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Poesia & Contos Infantis

 

 

 


O CLUBE DOS POETAS MORTOS / N.H. Kleinbaum
O CLUBE DOS POETAS MORTOS / N.H. Kleinbaum

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

O CLUBE DOS POETAS MORTOS

 

Na capela de pedra da Academia Welton, uma escola privada escondida nas remotas colinas do Vermont, estavam sentados mais de trezentos rapazes. Vestidos com o blazer da academia e rodeados pelos pais orgulhosos, os rapazes esperavam o início da cerimónia. Ou­viu-se uma gaita-de-foles, e um homem de batina, de pouca altura e já de idade, entrou, acendeu uma vela e deu início à procissão, constituída por estudantes, que traziam os estandartes, professores e antigos alunos, e que seguia ao longo do corredor em direcção à venerá­vel capela.

Os quatro rapazes que transportavam os estandartes marcharam solenemente até ao estrado, seguidos lentamente por homens mais velhos, o último dos quais segurava a vela acesa com orgulho.

Gale Nolan, o Reitor, um homem seco dos seus cinquenta anos, estava de pé no pódio, a observar, ansioso, os últimos momentos da procissão.

- Minhas senhoras e meus senhores... rapazes... - disse, dramaticamente, apontando em direcção ao homem que levava a vela - a luz da sabedoria.

A audiência aplaudiu, educadamente, enquanto o se­nhor de idade avançava lentamente com a vela. O tocador de gaita-de-foles avançou até ao canto do pódio e os quatro porta-estandartes baixaram as bandeiras que diziam «Tradição», «Honra», «Disciplina» e «Excelência», e juntaram-se ao resto da audiência.

O senhor da vela dirigiu-se à primeira fila da plateia onde estavam sentados os alunos mais novos, cada um com uma vela apagada na mão. Devagar, inclinou-se e acendeu com a sua a vela do primeiro rapaz.

- A luz da sabedoria será transmitida pelos mais velhos aos mais novos - declamou o Reitor, solene­mente, enquanto cada rapaz ia acendendo a vela do vizinho.

- Senhoras e senhores, caros alunos... Este ano de marca o centenário da Academia Welton. Há cem anos, sentaram-se nesta sala quarenta e um rapazes e foi-lhes feita a mesma pergunta que agora vos é feita, no início de cada semestre. - O olhar de Nolan percorreu a sala repleta de caras jovens, intensas e assustadas.- Cavalheiros - gritou -, quais são os quatro pilares?

O barulho dos alunos a levantarem-se quebrou o si­lêncio tenso. Todd Anderson, de dezasseis anos, um dos poucos rapazes que não tinham o blazer da academia, hesitou quando os rapazes à sua volta se levantaram. A mãe encorajou-o. O rapaz tinha uma expressão tensa e infeliz, os olhos escuros de raiva e observou os outros em silêncio enquanto gritavam em uníssono: «Tradição! Honra! Disciplina! Excelência!».

Nolan aquiesceu e os rapazes voltaram a sentar-se. Quando o barulho das cadeiras a serem arrastadas parou, a capela foi invadida por um silêncio solene.

- No primeiro ano - gritou Nolan, de repente, para o microfone -, formaram-se aqui cinco estudantes. - Fez uma pausa, para efeito dramático. - No ano passado, cinquenta e um estudantes receberam o seu diploma, e desses, por cento foram aceites em Universidades da Ivy League!!

Os pais orgulhosos felicitaram os esforços de Nolan, enchendo a sala com um enorme aplauso. Dois dos rapazes que tinham trazido os estandartes, Knox Overs-treet e o amigo Charlie Dalton, ambos de dezasseis anos, aplaudiram também. Ambos vestiam orgulhosamente o blazer da academia e, sentados entre os pais, eram a personificação da Ivy League. Knox tinha o cabelo curto encaracolado, um sorriso extrovertido e um corpo de atleta. Charlie tinha uma cara engraçada e um ar de menino-bem.

- Um sucesso desta envergadura - continuou o Reitor, enquanto Knox e Charlie olhavam em volta para os colegas - é o resultado da fervorosa dedicação aosprincípios aqui ensinados. É por essa razão que os pais continuam a enviar os filhos para a Academia Welton e é por essa razão que somos a melhor escola secundária do país! - Nolan fez uma pausa para as palmas que se seguiram.

- Novos estudantes - continuou, dirigindo o olhar para os membros mais recentes da Academia -, o segredo do vosso sucesso está nos quatro pilares. E isso aplica-se tanto aos alunos do primeiro ano como aos que foram transferidos de outras escolas.

Todd Anderson encolheu-se ao ouvir mencionar alunos transferidos; via-se que sentia que estavam a falar dele directamente.

- Os quatro pilares são as quatro palavras que constituem o lema desta escola e que se tornarão os alicerces das vossas vidas. Candidato à Sociedade Welton: Richard Cameron - chamou Nolan.

 

Conjunto de universidades, da qual fazem parte Harvard e Yale, por exemplo, consideradas as melhores dos Estados Unidos. (N. da T.)

 

Um dos rapazes que tinha transportado um dos estandartes levantou-se de um salto.

- Senhor Reitor! - gritou Cameron, cujo pai, sentado ao seu lado, era o orgulho em pessoa.

- Cameron, o que é a Tradição?

- A Tradição, senhor Reitor, é o amor à escola, ao país e à família. A tradição da Academia Welton é sermos os melhores!

-Muito bem, Cameron. Candidato à Sociedade Wel­ton: George Hopkins, o que é a Honra?

Cameron voltou a sentar-se, empertigado, enquanto o pai exibia um sorriso de superioridade.

- A Honra é a dignidade e o cumprimento do dever! - respondeu o rapaz.

- Muito bem. Candidato à Sociedade Welton: Knox Overstreet. - Knox, que também transportara um dos estandartes, levantou-se.

- Diga, senhor Reitor.

- O que é a Disciplina? - perguntou Nolan.

- A Disciplina é o respeito pelos pais, pelos professores e pelo Reitor. A disciplina vem de dentro.

- Obrigado, Overstreet. Candidato de honra à Sociedade Welton: Neil Perry.

Knox sentou-se, sorrindo. Os pais, sentados um de cada lado, deram-lhe palmadinhas encorajadoras nas costas.

Neil Perry levantou-se. O lado esquerdo do seu blazer, por cima do bolso, estava coberto de emblemas de mérito. O adolescente levantou-se, obediente, e fixou um olhar furioso no Reitor.

- Excelência, Perry.

- Excelência é o resultado de um trabalho árduo - respondeu Perry numa voz alta e monótona. - Excelência é a chave do sucesso, na escola como na vida.

- O jovem voltou a sentar-se e pregou o olhar no chão. Ao seu lado, o pai permaneceu sentado, como se fosse de pedra e muito sério, parecendo querer ignorar o filho.

- Meus senhores - continuou Nolan -, na Acade­mia Welton, trabalharão mais arduamente que nunca e a vossa recompensa será o sucesso que todos esperamos de vós. Gostaria de aproveitar esta oportunidade para vos apresentar o vosso novo professor de Inglês, o senhor John Keating, que vem ocupar o lugar do nosso querido professor Portius, que se reformou este ano. John Kea­ting é um dos nossos antigos alunos, um dos melhores, e, nos últimos anos, tem estado a ensinar na muito conceituada Escola de Chester, em Londres.

John Keating, sentado com os outros membros do corpo docente, inclinou-se ligeiramente para a frente, em reconhecimento da apresentação. Keating não tinha muito mais de trinta anos, era de estatura média e tinha cabelo e olhos castanhos- não havia nele nada de extraordinário. Tinha um aspecto académico e respei­tável, mas o pai de Neil Perry olhou o novo professor de Inglês com desconfiança.

- Para concluir a nossa cerimónia de boas-vindas - disse Nolan -, gostaria de chamar ao pódio o nosso diplomado mais antigo, o senhor Alexander Carmichael Jr., do ano de...

A audiência pôs-se de pé, num aplauso de admiração, e o octogenário levantou-se, recusando orgulhosamente a ajuda dos que o rodeavam, e, com penosa lentidão, dirigiu-se para o pódio. Aí, murmurou umas palavras que a audiência mal pôde ouvir e, assim, a cerimónia terminou. Os alunos e os pais, uns atrás dos outros, saíram da capela para o frio que fazia lá fora.

Os edifícios de pedra, gastos pelo tempo e uma tradição de austeridade, isolavam a Academia do resto do mundo. Como um padre no final da missa de domingo, o Reitor observou os alunos e os pais a despedirem-se. A mãe de Charlie Dalton afastou-lhe o cabelo dos olhos e abraçou-o com força. O pai de Knox Overstreet abraçava o filho carinhosamente enquanto os dois caminhavam pelo campus, apontando para vários lugares à sua volta. O pai de Neil Perry, hirto, endireitava as insígnias no peito do filho. Todd Anderson, sozinho, tentava desenterrar uma pedra com a biqueira do sapato. Os pais dele estavam a conversar com outro casal e mantinham-se a alguma distância, não prestando de todo atenção ao filho. Todd, consciente de que era o único que estava sozinho, mantinha o olhar fixo no chão e assustou-se quando Nolan se aproximou dele e se inclinou para tentar ler a etiqueta que tinha ao peito com o nome.

- Ah, Anderson. O seu irmão foi um dos nossos me­lhores alunos, meu rapaz. Não será um exemplo fácil de seguir.

- Obrigado, senhor Reitor - respondeu Todd, bai­xinho.

Nolan afastou-se, passeando entre os alunos e pais, cumprimentando-os e sorrindo sem cessar. Ao chegar perto de Neil e do senhor Perry, parou e pôs a mão no ombro do rapaz.

- Esperamos muito de si, Perry - disse a Neil.

- Muito obrigado, senhor Reitor.

- Ele não nos desiludirá - acrescentou o pai do rapaz. - Não é assim, Neil?

- Farei o meu melhor, pai.

Nolan deu uma palmadinha nas costas de Neil e afastou-se. Notou que havia muitos rapazes cujos queixos tremiam, e que muitos não conseguiam reter algumas lágrimas quando se despediam dos pais, talvez pela primeira vez.

- Vais adorar a escola - dizia um dos pais, enquanto sorria e se afastava rapidamente, acenando.

- Não sejas maricas - repreendeu outro, ao reparar na expressão assustada do filho.

A pouco e pouco, os pais iam partindo e os carros foram desaparecendo. Os rapazes estavam agora na sua nova casa, isolados na floresta verde mas selvagem de Vermont.

- Quero ir para casa! - gritou um rapaz.

Um dos alunos mais velhos pôs-lhe o braço à volta dos ombros e acompanhou-o até aos dormitórios.

- Não corram, tenham calma! - A voz de um professor, com sotaque escocês, fez-se ouvir por cima do barulho provocado por quarenta alunos dos primeiros anos a quererem descer as escadas e a serem empurrados por quinze rapazes mais velhos a quererem subir.

- Sim, professor McAllister! - respondeu um dos mais novos. - Desculpe.

McAllister abanou a cabeça e deixou-se ficar a observar os alunos à medida que saíam do edifício do dormi­tório e atravessavam o campus.

Uma vez na Sala de Honra da Academia, os alunos mais novos permaneciam de pé ou sentavam-se nos velhos e usados cadeirões de pele à espera da sua vez. Vários pares de olhos fixavam discretamente a escadaria que levava a uma porta no andar superior.

Pouco tempo depois, a porta abriu-se e cinco rapazes saíram em fila e desceram as escadas em silêncio. Um velho professor grisalho dirigiu-se para a porta.

- Overstreet, Perry, Dalton, Anderson, Cameron - gritou o Dr. Hager. - Entrem.

Os rapazes subiram as escadas em fila seguidos pelo olhar atento de dois colegas.

- Meeks, quem é o novo? - segredou Pitts ao colega.

- Anderson - respondeu Steven Meeks. Mas Hager viu-os conversar:

- Pitts e Meeks, penalidade - disse, austero.

Os rapazes olharam um para o outro e Pitts rolou os olhos antes de os fixar no chão.

Contudo, apesar da idade, o Dr. Hager tinha olhos de águia:

- Outra penalidade, Pitts - disse.

Seguindo atrás do Dr. Hager, os cinco rapazes chamados ao gabinete do Reitor passaram pela esposa e se­cretária deste, a senhora Nolan, e entraram.

Nolan estava sentado à secretária, com um cão de caça deitado a seu lado.

- Bem-vindos uma vez mais, meus senhores. Dal­ton, como está o seu pai?

- Está bem, obrigado, senhor Reitor – respondeu Charlie.

- Overstreet, a sua família já se mudou para a casa nova?

- Sim, senhor Reitor, há um mês mais ou menos.

- Que bom. - Nolan permitiu-se um sorriso ligeiro. - Ouvi dizer que é muito bonita. - O Reitor fez uma festa ao cão e deu-lhe uma bolacha, enquanto os rapazes continuavam de pé, diante da secretária.

- Anderson - continuou Nolan -, uma vez que o senhor é novo cá na escola, deixe-me explicar-lhe que atribuo actividades extracurriculares a cada aluno de acordo com as preferências e os méritos de cada um. Estas actividades são levadas tão a sério quanto as disciplinas curriculares, não é verdade, rapazes?

- Sim, senhor Reitor! - responderam os rapazes em uníssono militar.

- Quem falta às reuniões marcadas é penalizado. Então, vamos lá a ver, Dalton: o jornal da escola, o Clube de Filantropia, futebol, remo. Overstreet: candidatos à Sociedade Welton, o jornal da escola, futebol e Clube dos Filhos de Antigos Alunos. Perry: candidatos à Sociedade Welton, Clube de Química, Clube de Matemática, livro de turma, futebol. Cameron: candidatos à Sociedade Welton, Clube de Debate, remo, Clube de Filantropia, Forense, Conselho de Honra.

- Obrigado, senhor Reitor - disse Cameron.

- Anderson, baseado no seu dossier, que nos enviaram de Balincrest: futebol, Clube de Filantropia, livro de turma. Deseja que acrescente mais alguma coisa?

Todd não disse nada. Tentou dizer qualquer coisa mas as palavras não saíram.

- Fale, Anderson! - disse Nolan.

- Pre... fe... ri... ria remo, senhor Reitor - conse­guiu dizer numa voz que mal se ouvia.

Nolan olhou para Todd, que começou a tremer da cabeça aos pés.

- Remo? Disse remo? Diz aqui que em Balincrest jogava futebol.

Todd tentou falar outra vez:

- Sim... jogava... mas... - murmurou. A testa de Todd brilhava com pequenas gotas de suor e o rapaz apertava as mãos com tanta força que os nós dos dedos estavam brancos. Os outros rapazes estavam a olhar para ele e Todo fazia tudo por tudo para não chorar.

- Vai gostar de jogar futebol aqui, Anderson. Muito bem, podem ir.

Os rapazes saíram. Todo estava lívido. O Dr. Hager gritou outros cinco nomes.

Enquanto se dirigiam aos dormitórios, Neil aproximou-se de Todd, que seguia sozinho, e estendeu-lhe a mão:

- Parece que vamos partilhar o quarto - disse. - Chamo-me Neil Perry.

- E eu, Todd Anderson - respondeu Todd baixinho. Os rapazes continuaram a andar e, depois de um momento de silêncio, Neil perguntou:

- Porque é que saíste de Balincrest?

- O meu irmão andou aqui.

- Ah! Então tu és esse Anderson! Todd encolheu os ombros:

- Os meus pais quiseram sempre que eu viesse para cá, mas nunca tive notas suficientemente boas para entrar. Tive de ir primeiro uns anos para Balincrest para melhorá-las.

- Pois ganhaste o prémio de consolação - disse Neil a rir. - Não estejas à espera de gostar deste lugar.

-Já não gosto.

No átrio do dormitório, depararam com uma enorme confusão de alunos, malas, máquinas de escrever, almofadas e gira-discos.

Ao fundo, um porteiro guardava um monte de malas que ainda ninguém tinha reclamado. Neil encontrou o que lhe pertencia e depois foi à procura do quarto que lhe fora atribuído.

- Lar doce lar - disse, sarcástico, ao entrar no pequeno quarto onde mal havia espaço para as duas camas, os dois armários e as duas secretárias.

Richard Cameron abriu a porta e espreitou lá para dentro:

- Ouvi dizer que ficaste com o novo. Parece que não é lá muito simpático... ai! - disse Cameron Exatamente quando Todd tentava entrar no quarto.

Cameron apressou-se a desaparecer. Todd pôs as malas em cima da cama e começou a desfazê-las.

- Não lhe ligues - disse Neil -, o Cameron é um parvalhão.

Todd limitou-se a encolher os ombros e a concentrar-se na tarefa que tinha entre mãos.

Nesse momento, Knox Overstreet, Charlie Dalton e Steven Meeks entraram no quarto.

- Perry - chamou Charlie -, diz-se por aí que ti­veste aulas durante o Verão.

- É verdade. De Química. O meu pai achou boa ideia adiantar-me.

- Pois... olha, o Meeks teve óptima nota a Latim e eu passei Inglês mais ou menos, por isso, se quiseres, for­mamos um grupo de estudo.

- Pode ser, mas o Cameron já me tinha pedido. Importam-se que ele se junte a nós?

- Qual é a especialidade dele? - perguntou Charlie a rir. - Lamber botas?

- Então! ? Ele é teu companheiro de quarto!

- E que culpa tenho eu disso? - perguntou Charlie com ar inocente.

Enquanto os outros rapazes conversavam e brincavam, Todd continuava a desfazer as malas. Steven Meeks foi ter com ele.

- Olá! Acho que ainda não fomos apresentados. Chamo-me Steven Meeks.

Timidamente, Todd estendeu a mão.

- Todd Anderson.

Knox e Charlie quiseram também apresentar-se e estenderam as mãos.

- Charlie Dalton.

- Knox Overstreet. Formais, apertaram as mãos.

- O Todd é irmão do Jeffrey Anderson - disse Neil. Charlie olhou para ele, lembrando-se:

- Claro! Primeiro da turma, Prémio Nacional de Mérito...

Todd fez que sim com a cabeça.

- Pois sê bem-vindo a Hellton - riu Meeks.

- Sim, isto não é fácil. A menos que sejas um génio, como aqui o nosso Meeks - disse Charlie.

- Pois sim, tu queres é que eu te ajude a Latim.

- E Inglês, e Trigonometria... - acrescentou Char­lie.

Meeks sorriu. Bateram à porta.

- Está aberta - gritou Neil.

Mas desta vez não era um dos colegas.

- Pai - gaguejou Neil, ficando de repente branco como a cal. - Pensava que se tinha ido embora!

 

Jogo de palavras com o nome da Academia e a palavra hell, inferno, intraduzível para português. (N. do T.)

 

Os rapazes puseram-se de pé.

- Senhor Perry - disseram em uníssono Meeks, Charlie e Knox.

- Deixem-se estar rapazes - disse o pai de Neil ao entrar apressadamente no quarto. - E como vai isso?

- Muito bem, obrigado, senhor Perry - responderam.

O senhor Perry parou em frente de Neil, que parecia nervoso e estava visivelmente pouco à vontade.

- Neil, decidi que tinhas demasiadas actividades ex­tracurriculares. Falei com o Reitor Nolan e ele aceitou deixar-te trabalhar no livro de turma para o ano. - O senhor Perry virou-se para sair.

- Mas, pai, sou o assistente do editor!

- Lamento, Neil - respondeu o pai com brusquidão.

- Mas, pai, não é justo. Eu...

O senhor Perry arregalou os olhos e fixou-os em Neil, que se calou imediatamente. Então abriu a porta e fez si­nal para Neil sair.

- Dão-nos licença, rapazes? - perguntou, educado. O senhor Perry saiu do quarto atrás de Neil e fechou a porta.

- Não te atrevas a responder-me à frente dos teus colegas, ouviste? - disse, furioso.

- Pai, não quis ser mal-educado. Eu...

- Quando tiveres acabado os estudos de Medicina e puderes ganhar a vida, fazes o que bem entenderes. Até lá, fazes aquilo que eu digo!

Neil baixou os olhos.

- Sim, pai, peço desculpa.

- Sabes bem o quanto a tua educação é importante para a tua mãe, não sabes?

- Sei, pai.

Neil permanecia imóvel em frente do pai. Perante as ameaças de culpa e castigo, ficava sempre mudo.

- O pai sabe como eu sou - disse, quebrando o silêncio -, sempre a tentar fazer tudo ao mesmo tempo.

- Muito bem. Telefona se precisares de alguma coisa. - E, sem mais, virou costas e afastou-se.

Neil ficou parado a olhar para as costas do pai, sentindo crescer nele a fúria e a frustração. Mas porque é que o pai surtia sempre aquele efeito nele?

Abriu a porta do quarto e voltou para dentro. Os outros tentaram comportar-se como se nada tivesse acontecido, cada qual esperando que o outro quebrasse o silêncio. Por fim, Charlie falou.

- Porque é que ele nunca te deixa fazer o que tu queres? - perguntou.

- E porque é que não o mandas passear? Não podias ficar pior do que estás agora - acrescentou Knox.

Neil limpou os olhos e disse:

- Essa é muito boa! Como se vocês alguma vez mandassem os vossos pais passear, senhores futuro-bancário e futuro-advogado!

Os rapazes fixaram os olhos na biqueira dos sapatos, enquanto Neil, furioso, se pôs a andar de um lado para o outro e, violentamente, arrancou o emblema de mérito da revista anual e o atirou para cima da secretária.

- Calma lá! - disse Knox. - Eu não deixo os meus pais abusarem.

- Pois não - riu-se Neil -, tu limitas-te a fazer Exatamente o que eles te dizem! Quando acabares de estudar, vais trabalhar para a firma do papá. - E, virando-se para Charlie, que estava deitado em cima da cama dele, acrescentou: - E tu aprovarás empréstimos para o resto da tua vida!

- Está bem - admitiu Charlie. - Também não me agrada a situação... Estava só a dar a minha opinião.

- Então não me digas como falar com o meu pai, quando tu reages Exatamente da mesma maneira em frente do teu! - gritou Neil. - Estamos entendidos?

- Está bem, desculpa. - Knox suspirou e acrescentou: - E agora, o que é que vais fazer?

- O que tenho de fazer. Desistir do livro. Não tenho alternativa.

- Se fosse a ti não me preocupava com isso - disse Meeks, alegre. - O pessoal da revista só lá está para impressionar o Nolan.

Neil fechou a mala e sentou-se em cima da cama. Deu um soco na almofada e encostou-se para trás, fixando o tecto com o olhar vazio.

Os rapazes deixaram-se ficar sentados, sem ânimo, sentindo todos a desilusão e tristeza do amigo.

- Vocês, não sei - disse Charlie, rompendo mais uma vez o silêncio -, mas eu estou a precisar de umas revisões em Latim. Às oito no meu quarto?

- Pode ser - respondeu Neil sem entusiasmo.

- Também podes vir, Todd, se quiseres - convidou Charlie.

- Sim - concordou Knox. - Vem também.

- Obrigado - respondeu Todd, com timidez.

Depois dos rapazes terem saído do quarto, Neil levantou-se e pegou no emblema que atirara para cima da secretária. Todd recomeçou a desfazer a mala, de onde tirou uma fotografia emoldurada dos pais com os braços à volta de um rapaz mais velho que devia ser o famoso ir­mão de Todd, Jeffrey. Neil olhou para a fotografia e no­tou que Todd se encontrava ligeiramente afastado do trio, ao lado dele mas sem realmente lhe pertencer. Todd retirou em seguida da mala um conjunto de secretária em couro, gravado com as suas iniciais.

Neil deixou-se cair em cima da cama e encostou-se à cabeceira.

- E tu? O que dizes do meu pai? - perguntou.

- Prefiro-o ao meu mil vezes - respondeu Todd, baixinho.

- O quê?

- Nada, nada.

- Todd, se queres chegar a algum lado tens de começar a falar um bocadinho mais alto. Os mansos podem vir a possuir a terra, mas não há lugar para eles em Har-vard, percebes o que quero dizer?

Todd acenou que sim com a cabeça enquanto dobrava uma camisa branca. Neil olhou para o emblema que ainda tinha na mão.

- Cretino! - exclamou, espetando-o com força no polegar, que começou a deitar sangue.

Todd fez uma careta, mas Neil limitou-se a olhar para o sangue. Depois, tirou o emblema do dedo e voltou a atirá-lo para cima da secretária.

O primeiro dia de aulas amanheceu claro e limpo. Os rapazes mais novos entravam e saíam a correr da casa de banho, vestindo-se em tempo recorde.

