpo.

Simas ficou observando-a, enquanto se vestia. Sim, amadurece­ra, mas estava mais linda agora. Ao perceber que era observada, Sarah corou de vergonha. Que situação! Pensou: fazia o pior papel de sua vida, o de uma mulher sem valor.

Após se vestir, saiu apressada em direção ao rio. Chegando lá, o pranto brotou de seu peito como um vulcão que não podia ser contido. As lágrimas queimavam-lhe as faces. Que tola havia sido ao pensar que pode­ria ser feliz!

Enquanto isto, o Pescador ficara pensando em sua oca: "Que situação difícil! O que estava ele fazendo de certo, ao trazê-la para junto de sua mulher? Só podia dar no que deu. Amava Raios-de-Lua, que era sua esposa, mas também gostava de Sarah. Como viver na ilusão de que pode­ria ajudar a uma, sem magoar à outra? Era errado, e também um pecado. Já tinha um débito muito grande perante Deus, para adquirir mais um. Melhor cortar agora qualquer esperança em relação a Sarah, para não se arrepender amargamente no dia do seu juízo perante o Criador". Saiu apres­sado e se embrenhou nas matas, queria ficar só. Tinha muito no que pen­sar, e o melhor seria ficar só.

Voltou para a aldeia quando o sol já se escondia no horizonte. Estava se sentindo melhor, com as emoções controladas.

Ao entrar em sua oca, Raios-de-Lua estava triste. Perguntou-lhe o que havia acontecido, e ela não respondeu.

- O que houve, Raios-de-Lua? Por que fica aí, tão calada? Não respondeu à minha pergunta?

Sarah foi embora! Foi isto o que aconteceu!

Como disse? - perguntou o Pescador atônito.

- Ela foi embora. Pedi a meu pai que mandasse alguns guerreiros acompanhá-la até à missão do Padre. Lá, ela pedirá a ajuda dele para chegar até a casa de seu pai, na capital.

Mas por que ela foi embora? Não havia motivos.

Havia, sim. Você é o motivo!

Por que eu?

 

Você a trouxe até aqui para ajudá-la, não? Fez com que come­çasse a se sentir mulher novamente e, quando era a hora de dar a ela con­fiança, você negou.

Eu neguei? Como pode me dizer isto? Eu agi de acordo com meus princípios. Fui educado assim desde que me recordo, quando ainda era uma criança. Sei a diferença entre o certo e o errado.

Mas não sabe a diferença entre o amor e o desprezo.

O que está insinuando com estas palavras?

Que, trazendo-a de volta à vida, quando ela tentou viver, ainda que por um momento, você a negou. Se era para isto que fez tudo o que fez, então não devia ter feito nada.

Você não compreende que eu não queria magoá-la mais do que um dia fora magoada? Será que é tão difícil entender isto, Raios-de-Lua?

É muito difícil! Ela só veio até aqui porque ainda o ama. Fez tudo o que você pediu que fizesse porque confiava em você. Sujeitou-se a aquecê-lo na hora em que estava frio, tendo que se submeter a nossos costumes, apenas porque era para o seu bem. Não queria que você morres­se, porque, se fosse em outro homem que tivesse que se encostar, ele morreria, pois ela não teria coragem. Depois de tudo isso ela se sentiu mulher novamente. Eu sou mulher e sei o que é se sentir mulher. Ela só queria um pouco de amor e carinho de quem ela amava e confiava. Você era a única pessoa que poderia ajudá-la. O Pajé não poderia, o Padre tam­bém não, nem o pai ou o irmão poderiam, pois o tipo de mágoa que ela carrega só sai com o amor de quem se ama. E isto você negou, e ela se sentiu humilhada. Como um dia lhe tiraram o prazer da vida, hoje você se negou a devolver-lhe este mesmo prazer.

O Pescador havia sentado. O mundo desabara sobre ele. Estava com a cabeça entre as mãos. Por fim, levantou a cabeça e olhou para Raios-de-Lua. Não era sua tão meiga mulher que lhe falava, mas alguém que entendia dos sentimentos de um ser humano que sofre a dor na alma. Sim, errara duas vezes. A primeira em trazê-la, pensando que a ajudava, e a segunda ao negar-se a dar-lhe um pouco de confiança em si mesma, como mulher. Tudo estava errado. O tempo das lágrimas chegara. Este era o tempo, tinha certeza agora.

Vou atrás dela, Raios-de-Lua. Creio que devo tentar me descul­par, ao menos.

Não adianta, Pajé Branco. Uma mulher, quando se sente recu­sada por quem ama, nunca mais é a mesma.

- Ainda assim, eu vou tentar.

Faça o que achar melhor. Só não vá magoá-la mais, já que você entende tão pouco do amor.

Não fale assim. Se a recusei, foi por amar muito a você, mais do que a ela! - exclamou ele bravo e ofendido.

- Desculpe, eu não quis ofendê-lo.

Raios-de-Lua se excedera em suas palavras. Foi até ele e o abra­çou.

- Você tem razão, Raios-de-Lua. O que eu entendo realmente do amor? Sei tão pouco do amor, que tenho comigo o maior dos pecados diante de Deus. Se realmente amasse a meu pai, teria confiado no que ele estava fazendo, e não o teria entregue à morte. Sim, é isto mesmo, entendo muito pouco do amor.

Despediu-se de sua mulher e partiu às pressas. Com um pouco de sorte, ainda a alcançaria na igreja do arraial.

Cavalgou a noite toda. Ao amanhecer estava chegando. Apeou do cavalo e procurou pelo Padre. O velho Jorge disse-lhe que o padre partira com a moça, há cerca de uma hora.

- Vou atrás deles, velho Jorge. Até logo!

- Seu cavalo não vai agüentar, amo branco. Está muito cansado. O senhor o forçou demais.

Mas eles não devem estar muito longe.

Melhor o senhor trocar de cavalo, e depois ir.

É, tem razão, não adianta forçar mais o pobre animal.

Após conseguir outro cavalo, partiu a galope, Ia cavalgando como um desesperado. Viajara a noite toda a cavalo, estava cansado, com o cor­po dolorido, mas a alma o empurrava com força em sua vontade de con­certar o erro que cometera.

Por volta do meio dia, alcançou-os.

Pararam os cavalos. O Pescador estava com a aparência horrível e Sarah com o rosto desfigurado pela tristeza e vergonha.

Bom dia, Padre. Bom dia, Sarah!

Bom dia, Pescador. O que faz por aqui, cavalgando como um doido? - perguntou o Padre.

Padre, eu gostaria de conversar um pouco, a sós, com Sarah. Tenho algo a esclarecer com ela.

Como queira, Pescador. Eu os espero mais adiante.

Os dois, o Pescador e Sarah, ficaram olhando o Padre se afastar. Um não tinha coragem de encarar o outro. Por fim, o Pescador falou:

- Sarah, eu vim pedir desculpa. Desça e vamos conversar um pouco.

- Eu não tenho vontade de conversar, Simas. Gostaria de não estar aqui.

O Pescador apeou e foi até ela. Estendeu-lhe a mão.

- Está bem, Simas. O que quer falar? - disse ela, descendo do cavalo.

Vamos até à sombra. Eu quero que me perdoe por não ter compreendido os seus sentimentos. Acho que errei muito com você.

Não, Simas, você não errou. Eu é que fui uma tola ao pensar que encontraria a felicidade vindo até aqui, com você. Era só uma ilusão. Eu estava enganando a mim mesma. Não nasci para ser feliz, o mundo me nega este prazer.

Não é bem assim, Sarah. Eu a amo e sempre a amarei. Quando a convidei para vir comigo foi porque fiquei muito triste ao vê-la infeliz. Pensei que pudesse fazê-la reviver novamente, trazendo-a comigo para que conhecesse uma vida nova. Dói na alma ver quem se ama sofrendo tanto. Minha intenção não foi de magoá-la. Se eu imaginasse que isto iria aconte­cer, prefereria a morte, a ter comigo esta culpa. Jamais pensei em magoá-la. Acredite-me!

Não precisa se justificar, Simas. Eu também estava enganada. Sabia que você tinha uma esposa e, ainda assim, pensei que acharia a feli­cidade. Se tivesse ficado ao seu lado por uns poucos dias, e se você tivesse me amado, eu seria mais infeliz, pois não iria querer me separar mais de você. Então, quem se magoaria seria Raios-de-Lua. Um amor não pode ser conseguido às custas do sacrifício de outro amor. Não seria amor, apenas paixão, o que nos marcaria para sempre. Eu provavelmente ficaria me achan­do a mais sem valor das mulheres no mundo, estaria marcada para sem­pre. A educação que recebi não é igual à dos índios. Somos diferentes não so na aparência, mas no modo de amar também. Raios-de-Lua foi muito generosa dividindo o seu amor comigo. Não sei se teria a sua coragem para tentar nos unir, somente para me fazer feliz.

Eu não a abracei porque também fui criado diferente, Sarah. Formei-me sacerdote e falhei como tal, mas as marcas ficaram em mim, e nunca sairão de meu caráter. Quando me casei com Raios-de-Lua, não tinha escolha: ou casava, ou morria, pois não se recusa um presente de um cacique índio. Mas, com o tempo, eu passei a amá-la. Amo-a muito, de verdade, mas também amo muito a você. Apenas, não fiz o que ela queria, porque fui ensinado que esposa só existe uma. Se há duas, são amantes, e isto viola os princípios sagrados. Não porque não a desejasse, mas por medo de cometer mais um pecado, entre os muitos que já cometi. Errei com você, como tenho errado em toda a minha vida. Agora, não serei mais feliz com Raios-de-Lua.

Os olhos do Pescador estavam úmidos de lágrimas. Aquelas pa­lavras exprimiam os seus sentimentos.

Não fale assim, Simas. Ela merece todo o seu amor. Talvez, mais que qualquer outra pessoa no mundo, ela o mereça. O que ela quis foi nos fazer felizes, porque sabe dos nossos sentimentos e quis dividir o seu amor tão generoso comigo. O encanto dela está aí, Simas: sua generosida­de é maior que a nossa. Isto a torna mais merecedora do seu amor. Não a magoe com os seus sentimentos.

Não, eu não a magoaria por nada deste mundo. Eu disse que provavelmente, não seria mais feliz com ela, porque eu errei com você. Como ela mesmo disse, uns a magoaram por tirar-lhe a oportunidade de ser feliz e eu a magoei porque, quando teve coragem para ser mulher, eu lhe neguei este prazer. Quem morreu agora fui eu, Sarah.

Sarah o abraçou com carinho e disse:

Não diga isto, Simas. Você não morre, apenas está ferido em seus sentimentos, nada mais. Não sofra! Por minha causa, tantos já sofre­ram. Eu não gostaria de também vê-lo sofrer por minha causa.

Sabe, Sarah, eu não sei como agir com uma mulher, mas gos­taria de, ao menos, guardar comigo para sempre o prazer de beijá-la. Ao menos isto, eu gostaria de guardar comigo.

Então, por que não me beija, Simas? Eu também gostaria de ter essa lembrança comigo. Seria o meu motivo para continuar vivendo, mes­mo sabendo que você não me pertence.

Beijaram-se. Foi um longo beijo. Os anos de espera não conta­vam mais. Ficaram por longo tempo abraçados, sem nada dizerem. Nada precisava ser dito naquele momento.

- Ei, vocês dois, vamos decidir logo isto: ou vamos, ou volta­mos. Ficar no meio do caminho é que não podemos - era o Padre que se aproximava, sem que percebessem.

Oh! desculpe Padre, esqueci do senhor - disse Sarah.

Todos se esquecem de mim. Ainda bem que eu não esqueço de quem senão os largaria aí e voltaria para minha paróquia agora mesmo.

Padre, desculpe-me por tê-lo feito esperar tanto, mas não vou mais tomar seu tempo. Pode ir, que já eu o alcanço - falou Sarah.

Simas, volte para sua esposa e fique com ela até ela dar à luz a seus filhos. Eu converso com meu pai e, se ele precisar de algo de você, eu venho avisar. Não se preocupe com nada. Nós cuidaremos de tudo para você, na capital.

Obrigado, Sarah. Deus há de recompensá-la por ser tão boa comigo. Diga a seu pai que logo irei ter com ele. Quando seu irmão voltar, mande me avisar. Está bem?

Está bem, Simas. Vê? Eu sou outra mulher agora.

Fico feliz de não ter falhado de todo com você, Sarah.

Você não falhou. O momento certo não era aquele. Até à vista, Simas!

Até à vista, Sarah! Que a boa Estrela também a faça feliz, como um dia me fez.

Assim espero.

Sarah partiu a galope atrás do padre. Ao alcançá-lo, este pergun­tou:

Pescou o peixe, filha?

Não o pesquei ainda, Padre, mas também não o deixei escapar. Raios-de-Lua venceu no final.

É. Vocês, mulheres, são mesmo umas serpentes tentadoras a atormentar a vida dos homens - e deu um sorriso.

Sarah também sorriu. Ainda que triste, pois se lembrou de que logo ele estaria a chorar.

 

O REGRESSO DE SARAH

(PARTIDA DE RAIOS-DE-LUA)

O Pescador voltou para a aldeia. Nada lhe foi perguntado e nada disse, mas parecia calmo quando chegou.

Quando o Cacique Pedra Negra veio buscar seu filho, o Cacique da aldeia o recebeu com uma grande festa.

Pedra Negra ficou feliz quando viu o menino curado, correu a abraçá-lo. O menino correu ao seu encontro. Era um homem feliz. Voltou para junto do outro cacique e sentaram-se para conversar. O Pescador se aproximou e sentou também junto a eles. O Cacique Pedra Negra falou:

- Pajé Branco, eu agradeço por ter curado meu filho. Não sei como recompensá-lo.

Mas eu sei, Cacique Pedra Negra.

Como, Pajé Branco?

Olhe à sua volta. O que vê?

Festa, é o que vejo, e fico feliz com a festa de nossas aldeias. Não vai mais haver luta entre nós.

Eu confio em sua palavra, mas, para ter certeza disso, eu gos­taria de pedir algo.

Pois peça. Se eu tiver, eu dou.

Eu quero sua filha.

Para você, Pajé Branco? Já não tem companheira?

- Não é para mim, é para meu irmão Sol-da-Manhã. Ele gosta de sua filha e ela gosta dele. Querem se unir. Se suas palavras são verdadeiras, de que não vai mais haver luta e sim festa, dê, então, esta alegria para meu irmão Sol-da-Manhã e sua filha Lua Branca. Haverá então muita festa, e paz entre as duas aldeias, pois o perigo está se aproximando pelo mar.

- Como assim, Pajé Branco?

Do mar vêm os brancos portugueses, com seus navios. En­quanto vocês guerreiam, eles vão tomando suas terras. Então, una sua filha a Sol-da-Manhã, e fiquem para enfrentar os portugueses que vierem tentar tirar vocês daqui.

Você fala verdade, Pajé Branco. Meus guerreiros já viram mui­tos guerreiros brancos. Eles são maus.

Olhando para o cacique da aldeia, perguntou o que ele achava.

- Nós somos irmãos, eles não. Então, que nós vivamos em paz, para resistir a eles.

Quando o Cacique Pedra Negra consentiu a união de sua filha com Sol-da-Manhã, todos ficaram felizes. Não haveria mais guerras entre eles Fizeram muita festa. Era a primeira união, outras viriam com o tempo."0 Pajé Branco conseguiu novamente" - pensou Raios-de-Lua.

No dia seguinte, Sol-da-Manhã veio até à oca do Pescador para agradecer:

Obrigado, Pajé Branco! Você me tornou um homem feliz nova­mente.

Por que feliz novamente? Você era quieto, diferente dos outros guerreiros, mas não sabia que era infeliz.

Três anos atrás eu tinha companheira, mas, em guerra com Cacique Pedra Negra, ela foi morta. Então, eu não quis mais companheira. Quando você apareceu, eu comecei a acompanhá-lo, vi muitas coisas, en­tão mudei de idéia. Quando vi Lua Branca, meu sangue correu forte. Eu a queria, e você, com seu poder, conseguiu que ela fosse dada a mim. Agora sou feliz, tenho uma boa companheira e estou vingado. E a filha do homem que massacrou nossa aldeia.

-Não fiz nada de mais, meu amigo. Você é muito bom comigo. É o irmão que não tive - falou o Pescador.

- Pajé Branco, eu vou passar uns dias na aldeia dela, depois eu volto. Se precisar de mim, basta chamar.

- Está bem, meu amigo. Você merece um pouco de descanso também.

Os dias foram passando lentamente. A ansiedade tomara conta do Pescador, mas também a tristeza. Vivia solitário na aldeia, sentia que algo não ia bem em sua vida. Não se sentia assim desde que encontrara sua Sereia do mar. Tinha certeza, agora o tempo das lágrimas chegara, só não sabia como seria, mas a cada dia se sentia mais triste.

Uma tarde, o velho Pajé se aproximou e perguntou:

- Filho, o que o atormenta?

- Não sei, meu amigo. Sinto-me vazio, como se o mundo não existisse. Não vejo motivos para viver. Não tenho vontade de ficar na al­deia, e sim de partir. Era o que sentia, até aparecer a Sereia.

O Pajé falou mais algumas palavras e foi embora. Procurou Rai­os-de-Lua. Precisava saber o que tinha acontecido com o Pajé Branco, nunca o tinha visto daquele jeito. Ao encontrá-la, foi logo perguntando:

- Minha filha, o que houve com o Pajé Branco para ter mudado tanto?

Eu fui culpada, Pajé velho. Queria que fosse feliz após a minha partida, e o que consegui foi magoá-lo. Eu errei em pensar que era como os outros. Ele não é! Pensei em arranjar-lhe uma companheira antes de partir, e o que fiz foi afastar dele a única a quem ele procuraria depois de minha partida. Não teria coragem de procurá-la antes. Eu vou partir triste, Pajé velho - e encostou sua cabeça no peito do velho Pajé, chorando.

Não chore, filha. O tempo vai acomodar tudo, fique tranqüila. Eu o ajudarei quando for preciso.

Por que eu tinha que falar que ele não sabia amar? Toquei em sua ferida, Pajé velho. Foi sem querer, mas agora ela está sangrando.

Ora, filha, as feridas se curam com o tempo. Não se culpe. Você fez o que achou melhor, só isto e nada mais.

E o Pajé ficou em silêncio. Sim, como curar uma ferida, se ela está na alma e não na carne? Somente o tempo poderia fazê-lo.

No dia seguinte, ao entardecer, quando o Pescador se encontrava sentado à beira do rio com o olhar perdido nas águas que corriam a seus pés, Raios-de-Lua aproximou-se, sentando ao seu lado.

O que tem o Pajé Branco, que fica tão só? Não gosta mais de Raios-de-Lua?

Sim, eu gosto de você, mas é o passado que volta para me buscar.

- Lute contra o passado. Você vence, como já venceu muitas lutas.

Esta luta, eu já perdi há muito tempo. O que eu amargo em meu coração é a derrota. Não posso esperar a vitória naquilo que eu já perdi, Raios-de-Lua.

Eu sou culpada por você voltar ao passado. Quero que perdoe minhas palavras daquela noite, Pajé Branco. Não queria que sofresse mais. Eu fico muito triste ao ver você assim, parado no lado escuro de sua vida. Volte para mim, Pajé Branco! Eu o quero como era antes, não como está agora.

Eu sou o mesmo, minha querida, porém agora mostro realmen­te como sou: vazio e triste.

Eu o quis um dia, porque você era um guerreiro. Não um guer­reiro que com suas flechas tira a vida e traz lágrimas, mas sim o guerreiro que luta com uma arma que poucos têm. É a arma que traz a vida e a alegria a quem é atingido por ela. Foi por isto que eu o quis e o amei, e sempre amarei. Você traz a vida a quem passa pelo seu caminho. Não volte ao passado, agora que eu mais preciso de você.

- Eu não vou abandoná-la, Raios-de-Lua. Eu a amo e nada me faria deixá-la. Prefiro morrer a perdê-la, mas tenho que viver com as mar­cas da minha derrota, não posso mais escondê-las. Elas estão expostas em minha alma. Só o tempo poderá apagá-las, e ainda não é esse o tempo. Tive apenas um momento de esquecimento, mas agora voltaram como chagas, que me fazem sentir muita dor. Logo voltarei ao normal!

Pode ser que, quando voltar, já não seja o mesmo, e então eu não poderei mais ajudá-lo a esquecer o seu passado. E serei a mais infeliz das mulheres em todo o mundo, ainda que esteja nos campos eternos de onde não há mais retorno.

Você não vai para os campos eternos, e eu não mudarei. É só eu apagar um pouco o passado de minha mente e volto a ser o que era. O nosso amor não morreu, ele nos mantém unidos.

Os primeiros sinais estão vindo. Logo chegam os filhos, acho que serão lindos como você.

Raios-de-Lua tentava resgatar o Pescador do passado.

- Eu também estou ansioso para vê-los, minha querida. Vamos voltar! Não é hora de pensar em coisas ruins.

À noite, chegaram à aldeia o Padre e Sarah. Estavam cansados, mas queriam estar juntos a Raios-de-Lua em sua hora mais difícil. O Padre, vendo o amigo abatido, perguntou:

O que está acontecendo?

Nada, meu amigo, apenas estou ansioso como todos pelo nas­cimento das crianças. Não é sempre que nascem três filhos de uma vez. Isto me deixa nervoso, temo por Raios-de-Lua.

Ora, relaxe. Nada vai acontecer de mal a ela. Cadê sua fé em Deus, meu amigo?

Padre, não sei dizer o porquê, mas sinto a presença da morte a me rondar.

Não diga bobagens. Como pode saber de algo que só a Deus pertence?

E por isto que não sei explicar o que sinto. Vamos aguardar os acontecimentos, então, quem sabe o pressentimento seja apenas um medo sem fundamento.

É isto mesmo! Vê se alegra esse rosto triste e abatido, meu amigo. Ela precisa de seu apoio nesta hora.

Sim, é isto mesmo. Só o senhor para me animar nas horas em que me sinto tão desamparado.

Sarah, como vai você? Não disse nada até agora. E como vai o

seu pai?

- Eu estou bem, Simas! Meu pai está fazendo aquilo que mais gosta: negócios. É outro homem, mais ativo e nem parece o mesmo. Não sei onde acha tanta energia. Meu irmão chegou pouco antes de eu partir para cá. Prefiro não falar nada agora, parece que cheguei no dia certo. Este é o momento de ficarmos juntos a Raios-de-Lua. E sua hora mais difícil, mas você ficará feliz com os negócios que ele fez para você. Mas, por que está tão abatido?

- Estou confuso, mas não vamos falar de mim agora. Fale-me de você.

- Eu estou bem. Tenho ajudado meu pai nos negócios. Achei uma boa ocupação para esquecer o passado. Sinto-me outra mulher agora. Tenho vontade de lutar, de viver, Simas!

- Fico feliz por você, Sarah. Já me perdoou?

- Eu não tenho o que perdoar. Não fale assim, pois me deixa triste novamente, Simas.

- Desculpe. Acho que estou tentando perdoar a mim mesmo.

Nisto ouviram um grito de dor. Foram rápido para perto de Rai­os-de-Lua, que estava pálida como a própria Lua, de onde vinha o seu nome.

Foi uma longa noite para todos. O Pescador havia despertado um pouco do passado. Pensava mais no momento e isto o preocupava. Preo­cupava também ao Padre, ao Pajé velho e Sarah porque, ainda que não quisessem crer, sabiam o que ia acontecer. E, para eles, era pior a espera.

O Cacique chegou também. Afinal, era sua filha quem daria à luz três filhos, e um seria um guerreiro, segundo o Pajé velho. Isto o deixava feliz, teria um descendente a quem dar o comando da tribo. Isto era certo, porque o Pajé jamais se enganava em suas previsões.

Ao amanhecer, as contrações se tornaram mais fortes. A hora estava chegando. As índias velhas, que sabiam o que fazer nestas horas, estavam à espera do momento de agir.

Quando o primeiro filho nasceu, o Pescador o chamou de Luiz, era o primeiro a vir à luz. O segundo filho, chamou-o de Pedro, aquele que seria a rocha da casa, e o terceiro deixou para que Raios-de-Lua desse o nome, pois parecia mais com um índio. Apenas os olhos eram como os seus, verdes como uma esmeralda, com um brilho especial.

Estava feliz. Os pressentimentos eram falsos, correra tudo bem. Era um pai feliz. Três vezes pai, de uma só vez. Deus tinha sido generoso para com ele. Teria uma boa descendência. Quem sabe da próxima vez também viessem outros três. Estava sonhando como todos os pais. Já pensava em um futuro para os filhos que mal tinham nascido.

