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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


O CÍRCULO DO MEDO / Sandra Carvalho
O CÍRCULO DO MEDO / Sandra Carvalho

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

A SAGA DAS PEDRAS MÁGICAS

 

 

Livro IV

O CÍRCULO DO MEDO 

 

O choque com a água foi violento. A dor que o trespassou seria insuportável, se os seus sentidos não estivessem já massacrados para além da razão. Havia um limite para o sofrimento que um homem podia agüentar. Depois, tudo se desvanecia... as formas, os sons, o vigor dos músculos, a sensibilidade da pele, o sabor do sal que lhe invadia a boca e inundava os pulmões. Mas, pior do que o martírio do corpo era o suplício da mente; a consciência de que toda a sua vida fora uma mentira perversa e cruel, uma caminhada solitária para o abismo... Como ousara acreditar que podia mudar o seu destino? Como se atrevera a ter esperança de que, um dia, a sua alma danada alcançaria a remissão e o alívio de uma existência tranqüila?

Apesar de tudo, enquanto o seu corpo ferido se afundava no mar, pensava que não se arrependia da decisão que tomara. Ainda que por um instante, conhecera a felicidade, o aconchego do amor, o perfume da liberdade.

Deixá-la para trás fora terrível... Contudo, de outra forma, teriam ambos perecido. Assim, ela subsistira para prosseguir a luta contra o Mal, fortalecida pela magia dos dois cristais. Ele ainda recebera o conforto de um último vislumbre daquela essência bela e pura, ligada à sua desde o momento da concepção, pairando sobre as ondas, clamando desesperadamente o seu nome. Por que não conseguia vê-lo? Havia magia na água! Uma magia que ele desconhecia, e que toldava a percepção enfraquecida da sua companheira. Uma magia antiga, poderosa, que apenas aguardava que a jovem recuasse para se manifestar.

De repente, o mar encheu-se de vida. Eram peixes... Não, eram homens! Não... Eram criaturas como ele nunca vira iguais! Uma ousou aproximar-se e aprisionou-lhe o rosto entre as mãos esponjosas. Sem rodeios, enlaçou-o com o corpo liso e escorregadio e apossou-se da sua boca. Antes que o medo o arrebatasse, sentiu os pulmões inundados pelo ar fresco. Porém, o abalo físico foi tão intenso que a visão escureceu... E o esquecimento sobreveio.

Passaram-se dias... Talvez semanas... Ou meses...

Os olhos verdes, da cor das folhas novas das árvores de uma floresta virgem, abriram-se para uma realidade confusa. A luz tímida do Sol esgueirava-se pelas exíguas frestas do teto de rocha, muito acima da sua cabeça, e revelava formas sólidas, cobertas por limos. Cheirava a mar, a sal, a algas secas e em decomposição. A areia aninhava o seu corpo. Não sentia frio... Pelo contrário. O ar pesava, quente, saturado, quase irrespirável.

A custo conseguiu erguer-se, usando as mãos para suster-se contra a parede. Estava numa gruta e ouvia distintamente o barulho de água, a percorrer o túnel que o isolava do exterior. Tinha fome... Há quanto tempo não comia? Não fazia idéia! Nem sequer sabia onde se encontrava ou como fora parar ali. Desceu cautelosamente pelas rochas íngremes até à pequena lagoa que o mar alimentava. Só mergulhando alcançaria a saída. Os seus passos incertos escorregaram nos limos e as pedras machucaram-lhe os pés. Mais parecia que desaprendera a andar!

Deslizou para dentro da água, sentindo-se imediatamente melhor. Por um instante, interrogou-se se saberia nadar, mas quando o seu corpo se moveu com uma leveza ágil, concluiu que dominava plenamente essa arte. Susteve a respiração e mergulhou. Os braços e as pernas impeliram-no velozmente através da passagem escavada pelo mar. Adiante, uma bifurcação. Seguiu pela direita. Mais à frente, voltou novamente à direita e, por fim, à esquerda.

A meio do túnel, os seus braços ergueram-se ao encontro de uma saliência na rocha. Içou o corpo, e o ar colou-se à sua pele, enquanto renovava o fôlego. Este ato instintivo forçou-o a refletir. Como adivinhara que existia uma bolsa de ar exatamente ali? E por que escolhera o caminho através do labirinto submerso, sem sequer hesitar? Agia por puro instinto, como se, nos últimos tempos, tivesse feito este percurso várias vezes... Por que é que não se recordava de nada? Seu coração acelerou-se no peito, em sobressalto, e decidiu ignorar essas questões. Pensaria nelas quando estivesse em segurança.

Mergulhou de novo, temeroso de enfrentar outra bifurcação na passagem, agora que a sua mente se encontrava repleta de dúvidas. Porém, não tardou a avistar luz. Com um entusiasmo renovado, nadou ao encontro da claridade e logo emergia sob um céu de intenso azul, desprovido de nuvens. Por um instante assustou-se, ao se deparar com a parede de rocha que se erguia diante de si. E se não houvesse terra onde assentar um pé? Como iria encontrar água doce e comida?

Rodou o corpo e suspirou de alívio, ao avistar uma praia de areia clara, salpicada de árvores com troncos altos e escamosos, e folhas grandes como lençóis. Nadou ao encontro dessa segurança, com braçadas largas e vigorosas. Chegaria mais rápido, se não tivesse tanta fome... Por baixo de si, agitavam-se pequenos vultos coloridos; um cardume alimentava-se das algas castanhas, suspensas das rochas que cobriam o fundo do mar. Movido pela mesma força que o ajudara a encontrar a saída da gruta, mergulhou atrás da mancha de vida que alegrava o recife. Os peixes iniciaram a fuga, mas a rapidez não lhes valeu. Os dedos do humano soltaram raios de luz, que trespassaram a água como lanças de fogo. Os menos ágeis tombaram no fundo, e o jovem só teve que escolher o mais gordo, e rumar à praia.

Assim que os seus pés tocaram a areia, tornou a sentir estranheza ao andar, como se há muito não o fizesse. Cambaleou para terra firme e sentou-se, fixando a atenção no peixe. Com o desembaraço de anos de prática, passou a mão sobre as escamas e estas soltaram-se sem resistência. Devorou avidamente a sua presa e, enquanto lambia os dedos, apercebeu-se de que tinha sede. O seu olhar perscrutou a floresta, receoso, mas o instinto acabou por vencer.

A medida que o jovem avançava, os seus passos ganhavam firmeza. As palmeiras podiam fornecer-lhe folhas para construir um abrigo, mas só os frutos dos coqueiros lhe saciariam a sede. Ali estava um, rodeado de cocos que haviam tombado na areia. Optou pelo maior, e pressionou o dedo incandescente contra a casca castanha, dura e peluda, abrindo um buraco suficiente largo para que o líquido oferecido pela Mãe Terra lhe escorregasse pela garganta e o saciasse.

Quando terminou, deixou-se cair na areia, à sombra das árvores. Agora que repousava, voltava a ser assaltado por dúvidas que o faziam estremecer. Quem era? Não se lembrava do seu próprio nome! Onde estava? Não reconhecia esta praia... No entanto, soubera onde procurar os coqueiros! Se não tinha a recordação de, alguma vez, ter segurado um coco, por que o partira e bebera dele, de imediato? E que energia era esta, que se libertava dos seus dedos sempre que necessitava?

— Draco!

O apelo melodioso ecoou, vindo da praia, e atraiu-o irresistivelmente. Algo dentro de si o identificava como familiar. Mas, de novo, a sua mente esbarrava no vazio, ao tentar trazer à memória um acontecimento anterior a essa manhã.

— Draco!

Deu por si a levantar-se e a caminhar na direção da voz, como se a sua vida dependesse dela. A vontade de correr era tão forte, que acabou por atrapalhar-se e cair. Quando levantou os olhos, mal reprimiu um grito. Diante de si, meio submersa pelas ondas que acariciavam a areia, estava uma criatura que não era mulher nem peixe. Tinha formas quase humanas, mas a sua pele era cinzenta e luzidia como a dos golfinhos. Os seus cabelos assemelhavam-se a algas... Porém, o que mais o assustou foi o rosto sem expressão, os olhos negros vazios e a boca repleta de dentes afiados.

O seu sobressalto não passou despercebido à criatura, pois o canto harmonioso tornou-se agressivo. Com a mente devassada pelos guinchos estridentes, o jovem estrebuchou, apertando os ouvidos entre as mãos. A dor era tão intensa que os seus olhos encheram-se de lágrimas. Em menos de nada, o céu azul vestiu-se de negro e a sua consciência desvaneceu-se.

A criatura quedou-se inerte, como se ponderasse o que fazer a seguir. Não lhe agradava deixar a água, embora pudesse fazê-lo durante um curto período de tempo, sem sofrer dano. Talvez devesse voltar as costas e abandonar o humano à sua sorte! Afinal, a cada dia que passava, o risco tornava-se maior. O fato dele ter deixado a gruta e alcançado a praia sem ajuda provava que estava recuperando as capacidades, apesar de todos os seus esforços para lhe dominar a mente. E que outra coisa seria de esperar de um ente de ascendência mista? Não fora, exatamente, devido à força do seu sangue que ela o escolhera? Não, não desistiria enquanto não obtivesse o que desejava, mesmo que isso significasse enfrentar a ira da rainha, sua mãe!

Inspirando um fôlego de coragem, Luthia, princesa do Povo da Água, deixou a segurança do seu elemento e avançou pela areia, ao encontro do humano que jazia inanimado. Pouco tempo passara, desde o dia em que o resgatara de uma morte certa e o trouxera para os seus domínios. No entanto, sentia que o conhecia desde sempre, pois há muito que o observava em segredo, aguardando uma distração, um instante de vulnerabilidade que o colocasse à sua mercê.

O humano era alto e robusto, mas a força era um dos atributos do Povo da Água. Sem dificuldade, Luthia ergueu-o nos braços e carregou-o para o mar. Depositou-o no colo das ondas e deteve-se a contemplá-lo. Draco, como resolvera chamá-lo devido ao dragão tatuado nos seus pulsos, possuía uma beleza superior à dos machos da sua raça. Tudo nele era perfeição, desde os cabelos cor de sol, enfeitados por uma madeixa de fogo, passando pelos olhos de um verde deslumbrante, pelos lábios carnudos que convidavam a beijos sem fim...

De súbito, ele moveu-se, contrariando o balanço da maré. Ia despertar! Sem demora, a princesa apelou à magia para alterar o aspecto do seu corpo. Ao recobrar os sentidos, Draco se deparou com uma jovem de pele branca e imaculada, com cabelos louros, longos e lisos, e profundos olhos azuis, vestida apenas com um amuleto em forma de búzio, que lhe pendia do pescoço.

— Luthia...? — balbuciou, numa voz pouco segura. — O que foi que aconteceu?

— Está tudo bem, meu amor! — replicou ela, suspirando de alívio ao verificar que readquirira o domínio sobre a mente do humano. — Nós saímos para nadar e tu adormeceste na praia.

— Não me lembro de ter deixado a gruta... — Draco olhava em redor, confuso. — Como pude adormecer, se ainda é de manhã?

— Tu estás muito cansado, querido — respondeu a jovem, apaziguadora. — Continuas com o sono atormentado por pesadelos. Ainda não se recuperou do naufrágio.

— O naufrágio... — repetiu ele; a memória regressando num ímpeto doloroso. Essa era a única recordação que guardava da sua vida, antes de chegar à ilha: um barco rodopiando à mercê de ondas gigantescas e de um vento selvagem; o céu rasgado por relâmpagos que quase incendiavam o mar; o som grotesco da madeira a partir-se de encontro aos rochedos; os gritos dos homens... os brados horripilantes de dezenas de almas que se perdiam sob a fúria da tormenta. Depois, água e mais água. E a certeza veemente de que ia se afogar...

Contudo, não se afogara! Despertara naquela praia, por entre destroços de madeira... e com Luthia ao seu lado. A jovem contara-lhe que eram recém-casados. Viajavam rumo a um futuro melhor, numa nova terra, quando a tragédia ocorrera. Apesar de combalido, Draco não se delongara a questionar acerca do passado. A sua memória regressaria, eventualmente! De imediato, tinham de encontrar meios de subsistência.

No fim, fora Luthia quem descobrira a gruta. Era de fácil acesso e permitia-lhes descansar, sem correrem o risco de serem atacados pelas feras que se ocultavam na floresta. Ele ainda não as avistara, mas, quando as trevas os cobriam, ouvia-as rugir com um ardor de gelar o sangue.

Logo na primeira noite, tinham-se amado... Luthia era uma mulher linda e fogosa, que o fazia esquecer tudo. Draco não se cansava de agradecer aos deuses pela companhia da jovem. A sua cabeça não estava bem; por vezes, tombava inconsciente sem nenhuma razão! Se não fosse a dedicação da esposa, já teria perecido. Por isso, o que mais podia fazer, além de recompensá-la com o seu carinho, quando ela o demandava? Como agora!

A pele alva de Luthia contrastava com a sua, dourada pelo sol. Os seios redondos e firmes perfuravam-lhe o peito como lanças. As ancas femininas insinuavam-se de encontro ao seu corpo, e forçavam-no a prender o fôlego. Os braços esguios enrolavam-se ao seu pescoço, enquanto os lábios rosados se apossavam dos seus, num beijo carregado de apetite.

— Luthia... — protestou Draco atabalhoadamente. — Espera...

— Eu não quero esperar! — replicou ela, com uma urgência possessiva. — Desejo-te...

— Mas... Eu acabei de desmaiar!

— Farei com que te sintas melhor do que nunca!

E, sem lhe dar nova oportunidade de contestá-la, empurrou-o para a areia.

Enrolado na espuma das ondas, Draco esqueceu os dilemas que lhe assombravam o espírito. Quando faziam amor, Luthia era dominadora, quase violenta. Por vezes, ele ansiava por aninhá-la nos braços, explorar-lhe minuciosamente o corpo, prolongar o prazer de ambos... Mas, como era habitual, a esposa já lhe dominava a vontade, devorando o seu controle qual fera esfomeada. Draco forçou-se a clarear a mente, a coordenar a respiração... Desta vez, seria ele a decidir o instante em que o êxtase o suplantaria!

Sem contemplações, subjugou-a com o seu peso. A água morna do mar amparava-lhes o frenesi dos corpos e convidava-os a enlouquecer. Não... Ainda não! Só mais um pouco! Arrebatada, Luthia enterrou-lhe os dedos nos cabelos e puxou-o ao encontro dos seus beijos. A mente de Draco foi invadida por focos de luz, que lhe deturpavam a razão, enquanto cânticos sublimes lhe ecoavam aos ouvidos. Abriu os olhos e encontrou um olhar azul, mais brilhante do que o céu que testemunhava o seu desvario. Os cabelos que escorregavam entre os seus dedos eram dourados, mas repletos de caracóis sedosos. O corpo que oscilava ao ritmo do seu era voluptuoso... Esta mulher não era Luthia! Contudo, Draco amava-a! E esse amor era perfeito... Tão perfeito como a sensação que crescia no seu ventre. Avassaladora... Destrutiva... Explosiva...

Então, a jovem bradou:

— Amo-te, Edwin! Amo-te...

Extasiado, ele uniu o seu prazer ao da formosa desconhecida, sentindo que a sua vida se resumia àquele momento, e todo o resto era insignificante. Desejou que tamanha perfeição jamais terminasse. Respirou fundo, satisfeito e dolente. Abriu os olhos... E o que viu gelou-o de horror. Por baixo de si, ainda arrebatado pelo contentamento, encontrava-se um ser grosseiro, resultante do cruzamento de um peixe com uma mulher!

Um grito apavorado escapou-lhe da garganta... e, diante dos seus olhos, a mulher-peixe transformou-se em Luthia. Os lábios da esposa apartaram-se, entoando um som agudo que lhe lacerou os ouvidos... E, de novo, o esquecimento fulminou-o.

Draco passou os dias seguintes no interior da gruta, em permanente delírio. Por mais que tentasse despertar, os olhos recusavam-se a obedecer-lhe. No entanto, os seus ouvidos estavam aptos e revelavam-lhe conversas sem nexo, provenientes de vozes que pareciam cantar, num estranho dialeto que o tempo tornara compreensível:

— Se o humano é incapaz de fecundar o teu ventre, livre-se dele! — ordenava uma voz feminina, inequivocamente mais velha.

— Não! — gritava Luthia, num tom aflitivo. — Eu hei de conseguir...

— Já perdeu muito tempo com esta criatura! Eu apoiei a tua decisão e a longa espera, por admitir que o seu sangue é excelente. Porém, em breve empreenderei a viagem ao encontro dos nossos antepassados e, se tu não provares diante do nosso povo que és digna de ocupar o meu lugar, serás destronada por uma das tuas primas. É isso que desejas, Luthia? Renegar tudo o que aprendeste, tudo o que almejaste, o poder que a tua existência te reserva, por causa deste homem, quando o mais reles macho da sua raça pode providenciar o que necessitas?

— Se não for ele, não será nenhum! — chiou a mais nova. — Eu amo-o, minha mãe...

— Como te atreves a proferir tamanho despautério? — A voz idosa testou a resistência da gruta. — Esta tolice já foi longe demais! Falarei com a Venerada Sábia, para examiná-lo. Se concluirmos que a espera é inútil, a sua sorte está decidida! E não admito nem mais um protesto!

Depois, o silêncio... uma quietude povoada de sonhos, onde se manifestava uma jovem de olhos azuis celestes e caracóis de ouro, cuja simples presença lhe sarava as feridas do corpo e os tormentos do espírito. Não era Luthia! Era... uma parte de si mesmo! E murmurava: «Sou tua desde o instante em que fomos gerados, Rei da Lua... Serei tua até morrer! »

Luthia procurava-o, durante os breves instantes em que a sua razão sobrevinha. Alimentava-lhe a fome, saciava-lhe a sede... e usava o seu corpo, como uma fêmea alucinada pelo cio. Depois, os sentidos do jovem tornavam a falhar... exceto a audição. Luthia chorava! Luthia revoltava-se! Luthia clamava em desespero:

— Porquê? Tu estavas destinado a pertencer-me!

A inconsciência atormentava-o. Nos seus pesadelos, a perversidade das ondas geradas pela violência de uma tempestade surpreendia um majestoso navio de carga e arremessava-o contra rochedos cortantes, ao largo de uma ilha pertencente a um arquipélago vulcânico. Na praia, um homem agitava os braços aos céus, enquanto proferia sortilégios malditos. Apesar de esguio, possuía a robustez de um gigante. Os seus cabelos dourados esvoaçavam sob o vigor do vento agreste, e os olhos azuis gélidos detinham uma perfídia de centenas de anos. Era um feiticeiro... Um feiticeiro que recebia os sobreviventes do naufrágio com exclamações de puro gozo. E Draco estava entre eles! Mas não era um dos infelizes que vomitavam água salgada, e se agarravam aos membros que sangravam, devido aos cortes infligidos pelas rochas... Quem era Draco?

O feiticeiro incentivava-o a ajoelhar-se diante de um dos moribundos, determinando:

— Observe com atenção, Loki! Aprenda como se faz...

E submetia o náufrago ao aperto sólido dos seus braços, fixava-o com um esgar onde as chamas se fundiam com o gelo... e sugava-lhe a vida, fôlego a fôlego, até nada restar além de uma carcaça desprovida de consciência, vazia de espírito.

O pesadelo tornava-se ainda mais abominável! Diante do olhar apavorado de Draco, criaturas de pele vermelha, com focinhos de fera, cornos de boi, olhos incandescentes, presas gigantescas e garras como punhais, surgiam dos buracos das rochas, lançavam-se sobre eles e devoravam os cadáveres oferecidos pelo feiticeiro...

Draco despertou aos gritos, agitando os braços diante do rosto para afastar os demônios. Todavia, na gruta que o albergava, nada existia além de obscuridade e silêncio... Uma obscuridade alternada por um clarão tão intenso que cegava; por um milhar de sóis que queimavam os olhos. Um silêncio profanado por um cântico mágico, que ecoava ensurdecedor, até se desvanecer... para, um fôlego depois, voltar a surgir...

— Luthia! — clamou em agonia. — Luthia!

Escuridão e silêncio... Claridade e estridor insuportáveis! Estava enlouquecendo! Novamente, trevas e vazio... Depois, luz e silvos... Sem parar... Sem parar...

— Luthia!

No desespero do delírio, Draco bateu contra a parede da gruta. Caiu para trás, fustigado por convulsões, e rolou pela rocha. No topo de uma falésia distante, um demônio, tão robusto e poderoso que só podia ser um líder, batia no peito e urrava vitorioso, ao vê-lo despencar no abismo...

A lagoa salgada, alimentada pelo túnel submerso, deteve a queda do corpo débil. O vômito libertou-se dos lábios secos e dormentes. Sem o controle das emoções, Draco sucumbiu ao choro, enquanto tossia e lutava para respirar. A custo, içou-se para fora da água e descansou a cabeça numa pedra; os olhos escancarados à penumbra, o peito ofegante e os dedos cravados na podridão dos limos. Sentia que a gruta se fechava sobre si e o esmagava. Tinha de sair dali... Tinha de sair dali, depressa!

— Draco! O que se passa, meu amor?

Luthia emergia da lagoa; uma mulher linda, com os longos cabelos vestindo as formas esguias do corpo desnudo. Envolveu-o nos braços e aninhou-o junto ao peito. Uma melodia encheu a gruta, suave, quente, acariciando as paredes de pedra, misturando-se com o ronronar do mar que percorria a passagem. Draco apercebeu-se de que essa música estonteante provinha do búzio que se aninhava entre os seios da jovem. A sua indisposição findou como por encanto... Sentiu-se forte, revigorado, mas a mente ainda agonizava. Onde terminava a loucura e começava a realidade? Os pesadelos surgiam-lhe como memórias de uma vida anterior. E qual das duas faces de Luthia seria verdadeira? A da mulher apaixonada? Ou a do ser do mar, que o escravizava de acordo com a sua vontade?

— E se fôssemos para a ilha? — sugeriu cautelosamente. — Construirei um abrigo...

— Não diga tolices! — cortou ela num tom agreste, quase violento. — Tu mal consegues suster-te sem ajuda! Eu é que tenho de cuidar de ti...

Então, Draco encarou-a. Tal como temia, deparou com a mulher-peixe: olhos negros, boca de predador voraz, cabelos de algas... Mas, ao invés de se sobressaltar, indagou com uma serenidade quase gélida:

— Quem é Edwin?

Luthia parou de respirar... e Draco surpreendeu uma emoção naquele olhar profundo: medo! A criatura interrogava-se se ele se recordava. Se estaria a vê-la na sua forma original... ou sob a forma imposta pela magia. Pela primeira vez, o jovem vislumbrava para além da ilusão. E compreendia que estava a ser vítima de um terrível logro. De uma armadilha que podia ser mortal! Porém, antes que pudesse reagir, o cântico agudo da mulher-peixe roubou-lhe os sentidos.

Vozes ecoavam na gruta. Os sons não formulavam palavras, antes silvos. Porém, Draco entendia-os. Estava ciente da realidade, mas o seu corpo não tinha alento para despertar. Nessa dormência angustiante, reconheceu a voz idosa da rainha do povo peixe:

— Diga-me, Venerada Sábia, por que motivo a minha filha não consegue conceber deste humano?

Mãos viscosas e gélidas moveram-se sobre a fronte de Draco, o peito, o ventre... e desceram, até a sua inconsciência se tornar abençoada. O veredicto não tardou:

— Este homem foi amaldiçoado. Apesar de possuir um sangue forte, não tem préstimo para a tua filha visto que a sua semente jamais dará fruto.

Ao assobio centenário, sobrepôs-se o brado de Luthia:

— Isso não é verdade!

E o silvo complacente da sua mãe:

— Crês que o humano nos pode causar dano, se o libertarmos, Venerada Sábia?

A sacerdotisa do Povo da Água inclinou a cabeça, profundamente desagradada. A jovem princesa sempre fora rebelde e impulsiva. Se a soberana começasse a pactuar com os seus desvarios, acabariam por enfrentar uma tragédia!

— Não tenho de elucidar-te acerca da proveniência deste homem, minha rainha! Ele é o resultado da união de um dos mais poderosos guerreiros humanos, com uma feiticeira maldita... E foi educado pelo próprio Guardião da Lágrima da Lua, para se tornar servo do mal!

— Mas a sua alma é pura — objetava Luthia aflitivamente.

— A tua filha aproveitou a sua fraqueza para manipular-lhe a mente — continuou a anciã, ignorando-a. — Porém, em breve, a magia do seu sangue prevalecerá. Começará a despertar fora do domínio da princesa e a recuperar a memória... — O seu olhar perspicaz surpreendeu o abalo da jovem. — Talvez isso já tenha acontecido!

— Luthia? — indagou a rainha, num tom de aviso.

— Não! — defendeu-se a princesa. — Ele é meu escravo!

Todavia, a sacerdotisa não se deixou enganar:

— A tua filha mente! O humano é perigoso... Mate-o! Mate-o, antes que seja tarde!

— Não!

Luthia esqueceu a compostura ditada pela sua posição e atirou-se sobre Draco. Queria gritar que teriam de matá-la, antes de lhe tocarem num fio de cabelo. Porém, a ira na voz da rainha segurou-lhe a língua.

— Tu sabes as regras, Luthia! Para nós, os humanos só possuem uma serventia... Afaste-se!

A princesa não se moveu. As lágrimas escorriam-lhe pela pele lisa e brilhante, enquanto o seu pensamento se retorcia, em busca de uma solução. Necessitava de ganhar tempo.

— Eu sei o que devo fazer — murmurou, orando para ser convincente. — Juro que cumprirei a tua vontade! Mas, por favor, mãe... Conceda-me uma última vez!

— Por que tinhas de te encantar por esta criatura? — desabafou a soberana, contrafeita. — Está bem... Porém, lembre-se de que, se esse humano tornar a ver o Sol, eu me certificarei de que a sua morte será horrenda... E tu sofrerás um castigo exemplar!

As responsáveis pelo destino do Povo da Água abandonaram a gruta, debaixo do silêncio de Luthia. Sob os seus dedos, o coração de Draco batia acelerado, como se ele percorresse os trilhos sinuosos de um pesadelo. O que fazer? Não desejava enfrentar a ira da mãe! Além disso, a anciã tinha razão. Em breve, a mente do humano escaparia ao seu domínio... E o que seria dela, quando tal acontecesse? Tinha que matá-lo... antes que ele a matasse primeiro!

Draco experimentou a estranha sensação de abandonar o seu corpo, e observá-lo com os olhos do espírito, como se fosse duas entidades distintas. A vontade de acometer contra as mulheres-peixe só foi reprimida pela certeza instintiva de que, se o seu corpo indefeso perecesse, a essência também finaria. Luthia defendera-o... Todavia, isso pouco importava, visto que ela era a responsável por esta desgraça. O seu passado continuava esquecido... A velha-peixe dissera que ele descendia de um guerreiro humano e de uma feiticeira, e fora criado para se tornar servo do mal. Contudo, tirando a vontade de esfolar as criaturas que o mantinham prisioneiro, e conspiravam a sua morte, não se sentia mau! Só queria fugir... Ansiava pela liberdade!

A princesa do Povo da Água acariciou os cabelos do jovem inanimado, dividida entre o querer e o dever. Por mais que lhe custasse, sabia que tinha de pôr fim ao tormento de ambos. Se fraquejasse, a rainha abandonaria Draco no meio de um cardume de tubarões e a aprisionaria numa cela cheia de alforrecas, à mercê de milhares de tentáculos urticantes... Isso, se estivesse bem-disposta! Luthia já vira a mãe fazer coisas muito piores.

Como pudera apaixonar-se por um humano? Eles eram incapazes de viver na água, estridentes, agressivos, deselegantes... Porém, Draco agüentava quase tanto tempo sem respirar como ela... E cantava e dançava entre as ondas, melhor do que a maioria dos tritões! Ou, pelo menos, assim fora, até Luthia começar a perder a batalha pelo controle da sua mente.

De nada valia adiar o inevitável! Encostou os lábios ao ouvido do jovem... Orgulhava-se de possuir o berro mais agudo do seu povo, capaz de paralisar um gigante dos mares e destruir a mente de um Homem, sem dificuldade. Seria rápido e indolor.

Abriu a boca uma, duas, dez vezes... Contudo, foi incapaz de gritar! Com as lágrimas a escorrerem-lhe pelo rosto, concluiu que a sua existência seria vazia sem Draco. Enfrentaria os tentáculos urticantes das alforrecas com um sorriso, se soubesse que, em algum lugar da Terra, o seu amor estava a salvo.

Decidiu contar-lhe a verdade, mal despertasse. Talvez compreendesse! Talvez a aceitasse... Afinal, já a fixara com um olhar de conhecimento, e não manifestara aversão ante a sua verdadeira forma. Ela reagira, movida pelo temor, mas agora arrependia-se de não lhe ter respondido que Edwin fora, outrora, o seu nome. No fim, quem sabe se o destino não lhe concederia outra oportunidade?

Draco acordou, sôfrego por ar, como se coagido a reter o fôlego há uma eternidade. Sentou-se, com o corpo a tremer e a cabeça a rodopiar. Encontrava-se na mesma gruta onde fora sentenciado à morte... mas sozinho. Não havia sinal de Luthia, nem de nenhuma criatura-peixe. Lá fora, sobre o mar, a Lua reinava no céu... Como é que podia saber tal coisa? Porém, sabia-o! Sentia a energia da soberana da noite no pulsar do seu coração.

Levantou-se de um salto, enquanto os últimos acontecimentos lhe acudiam à memória. Não tinha certeza do seu passado, mas estava ciente do seu futuro. Antes do Sol nascer, a mulher-peixe que lhe manipulava a mente iria matá-lo. O que fazer? Confrontá-la não era opção! Um dos seus odiosos berros o lançaria por terra, como uma minhoca à mercê de uma gaivota. Desconhecia por que Luthia se ausentara, mas esta era a sua oportunidade de fugir. O Povo da Água não podia subsistir longe do seu elemento. Por isso, a sua captora recusara-se a deixá-lo abandonar a gruta. A floresta da ilha era extensa e ofereceria um esconderijo, até que as aberrações o esquecessem.

Resoluto, desceu pela rocha, satisfeito por verificar que não tremia. Acabara de entrar na água, quando sentiu a essência de Luthia... A mulher-peixe aproximava-se; deslizava pelo túnel submerso com uma destreza inigualável. Sem tempo para se interrogar acerca deste incremento da sua percepção, Draco mergulhou as mãos na lagoa, buscando uma pedra solta que pudesse servir-lhe de arma. Encontrou-a, no instante em que o rosto cinzento, ornamentado por cabelos de algas, emergia, e usou-a sem hesitação.

A pedra esmagou-se na cabeça de Luthia, e deixou-a inconsciente antes de soltar um queixume. Draco preparava-se para mergulhar, ignorando a mancha de sangue que tingia a água, quando reparou que a criatura deixara cair um peixe e um coco. Se pretendia matá-lo, por que se dava ao trabalho de alimentá-lo? Seria possível que, no meio desta loucura, o afeto da princesa fosse verdadeiro? Teria coragem de desafiar o seu povo, por causa de um estranho que nem sequer servia os seus propósitos?

Então, o peito de Draco encheu-se com um sentimento atordoante: compaixão. Deu por si a içar Luthia para fora da água, apenas o suficiente para que não se afogasse, certificando-se de que a sua pele permaneceria molhada. Depois, usou a energia que se libertava dos seus dedos para fechar-lhe a ferida da testa. Quedou-se por um momento, fixando pela última vez aquele ser que possuía as respostas para as suas perguntas. Ao deixá-la para trás, poderia se recordar algum dia de quem era, de onde viera, do que fora a sua vida?

Pelo menos, teria uma vida! Voltou-se para o túnel e mergulhou.

O Povo da Água procurou Draco, de dia e de noite, durante semanas. A rainha ordenava que os tritões se revezassem e buscassem cada vez mais longe, obcecada pelo desejo de capturar o humano e infligir-lhe a morte. Teria Luthia perecido devido à agressão?

Draco observava as criaturas ao longe e aproveitava para desenvolver as capacidades que redescobria a cada fôlego. Ousou até mesmo caminhar ao lado de um tritão, sem que este percebesse! A medida que o seu corpo recuperava a robustez, tomava consciência de que, além das habilidades místicas, possuía uma notável destreza física. Na privacidade da floresta, usava os ramos das árvores como espadas e atacava inimigos invisíveis. Por vezes, imaginava-se rodeado pelos demônios dos seus pesadelos. Corria, saltava, rolava para escapar... Aos poucos, recordava a dor provocada pelos cornos pontiagudos, pelas garras afiadas, pelas presas aguçadas, pelas vergastadas das caudas... Lembrava-se do ardor das queimaduras produzidas pelo bafo de fogo dos monstros, capaz de separar a carne dos ossos. E do olhar implacável de um feiticeiro, enquanto clamava enfurecido:

— Onde está, Loki? Quando te apanhar, criatura néscia, arranco-te o couro à chicotada!

Qual seria o seu verdadeiro nome: Loki ou Edwin? Não voltara a sonhar com a jovem de pele branca, caracóis louros e olhos azuis, apesar dela habitar no seu coração. Pelo menos, já quase não sofria de pesadelos! Agora, sempre que fechava os olhos, uma esfera coberta de faces que libertavam um brilho negro abraçava-lhe a essência e reconfortava-o. Era como se aquele estranho cristal fizesse parte de si, e o fortalecesse a cada dia que passava.

Por fim, os homens-peixe desistiram de caçá-lo... Ou Draco já se afastara tanto da costa, que lhes era impossível encontrar o seu rastro. Atreveu-se a construir um abrigo no topo de uma árvore, próximo de um ribeiro. Cruzara com as feras da floresta e, apesar destas o terem fitado com respeito, não desejava se arriscar. Já suportara flagelos para várias vidas!

Então, certa noite, acordou a transpirar, com o coração a martelar-lhe o peito. Tornara a sonhar com o barco que se afundara ao largo da ilha vulcânica... Mas não fora o feiticeiro quem causara o naufrágio! Fora Loki, o seu aprendiz! Do cerne do horror de depredação que se seguira, por entre os brados de indescritível suplício e os latidos de júbilo dos demônios, Draco erguera-se qual gigante, renunciara ao pudor da consciência e tomara o lugar do seu mestre, alimentando-se das vidas dos desconhecidos, sublimando a magia da sua essência, até o êxtase prostrá-lo.

Abandonou o abrigo e correu através da floresta. Caiu de joelhos dentro do ribeiro, enterrando os dedos no solo. Tinha medo de abrir os olhos e encarar o seu reflexo; de descobrir que era um monstro mais terrível do que os demônios da Ilha do Fogo, ou as criaturas que o tinham aprisionado. A sua percepção estava tão aguçada, que distinguia o som das próprias lágrimas a caírem na água, misturando-se com o canto dos pássaros, o assobio dos insetos, o rosnar das feras, o murmúrio do vento... a voz dela: «É um homem livre, Rei da Lua!»

Com o corpo a tremer, Draco arquejou num impulso:

— Esperará por mim, Edwina?

E o vento respondeu-lhe:

«Serei tua até morrer!»

Sem fôlego, abriu os olhos e enfrentou a água. O reflexo revelou-lhe um rapaz que se debatia, preso a duas colunas de pedra enfeitadas com símbolos de significado tenebroso. Se Draco não o matasse, ele seria devorado vivo pela centena de demônios que os rodeavam. Uma vez que o destino o marcara para morrer, que o seu fim fosse rápido e digno! Sem hesitar, Draco trespassou-lhe o coração com o seu punhal... e voltou-se para encarar Sigarr, mestre da Arte Obscura.

Gota a gota de suor e sangue, o horrorizado jovem reviu o seu passado. As lembranças perfuravam-no como adagas, forçando-o a cair no ribeiro, a rolar na água tépida, a estrebuchar de dor, à medida que os enigmas eram desvendados. Quando fora confrontado com a escolha do poder ou do amor, Draco, que nascera Edwin e se tornara Loki, desafiara o seu mestre para salvar a prima, Edwina, Guardiã da Lágrima do Sol... Sigarr, Guardião da Lágrima da Lua, fora derrotado e ele herdara o seu poder. Porém, as forças divinas não permitiram que escapasse impune aos crimes que cometera, ao serviço da Arte Obscura. Mal tocara a felicidade, esta fora-lhe arrancada das mãos. Com o corpo dilacerado, sem um pingo de magia na essência e prestes a se afogar, Draco vira Edwina matar Vulcan, o rei dos demônios... e partir, levando consigo a Lágrima da Lua, e a certeza de que o perdera.

Então, Luthia surgira com o seu povo. Devolvera-lhe o ar, sarara-lhe o corpo... e quase lhe destruíra a mente. Agora que recuperara o discernimento, Draco estremecia, ao tomar consciência de como estivera perto da loucura.

A água cristalina corria ao seu redor e cobria-o de paz. Os seus olhos fixavam o céu, mas viam para além das estrelas e do sorriso da Lua. Sobre ele, pairava a imagem de uma esfera repleta de faces que conduziam a mundos dentro de mundos, e o seu brilho negro sarava-lhe o espírito, saciava-lhe a essência com magia. Ele era o senhor da Lágrima da Lua! Podia enfrentar a rainha do Povo da Água, derrotar o seu exército de sereias e tritões, e rumar para casa... à Montanha Sagrada. Porém, já que o destino lhe concedera a oportunidade de viver uma nova vida, aproveitaria para se redimir do passado sangrento. Desta vez, era livre para fazer as suas escolhas... E tomaria as decisões certas!

Era incrível como os dias voavam, quando se trabalhava arduamente para um objetivo! O regresso à praia decorrera sem sobressaltos e o receio de encontrar o Povo da Água à sua espera, pronto para estourar-lhe a mente com guinchos lancinantes, depressa se atenuou. Apesar de se manter alerta, Draco começava a acreditar que as criaturas tinham desistido de persegui-lo, decidido que ele não valia tanto esforço.

Uma após outra, as árvores cederam sob a ação da magia. Não era fácil controlar o fogo gerado pelas suas mãos, para que queimasse apenas o suficiente a fim de prostrar o tronco. A concentração despendida deixava-o exausto e forçava-o a longos períodos de repouso. Porém, a sua persistência aumentava, à medida que a jangada tomava forma.

Durante a noite, recolhia-se no abrigo das copas das árvores, para não ser apanhado desprevenido. Então, as recordações invadiam-no e torturavam-no. Por várias vezes, a tentação de lançar a sua essência ao encontro de Edwina tornou-se quase insuportável. Todavia, no último instante reprimiu-se. A prima julgava-o morto! E morto continuaria, até alcançar o seu propósito. Tinha uma viagem longa e incerta pela frente, onde tudo podia acontecer! Não surgiria diante ela, a dar-lhe falsas esperanças, sem ter a garantia de que sobreviveria para abraçá-la.

No dia em que se preparava para fazer-se ao mar, Draco sofreu um sobressalto. A jangada estava intacta, onde a deixara... Mas, sobre ela, encontrava-se um cesto feito de algas ainda úmidas. E, dentro deste, um amuleto em forma de búzio, igual ao que Luthia trazia ao pescoço. Hesitou, julgando tratar-se de uma armadilha. Por fim, reuniu coragem para agarrar a peça delicada. Quase de imediato, a voz de Luthia deslizou na sua mente, tranqüila e suave, forçando-o a suster o fôlego:

«Perdoa-me, meu amor... Nunca pretendi magoar-te ou causar-te desgosto. O meu povo não é mau! Conceber dos humanos foi a maneira que encontramos de subsistir, uma vez que os homens da minha raça se tornaram incapazes de gerar filhos. Ao longo das gerações, a magia do nosso sangue tem enfraquecido... Tu eras a garantia de que a minha descendência sobreviveria, Draco, mas o destino decidiu contra mim. É livre para partir, com a promessa de que o meu povo não atentará contra a tua vida. Se um dia encontrares no teu coração a vontade de perdoar-me, sopra o búzio dentro de água e eu escutarei o teu apelo, onde quer que estejas. Amo-te e amar-te-ei até o dia da minha morte... Uma palavra tua, e renunciarei a tudo para ficar ao teu lado...»