- Os alunos do sétimo estão tão nervosos que mal se aguentam de pé - comentou Neil, enquanto passava a cara por água fria.

- Devo confessar que eu também - admitiu Todd.

- Não te preocupes. O primeiro dia é sempre difícil - disse Neil. - Mas passa. Acaba sempre por passar.

Acabaram de se vestir e apressaram-se em direcção às salas de Química.

- Devia ter acordado mais cedo e ido tomar o pequeno-almoço. Tenho o estômago a rosnar...

- Eu também - disse Todd.

Entraram no laboratório. Knox, Charlie, Cameron e Meeks já lá estavam com outros colegas. Ao pé do quadro estava um professor quase careca e de óculos a distribuir uns livros escolares enormes.

- Além dos exercícios que aparecem no texto - disse, muito sério -, cada um de vocês escolherá três experiências da lista de projectos e, de cinco em cinco semanas, terá de apresentar um relatório sobre cada uma delas. Os primeiros vinte problemas no final do primeiro capítulo são para amanhã.

Charlie olhava para o livro e para o professor de olhos esbugalhados. Olhou para Knox com uma expressão que dizia «Nãoé possível!» e ambos abanaram a cabeça, de­solados.

Todd era o único que não parecia perturbado nem pelas palavras do professor nem pelo tamanho do livro. A voz do professor continuava imperturbável, mas a maioria dos alunos deixara de a ouvir depois das palavras «vinte primeiros problemas». Finalmente, a campainha tocou e quase todos os que tinham estado na aula de Química foram para a sala do professor McAl-lister.

McAUister, provavelmente o único professor de Latim da história da educação moderna com um sotaque escocês, não perdeu tempo a entrar na matéria. Distribuiu os livros e começou:

- Vamos começar com a declinação dos nomes. Agrícola, agricolae, agricolae, agricolam, agrícola... -McAl-lister andava de um lado para o outro enquanto recitava os nomes e os rapazes faziam o que podiam para não ficarem para trás.

Ao fim de quarenta minutos de recitação, McAUister parou e, virando-se para a classe, disse:

- Meus senhores, amanhã haverá uma avaliação sobre estes nomes. Têm muito trabalho à vossa espera.

O professor voltou-se para o quadro e um gemido colectivo atravessou a sala de aula. Contudo, antes que McAUister tivesse tempo de começar o segundo assalto, foram salvos pela campainha.

- Aquele tipo é pírulas! Nunca vou conseguir decorar aquilo tudo até amanhã - gemeu Charlie.

- Não te preocupes - disse Meeks -, eu ensino-vos o sistema. Estudamos juntos logo à noite. Vamos, estamos atrasados para a aula de Matemática.

A sala do Dr. Hager estava decorada com gráficos matemáticos e em cima de cada carteira estavam já os livros para aquele ano.

- O estudo da trigonometria requer precisão abso­luta - começou o professor. - Cada trabalho que não entregarem é um ponto a menos na vossa nota final. Dei­xem-me desde já avisar-vos que não vale a pena tentar descobrir se estou mesmo a falar a sério. Quem gostaria de começar por definir coseno?

Richard Cameron levantou-se e recitou:

- O co-seno é o seno do complemento de um ângulo ou arco. Dado um triângulo A, então...

O Dr. Hager não parou de os bombardear com perguntas daquele tipo durante a aula toda. Os alunos levantavam o braço, punham-se de pé e sentavam-se como robots, desbobinando as respostas e aceitando reprimendas sem pestanejar.

A campainha tocou e já não era sem tempo.

- Graças a Deus! - gemeu Todd enquanto juntava os livros. - Acho que não aguentaria muito mais da­quilo.

- Hás-de habituar-te ao Hager - consolou-o Meeks.

- Quando apanhares o ritmo das aulas dele, logo vês que não é assim tão difícil.

- Só agora começámos e já acho demasiado difícil...

- queixou-se Todd, enquanto se dirigiam para a aula se­guinte. E, até se arrastarem para dentro da sala de Inglês, pousarem os livros nas carteiras e caírem nas cadeiras, não voltou a abrir a boca.

O novo professor de Inglês, de camisa e gravata mas sem casaco, estava sentado em frente à classe, mas virado para a janela. Os rapazes acalmaram-se e esperaram, gratos por alguns momentos de descanso depois das últimas horas. Keating continuou a olhar pela janela. Os rapazes começaram a ficar irrequietos.

Por fim, Keating levantou-se, pegou no ponteiro e começou a passear entre as filas de carteiras. De repente, parou em frente de um aluno e olhou-o fixamente.

- Não fiques atrapalhado - disse-lhe, amavelmente, quando o rapaz começou a corar.

Keating continuou a andar pela sala olhando atenta­mente para cada rapaz.

- Humm... - disse alto ao olhar para Todd e outra vez quando se aproximou de Neil. - Ah! - Bateu com o ponteiro na mão e avançou energicamente para o quadro. - Abram os vossos espíritos! - gritou, enquanto agitava o ponteiro no ar.

De repente, saltou dramaticamente para cima da secretária e virou-se para a turma:

- «Capitão! Meu Capitão!» - recitou com ardor. Olhou em volta e continuou: - Alguém sabe de onde é esta frase? Alguém? Ninguém?- Olhou intensamente para cada aluno, mas ninguém levantou o braço. - É um verso, meus queridos alunos, de um poeta chamado Walt Whitman, sobre Abraham Lincoln. Nesta aula podem-me chamar senhor Keating ou« Capitão! Meu capitão!».

Saltou para o chão e continuou a andar entre as filas de carteiras, falando ao mesmo tempo.

- Para que se espalhe um mínimo de boatos acerca da minha pessoa, deixem-me dizer-vos que, sim, é ver­dade que fui aluno desta escola há muitas e muitas luas e não, na altura não tinha esta personalidade carismática que tenho hoje. Contudo, se escolherem seguir o meu exemplo, isso só beneficiará as vossas notas. Peguem num livro daqueles que estão ao fundo da sala e venham comigo até à Sala de Honra.

Mostrando o caminho com o ponteiro, Keating saiu da sala de aula. Os alunos entreolharam-se sem saber o que fazer.

- É melhor irmos atrás dele - disse Neil, liderando os outros.

Dirigindo-se ao fundo da sala, cada um pegou num livro e, levando também o resto das suas coisas, dirigiram-se à Sala de Honra onde tinham esperado para serem recebidos pelo Reitor no dia anterior.

Quando os rapazes entraram, Keating andava à volta da sala. Olhava atentamente para as paredes cobertas de quadros do século xix e de prateleiras cheias de trofeus que enchiam também as vitrinas.

Quando reparou que estavam todos sentados, Keating olhou para os rapazes.

- Senhor... - Keating olhou para a folha de chamada que trazia consigo. - Pitts. Lamentável nome. Levante-se, senhor Pitts. - Pitts levantou-se.- Abra o seu manual, Pitts, na página e leia-nos a primeira quadra do poema.

Pitts folheou o livro.

- «Virgens, aproveitem bem o tempo»? - perguntou.

- Exatamente - respondeu Keating por cima dos risinhos dos outros rapazes.

- Sim, senhor - disse Pitts e aclarou a garganta.

Colhe os botões de rosa enquanto podes

O tempo voa.

E esta flor que hoje sorri

Amanhã estará moribunda.

Pitts calou-se.

- «Colhe os botões de rosa enquanto podes» - repetiu Keating. - A expressão latina para este sentimentoé Carpe Diem. Alguém sabe o que isso significa?

- Carpe Diem - disse Meeks, o especialista em latim - significa «aproveita o dia».

 

Pitt significa fosso em inglês. (N. da T.)

                                                       

- Muito bem, senhor... ?

- Meeks.

- Aproveita o dia - repetiu Keating. - Porque é que o poeta escreveu estas linhas?

- Porque tinha pressa? - disse um aluno, e o resto da classe riu-se.

- Não, não, não! É porque somos pasto para vermes! Temos um número limitado de Primaveras, Verões e Ou­tonos. Um dia, por muito difícil de acreditar que possa parecer, cada um de nós vai parar de respirar, arrefecer e morrer! - Keating fez uma pausa dramática. - Levantem-se - pediu aos alunos - e examinem atentamente os rostos dos rapazes que frequentaram esta escola há cinquenta e sessenta anos. Não tenham vergonha, vão.

Os rapazes levantaram-se, dirigiram-se às fotografias de turmas que forravam as paredes da Sala de Honra e olharam para as caras dos rapazes que, do passado, lhes devolviam o olhar.

- Não são diferentes de vocês, pois não? Há esperança no seu olhar tal como há no vosso. Acreditam ter um destino maravilhoso à sua frente, tal como muitos de vocês. E onde estão aqueles sorrisos agora, rapazes? E a esperança?

Os rapazes olhavam atentamente para as fotografias, sérios e pensativos. Keating andava rapidamente de um lado para o outro, apontando para várias fotografias enquanto falava.

- E o que fez a maioria destes rapazes? Esperaram até demasiado tarde para darem às suas vidas um milionési­mo do seu valor! Na sua perseguição frenética do sucesso, essa divindade toda-poderosa, deitaram fora a juventude e os sonhos. A maior parte destes cavalheiros está agora a fertilizar a terra, meus senhores. Contudo, se se aproximarem, podem ouvi-los murmurar. Aproximem-se - insistiu -, cheguem-se mais perto. Estão a ouvir? Estão?

Os rapazes mantinham-se em silêncio, alguns deles, hesitantes, inclinaram-se mais para as fotografias.

- Carpe Diem - sussurrou Keating. - Aproveitem o dia. Tornem as vossas vidas extraordinárias.

Todd, Neil, Knox, Charlie, Cameron, Meeks, Pitts e os outros rapazes fixaram o olhar nas fotografias penduradas nas paredes, imersos em pensamentos brutalmente interrompidos pelo toque da campainha.

- Esquisito - disse Pitts, enquanto pegavam nos livros.

- Mas diferente - comentou Neil, pensativo.

- Arrepiante - acrescentou Knox, tremendo ligeiramente, e saiu da sala.

- Acham que amanhã ele nos avalia sobre o que nos esteve a dizer? - perguntou Cameron com ar um pouco confuso.

- Cameron, por amor de Deus! - riu Charlie. - Tu não percebes mesmo nada!

A seguir ao almoço, juntaram-se todos no ginásio para a aula de Educação Física.

- Vamos lá, rapazes - gritou o professor -, ainda não é tarde demais para pôr esses corpos em forma. Comecem a correr à volta do ginásio. Ao fim de cada volta, parem e verifiquem a vossa pulsação. Se não tiverem pulsação, venham falar comigo.

Os rapazes gemeram queixas, mas começaram a correr à volta do enorme ginásio. O professor riu-se e, afastando-se para o lado, encostou-se à parede para observar os corredores.

- Hastings, vamos a despachar. Tem de se livrar dessa barriga - gritou a um dos rapazes. - Pare e verifique a pulsação.

- Muito bem, Overstreet. Bom ritmo. - Knox sor­riu e acenou ao passar pelo professor.

Ninguém pensou sobreviver à aula, mas no fim ficaram surpreendidos.

- Vou morrer! - conseguiu dizer Pitts quando se encontravam nos duches. - Aquele tipo devia estar numa escola militar!

- Vá lá, Pitts, o exercício faz-te bem - disse Came-ron a rir.

- Para ti é fácil, o gajo não te humilhou em frente da turma inteira. - Pitts virou-se rapidamente para a parede ao ver o professor de ginástica entrar nos vestiários.

- Que acham de uma reunião de estudo? - gritou Meeks por cima do barulho da água. - Logo a seguir ao jantar.

- Óptima ideia! Por mim está bem - responderam vários rapazes.

- Pega no sabão que deixaste cair, Harrison - gritou o professor. - E tu aí -apontou para outro rapaz- vamos a despachar!

- Desculpa, Meeks, mas hoje não posso - disse Knox. - Tenho de ir pedir autorização para ir jantar a casa dos Danburry.

- Quem são os Danburry? - perguntou Pitts. Cameron assobiou e disse:

- Uau! A nata dos antigos alunos! Como conseguiste?

Knox encolheu os ombros.

- São amigos do meu pai. Provavelmente têm no­venta anos ou qualquer coisa no género.

- Olha - disse Neil -, pior do que a carne mistério que nós vamos comer, não pode ser, por isso...!

- É verdade! - concordou Charlie.

Os rapazes acabaram de se vestir, atiraram a roupa da ginástica para dentro dos cacifos e saíram. Todd estava ainda sentado num banco a calçar as peúgas com vagar. Neil veio sentar-se ao lado dele e disse, brinca­lhão:

- A pensar morreu um burro!

- Lá burro sou eu, não há dúvida! - disse Todd, e abanou a cabeça, desanimado.

- Queres juntar-te ao grupo de estudo?

- Obrigado, mas... Preciso de estudar História. - Todd sorriu.

- Está bem, mas estás à vontade se quiseres mudar de ideias - respondeu Neil. Pegou nos livros e saiu do ginásio. Todd viu-o afastar-se e depois ficou a olhar para o vazio. Por fim, calçou os sapatos, pegou nos livros e dirigiu-se lentamente para os dormitórios.

Todd olhou, ao longe, para o sol avermelhado que desaparecia a pouco e pouco atrás do perímetro verde de árvores que rodeavam os terrenos da escola.

- Isto é grande, mas é tão pequeno - suspirou, olhando em redor.

No dormitório, sorriu a vários rapazes, mas foi rapidamente fechar-se no quarto. Pôs os livros na secretária, suspirou alto mais uma vez e sentou-se.

- Não posso acreditar na quantidade de coisas que tenho para estudar - disse, enquanto escolhia um livro. Abriu o de História, tirou um caderno e ficou a olhar para a primeira folha. Sem pensar, escreveu APROVEITA O DIA em letras pretas grandes.

- Aproveitar o dia? - perguntou em voz alta. - Como?

Voltou a suspirar, rasgou a folha do caderno e atirou-a para dentro do cesto de papéis. Abriu o livro de História e começou a ler.

- Está pronto, Overstreet? - perguntou o Dr. Ha-ger ao entrar na Sala de Honra onde Knox estava mais uma vez a estudar as fotografias dos antigos alunos da academia.

- Estou, Dr. Hager. Obrigado - respondeu. E seguiu o professor até à carrinha estacionada em frente do edifício.

Os cambiantes do Outono do Vermont estavam velados pelo escuro, mas Knox perguntou entusiastica­mente:

- É maravilhoso quando as cores mudam, não é Dr. Hager?

- Cores? Ah, sim, pois - resmungou o professor, enquanto se aproximavam da tortuosa mansão onde vivia a família Danburry.

- Obrigado por me levar, Dr. Hager. - Knox sorriu. - Os Danburry disseram que depois me traziam de volta à escola.

- Antes das nove, já sabe - avisou o professor.

- Antes das nove.

Knox saiu da carrinha, dirigiu-se para a porta e tocou à campainha da enorme casa colonial. Uma rapariga de saia de ténis, talvez um ano mais velha que Knox e linda de morrer, veio abrir a porta.

- Olá! - cumprimentou e riu-se, o que fez brilhar os seus bonitos olhos azuis.

Knox hesitou, mudo de espanto.                        

- Ah... Olá - foi tudo o que conseguiu dizer.

- Queres falar com o Chet? - perguntou a rapariga. Mas Knox era incapaz de tirar os olhos daquele corpo

atlético e não conseguia deixar de o fitar de cima a baixo.

- O Chet? - repetiu a rir. - Vieste ter com o Chet?

- Senhora Danburry? - gaguejou Knox quando uma senhora de meia-idade espreitou por cima do ombro da rapariga.

- Knox. -JeaneUe Danburry sorriu e a rapariga desapareceu pela enorme escadaria acima. - Entra. Estávamos à tua espera!

Knox seguiu a senhora Danburry, mas os olhos dele não deixaram a rapariga que subia os degraus dois a dois.

A senhora Danburry entrou numa biblioteca enorme, forrada com painéis de madeira. Dirigindo-se ao único ocupante, um homem dos seus quarenta anos, muito bem vestido, disse:

-Joe, é o Knox.

Joe estendeu a mão a Knox e sorriu amigavelmente.

- Muito prazer em conhecer-te, Knox. Entra. Sou Joe Danburry.

- Muito prazer, senhor Danburry. - Knox devolveu o sorriso, tentando controlar-se para não olhar para as escadas.

- És igualzinho ao teu pai. Como é que ele está? - perguntou Joe, oferecendo-lhe um copo de sumo.

- Óptimo - respondeu Knox. - Acabou agora um caso importante para a GM.

- Ah, estou mesmo a ver: tal pai, tal filho, não é? - Joe riu-se. -Já conheces a nossa filha, Virgínia?

- Ah, era a vossa filha? - Knox apontou entusiasti­camente em direcção às escadas.

- Virginia, cumprimenta o Knox - ordenou a se­nhora Danburry a uma rapariga dos seus quinze anos, engraçada mas sem mais, que se levantou do chão onde estava sentada do outro lado da sala. Os livros e cadernos dela, cobertos de uma letra cuidada, estavam espalhados pelo chão.

- Podes chamar-me Ginny. Olá - disse ela timidamente.

- Olá! - respondeu Knox, lançando um olhar breve a Ginny antes de se virar novamente para as escadas onde os seus olhos permaneceram colados às pernas ele­gantes que aí viu, mas, vinda dessa direcção, ouviu uma risadinha e voltou-se uma vez mais para Ginny.

-- Senta-te, senta-te - convidou o senhor Danburry, apontando para um dos confortáveis sofás de pele.- O teu pai alguma vez te falou do caso em que trabalhámos juntos?

- Desculpe? - Knox tinha dificuldade em se concentrar; a rapariga da saia de ténis vinha a descer as escadas com um rapaz atlético.              

- Ele não te contou? - riu-se o senhor Danburry.

- N... não - respondeu Knox, incapaz de tirar os olhos da rapariga.

O senhor Danburry começou a contar a sua história e o casal entrou na biblioteca.

- Estávamos completamente feitos. Eu estava convencido que iria perder o maior caso da minha vida. Então, o teu pai apareceu e disse que me conseguia um acordo fora do tribunal, mas só se eu lhe desse todos os honorários do nosso cliente! O malandro! - O senhor Danburry deu uma palmada no joelho e continuou: - Sabes o que é que eu fiz?

- Hum?

- Dei-lhe o que ele queria! - bradou. - Estava tão desesperado que deixei o teu pai ficar com tudo!- Knox fez um sorriso amarelo, tentando não deixar o senhor Danburry, que ria a bandeiras despregadas, ficar mal, mas não conseguia parar de olhar subrepticiamente para o casal que se deixara ficar ao pé da porta.

- Pai, posso levar o Buickl - perguntou o rapaz.

- Porque é que não levas o teu carro? - perguntou Joe. - Chet, não sejas mal-educado. Knox, este é o meu filho, Chet, e a namorada, Chris Noel. Este é o Knox Overstreet.

- Já nos conhecíamos... mais ou menos - disse Knox sem tirar os olhos de Chris.                  

- Pois... - Chris sorriu.

- Olá - disse Chet, completamente desinteressado. A senhora Danburry levantou-se e disse:

- Desculpem, vou ver como está o jantar.

- Vá lá pai, porque é que tem sempre de ser tão difícil? - perguntou Chet.

- Porque desde que te comprei o carro desportivo queres sempre levar o meu carro.

- A mãe da Chris acha que um carro maior é mais seguro, não é Chris? - Chet deitou a Chris um olhar perverso. Ela corou e disse:

- Não tem importância, Chet.

- Claro que tem. Deixe lá, pai... -Joe Danburry saiu da biblioteca e Chet foi atrás dele, suplicando. - Deixe lá, pai. Não vai utilizar o Buick hoje, pois não? Então porque é que não o posso levar eu?

Enquanto pai e filho continuavam a discutir no hall de entrada, Chris, Knox e Gin entreolharam-se, pouco à vontade.

- Aaa... em que escola andas? - perguntou Knox.

- Secundária de Ridgeway - respondeu Chris. - Como é Henley Hall, Gin?

- Mais ou menos.

- É onde anda a tua irmã, não é? - perguntou Chris a Knox.

- Acho que sim.

- Ginny, vais tentar entrar na peça da escola? Estão a ensaiar Sonho de Uma Noite de Verão - explicou a Knox.                                                                                    

- Talvez. - Ginny encolheu os ombros.

- E como é que conheceste o Chet? - perguntou Knox a Chris.

Ambas as raparigas se viraram para ele.

- Quer dizer... - gaguejou o rapaz, envergonhado.

- O Chet joga na equipa de futebol de Ridgeway e eu sou chefe de claque - explicou Chris. - Ele também andava em Welton, mas teve de desistir. - E, voltando-se para Ginny, acrescentou: - Devias entrar na peça, Gin, tu és boa actriz.

Ginny, envergonhada, baixou o olhar. Chet voltou à biblioteca e disse com um sorriso:

- Vamos embora, Chris. Já tenho o carro.

-Foi um prazer conhecer-te, Knox. - Chris sorriu uma vez mais e saiu de mãos dadas com Chet. - Adeus, Gin.

- Eu também... - foi o que Knox conseguiu dizer.

- Mais vale sentarmo-nos enquanto esperamos pelo jantar - sugeriu Gin.

Seguiu-se um momento de silêncio incómodo que Gin quebrou:

- O Chet só queria o Buick para eles poderem na­morar melhor - contou, corando logo a seguir, incapaz de pensar noutra coisa para dizer.

Knox olhou pela janela e viu Chris e Chet entrarem no Buick e darem um longo beijo na boca. Knox nunca sentira tanta inveja de ninguém.

Duas horas mais tarde, Knox arrastou-se para a sala de estudo do dormitório onde os seus colegas estavam ainda a trabalhar e deixou-se cair num dos cadeirões. Pitts e Meeks estavam ocupados a montar um rádio-transmissor e os outros a estudar Matemática.

- Que tal foi o jantar? - perguntou Charlie. - Pareces em estado de choque. O que serviram, Carne Mistério à Welton?

- É uma tragédia - gemeu Knox. - Horrível! Acabei de conhecer a rapariga mais linda que alguma vez vi!

Neil saltou da cadeira e foi ter com Knox:

- Está doido? Como é que isso pode ser trágico?

- Está praticamente noiva do Chet Danburry, o Me­dalha de Ouro de Tudo-E-Mais-Alguma-Coisa - la­mentou-se Knox.                                                  

- Que pena - disse Pitts.

- Que pena? Pena? Não é uma pena, é uma tragédia! - gritou Knox.- Mas porquê, porque é que ela tem de estar apaixonada por aquele idiota?

- Os idiotas ficam sempre com as melhores raparigas - sentenciou Pitts. - Sabes isso perfeitamente. Esquece-a. Pega no livro de Matemática e tenta resolver o problema número .

- Não consigo esquecê-la, Pitts. E podes ter a certeza que não consigo pensar em matemática agora!

- Claro que consegues! És um chato d'um raio, por­tanto já é meio caminho andado!- Pitts desatou a rir à gargalhada da sua própria piada.

- Ai, Meeks! Essa foi talvez a pior piada do século - disse Cameron, abanando a cabeça.

- Eu achei que era uma piada bastante inteligente - disse Pitts, amuado.

Knox olhou para os amigos e perguntou:

- Acham mesmo que a devia esquecer?

- Tens alternativa?

Knox foi ajoelhar-se em frente de Pitts:

- Só tu, Pitts, meu amor - implorou com um sus­piro exagerado -, tu és o meu único amor!          

Knox voltou a atirar-se para cima do cadeirão e os outros voltaram aos livros até Meeks dar o estudo por terminado:

- Por hoje é tudo, meus amigos. Amanhã há mais, disso não tenham dúvida.

- É verdade, o que é que aconteceu ao Todd? - perguntou Cameron, enquanto guardavam os livros.

- Disse que tinha de estudar História.    

- Vá lá, Knox - pediu Cameron. - Esquece a miúda. Ou então inventa qualquer coisa para a conquistares. Aproveita o dia, não te esqueças!

Knox sorriu e seguiu os outros para fora da sala de estudo.

Na manhã seguinte, John Keating estava sentado numa cadeira ao lado da sua secretária. Estava sério e muito calmo.

- Rapazes - disse, enquanto tocava a campainha -, peguem no vosso livro do Pritchard e abram-no na página . Perry - e apontou em direcção a Neil-, leia por favor em voz alta o primeiro parágrafo do prefácio inti­tulado «Perceber poesia».

Os rapazes abriram os livros na página e, endirei­tando-se nas cadeiras, prepararam-se para seguir a leitura de Neil.

