Translate to English Translate to Spanish Translate to French Translate to German Translate to Italian Translate to Russian Translate to Chinese Translate to Japanese

  

 

Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


O Cirurgião / Tess Gerritsen
O Cirurgião / Tess Gerritsen

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

O Cirurgião

 

É hoje que eles vão encontrar o corpo dela.

Sei como acontecerá. Estou a imaginar, de forma bastante vívida, a sequência dos acontecimentos que levarão à descoberta. Às nove horas, as senhoras pretensiosas que trabalham na Agência de Viagens Kendall I. e Lord estarão sentadas às suas secretárias com os dedos de unhas impecavelmente arranjadas a baterem no teclado do computador, tratando da reserva de um cruzeiro pelo Mediterrâneo para a Sr a. Smith, e umas férias na estância de esqui em Klosters para o Sr. Jones, enquanto para o casal Brown este ano será qualquer coisa de diferente, algo exótico, talvez uma viagem a Chiang Mai ou a Madagáscar, mas nada de solos demasiado acidentados; oh, não, a aventura deve, acima de tudo, ser confortável. O lema da Kendall e Lord diz: "Aventuras confortáveis." Éuma agência de viagens com muito movimento e os telefones tocam com grande frequência.

Não há-de passar muito tempo até as senhoras repararem que Diana não está sentada à sua secretária.

Uma delas acabará por telefonar para casa de Diana, que vive em Back Bay; contudo, o telefone tocará insistentemente sem que ninguém atenda. Talvez Diana esteja a tomar banho sem poder ouvir o toque do telefone. Ou quem sabe se já não terá saído para o trabalho, tendo-se atrasado. Pela mente de quem fez o telefonema passará uma dúzia de possibilidades que não auguram absolutamente nada de mal. Mas à medida que o dia vai avançando, e os telefonemas não atendidos se repetem, começam a ocorrer à mente outras possibilidades mais perturbadoras.

Prevejo que seja o porteiro do prédio quem permitirá a entrada da colega de trabalho de Diana no apartamento desta. Vejo-o a chocalhar as chaves, num gesto de nervosismo, enquanto diz: "Você é amiga dela, é não é? Tem a certeza de que ela não vai importar-se? Porque vou ter de lhe dizer que lhe abri a porta."

Os dois entram no apartamento e a colega de trabalho começa a chamar: "Diana! Estás em casa?" Atravessam o vestíbulo, passando pelos cartazes de viagens emoldurados com muito bom gosto, o porteiro logo atrás dela, mantendo-se vigilante não vá ela tentar roubar alguma coisa.

Mas é então que ele olha pela porta do quarto. Vê Diana Sterling e deixa de se preocupar com uma coisa tão inconsequente como um furto. O homem só quer sair do apartamento antes que comece a vomitar.

Eu gostaria de estar presente quando ocorreu a chegada da polícia, mas não sou estúpido. Sei que eles vão observar atentamente todos os automóveis que passem nessa altura, bem como todos os rostos que olhem fixamente de entre o grupo de mirones que se juntará na rua. Eles sabem que a ânsia que sinto em voltar ao local é grande. Até mesmo agora, quando estou sentado, a observar a claridade do dia no lado de fora da janela, sinto que aquele quarto chama por mim, dizendo-me que volte. Mas eu sou como Ulisses, em segurança, amarrado ao mastro do meu navio, ansiando por ouvir o canto das Sereias. Porém, não me deixarei ir contra os rochedos. Não cometerei esse erro.

Em vez disso, continuo sentado a beber o meu café enquanto lá fora a cidade de Boston desperta para o novo dia. Adiciono três colheres de açúcar ao café que mexo; gosto do café bem doce. Gosto que tudo seja de uma determinada maneira. Que seja perfeito.

Enquanto as sirenes ecoam estridentemente à distância, como que a chamar por mim, sinto-me como Ulisses, debatendo-me contra o aperto das cordas, mas elas não cedem.

Hoje eles vão encontrar o corpo dela.

Hoje eles vão saber que estamos de regresso.

 

Um ano mais tarde

O detective Thomas Moore não gostava do cheiro a látex e, enquanto calçava as luvas, libertando uma pequena nuvem de pó de talco, sentia uma guinada que antecipava a sensação de náusea. O odor estava associado aos aspectos mais desagradáveis do seu trabalho e, à semelhança dos cães de Pavlov treinados para salivar quando instados a isso, ele tinha acabado por associar aquele cheiro a borracha ao inevitável odor a sangue e fluidos corporais que o acompanhava. Um aviso olíactivo para que se couraçasse.

E ele assim fez quando se encontrava no lado de fora da sala de autópsias. Acabara de deixar o calor no exterior e já sentia a frialdade do suor que lhe cobria a pele. A data era 12 de Julho, uma tarde húmida e nublada de sexta-feira. Por toda a cidade de Boston, ouvia-se a trepidação dos aparelhos de ar condicionado que pingavam para os passeios, enquanto o estado de espírito das pessoas era de irritação. Na Ponte Tobin, já se formara uma longa fila de carros, seguindo em direcção ao Norte, a caminho da frescura das florestas do Maine. Mas Moore não faria parte daquelas pessoas. Fora chamado, apesar de estar de férias, para presenciar um horror com que não desejava ver-se confrontado.

Já vestira a bata esterilizada que tirara do carrinho que continha a roupa da morgue. Naquele momento punha uma touca de papel para prender quaisquer cabelos soltos, calçando botas de papel por cima dos sapatos, precaução que tomava por já ter visto algumas vezes o que caía da mesa para o chão: sangue e pedaços de carne. Não se podia dizer que fosse um homem demasiado cuidadoso, mas não tinha a mínima vontade de levar para casa quaisquer resíduos da sala de autópsias agarrados aos sapatos. Deteve-se por breves segundos no lado de fora da porta, respirando fundo. Feito isto e com uma atitude resignada, preparou-se para aquela provação, empurrando a porta de acesso.

O cadáver coberto por um lençol encontrava-se em cima da mesa - uma mulher a julgar pelos contornos. Moore, evitando olhar demoradamente para a vítima, optou por se concentrar nas pessoas vivas que estavam na sala. O Dr. Ashford Tierney, o patologista, e um assistente da morgue dispunham os instrumentos cirúrgicos num tabuleiro. No lado oposto da mesa, em frente de Moore, estava Jane Rizzoli que também pertencia à Brigada de Homicídios da Polícia de Boston. Rizzoli era uma mulher de estatura baixa e queixo rectilíneo, com trinta e três anos de idade. Os caracóis do cabelo indomável estavam presos por baixo da touca de papel; sem o cabelo preto para lhe suavizar as feições, o seu rosto limitava-se a um conjunto de traços fisionómicos angulosos, com uns olhos escuros perscrutadores e de expressão intensa. Tinha sido transferida da Brigada de Costumes e Narcóticos para a Brigada de Homicídios havia seis meses. Era a única mulher nesta brigada e já existiam problemas entre ela e um outro detective, com acusações de assédio sexual e contra-acusações de um persistente comportamento execrável. Moore não estava bem certo de gostar de Rizzoli, tão-pouco de que ela simpatizasse consigo. Até ao momento, ambos se haviam restringido a uma relação estritamente profissional, achando ele que ela preferia que os contactos entre os dois se mantivessem nesse pé.

Ao lado de Rizzoli encontrava-se o seu parceiro de trabalho, Bar-ry Frost, um agente da lei sempre muito bem-disposto, cuja fisionomia de traços brandos e sem barba fazia com que parecesse muito mais novo do que os seus trinta anos. Havia dois meses que Frost começara a trabalhar de parceria com Rizzoli sem se queixar do que quer que fosse, o único homem em toda a brigada que possuía uma placidez suficiente para suportar o mau feitio dela.

Quando Moore se aproximava da mesa, Rizzoli observou:

- Já estávamos a perguntar-nos quando é que ias aparecer...

- Encontrava-me na portagem da auto-estrada do Maine quando vocês me ligaram.

- Desde as cinco horas que temos estado aqui à espera.

- E eu comecei agora mesmo a examinar os órgãos internos - adiantou o Dr. Tierney. - Portanto, diria que o detective Moore chegou precisamente na hora exacta. - Um homem que saía em defesa de outro. Fechou a porta do armário batendo-a com uma força exagerada. Foi uma das raras ocasiões em que permitiu que a sua irritação se manifestasse. O Dr. Tierney era oriundo da Geórgia, um cavalheiro que primava pela cortesia, achando que as senhoras deviam comportar-se como verdadeiras senhoras. Não lhe agradava trabalhar com aquela irritante Jane Rizzoli.

O assistente da morgue empurrou o carrinho com os instrumentos cirúrgicos até à mesa e, por breves momentos, o seu olhar cruzou-se com o de Moore, um olhar onde se lia: Dá para acreditar na atitude desta cabra?.

- Lamento muito que a sua pescaria tenha sido interrompida - disse Tierney dirigindo-se a Moore. - Ao que tudo indica, as suas férias foram canceladas.

- Tem a certeza de que isto é outra vez obra do nosso rapaz? - perguntou o detective.

A guisa de resposta, Tierney estendeu a mão para o lençol, afastando-o para trás e expondo o cadáver.

- O nome dela é Elena Ortiz.

Muito embora Moore se tivesse preparado para o que estava prestes a ver, o primeiro olhar que lançou à vítima teve o impacte de uma agressão física. O cabelo preto da mulher, baço e empastado devido ao sangue coagulado, estava espetado como cerdas de um porco-espinho, emoldurando um rosto azul-violáceo. Os lábios entreabertos pareciam ter ficado paralisados a meio de uma frase. O sangue já fora lavado do corpo, revelando os ferimentos abertos de extremidades arroxeadas na pele de um cinzento macilento. Havia dois ferimentos bem visíveis. O primeiro era um corte profundo à largura da garganta, que se estendia desde a orelha esquerda, cruzando-se com a carótida de modo a deixar ver a cartilagem da laringe. O golpe de misericórdia. O segundo corte situava-se na região inferior do abdómen. Este ferimento não fora infligido com a intenção de matar; tinha servido um objectivo inteiramente diverso.

Moore engoliu com dificuldade.

- Estou a ver por que razão me chamou, interrompendo as minhas férias.

- Sou eu quem chefia esta investigação - adiantou Rizzoli. Moore fez a leitura da nota de advertência no tom de voz dela; a

mulher estava a proteger o seu território. Ele compreendia o que dera origem àquela atitude: as farpas constantes e o cepticismo com que as mulheres das forças policiais se deparavam faziam com que fosse preciso muito pouco para se sentirem ofendidas. Verdade fosse dita, não tinha o menor desejo de a desafiar. Ambos teriam de trabalhar em cooperação naquele caso e, além disso, o jogo ia no início, cedo de mais para começarem a disputar o papel principal.

Quando lhe dirigiu a palavra, Moore teve o cuidado de manter um timbre de voz respeitoso.

- Importas-te de me pôr ao corrente das circunstâncias?

Rizzoli esboçou um breve aceno de cabeça.

- A vítima foi encontrada às nove horas desta manhã no apartamento onde vivia na Worcester Street, no South End. Habitualmente, costumava chegar ao trabalho por volta das seis da manhã, na Celebration Florists, à distância de alguns quarteirões da casa dela. Trata-se de Um negócio de família de que os pais são os proprietários. Quando ela não apareceu, todos começaram a ficar preocupados. O irmão foi a casa dela para ver o que se passava. Encontrou-a no quarto. O doutor Tierney calcula que a hora da morte se situa entre a meia-noite e as quatro desta madrugada. De acordo com o que a família diz, actualmente ela não tinha nenhum namorado e ninguém do prédio se lembra de ter visto quaisquer visitantes do sexo masculino. Tratava-se apenas de uma boa rapariga católica que trabalhava afincadamente.

Moore olhou para os pulsos da vítima.

- Ela foi imobilizada.

- Sim. Estava presa pelos pulsos e tornozelos com fita isoladora. Foi encontrada toda nua. Usava apenas algumas peças de joalharia.

- Que tipo de joalharia? - perguntou o detective.

- Um colar. Um anel. Brincos pequenos. O guarda-jóias que ela guardava no quarto não foi tocado. O roubo não constitui o motivo do crime.

Moore olhou para a zona pisada a toda a largura das ancas da vítima.

- O tronco também foi imobilizado - concluiu o detective.

- Com fita isoladora à volta da cintura e da região superior das coxas. E também na boca.

- Credo! - exclamou Moore, respirando fundo ao olhar fixamente para Elena Ortiz, enquanto pela mente lhe passava a imagem fugaz e estranha de uma outra jovem. Um outro cadáver: uma loura ferida com golpes fundos na garganta e no abdómen. - Diana Sterling - proferiu num murmúrio.

- Já fui buscar o relatório da autópsia da Diana Sterling - adiantou Tierney. - Para o caso de você precisar de o rever.

Moore não precisava de o fazer; o caso Sterling, cuja investigação ele chefiara, nunca se afastara por muito tempo dos seus pensamentos.

Um ano antes, Diana Sterling, uma mulher de trinta anos que trabalhava na Agência de Viagens Kendall e Lord, tinha sido encontrada nua e amarrada à cama com fita isoladora. A garganta e a região inferior do abdómen haviam sido esfaqueadas. Esse assassínio continuava por resolver.

O Dr. Tierney orientou o feixe de luz com que examinava o abdómen de Elena Ortiz. O sangue já fora lavado e as extremidades da incisão apresentavam uma coloração rosa esmaecida.

- Encontraram alguma prova?

- Recolhemos umas quantas fibras antes de a lavarmos. Também encontrámos um fio de cabelo agarrado ao ferimento.

- Pertencia à vítima? - perguntou Moore erguendo o olhar

com uma expressão de interesse renovado.

- Era muito mais curto. E castanho-claro. Elena Ortiz tinha cabelos negros.

- Já demos instruções para que se recolhessem fios do cabelo de toda a gente que tenha estado em contacto com o corpo - informou Rizzoli.

Tierney dirigiu a atenção de todos para o ferimento.

- O que temos aqui é um corte transversal. Os cirurgiões classificam isto de "incisão de Maylard". A parede abdominal foi perfurada camada a camada. Primeiro a pele, depois a faseia superficial, a seguir o músculo e, finalmente, o peritoneu pélvico.

- Como aconteceu com a Sterling - comentou Moore.

- Sim, como foi com a Sterling. Mas existem algumas diferenças.

- Que diferenças?

- No caso da Diana Sterling havia alguns entalhes na incisão, o que demonstra hesitação ou insegurança. Pormenores que não se verificam aqui. Está a ver a forma limpa como a incisão foi feita? Não existem irregularidades. Ele fez isto cheio de segurança - explicou Tierney cruzando o olhar com o de Moore. - O nosso homicida está a aprender. Já conseguiu melhorar a sua técnica.

- Isto é, se for o mesmo homicida - acrescentou Rizzoli.

- Existem outras similaridades. Está a ver a margem rectilínea nesta extremidade do ferimento? Indica que a incisão foi feita da direita para a esquerda. Como aconteceu com a Sterling. A lâmina da faca que foi utilizada neste golpe tinha um só gume e não era serri-lhada, à semelhança da lâmina que foi usada na Sterling.

- Como se fosse um bisturi?

- É consistente com um bisturi. A incisão limpa indica que não houve qualquer movimento de contorção aplicado à lâmina. A vítima estava inconsciente ou tinha os movimentos tão restringidos que não conseguia mexer-se, nem debater-se. Era impossível fazer com que a lâmina se desviasse de um trajecto linear. Barry Frost parecia prestes a vomitar.

- Caramba! Por favor, digam-me que ela já estava morta quando ele lhe fez isto.

- Lamento dizer-lhes mas este ferimento não foi efectuado depois da morte. - Os olhos verdes de Tierney eram a única parte visível da sua fisionomia acima da máscara e espelhavam bem a cólera que sentia.

- Houve alguma hemorragia antes da morte? - perguntou Moore.

- Houve uma acumulação de sangue na cavidade pélvica. O que indica que o coração ainda pulsava. Ela ainda estava viva quando este... procedimento teve lugar.

Moore olhou para os pulsos cheio de hematomas. À volta dos tornozelos viam-se nódoas negras semelhantes, assim como uma faixa de petéquias - pequenas marcas de sangue semelhantes a alfinetadas - a toda a largura das ancas. Elena Ortiz tinha-se debatido, tentando libertar-se do que a manietava.

- Existem outras provas que nos indicam que ela estava viva enquanto a incisão era feita - acrescentou Tierney. - Thomas, ponha a mão dentro do ferimento. Penso que sabe o que vai encontrar.

Com relutância, Moore inseriu a mão enluvada no ferimento aberto. Os tecidos estavam frios, uma frialdade que se devia a várias horas de refrigeração. Aquilo fê-lo recordar-se da sensação de meter a mão dentro da carcaça de um peru à procura do saco de plástico que continha as miudezas. Enfiou a mão até ao pulso, com os dedos a explorarem as extremidades do ferimento. Era uma violação de grande intimismo, uma invasão das partes mais recônditas da anatomia própria de uma mulher. Evitava olhar para o rosto de Elena Ortiz. Era a única maneira de poder observar os seus restos mortais com algum distanciamento, de conseguir concentrar-se na mecânica fria do que tinha sido feito ao seu corpo.

- Falta o útero - afirmou Moore olhando para Tierney.

- Foi removido - confirmou o patologista com um aceno de cabeça.

Moore retirou a mão do interior do corpo, ficando a olhar fixamente para o ferimento aberto, semelhante a uma boca sinistra. Foi a vez de Rizzoli enfiar a mão enluvada, os dedos curtos a explorarem o interior da cavidade.

- Mais algum órgão removido? - perguntou ela.

- Apenas o útero - respondeu Tierney. - Ele deixou a bexiga e o intestino intactos.

- O que é isto que estou a apalpar? Este nó pequeno e duro no lado esquerdo - acrescentou Rizzoli.

- É uma sutura que ele utilizou para atar os vasos sanguíneos.

Com uma expressão de espanto, Rizzoli ergueu o olhar.

- Isto é um nó cirúrgico?

- Fio de sutura categute número dois zero - aventurou-se Moore a dizer olhando para Tierney para que este confirmasse.

- O mesmo tipo de sutura que encontrámos na Diana Sterling - concordou Tierney com um aceno de cabeça.

- Fio de sutura categute número dois zero? - perguntou Frost numa voz sumida. Tinha recuado da mesa, colocando-se a um canto da sala, preparado para correr para o lavatório. - Isso é alguma marca ou qualquer coisa assim?

- Não, não é marca nenhuma - replicou Tierney. - O categute é um tipo de fio cirúrgico feito do intestino de bovinos ou ovinos.

- Sendo assim, por que razão lhe chamam categute? - perguntou Rizzoli.

- É uma expressão que remonta à Idade Média, quando se utilizava tripa para fazer cordas de instrumentos musicais. Na cirurgia, este tipo de sutura é utilizada para unir camadas profundas de tecido conjuntivo. Mais cedo ou mais tarde, o corpo fragmenta o material da sutura, absorvendo-o.

- E onde é que ele terá arranjado esse fio de sutura categute? - perguntou Rizzoli olhando para Moore. - Conseguiste descobrir a origem disso no caso da Sterling?

- É praticamente impossível identificar uma origem específica - retorquiu Moore. - O fio de sutura categute é fabricado por uma dúzia de empresas diferentes; a maior parte está localizada na Ásia. Continua a ser usado em grande número de hospitais no estrangeiro.

- Apenas em hospitais no estrangeiro?

- Actualmente temos alternativas melhores - respondeu Tierney. - O fio de categute não possui a resistência nem a durabilidade do material sintético para suturas. Duvido que existam muitos cirurgiões nos Estados Unidos que, actualmente, utilizem esse tipo de fio para suturas.

- Por que motivo o nosso homicida se deu ao trabalho de fazer essa sutura?

- Para manter o seu campo visual. Para controlar a hemorragia durante o tempo suficiente para poder ver o que estava a fazer. O nosso homicida é um homem muito cuidadoso.

Rizzoli retirou a mão de dentro do ferimento. Na palma enluvada trazia um pequeno coágulo de sangue, qual conta de um vermelho-vivo.

- Até que ponto ele é habilidoso? Estamos a falar de um médico? Ou de um carniceiro?

- É evidente que ele tem conhecimentos de anatomia - retrucou Tierney. - Não tenho a mínima dúvida de que esta não é a primeira vez que ele faz isto.

Moore recuou um passo, afastando-se da mesa e retraindo-se ao pensar no sofrimento por que Elena Ortiz teria passado, mas, apesar disso, continuava incapaz de banir aquelas imagens do pensamento. O resultado encontrava-se mesmo à sua frente, fitando-o através de olhos bem abertos.

Virou-se, sobressaltado, ao som do entrechocar dos instrumentos cirúrgicos no tabuleiro metálico. O assistente acabava de empurrar o tabuleiro para junto do Dr. Tierney que se preparava para efectuar a incisão de desbridamento. Naquele momento, o assistente mantinha-se inclinado para a frente, olhando fixamente para o ferimento aberto no abdómen.

- Então o que é que ele faz com isso? - perguntou. - Depois de tirar o útero, que destino é que lhe dá?

- Não sabemos - replicou Tierney. - Nunca encontrámos nenhum dos órgãos que ele removeu.

 

Moore deteve-se no passeio da zona de South End onde Elena Ortiz tinha morrido. Em tempos, aquela rua era ladeada por casas onde se alugavam quartos; uma área degradada, separada pelos carris do caminho-de-ferro da metade norte de Boston, bastante mais atraente. Mas uma cidade em crescimento é como uma criatura voraz, sempre à procura de novos terrenos, pelo que a via férrea não constitui barreira que trave o olhar rapace dos construtores civis. Uma nova geração de habitantes de Boston descobrira a zona de South End, pelo que as casas em que antigamente se alugavam quartos estavam a ser reconvertidas em prédios de apartamentos.

Elena Ortiz vivera num desses prédios. Apesar de a vista do apartamento no segundo andar não ser nada inspiradora - as janelas davam para uma lavandaria situada no lado oposto da rua -, o prédio possuía uma vantagem muito rara, e por isso preciosa, na cidade de Boston: estacionamento para os veículos dos inquilinos, um espaço apertado num beco adjacente.

Naquele momento, Moore percorria esse mesmo beco examinando as janelas dos apartamentos e perguntando a si mesmo quem naquela altura estaria a observá-lo. Nada se mexia por detrás dos vidros das janelas que pareciam olhos vitrificados. Os inquilinos cujas casas davam para aquela viela já haviam sido interrogados; nenhum deles adiantara qualquer informação útil.

Passou por baixo da janela da casa de banho de Elena Ortiz, olhando atentamente para a escada de emergência de acesso ao apartamento. A escada estava puxada para cima e fixa na posição retráctil. Na noite em que Elena Ortiz morrera, o automóvel de um dos inquilinos encontrava-se estacionado debaixo daquela mesma escada. Posteriormente, encontraram pegadas de sapatos de tamanho quarenta e três no tejadilho desse carro. O homicida tinha-se servido da viatura para conseguir chegar à escada de emergência que ficava mais acima.

Verificou que a janela da casa de banho estava fechada. Porém, na noite em que o assassino fora ao encontro de Elena Ortiz, essa janela não se encontrava fechada.

Moore saiu do beco, contornando o prédio até chegar à porta da frente, por onde entrou.

A toda a largura da porta do apartamento de Elena Ortiz viam-se pedaços pendentes de fita da polícia. Abriu a porta, sentindo que o pó utilizado para a recolha de impressões digitais ficava agarrado à sua mão. Quando entrou no apartamento, os pedaços de fita solta passaram-lhe por cima dos ombros.

A sala de estar permanecia como ele se recordava de a ter visto aquando da sua visita no dia anterior acompanhado de Rizzoli. Fora uma visita desagradável, o ambiente tenso devido à rivalidade existente entre os dois. A investigação do caso Ortiz começara sob a chefia de Rizzoli e ela era uma pessoa insegura ao ponto de se sentir ameaçada por alguém que desafiasse a sua autoridade, muito em especial um agente mais velho e do sexo masculino. Embora actualmente trabalhassem na mesma equipa, equipa essa que entretanto passara a ser composta por cinco detectives, Moore sentia-se como um intruso no território dela, o que o levava a ter a precaução de apresentar as suas sugestões com a maior diplomacia possível. Não sentia o mínimo desejo em entrar numa luta de egocentrismos, mas, não obstante esse cuidado, a situação tinha-se transformado nisso mesmo. Na véspera, ele tentara analisar o local onde aquele crime havia ocorrido, mas o ressentimento dela entravara constantemente a capacidade de concentração de Moore.

Apenas agora, a sós consigo próprio, é que conseguia concentrar toda a sua atenção no apartamento onde Elena Ortiz fora assassinada. Verificou que o mobiliário em redor de uma mesa de café em vime na sala de estar não condizia. A um canto havia uma mesa onde se via um computador. No soalho, um tapete bege com um padrão de trepadeiras e flores cor-de-rosa. Nada havia sido deslocado desde o homicídio, nada fora alterado, de acordo com o que Rizzoli atestava. A última luz do dia que entrava pela janela estava a esmorecer, mas nem por isso ele ligou a luz eléctrica. Ficou imobilizado durante muito tempo, sem sequer mexer a cabeça, à espera que uma quietude total reinasse na sala. Era a primeira oportunidade que tinha de examinar aquele local sozinho, a primeira vez que se encontrava ali sem ouvir as vozes nem ver os rostos dos vivos que lhe distraíam a atenção. Começou a imaginar as moléculas que formavam o ar, agitadas por breves momentos devido à sua entrada, mas que agora se aquietavam, suspensas no ar. Moore queria que a sala falasse consigo.

Não sentia o que quer que fosse. Nenhuma sensação de mal, nada de tremores remanescentes de terror.

O homicida não entrara pela porta. Nem vagueara pelo seu reino de morte. Havia concentrado todo o seu tempo, toda a sua atenção, no quarto.

Num passo lento, Moore passou pela cozinha exígua, começando a percorrer o corredor. Sentiu que os pêlos da nuca ficavam um pouco eriçados. Chegado à primeira ombreira deteve-se, olhando para o interior da casa de banho. Acendeu a luz.

A noite de quinta-feira está quente. Está tão quente que por toda a cidade as pessoas deixam as janelas abertas para permitir a entrada de qualquer brisa, de alguma lufada de ar fresco. Agachas-te nas escadas de emergência, a suar por dentro das roupas escuras, a olhar com fixidez para dentro desta casa de banho. Não se ouve o mais pequeno som; a mulher está a dormir no quarto. Tem de se levantar cedo para ir trabalhar na florista e a esta hora o seu ciclo de sono passa pela fase mais profunda, por aquela em que será mais difícil despertar.

Ela não ouve o arranhar do teu canivete enquanto soltas a rede da janela para poder entrar.

Moore observou o papel de parede com um padrão de pequeníssimos botões de rosa. Um padrão muito feminino, nada que um homem pudesse escolher. Sob todos os aspectos, aquela era a casa de banho de uma mulher, desde o champô com uma fragrância de morango, até à caixa de Tampax no armário por baixo do lavatório, passando pelo armário do espelho cheio de cosméticos. Uma sombra para os olhos em tom de água-marinha, muito feminina.

Entras pela janela e algumas fibras da tua camisa azul-escura ficam agarradas ao caixilho. Poliéster. Os teus ténis, tamanho quarenta e três, deixam pegadas no chão de linóleo branco, indicando por onde entraste. Deixas vestígios de areia misturada com partículas de gesso. Uma mistura típica no calçado de quem andou a pé pela cidade de Boston.

Talvez te detenhas para ouvir melhor na escuridão. Inalando o odor estranho e doce que paira no espaço habitado por uma mulher. Ou quem sabe se não terás ido direito ao assunto sem mais delongas.

O quarto.

O ar pareceu-lhe mais denso e mais desagradável enquanto trilhava as passadas do intruso. Era mais do que o sentido de algo maléfico, fruto da imaginação; era o cheiro que pairava no ar.

Moore chegou à porta do quarto. Naquele momento, os pêlos da nuca estavam completamente eriçados. Já sabia com o que iria deparar dentro do quarto; julgava estar preparado para isso. Quando acendeu as luzes, o horror assolou-o uma vez mais, tal como tinha acontecido quando vira aquele quarto pela primeira vez.

Naquele momento o sangue já tinha dois dias. O serviço de limpeza ainda não estivera ali. Porém, mesmo com todos os detergentes, máquinas de limpeza a vapor e latas de tinta branca, jamais seriam capazes de eliminar por completo o que ocorrera naquele quarto, porque o próprio ar possuía o cunho permanente do terror.

Franqueias a ombreira da porta e entras no quarto. Os cortinados são de um tecido fino, um algodão estampado sem forro, permitindo que a luz dos candeeiros de rua entre pela janela, iluminando a cama. Revelando a mulher adormecida. Com certeza que te detiveste por uns momentos para poder observá-la. Imaginando com prazer a tarefa que tinhas pela frente. Porque para ti esses momentos proporcionam-te satisfação, não é verdade? Cada vez te sentes mais excitado. O empolgamento começa a fluir pela tua corrente sanguínea, como se fosse uma droga, despertando todos os teus nervos, até que as pontas dos dedos pulsam com o prazer antecipado do que está prestes a acontecer.

Elena Ortiz nem sequer teve tempo para gritar. Ou, se por acaso gritou, ninguém a ouviu. Nem a família no apartamento contíguo, nem tão-pouco o casal por baixo da casa dela.

O intruso levou as suas próprias ferramentas. Fita isoladora. Um pano ensopado em clorofórmio. Um conjunto de instrumentos cirúrgicos. Completamente preparado.

O sofrimento devia ter-se prolongado por bastante mais de uma hora. Elena Ortiz mantivera-se consciente durante grande parte desse período. A pele dos pulsos e tornozelos apresentava escoriações, sinal de que ela se debatera. No seu pânico, na sua agonia, tinha perdido o controlo da bexiga e a urina ensopara o colchão, misturando-se com o seu próprio sangue. A operação fora deveras delicada e ele levara o seu tempo a fazê-la bem, a retirar apenas o que queria e nada mais.

Não a violara; talvez fosse fisicamente incapaz de o fazer.

Quando concluíra a sua excisão macabra, ela ainda estava viva. O ferimento pélvico continuava a sangrar, o coração ainda pulsava. Durante quanto tempo mais? O Dr. Tierney concluiu que durante, pelo menos, mais meia hora. Trinta minutos que para Elena Ortiz deviam ter parecido uma eternidade.

E o que é que tu fizeste durante esse tempo? Aproveitaste para arrumar os instrumentos? Colocaste o teu trofeu dentro de um boião de vidro? Ou deixaste-te ficar aqui, a apreciar a cena que se desenrolava diante de ti?

O último acto foi rápido e profissional. O torturador de Elena Ortiz tinha-se apoderado do que desejara e agora estava na altura de concluir o trabalho. Aproximara-se da cabeceira da cama. Com a mão esquerda, agarrara um punhado dos cabelos dela, arrepelando-os para trás com tanta força que lhe arrancara mais de duas dúzias de fios de cabelo. Estes foram encontrados mais tarde, espalhados pela almofada e no soalho. As manchas de sangue como que gritavam os derradeiros acontecimentos. Com a cabeça imobilizada e a garganta totalmente exposta, ele fizera um último golpe profundo que começara na região esquerda do maxilar, deslocando a faca para a direita à largura da garganta. Seccionara a artéria carótida esquerda e a traqueia. O sangue saíra em esguichos. Na parede à esquerda da cama viam-se aglomerados compactos de pequenas gotas circulares de sangue que haviam escorrido, o que condizia com pequenos jactos de sangue arterial, assim como com o derrame de sangue vindo da traqueia. A almofada e os lençóis estavam ensopados em sangue, que pingara para o chão. Viam-se várias gotículas que se haviam espalhado quando o intruso removera a faca, tendo caído no peitoril da janela.

Elena Ortiz ainda vivera o tempo suficiente para poder ver o seu próprio sangue a esguichar-lhe do pescoço, manchando a parede como se fosse um jacto vermelho expelido por uma metralhadora. Manteve-se viva enquanto aspirava o seu próprio sangue que entrou pela traqueia seccionada, para o ouvir a gorgolejar-lhe nos pulmões, expelindo-o depois pela força da tosse em jactos explosivos de muco-sidades carmesim.

Tinha vivido tempo suficiente para se aperceber da sua própria morte.

E depois de tudo concluído, depois de ela ter parado de se debater na agonia da morte, deixaste-nos um cartão-de-visita. Com todo o esmero, dobraste a camisa de noite da vítima, colocando-a em cima da cómoda. Porquê? Será isso alguma manifestação aberrante de respeito pela mulher que acabaste de mutilar? Ou será essa a tua maneira de troçares de nós? O teu modo de nos dares a saber que deténs o controlo da situação?

Moore voltou para a sala de estar, deixando-se cair numa poltrona. No interior do apartamento estava calor e o ar não circulava; no entanto, todo ele tremia. Não sabia se o frio que sentia se devia a factores de natureza física ou emocional. Estava com dores nas coxas e nos ombros, talvez estivesse a incubar algum vírus. Uma gripe de Verão, a pior espécie. Pensou em todos os lugares onde teria preferido estar naquele momento. Navegar ao sabor da corrente num lago do Maine, a lançar a linha da cana de pesca pelo ar. Ou num areal a observar o nevoeiro que se aproximava vindo do mar. Tudo menos aquele cenário de morte.

O som do bíper, sobressaltou-o. Desligou-o, apercebendo-se de que o coração lhe batia aceleradamente. Forçou-se a acalmar-se antes de pegar no telemóvel, marcando o número de quem lhe ligara.

- Rizzoli - disse ela quando atendeu ao primeiro toque, com uma saudação tão directa como uma bala.

- Contactaste-me através do bíper - retorquiu Moore.

- Nunca me disseste que recorreste à base de dados do vicap - disse ela.

- De que estás a falar?

- Da Diana Sterling. Neste preciso momento estou a olhar para o relatório referente ao homicídio dela.

O vicap, Violent Criminais Apprehension Program1, era uma base de dados a nível nacional que continha toda a espécie de informações relativa aos crimes de homicídio e agressão, recolhidas em todo o território dos Estados Unidos. Era frequente que os assassinos repetissem os mesmos padrões de comportamento e era com base nesses dados que os investigadores podiam estabelecer pontos de ligação entre crimes cometidos pela mesma pessoa. Por uma questão de procedimento rotineiro, Moore e o seu parceiro na altura, Rusty Stivack, tinham iniciado a investigação com a procura de dados no VICAP.

- Não encontrámos nenhuns dados equiparados na Nova Inglaterra - adiantou Moore. - Revimos todos os homicídios em que houve mutilação, entrada nocturna forçada e imobilização da vítima com fita isoladora. Nada do que encontrámos se ajusta ao perfil de quem assassinou a Sterling.

- E com respeito à série de crimes na Geórgia? Foram cometidos há três anos e houve quatro vítimas. Uma em Atlanta e três em Savannah. São homicídios que constam da base de dados do vicap.

- Já revi esses casos. O assassino não é o nosso homicida.

- Ouve isto, Moore. Dora Ciccone, vinte e dois anos, estudante em Emory. Vítima dominada primeiro com Rohypnol e depois presa à cama com uma corda de náilon...

- O nosso tipo prefere recorrer ao clorofórmio e à fita isoladora.

- Ele abriu o abdómen dela à facada. Procedeu à excisão do útero. Executou o golpe de misericórdia... um único golpe à largura da garganta. E, finalmente... presta atenção a isto, dobrou a roupa de dormir e deixou as peças em cima de uma cadeira à beira da cama. Estou a dizer-te, são bastantes paralelos.

- Os casos da Geórgia foram encerrados - retorquiu Moore. - Há já dois anos. Esse criminoso está morto.

- E se o Departamento da Polícia de Savannah meteu água? E se esse não fosse o assassino que eles procuravam?

- Eles possuíam o ADN para poder confirmar a autoria dos assassínios. Fibras e cabelos. Além disso, dispunham de uma testemunha. Uma vítima que conseguiu sobreviver.

- Sim, sim. A sobrevivente. A vítima número cinco - retrucou Rizzoli num timbre de voz estranhamente trocista.

- Ela confirmou a identidade do homicida - adiantou Moore.

- E também... de forma muito conveniente..., conseguiu alvejá-lo mortalmente, não foi?

- E depois? Queres prender o fantasma do homem?

- Alguma vez tiveste oportunidade de falar com a vítima que sobreviveu? - perguntou Rizzoli.

- Não - reconheceu Moore.

- Porque não?

- De que é que isso serviria?

- Podia servir para obteres algumas informações de interesse. Como, por exemplo, o facto de ela ter saído de Savannah pouco depois de ter sido atacada. E adivinha onde é que está a viver neste momento?

Por entre o barulho em surdina que ecoava no telemóvel, Moore ouvia o reverberar da sua própria pulsação.

- Em Boston? - perguntou em voz baixa.

- E nem vais acreditar no que ela faz para ganhar a vida.

 

A Dra. Catherine Cordell correu pelo corredor do hospital, com as solas dos ténis a rangerem no chão de linóleo, e empurrou as portas duplas que davam acesso às urgências.

- Estão na Secção de Traumatizados, Sala Dois, doutora Cordell! - gritou-lhe uma enfermeira.

- Já estou a ir para lá - replicou Catherine deslocando-se como se fosse um míssil teleguiado, seguindo a direito para a secção indicada.

Houve meia dúzia de rostos que a olharam de fugida com expressões de alívio por a verem nas urgências. Com um único olhar, fez uma análise rápida da situação, observando a confusão de instrumentos cirúrgicos que reflectiam a luz num tabuleiro, os suportes altos para a administração de soluções intravenosas com sacos de lactato de Ringer suspensos, quais frutos maduros que pendessem de árvores feitas de varões metálicos, gaze manchada de sangue e invólucros rasgados espalhados pelo chão. Num monitor via-se a linha trémula que mostrava o ritmo cardíaco - o padrão eléctrico do pulsar de um coração que corria à desfilada para se manter à frente da morte.

- O que é que temos aqui? - perguntou a médica enquanto o pessoal de serviço nas urgências se afastava dando-lhe passagem.

Ron Littman, o cirurgião-chefe de banco fez-lhe o ponto da situação em poucas palavras.

- Transeunte atropelado por um condutor que se pôs em fuga. Chegou inconsciente. As pupilas estão iguais e reactivas, os pulmões estão limpos, mas tem o abdómen distendido. Não se ouvem sons intestinais. A tensão arterial baixou para zero. Fiz uma paracentese. Ele tem uma hemorragia interna abdominal. Já lhe inseri uma sonda, a administração do lactato de Ringer está no máximo, mas não conseguimos fazer com que a tensão arterial suba.

- O sangue O negativo e o plasma congelado estão a caminho?

- Devem chegar dentro de um minuto.

O homem deitado na mesa de observações estava completamente nu, com todos os pormenores mais íntimos da sua anatomia expostos impiedosamente perante os olhos dela. Aparentava ter cerca de sessenta anos; já fora intubado e estava ligado a um ventilador. Os músculos flácidos pendiam em dobras nos membros excessivamente magros e as costelas salientavam-se como lâminas arqueadas. Ela deduziu que o homem sofria de uma qualquer doença crónica; um cancro era a primeira probabilidade que lhe surgia. O braço direito e a coxa apresentavam várias escoriações ensanguentadas devido à pele ter ficado esfolada pelo atrito com o asfalto. Na região inferior no lado direito do peito via-se uma mancha arroxeada no branco macilento da pele. À primeira vista não havia qualquer ferimento profundo.

A médica pegou no estetoscópio para confirmar o que o colega de serviço tinha acabado de lhe dizer. Não ouviu qualquer som vindo do ventre. Nem um único grunhido, ruído absolutamente nenhum. O silêncio próprio de intestinos que haviam sofrido um grande trauma. Deslocou o diafragma do estetoscópio para o peito, procurando ouvir os sons da respiração, confirmando que o tubo endotraqueal fora inserido de maneira adequada e que os dois pulmões estavam a ser devidamente ventilados. O coração batia como um punho fechado contra a parede do peito. Completou o exame em escassos segundos, apesar de ter a impressão de que os seus movimentos se faziam ao retardador e a sensação de que em seu redor todo o pessoal médico que enchia a sala se imobilizara no tempo, à espera da sua próxima acção.

- Mal consigo obter um valor sistólico de cinquenta! - gritou uma das enfermeiras.

O tempo avançava a passos ameaçadoramente gigantescos.

- Arranjem-me uma bata e luvas - pediu Catherine. - Abram o tabuleiro de laparotomia.

- Não seria melhor levá-lo para o bloco operatório? - sugeriu Littman.

- Todas as salas estão a ser utilizadas. Não podemos esperar. - Houve alguém que lhe atirou uma touca descartável de cirurgia. Rapidamente, ela protegeu os cabelos ruivos que lhe davam pelos ombros e cobriu parte do rosto com uma máscara que atou. A enfermeira de cirurgia já lhe estendia uma bata esterilizada. Catherine enfiou os braços nas mangas e calçou as luvas. Não tinha tempo para lavar as mãos, não podia perder um segundo que fosse. Era a médica responsável e aquele desconhecido estava prestes a morrer-lhe nas mãos.

Apressadamente, o peito e a região pélvica do paciente foram cobertos por panos esterilizados. Ela pegou nos instrumentos que estavam no tabuleiro, a fim de proceder a uma hemostasia e, com rapidez, prendeu os panos no seu devido lugar, apertando os dentes de metal com o ruído característico até ficar satisfeita.

- Onde é que está esse sangue? - perguntou em voz alta.

- Estou a ligar para o laboratório agora mesmo - respondeu uma das enfermeiras.

- Ron, vais ser o assistente principal - indicou Catherine dirigindo-se a Littman. Com o olhar, abarcou a sala detendo-se num homem de rosto macilento que se mantinha junto da porta. A chapa de identificação que trazia ao peito dizia: Jeremy Barrows, Estudante de Medicina. - Você - chamou a médica - vai ser o segundo assistente!

O pânico espelhou-se nos olhos do jovem.

- Mas... eu sou apenas um aluno do segundo ano. Estou aqui só para...

- Arranja-se outro cirurgião interno que venha já?

- Estão todos a trabalhar - respondeu Littman com um aceno de cabeça. - Na Sala de Traumatizados Um estão a tratar de uma lesão craniana e, ao fundo do corredor, a tentar reanimar um paciente.

- Estou a ver. - Voltou a olhar para o estudante de Medicina. - Barrows, vai ter de entrar em acção; vista uma bata e calce luvas.

- E o que é que tenho de fazer? Porque... para dizer a verdade... eu não sei...

- Ouça uma coisa, você não quer vir a ser médico? Então, vá calçar as luvas!

O homem, com a cara ao rubro, virou-se para vestir uma bata esterilizada. Era evidente que estava assustado, mas, sob muitos aspectos, Catherine preferia um universitário escrupuloso como Barrows a uma pessoa arrogante. Já vira um número excessivo de doentes que haviam morrido devido ao excesso de confiança de alguns médicos.

Começou a ouvir-se uma voz através do sistema de intercomunicação:

- Traumatizados Dois, estão a ouvir-me? Fala do laboratório. Já tenho o resultado da análise hematócrita do doente desconhecido. O valor é de quinze.

Ele vai esvair-se em sangue, pensou Catherine.

- Precisamos desse sangue O negativo imediatamente!

- Já vem a caminho.

Catherine estendeu a mão para o bisturi.

O peso do cabo e os contornos do aço proporcionavam-lhe um sentimento de segurança. Era como se fosse uma extensão da sua própria mão, do seu próprio corpo. Respirou fundo e rapidamente, inalando o cheiro a álcool misturado com o de pó de talco. Em seguida, fez pressão com a lâmina sobre a pele, começando a fazer a incisão sempre a direito em direcção ao abdómen.

O bisturi traçava uma linha com um sangue muito vivo, como se a pele branca fosse uma tela.

- Preparem as compressas para a laparotomia e sucção - instruiu ela. - Temos uma barriga cheia de sangue.

- A tensão arterial mal chega aos cinquenta.

- Estão aqui o O negativo e o plasma congelado! Vou pendurá-lo imediatamente.

- Alguém que fique de olho no ritmo cardíaco. Vão-me pondo a par da situação - ordenou Catherine.

- Os valores tacométricos do seio coronário indicam cento e cinquenta.

Catherine começou a fazer a incisão em profundidade, cortando a camada subcutânea e ignorando o sangue que vinha da parede abdominal. Não queria perder tempo com pequenas hemorragias; a hemorragia mais grave encontrava-se no interior do abdómen e essa é que teria de ser estancada. A origem mais provável era a ruptura do baço ou do fígado.

A membrana do peritoneu estava intumescida, tensa devido à grande quantidade de sangue.

- Isto vai ficar muito sujo - avisou ela com a lâmina do bisturi a postos para a penetração. Apesar de estar preparada para o jorro de sangue, aquela primeira perfuração da membrana libertou um jacto tão explosivo que ela sentiu um baque de pânico. O sangue ensopou os panos, começando a derramar-se pelo chão. Salpicou-lhe a bata, ensopando as mangas, cálido como a água de um banho com uma fragrância metalina a cobre. Mas continuou a correr, semelhante a um rio de águas acetinadas.

Apressou-se a aplicar os retractores, alargando a abertura da incisão e expondo a região em que operava. Littman inseriu o cateter de sucção. O sangue começou a gorgolejar no interior do tubo. Um jorro vermelho vivo entrou de rompante no reservatório de vidro.

- Mais compressas de laparotomia! - gritou Catherine para se fazer ouvir acima do barulho da sucção. Já aplicara meia dúzia de compressas absorventes no interior da incisão, ficando a ver como de imediato passavam de branco a vermelho. Ao cabo de alguns segundos estavam saturadas. Retirou-as para as substituir por compressas novas, aplicando-as nos quatro quadrantes.

- Estou a ver contracções ventriculares permaturas no monitor! - alertou uma enfermeira.

- Merda! Já tirei dois litros para o reservatório - disse Littman.

Catherine ergueu o olhar, vendo dois sacos de sangue O negativo

e plasma congelado que gotejavam numa sucessão rápida para dentro do tubo de administração intravenosa. Era como deitar sangue através de uma peneira. Entrava para as veias, saindo logo de imediato pela incisão. Não conseguiam suprir a perda hemorrágica. Catherine não era capaz de laquear os vasos sanguíneos que se encontravam submersos numa poça de sangue; na verdade, era-lhe impossível operar sem ver o que estava a fazer.

Retirou as compressas da laparotomia, ensopadas e a pingar, aplicando compressas novas. Durante uns preciosos segundos, conseguiu ver alguns pontos de referência. O sangue escorria do fígado; contudo, não via nenhuma lesão localizada. Dava a impressão de que o sangue escorria de toda a superfície do órgão.

- A tensão arterial está a baixar! - gritou uma das enfermeiras.

- Pinça hemostática! - pediu Catherine, ansiosa. De imediato, o instrumento foi colocado na sua mão. - Vou tentar uma manobra de Pringle. Barrows, aplique mais compressas!

Sobressaltado e forçado a entrar em acção, o estudante estendeu a mão para o tabuleiro, derrubando uma pilha de compressas de laparotomia. Ficou a olhar horrorizado enquanto elas tombavam para o chão.

Uma enfermeira apressou-se a abrir uma nova embalagem.

- As compressas devem ser aplicadas no paciente e não no chão

- ralhou ela em tom desabrido, enquanto o seu olhar se cruzava com o de Catherine; a expressão nos olhos das duas mulheres espelhava o mesmo pensamento.

Este rapaz vai ser médico?

- Onde é que as ponho? - perguntou Barrows.

- Só precisa de limpar o meu campo de visão. Não consigo ver nada com tanto sangue!

Catherine deu-lhe alguns segundos para ele poder absorver o sangue acumulado na região em que estava a operar; em seguida, recomeçou a trabalhar, atingindo e afastando o omento menor. Orientando a pinça hemostática a partir do lado esquerdo, a médica identificou o pedículo hepático, através do qual passavam a artéria do fígado e a veia porta. Tratava-se apenas de uma solução temporária, mas, se ela fosse capaz de estancar o fluxo de sangue naquela altura, talvez conseguisse controlar a hemorragia. Aquela operação proporcionar-lhes-ia um tempo precioso para poderem estabilizar a tensão arterial, assim como para compensar a perda de sangue e plasma na corrente sanguínea.

Apertou o torniquete até o fechar, prendendo os vasos sanguíneos do pedículo.

Porém, para sua grande perplexidade, continuava a haver uma enorme quantidade de sangue derramado, uma hemorragia que se recusava a ceder.

- Tens a certeza de que laqueaste o pedículo? - perguntou Littman.

- Sei que o laqueei. E também sei que este sangue não vem do retroperitoneu.

- Talvez venha da veia hepática, não?

Catherine agarrou em duas compressas de laparotomia que tirou do tabuleiro. A próxima manobra era a sua última hipótese. Aplicando as compressas sobre a superfície do fígado, começou a apertar o órgão entre as mãos enluvadas.

- O que é que ela está a fazer? - perguntou Barrows.

- Compressão hepática - explicou Littman. - Por vezes é uma medida que serve para fechar as extremidades de lesões que não são visíveis. E contém o derrame de sangue.

Todos os músculos dos braços e ombros de Catherine estavam tensos devido ao esforço de manter a pressão para estancar a hemorragia.

- Continua a acumular-se - informou Littman. - Isso não está a dar resultado.

Ela ficou a olhar para a incisão aberta, observando, impotente, o sangue que voltava a acumular-se. De onde diabo viria todo aquele sangue?, perguntou-se ela. Subitamente, verificou que a hemorragia vinha de outras partes do corpo. Não era proveniente apenas do fígado, mas também das paredes abdominais, assim como do mesentério. Das extremidades da pele da incisão.

Olhou para o braço esquerdo do paciente que saía por baixo dos panos esterilizados. A compressa de gaze que cobria o ponto de entrada da sonda intravenosa estava saturada de sangue.

- Quero seis unidades de plaquetas e plasma congelado de imediato! - ordenou a médica. - E comecem a fazer uma transfusão de heparina. Dez mil unidades administradas por via intravenosa e depois passamos a mil unidades por hora.

- Heparina? - perguntou Barrows como se não quisesse acreditar no que ouvia. - Mas ele está a sangrar...

- Isto é um caso de coagulação intravascular disseminada - declarou Catherine. - Ele precisa de um anticoagulante.

Littman olhava fixamente para ela.

- Ainda não temos os resultados do laboratório. Portanto, como podes saber que se trata de coagulação intravascular disseminada?

- Quando recebermos os resultados das análises aos factores de coagulação será tarde de mais. Temos de agir agora - Com estas palavras, fez um aceno de cabeça dirigido à enfermeira. - Pode proceder à administração.

À enfermeira espetou a agulha no ponto de entrada da administração por via intravenosa. A heparina era como um lançar desesperado de dados. Se o diagnóstico de Catherine estivesse correcto, se o paciente sofresse efectivamente de coagulação intravascular disseminada, isso significava que havia pequenas tromboses em quantidades maciças ao longo de toda a corrente sanguínea, semelhante a uma tempestade de granizo microscópico, consumindo todos os factores de coagulação e plaquetas que eram tão indispensáveis. Os traumas graves, infecções ou doenças cancerosas subjacentes podiam desencadear uma torrente descontrolada de tromboses. Porque a coagulação intravascular disseminada consumia todas as plaquetas e factores de coagulação, elementos indispensáveis para que o sangue pudesse coagular, o paciente em questão começaria a sofrer de hemorragias. Para estancar a coagulação intravascular disseminada era preciso administrar heparina, um anticoagulante. Era um tratamento estranhamente paradoxal. Também era um grande risco. Caso o diagnóstico de Catherine estivesse errado, a heparina só serviria para acelerar o processo hemorrágico.

Como se as coisas pudessem piorar mais do que já estão, Catherine sentia dores nas costas e os braços tremiam-lhe devido ao esforço que fazia para manter a pressão sobre o fígado. Uma gota de suor escorreu-lhe pela bochecha, sendo logo absorvida pela máscara.

O funcionário do laboratório voltou a fazer-se ouvir através do sistema de intercomunicação.

- Traumatizados Dois, já tenho os resultados das análises do paciente desconhecido.

- Continue - disse a enfermeira.

- A contagem das plaquetas está reduzida a um milhar. O tempo das protrombinas subiu para trinta e ele acusa a existência de elementos de degradação na fibrina. Ao que tudo indica, o vosso doente sofre de um caso agudo de coagulação intravascular disseminada.

Catherine apercebeu-se da expressão de espanto nos olhos de Barrows. É tão fácil impressionar os estudantes de medicina.

- Taquicardia ventricular! Ele está em taquicardia ventricular!

O olhar de Catherine fixou-se imediatamente no monitor. A toda a largura do ecrã via-se uma linha dentada e irregular.

- Qual é a tensão arterial?

- Nenhuma. Perdi a contagem.

- Comecem a fazer reanimação cardiopulmonar. Littman, ficas responsável por isso.

O caos instalou-se como uma tempestade, um remoinho à volta dela cuja violência se intensificava. Entretanto apareceu um estafeta a correr que trazia o plasma congelado, além de plaquetas. Catherine ouviu Littman dar instruções para que lhe trouxessem fármacos cardíacos, viu uma enfermeira colocar as mãos no esterno do paciente, começando a fazer pressão, com a cabeça a acenar para cima e para baixo ao ritmo de um pássaro mecânico a beber água. Com cada compressão cardíaca, procediam à irrigação do cérebro, mantendo-o com vida. Também estavam a alimentar a hemorragia.

Catherine olhava fixamente para a cavidade abdominal do homem. Continuava a comprimir o fígado, processo que lhe permitia evitar o surgimento de uma onda de sangue. Estaria ela a imaginar ou o sangue que tinha escorrido pelos seus dedos como fitas sedosas parecia estar a fluir com menos intensidade?

- Vamos dar-lhe um choque - sugeriu Littman. - Cem joules...

- Não, espera. O ritmo cardíaco está a voltar! - Catherine olhou para o monitor. O seio coronário acusava batimento taquicardíaco! O coração tinha voltado a pulsar, mas também estava a forçar o fluxo de sangue nas artérias.

- Estamos a irrigar o cérebro? - perguntou Catherine. - Qual é a tensão arterial?

- A tensão arterial está... a noventa, quarenta. Conseguimos]

- O batimento cardíaco estabilizou. Estamos a manter o valor taquicárdico do seio coronário.

Catherine olhou para o abdómen aberto. A hemorragia tinha abrandado consideravelmente, restando apenas um escorrimento sanguíneo quase imperceptível. Manteve as mãos sobre o fígado, ouvindo os sinais sonoros estáveis que vinham do monitor. Era como música para os seus ouvidos.

- Pessoal - disse ela -, acho que acabámos de salvar uma vida.

Catherine despiu a bata ensanguentada, descalçou as luvas e seguiu atrás da maca que levava o paciente desconhecido para fora da Sala de Traumatizados Dois. Sentia tremores nos músculos dos ombros, tal a fadiga que se apoderara de si, mas era uma fadiga positiva. A exaustão após a vitória. As enfermeiras empurravam a maca na direcção do elevador, transferindo o seu paciente para a Unidade de Cuidados Intensivos de Cirurgia. Catherine também se aprontava para entrar no elevador quando ouviu alguém chamar pelo seu nome. Virou-se para trás e viu aproximarem-se um homem e uma mulher. A mulher era baixa e mostrava uma expressão aguerrida, uma morena de olhos negros como carvão, senhora de um olhar tão directo como raios laser. Envergava um fato azul de corte clássico que lhe dava um aspecto quase militar. Parecia uma anã ao lado do homem que a acompanhava. Este andaria a meio da casa dos quarenta e o cabelo escuro já mostrava alguns fios prateados. A maturidade tratara de talhar alguns vincos profundos no que continuava a ser um rosto de feições notavelmente atraentes. Mas foi nos olhos que Catherine se concentrou. Eram de um cinzento aveludado e expressão imperscrutável.

- Doutora Cordell? - perguntou ele.

- Sim - confirmou Catherine.

- Sou o detective Thomas Moore. Esta é a detective Rizzoli. Somos da Brigada de Homicídios - disse ele ao mesmo tempo que lhe apresentava o crachá, mas se tivesse sido uma réplica barata de plástico o efeito teria sido o mesmo. Ela mal olhou para o crachá; todo o seu poder de concentração estava assestado em Moore. - Podemos falar consigo em particular? - perguntou o detective. Ela olhou para as enfermeiras que esperavam no elevador juntamente com o doente.

- Não esperem por mim - disse-lhes a médica. - O doutor Littman tratará de vos dar instruções.

Só depois de a porta do elevador se ter fechado é que ela se dirigiu ao detective Moore.

- O que o traz aqui tem alguma coisa a ver com a vítima de atropelamento e fuga que acabou de dar entrada? Porque, ao que tudo indica, ele vai conseguir escapar.

- Não estamos aqui por causa de nenhum doente.

- Mas disse que eram da Brigada de Homicídios, não foi?

- Sim - confirmou Moore num tom de voz cuja serenidade a alarmou. Um aviso gentil para que se preparasse para receber más notícias.

- Isto tem alguma coisa a ver... Oh, meu Deus, só espero que não seja nada relacionado com alguém que eu conheça.

- O assunto de que queremos falar-lhe diz respeito a Andrew Capra. E ao que lhe aconteceu em Savannah.

Por breves momentos, ficou incapaz de falar. Subitamente sentiu as pernas entorpecidas, recuando para se encostar à parede, como se precisasse de se apoiar para não cair no chão.

- Doutora Cordell? - perguntou Moore, preocupado. - Sente-se bem?

- Penso... penso que é melhor falarmos no meu gabinete - retorquiu ela numa voz que mal se ouvia. Abruptamente, deu meia volta e começou a andar, afastando-se das Urgências. Não olhou para trás a fim de ver se os detectives a seguiam; limitou-se a continuar a caminhar num passo apressado em direcção à segurança que o seu gabinete, situado no edifício clínico contíguo, lhe proporcionaria. Ouvia os passos dos dois logo atrás de si enquanto atravessava o vasto complexo que era o Centro Médico Pilgrim.

O que é que te aconteceu em Savannah!

Ela não queria falar sobre aquele assunto. Albergara a esperança de nunca mais se ver forçada a abordar aquele tema com quem quer que fosse, nunca mais. Mas eram agentes da polícia e as suas perguntas não podiam ser evitadas.

Finalmente, chegaram a um conjunto de gabinetes em cuja porta se lia:

Doutor Peter Falco, Doutora Catherine Cordell Cirurgia Geral e Vascular

Catherine entrou no gabinete da frente; com um sorriso mecanizado de saudação, a recepcionista ergueu o olhar. O sorriso meio esboçado imobilizou-se nos seus lábios quando viu a palidez de mármore no rosto de Catherine e reparou nos dois desconhecidos que acompanhavam a médica.

- Doutora Cordell? Aconteceu alguma coisa?

- Estaremos no meu gabinete, Helen. Por favor, não me passe nenhum telefonema.

- O seu primeiro paciente está marcado para as dez horas. E o senhor Tsang, o que foi submetido a uma esplenectomia...

- Cancele a consulta - disse Catherine, cortando-lhe a palavra.

- Mas ele tem de fazer uma longa viagem de automóvel, vem de Newbury. O mais certo é já estar a caminho.

- Nesse caso, peça-lhe que espere. Mas, por favor, não me passe nenhuma chamada.

Ignorando o olhar de assombro de Helen, Catherine dirigiu-se directamente para o seu gabinete. Moore e Rizzoli apressaram-se a seguir atrás dela. A primeira coisa que fez foi estender a mão para a bata branca. Mas verificou que não estava pendurada na porta onde a deixava sempre. Era apenas uma frustração de somenos importância, mas a verdade é que, adicionada à perturbação que já se apoderara dela, aquela contrariedade era quase demasiado para poder suportar. Com a vista, abarcou todo o interior do gabinete, procurando a bata como se a sua vida dependesse daquilo. Viu que estava pendurada por cima do arquivo, experimentando uma sensação de alívio irracional quando lhe pegou e se sentou à sua secretária. Aí sentia-se mais segura, como que barricada por detrás da superfície de pau-rosa bem polido. Em segurança e controlando a situação.

Aquele espaço estava escrupulosamente arrumado, da mesma maneira que tudo na sua vida se encontrava organizado. Tinha muito pouca tolerância para o desmazelo, o que se reflectia nas pastas dos seus processos clínicos, colocados em duas pilhas em cima da secretária. Os livros estavam organizados por ordem alfabética segundo o nome do autor, arrumados nas prateleiras. O computador zunia em surdina, enquanto o screen saver mostrava desenhos geométricos no monitor. Vestiu a bata para cobrir a parte de cima da roupa do bloco cirúrgico, manchada de sangue. Aquela peça adicional de vestuário profissional era como outro escudo de protecção, outra barreira que a defendia dos caprichos perigosos e tumultuosos da vida.

Sentada por detrás da secretária, observava Moore e Rizzoli, que com o olhar inspeccionavam o interior do seu gabinete; sem dúvida que estariam a tentar avaliar a pessoa que trabalhava naquele espaço. Aquela rápida observação visual seria uma reacção automática dos agentes, a fim de avaliar a personalidade da pessoa em que estavam interessados? Catherine sentiu-se exposta e vulnerável.

- Compreendo que ter de voltar a abordar este assunto seja bastante penoso para si - disse Moore enquanto se sentava.

- Não faz a mínima ideia do quanto me é desagradável. Já passaram dois anos. Por que razão querem voltar a essa questão?

- Diz respeito a dois homicídios que estão por resolver e que foram cometidos aqui, em Boston.

- Mas eu fui atacada em Savannah - replicou Catherine franzindo a testa.

- Sim, estamos a par disso. Mas existe uma base de dados a nível nacional, o Programa para a Detenção de Criminosos Violentos. Quando efectuámos uma pesquisa nessa base de dados, com vista a procurar crimes com características similares às que encontrámos nestes dois casos, surgiu-nos o nome de Andrew Capra.

Catherine ficou em silêncio por uns momentos, como se estivesse a registar aquela informação; chamou a si a coragem necessária para fazer a pergunta lógica seguinte, e fê-la com ar calmo.

- Que similaridades são essas de que está a falar?

- A maneira como as mulheres foram imobilizadas e dominadas. O tipo de instrumento de corte que foi utilizado. O... - Moore fez uma pausa, tentando encontrar as palavras apropriadas para pôr a questão do modo mais delicado possível. - A maneira como a mutilação foi feita - concluiu em voz baixa.

Catherine agarrou a borda do tampo da secretária com as duas mãos, fazendo um esforço tremendo para controlar uma vaga repentina de náuseas. O seu olhar desceu até à pilha de pastas ordenadas diante de si. Reparou numa mancha de tinta azul que sujara a manga da bata branca. Por muito que tentes manter a tua vida em ordem, por muito cuidadosa que sejas para evitares cometer quaisquer erros, por mais que te defendas das imperfeições, existe sempre uma nódoa qualquer, uma falha, que se mantém oculta nas sombras. À espera de te surpreender.

- Fale-me desses dois casos - pediu ela. - Dessas duas mulheres.

- Não estamos autorizados a revelar grande coisa - retorquiu Moore.

- O que é que podem dizer-me?

- Não mais do que aquilo que foi publicado na edição do Globe de domingo.

Catherine precisou de alguns segundos para processar mentalmente o que ele acabara de lhe dizer. Incrédula, retraiu-se.

- Esses assassínios cometidos em Boston... são recentes?

- O último ocorreu às primeiras horas de sexta-feira.

- Isso significa que não existe qualquer relação com o Andrew Capra! Esse assunto não tem nada a ver comigo.

- Mas existem semelhanças extraordinárias, insisto.

- Sim, mas só podem ser coincidências. Nada mais. Pensei que estivesse a referir-se a crimes antigos. Qualquer coisa que o Capra tivesse feito há vários anos. Não na semana passada. - Abruptamente, Catherine arrastou a cadeira para trás. - Não estou a ver em que posso ser-lhes útil.

- Doutora Cordell, este assassino está a par de pormenores que nunca foram do conhecimento público. Possui informações relativas às agressões do Capra de que ninguém tem conhecimento, a não ser que tivesse estado envolvido na investigação de Savannah.

- Sendo assim, talvez fosse preferível procurar junto dessas pessoas. As que estão a par do assunto.

- A senhora é uma delas, doutora Cordell.

- No caso de se ter esquecido, eu fui a vítima.

- Por acaso falou pormenorizadamente do seu caso com alguém?

- Apenas com a polícia de Savannah.

- Não falou sobre o assunto com pessoas amigas, contando-lhes os pormenores?

- Não - respondeu Catherine.

- Com a sua família? - insistiu Moore.

- Não - repetiu ela.

- Deve ter havido alguém a quem tenha feito confidências.

- Não costumo falar sobre esse assunto. Nunca o abordo.

- Nunca? - perguntou Moore olhando para ela com uma expressão de perplexidade.

- Nunca - confirmou Catherine num murmúrio desviando o olhar.

Fez-se um longo silêncio que Moore quebrou perguntando numa voz suave:

- Alguma vez ouviu falar de Elena Ortiz?

- Não - respondeu Catherine.

- De Diana Sterling?

- Não. Foram essas as mulheres que...

- Sim. São as duas vítimas.

- Nunca ouvi falar nesses nomes - acrescentou Catherine engolindo com dificuldade.

- Não tinha conhecimento destes assassínios? - continuou Moore.

- Evito ler as notícias relacionadas com acontecimentos trágicos. São coisas com que lido com extrema dificuldade - replicou Catherine respirando fundo, nitidamente perturbada. - Com certeza que compreende que sou forçada a ver situações deveras trágicas no Serviço de Urgência. Quando chego a casa ao fim do dia, só quero paz e sossego. É sentir-me em segurança. O que se passa no mundo... toda a violência... é algo de que não preciso de me inteirar.

Moore levou a mão à algibeira do casaco de onde tirou duas fotografias que fez deslizar sobre o tampo da secretária, colocando-as diante dela.

- Reconhece alguma destas mulheres?

Catherine olhou fixamente para os dois rostos. A da esquerda tinha olhos escuros e um sorriso nos lábios, com o vento a agitar-lhe os cabelos. A outra era uma loura etérea que mostrava uma expressão sonhadora e distante.

- A de cabelos escuros chama-se Elena Ortiz - informou Moore. - A outra é a Diana Sterling. A Diana foi assassinada há um ano. Algum destes rostos lhe é familiar?

Catherine respondeu-lhe com um abanar de cabeça.

- A Diana Sterling vivia em Back Bay. Apenas a cerca de oitocentos metros da sua residência. O apartamento da Elena Ortiz fica a dois quarteirões, para sul, deste hospital. É muito provável que se tenha cruzado com elas. Tem a certeza de que não reconhece nenhuma destas duas mulheres?

- Nunca as tinha visto até me mostrar as fotografias - insistiu Catherine estendendo as duas fotografias a Moore e vendo de repente que tinha a mão a tremer. Com certeza que ele reparara nisso quando pegou nos retratos, uma vez que os seus dedos roçaram pelos dela. Pensou que ele devia estar habituado a reparar num grande número de coisas, o que seria de esperar de um agente de polícia. Estivera tão concentrada na sua própria perturbação que mal tivera oportunidade de analisar aquele homem. Mostrara-se tranquilo e gentil, não tendo feito com que ela se sentisse ameaçada. Só agora é que se apercebia de que ele havia estado a examiná-la atentamente, na expectativa de conseguir vislumbrar alguma coisa do que ia no âmago de Catherine Cordell. Não em relação à extrema competência da cirurgiã em situações de trauma, nem em relação àquela mulher ruiva, elegante e fria, mas sim com respeito ao ser humano que existia sob a superfície.

Pela primeira vez, a detective Rizzoli falou e, ao contrário de Moore, não fez o mínimo esforço para suavizar as suas perguntas. Muito simplesmente, tudo o que ela pretendia eram algumas respostas e não estava para perder tempo a fim de as conseguir.

- Quando é que se mudou para aqui, doutora Cordell?

- Saí de Savannah um mês depois de ter sido atacada - respondeu Catherine, dirigindo-se a Rizzoli no mesmo tom formal.

- E o que a levou a optar por Boston?

- E porque não?

- Porque fica muito longe do Sul.

- A minha mãe foi criada no Massachusetts. Todos os Verões, ela trazia-nos para passarmos as férias na Nova Inglaterra. Senti-me como... como se estivesse a regressar à minha terra natal.

- Portanto, isso quer dizer que já vive aqui há mais de dois anos - deduziu Rizzoli.

- Sim - confirmou Catherine.

- A fazer o quê?

Catherine franziu a testa, perplexa perante aquela pergunta.

- A trabalhar aqui, no Centro Médico Pilgrim, com o doutor Falco. No Serviço de Traumatologia.

- Sendo assim, presumo que o Globe se enganou.