Foi neste momento que, ao olhar para a sua Estrela, teve um sobressalto: ela estava totalmente apagada. O que acontecera com ela, que até o nascimento das crianças estava com uma cor azul cintilante? Foi até perto dela e fez suas preces em silêncio, como sempre fazia. Ela continuou escura, não dava sinal algum. Havia algo errado, talvez um prenúncio dos tempos de lágrimas. Eles não tinham acabado, ou talvez ainda estivessem por começar, pensou.

Raios-de-Lua estava descansando depois das horas de dor do parto. Estava muito abatida, sua respiração estava ofegante, tinha dificulda­des. Isto ele percebeu ao observá-la melhor. Um calafrio percorreu-lhe o corpo. Seria este o seu mau presentimento?

Foi atrás do velho Pajé. Algo não estava bem com Raios-de-Lua.

Ao chegar junto ao Pajé, este estava com o olhar perdido no espaço. Buscava algo que não se mostrava a ele.

O Pescador falou-lhe, interrompendo os seus pensamentos e ti-rando-o da sua abstração.

Pajé Anhanguara, estou preocupado.

O que o preocupa, filho. As crianças estão bem?

Não são as crianças, as outras mulheres estão cuidando bem delas. O que me preocupa é o estado de minha Raios-de-Lua.

O que tem ela, filho? - disse o velho Pajé com a sua voz rouca, quase sem conseguir falar.

Ela não está bem, eu sei disto, eu sinto que não está bem, e ainda por cima, a minha Estrela não responde às minhas preces, não mos­tra mais a sua luz, quando, durante a noite, brilhava muito. O que vai acon­tecer, meu amigo? O senhor parece saber de tudo.

Eu espero um sinal de Tupã. Quero estar enganado, quero errar ao menos uma vez em minha previsão.

- Como assim, meu amigo?

Sinto que ela não vai resistir ao esforço, Pajé Branco - falou o velho Pajé com a voz embargada.

Meu Deus! Isto não pode acontecer. Não com ela! Deus não será tão injusto assim comigo. Não agora, isto não!

Acalme-se, filho. Não ofenda a Deus chamando-O de injusto. Se ela não resistir ao esforço, não será culpa de Deus, mas sim sua vonta­de.

Eu não quero crer nisto, não com Raios-de-Lua. Sem ela nada sou, Pajé amigo, compreende?

Sim, eu compreendo sua aflição, mas, se isto vier a acontecer, será pela vontade de Deus, não pela nossa.

- Vou voltar para junto dela. Vou orar com toda a minha fé. A Estrela há de responder, não pode me negar auxílio neste momento.

Eu vou com você, filho. Eu também a amo como a uma filha. Eu ajudei a criá-la, carreguei-a por muito tempo, quando ainda era pequeni­na. Era só motivo de felicidade para mim. Se ela se for, uma parte de mim também se vai. Fico menor depois disto. Meu peito já não poderá mais acolhê-la nos momentos de tristeza, quando vinha até mim. Seus momen­tos de alegria, eram meus momentos de alegria. Vamos unir nossas forças e, quem sabe, Tupã nos ouça. Afinal vivemos para servi-lo, não?

É, acho que é isto mesmo. Vamos unir nossas forças, tenho certeza de que nossas preces serão ouvidas.

Foram para perto de Raios-de-Lua, que estava agitada. O sono não descansava seu corpo. Era a agonia que se aproximava.

As horas foram se arrastando lentamente, e nada de Raios-de-Lua melhorar. O Pescador estava aflito, suas preces não chegavam até à Sereia. Por que sua Estrela não brilhava mais e se negava a responder-lhe?

Por volta das seis horas da tarde, ela abriu os olhos e pediu um pouca de água. Estava com a garganta seca, mal saía a voz.

Sarah deu-lhe um pouco de água, em pequenos goles. Ela olhou o velho Pajé. Seus olhares se encontraram e escorreram lágrimas em abun­dância. O Pajé não errara, como antes nunca havia errado, era o fim mes­mo... Não conseguia dizer nada.

Filha, não precisa se esforçar. Eu compreendo tudo, eu sinto a sua dor e sofro com você. Choramos para vir, e também para partir. Ao chegarmos, porque não sabemos o que vamos encontrar, e ao partir, por­que não queremos deixar o que encontramos.

Pajé, ajude-me! Faça com que meu espírito alcance os campos eternos da luz, não o deixe na noite eterna, vagando sem rumo.

Eu ajudarei, minha filha. Eu ajudarei.

E o Pajé se afastou. Tinha o que fazer por Raios-de-Lua e o faria melhor do que nunca. Era uma parte sua que estava sendo arrancada, e com muita dor.

Raios-de-Lua olhou para Sarah e, depois, para o Pescador.

- Pajé Branco, me deixe a sós com Sarah. Queria falar com ela sem ninguém por perto.

O Pescador saiu e ficou aguardando à distância. Estava trêmulo, as lágrimas afloravam com facilidade de seus olhos. O tempo das lágrimas havia chegado, da forma mais dolorida possível.

Sarah, não o perca para nenhuma outra mulher. Ele ainda vive a dor do passado que não consegue esquecer.

Eu tentarei, querida amiga. Não sei se conseguirei, mas tenta­rei.

Não tente. Lute por ele, como se nada mais existisse para você! Não deixe que meu Pajé Branco morra com o seu passado, ou agora comi­go. Eu não consegui fazer o que queria. Faça-o por mim e eu estarei sem­pre com você, apoiando-a.

Eu lutarei, Raios-de-Lua. Um dia você conseguiu o que queria. Eu também conseguirei! Não posso tomar o seu lugar no coração dele, nem substituí-la, mas o conquistarei. Isto eu prometo! Quando partir, não fique triste, pois eu farei tudo para ter o seu Pajé Branco.

Ele está perdido para mim, mas não quero que se perca para o seu passado. Precisa tirá-lo do passado, se quiser ganhar o seu coração.

Eu acharei uma forma. Isto eu prometo. Deus me mostrará o caminho que devo percorrer. Agora descanse. Você não pode se esforçar demais, minha querida Raios-de-Lua.

Sarah, eu só sinto não ter conseguido que ele ficasse ligado a você. Eu o magoei com minha tentativa. Não tive coragem de dizer a ver­dade, isto me deixa muito infeliz.

Mas quem disse que você falhou em seu intento? Ele me alcan­çou no caminho. Estava cansado e confuso, mas, ao final pediu-me um beijo como recordação a ser guardada como um tesouro. Eu também que­ria esta lembrança para mim. Foi o que me deu ânimo de viver. A semente plantada na terra não foi a que queríamos, talvez porque não fosse uma semente de amor, mas sim de desejo. O Criador foi quem plantou a sua semente, aquela que sai da sementeira pura, que é o amor verdadeiro, o amor que somente a alma pode exprimir.

Então, no tempo certo, o semeador voltará. Agora eu partirei tranqüila, disse Raios-de-Lua com um leve sorriso nos lábios. Chame-o para mim, Sarah, eu quero passar os meus últimos momentos junto a ele.

Sarah saiu para chamar o Pescador.

- Simas, ela quer vê-lo. Dê a ela o que ela sempre lhe deu. Nada mais ela precisa, neste momento.

O Pescador aproximou-se dela e tomou suas mãos com delica­deza. Não sabia o que dizer, a voz não saía, estava arrasado.

- Meu Pajé Branco, por que chora assim?

-Não quero que parta. Não me deixe agora, Raios-de-Lua, sinto-me tão só.

Eu nunca o deixarei, meu querido Cavaleiro da Estrela da Guia. Não é assim que os negros o chamam?

Sim, é assim que me chamam. Não sou mais o seu Pajé Bran­co?

Sim, é o meu Pajé Branco, e sempre será. Mas o Pajé Branco é só meu. Eu tenho o meu Pajé Branco! Os negros têm o seu Cavaleiro da Estrela da Guia. Então, os dois são meus.

Sim, os dois são e serão eternamente seus. Eu nunca a abando­narei. Você é minha força para a luta. Sem você, não há Pajé Branco, nem Cavaleiro da Estrela da Guia. Se morrer, eles morrem também.

Você não pode matá-los. Muitos ainda precisam deles. Cada um deles, com suas armas para defendê-los. Não os abandone! Eles não teriam outro igual. Não há dois iguais a você! Só você pode ser tantos em um. Era o Pescador da Sereia, depois o Pajé Branco, mais tarde o Cavaleiro da Estrela da Guia, que trouxe esperança ao coração daqueles que nada tinham, além da certeza da morte, sem nenhuma paz. Então, não pode deixá-lo morrer.

Eu não posso aceitar a sua partida, minha querida Raios-de-Lua. Eu não posso!

Você tem que aceitar. Eu parto para os campos eternos, mas deixo três em meu lugar. Eu me dividi em três por você, e isto me deixa feliz. Quantas partem e não deixam nada de si a seus amados. Mas eu não, deixo três pedaços de mim, para que, sempre que olhar para eles, se lembre de mim com amor.

Você não partirá, Raios-de-Lua. Sabia que, quando eu estava no centro mais profundo dos espíritos do ar, sua voz chegava até mim? Eu estava sem saída e sua voz me mostrou como vencê-los, dava forças que eu nunca tive antes e, quando eu já não via mais nada, umas gotas de água caíam sobre meus olhos e limpavam minhas vistas? Era sua voz e como era sentida! Que ânimo me deu para lutar e vencer! Eu lutava por você, minha querida. As mãos que me deram a Estrela para a luta, eram suas mãos, não eram outras. Eu venci para poder voltar para junto de você novamente.

De fato, eu clamei por você. Incentivei-o a vencer por mim, pois não queria perdê-lo, mas as mãos que levaram a Estrela até você eram da Sereia, isto todos viram. Eles viram sua Sereia aquecendo e dando luz a você, para que vencesse as Trevas que o envolviam, meu Pajé Branco.

Então, você é minha Sereia! Por isto eu a amo tanto. Eu tinha minha Sereia o tempo todo ao meu lado, e não sabia. Que tolo eu fui! Quando ia à capital, buscava a beira-mar para ver novamente a Sereia. Nunca a encontrei lá, porque eu a deixava aqui, junto da Estrela.

Não, eu não sou sua Sereia, sou Raios-de-Lua.

E quando acha que eu via a Sereia? Pensa que era de dia? Não, era quando a noite ia chegando, e a Lua despontava no horizonte. Ela apa­recia saindo da água. A Sereia vinha com os raios-de-lua. Você é a minha Sereia, o seu nome o diz, Raios-de-Lua!

Eu não sou sua Sereia, mas gostaria de ser. Assim apareceria à sua frente, sempre que fosse à beira-mar, só para encantá-lo e tê-lo nos meus braços.

Você sempre será minha Sereia. Aquela que, sem que eu percebesse, me encantou pela segunda vez. Eu sou um homem de sorte! Tenho uma Sereia em espírito e outra em corpo e espírito. Pena que eu não soube aproveitar minha sorte, que está se acabando.

Você continua com sorte. Agora terá duas sereias em espírito e outra em corpo e espírito a esperá-lo. Foi para mostrar isto que eu o ma­goei. Perdoe-me, pois eu queria vê-lo feliz. Sua felicidade é a minha felici­dade.

Como você quer que se chame o terceiro filho, Raios-de-Lua? Como ele é parecido com você! De mim, tem apenas os olhos verdes!

E os outros como são?

Lindos também. Todos trazem um pouco de você, mas o ter­ceiro, é todo como você.

Como chamou aos dois primeiros?

Ao primeiro, Luiz, ao segundo, Pedro, ao terceiro você dá o nome.

Eu não sei nomes na sua língua, e nem o que significam.

Então, dê um nome em sua língua, e este será o seu nome.

Cobra Coral, assim ele se chamará. Será como a cobra coral, a mais temida das cobras, aquela que vence todas as outras. Ele será assim: um temido guerreiro, que vencerá a todos os outros guerreiros.

Pajé Branco, posso interromper sua conversa com Raios-de-Lua? Quero vê-la também, antes de sua partida - era Sol-da-Manhã quem falava.

Sim, meu amigo, aproxime-se.

Raios-de-Lua, sinto não ter vindo antes. Fui avisado há pouco. Vim voando para vê-la em vida. Não nos deixe agora.

É hora de partir, Sol-da-Manhã. Raios-de-Lua vai embora, mas você tem Lua Branca, seja feliz com ela! Abrace-me, meu Pajé Branco, meu Cavaleiro da Estrela, que luta para dar vida aos outros. Quero sentir seu calor, pois estou sentindo frio.

O Pescador abraçou Raios-de-Lua com delicadeza. Ela pediu uma lembrança para levar para os campos eternos.

O que posso dar, Raios-de-Lua, se não quero que parta?

Beije-me, apenas isto eu quero.

E o Pescador a beijou delicadamente. Ela fechou os olhos ao ser beijada.

- Agora, tenho do que me lembrar. Abrace-me forte, meu queri­do.

O Pescador sentindo que a vida lhe escapava dos braços, a aper­tou contra o peito. Raios-de-Lua partira.

O pranto brotou do peito, as lágrimas lhe inundaram os olhos e escorreram pelas faces, caindo sobre o rosto de sua amada. Ela partia para sempre, e o deixava para trás. A tristeza o envolvia com seu manto negro. O Pescador naufragou, a Estrela se apagara. A sua Sereia partira novamen­te, deixando-o só no mundo. Não a encontraria mais. Acabava o Cavaleiro da Estrela da Guia, a Estrela da Esperança já não tinha motivos para lutar.

Ficou por um longo tempo com ela em seus braços. Por fim, levantou-se com ela ainda nos seus braços, e saiu de sua morada.

Foi rumo à morada do Cacique. Ao chegar, este o aguardava com os lábios travados pela dor no coração. Sua filha partira para os campos eternos. O Pajé Branco, que tanta paz trouxe à sua tribo, agora chorava sobre o corpo de sua filha.

O Pescador, após conter o pranto, falou:

Cacique amigo, um dia eu vim do nada e restituí sua vida com minha fé. Você me recompensou, dando vida a mim, através da sua filha. Agora, não tenho nada a lhe dar de volta, a não ser o corpo sem vida de sua filha. Sou o homem mais infeliz da terra. Morri com ela, volto a ser um homem sem vida.

Você devolve o corpo sem vida de minha filha, mas tem vida para me dar. Tem três filhos, e um dia um deles será o chefe desta tribo. Isto eu sei. Recebo com orgulho o corpo de minha filha. Até em sua partida ela foi generosa, deixando três vidas em troca. Ela me honra como filha. Eu sou um homem triste pela sua partida, mas um pai orgulhoso da grandeza de sua filha. Que Tupã a acolha nos campos eternos. Hoje eles ficam mais iluminados com sua chegada. Isto eu sei também.

Após a cerimônia fúnebre dos índios, o Padre se despediu do Pescador. Deu bons conselhos ao amigo de quem tanto gostava.

 

O TEMPO DE LÁGRIMAS

(A NOVA SEREIA)

Sarah preferiu ficar junto ao Pescador e aos filhos. Temia pelo seu estado. O manto negro da tristeza fechara-se totalmente. Não havia uma fresta, por onde pudesse entrar a luz. A cada dia ficava mais abatido. Não comia e não conversava com ninguém, olhava os filhos vez ou outra. Buscava em seus rostos Raios-de-Lua, como não a encontrava, se afasta­va. Era um ser morto a caminhar. De vez em quando, ia ao túmulo de Raios-de-Lua, e lá ficava a chorar.

Sol-da-Manhã chamou Sarah para uma conversa.

O que quer, Sol-da-Manhã?

Eu sei de alguém que pode curar o Pajé Branco.

Quem é?

- O Pajé Negro. Ele saberá como curar o Pajé Branco. Já o curou quando estava com a carne e o espírito feridos. Saberá curar agora, seu espírito e seu coração.

Então, vamos buscá-lo! Onde se encontra?

Nos engenhos do Pajé Branco.

Daí a pouco partiram a galope levando um cavalo extra. Iam em busca da cura para a dor do amigo.

Ao chegar no engenho, Sol-da-Manhã perguntou por Ruth.

- Ela foi até à casa do pai. Quer que eu vá lá chamar? - respon­deu um negro.

- Não, obrigado, eu sei onde é. Vamos até lá, será mais rápido. Em pouco tempo chegavam ao casebre. O velho João de Mina estava a esperá-los, sentado em seu banco.

- Salve, Pajé Negro! Venho em busca de ajuda. Esta é Sarah.

- Eu já te esperava, Sol-da-Manhã. O tempo de lágrimas chegou para o Pescador, não?

- Sim, mas como o senhor sabe? - perguntou Sarah.

- Eu já sabia há tempo. Avisei a ele que viriam estes dias, mas que nada poderia fazer, pois era a vontade de Deus, e esta ninguém pode mudar. Ruth, venha até aqui. Já estou com tudo pronto para partir - falou o velho negro.

Ruth saiu do casebre com os olhos inchados. Tinha chorado muito, a tristeza havia tomado conta da pobre mulher.

- O que é, pai?

Vou partir com eles para ver se trago novamente a vida ao Pajé Branco dos índios e ao nosso Cavaleiro da Estrela da Guia. Ele não pode morrer, não terminou sua missão ainda. O Cavaleiro tem que continuar sua cavalgada.

Que todos os santos o acompanhem, pai! Diga que sinto a perda de sua querida índia. Nós esperamos a sua volta. Se despediram e partiram. Iam mais devagar, pois o negro era muito velho e não suportaria uma cavalgada muito rápida. De tempo em tempo paravam para ele des­cansar.

Ao perceber que o índio e a mulher branca estavam impacientes, este falou:

- Vocês estão com pressa, más não se impacientem comigo. Eu sei que um tumor só pode ser apertado quando estiver maduro, sei também que a semente da fruta só será colhida para o replantio quando esta fruta estiver bem madura, quase podre, sei também que o balde só colhe água do poço se for dada toda a corda, até que ele atinja o fundo. Portanto, não se apressem, tudo tem sua hora.

Concordaram em se acalmar. O velho sabia o que estava dizen­do. Era um curador e um consolador dos escravos sofridos. Sabia o que era o sofrimento, e como curá-lo.

Quando chegaram, o Pescador não estava na aldeia. Sarah per­guntou por ele, mas ninguém sabia dizer onde se encontrava.

Sol-da-Manhã foi até o Pajé Anhanguara e apresentou o Pajé Negro. Os dois se abraçaram como se fossem velhos amigos: "Os pajés devem se conhecer" - pensou Sol-da-Manhã.

- Pajé velho, onde está o Pajé Branco?

- Lá na cachoeira. Como a cachoeira, está lá derramando suas lágrimas. Vamos até lá, eu os acompanho.

Ao chegarem, o Pescador não notou a sua presença. Estava olhan­do a água que caía do alto, sentado numa pedra.

- Como vai, Pescador?

Aquela voz o despertou do seu devaneio.

- Meu amigo! Como veio até aqui?

- Aqueles que te amam foram me buscar. Como eu também te amo, vim até aqui ver-te.

O Pescador abraçou ao amigo.

- Meu amigo João de Mina, veio para me curar novamente? Creio que desta vez não conseguirá. Da outra vez eu era um morto que queria viver, mas agora sou um vivo que quer morrer.

Eu não posso te ajudar agora, Pescador. Só tu podes te ajudar. Basta quereres!

Mas eu não quero viver, meu amigo. Eu quero morrer. Não tenho forças para lutar contra este desejo.

Vamos sentar, filho, pois já estou bem velho e já não agüento tanto esforço sem me cansar.

Sentaram-se e o velho João de Mina começou a falar:

Filho, lembras-te de quando chegaste?

Sim, eu me lembro.

Lembras-te, também, de como eu me encontrava quando vol­taste?

Sim, estava muito triste com a morte de seu filho, não tinha mais ânimo para viver.

Lembras-te do que aconteceu a seguir?

Sim, como lembro, aquilo me marcou para sempre!

Lembras-te de como eu aceitei o sinal que Deus me mandou para que não parasse com tudo e que continuasse com a minha caminhada?

Sim, eu me lembro. O senhor é um forte. Eu o admiro muito por isto. Gostaria de ser como o senhor.

Mas tu és como eu, só que não sabes. Foste um dia presente­ado com a Estrela do Mar, era o início da tua caminhada. Sem saberes, foste em frente. E a quantas pessoas não ajudaste com tua fé na Estrela? Muitas, não?

Sim, foram muitas, eu sei - respondeu o Pescador.

Então eu te disse, num dia em que ainda estavas triste e ferido no coração: eu sabia que o Cavaleiro da Estrela da Guia tinha chegado para trazer a paz aos que sofriam o jugo do chicote.

Isto eu também lembro que me disse um dia.

Eu falei também de quem te ajudou a encontrares tanta riqueza; não falei?

Sim, falou isto também.

Falei que te ajudaram porque serias o instrumento que usariam para atender aos nossos clamores, não falei?

Sim, isto também me falou.

Lembras-te dos nomes dos que te guiaram até onde havia o que era preciso para nos ajudar?

Sim, eu me lembro de todos, jamais os esquecerei.

Mas faltou um, não faltou?

Como assim?

Quem é a mãe no Panteão Africano? Lembras-te de que um dia eu te ensinei isto?

Sim, me lembro agora: Inaê, a Mãe D'água, a Sereia do Mar, a Senhora da Coroa Estrelada.

Senhora da Coroa Estrelada? - perguntou assustado Sol-da-Manhã.

O que foi, meu irmão? - perguntou o Pescador. O Velho Mina não o deixou falar.

Depois tu falas. Agora ouve, depois confirmas o que eu digo.

E o que tem a ver Inaê Iabá com tudo isto.

- É que ela estava longe do seu reino, o mar, mas não deixou de ajudar também. Se os outros Orixás do Panteão guardavam o tesouro para ti, alguém tinha que segurar-te aqui, senão tu partirias e o tesouro não serviria para nada. Então ela te deu o melhor presente entre aqueles que ela tinha para oferecer.

- E qual era, meu amigo? - perguntou o Pescador, interessado em saber.

- Ela te deu o amor, meu filho. O amor na forma de uma moça índia, bonita e meiga, mas perseverante no seu objetivo, que era segurar-te aqui para que encontrasses o tesouro que nos daria paz. Terias a moça a te amar de verdade, pois Inaê Iabá, quando ama seus filhos, não ama sem uma finalidade. Ela é a mãe. Ela é vida criadora. Como a ostra, que para revelar uma linda pérola precisa morrer, a sua amada, para dar-te suas pérolas, morreu.E nisto tu também foste agraciado com sua generosidade, pois foram três pérolas que uma só ostra gerou. Coisa difícil de se ver, teve que morrer. Só te resta fazer com que estas pérolas venham a ser valiosas. Do contrário, serão pérolas sem valor, e o presente da mãe Inaê terá sido inútil. Será que ela não sabia o que estava fazendo, quando te fez sentir o calor do verdadeiro amor? Ou será que ela estava só tentando tornar-te mais humano ao dar-te uma de suas sereias encarnadas que, mesmo saben­do que iria morrer, não teve coragem de dizer que conhecia o futuro próxi­mo e, ainda assim, morreu feliz, porque se multiplicou por três?

- Ela sabia que ia morrer? - perguntou o Pescador.

- Eu nunca a vi em minha frente, e nunca falei a ela uma única palavra, mas isto eu sei. Ela sabia que ia morrer, e não quis que sofresses antes de sua morte. Que mulher de valor! Pena não tê-la conhecido, eu beijaria os seus pés em sinal de respeito.

- Por que ela não disse nada?

- Já te falei. Ela não queria que soubesses antes do tempo. Prefe­riu sofrer sozinha. Que Inaê Iabá a acolha pela sua força. Era uma criança ainda, e agiu melhor que muitos já maduros na vida.

O meu sofrimento não é nada comparado ao dela. Que Deus a tenha! - falou o Pescador.

Tens que entender uma coisa, Pescador: Tu não te pertences. É apenas um instrumento de Olorum, o Criador. Podes fugir de tuas res­ponsabilidades perante Ele, mas não fugirás de ti mesmo. Tu pertences a Ele. És o Cavaleiro da Estrela da Guia para os negros, o Cavaleiro de Inaê Iabá. Ela não sai do mar para acudir aos seus filhos, mas manda seus Cavaleiros percorrerem a terra, distribuindo ajuda onde se faça necessário.

Mas por que sofrer tanto, meu amigo?

Somente quem sofre pode entender a dor do seu semelhante. Quem não sofre, não sabe o que é a dor, e nem como curá-la. Isto eu sei também.