O murmúrio desvaneceu-se como névoa dissipada pelo vento. Draco quedou-se a olhar para o amuleto, tentado a atirá-lo ao mar. Porém, uma força misteriosa segurou-lhe o braço. Sem saber porquê, colocou o búzio mágico ao pescoço. Entre coisas menos benignas, Sigarr ensinara-lhe a não desperdiçar recursos. Quem sabe se o encantamento de Luthia não viria a ser útil? Apesar da raiva, aliviava-o saber que a princesa do Povo da Água não perecera por suas mãos. Quase sorriu, ao pensar que o Loki que vivia dentro de si adormecera. Era a consciência de Draco quem assumia as decisões.

Sem mais demoras, carregou com cocos a rede que tecera. Levaria folhas de palmeira para proteger-se do sol e cobrir-se do frio, e troncos de árvore, que lhe serviriam de remos. O mar lhe daria o sustento e, se chovesse, recolheria a água dentro das cascas vazias dos cocos. Era tempo de deixar aquela malfadada ilha, e rumar ao Norte do mundo, onde se encontravam as respostas para as suas dúvidas. Arrastou a jangada para a água e apelou à magia para embalá-la sobre as ondas, até apanhar a corrente. Tinha que combinar sabiamente a força física com os recursos da Arte que habitava o seu sangue. Não fazia idéia de quantas semanas de viagem tinha pela frente, e ia necessitar de toda a vontade e astúcia para sobreviver. Um homem comum jamais poderia empreender tal aventura... Porém, ele não era um homem comum! Era o Guardião da Lágrima da Lua... Finalmente, a caminho da liberdade!

 

Os dias tornaram-se semanas... talvez meses! Aos poucos, Draco sucumbia à debilidade. O seu carregamento de cocos teve de ser racionado, porque não existia uma nuvem no céu azul, de onde proviesse uma gota de água. Há muito que desistira de pescar. À medida que enfraquecia, a sua magia também se esgotava. Já não tinha forças para se levantar. Seguia ao sabor da corrente, sonolento, febril, delirante... A chegada da noite proporcionava-lhe algum alívio ao corpo castigado pelo Sol. Com olhos exaustos e derrotados, observava o sorriso da Lua, que estendia os seus braços de luz branca e serena até à jangada, empurrando-a como se o destino do humano já estivesse decidido. Por vezes, entre ele e a forma redonda e luminosa pairava um nevoeiro cintilante, que pulsava em tons de sangue e trevas, redemoinhava e se transformava num pássaro gigante de penas pretas e bico aguçado, prestes a devorá-lo...

A jangada bateu contra uma superfície sólida. Teria alcançado terra firme? Não! O som da água a deslizar debaixo dos troncos, que há muito lhe perturbava a consciência, misturava-se agora com um clamor humano. Uma voz grave e melodiosa ordenava:

— Puxem-no para dentro! Cuidado! Este homem não pode morrer!

Estaria a sonhar? Faria este salvamento parte de um último delírio da sua mente moribunda? Draco tentou em vão abrir os olhos. Sentia o corpo queimado por fora e por dentro. Pensar era um esforço supliciado pela dor. O esquecimento tornou-se um alívio para a sua agonia.

As vozes dos homens soavam distintas. Cantavam e riam, assobiavam e praguejavam. Os seus salvadores dividiam-se pela amurada do barco longo e estreito, remavam quando não havia vento e içavam a vela de riscas coloridas, quando este soprava. De tempos em tempos, Draco sentia a presença de alguém a seu lado... alguém, cuja essência fervilhava magia! Água pura e fresca escorregava-lhe por entre os lábios macerados pelo sol, e escorria-lhe pela garganta, causando-lhe mais tormento do que satisfação. Todavia, o alívio acabou por instalar-se no seu peito, e as mãos ergueram-se, sôfregas, em busca do cantil, para que o líquido não parasse de jorrar.

Era noite cerrada quando finalmente despertou. Não sonhara! Encontrava-se num barco carregado de homens, que dormiam a sono solto, e cujos roncos se assemelhavam ao rugido do mar contra um penhasco, no furor do Inverno. Eram guerreiros, sem dúvida! Os seus corpos altos e musculosos cobriam-se com roupas simples, de cores apagadas, algumas esfarrapadas pelo uso. Estavam descalços, e o cheiro forte dos seus pés misturava-se com o suor dos corpos, e empesteava o ar. Tinham cabelos compridos e claros, atados ou entrelaçados para oferecer o pescoço à generosa brisa noturna. Cada um carregava uma espada. A amurada estava coberta de escudos, os quais impediam o mar de entrar sempre que o barco cortava as ondas.

Um guerreiro de aspecto tenebroso segurava o leme. Parecia mais alto do que os demais e os seus ombros tinham uma largura impressionante. O rosto estava desfigurado por inúmeras cicatrizes que lhe repuxavam os lábios e conferiam um esgar ameaçador. Ao lado do gigante encontrava-se uma figura alta e esguia, tão graciosa que, à primeira vista, Draco julgou tratar-se de uma mulher. Um olhar mais atento revelou-lhe um homem de feições delicadas, pele branca, cabelos acobreados e intensos olhos azuis, que brilharam de modo peculiar quando se apercebeu de que o seu passageiro despertara. Não tardou a aproximar-se, movendo-se com uma elegância que pouco tinha de feminino. Draco arrepiou-se... Este estranho fazia-lhe recordar o seu mestre!

O olhar do capitão trespassou-o como se desejasse arrancar-lhe a alma. Draco reconheceu-lhe um poder impressionante. E sentiu-se intimidado. Estava tão fraco, que seria incapaz de contrariar um assalto à sua mente. Porém, após o primeiro impulso curioso, o outro recuou e estendeu-lhe um cantil, perguntando na voz grave e melódica que ele já conhecia:

— Como se sente?

Draco aceitou o cantil e bebeu sofregamente; o vigor inundando-lhe o corpo a cada gole de água fresca. O capitão falava a língua do Norte... O fato de este ser um barco semelhante àqueles que tinham tentado resgatá-lo da Ilha do Fogo, quando ainda era criança, fortalecia a sua suspeita de que se encontrava entre Vikings. E os Vikings não navegavam por aquelas paragens... A não ser que tivessem um propósito!

— Estou vivo! — replicou cautelosamente. — A quem devo agradecer esta graça?

— À minha senhora — respondeu o outro, sem hesitar. — O teu salvamento não foi arte do destino. Ela sabia que necessitaria da sua ajuda e enviou-me ao teu encontro.

De novo, Draco foi sacudido por um calafrio. Apesar da certeza de nunca ter encontrado este homem, havia nele algo de assustadoramente familiar. E o que acabara de dizer não fazia sentido! Quem é que podia conhecer a sua sorte, além do seu mestre... e de Edwina? Depois do que fizera, Sigarr jamais ergueria um dedo para salvá-lo! Mas a prima...

Antes que pudesse conter-se, já questionava:

— Foi Edwina quem o mandou...?

— Refere-se à Guardiã da Lágrima do Sol? — indagou o outro, sem deixá-lo terminar. — A Edwina, filha do jarl Throst e mulher do príncipe Ivarr do povo Viking?

Draco reteve a respiração, como se tivesse recebido um pontapé no estômago. O seu abalo foi tão violento que o capitão prosseguiu, num tom quase piedoso:

— Lamento, mas a princesa Edwina nada tem a ver com o teu salvamento. Há muito que te esqueceu! Mal o povo a aclamou sucessora de «O Que Tudo Vê», casou-se com o primogênito do rei Steinarr e concebeu dele...

Draco ergueu a mão com tal veemência que o homem se calou. Fechou os olhos, tentando inutilmente esconder as emoções que o fustigavam: desencanto, tormento, raiva... um ódio que crescia a cada batida de coração e despertava a criatura selvagem que habitava o seu espírito. Edwina prometera-lhe que esperaria... Que seria sua até o fim dos tempos! Mesmo que o julgasse morto, não podia ter se casado com o príncipe Viking, quando lhe jurara amor eterno! Traidora! Mil vezes traidora! E Draco ainda desejara mudar o rumo da sua vida; usar a Arte para ajudar o mundo... quando, em troca, tinha para receber mais uma punhalada no peito! Abriu os olhos e enfrentou o olhar azul que o observava. Desta vez foi o outro que susteve o fôlego, impressionado com a rapidez de que ele dava mostras de recuperação.

— Como pode saber tudo isso? — insurgiu-se Draco, numa voz agreste.

— Eu pouco sei — respondeu o capitão, com uma tranqüilidade firme. — Mas a minha rainha vê longe! Ela estimava muito a tua mãe, e salvou-te para que tenha oportunidade de repor a justiça; para que possa lutar ao seu lado, pelos objetivos que vos são comuns.

— Aesa... — mastigou Draco, sem saber se devia uivar de dor ou sucumbir às gargalhadas.

— Sim — assentiu o capitão, impressionado. — A rainha Aesa é a tua benfeitora!

— E tu quem és?

Entre eles, o ar soltava faíscas. A distância, o rugido de um trovão sobrepôs-se ao fragor das ondas, que se esmagavam de encontro ao casco. No céu, encobrindo as estrelas e a face vitoriosa da Lua, formava-se um nevoeiro místico, onde pairavam partículas de energia negra e escarlate.

— O meu nome é Snari e sou um príncipe vândalo, servo da rainha Aesa e herdeiro do seu poder... Não tema, Loki! Tenho o pressentimento de que seremos bons amigos!

 

— Abaixe-se!

Quando o aviso de Bryan ecoou, Thora lançou-se por terra; a espada do inimigo assobiando-lhe aos ouvidos. Rolou sobre o solo enlameado e aproveitou o ensejo para pontapear os joelhos do homem que a atacara pelas costas. Este cuspiu um palavrão, mas conseguiu suster-se, após vacilar dois ou três passos. Assim que recuperou o equilíbrio, tornou a investir com um ímpeto enfurecido. Já de pé, a loba prateada deteve a lâmina do guerreiro, cruzando a espada sobre o punhal que o pai lhe oferecera, na noite da sua iniciação, e com o qual prostrara a fera que habitava a sua alma, apelando a toda a força para empurrá-lo.

Porém, não era fácil derrubar um mercenário do Norte. A sua raça resultava da mistura de vários povos de natureza feroz. Embora não fossem tão altos como os Vikings, eram sólidos como troncos. Foi Thora quem tornou a ceder, cambaleando e caindo desamparada. A espada escapou-lhe da mão e o seu olhar encontrou o esgar vitorioso do colosso que a defrontava. A lâmina afiada tombou sobre ela, e só não a trespassou graças à velocidade vertiginosa com que se movia. O guerreiro rugiu irado, sem acreditar que falhara. No instante seguinte, o seu semblante retorceu-se de agonia, quando o punhal da opositora se enterrou na sua virilha.

Thora libertou a arma da carne quente e prostrou o mercenário com um pontapé. Preparava-se para recuperar a espada, quando outra lâmina lhe sibilou aos ouvidos. Instintivamente, ergueu o braço para deter o ímpeto inimigo com a bravura do punhal. Caiu para trás e o homem seguiu-a, tentando subjugá-la com o seu peso. Habituada a repelir adversários com o dobro da sua estatura, usou os pés para afastá-lo, enquanto a mão se fechava sobre o punho da espada. Quando o mercenário tornou a investir, a lâmina da guerreira já o aguardava. Varou-lhe o ventre com um grito alucinado e levantou-se para sustar mais um ataque.

Ao seu redor, os corpos agitavam-se num frenesi bravio. O clamor dos homens e das armas era ensurdecedor. A luz pálida e gélida da tarde de Primavera começava a extinguir-se. Em breve, seria impossível distinguir amigos de inimigos. Porém, tal contrariedade não preocupava Thora. Os seus olhos adaptavam-se à bruma, com a eficácia de um animal noturno.

Um mercenário corria na sua direção, empunhando um machado e berrando enlouquecido. A loba prateada só teve tempo de lançar o punhal contra ele, antes de erguer a espada para defender-se de outro inimigo. Pelo canto do olho viu o homem do machado cair, com a lâmina enterrada na garganta, e inspirou um fôlego de vaidade. O seu arremesso melhorava a cada dia! Concentrou-se no gigante que a desafiava. Era o maior que já enfrentara. Mais uma vez foi derrubada e teve de rolar na lama para escapar. Esboçou um tênue movimento defensivo, mas o mercenário tombou ao seu lado, vomitando sangue.

Lutando para recuperar o fôlego, Thora viu Ivarr, herdeiro do trono Viking e seu senhor, recolher a espada com que trespassara o inimigo e estender-lhe a mão.

— Eu não precisava de ajuda! — protestou num tom incendiado.

— Eu sei! — replicou ele, puxando-a para si. — Só se deitou na lama para contemplar o céu!

Não puderam continuar a trocar provocações, porque se viram cercados. Em qualquer peleja, eles eram os principais alvos: Ivarr por ser um líder, Thora por parecer o guerreiro mais fraco. Uniram as costas e repeliram os inimigos com um ânimo renovado. Eric, Ragnar, Bryan e Ketill juntaram-se finalmente a eles. Reagrupados e revigorados pela energia produzida pelo contato dos seus corpos, o rei-lobo e a sua alcatéia confrontaram os incrédulos mercenários com a magia que os unia. Estes já não sabiam se enfrentavam homens ou animais, guerreiros ou deuses... Os gritos confundiam-se com o rugido das feras e arrepiavam o crepúsculo. O sangue espirrava na direção do céu de cinza, misturava-se com a chuva e formava rios no solo alagado.

— Throst!

A voz de Arnorr, filho de Arngrim, ribombou como um trovão sobre o clamor da batalha. O colosso surgiu entre a confusão de corpos suados, escudos e espadas que se batiam, como se tratasse do próprio Odin, deus da guerra. O farto emaranhado de cabelos rubros, que lhe caíam pelos ombros, revelavam um rosto que em tempos fora agradável, mas agora era apenas austero, marcado por duas décadas do mais profundo ódio.

O objeto do seu rancor ocupava-se de dois mercenários. Throst, filho de Thorgrim, era um guerreiro abençoado com a dádiva do espírito de um Lobo Cinzento, um líder de alcatéia, o que significava que só alguém com igual poder seria capaz de prostrá-lo. A sua espada abateu-se sobre um dos guerreiros, rodou e caiu sobre o outro. A lâmina ergueu-se, salpicando de sangue o louro-dourado dos seus cabelos. Um dos inimigos tombou de joelhos, com o peito rasgado... Ainda não fechara os olhos e outro já ocupara o seu lugar.

O rei Steinarr lutava ao lado do jarl da Ilha dos Sonhos. Numa mão segurava a espada, na outra, um machado. A sua força era suficiente para manter os inimigos à distância. O guerreiro-urso, como ficara conhecido antes de conquistar a soberania do povo Viking, investiu adiante e decepou o braço do mercenário que o desafiara. O homem tropeçou nos próprios pés e tombou desamparado; a mão que lhe restava apertando o coto por onde o sangue esguichava; os olhos esbugalhados de horror. A espada do rei pôs fim ao seu suplício.

Arnorr continuava a abrir caminho através do campo de batalha. O terreno íngreme, rochoso e escorregadio podia ser uma armadilha fatal para botas que nunca o haviam experimentado. Mas o líder dos mercenários conhecia-o bem. Estabelecera a sua morada aqui, entre os fiordes, desde que fora forçado a abandonar o solo que o vira nascer. Esta era a sua oportunidade de vingar-se, de recuperar a sua herança de berço. Throst roubara-lhe tudo: a preferência de Gunnulf, seu irmão e chefe de clã, o prazer de desfrutar da escrava estrangeira que ele tanto desejara e, por fim, o conforto da sua casa, o domínio da sua terra... Por isso, tinha de morrer! E, com ele, todos aqueles que haviam decidido segui-lo, voltando as costas aos verdadeiros senhores da Terra Antiga!

Arremeteu contra dois jovens Vikings e abandonou-os engasgados em sangue. A sua espada decepava braços e pernas àqueles que se atreviam a perturbar-lhe a corrida enraivecida.

— Throst! — berrou a plenos pulmões. — Vem enfrentar o teu destino, vil traidor!

Um guerreiro-lobo barrou-lhe o avanço. O seu nome era Durin e fazia parte da guarda pessoal do jarl. Na juventude, haviam partilhado incontáveis brincadeiras e brigas. Durin sempre fora mais forte, mais determinado, mais belicoso do que Arnorr... Mas isso remontava a um tempo em que este apenas almejava casar-se e cultivar a sua própria terra.

O olhar de Durin estreitou-se, por baixo da pele de lobo que lhe cobria a cabeça; os lábios apertaram-se, até formarem uma linha fina. O seu corpo quedou-se, tenso e alerta. Este era um confronto que desejara jamais ter de travar; não porque receasse o homem diante de si, mas porque as recordações lhe invadiam a mente. Em tempos, Arnorr fora um rapaz tímido, inseguro, pervertido pela maldade do irmão mais velho... E fora nesse irmão que Arnorr se transformara! Durin fixava o guerreiro alto e robusto, que parecia nada mais ter feito na vida do que viver à custa do aço da espada, e via Gunnulf.

Não trocaram uma palavra. Arnorr acometeu contra o rival de arma em riste, rugindo ameaçador. Durin amparou o golpe e forçou-o a saltar para escapar à reviravolta da sua lâmina. O líder dos mercenários sorriu desdenhosamente, exibindo duas filas de presas aguçadas como as de uma fera. O guerreiro-lobo vacilou perante a visão grotesca. Arnorr desgastara os próprios dentes, até dar-lhes aquela forma aterradora! Era louco! Completamente louco!

O líder dos mercenários não hesitou em tirar vantagem da surpresa de Durin, que mal conseguiu equilibrar-se com o embate da recarga. Sujeitou-o com o seu peso, bloqueando-lhe a ação da espada, enquanto se aproximava o suficiente para acotovelá-lo na boca. Durin cambaleou sob o impacto; os lábios deixando escapar uma golfada de sangue e de dentes partidos. Tentou manter-se de pé, mas Arnorr foi mais rápido e pontapeou-o no ventre, empurrando-o para a lama. O guerreiro-lobo caiu, com a cabeça a latejar e o olhar cego por uma luz que se precipitava na sua direção como um raio divino. Esse raio atingiu-o no meio do peito... E a luz desvaneceu-se.

Arnorr desenterrou a espada do peito de Durin, com um urro de triunfo, e virou-se para retalhar outro adversário. Todavia, os Vikings eram em maior número. Um a um, os mercenários tombavam. A batalha estava perdida... Mas a derrota e a morte seriam um doce destino, se o seu maior inimigo o seguisse na queda para o submundo!

— Throst! — berrou com o ódio que lhe queimava o sangue a latejar-lhe nas faces; os braços abertos, expondo o peito num desafio; os lábios arreganhados, revelando uma boca de pesadelo.

Porém, não foi o filho de Thorgrim quem respondeu ao apelo. Diante do líder dos mercenários encontrava-se outro homem que partilhara da sua casa, da sua vida...

— Acabou-se, Arnorr! — exclamou Krum. — Pouse as armas e entregue-se à clemência do rei.

Os Vikings prostravam os últimos resistentes. Aos mercenários só restava a fuga ou a morte. Contudo, Krum sabia que Arnorr lutaria até o fim. Não fugiria, nem tampouco negociaria a rendição... Pelo menos, com nenhum outro homem, além dele. Tinha que tentar... O seu coração assim o obrigava!

— Qual rei? — grunhiu Arnorr, exibindo as presas ameaçadoras. — Esse porco miserável que se rodeia de traidores? O Norte arderá, antes que eu me incline perante Steinarr! O legítimo rei do povo Viking morreu há muitos anos, apunhalado nas costas pelo seu homem de confiança, pelo seu melhor amigo...

— Pare, Arnorr! — vociferou Krum, na derradeira tentativa de chamá-lo à razão. — Gunnulf também era meu irmão! No entanto, eu vi o monstro em que se transformou...

— Como se atreve a apregoar-se nosso irmão, bastardo? — estrondeou o outro, cuspindo-lhe na cara.

Krum engoliu em seco; toda a esperança perdida. Sob o alarde do aguaceiro que alagava a terra e encharcava os homens até os ossos, a sua voz soou como um gemido de súplica:

— Eu não quero lutar contigo...

— Será um prazer matá-lo, filho de uma bruxa rameira! — atalhou Arnorr... e investiu adiante; a espada apontada ao coração de Krum.

O irmão cambaleou ante a veemência do embate, mas opôs-se com determinação. Na juventude, fora um guerreiro quase tão excelente como Throst. Depois, a vocação de curandeiro acabara por prevalecer. Por quê causar a morte, quando podia salvar vidas? Porém, não obstante os anos em que desfrutara da felicidade de ver a família crescer, abençoada pela venturosa tranqüilidade da Ilha dos Sonhos, Krum ainda não perdera a destreza beligerante.

Lutaram com ardor, até o aço das espadas soltar faíscas e incendiar a noite que subjugava o Norte. E houve um momento em que Krum teve Arnorr à sua mercê; um breve instante, em que o seu espírito puro suplantou o negrume da alma do seu adversário.

A espada voou da mão de Arnorr e caiu na lama. Ao seu redor, os gemidos dos moribundos finavam sob a última réstia de luz. Os Vikings tinham cumprido a sua missão e observavam os filhos de Arngrim, neste confronto final. Ao longe, ecoavam trovões...

A lâmina de Krum detivera-se encostada ao peito de Arnorr. Após um fôlego angustiado, começou a baixá-la, abanando a cabeça em negação. O homem diante de si era abominável, mas não deixava de ser seu irmão, seu sangue... E mais nenhum sangue mancharia este solo que a chuva purificava! Os lábios do curandeiro iniciaram um apelo decidido:

— Arnorr...

Mais rápido do que o pensamento, o líder dos mercenários desembainhou o punhal que trazia à cintura e trespassou o ventre de Krum.

O tempo parou... Só o assobio do vento e as pancadas da chuva relembravam aos homens a necessidade de respirar. Os olhos enlouquecidos de Arnorr fulgiam, tão rubros como os seus cabelos; vitoriosos, jubilosos, extasiados... possessos! Os olhos de Krum cintilavam, marejados de lágrimas, incrédulos, doridos... infinitamente tristes. E foi com o olhar mergulhado no do irmão, que Arnorr empregou toda a força para elevar o punhal, lacerando-lhe a carne até o peito.

— Não! — O grito de Throst sobrepôs-se ao estridor da tempestade. Os relâmpagos desenhavam rios de fogo no céu, enquanto o filho de Thorgrim corria ao encontro do primo, saltando sobre os cadáveres que a lama engolia. Porém, o rei Steinarr estava mais perto e alcançou Arnorr primeiro, empurrando-o para longe do irmão.

Krum tombou de joelhos, com as mãos amparando as entranhas que espreitavam do interior do seu corpo, quais minhocas gigantes de um funesto pesadelo. Throst deixou-se cair ao seu lado e segurou-o nos braços; os lábios escancarados em brados de horror, que não tinha alento para libertar; os olhos enfrentando a tragédia inevitável. As lágrimas escorriam-lhe pelas faces, quando tornou a fixar o rosto lívido de choque e de dor do seu melhor amigo. Com um esforço sobre-humano, Krum declarou, numa voz pejada de sofrimento:

— Foi uma honra servir-te, Throst...

— Não, Krum! — arquejou o jarl, agarrando uma mão cheia dos caracóis do primo, como se esse gesto pudesse segurá-lo à vida. — Poupe as tuas forças. O curandeiro de Steinarr...

Apesar do martírio, Krum esboçou um sorriso.

— Havemos de nos encontrar noutra vida, Lobo Cinzento... E seremos novamente irmãos...

— Sim, meu bom Krum... Seremos irmãos! Para sempre!

Outro corpo prostrou-se ao seu lado. Eric encarou o pai com olhos apavorados. Os lábios tremiam-lhe incontrolavelmente, mas a voz estava presa na garganta. Krum deixou a cabeça pender sobre o ombro do filho, murmurando:

— Tu és... o meu orgulho...

Uma golfada de sangue afogou-lhe as palavras. E os seus olhos fecharam-se.

As gargalhadas de Arnorr misturaram-se com o ribombar da tormenta e assombraram os espíritos dos guerreiros. A espada do rei Viking enterrou-se na sua garganta, o suficiente para silenciá-lo. O sangue escorreu pela lâmina e o irmão de Gunnulf estremeceu debaixo do olhar cristalino. Steinarr rangeu os dentes e fremiu, enrouquecido pela indignação e pelo desprezo:

— Tu sempre foste um fraco, Arnorr! Fraco de inteligência. Fraco de vontade. Fraco de caráter... Eu sabia que eras um assassino! Mas nunca te imaginei capaz de tamanha selvageria!

— Deixe-o apanhar a espada!

A ordem arrepiou a noite. Com o cenho franzido, e sem desviar a atenção do prisioneiro, Steinarr fixou o jarl, que se aproximava qual onda bravia, disposta a desfazer o mais duro dos penhascos. Sacudiu a cabeça, replicando:

— Throst... Não!

— Liberte-o, Steinarr! — insistiu o filho de Thorgrim, num tom que gelou os companheiros. — Esse miserável me pertence!

Após uma breve hesitação, o rei recuou com um suspiro resignado; o olhar suplicando cautela ao seu Primeiro Homem. O povo Viking já perdera muito nesta batalha... Assim como a sua casa! Confiava na destreza de Throst, mas Arnorr fora traiçoeiro ao ponto de aproveitar-se da piedade do irmão para assassiná-lo.

O líder dos mercenários não perdeu tempo. Levantou a espada com a ponta da bota e empunhou-a orgulhoso, declamando:

— Finalmente, o lobo covarde mostra as suas presas! Já era tempo de parar de se esconder por trás dos teus homens, Throst! De qualquer forma, eu chegaria até ti, nem que tivesse que matar a todos!

O jarl investiu com a espada sequiosa de sangue. O ódio que chispava no olhar dos dois adversários fazia a violenta tempestade que deflagrava sobre os fiordes parecer uma brisa gentil. Bateram-se como animais selvagens, uivando alucinados. Todavia, apesar de há duas décadas se preparar para este confronto, o filho de Arngrim não era rival para o filho de Thorgrim. Com uma maestria sublime, Throst conseguiu desarmar o primo. Depois de lhe arremessar a espada para longe, desferiu o primeiro murro... e não parou mais!

As faces de Arnorr receberam os socos, um após outro, até os dentes saltarem ou trespassarem a carne desfeita dos lábios; até o nariz se torcer numa forma impossível; até os olhos quase saltarem das cavidades. Então, quando o assassino diante de si já mal se sustinha, o Lobo Cinzento resgatou a espada de Krum da lama, e suspendeu-o pelos cabelos, obrigando-o a encará-lo.

— Olha bem para mim, Arnorr, filho de Arngrim! Voltaremos a nos encontrar noutras vidas... E, em todas elas, eu hei de persegui-lo e matá-lo!

E, sem mais delongas, fez girar a lâmina vingadora e cortou-lhe a cabeça.

Ouviu-se um rumor entre os guerreiros. A comoção dominava a vontade dos homens. Então, Eric fez o impensável. Deixou o pai repousar no solo, correu para a cabeça decapitada do seu algoz... e, com um impulso formidável do pé, pontapeou-a para longe do corpo.

A cabeça rubra de Arnorr saltou sobre o chão rochoso e não se deteve. Continuou a rolar pelo penhasco, até desaparecer de vista; para sempre separada do tronco, para sempre maldita.

 

Com o coração a ribombar, vi Throst, filho de Thorgrim, e meu muito amado pai, ajoelhar-se ao lado do primo Krum, seu companheiro de uma vida, embalando-lhe a cabeça inerte contra o peito, com as roupas ensopadas de sangue, chorando como uma criança desesperada... E soube, sem sombra de dúvidas, que a execução de Arnorr não lhe trouxera o menor alívio. Uma parte do seu espírito acabara de perecer.

Abri os olhos encharcados em lágrimas para outra realidade — a minha realidade. A Lágrima do Sol escorregara-me dos dedos e rolara sobre a cama. A sua cintilação natural apagara-se; a energia que a animava esgotara-se. Os objetos mágicos, assim como as pessoas, necessitavam de se restabelecer, após um grande desgaste. Durante algum tempo, eu estaria cega para as ações que se desenrolavam ao norte. No entanto, sabia que pouco mais havia para testemunhar. A batalha findara.

Esta ofensiva aos domínios de Arnorr fora a resposta ao ataque sangrento que reduzira a cinzas uma das nossas aldeias de fronteira. Mal o furor das tempestades da estação gelada serenara, já os mercenários desencadeavam um assalto brutal, com o objetivo de pilhar, destruir e matar. Apesar de se baterem corajosamente, os guerreiros encarregados da defesa do povoado, surpreendidos pela fúria do ferro e do fogo, nada puderam fazer para evitar a chacina das mulheres e das crianças sob a sua proteção. Depois de se apoderar de toda a comida e haveres, Arnorr incendiara as casas e empalara os cadáveres dos jovens. A sua mensagem era inequívoca: enquanto vivesse, o futuro do reino Viking estaria assombrado.

Após o massacre, Steinarr convocara os chefes de clã para uma reunião urgente. Os meus pais tinham passado o Inverno no Norte, velando por mim, por isso o jarl sentou-se ao lado do rei nesse encontro de líderes. Apenas três mulheres o presenciaram: eu, na qualidade de Guardiã da Lágrima do Sol; a minha irmã Thora, como guerreira do príncipe herdeiro... e a minha mãe, porque nenhum Viking, nem mesmo o próprio rei, se atrevia a contrariar a vontade de Catelyn da Ilha dos Sonhos. Depois de muito debaterem, os homens concluíram, frustrados, que era impossível caçar os mercenários nas grutas geladas. Estas formavam autênticos labirintos. Um exército se perderia e morreria de frio, antes de avistar o inimigo. Então, o meu pai destacara-se dos companheiros e enunciara:

— Já concordamos que Arnorr é inacessível no seu território... E se o atrairmos para fora do reduto dos fiordes? Em campo aberto, os mercenários estarão vulneráveis. Com o devido planejamento, podemos cercá-los e destruí-los.

— Arnorr é um covarde! — contrapusera Steinarr. — Jamais aceitará o desafio...

— Aceitará... porque lhe ofereceremos um prêmio impossível de recusar.

O rei franzira o cenho, ao aperceber-se de que o jarl tinha uma idéia definida.

— E que prêmio tão apelativo será esse?

O meu pai não hesitara:

— A minha cabeça! Mais do que riqueza e poder, Arnorr deseja matar-me. A sua obsessão irá forçá-lo a arriscar tudo para me exibir como troféu.

Os chefes de clã haviam se entreolhado, com acenos de aprovação. O plano do jarl podia funcionar...

— Mesmo assim — prosseguira Steinarr —, para emboscarmos Arnorr necessitaríamos saber a localização exata do seu esconderijo atual.

— Isso não será difícil! — A voz fresca da minha mãe mergulhara a sala em silêncio. Apesar de pálida e assustada, ante a resolução do marido, Catelyn da Ilha dos Sonhos tinha consciência de que era crucial eliminar rapidamente a ameaça dos mercenários. O avançar da Primavera traria reforços e um novo alento à determinação desses assassinos.

— Lamento discordar, senhora — replicara Steinarr, cauteloso. — Existem dezenas de lugares onde procurar. E mesmo que os descubramos hoje, nada nos garante que lá estejam amanhã! Será uma tarefa árdua e demorada, que envolverá muitos homens e recursos...

— Para empreender essa busca, meu rei, necessitamos unicamente de um pássaro!

A interrupção da minha mãe voltou a surpreender os líderes Vikings. Apesar do respeito que lhe devotavam, alguns atreveram-se a sorrisos, e outros, a gestos de impaciência. Porém, a expressão aprovadora do meu pai revelava que já compreendera a intenção da esposa. Steinarr não fora tão longe, mas indagou com uma ansiedade curiosa:

— O que tem em mente, Catelyn?

O plano era tão simples, que me deixou envergonhada por não ter sido capaz de concebê-lo. Em tempos, o feiticeiro Hakon, meu bisavô paterno, recorrera à ajuda de uma coruja encantada para auxiliar a minha mãe, sem se dar a conhecer. Mais tarde, ela própria apelara à mesma coruja para espiar as armadilhas da Floresta Sagrada da Grande Ilha, antes do confronto final com a hedionda feiticeira Gwendalin. Infelizmente, e graças à estupidez e intransigência dos Seres Superiores, Catelyn já não possuía poder para concretizar o sortilégio... Mas essa magia estava ao alcance da Guardiã da Lágrima do Sol. E Lança, o mais robusto e inteligente dos falcões reais, seria capaz de levar a bom termo essa missão.

Posto isto, o rei Steinarr dera seguimento ao plano do jarl. Enquanto os guerreiros se organizavam, Lança perscrutava as costas geladas, em busca de sinais da presença dos mercenários... E eu vira através dos seus olhos, ouvira através dos seus ouvidos, enquanto deslizávamos como um só ser, amparados pelos dedos do vento. Então, há exatamente uma semana, a nossa perseverança fora recompensada.

De imediato, o exército Viking partira para o norte. Ao atingir o objetivo, o meu pai dera-se a conhecer, escoltado apenas pelos seus homens, enquanto os guerreiros do rei contornavam o fiorde, preparados para surpreender os mercenários pela retaguarda, se estes mordessem a isca. E, tal como o jarl previra, o primo fora incapaz de resistir ao apelo do ódio. Quando se dera conta da armadilha, estava cercado, sem possibilidade de recuar para a segurança das grutas. O nosso povo libertara-se finalmente do jugo de Arnorr... Contudo, o preço que pagáramos fora muito elevado!

Quedei-me sobre a cama, lutando para respirar. A minha mãe e Freya estavam ao meu lado, apoiando-me o corpo e alimentando-me a essência com energia curativa, para impedir-me de desmaiar. Os seus olhos haviam escurecido de pavor, ante a minha reação. Vi-as reter o fôlego e engolir em seco, adivinhando-me portadora de uma mensagem terrível; divididas entre a vontade de me sacudir, para que falasse depressa, e o impulso de tapar os ouvidos e recusar a verdade.

— O primo Krum... — solucei, engasgada. — O primo Krum morreu...

Senti o sangue gelar quando um grito ecoou nas minhas costas. Voltei a cabeça, a tempo de ver Svana desmaiar. De imediato, Freya acudiu à prima. Continuei sentada, atordoada... Svana não se encontrava no quarto, no momento em que eu iniciara a viagem espiritual ao encontro dos nossos guerreiros! Jamais teria desabafado, se sonhasse que a haviam deixado entrar! Não era assim que se anunciava a uma filha que jamais veria o sorriso do pai, jamais sentiria a força do seu abraço e a ternura dos seus beijos... Contudo, o mal estava feito! A partir deste momento, nada voltaria a ser como antes. E isso era algo com que todos teríamos de aprender a viver!

No País dos Vikings, os festejos espalhavam-se pelas ruas das aldeias, em ruidosas manifestações de júbilo. Porém, na privacidade do castelo do rei Steinarr, a dor dilacerava-nos os corações. O meu pai estava inconsolável! Durin fora um dos seus companheiros e confidentes; Krum... Krum fora seu irmão de criação, o amigo com quem partilhara alegrias e tristezas, sonhos e projetos, a história da sua vida. Só o carinho da minha mãe parecia amenizar-lhe o desespero... E só as traquinices de Thorson lhe arrancavam um sorriso.

Aos três anos, o filho da minha irmã Freya era um prodígio! Falava corretamente, era capaz de acompanhar o raciocínio dos adultos e já sujeitava rapazes com o dobro da sua idade, no decorrer de uma briga. Ao seu lado, ninguém sossegava. Quando não estava a nos desafiar para testarmos a sua força, queria saber o porquê de todas as coisas. A sua aptidão para a Arte deixava-nos de queixo caído. A sua energia jamais se esgotava. Tanto os meus pais como eu sabíamos o que isso significava. Freya decidia ignorá-lo. Se alguém se atrevesse a dizer-lhe que os deuses haviam escolhido o seu filho para se tornar um guerreiro-feiticeiro, enfrentaria a ira de uma fera. No entanto, nós que possuíamos o Conhecimento, sabíamos que era imprudente, até mesmo inaceitável, adiar a admissão da realidade, sob pena de enfrentarmos um destino terrível, onde Thorson nos destruiria e se destruiria a si mesmo... Ele nascera com a marca!

Eu ajudara o meu sobrinho a vir ao mundo e, ao primeiro olhar, julgara que as linhas escuras nas suas costas provinham dos fluidos que o haviam protegido durante a gestação. Porém, ao verificar que assim não era, apressei-me a escondê-las das mulheres que me auxiliavam. Freya não tardara a observá-las e negara-se a aceitar o óbvio. Quando os nossos pais chegaram, para congratulá-la e conhecerem o neto, também não conseguiram fazer-se ouvir. E, desde então, eu vira os traços pretos multiplicarem-se. Os mais grossos eram quase sólidos, como se estivessem prestes a brotar da carne. Os mais finos eram brilhantes e, à luz do Sol, assumiam cores maravilhosas. Era como se um artista talentoso tatuasse em segredo, nas costas de Thorson, noite após noite, as asas de uma borboleta. Só que não era uma borboleta que se apossava sutilmente da essência do meu sobrinho. Era um dragão!

A profecia era clara: da união do Rei da Lua com a Rainha do Sol, nasceria um primogênito varão, capaz de assimilar o Conhecimento Absoluto contido nas Lágrimas do Sol e da Lua. Esse homem teria o mundo aos seus pés, pois nenhum ser da Terra, guerreiro ou sábio, conseguiria superá-lo. Durante anos, eu vivera com o peso dessa ameaça sobre os ombros, já que, por herança de sangue, era uma Rainha do Sol. A minha família temera de tal forma que eu me unisse ao meu primo Edwin, feito Rei da Lua pelo poder execrando do feiticeiro Sigarr, que só suspirara de alívio no dia em que me casara com Ivarr. Contudo, ninguém imaginara que as caprichosas forças que movem a sorte do mundo tivessem outros planos.

Por artes do destino, a minha irmã Freya conhecera Helgi, bisneto da terrível feiticeira Aesa, rainha do povo vândalo, descendente da linhagem do Guardião da Lágrima da Lua. Tinham vivido uma paixão avassaladora; a loucura de uma única noite de amor... que fora suficiente para gerar uma criança: o primogênito varão de um Rei da Lua e de uma Rainha do Sol. O meu sobrinho Thorson era o filho do dragão, de quem a profecia falava; um deus entre os Homens, capaz de salvar o mundo ou de destruí-lo. Cabia a nós moldar a sua personalidade para que, envolto na luz do nosso amor, o seu espírito não se deixasse seduzir pelo poder das trevas.

No entanto, ainda que ciente disto, Freya recusava-se a colaborar. E quem podia condená-la por desejar que o filho desfrutasse de uma vida normal? Eu não, certamente! Porém, Thorson não era uma criança comum... E, a cada dia, a sua unicidade declarava-se com maior veemência.

Observei o avô e o neto, com um nó na garganta. Thorson cansara-se das brincadeiras dos outros garotos e estendia os braços, pedindo colo. O jarl estreitou-o contra o peito e, entrelaçando os dedos nos anéis castanhos acobreados dos seus cabelos, herança do pai, murmurou-lhe:

— Que os deuses permitam que jamais experimente esta dor, meu querido! Tu és especial, Thorson... O meu orgulho, a minha alegria, a paz que me acalenta o coração envelhecido!

Os olhos azuis límpidos de Thorson, que todos acreditavam ser um legado do avô Throst, fixaram-se nas lágrimas por este choradas. Sem hesitação, amparou-as com os dedos, estendendo a mão em seguida, enquanto declarava num tom solene:

— Não fique triste, avôzinho! Toma, é para ti!

Cobri os lábios, mal segurando um grito. O olhar do jarl revelou-me que também ele sentia dificuldade em ocultar o sobressalto. Na palma da mão de Thorson encontrava-se uma pedra brilhante, de cor azul; a lágrima do meu pai transformada num cristal!

Chamei Freya e os nossos pais ao meu quarto, para não corrermos o risco de sermos interrompidos. Se esta reunião chegasse ao conhecimento de Thora, ela se indignaria por ter sido excluída. Contudo, não havia outra opção, visto que a minha irmã ignorava o segredo que ensombrava a paternidade de Thorson, apesar de já ter movido montanhas para descobri-lo. No fim, eu compreendia a relutância da sua gêmea em confiar-lhe a verdade. Freya acreditava que, no instante em que Thora soubesse que ela se deitara com o príncipe Helgi, não descansaria enquanto não o passasse pela lâmina da sua espada. E, atendendo ao ódio que a loba prateada dedicava ao povo vândalo, eu não contestava esse temor.