- Desculpe, mas não estou a entender.

- Há algumas semanas li um artigo a seu respeito. Um artigo acerca de mulheres especializadas em cirurgia. A propósito, a sua fotografia era excelente. Nesse artigo diziam que começou a trabalhar no Pilgrim há apenas um ano.

- Esse artigo estava correcto - retorquiu Catherine serenamente depois de uma curta pausa. - Depois de sair de Savannah passei algum tempo a... - Interrompeu-se, pigarreando. - Só em Julho passado é que comecei a trabalhar com o doutor Falco.

- E quanto ao primeiro ano que passou em Boston?

- Não trabalhei.

- Em que ocupou o seu tempo?

- Em nada - respondeu Catherine num tom de voz tão neutro e frio que indicava que dali não sairia mais nada. Não estava disposta a revelar a verdade humilhante do que fora esse primeiro ano na cidade. Os dias que deram lugar às semanas em que ela tinha medo de sair do apartamento. As noites em que ao mais pequeno ruído ficava mergulhada num estado de pânico tão grande que todo o seu corpo tremia. O percurso lento e doloroso para regressar ao mundo, quando entrava num elevador ou se encaminhava à noite para o seu automóvel, coisas que exigiam toda a sua coragem. Sentira-se envergonhada perante a afirmação da sua própria vulnerabilidade, e o seu orgulho não lhe permitia que revelasse essas fraquezas.

- Tenho pacientes marcados que devem estar a chegar - disse Catherine olhando para o relógio. - Muito sinceramente, não tenho mais nada a acrescentar.

- Permita-me que volte a verificar os factos de que tomei nota - adiantou Rizzoli abrindo um pequeno bloco de apontamentos com a lombada em espiral. - Há pouco mais de dois anos, na noite de quinze de Junho, a senhora foi atacada em sua casa pelo doutor Andrew Capra. Um homem que conhecia. Um médico de medicina interna que trabalhava consigo no hospital... - Interrompeu-se, erguendo o olhar para Catherine.

- Já conhece as respostas a essas questões.

- Ele drogou-a e depois despiu-a. Amarrou-a à cama. Aterrorizou-a.

- Não estou a ver por que motivo é que...

- Ele violou-a. - As palavras, embora proferidas numa voz calma, tiveram o mesmo impacte de uma bofetada brutal.

Catherine não lhe deu réplica.

- E isso não é tudo o que ele tinha planeado fazer-lhe - continuou Rizzoli.

Meu Deus, faz com que ela se cale.

- Tencionava mutilá-la da maneira mais horrenda que se possa conceber. Do mesmo modo que mutilou outras quatro mulheres na Geórgia... abrindo-lhes o abdómen. Destruiu aquilo que fazia com que fossem mulheres.

- Já chega - interveio Moore.

Rizzoli, porém, era implacável.

- Isso também podia ter acontecido consigo, doutora Cordell.

- O que a leva a ter essa atitude? - perguntou-lhe Catherine com um aceno de cabeça.

- Doutora Cordell, não há nada que eu mais deseje do que apanhar este homem e acredito que a senhora estaria disposta a ajudar-nos a atingir esse objectivo. Pensei que quereria que o mesmo não voltasse a acontecer a outras mulheres.

- Mas isso não tem nada a ver comigo! O Andrew Capra está morto. Há dois anos que ele morreu.

- Sim, li o relatório da autópsia que lhe foi feita.

- Pois bem, eu posso atestar que ele está morto - ripostou Catherine, irritada. - E isso porque fui eu quem tratou da saúde a esse filho-da-puta!

 

Moore e Rizzoli, sentados no carro, suavam por todos os poros porque do sistema de ar condicionado só saía ar quente. Há dez minutos que se encontravam num engarrafamento de trânsito e o interior do automóvel não estava a ficar mais fresco.

- Os contribuintes têm aquilo para que pagam - comentou Rizzoli. - E este carro está bom para a sucata.

Moore desligou o ar condicionado, abrindo a janela do seu lado. O cheiro do pavimento quente, a que se misturavam os fumos dos tubos de escape, entrou de rompante no carro. Já estava banhado em suor. Não sabia como é que Rizzoli conseguia continuar com o casaco vestido; assim que saiu do Centro Médico Pilgrim, apressou-se a despir o casaco ao sentir-se envolvido por um manto pesado de humidade. Sabia que ela devia estar a sofrer com o calor porque via as gotículas de suor que lhe brilhavam por cima do lábio superior, um lábio que, muito provavelmente, nunca conhecera o toque de um batom. Não se podia dizer que Rizzoli fosse uma mulher feia, mas, enquanto outras mulheres talvez tentassem suavizar a sua fisionomia com maquilhagem ou usando jóias, Rizzoli parecia determinada a minorar quaisquer aspectos atraentes da sua aparência. Usava sempre uns fatos escuros de ar sombrio que não beneficiavam em nada a sua estatura baixa, enquanto o cabelo era um amontoado desleixado de caracóis pretos. A verdade é que era como era, e, ou se estava pronto a aceitá-la assim, ou podia-se ir para o inferno. Moore compreendia a razão que a levava a adoptar aquela atitude de "quero que se vão lixar". Muito provavelmente, precisava dessa maneira de ser para conseguir sobreviver como mulher na polícia. Rizzoli era, acima de tudo, uma sobrevivente.

Também Catherine Cordell era uma sobrevivente. Contudo, a Dra. Cordell adoptara uma estratégia diferente. Recolhimento. Distanciamento. Durante a conversa, Moore tivera a sensação de que olhava para ela através de um vidro fumado, de tão reservada que ela se mostrava.

Foi precisamente esse distanciamento que buliu com os nervos de Rizzoli.

- Há qualquer coisa nela que não bate certo - comentou a agente. - Falta-lhe seja o que for no campo das emoções.

- Ela é uma cirurgiã especializada em traumatismos. Está treinada para agir com frieza, a manter a calma.

- Pois, mas existe frio e, depois, gelo. Há dois anos, a mulher esteve amarrada, foi violada e só por um triz é que não a esventraram. Mas agora mostra uma frieza em relação ao assunto que toca as raias do absurdo. Isto faz-me pensar...

Moore travou quando chegou a um sinal vermelho, ficando a olhar para o cruzamento onde o trânsito estava completamente engarrafado. O suor escorria-lhe pelas costas até à região lombar. Não funcionava bem com o calor; o calor fazia com que se sentisse mole e estúpido, ansiando pelo fim do Verão e pela pureza das primeiras quedas de neve do Inverno...

- Ei - disse Rizzoli. - Estás a ouvir o que te digo?

- Ela consegue exercer um grande domínio sobre si própria - admitiu ele. Mas pensou que isso nada tinha a ver com uma frieza de gelo, recordando-se de como a mão de Catherine Cordell tremia quando ela devolvera as fotografias das duas mulheres.

De novo instalado à sua mesa de trabalho, bebeu pequenos goles de uma Coca-Cola mais morna do que fria enquanto relia o artigo publicado no Boston Globe de algumas semanas atrás: "Mulheres de Bisturi na Mão". Era um artigo sobre três cirurgiãs de Boston - os seus triunfos e dificuldades, os problemas específicos com que se defrontavam no exercício da sua especialidade médica. Das três fotografias, a de Cordell era a mais atraente. Mas isso estava para além do facto de ela ser bonita; era a expressão do olhar, tão altaneiro e directo que parecia desafiar a máquina fotográfica. Tanto o retrato como o artigo reforçavam a ideia de que aquela mulher detinha total controlo sobre a sua vida.

Moore pôs o jornal de lado e deixou-se ficar a pensar em como as primeiras impressões podiam ser enganadoras. Como a dor podia ser disfarçada com um sorriso, um elevar orgulhoso do queixo.

Pouco depois abriu um processo diferente. Respirou fundo e voltou a ler o relatório elaborado pela polícia de Savannah sobre o Dr. Andrew Capra.

Capra cometera o seu primeiro assassínio conhecido enquanto ainda era finalista de Medicina na Universidade Emory, em Atlanta. A vítima chamava-se Dora Ciccone, uma licenciada da Universidade Emory com vinte e dois anos de idade, cujo corpo foi encontrado amarrado à cama no seu apartamento fora do complexo universitário. Aquando da autópsia, foram detectados vestígios de Rohypnol, uma substância que era misturada nas bebidas para facilitar a violação. No apartamento não encontraram nada que indicasse que a entrada fora forçada.

A vítima tinha convidado o assassino a entrar em sua casa.

Depois de drogada, Dora Ciccone fora amarrada à cama com uma corda de náilon e, para que os gritos não se ouvissem, amordaçada com fita isoladora. Primeiro foi violada e só depois o assassino começou a cortá-la.

Ela manteve-se viva durante todo esse tempo.

Após ter completado a excisão e removido o seu trofeu, deu-lhe o golpe de misericórdia: um único golpe fundo à largura da garganta, da esquerda para a direita. Apesar de a polícia estar de posse do ADN do assassino, não tinha a mais pequena pista. A investigação complicou-se ainda mais pelo facto de ser do conhecimento geral que Dora era uma rapariga que gostava de se divertir, sendo frequente que fizesse a ronda dos bares da localidade onde vivia e levasse para casa homens que acabara de conhecer.

Na noite em que morreu, o homem que levou para casa era um estudante de Medicina de nome Andrew Capra. Mas o nome de Capra não despertou a atenção da polícia até que três mulheres foram mutiladas e assassinadas na cidade de Savannah, a trezentos e vinte quilómetros de distância.

Finalmente, numa noite mornacenta de Junho, as matanças acabaram.

Catherine Cordell, de trinta e um anos de idade, chefe de cirurgia interna do Hospital Riverland de Savannah, ficou sobressaltada quando alguém bateu à porta de sua casa. Ao abrir, deparou com Andrew Capra, um dos estagiários que trabalhava na sua equipa de cirurgia, na sua entrada. Nesse mesmo dia, ainda no hospital, ela tinha-o repreendido por um erro de que ele fora responsável, pelo que agora o homem estava desesperado, querendo saber o que poderia fazer para se redimir. Permitia-lhe que entrasse para falar com ela, por favor?

Enquanto bebiam umas cervejas, analisaram o desempenho de Capra desde o início do seu estágio como cirurgião. Todos os erros que havia cometido, os pacientes que talvez tivesse prejudicado devido ao seu descuido. Ela não dourou a pílula: Capra estava a falhar e não seria autorizado a completar o programa do estágio de cirurgia. A dada altura, Catherine ausentou-se da sala de estar para ir à casa de banho, após o que regressou para retomar a conversa e acabar de beber a sua cerveja.

Quando recuperou a consciência, deu consigo toda nua e atada à cama com uma corda de náilon.

O relatório da polícia descrevia, com pormenores horripilantes, o pesadelo que se seguiu.

As fotografias que lhe tiraram quando ela deu entrada no hospital revelavam uma mulher com uns olhos de expressão acossada e uma face horrivelmente inchada e pisada. O que Moore via naquelas fotografias resumia-se numa palavra: vítima.

Não era um termo que se pudesse aplicar adequadamente à mulher reservada e senhora de si que ele conhecera naquele dia.

Ao voltar a ler o depoimento de Cordell, conseguia ouvir a voz dela a ecoar na sua cabeça. As palavras tinham deixado de pertencer a uma vítima anónima, pertenciam a uma mulher cujo rosto ele conhecia.

Não sei como consegui libertar a mão. Agora tenho o pulso todo esfolado, portanto, devo tê-lo puxado para fora da corda. Lamento, mas os acontecimentos não estão muito claros na minha mente. Só me recordo de ter estendido a mão para o bisturi. Sabendo que tinha de pegar no bisturi. Que precisava de cortar as cordas antes que o Andrew voltasse...

Lembro-me de ter rolado para a beira da cama. De ter ficado meio caída no chão e de ter batido com a cabeça. Em seguida, tentei encontrar a arma. Uma arma que tinha pertencido ao meu pai. Depois da terceira mulher ter sido assassinada em Savannah, ele insistiu para que eu ficasse com essa arma.

Recordo-me de ter estendido a mão para debaixo da cama. De ter agarrado a arma, lembro-me de ter ouvido o barulho de passos que se dirigiam para o quarto. Depois... não tenho a certeza. Deve ter sido nessa altura que disparei contra ele. Sim, foi isso que acho que aconteceu. Disseram-me que o alvejei duas vezes. Calculo que deva ser verdade.

Moore fez uma pausa, reflectindo sobre o depoimento. O Departamento de Balística confirmara que as duas balas tinham sido disparadas pela arma registada em nome do pai de Catherine, que fora encontrada no chão ao lado da cama. As análises ao sangue feitas no hospital confirmaram a presença de Rohypnol, uma droga que provocava amnésia, na sua corrente sanguínea, o que tornava muito provável que ela tivesse tido lapsos de memória. Quando Cordell foi levada para o Serviço de Urgência, os médicos descreveram o seu estado como sendo confuso, quer devido à droga quer por causa das agressões. Somente uma pancada violenta na cabeça poderia ter deixado uma face tão inchada e pisada. Ela não se recordava de como ou quando fora vítima dessa agressão.

Moore concentrou-se nas fotografias do local onde o crime tinha ocorrido. Andrew Capra ficara caído de costas no chão do quarto depois de ter sido morto. Alvejado duas vezes, uma das balas atingiu-o no abdómen e a outra numa vista, ambas disparadas à queima-roupa.

Ficou a examinar aquelas fotografias durante muito tempo, concentrando-se na posição em que o corpo de Capra fora encontrado, assim como nas manchas de sangue.

Em seguida dedicou a sua atenção ao relatório da autópsia. Leu-o por duas vezes.

Voltou a olhar para a fotografia que mostrava o local onde o crime ocorrera.

"Há qualquer coisa aqui que não bate certo", pensou Moore. "O depoimento da Cordell não faz sentido."

Repentinamente, surgiu um relatório na sua secretária. Perplexo, ergueu o olhar deparando com Rizzoli.

- Já examinaste isto? - perguntou ela.

- De que estás a falar?

- Estou a falar do relatório sobre aquele fio de cabelo que foi encontrado na extremidade do ferimento da Elena Ortiz.

Moore passou uma vista de olhos pelo documento, concentrando-se na última frase.

- Não faço a mínima ideia do significado disto - declarou.

Em 1997, os vários serviços do Departamento da Polícia de Boston foram colocados nas mesmas instalações, localizadas no complexo acabado de construir na Schroeder Plaza, número um, numa área da cidade bastante violenta, Roxbury. Os agentes de polícia referiam-se às suas novas instalações como o "palácio de mármore", devido à extensa utilização de granito polido no átrio do edifício. "Dêem-nos alguns anos para abandalhar as instalações e sentir-nos-emos em casa", era a brincadeira entre eles. Schroeder Plaza tinha muito poucas semelhanças com as esquadras deterioradas que se viam nos programas sobre polícias que a televisão transmitia. Era um edifício novo de linhas modernas, com muita luminosidade devido às inúmeras janelas e clarabóias. As instalações da Brigada de Homicídios, todas alcatifadas e com muitos computadores, podiam passar por escritórios de uma empresa. Aquilo de que os polícias gostavam mais no edifício da Schroeder Plaza era a integração dos muitos serviços do Departamento da Polícia de Boston.

Aos detectives de homicídios, para irem ao laboratório de perícia criminal, bastava-lhes percorrer um corredor em direcção à ala sul do edifício.

Na Secção de Cabelos e Fibras, Moore e Rizzoli observavam Erin Volchko, um especialista da área forense, que consultava a sua colecção de sobrescritos com provas de crimes.

- A única coisa que eu tinha com que trabalhar era esse cabelo - salientou Erin. - No entanto, é espantoso o que um único cabelo nos pode dizer. Muito bem, aqui está ele. - Tinha encontrado o sobrescrito marcado com o número atribuído ao caso de Elena Ortiz, de cujo interior retirou um diapositivo para microscópio. - Vou mostrar-lhes como fica quando visto ao microscópio. Os parâmetros numéricos constam do relatório.

- São estes números? - perguntou Rizzoli olhando para uma longa série de números em código na página.

- Exacto. Cada número codificado define uma característica diferente de cabelo, desde a cor, se é encaracolado ou não, até às características microscópicas. Este cabelo em particular é um A zero um, ou seja, é louro-escuro. O tipo de ondulação é um B zero um. Curvo e com um diâmetro de ondulação inferior a oitenta. Quase, mas não o suficiente para se poder dizer que é liso. O comprimento é de quatro centímetros. Infelizmente, este fio de cabelo encontra-se na fase telogénica, pelo que não temos a aderência de tecido epitelial.

- O que significa que não existe ADN nenhum.

- Precisamente. A fase telogénica é o período terminal do crescimento da raiz. Este fio de cabelo caiu naturalmente. Por outras palavras, não foi arrancado. Se existissem células epiteliais na raiz, poderíamos usar a nucleína para uma análise do ADN. No entanto, este fio de cabelo não possui esse tipo de células.

Rizzoli e Moore trocaram olhares de decepção.

- No entanto - acrescentou Erin -, temos algo aqui que é muito promissor. Não tanto como o ADN, mas é bem capaz de se aguentar como prova no tribunal, desde que consigam encontrar um suspeito. É uma pena que não tenhamos cabelos nenhuns do caso Sterling para podermos compará-los. - Focou as lentes do microscópio, após o que se afastou para o lado. - Vejam o que temos aqui.

O microscópio de estudo possuía um par de oculares, pelo que Moore e Rizzoli podiam examinar o diapositivo ao mesmo tempo. O que Moore viu, observando através das lentes, foi um único fio de cabelo envolto em nódulos de tamanho ínfimo.

- O que são estes altos pequenos? - perguntou Rizzoli. - Isto não é normal.

- Não só é anormal, como também é muito raro - retorquiu Erin. - É um a que se dá o nome de Trichorrhexis invaginata, vulgarmente conhecido por "cabelo em bambu". É possível ver a razão por que este termo é utilizado. Esses pequenos nódulos fazem com que se assemelhe a um caule de bambu, não acham?

- E o que são os nódulos? - perguntou Moore.

- São defeitos ^focais na fibra do cabelo. Pontos enfraquecidos que permitem que o fio de cabelo se dobre sobre si próprio, formando uma espécie de bola e bocal. Estes pequenos altos são os pontos fracos, onde o fio de cabelo se recolheu em si próprio, formando uma saliência.

- E o que dá origem a este fenómeno?

- Às vezes, pode ocorrer devido a um excesso de manipulação do cabelo. Tintas, permanentes, esse género de coisas. Mas, uma vez que estamos a lidar com um desconhecido do sexo masculino, e dado que não encontro vestígios de descoloração artificial, estou inclinado a dizer que não estamos perante essa hipótese, mas com um tipo qualquer de anomalia genética.

- Que tipo de anomalia?

- Por exemplo, a síndrome de Netherton. Trata-se de uma deficiência recessiva auto-somática que afecta o desenvolvimento da queratina. A queratina é uma proteína fibrosa e dura que se encontra no cabelo e nas unhas. Também constitui a camada exterior da nossa pele.

- Se existir uma deficiência genética e caso a queratina não se desenvolva normalmente, quer dizer que o cabelo fica enfraquecido?

- E não é só o cabelo que pode ser afectado - confirmou Erin. - As pessoas que sofrem da síndrome de Netherton também podem ter problemas de pele. Eczemas ou escamações.

- Andamos à procura de um criminoso que sofre de caspa aguda? - perguntou Rizzoli.

- Até é possível que seja muito mais óbvio do que isso. Algumas dessas pessoas padecem de uma forma mais grave da doença a que se dá o nome de ictiose. A sua pele pode ser tão seca que se assemelha à de um crocodilo.

- Portanto, andamos à procura de um homem-réptil! Sendo assim, isso deve eliminar um grande número de possíveis suspeitos.

- Não necessariamente. Estamos no Verão.

- E o que tem isso a ver com o assunto?

- O calor com humidade é benéfico, reduzindo a secura da pele. Nesta altura do ano, é possível que ele tenha um aspecto absolutamente normal.

Rizzoli e Moore olharam um para o outro e ocorreu-lhes o mesmo pensamento.

As duas vítimas haviam sido assassinadas durante o Verão.

- Desde que o calor se mantenha - continuou Erin -, é muito provável que ele não se distinga do comum dos mortais.

- E ainda só estamos em Julho - notou Rizzoli.

- A temporada de caça dele ainda agora começou - retorquiu Moore.

O desconhecido que entrara no Serviço de Urgência já tinha nome. As enfermeiras haviam encontrado uma identificação no porta-chaves do homem. Chamava-se Herman Gwadowski e tinha sessenta e nove anos de idade.

Catherine encontrava-se no cubículo do seu paciente na Unidade de Cuidados Intensivos de Cirurgia, observando metodicamente os monitores dos muitos aparelhos que lhe rodeavam a cama. O mostrador do osciloscópio indicava um ritmo cardíaco normal. As ondas arteriais chegavam aos 110/70 e as leituras indicadas pela sua linha de tensão venosa central elevavam-se e baixavam como pequenas ondas varridas pelo vento no mar. Com base nos números, o acto cirúrgico a que o Sr. Gwadowski fora submetido era um êxito.

Porém, ainda não tinha recuperado a consciência, pensava Catherine, ao mesmo tempo que observava a pupila esquerda com um pequeno feixe de luz, e depois a direita. Quase oito horas após a operação, ele permanecia num coma profundo.

Endireitou-se, observando o peito do paciente que se soerguia e baixava acompanhando o ritmo do ventilador. Catherine impedira-o de morrer, evitando que ele se esvaísse em sangue. Mas o que tinha conseguido salvar realmente? Um corpo com um coração que pulsava e um cérebro que não funcionava.

Ouviu bater no vidro. Através da janela do cubículo viu o seu parceiro de cirurgia, o Dr. Peter Falco, que lhe acenava exibindo uma expressão de preocupação num rosto que habitualmente espelhava jovialidade.

Alguns cirurgiões são famosos pelos acessos de mau humor que têm no bloco operatório. Outros entram na sala de operações com uma postura de muita arrogância, vestindo a bata como se estivessem a envergar o manto real. Alguns são técnicos com uma eficiência cheia de frieza para quem os pacientes não passam de um amontoado de peças mecânicas que precisam de ser reparadas.

E depois havia Peter. Peter, divertido e exuberante, que entoava canções de Elvis no bloco operatório num timbre tão desafinado que era capaz de perfurar os tímpanos de quem estivesse por perto, que organizava competições com aviões de papel nos escritórios do hospital e que, sem a mínima relutância, se punha de gatas para montar Legos com os seus pacientes da ala pediátrica. Catherine estava acostumada a ver sempre um sorriso nos lábios de Peter. Quando reparou que desfranzia o sobrolho, através do vidro, apressou-se a sair do cubículo do seu paciente.

- Está tudo a correr bem? - perguntou ele.

- Estou só a acabar a ronda.

Peter olhou para os inúmeros tubos e aparelhos que funcionavam activamente em redor da cama do Sr. Gwadowski.

- Ouvi dizer que salvaste um homem de forma sensacional. Uma hemorragia que nunca mais parava...

- Não sei se podemos usar a palavra "salvar" - retorquiu Catherine voltando a olhar para o seu paciente. - Está tudo a funcionar, excepto a matéria cinzenta.

Por uns momentos, ambos se mantiveram em silêncio a observar o peito do Sr. Gwadowski que se soerguia e baixava regularmente.

- A Helen disse-me que hoje foste visitada por dois polícias - continuou Peter. - O que se passa?

- Nada de importante.

- Esqueceste-te de pagar as multas de estacionamento?

- É isso mesmo - assentiu ela soltando uma pequena gargalhada forçada -, e estou a contar contigo para me pagares a caução.

Saíram da Unidade de Cuidados Intensivos de Cirurgia para o corredor. Peter, um homem alto e esguio, caminhava ao seu lado no passo largo e rápido que lhe era tão peculiar. Já no elevador, perguntou-lhe:

- Estás bem, Catherine?

- Porque perguntas? Não te pareço bem?

- Sinceramente? - retrucou ele, perscrutando o rosto dela, com os seus olhos azuis de expressão tão directa que ela se sentiu constrangida. - Tens o aspecto de quem está a precisar de um belo jantar acompanhado de um bom vinho. E que tal se me fizesses companhia?

- É um convite tentador.

- Mas...?

- Mas parece-me que esta noite vou ficar em casa.

Peter levou a mão ao peito, como se tivesse sido ferido mortalmente.

- Fui abatido outra vez! Diz-me uma coisa: há alguma maneira de te convencer?

- Isso... terás de descobrir por ti próprio - respondeu ela com um sorriso.

- E que tal esta? Disse-me um passarinho que fazes anos no sábado. Deixa-me levar-te no meu aeroplano.

- Não posso. No sábado estou de serviço no banco.

- Podes trocar com o Ames. Eu falo com ele.

- Ora, Peter. Sabes bem que não gosto de voar.

- Não me digas que tens fobia de andar de avião?

- Acontece que tenho alguma dificuldade em perder o controlo das situações.

- Uma personalidade clássica de cirurgião - retorquiu Peter com um aceno cheio de gravidade.

- Uma maneira simpática de dizeres que sou uma pessoa convencional.

- Portanto, deduzo que o nosso voo está fora de questão. Há alguma maneira de fazer com que mudes de ideias?

- Não me parece - respondeu Catherine.

- Pois bem, esgotei todos os meus argumentos. Recorri a todo o meu repertório.

- Sei que sim. Até já começaste a reciclá-lo.

- Isso é o que a Helen também diz.

- A Helen tem andado a dar-te dicas sobre o modo de me convidares para sair? - perguntou Catherine olhando-o com uma expressão de surpresa.

- Ela disse-me que não era capaz de suportar por mais tempo o espectáculo patético de um homem a bater com a cabeça contra uma parede inexpugnável.

Ambos desataram a rir quando já saíam do elevador, encaminhando-se cada um para o seu gabinete. Era o riso de bem-estar entre dois colegas que sabiam que tudo não passava de um jogo sem importância. O facto de manterem a situação naquele plano significava que os sentimentos de ambos não seriam magoados, que não existiam emoções em jogo. Tratava-se apenas de um namoriscar inocente que os mantinha à margem de uma relação séria e complicada. Em jeito de brincadeira, ele convidava-a para sair; no mesmo tom de brincadeira, ela recusava os convites e todos os colegas sabiam o que se passava.

Já eram cinco e meia da tarde e o resto da equipa acabara o seu dia de trabalho. Peter dirigiu-se para o seu gabinete e Catherine para o dela, a fim de pendurar a bata branca e pegar na carteira. Quando já estava a pendurar a bata, repentinamente, ocorreu-lhe um pensamento.

Atravessou o corredor e meteu a cabeça pela abertura da porta do gabinete de Peter. Este estava a rever as fichas dos pacientes, com os óculos de ver ao perto a meio do nariz. Ao contrário do seu gabinete muito bem organizado, o de Peter era a imagem do caos. O cesto do lixo estava cheio de aviões de papel. Os livros e publicações sobre cirurgia encontravam-se empilhados em cima das cadeiras. Uma das paredes fora quase totalmente tomada de assalto por um filodendro descontrolado. Viam-se os diplomas de Peter submersos naquela selva de folhas: um bacharelato em Engenharia Aeronáutica do Instituto de Tecnologia do Massachusetts e um diploma da Faculdade de Medicina da Universidade de Harvard.

- Peter? Sei que é uma pergunta estúpida...

- Nesse caso, vieste falar com o homem certo - disse ele olhando-a por cima dos óculos.

- Estiveste no meu gabinete?

- Devo chamar o meu advogado antes de responder a essa pergunta?

- Deixa-te de brincadeiras. Estou a falar a sério.

Peter endireitou-se, olhando-a bem de frente.

- Não, não estive - respondeu. - Porquê?

- Não tem importância. Não foi nada de especial. - Catherine voltou-se para sair quando ouviu o ranger da cadeira de Peter, que se levantava. Seguiu-a até ao gabinete dela.

- O que não foi nada de especial? - perguntou o cirurgião.

- Estou a ficar obsessiva no capítulo da arrumação, mais nada. Irrito-me quando as coisas não se encontram onde deviam estar.

- O quê, por exemplo? - insistiu Peter.

- A minha bata. Deixo-a sempre pendurada na porta, mas, não sei como, encontro-a em cima do arquivo ou nas costas de uma cadeira. Sei que não é a Helen nem nenhuma das outras secretárias porque já lhes perguntei.

- Provavelmente foi a empregada da limpeza que a tirou do seu lugar - alvitrou Peter.

- Além disso, fico furiosa quando não sei o que é feito do estetoscópio.

- Ainda não o encontraste?

- Tive de pedir à chefe das enfermeiras que me emprestasse o dela - retorquiu Catherine.

Franzindo o sobrolho, Peter olhou em redor.

- Ora bem, ali está ele. Em cima da prateleira da estante. - Dirigiu-se para o local onde o estetoscópio se encontrava enrolado ao lado de alguns livros.

Em silêncio, Catherine tirou-lhe o estetoscópio das mãos, ficando a olhar para aquilo como se fosse algo vindo de outro mundo. Uma serpente negra enrolada na sua mão.

- Ei, o que se passa?

- Acho que tudo isto se deve ao cansaço - respondeu Catherine respirando fundo. Guardou o estetoscópio na algibeira esquerda da bata branca, no mesmo lugar em que o guardava sempre.

- Tens a certeza de que foi só isso? Passa-se mais alguma coisa? - perguntou Peter.

- Preciso de ir para casa. - Catherine saiu do gabinete e ele seguiu-a até ao corredor.

- Isto tem alguma coisa a ver com os polícias que vieram falar contigo? Se estás com algum problema... se eu puder ajudar-te em alguma coisa...

- Obrigada, mas não preciso de ajuda. - As palavras foram proferidas com mais frieza do que era sua intenção e, de imediato, arrependeu-se do modo como tinha falado. Peter não merecia aquela atitude.

- Não sei se sabes, mas eu não me importaria nada se, de vez em quando, me pedisses algum favor - adiantou ele, muito calmo. - Faz parte da relação entre dois colegas de trabalho. Sobretudo quando se funciona em parceria. Não concordas? - perguntou Peter.

Catherine não respondeu.

- Vemo-nos amanhã de manhã - disse Peter voltando-se para a porta do seu gabinete.

- Peter...?

- Sim?

- Em relação a esses dois agentes da polícia e ao motivo por que vieram falar comigo...

- Não és obrigada a contar-me nada.

- Não, mas devo. Se eu não te disser nada, ficas para aí a matutar. Vieram cá para me fazer perguntas a respeito de um caso de homicídio. Uma mulher que foi assassinada na noite de quinta-feira. Pensavam que eu talvez a conhecesse.

- E conhecias?

- Não. Tratou-se de um mal-entendido, mais nada - respondeu ela com um suspiro. - Apenas um mal-entendido.

Catherine deu a volta à cavilha que trancava a porta, ouvindo o ruído que lhe indicava que estava bem fechada e depois prendeu a corrente no seu lugar. Outra linha de defesa contra horrores desconhecidos que podiam estar à espreita por detrás das paredes de sua casa. Barricada em segurança no seu apartamento, descalçou os sapatos e pousou as chaves e a carteira em cima da mesa em meia-lua de madeira de cerejeira; só com as meias, caminhou por cima da alcatifa branca e espessa da sala de estar. O interior do apartamento encontrava-se agradavelmente fresco, graças ao milagre que era o sistema central de ar condicionado. No exterior, a temperatura rondava os trinta graus, mas dentro de casa nunca ultrapassava os vinte e dois graus durante o Verão, nem descia abaixo dos vinte durante os meses de Inverno. Havia tão pouca coisa que pudesse ser predeterminada, preestabelecida, que ela se esforçava por manter o máximo de ordem possível nos limites circunscritos da sua existência. Tinha optado por aquele condomínio de doze unidades, um edifício na Common-wealth Avenue, por ser novo, o que significava que tinha uma garagem onde podia estacionar em segurança. Embora não fosse tão pitoresco como as residências históricas de tijolo vermelho em Back Bay, tinha a vantagem de não ter as canalizações e instalações eléctricas antigas e incertas. A incerteza era algo para que Catherine tinha pouca tolerância. O seu apartamento estava sempre escrupulosamente limpo e arrumado e, com excepção de algumas cores mais vivas aqui e ali, nada condizentes com a sua maneira de ser, optara por uma decoração sobretudo em tons de branco. Sofás brancos, alcatifa branca, azulejos brancos. A cor da pureza. Virginal, sem mácula.

Despiu-se no quarto e pendurou a saia, pondo a blusa de lado para a levar à lavandaria, onde seria limpa a seco. Vestiu umas calças largas e uma blusa de seda sem mangas. Quando foi para a cozinha, descalça, já estava mais calma e com as emoções sob controlo.

Não se sentia assim há várias horas. A visita dos dois detectives deixara-a bastante abalada, e, durante toda a tarde, dera consigo a cometer erros que se deviam à falta de concentração. Por exemplo, pegar no papel errado do laboratório, escrever a data errada na papeleta de um paciente. Apenas erros menores, mas que se assemelhavam a um vago ondular que quebrava a mansidão de um marchão à superfície, embora profundamente perturbado. Durante os últimos dois anos Catherine tinha conseguido suprimir todos os pensamentos relacionados com o que lhe acontecera em Savannah. De vez em quando, sem qualquer aviso prévio, podia surgir-lhe uma ou outra imagem do sucedido, tão acutilante como um golpe de faca, mas ela sabia esquivar-se a essas imagens; habilmente, concentrava os seus pensamentos noutros assuntos. Mas naquele dia não conseguia evitar essas recordações. Era incapaz de fazer de conta que Savannah nunca tinha acontecido.

Sentia os azulejos frios do chão da cozinha sob os pés descalços. Preparou uma vodca com sumo de laranja, sem abusar da vodca, bebendo pequenos goles enquanto ralava um naco de queijo parmesão e cortava cebolas e tomates às rodelas, a que acrescentou ervas aromáticas. Desde o pequeno-almoço que não comia nada, pelo que o álcool fluiu directamente para a sua corrente sanguínea. A vodca possuía um efeito agradavelmente anestesiante. O bater da faca na tábua era um som que lhe proporcionava bem-estar, bem como o aroma de manjericão fresco e alhos. A culinária como terapia.

No lado de fora da janela da cozinha, a cidade de Boston era como um caldeirão a ferver, cheio de engarrafamentos e nervos à flor da pele, mas ali, isolada por detrás dos vidros e sentindo uma profunda serenidade, ela salteava cebola e tomate em azeite enquanto bebia um copo de Chianti e punha água a ferver numa panela para cozer esparguete. O ar fresco saía da grelha do ar condicionado.

Catherine sentou-se com o seu prato de massa e salada que acompanhava com vinho, começando a comer; como música de fundo ouvia os acordes de Debussy que vinham de um CD. Apesar da fome e da muita atenção que dedicara à preparação da refeição, a comida parecia-lhe insípida. Tentou comer, mas sentia um nó na garganta, como se tivesse engolido qualquer coisa grossa e glutinosa. Mesmo depois de ter bebido um segundo copo de vinho continuava com a sensação de que tinha algo entalado na garganta que não conseguia desalojar. Pousou o garfo e ficou a olhar para o resto da comida. A música ouvia-se em crescendos que a envolviam como ondas que se quebrassem.

Deixou descair o rosto nas mãos. Inicialmente não emitiu qualquer som. Era como se o seu pesar tivesse estado reprimido demasiado tempo. Pouco depois, um gemido agudo escapou-lhe da garganta, embora quase inaudível. Inspirou a custo e, decorridos uns momentos, deu largas ao pranto que mantivera reprimido durante dois anos. Sentiu-se assustada com a violência das suas emoções por não ser capaz de as conter, por não conseguir avaliar a profundidade do seu pesar, por não saber se alguma vez seria capaz de lhe pôr cobro. Chorou até ficar com a garganta irritada, até sentir espasmos nos pulmões, o som do seu pranto convulsivo encurralado no apartamento hermeticamente cerrado.

Por fim, quando já não lhe restavam mais lágrimas, estendeu-se no sofá, mergulhando num sono profundo de exaustão.

Acordou bruscamente, dando consigo na escuridão. O coração batia-lhe, acelerado e a sua blusa estava ensopada em suor. Teria sido despertada por um barulho? O estalar de vidro, o som vago de passos? Teria sido isso que a sobressaltara, acordando-a de um sono tão profundo? Não se atrevia a mexer um único músculo, com medo de não conseguir ouvir o ruído denunciador de um intruso.

Luzes em movimento reflectiram-se na janela, os faróis de uma viatura que passava na altura. Por breves momentos, a sala ficou profusamente iluminada antes de voltar a mergulhar na escuridão. Catherine escutou o zunido da grelha de saída do ar condicionado, o som do motor do frigorífico na cozinha. Não ouviu nada de estranho. Nada que justificasse aquela sensação avassaladora de pavor.

Sentou-se, chamando a si toda a coragem para ligar o candeeiro. De um momento para o outro, os horrores imaginados dissiparam-se no clarão cálido da luz. Catherine levantou-se do sofá e, determinada, percorreu todas as divisões da casa, ligando as luzes e olhando para dentro dos roupeiros. Num plano racional, sabia que não encontraria nenhum intruso, que a sua casa, com o seu sofisticado sistema de alarme e fechaduras com tranca, janelas hermeticamente fechadas, estava tão segura como qualquer outro lar poderia estar. Contudo, não descansou até ter completado aquele ritual, até ter inspeccionado todos os cantos escuros. Só depois de ter a certeza de que a sua segurança não tinha sido violada é que se permitiu voltar a respirar com calma.

Eram dez e meia da noite. Quarta-feira. Preciso de falar com alguém. Esta noite não consigo encarar esta situação sozinha.

Sentou-se à secretária, ligou o computador e ficou a olhar para o ecrã até este se iluminar. Aquilo era a sua linha de vida, a sua terapia, aquele feixe de componentes electrónicos, fios e plástico, o único lugar em que se sentia suficientemente segura para dar largas ao seu sofrimento.

Digitou o seu nome de código, ccord, entrou na Internet, e, com alguns diques do rato, acedeu a um chat room restrito que tinha o nome muito simples de "ajudamulber".

No ecrã já se encontravam presentes meia dúzia de nomes que lhe eram familiares. Correspondiam a mulheres sem rosto e sem nome, todas atraídas para aquele paraíso seguro no ciberespaço. Ficou sentada por uns momentos a ler as mensagens que iam passando pelo ecrã do computador. Ouvindo, na sua mente, as vozes magoadas de mulheres que nunca conhecera pessoalmente, mas apenas naquela sala virtual.

Laurie 45: E então o que fizeste?

Votiva: Disse-lhe que não estava preparada. Que continuava a ter recordações do passado. Que se gostasse de mim sinceramente não se importaria de esperar.

Parte-corações: Fizeste muito bem.

Olhinhos 98: Não deixes que ele te apresse.

Laurie 45: Como é que ele reagiu?

Votiva: Disse-me que devia esquecer o assunto. Como se eu fosse alguma idiota ou coisa assim.

Olhinhos 98: Os homens deviam ser violados!!!

Parte-corações: Eu levei dois anos até ficar pronta.

Laurie 45: Eu mais de um ano.

Olhinhos 98: Estes homens só pensam nas pichas. É tudo relacionado com isso. Só querem que o coiso deles seja satisfeito.

Laurie 45: Bolas, esta noite estás lixada, Olhinhos.

Olhinhos 98: Talvez esteja. Às vezes penso que a Lorena Bobbitt é que agiu acertadamente.

Parte-corações: A Olhinhos prepara-se para sacar do cutelo!

Votiva: Acho que ele não está disposto a esperar. Parece-me que já desistiu de mim.

Olhinhos 98: És uma mulher por quem vale a pena esperar. vales isso.

Decorreram alguns segundos em que a caixa das mensagens se manteve em branco. Depois:

Laurie 45: Olá, Ccord. É bom voltar a falar contigo.

Catherine escreveu

Ccord: Vejo que estamos outra vez a falar de homens.

Laurie 45: É isso mesmo. Porque será que nunca nos cansamos deste assunto tão estafado?

Votiva: Porque são eles que nos magoam.

Fez-se outra pausa demorada. Catherine respirou fundo antes de recomeçar a escrever.

Ccord: Tive um dia mau.

Laurie 45: Conta-nos o que aconteceu, CC.

Catherine quase conseguia ouvir as vozes a incitá-la, meigas, murmúrios suaves no éter.

Ccord: Esta noite tive um ataque de pânico. Estou aqui, trancada em minha casa, onde ninguém pode atingir-me, mas isso continua a acontecer-me.

Olhinhos 98: Não deixes que ele vença. Não deixes que ele faça de ti uma prisioneira.

Ccord: É tarde de mais. Sou uma prisioneira. Porque esta noite apercebi-me de uma coisa terrível.

Olhinhos 98: E que coisa é essa?

Ccord: O mal não morre. Nunca morre. Limita-se a assumir uma nova fisionomia, um novo nome. Lá porque numa ocasião fomos tocadas por ele, isso não significa que tenhamos ficado imunizadas contra a dor. Os raios podem cair duas vezes no mesmo sítio.

Ninguém escreveu mais nada. Ninguém respondeu. "Por muito cuidado que se tenha, o mal sabe onde vivemos", pensou Catherine. "Sabe bem como encontrar-nos." Sentiu uma gota de suor a escorrer-lhe pelas costas. "E estou a senti-lo agora. Acercando-se cada vez mais."

Nina Peyton não vai a parte alguma, não fala com ninguém. Há várias semanas que não aparece no emprego. Hoje liguei para o escritório onde ela trabalha como delegada de vendas, em Brookline, e uma das colegas disse-me que não sabia quando é que ela voltaria. Ela é como um animal ferido, refugiado na sua caverna, aterrorizado perante a

ideia de ter de dar um passo na escuridão da noite. Sabe o que a noite lhe reserva porque já foi tocada pelo seu bafo maléfico e até mesmo agora sente-o a entranhar-se como vapor através das paredes da sua casa. Os cortinados estão fechados, mas o tecido é fino, o que permite que eu a veja a andar de um lado para o outro dentro de casa. A silhueta dela mostra que está curvada, os braços apertados junto ao peito, como se o corpo se tivesse dobrado sobre si mesmo. Os seus movimentos são repentinos e mecanizados enquanto ela anda de um lado para o outro.

Ela está a verificar as trancas das portas e os fechos das janelas. A tentar fechar-se para manter a escuridão no lado de fora.

O interior da casa pequena deve ser um forno. A noite está muito quente e não se vê nenhum aparelho de ar condicionado nas janelas. Tem estado toda a noite dentro de casa, com as janelas fechadas, não obstante o calor sufocante. Imagino a pele dela a brilhar de suor, a sofrer ao longo do dia muito comprido e quente e pela noite adentro, ansiosa por poder deixar entrar um pouco de ar fresco, mas receando que qualquer outra coisa também possa entrar.

Volta a passar pela janela. Pára. Deixa-se ficar aí, emoldurada pelo rectângulo de luz. Subitamente, os cortinados abrem-se um pouco e ela estende a mão para abrir o fecho. Sobe a janela. Fica ali, aspirando vorazmente grandes golfadas de ar fresco. Finalmente, rendeu-se ao calor.

Não existe nada de mais excitante para um caçador do que o cheiro da presa ferida. Quase sinto o cheiro a pairar no ar, o cheiro do animal ensanguentado, da carne profanada. Mas tal como ela inspira a brisa nocturna, eu também inspiro o cheiro que emana dela. O medo que ela sente.

O meu coração bate mais depressa. Levo a mão ao meu saco para acariciar os instrumentos. Verifico que até mesmo o aço está morno quando lhe toco.

Ela fecha a janela com estrondo. Permitiu-se respirar apenas algumas golfadas de ar fresco, não se atrevendo a mais, e agora recolhe-se no desconforto sufocante no interior da casa pequena.

Passado algum tempo, aceito a derrota e começo a afastar-me, deixando-a a transpirar ao longo de toda a noite naquele quarto que deve estar um autêntico forno.

Amanhã, dizem eles, o dia estará ainda mais quente.

 

- Este suspeito é alguém que se serve de uma faca para alcançar um alívio sexual secundário ou indirecto - afirmou o Dr. Lawrence Zucker. - O seu prazer reside no acto de esfaquear ou cortar, em qualquer tipo de penetração repetida da pele com um objecto agudo. A faca é um símbolo fálico... um substituto do órgão sexual do homem. Em vez de copular normalmente, o nosso suspeito satisfaz as suas necessidades sexuais sujeitando as suas vítimas a situações de dor física e terror. É o poder que exerce sobre elas que o excita. O poder supremo sobre a vida e a morte.

A detective Jane Rizzoli não se deixava amedrontar facilmente, mas a verdade é que o Dr. Zucker lhe provocava calafrios. O homem parecia um John Malkovich pálido e pesado, com uma voz murmurada, quase feminina. Enquanto falava, os seus dedos agitavam-se com uma elegância serpenteante. Não pertencia as forças policiais; era um psicólogo especializado em criminologia que se licenciara na Universidade Northeastern e trabalhava com o Departamento da Polícia de Boston na qualidade de consultor. Rizzoli já tinha trabalhado com ele uma ocasião num caso de homicídio e, nessa altura, ele também lhe tinha causado calafrios. Não se tratava apenas da sua aparência física, mas também da maneira como ele se insinuava de modo tão profundo na mente dos criminosos, o prazer manifesto que o deambular por essa dimensão satânica lhe proporcionava. O homem gostava do que fazia. Ela conseguia ouvir aquele ronronar quase subliminal de excitação no seu tom de voz.

Olhou em redor, observando os outros quatro detectives presentes na sala de reuniões, perguntando-se se algum deles sentiria arrepios perante aquele sujeito tão estranho, mas tudo o que viu foram expressões de cansaço, já próximo das cinco da tarde.

Estavam todos fatigados. Ela própria mal tinha dormido quatro horas na noite anterior. Naquela manhã acordara na escuridão que antecedia o nascer do Sol, a sua mente engrenando de imediato a quarta velocidade enquanto processava um caleidoscópio de imagens e vozes. Tinha absorvido o caso de Elena Ortiz tão profundamente no subconsciente que nos seus sonhos ela e a vítima haviam travado uma conversa, apesar de ter sido uma conversa sem qualquer lógica. Não existiram revelações sobrenaturais, nem pistas vindas da sepultura, apenas imagens com origem nos impulsos das células cerebrais. Não obstante, Rizzoli considerava que o sonho era significativo. Revelara-lhe a importância que aquele caso tinha para si. Ser o detective incumbido de chefiar uma investigação tão importante era o mesmo que andar na corda bamba sem rede. Se se apanhasse o criminoso, toda a gente aplaudia. Se se metia água, todos ficavam a ver-nos ir ao fundo.

Aquele caso era já um caso importante. Há dois dias, o cabeçalho do jornal local dizia: "O Cirurgião Corta Outra Vez." Graças ao Boston Herald, o homicida tinha a sua própria alcunha e até mesmo os polícias passaram a utilizá-la. O Cirurgião.

Deus sabia que ela se sentia preparada para andar no arame, para a possibilidade de se elevar ou bater com o nariz nos seus próprios méritos. Havia uma semana, quando entrara no apartamento de Elena Ortiz na qualidade de detective-chefe, percebera logo que aquele era o caso que faria a sua carreira e estava ansiosa por poder pôr-se à prova.

A rapidez com que as coisas se alteravam.

Em vinte e quatro horas, o "seu" caso tinha-se transformado numa investigação muito mais alargada, chefiada pelo tenente da brigada, Marquette. O caso de Elena Ortiz fora englobado no caso de Diana Sterling e a equipa passara a ser composta por cinco detectives, além do tenente Marquette: Rizzoli e o seu parceiro, Barry Frost; Moore e o seu corpulento acompanhante, Jerry Sleeper; e um quinto detective, Darren Crowe. Rizzoli era a única mulher da equipa; aliás, era a única mulher em toda a Brigada de Homicídios e havia alguns homens que nunca permitiam que ela se esquecesse disso. Era verdade que se dava bastante bem com Barry Frost, apesar dos seus modos sempre irritantemente joviais. Jerry Sleeper era demasiado fleumático para que alguém se aborrecesse com ele, e também não se aborrecia com ninguém. E no que dizia respeito a Moore... Bem, apesar das reservas iniciais, ela começara a simpatizar francamente com ele, respeitando-o pelo seu trabalho metódico e calmo. Mas, mais importante do que isso, ele parecia respeitá-la. Sempre que falava, Rizzoli sabia que Moore lhe prestava atenção.

Quem lhe provocava engulhos era o quinto polícia da equipa, Darren Crowe. Engulhos sérios. Naquele momento, o homem estava sentado à sua frente com o habitual sorriso pretensioso no rosto bem bronzeado. Ela tinha crescido com rapazes como ele. Rapazes com montes de músculos e montes de namoradas. Montes de ego.

Ela e Crowe desprezavam-se mutuamente.

Alguém começou a passar uma pilha de papéis em volta da mesa. Rizzoli tirou uma cópia para si, vendo que era o perfil psicológico do criminoso que o Dr. Zucker acabara de concluir.

- Sei que alguns de vocês acham que o meu trabalho se vale apenas da astúcia - começou por dizer o Dr. Zucker. - Portanto, permitam que lhes explique o meu raciocínio. Sabemos o seguinte acerca do nosso indivíduo: ele entra na residência das vítimas por uma janela aberta. Costuma fazê-lo de madrugada, entre a meia-noite e as duas da manhã. Surpreende a vítima na cama. Imediatamente, trata de a adormecer com clorofórmio. Em seguida, despe-a. Imobiliza-a, atando-a à cama com fita isoladora que enrola à volta dos tornozelos e dos pulsos. Reforça isso com fita à largura da região superior das coxas e a meio do tronco. Finalmente, trata de a amordaçar também com fita isoladora. O que ele pretende é dominá-la por completo. Quando a vítima desperta pouco depois, verifica que não consegue mexer-se nem gritar. É como se estivesse paralisada, no entanto, mantém-se acordada, tendo plena consciência do que lhe vai acontecer. E o que lhe acontece a seguir é, sem dúvida alguma, o pior pesadelo que alguém pode ter.

A voz de Zucker enfraqueceu, adquirindo um tom monocórdico. Quanto mais grotescos eram os pormenores, mais brando era o seu timbre de voz, obrigando todos a inclinarem-se para a frente, suspensos nas palavras que lhe saíam da boca.

- O homicida começa a cortar - continuou Zucker. - De acordo com o relatório da autópsia, age sem pressas. É meticuloso; começa por cortar a região do baixo-ventre, camada após camada de tecidos. Primeiro a pele, depois a camada subcutânea da faseia e a seguir os tecidos musculares. Ele recorre às suturas para controlar as hemorragias. Identifica e remove apenas o órgão que pretende. Nada mais. E o que ele pretende é o útero.

Zucker olhou em volta, registando a reacção de cada um. O seu olhar deteve-se em Rizzoli, a única detective na sala que possuía o órgão de que estavam a falar. Ela não desviou o olhar, fitando-o, ressentida pelo facto de o seu sexo ter feito com que ele se concentrasse em si.

- O que é que isso nos diz a respeito dele, detective Rizzoli? - perguntou Zucker.

- Diz-nos que ele odeia as mulheres - respondeu ela. - Remove a única coisa que as torna mulheres.

Zucker fez um aceno afirmativo esboçando um sorriso que fez com que ela. estremecesse.

- Foi o que Jack, o Estripador, fez a Annie Chapman. Ao retirar o útero, ele desfeminiza a vítima. Rouba-lhe poder. Ignora as jóias e o dinheiro que ela possa ter. Só pretende uma coisa e, depois de ter colhido o seu trofeu, já pode prosseguir até ao final. Mas primeiro há uma pausa antes da excitação suprema. As autópsias feitas às vítimas indicam que ele pára neste ponto. É possível que decorra uma hora enquanto as vítimas continuam a sangrar lentamente. No interior do ventre delas vai-se formando uma poça de sangue. E o que faz ele durante esse tempo?

- Sente prazer - adiantou Moore falando em voz baixa.

- Quer dizer que se masturba? - perguntou Darren Crowe, fazendo a pergunta com a sua crueza habitual.

- Não foram encontrados vestígios de ejaculação em nenhum dos locais dos crimes - salientou Rizzoli.

Crowe lançou-lhe um olhar. Mas que esperta que tu és!

- A ausência de ejaculação - retorquiu ele sarcasticamente, enfatizando cada sílaba - não significa que não houve masturbação.

- Não acredito que ele se tenha masturbado - retrucou Zucker. - Este indivíduo nunca abdicaria de tanto poder de controlo num ambiente que não lhe é familiar. Acho que espera até se encontrar num lugar seguro para atingir o clímax. Tudo o que envolve o local do crime como que grita controlo. Quando ele se apronta para o acto final, fá-lo com segurança e autoridade. Corta a garganta da vítima com um único golpe profundo. Em seguida, executa um último ritual.

Zucker estendeu a mão para a sua pasta e retirou duas fotografias tiradas no local do crime, pousando-as em cima da mesa. Uma era do quarto de Diana Sterling e a outra de Elena Ortiz.

- Ele dobra meticulosamente a roupa com que elas estavam a dormir e coloca-a junto do corpo. Sabemos que só o faz depois da chacina porque foram encontrados salpicos de sangue nas dobras interiores.

- Por que razão ele age assim? - perguntou Frost. - Qual é o simbolismo dessa acção?

- Uma vez mais, controlo - respondeu Rizzoli.

- Claro que esse aspecto faz parte do ritual. - concordou o Dr. Zucker. - Através desse ritual, ele demonstra controlar a situação. Mas, ao mesmo tempo, o ritual também o controla. É um impulso a que ele talvez não seja capaz de resistir.

- E se ele for impedido de concretizar as suas acções? - perguntou Frost. - Digamos que é interrompido e não consegue acabar a tarefa.

- Sentir-se-á frustrado e furioso. Pode ver-se compelido a começar de imediato à procura da próxima vítima. Todavia, e até ao momento, ele teve sempre oportunidade de concluir o ritual. E cada homicídio tem sido suficientemente satisfatório para o aguentar durante um longo período de tempo. - Zucker olhou à sua volta. - Este é o pior tipo de homicida que temos de enfrentar. Ele deixou passar um ano entre os ataques... o que é de facto raro e significa que é capaz de esperar meses entre uma caçada e outra. Podíamos esfalfar-nos a procurá-lo por todo o lado, enquanto ele se mantém pacientemente à espera da próxima matança. É cuidadoso. Uma pessoa organizada. Deixará muito poucas pistas, ou nenhuma, na sua esteira. - Olhou para Moore, tentando confirmação.

- Não temos quaisquer impressões digitais, nem encontrámos nada nos locais dos crimes que nos permita a recolha de ADN - adiantou Moore. - Tudo o que descobrimos foi um único fio de cabelo no ferimento da Ortiz. E umas quantas fibras escuras de po-liéster na caixilharia da janela.

- Presumo que também não tenham encontrado testemunhas.

- Entrevistámos mil e trezentas pessoas no caso Sterling. Até ao momento, já falámos com oitenta pessoas no que se refere ao caso Ortiz. Ninguém viu o intruso. Ninguém se apercebeu de alguma pessoa a rondar a casa.

- Mas obtivemos três confissões - adiantou Crowe. - Todos se apresentaram voluntariamente na esquadra. Tomámos nota do depoimento dos três e dissemos-lhes que fossem à sua vida. Tarados - acrescentou Crowe rindo-se.

- Este indivíduo não é louco - continuou Zucker. - Eu diria que parece uma pessoa absolutamente normal. Creio que é de raça branca e que terá vinte e muitos ou trinta e poucos anos. Sempre muito bem arranjado e com uma inteligência acima da média. Deve ter frequentado um curso superior e talvez tenha até uma licenciatura. As cenas dos dois crimes ficam a mais de quilómetro e meio uma da outra, e os assassínios foram cometidos a uma hora em que os transportes públicos são muito reduzidos. Portanto, conduz um automóvel. Estará em perfeitas condições e terá uma boa manutenção. Provavelmente tem qualquer historial de problemas de saúde mental, mas pode ter cadastro como delinquente juvenil devido a assaltos ou a voyeurismo. Se trabalhar, terá um emprego que requer tanto meticulosidade como inteligência. Sabemos que é um tipo que planeia bem as coisas, como está demonstrado pelo facto de andar com o seu estojo de homicídio... bisturi, linhas para suturas, fita isoladora e clorofórmio. Além de um recipiente qualquer onde possa guardar o seu trofeu até chegar a casa. Pode ser tão simples como um saco de plástico com fecho hermético. Trabalha numa área que requer muita atenção aos pormenores. Uma vez que, como é óbvio, possui conhecimentos de anatomia e experiência cirúrgica, podemos estar a lidar com um profissional da classe médica.

O olhar de Rizzoli cruzou-se com o de Moore, ambos assombrados pelo mesmo pensamento: provavelmente, existiam mais médicos per capita na cidade de Boston do que em qualquer outro lugar do mundo.

- Porque é inteligente - prosseguiu Zucker -, sabe que mantemos sob vigilância os locais onde cometeu os crimes. Assim, há-de resistir à tentação de voltar lá. Contudo, a tentação está sempre presente, por isso vale a pena continuar a manter a residência da Elena Ortiz sob vigilância, pelo menos durante os próximos tempos.

"Também é suficientemente inteligente para evitar escolher uma vítima num local demasiado próximo da zona onde reside. É aquilo que classificamos de "comutador", e não um "saqueador". Sai do seu bairro para caçar. Até obtermos mais dados, não tenho meios para elaborar um verdadeiro perfil no campo geográfico. Não posso indicar com precisão as zonas da cidade em que devem centrar a vossa atenção.

- De quantos dados de referência é que precisa? - perguntou Rizzoli.

- No mínimo, cinco.

- O que significa que precisamos de cinco assassínios?!

- O Programa Criminal de Alvo Geográfico que utilizo exige cinco para que tenha um mínimo de validade. Já recorri a ele dispondo apenas de quatro dados de referência e, por vezes, é possível calcular o local de residência do criminoso com base nisso, mas não é exacto. Precisamos de mais informações a respeito dos seus movimentos. Qual o espaço em que exerce a sua actividade, quais os seus pontos de ancoragem. Todos os assassinos trabalham dentro dos limites de uma determinada zona em que se sentem à vontade. São como carnívoros a caçar. Têm o seu território, os seus locais de pesca, lugares onde encontram as suas presas. - Zucker olhou para as expressões pouco impressionadas dos detectives sentados à volta da mesa. - Ainda não sabemos o suficiente a respeito deste homicida para poder prever o que quer que seja. Por conseguinte, temos de nos concentrar nas vítimas. Quem são e por que razão ele as escolheu.

Zucker fez uma pausa, levando a mão à pasta de onde tirou dois dossiês, um com uma etiqueta onde se lia "Sterling" e o outro "Or-tiz". Espalhou uma dúzia de fotografias sobre o tampo da mesa. Imagens das duas mulheres quando ainda eram vivas; algumas remontavam à infância das duas.

- Vocês nunca viram algumas destas fotografias. Pedi aos familiares das duas que mas facultassem, apenas para podermos ter alguma percepção do que foi o passado destas duas mulheres. Olhem para os rostos delas. Observem atentamente o que foram como pessoas. Por que motivo o homicida as escolheu? Onde é que as viu pela primeira vez? O que havia nelas que despertou a sua atenção? O riso? Um certo sorriso? Seria a maneira como caminhavam por uma rua da cidade?

Começou a ler uma folha dactilografada.

- Diana Sterling, trinta anos de idade. Cabelos louros e olhos azuis. Um metro e setenta e quatro, cinquenta e seis quilos. Profissão: agente de viagens. Local de trabalho: Newbury Street. Residência: Marlborough Street, em Back Bay. Licenciada pela Faculdade Smith. Os pais, advogados, residem numa mansão no Connecticut que custou dois milhões de dólares. Namorados: nenhum à altura da morte.

Pousou a folha que havia lido, pegando noutra.

- Elena Ortiz, vinte e dois anos de idade. Hispânica. Cabelos pretos e olhos castanhos. Um metro e cinquenta e oito, quarenta e sete quilos. Profissão: empregada de balcão na florista da família em South End. Residência: um apartamento em South End. Qualificações académicas: curso do ensino secundário. Viveu sempre em Boston. Namorados: nenhum à altura da morte.

Interrompeu-se erguendo o olhar.

- Duas mulheres que viviam na mesma cidade, mas cujas existências decorriam em universos diferentes. Faziam as suas compras em lojas diferentes, comiam em restaurantes diferentes e não tinham amigos em comum. Como é que o nosso homem as encontrou? Onde é que ele as encontra? Não só são muito diferentes uma da outra, como não se enquadram no perfil habitual das vítimas de crimes de natureza sexual. A maior parte dos criminosos ataca os membros mais vulneráveis da sociedade. Prostitutas ou mulheres que pedem boleia. À semelhança de qualquer carnívoro que ande à caça, eles perseguem o animal que se encontra à margem do rebanho. Portanto, por que razão a escolha recaiu nestas duas? - Zucker abanou a cabeça. - Não sei.

Rizzoli olhou para as fotografias espalhadas na mesa, concentrando-se num instantâneo de Diana Sterling que lhe despertou a atenção. Mostrava uma jovem radiante, com o barrete académico e a beca, que acabava de receber o diploma de licenciatura da Faculdade Smith. A "menina de ouro". Qual a sensação de se ser uma menina de ouro?, perguntou-se Rizzoli. Não fazia a mais pequena ideia. Tinha crescido como a irmã menosprezada de dois irmãos de corpo atlético e muito bem-parecidos, a pequena maria-rapaz desesperada que só queria pertencer ao grupo. Com certeza que Diana Sterling, com as suas maçãs do rosto de linhas aristocráticas e o seu pescoço esbelto, nunca havia passado pela experiência de ser posta à margem, de ter sido excluída. Decerto nunca soubera o que era ser-se ignorada.

O olhar de Rizzoli deteve-se no pingente em ouro que ornava o pescoço de Diana. Pegou na fotografia para poder observá-la mais de perto. Sentindo a pulsação acelerada, olhou em volta para ver se algum dos outros agentes se tinha apercebido daquilo em que ela acabara de reparar, mas ninguém olhava para ela nem para as fotografias; estavam todos concentrados no Dr. Zucker.

Entretanto ele tinha desdobrado um mapa de Boston. Sobrepostas à grelha formada pelas artérias da cidade havia duas zonas sombreadas, uma sobre a área de Back Bay, a outra sobre a de South End.

- Tanto quanto sabemos, estas são as áreas em que as actividades das nossas duas vítimas decorriam. As zonas onde viviam e trabalhavam. Todos temos tendência para levar o dia-a-dia das nossas existências em áreas que nos são familiares. Como os que se dedicam a estabelecer perfis de ordem geográfica costumam dizer: "O lugar onde vamos depende daquilo que sabemos, e o que sabemos depende do lugar onde vamos." Isto é verdade no que concerne as vítimas e os criminosos. Neste mapa, podem ver os mundos diferenciados e separados em que estas duas mulheres viviam. Aqui não existem sobreposições. Não temos pontos de ancoragem comuns nem sítios em que as suas vidas se cruzem. É isto que mais me intriga. É o ponto-chave para a investigação. Qual é o elo de ligação entre a Sterling e a Ortiz?

O olhar de Rizzoli voltou a deter-se na fotografia, Concentrou-se no pingente em ouro no pescoço de Diana. Posso estar enganada. Não devo dizer nada até ter a certeza, porque, se estiver enganada, será mais uma coisa que o Darren Crowe usará para me ridicularizar.

- Já se apercebeu de que há outro aspecto muito peculiar neste caso? - perguntou Moore. - A doutora Catherine Cordell.

- A vítima que sobreviveu ao ataque em Savannah - disse Zucker assentindo com a cabeça.

- Há vários pormenores relativos aos crimes do Andrew Capra que nunca foram revelados ao público. O uso de categute para suturas. O dobrar da roupa com que as vítimas dormiam. E, contudo, o nosso homicida está a reconstituir todos esses pormenores.

- Os assassinos mantêm-se em contacto uns com os outros. Trata-se de uma espécie de irmandade perversa.

- O Capra morreu há dois anos. Logo, é impossível que se mantenha em contacto com quem quer que seja.

- Mas enquanto foi vivo talvez tenha partilhado os pormenores macabros com o nosso homicida. É nessa explicação que deposito as minhas esperanças. E isso porque a alternativa é muito mais perturbadora.

- Que o nosso homem teve acesso aos relatórios da polícia de Savannah - adiantou Moore.

- O que significaria que ele faz parte das forças da lei - disse Zucker com um aceno de cabeça.

O silêncio abateu-se sobre a sala. Rizzoli não conseguiu impedir-se de olhar para os colegas - todos do sexo masculino. Pensou sobre o tipo de homem que se sentia atraído para o trabalho policial. O tipo de homem que adorava o poder e a autoridade, as armas e o crachá. A oportunidade de controlar os outros. Precisamente aquilo por que o nosso homicida anseia.

Quando a reunião acabou, Rizzoli esperou que os outros detectives saíssem da sala de reuniões e só depois se abeirou de Zucker.

- Posso ficar com esta fotografia? - perguntou a detective.

- Posso perguntar-lhe porquê?

- Tive um palpite.

Zucker brindou-a com um dos seus sorrisos arrepiantes à John Malkovich.

- Não quer partilhá-lo comigo?

- Não costumo partilhar os meus palpites - respondeu Rizzoli.

- Dá-lhe azar?

- É uma questão de proteger o meu território.

- Mas trata-se de uma investigação em equipa.

- Há uma coisa engraçada em relação ao trabalho de equipa. Quando partilho os meus palpites, há sempre alguém que fica com os louros. - Com a fotografia na mão, Rizzoli saiu da sala, arrependendo-se imediatamente do último comentário que fizera. Mas a verdade é que tinha andado irritada durante todo o dia com os seus colegas do sexo masculino, por causa dos remoques e pequenas humilhações, manifestações típicas de um certo desprezo em relação a ela. A gota de água fora o interrogatório que ela e Crowe haviam feito à vizinha de Elena Ortiz. Sistematicamente, Crowe interrompera as perguntas de Rizzoli para indagar o que ele próprio queria saber. Quando ela o puxara para fora da sala, censurando-lhe o seu comportamento, ele atirara-lhe o insulto clássico utilizado pelos homens.

- Imagino que estejas naquela altura do mês.

Não, ela decidiu que não partilharia os seus palpites com ninguém. Caso não dessem em nada, não seria alvo de troça. E se dessem bons resultados, ela seria a legítima merecedora dos louros.

Voltou para a sua secretária a fim de examinar mais atentamente a fotografia do dia de formatura de Diana Sterling. Prestes a pegar na lupa, reparou subitamente na garrafa de água mineral que tinha sempre em cima da secretária e a sua irritação ficou ao rubro quando viu o que tinham colocado lá dentro.

Disse a si própria que não devia reagir. Não deixes que eles vejam que conseguiram irritar-te.

Ignorando a garrafa de água, assim como o objecto nojento que continha, focou a lupa na região do pescoço de Diana Sterling. No escritório pairava um silêncio invulgar. Quase sentia fisicamente o olhar de Darren Crowe que esperava vê-la explodir.

Isso não vai acontecer, idiota! Desta vez vou conseguir manter a calma.

Concentrou-se no colar de Diana. Aquele pormenor quase lhe passara despercebido porque o rosto fora o que inicialmente lhe chamara a atenção, aquelas maçãs do rosto maravilhosas, o arqueado delicado das sobrancelhas. Agora examinava os dois pingentes suspensos do frágil fio. Um deles tinha a forma de uma fechadura e o outro a de uma chave pequeníssima. A chave que abre o meu coração, pensou Rizzoli.

Passou em revista as pastas que tinha na secretária até encontrar as fotografias tiradas no local onde Elena Ortiz fora assassinada. Com a ajuda da lupa, examinou um grande plano do tronco da vítima. Através da camada de sangue seco que se agarrara ao pescoço, e apesar de pouco perceptível, reparou na linha fina do fio em ouro; os dois pingentes eram pouco visíveis.

Estendeu a mão para o telefone e ligou para o gabinete do médico patologista.

- O doutor Tierney vai estar fora toda a tarde - informou a secretária. - Posso ajudá-la?

- Queria falar-lhe sobre uma autópsia que ele fez na sexta-feira passada. Elena Ortiz.

- Sim...?

- A vítima usava uma jóia quando foi levada para a morgue. Continuam a tê-la em vosso poder?

- Deixe-me ver.

Rizzoli ficou à espera, batendo repetidamente com a extremidade do lápis na mesa. A garrafa de água encontrava-se mesmo à sua frente; contudo, determinada, ela fez de conta que não estava ali. A cólera dera lugar à expectativa. Ao empolgamento da caçada.

- Detective Rizzoli?

- Sim?

- Os objectos pessoais já foram reclamados pela família. Um par de brincos pequenos em ouro, um fio e um anel.