Como lutar, se quem me dava forças para lutar partiu?

Tu não lutavas com as forças dela, tu lutavas por ela. Querias ser admirado por ela em tua luta, porque ela se encantou com as armas que usavas. Isto a fez amar-te.

Como sabe disto, se isto só a mim, nos últimos dias, ela falou?

Isto eu sei também. Como sei que há outra sereia encarnada a esperar-te.

Como pode ter certeza de uma coisa dessas?

Eu não disse que, quando chegou ao meu casebre, eu sabia que o Senhor dos Mortos te enviara até nós, para nos trazer um pouco de paz para nossas chagas?

Sim, isto também me disse, um dia.

Então, crê em mim agora também. Há uma outra sereia a te esperar para dar-te mais quatro pérolas, todas muito valiosas. Dependerá de ti valorizá-las ou não.

Eu não sei se consigo montar um cavalo novamente, amigo.

Pois então, decide-te logo! Eu ainda tenho uma filha, que logo vai chorar por mim. Não posso dizer a ela que vou partir, senão ela sofrerá antes do tempo. Assim como a tua mulher não quis te contar, para que não sofresses antes do tempo, eu não quero que Ruth sofra também. Somente iria magoá-la com isto. Eu preciso de alguém em quem ela acredite para, na hora certa, consolá-la. Do contrário não poderá fazer, aqui nesta terra, a sua parte, que é levar a vida aos negros que acreditam e precisam dela lá no engenho, para guiá-los.

Diz que eu posso consolar Ruth?

Sim. Se um dia, quando eu estava morto por dentro, tu me deste a vida novamente, por que não farás isto por ela?

Sim, meu amigo, eu farei isto por ela, quando você partir. Diga-me quando será, não quero estar longe quando for a hora. Quero dar um abraço em quem teve o dom de curar as minhas chagas. Mas quem as curará, quando partir?

A outra sereia curará tuas chagas, e tua alma não ficará mais doente.

E como eu a acharei, meu amigo?

Quando te recordares do maior presente que deste, saberás quem é. Deste à primeira um presente parecido, muito valioso.

Eu já sofro por saber que logo partirá, meu amigo. Não gostaria que fosse embora tão logo.

Nós ficamos enquanto somos necessários, ou enquanto o Cri­ador não manda outro pai para nossos filhos. Quando não, é hora de partir. Agora eu vou descansar um pouco. Já falei muito por hoje, Pescador. O meu amigo Pajé me acolherá em sua morada, penso eu.

Sim, o Pajé Negro é bem-vindo à morada do Pajé índio. Lá sempre tem uma rede para os amigos.

Até mais tarde, Pescador! - falou o velho João de Mina.

Até logo, meu amigo.

O Pescador ficou em silêncio. A fisionomia já se apresentava mais suave, a tristeza sumira. Ficava a saudade de quem tanto amou. O silêncio foi quebrado pelas palavras de Sol-da-Manhã.

Pajé Branco, lembra-se da coroa estrelada?

Sim, você ia falar algo a respeito. O que era?

O índio desenhou no chão uma coroa parecida. Foi quando o Pescador falou:

É igual à coroa da sereia que me deu a Estrela Encantada.

Pois Raios-de-Lua tinha uma dessas na cabeça desde que nas­ceu. Apenas eu via, ela brilhava muito. Depois que partiu, a coroa sumiu de sua cabeça. O espírito levou a coroa.

Então, eu tinha razão: ela era a minha Sereia Encantada - um sorriso triste aflorou nos lábios do Pescador.

Pajé Branco, eu vou voltar para Lua Branca que me espera. Depois trarei algo que encontrei em grande quantidade. São tantas que eu nem sei qual pegar primeiro, de tão belas que são.

O que é, Sol-da-Manhã?

Esmeraldas, Pajé Branco, lindas esmeraldas. Com elas poderá comprar metade dos engenhos desta Capitania, será o homem mais pode­roso das capitanias. Isto eu sei, Pajé Branco.

- Já está falando como o velho Pajé Anhanguara e o Pajé Negro.

Sol-da-Manhã.

- Aprendemos sempre com os mestres, não é assim que você fala?

- Isto eu também sei.

Pela primeira vez sorriu sem tristeza.

Até à vista, Pajé Branco!

Até à vista, Sol-da-Manhã! Que Deus o proteja em sua cami­nhada.

Após a partida do índio, o Pescador e Sarah ficaram a sós. Ele perguntou:

Você sabia que ela iria morrer, Sarah?

Sim, Simas, eu sabia. O Padre sabia e o Pajé velho sabia. Não falamos nada ao velho Mina, mas, à distância, ele também sabia, e os ou­tros velhos negros sabiam também. Todos eles receberam o aviso na mes­ma noite. Acho que a Sereia avisou a todos ao mesmo tempo. Todos con­fiam em você. Precisa continuar, pois assim como os judeus, eles também sofrem a perseguição e o poder do império cristão. Quem melhor que um cristão para ajudá-los? Eu creio que você é um instrumento na mão do Criador. É só você acreditar e seguir sua caminhada sem se preocupar com o passado. Como disse o velho negro, somente quem sofre pode compre­ender a dor alheia.

Eu estou horrível, não, Sarah?

Só está sujo e cheirando mal, um pouco.

Vou me lavar na cachoeira, vem também?

Sim, eu estou coberta de poeira. Devo estar pesando uns quilos a mais, de tanto pó.

Venha! Vamos nos purificar na cachoeira. Os negros a conside­ram um lugar sagrado, próprio para limpar o corpo e purificar a alma do sofrimento que a vida nos impõe.

Após tomarem um banho e lavarem as suas roupas, voltaram para a aldeia.

Já era tarde quando chegaram, quase todos já estavam dormin­do. Foram até a morada do Pajé para ver se ele tinha algo para comerem.

Entrem! Eu deixei pronto um bom assado para vocês dois. Nós já comemos.

Obrigado, meu amigo. Já havia me esqueci de como é bom comer.

Devoraram rapidamente o assado. O velho Mina falou ao Pesca­dor:

- Vejo que te purificaste nas águas sagradas.

Sim, meu amigo, me purifiquei e me sinto outro homem. Obri­gado pelas suas palavras! Elas me deram ânimo para continuar. Tem razão, muitos esperam que eu não caia. Eu não os decepcionarei. Por que olha tanto para Sarah?

Eu estou tentando me lembrar de onde a conheço, mas não consigo me recordar. Só isto, creia.

Eu acredito em tudo o que o senhor disser, meu amigo. Não tenho por que duvidar de suas palavras. Vou dormir um pouco, estou can­sado. Não dormia bem há dias, acho que agora o sono vem tranqüilo. Amanhã preciso fazer umas coisas.

O Cavaleiro monta novamente, não?

Sim, o Cavaleiro monta, e corre muito para tirar os dias em que ficou parado.

Boa noite, meu filho! - disse o velho Mina. O Pajé velho falou a mesma coisa.

Sarah, se quiser trocar suas roupas, lá em minha morada tem bastante.

- Eu aceito. Está demorando para secar esta aqui. Depois eu volto.

Lá não tem lugar para ela dormir, Pajé Branco? Eu gostaria de falar mais um pouco com o Pajé Negro.

Tem, sim, meu amigo. Ela poderá dormir lá, se quiser - e par­tiram.

Depois que tinham se afastado, o velho Mina falou:

Ele já tem a outra sereia, mas ainda não se lembrou qual foi o último presente que deu à sua esposa, e que também tinha dado à outra, antes de saber que esta é a nova sereia.

O Pajé Negro sabe como avivar a memória de um esquecido?

Sei, mas gostaria que ele se lembrasse sozinho. E o Pajé índio, também sabe?

Sei e gostaria de avivá-la logo. Não quero que o Pescador aca­be, na sua procura, pescando uma sereia falsa - e, dando um sorriso mali­cioso, olhou para as chamas que saíam da pequena fogueira. De suas mãos saíam ordens que aumentavam o fogo.

Nada como o fogo para aquecer um corpo frio e ativar o san­gue. Isto faz com que a mente pense melhor, Pajé Negro!

Sim, o fogo é um bom ativador de memória - e, fazendo tam­bém gestos com as mãos, aumentava o calor do fogo - Não vamos deixar que uma sereia qualquer lance seu encanto e pesque o Pescador - sorrindo também malicioso.

Depois disso foram dormir. Era tarde e estavam cansados, o fogo ainda arderia por muito tempo. Não tinham que se preocupar em como se aquecer na noite. Que outros se preocupassem em como se aquecer.

Quando entrou em sua morada, o Pescador ficou envergonhado do abandono em que ela se encontrava.

Sarah comentou algo sobre como somente as mulheres sabem tornar uma casa acolhedora. Ele concordou com um aceno de cabeça.

Após achar uns vestidos que trouxera para Raios-de-Lua, o Pes­cador mandou que ela escolhesse um para se trocar.

Não sei se devo usar uma peça de roupa dela - falou Sarah.

Creio que ela ficaria contente se você usasse.

Mas eu não gostaria, Simas. Basta me deitar, que logo me aque­ço, e então a roupa seca.

Ela não secará, Sarah. Quando paramos de nos movimentar, a tendência é nosso corpo esfriar. Você não pode se deitar com este vestido molhado, ficará fria em pouco tempo. Melhor se deitar sem ele, assim aquecerá mais rapidamente.

Sim, é melhor tirá-lo e estendê-lo. Ao amanhecer, estará seco, e então poderei vesti-lo. Pena não ter aqui comigo outro para vestir.

Eu não me incomodo que venha deitar-se junto a mim para se aquecer. Isto é, se você quiser.

Ao falar, o Pescador ficou sem jeito. Parecia que estava queren­do se aproveitar da situação. Tentou se justificar, mas achou melhor não falar mais nada.

Eu gostaria de ser aquecida, sim, Simas, mas, aqui onde vou me deitar? Este leito é seu, e então seria eu quem iria aquecê-lo novamente, e não você quem me aqueceria.

É, tem razão. Acho que quero tê-la junto de mim, sem que assim se pareça.

Você me quer perto de si, Simas?

Sim. Eu quero, Sarah. Eu não sei como dizer, mas é isto que eu desejo.

Você tem certeza dos seus sentimentos para comigo?

Sim. Eu me lembrei de uma coisa, agora mesmo. Um dia eu dei um presente muito valioso a alguém e também fui muito recompensado. O mesmo presente que dei a Raios-de-Lua, e acho que foi o presente que ela mais gostou de ter ganho de mim.

Sarah assustou-se. O que seria o presente? Talvez as belas jóias que levou à esposa e à filha do Governador, pois foi regiamente recompen­sado. Isto a assustou. A filha do Governador era muito bonita. Estaria ele se lembrando dela agora?

Por que ficou em silêncio, Sarah?

Gostaria de saber qual foi o presente que agradou tanto a essa pessoa, quanto a Raios-de-Lua. - perguntou, com medo da resposta.

Você não se lembra?

Como poderia saber? Você vive a presentear as pessoas que passam pelo seu caminho. Talvez uma jóia muito bonita, ou algum vestido muito fino como estes que Raios-de-Lua tinha.

Você viu algum dia ela usar algum vestido?

Não, só sua tanga e nada mais.

Sarah se assustou ainda mais, só podiam ser as jóias que dera à filha do Governador, não podia ser outra coisa.

Sarah, eu estou ficando com os mesmos poderes dos dois pajés velhos que estão juntos agora.

Que poder é este, Simas? - perguntou, mais assustada ainda.

Estou ouvindo os seus pensamentos. Está errada.

Está ouvindo os meus pensamentos?

Sim, são como gritos de alguém aflito, muito aflito mesmo, tentando descobrir quem é a outra Sereia.

Você esta brincando comigo. Por que não diz logo qual é o presente e a nova Sereia, e acaba logo com este enigma?

Você sabe qual é a resposta, Sarah.

Eu não sei a resposta, Simas - falou ela já impaciente - Você está me deixando nervosa.

Então, vou revelar o enigma. O que foi que eu lhe dei, que você disse que ia guardar como um tesouro para lembrar-se de mim, e que, nos momentos finais, Raios-de-Lua me pediu que lhe desse para levar como lembrança minha para os campos eternos da Luz?

O coração de Sarah disparou. Os sentidos escapavam de seu controle. Ouvira, junto com Sol-da-Manhã, as últimas palavras de Raios-de-Lua. Foi um beijo de despedida, para ser levado como um tesouro muito precioso em sua partida. O mesmo beijo que trocaram na estrada, quando o Pescador a alcançou. A semente que o Criador plantara a seu modo, contrariando o de Raios-de-Lua, mas de um modo mais puro. O sentimen­to que só vem com o amor. Estava sentindo tonturas, ondas de calor subi­am por seu corpo como fogo a consumir tudo à sua volta, ía desmaiar.

O Pescador, vendo que as pernas dela fraquejavam, rápido a abra­çou, dizendo:

Não quero uma mulher que desmaia tão facilmente.

Eu não posso controlar as minhas emoções. Não sei se com­preende isto em uma mulher.

Eu compreendo isto em uma mulher que ama e que deseja ser amada. Isto eu compreendo, Sarah.

Sim, o beijo que deu em mim é um tesouro muito valioso. Eu o guardo bem oculto, onde somente eu penetro. Somente nós temos a chave.

E o beijo que eu dei em Raios-de-Lua, tanto para ela como para mim, é um tesouro valioso que ninguém poderá tocá-lo. Minha Estrela voltou a brilhar. A Sereia canta novamente o seu canto encantado para encantar o Pescador. Você é a segunda sereia que sempre esteve a me esperar.

- Simas, pare de falar e faça alguma coisa para acalmar a minha

aflição!

- Sim, vou fazer algo. O velho Mina disse que ela me daria quatro pérolas muito lindas. Eu vou começar a colher a primeira. Não concorda com minha intenção?

Sarah não respondeu. Não havia mais o que responder, o fogo estava queimando os dois.

 

UM NOVO HOMEM

No dia seguinte, o sol estava radiante para o Pescador. Era nova­mente um homem que tinha esperanças.

Logo cedo foi ver os filhos. Queria saber deles, como estavam, se precisavam de algo. Havia umas coisas a fazer e precisava agir rápido. O tempo perdido haveria de ser recuperado.

Ao se aproximar das crianças, que estavam na casa do Cacique, sorriu. Era a primeira vez que sorria para elas.

- Vejo que houve mudanças, Pajé Branco - falou o Cacique.

Sim, houve mudanças. Hoje eu sou um pai e não um viúvo a chorar, um pai que veio buscar os seus filhos.

Mas, você tem quem olhe as crianças? Aqui elas estão protegi­das e alimentadas. Eu estou cuidando de tudo por você.

Agora já tenho quem cuide delas para mim, Cacique. Vou me casar com a mulher branca. Ela cuidará dos meninos como se fossem seus filhos.

Sarah! Vai se juntar com ela? Sem experiência, como ela vai criar as crianças?

As outras mulheres cuidarão, enquanto ela aprende, meu ami­go. Já decidimos. Eu vou à cidade e ela fica com as crianças na minha ausência. Mas não se preocupe, se quiser ela fica aqui com o senhor até que eu volte, assim estará protegida. Ela não é como Raios-de-Lua, não conhece bem os costumes indígenas.

Assim é melhor. Eu ficaria muito preocupado se levasse as crianças embora, com tão poucos dias de vida. Não quero que aconteça algo a elas.

- Nem eu quero que aconteça.

Após ficar mais um pouco com os filhos, o Pescador voltou para junto de Sarah.

- Sarah, vamos até o Pajé Anhanguara. Falaremos com ele sobre nossa decisão. Creio que aprovará nossa união.

- Sim, ele aprovará. Isto é certo, pois sua felicidade é a felicidade dele.

Não foi preciso ir atrás. Os dois velhos se aproximaram conver­sando animadamente.

- Como estás, Pescador? - perguntou o velho Mina.

Estou bem, meu amigo. Novamente curou a minha alma e meu corpo. O Cavaleiro vai cavalgar novamente no seu caminho.

Fico feliz em ouvir isto, filho. Muitos dependem de tuas ações. De agora em diante, cuidado com a traição, este é o maior perigo para ti. O resto, como sempre, tu vencerás.

Tomarei as devidas precauções quanto a isto. Foi quando o Pajé velho falou:

Vejo que o fogo ardeu na sua fogueira esta noite, não?

Ao falar, olhava para Sarah, que, ficando com o rosto vermelho, respondeu:

- Continua ouvindo os meus pensamentos, não?

Sim, eu sempre ouvirei os seus pensamentos. Raios-de-Lua falava comigo sempre, e eu não precisava ouvir os seus pensamentos, mas você é muito tímida. Então, eu os escuto e respondo, está bem assim, filha?

Acho que sim. Só o senhor sabe me ouvir, e tem sempre a resposta certa.

O Pescador interrompeu a conversa, para comunicar ao Pajé que gostaria de se casar com Sarah.

- Fico contente, meu filho. Você será feliz com ela, isto eu sei. Dois dias depois, o Pescador estava casado com Sarah, Segundo o costume e a religião dos índios. Estavam unidos, isto é o que importava.

Já se preparava para partir, quando Sol-da-Manhã chegou na al­deia com Lua Branca. Olhou para o Pescador e perguntou:

- Vai partir sem mim, Pajé Branco?

- Eu não queria incomodá-lo, meu amigo. Mas, se Lua Branca não se incomodar, gostaria de contar com sua companhia.

- Ela não se importará. Eu já disse que não deixaria meu irmão sozinho.

- Pois então, eu pedirei a Sarah que não a deixe sozinha também. Já estamos casados, Sol-da-Manhã! Meus filhos já têm uma mãe para criá-los!

- E nem me avisou disto, Pajé Branco?

- Foi tudo rápido e simples, meu irmão. Não havia motivo para festas, Raios-de-Lua vive entre nós ainda.

- É, tem razão, não há motivo para festa - e calou-se. Despediram-se de todos e partiram. Passariam no engenho para deixar o velho amigo. Depois iriam à capital. Seria uma longa viagem. Teri­am muito tempo para conversar.

O Pescador perguntou-lhe por que levava toda aquela carga no outro cavalo.

São as pedras que eu prometi. Acho que isto é suficiente por enquanto, não?

Você não exagerou na quantidade? Aí tem muitas pedras. Se forem iguais às que mostrou, eu poderei comprar muitos navios e alguns engenhos.

Eu conheço pedras, Pajé Branco. Só não sei o valor e os no­mes.

Eu ensino tudo a você. Depois do engenho, nós só falaremos sua língua.

- Por que só falar minha língua?

- É para que eu diga que você não fala a minha língua e possa, assim, ouvir o que os comerciantes brancos falam, e aprender com isso. Mas não poderá demonstrar que entende, assim começará a conhecê-los melhor.

- Tu vais te decepcionar, guerreiro - falou o velho Mina.

- Eu também acho isto, mas tem que ser assim - falou o Pesca­dor.

Ao chegarem ao engenho, foram recebidos por Ruth, que, ao ver o Pescador, falou:

- Pescador, como você está abatido! Sinto pela morte de sua mulher.

Eu agradeço sua preocupação, mas o pior já passou. Quem tem o seu pai como amigo consegue sempre encontrar um motivo para conti­nuar e não se abater. Você não tem um homem como pai, e sim um santo.

Quisera ser um santo, Pescador. Sou apenas um homem que procura encontrar o sentido da vida.

- É por aqui, como vão as coisas, Ruth?

- Bem, Pescador. Eu sei dirigir isto melhor que os feitores bran­cos. Nós produzimos muito mais do que as propriedades deles. Devem estar enciumados por isto. E tem um homem que já o procurou diverdas vezes.

- Quem é ele?

E o dono do engenho do Morro Grande. Não quis dizer do que se tratava. É um animal. Diz que só trata com o amo, nunca com os escra­vos.

E por que você não disse que os engenhos estão sob sua dire­ção?

_ Eu não! Ele não presta, Pescador. Lá no engenho dele os negros são tratados embaixo do chicote. Ao menor descuido, vão para o tronco.

- Ele deve estar falido e quer um empréstimo para continuar com sua carreira de miserável. Eu só o vi uma vez na cidade e não gostei dele.

- E você vai lhe emprestar algum dinheiro, Pescador?

Não, vou tirar-lhe o engenho. Pode ir preparando algumas pes­soas para dirigir aquilo lá.

É muito grande a propriedade. Além disso, perto existe uma aldeia de índios muito bravos. Deve ser por isto que ele quer ver você.

-Na volta da capital falarei com ele.

Por que não vai antes? Pode ser que, depois, alguém já tenha comprado o engenho, e aí você perde o negócio.

Vou pensar, depois eu decido. Agora, quero ver o que Sol-da-Manhã trouxe de tão interessante na sua bagagem. E como vai você com o ouro e as pedras?

Aprendi como cortar e polir certo. O ouro que mandou está todo fundido e guardado. Fiz até algumas jóias como aquelas que você fez.

Ótimo! Eu trouxe mais ouro. Depois você me mostra suas peças. Vou ajudar Sol-da-Manhã com sua carga.

Após descarregados os cavalos, os meninos negros os levaram para o estábulo.

Entraram para ver a carga de pedras. O Pescador, depois de exa­minar as pedras, falou:

Sol-da-Manhã, isto aqui é um tesouro que poucos nobres na Europa possuem. Você é um homem rico!

Eu não quero nada disto, Pajé Branco. É tudo seu! Compre também as terras da aldeia de Lua Branca, e então eu fico feliz. O que eu quero é que os homens brancos fiquem longe de nós.

Eu comprarei e farei uma coisa melhor ainda. Destes engenhos para o Oeste só existem aldeias de índios. Farei, à beira do rio, um grande posto de trocas. Todos poderão vir trocar peles, pedras e ouro por roupas, armas e alimentos, e até ferramentas, se quiserem cultivar algo. Você pode­rá mandar alguns guerreiros avisar as aldeias que, ao invés de não aprovei­tarem as peles, é só trazê-las até aqui e trocar. Eu verei se acho alguém que possa trabalhar nisto para mim. Então faremos bons negócios com os eu­ropeus.

Pescador, você pensa grande. É um rei! - falou Ruth - pensa sempre em ser mais forte.

- Se sou um rei, então você é uma princesa. É isto: será a Prin­cesa Negra Ruth! - e pegou uma coroa que ela fizera e colocou sobre sua cabeça. Era uma peça fabulosa, toda incrustada de pedras preciosas.

- Está coroada a Princesa dos Negros.

Ruth sorriu. Fizera aquela peça pensando em usá-la. Como o Pescador soubera sobre seus pensamentos?

- Onde você guarda estas peças e o ouro, Ruth? - perguntou o

Pescador.

- No meu quarto, lá é um lugar seguro.

- Não é, não! Você vai providenciar um lugar mais escondido, fora dos olhos de qualquer um.

- Venha ver onde fica, depois não vai dizer que não está bem guardado.

Quando viu, ficou admirado com a imaginação de Ruth. Ela tinha aberto um buraco igual a uma cova embaixo da cama e colocado ali todo o ouro e as pedras.

- Ruth, você me surpreende. Quem mais sabe disto aqui? -Ninguém. Eu o fiz durante algumas noites. Quando vem o ouro, eu o guardo neste buraco depois que a casa está vazia. Eu guardo o segredo da sua força.

Você mantém alguém na casa?

Só o pai Ciro e sua mulher. Eles moram aqui comigo, mais ninguém.

- Então, coloque alguns homens armados guardando a casa, à noite. Não quero que nada de mal aconteça.

- Farei isto amanhã mesmo. Mas, por que tanta preocupação?

- Porque o seu pai me avisou para tomar cuidado com a traição. E eu não vou mais duvidar de suas palavras.

- O que você vai levar daqui para a cidade?

Amanhã eu pego o que precisar. Agora vamos guardar o que trouxemos nesta viagem. As pedras de Sol-da-Manhã valem o suficiente para comprar a Capitania toda. Prepare mais alguns homens com armas para guardarem estas propriedades, Ruth. Não descuide disto, não.

Fique sossegado. Assim que acabar a colheita, vou escolher mais alguns homens que ficarão de guarda.

- Ótimo! E como vai a colheita, Ruth?

Não teremos lugar suficiente para guardar tudo o que está sen­do colhido.

Então, amanhã levarei uma boa parte para a capital. Lá vende­remos tudo facilmente. Assim terão espaço para não deixar que algo se perca.

Já mandei construir mais barracões. Se não chover nas próxi­mas três semanas, estarão construídos e nada se perderá.

