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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


O CÉU COMO TELHADO / Jeanne Williams
O CÉU COMO TELHADO / Jeanne Williams

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

O CÉU COMO TELHADO

 

SUSANNA agarrava‑se ao assento de madeira já lascada da carroça que pulava, e lançava olhares desesperados ao seu baú. Seria que o bule da sua avó e as duas chávenas de fina porcelana que restavam sobreviveriam a esta última parte da viagem do Ohio para o Kansas? Susanna acondicionara‑os cuidadosamente no meio das suas roupas e lençóis a cheirar a lilás, e o baú estava entalado entre ferramentas, sacas e caixas para não escorregar. Mas a lama seca dos caminhos cheios de sulcos fazia que tudo na carroça andasse aos solavancos e vibrasse, incluindo Susanna.

            O homem que segurava as rédeas numa única mão experiente não abanava, e ela não conseguia imaginá‑lo a vibrar, embora a ideia lhe desse vontade de rir pela primeira vez desde que saíra de Pleasant Grove, no Ohio, naquele Setembro de 1875. O homem da estação de Dodge City tratara o jovem magro de cabelo escuro por doutor, mas Susanna não se atreveria a fazê‑lo. Apesar da temperatura quente, ele estava de casaco. A sua boca determinada curvava para baixo, e a pele bronzeada era vincada ao canto dos olhos, que tinham um brilho perturbante, semelhante ao das nuvens cinzentas iluminadas pelo sol invernoso. Ao longo do maxilar quadrado, umas suíças, descuidadamente aparadas, tentavam encaracolar, pretas como o cabelo que lhe caía sobre a têmpora direita.

Ele franzira o sobrolho quando o homem da estação lhe explicara a situação de Susanna.

            ‑           Esta senhora é a nova professora da escola Mason‑Dixon, doutor. Henry Morton ficou de vir buscá‑la, mas ainda não regressou de Topeka.

            O homem, baixo e magro, fez um gesto com a mão em direcção à rua larga de edifícios frágeis, com fachadas falsas, que eram na sua maioria saloons e dancings. Saindo deles ou neles entrando, viam‑se mulheres pintadas, homens com um ar ordinário e outros que tinham de ser eowboys ‑ jovens de pele curtida com esporas a tilintar presas a botas de tacão alto, lenços coloridos ao pescoço e grandes chapéus. Nascida de uma cabana com telhado de colmo, construída apenas há três anos ao lado de um solitário choupo‑do‑canadá, que marca o lugar onde se pode atravessar a pé o rio Arkansas, Buffalo City mudara o seu nome para Dodge City quando o caminho de ferro se aproximou.

            ‑           Quando era uma cidade de caçadores de peles ‑ continuou o homem ‑, isto era só peles, ossos, pó, um inferno. Desde que foram construídos os currais e as rampas de carga, no Inverno passado, passámos a ter vacas, cowboys, pó, um inferno! Para deixar Miss Alden no rancho de Ase McCanless não precisa de se desviar muito do seu caminho, doutor.

            O homem, apresentado como sendo Matt Rawdon, encolhera os ombros, impaciente.

            ‑           Está bem, Clem, acho que vou ter de a carregar até lá. Ajuda‑me então aqui como baú.

            Carregar! Como se ela fosse uma saca de batatas! Embora tivesse vinte e sete anos e plena consciência de que estava a transformar‑se numa das numerosas solteironas de Pleasant Grove, Susanna não estava habituada a ser tratada pelos homens como se fosse um fardo. Bonita não era, mas era bem‑disposta e tinha um farto cabelo castanho encaracolado, com reflexos avermelhados sob a luz do Sol, embora naquela altura estivesse preso num decente carrapito escondido pela touca castanha. A cor dos olhos variava entre o dourado e o castanho, por vezes com laivos de verde, dependendo da luminosidade e da disposição. O seu vestido castanho simples salientava‑lhe o tom cremoso, suave, da pele e moldava‑lhe a figura magra, ainda transparecendo juventude. Afectada pelos modos desagradáveis de Rawdon, Susanna afirmara no tom mais frio que conseguira:

            ‑           Eu pago o transporte.

            ‑ É preferível guardar o dinheiro para o bilhete de regresso ao Ohio, menina.

            Desconcertada pela hostilidade dele, Susanna colocara a sua bolsa debaixo do assento e subira para o degrau de ferro da carroça. Mas não subira com rapidez suficiente para agradar a Rawdon, pois com um braço extraordinariamente forte o homem alto içara‑a, quase em peso, para cima do assento de tábua. Ao fazê‑lo, ela vira de relance a outra mão dele, sulcada de cicatrizes e pendente, como se se servisse pouco dela.

            Que infelicidade para um médico! A expressão de Susanna devia ter deixado transparecer a sua compaixão desolada. Rawdon largara‑a como se se tivesse queimado e dirigira‑se para o outro lado. Saltando com facilidade para dentro da carroça, instalara as suas pernas compridas e presenteara‑a com um sorriso azedo de desafio, como se estivesse preparado para se deleitar com o desconforto dela.

            ‑           Bem, Miss Alden, vamos ver se gosta destas carroças. Não me peça para ir mais devagar. Depois de a deixar, tenho de chegar a minha casa a tempo de ordenhar as vacas.

            ‑           Eu não lhe pedi para ir devagar, nem vou pedir. Cruzando as mãos no colo, Susanna sentou‑se muito direita, resolvida a não se queixar, mesmo que lhe apetecesse muito. Não se queixou, mas rapidamente descruzou as mãos para se agarrar ao assento quando os grandes solavancos ameaçavam lançá‑la para fora do seu poleiro. Agora, fincava os pés e perscrutava em vão a planície em busca de uma árvore, de uma colina, de uma casa.

            Até ao infinito, um céu límpido ofuscante, que por fim se curvava até tocar a pradaria. Até onde a vista alcançava, a erva avermelhada de pontas esfarrapadas inclinava‑se com o vento e depois voltava para trás, mais escura, como o veludo com o pêlo arrepiado. Um outro tipo de erva amarelecida tinha cabeças de semente em forma de meia‑lua; alguns tufos mais altos ostentavam penachos dourados e tonalidades subtis de preto, cinzento, prateado, encarnado e grupos esfiapados de cinzentos‑avermelhados e castanhos‑avermelhados. Os ásteres ondulavam as suas cabeças escarlates e outras flores amarelas, cor de laranja e brancas ‑ enfeitavam a tapeçaria.

            Então, afinal, havia ali beleza, algo mais para além da grande extensão de planície solitária e do céu, que só podia ser habitado por criaturas aladas, como o falcão descrevendo círculos preguiçosamente até de repente descer a pique. O coração de Susanna contraiu‑se e ela sentiu o terror do pequeno ser peludo, qualquer que ele fosse, que estava agora no meio daquelas garras.

            ‑           Os falcões e as águias têm uma visão óptima, mas falham mais vezes do que as que acertam ‑ disse Rawdon, levantando a voz para se fazer ouvir acima do chocalhar e matraquear.

            Ele tinha um chapéu cinzento já velho. Teria ele pertencido ao exército da Confederação? Apesar de a guerra já ter acabado há dez anos, Susanna ficou tensa. O homem com quem ela estivera para casar morrera nessa guerra; e o seu pai regressara dela mutilado e cheio de dores, de tal forma que cada vez fora preciso mais whisky para o aliviar. Ela ainda sentia um remorso enorme pelo alívio que a invadira quando lhe levara o pequeno‑almoço naquela manhã, havia seis meses, e descobrira que o seu sono era o sono da morte. Durante dez anos, exceptuando as quatro horas diárias em que ensinava literatura e composição na escola feminina da sua tia, Susanna tratara do pai. A morte dele libertara‑a, mas simultaneamente, de repente, ela sentira‑se inútil, privada da razão da sua existência.

            Ficara então com a hipótese de escolher o que fazer, escolher de entre o que restava a uma mulher de uma geração privada de muitos dos seus melhores rapazes, como o seu Richard. Susanna tinha que aceitar a probabilidade de nunca mais voltar a haver outro homem para ela, não só porque amara muito Richard ‑ louro, despreocupado, sorridente ‑, mas porque na sua pequena cidade do Ohio não havia um único homem que ela pudesse sequer considerar. A tia Molhe convidara‑a para se mudar para casa dela e do tio Frank e passar a leccionar a tempo inteiro, mas esta hipótese surgira a Susanna como o desperdiçar da oportunidade de viver verdadeiramente. Estas reflexões foram perturbadas por um ribombar longínquo vindo do oeste. Soava a batalha.

            Índios? Comanches, Kiowas, Cheyennes, Arapahos ‑ os nomes atravessavam‑lhe o pensamento como flechas flamejantes. Ela sabia que os índios das planícies do Sul deviam viver em reservas no território índio, que se situava entre o Kansas e o Texas, mas ainda no verão anterior tinham‑se verificado raides no Kansas Ocidental que haviam ceifado a vida a vinte e sete brancos.

            ‑           Caçadores de búfalos ‑ disse Rawdon, abanando a cabeça. ‑ Já não restam muitos "peludos" por estas bandas. Mas quando eu cá cheguei há três anos, a grande matança ia só no princípio. Quando se começou a espalhar que havia um grande mercado para peles de búfalo, vários milhares de caçadores enxamearam as pradarias. Um bom perito pode matar setenta e cinco a cem por dia. - Susanna ficou boquiaberta, e ele prosseguiu: ‑ Um velho caçador disse‑me que calcula que foram mortos mais de três milhões de búfalos nas planícies do Sul, e este número não inclui os mais de um milhão que foram mortos pelos Índios nesses três anos.

            ‑ Os Índios não precisam deles?

            ‑ Claro que precisam. Para comida, protecção, roupa, tudo. A exterminação dos rebanhos obrigou os Indios a confinarem‑se às suas reservas muito mais depressa do que os soldados o conseguiram fazer. É simplesmente o poder que faz os direitos, exactamente como o Norte ensinou ao Sul.

            ‑           Direitos?! Chama direito à escravatura?

            Ele fez um gesto com a mão e respondeu:

            ‑           Eu nunca possuí nenhum homem nem nenhuma mulher, nem nunca considerei que isso fosse justo. Mas se vai ensinar História, minha senhora, o melhor é ensinar os factos. A guerra eclodiu pela questão de os estados terem ou não o direito de se separarem. Eu continuo a pensar que têm esse direito, só que não têm poder para o fazer. Isso é o que conta.

            ‑ Se pensa que eu vou ensinar às crianças perspectivas cínicas como essa...

            ‑           Não é preciso. Elas em breve descobrem‑nas. Da mesma maneira que a senhora vai descobrir porque é que a sua hipotética escola se chama Mason‑Dixon.

            ‑           Suponho que o nome significa que há na região ex‑partidários da União e da Confederação.

            - Por essa brilhante dedução, Miss Alden, merece a nota mais elevada da escala.

            Se isto era uma amostra de como se comportavam os cavalheiros do Sul, Susanna duvidava conseguir manter a sua serenidade e ser uma professora competente. Virando‑se repentinamente para ele, perguntou:

            - Porque é que o senhor é tão... tão grosseiro? É porque eu sou do Ohio, porque sou mulher ou porque a sua professora lhe deu tantas reguadas quantas provavelmente merecia?

            Ele lançou‑lhe um olhar espantado antes de começar a rir‑se. Riso este que descontraiu a sua expressão dura, fazendo‑o parecer mais novo e menos temível, embora, pelas rugas que tinha à volta dos olhos e da boca, Susanna calculasse que já devia passar dos trinta anos.

            - Adoraria dar‑me reguadas, não é verdade? - escarneceu ele. ‑ Muito bem. Peço desculpa, mas não fui eu que desejei a sua companhia e, já que fala nisso, nortistas, mulheres e professoras não me interessam particularmente. Não é nada de pessoal, garanto‑lhe.

            ‑           Nada de pessoal! Permita‑me que lhe recorde que o Norte também sofreu, não que sirva de muito fazê‑lo, uma vez que o senhor admitiu ser um misógino preconceituoso e fanático. ‑ Engolindo em seco, ela fixou o olhar no horizonte.

            Exactamente nessa altura, as rodas entraram num buraco especialmente mau. Os dentes de Susanna bateram. Olhando para trás, ficou mais sossegada ao ver que o baú ainda lá estava. Era estranho que quase tudo o que ela possuía estivesse dentro daquele baú. A verdade lamentável era que o seu pai fora médico, com pouca cabeça para os negócios. Charles Alden vivera com conforto e estima, embora não tivesse voltado a casar depois de uma infecção pós‑parto lhe ter arrebatado a sua adorada mulher, Serena. Quando ele morrera, quase todos os habitantes da pequena cidade tinham ido ao funeral.

            A venda da pequena casita branca onde ele e Susanna tinham vivido rendera o suficiente, juntamente com o seu recheio, para pagar o enterro, as dívidas pendentes e a viagem de Susanna para o Oeste. Os cinquenta dólares que haviam sobrado, depois de ela ter comprado o bilhete, estavam prudentemente alojados numa bolsa que a tia Molhe lhe tinha cosido à parte de dentro do espartilho.

            Apesar das objecções de espanto e, de certo modo, de indignação do tio e da tia, ela insistira em sair de Pleasant Orove.

            ‑           Daqui a poucos anos, podes passar a ser tu a directora da escola ‑ dissera, chorosa, a roliça e rosada tia Molhe.

‑           Não posso. Quero ir para outro sítio, para um sítio diferente, onde aquilo que ensino possa ser verdadeiramente importante.

            Pensar na tia e no tio arrastou até ela uma onda de nostalgia, e os olhos de Susanna enevoaram‑se.

            ‑           Guarde as lágrimas para quando conhecer os administradores da escola ‑ aconselhou Rawdon. ‑ Nessa altura, terá mesmo razão para chorar.

            ‑           Eu não estou a chorar! De qualquer maneira, os administradores, por muito maus que sejam, não podem ser tão horrendos como o senhor!

            ‑           Nem misóginos preconceituosos e fanáticos? ‑ completou ele.

            ‑           Espero que não tenha filhos na minha escola e sinto imensa pena da sua mulher, caso a tenha.

            A expressão dele fechou‑se.

            ‑           Não, não tenho, e a hipótese de eu alguma vez vir a ter filhos na sua escola é muito remota.

            Ficaram os dois em silêncio, como se tivessem chegado a uma espécie de empate. à frente, lá em cima, Susanna viu o primeiro indício de existência humana desde que saíra de Dodge City: uma casa de adobe e telhado de colmo.

            Rawdon disse então:

            ‑           Pete Townsend transporta mercadorias e está no período experimental para conseguir a posse da terra concessionada na sua qualidade de colono; tem de viver nela durante cinco anos, construir uma casa e plantar qualquer coisa para finalmente conseguir o direito de ficar com ela.

            ‑           O senhor também tem terras concessionadas de colono?

            ‑           Eu comprei as minhas terras a uns colonos que estavam fartos da seca, do granizo, da neve, dos tornados e dos gafanhotos.

            ‑           Se esta região do Kansas é tão terrível, porque é que se instalou cá?

            ‑           Eu não posso ser um médico a sério só com uma mão operacional e não quis montar um consultório em Dalías, como a minha irmã pretendia, embora eu deva muito a Amanda. Ficámos órfãos tinha eu dez anos e ela apenas dezasseis. Amanda deixou‑me continuar a estudar enquanto ela trabalhava e arranjou maneira de eu chegar à Faculdade de Medicina, onde fiquei fascinado pela cirurgia. Amanda, entretanto, tratara de um viúvo abastado durante uma doença grave. Ele era muito mais velho do que ela, mas existia uma afeição genuína entre ambos. Ele morreu durante a guerra, deixando‑lhe a sua grande casa, e Amanda esperava que eu a partilhasse com ela. Mas eu saí do Texas à procura de terra barata com boa erva. Cultivo umas coisas, mas a minha actividade principal é a criação de cavalos.

            Susanna franziu o sobrolho. Sabia que não tinha nada a ver com o assunto, no entanto parecia‑lhe um desperdício este homem não fazer uso das suas capacidades e formação.

            - Porque é que não pode exercer medicina? Há imensas coisas que podia fazer só com uma mão.

            - Operações, não.

            - Mas numa região como esta, onde a sua profissão é de certeza necessária, parece quase pecado não a exercer.

            - Tirar o maior proveito das coisas? - Os olhos dele perscrutavam‑na. É isso que faz, Miss Alden?

            - É exactamente o que eu faço e não me envergonho disso.

            Desta vez, o silêncio durou até passarem por uma casa de barro com o telhado parcialmente destruído. A porta desaparecera e uma pele de animal abanava numa pequena janela. Susanna reprimiu um arrepio. Aquela vastidão de planície fazia‑a sentir‑se como se...

como se o telhado e as paredes de uma casa confortável tivessem voado e ela tivesse ficado apenas com o céu como telhado, a erva como chão, o vento como vizinho.

            Ela estremeceu, mas havia algo de espaçoso e de maravilhosamente livre naquela pradaria, algo que sussurrava que havia todo o espaço do Mundo para se crescer, para se ser o que não se podia ser dentro de quatro paredes. Doía‑lhe a cabeça por causa dos ganchos que lhe prendiam o cabelo. Que bom que seria tirar a discreta touca e deixar o vento soprar‑lhe a cabeleira!

            Após um instante de surpresa perante a ideia audaciosa de soltar o cabelo à frente de um desconhecido, Susanna desatou a fita da touca e, quando Rawdon lhe lançou um olhar espantado, soltou o cabelo, atirando a cabeça para trás na brisa do oeste.

            Para sua surpresa, Rawdon riu‑se:

            - Até fazer isso, eu imaginava‑a como a "senhora professora" perfeita.

‑           Aquela que nunca solta o cabelo?

            Os olhos dele roçaram‑na apenas instantaneamente, mas o seu brilho curioso pareceu atravessá‑la e ver bem até lá ao fundo. Mas havia mais qualquer coisa ‑ um lampejo de perigo e uma sensação inebriante e intoxicante que ela nunca experimentara. Surpreendida pela forma como o olhar de Rawdon lhe acelerara as pulsações, Susanna desviou o olhar.

            ‑           Claro que a professora perfeita não solta o cabelo, Miss Alden. ‑ O tom dele era quase de desprezo. ‑ É cuidadosa com as roupas, com o dinheiro e com a reputação.

            ‑           Todas as mulheres têm de preservar a sua reputação ‑ disse Susanna num tom defensivo.

            ‑           Então, o melhor é voltar a fazer o carrapito, porque o pó e o fumo ali em cima parecem‑me uma equipa de marcação de gado e Ase McCanless pode estar lá no meio. Ele é o principal administrador da escola.

            Ao aproximarem‑se da cortina de pó, Susanna ouvia berros e gritos furiosos e assustados do gado. A uma certa distância da estrada, uns homens a cavalo laçavam bezerros e transportavam‑nos até junto de uma fogueira, onde se encontravam compridas barras de ferro incandescentes. Quando o bezerro estava no chão, dominado por outros dois homens, um terceiro aplicava‑lhe uma das barras. O homem que tinha a barra chamou um dos que trazia as reses, entregou‑lhe a barra, agarrou‑lhe no cavalo e dirigiu‑se à carroça montado nele.

            Tirando bruscamente um chapéu sujo de aba larga, o desconhecido, um homem alto, fez um breve cumprimento de cabeça a Rawdon antes de olhar para Susanna.

            - A senhora é a nova professora, presumo. ‑ Magro, vigoroso e escuro como o couro da sua sela, tinha olhos azuis e cabelo cor de areia. Susanna calculou que fosse mais ou menos da idade de Rawdon. ‑ Sem ofensa, minha senhora ‑ prosseguiu ele pausadamente‑, parece‑me um pouco nova demais para andar por aí a viajar sozinha.

            ‑           Isso é muito lisonjeiro, mas eu tenho vinte e sete anos e já sou professora há vários anos.

            Observando‑a cautelosamente, ele suspirou.

            ‑           Henry disse‑me que a senhora é do Ohio. É pena que não tivéssemos arranjado uma pessoa do Sul, mas acho que os homens do Sul não deixam as mulheres andar por aí a vaguear.

            ‑ O meu noivo morreu na guerra - disse Susanna ‑ e o meu pai morreu há pouco tempo. Quando o delegado das escolas do distrito me convidou para vir, ele sabia que eu era, como os senhores sem dúvida dizem, ianque.

            - Não se enerve, minha senhora. Há dois dos administradores que a querem exactamente por ser do Norte, como eles. - Voltou a enterrar o chapéu na cabeça. - Eu sou Ase McCanless, proprietário do Rancho Ace High. E calculo que a senhora seja Miss Susanna Alden. Tenho que voltar ao trabalho; Rawdon, fico‑lhe muito grato se puder levar a senhora até lá a casa.

            Quando a carroça arrancou de novo, Rawdon disse a Susanna:

            ‑           Eu... lamento muito o que aconteceu ao seu pai e ao seu noivo.

            Aquilo era nitidamente fruto de um esforço. Sentindo‑se estimulada para ser sincera, ela replicou:

            ‑ Eu lamento o que aconteceu à sua mão.

            O rosto dele ruborizou‑se e a seguir empalideceu. Falou num tom de retraimento e rudeza.

            ‑           A minha mão, Miss Alden, não lhe diz respeito.

            Chocada e confusa, Susanna não conseguiu pensar em nenhuma resposta à altura. Seguiram caminho num silêncio de chumbo até surgir aquilo que devia ser a casa de McCanless; era branca, de madeira, tinha um grande alpendre e dominava um grupo de construções com telhado de colmo e currais.

            ‑ Cá estamos nós. ‑ Rawdon apeou‑se, prendeu a parelha a um poste e, impacientemente, ajudou‑a a descer. Cumprimentou um velhote que saiu a coxear de um barracão e veio ajudar a descarregar o baú, enquanto a porta se abria de repente e uma mulher idosa e gorducha saía apressada.

            ‑ Entre, minha menina ‑ foi a saudação da mulher. ‑ O seu quarto está pronto. O Johnny enche‑lhe a tina e eu levo‑lhe uma boa sopinha. Chamo‑me Betty Flynn, sou a governanta de Mr. McCanless. - Conduziu Susanna a um hall atapetado e apontou para as escadas. ‑ É a primeira porta à sua direita, menina.

            Susanna começou a subir as escadas e Rawdon foi ter com ela ao patamar.

‑ Muito obrigada ‑ disse‑lhe ela num tom cortês mas frio, abrindo a bolsa ‑ Quero pagar‑lhe por tê‑lo feito desviar‑se do seu caminho.

            O patamar tinha pouca luz, e esse facto tornava os olhos dele mais desconcertantemente brilhantes do que nunca.

            ‑ Os ianques pensam que podem comprar tudo, não é verdade? Eu não quero o seu dinheiro, Miss Alden.

            Fez‑lhe um ligeiro aceno de cabeça e desceu as escadas antes de ela ter sequer tempo de se mexer. Misógino preconceituoso e fanático, desagradável e malcriado! Não conhecia os administradores da escola Mason‑Dixon, mas era impossível serem homens mais difíceis do que Matt Rawdon!

 

            SENTINDO‑SE suja e encardida depois de três dias de comboio e da viagem quente e poeirenta desde Dodge City, Susanna desfrutou, agradecida, da água que Johnny lhe levou. Quando objectou a que o homem coxo e grisalho carregasse os baldes, os olhos dele brilharam e sorriu ao dizer:

            - Fui atirado ao chão por um cavalo demasiado selvagem, menina. O Dr. Rawdon arranjou‑me uma ligadura que ajuda muito. Por isso não se preocupe comigo e fique à vontade. Não há nada como um bom banho depois de uma longa viagem.

            Não só enchera a tina metálica redonda, como ainda deixara dois baldes cheios. Nestes últimos, Susanna lavou o cabelo e passou‑o por água, entrando a seguir na tina com um suspiro de felicidade. O cansaço e os quilómetros desapareceram devagarinho na água. Estava quase a passar pelas brasas quando um estrondo algures dentro de casa a fez dar um salto. Esfregou‑se rapidamente, saiu da tina, limpou‑se e vestiu uma camisa de noite.

            Bateram à porta e Betty Flynn disse do lado de fora:

            ‑           Trouxe‑lhe a sopinha, menina.

            Vestindo à pressa o roupão, Susanna abriu a porta. A governanta entrou e pousou o tabuleiro numa mesa pequena com tampo de mármore que estava ao lado de uma cadeira de braços forrada de cetim cor‑de‑rosa, que combinava com a elegante colcha de cetim e com o tapete de lã cor‑de‑rosa.

            - Este quarto é muito bonito ‑ comentou Susanna.

            ‑ Ase deixou a decoração da casa a meu cargo. Ele queria que ficasse bonita para a filha, Jenny, apesar de ela não ligar nenhuma a isso. Só quer é andar atrás do pai e correr por aí com o pónei como um índio selvagem. Foi ela quem bateu com a porta ainda há bocado, quase partindo as janelas. - O grande peito de Betty subiu e desceu num suspiro. ‑ Quando Ase estava a começar lá no Texas, a mãe de Jenny morreu ao ser arrastada por um cavalo espantado quando estava a ajudar a reunir o gado. Jenny era bebé. Ase nunca se recompôs, por isso quer que Jenny tenha tudo o que a mãe não teve. E Jenny quer é estar com o pai e fazer tudo o que ele faz. São os dois teimosos que nem uns burros e eu nem quero pensar no que irá acontecer se continuarem sempre a discutir.

            ‑ Suponho que já falou com Mr. McCanless sobre o assunto.

            ‑ Já, mas é o mesmo que falar para as paredes. Ele precisa de uma mulher que seja uma mãe para Jenny e uma espécie de plataforma entre eles. Se alguém amasse Ase

            ‑ A senhora ama‑o.

            ‑ Para mim, ele é o filho que eu nunca tive. ‑ Os olhos cor de avelã de Betty adoçaram‑se. ‑ Nós éramos vizinhos no Texas. Depois de o meu marido morrer, Ase pediu‑me para me mudar para casa dele e tomar conta de Jenny. ‑ Betty bateu com a mão na boca. ‑ Aqui estou eu a tagarelar e a sua comida a arrefecer! Que lhe faça muito bom proveito, minha querida, e descanse bem.

            Betty Flynn fechou a porta atrás de si e Susanna sentou‑se junto ao tabuleiro. A sopa de tomate estava deliciosa, para além dos biscoitos de milho, ainda suficientemente quentes para derreterem a manteiga, e de um copo de leitelho. Susanna saboreava cada dentada, mas esta sumptuosidade foi destroçada pela sua própria consciência quando Johnny bateu à porta e começou a levar a água. Quando ele desceu com os baldes, Susanna arrastou a tina para o corredor em cima do tapete de corda redondo em que estava assente.

            Largue isso, menina! ‑ Um Johnny ultrajado entrou à pressa vindo do alpendre com os baldes a chocalhar. ‑ Isso é trabalho meu!

            ‑           Faz‑me sentir tão preguiçosa ‑ argumentou Susanna. ‑ Não me deixa ajudá‑lo a levar isto para baixo?

            - Claro que não deixo! Ase esfolava‑me vivo

            ‑ Eu ajudo. ‑ A porta do fundo do corredor abriu‑se e apareceu uma rapariga bronzeada de uns onze anos com uma grossa trança de cabelo louro, que correu até à escada e agarrou numa das pegas da tina.

            Com um sorriso de desafio, que exibiu uns dentes brancos e covinhas nas bochechas, a garota fitou Susanna com uma expressão provocadora nos olhos, que eram de um azul tão escuro que, no corredor sombrio, pareciam quase pretos.

            ‑ Se estava a falar a sério, minha senhora, agarre naquela pega.

Resmungando, Johnny encostou‑se à balaustrada como se precisasse de apoio, enquanto Susanna e a garota, que só podia ser Jenny, desciam cautelosamente as escadas com a tina para não entornarem a água.

            ‑           Despejamo‑la nas árvores ‑ disse Jenny. ‑ Não tem sabão suficiente para lhes fazer mal.

            Susanna, segurando nas bainhas da camisa de noite e do roupão para evitar que roçassem no pó do cascalho do pátio, ajudou a despejar a água. Depois de pousar a tina virada para baixo num banco ao lado da casa onde estavam várias outras, Jenny encarou Susanna de frente.

            ‑ A Betty disse‑me que a senhora vai começar uma escola.

            ‑ Foi para isso mesmo que para cá vim.

            ‑ Eu não quero ir.

            ‑ Ires ou não ires é um assunto entre ti e o teu pai ‑ comentou Susanna num tom frio. ‑ Se queres ou não aprender, é contigo.

            ‑ Quer dizer que não vai tentar obrigar‑me a estudar?

            ‑ Dou‑te as notas que mereceres.

            Susanna começou a subir as escadas para o alpendre lateral. Jenny ultrapassou‑a e virou‑se para a encarar do degrau acima dela.

            O maxilar firme, apesar dos contornos infantis, descaiu um pouco.

            ‑           O meu pai não vai gostar disso.

            ‑           Mais uma vez, repito, isso é um assunto a resolver entre vocês os dois.

            ‑           Se não conseguir ensinar‑me, não fica com a escola. ‑ Recuperando a autoconfiança, Jenny falava com jactância. ‑ A única razão por que o meu pai a fez foi por esperar que eu aprendesse mais assim do que com as patetas das mulheres que ele tem contratado para me ensinarem. Preceptoras! Não faziam nada de mim. Nenhuma delas durou mais de um mês.

Contendo uma réplica, Susanna continuou a subir as escadas para ir para o seu quarto.

            - Obrigada por me teres ajudado a despejar a água, Jenny. Boa noite.

            Susanna entrou no quarto e fechou a porta. Ouviu passos, propositadamente pesados, e depois uma porta a bater ao fundo do corredor, ainda com mais barulho do que da outra vez. Com grande espanto, Susanna reparou que estava a tremer. Nunca conhecera uma criança como aquela. Não era de admirar que as preceptoras tivessem debandado. "Ela não vai ser a minha única aluna", consolou‑se Susanna. "Alguns hão‑de querer estudar, hão‑de estar sedentos de aprender."

            Ou não? Talvez as crianças daquela região fossem diferentes. Para além de, inevitavelmente, partilharem das animosidades dos pais, ex‑nortistas e ex‑sulistas. O pânico invadiu‑a.

            Susanna dirigiu‑se à janela e apoiou‑se no parapeito, desfrutando da brisa que, no crepúsculo que se adensava, era mais fresca. A pradaria cinzento‑azulada misturava‑se com o céu, que estava mais claro junto à linha do horizonte, mais escuro em cima, exibindo as primeiras estrelas. Meu Deus, lá estavam as sete estrelas da Ursa Maior! Era animador ver as familiares luzes celestes.

            Avassalada pelas saudades que tinha do pai, de como ele era antes da guerra, Susanna agarrou‑se ao parapeito e pestanejou para afastar as lágrimas. Olhou para as estrelas e murmurou para a abóbada celeste:

            ‑           Pai, diga‑me se está bem.

            Como se ele estivesse à espera, sentiu‑o perto de si e ouviu‑o em pensamento, embora as palavras não fossem audíveis: "Eu estou bem. Aqui o dia é eterno, minha querida, há paz total e alegria total."

            Depois, acabou‑se, mas ela sentiu‑se animada. Talvez tivesse sido só uma ilusão dos seus sentidos provocada pela fadiga e pelo facto de se sentir apreensiva e só naquele lugar desconhecido. O que quer que fosse fora o melhor remédio que o seu pai, médico, jamais lhe dera. Sempre que ela via as estrelas que tinham observado juntos, recordava‑o com alegria. A morte do pai restituíra‑lho.

            Acendeu o candeeiro de chaminé cor‑de‑rosa e, depois de vasculhar no baú, encontrou um livro velho: Meditações, de Marco Aurélio, o livro do seu pai. Sentou‑se perto do candeeiro, abrindo o livro pela fita que marcava a passagem preferida do pai: "Não estás disposto a fazer o trabalho de um ser humano? Então, porque não te apressas a fazer o que está de acordo com a tua natureza?"

            O trabalho de um ser humano. Isto queria dizer mais do que simplesmente trabalho, mais do que o cumprimento das tarefas que nos são atribuidas. Significava cumprir os deveres e obrigações da condição de mortal, viver com o máximo possível de graça, bondade e coragem. Ou seja, só trabalhando no sentido de atingir a perfeição, é que ela poderia construir uma vida que valesse alguma coisa.

            Mais uma vez agradeceu ao pai e mais uma vez voltou a senti‑lo próximo de si. Fez uma trança, soprou para apagar o candeeiro e caiu no sono mais profundo que tivera desde que o pai morrera, mas não sem antes pensar que gostava de tornar a ver a boca de Matt Rawdon, mas terna e feliz, sem aquele arquear de amargura.

 

NA MANHÃ seguinte, quando começou a vestir‑se, Susanna pegou no espartilho com a habitual relutância. Começou a apertá‑lo, mas depois parou. Verificara que Betty não usava apertos. Provavelmente, nenhuma das mulheres dos colonos nem dos rancheiros usava. Atirou o espartilho para dentro do baú. Agora era uma nova vida. Porque não havia de livrar‑se das relíquias embaraçosas de futilidade e vaidade?

            Com o seu vestido mais fresco ‑ de tecido fino, verde‑escuro, Susanna dirigiu‑se ao andar de baixo. Encontrou Betty a fazer bolinhos de trigo‑mouro, que Johnny, sentado a uma mesa com um oleado aos quadrados encarnados, devorava com tal velocidade que parecia aspirá‑los. Ele fez uma pausa para sorrir apreciativamente a Susanna enquanto se levantava e contornava a mesa, coxeando, para a ajudar a sentar‑se. Susanna sorriu‑lhe e agradeceu‑lhe, e Betty depositou um monte de bolos à sua frente e serviu‑lhe café. Betty pôs mais dois bolos no prato de Johnny antes de se sentar à frente do seu.

            ‑ Onde está a Jenny?

- No quarto dela, creio eu - respondeu Betty.

            Johnny abanou tristemente a sua cabeça cinzenta.

            - Se Ase não alivia as rédeas, ela provavelmente ainda foge com um cowboy qualquer quando tiver quinze anos. Ele sabe domar um poldro sem lhe quebrar a personalidade, mas não o sabe fazer à filha. - Olhou para Susanna. - Como é que a menina e a Jenny se entenderam?

            - Não muito bem. - Susanna tinha de o admitir.

            ‑ Não espero que me acredite, mas no fundo ela é uma boa garota. ‑ Johnny acabou o café e empurrou a cadeira para trás. - Quer que eu a leve a ver a escola?

            ‑           É longe?

            ‑ É mais ou menos a meia légua. Ase construiu‑a aqui perto para que a menina e a Jenny não tivessem de andar muito. É nas terras dele.

            ‑           Ah, sim? Ele doou o edifício da escola e o terreno à delegação escolar?

            Betty e Johnny olharam um para o outro e desataram a rir.

            ‑           Ase McCanless ceder o controle de terras suas? ‑ comentou Johnny.

            ‑           Eu ainda não fui contratada ‑ disse Susanna, subitamente enjoada e já sem apetite. ‑ Mas eu não posso ensinar numa escola que é propriedade particular e situada em solo particular. Eu não ensino numa escola controlada por um dos administradores. Não consigo imaginar nada de mais pernicioso para a instrução, especialmente numa comunidade dividida como é o caso desta.

            ‑           Ai não?

            Viraram‑se todos para a porta aberta. Absorvidos na conversa, não tinham ouvido Ase McCanless aproximar‑se. Afastando da testa o cabelo cor de areia empapado, ele deitou café numa caneca de esmalte azul, deu um grande gole e olhou para Susanna.

            ‑ Suponho que estava a insurgir‑se contra o facto de a escola ser nas minhas terras, Miss Alden. ‑ As grossas sobrancelhas esbranquiçadas quase se tocavam sobre o nariz belicoso, bastante achatado.

            ‑           Não só a insurgir‑me. O facto de o senhor ser dono da escola coloca‑o na posição de poder exercer uma influência inconveniente.

Um Sorriso lento suavizou a linha severa da boca dele.

            - Influência inconveniente? Até era capaz de ser divertido. Mas é claro que não tenciono dizer‑lhe o que deve ensinar mais do que qualquer administrador tem o direito de fazer.

            - Mr. McCanless, é melhor eu esclarecer desde já que não aceito ficar na escola, a não ser que fique estabelecido que sou eu a responsável por ela. Se os administradores não gostarem dos resultados, então recusam-me a renovação do contrato. ‑ Nervosa perante a perspectiva de ter de desistir da escola, Susanna tentou manter o seu roSto inexpressivo. Os seus músculos enfraqueceram de alívio quando McCanless atirou a cabeça para trás e deu uma gargalhada.

            ‑ Vou fazer‑lhe uma proposta objectiva e justa, Miss Alden. Veja a minha escola, pense no que há nas redondezas e eu não vou contra a sua decisão. Há mais justo que isto?

            ‑           Parece justo ‑ concordou ela, desconfiada.

            O riso de Ase McCanless eclodiu de novo e ele virou uma cadeira para a mesa.

            ‑           Betty, acho que vou dar cabo de uns destes bolos quentinhos. E vou chamar a Jenny para descer. Está toda amuada porque eu a mandei para casa ontem. Mas ir connosco a cavalo vai amansá‑la. ‑ Gritou o nome dela.

            ‑           O que é que quer? - perguntou a voz longínqua, mas mesmo assim truculenta, de Jenny.

            ‑           Vem tomar o Pequeno-almoço e podes montar o Scout para ires à escola comigo e com a professora.

            Seguiu‑se um silêncio.

            ‑ Posso levar uma sela a sério?

            McCanless abafou um suspiro.

            ‑ Só hoje, porque Miss Alden vai precisar da tua sela de amazona.

            Susanna pediu licença e apressou-se escadas acima para vestir a sua saia mais comprida, visto não ter fato de montar. Em criança montara em pêlo uma égua velha e mansa que puxava a charrete de Charles Alden, mas tinha a certeza de que um cavalo de um rancho era muito diferente. Esperava não cair nem fazer figuras tristes.

            Mas mesmo que isso acontecesse, ela não ia mudar de ideias em relação à escola de Ase McCanless.

JENNY, de calças de ganga, saltou para cima de um pónei com uma cabeça malhada e orgulhosa que dançava, enquanto Susana, sentindo‑se desamparada, estudava a sela de amazona, presa com uma cilha a uma égua cor de canela que Johnny segurava pelas rédeas.

            ‑ Ela chama‑se Cindy, menina, para o caso de ter de gritar‑lhe ‑ disse Johnny tranquilizadoramente. ‑ Quer que eu lhe dê uma ajudinha para montar?

            ‑ Ela precisa de mais do que uma ajudinha. ‑ O tom de Jenny era jocoso. ‑ Não faz a mínima ideia de como há‑de sentar‑se nessa coisa.

            Susanna quase se sentiu grata por o seu segredo embaraçoso ter sido assim posto a nu. Suspirando, riu‑se.

            ‑ Tens toda a razão, Jenny. Eu não sei onde hei‑de pôr nem o joelho, nem os pés, nem...