- Quem assinou a nota de entrega?

- Uma tal Anna Garcia, a irmã da vítima.

- Obrigada - agradeceu Rizzoli desligando e vendo as horas no seu relógio de pulso. Anna Garcia vivia bastante longe, em Dan-vers, o que significava uma viagem à hora de ponta...

- Sabes o que é feito do Frost? - perguntou Moore. Sobressaltada, Rizzoli soergueu o olhar, vendo-o ao lado da sua

mesa de trabalho.

- Não, não sei.

- Não veio ao escritório?

- Não costumo andar com o rapaz pela trela - ripostou Rizzoli.

- O que é isto? - perguntou Moore depois de uma breve pausa.

- Fotografias do local onde a Ortiz foi assassinada.

- Não. Estou a referir-me ao que está dentro da garrafa - esclareceu Moore.

Rizzoli voltou a erguer o olhar e viu que ele tinha o sobrolho franzido.

- O que te parece que é? A merda dum tampão higiénico. Alguém aqui tem um sentido de humor bastante sofisticado. - Olhou directamente para Darren Crowe, o qual reprimiu uma risada escarninha, desviando o olhar.

- Eu trato deste assunto - disse Moore pegando na garrafa.

- Ei! - atalhou Rizzoli, desabrida. - Raios, Moore! Esquece!

Ele encaminhou-se para o gabinete do tenente Marquette. Através da divisória de vidro, viu Moore pousar a garrafa que continha o tampão na secretária de Marquette. O tenente virou-se, olhando fixamente na direcção de Rizzoli.

Cá vamos nós outra vez. Agora vão dizer que a gaja não é capaz de aceitar uma partida.

Pegou na carteira, juntou as fotografias e saiu do gabinete.

Rizzoli já se encontrava junto dos elevadores quando Moore a chamou.

- Rizzoli?

- Agradeço-te que não traves as minhas batalhas por mim, de acordo? - ripostou ela.

- Tu não estavas a fazer nada. Limitaste-te a ficar sentada com aquela... coisa em cima da tua secretária.

- Tampão. És capaz de proferir a palavra em alto e bom som?

- Porque estás tão irritada comigo? Só estou a tentar defender-te.

- Olha uma coisa, São Tomás, no mundo a sério é assim que as coisas funcionam para as mulheres. Se fizer uma participação, eu é que fico lixada. Fica registada na minha folha de serviço. Não consegue interagir com os colegas do sexo masculino. Caso decida queixar-me outra vez, a minha reputação fica estabelecida. Rizzoli, a choramingas. Rizzoli, a cobardolas.

- Mas se não te queixares, estás a deixar que eles saiam a ganhar.

- Tentei fazer as coisas à tua maneira. Não resulta. Portanto, não quero favores, está bem? - Pôs a carteira ao ombro e entrou no elevador.

Assim que a porta se fechou, desejou poder retirar as suas palavras. Moore não merecia que lhe tivesse falado daquela maneira. Sempre se mostrara cortês, cavalheiro, mas, impulsionada pela cólera, tinha-lhe atirado à cara a alcunha que os outros membros da brigada lhe haviam dado: São Tomás. O polícia que nunca pisava o risco, não dizia palavrões nem perdia a calma.

E havia ainda as circunstâncias bastante tristes que envolviam a vida pessoal do colega. Dois anos antes, a mulher, Mary, fora vítima de uma hemorragia cerebral. Durante seis meses aguentara-se à beira do coma, mas, até ao dia em que efectivamente morrera, Moore recusara-se a perder a esperança de que ela recuperasse. Até mesmo naquele momento, um ano e meio depois da morte de Mary, ele parecia não se conformar. Continuava a usar a aliança de casamento, a manter o retrato dela na sua mesa de trabalho. Rizzoli tivera oportunidade de ver o soçobrar do casamento de um grande número de polícias, de ver as substituições das fotografias de mulheres nas secretárias dos colegas. Na secretária de Moore, a imagem de Mary permanecia, o rosto sorridente para sempre.

São Tomás! Rizzoli abanou a cabeça com uma expressão de cinismo. Se existissem santos autênticos neste mundo, com certeza nenhum seria polícia.

 

Um queria-o vivo, enquanto o outro queria vê-lo morto, e ambos afirmavam que o amavam mais do que o outro. O filho e a filha de Herman Gwadowski encontravam-se frente a frente em lados opostos da cama do pai e nenhum estava disposto a desistir do seu ponto de vista.

- Não foste tu que tiveste de cuidar do pai - dizia Marilyn. - Eu é que preparei as suas refeições. Limpei a casa. Levei-o ao médico todos os meses. Quando é que te deste ao trabalho de o visitar! Tinhas sempre coisas mais importantes para fazer.

- Por amor de Deus! Eu vivo em Los Angeles - ripostou Ivan. - Tenho um negócio para gerir.

- Podias ter vindo de avião uma vez por ano. Até que ponto isso é difícil?

- Pois bem, aqui estou eu agora.

- Sim, é isso mesmo. A vedeta aparece de repente para salvar o dia. Não podias dar-te ao incómodo de o visitar antes. Mas agora queres que seja feito tudo para o salvar.

- Não posso acreditar que estejas disposta a deixá-lo morrer.

- Não quero que ele sofra mais do que já sofreu.

- Ou talvez queiras que ele pare de esvaziar a conta bancária.

Todos os músculos faciais de Marilyn ficaram contraídos.

- Grande sacana!

Catherine não aguentava ouvir mais e decidiu intervir.

- Este não é o lugar apropriado para discutirem esse assunto. Por favor, importam-se de sair do quarto?

Durante uns momentos, irmão e irmã ficaram a olhar um para o outro num silêncio hostil, como se o simples facto de um deles ser o primeiro a sair do quarto fosse um gesto de rendição. Então, Ivan saiu do quarto, uma figura intimidante num fato feito à medida.

A irmã, Marilyn, com o aspecto da dona de casa estafada dos subúrbios que era, apertou a mão do pai e seguiu o irmão.

Já no corredor, Catherine apresentou-lhes os factos pouco auspiciosos.

- Desde o dia do acidente que o vosso pai está em coma. A função renal já começou a falhar. Devido à diabetes de que ele sofre há muito tempo, os rins já estavam debilitados e o trauma só contribuiu para agravar o seu estado.

- Até que ponto essas consequências se devem à cirurgia? - perguntou Ivan. - À anestesia que lhe ministrou?

Catherine esforçou-se por conter a irritação, dizendo com toda a calma:

- Ele estava inconsciente quando deu entrada no Serviço de Urgência. A anestesia não foi um factor decisivo. Mas as lesões nos tecidos exerceram grande pressão sobre os rins e os dele estão prestes a deixar de funcionar. Além do mais, tinha-lhe sido diagnosticado cancro da próstata, e o mal já se disseminara até aos ossos. Ainda que ele recupere a consciência, estes problemas manter-se-ão.

- Quer que desistamos, não é verdade? - perguntou Ivan.

- Quero apenas que reflictam no estado em que ele se encontra. Se o coração parar, não é obrigatório que tentemos reanimá-lo. Podemos permitir que parta serenamente.

- Está a dizer que o deixemos morrer.

- Sim - confirmou Catherine.

Ivan fungou numa atitude de escárnio.

- Permita-me que lhe diga algo a respeito do meu pai. Ele não é pessoa para desistir. E eu também não.

- Por amor de Deus, Ivan! Não se trata de perder ou ganhar! - ripostou Marilyn. - Tem a ver com o facto de o deixarmos partir... em paz.

- E tu estás com muita pressa de fazer isso, não estás? - retrucou ele virando-se de frente para a irmã. - Ao primeiro sinal de dificuldade, a pequena Marilyn está sempre pronta a desistir, deixando que seja o pai a ir em seu socorro. Pois bem, ele nunca me safou de situação nenhuma.

As lágrimas já brilhavam nos olhos de Marilyn.

- Isto não tem nada a ver com o pai, pois não? Apenas com o facto de teres de ser o vencedor.

- Não, tem a ver com o dar-lhe uma oportunidade de lutar - retorquiu Ivan olhando para Catherine. - Quero que se faça tudo o que for possível para salvar o meu pai. Espero que isto fique bem claro.

Marilyn limpou as lágrimas das faces enquanto olhava para o irmão que se afastava.

- Como é que ele consegue dizer que gosta do pai quando nunca o visitava? - Olhou para Catherine. - Não quero que o meu pai seja reanimado. Pode incluir essa indicação na papeleta dele?

Aquele era o tipo de dilema ético que todos os médicos temiam. Muito embora Catherine estivesse do lado de Marilyn, as últimas palavras do irmão haviam sido acompanhadas de uma ameaça impossível de ignorar.

- Não posso alterar as instruções clínicas até que a senhora e o seu irmão se ponham de acordo em relação a este assunto.

- Ele jamais concordará comigo. A doutora ouviu o que ele disse.

- Sendo assim, vai ter de falar de novo com ele. Vai ter de o convencer.

- Receia que ele a processe judicialmente, não é verdade? É por esse motivo que não altera as instruções.

- Sei que ele está encolerizado - admitiu Catherine.

- É assim que ele costuma vencer - retorquiu Marilyn com uma expressão de tristeza. - É assim que ele ganha sempre.

Era capaz de remendar um corpo, pondo-o em condições, pensou Catherine. Mas não podia consertar aquela família.

O sofrimento e a hostilidade que haviam transpirado daquele encontro continuavam a incomodá-la quando saiu do hospital meia hora mais tarde. O fim-de-semana livre de quaisquer compromissos profissionais estendia-se à sua frente naquela tarde de sexta-feira; no entanto, quando saiu do estacionamento do hospital, não experimentou a mínima sensação de liberdade. Estava ainda mais calor do que na véspera, com a temperatura a rondar os trinta e cinco graus, e ela ansiava pela frescura do apartamento, por poder sentar-se com um chá gelado e a televisão sintonizada no Canal Discovery.

Aguardava no primeiro cruzamento para que o semáforo ficasse verde quando o seu olhar se fixou na placa com o nome da rua transversal. Worcester.

Era a rua em que Elena Ortiz vivera. O endereço da vítima havia sido mencionado no artigo publicado pelo Boston Globe que, finalmente, Catherine se sentira compelida a ler.

A luz do semáforo mudou. Movida por um impulso, virou para a Worcester Street. Nunca tivera nenhuma razão que a levasse a ir naquela direcção, mas qualquer coisa a impeliu a seguir para lá. A necessidade mórbida de ver onde o assassino atacara e olhar para o prédio onde o seu próprio pesadelo adquirira vida na pessoa de outra mulher. Sentia as mãos húmidas, a pulsação a acelerar, enquanto ia vendo os números dos prédios.

Quando chegou à morada de Elena Ortiz, encostou ao passeio.

Não havia nada de especial naquele edifício, nada que lhe gritasse terror e morte. Via apenas outro prédio em tijolo de quatro pisos.

Saiu do automóvel e pôs-se a olhar para as janelas dos andares superiores. Qual seria o apartamento onde Elena vivera? Aquele que tinha uns cortinados de riscas? Ou o outro em que se via uma autêntica selva de plantas penduradas? Aproximou-se da entrada da frente e começou a ler os nomes dos inquilinos. Havia seis apartamentos. O espaço para o nome do inquilino do Apartamento 2-A estava em branco. Elena já tinha sido apagada, a vítima removida das fileiras dos vivos. Ninguém queria nada que lhes lembrasse a morte.

De acordo com o que o Globe publicara, o assassino tinha entrado no apartamento através da escada de emergência. Recuando até ao passeio, Catherine reparou na treliça que subia pela parede lateral do prédio virada para o beco. Deu alguns passos para a penumbra do beco, após o que se deteve. Sentiu os pêlos da nuca eriçarem-se. Virou-se para a rua e viu um camião a passar ruidosamente e uma mulher a fazer jogging. Um casal a entrar num automóvel. Nada que justificasse sentir-se ameaçada, e, contudo, não conseguia ignorar os gritos silenciosos de pânico.

Voltou para o carro, entrou e trancou as portas, deixando-se ficar sentada enquanto agarrava o volante com força, repetindo para si própria: "Não se passa nada de mal. Não se passa nada de mal." Sentindo o ar fresco que vinha das grelhas do ar condicionado, apercebeu-se de que a sua pulsação cardíaca desacelerava gradualmente. Por fim, com um suspiro, encostou-se para trás.

Uma vez mais, o seu olhar dirigiu-se para o prédio onde Ortiz vivera.

Só então é que reparou no automóvel estacionado no beco. Na chapa de matrícula montada no pára-choques traseiro.

Posey.

No instante seguinte, remexia em tudo o que tinha dentro da carteira à procura do cartão-de-visita que o detective lhe dera. Com mãos trémulas, ligou o número dele, usando o telefone do carro.

- Detective Moore - proferiu ele num tom formal quando atendeu.

- Fala a Catherine Cordell - disse ela. - Esteve comigo há alguns dias.

- Sim, doutora Cordell?

- A Elena Ortiz tinha um Honda verde?

- Importa-se de repetir?

- Preciso de saber qual o número da matrícula.

- Lamento confessar que não estou a entender...

- Diga-me só isso, mais nada! - O tom agreste de exigência na voz dela deixou-o perplexo. Fez-se um longo silêncio.

- Deixe-me ir ver - disse Moore pouco depois. Como barulho de fundo, ela ouviu homens a falar e telefones a tocar. Moore voltou à linha.

- É uma matrícula personalizada - informou o detective. - Creio que é alusiva ao negócio de florista da família.

- Posey Cinco - disse ela num sussurro.

- Sim - confirmou ele depois de uma curta pausa, numa voz estranhamente tranquila. Alerta.

- Quando falou comigo no outro dia, perguntou-me se eu conhecia a Elena Ortiz.

- E disse-me que não conhecia.

- Estava enganada - admitiu Catherine com a respiração entrecortada.

 

Ela andava de um lado para o outro no Serviço de Urgência, o rosto pálido e a expressão tensa, o cabelo de um tom acobreado a cair-lhe abundantemente à volta dos ombros. Olhou para Moore quando ele entrou na sala de espera.

- Eu tinha razão? - perguntou Catherine.

- Posey Cinco era o nome que ela usava na Internet - confirmou Moore com um aceno de cabeça. - Verificámos no computador dela. E agora diga-me como teve conhecimento disso.

Notando a azáfama do Serviço de Urgência, ela propôs:

- Vamos para um dos quartos dos funcionários.

A sala para onde ela o levou era uma cave escura e exígua, sem janelas, mobilada apenas com uma cama, uma cadeira e uma mesa. Para um médico exausto, cujo único objectivo era dormir, aquele quarto parecia adequado. Porém, quando a porta se fechou, Moore ficou bem ciente de como aquele espaço era pequeno e perguntou a si mesmo se aquela intimidade forçada provocaria tanto mal-estar à médica como a ele próprio. Ambos olharam em redor à procura de lugares onde pudessem sentar-se. Finalmente, Catherine instalou-se na cama e ele na cadeira.

- Na verdade, nunca cheguei a conhecer a Elena - começou Catherine a dizer. - Nem sequer sabia que era esse o nome dela. Ambas pertencíamos ao mesmo chat room da Internet. Sabe o que é um chat roon?

- É uma maneira de manter uma conversa através de um computador.

- Sim. É um grupo de pessoas que convivem on line. Trata-se de um chat room cujo acesso está reservado apenas a mulheres. É preciso ter-se conhecimento de todas as palavras do código para se poder entrar. E tudo o que se vê no ecrã do computador são apenas nomes fictícios. Nada de nomes verdadeiros ou rostos, de modo a que todas possamos permanecer anónimas. O que permite que nos sintamos suficientemente seguras para partilhar os nossos segredos - Catherine fez uma pausa. - Nunca entrou num chat roon?

- Devo admitir que falar com estranhos sem rosto não é coisa que me atraia por aí além.

- Por vezes - disse ela em voz baixa -, um estranho sem rosto é a única pessoa com quem podemos falar.

Moore apercebeu-se de como era profunda a dor que emanava das palavras dela, e ficou sem saber o que dizer.

Decorridos alguns momentos, Catherine respirou fundo, concentrando-se não nele, mas nas suas próprias mãos unidas no colo.

- Encontramo-nos uma vez por semana, nas noites de quarta-feira, às nove horas. Clico no ícone do chat room, em seguida digito DSPT e depois, “ajudamulher”. É assim que faço. Comunico com as outras mulheres escrevendo mensagens que envio através da Internet. As palavras aparecem no ecrã onde todas podemos lê-las.

- DSPTt Presumo que isso queira dizer...

- Distúrbio de Stresse Pós-Traumático. Um termo clínico simpático para classificar a perturbação de que sofrem as mulheres que participam.

- De que trauma estamos a falar? - perguntou Moore.

Catherine ergueu a cabeça, olhando-o bem de frente.

- De violação.

A palavra pareceu ficar suspensa entre os dois durante um momento; o som, por si só, como que electrizava o ar. Quatro sílabas brutais com o impacte de uma agressão física.

- E você participa nessas conversas via Internet por causa do Andrew Capra - afirmou Moore suavemente. - Por causa do que ele lhe fez.

Catherine pestanejou, desviando o rosto.

- Sim - sussurrou. Uma vez mais, o seu olhar concentrava-se nas mãos. Moore observava-a, a cólera a acumular-se dentro de si ao pensar naquilo por que Catherine tinha passado. Naquilo que Capra arrancara da sua alma. Perguntou a si mesmo como seria ela antes do ataque. Mais afável, mais calorosa? Ou teria sido sempre tão reservada, isolando-se do contacto humano, qual botão de flor recoberto de gelo?

Catherine endireitou-se, erguendo a cabeça com determinação, e retomou a conversa.

- E foi assim que conheci a Elena Ortiz. É claro que não sabia qual era o seu nome verdadeiro. Conhecia apenas o nome que ela utilizava na Internet, Posey Cinco.

- Quantas mulheres participam nos encontros desse chat roon? - perguntou Moore.

- O número varia de semana para semana. Algumas deixam de aparecer. Também surgem nomes novos. O número pode variar entre três a doze mulheres.

- Como é que teve conhecimento disso?

- Através de uma brochura dedicada a vítimas do crime de estupro. É distribuída por toda a cidade, nos hospitais e clínicas em que se fazem abortos.

- Portanto, essas mulheres do chat room são todas da área de Boston?

- São - confirmou Catherine.

- E a Posey Cinco era uma participante regular?

- Esteve presente durante os últimos dois meses, algumas vezes mais assiduamente do que outras. Ela nunca dizia muita coisa, mas eu via o nome dela no ecrã, pelo que sabia que estava presente.

- Ela falava da violação de que foi vítima?

- Não. Limitava-se a ler o que as outras escreviam. Mandávamos-lhe mensagens de saudação e ela acusava a recepção. Mas nunca falava de si própria. Era como se receasse fazê-lo. Ou, quem sabe, talvez sentisse demasiada vergonha para dizer o que quer que fosse.

- Isso quer dizer que não sabe se ela foi violada?

- Sei que foi - respondeu Catherine.

- Como é que sabe?

- Porque a Elena Ortiz foi tratada neste Serviço de Urgência.

- Encontrou a ficha clínica dela? - perguntou Moore olhando-a fixamente.

Catherine confirmou com um aceno de cabeça.

- Ocorreu-me que, depois de ter sido atacada, ela talvez tivesse precisado de cuidados médicos. Este é o hospital mais próximo da morada dela. Fui ver no sistema informático do hospital. Contém o nome de todos os pacientes que dão entrada no Serviço de Urgência. O nome dela constava da lista. - Catherine levantou-se. - Vou mostrar-lhe a ficha dela.

Moore seguiu-a quando ela saiu do quarto, regressando ao Serviço de Urgência. A tarde de sexta-feira estava a chegar ao fim e os casos urgentes não paravam de entrar. O TGIF, trôpego da bebida, com um saco de gelo encostado à face esmurrada. O adolescente impaciente que perdera a corrida por causa de um sinal amarelo. O exército das sextas-feiras dos indivíduos cheios de nódoas negras e ensanguentados que chegavam a tropeçar vindos da noite. O Serviço de Urgência do Centro Médico Pilgrim era um dos que tinha mais movimento em Boston, e Moore teve a sensação de estar a caminhar através do coração do caos, enquanto se esquivava das enfermeiras e das macas, indo pisar uma pequena poça de sangue acabada de se formar.

Catherine levou-o para o arquivo do Serviço de Urgência, um espaço do tamanho de um roupeiro com as paredes cobertas por prateleiras do chão ao tecto, cheias de pastas de arquivo.

- É aqui que os formulários de admissão ficam arquivados temporariamente - explicou Catherine. Tirou uma das pastas cuja etiqueta dizia: 7 a 14 de Maio. - Todas as vezes que um paciente é observado no Serviço de Urgência, preenche-se um formulário. Regra geral, é apenas uma folha com as anotações do médico e o tratamento prescrito.

- Não se faz uma ficha para cada paciente? - perguntou Moore.

- Se é apenas uma entrada no Serviço de Urgência, não se abre uma ficha clínica. O único registo é o formulário de admissão. Mais cedo ou mais tarde, estes documentos acabam nos arquivos do hospital, onde são processados e arquivados em CDs. - Catherine abriu a pasta de arquivo de 7 a 14 de Maio. - Aqui está.

Moore encontrava-se atrás dela, olhando por cima do ombro. Distraiu-se momentaneamente com a fragrância do seu cabelo, e teve de se forçar a concentrar-se na folha de papel. A entrada no Serviço de Urgência fora às dez horas do dia 9 de Maio. O nome da paciente, endereço e informações pertinentes para a facturação estavam dactilografados no topo da folha; o resto do formulário havia sido escrito à mão, a tinta. Estenografia clínica, pensou Moore enquanto se esforçava por decifrar as palavras, conseguindo compreender apenas o primeiro parágrafo, escrito pela enfermeira de serviço.

Mulher de feições hispânicas, de vinte e dois anos de idade, agredida sexualmente há duas horas. Não tem historial de alergias e não está a tomar qualquer medicamento. Tensão arterial: 105/70, Peso: 47 kg, Temperatura: 38.

O resto da folha era indecifrável.

- Vai ter de me traduzir isto - disse Moore.

Catherine olhou-o por cima do ombro; repentinamente, os seus rostos ficaram tão próximos que ele suspendeu a respiração.

- Não consegue ler isto? - perguntou-lhe ela.

- Sou capaz de ler o rasto que os pneus deixam no solo, assim como manchas de sangue. Mas não consigo decifrar isto.

- É a escrita do Ken Kimball. Estou a reconhecer a assinatura.

- Pois bem, eu nem sequer reconheço isto como sendo inglês - retorquiu Moore.

- Para outro médico, é perfeitamente legível. Só é preciso conhecer o código.

- Ensinam-lhes isso na faculdade de Medicina?

- Juntamente com o aperto de mão secreto e as instruções do manual de descodificação.

Aquela troca de observações sarcásticas acerca de assunto tão lúgubre causava alguma estranheza e ainda mais bizarro era ouvir palavras espirituosas vindas dos lábios da Dra. Cordell. Era a primeira vez que Moore vislumbrava a mulher que existia por baixo da carapaça. A mulher que ela fora antes de Andrew Capra a ter deixado tão traumatizada.

- O primeiro parágrafo refere-se ao exame físico - explicou Catherine. - Ele usa uma estenografia clínica. Coong significa cabeça, ouvidos, olhos, nariz e garganta. Ela tinha um hematoma na face esquerda. Os pulmões estavam limpos e o coração não apresentava acelerações nem murmúrios cardíacos.

- O que significa...?

- Um estado normal.

- Os médicos não podem limitar-se a escrever: "O coração está normal"?

- Por que razão os polícias dizem "veículo" em vez de, simplesmente, "carro"?

- Percebo onde quer chegar - retorquiu Moore com um aceno de cabeça.

- O abdómen apresentava-se plano, macio e sem qualquer orga-nomegalia. Por outras palavras...

- Normal - atalhou Moore.

- Está a começar a compreender. A seguir, ele descreve o... exame pélvico. Onde as coisas não estão normais - adiantou Catherine fazendo uma pausa. Quando retomou a palavra, o seu tom era mais suave, desprovido de qualquer sentido de humor. Respirou fundo, como se chamasse a si coragem para poder prosseguir. - Havia sangue no introitus, arranhões e lacerações nas coxas. Também se encontrou uma ruptura nos tecidos vaginais numa determinada posição, o que indica que o coito não foi consensual. Neste ponto, o doutor Kimball diz que interrompeu o exame.

Moore concentrou-se no último parágrafo. Conseguia ler aquele. Não estava escrito em estenografia médica.

A paciente ficou agitada. Recusou-se a permitir recolha de provas da existência de violação. Recusou-se a cooperar em qualquer procedimento adicional. Depois dos primeiros exames básicos de despistagem de HIV e sífilis, ela vestiu-se e abandonou o hospital antes de as autoridades terem sido chamadas.

- Portanto, o crime de estupro nunca chegou a ser participado - concluiu Moore. - Não se fez recolha de fluidos vaginais, logo, não houve recolha de ADN.

Catherine remeteu-se ao silêncio. Mantinha-se de cabeça baixa, com as mãos a agarrarem firmemente a pasta de arquivo.

- Doutora Cordell...? - chamou ele tocando-lhe no ombro. Ela ficou sobressaltada, como se ele a tivesse queimado, o que o levou a apressar-se a retirar a mão. Catherine ergueu o olhar e ele viu a raiva que se espelhava nos olhos dela, irradiando um sentimento de fúria que fez com que, naquele momento, fosse igualzinha a ele em termos emocionais.

- Violada em Maio e assassinada em Julho - disse ela. - É um belo mundo para as mulheres, não acha?

- Falámos com todos os membros da família dela. Ninguém se referiu à violação.

- Então ela não lhes contou.

Quantas seriam as mulheres que ficavam em silêncio?, perguntou-se Moore. Quantas terão segredos tão dolorosos que não conseguem partilhá-los com as pessoas que lhes são mais queridas? Ao olhar para Catherine, recordou-se de que também ela tinha procurado conforto na companhia de estranhos.

Ela tirou o formulário da pasta para o fotocopiar. Quando já o tinha na mão, o olhar de Moore deteve-se no nome do médico, ocorrendo-lhe outro pensamento.

- O que me pode dizer a respeito do doutor Kimball? - perguntou. - O que examinou a Elena Ortiz.

- É um médico muito competente.

- Ele costuma estar de serviço no turno da noite?

- Sim - confirmou Catherine.

- Sabe se ele estava de serviço na última quinta-feira à noite?

Catherine precisou de alguns momentos para perceber o significado daquela pergunta. Quando o apreendeu, Moore viu que ela ficara abalada devido às implicações.

- Não acredita verdadeiramente que...

- Trata-se de uma pergunta de rotina. Averiguamos todos os contactos que a vítima teve antes de morrer.

Mas a pergunta não era de rotina, e ela sabia-o.

- O Andrew Capra era médico - proferiu em voz baixa. - Não está a pensar que outro médico...

- Devo confessar que essa possibilidade já nos ocorreu.

Ela afastou-se dele. Tinha a respiração entrecortada.

- Em Savannah, quando essas mulheres foram assassinadas, limitei-me a assumir que não sabia quem era o assassino. Achei que, se o tivesse conhecido, saberia quem era. Sentiria isso. Mas o Andrew Capra deu-me a saber até que ponto eu estava enganada.

- A banalidade do mal.

- Foi precisamente isso que aprendi. Que o mal pode ser tão comum. Que um homem com quem convivia todos os dias, que cumprimentava todos os dias, pudesse retribuir-me com um sorriso... - disse Catherine, acrescentando em voz baixa: - ... enquanto pensava em todas as maneiras como gostaria de me matar.

Quando Moore voltou para o seu carro, o crepúsculo já tinha caído, mas o calor do dia continuava a irradiar do asfalto. Seria mais uma noite bastante desconfortável. Por toda a cidade, as mulheres dormiriam com as janelas abertas para permitir a entrada da brisa caprichosa. Ou dos malefícios nocturnos.

Moore parou, virando-se para o hospital. Via as letras vermelhas e luminosas que diziam "Urgências", brilhando como um farol. Um símbolo de esperança e cura.

Será aqui a coutada onde caças? Exactamente o local a que as mulheres se dirigem para serem tratadas?

Apareceu uma ambulância saída da escuridão da noite, com o clarão das suas luzes intermitentes. Moore pensou no grande número de pessoas que passariam pelo Serviço de Urgência de um hospital ao longo de um só dia. Equipas de paramédicos, médicos, enfermeiras, auxiliares de enfermagem e porteiros.

E polícias. Era uma possibilidade com que ele desejava nunca ter de se confrontar, mas não podia ignorá-la. A profissão de fazer aplicar a lei tem um estranho fascínio para aqueles que dão caça a outros seres humanos. A arma e o crachá são símbolos de domínio que sobem à cabeça. E que maior controlo se pode exercer do que o poder de atormentar e de matar? Para um caçador dessa espécie, o mundo é uma extensa planície a fervilhar de presas.

Só é preciso escolher.

 

Havia bebés por toda a parte. Rizzoli encontrava-se numa cozinha que cheirava a leite azedo e a pó de talco, à espera que Anna Garcia acabasse de limpar o sumo de maçã derramado no chão. Uma das crianças que mal tinha começado a andar agarrava-se a uma das pernas de Anna, enquanto uma segunda tirava as tampas de tachos e panelas de dentro de um armário, batendo umas contra as outras como se fossem címbalos. Uma criança de meses estava sentada numa cadeirinha alta, sorrindo por entre uma máscara de puré de espinafres. E, no chão, um bebé que sofria de seborreia aguda engatinhava de um lado para o outro numa caça ao tesouro, procurando tudo o que fosse perigoso para enfiar na sua pequena boca voraz. Rizzoli não nutria grande simpatia por crianças pequenas e estava enervada por estar rodeada de tantas. Sentia-se como o Indiana Jones num fosso de serpentes.

- Não são todos meus - apressou-se Anna a esclarecer, enquanto se dirigia a coxear para o lava-louça, com a criança presa na perna como se fosse uma corrente com bola de ferro. Enxaguou a esponja suja e passou as mãos por água. - Só este é que é meu - acrescentou apontando para a criança agarrada à perna. - O que está com as tampas e o da cadeirinha são filhos da minha irmã Lupe. Sou ama do que anda a engatinhar, que é filho da minha prima. Decidi que uma vez que tinha de ficar em casa a olhar pelo meu, podia aproveitar para cuidar de mais alguns.

Sim, o que é mais um soco na cabeça?, pensou Rizzoli. Mas, curiosamente, Anna não parecia nada infeliz. Na verdade, mal parecia reparar na bola e corrente humana, no bater das tampas das panelas no chão. Numa situação em que Rizzoli sofreria um colapso nervoso, Anna mostrava a expressão serena de uma mulher que se encontrava exactamente onde queria estar. Rizzoli perguntou a si própria se Elena Ortiz seria um dia como aquela mulher, caso não houvesse sido assassinada. Uma mãe na sua cozinha a limpar baba e sumo de maçã, sentindo-se feliz a fazê-lo. Anna era muito parecida com as fotografias da irmã mais nova, apenas um pouco mais rechonchuda. Quando se voltou para Rizzoli, com a luz da cozinha a incidir-lhe directamente sobre a testa, a detective ficou com a sensação arrepiante de que estava a olhar para o mesmo rosto que parecera fitá-la da mesa da sala de autópsias.

- Com estes miúdos à minha volta, não tenho tempo para fazer o que quer que seja - continuou Anna. Pegou no garoto pendurado na sua perna e, habilmente, colocou-o à anca. - Ora vamos lá a ver; veio cá à procura do colar. Deixe-me ir buscar o guarda-jóias. - Saiu da cozinha, e Rizzoli foi invadida pelo pânico de ter sido deixada sozinha com três crianças. Ao sentir uma mão peganhenta num tornozelo, baixou o olhar, deparando com o "engatinhador" que se entretinha a mordiscar a bainha da perna das calças. Sacudiu-o e apressou-se a pôr uma distância segura entre si e aquela boca sem dentes.

- Aqui está - disse Anna regressando com uma caixa que colocou em cima da mesa da cozinha. - Não quisemos deixá-la no apartamento dela, principalmente por causa de toda aquela gente desconhecida a entrar e a sair para limpar a casa. Por isso, os meus irmãos acharam que eu devia ficar com o guarda-jóias até a família decidir o que fazer com as coisas dela. - Levantou a tampa, começando a ouvir-se o som de uma melodia. Somewhere My Love. Anna pareceu ficar momentaneamente atordoada ao ouvir aquela música. Permaneceu quieta, com os olhos marejados de lágrimas.

- Senhora Garcia...?

- Peço desculpa - disse Anna engolindo em seco. - O meu marido deve ter-lhe dado corda. Não estava à espera de ouvir...

A melodia esbateu-se numas quantas notas cheias de doçura. Em silêncio, Anna olhou para as jóias, a cabeça baixa numa atitude de desgosto. Pensativa, abriu um dos pequenos compartimentos revestidos de veludo de onde tirou o colar.

Rizzoli sentiu o coração bater mais depressa quando pegou no fio que Anna lhe estendia. Era tal e qual como se recordava de o ter visto no pescoço de Elena na morgue, uma fechadura e uma chave de tamanho ínfimo suspensos de um fio em ouro. Virou a fechadura, vendo a marca de contraste que atestava ser ouro de dezoito quilates.

- Onde é que a sua irmã arranjou este fio?

- Não sei - respondeu Anna.

- Sabe há quanto tempo ela o tinha?

- Deve tê-lo adquirido recentemente. Nunca o tinha visto antes do dia...

- Que dia?

Anna engoliu em seco antes de acrescentar em voz baixa:

- O dia em que o trouxe da morgue. Juntamente com as outras jóias que ela usava na altura.

- Também usava uns brincos e um anel. Já vira essas peças?

- Sim, já. Ela tinha-as há muito.

- Mas não o colar - disse Rizzoli.

- Porque é que continua a fazer-me perguntas acerca disso? O que tem a ver com... - Anna interrompeu-se, mostrando na expressão dos olhos o horror que acabara de se apoderar de si. - Oh, meu Deus! Pensa que foi ele que o colocou no pescoço dela?

O bebé sentado na cadeirinha alta, sentindo que havia alguma coisa que não estava bem, emitiu um choro lamuriado. Anna sentou o seu filho no chão, apressando-se a pegar na criança que chorava. Abraçou-o junto ao peito e afastou-se do colar como se quisesse proteger a criança daquele talismã maléfico.

- Por favor, leve isso daqui - pediu numa voz sussurrada. - Não o quero na minha casa.

Rizzoli colocou o fio dentro de um saco de plástico que fechou hermeticamente.

- Vou passar-lhe um comprovativo em como o recebi.

- Não, só quero que o leve daqui para fora! Não me importa se ficar com ele.

Apesar dos protestos dela, Rizzoli passou-lhe uma nota comprovativa e deixou-a em cima da mesa da cozinha, junto do prato com o puré de espinafres do bebé.

- Preciso de lhe fazer uma última pergunta - disse Rizzoli numa voz suave.

Anna continuou a percorrer a cozinha, embalando o bebé na sua agitação.

- Por favor, peço-lhe que veja se falta alguma jóia que tenha pertencido à sua irmã - pediu Rizzoli.

- Já me disse que fizesse isso na semana passada. Não falta nada.

- Não é fácil dar pela falta de alguma coisa. Em vez disso, todos temos tendência para nos concentrarmos no que está deslocado. Preciso que examine, uma vez mais, tudo o que esta caixa contém. Por favor.

Anna engoliu a custo. Com relutância, sentou-se com a criança no colo a olhar com fixidez para o interior do guarda-jóias. Pegou nas peças uma a uma, colocando-as em cima da mesa. Era um pequeno sortido bastante patético, jóias de pouco valor adquiridas em grandes armazéns. Imitações de diamantes, contas de cristal e pérolas de cultura, que atestavam o gosto de Elena por coisas vistosas e brilhantes.

Anna pousou a última peça, um anel com uma turquesa. Ficou imóvel por uns momentos, franzindo a testa.

- A pulseira - disse Anna.

- Que pulseira?

- Devia haver uma pulseira com pequenos berloques. Cavalos. Ela costumava usá-la todos os dias quando andava na escola secundária. A Elena era doida por cavalos... - Anna ergueu o olhar mostrando uma expressão de espanto. - Não valia nada! Era de latão. Por que razão ele a quereria?

Rizzoli olhou para o saco de plástico transparente que continha o colar... um colar que ela agora tinha a certeza de em tempos ter pertencido a Diana Sterling. E pensou: Sei exactamente onde é que encontraremos a pulseira da Elena: no pulso da próxima vítima.

Rizzoli estava no alpendre da frente da casa de Moore, acenando, com ar triunfal, com o saco de plástico que continha o colar.

- Pertencia à Diana Sterling. Estive agora mesmo com os pais dela. Só depois de ter falado com eles é que deram pela falta do colar.

Moore pegou no saco, mas não o abriu. Limitou-se a olhar fixamente para o fio de ouro enrolado dentro do plástico.

- É o elo de ligação entre os dois casos - afirmou a detective. - Ele tira uma recordação a uma vítima, para a deixar com outra.

- Não acredito que este pormenor nos tenha passado despercebido.

- Ei, não nos passou despercebido!

- Queres dizer que não te passou despercebido. - Moore olhou-a de uma maneira que a encheu de orgulho. Moore não era homem para dar palmadinhas nas costas nem para bradar louvores aos quatro ventos. Aliás, ela não se recordava de alguma vez o ter ouvido levantar a voz, quer num assomo de cólera quer de entusiasmo. Mas quando ele a brindava com aquele olhar, com o sobrolho arqueado numa expressão de aprovação, os lábios a esboçar um sorriso, ela não precisava de mais elogios.

Ruborizada devido à satisfação, estendeu a mão para o saco com comida que trouxera consigo.

- Queres jantar? Passei pelo restaurante chinês ao fundo da rua.

- Não precisavas de ter tido esse trabalho

- Precisava, sim. Acho que te devo um pedido de desculpas.

- Por que motivo? - perguntou Moore.

- Por esta tarde. Por causa daquele assunto disparatado do tampão. Tu estavas apenas a defender-me e portaste-te com decência. Mas eu interpretei a tua atitude de maneira errada.

Fez-se um silêncio de algum mal-estar. Ali estavam os dois sem saberem o que dizer, duas pessoas que não se conheciam bem e que tentavam ultrapassar o início tumultuoso da sua relação.

Então, ele sorriu, transformando a sua fisionomia habitualmente circunspecta na de um homem muito mais jovem.

- Estou faminto - disse Moore. - Traz a comida para dentro.

Rindo-se, Rizzoli entrou em casa. Era a primeira vez que estava ali, e deteve-se por momentos a olhar à sua volta, apercebendo-se de todos os toques femininos. Os cortinados de um tecido com ramagens, as aguarelas de flores na parede. A decoração não era nada do que ela esperara encontrar. Que diabo, era mais feminina do que a do seu próprio apartamento.

- Vamos para a cozinha - sugeriu Moore. - Tenho os meus papéis em cima da mesa. - Conduziu-a através da sala de estar, onde ela viu uma espineta.

- Com a breca! Sabes tocar? - perguntou Rizzoli.

- Não, é da Mary. Não tenho nenhum ouvido para a música.

É da Mary. No presente. Foi então que ela se apercebeu repentinamente de que a razão por que aquela casa tinha um toque tão feminino se devia à continuação desse presente perpetuado pela recordação de Mary, uma casa à espera, intocada, que a dona regressasse ao lar. Em cima do piano via-se um retrato emoldurado da mulher de Moore, uma mulher bronzeada com uns olhos sorridentes, o cabelo revolto. Mary, cujos cortinados de ramagens continuavam pendurados na casa a que ela jamais voltaria.

Já na cozinha, Rizzoli pousou o saco da comida em cima da mesa junto de uma pilha de pastas. Moore começou a procurar entre as pastas até encontrar o que pretendia.

- Aqui está: o relatório de admissão da Elena Ortiz no Serviço de Urgência - disse ele, entregando-o à colega.

- Foi a Cordell que descobriu isto?

Ele sorriu-lhe com uma expressão de ironia.

- Ao que parece estou rodeado por mulheres mais competentes do que eu.

Rizzoli abriu a pasta, deparando com uma fotocópia cheia de gatafunhos de médico.

- Por acaso tens a tradução desta trapalhada?

- É mais ou menos o que já te disse ao telefone. Um caso de violação que não foi participado. Por isso, não houve recolha de fluidos nem conhecimento do ADN. Nem sequer a família da Elena Ortiz estava a par do assunto.

Rizzoli fechou a pasta e colocou-a junto dos outros papéis de Moore.

- Caramba, Moore. Esta desarrumação até parece a minha mesa da casa de jantar. Não há espaço para comer.

- Este caso também se apoderou da tua vida, não é? - retorquiu ele, afastando as pastas para terem espaço para jantar.

- Que vida? Este caso é toda a minha existência. Dormir. Comer. Trabalho. E se tiver sorte, uma hora na cama a ver o meu velho amigo Dave Letterman na televisão.

- Nada de namorados?

- Namorados? - repetiu ela sarcástica, tirando do saco as caixas com a comida e colocando os guardanapos e os pauzinhos na mesa. - Oh, sim. São tantos que tenho de os enxotar. - Só depois de ter dito isto é que se apercebeu de que a frase parecia patética... As suas palavras não soavam a nada do que quisera dizer. Apressou-se a acrescentar: - Não me estou a queixar. Se precisar de passar o fim-de-semana a trabalhar, posso fazê-lo sem ter um sujeito à perna a lamuriar-se. Não sei lidar muito bem com fulanos que passam a vida a queixar-se.

- O que não é para admirar, uma vez que tu és o oposto. Como hoje, infelizmente, deixaste bem claro perante mim.

- Sim, sim. Pensei que já te tinha pedido desculpa por isso - retorquiu Rizzoli.

Moore foi buscar duas cervejas ao frigorífico e sentou-se à frente dela. Nunca o tinha visto daquela maneira, com as mangas arregaçadas e um aspecto tão descontraído. Gostava de o ver assim. Não o temível São Tomás, mas um indivíduo com quem ela podia falar de banalidades, que seria capaz de rir-se com ela. Um sujeito que, caso estivesse disposto a exibir o seu encanto pessoal, conseguiria deixar qualquer rapariga com a cabeça à roda.

- Não sei se sabes, mas não és obrigada a ser sempre mais dura do que os outros - continuou ele.

- Sou, sim.

- E porquê? - perguntou Moore.

- Porque eles não acham que eu sou dura.

- Quem é que não acha?

- Gajos como o Crowe. O tenente Marquette.

- Haverá sempre gajos como esses - retorquiu Moore com um encolher de ombros.

- E por que razão tenho de acabar sempre a trabalhar com eles? - Rizzoli abriu a sua cerveja e bebeu um gole da garrafa. - É por isso que és o primeiro a quem falo do colar. Não vais querer ficar com os louros.

- É uma tristeza que as coisas se resumam a querer ficar com os louros por isto ou por aquilo.

Rizzoli pegou nos pauzinhos e atacou a caixa que continha galinha kungpao. Estava tão picante que queimava a língua, precisamente como ela gostava. Também não se queixava quando a especiaria era malagueta.

- No primeiro caso importante em que trabalhei, quando estava na Brigada de Costumes e Narcóticos, era a única mulher numa equipa com cinco homens. Quando conseguimos resolvê-lo, houve uma conferência de imprensa, com câmaras de televisão e tudo o que era imprensa. E queres saber uma coisa? Mencionaram o nome de todos os que faziam parte da equipa com excepção do meu. Falaram no nome de todos aqueles sacanas. - Bebeu outro gole de cerveja. - A partir de então, certifico-me sempre de que isso não volta a acontecer. Vocês, os homens, podem dedicar toda a vossa atenção ao caso e às provas. Mas eu sou forçada a despender energia apenas para fazer com que me ouçam.

- Estou a ouvir-te lindamente, Rizzoli.

- É uma mudança muito agradável.

- E quanto ao Frost? Tens problemas com ele? - perguntou Moore.

- O Frost é cool. - Sorriu ao aperceber-se do trocadilho que fizera sem querer. - A mulher domesticou-o bem.

Desataram a rir com aquela última piada. Quem ouvisse Frost dizer mansamente "Sim, querida, não, querida" pelo telefone à mulher não ficava com dúvidas sobre quem é que mandava lá em casa.

- É por isso que ele nunca conseguirá singrar muito na carreira profissional - observou Rizzoli. - Não tem fibra. É um homem de família.

- Não é mal nenhum ser-se um homem de família. Quem me dera ter sido um homem de família melhor do que fui - retorquiu Moore.

Rizzoli levantou o olhar da caixa com a carne de vaca à mongol e viu que ele não a fitava porque tinha toda a sua atenção concentrada no colar. Ouvira a dor na voz de Moore, e não sabia o que dizer. Concluiu que seria melhor não dizer nada.

Sentiu-se aliviada quando Moore retomou o assunto da investigação. No mundo dos dois, o homicídio era sempre um tópico seguro de conversa.

- Há aqui qualquer coisa que não bate certo - disse ele. - Esta coisa das jóias, na minha perspectiva, não faz sentido nenhum.

- Ele anda a coleccionar recordações. Isso é bastante comum.

- Mas de que serve ficarmos com uma recordação para mais tarde nos desfazermos dela?

- Alguns homicidas ficam com as jóias das vítimas para as oferecerem às suas mulheres ou namoradas. Sentem uma excitação secreta ao verem essas jóias no pescoço das namoradas, sabendo que são as únicas pessoas que conhecem a sua proveniência.

- Mas o nosso homem está a agir de maneira diferente. Ele deixa as recordações no local onde assassina a vítima seguinte. Portanto, fica sem a possibilidade de continuar a ver essas coisas. Não pode sentir o empolgamento recorrente ao recordar constantemente o assassínio que cometeu. Que eu veja, deixa de existir qualquer ganho emocional.

- Um símbolo de propriedade? Como um cão a demarcar o território? Com a diferença de que ele usa uma peça de joalharia para assinalar a próxima vítima.

- Não. Não se trata disso - discordou Moore pegando no saco de plástico transparente, tomando-lhe o peso na palma da mão, como se tentasse adivinhar a finalidade daquele objecto.

- O importante é que já percebemos o padrão comportamental - contrapôs ela. - Saberemos exactamente o que esperar no local do próximo crime.

- Acabaste de responder à questão - observou Moore erguendo o olhar e fitando-a.

- O quê? - perguntou Rizzoli sem compreender.

- Ele não está a assinalar a vítima. Ele está a demarcar o local do crime.

Rizzoli fez uma pausa. De repente, compreendeu a distinção.

- Céus! Ao marcar o local...

- Isto não é uma recordação. Tal como não é uma marca de proprietário. - Moore pousou o colar, um fio de ouro enrolado que havia roçado pela pele de duas mulheres mortas.

- É um cartão-de-visita - concluiu Rizzoli em voz baixa, sentindo um arrepio.

- O Cirurgião está a falar connosco - concordou Moore com um aceno de cabeça.

Um lugar de ventos fortes e marés perigosas.

É assim que Edith Hamilton, no seu livro Mitologia, descreve o porto grego de Áulis. É aqui que se encontram as ruínas do antigo Templo de Ártemis, a deusa da caça. Foi em Áulis que se reuniram mil navios negros da Grécia para lançar o seu ataque a Tróia. Mas os ventos do Norte começaram a soprar, impedindo que os navios avançassem. Dia após dia, o vento soprava implacável e o Exército grego, sob o comando do rei Agamémnon, começou a dar mostras de inquietude e irritação. Uma vidente revelou a razão daqueles ventos adversos: a deusa Ártemis estava encolerizada porque Agamémnon tinha chacinado uma das suas amadas criaturas, uma lebre selvagem. Recusava-se a permitir que os Gregos partissem a menos que Agamémnon lhe oferecesse um sacrifício terrível: a sua filha Ifigénia.

Assim, ele mandou chamar Ifigénia, afirmando que lhe tinha arranjado um casamento magnífico com Aquiles. Ela não sabia que, em vez disso, ia a caminho da morte.

Aqueles ventos agrestes vindos do Norte não sopravam no dia em que tu e eu caminhámos pela praia próximo de Áulis. Estava calmo, a água era de um verde cristalino e a areia tão quente como cinza branca debaixo dos pés. Oh, como nós invejámos os rapazes gregos que corriam descalços pela beira-mar escaldante! Apesar de a areia queimar a nossa pele tão pálida de turistas, não deixámos de nos divertir com aquele desconforto porque queríamos ser como aqueles rapazes, com a planta dos pés que mais parecia de couro rijo. Os calos só se formam com dor e muito uso.

Ao cair da tarde, quando o dia já tinha refrescado, fomos ao Templo de Ártemis.

Caminhámos por entre as sombras que se alongavam e dirigimo-nos para o altar em que Ifigéniafoi sacrificada. A despeito das suas orações e gritos de "Meu Pai, poupai-me", os guerreiros levaram a rapariga para o altar. Estenderam-na em cima da pedra, o pescoço níveo desnudado para a lâmina. Eurípedes, o poeta trágico da Antiguidade, escreveu que os soldados de Atreu e todo o exército fixaram os olhos no chão, sem querer ver o derramamento do sangue da sua virgem. Não quiseram testemunhar o horror.

Ah, mas eu teria observado! Do mesmo modo que tu também o terias feito. E também com avidez.

Imagino as tropas em silêncio reunidas numa atmosfera de tristeza. Imagino o bater dos tambores, não o rufar jubilante de uma celebração matrimonial, mas o rufar de uma marcha sombria em direcção à morte. Vi o cortejo, uma longa fila serpenteante a caminho do pequeno bosque. A donzela, branca como um cisne, ladeada pelos soldados e sacerdotes. O rufar dos tambores pára.

Eles levam-na, a gritar, para o altar.

Na minha visão é o próprio Agamémnon quem empunha a espada porque de que vale sacrificar alguém se não for o próprio a derramar o sangue sacrificial? Vejo-o a abeirar-se do altar onde a sua própria filha está deitada, a carne tenra exposta a todos os olhares. Ela implora-lhe que poupe a sua vida, mas as suas súplicas são em vão.

O sacerdote agarra-a pelos cabelos, puxando a cabeça para trás afim de expor a garganta. Por baixo da pele branca a artéria pulsa, assinalando o lugar em que a lâmina deve cortar. Agamémnon mantém-se ao lado da filha, baixando o olhar para o rosto que ama. O seu sangue corre nas veias dela. Nos seus olhos vê os seus próprios olhos. Ao cortar a sua garganta, estará a cortar a sua própria carne.

Ergue a espada. Os soldados permanecem em silêncio, como estátuas entre as árvores do bosque sagrado. Vê-se o fremir da pulsação no pescoço da jovem.

Ártemis exige o sacrifício, Agamémnon tem de cumprir.

Encosta a lâmina ao pescoço da filha fazendo pressão e golpeando em profundidade. O sangue começa a esguichar como que de uma fonte, salpicando o rosto dele com gotas quentes.

Ifigénia ainda não morreu, os olhos revirados em horror enquanto o sangue jorra do seu pescoço. O corpo humano contém cinco litros de sangue e é preciso tempo para que todo esse volume se escoe por uma única artéria seccionada. Enquanto o coração continuar a bater, o sangue é bombeado para fora. Durante pelo menos alguns segundos, talvez até mesmo durante um minuto ou mais, o cérebro continua a funcionar. Os membros são percorridos por estertores.

Aquando das derradeiras pulsações do coração, Ifigénia olha para o firmamento que escurece, sentindo a calidez do próprio sangue que esguichou para a sua face.

Os Antigos dizem que quase imediatamente o vento norte deixou de soprar. Ártemis estava satisfeita. Por fim, os navios dos Gregos fizeram-se ao mar, os exércitos combateram e Tróia caiu. No contexto desse derramamento de sangue de proporções incomensuráveis, o sacrifício de uma jovem virgem não tem o mínimo significado.

Mas quando penso na Guerra de Tróia, o que acorre ao meu pensamento não é o cavalo de madeira, nem o entrechocar de espadas, nem os mil navios negros com as suas velas desfraldadas. Não, é a imagem do corpo dessa donzela, exangue e mostrando a palidez da morte, com o pai ao seu lado a empunhar a espada ensanguentada.

O nobre Agamémnon com lágrimas nos olhos.

 

- Está a pulsar - disse a enfermeira.

Catherine olhava com uma expressão horrorizada para o homem estendido na mesa da sala de observações. Do seu peito saía uma vareta de ferro com cerca de trinta centímetros. Um dos estudantes de Medicina já tinha desmaiado ao ver aquilo, enquanto as três enfermeiras se mantinham de boca aberta. A vareta estava profundamente espetada no peito do homem, pulsando para cima e para baixo ao ritmo dos batimentos do coração.

- Qual é a pressão arterial? - perguntou Catherine. O seu tom de voz pareceu despertar toda a gente, levando a equipa a entrar em acção.

- Setenta, quarenta. A pulsação está a cento e cinquenta!

- Abrindo ao máximo as duas administrações por via intravenosa!

- Abrindo o tabuleiro para a toracotomia...

- Vão chamar o doutor Falco. Digam-lhe que venha imediatamente. Preciso de ajuda. - Catherine vestiu a bata esterilizada e calçou as luvas de cirurgia. Já tinha as palmas das mãos escorregadias devido ao suor. O facto de a vareta estar a pulsar indicava-lhe que a extremidade se espetara muito perto do coração... ou, mais grave ainda, que tinha trespassado o coração. A pior coisa que poderia fazer era retirar a vareta. Se fizesse isso, poderia abrir o orifício, dando origem a que ele sangrasse até ficar exangue no espaço de escassos minutos.

A equipa de paramédicos de serviço tomara a decisão mais acertada: começando a administrar uma solução por via intravenosa, entubaram a vítima e levaram-no logo para o Serviço de Urgência sem terem tocado na vareta de ferro. O resto dependia inteiramente dela.

Catherine ainda não tinha pegado no bisturi quando a porta se abriu de repente. Ergueu o olhar e soltou um suspiro de alívio quando Peter Falco entrou. O cirurgião deteve-se, o olhar preso no peito do paciente de onde saía a vareta de ferro, qual estaca a trespassar o coração de um vampiro.

- Ora bem, aqui temos uma coisa que não se costuma ver todos os dias - comentou ele.

- A tensão arterial está a descer demasiado! - gritou uma enfermeira.

- Não temos tempo para um by-pass. Vou entrar directamente - disse Catherine.

- Vou já ajudar-te - retorquiu Peter, acrescentando num tom quase casual: - Podem dar-me uma bata, por favor?

Habilmente, Catherine fez uma incisão ântero-lateral, o que permitiria um melhor acesso aos órgãos vitais na cavidade torácica. Sentia-se mais calma, agora que Peter tinha chegado. Era mais do que ter um par de mãos suplementares experientes; o que sentia provinha da presença de Peter por si só. A maneira como ele entrava numa sala, avaliando a situação com um único olhar. O facto de ele nunca elevar a voz quando estava no bloco operatório, nunca mostrar o mais pequeno indício de pânico. Tinha mais cinco anos de experiência do que ela em situações de traumatismos, e era em casos de extrema gravidade como aquele que a sua experiência profissional se manifestava.

Peter Falco ocupou o seu lugar na mesa de operações defronte de Catherine, os olhos azuis focados na incisão.

- Muito bem. Já nos estamos a divertir?

- Estamos a rir a bandeiras despregadas.

Peter foi directo ao problema, as suas mãos a trabalharem em coordenação com as dela, enquanto abriam o peito do homem com uma força quase brutal. Ele e Catherine já tinham operado de parceria tantas vezes que cada um sabia, automaticamente, aquilo de que o outro precisava, prevendo os movimentos um do outro antes de qualquer pedido verbal.

- Qual é a história do caso? - perguntou Peter. O sangue começou a esguichar e, com toda a calma, ele aplicou uma pinça he-mostática com que estancou a hemorragia.

- Trabalhador da construção civil. Tropeçou e caiu no estaleiro, e espetou a vareta de ferro no peito.

- Isso é o suficiente para arruinar o dia de qualquer pessoa. Por favor, um retractor Burford.

- Burford.

- Como estamos de sangue?

- Estou à espera do sangue O negativo - respondeu uma das enfermeiras.

- O doutor Murata está de serviço?

- E equipa de by-pass dele já vem a caminho.

- Sendo assim, só precisamos de ganhar um pouco de tempo. Como é que está o nosso ritmo?

- O ritmo cardíaco é de um-cinquenta. Umas quantas contracções ventriculares prematuras...

- A sistólica baixou para cinquenta!

O olhar de Catherine focou-se apressadamente em Peter.

- Não vamos poder aguentá-lo até fazermos um by-pass - disse ela.

- Nesse caso, vamos ver como podemos proceder aqui.

Fez-se silêncio enquanto ele examinava a incisão.

- Oh, meu Deus! - exclamou Catherine. - É no átrio.

A ponta da vareta de ferro tinha trespassado a parede do coração e, com cada pulsação, o sangue esguichava em redor das extremidades do orifício. Já se tinha acumulado uma grande quantidade de sangue na cavidade torácica.

- Se tirarmos o ferro, vamos ter uma hemorragia de grandes proporções - adiantou Peter.

- E ele já está a sangrar à volta do ponto de penetração.

- A sistólica quase não é palpável - advertiu a enfermeira.

- Muito bem... - disse Peter. Nenhum pânico na sua voz. Nenhum sinal de medo.

- É capaz de me ir desencantar um cateter French Foley de dezasseis com um balão de trinta centímetros cúbicos? - perguntou a uma das enfermeiras.

- O quê, doutor Falco? Disse Foley!

- Sim. Um cateter urinário.

- E vamos precisar de uma seringa com dez centímetros cúbicos de solução salina - acrescentou Catherine. - Fiquem por perto para a inserção. - Ela e Peter não precisavam de explicar o que quer que fosse entre si; compreendiam qual o plano a seguir.

O cateter de Foley, um tubo concebido para ser inserido na bexiga a fim de drenar a urina, foi entregue a Peter. Estavam prestes a aplicá-lo para um fim que nunca fora aquele para que havia sido concebido.

- Estás pronta? - perguntou Peter olhando para Catherine.

- Vamos a isto. - Sentia o latejar da sua pulsação enquanto olhava para Peter que agarrava na vareta. Não despregou os olhos enquanto ele, suavemente, começou a puxar o ferro alojado na parede do coração. Quando o retirou, o sangue jorrou abundantemente do orifício. De imediato, Catherine enfiou a extremidade do cateter urinário no buraco.

- Insuflem o balão! - instruiu Peter.

A enfermeira premiu o êmbolo da seringa, injectando dez centímetros de uma solução salina na abertura do Foley.

Peter retirou o cateter, premindo o balão contra o interior da parede do átrio. O jorro de sangue foi estancado. Pouco mais saía do que um fio.

- Sinais vitais? - perguntou Catherine.

- A sistólica continua a cinquenta. O sangue O negativo já chegou. Estamos a pendurá-lo.

Com o coração a bater aceleradamente, Catherine olhou para Peter, e ele piscou-lhe o olho por detrás dos óculos de protecção.

- Não foi divertido? - perguntou ele. Estendeu a mão para o torniquete com a agulha cardíaca. - Queres fazer as honras?

- Sem dúvida.

Peter entregou-lhe o suporte da agulha. Ela preparava-se para suturar as extremidades do orifício, após o que retiraria o Foley antes de o fechar completamente. Com cada ponto profundo que dava, sentia o olhar de aprovação. Apercebeu-se de que as suas faces se ruborizavam com o prazer do sucesso. Uma sensação que já se lhe entranhara nos ossos: aquele paciente iria sobreviver.

- Que bela maneira de começar o dia, não te parece? - perguntou Peter. - Rasgar tóraxes.

- Nunca esquecerei este aniversário.

- O meu convite para esta noite continua de pé. O que achas?

- Estou de serviço - respondeu Catherine.

- Posso pedir ao Ames que te substitua. Vá lá, decide-te; jantar e dançar.

- Pensei que o convite era para dar uma volta no teu aeroplano.

- Fazemos o que quiseres. Que diabo, até podemos fazer sanduíches de manteiga de amendoim. Ei, vou levar o Skippy.

- Ah! Sempre desconfiei que eras um mãos-largas.

- Catherine, estou a falar a sério.

Ao aperceber-se da mudança no seu tom de voz, ela ergueu o olhar e fitou-o. Subitamente, apercebeu-se de que o silêncio se tinha abatido sobre a sala e que todos estavam a ouvir o que os dois diziam, à espera de saberem se a reservada Dra. Cordell iria finalmente sucumbir aos encantos do Dr. Falco.

Deu outro ponto da sutura, pensando no quanto gostava de Peter como colega, no quanto se respeitavam mutuamente. Não queria que essa situação se alterasse. Não queria pôr em perigo aquela relação preciosa, dando um passo em direcção a uma relação mais íntima que talvez estivesse destinada ao fracasso.

No entanto, também sentia saudades dos tempos em que gostava de sair à noite! Dos tempos em que uma noite era algo por que ansiava e não uma coisa que temesse.

O silêncio mantinha-se.

- Vai buscar-me às oito - disse Catherine finalmente, olhando para Peter.

Catherine serviu-se de um copo de Merlot e aproximou-se da janela, pondo-se a olhar para a noite enquanto bebia pequenos goles de vinho. Ouvia os risos das pessoas que passavam na Common-wealth Avenue. Newbury Street, um local muito na moda, ficava apenas à distância de um quarteirão; numa noite de sexta-feira, no Verão, a zona de Back Bay era como um íman para os turistas. Catherine optara por fixar residência ali precisamente por essa razão: sentia-se confortada por saber que havia outras pessoas à sua volta, ainda que fossem desconhecidas. O som da música e dos risos significava que não se encontrava sozinha, que não estava isolada.

E, contudo, ali estava ela, por detrás da sua janela hermeticamente fechada, a sós consigo própria, a beber um copo de vinho, enquanto tentava convencer-se de que se sentia preparada para se juntar ao mundo que existia lá fora.

Um mundo que o Andrew Capra me roubou.

Encostou a mão à janela, os dedos arqueados contra o vidro, como se quisesse quebrá-lo para sair daquela prisão asséptica.

Imprudentemente, bebeu o vinho todo de uma vez e pousou o copo no peitoril da janela. "Recuso-me a ser uma vítima", pensou para consigo. "Não vou permitir que ele vença."

Dirigiu-se para o quarto, passando em revista a roupa que tinha no roupeiro. Tirou um vestido de seda verde, vestiu-o e puxou o fecho de correr. Há quanto tempo não usava aquele vestido? Não conseguia lembrar-se.

Vinda da divisão contígua, ouviu uma voz cheia de jovialidade: "Tem correio na sua caixa!" Era o computador a informá-la. Ignorou a mensagem e foi para a casa de banho a fim de se maquilhar. A pintura de guerra, pensou enquanto aplicava o rímel nas pestanas e passava um pouco de batom nos lábios. Uma máscara de coragem para a ajudar a enfrentar o mundo. Com cada passagem do pincel da maquilhagem, era como se pintasse um sentimento de confiança em si própria. No espelho, viu uma mulher que mal reconheceu. Uma mulher que não via há dois anos.

- Dou-te as boas-vindas por teres voltado - murmurou sorrindo. Desligou a luz da casa de banho e foi para a sala de estar, sentindo que os pés voltavam a familiarizar-se com o tormento que eram os saltos altos. Peter estava atrasado; já eram oito e um quarto. Lembrou-se da mensagem "Tem correio na sua caixa" que ouvira vinda do quarto. Foi até ao computador e clicou o ícone correspondente à caixa de correio.

Havia uma mensagem de um remetente de nome SavvyDoc, cujo assunto era: "Relatório Laboratorial". Abriu a mensagem.

Doutora Cordell,

Em anexo envio as fotografias de um exame patológico que irão interessar-lhe.

A mensagem não estava assinada.

Deslocou a seta para o ícone "download file", mas então hesitou com o dedo em cima do rato. Não reconhecia o nome do remetente, SavvyDoc, e, regra geral, não costumava fazer o download de um ficheiro enviado por um estranho. Mas aquela mensagem relacionava-se obviamente com o trabalho, além de ter sido enviado em seu nome.

Deu um clique no "download".

No ecrã materializou-se uma fotografia a cores.

Com a respiração arquejante, levantou-se repentinamente como se a tivessem queimado, fazendo tombar a cadeira. Cambaleou para trás, levando a mão à boca.

Instantes depois, correu para o telefone.

Thomas Moore deteve-se na ombreira da porta, o olhar fixo no rosto dela.

- A fotografia continua no monitor?

- Não voltei a tocar-lhe - replicou Catherine, afastando-se. Com o passo determinado e a atitude profissional de um agente da lei, ele entrou no quarto. O seu olhar concentrou-se de imediato no homem que se encontrava ao lado do computador.

- Este é o doutor Peter Falco - apresentou Catherine. - É meu colega no hospital.

- Doutor Falco - cumprimentou Moore quando os dois homens trocaram um aperto de mão.

- A Catherine e eu tínhamos planeado jantar fora esta noite - começou Peter a dizer. - Fiquei retido no hospital. Só consegui chegar momentos antes de si e... - Interrompeu-se olhando para Catherine. - Imagino que o jantar esteja fora de questão?

Ela respondeu-lhe com um aceno afirmativo e uma expressão de mal-estar.

Moore sentou-se diante do computador. O screen saver já tinha sido activado e viam-se peixes tropicais de cores vivas e cintilantes a nadar à largura do ecrã. Ele deslocou o rato ligeiramente.

A fotografia que havia sido descarregada surgiu no ecrã.

Catherine afastou-se imediatamente, dirigindo-se para a janela; deixou-se ali ficar abraçando-se a si própria, tentando bloquear a imagem que acabara de ver no monitor. Ouviu Moore premir as teclas atrás de si. Também o ouviu fazer um telefonema e dizer:

- Acabei de enviar o ficheiro. Já o recebeste?

A escuridão para lá da janela tinha-se remetido a um estranho silêncio. Seria já tão tarde?, perguntou-se Catherine. Baixando o olhar até à rua deserta, mal conseguia acreditar que naquela noite, apenas uma hora antes, estivera pronta para sair, voltando a juntar-se ao mundo.

Agora só desejava poder fechar-se a sete chaves e esconder-se.

- Quem diabo te enviaria uma coisa destas? É sinistro - comentou Peter.

- Prefiro não falar sobre o assunto - redarguiu ela.

- Já tinhas recebido alguma coisa semelhante?

- Não - respondeu Catherine.

- Nesse caso, por que motivo a polícia está envolvida?

- Por favor, Peter, pára! Já te disse que não quero falar sobre isso.

- Não queres falar sobre o assunto... comigo}

- Agora, não. Esta noite, não.

- Mas estás disposta a falar com a polícia? - insistiu Peter.

- Doutor Falco - interveio Moore -, seria preferível que se fosse embora.

- Catherine? O que queres?

Ela percebeu a mágoa no seu tom de voz, mas não se virou.

- Gostaria que te fosses embora, por favor.

Peter não lhe respondeu. Só depois de ter ouvido o bater da porta é que Catherine ficou a saber que ele já saíra.

Fez-se um longo silêncio.

- Não lhe falou sobre o que sucedeu em Savannah? - perguntou Moore.

- Não. Nunca consegui contar-lhe.

- A violação é um assunto demasiado íntimo, demasiado vergonhoso, para se poder falar. Até mesmo com alguém que sabemos que gosta de nós.

- Quem é a mulher na fotografia? - perguntou Catherine.

- Eu tinha esperança de que fosse a doutora a dizer-mo.

- Também não sei quem é que me enviou isso - adiantou ela com um abanar de cabeça. A cadeira rangeu quando se levantou. Sentiu a mão dele no ombro, o calor que vinha dele passava através da seda verde. Não mudara ainda de roupa, continuava vestida para sair, deslumbrante para uma noite fora. A ideia de jantar fora parecia-lhe agora absolutamente patética. Em que tinha estado a pensar? Que poderia voltar a ser como os demais? Que poderia voltar a ser uma pessoa de corpo inteiro?

- Catherine - disse Moore. - Precisa de falar comigo sobre esta fotografia. - As mãos dele apertaram-lhe o ombro; de repente, deu-se conta de que o detective a tinha tratado pelo nome próprio. Moore estava tão perto de si que conseguia sentir a respiração cálida dele no seu cabelo; contudo, e apesar dessa proximidade, não se sentia ameaçada. O toque de qualquer outro homem ter-lhe-ia parecido uma invasão da sua privacidade, mas o da mão de Moore era verdadeiramente reconfortante.

- Vou tentar - concordou com um aceno de cabeça. Moore puxou outra cadeira para que ambos pudessem sentar-se

diante do computador. Catherine tentou concentrar toda a sua atenção na fotografia.