Este é seu reino. Cuide bem dele, pois ninguém poderá tirá-lo de você jamais!

Se você comprar o engenho do Morro Grande, então será um grande reino, Pescador.

Pois, logo terá o engenho do Morro Grande em suas mãos. Vai precisar de muita gente lá, Ruth.

Se for preciso, eu compro os escravos que estiverem à venda, Pescador. Pelo menos aqui serão tratados como gente, e você terá muitas mercadorias para vender.

Vamos voltar. Já os deixamos sozinhos por muito tempo! -exclamou ele rindo.

Ao voltarem à sala, Ruth perguntou ao Pescador:

Pescador, diga: como vai criar seus filhos agora?

Já arrumei uma nova mãe para eles. Casei-me de novo.

Assim tão rápido? É por causa dos meninos?

Não foi só por eles, foi por mim também. Eu não paro em lugar nenhum. Isto você sabe, mas quero ter sempre para onde retornar. Acho que, no fundo, eu mesmo não me entendo.

E você gosta dela?

Tanto quanto da primeira. Espero fazê-la feliz, e que ela não parta cedo, como Raios-de-Lua.

Agora ouças umas coisas, meu filho, pois precisarás agir com ousadia e coragem - disse o velho Mina.

O que o senhor tem para falar, meu amigo?

Primeiro: da casa da tua esposa, virá a traição. Tu tens que te antecipar para vencer. Segundo: terás que te livrar do amor de uma moça muito bonita. Tu a conheces, é a filha do Governador. Terceiro: torna-te amigo do frei que dirige a igreja na capital. Ele será teu aliado leal, nele tu podes confiar.

Só isto, meu amigo? Ou tem mais alguma coisa a dizer.

Por enquanto, é só isto. Se aparecer algo mais, eu te avisarei. Estejas onde estiveres, um dos negros do engenho te procurará. Levará alguma mensagem de Ruth, que, na verdade, será uma mensagem minha, não escrita. Bastará ficares a sós com ele e perguntares se tem algum recado meu.

Está bem. Eu creio que vou me sair bem enquanto executo meus planos. Isto eu sei.

Já estás falando como eu. Isto é bom! E eu sei disto também.

Agora vamos comer, que estou com fome, e vocês também devem estar.

Depois de comerem, ainda ficaram conversando mais um pou­co.

No outro dia pela manhã, o Pescador, mais os guerreiros, foram até o engenho do Morro Grande. Queria saber o que o proprietário queria.

Quando chegou, foi recebido com todas as mesuras possíveis. Após muitos cumprimentos, entraram para conversar. O Pescador inda­gou:

- O que o senhor deseja me falar? Meus escravos disseram que o senhor já me procurou por duas vezes.

- Eu quero lhe propor uma sociedade em meu engenho, senhor Macedo.

- Que tipo de sociedade, senhor Carvalho?

- Eu já estou velho e sinto vontade de me reunir à minha família, em Portugal. Então, como o senhor é um homem empreendedor, pensei em lhe vender a metade do engenho e tudo mais, e o senhor administraria e dividiríamos os lucros. Eu, como já estou velho, não tenho mais as boas idéias de anos atrás. Mas o senhor não! Com suas idéias, fará deste enge­nho uma fonte inesgotável de lucros para nós dois. O que o senhor acha de minha proposta?

- E quanto o senhor quer pela minha metade nas propriedades? Depois de ouvir o preço, o Pescador ficou a meditar. Nisto, uma criada entrou para servir bebidas aos dois homens. Enquanto bebiam, o Pescador ouviu os pensamentos do senhor Carvalho. Ele pensava: "Se este idiota comprar a metade de minhas propriedades, poderei saldar uma parte do que devo a seus amigos judeus e, com o lucro da colheita, recomprarei tudo mais tarde. Só tenho que enganá-lo".

O Pescador ficou espantado. Estava ouvindo novamente os pen­samentos e estes o assustavam. Aquele homem queria enganá-lo. Pois da­ria uma lição ao canalha!

- Sabe, senhor Carvalho, eu tenho boas idéias realmente, mas não as divido com ninguém. Ou são todas minhas, ou não são de ninguém. E, como estou ganhando dinheiro no comércio, não quero comprar mais engenhos. Não preciso comprá-los. O que eles produzem eu embarco para a Europa. Para que investir o dinheiro que tenho naquilo que, de uma forma ou de outra, me dará lucros?

- Mas, eu estou lhe oferecendo uma boa sociedade, homem.

- Diga-me: Se é tão boa, por que o senhor está tão endividado? Eu sei que a quantia que me pede pela metade mal dá para pagar suas dívidas.

Como o senhor sabe de minhas dívidas, senhor Macedo?

Ora! Alguns credores seus já me ofereceram, por uma bagate­la os direitos sobre os seus débitos. Se eu assumi-los, bastará executar o senhor e terei tudo pelo preço da metade.

O homem estava pálido. O senhor Macedo sabia tudo sobre suas dívidas que já estavam vencidas. A safra não daria para saldá-las. Não tinha mais crédito na Capital, e o único que poderia tirá-lo da encrenca, na certa, lhe tomaria tudo, pois não era o imbecil que havia pensado. Tinha apenas uma saída: ver o que ele proporia.

- E então, o que o senhor me propõe, já que sabe de minha situação?

Eu assumo todas as suas dívidas e ainda lhe pago a quantia que me pediu pela metade das suas propriedades, e nada mais. Assumo o enge­nho assim que lhe pagar. Daqui, o senhor tira somente seus móveis e per­tences pessoais, o resto fica.

Mas, não é justo o que me propõe.

Como não? Se o senhor me vendia metade por este preço, e se seria tudo usado para saldar suas dívidas, então, é mais que justo. Estou lhe fazendo um favor ao evitar que amanhã alguém lhe tome tudo, e o senhor tenha que sair daqui sem nada, não acha?

O senhor pretende comprar minhas dívidas para me executar?

Não. Eu não farei isto. Tenho melhor lugar onde investir meu dinheiro, onde ele renderá muito mais. Eu não gosto de executar dívidas. Não gostaria de ver um homem tão bom como o senhor na miséria. Que outro faça isto. Eu nunca faria uma coisa destas. Por isso, fiz uma boa proposta para evitar que um bom homem como o senhor passe por tama­nha humilhação depois de tanto trabalho neste engenho. Bem, até à vista, senhor Carvalho! Tenho negócios urgentes a me esperar na capital.

Espere, senhor Macedo. Acho que o senhor é um homem jus­to, por isto o procurei. Se fosse a outro, não ofereceria minhas proprieda­des. Aceito sua proposta. Acho que é o melhor para mim, e um bom negó­cio para o senhor, não acha?

Espero não me arrepender de adquirir estas terras.

Não se arrependerá, senhor Macedo. É uma boa terra.

Então, está fechado o negócio, senhor Carvalho. Encontro-o daqui a três dias na capital para concluirmos a transação.

Depois de partirem, o Pescador deu uma gargalhada.

Sol-da-Manhã também riu muito.

Pajé Branco, você ouviu o pensamento dele, não?

Sim, eu ouvi. Você também ouviu, não?

Ouvi. O homem queria enganá-lo como a um imbecil, e ele é que foi o imbecil.

Ele foi um imbecil, mas agradecido pela minha bondade - e tornou a gargalhar.

Pajé Branco, você os dominará sempre.

- Sim, eles só querem ganhar à custa alheia. Ao voltarem ao engenho, foi logo dizendo:

Ruth, você pode ir preparando os responsáveis, pois seu reino triplicou de tamanho.

Comprou tudo, Pescador? - e o abraçou sorridente.

Quando eu voltar da capital, trarei os documentos de posse de tudo ao sul, até a divisa com os índios.

Entrem, vamos comer! O almoço está pronto. Os carroções estão prontos para partir. Vão com dez guerreiros negros para proteger a carga.

Mande-os ir na frente. Nós os alcançaremos mais tarde, chega­rão rápido porque não chove há tempo e a estrada está boa.

Era uma fila enorme de carroções, totalmente carregados. "Vale­rão muito dinheiro" - pensou o Pescador.

No dia seguinte, ao entardecer, entrava na capital com sua carga. Foi recebido com festas, pois era o primeiro carregamento que chegava à cidade.

Após encarregar um negro de confiança, e inteligente até demais, pelas mercadorias, o Pescador foi até a casa do senhor Moisés. Tinha muito a resolver. Precisava se apressar. Ao chegar, foi convidado a entrar pelo sorridente Abraão.

Como vai, meu amigo Abraão?

Muito bem, senhor Macedo! Onde está Sarah?

O Pescador lembrou-se do aviso do velho Mina e falou:

Ela ficou com meus filhos, meu amigo. Minha esposa morreu ao dar à luz a três filhos. Como ainda são muito frágeis, ela se ofereceu para tomar conta deles até a minha volta.

O que houve com ela para mudar tanto assim, senhor Macedo?

Foi o sofrimento de minha esposa que a transformou, meu amigo. Ela disse que, se uma mulher podia dar à luz a três filhos de uma vez, mesmo que com isto viesse a morrer, ela poderia cuidar das crianças para mim. Acho que isto foi o que a transformou.

É um milagre o que o senhor fez por ela.

Eu não fiz nada. Ela fez por si mesma. Achou um motivo para mostrar suas qualidades.

Ela falou dos negócios que fiz para o senhor na Europa?

Sim, ela falou até de suas peripécias para passar despercebido na Espanha.

Foram bons negócios os que fiz, pode confiar.

Eu confio no senhor. Sei que é um homem inteligente e hones­to, por isso gostaria de lhe pedir um favor.

Qual é o favor?

O senhor sabe quem são os credores do senhor Carvalho, lá do Morro Grande?

Sim, eu os conheço. São da nossa comunidade. Por quê?

Gostaria que o senhor comprasse os débitos dele para mim, pelo melhor preço possível, e o mais rápido que puder.

Posso usar um pouco do dinheiro do armazém geral?

Sim, pode usar, mas mantenha sigilo, por favor.

Eu manterei. Serei o mais discreto possível.

Obrigado, meu amigo.

O meu pai chega logo. Não quer esperá-lo dentro de casa? Meu irmão está lá esperando por ele, assim eu vou atrás do que me pediu.

Está bem, eu aceito, pois estou cansado.

Ao entrar na casa, foi acompanhado por Sol-da-Manhã, seu fiel guarda-costas. Os outros índios ficaram a guardar os cavalos com o ouro e as pedras.

Simão, quero lhe apresentar o senhor Macedo.

Muito prazer, senhor Simão. Muito me honra conhecê-lo.

Também fico honrado, senhor Macedo.

O senhor Abraão disse ao irmão que ia sair por um tempo. Pediu que ficasse com o senhor Macedo, até que o pai chegasse.

Ficaram a conversar para passar o tempo. Até que o Pescador perguntou se poderia decifrar um pergaminho, já que era um religioso ju­deu e conhecia bem o Oriente.

Posso vê-lo, senhor Macedo?

Aqui está ele, senhor Simão.

 

A TRAIÇÃO

(MAIS NEGÓCIOS)

Após examinar o pergaminho, o religioso ficou a pensar, sem nada dizer.

E pensava: já não bastava ele ter sido um dos malditos juízes da Inquisição, ainda queria conhecer o significado do símbolo? Nunca lhe contaria que era da Pérsia. Era o símbolo dos magos persas que tinham um templo a leste do golfo. Nunca contaria àquele homem que tinha conheci­mento do caminho até lá. Devia ser um mago também, pois somente os magos possuíam aquele símbolo. Talvez não tivesse concluído sua prepa­ração, por isto não tinham lhe revelado o local. Mas, o pai, para ter o pergaminho, era um, com certeza. Este homem deve ter encantado minha irmã com alguma magia. Por isto ela quer ficar com ele. O que teria feito com sua cabeça, para que mudasse tanto? Destruiria este homem assim que pudesse. Já ouvira comentários sobre a filha do Governador gostar dele, que ela não casava com ele porque já era casado com uma índia. Mas agora que estava viúvo, na certa casaria com ela. Denunciaria sua verda­deira identidade ao comandante das tropas do forte, o qual pretendia se casar com a moça. Ao saber realmente quem era o sr. Macedo, o prenderia, e então estaria destruído o homem que tinha enfeitiçado sua irmã. No outro dia iria procurar o comandante, que, certamente, gostaria de destruir o senhor Macedo.

Por fim falou:

Não consigo reconhecê-lo, senhor Macedo. Tentei ao máximo buscar na memória, mas não achei nada parecido. Sinto muito não poder ajudá-lo.

Não tem importância, senhor Simão. Um dia vou descobrir o que significa. Muito me intriga o que quer dizer.

- Se eu souber algum dia, eu lhe aviso.

Obrigado. Como seu pai está demorando! Gostaria de dar uma caminhada pela cidade. Se eu não voltar hoje, diga ao senhor seu pai que amanhã o procuro. Até a vista, senhor Simão.

Pode deixar que eu o aviso assim que chegar, senhor Macedo. Até a vista.

Após se afastarem, Sol-da-Manhã falou:

Ouviu tudo, Pajé Branco?

Sim. Tenho que agir rápido. Vamos procurar o comandante. Eu sei onde encontrá-lo.

Mais tarde, encontrou o Capitão. O Pescador o cumprimentou com entusiasmo, mas foi recebido com frieza. O Capitão só respondeu ao cumprimento por causa da amizade do senhor Macedo com o Governador Geral.

Senhor Capitão, gostaria de lhe falar em particular. É um as­sunto pessoal.

Venha comigo, senhor Macedo.

Após ficarem num canto da taberna, acomodados a uma mesa, o Capitão perguntou:

O que o senhor quer?

Vou começar com uma conversa sobre o passado - e o Pesca­dor contou sua história em Espanha.

Interessante sua história, senhor Simas, ou Macedo. Como devo chamá-lo? - falou o Capitão, curioso.

De Macedo, mas deixe-me continuar. Eu abandonei, por des­gosto, minha terra natal, prometendo a mim mesmo nunca mais pôr meus pés naquele lugar. Viajei por muitos lugares e acabei aportando ao Norte, na capitania de Pernambuco. Como eu me encontrava muito doente e sem dinheiro algum, tive que continuar vagando, até que alguém me ajudou. Curei minhas chagas e comecei a lutar para sobreviver. Embrenhei pelas matas a dentro, me casei com uma índia, da qual hoje tenho três filhos, conquistei a amizade dos índios da região e consegui, com eles, ouro, mui­to ouro. Então, me atirei nos negócios, que o senhor bem os conhece, e agora preciso de sua ajuda.

- Qual a ajuda, senhor Macedo? - o Capitão se tornara mais amistoso.

- Minha esposa faleceu ao dar à luz aos nossos filhos. Após isto, eu me casei com uma moça branca, não na Igreja, mas sim segundo os rituais indígenas. Agora eu quero tornar legal esta união e, como a família ainda não sabe de nada, eu vim pedir sua ajuda para que seja minha teste­munha perante o juiz, ao legalizar o meu casamento.

O Capitão sorriu de contentamento. O rico senhor Macedo esta­ria fora do caminho ao ter legalizado o casamento com a mulher branca. Antes, não. Com a índia, podia largá-la a qualquer momento, pois não era uma união legal. Ajudaria, sim. Seria sua testemunha.

- Mas antes seria bom falar com o frei. Ele terá que dar o consen­timento à união dos dois, para que a justiça a torne legal. Se o senhor quiser, podemos ir à casa dele agora mesmo.

O homem não queria deixar para o outro dia. O Governador tinha planos e podia convencê-lo a abandonar a mulher por sua filha.

- Então vamos - falou o Pescador.

Após conversarem com o frei, que consentiu com a união da­quela forma, o Pescador contou ao frei a mesma história que contara ao Capitão, sobre seu passado religioso. Por fim, este perguntou:

Como vamos chamá-lo? De senhor Macedo ou Almoeda?

Simas Almoeda morreu, Frei. É um passado que me tortura. Hoje sou José Macedo. Gostaria que o senhor mantivesse isto em segredo.

O Frei falou:

De minha parte, o seu passado lhe pertence. Não serão meus lábios que irão revelar o seu segredo.

Da minha parte também, senhor Macedo - falou o Capitão.

Frei Mariano, a sua igreja é pequena. Eu não poderia auxiliá-lo de alguma forma?

De que maneira pode me ajudar, senhor Macedo?

Eu tenho três filhos e, quando eles vierem para cá, eu gostaria que estudassem como eu estudei: numa boa escola! Então, amplio sua igre­ja e construo um bom colégio para o senhor.

Mas como eu vou sustentar um colégio, senhor Macedo?

Eu sustento, enquanto Deus me permitir, e espero ter uma vida longa.

Se é assim, eu aceito. Aqui precisamos de tudo, e uma ajuda como a sua é bem-vinda. Que Deus o proteja!

Obrigado, Frei Mariano. Pode começar a ver o que precisa, eu enviarei o dinheiro. Talvez, logo o Capitão possa contribuir também.

Como? Com o que ganho mal sobrevivo. Só posso sonhar.

Não se aceitar a minha proposta de negócio. Quero o senhor como sócio em um investimento que tenho em mente.

E o que é, senhor Macedo?

Pretendo construir um grande alambique aqui na capital. Já mandei vir as peças da Europa, logo estarão aqui. Eu preciso de alguém que fique por aqui, e que possa cuidar disso para mim. O senhor tem uma grande família, poderia dirigi-lo a contento. Será um negócio grande.

Mas, como posso ser seu sócio se não tenho dinheiro para tal empreendimento?

Eu tenho o dinheiro, mas preciso de alguém para cuidar do negócio para mim, e o senhor é uma pessoa honrada. Seremos sócios iguais no negócio.

O Capitão ficou pálido de espanto.

O senhor me dá metade do negócio, senhor Macedo?

Sim, mas terá que cuidar dele para mim. Eu não tenho tempo, preciso cuidar dos engenhos. Capitão, esta é uma boa terra, precisa de bons homens para tirar o que tem a oferecer. Temos que ser corajosos para aceitar o desafio. Aceita ou não?

Sim, como não? Isto é um presente do céu. Talvez o meu sonho se realize.

E qual é o seu sonho, Capitão?

A filha do Governador.

Quem sabe eu possa ajudá-lo nisto também. O senhor a ama?

Muito. Sonho com o dia que a terei em meus braços.

Eu farei o possível para ajudá-lo. Conte comigo, está bem?

Está bem! Melhor impossível. Quando o senhor gostaria de tornar legal a união com sua mulher?

Se possível, ainda esta noite.

Então, vamos à casa do escrivão. Eu o tiro da cama, nem que seja na ponta da minha espada! Vem conosco, Frei?

É, acho que vou. Estou sem vontade de dormir depois de tudo o que ouvi esta noite.

Foram. E, como o Capitão disse, tirou o escrivão da cama, mas não foi preciso o uso da espada.

Após pegar o material necessário, o escrivão, ainda meio sono­lento, perguntou ao Pescador o nome da esposa.

Dona Sarah de tal. Acordou totalmente.

A filha do judeu Moisés? - perguntou.

Sim, ela mesma, por quê? Não posso me casar com a mulher que amo?

- Não é isto que eu quis insinuar. E que um homem de sua posi­ção casar-se com uma...

O Pescador não deixou que terminasse o que tinha a dizer.

- Eu não me preocupo com a religião dela, assim como ela não se incomoda por eu ser cristão. Está vendo, Capitão, porque muitos sonhos são difíceis de se tornarem realidade? As pessoas se preocupam com po­sição, cor, religião e ninguém se preocupa com o que sente. Ninguém olha o sentimento, o amor, apenas os interesses. Por isto é que me considero um homem feliz. Quando quis, casei-me com uma índia. Agora que ela se foi e reencontrei a mulher que amo, por que não me casar com ela? Por causa de diferenças religiosas? Não, eu não sou homem disto. Já fui um dia, e me arrependo até hoje.

- É, o senhor tem razão. As diferenças tornam, às vezes, muito difícil de se conseguir o que se quer.

- o senhor, o que acha, Frei Mariano? - perguntou o Pescador.

Eu sou um religioso católico. Se um dia ela quiser se converter ao cristianismo, eu a batizarei, mas, ao menos aos seus filhos, eu espero batizar.

O senhor os batizará, assim que puder trazê-los para cá. São muito novos ainda e a viagem é muito longa.

- Mas, por que o senhor não busca o pai dela e o traz para cá?

Porque ela tem um irmão que não gosta de mim. Acho até que me odeia. Como vivo entre índios e negros, diz que eu enfeiticei sua irmã para que criasse meus filhos. Ele é capaz de colocar o pai contra a união. Assim, quando eu falar com o senhor Moisés amanhã, já será fato consu­mado. Por enquanto, apenas eu e ela estamos de acordo. A família dela não sabe de nada. E quando souberem, já será tarde - e deu uma gargalhada.

Senhor Macedo, se eu já não conhecesse o seu modo de agir, diria que é um louco, disse o Capitão.

E então, vai ou não vai fazer os documentos agora?

Vou sim, senhor, agora mesmo.

Fez tudo rapidamente. O Frei e o Capitão assinaram como teste­munhas do contrato de união.Após isto, o Frei os convidou a irem até sua casa. Tinha um bom vinho para comemorar a união do senhor Macedo com Dona Sarah.

O Pescador sorriu satisfeito. Antecipou-se à traição que iria so­frer com a verdade dos fatos. Não tinha mais com o que se preocupar. Não, por enquanto.

Depois de beberem muito vinho, o Pescador estava embriagado. Não sabia mais dos efeitos do vinho.

Capitão, poderia, por favor, chamar os índios que estão lá fora para me ajudarem? Acho que não estou muito bem.

Deixe, Capitão - falou o Frei - mandei os índios entrarem, e dei-lhes pousada aqui. Já é tarde da noite e não é bom o senhor Macedo ser visto embriagado na casa do velho Moisés. Principalmente agora, que está casado com sua filha.

Frei Mariano, em minhas viagens ao interior durmo sempre na paróquia do Padre, lá do arraial, e agora o senhor me acolhe. Acho que, um dia deixei o hábito, mas nunca vou conseguir me livrar da Igreja - e deu uma gargalhada.

- Venha comigo. Vou lhe mostrar onde se deitar, amanhã estará bom novamente.

Pouco depois, dormia. Os índios, como fiéis guardas, ficaram com as bagagens no mesmo quarto, vigiando o Pajé Branco.

Já era manhã avançada, quando o Pescador foi acordado pelo Frei:

- Vamos levantar, meu amigo. O dia clareou já faz tempo. É hora de trabalhar. Tem uma refeição sobre a mesa para você e seus amigos índios.

Depois de comerem, partiram. Era hora de fazer bons negócios. O senhor Carvalho já devia estar à sua espera.

Quando chegou ao grande armazém, ficou a observar, por um momento, o grande movimento. Era o melhor negócio que fizera. Ali, o dinheiro entrava em grande quantidade. No pequeno cais não havia lugar para todos os diversos navios. Alguns tinham que aguardar vez para carga e descarga. Sim, o velho Moisés sabia como dirigir o negócio.

Quando procurou pelo senhor Moisés, foi levado até uma sala. O velho veio ao encontro do Pescador. Quando o viu, disse:

Senhor Macedo, por que não me esperou ontem à noite? Eu fiquei até mais tarde para terminar um trabalho.

Não tem importância. O que eu tinha para fazer hoje, eu fiz ontem à noite, assim ganhei tempo. Hoje tenho muitos compromissos. Não poderia cumpri-los todos.

Nisto chegou o senhor Abraão com um sorriso maroto e foi logo falando:

É um homem de sorte, senhor Macedo.

Por quê, meu amigo?

Os credores do senhor Carvalho ficaram felizes ao se livrarem dos créditos que tinham com ele. Aqui tem as cartas de créditos. O que pretende fazer com eles? Custaram a metade do que o senhor Carvalho lhe deve agora.

Eu comprei as propriedades dele. Logo estará por aqui à minha procura para fecharmos o negócio com o escrivão.

O senhor comprou tudo?

Sim. Ele sai com seus pertences pessoais. Foi um ótimo negó­cio! Senhor Moisés, onde encontra os seus amigos interessados em mi­nhas mercadorias?

Quer que eu os convide para virem até aqui, para fecharmos negócios?

- Sim, eu gostaria. Mande-os trazer muito dinheiro, pois vão gostar do que tenho para vender.

O senhor Moisés chamou um empregado e deu-lhe ordens. O rapaz partiu apressado.

- Como vão as coisas por aqui, senhor Abraão?

Melhor, impossível. Estamos com muito trabalho, mas os lu­cros compensarão. Dê uma olhada nos registros. Até agora, o senhor não viu nada. Confiou em nós e eu gostaria de colocá-lo ao par de tudo o que temos feito.