            Mas a parte não mencionável do seu corpo já estava em cima da sela antes de ela sequer ter tempo para protestar, pois McCanless levantara‑a em peso pela cintura, como se ela não pesasse absolutamente nada.

            ‑ Pronto - disse McCanless ‑, Cindy vai atrás de nós e assim a senhora pode ir descontraída e gozar a paisagem.

            A princípio, Susanna ia muito apreensiva em cima da égua. Gradualmente, o seu corpo foi‑se adaptando ao passo calmo do animal. Descontraindo‑se, ela começou quase a gostar do passeio, embora se interrogasse se algum dia conseguiria habituar‑se àquela vastidão ‑ o céu limpo e lustroso curvando‑se até a um mar de erva ondulante. A enorme extensão fazia‑a sentir‑se desconfortável, mas, por outro lado, a sua infinidade atraía‑a. Se a vista podia abarcar tanto, não poderia também o pensamento fazê‑lo e as percepções aguçarem‑se? Até à véspera, ela nunca pensara em erva senão como o verde luxuriante dos prados e relvados; esta erva era diferente, singular, robusta e colorida, como as pessoas dali que ela havia conhecido.

            McCanless abrandou.

            - Os administradores andam todos muito ocupados agora, Miss Alden: os criadores de gado a marcarem os animais e os agricultores com a colheita. No entanto, já mandei avisá‑los a todos e vamos tentar reunir‑nos na escola no próximo domingo. Assim, Henry Morton fica com quatro dias para cá chegar. Se ele não conseguir, votamos o seu contrato na mesma. ‑ Provavelmente, o seu sorriso lento, pretendia ser tranquilizador. Depois, acrescentou num tom de orgulho: ‑ Lá está ela.

            Exceptuando a casa de Ase, era a primeira construção com um ar decente que ela via em todo o Kansas Ocidental: uma estrutura de madeira rectangular simples, pintada de branco, com telhas de madeira cortadas de cepos.

            ‑ Aposto que é a melhor escola do Kansas a oeste de Wichita - disse Ase, saltando do seu alazão. Jenny também se apeou. - Vamos, venha ver. ‑ Sem esperar pelo consentimento de Susanna, Ase arrancou‑a de cima da sela e conduziu‑a lá para dentro.

            Susanna afastou‑se um pouco, retirando o seu cotovelo da mão dele.

            ‑           A sua escola é muitíssimo melhor do que eu imaginava, mas eu não vou ensinar aqui, a não ser que o senhor a doe à delegação escolar.

            As sobrancelhas aclaradas pelo sol arquearam‑se antes de Ase reprimir o que quer que fosse que ia a dizer, encolhendo depois os ombros.

            ‑           Dê uma volta pelas instalações e depois pode dizer a sua última palavra.

            Se os homens não fossem já exasperantemente teimosos antes de para ali irem, devia ser o lugar que fazia que assim se tornassem. Lançando‑lhe um olhar mal‑humorado, Susanna levantou a saia o suficiente para subir o único degrau. Paredes todas brancas aumentavam a luz vinda das janelas cintilantes. Um fogão de ferro, de barriga, ao fundo da sala e uma lata ao canto estavam ambos providencialmente cheios de uns discos castanho‑amarelados que deviam ser excrementos secos de vaca ou búfalo, que Susanna sabia serem utilizados como combustível naquela região quase desprovida de árvores. Mesas compridas de madeira estavam viradas para um quadro e para uma autêntica secretária de professora, de madeira de carvalho, com uma cadeira de costas abauladas.

            Susanna virou‑se e saiu para o vento.

            ‑           Esta escola é muito boa, Mr. McCanless. Eu gostava de ensinar nela, mas não posso.

            Ase bateu com uma mão fechada na palma da outra.

‑ De entre todas as malditas professoras ianques, minhoquinhas e obstinadas, porque é que nos havia de calhar uma que ainda por cima é doida varrida?

            Ofendida pela raiva dele, Susanna afastou‑se e marchou em direcção a Cindy. Demasiado magoada e furiosa para ter medo da égua, agarrou nas rédeas, passou‑as pelo pescoço do animal e pôs o pé no estribo. Mas antes de ter tempo de subir, McCanless içou‑a para a sela. Quando ela acabou de se instalar lá em cima, já ele ia montado no cavalo lá à frente com Jenny.

            Ninguém parou até se aproximarem de casa. Nessa altura, Ase disse a Susanna:

            ‑           Eu vou para a marcação. Estou muito interessado em ouvir como vai explicar aos administradores porque é que torce o nariz à melhor escola de Ford County.

            Susanna tomou fôlego.

            ‑O senhor está a querer dizer que pretende que eu espere para falar com os administradores?

            Ele deu uma gargalhada rude.

            ‑           Nós andamos há três anos a tentar arranjar uma professora, Miss Alden. As poucas que se candidataram não serviam nem para ensinar os porcos a comer no chiqueiro. ‑ Depois, ele levantou as rédeas.

            ‑           Espere! gritou Susanna. ‑ Eu não sei que outros edifícios podem ser utilizados como escola.

            Ase encolheu os ombros.

            ‑           O melhor é fazer uma ronda pelos que existem em terras abandonadas. Jenny pode mostrar‑lhe onde são. ‑ Tocando na aba do chapéu, largou a galope para sul.

            ‑           A que distância ficam? ‑ perguntou Susanna a Jenny.

            Jenny fez sinal com a cabeça em direcção ao norte, de tal forma que a trança loura grossa balançou.

            ‑ Há uma cabana, com telhado de colmo, talvez a uma légua para aquele lado, e outra a meia légua para sudeste da escola do meu pai.

            ‑           Podemos ir ver a que fica para norte agora e a outra logo à tarde? ‑ perguntou Susanna.

            ‑           Se calhar, logo à tarde a senhora está demasiado dorida para montar.

            ‑           Eu monto.

            ‑           Veremos ‑ disse Jenny. Inclinando‑se sobre o pescoço malhado do pónei, Soltou um grito e arrancou, com os cascos do animal parecendo passar por cima da erva sem a tocarem. Susanna seguiu-a, cavalo e amazona no meio do oceano de erva castanho‑amarelada.

            Pouco depois, Jenny voltou para trás quando Susanna parava o seu cavalo junto à cabana e olhava as paredes de barro, que estavam a cair de um dos lados no sítio onde o telhado já não existia. Susanna abanou a cabeça, decidida.

- Isto não serve.

            ‑           Não vai gostar de nenhuma cabana de barro, quanto mais de uma escavada numa encosta - comentou Jenny, virando o seu cavalo, Scout, para que Cindy o seguisse. Fez um sorrisinho. - No fim de tudo, se calhar, decide utilizar a escola do meu pai.

 

            O ALMOÇO era feijão, broa com a côdea deliciosamente tostada, leitelho frio e grossas fatias de uma tarte dourada de maçã. Enquanto Susanna se refrescava, Jenny devia ter contado a Johnny e a Betty a sua recusa relativamente à escola de Ase, pois posteriormente Betty disse‑lhe:

            - Uma coisa que deve ter em conta, minha querida, é a distância a que a escola fica das casas dos administradores. As crianças têm de ir e vir e a menina também, é claro, hospedada ora aqui, ora ali.

            ‑ Ora aqui, ora ali?! Mas então não há uma casa para a professora?

            ‑           Nem pensar, menina. Nas cidades é diferente, creio eu, mas aqui as professoras vão‑se alojando temporariamente em casa de cada administrador. ‑ Betty tossiu ligeiramente. ‑ Eu sei que Ase acha que a professora podia viver só aqui, visto sermos nós que estamos mais perto da escola.

            "E assim teria mesmo a professora completamente na mão, não era?", pensou Susanna. Jenny era toda ouvidos e olhos; só isso é que impediu Susanna de exprimir o seu pensamento em voz alta.

            ‑           Isso seria muito simpático e generoso da parte de Mr. McCanless ‑ disse Susanna. ‑ No entanto, viver em casa de qualquer dos administradores parece‑me ser prejudicial à disciplina, e, para além disso, abomino a ideia de me mudar de armas e bagagens todos os meses ou coisa parecida.

            ‑           Mas aqui é assim, menina ‑ lamentou Betty.

            ‑           Então, graças a Deus que ainda não aceitei o lugar. Eu quero uma casa só minha, mesmo que seja pequena e tosca, que sirva de escola e de casa. Se os administradores não me arranjarem uma, eu recuso o lugar. ‑ Uma esperança súbita reluziu. ‑ Aquela cabana que vamos ver logo tem mais do que uma divisão, Jenny?

            ‑ Nunca me aproximei o suficiente para saber isso ‑ respondeu Jenny.

            ‑ Era a casa do Madsen ‑ disse Betty, franzindo o sobrolho. - Deixe‑me cá pensar. Sim, tem duas divisões: uma grandinha e outra mais pequena.

‑           Talvez a mais pequena possa ser o meu quarto. Estou disposta a pagar o que for preciso para o arranjar. Se eu me alojasse em casa das famílias, elas teriam de me alimentar, então porque não hão‑de simplesmente dar‑me a mesma quantidade de comida?

            ‑           Parece‑me justo ‑ comentou Johnny com um aceno de cabeça.

            Betty fulminou‑o com os olhos.

            ‑           Então e os tornados? Os fogos da pradaria? Nevascas? O que é que há de justo no facto de uma jovem viver a léguas do vizinho mais próximo?

            ‑           Léguas? ‑ ecoou Susanna com a voz fraca.

            Na revolta que sentira contra o facto de se alojar em casa dos administradores, esquecera‑se de que não estava a viver numa cidade. Não haveria vizinhos por perto. Mas de qualquer das maneiras, ela não poderia aceitar viver em casa de Ase, e andar a saltitar de casa em casa era impensável. Esforçando‑se por sorrir, Susanna disse:

            ‑           A Betty é muito amorosa por se preocupar comigo, mas eu estou mais preocupada com as minhas condições de vida do que com hipotéticas catástrofes.

            Betty abanou a cabeça.

            - Fico doente só de pensar naquela linda escola vazia enquanto a menina pretende viver numa cabana.

            ‑           Se a maioria das pessoas consegue, eu também hei‑de conseguir. ‑ Susanna suavizou as palavras com um ligeiro sorriso. - Esta broa é a melhor que já comi na minha vida, Betty, e a tarte estava deliciosa. Comi tanto que a Cindy se calhar não vai querer carregar comigo.

            Jenny atulhou a boca com uma última grande dentada e levantou‑se de um salto, limpando as mãos às calças de ganga.

            ‑           Está pronta para irmos?

            ‑ Logo que acabarmos de lavar a louça.

            ‑ A Betty nunca me pede para lavar a louça ‑ comentou Jenny de olhos esbugalhados.

            ‑ Talvez não, mas peço eu. A Betty já nos fez o almoço.

            Jenny franziu o sobrolho, olhou com uma cara envergonhada para Betty e instantes depois disse, contrariada:

            ‑ Eu limpo, se a senhora lavar.

O trabalho foi feito rapidamente com água que fora aquecida ao lado do fogão. Susanna sabia que não iria ter fogão. Quereria isso dizer que teria de cozinhar numa lareira? Tendo como combustível excremento de vaca?

            Bem, pensou Susanna, não tinha ela vindo para ali para ser pioneira?

 

            A CABANA tinha três coisas boas: duas divisões; o telhado inteiro, provavelmente porque as raízes das plantas e da erva se tinham entrelaçado, fixando‑o às traves, e, devido à sua localização num ligeiro declive, dominava uma bela paisagem da curva de um pequeno rio orlado de choupos. As coisas más começavam pela sujidade do chão, passando pelas paredes de barro e pela criatura de pernas peludas que caiu do tecto em frente de Susanna.

            Susanna deu um grito e recuou, dando um encontrão a Jenny, que desatou a rir.

            ‑           É só uma tarântula. Elas não mordem, a não ser que as molestemos. As viúvas‑negras e algumas espécies de escorpiões têm uma picadela muito mais perigosa.

            Susanna ficou muito contente quando a tarântula, de dez centímetros de comprimento, desapareceu pela porta no meio das ervas daninhas.

Preparando‑se para tudo o que pudesse acontecer, Susanna inspeccionou a lareira, situada na parede de separação das duas divisões de modo a poder aquecer ambas. A chaminé precisava de um arranjo, mas, à parte isso, o estado geral da cabana era razoável e a parede central ajudava a suportar as vigas. A grande espessura do colmo do telhado tornava‑a fresca, o que seria uma bênção no tempo quente, mas também a tornava escura que nem uma gruta. A divisão principal era iluminada por duas pequenas janelas sem vidros que lançavam faixas de luz no chão, e o quarto tinha só uma janela

            Susanna virou‑se para Jenny.

            - Que distância é que os alunos terão de percorrer até aqui?

            Semicerrando os olhos em concentração, Jenny contou pelos dedos.

            ‑ Os Prades vivem do outro lado do rio a cerca de uma légua. As Taylors vivem apenas a três quartos de légua para sul. Os Hardys vivem do outro lado do rio à mesma distância. O rancho dos Browns fica a sudoeste do nosso, mas o Freck e a Dottie têm cavalos, por isso não se importam de fazer duas léguas. ‑ Jenny hesitou e depois perguntou de repente: ‑ Vai permitir que um cabrita venha à escola?

‑ Um quê?

            ‑ Um mestiço. Meio índio, meio branco.

            Em vez de repreender Jenny pelo termo ofensivo, Susanna limitou‑se a dizer:

            ‑           Todas as crianças da região devem vir à escola.

            Jenny quase sorriu.

            ‑           Espero que o Ridge venha. Mas ele é muitíssimo orgulhoso. O meu pai acha que um cabrita se dá bem numa aldeia índia, mas que no meio dos brancos tem sempre problemas.

            ‑ Talvez ajudasse não lhes chamarem cabritas ‑ sugeriu Susanna o mais delicadamente que conseguiu.

            Os olhos de Jenny dilataram‑se.

            ‑           Ora essa! Mas é o que eles são! Diz‑se que uma pessoa é pura ou é mestiça.

            ‑ Quando se fala de um branco, diz‑se que é branco puro?

            ‑ Não, mas... ‑ Jenny ponderou. ‑ Aposto que o meu pai nunca pensou nisso. Ele gosta do Luke Tarrant, o pai do Ridge, e diz que a mulher dele é muito melhor mulher do que a maioria das brancas. E mais bonita também. Luke chama‑lhe Milhe, pois é o mais parecido com o nome índio dela. Luke era carregador na linha de Santa Fé quando encontrou Milhe num comboio. O acampamento dela fora atacado por Kiowas e os pais haviam sido mortos. Ela só tinha dez anos. Luke pô‑la num vagão, tomou conta dela até Santa Fé e deixou‑a com uma senhora mexicana bondosa. Ia vê‑la sempre que por ali passava, e quando tinha treze anos ela seguiu o comboio no regresso ao Missuri. Luke pô‑la num colégio de freiras em St. Louis, mas ela voltou a fugir para ir atrás dele. Então, ele prometeu-lhe que casava com ela quando Milhe fizesse dezasseis anos se ficasse no colégio até lá.

            ‑           Depois de tudo isso, espero que sejam felizes.

            - Oh, se São! ‑ Os olhos de Jenny brilhavam. ‑ Bom, nem parece que são casados. É quase como.. como se fossem namorados.

            Sentindo uma dor aguda, Susanfla pensou em Richard. Afastando a recordação, disse bruscamente:

            ‑           Isto então é a localização mais central possível para a nossa escola.

Jenny espreitou para dentro da divisão que só tinha uma janela.

- Prefere mesmo viver aqui a viver em nossa casa?

Susanna nem tentou reprimir o acesso de riso.

            ‑           Claro que gosto muito mais daquele vosso quarto cor‑de‑rosa. Mas é aqui que devo ficar, Jenny, e, por isso, eu quero mesmo viver aqui.

            ‑           Fala como uma autêntica puritana ianque - disse uma voz lá de fora.

            Matt Rawdon entrou, baixando a cabeça. Devia ter estado a trabalhar, porque a sua camisa cinzenta, com o colarinho desapertado e as mangas arregaçadas, colava‑se‑lhe à pele e ele exalava um intenso cheiro masculino. Descobrira a cabeça e a espessa cabeleira formava uma onda húmida no sítio em que tocava na face. Observando o interior da cabana, dirigiu‑se a Susanna.

            ‑           Será que eu ouvi bem? Tenciona viver nesta choupana?

            As faces de Susanna ardiam.

            ‑           Não vejo o que o senhor possa ter a ver com isso, Dr. Rawdon. Não tem filhos na escola.

            ‑           Minha cara jovem, vejo que ainda tem muito a aprender sobre este tipo de comunidade, visto ainda não saber que aqui tudo tem a ver com toda a gente. As minhas terras são do outro lado do rio. Eu estava a ceifar o feno quando vi uns cavaleiros pararem aqui. Como se demoravam, vim investigar.

            Na divisão pouco iluminada, os olhos dele estavam mais luminosos que nunca. Estava bronzeado, apresentando um aspecto vigoroso e atraente. A mão perdida para a cirurgia era bem capaz de empunhar uma foice. E de abraçar uma mulher? Aquela imagem espontânea acentuou o rubor das faces de Susanna.

            ‑           As suas terras extremam com o rio?

            - Não fique tão desanimada, Miss Alden. A minha cabana situa‑se numa parte das minhas terras que fica uma boa légua e meia para leste daqui. ‑ Os olhos dele percorriam‑na. ‑ Como é que é possível que a escola nova de Ase não lhe tenha agradado?

            ‑           Porque é dele e fica nas terras dele.

            ‑           Disse isso ao Ase e ele não lhe deu um grito suficiente para a atirar de volta ao Ohio?

            ‑           Ele não gostou. - Susanna teve de sorrir antes de as dúvidas que se vinham acumulando no seu espírito, de repente, se instalarem como um fardo. - Eu sei que é perigoso uma escola ser propriedade de um administrador, mas ela é tão clara e limpa, e isto é tão... tão...

            ‑           Escuro e sujo?

            ‑           Sim. E tão mais desconfortável para as crianças que quase me sinto como se estivesse a enganá‑las

            Interrompeu‑se e virou‑se de costas. Para seu grande espanto, o tom em que ele falou foi quase simpático.

            ‑           Não ponha a carroça à frente dos bois, Miss Alden. Lembre‑se de que Ase pode sempre doar a escola ao Estado e que os administradores não são obrigados a contratá‑la.

            ‑           Claro que não! ‑ Como é que se esquecera daquilo, assumindo todo o peso da responsabilidade em cima de si? Aliviada, Susanna respirou fundo e pegou na mão de Rawdon.

            Fora um gesto instintivo de agradecimento. Ela não se lembrara da mutilação dele, mas quando as pontas dos seus dedos tocaram nas cicatrizes enrugadas, olhou para baixo. Rawdon arrancou a mão da dela.

            ‑           Desejo‑lhe boa sorte com os administradores, Miss Alden, embora o melhor que lhe pudesse acontecer fosse rejeitarem‑na para poder arranjar uma escola onde conseguisse desfrutar, simultaneamente, de uma boa construção e dos seus princípios. ‑ Saiu porta fora. ‑ Bom dia, Miss Alden.

            Ele desceu a colina. Se os administradores não a contratassem, era esta a última vez que o via. Porque é que ele afastara a mão daquela maneira, como se ela tivesse deliberadamente pretendido envergonhá‑lo? Matt era extraordinariamente sensível em relação àquelas cicatrizes. Teria ele amado uma mulher que o repudiara? Desviando o olhar dele, Susanna disse:

            ‑           Obrigada por me teres trazido aqui, Jenny. Não posso fazer mais nada até à reunião com os administradores.

            A caminho de casa, Susanna entreteve‑se a pensar nos melhoramentos a fazer na cabana e a interrogar‑se se deveria ficar contente ou triste no caso de ser contratada. Porque de tempos a tempos, quando ele estivesse a trabalhar nas terras que ficavam lá perto, ia de certeza ver Matt Rawdon.

 

QUATRO dias depois, às 2 horas da tarde, os administradores da

Mason‑Dixon iam reunir‑se na hipotética escola, propriedade de

Ase McCanless. Quando para lá se dirigiam, Ase falou a Susanna

um pouco sobre cada um dos administradores.

            - Os Ianques como a senhora ‑ informou ele - são Will Taylor, do Missuri, que tem uma data de filhas, e Saul Prade, do Illinois, que é um espécime esquisito e tem quatro filhos e uma mulher que seria uma beldade se não tivesse um ar tão cansado. ‑ Ase franziu o sobrolho por momentos antes de prosseguir: ‑ Luke Tarrant era carregador e casou com uma rapariga cheyenne com idade para ser filha dele, mas parecem felizes, apesar de Luke ter regressado da guerra a coxear. Kermit Brown foi Texas Ranger, ajudou‑me a espantar as vacas do mato a seguir à guerra e decidiu vir para cá quando eu vim. Casou com uma bela moça, Hettie, de San Antonio, ruiva como ele, e os filhos saíram iguais a eles. Cash Hardy é preguiçoso demais até para enxotar moscas; tem três filhos e uma filha.

            Avistaram a escola. Quando, ao aproximarem‑se o suficiente, viram cavalos amarrados e um grupo de homens, Susanna começou a sentir o coração a bater na garganta e muito acelerado.

            Como seriam os administradores? O que iriam perguntar? Apesar da sua determinação em não se alojar periodicamente em casa de cada um e de não ensinar na escola de Ase, Susanna desejava ardentemente conseguir o contrato!

McCanless ajudou Susanna a desmontar. Um homem magro com um casaco escuro tirou o chapéu, revelando raros tufos de cabelo castanho que contrastava fortemente com o cor‑de‑rosa da careca. Fez um grande sorriso a Susanna e deu‑lhe um caloroso aperto de mão.

            ‑           Cá estamos nós, Miss Alden! Eu chamo‑me llenry Morton. Deixe‑me primeiro apresentar‑lhe os administradores da escola e depois entramos.

            à medida que Morton lhos ia apresentando, Susanna estendia a mão. O pesado e ruivo Kermit Brown pegou‑lhe nos dedos como se tivesse medo de os partir.

            ‑           Muito prazer em conhecê‑la, minha senhora ‑ disse ele numa voz arrastada e com um brilho afável nos olhos, apesar de ser sulista.

            Will Taylor, magro e ossudo, com barba e cabelo pretos e crespos, mal lhe tocou na mão, murmurando qualquer coisa. Avançando a coxear, Luke Tarrant envolveu a mão de Susanna com as suas. Era grisalho, de estatura mediana e muito musculado. Os seus olhos cor de avelã sorriram a Susanna de uma forma paternal.

            ‑           Estou muito contente por a senhora aqui estar, Miss Alden, e esperamos que a senhora também o esteja.

            ‑           Ela ainda não está contratada, Tarrant.

            O homem mais impressionante de todos enfrentou Susanna de braços ostensivamente cruzados e inspeccionando‑a com os seus olhos verdes frios. Da altura de Ase, tinha boa figura e as suas feiçÕes eram quase perfeitas demais. Inclinou a sua cabeça dourada dizendo:

            ‑           Eu chamo‑me Saul Prade.

            E foi tudo. Nada de cortesias. Susanna lembrou‑se de que ele era um dos nortistas. Como tal, deveria ser seu aliado, mas, por qualquer razão que ela não sabia identificar, Susanna percebeu que não o seria. Como que apercebendo‑se do nervosismo dela, Henry Morton disse:

            ‑           Vamos entrando. Cash Hardy não vem, disse que estava mal das costas.

            Ase foi buscar a cadeira da professora e colocou‑a de frente para os administradores, que se haviam sentado no banco maior, enquanto Henry Morton pairava lá atrás, nervoso.

- Antes de começarmos a fazer perguntas a Miss Alden        - disse

Ase ‑ talvez fosse melhor ela falar‑nos um pouco de si. - Fez uma pausa e olhou‑a de relance. ‑ Pode ser que haja coisas que devamos saber logo à partida.

            Susanna levantou‑se, agradeceu‑lhe e fez um relato muito resumido da sua vida, respirou fundo para ganhar coragem e aventurou‑se a continuar:

            ‑           Eu já disse a Mr. McCanless que gostaria muito de ensinar nesta escola maravilhosa, mas que não posso fazê‑lo visto ser propriedade dele. Este facto daria a impressão, mesmo que não fosse verdade, de que Mr. McCanless podia exercer uma influência inapropriada.

            Houve um burburinho.

            "O melhor é ouvirem tudo de uma vez", pensou Susanna, e em voz alta, para se fazer ouvir acima do barulho, continuou:

            ‑           Espero que a cabana que fica a sul daqui possa ser arranjada para servir de escola, e eu pretendo viver na segunda divisão que ela tem, em vez de me alojar sucessivamente em casa de cada administrador.

            Olharam todos para Susanna, depois uns para os outros e a seguir novamente para Susanna.

            ‑           O alojamento faz parte do seu salário - informou Will Taylor, coçando a orelha. ‑ Quanto dinheiro a mais quereria dessa maneira?

            ‑           Nenhum, se tornarem o quarto habitável, me derem alimentos para eu cozinhar e me fornecerem combustível.

            ‑           A senhora considera‑se importante demais para viver em nossas casas? ‑ perguntou Prade. ‑ Assim, como é que ficamos a conhecê‑la?

            ‑           Bem, não compreendo qual é a necessidade de nos conhecermos assim tão bem ‑ replicou Susanna, sentindo‑se confusa quando todos se riram, à excepção de Prade, que a fitava de olhos semicerrados.

            Kernút Brown deslocou um bocado de tabaco de mascar na boca e inclinou‑se para a frente.

            ‑           Pela minha parte, o que eu quero saber é o que vai ensinar nas aulas sobre a guerra, uma vez que a senhora é do Ohio.

            Susanna sentiu um formigueiro na nuca.

‑           Vou ensinar a verdade da melhor maneira que conseguir: que o Sul era uma região agrícola e o Norte industrializado, que, embora no Sul houvesse escravos, havia barcos do Norte que os traziam e faziam fortunas vendendo‑os nas plantações do Sul.

            ‑           Nunca tinha ouvido isso ‑ comentou Will Taylor, franzindo o sobrolho. ‑ Mas mesmo que seja verdade, não se pode negar que os rebeldes tentaram destroçar a União.

            ‑           Nós não éramos rebeldes ‑ atalhou Ase. ‑ Nós fizemos aquilo que tínhamos o direito de fazer: libertarmo‑nos do Norte e termos o nosso próprio governo.

            ‑           E manterem os vossos escravos ‑ acrescentou Prade com uma gargalhada zombeteira.

            ‑           Bolas! Eu nunca tive nenhum escravo, nem eu nem a maioria das pessoas ‑ ripostou Ase. ‑ Mas, na generalidade, os proprietários rurais tratavam os seus escravos muitíssimo melhor do que os proprietários das fábricas do Norte tratam as mulheres e as crianças que trabalham para eles como burros de carga.

            Fez‑se silêncio enquanto nortistas e sulistas se fitavam com desconfiança mútua. Finalmente, Ase abriu as mãos num gesto apaziguador e perguntou:

            ‑           Alguém tem mais perguntas a fazer a Miss Alden?

            ‑           Que matérias vai ensinar? ‑ indagou Taylor.

            ‑           As do currículo habitual, Mr. Taylor - respondeu Susanna. ‑ Ensino leitura, caligrafia, ortografia, gramática, composição, cálculo mental e escrito, história e geografia

            ‑           Jografia?! ‑ Taylor endireitou a sua figura desengonçada e cruzou os braços. ‑ Eu tenho lá três lindas meninas, meus senhores, e não quero as cabecinhas delas corrompidas a aprenderem coisas sobre uma data de terras pagãs que ficam do outro lado do oceano.

            ‑           Mr. Taylor ‑ replicou Susanna ‑, uma componente importante da instrução é ajudar‑nos a compreender os povos que são diferentes de nós e a desenvolver uma perspectiva do nosso país como sendo uma das muitas nações que têm de partilhar o Mundo.

            Kermit Brown virou‑se para Ase.

            ‑           Miss Alden agrada‑me muito. Ao ouvi‑la, percebe‑se que já aprendeu mais nos livros do que nós todos juntos. Na minha opinião, fazíamos‑lhe um contrato de seis meses, Henry.

‑           Tendo em conta as habilitações de Miss Alden, parece‑me que trinta dólares por mês, com combustível e comida, seria razoável ‑ disse o delegado.

            ‑           Está de acordo, minha senhora? ‑ indagou Ase.

            Susanna fez um gesto afirmativo com a cabeça.

            - Se não se importa, vem lá para fora comigo enquanto se processa a votação ‑ disse Henry Morton.

            Ao darem uma volta ao edifício, mantendo‑se à sombra dele, o delegado declarou:

            ‑           Se este bando intratável não a contratar ou se forem demasiado casmurros para a senhora os conseguir aturar, avise‑me e eu arranjo‑lhe uma escola noutro sítio.

 

            QUANDO os administradores se despediram, Saul Prade apareceu silenciosamente ao lado de Susanna. A sua boca esculpida recurvou‑se num sorriso gélido.

            ‑           Eles votaram a seu favor, mas eu não. ‑ Ele trazia na mão umas varas de salgueiro maleáveis e compridas e estendeu‑as a Susanna. ‑ Isto vibra o suficiente para deixar vergões e é isso que vai ter de fazer para dominar os seus alunos.

            Susanna arrepiou‑se. Estava‑se em pleno dia, mas aquele homem aterrorizava‑a.

            ‑           Eu não quero dominar as crianças, Mr. Prade.

            Ele continuava a estender‑lhe as varas. Susanna teve consciência de que estava a fazer um inimigo perigoso, mas a afronta levou‑a a agarrar nas varas finas e a atirá‑las para o chão. Entreolharam‑se. O que é que havia por detrás daqueles olhos gelados? Algo de cruel. Algo de diabólico. Ele afastou‑se dela, saltou para cima do cavalo e partiu para leste.

            Abalada pela conversa, Susanna ficou com Ase, que a ajudou a montar e lançou um olhar pensativo à cabana.

            ‑           Não percebo como é que consegue ser tão teimosa.

            ‑           O senhor deve ter votado a meu favor.

            ‑           Claro que votei. É a única candidata e qualquer tolo percebe que é boa professora. Durante a próxima semana, os administradores arranjam a cabana e constroem um celeiro para as aulas poderem começar na primeira semana de Outubro. ‑ Aclarou a voz. ‑ Acha que posso fazer‑lhe uma pergunta muito indiscreta?

‑           Se eu não quiser responder, digo‑lhe.

            ‑           Como é que é possível uma mulher tão bonita como a senhora não ser casada?

            ‑           O meu noivo morreu na guerra.

            ‑           Lamento muito, sinceramente. Mas a guerra acabou há dez anos.

            ‑           Eu tive de tratar do meu pai até ele morrer, que foi nesta Primavera.

            ‑           Bom, cá vai outra pergunta indiscreta ‑ disse ele, coçando o queixo. ‑ Então, qualquer homem é livre de lhe deitar a rede? Não anda de olho em ninguém?

            A cara magra de Matt Rawdon surgiu do fundo do seu pensamento, mas Susanna disse ao rancheiro:

            ‑           Os meus sentimentos não estão comprometidos. No entanto, embora não use luto, eu não posso, por respeito ao meu pai, aceitar a corte de um cavalheiro até passar um ano sobre a sua morte. E mais, considero que seria uma grande falta de decoro uma professora... envolver‑se com um administrador.

            Após alguns instantes de silêncio tenso, Ase virou‑se bruscamente para ela.

            ‑           A escola acaba no fim de Março. Nessa altura, já não será empregada. Entretanto, mudamos as mesas, os bancos, etc. para a cabana. Não vale a pena fazer os miúdos sofrerem por causa dos seus princípios.

            Aquilo era um alívio. Ela conseguira o contrato e pelo menos a aprovação experimental da maioria dos administradores. Agora, tinha de provar que sabia ensinar as crianças.

 

            No DIA SEGUINTE, dois trabalhadores do Rancho Ace High ajudaram a transportar a mobília da escola de Ase para a cabana e transplantaram as latrinas de madeira para o lado oposto de uma duna coberta de mato lá perto.

            Enquanto Susanna pregava serapilheira às vigas para impedir que pelo menos aranhas, escaravelhos, raízes e porcaria caíssem no chão, Kermit Brown arranjava a chaminé. Os empregados de Ase ajudaram Luke Tarrant a remendar as paredes, começando pelo quarto, onde, logo que acabou a porta, Ase começou a fazer um divã.

Os Tarrants tinham oferecido uma mesa pequena e uma cadeira com assento de cabedal para os aposentos de Susanna, Mrs. Brown dera uma cómoda com espelho. Quando Susanna entrou no quarto, Ase já acabara o divã e estava a pregar os últimos pregos nas prateleiras que pendurara na parede ao lado da lareira. Mrs. Prade, que tinha máquina de costura, havia mandado um colchão de riscado que enchera com palha. Susanna fez a cama com lençóis que tinham o seu monograma bordado. Do baú tirou o travesseiro e a sua colcha preferida de chita estampada com grinaldas de rosas. Estendeu‑a em cima do divã.

            Era espantoso como a colcha melhorava o aspecto do quarto. Desembrulhando cuidadosamente o bule, as duas chávenas da avó e respectivos pires, Susanna suspirou de alegria ao ver que estavam intactos e dispô‑los na prateleira de cima. Colocou a escova, o pente e o espelho de prata que lhe fora oferecido por seu pai em cima da cómoda, juntamente com o livro de Marco Aurélio. Arrumou nas prateleiras os outros livros, que muito estimava e lera muitas vezes:

Dickens, Tennyson, as irmãs Bronté, Whitman e uma série de outros.

            Entretanto, era meio‑dia e os homens estavam lá fora a comer. Susanna continuou a arrumar. Roupa interior e xailes na cómoda, os sapatos alinhados por baixo dela; vestidos e capa estendidos em cima da cama para serem pendurados em escápulas quando a parede estivesse seca. Assador, caçarola, cafeteira e panela alinhavam‑se na prateleira de argila junto à lareira; a vassoura, a pá e um balde ao canto. Ase fornecera uma caixa de madeira, com uma tampa bem ajustada, que continha farinha, cereais, arroz e milho seco dos Tarrants. Para adoçar, ela utilizaria o melaço de sorgo, que fora a contribuição dos Prades. Por baixo do divã, estava um alqueire de batatas, cebolas e uma caixa com feijão provenientes dos Browns, tal como um barril de chucrute trazido por Will Taylor, que também oferecera presunto. Ase era o responsável pelas latas de café, tomates e pêssegos, para além das passas, maçãs secas e ameixas, guardadas em frascos para estarem protegidas dos ratos. Um saco de cabedal pendurado numa viga continha carne seca preparada por Milhe Tarrant. Sal, pimenta, bicarbonato de sódio e uma lata de banha completavam as provisões.

            Observando a sua casa com satisfação, Susanna reparou na janela nua. De noite, qualquer passante podia espreitá‑la; isso significava que, pelo menos para aquela janela, eram obrigatórias cortinas. Lembrou‑se então de uma toalha que tinha no baú com amores‑perfeitos bordados. Mediu a janela com a toalha e, posicionando a cadeira de modo a ver o rio pela janela, pôs‑se a coser até lhe doer o pescoço e os ombros. A seguir, espreguiçando‑se, foi dar uma olhadela à sala de aula.

            Abençoado Ase! Trouxera o quadro, a secretária e a cadeira da professora, bem como as mesas dos alunos, que estavam dispostas de maneira a aproveitarem a luz ao máximo. O banco de declamação estava perto da lareira, de frente para a secretária da professora; o quadro estava pendurado na parede, que depois de seca estava de um castanho‑claro cremoso. Para fazer que a sala parecesse verdadeiramente sua, Susanna foi buscar a campainha e o relógio e colocou‑os em cima da secretária. Um grande planisfério, cuidadosamente dobrado, dava cor à parede junto ao quadro. Tirou do baú uma pequena bandeira americana enrolada em volta da haste e enfiou‑a numa fenda na esquina da parede.

            Susanna olhou em volta pela última vez, pegou nas cortinas para acabar depois e foi lá fora agradecer aos administradores e dizer‑lhes que dentro em breve iria visitar as suas famílias.

 

            ESTRANHO. Dez dias antes, Susanna ficava nervosa perante a velha e dócil Cindy e cheia de medo de cair sob os seus cascos. Agora, já não sentia ansiedade ao montar, nem se preocupava por andar a cavalo sozinha pela pradaria. Ao sair do Ace High, seguiu as directrizes de Johnny. Para ir a casa dos Hardys, tinha de atravessar o riacho abaixo da curva que ele descrevia perto da escola e seguir ao longo da margem para sul durante algum tempo. Para chegar a casa dos Taylors, saindo de casa dos Hardys seguia os trilhos das carroças, atravessava a propriedade de Matt Rawdon e rumava a norte até chegar às terras da família do Missuri. Depois, o caminho sulcado ia dar a casa dos Prades.

            Margaret Hardy ficou contente por ter uma visita feminina, embora ficasse embaraçada por ter sido surpreendida descalça, e apressou‑se a calçar umas botas pretas velhas. Tinha apenas mais cinco ou seis anos que Susanna, mas a exposição ao sol e ao vento havia‑lhe esculpido rugas nos cantos dos olhos castanhos. No entanto, ainda era uma mulher bonita, com uma covinha no queixo e uma farta cabeleira castanho‑clara encaracolada.

            - Lá dentro está escuro - disse ela com um olhar que parecia pedir desculpa pela "casa" escavada na vertente da colina. - Tinha duas janelas cobertas com bocados de pele oleados e a porta de gonzos de couro estava aberta. O melhor é sentarmo‑nos aqui fora e eu trago‑lhe uma bebida. Rosie, vai buscar a cadeira para Miss Alden.

            Rosie, com dois totós a balançar, trouxe uma cadeira de palhinha, fez um aceno de cabeça envergonhado perante os agradecimentos de Susanna e trouxe também uma caixa de madeira. Enfiando os dedos de um dos pés descalços sob a planta do outro, abriu a saia do vestido xadrez de algodão verde que era grande demais para ela e confidenciou:

            ‑ A tia Madge mandou‑me este vestido e mais outros dois, também bonitos, que já não serviam à minha prima Marilyn. É uma pena ela não ter filhos para poder mandar coisas para os meus irmãos.

            ‑ Rosie! És uma linguareira, querida

            Margaret Hardy estendeu a Susanna um copo com um líquido ligeiramente corado, que Susanna concluiu ser água com vinagre. Depois, sentou‑se em cima da caixa e pôs a filha à sua frente.

            - Espero que não se importe que eu vá arranjando o vestido enquanto conversamos, Miss Alden; é que ela meteu na cabeça que o quer vestir no primeiro dia de escola. Bom, agora deixe‑me dizer‑lhe que estou muito contente por termos uma escola. O Dave tem quinze anos e o Ethan doze e chegaram a andar na escola antes de sairmos do Iowa, há quatro anos, mas a Rosie e o Georgie nunca foram a nenhuma. A Rosie tem dez e o Georgie sete. ‑ A expressão dos seus olhos tornou‑se melancólica. ‑ A minha irmã Madge e o marido queriam que Dave ficasse com eles e terminasse a instrução, mas como o Cash não pode fazer muitos trabalhos pesados por ter ficado mal das costas na guerra, tivemos de trazer o Dave. ‑ Voltou a ficar mais alegre. ‑ Miss Alden, se ele conseguir completar o oitavo nível, acha que ele pode frequentar o curso de Verão para professores, fazer lá o exame e ficar com o diploma de professor?