- «"Perceber poesia" do Prof. Dr. J. EvanPritchard. De modo a perceber poesia completamente temos, pri­meiro, de estar perfeitamente familiarizados com o me­tro, a rima e as figuras de estilo utilizadas e, segundo, fazer as seguintes perguntas: ) o objectivo do poema foi bem ou mal transmitido? e ) qual a importância desse objectivo? A pergunta ) avalia a perfeição do poema; a pergunta ), a sua importância. Determinar a grandeza do poema torna-se relativamente fácil uma vez obtidas as respostas a estas perguntas. Se medirmos a perfeição do poema no eixo horizontal de um gráfico e a sua importância no eixo vertical, então a área total do poema representa a sua grandeza. Um soneto de Byron talvez obtivesse uma nota vertical alta, mas não obteria mais do que uma nota média na horizontal. Enquanto um soneto de Shakespeare teria notas altas tanto vertical como horizontalmente, resultando numa área total vasta e revelando assim a verdadeira grandeza do poema.»

Keating levantou-se e dirigiu-se ao quadro. Desenhou um gráfico demonstrando através de linhas e sombreados como o poema de Shakespeare dominaria por com­pleto o poema de Byron.

Neil continuou:

- «Na leitura da poesia apresentada neste volume, ide praticando este método de avaliação. À medida que a vossa capacidade para avaliar poesia desta maneira for aumentando, aumentará também a vossa apreciação e compreensão.»

Neil parou, e Keating esperou uns momentos para deixar que os rapazes reflectissem sobre a lição contida naquele parágrafo. Depois, levou as mãos à garganta e começou a gritar:

- Ahhhhhhhh! Lixo! Entulho! Porcaria! Eliminem isso dos vossos livros! Vá, rasguem a página inteira. Quero esta porcaria no lugar dela: no caixote do lixo!

Pegou no cesto dos papéis e, dramaticamente, começou a andar pela sala, parando em frente de cada aluno e esperando que deitassem fora a página em questão. A classe ria-se divertida.

- Rasguem isso bem - avisou Keating. - Não quero que sobre nada! Prof. Dr. J. Evan Pritchard, o senhor devia ter vergonha!

O riso aumentou, atraindo a atenção do professor de Latim, do outro lado do corredor. McAllister saiu da sua sala, espreitou pelo vidro da porta e viu os rapazes a rasgarem os livros. Assustado, abriu a porta e entrou na sala de aula.

- Mas que... - começou McAllister, mas calou-se ao ver Keating com o cesto de papéis na mão. - Peço desculpa, Keating. Não sabia que estava aqui.

Espantado e um pouco envergonhado, McAllister saiu da sala e, devagarinho, fechou a porta.

Keating voltou para a frente da turma, pôs o cesto dos papéis no chão e saltou lá para dentro. Os rapazes desataram à gargalhada. O olhar de Keating brilhava. Depois de pisar o conteúdo do cesto umas vezes mais, saiu e deu-lhe um pontapé, atirando-o para um canto.

- Isto é guerra, meus rapazes! Guerra! - gritou. - As vossas almas estão num ponto crítico. Ou sucumbem à vontade do hoi polloi do mundo académico e o fruto morrerá na árvore ou triunfam enquanto indivíduos.

Não se preocupem: nesta aula aprenderão o que esta escola quer que vocês aprendam. Contudo, se eu for bem sucedido, aprenderão também muito mais. Por exemplo, aprenderão a apreciar as palavras e a língua, porque, digam o que disserem, as palavras e as ideias têm o poder de mudar o mundo. Há pouco utilizei a expressão «hoi polloi». Quem é que sabe o que isso significa? Então, Overstreet, sua criatura vil! - A classe riu e Keating continuou.- Anderson? És um homem ou uma verruga? - A turma voltou a rir e todos olharam para Todd, que ficou visivelmente perturbado e apenas conseguiu aba­nar a cabeça.

Meeks levantou o braço:

- «Hoi polloi» quer dizer «o rebanho», não é?

- Exatamente, Meeks - disse Keating. - É grego, e significa «o rebanho». Contudo, tenham cuidado, por­que ao dizerem «o hoi polloi» estão de facto a dizer «o o rebanho», demonstrando que vocês são, afinal, nada mais que hoi polloil                                                    

Keating sorriu para Meeks, que lhe devolveu o sorriso. Depois, dirigiu-separa o fundo da sala.

- É claro que aqui o nosso Pitts, por exemplo, pode muito bem argumentar que a literatura do século xix não tem interesse para quem pretende ser um homem de negócios ou médico. Pitts acha que devíamos estudar o que o nosso amigo Pritchard diz, aprender o ritmo e o me­tro, e dedicar o nosso tempo ao que realmente importa.

Pitts sorriu, abanou a cabeça e disse:

- Quem, eu?

Keating deu um murro na parede e o som vibrou como vindo de um tambor. A classe inteira deu um salto e voltou-se para trás.

- Pois bem - continuou Keating -, a isso tudo eu respondo: balelas! As pessoas lêem poesia porque fazem parte da raça humana e a raça humana arde de paixão!

Medicina, direito, a banca... Estas coisas são necessárias à vida. Mas poesia, romance, amor, beleza? São estas coisas que nos mantêm vivos! Deixem-me citar-vos um poema de Whitman:

Pobre de mim! Ó vida! E os constantes problemas que se me deparam,

Os infinitos cortejos de incrédulos, as cidades repletas de loucos...

Qual o valor de tudo isto, pobre de mim, ó vida?

Resposta

A tua presença - que a vida e a identidade existem, Que o intenso espectáculo prossiga e que possas contribuir um verso.

Keating calou-se. A classe manteve-se em silêncio, digerindo a mensagem do poema. Keating olhou à sua volta uma vez mais e repetiu:

- «Que o intenso espectáculo prossiga e que possas contribuir um verso.»

O professor permaneceu em silêncio e depois, calmamente e com todos os olhos cravados em si, dirigiu-se ao quadro.

- Qual será o vosso verso? - perguntou. Seguiu-se um longo momento de silêncio. Suave­mente, Keating quebrou o feitiço:

- Vamos abrir os livros na página e falar da noção de Romantismo de Wordsworth.

McAllister puxou uma cadeira e sentou-se ao lado de Keating na mesa dos professores.

- Posso? - perguntou, ao mesmo tempo que instalava o enorme corpo no assento e chamava um empregado.

- Esteja à vontade. - Keating sorriu e levantou os olhos para a cantina cheia de rapazes, todos vestidos de igual, com o blazcr da Academia, a almoçarem.

- Deu uma aula bastante interessante, hoje, senhor Keating - disse McAllister com sarcasmo.

- Desculpe se o choquei.

- Não precisa de pedir desculpa - respondeu McAl­lister, abanando a cabeça e mastigando já um pedaço da carne mistério do dia. - Foi fascinante. Um pouco insensato, mas fascinante.

- A sério? - Keating ergueu o sobrolho.

- Claro. Corre um risco enorme se os encoraja a serem artistas, John. Quando se aperceberem que não são nenhuns Rembrants ou Mozarts ou Shakespeares, odiá-lo-ão.

- Artistas não, George - disse Keating. - Não percebeu. Quero ensinar-lhes a pensarem por eles mesmos.

- Aos dezassete anos? - riu McAllister.

- Não pensei que fosse um cínico - respondeu Kea-ting.

- Cínico não, meu velho, realista. Mostre-me um coração leve de sonhos vãos e mostrar-lhe-ei um homem feliz! - McAllister mastigou outra garfada. - Mas vou gostar de ouvir as suas aulas, John. Não há dúvida que vou.

Keating sorriu, divertido.

- Espero que não seja o único - disse, olhando para o grupo de alunos sentados não muito longe.

Os rapazes voltaram-se todos para Neil quando este entrou na cantina quase a correr e se veio sentar ao pé deles.

- Não vão acreditar no que eu encontrei - disse, quase sem fôlego. - Encontrei um livro de curso antigo na biblioteca. - Neil olhou para Keating, que continuava a conversar animadamente com McAllister na mesa dos professores. Neil abriu o livro e leu: - «Capitão da equipa de futebol, editor do livro de curso, destinado a Cambridge, destinado a fazer Seja o Que For, mulherengo, Clube dos Poetas Mortos».

- Mulherengo? - Charlie riu. - Então o senhor K. era um malandreco? Muito bem!

- O que é ? - perguntou Knox, enquanto folheava o livro e olhava para as fotografias dos alunos da classe de Keating.

- Há alguma fotografia de grupo? - perguntou Meeks.

- Do clube, não. E não aparece em mais lado nenhum.

Neil continuou a ler o livro até que Charlie lhe tocou na perna debaixo da mesa:

- O Nolan - murmurou.

O Reitor aproximou-se da mesa deles e Neil passou rapidamente o livro a Cameron, debaixo da mesa, que o passou logo a Todd. Este olhou para ele interrogativa­mente, mas acabou por ceder.

- Está a gostar das aulas, Perry? - perguntou No-lan, parando ao pé da mesa dos rapazes.

- Muito, senhor Reitor - respondeu Neil.

- E o nosso senhor Keating? Acham-no interessante, rapazes?

- Achamos, senhor Reitor - respondeu Charlie. - Estávamos agora mesmo a falar sobre isso.

- Óptimo. Estamos muito contentes com ele. Sabiam que ele ganhou uma bolsa Rhodes?

Os rapazes sorriram e fizeram que sim com a cabeça.

Nolan dirigiu-se para outra mesa. Todd tirou o livro de debaixo da mesa e folheou-o enquanto acabava o almoço.

- Vou levar o livro para a biblioteca - disse Neil a Todd, quando se levantaram para sair da cantina.

- O que é que vais fazer? - perguntou Todd, hesi­tante.

- Um bocadinho de investigação - respondeu Neil, sorrindo com ar superior.

Depois das aulas da tarde, Neil, Charlie, Meeks, Pitts, Cameron e Todd voltavam juntos para o dormitório e viram Keating, de fato de treino, um cachecol ao pescoço e os braços carregados de livros, a atravessar o campus.

- Senhor Keating! - chamou Neil. - Professor! Capitão! Meu Capitão!

Keating parou e esperou que os rapazes viessem ter com ele.

- O que era ? - perguntou Neil.....                         .....

. Bolsa atribuída aos melhores estudantes nos Estados Unidos para estudarem em Oxford, no Reino Unido. (N. daT.                                        

Durante um segundo, Keating corou.

- Estava a folhear um antigo livro de curso - explicou Neil - e...

- Um bocadinho de investigação é sempre bom - disse Keating, recuperando a calma.

Os rapazes olharam para ele e esperaram que respondesse.

- Mas o que era? - insistiu Neil.

Keating olhou em redor, como a certificar-se de que ninguém os estava a ouvir, e disse:

- Uma organização secreta - sussurrou. - Não sei qual seria a opinião da actual administração da escola acerca dela, mas duvido que fosse positiva. - Keating varreu o campus com o olhar e os rapazes sustiveram a respiração. - Prometem guardar segredo? - Todos acenaram que sim imediatamente.- era um clube destinado a sugar o tutano da vida. É uma frase de Thoreau que se tornou o nosso lema e que era lida no início de cada reunião - explicou. - Éramos um pequeno grupo e encontrávamo-nos na velha gruta. Líamos Shelley, Thoreau, Whitman ou os nossos próprios poemas, e o encanto do momento exercia a sua magia. - Os olhos de Keating brilhavam de emoção ao relembrar o tempo de estudante.

- Quer dizer que eram uns quantos tipos que se juntavam para ler poesia?- perguntou Knox, espantado.

Keating sorriu:

- Ambos os sexos eram bem-vindos, Overstreet. E acreditem, não nos limitávamos a ler... deixávamos que a poesia deslizasse da nossa língua como mel. As mulheres desfaleciam, os espíritos exaltavam-se... nasceram deuses, meus senhores.

Os rapazes permaneceram em silêncio durante uns instantes até que Neil perguntou:

- De onde vem o nome? Só liam poetas mortos?   :

- Qualquer poeta era aceite, Perry. O nome referia-se ao facto de, para se ser membro, se ter de estar morto.

- O quê? - perguntaram todos ao mesmo tempo.

- Os vivos eram simplesmente propostos. Ser sócio de pleno direito requeria uma vida inteira de aprendizagem. Infelizmente, eu próprio não passo ainda de um mero iniciado.

Os rapazes entreolharam-se, a surpresa estampada nos seus rostos.

- A última reunião deve ter tido lugar há quinze anos, se não me engano. - O professor voltou a olhar em redor e, quando parecia seguro de que ninguém o estava a observar, afastou-se.

- Vamos hoje à noite! -propôs Neil, entusiasmado, quando deixaram de ver Keating. - Querem?

- Onde é a gruta de que ele falou? - perguntou Pitts.

- Para lá do riacho. Acho que sei onde é - respondeu Neil.

- Isso é longíssimo - queixou-se Pitts.

- A mim parece-me uma chatice - disse Cameron.

- Então não venhas - disse Charlie.

- Tens ideia de quantas penalidades apanhamos se nos descobrirem? - perguntou Cameron a Charlie.

- Então não venhas! - repetiu Charlie. - Por favor!

- Só estou a dizer que não podemos ser apanhados, mais nada. Temos de ter cuidado.

- Não me digas!

- Então, quem é que vem? - perguntou Neil para acabar com a discussão.

- Eu - disse logo Charlie.                            

- Eu também - acrescentou Cameron.

Neil olhou para Knox, Pitts e Meeks. Pitts estava hesitante:

- Não sei...

- Vá lá, Pitts - pediu Charlie.

- Charlie, ele não está com muito boas notas - de­fendeu Meeks.

- Então tu podes ajudá-lo, Meeks - sugeriu Neil.

- Mas afinal o que é isso, um grupo de estudo à meia-noite? - perguntou Pitts, ainda inseguro.

- Esquece, Pitts - disse Neil. - Tu vens connosco e acabou. E tu, Meeks? Também tens más notas?

Todos riram.

- Está bem. Gosto de experimentar tudo, pelo menos uma vez - disse Meeks.

- Tudo menos sexo, não é, Meeks? Meeks corou e os outros desataram a rir.

- Eu vou, mas temos de ter cuidado - voltou a dizer Cameron.

- E tu, Knox? - continuou Charlie.

- Não sei - respondeu Knox. - Não percebo a ideia.

- Vá lá - encorajou Charlie. - Ajudar-te-á a conquistar a Chris.

- A sério? Como?

- Não ouviste o que o Keating disse sobre mulheres a desmaiar?

- Ouvi, mas porquê? - Knox continuava indeciso.

O grupo começou a dispersar, e Knox seguiu Charlie até ao dormitório.

- Porque é que elas desmaiam, Charlie? Diz lá, Char­lie, porquê?                    

A pergunta permaneceu sem resposta, pois, ao longe, soou o sino que anunciava aos rapazes que era hora do jantar.

Depois de comer, Todd e Neil foram para uma das salas de estudo e sentaram-se a uma das mesas juntos.

- Ouve - disse Neil, baixinho, ao companheiro de quarto -, quero que venhas à reunião do clube. - Neil notara que ninguém perguntara a Todd se ele queria ir ou não. - Não podes estar à espera que as pessoas se lembrem sempre de ti. Ninguém te conhece. E tu nunca falas a ninguém!

- Obrigado - respondeu Todd. - Mas o problema não é esse.

- Então qual é o problema?

- Nã... não me apetece ir, é só isso - gaguejou Todd.

- Mas porquê? - espantou-se Neil. - Não percebes o que o Keating está a tentar dizer? Não queres fazer qualquer coisa?

Um dos vigilantes passou ao pé da mesa deles e olhou-os, desconfiado; Neil apressou-se a virar uma página do livro que tinha à sua frente.

- Quero - respondeu Todd, quando o vigilante já não os podia ouvir -, mas...

- Mas o quê, Todd? Diz-me - suplicou Neil. Todd baixou o olhar:

- Não quero ler.

- O quê? - disse Neil, incrédulo.

- Keating disse que todos liam, uma vez cada um. Não quero ter de ler.

- Bolas, tens mesmo problemas. - Neil abanou a cabeça. - Que mal pode fazer leres um poema? Quer dizer, é disso mesmo que se trata: exprimirmo-nos.

- Neil, não consigo explicar - Todd corou, enver­gonhado. - Só sei que não quero ler.

Neil remexeu nos papéis que tinha à frente e olhou para Todd zangado. De repente, teve uma ideia:

- E se não tiveres de ler? - sugeriu. - E se vieres connosco e só ouvires?

- Mas não é assim que funciona o clube.

- Eu sei. Mas se os outros estivessem de acordo?

- Vais perguntar isso aos outros? - Todd corou ainda mais. - Neil, isso é embaraçoso.

- Não é nada - disse Neil, levantando-se. - Espera, volto já.

- Neil - chamou Todd, recebendo imediatamente um olhar furioso do vigilante.

Mas Neil saiu antes de Todd poder fazer fosse o que fosse para o impedir. Todd enterrou-se o mais que podia na cadeira e abriu o livro de História.

Neil, Knox e Charlie estavam a conversar baixinho no átrio do dormitório. À volta deles, os preparativos para a hora de deitar começavam a tornar-se visíveis. Pelos corredores, viam-se rapazes em pijama, com almofadas de­baixo de um braço e livros debaixo do outro. Neil atirou a toalha que trazia na mão para cima do ombro, deu umas palmadinhas nas costas de Knox e foi para o quarto. Aí, depois de atirar a toalha para o lado, notou que havia em cima da sua secretária algo que não tinha lá estado antes.

Depois de hesitar uns segundos, Neil pegou no volume, gasto pelos anos e pelo muito uso. Era uma antolo­gia de poesia. Abriu o livro e, na primeira página, viu o nome escrito numa caligrafia cuidada: «J. Keating». Neil leu em voz alta a inscrição que estava debaixo do nome: «Poetas Mortos». Foi deitar-se em cima da cama e começou a folhear as páginas amareladas e envelhecidas do livro. Durante uma hora, Neil leu, vagamente consciente de que, a pouco e pouco, o barulho ia diminuindo lá fora, as portas dos quartos se iam fechando e as luzes se iam apagando. «Lá vai o Dr. Hager; ainda está acordado», pensou Neil, ao ouvir o arrastar dos pés do responsável do dormitório a fazer a última inspecção do dia, certifi­cando-se de que estava tudo calmo. A certa altura, pareceu parar Exatamente em frente à porta fechada do quarto de Neil.

- Calmo - disse o Dr. Hager em voz alta, abanando a cabeça -, isto está demasiado calmo.

Várias horas mais tarde, convencidos de que estavam todos a dormir profundamente, os rapazes encontraram-se junto ao enorme ácer. Estavam todos bem agasalhados, embrulhados em casacos, com cachecóis, gorros e luvas, e alguns deles tinham trazido lanternas para iluminar o caminho. O rosnar do cão de guarda assustou-os, mas Pitts chamou-o e deu-lhe uns biscoitos para o acalmar, deixando uma mão-cheia deles no chão.

- Vamos embora - murmurou, quando o cão estava entretido com a comida.

- Bem lembrado, Pitts - disse Neil, enquanto atravessavam o campus debaixo de um céu repleto de estrelas.

- Está frio - queixou-se Todd, quando saíram do espaço aberto e ventoso do campus, para entrarem na fantasmagórica floresta de pinheiros que rodeava a escola e irem em busca da gruta. Charlie corria à frente, enquanto os outros seguiam atrás, mais devagar.

- Estamos quase - disse Knox, ao chegarem à margem do pequeno riacho.

Começaram então à procura da gruta que devia estar algures ali à volta, entre raízes e folhas caídas.

- Iááá! Sou um poeta morto! - gritou Charlie, de repente, saindo de um buraco no chão. Encontrara agruta.

- Ahhhhh! -gritou Meeks. -Bolas, Dalton! Diabos te levem! - disse para Charlie, recuperando a calma.

- Cá estamos, rapazes - disse Charlie. - Chegámos a casa!                          

Os rapazes entraram para a gruta e passaram algum tempo à procura de paus e outros pedaços de madeira para tentarem acender uma fogueira. Depois de aceso o lume, o interior nu da gruta aqueceu um pouco. Os rapazes permaneceram em silêncio como se estivessem dentro de um santuário.

- Declaro novamente abertas as reuniões d - disse Neil, solenemente. - Participarão nestas reuniões eu próprio e os outros novos ini­ciados presentes. Todd Anderson, porque prefere não ter de ler em voz alta, será responsável pelas actas. - Todd encolheu-se ao ouvir pronunciado o seu nome, infeliz mas incapaz de se defender.

- Passarei agora a ler o poema de abertura, da autoria do membro Henry David Thoreau - continuou Neil, abrindo o volume que Keating lhe deixara em cima da se­cretária. - «Fui para os bosques para viver livremente.» - Saltando partes do texto, continuou: - «Queria viver plenamente e sugar o tutano da vida!»

- É assim mesmo! - interrompeu Charlie.

- «Para aniquilar tudo o que não era vida» - continuou Neil, saltando versos uma vez mais - «E para, quando morrer, não descobrir que não vivi.»

Seguiu-se um silêncio respeitoso.

- Iniciado Overstreet - disse Neil.

Knox levantou-se e Neil estendeu-lhe o livro. Knox encontrou uma página e leu:

- «Aquele que avança com confiança na direcção dos seus sonhos, encontrará inesperada satisfação no simples passar das horas.» Sim! - exclamou Knox, com os olhos a brilhar. - Quero sucesso com a Chris!

Charlie arrancou-lhe o livro das mãos:

- Vá lá, pá - disse, fazendo uma careta -, istoé a sério. - Charlie aclarou a garganta e leu:

O maravilhoso amor de uma linda moça, E o amor de um homem honesto e dedicado, E o amor de um bebé que nada teme. Todos existem desde que o tempo é tempo. Mas o mais maravilhoso amor, O Amor de todos os amores, Maior ainda que o amor de Mãe, É o infinito, o carinhoso, o apaixonado amor Que sente um bêbedo pelo outro.

- Autor anónimo - riu Charlie e passou o livro a Pitts.

- «Aqui jaz minha mulher: que descanse neste lugar. Agora está em paz... E eu também!» - Pitts riu-se. - John Dryden, -. Nunca pensei que estes tipos tivessem sentido de humor!

Pitts passou o livro a Todd, enquanto todos se riam do poema. Todd entrou em pânico, não sabendo o que fazer com o livro, e Neil tirou-lho rapidamente sem que os outros dessem por nada. Charlie tirou o livroa Neil e leu mais uma vez:

Ensinar-me a amar, a mim ? ... Eu sou o melhor professor que existe. O deus do amor, se é que existe, Podia aprender a amar comigo.

Os rapazes entoaram exclamações de admiração pelas alegadas proezas de Charlie.

- Vá lá, então - disse Neil -, temos de levar isto a sério.

Cameron pegou no livro:

- Este é sério. - E começou a ler:

Somos os fazedores de música

E os sonhadores de sonhos,

Passeando pelos pontões solitários,

E descansando à beira de ribeiros desolados;

Perdedores que abandonaram o mundo,

Iluminados pela luz pálida do luar

E, contudo, neste mundo para sempre,

Tudo nas nossas mãos parece estar.

De maravilhosas e imortais canções

Construímos as nossas cidades,

E de uma fabulosa história

Criamos a glória de um império:

Um homem com um sonho

Investirá para conquistar uma coroa;

E três com uma melodia distinta

Podem esmagar um império.

Nós no tempo adormecidos,

No passado enterrado da terra,

Erguemos Nínive dos nossos suspiros,

E do nosso júbilo a própria Babel.

- Ámen! - disseram alguns dos rapazes.

- Chiu! - disseram os outros.

E com as nossas profecias de um valoroso mundo novo

O velho derrubámos;

Pois cada era é um sonho que morre,

Ou outro prestes a nascer.

Cameron parou, dramaticamente.

- Este poema é de Arthur Shaughnessy, -.

Os rapazes permaneceram sentados em silêncio uns momentos. Depois, Meeks pegou no livro e folheou-o:

- Oiçam, este é incrível - disse e, com uma voz séria, leu:

Da noite que me cobre

Escura como um poço de lado a lado

Aos deuses digo: Obrigado.

Pela minha alma nobre!

- W.E. Henley, -.

- Vá lá, Meeks - gozou Pitts. - Tu?

- O quê? - disse Meeks, fazendo uma cara inocente e surpreendida.

Knox folheou mais uma vez o livro e, de repente, sol­tou um gemido e leu, como se se dirigisse a uma imagem de Chris:

- «Como te amo? Deixa-me contar como. Amo-te do fundo...»