Está bem, vou dar uma olhada rápida, à noite eu os verei me­lhor. Irei à sua casa ao anoitecer, se não se incomodar.

- Fico contente sempre que o vejo. Será um prazer tê-lo como hóspede!

- Espero que, no futuro, fique mais feliz ainda.

Após dizer isto, o Pescador começou a olhar os registros contá­beis. Após uma rápida olhada, perguntou:

Já conseguimos apurar realmente tudo isto com o comércio, senhor Abraão?

Sim. Aí está anotado até a última moeda. Não falta nada, além do que usei para comprar os débitos do senhor Carvalho. Está satisfeito, senhor Macedo?

Estaria mentindo se dissesse que não. Veja como acertei em convidá-lo para trabalharmos juntos.

Sim, creio que movimentaremos muito isto aqui. Não se parece nem um pouco com o antigo armazém.

Pode ampliá-lo três vezes mais. Está pequeno para os meus planos. A minha cabeça ferve de tantas idéias.

Nisto chegaram os amigos do senhor Moisés. Queriam ver as mercadorias do senhor Macedo.

- Muito prazer em conhecê-los, senhores. Estão preparados para ver o que tenho a oferecer-lhes?

- Mostre-nos, então diremos se estamos ou não.

Eram homens acostumados ao comércio de pedras preciosas, aves de rapina, interessados em lucros rápidos e fáceis. Nada que desse trabalho e pouco lucro os interessava, tinham ligações com os maiores comerciantes de jóias das casas européias.

Após abrir uma pequena bolsa, tirar algumas gemas do seu inte­rior e espalhá-las sobre a mesa, os homens ficaram extasiados. Aquilo que estava à frente os fascinava. Era disto que precisavam: produto pequeno, mas muito valioso. Valia o carregamento de um navio, e não dava nenhum trabalho para ser transportado; fácil de ser vendido, além de nunca estra­gar. Seus olhos faiscavam com a cobiça.

Sol-da-Manhã, que sempre ficava atrás do Pescador, via tudo espantado. Nunca tinha visto aquilo no Pajé Branco. Ele olhava as pedras com outros olhos. Tinha um objetivo com as pedras, mas não a cobiça, como via agora.

E então, senhores, o que acham?

São de muito boa qualidade, senhor Macedo – falou um deles.

- O senhor é modesto. São as melhores gemas que o dinheiro pode comprar.

- Qual a quantidade que pode nos fornecer, ou são só estas que tem?

- Eu tenho muitas mais. Estas não são as melhores, nem as mai­ores.

Quando poderá nos mostrar o restante?

Quando os senhores me mostrarem o vosso dinheiro.

- Recebemos um aviso de que deveríamos trazer muito dinheiro. Aqui tem uma parte dele.

E colocaram sobre a mesa várias bolsas de moedas.

- Isto é o suficiente, senhor Macedo?

- Pelos meus cálculos, e deixando uma margem para pechincha­rem, acho que vão precisar de cinco vezes mais.

Os homens ficaram espantados.

- O senhor sabe o valor real das suas gemas, senhor Macedo?

- Senhores, eu entendo tanto quanto os senhores do valor e da qualidade das pedras. Portanto, se quiserem negociar comigo, sejam gene­rosos na oferta, e terão um bom fornecedor de gemas que multiplicarão a vossa fortuna rapidamente. A minha, eu já tenho nas gemas; a vossa, vai depender de comprar ou não o meu produto - e ficou observando os pen­samentos dos homens.

O que pensavam, o Pescador ouvia e fazia as contas mentalmen­te. Já sabia quanto valiam suas pedras preciosas. Cada conta mental, que cada um deles fazia, o Pescador anotava em sua mente. Depois de algum tempo, sabia o que dar a eles pelo dinheiro que estava sobre a mesa. Falou algumas palavras na língua indígena, e Sol-da-Manhã passou-lhe mais uma pequena bolsa com pedras. Eram brilhantes fabulosos!

Os homens ficaram admirados diante do que viram.

O Pescador falou-lhes o quanto queria pelas pedras, e perguntou quanto havia em dinheiro.

- Então, os senhores mandam o resto mais tarde ao senhor Abraão. Agora, tenho que sair. Se quiserem ver o resto, venham à noite na casa do senhor Moisés, e lá faremos bons negócios. Verão o que tanto procuram e não encontram.

- E o que é? - perguntou um dos homens.

- Esmeraldas, senhores, as mais lindas esmeraldas que alguns dos senhores jamais viram. Ali está a verdadeira fortuna para todos nós. É só serem honestos comigo, e ganharão muito, porque eu as tenho.

Pegou as bolsas com o dinheiro e passou a Sol-da-Manhã, que entregou aos seus guerreiros.

- Senhor Abraão, vejo-o em sua casa, à noite. Agora tenho que concluir outros negócios. Até logo, senhores, foi um prazer conhecê-los!

- Até à noite, senhor Macedo, o prazer foi nosso.

Após se afastarem, os homens ficaram a conversar com o se­nhor Abraão.

- Quem é este homem, Abraão?

O homem mais rico e poderoso da Capitania, e talvez o mais influente junto ao Governador, creio eu.

Temos que cultivar sua amizade. O que temos que fazer para conseguir isto, Abraão?

E só serem honestos e leais com ele, e terão muitos ganhos. Ele é um homem generoso e leal, não quebra sua palavra por preço algum.

Vamos tentar. Talvez ele nos seja útil, para nossa própria prote­ção.

Será, não tenham dúvidas. Está viúvo, e minha irmã está olhan­do os seus filhos. E, pelo que me confessou tempos atrás, ele gosta muito dela. Quem sabe venha um dia a casar-se com ela.

E por que você não o incentiva a isto, Abraão?

Eu não vou forçá-lo a nada. Se ele quiser, que tome a iniciativa.

Está perdendo a oportunidade de ganhar muito dinheiro - falou o mais idoso deles.

Mas eu já estou ganhando muito dinheiro com o comércio. Cinco por cento dos ganhos são meus, e outros cinco de meu pai. Logo seremos muito ricos, e tudo pela confiança que ele deposita em nós. Con­fiem nele também, e terão sua lealdade e confiança.

- Vamos procurar conhecê-lo melhor, em sua casa.

Em outro lugar, mas ao mesmo tempo, o Pescador falava ao seu amigo índio:

Você viu e ouviu tudo? Deu para conhecer um pouco mais como são os brancos?

Sim, hoje eu aprendi muito. Entre nós, o que vale é o orgulho de um homem. Lealdade, caráter, força e valentia são nossos valores. Aqui, não. O que vale é a ganância, esperteza e mentira. São valores negativos, Pajé Branco.

_ É você tem razão, meu amigo. Mas não são todos assim, existem aqueles que são bons e leais também.

Nisto encontraram o senhor Carvalho, que vinha ao seu encon­tro.

- Como vai, senhor Carvalho?

Muito bem, obrigado! Também feliz por me livrar de tantos problemas em minha vida.

Fico feliz que o senhor esteja satisfeito com o negócio que estamos fazendo.

Depois de muito tempo, consegui dormir a noite toda sem acor­dar varias vezes.

Após passarem o negócio para os documentos oficiais, o Pesca­dor perguntou ao senhor Carvalho?

- Diga-me, o senhor vai partir para Portugal?

Vou, assim que vender minha casa aqui na capital. É muito grande e luxuosa. Eu fiz para meus filhos, mas eles foram estudar em Portugal e não quiseram voltar mais. Foi isto que me arruinou e me desgos­tou.

Se quiser vender, eu compro a sua residência e ainda lhe propo­nho um bom negócio em Portugal.

- Qual é a proposta, senhor Macedo?

Vou começar a fabricar aguardente de fina qualidade. O alambi­que está sendo montado, logo estará pronto. O senhor seria o distribuidor do meu produto em Portugal e em outros países, desde que seja honesto e leal comigo.

Eu aceito! Assim terei o que fazer na minha volta, e ainda ga­nharei um pouco de dinheiro.

Em troca, eu quero uma parte do pagamento em vinhos e ou­tros artigos. Se o senhor corresponder às minhas expectativas, aumentare­mos os nossos negócios.

Não se arrependerá de negociar comigo, senhor Macedo. Te­nho certeza de que lucraremos muito.

Mandarei um produto bom, a um preço justo. Faça o mesmo comigo e lucraremos muito.

Discutiram, ainda, o preço da casa, que foi pago imediatamente, e os termos dos negócios que fariam.

Voltariam a se falar antes da partida do senhor Carvalho para Portugal.

 

O CONSELHEIRO

O Pescador, em seguida, dirigiu-se à residência do Governador. Ao chegar, foi bem recebido, como era costume. Após os cumprimentos de praxe, foram até a sala.

- Então, quer dizer que o senhor perdeu sua esposa índia e se casou com uma judia? - falou sério o Governador.

Sim, acho que fiz o melhor para meus filhos, e para mim.

Como assim, senhor Macedo?

- Eu sou um homem que não paro em lugar nenhum. Um dia estou aqui, logo estou nos engenhos. De repente, mudo de idéia. E me embrenho nas matas para visitar os índios. Enfim, não tenho lugar fixo para morar. Diga-me: Que mulher gostaria de ter um marido como eu? Seria uma infeliz no casamento, com um homem igual a mim.

- É, tem razão. O senhor teria uma mulher, mas ela não teria um marido.

Isto mesmo. Eu sou um andarilho, não consigo ficar em lugar algum por muito tempo. Então, nada como uma mulher solteira e já madu­ra, como aquela com quem eu casei. Saberá criar os meus filhos com dedicação.

Soube, através do Capitão, que o senhor lhe deu sociedade no alambique que está montando. Será um grande alambique. O senhor trans­formou o Capitão em um homem de posses da noite para o dia. É muita generosidade sua para com ele.

O Capitão é um homem muito inteligente, mas por sua dedica­ção ao posto militar, não teve oportunidade nos negócios que florescem por aqui. Como eu sei do interesse dele por sua filha, apesar de ele nada confir­mar por ser muito discreto, resolvi dar-lhe uma oportunidade de enrique­cer. Quem sabe um dia ele cria coragem e confirma as minhas suspeitas. Ele, apesar de ser descendente de nobres, é muito tímido nas coisas do amor.

O senhor está pedindo a mão de minha filha em casamento para o Capitão?

Longe de mim assumir tal compromisso. Apenas vou torná-lo um homem de posses o suficiente para que, se tiver coragem, ele mesmo possa vir até o senhor fazer o pedido, isto é, se sua filha tiver simpatia pelo Capitão.

_ Vejo que o Capitão arranjou um protetor poderoso.

Apenas um homem que gosta de ver os outros felizes, senhor Governador. Acho que é assim que sou: um homem que gosta de repartir a felicidade que Deus lhe deu, com sua boa sorte.

O tempo dirá, senhor Macedo, o tempo dirá se o senhor está certo. Mas o senhor não veio até aqui só para me falar do amor do Capitão por minha filha, não é?

Não, eu nem teria falado nisto se o senhor não tivesse tocado no assunto. O que eu venho oferecer é ajuda na sua luta contra os holande­ses.

O senhor vem me oferecer sua ajuda na empreitada que eu estou realizando?

Sim, isto mesmo. Ou o senhor não quer?

Muito pelo contrário, eu aceito de muito bom agrado, pois pre­cisamos retomar as terras que já foram nossas.

Então, eu fornecerei uma grande quantia em dinheiro para que possa arregimentar uma boa tropa e libertar logo as terras.

E o que o senhor quer em troca de sua ajuda?

Nada, senhor Governador, absolutamente nada. Vejo esta terra, uma fonte de riquezas, ser tomada assim, por outro país. Nós podemos fazer muitos negócios por aqui, mas se deixarmos os invasores onde estão, logo vão querer vir para o sul, e então, o que acontecerá? Eles nos expulsa­rão daqui também, e Portugal perderá uma das suas melhores terras. Expulsando-os, os negócios para Portugal crescerão, à medida que caírem os deles. Então, não preciso que o senhor me dê nada em troca. As oportuni­dades virão naturalmente.

O Rei ficará sabendo de sua ajuda. Gostaria de tê-lo como meu conselheiro. O senhor aceitaria o cargo?

Ficaria honrado, desde que o senhor não se incomode com minhas constantes viagens pelo interior, a negócios.

Não, eu não interferirei em sua vida particular. Quando o se­nhor estiver na capital, gostaria de contar com os seus conselhos. Ás vezes fico com tantos problemas para resolver, que não sei nem por onde come­çar. O senhor me será de grande ajuda, nestes tempos difíceis.

Diga-me, senhor Governador, o senhor tem algum amigo ou parente em Portugal, e que seja pessoa honrada e de bom tino comercial?

Sim, um sobrinho de minha esposa. Ele se parece com o ho­mem que o senhor procura. Por quê?

Eu vou montar um grande curtume e pretendo beneficiar gran­de quantidade de couro, que os índios me venderão. Não gostaria de dar í algum estranho, o direito de venda na Metrópole, gostaria que fosse alguém em quem eu pudesse ter toda a confiança e, ao mesmo tempo, fosse al­guém de sua indicação.

Terá muito couro e peles para mandar para a Metrópole?

Eu creio que sim, pois os índios vivem mais da caça. Eu man­darei avisá-los para que me tragam as peles, em troca lhes darei alimentos e utensílios que necessitam.

O senhor é um homem brilhante. Se houvesse muitos como o senhor, não teríamos tanta escassez por aqui. Depois que o senhor assumiu o monopólio passamos a ter muitos produtos que antes não tínhamos.

Fico muito honrado com suas palavras. Dê-me licença, por um instante. Volto já.

Ao voltar, o Pescador colocou sobre a mesa do Governador di­versas bolsas com moedas, e algumas com ouro. Ao vê-las, o Governador arregalou os olhos.

Esta é a minha contribuição. Tirei uma parte do dinheiro, por­que quero ajudar o frei a aumentar a igreja e construir um colégio bom, para que nossos filhos e netos possam estudar. O futuro está aqui. Temos que prepará-lo rapidamente.

Conselheiro Macedo, o Rei ficará sabendo de sua pessoa. Se o senhor precisar viajar, terá sempre alguns soldados à sua disposição. Sua pessoa é muito valiosa para que algo de mal lhe aconteça, por uma fatalida­de qualquer.

Eu agradeço sua bondade, mas gostaria que o senhor fosse discreto a meu respeito em sua carta ao Rei. Como eu disse, gosto de ajudar as pessoas nas suas necessidades, assim como ajudarei o Capitão nas suas pretensões, mas espero que o senhor seja discreto ao máximo a este respeito, pois não gostaria que ele soubesse que interferi em seu favor. Que as coisas pareçam naturais. Posso contar com sua discrição?

Pode, senhor Conselheiro Macedo. Eu também sou um homem discreto. Mais tarde, o escrivão lhe entregará pessoalmente o título de sua nomeação como Conselheiro.

Obrigado, e até logo, senhor Governador.

Até à vista, senhor Conselheiro Macedo. A porta de minha residência estará sempre aberta à sua pessoa, e à sua nova esposa.

O Pescador partiu com um sorriso mal contido nos lábios. Esta­va feito. Era praticamente intocável. Que viessem os golpes, saberia apará-los na hora certa. Partiu para onde estava o Capitão para lhe dizer como agir de agora em diante. Após falar com o Capitão, este o abraçou forte.

- Senhor Macedo, não sei como agradecer-lhe, mas conte sem­comigo, em qualquer situação em que se encontre.

Obrigado, Capitão. Fico feliz em vê-lo feliz. Fico feliz quando posso tornar alguém feliz, caso contrário, fico meio triste. Que Deus o proteja por onde passar, Capitão. Agora vou partir, tenho que despachar os carroções para o engenho, acho que já estão carregados a esta hora.

Eu mandarei uma escolta para protegê-los.

Obrigado, meu amigo. Até à vista!

Até à vista, senhor Macedo!

Vamos, meus irmãos guerreiros, vamos procurar um lugar para comermos e nos lavarmos. O dia foi de muitas vitórias, mas a noite será melhor.

Ao cair da noite, chegaram à casa do senhor Moisés. Foi recebi­do pelo senhor Abraão e seu pai. Quando ia entrar, chegou um cavaleiro apressado. Chamou pelo Conselheiro José Macedo. O Pescador voltou até a entrada, para saber do que se tratava.

Venho trazer o título de sua nomeação como Conselheiro do Governo da Capitania.

Diga ao senhor Governador que eu fico agradecido com a no­meação.

Até logo, senhor Conselheiro.

Até logo, e obrigado.

Tornou a entrar e, ao ver novamente os homens do encontro da manhã, desculpou-se por não ter chegado antes. Depois anunciou:

Senhores, a partir de hoje sou Conselheiro da Capitania.

Parabéns, meu amigo! - falou o senhor Abraão - é uma honra ter um Conselheiro em minha casa.

Gostaria de anunciar outra coisa que me fez mais feliz ainda. Como os senhores sabem, eu sou o católico e já fui casado com uma boa moça índia. Ela me honrou com três filhos. Sarah, a filha do senhor Moi­sés, está olhando-os agora por mim. É uma ótima mulher. Eu já a amava desde jovem. Agora, com o auxílio que está me dando no cuidado de meus filhos, acho que a amo ainda mais.

Ficou em silêncio por um instante, não se ouvia nem o respirar das pessoas na sala. Ele se virou para Sol-da-Manhã e, na língua indígena, pediu um documento. O amigo falou mais alguma coisa e tirou da bolsa de couro um documento. Todos esperavam em silêncio que continuasse. Por fim, ele falou:

- Como sou católico e ela judia, nós dois pretendemos continuar como somos, sem mudar nossas crenças, pois as coisas do amor dispen­sam rituais religiosos. Estamos casados com comunhão total de bens pela lei civil portuguesa, desde ontem. O documento em minha mão atesta isto perante os homens, e a lei. Fizemos isto de comum acordo.

Mas, por que não nos falou antes, senhor Macedo? - falou o velho Moisés.

Eu quis fazer surpresa. Sinto por ela não estar aqui agora, mas logo estará. Espero que aprove nossa união!

Se eu aprovo? Eu o abençoo como meu filho também! Seja bem-vindo à minha família. Um dia o senhor me disse que ia ajudar minha filha, mas não pensei que chegasse a tanto. Depois de tudo que ela sofreu, e o senhor também, o Criador os recompensou com generosidade. Que felizes sejam para sempre! - e abraçou o Pescador com os olhos lacrime­jando. Era o pai mais feliz do mundo.

Abraão também o abraçou, chorando. Quando se refez, conse­guiu, falar:

Senhor Macedo, obrigado por nos fazer tão felizes esta noite. Não pode imaginar como gostaria de abraçar minha irmã.

Logo poderá abraçá-la. Na próxima viagem, ela virá comigo. Já comprei uma casa para morarmos, espero que ela goste. E a casa que era do senhor Carvalho.

Aquela residência imensa, o senhor comprou?

Sim, muito bem mobiliada.

Depois de muitos comprimentos dos outros homens na sala, o Pescador não era mais um estranho para eles. Era aceito como um membro da família do senhor Moisés, pai de Dona Sarah Macedo, esposa do Conse­lheiro Macedo, o homem mais rico da Capitania e, com certeza, o mais influente. Alguém no qual eles confiariam de agora em diante.

Por fim, o Pescador falou:

- Senhores, deixemos a festa para quando Sarah voltar. Agora vamos falar de negócios.

Esta foi uma frase que alegrou mais ainda o ambiente. A uma palavra do Pescador, Sol-da-Manhã saiu. Pouco depois, junto com os dois outros índios, entrou com pesadas bolsas.

O Pescador abriu uma delas e espalhou o seu conteúdo na mesa. Havia esmeraldas e rubis. Sua beleza fascinava aos homens ali reunidos. Eles só olhavam, não conseguiam dizer palavra alguma.

Por fim, Abraão falou:

Isto vale uma fortuna, senhor Macedo. Como conseguiu estas pedras de tão alto valor?

A origem não importa, o que importa é que eu as tenho, e estou aqui para vendê-las. Sei quanto valem. É, de fato, uma imensa fortuna. A metade é de sua irmã. Quero que me ajude a transformar tudo isto em dinheiro, navios, propriedades e mercadorias. Apenas isto eu quero.

Mas não temos tanto dinheiro para bancar tudo isto, senhor Macedo - falou um dos homens, mostrando um pesado baú cheio de mo­edas.

Por enquanto, é o suficiente para o que preciso. Avaliem as pedras e peguem o suficiente para cobrir o vosso dinheiro, deixando cinco por cento ao senhor Abraão. Isto é sua comissão. Eu prometi, eu cumpro.

Os homens, que eram experientes, foram medindo e pesando as pedras. Ao final das contas, retiraram um monte delas. Dois terços, mais ou menos, deram o valor.

Nós estamos lhe pagando justo, senhor Macedo. Sua mercado­ria é de ótima qualidade, terá um alto preço nas cortes européias. Tiramos cerca de quarenta por cento de comissão para colocá-las nos lugares cer­tos, pelas vias certas.

Pois então, retirem-nas da mesa. Vou abrir a segunda bolsa. Estas, eu quero que se transformem em navios, e só dou trinta por cento de comissão.

Ao final de muitas contas, chegaram à conclusão do que poderi­am adquirir com aquelas pedras.

Muito bem, senhores, retirem estas também, porque eu vou colocar a terceira bolsa. Após abri-la, falou:

Quero estas transformadas, dois terços em dinheiro e um terço em mercadorias que os navios trarão, em diversas viagens, até esgotar este terço. Eu forneço a relação do que quero, o senhor Abraão entregará aos senhores quando estiver pronta.

Depois de tudo avaliado e os contratos feitos, os homens esta­vam felizes. Saíam dali ricos com as comissões recebidas. Mais tarde, partiram com a primeira das bolsas, as outras duas ficaram sob a guarda do senhor Abraão. Após a saída dos homens, o Pescador falou:

- Meu amigo, quero segredo absoluto sobre estas gemas.

Eles são mais silenciosos que a noite. Ficarão sabendo da sua existência somente seus compradores finais. Aí elas aparecerão, antes não. Eles entregarão tudo o que o senhor pediu. Pode demorar um pouco, por­que é um valor muito alto, mas honrarão a palavra. Estão ganhando muito com isto.

Sim, eles nunca dizem o que têm para vender, para não cair o preço. As pedras irão aparecendo um pouco em cada lugar. Algumas irão parar no Oriente, outras irão para as cortes européias, mas sempre em silêncio. Creio que, em seis meses, terão vendido e transformado tudo em navios, dinheiro e mercadorias - falou o velho Moisés.

Sarah sabe da existência delas? - perguntou Abraão.

Só de uma parte, não tive tempo de mostrar-lhe tudo. Mas ela não se deixa impressionar. Creio que ela é muito simples para se deixar iludir pelo fascínio das pedras.

Sim, acho que ela é assim mesmo, mas dos seus negócios ela cuida com ciúmes. Quando o senhor não pôde vir, ela nos exigiu que cui­dássemos muito bem dos seus negócios. Nem parecia a irmã que deixei ao partir. O que terá feito ela mudar tanto?

Saber que alguém a amava, e não se importava com o que tinha ocorrido em sua mocidade.

 

UM ERRO PAGA OUTRO ERRO

(BUSCA DOS FILHOS DE SARAH)

Quando Abraão já havia guardado todas as pedras num lugar bem escondido e o Pescador colocado todas as moedas nas bolsas e entre­gue aos índios para guardá-las, chegou o senhor Simão. Estava lívido.

O que houve, meu filho? - perguntou o velho Moisés.

Quase morri, esta noite. Cometi um erro e quase pago com minha vida.

Eu senti ciúmes de Sarah, e do que este homem fez a ela, e fui denunciá-lo ao Capitão, o comandante do forte. Ele quase me matou, pois sabia que ele é Simas de Almoeda, o juiz espanhol. E o frei também sabe.

Mas por que foi denunciá-lo, meu filho? Não viu o que ele fez por nossa casa? Por sua irmã também?

Eu vi o seu pergaminho. É o pergaminho dos Magos do Orien­te. Achei que era um deles e que tinha enfeitiçado Sarah. Isto me revoltou. Então, eu o denunciei. O Capitão só não me matou porque sou irmão de Sarah, que, segundo suas palavras, está casada com este homem. Isto é verdade?

Sim, é verdade, meu filho. Mas como, sendo um sacerdote acima de tudo, teve coragem de fazer uma coisa destas?