            ‑ Eu não sei como são as leis aqui no Kansas, mas parece‑me bastante provável, Mrs. Hardy.

O tom simpático de Susanna levou a sua anfitriã a olhar em volta, como que para se certificar de que aquela "audácia" não seria ouvida.

            ‑           O Dave sonha continuar os estudos. Mas eu não vejo como isso possa vir a ser possível.

            ‑           Porque é que não há‑de ser? ‑ Logo que acabou de pronunciar a pergunta, Susanna tê‑la ia retirado se pudesse.

            A resposta era por demais óbvia naquela autêntica gruta de janelas sem vidros, comparativamente com a qual uma cabana tinha de ser considerada confortável. Dave era preciso em casa, pelo menos até os irmãos e a irmã crescerem. No entanto, Susanna não conseguia aceitar esse facto.

            ‑           Se é isso que ele quer, Mrs. Hardy, não acha que devíamos encorajá-lo?

            ‑ Ele... ele é tão bom rapaz. ‑ Os lábios da mãe tremeram. - Eu não gostava nada que ele ficasse desapontado.

            ‑ Não é melhor ficar‑se desapontado a lutar por aquilo que se quer do que simplesmente desistir?

            ‑ Vá‑se lá saber! ‑ Pela primeira vez, transpareceu amargura na voz da outra mulher. ‑ Cash trabalhava nas docas antes da guerra, mas depois, mal das costas, não podia continuar. Pensámos que virmos para aqui como colonos era a solução. ‑ O tom de voz baixou. ‑ Só que andar com o arado faz mal às costas do Cash. Eu lavava roupa e cozinhava para Jem Howe, que vive a leste daqui, e ele conseguiu lavrar o suficiente com os bois para podermos plantar milho. Tínhamos um milho e um trigo lindos há um ano, mas em Julho vieram os gafanhotos. Muitos colonos desistiram e nós também o teríamos feito, só que não tínhamos nenhum sítio para onde ir. ‑ Fez uma pausa. ‑ O Dr. Rawdon tem feito tudo o que pode pelo Cash: traz‑lhe remédios e não aceita um tostão. Quando o Georgie partiu o braço no ano passado, o doutor tratou‑o, e quando a Rosie teve uma pneumonia, ele ficou com ela três noites para eu poder descansar. Jem Howe também tem sido muito bom para nós. Eu não me devia queixar.

            ‑           às vezes, uma simples conversa pode ajudar - replicou Susanna.

            Esta visita sublinhava fortemente o isolamento destas mulheres da pradaria, a necessidade que tinham de falar com outra mulher.

Embora Susanna tivesse planeado esperar até os alunos poderem fazer uma boa exibição para lançar o projecto de juntar as famílias, decidiu não adiar.

            ‑           Todas as sextas‑feiras à tarde os pais estão convidados para irem à escola - informou ela. ‑ Teremos jogos de palavras e de contas e talvez algumas das crianças queiram recitar poemas que tenham memorizado.

            ‑           Isso é maravilhoso! Até pode ser que o Cash vá.

            - Espero que sim. ‑ Susanna já bebera tudo e levantou‑se com um sorriso. ‑ Muito obrigada. Agora tenho de ir andando.

            Levantando‑se, Margaret deu a Susanna um beijo rápido envergonhado.

            ‑           Boa sorte para si, minha linda, e se alguma vez tiver algum problema, mesmo pequeno, com um dos meus filhos, avise‑me que eu falo com eles.

            ‑           Lá a espero na sexta‑feira ‑ disse Susanna.

            Afastando‑se a cavalo, acenou a Margaret Hardy, que agitou o seu avental até Susanna desaparecer da vista.

 

            ATRAVESSANDO as terras de Matt Rawdon, Susanna imaginou o que ele pensaria quando soubesse que ela não iria regressar ao Ohio, como ele tão condescendentemente predissera. Mas porque é que se havia de importar com o que ele pensava?

            A verdade, porém, é que se importava. Esforçou‑se por afastar uma súbita recordação daqueles olhos peculiarmente luminosos. Já não tinha idade para sentir aquele tipo de magnetismo que circulava entre ela e Rawdon. Devia ser por isso que o facto a perturbava tanto. Graças a Deus iria ficar demasiado ocupada com as aulas para pensar muito nele.

            Mais à frente, via agora o que devia ser a casa dos Taylors, abrigada, pelo menos de alguns ventos, por um pequeno outeiro. Um cavalo cinzento, bem proporcionado e aparelhado, estava em frente da casa. Os Taylors tinham uma visita.

            Ao aproximar‑se, Susanna ouviu vozes: uma aguda e lamuriosa, outra grave, masculina, que ela identificou mesmo antes de Matt Rawdon aparecer à porta.

            ‑           Por causa das suas palpitações ‑ dizia ele ‑, seria aconselhável beber só um café por dia.

‑ É a única coisa de que eu gosto, Dr. Rawdon ‑ replicou a mulher de cabelo louro muito claro, tão perturbada que nem reparou em Susanna. ‑ Eu tinha esperança de que me pudesse ajudar mesmo.

            ‑           Lamento, Mrs. Taylor, mas não há ninguém que lhe possa dar saúde em comprimidos. - O olhar dele fixou‑se em Susanna. - Tem uma visita, Mrs. Taylor. Bom dia, Miss Alden.

            ‑           Bom dia, Sr. Doutor.

            Susanna sorriu‑lhe, mas o aceno de cabeça dele foi estritamente cortês. Amarrou a sua mala de médico atrás da sela, montou e afastou‑se.

            Mrs. Taylor, amuada, virou‑se para Susanna. Três garotas espreitavam por detrás dela.

            ‑ A senhora deve ser a nova professora. ‑ Mrs. Taylor tinha umas feições clássicas, pele clara e uns olhos azuis frios; envergava uma bonita bata preta, com flores, e chinelos. ‑ Entre.

            Depois de desmontar, Susanna seguiu a sua anfitriã para dentro de casa. O interior tinha pouca luz; o chão era de madeira e a divisão estava mobilada com um piano, uma chaise longue e várias cadeiras de madeira polida. Afundando‑se na chaise longue, a mulher disse:

            ‑ Sente‑se, Miss Alden. Eu chamo‑me Delia Taylor e estas são as minhas filhas, Charlotte, Berenice e Helen. Charlotte, querida, traz‑nos café.

            Charlotte tinha os olhos e o cabelo da mãe e parecia ter uns treze anos. Berenice, talvez com onze, tinha olhos castanho‑escuros e a cara comprida do pai. Helen devia ter uns seis anos.

            ‑           Se não se sente bem, Mrs. Taylor, eu posso vir noutro dia - disse Susanna.

            ‑ Ah, isto é crónico. ‑ Delia Taylor baixou o tom de voz. ‑ Na cidade, tratada pelo meu médico, talvez tivesse recuperado, mas o meu marido estava decidido a vir para cá. Charlotte, serve primeiro a Sra. Professora ‑ ordenou à filha, que estendeu um tabuleiro com o café servido em finas chávenas de porcelana. ‑ Se o meu noivo não tivesse morrido... ‑ prosseguiu Delia Taylor ‑, mas ele deu a vida pela pátria logo naquele primeiro Verão terrível da guerra. Mr. Taylor, que estava com ele, ficou ferido na mesma batalha e foi mandado para casa para convalescer. Foi ele quem trouxe a triste notícia. ‑ Mrs. Taylor limpou uma lágrima. ‑ Eu visitei Mr. Taylor enquanto ele esteve em recuperação e casámos antes de ele regressar à frente de batalha.

            O olhar trágico dela deixou a Susanna a tarefa de imaginar o martírio de uma mulher requintada amarrada a um rude camponês. Mas o que Susanna também viu foi que Charlotte não era nada parecida com Will. Perante a ameaça de cair em desgraça, Delia devia ter preferido o casamento com um pretendente que noutras circunstâncias consideraria inaceitável.

            Conversaram um pouco sobre as crianças e a escola. Depois, levantando‑se, Susanna agradeceu o café a Delia e informou‑a de que as sextas‑feiras à tarde seriam o dia da visita dos pais à escola.

            ‑           Duvido que eu consiga ir ‑ suspirou a mulher. Andar aos saltos na carroça faz‑me muito mal. Mas com certeza que Mr. Taylor vai. Ele é doido pelas filhas.

            Delia Taylor levantou‑se e acompanhou Susanna à porta.

            As minhas filhas são muito bem‑educadas, Miss Alden. Conto consigo para tomar bem conta da Charlotte. ‑ Baixou o tom de voz. ‑ Ela tem treze anos, e aqueles rapazes mais velhos... Bem, com certeza que compreende a minha preocupação.

            ‑           Quando estão na escola, as crianças estão sob a minha responsabilidade, e se tiver algum problema, avise‑me, por favor.

            Delia não retribuiu a oferta.

 

            A PERSONALIDADE de Saul Prade parecia impregnar a sua cabana, que, tal como a dos Taylors, tinha duas divisões, com o quarto separado por cortinas. Contrariamente à dos Taylors, o telhado era de colmo, mas as janelas tinham vidros e o interior era confortável e acolhedor, com tapetes de trapos, cortinas e colchas alegres. Na mesa de madeira bem esfregada, estava uma jarra de vidro azul com um ramo de verdura e flores silvestres. Mas apesar de tudo isto, o olhar de Susanna pousou logo no grosso chicote, enrolado como uma cobra, pendurado num prego por cima de uma cadeira maciça de fabrico doméstico coberta com uma pele de búfalo. A pequena e graciosa Laura Prade ficaria perdida naquela cadeira, e Susanna estava certa de que, quando Saul se sentava ali no trono, a sua mulher não cantava, como Susanna a ouvira fazer ao aproximar‑se da casa.

Cantar e coser. O tesouro de Laura era a máquina de costura Singer colocada no Sítio onde apanhava melhor a luz de uma das janelas.

            - Estou a preparar os meus filhos para a escola ‑ explicou ela. Inclinando‑se, pôs o braço pelo ombro de um garoto e de uma garota que pareciam um pouco mais velhos que Georgie Hardy e que tinham os olhos cor de violeta da mãe e também o cabelo louro. - Estes são os gémeos, Paul e Pauline. Sarah, a irmã mais velha, tem‑lhes andado a ensinar as leituras do livro do segundo nível e já sabem fazer somas simples. Meninos, vão à casa do poço e digam à Sarah para trazer a Miss Alden um copo de leitelho fresco.

            A mãe sorriu ao vê‑los sair; em seguida, algo lhe emsombrou os olhos.

            ‑ A Sarah tem treze anos e ajuda‑me muito. Ela está a fazer manteiga na casa do poço porque lá é mais fresco e também porque está naquela idade em que às vezes precisa de se afastar dos irmãos. O Frank está a ajudar o pai a cortar canas. ‑ Os olhos límpidos e fascinantes ensombraram‑se de novo.

            Laura conheceria aquela faceta do seu marido que atemorizava Susanna e a fazia encolher‑se perante ele?

            ‑ O Frank tem catorze anos. Já consegue ler no livro do quarto nível. Ele tem dificuldade. Ele... ‑ Laura interrompeu‑se quando uma rapariga da sua altura entrou. ‑ Obrigada, minha querida - disse a mãe quando a filha estendeu uma caneca de leitelho a Susanna. ‑ Porque não te sentas aqui connosco um bocado?

            Laura apresentou‑as, e Susanna, ao apertar a mão de Sarah, ficou boquiaberta perante a beleza da rapariga. Tinha o cabelo dourado e os olhos verdes do pai e a boca, a voz doce e o sorriso hesitante da mãe.

            ‑ Obtivemos a posse das nossas terras de colonos no ano passado - explicou Laura. ‑ Claro que, quando os gafanhotos nos arrasaram a colheita, ficámos a duvidar se as terras valiam alguma coisa.

            Susanna fez um aceno de cabeça e comentou:

            ‑ Deve ser horrível ver‑se os campos ficarem ressequidos ou serem devastados por gafanhotos. Mas também deve ser maravilhoso colher os cereais e saber que cresceram de uma sementinha que plantámos.

‑           Para mim, é, mas eu fui criada numa quinta. Para o meu marido, é diferente, ele foi criado em guarnições militares e fugiu aos catorze anos porque o pai era... severo. Quando a guerra começou, ele alistou‑se. Eu conheci‑o quando ele veio de licença com o meu irmão, que era da mesma companhia. Casámo‑nos na Primavera de 1862. ‑ Laura fez uma pausa, estava outra vez com os olhos ensombrados. ‑ A seguir à guerra, meteu‑se num negócio sem futuro e perdemos tudo. Saul transportou mercadorias para Fort Dodge até termos dinheiro suficiente para ‑ nesta altura sorriu ‑ sermos colonos sem dinheiro.

            Como é que Laura veria o marido? Seria possível que ainda não o conhecesse bem? Susanna tê‑lo‑ia julgado mal? Gostava de conseguir convencer‑se de que sim, mas, recordando a expressão dele ao oferecer‑lhe as varas, tinha a certeza de que a maldade que pressentira nele existia mesmo.

            Da mesma forma instintiva, sentia a bondade evidente de Laura. Com o olhar pousando involuntariamente no chicote, Susanna pensou no rapaz que estava nos campos a ajudar o pai. Seriam parecidos?

            Sentindo‑se mais perturbada do que em casa dos Hardys e dos Taylors, Susanna ficou só mais um bocadinho antes de convidar Laura para as tardes de sexta‑feira e se despedir.

            ‑ Vai ser divertido dar um passeio ‑ comentou Laura com os olhos radiosos.

            Avisando Susanna para ter cuidado com as cobras e as tocas das doninhas, Laura ficou à porta com Sarah, acenando a Susanna até ela deixar de se avistar.

            Seguindo as directrizes que lhe haviam dado, Susanna encontrou pouco depois o caminho que a levava de volta ao Ace High.

            Conhecera as mulheres dos colonos e a maioria dos seus alunos.

No dia seguinte, sábado, visitaria os rancheiros ‑ tarefa que lhe ocuparia o dia todo, visto os Browns viverem a uma légua do Ace High e os Tarrants a, pelo menos, duas léguas e meia a sudeste dos Browns.

            Restava‑lhe o domingo. Decidiu mudar‑se para a cabana nesse dia para se acostumar ao lugar enquanto havia luz do dia e investigar eventuais ruídos suspeitos. E as cortinas! Tinham de ser penduradas antes do cair da noite.

Montou agilmente, levantou o chapéu e afastou‑se a cavalo ao lado da filha. Vê‑los desaparecer fá‑la‑ia sentir‑se mais só e abandonada, por isso Susanna foi logo para dentro.

            Arrumou rapidamente as coisas que trouxera e a seguir pôs‑se a acabar as cortinas, com papel e lápis à mão para ir anotando tudo o que lhe ocorresse em relação aos alunos e à planificação das aulas futuras.

            Ela sabia quais eram os conhecimentos de cada um. Excepto os iniciados, Ridge Tarrant parecia ser o único que não sabia ler. Como é que ela havia de lidar de uma maneira que não fosse humilhante com aquele rapaz sensível, que à partida não queria ir à escola? Haveria muita aritmética. Todas as crianças precisariam de muitos exercícios de caligrafia e ortografia, e, excepto as mais velhas, que talvez se lembrassem de alguma coisa das outras escolas, história, geografia e gramática começariam do zero. Ela podia ter quase tantos níveis como alunos.

            Norte e Sul, vaqueiros e colonos lado a lado, ia ser difícil. Lembrou‑se de Marco Aurélio! "Bem, eu estou disposta a fazer o trabalho de um ser humano, mas isto até a si lhe metia medo, aposto!", pensou Susanna.

            Sacudiu as cortinas e pendurou‑as com um ramo a servir de varão, fazendo‑as cair em bonitas pregas. Utilizando capim e ervas, Susanna acendeu a lareira pela primeira vez com estrume de vaca, a que a gente da região chamava carvão da pradaria. Queimava mais que a madeira, mas ela sabia, de ter visto Betty a cozinhar, que a sua desvantagem era consumir‑se muito depressa.

            Passava do meio‑dia quando ela pôs feijão ao lume e saiu lá para fora a saborear um biscoito de canela com passas. Depois, regressando à sala de aula, arrumou os textos em fila sobre a secretária, livros de leitura, de ortografia, de gramática, de aritmética, geografia e história. Fez um gráfico para as presenças, escrevendo o nome dos alunos, e esboçou o plano para o dia seguinte. Num caderno, escreveu o nome de cada aluno numa folha, com espaços para as notas. Fez uma pausa no nome de Frank Prade. Era o único dos seus alunos que ainda não conhecia. Como seria ele?

            Susanna suspirou ao olhar para as mesas grandes, pequenas e médias, imaginando a sala cheia de crianças entusiasmadas e sorridentes, o futuro do país. Olhou para a bandeira, enfiada na fenda entre dois tijolos, e desejou que naquela pequena sala nortistas e sulistas gradualmente se transformassem em americanos simplesmente.

            A luz que entrava pela janela que dava para ocidente era de um cor de laranja‑dourado que fez Susanna olhar lá para fora e ver o Sol a tocar o horizonte. Levantou‑se rapidamente para levar para o seu quarto um grande fornecimento de carvão da pradaria antes de fechar e trancar a porta. Concluiu que precisava de uma cortina para separar o quarto da sala de aula; por agora serviria um lençol até ela arranjar um tecido adequado.

            Acendeu o candeeiro, fechou as cortinas e tirou um lençol da mala. A seguir, pregou os pregos mais fortes que encontrou de cada lado da abertura, pôs uma corda presa num e noutro e pendurou nela o lençol.

            Depois de espevitar o lume, lavou as mãos, esmagou uma porção de feijões cozidos e misturou‑os na panela para engrossar. Seguidamente, de acordo com as instruções de Betty, misturou um bocado de massa de pão com farinha de milho e deitou tudo na caçarola para cozer.

            Que maçada! Aquilo que ela consideraria uma quantidade abundante de combustível estava quase a acabar. Se quisesse aquecer água para o chá, teria de se aventurar a ir à arrecadação, e já estava escuro lá fora.

            Não podia nem ia ceder a medos absurdos! Pegando no cesto do carvão, passou pelo lençol e destrancou a porta. As estrelas brilhavam no seu esplendor próprio, mas não iluminavam os distantes seres humanos, e não havia luar. Depois de entrar cuidadosamente na arrecadação, pousou o cesto e começou a enchê‑lo.

            ‑           Boa noite, minha senhora.

            O coração de Susanna quase lhe saltou pela boca. Não ouvira barulho nenhum e, ao virar‑se, viu uma grande silhueta mais escura do que a noite. Após o primeiro baque de susto, reconhecera a voz de Matt Rawdon e sentira‑se entorpecida de alívio, mas logo a seguir ficou furiosa.

            ‑           O que é que o senhor pretende ao aparecer assim furtivamente?

            ‑           Eu não apareci furtivamente ‑ replicou ele no mesmo tom. ‑ A senhora é que estava a fazer tanto barulho que não me ouviu. ‑ Ele acabou de encher o cesto, pegou nele e perguntou ‑ Não vai convidar‑me para entrar?

            ‑           Porque é que não veio durante o dia?

            - Eu só soube que se mudara quando caiu a noite porque vi a luz.

            ‑           De sua casa vê a minha luz?

            Ele riu‑se baixinho e explicou:

            ‑           Sabe, nesta terra, quando anoitece, as luzes brilham até muito longe. E acontece exactamente o mesmo com uma mulher bonita.

            Seria possível que ele a achasse bonita?

            Perturbada pela forma como começava a sentir‑se embevecer com o tom ternurento que aflorava na voz dele, Susanna abriu a porta.

            ‑           Já que aqui está, pode entrar, embora certamente compreenda que, em nome do decoro...

            ‑           Compreendo perfeitamente, Miss Alden. Seguindo o princípio mais importante das professoras, pretende preservar a sua reputação.

            Ele entrou e Susanna fechou a porta. Com uma única passada, Rawdon alcançou a lareira, pousou o cesto e tratou de espevitar o lume, deitando mais excremento.

            Então, na obscuridade, ela reparou que ele sorriu ao ver o lençol que separava as duas divisões. Corando, Susanna puxou‑o para baixo, arrancando os pregos, mas ele enfurecia‑a demasiado para se importar com isso.

            ‑ Bonitas cortinas ‑ comentou ele, olhando em volta. É difícil ver‑se à transparência.

            ‑           Foi exactamente por isso que foram postas ‑ retorquiu Susanna, não se importando com o que ele pensava. ‑ E também foi por isso que pendurei este lençol. Se não o tivesse feito, o senhor podia...

            ‑           Espreitar pelas suas janelas?

            ‑           Não apareceu sorrateiramente atrás de mim?!

            Ele soltou um suspiro de exasperação.

            ‑ Com o barulho que estava a fazer, não teria ouvido nem um tornado. ‑ Cruzando os braços sobre o peito, ficou a olhá‑la fixamente. ‑ Então, acha que, se eu a tivesse visto a tratar do lume, ficaria com os sentidos perturbados a ponto de lhe arrombar a porta?

Susanna fitou‑o em silêncio até ele corar.

            ‑           Desculpe, Miss Alden.

            ‑           Estamos quites. Já ceou?

            ‑           Há horas, mas se aquele bule está ali por alguma razão...

            Apesar de ele a enfurecer, Susanna sentia‑se peculiarmente contente por ser Matt a primeira pessoa na sua nova vida a beber do bule de porcelana da sua avó e a receber a sua hospitalidade.

            ‑           Vou fazer chá e pode beber à vontade. Sente‑se na cadeira, que eu posso sentar‑me no baú.

            ‑           Eu também posso, mas primeiro vou lá fora buscar o que lhe trouxe. ‑ Levantou uma mão quando ela ia começar a protestar. - Não é de uso pessoal, é para a escola.

            ‑           Mas o senhor não tem filhos.

            ‑           Não, mas sou... fui... médico. Duvido que lhe tenha ocorrido que está longe de qualquer ajuda e, provavelmente, vai ter de tratar de toda a espécie de cortes e contusões e outras coisas que as crianças fazem a elas próprias e umas às outras.

            Ele tinha razão, não lhe tinha passado tal coisa pela cabeça. Um novo problema alarmante abria‑se à sua frente, e ela perguntou num tom implorativo:

            ‑           O senhor vem cá, não vem, se houver algum acidente ou qualquer coisa grave?

            Ele hesitou e depois encolheu os ombros.

            ‑           Venho se me encontrarem, mas é quase uma légua e meia daqui a minha casa, Miss Alden. Há muitos ferimentos que necessitam de tratamento imediato. ‑ Hesitou de novo e, quando voltou a falar, Susanna não percebeu se foi com má vontade ou timidez. - Parece‑me boa ideia eu dar‑lhe uns conselhos.

            Foi lá fora e regressou com uma caixa de madeira que pousou em cima da mesa e abriu.

            A água para o chá estava a ferver. Susanna deitou um pouco de água no bule para o aquecer, despejou‑a no lavatório e depois deitou a água a ferver por cima das folhas de chá.

            ‑           Vá comendo, Miss Alden, que eu vou‑lhe explicando o que aqui está.

            Susanna serviu chá para os dois e depois serviu só para si o feijão e o pão de milho.

            ‑           Quer um biscoito de canela feito pela Betty? ‑ perguntou.

‑           Isso nem se pergunta a um homem que vive sozinho ‑ respondeu ele com sinceridade.

            Ela trouxe‑lhe um biscoito. Havia qualquer coisa de encantadoramente intimo no facto de estarem os dois sentados à mesma mesa a beber chá pelas chávenas que pertenciam à família dela há muitos anos.

            Os olhares de ambos cruzaram‑se. Susanna sentiu‑se percorrida por um ardor ‑ doce, arrebatador e intoxicante. "Isto é o que acontece a uma solteirona", censurou‑se ela, e afastou o olhar.

            Esperando que a mão não lhe tremesse, ela serviu‑lhe mais chá e disse no tom mais seco que conseguiu:

            - Por favor, não se importa de me mostrar o que trouxe e como se utiliza, Dr. Rawdon?

            LIGADURAS, incluindo uma triangular, que Rawdon ensinou a Susanna como havia de atar para servir de ligadura de suporte para um braço partido; uma tala almofadada com musselina; emplastro adesivo; tintura de iodo ‑ eram estas as suas armas contra o batalhão de acidentes que podiam ocorrer.

            ‑ O corpo é em si o melhor curativo ‑ disse Rawdon. ‑ Se uma ferida sangra abundantemente, limpa‑se a si própria. Por isso, não lave um corte, a não ser que esteja sujo. Nesse caso, faça‑o com água e sabão. Não ponha nenhuma ligadura, a não ser que seja absolutamente necessária para manter a ferida limpa ou para unir os bordos. ‑ Quando ela fez um aceno de cabeça, exprimindo compreensão, Rawdon tirou do bolso dois frascos cheios de carteirinhas. ‑ Administre isto só no caso de a criança estar em estado grave e não conseguirem encontrar‑me. O pó de Dover é composto por ipecacuanha e ópio e administra‑se para a disenteria e para as dores em geral. O calomelano e o quinino são para as sezões. Eu escrevi as instruções nos frascos, mas a criança que estiver doente a ponto de precisar deles deve ser logo mandada para casa.

            A seguir, ele fechou a mala e levantou‑se.

            ‑           Boa noite, Miss Alden. Muito obrigado pelo chá.

            ‑           Obrigada pelo material ‑ disse Susanna. Espero não ter de o utilizar muitas vezes, mas sinto‑me melhor tendo‑o à mão. ‑ E acrescentou: ‑ É um consolo saber que o posso mandar chamar em caso de verdadeira necessidade.

‑           Certifique‑se de que é mesmo verdadeira ‑ avisou ele com uma gargalhada amarga. ‑ Quase que ouço o seu espírito a zumbir, Miss Alden, a tentar salvar‑me para o bem dos meus vizinhos e da minha alma recalcitrante.

            ‑           Bem, é só porque parece‑me... um desperdício tão grande - comentou ela, pensando: "Não só de um médico, mas também de um homem."

            Ele hesitou e depois explodiu.

            ‑ Sabe que especialidade é que eu queria seguir? Cirurgia abdominal: operar órgãos com hemorragias, suturar intestinos perfurados. ‑ Levantou a mão cheia de cicatrizes, com os dedos engelhados. ‑ Gostava que esta mão disforme manuseasse um bisturi junto às suas artérias ou tentasse manusear fórceps ou uma sonda nas suas delicadas entranhas?

            Ela sobressaltou‑se perante aquelas palavras, e não perante as cicatrizes, mas ele interpretou‑a mal. Com uma gargalhada cruel e zombeteira, levantou a mão e passou os dedos pela cara dela.

            Lá fora, um cavalo relinchou e obteve resposta. Rawdon imobilizou‑se.

            ‑           Mais visitas ‑ escarneceu ele. ‑ Espera alguém?

            ‑           Tanto como o esperava a si.

            Bateram à porta com força.

            - Quem é? ‑ perguntou Susanna.

            ‑ Saul Prade.

            Satisfeita por Matt ali se encontrar, apesar dos eventuais mexericos, Susanna destrancou a porta ao segundo visitante.

            ‑           O que é que o traz a estas bandas, Mr. Prade? ‑ perguntou‑lhe.

            ‑           Fui a casa dos Hardys e lembrei‑me de passar por aqui para me certificar se já estava instalada. ‑ Prade esboçou um sorriso machista a Rawdon antes de olhar para Susanna. ‑ Não consta nada no seu contrato sobre as visitas que recebe, Miss Alden, mas sabe como as pessoas falam. Sugiro que as receba durante o dia.

            ‑           Eu vim trazer um estojo de primeiros socorros a Miss Alden ‑ disse Matt. ‑ E se houver falatório, Prade, eu sei quem o começou.

            Susanna falou com determinação:

            ‑           Eu não tenciono ter visitas masculinas à noite, no entanto, quando houver uma razão como a que hoje trouxe aqui o Dr. Rawdon, creio que não haverá especulações fantasiosas. Deixe‑me também esclarecê‑lo de que os administradôres não serão mais bem recebidos depois de escurecer do que qualquer outro homem da região.

            ‑ Minha senhora ‑ apressou‑se Rawdon a dizer ‑, longe de mim atentar contra a sua reputação! O mesmo se passa certamente consigo, Prade, vamos embora juntos.

            ‑           Tenho umas perguntas a fazer a Miss Alden.

            ‑           Então, eu espero.

            Prade olhou em redor da divisão sombria e escura, onde a única coisa que brilhava era o seu cabelo, e Susanna sentiu‑se gelada por um medo completamente primitivo.

            ‑           Como tenciona manter a disciplina, Miss Alden?

            ‑           Não tenciono. Mando para casa os alunos que não quiserem aprender.

            ‑           Que não quiserem aprender! ‑ repetiu ele. ‑ A sua obrigação é ensiná‑los.

            ‑           Eu não sou carcereira.

            ‑           Nem boa professora, a julgar por essas suas noções idiotas. As crianças, especialmente os rapazes, são animais jovens que só aprendem através da pele. O meu sincero conselho é a senhora pegar no primeiro aluno que pisar o risco e açoitá‑lo até ele lhe implorar que pare.

            Susanna teve de engolir em seco para conseguir dar firmeza à voz, que lhe saiu fraca.

            ‑           Se não se importa, dê‑me primeiro uma oportunidade de ensinar antes de concluir que os meus métodos não resultam, Mr. Prade.

            ‑           Há‑de aprender. Esta escola não é como a sua escola feminína. ‑ Virando‑se, Prade baixou a cabeça para transpor a porta.

            ‑           Boa noite, minha senhora. ‑ Devia ter sido por acaso, mas a mão de Rawdon roçou‑lhe os cabelos. Inclinando a cabeça junto da dela, ele sussurrou: ‑ Mande‑os passear! ‑ e foi‑se embora.

            Ao trancar a porta, Susanna sentiu o seu coração pequenino, pensando em como a visita de Prade a teria abalado se Matt lá não estivesse. A visita de Matt também a abalara, mas de maneira diferente.

O seu quarto, depois de pendurar de novo o lençol, estava cheio da presença dele. Ele tinha espevitado o lume, que era agora um borralho tremeluzente. Ele sentara‑se no baú enquanto ela fazia o chá. Lá estava a chávena que a boca dele havia tocado e, ao lado, o estojo ‑ o presente dele para ela e as crianças.

            Puxando a colcha e o lençol para trás, examinou a cama à procura de insectos e bichos rastejantes. Deitando‑se, o seu corpo cansado relaxou‑se, agradecido, até ela ficar demasiado sonolenta para reunir força de vontade suficiente para afastar a recordação da voz profunda de Matt Rawdon. Enterrando mais a cabeça na almofada, afundou‑se no sono.

 

SUSANNA dormiu profundamente até a madrugada cintilar através das cortinas, vestiu‑se rapidamente, acendeu a lareira, pôs a cafeteira ao lume e fez a cama. Quando o aroma do café encheu a cabana, abriu uma lata de leite condensado, deitou um bom bocado na caneca do café e foi lá para fora tomar o pequeno‑almoço ao som do cantar das cotovias e do pio lamuriento de um bando migrador de grous, que passava lá em cima. Que dia radioso! Era maravilhoso estar viva.

            Ouviu gritos e risos ao longe. Santo Deus! Eram quase horas de começarem as aulas. Apressou‑se a ir para dentro, deu uma volta à cabana, espreitando para todos os cantos escuros. Uma aranha cinzenta estava a fazer a sua teia debaixo do banco da água. Apanhou‑a com um bocado de papel e foi deitá‑la lá para fora, exactamente quando um pónei malhado passava ‑ o cavaleiro de tranças louras ia inclinado para a frente ‑ descrevendo um círculo, e depois voltou para trás a trote para ir ter com Dottie e Freck Brown, que vinham montados em éguas amareladas.

            ‑           O Scout ganhou! ‑ gritou Jenny.

            ‑           Não teria ganho se eu tivesse deixado a Dusty correr à vontade ‑ resmungou Freck. ‑ Mas tu sabes muito bem que a Dottie chora quando eu lhe passo à frente, Jenny.

            ‑           A mãe diz para nós não fazermos corridas ‑ soluçou Dottie.

‑           E o teu pai também, Jenny.

Jenny deitou a língua de fora e levou Scout para mais perto do rio, fazendo os possíveis para não olhar para Susanna nem a cumprimentar.

            ‑           Bom dia, Miss Alden. ‑ Freck tirou o seu velho chapéu com um gesto surpreendentemente cortês e ajudou a irmã a desmontar. Com nove anos, Dottie montava com uma perna para cada lado e, ao contrário de Jenny, que estava de cabeça descoberta, trazia uma touca cor‑de‑rosa que não ficava muito bem com o seu vestido de chita amarelo.

            Remexendo no seu alforge, Freck tirou duas marmitas de alumínio, um livro de geografia, um livro velho de iniciação à leitura e outro de ortografia.

            ‑           Agarra nisto enquanto eu trato dos cavalos ‑ disse ele à irmã. Saltando para a sela, conduziu a velha égua para onde Jenny estava a prender Scout.

            Os Hardys aproximavam‑se a pé, vindos do lado do rio. Traziam duas marmitas para os quatro e vários livros; Rosie, com o seu vestido de xadrez de algodão, trazia um embrulho.

            Susanna constatou com desânimo que, enquanto Rosie e os irmãos mais novos traziam sapatos, Dave vinha descalço. Todos traziam bibes ‑ indumentárias largueironas e grosseiras, especialmente quando comparadas com as Levi's de Freck, apertadas por um cinto de fivela prateada.

            As três irmãs Taylor vinham de nordeste a pé com Sarah Prade, que trazia os gémeos. As raparigas vinham todas de touca e as usadas pelas Taylors condiziam com os vestidos. A uma certa distância, mais atrás, via‑se um rapaz mais alto, de ombros fortes, com o cabelo quase prateado. Seria Frank Prade? E o cavaleiro num cavalo preto que se aproximava a trote, vindo do sul, devia ser Ridge Tarrant.

            Um puxão na saia de Susanna fê‑la olhar para baixo, vendo Rosie, que lhe estendeu um pequeno cesto onde estavam aninhados sete ovos em cima de ervas secas.

            ‑           A minha mãe mandou‑lhe isto, professora.

            ‑           Obrigada, minha querida ‑ agradeceu Susanna. ‑ Vão‑me saber muito bem.

            Rosie observou Susanna a ir para dentro e a pôr os ovos na prateleira junto à lareira do lado destinado a cozinhar. Acenando a cabeça de satisfação, a garota de cabelo cremoso foi admirar a bandeira e o mapa.

            Eram horas de começar. Embora ensinasse há vários anos, Susanna nunca o fizera assim. Sentiu a boca seca quando pegou na campainha, dirigindo‑se à porta para tilintar as boas‑vindas.

 

            PASSADOS dez minutos, estavam todos lá dentro, com as marmitas alinhadas em cima do banco da água. Os alunos sentavam‑se nas mesas conforme o seu tamanho ‑ os rapazes mais velhos mesmo em frente a Susanna, as crianças mais novas na mesa mais baixa, de lado, e as raparigas maiores atrás delas. Embora se regozijasse por haver mesas, Susanna gostava que houvesse uma para cada aluno e de tamanho adequado. Dave e Frank, quase uns homens, ficavam encolhidos na mesa, que era alta para Ethan, embora fosse boa para Ridge e Freck. Ridge parecia um falcão acorrentado, com um dos pés, com sapato de índio, na coxia, como se estivesse em posição de fugir.

            Quinze pares de olhos estavam fixos em Susanna.

            ‑           Bom dia - disse ela, tentando encontrar o olhar de cada criança, lendo em vários rostos agitação, entusiasmo, curiosidade ou desconfiança.

            A expressão de Frank Prade era carrrancuda. Tinha os olhos verdes cintilantes do pai, e Susanna considerou que ele parecia observar o mundo por detrás de uma parede invisível; tinha um distanciamento diferente do de Ridge, que era mais o de um animal selvagem encarcerado.

            ‑           Vamos começar todos os dias com canções ‑ informou ela. Ao planear os horários, ocorrera‑lhe ensinar história com músicas, salientando as raízes comuns. - Creio que todos nós temos antepassados que vieram de Inglaterra ou da Escócia e trouxeram as suas canções. Todos conhecem o Trigo com Gorgulho?

            As mãos da maioria das garotas levantaram‑se, por isso Susanna iniciou a canção.

 

Não quero o teu trigo com gorgulho,

Nem quero a tua cevada.

Preciso é de farinha depressa

P'ra fazer um bolo p'ro Charlie.

Charlie é bom rapaz E Charlie é janota

 

            Quando acabaram, as crianças mais novas já estavam a juntar‑se ao coro. Ridge e Frank não cantaram.

            ‑           Esta canção é sobre Bonnie Prince Charlie, o príncipe Charles Stuart ‑ disse Susanna. - Os seus guerreiros escoceses foram derrotados pela Inglaterra em Culloden em 1746. Foi assim que se desfizeram os dás escoceses, e, depois disso, cada vez mais escoceses foram, de livre vontade ou obrigados, para a Austrália, Canadá e colónias. Lembrem‑se de que nessa altura não havia Estados Unidos. Charles Stuart morreu no exílio, mas nós ainda sabemos a canção.

            ‑           O bisavô do meu pai combateu em Culloden ‑ disse Jenny.

‑ Acho que esses casacas vermelhas eram quase tão maus como os ianques.

            ‑           O bisavô da minha mãe também lá combateu ‑ retorquiu Sarah. ‑ Mas acho que os Britânicos não devem ter tratado as pessoas mais cruelmente do que os Sulistas.

            Ouviram‑se várias vozes ao mesmo tempo.

            ‑           O meu pai...

            ‑           O meu tio...

            ‑           O meu avô...

            Susanna tocou a campainha.

            ‑           Meninos, nós vamos estudar e falar sobre a guerra, mas só depois de irmos até às origens do nosso país. Lembrem‑se de que foram os antepassados de todos nós que ajudaram a construir este país. Talvez fosse uma boa ideia todos os dias um de vocês falar sobre os seus antepassados.

            ‑           Somos obrigados? ‑ perguntou Frank Prade com um esgar.

            ‑           Não ‑ respondeu Susanna com um ar alegre. ‑ E também não são obrigados a cantar. ‑ Fez uma pausa. ‑ Espero que façam os trabalhos que vos são destinados, levantem a mão quando acabarem e esperem até eu os chamar para falarem. Tomem as vossas bebidas e façam as vossas necessidades no intervalo e à hora do almoço. Depois de determinarmos os níveis em que cada um fica, eu passo trabalhos no quadro para se poderem preparar para as chamadas. Não me importo que conversem sobre as vossas lições e se ajudem uns aos outros enquanto eu estou a ouvir os dos outros níveis, mas peço‑vos que façam o menor barulho possível. Berenice, fazes a oração de amanhã? ‑ Susanna prosseguiu: ‑ Jenny, na quarta‑feira falas‑nos dos teus antepassados, mostrando no mapa os seus países de origem? Bom, dos mais velhos quem é que vai ajudar Georgie e Helen no livro de iniciação enquanto eu ouço os outros a ler?