A mulher tinha cabelo encaracolado, espalhado na almofada em canudos. Os lábios estavam selados por baixo de uma tira de fita isoladora prateada, mas os olhos mantinham-se abertos, revelando que ela continuava consciente, as retinas a reflectirem um vermelho de sangue sob o clarão da câmara fotográfica. A fotografia mostrava-a da cintura para cima. Fora amarrada à cama e estava nua.

- Consegue reconhecê-la? - perguntou Moore.

- Não - respondeu Catherine.

- Há alguma coisa nesta fotografia que lhe pareça familiar? O quarto... o mobiliário?

- Não, mas...

- O quê?

- Ele também me fez aquilo - murmurou ela. - O Andrew Capra tirou-me fotografias. Também me atou à cama... - Interrompeu-se engolindo com dificuldade, um sentimento de humilhação a apoderar-se de si, como se fosse o seu próprio corpo que estivesse exposto com tanto despudor aos olhos de Moore. Deu consigo a cruzar os braços diante do peito, como se quisesse proteger os seios para não voltarem a ser violados.

- O ficheiro foi enviado às dezanove horas e cinquenta e cinco minutos. E o nome do remetente, SavvyDoc... reconhece-o?

- Não - replicou Catherine voltando a concentrar-se na mulher da fotografia que, por seu lado, a fitava através de pupilas de um vermelho vivo. - Ela está consciente. Sabe o que ele está prestes a fazer-lhe. Ele espera por isso. Quer que a vítima esteja consciente, que sinta a dor. Tem de estar acordada, caso contrário ele não terá prazer... - Apesar de estar a falar de Andrew Capra, sem saber como, expressava-se no presente, como se Capra ainda estivesse vivo.

- Como é que ele terá tomado conhecimento do seu e-mail?

- Eu nem sequer sei quem ele é!

- Ele enviou isto para si, Catherine. Sabe o que lhe aconteceu em Savannah. Ocorre-lhe alguém que pudesse ter feito isto?

"Apenas uma pessoa", pensou Catherine. "Mas essa está morta. O Andrew Capra está morto."

O telemóvel de Moore começou a tocar. Catherine quase saltou da cadeira.

- Credo! - exclamou, sentindo o coração a bater acelerado, voltando a recostar-se para trás.

Moore atendeu o telefone.

- Sim, agora estou com ela... - Ficou a ouvir durante uns momentos e subitamente olhou para Catherine. A expressão que viu no seu olhar deixou-a alarmada.

- O que se passa? - perguntou Catherine.

- É a detective Rizzoli. Diz que conseguiu descobrir a origem do que recebeu por e-mail.

- Quem é que me enviou aquilo?

- Foi você - respondeu Moore. Se a tivesse esbofeteado, o efeito teria sido o mesmo. Catherine só conseguia abanar a cabeça, demasiado chocada para poder falar.

- O nome SavvyDoc foi criado ao final da tarde e a conta na America Online que foi utilizada está em seu nome - afirmou o detective.

- Eu mantenho duas contas separadas. Uma é para meu uso pessoal...

- E a outra?

- É para uso do meu pessoal no hospital; usam-na durante... - Catherine fez uma pausa. - O gabinete. Ele usou o computador que tenho no meu gabinete.

Moore ergueu o telemóvel, encostando-o ao ouvido.

- Ouviste o que ela disse, Rizzoli? - perguntou ficando em silêncio por uns momentos. - Encontramo-nos contigo lá.

A detective Rizzoli estava à espera deles do lado de fora da porta do gabinete de Catherine no hospital. Entretanto já se juntara um pequeno grupo de pessoas no corredor - um segurança do hospital, dois agentes da polícia e vários homens à paisana. "Detectives", presumiu Catherine.

- Já revistámos o gabinete - informou Rizzoli. - Há muito que ele se foi embora.

- Então ele esteve mesmo aqui? - perguntou Moore.

- Os dois computadores estão ligados. O nome SavvyDoc ainda está no ecrã, na página de entrada da America Online.

- Como conseguiu ele entrar aqui? - perguntou Moore.

- A porta não mostra indícios de ter sido forçada. A limpeza destes gabinetes está a cargo de uma empresa, pelo que existem várias chaves mestras espalhadas por aí. Além disso, temos os funcionários que trabalham aqui.

- Há um funcionário que trata da facturação, uma recepcionista e dois assistentes clínicos - informou Catherine.

- Além da doutora e do doutor Falco.

- Sim - confirmou ela.

- Isso totaliza mais seis chaves que podem ter sido perdidas ou emprestadas - adiantou Rizzoli numa reacção brusca.

Catherine não simpatizava com aquela mulher, perguntando a si mesma se essa antipatia seria mútua.

- Muito bem, vamos levá-la a percorrer todas as salas, doutora Cordell, para ver se falta alguma coisa - acrescentou Rizzoli fazendo um gesto na direcção do gabinete. - Só lhe peço para não mexer em nada, de acordo? Não deve tocar na porta nem nos computadores. Vamos tentar recolher quaisquer impressões digitais que o intruso possa ter deixado.

Catherine olhou para Moore, que passou o braço por cima dos ombros dela, tentando inspirar-lhe confiança. Entraram no gabinete da médica.

Catherine olhou rapidamente para a sala de espera dos pacientes, e seguiu para a área da recepção onde o pessoal dos serviços administrativos trabalhava. O computador da facturação estava ligado. A ranhura em que as disquetes eram introduzidas encontrava-se vazia; o intruso não havia deixado nenhuma antes de sair.

Com um lápis, Moore deu uma pequena pancada no rato para desactivar o screen saver, o símbolo da AOL apareceu na janela respectiva. "SavvyDoc" continuava na caixa de "nome seleccionado".

- Há alguma coisa que lhe pareça diferente do habitual? - perguntou Rizzoli.

Catherine respondeu-lhe com um abanar de cabeça.

- Muito bem, passemos ao seu gabinete.

Catherine sentia as pulsações do seu coração aceleradas ao percorrer o corredor, passando pelas duas salas de consulta. Entrou no seu gabinete. De imediato, dirigiu o olhar para cima. Com um arquejo, retrocedeu bruscamente e só por um triz não chocou com Moore. Este segurou-a nos braços, impedindo que se desequilibrasse.

- Foi aí que o encontrámos - adiantou Rizzoli apontando para o estetoscópio que balouçava do candeeiro do tecto. - Estava pendurado ali. Presumo que não tenha sido ali que o deixou.

Catherine fez que não com a cabeça.

- Ele já esteve aqui noutras ocasiões - disse, numa voz emudecida pelo choque.

- Quando? - perguntou Rizzoli com uma expressão de alerta.

- Nos últimos dias. Tenho dado pela falta de algumas coisas. E coisas fora do lugar.

- Que tipo de coisas?

- O estetoscópio. A bata branca.

- Olhe bem à sua volta - incitou Moore, empurrando-a suavemente para a frente. - Vê mais alguma coisa fora do lugar?

Catherine examinou as prateleiras da estante, a secretária e o arquivo. Aquele era o seu espaço privado e ela tinha tudo organizado, centímetro a centímetro. Sabia com precisão onde qualquer objecto se encontrava.

- O computador está ligado - disse Catherine. - Eu desligo-o sempre no fim do meu dia de trabalho.

Rizzoli premiu o rato e o símbolo da AOL surgiu no ecrã, juntamente com o nome que Catherine utilizava na Internet, ccord, na janela de entrada.

- Foi assim que ele ficou a saber o seu e-mail - afirmou Rizzoli- - Para isso, só precisou de ligar o computador.

Catherine tinha os olhos presos no teclado do computador. Escreveste neste teclado. Estiveste sentado nesta cadeira. Sobressaltou-se ao ouvir a voz de Moore.

- Dá por falta de alguma coisa? - perguntou o detective. - Talvez algo pequeno, qualquer coisa muito pessoal.

- Como é que sabe?

- É um padrão de comportamento.

Portanto, aquilo já acontecera com outras mulheres, pensou ela. As outras vítimas.

- Talvez qualquer coisa muito pessoal - adiantou Moore. - Algo que só você usaria. Uma jóia, um pente, um porta-chaves.

- Oh, meu Deus! - exclamou Catherine apressando-se a abrir a gaveta de cima da sua mesa de trabalho.

- Ei! - exclamou Rizzoli num tom de advertência. - Eu disse-lhe para não tocar em nada.

Catherine, porém, já tinha a mão dentro da gaveta e, freneticamente, começou à procura de qualquer coisa entre as canetas e os lápis.

- Não está aqui.

- O que é que não está aí?

- Tenho sempre um porta-chaves suplementar na gaveta da minha secretária.

- E que chaves é que tem nesse porta-chaves?

- Uma chave extra do meu automóvel. A chave do neu cacifo no hospital... - Interrompeu-se, sentindo que a garganta lhe secava subitamente. - Se ele foi ao meu cacifo durante o dia, isso quer dizer que teve acesso à minha carteira. - Ergueu o olhar para Moore. - Teve acesso às chaves da minha casa.

Os técnicos já tinham iniciado o processo de recolha de impressões digitais quando Moore voltou ao hospital.

- Já a deitaste e aconchegaste? - perguntou Rizzoli num tom irónico.

- Ela decidiu dormir no quarto do Serviço de Urgência. Não quero que volte para casa até poder fazê-lo em segurança.

- És tu que vais mudar as fechaduras da casa dela?

Moore franziu o sobrolho perante a expressão da fisionomia dela. Não gostou do que viu.

- Estás com algum problema?

- É uma mulher bonita - comentou Rizzoli.

"Sei bem qual o rumo que a conversa vai tomar", pensou ele para consigo, soltando um suspiro de cansaço.

- Um pouco perturbada. Um pouco vulnerável - continuou Rizzoli. - Com a breca, é o suficiente para fazer com que qualquer fulano corra logo a protegê-la.

- E isso não faz parte do nosso trabalho?

- E é só disso que estamos a falar, do nosso trabalho?

- Não quero continuar a falar sobre este assunto - ripostou Moore, saindo do gabinete.

Rizzoli seguiu-o até ao corredor, qual buldogue a mordiscar-lhe os calcanhares.

- Ela é a peça central deste caso, Moore. Não sabemos se nos tem contado a verdade. Por favor, não me digas que estás a envolver-te sentimentalmente com ela.

- Não estou a envolver-me.

- Eu não sou cega! - ripostou Rizzoli.

- O que estás a ver, exactamente?

- A maneira como olhas para ela. E também o modo como ela olha para ti. Estou a ver um polícia a perder a sua objectividade - continuou, fazendo uma pausa. - Um polícia que pode ficar magoado.

Se ela tivesse elevado a voz ou assumido um tom de hostilidade, talvez ele lhe tivesse respondido na mesma moeda. Mas ela proferira as últimas palavras com muita serenidade e ele não conseguiu indignar-se e confrontá-la.

- Eu nunca teria dito isto a qualquer pessoa - acrescentou Rizzoli. - Mas estou convencida de que és um dos bons. Se fosses o Crowe, ou outro sacana como ele, eu teria dito: "Sim, sem dúvida, vai em frente e fica com o coração destroçado, estou-me nas tintas." Mas acontece que não quero que isso te aconteça.

Os dois entreolharam-se por uns momentos. Moore sentiu-se envergonhado por não ser capaz de ver para além da aparência vulgar de Rizzoli. Por muito que a admirasse pelo seu raciocínio rápido, pela vontade inquebrantável de ser profissionalmente bem-sucedida, nunca iria dar atenção às suas feições, que nada deviam à beleza, e aos fatos de mau corte. Sob certos aspectos, não era melhor do que Darren Crowe, nem do que os idiotas que metiam tampões higiénicos dentro da sua garrafa de água. Não merecia a admiração que mostrava ter por ele.

Ouviram o ruído de alguém a pigarrear, voltaram-se e depararam com o técnico que recolhia provas, que se detivera na ombreira da porta.

- Nada de impressões digitais - informou o homem. - Procurei nos dois computadores. Nos teclados, nos ratos e nas disquetes. Foi tudo limpo, não há qualquer vestígio.

O telemóvel de Rizzoli começou a tocar. Enquanto o abria, resmungou:

- De que estávamos à espera? Não estamos a lidar com nenhum mentecapto.

- E com respeito as portas? - perguntou Moore.

- Encontrámos algumas impressões parciais - respondeu o técnico. - Mas com todo o movimento de pessoas que, provavelmente, passa por aqui... pacientes e pessoal... não vamos ser capazes de identificar nada.

- Ei, Moore - chamou Rizzoli fechando o telemóvel -, vamos.

- Onde?

- Para a esquadra. O Brody disse que nos vai mostrar o milagre dos pixels.

- Coloco o ^ficheiro de imagem no Photoshop - disse Sean Brody. - O ficheiro ocupa três megabytes, o que significa que tem uma grande quantidade de pormenores. Para este criminoso nada de imagens turvas. Ele enviou uma imagem de qualidade, sem sequer fugir ao pormenor das pestanas da vítima.

Brody era o técnico de informática, um prodígio do Departamento da Polícia de Boston; um jovem de vinte e três anos com uma pele macilenta que, naquele momento, estava todo curvado diante do monitor, com a mão praticamente enxertada no rato. Moore, Rizzoli, Frost e Crowe mantinham-se atrás dele, todos com os olhos presos no monitor. Brody tinha um riso irritante, como o de um chacal, soltando pequenos suspiros de deleite enquanto manipulava as imagens no ecrã.

- Esta é uma imagem em toda a sua amplitude - explicou Brody. - A vítima amarrada à cama. Está acordada e de olhos abertos. O flash imprimiu um tom vermelho aos olhos. O que lhe tapa a boca parece ser fita isoladora. Aqui em baixo, no canto do lado esquerdo da fotografia, podemos ver a extremidade da mesa-de-cabeceira. Também se vê o despertador em cima de dois livros. Ampliamos e estão a ver as horas?

- Duas e vinte - disse Rizzoli.

- Exacto. Agora, a questão é saber se eram duas da manhã ou da tarde. Vamos até ao topo da fotografia onde se vê um canto da janela. O cortinado está fechado, mas, mesmo assim, conseguimos ver esta pequena abertura porque as extremidades do tecido não estão bem unidas. Não entra nenhuma luz solar. Se as horas indicadas no relógio estiverem certas, isso significa que esta fotografia foi tirada às duas e vinte da manhã.

- Sim, mas de que dia? - perguntou Rizzoli. - A fotografia pode ter sido tirada ontem ou no ano passado. Que diabo, nem sequer sabemos se o Cirurgião foi o fulano que tirou esta fotografia.

- Ainda não acabei - ripostou Brody lançando-lhe um olhar de irritação.

- Muito bem, o que temos mais?

- Concentremo-nos na parte inferior da imagem. Olhem bem para o pulso direito da mulher. Está coberto por fita isoladora. Mas estão a ver aquele pequeno borrão escuro ali? O que lhes parece que é? - Apontou e deu um clique no rato, ampliando o pormenor a que se referia.

- Continua a não se parecer com nada - comentou Crowe.

- Muito bem, vamos ampliar de novo. - Deu outro clique no rato. A mancha escura adquiriu uma forma reconhecível.

- Credo! - exclamou Rizzoli. - Parece um cavalo minúsculo. É um dos berloques da pulseira da Elena Ortiz!

- Sou bom ou não? - perguntou Brody com um sorriso de orelha a orelha, voltando-se para trás e olhando para ela.

- É ele - acrescentou Rizzoli. - É o Cirurgião.

- Volta a focar a mesa-de-cabeceira - pediu Moore.

Brody clicou outra vez, voltando a ter a imagem em toda a sua amplitude e deslocando a seta do cursor até ao canto inferior esquerdo do ecrã.

- O que queres ver em especial?

- Temos o despertador que nos diz que são duas horas e vinte minutos. Além disso, temos os dois livros debaixo do relógio. Olhem para as lombadas. Estão a ver como a capa do livro de cima reflecte a luz?

- Sim.

- Está forrado com um papel plastificado transparente para o proteger.

- De acordo... - disse Brody que, manifestamente, não estava a perceber onde ele queria chegar.

- Amplia a lombada do livro de cima - indicou Moore. - Vê se dá para lermos o título do livro.

Brody deslocou o cursor e fez outro clique.

- Parece que é formado por duas palavras - disse Rizzoli. - Estou a ver a palavra The...

Brody clicou de novo, ampliando a imagem ainda mais.

- A segunda palavra começa por um "S" - disse Moore. - E olhem para aquilo - acrescentou batendo no ecrã. -- Estão a ver este pequeno quadrado branco aqui, na base da lombada?

- Já sei onde queres chegar! - exclamou Rizzoli subitamente, cheia de entusiasmo. - O título. Vamos lá; precisamos de saber a porra do título!

Brody apontou e deu um último clique com o rato.

Moore olhava fixamente para o ecrã, tentando decifrar a segunda palavra do título do livro na lombada. Abruptamente, virou-se para trás, estendendo a mão para o telefone.

- O que é que me está a escapar? - perguntou Crowe.

- O título do livro é The Sparrow - retorquiu Moore, premindo uma tecla do telefone. - E aquele pequeno quadrado na lombada... aposto que é um número de telefone de assistência para utentes.

- O livro pertence a uma biblioteca pública - adiantou Rizzoli.

- Telefonista - disse uma voz na linha.

- Fala o detective Thomas Moore do Departamento da Polícia de Boston. Preciso de um número de contacto de emergência da Biblioteca Pública de Boston.

- Jesuítas no espaço - disse Frost, sentado no banco traseiro do carro. - É esse o tema do livro.

Seguiam velozmente pela Centre Street, com Moore a conduzir, as luzes de emergência a piscarem, intermitentes. Dois carros-.patrulha abriam caminho.

- Sei porque a minha mulher pertence a um grupo de leitura _- acrescentou Frost. - Recordo-me de ela ter falado a respeito de fhe Sparrow.

- É um livro de ficção científica? - perguntou Rizzoli.

- Não, tem mais a ver com questões religiosas. Qual a natureza de Deus? Esse tipo de assuntos.

- Sendo assim, não preciso de o ler - retorquiu Rizzoli. - Já sei tudo a respeito. Fui educada na religião católica.

- Estamos perto - disse Moore, olhando para a rua transversal.

A morada que procuravam situava-se em Jamaica Plain, nos arredores de Boston, entre o Parque Franklin e a cidade contígua de grookline. O nome da mulher era Nina Peyton. Uma semana antes, tinha levado um exemplar de The Sparrow da sucursal da biblioteca em Jamaica Plain. De todos os cidadãos da área da grande Boston que tinham levantado exemplares desse livro, Nina Peyton era a única que não atendia o telefone de sua casa às duas horas da manhã.

- É aqui - indicou Moore quando o carro-patrulha que seguia à frente virou para a direita na Eliot Street. Ele fez o mesmo e, um quarteirão mais adiante, estacionou atrás da viatura.

As luzes no tejadilho do carro-patrulha imprimiam uma atmosfera surrealista em tons de azul na escuridão da noite enquanto Moore, Rizzoli e Frost entravam pelo portão da frente, dirigindo-se à casa. Do interior vinha o clarão de uma luz pouco intensa.

Moore olhou para Frost que lhe fez um aceno de cabeça, após o que contornou o prédio até às traseiras.

Rizzoli bateu à porta da frente.

- Polícia! - anunciou.

Ficaram à espera durante alguns segundos. Rizzoli voltou a bater, desta vez com mais força.

- Senhora Peyton, somos da polícia! Abra a porta!

Fez-se uma pequena pausa. Subitamente, começaram a ouvir a voz de Frost através dos transmissores-receptores.

- A rede da janela das traseiras foi forçada!

Moore e Rizzoli trocaram olhares e, sem proferirem palavra, a decisão foi tomada.

Com o extremo da lanterna, Moore quebrou o painel de vidro ao lado da porta da frente, estendeu a mão pelo orifício e destrancou a porta.

Rizzoli foi a primeira a entrar na casa, deslocando-se numa posição semiagachada e empunhando a arma. Moore seguiu logo atrás, sentindo o pulsar da adrenalina ao mesmo tempo que o seu cérebro registava uma sequência rápida de imagens. Chão em madeira. Um armário aberto. A cozinha mesmo à sua frente. Um único candeeiro ligado em cima de uma mesa de apoio.

- O quarto - disse Rizzoli.

- Avancem.

Começaram a percorrer o corredor com Rizzoli à frente; a cabeça dela movimentou-se da esquerda para a direita quando passaram por uma casa de banho e um dos quartos, ambos desertos. A porta ao fundo do corredor estava entreaberta; não conseguiam ver o que se encontrava do outro lado da porta, uma vez que o quarto estava mergulhado em escuridão.

Moore, arma empunhada destramente com as mãos e sentindo o coração a bater com força, aproximou-se devagar da porta; com a biqueira do sapato, empurrou-a ao de leve.

Sentiu-se envolvido pelo cheiro a sangue, quente e repugnante. Encontrou o interruptor da luz, que ligou. Antes de a imagem ter chegado às suas retinas, ele apercebeu-se do que iria ver. Mesmo assim, não estava preparado para aquele horror.

O abdómen da mulher tinha sido esquartejado até ficar completamente aberto. O intestino delgado, ainda enrolado, saía para fora da incisão, pendurado como serpentinas grotescas por cima da beira da cama. O sangue escorria do ferimento aberto no pescoço, acumulando-se numa poça que se alargava pelo chão.

Moore precisou de uma eternidade para que o seu cérebro processasse o que estava a ver. Só então, enquanto apreendia todos os pormenores daquela cena macabra, compreendeu o seu significado. O sangue, ainda fresco, continuava a gotejar. A ausência de esguichos de sangue arterial na parede. A poça de sangue escuro, quase negro, que se acumulava no chão era cada vez mais ampla.

De imediato, o detective aproximou-se do corpo, os sapatos a pisarem o sangue.

- Ei! - gritou Rizzoli. - Estás a contaminar o local do crime!

Moore premiu os dedos contra a região lateral do pescoço da vítima que estava "intacta.

O cadáver abriu os olhos.

Deus nos valha. Ela ainda está viva.

 

Na cama, Catherine contorceu-se um pouco hirta, o coração a bater-lhe violentamente no peito, os nervos como que electrificados. Fitou a escuridão, tentando controlar o pânico.

Alguém batia com força à porta do quarto dos médicos de serviço.

- Doutora Cordell? - Catherine reconheceu a voz de uma das enfermeiras. - Doutora Cordell!

- Sim? - respondeu Catherine.

- Temos um caso muito grave prestes a chegar! Com perda abundante de sangue e ferimentos no pescoço e abdómen. Sei que é o doutor Ames que está de serviço no banco esta noite, mas ele vai chegar atrasado. O doutor Kimball está a precisar da sua ajuda!

- Diga-lhe que vou já. - Catherine ligou o candeeiro olhando para o relógio. Eram duas horas e quarenta e cinco. Só tinha dormido três horas. O vestido de seda verde continuava pendurado nas costas da cadeira. Parecia algo de muito estranho, qualquer coisa que pertencesse à vida de outra mulher e não à sua.

A roupa de cirurgia que tinha vestido para dormir estava suada e húmida, mas não tinha tempo para a mudar. Apanhou o cabelo emaranhado, prendendo-o num rabo-de-cavalo, após o que se aproximou do lavatório para chapinhar o rosto com água fria. A mulher que a olhava do espelho era uma estranha sob os efeitos de um choque nervoso. Concentração. Está na altura de expulsar o medo. Está na hora de ir trabalhar. Sem meias, calçou os ténis que fora buscar ao cacifo e, respirando fundo, saiu do quarto.

- A ambulância deve chegar dentro de dois minutos! - informou o recepcionista do Serviço de Urgência. - Da ambulância informam que o valor da tensão sistólica é de setenta!

- Doutora Cordell, estão a preparar a Sala de Traumatologia Um.

- Quem faz parte da equipa?

- O doutor Kimball e dois internos. Graças a Deus que a doutora já cá está. O carro do doutor Ames deu o berro e ele está atrasado...

Catherine encaminhou-se apressadamente para a Sala de Traumatologia Um. Com um único olhar constatou que a equipa se tinha preparado para o pior. Três suportes com três sacos com a solução de Ringer; três tubos para administração intravenosa enrolados e prontos a serem aplicados. Um dos estafetas estava a postos para levar imediatamente as colheitas de sangue para o laboratório. Os dois internos mantinham-se ao lado da mesa de operações em lados opostos, agarrando em cateteres intravenosos, enquanto Ken Kimball, o médico que estava de serviço no banco, já havia quebrado a fita que selava o tabuleiro da laparotomia.

Catherine cobriu os cabelos com a touca de papel e enfiou os braços na bata esterilizada. Uma das enfermeiras atou-lha nas costas, e abriu-lhe a primeira luva. Cada uma das peças que vestia para a cirurgia acrescia uma camada de autoridade, fazendo com que ela se sentisse mais forte, com mais controlo da situação. Naquela sala era a salvadora e não a vítima.

- O que se passa com o paciente? - perguntou a Kimball.

- Agressão. Trauma no abdómen e no pescoço.

- Ferimentos de bala? - perguntou Catherine.

- Não, causados por facadas.

Catherine parou quando já calçava a segunda luva. Subitamente, sentiu um nó no estômago. No abdómen e no pescoço. Ferimentos de facadas.

- A ambulância está a chegar! - gritou uma enfermeira assomando à ombreira da porta.

- Está na hora das entranhas e do sangue - disse Kimball, saindo para ir ao encontro da doente.

Catherine, que já vestira a bata esterilizada, deixou-se ficar onde estava. De um momento para o outro, o silêncio abatera-se sobre a sala. Nem os dois internos ao lado da mesa de operações, nem a enfermeira que ajudaria durante a cirurgia, pronta para passar os instrumentos cirúrgicos a Catherine, disseram uma única palavra. Toda a sua atenção se concentrava no que estava a passar-se para lá da porta.

- Vão, vão, vão - ouviram Kimball gritar.

A porta abriu-se de rompante e a maca foi empurrada para dentro da sala. Catherine viu de relance os lençóis ensopados em sangue, o cabelo castanho e baço de uma mulher e o rosto semitapado pelo adesivo que mantinha um tubo endotraqueal no seu devido lugar.

À contagem de um, dois, três, passaram a paciente da maca para a mesa de operações.

Kimball tirou o lençol, expondo o tronco nu da vítima.

Devido ao caos que reinava naquela sala, ninguém ouviu Catherine inspirar profundamente. Ninguém se apercebeu de que ela recuava um passo a cambalear. Olhou fixamente para o pescoço da vítima onde a compressa de pressão estava saturada de sangue de um vermelho carregado. Olhou para o abdómen, onde outra compressa apressadamente aplicada já começara a soltar-se, dando saída a vários fios de sangue que escorriam para o corpo nu. Apesar da grande azáfama de todos os que se encontravam ali, dando início à administração de soluções intravenosas, começando a aplicar eléctrodos cardíacos e a insuflar ar nos pulmões da vítima, Catherine permanecia imobilizada pelo horror do que tinha à sua frente.

Kimball retirou a compressa abdominal e parte do intestino delgado começou a sair para a mesa, onde ficou enrolado.

- As contracções sistólicas mal se sentem, a sessenta! O ritmo si-nusal está...

- Não consigo aplicar este tubo intravenoso!

- Vai para a subclávia!

- Passa-me outro cateter!

- Merda, a região está toda em falha...

- Doutora Cordell? Doutora Cordell?

Catherine continuava aturdida, mas virou-se para a enfermeira que tinha acabado de se lhe dirigir, vendo que a mulher lhe franzia a testa bem visível acima da máscara.

- Quer compressas de laparotomia? Catherine engoliu em seco e respirou fundo.

- Sim, quero compressas de laparotomia. E sucção... - Concentrou-se na paciente. Uma mulher jovem. Ocorreu-lhe uma imagem confusa do passado, num outro Serviço de Urgência, uma noite em Savannah, em que ela própria tinha sido a mulher deitada na mesa de operações.

Não vou permitir que morras. Não vou deixar que ele te reivindique como sua.

Agarrou uma mão-cheia de esponjas e uma pinça hemostática que estavam no tabuleiro dos instrumentos cirúrgicos para estancar a hemorragia. Naquele momento já estava concentrada a cem por cento, a profissional retomara o controlo. Todos aqueles anos de formação cirúrgica entraram em acção automaticamente. Começou por focar a sua atenção no ferimento do pescoço, retirando a compressa de pressão. O sangue escuro começou a escorrer, salpicando o chão.

- A carótida! - disse um dos médicos internos. Catherine apressou-se a aplicar uma esponja no ferimento, respirando fundo.

- Não, não é a carótida; se fosse, ela já estaria morta. - Olhou para a enfermeira que a assistia. - Bisturi. - O instrumento cirúrgico foi imediatamente colocado na sua mão. Fez uma pausa, preparando-se para o passo seguinte, muito delicado, e aproximando a extremidade do bisturi do pescoço. Mantendo pressão sobre o ferimento, Catherine fez habilmente uma incisão na pele e dissecou no sentido ascendente em direcção ao maxilar, expondo a veia jugular. - Ele não cortou com profundidade suficiente para atingir a carótida - disse ela. - Mas chegou à jugular, e esta extremidade recolheu-se para dentro dos tecidos moles. - Largou o bisturi e pegou na pinça hemostática. - Você! dirigiu-se a um dos internos. - Preciso que retire o sangue com a esponja. Suavemente

- Vai fazer uma anastomose?

- Não, apenas uma atadura. Ela vai passar por um processo de drenagem colateral. Preciso de expor uma porção suficiente de veia para poder suturar em volta. Pinça vascular.

O instrumento foi colocado na sua mão sem mais demoras.

Catherine aplicou a pinça hemostática, apertando o vaso exposto.

Só então é que soltou um suspiro de alívio olhando para Kimball.

- Esta hemorragia abrandou. Mais tarde trato de a laquear. Concentrou a sua atenção no abdómen. Nessa altura, Kimball e

o médico interno já tinham desobstruído a região afectada, o que fizeram por meio de sucção e com a ajuda de compressas de laparotomia, permitindo que o ferimento estivesse completamente exposto. Com todo o cuidado, Catherine começou a afastar partes dos intestinos para poder examinar a incisão aberta. O que viu deixou-a enraivecida.

O seu olhar cruzou-se com o de Kimball que no lado oposto da mesa mostrava uma expressão atordoada.

- Quem seria capaz de fazer uma coisa destas? - perguntou ele em voz baixa. - Com quem estamos nós a lidar?

- Com um monstro - replicou Catherine.

- A vítima permanece na cirurgia. Continua viva - informou Rizzoli fechando o telemóvel com brusquidão e olhando para Moore e para o Dr. Zucker. - Agora temos uma testemunha. O nosso homicida está a ficar descuidado.

- Não está a ficar descuidado - contrapôs Moore. - Apressado, sim. Não teve tempo de acabar o trabalho. - Moore encontrava-se junto da porta do quarto enquanto examinava o sangue espalhado no chão. Ainda estava fresco, continuando a exibir uma superfície luzidia. Não teve tempo para secar. O Cirurgião acabou de sair daqui.

- A fotografia foi enviada por e-mail para o computador da doutora Cordell às dezanove horas e cinquenta e cinco minutos - adiantou Rizzoli. - O relógio na fotografia indica duas horas e vinte minutos. - Apontou para o relógio em cima da mesa-de-cabeceira.

- Indica a hora certa. O que significa que ele deve ter tirado essa fotografia ontem à noite. Manteve a vítima com vida nesta casa durante mais de vinte e quatro horas. Prolongando o prazer.

- Ele está a tornar-se atrevido - interveio o Dr. Zucker; da sua voz trespassava uma nota inquietante de admiração. O reconhecimento de que se encontrava perante um oponente cheio de fibra. - Ele não se limita a manter a vítima com vida durante um dia inteiro; na verdade, deixa-a ali durante algum tempo para poder enviar a fotografia por e-mail. Está a fazer joguinhos connosco.

- Ou com a Catherine Cordell - sugeriu Moore.

A carteira da vítima encontrava-se em cima da cómoda. Com as mãos enluvadas, Moore examinou o conteúdo da bolsa.

- Uma carteira com trinta e quatro dólares. Dois cartões de crédito. Um cartão da Associação Automóvel da América do Norte. Cartão de funcionária do Departamento de Vendas da Equipamentos Científicos Lawrence e carta de condução em nome de Nina Peyton, vinte e nove anos de idade, um metro e sessenta e cinco, cinquenta e nove quilos - Moore interrompeu-se, virando a carta de condução.

- É dadora de órgãos.

- Acho que acabou de os doar. - observou Rizzoli.

- Também contém uma agenda - informou Moore abrindo o fecho de correr de uma bolsa interior da carteira.

- Sim...? - disse Rizzoli virando-se para ele com um interesse renovado.

Moore abriu a agenda, folheando-a até ao mês corrente. Estava em branco. Folheou-a para trás até encontrar uma entrada escrita há quase oito semanas: Não esquecer de pagar a renda. Continuou a folhear para trás, deparando com mais entradas: Aniversário do Sid. Lavandaria. Concerto às oito horas. Reunião na empresa. Tudo pequenos pormenores que faziam parte da existência de qualquer pessoa. Por que razão aqueles registos tinham cessado oito semanas antes? Pensou na mulher que escrevera aquelas palavras em letra de imprensa, manuscritas com tinta azul. Uma mulher que, muito provavelmente, aguardara com antecipação a data em que preencheria a folha branca referente a Dezembro, imaginando o Natal e a neve, tendo todas as razões para acreditar que estaria viva para assistir à quadra natalícia. Moore fechou a agenda e foi dominado por uma tristeza tão grande que, por breves momentos, se sentiu incapaz de falar.

- Não ficou nada esquecido nos lençóis - informou Frost agachado à beira da cama. - Nem restos de fio para suturas, nem instrumentos cirúrgicos; nada.

- Para um sujeito que estava com pressa de se ir embora - interveio Rizzoli -, ele foi muito cuidadoso a arrumar tudo depois de ter acabado. E vejam. Até teve tempo para dobrar cuidadosamente a roupa com que ela dormia. - A detective apontou para a camisa de noite em algodão que estava muito bem dobrada em cima de uma cadeira. - Isto não está em consonância com o facto de ele estar apressado.

- Mas deixou a vítima com vida - comentou Moore. - O pior erro que poderia ter cometido.

- Moore, isso não faz sentido. Ele dobrou a camisa de noite e teve o cuidado de não deixar nada que lhe pertencesse. Mas depois é descuidado ao ponto de deixar uma testemunha que talvez pudesse identificá-lo? O tipo é esperto de mais para cometer um erro desses.

- Até os mais inteligentes, de vez em quando, cometem erros - atalhou Zucker. - O Ted Bundy começou a ficar descuidado para o fim.

- Foste tu que telefonaste à vítima? - perguntou Moore olhando para Frost.

- Fui. Quando começámos a ligar para os números de telefone que a biblioteca nos forneceu. Liguei para esta residência por volta das duas, duas e quinze. Fui atendido pelo gravador de chamadas. Não deixei mensagem.

Moore olhou em volta, mas não viu nenhum atendedor de chamadas. Foi até à sala de estar e viu que o telefone estava numa mesinha de apoio. Tinha uma caixa de identificação dos telefonemas e o botão da memória estava manchado de sangue.

Serviu-se da ponta de um lápis para premir o botão; o número de telefone da última pessoa a ligar para aquele número apareceu no mostrador digital: Departamento da Polícia de Boston, 2.14.

- Terá sido isto que o amedrontou? - perguntou Zucker, que seguira Moore até à sala de estar.

- Ele estava aqui mesmo quando o Frost ligou para cá. O botão de identificação dos números está manchado de sangue.

- Portanto, o telefone tocou. E o nosso homicida ainda não tinha acabado. Não obteve a satisfação desejada. Mas um telefonema a meio da noite com certeza que o deixou sobressaltado. Dirigiu-se para aqui, a sala de estar, e viu o número no mostrador. Verificou que era a polícia a tentar contactar a vítima - Zucker fez uma pausa. - O que é que você faria?

- Ter-me-ia posto a andar daqui para fora.

Zucker fez um aceno de cabeça e esboçou um pequeno sorriso.

"Para ti, isto não passa de um jogo", pensou Moore. Dirigiu-se para a janela, pondo-se a olhar para a rua que naquela altura se assemelhava a um caleidoscópio cintilante de luzes azuis intermitentes. Havia meia dúzia de carros-patrulha estacionados defronte da casa. A imprensa também estava presente; via os carros de exteriores do canal de televisão regional que instalavam os seus emissores por satélite.

- Ele não teve oportunidade de gozar com o que fez - comentou Zucker.

- Mas conseguiu terminar a excisão.

- Não, isso é somente a recordação. Uma pequena lembrança da sua visita. Ele não esteve aqui com a única finalidade de coleccionar um órgão do corpo. Ele veio pela excitação suprema: sentir que a vida de uma mulher se esvaía a pouco e pouco. Mas desta feita não conseguiu concretizar o seu objectivo. Foi interrompido, desviado pelo receio da chegada iminente da polícia. Não ficou aqui durante o tempo suficiente para poder ver morrer a vítima. - Zucker deteve-se por uns momentos. - Dentro de muito pouco tempo teremos a próxima vítima. O nosso homicida sente-se frustrado e a tensão a que está sujeito ser-lhe-á insuportável. O que significa que já terá dado início à caça da sua próxima vítima.

- Ou talvez já a tenha seleccionado - adiantou Moore. E pensou: "Catherine Cordell."

Os primeiros alvores do dia começavam a clarear o firmamento. Há quase vinte e quatro horas que Moore não dormia, tendo andado numa actividade frenética durante grande parte da noite, alimentado apenas por café. Apesar disso, quando olhou para o céu a clarear, o que sentiu não foi exaustão, mas uma agitação renovada. Tinha de existir uma ligação qualquer entre Catherine e o Cirurgião que ele não conseguia compreender. Havia um fio qualquer invisível que a unia àquele monstro.

- Moore!

O interpelado voltou-se para trás, deparando com Rizzoli e apercebendo-se imediatamente do empolgamento que se reflectia no olhar da detective.

- Acabaram de ligar do Departamento dos Crimes Sexuais - disse ela. - A nossa vítima é uma senhora com muito pouca sorte.

- O que queres dizer com isso?

- Há dois meses, a Nina Peyton foi vítima de um crime de estupro.

Aquela notícia deixou Moore aturdido. Pensou nas páginas em branco da agenda da vítima. Oito semanas atrás, os registos diários haviam cessado. Tinha sido nessa altura que a existência de Nina Peyton se detivera repentinamente.

- Ela fez alguma participação à polícia? - perguntou Zucker.

- Não só participou, como também se procedeu à recolha de fluidos corporais - respondeu Rizzoli.

- Duas vítimas de violação? - disse Zucker. - Será possível que seja assim tão fácil?

- Pensar que os violadores voltam para as matar?

- É impossível que estes acontecimentos sejam obra do acaso. Dez por cento dos violadores em série, numa fase posterior, comunicam com as suas vítimas. É a maneira como o criminoso perpetua o tormento. A obsessão.

- O crime de estupro é um preliminar antes do assassínio - afirmou Rizzoli com uma expressão de repugnância. - Uma beleza - acrescentou com ironia.

Repentinamente, à mente de Moore ocorreu um novo pensamento.

- Disseste que se fizeram colheitas de fluidos corporais. Fez-se alguma recolha de secreções vaginais?

- Sim, mas ainda não se sabe qual o resultado do ADN.

- Quem é que fez essa colheita? Ela foi ao Serviço de Urgência de algum hospital? - Moore tinha quase a certeza de que ela lhe responderia: Sim, foi ao Centro Médico Pilgrim.

- Não foi ao Serviço de Urgência de nenhum hospital - replicou Rizzoli com um abanar de cabeça. - Foi à Clínica para Mulheres de Forest Hills. Fica mesmo ao fundo da rua onde ela mora.

Na parede da sala de espera da clínica via-se um cartaz a cores que mostrava o aparelho genital da mulher por baixo das palavras: Mulher. Uma Beleza Espantosa. Muito embora Moore concordasse que o corpo feminino era uma criação miraculosa, sentiu-se como um voyeur perverso a olhar para aquele diagrama tão explícito. Não lhe passou despercebido que várias mulheres na sala de espera o olhavam de soslaio, com a mesma expressão de gazelas a olharem para um predador entre elas. O facto de estar acompanhado por Rizzoli não pareceu alterar o facto de ele ser um elemento do sexo masculino que não pertencia ali.

Sentiu um grande alívio quando, por fim, a recepcionista disse:

- Ela vai recebê-los agora, senhores detectives. É o último gabinete à direita.

Rizzoli tomou a dianteira quando começaram a percorrer o corredor, passando por cartazes onde se lia: Dez indícios de que o seu parceiro é abusivo e Como é que sabe se é violação? A cada passo que dava, Moore sentia-se como se outra nódoa de culpa masculina se tivesse agarrado à sua pessoa, como sujidade a conspurcar-lhe a roupa. Quanto a Rizzoli, a detective não sentia nada semelhante; encontrava-se num terreno familiar. O território das mulheres. Bateu à porta onde se lia: "Sarah Daly, Enfermeira Diplomada".

- Entre.

A mulher que se levantou para os receber era jovem e com uma aparência moderna. Por baixo da bata branca vestia umas calças de ganga e uma camisola de algodão preto; o corte de cabelo dava-lhe um aspecto arrapazado que era acentuado pelos olhos escuros de expressão atrevida e maçãs do rosto bem desenhadas. Mas aquilo de que Moore não conseguia desviar o olhar era a pequena argola dourada que ela tinha na narina esquerda. Durante grande parte da conversa, teve a sensação de que estava a falar para aquela argola.

- Depois de me ter telefonado, revi a ficha de Nina Peyton - disse Sarah. - Sei que ela fez uma participação à polícia.

- Já a lemos - adiantou Rizzoli.

- Sendo assim, qual a razão que os trouxe aqui?

- A Nina Peyton foi atacada ontem à noite em casa. Neste momento, encontra-se no hospital em estado muito crítico.

A primeira reacção da mulher foi de choque. Logo depois, mostrou raiva. Moore viu essa reacção na maneira como ela erguia o queixo e no brilho dos olhos.

- Foi ele!

- Ele...?

- O homem que a violou.

- É uma possibilidade que estamos a considerar - respondeu Rizzoli. - Infelizmente, a vítima encontra-se em coma, pelo que está impossibilitada de falar connosco.

- Peço-lhes que não a tratem por vítima. Ela tem um nome. O queixo de Rizzoli também se ergueu numa atitude de desafio, e Moore percebeu que ficara irritada. Não era uma boa maneira de iniciar uma conversa daquela natureza.

- Enfermeira Daly, estamos perante um crime incrivelmente brutal e precisamos de...

- Nada é incrível - ripostou Sarah. - Não quando estamos a falar do que os homens são capazes de fazer às mulheres - Pegou numa pasta que tinha na secretária, estendendo-a a Moore. - Está aqui a ficha clínica dela. Na manhã seguinte, após a violação, ela veio a esta clínica. Fui eu que falei com ela.

- E também foi a senhora que a examinou?

- Fiz tudo. Falei com ela e fiz o exame pélvico. Também procedi à recolha dos fluidos corporais e confirmei que havia vestígios de esperma. Guardei igualmente pêlos púbicos e vestígios de unhas, o que constitui prova num caso de violação. Também lhe administrei a pílula do dia seguinte.

- Ela não foi ao Serviço de Urgência para análises e exames adicionais?

- Uma vítima de violação que entre pela porta deste edifício tem ao seu dispor todos os serviços proporcionados por uma única pessoa. A última coisa de que uma mulher nessas condições precisa é de ver um desfile de rostos diferentes. De acordo com este processo, sou eu que faço as colheitas de sangue e que as envio para o laboratório. Também faço os telefonemas necessários para a polícia. Caso seja essa a vontade da vítima.

Moore abriu a pasta e viu a folha que continha os dados pessoais da paciente. A data de nascimento de Nina Peyton, a morada, número de telefone e o local onde trabalhava. Passou à folha seguinte, vendo que estava preenchida com uma letra pequena e muito apertada. A data da primeira entrada era de 17 de Maio.

Queixa Principal: Agressão sexual.

Historial da doente: mulher de raça branca, de vinte e nove anos de idade, alega que foi sexualmente agredida. Ontem a noite, enquanto tomava umas bebidas no Bar Gramercy, sentiu-se tonta e recorda-se de se ter dirigido a casa de banho. Não se lembra de nada do que lhe possa ter acontecido depois disso...

- Despertou em casa, deitada na sua própria cama - adiantou Sarah. - Não se recordava de como tinha ido para casa. Também não se lembrava de se ter despido. E muito menos de de ter rasgado a blusa. Mas o certo é que ali estava ela sem a roupa que vestira algumas horas antes. Nas coxas viu o que pensou ser sémen seco. Tinha um olho inchado e hematomas nos dois pulsos. Não precisou de muito tempo para deduzir o que lhe havia acontecido. Teve a mesma reacção de muitas das vítimas de crimes de estupro. Pensou: "Foi por minha culpa que isto aconteceu. Não devia ter sido tão descuidada." Mas temos de pensar que é assim que as coisas se passam com as mulheres. - Olhou directamente para Moore. - Temos o hábito de nos culpar por tudo e mais alguma coisa, mesmo quando é o homem que nos obriga a foder.

Perante uma cólera tão intensa, Moore concluiu que não tinha nada a dizer. Baixou os olhos para a ficha e começou a ler os resultados do exame clínico.

A paciente apresenta um aspecto muito desalinhado e mostra-se reservada. Não está acompanhada, e veio a pé de casa para a clínica...

- Ela não parava de falar nas chaves do carro - disse Sarah. - Tinha o corpo pisado e um olho tão inchado que nem conseguia abri-lo, mas só se referia às chaves do carro que tinha perdido, e precisava de as encontrar, senão, como poderia ir trabalhar. Levei algum tempo a tirar-lhe essa obsessão da cabeça para que pudesse falar comigo. Trata-se de uma mulher que nunca passara por uma experiência verdadeiramente má. Uma mulher culta e independente. Técnica de vendas da Equipamentos Científicos Lawrence. Todos os dias tinha de lidar com vários tipos de pessoas. Mas ali estava ela, quase paralisada. Obcecada porque tinha de encontrar a porcaria das chaves do carro. Finalmente, passámos revista à carteira dela, abrindo todas as bolsas, até que acabámos por descobrir as chaves. Só depois de as termos encontrado é que ela conseguiu concentrar-se no que eu lhe dizia e me contou o que lhe tinha acontecido.

- E o que ela lhe disse?

- Foi ao Bar Gramercy por volta das nove da noite para se encontrar com uma amiga. Essa amiga não chegou a aparecer, mas a Nina deixou-se ficar durante algum tempo. Bebeu um martíni e falou com uns quantos fulanos. Eu já estive nesse bar e sei que é um lugar com muito movimento todas as noites. Qualquer mulher se sentiria segura. - Fez uma pausa e acrescentou: - Como se houvesse algum lugar verdadeiramente seguro.

- Ela recordava-se do homem que a levou a casa? - perguntou Rizzoli. - É isso que precisamos de saber.

Sarah olhou-a atentamente.

- O que lhes interessa é o aspecto criminal, não é verdade? Isso é tudo o que aqueles dois polícias da Brigada dos Crimes Sexuais queriam saber. A atenção vai toda para o criminoso.

Moore sentia que a temperatura na sala aumentava por causa do temperamento de Rizzoli. Apressou-se a intervir:

- Os detectives disseram que ela não foi capaz de lhes fornecer uma descrição.

- Eu estive presente quando falaram com ela. Foi ela que me pediu que ficasse, o que me permitiu ouvir a história completa duas vezes. Eles não se cansaram de insistir para que lhes descrevesse o aspecto dele, mas ela não conseguiu dizer-lhes nada. Na verdade, ela não se recordava de nada a respeito do homem.

Moore passou à folha seguinte.

- Viu-a uma segunda vez, em Julho. Apenas há uma semana.

- Ela voltou à clínica para fazer uma análise ao sangue. Só decorridas seis semanas após se ter estado exposto ao contágio do HIV a análise pode fornecer um resultado seguro. Essa é a ironia suprema. Primeiro é-se vítima de violação e depois descobre-se que o agressor nos transmitiu uma doença fatal. Para as mulheres que passam por isso, são seis semanas de uma agonia terrível, à espera de saberem se contraíram sida ou não, imaginando se terão o inimigo dentro de si, multiplicando-se na sua corrente sanguínea. Quando chegam para esta análise de acompanhamento, converso com elas para lhes dar coragem. Tenho de lhes prometer que lhes telefono no momento em que souber o resultado da análise.

- Não fazem as análises aqui?

- Não. Vão para os Laboratórios Interpath.

Moore chegou à última página da ficha clínica, começando a ler os resultados da análise: Despistagem do HIV: Negativo. Doenças venéreas (sífilis): Negativo. A folha era de um papel extremamente fino, uma cópia a papel químico de entre muitas. "Em geral, as notícias mais importantes da nossa vida", pensou Moore, "chegam-nos à mão em papel de fraca qualidade. Telegramas. Notas de exames. Resultados de análises ao sangue."

Fechou a pasta e colocou-a em cima da mesa.

- Quando viu a Nina pela segunda vez, no dia em que ela veio para a análise ao sangue, como é que lhe pareceu?

- Está a perguntar-me se ela ainda estava traumatizada?

- Não tenho dúvida alguma de que ainda estava - observou Moore.

A resposta calma pareceu furar o balão de raiva cada vez mais cheio de Sarah. Ela recostou-se para trás, como se, na ausência da cólera, tivesse perdido uma energia que lhe era vital. Durante uns momentos, reflectiu na pergunta dele.

- Quando vi a Nina pela segunda vez, ela pareceu-me uma morta-viva.

- Porque diz isso?

- Sentou-se na cadeira onde a detective Rizzoli está neste momento; fiquei com a sensação de que quase conseguia ver através dela. Como se fosse transparente. Desde que fora violada, não aparecia no emprego. Acho que lhe devia ser extremamente difícil encarar as pessoas, muito em especial, os homens. Sentia-se como que paralisada por toda uma variedade de fobias estranhas. Receava beber água da torneira ou tomar qualquer outra bebida que não viesse numa embalagem selada. Tinha de vir numa garrafa ou lata que não tivesse sido aberta, algo que não pudesse ter sido envenenado ou drogado. Temia que os homens pudessem olhar para ela e adivinhassem que fora violada. Estava convencida de que o violador deixara esperma nos lençóis e na roupa, e passava várias horas do dia a lavar coisas que já tinha lavado anteriormente. Quem quer que a Nina Peyton tivesse sido antes, essa mulher estava morta. O que vi no lugar dela foi um fantasma. - Sarah começara a falar mais baixo, muito quieta na sua cadeira a olhar fixamente para Rizzoli, como se estivesse a ver outra mulher naquele lugar. Uma sucessão de mulheres, rostos diferentes, fantasmas diferentes, um desfile de mulheres traumatizadas.

- Ela disse-lhe alguma coisa acerca de estar a ser perseguida? Se o violador voltou a aparecer na sua vida?

- Um violador nunca chega a desaparecer da nossa vida. Por muitos anos que se viva, é-se sempre propriedade dele - replicou Sarah fazendo uma pausa antes de acrescentar com azedume: - Quem sabe se ele não terá voltado apenas para reclamar o que era seu.

 

O que os viquingues sacrificavam não eram virgens, mas rameiras.

No ano da graça"de 922, o diplomata árabe Ibn Fadlan testemunhou um desses sacrifícios entre o povo a que ele chamava "Rus". Descreveu-os como sendo altos e louros, homens com uma compleição física perfeita que haviam partido da Suécia, navegando pelos rios da Rússia até aos mercados do Sul e ao califado, onde trocavam âmbar e peles pelas sedas e pratas vindas de Bizâncio. Foi nesta rota de mercadores, num lugar de nome Bulgar, numa volta do Volga, que um viquingue de grande proeminência, que havia falecido, estava a ser preparado para a sua jornada final rumo ao Valhalla.

Ibn Fadlan presenciou esta cerimónia fúnebre.

O barco que levaria o homem morto foi puxado para terra e colocado sobre postes de madeira de vidoeiro. Em seguida, começaram a construir um pavilhão no convés e dentro deste pavilhão havia uma otomana coberta de brocado grego. O corpo, que estava sepultado há dez dias, foi desenterrado.

Para grande surpresa de Ibn Fadlan, a carne enegrecida não cheirava mal.

O cadáver acabado de desenterrar foi então adornado com roupas finas: calças e meias, botas e uma túnica, assim como um cafetã de brocado com botões em ouro. Colocaram-no em cima da otomana dentro do pavilhão, posicionando as almofadas de maneira a que ele pudesse ficar sentado a direito. A volta dele colocaram pão, carne e cebolas, além de bebidas capitosas e plantas com uma fragrância doce. Abateram dois cavalos e um cão, uma galinha e um galo, animais que também colocaram dentro do pavilhão a fim de suprirem as necessidades dele durante a viagem até ao Valhalla.

Por fim, trouxeram uma escrava.

Durante os dez dias em que o homem tinha estado enterrado em campa rasa, a rapariga fora forçada a prostituir-se. Entontecida pelas bebidas, era levada de tenda em tenda para servir todos os homens do acampamento. Ficava deitada de pernas abertas por baixo de homens suados e que grunhiam, o seu corpo servindo de recipiente comunal para as sementes da vida de todos os membros da tribo. Deste modo, ela era aviltada, a sua carne corrompida em preparação para o sacrifício.

Ao décimo dia, a rapariga foi levada para o barco acompanhada de uma anciã a que chamavam "Anjo da Morte". A rapariga despojou-se de todas as pulseiras e anéis que usava. Bebeu muito para ficar embriagada. Só depois foi levada para o pavilhão onde o homem morto continuava sentado.

Ali, em cima do colchão coberto de panos de brocado, uma vez mais, ela foi aviltada. Seis vezes, por seis homens, o corpo dela passou de mão em mão como se fosse um naco de carne que eles partilhassem. E quando acabaram, depois dos homens se terem saciado, a rapariga foi deitada ao comprido ao lado do seu senhor falecido. Dois dos homens agarraram-lhe os pés, outros dois seguraram-lhe as mãos, e a mulher, o "Anjo da Morte", passou uma corda a volta do pescoço da jovem. Enquanto os homens puxavam a corda, mantendo-a bem esticada, o "Anjo da Morte" ergueu a adaga de lâmina larga e com ela trespassou o peito da rapariga.

A lâmina desceu várias vezes sobre a jovem, derramando sangue como um homem que grunhe derrama o seu sémen, a adaga reconstituindo o êxtase sentido anteriormente, o metal acutilante a penetrar a carne macia.

Uma lascívia brutal que traz consigo o arrebatamento da morte durante a investida final.

 

- Precisou de uma transfusão de sangue e plasma congelado em grandes quantidades - disse Catherine. - A tensão arterial estabilizou, mas ela continua inconsciente e ligada ao ventilador. Vai ter de ser paciente, detective. E esperar que ela acorde.

Catherine e o detective Darren Crowe estavam do lado de fora do cubículo da Unidade de Cuidados Intensivos onde Nina Peyton se encontrava a recuperar, observando as três linhas no monitor. Darren tinha estado à espera no lado de fora do bloco operatório quando a paciente saíra numa maca e acompanhara-a até à sala contígua, fazendo o mesmo mais tarde quando ela fora transferida para a Unidade de Cuidados Intensivos. O seu papel era mais do que proporcionar-lhe protecção; estava ansioso por poder tomar nota do depoimento dela, e durante as últimas horas só atrapalhara, exigindo que o informassem sobre o seu estado, sem se afastar da porta do cubículo.

Agora, uma vez mais, o homem repetia a pergunta que fizera ao longo de toda a manhã:

- Ela vai conseguir salvar-se?

- Tudo o que posso dizer-lhe é que os seus sinais vitais estão estabilizados.

- Quando vou poder falar com ela?

- O senhor parece não compreender que ela se encontra em estado crítico - respondeu Catherine com um suspiro de cansaço. - Perdeu mais de um terço do volume de sangue antes de chegar aqui. É possível que o seu cérebro tenha estado privado de irrigação sanguínea. Quando e se ela recuperar a consciência, existem fortes probabilidade de não se recordar de nada do que lhe aconteceu.

- Nesse caso, não tem nenhuma utilidade para nós - retrucou Crowe olhando através da divisória de vidro.

Catherine ficou a olhar para ele, sentindo uma antipatia crescente. O homem nem sequer manifestara a mínima preocupação por Nina Peyton, excepto como testemunha, alguém que ele poderia usar. Também não se referira a ela pelo nome uma só vez durante toda a manhã. Chamara-lhe a vítima ou a testemunha. O que ele via ao olhar para o interior do cubículo não era uma mulher em perigo de vida, mas simplesmente um meio para chegar a um fim.

- Quando será transferida da Unidade de Cuidados Intensivos? - insistiu o detective.

- Ainda é cedo para se fazer essa pergunta.

- Ela não podia ser transferida para um quarto particular? Se mantivéssemos a porta fechada, se limitássemos o acesso do pessoal de enfermagem, ninguém saberia que ela não está em condições de falar.

Catherine já imaginava qual seria o rumo da conversa.

- Recuso-me a permitir que a minha paciente seja utilizada como isco. Ela precisa de ficar aqui sob observação durante vinte e quatro horas. Está a ver aquelas linhas no monitor? Aquilo é o electrocardiograma, a tensão venosa central e a tensão arterial. Tenho de acompanhar todas as alterações ao seu estado. Esta unidade é o único lugar onde posso fazer isso.

- Quantas mulheres poderemos vir a salvar se o pararmos já? Pensou nisso? Ninguém melhor do que a senhora, doutora Cordell, sabe aquilo por que estas mulheres já passaram.

Catherine ficou rígida, tanta a cólera que sentia. O homem tinha dado um golpe no seu ponto mais vulnerável. O que Andrew Capra lhe fizera era tão pessoal, tão íntimo, que ela era incapaz de falar do sentimento de perda, que nunca a abandonava, até mesmo com o seu próprio pai. O detective Crowe rasgara essa ferida, voltando a abri-la.

- Talvez ela seja o único meio de podermos deitar-lhe a mão - acrescentou Crowe.

- Não consegue fazer melhor do que isso? Servir-se de uma mulher em coma como isco? Pôr em perigo a vida de outros pacientes internados neste hospital ao convidar um assassino a vir cá?

- O que a leva a pensar que ele já não se encontra aqui? - perguntou Crowe, afastando-se dela.

Já está aqui. Catherine não conseguiu evitar olhar em volta. Viu enfermeiras numa grande azáfama entre os pacientes. Um grupo de cirurgiões estagiários junto de um conjunto de monitores. Uma especialista em flebotomia a levar o seu tabuleiro cheio de seringas e tubos para sangue. Quantas pessoas entravam e saíam daquele hospital todos os dias? E quantas dessas pessoas ela conhecia verdadeiramente? Nenhuma. Fora uma das coisas que Andrew Capra lhe ensinara: que nunca poderia saber o que de facto ia no coração das pessoas.

- Doutora Cordell, tem uma chamada telefónica - informou a funcionária administrativa da enfermaria.

Catherine dirigiu-se para o posto das enfermeiras onde atendeu o telefone. Era Moore.

- Ouvi dizer que conseguiu salvá-la.

- Sim, ela está viva - retorquiu Catherine. - E não... ainda não está em condições de falar.

- Estou a ver que esta não foi a melhor altura para lhe telefonar - retorquiu o detective depois de uma pequena pausa.

Catherine deixou-se cair numa cadeira.

- Peço desculpa. Mas acabei de falar com o detective Crowe e tenho de confessar que não estou muito bem-disposta.

- Ele consegue provocar esse efeito nas mulheres.

Ambos desataram a rir, risos de cansaço que desanuviaram a hostilidade entre os dois.

- Como está a aguentar-se, Catherine?

- Passámos por alguns momentos de grande aflição, mas creio que conseguimos estabilizá-la.

- Não, estava a referir-me a si. Está bem? - Era mais do que uma pergunta cortês; ela apercebeu-se de uma preocupação autêntica na voz dele, e ficou sem saber o que dizer. Mas apreciava o facto de alguém se interessar por ela. Teve a impressão de que as palavras dele haviam trazido o rubor às suas faces.

- Não está a pensar em voltar para casa, pois não? - perguntou Moore. - Pelo menos até que as fechaduras sejam mudadas.

- Fico tão irritada ao pensar nisso. Ele privou-me do único lugar em que me sinto em segurança.

- Havemos de fazer com que a sua casa volte a ser segura. Vou ver se arranjo um serralheiro que vá lá mudar as fechaduras.

- Num sábado? Você faz milagres?

- Não, mas tenho um ficheiro com números de telefone que é fantástico - disse Moore.

Catherine recostou-se, sentindo que a tensão abrandava nos seus ombros. À sua volta, a Unidade de Cuidados Intensivos zumbia de actividade; contudo, toda a sua atenção estava concentrada no homem cujo timbre de voz a acalmara, instilando-lhe confiança.

- E você, como é que está? - perguntou ela.

- Devo dizer que o meu dia só agora é que está a começar. - Moore fez uma pausa para poder dar atenção a alguém que lhe perguntava qualquer coisa acerca de provas que devia guardar. Ao fundo, Catherine ouvia outras vozes. Imaginava-o no quarto de Nina Peyton, rodeado pelas provas do horror que ali tivera lugar. Apesar disso, expressava-se num tom tranquilo, sem a mínima agitação. - Promete que me telefona assim que ela recuperar a consciência? - pediu Moore.

- O detective Crowe não nos larga, parece um abutre. Tenho a certeza de que ele saberá antes de mim.

- Acredita que ela irá recuperar a consciência?

- Quer uma resposta sincera? - perguntou Catherine. - Não sei. Fartei-me de dizer isso ao detective Crowe, mas ele também não aceita esta resposta.

- Doutora Cordell? - chamou a enfermeira de Nina Peyton da entrada do cubículo. De imediato, o seu tom de voz deixou Catherine alarmada.

- O que se passa?

- Tem de vir ver isto.

- Aconteceu alguma coisa? - perguntou Moore do outro lado da linha.

- Não desligue. Deixe-me ir ver o que se passa. - Catherine pousou o auscultador e encaminhou-se para o cubículo.

- Eu estava a lavá-la com um pano humedecido - explicou a enfermeira. - Quando a trouxeram do bloco operatório tinha sangue seco agarrado a todo o corpo. Quando a virei de lado, vi aquilo. Está por trás da coxa esquerda.

- Mostre-me.

A enfermeira agarrou a paciente pelo ombro e pela anca, viran-do-a de lado.

- Ali - indicou em voz baixa.

O medo prendeu Catherine ao chão. Ficou a olhar fixamente para a mensagem que tinha sido escrita com uma caneta de feltro preta na pele de Nina Peyton.

FELIZ ANIVERSÁRIO. GOSTAS DA MINHA PRENDA?

Moore encontrou-a na cafetaria do hospital. Catherine estava sentada a uma mesa de canto, de costas para a parede, assumindo a posição de quem sabe que a sua vida está ameaçada e quer ver de onde o ataque virá. Continuava vestida com a roupa de cirurgia e tinha o cabelo preso num rabo-de-cavalo, um penteado que revelava as suas feições acentuadamente angulosas, o rosto sem traços de maquilhagem, os olhos brilhantes. Devia estar quase tão exausta quanto ele, mas o medo elevara o seu estado de alerta, emprestando-lhe a aparência de um felino feroz, a observar todos os movimentos que ele fazia enquanto se aproximava da mesa. A sua frente, Catherine tinha uma chávena de café meio vazia. Quantas vezes já enchera ela aquela chávena?, perguntou-se Moore, verificando que tremia quando estendeu a mão para a chávena. Aquela não era a mão firme de um cirurgião, mas a de uma mulher atemorizada.

Moore sentou-se defronte dela.

- Destaquei um carro-patrulha para ficar estacionado no lado de fora do seu prédio durante toda a noite. Já tem as chaves das novas fechaduras?

- O serralheiro deixou-as no hospital - respondeu ela com um aceno afirmativo. - Disse-me que tinha instalado o que é considerado o Rolls-Royce das trancas.

- Vai ficar em segurança, Catherine.

- Aquela mensagem foi escrita especialmente para mim - adiantou ela baixando o olhar para a chávena de café.

- Não temos a certeza - retrucou Moore.

- Ontem foi o dia do meu aniversário. Ele sabia. Tal como também sabia que eu hoje estava escalonada para o banco.

- Se é que foi ele que escreveu essa mensagem.

- Não me venha com conversa fiada. Sabe muito bem que foi ele.

Fazendo uma pausa, Moore assentiu com a cabeça.

Ficaram sentados em silêncio por uns momentos. A tarde chegava ao fim e a maior parte das mesas estava desocupada. Por detrás do balcão, os empregados da cafetaria lavavam a louça; o vapor de água elevava-se em colunas delgadas. O caixa, sozinho, rasgava o papel que envolvia uma pilha de moedas, deixando-as cair nos respectivos compartimentos com o tinir de metal.

- E quanto ao meu gabinete? - perguntou ela.

- Ele não deixou nenhuma impressão digital.

- Então, não tem nada contra ele.

- Não temos absolutamente nada - admitiu Moore.

- Ele entra e sai da minha vida como se fosse ar. Ninguém o vê. Ninguém sabe qual é a sua aparência física. Eu podia pôr barras em todas as minhas janelas, mas nem por isso sentiria menos receio de adormecer.

- Não é obrigada a ir para casa. Posso levá-la para um hotel.

- Não interessa o sítio onde me possa esconder. Ele saberá onde estou. Por qualquer razão desconhecida, decidiu escolher-me. Disse-me que serei a próxima.

- Não estou de acordo consigo. Seria uma jogada inacreditavelmente estúpida da parte dele se advertisse a sua próxima vítima. O Cirurgião não é estúpido.

- Por que razão ele me contactou? Porque me escreveu mensagens na... - Catherine parou, engolindo em seco.

- É possível que esteja a lançar-nos um desafio. Uma maneira de chatear a polícia.

- Nesse caso, o sacana devia ter-lhe escrito! - ripostou Catherine num tom de voz tão exaltado que a enfermeira que na altura se servia de uma chávena de café se virou para trás, ficando a olhar para ela, estupefacta.

Muito corada, Catherine levantou-se da cadeira. Constrangida devido àquela explosão de fúria, manteve-se em silêncio enquanto saíam do hospital. Moore sentia vontade de pegar-lhe na mão, mas pensou que ela a afastaria de imediato, interpretando a sua atitude como um gesto protector. Acima de tudo, não queria que ela pensasse que assumia atitudes paternalistas. Mais do que qualquer outra mulher que conhecera até então, ela merecia todo o seu respeito.

- Perdi as estribeiras quando estávamos na cafetaria - reconheceu ela em voz baixa quando já se sentava no carro dele. - Lamento muito.

- Dadas as circunstâncias, qualquer pessoa teria reagido da mesma maneira.

- Mas não você.

- Eu, como seria de esperar, nunca perco a calma - retorquiu Moore com um sorriso de ironia.

- Sim, já tinha reparado nisso.

O que significaria aquilo?, perguntou-se Moore quando já iam a caminho de Back Bay. Que ela pensava que ele era imune às tempestades que se abatiam sobre o coração de qualquer ser humano? Desde quando um sentido bem claro de lógica implicava ausência de emoções? Sabia que os seus colegas da Brigada de Homicídios se referiam a ele como São Tomas, o Sereno. O homem a quem se recorria sempre que as situações se tornavam explosivas e era necessária uma voz calma. Não conheciam o outro Thomas Moore, o homem que à noite se punha diante do roupeiro da mulher, cheirando a fragrância quase imperceptível que emanava das roupas dela. Viam somente a máscara que ele permitia que vissem.

- Para si é muito fácil manter a calma perante esta situação - continuou Catherine com uma nota de ressentimento. - Não é por si que ele anda obcecado.

- Sugiro que tentemos analisar isto racionalmente...

- Analisar a minha própria morte?! É claro que posso ser racional!

- O Cirurgião estabeleceu um padrão com que se sente à vontade. Ataca durante a noite, nunca durante o dia. No fundo, é um cobarde, incapaz de enfrentar uma mulher no mesmo plano de igualdade. Quer que as suas presas estejam numa situação de vulnerabilidade. Na cama, adormecidas. Impossibilitadas de lhe darem luta.

- Portanto, eu nunca mais devo voltar a adormecer? É uma solução bastante fácil - retorquiu Catherine ironicamente.

- O que estou a dizer é que ele evita atacar qualquer mulher enquanto houver luz do dia, quando a vítima está em condições de poder defender-se. É depois do escurecer que a situação se altera.

Moore estacionou defronte do prédio em que Catherine vivia. Embora não exibisse o encanto das residências antigas, construídas em tijolo, da Commonwealth Avenue, aquele edifício oferecia a vantagem de uma garagem fechada e bem iluminada na cave. O acesso à entrada da frente exigia tanto uma chave como o código de segurança, cujo número Catherine marcou no painel.