Ciúmes, pai. Eu tenho ciúmes de Sarah. Não posso pensar em minha irmã unida a alguém por obra de alguma magia.

Espere aí - falou o Pescador - se eu lhe mostrei o pergaminho, foi para saber o que significava, pois desconheço sua origem. Se casei com sua irmã, foi por amor, e não por magia. Se existe alguma magia para este fim, eu desconheço. Porém conheço algo que faz as pessoas se casarem e isto chama-se amor. É isto o que sentimos um pelo outro, desde que éra­mos jovens. Sinto-me envergonhado de que alguém pense isto de mim. Acho que vou me retirar.

Espere, senhor Macedo - falou o sacerdote Simão - eu tam­bém estou envergonhado de meu ato. Creio que devia ter sido franco com o senhor, e nada disto teria acontecido. Que Deus me perdoe pelo meu erro. Espero que, apesar de tê-lo denunciado e ofendido, um dia possa me perdoar pelo mal que quis fazer. Esqueci-me de que também somos muito perseguidos pela nossa crença religiosa e, como um sacerdote, eu não de­via agir dessa maneira.

- Eu não tenho por que perdoá-lo. Apesar de não deve nada à justiça dos homens, devo à divina, porque causei a morte de meu pai. Disto eu não posso fugir. Não há lugar pior para se ocultar um erro, do que na nossa consciência. Somente nós sabemos do erro, mas, em compensação, não o esquecemos. Do seu erro, o senhor cuida, como eu cuido do meu, me envergonhando cada vez que ele me vem à lembrança. Que Deus o perdoe, assim como espero que, um dia, perdoe a mim também.

O velho Moisés estava estarrecido. Aquilo não podia ter aconte­cido! Não com um filho seu. Pediu ao Pescador que não se deixasse levar pelo ato do filho. Ao que o Pescador respondeu:

- Eu também, um dia, pensei que meu pai estava enfeitiçado, e com minha atitude o conduzi à pior das mortes. Acho que agora estou apenas recebendo o que um dia eu fiz inocentemente. Não me ofendo, e não me magôo. Deus sempre nos cobra por nossas ações. Fique calmo, meu amigo, pois nada mudou entre nós.

Abraão não falava nada. Estava sentado com o rosto encoberto pelas mãos. De sua casa partira uma tentativa de traição. O senhor Macedo só não foi preso porque se antecipou a seu irmão, sabia disto. Era como se uma voz lhe falasse no seu íntimo. Mais algumas conversas, e tudo ficou em paz.

No dia seguinte, o Pescador partiu. Assumiria o engenho do se­nhor Carvalho e tinha pressa em voltar à aldeia. Estava com saudades de Sarah e dos filhos.

Ao chegar no engenho, falou com Ruth, que deu algumas or­dens, e logo começou uma intensa movimentação. A notícia se espalhou rapidamente. O outro engenho agora pertencia ao Cavaleiro da Estrela da Guia. Teriam paz, de agora em diante. Após a partida de Ruth e do Pesca­dor com um grupo de negros que ela escolhera, havia um clima de festa no engenho.

Quando o Pescador chegou, o senhor Carvalho já havia partido. Ficaram poucos feitores brancos. O Pescador os chamou e, junto a Ruth, conversou longamente com eles. Quem mandava ali, de agora em diante, era a Princesa Ruth, falou o novo patrão. Os feitores ficaram imaginando que, uma negra com uma coroa de brilhantes tão rica, e encarregada de todos os três engenhos, só podia ser amante do patrão.

Depois de conversar com eles pessoalmente, Ruth acertou com o Pescador que ficaria ali por alguns dias mais, até ter o controle sobre tudo. Depois voltaria ao engenho antigo, onde nascera. Os negros que trou­xera, ficariam tomando conta de tudo.

Assim que chegar ao engenho, eu mando o que está faltando aqui, Ruth. Amanhã terá o que falta.

Eu vou fazer tudo como mandou, Pescador. Logo os negros daqui vão tocar os seus tambores e pedirão proteção para você, como os outros fazem lá.

Assim espero, Ruth, sei que eles vão respeitá-la. Queime os troncos de suplício, como eu fiz no outro engenho, mas somente depois de reunir e falar a todos.

Eu vi como fez. Farei do mesmo modo. Aqui também existem velhos como meu pai. Eu os reunirei antes, como você fez. O canto volta­rá, o tambor tocará, e a paz irá reinar. Os brancos que ficarem, serão amigos. Do contrário, que partam!

É assim que se faz, Ruth - e deu-lhe um longo abraço de des­pedida.

Quando chegou ao engenho antigo, começou a dar suas ordens. Logo os bois foram atrelados aos carroções: levariam alimentos, roupas e ferramentas para o Engenho Novo. Este foi o nome que o Pescador lhe deu. Os negros seriam bem tratados lá também. Sol-da-Manhã estava sen­tado na varanda, observando o movimento. Sim, o Pajé Branco sempre vencia. Era um grande cacique. O Pescador chamou o negro que coman­dava a guarda dos dois engenhos:

Quero que o senhor mande alguns dos seus homens para o Engenho Novo e montem guarda lá também. Até Ruth voltar, ninguém entra nesta casa, além do casal que mora aí.

Pode deixar, amo, eu cuido de tudo para o senhor. Pode viajar tranqüilo, não se preocupe com nada!

Depois de todas as providências tomadas, o Pescador foi até o casebre do velho Mina para contar-lhe as últimas novidades.

Ao chegar, foi recebido com alegria pelo velho João de Mina, que o abraçou como a um filho.

Como tem passado, meu amigo?

Bem, Pescador. Mas deixaste a cobra viva. Ela vai picar-te um dia.

Do que o senhor está falando?

Do homem que tentou te trair. Ele é falso e traiçoeiro. Um dia ele vai te prejudicar, e eu não estarei mais aqui para te ajudar. Então, procu­re o velho Jorge. Ele poderá ajudar nesse tempo.

Entendo. Mas eu não podia fazer nada, além de me proteger.

Hoje à noite os tambores vão tocar. Gostaria que ficasses, para que visses ao menos uma vez, antes que eu parta.

Eu fico. Aonde será? Lá no engenho?

Sim. É lá que eu faço os cultos e preparo os filhos-de-santo. O Pescador chamou Sol-da-Manhã e avisou que ficaria mais esta noite. Se quisesse, podia partir para encontrar Lua Branca.

- Não, Pajé Branco, eu fico com você. Quero ver como são os pajés negros.

- Está bem, meu amigo. Acho que é bom aprender isto também. À noite, o que viram os deixou impressionados. Era diferente dos

costumes dos índios, as pessoas dançavam diferente.

O Pescador foi convidado a sentar-se ao lado do velho Mina. Depois de algum tempo, as feições das pessoas se transformavam, assumi­am ares sérios, imponentes ou meigos. Dependia da canção que estivesse sendo tocada nos tambores. Todos vinham saudar o velho Mina e, depois, saudavam ao Pescador e a Sol-da-Manhã.

O velho Mina explicou que eram os Orixás se manifestando, saudando-o pelo que fizera pelos seus filhos. Era uma forma de agradecer e de dizer que sempre teria a sua proteção, por onde passasse.

O Pescador ouviu todas as explicações com interesse. Estava encantado com a beleza dos rituais. Quando terminou o culto, já era alta madrugada. Então, o Pescador falou. Todos estavam em silêncio para ouvi-lo, era o primeiro amo branco que via um culto.

- O meu bom amigo João de Mina me falou que, quando cheguei um dia aqui, fui chamado de Cavaleiro da Estrela da Guia porque vinha para trazer a liberdade aos negros que clamavam por ela. Não poderia dar-lhes tudo, mas que teriam paz, poderiam constituir família e nunca mais seriam separados, e que, o que fizessem pelo engenho, seria feito por eles mes­mos. Já estavam bem, mas ficariam melhores a cada dia.

Agradecia aos seus Orixás pela proteção que ofereciam.

Foi agraciado de uma forma que o comoveu muito. Todos vi­nham abraçá-lo. Eram rostos sofridos e cansados, mas felizes. Para um ser humano ser feliz não é preciso muito, basta dar a ele o que mais quer: a liberdade de fazer aquilo que gosta. Simples demais para ser compreendido pelo mundo. Quem sabe um dia isto seja possível, com a força de Deus agindo no coração de todos os homens.

Estava comovido com a alegria dos negros, mas triste por ter que mantê-los atados aos engenhos. Gostaria de poder dar-lhes algo mais. Foi interrompido em seus pensamentos por uma observação do velho Mina.

- Fizeste tua parte. Mais, não pode ser feito. Eles sabem disto. Antes não tinham nada, agora têm um Pai Branco para protegê-los. Isto eles sabem.

O senhor também ouve os pensamentos, não, meu amigo?

Sim, eu ouço. Para onde iriam, se fossem mandados embora? Para as florestas, começar tudo de novo? Aqueles que estão lá sofrem mais. Aqui têm alimentos à vontade, roupas para proteger seus corpos, e paz. São simples, Pescador, não pedem muito para serem felizes. Nunca os mande embora, protege-os e Oxalá te protegerá também.

Enquanto eu viver, ninguém será molestado nos engenhos que eu possuir. Isto o senhor sabe também, não?

Tu já falas como eu. É sinal de que também pensas como eu. Isto é bom. Educa bem os teus filhos e eles darão continuidade ao teu modo de pensar. Pode não mudar o mundo, mas o torna melhor para se viver.

Eu os educarei bem, meu amigo, conte com isto. E ore por mim, para que não venham a errar. Agora vamos partir, pois algumas pes­soas devem estar com saudades de nós.

Mas não descansaste o dia todo, e passaste a noite acordado. Descansa um pouco e depois parte.

Eu não estou cansado, e me sinto como se fosse um jovem na sua melhor forma. Até à vista, meu amigo.

Até à vista, Cavaleiro. Que Deus te proteja!

Logo o Pescador partiu junto com os índios, rumo à aldeia. Iam felizes. Alguém, em algum lugar, os protegia para sempre.

À noite, chegaram à aldeia e foram saudados com gritos de boas vindas. Depois de algum tempo, se recolheram a suas moradas. Tinham muito o que contar, e alguém para ouvi-los.

O Pescador ficou contente ao ver que estavam bem as crianças e Sarah. Como era linda aos seus olhos! Como é bom ter alguém para amar, e ser amado também!

Ficou na aldeia por muitos dias. Gostava dali. Era sua morada natural e, se pudesse, ficaria ali para sempre. Quando viu que as crianças já podiam ser transportadas, começou a preparar a viagem para a capital. Seria demorada, não poderia correr com os cavalos como fazia quando cavalgava sozinho. Mas também, não tinha pressa de voltar. Passaria para ver o Padre. Lá, pegaria uma carroça e assim as crianças viajariam protegi­das.

A despedida foi longa e triste para ele. Eram todos seus amigos.

Cacique, não fique triste, eu voltarei logo.

Sinto que leve os meninos, Pajé Branco. Traga-os aqui quando crescerem, o espírito de Raios-de-Lua ficará feliz.

Eu os trarei, assim que ficarem fortes o suficiente para pode­rem suportar a viagem, e os deixarei um pouco com o senhor. No tempo certo, terá o seu guerreiro Cobra Coral. Isto eu sinto só de olhar para ele, é um guerreiro nato.

- Vou esperar isto de você, Pajé Branco. Era o sonho de Raios-de-Lua, será o meu sonho também.

O Pescador ficou em silêncio. Raios-de-Lua... Onde estaria sua querida agora? Sentia saudades dela. Ela era tão alegre... Faltava algo em sua vida, era Raios-de-Lua. O seu semblante começou a entristecer.

Não olhe o passado com tristeza, Pajé Branco - falou o Pajé Anhanguara, que estava ouvindo o pensamento do Pescador.

É, o senhor tem razão! Só tenho motivos para me alegrar com o passado. Até a volta, meu amigo.

Até a volta, Pajé Branco. Eu sei que você nunca vai se afastar de nós, por isto eu não fico triste. Só sinto saudades suas, quando se afasta um pouco...

Eu também sinto falta sua, meu amigo. O Pajé foi até Sarah para lhe falar.

Viu como a terra começa a dar frutos, filha?

Por que diz isto, Pajé?

Porque o primeiro já está germinando.

E o senhor sabe isto também?

- Isto eu também sei. Você pode sofrer um pouco, mas não se preocupe quando tiver que arrancar um fruto: sempre machuca um pouco a árvore, pois o galho precisa ser partido, mas depois nasce casca no lugar. Depois, a árvore quer dar novo fruto, porque vê que gostaram de seu fruto.

Eu vou me lembrar disto também.

Eu sei que vai. Vou sempre pedir por você no meu canto a Tupã.

Deu um abraço em Sarah. Demorou para largá-la, pois sabia que não a veria mais. Isto ele também sabia, mas somente ele sabia.

Partiram. Sol-da-Manhã os acompanhou até o arraial do Padre. Lá se despediu do Pescador.

Até sua volta, Pajé Branco. Espero que, quando voltar, eu tenha me tornado um bom pajé.

Eu sei que você vai vencer, meu irmão. Vou orar pela sua vitó­ria como pajé.

- Ali, no cavalo, você tem mais pedras. Use-as, está bem?

- Obrigado. Quando quiser, venha à minha casa na cidade. Quando o amigo partiu, o Pescador ficou por longo tempo a observá-lo. Era a pessoa mais leal que conhecera em toda a sua vida. Sen­tiria a sua falta, estava acostumado com ele ao seu lado, era o irmão insepa­rável.

Nada muda, Simas. Logo o verá novamente - falou Sarah ti-rando-o da abstração.

Sim, eu sei, mas já estava tão acostumado a tê-lo ao meu lado, que sentirei sua falta.

Após providenciar um carroção coberto e ajeitar toda a carga, o Pescador partiu.

Ao chegar no engenho, as crianças estavam doentes, pois a ali­mentação era ruim. Ao ver o estado das crianças, Ruth chamou duas ne­gras que tinham dado à luz naqueles dias e mandou-as alimentar as crianças no peito. O Pescador foi aconselhado a permanecer ali, até ficarem boas.

Neste meio tempo, ele visitou todas as propriedades e providen­ciou a instalação do curtume. Logo teriam tantas peles, que daria para envi­ar à Europa grandes cargas. Ali estava uma fonte certa de grandes lucros. Mais tarde, mandaria curtidores especializados para ensinar o ofício aos negros.

Ruth estava dirigindo tudo tão bem que o Pescador não tinha com o que se preocupar. Transferira um pouco do pessoal para o outro engenho, onde se iniciava uma grande plantação de fumo, talvez a maior de toda a Capitania.

- Você nasceu para isto, Ruth. Este é o seu reino. Aqui você sabe o que fazer. Acho que não terei que vir muito para cá. É melhor, quando precisar de algo, você ir até a capital. Lá eu tenho uma casa enorme, e você fica hospedada conosco. Acho que Sarah vai gostar, não, Sarah?

Sim, você é muito mais bonita e inteligente do que ele me falou.

Obrigado, ama.

Não me chame de ama, não gosto desta palavra. Diga apenas Sarah.

- Está bem, então, Dona Sarah. Com o Pescador, nós temos toda a liberdade, mas a senhora é estranha, e deve ser assim.

- Você é também muito franca no modo de falar. Eu gosto de você. Acho que vamos ser muito amigas.

Depois de uma semana, as crianças estavam saudáveis nova­mente. O Pescador resolveu levar as duas mulheres com seus filhos para a capital. Ficariam lá, até que as crianças não precisassem mais de leite ma­terno. Levou os maridos também, assim não separaria as famílias por cau­sa de seus filhos. Ainda os usaria como empregados na grande casa. A menina Ana, que ele tinha curado da picada de cobra, foi junto.

Partiram ao amanhecer, pretendia chegar à noite. Agora que o caminho era melhor, andariam mais rápido.

Ao chegarem à capital, o Pescador providenciou acomodação para os empregados com os filhos. O quarto de Sarah com as crianças era muito bonito. Ela ficou impressionada com a beleza e a riqueza da residên­cia.

Muito linda nossa casa, Simas!

Um homem foi à falência por causa dela - falou sorrindo.

Quem era o dono?

O proprietário do engenho que comprei, o senhor Carvalho.

Você comprou o engenho dele também?

- Sim. Estou montando um alambique, vou exportar aguardente de cana, e logo estará pronto o curtume. No próximo ano, teremos a maior safra de fumo da Capitania.

E o que mais você me ocultou?

Que você é a esposa do homem mais rico da Capitania.

- Como posso ser chamada de esposa se somos unidos apenas por um ritual indígena?

- Você não aceitou o ritual? Não acreditou nele?

- Sim, mas isto, pelas leis, não me dá o direito de ser sua esposa. No máximo, uma concubina, e nada mais.

- Então, feche os olhos.

E, retirando de dentro de uma bolsa os documentos, mandou que abrisse os olhos e visse.

Você fez isto? - perguntou Sarah, emocionada - eu não sabia de nada. Por que não me contou pelo menos isto?

Primeiro, queria ver se gostava de sua nova casa. E aqui tem mais um título, leia-o.

Após ler o documento, Sarah o abraçou.

Meus parabéns. Conselheiro! Quer dizer então que Sarah, a filha do velho judeu Moisés, é esposa do Conselheiro José Macedo, o maior proprietário de terras, e o mais rico, de toda Capitania?

Sim, e tem mais: estes baús estão cheios de ouro, gemas preci­osas e moedas portuguesas. Somente isto aqui já a torna a mulher mais respeitada desta Capitania. Portanto, use o seu direito.

No dia seguinte, o Pescador levou a esposa até à casa do pai, logo cedo. Ao vê-la, o velho Moisés deu-lhe um abraço carinhoso.

- Minha filha, sou o pai mais feliz do mundo.

- E eu sou a filha mais feliz do mundo, papai. Logo serei mãe, a mais feliz do mundo, e quero que o senhor seja o avô mais feliz também.

- Hoje é um dia que jamais vou esquecer, minha filha. Eu pensei que você fosse chegar pálida, magra e doente, e o que eu vejo? Uma mulher corada pelo sol, saudável e contente. Minha casa foi abençoada por Deus. Gostaria de dividir minha alegria com sua mãe.

Em algum lugar, ela está feliz também. Mas, cadê Abraão?

Viajou para a Itália com seu irmão Simão, que se mudou para Gênova na semana passada.

Mas por que se mudou? Por que não esperou que eu voltasse?

Ele esperou bastante, mas como você não vinha, ele partiu sem se despedir.

Depois de muito conversarem, Sarah convenceu o pai a ficar em sua casa, não sem protestos. O velho Moisés era o pai mais feliz. Sua filha era agora como uma flor viçosa, irradiava alegria. Pegou seus pertences pessoais, mais alguns baús com documentos, seus livros guardados com muito cuidado e, naturalmente, as pedras preciosas do senhor Macedo. Os empregados negros do senhor Macedo carregaram tudo e o velho Moisés partiu. Ia morar com a filha daquele dia em diante, por insistência do se­nhor Macedo. Como poderia contrariar um Conselheiro da Capitania que, segundo informações que recebera, logo receberia o título de Fidalgo. Sim, era um pai feliz.

O tempo passou rápido naquela casa. Os negros que vieram com o Pescador acabaram ficando ali mesmo. Era uma vida boa, o dinheiro corria sempre para o Pescador. Sua fortuna era imensa e seus negócios se expandiam por outras Capitanias.

 

A DESPEDIDA DOS PAJÉS

(MAIS MAGIA NEGRA)

Até que um dia chegou um negro do engenho antigo, com uma mensagem de Ruth para o Pescador.

Após ler o que estava escrito, o Pescador mal se despediu da esposa e partiu, aflito, para o engenho. O velho Mina estava doente. Sabia que o amigo iria morrer, e isto o deixava mais aflito ainda.

Quando chegou ao engenho, foi direto para a casa grande. Ruth não estava ali. Informaram que ela estava no casebre com o pai.

Partiu para lá, rápido como um raio. Ao chegar, foi para o lado do amigo que tanto bem fizera na vida. Não sabia o que dizer. O velho, ao vê-lo, pediu a Ruth que saísse, pois queria ficar a sós com o Pescador.

Ficaram a conversar por algum tempo. Depois, o Pescador cha­mou Ruth que sentou a seu lado. O velho pediu ao Criador que a guardasse, e também ao Pescador. Então, deu o último suspiro forte e sua cabeça pendeu sobre o peito. Estava morto o tão querido Pai João de Mina, dos negros da região. Um grande homem partia, deixando um imenso vazio naquela gente humilde.

O Pescador disse a Ruth que ele queria ser enterrado ao lado do filho. Assim foi feito. Ruth estava inconsolável. Durante alguns dias, o Pescador ficou ali, até que ela ficasse mais conformada. O Pescador man­dou que buscassem o velho Jorge no arraial. Ele iria tomar o lugar do velho Mina. Era este um de seus desejos. O culto continuaria com um chefe à altura, pois o velho Jorge era um Mina também.

Ao ver que Ruth estava mais conformada com a morte do pai, mandou alguém avisar à esposa que demoraria para voltar. Iria até a aldeia dos índios, que ela já conhecia.

O Pescador levou Ruth na viagem. Queria que ela se distraísse um pouco, o que seria bom para ela.

Quando chegou à aldeia, levou outro choque: O velho Pajé Anhan­guara estava mal também. Foi uma tristeza após outra. Sol-da-Manhã foi ao encontro do amigo, muito triste. Era quase um pai para ele.

- Por que nos deixa, Pajé velho? - perguntou o Pescador.

- É a hora de partir, filho. O Pajé Negro já foi, e agora eu vou me juntar a ele nos campos eternos. Sol-da-Manhã já é um grande pajé, não precisa mais de mim. Posso partir em paz, que a tribo estará protegida: tem um pajé índio para cuidar dela, e um pajé branco para guardar suas terras. Eu só estava esperando sua chegada para poder partir. Agora, vou me juntar a Raios-de-Lua. Eu a vi em sonho, está muito bonita e feliz. Mandou-lhe um recado, Pajé Branco.

- Que recado, meu amigo?

- Ela disse: "Eu o olho de onde estou. Sou feliz, porque ele e Sarah são felizes".

Raios-de-Lua, onde estaria ela agora? Quanta saudade sentia dela!

- Não pense no passado, filho, olhe para a frente.

Após dizer isto, deu um forte suspiro, e a cabeça caiu de lado. Tinha acabado de morrer. O Pescador ficou na frente do amigo, chorando, até que Sol-da-Manhã veio afastá-lo do corpo, já sem vida.

Após as cerimônias fúnebres, o Pescador partiu com Ruth. Fo­ram dias amargos, tanto para ela quanto para ele. Passou pelo engenho e deixou Ruth. Sem pressa, partiu para a capital. Morria uma parte dele tam­bém. Isto, somente aqueles que são realmente amigos sentem.

Logo nasceu o primeiro filho de Sarah. Isto serviu para reanimar um pouco o Pescador.

Os anos foram passando e a vida corria bem na casa.

Os filhos de Raios-de-Lua já estavam crescidos. Sarah dera à luz a quatro filhos, "as quatro pérolas da segunda sereia" - pensou o Pescador. Era uma casa muito animada, com tantas crianças a brincar. Foi quando chegou, de volta da Europa, o irmão de Sarah, Simão.

O destino novamente mudaria para o Pescador. Logo começa­ram a aparecer doenças naquela casa, e a felicidade começou a sumir. Ora ficava um filho doente, ora ficava outro. O Pescador já não sabia mais o que fazer para cortar aquela onda de doenças. Notou que sua Estrela, que mantinha em seu quarto, estava perdendo o seu brilho. Quando Sarah so­freu um acidente e ficou paralisada, o Pescador lembrou-se das palavras do velho Mina: "a cobra ainda vai picar-te". Os filhos doentes, a esposa para­lítica. Simão tinha voltado para destruir sua vida. O que era um lar feliz, agora era só tristeza e lágrimas. E o maldito Simão parecia feliz com isto, pois toda vez que via o Pescador, este ouvia os seus pensamentos, que eram sempre de ódio. Ouvia as suas maldições.

Lembrou-se do velho Jorge e foi falar com ele. Queria saber o que fazer para acabar com tudo aquilo. Após contar tudo o que se passava em sua casa, o velho Jorge falou:

- É o seu cunhado que fez magia negra contra você. Ele invocou o que há de pior nos infernos para arruinar a sua vida. Você tem que agir rápido. Ele é um instrumento dos demônios, veio para destruí-lo. O ódio que ele sente por você não o deixa ver que vai matar a si próprio.

E o que posso fazer, Pai Jorge?