Ao ver-me trancar a porta, Freya enfrentou-me de cenho franzido e mãos nas ancas, batendo nervosamente com o pé no chão, enquanto declarava numa voz pouco amistosa:

— Se tenciona me pressionar, para que consinta que Thorson inicie o treino da Arte, poupe-se do esforço, Edwina! Já disse que o meu filho não entrará nessa guerra. — Voltou-se para os pais, apelando: — Por favor, ajudem-me a convencê-la a deixar Thorson em paz!

Throst suspirou, fixando o olhar no chão, mas Catelyn manteve-se firme e replicou:

— Pelo menos escute a tua irmã, querida!

— Para quê? — exaltou-se Freya, ao verificar-se em desvantagem. — Ela dirá que o destino do Thorson está ameaçado por uma profecia, e que nós temos o dever de guiar os seus passos, para que jamais se perca para o mal. Estou cansada dessa lengalenga!

— Tem que admitir que ele é especial! — contrapus.

— Eu não sou estúpida! — revidou, com o ardor de uma fera que vê a cria ameaçada por um predador voraz. — Porém, o fato de Thorson ser mais forte e mais inteligente do que as outras crianças não atrairá atenções maléficas sobre si. A manifestação de uma habilidade mística pode fazê-lo! Não correrei tamanho risco!

— Então, acredita que, se Thorson se mantiver afastado da magia, o poder que habita a sua essência permanecerá adormecido? — questionei, incrédula ante a sua ingenuidade.

— Exatamente! — respondeu, com uma convicção cega. Busquei o apoio dos nossos pais. Não queria ser eu a destruir as ilusões de Freya, provando-lhe que estava errada. Tinha bem presente a sua reação, no dia em que a Montanha Sagrada se negara a reconhecer Thorson como um herdeiro do Dragão do Sol. Após o nascimento do pequeno, eu tentara tatuar-lhe nos pulsos o testemunho da nossa linhagem... Todavia, a magia não se manifestara. Para mim, tal representara a confirmação do seu destino. Na essência do meu sobrinho misturavam-se os poderes do Sol e da Lua, e uma energia era incapaz de sobrepor-se à outra. O entendimento de Freya fora convenientemente oposto: a Montanha Sagrada não marcara o seu filho porque decidira afastá-lo da influência da magia.

Felizmente, o jarl recompôs-se e encarou a filha mais nova, pronunciando-se num tom carinhoso mas firme:

— A aptidão do Thorson começa a se revelar, querida! Sinto muito... mas devo concordar que ele necessita ser orientado. Não podemos permitir que a sua magia se desenvolva sem controle e lhe domine a consciência.

— O que é que está dizendo, papai? — balbuciou a nossa menina, empalidecendo.

O jarl abriu a mão, exibindo um minúsculo cristal azul, em forma de gota. Freya escutou-o, com a expressão de um inocente que enfrenta uma sentença de morte. Depois, deixou-se cair sobre a cama, ocultando o rosto e soluçando, assolada pelo pranto. A nossa mãe acolheu-a nos braços, murmurando:

— Sinto muito, meu amor! Sei que não é fácil... Mas tem de ser forte, pelo teu filho!

Eu respirei fundo e acrescentei:

— É possível treiná-lo, sem levantar suspeitas. A Senhora Doralia guardará segredo. Pedirei-lhe que atenda à instrução de Thorson, com o mesmo cuidado que devota a Oriana. O nosso povo acredita que ele foi gerado sob a influência da Festa da Renovação. O fato de ser educado por uma nativa do Povo dos Penhascos fortalecerá a idéia de que descende de um dos servos de Amora e Trygve, e afastará os mais curiosos da verdade.

— Fala assim porque Thorson não é teu filho! — irritou-se a minha irmã, com um ardor enfurecido. — Se fosse mãe...

— Freya! — A repreensão de Catelyn silenciou-a.

Mantive-me impassível, ignorando a dor que as suas palavras despertavam. A minha irmã estava perturbada... e com razão! Os seus piores temores haviam se concretizado, e a frágil segurança que construíra, tão arduamente, estalava-lhe debaixo dos pés como gelo fino.

Provando que não tencionara me ferir, Freya veio ao meu encontro e estreitou-me.

— Desculpa, mana! — suplicou. — Eu sei o quanto ama Thorson...

— Chiu... — tranquilizei-a. — Acalme-se! Vamos aceitar o talento de Thorson com naturalidade, para não assustá-lo, e encaminhá-lo na direção da luz.

— Tenho tanto medo de perdê-lo! — confessou dolorosamente. — Morrerei de desgosto, se ele abraçar a herança do pai!

— O plano de Edwina é sensato... — interferiu a nossa mãe.

— Contudo, se teme que a proximidade da feiticeira Aesa influencie Thorson, por que não regressa conosco? Terei todo o gosto em atender pessoalmente à educação do meu neto! O castigo dos Seres Superiores privou-me de grande parte do meu poder, mas mantenho o conhecimento necessário para guiá-lo na aprendizagem da Arte Luminosa.

O meu coração sofreu um baque. Ver partir os meus pais já era suficientemente penoso... Não me imaginava a prescindir da companhia de Freya! Era certo que Thora permaneceria no Norte... Porém, as atenções da loba prateada devotavam-se quase exclusivamente ao rei-lobo e à sua alcatéia. Se Freya rumasse à Ilha dos Sonhos, eu não teria com quem falar, com quem partilhar risos e lágrimas. Talvez devido à solidez do nosso elo, ou por razões secretas, que nem se atrevia a admitir a si própria, Freya negou com firmeza:

— Obrigada, mamãe... Contudo, se o poder de Thorson está a se manifestar, é prudente mantê-lo próximo da Montanha Sagrada e da Lágrima do Sol. A confirmar-se o seu destino, só a luz do cristal será capaz de equilibrar-lhe a essência.

E isso era uma verdade irrefutável! No fim, apesar da resistência inicial, Freya acabara por render-se à razão. Observei-a com carinho e vi uma mulher adulta e responsável, corajosa como poucas. Apesar dos infortúnios do passado e dos receios que a acompanhavam no presente, eu tinha certeza de que a minha irmã ainda nos daria muitos motivos de orgulho. O abraço com que os nossos pais nos brindaram confirmou-me que partilhavam dessa convicção.

 

Ivarr quedava-se na nossa cama, atento às formas do meu corpo que a camisa de noite denunciava, enquanto eu espevitava as chamas da lareira. Sentia o seu olhar nas costas, como um ferro em brasa, e rangia os dentes... Não podia continuar a adiar o momento em que teria de enfrentá-lo.

— Edwina... Vai ficar aí a noite toda?

Voltei-me devagar, tentando forçar um sorriso. Porém, estaquei em sobressalto. Enquanto me atarefara, na esperança de que o cansaço o vencesse, Ivarr despira-se... mas não vestira a roupa de dormir. Aguardava-me, deitado sobre as cobertas tal como viera ao mundo; a sua beleza máscula exposta, sem vestígio de pudor. Apoiava a cabeça num braço e os cabelos espalhavam-se pela almofada. O olhar verde refletia as chamas e queimava-me a pele. O corpo perfeito cortava-me a respiração...

Antes de nos casarmos, Ivarr desfrutara de grande popularidade entre as mulheres. As aventuras amorosas da sua juventude ainda eram divulgadas pelos nossos guerreiros, na exaltação das festas, quando julgavam que nenhuma senhora os escutava. A razão advertia-me de que a maior parte desses relatos era produto da imaginação fértil dos homens; uma exaltação à virilidade do líder. Porém, não contestava o poder de sedução de Ivarr! Por mais que quisesse, era impossível ignorar os olhares, envenenados pela raiva, que algumas damas bem casadas me ofertavam, e os seus suspiros de lasciva saudade, sempre que fixavam o meu marido. Se eu pudesse acusá-lo de desrespeito, como pretexto para mantê-lo afastado da minha cama, seria mais fácil! Contudo, Ivarr não voltara a buscar o prazer em outro leito após o nosso casamento.

Decerto estes pensamentos refletiram-se no meu rosto, pois a mágoa apagou o ardor no seu olhar. Deixou-se cair para trás, com um suspiro de desalento, enquanto exclamava:

— Nunca imaginei que deitar-se comigo fosse tão insuportável!

Fiquei gelada, sem saber o que responder. Já lhe explicara as minhas razões uma miríade de vezes, mas ele recusava-se a aceitá-las. Engoli em seco, ao vê-lo saltar da cama e buscar as roupas, assombrada pela recordação de um incidente que não desejava reviver.

— Ivarr! — Corri ao seu encontro e abracei-o pelas costas, impedindo-o de partir. — Por favor... Não vá!

Senti o seu coração a martelar-me os dedos; o esforço que fazia para respirar.

— O que é que quer de mim? — murmurou transtornado. — O que mais posso fazer para te agradar?

— Nada... — sussurrei, repousando as faces febris na sua pele macia. — Sabe bem que me agrada... e muito!

— Então, por que nega o meu amor? — Virou-se para me encarar, afagando-me os ombros. — Eu preciso do teu carinho, Edwina! Preciso da tua luz... Esta última batalha inundou-me a alma de trevas. Fecho os olhos e só vejo sangue, dor, morte... Um dia, será o meu sangue, a minha dor... Mas, até lá, quero viver...

A voz lhe falhou, tão intensa a comoção que o abalava. Capturou-me os lábios num beijo ardente e fui incapaz de recuar. A sua barba estava suficientemente crescida para não me arranhar o rosto. Apreciei essa suavidade, enquanto enterrava os dedos na solidez das suas costas. E, antes que conseguisse raciocinar, já estava deitada na cama, nua nos braços do meu marido.

As cobertas aqueceram, até o calor nos sufocar. Ivarr gemeu e insinuou-se gentilmente, pedindo autorização para aprofundar as carícias. Os seus cabelos tombaram sobre mim qual chuva de seda; uma cortina preta que deixava passar os reflexos da lareira, que incendiavam o verde cristalino... Mergulhei na sua boca com um suspiro arrebatado; os seios entumecendo de encontro ao seu peito; o ventre pulsando com uma necessidade veemente. Ivarr era um amante experiente e habilidoso... E não poupava esforços para me enlouquecer.

O fogo espalhou-se pelo meu sangue... Porém, as recordações combateram-no, qual onda de gelo. Eu não podia ceder a esta loucura! Escancarei os olhos, sem fôlego, empurrando-o para obrigá-lo a libertar-me os lábios, enquanto arquejava:

— Pára, Ivarr! Pára!

Ele obedeceu, mas não se afastou. Limitou-se a fixar-me; a confusão devorando a paixão no seu olhar. Muito prazer; muita agonia...

— Por favor... — supliquei numa voz que mal reconheci. — Eu não quero engravidar. Morrerei de desgosto, se perder outro filho!

A sua expressão ensombrou-se. Afastou-me os caracóis do rosto e afagou-me as faces, enquanto dizia:

— Tu estás mais forte, mais poderosa na tua magia. Desta vez, há de correr tudo bem! Não tenha medo... Deixe-me amá-la, Edwina!

Fechei os olhos, libertando as lágrimas. Desejava-o, era verdade... Porém, não estava disposta a mergulhar de cabeça num horror intolerável.

— Se me ama, tem que compreender! — objetei. — Enquanto não descobrir uma cura para o meu mal, não posso fazer amor contigo.

O seu corpo ficou tenso; todo o ardor perdido. Em menos de nada, deslizou para o lado e voltou-me as costas. As minhas mãos contorciam-se, com vontade de tocar nele, de confortá-lo. Todavia, se o fizesse, Ivarr saltaria da cama e desapareceria na noite. Assim, pelo menos, eu desfrutava do consolo de sua presença. A pergunta que me atormentava era... até quando?

 

O corredor era estreito e baixo. A umidade escorria pelas paredes, acumulava-se no chão, formando um tapete de podridão que me dificultava os movimentos. À minha volta, a escuridão era opressora e gélida. Cheirava a medo... Cheirava a morte. De toda a parte, ecoavam gemidos que pouco tinham de humano. Suplicavam por ajuda... Choravam de desespero. Senti-me subitamente prisioneira de dedos fortes e afiados como garras. Mãos saíam das paredes, do teto, do chão e tentavam prostrar-me, dilacerar-me a carne, apoderar-se do meu espírito. Por trás das mãos formavam-se corpos, rostos, expressões deformadas pelo martírio... Três delas tinham os meus olhos. Gritei com as forças que me restavam... E despertei.

Sentei-me na cama, ofegante, com a mente num turbilhão e o coração prestes a arrebentar o peito. As chamas da lareira garantiam que me encontrava a salvo. Porém, demorei até parar de tremer e me recuperar do pesadelo.

Ivarr ressonava, alheio ao meu sofrimento. Fixei o olhar nas sombras que bailavam no teto e deslizavam sobre as duas tapeçarias que enfeitavam a parede. Ninguém questionava a extraordinária beleza dos seus tecidos e a perfeição dos fios de ouro resplandecentes. Contudo, neste momento, os desenhos do Dragão do Sol, representante da minha linhagem mágica, e os símbolos da família real, o carvalho da força e o falcão do poder, pareciam... discordantes.

Eu não voltara a deter o controle da minha vida, desde que resolvera unir-me a Ivarr. Logo na primeira noite de casada, sofrera uma vertigem, separara-me da realidade e bradara pelo meu primo Edwin, com um desvario apaixonado. Furioso e magoado, o meu marido partira numa campanha, sem me dar oportunidade de suplicar o seu perdão. Quando a minha família regressara à Ilha dos Sonhos, Freya insistira em ficar ao meu lado. Fora ela quem me amparara o choro e ajudara a erguer a cabeça.

Recordava a alegria que sentira, no dia em que descobrira que o meu ventre albergava uma criança. Essa felicidade contagiara Ivarr que, ao retornar, esquecera a gravidade da minha ofensa, ante a visão da barriga proeminente, onde se aninhava o seu primogênito. Porém, ao nascer da sexta lua cheia, algo terrível acontecera... Sem nenhuma razão, o meu corpo rejeitara o bebê. Nessa noite, acreditei que morreria com o meu filho. Não finei, mas estive perto de enlouquecer! Valeu-me Freya, que me alimentou com energia curativa, susteve o meu corpo e me acarinhou o espírito, até que reuni alento para reagir.

Meses depois, tornei a engravidar... e a tragédia repetiu-se. Na noite em que a sexta lua cheia despertou no céu, as dores chegaram, lancinantes, insuportáveis, acompanhadas por uma torrente de sangue, que formou um lago aos meus pés e se misturou com as minhas lágrimas... e as lágrimas de Ivarr. Depois disso, o rei mandou chamar os melhores curandeiros do reino, para me observarem. Felizmente, a minha mãe viajou ao meu encontro, a tempo de impedir que um deles me molestasse.

Furiosa ante a iniciativa de Steinarr, Catelyn da Ilha dos Sonhos garantira-lhe que eu era uma mulher saudável, de sangue forte e mente sã. Tamanho infortúnio só podia ser causado pela interferência de um ente perverso! Comovida, recordara a história da minha tia Fiona, sua irmã mais nova, cuja alma fora roubada, quando ainda se encontrava no ventre da mãe, pela feiticeira Gwendalin. Os mestres da Arte Obscura possuíam o poder de se alimentar das vidas dos não-nascidos, mas, segundo se sabia, para tal devia existir um contato entre o algoz e a vítima, o que não acontecera.

No último Festival de Verão, a minha mãe concluíra que existiam condições favoráveis para que uma nova gravidez decorresse sem sobressaltos. A fim de manter-me sob os olhos, mudara-se para o castelo Viking com o meu pai, deixando a Ilha dos Sonhos entregue à administração dos meus tios Edwin e Bjorn. Steinarr e Ivarr não objetaram, ansiosos por ultrapassar a dolorosa questão. A partir da noite mágica, as rezas protetoras da feiticeira Catelyn acompanharam-me a cada instante. Eu não saía à rua sem a sua companhia; não comia nem bebia sem que ela se certificasse da pureza dos alimentos; tudo o que vestia passava pelas suas mãos, e os meus sonhos eram guardados pelo aroma de ervas curativas.

Todavia, a fatalidade revelava-se inevitável! Nem todo o cuidado e empenho da senhora da Ilha dos Sonhos foi suficiente para salvar a vida do neto, ao surgir da sexta lua cheia. Se existia justificativa para tamanha desgraça, éramos impotentes para discerni-la, mesmo com o auxílio da Arte. As insistentes consultas à Pedra do Tempo também ficavam sem resposta. As forças que regiam o meu destino recusavam-se a desvendar uma solução para a desdita. Consternada, a feiticeira Catelyn aconselhara-me a evitar conceber, até que decifrássemos este enigma. Eu sabia que não se passava um dia sem que ela apelasse à Arte, na tentativa de ajudar-me. Porém, até hoje, os seus esforços haviam sido vãos. E eu não tivera melhor sorte!

Assustada, negava o ardor de Ivarr; inventava desculpas para fugir dos seus braços, ou recorria à magia para adormecê-lo. Aos poucos, o meu marido apercebera-se da artimanha... E enfurecera-se! A sua esperança de que tudo poderia ser diferente, numa próxima vez, impedia-o de compreender a extensão do meu horror; a dor de perder um filho após o outro! Três vidas tinham perecido no meu ventre... A todo instante, imaginava como seriam essas crianças; o brilho dos seus cabelos, a luz dos seus olhos, a força da sua essência... os feitos dos quais haveríamos de nos orgulhar, se lhes tivesse sido concedida a oportunidade de viver. Eu não me resignara ao infortúnio, mas não podia admitir a repetição da desgraça!

O pesadelo não me saía da cabeça. Apesar do sofrimento, insistia em recordá-lo nos mínimos detalhes, tentando interpretar o seu significado. Todavia, nada me ocorria! Era como se a percepção lutasse para se libertar de um véu, mas este se recusasse a cair, envolvendo-me, sufocando-me.

Não contive um soluço, à medida que o choro me suplantava. De imediato, Ivarr abriu os olhos. Temi sua reação... Contudo, só havia ternura nos seus braços, quando me estreitou contra o peito. Não dissemos uma palavra. Não era necessário! Deixou-me desabafar, enquanto me beijava a testa com meiguice. Acariciei-lhe os cabelos, admirando a sua beleza selvagem; apreciando a força do seu caráter. Às vezes, não tinha dúvidas de que o amava; não com a loucura com que amara Edwin, mas de forma mais madura, consciente, tranqüila. Ivarr fazia-me sentir segura, confiante, desejada. E, em troca, eu o rejeitava...

— Não se apoquente, meu amor — murmurou, na sua voz envolvente. — Eu estarei sempre ao teu lado!

Fechei os olhos, com o coração mirrado. Talvez devido à tristeza que me consumia, pela primeira vez, achava que o príncipe seria incapaz de cumprir a sua palavra.

 

Oriana mostrava-se uma menina tranqüila, a quem era possível transmitir ensinamentos sem se desfalecer de exaustão, ao contrário do que acontecia com Thorson. Eu passava muitas tardes ao lado da minha protegida, atenta à sua educação. E, a cada dia, maravilhava-me por ver refletido no seu olhar a imagem de Amora e do meu primo Trygve. No início, questionara-me como os Sacerdotes dos Penhascos conseguiam viver separados da filha. Porém, acabara por admitir que esse sacrifício era a maior prova de amor que podiam lhe dar, já que a união da família resultaria no infortúnio da pequenina, e no início de uma guerra que conduziria à destruição do seu povo.

Contudo, a certeza de que Oriana se encontrava a salvo sob a minha proteção, estava longe de me tranqüilizar. Quando ela fora gerada, num ritual secreto abençoado pelos espíritos das sacerdotisas nativas, Amora acreditara estar a conceber um menino; um sábio agraciado com a força necessária para deter o ímpeto destruidor do seu irmão marcado pelo destino. Ao invés disso, nascera uma menina. E, na tradição do Povo dos Penhascos, isso significava que a deusa havia escolhido a herdeira do poder da atual Sacerdotisa... e que Amora conheceria uma morte prematura.

Mesmo ciente desse fato, Trygve recusava pronunciar-se. Para os soberanos do Povo dos Penhascos, o nascimento de Oriana alterara as leis que ditavam o equilíbrio das forças do universo. Se Amora concebera com o favor das suas antepassadas, não fazia sentido que estas a condenassem! Infelizmente, eu não possuía a sua convicção.

A Senhora Doralia acompanhara Oriana até o País dos Vikings. Trygve confidenciara-me que ela já fora uma Mãe da Renovação... E que a criança que carregara no ventre era a atual Sacerdotisa dos Penhascos. Como mãe de Amora, Doralia era a mais fiel das suas servas e também uma excelente curandeira. Fora ela quem atendera à Sacerdotisa, durante a sua gravidez secreta, e ajudara a neta a vir ao mundo. Agora, velava pela segurança e conforto de Oriana, e ensinava-lhe os costumes do seu povo. Eu me rendera de imediato à simpatia, simplicidade e dedicação da nativa de olhos cor de avelã, sinceros e meigos. E contava igualmente com o seu talento e discrição, a fim de preparar Thorson para o futuro. O mesmo acontecia com Freya, mais resignada. Doralia declarara-se honrada com a nossa confiança, e jurara fazer tudo o que estivesse ao seu alcance para orientar o pequeno príncipe.

Aliviados por verem este problema resolvido, os meus pais anunciaram o regresso à Ilha dos Sonhos, durante o banquete que festejava a vitória contra Arnorr. Embora a sua partida me desgostasse, eu entendia que o jarl Throst devia reassumir a administração do seu território. Além disso, os homens estavam saudosos das famílias, e Catelyn tinha de prestar conforto a Signy e às restantes viúvas da campanha. Eric manifestou o desejo de acompanhá-los, para apoiar a mãe nesse momento difícil. Porém, Steinarr tinha outros planos. No fim do jantar, chamou a si as atenções e discursou:

— Todos vós sabeis que a morte dos nossos bravos, nesta derradeira batalha, não foi vã. Ao longo dos anos, Arnorr espalhou o terror entre o seu próprio povo, banhou de sangue o solo que o viu nascer e crescer. Hoje, festejamos a libertação da Terra Antiga... Porém, estamos longe de poder declarar a segurança da costa, ao norte. Os mercenários fugiram em debandada, mas irão reagrupar-se e formar novas alianças! Estejam certos de que voltarão, liderados por outro assassino, tão, ou mais sanguinário do que Arnorr! Além disso, sei que existem raízes podres em solo Viking. Aqueles que apoiavam em segredo a causa inimiga, com ilusões de alcançar riqueza e influência, continuarão a nos trair. Por isso, desde já, devo preparar a defesa da Terra Antiga. Tenciono colocar alguém da minha inteira confiança à frente do território. Alguém que já provou o seu mérito como homem de palavra e como guerreiro da guarda real. Eric, filho de Krum, quero que avance diante do povo Viking e demonstre o teu valor como líder. Tu serás o meu novo jarl; o senhor da Terra Antiga.

A decisão do rei foi aplaudida de pé, com um clamor de aprovação. No corpo de Eric corria o sangue de Grim, fundador do povoado em causa, e o mais valoroso chefe Viking do seu tempo. Com esta determinação, Steinarr limitava-se a repor a justiça; a devolver-lhe o seu direito de berço. Eu nunca pensara em Eric como um homem ambicioso. Vira-o crescer na sombra de Ivarr e jurar lealdade eterna ao rei-lobo. Porém, os olhos do meu primo fulguravam de excitação. A sua voz soou estridente e arrebatada, ao responder:

— Será uma honra, meu rei! Juro que dignificarei a vossa confiança, até à morte!

A celebração prosseguiu, animada. Os cornos de beber dos guerreiros elevaram-se vezes sem conta, em homenagem aos companheiros tombados na batalha, e que, neste momento, se encontravam junto do grande Odin, em Valhalla, retribuindo a saudação. O salão quedou-se em silêncio, quando o meu pai levou a sua flauta aos lábios, e tocou a música com que o primo Krum alegrava as nossas festas. Então, com olhos comovidos, Eric subiu para cima da mesa, e começou a bater palmas e a marcar o ritmo com os pés. Muitos guerreiros acompanharam-no, fazendo o salão estremecer com o furor do entusiasmo. Aqueles que tocavam instrumentos, uniram-se ao meu pai. Eric tornou a destacar-se, ao convidar Thora para dançar. Vi a minha irmã hesitar e temi que declinasse. Felizmente, acabou por ceder sem alarido.

Eu me apercebera do sobressalto de Thora, no instante em que o rei Steinarr declarara a sua vontade e Eric abraçara esta nova missão. O olhar da minha irmã não cintilara de orgulho, na direção do primo, mas de aflição, ao encontro de Ivarr. Não me era difícil adivinhar-lhe os pensamentos. As obrigações de um jarl iriam, inevitavelmente, afastar Eric da alcatéia do rei-lobo. E Thora, como sua prometida, também devia abandonar a guarda do príncipe Viking para segui-lo... Deixar para trás tudo o que a loba prateada conquistara!

Em menos de nada, formaram-se pares que saltavam, giravam e riam, ao som da música. O meu pai guardou a flauta para dançar com a esposa. Dirigi-me a Ivarr, que conversava com Bryan, desejosa de rodopiar nos seus braços. Porém, ele estava tão distraído, que nem reparou na minha solicitação. Segui-lhe o olhar, até uma jovem que abria caminho através da multidão extasiada, carregando um jarro de hidromel. Vestia-se como as escravas, mas possuía o porte de uma princesa. Os seus cabelos eram pretos, de tal forma encrespados que duvidei que alguma vez tivessem conhecido um pente. Possuía olhos claros, de um verde quase amarelo, que contrastavam extraordinariamente com a sua pele dourada. A resistência do vestido singelo era posta à prova por seios volumosos e ancas que fariam inveja a uma mulher Viking.

— Como é que tamanha maravilha me tem passado despercebida? — indagava Bryan, com uma avidez embevecida.

— Essa moça chegou há poucos dias ao castelo — respondia-lhe Ivarr. — É filha de um rei do Sul, que a ofereceu ao meu pai como prova de boa vontade.

— Ela brilha como uma fogueira na noite! — prosseguiu Bryan, a voz ardente de cobiça.

— Diz o mesmo de todas! — replicou o príncipe com uma gargalhada.

— Será que o rei se ofenderia, se eu a convidasse para dançar?

Interpus-me entre os dois, replicando indignada:

— O rei talvez não, mas a Svana sofreria um desgosto. Ela se pôs linda, para te agradar! Por que não vai buscá-la...?

Numa batida de coração, o fogo que animava o olhar de Bryan transformou-se em gelo e cortou-me a voz. Respondeu-me, com manifesto desprezo:

— Svana pode cobrir-se de seda e ouro, que morrerá de velhice muito antes de tornar a ver-me os dentes.

Enchi o peito de ar e enfrentei-o:

— Está sendo cruel! Ela só quer fazer as pazes contigo!

— Pois perde o seu tempo! — contrapôs, impaciente. — E tu também, Edwina! Com licença... Tenho de atender um assunto urgente.

Embrenhou-se na multidão, deixando-me com o protesto na ponta da língua. Já não sabia o que fazer àqueles dois! Após tomar conhecimento da morte do pai, Svana enclausurara-se no quarto, chorando sem parar, recusando-se a comer e até a ver o brilho de uma vela. A única forma de arrancá-la da cama fora convencê-la de que este jantar seria a oportunidade ideal de ter uma conversa com o primo e pedir-lhe perdão. Porém, até neste momento de pesar, Bryan recusava-se a esquecer o rancor e a estender-lhe a mão. Eu ainda não me recuperara da sua intransigência, e a rispidez de Ivarr já me feria os ouvidos:

— Se não quer se desentender com o Bryan, é bom parar de interceder pela Svana!

— O que a Svana fez foi errado — respondi, irritada. — Mas foi um desvario de amor! Não é justo que Bryan continue a castigá-la, ao fim de tantos anos...

— Ele jamais a perdoará!

— Svana acabou de perder o pai! Bryan podia, ao menos, oferecer-lhe uma palavra de conforto...

— Uma palavra de conforto seria interpretada como uma jura de paixão — atalhou Ivarr asperamente. — Svana continua tola, obcecada! A mais leve concessão de Bryan iria encorajá-la a fazer outra asneira. Se quiser ajudá-la, deve convencê-la a tomar juízo e a seguir um novo rumo, ao invés de alimentar-lhe as ilusões!

Foi a sua vez de voltar-me as costas, deixando-me a remoer a frustração. Por mais que me custasse ver a minha prima a definhar de infelicidade, não podia negar que Ivarr tinha razão.

Nós ainda éramos crianças, quando Svana se deixara deslumbrar por Bryan. Todavia, o primo nunca retribuíra o seu interesse e recusara-se a cortejá-la. Então, na manhã que acontecera à minha união com Ivarr, o impensável acontecera. Bryan e Svana tinham sido surpreendidos num dos celeiros do castelo, dormindo abraçados, com as roupas desarranjadas e manchadas pelo testemunho de uma virtude perdida.

Debaixo do olhar furioso dos homens da família, o primogênito de Stefan McGraw assumira os prejuízos causados à honra da prima e pedira-a em casamento. Contudo, sempre sustentara que não guardava a mais tênue recordação do incidente. A sua angústia assumira tais proporções, que Eric acabara por pressionar a irmã... E, esmagada pelo peso da consciência, Svana admitira ter preparado uma armadilha ao primo, para forçá-lo a desposá-la. Embebedara-o, até ele mal se suster e, depois, arrastara-o para o celeiro. Ao cair sobre as sacas de cereal, Bryan tombara num sono profundo, e ela pudera dar asas à imaginação, para nos fazer acreditar que fora desonrada. Até tivera o cuidado de roubar na cozinha o sangue de um animal qualquer, que servira de repasto na festa, para manchar as roupas! É desnecessário dizer que, quando a verdade emergiu, já não houve casamento... E que, a partir desse dia, Bryan desenvolvera um ódio acirrado por Svana.

Nos últimos anos, a minha prima permanecera na Ilha dos Sonhos, mal saindo de casa, consumida pela tristeza e pela vergonha. Alguns guerreiros tinham solicitado a sua mão a Krum, mas a todos ela recusara. Quando os meus pais anunciaram que iriam passar alguns meses no Norte, Svana suplicara a Catelyn que a trouxesse consigo. Apesar de lhe adivinhar as intenções, a minha mãe condescendera, pensando que a nossa companhia lhe faria bem.

Porém, os ares do País dos Vikings não tinham sido benéficos para Svana. Tanto Freya como eu andávamos muito embrenhadas nos nossos problemas, para dar-lhe atenção. Thora tomara o lado de Bryan na contenda, e não tinha vontade de escutar os desabafos da amiga. Apesar de ter gostado de rever a irmã, Eric achava que Svana não devia ter deixado a mãe sozinha, na Ilha dos Sonhos. Quanto a Bryan... eu não o vira dirigir uma só palavra à prima, nos últimos meses. E, como se a frieza não bastasse para provar o seu desprezo, esquecera a discrição com que sempre regera os seus encontros amorosos, de tal forma, que já havia poucas escravas no castelo que não lhe elogiassem o ardor.

Abanei a cabeça, como se esse gesto dispersasse as nuvens que me ensombravam os pensamentos, e concentrei-me na agitação do salão. Bryan juntara-se ao grupo encabeçado pelo rei Steinarr, e ria-se de uma das suas piadas. Os olhos de Svana seguiam-lhe cada movimento, com um aferro doentio. Ao seu lado, Otkatla murmurava um disparate qualquer, que transformava o seu rosto num braseiro. Respirei fundo, exasperada. A prima de Ivarr era a última pessoa a quem Svana devia dar ouvidos! Tão bonita como intriguista, Otkatla não perdia uma oportunidade de incendiar os ânimos alheios, como se o seu maior prazer fosse atear a discórdia. Por vezes, fazia-me recordar a filha do meu tio Edwin... Só que, enquanto Estrid vomitava abertamente a sua peçonha, Otkatla revelava-se aos pais e aos tios como um primor de menina, o que a tornava ainda mais perigosa, porque sempre escapava impune às confusões que armava.

A escrava do Sul destacava-se entre as senhoras de cabelos claros e pele de leite. Era exótica... bonita, de uma forma diferente. Movia-se com elegância e irradiava sedução. Em pouco tempo, pusera grande parte dos homens a babar como dementes. O rei chamou-a, para que lhe enchesse o corno de beber... E Bryan não perdeu tempo! Em menos de nada, dispensou-a dos seus afazeres e estreitou-a nos braços, conduzindo-a para o centro do baile. Steinarr gargalhava, divertido com o arrojo do jovem guerreiro. Ivarr mirava-me com uma expressão carregada... Desviei o olhar para Svana e via-a acometer na direção de Bryan, deixando para trás uma Otkatla sorridente e expectante. Raios! Isto ia acabar mal!

Eu estava muito afastada para interferir a tempo. Freya rodopiava nos braços de Ketill, sem se aperceber da tempestade que ia arrebentar sobre as nossas cabeças. Bryan parara de dançar e tomava o rosto da escrava entre as mãos. Os olhos luminosos da jovem transformavam-se em sóis, e as suas faces adquiriam uma bela cor rosada, enquanto o corpo estremecia, ansioso pelo beijo. A mão de Svana esticou-se, disposta a arrancar-lhe os cabelos... E Catelyn surgiu qual onda salvadora, que arrastou a minha prima para longe da escrava, evitando o pior.

Suspirei de alívio, sentindo as pernas bambas. Bryan beijava a escrava, com um entusiasmo ardoroso, alheio ao que o rodeava.

A minha mãe apertava Svana nos seus braços e sussurrava-lhe palavras de conforto. A jovem chorava compulsivamente, sem se importar com os olhares curiosos. Dei um passo, decidida a convencê-la a deixar o salão, mas Thora surgiu diante de mim, apelando com urgência:

— Preciso te falar, Edwina.

— Espera... — tentei detê-la, mas a minha irmã já indagava:

— Sabe que o pai combinou o meu casamento com o Eric, para o fim do Verão?

Esta era uma noite de surpresas! Apertei-lhe as mãos e sorri, ao replicar:

— Não... Mas fico muito feliz por vós! É maravilhoso...

Thora sacudiu-me, contrapondo amofinada:

— Não, não é! Como é que se atreveram a tomar esta decisão nas minhas costas?

— O que...?

— Isto não vai ficar assim!

E rasgou caminho por entre a multidão, antes que eu pudesse reagir. Afastei o cabelo do rosto, atordoada. Então, deparei com o cenho carregado de Ivarr, voltado na direção que a loba prateada tomara. A sua vontade de segui-la foi contrariada por Eric, que já bebera demais e não se continha de expressar a alegria que o agitava. Bryan também deixava o salão, com a escrava pendurada ao pescoço. Não era necessário apelar à imaginação, para saber o que tinha em mente. Lembrei-me de Svana e respirei fundo, ao verificar que já partira com a minha mãe. Ragnar e Ketill disputavam a companhia de Freya, na próxima dança. Pelo menos, uma das filhas do jarl Throst estava a divertir-se! Com o espírito a clamar por sossego, abandonei a festa e dirigi-me ao quarto.

A manhã já nascera quando Ivarr se recolheu. Eu estava acordada, mas ele ignorou-me, imerso em pensamentos obscuros, enquanto despia a capa e pousava as armas. Bebera tanto, que o seu hálito era perceptível à distância. Sentei-me na cama e tentei incentivá-lo a desabafar:

— Está contrariado por ter que liberar Eric do teu comando?

— Sabe por que é que Thora se irritou e deixou a festa?

A brusquidão da sua pergunta desconcertou-me. Encolhi os ombros, confiando-lhe as poucas palavras que trocáramos. Ao vê-lo quedar-se, petrificado, indaguei surpreendida:

— Eric não te contou?

O príncipe abriu a boca para replicar, mas tornou a fechá-la. Era óbvio que nada sabia. Apressei-me a justificar o esquecimento do seu Primeiro Homem:

— Ele deve pretender dar-te a novidade num ambiente mais calmo; talvez até na companhia de Thora! Juro-te que não compreendo a minha irmã... Mais parece uma criança mimada! Onde já se viu, zangar-se porque o noivo pediu o consentimento do jarl, antes de consultá-la? No fim, o que importa é que os dois vão finalmente assumir o seu amor... — Detive-me, ao verificar que a respiração de Ivarr se alterava.

— Mas o que é que se passa contigo? Não está contente...?

— Devo pular de alegria, ao saber que o melhor lobo da minha alcatéia está prestes a me deixar?

O seu corte foi feito num tom ríspido. O meu coração começou a bater com mais força. Por que estaria Ivarr tão apoquentado? Há muito que tinha consciência de que a herança de sangue de Eric haveria de separá-los! E sempre aceitara bem o fato... Então, a razão do seu sobressalto trespassou-me a mente, qual lâmina de gelo. Ivarr não se referia a Eric!

— Não está falando sério! — tartamudeei. — Thora não pode ser o teu melhor guerreiro!

— Porque é uma mulher? — retrucou, com um sorriso amargo. — Já devia saber que a tua irmã é muito mais do que uma simples mulher, ou uma guerreira exímia! A loba prateada combina o discernimento de Eric, com a força de Ragnar, o engenho de Bryan e a criatividade de Ketill. Se eu tivesse de entregar a vida a um dos meus lobos, seria ela a escolhida, pois é perfeita.

Falava com um ardor exaltado; o orgulho declarado em cada traço do rosto e no fogo que lhe relampejava no olhar. Thora era perfeita! Essa simples afirmação revelava o alvoroço que ia dentro do seu peito. Reagi com dificuldade, constatando num tom acusador:

— Tu não queres que Eric e Thora se casem... Deseja que ela continue ao teu lado!

Sem mais contemplações, ele agarrou a espada e a capa, e dirigiu-se em passos largos para a porta.

— Ivarr! — gritei enfurecida. — Não se atreva a voltar-me as costas!

Um simples pensamento bastou para que a porta lhe escapasse da mão, e se fechasse na sua cara. O príncipe estacou, surpreendido, e virou-se para encarar-me, com o olhar em chamas. A essência do lobo devorava a essência do homem, lutava para libertar-se, para me impor a sua vontade. Eu não o temia! A minha magia era muito mais poderosa do que a do Espírito da Luz. Se ele se atrevesse a enfrentar-me, se arrependeria amargamente!

Ivarr tinha consciência da sua inferioridade mística. Fechou os olhos, cerrou os punhos e respirou fundo. Quando tornou a abri-los, o verde tornara-se límpido como a água de uma fonte sagrada. A sua voz soou neutra e controlada, ao replicar:

— Sim, é verdade que desejo que Thora permaneça na minha guarda. Não a impedirei de partir, se for essa a vontade do seu coração... No entanto, parece que não é assim!

Abanei a cabeça, objetando reprovadora:

— Thora está confusa... Mas acabará por escutar a razão! Eric é um homem excelente...

— Não discuto o valor de Eric... Contudo, duvido que consiga fazê-la feliz!

Eu estava tão perplexa, que a voz já me saía aos borbotões:

— Acha que Thora ficará melhor ao teu lado, arriscando a vida num campo de batalha, do que como senhora da Terra Antiga, casada com um homem que a adora e rodeada pelos seus filhos?

— Está colocando as tuas ambições sobre a cabeça da tua irmã — respondeu Ivarr, num tom que me arrepiou. — Thora não nasceu para ser prisioneira de uma casa!

— Então, nasceu para ser escrava do rei-lobo? — contrapus, irada.

— Isso não merece resposta!

E saiu, batendo com a porta. Não tentei detê-lo, pois não suportaria continuar a discussão. Deixei-me cair na cama e quis conter as lágrimas. Porém, acabei por render-me. Gemi e rangi os dentes; esmurrei a almofada, até o cansaço me prostrar. Por mais que me esforçasse, por mais que o almejasse, o meu casamento nunca seria perfeito como o dos meus pais. Ivarr e eu dormíamos na mesma cama... mas vivíamos em mundos distintos.

 

O soberano Viking era um caçador por excelência e o seu herdeiro orgulhava-se de seguir-lhe os passos. No castelo existia uma sala onde se podiam contemplar os troféus de inúmeras caçadas, organizadas para desfrute do rei e dos seus convivas. Sempre que tal coleção era exibida, as exclamações de pasmo e deslumbramento ecoavam pelos corredores de pedra e açulavam a minha incompreensão. Há muito que Steinarr, Ivarr, e até mesmo Thora, tinham desistido de me explicar quão magnífica era a glória imanente daquelas carcaças desprovidas de vida.