Charlie arrancou-lhe o livro das mãos.

- Acalma-te, Knox, estás muito excitado!

Os outros riram-se. Neil pegou no livro e leu para si durante uns minutos. Os rapazes juntaram-se mais à volta do lume, que estava já a diminuir.

- Chiu - disse Neil, e começou a ler, deliberadamente.

Venham meus amigos,

Ainda é tempo de buscar um novo mundo...        

pois é o meu desígnio

viajar para lá do sol posto... e ainda que

Não tenhamos hoje a força que outrora     Movia o céu e a terra; o que somos, somos;

Corações heróicos de igual temperamento Enfraquecidos por tempo efado, mas decididos

A lutar, a procurar, a encontrar e a nunca desistir.            

- De «Ulysses», deTennyson - concluiu.

O silêncio aumentou em volta da fogueira. Os rapazes estavam todos emocionados pela maneira apaixonada como Neil lera o poema e pela declaração de intenções deTennyson.

Pitts pegou no livro e começou a bater um ritmo com os pés à medida que ia lendo:

Garanhões gordos e pretos juntos numa adega, Reis da bebida de andar pouco estável, Alegres, dançam em roda, batem na mesa, Com um cabo de vassoura batem num barril vazio, Com toda a força, batem, Pum, Pum, PUM.

Com uma sombrinha de seda e um cabo de vassoura Pum catrapum, catrapum, PUM.

ENTÃO tinha religião, ENTão tinha uma visão.          

Fui incapaz de me afastar em derisão. ENTÃO VIO CONGO, ÂRRÃSTÁNDO-SE NO ESCURO, ATRAVESSANDO a FLORESTA NO SEU LEITO DE OURO...

À medida que Pitts ia lendo, os outros, contagiados pelo ritmo do poema, começaram a dançar e saltar à volta da gruta. Os seus gestos iam aumentando e tornando-se cada vez mais ridículos e exagerados. Começaram a imitar barulhos de animais e a bater com as mãos nas pernas e na cabeça. Pitts continuou a leitura, enquanto Charlie liderou o grupo, dançando e uivando, para fora da gruta e para a noite fria.

Dançaram como selvagens pela floresta, ululando com as árvores, acompanhando o rugir do vento.

A fogueira dentro da gruta apagou-se e a escuridão tornou-se completa. Os rapazes pararam de dançar e, quase imediatamente, começaram a tremer, em parte por causa do frio e em parte por causa da alegria que sentiam por terem soltado a sua imaginação.

- É melhor irmos andando - disse Charlie. - As aulas começam daqui a pouco.

Atravessaram o bosque até à clareira que levava de volta a Welton.

- De volta à realidade - disse Pitts, quando o cam-pus da escola se tornou visível.

- Ou seja lá o que for... - acrescentou Neil com um suspiro.

Correram para o dormitório em silêncio, retiraram o ramito de árvore que tinham entalado na porta para esta não se fechar e, em bicos de pés, foram cada um para o seu quarto.

Na manhã seguinte, a maioria dos aventureiros da noite anterior, sentados na aula de Inglês, não conseguia evitar bocejar. Keating, contudo, passeava vigorosamente de um lado para o outro na sala de aula.

- Uma pessoa não está muito cansada, está exausta. Não digam muito triste, digam... - Estalou os dedos e apontou para um rapaz.

- Taciturno?

- Muito bem! - congratulou Keating, sorrindo. - A língua foi inventada com um objectivo, rapazes...- Voltou a estalar os dedos e apontou para Neil.

- Para comunicar?                                           . -

- Não - disse Keating. - Para fazer a corteàs mulheres. E para tal, temos de ser diligentes. Têm também de ser diligentes nas vossas dissertações.

A turma riu-se. Keating fechou o livro que trazia na mão, foi até ao quadro e levantou o mapa que o cobria, revelando uma citação. Keating leu em voz alta:

- « Credos e escolas em suspenso, permito que se fale custe o que custar, Natureza sem censura com a energia original...» Mais uma vez, o nosso tio Walt - disse. - Ah, mas como é difícil ignorar esses credos e essas escolas, condicionados que estamos pelos nossos pais, as nossas tradições, pelo nosso tempo. Como é que nós, tal como Whitman, permitimos que a nossa verdadeira na­tureza fale? Como é que nos livramos dos preconceitos, hábitos, influências? A resposta, rapazes, é que temos sempre de nos esforçar por encontrar um ponto de vista diferente.

Os rapazes ouviam atentamente. De repente, Keating saltou para cima da secretária:

- Porque é que estou aqui em cima? - perguntou.

- Para se sentir mais alto? - sugeriu Charlie.

- Estou em cima da minha secretária para não me esquecer que me devo constantemente empenhar em ver as coisas de maneira diferente. O mundo tem um aspecto diferente daqui. Se não acreditam, venham cá acima ver. Todos. Venham. Um de cada vez.

Keating saltou para o chão. Todos os rapazes, excepto Todd Anderson, avançaram e, dois a dois e três a três, foram subindo para a secretária de Keating, que andava de um lado para o outro e os observava.

- Se têm a certeza de alguma coisa - disse o professor, quando os rapazes começavam a voltar para as respectivas carteiras -, obriguem-se a vocês mesmos a pensarem nela de uma maneira diferente, mesmo sabendo que está mal ou não faz sentido. Quando lerem, não levem apenas em consideração aquilo que o autor pensa; tentem determinar aquilo que vocês pensam. Têm de lutar por conseguir a vossa própria voz, rapazes, e quanto mais tempo demorarem a começar, mais difícil será encontrá-la. Thoreau disse: «A maioria dos homens leva uma vida de desespero em silêncio». Porquê resignarmo--nos a tal? Arrisquem-se a andar por caminhos novos.

Portanto...

Keating dirigiu-se à porta da sala, e ninguém despregava os olhos dele. Olhou para a classe e acendeu e apagou as luzes da sala várias vezes, dando ao mesmo tempo um grito estrondoso parecido com um trovão.

- Além das dissertações - disse, no fim da barulhenta demonstração -, quero que escrevam um poema, o vosso próprio poema, para ser lido em voz alta na aula. Até segunda!

E saiu da sala. A turma permaneceu sentada, em cho­que com as excentricidades do novo professor. Passado um momento, Keating voltou: espreitou para dentro da sala e, sorrindo endiabradamente, disse:

- E não pense que eu não sei que esta tarefa lhe mete um medo de morte, senhor Anderson, sua toupeira! - Keating estendeu o braço e fingiu estar a enviar raios a Todd, que, com esforço, conseguiu sorrir, muito pouco à vontade. A classe riu também, mas um pouco forçadamente, sentindo o embaraço de Todd.      

As aulas acabavam cedo às sextas-feiras, e os rapazes saíram da aula de Keating felizes por terem a tarde livre.

- Vamos até à torre do sino continuar a nossa experiência com o rádio-transmissor - sugeriu Pitts a Meeks. - Rádio América Livre!

- Boa ideia - respondeu Meeks.

Passaram por grupos de rapazes que esperavam pelo correio, outros jogavam lacrosse na relva e, ao longe, No-lan gritava ordens à equipa de remo da escola que treinava no lago.

Knox atirou os livros para dentro do cesto da bicicleta e começou a andar pelo compus. Chegado ao pé dos portões, olhou por cima do ombro para se certificar de que ninguém o estava a ver e pedalou furiosamente pelo campo e em direcção à aldeia.

Respirando com esforço, e sempre a olhar para trás para ver se via alguém da academia, Knox pedalou o mais depressa que pôde até chegar à Escola Secundária de Ridgeway. Parou ao pé da vedação e deixou-se ficar a observar um grupo de estudantes que estavam a entrar para três camionetas paradas em frente à escola. Para a primeira camioneta, entraram os membros da banda, à paisana mas ensaiando música sem parar. Para a segunda camioneta, entraram os membros da equipa, e para a terceira, os membros da claque, entre os quais Chris Noel.

Knox deixou-se ficar ao pé da vedação a vê-la. Viu-a correr para Chet, que tinha o equipamento na mão, e dar-lhe um beijo. Chet puxou-a para ele, Chris riu e depois foi a correr para a outra camioneta.

Knox pegou na bicicleta e voltou para a academia. Desde o dia do jantar, tinha esperado voltar a ver Chris, mas não assim - não aos beijos com Chet. Conseguiria alguma vez dizer a Chris as palavras que a fariam apai­xonar-se por ele?

Algumas horas depois, nessa mesma tarde, Todd sentou-se na cama com um caderno aberto em cima dos joelhos. Começou a escrever qualquer coisa, riscou-a, arrancou a folha e atirou-a para o cesto de papéis. Frustrado, tapou a cara com as mãos; nesse momento, Neil entrou no quarto e pôs os livros em cima da secretária.

- Já sei - disse, não conseguindo ocultar a alegria que sentia, bem visível também nas suas feições rosadas.

- Sabes o quê? - perguntou Todd.

- O que quero realmente fazer! Agora mesmo. O que está verdadeiramente dentro de mim. - E estendeu a Todd um pedaço de papel.

- Sonho de Uma Noite de Verão - leu Todd. - O que é isto?

- Uma peça de teatro, parvo.

- Isso sei eu. - Todd encolheu-se. - E que tem a peça a ver contigo?

- Vão representá-la em Hanley Hall. Vê: «Audições abertas a todos».

- E depois?

- Depois, vou entrar na peça! - gritou Neil, saltando para cima da cama. - Desde sempre que quero experimentar uma coisa deste género. No Verão passado, tentei ter aulas de teatro, mas o meu pai não me deixou.

- E agora vai-te deixar fazer isto? - perguntou Todd com cepticismo.

- Claro que não, mas isso não interessa. O que inte­ressa é que pela primeira vez na minha vida sei o que quero e pela primeira vez vou fazê-lo, quer o meu pai me deixe quer não! Carpe Diem, Todd!

Neil pegou na peça e leu umas quantas linhas. Estava radiante, abanando o punho cerrado no ar em sinal de triunfo.

- Neil, como é que vais entrar numa peça se o teu pai não te deixa? - insistiu Todd.

- Primeiro tenho de obter o papel, depois logo me preocuparei com essa parte.

- Mas ele mata-te se souber que tu foste à audição e não lhe contaste.

- E como é que ele vai saber? Eu não lhe vou dizer...

- Então, sabes bem que isso é impossível - disse Todd.

- Tretas! Tudo é possível!

- Porque é que não lhe perguntas primeiro? Talvez ele te deixe - sugeriu Todd.

- Essa tem piada - gozou Neil. - Se não lhe pedir, pelo menos não terei de lhe desobedecer.

- Mas se eleja disse uma vez que não, então... - tentou ainda Todd.

- Afinal de que lado estás tu? Ainda nem sequer tenho o papel. Não posso sequer gozar a ideia, nem que seja durante um bocadinho?

- Desculpa - disse Todd, voltando a concentrar-se no seu trabalho.

Neil sentou-se na cama e começou a ler.

- A propósito, hoje vai haver uma reunião à tarde. Vens?

- Pode ser - respondeu Todd, com uma careta.

- O que o professor Keating diz não significa nada de nada para ti, não é? - perguntou Neil, incrédulo.

- O que é que queres dizer com isso? - defendeu-se Todd.

- Pertencer ao Clube significa ser movido pelas coisas. Tu estás menos agitado que o mar Morto!

- Queres que eu saia do Clube? É isso? - disse Todd, zangado.

- Não - respondeu Neil, com calma. - Quero que tu faças parte do Clube. Mas isso significa que tens de fazer alguma coisa. Não basta simplesmente dizer que fazes parte.

Todd continuava zangado.

- Ouve, aprecio o teu interesse, mas eu não sou como tu. Quando tu falas, as pessoas ouvem, prestam atenção. Eu não sou assim!

- Porquê? Não achas que podias ser? - insistiu Neil.

- Não! - gritou Todd, exasperado. - Não sei. E se calhar nunca vou saber. O que interessa é que nem tu nem ninguém podem fazer nada, percebes?, por isso não te metas, está bem? Deixa-me em paz, eu sei cuidar de mim.

- Aaa... não - disse Neil.

- Não? Não, o quê? - perguntou Todd, espantado. Neil encolheu os ombros e repetiu:

- Não, não está bem. Vou-me meter tanto quanto eu quiser e não te vou deixar em paz.

E pegou no livro e voltou a concentrar-se na peça. Todd olhou para ele, perplexo.

- Está bem - disse. - Eu vou.

- Óptimo. - Neil sorriu e continuou a leitura.

 

Reuniu-se à tarde, a se­guir ao treino de futebol. Charlie, Knox, Meeks, Neil, Cameron e Pitts passearam pela gruta, explorando a sede do Clube e gravando os respectivos nomes nas paredes.

Todd chegou atrasado, mas, assim que estavam todos, Neil deu início à reunião:

- Fui para os bosques para viver livremente. Queria viver plenamente e sugar o tutano da vida!

- Meu Deus! O que eu queria era sugar o tutano da Chris! Estou tão apaixonado... sinto-me como se fosse morrer!

- Sabes bem o que diriam os poetas mortos - riu Cameron. - «Colhe os botões de rosa enquanto podes...»

- Mas ela está apaixonada pelo idiota do filho do me­lhor amigo do meu pai! O que diriam os poetas mortos sobre isso? - Knox afastou-se do grupo, desesperado.

Neil levantou-se para se ir embora e disse:

- Tenho de ir às audições. Desejem-me sorte - pediu, nervoso.

- Boa sorte! - disseram Meeks, Pitts e Cameron em coro. Todd permaneceu em silêncio e ficou a ver Neil afastar-se.

- Sinto-me como se nunca tivesse vivido - Charlie disse, triste. - Durante todos estes anos não tenho arriscado nada. Não faço a menor ideia do que sou, do que quero. O Neil sabe que quer ser actor, o Charlie quer a Chris.

- Precisa da Chris. Tem de ter a Chris! - gritou Knox.

- Meeks - disse Charlie -, tu és o génio do grupo. O que é que os poetas mortos dizem sobre alguém como eu?

- Os românticos gostam de experimentar coisas novas, Charles. Tentavam uma porção de coisas antes de se decidir por uma, se é que alguma vez se decidiam - disse Meeks.

Cameron fez uma careta:

- Não há assim tantas coisas para experimentar em Welton, Meeks.

Enquanto os outros pensavam sobre o comentário de Cameron, Charlie andava de um lado para o outro. De repente, parou e exclamou, alegre:

- Declaro este sítio a Gruta Charles Dalton para Experiências Amorosas - sorriu. - De futuro, quando alguém quiser entrar tem de me pedir autorização!

- Espera aí, Charlie - contrapôs Pitts. - A gruta devia ser do Clube.

- Pois devia, mas fui eu que a encontrei e agora de-claro-a minha. Carpe grutam, amigos. Aproveita a gruta - respondeu Charlie, contente consigo mesmo.

- Ainda bem que não há muitos como tu, Charles - comentou Meeks, filosoficamente.

Os outros entreolharam-se e abanaram a cabeça. Os rapazes tinham achado a gruta e nela haviam encontrado um lar longe de Welton, longe dos pais, dos professores e dos amigos - um sítio onde podiam ser quem nunca tinham sonhado ser. estava vivo e em força e pronto para aproveitar o dia.

Relutantemente, os rapazes deixaram a gruta e voltaram à escola mesmo a tempo para o treino.

- Olhem quem é hoje o instrutor de futebol - disse Pitts, ao ver Keating aproximar-se do campo. Trazia umas bolas de futebol debaixo de um braço e uma caixa debaixo do outro.

- Muito bem, quem tem a lista da chamada? - perguntou Keating.

- Eu - respondeu um dos rapazes, estendendo a lista ao professor.

Keating olhou para a lista e disse:

- Respondam «Presente», por favor, quando o vosso nome for chamado. Chapman?

- Presente.

- Perry? Ninguém respondeu.

- Neil Perry?

- Tinha uma consulta no dentista, professor - disse Charlie.

- Humm... Watson? - Keating continuou a chamada.

Ninguém respondeu.

- Richard Watson também não está?

- O Watson está doente, professor - disse alguém.

- Humm... pois, doente... Devia penalizar o Wat­son. Mas se penalizo o Watson também tenho de pena­lizar o Perry... E eu gosto do Perry. - Keating amachucou a lista e deitou-a fora. Os rapazes não podiam acreditar no que viam. - Rapazes, vocês não são obri­gados a estar aqui. Quem quiser jogar futebol que me siga.

E afastou-se, levando as bolas e a caixa. Espantados pelo comportamento excêntrico do professor, a maioria dos rapazes seguiram-no pelo campo, falando alegre­mente uns com os outros.

- Sentem-se - disse Keating, quando chegaram ao meio do campo. - Os entusiastas entrarão provavel­mente em discussões sobre que desporto é melhor que o outro e porquê - disse, enquanto andava de um lado para o outro. - Para mim, o mais importante de qualquer desporto é a forma como os outros seres humanos nos podem levar a sermos melhores. Platão, um homem com muitos dotes, tal como eu, disse que «Só a concorrência me fez poeta, sofista e orador». Levantem-se, peguem cada um numa tira de papel e ponham-se em fila.

Keating distribuiu as tiras de papel pelos rapazes e depois pôs a bola mais ou menos a três metros do primeiro da longa fila. Todd Anderson mantinha-se na fila, ou­vindo desinteressadamente as ordens de Keating.

- Sabem o que têm de fazer... O primeiro, vá! - gritou o professor.

George McAllister, que vinha a passar pelo campo de futebol, deixou-se ficar, fascinado, a observar o primeiro rapaz que avançou e leu em voz alta o que estava no pedaço depapel que Keating lhe dera:

- «Oh, lutar contra as maiores adversidades, ir ao encontro dos inimigos com audácia!» - O rapaz correu para a bola, chutou e falhou a baliza.

- Não faz mal, Johnson, o que conta é o esforço - disse Keating, enquanto punha outrabola no campo. Abriu a caixa que trouxera e tirou um gira-discos portátil onde pôs um disco de música clássica. - Ritmo, rapazes - gritou Keating por cima da música -, o ritmo é muito importante.

Knox leu:

- «Permanecer completamente só com eles, descobrir o limite da nossa resistência!» - Knox correu e, gri­tando «Chet!», chutou a bola com toda a força.

Meeks estava agora à cabeça da fila:

- «Olhar as dificuldades, a tortura, a prisão e o ódio popular nos olhos!» - gritou antes de correr para a bola e lhe aplicar um pontapé forte e bem calculado. Charlie era o seguinte:

- «Ser nada menos que um deus!» - gritou, chutando a bola com determinação.

McAllister abanou a cabeça, sorriu e continuou o seu caminho.

Os rapazes leram e chutaram a bola até escurecer.

- Continuamos para a próxima, rapazes - disse Keating. - Bom desempenho.

Todd suspirou de alívio e virou-se para voltar ao dormitório.

- Não se preocupe, senhor Anderson - gritou-lhe Keating -, para a próxima não ficará de fora!

Todd sentiu que estava a corar e desatou a correr para o dormitório e para o quarto, fechou a porta com um estrondo e atirou-se para cima da cama.

- Bolas! - gritou, olhando para o poema meio escrito no caderno que estava ainda em cima da cama. Pegou num lápis, acrescentou uma linha e partiu o lápis, furioso. Começou a andar de um lado para o outro no quarto, suspirou, pegou noutro lápis e tentou fazer sair as palavras à força.

- Consegui! - ouviu Neil gritar no corredor. - Todos, ouçam todos! Consegui o papel! Vou ser o Puck! - Abriu a porta, viu Todd e voltou a dizer: - Vou fazer de Puck!

- Ó Puck, cala a boca! - ouviu-se do fundo do cor­redor.

Charlie e vários outros rapazes vieram até ao quarto de Neil.

- Muito bem, parabéns! - disseram.

- Obrigado! Agora voltem ao que estavam a fazer. Tenho de trabalhar. - Os outros saíram e Neil tirou de debaixo da cama uma máquina de escrever.

- Neil, como é que vais fazer isto? - perguntou Todd.

- Chiu! É disso que estou agora a tratar - explicou Neil. - É preciso uma carta de autorização.

- De ti?

- Do meu pai e do Nolan.

- Não me digas que vais...

- Cala-te! Tenho de pensar - disse Neil. Enquanto compunha a carta, ia murmurando linhas da peça e ria-se, todo contente.

Todd abanou a cabeça, incrédulo, e tentou concen­trar-se no poema.

No dia seguinte, na aula de Inglês, Knox Overstreet foi o primeiro a ler o poema:

No seu sorriso vejo uma doçura

Dos seus olhos brota aluz

Mas a vida está completa; sinto-me satisfeito

Só de saber que ela -

Knox parou. Baixou o papel.

- Desculpe, professor Keating. É um poema idiota. - Knox voltou ao seu lugar.

- Não faz mal, Knox, foi um bom esforço - disse Keating. - O que fez o Knox- continuou, virando-se para a turma - demonstra uma ideia importante. Seja em poesia, seja no que for, em tudo na vida há que preo­cupar-se com as coisas realmente importantes: o amor, a beleza, a verdade, a justiça. E não há necessidade de limitar a poesia à palavra. Pode haver poesia na música, numa fotografia, no modo como uma refeição é preparada. .. Tudo pode conter uma revelação. Pode existir nas coisas do dia-a-dia, mas não deve nunca ser vulgar. Escrevam à vontade acerca do céu ou do sorriso de uma rapariga, mas, quando o fizerem, deixem que a vossa poesia invoque a salvação, a perdição, qualquer coisa, não me interessa. O que importa é que ela nos ilumine, nos emocione e, se for inspirada, nos faça sentir um bocadinho imortais.

- Capitão! Meu Capitão! - chamou Charlie. - Há poesia na matemática?

A classe riu-se.

- Claro que sim, Dalton, há... elegância na matemática. Se toda a gente fosse poeta, o planeta morreria à fome! Mas a poesia tem de existir, e nós temos de reparar nela, reconhecê-la na mais ínfima, na mais insignificante das coisas, ou teremos perdido e deixado passar muito do que a vida tem para nos oferecer. E agora, quem quer ler a seguir? Vamos, quem? Todos terão de ler os seus poemas, portanto...

Keating olhou em volta pela classe, mas ninguém se ofereceu. Avançou até ao lugar de Todd e disse:

- Olhem para o Anderson, quanta agonia! Vamos, meu rapaz, acabemos com isto de uma vez por todas!

Todos os olhos se fixaram em Todd. Nervoso, levantou-se e foi para a frente da classe. Cada passo uma tortura, Todd parecia caminhar para o cadafalso.

- Todd, tem o seu poema pronto? - perguntou Kea­ting.

Todd abanou a cabeça.

- O senhor Anderson acha que tudo o que tem dentro de si é inútil e embaraçoso. Não é assim, Todd? Não é esse o seu medo?

Todd fez que sim com a cabeça, visivelmente petrifi­cado.

- Então, hoje vamos ver se o que tem dentro de si tem ou não valor. - Keating dirigiu-se a grandes passadas ao quadro e escreveu em letras enormes: «"FAÇO OUVIR O MEU AHHH BARBARICO POR CIMA DOS TELHADOS DO MUNDO" Walt Whitman». Virou-se para os alunos:

- Um Ahhh, para os que desconhecem o termo, é um grito. Todd, gostaria que nos fizesse uma demonstração de um ahhh barbárico.

- Um ahhh? - repetiu Todd, tão baixinho que mal se ouviu.

- Um ahhh barbárico. - Keating fez uma pausa e depois, de um salto, lançou-se sobre Todd e gritou: - Por Deus, rapaz, grita!

- Ahhh! - disse Todd numa voz assustada.

- Outra vez! Mais alto! - gritou Keating.

- AHHH!

- MAIS ALTO!

- AAAHHHHHHHH!

- Assim é que é! Muito bem, Anderson. Afinal sempre há um bárbaro dentro de si! - Keating aplaudiu e a turma imitou-o.

Muito corado, Todd descontraiu-se ligeiramente.

- Todd, aquela fotografia de Walt Whitman, por cima da porta, em que é que o faz pensar? Depressa, Anderson, não pense, responda!

- Um louco - respondeu Todd.

- Um louco. Que tipo de louco? Não pense, responda!

- Um... louco doido!

- Use a sua imaginação - insistiu Keating. - A primeira coisa que lhe vier à cabeça, mesmo que seja um disparate.

- Um... um louco com os dentes húmidos de suor...

- Agora sim, fala o poeta! - encorajou Keating. - Feche os olhos. Descreva o que vê. AGORA! - gritou.