Você tem a água, o ar e o fogo, precisa da terra para destruir os demônios que ele invocou. Se quiser, eu lhe dou a chave da terra. Então poderá quebrar o feitiço negro desse homem. Você está preparado, Pesca­dor?

Sim, eu estou preparado! Começo quando o senhor quiser.

Hoje à noite você verá o poder da terra. Se for forte o bastante, a terá como aliada, com todas as suas forças.

Foram sete dias de fortes preparações. Ao fim do sétimo dia o Pescador passou pela prova final: mergulhou em espírito na terra. O corpo ficou frio como gelo, e a alma sumiu. Por horas, não dava sinal de vida. Por fim, voltou lentamente a si e foi tomando contato, outra vez, com a realida­de. Abriu os olhos e olhou para o velho Jorge, que o ajudou a se levantar. Conhecia agora todo o mistério da terra.

- Agora, sente-se aqui, que eu vou ensiná-lo sobre como usar o poder que possui. Mas antes, quero que saiba que seu sogro morreu hoje às quatro horas da tarde, vítima do próprio filho. Você tem que agir agora, que seu inimigo esqueceu-o por um instante, isto deixa sua guarda aberta. É hora de começar.

O Pescador invocou os elementos, sentado ao lado do velho Jor­ge, à sua volta, tudo se movia, o ar se agitava, o fogo se fazia presente, a água se encrespava e da terra saíam forças medonhas e, um a um, o Pesca­dor foi subjugando os demônios do mago Simão, o filho do velho Moisés e irmão de sua esposa.

Os gritos de pavor que ouvia ao seu redor, eram dos seres infer­nais que estavam sendo destruídos. Após algum tempo, os elementos fo­ram se acalmando. Tudo havia terminado, já não havia mais magia negra sobre sua casa.

Agora, vá até sua casa e queime as ervas que vou lhe dar. Depois, as doenças se curarão por encanto. O mago vai sofrer um choque terrível e, na certa, morrerá de forma horrível. A cobra deu sua última picada.

Obrigado, amigo Jorge, mas isto não me deixa nem um pouco feliz.

- Foi ele que invocou os demônios, não? Então que eles o levem da forma que acharem melhor. Não interfira, senão você irá também.

O Pescador partiu. Quando chegou, fez o que o velho Jorge mandou. Logo não havia mais doença em sua casa, mas não teve coragem de dizer nada a Sarah, que vivia triste. A vida perdera o encanto novamente. Restava-lhe apenas passar o resto da vida numa cama. Não podia mais andar, tinha que ser servida na cama. Ela, que gostava tanto de brincar com os filhos, agora vivia presa à cama. Que vida horrível!

Alguns dias depois, Simão foi encontrado morto. Ninguém sou­be explicar sua morte, mas seu corpo havia sido todo rasgado por unhas descomunais. O Pescador sabia que deveria ser algum demônio que voltou para se vingar do homem que o invocara. Eles gostam de fazer com que outros sofram, divertem-se com isto, mas, ao serem castigados, voltam-se contra quem os invocou. Foi o que aconteceu com Simão, o mago negro. O ciúme e o ódio o tomaram cego. Esqueceu-se de que Deus a tudo e a todos vigia, e a cada um sentencia, penalizando ou recompensando.

O tempo era de tristeza para o Pescador. A Estrela havia se apa­gado, não brilhava mais. Não era como das outras vezes que, após a tor­menta, ela readquiria o seu brilho. Não, desta vez não brilhou mais.

O Pescador vivia apenas pelos negócios. Abraão também já não era mais o mesmo. Antes era um homem falante, agora, quando muito, falava algumas palavras.

O tempo passou rápido para as crianças.

Os filhos da união com Raios-de-Lua já estavam com doze para treze anos. Um deles, gostava de viver com os índios; o outro ficava o dia todo no colégio que o pai construíra e sustentava com suas contribuições. Frei Mariano o incentivava a abraçar a carreira religiosa; o terceiro gostava de viajar como o pai, e lhe fazia companhia em suas viagens de negócios. Seria um bom mercador, tinha inteligência e agilidade nos cálculos dos negócios que o pai fazia.

A profecia se confirmava: três filhos, três caminhos diferentes. Cada um tinha um pouco do pai. Um comerciante, outro livre como os pássaros, e outro religioso. Estava dividido nos três filhos. Não interferia na vida de nenhum, apenas os ensinava como deveria ser a vida de um homem, a sua honra e seu caráter.

Quanto aos outros quatro filhos da união com Sarah, cresceram mais sob a influência da mãe. Ela os educava como uma forma de compen­sar a sua vida. Mantinha-os sempre por perto, mas eram queridos da mes­ma forma pelo Pescador, que ajudava cada um deles a entender a vida, sem separá-los da mãe. Não queria magoá-la deixando-a sozinha.

Procurava ficar junto a ela o mais que podia, pois via em seu rosto o quanto sofria por ter que passar sua vida sobre uma cama. O Pes­cador entendia a sua dor, mas não podia fazer mais por ela. Abraão também procurava alegrá-la com suas brincadeiras. Apesar de tudo, ainda era um homem alegre. O trabalho o entretia, e procurava não pensar muito no passado. Tinha o temperamento do pai. Somente o futuro lhe interessava. Foi pensando nisto que, um dia, pediu a Sarah que deixasse os quatro filhos mais novos irem com ele em uma viagem por mar até uma capitania do sul. Ia a negócios e voltaria logo.

No dia da partida, as crianças estavam eufóricas. Era a primeira vez que viajavam. Conheceriam outros lugares, outras pessoas. Ao vê-las tão felizes, Sarah comentou com o Pescador:

Simas, acho que tenho sido egoísta em mantê-las junto a mim. Vê como estão felizes? Creio que está na hora de soltá-las um pouco, dei­xar que vivam sem minha presença a todo instante, a seu lado. Já estão crescidos o bastante para precisarem de meia-mãe a cuidá-los.

Não fale assim, Sarah. Você não é meia-mãe. É uma mãe que vale por duas, não se menospreze. Se todas as crianças tivessem uma mãe como você, seriam muito felizes.

Após a partida das crianças, o Pescador, perguntou a Sarah se concordava com uma idéia sua.

- E qual é a idéia, Simas?

O Frei Mariano vai até a Espanha para resolver um assunto particular e vai levar Luiz e Pedro com ele, se você concordar.

Acho que podem ir. Será bom para eles, conhecerão lugares diferentes. Por quanto tempo ficarão?

O tempo que Frei Mariano precisar. Creio que uns três meses, mais ou menos.

- Qual o resto de sua idéia?

- Irmos até à aldeia e ficarmos uns tempos por lá. Creio que será bom revermos nossos amigos. Assim Cobra Coral poderá ficar um pouco com o avô, de quem ele tanto gosta.

- Vamos, mas não vou lhe dar muito trabalho?

- Não será trabalho nenhum. Acho que merecemos ficar isola­dos da cidade, por algum tempo.

- E quem cuidará dos seus negócios?

- O senhor Hermes, tem sido muito competente na condução deles. Estou ficando velho e já não tenho a vitalidade de antes. É hora de dividir os encargos.

Alguns dias depois partiram. Viajavam sem pressa. Sarah ficava a relembrar cada pedaço do caminho, como uma criança revendo seus brinquedos. Ao chegarem no engenho, foram recebidos com alegria por Ruth. Fazia tempo que o Pescador não aparecia por lá. Ficaram uns dias e depois rumaram para a aldeia. Quando estavam se aproximando, Sol-da-Manhã veio ao seu encontro.

Estava sorridente, pois fazia tempo que o Pajé Branco não o visi­tava. Após o acidente com Sarah, as viagens rarearam.

Sol-da-Manhã sentia saudades do amigo, mas não podia abando­nar a tribo. Era o pajé e tinha suas obrigações para com seu povo.

A chegada do neto foi motivo de alegria para o velho cacique. Seu rosto se alegrou com a chegada do Pescador, era hora de lhe dar o guerreiro.

Foram dias muito felizes para todos, na aldeia. O Pescador trou­xera muitos presentes.

O Cacique chamou o Pescador para conversar.

É hora de iniciar seu filho, Pajé Branco.

Como assim, Cacique?

- Olhe para ele. Não vê que ele não é igual aos outros? Ele se sente fora do seu meio, lá na cidade. Isto ele já me contou. O sangue de guerreiro corre em seu corpo. Ele nunca será como os outros dois. Você deve deixá-lo ser o que é, uma Cobra Coral, aquela que não é vencida pelas outras. Deve libertá-lo! Lá na cidade ele sempre será inferior aos outros. Aqui não, ele vencerá tudo. Você não perderá seu filho, só deixará ele fazer o que tem que ser feito.

- Como será esta iniciação, Cacique?

Os guerreiros mais velhos, junto com o Pajé, farão isto. De­pois, ele adquirirá sua força e seu orgulho, e não vai mais querer voltar com você. Ele vai se conhecer por completo.

Não sei se o deixo fazer isto. Pode fracassar, porque não foi criado no meio da tribo e não conhece as selvas.

Todas as vezes que ficou aqui foi ensinado a ser um índio. Viveu como tal, e se saiu bem. Você pode criar uma ave presa, que é muito bonita, canta e não precisa procurar alimento nem água, pois tem tudo ali mesmo. Mas, se você soltá-la no seu meio, verá que ela, apesar de ter sido criada presa, vai achar alimento e água da mesma forma, pois nasceu com o instinto da sobrevivência. O seu canto será de alegria pela liberdade, e não o canto do cativeiro.

O Pescador ficou pensando: "o Cacique era sábio e convincente, quando queria". Concordou, desde que o filho quisesse isto.

Depois de conversar demoradamente com o filho, ficou acertado que ele faria sua iniciação. Sarah ainda tentou argumentar, mas não adian­tou. O menino queria isto, e assim seria feito.

 

O SEGREDO DO TEMPO

(O FILHO INICIADO)

Numa tarde, estando junto com o Pescador, o Pajé Sol-da-Ma­nhã falou do pajé da aldeia de Lua Branca. Era um pajé muito velho, conhe­cia todos os mistérios do corpo. Quem sabe poderia ajudar Sarah com seu poder.

Foram ver o pajé. Era um pajé tamoio muito respeitado. Combi­naram que Sarah seria levada até ele.

No dia seguinte, logo cedo, partiram. O Pescador levava Sarah em seu cavalo. Ao chegarem, foram até à morada do Pajé que ficava afas­tada da tribo. Não era de falar muito, e olhava Sarah com muita curiosida­de. O que via, não falava a ninguém, apenas movia a cabeça, como se respondesse a alguém.

Após muito tempo sem nada dizer, começou a falar.

- Você cai porque os espíritos do mal põem feitiço em seu corpo. Então, pensa que é tombo que faz você não andar mais, mas não é tombo, é só feitiço, feito com espírito do mal. Quem fez isto foi irmão seu. Ele não podia quebrar Pajé Branco, então quebra você. Assim, deixa companheiro triste, e tira dele toda alegria. Mas não contava com a volta dos demônios. Espíritos do mal vêm com os lobos buscar seu espírito. Por isto, hoje ele vaga na escuridão sem retorno. Era um pajé fraco, não sabia com quem estava lidando. Está pagando o preço da ignorância. Seu pai também mor­reu por causa do feitiço dele. Que os espíritos das Trevas segurem ele para sempre.

Sarah estava assustada com o que ouvia. Como podia aquele homem saber de tudo aquilo?

Eu posso refazer seu espírito e você anda de novo, mas antes tenho que saber o segredo do ar. O Pajé Branco ensina o segredo do ar, eu ensino o segredo da reconstituição do espírito, entrando no tempo.

Mas nós não podemos ensinar o segredo do ar. Fomos proibi­dos pelo Pajé Anhanguara de revelar - falou o Pescador.

Você vai até o ar, eu sigo você. E o que faz, eu faço. Então, sei como dominar o ar sem você falar. Depois eu entro no tempo, você me segue. E tudo o que eu faço, você faz. Então você sabe dominar o tempo também. Ninguém fala nada. O segredo continua.

Está bem. Quando começamos?

Agora mesmo!

Em seguida, o pajé deu um pouco de um líquido verde para o Pescador tomar e tomou um pouco também.

- Você e eu vamos dormir. Nossos espíritos vão onde têm que ir. Pouco depois estavam dormindo. Logo o Pescador começou a

suar frio, mas não tremia. O pajé tamoio não, ele transpirava e tremia mui­to. Sarah, que estava imóvel, falou a Sol-da-Manhã:

- Ele tem que ser aquecido rápido, pois já não é jovem como quando vocês fizeram isto.

Sol-da-Manhã aproximou-se do pajé tamoio, puxou uma manta de couro grossa e, cobrindo os dois, abraçou o corpo do homem. Passa­ram-se três horas, aproximadamente, até que parasse de tremer, e mais uma hora, até parar de transpirar. Logo os corpos começaram a ficar quen­tes. Mais tarde começaram a despertar. Após estarem completamente des­pertados, o pajé tamoio falou:

- Agora sou um Pajé completo! Só me faltava o domínio sobre o ar, e agora o conheço. Quanto mais eu poderia ter feito se soubesse o segredo do ar. Vamos lá fora que eu vou entrar no tempo, você vai comigo. Eu faço o que tem que ser feito, você vê e aprende. Eu não falo nada.

Sol-da-Manhã perguntou:

- Posso ir também?

- Sim, mas antes deita a mulher na esteira. Quando eu arrumar o espírito dela, ela não vai agüentar a dor e cai.

Deitaram Sarah e foram para fora. Sentaram-se com as pernas cruzadas, como fazia o pajé.

O pajé tamoio cantava e fazia gestos. Os dois estavam atrás dele, e faziam o mesmo. Em dado momento, o pajé parou e começou a rodar a cabeça. Eles também. De repente, os espíritos foram lançados no ar. Não havia barreiras no tempo. Foram para perto de Sarah. O pajé olhou para o corpo dela. Eles viam o seu espírito e começaram a vê-la cada vez mais nova, até o dia do acidente. Voltando mais, foram parar em um cemitério de horrível aspecto. Pelas inscrições que via, o Pescador o identificou como sendo um cemitério alemão. Foram mais fundo, e viram dois homens sobre uma sepultura. Um deles era Simão, o outro era desconhecido. Tinham uma réplica de um corpo feminino e um masculino. Faziam invocações numa língua oriental. De repente, começaram a aparecer as formas anima­lescas e demoníacas que o Pescador já havia visto quando conjurou os elementos contra eles. Sim, ali estavam todos os sete, lembrava-se bem das feições. Irradiavam algo sobre os bonecos, a cada invocação. Em dado momento, Simão, o falso sacerdote e na verdade um mago negro, escravo dos seus sentimentos negativos, pegou um boneco e quebrou-o ao meio. Depois, quebrou o outro também. Então, abriu um buraco sobre a sepultu­ra e os enterrou separados. Os demônios, no momento em que eram que­brados os bonecos, partiam no espaço. O alvo era o Pescador e sua esposa. O objetivo: destruí-los!

Voltaram à época atual, em torno de Sarah. Dali, partiram rumo ao mesmo cemitério na data atual, e foram parar na mesma sepultura. O pajé cavou no mesmo lugar e desenterrou os dois bonecos, levando-os consigo pelo espaço que não tinha fronteiras. Chegou perto do próprio corpo e depositou-os à sua frente. O Pescador e Sol-da-Manhã viam os três corpos sentados no chão, com as pernas cruzadas. Pareciam estar dormindo, para quem os visse assim como estavam.

Depois de colocar no chão os dois bonecos, o pajé tamoio foi entrando no próprio corpo. O Pescador e Sol-da-Manhã fizeram o mesmo, e logo estavam atuando nos próprios corpos, despertos da viagem do tem­po. Em seguida, o pajé pegou o boneco que simbolizava o corpo masculino e umedeceu as duas partes com um líquido viscoso que deixara de lado, unindo-as. Estava inteiro novamente. Depois de uma reza em sua língua, levantou o boneco. No mesmo instante o Pescador sentiu uma agulhada na altura dos rins. A dor que vinha sentindo há muito tempo, e que não tinha cura, cessou imediatamente.

Depois, ele fez o mesmo com o boneco de forma feminina. Ao levantá-lo, Sarah deu um grito horrível e desmaiou. O Pescador não se moveu, queria ver tudo. Em seguida, o pajé levantou-se e foi até um córre­go que passava mais abaixo de sua morada. Ao chegar à margem, fez alguns pedidos, sempre em sua língua, e começou a apanhar água do rio. Após benzê-la, derramou-a sobre os bonecos. O Pescador sentia como se estivessem banhando-o. Sentia a água escorrer pelo seu corpo, purifican-do-o. Quando o pajé deu por terminado o ato de quebrar o encantamento, pegou os dois bonecos e os destruiu com a mão, até virarem duas bolas. Depois, jogou-os na água, fez nova reza e virou-se para os dois amigos:

- Eu não falei meu segredo. Vocês conhecem porque viram, mas eu não falei.

Os dois disseram:

Nós agora dominamos o segredo do tempo. Não somos pajés completos, mas, se o senhor quiser nos ensinar, um dia seremos.

Quando quiserem aprender, eu moro sempre aqui, aqui me en­contrarão.

- Foi por isto que o senhor precisava do segredo do ar, não? - falou o Pescador.

- Sim, foi por isto. Não tinha como ir até lá sem o segredo do ar - mais, não falou. Não precisava dizer nada.

Voltaram para perto de Sarah, que ainda estava desmaiada. O pajé mandou o Pescador tirar-lhe a roupa e colocá-la de bruços. Passou as duas mãos, desde a cabeça até o calcanhar, seguindo os nervos que saem da cabeça e descem pelo corpo. De suas mãos, parecia sair fogo.

É fogo mesmo, só que vocês não vêem.

Eu vejo - falou Sol-da-Manhã.

- Eu não vejo, mas sei que é fogo - falou o Pescador. Depois de terminar, o pajé tamoio mandou que o Pescador ves­tisse Sarah.

- Ela está boa. O seu espírito, que estava quebrado pelo feitiço, foi refeito. Agora ela anda de novo.

Daí a pouco, Sarah começou a despertar. Sem que se desse con­ta, começou a dobrar a perna para se levantar. Sentiu as pernas dormentes e formigando. Passou as mãos nelas e só então percebeu que tinha dobrado as pernas sem nenhum auxílio. Começou a chorar. O Pescador começou a friccionar suas pernas, ajudando-a a caminhar um pouco, amparando-a nos braços. Logo, estava andando sozinha.

Eu lhe agradeço, Pajé Tamoio. Sou seu eterno devedor.

Você não deve nada, Pajé Branco. Deve à sua Estrela. Cuide melhor dela, porque quando ela perde o brilho, é você quem fica escuro. Cuide mais dela, e não ficará mais escuro.

Obrigado, meu amigo. Que Deus o abençoe por toda e eterni­dade! - falou o Pescador.

Que Tupã o guarde em sua longa jornada, Pajé Branco! - falou o pajé tamoio.

Partiram de volta à aldeia. Lua Branca os esperava. Era hora de descansar. Nos dias seguintes os dois se divertiram muito, a alegria voltara para eles.

Quando o filho terminou sua iniciação, toda a aldeia comemorou com uma grande festa religiosa. Era uma grande alegria para o Cacique. O neto vencera as provas da iniciação, portara-se como um guerreiro.

No dia seguinte, o Cacique falou para o Pescador.

- Um dia você me deu a vida, depois eu lhe dei uma vida, que lhe deu três vidas. Agora, você me dá uma vida novamente. Então, fica tudo igual: você com duas vidas, pois uma já se foi, e eu com duas vidas, a minha e a do seu filho. É hora da Cobra Coral sair do ovo para crescer e, com seu piado, espantar todas as outras cobras. Você já fez a sua parte, agora eu faço o resto.

De fato - pensou o Pescador - o Cacique sabia ser convincente e lógico, quando queria. Chamou o filho para irem embora.

-Não pai, eu pertenço a este lugar. Aqui está meu coração, então aqui estará meu corpo. No meu coração tem um lugar, o senhor mora nele. Nunca vou esquecê-lo, vou amá-lo sempre, mas meu coração fica aqui.

- Está bem, filho. Mas, antes de partir, quero mostrar uma coisa. Venha comigo.

Chamou também o Cacique e Sol-da-Manhã. Foram até o rio, desceram até a cachoeira em que, um dia, Raios-de-Lua e ele acharam muitas pedras preciosas. Ao chegarem em determinado lugar, começou a cavar no meio de um círculo de flores. Daí a pouco, apareceu uma quanti­dade enorme de pedras, cada uma mais linda que a outra. Apanhou sete pedras, cada uma de uma cor, e disse:

- Estas, eu vou levar na minha longa jornada, o resto é de seu povo. Você sabe o seu valor, pois eu lhe ensinei isto também. Portanto, se um dia precisar de algo para seu povo, é só vir até aqui e apanhar quantas forem necessárias para resolver os problemas que tiver. Ali tem outra roda de flores, onde existem mais pedras. Todas são valiosas. Estão enterradas. Não deixei nenhuma à vista e revolvi até a areia no fundo da água para que ninguém saiba que aqui há esta grande riqueza. Ela está toda aqui. As terras da aldeia, e todas em volta por muitas léguas, estão em seu nome, registra­das legalmente. Ninguém tira vocês daqui, pois o documento não permite. Ensine aos outros índios como cultivar a terra corretamente, e seu povo sobreviverá à invasão dos brancos. O que eu tinha que fazer por eles, eu já fiz, agora você faz o resto.

Tornou a tapar a terra, mostrou de novo os lugares onde havia mais pedras, e partiram para a aldeia.

Ao se despedir do filho, ainda falou:

- Se precisar da ajuda dos seus irmãos, não seja orgulhoso, peça que eles o ajudarão, pois o amam tanto quanto eu - e deu um forte abraço no filho.

As lágrimas corriam dos seus olhos. O filho tentou, mas não conseguiu conter o choro. Ainda era uma criança. Sarah também chorava, amava-o muito. Ele era como Raios-de-Lua.

Do que trouxeram, só levavam algumas roupas e alimentos para a viagem de volta. Não precisavam mais da carroça. Sarah iria a cavalo, agora. Partiram lentamente, enquanto o Pescador olhava para trás. Sentia deixar o filho ali. Quando se afastou o bastante, o pranto brotou forte, não conseguia mais conter o choro. Por que se separar do filho a quem amava tanto quanto à sua mãe? Onde estaria ela agora?

Quando chegaram em casa, todos os criados ficaram admirados com o fato de a patroa estar andando novamente.

Uns dias mais tarde, chegou o capitão de um dos navios do Pes­cador, com os outros filhos, e deu uma notícia triste: o senhor Abraão contraíra forte gripe e não resistira, vindo a falecer na outra Capitania. Ele tomara conta das crianças.

O Pescador agradeceu o cuidado que tivera com os seus filhos. Pediu-lhe que, desse dia em diante, cuidasse dos negócios que eram da alçada do senhor Abraão. O capitão agradeceu e foi cuidar do serviço.

Sarah ficou, por alguns dias, muito triste com a morte do irmão, a quem amava muito. Fora seu grande protetor por toda a vida. Mas, o fato de poder andar e brincar novamente, dava-lhe ânimo para ser feliz.

Logo o frei voltou da Espanha com os filhos.

Luiz disse que nunca seria como os padres de lá, e que seria como o Frei Mariano. Pedro já falou outra coisa: aqueles homens seriam facilmente comprados, pois só pensavam em luxo e boa vida.

O Pescador sorriu. Ali estavam as suas outras duas partes; uma já se fora, mas ainda restavam duas.

Quando chegaram em casa e viram a mãe correndo para abraçá-los, começaram a chorar de alegria. Era um milagre o que acontecera com a mãe. Foi um dia de muita festa naquela casa. O Pescador reuniu todos os filhos e fez uma prece de agradecimento a Deus, pelo fato de terem a alegria e a felicidade morando junto a eles novamente.

No dia seguinte, falou com o frei sobre os resultados da viagem.

- Foram muito melhores do que imaginava. Simas de Almoeda não existe mais, nem seu pai ou sua mãe. Os registros foram todos rasga­dos por mim mesmo. Pode ser que eu tenha cometido alguns pecados, mas apenas porque tive que agradecer a alguns favores com dinheiro. Creio que não vou para o inferno por tão pouco.

E o que mais o senhor descobriu?

Você está preparado para ouvir? Se não estiver, não falo.

Estou sim. Sinto que o senhor tem algo que eu devo saber.