O príncipe jamais me envolveria numa caçada, ciente da minha aversão à morte. Dei por mim a repetir esta justificativa, quando o vi atravessar os portões do castelo, seguido pelos seus guerreiros. Na verdade, eu não queria acompanhá-los... Porém, ressentia-me por não ter sido convidada a fazê-lo.

— Eles não possuem a nossa visão da vida, querida! — A voz da minha mãe tinha o dom de apaziguar-me o espírito. — Além disso, esta talvez seja a última oportunidade do rei-lobo caçar com toda a alcatéia.

Respirei fundo, antes de encarar o seu olhar terno. Catelyn colocou sobre os meus ombros a capa que a rainha Lyria do Povo da Terra me oferecera, e a lã mágica aqueceu-me num piscar de olhos. Eu saíra para a varanda do quarto em camisa de dormir, ignorando o ar gélido, desejosa de averiguar se Thora obedecia ao seu senhor. No dia anterior, ela chegara tarde, com um aspecto sujo e cansado. Não justificara por onde andara e ninguém lhe pedira satisfações. Eric limitara-se a fixá-la com uma expressão apreensiva, enquanto Ivarr determinava que a alcatéia sairia para caçar, mal a manhã despontasse.

Voltamos ao quarto e a minha mãe ajudou-me a vestir. Sem o carinho dos meus pais, os últimos meses teriam sido insuportáveis. Nem queria lembrar-me de que eles iam regressar à Ilha dos Sonhos!

— Eu discuti com Ivarr — confessei. — Tencionava pedir-lhe que intercedesse junto a Thora, a favor de Eric, mas o rei-lobo não está interessado em prescindir dos serviços da loba prateada!

A minha mãe hesitou. Apercebi-me de que sabia mais acerca dessa confusão, do que estava disposta a contar-me.

— Temos de confiar que, no fim, Ivarr fará o que é correto — respondeu cautelosa. — E seja paciente com Thora, Edwina! A tua irmã sente-se confusa e atormentada. Receia que o futuro como senhora da Terra Antiga não lhe traga a felicidade de que desfruta como guerreira.

— Mas isso é uma tolice! — repliquei, enquanto ela se empenhava na árdua tarefa de domar os meus caracóis. — Como Thora pode hesitar entre as armas e o amor?

— Não hesitaria também, se tivesse que escolher entre ser Guardiã da Lágrima do Sol e princesa do País dos Vikings?

— Isso é diferente! A magia da Lágrima do Sol vive na minha essência...

— Assim como o espírito da loba prateada vive na essência da Thora! — atalhou a feiticeira Catelyn, buscando o meu olhar. — É inegável que nos agradaria vê-la pousar as armas e assumir uma existência mais tranqüila... Porém, se lhe impusermos as nossas convicções, acabaremos por enfrentar o seu ressentimento.

O castelo estava apinhado com os chefes de clã e as suas comitivas, que vinham prestar juramento de lealdade ao jarl Eric. O rei Steinarr sabia como mantê-los ocupados, organizando jogos e servindo comida em abundância. As irmãs Gunnhild e Gunnlaug, responsáveis pela cozinha, não tinham mãos a medir, e não havia escravo ou criado que conseguisse sossegar. Dei graças por minha mãe estar conosco. Catelyn da Ilha dos Sonhos era a anfitriã perfeita, e eu pouco mais tinha que fazer, além de sorrir e acenar. As multidões intimidavam-me. Eram um cansaço para o corpo e um tormento para o espírito! A Guardiã da Lágrima do Sol necessitava de tranqüilidade... Porém, Edwina, mulher de Ivarr, devia comportar-se como a futura rainha.

Freya também estava nervosa. Manter Thorson longe dos convidados era um desafio. Enquanto as outras crianças passavam despercebidas aos adultos, o meu sobrinho despertava as atenções como o metal atrai os raios. Ninguém era capaz de ignorar as perguntas do menino prodígio. Os elogios ao avô Throst choviam de todas as direções... E, por fim, os olhares voltavam-se para Freya, deliciados. Antes da luz esmorecer, a minha irmã já recebera uma dezena de propostas de casamento.

Ao meio da tarde acenderam-se braseiros e archotes. O troar das vozes estremecia o salão. Dentro do meu peito fervilhava uma impaciência que me estrangulava. Estava bem agasalhada, mas tiritava como se vagueasse ao relento. O cheiro da carne que rodopiava nos espetos misturava-se com um odor bravio, selvagem. Inspirei fundo e reconheci o aroma da terra molhada, das árvores açoitadas pelo vento... e dos lobos! Quase gritei quando um uivo me ecoou dentro da cabeça. Há muito que a Visão não me usurpava a consciência, de forma tão inesperada e violenta. Forcei-me a respirar com calma, enquanto abria caminho pelo meio da confusão. Anos de treino intenso tinham-me preparado para enfrentar situações como esta. Só esperava ser capaz de chegar ao quarto, antes da razão se desvanecer, ou teria o escol do reino Viking debruçado sobre mim, guinchando disparates e tremendo de susto.

O corredor de pedra era uma trilha escorregadia, estreita e íngreme, ladeada de árvores esguias e arbustos densos. A porta do quarto abriu-se para um ribeiro de água cristalina, onde uma manada de veados bebia, descuidada. O macho dominante era um animal majestoso, com galhos longos e entrecruzados, marcados pelo testemunho de muitas lutas de soberania. Os seus olhos, providos de uma inteligência superior, perscrutavam a obscuridade em busca do mais leve sinal de perigo, e as suas orelhas abanavam, atentas ao menor ruído.

Caí na cama, no instante em que o colossal lobo branco saltou do meio das árvores. O olhar de luz cegou os veados, que bramiram em pânico. Sem hesitar, o rei-veado bloqueou-lhe o ataque, protegendo a manada com um agitar veemente das hastes pontiagudas. Então, outro lobo surgiu a alguns passos do primeiro. Era uma fêmea, cujo pêlo cintilava como prata. Ouvi-me gritar no vazio que separava a realidade da magia. O rei-veado continuava a roncar, ameaçador, raspando os cascos no solo, mas os lobos tinham desaparecido. Ivarr empunhava uma lança e preparava-se para arremessá-la, Thora tinha uma seta armada no arco e só aguardava a ordem do líder. Eric, Ragnar, Bryan e Ketill surgiam agora, com as lanças em punho e a morte no olhar...

Os veados fugiram, correndo e saltando em debandada. Os caçadores não se moveram. O prêmio que desejavam encontrava-se diante deles, disposto a matar ou a morrer em defesa da manada. Com um uivo de desafio, Ivarr cravou a lança no chão e desembainhou a espada. Ao seu lado, Thora empalideceu e esticou o braço, tentando detê-lo. Porém, era tarde! O rei-lobo já acometia contra o rei-veado.

A noite transformou-se em dia. Os relâmpagos rasgavam o negrume do céu e a sua luz perpetuava-se através da floresta. O aguaceiro vergava as copas das árvores, até a madeira dos troncos ranger em desespero. O sangue misturava-se com a água do ribeiro. O meu coração doía... O metal das espadas desafiava os raios. A magia brotava do solo e fundia-se com o ar. Por um instante, tornei-me consciente da energia libertada por cada habitante da floresta... e da sombra negra, que avançava determinada na direção do rei-lobo e da sua alcatéia.

A aura obscura era imensa! A cada passo, devorava a essência de tudo o que vivia e deixava para trás um rasto de desolação. O seu poder latejava, desmedido, brutal. Farejava o sangue e desejava-o. Ia alimentar-se. Ivarr e os seus guerreiros seriam colhidos e esmagados por esta força colossal. Eu só conhecia uma magia suficientemente vigorosa para deter tamanha malignidade: a minha!

Abandonei o corpo e lancei-me ao encontro da entidade ameaçadora. Banhei-me no fogo dos relâmpagos e precipitei-me sobre a floresta. Vi os lobos prostrarem o veado e uivarem vitoriosos... e o poder das trevas a marchar sobre eles, com o ímpeto de uma onda gigante. A minha essência, um raio de luz resplandecente, fincou os pés na terra. Abri os braços e libertei a energia que a tempestade me oferecera. Diante de mim, a onda negra ergueu-se até quase tocar o céu... e começou a recuar. A energia obscura libertava um guincho arrepiante, enquanto a energia luminosa a assimilava. Senti as pernas tremerem; a minha essência enfraquecia.... Porém, a ameaça não fora totalmente eliminada! Eu afugentara a magia, mas deparava com o seu criador.

Era um homem, tão alto como o meu pai e igualmente robusto. Um feiticeiro? Talvez. Um mestre da Arte Obscura? Sem dúvida! Uma capa negra cobria-lhe a figura, sem deixar um dedo a descoberto. Um capuz ocultava-lhe as feições. Poderia ser a própria morte... Todavia, eu já enfrentara a rainha do submundo e jamais confundiria a frialdade da sua essência! A energia que brotava do meu émulo não era desprovida de calor... mas de esperança. Engoli em seco, ao apreender que este poder não me era estranho. Pelo contrário, à medida que a luz devorava as trevas, tornava-se cada vez mais familiar... Conheceria eu este facínora? Ele recuou, tão rápida e inesperadamente, que escapou do meu olhar, da percepção... do alcance da magia. Não era possível que se tivesse evaporado... Contudo, juraria que fora exatamente isso que acontecera!

Quedei-me, atônita, e só então me apercebi de como estava exausta. O rei-lobo e a sua alcatéia farejavam o ar, detectando a alteração no equilíbrio místico da floresta, sem desconfiarem que quase tinham enfrentado o seu fim. O rei-veado fora subjugado e o solo recebia o sangue como uma dádiva divina. O ciclo renovava-se... E eu vencera! Mesmo que o homem misterioso ousasse um segundo ataque, não teria reservas de energia para causar grandes estragos. Deixei-me flutuar de regresso à realidade do meu quarto, no castelo Viking, onde o corpo me aguardava. Arquejei em agonia, quando o ar me invadiu os pulmões, e tornei-me inteira. Encarei as chamas da lareira, com a angústia a fustigar-me a mente. Quem era este mestre da Arte Obscura? E por que tentara matar o príncipe Viking e a sua guarda? Desfaleci, antes de ter oportunidade de ponderar essas questões.

 

Ao descer para o salão, eu tencionava buscar de imediato a feiticeira Catelyn, e relatar-lhe o confronto com o misterioso poder que ameaçara Ivarr e os seus guerreiros, nas brumas da floresta. Porém, a minha atenção ficou cativa da majestosa figura que se inclinava diante do rei Steinarr. Se houvesse dúvidas quanto à sua proveniência, estas seriam afastadas ao observar os guerreiros que o escoltavam. Estávamos diante de homens de sangue antigo, que envergavam as cores e o brasão da rainha Lyria do Povo da Terra.

Tentei passar despercebida. Porém, o rei Steinarr chamou-me:

— Princesa Edwina, minha primorosa nora, venha conhecer o príncipe Galinn, enviado da rainha Lyria, para saudar o novo jarl do povo Viking.

Engoli em seco e forcei os pés a moverem-se. Quase tropecei quando um olhar azul-escuro, repleto de estrelas, repousou em mim. Identifiquei os traços de excelsa beleza, que ligavam indubitavelmente Galinn a Lyria. Os cabelos compridos eram, para o Povo da Terra, sinal de distinção e poder. Os do príncipe chegavam-lhe à curva dos joelhos. Contudo, mesmo que fosse calvo, ainda manteria embevecidas as mulheres que o fixavam. Quem lhe questionasse a robustez do corpo alto e franzino se arrependeria. O seu aprumo delicado ocultava uma força e uma vontade capazes de mover montanhas. E a energia emanada pela sua essência era prodigiosa!

— A minha irmã Lyria falou-me com tamanha exaltação da formosura e do poder da Guardiã da Lágrima do Sol, que, apesar de ser a primeira vez que os nossos olhos se encontram, sinto que há muito desfruto da honra de conhecê-la!

A sua voz possuía uma firmeza que colocaria um exército em sentido. Ainda assim, conseguia ser tranqüila e amável. Correspondi ao apelo da mão que ele estendia, receosa de que o toque me causasse desconforto. No entanto, o príncipe era um cavalheiro. Prostrou-se diante de mim, apoiado num joelho; a testa quase tocando as minhas botas e os cabelos amontoando-se ao seu redor, como véu de preciosa seda negra, enquanto declarava:

— Senhora do Conhecimento e da Magia, o meu saber e a minha vida estão ao vosso dispor...

Ouvi Galinn jurar-me lealdade, sem saber o que responder. No salão reinava um silêncio pesado. Steinarr tentava manter-se impassível, mas uma ruga vincava-lhe a testa, denunciando perturbação. Ao reverenciar-me com tamanho ardor, o príncipe da Gente Bela recordava aos líderes Vikings quem eu era e o que representava, não só para a comunidade, mas para todos os povos da Terra... E isso parecia incomodá-los!

Em tempos, «O Que Tudo Vê» fora venerado como um deus. Eu herdara o poder do meu bisavô, mas não o respeito dos Homens. Apesar de já ter provado o meu valor, a minha opinião era ignorada nas deliberações e a minha bênção escusada nas cerimônias. O fato de ser mulher colocava-me na última linha da batalha, quando deveria estar na primeira. O próprio rei já dissera que a minha vida era muito preciosa, para que a arriscasse. Afinal, um dia, eu seria rainha e mãe do herdeiro do trono... Só que, cada vez mais, esse dia adivinhava-se condenado a nunca chegar! Ser incapaz de cumprir com a mais básica das obrigações de uma esposa — assegurar a descendência do marido — não abonava a meu favor. Vozes maldosas ciciavam nas sombras, contestando a magnitude do meu poder: se não conseguia pôr um filho no mundo, como é que tinha força para provocar tempestades, domar o ardor do fogo, apaziguar a fúria do mar...?

Quatro anos haviam se passado, desde que Aesa se manifestara pela última vez. E a memória dos Homens era curta! Até Steinarr parecia esquecido de que a feiticeira se apoderara de quatro das sete pedras mágicas da minha família; de que jurara jamais descansar, até que todo o poder da minha bisavó Aranwen lhe caísse nas mãos. A rainha dos Vândalos voltaria a atacar-nos... Esse perigo não era uma probabilidade; era uma certeza! Todavia, o decorrer do tempo e o silêncio da mestra da Arte Obscura iludia o rei e os seus conselheiros. Steinarr nada tinha de imprudente, mas era prático. Ter mais problemas entre as mãos, do que aqueles que conseguia resolver, forçava-o a concentrar-se nas dificuldades imediatas. E, durante os últimos anos, Arnorr fora o seu inimigo mais ativo; a única verdadeira ameaça ao reino Viking. Uma ameaça que perdurara, porque o recurso às minhas habilidades fora escusado. Todavia, no fim, a magia acabara por determinar a vitória. A expressão carregada do rei revelava que esse pensamento lhe cruzava a mente... E a dificuldade com que o assimilava!

Os guerreiros de Galinn tinham-se curvado com o seu senhor, aguardando a minha benção. Respirei fundo e pronunciei-me, num tom surpreendentemente firme:

— Aceito a tua lealdade, Galinn, príncipe da Gente Bela. Que os deuses e os Homens testemunhem este elo, o respeitem e honrem, para que haja paz e prosperidade entre os nossos povos.

Galinn levantou-se e fixou-me com o olhar de noite estrelada, sem esconder a emoção que o suplantava e que tanto me abismava, antes de responder:

— Que assim seja, senhora!

Mal a admirável voz acabara de ecoar no silêncio do salão, as pesadas portas abriram-se de par em par, cedendo passagem ao rei-lobo e à sua alcatéia. Os seis guerreiros vinham encharcados em lama e sangue... e carregavam a carcaça de um veado colossal, que foi depositado aos pés do rei Steinarr. O soberano Viking extasiou-se, perante o fabuloso troféu de caça... Contudo, a atenção de Ivarr desviara-se do elogio do pai e voltara-se bruscamente para o homem diante de mim. Com o coração apertado, vi o olhar cristalino coriscar, declarando uma antipatia imediata. E essa aversão instintiva refletiu-se no olhar de Galinn, que não ocultava o seu horror perante a morte do majestoso animal.

Eric, filho de Krum, destacava-se no topo do salão, entre o soberano Viking e a Guardiã da Lágrima do Sol. A sua expressão era tão solene quanto a ocasião obrigava; a postura firme e severa... Contudo, a palidez das suas faces denunciava que o seu espírito ainda não se ajustara à mudança; o olhar propalava a insegurança que o fustigava. Quando a cerimônia terminasse, o meu primo deixaria de ser um simples membro da guarda do príncipe Ivarr, para tornar-se um líder entre os chefes de clã Vikings; um jarl, que responderia ante o rei Steinarr e a ninguém mais, sobre o destino da Terra Antiga e dos seus aldeões. Contudo, eu não duvidava que, na mais árdua das tribulações, ele estaria à altura da missão que lhe era confiada.

Em tempos, uma cerimônia de tão elevada importância seria forçosamente celebrada por «O Que Tudo Vê»... Steinarr assumira essa responsabilidade, mas solicitara a minha presença para abençoar o novo jarl. Eu questionava-me se o gesto de Galinn teria influenciado a sua decisão. Ao incluir-me no ritual, o rei elevava-me aos olhos do povo, para que, numa vicissitude em que a intervenção da Arte fosse decisiva, os Homens acatassem as minhas ordens. Pelo menos, não fora relegada à condição de princesa intocável e esquecida entre a multidão, que se acotovelava num frenesi curioso.

Emocionei-me ao ver o meu primo ajoelhar-se diante de Steinarr. O soberano desembainhou a espada e fundiu o seu sangue com o do jovem guerreiro. Depois, na sua voz de trovão, anunciou que Eric, filho de Krum, era um líder entre os chefes, e quem erguesse a mão contra ele atentaria contra o próprio rei. Para assinalar o ritual, mandara forjar dois punhais, que ofereceu ao novo jarl. A multidão soltou um coro de deslumbramento, quando as armas foram exibidas. As lâminas resplandeciam à luz dos archotes e os punhos eram de prata maciça. Num, fora gravado a figura do falcão, que simbolizava o poder do rei. No outro, o carvalho, que representava a força do reino. Eric empunhou-os e a sua postura alterou-se, como se a confiança o tornasse mais robusto. Depois, encarou o povo, já sem vestígios de incerteza no olhar.

Um a um, os chefes dos clãs vieram prostrar-se diante do jarl Eric e ofereceram-lhe a sua devoção, o seu sangue... a sua vida. Os juramentos proferidos na solenidade destes rituais eram sagrados e acompanhavam os Vikings ao longo da existência, de tal forma, que a sua quebra podia significar o desterro ou até a morte. Eu tinha a convicção de que, embora noutra realidade, os olhos do valoroso Krum cintilavam de orgulho, pousados no seu varão.

Por fim, após receber os votos do último líder, o meu primo inclinou-se diante de mim e rogou:

— Guardiã da Lágrima do Sol, senhora do Conhecimento e da Magia, concede-me a tua graça, para que, na proteção da luz, eu possa servir o meu rei e o meu povo com sabedoria.

O salão estremeceu sob a gravidade da sua voz. Engoli em seco, ciente da solenidade do momento. Eu tinha de corresponder à solicitação do novo jarl com um espetáculo que afastasse da mente dos Homens quaisquer dúvidas quanto à sua autoridade... e ao meu poder! Uma hesitação, e seríamos vítimas da chacota dos conspiradores, nos recantos mais obscuros do reino.

Respirei fundo e expus a Lágrima do Sol, para deslumbramento da assistência, enquanto repousava a outra mão sobre a cabeça de Eric e despertava a magia. Bem alto, numa voz capaz de ecoar nas profundezas mais recônditas da consciência humana, declamei um feitiço protetor, usando o dialeto antigo dos Seres Superiores. Um clamor de assombro profanou o silêncio, quando o cristal adquiriu um brilho radioso; um fulgor que assimilou a minha carne, transformando-me numa estrela, e se propagou para o corpo de Eric, sublimando-nos aos olhos dos Homens. Fixei o meu primo e partilhamos de um entendimento perfeito. Longe do alcance da curiosidade alheia, pude declarar-lhe com toda a franqueza:

«Desejo-te sorte e bonança para o magno desafio que te aguarda, Eric, filho de Krum! A minha magia caminhará ao teu lado. Confia no julgamento do teu coração e não receie o futuro. Será um líder excelso, primo, porque é um grande homem!»

Ele envolveu-me as mãos e levou-as aos lábios. Então, libertei a energia que acumulara, sob a forma de um vento quente... O fenômeno propalou-se pelo salão, estonteou as chamas dos archotes, fez esvoaçar os vestidos e as capas, desarranjou os cabelos e suscitou arrepios em cada homem e mulher. Quando tudo terminou, os rostos estavam vincados por expressões mistas de respeito e temor. Eric levantou-se e estreitou-me nos braços, murmurando:

— Obrigado, prima! Juro que não te desapontarei!

Por fim, Steinarr aproximou-se. Inclinou-se numa vênia e estendeu-me a mão, a fim de me acompanhar à mesa do banquete. Esta noite, como convidado de honra, Eric tinha lugar cativo à direita do rei. E foi como Guardiã da Lágrima do Sol que eu me sentei ao seu lado.

Os discursos dos homens e as cantorias dos skald animavam a noite. Perante os olhos ávidos desfilavam tabuleiros carregados de carne assada no espeto, e caldeirões cheios de guisado, regados com cerveja e hidromel, que as escravas transportavam em jarros de barro, piscando lascivamente os olhos aos jovens guerreiros. Dois desfrutavam da sua especial atenção: o jarl Eric, por ser o homenageado, e Galinn... por ser diferente dos demais.

Sabedor da cultura da Gente Bela, Steinarr ordenara que as cozinheiras preparassem sopa para os convidados. Por cortesia, decidi acompanhar Galinn na refeição. Ivarr franziu a testa, desagradado. Enfrentei o seu olhar, sem piscar, firme na resolução. O Povo da Terra acreditava que todos os seres que sangravam possuíam um espírito, que se agarrava à essência do seu algoz e só a libertava quando este encontrava a morte. Por esta razão não comiam carne, nem peixe, nem sequer ovos! Alimentavam-se exclusivamente daquilo que a terra lhes oferecia: hortaliças, raízes, cogumelos, frutos, cereais... mas não da mesma forma que nós. Os seus pratos eram verdadeiras obras de arte, coloridas e deliciosas... Pelo menos, para o meu gosto, se bem que a generalidade dos Vikings discordaria. Galinn devia estar a controlar-se para não desfeitear o rei com um comentário inadequado, diante do repasto de carne que lhe era imposto. O mínimo que eu podia fazer era partilhar da sua opção.

— Eu já visitei a rainha Lyria algumas vezes — começou o rei-lobo num tom áspero, enquanto se lambuzava com um pedaço de peito de rena. — Por que é que nunca fomos apresentados?

— Regressei há pouco de uma longa viagem — respondeu-lhe Galinn, com uma serenidade invejável, ignorando a provocação dos dedos que quebravam os ossos, e dos dentes que mastigavam a carne com uma exaltação despropositada. — Estive para lá das terras que o Homem conhece, em busca das cidades perdidas do meu povo.

— Para lá das terras que o Homem conhece? — intrometeu-se Thora, quase saltando por cima da mesa tal o entusiasmo. — E o que foi que viu?

Galinn fixou a loba prateada como se reparasse nela pela primeira vez: uma jovem guerreira, de longos cabelos negros repletos de minúsculas e irrequietas tranças, aguardava a sua atenção, com deslumbrantes olhos verdes cintilando em expectativa. Um sorriso condescendente iluminou o rosto perfeito do príncipe, ao responder:

— Vi muitas coisas... Terras inundadas de sol, que ficam para além-mar, após meses de viagem, com nada mais do que as ondas e o céu infinito como companhia...

Eu sabia do que Galinn falava. «O Que Tudo Vê», o meu pai e os meus tios tinham-se aventurado pelo desconhecido, até ao outro lado do mundo, quando eu tinha onze anos, na tentativa inglória de resgatar o meu primo Edwin das garras do feiticeiro Sigarr. Galinn fora ainda mais longe, em busca do seu povo, e encontrara-o em florestas densas, intermináveis; selvas, que o Homem nunca pisara, vivendo em harmonia com animais cujas descrições arrancavam exclamações de pasmo e encanto aos guerreiros... e especialmente a Thora!

— Gostaria de medir forças com uma dessas colossais feras — interrompeu Ivarr, em declarada provocação. — Seria uma caçada extasiante!

Depois da paixão com que Galinn descrevera os animais, era uma afronta pensar em matá-los! Desta vez, até a alcatéia do rei-lobo se surpreendeu com a sua indelicadeza. Thora afastou a tigela, como se a carne a enojasse. O seu gesto agradou a Galinn, que replicou:

— Extasiante, deveras, se a presa estiver munida das mesmas armas que o caçador. Enfrentar um animal com ferro não revela coragem... revela temor; falta de confiança nas capacidades que nos foram atribuídas pela Mãe Natureza.

Fez-se silêncio ao nosso redor. Até Steinarr parou de comer. O seu olhar pousou no filho, com uma ordem inequívoca. As hostilidades deviam findar de imediato! Ivarr respirou fundo; o olhar tão cheio de luz, que temi que a raiva do lobo se apossasse da vontade do homem, e o fizesse esquecer as regras da hospitalidade. Por fim, mordeu entre dentes:

— Não vale a pena discutir assuntos de guerreiros com contadores de histórias!

Talvez Galinn lhe tivesse respondido, se a sua atenção não fosse subitamente capturada por um invasor de palmo e meio, que se esgueirou por entre as nossas pernas e lhe trepou para o colo. Horrorizada, vi Thorson lançar as mãos ao pescoço do príncipe do Povo da Terra e puxar por um cordão, até revelar uma flauta. Depois, como se a sua chegada intempestiva e o seu gesto imprevisível não tivessem sido suficientes para nos pasmar, ainda solicitou:

— Toca para eu ouvir!

Freya tentava abrir caminho, para chegar até nós. A minha mãe encontrava-se do lado oposto da mesa. Tinha de ser eu a resolver este aperto.

— Peço desculpas pelo arrebatamento do meu sobrinho! — Levantei-me, tentando alcançá-lo antes que a aguçada percepção do irmão de Lyria se apossasse do nosso segredo. — Esse malandro deve ter fugido da cama...

— Não há o que desculpar! — retrucou Galinn, mimando Thorson e ignorando os meus esforços para resgatá-lo. Encarou o olhar azul do pequeno e levou a flauta aos lábios. — Vou tocar-te a música que o teu tetravô Hakon me ensinou, quando eu tinha a tua idade.

A flauta começou a cantar... E eu deixei-me cair no banco, enlevada. Enquanto a música deslizava pelo salão e absorvia os sons dos Homens, a minha mente mergulhava noutra realidade... viajava até uma floresta luxuriante, onde, à beira de um riacho de águas cristalinas, um jovem feiticeiro de cabelos da cor do Sol e olhos da cor do céu, soprava uma flauta... a mesma flauta que Galinn segurava entre os dedos! E, ao seu lado, escutando-o com uma expressão encantada, estava um rapaz pouco mais velho do que Thorson, com longos cabelos negros e olhos de noite estrelada...

Quase contrafeita, regressei ao salão do rei Steinarr. Galinn acabara de tocar e apenas o crepitar dos braseiros e o assobio do vento se faziam escutar, no silêncio comovido que flutuava ao nosso redor. Thorson acomodara-se contra o seu peito, profundamente adormecido. Freya conseguiu levá-lo de volta ao quarto, sem despertá-lo.

Aos poucos, as vozes atreveram-se a manifestar-se. Galinn sorria... A sua aura irradiava uma energia pura e sadia, que me fazia retribuir o sorriso e relaxar. Até a alcatéia do rei-lobo já se rendera à simpatia do jovem príncipe... Bem, na verdade, Galinn não era assim tão jovem! Apesar de aparentar vinte anos, a Visão da sua infância, num tempo em que Hakon ainda era um Sacerdote do Conselho Superior, colocara-lhe cem anos sobre a cabeça! Isso nada tinha de extraordinário, já que a essência mágica das florestas da Gente Bela retardava o envelhecimento do seu povo, tal como acontecia com a Ilha Sagrada, no que respeitava aos Feiticeiros.

Ivarr também parecia afetado pela música. Surpreendi-o, esquecido da animosidade que o agitava, com o olhar preso no lado oposto da mesa... Em Thora! Um skald aproximara-se da minha irmã e dedicava-lhe um poema, que exaltava a sua coragem. Ela escutava-o com um sorriso amargo; o olhar assombrado pela escolha que a vida lhe impunha, e que a sua consciência não desejava assumir. Eu tinha de admitir que, nos últimos anos, a sua evolução fora impressionante! A menina pequena e franzina transformara-se numa mulher alta e forte, talhada para a arte da guerra, com uma perícia que dificilmente encontrava rival, e se tornava decisiva no campo de batalha. Porém, por mais que eu admirasse a habilidade de Thora, devia ajudá-la a buscar um futuro, ao lado do novo jarl, na Terra Antiga, antes que a morte a reclamasse!

Quando o skald finalizou, o rei Steinarr levantou-se e propôs um brinde em honra da loba prateada. Os cornos de beber ergueram-se a um só tempo e os gritos de louvor ecoaram pelo salão. Thora inclinou-se numa vênia, com os olhos molhados. Então, Ragnar, Ketill e Bryan caíram-lhe em cima, sustiveram-na nos braços e lançaram-na ao ar. Voltei-me para Eric, que a observava com um orgulho embevecido, e encorajei-o:

— Por que espera? Vai buscar a tua resposta!

Thora sentara-se e fixava a mesa, aguardando ansiosamente que as atenções se desviassem da sua pessoa. Era difícil... Até Galinn parecia prisioneiro dos seus encantos!

— Não! — objetou Eric, irredutível. — Não irei pressioná-la, Edwina! Quero que a tua irmã venha até mim por amor; não por obrigação!

Apeteceu-me sacudi-lo; gritar-lhe que parasse de ser tão consciente, ou acabaria por perder Thora. Porém, a sua atenção já se voltara para o skald que cantava a heróica participação de Ketill na primeira batalha que eu testemunhara. Os Vikings faziam questão de repetir esta arrepiante narrativa, em todas as celebrações. Contudo, a maioria não sonhava que a verdade era ainda mais assustadora do que o poema que o bardo enfatuava com horror. Os Vândalos tinham invadido os domínios da rainha Lyria do Povo da Terra, com o propósito de roubar da proteção de «O Que Tudo Vê» o pote que continha as cinzas da amaldiçoada feiticeira Gwendalin. Eu ainda não descobrira o porquê desse interesse, mas gelava só de imaginá-lo.

Estremeci, ao ouvir o bardo descrever como o general Arkin, filho do rei Vestein do povo vândalo e neto mais velho de Aesa, me encurralara à mercê da sua selvageria. Essa recordação emergia nos meus pesadelos. Nessa dia, Ketill salvara-me a vida, decapitando o príncipe inimigo. Ao ver-me tão incomodada, o primo de Ivarr piscou-me o olho e esboçou uma careta, que me obrigou a sorrir. Eu só conhecera Ketill pouco antes de me casar, mas não hesitaria em apontá-lo como um dos meus homens de confiança. Éramos da mesma idade, possuíamos gostos semelhantes e podíamos passar dias inteiros a conversar, sem nos aborrecermos. Eu ficara muito satisfeita, ao aperceber-me do seu entusiasmo por Freya. Além de ser um guerreiro de excelsa destreza, e um homem capaz de fazer qualquer mulher perder o fôlego, Ketill era inteligente, atencioso, galante e bem-falante. Porém, apesar de lisonjeada pelo seu interesse, a minha irmã mantinha-se irredutível na teimosia de permanecer só.

No fim da cantiga, Galinn saudou o rei Viking por ter acorrido em auxílio do seu povo. Steinarr louvou os guerreiros tombados na batalha e enalteceu a coragem de Ketill. O jovem era, sem dúvida, o seu sobrinho favorito. Mal prostrara o lobo cujo espírito completara a sua alma, na escuridão mística da Floresta dos Carvalhos, Steinarr convidara-o a juntar-se aos seus guerreiros de elite. Só a grande insistência de Ivarr, que cobiçara o primo para a sua guarda, levara o soberano a ceder os serviços de Ketill... Todavia, a predileção mantivera-se e acentuara-se após a traição de Magnor.

Recordar o príncipe rebelde provocou-me um calafrio. Apesar de jamais admiti-lo, era óbvio que Steinarr sofria e se questionava acerca das razões do desatino do filho mais novo. O ardor da sedução de Aesa, e as suas promessas de riqueza e poder, haviam fomentado a desmesurada ambição de Magnor; superado laços de sangue e amizade. Nada soubéramos dele, desde o dia em que desaparecera no interior da barreira de espinheiros que protegia o reduto da feiticeira, no coração da Floresta Sombria, após ter-nos atraído para uma armadilha que quase se revelara mortal. Havia quem alvitrasse que fora assassinado... Contudo, eu discordava. Aesa não desperdiçaria tão magnífico troféu!

A comida foi afastada, mas a bebida não cessou de verter dos jarros. Sem demora, o rei atraiu a si as atenções e deu início aos jogos. Este era o momento pelo qual a maioria ansiava; quando os guerreiros exibiam a destreza em honra do soberano. Durante anos, Steinarr convidara o seu primogênito a escolher um oponente. E, sem exceção, Eric fora o preferido de Ivarr. O meu primo nunca conseguira bater o rei-lobo, mas também não lhe facilitara a vitória. Com a idade e a prática, ambos tinham aguçado as capacidades e aprendido novos truques, e não hesitavam em recorrer a eles, para se surpreenderem mutuamente. Porém, impor uma derrota a Eric na noite em que este se tornara jarl, acabaria por diminuí-lo aos olhos dos chefes de clã da Terra Antiga. E tal era altamente indesejável! Por essa razão, Steinarr quebrou a tradição e chamou Eysteinn e Arnbjorn, dois dos seus guerreiros-lobo, para um duelo corpo a corpo, no interior do círculo de combate que dominava o centro do salão.

A multidão aplaudiu entusiasmada, quando o ágil Arnbjorn rasteirou e prostrou o colossal Eysteinn. Os punhos agitaram-se e gritaram-se as primeiras apostas. Ignorei o apelo de Otkatla, para que me juntasse ao seu grupo, e fui ao encontro da minha mãe e de Freya. Elas divertiam-se a observar o combate, mas a minha atenção ficou presa em Ivarr.

O rei-lobo estava inquieto, exacerbado, quase... angustiado. Pesaria-lhe a responsabilidade de decidir qual dos seus guerreiros ocuparia o lugar deixado por Eric, na hierarquia da alcatéia? Ragnar fora o segundo a jurar-lhe lealdade, mas todos os outros ambicionavam ser escolhidos. Então, reparei que o alvo do olhar ardente de Ivarr era Galinn... e concluí que Steinarr possuía motivos mais profundos para não chamar o filho a competir, do que aqueles que eu conjecturara. Se o instinto se sobrepusesse à razão, Ivarr teria desafiado o príncipe da Gente Bela a exibir os estranhos métodos de combate que aprendera nas suas aventurosas viagens, e dos quais nos falara ao jantar. A aliança que unia os nossos povos sobrevivera à intensa e atribulada paixão de Steinarr e Lyria, mas dificilmente resistiria à antipatia espontânea que separava os dois príncipes. Ivarr até podia confiar na magia do Espírito da Luz, que habitava a sua alma guerreira, para enfrentar o poder do sangue de Galinn. No entanto, a derrota de qualquer um deles resultaria num embaraço que ensombraria a festa... e causaria tensão entre os Vikings e a Gente Bela. O rei fora previdente!

Surpreendi-me ao constatar que Thora tomava a iniciativa de aproximar-se de Galinn. Em menos de nada, conversavam com a vivacidade de dois bons amigos. Temi ver Eric arremeter contra eles, possuído pelo ciúme, como sempre acontecia quando algum homem se abeirava da sua prometida. O desagrado do meu primo era evidente. Porém, ao contrário do habitual, voltou as costas e decidiu ignorá-los. Ivarr é que não se dispunha a tolerar a nova amizade de Thora! Por várias vezes esboçou a intenção de interrompê-los, mas a mão de ferro de Steinarr impediu-o. No fim, foi o meu pai quem se interpôs entre a filha e Galinn... Contudo, não demorou a ficar enredado no seu entusiasmo. O assunto decerto girava em torno da exímia destreza do Povo da Terra no manejo do arco, pois o jarl Throst pediu que lhe trouxessem um alvo. O meu pai era considerado o melhor arqueiro entre os Vikings, e Thora almejava superá-lo. A promessa de uma exibição depressa atraiu dezenas de curiosos, inclusive o rei Steinarr.

A afabilidade de Thora deixara Ivarr possesso. Uma troca de olhares bastou para que a minha irmã se apercebesse do descontentamento do seu senhor. Apesar de não o compreender, deu um passo atrás e declinou o convite de Galinn para participar na competição.

O príncipe da Gente Bela teve direito ao primeiro de três disparos. Retirou a seta do cesto e esticou-a na corda do arco, com a mesma elegância com que tocava flauta. E esta trespassou o ar, como se fosse música, e acertou no pequeno círculo vermelho que marcava o centro do alvo. Todos aplaudimos, à exceção de Ivarr, que manteve os braços cruzados sobre o peito. Depois, chegou a vez de o meu pai atirar. Sem hesitações, a sua flecha voou e enterrou-se na madeira, ao lado da seta de Galinn. Estavam empatados!

Para o segundo disparo, a distância entre os atiradores e o alvo aumentou. Tal não perturbou Galinn. A sua flecha cravou-se tão próximo da primeira, que dificilmente caberia uma unha entre as hastes. O meu pai demorou a preparar-se, o que me levou a questionar se a sua visão estaria a deteriorar-se com a idade. Porém, ainda assim, o resultado final foi perfeito.

O último disparo seria decisivo para determinar o vencedor. A multidão teve de afastar-se, para que o alvo pudesse recuar novamente. O olhar de Galinn estreitou-se, antes de atirar. O salão reteve o fôlego... para depois explodir em aplausos. O centro do alvo começava a tornar-se pequeno para tantas setas. O jarl Throst colocou-se em posição... e tornou a hesitar. Fixei a minha mãe e percebi que também ela se inquietava. O rumor impaciente da assistência perturbava ainda mais a concentração do meu pai. Eu estava prestes a exigir silêncio, quando ele disparou. Ergueu-se um coro de decepção... Não porque Throst tivesse falhado — a seta enterrara-se na linha divisória do centro do alvo, validando o seu esforço. Contudo, a prestação de Galinn fora indiscutivelmente melhor, o que forçava o jarl a admitir derrota. No entanto, antes que alguém se manifestasse, o príncipe da Gente Bela inclinou-se diante do adversário e elogiou-o:

— O povo Viking pode orgulhar-se por ter entre os seus guerreiros o mais habilidoso dos arqueiros humanos! Foi uma honra competir consigo, Jarl Throst!

O meu pai correspondeu ao cumprimento com um sorriso singelo, replicando:

— Agradeço a gentileza, mas a minha filha Thora é mais habilidosa do que eu!

As estrelas no olhar de Galinn transformaram-se em raios, de tal forma que, por um instante, o azul-escuro desapareceu por trás do fogo. A sua voz soou firme, mas ríspida:

— Então, por que se recusa ela a deslumbrar-nos com a sua perícia?

O olhar ígneo estava preso em Ivarr, quando terminou a pergunta.

O príncipe sabia a resposta, mas, ainda assim, desafiava Thora a contrariar o seu senhor. O rei-lobo não se moveu. Contudo, se o olhar matasse, Galinn teria caído fulminado. Estremeci quando retrucou:

— Thora é minha guerreira; não minha serva! É livre para participar na disputa, se assim o desejar!

Porém, era óbvio que esperava que ela tornasse a rejeitar a solicitação. A sua face gelou quando a viu tomar o arco das mãos do homem que o guardava, com um entusiasmo quase infantil. Mais uma vez, o salão susteve-se, em silêncio. A loba prateada estudou a distância ao alvo, com um sorriso trocista, como se já saboreasse a vitória. Sem cerimônias, retirou duas setas do cesto e fixou-as, separando-as com os dedos. Logo estas rasgavam o ar... e trespassavam as primeiras flechas disparadas na competição, fazendo voar farpas de madeira em todas as direções.