            Sarah e Dave ofereceram‑se. Jenny deu um puxão à saia de Susanna.

            ‑           Miss Alden ‑ disse ela, ofegante. ‑ Deixa‑me ajudar o Ridge? Eu trouxe os meus livros todos, por isso tenho o da iniciação.

            Ensinar Ridge podia estimular Jenny mais do que qualquer outra coisa.

            ‑           Está bem. Podes sentar‑te um bocado no lugar de Freck.

Ao meio‑dia, Susanna ouvira todos, excepto os iniciados. Dottie, Rosie, os gémeos Prade e Jenny ficaram no segundo nível. Com treze anos, Charlotte quase chorou ao ser colocada no terceiro nível, mas mostrou‑se menos amuada quando soube que Freck também ficava, pois achava‑o muito atraente.

            Berenice leu bastante à vontade no livro que a sua irmã mais velha ainda não dominava e ficou no quarto nível com Ethan. Dave, Sarah e Frank ficaram no sexto nível. Tocando a campainha, Susanna disse:

            ‑           Ponham‑se em fila para lavarem as mãos e irem buscar as vossas marmitas. Não se afastem da escola. Depois de comerem, podem brincar até eu tocar a campainha.

            Susanna sentia‑se como se aquela manhã tivesse durado uma semana.

            A MANEIRA mais fácil de controlar o recreio era brincando, por isso, Susanna, depois de um apressado pão com compota, agarrou nas mãos de Helen e Berenice e gritou:

            ‑           Vamos brincar à roda do lenço! Georgie, podes ser tu a começar.

            ‑           Isso é para miúdos pequenos ‑ escarneceu Frank, sorrindo desafiadoramente aos mais velhos. ‑ Quem é que não tem medo de jogar ao quebra‑corrente?

Dave, Freck, Ethan e Ridge aparentemente sentiram que tinham de se afirmar e formaram uma corrente de mãos bem apertadas. Jenny ficou na posição perigosa de última da fila.

            Frank, à frente, começou a correr ‑ surpreendentemente depressa, com os seus sapatos pesados de trabalho, arrastando Freck, cujas botas de vaqueiro não eram das mais próprias para correr. Então, quando já iam todos a grande velocidade, Frank virou de repente para o lado, parou e quebrou a corrente, dando um puxão a Freck, que quase o atirou ao chão. Dave, a seguir na fila, aguentou‑se, assim como Ridge e Ethan, mas Jenny largou‑se e caiu de cabeça na erva. Dave e Ridge correram a ajudá‑la, mas ela já estava de pé e a rir.

            ‑           Vamos lá outra vez!

            ‑           Professora! ‑ gritou Dave. ‑ Vamos jogar à cabra‑cega. Toda a gente sabe.

            Jogaram todos menos Frank, que desapareceu na direcção do rio. Algum tempo depois, Dave também desapareceu, e Susanna só percebeu como ele passara o resto do recreio quando entrou para tocar a campainha e viu que ele enchera os baldes de água e o cesto de combustível.

            Susanna agradeceu‑lhe baixinho e, nessa tarde, ao ver que ele sabia a tabuada e fazia contas de dividir com muitos algarismos, disse‑lhe:

            ‑ David, eu preciso de alguém para me ajudar a limpar a escola e a fazer certas tarefas. Se quiseres fazê‑lo, pago‑te um dólar por mês. ‑ Os olhos do garoto iluminaram‑se e Susanna prosseguiu: - Pago‑te adiantado todos os meses, mas tens de me prometer uma coisa.

            Ele franziu o sobrolho.

            ‑           O quê?

            ‑           O primeiro dinheiro é para comprares uns sapatos para ti.

            O garoto vacilou e ruborizou‑se, mas fez um aceno de cabeça entusiasmado.

            ‑           No fim da aula de hoje, eu pago‑te este mês.

            Dave regressou ao seu lugar como se estivesse nas nuvens.

 

            Ao FIM da tarde, quando as crianças explodiam para fora da cabana e disparavam em todas as direcções, apareceu Ase McCanless.

‑           Bem, parece que conseguiu sobreviver ao primeiro dia, professora.

            ‑           Parece que sim. ‑ Susanna não conseguiu reprimir um grande suspiro, mas a seguir sorriu. Lembrando‑se de que ele era, apesar de tudo, o principal administrador, fez‑lhe um curto relatório.

            Ase acenava com a cabeça de satisfação.

            ‑           Tem tudo de que precisa? ‑ perguntou ele. ‑ Tem livros suficientes?

            ‑           Eles estão misturados, mas cá nos arranjamos. Quando começarmos a ortografia, vamos precisar de canetas com aparos de aço, tinta e folhas pautadas.

            Ele fez um aceno de cabeça e perguntou:

            ‑           Precisa de alguma coisa para si?

            ‑           Se a Betty pudesse dispensar um bocado de um tecido velho qualquer para eu fazer uma cortina para pendurar entre o meu quarto e a sala de aula, eu agradecia muito. De resto, estou bastante confortável, obrigada.

            Ase franziu o sobrolho e comentou:

            ‑           Eu continuo a não gostar que fique aqui sozinha.

            Susanna riu‑se.

            ‑           Na realidade, tive imensa companhia ontem à noite. ‑ Contou‑lhe do estojo de primeiros socorros oferecido por Rawdon e referiu vagamente a visita de Prade.

            ‑           Valha‑me Deus! ‑ lamentou‑se Ase. ‑ Se soubesse que recebia a região inteira, eu também teria vindo.

            ‑           Vamos, pai! ‑ gritou Jenny, trotando no seu cavalo.

            ‑           Então, adeus, Miss Alden ‑ disse ele, tocando na aba do chapéu. ‑ Se tiver algum problema, avise‑me. ‑ Saltou agilmente para a sela e acenou‑lhe ao afastar‑se atrás da filha.

            Susanna virou‑se e viu que Dave, depois de já ter lavado o quadro, estava a varrer o chão.

            ‑           Enchi o seu balde de água, Miss Alden. Há mais alguma coisa que eu possa fazer?

            ‑           Pensaste em tudo. ‑ Sorriu. Dirigindo‑se ao quarto, tirou um dólar da gaveta de cima da cómoda. ‑ Não te esqueças de que isto é para os teus sapatos, Dave - disse Susanna, entregando‑lhe o dinheiro.

            ‑           Sim, professora. ‑ Dave olhou cobiçosamente para os livros que estavam em cima da secretária dela. ‑ Miss Alden, podia emprestar‑me o livro de geografia?

            ‑           É para isso que os livros ali estão.

            Sorrindo ao vê‑lo ir‑se embora, Susanna pensou como seria agradável o seu trabalho se todos os alunos fossem assim tão ávidos de aprender. Por outro lado, os que não o eram constituíam um desafio. Estimular a caprichosa Jenny, o irrequieto Freck e o estóico Ridge, requereria todas as capacidades, persistência, humor e imaginação de uma professora.

            Frank era sem dúvida o problema mais alarmante. Era extremamente inteligente, mas tinha uma personalidade deformada. Ele sentira um prazer genuíno ao atirar Jenny ao chão no fim da fila. Não era a cabeça dele que precisava de instrução, mas sim o seu coração. Saul Prade dominava o filho há catorze anos, e havia algo que não batia nada certo na relação de ambos.

            Sentando‑se à secretária, Susanna abriu o seu bloco e, ao lado de cada nome, onde já registara o nível do aluno, acrescentou o que observara naquele dia, que lhe podia vir a ser útil para lidar melhor com a respectiva criança. No dia seguinte, cada nível escreveria as palavras a aprender durante a semana e ela iniciaria os mais pequenos nas cópias. Os alunos intermédios e os mais velhos teriam geografia duas vezes por semana, história três e gramática todos os dias. Queria também abordar o estudo da Natureza. Havia tanto para ensinar e tão pouco tempo!

            Ao fechar o bloco, o sol oblíquo da tardinha atraiu‑a; sentia os músculos tensos e doridos. Um passeio havia de fazer‑lhe bem. Fechando a porta atrás de si, dirigiu‑se ao rio. Na areia fina do sítio de atravessamento do rio, ela viu as pegadas dos Hardys e uma série de rastos húmidos.

            Os que pareciam de cão eram com certeza de coiotes e os outros, com três e quatro bicos, deviam ser de aves, mas de que seriam aquelas graciosas espirais soltas? E as outras semelhantes a pequenas mãos com unhas pontiagudas?

            Ali era o local ideal para se estudar a Natureza ‑ se arranjasse um professor. Visto Ridge ter uma costela cheyenne, Susanna lembrou‑se imediatamente de que ele poderia funcionar como perito em pegadas.

            Intrigada, Susanna seguiu umas pegadas estranhas pela areia.

Havia uma marca redonda irregular e acima, ligeiramente ao lado, cinco marcas minúsculas. Depois, descendo da margem, havia marcas de sapatos e a seguírSusanna parou, petrificada. Uma carapaça de um bonito verde‑amarelado estava amassada e no seu interior, ensanguentado, zumbiam moscas e outros insectos. Mas a tartaruga não tivera uma morte súbita por acidente. As pernas tinham‑lhe sido cortadas e a cabeça estava atirada para debaixo dos salgueiros, parecendo ter sido arrancada do corpo.

            Frank desaparecera naquela direcção durante a maior parte da hora do almoço, pensou Susanna, virando‑se para se afastar a correr daquela visão terrível. Vomitando, encostou‑se a um choupo, não querendo acreditar no que acabava de ver. Com a cara encostada à casca grosseira da árvore, Susanna chorou. Como é que alguém podia ser tão cruel? Ainda estava a chorar quando ouviu o barulho de uma carroça.

            Quem seria? Avançando por entre os salgueiros, chegou ao ponto de atravessamento quando a carroça de Matt Rawdon estrepitava pela margem oposta, chapinhando depois a atravessar o rio.

            ‑           Anda a vadear? ‑ perguntou ele, reparando na saia suja dela. Depois, olhou‑lhe para o rosto. ‑ O que se passa?

            Inclinando‑se, Rawdon içou‑a para o lugar a seu lado. Ela foi imediatamente acolhida por uma cauda peluda a abanar e fervorosas lambidelas de uma língua encarnada, ambas pertencentes a um grande cão preto com o focinho e as patas dianteiras ornamentados de cor de canela, orelhas que pareciam tulipas e uma testa larga.

            ‑           Este é o Hank - esclareceu Rawdon. ‑ Pensei que ele seria uma protecção mais eficaz que as cortinas, e faz muito mais companhia. Mas qual é o problema? Os diabinhos foram assim tão maus?

            Ela abanou a cabeça, incapaz de falar. Quando chegaram à cabana, Rawdon prendeu a parelha a um dos postes que suportavam o guincho do poço. Susanna apeou‑se, seguida pelo cão. Rawdon barrou o caminho a Susanna quando ela passou em frente do carro.

            ‑           Muito bem, Sra. Professora. Se não foram os miúdos, o que foi?

            Foi um alívio poder desabafar sobre os seus sentimentos acerca do episódio da tartaruga.

‑           Porque é que Frank havia de fazer aquilo? ‑ A voz dela saía entrecortada. ‑ Porquê?! Não havia razão nenhuma, foi simplesmente pelo prazer de torturar.

            ‑           Aí tem o porquê. Não pode falar com os pais dele?

Susanna teve um arrepio.

            ‑           Não gostava nada que a mãe dele soubesse. E Saul Prade devia oferecer‑me mais umas varas.

            Rawdon observava‑a com uma expressão estranha. Susanna quebrou o encantamento passando por ele e olhando para o cão, que andava a investigar os arredores, com o pêlo do pescoço, da cauda e das patas da frente conferindo‑lhe um ar galante e garboso que lhe fez lembrar um cavaleiro medieval cheio de rendas e plumas.

            ‑           É mesmo verdade que estava a pensar dar‑mo?

            ‑           Se o quiser.

            ‑           Ele é maravilhoso. Mas eu não posso aceitar um cão que é seu.

            ‑           Ele não é meu há muito tempo. Pertencia a uma velhota que morreu há uns meses e me pediu para tomar conta dele. Mas a mim ele não me faz falta; eu não tenho medo das coisas que mexem à noite. ‑ Rawdon riu‑se. Dirigindo‑se à carroça, puxou um tapete de cima de um objecto e tirou ambos lá de dentro. ‑ Mrs. Síade, a dona do Hank, não tinha família e, como eu olhei por ela, deixou‑me os seus bens. Ora, eu não preciso desta cadeira de baloiço nem deste tapete.

            ‑           Não precisa do cão, não precisa da cadeira, não precisa do tapete. ‑ Susanna abanou a cabeça. ‑ Para si é um ponto de honra não ser humano como as outras pessoas, não é? Não precisar de nada nem querer nada?

            ‑           Ou a senhora fica com a maldita cadeira ou eu utilizo‑a como lenha.

            Pouco depois, os lábios dele curvaram‑se para baixo, como se estivesse a tentar não se rir, e Susanna não argumentou mais. Agarrou no tapete e seguiu Rawdon, que levava a cadeira para dentro de casa. Hank seguiu‑os. Quando Susanna estendeu o grosso e fofo tapete junto à cama, o cão deitou‑se nele, com o nariz entre as patas e a abanar a cauda.

            ‑           Ele aprova a decisão ‑ comentou Rawdon.

            "Porque pensa que também cá ficas", pensou Susanna.

            Entreolharam‑se. O coração dela parou.

‑           Vamos até lá fora. ‑ A voz dele saiu arroucada, o tom foi brusco. ‑ Quero saber como correu o primeiro dia, mas o melhor é não ficarmos cá dentro, não vá aparecer aí algum dos administradores a bisbilhotar.

            Hank seguiu‑os. Fazendo distraidamente festas ao cão, Rawdon olhava para o sítio onde o sol se perdia em faixas de luz encarnadas e douradas e nuvens cor de púrpura brilhavam no horizonte a ocidente, pintando a erva com um bronze‑encarniçado.

            ‑           Conte‑me lá. Não houve batalhas entre nortistas e sulistas? Que tal é que se deu com a temível Jenny?

            Ela contou‑lhe como Jenny ficara corajosamente na ponta da corrente. Em seguida, visto ele parecer genuinamente interessado, relatou‑lhe as restantes perplexidades e pequenos triunfos do seu dia. Finalmente, presenteou‑o com um sorriso desafiador e comentou:

            ‑           Pode ser que eu afinal não precise de comprar bilhete para regressar ao Ohio.

            ‑           Ainda é demasiado cedo para se saber ‑ avisou ele. O sol desapareceu, uma sucessão de cores flamejando numa derradeira glória antes de começar a enfraquecer. ‑ Tenho que ir andando para as minhas lides domésticas. Não precisa de se preocupar muito com a alimentação do Hank. Quando tiver fome, ele caça um coelho. Boa noite, Miss Alden.

            Desprendendo as rédeas, subiu para a carroça. Hank, com um olhar pesaroso na direcção de Susanna, preparou‑se para saltar lá para dentro.

            ‑           Não, companheiro ‑ disse Rawdon. Inclinando‑se, fez uma festa na cabeça do cão. ‑ Tu vais ficar aqui com esta senhora. Fica!

‑ Pronunciou a última palavra enfaticamente e arrancou com os cavalos.

            A carroça deu a volta, com o cão a olhá‑la de cabeça inclinada, orelhas levantadas e cauda pendente. Susanna baixou‑se para o abraçar.

            ‑ Se tiveres muitas saudades dele, eu mando‑te outra vez lá para casa. Mas estou tão contente por te ter, Hank... Que nome tão feio! Importas‑te que eu te chame Cavalier? Ou Cav, para ser mais fácil?

            De repente, ficou frio. No crepúsculo que se adensava, Susanna fez festas ao seu novo companheiro, coçou‑lhe a cabeça atrás das orelhas e depois dirigiu‑se para a cabana.

            ‑           Anda! ‑ convidou ela. ‑ Anda, Cavalier!

            O cão seguiu‑a, de cabeça e rabo descaídos de tristeza, e ocupou logo o seu lugar no tapete, com o focinho entre as patas cor de canela. Os seus olhos, agora pesarosos, observaram Susanna a acender a lareira e a pôr a água para o chá e o jantar ao lume. Embora Cav fosse auto‑suficiente, ela fazia questão de dar‑lhe qualquer coisa para comer.

            ‑           Que tal umas sopinhas de leite, Cav?

            A resposta foi uma abanadela da cauda. Susanna encheu uma das duas tigelas que tinha e pô‑la no chão, chamando‑o. Ele devorou tudo e ficou à espera de mais.

            - Por agora chega, menino.

            Apercebendo‑se do carácter definitivo da decisão dela, Cav retomou o seu lugar. Mais tarde, depois de Susanna comer, lavar a louça e puxar a cadeira de baloiço para junto do candeeiro de petróleo para preparar as aulas do dia seguinte, ele abandonou o tapete e foi deitar‑se aos pés dela, cruzando as patas e apoiando nelas o focinho.

            Que diferença que fazia a presença dele! Enquanto trabalhava, Susanna conversava com ele e era presenteada com um olhar consolador ou um bater de cauda no chão em concordância. Quando ela foi para a cama, ele deitou‑se no tapete.

            Era uma bênção ele estar ali. Também era bom saber que Matt Rawdon, apesar de todo o seu cinismo, quisera que ela se sentisse mais segura e não estivesse sozinha.

 

DURANTE o período das aulas, Cav instalava‑se como guardião da porta, suficientemente próximo dos baldes de água para as crianças lhe fazerem uma festa quando iam beber. Naquela manhã, cantaram canções sobre a corrida ao ouro, o que deu a deixa para falarem de como o país se estendera para oeste, não só em busca de riquezas como em 1849, mas também, como era o caso dos pais deles, numa busca mais firme e mais calma de locais para viver. Depois de Berenice dizer a oração, Susanna ouviu o grande grupo do segundo nível. Via‑se que os gémeos, Dottie e Rosie, tinham estudado, leram os parágrafos que lhes competiam sem gaguejar, mas Jenny deu muitos erros, tropeçando em várias palavras, sem saber como se pronunciavam.

            A manhã voou. Susanna exibiu os cartões da tabuada, mostrou às mãos pequeninas como se faziam as linhas e as curvas das letras, ouviu leituras, ensinou como se escreviam certas palavras e iniciou Ethan e Berenice nas contas de dividir. Mas a presença vigilante, de olhar frio, de Frank atormentava Susanna. Deveria confrontá‑lo? Decidiu que não o faria, visto não ter esperança de o envergonhar nem de fazer com que se arrependesse.

            Ao meio‑dia, Susanna tocou a campainha para chamar a atenção de todos.

            ‑           A maioria de vocês preparou as lições e trabalhou muito bem durante a manhã ‑ disse ela. ‑ Não se esqueçam de que os vossos pais estão convidados para sexta‑feira à tarde. Não seria engraçado fazerem‑lhes uma surpresa?

            Jenny franziu o sobrolho, Frank fez um ar superior e Ridge tinha uma expressão sofredora, mas os restantes alunos deram vivas e bateram palmas.

            Quando se levantaram para formarem a fila para lavarem as mãos, Susanna disse‑lhes:

            ‑           Durante o período das aulas, eu sou responsável por vocês. Ninguém pode sair do perímetro da escola, o que significa manterem‑se ao alcance da vista. ‑ Frank fitou‑a com um brilho provocador nos olhos.

            às 4 horas, despediu‑se das crianças e Dave foi fazer as suas tarefas; Frank deixou‑se ficar para trás propositadamente. Quando Susanna ficou sozinha, ele dirigiu‑se‑lhe.

            ‑           Professora. ‑ O seu tom, embora baixo, raiava o descaramento. ‑ Posso fazer‑lhe uma pergunta?

            ‑           Claro, Frank.

            - Ontem foi passear até ao rio?

            ‑           Fui e creio que tu sabes o que encontrei.

            Ele sorriu e encolheu os ombros.

            ‑           Eu calculei pela maneira como nos disse para ficarmos ao alcance da vista.

Demasiado horrorizada para se conter, Susanna agarrou‑lhe os ombros e esteve quase a dar‑lhe um abanão.

            ‑           Porque é que fizeste aquilo?

            A brusquidão dela apanhou‑o de surpresa.

            ‑           Era uma simples tartaruga.

            - Era um ser vivo! E tu mataste‑o, torturaste‑o, sem razão nenhuma! Como é que foste capaz de uma coisa daquelas, Frank?

            Ele libertou‑se das mãos de Susanna.

            ‑           Se quiser ver uma coisa verdadeiramente nojenta, professora, vá lá a casa para o mês que vem, quando fizermos a matança do porco. ‑ Com Susanna de olhar fixo nele e muda, Frank afastou‑se. -            Adeus, professora.

            Susanna ficou colada ao chão. Disse e repetiu a si própria que não podia ter medo de um aluno. Mas o facto é que tinha. Medo dele e por ele.

 

            NAQUELA tarde de sexta‑feira, Susanna estava a brincar à apanhada com as crianças quando apareceu o primeiro carro de cavalos.

            ‑           Depressa, meninos! ‑ chamou ela. ‑ Arranjem‑se e preparem‑se para recebermos as nossas visitas.

            Os Taylors foram os primeiros a chegar, com uma série de almofadas a amparar Delia de um dos lados. Quando Will ajudou a mulher a descer da carroça, ela pôs a mão nas costas e, como cumprimento, disse acusadoramente a Susanna:

            ‑           Estes saltos e solavancos vão dar‑me dores nas costas durante vários dias, mas as garotas pediram‑me tanto para eu vir

            ‑           Eu mando o Dave trazer a minha cadeira de baloiço para si - disse Susanna, correndo depois a abraçar Betty, que entrava à frente de Ase.

            A seguir, chegaram os Prades; Laura trazia um vestido cor de violeta que combinava com os seus olhos. Saul, enchendo a ombreira da porta, fixou os olhos em Susanna com uma expressão vigilante de ave de rapina. Margaret Hardy, com um vestido verde desmaiado, apresentou o homem que vinha com ela como sendo o seu vizinho Jem Howe.

            ‑           Toda a gente é bem‑vinda. ‑ Susanna gostou imediatamente daquele homem mais velho de olhos cinzentos.

            Chegaram então os Browns. Hettie, ajeitando o seu cabelo vermelho‑acastanhado por baixo da touca, e Kermit, falando cortesmente com Susanna.

            Luke Tarrant chegou, coxeando, com Milije, cuja cabeça orgulhosa não usava touca. O seu cabelo preto‑brilhante estava puxado para trás num carrapito, preso com ganchos prateados.

            Susanna apresentou a mulher cheyenne às mulheres dos colonos. Milhe fez uma vénia e cumprimentou‑as com cortesia, sendo depois levada por Luke a sentar‑se junto de Ase, que se levantou para a cumprimentar. Embora as mulheres conversassem todas entre si, os criadores de gado e os agricultores não se misturavam ‑ os rancheiros falavam de gado, e os colonos, das colheitas.

            Dirigindo‑se para junto da sua secretária, Susanna sorriu aos visitantes, que se apressaram a sentar‑se, caso ainda não o tivessem feito. Continuavam divididos: rancheiros de um lado e colonos do outro.

            ‑           Sejam bem‑vindos à nossa escola e muito obrigada pela vossa comparência. Estas tardes de sexta‑feira funcionarão como uma recapitulação de algum do trabalho da semana juntamente com algum divertimento. Para começar, vamos ter as orações da semana e as canções que cantámos. Se as conhecerem, cantem também, por favor.

            Freck deu início à cantoria, tangendo a viola enquanto entoava uma canção que continha muita geografia do Texas, pois referia a maioria dos rios. A seguir, toda a gente se entusiasmou a cantar as canções que todos conheciam, e, durante vinte minutos, a cabana encheu‑se de vozes que não se coadunavam muito bem, mas que aos ouvidos de Susanna soavam mais melodiosas do que as de qualquer coro que jamais ouvira. O facto de os patronos da escola Mason‑Dixon conseguirem cantar juntos já era um bom começo.

            Seguidamente, as crianças que tinham falado da proveniência das respectivas famílias foram à vez até junto do mapa e indicaram os países de origem dos seus antepassados. Todos tinham pelo menos um antepassado da Escócia, da Irlanda, da Inglaterra ou de Gales, mas Sarah e os gémeos indicaram também França, enquanto os Taylors acrescentaram a Holanda e a Dinamarca. Jenny apontou a Suécia, as ilhas Orkney e a Escócia, enquanto Freck e Dottie referiram um soldado prussiano na sua ascendência.

            Seguiu‑se a ortografia; os alunos estavam em fila e Susanna dizia uma palavra a cada um até todos terem escrito cinco. O grupo dos iniciados ‑ a pequenina e morena Helen Taylor, o efervescente Georgie e Ridge ‑ já sabia o alfabeto, assim como escrever palavras simples como "cão" e "gato". Planeando esta apresentação, Susanna perguntara a Ridge se ele não queria aprender umas palavras mais difíceis.

            ‑ Palavras como "águia"? ‑ perguntara ele com um interesse súbito iluminando‑lhe os olhos cor de avelã, perturbantes no rosto muito moreno. ‑ "Falcão"? "Guerreiro"?

            ‑ Tu dizes‑me as palavras que queres aprender. Eu escrevo‑as e certamente que Dave não se importa de te ajudar a exercitar.

Assim, Ridge estava na fila entre Ethan e Frank e, para grande espanto e agrado de seus pais, escreveu palavras que eram próprias para a sua idade.

            Charlotte, distraída e excitada, errou palavras que escrevera nessa manhã. Freck e Jenny também não se saíram muito bem ‑ Freck porque tinha dificuldade, como ele dizia, em concentrar‑se nos livros e Jenny simplesmente porque não estudava. Mas Berenice Taylor ficou com o rosto iluminado, tal como seu pai, Will, quando escreveu as palavras mais difíceis do quarto nível.

            às 4 menos cinco, Susanna disse aos últimos alunos que escreveram para se sentarem.

            ‑           E se encerrássemos com uma canção? ‑ perguntou à assembleia.

            ‑           Vamos cantar uma canção do Kansas ‑ sugeriu Will Taylor, sorrindo. ‑ Aposto que toda a gente conhece a Kansas Land menos a professora.

            Freck deu os acordes, e Will, numa boa voz de tenor, conduziu a canção, que era de facto desconhecida para Susanna e familiar para todos os outros.

 

         Oh Kansas, querido Kansas,

         Das tuas areias escaldantes,

         Olho em redor pela planície

         E pergunto porque nunca chove

         Nós não vivemos aqui, só cá ficamos,

         Pobres demais para nos mudarmos!

 

            ‑           Da próxima vez ‑ disse Ase, bem‑disposto ‑, vamos cantar Git Along, Little Dogies e Chisholm Trail. ‑ Levantou‑se. ‑ Obrigado por nos receber, Miss Alden. ‑ Olhou em volta para os outros visitantes. - Creio que encontrámos a pessoa certa.

            Saul Prade não participou nos aplausos que se seguiram, nem cantara com os outros. Delia Taylor, quando ia a sair, lançou um olhar ofendido a Susanna.

            ‑           Algumas crianças, como, por exemplo, a minha Charlotte, são nervosas e sensíveis, Miss Alden. Na minha opinião, não deviam ser obrigadas a exibirem‑se em frente de uma assembleia de desconhecidos.

            Will, aproximando‑se depois de desamarrar a carroça, pegou no braço da mulher e, cuidadosamente mas com firmeza, encaminhou‑a para a carroça.

            Margaret Hardy, com os seus olhos cor de âmbar a cintilar, agarrou então na mão de Susanna, e disse:

‑           Estou tão orgulhosa dos meus pequeninos!

            ‑           Foi lindo, minha querida! ‑ gritou Betty, abraçando Susanna. ‑ Gostei imenso de ver todas estas crianças a mostrar o que aprenderam. ‑ Deu uma gargalhada ao ver Jenny a enfiar livros no alforge. ‑ A nossa donzela não gostou que o pai visse que toda a gente do seu nível escreve melhor do que ela.

            ‑ Pois não ‑ disse Ase entre a tristeza e a esperança. ‑ Eu estive a observá‑la quando Ridge escreveu aquelas palavras todas. Creio que ela deve ter achado que, se ele pode estudar, ela também o pode fazer. Mas eu estou contentíssimo de a termos contratado.

            Enquanto a carroça de Ase se afastava, com Betty sempre a virar‑se para dizer adeus, Susanna retribuia os acenos, sentindo que, no seu todo, a tarde fora um êxito.

            ‑           Pelo menos ‑ disse, curvando‑se para fazer uma festa a Cavalier ‑, ninguém brigou nem discutiu e cantaram todos juntos.

            Todos, excepto Saul Prade.

 

            NA SEGUNDA‑FEIRA de manhã, Ridge disse que gostava de falar sobre os seus antepassados. De pé, junto ao mapa, o jovem moreno, bonito, começou:

            ‑ Há muito tempo, muitos cheyennes vagueavam pelas planícies a leste das Montanhas Rochosas. às vezes, lutavam com comanches e kiowas. Um tio da minha mãe, chamado Estrada do Rato, fazia parte de um grupo que foi roubar cavalos aos comanches e kiowas, que estavam acampados junto ao rio South Platte. Os cheyennes passaram pelo acampamento à noite e levaram cinquenta ou sessenta cavalos dos melhores. No dia seguinte, os comanches e kiowas apanharam‑nos. Os cheyennes lutaram corajosamente, mas por fim morreram todos menos o tio da minha mãe. O seu arco partira‑se e ele estava apeado, mas matou muitos chefes apenas com a sua faca. Dois kiowas, com espingardas, desceram dos cavalos e esperaram. Quando ele se aproximou o suficiente, dispararam. Ele caiu com uma bala na anca e os outros atiraram‑se‑lhe todos. Alguém lhe cortou a cabeça. ‑ O tom de voz de Ridge baixou. - Quando o fizeram, o Estrada do Rato sentou‑se direito, com o sangue a jorrar‑lhe do pescoço. Os inimigos saltaram para os cavalos e foram a galope para o acampamento com medo que ele os seguisse. Eles fugiram com as mulheres sem levarem as tendas.

‑ Isso é tudo mentira! ‑ escarneceu Frank Prade. ‑ Excepto o teu tio ser ladrão de cavalos.

            Ridge susteve a respiração e dirigiu‑se a Frank, que deu um salto e levantou os punhos. Dave pôs‑se no meio dos dois. Susanna agarrou no braço de Frank.

            ‑           Frank, aqui não se fala assim. Pede desculpa.

            ‑ Não peço ‑ sibilou Frank, libertando‑se dela. ‑ Já é suficientemente mau andar na escola com um canibal, mas...

            Levantando‑se, Susanna ficou com Dave entre os dois rapazes furiosos.

            ‑ Pára, Frank! ‑ gritou ela. ‑ Cala‑te imediatamente, Frank! Ou pedes desculpa ou vais para casa ‑ disse Susanna, pensando no que havia de fazer se ele se recusasse a ir‑se embora, pois ele era mais forte do que ela; Susanna sentiu‑se aliviada quando ele se virou com uma expressão feroz, dirigindo‑se à porta. Sarah pegou na mão de Susanna.

            ‑ Oh, Miss Alden, por favor, não o mande para casa.

            Os olhos verdes, da mesma cor dos do pai e do irmão, fitavam Susanna, angustiados. Susanna hesitou, mas não podia permitir um comportamento daqueles.

            ‑ O Frank pode ficar se pedir desculpa, Sarah.

            Sarah correu atrás do irmão. Ouvia‑se a sua voz implorante. Passado pouco tempo, ela regressou, deitou a cabeça na mesa e chorou baixinho, estremecendo os ombros. Susanna fez‑lhe uma festa no cabelo brilhante.

            ‑ Lamento, minha querida.

            Susanna foi todo o dia perseguida pela cara assustada, mas desafiadora, de Frank. Laura Prade poderia não saber como o seu marido punia severamente Frank, mas era óbvio que Sarah sabia.

            Susanna passou uma noite agitada e levantou‑se cedo por não conseguir dormir. Estava a tomar o pequeno‑almoço nessa manhã quando ouviu a porta a abrir‑se. Ela destrancara‑a para deixar Cav sair quando o Sol estava prestes a nascer e não voltara a trancá‑la. Levantou‑se de um salto quando Saul Prade baixou a cabeça dourada para entrar, empurrando Frank à sua frente. Desapertou a fivela de um largo cinto de couro e atirou‑o a Susanna.

            ‑ Pode escolher, mulher. Assentar‑lhas bem até fazer sangue, se for preciso, ou sou eu quem lhas dá aqui à sua frente.

‑           Saia daqui, Mr. Prade!

            Encolhendo os ombros, ele abriu violentamente a camisa de Frank e arrancou‑lha dos ombros. Susanna ficou boquiaberta. Vergões, uns já a dissiparem‑se, outros ainda bem visíveis, marcavam as costas e os ombros do rapaz. Prade levantou o cinto.

            Susanna atirou‑se para a frente de Prade e pôs os braços à volta de Frank, impedindo‑lhe a passagem. O corpo de Frank foi sacudido por uma convulsão.

            ‑           Eu peço desculpa ‑ disse o rapaz, ofegante. Virando‑se, ele afastou‑a para o lado e encarou o pai. ‑ Eu obedeço à professora, pai.

            Os olhos de Saul eram uma fogueira verde.

            ‑           E pedes perdão àquele porco daquele índio? ‑ Deu‑lhe com o cinto com tanta força que o rapaz cambaleou. ‑ Esta é por te teres posto numa posição em que tens de comer lama!

            Saiu fazendo estalar o cinto ameaçadoramente. Confusa, Susanna virou‑se e encontrou um olhar que era, simultaneamente, feroz e angustiado.

            ‑           Porque é que a senhora o impediu de me bater? - gritou Frank.

            ‑           Querias que eu o tivesse deixado bater‑te como das outras vezes, Frank? ‑ O horror do que vira avassalava‑a, e ela deixou escapar: ‑ Como é que a tua mãe permite que ele faça estas coisas?

            A expressão dele fechou‑se.

            ‑           A minha mãe não sabe.

            ‑           Não sabe?

            - O meu pai dá‑me com o cinto no celeiro ou nos campos. Quando faz sangue, põe‑me ligaduras. - Encolheu os ombros. - Ela não pode saber. Se ela soubesse... Bom, também o que é que ela podia fazer, professora?

            O assobio de Dave flutuou vindo do rio. Frank engoliu em seco.

            ‑           Eu posso pedir desculpa quando estiver sozinho com Ridge?

            Susanna resistiu ao impulso de passar uma esponja sobre o assunto.

            ‑           Onde foi que o insultaste?

            Frank suspirou.

            ‑           Está bem. Então, deixe‑me fazê‑lo logo ao princípio para acabar com o assunto.

Ele foi lá para fora e Susanna sentou‑se para acabar o seu café já frio. Subitamente, descontrolando‑se, enterrou a cara nas mãos e começou a chorar com o coração despedaçado. Deveria dizer a Laura? Como podia deixar de o fazer? Prade andava a provocá‑la, obrigando‑a a conhecer a sua crueldade, apostando em que ela não diria nada à sua mulher.

            E ele tinha razão. Fazê‑lo seria trair a confiança de Frank. Ele estava novamente na escola e optara por lhe obedecer. Susanna devia retirar consolo e esperança dessa atitude. Resolveu assim manter o silêncio.

 

NUM TELHADO de colmo, a chuva não tamborila, não bate, não martela, chicoteia. A água que não escoa ensopa, procura as frestas e começa a pingar.

            "Felizmente, não chove propriamente cá dentro", escreveu Susanna à tia Molhe e ao tio Frank, lançando um olhar pesaroso pela divisão onde gotas lamacentas, após três dias de vento e sol radioso, continuavam a cair em todos os recipientes de que ela podia dispor. "Mas já percebo o que dizem as mulheres que vivem em cabanas: chove um dia lá fora e mais quatro cá dentro."

            A chuva diminuiu no fim de Outubro, e na primeira semana de Novembro chegou uma geada que tornou castanhos os dourados choupos‑do‑canadá, tingiu a aveia com borrifos brancos e pintou os vários talos com vermelho e púrpura. O Dia de Acção de Graças aproximava‑se e, no sábado, Susanna levou a sua tigela de pão de milho misturado com feijão lá para fora para comer a gozar o sol, enquanto pensava se havia de celebrar o feriado com um programa para a comunidade. O presidente Lincoln proclamara‑o feriado nacional em 1863, facto que fazia que muitos sulistas sentissem que era um dia nortista, mas a sua origem remontava ao tempo dos puritanos da Nova Inglaterra. Falando da história do dia, podia também falar‑se da do país. Faria a sugestão aos administradores, que se reuniriam na escola na tarde do dia seguinte.

            Cav ladrou, com as orelhas espetadas na direcção do local de travessia do riacho, e Susanna, olhando para esse lado, viu pessoas a cavalo a subirem a margem. Duas vinham em cima de cavalos de trabalho. Uma terceira vinha numa pequena mula branca. E a quarta era Matt Rawdon no seu alazão cinzento, Saladino. Cav, com um latido de alegria, largou a correr para o seu antigo dono.

            Ainda antes de Matt apresentar os três desconhecidos, Susanna já tinha a certeza de que eram estrangeiros. Tinham bonés de fazenda, mantos compridos abotoados até ao pescoço, e, ao desmontarem, Susanna viu que as suas calças tinham pregas largas. Traziam todos uma espécie de sandálias fortes. Com os bonés na mão, fitavam Susanna com um olhar esperançado.

            Matt disse:

            - Os meus novos vizinhos têm filhos em idade escolar, por isso vieram falar consigo. Este é Frederick Krause. ‑ Um homem robusto dos seus quarenta anos, com cabelo e barba castanho‑escuros, inclinou a cabeça. ‑ Peter Krause é o seu irmão. ‑ Perante a referência ao seu nome, o homem mais velho, de cabelo grisalho e olhos verdes vivos, sorriu e fez um cumprimento de cabeça. Matt virou‑se finalmente para o outro desconhecido, que era muito grande e tinha cabelo louro e olhos azuis. ‑ Jacob Reighard está noivo da filha mais velha de Frederick. Trabalhou numa quinta na Pensilvânia durante um ano, por isso fala inglês.

            ‑ Bom dia, miss ‑ disse Jacob timidamente. ‑ Pela sua parte, é possível as crianças virem aprender? Elas só falam alemão, embora eu já lhes tenha ensinado algumas palavras.

            ‑ Uma vez que vivem na região, claro que são bem‑vindas

- respondeu Susanna, embora não estivesse certa do que diriam os administradores e temesse que houvesse problemas, pelo menos da parte de Saul Prade. ‑ São alemães?

            - Há muito tempo éramos da Holanda, de há cem anos para cá somos da Prússia. - Jacob sorriu. ‑ Catarina, a Grande, que era alemã, sabia que os menonitas eram bons agricultores e convidou‑os para as estepes da Rússia e para a Crimeia. ‑ Continuou a explicar que Catarina concedera aos colonos o direito de praticarem a sua religião e de ficarem isentos do serviço militar, pois sabia que a religião deles proibia o uso das armas.