- Bom, vou falar tudo, sem omitir nada. O bispo a quem você foi pedir ajuda para seu pai, na verdade o odiava. Sabia que seu pai comprara o seu lugar de juiz da Inquisição?. Acho que temia seu pai.

Parou um pouco de falar.

- Continue, por favor Frei, não pare agora.

- Bem, depois que você partiu, não demorou muito e o bispo foi preso ao praticar um culto demoníaco. Estavam praticando um infanticídio em honra ao demônio, quando foram presos, ele e todos os seus adeptos, em sua maioria, religiosos como ele. Era um louco e ninguém sabia, foram todos executados em segredo, para não abalar a Igreja Católica.

O Pescador estava lívido. Do seu rosto espantado, corriam gotas de suor. Entregara seu pai a um dos praticantes do culto que tanto comba­tera, o culto a Satã, o Príncipe das Trevas. Que estúpido fora! Como pode? Um homem como o bispo, que jurava servir a Deus, praticar uma coisa destas! Que sua alma vagasse eternamente no inferno, que era o seu lugar.

Após passar o susto, veio o pranto de remorso. Matara, com suas palavras, ao próprio pai. Sentia-se como o próprio Judas Iscariotes. Deus, como errara! Não havia lugar no mundo onde pudesse esconder sua vergonha. Diante de Deus, era um pecador para toda a eternidade. Também sua alma vagaria no inferno, pois traíra um inocente, entregando-o ao pró­prio demônio. Que Deus se apiedasse de sua alma, ainda que levasse mil anos vagando no inferno.Não era melhor que o maior pecador. Agradeceu ao frei, e foi para casa. Estava arrasado.

Ao chegar em casa, chamou Sarah e contou tudo. Sentia-se mal, não sabia o que fazer. Tinha vontade de se matar, para pôr um fim em tudo.

Sarah foi até a cômoda e pegou o pequeno baú. Retirou de lá o pergaminho, e colocou em suas mãos.

Aí está a resposta às suas aflições. Por que não vai em busca das respostas? Se encontrar o lugar, terá paz em seu espírito.

Sim, vou começar a preparar minha partida assim que puder deixar tudo resolvido por aqui.

E assim fez. Nomeou pessoas de total confiança para a direção dos negócios de sua casa. Ao fim de quatro meses, estava tudo funcionan­do como queria. Sarah tomaria conta de tudo em seu lugar. Pedro, que já era um rapaz, ajudaria no comando. Tinha muita experiência, e não se deixaria enganar facilmente. Conhecia bem as pessoas com quem iria lidar, e os irmãos seguiriam os seus passos, sob a orientação da mãe. Deixava um imenso tesouro em ouro, pedras e dinheiro bem guardado para eles.

Após repassar tudo e instruir longamente à esposa e aos filhos, embarcou em um navio abarrotado de provisões. Levava uma grande for­tuna, pois não sabia de quanto precisaria. Ia com um navio totalmente carregado, e muito bem escoltado. Partia rumo à Pérsia, levando consigo o pergaminho e a Estrela. O lugar, aproximadamente, ele conhecia, pelo que ouvira de Simão, o sacerdote, irmão de Sarah. Chegando lá, acharia o Tem­plo dos Magos das Três Cruzes. Agora sabia porque pegara as sete pedras coloridas: esta era a grande jornada de que falara o pajé tamoio.

Mal sabia o Pescador de como seria longa esta jornada.

 

A BUSCA DO TEMPLO DOS MAGOS

(O INESPERADO)

Viajaram por muitas semanas. Pararam no norte da África para reabastecer o navio e partiram alguns dias depois. Pararam novamente na Sicília para novo reabastecimento. Mais alguns dias em terra, e rumaram para o Chipre. O Pescador queria encontrar alguém naquele lugar.

Ao procurar pelo homem, soube que já havia morrido. Depois de algum tempo, encontrou alguém que conhecia bem a região para onde ele pretendia rumar, mas não conhecia o tal templo que possuía as três cruzes. E ainda falou:

Cuidado ao falar em cruzes por aqueles lados. O islamismo domina tudo por lá. Veja bem a quem mostra este símbolo, pois poderá ser preso. Chamam, aos que usam a cruz, de infiéis. Muito cuidado com quem o senhor falar!

Tomarei cuidado, não se preocupe.

E partiram rumo ao lugar mais próximo àquele onde o Pescador pensava localizar-se o templo dos magos.

Alguns dias mais tarde, chegaram a um pequeno porto próximo ao local que buscava. Após tomar medidas de segurança para os dois navi­os, o Pescador saiu à procura de alguém que pudesse fornecer alguma informação. Depois de andar por toda a pequena cidade, sem ver ninguém que pudesse dar qualquer informação, resolveu conversar com um pastor que tratava do seu rebanho de cabras. Falava a língua como um nativo da terra, porque seu pai lhe ensinara desde pequeno. Quando em casa, só conversavam na língua persa.

O pastor perguntou se nascera na Pérsia, e o Pescador respon­deu que era filho de persas, mas nascera em outro país e agora procurava o lugar de origem do pai.

Após conquistar a amizade do pastor, o Pescador perguntou:

Meu amigo, eu estou disposto a recompensá-lo bem, se me der algumas informações.

Que recompensa, e que informações?

Ao tirar uma bolsa com moedas de ouro e dá-las ao homem, o Pescador falou:

- Serão suas, se suas respostas me interessarem.

O que o senhor quer saber?

Onde eu posso obter informações que me esclareçam o signifi­cado deste pergaminho?

O pastor olhou o pergaminho. Ao ver o que estava desenhado se assustou. O Pescador sabia como obter a informação que queria. Ficou escutando os pensamentos do homem. Ele pensava rápido: "Isto é um sím­bolo dos magos, eu não posso dizer onde fica a grande caverna, senão o Sheik me mata. Melhor falar que não sei, perco as moedas, mas não a vida". Respondeu:

Desculpe-me, senhor, mas não sei de nada - e devolveu a bolsa com as moedas.

Não tem importância, meu amigo. Mas diga-me: eu tenho meus navios carregados de mercadorias do Ocidente que talvez interessem ao Sheik, são muito boas. Ganhará as moedas se me apresentar a ele. Não sei a quem, com muito dinheiro, eu possa vendê-las. No porto ouvi dizer que o Sheik tem muito dinheiro. Quem sabe se eu fizer algumas vendas a ele, você não possa ganhar mais algumas moedas...

Está bem, eu o levarei até o Sheik, mas primeiro vou prender meu rebanho.

Eu o espero aqui mesmo, meu amigo.

O Pescador estava certo sobre o lugar. Havia encontrado, e ago­ra só precisava achar o condutor que o levasse ao templo.

Meia hora mais tarde, o pastor voltou. Foram juntos até o navio. O Pescador precisava conversar com o capitão. Quando estavam a sós, falou:

- Capitão, eu vou ao encontro de um Sheik. Espero que seja a pessoa certa. Se for, talvez eu não volte. Se isto acontecer realmente, e eu estiver bem, então mandarei esta corrente com a cruz. Olhe bem para ela para que não se engane. Ao recebê-la, levante âncoras e rume de volta à Capitania e diga à minha esposa que morri durante uma tempestade no mar, que caí e me afoguei e, para provar, entregue a corrente com a cruz, que tem os nomes Simas e Sarah gravados no verso do crucifixo. Faça isto, e ela o recompensará bem.

Após pegar alguns pertences e algumas bolsas com valores, o Pescador partiu com o pastor.

Ao se aproximarem de onde morava o Sheik, foram barrados por guardas com lanças e espadas.

Aonde pensam que vão? - perguntou um guarda.

Eu venho para falar com o Sheik. Sou dono dos navios que estão ancorados no porto.

Ele já o esperava. Venha conosco! Você vai embora - falou olhando para o pastor de cabras.

Antes preciso recompensar o homem. O Pescador tirou a bolsa de moedas da cintura e entregou ao homem, que agradeceu desejando-lhe bons negócios.

Então foi conduzido ao Sheik e apresentou-se como um merca­dor português em busca de bons negócios, ao que foi inquirido pelo Sheik com uma pergunta:

Mas o que faria um rico mercador num lugar pobre como este? Aqui não há nada, além de cabras e pesca.

Eu não sabia que só havia isto. É a primeira vez que venho para esta região, mas o senhor talvez saiba quem tenha destas mercadorias para trocar com as minhas.

E, abrindo uma pequena bolsa, tirou sete pedras preciosas, colo­ridas.

Os olhos do Sheik adquiriram um brilho especial. O Pescador notou. Mas, não era de cobiça, e sim um brilho tal e qual o brilho dos olhos das feras quando acuadas. O Sheik não pensava. Em sua mente, só havia uma idéia: "este homem deve ser louco!".

Senhor mercador, nós aqui não temos pedras. Gostaríamos de tê-las, assim teríamos mais riquezas.

É, vejo que com o senhor será difícil negociar, Sheik.

Não será difícil negociar, apenas não tenho o produto que o senhor deseja.

E, não tem, mas, já que estou aqui, e o senhor me parece uma pessoa sábia, ao menos poderia me informar onde encontrar um lugar que tenha este símbolo, senhor Sheik - e tirou o pergaminho, mostrando-o ao Sheik. Ficou observando suas reações e pensamentos.

Mas isto é um símbolo cristão, não é, meu senhor? - respon­deu o Sheik.

Não sei, é por isto que pergunto.

Como posso saber algo sobre este símbolo? Fui educado aqui e jamais viajei a países que tenham a cruz como símbolo de sua religião. A minha religião é a islâmica. Fui educado segundo os ensinamentos do Corão. Sei apenas que este é um símbolo cristão, nada mais.

Mas, o senhor não poderia me informar se há algum templo cristão nesta região que tenha três cruzes, ou ao menos uma, como símbo­lo?

Meu senhor, pelos conhecimentos que tenho da região, posso garantir que não há nada assim por aqui. Isto eu posso garantir.

De sua mente não saía um único pensamento que o contrariasse e isto desanimou o Pescador.

Bem, se é assim, então é melhor eu me retirar. Estou tomando o seu tempo ... O senhor não tem pedras preciosas para trocar comigo e não sabe onde posso desvendar o enigma das três cruzes. Estou perdendo o meu tempo e o seu. Até a vista, Sheik. Vou continuar minha viagem.

Espere, senhor mercador. Talvez eu não possa ajudá-lo, nem nos negócios e nem na sua busca, mas gostaria que o senhor usufruísse da cortesia persa.

E, batendo palmas, chamou um criado, dando-lhe uma ordem que o Pescador não pôde ouvir.

Logo começaram a servir-lhes algumas iguarias. O Pescador fi­cou observando a cortesia daquele homem. Trouxeram vinhos e outras bebidas. Quando foram servi-lo, ele falou:

Sheik, espero que não se ofenda, mas eu não tomo bebidas alcoólicas.

Como? Um homem que viaja pelos mares, e não bebe? É estra­nho. O que pode aquecer seu corpo e embalar a sua alma na solidão dos mares?

Deu um sorriso e tornou a chamar o criado. Em seguida, apare­ceram músicos que começaram a tocar músicas alegres. O Pescador ficou pensando no que aquele homem estava querendo com isto.

A música não o encanta, meu senhor? - perguntou o Sheik.

A música é boa distração para todos os sentidos, mas não te­nho tido muito tempo em minha vida para apreciar sua beleza.

Ah! Então já sei o que poderia agradar a alguém que vive na solidão dos mares.

Batendo palmas, fez surgir um grupo de mulheres com apenas alguns tecidos finos cobrindo-lhes os corpos. Começaram a dançar uma dança sensual, em que elas se insinuavam diante do Pescador, que as ob­servava impassível. Aquilo já estava começando a enervá-lo, quando o Sheik bateu palmas e os músicos pararam de tocar. O Pescador observava o que iria tentar aquele homem. Lembrou-se da conversa com Frei Mariano: "Exis­tem muitos adeptos de Satã na terra". Quem sabe aquele homem não fosse um?. Afinal, usava mulheres para entreter as suas visitas, como que que­rendo corromper os seus sentidos. Melhor esperar que terminasse aquilo, para ir embora. Foi quando o Sheik interrompeu seus pensamentos com uma pergunta.

- O longo tempo nos oceanos deve ter lhe tirado o prazer pela dança, senhor mercador.

- Não é isto, senhor Sheik. Creio que o tempo deve ter apagado mim o fogo da vida. A idade já avançada não me permite sentir o mes-

mo que o senhor, por tão sensual dança - falou o Pescador, querendo terminar logo com aquilo.

Então, é hora de mostrar uma dança que aquece aos corações mais frios e desperta os mais esquecidos sentidos que um homem possa ter Esta dança pode atear fogo até na madeira umedecida pelo tempo mais chuvoso.

Não é preciso, senhor Sheik. Vou embora agora. Já se faz tarde e os capitães nos navios devem estar impacientes com minha demora.

Não, sem antes ver o que tenho para oferecer-lhe, senhor. Não dirá que o Sheik Abdul lhe negou o melhor de sua hospitalidade.

Em seguida, bateu três vezes palmas e, como se fosse um códi­go, os músicos começaram a tocar uma música frenética. As bailarinas começaram a dançar. Era uma dança infernal que abalaria o sentido de qualquer homem.

À medida que a música avançava, elas se desfaziam de suas rou­pas, se é que podia se chamar de roupas àquelas tiras de seda.

Elas dançavam e se insinuavam, uma após outra, à frente dele. Parecia que seus olhos nada viam, pois moviam-se para um ponto muito além do grupo de bailarinas. Seu olhar as atravessava, indo para muito longe.

A sua mente vinham lembranças. Lembranças de um passado

distante.

Sim, como poderia aquele Sheik saber como tentar os sentidos de um homem? Era um devasso, comprazia-se com aquela dança macabra. Como podia ver beleza naquilo? Envergonhava ao Pescador ter que assistir a espetáculo tão degradante. Como eram baixos os instintos, naquele lugar! Não olhavam a beleza como ele, não sentiam o amor como ele sentia.

O que seria esta gente? Vestiam-se dos pés à cabeça para ocultar o corpo, como se o corpo humano fosse um pecado em si, e não uma obra de Deus. Depois, usavam o mesmo corpo que ocultavam sob longas vestes para, ao despi-lo, liberar o pior dos instintos humanos: o desejo e a paixão.

Não sabiam o que é o amor. Sim, isto não sabiam. Não sabiam o que é viver seminu no meio de um povo que andava nu, sem o sentido de luxúria. Não conheciam aquele povo, que vivia e morria do mesmo jeito que havia nascido, sem ocultar o corpo, pois o corpo não era motivo de desejo e paixão, mas apenas um invólucro para a alma. Apenas isto, um veiculo para o espírito. Não sabiam como era lindo o amor, a maior magia, a magia divina por excelência. Somente os espíritos purificados da paixão e da volúpia entendem que os valores do ser humano não se medem pelas aparências, mas sim pelo caráter. Não sabiam do prazer que foi conhecer a uma Raios-de-Lua, e que sua beleza não estava num corpo insinuante, e sim no sorriso meigo, na palavra de carinho e na lágrima de dor que brotava de sua alma.

Não, não conheciam nada disto. Isto ele sabia! Assim como sa­bia que não esquecera Sarah, a quem deixara aos prantos, para ir em busca da razão de sua vida, com tanta tristeza ao lembrar o passado longínguo. Como poderiam conhecer estas coisas, se valorizavam somente ao corpo, e não ao espírito? Não poderiam, como as serpentes fazem, rastejar aos pés de nenhuma das duas. Tanto Sarah, quanto Raios-de-Lua, eram mil vezes superiores. Raios-de-Lua, com sua alegria contagiante, e Sarah, com o olhar profundo e carinhoso, podiam despertar nele algo que não a paixão, mas o amor. Puro, na sua forma mais natural, como uma chama terna, aquecendo o coração de quem o havia encontrado em sua vida. Não, nada disto poderiam saber. Isto o Pescador sabia também.

Como podiam se comprazer com tal dança? Como podiam achar algum sentido naquilo tudo?

Sim, era isto mesmo, conhecia pouco dos costumes do Oriente, mas, se era esta a forma que conheciam para serem lembrados, então ja­mais os esqueceria. Seriam lembrados, não como almas de Deus, mas como servos do demônio.

Não conheciam o amor verdadeiro. Não sabiam que, quem é tocado pelo verdadeiro amor, não se deixa levar pela paixão e pela volúpia.

Sim, após terminar aquela dança do pecado, iria embora e esque­ceria tudo. O Oriente não poderia ocultar nada de bom. Se esta era a forma de darem as boas-vindas, seria melhor voltar para junto de Sarah, junto a quem encontrava um motivo para viver e lutar, não a luxúria e o prazer, mas o amor.

Assim que terminou a dança, as bailarinas se apinharam no chão, ficando em sua frente como se fossem mercadorias para serem escolhidas e provadas, ao gosto do cliente. Que degradante para aquelas mulheres, e que vergonha para o Pescador sujeitar-se a isto!

Eis aí, a dança que aquece, com o seu fogo, até a mais fria estátua de bronze, senhor mercador! Escolha aquela que mais o agradou, para que suas paixões não fiquem ocultas - falou o Sheik.

Meu senhor, eu nunca usei uma arma em minha vida. Mesmo quando um amigo quis me dar uma, e me ensinar como usá-la, eu não quis. Mas juro, se tivesse uma comigo agora, eu o degolaria, por sua insolência em pensar que sabe o que pode sentir um ser humano.

- Talvez o senhor aprecie outro tipo de dança, senhor mercador? Quem sabe se eu chamar os bailarinos, isto agrade mais aos seus olhos?

O Pescador, apesar de mais idoso que o Sheik, investiu contra ele esmurrando-o com toda a sua força. O Sheik caiu. O Pescador pegou sua bolsa, seus pertences e já ia saindo, quando uma voz grave o chamou:

- Simas de Almoeda, espera, quero falar contigo.

O Pescador ficou estático. Quem, por Deus, o conhecia ali? Vi-rou-se, como uma serpente ao ser tocada.

O homem que falara era um velho senhor, de longas barbas bran­cas a cobrir-lhe o peito. Estava apoiado em um longo cajado. Usava no seu turbante uma pedra verde. Imediatamente o Pescador lembrou da pedra no turbante do homem sentado no centro do círculo, na casa de seu pai. Ago­ra o homem estava muito velho, mas o olhar era o mesmo, penetrante.

Desculpe o Sheik, ele é o Guardião da Porta do Templo. Esta é a sua missão e ele a cumpre com perfeição. Poucos passaram por esta porta. Quase todos caíram diante dos seus ardis. Como todo bom guar­dião, ele apenas cumpre o seu dever.

Desculpe-me por tê-lo agredido, mas eu estava enojado com tudo o que o senhor estava fazendo para me agradar, com sua hospitalida­de.

Não era minha hospitalidade, senhor Simas, era um teste para os seus sentidos - falou o Sheik.

Mas por que isto, se eu já sou um homem com idade avançada?

Fortuna o senhor já possui, isto não o impediu de vir nos pro­curar. Generoso, nós sabemos que é. Então, nada como testar os seus sentidos. O senhor foi aprovado no teste, mas precisa aprender a controlar sua mente, o senhor pensa demais.

Como? Então o senhor estava ouvindo o que eu pensava?

Sim, eu estava ouvindo. Nós aperfeiçoamos, ao extremo, a telepatia.

Então, é por isto que o senhor nada pensava. Sua missão é ouvir, e não falar, não é mesmo?

Sim, eis a primeira lição. Um Mago não pensa, ele apenas ouve os outros.

Muito interessante. Creio que tenho muito o que aprender ain­da.

Nem tanto, filho - falou o velho Mago da Pedra Verde - preci­sas saber como usar os poderes que já possuis, somente isto. Agora deci­de-te: ou atravessas a porta do Templo Sagrado, ou voltas.

Eu atravesso a Porta, grande Mago.

Então, dá o crucifixo para teu capitão levá-lo para tua esposa. Ele te aguarda impaciente. É capaz de começar a bombardear a cidade com seus canhões, e não é isto que desejas, não é?

Como o senhor sabe disto?

Isto também sei - falou o Mago.

O Pescador sorriu. Estava entre amigos, isto ele também sabia. Tirou o crucifixo do pescoço e entregou-o ao Sheik, que o pegou e partiu rumo ao porto.

O Pescador acompanhou o Mago da Pedra Verde em direção ao Templo.

À noite, houve a primeira reunião do Pescador com os Magos. Tinha tomado um banho e trocado de roupa. Agora estava vestido como um deles, mas não tinha turbante.

Foi convidado a sentar-se numa confortável almofada. Estavam todos concentrados, em preces ao Criador.

Após as preces, o Mago da Pedra Verde falou:

- Agradecemos a Ti, ó Criador de tudo e de todos, por nos envi­ares aquele que sempre nos pertenceu. Damos Graças à Tua generosidade, por conduzires nosso irmão Simas de volta ao Círculo Sagrado do Oriente.

Era reconhecido como um deles. O Mago da Pedra Verde, que era o mais idoso de todos, falou:

Irmão Simas, quer perguntar alguma coisa? Vejo que ainda busca respostas.

Sim, venho atrás de respostas. Minha vida toda é uma grande pergunta. Se for possível, eu gostaria de saber a resposta.

E o Mago da Pedra Verde começou a falar:

Um dia teu pai foi designado para ir à Europa. Tinha que cum­prir o seu destino lá. Então, escolheu a Espanha, pois ali havia muitos des­cendentes de árabes e ele seria só mais um entre tantos. Não seria notado. Estabeleceu-se como mercador. Tinha contatos por todo o Oriente, e seria fácil comerciar com o Oriente. Prosperou muito. Ele tinha família aqui, mas, como tinha que viver mais tempo por lá, resolveu se casar. Já perten­cia às Três Cruzes, à linha do Cristo, de Jesus, o Cristo crucificado pela redenção dos homens. Converteu-se ao cristianismo, ou seja, confirmou a quem já era consagrado há milênios e milênios atrás. O símbolo das Três Cruzes, é representado, na vida de Cristo, pela crucificação no Gólgota. Parou por um instante, tomou um pouco de água e continuou:

Sei o que queres saber, Simas. Sim, as três cruzes sobre o monte são anteriores ao ato de crucificação. Milênios antes da vinda do Cristo, as Três Cruzes já eram um dos Sete Símbolos Sagrados e, por toda a eternidade, continuarão sendo sempre um Símbolo Sagrado. Após a sua conversão, casou-se com sua mãe. O pai dela era sócio de seu pai no comércio, e foi uma boa união para ambos. Com isto foi mais fácil cumprir sua missão na Europa. Parou um pouco a narração.

O Pescador não se conteve e ia fazer uma pergunta, quando foi interrompido com outra lição.

Segunda lição: "Ouça e não faça perguntas". A primeira é: "Ouça e não pense". Um bom mago também é um bom ouvinte.

Desculpe-me, Grande Mago, não o interromperei mais. Apren­di a segunda lição também.

Então, ele cumpriria mais facilmente a sua missão, que era descobrir os falsos sacerdotes que, tendo aprendido a arte da magia negra, a magia demoníaca, usavam-na para conseguir vantagens materiais, com finalidades egoístas e desejos mundanos, para que alguém sempre fosse corrompido e seguisse as Trevas, em detrimento da Luz. Alguém sempre era prejudicado com isto. A cada viagem, ele trazia um nome, e nós come­çávamos a cortar os seus poderes malignos, até que tu nasceste. Olhamos o teu passado, e vimos que também pertencias às Três Cruzes, como alma reencarnada pela sétima vez. Trazias em ti os Sete Símbolos, impressos em teu espírito eterno.

Chegara o tempo de, junto a teu pai, vencerem o Príncipe das Trevas. No princípio, ele se preocupou em como agir. Não podia trazer-te para cá. Então, deixou que escolhesses o teu caminho e, no tempo certo, te iniciaria na magia branca para que juntos vencessem suas lutas pessoais. Como o Cristo nos deixou o exemplo nas Escrituras Eternas, cada homem, ao seu tempo, tem que vencer ao Príncipe das Trevas para integrar-se totalmente à Luz do Eterno. Escolheste o sacerdócio como caminho, e isto animou o teu pai. Continuavas ligado às Três Cruzes, agora reduzida a uma apenas. A parte mágica das Três Cruzes estava oculta pelo esplendor da cruz do meio. Sim, eu explico: a cruz do meio é a do Eterno, a da direita é daqueles já integrados à Luz, a da esquerda é daqueles que ainda estão no caminho, em busca da Luz Eterna. Eis o simbolismo das Três Cruzes.

Mas, voltando ao que eu estava dizendo, teu pai usou de teu poder e riqueza para l