— Bravo! — exclamou Freya, que nunca se cansava de enaltecer os prodígios da sua gêmea.

Thora encarou Galinn com uma viveza triunfante, que a fazia rutilar sob os aplausos dos convidados. O príncipe da Gente Bela mirava-a com surpresa e curiosidade. Em dois passos, destruiu a distância que os separava e perguntou:

— Quais são os teus limites, guerreira?

Ela corou e fugiu do seu olhar, encolhendo os ombros:

— Não sei...

— Posso lançar-te um desafio?

A custo, Thora aquiesceu. Então, Galinn puxou de um lenço e vendou-a. Eu nem me atrevia a encarar Ivarr. A energia do rei-lobo chegava até mim como o pulsar fulgurante de um sol. De certa forma, admirava o seu controle, já que, se cedesse ao instinto, há muito que a noite teria presenciado uma tragédia. Eric observava este duelo de vontades sem se manifestar. Os companheiros de alcatéia rodeavam-no, temendo ter de segurá-lo a qualquer momento. Será que não viam que, desta vez, o perigo não se encontrava em Eric?

Cega para o mundo, Thora só podia contar com a memória e o instinto. A um gesto do jarl Throst, o salão emudeceu. Engoli em seco, ponderando se devia aflorar a mente da minha irmã e oferecer-lhe a ajuda dos meus olhos. Todavia, ela fechara-se a qualquer contato, concentrada no objetivo. Ajeitou a flecha e esticou a corda. O arco não estava na altura correta... Eu tinha sérias dúvidas de que ela conseguisse o seu intento. As mulheres afastavam-se, receando morrer trespassadas. Respirava-se apreensão... Então, Thora ergueu o arco e disparou. Senti a minha essência perseguir a seta, sem nunca a alcançar... Um clamor de alívio e júbilo agitou a assistência, no instante em que a ponta de metal feriu a madeira, num dos círculos interiores do alvo. O tiro não fora perfeito... mas provara a perícia da nossa valorosa guerreira!

Os acontecimentos que se seguiram foram tão inesperados, que me bloquearam a reação: primeiro, Thora retirou a venda e confirmou o seu sucesso. Depois, gritou de alegria... e saltou sobre Galinn, pendurando-se no seu pescoço. O príncipe da Gente Bela mal teve tempo de sorrir ante tamanho arrebatamento, e muito menos de corresponder ao entusiasmo da jovem guerreira. De repente, Thora foi-lhe arrancada dos braços e um punho esmagou-se no seu rosto. Horrorizada, vi Ivarr derrubar Galinn e cair sobre ele, qual lobo esfomeado de ódio, com as presas escancaradas, ansiosas pela carne frágil do pescoço da presa; a raiva que acumulara explodindo-lhe na cabeça com um ímpeto devastador.

O meu pai, que se encontrava mais perto, acorreu a separá-los. Thora estatelara-se no chão, mas já se levantara e tentava interferir. Ragnar segurou-a e apertou-a contra o peito, desprezando as suas pragas e pontapés. Com a ajuda do rei, o jarl Throst conseguiu imobilizar Ivarr. A guarda real esforçava-se por acalmar os ânimos exaltados dos guerreiros do Povo da Terra. Estávamos à beira de um incidente diplomático, quando a voz de Galinn troou sobre as demais, ordenando aos seus homens:

— Não se intrometam! Eu estou bem!

Consegui vê-lo, por entre a muralha de gente que se aproximara para assistir de perto à briga. Fora o lábio desfeito, que pingava sangue sobre a túnica, o príncipe da Gente Bela parecia incólume. Não reagira à agressão, apesar de possuir bons recursos para fazê-lo, evitando assim um transtorno muito maior. Steinarr pedia-lhe perdão, em nome do seu povo... e do seu filho. Ivarr rangia os dentes sob a prisão dos braços do meu pai, controlando-se a custo. Thora ainda estrebuchava, desejosa de libertar-se de Ragnar, afrontando o rei-lobo:

— Seu grande bruto! Por que é que fez isso?

Essa era a questão com que todos nos debatíamos. Mesmo sabendo que Ivarr não simpatizara com o irmão de Lyria, e que os dois tinham passado o jantar a trocar provocações, a sua atitude era inadmissível! O príncipe Viking reagira como se o contato de Thora e Galinn lhe ferisse a honra. Ora, Thora não era sua filha, nem irmã, nem prometida... Para não falar que fora ela quem abraçara o príncipe da Gente Bela, e não o contrário!

O rei-lobo libertou-se com um safanão e saiu desembestado, ignorando o apelo do pai. Galinn apaziguou os ânimos com palavras de reconciliação. Mais tarde, quando Ivarr se acalmasse, haveria tempo para as devidas cortesias. Thora ficou finalmente livre, e correu para o quarto, com a nossa mãe no encalço. Eric manteve-se afastado do alvoroço, parecendo perdido. O resto da alcatéia seguiu o príncipe através da noite. Freya amparou-me, atrevendo-se a questionar:

— Que bicho mordeu o Ivarr? Thora não estava fazendo nada de mal...

Não respondi. A única justificativa que me ocorria era muito controversa. Senti um sabor amargo na boca e um aperto na garganta, enquanto a suspeita que tanto me esforçara por aniquilar, nos últimos anos, renascia e ganhava consistência, rufando-me na mente qual tambor de guerra: Ivarr atacara Galinn, porque não suportara ver Thora saltar-lhe para os braços. Ivarr atacara Galinn, porque os sentimentos que o uniam à sua protegida lhe escapavam ao controle. Ivarr atacara Galinn... porque a idéia de perder Thora era-lhe intolerável!

Chovia torrencialmente. Os relâmpagos desenhavam rios de fogo no céu, e os trovões faziam estremecer as pedras do castelo. No salão, a festa de homenagem ao jarl Eric prosseguia, mas a fúria da tempestade abafava a música e as gargalhadas dos guerreiros. As senhoras e as donzelas da casa haviam-se recolhido. Só as escravas continuavam de pé, servindo os homens... Esta noite, muitas conheceriam a suavidade de cobertas lavadas, mas poucas conseguiriam repousar.

Antes de subir para o quarto, eu vira a alcatéia do rei-lobo regressar sem o líder. A sua atenção voltara-se para Eric, que já mal se sustinha de pé, de tão ébrio. Bryan, que ao longo dos anos adquirira a prática de afastar o primo da cerveja, fez questão de que o seu corno de beber transbordasse. Enquanto ria, cantava e dançava com as escravas, o novo jarl não pensava em Thora, nem no estranho incidente que tanto nos perturbara, e que prometia ser dissecado até o osso pelas mexeriqueiras.

Um trovão ribombou com tamanho fragor que tive de ranger os dentes para não gritar. Cobri a cabeça com a manta e desejei que Ivarr estivesse comigo. Antes de casarmos, eu confrontara-o com a possibilidade dele ter se apaixonado por Thora. O rei-lobo indignara-se e negara com acirrada convicção. O elo místico que o ligava à loba prateada era poderoso... Porém, qualquer um deles morreria, antes de admitir que pudesse tornar-se físico! Ainda assim, a incerteza desconfortava-me. Seria ciúme? Talvez! Decerto mágoa, por saber que jamais alcançaria a perfeita união espiritual de que eles compartilhavam. Em tempos, eu vivera algo semelhante... E fora maravilhoso! Porém, o homem que me proporcionara tais sentimentos estava morto. E eu aprendera a ser feliz com Ivarr... Senti-me gelar. Seria isto felicidade? Ou apenas um remendo mal cosido, que impedia o pano de se retalhar?

Novo estrondo, e dei por mim a tremer. Mas que raio que estava se passando? As tempestades nunca me tinham afetado os nervos! Freya, sim, morria de pavor da trovoada. Era inacreditável como algo tão simples e natural conseguia transtorná-la...

— Edwina...

A voz chegou até mim, fraca e distorcida. Descobri a cabeça, esperando encontrar alguém no quarto. Porém, a porta continuava fechada e as chamas da lareira tremelicavam ao sabor da corrente de ar, que se esgueirava por baixo da porta e agitava as cortinas. Seria o vento? Ou a imaginação a pregar-me peças?

— Edwina...

Sentei-me na cama; as mãos esmagando as cobertas contra o peito. Não restavam dúvidas de que ouvira o meu nome! Lembrei-me do poder obscuro que interceptara na floresta. A noite fora tão acidentada, que nem tivera oportunidade de partilhar o acontecido com a minha mãe. Agora, o temor cortava-me a respiração. E se o atacante misterioso tivesse se restabelecido, e viesse buscar desforra? O suor escorreu-me pelas frontes... De novo escutei, com o coração em debandada:

— Edwina... Edwina...

O que começara por ser um apelo quase inaudível transformara-se num clamor violento, que fazia lembrar o batuque dos pés de homens, em marcha para uma batalha terminal. As pesadas cortinas ondulavam ao sabor do vento guerreiro que fustigava as portas. O fogo estremecia na lareira e projetava sombras que se moviam pelas paredes, sobre as tapeçarias; dançavam no teto com um ardor tumultuoso... e caíam sobre mim. Num único instante, senti o pulsar da Terra, as correntes nas profundezas dos mares, o fogo no infinito dos céus... E o apelo tornou-se mais urgente, qual choro desesperado dentro da minha mente:

— Guardiã da Lágrima do Sol!

Gritei... A magia brotou-me da carne e cobriu-me a pele, como um líquido espesso e escaldante. Nos meus pulsos, as tatuagens ganharam vida: o Sol pulsou e o colossal dragão serpenteou ao seu encontro, libertando um assobio ameaçador. A cama estremeceu sem que ninguém lhe tocasse, e as cobertas elevaram-se no ar, suspensas por mãos invisíveis. As chamas da lareira jorraram, num rio de labaredas que ameaçou submergir o quarto... para finarem de súbito, ao mesmo tempo que a janela se escancarava com uma pancada mórbida, arremessando as cortinas para os lados e exibindo a fúria da tempestade.

A voz silenciou abruptamente. Encontrei-me na varanda, sem me lembrar de ter saído da cama. A chuva cavalgava o vento e inundava o chão, os meus pés e a camisa de noite. Possuída por uma vontade que não era a minha, comecei a avançar. Cada vez que piscava os olhos, as imagens distorciam-se, entrelaçavam-se com o fogo dos relâmpagos... Por um instante, o brilho resplandecente cegou-me. Então, os raios dissiparam-se e o pátio desapareceu. Eu estava numa sala escura, onde as chamas bruxuleantes de dois archotes destacavam uma imponente cruz de prata, que enfeitava uma parede de pedra enegrecida pela idade. O símbolo da nova fé libertava uma luz radiosa, que me atraía irresistivelmente. Aproximei-me; os pés descalços movendo-se hesitantes sobre um trilho vermelho e suave, que terminava num altar cerimonial, carregado de desenhos mais antigos do que a memória do Homem.

O clarão emitido pela cruz trespassava a mesa de pedra e desaparecia no interior da terra. Ergui a mão e toquei no símbolo destacado pelo raio de luz. Não fiquei surpreendida quando o chão se moveu, revelando uma escadaria íngreme. Era como se uma Entidade Superior guiasse minha consciência e indicasse o caminho a seguir. Estaria embrenhada num sonho? Ou deixara-me enredar nas malhas caprichosas de uma Visão?

Desci devagar; a brancura da camisa de noite contrastando com a pedra negra das escadas estreitas e gastas que serpenteavam pelas entranhas da terra. Sobre a minha cabeça, o chão deslizou e as trevas envolveram-me no seu manto sufocante. Continuei a descer, pois nada mais podia fazer. Após o que me pareceu uma eternidade, os meus olhos aptos a ver no escuro depararam-se com uma porta de madeira, que, não obstante a sua robustez fenomenal, denunciava as marcas do tempo. Estendi a mão para empurrá-la... E o meu braço trespassou-a. Sustive o fôlego e avancei, cautelosa.

Um arrepio gélido percorreu-me a essência, ao entrar numa sala forrada de umidade, iluminada por uma única tocha. A débil flama bastava para destacar os nichos das paredes, preenchidos pelo produto dos pesadelos dos Homens. Em cada compartimento encontrava-se uma caveira; algumas brilhantes, como se os ossos tivessem sido cuidadosamente polidos; outras, escuras, ardidas pelo fogo. Eram dezenas, pertencentes a crianças e a adultos, intactas ou ostentando o testemunho de mortes violentas, acompanhadas por um objeto que, decerto, identificava a vítima. Os meus olhos deslizaram por cima de ganchos, pentes, punhais, jóias... e até bonecos esculpidos em osso, para depois repousarem numa bancada onde se dispunham potes de barro, cuidadosamente tfechados, mas que, ainda assim, deixavam escapar o aroma de algumas ervas que me eram familiares.

Uma pequena mesa preenchia o centro deste túmulo macabro. Sobre ela dispunham-se instrumentos de osso com formas pontiagudas, usados para lacerar, perfurar e decepar. A madeira estava manchada pelo sangue que absorvera durante anos. Este era o covil de uma besta; o esconderijo de um feiticeiro que buscava prazer no tormento das suas vítimas... E o pior ainda não fora desvendado!

Ergui os olhos e me deparei com o prisioneiro. Pendia de encontro à parede, diante da mesa, suspenso por correntes feitas de luz. Os seus cabelos louros, ensopados em suor, caíam-lhe sobre o peito até à cintura como um manto de estrelas, e misturavam-se com a brancura da pele nua. O sangue que lhe escorria dos golpes abertos na carne formara uma poça no chão. Não possuía a constituição de um guerreiro, mas era sólido e musculoso. Correntes normais seriam incapazes de detê-lo, pois, apesar de enfraquecida, a magia da sua essência adivinhava-se poderosa. Por essa razão, o seu algoz apelara a um sortilégio para imobilizá-lo; um malefício que lhe sugava a energia do espírito, à medida que o corpo sangrava.

Corri ao seu encontro, com o coração acelerado. Todavia, descobri que não conseguia tocar-lhe, nem sequer fazer-me ouvir. Se não me era permitido interferir, por que fora conduzida ao seu encontro? Por que era obrigada a assistir impotente ao seu suplício? Foi tamanha a revolta, que a minha essência fulgiu, iluminando a funérea sala numa explosão de energia. Então, o prisioneiro ergueu o rosto e revelou-me o seu olhar, de uma fabulosa cor violeta, impossível de encontrar num humano sem mistura de sangue antigo; um olhar que, apesar da juventude, carregava uma sabedoria que só a assunção do poder místico concedia.

— Edwina...? — indagou, numa voz que o sofrimento adulterara; a mesma que ecoara no silêncio do meu quarto! Fora ele que me chamara, à custa do vigor que lhe restava. Quem seria? Como viera parar neste antro de morte?

Esforcei-me por declarar-me à sua percepção, enquanto apelava:

— Não tenha medo... vou libertá-lo!me  Está ouvindo?

Mal toquei nas correntes que lhe absorviam a energia, uma dor aguda percorreu-me a essência. Magia negra da mais nefasta! Eu tinha de fazer alguma coisa... Mas o quê?

De súbito, a porta gemeu tenebrosamente. O olhar angustiado e derrotado do prisioneiro trespassou-me, carregando a certeza de uma nova tortura. Senti o poder que se aproximava; uma espada de gelo que me retalhava em pedaços. Tombei contra a parede... e me deparei com uma figura alta e magra, com o crânio liso, e olhos incrivelmente pretos sobressaindo numa pele macilenta — o feiticeiro conhecido entre os Homens por padre Esteban.

A expressão com que o prisioneiro encarava o seu carrasco era agora altiva, provocadora, sem um traço da dor que o prostrara. A valentia deste jovem era ainda mais impressionante do que o poder que o hediondo bruxo usurpara!

Senhor do tempo, Esteban retirou do pescoço a cruz de metal, que lhe pendia sob as vestes grosseiras, e envolveu-a num lenço de seda branca. Depois, guardou-a cuidadosamente dentro de um baú de madeira, que repousava num dos nichos da parede de pedra, afastado do olhar vazio das caveiras. Sustive o fôlego ao ouvir a voz do prisioneiro, elevando-se com uma firmeza impressionante e um escárnio esmagador:

— Tem medo de que o Deus que finge servir ponha os olhos em ti e te castigue, Esteban?

O feiticeiro voltou-se para encará-lo e respondeu, num tom desprovido de emoção:

— Eu estive lá, entre a multidão, no dia em que crucificaram o Seu Filho. Esperei que o céu se abrisse e uma chuva de fogo dizimasse todos aqueles que se atreviam a desafiá-Lo... Porém, nada aconteceu! Foi... decepcionante! — Aproximou-se devagar, apreciando a tensão que solidificava o ar, a cada um dos seus passos. — Os laços familiares têm vindo a perder o significado, ao longo dos séculos. Não concorda?

O rapaz sustentou o olhar profundo, sem pestanejar. Esteban continuou:

— Confesso que acreditei que a tua adorada irmã viria em teu socorro! Não jurou ela cuidar de ti? Preservar-te de todo o mal? Proteger-te de mim? E, no fim, abandonou-te! É um infeliz, Julien... Ninguém se importa contigo!

— O teu veneno não me causa dano, demônio! — replicou o jovem, com profundo desprezo. — Acabe o que veio fazer!

— Está com pressa de morrer?

— A morte não é o fim... Pelo menos, para aqueles que têm coração puro!

O feiticeiro jogou a cabeça para trás e riu perversamente. Depois, qual falcão que mergulha sobre a presa, aprisionou o rosto belo entre as mãos e tomou-lhe os lábios de assalto.

Eu já vira os servos da Arte Obscura alimentarem-se da energia das suas vítimas, em terríficos pesadelos. Num deles, a minha essência encontrava-se fundida com a do meu primo Edwin, e sentira na carne o ardor do poder, o fogo da magia a inundar-me o sangue, o êxtase sublime que avigora uma vida... à custa de outra! A experiência deixara-me tão perturbada, que ainda hoje acordava apavorada, com a recordação do olhar vazio do marinheiro que finara às mãos de Edwin.

Também já estivera do outro lado do horror, sentindo a vida abandonar-me, a energia extinguir-se sob o jugo de Aesa. Por isso sabia o que Julien sofria neste momento... E o ódio crescia-me no peito! Eu percebera que Esteban era um ser maligno, no instante em que lhe pusera os olhos em cima, no casamento do meu primo Aled. Todavia, agoniava-me vê-lo em ação, impotente para travar a sua selvageria.

O feiticeiro recuou com brusquidão e Julien desfaleceu; as correntes mágicas impedindo-o de cair no chão. Julguei-o morto, mas quando Esteban agarrou um punhado dos cabelos dourados, forçando-lhe a cabeça para trás, constatei que ainda existia vida no olhar violeta. Um fio de sangue escorria-lhe dos lábios, testemunhando o quanto estivera próximo do fim.

— Sim, meu doce Julien — arquejou o bruxo, enlevado; flamas explodindo no interior do olhar negro. — Tu tens coração puro! É, indiscutivelmente, uma presa tão preciosa como rara. Se não estivesse tão carente do teu poder, haveríamos de nos divertir... Seria meu escravo, meu amante... o mais fiel dos meus adoradores! Eu quebraria o teu espírito; arrebataria a tua essência, de tal forma que seria incapaz de respirar sem mim!

Os lábios do rapaz moveram-se, libertando um som incompreensível. Deliciado, Esteban puxou-o pelos cabelos, impondo-lhe a sua proximidade, enquanto perguntava jocosamente:

— Quer implorar misericórdia? Talvez eu reconsidere... Talvez me disponha a passar mais uns dias sem me alimentar, até encontrar outro que preencha as minhas necessidades, para te manter ao meu lado! Suplique a minha graça, Julien... É tão fácil! Eu posso transformar a tua dor em prazer...

— Ela vai matá-lo!

Os traços severos do rosto do feiticeiro petrificaram-se. As chamas que lhe dançavam no olhar extinguiram-se abruptamente, enquanto rugia num tom glacial:

— Quem? A imprestável da tua irmã? Não me faça rir...

— Não... — replicou o prisioneiro, recuperando-se o suficiente para encarar o carrasco; a voz ganhando convicção. — A Guardiã da Lágrima do Sol...

Esteban empurrou-o e saltou para trás; o ardor transformado em asco.

— O que é que tu sabes acerca dessa mulher? — vociferou. — Fala!

Os lábios trêmulos esboçaram um sorriso triste, ao responder:

— Ela não é uma mulher! É uma feiticeira! E vai matá-lo...

Esteban arremeteu contra o jovem, fechando os dedos ao redor do seu pescoço e esmagando-o contra a parede, enquanto rugia:

— Foram as tuas profecias que te penduraram nessas correntes, ignóbil impuro! Fique sabendo que eu já tratei de contrariá-las! O teu tempo acabou... De uma forma ou de outra, será meu!

— Jamais se apoderará da minha alma — respondeu Julien, defrontando-o sem temor.

— Mas terei o teu coração!

Sem delonga, afundou os dedos no peito do rapaz e abriu os braços, com um grito selvagem. O estrépito que se misturou com o seu clamor de vitória foi arrepiante, aterrador: o som de ossos que se partiam, de carne que se rasgava, de fluídos que jorravam em torrente. Mas, o pior de tudo, foi a visão de Julien a engasgar-se e a vomitar sangue; o interior do seu peito exposto, por trás dos ossos abertos como janelas... o coração palpitando em agonia; em contagem decrescente para a morte.

Com uma exclamação jubilosa, Esteban mergulhou a mão no corpo da sua vítima e arrancou-lhe o coração. Ergueu-o diante dos olhos como se admirasse uma jóia de valor inestimável; o sangue escorrendo pelo braço esquelético, encharcando-lhe as vestes... para, por fim, o esmagar contra os lábios, bebendo sofregamente a essência mais pura da jovem vida.

Eu já testemunhara coisas execráveis... mas aquela atrocidade superou tudo! Bradei com o alento que me restava e fiquei rodeada de escuridão, esbracejando no vazio, caindo... despencando no abismo do choque, da negação. Isto não podia estar acontecendo! Isto era muito abominável para ser verdade!

— Mamãe!

Gritei por Catelyn da Ilha dos Sonhos... Bradei pela única pessoa capaz de compreender o meu sofrimento e de aliviá-lo. E a minha mãe chegou, num raio de luz, perfumado com o aroma do mar, da terra molhada pela chuva purificadora. Estávamos na varanda do meu quarto, no castelo Viking, debaixo de um violento aguaceiro... E ela sussurrava na mais doce das vozes:

— Acorda, meu amor... Por favor, Edwina, acorda! Não se deixe vencer... O nosso povo precisa de ti... Eu preciso de ti! Seja forte, querida... Seja forte...

 

A manhã de Primavera despertou clara e amena. Não fossem os estragos que a tempestade causara nos telhados, e a água que continuava a correr para o mar, sem que o solo conseguisse absorvê-la, ninguém acreditaria que um violento temporal assolara o Norte do mundo. O céu revelava traços de azul, por entre as nuvens cinzentas, num ditoso prenúncio da aproximação do Verão. O ar não guardava vestígios da energia que, na noite anterior, o fizera crepitar. Aparentemente, a Natureza repunha a normalidade que a magia perturbara.

Acordei na cama, sem me recordar de como fora parar ali. Tinha o corpo dolorido e uma terrível dor de cabeça. Mesmo sem controle da razão, as minhas primeiras palavras foram:

— Tenho de subir à Montanha Sagrada...

— Tu não vais a lugar nenhum! — replicou a feiticeira Catelyn, apelando à força sobrenatural do seu pequeno corpo para manter-me presa à cama. — Quase morreu esta noite, Edwina! Seja o que for que a Visão te revelou, terá de esperar!

Só então me apercebi de que toda a família me rodeava. Freya impedia-me de levantar a cabeça da almofada. Thora estava de pé, encostada às tapeçarias que enfeitavam a parede, observando-me com uma estranheza receosa. O meu pai quedava-se ao seu lado, com o rosto lívido. E Ivarr detinha-se junto das janelas, com uma ruga profunda a vincar-lhe a testa.

— O que foi que me aconteceu? — tive de perguntar, diante deste aparato.

— Não se recorda, mana? — inquiriu Freya, visivelmente assustada. — Quase derrubou o castelo com os teus gritos!

 

— O teu quarto estava um caos... — continuou Thora, perturbada.

— A lareira apagada, a cama desfeita, as janelas escancaradas, a chuva a inundar o chão...

— E tu estavas na varanda, desacordada — prosseguiu a nossa mãe. — Eu percebi que se encontrava sob a influência de uma Visão...

— Ela vai ficar bem? — interrompeu Ivarr, com uma urgência inquieta.

— Eu passei assim tão mal? — indaguei a custo, descobrindo que raciocinar era um tormento.

Catelyn da Ilha dos Sonhos ergueu uma mão, impedindo-os de se manifestarem.

— Tu vomitaste sangue, Edwina — esclareceu numa voz controlada, que, apesar do seu esforço, acabou por estremecer. — Acreditei que iria morrer nos meus braços.

Sangue... A palavra trouxe-me a recordação da figura cadavérica do feiticeiro Esteban, saboreando a vida do jovem Julien, enquanto a carcaça da vítima pendia das correntes amaldiçoadas. Conforme alimentava a sua execrável essência, um rubor sadio inundava-lhe as faces austeras. Talvez, em tempos, Esteban tivesse sido belo, como os homens da sua raça. Porém, um milhar de anos de perversidade deformara-o. Eu nunca ouvira falar de tamanha longevidade, num Ser Superior renegado. Quantas almas já teria condenado para se sustentar?

Ao terminar, o feiticeiro cambaleara e caíra de joelhos, embriagado de poder. Eu estava tão transtornada, que soltara um gemido... E, qual não fora o meu horror, ao ver os olhos negros esbugalharem-se na minha direção. A energia que Esteban assimilara tornara excelsa a sua percepção. O ódio que lhe inundou o semblante comprovou que me via distintamente. Em pânico, eu forçara o regresso ao corpo... Contudo, algo correra mal! Esteban ainda conseguira capturar uma réstia da minha essência e tentara aprisioná-la. Por pouco, eu não ficara dividida entre duas realidades... Por pouco não morrera!

Devagar, tentando ferozmente manter as imagens afastadas das palavras, contei-lhes os pormenores dessa aventura atroz. Terminei com um apelo desesperado:

— Preciso consultar a Pedra do Tempo! Esteban planeja algo terrível... E nós somos o seu alvo! Eu sinto! Agora, que o surpreendi, não hesitará em acelerar o seu intento.

— Hoje não sairá da cama! — replicou Catelyn, perturbada pela comoção que o meu relato suscitara. — O que nos conta é grave... mas não justifica o sacrifício da tua vida! Neste momento, a nossa prioridade é ver-te restabelecida.

— A tua mãe tem razão, Edwina — apoiou o jarl, calando o meu protesto. — Seja o que for que a Pedra do Tempo te revele, nada poderá fazer, se não tiver recuperado as forças. Combater Esteban não será fácil! Ele desfruta da proteção do Império; da confiança do próprio rei William. Infelizmente, matará muitos inocentes, antes que tenhamos oportunidade de detê-lo!

— Como pode o rei William acobertar tamanha aberração? — exasperou-se Ivarr.

— Um feiticeiro tem muitas formas de iludir, de deturpar a mente de um homem — declarou o meu pai, abalado. — Eu próprio segui Sigarr, durante anos! Os seus métodos não me agradavam, mas convenci-me de que eram imprescindíveis para a nossa causa.

— Nunca é tarde para se admitir um erro, querido — respondeu a esposa, condescendente. — O importante é retomar o caminho certo...

— É tarde para os inocentes que tombaram! — atalhou Freya, deixando-nos perplexos. Era a primeira vez que a ouvíamos pronunciar-se desta forma. Os seus olhos eram poços de lágrimas. A minha mãe desviou-se um pouco, para estreitá-la. Das suas três filhas, Freya era a mais sensível, a mais inocente. O seu espírito jamais resistiria incólume à barbaridade que eu presenciara!

Thora pressionava-se contra a parede, como se desejasse fundir-se com as tapeçarias. Ivarr encarou-a... e ela desviou o rosto. Teria o incidente da noite anterior quebrado o elo que ligava o rei-lobo à loba prateada? Observá-los, trouxe-me outro problema à memória:

— Ontem surpreendi um servo da arte maldita na nossa floresta — acrescentei, fixando Ivarr.

Poucas palavras bastaram para elucidá-los. O rei-lobo exacerbou-se, e demonstrou-o na brusquidão com que me afrontou:

— Por que não me contou isso, assim que cheguei da caçada?

— Porque estava muito ocupado a exibir o teu troféu e a trocar insultos com o príncipe Galinn! — defendi-me, confusa ante a sua irascibilidade.

— Poderá ser o Sigarr? — intrometeu-se a minha mãe, antes que a conversa azedasse.

Hesitei na resposta. Tal como o meu pai dissera, além de mestre da Arte Obscura, Sigarr era um mestre de manipulação. Durante anos, iludira o extraordinário poder de «O Que Tudo Vê», ocultando-se da sua Visão como se fosse ar. Só a ligação espiritual que eu partilhara com o seu pupilo me permitira descobri-lo. Então, num dia fatídico, o meu primo Edwin enfrentara-o num duelo de supremacia... e vencera-o! Quando o Guardião da Lágrima da Lua se recusara a aceitar a derrota, eu lhe rachara a cabeça com o seu próprio cristal, acreditando estar enviando-o para os confins do submundo, do inferno, ou de qualquer outro lugar danado, onde o seu espírito funesto enfrentaria a tortura eterna, por todo o sangue e horror com que se deleitara na Terra. Porém, logo após a tragédia que vitimara Edwin, a minha mãe alertara-me para a possibilidade do feiticeiro ter sobrevivido. Se todos aqueles com poder para reclamar a Lágrima da Lua estivessem mortos, o pai de Sigarr, sacerdote do Conselho dos Seres Superiores, não hesitaria em regressar à Terra, para recuperar o seu legado. Na altura, eu recusara-me a admitir tal calamidade... Agora, já não tinha certeza de nada!

O silêncio tornou-se angustiante. Para os Vikings, Sigarr era mais temível do que a sua irmã Aesa. Aqueles que, como o meu pai, tinham combatido sob as suas ordens, no tempo em que o sanguinário Gunnulf fora senhor da Terra Antiga, haviam observado as atrocidades que cometera. Se tê-lo como aliado fora aterrador, tê-lo como inimigo podia ser... fatal. Após confirmar a bestialidade de Esteban, ponderar o regresso de Sigarr era muito terrível!

— Definamos as estratégias — determinou o meu pai, sacudindo os nossos temores. — Todos concordamos que a Edwina tem de restabelecer-se, por isso, a deixemos descansar. Ivarr, vamos procurar o teu pai para lhe dar conhecimento destas ameaças.

— Eu os acompanho — decidiu a minha mãe, sem admitir contestação. — Quero assegurar-me de que Steinarr compreenda a gravidade do desafio que podemos estar prestes a enfrentar, já que ele nem sempre atribui a devida importância à magia e aos feiticeiros.

Fiquei sob a guarda de Thora e Freya. A guerreira continuava muda. A curandeira falava pelos cotovelos, tentando certificar-se de que eu me sentia realmente bem. Como é que dois seres iguais como gotas de água fruíam de personalidades tão diferentes? Os meus olhos começaram a fechar-se... Talvez fosse a voz de Freya que me embalava... Ou talvez eu necessitasse mesmo de descansar! A última coisa que vislumbrei, antes de ceder ao sono, foi o olhar atormentado de Thora. Adivinhavam-se dias difíceis para todas nós!

Quando despertei, apenas Thora se encontrava no quarto. Sentara-se ao meu lado, na cama, e retorcia as mãos, num alvoroço agonizante. Ao ver-me abrir os olhos, tentou controlar-se e forçar um sorriso.

— Freya foi olhar Thorson e preparar-lhe um chá...

A sua voz ficou suspensa, como se houvesse muito mais para dizer, mas cada palavra representasse um esforço violento. Se não a conhecesse, diria que lutava contra o choro. Toquei-lhe no braço, prendendo-lhe a atenção, enquanto indagava apreensiva:

— O que é que se passa contigo?

A garganta da minha irmã estava tão seca, que a ouvi engolir. Como não respondeu, insisti:

— Está assim por causa de Ivarr?

Thora mirou-me pelo canto do olho e percebi que estremecia. Dei-lhe tempo para se recompor e acabou por exclamar, numa voz sumida:

— O que ele fez ontem foi... inadmissível! Mais parecia um selvagem!

Respirei fundo, ponderando no que dizer para provocar o seu desabafo.

— O teu comportamento também não foi correto!

O desafio funcionou, pois Thora apertou os punhos sobre as cobertas e revidou:

— Eu sei! Não devia ter-me insinuado ao príncipe Galinn... Mas, se tivesse escolhido outro, eles acabariam por matá-lo!

Franzi o cenho, desconcertada.

— Não estou entendendo...

— Eu queria que Eric tomasse a iniciativa de terminar o nosso compromisso — confessou, num gemido dolente. — Pensei que, se mostrasse interesse por outro homem, ele ficaria decepcionado e desistiria. No fim, só consegui humilhar toda a família... E enfurecer Ivarr!

Quedei-me, assombrada com a sua justificativa. Thora planejara aquela confusão para fugir ao casamento? Mas o que é que se passava na sua cabeça... e no seu coração?

— O que é que te angustia? — questionei, num tom apaziguador, apertando a sua mão de modo a transmitir-lhe confiança. — Por que está tão receosa de desposar o Eric?

Ela encolheu os ombros e replicou, num tom quase irritado, como se a resposta fosse óbvia e ninguém a enxergasse:

— O Eric não precisa de mim para provar o seu valor! Há muito que a Terra Antiga anseia pelo regresso do herdeiro de Grim. Se os guerreiros que serviam os mercenários se insurgirem contra o novo jarl, serão esmagados pelos aldeãos!

— Isso é verdade! — concordei. — Mas o Eric não te pediu em casamento por essas razões! Fez porque te ama...

— Eu não o amo, Edwina!

O corte de Thora soou tão estrangulado, que julguei ter ouvido mal. Todavia, a sua expressão dispensava palavras. Inspirou um fôlego de coragem, antes de acrescentar:

— Sempre acreditei que aprenderia a amá-lo! Ele é um homem maravilhoso, que merece toda a felicidade... Contudo, só o vejo como um bom amigo... um irmão! Não hesitaria em dar a vida por ele, mas não consigo imaginar-me na sua cama. Não sinto desejo quando ele me beija, quando me abraça... Raios, Edwina! Não compreende?

A sua franqueza deixou-me perplexa, sem argumentos. Era evidente que Thora não ambicionava o que a Terra Antiga tinha para lhe oferecer!

— Compreendo... — forcei-me a responder, engolindo a comoção.

— E, ainda assim, acha que devo casar-me? Que devo renunciar à vida que escolhi e que tanta satisfação me traz; ao apelo da loba prateada... para não decepcionar a nossa família e deixar o Eric feliz?

Olhei para o interior da minha experiência e dei por mim a contradizer:

— O Eric não será feliz, sabendo que é infeliz ao seu lado.

Thora respirou fundo. De repente, parecia que o peso do mundo lhe abandonara os ombros. As suas faces já enrubesciam. Os olhos já brilhavam. A voz recuperara o ânimo, ao declarar:

— Sei que desejam o melhor para mim... Mas eu não posso ser a senhora da Terra Antiga! Nasci para ser guerreira... Se deixar para trás o que conquistei, acabarei por definhar em vida! A minha alegria é montar através dos campos, navegar pelos mares e combater os nossos inimigos, ao lado do meu senhor...

Era impossível ignorar o ardor que se apossava do seu olhar, sempre que falava do rei-lobo. Como podia qualquer outro homem competir com tamanha devoção? Thora crescera a admirar Ivarr, com o sonho de tornar-se sua guerreira. Esse sonho concretizara-se e ela não se dispunha a abdicar dele. Pensar que podia encontrar a morte, num campo de batalha, dava-me nós nas entranhas... Contudo, a minha irmã tinha o direito de decidir o seu rumo!

— Vou procurar o Eric e dizer-lhe o que sinto — dispôs, com a sua espontaneidade inigualável. — Prolongar este impasse só nos trará sofrimento. Ele acabará por concordar que o nosso casamento seria um erro... Só espero que o Ivarr não me expulse da sua guarda!

Se a situação não fosse tão séria, eu até poderia rir! Thora ia terminar o compromisso com Eric e preocupava-se com a reação de Ivarr! Retorqui, sem evitar o sarcasmo:

— Tenho certeza de que o rei-lobo ficará lisonjeado por saber que a loba prateada deseja continuar ao seu serviço, ao invés de tornar-se senhora da Terra Antiga!

Thora já não me ouvia. Saiu tão determinada que quase esbarrou na sua gêmea. Freya acabara de regressar, trazendo uma tigela fumegante. Sentou-se ao meu lado, indagando com estranheza.

— Onde vai ela, com o rabo em chamas?

Aceitei o chá, antes de responder:

— Vai dizer ao Eric que já não quer se casar.

— O quê?

Freya não teve oportunidade de manifestar o seu pasmo, pois, nesse preciso instante, Thorson irrompeu pelo quarto, bradando ardorosamente:

— Tia! Tia! Deixe-me brincar com a Lágrima do Sol!

Este impulso do meu sobrinho começava a repetir-se, como se mergulhar na cintilação branca se tornasse uma necessidade. Talvez fosse o modo que a sua essência encontrara de se defender das forças obscuras; uma forma de equilibrar as energias, de purificar o seu espírito. E o fato do cristal o reconhecer era um ótimo presságio para o futuro! Antes que pudéssemos reagir, já saltara para cima da cama. A mãe quis ralhar-lhe, mas eu detive-a. A Senhora Doralia chegava agora, trêmula e ofegante devido ao esforço da perseguição.

— Perdoem-me, meninas! — arquejou. — Eu tentei segurá-lo...

Dispensei-a com um sorriso complacente, sabedora da dificuldade da missão que lhe confiara. A nativa do Povo dos Penhascos bem que merecia um dia de descanso longe da veemência do pupilo! Entretanto, o impaciente Thorson já procurava por baixo das almofadas e revirava as mantas. Tive de apelar novamente à tranqüilidade de Freya, antes de alcançar o cristal no bolso da camisa de noite. Entreguei-o ao pequeno traquina, que escorregou para o tapete com um guincho de satisfação, como se a Lágrima do Sol fosse o mais precioso dos tesouros. Rolou-a entre as mãos, num frenesi... Então, inesperadamente, ficou calmo, silencioso, atento aos segredos desvendados apenas para os seus olhos. A serenidade de Thorson permitiu-nos debater o arrebatamento da loba prateada. Surpreendi-me quando Freya opinou:

— A Thora jamais conseguiria ser a mulher com que o Eric sonha... E o Eric jamais poderia dar-lhe aquilo que ela almeja: aventura, liberdade... A nossa irmã está a fazer o que é devido! Queria eu ter a sua coragem!

— Não diga isso! — ralhei, buscando a sua mão. — Tu és uma das mulheres mais corajosas que eu conheço!

— Não, não sou — negou com azedume. — Mas o meu filho dá-me forças para lutar... Faz-me acreditar que vale a pena viver!

Olhamos para Thorson e partilhamos um momento de emoção. Foi com a voz entrecortada que Freya confidenciou:

— Ontem à noite, o Ketill declarou-me o seu afeto.

Alegrei-me por receber uma boa notícia. Porém, a sua expressão aniquilou-me o entusiasmo.

— Não me diga que o rejeitou — repliquei. — O Ketill é um homem excelente e a aprecia de verdade! Além disso, sei que também te agrada... Não desperdice esta oportunidade de ser feliz!

— Eu sou feliz! — contestou ela, baixando a voz para que o filho não a ouvisse. — Não é justo dar esperanças a Ketill, quando o meu coração pertence a outro homem! — Susteve o meu protesto, resoluta. — Sei que vai dizer-me que é inútil guardar ilusões acerca do passado. Mesmo que... «ele» me quisesse, não haveria forma de ficarmos juntos. Os anos passam, sem que o ódio que divide Vikings e Vândalos esmoreça. E a nossa família não esquece que, enquanto esteve entre nós, «ele» mentiu e matou, para roubar as pedras mágicas da bisavó Aranwen. Contudo, daí até aceitar o pedido do Ketill... Não! Estaria a enganá-lo... e a enganar-me!