            Em 1871, no entanto, o czar determinou que eles passavam a ser russos. Foi proclamado que daí a dez anos os seus privilégios seriam revogados. Segundo Jacob, alguns menonitas acabaram por ficar, mas a maioria, temendo ser obrigada a cumprir serviço militar, fugiu para os Estados Unidos. Ele e os Krauses eram os únicos emigrantes da aldeia deles.

            ‑           Compraram dois lotes de terreno de concessão a norte das minhas terras ‑ disse Matt. ‑ Mudaram‑se há três semanas e já araram as terras e plantaram uma espécie de trigo vermelho duro que trouxeram da Rússia. Normalmente, pode ser colhido antes de a seca o destruir.

            ‑ Bem‑vindos ao Kansas ‑ disse Susanna. ‑ As crianças podem começar a vir à escola na segunda‑feira. Seria bom se pudessem fazer uma mesa e um banco para elas. Se vierem a cavalo, precisam de pôr feno no celeiro.

Jacob explicou:

            ‑           Freddie e Magdalena, os mais novos, vêm na pequena mula. Cobie e Valentine vêm a pé.

            Susanna convidou‑os a verem a escola. A seguir, agradecendo‑lhe, os menonitas foram‑se embora. Matt ficou para trás, a brincar com Cav.

            ‑ Como é que conseguiu prescindir dele? ‑ perguntou Susanna ao vê‑lo ajoelhar‑se para lhe fazer festas nas orelhas, segurando‑lhe depois o focinho entre as mãos.

            - Você precisa dele e eu não ‑ respondeu Matt, levantando‑se.

            O tom arrogante dele espicaçou Susanna.

            ‑ Tem orgulho nisso? ‑ perguntou ela. ‑ Vive contente por conseguir passar sem amar ninguém e sem ter ninguém que o ame a si? ‑ Inclinando a cabeça, ela sussurrou: ‑ Eu tenho medo do escuro, das cobras, dos escorpiões e de muitas outras coisas, mas é melhor isso do que ter medo da vida, Matt Rawdon.

            Ele deu uma gargalhada rouca de surpresa.

            ‑ E acha que eu tenho?

            - Então, não tem? Escondendo‑se, sozinho, recusando‑se a fazer uso da sua capacidade de tratar só porque não pode fazer cirurgias complicadas? ‑ Ela fitou‑o e gritou numa voz que tremia: - Eu prefiro ter medo daquilo que tenho do que ter medo de viver!

            O brilho dos olhos dele trespassou‑a. Siderada, Susanna não conseguiu reagir quando ele a agarrou, a estreitou contra si e lhe apertou os lábios com um beijo violento, até os seus lábios se moverem suavemente sobre os dela. Pondo a mão na nuca de Susanna, ele encostou‑a ainda mais a si. Quando finalmente se afastou, ela teria cambaleado se Mat não a tivesse amparado.

            ‑ Vamos para a sua cama, Miss Alden? Ou será que prefere um mais primitivo rebolar na erva?

            Ferida e humilhada, Susanna cerrou os punhos.

            ‑ Creio que não fiz nada que pudesse provocar um insulto destes.

            ‑ O que é que há de insultuoso em ser considerada uma mulher saudável, com necessidades saudáveis? ‑ perguntou ele, encolhendo os ombros. ‑ Vamos, Miss Alden. Como é que pode dizer que não tem medo de viver quando se envergonha de uma das partes da vida que é das mais necessárias e das que mais prazer dá?

- Não estou em crer que um homem com pretensões de decência faça propostas dessas ‑ replicou Susanna quando conseguiu controlar‑se. ‑ Eu devia dar‑lhe uma bofetada, desmaiar ou chorar.

‑           As faces ardiam‑lhe perante tal enormidade: não só pelo facto de ele falar assim com uma mulher que não tinha qualquer protecção masculina, mas também por ela própria se sentir tentada por desejar que fosse possível. ‑ Desculpe‑me por não saber qual é a reacção esperada, aqui no Sul, por parte de uma mulher que recebe um tal insulto ‑ prosseguiu Susanna. ‑ Admito que posso ceder ao amor; sou humana e tenho sentimentos. Mas o meu consolo é o meu trabalho, Cav e os livros ... estar viva. E eu estou viva, Matt Rawdon, independentemente daquilo que você possa pensar!

            O esgar dos lábios dele desapareceu e, subitamente, ficou perturbado. Por instantes, o sofrimento entre eles quase foi palpável. Matt inclinou a cabeça para a frente, e quando ergueu os olhos para a fitar, o seu rosto já tinha de novo a carapaça.

            ‑ É tudo verdade e louvável, Miss Alden. No entanto, na minha qualidade de homem, tenho de lastimar o desperdício de uma mulher bonita. ‑ Com uma última festa a Cavalier, dirigiu‑se ao cavalo, virando‑se em seguida com uma gargalhada maliciosa. - Deixe‑me felicitá‑la por ter deixado de usar espartilho, apesar de o corpete continuar bem apertado em volta da sua formidável rectidão ianque.

            Montou e afastou‑se sem olhar para trás.

 

            EMBORA querendo concentrar‑se na correcção das composições, Susanna não o conseguia, porque o seu corpo traiçoeiro continuava agitado como quando estivera nos braços de Matt. Os beijos juvenis de Richard não a tinham preparado para um abraço de homem, apesar de não haver ninguém que a pudesse ter preparado para... o beijo arrebatador de Matt Rawdon.

            Então ocorreu‑lhe: e se ele a tivesse beijado só como uma forma de vingança humilhante? Sentiu uma revolta interior perante tal hipótese, no entanto sentia satisfação por, pelo menos uma vez ‑ independentemente da intenção que o tivesse movido ‑ ter sido abraçada e beijada pelo homem a quem ela agora estava certa de amar. Um gosto a mel para escarnecer de Susanna, que agora o desejava ardentemente. Embora a reunião do dia seguinte ameaçasse ser difícil, Susanna sentia‑se contente por não ter de passar o domingo todo sozinha.

 

            ASE E SAUL PRADE chegaram cedo. Determinada a resolver o assunto depressa, Susanna falou‑lhes logo das crianças menonitas.

            - Disse‑lhes que podiam vir? ‑ indagou Prade. ‑ Eu não quero os meus filhos na mesma escola que um bando de fedelhos holandeses porcos! Eu vou lá depois da reunião dizer‑lhes que a senhora não tinha autoridade para os deixar vir.

            ‑ Tenha calma, Prade. ‑ Ase, de sobrolho franzido, falou pela primeira vez. ‑ Isso é para ser decidido por todos.

            Ouviram‑se lá fora a típica voz nasalada do Missuri de Will Taylor e a pronúncia texana arrastada de Kermit Brown. Susanna virou‑se para cumprimentar os administradores, que entravam agora na sala, visto já terem todos chegado. Os nortistas, Will Taylor e Saul Prade, sentaram‑se na mesa dos rapazes mais velhos; os sulistas, Ase, Kermit Brown e Luke Tarrant, ocuparam o banco de declamação. Susanna sentou‑se junto ao quadro, com as mãos cruzadas no colo e os joelhos encostados um ao outro com força para não tremerem.

            Ase pediu silêncio. Susanna perguntou qual era a opinião deles sobre um programa para o Dia de Acção de Graças, referindo‑o como uma celebração cuja origem remontava à época colonial antes de George Washington, oriundo da Virgínia, o ter proclamado feriado nacional.

            ‑ Bom, se Washington achou bem, eu também acho ‑ disse Kermit, contrariado.

            ‑ Julgo que não faz mal a ninguém ‑ replicou Ase com um encolher de ombros.

            Luke Tarrant e Will Taylor fizeram um aceno de cabeça, mas Saul Prade levantou‑se.

            ‑           Antes de falarmos sobre o que vai acontecer na última quinta‑feira do mês, precisamos de falar de uma coisa que poderá passar‑se amanhã e à qual me oponho totalmente. Taylor, sabia que tem uma vara de porcos holandeses a leste de sua casa?

            Os olhos escuros de Will dilataram‑se.

            ‑ Não, não sabia. São menonitas, como aqueles dos arredores de Newton?

‑           Sim ‑ respondeu Prade. ‑ E estes deviam ter ficado com os da raça deles. Não podemos impedi‑los de comprarem terras, mas é óbvio que não temos de os deixar vir à nossa escola.

            ‑           Nós já somos uma grande mistura ‑ comentou Kermit. ‑ E, tanto quanto sei, eles são gente honesta e não causam quaisquer problemas.

            Prade olhou para Will.

            ‑ O que é que achava se uma das suas filhas casasse com um deles?

            ‑ Bem... ‑ começou o homem magro do Missuri.

            Os olhos cor de avelã de Luke Tarrant fitaram Prade.

            ‑ Eles moram na região. Eu nem compreendo porque é que havemos de abordar o assunto.

            ‑           Você claro que não compreende ‑ replicou Prade, encolerizado.

            ‑ Está a insultar a minha mulher. ‑ Tarrant levantou‑se com um só movimento. ‑ Creio que não tem arma. Mas saberia servir‑se          de uma arma se Ase lhe emprestasse a dele? - Ase levantou‑se.

            ‑ Meus senhores, todos nós concordámos em ter uma escola. Não somos obrigados a gostar uns dos outros, mas temos de nos relacionar. Prade, isto quer dizer que você não pode humilhar a mulher e o filho de Luke nem os menonitas, e, em nome da maioria, é obrigado a deixá‑los vir. Ou você promete que não provoca mais este tipo de situações ou expulsamo‑lo imediatamente da administração da escola.

            Olhando lentamente em volta, Prade viu concordância em todos os rostos. Após um silêncio tenso, sentou‑se.

            ‑ Parece que não me resta alternativa. ‑ Ficou como que petrificado durante o resto da reunião.

 

            DEVIDO às origens dos menonitas, Susanna estava à espera que, na segunda‑feira, aparecessem uns pequenos desconhecidos louros. Mas a única criança loura era Magdalena, de seis anos; o seu primo ruivo, Frederick, de sete anos, já se transformara em Freddie para os mais novos dos Hardys, com quem tinham unido forças. De igual modo, Valentine, o irmão de Magdalena, de doze anos, magro e de cabelo escuro, já fora baptizado de Val. Cobie, cujo cabelo preto espreitava sob o lenço triangular atado por baixo do queixo, tinha dez anos. Esta e Freddie eram os mais novos da descendência de Peter Krause.

Val tirou o seu boné castanho.

- Bom dia, professora.

            - Bom dia - respondeu Susanna com um sorriso.

            à medida que o dia avançava, ela descobriu que eles a entendiam melhor a ela do que ela a eles. Com as palavras de inglês que sabiam e o que conseguiam decifrar do alemão do liceu de Susanna e muitos gestos, eles conseguiam pronunciar palavras e copiar a ortografia.

            Até os Krauses trazerem a nova mesa e o novo banco, os alunos recém‑chegados tiveram de se amontoar junto dos mais velhos. Felizmente, Magdalena e Freddie tinham espaço suficiente junto dos quatro mais novos.

            Cobie teve que se encolher, pois havia já seis raparigas das maiores, mas Rosie e Sarah arranjaram‑lhe um espaço entre as duas. Ridge levantou‑se para indicar a Val um lugar entre ele e Freck. Nesse dia, Dave trabalhou com o garoto mais novo, mas foi o distante e reservado Ridge que decidiu ocupar‑se de Val. Ali estava uma pessoa mais diferente do que ele a quem podia ensinar e proteger.

            Frank limitou‑se a ignorar os novos colegas. Cada vez mais fechado, preocupava Susanna agora mais do que anteriormente, mas as tentativas dela para o incluir nos debates falhavam. Susanna só tinha esperança de que o tempo o arrancasse da sua apatia, e rezava para que o pai não andasse a bater‑lhe.

            A superlotação só durou até quarta‑feira de manhã, quando Jacob Reighard chegou, puxado pela mula branca dos Krauses, chamada Flora, com uma mesa e um banco. Susanna pediu a Jacob para comunicar aos Krauses mais velhos o programa do Dia de Acção de Graças.

            ‑ Eles vêm. Estão ansiosos por conhecer a professora. ‑ A testa bronzeada de Jacob enrugou‑se. ‑ Excepto o avô Anselm, pai de Peter e Frederick. Ele tem medo de que as crianças esqueçam a sua religião. Acha que devemos viver só para nós.

            O programa do Dia de Acção de Graças ocupava muito tempo. As crianças decidiram falar um pouco sobre os países de origem das suas famílias. Contariam a história da celebração do dia desde a época colonial e concluiriam com canções. Chegando cedo para os exercícios dessa sexta‑feira, as mães perguntaram em conjunto a Susanna se não podiam trazer comida para começar a celebração do dia com uma refeição em comum.

            ‑ Acha que Jem Howe pode vir?

            ‑ A norte da nossa casa vivem muitos solteiros ‑ comentou Laura Prade.

            ‑ Vamos trazer bastante comida e convidamos todos eles sugeriu Hettie Brown com um brilho nos olhos.

            Isto era o primeiro lampejo frágil de espírito comunitário para além da escola. Entusiasmada e encantada, Susanna foi lá fora tocar a campainha para chamar as crianças para dentro.

 

            NEVOU na semana anterior ao Dia de Acção de Graças. A neve em breve se fundiu e desapareceu, de modo que o terreno à volta da escola não estava lamacento no feriado quando, pouco antes do meio‑dia, carroças e cavalos trouxeram toda a gente da região que Susanna conhecia e até algumas pessoas que ela não conhecia. Matt Rawdon estava a apresentar os Krauses aos vizinhos deles quando Susanna se apressou a dar‑lhes as boas‑vindas, apertando‑lhes as mãos enquanto evitava cuidadosamente o olhar de Rawdon. Cav, contente de ver o antigo dono, pulava em seu redor como um cachorro.

            Anna, mulher de Frederick Krause, e a sua filha, Catherine, a noiva de Jacob, tinham ambas os olhos muito azuis emoldurados por pestanas escuras. Por baixo de uma touca preta, simples e justa, via‑se o cabelo castanho‑claro de Anna. Catherine trazia um lenço preto que revelava um cabelo brilhante como o de Magdalena, a sua irmã mais nova. Freda, a jovial mulher de Peter, tinha faces rosadas, cabelo preto a tornar‑se grisalho e os olhos verdes que legara a Cobie.

            Havia mais pessoas que Susanna não conhecia, e, com um sorriso de despedida temporária aos Krauses, apressou‑se a ir ao encontro do grupo que rodeava Margaret Hardy. Seria o homem magro de olhos cor de tabaco ‑ finalmente Cash Hardy?

            Ele fez um cumprimento de cabeça quando Margaret o apresentou alegremente.

‑ Tenho muito prazer em que cá esteja, minha senhora. Lamento muito que as minhas malditas costas me impeçam de arrastar o meu peso até à escola, mas creio que Dave faz o melhor que pode para compensar.

            ‑           Faz, sim, senhor ‑ replicou Susanna.

            Voltando‑se para cumprimentar dois homens que não conhecia que estavam a conversar com Will Taylor, Susanna avistou Matt Rawdon. Ele estava a observá‑la. Quando os olhares de ambos se cruzaram, a boca dele arqueou‑se num sorriso irónico. O sangue afluiu ao rosto de Susanna, recordando a proposta indecente que ele lhe fizera. Como é que aquele indivíduo se atrevia a comportar‑se como se nada se tivesse passado? Virou‑lhe as costas e pareceu‑lhe ouvir um riso escarnecedor enquanto Will Taylor lhe apresentava os dois homens, solteiros, que tinham terras de concessão a norte dos Prades.

            Ase e Kermit haviam começado a pôr tábuas em cima das carroças, e foram acompanhados nessa tarefa por outros homens, enquanto as mulheres se apressavam a dispor a comida. Na carroça dos Tarrants não puseram tábuas, pois continha dois grandes caldeirões de ferro na parte de trás: um com guisado de antflope e outro com carne de vaca com um molho muito grosso.

            Ase e os Browns exibiram grandes caçarolas com carne de vaca assada, enquanto o resto da comida era principalmente constituída por cereais preparados de todas as maneiras que o desespero e o engenho conseguiam conceber. Havia panelas de feijão, tigelas de nabos e couves, e a farinha branca armazenada servira para fazer a massa de uma série de tartes: ruibarbo, ameixa, baga de sabugueiro e frutos secos. Quando Anna, Freda e Catherine Krause foram buscar os seus potes de barro e travessas de louça, coraram de satisfação perante o entusiasmo inequívoco manifestado defronte das bolas de queijo, dos vários tipos de enchidos e dos grandes pães salpicados de sementes. Estava tudo pronto, mas Susanna esquecera‑se de pedir a alguém para dizer a oração.

            Na sua qualidade de principal administrador, Ase era a pessoa indicada. Susanna tocou a campainha e olhou em redor, enquanto as conversas cessavam e todos os rostos se viravam para ela. Estavam ali as suas crianças, a sua gente. Isto era a sua terra de uma forma que o Ohio nunca poderia ser, pois ela escolhera este lugar e era ali que estava a fazer o seu trabalho como ser humano, ensinar, que estava de acordo com a sua natureza.

            ‑ Mr. McCanless, não se importa de dizer a oração?

            Ase deu um salto como se tivesse levado um tiro. Tirou o chapéu, baixou a cabeça e aclarou a voz.

            ‑ Deus abençoe a erva. Amen. ‑ E foi tudo.

            Will Taylor declarou:

            ‑ Sem ofensa, Ase. Essa oração pode ser suficiente para um vaqueiro, mas acho que nós, os colonos, precisamos de mais.

            Will agradeceu a Deus tudo de mal que não acontecera, assim como todas as coisas boas que tinham acontecido, e terminou com:

            ‑ E, acima de tudo, neste dia, Senhor, agradecemos‑Te a nossa escola e esta excelente professora que nos enviaste.

            Seguiu‑se um coro de ámens.

            Toda a gente tinha talheres, pratos e chávenas, principalmente de alumínio. Susanna conduziu os Krauses à fila para se servirem; as outras pessoas não precisavam de encorajamento. Pouco depois, as mulheres estavam empoleiradas nas mesas e nos bancos, que tinham sido levados lá para fora. As crianças estavam sentadas no chão, e os homens, de cócoras ou em pé.

            Susanna andava de grupo em grupo, conversando e elogiando as mulheres pelo que cada uma trouxera. Quando se deteve junto das Krauses, que estavam sentadas com Margaret Hardy, Susanna elogiou o sabor a nozes do pão.

            ‑ A nossa farinha é feita com trigo vermelho ‑ disse Jacob. - Se Deus nos der uma boa colheita, teremos muito prazer em dar sementes aos nossos vizinhos.

            ‑ Ainda está para chegar o dia em que eu precise que um estrangeiro me ensine o que hei‑de cultivar ‑ comentou Saul Prade, continuando de costas voltadas para Jacob.

            O jovem corou. Para alívio de Susanna, Matt Rawdon disse num tom despreocupado:

            ‑ Eu vou mesmo pedir‑lhes, Prade. Este trigo vermelho parece valer a pena.

            Depois de, surpreendentemente, a maior parte da comida ter desaparecido, Susanna tocou a campainha. Bancos e mesas foram levados para dentro e ocupados pelas mulheres e crianças mais pequenas. Os restantes ficaram em pé.

A história do Dia de Acção de Graças foi traçada desde 1621 no Massachusetts até Abraham Lincoln o fixar na última quinta‑feira de Novembro. Só os nortistas bateram palmas quando foi mencionado o nome de Lincoln, mas pelo menos não houve apupos. Os grupos de crianças foram aplaudidos ao falarem dos países de origem dos seus antepassados e das razões que os tinham feito atravessar o oceano. O silêncio momentâneo que se seguiu à narração de Ridge da migração dos Cheyennes transformou‑se em palmas conduzidas por Ase.

            O programa acabou em cantoria, e após umas velhas canções apreciadas tanto por nortistas como por sulistas, foram todos lá para fora. Enquanto as crianças começavam as suas brincadeiras, os pais formaram uma roda dupla preparando‑se para uma dança de roda que era característica da região. Embora Susanna não conhecesse esse passatempo, estava prestes a deixar‑se levar para a roda quando viu os Krauses a dirigirem‑se às suas carroças. Chamou‑os e, ao virarem‑se, Jacob disse, corando:

            ‑ A nossa religião não nos permite dançar.

            ‑ Tenho pena.

            Jacob sorriu.

            ‑ Não tenha. Não esperamos que os outros sejam como nós.

            Peter falou, e os restantes acenaram com a cabeça. Depois, Jacob traduziu:

            ‑ Foi um dia maravilhoso para todos nós. Ouvir as crianças falarem bem o inglês e contarem a nossa viagem foi muito bom. Quem me dera que também houvesse uma escola para nós, adultos!

            O pensamento de Susanna cavalgava.

            ‑ Se gostarem e tiverem tempo, eu terei muito prazer em ir a vossas casas dar‑vos uma aula aos sábados de manhã ou à tarde, quando o tempo estiver bom. ‑ Ida e volta eram mais de duas léguas, mas ela gostava de andar a pé.

            ‑ A sério?! ‑ Jacob sorriu. ‑ A senhora é muito boa! ‑ Falou com os Krauses e voltou a dirigir‑se a Susanna. ‑ Se estiver disposta, nós convidamo‑la para almoçar no sábado e depois podemos ter a aula. Se nos mandar dizer pelas crianças à sexta‑feira, um de nós vem buscá‑la com uma carroça.

            ‑ Então, e se eu fosse a pé? Assim, se houver alguma alteração no tempo ou qualquer outra coisa, não fazem a viagem em vão. Gostaria muito que me trouxessem no regresso. Vou tentar ir neste sábado.

            Despediu‑se deles e, quando se virou, deparou com Saul Prade a observá‑la.

            ‑ Nós não lhe pagamos para ensinar holandeses, Miss Alden.

            ‑ Lá isso é verdade. Acontece que o que eu faço ao sábado só a mim diz respeito.

            Os lábios dele estreitaram‑se.

            ‑ Não pode negar que o tempo que perde com aqueles fedelhos é roubado aos nossos filhos.

            Susanna tremia de indignação.

            ‑ Os outros administradores concordaram com a vinda das crianças Krause.

            Ele deu uma gargalhada fugaz.

            ‑ Eles concordariam com qualquer coisa que a senhora dissesse. Ainda me vou rir quando eles virem o resultado da estúpida conversa fiada que a senhora ensina. Deixa‑se entrar um índio e está à vista o que acontece!

            ‑ Em relação a Milíje e a Ridge, nós é que somos estrangeiros ‑     retorquiu Susanna.

            ‑ Bom, certifique‑se de que esse mestiço não se faz à minha filha. Se isso alguma vez acontecer, eu sei muito bem o que hei‑de fazer‑lhe para ele nunca mais incomodar nenhuma mulher branca ou melhor, nenhuma mulher mesmo.

            Susanna fitava‑o de olhos esbugalhados.

            ‑ O que é que o fez ser assim?

            ‑ O meu pai ensinou‑me muito cedo a verdade sobre as pessoas e o Mundo. Aquilo que ele não me mostrou, mostrou‑mo a guerra. Você não passa de uma tola, mulher, e eu ainda hei‑de ver o dia em que todos estes tolos vão querer ver‑se livres de si tanto como eu quero.

            Ase McCanless dirigia‑se a eles, e Prade afastou‑se rapidamente.

- O que é que ele estava a dizer‑lhe?

            ‑ Nada de importante.

            ‑ Se ele a incomodar, avise‑me. Prometido?

            Quase dominada pela tentação de confidenciar a Ase, de lhe contar a forma selvagem como ele tratava o filho, Susanna acabou por reprimir aqueles factos venenosos que teria sido um alívio poder partilhar.

            ‑ Eu aviso‑o se Mr. Prade causar problemas à escola ‑ prometeu ela, contando‑lhe depois a combinação que fizera com os Krauses.

            Ase deixou escapar um assobio antes de comentar:

            ‑ Isso é muito amável da sua parte. Mas o que eu vim aqui dizer‑lhe foi que Betty não quer nem pensar que você vai ficar aqui sozinha, nesta cabana velha e sombria, durante as férias do Natal e eu também não.

            - Gostava muito de ir para o Ace High ‑ disse Susanna com acanhamento. ‑ Seria muito desanimador passar o Natal sozinha.

            ‑ Então, afinal, é humana como todos nós! ‑ comentou Ase, fitando‑a. ‑ As vezes, chego a duvidar. ‑ Com um sorriso jovial, pegou no braço de Susanna. ‑ Bom, enquanto a sua formalidade ianque está um bocadinho definhada, vamos juntar‑nos a este valsar presbiteriano! A mim parece‑me uma dança, mas como toda a gente fica feliz chamando‑lhe um jogo de cantigas, não me faz diferença.

            A Susanna também não. Era o dia mais feliz e de mais orgulho de toda a sua vida.

 

O PRIMEIRO sábado de Dezembro amanheceu límpido e frio. Envergando o seu vestido cinzento de lã, que era o mais quente, por cima de duas combinações de flanela encarnada e duas de cambraia, Susanna tomou o pequeno‑almoço junto à lareira para se aquecer. Atou um cachecol de lã à volta da cabeça, atirando as pontas por cima dos ombros.

            As crianças Krause tinham levado para casa um caderno de ortografia, um livro de iniciação à leitura e outro de história da América, que Jacob andava a ler‑lhes, portanto Susanna não precisava de levar livros. Finalmente, vestindo a sua capa e calçando as luvas, destrancou a porta, rindo‑se da alegria de Cav por irem passear.

            O caminho passava por casa dos Hardys e bifurcava‑se na estrema leste das terras deles, indo o caminho da esquerda para casa dos Krauses, passando pela de Matt Rawdon. Quase de certeza que veria Rawdon e, apesar de se censurar a si própria, o facto enchia‑a de expectativa.

            Pouco depois de a escola ter começado, Dave colocara um tronco morto de choupo, que ia de uma margem à outra, para se atravessar o rio. Susanna, de saia e combinações a balançar, achou a tarefa difícil. Cav disparara a correr à frente e olhava encorajadoramente para trás.

            ‑ Para ti é fácil ‑ murmurou ela, suspirando de alívio quando chegou à outra margem. - Tens quatro pés.

            Quando avistou vários celeiros de telhado de colmo e uma cabana com telhas de madeira, as pulsações de Susanna aceleraram‑se e ela esforçou‑se por ver o máximo que podia daquele local onde Matt vivia.

            Vários cavalos pastavam ‑ entre eles, o cinzento, Saladino ‑ e alguns poldros pernaltas afastaram‑se a correr com a aproximação de Susanna.

            Evitando olhar para a casa, Susanna já quase a ultrapassara quando ouviu o chiar de uma porta. Matt chamou‑a, dirigindo‑se‑lhe em grandes passadas.

            ‑ Quando a vi aproximar‑se, pensei que tivesse decidido aceitar a minha proposta ‑ disse ele. ‑ No entanto, passou por minha casa sem parar. Mas reparei que se deteve a admirar os meus cavalos.

            ‑ Eles merecem admiração.

            - E eu não? ‑ Ele encolheu os ombros e riu‑se. ‑ Receio bem que seja mesmo verdade. Mas aonde vai?

            Quando ela lhe explicou que ia a casa dos Krauses ensinar inglês aos adultos, ele declarou quase zangado:

            ‑ Não pode percorrer uma distância dessas a pé em pleno Inverno. Nunca ouvi maior disparate!

            Ela tinha os dedos dos pés tão dormentes de frio que esteve quase inclinada a concordar, mas disse num tom defensivo:

            ‑ Se o tempo estiver ameaçador, eu não saio de casa, e se ficar mau enquanto eu estiver em casa dos Krauses, tenho a certeza de que me convidam para lá passar a noite. Além disso, se for apanhada por uma tempestade no caminho, posso abrigar‑me em casa dos Hardys ou até aqui em sua casa, se o tempo estiver mesmo muito mau.

‑ Muito obrigado, minha senhora ‑ disse Matt com uma vénia.

‑ Por muito contente que eu ficasse de vê‑la arrastar‑se no meio da neve até à minha porta, não posso dizer que gostasse de a encontrar congelada a alguns metros dela, e acredite que no meio de um temporal de neve isso pode acontecer.

            - Eu terei cuidado ‑ disse ela.

Ele resmungou, exasperado.

            ‑ Siga o seu caminho, Meritíssima Professora, que parece considerar ser seu dever ensinar todos os seres humanos que avista. - Ficou sério. ‑ Se surgir uma tempestade quando estiver perto da minha casa, fique à vontade se eu não estiver. Caso esteja, prometo portar‑me decentemente. ‑ Os seus olhos sorriam. ‑ Pelo menos, até a tempestade passar e a senhora poder fugir, se se sentir inclinada a fazê‑lo.

            ‑ É muito amável da sua parte... ‑ Tapando o nariz com o cachecol, Susanna disse com voz abafada: ‑ Bom dia, Dr. Rawdon.

            Ele passou a mão pela sua madeixa desgrenhada numa mesura zombeteira.

            ‑ Adeus, minha linda senhora.

            Os olhares de ambos encontraram‑se e ficaram colados. Saltavam faíscas de um para o outro. Susanna sentiu o corpo muito pesado.

            Com um som abafado, Matt afastou‑se e Cav correu atrás dele.

            ‑ Vai embora, Hank! ‑ ordenou Matt bruscamente sem olhar para trás.

            Atónita, Susanna inclinou‑se para abraçar o cão, limpando as lágrimas, que eram um fogo gelado sobre as suas faces.

            ‑ Ele não precisa de ti, querido Cav, e de mim também não, de certeza!

 

            Após três horas de escrita e leitura em inglês, os Krauses reuniram‑se à volta da mesa grande em casa de Peter. O patriarca, Anselm, cujo rosto de pele curtida fazia o cabelo e a barba brancos parecerem ainda mais alvos, entoou uma oração longa e sincera.

            Não houve frivolidades à refeição, as vozes eram baixas e amáveis, enquanto doze pessoas dedicavam a sua atenção a malgas de sopa quente ‑ borscht, explicou Jacob ‑, pão de trigo estaladiço e suculentas bolinhas recheadas de queijo.

Susanna olhou em volta da grande divisão, que era simultaneamente cozinha, sala de jantar e sala de estar. Mesa e cadeiras eram simples e feitas à mão, provavelmente ali, mas um grande aparador de carvalho dourado trabalhado tinha o aspecto de ter sido afectuosamente polido por muitas gerações.

            O chão era de terra batida, mas embora os Krauses tivessem chegado já com o ano avançado, os telhados de colmo tinham sido substituidos por telhas de madeira e cada casa fora provida de um engenhoso fogão de tijolo encastrado na parede. Jacob disse‑lhe que no Outono tencionavam construir casas de madeira, incorporando os fogões e reutilizando as telhas de madeira.

            ‑ Também vai haver uma casa para Catherine e para mim - explicou com um orgulho acanhado ‑, depois casamos no Inverno.

            Um relógio, com sol, lua e estrelas girando, batia as duas horas da tarde quando Susanna se preparou para sair.

            Foi‑lhe posto na mão um cesto coberto com um pano de linho, e, sorrindo, Freda levantou o pano, revelando um pote de madeira com manteiga, uma bola de queijo e dois pães de trigo dourados e aromáticos.

            ‑ Isto é muita coisa! ‑ protestou Susanna.

            ‑ Nós estamos‑lhe muito gratos. Deixe‑nos demonstrá‑lo - disse Jacob.

            à excepção de Anselm, todos foram lá fora dizer‑lhe adeus, enquanto Jacob a ajudava a subir para a sua brilhante carroça verde. Val, que estivera a segurar os cavalos, entregou as rédeas a Jacob e partiram.

            No caminho, passaram por casa de Rawdon, que parecia estar a treinar um poldro alazão obstinado a obedecer à condução de uma corda. Tocando no seu boné de fazenda, Jacob sorriu tristemente.

            ‑ O nosso Valentine, quando não está em casa, é porque está em casa de Mr. Rawdon a ajudá‑lo a treinar os cavalos. Ele sempre gostou muito de cavalos. Lida muito bem com os nossos cavalos de trabalho, mas dos que ele gosta mesmo é dos rápidos.

 

SUSANNA ia passar com os Krauses a última manhã de sábado antes do Natal. Quando se aproximou, seguida por Cav, Val estava cá fora, perto de um celeiro, em cima de uma égua cinzento‑azulada de pernas claras.

A égua era tão bonita que, embora Susanna percebesse muito pouco de cavalos, parou a admirá‑la. Quando nessa tarde se preparava para partir, Jacob sorriu‑lhe e disse:

            ‑           Por favor, venha lá fora ver a surpresa que Valentine tem para si.

            Com o seu rosto magro iluminado, Val estendeu‑lhe as rédeas da égua.

            ‑           Por favor, professora - disse ele, orgulhoso. ‑ Esta é a Schatzie.

            ‑           Mr. Rawdon decidiu dar esta égua a Valentine como pagamento pela ajuda que ele lhe dá a treinar os cavalos ‑ explicou Jacob, sorrindo.

            ‑           Bem, professora ‑ gritou Val alegremente. ‑ Não... não precisa de vir a pé até nossa casa! Vem a cavalo. No meu cavalo, mem Schatz.

            O nome queria dizer "meu amor". Malvado Matt Rawdon! Que truque tão subtil! Mas como é que ela podia desiludir aquele prazer orgulhoso que estava estampado no rosto do rapaz? Subitamente, Susanna descortinou uma solução satisfatória.

            ‑           Val, eu gosto muito de vir e regressar na Schatzie, mas durante a semana não tenho tempo para a montar nem para tratar dela. Por isso, era melhor se a trouxesses à segunda‑feira e a levasses à sexta.

            ‑           Tem a certeza? ‑ perguntou o garoto com os olhos a brilhar.

            ‑           Absoluta.

            Val reflectiu por momentos.

            ‑ Quando eu disse a Mr. Rawdon o que ia fazer, ele emprestou‑me a sela. ‑ Enquanto Jacob ajudava Susanna a montar, Val fazia festas no pescoço da égua, dizendo: ‑ Vejo‑te na segunda‑feira, minha pequenina.

            Enquanto o grupo lhe dizia adeus, Susanna sentia‑se um pouco tensa na sela, mas ao fim de um quilómetro descontraiu‑se e começou a apreciar o passo balançante. Tencionava dizer a Matt Rawdon o que pensava do assunto, embora tivesse ficado sensibilizada pela preocupação dele. Quando passou pela casa de Matt, tentou avistá‑lo, mas não o vislumbrou.

            Ao aproximar‑se da escola, a égua empinou a cabeça e relinchou. Estava um cavalo cinzento em frente à cabana que, por sua vez, também relinchou, e Matt Rawdon avançou, sorrindo, sem receio nenhum de a enfrentar.

            ‑           Tem aí um bom cavalo, minha senhora.

            Susanna nem tentou reprimir o tom brusco.

            ‑           Havia de servir de muito a Val se eu ficasse com ela! Bom, pelo menos ele pode levá‑la e ficar com ela de segunda a sexta.

            ‑           Que senhora tão inteligente! ‑ exclamou ele com um piscar de olhos.

            Interrogando‑se se ele teria planeado que tudo se passasse exactamente daquela maneira, ela perguntou:

            ‑           Posso saber porque está aqui?

            ‑ Sabe desmontar, Miss Alden?

            - não sei.

            ‑ Venha até aqui a este tronco e experimente. Apoie o peso no pé que está no estribo, levante o joelho devagar e ponha o pé no tronco... isso mesmo.

            Em cima do tronco, Susanna ficava da altura dele e olhava‑o a direito. Era tão desconcertante que ela desceu para o chão.

            ‑           Agora, leve o seu cavalo para o celeiro e vamos ver se sabe tratar dele.

            Então ele viera para se certificar de que o seu cavalo era bem tratado! Um pouco ofendida, mas satisfeita por ele se preocupar assim com os animais, Susanna levou Schatzie para dentro do celeiro. Matt trouxe um cobertor velho e uma escova.

            ‑ Agora, enxugue‑a e eu ensino‑a a escová‑la. Olhou Susanna de soslaio. ‑ O melhor é tirar essa capa, senão daqui a bocado também precisa de uma escovadela.

            Depois de Susanna, finalmente, fazer tudo a contento de Matt, ele limpou a escova e pendurou‑a numa escápula.

            ‑           Acho que consegue desenvencilhar‑se. Afinal, só ao domingo é que Val não trata dela.

            ‑           Não fui eu que pedi o seu cavalo ‑ disse Susanna bruscamente, sacudindo, sem grande sucesso, os pêlos do seu vestido de lã.

‑           Leve‑o para casa se está assim tão preocupado com ele. Diga ao Val que eu sou demasiado tola para tratar de um cavalo, embora a maioria das pessoas pareça pensar que eu sou capaz de tomar conta dos filhos delas.

            A surpresa de Matt transformou‑se num grande sorriso.

‑           Vai com certeza oferecer‑me uma chávena de chá.

            ‑           Ainda tenho de acender o lume e aquecer a água ‑ desculpou‑se Susanna.

            ‑           Tomei a liberdade de lhe acender a lareira e de pôr a cafeteira ao lume ‑ informou ele. ‑ Bebo uma chávena de chá e vou‑me embora.

            ‑           Entre lá, então ‑ concordou ela, aceitando a promessa de Matt.

            Era agradável ser acolhida por uma lareira acesa, e não por um interior escuro e frio. Matt pôs mais combustível no lume e empoleirou‑se no baú, enquanto Susanna tirava um bocado do bolo de gengibre de Anna Krause, e quando a água ferveu, ela deitou‑a no bule da avó Alden.

            Enquanto o lume aquecia a sala, a presença de Matt fazia‑a aquecer por dentro. Sentia‑se tão feliz por estar com ele que desejou ardentemente que pudessem passar assim o tempo juntos, mesmo se ele não aprendesse a confiar nela o suficiente para a amar. Ela preferia ter a companhia dele do que ter tudo ‑ filhos, casamento, uma vida partilhada ‑ com qualquer outra pessoa. Quando Susanna lhe entregou a chávena de chá, as mãos de ambos tocaram‑se e uma chama doce, estonteante, saltou de um para o outro. Ela retirou‑se para a sua cadeira de baloiço com o chá.

            O silêncio adensou‑se. Apontando uma revista que estava em cima da mesa, Susanna comentou:

            ‑           Esta Atlantic que a minha tia me mandou tem uma história muito divertida de uma governanta escocesa que foi contratada para preceptora dos filhos do rei do Sião

            ‑           Bolas para o rei do Sião! ‑ Levantando‑se de repente, Rawdon parou uns momentos junto dela antes de alcançar a porta com uma única passada. - Está aí a beberricar o seu chá enquanto... Esqueça! ‑ O seu tom suavizou‑se. ‑ Desculpe, Susanna. Você não tem culpa. Eu devia conhecer‑me melhor. ‑ Fez uma festa a Cav, mas quando o cão começou a segui‑lo, ele ordenou firmemente: ‑ Fica aqui, Hank!

            ‑           Ele chama‑se Cavalier! ‑ Susanna continha as lágrimas. - Vá, desapareça, Matt Rawdon!