Entraram no átrio do prédio com paredes revestidas com espelhos e chão de mármore polido. Requintado. Frio. O elevador ener-vantemente silencioso levou-os ao segundo andar. Chegada à porta do seu apartamento, Catherine hesitou com a chave nova na mão.

- Posso entrar antes de si para dar uma olhadela, se isso fizer com que se sinta mais segura - ofereceu-se Moore.

Catherine pareceu interpretar a sugestão dele como uma afronta pessoal. Como resposta, inseriu a chave na fechadura, abriu a porta e entrou. Era como se fosse obrigada a provar a si própria que o Cirurgião não tinha vencido. Que ela continuava com pleno controlo da sua vida.

- E que tal se percorrêssemos todas as divisões, uma a uma? - alvitrou Moore. - Só para nos certificarmos de que ninguém mexeu em nada.

Catherine concordou com um aceno de cabeça. Juntos, atravessaram a sala de estar, passando à cozinha. Por fim, foram ao quarto. Ela sabia que o Cirurgião se apoderara de recordações que tirara às outras mulheres, o que a levou a inspeccionar meticulosamente todos os objectos que tinha no guarda-jóias e nas gavetas da cómoda, à procura de qualquer indício de que algo fora mexido pela mão de um intruso. Moore mantinha-se junto da ombreira da porta, observando-a a revistar blusas, camisolas e roupa interior. Repentinamente, como que foi atingido pela recordação inquietante da roupa de outra mulher, não tão elegante quanto aquela, dobrada dentro de uma mala de viagem. Recordou-se de uma camisola de lã cinzenta e de uma blusa de um rosa desmaiado. Uma camisa de noite de algodão com um padrão de centáureas azuis. Nada que fosse novo, nada que tivesse sido demasiado caro. Por que motivo nunca comprara qualquer coisa extravagante para oferecer a Mary? Para que teria pensado que ambos andavam a poupar? Não para aquilo em que acabou por gastar o dinheiro. Médicos e contas da casa de saúde, assim como os serviços de fisioterapeutas.

Moore deu meia volta e dirigiu-se para a sala de estar, sentando-se no sofá. Os últimos raios do sol da tarde entravam pela janela e a luminosidade incomodou-o. Esfregou os olhos, deixando que a cabeça descaísse para as mãos, dominado por um sentimento de culpa por não ter pensado em Mary durante todo o dia. Sentia vergonha por isso. Porém, ainda mais envergonhado ficou quando ergueu a cabeça, deparou com Catherine e todos os pensamentos sobre Mary se dissiparam de um momento para o outro. Moore pensou: "Esta é a mulher mais deslumbrante que já conheci. A mulher mais corajosa."

- Não falta nada - informou ela. - Pelo menos, é o que parece.

- Tem a certeza de que quer ficar aqui? Terei todo o prazer em levá-la para um hotel.

Catherine aproximou-se da janela, pondo-se a olhar para fora, o seu perfil iluminado pela luz dourada do pôr do Sol.

- Passei os últimos dois anos amedrontada. Mantive o mundo lá fora, fechando-me dentro de casa a sete chaves. Sempre a olhar para trás das portas e a inspeccionar os armários; estou farta de viver assim. - Olhou para ele. - Quero reaver a minha vida de antes. Desta feita não vou permitir que ele ganhe.

Desta feita, dissera ela, como se aquilo fosse uma batalha numa guerra muito mais longa. Como se o Cirurgião e Andrew Capra se houvessem unido numa única entidade que, durante um breve período, ela conseguira subjugar havia dois anos, mas que não derrotara efectivamente. Capra. O Cirurgião. Duas cabeças do mesmo monstro.

- Disse-me que esta noite haveria um carro-patrulha diante do meu prédio - lembrou Catherine.

- E haverá.

- Pode garantir-me isso?

- Absolutamente - confirmou Moore.

Catherine respirou fundo. O sorriso, quando olhou para ele, era um acto de pura coragem.

- Nesse caso, não tenho qualquer razão para me preocupar, não é verdade? - concluiu ela.

Foi um sentimento de culpa que ao princípio dessa noite o levou a seguir de carro para Newton, em vez de ter voltado para casa. Moore sentira-se abalado perante a sua própria reacção face a Catherine Cordell, perturbado ao dar-se conta do quanto ela monopolizava os seus pensamentos. Ao longo do ano e meio que se seguira à morte de Mary, ele vivera como um autêntico monge, sem sentir o menor interesse por qualquer mulher; as que haviam passado pela sua vida nada mais eram do que pequenas paixões, que amorteciam o desgosto. Não sabia como lidar com aquela centelha tão recente de desejo. Sabia apenas que, dada a situação, parecia pouco apropriado. E que era uma prova de deslealdade para com a mulher que amara.

Foram estes pensamentos que o levaram a Newton, a fim de corrigir as coisas. Para serenar a sua consciência.

Levava um ramo de margaridas quando saiu do carro no pátio da frente, e fechou o portão depois de ter entrado. Aquilo era o mesmo que levar flores para uma florista, pensou ao olhar para o jardim à sua volta, sobre o qual as sombras da tarde já se projectavam. Sempre que ia ali, parecia-lhe que havia mais flores a competir pelo espaço reduzido. As campainhas e as rosas trepavam por uma parede lateral da casa, dando a impressão de que o jardim também se expandia em direcção ao firmamento. Moore quase se sentiu envergonhado perante a sua oferta tão parca de margaridas. Mas as margaridas eram as flores de que Mary mais gostava, pelo que agora aquilo era quase um hábito para ele, escolhê-las na banca da florista. Ela tinha-as adorado pela sua simplicidade, as pétalas brancas em torno do centro amarelo. Tinha adorado a sua fragrância... não era adocicada nem enjoativa como a de outras flores, mas pungente. Um perfume verdadeiro. Adorara ver como floresciam, selvagens, em terrenos abandonados e à beira das estradas, lembrando a quem as via que a verdadeira beleza é espontânea e natural.

Como a própria Mary.

Moore tocou à campainha. Momentos depois a porta abriu-se e o rosto que lhe sorriu era tão parecido com o de Mary que sentiu a familiar pontada de dor. Rose Connelly tinha olhos azuis como os da filha e faces de traços arredondados; apesar do cabelo quase completamente grisalho e de o passar dos anos ter deixado marcas na sua fisionomia, as semelhanças não deixavam dúvidas quanto ao facto de ser mãe de Mary.

- É tão bom ver-te de novo, Thomas - disse ela. - Ultimamente quase não tens aparecido.

- Peço desculpa, Rose. Nos últimos tempos não tenho tido muitos momentos livres. Mal sei em que dia da semana estamos.

- Tenho acompanhado o caso através dos noticiários na televisão. O teu trabalho é horrível.

Moore entrou, entregando-lhe o ramo de margaridas.

- Não que precise de mais flores - disse ele numa voz seca.

- Uma pessoa nunca tem flores a mais. Além disso, sabes bem o quanto gosto de margaridas. Apetece-te um chá gelado?

- Adorava, obrigado.

Sentaram-se na sala de estar enquanto bebiam o chá. Estava bem adoçado e tinha um sabor estival, tal como na Carolina do Sul, onde Rose nascera. Não era nada semelhante à infusão sombria que se fazia na Nova Inglaterra e que Moore bebera durante a sua juventude. Aquela sala também possuía uma atmosfera doce, com uma decoração francamente antiquada segundo os padrões de Boston. Demasiados tecidos com ramagens e um excesso de pequenas peças. Mas como aquilo lhe trazia ao pensamento a recordação de Mary! Ela encontrava-se por toda a parte. Havia retratos seus pendurados nas paredes. Os prémios que tinha ganho em competições de natação estavam expostos nas prateleiras da estante. O piano em que ela tocara durante a sua meninice continuava na sala de estar. O fantasma dessa criança continuava bem presente ali, naquela casa onde ela crescera. E Rose também estava ali, mantendo a chama acesa, tão parecida com a filha que, por vezes, Moore tinha a ilusão de que via a própria Mary a fitá-lo através dos olhos azuis de Rose.

- Estás com um ar cansado - comentou Rose.

- A sério?

- Não foste de férias, pois não?

- Eles chamaram-me. Eu até já estava no carro a caminho do Maine. Levava as minhas canas de pesca e tinha comprado uma caixa nova para o isco - disse ele com um suspiro. - Tenho saudades do lago. É a única coisa por que anseio durante todo o ano.

Também era aquilo por que Mary mais ansiava. Olhou para os prémios de natação na prateleira junto dos livros. Mary fora uma pequena sereia muito robusta que teria adorado viver dentro de água, caso tivesse nascido com guelras. Moore recordava-se da ligeireza e da força com que ela em tempos atravessava o lago a nado. Também se lembrava de como aqueles mesmos braços haviam começado a definhar, até ficarem como caniços, quando estava na casa de saúde.

- Depois de o caso estar resolvido - continuou Rose -, nada te impedirá de ires para o lago.

- Não sei sequer se alguma vez virá a ser resolvido.

- Isso não parece nada teu. Tão desanimado.

- Rose, este é um tipo de crime diferente, cometido por alguém que não consigo compreender.

- Acabas sempre por conseguir.

- Sempre? - retorquiu Moore com um aceno de cabeça e um sorriso. - Considera-me mais eficiente do que realmente sou.

- É apenas o que a Mary costumava dizer. Não sei se sabes, mas ela gostava de gabar os teus feitos. Ele consegue sempre apanhar o seu homem.

Mas por que preço?, perguntou-se Moore, o sorriso a desaparecer-lhe dos lábios. Recordava-se das muitas noites passadas longe dela porque tinha de estar nos locais dos crimes, os jantares a que faltara, os fins-de-semana em que a sua mente estava concentrada exclusivamente no trabalho. E ali tinha estado Mary, esperando que ele lhe prestasse atenção. Se ao menos eu pudesse reviver um dia que fosse, passaria todos os minutos contigo. Abraçado a ti na cama. A murmurar-te segredos debaixo do lençol morno. Mas Deus não concede segundas oportunidades desse género.

- Ela tinha tanto orgulho em ti - continuou Rose.

- Eu também tinha muito orgulho nela.

- Vocês passaram uns belos vinte anos juntos. O que é mais do que a maior parte das pessoas pode dizer.

- Mas eu sou ganancioso, Rose. Queria mais.

- E sentes-te irritado por não teres conseguido isso.

- Sim, acho que sim. Sinto-me encolerizado por ter sido ela a sofrer de um aneurisma. Por ter sido ela que os médicos não conseguiram salvar. E estou furioso porque... - Moore parou a meio da frase, respirando fundo. - Peço desculpa, mas, para mim, isto é extremamente difícil. Na verdade, tudo agora é difícil.

- Para nós dois - observou Rose numa voz muito suave. Em silêncio, olharam um para o outro. Sim, é claro que era ainda mais difícil para Rose porque, além de ter enviuvado, perdera a sua única filha. Moore perguntou a si mesmo se ela alguma vez lhe perdoaria, caso voltasse a casar. Ou consideraria que isso era uma traição? Como se estivesse a remeter a memória da filha para uma campa ainda mais funda?

Subitamente, apercebeu-se de que não era capaz de aguentar o olhar dela, e desviou os olhos ao sentir um vago sentimento de culpa. O mesmo sentimento de culpa que o acometera antes, nessa mesma tarde, quando olhara para Catherine Cordell, sentindo o estímulo inequívoco do desejo sexual. Moore pousou o copo vazio, pondo-se de pé.

- Tenho de ir andando.

- Vais voltar já para o trabalho?

- Isto só pára depois de o apanharmos.

Rose acompanhou-o à porta onde ficou enquanto ele atravessava o pequeno jardim até ao portão da frente. Moore voltou-se para trás.

- Feche bem as portas, Rose.

- Ora, dizes sempre isso.

- E também falo sempre a sério - retorquiu ele, acenando-lhe num gesto de despedida antes de recomeçar a afastar-se, pensando: Esta noite mais do que nunca.

 

O lugar onde vamos depende daquilo que sabemos, e o que sabemos depende do lugar onde vamos.

Aquela rima repetia-se insistentemente na cabeça de Jane Rizzoli, qual cantilena da sua meninice, enquanto examinava um mapa de Boston preso a um quadro de corticite numa parede do seu apartamento. Tinha afixado o mapa no dia a seguir àquele em que o corpo de Elena Ortiz fora encontrado. À medida que as investigações prosseguiam, ia espetando no mapa mais alfinetes com cabeças de cores variadas. Havia três cores diferentes, cada uma representando as três mulheres. O branco correspondia a Elena Ortiz. O azul, a Diana Sterling. O verde, a Nina Peyton. Cada uma assinalava um local dentro da esfera de actividade de cada vítima. O local de residência e o local de trabalho. As casas de amigos ou familiares. O serviço de saúde que utilizavam. Resumindo, o habitat da presa. A dada altura no decurso das actividades do dia-a-dia delas, o mundo de cada uma daquelas mulheres tinha-se cruzado com o do Cirurgião.

O lugar onde vamos depende daquilo que sabemos, e o que sabemos depende do lugar onde vamos.

E onde ia o Cirurgião?, perguntou-se Rizzoli. De que era constituído o seu mundo?

Sentou-se para comer o seu jantar frio, uma sanduíche de atum com batatas fritas de pacote que acompanhou com cerveja, e examinou o mapa enquanto comia. Tinha-o pendurado na parede mais próxima da mesa e todas as manhãs, quando tomava café, e todas as noites, quando jantava - desde que chegasse a casa a horas de jantar -, dava com o seu olhar inexoravelmente atraído para aqueles alfinetes de cores variadas. Enquanto outras mulheres talvez pendurassem quadros com motivos florais ou bonitas paisagens, ou mesmo cartazes de filmes, ali estava ela a olhar fixamente para um mapa sinistro, tentando reconstituir os movimentos das mulheres mortas.

Era àquilo que a sua vida chegara: comer, dormir e trabalhar. Havia três anos que vivia naquele apartamento; no entanto, as paredes continuavam quase nuas. Também não tinha plantas (quem teria tempo para as regar?), nem pequenas peças decorativas, que considerava estúpidas; nem sequer havia cortinados. Apenas persianas nas janelas. À semelhança do que acontecia com a sua existência, a decoração espartana da casa obedecia a imperativos profissionais. Rizzoli adorava e vivia para o trabalho. Desde os doze anos que sabia que queria ser polícia; tomara essa decisão no dia em que uma detective visitara a sua escola no chamado "Dia da Profissão". Primeiro, a turma ouviu a palestra de uma enfermeira e de uma advogada, depois, a de um padeiro e de um engenheiro. Os alunos ficaram desinquietos e barulhentos. Os elásticos eram disparados de carteira para carteira e as bolinhas de papel mascado eram atiradas de um extremo ao outro da sala de aulas. Mas então a agente da polícia pôs-se de pé, o revólver no coldre preso à cintura e, de um momento para o outro, a turma ficou em silêncio.

Rizzoli nunca mais se esqueceu disso. Nunca se esqueceu de como até os rapazes olhavam assombrados para a mulher.

E agora sentia-se como essa mulher, mas, embora ela tivesse conseguido inspirar admiração nos garotos de doze anos, os homens desconsertavam-na frequentemente.

Sê a melhor, era a sua estratégia. Portanto, ali estava ela a trabalhar até enquanto jantava. Homicídios e sanduíches de atum. Bebeu um trago generoso de cerveja, recostando-se para trás e olhando para o mapa. Havia qualquer coisa de macabro quando se examinava em termos geográficos a existência de pessoas mortas. Os locais onde tinham vivido, os lugares que haviam sido importantes para elas. Na reunião de trabalho do dia anterior, o psicólogo criminalista, o Dr. Zucker, utilizara uma série de termos que se aplicavam à composição de perfis. Pontos de ancoragem. Modos de operar. Pano de fundo de alvos. Pois bem, não precisava das palavras finas de Zucker nem de nenhum programa de informática para lhe explicarem o que estava a ver, nem como interpretar o que via. Olhando para o mapa, o que imaginava era uma savana a fervilhar de presas. Os alfinetes de cor definiam os universos pessoais de três gazelas muito desafortunadas. O de Diana Sterling localizava-se a norte, em Back Bay e Bea-con Hill. O de Elena Ortiz na área de South End. O de Nina Pey-ton na zona sudoeste da cidade, no subúrbio de Jamaica Plain. Três habitats discretos em que não havia sobreposição.

E onde é o teu habitat?

Tentou ver a cidade através dos olhos dele. Viu desfiladeiros de arranha-céus. Parques verdejantes como campos de pastagem. Carreiros percorridos por rebanhos de presas ingénuas que não se apercebiam de que estavam a ser observadas por um caçador. Um viajante predador que matava tanto através da distância como do tempo.

O telefone começou a tocar e sobressaltou-a, fazendo-a derrubar a garrafa de cerveja. Merda. Pegou num rolo de papel de cozinha, limpando a cerveja entornada enquanto atendia o telefone.

- Rizzoli.

- Olá, Janie?

- Ah, olá, mãe.

- Não respondeste ao meu telefonema.

- O quê?

- Telefonei-te há uns dias. Disseste que ligarias mais tarde, mas nunca chegaste a fazê-lo.

- Esqueci-me completamente. Estou cheia de trabalho.

- O Frankie vem cá na próxima semana. Não achas que é estupendo?

- Sim, claro - retorquiu Rizzoli suspirando. - É estupendo.

- Vês o teu irmão apenas uma vez por ano. Não és capaz de mostrar um pouco mais de entusiasmo?

- Mãe, estou cansada. Este caso do Cirurgião quase me obriga a trabalhar vinte e quatro horas por dia.

- A polícia já o apanhou?

- Mãe, eu sou a polícia.

- Sabes bem o que quero dizer.

Sim, sabia. O mais provável era a mãe imaginar a pequena Janie a atender telefones e a servir café aos detectives importantes, todos homens.

- Vens jantar cá a casa, não vens? - perguntou a mãe, abandonando de imediato o assunto de trabalho. - Na próxima sexta-feira.

- Não tenho a certeza. Tudo depende de como o caso estiver a correr.

- Tens de vir, quanto mais não seja pelo teu irmão.

- Se as coisas aquecerem, talvez essa visita tenha de ficar para outro dia.

- Não podemos adiar o jantar. O Mike já concordou em fazer a viagem na sexta-feira.

Com certeza. Vamos lá paparicar o irmão Michael.

- Janie...?

- Sim, mãe. Na sexta-feira. - Rizzoli desligou, sentindo engu-lhos no estômago por não ter dado largas à sua irritação, uma sensação já familiar. Deus do céu!, como é que ela tinha conseguido sobreviver à sua meninice?

Pegou na garrafa de cerveja, bebendo o pouco que escapara. Voltou a concentrar-se no mapa. Deitar a mão ao Cirurgião nunca tinha sido mais importante para ela. Todos aqueles anos em que fora a irmã ignorada, a rapariga banal, fizeram-na concentrar-se nele com toda a raiva que sentia dentro de si.

Quem és tu? Onde estás?

Durante momentos não se mexeu, a pensar e a olhar fixamente. Pouco depois, pegou na caixa dos alfinetes, escolhendo uma nova cor. Vermelho. Espetou um desses alfinetes na Commonwealth Ave-nue e outro no local onde o Centro Médico Pilgrim se situava, na zona de South End.

O vermelho assinalava o habitat de Catherine Cordell. Cruzava-se tanto com o de Diana Sterling como com o de Elena Ortiz. Cordell era o factor comum. Ela movimentava-se através dos mundos de ambas as vítimas.

E a vida da terceira vítima, a Nina Peyton, neste momento encontra-se nas mãos dela.

 

Até numa tarde de segunda-feira, o Bar Gramercy estava cheio de gente. Eram cinco horas e os solteiros com boas carreiras profissionais estavam prontos para se divertir pela cidade. Aquele era o seu recreio.

Rizzoli encontrava-se sentada a uma mesa próxima da entrada, sentindo as lufadas de ar quente de cada vez que a porta se abria para dar passagem a outro clone da revista GQ, ou a outra Barbie das que trabalham em escritórios, com o andar bamboleante e sapatos de saltos com mais de sete centímetros. Rizzoli, que vestia o seu habitual calça-casaco informe e usava sapatos rasos confortáveis, sentia-se a vigilante do liceu. Reparou em duas mulheres que acabavam de entrar, com formas esbeltas e felinas, que deixaram atrás de si uma mistura de fragrâncias. Rizzoli nunca usava perfume. Tinha um batom que guardara algures no fundo do armário da casa de banho, juntamente com um rímel já seco e uma base Dewy Satin. Comprara esses produtos de maquilhagem há cinco anos num balcão de cosmética de um grande armazém, pensando que talvez mesmo ela, com os instrumentos mais adequados da ilusão, pudesse ficar parecida com a modelo Elizabeth Hurley. A empregada tinha-lhe aplicado creme e pó-de-arroz, pincelara-a, fizera riscos; quando dera a maquilhagem por terminada entregara-lhe um espelho com uma expressão de triunfo, perguntando-lhe: "O que acha do seu novo visual?"

Ao olhar para a sua nova imagem, Rizzoli pensou que odiava Elizabeth Hurley por dar às mulheres falsas esperanças. A verdade nua e crua era que existiam algumas que jamais teriam uma beleza deslumbrante, e Rizzoli reconhecia ser uma delas.

Ciente dessa realidade, continuou sentada discretamente a beber pequenos goles do seu ginger ale enquanto observava o interior do bar que se ia enchendo de clientes. Era uma clientela barulhenta que conversava muito ao som do entrechocar dos cubos de gelo, os risos um tudo-nada elevados de mais ou talvez demasiado forçados.

Levantou-se da mesa e dirigiu-se ao balcão. Apresentou o crachá ao empregado.

- Quero fazer-lhe algumas perguntas - disse ao homem. Ele mal olhou para a identificação e marcou o preço de uma bebida na caixa registadora.

- Então faça.

- Lembra-se de ter visto esta mulher aqui? - perguntou Rizzoli colocando uma fotografia de Nina Peyton em cima do balcão.

- Vi, sim, e você não é a primeira pessoa da polícia a fazer-me perguntas a respeito dela. Há mais ou menos um mês, veio cá outro detective.

- Da Brigada de Crimes Sexuais?

- Imagino que sim. Queria saber se eu tinha reparado em alguém que tivesse tentado engatar essa mulher.

- E viu?

- Aqui não há ninguém que não ande ao engate - respondeu o homem com um encolher de ombros. - Não mantenho registo dos engates.

- Mas lembra-se desta mulher? Chama-se Nina Peyton.

- Já a vi por aqui algumas vezes, regra geral, acompanhada de uma amiga. Não sabia o nome dela. Mas há já algum tempo que não vem ca.

- E sabe porquê? - perguntou Rizzoli.

- Não, não sei - respondeu ele pegando num pano e começando a limpar o balcão, a sua atenção a desviar-se dela.

- Vou dizer-lhe porquê - retorquiu Rizzoli, levantando a voz furiosa. - Porque um idiota qualquer decidiu divertir-se um pouco. Veio a este bar a fim de caçar uma vítima. Olhou em redor, reparou em Nina Peyton e pensou: ali está um pedaço de mulher boa para comer. Com certeza não viu um ser humano quando olhou para ela. Viu apenas algo que podia usar e deitar fora.

- Olhe uma coisa... não precisa de me contar isso.

- Preciso, sim. Tal como você precisa de ouvir, porque aconteceu mesmo debaixo do seu nariz, mas você não quis ver. Um sacana qualquer que disfarçadamente mete uma droga dentro da bebida de uma mulher. Pouco tempo depois, ela sente-se maldisposta e vai a cambalear para a casa de banho. O idiota agarra-a por um braço e leva-a para fora. E você não viu nada!

- Não! - ripostou ele. - Não vi.

O silêncio instalara-se no bar. Rizzoli apercebeu-se de que as pessoas olhavam para ela. Sem dizer mais nada, afastou-se do balcão e voltou para a mesa.

Momentos depois, as pessoas retomaram as suas conversas.

Rizzoli viu o empregado do bar entregar dois uísques a um homem, que passava um deles a uma mulher. Via copos de vidro serem levados a lábios e línguas a lamberem o sal de margaritas, viu cabeças inclinadas para trás enquanto a vodca, a tequila e a cerveja deslizavam pela garganta abaixo.

E reparou num homem que não tirava os olhos de uma mulher. Continuou a tomar pequenos goles de ginger ale, sentindo-se embriagada, não devido ao álcool, mas à ira que se apoderara de si. Ela, a mulher solitária sentada a um canto, podia ver com toda a lucidez o que aquele lugar era realmente. Um bar onde os predadores e as presas se encontravam.

Ouviu o sinal do bíper. Era Barry Frost que queria falar com ela.

- Que barulho é esse? - perguntou Frost que mal se ouvia no telemóvel.

- Estou num bar - respondeu Rizzoli, olhando com uma expressão de fúria para uma mesa próxima em que as pessoas riam à gargalhada. - O que disseste?

- um médico na Marlborough Street. Tenho uma fotocópia da ficha clínica.

- Ficha clínica de quem?

- Da Diana Sterling.

De imediato, Rizzoli inclinou-se para a frente, concentrada na voz pouco audível de Frost.

- Diz-me de novo. Quem é esse médico e por que razão a Sterling o consultou?

- É uma médica. A doutora Bonnie Gillespie. Uma ginecologista que tem consultório na Marlborough Street.

Outra explosão de gargalhadas tão sonoras que abafaram a voz do detective. Rizzoli, com a mão em forma de concha, cobriu a orelha de modo a poder ouvir.

- Por que razão a Sterling foi ao consultório dessa médica? - perguntou Rizzoli gritando para ele poder ouvi-la.

No entanto, já sabia a resposta; era como se estivesse a vê-la mesmo à sua frente enquanto olhava para o balcão onde dois homens convergiam para uma mulher, como leões que se preparassem para abocanhar uma zebra.

- Agressão sexual - replicou Frost. - A Diana Sterling também foi violada.

- As três foram vítimas de estupro - disse Moore. - Contudo, nem a Diana Sterling nem a Elena Ortiz participaram à polícia que tinham sido atacadas. Só tivemos conhecimento da violação da Diana Sterling porque inquirimos junto das clínicas femininas e dos ginecologistas se ela tinha sido tratada por esse motivo. A Sterling nem sequer contou aos pais que fora atacada. Quando lhes telefonei esta manhã, ficaram extremamente chocados ao tomarem conhecimento disso.

A manhã ainda ia a meio, mas as fisionomias que viu à volta da mesa da sala de reuniões revelavam exaustão. Nenhum dos presentes andava a dormir o suficiente e pela frente tinham outro dia de trabalho exaustivo.

- Resumindo, a única pessoa que sabia da violação de que a Sterling fora vítima era essa ginecologista na Marlborough Street, não é verdade? - concluiu o tenente Marquette.

- É a doutora Bonnie Gillespie. Foi a primeira e a única visita da Diana Sterling a esse consultório. Ela foi consultá-la por recear ter sido contaminada pelo vírus da SIDA.

- E o que sabe a doutora Gillespie a respeito da violação?

Foi Frost, que tinha ido falar com a médica, que respondeu àquela pergunta. Abriu a pasta que continha a ficha clínica de Diana Sterling.

- Aqui está o que a doutora Gillespie escreveu: "Mulher de raça branca, trinta anos, pediu análises para despistagem do HIV. Teve relações sexuais há cinco dias sem qualquer protecção; o estado do parceiro em relação ao HIV é desconhecido. Quando se lhe perguntou se o parceiro se enquadrava em qualquer dos grupos de risco elevado, a paciente mostrou-se perturbada e começou a chorar. Revelou que o coito não havia sido consensual e que nem sequer sabia o nome do homem que a violara. Não quer participar à polícia. Também se recusa a ter acompanhamento psicológico para casos de crimes de estupro." - Frost ergueu o olhar. - E isto foi tudo o que a doutora Gillespie conseguiu dela. Fez-lhe um exame pélvico e análises para despistagem de sífilis, gonorreia e HIV, e disse-lhe que voltasse ao consultório dois meses depois para fazer uma de despistagem do HIV. A paciente não voltou ao consultório. E isso porque, entretanto, fora assassinada.

- E a doutora Gillespie nunca chegou a contactar a polícia? Nem depois do assassínio?

- Ela não sabia que a paciente morrera. Não viu nem leu notícias a respeito.

- Ela fez alguma colheita de secreções vaginais? De sémen?

- Não. A paciente, hum... - Frost interrompeu-se nitidamente constrangido. Havia alguns assuntos que até mesmo um homem casado como Frost tinha dificuldade em abordar. - Ela fez várias irrigações logo a seguir a ter sido atacada.

- E podem censurá-la por isso? - atalhou Rizzoli. - Merda, no lugar dela, eu teria querido fazer uma irrigação com desinfectante.

- Três vítimas de violação - declarou Marquette. - Isto não é nenhuma coincidência.

- Se conseguirem apanhar o violador - adiantou Zucker -, terão encontrado o vosso homicida. Qual a situação quanto ao ADN recolhido na Nina Peyton?

- Está a ser analisado - respondeu Rizzoli. - Há quase dois meses que a amostra de sémen está em poder do laboratório, mas nada foi feito. Portanto, tive de apertar com eles. Vamos fazer figas na esperança de que o nosso criminoso conste do codis.

Na base de dados nacionais do FBI (codis) havia um sistema que permitia a elaboração de perfis de ADN. Este sistema ainda estava a dar os primeiros passos, pelo que os perfis genéticos de meio milhão de criminosos condenados ainda não haviam sido inseridos no sistema. Consequentemente, as probabilidades de virem a "acertar em cheio" - correlação com um criminoso conhecido - eram muito escassas.

- O nosso homicida começa por violar as vítimas - disse Marquette olhando para o Dr. Zucker. - E volta semanas mais tarde para as matar? Isso faz algum sentido?

- Não tem de fazer sentido para nós - replicou Zucker. - Só tem de fazer sentido para ele. Não é invulgar que um violador regresse para atacar a vítima pela segunda vez. Ele sente que é propriedade sua. Por muito patológica que possa ser a relação, a verdade é que ela se estabeleceu.

- Considera isso uma relação? - perguntou Rizzoli, sarcástica.

- Entre o agressor e a vítima. Sei que parece doentio, mas é uma realidade. Baseia-se no poder. Ele começa por tirar-lho, fazendo dela algo inferior a um ser humano. Ela passa a ser um objecto. Ele sabe-o e, mais importante ainda, ela. É o facto de ela estar, digamos, atormentada e humilhada que talvez o excite o suficiente para voltar. Primeiro marca-a ao violá-la. E depois regressa para reivindicar o que considera ser sua propriedade.

"Mulheres atormentadas", pensou Moore. "Este é o elo de ligação entre as vítimas." Repentinamente, ocorreu-lhe que Catherine também se encontrava entre elas.

- Ele nunca violou a Catherine Cordell - comentou Moore.

- Mas ela é uma vítima de violação.

- O homem que abusou dela sexualmente morreu há dois anos. Como é que o Cirurgião a identificou como vítima? Como é que ela apareceu no radar dele? Ela nunca fala do ataque de que foi vítima.

- Referiu isso através da Internet, não é verdade? Nesse chat room restrito... - Zucker fez uma pausa. - Deus nos valha... Será possível que ele encontre as vítimas através da Internet?

- Já explorámos essa teoria - adiantou Moore. - A Nina Peyton nem sequer tem computador. E a Cordell nunca revelou o seu verdadeiro nome às mulheres que participam nesse chat room. O que nos leva de novo à pergunta: por que razão o Cirurgião focou a sua atenção na Cordell?

- Ele parece estar obcecado por ela - retorquiu Zucker. - De facto, faz tudo e mais alguma coisa para a atormentar. Não hesitou em correr riscos só para lhe enviar por e-mail essa fotografia da Nina Peyton. O que deu origem a toda uma cadeia desastrosa de acontecimentos para ele. Foi essa fotografia que levou a polícia a ir bater à porta da casa da Nina Peyton. Ele sente-se acossado e não tem tempo para acabar de a assassinar, logo, não alcança a satisfação que procurava. Pior ainda, deixou uma vítima com vida. O mais grave de todos os erros.

- Isso não foi erro nenhum - contrapôs Rizzoli. - Ele quer que ela continue viva.

O comentário de Rizzoli deu origem a expressões de cepticismo em redor da mesa.

- De que outra maneira é que explicam um disparate como este? - continuou ela. - Ele enviou essa fotografia à Cordell com a intenção de nos atrair. Enviou-a e ficou à nossa espera. Esperou até termos ligado para casa da vítima. Sabia que íamos a caminho. E então fez um trabalho atamancado quando lhe cortou a garganta porque queria que a encontrássemos com vida.

- Pois... - ripostou Crowe, em tom de escárnio. - Tudo isso fazia parte do plano.

- E por que razão ele agiu dessa maneira? - perguntou Zucker dirigindo-se a Rizzoli.

- A razão estava escrita na coxa dela. Nina Peyton era uma oferta que ele fazia à Cordell. Um presente com o objectivo de lhe pregar um grande susto.

Fez-se uma pausa.

- Se foi esse o seu intuito, então resultou - afirmou Moore. - A Cordell está aterrorizada.

O Dr. Zucker encostou-se para trás enquanto reflectia na teoria de Rizzoli.

- Isso é correr um grande número de riscos, apenas com a finalidade de amedrontar uma mulher. É um indicador de megalomania. Pode significar que ele está em fase de descompensação. Foi isso que acabou por acontecer a Jeffrey Dahmer e Ted Bundy. Perderam o controlo das suas fantasias. Ficaram descuidados. Foi nessa altura que começaram a cometer erros.

Zucker pôs-se de pé, dirigindo-se para um gráfico pendurado na parede. Nele estavam inscritos os nomes de três vítimas. Por baixo do nome de Nina Peyton, acrescentou um quarto nome: Catherine Cordell.

- Ela não é uma das vítimas... por enquanto. Mas ele identificou-a como um objecto de interesse. Como é que a escolheu? - perguntou Zucker olhando para os presentes. - Já falaram com os colegas de trabalho dela? Algum deles disse alguma coisa que vos tenha alertado?

- Eliminámos o Kenneth Kimball, o médico do Serviço de Urgência - adiantou Rizzoli. - Esteve de serviço no banco na noite em que a Nina Peyton foi atacada. Também falámos com a maior parte do pessoal masculino da cirurgia, assim como com os médicos internos.

- E quanto ao colega da Cordell, o doutor Falco?

- O doutor Falco não foi eliminado da nossa lista.

Agora Rizzoli prendera a atenção de Zucker, e ele concentrou-se nela com um brilho estranho nos olhos. Psiquiatra doido varrido era o que os membros da Brigada de Homicídios chamavam àquela expressão.

- Diga-me mais - pediu Zucker em voz baixa.

- Em princípio, o doutor Falco parece perfeito. Licenciou-se em Engenharia Aeronáutica no Instituto de Tecnologia do Massachusetts e em Medicina na Universidade de Harvard. Estágio de cirurgia no Peter Brent Brigham. Foi criado por uma mãe solteira, trabalhou para poder pagar as propinas. Pilota o seu próprio avião. É bem-parecido. Não é propriamente um Mel Gibson, mas é capaz de fazer virar umas quantas cabeças femininas.

- Ei, a Rizzoli classifica os suspeitos pela aparência física - comentou Darren Crowe, rindo-se. - É assim que as senhoras da polícia fazem?

Rizzoli fitou-o com uma expressão de hostilidade.

- O que estou a dizer - continuou a detective - é que este fulano podia ter uma dúzia de mulheres ao seu dispor. Mas o que eu soube através das enfermeiras é que a única mulher em que está interessado é na doutora Cordell. Não é segredo para ninguém que passa a vida a convidá-la para sair. Ela rejeita esses convites sistematicamente. Talvez ele esteja a começar a ficar chateado.

- Vale a pena ficar de olho no doutor Falco - disse Zucker. - Mas sugiro que não encurtemos a nossa lista, pelo menos para já. Acho que devemos proteger a doutora Cordell. Outras razões que nos levem a pensar que o Cirurgião talvez a seleccione para ser a próxima vítima?

Foi Moore que começou a analisar aquela pergunta sob diversos ângulos.

- E se ela não for apenas mais uma presa? E se ela foi, desde sempre, o objecto principal da atenção dele? Cada um destes ataques tem sido uma reconstituição do que foi infligido àquelas mulheres na Geórgia. Aquilo a que a Catherine Cordell escapou por um triz. Nunca conseguimos explicar o motivo que leva os homicidas a imitar o Andrew Capra, nem por que razão assestou a mira na única sobrevivente do Capra. - Moore apontou para a lista. - Estas outras mulheres, a Sterling, a Ortiz e a Peyton... e se elas forem apenas substitutas temporárias? Suplentes da vítima principal?

- A teoria do alvo retaliatório - sugeriu Zucker. - Não é possível matar a mulher que se odeia realmente por ela ser demasiado poderosa. Demasiado intimidante. Portanto, opta-se por matar uma substituta, uma mulher que passa a representar esse alvo.

- Está a dizer que o verdadeiro alvo dele foi sempre a doutora Cordell? Mas que tem receio dela? - perguntou Frost.

- É a mesma razão por que Edmund Kemper só assassinou a mãe depois da sua orgia de homicídios - respondeu Zucker. - Ela foi sempre o verdadeiro alvo, a mulher que ele desprezava. Mas em vez de descarregar a sua raiva nela, optou por outras vítimas. Em cada ataque, simbolicamente, ele destruía a mãe, o que fez um sem-número de vezes. A verdade é que não podia matá-la, pelo menos inicialmente, porque ela exercia demasiada autoridade sobre ele. Sob certos aspectos, tinha medo dela. Porém, à medida que ia assassinando as vítimas, ia ganhando mais confiança em si próprio. Poder. E, no fim, concretizou o seu objectivo principal. Esmagou o crânio da mãe, decapitou-a e violou-a. E, à guisa de insulto final, arrancou-lhe a laringe, metendo-a dentro do triturador do lixo orgânico. O verdadeiro alvo da sua raiva estava, finalmente, morto. Só nessa altura é que a orgia de assassínios parou. Foi então que Edmund Kemper se entregou às autoridades.

Barry Frost, que habitualmente era o primeiro agente a vomitar quando chegava ao local de um crime, parecia estar um pouco nauseado com aquele final brutal.

- Portanto, estes três ataques - disse ele - podem ser apenas o aquecimento para o evento principal?

- O assassínio da Catherine Cordell - confirmou Zucker com um aceno de cabeça.

Moore quase sentiu uma dor física ao ver o sorriso na face de Catherine quando ela entrou na sala de espera da clínica para o cumprimentar, porque sabia de antemão que as perguntas que tinha de lhe fazer decerto iriam destruir aquela expressão tão cordial. Ao olhar para ela, Moore não via uma vítima, mas uma mulher afável e de grande beleza, que se apressou a tomar a mão dele nas suas, parecendo não querer largá-la.

- Espero que a altura seja conveniente para podermos conversar - disse ele.

- Para si arranjarei sempre tempo. - Uma vez mais, aquele sorriso enfeitiçador. - Apetece-lhe tomar um café?

- Não, obrigado, estou bem - agradeceu Moore.

- Sendo assim, passemos ao meu gabinete.

Chegados aí, ela sentou-se à secretária e esperou com alguma expectativa ouvir a razão que o havia levado ali. Ao longo dos últimos dias, Catherine aprendera a confiar nele, o que explicava o seu olhar tão confiante. Vulnerável. Ele conseguira ganhar a confiança dela como amigo e agora estava prestes a destruí-la.

- Todos nós achamos - começou Moore a dizer - que o Cirurgião está focado em si.

Ela confirmou com um aceno de cabeça.

- Aquilo que nos perguntamos é porquê. Por que razão ele reconstitui os crimes cometidos pelo Andrew Capra? Por que é que a Catherine se tornou o centro das atenções deste indivíduo? Sabe quais são as respostas a estas perguntas?

- Não faço a mínima ideia - respondeu Catherine, perplexa.

- Nós achamos que faz.

- Como posso conhecer o modo como o pensamento dele funciona?

- Catherine, ele podia andar a rondar qualquer outra mulher em Boston. Podia escolher alguém desprevenido, que não fizesse a mínima ideia de que estava a ser caçado. Seria o mais lógico^ ele ir atrás da vítima mais fácil. Você é a presa mais difícil que ele podia seleccionar porque já está de sobreaviso quanto a um ataque dessa natureza. E como se isso não bastasse, ele dificulta a caçada ainda mais ao adverti-la. Ao atormentá-la. Porquê?

A cordialidade com que o tinha acolhido já desaparecera dos seus olhos. Subitamente, ela endireitou os ombros e cerrou os punhos em cima da secretária

- Já lhe disse que não sei.

- Você é a única ligação física entre o Andrew Capra e o Cirurgião - retrucou Moore. - A vítima comum. É como se o Capra continuasse vivo, retomando as coisas no ponto em que as deixou. E o ponto em que as deixou leva-nos a si. A vítima que conseguiu escapar.

Catherine baixou os olhos para a secretária, fixando as pastas empilhadas. Olhou para o relatório clínico que estivera a escrever na sua letra miúda e bem desenhada. Apesar de se manter completamente imobilizada na cadeira, os nós dos dedos, rígidos como marfim, destacavam-se das mãos cerradas.

- O que é que não me disse a respeito do Andrew Capra? - perguntou Moore numa voz suave.

- Não lhe ocultei absolutamente nada.

- Na noite em que ele a atacou, por que motivo foi a sua casa?

- Em que é que isso pode ser relevante? - perguntou Catherine.

- Você era a única vítima que o Capra conhecia pessoalmente. As outras eram-lhe desconhecidas, mulheres que ele engatava em bares. Mas você era diferente. Ele escolheu-a.

- Ele estava... é possível que estivesse irritado comigo.

- Ele foi a sua casa para falar consigo sobre um assunto de trabalho. Por causa de um erro que cometera. Foi o que disse ao detective Singer.

Ela confirmou com um aceno de cabeça.

- Foi mais do que um erro. Tratou-se de uma série de erros. Enganos clínicos. Além de não ter acompanhado como devia análises ao sangue com resultados anómalos. Um padrão de irresponsabilidade. Nesse mesmo dia, da parte da manhã, confrontara-o no hospital.

- E o que lhe disse? - perguntou Moore.

- Que devia procurar outra especialidade. E isto porque eu não tencionava recomendá-lo para um segundo ano de estágio.

- E ele ameaçou-a? Expressou alguma cólera?

- Não, o que foi bastante estranho. Limitou-se a aceitar o que eu lhe disse sem objecções. E também... me sorriu.

- Sorriu-lhe?!

- Como se a minha repreensão não lhe interessasse minimamente - replicou Catherine.

Aquela imagem fez com que Moore ficasse arrepiado. Era impossível que ela tivesse sabido que o sorriso de Capra disfarçava uma raiva incomensurável.

- Mais tarde, nessa mesma noite, em sua casa - continuou Moore -, quando ele a atacou...

- Já descrevi ao pormenor o que aconteceu. Faz parte do meu depoimento. Tudo isso está lá - interrompeu Catherine.

Moore fez uma pequena pausa antes de continuar a insistir no mesmo assunto.

- Há pormenores que não revelou ao detective Singer. Coisas que omitiu.

Ela ergueu o olhar, as faces muito vermelhas de cólera.

- Não omiti absolutamente nada!

Moore detestava ser forçado a incomodá-la com mais perguntas, mas não tinha alternativa.

- Revi o relatório da autópsia do Capra - continuou ele. - Existem discrepâncias entre a autópsia e o depoimento que deu à polícia de Savannah.

- Eu contei ao detective Singer tudo o que aconteceu - insistiu Catherine.

- Disse que estava deitada na beira da cama. Estendeu a mão para baixo, a fim de pegar na arma. E foi nessa posição que fez pontaria e alvejou o Capra.

- O que corresponde à verdade. Juro que sim.

- De acordo com o relatório da autópsia, o projéctil seguiu uma trajectória ascendente através do abdómen dele, penetrando na coluna vertebral e paralisando-o. Esta parte é consistente com o seu depoimento.

- Sendo assim, o que o leva a dizer que menti?

Mais uma vez, Moore fez uma pausa, sentindo-se angustiado por continuar a magoá-la.

- Temos o problema da segunda bala - acrescentou ele. - Foi disparada à queima-roupa, acertando-lhe directamente no olho esquerdo. Contudo, a Catherine estava caída no chão.

- Ele deve ter-se curvado para a frente, e foi então que eu disparei...

- Deve ter...?

- Não sei. Não me recordo.

- Não se recorda de ter disparado a segunda bala?

- Não. Sim...

- Qual é a verdade, Catherine? - perguntou Moore num tom sereno, mas não conseguindo suavizar a acutilância das suas palavras.

- Recuso-me a ser interrogada desta maneira! - ripostou Catherine pondo-se de pé repentinamente. - Eu sou a vítima neste caso.

- E eu estou a esforçar-me por mantê-la viva. Preciso de saber a verdade - insistiu Moore.

- Eu já lhe disse a verdade! E agora parece-me que está na altura de se ir embora. - Com estas palavras, ela dirigiu-se para a porta, abrindo-a com brusquidão.

Peter Falco encontrava-se do lado de fora, a mão erguida num gesto de quem se preparava para bater.

- Estás bem, Catherine? - perguntou Peter.

- Está tudo bem - respondeu ela num tom irritado.

Peter mostrou uma expressão agressiva quando olhou para Moore.

- O que é isto, assédio policial?

- Estou a fazer algumas perguntas à doutora Cordell, nada mais.

- Não foi isso que me pareceu ouvir quando vinha pelo corredor - ripostou Peter olhando para Catherine. - Queres que eu o acompanhe até à porta?

- Sou capaz de resolver este assunto sem a tua ajuda.

- Não és obrigada a responder a perguntas nenhumas.

- Estou ciente disso, obrigada.

- Muito bem. Se precisares de mim, estou lá fora. - Peter lançou um último olhar de advertência a Moore, após o que virou costas, encaminhando-se para o seu gabinete. No outro extremo do corredor, Helen e a funcionária da facturação não despregavam os olhos de Catherine. Enervada, esta voltou a fechar a porta. Por uns momentos, ficou de costas para Moore. Depois endireitou o tronco e virou-se para ele. Quer lhe respondesse agora ou mais tarde, as perguntas não desapareceriam.

- Não lhe ocultei nada - declarou ela. - Se não sou capaz de lhe descrever tudo o que se passou naquela noite é porque não me recordo.

- Portanto, o depoimento que prestou à polícia de Savannah não corresponde inteiramente à verdade.

- Eu ainda estava hospitalizada quando fiz esse depoimento. O detective Singer ajudou-me a reconstituir o que tinha acontecido, ajudou-me a juntar as peças. Limitei-me a dizer-lhe o que pensei estar correcto na altura.

- Mas agora já não tem a certeza.

- É difícil destrinçar que recordações são de facto autênticas - replicou Catherine com um aceno de cabeça. - Há tanta coisa de que não me lembro por causa da droga que o Capra me deu. O Rohy-pnol. De vez em quando, ocorrem-me recordações fugazes. Imagens que poderão, ou não, corresponder à realidade.

- Continua a ter essas recordações fugazes?

- Aconteceu-me ontem à noite. Foi a primeira vez em vários meses. Pensei que isso já tinha acabado. Imaginei que essas recordações haviam desaparecido para sempre.

Aproximou-se da janela e olhou fixamente para fora. Era uma vista escurecida pelos arranha-céus de cimento. O gabinete dava para o hospital, e dali viam-se as janelas dos quartos dos pacientes. Um olhar de relance ao mundo pessoal dos doentes e moribundos.

- Dois anos parece muito tempo - continuou Catherine. - Tempo suficiente para esquecer. Mas, na verdade, dois anos não são nada. Nada. Depois dessa noite, não consegui voltar para a minha própria casa. Não fui capaz de entrar no local onde tudo acontecera. O meu pai teve de embalar as minhas coisas e instalar-me numa nova casa. Ali estava eu, a chefe dos médicos internos, acostumada a ver sangue e entranhas. E, contudo, só de pensar que tinha de percorrer aquele corredor e abrir a porta do meu antigo quarto bastava para ficar encharcada em suores frios. O meu pai tentou compreender, mas ele é um velho militar. Não aceita fraquezas. Pensa nisso como sendo apenas um ferimento de guerra, algo que acaba por sarar e depois seguimos em frente com a nossa vida. Disse-me que crescesse e que pusesse aquilo para trás das costas. - Catherine abanou a cabeça e riu-se. - Pôr aquilo para trás das costas. Parece ser uma coisa tão fácil de fazer. Ele não tinha ideia do quanto me era difícil sair de casa todas as manhãs. Ter de caminhar até ao meu carro. Ficar exposta. Algum tempo depois deixei de falar com ele, pois sabia que se sentia desgostoso com a minha fraqueza. Há meses que não lhe telefono...

"Foram precisos dois anos para eu conseguir dominar o meu medo. Para poder levar uma existência relativamente normal em que não sentisse que havia sempre qualquer coisa prestes a saltar de cada arbusto. Tinha conseguido recuperar a minha vida. - Catherine passou a mão pelos olhos, um gesto rápido e de irritação para limpar as lágrimas. O seu tom de voz baixou tanto que mal se ouvia. - E agora voltei a perder tudo isso...

Fazia um esforço tão grande para não chorar que toda ela tremia, os dedos enclavinhados nos braços enquanto tentava controlar-se.

Moore levantou-se da cadeira, abeirando-se dela. Colocou-se por trás de Catherine, perguntando a si mesmo o que aconteceria se lhe tocasse. Ela afastar-se-ia? Sentiria repugnância pelo mero contacto da mão de um homem? Observou, impotente, Catherine como que a enrolar-se sobre si própria e pensou que ela poderia estilhaçar-se perante os seus olhos.

Suavemente, tocou-lhe no ombro. Ela não se mexeu, também não o sacudiu. Moore virou-a de frente para si, envolvendo-a nos seus braços e apertando-a contra o peito. A intensidade do sofrimento dela chocou-o. Sentia o corpo de Catherine a tremer, tal como uma ponte balouça quando açoitada por um temporal. Apesar de não sair som nenhum da sua boca, Moore sentia a respiração entrecortada, o esforço que ela fazia para reprimir o choro. Encostou os lábios ao cabelo dela. Não foi capaz de se conter; a carência que sentia nela falou a algo no seu âmago. Emoldurou-lhe o rosto com as mãos, beijando-a na testa, nas sobrancelhas.

Catherine mantinha-se imobilizada nos braços dele, e Moore pensou: "Pisei o risco." Rapidamente, soltou-a.

- Peço desculpa - disse. - Isto não devia ter acontecido.

- Não. Não devia ter acontecido.

- Consegue esquecer-se?

- E você consegue? - perguntou ela numa voz suave.

- Sim - respondeu Moore endireitando-se. E repetiu, desta vez com mais firmeza, como se quisesse convencer-se. - Sim.

Catherine baixou a cabeça, olhando para a mão dele e Moore apercebeu-se imediatamente de qual o alvo da atenção dela. A sua aliança de casamento.

- Espero, para bem da sua mulher, que seja capaz de esquecer - acrescentou ela. As suas palavras destinavam-se a incutir-lhe um sentimento de culpa, o que conseguiu.

Moore olhou para a aliança, uma aliança de casamento muito simples que usava há tanto tempo que dava a impressão de ter sido enxertada na sua pele.

- Ela chamava-se Mary - afirmou ele. Sabia o que Catherine tinha concluído: que estaria a atraiçoar a mulher. Naquele momento quase se sentia desesperado por se explicar, para se redimir aos olhos dela.

- Aconteceu há dois anos. Ela sofreu uma hemorragia cerebral. Não foi fatal, pelo menos logo a seguir. Durante seis meses, nunca perdi a esperança, sempre à espera que ela recuperasse a consciência... - Interrompeu-se abanando a cabeça. - Os médicos disseram que ela tinha mergulhado num estado vegetativo crónico. Meu Deus, como odiei essa palavra: vegetativo. Como se ela fosse uma planta ou uma qualquer espécie de árvore. Como se a mulher que ela era tivesse passado a ser um objecto de troça. Quando morreu, quase não conseguia reconhecê-la. Não vislumbrava uma única coisa que se parecesse com a Mary de antigamente.

O toque da mão dela apanhou-o de surpresa, e foi ele quem se retraiu ao contacto. Em silêncio, ficaram a olhar um para o outro à luz parda que entrava pela janela; Moore pensou: "Nenhum beijo e nenhum abraço poderiam aproximar duas pessoas mais do que estamos neste momento. A emoção mais íntima que duas pessoas podem partilhar não tem nada a ver com o amor nem com o desejo, mas com a dor."

O zumbido do intercomunicador quebrou o encantamento. Catherine pestanejou, como se, repentinamente, se tivesse apercebido do local onde se encontrava. Virou-se para a secretária e premiu o botão.

- Sim?

- Doutora Cordell, acabaram de ligar da Unidade de Cuidados Intensivos. Precisam que vá lá acima o mais depressa possível.

Moore viu na expressão de Catherine que o mesmo pensamento tinha ocorrido a ambos: Aconteceu alguma coisa à Nina Peyton.

- Essa urgência tem alguma coisa a ver com a cama doze? - perguntou Catherine.

- Sim. A paciente acabou de recuperar a consciência.

 

Nina Peyton tinha os olhos muito abertos e uma expressão desvairada. Estava presa com quatro correias às barras laterais da cama pelos pulsos e tornozelos, e os tendões dos braços salientavam-se por baixo da pele, como cordões grossos, enquanto ela se debatia para libertar as mãos.

- Ela recuperou a consciência há cerca de cinco minutos - informou Stephanie, a enfermeira de serviço na Unidade de Cuidados Intensivos. - Comecei por reparar que o ritmo cardíaco estava a subir e depois vi que abria os olhos. Desde então tenho estado a tentar acalmá-la, mas ela continua a esbracejar para se libertar das correias.

Catherine olhou para o monitor cardíaco, verificando que o ritmo era mais rápido, embora não houvesse qualquer indicação de arritmias. A respiração de Nina também estava acelerada, ocasionalmente pontuada por espasmos explosivos de tosse que libertavam mucosida-des através do tubo endotraqueal.

- É o tubo endotraqueal - disse Catherine. - Está a deixá-la em pânico.

- Podemos dar-lhe um Valiun!

- Precisamos que ela esteja consciente - disse Moore da ombreira da porta. - Se se encontrar sob o efeito de sedativos não poderá responder às nossas perguntas.

- Em qualquer dos casos, ela não pode falar consigo com o tubo endotraqueal inserido - adiantou Catherine olhando para Stephanie. - Como estavam as últimas medições cardiopulmonares? Podemos retirá-la do ventilador?

Stephanie folheou os papéis que tinha presos à prancheta.

- Estão no limite. A P zero dois está a sessenta e cinco. A PC zero dois a trinta e dois. Isto com o tubo endotraqueal a quarenta por cento de oxigénio.

Catherine franziu o sobrolho; nenhuma das opções lhe agradava. Queria Nina consciente e capaz de falar, tal como a polícia, mas tinha de considerar várias situações ao mesmo tempo. Ter um tubo alojado na garganta pode induzir um estado de pânico em qualquer pessoa, e Nina mostrava-se tão agitada que já tinha os pulsos esfolados devido à fricção das correias. Por outro lado, a remoção do tubo também acarretava riscos. O fluido já se acumulara nos pulmões da paciente depois da cirurgia e, apesar de ela estar a respirar quarenta por cento de oxigénio - o dobro do ar ambiente -, a saturação do oxigénio na corrente sanguínea ainda não era a adequada. Fora essa a razão por que Catherine optara por deixar o tubo no lugar. Se o removessem, perderiam a margem de segurança. Mas se o deixassem, a paciente continuaria a debater-se naquele estado de pânico. Caso lhe dessem um calmante, as perguntas que Moore lhe queria fazer não obteriam resposta. Catherine olhou para Stephanie.

- Vou proceder à desintubação.

- Tem a certeza?

- Se o estado dela piorar, voltamos a intubá-la. - Mais fácil de dizer do que fazer, foi o que Catherine leu nos olhos de Stephanie. Ao cabo de vários dias de intubação, por vezes, os tecidos laríngeos incham, o que dificultaria a reinserção do tubo. Se isso acontecesse, a única opção seria uma traqueotomia de urgência.

Catherine contornou a paciente, colocando-se atrás da cabeça e emoldurando-lhe suavemente o rosto com as mãos.

- Nina, sou a doutora Cordell. Vou tirar-lhe o tubo. Quer que faça isso?

A paciente assentiu com uma veemência que atestava o seu desespero.

- Preciso que fique muito quietinha, de acordo? Para não magoarmos as suas cordas vocais. - Catherine ergueu o olhar. - A máscara está pronta?

Stephanie entregou-lhe a máscara de oxigénio em plástico transparente.

Catherine deu um pequeno apertão de encorajamento no ombro de Nina. Começou a retirar o adesivo que mantinha o tubo no seu lugar, libertando o ar do injector em forma de balão.

- Respire fundo e expire - instruiu Catherine. Observou o peito a expandir-se e, enquanto Nina expirava, a pouco e pouco começou a retirar o tubo.

Soltou-o juntamente com um esguicho de muco quando Nina tossiu, respirando com dificuldade. Catherine afagou-lhe os cabelos, falando-lhe numa voz tranquilizadora enquanto Stephanie prendia a máscara de oxigénio no lugar apropriado.

- Está a ir muito bem - disse a médica.

Mas os sinais sonoros no monitor cardíaco continuavam a ouvir-se a um ritmo acelerado. O olhar assustado de Nina continuava focado em Catherine, como se ela fosse o que a prendia à vida e não se atrevesse a perdê-la de vista. Fitando para os olhos da paciente, Catherine sentiu um baque perturbador de familiaridade. Isto passou-se comigo há dois anos. Despertando num hospital de Savannah. Emergindo de um pesadelo para logo a seguir mergulhar noutro...

Olhou para as correias que manietavam os pulsos e os tornozelos de Nina, recordando-se do quanto se sentira aterrorizada por ter estado atada sem se poder mexer. Da mesma maneira como fora amarrada à cama por^Andrew Capra.

- Desaperte as correias - disse Catherine.

- Mas ela é capaz de tirar os tubos - alegou a enfermeira.

- Faça o que eu lhe digo, desaperte-as.

Stephanie corou devido à repreensão. Sem dizer mais nada, começou a soltar as correias. Não conseguia compreender; ninguém compreendia, excepto Catherine, a qual, apesar de já terem passado dois anos desde a situação ocorrida em Savannah, nem sequer era capaz de suportar mangas com punhos apertados. Quando a última correia foi solta, viu que os lábios de Nina se mexiam num agradecimento silencioso.

Obrigada.

Gradualmente, os sinais sonoros do monitor cardíaco foram abrandando. Tendo por fundo o ritmo estabilizado das pulsações do coração, as duas mulheres entreolharam-se. Se Catherine tinha reconhecido parte de si na expressão dos olhos de Nina, também esta pareceu rever-se a si própria no olhar de Catherine. A irmandade silenciosa das vítimas

Somos mais do que alguém alguma vez virá a saber.

- Já podem entrar, senhores detectives - disse a enfermeira.

Moore e Frost entraram no cubículo e depararam com Catherine sentada à beira da cama, pegando na mão de Nina.

- Ela pediu-me que ficasse - disse a médica justificando a sua presença.

- Posso chamar uma agente - adiantou Moore.

- Não, ela quer que seja eu a estar presente - insistiu a médica. - Não tenciono sair.

Olhou para Moore, mostrando uma expressão inflexível. O detective apercebeu-se de que aquela não era a mesma mulher que tivera nos braços havia apenas algumas horas; era outra faceta da personalidade dela, determinada e protectora, e em relação àquele assunto jamais cederia.

Fez um aceno de cabeça sentando-se também à beira da cama. Frost tratou de pôr o gravador a funcionar, ocupando uma posição aos pés da cama onde não interferiria com os outros. Foi a brandura de Frost, a sua civilidade calma, que levara Moore a escolhê-lo para acompanhá-lo naquela conversa com a vítima. A última coisa de que Nina Peyton precisava era de estar na presença de um polícia excessivamente agressivo.

A máscara de oxigénio fora removida, sendo substituída por um tubo nasal delgado; o ar passava com um silvo suave do tubo para as duas narinas. O olhar dela ia rapidamente de um para o outro, olhos em estado de alerta, prontos para detectarem qualquer ameaça ou gestos repentinos. Moore teve o cuidado de falar com serenidade enquanto apresentava Barry Frost e ele próprio. Conduziu a conversa para os aspectos preliminares, confirmando o nome completo, idade e endereço. Já estavam de posse daquelas informações, mas, ao pedir-lhe que o dissesse para ficar gravado, estabeleciam o seu estado mental, demonstrando que se encontrava de posse de todas as suas faculdades mentais, capaz de prestar declarações. Nina começou a responder às perguntas numa voz enrouquecida e neutra, estranhamente desprovida de qualquer emoção. Aquela atitude de distanciamento enervou-o; tinha a impressão de que estava a ouvir uma mulher morta.

- Não dei por ele ter entrado em minha casa - disse Nina. - Só acordei quando ele estava debruçado sobre a minha cama. Não devia ter deixado as janelas abertas. Também não devia ter tomado os comprimidos...

- Que comprimidos? - perguntou Moore em tom suave.

- Andava com dificuldade em dormir porque... - A voz dela esmoreceu.

- Por causa da violação?

Ela desviou o olhar, evitando fixá-lo.

- Andava a ter pesadelos. Na clínica deram-me uns comprimidos. Para me ajudarem a dormir.

E um pesadelo, um pesadelo a sério, entrou-lhe pelo quarto.

- Conseguiu ver o rosto dele? - perguntou Moore.

- Estava escuro. Ouvia a respiração dele, mas não conseguia mexer-me. Também não podia gritar.

- Nessa altura já estava amarrada à cama?

- Não me recordo de ele me ter amarrado. Nem sequer me lembro de como é que aconteceu.

Clorofórmio, deduziu Moore, para a subjugar primeiro. Antes de ficar de novo completamente consciente.

- E depois, Nina, o que aconteceu?

A respiração dela tornou-se mais rápida. No monitor por cima da cama, os sinais sonoros da pulsação aceleraram ao ritmo do gráfico.

- Ele sentou-se numa cadeira à beira da minha cama. Eu conseguia ver os contornos do corpo dele.

- E o que fez ele a seguir?

- Ele... começou a falar comigo - respondeu Nina.

- E o que lhe disse?

- Ele disse... - A paciente engoliu em seco. - Ele disse que eu era suja. Que estava conspurcada. Disse que eu devia sentir repugnância pela minha imundície. E que... que ele ia cortar a parte de mim que estava suja, fazendo com que eu voltasse a ser pura. - Nina deteve-se, acrescentando numa voz que mal se ouvia: - Foi nessa altura que eu me apercebi de que ia morrer.

Apesar de o rosto de Catherine ter ficado extremamente pálido, a vítima aparentava uma estranha compostura, como se estivesse a falar do pesadelo de outra mulher e não do seu. Já não olhava para Moore, concentrando a sua atenção num ponto qualquer atrás dele, como se estivesse a ver uma mulher amarrada a uma cama muito ao longe. E numa cadeira, envolto na escuridão, um homem que descrevia calmamente todos os horrores que planeava pôr em prática. "Para o Cirurgião", pensava Moore, "isto é como os preliminares amorosos. É o que o excita. O cheiro de uma mulher amedrontada. Alimenta-se disso. Senta-se à beira da cama dela e enche-lhe os pensamentos com imagens de morte. O suor cobre a pele dela, o suor que emana o sabor acre do terror. Um perfume exótico que ele deseja com sofreguidão. Ao respirar esse aroma, sente-se estimulado sexualmente."

- E depois, o que aconteceu? - perguntou Moore.

Ela não respondeu.

- Nina...?

- Ele pôs o candeeiro mesmo à frente da minha cara. Junto dos meus olhos, para eu não poder vê-lo. Apercebia-me apenas da luz muito intensa. E tirou-me uma fotografia.

- E depois?

- Depois foi-se embora - replicou Nina olhando para Moore.

- Deixou-a sozinha em casa?

- Sozinha, não. Eu ouvia-o andar de um lado para o outro. E a televisão... esteve ligada durante toda a noite; eu ouvia a televisão.

Moore pensou que o padrão de comportamento do homicida se havia alterado: ele e Frost trocaram olhares de perplexidade. Agora o Cirurgião mostrava-se mais confiante. Mais ousado. Em vez de concluir a matança ao cabo de algumas horas, tinha-a atrasado. Prolongara-a por toda a noite e pelo dia seguinte, tendo deixado a sua presa amarrada à cama para que ela pudesse reflectir sobre a provação por que estava prestes a passar. Inteiramente indiferente aos riscos, ele extraíra-lhe todo o terror que ela sentia. Extraíra dela o seu próprio prazer.

No monitor cardíaco, o gráfico indicava outra vez um acelerar da pulsação. Se bem que o tom de voz de Nina parecesse neutro e sem a mínima emoção, por baixo daquela fachada de calma, o pavor mantinha-se.

- E o que se passou a seguir, Nina?

- A dada altura, durante a tarde, devo ter adormecido. Quando despertei, vi que já estava escuro outra vez. Tinha muita sede. Só conseguia pensar nisso, na vontade de beber água...

- Ele deixou-a durante algum tempo? Houve alguma altura em que tenha ficado sozinha em casa?

- Não sei dizer. Só ouvia o som da televisão. Quando ele a desligou, eu soube. Soube que ele não tardaria a voltar ao meu quarto - respondeu Nina.

- E quando voltou ao quarto, ele ligou a luz?

- Ligou - confirmou ela.

- Conseguiu ver a cara dele?

- Só os olhos. Ele tinha uma máscara. Igual às que os médicos usam quando estão a operar.

- Mas apesar disso conseguiu ver os olhos dele?

- Sim, vi.

- Reconheceu-o? Alguma vez tinha visto esse homem?

Fez-se um silêncio que pareceu eternizar-se. Moore sentia o seu próprio coração a bater violentamente enquanto aguardava a resposta que tinha esperança em ouvir.

- Não - respondeu ela por fim, em voz baixa. Desencorajado, recostou-se na cadeira. Subitamente, a tensão que pairava no ar como que ruiu. Para aquela vítima, o Cirurgião era um desconhecido, um homem sem nome e as razões que o haviam levado a escolhê-la continuavam a ser um mistério.

Disfarçando a desilusão na sua voz, Moore prosseguiu:

- Faça-nos uma descrição dele.

Nina respirou fundo e fechou os olhos, como se estivesse a avivar a sua memória.

- Ele tinha... cabelo curto. Muito bem cortado.

- De que cor?

- Castanho. Tinha cabelo castanho-claro.

O que era consistente com o fio de cabelo que haviam encontrado no ferimento de Elena Ortiz.

- Portanto, deduzo que era de raça branca? - retorquiu Moore.

- Sim - confirmou Nina.

- E os olhos?

- Eram de uma cor clara. Azuis ou acinzentados. Eu tive medo de o olhar de frente.

- E quais eram os contornos do rosto dele? Arredondados, ovais?

- Eram estreitos - respondeu Nina, fazendo uma pausa. - Bastante comuns.

- E qual é a sua estimativa quanto à altura e peso?

- É difícil...

- Veja se consegue fazer um cálculo.

- Era médio - replicou ela, suspirando.

Médio. Comum. Um monstro que se parecia com qualquer outro homem.

- Vamos mostrar-lhe alguns retratos - prosseguiu Moore dirigindo-se a Frost.

Frost passou-lhe o primeiro dos álbuns com fotografias tipo passe, a que chamavam six-packs, pois cada página tinha seis retratos. Moore colocou o álbum em cima da mesa-tabuleiro, empurrando-a para junto da paciente.

Durante a meia hora seguinte, ficaram a observá-la, com as esperanças cada vez mais reduzidas, a folhear os álbuns sem se deter. Ninguém dizia uma única palavra; os únicos sons que se ouviam eram o sibilar ensurdecido do oxigénio e o barulho do virar das folhas. Aqueles retratos eram de homens que haviam cometido crimes de estupro e que a polícia conhecia e, enquanto Nina ia folheando os álbuns sem parar, Moore tinha a impressão de que aqueles rostos não acabavam mais, que aquele desfile de imagens representava a faceta mais sombria de todos os homens, um impulso abjecto oculto pela máscara humana.

Alguém bateu no vidro do cubículo. Ergueu a cabeça e viu Jane Rizzoli a gesticular na sua direcção. Saiu para poder falar com ela.

- Ela já identificou alguém? - perguntou a detective.

- Não vamos conseguir identificação nenhuma. Ele tinha uma máscara de cirurgia.

- Porquê uma máscara? - perguntou Rizzoli franzindo a testa.