Tudo o que Freya dizia era verdadeiro... mas frustrante! Decidi não teimar. Talvez o tempo a ajudasse a encarar a vida com menos azedume! Pelo menos, reconhecia impossível o seu amor por Helgi! A cabeça do príncipe vândalo era um troféu irresistível para os Vikings. E, como se isso não bastasse, ainda havia a profecia que opunha o Espírito da Luz ao Espírito da Escuridão...

Um dia, Ivarr e Helgi se bateriam até à morte, por imposição do destino. Todavia, a essência protetora que determinaria o vencedor mantinha-se oculta. «O Que Tudo Vê» revelara que essa magia vivia na mulher que haveriam de disputar. Porém, tal não fazia sentido! Ivarr casara-se comigo; Helgi apaixonara-se por Freya... E, no meio desta confusão, eu ainda guardava a secreta esperança de que o bisneto de Aesa não tivesse herdado a maldade da mestra da Arte Obscura. Lembrava-me claramente do dia em que ele me salvara, para saldar a dívida de honra da sua irmã Helga, a quem eu poupara a vida. Via-o: cabelos acobreados, olhos celestes, a altivez de um rei... e, nas mãos, a pedra azul de Aranwen, que Freya lhe entregara como prova de amor. E fora amor que eu surpreendera no seu rosto, ainda que misturado com desencanto e rancor.

A nossa conversa foi interrompida por um alarido no pátio. Pouco depois, uma criada explicava-nos que se tratava de um camponês, que viera suplicar ajuda ao rei. Os seus filhos tinham sido apanhados pela enchente do rio, durante a tempestade da noite anterior, e encontravam-se bastante maltratados. A curandeira da sua aldeia era muito idosa, estava quase cega e pouco pudera fazer para valer-lhes.

— Vai, Freya! — incentivei. — E não se preocupe com o Thorson... Enquanto a Lágrima do Sol estiver em suas mãos, não se meterá em confusão.

A minha irmã relutou em deixar-nos, mas acabou por ceder ao apelo do seu espírito curandeiro. Eu afundei-me nas almofadas e fechei os olhos, sentindo a cabeça latejar. Recordar Helgi trouxera-me à memória o confronto com os lobos negros, as almas danadas que serviam Aesa. A batalha que nos opusera aos Vândalos, nos Pântanos Nebulosos, representara a maior derrota de que o meu povo guardava memória. Além de termos perdido a pedra mágica de cor verde, pertencente ao meu primo Aled, junto as três — a violeta, a laranja e a azul — que Helgi roubara, também víramos tombar dezenas de homens e sepultáramos o orgulho Viking nas areias movediças.

A resposta de Steinarr fora implacável! Invadira a Floresta Sombria, a partir da fronteira com a Serra Rochosa e o território da rainha Lyria, e montara um cerco à barreira de espinheiros, que se mantinha até hoje. A única ajuda que os Vândalos recebiam provinha dos mercenários do Norte, que conseguiam abrir caminho através das brumas traiçoeiras dos pântanos, o ponto mais fraco do bloqueio. Agora que Arnorr morrera, Aesa ficara ainda mais isolada... A não ser que Sigarr tivesse regressado para aliar-se à irmã! Esse pensamento era tão horripilante, que sacudi a cabeça para afastá-lo.

— O papai está chorando!

Um calafrio paralisou-me. Teria ouvido bem? Fixei Thorson, com medo. Ele continuava sentado no tapete, concentrado no brilho transparente da Lágrima do Sol. Mirou-me com os seus incríveis olhos azuis e insistiu inocentemente:

— Por que é que o papai está chorando, tia?

O que fazer? Entrar em pânico não me ajudaria a ir ao fundo da questão. Tirar-lhe o cristal seria ainda pior! Desci da cama, respondendo cautelosa:

— Não sei, querido... Quer me mostrar?

Receei que se retraísse, mas estendeu-me a mão. Sentei-me ao seu lado e puxei-o contra o corpo, envolvendo-lhe as mãos com as minhas. Olhei para a cintilação da Lágrima do Sol e nada vislumbrei, além de uma névoa colorida. Porém, no instante em que o olhar de Thorson regressou ao cristal, a névoa dissipou-se e deparei com a Visão que o intrigava. O coração subiu-me à boca e caiu no vazio. Tive de cerrar os dentes para conter um grito. Diante de nós, tão real como se à distância de um braço, encontrava-se Helgi, príncipe do povo vândalo... O pai de Thorson!

— Por que é que o papai está triste, tia Edwina?

Era urgente decidir o que responder ao meu sobrinho. Negar a identidade do homem revelado pela Lágrima do Sol seria inútil; o deixaria confuso e revoltado. Como Thorson chegara até Helgi, estava para além da compreensão. A minha mãe contava que, sem nunca ter visto o meu pai, eu soubera que ele vinha a bordo do Dragão dos Mares, a caminho da Grande Ilha. O apelo do sangue fazia prodígios! Freya tinha o cuidado de nunca proferir o nome do príncipe vândalo na frente de Thorson, temendo que a magia se manifestasse e o segredo fosse exposto. Porém, no fim, o destino encontrara uma forma de fazer valer a sua vontade!

Helgi, filho do rei Vestein, estava ajoelhado num lamaçal. Os seus dedos esgravatavam a terra alagada e arrancavam as ervas mortas, com um ímpeto enlouquecido. Chocada, percebi que se tratava de um campo de cultivo, arruinado pela enxurrada da noite anterior. Com um nó na garganta, ouvi-o gritar o seu desespero e esmagar os punhos contra o solo, salpicando lama sobre a túnica e as faces transfiguradas pelo desespero. Aparentemente, o cerco de Steinarr estava a ter conseqüências mais graves do que eu julgara!

— O teu... ele chora porque a chuva lhe destruiu a comida — disse, pesando as palavras.

— Mas nós temos comida! Por que é que o papai não vem para o castelo?

Isto ia piorar!

— Porque não pode... Ele vive muito longe!

Só esperava que, apesar da sua extraordinária intuição, Thorson acreditasse que a Floresta Sombria era um lugar distante. Engoli em seco quando questionou:

— É por isso que não vem me visitar?

E agora? O meu sobrinho ainda não tinha quatro anos, mas era abençoado por uma inteligência superior. Se eu lhe mentisse, aperceberia... e não me perdoaria! Hesitei tanto, de tal forma atrapalhada, que Thorson acabou por replicar, com um rosto sério de criança e o olhar de um adulto profundamente magoado:

— Ele não sabe que eu estou aqui, não é, tia?

Que todos os deuses, de todas as crenças, me acudissem! Freya ia matar-me! Rendi-me ao apelo da consciência:

— Não... Não sabe.

— E porquê?

Arquejei... duas, três vezes...

— Porque o teu pai pertence a um povo... que não é amigo dos Vikings... E tanto a mamãe como eu achamos que correria perigo, se a sua gente soubesse que tinha nascido.

Thorson franziu a testa, como se refletisse. Teria entendido? De súbito, indagou:

— Ele é um Vândalo?

Até onde ia a percepção deste garoto?

— Sim...

— E vai morrer?

Estreitei-o contra o peito. A Lágrima do Sol rolou para fora do nosso alcance, mas Thorson não se importou. Tremia... Respondi, com a firmeza que a comoção me permitia:

— Não sei, meu amor! Juro que farei tudo para que isso não aconteça!

O menino respirou fundo, como se a minha palavra fosse uma garantia de que nada de mal sucederia ao pai. Porém, ainda não estava satisfeito:

— E o que é que ele vai comer, tia Edwina?

Eu também gostaria de possuir a resposta para essa questão, não só por Helgi e Helga, mas por todas as crianças do seu povo, inocentes das guerras dos adultos.

— O teu pai é um homem inteligente, Thorson... Há de encontrar uma solução!

Esperava, do fundo do coração, que isso fosse verdade! Agora, tinha outro problema para resolver. Busquei-lhe o olhar e apelei gravemente:

— Promete-me que não voltará a procurar o teu pai... nem com a ajuda da Lágrima do Sol! É muito perigoso, Thorson... A rainha dos Vândalos é uma feiticeira má. Se te descobrir, muitas pessoas morrerão! Compreende?

O meu sobrinho aquiesceu, com uma solenidade que me tranqüilizou. Assim como eu fora sincera, também ele retribuía com a verdade. Tornei a abraçá-lo, enterrando os dedos nas ondas acobreadas dos seus cabelos, enquanto murmurava:

— Não fique triste, querido...

— Eu vou estudar muito — cortou bruscamente, num tom que me arrepiou a alma. — Vou ser forte e poderoso... Hei de libertar o meu pai da feiticeira e trazê-lo para casa!

Eu era a única adulta neste quarto! Não podia ceder às lágrimas!

— Vai contar à mamãe, tia Edwina?

De novo, ele antecipava-se ao meu pensamento.

— Não, Thorson — decidi. — A tua mãe ficaria assustada e não te deixaria brincar com a Lágrima do Sol. E tu precisas aprender a controlar a magia do cristal, para te tomares um grande sábio. — Busquei o seu olhar. — Este será o nosso segredo! Combinado?

Um beijo selou o acordo.

Thorson acabou por adormecer nos meus braços, esgotado pela viagem espiritual que o levara à Floresta Sombria, no encalço do pai. Carreguei-o para a cama e deitei-me ao seu lado. Pouco depois, a minha mãe trazia novidades. Steinarr concordara em manter-se alerta ao perigo que tomava forma no Império. Quanto ao intruso que ameaçara o rei-lobo, o príncipe Galinn oferecera os serviços dos seus homens para procurá-lo. Estes moviam-se entre as árvores como peixes na água. Se ainda se encontrasse na Floresta dos Carvalhos, o mestre da magia negra seria capturado. E se fosse Sigarr? Galinn não o temia, explicara Catelyn. O Povo da Terra possuía vastos conhecimentos no domínio da Arte Obscura, combinando-a com a Arte Luminosa para praticar o bem. Para enfrentar Galinn e os seus guerreiros, Sigarr teria de apelar a algo mais do que o seu poder. Isso fazia sentido pois quando invadira a Floresta de Lyria sob as ordens de Aesa, Arkin recorrera a uma flauta amaldiçoada para derrotar a Gente Bela.

A minha mãe sobressaltou-se, quando lhe contei a intenção de Thora. Eric estivera presente na reunião com o rei, por isso, a loba prateada tivera de adiar o seu intento. Mergulhamos num silêncio profundo, mastigando a apreensão. Entretanto, Freya chegou, corada de entusiasmo. A sua intervenção fora um sucesso! Os dois jovens aldeões encontravam-se bem e, em breve, estariam aptos a trabalhar. Satisfeita, descreveu-nos como lhes imobilizara os membros machucados e tratara das feridas. A sua paixão pela arte de curar transparecia em cada palavra. Catelyn não escondia o orgulho, ao comprovar que a filha mais nova seguiria os seus passos, com igual devoção. Ser uma boa curandeira exigia muito mais do que estudo e o conhecimento dos ingredientes do ofício. Exigia amor pelas pessoas e pela vida. E isso, Freya tinha de sobra!

A noite caiu sem que soubéssemos de Thora. Jantei no quarto, na companhia da minha mãe e de Freya. Sentia-me revigorada e desejosa de decifrar os enigmas que me torturavam a mente. Esta inatividade forçada destroçava-me os nervos.

Quando Ivarr se juntou a nós, eu quedava-me junto da janela, contemplando as estrelas que espreitavam por entre as nuvens, pensando em Esteban e no mestre da Arte Obscura que se ocultava nas sombras da Floresta dos Carvalhos. Esperava que Galinn afastasse essa ameaça do nosso futuro. Eu já tinha muitos inimigos com que me preocupar!

As mãos do meu marido pousaram-me nos ombros. Contra a vontade, as lágrimas subiram-me aos olhos. Cerrei os dentes, temendo que a língua se soltasse e cuspisse o ressentimento que me apertava a garganta. Nos últimos dias, quase não o vira. Ivarr estava com o rei, ou com os seus homens... ou envolvia-se em discussões e agredia aliados, por causa da loba prateada, para depois desaparecer na noite, sem uma justificativa.

— Precisamos falar... — murmurou-me ao ouvido, estreitando-me nos braços; o corpo pedindo que me virasse para encará-lo. — Desculpa não ter estado presente, quando necessitava. Está tudo acontecendo tão rápido! Eu... Eu sinto que estou perdendo o controle da minha vida!

A porta bateu, anunciando que ficáramos a sós. Condescendi à sua vontade... Porém, ao erguer o rosto, não encontrei o seu olhar... encontrei os seus lábios. Ivarr beijou-me com uma lentidão angustiante, como se saboreasse cada gota da minha saliva; a língua quente explorando e acariciando. Era impossível lutar contra um beijo tão profundo! As minhas pernas fraquejaram e apoiei-me no seu peito para manter o equilíbrio. Os dedos afundaram-se na lã macia da túnica e o coração de meu marido saudou o contato. As suas mãos fortes e ansiosas atraíram-me para mais perto. Cada pedaço do meu corpo recebia o seu calor... e a sensação era maravilhosa! No fundo da mente, uma voz fraca recordava-me que havia muito a esclarecer; que eu estava magoada com o rei-lobo... Mas, porquê? Se conseguisse lembrar-me...

Os lábios de Ivarr desceram até o meu pescoço, sugando, mordiscando, até me arrancarem gemidos de prazer. Quente como lava, a sua voz entrou-me nos ouvidos, misturou-se com o sangue e derreteu-me o coração:

— Ajude-me, minha princesa... Estou enlouquecendo...

O olhar cristalino relampejava, reduzia a minha vontade a cinzas. Enterrei os dedos nos cabelos sedosos, libertando-os da prisão da fita de pele. Depois, observei-os, extasiada; uma cascata de seda negra sobre os ombros largos. Eu desejava Ivarr... E ansiava pelo seu ardor! Recusando-me a escutar o clamor de alerta, que me fustigava a consciência, puxei-lhe pela túnica e desnudei-lhe o peito. As suas tatuagens encheram-me os olhos, como se tivessem vida. Era possível sentir a suavidade das penas do falcão, por baixo dos dedos; ouvir a canção do vento, que brincava com os ramos do carvalho... e cheirar o odor forte e inconfundível dos lobos.

— Ivarr... — arquejei, enlevada.

Ele não se moveu, arrebatado pelo reconhecimento da nossa magia.

— Minha feiticeira... Dar-te-ei tudo o que quiseres!

Lancei-me aos seus lábios; beijei-o como se as nossas vidas se alimentassem do fogo que me consumia. O que é que eu queria? Queria esquecer que existia um mundo fora dos seus braços! Queria amá-lo... Sim, mais do que tudo, queria amá-lo... como um dia amara Edwin!

Este pensamento fez-me gelar, como se bruscamente submersa pelas ondas bravias do mar do Norte. Ivarr não teve tempo de se aperceber da minha angústia, pois a porta do quarto escancarou-se de rompante... e Eric entrou, desembestado, rubro de fúria.

Perplexa, fui deixada para trás, enquanto o príncipe avançava e interpelava o seu guerreiro:

— Eric, o que foi que...?

O punho do meu primo rasgou o ar e esmagou-se contra o rosto do seu senhor.

— Tu és o culpado da minha desgraça! — vociferou, dominado pela ira. — Tu, o meu melhor amigo! Vil traidor!

O rei-lobo recuou sob o impacto, acusando um assombro colossal. O instinto levou-o a erguer o braço para evitar o segundo murro, enquanto que, com a outra mão, empurrava Eric para uma distância segura.

— Enlouqueceu? — rugiu, limpando o sangue que lhe escorria pela barba.

— Tu sabes o que eu sinto pela Thora! Por que não se afastou?

— Do que é que está falando?

Eric bufou o seu rancor, cuspindo sem contemplações:

— Estou falando da paixão que une o rei-lobo à loba prateada!

O tempo pareceu parar. Ouvi um gemido de horror e deparei com Thora, à entrada do quarto, com as mãos sobre os lábios. Forcei-me a reagir e corri ao seu encontro. Enquanto isso, os homens voltavam a bater-se. Ivarr torceu o braço de Eric atrás das costas e imobilizou-o contra a parede, argumentando numa voz que se assemelhava ao rugido de uma fera:

— Não admito que levante tamanha calúnia! A Thora é minha cunhada; minha irmã de sangue, tal como tu!

— Só falta dizer que nos amas da mesma forma! — escarneceu o outro, como se sentir-se preterido pelo rei-lobo fosse mais doloroso do que o abandono da prometida.

Por cima do ombro de Thora surgiram rostos perplexos, atraídos pela confusão. O de Otkatla destacou-se dos demais. A prima de Ivarr preparava-se para entrar no quarto e apreciar o espetáculo de perto. Num impulso instintivo, soltei a minha irmã e lancei-me contra a porta, empurrando-a com toda a força. O grito de Otkatla ecoou do outro lado, confirmando-me que a madeira se esmagara contra o seu nariz. Era bem feito, para aprender a não ser bisbilhoteira! Tranquei a porta e virei-me para enfrentar o gigantesco problema que tinha nas mãos. Qual não foi o meu choque, ao verificar que Thora se interpusera entre os dois homens, numa confusão de punhos que tentavam socar, pernas que se esforçavam por rasteirar, dedos que tencionavam estrangular...

— Admita a verdade, Thora! — berrava Eric. — Diga que é por causa dele que teima em ficar! Diga-lhe que despreza tudo o que tenho para te oferecer, por uma mão cheia de nada!

— O Ivarr não é responsável pela minha decisão! — bradava a loba prateada.

— Basta, Eric! — ordenava o príncipe, num ronco aterrador; a essência do lobo sobrepondo-se à consciência do homem. — Foi longe demais!

Os olhos de Ivarr eram labaredas. O poder do Espírito da Luz fazia fulgir a pele do seu peito nu; extravasava para Eric, para Thora... Se eu não interviesse, ia acontecer uma desgraça!

— Parem imediatamente! — gritei, libertando a magia com uma veemência tempestuosa.

O trovão ecoou-me dentro da cabeça e o clarão do relâmpago devassou o quarto. O fogo subiu na lareira com um estrondo ensurdecedor.

E os corpos dos guerreiros foram arremessados pelo ar; cada um para um canto oposto àquele onde eu me encontrava. Reprimi a vontade de lançá-los contra o teto. Esperava que tivessem aprendido a lição!

Ia perguntar-lhes se não tinham vergonha de comportarem-se como animais, quando Eric se enrolou sobre si próprio e começou a chorar. Engoli em seco, ao ver Ivarr rastejar até o amigo e envolvê-lo nos braços. O meu primo cedeu e o seu pranto tornou-se convulsivo. Thora manteve-se quieta, mirando-os com uma tristeza sem limites; as lágrimas caindo pelo rosto lívido. Então, Ivarr estendeu-lhe a mão...

A minha irmã fixou-me, com um misto de ânsia e temor. A parte humana da sua alma carecia da minha permissão, para que a loba pudesse perseguir o consolo que tanto almejava. Assenti com a cabeça e ela quase correu, deslizando para o meio dos dois homens, como um pequeno ser em busca de abrigo. Encontrei o olhar de Ivarr e, de imediato, as formas humanas cederam lugar aos lobos: um branco, de pêlo comprido, detentor de uma majestade insuperável; outro cinzento, um pouco menor do que o líder, mas igualmente nobre... e uma fêmea, detentora de um poder fenomenal, cujo pêlo prateado cintilava sedutora à luz da lareira.

O rei-lobo não me dedicou um só gesto e eu não tentei impor-me. Este momento era uma exaltação à magia que os três partilhavam. Num piscar de olhos, Ivarr deixara de me ver como uma amante e passara a encarar-me como uma intrusa. Eu sabia que estava a importuná-los, por isso rodei nos calcanhares e saí do quarto, com o coração em debandada dentro do peito, assolada por uma emoção que não conseguia justificar. De alguma forma, deveria sentir-me ultrajada, indignada, desprezada... Mas não! Tinha a estranha percepção de que o que deixava para trás era puro, extraordinariamente belo... perfeito e certo!

Surpreendi-me ao encontrar o corredor vazio... mas não tardei a perceber porquê, quando os meus pais surgiram das sombras. Em silêncio, recolheram-me no seu carinho e levaram-me para o seu quarto. Em silêncio, deitei-me entre eles e respirei um fôlego de satisfação. Em silêncio, fechei os olhos... e adormeci em paz.

 

A trilha era suficientemente larga para que dois guerreiros montassem lado a lado. Normalmente, na frente da coluna seguiriam Ivarr e Eric, depois Bryan e Thora e, na retaguarda, Ketill e Ragnar. Hoje, pela primeira vez em muitos anos, Eric não acompanhava o príncipe Viking. O rei Steinarr solicitara a sua presença numa reunião com os chefes de clã da Terra Antiga. E ninguém contestara que as responsabilidades do novo jarl se sobrepunham à escolta da Guardiã da Lágrima do Sol, até a Montanha Sagrada.

Os nossos passeios costumavam ser alegres. Porém, esta manhã, ninguém tinha vontade de conversar; cada um imerso em pensamentos, mastigando os seus próprios dilemas. Apenas os gritos de Lança, que patrulhava os ares em busca de inimigos e armadilhas, competiam com os ruídos da floresta. Bryan avançara até o rei-lobo e Thora seguia ao meu lado, com o olhar atento ao caminho. Não havíamos trocado impressões sobre a noite anterior... Talvez o melhor fosse votá-la ao esquecimento! O que acontecera naquele quarto, depois da porta se fechar, fazia parte de um mundo que não era real, mas místico, e estranho à minha essência.

Ao café-da-manhã, Ivarr saudara-me com um beijo na testa. Envolvera-se na conversa do rei Steinarr e do jarl Throst, como se nada de anormal tivesse ocorrido. Pouco depois, Eric juntava-se a nós, confiante e sorridente, falando para o rei-lobo com a mesma fluência e afeição de sempre. A única que acusara desconforto fora Thora; não em relação aos companheiros, mas para comigo. Sentia-a nervosa, como se receasse ser confrontada com as razões que tinham levado dois homens, líderes poderosos e responsáveis, amigos, irmãos de sangue, a baterem-se como rivais. Contudo, há muito que eu aprendera que a ignorância podia ser uma bênção!

O falcão continuava atento, mas não assinalava sombra de ameaça. Pensei em Galinn e nos seus homens, que continuavam a perscrutar a floresta, em busca de um fantasma. Se voltassem de mãos vazias, eu devia preparar-me para um novo confronto com o misterioso intruso da capa negra e energia obscura.

A crença de que todos aqueles que possuíam magia no sangue vislumbravam as trilhas que conduziam ao cume da Montanha Sagrada provara-se errada. Tal como acontecera em outras ocasiões, o meu primo Bryan passou adiante, sem reparar no caminho que se abria à sua esquerda. A experiência levava-me a acreditar que a Montanha escolhia aqueles a quem se revelava, em determinados momentos da sua existência. Ao meu lado, Thora não teve dúvidas de que chegáramos ao destino. Deteve Bravo, o seu garanhão preto, perguntando com simplicidade:

— Quer que te acompanhe?

Declinei, agradecida. Apesar de cansada e apreensiva, isto era algo que eu tinha de fazer sozinha. Despedi-me do grupo e iniciei a subida.

Sempre que visitava a Montanha Sagrada, era invadida pela estranha sensação de regressar às origens; ao lugar onde tudo se iniciara... ao lugar onde pertencia verdadeiramente. Não era o mesmo que dizer que me sentia em casa! Aqui, diante da Pedra do Tempo, eu não estava. Eu era! Era o solo. Era o vento. Era o fogo. Era a água. Era vida... Era magia!

O nevoeiro colorido que me rodeara, no instante em que entrara na trilha, colava-se à minha pele, brincava com os meus cabelos, entrava-me pela boca e pelo nariz. Era desta forma que a Montanha saudava os seus convidados, os purificava e preparava para a viagem do espírito. Respirei fundo, assimilando a brisa quente e o conforto que me era oferecido. Depois, ergui as mãos e toquei a superfície lisa e brilhante da Pedra do Tempo. A voz da mente fluiu, envolta pela ansiedade que me torturava:

«Mãe da Sabedoria, senhora do destino de todos os seres, guardiã do passado, do presente e do futuro, escuta a minha prece. Desvenda-me o segredo de Esteban, mestre do mal...»

Não tive tempo de completar o pedido. Senti-me arrancada do corpo por uma mão invisível, cujas garras se cravavam na minha essência e a esmiuçavam. Escutava o meu brado como se fizesse parte do universo; como se a magia se alimentasse da minha dor, da angústia, do temor... Um vento irreal arrastou-me através do vazio infinito, ao encontro de um clarão; uma estrela que pulsava qual coração de fogo. Sem possibilidade de recuar, fui arremessada para o interior incandescente desse sol e provei o suplício de cessar de existir... para nascer de novo.

Abri os olhos e me deparei com luz; apenas luz. Um ondular quente e suave, desprovido de cor e de forma. No instante em que desejei ver para além dele, as partículas luminosas começaram a sobrepor-se, a fundir-se, até a acumulação revelar cores sólidas: brancos, amarelos, laranjas, vermelhos... A força da minha vontade avançou pelo meio dessas cortinas brilhantes, tomando consciência do seu significado: Magia! O meu espírito deparara com uma barreira mística, erguida pela mão de um feiticeiro poderoso, para que Homem algum vislumbrasse através dela. Porém, eu não era uma mulher comum... E não seria este encantamento que iria deter-me!

Concentrei-me o suficiente para adormecer a herança humana da minha essência. O sangue misto e o meu controle da Arte permitiam-no. Por alguns instantes, eu podia ser unicamente Feiticeira. Os Seres Superiores tinham consciência desse fato e haviam tentado levar-me para a Ilha Sagrada, sob o pretexto de me treinarem para combater Edwin. Na verdade, o meu potencial assustava-os! Eu era filha da última feiticeira nascida na Terra e de um guerreiro abençoado. Uma aberração de sangue misto, na opinião do Conselho dos Seres Superiores... Mas uma aberração poderosa, e, pior ainda, senhora da minha vontade!

O poder inundou-me a essência e o fulgor começou a esmorecer. Pequenas fendas abriram-se na claridade radiante, como se o vento soprasse de encontro às nuvens e estas fossem compelidas a revelar o céu. E foi céu que eu vi... Uma vastidão interminável de azul-celeste, que se fundia em azul-marinho. A brancura espumosa das ondas fustigava o castanho dos rochedos altivos, que rasgavam o mar. As gaivotas mergulhavam destemidamente na água, dispersando os cardumes cor de prata, que se aventuravam a desfrutar da luz do Sol. A saudade inundou-me o peito, ao reconhecer a Ilha dos Sonhos, que surgia como um paraíso prometido, onde a paz era uma realidade virtuosa.

De repente, o ar estremeceu. Nuvens negras surgiram no horizonte e galoparam sobre a ilha que me vira crescer, e onde a minha família encontrara a felicidade. Avançavam com uma rapidez vertiginosa, qual avalanche de fumo venenoso, devorando tudo o que encontravam no caminho. Gritei com todas as forças, mas sabia que o meu desespero era vão. Nada podia ser feito para salvar a ilha. Impotente na agonia, vi o manto verde da floresta desaparecer. Depois, a mancha alva de areia... Só então reparei no barco que cavalgava a névoa, gigantesco e terrível, como um monstro das histórias antigas. Mergulhei sobre ele, preparada para enfrentar Esteban... Sim, porque só esse feiticeiro maldito podia ser mentor de tamanha calamidade! Todavia, o que os meus olhos encontraram, deixou-me paralisada...

À proa do navio, com os braços esticados ao céu, clamando vitória, estava uma mulher jovem e bela, vestida com a ostentação de uma rainha; os longos cabelos louros penteados com esmero, sobre a capa de pele de raposa, e enfeitados com ganchos que ofuscavam o brilho do Sol. Os olhos verdes da minha prima Estrid fixavam-se, extasiados e vitoriosos, no troféu que as mãos seguravam: uma pedra de cintilação ígnea; uma pedra pejada de magia...

Tentei raciocinar. Como é que isso era possível? A pedra vermelha da feiticeira Aranwen encontrava-se na guarda do meu tio Edwin. E ele jamais a entregaria à tresloucada da filha! A não ser...

Como se o mais funesto dos pesadelos tomasse forma, Estrid gargalhou e as suas mãos começaram a sangrar. O líquido espesso deslizou-lhe pelos pulsos; pingou sobre o branco e dourado do seu vestido. Ainda assim ela ria, ria... E o seu riso misturava-se com o fragor da tormenta.

A nuvem negra apanhou-me no seu remoinho desregrado e violento. Deixei de ver. Deixei de ouvir. Todos os sentidos concentrados na preservação. Eu tinha de sobreviver a este pesadelo. Tinha de regressar e avisar a minha família da desgraça que pairava sobre nós. Talvez não fosse tarde... Talvez... Viver! Viver para contar! Viver para lutar! Esteban não podia vencer!

 

A sala do castelo, que o rei usava para as reuniões privadas, fora decorada com esmero. Tapeçarias de cores alegres pendiam das paredes, e as cortinas que encobriam as janelas eram de um vermelho vivo que estimulava o ânimo. Sobre a lareira podiam admirar-se várias espadas e machados; troféus de batalhas sangrentas, arduamente conquistados; armas de inimigos poderosos que se tinham submetido à supremacia de Steinarr.

Ensombrando tamanha opulência, encontrava-se um cadeirão suficientemente largo e sólido para acomodar o corpo fenomenal do soberano, esculpido em madeira negra e forrado com almofadas e assentos para os braços, da mesma cor elegante que dominava o ambiente. A sua direita estava outro cadeirão, menos faustoso, onde Ivarr se sentava.

Em tempos, existira um terceiro assento na sala, à esquerda do rei, reservado a seu filho mais novo. Porém, Magnor poucas vezes se incomodara em atender às reuniões solicitadas pelos conselheiros e chefes de clã. Após a sua traição, o pai partira o cadeirão à machadada e lançara os despojos às chamas da lareira. Nunca ninguém se atrevera a comentar o acontecido.

Hoje, era eu quem ocupava o cadeirão de Ivarr, porque a firmeza das pernas falhava-me. Sabia que devia dirigir-me a Steinarr... mas os olhos teimavam em voltar-se para os meus pais, num apelo desesperado, enquanto relatava a profecia da Pedra do Tempo, que condenava Edwin McGraw, a Ilha dos Sonhos... e talvez a liberdade de que todos desfrutávamos!

Além do rei e dos meus pais, estavam na sala Ivarr e os seus guerreiros, Freya e o príncipe Galinn do Povo da Terra. A minha irmã mais nova apertava os braços em torno do peito, tentando controlar o tremor que a fustigava. Catelyn ajoelhara-se aos meus pés e envolvera-me as mãos nas suas, oferecendo-me o conforto da sua energia curativa. Bem que eu precisava! Conseguira romper o sortilégio que Esteban lançara sobre nós, para nos cegar os sentidos, mas as conseqüências haviam sido severas. Felizmente, Thora inquietara-se com a minha demora e seguira-me, surpreendendo-me desacordada aos pés da Pedra do Tempo. Como sempre descuidara o treino da Arte, não soubera muito bem o que fazer... mas improvisara. E o ardor da sua energia fora a luz que me guiara no regresso para casa.

— Quer dizer que esse feiticeiro também anda atrás das pedras mágicas da vossa família? — concluiu o rei, virando-se para a minha mãe. — Maldição! Por que não destruiu essas sedutoras da desgraça, quando teve oportunidade de fazê-lo?

— Steinarr... — interrompeu-o o meu pai, num tom calmo, mas firme. — Decerto que os McGraw tiveram as suas razões! Não vale a pena discutir o passado. Temos de enfrentar esta nova ameaça unidos como até aqui... Ou estaremos condenados ao fracasso!

O rei suspirou e inclinou-se diante do olhar indignado e magoado da senhora da Ilha dos Sonhos.

— Perdoe a minha... impetuosidade, Catelyn! Eu estarei ao vosso lado nesta luta, defendendo o vosso povo, como vós sempre estivestes ao meu lado, combatendo pelo povo Viking.

A minha mãe devolveu-lhe a cortesia, com a altivez que adquirira ao longo dos anos em que tivera de impor-se perante uma sociedade dominada por senhores da guerra. Depois, não hesitou em apelar ao meu pai.

— Temos de partir, Throst! — A voz tremia-lhe, denunciando a comoção. — Talvez ainda consigamos deter Estrid. Não posso acreditar que seja tarde demais para o Edwin!

A voz tímida e incrédula de Freya fez-se ouvir, como um gemido de dor:

— A Estrid não seria capaz de atentar contra a vida do pai! Ela é egoísta e ambiciosa, mas...

— Ambiciosa, sim! — cortou Bryan, impiedosamente. — Aquela garota devotaria a alma às serpentes do submundo, por um colar de brilhantes!

— E se esse Esteban a enfeitiçou? — respondeu Freya, incapaz de acreditar na maldade atroz da prima, com quem partilhara brincadeiras na infância.

— É uma possibilidade — concordou a nossa mãe, complacente. — Mas não guarde ilusões, querida! Há muito que a Estrid se deixou deslumbrar pelo esplendor do Império. Desprezou os pais... Renegou-nos a todos! Eu fui muito indulgente. Deveria ter adivinhado que isto iria acontecer!

— Partiremos ao nascer do dia — decidiu o jarl Throst. — Darei ordens para que preparem o Dragão dos Mares.

— Eu irei convosco — determinou Steinarr. — Tenho de saber se o William está envolvido nesta conspiração. Apesar das nossas diferenças, sempre o considerei um homem de palavra. Custa-me a crer que arrisque o Tratado, que tanto sangue custou à nossa gente, por causa dos ardis do seu conselheiro.

— Partilho da tua opinião — declarou o meu pai. — Não acredito que o rei William tenha conhecimento desta traição. Aos seus olhos, Esteban é um padre cristão de alma pura, merecedor de toda a confiança. Se vive aterrorizado pela idéia de que o seu Deus condena os praticantes de magia ao fogo do inferno, não iria pactuar com a caça a uma pedra mágica! Principalmente, quando esta se encontra no pescoço de um McGraw!

— A não ser que a sua fé seja tão falsa como a desse padre — interferiu Eric.

— Não — refutou Steinarr, sem hesitação. — A fé de William é verdadeira... e cega! O homem crucificado na cruz de madeira foi o único que, até hoje, o pôs de joelhos.

— Não é à toa que esse feiticeiro se aproximou dele — mastigou a minha mãe. — Viu nessa cegueira um meio de perseguir aqueles que podiam combatê-lo.

Eu percebera-o assim que assentara os olhos no mestre da Arte Obscura. Aproveitando-se da fé incondicional do rei William, fizera-se passar por um padre caçador daqueles que, «por artes do demônio», conseguiam curar ou apelavam à magia como arma. Usava, à sua vontade, o poderoso exército do Império para capturar esses infelizes, alimentava a essência negra com a sua energia vital e, no fim, queimava-os no que apregoava ser um fogo libertador, capaz de conceder-lhes a redenção divina. Isto, sem levantar suspeitas acerca da sua verdadeira identidade! Esteban traçara uma estratégia tão brilhante, que até acautelara o futuro. O príncipe John, herdeiro do trono, fora criado pela sua mão... e, pelo que eu já testemunhara, era um monstro sem honra, sem palavra nem escrúpulos. Tivera o desplante de cuspir sobre o Tratado celebrado entre os nossos reis, na minha cara, ao mesmo tempo que me ameaçava com a morte na fogueira!

— Vou preparar-me para a viagem. — Sustive-me sem que a sala rodopiasse. Um prodígio!

— Mas... pretende acompanhar os teus pais? — indagou Ivarr, surpreendido e contrariado.

— É claro que sim! — respondi. — Não podemos ignorar o aviso da Pedra do Tempo. Se perdermos mais pedras mágicas para o inimigo, enfrentaremos o caos!

— Pensei que a Catelyn...

— O meu poder não está à altura desta missão, Ivarr — interrompeu a minha mãe, adivinhando-lhe a intenção. — Acredite que não me agrada admiti-lo, mas se for necessário combater o Esteban, a Edwina é a única capaz de vencê-lo!

— Então, irei escoltar-vos! — resolveu o meu marido.

— Um de nós deve ficar no País dos Vikings, filho — contrapôs Steinarr. — Também nos defrontamos com tempos difíceis! Os esforços do príncipe Galinn para capturar o bruxo que vos atacou na floresta foram vãos. Além disso, temos de estar preparados para repelir uma investida de Aesa, a qualquer momento!

— Com o devido respeito, meu pai, deve ser tu a governar os destinos do nosso povo — objetou Ivarr. — Se a minha mulher for chamada a combater, é minha obrigação protegê-la!

— O Ivarr tem razão, Steinarr — apoiou o meu pai. — Acresce o fato de que a tua presença nesta abordagem pode ser considerada uma declaração de guerra. Será prudente tratar a questão como um assunto da família McGraw, até discernirmos o envolvimento de William.

— Eu ficarei ao vosso lado, senhor! — interveio o príncipe Galinn, dirigindo-se ao rei. — A magia do meu sangue estará ao serviço da vossa casa, até o regresso da Guardiã da Lágrima do Sol.

Steinarr respirou fundo e voltou-se para o seu Primeiro Homem.

— Gostaria de acompanhá-lo, meu bom amigo, mas se concorda que deve ser o Ivarr...

— Sim — asseverou o meu pai. — Neste momento, a tua presença no Norte é imprescindível. A nossa posição na Terra Antiga também não está segura. Sem menosprezar o valor do jarl Eric, esta vitória, que tanto nos custou, pode ficar comprometida se o rei se ausentar.

Encontrado um consenso, os homens começaram a definir estratégias para a empresa. Decidi concentrar-me nas necessidades imediatas. Não comia desde a manhã e a fraqueza prostrava-me. Tinha de recuperar rapidamente as forças. No meu íntimo temia que, perto do confronto que se avizinhava, as batalhas travadas com Aesa parecessem disputas de crianças.

A minha mãe atarefava-se na cozinha. A escolha das provisões devia ser criteriosa, já que o drakkar não podia delongar-se na viagem. Freya observava a nossa azáfama com uma expressão desamparada, angustiada por ver a família partir para um destino incerto. Fiz-lhe algumas recomendações, em relação a Thorson e a Oriana, mas duvidei que me tivesse prestado atenção, por isso repeti-as à Senhora Doralia.

No decorrer do jantar, o rei Steinarr trocou elogios com o meu pai. Depois, enalteceu a coragem de Ivarr, e dos guerreiros do País dos Vikings e da Ilha dos Sonhos. Numa despedida, nada devia ficar por dizer entre aqueles que se amavam, pois poderia não haver outra oportunidade de declará-lo nesta vida.

Enquanto os tabuleiros carregados de comida desfilavam, fui acometida pela lembrança da aflição de Helgi, diante das culturas arruinadas. Se os Vândalos não conseguissem reunir mantimentos durante o Verão, a chegada do frio os deixaria numa situação desesperada. Se partilhasse com alguém esta inquietação, diriam que estava louca; que devia regozijar-me com as privações do inimigo. Todavia, por razões que eu própria não compreendia, era incapaz de fazê-lo.

Galinn, que se sentava diante de mim, decerto pensou que a minha mortificação se devia ao receio das dificuldades que estava prestes a enfrentar, pois replicou, apaziguador:

— Não sofra por antecipação, Edwina! A Pedra do Tempo mostrou-te um futuro que pode ser alterado com os conhecimentos que possui. Não tem por que se afligir... ainda! Se, ao chegar à Ilha dos Sonhos, verificar que o mal venceu, então, ponderará as tuas opções.

A vitória do Mal significava a morte do tio Edwin... E essa possibilidade era muito terrível para considerar! Surpreendi-me quando o príncipe da Gente Bela mudou abruptamente de assunto:

— A tua irmã Thora é especial... O seu entusiasmo pela arte da guerra é extraordinário, e as suas capacidades, admiráveis! Lastimo não ter oportunidade de ensinar-lhe algumas das técnicas de combate que aprendi nas minhas viagens. Se a magia que vive no seu sangue fosse devidamente estimulada, ela se tornaria uma guerreira excepcional!

— E por que não se propõe a treiná-la, quando regressarmos? — sugeri. — Tenho certeza de que a Thora ficaria encantada!