            Os olhos de Matt mergulharam nos seus. Ele deu um passo em frente. Susanna fechou os olhos. Ouviu‑se um suspiro rouco; ela ouviu passos rápidos a afastarem‑se e depois a porta fechou‑se com força.

            Susanna ficou a fazer festas na cabeça de Cav, e então as lágrimas brotaram.

 

            O PROGRAMA de Natal da tarde de sexta‑feira foi um grande êxito, mas quando os flocos de neve começaram a flutuar junto às janelas da sala de aula, as canções de Natal foram interrompidas. Entre votos de boas festas, as pessoas prepararam‑se e partiram para suas casas.

            ‑           Não se esqueça do nosso baile de Natal ‑ gritou Hettie Brown. - Vai o rabequista e dançamos a noite toda! ‑ Ignorou o fungar de desaprovação de Delia Taylor. ‑ Ase, não se esqueça de levar Miss Alden.

            ‑           Fique descansada ‑ respondeu Ase.

            Jenny foi à frente com os Browns, que prometeram não a deixar seguir para o Ace High se houvesse algum risco de a viagem ser arriscada. Entretanto, Ase preparou a parelha e Betty ajudou Susanna a preparar as coisas para a sua ausência.

            ‑           Que prendas tão bonitas que os garotos lhe trouxeram! - comentou Betty, admirando os presentes empilhados na secretária de Susanna, que incluiam lenços bordados de Sarah, doces de melaço dos Taylors, sapatos de contas de Ridge e de Val, um desenho a lápis de Schatzie de crina e cauda a esvoaçarem. ‑ Aquele miúdo

é mesmo um artista! ‑ disse Betty com admiração.

            ‑ Pois é. ‑ Susanna vestiu os seus agasalhos e pegou no saco. ‑ Creio que os Krauses não sabem muito bem o que lhe hão‑de fazer. ‑ Cav levantou‑se de onde estava, junto à porta, e sacudiu a neve quando saíam de casa e fechavam a porta.

            ‑ Minha querida ‑ disse Betty quando Ase se aproximava com a carroça. ‑ Lamento que Jenny não lhe tenha trazido qualquer coisa. Eu tentei que ela o fizesse, mas... bom, sabe como ela é.

            ‑ Sei, sei.

            Não valia a pena incomodar mais Betty dizendo‑lhe que Jenny tinha deixado em cima da sua mesa, por abrir, o pequeno presente que ela conseguira dar a cada criança, graças a Jem Howe, que lhe comprara em Dodge fitas de cabelo para as raparigas e pentes de bolso para os rapazes.

Magoara‑a mais o facto de Jenny ter desdenhado o seu presente do que não lhe ter trazido nenhuma lembrança. Na aula, Jenny era o mais obstinada possível. Susanna só esperava que ela não fosse assim tão grosseira com ela em frente de Ase, pois ele castigá‑la‑ia e estragava‑lhe as férias.

 

            A NEVE parou de cair antes da manhã do Dia de Natal e não tinha altura suficiente para impedir as pessoas de irem ao baile programado em casa dos Browns para a noite. Assim, os vaqueiros Tom Chadron e Bert Mulroy, empregados de Ase, estavam muito bem‑dispostos quando se juntaram à família para um pequeno‑almoço festivo que Betty preparara.

            Depois de Johnny ter espevitado o lume, Jenny distribuiu os presentes: chapéus novos para os empregados, um vestido de cetim cinzento para Betty, bolos de frutas e lenços para Susanna. Jenny dedicou a sua atenção ao monte de prendas que o pai lhe comprara. Ase foi ao hali e regressou com um grande globo, muito bonito, assente sobre um pé de latão.

            ‑ Isto é para si e para a escola ‑ disse ele, rodando lentamente a esfera. ‑ Aqui estão as cordilheiras todas enrugadas, os desertos cor de areia e as florestas verdes.

            ‑ E o globo melhor e de mais fácil leitura que já vi em toda a minha vida ‑ comentou Susanna, encantada. ‑ As crianças vão adorar.

            Ase olhou para Johnny.

            ‑ Se queres levar a carroça para casa dos Browns, o melhor é sairmos por volta das três.

            ‑ Esperemos que haja muitas raparigas solteiras ‑ disse Tom, que logo corou ao levar um pontapé de Bert. ‑ Desculpe, minha senhora ‑ gaguejou ele. ‑ Claro que a senhora é a mais bonita de todas elas, mas... - Bert deu‑lhe outro pontapé ainda com mais força.

            ‑ Não precisa de pedir desculpa, Tom. ‑ Susanna riu‑se. Ela não conseguia resistir a uma atrapalhação de cara séria. ‑ Se esperar mais uns quatro ou cinco anos, Sarah e Charlotte ficam na idade casadoira.

            Jenny, exibindo uma gargantilha de coral, declarou com ar importante:

‑ Daqui a quatro ou cinco anos, eu também já sou crescida, mas vou casar‑me com Ridge.

            ‑ Daqui a cinco anos, minha linda, ainda estás muito longe de casar com quem quer que seja ‑ comentou Ase com ar sombrio.

            Jenny levantou‑se de um salto, com os olhos a faiscarem.

            ‑ O pai acha... acha que eu sou um bebé. Obriga‑me a andar com aquela sela de amazona horrorosa e umas saias odiosas! ‑ O veneno dela virou‑se para Susanna. ‑ E ela... ela é má, detestável, e dá‑me más notas.

            ‑ Jenny! ‑ A voz de Ase parecia um trovão, mas ela já saíra porta fora.

            Mudos de espanto, ficaram todos a olhar uns para os outros. Bert e Tom decidiram sair. Johnny achou que o lume precisava de ser espevitado. Betty pegou no seu vestido novo e murmurou qualquer coisa acerca de ir prová‑lo. Mortificada, Susanna continha as lágrimas, mas o rosto largo e honesto de Ase estava tão alterado que ela sentiu mais pena dele do que de si própria.

            ‑ Ouça, minha senhora, não deixe que uma catraia obstinada lhe estrague o Natal. Bolas, se lida com dezanove miúdos, cinco dias por semana, não pode permitir que uma só garota a faça ficar abatida. ‑ Ele sorriu‑lhe. ‑ Venha, Miss Alden. Vamos levar o globo para o seu quarto.

 

            QUANDO pararam à porta da espaçosa cabana dos Browns, de telhas de madeira, Johnny ajudou Susanna e Betty a descerem e passou‑lhes as caixas de empadões e cestos de pães que Betty embalara; ele, por sua vez, desceu também da carroça com um grande tacho de esmalte com feijoada. Ase afastou‑se para desaparelhar os cavalos e conduzi‑los para um dos grandes celeiros. Hettie, com os seus olhos castanhos a bailarem, cumprimentou‑os a todos à porta e conduziu‑os à sala, que era aquecida por um fogão de um lado e do outro por uma lareira. Susanna viu que os convivas se espalhavam pelas três divisões. Aparentemente, não eram muitas as pessoas que partilhavam a convicção dos Prades, dos Taylors e dos Krauses de que dançar ao som dos acordes de um rabequista era pecaminoso; ou, se a partilhassem, pelo menos tinham decidido arriscar.

            Susanna só se apercebeu de que procurava Matt quando sentiu um grande desapontamento ao constatar que ele não estava lá ‑ desapontamento esse que foi aumentando de cada vez que chegavam mais pessoas. Devia ser ela a única pessoa que não tinha apetite, embora toda a comida estivesse deliciosa. Quando os pratos estavam quase a ser retirados, Seth Riley, um homem de pele curtida com uma massa desgrenhada de cabelo grisalho, subiu para uma cadeira alta. O seu arco tangeu as cordas, e os homens apressaram‑se a arrebatar as mulheres, que escasseavam.

            Quando aquilo que se assemelhava a uma multidão de homens ansiosos se dirigia a ela, Susanna esquivou‑se para um dos quartos, mas Ase seguiu‑a.

            ‑ Caso não saiba, é costume as mulheres dançarem a primeira dança com o homem que as trouxe.

            ‑ Eu não posso dançar com ninguém, Mr. McCanless. ‑ Num gesto defensivo, deitou a mão à seda preta e os olhos dele dilataram‑se.

            ‑ Peço desculpa. Esqueci‑me completamente. ‑ Começou a dirigir‑se à porta, mas, mudando de ideias, voltou para trás. - Ouça, Miss Alden, a senhora tratou do seu pai desde os seus, quantos... dezassete anos?

            ‑ Sim, mas não estou a compreender

            ‑ É só isto. Julgo que desde essa altura que respeitou o luto. Todos os dias. Creio que já é tempo de luto que chegue.

            Susanna ficou boquiaberta perante esta ideia surpreendente, e ele prosseguiu:

            ‑ Se não dançar, eu fico aqui a conversar consigo. ‑ Dirigiu‑se a ela. ‑ Miss Susanna, embora eu não veja um baile de Natal como uma ofensa à memória do seu pai, respeito que queira esperar um ano até permitir que alguém se aproxime de si. Quero apenas que tenha isto em mente quando utilizar aquele globo. ‑ Arrastava as palavras intencionalmente. ‑ Se o aceitar, eu quero dar‑lhe o meu mundo. - Afastando‑se da frente da porta, deu uma gargalhada. - Miss Alden, estava mais segura a dançar.

            Ase estendeu‑lhe o braço e, num impulso, Susanna enfiou o seu no dele. Ele tinha razão. Já respeitara suficientemente o luto.

            Sobrepondo‑se ao choro da rabeca, Seth gritava:

            ‑           Vamos lá, saracoteiem‑se! Balancem o vosso par, balancem‑no docemente! Manuseiem‑no, cachorrinhos, mexam os pés.

            Polcas, danças de roda, valsas. Susanna dançou até à exaustão.

Durante os breves intervalos em que Seth tinha de parar para descansar a garganta, Kermit cantava ao som da viola de Freck. A canção mais aplaudida e que até chegou a arrancar alguns gritos foi a que, segundo se vangloriou Kermit, a duquesa de Manchester cantara para a rainha Vitória e para o príncipe de Gales.

 

               "Ainda bem que combati os ianques,

               Só gostava que tivéssemos ganho,

              E não quero nenhum perdão

               Por nada do que fiz

               Trezentos mil ianques

       Caíram em solo do Sul,

               Limpámos trezentos mil

       Antes de nos conquistarem..."

 

           Susanna sentiu um aperto no coração. Um daqueles trezentos mil ianques era Richard, o seu Richard, morto quando tinha vinte anos!

                        Muitas pessoas repararam em Susanna a levantar‑se repentinamente. Ela dirigiu‑se para o meio da divisão.

                        ‑           Ah, Miss Alden... ‑ começou Kermit a dizer, corando. - Esqueci‑me completamente.

                        ‑           Uma bonita canção merece em resposta outra que também o seja, Mr. Brown ‑ disse ela, olhando para os Hardys e outros nortistas. ‑ Mr. Hardy, creio que sabe o Hino de Batalha da República.

                        ‑           Claro que sei. Do princípio ao fim.

                        ‑           Vamos cantá‑lo então.

                        Os colonos assim o fizeram, e os sulistas, todos os rancheiros e cowboys, ouviram e aguentaram‑se, mas quando acabou o coro de marcha final, Kermit disse secamente:

                        ‑           Se vão gritar o "Glória, aleluia!" pela União, acho que nós, sulistas, temos direito à "Bonnie Blue Flag".

Susanna sorriu‑lhe.

                        ‑           É melhor cantar que combater, Mr. Brown. Creio que já chegou mesmo a altura de eu falar da guerra na aula.

Ela riu‑se com uma felicidade que o fez pestanejar de espanto.

Ao cantar aquela canção, homenageando os seus mortos no meio dos ex‑inimigos, ela acabou o seu luto.

 

            SUSANNA receara falar sobre a guerra ‑ para ela só havia verdadeiramente uma guerra na aula de história da América. Mas, após as canções no baile do Natal, ficara suficientemente tranquila para acreditar que conseguiria fazer uma abordagem justa da guerra. Não havia maneira de se ensinar uma guerra terminada há tão pouco tempo, mas Susanna estava convencida de que o facto de se terem cantado canções de ambos os lados transformaria a amargura inflamada numa sinceridade saudável. Quando a escola reabriu depois das férias do Natal, Susanna mandou recados para casa pedindo aos homens que tinham combatido se não se importavam de, na sexta‑feira seguinte, contarem às crianças as recordações da guerra que considerassem apropriadas e de virem preparados para cantar.

            Chegado o dia, Prade foi o único cujos olhos brilharam ao falar das mortes. Os outros falaram emocionados dos camaradas feridos ou mortos; da dor e do choque perante os homens que tinham matado; da fome, da imundície, do terror; de batalhas que haviam sido terríveis, independentemente de terem sido ganhas ou perdidas; do alívio pelo regresso a casa, ainda que ‑ no caso dos sulistas para a derrota e para a reconstrução vingativa.

            Exceptuando Prade, tanto nortistas como sulistas falaram com a voz embargada e a conterem as lágrimas. Quando Will Taylor, o último a falar, gaguejava ao terminar, Ase comentou:

            ‑           Sabem, se não fosse pela pronúncia, não se sabia de que lado é que cada um de nós combateu.

            ‑ Lá isso é verdade ‑ concordou Will.

            Olhando de Will para Cash e Jem Howe, Ase disse:

            ‑ Creio que aqueles de nós que combateram têm muito mais em comum do que os que não o fizeram.

            E em seguida cantaram.

 

            QUANDO foi para casa dos Krauses, no dia seguinte, Susanna não viu Matt nem fumo a sair da sua chaminé. A casa estava com um ar tão deserto que ela sentiu uma onda de pânico antes de reparar que os cavalos lá estavam. Matt podia estar fora por uns tempos, mas desde que os cavalos lá estivessem, ele havia de regressar.

Os Krauses contaram‑lhe que, na véspera, ele pedira a Val para dar uma olhadela aos cavalos enquanto fazia uma viagem ao Texas.

            Texas! Susanna sentiu como que uma mão gigantesca a apertar‑lhe o peito. E se ele lá tivesse ido para fazer os preparativos para regressar? E se tivesse ido ver uma mulher? Susanna tinha a certeza de que fora essa a razão da viagem.

            Mas de que é que adiantava especular? Susanna só sabia que ele finha ido, e isso, para ela, era como se o Sol tivesse abandonado o céu.

 

SEGUNDA‑FEIRA de manhã o tempo estava invulgarmente ameno, mas por volta do meio‑dia o céu já estava encoberto e um vento norte cortante uivava. Fora tão repentino que Susanna receou mandar as crianças para casa. Em face da vaga gélida, os cavalos tinham sido abrigados no celeiro. Susanna mandou os rapazes mais velhos lá fora encher as manjedouras, prender cordas‑guias do celeiro à escola e fechar a pesada porta daquele. As outras crianças trouxeram combustível para dentro, empilharam‑no ao longo das paredes e encheram com água todos os baldes e uma tina.

            Quando acabaram estas tarefas, um granizo afiado como lâminas açoitava os rostos expostos, e Susanna apressou as crianças a entrarem.

            Continuou as lições até às 4 e 30. Nessa altura, as janelas estavam totalmente cobertas pelo granizo atirado pelo vento, que também se entranhara nas frinchas. Susanna serviu bolo de gengibre e chá.

            Enquanto misturava uma grande quantidade de passas numa panela de arroz cremoso, pensava como haveria de ser a disposição para as dormidas. As crianças, claro, dormiriam vestidas e com os casacos, tirando apenas os sapatos. As dez raparigas talvez conseguissem acomodar‑se todas juntas ao atravessado na cama, com um banco para os pés e pernas das maiores. As mesas podiam ser levadas para a frente da lareira, e juntamente com o banco de declamação, o da água e os restantes três bancos de sentar podiam, encostados uns aos outros, servir de cama para os rapazes. Cama essa que seria acolchoada com revistas, com o tapete e a cortina divisória. Susanna ficaria na cadeira de baloiço, embrulhada na capa e no xaile, e manteria o lume desperto.

            Utilizando todos os pratos e frigideiras que tinha, e com a ajuda das raparigas mais velhas, Susanna serviu feijão e nacos de um pão de trigo delicioso e depois as crianças tiveram direito a uma dose de pudim de arroz‑doce.

            Sarah lavou a louça e Cobie e Rosie limparam, enquanto Susanna, sentada na cadeira de baloiço, embalava num braço a sonolenta Magdalena e no outro Helen. Georgie e Freddie sentaram‑se no tapete aos pés dela, servindo‑se de Cav como almofada, e as outras crianças puxaram os bancos para junto da lareira, onde conseguiam ouvir Susanna, que contou todos os contos de fadas que sabia.

            à meia‑noite, Susanna mandou todos deitarem‑se. O vento uivava como uma alcateia, mas, surpreendentemente, ela conseguiu dormir até cerca das 6 horas, altura em que Val se levantou e lhe segredou que ia seguir a corda até ao celeiro para ver como estavam os cavalos. Dave e Ridge acompanharam‑no silenciosamente. Regressaram passados vinte minutos, dizendo que o gelo penetrara lá dentro e tinha uma altura de vários centímetros, mas que Os animais retiravam água dele e estavam bem; Dave tirou pazadas de gelo da porta até à arrecadação e Val trouxe mais combustível para dentro.

            Entretanto, as outras crianças levantaram‑se, bocejando e esfregando os olhos. Susanna pôs ao lume um tacho de papa de cereais, que, enriquecida com leite condensado e melaço, desapareceu até à última gota. Sarah presidiu ao alegre lavar de caras e mãos, enquanto Dave, Ridge e Val ajudavam a apertar sapatos, a pentear cabelos e encorajavam os mais pequenos a irem rapidamente à latrina antes que rebentassem. Mesas e bancos foram repostos nos sítios. Com a tempestade ainda a fustigar, Susanna anunciou o início das aulas com a campainha.

 

            DELEGANDO as chamadas em Dave e Sarah, Susanna foi pôr pão de milho no assador, reparando entretanto que Jenny estava de muito mau humor. Quando Sarah corrigia pacientemente as palavras que ela pronunciava mal durante a leitura, Jenny imitava‑a com um sorriso de escárnio. Susanna estava prestes a fazer‑lhe uma advertência quando ouviu Ridge dizer‑lhe:

- Não tens vergonha, Jenny?

            ‑ Ela não é a professora e tu também não! ‑ gritou Jenny com a voz trémula cheia de um ressentimento enraivecido. ‑ Quero lá saber que um mestiço goste mais de meninas da mamã e de holandeses do que de mim!

            ‑ Jenny! ‑ Susanna teve de reunir toda a sua força de vontade para não lhe dar um safanão. ‑ Ou pedes imediatamente desculpa a Ridge e a Sarah ou vais sentar‑te sozinha no meu quarto.

            ‑ Não peço desculpa a ninguém! ‑ gritou Jenny. ‑ Preferia... preferia morrer!

            ‑ Traz o livro de leitura e o caderno de ortografia e vem sentar‑te aqui ‑ ordenou Susanna. Todas as frustrações por que passara a tentar conquistar aquela garota vinham agora ao de cima e explodiam. ‑ Vou dizer ao teu pai que o melhor é não vires à escola. Tu não me deixas ensinar‑te e eu estou farta e cansada de tentar, Jenny.

            Pálida, Jenny agarrou nos livros e, com passos pesados, dirigiu‑se para o quarto de Susanna, empurrando a cadeira da secretária da professora para um canto. Ao almoço, recusou‑se a comer, e Susanna, sentindo‑se um completo fracasso, não insistiu com ela.

            Durante a hora do almoço, Jenny desapareceu, escapulindo‑se certamente quando alguém foi buscar combustível. Só quando observava os alunos a sentarem‑se nos seus lugares, depois de ter tocado a campainha, é que Susanna reparou que Jenny não ocupara o seu e olhou para o canto do quarto.

            Estava lá a cadeira, mas Jenny não.

            ‑ Jenny! ‑ chamou Susanna. Engoliu em seco e perguntou aos garotos: ‑ Viram a Jenny? ‑ Quando a confusão irrompeu, ela esforçou‑se por controlá‑la. ‑ Sentem‑se, meninos! Sarah e Dave ficam a tomar conta e não deixam ninguém sair daqui. Talvez ela esteja escondida no celeiro. ‑ Dave pegou no braço de Susanna quando esta se dirigia para a porta.

            ‑ Deixe ir antes o Ridge, o Val e eu.

            Susanna mal respirou durante a eternidade de tempo que passou até os rapazes regressarem.

            ‑ Ela não está lá ‑ disse Dave num tom sombrio ‑, mas o cavalo dela está. Também não está na arrecadação. Com a corda do celeiro, fomos à procura das latrinas e demos com elas, mas ela também lá não estava. ‑ Ele fez um gesto de impotência. ‑ Ela não está em sítio nenhum, a não ser algures no meio da tempestade

            ‑           O que nós temos de fazer - disse Ridge ‑ é atar as cordas uma à outra e andarmos até onde elas derem, movendo‑nos em círculo. Freck e eu temos cordas nas nossas selas, podemos também juntá‑las às outras.

            Cada segundo era uma agonia enquanto Dave e Ridge foram com dificuldade até ao celeiro e regressaram com as cordas. Depois de Freck e Val atarem as cordas todas umas às outras, conseguiram cerca de uns cento e vinte pés de corda.

            - Espaçamo‑nos ao longo da corda - disse Dave, pegando na ponta. ‑ Assim, é mais provável encontrarmos Jenny, se ela estiver caída.

Frank, sem dizer nada, pegou na corda. Ridge imitou‑o e seguiram‑se‑lhe Val, Freck e Ethan. Susanna pegou na corda a uns vinte pés do sítio onde ela estava presa à porta.

            ‑ Fique cá dentro, Miss Alden ‑ disse Dave enfaticamente.

            ‑ Não posso. ‑ Susanna observava os rapazes, que se preparavam para enfrentar a violenta tempestade de gelo pulverizado.

            ‑ Eu vou em direcção ao celeiro ‑ disse Dave, com o barrete de lã enfiado até às sobrancelhas. ‑ Quando a corda chegar ao limite, começo a rodar para sul e, assim, ficamos com o vento pelas costas. Acho que não nos conseguimos fazer ouvir, por isso, se alguém encontrar Jenny, dá três puxões à corda. E se começarem a ficar com os dedos dormentes de frio, regressem à escola pela corda. Antes de sairmos, cubram bem a cara com o cachecol até acima do nariz.

            Dave abriu a porta. Os rapazes e Susanna saíram a correr, fechando logo a porta atrás deles. O vento frio fustigante e o gelo que picava e cegava fizeram cortar a respiração a Susanna, mesmo sob a protecção do grosso cachecol de lã; baixou a cabeça e avançou a custo. "Preferia morrer!" Susanna, atormentada, ouvia em eco as palavras de Jenny. Jenny amava o seu cavalo e podia não ter querido expô‑lo ao perigo. Ou podia ter saído guiada por um grito de desespero infantil do tipo "Hão‑de arrepender‑se quando eu morrer."

            Cav saíra atrás de Susanna. Ela sentiu‑o a roçar‑lhe as saias e rezou para que ele não se afastasse e não se perdesse.

            A corda esticou‑se e depois começou a descrever um círculo na direcção oposta à do vento. Virando‑se com esforço, Susanna seguiu‑a. E se acabassem de descrever o círculo sem encontrarem nada? Susanna estava decidida a não permitir que nenhum dos rapazes gelasse nem perdesse mãos ou pés. Quando terminassem o círculo, obrigá‑los‑ia a entrarem na escola, mas ela não podia abrigar‑se enquanto Jenny estivesse lá fora.

            Açoitada por rajadas que sistematicamente a faziam cair de joelhos, ela sentia‑se num mundo cego e sinistro de gritos lamuriantes. Os seus pés estavam uns trambolhos sem sensibilidade e cada passo era uma investida contra o vento. A corda. Tinha de segurá‑la. Onde estava Cav? Seria ele que estava a ladrar no meio do vento? Tentou apurar o ouvido, mas era inútil. O facto é que Cav já não ia a seu lado. Mas eis que ali estava ele outra vez, agora a abocanhar‑lhe a

capa, tentando puxá‑la para trás. Onde quer que Cav estivesse a querer levá‑la era provavelmente fora do alcance da corda. Ela não queria que os rapazes se arriscassem. Tinha de confiar que Cav a conduziria de regresso à escola e que agora, Deus o permitisse, a conduziria a Jenny.

            Respirou fundo e largou a corda.

            Encontrava‑se no meio de um vazio fustigante e cortante, deslocando‑se com dificuldade por entre montes gélidos, com Cav empurrando‑a.

            O cão parou. Susanna embateu numa coisa. Curvando‑se para a frente, enterrou as mãos dormentes em vários centímetros de altura de partículas de gelo e encontrou um volume; puxou‑o para cima e percebeu que era Jenny, que não reagiu quando Susanna a chamou pelo nome.

            Arrastando o corpo com força no meio das rajadas, Susanna ia quase dobrada a meio, puxando a criança enquanto Cav as rebocava.

            Pareceu‑lhe que passara uma eternidade. A certa altura, tropeçou numa coisa... em alguém: era Val, que ia a chegar à porta da cabana. Sem saber bem como, ainda a arrastar Jenny, Susanna entrou aos tropeções e foi agarrada.

            Sarah agitava‑se à volta dela enquanto as suas pestanas cheias de gelo se descolavam e ela olhava em redor para contar os rostos tapados e descorados dos rapazes. Estavam todos a salvo! Dave pegou em Jenny enquanto Sarah sacudia o gelo pulverizado que ela tinha em cima. Inclinando‑se junto de Jenny, Susanna ouviu uma respiração fraca.

            - Temos de aquecê‑la imediatamente. Sarah, tu, a Rosie e a Berenice tiram os vestidos e os sapatos e deitamos Jenny no meio de vocês.

            - Funcionamos como botijas de água quente ‑ explicou Sarah às garotas mais novas enquanto as levava para o quarto, onde Dave estava a tirar cuidadosamente os sapatos a Jenny.

            Susanna e Sarah despiram Jenny até à camisola interior, e Dave saiu do quarto para ir tomar conta dos outros.

            Susanna encostou a palma da mão ao rosto pálido de Jenny: estava a recuperar. Aninhando a garota no meio de Rosie e Berenice, Susanna segurou nos cobertores enquanto Sarah entrava na cama e envolvia Jenny com os braços, de tal forma que ela ficou completamente envolta pelas colegas.

            A seguir, Susanna fez chá e serviu várias chávenas a cada um dos rapazes, que tiritavam junto à lareira. Sempre atenta a Jenny, levantou os cobertores para lhe ver a cara. Estava menos pálida e tinha os lábios mais cor‑de‑rosa.

            ‑ Jenny ‑ chamou Susanna. ‑ Jenny, estás a ouvir‑me?

            As pestanas douradas agitaram‑se. A garota gemeu; a seguir, os olhos azul‑escuros abriram‑se lentamente. Demoraram uns instantes a fixarem‑se em Susanna.

            ‑ Foi... foi a senhora que me encontrou.

            ‑ Foi Cav que te encontrou ‑ respondeu Susanna, afagando o cabelo dourado.

            ‑ Foi a senhora.

            ‑ Não. Fomos todos nós. ‑ Susanna explicou‑lhe que Ridge tivera a ideia de atar as cordas e que os rapazes se tinham distribuído para descreverem o círculo.

            Jenny sentou‑se e o seu olhar passeou‑se pelos colegas, que se aglomeravam aos pés e aos lados da cama.

            ‑ Preocuparam... preocuparam‑se comigo ‑ sussurrou ela. As lágrimas brilhavam‑lhe nos olhos. ‑ Eu fui tão má... especialmente para ti, Val, e para ti, Ridge!

            Ridge disse com um ar grave:

            ‑ Sabes, Jenny, Miss Alden largou a corda para te procurar.

            A cor afluiu ao rosto de Jenny. Ela ergueu o queixo e olhou para Susanna.

            - Quando me escapuli lá para fora, estava tão furiosa consigo que só queria fazer que se arrependesse e causar problemas. Mas passado pouco tempo de estar no meio da tempestade, percebi que não queria morrer. Gritei e tentei regressar, mas não consegui encontrar o caminho. ‑ Soluçou. As lágrimas brotaram e correram‑lhe pela cara abaixo. ‑ Desculpe... desculpe, por favor. Se... se não me quiser na sua escola, Miss Alden, eu digo ao meu pai para não me mandar vir.

            Susanna sentou‑se e abraçou Jenny.

            ‑ Nós queremos‑te cá, minha querida. Todos nós te queremos connosco.

POUCAS horas depois, a tempestade amainou, mas o vento ainda estava demasiado forte para ser seguro viajar, por isso Susanna e as crianças passaram aquela noite como tinham passado a anterior. Aproveitando uma oportunidade junto do balde da água, Susanna disse a Frank:

            - Foste muito corajoso e simpático ao ajudares a procurar Jenny.

            Ele encolheu os ombros e replicou:

            ‑ Não queria que os outros pensassem que eu tinha medo de ir lá fora. ‑ Antes de Susanna ter tempo de dizer o que quer que fosse, ele afastou‑se.

            No dia seguinte, o Sol ergueu‑se numa explosão de brilho feérico. Ao meio‑dia, as crianças fizeram uma família de bonecos de neve. Jenny não saiu; ficou ao pé da lareira numa atitude de submissão.

            A maioria dos pais apareceu logo ao princípio da tarde, sendo o primeiro Ase McCanless.

            ‑ Eu sabia que manteria os miúdos aqui encurralados e que tinha comida e combustível que chegassem ‑ disse ele a Susanna, observando com alguma surpresa o fervoroso abraço de Jenny. - Espera lá, querida. O que é que te deu?

            ‑ Oh, pai! Eu... eu fui tão má! E teria morrido gelada lá fora se Susanna não tivesse largado a corda...

            Ase olhava dela para Susanna.

            ‑ Como é que foi isso?

            Jenny despejou a sua história, e Ase ajoelhou‑se para a deixar soluçar no seu ombro. Depois de ela se acalmar, ele levantou‑se e olhou para Dave.

            ‑ Obrigado, filho ‑ disse Ase. ‑ E a ti, Frank, e a ti, Val, e a Freck e a Ridge. Estou‑vos muito grato. ‑ Abanando a cabeça, murmurou a Susanna: ‑ Não sei como é que alguma vez vou conseguir retribuir‑lhe, Miss Alden. Mas deve compreender o que sinto.

            ‑ Compreendo. ‑ Ela também tinha os olhos enevoados. ‑ Eu também me regozijo de a tempestade ter acabado e todos estarem bem.

            Will Taylor e Saul Prade chegaram quase ao mesmo tempo, quando Luke Tarrant subia a colina. Kermit Brown trouxe o seu cavalo por entre os montículos de neve. Jacob veio num cavalo de trabalho.

            ‑ Nós vivemos tão perto que o meu pai nem se preocupou em vir ‑ foi o comentário improvisado de Dave sobre a notória ausência de Cash.

            Na manhã seguinte, os Hardys não foram à escola, mas Jem Howe chegou a cavalo quando Susanna tocava a campainha. Desmontou e, com os seus olhos cinzentos cheios de preocupação, disse que Cash fora à cidade no dia da tempestade e não regressara. Depois de ter ido a casa dos Hardys na véspera, de manhã, para saber como estava a família, Jem fora à procura de Cash.

            Encontrara‑o à noite, já tarde, com uma das mãos a sair de um monte de gelo e o cavalo a mordiscar a erva liberta de neve. Afinal, a tempestade fizera uma vítima.

 

            Os DIAS sucediam‑se, aumentando, e Janeiro deu lugar a Fevereiro. Susanna ouvia as notas melodiosas dos pássaros da pradaria.

à medida que a terra degelava, os agricultores começaram a cortar a erva com as suas juntas de bois. As grandes corujas começaram a fazer os ninhos, e Matt Rawdon continuava sem regressar.

            Foi no último sábado de Fevereiro, o último dia que os Krauses podiam dispensar ao estudo, que, ao dirigir‑se para casa deles montada na Schatzie, Susanna viu fumo a sair da chaminé de Matt. Aproximou‑se com uma mistura de alegria e nervosismo. Teria regressado sozinho? O que teria acontecido no Texas? Estava a pensar se devia ou não parar quando a porta se abriu e ele se lhe dirigiu, com a sua cabeça preta inclinada.

            - Então, Miss Alden ‑ saudou ele, depois de se baixar para afagar Cav, que correra alegremente ao seu encontro. ‑ Ouvi dizer que domesticou a mal‑humorada da Jenny e se transformou em heroína local.

            Ferida pelo tom escarnecedor dele, Susanna replicou duramente:

            ‑ Eu tenho dito sempre a toda a gente que foi Cav que encontrou Jenny.

            ‑ Mesmo assim, creio que ela agora a acolheria bem como madrasta.

            ‑ Quanto a isso, não faço a mínima ideia, Dr. Rawdon.

- Devo então concluir que Ase McCanless não se

aproveitou da docilidade de Jenny para insistir no seu pedido?

            ‑ Talvez o senhor não esteja recordado, mas as mulheres de luto não aceitam propostas de casamento.

            ‑ Bom, então, visto não ter de procurar para já uma prenda de casamento para si, deixo‑a partir para os seus alunos de sábado.

            ‑ Espere! ‑ gritou ela quando Matt se virou para se afastar. - Porque é que está tão preocupado em saber se Mr. McCanless me propôs casamento?

            Ele deu uma grande passada na direcção de Susanna antes de dizer:

            ‑ Estava a pensar se estaria mais receptiva à proposta que lhe fiz no Inverno passado.

            Como é que era possível tanto atrevimento?! Engolindo lágrimas de raiva, Susanna tocou o flanco de Schatzie com o calcanhar

‑           uma coisa que nunca fizera ‑ e teve de deitar a mão à parte da frente da sela quando a égua largou a galope.

            Apesar de estar vexada pela arrogância de Matt, sentia‑se invadida por uma torrente de gratidão. Ele não voltara com nenhuma mulher.

 

            A ESCOLA acabava no fim de Março, e, para além de frequentar um curso de Verão para professores no instituto em Dodge City, Susanna tencionava fazer uma visita ao Ohio.

            Isso podia ajudá‑la a pensar em Matt com um certo distanciamento. O grupo de administradores, com o voto contra de Prade, já lhe oferecera um novo contrato para o ano lectivo seguinte. Ela queria ensinar aquelas crianças, a quem se afeiçoara muito. Mas de certa forma era uma loucura, pois não imaginava conseguir interessar‑se por outro homem estando num sítio onde, mesmo que só ocasionalmente, avistasse Matt Rawdon.

            Seguindo este ponto de vista, quando a escola acabasse, ela devia era embalar as suas coisas e procurar uma escola bem longe da de Mason‑Dixon. E, no entanto... um ano. Conseguia de certeza aguentar mais um ano. Aquela imensidão de pradaria, aquelas pessoas, tinham‑se tornado suas. Se ao menos ela não amasse um homem com uma amargura tão grande em relação ao passado que nem sequer queria deitar a mão ao presente.

NAS ÚLTIMAS semanas, Susanna intercalava as lições com os preparativos para o final do ano lectivo, para o grande programa de encerramento. A comunidade inteira chegaria a meio da manhã para assistir.

            Sarah e Berenice escreveram uma peça, uma versão simplificada do Sonho de Uma Noite de Verão. Com a ajuda das garotas mais velhas, Susanna arranjou trajes: túnicas de serapilheira para as raparigas e capas tingidas de um tom esverdeado para os rapazes. Betty contribuiu com papel dourado para os diademas e as varinhas de condão das fadas. Ridge fez uma cabeça de burro oca com couro cru esticado sobre uma estrutura de madeira de salgueiro almofadada com erva e com uma crina de pêlo verdadeiro.

            No grande dia, quando cavalos e carroças começaram a chegar, os bancos foram levados para o exterior para os espectadores se sentarem, e a peça foi representada com a cabana como pano de fundo.

            Freck, enfiado na cabeça de burro, arrancou explosões de riso, e Charlotte fez o papel de Titânia. Jenny e Val encarnaram burlescamente os amantes atrapalhados, enquanto atenienses e fadas desempenhavam os seus papéis. Shakespeare não teria reconhecido o diálogo, mas a representação foi estrondosamente aplaudida.

            Para concluir, Susanna entregou os relatórios de avaliação a cada aluno e agradeceu aos pais a sua colaboração e compreensão.

            As tábuas dispostas sobre as carroças vergavam sob o peso da comida, e depois de todos terem a barriga cheia, Freck pegou na viola e remataram com canções.

            Crianças, pais e amigos começaram a debandar, e Matt Rawdon, montado em Saladino, voltou atrás, aproximando‑se de Susanna quando ela lhes acenava.

            ‑ Muito bem, Miss Alden. ‑ Habituada ao tom de sarcasmo dele, Susanna ficou surpreendida por não o detectar. ‑ Um último dia de escola muito satisfatório. Ouvi dizer que parte em breve para o Ohio.

            ‑ Logo que acabe de organizar aqui os meus relatórios, Dr. Rawdon.

            ‑ Posso levá‑la ao comboio? ‑ perguntou ele.

            ‑ Não é da sua responsabilidade. Estou certa de que algum dos administradores se oferecerá para o fazer.

‑ Sem dúvida. Mas permite que seja eu a levá‑la? Cav pode ir também e despede‑se de si. Suponho que estava a fazer tenções de o deixar comigo.

            ‑ Tencionava pedir‑lhe, sim.

            ‑ Óptimo. Então, quando quer que a venha buscar? Daqui a quatro dias? Uma semana?

            ‑ Uma semana, caso tenha a certeza...

            ‑ Tenho. ‑ Levou a mão ao chapéu e afastou‑se.

            Johnny levara Betty para casa na carroça enquanto Jenny fora em corrida com Freck e Dottie, por isso Ase foi a única pessoa a ficar na escola. O seu rosto largo e bronzeado tinha uma expressão determinada quando disse:

            ‑ A escola acabou, Miss Alden. Já não é professora. Eu já não sou o principal administrador. ‑ Ele fitou o vestido verde‑escuro de Susanna. ‑ E a senhora já não está de luto.

            Os olhos azuis perscrutaram‑na de uma forma que a fez corar um pouco, mas não encontraram o que procuravam. Ase encolheu os ombros.

            ‑ Espero que permita que eu a leve à cidade quando partir para o Ohio.

            O rubor das faces de Susanna intensificou‑se.

            ‑ É amável da sua parte, muito amável, mas o Dr. Rawdon já disse que me levava. ‑ O olhar de Ase perscrutou‑a ainda mais intensamente, de tal maneira que Susanna sentiu necessidade de desviar o seu. Ele abanou a cabeça.

            ‑ O doutor é boa pessoa, mas, somando coisas aqui e ali, as pessoas pensam que ele veio para cá porque a mulher de quem estava noivo ficou horrorizada com aquela mão dele. Uma coisa é certa: ele tem muito má impressão das mulheres. Pode ser que ele a ame, Miss Alden, mas nunca vai ter confiança em si.

            Ardendo de humilhação, Susanna reuniu todas as forças para não chorar. Mas o tom de Ase era compreensivo e de genuína preocupação, e as lágrimas dela transbordaram, fazendo‑a virar‑se de costas. Ele tomou‑a nos braços.