- Talvez faça parte do seu ritual. Parte daquilo que o excita. A fantasia dele é brincar aos médicos. Ele disse-lhe que ia cortar o órgão que estava conspurcado. Sabia que ela era uma vítima de violação. E o que é que ele extraiu? Foi direitinho ao útero.

Rizzoli olhou para dentro do cubículo.

- Ocorre-me outra razão para ele ter usado máscara - disse em voz baixa.

- O quê? - perguntou Moore curioso.

- Ele não queria que ela lhe visse a cara. Não queria que ela pudesse identificá-lo.

- Mas isso significaria que...

- O que eu não me tenho cansado de dizer - atalhou Rizzoli virando-se para o colega. - O Cirurgião nunca teve a intenção de matar a Nina Peyton.

"É tão pouco aquilo que somos capazes de ver realmente no coração humano", pensou Catherine enquanto examinava as radiografias ao tórax de Nina Peyton. Na semiobscuridade, olhou para as chapas que colocara no quadro luminoso, observando atentamente as sombras que representavam os ossos e os órgãos. O tórax, o diafragma e o coração mais acima. Não o assento da alma, mas, muito simplesmente, uma bomba muscular tão desprovida de qualquer significado místico como os pulmões ou os rins. E, todavia, até mesmo Catherine, tão fundamentada na ciência, não era capaz de olhar para o coração de Nina Peyton sem que se sentisse tocada pelo seu simbo-lismo.

Era o coração de uma sobrevivente.

Começou a ouvir vozes na sala contígua. Era Peter que pedia as radiografias de um paciente à funcionária do Serviço de Radiologia. Momentos depois, ele entrou com as radiografias, detendo-se quando deparou com Catherine junto do quadro luminoso.

- Ainda estás aqui? - disse ele.

- Tal como tu.

- Mas eu estou a trabalhar no turno da noite. Porque não vais para casa?

Catherine virou-se concentrando-se nas radiografias do tórax de Nina Peyton.

- Antes de ir para casa, quero certificar-me de que o estado desta paciente é estável.

Peter aproximou-se dela, colocando-se ao seu lado, tão alto e tão imponente que a primeira reacção dela foi lutar contra o impulso de querer desviar-se. Ele examinou as chapas.

- Além de alguns indícios de atelectasia, não estou a ver nada que possa causar preocupação. - Dito isto, concentrou-se no nome de identificação, "Paciente Anónima", num canto da chapa. - Isto é da mulher que está na cama doze? Aquela por causa de quem temos cá vários polícias?

- É - confirmou Catherine.

- Estou a ver que já a tiraste do ventilador.

- Sim, há já^ algumas horas - confirmou ela com uma certa relutância. Não lhe apetecia falar de Nina Peyton, tal como não tinha o mínimo desejo de revelar o seu envolvimento pessoal no caso. Mas Peter não desistia de lhe fazer perguntas.

- Os valores cardiopulmonares estão bem?

- Estão adequados.

- Além disso, ela mantém-se estável?

- Sim.

- Sendo assim, porque não vais para casa? Eu posso substituir-te junto dela.

- Quero ser eu própria a ficar atenta ao estado desta paciente.

- Desde quando é que deixaste de confiar no teu velho colega? - perguntou Peter, pousando uma mão no ombro dela.

Acto contínuo, Catherine ficou hirta. Ele apercebeu-se, e apressou-se a retirar a mão.

Após um breve silêncio, Peter afastou-se, começando a prender as suas próprias radiografias no quadro luminoso com movimentos bruscos. Tinha trazido uma série de tomografias axiais computorizadas abdominais que ocupavam toda uma fileira de molas do quadro. Quando acabou de as prender, manteve-se imobilizado, os olhos ocultos pela reflexão das chapas radiológicas nas lentes dos óculos.

- Eu não sou o inimigo, Catherine - declarou num timbre de voz suave sem olhar para ela, concentrado no quadro luminoso. - Quem me dera ter poder para fazer com que acreditasses nisso. Não me sai da cabeça que devo ter feito qualquer coisa, ou dito alguma coisa, que alterou a relação entre nós. - Finalmente, olhou para ela. - Costumávamos contar um com o outro. No mínimo, como colegas de trabalho. Que diabo, ainda no outro dia pouco faltou para que tivéssemos ficado de mãos dadas sobre o tórax daquele homem! Mas agora, nem sequer confias em mim para vigiar uma das tuas pacientes. Não achas que já me conheces suficientemente bem para poderes confiar em mim?

- Não existe nenhum outro cirurgião em quem confie mais do que em ti - retorquiu Catherine.

- Sendo assim, o que se passa? Chego de manhã para trabalhar e fico a saber que tivemos um intruso. No entanto, não falas comigo a esse respeito. Pergunto-te pela tua paciente da cama doze e também te recusas a falar comigo sobre o estado dela.

- A polícia pediu-me para não o fazer.

- Ultimamente, parece que a polícia manda na tua vida. Porquê?

- Não posso falar sobre esse assunto.

- Eu não sou apenas o teu colega de trabalho, Catherine. Julgava que também era teu amigo. - Peter deu um passo, aproximando-se dela. Fisicamente, era um homem que se impunha, e a proximidade dele, por si só, foi o suficiente para que ela sentisse uma certa claustrofobia. - Vejo que estás assustada. Fechas-te no teu gabinete. Estás com ar de quem não dorme bem há vários dias. Não posso ficar impávido e sereno a ver o que se está a passar contigo.

Catherine arrancou as radiografias de Nina Peyton do quadro luminoso e guardou-as dentro de um envelope.

- Isto não tem nada a ver contigo.

- Ai, isso é que tem, uma vez que te afecta a ti.

- Vamos ver se nos entendemos quanto a uma coisa, Peter - ripostou Catherine cuja atitude de defesa deu, imediatamente, lugar a uma certa irritação. - Sim, é verdade que trabalhamos juntos; e sim, respeito-te muito como cirurgião. Também gosto de ti como colega. No entanto, não partilhamos as nossas vidas. E com certeza que não partilhamos os nossos segredos.

- E por que razão não os partilhamos? - perguntou ele suavemente. - O que é que receias dizer-me?

Catherine ficou a olhar fixamente para ele, enervada pelo seu tom suave. Naquele momento, queria mais do que qualquer outra coisa livrar-se do fardo que a oprimia, contar a Peter o que lhe acontecera em Savannah, descrever-lhe tudo, incluindo os pormenores mais constrangedores. Todavia, sabia quais seriam as consequências dessas confidências. Estava ciente de que, quando se era vítima de um crime de estupro, se ficava conspurcada para sempre, uma vítima para sempre. Não conseguia aceitar a comiseração de ninguém. Sobretudo da parte de Peter, o homem cujo respeito significava tanto para ela.

- Catherine? - chamou ele estendendo-lhe a mão.

Por entre lágrimas, Catherine olhou para a mão que ele lhe estendia. E como uma mulher prestes a afogar-se, mas que opta pelas águas sombrias do mar em vez da salvação, não aceitou a sua mão.

Em vez disso, saiu da sala.

 

A "Paciente Anónima" foi transferida.

Na minha mão tenho o tubo do sangue dela e sinto-me decepcionado ao senti-lo frio quando lhe toco. Há demasiado tempo que está naquele suporte flebotómico e o calor do corpo que este tubo conteve em tempos irradiou através do vidro, dissipando-se no ar. O sangue frio é uma coisa morta, sem poder nem alma, e deixa-me completamente indiferente. Concentro-me no rótulo, um rectângulo branco colado à superfície do tubo de vidro, com o nome da paciente em letra de imprensa, o número do quarto e o número que o hospital lhe atribuiu. Muito embora o nome indique "Paciente Anónima", eu sei a quem este sangue pertence realmente. Ela já deixou a Unidade de Cuidados Intensivos, foi transferida para o Quarto 538 - na enfermaria de cirurgia.

Volto a colocar o tubo no seu lugar no suporte onde fica juntamente com outras duas dúzia de tubos, fechados com tampas de borracha de cor azul, púrpura, vermelho e verde; cada cor identifica o tipo de análise a que se deve proceder. As tampas de cor púrpura são para a contagem de glóbulos, as azuis para as análises de coagulação, as vermelhas para a química clínica e electrólitos. Em alguns dos tubos com a tampa vermelha, o sangue já coagulou, formando uma massa escura e gelatinosa. Passo uma vista de olhos por uma pilha de formulários de pedidos de exames laboratoriais até encontrar o da "Paciente Anónima". Esta manhã, a Dra. Cordellpediu duas análises: uma contagem completa dos glóbulos e a electrólise linfática. Leio mais atentamente as requisições laboratoriais referentes à noite de ontem até encontrar uma cópia a papel químico de outra requisição assinada pela Dra. Cordell, por ter sido a médica que pediu as análises.

"urgente - gás do sangue arterial, pós-desintubação, dois litros de oxigénio através de tubo nasal."

Nina Peytonjá não está intubada. Está a respirar pelos seus próprios meios, os seus pulmões recebem ar sem qualquer ajuda mecânica, sem ter um tubo na garganta.

Estou sentado sem me mexer no meu posto de trabalho, a pensar não em Nina Peyton, mas em Catherine Cordell. Ela pensa que venceu este combate. Acredita que é a salvadora de Nina Peyton. Chegou a altura de a pôr no seu lugar. Chegou a altura de lhe ensinar a mostrar humildade.

Pego no telefone e ligo para a Secção de Dietética do Hospital. Sou atendido por uma mulher que fala apressadamente, e ouço em ruído de fundo o entrechocar das bandejas. Está quase na hora do jantar, ela não tem tempo para conversa fiada.

- Fala da Cinco Oeste - disse eu, mentindo. -Acho que fizemos confusão com as prescrições dietéticas de dois dos nossos pacientes. Importa-se de me dizer qual a dieta que consta da sua lista para o Quinhentos e Trinta e Oito?

Faz-se uma pausa enquanto ela introduz os dados no computador para obter a informação que lhe pedi.

- Líquidos translúcidos - responde ela. - Está correcto?

- Sim, é isso mesmo. Obrigado. - Desligo.

Num jornal desta manhã lia-se que Nina Peyton continuava em coma e que a sua situação clínica era crítica. Isto não corresponde à verdade. Ela está consciente.

Catherine Cordell salvou-lhe a vida, tal como eu previa que ela faria.

Uma das praticantes de flebotomia passa pelo meu posto de trabalho, pousando o tabuleiro repleto de tubos em cima do balcão. Sorrimos um para o outro, tal como fazemos todos os dias, dois colegas de trabalho que mantêm uma relação cordial e que, por princípio, têm o outro em boa conta. Ela é jovem e tem uns seios altos e firmes, salientes como melões por baixo do uniforme branco; tem uns dentes bonitos e direitos. Pega num novo maço de requisições para análises laboratoriais, acena-me num gesto de despedida e sai. Pergunto a mim mesmo se o sangue dela terá um sabor salino.

O som ensurdecido e gorgolejante dos aparelhos é uma constante naquele espaço, semelhante a uma canção de embalar.

Vou para o computador, chamando ao ecrã a lista dos pacientes hospitalizados na Ala 5. Nessa enfermaria há vinte quartos que se distribuem de modo a formarem um H, com o balcão das enfermeiras localizado no traço horizontal do H. Percorro a lista de pacientes, ao todo são trinta e três, inteirando-me das idades e diagnósticos. Detenho-me no décimo segundo nome, o paciente do Quarto 521.

"Sr. Herman Gwadowski, sessenta e nove anos. Médico assistente: Dra. Catherine Cordell. Diagnóstico: S/P, laparotomia de urgência por traumas abdominais múltiplos."

O Quarto 521 está situado num corredor paralelo ao quarto de Nina Peyton. O quarto de Nina não é visível do Quarto 521.

Faço um dique no nome do Sr. Gwadowski e passo a ter acesso à sua ficha de análises clínicas. Há duas semanas que está internado no hospital e o seu gráfico clínico desdobra-se sucessivamente no ecrã. Consigo imaginar os braços dele. As veias como se fossem uma auto-estrada de picadas de agulhas e hematomas. Com base nos níveis de açúcar no sangue, verifico que sofre de diabetes. A contagem dos glóbulos brancos é elevada, o que indica que sofre de uma infecção indeterminada. Também reparo que existem algumas culturas pendentes de uma colheita feita num ferimento que tem num pé. A diabetes afectou-lhe a circulação dos membros e os tecidos das pernas estão a começar a sofrer de necrose. Verifico que existe outra cultura pendente do seu sistema vascular central.

Concentro-me nos electrólitos. Os níveis de potássio têm vindo a subir de modo constante, de 4,5 há duas semanas para 4,8 na última semana e 5,1 ontem. É um homem idoso e os rins diabéticos esforçam-se por excretar as toxinas diárias que se vão acumulando na corrente sanguínea. Toxinas como o potássio.

Não será preciso muito para que ele se apague.

Não conheço o Sr. Herman Gwadowski - pelo menos nunca estivemos frente a frente. Dirijo-me para o suporte que contém os tubos de sangue e que tem estado em cima do balcão, começando a ler os rótulos. O suporte contém tubos de ensaio de colheitas da 5 Leste e Oeste; ao todo são vinte e quatro tubos nos vários orifícios. Encontro o tubo com tampa vermelha que corresponde ao paciente do Quarto 521. Contém uma colheita de sangue do Sr. Gwadowski.

Pego no tubo e examino-o atentamente, fazendo-o girar com lentidão sob a luz eléctrica. Não apresenta coágulos e o sangue fluido no interior é escuro e tem um aspecto repugnante, como se a agulha que foi espetada na veia do Sr. Gwadowski em vez de a encontrar tivesse penetrado num poço de águas estagnadas. Retiro a tampa do tubo e cheiro o conteúdo. Cheiro a ureia da velhice, o odor adocicado de uma infecção em tecidos que começam a entrar em necrose. Sinto o cheiro de um corpo que já começou a deteriorar-se, se bem que o cérebro continue a negar que a carcaça em seu redor esteja a morrer.

E é desta maneira que passo a conhecer o Sr. Gwadowski.

Não será uma amizade muito duradoura.

Angela Robbins era uma enfermeira conscienciosa, e estava irritada porque a dose de antibióticos das dez horas de Herman Gwa-dowski ainda não tinha chegado. Dirigiu-se à funcionária dos serviços da Ala 5 Oeste.

- Continuo à espera da medicação que deve ser administrada por via intravenosa ao senhor Gwadowski. Importa-se de voltar a ligar para a Secção de Farmácia?

- E já viu no carrinho? Veio para cima às nove horas.

- Sim, mas não trazia nada para o senhor Gwadowski. Ele precisa da dose de Zosyn por via intravenosa imediatamente.

- Oh, só agora é que me lembrei - disse a funcionária levantando-se de repente e dirigindo-se para uma caixa que se encontrava em cima do outro balcão. - Uma das auxiliares da Ala Quatro Oeste trouxe isto para cima há pouco.

- Quatro Oeste?!

- O saco foi enviado para o andar errado - explicou a funcionária verificando a etiqueta. - Gwadowski, Quinhentos e Vinte e Um-A.

- Exacto - confirmou Angela pegando no pequeno saco que continha medicamentos intravenosos. Enquanto voltava para o quarto do paciente, a enfermeira leu a etiqueta, confirmando o nome do paciente e do médico que prescrevera a medicação, e a dose de Zosyn que havia sido acrescida ao saco com a solução salina. Tudo lhe pareceu estar correcto. Dezoito anos antes, quando Angela começara a trabalhar, qualquer enfermeira diplomada podia ir ao dispensário da enfermaria, pegar num saco de qualquer solução intravenosa e acrescentar-lhe os medicamentos necessários. Alguns erros cometidos por enfermeiras mais assoberbadas de trabalho, e uns quantos processos judiciais amplamente divulgados, tinham mudado tudo isso. Agora, até um simples saco com uma solução salina para administração intravenosa com o acréscimo de potássio tinha de passar pela Secção de Farmácia do hospital. O que só servia para aumentar a burocracia administrativa, outro dente da roda que encravava o mecanismo já de si muito complicado dos cuidados de saúde, e Angela estava furiosa. Toda aquela burocracia dera origem a uma hora de atraso na entrega daquele saco de solução intravenosa.

Trocou o tubo do Sr. Gwadowski, passando-o para o saco novo que já tinha pendurado no suporte. Durante todo este processo, o Sr. Gwadowski não se mexeu na cama. Há duas semanas que permanecia em coma, e dele já emanava o cheiro da morte. Angela era enfermeira há tempo suficiente para reconhecer esse cheiro, como suor acre, o prelúdio para a derradeira viagem. Sempre que o detectava, murmurava para as outras enfermeiras: "Este não vai conseguir safar-se." Era precisamente isso que ela pensava naquele momento enquanto aumentava o fluxo da solução intravenosa, verificando os sinais vitais do paciente. Este não vai conseguir safar-se. Mesmo assim, continuou a fazer o que era seu dever com o mesmo cuidado com que tratava todos os seus doentes.

Estava na hora do banho de esponja. Foi buscar uma bacia com água morna que pousou ao lado da cama, ensopou um pano turco e começou a limpar o rosto do Sr. Gwadowski. Ele estava deitado com a boca aberta, a língua seca e crespa. Se ao menos ela pudesse deixá-lo partir. Se pudessem libertá-lo daquele inferno. Mas o filho não o permitia, de modo que o idoso continuava a viver, se é que se podia chamar viver àquilo, um coração a bater num corpo que era uma carcaça em deterioração.

Despiu a camisa do hospital que o paciente vestia e verificou o ponto de inserção da linha venosa central na pele. O ferimento apresentava um ligeiro tom avermelhado, o que a deixou preocupada. Já não tinham pontos nos braços por onde administrar mais medicamentos. Naquele momento, aquele era o único acesso por via intravenosa de que dispunham, e Angela sabia que era imprescindível que se mantivesse o ferimento limpo e sempre com um penso fresco. Depois do banho de esponja, tencionava mudar-lhe o penso.

Começou a limpar o tronco, passando o pano húmido pelas costas. Percebeu logo que ele nunca fora um homem musculado e o que agora restava do peito era uma pele fina como pergaminho e esticada ao longo dos ossos.

Ouviu passos e não lhe agradou nada ver o filho do Sr. Gwadowski entrar no quarto. Com um único olhar, o homem pô-la à defesa - o que indicava bem o tipo de indivíduo que ele era, sempre pronto para apontar quaisquer erros ou falhas nos outros. Fazia-o amiudadas vezes com a irmã. Houve uma ocasião em que Angela os ouviu discutir, e foi obrigada a conter-se para não sair em defesa da rapariga. Ao fim e ao cabo, não cabia a Angela dizer ao filho daquele paciente o que pensava do modo como ele atormentava a irmã. Por outro lado, nada a obrigava a mostrar-se excessivamente cordial para com o homem. Assim, limitou-se a um ligeiro aceno de cabeça, continuando o trabalho.

- Como é que ele está? - perguntou Ivan Gwadowski.

- Não houve qualquer alteração - respondeu a enfermeira num tom de frieza profissional. Desejava que ele se fosse embora, que parasse de fingir que se interessava pelo estado de saúde do pai, e que a deixasse fazer o seu trabalho em paz e sossego. Era suficientemente perspicaz para poder concluir que o amor filial era uma razão menor para a presença daquele filho ali. Assumira o controlo da situação porque era isso que estava acostumado a fazer e jamais cederia esse controlo a quem quer que fosse. Nem mesmo à morte.

- A médica já veio vê-lo hoje?

- A doutora Cordell vem vê-lo todas as manhãs.

- O que ela diz quanto ao facto de ele continuar em coma?

Angela colocou o pano turco dentro da bacia, e endireitou-se para poder olhá-lo bem de frente.

- Não sei se haverá alguma coisa a dizer, senhor Gwadowski.

- Durante quanto mais tempo é que ele vai ficar assim?

- Durante o tempo que o senhor permitir - respondeu a enfermeira.

- O que quer dizer com isso?

- Não acha que mostraria mais compaixão se o deixasse partir?

Ivan Gwadowski olhou fixamente para ela.

- Sim, isso facilitaria a vida de toda a gente, não é verdade? E vagaria outra cama do hospital.

- Não foi isso que eu disse.

- Sei muito bem como é que os hospitais são pagos nos tempos que correm. Se os doentes ficam hospitalizados muito tempo, os custos são maiores.

- Estou a referir-me apenas ao que seria melhor para o seu pai.

- O melhor para ele é este hospital fazer o que tem obrigação de fazer.

Antes que dissesse alguma coisa de que depois viesse a arrepender-se, Angela virou-se e tirou o pano turco da bacia. Torceu-o com mãos trémulas. Não discutas com ele. Limita-te a fazer o teu trabalho. Ele é o tipo de homem capaz de levar tudo até às últimas consequências.

Aplicou o pano humedecido no abdómen do paciente. Só então se apercebeu de que o idoso não estava a respirar.

De imediato, Angela procurou a pulsação no pescoço.

- O que se passa? - perguntou o filho. - Ele está bem?

Ela não lhe respondeu. Empurrando-o quando passou por ele, correu para fora do quarto.

- Código Azul! - gritou a plenos pulmões. - Um Código Azul para o Quarto Quinhentos e Vinte e Um!

Catherine saiu a correr do quarto de Nina Peyton, dobrando a esquina que a levaria ao próximo corredor. O pessoal da equipa de reanimação já enchera o Quarto 521 e saía para o corredor onde um grupo de estudantes de Medicina, de olhos arregalados e pescoços esticados, também se juntara para ver o que se passava.

Catherine abriu caminho por entre eles, e entrou no quarto.

- O que aconteceu?

- Ele deixou de respirar! - respondeu Angela. - Não tem pulsação.

Catherine foi até à beira da cama e viu que uma outra enfermeira já tinha colocado uma máscara no rosto do paciente, estando a bombear oxigénio para os pulmões. Um dos internos mantinha as mãos no tórax e a cada pressão que fazia sobre o esterno bombeava sangue que saía do coração, forçando-o a fluir através das artérias e veias. Irrigando os órgãos e o cérebro.

- Os eléctrodos para o electrocardiograma já estão em posição! - alguém gritou.

O olhar de Catherine dirigiu-se de imediato para o monitor. O traçado mostrava fibrilação ventricular. As câmaras do coração haviam deixado de se contrair. Em vez disso, os músculos, individualmente, eram percorridos por frémitos, enquanto o coração não passava de um saco flácido.

- As chapas estão carregadas? - perguntou Catherine.

- Cem joules.

- Imediatamente!

A enfermeira aplicou as chapas do desfibrilador no peito do paciente gritando:

- Afastem-se todos!

A corrente eléctrica passou pelas chapas, provocando uma descarga eléctrica através do coração. O tronco do homem saltou do colchão como um gato numa chapa em brasa.

- Continua em fibrilação ventricular!

- Um miligrama de epinefrina por via intravenosa e voltem a dar-lhe outro choque de cem joules - instruiu Catherine.

A epinefrina deslizou através do cateter venoso central.

- Para trás!

Outra descarga que passou pelas chapas, outro salto do tronco.

No monitor, o traçado do electrocardiograma disparou bruscamente para cima, após o que baixou, dando lugar a uma linha oscilante. Os últimos tremores de um coração que definhava.

Catherine baixou o olhar, fitando o seu paciente enquanto pensava: "Como é que eu vou reanimar esta pilha de ossos mirrados?"

- Quer... continuar... a tentar? - perguntou um dos internos com a respiração arfante enquanto continuava a bombear oxigénio. Pela face correu-lhe uma gota de suor brilhante.

"Eu não queria reanimá-lo de modo algum", pensou Catherine, estando prestes a dar o processo de reanimação por terminado quando Angela lhe segredou ao ouvido:

- O filho está cá. Tem estado a observar tudo o que fazemos.

O olhar de Catherine dirigiu-se para Ivan Gwadowski que se encontrava na ombreira da porta. Agora não lhe restava alternativa. Tudo quanto não fosse um empenho a cem por cento, e o filho faria com que sofressem as consequências.

No monitor, o traçado da linha era como a superfície de um mar açoitado pela tempestade.

- Vamos voltar ao princípio - disse Catherine. - Desta vez com duzentos joules. Peçam que enviem sangue para electrólitos, imediatamente!

Ouviu o barulho do carrinho com tudo o que era necessário para uma reanimação de emergência. De imediato, apareceram tubos e uma seringa.

- Não consigo encontrar uma veia!

- Use o cateter venoso central.

- Todos para trás!

Todos se afastaram da cama antes que a descarga eléctrica passasse pelas chapas.

Catherine mantinha-se atenta ao monitor, na esperança de que o choque eléctrico tivesse reanimado o coração. Em vez disso, o traço como que entrou em colapso, não passando de um ondular pouco perceptível.

Pelo cateter venoso central começou a deslizar outra porção de epinefrina.

O interno, muito corado e a transpirar, recomeçou a fazer pressão no tórax. Um par de mãos descansadas substituiu quem estava a bombear oxigénio para os pulmões do paciente, mas aquilo era o mesmo que tentar instilar vida numa membrana ressequida. Catherine começava a aperceber-se da mudança no timbre das vozes dos que a rodeavam; o tom de urgência já desaparecera e as palavras eram automáticas e monocórdicas. Agora, tudo o que faziam não passava de um exercício, uma vez que a derrota era inevitável. Olhou à sua volta para as cerca de doze pessoas que se juntavam em redor da cama, vendo que a decisão a tomar era óbvia na opinião de todos, que aguardavam a palavra final que a ela competia.

- Vamos dar o processo de reanimação por terminado - anunciou Catherine. - São onze horas e treze minutos.

Em silêncio, todos recuaram ficando a olhar para o objecto da sua derrota, Herman Gwadowski, que estava deitado, a esfriar num emaranhado de fios e tubos intravenosos. Uma enfermeira desligou o electrocardiógrafo e o monitor do osciloscópio ficou em branco.

- E quanto a um pacemaker!

Catherine, a meio de assinar a folha de registo do código de emergência, voltou-se para trás e deparou com o filho do doente que, entretanto, entrara no quarto.

- Não resta nada para salvar - disse ela. - Lamento muito. Não conseguimos fazer com que o coração dele voltasse a bater.

- E não é para isso que utilizam os pacemakers!

- Fizemos tudo o que pudemos...

- Tudo o que fizeram foi darem-lhe choques eléctricos. Tudo! Com o olhar, Catherine abarcou o interior do quarto, a prova dos seus esforços, as seringas usadas e os papéis amachucados dos invólucros. Os desperdícios clínicos que restavam depois de cada batalha. Os que se encontravam presentes no quarto observavam-na atentamente, à espera de verem qual a sua reacção.

Catherine pousou a prancheta que lhe servira de suporte para poder escrever; as palavras de cólera já se formavam nos seus lábios. Mas não chegou a ter oportunidade de as proferir. Em vez disso, deu meia volta e correu em direcção à porta.

Algures na enfermaria, uma mulher gritava a plenos pulmões.

Num instante, Catherine saiu do quarto, as enfermeiras logo atrás de si. A correr, virou a esquina do corredor, avistando uma auxiliar a chorar convulsivamente e apontando na direcção do quarto de Nina. A cadeira do lado de fora do quarto estava desocupada.

Devia haver um polícia de serviço aqui. Onde é que ele está?

Catherine empurrou a porta e deteve-se, petrificada.

A primeira coisa que viu foi o sangue, faixas brilhantes que corriam pela parede abaixo. Em seguida, olhou para a sua paciente, o corpo tombado no chão com o rosto virado para baixo. Nina jazia entre a cama e a porta, como se tivesse conseguido dar alguns passos antes de cair por terra. O tubo de administração intravenosa saíra do lugar e do tubo aberto escorria um fio de solução salina que se ia derramando pelo chão, formando uma poça transparente junto de uma outra maior de cor vermelha.

Ele esteve aqui. O Cirurgião esteve aqui.

Embora todo o seu instinto lhe dissesse que batesse em retirada, que fugisse, tentou dar uns passos em frente, e ajoelhou-se junto de Nina. O sangue começou a ensopar-lhe as alças e ela sentiu que ainda estava morno. Rolou o corpo de modo a deitá-la de costas.

Com um só olhar para o rosto de uma palidez cerácea e olhos vi-trificados, ficou a saber que Nina já não pertencia a este mundo. Apenas há alguns momentos, ouvi o teu coração a bater.

Lentamente, Catherine começou a despertar do atordoamento em que se encontrava e, ao olhar à sua volta, viu um círculo de rostos atemorizados.

- O agente de polícia - começou a dizer. - Onde é que ele está?

- Não sabemos...

Com movimentos rápidos pôs-se de pé e os outros apressaram-se a afastar-se, dando-lhe passagem. Sem se aperceber de que deixava um rasto de pegadas ensanguentadas, saiu do quarto, olhando para os dois lados do corredor.

- Oh, meu Beus! - exclamou uma das enfermeiras.

Ao fundo do corredor, uma linha escura estendia-se pelo chão. Sangue. Corria por debaixo da porta da arrecadação.

 

Os olhos de Rizzoli estavam presos na fita que delimitava o local do crime. Os esguichos de sangue já tinham secado, formando um padrão macabramente festivo. Seguiu pelo corredor até à arrecadação onde o corpo do agente fora encontrado. Na ombreira da porta também se via a fita entrecruzada da polícia a toda a altura. No interior havia inúmeros varões onde os sacos de soluções intravenosas eram pendurados, prateleiras cheias de arrastadeiras e bacias, caixas de luvas, tudo coberto de ziguezagues de sangue. Um dos seus tinha morrido naquela arrecadação, pelo que, para todos os polícias do Departamento da Polícia de Boston, a caça ao Cirurgião, a partir de agora, passava a ser um assunto intensa e profundamente pessoal.

Voltou-se para o agente que se encontrava por perto.

- Onde está o detective Moore?

- Está lá em baixo, nos Serviços Administrativos. Estão a visionar os vídeos das câmaras de vigilância.

Rizzoli olhou para o corredor de um extremo ao outro, mas não viu nenhuma câmara. Não teriam imagens daquele corredor.

Já no piso inferior, entrou na sala de reuniões onde Moore e duas enfermeiras reviam as imagens dos vídeos. Ninguém desviou o olhar para ela; estavam todos embrenhados no ecrã da televisão.

A câmara focava os elevadores da Ala 5 Oeste. O vídeo mostrava a porta de um dos elevadores a abrir-se. Moore imobilizou a imagem.

- Ali - disse ele. - Este é o primeiro grupo a sair do elevador depois da activação do código de emergência. Conto onze pessoas e todas saem apressadamente.

- é essa a reacção que se espera quando é activado um código de emergência - disse a chefe das enfermeiras. - O sistema de altifalantes do hospital anuncia a situação de emergência. Espera-se que todos os que estejam disponíveis acorram para ajudar.

- Olhem bem para aqueles rostos - continuou Moore. - Reconhecem todos eles? Estão a ver alguém que não devesse estar ali?

- Não consigo ver a cara das pessoas com nitidez. Saem todas em grupo.

- E quanto a si, Sharon? - insistiu Moore, dirigindo-se à segunda enfermeira.

- Estas três aqui - disse Sharon, inclinando-se mais para o ecrã - são enfermeiras. E estes dois jovens, que estão de lado, são estudantes de Medicina. Também reconheço o terceiro homem, ali... - Interrompeu-se, apontando. - É um auxiliar de enfermagem. Os outros parecem-me conhecidos, mas não sei o nome deles.

- Muito bem - proferiu Moore num tom de cansaço. - Vamos ver o resto. Depois passaremos às imagens que a câmara das escadas tem para nos mostrar.

Rizzoli aproximou-se mais até ficar logo atrás da enfermeira-chefe.

No ecrã, as imagens retrocederam, mostrando a porta do elevador a fechar-se. Moore premiu o botão de play e a porta voltou a abrir-se. Saíram onze pessoas, deslocando-se como se fossem um organismo com múltiplas pernas que apressadamente tentava chegar ao local da emergência médica. Rizzoli viu a expressão de urgência no rosto daquelas pessoas e apesar da ausência de som, a sensação de crise era óbvia. O grupo de pessoas desapareceu à esquerda do ecrã. A porta do elevador voltou a fechar-se. Decorridos uns momentos, a porta reabriu-se, dando saída a outro grupo. Rizzoli contou treze pessoas. Até ali, vinte e quatro pessoas tinham chegado em menos de três minutos ao corredor - e isso apenas pelo elevador. Quantas mais teriam acorrido pelas escadas? Rizzoli continuou a olhar para as imagens com um espanto crescente. O tempo de resposta era perfeito. Anunciar um código de emergência era o mesmo que dar início a uma debandada em massa. Dezenas de funcionários acorriam de todos os pontos do hospital, convergindo ao mesmo tempo para a Ala 5 Oeste, e qualquer pessoa que vestisse uma bata branca passava despercebida. O assassino, devia ter permanecido na parte do fundo do elevador, atrás das outras pessoas. Teria tido o cuidado de manter outra pessoa entre ele e a câmara de filmar. Enfrentavam alguém que sabia exactamente como funcionava um hospital.

Rizzoli viu o segundo grupo de pessoas desaparecer do ecrã. Dois daqueles rostos tinham-se mantido ocultos durante todo o tempo.

Moore mudou de cassete e as imagens passaram a ser diferentes. Estavam a ver a porta que dava acesso às escadas. Durante algum tempo não aconteceu nada. Mas, pouco depois, a porta abriu-se, dando saída a um homem avantajado de bata branca.

- Eu conheço-o. É o Mark Noble, um dos internos - adiantou Sharon.

Rizzoli pegou no bloco de apontamentos, tomando nota do nome do homem.

A porta abriu-se de novo, deixando ver duas mulheres; ambas vestiam uniformes brancos.

- É a Verónica Tam - indicou a enfermeira-chefe, apontando para a mais baixa das duas. - Trabalha na Cinco Oeste. Estava no intervalo quando o código de emergência foi anunciado.

- E a outra mulher?

- Não sei dizer. Não consigo ver bem a cara dela.

Rizzoli escreveu:

10.48, câmara de vigilância das escadas:

Verónica Tam, 5 Oeste.

Mulher não identificada; cabelos pretos, uma bata branca.

Pela porta que dava para as escadas saíram sete pessoas. As enfermeiras reconheceram cinco delas. Até ao momento, Rizzoli tinha contado trinta e uma pessoas, chegadas quer de elevador quer pelas escadas. Depois de se acrescentar a esse número as pessoas que na altura trabalhavam no piso, teriam um total de, no mínimo, quarenta pessoas.

- Agora observem bem o que acontece quando as pessoas se afastam durante o código de emergência e depois - pediu Moore. - Agora ninguém está com pressa. Talvez consigam identificar mais algumas pessoas e os respectivos nomes. - Acelerou a sequência de imagens. No fundo do ecrã, o mostrador das horas avançou oito minutos. O código de emergência continuava activado, mas algumas pessoas já tinham começado a sair da enfermaria, uma vez que os seus serviços não eram necessários. A câmara só os tinha filmado pelas costas quando já se encaminhavam para a porta de acesso às escadas. Os primeiros eram os dois estudantes de Medicina, seguidos breves momentos depois por um terceiro homem que ninguém conseguiu identificar, o qual caminhava sozinho. Em seguida, fez-se uma pausa prolongada e Moore decidiu avançar o filme. As imagens mostraram um grupo de quatro homens que saíam juntos para as escadas. Eram onze horas e catorze minutos. Nessa altura, a emergência terminara oficialmente, Herman Gwadowski fora declarado morto.

Moore mudou de cassete. Uma vez mais, estavam a ver imagens do elevador.

Quando acabaram de rever as cassetes, Rizzoli tinha três páginas cheias de apontamentos e anotara o número de emergência. Treze homens e dezassete mulheres haviam respondido ao código de emergência. Agora Rizzoli contava quantos tinham sido filmados quando a emergência fora desactivada.

Os números não batiam certo.

Finalmente, Moore premiu o botão de stop e as imagens desapareceram do ecrã. Havia mais de uma hora que não desviavam o olhar das imagens; as duas enfermeiras pareciam estar em choque.

Interrompendo o silêncio, a voz de Rizzoli pareceu sobressaltá-las.

- Têm alguns colegas do sexo masculino no vosso turno na Ala Cinco Oeste? - perguntou a detective.

A chefe das enfermeiras concentrou a sua atenção em Rizzoli. Pareceu surpreendida por outro agente de polícia ter entrado na sala sem que ela tivesse dado por isso.

- Há um enfermeiro que começa a trabalhar às três horas. Mas não há homens durante o turno diurno.

- Portanto, não havia nenhum homem a trabalhar na Cinco Oeste na altura em que o código de emergência foi activado?

- Talvez estivessem alguns internos de cirurgia nesse piso. Mas tenho a certeza de que não havia nenhum enfermeiro.

- E quem eram esses internos? Recorda-se?

- Eles passam o dia a entrar e a sair. Não presto atenção a essas idas e vindas. Estamos é preocupadas com o nosso próprio trabalho. - Dito isto, a enfermeira olhou para Moore. - Temos mesmo de voltar para o nosso piso.

- Podem ir - retorquiu o detective com um aceno de concordância. - Obrigado pela vossa cooperação.

Rizzoli esperou que as duas enfermeiras saíssem da sala e só depois dirigiu a palavra a Moore.

- O Cirurgião já estava na enfermaria. Antes de o código de emergência ter sido accionado. Não achas?

Moore levantou-se da cadeira e aproximou-se do aparelho de vídeo. Ela detectava irritação na linguagem corporal do colega, na maneira brusca como tirava a cassete do aparelho e no modo igualmente brusco como inseria a segunda cassete.

- Treze homens acorreram à Cinco Oeste. Mas foram catorze os que saíram posteriormente. Portanto, temos um homem a mais. Só podemos concluir que esteve sempre nesse piso. - Moore interrompeu-se, premindo o botão de play. A cassete referente às escadas começou a ser visionada uma vez mais.

- Raios partam isto, Moore! O Crowe é que ficou responsável por tratar da protecção. E agora perdemos a nossa única testemunha.

Moore continuou sem dizer nada, olhando fixamente para o ecrã da televisão, observando as figuras, já familiares, a aparecerem e a desaparecerem através da porta de acesso às escadas.

- O nosso assassino consegue atravessar paredes - continuou Rizzoli. - Esconde-se entre o ar. Havia nove enfermeiras a trabalhar naquele piso, mas nenhuma se apercebeu da presença dele. E o tipo esteve junto delas durante esse tempo todo, porra!

- É uma possibilidade.

- Então, como conseguiu ele chegar àquele agente? Por que razão um polícia se deixaria convencer a deixar a porta do quarto do doente para ir até à arrecadação?

- Só pode ter sido alguém que ele conhecesse. Ou alguém que não constituísse nenhuma ameaça.

E no meio da grande azáfama que a situação de emergência ocasionara, com toda a gente a correr na tentativa de salvar uma vida, seria natural que algum dos empregados do hospital se virasse para o único sujeito presente que não estava a fazer nada no corredor - o agente da polícia. Era a coisa mais natural pedir a esse agente que ajudasse com qualquer coisa que se quisesse trazer da arrecadação.

- Ali está - disse Moore premindo o botão de pausa. - Acho que aquele é o nosso homem.

Rizzoli concentrou o olhar no ecrã. Era o homem que saíra sozinho pela porta das escadas no início da situação de emergência. Só conseguiam vê-lo de costas. Vestia uma bata branca e usava uma touca de cirurgia. Fora da touca via-se apenas um pouco de cabelo castanho muito bem aparado à largura da nuca. Era de constituição magra, ombros estreitos e uma postura inclinada para a frente, como se Fosse um ponto de interrogação andante.

- Este é o único lugar em que o vemos - continuou Moore. - Não o vi nas imagens do interior do elevador. E não o vejo a entrar pela porta que dá acesso às escadas. Mas é por aqui que ele sai. Estás a ver como ele abre a porta empurrando-a com a anca, sem nunca lhe tocar com as mãos? Aposto o que quiseres em como não deixou impressões digitais em lado nenhum. É demasiado cuidadoso para isso. E estás a ver como ele se mantém sempre inclinado para a frente, como se soubesse que está a ser filmado? Sabe que andamos à procura dele.

- Já o identificámos?

- Nenhuma das enfermeiras sabe o nome dele.

- Ele estava no piso delas, merda!

- Tal como várias outras pessoas. Mas toda a gente estava concentrada em salvar a vida do Herman Gwadowski. Toda a gente, menos ele.

Rizzoli aproximou-se do ecrã do televisor, o olhar preso naquela figura solitária no corredor branco. Embora não pudesse ver a cara do homem, sentiu-se tão arrepiada como se estivesse a fitar os olhos do mal. O Cirurgião és tu.

- Ninguém se recorda de o ter visto - adiantou Moore. - Ninguém se lembra de ter subido com ele no elevador. E, contudo, ali está ele. Um fantasma que aparece e desaparece conforme a sua própria vontade.

- Ele saiu da enfermaria oito minutos depois da activação do código de emergência - observou Rizzoli, olhando para as horas na imagem do ecrã. - Houve dois estudantes de Medicina que saíram pouco antes dele.

- Sim, já falei com eles. Tinham uma aula às onze horas. Foi por essa razão que saíram mais cedo. Não repararam no homem que seguiu logo atrás deles pelas mesmas escadas.

- Isso quer dizer que não temos nenhuma testemunha.

- Apenas as imagens que esta câmara filmou.

Rizzoli continuava concentrada nas horas. Oito minutos depois do início do código de emergência. Oito minutos era muito tempo. Tentou reconstituir mentalmente os passos possíveis. Caminhar até ao agente da polícia: dez segundos. Convencê-lo a ir à arrecadação: trinta segundos. Cortar a garganta do agente: dez segundos. Sair, fechar a porta e seguir para o quarto de Nina Peyton: quinze segundos. Despachar a segunda vítima e sair do quarto: trinta segundos. Tudo somado totalizava dois minutos, no máximo. Sobravam seis minutos. O que teria ele feito durante esse tempo? Estivera a lavar-se? No quarto havia uma grande quantidade de sangue; ele podia ter ficado salpicado.

Tivera muito tempo para poder trabalhar à vontade. A auxiliar de enfermagem só havia encontrado o corpo de Nina dez minutos depois de o homem na imagem do filme ter saído pela porta que dava para as escadas. Mas, nessa altura, já ele poderia estar a mais de um quilómetro dali no seu automóvel.

Um sentido de oportunidade perfeito. Este assassino movimenta-se com a precisão de um relógio suíço.

Abruptamente, Rizzoli sentou-se a direito, a descoberta atravessando-lhe o corpo, qual choque eléctrico.

- Ele sabia. Bolas, Moore, ele sabia que o código de emergência seria accionado! - Olhou para o colega e percebeu, com base na sua reacção tão calma, que ele já chegara à mesma conclusão. - O senhor Gwadowski teve alguma visita?

- O filho. Mas a enfermeira esteve no quarto durante todo o tempo. E estava presente quando o homem precisou de ser reanimado.

- E o que aconteceu antes disso?

- Ela substituiu o saco de soro. Já enviámos esse saco para análise - respondeu Moore.

Rizzoli voltou a concentrar-se no ecrã onde a imagem do homem de bata branca se imobilizava a meio de um passo.

- Isto não fez sentido. Por que motivo se teria ele arriscado tanto?

- Isto foi para acabar o serviço, para se livrar de uma ponta solta... a testemunha.

- Mas o que é que a Nina Peyton testemunhou realmente? Viu um rosto mascarado. Ele sabia que ela não seria capaz de o identificar. Sabia que ela não representava grande perigo. No entanto, deu-se a muito trabalho para a matar. Arriscou-se a ser capturado. O que ganha ele com a morte dela? - perguntou Rizzoli.

- Satisfação. Acabou finalmente por matá-la.

- Mas ele poderia tê-lo feito lá em casa. Moore, ele permitiu que a Nina Peyton continuasse a viver nessa noite. O que significa que já tinha planeado matá-la desta maneira.

- No hospital?

- Sim - confirmou Rizzoli.

- E com que objectivo?

- Não sei. Mas acho intrigante que, de todos os pacientes daquela enfermaria, ele tenha escolhido o Herman Gwadowski para pôr em prática a sua manobra de diversão. Um paciente da Catherine Cordell.

O bíper de Moore começou a tocar. Enquanto fazia o telefonema, Rizzoli voltou a concentrar a sua atenção no ecrã do televisor. Premiu o botão de play e observou o homem de bata branca a aproximar-se da porta. Inclinou a anca para poder empurrar a porta e saiu para as escadas. Teve o cuidado de nunca mostrar o rosto para a câmara. Rizzoli premiu o botão para recuar as imagens, voltando a ver a sequência. Desta vez, quando a anca do homem rodou ligeiramente, ela viu: o chumaço por baixo da bata branca. Era no lado direito, à altura da cintura. O que teria ele ali que não se podia ver? Uma muda de roupa? Os seus instrumentos de morte? Ouviu Moore ao telefone:

- Não lhe toque! Deixe-o exactamente onde está. Vou já para aí.

- Com quem estavas a falar? - perguntou Rizzoli quando ele desligou o telefone.

- Com a Catherine - respondeu Moore. - O nosso indivíduo acabou de lhe enviar outra mensagem.

- Chegou com a correspondência interna - explicou Catherine. - Assim que vi o sobrescrito, soube que era dele.

Rizzoli viu Moore calçar um par de luvas - uma precaução inútil, pensou ela, uma vez que o Cirurgião nunca deixava as suas impressões digitais em nada que pudesse servir de prova. Era um envelope castanho de grandes dimensões fechado com um fio enrolado à volta de um pequeno botão de metal. No topo da primeira linha em branco alguém escrevera com tinta azul e em letra de imprensa: "Para Catherine Cordell. Parabéns pelo aniversário. A. C."

Andrew Capra, concluiu Rizzoli.

- Não o abriu? - perguntou Moore.

- Não, coloquei-o em cima da secretária e depois liguei para si.

- Linda menina.

Rizzoli achou a resposta dele paternalista, mas Catherine não era da mesma opinião e brindou-o com um sorriso tenso. Qualquer coisa passou entre Catherine e Moore. Um olhar, uma corrente quente, que Rizzoli registou com uma pontada dolorosa de ciúme. As coisas entre estes dois já foram mais longe do que eu imaginara.

- Parece estar vazio - disse Moore. Com as mãos enluvadas, desenrolou o fio que fechava o sobrescrito. Rizzoli fez deslizar uma folha de papel branco pela superfície da bancada para aparar o conteúdo. Moore abriu o envelope virando-o com a abertura para baixo.

Do interior caíram uns fios de um vermelho-acastanhado que se acumularam em cima da folha de papel branco.

- Parecem cabelos humanos - observou Rizzoli sentindo um arrepio.

- Oh, meu Deus. Oh, meu Deus...

Rizzoli voltou-se e viu Catherine recuar com uma expressão horrorizada. Rizzoli fixou o olhar no cabelo da médica e depois voltou a olhar para os fios de cabelo que tinham caído de dentro do sobrescrito. É dela. O cabelo é da Cordell.

- Catherine - disse Moore num tom de voz suave que pretendia acalmá-la. - Talvez nem sequer seja seu.

Ela olhou para ele, em pânico.

- E se for? Como é que ele conseguiu...

- Tem alguma escova no seu cacifo do bloco operatório? No seu gabinete?

- Moore - interveio Rizzoli. - Observa estes fios. Não foram retirados de uma escova. As extremidades das raízes foram cortadas. - Virou-se para Catherine. - Qual foi a última pessoa que lhe cortou o cabelo, doutora Cordell?

Andando lentamente, Catherine aproximou-se da bancada e olhou para os cabelos cortados como se estivesse a olhar para uma víbora venenosa.

- Eu sei quando é que ele fez isso - disse em voz baixa. - Recordo-me.

- Quando?

- Foi naquela noite... - Catherine olhou para Rizzoli com uma expressão atordoada. - Em Savannah.

Rizzoli desligou o telefone e olhou para Moore.

- O detective Singer confirma. Uma das madeixas dela foi cortada.

- E por que razão esse pormenor não consta do relatório do Singer?

- Porque a Cordell só deu por isso no segundo dia de hospitalização, quando se viu ao espelho. Uma vez que o Capra estava morto e não foram encontrados cabelos nenhuns no local do crime, o Singer deduziu que o cabelo teria sido cortado pelo pessoal do hospital. Talvez durante um tratamento de emergência. Não te lembras de que a cara da Cordell ficou bastante pisada? Nas Urgências podem ter-lhe cortado cabelo para limpar uma área qualquer do couro cabeludo.

- O Singer alguma vez confirmou se teria sido de facto alguém do hospital que lhe cortou o cabelo?

- Não - respondeu Rizzoli atirando o lápis para o lado e respirando fundo. - Ele nunca investigou esse pormenor.

- Deixou que o assunto ficasse por aí? Nem sequer mencionou esse pormenor no relatório porque não fazia sentido.

- Na verdade, não faz sentido! Por que motivo os fios de cabelo não foram encontrados no local do crime, juntamente com o corpo do Capra?

- A Catherine não se lembra de grande parte do que aconteceu nessa noite. O Rohypnol obscureceu uma boa porção da memória dela. Talvez o Capra tenha saído da casa. Para voltar mais tarde.

- De acordo. Mas aqui está o mais intrigante de tudo. O Capra está morto. Portanto, como é que esta recordação foi parar às mãos do Cirurgião?

Era algo para que Moore não tinha resposta. Dois assassinos, um morto e o outro vivo. O que uniria esses dois monstros? O elo de ligação entre os dois era mais do que mera energia psíquica; agora tinha adquirido uma dimensão física, que podiam ver e palpar.

O detective baixou o olhar para os dois sacos que continham provas. A etiqueta de um deles dizia: Cabelos cortados de origem desconhecida. O segundo saco transparente continha uma amostra dos cabelos de Catherine para efeitos de comparação. Fora ele próprio que cortara os fios de cabelo acobreado e os guardara no saco transparente hermeticamente fechado. Sem dúvida que um cabelo como aquele seria uma recordação tentadora. O cabelo era uma coisa tão pessoal. Acompanha uma pessoa para todo o lado, dorme-se com ele. Possui fragrância, cor e textura. É a essência de qualquer mulher. Não admirava pois que Catherine tivesse ficado horrorizada ao saber que um homem que não conhecia estava de posse de uma parte tão íntima da sua pessoa. Ficar a saber que ele o afagara, que o cheirara, familiarizando-se como um amante com o seu aroma.

Nesta altura, o Cirurgião já conhece bem o cheiro dela.

Era quase meia-noite, mas as luzes da casa continuavam acesas. Através dos cortinados fechados, ele viu a silhueta dela a passar, o que significava que estava acordada.

Moore aproximou-se do carro-patrulha estacionado à porta, inclinando-se para falar com os dois agentes no interior.

- Alguma novidade?

- Desde que entrou em casa não voltou a sair. Tem-se fartado de andar de um lado para o outro. Ao que tudo indica, vai ter uma noite muito inquieta.

- Vou falar com ela - disse Moore, dando meia volta para atravessar a rua.

- Tenciona ficar toda a noite?

Moore deteve-se. Virou-se com movimentos rígidos e olhou para o agente da polícia.

- Desculpe?

- Perguntei-lhe se ia ficar toda a noite. Porque, se ficar, vou ter de dar essa informação à equipa que nos substituirá. Só para eles saberem que é um de nós que está lá em cima com ela.

Moore engoliu a irritação. A pergunta do agente fora bastante razoável. Porque se sentira ele tão ofendido?

Porque sei qual a impressão que isto deve dar, entrar pela porta da casa dela à meia-noite. Sei o que deve estar a passar pela cabeça deles. Éa mesma coisa que passa pela minha.

No mesmo instante em que entrou no apartamento, leu a pergunta na expressão dos olhos dela e respondeu-lhe com um aceno de cabeça sombrio.

- Lamento ter de lhe dizer que o laboratório confirmou. Os cabelos que ele enviou são seus.

Catherine recebeu a notícia com um silêncio de aturdimento.

Na cozinha, a chaleira que estava ao lume começou a assobiar. Ela voltou-se e saiu da sala.

Quando observou a porta, os olhos de Moore demoraram-se na fechadura nova de metal luzidio. O aço temperado parecia tão inócuo contra um oponente capaz de caminhar através das paredes. Moore seguiu-a até à cozinha e viu-a apagar o lume. Com gestos pouco coordenados, Catherine pegou numa caixa com saquetas de chá, soltando uma exclamação de surpresa quando elas se espalharam pela bancada. Era uma coisa tão insignificante, contudo, pareceu ser a gota de água. Encostou-se ao balcão, desalentada, os dedos enclavinhados, os nós dos dedos esbranquiçados junto dos azulejos brancos. Fazia um esforço titânico para não chorar, para não se ir abaixo à frente dele, mas estava a perder a batalha. Moore sentiu-a respirar fundo. Viu os seus ombros contraídos, todo o seu corpo a esforçar-se por reprimir o choro.

Moore não conseguiu suportar por mais tempo vê-la naquela aflição. Aproximou-se e puxou-a para si. Abraçou-a enquanto ela tremia nos seus braços. Durante todo o dia tinha pensado em abraçá-la, ansiara por poder tê-la junto de si. Mas não desejara que fosse daquela maneira, com ela a ser impelida pelo medo para os seus braços. Moore queria ser mais do que um porto seguro, um homem em quem se podia confiar.

No entanto, era precisamente disso que ela precisava naquele momento. Assim, ele continuou a envolvê-la nos braços, escudando-a contra os terrores da noite.

- Por que motivo isto está a acontecer outra vez? - perguntou ela num sussurro.

- Não sei, Catherine.

- É o Capra...

- Não. Ele morreu - atalhou Moore, emoldurando-lhe a face com as mãos e forçando-a a olhar para si. - O Andrew Capra está morto.

Com os olhos presos nos dele, Catherine ficou muito quieta nos seus braços.

- Mas então porque é que o Cirurgião me escolheu?

- Se alguém souber responder a essa pergunta, esse alguém é você.

- Mas eu não sei.

- Talvez não a um nível consciente. Mas foi você mesma que me disse que não se recorda de tudo o que aconteceu em Savannah. Não se lembra de ter disparado a segunda bala. Não se lembra de quem lhe cortou o cabelo, nem quando. De que mais é que não se lembra?

Catherine abanou a cabeça. Depois pestanejou, sobressaltada ao ouvir o som do bíper dele.

Porque não me deixam em paz? Dirigiu-se para o telefone na parede da cozinha a fim de ligar para quem tentara entrar em contacto com ele.

A voz de Rizzoli saudou-o com um tom acusatório.

- Estás em casa dela.

- Bom palpite.

- Não, sistema de identificação de números de telefone. É meia-noite. Já pensaste no que estás a fazer?

- Porque me ligaste? - perguntou Moore, irritado.

- Ela está a ouvir?

Moore viu Catherine sair da cozinha. Sem ela, o aposento pareceu subitamente vazio. Despojado de qualquer interesse.

- Não - respondeu ele.

- Tenho andado a pensar nos cabelos cortados. Sabes, existe outra explicação quanto à maneira como ele ficou na posse disso.

- E que explicação é essa?

- Foi ela própria que lhe enviou os cabelos.

- Não acredito no que estou a ouvir!

- E eu não acredito que essa possibilidade nem sequer te tenha ocorrido! - ripostou Rizzoli.

- Qual seria o motivo?

- O mesmo motivo que leva os homens a entrarem numa esquadra de polícia para confessarem a autoria de assassínios que nunca cometeram. Pensa só em toda a atenção de que ela está a ser alvo! A tua atenção. É meia-noite e tu estás aí, preocupado com ela. Não estou a dizer que o Cirurgião não tenha andado atrás dela. Mas esta história do cabelo faz-me recuar e dizer: Espera aí! Está na hora de analisarmos tudo o mais que possa estar a acontecer. Como é que esses cabelos chegaram à mão do Cirurgião? Terá sido o Capra que lhos deu há dois anos? Mas como é que ele poderia ter feito isso quando estava morto, caído no soalho do quarto dela? Tu viste as inconsistências entre o depoimento dela e o relatório da autópsia do Andrew Capra. Sabemos que ela não contou toda a verdade.

- Esse depoimento contém declarações induzidas pelo detective Singer - contrapôs Moore.

- Acreditas que ele lhe impingiu a história?

- Pensa na pressão a que o Singer estava sujeito nessa altura. Quatro assassínios. Toda a gente a exigir a detenção de alguém. E ele arranjou uma bela solução: o criminoso estava morto, alvejado pela mulher que escolheu como sua próxima vítima. Catherine encerrou-lhe o caso de uma maneira favorável, mesmo que ele tivesse de pôr as palavras na boca dela. - Moore fez uma pausa. - Precisamos de saber o que aconteceu verdadeiramente nessa noite em Savannah.

- Ela é a única pessoa que esteve presente. Mas afirma que não se lembra de tudo o que aconteceu.

- Ainda não - retorquiu Moore olhando para Catherine que, entretanto, havia regressado à cozinha.

 

- Tem a certeza de que a doutora Cordell concordou em fazer isto? - perguntou Alex Polochek.

- Ela já chegou e está à sua espera - replicou Moore.

- Não a convenceu a fazer isto, pois não? É que a hipnose não resulta se o indivíduo em questão mostrar resistência. Ela tem de cooperar a cem por cento, caso contrário será uma perda de tempo.

Uma perda de tempo fora a expressão com que Rizzoli já classificara aquela sessão; a opinião dela era partilhada por mais uns quantos detectives da brigada. Consideravam que a hipnose era uma actividade de salão, um misto de espectáculo de Las Vegas e ilusionismo. Em determinada altura, Moore havia concordado com eles.

Porém, o caso de Meghan Florence fizera-o mudar de ideias.

Em 31 de Outubro de 1998, Meghan, uma garota de dez anos de idade, seguia a caminho de casa vinda da escola quando um automóvel parou ao seu lado. Nunca mais voltou a ser vista com vida.

A única testemunha que presenciou o rapto foi um rapazinho de doze anos que na altura se encontrava por perto. Apesar de não haver nada que lhe obstruísse o ângulo de visão em relação ao carro, ele não era capaz de descrever o tamanho nem a cor, nem o número da matrícula. Semanas mais tarde, sem que se verificassem quaisquer progressos, os pais da garota insistiram em contratar os serviços de um hipnotizador para interrogar o rapaz. Dado que todos os aspectos da investigação estavam esgotados, ainda que com relutância, a polícia acabou por concordar.

Moore esteve presente aquando da sessão de hipnotismo. Viu Alex Polochek induzir o estado de hipnose no rapaz, ouvindo, perplexo, o garoto a revelar calmamente o número da matrícula do automóvel.

O corpo de Meghan Florence foi recuperado dois dias depois; tinha sido enterrado nas traseiras da casa do sequestrador.

Moore esperava que a magia que o hipnotismo de Polochek produzira no rapaz pudesse repetir-se com Catherine Cordell.

Os dois homens encontravam-se no lado de fora da sala, olhando através do vidro espelhado para Catherine e Rizzoli. Catherine parecia agitada. Não parava de se mexer na cadeira, olhando frequentemente para o vidro da divisória, como se soubesse que estava a ser observada. Na pequena mesa ao seu lado, a caneca de chá continuava intacta.

- O reviver desta recordação vai ser muito doloroso para ela - disse Moore. - É possível que ela queira cooperar, mas a experiência não vai ser nada agradável. Na altura em que foi atacada continuava sob a influência do Rohypnol.

- Uma memória drogada por algo que aconteceu há dois anos? Evocê disse ainda que talvez não seja autêntica.

- Um dos detectives em Savannah talvez a tenha sugestionado quando a interrogou.

- Sabe que não posso fazer milagres. Além disso, qualquer informação que obtenhamos não será admissível como prova. Isto invalidará qualquer depoimento que ela possa fazer num tribunal.

- Eu sei.

- Mesmo assim quer prosseguir?

- Sim - confirmou o detective.

Moore abriu a porta e os dois homens entraram na sala.

- Catherine - começou Moore -, este é o homem de que lhe falei, Alex Polochek. É um hipnotizador que trabalha para o Departamento da Polícia de Boston.

Enquanto trocava um aperto de mão com Polochek, Catherine soltou uma pequena gargalhada de nervosismo.

- Peço desculpa - disse, constrangida. - Acho que não sabia bem o que esperar.

- Esperava que eu usasse uma capa negra e uma varinha de ilusionista - adiantou Polochek.

- Sei que é uma noção ridícula, mas sim, é verdade.

- Em vez disso, aparece-lhe um sujeito baixote, gorducho e careca.

Catherine voltou a rir-se, desta vez um tudo-nada mais descontraída.

- Nunca foi hipnotizada? - perguntou-lhe ele.

- Não. E para ser franca, acho que não serei susceptível de ser hipnotizada.

- E o que a leva a julgar isso?

- Porque, para dizer a verdade, não acredito...

- No entanto, concordou em deixar-me tentar.

- O detective Moore achou que eu devia fazer isso.

Polochek sentou-se numa cadeira de frente para ela.

- Doutora Cordell, não é necessário acreditar na hipnose para que esta sessão produza resultados positivos. Mas é imprescindível que queira cooperar. Vai ter de confiar em mim. E tem de estar disposta a descontrair-se e alhear-se de tudo o que a rodeia. Para permitir que eu a oriente de modo a entrar num estado diferente. É muito semelhante à fase por que passa antes de adormecer. Não ficará adormecida. Asseguro-lhe que terá percepção de tudo o que se passa à sua volta. Mas estará tão descontraída que será capaz de chegar a partes da sua memória a que normalmente não tem acesso. É como se estivesse a abrir um Arquivo fechado à chave no seu cérebro, podendo, finalmente, ter acesso às gavetas e tirar as pastas.

- Essa é a parte em que eu não acredito. Que a hipnose seja capaz de fazer com que me recorde de coisas de que não tenho qualquer memória.

- Não fará com que se recorde. Permitir-lhe-á que o faça.

- De acordo, permitirá que me lembre. No entanto, parece-me pouco provável que isto possa ajudar-me a lembrar-me de algo de que não sou capaz de me recordar sozinha.

- Sim - retrucou Polochek com um aceno de aquiescência -, tem razão em mostrar cepticismo. Parece pouco provável, não é verdade? Mas vou dar-lhe um exemplo de como as recordações podem ficar bloqueadas. A isto chama-se a "Lei do Efeito Inverso". Quanto mais esforços fizer para se recordar de uma determinada coisa, menos probabilidades terá de vir a conseguir lembrar-se. Tenho a certeza de que já passou por esta experiência. Todos passámos. Por exemplo, vê uma actriz famosa no ecrã da sua televisão e sabe o nome dela. Mas por mais voltas que dê à cabeça, não é capaz de se lembrar. É possível que passe uma hora a vasculhar o cérebro à procura do nome dela. Chega âo ponto de perguntar a si mesma se não sofrerá de Alzhei-mer prematura. Diga-me lá se isto não lhe aconteceu já?

- Constantemente - admitiu Catherine, que já sorria. Era evidente que simpatizava com Polochek e se sentia à vontade na presença dele. Um bom princípio.

- Mas, mais cedo ou mais tarde, acaba por se lembrar do nome da dita actriz, não é verdade? - perguntou ele.

- Sim - confirmou Catherine.

- E quando é que é mais provável que isso se verifique?

- Quando deixo de me esforçar por lembrar. Quando me descontraio e começo a pensar noutra coisa. Ou quando já estou deitada na cama, prestes a adormecer.

- Precisamente. É quando se descontrai, quando a sua mente pára de perscrutar desesperadamente a gaveta desse arquivo. É nessa altura que, como que por magia, a gaveta se abre e a pasta salta cá para fora. Esta analogia faz com que o conceito de hipnose lhe pareça mais plausível?

Catherine acenou que sim.

- Pois bem, é precisamente isso que vamos fazer. Ajudá-la a descontrair-se. Dar-lhe os meios para conseguir ter acesso a esse arquivo.

- Acho que não vou conseguir descontrair-me o suficiente.

- O que poderá impedi-la? Esta sala? A cadeira?

- A cadeira é óptima. É... - Com um mal-estar evidente, Catherine olhou para a câmara de vídeo. - É a assistência.

- Os detectives Moore e Rizzoli terão de sair da sala. Quanto à câmara, não passa de um objecto. Um vulgar aparelho. Pense nela como sendo apenas isso.

- Vou tentar...

- Há mais alguma coisa que a incomode?

- Tenho medo - respondeu Catherine em voz baixa, depois de uma pausa.

- De mim?

- Não. Da recordação. De a reviver.

- Eu jamais a obrigaria a isso. O detective Moore disse-me que foi uma experiência muito traumatizante para si, pelo que não vamos forçá-la a revivê-la. Iremos abordá-la de maneira diferente. De modo a que o medo não bloqueie as suas recordações.

- E como posso saber se são recordações autênticas? E não apenas fruto da minha imaginação?

- O facto de as suas recordações poderem não ser verdadeiras é motivo para preocupação. Já passou muito tempo. Mas vamos ter de trabalhar com o que se encontra no seu subconsciente. Devo dizer-lhe que eu próprio sei muito pouco a respeito do seu caso. Tento não saber muito, para evitar influenciar as recordações que guarda dentro de si. Tudo o que me disseram foi que o caso de que foi vítima ocorreu há dois anos, e que estava drogada com Rohypnol. Para além disso, não sei mais nada. Portanto, as recordações que lhe ocorrerem serão suas. Estou aqui apenas para a ajudar a abrir esse arquivo.

- Acho que estou pronta - retorquiu Catherine com um suspiro.

Polochek olhou para os dois detectives.

Moore fez-lhe um aceno de cabeça e, acompanhado por Rizzoli, saiu da sala.

Já no outro lado da divisória de vidro, viram Polochek pegar numa caneta e num bloco de apontamentos e colocá-los na mesa ao seu lado. Fez mais algumas perguntas. O que costumava ela fazer para se descontrair. Se havia algum lugar especial, uma recordação especial, que achasse particularmente tranquilizadora.

- Durante o Verão, na minha infância - começou Catherine -, costumava visitar os meus avós que viviam em New Hampshire. Tinham um chalé de madeira à beira de um lago.

- Descreva-mo. Com todos os pormenores.

- Era um local muito tranquilo. Uma casa pequena. Com um grande alpendre de frente para o lago. Junto à casa havia várias fram-boeseiras. Eu costumava apanhar framboesas. E nas bermas do carreiro que levava ao ancoradouro, a minha avó plantou lírios-amarelos.

- Recapitulando, recorda-se das framboesas e das flores.

- Sim. E da água. Eu adorava o lago. Costumava deitar-me ao sol em cima do ancoradouro.

- É bom saber isso - disse Polochek, rabiscando alguns apontamentos no seu bloco e voltando a pousar a caneta. - Muito bem. Agora vamos começar por respirar fundo três vezes. Expire lentamente de cada vez que o fizer. Assim mesmo. Agora feche os olhos e concentre-se apenas na minha voz.

Moore viu Catherine cerrar as pálpebras com lentidão.

- Começa a gravar - disse ele a Rizzoli.

A detective premiu o botão de record da câmara de vídeo e a fita começou a girar.

Na sala contígua, Polochek orientava Catherine de modo a que esta se descontraísse totalmente, instruindo-a para que começasse por se fixar nos dedos dos pés, sentindo que a tensão a abandonava. Agora os dedos iriam ficar flácidos enquanto a sensação de descontracção se ia estendendo até à barriga das pernas.

- Acreditas realmente nesta merda? - perguntou Rizzoli.

- Já a vi resultar.

- Sim, talvez resulte. Porque, não tarda nada, adormeço.

Moore olhou para Rizzoli, que estava sentada, de braços cruzados, o lábio inferior espetado numa expressão de cepticismo feito de obstinação.

- Observa - disse ele.

- Quando é que ela vai começar a levitar?

Polochek orientava o foco de relaxamento para os músculos da parte superior do corpo de Catherine, indo das coxas para as costas e ombros. Naquele momento, os braços pendiam inertes, paralelos ao corpo. Ela tinha uma expressão serena, despreocupada. O ritmo da sua respiração havia abrandado, fazendo-se de maneira mais profunda.

- Agora vamos visualizar um lugar que ama - continuou Polochek. - O chalé dos seus avós à beira do lago. Quero que se veja nesse alpendre enorme. A olhar para a água. O dia está quente e não sopra vento nenhum. O único som é o chilrear dos pássaros, nada mais. É um lugar onde se respira paz e tranquilidade. O sol brilha na água...

No rosto de Catherine espelhou-se uma expressão de tanta serenidade que Moore mal conseguia acreditar que estava a olhar para a mesma mulher. Viu calor humano e todas as esperanças risonhas de uma jovem. "Estou a olhar para a criança que ela foi em tempos", pensou ele. Antes da perda da inocência, antes de todas as decepções da idade adulta. Antes de Andrew Capra ter deixado nela a sua marca.

- A água está tão convidativa, tão bonita - continuou Polochek. - Começa a descer os degraus do alpendre e percorre o carreiro em direcção ao lago.