- Fecho... os olhos. A imagem dele aparece e desaparece- disse Todd, ainda hesitante.

- Um louco com os dentes húmidos de suor - incitou Keating.

- Um louco com os dentes húmidos de suor...

- Vamos! - gritou Keating.

- Com um olhar que me martela o cérebro - disse Todd.

- Excelente! Faça-o fazer alguma coisa, dê-lhe ritmo !

- As suas mãos tentam estrangular-me...

- Sim...

- E ele murmura sem parar...

- O quê? Murmura o quê?

- A verdade - gritou Todd. - A Verdade é como uma manta que nos deixa sempre os pés frios!

Alguns rapazes riram-se e a expressão de esforço de Todd tornou-se zangada.

- Eles que vão passear! - disse Keating. - Mais sobre a manta!

Todd abriu os olhos e dirigiu-se à classe numa cadência de desafio:

- Puxem-na, estiquem-na, nunca cobrirá nenhum de nós.

- Continue!

- Batam-lhe, violenten-na! Nunca será suficiente...

- Não pare! - gritou Keating.

- Desde o momento em que a chorar entramos - gritou Todd, lutando contra si mesmo, mas arrancando as palavras para fora -, até ao momento em que morrendo saímos, não cobrirá mais do que a tua cabeça, nem os teus lamentos, nem o teu choro, nem os teus gritos!

Todd permaneceu quieto durante muito tempo até Keating se aproximar dele:

- A magia existe, Anderson. Nunca se esqueça deste momento.

Neil começou a bater palmas. Os outros imitaram-no. Todd respirou fundo e, pela primeira vez, sorriu con­fiante.

- Obrigado, professor - disse, e foi sentar-se. Depois da aula, Neil veio apertar-lhe a mão.

- Eu sabia que eras capaz. Parabéns! Vemo-nos logo à tarde na gruta.

- Obrigado, Neil - respondeu Todd, ainda a sorrir. - Até logo!

Nessa mesma tarde, Neil foi ter à gruta, levando consigo um candeeiro velho.

- Desculpem o atraso - disse, ao entrar a correr. Os outros iniciados do clube estavam sentados no

chão à volta de Charlie, que estava sentado de pernas cruzadas, com os olhos fechados e em silêncio. Numa mão tinha um saxofone.

- Olhem! - disse Neil.

- O que é isso? - perguntou Meeks.

- Um candeeiro, Meeks, o que é que havia de ser? - disse Pitts.

Neil pegou no candeeiro, tirou o abajur e revelou uma estatueta:

- É o deus da gruta - disse Neil, com um enorme sorriso.

- O que é que havia de ser, Pitts? - vingou-se Meeks.

Neil pôs a estatueta no chão e em cima dela colocou uma vela, que depois acendeu. À luz da vela, puderam ver que era um rapazinho com um tambor, pintado a vermelho eazul. Tinha as feições gastas pelo tempo, mas ainda se podia discernir uma expressão nobre no tocador de tambor.

Todd, que se sentia visivelmente aliviado pelo sucesso que tivera naquele dia, pegou na estátua e pô-la em cima da cabeça.

Charlie aclarou a garganta para chamar a atenção. Os rapazes viraram-se para ele e calaram-se.

- Cavalheiros - disse Charlie -, «Poetúsica» de Charlie Dalton.

Tocou uma sequência de notas ao acaso no saxofone e, de repente, parou. Depois, como se estivesse em transe, começou a falar:

- Rir, chorar, rebolar, murmurar, preciso de mais. Tenho de ser mais...

Tocou mais umas notas e, falando mais depressa do que da primeira vez, continuou:

- Grita o caos, sonha o caos, chora, voa, tenho de ser mais! Tenho de ser mais!

A gruta ficou em silêncio. Depois, Charlie voltou a pegar no instrumento e tocou uma melodia simples mas impressionante. O olhar de cepticismo dos outros desapareceu enquanto Charlie continuou a tocar, perdido na música, e acabou numa longa e perturbadora nota.

Os rapazes deixaram-se ficar sentados, em silêncio, não querendo quebrar o encanto da música. Foi Neil que falou primeiro:

- Charlie, que estupendo! Onde é que aprendeste a tocar assim?

- Os meus pais obrigaram-me a aprender clarinete, mas eu detestava aquilo - respondeu Charlie, voltando à terra. - O saxofone é consideravelmente mais sonoro - disse ele, imitando um tom fino.

De repente, Knox levantou-se, afastou-se do grupo e gritou num gemido:

- Não aguento mais! Se a Chris não for minha, mato-me!

- Knox, tens de te acalmar - disse Charlie.

- Não! Estive calmo a minha vida inteira! Se não faço alguma coisa, dá-me uma coisa!

- Onde é que vais? - perguntou Neil, quando Knox saiu a correr.

- Vou-lhe telefonar! - foi a resposta vinda do bosque.

A reunião do Clube acabou abruptamente e os rapazes desataram a correr de volta para a escola atrás de Knox. Knox podia não morrer de passividade, mas corria o risco de morrer de vergonha se telefonasse a Chris, e os iniciados sentiam-se na obrigação de estar ao lado do amigo e companheiro.

- Tem de ser - disse Knox ao pegar no telefone do dormitório. Os rapazes rodearam-no, protectoramente, enquanto ele marcava o número.

- Sim? - Knox ouviu a voz de Chris do outro lado, entrou em pânico e desligou.

- Ela vai-me odiar! Os Danburry vão-me odiar! Os meus pais vão-me matar! - Olhou em redor para as caras dos amigos tentando ler as suas expressões. Ninguém disse nada. - Está bem, está bem! Vocês têm razão! Car­pe Diem, nem que isso me mate!

Voltou a pegar no telefone e marcou o número outra vez.

- Sim? - outra vez a voz de Chris. - Estou, Chris, fala Knox Overstreet.

- Knox... ah, Knox, sim. Ainda bem que telefonaste.

- A sério? - Tapou o telefone e disse aos amigos: - Ela diz que ainda bem que eu telefonei!

- Queria-te telefonar - disse Chris -, mas não tinha o teu número. Os pais do Chet vão este fim-de-se-mana para fora e o Chet vai dar uma festa. Queres vir?

- Claro!

- Os pais dele não sabem de nada, por isso não digas a ninguém. Mas podes trazer alguém se quiseres.

d faço iKnox lobos- iscoris, starei! - disse Knox, sentindo-se o homem mais feliz do mundo. - Em casa dos pais de Chet. Sexta-feira à noite. Obrigado, Chris.

Desligou o telefone, dominado pela emoção, e deu um grito de alegria.

- Acreditam? Ela queria telefonar-me, a mim Convidou-me para ir a uma festa com ela!

- Em casa do Chet Danburry - disse Charlie, sério.

- Sim.

- E então? - perguntou Charlie.

- Então o quê? - perguntou Knox na defensiva.

- Achas que ela quis dizer que tu ias à festa com ela?

- Não, claro que não! Mas isso não interessa, não interessa para nada!

- Então o que é que interessa? - insistiu Charlie.

- O que interessa é que ela estava a pensar em mim!

- Ah! - Charlie abanou a cabeça.

- Só nos vimos uma vez e ela estava a pensar em mim. - Pouco faltava para Knox saltar de alegria. - Não acredito! Vai mesmo acontecer! Ela vai ser minha!

Saiu da salinha do telefone a correr, parecia que mal tocava o chão. Os amigos ficaram a olhar para ele e abanaram as cabeças.

- Quem sabe? - disse Charlie.

- Só espero que não saia magoado - disse Neil.

hão ti-le-se-Ivir?

digas

Neil atravessou a praça da cidade, pedalando a grande velocidade em direcção a Henley Hall para ir ao ensaio. Passou a Câmara Municipal e uma fila de lojas e continuou ao longo de uma sossegada estrada de campo, até chegar a uns edifícios brancos que pertenciam a Hen­ley Hall. Passou na bicicleta pelo portão e encostou-a, em frente do edifício, a uns postes para o efeito. Assim que entrou no auditório, a encenadora gritou:

- Despacha-te, Neil, não podemos fazer esta cena sem o nosso Puck!

Neil sorriu e correu para o centro do palco. Pegou no pau com a cabeça de um bobo na ponta que lhe estendeu a rapariga dos adereços e começou:

Só três? Que venha um mais;

E serão dois pares.

Ei-la derrubada e triste. -

Cupido, como te atreves,

Assim, a enlouquecer as mulheres!

Puck olhou para o chão, onde uma Hermia louca, representada por Ginny Danburry, se arrastava, exausta e com um olhar tresloucado.

A encenadora, uma professora loura dos seus quarenta anos, não deixou Ginny começar as suas deixas e, virando-se para Neil, disse:

- Muito bem, Neil - elogiou. - Transmites bem a ideia de que o Puck sabe que controla a situação. Lembra-te que ele tem um prazer enorme naquilo que faz.

Neil fez que sim com a cabeça e repetiu, ousado como um diabrete:

- «Cupido, como te atreves, assim, a enlouquecer as mulheres!»

- Excelente! - disse a professora. - Continua, Ginny.

Ginny voltou a arrastar-se para o palco e começou a sua fala:

Tão cansada! Que pesar!

Pelo orvalho molhada e pelos espinhos dilacerada,

Não posso já rastejar, não posso mais andar...

A encenadora continuou a dar instruções ao longo do ensaio e os actores refizeram a cena várias vezes.

- Até amanhã! - disse Neil no fim do ensaio, diri­gindo-se para a sua bicicleta. Estava eufórico, os olhos brilhavam-lhe e tinha as faces coradas do prazer que estar em palco lhe proporcionava. Voltou paraa escola ao longo da estrada adormecida, repetindo em voz alta as deixas que ensaiara durante as últimas duas horas.

Aproximou-se dos portões da academia com cuidado, certificando-se de que não havia ninguém por perto. Pedalou até ao dormitório e arrumou a bicicleta. À entrada do edifício, viu Todd encolhido num canto, imóvel contra a parede de pedra.

- Todd? - chamou, dirigindo-se para junto do amigo. Todd estava sentado no chão, sem casaco, a tremer de frio. - O que é que aconteceu? - perguntou, sem obter resposta. - Todd, o que é que se passa? – insistiu Neil, sentando-se ao lado dele. - Está um frio de rachar!

- Faço hoje anos - disse Todd sem entusiasmo.

- A sério? E não disseste nada? Parabéns! Recebeste alguma coisa?

O único barulho que se ouvia era o dos dentes de Todd a baterem por causa do frio. Todd apontou para uma caixa que estava no chão. Neil abriu-a e viu o mesmo conjunto de secretária com monograma que Todd tinha já.

- É igual ao teu - disse Neil. - Não percebo.

- Deram-me Exatamente a mesma coisa que no ano passado! - gritou Todd. - Nem se lembraram!

- Ah! - fez Neil, baixinho.

- Ah!-imitou Todd.

- Olha, se calhar acharam que precisavas de outro, de um novo - aventurou Neil após uma pausa. - Se calhar pensaram...

- Se calhar não pensam em nada, a não ser que tenha a ver com o meu irmão - disse Todd, zangado. - Nos anos dele fazem sempre uma grande festa. - Olhou para a caixa, riu-se amargamente e acrescentou: - O mais engraçado é que nem gostei do primeiro!

- Olha, acho que estás a subestimar o valor deste conjunto de secretária - disse Neil, a brincar, tentando mudar o tom da conversa.

- O quê?

- O que quero dizer é o seguinte - explicou Neil, tentando sorrir. - Isto é uma prenda especial! Para que é que havias de querer uma bola de futebol ou um taco de basebol, ou até um carro, quando podes ter este mag­nífico conjunto de secretária!

- Tens razão! - disse Todd, entrando na brincadeira. - Olha-me só para esta régua!

Riram os dois. Estava agora ainda mais escuro e mais frio. Neil sentiu um arrepio.

- Sabes o que o meu pai me costumava chamar quando eu era pequeno? «Cinco e noventa e oito». É o valor de todos os produtos químicos do corpo humano se os engarrafasses e vendesses. Dizia-me que seria também o meu valor, a menos que cada dia me esforçasse por me melhorar. Cinco e noventa e oito.

Neil suspirou e abanou a cabeça, incrédulo. «Não admira que ele tenha tantos problemas», pensou.

- Quando era mais novo - continuou Todd -, pensava que os pais gostavam dos filhos automaticamente. Era isso que os meus professores me diziam. Era o que lia nos livros que me davam. Era o que eu pensava. Pois no meu caso, os meus pais gostavam do meu irmão, mas de mim nunca gostaram.

Todd levantou-se, respirou fundo e foi para dentro. Neil continuou sentado, imóvel, sem saber o que dizer.

- Todd... - chamou sem convicção, enquanto cor­ria atrás do companheiro.

- Olhem - disse Cameron, quando se encontraram todos na sala de Inglês na tarde do dia seguinte -, está ali um papel a dizer para irmos ter ao pátio.

- Gostava de saber o que é que ele tem planeado para hoje - disse Pitts.

Os rapazes dirigiram-se para o pátio a correr. Perturbado pelo barulho, o professor McAUister espreitou do seu gabinete, abanando a cabeça, contrariado.

- Meus amigos - começou Keating, enquanto os alunos se juntavam à sua volta -, um perigoso elemento de conformidade tem vindo a infiltrar-se no vosso trabalho. Pitts, Cameron, Overstreet e Chapman formem uma fila, por favor. - Apontou para os quatro rapazes indicando-lhes que se aproximassem.- Quando eu contar até quatro, quero que comecem a andar, juntos, à volta do pátio. Não é complicado, não têm de pensar. Não estão a ser avaliados. Um, dois, três, comecem!

Os rapazes começaram a andar. Andaram ao longo da parede lateral, viraram a esquina, andaram ao longo da outra parede, outra esquina, outra parede, outra esquina e completaram o quadrado.

- Exatamente - disse Keating. - Continuem. Os rapazes continuaram a andar à volta do pátio sob

o olhar dos colegas e do professor. Não tardaram a acertar o passo, criando uma espécie de cadência que ecoou à sua volta. Continuaram assim, e Keating começou a bater palmas ao mesmo ritmo de um-dois-três-quatro.

- E cá está... Estão a ouvir? - disse Keating, continuando a bater as palmas ao ritmo dos passos dos rapazes.- Um dois, um dois, um dois, um dois... Que divertida é a aula do professor Keating...

Sentado no seu gabinete a corrigir trabalhos, McAl-lister espreitou pela janela e ficou a observar o que se passava em baixo. Os quatro rapazes aceleraram o ritmo dos seus passos, mantendo a mesma cadência. Andavam como soldados, levantando bem alto as pernas e balançando os braços para a frente e para trás, mantendo o ritmo. O resto da turma juntou-se ao professor e começou a bater palmas.

Incomodado pelo barulho vindo do pátio, o Reitor interrompeu o que estava a fazer e aproximou-se da janela. Nolan franziu o sobrolho ao ver Keating bater palmas. «Mas que raio estará ele a fazer?», pensou.

- Muito bem, parem - disse Keating aos quatro rapazes. - Ora bem, não sei se repararam que, ao princípio, o Overstreet e o Pitts pareciam estar a andar de uma maneira diferente dos outros, Pitts com passadas largas, Knox saltitando levemente... mas não tardaram a acertar o passo com os outros até que todos estavam a andar com a mesma cadência. O que se tornou ainda mais visível quando começámos todos a bater palmas - notou o professor.- Esta experiência não foi pensada para chamar a atenção sobre Pitts ou Overstreet. O que ela demonstra é a dificuldade que todos nós temos em ouvir a nossa própria voz ou manter as próprias crenças na presença dos outros. E se qualquer um de vocês acha que não teria acertado o passo com os outros, então pensem porque é que estavam a bater palmas. Rapazes, existe em todos nós uma forte necessidade de aceitação, mas têm de acreditar naquilo que é único ou diferente em cada um de vocês, mesmo que seja algo estranho ou prejudicial à vossa popularidade. Como disse Frost, «Dois caminhos divergiam no bosque e eu - eu segui pelo menos utilizado, E foi o me­lhor que podia ter feito.»

A campainha tocou, mas os rapazes permaneceram onde estavam, olhando para Keating e absorvendo o sentido do que o professor acabara de lhes transmitir. Kea­ting fez continênciaà turma, virou costas e afastou-se.

A classe começou a dispersar e Nolan afastou-se da janela.«O que é que faço com ele?», pensou. McAllister, sorrindo das extravagâncias de Keating, voltou ao trabalho.                                                  

Os rapazes dirigiram-se para a aula seguinte.

- Encontramo-nos na gruta depois do jantar - disse Cameron a Neil.

- A que horas?

- Sete e meia.

- Eu aviso os outros - disse Neil, aproximando-se de Todd.

Nessa noite, Todd, Neil, Cameron, Pitts e Meeks acenderam uma fogueira na gruta e sentaram-se em roda a aquecer as mãos. Estava um nevoeiro espesso e lá fora as árvores abanavam ruidosamente ao sabor do vento.

- Está uma noite assustadora - disse Meeks, tremendo de frio e aproximando-se do lume. - Onde está o Knox?

- A arranjar-se para ir à tal festa - disse Pitts, com um sorriso trocista.

- E o Charlie? Foi ele que quis que viéssemos hoje - disse Cameron.

Os outros encolheram os ombros. Neil começou a reunião.

- Fui para os bosques para viver livremente... Queria viver plenamente e sugar o tutano da vida... - Calou-se ao ouvir um barulho lá fora.

Ouviram todos o ruído que vinha do exterior da gruta e que não era vento, disso tinham a certeza. «Que estranho», pensaram,«parece o risinho de raparigas». E depois ouviram uma voz feminina dentro da gruta que disse:

- Não vejo patavina!

- Estamos quase - ouviram Charlie responder. Duas raparigas mais velhas, uma loura e outra morena, apareceram então, com Charlie, na gruta.

- Amigos - disse Charlie, que tinha o braço à volta dos ombros da rapariga loura -, apresento-vos a Gloria e a... - Hesitou e olhou para a outra rapariga, de olhos verdes, mas menos bonita que a primeira.

- Tina - disse ela, bebendo um gole da lata de cerveja que trazia na mão.

- Tina e Gloria - disse Charlie, alegre -, estes são os iniciados d.

- Que nome tão estranho! - riu-se Gloria. - O que é que quer dizer?

-Já te disse, é segredo - respondeu Charlie.

- Não é tão querido? - disse Gloria com uma vozinha e abraçando Charlie com carinho.

Os rapazes estavam estupefactos com aquelas criaturas selvagens e exóticas. Era óbvio que eram mais velhas que eles, deviam ter vinte anos mais ou menos, e na mente de todos formou-se a mesma pergunta: «Onde seria que Charlie as tinha encontrado?».

- Rapazes - disse Charlie, apertando Gloria contra si, perante o olhar cada vez mais espantado dos outros -, tenho uma declaração a fazer. De acordo com o espírito apaixonado dos Poetas Mortos abdico do nome Charlie Dalton. A partir de hoje, chamo-me «Nuwanda».

A raparigas riram-se e os rapazes suspiraram.

- Isso quer dizer que já não te posso chamar Char­lie, querido? - perguntou Gloria, pondo-lhe os braços à volta do pescoço. - O que é que quer dizer «Numama», amor?

- E « Nuwanda » e acabei de o inventar - respondeu Charlie.

- Tenho frio - queixou-se Gloria, aproximando-se ainda mais de Charlie.

- Vamos apanhar mais ramos para a fogueira - disse Meeks.

Meeks saiu da gruta com os outros e Charlie fez-lhe uma careta. Depois, apanhou um pouco de lama do chão da gruta, aplicou-a na cara como um índio guerreiro, olhou sensualmente para as duas raparigas e seguiu os outros para fora da gruta, em busca de lenha para a fogueira. Tina e Gloria olharam uma para a outra e desataram aos segredinhos e risinhos.

Enquanto os iniciados do Clube andavam pela floresta em busca de lenha, Knox Overstreet dirigia-se, na sua bicicleta, para fora do campus, em direcção à casa dos Danburry. Quando chegou, deixou a bicicleta nuns arbustos ao lado da casa, despiu o impermeável e enfiou-o na mala que trazia a tiracolo. Endireitou a gravata, subiu os degraus até à porta e bateu. Ninguém veio abrir, mas Knox podia ouvir a música que vinha do interior. Voltou a bater, depois tentou a maçaneta e abriu a porta. Knox decidiu entrar.

A festa ia bem avançada. No sofá da entrada, estava um casalinho na marmelada. No resto dos sofás, cadeiras, bancos, cadeirões e até no chão estavam outros casais também a namorar, completamente esquecidos do resto da festa, comportando-se como se estivessem sozinhos. Knox deixou-se ficar à entrada sem saber muito bem o que fazer. E então viu Chris. Vinha a sair da cozinha e estava toda despenteada.

- Chris! - chamou.

- Ah, olá! - disse ela. - Ainda bem que pudeste vir. Trouxeste alguém?

- Não.

- A Ginny anda por aí. Podes ir à procura dela - disse Chris e afastou-se.

- Mas, Chris... - gritou Knox, tentando fazer-se ouvir apesar da música.

- Tenho de encontrar o Chet - gritou ela em resposta. - Entra e diverte-te!

Knox perdeu toda a vontade de se divertir ao ver Chris afastar-se. Passou por cima dos casais deitados no chão e, sem muita vontade, foi à procura de Ginny. «Bela festa», pensou.

Entretanto, os rapazes tropeçavam no escuro da floresta à procura de ramos e outros pedaços de madeira.

- Charlie... - chamou Neil, baixinho.

- Nuwanda - disse Charlie.

- Está bem... Nuwanda - disse Neil, paciente. - O que é que se passa?

- Nada, a menos que sejas contra trazer raparigas para a gruta.

- Não, claro que não - disse Pitts, chocando com Neil no escuro. - Desculpa! Não é isso... só que... Acho que nos devias ter avisado.

- Pensei que era melhor ser espontâneo - murmurou Charlie. - É para isso que estamos aqui, ou não?

- Onde é que as arranjaste? - perguntou Neil.

- Vi-as passar do lado de fora da vedação, no campo de futebol. Disseram que sempre tinham querido ver a academia e então convidei-as para uma das nossas reu­niões - respondeu Charlie, como se fosse a coisa mais natural do mundo.                                                .

- Elas andam em Henley Hall? - perguntou Carne-ron.

- Acho que não andam na escola.

- São da aldeia?! - Cameron quase se engasgou.

- Chiu! Cameron, fala mais baixo! Qual é o problema? Até parece que são a tua mãe, ou coisa no género. Tens medo delas, é?

- Claro que não! Não tenho medo nenhum! Só que se nos apanham com elas, estamos feitos.

- Então, rapazes? O que é que se passa? - perguntou Gloria do interior da gruta.

- Estamos só a apanhar lenha - respondeu Char­lie. -Já vamos! -Voltando-se para Cameron, disse: - E tu, imbecil, desde que não abras essa boca, ninguém ficará a saber de nada.

- Vê lá a quem é que chamas imbecil!

- Então, Charlie, acalma-te - pediu Neil.

- O meu nome é Nuwanda! - gritou Charlie e, irri­tado, voltou para dentro da gruta.

Os outros seguiram-no, mas Cameron, furioso, dei­xou-se ficar para trás uns minutos antes de voltar para a gruta, onde os rapazes atiravam já para a fogueira a lenha que tinham juntado. Depois, voltaram a sentar-se em redor das chamas.

-, Como será que está o Knox? - perguntou Pitts e riu-se.

- Coitado - disse Neil. - O mais provável é que apanhe a maior desilusão da vida dele.

Com efeito, o Knox que passeava sem destino pela enorme casa dos Danburry era um Knox desiludido. As suas deambulações levaram-no até à copa, onde um grupo de rapazes e raparigas estava a conversar ao lado de um casal que se beijava apaixonadamente. Knox tentou não olhar para eles, mas não conseguiu evitar ver que a rapariga estava constantemente a agarrar na mão que o rapaz tentava enfiar debaixo da saia dela. Por fim, Knox viu Ginny Danburry e os dois olharam-se, embaraçados.

- És o irmão do Mutt Sanders? - perguntou-lhe um matulão, enquanto preparava uma bebida.

- Não - respondeu Knox, abanando a cabeça.

- Bubba! - disse o matulão a outro tipo enorme, com um físico típico de jogador de futebol americano, que estava encostado ao frigorífico, bêbedo. - Este tipo não é parecido com o Mutt Sanders?

- És irmão dele? - perguntou Bubba.