            ‑ É um grande azar, minha querida. Mas, ouça, não é o fim do Mundo. Os corações são difíceis de entender. Quando a minha mulher morreu, eu pensei que nunca mais me interessaria por outra mulher e, afinal, aqui está você!

Depois daquelas palavras, ela soluçou ainda mais, lamentando por ambos não amar. Ele continuou a abraçá‑la até ela começar a fungar e se afastar embaraçada. Em seguida, segurando‑lhe nos ombros, manteve‑a assim à distância dos seus braços esticados, e os seus olhos azuis intensos, embora estivessem sérios, estavam também alegres.

            ‑ Se me der uma oportunidade, eu creio que consigo fazer que me ame, Susanna. Mas se não conseguir... Bem, quando eu vir que já não vale mesmo a pena tentar, então, minha querida, engraxo as botas, penteio‑me bem e parto à procura de alguém que consiga amar‑me.

            Afastando‑se dos braços dele, Susanna ajeitou o cabelo.

            ‑ Uma decisão muito pragmática e muito louvável, Mr. McCanless.

            O sorriso dele alargou‑se. Meteu a mão num bolso interior do colete e tirou o que parecia ser um bilhete de comboio.

            ‑ Os administradores acharam que merecia um bónus. Já que precisamos de importar uma professora, o mínimo que podemos fazer é pagar‑lhe as viagens de ida e volta.

            Parecia justo. Depois de ponderar, Susanna agradeceu‑lhe e aceitou o bilhete com um sorriso. Dirigindo‑se em grandes passadas para o seu cavalo, Ase gritou por cima do ombro.

            ‑ Se quiser que eu vá buscá‑la a Dodge, escreva‑me a dizer. - Virou‑se para lhe acenar e arrancou com o cavalo.

            Susanna entrou na cabana e reparou então numa caixa coberta de chita engelhada que estava em cima da sua secretária. Tinha um cartão que dizia: "Para a nossa querida Miss Susanna Alden, de todos nós!"

            Quando tirou a tampa, saltaram papéis dobrados. Num bocado de cartão, Val desenhara Susanna de pé junto ao globo. Havia cartões ou cartas de todos os alunos ‑ algumas com várias páginas, outras, como, por exemplo, a de Frank, muito curtas: "É muito boa professora. Espero que volte." E Rosie escrevera: "Eu gosto da mãe, do Dave, de Ethan e de Georgie, e gosto de Deus e de Miss Alden."

            Susanna riu‑se, mas em seguida, sentindo‑se abatida, chorou. Faltavam seis meses para a escola recomeçar. Parecia uma eternidade.

 

MATT veio pouco depois do nascer do Sol, exactamente uma semana após o dia do encerramento das aulas, franzindo o sobrolho ao ver simplesmente um saco e uma trouxa grande.

            ‑ Deve estar a esquecer‑se de um baú ou de uma mala, Miss Susanna.

            ‑ Não. ‑ Deitou um último olhar às duas divisões. Virando‑se para Matt, surpreendeu‑o a observá‑la de uma maneira que lhe acelerou as pulsações. Apressou‑se a sair e disse um pouco ofegante: - Tenho que fazer muitas compras. ‑ Economizara os salários quase por inteiro, o que era uma sorte, pois estava farta das suas indumentárias insípidas. ‑ Além de que detesto as minhas roupas e vou comprar algumas.

            Ele assobiou a Cav para entrar na carroça e depois pegou em Susanna. Por instantes, os rostos de ambos ficaram perigosamente próximos e ela sentiu‑se a desfalecer, recordando aquele único beijo brutalmente doce. Os olhos dele tocaram a boca de Susanna. Matt deu a volta e subiu para o lado dela.

            ‑ Faz‑me um favor?

            ‑ Conforme ele for ‑ respondeu ela com uma ligeireza forçada.

            ‑ Compre um vestido da cor do céu num dia límpido como o de hoje... que seja solto e gracioso. É tão fácil usar roupas bonitas como deselegantes.

            ‑ Então eu sou deselegante?

            - Não é?

            Era exactamente como ela se sentia, mas ser acusada disso era sufocante. Antes de ela conseguir pensar numa resposta à altura, ele escarneceu da sua touca castanha.

            ‑ E, por amor de Deus, tire essa coisa. Parece um frade.

            ‑ Dr. Rawdon, se faz tenções de me criticar durante todo o caminho até Dodge, por favor, deixe‑me em casa dos Tarrants e eu peço a Mr. Tarrant o favor de me levar.

            ‑ Tirou a touca no dia em que eu a trouxe de Dodge ‑ disse ele baixinho. ‑ Foi aí que eu percebi que havia mais qualquer coisa em si para além de ser uma empertigada e decente professora ianque, que é cuidadosa com...

            ‑ Roupas, dinheiro e reputação! ‑ rematou Susanna.

            ‑ Exactamente - confirmou ele a rir.

            Ela ficou desarmada. Afinal, porque não deixar o vento afagar‑lhe o cabelo naquele último dia? Desatou as fitas da touca, soltou o cabelo enrolado, deitou a cabeça para trás e riu‑se. Estar na companhia de Matt, rolando pela pradaria, enchia‑a de alegria.

            ‑ Tem um riso doce, Susanna. Eu não o ouvi muitas vezes.

‑ Isso ‑ replicou ela de bom humor ‑ é porque o senhor está sempre a dizer‑me o que hei‑de fazer, a arreliar‑me por ser ianque ou a persuadir‑me a ficar com Cav e a servir‑me de Schatzie. Eu já aprendi que consigo tenho de estar sempre de sobreaviso, Dr. Rawdon.

            A afirmação dela foi feita em tom de brincadeira, mas ele ficou tenso.

            ‑ Vamos fazer um acordo para durante a viagem, Susanna. Eu não me porto mal, por isso pode descontrair‑se, e você não me atormenta com o exercício da medicina. Aceita?

            ‑ Aceito. ‑ A seguir, hesitou. ‑ Posso perguntar‑lhe uma coisa?

            ‑ Desde que não seja porque é que eu não ando a remendar os meus semelhantes...

- Foi boa a sua viagem ao Texas?

            ‑ A viagem foi boa ‑ respondeu ele. ‑ Eu conto‑lhe quando estivermos a almoçar no Dodge House antes de a deixar no comboio. - Sem a deixar argumentar, Matt presenteou‑a com um sorriso de desafio. ‑ Posso perguntar‑lhe uma coisa?

            ‑ Pode perguntar. Eu é que talvez não responda.

- É justo. ‑ Ele virou‑se o suficiente para a observar de muito perto. ‑ Ase pediu‑a em casamento?

            O rubor de Susanna respondeu‑lhe, por isso ela limitou‑se a fazer um aceno de cabeça. As mãos dele crisparam‑se. Num tom deliberadamente casual, Matt indagou:

            ‑ O que é que lhe respondeu?

            ‑ Eu... eu recusei. ‑ O coração de Susanna batia descompassado.

            As mãos que seguravam as rédeas descontrairam‑se.

            ‑ Conhecendo Ase como conheço, creio que não foi a última vez que lhe fez a proposta.

Susanna tentou levar a conversa para a brincadeira.

            ‑ Ele informou‑me que, se eu não despertar para a minha sorte dentro de um período que ele considera razoável, procura outra. Creio que não é pela minha pessoa, é simplesmente porque ele está farto de estar sozinho.

‑           É pela sua pessoa, e.

            Matt lançou‑lhe um olhar que fez o coração de Susanna dar um salto. Era altura, mais do que altura, de mudar de assunto.

            ‑ Val anda demasiado ocupado com o trabalho da quinta para o ajudar a tratar dos cavalos?

            ‑ Ele anda a cortar erva. Andam os homens todos, excepto o velho Anseim. Aquela gente não trabalha à época, trabalha à década ou até ao século. É por isso que eles hão‑de durar.

            Durante o resto do caminho, falaram de vizinhos, dos cavalos de Matt e das crianças, deixando os temas perigosos em suspenso.

 

            SEIS MESES antes, Dodge City parecera‑lhe uma povoação provisória, com os seus edifícios de fachadas falsas. Mas Susanna não voltara a pôr o pé em nenhum aglomerado populacional desde então, por isso agora parecia‑lhe um turbilhão de actividade.

            Parando em frente do Dodge House, Matt prendeu os cavalos e ajudou‑a a descer. Entraram no hotel e sentaram‑se na sala de jantar, que tinha um aspecto opulento, com o seu lustre, toalhas brancas e baixela de prata cintilante. Em toda a sua vida, Susanna jantara fora muito poucas vezes. Aquilo devia ser uma festa, mas tentando preparar‑se para o que Matt tinha para lhe dizer, ficara sem apetite.

Olhou desamparada para a ementa.

            ‑ A senhora quer uma tosta escocesa ‑ disse Matt à empregada quando esta apareceu. ‑ Batatas fritas às rodelas, salada russa, tarte de limão e... ‑ Ergueu uma sobrancelha na direcção de Susanna. ‑ Querida, preferes Sauternes ou champanhe? Café, chá ou chocolate?

            "Querida" ‑ como se fossem casados. Seria deselegante discutir à frente da empregada, por isso Susanna limitou‑se a dizer:

            ‑ Oh, meu amor, acaba de decidir por mim, por favor.

            Nada afectado pela réplica, Matt prosseguiu:

            ‑ A senhora quer Sauternes e café. Eu quero o mesmo.

            A mulher, de meia‑idade, afastou‑se rapidamente, e Matt inclinou‑se para a frente.

            ‑ Susanna, podemos saborear a refeição e a companhia um do outro antes de eu lhe dizer o que preciso de dizer?

            ‑ Não! ‑ Ela começou a tremer.

            ‑ Oh, Susanna! Oh, meu amor

            Ele pareceu ficar tão abatido e tão cheio de remorsos que ela entrelaçou os dedos por baixo da toalha branca engomada e engoliu em seco com força.

            ‑ Diga‑me uma coisa. ‑ Ela já não conseguia dissimular por mais tempo. ‑ Vai regressar ao Texas? A sua... a sua noiva vem para cá?

            ‑ Nem uma coisa nem outra.

            O aperto que Susanna sentia nos pulmões e no coração diminuiu. Com um suspiro de alívio, disse então:

- Está bem. Vamos comer, beber e divertir‑nos.

 

            COM A CERTEZA de que nenhuma das coisas que mais receara iria acontecer, Susanna percebeu que estava mesmo com fome. A fra grante tosta com queijo abriu‑lhe o apetite para a salada e para as batatas fritas às rodelas grossas bem douradinhas. Matt divertiu‑a contando‑lhe histórias engraçadas da sua infância. O Sauternes encheu tudo de brilho e, sentindo‑se ligeiramente tonta, Susanna permitiu‑se imaginar que, quando a noite caísse, Matt voltaria a tomá‑la nos seus braços.

            Olhou para cima e deparou com os olhos de Matt fitos nela, que estava corada dos pés à cabeça, e pensou distraidamente que não devia ter bebido o segundo copo de vinho. Mas... sentia‑se tão deliciosamente feliz, tão leve, tão flutuante!

            Matt disse qualquer coisa muito baixinho, estendeu o braço sobre a mesa e pegou na mão dela.

            ‑           Susanna, o que eu tenho para dizer diz‑se rapidamente. A minha irmã, Amanda, implorou‑me que fosse a Dalías visitá‑la. Ela considera que eu estou no fim do Mundo e que devia voltar para lá e montar um consultório para "gente como nós". Tentei sossegá‑la, mas o meu verdadeiro objectivo era pedir à minha antiga namorada para me explicar francamente o que sentia em relação à minha mão.

‑ Susanna ia a dizer qualquer coisa, mas ele fez‑lhe sinal para se calar. ‑ Melanie chorou, disse que ainda me amava, embora esteja casada e tenha três filhos. Sentira vergonha de se retrair perante mim, por isso tentou esconder o facto quando eu regressei da guerra, mas da primeira vez que lhe toquei, ela desviou‑se. Explicou‑me que conseguia fechar os olhos e tentar não olhar para os meus dedos deformados, mas quando os sentiu tocarem‑lhe foi... Ela utilizou uma frase muito elucidativa: "Foi como se estivesse a ser agarrada pela mão de um cadáver."

            ‑           Matt, eu não sinto isso!

            ‑           Como é que sabe o que sentiria se eu lhe tocasse?

            O choque fez Susanna ficar sem fôlego, e, antes de ela dizer o que quer que fosse, Matt afirmou asperamente:

            ‑           Eu preferia morrer, Susanna, a vê‑la, a si, retrair‑se quando eu lhe tocasse ou, pior ainda, suportá‑lo de dentes cerrados.

            ‑           Eu amo‑o ‑ disse ela muito rapidamente.

            Não dissera aquelas palavras a nenhum homem desde que Richard partira para o seu regimento, havia já doze anos. Era como que um quebrar de laços muito apertados, e a seguir falou em voz baixa e devagar.

‑ Eu amo‑o, Matt.

            Por baixo da mesa, Susanna atreveu‑se a tomar a mão dele nas suas, mas ele retirou‑a logo, abanando a cabeça.

            ‑ Consegue aguentar tocar‑me nas cicatrizes, mas isso, minha querida, é muito diferente de senti‑las no seu corpo.

            ‑ Eu não compreendo - argumentou ela. ‑ Um dia pediu‑me para...

            ‑           Isso foi quando eu andava a tentar convencer‑me a mim próprio de que não estava apaixonado por si.

            ‑           E se eu tivesse aceitado a propósta?

            ‑           Tenho a certeza de que se retrairia, tal como Melanie. ‑ O tom de voz dele baixou. ‑ Mas já era demasiado tarde. Creio que foi demasiado tarde desde o momento em que você soltou o cabelo, deixando‑o esvoaçar, e se riu.

- Isso é malvadez, Matt Rawdon! Não me dar sequer uma oportunidade!

            ‑           Eu estou a dar‑lhe a melhor oportunidade possível: casar com um homem como Ase McCanless ‑ declarou ele bruscamente.

            ‑           Eu não vou casar‑me com Ase.

            ‑           Podia casar. Se eu me fosse embora.

            ‑           Não diga isso! Tem as suas terras e os seus cavalos. As pessoas precisam de si. ‑ Ela engoliu em seco. ‑ Eu vou‑me embora no fim do próximo ano lectivo. Até lá... Oh, Matt, quero vê‑lo às vezes, como durante este ano, mesmo sendo doloroso.

            Os olhos dele eram duas labaredas.

            ‑           Meu amor, vou fazer o melhor possível. ‑ Levantou‑se de repente e puxou a cadeira dela para trás. ‑ Vamos. É melhor irmos andando para a estação.

            O dia estava a acabar ‑ aquele dia doce e amargo, que ela jamais esqueceria, em que tivera a certeza de ser amada.

            Matt ajudou Susanna a procurar um lugar no comboio. Depois de enfiar a bagagem debaixo do banco, ele endireitou‑se. As lágrimas inundavam os olhos de Susanna e, ao pestanejar, uma delas caiu‑lhe pela cara abaixo. Matt susteve a respiração. A seguir, de repente, diabolicamente, abraçou‑a, beijou‑lhe a boca atónita, afastou‑se e fez‑lhe uma festa na cara.

            ‑           Boa visita à tua tia, meu amor ‑ disse ele num tom suficientemente alto para ser ouvido pelos homens que se encontravam ao fundo da carruagem. ‑ Eu cuido bem das crianças. ‑ Depositou‑lhe outro beijo na testa e seguiu pelo corredor antes de ela ter tempo para pensar na forma de o admoestar, sem revelar aos espectadores interessados que não havia crianças nenhumas e que ele não era seu marido.

            Apesar da desolação que ela sentia por se separar de Matt, tinha de sorrir perante a astúcia dele, que lhe permitira dar‑lhe um beijo de despedida. Susanna instalou‑se no lugar e virou‑se para a janela. Matt apareceu no seu campo de visão, seguido por Cav. Fora buscálo para o cão se despedir dela. O comboio roncou em movimento. Entre lágrimas e risos, Susanna acenou ao homem e ao cão enquanto os avistou e pensou como seria bom se, em vez de ir a caminho do Ohio, pudesse voltar para trás com eles, para uma casa na pradaria onde ficassem juntos.

 

            EM TOPEKA, mudou de linha e fez o resto da viagem numa carruagem‑cama, embora tivesse dormido pouco. Valia a pena, no entanto, ser abraçada e mimada pela tia e pelo tio, que a esperavam na estação.

            ‑           Bom, menina, emagreceste um bocadinho e tens a cara um pouco bronzeada, mas fica‑te bem. ‑ Os olhos perspicazes da tia Molhe avaliavam Susanna e ela sorria. ‑ Vamos embora. O jantar estará pronto depois de teres tomado banho e mudado de roupa.

            Após meses de vida numa cabana de chão de terra batida e de ser responsável por dezanove crianças, era tão delicioso como os cozinhados da tia Molhe ser acarinhada e viver numa verdadeira casa com soalho de madeira encerada, um telhado firme e muitas janelas.

            Os dias passaram depressa para Susanna. Assumiu o governo da casa e as compras tomaram‑lhe bastante tempo, tal como a procura das coisas que deixara embaladas e agora queria levar para o Kansas.

            O baú no seu quarto enchia‑se de dia para dia: caixas de lápis afiados para todos os alunos e um livro cuidadosamente escolhido para cada um para presente de Natal. Para prenda de casamento de Catherine e Jacob, Susanna descobriu, numa das malas onde tinha coisas arrumadas, um conjunto de pote para natas e açucareiro de cristal cor de rubi. Depois de guardar os blocos e lápis de desenho para Val, Susanna passou horas agradáveis a comentar com a tia os modelos da revista Harper's Bazaar e mais tempo ainda a escolher tecido para dois vestidos novos. Um seria de cetineta cor de azeitona, e o outro o que prometera a Matt ‑, azul‑celeste, de um tecido de algodão e lã às riscas. Um dos baús revelou uma musselina às flores e uma popelina cor de narciso que ela arrumara quando o pai morrera. Visto uma escola‑cabana não ser um lugar próprio para modelos sofisticados, os vestidos seriam de corte simples. Susanna economizou os seus fundos, já a escassearem, utilizando a máquina de costura da tia para fazer ela própria os vestidos.

            Naquela casa cheia de recordações antigas e desprovida de coisas que lhe fizessem lembrar Matt, Susanna, por vezes, conseguia passar uma hora ou mais sem pensar conscientemente nele, embora a sua presença fosse uma constante no fundo do seu pensamento

            Iria ele persegui‑la para o resto da vida?, interrogava‑se ela. E, no entanto, mesmo se fosse capaz de o esquecer, não queria fazê‑lo; recordá‑lo era doloroso, mas era também o seu maior prazer.

 

            O VERDE luxuriante da erva da pradaria no início de Abril empalidecera para os amarelos e castanhos suaves de Agosto quando Susanna a avistou com o entusiasmo do regresso a casa.

            Escrevera a Henry Morton dizendo que chegaria na véspera do curso do instituto começar, e ele foi esperá‑la ao comboio e levou‑a, a ela e à bagagem, para o Dodge House.

            ‑           Depois do curso, Mr. McCanless vem cá buscá‑la para a levar para a escola Mason‑Dixon. ‑ Morton olhou‑a de soslaio, com uma expressão benevolente. ‑ Ele foi peremptório.

            O curso foi absorvente: dois dias de comunicações feitas por professores do ensino secundário oficial e universitário. Talvez a faceta mais vantajosa tivessem sido as conversas com outros professores sobre problemas e soluções. Ficou a saber que tinha aliados na batalha de ensinar crianças em condições adversas.

            Na manhã seguinte ao fim do curso, Susanna desceu para a sala de jantar do hotel e deparou com Ase McCanless a beber café, olhando para a porta.

            ‑           Ora cá está! ‑ Levantando‑se, chegou junto dela em duas grandes passadas e pegou‑lhe nas mãos. Ela envergava o vestido cor de narciso, franzido nos punhos e no cabeção, e Ase assobiou baixinho. ‑ Diabos me levem se não está mais bonita do que nunca!

Sente‑se e tome o seu pequeno‑almoço. ‑ Conduziu‑a à mesa e puxou‑lhe a cadeira.

            Depois de Susanna pedir fritos de maçã e café, Ase contou‑lhe as novidades. Estavam todos bem. O trigo vermelho dos Krauses fora ceifado no princípio de Julho. Eles tinham dado um alqueire de sementes a quem queria, que foi toda a gente, excepto Saul Prade. O trigo, o milho e a cana normais tinham crescido bem, mas estavam agora a definhar por causa da seca.

            Embora Ase devesse saber que ela estava ansiosa por notícias de Matt, não se lhe referiu, e havia qualquer coisa nos seus modos que fez Susanna ter a certeza de que ele estava a esconder algo.

            Bebendo o café, ela fitou Ase e indagou:

            ‑           O senhor tem estado a dissimular qualquer coisa, Mr. McCanless. O que foi que não me contou?

            Ele pareceu ficar embaraçado.

            ‑           Eu... Bem... Ora bolas, Miss Susanna! Desculpe, mas é que a irmã do Dr. Rawdon, Miss Amanda, veio para cá para lhe tratar da casa, embora eu ache que o que ela quer realmente é convencê‑lo a voltar para o Texas. ‑ Ase suspirou. ‑ Ela é boa pessoa, mas é muito... determinada.

            Susanna quase deixou cair a chávena. Pousou‑a com cuidado, sentindo‑se por instantes incapaz de respirar. Apesar da decisão de Matt de não fazer amor com ela, inconscientemente Susanna tivera esperança de que se se proporcionasse uma oportunidade de ela lhe provar que a deformação dele não tinha qualquer importância.

            Controlando a voz para não lhe sair trémula, Susanna disse:

            ‑           Ter uma mulher para tratar dele deve ser uma variante confortável para o doutor. Mas não me parece é que ela goste da cabana.

            Ase sorriu.

            ‑           Mas eu ainda não contei tudo. Ela mandou construir uma casa. Contratou carpinteiros, mandou vir a madeira e a casa está quase pronta. Jem Howe diz que, quando ela apareceu com uma criada de fora, uma cozinheira e uma governanta, o doutor mudou‑se para o celeiro e deixou‑lhes a cabana.

            Imaginar uma dama sulista amontoada numa cabana com três serviçais parecia‑lhe tão burlesco que Susanna soltou uma gargalhada. Também era ridículo ela ter ciúmes daquela irmã, mas a verdade é que tinha mesmo.

COMO já acontecera noutras alturas de dor e desgosto, Susanna encontrou alívio na rotina diária. O Ace High fora o seu primeiro alojamento e foi muito agradável passar lá três semanas, partilhando tarefas e conversando com Betty, ouvindo as histórias de Johnny e passeando a cavalo com Jenny. Ase andava muito ocupado com a recolha do gado, por isso ela não o viu muito, mas na noite em que ela disse que tinha de ir para a cabana no dia seguinte para começar a preparar‑se para as aulas, ele perguntou‑lhe:

            ‑           Não mudou de ideias relativamente à escola? Nem... a outras coisas?

            Porque é que não conseguia amá‑lo, se gostava tanto dele? Era escusado. A vontade de ter um lar e constituir família tê‑la‑ia decerto feito aceitar a proposta de Ase se não tivesse conhecido e amado Matt.

            Fitando os olhos ansiosos de Ase, Susanna respondeu num tom triste, mas firme:

            ‑           Não, Mr. McCanless, não mudei de ideias.

‑           Não volto a importuná‑la, Miss Susanna ‑ declarou Ase. - Bom, tenho de ir a St. Louis começar a procurar.

            ‑           Boa sorte desejou‑lhe Susanna.

 

            NÃO HAVIA girassóis nem erva a balançar no cimo da cabana; Susana teve um momento de estupefacção até acreditar no que os seus olhos viam.

            ‑           A cabana tem um telhado de madeira. Um telhado a sério!

            Ase riu à gargalhada com a alegria dela enquanto a ajudava a descer da carroça.

            ‑           Não queria que voltasse a chover em cima de si nem dos miúdos. E também fica com mais claridade lá dentro.

            E ficava mesmo, apesar de, após os meses que estivera fora e da viagem sob o sol ofuscante, a cabana parecer tristemente escura a Susanna quando lá entrou. Depois de os seus olhos se habituarem à obscuridade, ela viu que o soalho estava bem varrido e o cesto cheio de combustível.

            Quando se voltou para agradecer a Ase, ele abanou a cabeça e disse:

            ‑           Dave ajudou o máximo que pôde a pôr o telhado. Eu disse‑lhe quando você vinha. Acho que só falta um balde de água.

Foi buscá‑lo enquanto Susanna aliviava o baú de livros, entregando‑os a Jenny, que viera no seu pónei. Com a ajuda de ambas, Ase levou o baú para dentro e as provisões que Betty preparara para o primeiro mês.

            ‑           Cheira‑me a pudim de chocolate ‑ disse Ase.

            ‑           Então vamos todos comer uma fatia ‑ retorquiu Susanna, rindo.

            E foi assim o seu regresso a casa.

 

            SUSANNA sentiu a falta de Cav enquanto fazia a cama, arrumava os livros e pendurava os vestidos. Ouviu barulho lá fora; como se o pensamento dela o tivesse chamado, Cav enfiou a cabeça por baixo da mão dela e encostou‑se às suas pernas com violentos abanares de cauda.

            ‑           Oh, Cav! ‑ Inclinando‑se, abraçou‑o. ‑ Cavalier!

            ‑           Ele chama‑se Harik. ‑ Matt estava do lado de fora da porta.

‑           Como está, Susanna?

            Sentindo‑se como se os seus ossos se tivessem desfeito e fosse cair como uma marioneta, Susanna endireitou‑se devagar.

            ‑ Eu estou bem, obrigada.

            Matt aclarou a voz.

            ‑           Presumo que já saiba que a minha irmã está cá. Teoricamente, para eu não viver numa miséria masculina, mas o que ela realmente pretende é convencer‑me a ir estabelecer‑me em Dalías a prescrever tónicos e poções sedativas às suas distintas amigas.

            ‑           Se assim é, parece estranho ter cá construído uma boa casa.

            ‑           Amanda é generosa e contribui com dinheiro para muitas causas louváveis, mas não tem a mínima nostalgia da miséria. - Fez um sorriso triste. ‑ Deu‑se a todo este trabalho para eu não poder recusar‑me a viver em casa dela, mas não consegue aguentar isto muito tempo. O Inverno deve ser o limite.

            "Nessa altura, estou eu para me ir embora", pensou Susanna desconsoladamente.

            ‑           Matt ‑ começou ela. ‑ Por favor, não podíamos...

            Ele levantou a mão deformada e estendeu‑a entre ambos.

            ‑           Susanna, meu amor, minha querida, eu sei que posso parecer cobarde, mas não quero arriscar‑me a casar consigo. Simplesmente, não me arrisco.

‑           Mas... mas não é preciso.

            Os olhos dele ficaram quase pretos.

            ‑           Acha que eu seria capaz de lhe arrebatar aquilo que alguns homens consideram o atributo mais importante de uma noiva, não lhe dando depois a protecção do meu nome?

            ‑ Mas eu amo‑o! Sou eu que estou a pedir‑lhe! Não fica a dever‑me nada.

            Ele virou‑se de costas.

            ‑ É tão mais corajosa que eu que me faz sentir envergonhado. Não falemos mais no assunto. Esta é a última vez que lhe chamo meu amor. Nem me atrevo a beijá‑la.

            Ele saiu com um andar de velho. Ela abraçou Cavalier, apertou‑o contra si e chorou.

 

            No DIA seguinte, Susanna foi visitar Margaret Hardy.

            ‑ Dave e Ethan estão a plantar o trigo vermelho que os Krauses nos deram ‑ disse ela. ‑ Têm trabalhado que nem uns homens, e claro que Dave quase... já fez dezasseis em Julho. O trigo deve estar pronto para ser ceifado em breve. ‑ Corou. ‑ Jem vai ajudar. Ele não quer que os garotos faltem à escola.

            Para uma mulher que tinha uma quinta e filhos, era aquele o tipo de cortejamento apropriado. Susanna pensou que Margaret casaria em breve e ficou contente por ela. Depois de anos de vida dura com um homem fraco, ela merecia alguém que se esforçasse por lhe dar uma boa vida.

            Em dias diferentes, Susanna visitou os Taylors, os Krauses e os Prades. Em casa destes últimos, encontrou a cabeça prateada de Laura inclinada sobre a máquina de costura e Sarah a coser à mão.

Os gémeos tinham ido apanhar ameixas e Frank, claro, estava nos campos com o pai.

            Já com catorze anos, Sarah estava da altura de Susanna; com o seu cabelo dourado preso com uma fita e os olhos verdes de pestanas escuras, a garota era deslumbrante. Laura cumprimentou Susanna efusivamente, mas pairava uma sombra nos seus olhos cor de violeta. Referiu‑se à prometedora colheita do trigo com esperança e receio.

            ‑           Agora que Mr. Prade ouviu dizer que os Krauses estão a construir casas de madeira, decidiu que nós também haveríamos de ter uma. Esta colheita significa tanto para ele que... Bem... ‑ Sorriu pouco à vontade. ‑ Parece um desafio ao destino.

            Quando Susanna se despediu, Sarah perguntou se podia acompanhá‑la durante uma pequena parte do caminho, e ambas as mulheres consentiram.

            ‑ Acabei o livro de leitura do sétimo nível durante o Verão - contou ela a Susanna enquanto caminhavam. ‑ E tenho estudado álgebra com o Frank.

            ‑ Isso é fantástico, Sarah. Pode ser que consigas acabar o oitavo nível e a escola na Primavera.

            - Ah, acha que consigo? Eu queria tirar o diploma de professora e arranjar uma escola.

            Não seria a primeira nem a última professora de quinze anos a ensinar numa escola de fronteira, mas Susanna ficou perturbada pelo desespero patente na voz dela.

            ‑           Porquê, minha querida?

            Baixando a cabeça, Sarah sussurrou:

            ‑           A senhora sabe que o meu pai espanca o Frank. A minha mãe sabe que o Frank é castigado, mas não sabe como... e nós não queremos que ela um dia venha a saber. ‑ Os olhos encheram‑se‑lhe de lágrimas. ‑ Eu tenho de tirar o Frank daqui! Ele agora comporta‑se como se estivesse morto por dentro e isso põe o pai louco. Eu tenho medo que aconteça qualquer coisa de terrível.

            As lágrimas inundavam o rosto de Sarah, e Susanna abraçou‑a e indagou:

            ‑           Já experimentaste falar com o teu pai?

            ‑           Já ‑ respondeu a rapariga, afastando‑se. ‑ Ele ficou com uns olhos tão estranhos! Eu tenho medo dele. Não consigo tentar outra vez, nem mesmo pelo Frank.

            ‑           Vamos fazer tudo para que acabes a escola ‑ disse Susanna, pegando na mão de Sarah. ‑ Mas não te esqueças disto, minha querida, se acontecer alguma coisa, vens logo falar comigo. Está prometido?

            A tensão dos músculos de Sarah afrouxou um pouco. Ela prometeu e voltou para casa com um passo mais leve.

            Susanna, pelo contrário, ficou muito abatida. Se acontecesse alguma coisa a qualquer daquelas crianças, nunca se perdoaria a si própria. Mas o que podia ela fazer?

 

No DIA seguinte, Susanna estava a preparar as aulas na sua secretária quando Cav entrou a correr, uivando, e começou a puxar‑lhe a saia.

            ‑           O que foi? ‑ O vento trazia um cheiro a queimado. Indo a correr lá fora, Susanna ficou petrificada. A sudeste, o céu estava encoberto por uma nuvem revolta de um castanho‑acobreado que se elevava da planície. De quilómetros de distância, o vento forte trazia o cheiro acre de erva a arder.

            Fogo na pradaria. O terror encheu Susanna de suores frios e ela recordou tudo o que ouvira sobre este flagelo dos pastos. As pessoas nas cabanas deviam estar seguras, pois os homens, estando nos campos, veriam o fogo a tempo de se abrigarem a si e aos animais e, possivelmente, até de escavarem aceiros em volta das suas casas conjuntos de sulcos espaçados entre si onde o fogo não tem nada para consumir. Os cereais por ceifar seriam devorados; não haveria tempo de escavar aceiros em redor de campos e campos de cereais.

            Fugir estava fora de questão. Ela e Cav estariam tão seguros na cabana ou no celeiro como em qualquer outro sítio onde o fogo chegasse. Olhou para O telhado de madeira: ele arderia. Assim que teve este pensamento, correu lá para dentro, pegou no balde de água e pôs‑se a lançar vários baldes para cima do telhado baixo e inclinado. Em seguida, encheu todos os alguidares para ter água preparada para deitar sobre as chamas. Com as lágrimas a correr devido ao fumo e às cinzas, foi buscar o último balde de água e correu para casa quando o fumo já encobria o céu e o Sol.

            Ofegante, com Cav colado a si, Susanna trancou a porta ‑ como se isso afastasse aquele invasor! Transmitindo um fluxo de encorajamento ao cão assustado, que também a ajudava a acalmar‑se a si própria, Susanna guardou as chávenas de porcelana e os seus livros preferidos no baú. O fumo era denso e sufocante. Ela molhou um lenço e colocou‑o sobre os olhos e o nariz. Apesar das grossas paredes de barro, a cabana começou a aquecer. Com o balde à mão, Susanna ajoelhou‑se no tapete ao lado de Cav, respirando através do lenço, aguardando. Os seus ouvidos estavam a pregar‑lhe partidas ou a fúria crepitante já passara? Susanna foi de gatas até à sala de aula, aproximou‑se da janela, susteve a respiração e espreitou lá para fora. Semicerrando os olhos, mal conseguia distinguir o celeiro, mas via o vento, pois vinha carregado de cinzas.

                        Tossindo, voltou a baixar‑se até ao chão de terra batida, abençoando o barro que fora o seu refúgio. Não voltaria a respirar normalmente, mesmo com o ar limpo, até saber se Matt estava bem. Pensou em ir ver como estavam os Hardys, mas o vento negro cegava‑a. Para além disso, se alguém fosse à sua procura e não a encontrasse, podia desencadear‑se uma busca frenética ‑ a última coisa de que a comunidade precisava.

                        Depois de tirar o pó queimado da superfície da água que estava no balde, Susanna encheu a tigela da água de Cav e bebeu água também antes de começar a limpar os mantimentos. Enquanto trabalhava, sentia uma ansiedade crescente, mas sabia que tinha de a suportar. Os homens deviam estar a combater o fogo, e até este se extinguir ou ser derrotado não era provável ela saber o que quer que fosse. Quando estava a lavar a cara enfarruscada, bateram à porta.

                        Correu a destrancá‑la e abriu‑a. Reconheceu Matt pelos olhos, e não pela cara enegrecida, e sentiu‑se desfalecer.

                        ‑           Oh, Matt!

                        Caíram nos braços um do outro, apertando‑se como que para terem a certeza de que estavam ali. Ficaram abraçados durante muito tempo, depois ele beijou‑a ternamente e recuou.

                        ‑           Os Hardys estão bem... o Jem ficou lá agora. Detivemos o fogo na curva do rio para lá da casa dos Prades, embora tenha consumido completamente a escola de Ase.

                        ‑           Está toda a gente bem?

                        ‑           Parece que sim.

                        ‑           Os seus cavalos?

                        ‑           Enfiei‑os a todos no celeiro e na cabana. Os Krauses escavaram um aceiro tão largo que o fogo do lado deles parou.

                        ‑           E as colheitas?

            - Queimadas. Excepto a dos Krauses. Tinham feito aceiros em volta de todas as terras deles.

Susanna abanou a cabeça.

                        ‑           Quem me dera que a colheita dos Prades se tivesse salvado!

‑           Saul Prade já tem muita sorte em estar vivo e ter salvado a familia e o gado.

            ‑           Receio bem que ele não veja a coisa assim. Ele já tinha inveja dos Krauses, agora com a colheita deles salva vai odiá‑los.

            Matt encolheu os ombros.

            ‑           Os Krauses disseram que iam partilhar o cereal deles com quem precisasse e dar sementes a quem quisesse semear no Outono. Ase vai dar meia‑vaca a cada família que perdeu a colheita. Ninguém vai ter de desistir.

            ‑           Tem fome? ‑ perguntou‑lhe Susanna.

            ‑           Acho que sim. Ainda não tinha pensado nisso.

            ‑           Entre. Lave as mãos e a cara.

            Espevitou o lume e, enquanto a água para o chá aquecia, abriu uma lata de pêssegos. Enquanto Matt os comia, ela deitou fritos de milho numa frigideira. Ele estava esfomeado, por isso Susanna sentia prazer em pôr‑lhe comida à frente. Estava a servi‑lo segunda vez de fritos quando bateram à porta.

            Era Ase, tão enfarruscado como Matt.

            ‑           Quis certificar‑me de que estava bem. ‑ O seu olhar passou dela para Matt, que o cumprimentou levantando a mão.

            ‑           Entre e lave‑se ‑ convidou Susanna. ‑ Coma uns fritos e uns pêssegos. Eu aqueço café.

            ‑           Agradeço, mas é melhor eu ir andando para casa.

            ‑           Sente‑se, Ase ‑ insistiu Matt. ‑ Deve estar tão esfomeado como eu estava.

            Susanna pôs‑lhe a mão na camisa.

            ‑           Por favor, Mr. McCanless.

            O seu rosto enfarruscado abriu‑se num sorriso.

            ‑           Como é que eu posso não fazer o que a senhora quer quando me fala dessa maneira simpática, Miss Susanna? Eu lavo‑me lá fora.

            Enquanto Ase acabava uma lata de pêssegos e o resto dos fritos, Susanna fez mais. Mas quando Matt se levantou para sair, Ase ergueu‑se também. Saíram ambos ao mesmo tempo, afastando‑se em direcções opostas no meio da neblina abrasadora que adensava o que era agora o verdadeiro crepúsculo.

            Susanna lavou a louça e começou a limpar os móveis. O pó preto havia de entrar em casa durante vários dias, mas tinha de começar a limpar.

 

SAUDAÇÕES e risos encheram o ar de Outubro quando as crianças se reencontraram depois dos meses em que a maioria delas estivera demasiado ocupada para se visitar ou brincar.

            Quando todos entraram e avistaram as caixas de lápis em cada lugar, houve um contentamento generalizado. Vendo que a maioria deles estava demasiado excitada para se sentar logo, Susana deixou‑os ficar em pé e cantar antes de ler do livro de Walt Whitman.

            ‑ Os trabalhos de ortografia estão no quadro ‑ disse‑lhes depois. ‑ Enquanto eu ouço ler os do sétimo nível, os outros fazem os trabalhos.

            Como ela imaginara, Sarah, Dave e Frank leram a última parte do livro do sétimo nível sem um único erro. E pela determinação nas expressões de Sarah e Dave, Susanna percebeu que eles conquistariam o oitavo nível naquele ano. Quanto a Frank, era uma incógnita.

            Ao ouvir ler cada uma das crianças, Susanna ficou satisfeita por constatar que a maior parte delas tinha relido o que dera ou lido mais para a frente durante o Verão. Podia fazer reagrupamentos, avançando Ridge para o terceiro nível, juntando‑o a Jenny. Comparando a facilidade daquele início das aulas com a confusão do ano anterior, Susanna pensou, com angústia, quem tocaria a campainha para chamar aquelas crianças no Outubro seguinte. Quem as guiaria no nível seguinte e as veria crescer?