Catherine continuava sentada sem fazer um único movimento, um semblante completamente relaxado, as mãos inertes no regaço.

- O solo é macio debaixo dos seus pés. Os raios solares incidem sobre as suas costas e sente o calor. Algures numa árvore um pássaro faz ouvir o seu chilrear. Não há nada que a perturbe. A cada passo que dá, sente-se mais tranquila... envolvida por uma calma cada vez mais profunda. O carreiro é ladeado por flores nas duas bermas, lírios-amarelos. Deles emana uma fragrância doce e, quando roça por eles, inspira esse aroma. É uma fragrância especial, mágica, que lhe provoca sono. Enquanto caminha, começa a sentir as pernas cada vez mais pesadas. A fragrância das flores é como um narcótico cujo efeito faz com que se sinta mais relaxada. E o calor do sol como que derrete toda a tensão que sente nos músculos.

"Agora já se encontra próximo da água. E vê um pequeno barco ao fundo do ancoradouro. Encaminha-se para esse ancoradouro. As águas estão calmas, como um espelho. Como uma superfície de vidro. O pequeno barco que se encontra na água nem sequer balouça, limita-se a flutuar no mesmo lugar, tão imóvel quanto é possível. É um barco mágico. Sem ninguém a navegá-lo, pode levá-la a todo o lado. Onde quer que deseje ir. Para isso, só precisa de entrar nele. Portanto, erga o pé direito para entrar a bordo.

Moore olhou para os pés de Catherine, verificando que o pé direito se tinha realmente erguido e estava suspenso a alguns centímetros do chão.

- Isso mesmo. Entre com o pé direito. O barco mantém-se estável. Proporciona-lhe segurança, sabe que está a salvo. Sente-se inteiramente confiante e confortável. Agora ponha o pé esquerdo.

O pé esquerdo de Catherine elevou-se do chão, voltando a baixar muito lentamente.

- Céus, não acredito nisto! - exclamou Rizzoli.

- Estás a ver com os teus próprios olhos.

- Sim, mas como posso ter a certeza de que ela está realmente hipnotizada? Que não está a fingir?

- Não sabes - retorquiu Moore.

Polochek aproximou-se mais de Catherine, mas sem lhe tocar, servindo-se apenas da voz para a guiar através do transe.

- Agora desamarre a corda que prende o barco ao ancoradouro. O barco está solto e desloca-se pela água. Você controla a situação. Só precisa de pensar num lugar e, como que por magia, o barco levá-la-á a esse lugar. - Polochek lançou um olhar fugaz na direcção do vidro espelhado, fazendo um breve aceno de cabeça.

- Ele agora vai levá-la de volta ao passado - disse Moore.

- Muito bem, Catherine. - Polochek anotou no seu bloco a hora a que a indução fora completada. - Agora vai levar o barco para outro lugar. Para outro tempo. Continua a controlar a situação. Vê uma bruma começar a levantar-se da superfície da água, uma neblina cálida e suave que é agradável no seu rosto. O barco desliza até lá. Estende a mão e toca na água, sentindo que é como seda. Tão cálida, tão mansa. Agora a bruma começa a levantar e mesmo à sua frente vê um edifício na margem da água. Uma casa com uma única porta.

Moore deu consigo a inclinar-se mais para o vidro espelhado. Tinha as mãos contraídas e sentia a pulsação mais acelerada.

- O barco leva-a à margem e você desembarca. Percorre um caminho que a leva à casa e abre a porta. O interior é uma única divisão. Tem uma bela alcatifa espessa. E uma poltrona. Você senta-se nessa poltrona que é a mais confortável de todas em que já se sentou. Sente-se completamente à vontade. E com controlo da situação.

Catherine soltou um suspiro fundo de satisfação, como se tivesse acabado de se instalar em almofadões extremamente fofos.

- Agora olhe para a parede que está à sua frente e vê um ecrã de cinema. É um ecrã de cinema mágico porque pode projectar imagens de cenas de qualquer altura da sua vida. Pode regressar ao passado mais remoto. Você continua a controlar a situação. Tem poder para fazer com que as imagens avancem ou recuem. Pode pará-las a qualquer altura. Tudo depende da sua vontade. Vamos experimentar. Vamos recuar até uma fase feliz da sua vida. Uma altura em que tenha estado no chalé dos seus avós à beira do lago. Está a colher framboesas. Vê isso no ecrã?

Catherine levou muito tempo a responder-lhe. Quando, finalmente, falou, as suas palavras foram ditas num tom de voz tão baixo que Moore mal conseguiu ouvi-las.

- Sim. Estou a ver.

- O que está você a fazer? No ecrã? - perguntou Polochek.

- Estou a pegar num saco de papel. A apanhar framboesas e a pô-las dentro do saco.

- E come-as à medida que as vai apanhando?

Um sorriso no rosto dela, suave e sonhador.

- Oh, sim. São doces. E ainda têm o calor do sol.

Moore franziu o sobrolho. Aquilo era inesperado. Ela estava a experimentar o sabor e o toque, o que significava que revivia aqueles momentos. Não se limitava a ver a cena num ecrã de cinema; encontrava-se na cena. Viu que Polochek olhava de relance para o vidro espelhado com uma expressão preocupada. Tinha optado pela sequência de imagens num ecrã para a distanciar do trauma causado pela experiência. Mas ela não estabelecia distância nenhuma. Agora Polochek hesitava, considerando o que fazer a seguir.

- Catherine - disse ele. - Quero que se concentre no lugar em que está sentada. Está numa poltrona, numa sala a olhar para um ecrã de cinema. Repare em como a poltrona é confortável. A maneira como parece abraçar as suas costas. Está a sentir esse conforto?

- Sim - respondeu ela após uma pausa.

- Muito bem. Muito bem, agora vai continuar sentada nessa poltrona. Não vai levantar-se daí. Vamos usar o ecrã mágico para vermos uma cena diferente da sua vida. Mantenha-se sentada na poltrona. E continuará a sentir o almofadado macio nas suas costas. E aquilo que vai ver é apenas um filme projectado no ecrã. De acordo?

- De acordo.

- Muito bem - continuou Polochek, respirando fundo. - Vamos voltar à noite de quinze de Junho, em Savannah. A noite em que o Andrew Capra bateu à porta da sua casa. Diga-me o que está a acontecer no ecrã.

Moore observava tudo atentamente, mal se atrevendo a respirar.

- Ele está no meu alpendre da frente - disse Catherine. - Diz que precisa de falar comigo.

- A respeito de quê?

- A respeito de erros que cometeu. No hospital.

O que ela disse a seguir não diferia das declarações que fizera ao detective Singer em Savannah. Contra vontade, convidou Capra a entrar em sua casa. A noite estava quente e ele disse que tinha sede, e ela ofereceu-lhe uma cerveja. Abriu outra para si. Ele parecia agitado, preocupado com o futuro. Sim, é verdade que tinha cometido alguns erros. Mas isso não acontecia com todos os médicos? Excluí-lo do programa de estágio seria estar a desperdiçar os seus talentos. Conhecia um estudante de Medicina da Emory, um jovem brilhante, que cometera um único erro, mas fora o suficiente para pôr fim à futura carreira desse universitário. Não era justo que Catherine tivesse a última palavra sobre a carreira profissional de quem quer que fosse. Todos mereciam uma segunda oportunidade.

Apesar de ela ter tentado fazer com que ele visse as coisas de forma racional, apercebeu-se da cólera dele, viu as mãos tremerem-lhe. A dada altura, Catherine saiu da sala para ir à casa de banho, dando-lhe a oportunidade de se acalmar.

- E quando voltou da casa de banho? - perguntou Polochek. - Quero que diga o que se passa no filme? O que é que está a ver?

- O Andrew está mais calmo. Já não parece tão irritado. Diz que compreende a minha posição. Sorri-me quando acabo de beber a cerveja.

- Sorri-lhe?!

- Estranho. Um sorriso muito estranho. Como o que me dirigiu no hospital...

Moore ouviu-a respirar mais depressa. Até como mera observadora, assistir a uma cena de um filme imaginário não a deixava imune ao horror que se aproximava.

- O que aconteceu a seguir?

- Começo a adormecer - respondeu Catherine.

- Está a ver isso no ecrã de cinema?

- Estou.

- E depois?

- Não vejo nada. O ecrã está preto.

O Rohypnol. Ela não guardou qualquer recordação desta parte.

- Muito bem - disse Polochek. -- Vamos avançar, deixando a parte a negro do filme. Passemos à parte seguinte. Concentremo-nos na próxima imagem que vir no ecrã.

A respiração de Catherine era cada vez mais agitada.

- O que está a ver?

- Eu... estou deitada na minha cama. No meu quarto. Não consigo mexer os braços nem as pernas.

- E porquê?

- Estou amarrada à cama. Estou toda nua e ele está deitado em cima de mim. Ele está dentro de mim. Mexe-se dentro de mim...

- O Andrew Capra?

- Sim. Sim... - Naquele momento, a respiração tornara-se irregular, o som do medo a alojar-se na garganta. .

Moore cerrou os punhos, sentindo a sua própria respiração acelerar-se. Esforçou-se por refrear a ânsia de bater no vidro e pôr fim ao que se estava a passar no outro lado. Era-lhe quase insuportável ouvir aquilo. Não deviam obrigá-la a reviver a violação.

No entanto, Polochek já se apercebera do perigo e apressou-se a desviá-la daquela recordação penosa.

- Continua sentada na sua cadeira - prosseguiu Polochek. - Está em segurança nessa sala a olhar para o ecrã. Trata-se apenas de um filme, Catherine. O que acontece é com outra pessoa. Está em segurança. A salvo. Confiante.

A respiração dela voltou a acalmar-se, abrandando para um ritmo estável. O mesmo aconteceu à de Moore.

- Muito bem. Vamos continuar a ver o filme. Preste atenção ao que você está a fazer. Não ao que o Andrew faz. Diga-me o que acontece a seguir.

- O ecrã voltou a ficar negro. Não consigo ver nada.

Ela ainda não conseguiu ultrapassar os efeitos do Rohypnol.

- Vamos avançar, passando à frente da parte a negro. Concentremo-nos na imagem que vai ver a seguir. O que é que vê?

- Luz. Estou a ver luz...

- Quero que deixe de se focar tanto em si, Catherine - continuou Polochek depois de uma curta pausa. - Quero que se distancie, que observe mais o que se encontra no quarto. O que vê no ecrã?

- Coisas. Em cima da mesa-de-cabeceira.

- Que coisas?

- Instrumentos. Um bisturi. Estou a ver um bisturi.

- Onde está o Andrew?

- Não sei - respondeu Catherine.

- Ele não está no quarto?

- Ele saiu. Estou a ouvir o barulho de água a correr.

- O que é que acontece a seguir?

Catherine respirava mais depressa, falando num tom agitado.

- Começo a puxar as cordas. Tento libertar-me. Não consigo mexer os pés. Mas a minha mão direita... sinto a corda solta à volta do pulso. Puxo. Continuo a puxar e a puxar. Tenho o pulso a sangrar.

- O Andrew ainda está fora do quarto?

- Sim. Ouço-o a rir-se. Ouço a voz dele.. Mas o som vem de outra parte da casa.

- O que é que está a acontecer com a corda?

- Está a sair. O sangue fá-la escorregar e a minha mão começa a deslizar para fora...

- E o que faz a seguir?

- Estendo a mão para o bisturi. Corto a corda do outro pulso. Mas tudo isto leva muito tempo, sinto-me agoniada. As minhas mãos não se mexem como deve ser. São demasiado lentas e o quarto está cada vez mais escuro... Há luz e depois escuridão. Continuo a ouvir a voz dele. Estendo a mão para baixo e corto a corda que me prendia o tornozelo esquerdo. Agora ouço o barulho dos passos dele. Tento escorregar para fora da cama, mas o tornozelo direito ainda está amarrado. Rebolo pela beira da cama e caio no chão. Bato com a cara.

- E depois?

- O Andrew está ali, à entrada do quarto. Parece surpreendido. Estendo a mão para debaixo da cama. Consigo apalpar a arma.

- Tem uma arma debaixo da cama?

- Sim. A arma do meu pai. Mas a minha mão está tão desajeitada que mal consigo pegar na pistola. E as coisas começam a ficar escuras outra vez.

- Onde está o Andrew?

- Está a aproximar-se de mim...

- E o que é que acontece, Catherine?

- Empunho a arma. E ouço um som. Um som alto.

- A arma foi disparada?

- Sim - confirmou Catherine.

- Foi você que disparou a arma?

- Sim.

- E o que é que o Andrew faz?

- Ele cai. Tem as mãos no estômago. O sangue escorre-lhe por entre os dedos.

- E o que acontece a seguir?

Fez-se uma pausa demorada.

- Catherine? O que está a ver no ecrã de cinema?

- Preto. O ecrã ficou todo preto.

- E quando é que a imagem seguinte aparece nesse ecrã?

- Pessoas. Uma data de gente no quarto.

- Que pessoas são essas?

- Polícias...

Moore quase gemeu de desapontamento. Aquela era a lacuna vital na memória dela. O Rohypnol, em combinação com as sequelas da concussão na cabeça, voltara a pô-la num estado de inconsciência. Catherine não se recordava de ter disparado o segundo tiro. Continuavam sem saber como Andrew Capra acabara por ser atingido com uma bala no cérebro.

Polochek olhava para a divisória de vidro com uma pergunta nos olhos. Estavam satisfeitos?

Para surpresa de Moore, Rizzoli abriu subitamente a porta, indicando a Polochek com um gesto que fosse até à sala contígua. Ele assim fez, deixando Catherine sozinha e fechando a porta.

- Faça com que ela recue até antes de ter disparado. Quando ainda estava deitada na cama - disse Rizzoli. - Quero que faça com que ela se concentre no que ouve, no que se passa na outra divisão. A água a correr. O Capra a rir-se. Quero que ela descreva todos os sons que ouve.

- Por alguma razão em especial?

- Faça só o que lhe peço.

Polochek anuiu com um aceno de cabeça, voltando para a sala.

Catherine não se tinha mexido; continuava sentada completa-mente imobilizada, como se a ausência de Polochek a tivesse deixado em suspenso.

- Catherine - recomeçou ele numa voz suave. - Quero que volte atrás no filme. Vamos recuar até aos momentos antes dos disparos. Antes de ter conseguido libertar as mãos e rebolar da cama. Está no ponto do filme em que se encontra deitada na cama e o Andrew se ausentou do quarto. Há pouco disse-me que ouvia água a correr.

- Sim - confirmou ela.

- Descreva-me tudo o que está a ouvir.

- Agua. Ouço-a a correr nos canos. O sibilar. E ouço-a a gorgolejar pelo cano abaixo.

- Essa água corre para dentro de um lavatório?

- Sim.

- E também disse que ouviu risos.

- É o Andrew que está a rir-se.

- Ele também está a falar?

- Sim - respondeu ela depois de uma pausa.

- O que é que ele diz?

- Não sei. Está demasiado longe.

- Tem a certeza de que é a voz do Andrew? Não será talvez o som da televisão?

- Não, é a voz dele. É o Andrew a falar.

- De acordo. Abrande a velocidade do filme. Passe as imagens segundo a segundo. Descreva-me o que está a ouvir.

- Água... continua a correr. O Andrew diz: "Simples." A palavra "simples".

- Mais nada?

- Ele diz: "Ver uma, fazer uma, ensinar uma."

- "Ver uma, fazer uma, ensinar uma"? É o que ele diz?

- Sim - confirmou Catherine.

- E o que ouve a seguir?

- "É a minha vez, Capra."

- Importa-se de repetir isso? - pediu Polochek depois de uma pequena pausa.

- "É a minha vez, Capra."

- O Andrew diz isso?

- Não. Não foi o Andrew que falou.

Moore ficou petrificado, os olhos presos na mulher que continuava sentada, imóvel.

Com uma expressão de perplexidade no rosto, Polochek olhou para o vidro. Voltou a concentrar-se em Catherine.

- Quem é que diz essas palavras? - perguntou. - Quem é que diz: "É a minha vez, Capra"?

- Não sei. Não reconheço essa voz.

Moore e Rizzoli ficaram a olhar um para o outro. Havia outra pessoa dentro de casa.

 

Neste momento ele está com ela.

A faca de Rizzoli deslocava-se desajeitadamente pela tábua de cortar e os pedaços de cebolas resvalaram da bancada, espalhando-se pelo chão. Na sala contígua, o pai e os dois irmãos viam televisão com o volume no máximo. Naquela casa, o televisor estava sempre com o som no máximo, o que significava que todos eram obrigados a berrar para se fazerem ouvir. Se não se gritasse em casa de Frank Rizzoli, ninguém se ouvia; assim, qualquer conversa em família, por muito banal que fosse, soava a uma discussão acalorada. Colocou as cebolas cortadas dentro de uma tigela e começou a cortar dentes de alho, os olhos a arder, os pensamentos concentrados nas imagens perturbadoras de Moore e Catherine Cordell.

Depois da sessão com o Dr. Polochek, fora Moore que acompanhara a Dra. Cordell a casa. Rizzoli vira-os caminhar lado a lado para o elevador, vira-o pôr o braço à volta dos ombros dela, um gesto que lhe pareceu ser mais do que apenas protector. Apercebeu-se da forma como ele olhava para Catherine Cordell, da expressão que lhe surgia no rosto, do cintilar dos olhos. Ele deixara de ser um polícia a proteger uma cidadã; era um homem que estava a apaixonar-se.

Rizzoli separou os dentes de alho, esmagando-os um a um com a lâmina da faca e descascando-os. A faca batia vigorosamente contra a tábua de cortar e a mãe, que se encontrava junto do fogão, olhou para ela, mas não disse nada.

Neste momento, ele está com ela. Em casa dela. Talvez na cama dela.

Descarregou parte da frustração acumulada ao cortar os dentes de alho, bang-bang-bang. Não sabia por que razão o facto de pensar em Moore e Catherine juntos a deixava tão perturbada. Talvez porque restavam tão poucos santos no mundo, tão poucas pessoas que se cingiam estritamente às regras, e sempre pensara que Moore era uma dessas raras pessoas. Ele tinha-lhe dado esperança, levando-a a acreditar que nem toda a humanidade era imperfeita, mas agora desiludira-a.

Talvez porque ela considerasse que aquilo representava uma ameaça para a investigação. Um homem cujo interesse pessoal é excessivamente intenso não pode pensar nem agir de maneira racional.

Ou talvez seja porque tens ciúmes dela. Ciúmes de uma mulher que com um único olhar era capaz de pôr a cabeça de um homem às voltas. Os homens eram tão patetas quando viam uma mulher em apuros.

Entretanto, na sala ao lado, o pai e os irmãos soltaram uma sonora expressão de regozijo dirigida ao televisor. Rizzoli desejava voltar para o seu apartamento silencioso e começou a formular mentalmente desculpas para sair cedo. No mínimo dos mínimos, teria de se sentar para o jantar. Como a mãe não se cansava de lhe recordar, Frank Júnior não ia a casa com muita frequência, portanto, como era possível que Janie não quisesse estar com o irmão? Ela seria forçada a um serão a ouvir as histórias do irmão sobre os campos de treino. Como os novos recrutas daquele ano eram patéticos, como a juventude norte-americana estava a ficar frouxa, obrigando-o a ser muito mais duro para que aqueles rapazes afeminados conseguissem ultrapassar os obstáculos. A mãe e o pai mantinham-se suspensos das palavras que saíam da boca do filho. O que a chateava mais era o facto de a sua família quase não lhe fazer perguntas acerca do seu trabalho. Até àquele momento, Frankie, o macho dos fuzileiros, limitara-se a brincar às guerras. Ela assistia a batalhas todos os dias, contra pessoas a sério, assassinos de verdade.

Com um andar todo emproado, Frankie foi à cozinha e tirou outra cerveja do frigorífico.

- Quando é que o jantar está pronto? - perguntou, abrindo a garrafa. A comportar-se como se ela fosse apenas a criada.

- Daqui a uma hora - respondeu a mãe.

- Porra, mãe! Já são sete e meia. Estou a morrer de fome.

- Não fales dessa maneira, Frankie.

- Não sei se sabes - disse Rizzoli -, mas poderíamos comer muito mais cedo se os rapazes nos dessem uma mãozinha.

- Eu cá posso esperar - apressou-se Frankie a dizer, voltando a encaminhar-se para a sala. Chegado à ombreira da porta, parou. - Oh, quase me esquecia. Recebeste uma mensagem.

- O quê?

- O teu telemóvel tocou. Era um fulano qualquer de nome Frosty.

- Queres dizer Barry Frost?

- Sim, foi esse o nome que ele deu. Quer que lhe telefones.

- Quando é que ele ligou?

- Quando estavas lá fora a mudar os carros de um lado para o outro.

- Raios te partam, Frankie! Isso foi há uma hora!

- Janie - disse a mãe num tom de repreensão.

Rizzoli desapertou as fitas do avental e atirou-o para cima da bancada.

- Isto tem a ver com o meu trabalho, mãe! Por que diabo ninguém nesta família respeita isso? - Com brusquidão, pegou no telefone da cozinha e marcou o número do telemóvel de Barry Frost.

O colega atendeu ao primeiro toque.

- Sou eu - disse Rizzoli. - Só agora é que recebi a tua mensagem.

- Não vais assistir à detenção...

- O quê?

- Descobrimos a quem pertencia o ADN recolhido da Nina Peyton.

- Estás a referir-te ao sémen? Os dados de ADN estavam no CODIS?

- Condiz com o de um criminoso de nome Karl Pacheco. Foi detido em noventa e sete, por violação, mas foi absolvido. Afirmou que o acto tinha sido consensual. O júri acreditou nele.

- Foi ele que violou a Nina Peyton?

- E temos o ADN que o comprova.

Rizzoli fechou o punho e deu um soco no ar numa expressão de triunfo.

- Qual é a morada?

- Quatro, cinco, sete, oito na Columbus Avenue. Já chegaram quase todos da equipa.

- Vou a caminho.

Rizzoli estava prestes a sair porta fora quando a mãe a chamou.

- Janie! E o jantar?

- Tenho de ir, mãe.

- Mas é a última noite que o Frankie passa connosco!

- Vamos fazer uma detenção.

- E eles não podem fazer isso sem ti?

Rizzoli deteve-se com a mão na maçaneta da porta, a sua fúria aproximando-se da detonação. E o que viu, com uma clareza extraordinária, foi que, independentemente do que conseguisse alcançar, ou por muito distinta que a sua carreira pudesse ser, aquele momento único representaria para sempre a sua realidade: Janie, a irmã insignificante. A rapariga.

Sem mais palavras, saiu batendo com a porta.

A Columbus Avenue situava-se no extremo norte de Roxbury, precisamente no centro da zona de caça do Cirurgião. A sul ficava Jamaica Plain, a área de residência de Nina Peyton. A casa de Elena Ortiz situava-se a sudeste. A nordeste havia Back Bay, a zona de residência de Diana Sterling e Catherine Cordell. Olhando para as ruas bordejadas de árvores, Rizzoli viu correntezas de casas em tijolo, uma área residencial habitada maioritariamente por estudantes e funcionários da universidade, nas proximidades. Imensas estudantes universitárias.

Imensa caça da melhor qualidade.

A luz do semáforo mais à frente ficou amarela. Com a adrenalina a fluir a toda a velocidade, ela carregou a fundo no acelerador, atravessando o cruzamento velozmente. As honras da detenção deviam ser suas. Durante várias semanas, Rizzoli tinha vivido, respirado e até mesmo sonhado em função do Cirurgião. Ele infiltrara-se em todos os momentos da sua existência, quer acordada quer a dormir. Ninguém trabalhara com tanto afinco para o apanhar como ela, e agora estava na corrida para reclamar o prémio a que considerava ter direito.

A um quarteirão do endereço de Karl Pacheco, travou a fundo atrás de um carro-patrulha. Havia outros quatro veículos estacionados de qualquer maneira ao longo da rua.

"Tarde de mais", pensou Rizzoli correndo para o prédio. "Eles já entraram."

No interior do prédio, ouviu o barulho de passos pesados e gritos de homens a ecoar pelas escadas. Seguiu esses sons até ao segundo andar, transpondo a entrada do apartamento de Karl Pacheco.

No interior, viu-se confrontada com uma situação de caos. A soleira da porta estava coberta de bocados de madeira da porta arrombada. As cadeiras encontravam-se de pernas para o ar e havia um candeeiro feito em cacos, como se uma manada de touros bravos tivesse passado por ali, deixando um rasto de destruição. O próprio ar como que estava envenenado com testosterona, polícias numa orgia de violência, à caça de um criminoso que uns dias antes chacinara um dos seus. Deparou com um homem estendido de cara para baixo no chão. De raça negra - não era o Cirurgião. Crowe fazia pressão, brutalmente, com o tacão do sapato sobre a nuca do negro.

- Fiz-te uma pergunta, idiota! - vociferou Crowe. - Que é feito do Pacheco?

O homem soltou um gemido e cometeu o erro de tentar soerguer a cabeça. Crowe aplicou ainda mais força com o tacão do sapato, fazendo com que o queixo do prisioneiro batesse violentamente no chão. O homem soltou um som de quem estava a sufocar e começou a debater-se.

- Deixem o homem levantar-se! - gritou Rizzoli.

- Mas ele não fica sossegado!

- Se tirares o pé de cima dele, talvez se decida a falar contigo! - ripostou Rizzoli, furiosa, empurrando Crowe para o lado. O prisioneiro rolou, ficando deitado de costas a arquejar como um peixe fora de água.

- Onde é que está o Pacheco? - vociferou Crowe.

- Não... não sei...

- Mas estás no apartamento dele!

- Embora. Foi-se embora...

- Quando?

O homem começou a tossir, um ataque fortíssimo de tosse tão cavernosa que dava a impressão de os seus pulmões estarem a rasgar-se. Entretanto, os outros polícias tinham-se juntado à volta, olhando para o prisioneiro no chão com uma expressão de ódio. O amigo de um assassino de polícias.

Revoltada com a situação, Rizzoli percorreu o corredor até ao quarto. A porta do roupeiro estava aberta e as roupas penduradas nos cabides encontravam-se espalhadas pelo chão. A busca ao apartamento fora levada a cabo minuciosa e brutalmente, todas as portas escancaradas, todos os possíveis esconderijos expostos. A detective calçou um par de luvas e começou a revistar as gavetas da cómoda, espreitando para dentro de todas as algibeiras à procura de uma agenda, de um livro de endereços, de qualquer coisa que lhe pudesse indicar o lugar para onde Pacheco poderia ter fugido.

Ergueu o olhar quando Moore entrou no quarto.

- És o responsável por toda esta confusão? - perguntou.

- O Marquette é que mandou avançar - retorquiu Moore com um abanar de cabeça. - Recebemos informação de que o Pacheco estava no edifício.

- Então, onde é que ele está? - perguntou ela fechando uma gaveta com toda a força e dirigindo-se para a janela do quarto. Encontrava-se fechada, mas o fecho não estava trancado. A escada de emergência situava-se mesmo ao lado. Rizzoli abriu a janela e pôs a cabeça de fora. No beco mais abaixo viu um carro-patrulha estacionado e com o rádio ligado, e um dos agentes da patrulha a fazer incidir o feixe de luz da lanterna no interior de um contentor do lixo.

Estava prestes a retirar a cabeça para dentro quando sentiu qualquer coisa a bater-lhe na nuca e ouviu o som pouco perceptível de pedrinhas a ressaltarem da escada de emergência. Surpreendida, olhou para cima. O firmamento da noite reflectia as luzes da cidade, mal permitindo que as estrelas fossem visíveis. Ficou a olhar por uns momentos, perscrutando o contorno do telhado que se recortava contra o negro anémico do céu, mas não avistou nada que se mexesse.

Saiu pela janela para a escada de emergência e começou a subir os degraus de ferro ^até ao terceiro andar. Chegada ao patamar seguinte, deteve-se para examinar a janela do andar por cima do de Pacheco; a rede estava pregada à caixilharia e não saía luz nenhuma pela janela.

Voltou a olhar para cima, em direcção ao telhado. Apesar de não ter visto nem ouvido nada de anormal, sentiu os cabelos da nuca em pé.

- Rizzoli? - chamou Moore da janela de baixo. Ela não lhe respondeu, mas apontou para o telhado, indicando em silêncio a sua intenção.

Limpou as palmas das mãos humedecidas às calças e, sem fazer barulho, começou a subir as escadas até ao telhado. Chegada ao último degrau parou, respirou fundo e, vagarosamente, ergueu a cabeça para poder espreitar pela beira do telhado.

Por baixo do céu sem lua, o telhado assemelhava-se a uma floresta de sombras. Avistou os contornos de uma mesa e cadeiras, um emaranhado de ramagens arqueadas. Um jardim no telhado. Içou-se até à beira e deixou-se cair ao de leve sobre as telhas de asfalto, sacando do revólver. Deu dois passos e sentiu o pé bater num obstáculo que resvalou, fazendo barulho. Inalou o aroma pungente de gerânios. Foi então que se apercebeu de que estava rodeada de plantas envasadas. Os vasos de barro constituíam uma pista de obstáculos para os seus pés.

A alguma distância à sua esquerda, algo se mexeu.

Esforçou a vista para poder distinguir uma forma humana entre aquela selva de sombras. Viu-o agachado, qual homúnculo negro.

Rizzoli levantou a arma, ordenando:

- Não se mexa! - Não conseguia distinguir o que o homem tinha na mão. Aquilo que se preparava para lhe arremessar.

Uma fracção de segundos antes de ser atingida no rosto com um pequeno sacho de jardim, sentiu o sibilar do ar na sua direcção, qual vento maléfico que assobiasse vindo das trevas. A pancada atingiu-a na face esquerda com tanta violência que ela viu uma explosão de luzes.

Caiu de joelhos, uma vaga de dor a rugir nas suas sinapses, uma dor tão aguda que a deixou sem respiração.

- Rizzoli. - A voz de Moore. Nem sequer o ouvira a saltar para o telhado.

- Estou bem. Estou bem... - Semicerrou os olhos, perscrutando o sítio onde vira a figura agachada. Tinha desaparecido. - Ele está aqui - murmurou Rizzoli. - Quero apanhar esse filho-da-puta!

Moore avançou lentamente na escuridão. Ela levou as mãos à cabeça apertando-a enquanto esperava que as tonturas lhe passassem, amaldiçoando o seu próprio descuido. Tentando manter a cabeça desanuviada pôs-se de pé a cambalear. A cólera era um combustível potente; permitiu-lhe firmar-se nas pernas e agarrar a pistola com mais força.

Moore encontrava-se a escassos metros à sua direita; mal conseguia distinguir a silhueta dele a passar pela mesa e cadeiras.

Rizzoli deslocou-se para a esquerda, circundando o telhado pela direcção oposta. Cada latejar que sentia na face e cada pontada de dor recordavam-lhe que agira descuidadamente. Desta vez, não. Com o olhar percorreu as sombras pouco densas dos arbustos e plantas envasadas.

Um barulho repentino fez com que girasse rapidamente para a direita. Ouviu o ruído de alguém a correr, e viu uma sombra que se deslocava velozmente pelo telhado direita a si.

- Pare! Polícia! - gritou Moore. O homem continuava a correr.

Rizzoli agachou-se com a arma em riste, pronta a disparar. O latejar no rosto era cada vez mais intenso, provocando dores lancinantes. Todas as humilhações por que passara, as afrontas diárias, os insultos, os tormentos que se perpetuavam da parte dos Darren Crowes deste mundo, pareceram amalgamar-se, convergindo para um único ponto de raiva.

Desta vez, sacana, és meu! Mesmo quando o homem se deteve bruscamente diante dela, mesmo quando as suas mãos se ergueram em direcção ao firmamento, a decisão era irreversível.

Premiu o gatilho.

O homem contorceu-se. Cambaleou para trás. Ela disparou uma segunda vez, uma terceira e cada coice da pistola proporcionava-lhe uma satisfação indescritível.

- Rizzoli! Pára de disparar.

Finalmente, o grito de Moore penetrou o barulho atroador que lhe ecoava nos ouvidos. Ficou petrificada, a arma apontada ao alvo, os braços rígidos e doridos.

O criminoso estava caído e não se mexia. Rizzoli endireitou-se e encaminhou-se lentamente para a figura amarfanhada. A cada passo que dava, o horror do que acabara de fazer era cada vez maior.

Moore já estava ajoelhado ao lado do homem e verificava se tinha pulsação. Ergueu o olhar para ela e, apesar de não conseguir ler a expressão no rosto dele naquele telhado envolto em trevas, Rizzoli sabia que o olhar do colega denotava reprovação.

- Ele está morto, Rizzoli.

- Ele tinha qualquer coisa... na mão...

- Não tinha nada nas mãos.

- Eu vi. Sei que tinha alguma coisa na mão!

- Ele já tinha levantado as mãos.

- Bolas, Moore! Eu disparei como mandam as regras! Tens de me apoiar nisto!

Começaram a ouvir-se outras vozes à medida que mais polícias chegavam apressadamente ao telhado para se juntarem aos dois. Moore e Rizzoli não disseram mais nada um ao outro.

Crowe apontou a luz da sua lanterna na direcção do homem. Rizzoli viu de rugida uns olhos abertos e uma camisa escurecida pelo sangue.

- Ei, é o Pacheco! - exclamou Crowe. - Quem o abateu?

- Fui eu - replicou Rizzoli com apatia.

- A rapariga portou-se muito bem! - disse alguém dando-lhe uma palmada nas costas.

- Calem-se! - ripostou a detective. - Calem-se! - Numa passada brusca afastou-se atordoada, desceu pelas escadas de emergência e regressou ao carro. Sentou-se ao volante, deprimida, as dores dando lugar à náusea. Em pensamento, reviu os acontecimentos que haviam tido lugar no telhado. O que Pacheco fizera, o que ela própria fizera. Viu-o a correr outra vez, apenas uma sombra vinda direita a si. Viu-o parar. Sim, parar. Viu-o a olhar para si.

Uma arma. Meu Deus, por favor, permite que haja uma arma. Mas ela não tinha visto arma nenhuma. Naquela fracção de segundos antes de ter disparado, a imagem havia ficado gravada a fogo no seu cérebro. Um homem, petrificado. Um homem com as mãos no ar numa atitude de submissão.

Alguém bateu no vidro da janela do seu lado. Barry Frost. Baixou o vidro.

- O Marquette anda à tua procura - informou o colega.

- Está bem.

- Passa-se alguma coisa? Rizzoli, sentes-te bem?

- Parece que um camião me passou por cima da cara.

Crowe inclinou-se e observou o rosto dela.

- Bolas! Aquele gajo estava mesmo a pedi-las.

Era naquilo que Rizzoli também queria acreditar: que Pacheco merecera morrer. Sim, merecera e ela estava para ali a atormentar-se sem razão nenhuma. A prova não estava mais do que clara na sua face? Ela tinha sido atacada por ele. O homem era um monstro e, ao abatê-lo, havia feito justiça de maneira eficiente. Elena Ortiz, Nina Peyton e Diana Sterling, se fossem vivas, decerto tê-la-iam aplaudido. Ninguém sente pesar pela morte da escumalha do mundo.

Rizzoli saiu do carro, sentindo-se melhor graças à simpatia de Frost. Mais forte. Encaminhou-se para o prédio e viu Marquette próximo dos degraus da frente. Estava a falar com Moore.

Os dois homens viraram-se, ficando a olhar para ela enquanto se aproximava. Reparou que os olhos de Moore se desviavam dos seus, concentrando-se noutro ponto, evitando olhá-la. Parecia estar nauseado.

- Preciso que me entregues a tua arma, Rizzoli - disse Marquette.

- Disparei em legítima defesa. O criminoso atacou-me.

- Compreendo isso. Mas sabes bem o que os regulamentos dizem.

Ela olhou para Moore. Eu gostava de ti. Confiava em ti. Desapertou o coldre entregando-o a Marquette num gesto brusco.

- Quem é a porra do inimigo aqui? - perguntou. - Às vezes fico com dúvidas. - Com estas palavras, virou costas e encaminhou-se para o carro.

Moore olhava fixamente para o roupeiro de Karl Pacheco pensando: "Nada disto bate certo." No chão havia meia dúzia de pares de sapatos, tamanho quarenta e seis. Na prateleira viam-se camisolas de lã empoeiradas, uma caixa de sapatos com pilhas gastas e moedas soltas, assim como uma resma de edições antigas da Penthouse.

Ouviu o barulho de uma gaveta a abrir-se, voltou-se para trás e deparou com Frost cujas mãos enluvadas revistavam a gaveta onde Pacheco guardava as meias.

- Encontraste alguma coisa? - perguntou Moore.

- Nada de bisturis nem de clorofórmio. Nem sequer rolos de fita isoladora.

- Ding, ding, ding: - anunciou Crowe da casa de banho, saindo vagarosamente enquanto acenava com um saco de plástico transparente com fecho hermético cheio de pequenos tubos de vidro que continham um líquido acastanhado. - Vindos do soalheiro México, a terra da abundância farmacêutica.

- RohypnoP. - perguntou Frost.

Moore olhou para a etiqueta escrita em espanhol.

- Gama-hidioxibutirato. O mesmo efeito.

- No mínimo, temos aqui cem encontros em que a rapariga é violada - disse Crowe agitando o saco. - O Pacheco deve ter tido uma picha muito activa - acrescentou, rindo-se.

O som do riso dele deixou Moore exasperado. Pensou naquela picha muito activa e no mal que tinha causado, não só as lesões físicas, mas também a destruição psicológica. As almas que havia fendido em duas partes. Recordava-se do que Catherine lhe dissera: que a vida de todas as vítimas de violação ficava dividida no antes e depois. A agressão sexual transforma o mundo da mulher, tornando-o uma paisagem inóspita e sombria desconhecida, em que todos os sorrisos, todos os momentos de alegria estão contaminados pelo desespero. Algumas semanas atrás, talvez ele nem sequer tivesse prestado atenção ao riso de Crowe. Mas, nesta noite, ouviu-o bem de mais e reconheceu a sua fealdade.

Dirigiu-se para a sala de estar onde o homem de raça negra estava a ser interrogado pelo detective Sleeper.

- Eu já lhe disse que estávamos só a conversar sem fazer nada de especial - dizia o homem.

- Portanto, costumas andar por aí a matar o tempo com seiscentos dólares no bolso; é isso?

- Gosto de andar sempre com dinheiro, meu.

- E o que é que vieste comprar?

- Nada - respondeu o homem.

- Como é que conheceste o Pacheco?

- Conheço, é tudo.

- Oh, um amigo muito íntimo. O que andava ele a vender?

"GHB", pensou Moore. A droga utilizada em violações. Era isso que o tipo tinha ido comprar ali. Outra picha muito activa.

Saiu para a noite, sentindo-se desorientado pelos clarões intermitentes das luzes dos carros-patrulha. O carro de Rizzoli já tinha desaparecido. Olhou para o espaço vazio, e o fardo do que tinha feito, aquilo que se sentira na obrigação de fazer, pesou-lhe de tal maneira nos ombros que ficou incapaz de se mexer. Nunca em toda a sua carreira se vira confrontado com uma escolha tão dilacerante e, muito embora soubesse no seu íntimo que tomara a decisão mais acertada, sentia-se atormentado por isso. Tentou conciliar o respeito que sentia por Rizzoli com o que a vira fazer no telhado. Não era tarde de mais para dar o dito por não dito em relação ao que relatara a Marquette. Na verdade, estava muito escuro no telhado e a situação havia sido confusa; talvez Rizzoli tivesse pensado realmente que Pacheco empunhava uma arma. Quem sabe se ela não teria visto algum gesto ou movimento ameaçadores que tivessem passado despercebidos a Moore. Mas, por muito que se esforçasse, não conseguia recordar-se de nada que pudesse justificar as acções dela. Sentia-se incapaz de interpretar a cena que presenciara como algo que não uma execução a sangue-frio.

Quando voltou a vê-la, Rizzoli estava curvada sobre a sua secretária, com um saco de gelo encostado à face. Já passava da meia-noite e Moore não estava com vontade de conversar. Mas quando passou por ela, Rizzoli olhou para cima, fazendo-o estacar.

- O que é que disseste ao Marquette? - perguntou ela.

- O que ele queria saber. Como é que o Pacheco acabou por morrer. Não lhe menti.

- Seu filho-da-mãe!

- Pensas que eu queria dizer-lhe a verdade?

- A escolha era tua.

- Tal como aconteceu contigo, no telhado. Mas optaste pela escolha errada.

- E tu nunca fazes a escolha errada, pois não? Tu nunca te enganas.

- Se me enganar, sou o primeiro a admiti-lo.

- Oh, sim. O cabrão do São Tomds!

Moore aproximou-se da secretária dela e olhou-a bem nos olhos.

- Tu és um dos melhores agentes com quem já trabalhei. Mas, esta noite, mataste um homem a sangue-frio e eu assisti a tudo.

- Não eras obrigado a ver.

- Mas acontece que vi.

- O que é que vimos realmente em cima daquele telhado, Moore? Uma data de sombras, muitos movimentos. A diferença entre a escolha certa e a escolha errada é tão irrisória como isto. - Rizzoli ergueu dois dedos, quase a tocarem-se. - E nós permitimos essa margem. Partimos do princípio de que cada um de nós é merecedor do benefício da dúvida.

- Foi o que tentei fazer.

- Não tentaste com o empenho suficiente.

- Recuso-me a mentir por outro polícia. Ainda que esse polícia seja uma pessoa de quem sou amigo.

- Sugiro que não esqueçamos quem são os maus da fita aqui. Não somos nós.

- Se começarmos a mentir, como poderemos fazer a destrinça entre eles e nós. Onde é que essa linha divisória acaba?

Rizzoli afastou o saco de gelo da face, apontando para a cara. Tinha um olho tão inchado que não conseguia abri-lo e a metade esquerda da face tão tumefacta como um balão. O aspecto brutal da lesão deixou-o chocado.

- Foi isto que o Pacheco me fez. Não foi uma pequena bofetada amigável, pois não? Tu estás a falar deles e de nós. De que lado é que ele estava? Eu fiz um favor ao mundo quando lhe limpei o sebo. Ninguém vai sentir falta do Cirurgião.

- O Karl Pacheco não era o Cirurgião. Tu abateste o homem errado.

Rizzoli ficou a olhar fixamente para ele, a face toda pisada, qual Picasso lúrido meio grotesco e meio normal.

- Mas tínhamos um exame de ADN condizente! Foi ele que...

- Que violou a Nina Peyton, sim. Mas não há nada nele que condiga com o Cirurgião. - Dito isto, Moore deixou cair um relatório da Secção de Cabelo e Fibras em cima da secretária dela.

- O que é isto?

- O exame microscópico que foi feito ao cabelo do Pacheco. A cor é diferente, assim como a configuração e a densidade da cutícula que foi encontrada no ferimento da Elena Ortiz. Não havia vestígios de cabelo em bambu.

Rizzoli ficou sentada, imóvel, os olhos pregados no relatório.

- Não estou a compreender.

- O Pacheco violou a Nina Peyton. E isto é tudo o que podemos dizer a respeito dele com alguma certeza.

- A Sterling e a Ortiz foram violadas...

- Não há provas de que o responsável tenha sido o Pacheco. E agora que está morto, jamais viremos a saber.

Rizzoli ergueu o olhar, fitando-o; a metade da face que não estava lesionada reflectia bem a sua cólera.

- Tinha de ser ele. Escolhe três mulheres ao acaso nesta cidade e quais são as probabilidades de as três terem sido violadas? Foi isso que o Cirurgião conseguiu fazer. Ele atacou três de três. Se não foi ele que as violou, então como sabe quais as que deve escolher, quais as que deve chacinar? Se não é o Pacheco, então é um amigalhaço, um parceiro. Um cabrão dum abutre qualquer que se sacia com a carne putrefacta que o Pacheco deixa à sua passagem. - Com brus-quidão, estendeu-lhe o relatório. - Talvez eu não tenha alvejado o Cirurgião. Mas o homem que abati não passava de escumalha. Parece que todos estão a esquecer-se desse pormenor. O Pacheco era escumalha. Tenho direito a uma medalha? - Pôs-se de pé e empurrou a cadeira com força contra a secretária. - Serviços administrativos. O Marquette fez de mim uma merda de um manga-de-alpaca. Obrigadinha.

Em silêncio, Moore viu-a sair sem que lhe ocorresse nada para lhe dizer, nada que pudesse fazer para reparar o fosso que se abrira entre os dois.

Foi para o seu próprio posto de trabalho e deixou-se cair na cadeira. "Sou um dinossauro", pensou, "que vive num mundo em que os que só falam verdade são desprezados." Naquele momento não podia pensar em Rizzoli. O caso contra Pacheco desintegrara-se, o que significava que tinham voltado à estaca zero, à caça de um assassino cuja identidade desconheciam.

Três mulheres violadas. O ponto fulcral de toda a questão. Como é que o Cirurgião as encontrava? Nina Peyton fora a única que participara à polícia que havia sido violada. Elena Ortiz e Diana Sterling não apresentaram queixa. O trauma das duas havia sido privado, apenas do conhecimento dos próprios violadores, das suas vítimas e dos profissionais de medicina que as trataram. Mas as três mulheres procuraram cuidados médicos em estabelecimentos diferentes: Sterling fora ao consultório de uma ginecologista em Back Bay. Ortiz optara pelo Serviço de Urgência do Centro Médico Pilgrim. Nina Peyton fora à Clínica para Mulheres Forest Hills. Não havia sobreposição de funcionários, nenhum médico, enfermeira ou recepcionista que tivesse tido contacto com mais do que uma destas três mulheres.

De alguma forma, o Cirurgião sabia que essas mulheres estavam traumatizadas e era precisamente o sofrimento delas que o atraía. Os que matam impelidos pela sua sexualidade escolhem as suas presas de entre os membros mais vulneráveis da sociedade. Procuram mulheres que possam controlar, mulheres que possam degradar, mulheres que não constituam qualquer ameaça para eles. E quem poderá estar mais fragilizado do que uma mulher que tenha sido violada?

Quando Moore já se preparava para sair, parou defronte da parede onde as fotografias de Sterling, Ortiz e Peyton estavam afixadas. Três mulheres, três violações.

E uma quarta. Catherine tinha sido vítima, violada em Savannah.

Pestanejou quando a imagem do rosto dela surgiu fugazmente na sua mente, uma imagem que ele não conseguia evitar juntar àquela galeria de vítimas na parede.

De alguma forma, tudo isto remonta ao que aconteceu nessa noite em Savannah. Tudo tem origem no Andrew Capra.

 

No coração da Cidade do México, em tempos idos, o sangue humano correu como a água dos rios. Por baixo das fundações da metrópole moderna estão as ruínas do Templo Mayor, o grandioso lugar sagrado dos Astecas que dominava a cidade da antiguidade, Tenochtitlán. Foi aqui que dezenas de milhares de vítimas desafortunadas foram sacrificadas aos deuses.

No dia em que percorri as terras que circundam esse templo, achei, até certo ponto, bastante divertido que, não muito longe dali, se elevasse uma catedral onde os católicos acendiam velas e dedicavam orações a um Deus misericordioso nas alturas. Ajoelhavam-se próximo do exacto local onde em tempos as pedras haviam ficado escorregadias devido ao sangue. Visitei esse lugar num domingo sem saber que aos domingos o ingresso para o público é gratuito, pelo que o Museu do Templo Mayor estava apinhado de crianças, as suas vozes a ecoarem alegremente pelas várias salas. Não gosto muito de crianças nem da desordem a que dão origem; se por acaso voltar ali, não posso esquecer-me de que tenho de evitar ir aos museus aos domingos.

Mas era o último dia que eu passava na cidade, portanto, dispus-me a suportar todo aquele barulho irritante. Queria ver as escavações e visitar o Salão Dois. O Salão do Ritual e Sacrifício.

Os Astecas acreditavam que a morte era necessária à vida. Para se poder manter a energia sagrada do mundo, para prevenir as catástrofes e garantir que o Sol continuaria a erguer-se, os deuses tinham de ser alimentados com corações humanos. Detive-me no Salão do Ritual e vi, numa das vitrinas, a faca sacrificial que cortara carne humana. Tinha um nome: Tecpad Ixcuahua. "A Faca com a Testa Larga". A lâmina era feita de sílex e o cabo tinha a forma de um homem ajoelhado.

Como, pergunto eu, faz uma pessoa para cortar um coração humano quando o único instrumento que possui é uma faca de sílex?

Essa pergunta consumia-me quando, ainda nessa mesma tarde, percorri a Alameda Central, ignorando os garotos de rua muito sujos que vinham atrás de mim, implorando que lhes desse umas moedas. Decorrido algum tempo, aperceberam-se de que eu não me deixava seduzir por olhos castanhos ou sorrisos de dentes brancos, e decidiram deixar-me em sossego. Finalmente, foi-me permitido ter alguma paz - se é que isso era possível no meio da cacofonia que predominava por toda a Cidade do México. Quando passei por um café sentei-me a uma mesa na esplanada, bebendo um café bastante forte, o único cliente que optara por se sentar ao ar livre apesar do calor intenso. Eu ansiava pelo tempo quente; é um bálsamo para a minha pele gretada. Procuro o calor como um reptil procura uma pedra quente. E assim, num dia de calor abrasador, bebia o meu café enquanto reflectia sobre o peito humano, sentindo-me intrigado quanto à melhor maneira de chegar ao tesouro pulsante contido no seu interior.

Os rituais sacrificiais dos Astecas são descritos como rápidos e com um mínimo de tortura, o que representa um dilema. Sei que é difícil abrir a caixa torácica, separando-a do esterno que protege o coração como um escudo. Os cardiologistas fazem uma incisão vertical no centro do tórax, dividindo o esterno em duas partes com uma serra. Têm assistentes que os ajudam a separar as metades ósseas, além de disporem de uma diversidade de instrumentos muito sofisticados que lhes permitem alargar a área; todos esses instrumentos são fabricados em aço inoxidável muito polido.

Os sacerdotes Astecas, que possuíam somente uma faca feita de sílex, deviam ter dificuldade em utilizar o mesmo método. Teriam de fazer pressão com um formão para conseguir abrir o tórax ao meio e isto enquanto a pessoa estaria a esbracejar e a espernear. Também teriam de contar com muitos gritos.

Não, teriam de retirar o coração usando um método diferente.

Um corte horizontal feito entre duas costelas, ao longo da região lateral? Mas isto também apresenta um problema. O esqueleto humano é uma estrutura muito robusta e para se conseguir separar duas costelas, com uma abertura suficiente para se poder inserir uma mão, é preciso muita força física e instrumentos concebidos especialmente para esse fim. Uma abordagem de baixo para cima faria mais sentido? Uma incisão rápida na barriga abriria o abdómen e o sacerdote só precisaria de cortar através do diafragma, metendo a mão pela abertura para agarrar o coração. Ah, mas acontece que esta é uma opção muito suja, já que os intestinos ficariam espalhados pelo altar. Em nenhuma das gravuras dos Astecas se vêem as vítimas de sacrifícios representadas com intestinos enrolados a saírem-lhes da barriga.

Os livros são coisas maravilhosas; têm a capacidade de nos dizer tudo e mais alguma coisa, até mesmo como cortar um coração usando uma faca feita apenas de sílex com um mínimo de sujidade. Encontrei a resposta à minha dúvida num livro com o título Sacrifício Humano e Guerra, escrito por um académico (quem diria, nos tempos que correm, as universidades são lugares deveras interessantes!), um homem de nome Sherwood Clarke, o qual, um dia, eu gostaria muito de vir a conhecer.

Creio que podíamos ensinar muitas coisas um ao outro.

Os Astecas, diz o Sr. Clarke, utilizavam uma toracotomia transversal para abrir caminho até ao coração. Faziam a incisão através da frente do peito, começando entre a segunda e a terceira costela, numa das regiões laterais do tórax, cortando através do esterno até ao lado oposto. O osso é quebrado no sentido transversal, provavelmente com uma pancada forte e um formão. O resultado é um buraco de grandes dimensões. Com os pulmões expostos ao ar exterior, o colapso seria imediato. Rapidamente, a vítima perderia a consciência. E enquanto o coração continuava a pulsar, o sacerdote metia a mão no tórax seccionando as artérias e veias. Agarrava no órgão, que continuaria a bater, retirando-o desta caixa ensanguentada e erguendo-o ao céu.

Foi assim que Bernardino de Sahagan descreveu este processo no seu Codex Florentio, A História Geral da Nova Espanha:

Um sacerdote das oferendas levou a cana da águia, colocou-a a direito sobre o peito do cativo, ali, onde o coração havia estado, manchando-a com sangue, na verdade, submergindo-a em sangue. Depois, também ergueu o sangue dedicando-o ao Sol.

Foi dito: "Deste modo, deu-o a beber ao Sol." Em seguida, o captor tomou o sangue do seu cativo vertendo-o para uma bacia verde com bordo de penas. Os sacerdotes que ofereciam os sacrifícios verteram-no ali para ele. Entrou dentro da cana oca, também adornada com penas, e depois o captor partiu para alimentar os demónios.

Alimento para os demónios.

Quão poderoso é o que o sangue representa.

Penso nisto enquanto observo um fio de sangue que está a ser sugado para uma pipeta fina com o diâmetro de uma agulha. Estou rodeado por suportes para tubos de ensaio e o ruído surdo dos aparelhos ecoa pelo ar. Os antigos consideravam o sangue uma substância sagrada, a substância da vida, alimento para os monstros; partilho do fascínio que o sangue lhes suscitava, muito embora compreenda que é um mero fluido biológico, uma suspensão de células em plasma. A matéria-prima com que trabalho todos os dias.

O corpo humano médio, com setenta quilos de peso, possui apenas cinco litros de sangue. Destes, quarenta e cinco por cento são células e o resto é plasma, uma sopa química com noventa e cinco por cento de água, enquanto o resto é formado por proteínas, electrólitos e nutrientes. Alguns diriam que reduzi-lo aos seus blocos de construção biológica é o mesmo que despojá-lo da sua natureza divina, mas eu não estou de acordo. É ao olhar para os blocos de construção em si que se reconhecem as suas propriedades miraculosas.

A máquina apita, um sinal de que a análise está pronta, e da impressora começa a sair uma folha de papel. Destaco-a e examino os resultados.

Com um único olhar, fico a saber muita coisa a respeito da Sra. Su-san Carmichael, que nunca vi. O seu valor hematócrito está baixo - apenas vinte e oito, quando deveria ser quarenta. Ela sofre de anemia, falta-lhe uma quantidade normal de glóbulos vermelhos, que são os portadores de oxigénio. É a hemoglobina, proteína contida nestes glóbulos que têm a forma de discos, que permite que o nosso sangue seja vermelho, o que dá a coloração rosada às unhas e faz com que as jovens tenham rosetas bonitas nas faces. As unhas da Sra. Carmichael estão descoradas e, se puxássemos para trás uma das suas pálpebras, a conjuntiva mostraria um rosado extremamente pálido. Como ela sofre de anemia, o coração é obrigado a trabalhar muito mais depressa para poder bombear o sangue diluído através das artérias, e assim ela é obrigada a parar em cada lanço de escadas para recuperar o fôlego, para que a pulsação abrande. Imagino-a curvada para a frente, com a mão na garganta e o peito a encher-se e a esvaziar-se de ar como um fole. Qualquer pessoa que passe por ela nas escadas poderá ver que não está bem de saúde.

A mim basta-me olhar para esta folha de papel.

E há mais. Ela tem pequenas manchas no céu da boca -petéquias onde o sangue rompeu através dos capilares e se alojou na membrana mucosa. Talvez ela não tenha percepção destas hemorragias ínfimas. Talvez tenha reparado nelas em outras partes do corpo, por exemplo, por baixo das unhas ou nas canelas. Talvez dê por nódoas negras sem se lembrar de como as fez, manchas alarmantes com uma coloração violácea nos braços ou nas coxas, consumindo-se a pensar quando se terá magoado. Terá batido na porta do carro? Terá sido a criança que se agarrou à sua perna com muita força? Procura razões externas, quando a verdadeira causa se encontra na sua corrente sanguínea.

A contagem das suas plaquetas é de vinte mil; devia ser dez vezes mais elevada. Na ausência de plaquetas, as células de tamanho ínfimo que ajudam a formar coágulos, qualquer pancada, por muito pequena que seja, poderá deixar um hematoma.

Mas há mais coisas que se podem ficar a saber por esta folha de papel fino.

Olho para o diferencial dos glóbulos brancos e vejo a explicação para as suas aflições. A máquina detectou a presença de mieloblastos, precursores primitivos dos glóbulos brancos que não deviam estar na corrente sanguínea. Susan Carmichael sofre de leucemia mieloblástica aguda.

Imagino como a sua vida se desenrolará ao longo dos próximos meses. Vejo-a deitada de bruços numa mesa de tratamentos, os olhos fechados devido às dores, enquanto a agulha da medula óssea lhe penetra na anca.

Vejo o cabelo começar a cair-lhe às mãos-cheias, até que ela acaba por se render ao inevitável, à máquina de barbear eléctrica.

Vejo manhãs em que ela estará debruçada sobre a sanha e dias muito compridos em que ficará com os olhos presos no tecto, o seu universo reduzido às quatro paredes do quarto.

O sangue é a dádiva da vida, o fluido mágico que nos sustém. Mas o sangue de Susan Carmichael virou-se contra ela; corre-lhe nas veias como veneno.

Conheço todos estes pormenores tão íntimos a respeito dela sem nunca a ter visto.

Envio os dados das análises por faxe ao médico dela, coloco o relatório laboratorial no tabuleiro de saída de documentos para ser entregue posteriormente e pego na colheita seguinte. Outro paciente, outro tubo de sangue.

A relação entre o sangue e a vida é conhecida desde os primórdios do homem. Os nossos antepassados da Antiguidade não sabiam que o sangue tem origem na medula, nem que é constituído, na sua maior parte, por água; contudo, apreciavam o seu poder em rituais e sacrifícios. Os Astecas usavam perfuradores de osso e agulhas de piteira para perfurar a sua própria pele afim de tirarem sangue. Faziam buracos nos lábios, na língua ou na carne do peito e o sangue que saía desses orifícios era a sua oferenda pessoal aos deuses. Hoje em dia, este tipo de automutilações seria considerado doentio e grotesco, a marca de mentes insanas.

Gostava de saber o que os Astecas pensariam de nós.

Aqui estou eu sentado, no meu ambiente esterilizado, todo vestido de branco, mãos enluvadas para as proteger de qualquer contaminação acidental. Sem dúvida que nos desviámos muito do essencial na nossa natureza. Há homens que desmaiam só por verem sangue e as pessoas apressam-se a ocultar tais horrores da vista da população em geral, lavando com mangueira os passeios onde tenha havido derramamento de sangue ou tapando os olhos das crianças quando a televisão transmite cenas de violência. Os seres humanos perderam contacto com quem e com aquilo que são realmente.

Todavia, não é o caso de alguns de nós.

Caminhamos entre os demais, seres normais sob todos os aspectos; talvez até sejamos mais normais do que qualquer dos outros porque não nos permitimos ser enfaixados e mumificados nas ligaduras da civilização. Quando vemos sangue não desviamos o olhar. Sabemos reconhecer a sua beleza acetinada, sentimos a sua atracção primitiva.

Todos os que passam por um acidente na estrada e não conseguem impedir-se de tentar ver o sangue compreenderão o que quero dizer. Por baixo da repugnância, do primeiro impulso em desviar o olhar, existem palpitações de uma força maior. Atracção.

Todos desejamos olhar. Mas nem todos estão dispostos a admiti-lo.

Sente-se solidão quando se caminha entre os anestesiados. Durante a tarde, percorro a cidade sem rumo certo, respirando um ar tão espesso que quase é visível e palpável. Aquece-me os pulmões como melaço amornado. Perscruto o semblante das pessoas com que me cruzo na rua, perguntando a mim mesmo qual de entre eles é o meu muito querido irmão de sangue, como em tempos tu foste. Existirá por aí mais alguém que não tenha perdido contacto com a força ancestral que flui através de todos nós? Pergunto a mim mesmo se nos reconheceríamos caso viéssemos a conhecer-nos e receio que tal não fosse o caso, porque nos escondemos profundamente sob o manto que passa por ser a normalidade.

Assim, caminho sozinho. E penso em ti, o único que alguma vez foi capaz de me compreender.

 

Na sua qualidade de médica, Catherine tinha visto a morte tantas vezes que a sua fisionomia lhe era familiar. Olhara fixamente para o rosto de um paciente, observando a vida a escoar-se do corpo, abandonando-lhe os olhos que adquiriam uma expressão vazia e vítrea. Observara a pele a adquirir uma coloração pardacenta, a alma a retirar-se, esvaindo-se como sangue. A prática da medicina tem tanto a ver com a morte como com a vida, e há muito tempo que Catherine fora apresentada à morte na presença dos restos mortais frios de um paciente. Os cadáveres não lhe inspiravam receio.

Todavia, quando Moore entrou na Albany Street e ela avistou o edifício do Instituto de Medicina Legal, um prédio em tijolo e de linhas sóbrias, sentiu as mãos suadas.

Ele estacionou nas traseiras, ao lado de uma carrinha branca onde se lia: "Estado do Massachusetts, Instituto de Medicina Legal". Catherine não queria sair do carro e só quando ele o contornou para lhe abrir a porta é que, finalmente, ela se decidiu a sair.

- Está preparada para isto? - perguntou Moore.

- Não é coisa por que anseie - admitiu ela. - Mas vamos lá acabar com isto de uma vez.

Apesar de já ter assistido a dezenas de autópsias, não estava inteiramente preparada para o cheiro a sangue e intestinos perfurados que a assaltou quando entraram no laboratório. Pela primeira vez na sua carreira clínica, pensou que ia ficar agoniada ao olhar para o corpo. ; Um senhor já de certa idade, com os olhos protegidos por um resguardo em plástico que lhe cobria todo o rosto, virou-se para os poder ver. Ela reconheceu o Dr. Ashford Tierney, o patologista, a quem fora apresentada aquando de uma conferência sobre patologia [criminal seis meses antes. Os fracassos de um cirurgião especializado em traumatologia eram, com muita frequência, os mesmos indivíduos que acabavam na mesa de autópsias do Dr. Tierney; a última vez que falara com ele fora há um mês, a propósito das circunstâncias perturbadoras da morte de uma criança devido a uma ruptura no baço.

O sorriso gentil do Dr. Tierney contrastava gritantemente com as luvas de borracha manchadas de sangue que ele calçava.

- Doutora Cordell, é um prazer voltar a vê-la. - Fez uma pausa quando se apercebeu da ironia nas suas palavras. - Embora pudesse ser em circunstâncias mais agradáveis.

- Já começou a cortar - disse Moore, nitidamente consternado.

- O tenente Marquette quer respostas imediatas - retorquiu Tierney. - Cada vez que um agente da polícia dispara contra um suspeito, a imprensa atira-se a ele que nem gato a bofe.

- Mas eu telefonei antecipadamente para combinar a nossa presença.

- A doutora Cordell já assistiu a outras autópsias. Isto não tem nada de novo para ela. Deixe-me só acabar esta excisão e depois ela poderá examinar o rosto.

Tierney voltou a concentrar-se no abdómen. Acabou de cortar com o bisturi, desprendeu o intestino delgado e começou a puxar porções de intestino que colocava dentro de uma bacia de aço inoxidável. Em seguida, afastou-se da mesa, fazendo um aceno de cabeça a Moore.

- Pode avançar.

Moore deu um toque no braço de Catherine. Com relutância, ela abeirou-se do cadáver. Começou por se concentrar na incisão aberta. Um abdómen aberto era um terreno com que estava familiarizada, os órgãos constituíam marcos de referência impessoais, pedaços de tecidos que podiam pertencer a qualquer estranho. Os órgãos não possuíam nenhum significado emocional, não eram portadores de um carimbo de identidade pessoal. Era capaz de os examinar com o olhar frio de uma profissional, o que fez, notando que o estômago, o pâncreas e o fígado continuavam nos seus lugares, à espera de serem removidos num único bloco. A incisão em Y, que ia do pescoço até à região púbica, revelava a caixa torácica e a cavidade abdominal. Tanto o coração como os pulmões já haviam sido extraídos, deixando o tórax como uma bacia vazia. Bem visíveis na parede do peito viam-se dois ferimentos de balas; um correspondia a um dos projécteis que entrara logo acima do mamilo esquerdo e o outro situava-se algumas costelas mais abaixo. As duas balas teriam entrado pelo tórax, perfurando o coração ou o pulmão. Na região superior esquerda do abdómen, havia um terceiro ferimento de entrada cujo trajecto teria ido a direito até onde o baço estivera. Outra lesão fatal. Quem quer que houvesse alvejado Karl Pacheco tivera intenção de o matar.

- Catherine? - chamou Moore, e ela deu-se conta de que estivera em silêncio durante tempo a mais.

Respirou fundo, inalando o cheiro a sangue e a carne refrigerada. Nesta altura já se encontrava bem familiarizada com a patologia interna de Karl Pacheco; tinha chegado a altura de se confrontar com o seu rosto.

Começou por ver cabelos pretos. Um rosto de feições estreitas, um nariz tão aquilino como uma lâmina. Maxilares flácidos, a boca aberta. Dentes direitos. Por fim, concentrou-se nos olhos. Moore tinha-lhe dito muito pouco a respeito daquele homem, apenas o nome, e que fora alvejado por um agente da polícia por ter resistido à voz de prisão. Serás tu o Cirurgião?

Os olhos, com as córneas enevoadas pela morte, não lhe despertavam quaisquer recordações. Examinou o rosto atentamente, tentando apreender quaisquer resquícios de maldade que continuassem a pairar no cadáver de Karl Pacheco, mas não sentiu nada. Aquela carcaça mortal estava vazia e não restava o mínimo vestígio do seu antigo habitante.

- Não conheço este homem - disse Catherine saindo da sala. Já estava à espera junto do carro quando Moore saiu do edifício.

Os pulmões dela haviam ficado empestados com o cheiro nauseabundo que saturava o ar na sala de autópsias, o que a levava a inspirar golfadas sucessivas de ar abrasador, como se quisesse lavar a contaminação. Apesar de já estar a transpirar, a frialdade do ar condicionado no interior do edifício tinha-se-lhe entranhado nos ossos tão profundamente como a medula.

- Quem era o Karl Pacheco? - perguntou a Moore.

Ele olhou na direcção do Centro Médico Pilgrim à distância, ouvindo o lamento crescente da sirene de uma ambulância.

- Era um predador sexual - replicou o detective. - Um homem que caçava mulheres.

- O Cirurgião era ele?

- Ao que tudo indica, não - replicou Moore suspirando.

- Mas pensou que talvez fosse.

- A análise do ADN estabelece ligação entre ele e a Nina Pey-ton. Ele violou-a há dois meses. Mas não temos qualquer prova que indique ter havido contacto entre ele e a Elena Ortiz ou a Diana Sterling. Nada que o coloque na vida das duas.

- Ou na minha - adiantou Catherine.

- Tem a certeza de que nunca o tinha visto?

- Só tenho a certeza de que não me recordo de o ter visto.

O sol pusera o carro a escaldar; o interior parecia um forno, obrigando-os a ficarem com as portas abertas até que refrescasse um pouco. Olhando para Moore por cima do tejadilho, Catherine apercebeu-se de como ele se sentia cansado. Já tinha a camisa manchada de suor. Uma bela maneira de passar a sua tarde de sábado, levar uma testemunha à morgue no seu carro. Sob muitos aspectos, os polícias e os médicos tinham vidas semelhantes. Trabalhavam muitas horas em empregos cujo dia não acabava ao som do apito das dezassete horas. Viam a humanidade nas suas horas mais sombrias e dolorosas. Testemunhavam pesadelos e aprendiam a viver com essas imagens.

E que imagens traria ele consigo?, perguntava-se ela enquanto Moore a conduzia a casa. Quantos rostos de vítimas, quantos locais de crimes estariam armazenados como fotografias na sua cabeça? Ela era apenas um elemento naquele caso, e interrogou-se sobre todas as outras mulheres, vivas e mortas, que tinham competido pela atenção dele.

Moore encostou defronte do prédio onde ela morava, desligando o motor. Catherine olhou para cima, concentrando o olhar na janela do seu apartamento e sentindo relutância em sair do carro. De deixar a companhia dele. Durante os últimos dias tinham passado tanto tempo juntos que ela acabara por se apoiar na força dele, na sua bondade. Caso se tivessem conhecido em circunstâncias mais auspiciosas, as feições bonitas dele, por si só, teriam despertado a sua atenção. Mas, agora, o que mais a interessava nele não era o facto de ser bem-parecido, nem sequer a sua inteligência, mas o que ele guardava no coração. Era um homem em quem ela podia confiar.

Reflectiu sobre as palavras que diria a seguir e naquilo a que elas poderiam levar. Acabou por decidir que pouco se importava com as consequências.