- Nem somos da mesma família - respondeu Knox. - Nem nunca ouvi falar de nenhum Mutt Sanders. Desculpa.

- Olha, Steve - disse Bubba ao primeiro matulão -, estás a ser malcriado. Então está aqui o irmão do Mutt Sanders e tu nem sequer lhe ofereces uma bebida? Queres bourbonl

- Não quero, obri... - Steve nem ouviu o que disse: espetou-lhe um copo na mão e encheu-o de bourbon com uma pinga de Coca-Cola.

Bubba brindou com Knox:

- À saúde do Mutt!

- Ao Mutt! - ecoou Steve.

- Ao Mutt! - concordou Knox.

Steve e Bubba esvaziaram os copos de um trago. Knox tentou imitá-los e teve um ataque de tosse. Steve voltou a encher os copos. O peito de Knox parecia uma fornalha.

- Então o que é que anda o Mutt a fazer? - perguntou Bubba.

- Para dizer a verdade - disse Knox, ainda a tossir -, não conheço esse Mutt.

- Ao nosso Mutt! - voltou a brindar Bubba.

- Ao nosso Mutt! - repetiu Steve.

- Ao... n... Mutt! - Knox continuava a tossir, enquanto os outros esvaziavam os copos mais uma vez. Ste­ve deu-lhe uma palmada nas costas.

- Tem calma, rapaz! - E riu-se.

- Bem, acho melhor ir à procura da Patsy - disse Bubba no meio de um arroto. Deu também uma palmada nas costas de Knox e exclamou:

- Cumprimentos ao Mutt!

- Serão entregues - respondeu Knox e viu do canto do olho que Ginny estava a olhar para ele. Ela sorriu e saiu da copa.

- Dá cá o copo, pá - disse Steve, deitando mais bourbon no copo de Knox, que começou a sentir a cabeça a andar à roda.

Dentro da gruta, o lume ardia com novo alento. Os rapazes e as duas raparigas continuavam sentados à volta da fogueira, olhando para as chamas, como que hipnotizados. Ao ruído do lume juntava-se o suave estalar da vela acesa na cabeça do «deus da gruta».

- Tinha ouvido dizer que vocês eram esquisitos, mas assim tanto... - disse Tina, olhando para aestatueta. Tirou do bolso uma garrafa de whiskey e passou-a a Neil, que pegou nela e tentou beber um gole como se fosse a coisa mais natural do mundo para ele. Depois devolveu-a a Tina. - Podes passá-la aos outros - disse ela.

O lume e o calor da bebida dava-lhe um brilho atraente ao rosto corado. A garrafa foi passada a todos.

Todos fingiram gostar do sabor amargo do whiskey. Ao contrário da maioria, Todd conseguiu não tossir enquantoengolia a bebida.

- É assim mesmo! - exclamou Gloria,impressionada com a maneira de beber de Todd. - Vocês não sentem falta de raparigas, aqui na escola? - perguntou-lhes.

- Sentir falta? Damos em doidos! É em parte por isso que este clube existe. Aliás, gostaria de anunciar que publiquei um artigo no jornal da escola, em nome d, exigindo que Welton passasse a admitir raparigas para podermos todos parar de bater punhetas.

- O quê?! - gritou Neil, levantando-se. - Como?

- Sou um dos revisores - gabou-se Charlie. -Inseri o artigo sem ninguém dar por nada.

- Oh, não! - queixou-se Pitts. - Estamos feitos!

- Porquê? - espantou-se Charlie. - Ninguém sabe quem somos.

- Não achas que acabarão por descobrir que somos nós? - gritou Cameron. - Não achas que virão perguntar-te a ti o queé ? Char­lie, não tinhas o direito de fazer uma coisa dessas!

- O meu nome é Nuwanda, Cameron.

- Pois é - disse Gloria, pondo o braço à volta dos ombros de Charlie. - É Nuwanda!

- Afinal, estamos aqui a brincar ou acreditamos na­quilo que dizemos? Se a única coisa que estamos aquia fazer é ler poesia uns aos outros, para que é que isso serve? - perguntou Charlie, zangado.

- Não interessa, não devias ter feito o que fizeste - disse Neil, andando de um lado para outro. - Não és porta-voz do clube.

- Podem estar descansados, está bem? Se descobri­rem que fui eu, eu digo que inventei tudo. Não vos acontecerá nada, não se preocupem. Vá lá, a Gloria e a Tina não vieram para nos verem discutir uns com os outros. Vamos começar a reunião, ou quê?

- Sim, como é que havemos de saber se queremos entrar para o Clube se não assistimos a uma reunião?

Neil olhou para Charlie interrogadoramente:

- Entrar para o Clube?! - perguntou. Charlie ignorou-o e voltou-se para Tina:

- «Como comparar-te a um dia de Verão? És mais suave e é maior a tua beleza.»

Tina derreteu-se.

- Oh, que amoroso! - gritou, abraçando Charlie. Os outros rapazes tentaram parecerdesinteressados,

como se não sentissem ciúmes absolutamente nenhuns.

- Escrito especialmente para ti - disse Charlie a Tina.

Tina abriu muito os olhos e, encantada, exclamou:

- A sério?!

- Também escrevo um para ti, Gloria. - Charlie apressou-se a dizer, notando a expressão de ciúmes na cara da rapariga. Charlie fechou os olhos: - «Caminha em beleza, ela, como a noite...»

Após as primeiras palavras, Charlie abriu os olhos,levantou-se e afastou-se da fogueira. Tentando disfarçar o facto de que se esquecera do resto do poema, pôs-se a andar de um lado para o outro, como se estivesse em plena criação poética.

- «Caminha em beleza, ela, como a noite...»- repetiu. Voltou as costas aos outros, pegou num livro, abriu-o e leu rapidamente o poema. Depois, fechou o livro, pousou-o e voltou para junto de Gloria, que esperava ansiosamente a continuação. - «De céus constelados e climas cristalinos; / E todos os encantos, claros e escuros / Na sua face se reflectem, e nos olhos.»

Gloria guinchou, deliciada:

- Não é maravilhoso?

Os outros rapazes, sérios e verdes de inveja, nãodisseram nada. Gloria apertou a perna de Charlie.

Naquele preciso momento, Knox tentava controlar os próprios ciúmes enquanto continuava a deambular pela casa dos Danburry, que parecia cada vez mais cheia de gente.

- Bolas! Os outros tinham razão - murmurou para si mesmo, enquanto pensava em Chris e Chet e se lembrava que os outros o tinham aconselhado a não ter muitas esperanças.

Estava escuro dentro de casa, a única iluminação vinha do exterior, do luar que entrava pelas janelas. A música, agora os Drifters, continuava alta. Por todo o lado havia casais abraçados, aos beijos.

De copo na mão e bêbedo dos inúmeros bourbons com Coca-Cola que bebera com Bubba e Steve, Knox tropeçou num dos casais que estava deitado no chão.

- Então! - disse uma voz zangada. - Vê onde pões os pés, meu! Estás bêbedo, ou quê?!

- Desculpa - conseguiu dizer Knox antes de cair em cima do sofá. Pôs a cabeça para trás e, agarrando com força o copo ainda meio cheio que tinha na mão, bebeu um gole do bourbon amargo. Agora já não lhe queimava tanto a garganta.

Knox olhou em volta, sentindo-se mais descontraído. Do seu lado esquerdo estava um casalinho muito juntinho que emitia uns sons parecidos aos de um ani­mal sem fôlego. Do seu lado direito estava outro casal que parecia enterrado no sofá. Knox quis levantar-se, mas, ao tentar, deu-se conta de que o casal no qual tro­peçara ao sentar-se, rebolara e encostara-se às suas pernas, prendendo-o ali. Voltou a olhar à sua volta e quase começou a rir. «Já que não me posso mexer, mais vale que me sente confortavelmente», pensou. De qualquer maneira, os corpos que o rodeavam nem se davam conta de que ele existia.

A música parou e o som de respiração pesada encheu a sala. «Parece que estamos na área de respiração artifi­cial de um hospital», pensou Knox, desejando ter também um par. Voltou a olhar para o casal da direita. «O gajo vai acabar por lhe comer os lábios», pensou. Virou-se para o casal da esquerda.

- Chris, és tão linda - ouviu o rapaz dizer.

«Meu Deus! É o Chet e a Chris!», pensou Knox, e o coração começou a bater-lhe a um ritmo acelerado. Chris Noel estava sentada ali no sofá, ali mesmo, ao lado dele!

A música recomeçou e os primeiros acordes de This Magic Moment, dos Drifters, invadiram a sala. Knoxtinha a cabeça a andar à roda. Chet e Chris não paravam. Knox tentou desviar o olhar, mas não conseguiu.

- Chris, és um espanto - disse Chet e beijou-a com mais força, fazendo com que a rapariga se encostasse a Knox. À luz do luar, Knox olhou para o perfil da rapariga, para o contorno do pescoço, a curva dos seios. De um trago, engoliu o resto da bebida que tinha no copo e esforçou-se por olhar para outro lado.

«Que Deus me ajude!», pensou, quando sentiu Chris encostar-se a ele com mais força. A cara de Knox era umamáscara da agonia que traía a batalha interior que o rapaz travava contra a tentação: Knox tentava não olhar mas sentia que estava a perder.

De repente, voltou-se para Chris. Desistindo da luta, Knox sentiu-se dominado pela emoção.

- Carpe seium - disse, falando sozinho de olhos fechados. - Aproveita o seio!

- Hã? - ouviu Chris perguntar a Chet.

- Não disse nada - respondeu o rapaz.

O casal continuou a beijar-se, e Knox sentiu a mão, atraída por uma força magnética poderosa, aproximar-se do pescoço de Chris, tocá-lo ao de leve e, devagar, começar a deslizar até ao peito. Knox encostou a cabeça para trás e fechou os olhos enquanto acariciava Chris lentamente.

Pensando que se tratava da mão de Chet, Chris respondeupositivamente e a respiração de Knox tornou-se mais pesada.

- Oh, Chet, que bom - disse Chris no escuro.

- Bom? - perguntou Chet, surpreendido. - O quê?

- Tu sabes muito bem... - disse Chris, com um sor­riso cúmplice.

Knox tirou a mão. Chet levantou os olhos uns segundos, mas depois voltou a beijar Chris.

- Não pares, Chet - pediu Chris.

- Não paro o quê?

- Chet...

Knox voltou a pôr a mão no pescoço de Chris erecomeçou a acariciá-la, descendo novamente em direcção aos seios da rapariga.

- Sim, não pares - gemeu Chris.

Chet afastou-se dela, tentando perceber o que se passava, mas desistiu e beijou-a outra vez. Chris gemia de prazer.

Knox encostou a cabeça para trás. A respiração dele tornara-se lenta e profunda.O volume da música aumentou. Incapaz de resistir, Knox continuou a acariciar o peito de Chris, aproximando-se perigosamente do seio da rapariga. A respiração de Chris tornara-se também mais pesada. Knox estava em êxtase e deixou cair o copo que ainda segurava na outra mão.

De repente, a mão de Chet agarrou na mão de Knox, e alguém acendeu um candeeiro. Knox abriu os olhos para ver, muito perto da sua, a cara furiosa de Chet e, ao seu lado, Chris, que estava completamente confusa.

- O que é que estás a fazer! ? - berrou Chet.

- Knox? - disse Chris, protegendo os olhos da luz.

- Chet! Chris! - exclamou Knox, fingindo-se surpreendido. - O que é que estão aqui a fazer?

- Meu grandessíssimo... - gritou Chet, dando um soco na cara de Knox. Depois, agarrando nele pela camisa, atirou-o para o chão e saltou para cima dele. Knox tentou proteger a cara, mas Chet não parava de lhe bater.

- Estúpido duma figa! - gritava Chet. Chris tentou afastá-los:

- Chet, não o magoes. - Mas Chet não parava. - Chet, pára, por favor! Ele não fez por mal! - gritou Chris, puxando Chet; Knox rolou pelo chão, tapando a cara com as mãos. -Já chega! - gritou Chris, batendo no peito de Chet, tentando afastá-lo dali.

Chet debruçou-se sobre Knox, que continuava no chão com as mãos na caramagoada.

- Desculpa, Chris, desculpa! - gritou Knox.

- Queres mais? Queres apanhar mais, meu... Queres? Sai já daqui!

Chet ia começar a bater-lhe outra vez, mas Chris e outros rapazes seguraram nele. Outros ajudaram Knox a abandonar a sala.

Cambaleando em direcção à cozinha, Knox voltou-se e gritou outra vez:

- Desculpa, Chris!

- Se te volto a ver à minha frente, mato-te! - gritou Chet.

continuava reunido, ignorante daterrível situação em que um dos seus iniciados se metera.

Na gruta, o lume crepitava, projectando estranhas sombras nas paredes. Gloria continuava abraçada a Charlie, olhando para ele em adoração. A garrafa de whiskey continuava a ser passada entre Tina e os outros.

- Oiçam, porque não vão mostrar o jardim dos Poetas Mortos à Tina? - disse Charlie, acenando em direcção da entrada da gruta.

-Jardim? - perguntou Meeks surpreendido.

- Que jardim? - ecoou Pitts.

Charlie indicou silenciosamente que desejava que Meeks e os outros se pirassem dali para fora. Neil percebeu e deu uma cotovelada a Pitts, que acabou por perceber também a intenção de Charlie.

- Ah! O jardim! Claro! Vamos, rapazes - disse ele.

- Que estranho! - exclamou Tina, confusa. - Vocês até têm jardim?

Saíram todos excepto Meeks, que continuava sem perceber o que se estava a passar.

- De que é que vocês estão para aí a falar? - perguntou a Charlie, que olhava para ele fixamente. - Charles, quero dizer... Nuwanda, não temos jardim nenhum.

Neil voltou e agarrou nele:

- Anda lá, parvo!

Charlie esperou até todos se terem afastado, olhou para Gloria e sorriu:

- Bolas, para alguém que é até bastante esperto, o gajo é mesmo estúpido!

Gloria olhou Charlie nos olhos. Charlie sorriu de novo.

- Eu acho-o querido - disse Gloria.

- Eu acho que tu és querida - suspirou Charlie,inclinando-se para a beijar.

Mas, quando os seus lábios estavam quase a tocar os dela, Gloria levantou-se:

- Sabes porque é que gosto tanto de ti? Charlie olhou para cima, piscando os olhos:

- Porquê?

- Todos os rapazes que conheço só pensam numa coisa... Tu és diferente.

- Sou?

- És! - disse ela. E, sorrindo, acrescentou: - Qual­quer outro rapaz já se teria aproveitado. Inventa-me mais poesia.

- Mas...                                            

 

- Por favor! É tao bom quando gostam de nós por... sabes, por aquilo que está cá dentro.

Charlie gemeu e tapou a cara com a mão.              

- Nuwanda? Por favor.

- Está bem! Estou a pensar! - Charlie fez umapausa e começou a recitar:

Que à união de almas verdadeiras                                      

Não haja impedimentos. Amor, não és amor Se mudas quando mudança encontras Ou cedes a qualquer pôr e dispor

Gloria suspirava e gemia, satisfeita:

- Não pares!

Charlie continuou a recitar, enquanto Gloria gemia cada ver mais alto.

Oh, não, amor é marco constante

Que enfrenta as tempestades com bravura;

Que orienta qualquer barco errante,

De valor oculto, embora se possa avaliar a sua altura...

- Isto é muito melhor que sexo - gritou Gloria.- É tão ROMÂNTICO!

Charlie rolou os olhos, frustrado, mas continuou a recitar poesia pela noite dentro.

No dia seguinte, todos os alunos foram convocados para a capela da academia. Enquanto se sentavam nos seus lugares, os rapazes comentavam o acontecido e passavam cópias do jornal da escola uns aos outros.

Knox Overstreet sentou-se, tentando esconder as nódoas negras nacara inchada. Neil, Todd, Meeks, Pitts e especialmente Charlie tinham um ar de total exaustão. Pitts suprimiu um bocejo e entregou uma pasta aCharlie.

- Tudo a postos - murmurou Pitts. Charlie acenou com a cabeça.

O Reitor entrou na capela e os estudantes apressaram-se a esconder os jornais e levantaram-se. Nolan dirigiu-se ao pódio e indicou-lhes que se podiam sentar. Depois, aclarou a garganta e disse:

- Na edição desta semana do jornal da escola apareceu, sem autorização, um artigo profano sobre a necessidade de raparigas em Welton. Em vez de perder o meu precioso tempo a procurar os culpados - e podem ter a certeza que os vou descobrir-, vim aqui pedir a quem saiba seja o que for sobre este assunto para se identificar agora. Esta é aúnica hipótese que os culpados, sejam eles quem forem, têm para evitar serem expulsos.

Nolan permaneceu em silêncio, esperando uma resposta. De repente, o som do toque de um telefone rompeu o silêncio na capela. Charlie abriu apressadamente a pasta que tinha ao colo. O telefone estava lá dentro. Os alunos entreolharam-se, espantados; nunca ninguém se atrevera a fazer uma coisa tão ousada em Welton! Perfeitamente calmo, Charlie atendeu o telefone.

- Sim, fala da Academia Welton, sim - disse em voz alta para todos ouvirem. - Está sim, é só um momento. Reitor, é para si.

- O quê?! - exclamou o Reitor, corando violenta­mente.

Charlie estendeu o auscultador para Nolan.

- É Deus. Quer dizer-lhe que acha que devíamos ter raparigas em Welton - disse ele, e a capela inteira ex­plodiu numa gargalhada.

A reacção de Nolan não se fez esperar. Charlie foi ime­diatamente levado para o gabinete do Reitor,onde este foi direito ao assunto.

- Apague já esse sorriso da cara - A voz de Nolan parecia o sibilar de uma cobra. - Quem mais está metido nesta brincadeira?

- Ninguém, Reitor - respondeu Charlie. - Fui eu sozinho. Como faço revisões para o jornal, tirei o artigo do Rob Crane e inseri o meu.

- Dalton, se acha que é o primeiro a tentar ser expulso desta escola, está tremendamente enganado. Muitos tentaram já e falharam, tal como o senhor falhará. Ponha-se em posição.

Charlie obedeceu e Nolan foi buscar uma velha e muito usada palmatória. Depois, despiu o casaco e foi pôr-se atrás de Charlie.

- Quero ouvi-lo contar em voz alta, Dalton - ordenou Nolan, enquanto desferia o primeiro golpe de pal­matória nas nádegas de Charlie.

- Uma. - Nolan tomou balanço para a segundapalmatoada, mais forte ainda do que a primeira. Charlie estremeceu e contou: - Duas.

Nolan bateu e Charlie contou. À quarta palmatoada, a voz de Charlie era quase inaudível e a dor visível na sua expressão contorcida.

A senhora Nolan, esposa e secretária do Reitor, estava sentada no gabinete exterior,tentando não ouvir as palmatoadas aplicadas pelo marido. Na sala ao lado, estavam três alunos a trabalhar num projecto de Arte. Um deles era Cameron, que, aoouvir o som da palmatória, foi incapaz de continuar a desenhar as cabeças de veado que decoravam uma das paredes da sala.Aquele som inspirava medo e admiração.

À sétima palmatoada, Charlie não conseguia já conter as lágrimas, que corriam livremente. Nolan parou à décima e veio pôr-se à frente de Charlie:

- Ainda insiste que tudo isto foi só ideia sua e de mais ninguém? -perguntou-lhe.

Charlie tentou engolir a dor.

- Sim... senhor Reitor.

- O que é isto do «Clube dos Poetas Mortos»? Quero saber nomes! - gritou Nolan.

Quase sem forças, Charlie respondeu:

- Não há mais ninguém, Reitor, juro! Foi tudo invenção minha.

- Se venho a descobrir que há mais alunos envolvidos nisto, esses alunos serão expulsos, percebe Dalton? Eles serão expulsos e o senhor continuará aqui. Endireite-se.

Charlie obedeceu. Estava muito vermelho e o esforço para conter as lágrimas de dor e humilhação era enorme.

- Welton sabe perdoar, Dalton, desde que tenha coragem para admitir os seus erros. Diante da escola inteira, quero que peça desculpa, ouviu?

Charlie cambaleou para fora do gabinete de Nolan e, devagar, dirigiu-se para o dormitório. Os outros rapazesandavam de um lado para o outro, entravam e saíam dos quartos, inquietos, à espera do amigo. Quando viram Charlie aproximar-se,foram a correr enfiar-se nos respectivos quartos e fingiram estar aestudar.

Charlie percorreu o corredor muito devagar, tentando não deixar transparecer a dor que sentia. Quando chegou à porta do quarto, Neil, Todd, Knox, Pitts e Meeks foram ter com ele.

- O que é que aconteceu? - perguntou Neil.- Estás bem? Foste expulso?

- Não - respondeu Charlie, evitando o olhar dos outros.

- O que é que aconteceu? - repetiu Neil.

- Tenho de denunciar toda a gente e fazer um pedido de desculpas oficial à escola inteira, e tudo será perdoado - disse Charlie, abrindo a porta e entrando no quarto.

- O que é que vais fazer? - perguntou Neil. - Charlie, o que é que vais fazer?

- Que gaita, Neil, quantas vezes é preciso dizer que o meu nome é Nuwanda? - Charlie olhouos amigos nos olhos e fechou a porta.

Os rapazes entreolharam-se, sorrindo com admiração pela coragem do amigo. O espírito de Charlie continuava vivo.

Mais tarde, nesse mesmo dia, Nolan foi até um dos edifícios de salas de aula e percorreu o corredoraté à sala de Keating. Parou em frente da porta, bateu e entrou. Keating estava a conversar com McAllister quando o Reitor entrou.

- Keating, preciso de falar consigo - disse o Reitor, interrompendo a conversa.

- Eu saio. Com licença - disse McAllister eapressou-se a sair.

Nolan olhou em volta.

- Esta foi a minha primeira sala de aulas, John,sabia? - perguntou Nolan num tom nostálgico, passeando pela sala.- A minha primeira secretária.

- Não sabia que tinha dado aulas - respondeu Kea­ting.

- Inglês. Muito antes do seu tempo. Foi difícil ter de deixar de ensinar, asseguro-lhe. - Fez uma pausa e acrescentou: - Tenho ouvido rumores, John, de que tem uns métodos muito pouco ortodoxos. Não digo que isso tenha alguma coisa a ver com a brincadeira do Dal­ton, hoje à tarde, mas acho que não preciso de o avisar de que os rapazes desta idade são muito impressionáveis.

- Tenho a certeza que o seu castigo deixou uma forte impressão, Reitor - disse Keating.

Nolan levantou o sobrolho, mas decidiu ignorar o comentário.

- Que história era aquela no pátio, no outro dia? - perguntou.

- No pátio?

- Rapazes a marchar. Outros a baterem palmas...

- Ah, isso. Um exercício para tornar algo claro. Sobre a conformidade e de como a devem evitar. Achei...

-John, o programa está feito. Está provado que funciona. Se você põe o programa em questão, o que é que osimpede de fazer o mesmo?

- Sempre tive a ideia de que o objectivo da educação era ensiná-los a pensar por eles mesmos- disse Keating.

Nolan riu-se.

- Nesta idade? Nem pensar! Tradição, John! Disci­plina! - Condescendente, bateu noombro de Keating.

- Prepare-os para a Universidade e o resto virá naturalmente.

Nolan sorriu e saiu. Keating permaneceu em silêncio, olhando pela janela. Passado algum tempo, McAllister veio espreitar à porta; era óbvio que tinha estado a ouvir a conversa.

- Eu, se fosse a si, não me preocuparia tanto com o risco de os rapazes serem demasiado conformistas, John

- disse.

- Ai não? Porquê?

- Bem, você mesmo foi aluno desta venerável insti­tuição, ou não?

- Fui.

- É certo e sabido que se se quer instruir alguém para ser um ateu rebelde basta dar-lhe uma educação religiosa rigorosa. É tiro e queda.

Keating olhou para McAllister e de repente soltou uma gargalhada. McAllister sorriu e foi-se embora.

Nessa noite, Keating foi até ao dormitório. Reinava a confusão e todos se apressavam para chegar a tempo às reuniões dos respectivos clubes e actividades extracurriculares. Keating aproximou-se de Charlie, que ia a sair rodeado de um grupo de amigos.

- Professor Keating! - disse Charlie, surpreendido.

- A sua brincadeira hoje na capela foi completamente disparatada, Dalton - repreendeu-o Keating.

- Não me diga que está do lado de Nolan - disse Charlie, incrédulo. - Então, Carpe Diem e sugar o tutano da vida e etc?