 

            As CHUVAS do Outono lavaram parte do restolho crestado da pradaria e encorajaram novos tons de verde, como uma segunda Primavera, antes de o gelo cobrir os pastos. Com um telhado seguro por cima da cabeça, Susanna apreciava a chuva, embora com um laivo de tristeza. Na Primavera seguinte, ia‑se embora dali.

            Felizmente, as aulas deixavam‑lhe pouco tempo para pensar. Berenice e Ethan substituiram Sarah e Dave na ajuda às crianças mais novas. Susanna podia assim passar bastante tempo com Dave, Sarah e Frank, e era um prazer encorajar bons estudantes como eles.

            O prazer de Susanna com os alunos só era estragado por um motivo: Saul Prade. Da primeira vez que ele apareceu, ela não se preocupou, pois convidara os pais a visitarem a escola fora das habituais sextas‑feiras, mas deu consigo a ficar nervosa quando ele começou a aparecer três vezes por semana, ficando em observação silenciosa durante quinze ou vinte minutos.

Qual seria a intenção dele? Se fosse qualquer outro colono, ela teria pensado que era só para passar o tempo, por não ter nada que fazer devido à perda das colheitas. Ele era o único que não semeara o trigo vermelho dos Krauses nas suas terras queimadas, por isso tinha pouco ou nada que fazer.

            Um dia, no princípio de Dezembro, ele chegou antes do intervalo da manhã e ficou a olhar calmamente até Susanna dizer às crianças que podiam sair. Quando ela se preparava para as seguir, Saul Prade barrou‑lhe o caminho.

            O medo invadiu‑a. Precisou de uma grande força de vontade para não recuar, mas quando ele falou, fê‑lo num tom bastante cordial.

            ‑ Parece‑me que anda a passar demasiado tempo com os mais velhos.

            ‑ Estou a tentar compensar o ano passado ‑ explicou ela. - Como alguns dos alunos nunca tinham andado na escola e muitos mal sabiam ler, eu deixei a Sarah e o Dave estudarem mais tempo sozinhos do que seria desejável, devido à minha falta de tempo.

            Ele presenteou‑a com um sorriso frio.

            ‑ Segundo parece, está a admitir que a entrada dos malditos dos holandeses roubou tempo aos nossos filhos.

            ‑ Todos os alunos passaram. Na realidade, a maioria trabalhou bastante bem. Se tem reclamações a fazer, por favor, apresente‑as aos administradores, Mr. Prade. Se me dá licença...

            Ele afastou‑se para o lado.

            ‑ Eu vou estar atento. Um destes dias há‑de cometer um erro que nem Ase McCanless poderá deixar passar.

            Susanna endireitou‑se.

            - O senhor é um dos administradores, Mr. Prade, mas, de futuro, tenha a bondade de vir só às sextas‑feiras à tarde.

            Lançando‑lhe um olhar cheio de ódio, ele virou‑se e saiu. Perturbada, Susanna encostou‑se à porta. Pegou na campainha e tocou‑a para chamar as crianças.

            A neve outonal caía, cobrindo a devastação da planície. Prade parou com as suas visitas perturbadoras. Margaret Hardy casou‑se com Jem Howe. Cobie e Val contavam, entusiasmados, os avanços das suas novas casas, e a casa onde Jacob e Catherine iriam viver estava quase pronta.

Numa tarde da semana anterior ao Natal, Susanna dera a aula por terminada quando ouviu o barulho de uma carroça. Todas as crianças já tinham partido, excepto os Prades, que estavam à espera de Sarah, que ficara a tirar dúvidas de um problema de geografia complicado.

            - É só um minuto, Sarah.   - Susanna foi lá fora e encontrou Jacob descarregando um fardo de feno.

            - Eu ponho o feno no celeiro - disse ele.            - Mas eu vim cá foi para a convidar para o nosso casamento, meu e da Catherine. Dois dias antes do Natal casamos. Já fui a casa de Ase McCanless. Ele passa por cá e leva‑a na carroça.

            - Isso é maravilhoso, Jacob. Terei muito prazer. ‑ Susanna deu‑lhe um aperto de mão. Ele fez um estalido com a língua para os cavalos e ela foi para dentro ajudar Sarah a resolver vários exercícios.

            Quando acabaram, Susanna foi até lá fora com as crianças e deparou com Saul Prade a açoitar Jacob com uma corda dobrada de crina de cavalo.

            ‑ Pare! ‑ gritou Susanna.

            Sarah também gritou e largaram as duas a correr.

            Jacob era da mesma altura de Prade e muito mais novo, mas não tentou tirar‑lhe a corda nem atacá‑lo. Avançando, Prade dobrou mais uma vez a corda, açoitando Jacob até o jovem cambalear.

            - Malvado porco holandês! ‑ sibilava Prade. - Foste tu que puseste o fogo! Querias‑nos queimar... transformar‑nos em teus empregados!

            Susanna olhava freneticamente em volta em busca de uma "arma", mas como não encontrou nada, fez a única coisa que lhe ocorreu: pôs‑se em frente de Jacob, protegendo‑o com o seu próprio corpo.

            Por instantes, Prade parou, de braço erguido, e depois, com um grito hilariante, puxou o braço mais atrás e arremessou a corda. As pontas com laçadas enrolaram‑se à volta do pescoço e do tronco de Susanna. Dando um grito, Jacob afastou‑a impetuosamente. No mesmo instante, Frank agarrou o pulso do pai. Prade empurrou‑o para o lado com força.

            Caído no chão, Frank suportou todo o ímpeto de uma possante arremetida da corda.

‑ Levantas a mão contra mim, seu cachorro?! - sibilou Prade. Deu um pontapé ao filho, e enquanto este se dobrava ao meio no chão, o pai deu‑lhe outra vergastada.

            Susanna ajoelhou‑se sobre Frank, protegendo‑o, e aguardou as chicotadas. Mas elas não vieram.

            A expressão vitrea desapareceu dos olhos do homem. Com uma respiração pesada, Prade enrolou a corda e arremessou‑a para longe.

            ‑ Tu já não és meu filho ‑ disse ele a Frank numa voz sufocada. ‑ Não te quero debaixo do meu tecto! Vamos, Sarah, tu e os gémeos.

            Sarah hesitou. Frank conseguira levantar‑se, mas estava muito pálido.

            ‑ Vai, Sarah. Eu... eu fico bem ‑ disse‑lhe ele.

            Com passos pesados, o homem afastou‑se com Sarah. Paul e Pauline seguiam mais atrás.

            ‑ Como é que estás, Frank? ‑ perguntou Susanna.

            ‑ Estou... estou bastante dorido.

            ‑ Frank, talvez fosse bom ires ter com o Dr. Rawdon. Jacob, é melhor também mostrar ao doutor essas vergastadas. ‑ E acrescentou: ‑ Vocês os dois, se fazem favor, não digam nada a ninguém que Mr. Prade me agrediu. Isso podia provocar muito mais problemas do que os que já tivemos. ‑ Depois de ambos acenarem em aquiescência, ela disse: ‑ Jacob, eu vou consigo até à casa dos Howes. Com certeza que Jem ou Dave levam o Frank para casa deles depois de o doutor o ver.

            Chegaram a casa dos Howes, e Margaret reagiu como Susanna esperava.

            ‑ Claro que o garoto pode ficar connosco. ‑ Ela abanou a cabeça. ‑ Pobre Laura! O que é que ela vai fazer? Segundo parece, o homem dela é mesmo louco.

            De facto, Susanna estava mais preocupada com Laura e Sarah do que com Frank. Ele já estava fora do caminho de Prade. Mas como é que Laura iria conseguir viver com o que o marido fizera?

            Depois de se despedir de Margaret, Susanna saiu para o crepúsculo e dirigiu‑se para casa. O dia seguinte era sexta‑feira. Ela teria que pôr um cachecol que lhe tapasse o pescoço todo e no casamento, que era no sábado, também teria que o usar. Esperava que Jacob percebesse que mais ninguém partilhava a ideia louca de Prade de que tinham sido os menonitas que haviam lançado o fogo catastrófico à pradaria.

            E o próprio Prade acreditaria? Seria ele mesmo louco? Caso fosse, o que iria ele fazer a seguir? Estaria ela a pôr outras pessoas em perigo ao tentar ocultar, pelo menos em parte, o comportamento dele?

            Susanna já atravessara o rio e estava a meio caminho da cabana quando ouviu um cavalo a aproximar‑se. Surgiu um cavaleiro contra a faixa mais baixa e mais clara do céu que tocava o horizonte escuro.

- Susanna?

            Era Matt. Sentiu‑se invadida por uma onda quente de alegria.

            ‑ O Frank está bem? perguntou ela.

            ‑ Há‑de ficar. O Dave levou‑o para casa dele.

            ‑ E Jacob?

            ‑ Vai ficar com umas escoriações e um inchaço na cara durante alguns dias. Nada de grave.

            Entretanto, tinham chegado à escola. Ele desceu do dorso de Saladino.

            ‑ Entre, Susanna. Vou dar‑lhe uma olhadela.

            ‑ Eles prometeram‑me que não diziam nada!

            ‑ Eles não disseram nada, mas não se esqueça de que Jacob não pode mentir. Quando lhe perguntei directamente se Prade a tinha magoado, ele limitou‑se a murmurar que não podia responder. Chegue aqui.

            Ela avançou com relutância e obedeceu ao sinal dele para se sentar perto do candeeiro. Matt inclinou‑lhe a cabeça para trás. Enquanto ele a observava e lhe tocava, as suas pupilas pretas cresciam sobre o cinzento da íris, mas o tom de voz foi de distanciamento profissional.

            ‑ Consegue engolir?

            ‑ Ainda não experimentei.

            Matt encheu um copo de água e entregou‑lho.

            ‑ Experimente.

            A garganta tinha um nó e doía‑lhe, latejante, mas a água passou.

            ‑ Agora o peito e os braços.

            Ela deixou cair o corpo do vestido. Tal como a voz, as mãos examinadoras eram frias e disciplinadas.

‑ Nada mais além de escoriações e contusões - informou ele, ajudando‑a a enfiar novamente os braços nas mangas. ‑ No entanto, ele podia muito bem tê‑la morto com essa chicotada à volta da traqueia.

            A raiva gélida patente na voz dele aterrorizou‑a.

            ‑ Matt, não... não vai fazer nada, pois não?

            ‑ O que eu fazia, se não fosse Laura Prade e quatro miúdos adoráveis, era enfiar‑lhe uma bala na cabeça. ‑ Matt dirigiu‑se à porta e voltou‑se. ‑ O que vou fazer é ir a casa daquele lunático assassino dizer‑lhe que, se eu souber que ele a importunou outra vez, o mato como se fosse um cão raivoso.

            ‑ Mas Laura...

            ‑ Eu sinto muita pena dela, Susanna, mas se aquele homem morresse, ela de certeza que arranjava um melhor. Pior é impossível.

            Matt tinha a mão na porta. Vendo o pavor dela, a sua expressão tensa suavizou‑se.

            ‑ Não se preocupe. Eu passo por cá no regresso. Não entro, grito‑lhe só boa noite.

            Ela deu um suspiro de alívio.

            ‑Obrigada.

            Várias horas depois, Matt não gritou só boa noite, mas também:

            ‑ O Prade sabe que merecia a forca. Creio que daqui em diante vai ser muito cuidadoso.

            Há muito tempo que Susanna não tinha terrores nocturnos, mas naquela noite teve, onda após onda de imagens. Por fim, acendeu o candeeiro e refugiou‑se num livro até de manhã.

 

            No DIA seguinte, antes de a aula começar, Sarah foi ter com Susanna e murmurou:

            ‑ Como está, Miss Alden?

            ‑ Estou bem. Suponho que o Dr. Rawdon te disse que o Frank em breve fica bom.

            ‑ Disse, sim. ‑ Sarah manteve os olhos baixos, como se estivesse envergonhada. ‑ O meu pai disse à minha mãe que Jacob provocou uma luta e que Frank se pôs do lado dele. Quando a minha mãe lhe disse que queria ir ter com Frank, ele respondeu‑lhe que se fosse não voltava. Eu falei com a minha mãe sem ele ouvir e contei‑lhe que Frank e eu nos vamos embora na próxima Primavera. Ela... ela agarrou‑se a mim e chorou, mas acabou por dizer que talvez fosse o melhor. ‑ A voz de Sarah ficou embargada. ‑ Tenho tanta vergonha do que aconteceu! Estou tão preocupada com a minha mãe!

            ‑ Ela tem‑te a ti, e isso é uma grande coisa.

            Com os olhos verdes sombrios, a rapariga replicou:

            ‑ Não vai ter‑me durante muito mais tempo.

            Susanna ficou sem resposta.

 

A NEVE caiu devagarinho durante toda a noite de sexta‑feira, mas no dia do casamento de Catherine e Jacob o sol apareceu logo de manhãzinha, brilhante e radioso. A cerimónia seria ao meio‑dia, presidida por Anselm, que era simultaneamente o mais velho e o ministro da pequena comunidade menonita, e seguia‑se a festa.

            Péter e Frederick Krause, Val e Jacob receberam os convidados à chegada e indicaram‑lhes onde haviam de deixar as carroças. Entre os celeiros, havia arrecadações cobertas, e dentro dessa área protegida estavam vários fardos de feno para os cavalos dos convidados.

            Fora aberto um caminho desde os celeiros até à casa central, das três que eram iguais, todas brancas com barra verde. Era a casa de Anna e Frederick, os pais de Catherine. As mulheres da família, incluindo Cobie e uma Catherine radiosa no seu vestido branco de noiva, davam as boas‑vindas aos convidados, recebendo os presentes que todos tinham trazido com agradecimentos afáveis. Susanna ofereceu o conjunto de pote de natas e açucareiro de cristal cor de rubi.

            Bancos, cadeiras e mesas tinham sido trazidos das outras casas. As mesas, com toalhas brancas, apresentavam travessas de queijo, salsichas e presunto, todas as espécies de pickles e conservas e imensos pães, bolos, pudim de arroz e dúzias de tartes. Para beber era oferecido chá ou café.

            Matt Rawdon chegou com a irmã. Poucos dos presentes a conheciam, e Amanda transformou‑se instantaneamente no alvo de todas as atenções. Largou a sua grande capa de veludo nas mãos de Matt, aceitou uma chávena de chá das mãos de Catherine e desejou‑lhe felicidades pelo seu casamento.

            Bebendo o seu chá, Amanda analisou a mobília da sala com o seu estilo perfeito de rainha viúva abastada dos contos de fadas, com o seu vestido de tafetá verde intenso e brilhante. O cabelo louro apanhado em cima, preso por um grande laço de renda e tafetá. O elegante vestido dava ares de Paris ou Londres, e Susanna ficou dolorosamente consciente de que o vestido azul de que tanto se orgulhava fora feito pelas suas mãos inexperientes.

            Matt apresentou a irmã às mulheres. Ela cumprimentou‑as a todas muito cortesmente, mas ficou estupefacta quando Hettie Brown lhe apertou vigorosamente a mão.

            Seguidamente, pela primeira vez, apareceu Anselm, e Jacob dirigiu‑se à multidão:

            ‑ Caros vizinhos, gostamos muito que tenham vindo. O ancião Krause, nosso celebrante, vai presidir à cerimónia em alemão, mas nós dizemo‑vos em inglês quando for altura de comer!

            A onda de risos silenciou‑se quando Anseim falou com uma gravidade ternurenta com a neta e o seu noivo. Depois, declarou‑os marido e mulher. Seguiu‑se um grande silêncio de respeito. Jacob, de mão dada com a noiva, virou‑se, e as escoriações do seu rosto não conseguiam ensombrar a sua alegria.

            ‑           Por favor. ‑ Estendeu a mão na direcção das mesas cheias. ‑          Sirvam‑se, caros vizinhos e amigos!

            Na sua qualidade de grande amiga, Susanna foi convidada a sentar‑se na mesa de Jacob e Catherine, com os pais desta e Anselm. Apesar de a comida ser muito apetitosa, ela não tinha apetite, mas falou com Anna e a beatifica Catherine. Foi um alívio para Susanna quando Freda serviu o café e os convidados de honra puderam misturar‑se na multidão. Susanna preparava‑se para se juntar às senhoras junto ao fogão, quando Anselm se lhe dirigiu em alemão.

            Professorinha! Importa‑se de vir comigo? Traga a sua capa, pois temos de ir ao celeiro.

            Surpreendida, Susanna pediu licença e, de capa vestida, saiu com o ancião, que se dirigiu ao celeiro mais afastado, que era do outro lado do pátio das casas novas. Fazendo‑lhe sinal para ir até atrás da manjedoura, apontou para as traseiras desta.

- Veja. Isto é o que o rapaz faz quando devia estar a trabalhar!

            A grande superfície era um mural de pastel. Era óbvio que Val não esperava que mais ninguém fosse lá atrás das manjedouras, uma vez que era ele que estava incumbido de enchê‑las. Desenhara cavalos, alguns em movimento, de caudas e crinas esvoaçantes. Na extremidade, estava o Deus criador de Miguel Ângelo, barba branca e cabelo flutuante, como no tecto da Capela Sistina que Susanna mostrara a Val.

            ‑ Vê? ‑ Anselm tentava ter um ar zangado, mas o seu orgulho transparecia. ‑ Ele desenhou‑me, Professorinha! Não está muito semelhante?

            - Está, sim, senhor, ancião Krause. ‑ Susanna não ia revelar‑lhe o modelo. ‑ Valentine tem um dom especial.

            ‑ Mas nós, os menonitas... cultivamos a terra. ‑ Anselm cofiava a barba. ‑ Os artistas vadiam e bebem. Nós não permitimos isso entre nós.

            ‑ Foi certamente Deus quem concedeu a Valentine este dom - afirmou Susanna no seu tom mais persuasivo. ‑ Creio que não tem de preocupar‑se com o facto de Val vir a transformar‑se num vagabundo. Alguns artistas...

            Uma silhueta alta ergueu‑se por detrás da manjedoura e, no mesmo instante, atingiu o desprevenido Anselm por trás com uma pá. O grito de Susanna, ao virar‑se para fugir, foi abafado pelas mãos de Prade, apertando‑lhe o pescoço com força. Ele cheirava imenso a petróleo. Que teria ele estado a fazer?, interrogou‑se Susanna.

            Ela tentou arranhar‑lhe os olhos, mas ele apertou‑lhe mais o pescoço até que o mundo começou a girar em negro. Ele atirou‑a ao chão, e Susanna apercebeu‑se vagamente de que estava a ser amordaçada e que estavam a atar‑lhe cordas à volta dos pulsos e tornozelos.

            No meio de explosões intermitentes, o rosto do homem oscilava à frente dela.

            ‑ Eu volto e pego‑te fogo juntamente com o feno ‑ afirmou ele. ‑ Pensa no que é morreres queimada, sua cabra diabólica, tu que viraste o meu filho contra mim! Ficas aqui a pensar nisso enquanto eu pego fogo àquelas casas de madeira novas. Vou ensinar aos desgraçados dos holandeses o que acontece a quem deita fogo ao meu trigo. ‑ Deu uma gargalhada sinistra, pegou em Anselm por baixo dos braços e carregou o corpo inerte lá para fora.

            Ainda tonta do aperto no pescoço, Susanna debatia‑se com as cordas, mas elas não cediam nem um bocadinho, pois estavam muito apertadas. Uma maneira de dar o alarme... uma maneira de deter Prade...

            Conseguindo a muito custo pôr‑se de joelhos, Susanna avançou. Não podia andar, não podia utilizar as mãos. Os joelhos eram a única possibilidade. Rastejaria, era a única hipótese.

            Avançou a custo, apoiada nos cotovelos e nos joelhos, servindo‑se do seu peso para dar o impulso para a frente. Prade não julgara necessário trancar a porta. Esta cedeu com um empurrão do ombro de Susanna.

            Cega pela luz, ela atirou‑se para o chão gelado. Se ao menos alguem viesse cá fora ou olhasse pela janela! Mas era muito mais provável, no entanto, que fosse Prade a vê‑la ao correr de casa em casa incendiando‑as. Anselm estava dobrado no chão à sua frente. Ela não lhe via a cara, mas a respiração dele era rápida e ruidosa.

            Susanna avançava centímetro a centímetro. As casas pareciam estar a uma distância infinita. Numa corrida grotesca, ela forçava‑se a avançar, passou o segundo celeiro, a primeira casa nova, arquejando. Cheirava‑lhe muito a petróleo.

            ‑ Maldita! ‑ Prade correu da porta da casa da ponta com as chamas a saltarem atrás dele e um archote na mão.

            Com uma força delirante, Susanna ergueu‑se sobre os joelhos e arremessou as mãos atadas contra a parte mais baixa da janela. O vidro estilhaçou‑se. Os risos pararam. Então, Prade agarrou‑lhe os pulsos e arrastou‑a até ao fardo de feno mais próximo. Inclinou‑se para a agarrar e a lançar para o meio dele. Com todas as suas forças, Susanna lançou o seu corpo de lado contra o dele, atirando‑o para trás, ainda com o archote na mão. Quando a chama tocou no feno seco, quase explodiu, envolvendo Prade. Susanna rolou para a neve que circundava o feno.

            As chamas e Matt chegaram junto de Susanna ao mesmo tempo. O seu cabelo e as suas roupas ardiam, mas ele enterrou‑a na neve enquanto o fardo cintilava num inferno destruidor. Os homens deitavam neve para cima das chamas, mas nada as detinha, por isso correram a combater o fogo na casa da ponta. As chamas foram praticamente extintas durante o tempo que Matt demorou a avaliar os ferimentos de Susanna, a cortar as cordas dos seus pulsos e tornozelos sangrentos e a levá‑la para dentro de casa, onde uma cama fora preparada.

                        Susanna estava num tal estado de entorpecimento que mal percebia o que se passava, excepto que Anselm fora encontrado e estava a ser levado para dentro de casa pelos filhos; Susanna agarrou‑se a Matt quando ele a pousou nas almofadas.

            - Pronto, meu amor - disse‑lhe ele muito baixinho. Largou‑a muito cuidadosamente e segredou‑lhe: - Vou ver como está Anselm.

                        Betty e Margaret tiraram a capa a Susanna e desapertaram‑lhe o vestido. As roupas tinham‑na protegido, embora os joelhos e os cotovelos estivessem esfolados. Enfiaram‑na na cama, puxaram os cobertores para cima e saíram. Matt regressou.

                        Ela puxou a colcha até ao queixo.

                        ‑           Como está o ancião Krause?

            - Vai só ter dores de cabeça durante um dia ou dois. ‑ Ele observou‑a com olhos de especialista. ‑ Segundo a minha experiência, o melhor tratamento para pequenas queimaduras é a imersão em água fria e pedi à Catherine e à mãe dela para trazerem vários alguidares.

                        Matt dispôs as almofadas de modo a Susanna poder baixar a cara até a um alguidar e enfiar as mãos noutro.

                        Cobie entrou a correr com a notícia de que o fogo na casa estava extinto e que as chamas nos fardos de palha estavam a apagar‑se. Susanna sentiu náuseas ao pensar naquilo, em Saul Prade queimado até aos ossos.

                        Ela ergueu a cabeça ao ouvir a voz de Ase McCanless perguntando a Matt como ela estava.

                        ‑           Estou bem ‑ respondeu ela.

                        ‑           Está mesmo, doutor?

                        Matt acenou afirmativamente.

                        ‑           Julgo que as queimaduras não vão deixar cicatrizes, excepto talvez na mão direita. Foi a parte mais atingida.

                        ‑           Acha que ela pode ser transportada? Posso levá‑la para minha casa.

‑           É melhor ser eu a tratá‑la. ‑ Como Ase hesitasse, Matt acrescentou: ‑ Não se preocupe. Ela não fica sozinha enquanto precisar demim.

           "Isso é para sempre", pensou Susanna. Sentia um ardor agradável perante a forma como Matt estava a tratá‑la.

           Os convidados, antes de partirem, espreitavam no quarto para saberem como Susanna estava. Amanda entrou, abanou a cabeça e, depois de se compadecer de Susanna, virou‑se para Matt.

                        ‑           Já fizeste tudo o que tinhas a fazer por Miss Alden? ‑ Uma bonita maneira de dizer que queria que ele a levasse para casa.

                        ‑           Se estás com pressa, vai com os Howes ‑ sugeriu ele ‑, eu vou para casa de Miss Alden.

                        Amanda franziu o sobrolho.

                        ‑           A sério?

                        ‑           Teremos muito prazer em deixá‑la em casa, minha senhora - ofereceu‑se Ase.

                        Amanda fitou Susanna com um olhar avaliador prolongado.

                        ‑           Foi muito corajosa, Miss Alden. Se não fosse a senhora, alguns de nós teríamos certamente morrido. Muito obrigada pelo que fez.

                        Surpreendida pelo discurso simpático, Susanna disse em voz fraca:

                        ‑           Qualquer pessoa o teria feito.

- Que tolice a dela! ‑ Amanda virou‑se para o irmão: ‑ Trata bem Matthew, e diz‑me se eu puder fazer alguma coisa. ‑ Enfiou

o braço no de Ase e retirou‑se com um farfalhar de opulência. Matt e Susanna entreolharam‑se, estupefactos. Depois, ele examinou‑lhe as mãos e o rosto.

                        ‑           As queimaduras ainda doem?

                        ‑           Não muito.

            ‑           Então, acho que vamos andando para estares enfiada na tua cama antes do anoitecer. Ordens do médico.

                        Jacob e Catherine levaram Susanna para a carruagem de Matt envolta em fofos edredões de penas.

                        Anselm, de cabeça ligada, disse em alemão:

                        ‑           Deus a proteja, gentil senhora. Com a ajuda d'Ele, a senhora foi o instrumento da nossa salvação. ‑ Sorriu a Val. ‑ Se eu não a tivesse levado a ver a obra deste nosso artista... Sim, tivemos de certeza a mão de Nosso Senhor.

‑ Encosta‑te e descansa - aconselhou‑lhe Matt.

            Regozijando‑se pela bênção de ser tratada, Susanna suspirou e fechou os olhos. Acordou com o ladrar alegre de Cav. Saindo disparado do celeiro, onde costumava ficar a fazer a sesta nas raras ocasiões em que ela ia a algum lado sem ele, o cão saltitava em volta deles, enquanto Matt pegava em Susanna juntamente com edredões e tudo e a levava para dentro de casa.

            ‑ Ficas assim até isto aquecer ‑ ordenou ele, depositando‑a em cima da cama. A seguir, foi acender a lareira com o pouco combustível que restava. - Eu vou tratar dos cavalos e volto já.

            Quando regressou, pôs mais combustível na lareira, acendeu o candeeiro e fechou as cortinas ao pôr do Sol.

            Susanna observava‑o com um misto de desânimo e prazer. Parecia exactamente que ele estava em casa! Quem lhe dera que fosse verdade!

            ‑ Há alguma coisa que se possa aquecer para o jantar? ‑ perguntou ele prosaicamente.

            ‑ Que tal sopa de batatas e cebolas? ‑ perguntou Susanna. - Está na panela que se encontra na sala.

            ‑ Outro banquete. ‑ Ele sorriu. ‑ Recomendo‑te que vistas o roupão enquanto eu vou à sala.

            Ele entrou na sala de aula seguido por Cav. Susanna apressou‑se a ir buscar o roupão e a enfiar‑se na cama.

            ‑ Pronta? ‑ gritou Matt.

            Ela emitiu um som indistinto. O que é que ele ia fazer?

            Matt sentou‑se na beira da cama e pegou‑lhe na mão com cuidado por causa das queimaduras.

            ‑ Susanna, tu mereces melhor... mas queres‑me?

            ‑ Estás... estás a...

            ‑ Estou a perguntar se queres casar comigo.

            ‑ Oh, Matt! Tens a certeza?

            ‑ Antes de saber qual era o grau das tuas queimaduras, pensando que a tua cara podia ficar alterada para sempre, percebi que isso não teria qualquer importância para mim. Eu amo‑te a ti... ao que tens por baixo da pele. És muito melhor pessoa, muito mais bondosa e sensata, do que eu, Susanna. Se eu senti o que senti, sou obrigado a acreditar que tu também o sentes.

            Primeiro, abraçaram‑se como sobreviventes de uma catástrofe, mas depois, Matt procurou a boca dela. Susanna libertou‑se das roupas da cama para poder encostar‑se mais a ele. Com um suspiro, Matt arrancou a sua boca da dela e encostou‑a ao seu ombro.

            ‑           Agora, tenho de ser tão cuidadoso com a tua reputação como em tempos acusei as professoras ianques de o serem ‑ murmurava‑lhe ao ouvido. ‑ Vai ser difícil, mas podemos esperar, porque, meu amor, minha querida ianque, temos toda a vida à nossa frente para estarmos juntos.

Rematou com outro beijo.

‑ Isto foi a nossa ração desta noite ‑ afirmou Matt, levantando‑se. ‑ Agora, vamos jantar e depois deito‑te. ‑ à interrogação patente nos olhos dela, ele respondeu: ‑ Na qualidade de teu médico, sou de opinião de que não deves ficar sozinha esta noite. Eu junto uns bancos na sala de aula e instalo‑me neles com os edredões de penas.

            Matt trouxe‑lhe a sopa num tabuleiro e serviu‑lhe cuidadosamente o chá nas chávenas da avó Alden. Batendo com a sua chávena na dela, Matt disse numa voz que foi direita ao coração de Susanna, aquecendo‑o.

            ‑ à nossa vida, Susanna. Ao nosso amor.

 

            Após um beijo de manhã de Natal, Matt foi tratar dos cavalos enquanto Susanna se vestia, e juntos prepararam o pequeno‑almoço. Ela não tinha nenhum presente para ele, mas antes de começarem a refeição, Matt tirou uma coisa de uma divisória da carteira. Era um grande anel de ouro com folhas e flores gravadas.

            ‑ É o anel de casamento da minha mãe ‑ explicou ele. ‑ Eu sei que ainda não podes trazê‑lo no dedo, mas talvez possas usá‑lo numa fita ou numa corrente ao pescoço.

            Susanna levantou os olhos do anel e sorriu a Matt.

            ‑ É o anel mais bonito do Mundo. ‑ Pegou‑lhe na mão ferida, apertou‑a contra o peito e depois contra os lábios.

 

            No ÚLTIMO dia das férias do Natal, Matt apareceu trazendo uma bonita égua baia com uma sela para Susanna. Era tão maravilhoso passear a cavalo com Matt que, apesar de temer o que se seguiria, a disposição de Susanna melhorou, e quando Matt lhe disse que Amanda estava a fazer os preparativos para regressar a Dalías, ela animou‑se ainda mais.

            - No entanto, fica cá até ao nosso casamento ‑ informou ele.

‑ E quer dar‑nos a casa como presente. Agora, parece uma casa grande e formal, mas as crianças hão‑de tratar desse assunto.

            Susanna abanou a cabeça de admiração.

            ‑ Isso é mesmo verdade? Vamos ter uma casa a sério? Vamos ter filhos?

            ‑ Sim, vamos ter uma casa ‑ respondeu ele, aproximando‑se e beijando‑a demoradamente.

Conversaram animadamente e Susanna disse‑lhe que, entre outras pessoas, Ase aparecera e contara que Frank estava mudado, assumindo o papel de homem da família. Catherine e Jacob visitaram Laura daí a uns tempos, mas, excepto Delia, os outros vizinhos já tinham todos lá ido a casa, manifestando a sua disponibilidade para ajudar.

            - Duvido que isso acontecesse se as pessoas não se tivessem conhecido nos teus encontros das sextas‑feiras ‑ comentou Matt. ‑ Até cá chegares, isto não era uma comunidade, Susanna. Foste tu que nos uniste.

            Emocionada com aquele elogio, Susanna replicou:

            ‑ Só fiz o que me competia.

            Sorrindo‑lhe com ternura, Matt mudou misericordiosamente de assunto.

            ‑ Olha, aquilo não é o cavalo do Ase, ali em frente da casa dos Prades?

            Era mesmo. Laura e Sarah estavam a coser à lareira, enquanto Frank, sentado na grande cadeira do pai, lia As Viagens de Guíliver aos gémeos. O chicote enrolado desaparecera da vista. Ase, que estava de pé junto à lareira com uma chávena de café na mão, pareceu ficar um pouco embaraçado, mas sorriu a Susanna de uma forma afectuosa que lhe comunicava que seriam amigos para sempre. Ela lembrou‑se de que ele sempre admirara Laura. "Quem sabe? Talvez Ase não tenha de ir a St. Louis à procura de noiva", reflectiu Susanna.

            ‑ É bom sinal vê‑la já na rua, Miss Alden. Não se esqueça de que os administradores se reúnem na escola logo à tarde. ‑ Acabou de beber o café, pegou no chapéu e Laura acompanhou‑o à porta.

            Depois, lançando um olhar a Susanna, que lhe pedia para a seguir, Laura entrou num quarto. As duas mulheres olharam‑se por momentos e caíram nos braços uma da outra, chorando.

            Por fim, endireitando‑se, Laura disse:

            ‑ Parece horrível eu dizer isto, mas é um alívio ter acabado. Eu já percebera que Saul estava a mudar, e então depois do trigo queimado... Bom, ele ficou como o pai dele era antes de enlouquecer e se suicidar. ‑ Ela olhou para a planície através da janela. ‑ Acha que eu devo ir‑me embora daqui, Miss Alden? Levar as crianças para um sítio onde ninguém saiba?

‑ Eu acho que o seu lugar é aqui. Agora mais do que nunca.

            Laura presenteou‑a com um breve esboço de sorriso de agradecimento e regressaram para junto dos outros.

 

            DEPOIS de uma tigela de sopa rápida e uns beijos, Matt teve de ir‑se embora. Ela viu‑o afastar‑se no cavalo, ardentemente consciente do anel pendurado na corrente ao peito. Faltava muito pouco para o usar no dedo. Escrevera à tia Molhe e ao tio Frank pedindo‑lhes que viessem para o casamento. Mesmo com os caprichos dos Correios, esperava receber uma resposta a tempo de casar no fim de Janeiro ou no princípio do mês seguinte.

            Depois de fechar a porta, limpou o pó às mesas e puxou o lustro ao pé do globo. A reunião dos administradores era às duas horas, por isso ela pôs café a fazer.

            Ao ouvir o rolar de uma carroça, Susanna olhou lá para fora e viu Ase a ajudar Betty a descer, enquanto Johnny também descia e Jenny tirava a sela a Scout. Susanna mal acabara de abraçar Betty quando os Howes chegaram; o clã completo dos Browns aproximava‑se cavalgando pela pradaria e os Tarrants apareceram vindos de sul. Lá vinham os Taylors de norte e, vejam só, três pequenas carroças verdes menonitas atravessavam o rio, lançando salpicos em redor.

            ‑ Ase McCanless, o que é que se passa?

            Os olhos dele bailavam.

            ‑ Tenha calma, Miss Alden. Logo que toda a gente aqui chegue, vai ficar a saber.

            Susanna apressou‑se a cumprimentar os recém‑chegados; todos eles traziam comida. Entretanto, Matt chegou com Amanda, ajudou‑a a descer da carroça e sorriu a Susanna.

            Enquanto ele se dirigia ao celeiro e desatrelava os cavalos, Amanda entrou, avançou para Susanna e pegou‑lhe nas duas mãos.

            ‑ Que bom vê‑la já restabelecida da sua provação, minha querida. ‑ Baixou o tom de voz ao acrescentar: ‑ É claro que lamento que Matthew não regresse a Dalías, mas compreendo que a vida dele é aqui, tal como a sua. Desejo‑lhe muitas felicidades.

            ,‑ Obrigada. - Susanna olhou a sua futura cunhada nos olhos e pensou que, a seu tempo, podiam vir a gostar bastante uma da outra.

‑ O Matt gosta imenso de si. É muita simpatia e generosidade da sua parte oferecer‑nos a sua linda casa. Espero que venha visitar‑nos muitas vezes.

            ‑ Venho ‑ prometeu Amanda ‑, mas nunca durante tempo suficiente para deixar de ser bem‑vinda.

            Quando Matt entrou, a sala encheu‑se de uma atmosfera de expectativa. Ase foi até à porta e gritou:

            ‑ Ei, meninos! Estamos prontos.

            Os jovens entraram a correr e sentaram‑se à volta de Freck, que empunhava a sua viola. Começaram pela canção Kansas Land. Depois, para grande surpresa de Susanna, pois tais canções nunca haviam sido cantadas na escola, as crianças ‑ nortistas, sulistas e menonitas ‑ cantaram Dixie e O Hino de Batalha da República.

            Começou por não acreditar no que ouvia, mas depois, acreditando, pareceu‑lhe ver o sorriso do seu pai e ouvi‑lo a dizer: "Bom trabalho, minha filha." Então, ficou tão emocionada que baixou a cabeça. As lágrimas inundaram‑lhe o rosto. Matt deu‑lhe um lenço, e, enquanto as vozes se calavam, ela reparou que os olhos dele estavam suspeitosamente brilhantes.

            Olhando para os alunos, conhecendo e amando cada rosto, Susanna não conseguiu falar à primeira tentativa. Só depois de engolir em seco, conseguiu articular:

            ‑ Muito, muitíssimo obrigada.

            ‑ Só mais uma coisa antes de irmos comer ‑ disse Ase. Foi lá fora e regressou instantes depois com uma tabuleta grande de madeira de cedro encerada.

            Ergueram‑na. Tinha flores e pássaros a toda a volta. No meio, grandes letras diziam: ESCOLA SUSANNA.

            - Creio que o nome Mason‑Dixon já não é adequado ‑ comentou Ase. ‑ Agora, amigos, logo a seguir a pendurarmos a tabuleta por cima da porta, o ancião Krause dá‑nos a bênção e começamos a comer.

            As crianças agruparam‑se em volta de Susanna.

            - Ensaiámos à hora do almoço e no intervalo ‑ explicou Freck, orgulhoso. ‑ Gostou, professora?

            Ela abanou a cabeça.

            ‑ Oh, Freck, nem consigo exprimir o quanto gostei. Este... este deve ser o dia mais feliz da minha vida. - Beijou‑o e ele ruborizou‑se sob os caracóis.

Dave parecia ansioso e ela beijou‑o também, e na altura em que acabou de abraçar as crianças todas, consideraram que a tabuleta estava devidamente pendurada. A multidão fez silêncio enquanto o ancião Krause dava a bênção em alemão, e depois, inacreditavelmente, rezou em inglês.

            Na sua qualidade de convidada de honra, Susanna foi obrigada a servir‑se em primeiro lugar, mas ao avançar para o fazer, olhou para Matt e comentou:

            ‑ Estou... estou tão feliz que me parece que nem consigo aguentar!

            ‑ Vais ver. Hás‑de ser mais feliz ainda ‑ prometeu ele.

            A luminosidade dos olhos de Matt e o seu próprio coração fizeram que Susanna acreditasse no que ele dissera.

 

                                                                                Jeanne Williams  

 

                      

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