- Quer entrar para tomar um copo? - perguntou numa voz muito suave.

Moore não lhe respondeu de imediato e Catherine sentiu-se corar, pensando que o silêncio dele tinha um significado insuportável. Moore tentava tomar uma decisão; também tinha percepção do que estava a passar-se entre os dois, e não sabia como agir.

Por fim, olhou para ela e disse:

- Sim, gostaria de entrar. - Ambos sabiam que tomar uma bebida não era a única coisa que lhes ocorria ao pensamento.

Encaminharam-se para a entrada do prédio, ele com o braço por cima dos ombros dela. Pouco mais era que um gesto protector, a mão casualmente no ombro dela, mas o calor daquele toque e a sua reacção perante aquele gesto fizeram com que se atrapalhasse a marcar o código de segurança. A expectativa prendia-lhe os movimentos já desajeitados. Chegados lá acima, ela abriu a porta do apartamento com mãos trémulas e os dois entraram na frescura deliciosa que reinava no interior. Moore deteve-se apenas o tempo suficiente para poder fechar a porta e trancá-la.

Feito isto, tomou-a nos braços.

Havia tanto tempo que Catherine não era abraçada. Ao pensar nas mãos de um homem no seu corpo sentia-se invadida pelo pânico. Mas, nos braços de Moore, o pânico era a última coisa na sua mente. Retribuiu os beijos dele com uma carência que os deixou a ambos surpreendidos. Há tanto tempo privada de amor, perdera todo o sentido do desejo ardente. Apenas agora, à medida que cada parte do seu ser adquiria uma nova vida, se recordava do que era sentir desejo e os seus lábios procuravam os dele com a ânsia de uma mulher esfaimada. Foi ela que o puxou através do vestíbulo, levando-o até ao quarto, beijando-o durante todo o percurso. Foi ela que lhe desabotoou a camisa e lhe desapertou a fivela do cinto. Ele sabia, de uma maneira qualquer sabia que não poderia ser ele a tomar a iniciativa, porque essa atitude só serviria para a amedrontar. Naquela primeira vez, era ela que teria de indicar o caminho. Contudo, não podia esconder o quanto se sentia excitado, e ela apercebeu-se disso quando lhe abriu o fecho das calças e estas caíram.

Ele estendeu as mãos para os botões da blusa dela, mas deteve-se, o seu olhar a procurar os olhos de Catherine. No entanto, a expressão dela e a sua respiração arquejante não lhe deixaram lugar para qualquer dúvida; era aquilo que ela queria. Lentamente, a blusa começou a abrir-se, deslizando-lhe para fora dos ombros. O sutiã caiu com um som roçagante. Ele despiu-a com a maior das delicadezas, sem dar a impressão de que estava a despojá-la das suas defesas, mas como se fosse uma libertação desejada. Uma desopressão. Catherine fechou os olhos, suspirando de prazer quando ele se inclinou para lhe beijar os seios. Não era um acto de agressividade, mas de respeito.

E assim, pela primeira vez em dois anos, Catherine permitiu que um homem fizesse amor consigo. Não houve a intrusão de pensamentos de Andrew Capra enquanto ela e Moore estavam deitados na cama. Não existiram momentos fugazes de pânico, nem de recordações aterradoras enquanto despiam as últimas peças de roupa, quando o peso do corpo dele fez pressão sobre o dela contra o colchão. O que outro homem lhe fizera fora um acto tão brutal que não tinha a mínima relação com aquele momento, com aquele corpo que ela habitava. A violência não é sexualidade e a sexualidade não é amor. Amor foi o que ela sentiu quando Moore a penetrou, as mãos dele a emoldurarem-lhe o rosto, os olhos dele presos nos dela. Ela já se esquecera do prazer que um homem podia proporcionar, e deixou-se perder naquele momento, experimentando contentamento como se fosse a primeira vez na sua vida.

Já estava escuro quando Catherine acordou nos braços de Moore. Sentiu-o mexer-se e ouviu-o perguntar:

- Que horas são?

- Oito e um quarto.

- Mau! - exclamou Moore rindo-se, atordoado e deitando-se de costas. - Não sou capaz de acreditar que tenhamos dormido durante toda a tarde. Calculo que o cansaço tenha levado a melhor.

- Ultimamente não tens andado a dormir o suficiente.

- Quem é que precisa de dormir?

- Estás a falar como um médico.

- Há uma coisa que temos em comum - disse Moore, a sua mão percorrendo o corpo dela. - Tanto tu como eu estivemos privados demasiado tempo...

Não se mexeram durante uns momentos, até que ele perguntou em voz baixa:

- Como é que foi para ti?

- Estás a perguntar-me até que ponto te considero um bom amante?

- Não. Só queria saber como é que foi para ti. Sentires as minhas mãos no teu corpo.

- Foi bom - respondeu Catherine com um sorriso.

- Não fiz nada de errado? Não te assustei?

- Fazes-me sentir segura. É disso que eu preciso. Sentir-me segura. Acho que és o único homem que conseguiu compreender isso. O único homem em que sou capaz de confiar.

- Ainda há homens merecedores de confiança - retrucou Moore.

- Sim, mas quais? Nunca sei quem são.

- E só saberás nos momentos decisivos. Ele será o homem que ainda estará ao teu lado.

- Então parece-me que nunca o encontrei. Ouvi outras mulheres dizerem que assim que se conta a um homem o que nos aconteceu, assim que se menciona a palavra violação, os homens apressam-se a bater em retirada. Como se fôssemos mercadoria estragada. Os homens nem querem ouvir falar disso. Preferem o silêncio à confissão. Mas o silêncio expande-se. Apodera-se da situação, até não conseguirmos falar sobre o que quer que seja. Tudo na vida passa a ser tabu.

- Ninguém consegue viver dessa maneira - observou Moore.

- É a única maneira de as pessoas conseguirem conviver connosco. Se nos mantivermos em silêncio. Porém, mesmo quando não falo sobre o assunto, este continua presente.

Moore beijou-a e esse acto tão simples revestiu-se de mais intimidade do que qualquer outro acto de amor, porque se seguira a uma confissão.

- Ficas comigo esta noite? - perguntou ela num sussurro.

- Se me deixares levar-te a jantar fora - replicou ele, a respiração morna no cabelo dela.

- Oh, esqueci-me completamente de que tinha de comer.

- Aí está a diferença entre os homens e as mulheres. Um homem nunca se esquece de comer.

- Então vai preparar-nos qualquer coisa que se beba - disse ela sentando-se e sorrindo-lhe. - Eu vou dar-te de comer.

Moore preparou dois martínis que beberam enquanto ela preparava uma salada e punha bifes a grelhar. Comida masculina, pensou Catherine, divertida consigo própria. Carne mal passada para o novo homem na sua vida. Cozinhar nunca lhe parecera tão agradável como naquela noite, com Moore a passar-lhe o sal e a pimenta, enquanto a cabeça dela como que zunia sob o efeito do gim. Também não se recordava de qual fora a última vez em que uma refeição lhe soubera tão bem. Era como se tivesse acabado de sair de uma garrafa selada, experimentando pela primeira vez os sabores e os cheiros em toda a sua plenitude.

Comeram sentados à mesa da cozinha, acompanhando a refeição com vinho. A cozinha de Catherine, com os seus azulejos e armários brancos, parecia-lhe subitamente cheia de cores vibrantes. A cor rubi do vinho, o verde da alface de textura firme, o azul dos quadrados dos guardanapos. E Moore sentado à sua frente. Não havia muito tempo, pensara que ele era um homem insípido, como todos os outros homens com que se cruzava nas ruas da cidade, sem nada que os distinguisse dos demais, como esboços traçados numa tela em branco. Só agora é que o via como ele era realmente, a calidez da sua pele avermelhada, a teia de rugas à volta dos olhos quando se ria. Todas as imperfeições encantadoras numa fisionomia que mostrava experiência de vida.

"Temos a noite toda", pensou Catherine; a perspectiva do que o resto da noite lhe reservaria levou-lhe um sorriso aos lábios. Levantou-se da mesa e estendeu a mão a Moore.

 

Dr. Zucker interrompeu a projecção da cassete gravada durante a sessão com Dr. Polochek e virou-se para Moore e Marquette.

- É possível que se trate de uma falsa recordação. A doutora Cordell evocou uma segunda voz que nunca existiu. Bem vêem... esse é o problema com a hipnose. A memória é uma coisa fluida. Pode ser alterada, reescrita para se ajustar às expectativas. Ela foi para essa sessão acreditando que o Capra tinha um parceiro. E, de um momento para o outro.^a recordação passa a estar presente! Uma segunda voz. Um segundo homem dentro de casa. - Zucker abanou a cabeça. - Não me parece um método fiável.

- Não é apenas a memória que corrobora a presença de um segundo criminoso - disse Moore. - O nosso homicida só pode ter arranjado em Savannah os cabelos cortados que lhe enviou.

- E ela diz que esse cabelo foi cortado em Savannah - salientou Marquette.

- Também não acredita nela?

- O tenente está a referir-se a um aspecto muito válido - adiantou Zucker. - Estamos a lidar com uma mulher emocional-mente fragilizada. Mesmo decorridos dois anos desde que foi atacada, talvez ainda não tenha recuperado a estabilidade emocional.

- Ela é uma cirurgiã especializada em traumatismos.

- Sim, e funciona na perfeição no local de trabalho. Mas está psicologicamente traumatizada. Vocês sabem isso. A agressão deixou a sua marca.

Moore remeteu-se ao silêncio, pensando no primeiro dia em que vira Catherine. Como os seus movimentos eram precisos, controlados. Uma pessoa muito diferente da rapariga despreocupada que se revelara durante a sessão de hipnotismo, a jovem Catherine que se deleitara com o sol no ancoradouro da casa dos avós. E na noite anterior, a jovem Catherine cheia de alegria que reemergira nos seus braços. Havia estado sempre presente, aprisionada numa concha quebradiça, à espera de ser libertada.

- Então, quais são as conclusões que tiramos desta sessão de hipnose? - perguntou Marquette.

- Não estou a afirmar que ela não acredita no que diz - prosseguiu Zucker. - Que não se recorde vividamente. É o mesmo que dizer a uma criança que havia um elefante no jardim das traseiras. Após algum tempo, a criança acredita nisso com tanta convicção que até é capaz de descrever a tromba do elefante imaginário, os bocados de palha no dorso. O dente quebrado. A recordação torna-se realidade. Até mesmo quando nunca aconteceu.

- Não podemos descartar completamente essa recordação - declarou Moore. - Pode achar que a memória dela não é fiável, mas não há dúvida de que a Cordell é o foco de interesse do nosso assassino desconhecido. O que o Capra começou... a perseguição, a matança... não parou. É algo que a seguiu até aqui.

- Um imitador? - alvitrou Marquette.

- Ou um parceiro - adiantou Moore. - Existem precedentes.

Zucker concordou com um aceno de cabeça.

- As parcerias entre assassinos não são assim tão invulgares. Temos tendência a pensar que os assassinos em série são lobos solitários, mas pelo menos um quarto deste tipo de homicídios é cometido por parceiros. Henry Lee Lucas tinha um parceiro. Kenneth Bianchi também. Facilita-lhes as coisas. O sequestro, o controlo. É uma caçada em que ambos cooperam com vista a garantir o sucesso.

- Os lobos caçam em alcateia - disse Moore. - Talvez o Capra tenha feito o mesmo.

Marquette pegou no comando à distância do aparelho de vídeo, premiu o botão de rewind e depois o de play. No ecrã da televisão apareceu a imagem de Catherine com os olhos fechados e braços flácidos.

Quem é que diz essas palavras? Quem é que diz: "Éa minha vez, Capra"?

Não sei. Não reconheço essa voz.

Marquette premiu o botão de pausa e o rosto de Catherine imobilizou-se no ecrã. Olhou para Moore.

- Já passaram mais de dois anos desde que ela foi atacada em Savannah. Se ele era o parceiro do Capra, por que razão esperou tanto tempo para vir atrás dela? Porque é que isso está a acontecer agora?

- É uma pergunta que faço a mim mesmo - retorquiu Moore com um aceno de cabeça. - Acho que sei qual é a resposta. - Abriu uma pasta que levara para a reunião e tirou parte de uma página do Boston Globe. - Este artigo foi publicado dezassete dias antes do assassínio da Elena Ortiz. É sobre as médicas que praticam cirurgia em Boston. Um terço do artigo é dedicado à doutora Cordell. Ao êxito dela. Aos seus feitos como cirurgiã. E é acompanhado por uma fotografia dela a cores. - Entregou aquela parte do jornal ao Dr. Zucker.

- Ah! Mas isto é muito interessante - comentou ele. - O que vê quando olha para esta fotografia, detective Moore?

- Uma mulher atraente.

- E além disso? O que é que a postura dela e a expressão facial lhe dizem?

- Confiança em si própria - respondeu Moore, fazendo uma pausa. - Distanciamento.

- É isso que também vejo. Uma mulher que se encontra na primeira linha. Uma mulher intocável. Braços cruzados e queixo erguido. Fora do alcance do comum dos mortais.

- Onde pretende chegar? - perguntou Marquette.

- Pensem no que excita o nosso homicida. Mulheres conspurcadas, contaminadas pela violação. Mulheres que, em termos simbólicos, estão destruídas. E aqui está a Catherine Cordell, a mulher que matou o parceiro dele, o Andrew Capra. Ela não parece traumatizada. Não tem a aparência de uma vítima. Não, nesta fotografia ela tem o aspecto de uma vencedora. O que lhe parece que ele sentiu quando viu isto? - perguntou Zucker olhando para Moore.

- Cólera.

- Não só cólera, detective. Raiva, raiva na sua expressão mais pura, incontrolável. Depois de ela ter deixado Savannah, ele segue-a até Boston, mas não consegue chegar a ela porque Catherine tratou de se proteger. Assim, ele espera a sua hora e, entretanto, vai matando outros alvos. Muito provavelmente imaginará a Cordell como uma mulher traumatizada. Uma criatura sub-humana, à espera da sua vez de ser ceifada como vítima. Mas, então, um belo dia abre o jornal, deparando não com uma vítima, mas com esta cabra de ar vencedor. - Zucker devolveu o artigo a Moore. - O nosso homem está a tentar vergá-la de novo. Está a utilizar o terror para o conseguir.

- E qual será o seu objectivo final? - perguntou Marquette.

- Reduzi-la a um nível em que possa voltar a lidar com a situação a seu bel-prazer. Ele só ataca mulheres que se comportam como vítimas. Mulheres que estão tão abaladas psicologicamente e humilhadas que ele não se sente ameaçado por elas. E se, de facto, o Andrew Capra era o parceiro dele, tal significa que o nosso assassino também tem outra motivação. Vingança pelo que ela destruiu.

- Sendo assim, onde queremos nós chegar com esta teoria do parceiro oculto? - perguntou Marquette.

- Se o Capra tinha um parceiro - continuou Moore -, isso leva-nos de volta a Savannah. E isto porque aqui estamos a ficar de mão vazias. Já interrogámos quase mil pessoas sem ter encontrado qualquer presumível suspeito. Acho que chegou a altura de examinarmos todos aqueles que mantiveram contactos com o Andrew Capra. Para vermos se algum desses nomes nos apareceu aqui, em Boston. O Frost já está a telefonar para o detective Singer, a pista em Savannah. Ele pode ir de avião até lá para rever as provas.

- Porquê o Frost?

- E porque não?

- Andamos à caça de gambozinos? - perguntou Marquette olhando para Zucker.

- As vezes acabamos por apanhar um gambozino.

-^ Muito bem - aquiesceu Marquette. - Vamos lá a Savannah.

Moore pôs-se de pé para se ir embora, mas parou quando Marquette acrescentou:

- Importas-te de ficar mais um minuto? Preciso de falar contigo. - Esperaram até que Zucker saísse do gabinete, após o que Marquette fechou a porta, dizendo: - Não quero que seja o detective Frost a ir.

- Posso perguntar porquê?

- Porque quero que sejas tu a ir a Savannah.

- O Frost está pronto para partir. Já se preparou para isso - alegou Moore.

- Isto não tem nada a ver com o Frost. Tem a ver contigo. Precisas de algum distanciamento deste caso.

Moore ficou em silêncio, sabendo onde o outro queria chegar.

- Tens passado demasiado tempo com a Catherine Cordell - adiantou Marquette.

- Ela é uma peça muito importante na investigação.

- Passas demasiadas noites na companhia dela. Na terça-feira foste a casa dela à meia-noite.

Rizzoli. A Rizzoli sabe.

- E no sábado ficaste a noite toda com ela. O que se passa entre vocês dois?

Moore não lhe respondeu. O que poderia dizer? Sim, passei dos limites. Mas não fui capaz de me impedir.

Marquette deixou-se cair na cadeira da sua secretária, mostrando uma expressão de profundo desapontamento.

- Não sou capaz de acreditar que estou a falar contigo sobre este assunto. Tu, a última pessoa de quem eu suspeitaria - disse com um suspiro. - Está na altura de recuares. Vamos destacar outra pessoa para lidar com ela.

- Mas ela confia em mim.

- É só isso que existe entre vocês os dois, confiança?. O que me chegou aos ouvidos vai muito mais além. Acho que não preciso de te dizer o quanto isto é desapropriado. Olha, já vimos isto acontecer a outros polícias. Nunca resulta. E desta vez também não resultará. Neste momento, ela precisa de ti e, por acaso, tu até estás à mão. Vocês dois andam todos excitados e cheios de ardor durante algumas semanas, talvez um mês. Mas depois, uma bela manhã, ambos acordam e pumba!, está tudo acabado. Ou ela ou tu sairão magoados do assunto. E toda a gente lamentará o sucedido.

Marquette feç uma pausa, esperando que Moore dissesse alguma coisa. Mas este não tinha nada a dizer.

- Independentemente dos aspectos de natureza pessoal - continuou Marquette -, isto complica as investigações. Além de que é constrangedor para toda a brigada! - Fez um gesto brusco na direcção da porta. - Portanto, és tu que vais a Savannah. E mantém-te longe da Cordell!

- Preciso de lhe explicar...

- Nem te atrevas a telefonar-lhe. Nós tratamos de fazer com que ela receba a mensagem. Vou destacar o Crowe para te substituir.

- O Crowe, nãol - ripostou Moore em tom irritado.

- Então, quem?

- O Frost - respondeu Moore suspirando. - Que seja o Frost a ir.

- De acordo, o Frost. E agora vai apanhar o avião. Estás a precisar de sair da cidade para arrefecer as ideias. Deves estar furioso comigo neste momento. Mas só estou a pedir-te que te comportes da maneira mais correcta.

Moore sabia isso e custava-lhe que alguém lhe pusesse um espelho à frente para ele ver o seu próprio comportamento. O que viu nesse espelho imaginário foi um São Tomas, o Caído, tombado pelos seus próprios desejos. E a verdade deixava-o enfurecido porque não podia assacar culpas a mais ninguém. Não podia negar o que se tinha passado. Conseguiu manter-se em silêncio até sair do gabinete de Marquette, mas quando viu Rizzoli sentada à secretária não foi capaz de se conter.

- Parabéns - disse Moore. - Conseguiste vingar-te. Sabe bem deitar os outros abaixo, não sabe?

- Foi o que fiz?

- Contaste ao Marquette.

- Bem... sim, mas se o fiz não terei sido o primeiro polícia a lixar um colega.

Foi uma vingança dolorosa, tal como tinha sido a intenção dela. Num silêncio cheio de frieza, ele virou-lhe as costas e afastou-se.

Quando saiu do edifício, deteve-se na passagem de acesso à garagem, desolado por não poder estar com Catherine naquela noite. No entanto, reconhecia que Marquette tinha razão; era assim que as coisas deviam ser. Como deviam ter sido desde o princípio, uma separação bem definida entre os dois, as forças da atracção eram ignoradas. Mas ela encontrava-se muito vulnerável e ele, numa atitude idiota, sentira-se atraído por isso. Ao cabo de vários anos de comportamento irrepreensível, via-se agora num terreno com o qual não estava familiarizado, uma situação perturbadora que não era gerida pela lógica mas pela paixão. Não se sentia à vontade naquele novo mundo. Enão sabia como encontrar o caminho para poder sair dele.

Catherine estava sentada no carro a tentar ganhar coragem para entrar no número um da Schroeder Plaza. Durante toda a tarde, que fora preenchida por uma sucessão de consultas, expressara mecanicamente as banalidades do costume enquanto examinava os pacientes, consultava colegas e lidava com as pequenas irritações que surgiam sempre ao longo do dia de trabalho. Todavia, os seus sorrisos tinham sido forçados e, por baixo da fachada de cordialidade, havia um sentimento de desespero em estado latente prestes a eclodir. Moore não lhe retribuía os telefonemas e ela não sabia porquê. Tinham passado somente uma noite juntos, mas já havia qualquer coisa a ensombrar a relação dos dois.

Finalmente, saiu do carro, dirigindo-se para o quartel-general da polícia de Boston.

Apesar de já ter estado ali numa ocasião, aquando da sessão de hipnose com o Dr. Polochek, o edifício continuava a parecer-lhe uma fortaleza assustadora em cujo interior não se sentia à vontade. Essa impressão foi reforçada pelo agente de uniforme que a olhou por detrás do balcão da recepção.

- Em que posso ajudá-la? - perguntou o homem com uma expressão neutra.

- Queria falar com o detective Thomas Moore da Brigada de Homicídios.

- Vou ligar lá para cima. Quem devo anunciar?

- Catherine Cordell.

Enquanto o agente ligava, ela aguardou no átrio, sentindo-se como que avassalada pelo granito polido, por todos os homens, tanto de uniforme como à paisana, que passavam por ela, lançando-lhe olhares curiosos. Aquele era mais o universo de Moore, pelo que se sentia como uma estranha ali, uma intrusa onde os homens duros, com armas que reflectiam a luz nos coldres, a olhavam fixamente. De súbito, apercebeu-se de que aquilo era um erro, que nunca devia ter ido ali; começou a encaminhar-se para a saída. Quando já se aproximava da porta, ouviu alguém chamá-la.

- Doutora Cordell?

Virou-se, reconhecendo o homem louro de rosto simpático e brando que acabara de sair do elevador. Era o detective Frost.

- Porque não vamos até lá cima? - sugeriu ele.

- Vim falar com o Moore.

- Sim, eu sei. Vim cá abaixo buscá-la. - Fez um gesto indicando o elevador. - Vamos?

Chegados ao segundo andar, ele conduziu-a por um corredor até chegarem às instalações da Brigada de Homicídios. Ela nunca tinha estado naquela parte do edifício, e ficou surpreendida ao verificar que o ambiente era muito semelhante ao dos escritórios de uma empresa, com os inúmeros computadores e secretárias agrupados em zonas de trabalho diferenciadas. Frost indicou-lhe uma cadeira e ela sentou-se. A expressão nos olhos dele era de simpatia. Não lhe era difícil ver que ela sentia algum mal-estar naquele local estranho, e esforçou-se por pô-la mais à vontade.

- Toma um café? - perguntou.

- Não, obrigada.

- Quer outra coisa qualquer? Um refrigerante? Um copo de água?

- Agradeço, mas não quero nada.

Frost também se sentou.

- Portanto, doutora Cordell, o que a trouxe aqui?

- Vinha à espera de poder falar com o detective Moore. Passei toda a manhã no bloco operatório e pensei que ele talvez tivesse tentado entrar em contacto comigo...

- Na verdade... - Frost interrompeu-se, constrangido. - Deixei uma mensagem a alguém dos seus serviços administrativos por volta do meio-dia. A partir de agora, deve telefonar-me sempre que quiser falar sobre o caso, e não ao detective Moore.

- Sim, recebi essa mensagem. Mas só queria saber... - Catherine fez um esforço para conter as lágrimas. - Quero saber por que motivo a situação se alterou.

- Bom... foi porque... tivemos de reestruturar as investigações.

- O que quer dizer com isso?

- Precisamos que o Moore se concentre noutros aspectos do caso.

- E quem decidiu tal coisa?

- Para lhe falar francamente, doutora Cordell, não sei - respondeu Frost, cada vez mais constrangido.

- Foi o Moore?

- Não - respondeu o agente depois de outra pausa.

- Portanto, não se trata de uma questão de ele... de ele não querer estar comigo.

- Tenho a certeza de que não é esse o caso.

Catherine não sabia se ele estava a dizer-lhe a verdade ou, simplesmente, a tentar acalmá-la. Reparou em dois detectives, noutra zona de trabalho, que olhavam fixamente para ela; de súbito, corou de cólera. Seria possível que todos estivessem a par da verdade menos ela? Era comiseração que via nos olhos deles? Durante toda a manhã como que saboreara as recordações da noite anterior. Tinha estado à espera que Moore lhe ligasse, ansiara por ouvir a voz dele, sabendo que ele estaria a pensar em si. Mas Moore não lhe telefonara.

Ao meio-dia entregaram-lhe a mensagem telefónica de Frost, na qual era informada que, de futuro, todas as questões que ela tivesse em relação ao caso seriam canalizadas para Frost.

- Existe alguma razão para que eu não possa falar com ele? - perguntou ela, cabeça bem erguida, mas fazendo um esforço para não chorar.

- Lamento ter de lhe dizer que, nesta altura, ele se encontra ausente da cidade. Partiu esta tarde.

- Compreendo. - Catherine compreendia, sem que lhe dissessem, que ele não lhe revelaria mais nada. Não perguntou para onde Moore fora nem como poderia contactá-lo. Já se tinha vexado suficiente ao ir ali, e o orgulho assumiu o domínio da situação. Durante os últimos dois anos, o orgulho havia sido a sua principal fonte de força. Fora o que a mantivera a andar em frente, dia após dia, recusando-se a assumir a atitude de vítima. Os outros que conviviam com ela viam apenas competência e distanciamento emocional, porque isso era tudo o que ela permitia que vissem.

Só o Moore é que me viu como sou realmente. Psicologicamente afectada e vulnerável. E este é o resultado. É por esta razão que nunca mais posso voltar a mostrar fraqueza.

Quando se levantou para se ir embora, tinha as costas bem direitas e um olhar firme. Ao sair da zona do escritório, passou pela secretária de Moore. Sabia que era a dele por ter visto o nome na placa. Deteve-se apenas o tempo suficiente para ver a fotografia emoldurada de uma mulher sorridente e com o sol a incidir-lhe nos cabelos. Saiu, deixando para trás o universo de Moore e regressando, muito magoada, ao seu próprio mundo.

 

Moore tinha pensado que o calor em Boston era insuportável; não estava preparado para lidar com o tempo em Savannah. Quando chegou ao aeroporto ao final da tarde teve a sensação de que entrava num banho de imersão muito quente, parecendo estar a andar num meio líquido, os membros moles enquanto caminhava em direcção ao parque de estacionamento dos carros de aluguer, onde o calor ondulava sobre o macadame. Quando chegou ao quarto do hotel tinha a camisa encharcada de suor. Despiu-se e deitou-se na cama por alguns minutos, para descansar um pouco, mas acabou por dormir durante o resto da tarde.

Quando despertou já estava escuro e ele tremia no quarto demasiado frio pelo ar condicionado. Sentou-se na beira da cama, sentindo a cabeça a latejar.

Tirou uma camisa lavada do saco de viagem, vestiu-se e saiu do hotel.

Até à noite o ar era como um banho de vapor, mas ele conduziu com a janela aberta, inalando os cheiros húmidos do Sul. Se bem que nunca tivesse estado em Savannah, já ouvira falar dos seus encantos, das suas belas mansões antigas, dos bancos de jardim de ferro forjado e do livro Meia-Noite no Jardim do Bem e do Mal. Mas naquela noite não andava à procura dos locais que mais atraíam turistas. Seguia em direcção a uma morada específica no canto nordeste da cidade. Era uma área residencial muito agradável, de vivendas pequenas mas muito bem cuidadas, com alpendres na frente e jardins vedados com árvores de copas frondosas. Encontrou o caminho para a Ronda Street, parando defronte da casa que procurava.

As luzes estavam acesas no interior e Moore viu o clarão azulado do ecrã de uma televisão.

Perguntou a si mesmo quem viveria ali naquela altura e se os moradores actuais estariam ao corrente da história da casa em que viviam. Quando desligavam as luzes à noite e iam para a cama, pensariam no que se tinha passado precisamente naquele quarto? Deitados no escuro, pôr-se-iam à escuta para ouvir os ecos de terror que ainda reverberavam dentro daquelas paredes?

Viu a silhueta de uma pessoa passar pelo lado de dentro da janela - uma mulher esbelta e de cabelos compridos. Uma figura muito parecida com a de Catherine.

Ele visualizou mentalmente o que se havia passado. Um homem jovem no alpendre a bater à porta da frente. A porta a abrir-se, deixando sair a luz de tonalidade ambarina que quebrava a escuridão. Catherine na soleira da porta, recortada contra essa luz, convidando a entrar o jovem colega que conhecia do hospital, sem desconfiar dos horrores por que ele planeava fazê-la passar.

E a segunda voz, o segundo homem... Por onde é que entra?

Moore deixou-se ficar ali sentado durante muito tempo, observando a casa, examinando as janelas e os arbustos. Saiu do carro, começando a andar pelo passeio, com a intenção de contornar a casa para poder ver para lá da parede lateral. Os arbustos estavam crescidos e eram densos, o que o impedia de avistar as traseiras da casa.

No outro lado da rua, a luz de um alpendre acendeu-se. Deu meia volta e viu uma mulher corpulenta a observá-lo de uma janela, segurando um auscultador de telefone.

Moore voltou para o carro e saiu dali. Havia outro endereço a que queria ir. Ficava próximo do State College, alguns quilómetros para sul. Perguntou a si mesmo quantas vezes teria Catherine percorrido aquela mesma estrada, se aquela pequena pizaria no lado esquerdo ou aquela lavandaria à direita eram lugares onde costumava ir. Para onde quer que olhasse, tinha a impressão de ver o rosto dela, o que o deixava perturbado. Significava que permitira que as suas emoções se interligassem com as investigações, o que não seria vantajoso para ninguém.

Chegou à rua que procurava. Percorridos alguns quarteirões parou defronte do que devia ter sido a morada que o levara ali. Mas encontrou apenas um terreno abandonado cheio de ervas. Tinha esperado encontrar um edifício, propriedade da Sra. Stella Poole, uma viúva de cinquenta e oito anos. Três anos antes, a Sra. Poole arrendara o apartamento do andar de cima a um estagiário de cirurgia de nome Andrew Capra, um jovem sossegado que pagava sempre a renda no prazo estabelecido.

Moore saiu do carro e ficou parado no passeio por onde, certamente, Andrew Capra teria andado. Com o olhar, percorreu a rua de um extremo ao outro, a rua que fizera parte do bairro onde Andrew Capra vivera. Ficava apenas a alguns quarteirões do State College e Moore calculou que muitas das casas naquela rua teriam sido arrendadas a estudantes - inquilinos de curta duração que talvez nem sequer estivessem a par da história macabra que tivera lugar naquele bairro.

Uma rajada de vento agitou o ar mormacento e ele não gostou do cheiro que lhe chegou às narinas. Era o odor a mofo da decadência. Ergueu o olhar para uma árvore no que em tempos fora o jardim da frente de Andrew Capra, reparando no aglomerado de barbas-de-velho que pendia de um ramo. Estremeceu, pensando: Que planta estranha, recordando-se de uma Noite das Bruxas grotesca dos seus tempos de menino, quando um vizinho, pensando ser boa ideia assustar as crianças que andavam de porta em porta a pedir guloseimas, atara uma corda à volta do pescoço de um espantalho e pendurara-o no ramo de uma árvore. Quando viu aquilo, o pai de Moore ficou lívido. Imediatamente, entrara pelo jardim da casa ao lado, ignorando os protestos do vizinho, e cortara a corda de que o espantalho estava suspenso.

Inesperadamente, Moore sentiu o mesmo impulso, subir à árvore para puxar as tiras de barbas-de-velho suspensas da árvore.

Porém, em vez disso, voltou para o carro e regressou ao hotel.

O detective Mark Singer pousou uma caixa de cartão em cima da mesa e esfregou as mãos para sacudir o pó.

- Esta é a última. Levámos todo o fim-de-semana para as encontrar, mas estão todas aí.

Moore olhou para a dúzia de caixas que continham provas alinhadas em cima da mesa.

- Vou ter de trazer um saco de dormir e mudar-me para cá - comentou Moore.

- Talvez não fosse má ideia - retrucou Singer rindo-se -, caso esteja a pensar em examinar todas as folhas de papel que estão dentro dessas caixas. Não pode levar nada para fora do edifício, de acordo? A máquina de fotocópias está ao fundo do corredor; só precisa de dar entrada do seu nome e agência. A casa de banho é por ali. A maior parte das vezes, temos café e donuts na sala de convívio da brigada. Se tirar algum donuts, os rapazes agradecem que deixe umas quantas moedas no boião de vidro. - Apesar de tudo isto ter sido dito com um sorriso, Moore compreendeu a mensagem implícita nas palavras pronunciadas com o sotaque arrastado do Sul: Nós temos as nossas regras e até os figurões de Boston têm de as cumprir.

Catherine não simpatizara com aquele polícia e Moore compreendeu porquê. Singer era mais novo do que ele esperara, ainda não tinha quarenta anos, um indivíduo musculado que trabalhava incansavelmente e não aceitava críticas de bom grado. Só podia haver um chefe da matilha e, de momento, Moore deixaria que fosse Singer.

- Estas quatro caixas contêm os dossiês mais importantes da investigação - continuou Singer. - Talvez queira começar por eles. Nesta temos os ficheiros de Adanta respeitantes ao caso de Dora Cic-cone. Só as fotocópias.

- O Departamento da Polícia de Adanta tem esses originais?

- Da primeira vítima, a única que ele assassinou nessa cidade - confirmou Singer acenando com a cabeça.

- Uma vez que são só fotocópias, posso levar a caixa para fora do edifício? Para poder rever os documentos no hotel?

- Desde que os devolva - retorquiu Singer suspirando ao olhar para as caixas. - Não estou bem certo quanto ao que você pensa que anda à procura. Nunca houve um caso mais simples de resolver. Em todos os homicídios encontrámos o ADN do Andrew Capra. Também encontrámos fibras que condiziam. De igual modo, temos a oportunidade. O Capra vivia em Atlanta e a Dora Ciccone foi assassinada em Adanta. Ele muda-se para Savannah e as senhoras da nossa cidade começam a aparecer mortas. Ele esteve sempre no lugar certo à hora certa.

- Não duvido nem por um minuto que o Capra fosse o vosso homem.

- Nesse caso, por que motivo está a desenterrar tudo isto? Alguma desta documentação já tem três ou quatro anos.

Moore detectou um tom defensivo na voz de Singer e percebeu que a diplomacia era a palavra-chave naquela situação. Qualquer alusão a erros cometidos por Singer no decurso da investigação de Capra, o facto de ele ter deixado escapar o pormenor fundamental de Capra ter tido um parceiro, e deixaria de haver qualquer esperança de cooperação da parte do Departamento da Polícia de Savannah.

Moore teve o cuidado de escolher uma resposta em que não haveria a mínima censura implícita.

- Nós temos a teoria de um imitador - disse. - O nosso assassino de Boston dá a impressão de ser um admirador do Capra. Anda a reproduzir os crimes dele com grande minúcia.

- E como é que ele sabe os pormenores?

- Talvez se tenha correspondido com o Capra em vida deste.

- Um clube de fãs perverso, é isso? Que beleza - retorquiu Singer, que parecia ter ficado mais descontraído. Chegou mesmo a rir-se.

- Dado o nosso homicida estar intimamente familiarizado com o modo de operar do Capra, eu também preciso de estar a par de todos os pormenores.

- Então, avance - retrucou Singer fazendo um gesto na direcção da mesa.

Depois de Singer ter saído da sala, Moore começou a ler as etiquetas nas caixas que continham as provas. Começou por abrir a que estava marcada com "IC #/". Os Ficheiros de Controlo da Investigação. Dentro havia três pastas de fole em que cada divisória estava completamente cheia. E aquela era apenas uma de quatro caixas assinaladas com "IC". A primeira pasta continha os relatórios dos três crimes cometidos em Savannah, as declarações prestadas por testemunhas e os mandados efectuados. A segunda pasta continha os ficheiros dos suspeitos, verificação de registos criminais e relatórios laboratoriais. Naquela primeira caixa havia material suficiente para o manter ocupado todo o dia.

E havia mais onze caixas à sua espera.

Começou a rever o resumo final elaborado por Singer. Uma vez mais, ficou surpreendido ao ver como as provas contra Andrew Capra eram absolutamente irrefutáveis. Havia registo de um total de cinco ataques de natureza sexual, quatro destes fatais. A primeira vítima fora Dora Ciccone, assassinada em Adanta. Um ano mais tarde, os homicídios começaram a ocorrer em Savannah. Três mulheres no espaço de um ano: Lisa Fox, Ruth Voorhees e Jennifer Torregrossa.

Os homicídios acabaram quando Capra foi alvejado mortalmente no quarto de Catherine Cordell.

Em todos esses casos encontraram-se vestígios de sémen na região vaginal das vítimas, tendo vindo a provar-se que o ADN correspondia a Andrew Capra. Os fios de cabelo deixados nos locais onde Fox e Torregrossa haviam sido assassinadas condiziam com os de Capra. A primeira vítima, Ciccone, fora assassinada em Atlanta no mesmo ano em que Capra concluira o seu último ano na Faculdade de Medicina da Universidade Emory, em Adanta.

Os assassínios seguiram Capra até Savannah.

Todas as provas, por muito ínfimas que fossem, formavam um padrão apertadamente urdido e o tecido parecia ser indestrutível. Porém, à medida que ia lendo, Moore apercebia-se de que se encontrava perante a súmula do caso, nada mais, em que os elementos favoráveis às conclusões de Singer convergiam. Os pormenores contraditórios talvez tivessem sido deixados de fora. Mas eram precisamente esses pormenores, as inconsistências que embora pequenas possuíam muito significado, que ele esperava vir a encontrar naquelas caixas que continham as provas. "Algures aqui", pensou ele, "o Cirurgião deixou as suas pegadas."

Abriu a primeira pasta de fole e começou a ler.

Quando, por fim, se levantou da cadeira, três horas depois, e se espreguiçou para se ver livre das dores nas costas, já era meio-dia e ele ainda mal tinha começado a escalar aquela montanha de papel. Ainda nem sequer lhe chegara uma emanação do cheiro do Cirurgião. Contornou a mesa, lendo as etiquetas nas caixas que ainda estavam por abrir, e reparou numa que dizia: "N.° 12 Fox/Torregrossa/ Voorhees/Cordell. Recortes de jornais/Vídeos/Diversos."

Abriu essa caixa, deparando com meia dúzia de cassetes de vídeo por cima de uma pilha volumosa de pastas. Tirou para fora a cassete onde se lia: Residência de Capra. Tinha a data de 16 de Junho. O dia a seguir àquele em que Catherine fora atacada.

Encontrou Singer sentado à secretária a comer uma sanduíche. Uma especialidade bem recheada de rosbife. A secretária em si dizia muito a Moore a respeito de Singer. Estava organizada até ao mais ínfimo pormenor, com as pilhas de papéis arrumadas de modo a que os cantos coincidissem com toda a precisão. Um polícia eficiente em relação aos pormenores, mas com quem, provavelmente, seria insuportável trabalhar.

- Têm algum leitor de vídeo que eu possa usar? - perguntou Moore.

- Guardamo-lo fechado à chave.

Moore ficou à espera, uma vez que o pedido seguinte era tão óbvio que nem se deu ao incómodo de o verbalizar. Com um suspiro cheio de dramatismo, Singer estendeu a mão para a secretária, pegando nas chaves e pondo-se de pé.

- Calculo que o queira usar imediatamente, não é verdade? Já no armazém, Singer puxou o carrinho que tinha o vídeo e o televisor, empurrando-o até à sala em que Moore estava a trabalhar. Ligou as fichas e premiu os botões necessários para pôr em funcionamento os aparelhos, grunhindo de satisfação quando tudo ficou pronto.

- Obrigado - agradeceu Moore. - É provável que vá precisar disto durante uns dias.

- Já descobriu alguma coisa fantástica? - A nota de sarcasmo era indisfarçável no seu tom de voz.

- Ainda agora comecei - ripostou Moore.

- Estou a ver que encontrou a cassete do Capra - notou Singer com um abanar de cabeça. - Você nem acreditaria nas merdas aberrantes que encontrámos naquela casa.

- Ontem à noite passei de carro por essa morada, mas agora só existe um terreno abandonado.

- O prédio ardeu há mais ou menos um ano. Depois do Capra, a senhoria não conseguia arrendar o apartamento do último andar. Portanto, decidiu começar a cobrar visitas guiadas e, acredite ou não, apareceram muitos interessados. Sabe como é, os pervertidos dos admiradores da Anne Rice que iam em veneração ao covil do monstro. Que diabo, até a senhoria era um tanto ou quanto aberrante.

- Vou precisar de falar com ela - disse Moore.

- Não é possível, a menos que consiga falar com os mortos.

- O incêndio?

- A criatura ficou toda tostadinha - retorquiu Singer rindo-se. - Fumar é prejudicial para a saúde. Sem dúvida que ela provou isso mesmo.

Moore esperou que Singer saísse da sala. Só depois é que inseriu a cassete identificada como "Residência de Capra" no vídeo.

As primeiras imagens eram do exterior, luz do dia, uma panorâmica da fachada da casa onde Capra tinha vivido. Moore reconheceu a árvore no jardim da frente de onde pendiam as barbas-de-velho. A casa em si não tinha nada de bonito, era como uma caixa de dois pisos a precisar de ser pintada. A narração estava a cargo do operador de câmara que indicava a data, a hora e o local. Identificou-se como sendo o detective Spiro Pataki da polícia de Savannah. A julgar pela intensidade da luz, Moore calculou que a filmagem tivera lugar às primeiras horas da manhã. A câmara focou a rua, filmando uma pessoa que corria na altura, o rosto virado para a lente da câmara numa expressão de curiosidade. O trânsito era intenso (a hora de ponta da manhã?) e alguns dos moradores da vizinhança encontravam-se no passeio a olhar, curiosos, para o operador de câmara.

Em seguida, a câmara voltou a focar a casa, aproximando-se da porta da frente com a instabilidade de uma câmara levada ao ombro. Já no interior da casa, o detective Pataki filmou umas imagens de fugida do rés-o-chão onde a senhoria, a Sra. Poole, vivia. Moore viu carpetes desbotadas, mobiliário escuro e um cinzeiro a transbordar de pontas de cigarro. O vício que seria fatal a uma futura criatura muito tostadinha. A câmara começou a focar umas escadas estreitas, subindo até uma porta com uma tranca que dava acesso ao apartamento de Andrew Capra.

Só de ver aquelas imagens, Moore sentia claustrofobia. O segundo piso fora dividido em pequenas assoalhadas e quem fizera aquela "renovação" devia ter obtido um bom preço em painéis de madeira para revestimento. Todas as paredes estavam cobertas de folheado escuro. A câmara filmou um corredor tão estreito que dava a impressão de se afunilar num túnel.

"O quarto fica à direita", indicou Pataki que continuava a filmar, desviando a objectiva para enquadrar duas camas individuais, muito bem feitas, uma mesa-de-cabeceira e uma cómoda. O único mobiliário que caberia naquela espécie de pequena caverna sombria.

"Agora vamos deslocar-nos para a área de estar nas traseiras", continuou Pataki enquanto a câmara voltava a oscilar a caminho do túnel. Focou uma divisão maior onde se encontravam algumas pessoas de ar carrancudo. Moore descortinou Singer junto da porta de um armário. Era ali que a acção decorria.

A câmara focou Singer.

"Esta porta estava fechada a cadeado", disse o detective apontando para uma fechadura que fora forçada. "Tivemos de desprender as dobradiças. No interior encontrámos isto." Abriu a porta da arrecadação e puxou a corrente que ligava a luz.

Por breves momentos, a câmara ficou desfocada, mas, logo a seguir, voltou ao normal e a imagem que encheu o ecrã tinha uma nitidez surpreendente. Era uma fotografia a preto e branco de uma mulher, olhos muito abertos e expressão vazia, o pescoço com um corte tão profundo que a cartilagem da traqueia estava aberta.

"Julgo que esta mulher é a Dora Ciccone", continuou Singer. "Muito bem, agora foca esta."

A câmara deslocou-se para a direita, mostrando outra fotografia, outra mulher.

"Parecem ser fotografias tiradas aos cadáveres de quatro vítimas. Julgo que estamos a ver as imagens de Dora Ciccione, Lisa Fox, Ruth Voorhees e Jennifer Torregrossa depois de mortas."

Aquela era a galeria particular de Andrew Capra. Um retiro onde revivia o prazer que as suas matanças lhe proporcionavam. O que Moore achava mais perturbador do que as próprias imagens era o espaço vazio que restava nas paredes e a pequena embalagem de tachas que se encontrava em cima de uma prateleira. Espaço mais do que suficiente para outras fotografias.

Com uma rapidez estonteante, a câmara desviou-se da arrecadação, voltando a focar a sala de maiores dimensões. Com movimentos lentos, Pataki começou a filmar o que se encontrava em seu redor, um sofá, uma televisão, uma escrivaninha e um telefone. As prateleiras estavam cheias de livros de medicina. A câmara continuou a filmar até chegar à área da cozinha. O operador de câmara focou o frigorífico.

Moore inclinou-se mais para o ecrã; subitamente, sentiu a garganta seca. Já sabia o que iria ver, mas, apesar disso, a sua pulsação acelerou-se e ficou com o estômago às voltas ao ver Singer encaminhar-se para o frigorífico. Singer deteve-se e olhou para a câmara.

"Isto foi o que encontrámos no interior", disse o detective abrindo a porta.

 

Deu uma caminhada à volta do quarteirão e desta vez mal se apercebeu do calor, tanta a frialdade que sentia dentro de si ao lembrar-se das imagens que acabara de ver. O simples facto de ter saído da sala de reuniões, que passara a estar intimamente associada a cenas de horror, proporcionou-lhe um grande alívio. A própria cidade de Savannah, com o seu ar adocicado e luminosidade de um esverdeado suave, causava-lhe mal-estar. Boston era uma cidade de linhas angulares e os seus habitantes tinham vozes ásperas; todos os edifícios, todos os semblantes carrancudos eram mostrados em toda a sua crueza. Em Boston tinha-se a noção de que se estava vivo, quanto mais não fosse por nos sentirmos tão irritados. Mas, ali, nada parecia estar focado. Via Savannah como se fosse através de uma gaze, uma cidade de sorrisos corteses e vozes indolentes, o que o levou a perguntar-se que tipo de trevas estariam ocultas da vista.

Quando voltou à sala da brigada, deparou com Singer a escrever num computador portátil.

- Espere um pouco - disse ele, clicando na opção de correcção ortográfica. Deus o livrasse de haver algum algum erro ortográfico nos seus relatórios. Satisfeito, olhou para Moore. - Sim...?

- Chegaram a encontrar a agenda do Andrew Capra?

- Que agenda?!

- A maior parte das pessoas costuma ter uma agenda perto do telefone. Mas não vi nenhuma no filme que fizeram no apartamento dele e também não encontrei nenhuma na lista de artigos pessoais que você elaborou.

- Estamos a falar de coisas que se passaram há mais de dois anos. Se não constava da nossa lista, significa que ele não tinha nenhuma agenda.

- Ou foi retirada do apartamento antes de vocês terem chegado - alvitrou Moore.

- O que pretende dizer? Pensei que tinha vindo cá para estudar a técnica do Capra e não para resolver o caso de novo.

- Estou interessado nos amigos do Capra. Em todos os que o conheciam bem.

- Que diabo, ninguém o conhecia bem. Falámos com os médicos e as enfermeiras que trabalhavam com ele. Com a senhoria e os vizinhos. Até cheguei a ir de carro a Atlanta para falar com a tia dele. O único familiar vivo que lhe restava.

- Sim, li isso na transcrição das entrevistas.

- Então também ficou a saber que ele enganou toda a gente. Não havia ninguém que não fizesse os mesmos comentários: "Um médico tão bondoso! Um jovem tão simpático]" - citou Singer em tom de escárnio.

- Não faziam ideia de quem o Capra era realmente.

Singer rodou a cadeira, voltando-se para o computador portátil.

- A chatice é que nunca ninguém sabe quem são os monstros.

Tinha chegado a altura de ver a última cassete de vídeo. Moore guardara essa para o fim por não ter estado preparado para lidar com as imagens. Conseguira, com mais ou menos dificuldade, ver as outras com um certo distanciamento, tomando apontamentos enquanto examinava os quartos de Lisa Fox, Jennifer Torregrossa e Ruth Voorhees. Já observara vezes sem conta o padrão formado pelos esguichos de sangue, os nós dados na corda de náilon à volta dos pulsos das vítimas, a expressão vítrea da morte nos olhos delas. Era capaz de ver as imagens nas cassetes com um mínimo de emoção porque não conhecera aquelas mulheres pessoalmente, por isso não ouvia o eco das suas vozes na sua memória. Não se concentrava nas vítimas, mas na presença malévola que havia passado pelos seus quartos. Ejectou a cassete referente ao local em que Voorhees fora assassinada, colocando-a na mesa. Com relutância, pegou na última cassete. Na etiqueta tinha a data, o número atribuído ao caso e as palavras: "Residência de Catherine Cordell".

Ainda pensou em adiar o momento, esperando até à manhã seguinte, depois de ter dormido e estar descansado. Eram nove da noite e Moore mantivera-se naquela sala durante todo o dia. Pegou na cassete de vídeo, ponderando o que fazer.

Pouco depois, apercebeu-se de que Singer se detivera na ombreira da porta a observá-lo.

- Caramba... Você ainda aí está! - comentou Singer.

- Tenho muito que ler e ver.

- Já viu as cassetes todas?

- Todas, excepto esta - replicou Moore.

- A da Cordell - concluiu Singer depois de ter olhado para a etiqueta.

- Sim.

- Força, meta-a no vídeo. Talvez eu possa esclarecer alguns pormenores.

Moore inseriu a cassete no vídeo e premiu o botão de play.

Viram a fachada da casa de Catherine. Era noite. A luz do alpendre estava acesa, tal como as luzes dentro de casa.

Ouviu a voz do responsável pela filmagem a indicar a data e a hora - duas horas da manhã -, assim como o seu nome. Uma vez mais, era Spiro Pataki, que parecia ser o operador de câmara preferido por todos os detectives. Moore começou a ouvir barulhos de fundo - vozes, o som à distância de uma sirene. Pataki mostrou os seus planos rotativos habituais e Moore viu um grupo de vizinhos de expressão carrancuda a olharem fixamente por cima da fita amarela que delimitava o local do crime, os seus rostos iluminados pelas luzes de vários carros-patrulha estacionados na rua. Isso deixou-o surpreendido, em virtude da hora. O distúrbio devia ter sido significativo para ter acordado tantas pessoas da vizinhança.

Pataki voltou a focar a casa, aproximando-se da porta da frente.

- Barulho de disparos - disse Singer. - Foi o relatório inicial que recebemos. A mulher que vive no outro lado da rua ouviu o primeiro disparo, depois uma longa pausa e a seguir um segundo tiro. Ligou para o cento e doze. O primeiro agente chegou ao local sete minutos após a chamada. A ambulância foi chamada dois minutos depois.

Moore recordava-se da mulher que morava no lado oposto da rua, que o tinha observado através da janela da sua casa.

- Já li as declarações dessa vizinha - disse Moore. - Ela afirmou que não viu ninguém sair pela porta da frente da casa.

- Correcto. Ela ouviu apenas os dois disparos. Saiu da cama assim que ouviu o primeiro, tendo-se posto a espreitar pela janela. Em seguida, talvez uns cinco minutos depois, ouviu o segundo tiro.

"Cinco minutos", pensou Moore. A que se devera aquele intervalo?

No ecrã do televisor, via-se que o operador de câmara já tinha entrado pela porta da frente e se encontrava dentro de casa. Moore viu um roupeiro cuja porta aberta deixava ver uns quantos casacos pendurados em cabides, um guarda-chuva e um aspirador. Em seguida, a câmara rodou para poder mostrar a sala de estar. Na mesinha perto do sofá viam-se dois copos e um deles ainda continha o que parecia ser cerveja.

- A Cordell convidou-o a entrar - continuou Singer. - Os dois tomaram uns copos. Ela foi à casa de banho, e quando voltou à sala, acabou de beber a cerveja. Decorrida uma hora, já o Rohypnol tinha começado a fazer efeito.

O sofá era cor de pêssego com um padrão floral muito suave. Moore não estava a ver Catherine a gostar de padrões florais, mas ali estavam eles. Flores nos cortinados e nas almofadas das poltronas. Cor. Em Savannah, ela tinha vivido rodeada de cores. Imaginou-a sentada naquele sofá com Andrew Capra, ouvindo com toda a simpatia as preocupações que o trabalho lhe suscitava, enquanto o Rohypnol, a pouco e pouco, passava do estômago para a corrente sanguínea. Enquanto as moléculas da droga seguiam a caminho do seu cérebro. Enquanto a voz de Capra começava a enfraquecer.

Agora seguiam para a cozinha, a câmara a percorrer toda a casa, registando todas as divisões como haviam sido encontradas às duas horas dessa madrugada de sábado. No lava-louça da cozinha via-se um único copo de água.

Subitamente, Moore inclinou-se para a frente.

- Aquele copo... analisaram o ADN da saliva?

- E por que razão haveríamos de ter feito isso? - perguntou Singer.

- Não sabem quem bebeu por ele, pois não?

- Só havia duas pessoas em casa quando o primeiro agente chegou. O Capra e a Cordell.

- Em cima da mesinha do café estão dois copos. Quem é que bebeu desse terceiro copo? - perguntou Moore.

- Que diabo, se calhar esteve no lava-louça todo o dia. Não era relevante para a situação que encontrámos.

O operador de câmara acabou de filmar a cozinha, passando a concentrar-se no corredor.

Moore pegou no comando à distância, premindo o botão de rewind. Andou com as imagens para trás até chegar ao início do segmento relativo à cozinha.

- O que foi? - perguntou Singer.

Moore não lhe respondeu. Inclinou-se mais para o televisor, observando atentamente as imagens que se sucediam no ecrã. O frigorífico pontilhado de imanes de cores vivas com formas de frutos. Os recipientes que continham o açúcar e o café em cima da bancada da cozinha. O lava-louça onde se via um único copo de água. Em seguida, a câmara passou pela porta da cozinha, seguindo em direcção ao corredor.

Moore voltou a premir o botão de rewind.

- De que anda você à procura? - perguntou Singer.

A imagem voltara a centrar-se no copo. A câmara começou a mostrar um ângulo do corredor. Moore carregou no botão de pause.

- Isto - replicou. - A porta da cozinha. Para onde é que dá?

- Hum... para as traseiras. Dá para um relvado.

- E o que há para lá desse relvado?

- As traseiras de outras casas. Outro conjunto de moradias.

- Falaram com o proprietário da casa contígua? Essa pessoa ouviu os disparos da arma de fogo?

- Que diferença é que isso faz? - perguntou Singer. Moore levantou-se, aproximando-se do televisor.

- A porta da cozinha - disse, batendo no ecrã. - Tem uma corrente. Mas não está posta.

- Mas a porta está trancada - retorquiu Singer depois de uma pequena pausa. - Está a ver a posição da tranca na maçaneta?

- Exacto. É o tipo de tranca que se pode premir antes de se sair, trancando automaticamente a porta depois de fechada.

- E onde quer chegar com isso?

- Por que razão ela haveria de premir o botão da tranca, mas não se dar ao cuidado de prender a corrente? As pessoas que trancam as portas antes de se deitarem fecham tudo na mesma altura. Primem a tranca e prendem a corrente. Mas ela não prendeu a corrente.

- Talvez se tenha esquecido - sugeriu Singer.

- Três mulheres haviam sido assassinadas em Savannah. Ela vivia preocupada ao ponto de ter uma arma debaixo da cama. Não me parece que se esquecesse de uma coisa dessas - contrapôs Moore olhando para Singer. - Talvez alguém tenha saído pela porta da cozinha.

- Estavam apenas duas pessoas dentro de casa. A Cordell e o Capra.

Moore reflectiu sobre o que deveria dizer a seguir. Se teria mais a ganhar, ou a perder, se falasse com toda a franqueza.

Nesta altura, Singer já sabia o rumo que a conversa levaria.

- O que está a dizer é que o Capra tinha um parceiro.

- Sim - confirmou Moore.

- Acho um pouco exagerado concluir isso só porque a corrente não estava presa.

- Mas há mais - retorquiu Moore respirando fundo. - Na noite em que a Catherine Cordell foi atacada ouviu outra voz dentro de casa. Um homem que falava com o Capra.

- Ela nunca me referiu isso.

- Foi uma revelação que veio à superfície durante uma sessão de hipnose.

Singer desatou a rir.

- Arranjou um hipnotizador para descobrir isso? Porque, a ser esse o caso, eu ficaria verdadeiramente convencido.

- Explica por que motivo o Cirurgião conhece tão bem a técnica do Capra. Os dois homens eram parceiros. E o Cirurgião está a dar continuidade à herança, ao ponto de andar a perseguir a única vítima que conseguiu sobreviver-lhes.

- O mundo está cheio de mulheres. Porquê essa fixação nela? - perguntou Singer.

- É um assunto por resolver.

- Sim, sim, mas eu tenho uma teoria melhor - disse Singer levantando-se da cadeira. - A Cordell esqueceu-se de prender a corrente do fecho da porta da cozinha. O vosso tipo em Boston está a imitar o que leu nos jornais. E o vosso hipnotizador desenterrou uma falsa recordação. - Com um abanar de cabeça, Singer começou a encaminhar-se para a porta. Mas não saiu sem atirar um comentário sarcástico de despedida: - Não se esqueça de me informar quando apanhar o verdadeiro assassino.

Moore não permitiu que aquela troca de palavras o afectasse. Tinha noção de que Singer estava a defender o seu próprio trabalho em relação àquele caso, pelo que não podia censurá-lo por mostrar cepticismo. Ele próprio começava a questionar o seu instinto. Tinha feito a viagem até Savannah com o objectivo de provar ou desacreditar a teoria da existência de um parceiro, mas até ao momento não encontrara nada que pudesse corroborar a sua teoria.

Concentrou a sua atenção no ecrã do televisor, premindo o botão de play.

As imagens indicavam-lhe que a câmara saíra da cozinha, avançando pelo corredor. Uma paragem para filmar a casa de banho - toalhas cor-de-rosa e uma cortina de chuveiro com um padrão de peixes multicoloridos. Moore tinha as mãos a transpirar. Temia ver as imagens que viriam a seguir; contudo, não conseguia desviar os olhos do ecrã. A câmara saiu da casa de banho, voltando a filmar o corredor, passando por uma aguarela de peónias em tons de rosa pendurada na parede. No chão de madeira viam-se pegadas de sangue deixadas pelos primeiros agentes que acorreram ao local, às quais, posteriormente, foram acrescidas as pegadas dos paramédicos. O que restara resumia-se a uma abstracção confusa em tons de vermelho. Mais à frente via-se a ombreira de uma porta em imagens sacudidas por a câmara acompanhar os movimentos do operador.

A câmara focou então o quarto.

Moore sentia o estômago às voltas, não porque o que via fosse mais chocante de que qualquer outro local de crime em que tivesse estado. Não, era Um horror profundamente visceral porque conhecia a mulher que tanto havia sofrido ali e preocupava-se de facto com o seu bem-estar. Tinha examinado ao pormenor todas as fotografias daquele quarto; todavia, as imagens não lhe transmitiam a mesma sensação sinistra que a cassete lhe inspirava. Se bem que Catherine não figurasse nas^imagens - nessa altura já havia sido levada para o hospital -, os vestígios da provação por que ela passara pareciam gritar-lhe do ecrã do televisor. Viu a corda de náilon que servira para lhe amarrar os pulsos e os tornozelos ainda presa aos pés da cama. Também viu os instrumentos cirúrgicos - o bisturi e os retractores - que haviam sido deixados em cima da mesa-de-cabeceira. Moore viu isto tudo e o impacte foi tão forte que sentiu que quase tombava da cadeira, como se tivesse sido agredido com um murro.

Quando a câmara mudou de plano, mostrando, por fim, o corpo de Andrew Capra caído no chão, mal sentiu um baque de emoção; já estava como que entorpecido pelo que vira segundos antes. Capra sangrara profusamente do ferimento no abdómen, o que dera origem a uma extensa poça de sangue debaixo do tronco. À segunda bala, que o atingira num olho, infligira-lhe o ferimento fatal. Recordou-se do intervalo de cinco minutos entre os dois disparos. A imagem que estava a ver reforçava essa sequência. A julgar pela quantidade de sangue acumulada, era possível concluir que Capra estivera caído ainda com vida e a sangrar durante pelo menos alguns minutos.

Foi nesse ponto que a cassete chegou ao fim.

Moore ficou com o olhar preso no ecrã em branco antes de despertar daquela do torpor e desligar o vídeo. Sentia-se demasiado exausto para se levantar da cadeira. Quando finalmente se pôs de pé, foi para abandonar aquela sala de imediato. Pegou na caixa que continha as fotocópias dos documentos relativos às investigações levadas a cabo em Atlanta. Uma vez que aqueles papéis não eram originais, mas cópias dos documentos nos arquivos da polícia de Atlanta, poderia revê-los noutro lugar qualquer.

De regresso ao hotel, tomou um banho e comeu um hambúrguer com batatas fritas que pediu que lhe servissem no quarto. Conseguiu ver televisão durante uma hora, para descomprimir. Mas passou esse tempo todo a mudar de canal, tentando resistir a uma vontade quase irreprimível de telefonar para Catherine. O facto de ter visto o último vídeo, referente a ela, fê-lo ter plena consciência da espécie de monstro que andava a rondá-la e o impedia de ter paz de espírito.

Por duas vezes pegou no telefone, voltando a pousá-lo. Pegou de novo, e, desta vez, os seus dedos movimentaram-se por sua própria vontade, marcando um número que ele conhecia tão bem. Ao fim de quatro toques, ouviu o atendedor de chamadas de Catherine.

Moore desligou sem deixar qualquer mensagem.

Ficou a olhar para o telefone, sentindo-se envergonhado pela facilidade com que a sua força de vontade se desmoronara. Tinha prometido a si mesmo que resistiria aos seus impulsos, concordara com a exigência de Marquette no sentido de se manter afastado de Catherine enquanto as investigações durassem. Quando este processo estiver concluído, hei-de encontrar maneira de fazer com que tudo corra bem entre nós dois.

Olhou para a pilha de documentos de Adanta que deixara em cima da mesa. Já era meia-noite e Moore ainda nem sequer tinha começado. Com um suspiro, abriu a primeira pasta da caixa de Adanta.

O caso de Dora Ciccone, a primeira vítima de Andrew Capra, não lhe parecia ser material de leitura muito apetecível. De uma maneira geral, já estava a par dos pormenores; Singer resumira-os no seu relatório final. Todavia, Moore ainda não tinha lido os relatórios mais crus de Atlanta, pelo que agora se preparava para recuar no tempo, examinando as primeiras actividades de Andrew Capra. Fora ali que tudo se havia iniciado. Em Atlanta.

Começou por ler o relatório referente ao primeiro crime, depois passou às pastas com as transcrições das entrevistas. Leu as declarações prestadas pelos vizinhos de Ciccone, do empregado do bar onde ela fora vista com vida pela última vez, assim como as declarações da amiga que encontrara o corpo. Também havia uma pasta com a lista de suspeitos e respectivas fotografias; Andrew Capra não figurava entre eles.

Dora Ciccone era uma estudante da Universidade Emory de vinte e dois anos. Na noite da sua morte, foi vista pela última vez por volta da meia-noite a beber uma margarita no Bar La Cantina. Quarenta horas depois, o seu corpo foi encontrado em casa, toda nua e atada à cama com uma corda de náilon. O útero tinha sido extraído e fora degolada.

Encontrou os tempos que a polícia havia estabelecido. Era apenas um esboço em linhas gerais numa escrita quase ilegível, como se o detective de Atlanta se tivesse limitado a reunir e ordenar os acontecimentos apenas para satisfazer uma qualquer verificação interna de procedimentos. Moore quase conseguia cheirar o desaire naquelas páginas, quase que era capaz de decifrar isso mesmo na inclinação depressiva da caligrafia do detective. Ele próprio já tinha experimentado aquele peso que se enraíza no peito quando se passa o marco das vinte e quatro horas, depois uma semana, a seguir um mês, sem se obterem quaisquer pistas tangíveis. Era precisamente isso que o detective de Atlanta tinha: nada. O assassino de Dora Ciccone continuava a ser uma incógnita.

Em seguida, abriu o relatório da autópsia.

A carnificina de que Dora Ciccone fora vítima não havia sido rápida nem levada a cabo com a perícia dos últimos homicídios que Capra cometera. A maneira como as incisões haviam sido feitas indicava que Capra não se sentia confiante para fazer um único corte à largura do abdómen. Em vez disso, hesitara, voltando atrás com a lâmina do bisturi, macerando os tecidos da pele. Depois de ter penetrado a epiderme, o procedimento degenerou numa sucessão de cortes de amador, com a lâmina a incidir perifericamente na bexiga e nos intestinos enquanto ele continuava a dissecar para chegar ao trofeu almejado. Nesta, a primeira vítima, ele não se dera ao trabalho de suturar as artérias. A hemorragia havia sido enorme, o que indicava que Capra teria trabalhado às cegas, uma vez que os pontos anatómicos de referência teriam estado submersos numa poça vermelha cada vez maior.

Apenas o golpe de misericórdia fora desferido com alguma perícia. Havia sido executado com uma incisão limpa, da esquerda para a direita, como se, agora que estava saciado e com o frenesi a abrandar, ele tivesse finalmente assumido o controlo da situação e conseguido concluir o trabalho com uma fria eficácia.

Moore pôs de lado o relatório da autópsia, observando o resto do jantar que ficara esquecido no tabuleiro ao seu lado. Sentindo-se subitamente nauseado, levou o tabuleiro para a porta e colocou-o no corredor. Feito isto, voltou para a mesa abrindo a pasta que continha os relatórios laboratoriais de perícia criminal.

A primeira página era referente a um exame ao microscópio: Identificação dos espermatozóides encontrados na região vaginal da vítima.

Moore sabia que a análise ao ADN deste esperma viera posteriormente a confirmar que era de Andrew Capra. Antes de assassinar Dora Ciccone, ele violara-a.

Moore avançou até à página seguinte, deparando com vários relatórios da Secção de Cabelo e Fibras. A região púbica da vítima fora esquadrinhada ao pormenor e os pêlos examinados. Entre as colheitas encontrou-se um pêlo púbico castanho-acobreado que condizia com os de Capra. Folheou as páginas seguintes desses relatórios que apresentavam os resultados de exames a vários fios de cabelo encontrados no local do crime. A maior parte pertencia à própria vítima, pêlos púbicos e cabelos. Também fora encontrado no cobertor um cabelo louro curto, o qual mais tarde seria identificado como não sendo humano, com base no padrão estrutural e complexo da medula. Alguém tinha acrescentado à mão um apontamento em que se lia: "A mãe da vítima tem um golden retriever. Foram encontrados pêlos similares no assento traseiro do carro da vítima."

Virou para a última página do relatório e parou. Era uma análise referente a outro cabelo, este humano, e que nunca chegara a ser identificado. Fora encontrado na almofada. Em qualquer casa, encontra-se sempre uma grande variedade de cabelos e pêlos por todo o lado. Todos os seres humanos largam dúzias de pêlos diariamente e dependendo do grau de limpeza em que a casa se encontra, a frequência com que é aspirada, os cobertores, carpetes, alcatifas e sofás acumulam um registo microscópico de todas as visitas que tenham passado algum tempo na casa. Aquele simples cabelo, encontrado na almofada, podia ter vindo de um namorado, de uma visita ou de um familiar. Não pertencia a Andrew Capra.

Um fio de cabelo humano, castanho-claro, ao (ondulado), comprimento: 5 centímetros. Na fase telogénica. Notaram-se sinais de Tri-chorrhexis invaginata. Origem desconhecida.

Trichorrhexis invaginata. Síndrome de Netherton. Cabelo em bambu.

O Cirurgião estivera lá.

Atordoado, Moore recostou-se para trás. Algumas horas antes tinha lido os relatórios referentes às vítimas Fox, Voorhees, Torregrossa e Cordell. Não tinham sido encontrados quaisquer fios de cabelo com Trichorrhexis invaginata em nenhum dos locais dos crimes.

No entanto, o parceiro de Capra estivera sempre presente. Tinha permanecido invisível e sem deixar quaisquer vestígios de sémen nem ADN atrás de si. A única prova da sua presença era aquele fio de cabelo, assim como a voz que Catherine guardava no seu subconsciente.