- Sugar o tutano não significa ficar com o osso enta­lado na garganta, Charles. Há que saber quando ser audacioso e quando sercauteloso; um homem sensato sabe quando ser oquê.

- Mas... pensei que... - gaguejou Charlie.

- Ser expulso não é nem um acto audacioso nem sensato. Esta escola está longe de ser perfeita, mas proporciona ainda assim oportunidades a não perder.

- A sério? - perguntou Charlie, zangado. - Como por exemplo?

- Como por exemplo a oportunidade de frequentar as minhas aulas, percebeu?

Charlie sorriu.

- Percebi.

Keating voltou-se para os outros iniciados d e disse:

- Portanto, e isto é para todos vocês, pensem antes de agir! - ordenou-lhesKeating.

- Sim, professor!-exclamaram. Keating sorriu e afastou-se.

No dia seguinte, sentados na aula de Inglês, os rapazes observaram o professor, que se dirigiu ao quadro e escreveu em letras grandes: «UNIVERSIDADE».

- Cavalheiros - anunciou -, vamos hoje analisar uma competência indispensável para aproveitar ao máximo o tempo que vão passar na universidade: analisar livros que não leram. - Fez uma pausa e olhou em redor, enquanto os alunos se riam. - A universidade irá provavelmente destruir o vosso amor pela poesia. Horas intermináveis de análise, dissecção e crítica serão responsáveis por tal destruição. Mas a universidade proporcionará tambémacesso a todo o tipo de literatura: a maior parte, obras de transcendental magia que terão de devorar, e uma parte, obrasabsolutamente desprezíveis que será a vossa obrigação evitar como a peste.

Keating continuou a andar de um lado para outro enquanto se dirigia à classe:

- Imaginem que têm uma cadeira chamada «Romances Modernos». Passaram um semestre inteiro a ler obras-primas tais como o comovente Père Goriot, de Bal-zac, e o emocionante País e Filhos de Turguenev, mas, quando recebem o tema para o vosso trabalho de fim de ano, descobrem que têm de analisar o tema do amor paternal em A Debutante Indecisa, um romance, e aviso-vos que utilizo aqui a palavra folgadamente, escrito, nada mais nada menos, pelo o próprio professor. - Keating olhou para a classe, franziu o sobrolho e continuou:

- Depois de lerem as primeiras páginas do livro, vocês apercebem-se de que irem voluntariamente para a tropa seria preferível a perder o vosso precioso e curto tempo nesta terra a poluir o vosso espírito com aquela porcaria. Que fazer? Desesperar? Chumbar? Nem pensar! Porque estão preparados.

Os rapazes não perdiam uma palavra. Keating continuou a passear.

- Ao abrir A Debutante Indecisa, podem ler, no resumo que aparece no interior da contracapa, que o livro é sobre Frank, um vendedor de equipamento agrícola que sacrifica tudo o que possui para que a filha, Christine, que ambiciona casar socialmente acima da sua posição, possa ter o debute que ela tanto deseja. Comecem a vossa dissertação rejeitando a necessidade de voltar a expor a intriga, sem deixarem, no entanto, de expelir o sufi­ciente da história para convencer o professor de que realmente leram o livro. Em seguida, passem a algo pretensioso e familiar. Podem, por exemplo, escrever: «O que é digno de nota são as semelhanças entre o terrível retrato que o autor faz do amor paternal e a teoria freudia­na moderna. Christine é Electra, o pai é um Édipocaído.» Depois, podem passar ao obscuro e elaborado, como por exemplo... - Keating fez uma pausa e leu: - «O que é de facto digno de nota é a misteriosa ligação entre o romance e o filósofo hindu Avesh Rahesh Non. Ra-hesh Non estudou em profundidade o fenómeno da escolha, por parte dos filhos, do monstro de três cabeças, ambição, dinheiro, sucesso social, em detrimento dos pais.» Depois, podem analisar as teorias de Rahesh Non sobre o que alimenta o monstro, como decapitá-lo, etc, etc. Terminem com um elogio à brilhante escrita do pro­fessor, assim como à sua magnífica coragem ao apresentar-vos A Debutante Indecisa.

Meeks levantou o braço:

- Capitão... e se não soubermos nada sobre alguém como Rahesh Non?

- Rahesh Non não existe, Meeks. Inventam-no, ou alguém como ele. Nenhum professor universitário convencido da sua própria importância teria a coragem de admitir que nunca tinha ouvido falarde uma personagem claramente tão importante e o mais provável é receberem um comentário como o que eu recebi.

Keating pegou no papel que estava em cima da sua secretária e leuem voz alta:

- «Os seus comentários em relação a Rahesh Non são relevantes e estão bem apresentados. Fico contente por saber que mais alguém aprecia este magnífico, se bem que esquecido, mestre oriental. »

Voltou a pousar o papel em cima da secretária.

- Cavalheiros, a análise de livros horrorosos que vocês nunca leram será certamente parte do vosso exame final, portanto sugiro que vão treinando. Agora, outro as­sunto: as armadilhas que se vos apresentarão durante os exames. Peguem num caderno azul e num lápis, meus senhores, isto é um teste.

Os rapazes obedeceram e Keating distribuiu os enunciados. Montou emseguida um ecrã em frente à classe e, no fundo da sala, pôs um projector de slides.

- As grandes universidades são Sodomas e Gomor-ras repletas daquelas deleitáveis criaturas tão raras por estas bandas: mulheres. - Keating sorriu. - O nível de distracção é perigosamente alto, mas este questionário foi concebido para vos preparar. Ficam avisados que este teste conta para a nota. Podem começar.

Os rapazes começaram o teste. Keating acendeu o projector e mostrou o primeiro slide. No ecrã, apareceu a imagem de uma atraente rapariga, inclinada para apanhar um lápis do chão. Tinha um corpo incrível e, inclinada como estava, tinha as cuequinhas à mostra. Os rapazes levantaram os olhos do teste; a maioria piscou os olhos várias vezes, sem poder acreditar no que via.

- Concentrem-se nos vossos testes, rapazes. Têm vinte minutos - avisou Keating, enquanto mudava osli­de. Desta vez apareceu no ecrã a imagem de um anúncio de revista com uma mulher em lingeríe. Os rapazes olhavam do papel para o ecrã, incapazes de se concentrarem. Divertido, Keatingobservava as suas reacções e as suas óbvias dificuldades de concentração, enquanto ia passando o resto dos slides: mulheres em poses e roupaprovocantes, ampliações de estátuas gregas de nus femininos... uma sucessão aparentemente interminável demulheres insinuantes. As cabeças dos rapazes subiam e desciam, entre o ecrã e o caderno. No seu, Knox escrevera «Chris, Chris, Chris»,enquanto olhava fixamente para o ecrã.

Welton estava rodeada pelo Inverno gelado do Ver-mont. A colorida folhagem que vestira as árvores cobria agora o chão de mancha incolor varrida por ventos inclementes.

Todd e Neil, embrulhados em blusões de penas e cachecóis, caminhavam por entre os edifícios. O vento soprava e Neil ensaiava as deixas de Sonho de Uma Noite de Verão.

- «Aqui, vilão, de espada em punho. E tu, onde estás?» - disse Neil.

- «Pronto, como tu.» - respondeu Todd, lendo o guião.

- «Então, vamos para onde o solo é menosacidentado! » - gritou Neil, acima do uivar do vento. - Adoro isto!

- A peça? - perguntou Todd.

- Sim, representar! - Neil riu-se, feliz. - Deve ser uma das coisas mais maravilhosas do mundo. A maioria das pessoas, se tem sorte, vive uma vida mais ou menos emocionante. Eu, se conseguir os papéis, posso viver de­zenas de vidas grandiosasl

Começou a correr e, com um movimento teatral, sal­tou para cima do muro de pedra. - «Ser ou não ser, eis a questão!» Meu Deus, pela primeira vez na vida sinto-me vivo! Tens de experimentar - disse a Todd. E, sal­tando do muro, acrescentou: - Devias vir umdia aos ensaios. Sei que precisam de pessoas para trabalhar na iluminação e assim.

- Não, obrigado.

- Há muitas raparigas - disse Neil, brincalhão. - A rapariga que faz de Hermia é incrível.

- Depois vou ver a peça - prometeu Todd.

- Mariquinhas... - troçou Neil. - Mas onde íamos nós?                                                                                                          

- «Ouve-me! Onde estás?» - leu Todd.

- Um pouco mais de sentimento - pediu Neil.

- «OUVE-ME! ONDE ESTÁS?» - gritou Todd.

- É isso mesmo! «Segue a minha voz! Se és homem! » - Neil fez uma vénia.- Obrigado! Vemo-nos ao jantar - disse, entrando no dormitório.

Todd ficou uns momentos a observá-lo, abanou a cabeça e dirigiu-se para a biblioteca.

Neil percorreu o corredor aos saltos, ignorando os outros alunos que olhavam para ele, curiosos. Abriu a porta do quarto de rompante, entrando de um salto e esgrimindo o ar com um bastão imaginário.

E parou abruptamente. Sentado na sua secretária estava o pai!Neil empalideceu com o choque.

- Pai!

- Neil, vais desistir desta peça ridícula imediata­mente - gritou-lhe opai.

- Mas, pai, eu...

O senhor Perry pôs-se de pé de um salto e bateu com punho fechado na secretária:

- Não te atrevas a responder-me! Já basta teres andado a perder tempo com esta coisa absurda do teatro! O pior é que me enganaste deliberadamente! - O se­nhor Perry não parava de andar de um lado para o outro, furioso; Neil tremia de medo. - Como é podias pensar que eu não ia ficar a saber? Responde! - bradou. - De quem é que foi a ideia? Foi o tal Keating?

- De ninguém... - gaguejou Neil. - Era uma surpresa. Tive boas notas a tudo e...

- Diz-me como é que te passou pela cabeça que eu não ia descobrir, Neil?«A minha sobrinha está numa peça com o seu filho», diz-me a senhora Marks. «Deve estar enganada», digo eu, «o meu filho não está em nenhuma peça.» Fizeste-me passar por mentiroso, Neil. Pois, amanhã quero que vás aos ensaios e que digas que não podes entrar na peça.

- Mas, pai, tenho um dos papéis principais-tentou Neil explicar. - E amanhã à noite é a estreia. Por favor, pai...

O senhor Perry estava lívido de raiva. Aproximou-se de Neil, abanando o indicador emfrente do nariz do filho.

- Nem que amanhã seja o fim do mundo, não me interessa! Vais deixar a peça, ouviste? OUVISTE?

- Sim, pai. - Neil não conseguiu dizer mais nada. Mais calmo, o senhor Perry olhou para ofilho.

- Sacrifiquei-me muito para te poder pôr nesta escola, Neil. Não me vais desiludir.

O senhor Perry voltou costas e saiu. Neil ficou sem se mexer, em pé no meio do quarto. Depois, num ataque defúria, bateu na secretária até não sentir os braços e não conseguir conter as lágrimas.

Algumas horas depois, todos os iniciados se encontravam sentadosna sala de jantar, excepto Neil, que dissera estar com dores de cabeça. Pareciam estar a comer com dificuldade, e o Dr. Hager aproximou-se, desconfiado.

- Dalton, o que é que se passa? - perguntou. - Há algum problema com a comida?

- Não, nenhum, Dr. Hager - respondeu Charlie. Hagerobservou-os.

- Meeks, Overstreet, vocês são canhotos? - perguntou, passado uns instantes.

- Não, professor.

- Então porque é que têm a faca na mão esquerda? Os rapazes entreolharam-se. Knox falou por todos:

- Pensámos que talvez fosse boa ideia quebrar osvelhos hábitos, professor - explicou.

- Porquê? Qual é o problema dos velhos hábitos, Overstreet?

- Perpetuam uma vida mecânica, professor - disse Knox. - Limitam opensamento.

- Overstreet, sugiro-lhe que se preocupe menos com os velhos hábitos e mais em adquirir bonshábitos de estudo, percebeu?

- Sim, professor.

- O mesmo é válido para vocês - disse Hager, diri­gindo-se aos outros rapazes. - E agora comam como deve ser.

Os rapazes obedeceram. Mas, assim que Hager se afastou, Charlie voltou a trocar os talheres e, um a um, os outrosimitaram-no.

Por fim, Neil apareceu na sala e foi ter à mesa deles. Tinha um ar sério e perturbado.

- Está tudo bem? - perguntou Charlie.

- Tive uma visita do meu pai.                                 :

- Tens de desistir da peça? - perguntou Todd.

- Não sei.

- Porque é que não vais falar com o professorKeating? - sugeriu Charlie.

- Para quê?

Charlie encolheu os ombros:

- Sei lá, pode ser que ele te possa aconselhar. Pode ser até que ele vá falar com o teu pai.

- Tás a gozar, não? - Neil riu-se sem vontade. - Não sejas parvo.

Apesar das dúvidas de Neil, os outros insistiram que talvez Keating pudesse ajudar. Depois do jantar foramaté aos quartos dos professores, que ficavam no segundo andar do dormitório. Charlie bateu à porta do quarto de Keating.

- Isto é uma estupidez - protestou Neil.

- É melhor do que não fazer nada - disse Charlie e voltou a bater à porta.

- Não está no quarto. Vamos embora - suplicou Neil.

Charlie tentou rodar a maçaneta e a porta abriu.

- Esperamos por ele - disse Charlie, entrando.

- Charlie! Nuwanda! - chamaram os outros. - Sai já daí!

Mas Charlie recusou-se a sair e, após alguns minutos de discussão, os outros sucumbiram à curiosidade e entraram tambémpara o quarto de Keating.

Era um quarto pequeno com um aspecto vazio e soli­tário. Sentindo-se pouco à vontade, os rapazes mais umavez pediram a Charlie:

- Por favor! Vamos embora. Nem sequer devíamos ter entrado.

Mas Charlie ignorou-os e começou a explorar a pequenadivisão. No chão, ao lado da porta, estava uma pequena mala azul. Em cima da cama estavam alguns livros, alguns com aspecto bastante usado. Charlie foi até à secretária e pegou numa moldura com uma fotografia de uma rapariga, bonita e que não parecia ter mais de vinte anos.

- Uau! Olha para esta! - exclamou com admiração. Ao lado da moldura estava uma cartainacabada.

Charlie pegou nela e leu:

- «Minha queridajessica, sinto-me tão sozinho sem ti... blá blá blá. A única coisa que posso fazer para aliviar a minha solidão é olhar para a tua fotografia ou fechar os olhos e imaginar o teu sorriso... Mas a minha imaginação é um pobre substituto. Tenho tantas saudades tuas e o meu único desejo...»

Charlie continuou a leitura e, ao contrário dos outros, não ouviu o ranger da porta. Todos se afastaram de Char­lie, que só interrompeu a leitura ao se dar conta de que Keating estava à porta do quarto.

- Olá, professor! Prazer em vê-lo! - disse Charlie, envergonhado.

Keating foi até ao pé dele, tirou-lhe a carta as mãos, dobrou-a e pô-la dentro do bolso.

- Uma mulher é uma catedral, rapazes. Adorem uma sempre que tiverem a oportunidade - disse. Dirigiu-se a uma cómoda, abriu uma gaveta e guardou a carta. - Deseja revistar mais alguma coisa, Dalton? - perguntou.

- Peço imensa desculpa - disse Charlie. -Queria... queríamos... - Charlie olhou para os outros a pedir ajuda. Neil deu um passo em frente.

- Capitão! Meu Capitão!, viemos porque eu preciso de falar consigo sobre um assunto - explicou.

- Muito bem - disse Keating, olhando para o grupo. - E vieram todos?

- Na verdade, gostaria de falar consigo a sós -disse Neil, voltando-se para os outros.

O alívio foi imediatamente visível em todas as caras; todos queriam sair dali para fora.

- Sim, eu tenho de estudar - disse Pitts.

- Pois - disseram os outros. - Até depois,professor.

Apressaram-se todos a sair e a fechar a porta.

- Voltem sempre - ouviram ainda Keating dizer.

- Obrigado, professor - responderam já depois de fechar a porta.

Pitts deu um soco no ombro de Charlie:      

- Bolas, Nuwanda, não passas de um idiota!

- Não consegui resistir. - Charlie encolheu os ombros.

No quarto, sozinho com Neil, Keating sorria interior­mente. Neil andava de um lado para o outro, claramente nervoso.

- Não lhe deram muito espaço, pois não?

- Talvez queiram evitar que me distraia com coisas materiais... - Keating sorriu. Tinha um arcansado.

- Porque é que está aqui? - perguntou Neil. - Quer dizer, com toda esta história de aproveita o dia e tudo, porque é que não anda por aí, a ver o mundo?

- Mas aí é que tu te enganas, Neil... Eu ando a ver o mundo. O mundo novo. De qualquer maneira, um sítio como este precisa de pelo menos um professor como eu. - Sorriu da própria piada. - Mas não me vieste ver para falarmos da minha escolha de profissão, pois não?

Neil respirou fundo.

- O meu pai quer obrigar-me a desistir da peça que organizaram em Henley Hall. Quando penso nissode Carpe Diem, sinto-me como se estivesse na prisão, ou as­sim! Gosto imenso de representar, professor Keating! É o que eu quero fazer!É claro que percebo o ponto de vista do meu pai. Não somos ricos como a família do Char­lie. Mas tem a minha vida toda planeada e nem uma única vez me perguntou o que é que eu queria!

- Já disseste ao teu pai o que acabas de me dizer a mim? Que representar é o que queres fazer? - perguntou Keating.

- Está a brincar! Matava-me logo ali!

- Então, em frente dele também representas umpapel, não é assim, Neil? - observou Keating. - Eu sei que pode parecer impossível, mas tens de falar com o teu pai e mostrar-lhe quem tu és realmente.

 

- Mas eu sei perfeitamente o que ele dirá. Que representar não passa de um capricho, que é frívolo e que o melhor é tirar isso da cabeça. Depois acrescentará que todos esperam grandes coisas de mim e que esqueça tudo isto«para o meu próprio bem».

- Então - disse Keating, sentando-se em cima da cama -, se é realmente mais do que um capricho, prova-o. Mostra ao teu pai atua paixão e dedicação, mostra-lhe querepresentar é mesmo o que queres fazer. E se isso também não funcionar, de qualquer maneira daqui a uns anos fazes dezoito e então poderás escolher o que queres.

- Dezoito anos! E a peça? É amanhã à noite!

- Fala com o teu pai - insistiu Keating.

- Não há outra alternativa mais fácil? - suplicou Neil.

- Se queres ser verdadeiro contigo mesmo, não. Permaneceram em silêncio alguns minutos, até que

Neil disse:

- Obrigado, professor Keating. Já tomei uma decisão.

Enquanto Neil conversava com Keating, Charlie, Knox, Pitts, Todd e Cameron foram até à gruta. Estava a nevar e um manto branco cobria a terra, e parecia protegê-la dos ventos gelados que uivavam à sua volta.

Os rapazes espalharam-se pela gruta iluminada à luz da vela, cada um ocupado com as suas própriascoisas. Ninguém deu início à reunião. Charlie tocava notas tristes e melodiosas no saxofone. Knox, sentado a um canto, parecia falar sozinho enquanto acabava o poema que estava a escrever para Chris. Todd estava também a acabar de escrever qualquer coisa. Cameron estudava e Pitts estava de pé, virado para a parede, a gravar na pedra uma citação que tirara de um livro.

Cameron olhou para o relógio.

- Faltam dez minutos para o recolher obrigatório - lembrou.

Ninguém se mexeu

- O que é que estás a escrever? - Knox perguntou a Todd.

- Não sei. Um poema - respondeu Todd.

- Para leres na aula?

- Não sei.

- Estamos mesmo a pedir que nos penalizem, pá, se não voltarmos agora mesmo. Está a nevar bastante - disse Cameron.

Mais uma vez, ignoraram-no. Charlie continuou a tocar, Toddcontinuou a escrever. Cameron olhou para eles e encolheu os ombros.

- Eu vou-me embora. - Levantou-se e saiu da gruta. Knox releu o poema baixinho e depois, frustrado, bateu com a mão na perna.

- Que raiva! Se ao menos conseguisse que a Chris lesse este poema! - gemeu.

- Porque é que não lho lês tu? - sugeriu Pitts. - Foi o que o Nuwanda fez.

- Ela nem me fala, Pitts! - exclamou Knox. - Telefonei-lhe e ela nem sequer veio ao telefone...

- O Nuwanda recitou um poema à Gloria e ela sal­tou-lhe logo para cima... não foi, Nuwanda?

Charlie parou de tocar, pensou durante uns segundos e disse:

- Sem dúvida. - E recomeçou a tocar.

Ao longe, ouviram tocar o sino que anunciava o recolherobrigatório. Charlie terminou a melodia, guardou o saxofone e saiu da gruta. Todd pegou nas suas coisas e, acompanhado porPitts, seguiu Charlie. Knox ficou sozinho na gruta a olhar para o poema que escrevera. Depois, pondo o papel entre as páginas de um livro, apagou a vela e saiu da gruta a correr, determinado. «Se funcionou para o Charlie, também vai funcionar comigo», pensou, enquanto concebia mentalmente um plano para levar as suas palavras até Chris.

Na manhã seguinte, o chão estava coberto por um espesso manto de neve. Knox saiu do dormitório cedo, bem agasalhado contra o vento gelado que continuava a soprar. Limpou a neve da sua bicicleta, levou-a até a um caminho aberto na neve e pedalou colina abaixo em direcção à escola de Ridgeway.

Deixou a bicicleta à porta e entrou, frenético, pela escola dentro. Os corredores estavam já cheios de alunos, rapazes e raparigas, que gritavam, falavam uns com outros, punham os casacos nos cacifos e tiravam os livros, em preparação para a primeira aula do dia.

Knox correu por um corredor e parou para falar com um dos alunos. Depois, virou uma esquina e subiu dois a doisos degraus até ao segundo andar.

- Chris! - Knox viu-a em frente de um cacifo afalar com as amigas, mas ela apressou-se a arrumar as coisas e a virar costas. Knox correu até ela.

- Knox! O que é que estás aqui a fazer? - Chris puxou-o para um canto, para longe das amigas.

- Vim pedir desculpa... pela outra noite. Trouxe-te isto e um poema que escrevi.

Estendeu-lhe um ramo de flores murchas e queimadas pelo frio e o poema. Chris olhou para o que ele lhe oferecia mas não se mexeu.

- Se o Chet te vê, mata-te, sabes isso muito bem!

- Não me interessa - disse Knox, abanando acabeça. - Tu mereces alguém melhor que o Chet, e esse al­guém sou eu. Toma, aceita, por favor.

- Knox, és completamente doido! - exclamou Chris.

A campainha tocou e os alunos correram para as respectivas salas de aula.

- Por favor. Portei-me como um idiota. Aceitas? - perguntou Knox.

Chris olhou para as flores como se estivesse a consi­derar aceitá-las.

- Não - respondeu, abanando a cabeça. - Deixa-me em paz! - E entrou para uma sala, fechando a porta atrás de si.

O corredor estava vazio. Knox ficou ali, sozinho, com o ramo de flores meio mortas e o poema na mão. Hesitou um momento e depois dirigiu-se à sala de aula, abriu a porta e entrou.

Os alunos estavam todos sentados nos seus lugares. Knox passou pelo professor, que estava inclinado sobre uma carteira, ajudando um aluno com o trabalho de casa.

- Knox! - gritou Chris. - Não acredito!

- Só te peço que ouças - disse, desdobrando o papel onde estava escrito o poema. A classe inteira e o professor olharam para Knox, espantados.

Os céus criaram uma rapariga chamada Chris, De cabelo e pele de ouro Tocá-la seria o paraíso Beijá-la - glorioso.

Chris corou e tapou a cara com as mãos. As amigas, mal conseguindo suprimir o riso,entreolhavam-se estupefactas. Knox continuou a leitura:

Criaram uma deusa e deram-lhe o nome Chris. Como? Desconhecerei para sempre. Mas apesar de ter deixado a minha almapara trás O meu amor continuará a crescer.

Knox continuou a ler como se ele e Chris estivessem sozinhos.

No seu sorriso vejo a doçura

Dos seus olhos brilha a luz

Mas a vida está completa - estou feliz,

Simplesmente sabendo que ela vive.

Knox baixou o papel e olhou para Chris, que, enver­gonhada e mais corada que nunca, espreitou entre os dedos sem destapar completamente a cara. Knox pousou o poema e as flores na carteira dela.

- Amo-te, Chris - disse, simplesmente.

Voltou-se, e abandonou a sala.