— Talvez — respondeu Galinn, com um sorriso. — Porém, duvido que o Ivarr tolere a minha intromissão nos assuntos da sua alcatéia. Nós não começamos da melhor maneira!

— Mas ele pediu-te desculpas...

— Sim, e eu aceitei-as. Contudo, isso nada altera! O rei-lobo definiu o seu território. E eu vim até aqui para estabelecer laços; não para criar inimizades!

Nessa noite, os pensamentos dos homens concentravam-se na viagem da manhã seguinte. Reparei que Ivarr falava com Eric, afastado dos demais, e que a conversa terminava num abraço comovido. Este era o momento em que o caminho que haviam jurado percorrer juntos tomava rumos distintos, ainda que a lealdade que os unia jamais se extinguisse. Eu só esperava que o meu primo fosse bem sucedido na difícil missão que o aguardava. Retive o fôlego, ao ver Thora aproximar-se deles. Desta vez, foi Ivarr que se afastou, concedendo-lhes privacidade.

 

Ragnar acomodara o corpo avantajado sobre um banco e convidara duas escravas a sentarem-se no seu colo. As raparigas soltavam risadas estridentes, sempre que ele lhes falava ao ouvido. Lembrei-me do olhar ardente de Bryan, quando a escrava do Sul lhe servira o jantar. Svana também os observara, e o rancor fizera-a estremecer. Ao solicitar à senhora da Ilha dos Sonhos que a trouxesse para o Norte, a minha prima estava longe de imaginar que nenhum dos seus sonhos se realizaria... e que iria perder o pai. Senti-me culpada, ao pensar que, nos últimos dias, estivera tão absorvida nos meus problemas, que pouco ou nenhum conforto lhe prestara.

Svana conversava com Freya e, mesmo à distância, eu percebia-lhe os olhos molhados. A minha irmã apertava-lhe as mãos, tentando animá-la. Dei um passo na sua direção... mas Otkatla chegou primeiro. Meia dúzia de palavras, e Svana estava pendurada no pescoço da prima de Ivarr, chorando copiosamente. Freya encontrou o meu olhar e encolheu os ombros, derrotada. Depois acenou-me e deixou o salão.

— A Freya já se recolheu? — Ketill parou ao meu lado, sem esconder a decepção.

— Ela está triste e preocupada com a nossa partida — respondi, enlaçando o braço no seu. — Dá-lhe tempo... Talvez esta ausência lhe quebre a teimosia!

— Eu sei que a Freya foi magoada — atreveu-se ele, como que suplicando a verdade. — Mas eu quero-lhe tanto bem, Edwina! Sinto vontade de tomá-la nos meus braços e nunca mais a deixar...

— Este lobo é um poeta! — Thora surgiu repentinamente e estreitou-o com tanta força, que lhe arrancou um protesto risonho. — Deixe-me adivinhar... Estava a suspirar pela Freya! Raios, homem! Quantas vezes já te disse que tem de deixar de rodeios e agarrar o touro pelos cornos?

Este péssimo conselho só podia provir da minha impetuosa irmã! Repreendi-a com o olhar, mas Ketill alinhou na brincadeira e respondeu:

— Diga-me, Edwina, não existe uma terceira gêmea, igual a estas duas pestes, mas com uma personalidade mais branda?

— É comovente ver que estas irmãs partilham tudo!

A provocação estridente de Otkatla apanhou-nos desprevenidos. Se esperava que quebrássemos o nosso abraço, enganou-se. Encaramos Otkatla com o cenho franzido. Svana acompanhava-a, ostentando um ar infelicíssimo. Deleitado com a oportunidade de acirrar a prima, Ketill afrontou-a:

— O que foi que te aconteceu, Otkatla? Parece um ogre! Caiu da cama... ou andou metendo o nariz onde não era chamada?

A jovem engoliu em seco, trêmula de raiva, ferida na vaidade. A beleza estonteante do seu rosto estava desfigurada por um nariz que mais parecia um bolbo, de tão negro e inchado. Não me dirigia a palavra, desde o incidente... E eu também não me incomodara a pedir-lhe desculpas.

— A Svana quer falar com o Bryan — prosseguiu, ignorando a pergunta; os olhos chispando maldade. — Por acaso não sabem onde ele... se enfiou?

A forma como entoou as palavras tornou-as obscenas. Ketill ficou tenso. Thora rosnou. Eu devia dizer qualquer coisa... Mas tudo o que me ocorria era ofensivo! Ketill antecipou-se, revidando num tom gélido e impiedoso:

— Por que não vai procurar uma vida para ti, Otkatla? Talvez ainda esteja a tempo de encontrar um velho suficientemente vesgo e mouco para te aturar!

Otkatla avançou um passo, agitando os punhos cerrados; as faces rubras de fúria, enquanto regurgitava peçonha:

— No dia em que morrer caríssimo primo, eu farei uma festa! Julga-se superior só porque cavalga ao lado do Ivarr! Se o Magnor estivesse aqui...

— Estaria sendo julgado por traição! — intrometeu-se Thora, enfrentando-a com uma expressão ameaçadora. — Quer acrescentar mais alguma coisa? É que começo a ficar cansada de olhar para ti! Devo avisá-la que uma das vantagens de ter nascido mulher é poder te dar um murro nesse focinho, sem sentir remorsos!

O rubor de Otkatla tornou-se púrpura. Abriu a boca para retrucar... Todavia, pensou duas vezes, receosa de que a loba prateada cumprisse a ameaça, e apressou-se a deixar o salão. Svana tencionou segui-la, mas Thora deteve-a, replicando:

— Não seja tola! Deixa essa maldosa afogar-se no seu próprio veneno!

— A Otkatla é minha amiga! — respingou Svana, à beira do choro.

— A minha prima não é amiga de ninguém! — contrapôs Ketill.

— Não dê ouvidos à Otkatla! — Pus um braço sobre o ombro da minha irmã de criação, amimando-a contra o peito. — Ela se diverte a atormentar os outros...

— Está sendo injusta! — Qual não foi o meu espanto, quando Svana me sacudiu com declarado rancor. — A Otkatla só quer me ajudar... Ao contrário de ti! Durante todos estes meses, não foi capaz de interceder junto do Bryan, a meu favor!

— Isso não é verdade! — respondi.

— Esquece o Bryan de uma vez, Svana! — resmungou Thora. — Está arruinando a tua vida...

— Para ti é fácil falar, quando tem o Ivarr e o Eric a brigarem por tua causa! — A voz de Svana elevou-se, ressentida, quase invejosa.

— Eu não tenho ninguém...

— Tu não permites que ninguém se aproxime — interferi, antes que Thora perdesse a cabeça. — Quantos pretendentes já rejeitou, sem sequer admitir conhecê-los?

— Eu não quero um homem qualquer... — choramingou Svana. — Só quero o Bryan!

Dito isto, desatou a correr para fora do salão. Ketill pousou a mão no meu ombro, segurando-me no lugar.

— Deixe-a, Edwina! — aconselhou. — Por mais que argumente, ela não te dará ouvidos!

Infelizmente, Ketill tinha razão! Contudo, eu não podia deixar Svana a amargar sozinha! Despedi-me e fui ao seu encalço.

Fiquei com Svana, até que se acalmou. Mesmo temendo pregar em vão, fiz-lhe ver que ela devia libertar-se do fascínio que sentia por Bryan, e consentir que outro raio de sol lhe tocasse o coração. A minha prima chorou... mas acabou por prometer-me que ia tentar. Atendendo ao passado, esse voto era um enorme progresso!

A caminho do meu quarto, parei para verificar o sono de Thorson e Oriana. Custava-me deixá-los, mas confiava em Freya e na Senhora Doralia para orientá-los na minha ausência.

Thorson e Oriana haviam-se tornado tão bons amigos que faziam birra, se os forçávamos a dormir separados. Diria que a serenidade da prima tinha o dom de apaziguar a agitação do pequeno traquina. Eu me questionava se o fato de terem sido gerados no mesmo dia, sob a aura da mesma magia, influenciaria o fenômeno. Afinal, não seria a primeira vez que o caprichoso destino se divertia desta forma! Eu o sabia, porque fazia parte de um ajuste idêntico. Se Oriana estava predestinada a combater o lado obscuro da herança de sangue de Thorson, ainda era um mistério. Sinceramente, eu esperava que não! O futuro da minha protegida já se adivinhava muito complicado, sem que se lhe acrescentasse mais essa atribulação. No entanto, se tal não pudesse ser evitado, restava-me desejar-lhe que fosse mais bem sucedida do que eu! Pelo menos, Thorson encontrava-se sob a nossa guarda, longe das influências malignas dos mestres da Arte Obscura, ao contrário do que acontecera com o meu primo Edwin.

Antes de me deitar, fui até à varanda espreitar a noite. O vento estava calmo e o mar prometia uma boa viagem. Mal a pálida luz da manhã se atrevesse a espreitar, o Falcão Real, do rei Steinarr, e o Dragão dos Mares, do jarl Throst, partiriam rumo a um destino obscuro. Mais uma vez, o futuro da minha família e do meu povo pendiam à beira do abismo!

Recolhi-me ao quarto e enfiei-me dentro das cobertas, ansiando pelo descanso do sono. Porém, mal fechava os olhos, a mente era fustigada pelas hediondas revelações que o dia me impusera. A visão de Estrid, com a pedra vermelha entre as mãos encharcadas de sangue, causava-me agonias. E se fosse tarde? A incerteza enchia-me os olhos de lágrimas. Para mim, o tio Edwin sempre fora especial. Eu conhecia bem a sua personalidade forte e corajosa; a sua alma apaixonada, sonhadora... e infeliz. Após a desventura da tia Geirny, ele perdera a vontade de viver e buscara o seu próprio fim, em inúmeras batalhas. No entanto, só colhera vitórias! O nosso povo admirava-o como a um deus e garantia que a morte o temia. Eu só desejava encontrá-lo bem!

Ivarr entrou no quarto de mansinho. Ouvi-o pousar as armas e descalçar as botas. Ponderei dar-lhe a conhecer que estava acordada. Então, recordei a indiferença com que me dispensara, na noite anterior, e a mágoa impediu-me de esboçar um gesto ou articular uma palavra. Quando se deitou, ainda tive esperanças de que buscasse o meu calor. Todavia, voltou-me as costas e não demorou a ressonar. Deixei cair mais uma lágrima. Sentia falta do carinho do meu marido... Assustava-me verificar que a nossa cumplicidade enfraquecia a cada dia.

Estava prestes a gritar de frustração, quando escutei o som suave de uma flauta... E esse canto abençoado sobrepôs-se a todos os ruídos, acariciando a noite e confortando-me o espírito. A música do príncipe Galinn era divina! Para quem tocaria? Pouco importava! A sua arte conduziu-me a um lugar maravilhoso, cheio de sol, onde os ribeiros de águas cristalinas corriam livremente e as árvores embalavam o vento. Dancei sobre um leito de flores e ri até as forças me faltarem. Quando parei para descansar, reparei que o meu primo Edwin me observava, e o meu coração encheu-se de alegria. Corri ao seu encontro e toquei-lhe no rosto, trêmula e receosa de que se desvanecesse. Porém, ele era real! A sua pele estava quente, a barba curta acariciava-me os dedos, os olhos verdes brilhavam como estrelas... A morte podia ter-nos separado, mas o nosso amor jamais se desvaneceria nas brumas do tempo!

Estreitei-o com um suspiro enlevado e supliquei:

— Abraça-me, Rei da Lua...

E ele me abraçou.

 

A consciência jamais me daria descanso, se partisse sem falar com Steinarr. O rei acedeu a escutar-me por breves instantes, na azáfama do porto. Como não sabia por onde começar, fui direta ao assunto:

— Tomei conhecimento de que o cerco que os nossos guerreiros impõem ao povo vândalo está a causar-lhes grandes dificuldades. As últimas chuvas arruinaram as suas colheitas...

— Ótimo! — atalhou Steinarr, visivelmente satisfeito. — Se morrerem de fome, pouparemos o sangue dos nossos homens!

— As crianças serão as primeiras a perecer! — repliquei, indignada. — O meu rei não se importa de infligir a morte a inocentes?

A expressão de Steinarr gelou, ao aperceber-se do objetivo da minha interpelação. A sua voz soou baixa, mas estrondeou-me na mente qual trompa de guerra:

— Será que os Vândalos se preocupam com as nossas crianças, princesa Edwina? Não! Eles cortam-nas ao meio; agarram-nas pelos cabelos e atiram-nas para as chamas que arruínam as nossas casas; espetam-nas em lanças, para que os seus corpos mutilados sejam a primeira coisa que os nossos olhos vêem, quando chegamos muito tarde a uma aldeia saqueada. Por que devo ser clemente com a semente do inimigo, se este nunca demonstrou compaixão para com a nossa?

— Porque nós temos consciência — revidei, sem fôlego. — Porque não somos selvagens! De outra forma, o que nos distingue dos Vândalos ou dos mercenários do Norte?

O rei quedou-se em silêncio e, por breves instantes, acreditei que lhe tocara no coração. Porém, quando reagiu, a sua voz mais parecia uma adaga afiada:

— Só posso louvar o teu cuidado para com os mais fracos... Contudo, em tempo de guerra, a piedade conduz-nos à morte!

Fui percorrida por um calafrio, ao recordar a sorte do primo Krum. Steinarr recuou um passo e julguei que ia voltar-me as costas. Hesitou... E, por fim acrescentou, com uma expressão dura:

— Já que falamos de crianças, Edwina, aproveito para lembrar-te de que o reino Viking necessita de um herdeiro. Thor é testemunha do quanto me desagrada aflorar este assunto... Mas os meus conselheiros não se calam, e chegaram-me aos ouvidos rumores de que anda a evitar o meu filho. Espero, sinceramente, que isso não seja verdade!

Fez uma pausa, talvez aguardando que me defendesse. Todavia, eu estava muito engasgada, ultrajada, magoada... Decerto esses sentimentos refletiram-se no meu olhar, pois Steinarr respirou fundo e desculpou-se:

— Perdoa-me a brusquidão, filha. Sei que te espera uma missão difícil... No entanto, a missão de que falo não é menos importante! Tu és a Guardiã da Lágrima do Sol, mas também é a futura rainha do povo Viking. Espero que esses dois encargos não se tornem inconciliáveis... Ou serei forçado a impor-te uma escolha!

Sem mais, misturou-se com os atarefados guerreiros. As suas palavras ainda me queimavam a mente, muito depois de perdê-lo de vista. Durante a discussão, ele esquecera-se de que era homem e fora apenas rei. Um rei que já vira frustrar-se, por três vezes, a ambição de acalentar um herdeiro. Pensaria que essa perda não me doía? Nesse instante, senti algo que jamais acreditaria possível: ódio por Steinarr do povo Viking.

 

O Dragão dos Mares, o mais belo e poderoso drakkar Viking, navegava à nossa frente, rasgando as ondas ao sabor do vento que empurrava a colossal vela quadrada, de um vermelho vivo e inconfundível. Esse barco era o sonho de criança do meu pai, tornado realidade pouco antes de eu nascer. Do lugar onde me sentava, à proa do Falcão Real, o líder da frota de guerra de Steinarr, via a forma minúscula do jarl Throst ao leme, traçando um rumo seguro sobre as águas. A minha mãe e Svana não se encontravam longe do capitão... Tinha sido um alívio verificar que a minha prima não insistira em viajar comigo, só para ficar mais próximo de Bryan. Tal revelava que fora sincera e se esforçava por cumprir a promessa que me fizera.

Voltei a atenção para a azáfama que me rodeava. Ivarr ia ao leme e chamara Ragnar para ocupar o lugar que pertencera a Eric. A proa, Bryan e Ketill observavam o fundo do mar, de olho nos rochedos afiados que se multiplicavam ao longo da costa. Thora sentara-se junto de Thorson e ensinava-lhe os truques dos nós de marinheiro. Tentando não estorvar as tarefas da tripulação, Freya debruçava-se sobre a amurada e vomitava uma vez mais. Apesar da indisposição da minha irmã, eu sentia-me satisfeita com a sua companhia. Só não queria pensar no que os nossos pais diriam, quando descobrissem que ela tomara a tresloucada iniciativa de saltar para dentro do Falcão Real, com o filho ao colo, no instante em que soltávamos as amarras.

Até o último momento, Freya mantivera em segredo a intenção de nos acompanhar. A experiência advertia-a de que Throst e Catelyn encontrariam uma miríade de motivos para obrigá-la a aguardar o nosso regresso, no castelo Viking. Por isso, dissera adeus ao Dragão dos Mares e atirara beijos aos pais. Chegada a minha vez de partir, confrontara-me com a sua presença... E eu não tivera coragem de deixá-los para trás! A loucura da nossa irmã deliciara Thora e pusera Ivarr à beira de um ataque de nervos. Nós não tínhamos condições para transportar uma criança, dissera. Porém, eu garantira-lhe que Thorson não causaria aborrecimentos. Diante das três filhas do jarl Throst, o rei-lobo esboçara um gesto de impotência e rendera-se. Freya prostrou-se ao meu lado e gemeu:

— Já não tenho nada para botar fora, mas o estômago continua a contrair-se, como se quisesse saltar pela boca... Como é possível, Edwina? Eu devia ser capaz de controlar o enjôo através da magia, como faço com os meus doentes!

Sorri ante suas faces esverdeadas e repliquei:

— A agonia está na tua cabeça, mana... É conseqüência do medo. Se ultrapassar os teus receios, verá que desaparecerá.

— Como posso esquecer que estou no meio do mar, sobre um monte de tábuas que estremecem e rangem por todos os lados?

— Não exagere, Freya — retorqui, contendo a vontade de rir.

— A costa está à vista! Se afundarmos, podemos nadar para terra... e seremos recolhidos pelo Dragão dos Mares.

— Cale-se! — suplicou ela; o rosto assumindo um tom cinzento. — Só de pensar nos monstros que vivem nestas águas...

— Peixes gigantes, com dentes maiores do que espadas, capazes de afundar o barco com uma só dentada... — Thora aproximara-se sutilmente e forçara uma voz aterradora que arrancou um grito da irmã.

— Serpentes com sete cabeças, que podem engolir toda a tripulação...

— Estúpida! — indignou-se Freya, ainda mais zangada por ver-me rir. — Onde está o Thorson?

— Tenha calma! — respondeu Thora, por entre gargalhadas. — O Thorson está a mostrar ao Ketill como se fazem bons nós. Aquele pequeno é um prodígio! Pensamos que estamos a ensiná-lo e, de repente, percebemos que é ele que está nos dando uma lição!

Freya foi cambaleando até junto do filho e acabou por sentar-se junto de Ketill. O instinto maternal forçara-a a esquecer o enjôo. Melhor assim!

— Sabe o que lhe passou pela cabeça, para vir conosco? — perguntou-me Thora.

— Ela sente que pode ajudar-nos, de alguma forma...

— Os nossos pais vão ficar possessos! — constatou, divertida. — A Freya era a sua última esperança de ter uma filha ajuizada!

 

Acompanhei-a no riso. Entretanto, Thorson atara uma corda ao pulso de Ketill e o guerreiro parecia incapaz de desfazer o nó. Freya tentou ajudá-lo, quando verificou que o seu esforço era sincero, mas foi em vão.

— Thora — apelou Ketill, por entre gargalhadas. — Que raio de truque é esse que ensinou ao pequeno?

Atraído pela comoção, Ivarr deixou o leme entregue a Ragnar e abeirou-se deles. Depois de ouvir a explicação de Ketill, o seu olhar fixou-se em Thora e denunciou... admiração!

No fim, a corda foi cortada com um punhal. O meu coração apertou-se, ao ver Ivarr segurar Thorson e erguê-lo sobre a cabeça, elogiando-o. O menino abraçou-se ao seu pescoço e nem Freya o convenceu a deixá-lo. Senti os olhos encherem-se de lágrimas e encarei o mar, para que os homens não testemunhassem a minha fraqueza. O infinito azul tranquilizou-me e ajudou-me a recuperar o controle. Não podia ceder à tristeza e ao desespero. Tinha de honrar a confiança que «O Que Tudo Vê» depositara em mim... e ser forte, pelo meu povo!

 

Dormir dentro de um drakkar era, por si só, uma aventura. O convés enchia-se de corpos avantajados, cujo ressonar afugentava da costa os cardumes mais afoitos. Tínhamos feito apenas uma parada, para nos reabastecermos de água. Só aí os meus pais puderam confrontar Freya... e a minha irmã recebera uma boa reprimenda, por ter trazido Thorson numa viagem tão perigosa, que podia terminar em guerra. A filha justificara-se, dizendo que, desde que ouvira a profecia da Pedra do Tempo, uma voz a chamava à Ilha dos Sonhos. No fim, Throst e Catelyn tinham-se resignado. Voltar para trás estava fora de questão... Não havia tempo a perder!

E a nossa pressa parecia ter o apoio divino. O vento soprava à favor, o mar estava calmo e o barco manteve-se a salvo de todos os obstáculos. Até os enjôos de Freya haviam cessado! Só o roncar dos homens me impedia de descansar. Como é que Thora conseguia dormir, há anos, entre os companheiros de armas?

Impaciente, afastei a manta que partilhava com Freya e Thorson, e debrucei-me sobre a amurada, entregando as faces às carícias do vento. O cheiro da maresia sempre me deliciara. Sobre nós, as estrelas espreitavam por trás das nuvens preguiçosas. A Lua sorria-me... Como é que um poder tão belo e puro providenciava sustento às forças do mal? Fechei os olhos, subitamente ensonada. Uma música suave, quase imperceptível, deslizava sobre a água, confundindo-se com o murmúrio das ondas, afagava os meus ouvidos e se acomodava no meu espírito, fazendo-me flutuar...

Sacudi a cabeça e pisquei os olhos. O encanto era tão primoroso, que um homem comum não se aperceberia da armadilha até ser muito tarde! Era assim que o Povo da Água se fazia anunciar: melódico, sereno, terno, sedutor... Quando as vítimas se encontravam prisioneiras do canto mágico, atraíam-nas para o mar e arrastavam-nas para uma morte atroz. Se buscavam presas fáceis neste navio, tinham seguido uma corrente azarada! Deixaria que se aproximassem para confirmar suas intenções... Se viessem por mal, receberiam uma lição que jamais esqueceriam!

Os corpos esguios e ágeis revelaram-se aos meus olhos, por entre a agitação das ondas. Prateado sobre azul-escuro e negro. Belo... mas terrível! Fingi-me adormecida e deixei a mão pender para fora do barco. A Ilha dos Sonhos ainda se encontrava longe, por isso teria tempo de recuperar a energia que estava prestes a despender. Uma chuva de raios trespassaria a água, ao encontro dos perversos seres, que se atreviam a atacar-nos pela calada da noite. Seria insuficiente para matá-los... Mas muitos ficariam tostados como galinhas no churrasco. Então, o cântico elevou-se, agreste para a minha percepção, que já construíra defesas, mas irresistível para os homens adormecidos. Mais uma batida de coração e...

De súbito, o Povo da Água dispersou-se e desapareceu. Foram tão rápidos, que me desconcertaram. Era impossível que tivessem antecipado o meu contra-ataque! Algo os assustara... E algo suficientemente grande, ou poderoso, para atemorizar estas criaturas, adivinhava-se um colossal motivo de preocupação para a frota Viking! Aguardei, com a respiração suspensa, perscrutando o mar com a visão apurada. Nada se movia debaixo das ondas... E se a ameaça estivesse sobre as águas?

Encarei a cegueira da noite, adaptando os olhos à mudança de luz. De início, o brilho da Lua nada revelou... Quando eu estava prestes a desistir, convencida de que, na verdade, fora a minha presença que afugentara o Povo da Água, deparei com o barco. Era tão pequeno, que não conseguiria acomodar mais de dois ou três homens. No entanto, apenas uma figura se destacava contra a obscuridade: um homem alto, de ombros largos, com o corpo e as feições ocultos por uma capa preta.

O coração saltou-me no peito e tive de engolir um grito. O mestre da Arte Obscura que atacara o rei-lobo, na Floresta dos Carvalhos, estava no nosso encalço! Pus-me de pé e lancei a minha energia através da noite. Todavia, só encontrei ondas e vento. Seria possível? Quão grande era o poder deste homem, para escapar por entre os dedos do príncipe Galinn, e ocultar-se da minha percepção com tamanha eficácia? Bem, pelo menos afugentara o Povo da Água... e denunciara a sua presença! Agora, eu estaria muito atenta aos seus movimentos. Se planejava acabar o que começara no Norte, ditava a sua sentença de morte!

Decidi não relatar o que acontecera durante a noite. Freya ficaria aterrorizada; Thora teimaria em navegar em círculos, até encontrar o mestre da Arte Obscura... e Ivarr seria capaz de aquiescer à vontade da sua guerreira, empurrado pela ira.

Durante o dia, mantive-me atenta, mas os esforços para surpreender o meu rival foram vãos. Os drakkar eram os únicos barcos a cruzar o mar. Fiquei aliviada quando, ao cair da noite, o meu pai fez sinais de luz com a lanterna, avisando que ia parar numa das ilhas desertas do arquipélago que atravessávamos, para renovar as provisões. Isto significava dormir em terra firme. A delonga era necessária e não seria significativa. Os Vikings montavam e desmontavam um acampamento, num abrir e fechar de olhos. Pelo menos, não teria de preocupar-me com sereias, tritões e servos da magia negra!

A costa era arenosa, por isso foi possível varar os barcos. Em seguida, os guerreiros dividiram-se em grupos. Uns partiram para a floresta, em busca de água e caça. Outros começaram a juntar lenha para as fogueiras. Nós, mulheres, tratamos de montar os abrigos onde íamos pernoitar. Thora ajudou-nos, sem dizer uma palavra. Aliás, agora que o seu silêncio me incomodava, eu reparava que há muito não a ouvia. A minha irmã era tão expressiva e conversadora que só uma inquietação conseguia calá-la. Mal surgiu a oportunidade, interpelei-a:

— Não está bem! O que é que se passa?

A sua resposta surpreendeu-me:

— Devia saber... Tu também escutaste!

— O quê?

— O canto das sereias. O Povo da Água tentou atacar-nos! Não percebi o que os demoveu... Foste tu? Revelou o teu poder a fim de assustá-los?

Respirei fundo e confessei:

— Não estamos navegando sozinhos. O mestre da Arte Obscura, que os atacou na floresta, nos segue. Foi ele que pôs as sereias em fuga. Não senti a sua presença durante o dia... E deveria, pois a luz do Sol sobrepõe o meu poder ao seu. Desconfio que descansa, enquanto nós viajamos, e aproveita a noite para recuperar o tempo perdido.

— E quando é que tencionava nos contar? — replicou, indignada. — Tenho de avisar o Ivarr...

— Não! — detive-a com firmeza. — As questões de armas devem ser resolvidas com armas, e as de magia, com magia. Deixe isto por minha conta! Envolver o Ivarr será inútil. Ele acabará por denunciar o meu conhecimento e afugentará a presa.

— E se for o Sigarr? — Thora já escutara tantas histórias atrozes, acerca da perversidade do feiticeiro, que empalidecia só de considerar tal possibilidade.

— Seja quem for, já o derrotei uma vez! — contrapus, tentando transmitir-lhe confiança. — Não se preocupe, Thora! Aqui, na ilha, estamos seguros... Aproveitemos para descansar!

Mesmo dentro da tenda de pele, o ressonar dos homens incomodava-me. Ainda assim, fingia dormir profundamente. Ivarr deixara os seus lobos e viera deitar-se comigo. Tentara envolver-me no seu ardor, mas a mais inocente das carícias fazia-me recordar as palavras de Steinarr. Pela primeira vez, interrogava-me se a paixão de Ivarr seria genuína ou forçada pelo dever. Se o rei tivera coragem de me falar naqueles termos, quantas vezes já massacrara o filho com a sua frustração? Eu não queria que o meu marido me procurasse apenas para plantar a sua semente no meu corpo! Queria que me amasse, que me desejasse, que enlouquecesse se não pudesse respirar o meu ar! Porém, sabia que almejava o impossível. Entre nós, nunca existira essa intensidade de sentimentos... Nem nunca existiria!

Ivarr também estava acordado. Eu conhecia cada um dos seus movimentos; a impaciência que o assaltava, quando o sono se recusava a conceder-lhe o merecido descanso. Praguejou baixinho... e saiu sem olhar para trás.

Revirei-me até transformar a manta num emaranhado. De repente, o abrigo parecia excessivamente pequeno, insuportavelmente quente. Pontapeei a coberta e abandonei a tenda, sufocada. A brisa noturna saudou-me como uma graça divina. Podia respirar outra vez!

As fogueiras ardiam, dispersas pela praia. Os guerreiros dormiam, enrolados em mantas ou entregues aos dedos gentis da areia. Um dos guardas de vigia saudou-me. Continuei em frente, cativa de uma ânsia injustificável. As lágrimas cegavam-me e eu não compreendia porquê. Só sabia que, nesse preciso momento, algo estava a acontecer... Algo que eu tinha de testemunhar! Os pés guiavam-me... E a mente entorpecida deixava-se conduzir.

Percorri uma trilha entre as rochas, até uma pequena língua de areia, de onde se podia avistar todo o acampamento, os barcos varados na praia e a vastidão imensurável do mar. Thora encontrava-se sentada a dois passos das ondas brincalhonas, com o olhar fixo na linha do horizonte. Um pouco atrás, erguia-se a sombra imponente de Ivarr, inerte, como se estivesse se alimentando da visão da loba prateada; como se tivesse medo de afugentar a magia que estralava ao seu redor. Até mim, chegou o cheiro da terra após a benção da chuva, misturado com o perfume do mar... e o odor dos lobos. Um apelo mudo rasgava a noite: o choro de uma alma selvagem. Eu escutava o coração de Ivarr como se fosse um tambor. Apesar da distância, apercebia-me da tensão do seu corpo, da força com que apertava os punhos, da secura na sua boca, da respiração entrecortada... e da luz que lhe inundava o olhar. Então, moveu-se com uma agilidade que pouco tinha de humano; mais com a elegância da fera que habitava a sua essência... e sentou-se ao lado de Thora.

A minha irmã não se moveu, como se, no decorrer deste tempo, soubesse com precisão onde ele estava e o instante em que ia aproximar-se. Os seus olhos mantiveram-se presos no mar, enquanto lutava para sossegar o descompasso do coração.

— Também está sem sono? — A voz de Ivarr soou-me estranha, rouca. O homem não conseguia subjugar o lobo... Ou já parara de tentar!

Thora hesitou bastante, antes de responder:

— Ontem escutei o canto das sereias. Sei que elas podem deixar a água por algum tempo... Estou a certificar-me de que nenhum dos nossos homens morrerá afogado.

Ivarr sorriu levemente e fixou o olhar no vaivém das ondas. Contudo, a sua expressão tornou-se solene ao murmurar:

— Eu não te deixaria partir... Thor é testemunha de que amo o Eric. Mas não poderia viver sem ti! Tu fazes parte de mim, Thora... É a minha loba... Uma parte da minha alma.

A minha irmã fechou os olhos e as lágrimas escorreram-lhe pelas faces, cintilando como raios de luar. Incapaz de resistir, Ivarr estendeu a mão e limpou-as com cuidado. Os dedos fortes deslizaram pelo rosto da jovem, como se desejassem memorizar cada pormenor... E o seu corpo começou a brilhar. Talvez só quem possuísse magia no sangue fosse capaz de observar o fenômeno! A sua essência estava em fogo e a irradiação ardente refletia-se na pele. Thora abriu os olhos e a luz brotou do interior do verde, como água. Com vontade própria, a sua mão cobriu a de Ivarr, pressionando-a contra a carne. Os seus lábios entreabriram-se, libertando um suspiro... um gemido... um uivo, que podia significar dor ou prazer; talvez uma mistura dos dois!

Enlevado, Ivarr debruçou-se sobre ela, tentando atraí-la para junto do peito. Porém, no instante em que lhe tocou na cintura, Thora recuou bruscamente, empurrou-o e ergueu-se de um salto, desatando a correr pelo caminho ladeado de rochas, de regresso ao acampamento. Mal tive tempo de apelar à magia, de modo a ocultar-me dos seus olhos. Engoli em seco, incapaz de respirar. A minha irmã estava quase ao meu lado. O seu pranto era um aguaceiro e o corpo tremia-lhe, de tal forma, que mal se sustinha nas pernas.

Ivarr não teve dificuldade em alcançá-la. Agarrou-a e puxou-a para si, aprisionando-a no seu abraço. Thora estrebuchou. Socou-o e pontapeou-o, mordendo os gritos que desejava libertar. Por fim, rendeu-se e pendeu nos braços do rei-lobo, esgotada, chorando compulsivamente; os punhos cerrados pressionando-lhe o peito, como se quisesse atravessá-lo. Ele manteve-a segura com uma mão, enquanto a outra lhe amparava a cabeça e afagava as tranças negras. O seu rosto desceu, até os lábios encontrarem a testa da protegida. Beijou-a e inspirou o perfume do seu corpo, antes de murmurar:

— Perdoe-me, Thora... Tinha que te dizer o que sinto! Mas não se assuste... Jamais seria capaz de me impor a ti, como homem ou como lobo!

— Solte-me, Ivarr... — gemeu a minha irmã sem, no entanto, repetir os esforços para afastá-lo. — Deixe-me ir... Por favor...

O rei-lobo não se moveu. E os dedos da loba prateada começaram a abrir-se; a esboçar carícias sobre o tecido suave da túnica. Só então as mãos de Ivarr subiram ao encontro das suas e a impediram de aprofundar o contato. Com o olhar preso no dela, beijou-lhe os dedos e descansou a face sobre estes, por um breve instante... um fôlego que continha o anseio de uma vida. Quando recuou, as lágrimas inundavam-lhe os olhos.

Thora voltou-se devagar, como se não confiasse nas pernas para se suster. A cambalear, chegou ao meu lado sem me ver. Lá atrás, o príncipe virou-se para o mar, envolvendo a cabeça entre as mãos. De repente, o clamor da loba prateada despertou a noite:

— Ivarr!

Segui o seu alerta. E o terror atingiu-me como um pontapé na garganta. Uma mulher do Povo da Água encontrava-se diante da tenda de Freya... com Thorson inerte nos braços!

Thora já corria. Ao perceber que lhe seria impossível alcançar o mar, a criatura fugiu para a floresta. No acampamento, mais ninguém reagira ao alarme. Os sentinelas andavam à toa, possuídos por um encantamento que eu não escutara, distraída pelo enlevo de Ivarr e Thora. O rei-lobo passou por mim, tão rápido, que vi a fera em vez do homem. Cerrei os dentes e invoquei a magia. Esta noite, uma mulher do Povo da Água ia morrer!

Voei com o vento e não tardei a ultrapassar Ivarr; depois Thora. Na floresta, a escuridão era soberana, mas nenhum de nós tinha dificuldades em progredir. Desconhecia se a criatura possuía um dom semelhante. Lancei a mente em busca da essência do meu sobrinho e percebi-a débil. Gritei o seu nome com todas as forças, enquanto galgava arbustos e pedras. Diante de mim, os ramos das árvores estilhaçavam-se antes que pudessem ferir-me. Continuei a bradar por Thorson, como se tal bastasse para segurá-lo à vida. De súbito, um silvo agonizante trespassou a noite... e, por um instante, o meu coração parou de bater.

Transformei-me num raio, que reduzia a cinzas tudo o que encontrava no caminho. Os pássaros esvoaçavam para longe, chiando aflitivamente. Os animais saltavam dos arbustos e das tocas, aterrorizados. Mas eu nada vi; nada ouvi, até deparar com a mulher do Povo da Água.

O corpo nu, de um cinzento-azulado, estava caído na trilha. O sangue jorrava-lhe em repuxo da garganta dilacerada. Ela pressionava o corte com as mãos trêmulas; os grandes olhos negros escancarados numa agonia sem limites. Os seus lábios moviam-se, como se quisesse dizer algo... Antes que eu conseguisse pensar no que devia fazer, Thora surgiu de entre as árvores, com a espada em punho, e, sem hesitar, pôs fim ao suplício da criatura.

— O Thorson fez isto? — indagou, num tom que revelava mais horror do que orgulho.

— Não sei... — gaguejei, aturdida. — Ele já não estava aqui...

— Thorson! — gritou Thora, de imediato.

— Thorson! — bradou Ivarr, não muito longe.

— Thorson! — tornou Thora.

Abri a boca para chamá-lo também, mas um apelo cortou-me a voz:

— Tia!

Corri. Saltei. Voei. Fui novamente ar e fogo. Fui tempestade. Uma sombra movia-se à minha frente, quase tão rápida quanto eu. Precisava dar mais de mim! Precisava dar tudo... Ou arriscava-me a ficar sem nada!

— Pare!

A sombra deteve-se. Ivarr e Thora tinham ficado para trás. Eu estava sozinha... com o misterioso homem da capa preta. Quedei-me a tremer, abismada com a sua perseverança. Quem era este mestre da Arte Obscura? Mesmo que possuísse a aptidão de adulterar a sua essência, a fim de confundir-rne, era muito corpulento para tratar-se de Sigarr. Eu jamais o suplantaria num confronto direto! Quanto a um duelo de magia... À noite, a vantagem pertencia-lhe, e eu já gastara tanta energia nesta perseguição desenfreada, que não tinha certeza de possuir recursos para vencê-lo. O que fazer?

O homem voltou-se para defrontar-me; um colosso feito de trevas. O seu manto ocultava um corpo fenomenal. O capuz escondia o rosto que eu desejava ardentemente vislumbrar... para nele poder cuspir todo o meu ódio. Segurava o meu sobrinho ao colo, firme contra o peito. O que fazer? O que fazer?

Prostrei-me de joelhos. Baixei os olhos. O amor é o princípio e o fim de todas as coisas. Do amor se nasce... De amor se morre! O orgulho não me confortaria, se Thorson perecesse. Eu já experimentara o poder deste homem... E vira a extensão da sua crueldade! Se não tivera pudor em degolar a mulher do Povo da Água, e deixá-la a esvair-se em sangue, a consciência também não o torturaria por matar uma criança.

— Por favor... — murmurei. — Suplico-vos! Tome a minha vida... mas deixe-o ir em liberdade!

A percepção revelava-me que Ivarr e Thora se aproximavam. Seguiam a trilha de destruição que eu deixara... Em breve, seria tarde demais para Thorson. Se o monstro se sentisse encurralado, não hesitaria em torcer-lhe o pescoço.

— Por favor! — repeti... e rendi-me ao pranto.

Então, algo estranho aconteceu. Do interior do capuz ecoou um som estrangulado... Ergui o olhar e vi o homem pousar Thorson no chão, com cuidado, certificando-se de que não tombaria, já que ainda se encontrava sob o efeito do encantamento da sereia. O pequeno vacilou três passos e alcançou-me. Agarrou-se ao meu pescoço e eu estreitei-o, cobrindo-o de beijos com sofreguidão. Perdi a noção do tempo... E, quando elevei o rosto, disposta a cumprir a minha palavra e entregar-me ao carrasco, este desaparecera. O mestre da Arte Obscura sumira-se no ar!

Ivarr e Thora chegaram finalmente. Caíram de joelhos, ao meu lado, disputando a atenção de Thorson. O pequeno estava atordoado, mas não tardaria a se recuperar. Aceitei o apoio do rei-lobo e fechei os olhos, inspirando um fôlego de alívio. O compasso do seu coração recordou-me o que acontecera na praia. O meu marido e a minha irmã estavam enamorados! Porém, o afeto que me devotavam impedia-os de ceder à paixão. Thora jamais me trairia. E Ivarr era um homem de honra. Esperei sentir raiva; sentir ciúme ou mágoa... Esperei sentir qualquer coisa! Mas surpreendi-me vazia, como se nada mais importasse, além da confirmação de que o perigo passara.

Regressamos ao acampamento, sem proferir uma palavra. Entorpecidos e confusos, os guerreiros despertavam do encanto da sereia, ao som dos gritos apavorados de Freya, que acabara de verificar que o filho desaparecera. Quando Ivarr lhe entregou Thorson, ela abraçou-o como se jamais se dispusesse a soltá-lo. A minha mãe ajudou-a a carregar o pequeno para o interior da tenda e eu acompanhei-os, decidida a certificar-me pessoalmente da sua segurança. Pelo canto do olho, vi que Ivarr e Thora tomavam rumos opostos, incapazes de se encararem. Resolvi ignorá-los. Neste momento, o seu dilema era a minha última prioridade!

Era noite cerrada quando entramos nos corredores de mar que nos conduziam ao interior do arquipélago do qual a Ilha dos Sonhos fazia parte. Desde sempre, os marinheiros tinham buscado riqueza nestas águas e naufragado. Os rochedos afiados, que se ocultavam sob o tapete flutuante de algas castanhas, eram letais. Fora o meu pai quem descobrira o caminho seguro, até à ilha principal, à qual os nativos chamavam Ilha Mãe. A partir do momento em que o jarl Throst fundara a sua comunidade, a Ilha dos Sonhos tornara-se um porto de comércio muito movimentado; paragem obrigatória para quem viajava do Norte para a Grande Ilha, e vice-versa.

Os nativos do arquipélago habitavam uma ilha vizinha, que se mantinha selvagem e cheia de mistérios. A partir do mar, a Ilha dos Penhascos justificava o seu nome. Ninguém diria que o colossal rochedo escondia um paraíso de florestas cerradas, praias deslumbrantes, ribeiros e lagos de águas límpidas. Se outro conquistador, que não o jarl Throst, tivesse desbravado o território, os nativos teriam sido chacinados ou feitos escravos e visto as suas riquezas pilhadas; a sua cultura apagada da recordação dos Homens. Desta feita, era fácil compreender o infindável respeito que devotavam ao meu pai, pois, graças a ele, a sua existência pouco se alterara, e os ritos sagrados permaneciam intocados... Bem, quase intocados!

Pensei em Oriana e o meu coração apertou-se. A partida de Thorson devia ter deixado a pequenina muito triste. Esperava que a Senhora Doralia conseguisse mantê-la atenta aos estudos, na nossa ausência. Oriana tinha de se preparar muito bem, para um dia estar apta a regressar à Ilha dos Penhascos e enfrentar a sua herança de sangue.

Sem querer, o meu olhar fixou-se no rei-lobo. Ivarr segurava o leme e a sua testa enrugara-se sob a concentração. O meu pai podia conduzir o Dragão dos Mares até à Ilha dos Sonhos, com os olhos vendados, mas aqueles que o seguiam tinham de ser prudentes, pois a escuridão ocultava muitas armadilhas. Noutras circunstâncias, jamais teríamos arriscado uma aproximação tão tardia. Porém, não podíamos sujeitar-nos a mais uma noite de inércia.

Na proa, Thora gritava ordens aos remadores. Também ela conhecia esta costa como a palma da sua mão. Ivarr confiava-lhe a segurança do navio, assim como lhe entregava a vida, num campo de batalha. A confissão que eu surpreendera na praia forçava-me a questionar as razões que me haviam levado a casar com o príncipe Viking. Eu fora-lhe prometida no berço, com a salvaguarda de que não existiria compromisso, se um de nós o rejeitasse na idade adulta. Porém, Ivarr sempre me cortejara; sempre asseverara que eu era a mulher com quem desejava viver e envelhecer... E eu via-o como uma fortaleza; um porto seguro, onde o meu corpo podia repousar e o espírito encontrava refúgio. Que existia desejo entre nós era inegável... No entanto, o nosso amor carecia de algo essencial. Até há pouco, eu culpara o carinho que sentia por Edwin, mesmo após a sua morte, por essa falha. Agora, já não tinha certeza de nada!

— Obrigada, Edwina! — exclamou Thora, arrastando-me para a realidade. — A luz é uma grande ajuda!

A que é que ela se referia? Só então me dei conta de que uma névoa luminescente, onde a cor azul se fundia com a amarela, em espirais de indescritível beleza, pairava sobre o drakkar. O resultado era um esplendor verde, que nos guiava através da bruma, até à Ilha dos Sonhos, sem que os remadores tivessem de hesitar. E, se eu não era a responsável pelo fenômeno...

O meu olhar fixou-se em Thorson, muito quieto no colo de Freya. Os seus olhos estavam postos no céu, tão concentrados que nem piscavam. A energia brotava-lhe da essência como a voz afinada de um skald; pura magia... plena perfeição! A mãe estava tão apavorada, que mal respirava. Em silêncio, suplicou-me que não desfizesse o equívoco. Que todos pensassem que eu era a autora do prodígio! Atribuí-lo a Thorson denunciaria o nosso segredo. Ela não tinha com que se preocupar! Os homens estavam muito estarrecidos para se aperceberem da verdade; muito deslumbrados para enxergarem algo que não fosse o maravilhoso remoinho de luz, que já iluminava as praias da Ilha dos Sonhos.

O porto encheu-se de gente que aguardava para nos saudar, atraídos pelo clarão verde. Uma trompa ecoou na noite, alertando todas as consciências para o regresso do jarl. Por entre a multidão, distingui os rostos do tio Bjorn e da tia Ingrior. Procurei desesperadamente por Edwin McGraw... em vão! Nesse instante, o meu coração soube que tínhamos chegado muito tarde.

 

Ingrior, filha de Thorgrim, acompanhou Catelyn da Ilha dos Sonhos e as suas filhas até a casa. O jarl Throst e o irmão ficaram no porto, amparando Signy, esposa do valoroso Krum, que gritava e pranteava em desespero, abraçada a Svana, ao tomar conhecimento da desventura do marido. Tal como ela, muitas mulheres da comunidade sofriam a dor de descobrir-se privadas dos companheiros. Porém, por mais que desejasse, a minha mãe não podia confortá-las. Também ela se deparava com uma fatalidade. O seu irmão mais velho estava a morrer.

A casa do jarl encontrava-se mergulhada no mais profundo silêncio. Catelyn avançou de imediato em direção às cortinas fechadas do quarto do moribundo, sem se deter para saudar ninguém. Segui-a, arrastando os pés, como se a nossa derrota pesasse sobre eles. Eu previra a tragédia, mas fora impotente para evitá-la!

O tio Berchan estava sentado junto do irmão, limpando-lhe o suor da fronte e molhando-lhe os lábios com água fresca. Estaquei à entrada. Se não conhecesse tão bem a essência de Edwin McGraw, jamais identificaria neste despojo humano o poderoso guerreiro, de excelsa beleza, que sempre arrancara suspiros de enlevo às mulheres. O meu tio estava definhado e sem cor. Os seus olhos cerravam-se, afundados para o interior do crânio e rodeados por manchas púrpura, do tamanho de punhos. Os lábios negros tinham gretado e sangravam, apesar dos esforços do curandeiro. Os longos cabelos castanho-claros, enfeitados com minúsculas tranças, estavam espalhados pela almofada, desgrenhados, partidos, como se uma simples carícia pudesse arrancá-los da cabeça.

Berchan McGraw fixou na minha mãe um olhar atormentado. Falou-lhe com a voz da mente, para que o irmão não o escutasse. Porém, eu o ouvi:

«A filha envenenou-o! Veio até nós com palavras doces; implorou o seu perdão... Quando o coração do Edwin amoleceu, Estrid comunicou-lhe que ficara noiva do herdeiro do Império e que precisava de um dote para se casar. O pai ofereceu-lhe riquezas. Mas tudo o que ela desejava era a sua pedra mágica! O Edwin recusou-se a entregar-lhe e a Estrid acatou... Ou assim acreditamos! Ontem à noite, preparou um chá ao pai... De manhã, quando acordei, o nosso irmão jazia delirante, incapaz de levantar-se da cama... E, da vil criatura, nem sinal! A pedra vermelha de Aranwen foi roubada e, com ela, a saúde do seu guardião. Fiz tudo o que podia, Cat, mas só consegui adiar-lhe a morte. Tinha esperanças de que a tua magia pudesse salvá-lo... Contudo, já perdi toda a fé!»

O meu olhar horrorizado estava preso ao enfermo. A minha mãe abeirou-se dele e tocou-lhe a testa. O irmão não reagiu. Ela recuou e levou as mãos aos lábios, para sufocar o pranto. Depois, voltou-se para mim; a expressão torturada pela ansiedade. Catelyn da Ilha dos Sonhos esperava que a Guardiã da Lágrima do Sol concretizasse um milagre. Dei um passo e engoli em seco, temerosa. Se eu nada pudesse fazer, que esperança restaria a Edwin McGraw?

Pus-lhe a mão na testa, ciente de que cada batida do seu coração podia ser a última... E confirmei os meus piores temores. No seu corpo, o sangue era devorado pelo veneno. A carne apodrecia. O espírito afastava-se... O milagre era a sua sobrevivência nestas condições! Se o meu tio pudesse falar-nos, que suplício extremo relataria?

A sombra aproximou-se como se alimentada pelo nosso desespero. Vinha envolta numa capa negra e a sua essência era mais gélida do que uma geleira. Se os humanos e os feiticeiros podiam tomar algo como certo, no instante em que nasciam, era que, cedo ou tarde, a morte viria reclamar os seus espíritos. Muitas vezes, a rainha do submundo retrocedera diante do meu poder. Porém, hoje, nenhum dos meus argumentos a convenceria. Hoje, seria eu a baixar a cabeça e a recuar ante a sua determinação.

De súbito, Thorson entrou desembestado no quarto. Escapou dos braços da avó, aos do tio Berchan e quedou-se ao meu lado; as mãos pequeninas pousando no peito de Edwin McGraw, quais folhas arrastadas pelo vento, que finalmente encontram o merecido descanso no colo da terra. Várias coisas aconteceram simultâneamente: Freya surgiu, tentando deter Thorson. O tio Berchan esticou-se para alcançá-lo e afastá-lo para longe do enfermo. E o corpo do moribundo saltou, sob a influência do sobrinho, como que atingido por um raio.

Pulamos para trás. Thorson não se moveu; a sua pele adquirindo um brilho semelhante ao fulgor da Lágrima do Sol. O tio Edwin abriu os lábios e libertou um gemido; um débil sinal de vida... Uma reação instintiva à poderosa essência de Thorson? Ou um prenúncio do fim? Onde estava a sombra negra? Tive de esforçar-me para vislumbrá-la. O seu braço esquelético erguia-se numa tentativa de se proteger da luz. Se isto não era um milagre...

O tio Berchan alcançou Thorson e puxou-o contra o peito, separando-o do enfermo, enquanto lhe ralhava. O sobrinho começou a gritar; olhos escancarados no vazio, como se a sua mente fosse brutalmente invadida por um pesadelo abominável. O corpo de Edwin McGraw afundou-se no colchão... E a rainha do submundo recuperou alento e acometeu sobre ele.

— Não! — bradei e lancei-me em frente, num ímpeto arrebatado, apelando à força mística para confrontar o tio Berchan. Tomei Thorson dos seus braços e rugi: — Esta pode ser a última oportunidade do tio Edwin! O Thorson veio até aqui porque acredita... Se o tio perdeu a fé, afaste-se e deixe-o tentar!

— Enlouqueceu, Edwina? — fremiu o sábio, alterado pela indignação. — Isto não é lugar para uma criança! Admito que o Thorson revela algumas habilidades... mas é muito jovem e inexperiente. Quer condená-lo à morte? Porque é isso que vai acontecer, se teimar em perseguir o espírito do tio! E, no fim, será tudo em vão! A sorte do Edwin está traçada...

— Eu me recuso a desistir! — revidei com maus modos. E dei-lhe as costas, permitindo que Thorson se abeirasse do moribundo.

A sombra negra já quase cobria Edwin McGraw. Se apelasse à minha sensibilidade, decerto veria as suas garras a arrancarem a essência revoltada do guerreiro da proteção do corpo. Em tempos, o meu tio desejara a morte, para aplacar a dor do seu coração. Agora, combatia a rainha do submundo, porque sabia que ainda tinha missões a desempenhar na Terra.

— Vai-te! — ordenei, permitindo que a magia me efervescesse no sangue. — Esta noite, não levará uma presa desta casa!

Um clarão radioso espargiu-me das mãos e empurrou o espectro para longe da cama. A rainha do submundo retrocedeu, com um silvo que arrepiou a noite. Porém, não desistiu. Quedou-se, aguardando determinada. A vitória parecia-lhe garantida. Assim que a exaustão nos prostrasse, ela tomaria o seu troféu.

Thorson encostou as mãos ao peito do tio e o prodígio repetiu-se. O corpo inerte reagiu, como se trespassado por uma descarga de energia. E Edwin McGraw gritou; um som rouco e aterrador que fez a minha mãe cambalear para os braços do tio Berchan. Este fustigou-me com um olhar assombrado por dúvidas e rancores. A sua palavra sempre fora respeitada pelos irmãos. Ele era o sábio da família; o orientador de todas as decisões... Até que, nos Pântanos Nebulosos, eu o desafiara, recorrendo a um sortilégio proibido para salvar o meu primo Aled. Apesar de se congratular com a sobrevivência do sobrinho, Berchan jamais me perdoara a afronta. Durante muito tempo, acreditara que a minha essência estava conspurcada pelo apelo da Arte Obscura e que, inevitavelmente, eu acabaria por desgraçar a família e enveredar pelo caminho do mal. Talvez fosse esse o pensamento que o torturava, naquele preciso instante!

Esqueci o que me rodeava e amparei o meu sobrinho. Thorson propunha-se a concretizar o impossível. E fazia-o, apesar de ser tão pequeno que mal alcançava o peito do tio. Fazia-o, apesar de ainda não ter idade para compreender as implicações do seu gesto. Fazia-o, porque uma vontade superior à razão o impelia. Era inútil tentar explicar o que estava a acontecer! Restava-me colocar todo o meu poder e convicção ao dispor das forças que o moviam.

 

O Dragão dos Mares sulcava as águas a uma velocidade vertiginosa, com o meu pai ao leme. O Falcão Real ficara ancorado no porto da Ilha dos Sonhos. Durante a noite, o jarl Throst decidira que a campanha se faria com um único navio. Assim, não despertaríamos tantas atenções e não surgiríamos como uma ameaça aos olhos do rei do Império. Ninguém contestara a sua liderança, nem mesmo Ivarr. No seio da nossa família, a soberba masculina era posta de lado, quando a causa era nobre e comum.

Fechei os olhos, apreciando as carícias do vento. Esta era a calmaria que precedia a tormenta; uma harmonia enganadora, mas reconfortante, que me permitia descansar o espírito e recuperar as forças. Contudo, nada me faria esquecer o que fora obrigada a deixar para trás.

A noite ia avançada, quando o suor negro começara a brotar da pele do meu tio Edwin. A simples recordação era aterradora! A minha mãe e a tia Ingrior haviam-no limpado com cuidado, permitindo que o corpo continuasse a purgar o veneno. Thorson mal respirava, possuído por uma determinação inabalável, como se uma Entidade divina agisse por seu intermédio. Do lado oposto da cama, a rainha do submundo aguardava irredutível; uma mancha grotesca contra o castanho suave da madeira. Nesta guerra só haveria um vencedor. E ela nada tinha a perder! O tempo era seu aliado... Isso ficou provado, quando a energia de Thorson principiou a falhar-lhe. Porém, o pequeno vidente não se atrapalhou. Reclamou a minha magia e usou-a sem contemplações, qual cria que se alimenta sofregamente do seio materno.

Todavia, por mais que eu desejasse atender à salvação do tio Edwin, fora confrontada com o fato de que, tanto a minha mãe, como Freya ou a tia Ingrior, podiam revezar-se no apoio a Thorson, mas só a Guardiã da Lágrima do Sol seria capaz de enfrentar o feiticeiro do Império. Eu devia acompanhar os guerreiros e esperar que uma criança realizasse a tarefa de um deus! Temi pelo meu sobrinho. Temi pelo tio Edwin... Contudo, era indiscutível que a magia da pedra vermelha, à mercê dos caprichos de um ente tão abominável quanto Esteban, podia significar a ruína de todos nós. Condescendi, mas não sem me certificar da segurança de Thorson! Sob o olhar inquieto da minha mãe, entregara-lhe a Lágrima do Sol, para que, no caso da escuridão envolvê-lo, a sua luz o conduzisse à realidade. Eu ainda não possuía tamanha confiança no meu poder, que desprezasse a ajuda do cristal. Porém, tal como Freya sentira que tinha de saltar para dentro do Falcão Real, no País dos Vikings, eu também era movida pela certeza de estar fazendo o que era devido.

Fui percorrida por um calafrio, quando o tio Berchan anunciou que tencionava nos acompanhar. A nossa relação estava tão azeda, que uma simples troca de olhares causava-me desconforto. Vi-o bufar de desprezo, ao descobrir que a Lágrima do Sol ficaria para trás. O fato de «O Que Tudo Vê» me ter escolhido para sua herdeira sempre o revoltara. Berchan ambicionara ser Guardião e defendera que eu não estava à altura dessa responsabilidade. Mesmo assim, treinara-me com rigor e exigência... Talvez tivesse havido tempos em que me cedera a sua confiança! Porém, o incidente dos Pântanos Nebulosos dissolvera-lhe quaisquer dúvidas acerca da minha vulnerabilidade. Eu era fraca... E, um dia, seria maldita! Surpreendi-me ao verificar que a sua opinião deixara de me magoar. Agora... era simplesmente irritante!

O barco que transportava a pérfida Estrid levava um dia de avanço, mas teria forçosamente de aportar na Enseada da Fortaleza, morada de Stefan McGraw, o que nos permitiria recuperar algum tempo. Senti um aperto no peito, ao pensar no meu tio. Stefan era muito diferente dos irmãos; não possuía o ardor de Edwin, nem a frieza de Berchan... Porém, fora a ele que o rei William confiara a administração da Grande Ilha. O seu coração puro encontrara um equilíbrio entre as exigências do Império e o bem-estar do nosso povo. Estrid crescera na sua casa e sempre abusara da sua bondade, para obter o que desejava. Como iria justificar ao tio a posse da pedra vermelha de Aranwen? Se a minha atoleimada prima lhe causasse dano, ou à sua família, eu lhe prestaria o mesmo tratamento que se dava às galinhas, antes de lançá-las ao caldeirão!

Cerrei os dentes, ansiando pelo momento em que colocaria as mãos nos cabelos de ouro de Estrid e esfregaria o seu rosto traiçoeiro no veneno que o corpo de seu pai purgara. Depois do que fizera, a família não permitiria que continuasse a desfrutar da «hospitalidade» do Império. A ladra assassina haveria de regressar conosco e, por bem ou por mal, traria a pedra mágica consigo. Depois... Depois, seria julgada numa Assembléia, diante da comunidade. E eu avançaria em defesa da sua vida... Sim, porque a morte era um castigo muito brando! Estrid teria de sentir na pele, durante muitos e sombrios anos, a vergonha, o desespero e a dor que nos infligira a todos!

Foi com um alívio impaciente que avistei as costas da Grande Ilha, à luz mortiça do fim da tarde, e escutei as trompas da Enseada da Fortaleza, anunciando a chegada do jarl da Ilha dos Sonhos. Quando o Dragão dos Mares aportou, o tio Stefan já se encontrava no ancoradouro, com os braços estendidos para nos receber.

Mal desci do drakkar, percebi que esta campanha seria mais complicada do que todos desejaríamos. Estrid não se detivera para descansar na casa dos tios. Aliás, Stefan desconhecia quaisquer pormenores da viagem da sobrinha. Os responsáveis pelo porto informaram-no acerca de um navio do Império, que, nessa manhã, fizera uma curta paragem para se reabastecer de comida e água. Estavam apressados e não demoraram a seguir viagem. Havia uma mulher a bordo, mas mantivera-se afastada, com as feições ocultas por uma capa de pele de raposa, sob o olhar atento do comandante do navio.

— Como está o Edwin? — indagou o tio Stefan. — É possível salvá-lo?

— A Catelyn assumiu o esforço de curar o seu irmão — respondeu o meu pai. — Nós vamos continuar a perseguir a Estrid. Não desistiremos de resgatar a pedra mágica!

— Não pode navegar durante a noite, Throst — retrucou o cunhado. — Aceite a hospitalidade da minha casa. Mal a manhã nasça, rumaremos à cidade imperial.

Era frustrante perder a vantagem que conquistáramos. Se o tio Edwin estivesse conosco, não hesitaria em arriscar a viagem noturna, visto que conhecia muito bem as armadilhas das costas da Grande Ilha, graças à sua juventude aventureira. Porém, sem ele, tamanha temeridade era um convite ao naufrágio. O meu pai acabou por condescender, ciente de que os seus homens necessitavam de uma refeição quente e de uma boa noite de sono, para restabelecer as forças. Se pretendíamos impressionar o rei do Império, para forçá-lo a cumprir as nossas exigências, não podíamos aparecer nos seus domínios a arrastar-nos de exaustão.

Eu acabara de desfrutar das delícias de um banho perfumado, quando a tia Enya entrou no quarto, para verificar o meu conforto. Trouxe-me um belo vestido de linho azul, que evidenciava o brilho do meu olhar, e ajudou-me a apertar as fitas que o cingiam ao peito e à cintura. Depois, ofereceu-me um gancho para prender os caracóis rebeldes. Há muito que não conversávamos, mas as dificuldades que enfrentávamos subjugaram os assuntos restantes. Quando terminei de relatar-lhe os pormenores do desvario de Estrid, ela perguntou alarmada:

— E como reagiu o Darrin? Preferiu ficar com o pai, a vir no encalço da irmã?

Apesar de gêmeos, Darrin e Estrid nunca se tinham dado bem. Ao longo dos anos, as suas personalidades opostas haviam originado conflitos ardorosos. Porém, a verdadeira ruptura verificara-se com a morte da tia Geirny. A desconsideração de Estrid para com a mãe, durante a sua doença, e a forma como desprezara a família para fruir das extravagâncias da corte do Império, levara o meu primo a renegar a irmã.

Contei-lhe que Darrin viajara no início da Primavera, a bordo de um navio de comércio, para levar ofertas a um rei do Sul, com quem o jarl mantinha relações de amizade. Logo, desconhecia o infortúnio que se abatera sobre o pai. Aliás, eu estava convicta de que, se o irmão estivesse na Ilha dos Sonhos, Estrid jamais teria ousado tamanha vilania. Quando regressasse, Darrin ficaria possesso! E, se o pai acabasse por perecer, seria capaz de sangrar a irmã com as próprias mãos. O meu primo era um bom homem, mas herdara o temperamento exaltado de Lorde Edwin McGraw!

— Eu não consigo compreender o que se passa na cabeça daquela menina! — declarou Enya, exasperada. — A Estrid nasceu e cresceu num berço de ouro... Mesmo quando os pais se ausentavam, em busca do pequeno Edwin, o Stefan e eu atendíamos para que nada lhe faltasse! A Geirny gracejava, dizendo que nós a mimávamos mais do que aos nossos próprios filhos. Como é que ela teve coragem de atentar contra a vida do pai?

— Há alguns anos, a Estrid encomendou-me um feitiço para conquistar o príncipe John — confessei, enojada. — Eu não lhe dei ouvidos... Mas ela dispôs-se a tornar-se rainha do Império, a qualquer custo!

— Esse homem só pode trazer-lhe infelicidade! É perverso, cruel... O rei William estava prestes a abençoar o casamento do meu Quinn com a princesa Isobelle, quando ele interferiu. Quer enclausurar a irmã num convento, à força!

— A crueldade do príncipe John vai muito além do capricho de ver a irmã infeliz — constatei. — Ele odeia a nossa família... E o nosso povo! No dia em que herdar o trono, há de declarar guerra aos Vikings... E duvido que permita que os McGraw continuem a administrar a Grande Ilha!

— Esse arrogante não se atreveria! — exclamou Enya, indignada. — Todos tivemos de ceder no orgulho para que o Tratado fosse celebrado, mas ninguém nega que a Aliança trouxe benefícios aos povos que o assinaram, sem exceção!

— O herdeiro do Império despreza o Tratado — objetei. — Quem não é seu vassalo, é seu inimigo! Assim que se tornar rei, avançará para transformar estes mares em sangue e esta terra em cinzas... E, com aquele feiticeiro como aliado, ninguém estará livre da servidão.

Enya franziu o cenho, aturdida e confusa.

— Se o príncipe odeia a nossa família, por que tolera a Estrid há tantos anos?

— Para usá-la contra nós! — volvi prontamente. — John sabe que ela fará qualquer coisa para tornar-se sua mulher, inclusive roubar e matar!

A minha tia respirou dolorosamente, como se a verdade fosse uma espada a deslizar-lhe pela garganta. Por fim, desabafou frustrada:

— Quem me dera ter conservado a destreza da juventude, para poder acompanhá-los! Não conseguirei fechar os olho, sabendo dos perigos que enfrentarão!

Olhando agora para a gorducha e corada senhora da Enseada da Fortaleza, era difícil imaginar que, em tempos, fora uma guerreira. Filha bastarda de Lorde Cearnach McKie, Enya vira a guarda do seu pai assassinar a mãe, porque esta se recusara a entregá-la à morte, para ocultar à comunidade o adultério do senhor da terra. Crescera na rua, mendigando pão e sobrevivendo à custa do seu punhal. Ao lado de Edwin McGraw, lutara pela liberdade da Grande Ilha e ganhara o respeito que merecia. Com Stefan McGraw, tivera oito filhos; encontrara a felicidade e o amor que lhe haviam sido roubados no berço. Depois dos meus pais, Stefan e Enya eram o casal mais apaixonado que eu conhecia. Sorri carinhosamente e estreitei-a nos braços, antes de revidar:

— Na ausência do tio Stefan, a tua firmeza é essencial para elevar o ânimo do povo. As novas correm depressa e é impossível manter as bocas dos homens fechadas, após o terceiro corno de cerveja. Já muitos se aperceberam de que a nossa visita ao Império não será uma cortesia, e é necessário manter a serenidade nas ruas, até que saibamos o que temos de enfrentar.

Enya devolveu-me o sorriso e replicou, num tom cheio de carinho:

— Falou como uma futura rainha! Estou orgulhosa de ti, Edwina... Muitas mulheres enlouqueceriam, se passassem pelas provações que já enfrentou!

Respirei fundo, agradecida pelo seu cuidado em não mencionar a perda dos meus filhos. As palavras eram desnecessárias e só podiam ferir. A ternura no seu olhar e nos gestos era quanto bastava para revelar solidariedade e pesar. Apertei-lhe as mãos entre as minhas e indaguei acerca dos meus primos, desejosa de esquecer as tristezas e os temores. Deliciei-me ao saber que Aled conquistara o respeito dos aldeões, como senhor da Floresta Sagrada, e que Melody estava novamente grávida. Ver os olhos de Enya brilharem, ao falar dos netos, enchia-me o coração de alegria. Era certo que eu arriscara muito, ao apelar à Arte Obscura para salvar Aled... Todavia, se fosse hoje, voltaria a fazê-lo sem hesitar!

Kyle e Rice, continuavam inseparáveis e desejosos de aventuras. A sua destreza belicosa encontrava-se ao serviço do exército Aliado e envaidecia os pais. Depois de Bryan ter decidido seguir o príncipe Viking, e de Quinn ter jurado lealdade ao rei do Império, o tio Stefan esperava que os gêmeos assumissem o seu legado, à frente dos destinos da Grande Ilha. Porém, se tal não acontecesse, ainda havia outra esperança! Marvin, o traquina da casa, tornara-se um jovem responsável, após freqüentar o ginásio do jarl Throst. Este ano enfrentaria as suas provas de iniciação, e estava ansioso por evidenciar-se como guerreiro.

No que respeitava a Gwenneth, as novidades deixaram-me perplexa. A minha tímida prima, que se assustava quando o vento lhe soprava no rosto, revelara um interesse apaixonado pela nova fé e decidira entrar para um convento. De início, a sua escolha deixara Stefan e Enya apreensivos. O infortúnio da tia Melody jamais desapareceria da memória da família. Além disso, os padres cristãos conheciam a ascendência feiticeira dos McGraw, o que os levava a benzer-se sempre que nos avistavam. Porém, a vocação de Gwenneth era tão fervorosa, que nem estes a tinham contestado! Fora com uma alegria emocionada que a minha prima recebera consentimento para abraçar uma vida de recolhimento e oração.

Por fim, e ao contrário da irmã, Ive não se cansava de deslumbrar os pais com as suas habilidades místicas. O tio Stefan ponderava falar com o Mestre Druida, no próximo Festival de Verão, para averiguar da possibilidade do pequeno receber a orientação dos Sábios, na Ilha dos Penhascos. Contudo, a tia Enya ainda não estava convencida. Era difícil ver o filho mais novo sair de casa, em tão tenra idade!

A conversa com a minha tia lavou-me a alma. Porém, assim que nos sentamos à mesa para jantar com os homens, voltei a ficar tensa. A discussão sobre o que nos esperava não tinha fim. O tio Berchan denunciava muitas reservas quanto à boa índole do soberano do Império. Sustive o fôlego, ao ouvir o tio Stefan expressar o seu apoio à opinião do jarl Throst:

— O rei William é um homem de honra e nutre grande estima pelo Edwin. Jamais pactuaria com esta traição!

— Assim sendo, acredita que nos entregará a Estrid? — questionou o irmão, incrédulo.

— Sim... — Lorde Stefan hesitou. — No entanto, necessitamos de ser cautelosos na nossa abordagem, no que se refere à pedra. Devemos esclarecer que se trata de uma jóia de família, com elevado valor sentimental, sem mencionar a sua magia. Eu levei anos a convencer o William de que o fato de descendermos de uma feiticeira não nos torna impuros. Se chegarmos diante dele a reclamar uma pedra mágica, arriscamo-nos a pôr tudo a perder!

— Eu não me envergonho da minha ascendência! — revoltou-se o sábio, enrubescendo por baixo da cerrada barba negra. — Ser neto da feiticeira Aranwen é uma honra...

— Para mim também! — atalhou o irmão, tentando apaziguar-lhe o ânimo. — Porém, se quer vencer esta batalha, tem que usar a cabeça! Falar em magia, diante de Esteban, é desafiar a morte.

— O Stefan tem razão... — asseverou o meu pai, mas o tio Berchan impediu-o de concluir:

— Esta é a nossa oportunidade de denunciar esse falso padre! Aqueles que o seguem devem ficar sabendo que ele é um feiticeiro.

— E como pretende fazê-lo? — mastigou o tio Stefan, começando a impacientar-se. — Desafiando-o para um duelo de magia? O Esteban não é tolo! Declarar-te-ia maldito, muito antes de conseguir arranhar o seu disfarce. O Tratado seria rasgado, entraríamos em guerra com o Império... Este não é o momento certo para travarmos essa batalha, irmão!

— Então, a Edwina deve ficar aqui! — determinou o sábio, com os olhos a chamejarem. — Para que arriscar a sua vida em território hostil, se ela não pode recorrer à Arte?

— A presença da Edwina intimidará o Esteban... — começou o meu pai.

— Para isso eu estarei lá! — vociferou Berchan McGraw, revoltado.

— Por que esse feiticeiro lhe desperta tanto temor? Ele foi renegado pela sua raça! Não pode ser tão forte...

— O Esteban foi castigado pelo Conselho dos Seres Superiores... — dei por mim a interferir. — Mas já teve centenas de anos para recuperar a sua destreza.

— Se é assim, o que te leva a pensar que tem poder para enfrentá-lo? — respondeu o meu tio. E, nesse instante, apercebi-me de que esta discussão tinha raízes mais profundas do que a perfídia de Estrid ou o roubo da pedra vermelha de Aranwen.

— Eu sou Guardiã da Lágrima do Sol! — respondi, com uma firmeza seca e gélida.

— E possui um vasto conhecimento da Arte Obscura, não é verdade? — retrucou ele, ferino.

— Chega, Berchan! — O meu pai levantou-se, disposto a avançar sobre o cunhado. — Por mais apreensivo que esteja, não admito que conteste a integridade da minha filha!

Os lábios do sábio tremeram; os seus punhos cerraram-se. O tio Stefan tocou-lhe o braço, tentando acalmá-lo, mas foi pior. Berchan McGraw saiu da mesa, com maus modos, e deixou o salão mergulhado num silêncio opressivo.

O quarto onde a tia Enya me instalara pertencera a Melody e a Gwenneth. Além de acolhedor, tinha uma esplêndida vista sobre o mar. Demorei-me a observar a dança das ondas, esperando ver surgir, a qualquer momento, o pequeno barco que nos seguia. Parecia-me altamente improvável que o homem da capa preta tivesse desistido do seu intento... Todavia, desde a malfadada noite em que eu me prostrara à sua mercê, não voltara a pressentir-lhe a essência. Na Ilha dos Sonhos, o infame não dera sinais de vida. E, durante a viagem até à Grande Ilha, por mais que perscrutasse as águas, fora incapaz de encontrá-lo. Tal só aumentava o meu temor de que o seu alvo fosse Thorson. Antes de partir, alertara a minha mãe e Freya, e suplicara-lhes cautela. Ainda assim, sentia-me apreensiva. Nem queria pensar no que poderia acontecer, se o mestre da Arte Obscura as atacasse, enquanto concentravam esforços na salvação do tio Edwin.

Acabei por deitar-me, duvidando que o meu marido se atrevesse a buscar esta cama. Eu recusava-me a encará-lo, desde que o surpreendera a abrir o coração a Thora. O desejo de confrontá-lo misturava-se com o receio de ouvir a sua justificativa. E se Ivarr já não me amasse? Ele andava estranho! Também parecia evitar Thora... Não que ela o procurasse! Pelo contrário, após ter escutado a sua ardorosa declaração, a loba prateada fugia do rei-lobo, suscitando a estranheza dos companheiros.

No salão, o jantar ainda não terminara. Esta noite, eram vozes exaltadas que ecoavam pelos corredores do forte, ao invés de gargalhadas e cantorias. Lembrei-me do meu tio sábio, e afundei-me na almofada de penas de ganso, puxando a manta sobre a cabeça. O que é que ele esperava de mim? Alguma vez lhe dera razões para desconfiar da benignidade da minha essência? Raios! Não me bastava ter de viver sob a ameaça constante dos mestres da Arte Obscura, também tinha de fazer face à intolerância e ao rancor de Berchan McGraw?

A escuridão acabou por embalar-me num esquecimento restaurador. Quando baixei as defesas, acreditando ser capaz de fruir de uma noite sem sonhos, a essência despertou. Vi-me rodeada por nevoeiro colorido, úmido e quente sobre a pele. Longe, uma voz entoava o meu nome; deslizava sobre o mar, nas asas do vento... O meu coração sobressaltou-se. A Lágrima do Sol chamava a sua guardiã!

Ciente da urgência do apelo, segurei-me à energia que me buscava e deixei-me arrastar através da bruma. Num instante, estava na Enseada da Fortaleza; no outro, voava sobre as ondas, de regresso à Ilha dos Sonhos, à casa dos meus pais... ao quarto do tio Edwin.

Lorde Edwin McGraw mantinha-se inconsciente. A fraqueza deformara-lhe as feições e privara-o dos seus belos cabelos. A guerra contra a rainha do submundo parecia perdida. Ter-me-ia o cristal chamado para presenciar a derradeira batalha? Iria o mais valoroso guerreiro da Grande Ilha enfrentar o seu fim?

A minha mãe adormecera ao lado de Thorson, vencida pela exaustão. Os olhos do pequeno também se fechavam. A Lágrima do Sol escorregara-lhe da mão e rolara até a cortina detê-la. O meu tio arquejava, denunciando uma dificuldade extrema para respirar... E a rainha do submundo erguia-se, decidida. A sua paciência fora recompensada! Era tempo de tomar o troféu...

Deteve-se bruscamente; o capuz preenchido de trevas voltado em frente. Então, a cortina abriu-se e revelou o que tanto a perturbava. Outra figura encoberta por uma capa preta surgia à entrada do quarto. Aos seus pés, o brilho da Lágrima do Sol esmorecia, como se o cristal se esforçasse por passar despercebido. As duas sombras encararam-se: uma, alta e esguia; a outra, alta e robusta. Essência de morte contra essência de vida... Gelo contra gelo! E a rainha do submundo recuou, fundiu-se com a madeira da parede... e desapareceu.

Quem era este homem, que conseguia afugentar a própria morte com um simples olhar? Depois de toda a confusão que já aprontara, como é que ainda se atrevia a invadir a privacidade da casa do jarl da Ilha dos Sonhos? Tencionei confrontá-lo... mas surpreendi-me prisioneira de uma estranha inércia. Era como se eu não estivesse realmente ali! Nem o mestre da Arte Obscura, com a sua elevada percepção, dava conta da minha energia! Lutei para manifestar-me; de alguma forma, combater este servo do mal. A minha mãe, Thorson e o meu tio estavam ao alcance das suas garras, completamente vulneráveis... Eu tinha de defendê-los!

Enquanto tentava desesperadamente alertar a minha mãe, o homem avançou. Ignorou Catelyn da Ilha dos Sonhos e o pequeno vidente, e inclinou-se sobre o guerreiro. Mãos reais, fortes, masculinas, deixaram o esconderijo da capa e abeiraram-se do moribundo. Hesitaram, suspensas sobre a pele macilenta. Depois desceram, devagar... No instante em que pousaram nas faces carcomidas, o impensável concretizou-se: o meu tio abriu os olhos.

Petrificada de horror, vi o verde-floresta iluminar-se, fixando o desconhecido com infindável deslumbramento. Os lábios arruinados pelo veneno esboçaram o que parecia ser um sorriso. Então, para meu assombro, Edwin McGraw murmurou, numa voz rouca e fraca, mas perceptível:

— Veio... finalmente!

— Sim — respondeu-lhe o mestre da Arte Obscura. — Finalmente!

Eu conhecia esta voz... Eu conhecia esta voz!!! O meu coração parou de bater. A respiração estagnou. A mente convulsionou... Não! Não podia ser verdade! Isto era um pesadelo... Um delírio!

— Deixe-me... olhá-lo... — suplicou o meu tio. — Por uma vez...

Em choque, verifiquei que o homem condescendia e afastava o capuz. Cabelos compridos e encaracolados libertaram-se da prisão negra, e cobriram-lhe os ombros; uma chuva de ouro, cintilando gloriosamente na obscuridade do quarto. Eu não conseguia ver a madeixa de fogo, mas sabia onde ela se encontrava... O testemunho da sua herança maldita!

Os olhos do enfermo cintilaram, inundados pelas lágrimas. Tentou erguer uma mão, para acariciar o rosto diante de si, mas não teve força. A frustração torturou-lhe o semblante, ao balbuciar:

— Perdoe-me...

O mestre da Arte Obscura respondeu prontamente:

— Não há nada a perdoar... meu pai!

E, sem mais delongas, investiu sobre a sua presa.

— Edwin...

Acordei aos gritos, lutando para libertar-me dos braços que me cingiam. Só a custo contive o impulso de recorrer à magia, ao reconhecer Ivarr.

— Edwina! — apelava com ardor. — Calma, querida! Eu estou aqui...

Enlacei-o pelo pescoço e desatei a chorar. A recordação do mestre da Arte Obscura, a roubar com um beijo a última réstia de alento do moribundo, gelava-me a alma.

— O meu primo Edwin está vivo! — solucei. — Ele matou o pai, Ivarr!

— Sossega! — replicou o rei-lobo, tentando contrariar o meu sobressalto. — O teu primo está morto. Tu testemunhaste o seu afogamento! Se o teu tio finou, foi pela mão pérfida da Estrid. Chora à vontade! Está cansada, atormentada por mil questões, e a tua cabeça misturou-as num sonho mau...

Um pesadelo? Sim, só podia ser... Mas fora tão real! Nada fazia sentido, mas, ainda assim... E se tivesse sido uma Visão? E se Edwin tivesse emergido do reino dos mortos, a fim de se vingar da família? Não, o homem que eu tanto amara seria incapaz de um crime tão hediondo!

— Sei que não tenho sido um bom marido... — prosseguiu Ivarr, baixando o rosto ao encontro do meu. — Mas juro que, assim que regressarmos para casa, superaremos todas as dificuldades e festejaremos a derrota dos nossos inimigos...

Pus-lhe os dedos sobre os lábios, impedindo-o de continuar. Nós tínhamos muito que esclarecer, mas, nesse instante, eu só queria sentir-me amparada. Afundei a cabeça no seu peito e fechei os olhos, desejando acordar numa realidade onde não existissem mestres da Arte Obscura; onde a cobiça e a ignorância não fossem pretextos para a guerra; onde a minha família pudesse viver em paz. Adormeci, com os lábios de Ivarr a deslizarem sobre a minha testa, numa carícia delicada. E, nessa noite, os pesadelos não voltaram a atormentar-me.

 

                                                                                  CONTINUA

 

                      

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