Knox voltou para a Academia o mais depressa que pôde, pedalando contra o vento e a nevepelas estradas cobertas de gelo. Entretanto, os seus amigos estavam a acabar a aula de Inglês. Estavam todos à volta da secretária do professor, a rir, quando tocou a campainha.

- E é tudo, meus senhores - disse Keating, fechan­do o livro que tinha na mão. Vários rapazes emitiram um som de descontentamento, desejando não ter de ir para a aula seguinte, de Latim, com o professor McAllister.

- Neil, posso falar contigo um minuto? - perguntou Keating.

Neil aproximou-se do professor, enquanto os outros pegavam nos livros e saíam. Keating esperou até estarem sozinhos e perguntou:

- O que é que o teu pai disse? Falaste com ele?

- Falei - mentiu Neil.

- A sério? - disse Keating, entusiasmado.- E disseste-lhe o que me disseste a mim? Fizeste com que per­cebesse a tua paixão pelo teatro?

- Sim. - Neil sentia a mentira a aumentar. - Não ficou nada contente, mas, pelo menos, deixou-me continuar na peça. É claro que ele não vai poder assistir. Vai estar em Chicago, viagem de negócios. Mas acho que me vai deixar continuar a representar. Desde que continue com boas notas.

Neil evitou os olhos do professor. Sentia-se mal por ter mentido e nem ouviu o que Keating lhe disse. Pegou nos livros e disse que tinha de ir andando. Keating ficou a olhar para ele, perplexo.

Quando Knox chegou à escola, deixou a bicicleta perto da cozinha, nas traseiras do edifício principal dassalas de aula, e entrou a correr, com frio mas triunfante. Parou um minuto para sentir o calor e o cheiro da enorme cozinha e comeu um pãozinho que acabava de sair do forno. Chegou ao corredor Exatamente na altura do intervalo entre as aulas e viu os amigos imediatamente.

- Como foi? - perguntou Charlie. - Leste-lhe o poema?

- Li! - Knox sorriu, engolindo o último pedaço de pão.

- É assim mesmo! - Pitts bateu-lhe no ombro. - E o que é que ela disse?

- Não sei - respondeu Knox.

- Como assim, não sabes? - perguntou Charlie,espantado.

Os rapazes rodearam Knox antes que ele pudesse escapar eempurraram-no para dentro de uma sala de aula.

- Muito bem, Knox - disse Charlie, autoritário -, começa do princípio.

Ao fim do dia, encontraram-se todos à entrada do dormitório à espera de Keating, que os ia levar até Henley Hall para a estreia de Sonho de Uma Noite de Verão. Knox atirou-se para um cadeirão, um pouco afastado dos outros, sentindo-se ainda confuso e ao mesmo tempo maravilhado pelo confronto com Chris.

- Onde está o Nuwanda? - perguntou Meeks. - Se ele não se despacha, vamos perder o princípio.

- Só sei que ele disse qualquer coisa como pôr-se ver­melho antes de ir- disse Pitts, abanando a cabeça.

- O que é que isso quer dizer, Exatamente? -perguntou Cameron.

-Já sabes como ele é - respondeu Pitts no momento exacto em que Charlie apareceu nas escadas.

- Que história é essa de te pores vermelho? - quis saber Meeks.

Charlie olhou em redor. Abriu a camisa e revelou um raio vermelho pintado no peito.

- O que é isso? - perguntou Todd.

- É um símbolo índio de virilidade. Faz-me sentir potente. Dá-me a sensação que consigo levar as raparigas à loucura.

- E se elas vêem isso, Nuwanda? - perguntou Pitts. Charlie piscou o olho:

- Se virem, é bom sinal!

- Tu és mesmo doido!-disse Cameron.

O grupo dirigiu-se para a saída. Quando chegaram ao pé da porta, Chris passou por eles. Knox quase desmaiou.

- Chris! - O coração de Knox começou a bater desenfreadamente.

- Knox, o que é que andas a fazer? - gritou Chris. Knox olhou em volta:

- Não podes estar aqui - disse, empurrando-a para um canto.

Keating apareceu no corredor e juntou-se ao grupo de rapazes.

- Vamos lá, então, rapazes - disse com um sorriso, seguindo à frente do grupo.

- Eu vou já - disse Knox e empurrou Chris para fora do dormitório. - Se te apanham aqui, estamos os dois feitos - acrescentou, tremendo de frio.

- Claro, mas tu já podes entrar pela minha escola dentro e envergonhar-me em frente de toda a gente! - gritou Chris, indignada.

- Chiu, não faças barulho. Ouve, não foi intenção minhaenvergonhar-te.

- Mas envergonhaste! Ainda por cima o Chet descobriu e está furioso. Passei horas a convencê-lo a não vir direitinho aqui e acabar contigo. Tens deparar, Knox!

- Mas estou apaixonado por ti!

- Não paras de dizer isso, mas nem me conheces! Ao longe, na carrinha da escola, os rapazes eKeating

começavam a impacientar-se e tocaram a buzina para lembrar a Knox que estavam à espera.

- Vão andando, eu depois vou a pé - gritou ele, e o carro arrancou. Virando-se para Chris, Knox continuou: - É claro que te conheço! Da primeira vezque te vi sou­be logo que tinhas uma alma maravilhosa.

- Logo da primeira vez?

- Claro! É assim que se sabe que é mesmo a sério.

- E se estivesses enganado? E se eu me estivesse completamente nas tintas para ti?

- Nesse caso não estarias aqui a avisar-me que o Chet me quer matar.

Chris considerou o que Knox acabara de dizer.

- Ouve - disse, por fim -, tenho de me ir embora. Já estou atrasada para ir ver apeça.

- Vais com o Chet?

- Com o Chet? Ver uma peça de teatro? Boa piada!

- Então vamos juntos - sugeriu Knox.

- Knox, és tão irritante.

- Dá-me uma hipótese, por favor. Se depois destanoite não gostares de mim, eu deixo-te em paz para sempre.

- Pois... - disse Chris, sarcástica.

- Prometo. Pela honra dos Poetas Mortos. Vem comigo hoje. Depois, se não me quiseres tornar a ver, eu desapareço.

Chris hesitou:

- Se o Chet descobrir...

- O Chet não vai ficar a saber de nada - prometeu Knox. - Sentamo-nos atrás e, assim que acabar, saímos.

- Mas prometes que é a última vez...

- Pela honra dos Poetas Mortos - disse, levantando a mão direita.

- Isso quer dizer o quê, Exatamente?

- Juro - insistiu Knox, olhando inocentemente para Chris, que suspirou, resignada, e os dois seguiram em direcção a Henley Hall.

Knox e Chris entraram no auditório da escola bastante depoisde Keating e os outros se terem sentado nos seus lugares, à frente. Sentaram-se na fila de trás, e quando os amigos o viram com Chris acenaram entusiasma­dos.

No palco, a peça começara. Com uma coroa de flores na cabeça, Neil fez a sua grande entrada em palco, como Puck, e os membros d aplau­diram, barulhentos. Neil olhou para a plateia com um momentâneo olhar de medo. Todd fez figas.

- «E agora, espírito? Por onde andas tu?» - começou Neil.                                      

- «Por vales, por outeiros, matas e matagais...» - respondeu uma fada.

Keating olhou para os rapazes e sorriu, impressionado com a actuação de Neil.

- «Sim, sou eu, acertaste; / Sou o divertido bobo da noite. / Divirto Oberon e faço-o sorrir, / Quando eu um cavalo velho e gordo engano, / e relinchando como uma égua o atraio...»

Atentamente observado pelos amigos, Neil dizia as deixas de Puck com à vontade, visivelmente feliz por cadasegundo que passava no palco, obtendo do público Exatamente as reacções certas nos momentos certos. Nervoso pelo amigo,Todd formava com os lábios as palavras das deixas de Neil, como se isso o pudesse ajudar. Mas Neil não precisava de qualquer ajuda.

- Ele é bom! É mesmo bom! - sussurrou Charlie aos outros.

A peça continuou com as personagens Lisandro e Hermia. Ginny Danburry, com um bonito fato de folhas e galhos, fazia de Hermia.

- «Aqui, podemos descansar os dois; / Um coração, um leito, dois amantes e uma palavra.»

- «Não, meu bom Lisandro, te peço, / Afasta-te um pouco mais, não te deites tão perto» respondeu Hermia.

Charlie pegou no programa e procurou o nome da rapariga que faziade Hermia.

- Ginny Danburry! É linda! - suspirou olhando para Hermia.

- «Mas, querido amigo, sê cortês, por amor / Afasta-te, respeita o meu pudor. / Distância há que manter / entre a virtude de um moço e a virgindade da donzela. / As­sim, afasta-te; Boa noite, doce amigo. / Que nunca o teu amor se altere, até ao fim da tua preciosa vida.»

Charlie não conseguia tirar os olhos dela. Enquanto Hermia e Lisandro acabavam aquelacena, Neil, nos bastidores, observava a plateia. De repente, viu o pai entrar e permanecer de pé na parte de trás do auditório. Neil sentiu o coração acelerar, mas a sua expressão permaneceu calma.

No palco, a cena de Hermia e Lisandro estava a acabar:

- «Aqui vou dormir. Que o sono te conceda todo o seu descanso!» - disseLisandro.

- «O mesmo te desejo; fecha os olhos num doce descanso!»- respondeu Hermia.

As personagens deitaram-se no palco e adormeceram. Um curtointerlúdio assinalou o regresso de Puck ao palco.

Neil movia-se ao som da música, desinibido, alegre, mágico. As outras personagens voltaram também ao palco durante o lento interlúdio. Hermia, cintilante, prendia inteiramente a atenção de Charlie. Keating, Todd e os outros estavam encantados com a produção inteira. Knox perdeu a maior parte da peça, porque passou o tempo a olhar para Chris, completamente extasiado e, tentando contudo não o mostrar, Chris começava também a gostar de Knox.

Quando o interlúdio terminou, Neil estava sozinho no palco. Neil dirigiu-se à plateia e em particular ao pai, que permanecera de pé, ao fundo da sala:

Rogo-vos, se nós, espíritos, ofendemos,    

Imaginai que pelo sono passastes,

E que tudo imaginastes.

Aceitai esta peça fraca e vã,

Como um sonho, pouco mais,

E perdoai, boas gentes,

Pois assim nos corrigiremos.

E, palavra de Puck honesto,

Se desta às más línguas escapamos,

Crede-me, o que hoje se fez mal,

Amanhã será perfeito.

Agora, boas gentes, feliz noite vos desejo.

Juntai as vossas mãos às minhas

E, com a vossa amizade,

Este Robim se emendará.

A cortina baixou e a audiência explodiu num único aplauso. Todas as dúvidas que tinham sobre se Neil sabia ou não representar haviam desaparecido por com­pleto e, quando os rapazes se levantaram para aplaudir, toda a plateia os imitou. O elenco inteiro teve de voltar várias vezes ao palco; as palmas não paravam.

Um a um, os actores vieram ao palco agradecer ao público individualmente. Ginny recebeu um grande aplauso e sorriu a Charlie, que gritava bravo e aplaudia mais alto que todos. Knox sorriu a Chris e parou de aplaudir para lhe dar a mão. Chris não resistiu.

Quando foi a vez de Neil voltar ao palco, os amigos aplaudiram ainda com mais entusiasmo, gritando vivas alto e bom som. Depois dos aplausos, o elenco veio até à plateia e misturou-se com os espectadores. Várias pessoas subiram ao palco para apresentar os parabéns aos actores.

- Familiares e amigos - ouviu-se a voz da encenadora ao microfone -, por favor, podem juntar-se aos membros do elenco no átrio!

- Neil! - chamaram Todd e os outros. - Vemo-nos no átrio! Fosteincrível!

No palco, Ginny Danburry continuava a ser assediada pelos amigos e família, que não paravam de lhe dar os parabéns. Charlie ignorou o pedido da encenadora e subiu para o palco.

- Foste incrível! - ouviu outro rapaz dizer a Ginny. Charlie notou que o rapaz que fizera o papel de Lisandro tinha o braço à volta de Ginny.

- Parabéns, Ginny! - disse ele, abraçando-a. Sem se deixar intimidar, Charlie abriu caminho até

Ginny.

- Brilha luz dos teus olhos - disse, sincero. Ginny viu que ele estava a falar a sério e sorriu.Ginny

e Charlie olharam fixamente um para o outro até que Lisandro, sorrindo pouco à vontade, se afastou.

Nos bastidores, no camarim dos rapazes, o elenco masculino pegara em Neil e levava-o aos ombros, em glória.Após um momento de celebração, a encenadora entrou no camarim e, com um olhar preocupado, procurou Neil.

- Neil - murmurou -, o teu pai está lá fora.

Neil saltou dos ombros dos amigos e seguiu-a, parando para vestir o casaco. Viu o pai ao fundo da sala e parou. Depois, saltou do palco e, tirando a coroa de flores, foi-se aproximando do pai.

Charlie viu-o e chamou por ele. Mas Neil não o ouviu. Então, Charlie viu Neil juntar-se ao pai e, com um mau pressentimento, pegou na mão de Ginny e saltaram do palco.

Keating e os outros estavam à espera de Neil no átrio.

- Olá a todos! - cumprimentou Knox, juntando-se-lhes. - Esta é a Chris.

- Uau! Estamos fartos de ouvir falar de ti! - disse Meeks. E, depois de ver a cara de Knox, gaguejou: - Quer dizer... bem, sabes o que quero... enfim... Quero dizer...

Subitamente, a porta do auditório abriu-se de rompante e o senhor Perry saiu, arrastando Neil pelo braço, à força, para fora, emdirecção à porta principal. Charlie e Ginny vinham atrás deles. Várias pessoas tentaram felicitar Neil. Em vão, Todd tentou chegar perto do amigo.

- Neil! Foi espectacular! Neil! - gritou.

- Vamos festejar! - disse Knox. Neil voltou-se para eles:

- Não vale a pena - disse, triste.

Keating aproximou-se sorrindo e, agarrando-o pelos ombros, disse:

- Foi brilhante!        

O senhor Perry afastou as mãos de Keating.

- Você! Afaste-se do meu filho! - gritou.

Em redor, fez-se silêncio. Ignorando tudo e todos, o senhor Perry empurrou o filho até ao carro eobrigou-o a entrar. Charlie fez menção de ir atrás deles, mas Kea­ting impediu-o.

- Não piores as coisas - disse, tristemente.

O carro arrancou e afastou-se. Neil parecia um condenado na suaúltima viagem.

- Neil! - gritou Todd ao ver o carro afastar-se.

Em estado de choque, os membros dpermaneceram imóveis e em silêncio no átrio. Por fim, Charlie perguntou a Keating se podiam voltar a pé.

- Claro - respondeu o professor e ficou a ver os «Poetas Mortos»,juntamente com Chris e Ginny, dirigirem-se para a porta e saírem para o frio da noite.

Em casa de Neil, a senhora Perry estava sentada num canto do pequeno e abafadoescritório; tinha os olhos inchados e vermelhos. O senhor Perry estava sentado à se­cretária, rígido.

Neil abriu a porta e entrou, vestido ainda com o fato de Puck, os olhos também vermelhos de chorar. Olhou para a mãe e ia começar a dizer qualquer coisa, mas o pai interrompeu-o:

- Filho, estou a fazer o possível por perceber porque é que insistes em me desobedecer, a mim eà tua mãe. Mas, seja qual for a razão, não vou deixar que arrumes a tua vida. Amanhã vou cancelar a tua matrícula em Wel-ton e inscrever-te na Academia Militar de Braden. Depois vais para Harvard e serásmédico.

Os olhos de Neil voltaram a encher-se de lágrimas:

- Mas, pai, isso são mais dez anos - suplicou. - É uma vida inteira!

- Tens oportunidades que eu nunca sequer sonhei poder ter! Não te vou deixar desperdiçá-las! - gritou o senhor Perry e saiu do escritório.

A mãe de Neil pareceu querer dizer qualquer coisa, mas permaneceu calada e foi atrás do marido.

Neil ficou sozinho, sentindo-se completamente exausto e vazio, tentando não pensar no futuro que o pai acabara de lhe apresentar.

Em vez de voltarem directamente para Welton, os ini­ciados d decidiram passar pri­meiro pela gruta. Os rapazes e as duas raparigas acenderam a vela do deus da gruta e sentaram-se à sua volta num círculo apertado por causa do frio. Charlie tinha um copo de vinho na mão e a garrafa, meio cheia, estava no chão ao lado dele. Todos olhavam para a chama da vela: os rapazes, conscientes de que a estatueta era umsímbolo de Neil, que a trouxera para a gruta.

- Knox - disse Chris -, tenho de ir para casa. O Chet pode telefonar.

- Só mais um bocadinho - pediu Knox, apertando a mão dela na dele. - Tu prometeste.

- És tão irritante! - disse Chris com um sorriso.

- Onde está o Cameron? - perguntou Meeks.

- Não sei nem me interessa - respondeu Charlie, bebendo um gole de vinho.

Surpreendendo todos, Todd levantou-se e desatou aos murros às paredes.

- Da próxima vez que vir o pai do Neil, parto-lhe a cara! - gritava.- Não me interessa!

- Não sejas estúpido! - disse Pitts.

Todd continuou a andar de um lado para o outro. De repente, a cara de Keating apareceu à entrada da gruta, iluminada pelo luar.

- Professor Keating! - exclamaram os rapazes.

À pressa, Charlie escondeu a garrafa e o copo que tinha na mão.

- Bem me parecia que os ia encontrar aqui - disse Keating. - Então, nada de ficarmos macambúzios! O Neil não ia gostar de nos ver assim.

- Porque é que não fazemos uma reunião em honra dele? - sugeriu Charlie. - Capitão, importa-se de começar?

Os outros apoiaram a ideia, mas Keating hesitou:

- Não sei, rapazes...

- Por favor, professor, não diga que não - pediu Meeks.

Keating olhou em redor para as expressões suplicantes dos seus alunos.

- Está bem, mas tem de ser uma reunião curta - fez uma pausa e depois acrescentou: - «Fui para os bosques porque queria viver plenamente e sugar o tutano da vida! Paraaniquilar tudo o que não era vida. E para, quando morrer, não descobrir que não vivi.» - Outra pausa e depois: - De e.e. cummings:

mergulha pelos sonhos

ou um lema poâe abater-te

(árvores são as suas raízes

e vento é vento)

confia no teu coração

nem que os mares se incendeiem

(e vive pelo amor

mesmo que as estrelas girem ao contrário)

honra o passado

mas abraça o futuro

(e dança neste casamento

para espantares a tua morte)

não te importes com o mundo

os seus heróis ou vilões

(porque deus gosta de raparigas

do amanhã e da terra)

Keating parou, olhou em volta e perguntou:

- E agora? Quem mais quer ler? - Ninguém respondeu. - Vá lá, não estejam envergonhados!

- Eu quero ler uma coisa - disse Todd.

- O que tens andado a escrever? - perguntou Charlie.

- Sim.

Estavam todos surpreendidos por Todd se ter oferecido. Todd tirouuns pedaços de papel do bolso e distribuiu-os pelos outros:

- Cada vez que eu fizer uma pausa, leiam isso. -Depois, desdobrou uma folha e começou a ler:

Sonhamos com o amanhã mas esse dia não chega; Sonhamos com a glória que de facto não queremos. Sonhamos com um novo dia quando já amanheceu. Fugimos da batalha que sabemos ter de travar.

Todd parou e fez sinal aos outros, que leram: «E ainda assimdormimos». Todd continuou:

Esperamos o chamamento mas não estamos atentos, Esperamos um futuro que não passa de planos. Sonhando com oconhecimento que cada dia evitamos, Rezamos por um salvador quando a redenção está nas nossas mãos.

E ainda assim dormimos.

E ainda assim dormimos. E ainda assim rezamos. E ainda assim tememos...

Fez uma pausa e acrescentou, tristemente: «E ainda assim dormimos». Todd dobrou o poema e todos aplau­diram.

- Incrível! - felicitou-o Meeks.

Feliz, Todd aceitava modestamente os parabéns e as palmadas nas costas dos amigos. Keating sorria, orgulhoso do imensoprogresso do aluno. Arrancando um sincelo arredondado do tecto da gruta, Keating anunciou:

- Na minha mão seguro uma bola de cristal. Nela vejo um futuro brilhante para ToddAnderson.

Todd olhou para ele e, de repente, o aluno abraçou o professor, emocionado. Quando se separaram, Keating virou-se para os outros:

- E agora «O General William Booth entra no céu», de Vachel Lindsay. Quando eu fizer uma pausa vocês dizem em coro: «Está banhado no sangue do Cordeiro?»- Keating começou: - «Audacioso, Booth indica o caminho ao som do tambor...» - e os outrosresponderam:

- «Está banhado no sangue do Cordeiro?» Keating dirigiu-se para fora da gruta, seguido pelos

rapazes e raparigas, continuando a recitar o poema no caminho para casa.

Enquanto, na gruta, se reunia em sua honra, Neil estava sentado no quarto, às escuras. Sentia-se vazio e desprovido da paixão que experimentara nos últimos dias. A sua expressão não mostrava qualquer sentimento e o seu corpo estava entorpecido. Neil sentia-se como uma concha frágil e vazia que o peso da neve não tardaria a esmagar.

Era noite de lua cheia. O céu estava repleto de estrelas e a noite, clara e fria. As árvores estavam cobertas de pingentes de gelo, e os rapazes, Ginny e Chris seguiram Keating para fora da gruta. O frio transformara a floresta num mundo de brilhantes.Em fila, caminhavam atrás de Keating, que continuava a recitar o poema:

- «Os Santos sorriram severos e disseram: "Ei-lo..."»

- «Está banhado no sangue do Cordeiro?» - disseram em coro.

- «Leprosos caminham em fila, assassinos abando­nam as trincheiras húmidas, emergem dos becospegas e viciados, /Mentes dominadas ainda pelas paixões, almas fracas...»

- «Está banhado no sangue do Cordeiro?» - repetiram.

Enquanto o Clube atravessava o silêncio da floresta, uma calma ameaçadora invadiu a casa da família Perry. O senhor e a senhora Perry estavam já deitados e não ou­viram nada quando a porta de outro quarto se abriu. Neil saiu para o corredor e, com cuidado para não acordar os pais, desceu as escadas.

O escritório do senhor Perry estava iluminado pelo luar. Neil foi até à secretária, abriu a primeira gaveta, procurou o que sabia estar no fundo e encontrou: uma chave. Com ela abriu a última gaveta e sentou-se à secretária, onde estava ainda a coroa de flores que usara para a personagem de Puck. Neil pegou na coroa e pô-la na cabeça.

O grupo parou a admirar a cascata que se tinha congelado, formandouma escultura que parecia desafiar as leis da gravidade. O céu estava incrivelmente claro. O luar, reflectido na neve, espalhava um estranho reflexo azulado sobre o grupo. Keating continuou o poema:

Cristo apareceu, com um manto e uma coroa,

Ao soldado Booth; a multidão ajoelhou-se.

Ele viu Jesus, o Rei. Estiveram cara a cara,

E ele ajoelhou-se chorando, naquele lugar sagrado.

- «Está banhado no sangue do Cordeiro?» - repetiram uma vez mais.

O luar e a mística catarata juntaram-se à magia da poesia, e o grupo começou a dançar e brincar na neve, criando uma atmosfera verdadeiramente festiva.

Knox e Chris, abraçados, afastaram-se um pouco do resto do grupo e beijaram-se, um beijo suave e quente debaixoda Lua de gelo.

O senhor e a senhora Perry foram acordados por um som curto e rápido que quebrou o silêncio da noite.

- O que foi aquilo? - perguntou o senhor Perry, sentando-se na cama.

- Aquilo o quê? - disse a esposa, ainda meiaadormecida.

- Aquele barulho. Não ouviste?

- Que barulho?

O senhor Perry levantou-se e foi até ao corredor, que percorreu de uma ponta a outra, entrando por fim no quarto de Neil, de onde saiu a correr para as escadas. A senhora Perry, tentando vestir o robe, seguiu o marido até ao andar debaixo.

O senhor Perry entrou no escritório e acendeu a luz. Olhou em redor. Tudo parecianormal, mas, no momento em que se preparava para voltar a sair, viu um objecto escuro e brilhante no chão, ao lado da secretária - o seu revólver. Em pânico, dirigiu-se à secretária e viu a mão branca e imóvel. Desesperado, levou as mãos à boca.

Neil estava no chão, banhado em sangue. O senhor Perry ajoelhou-se ao lado do filho eabraçou-o. A senhora Perry soltou um grito de dor.

- Não! - gritou o senhor Perry. - Não!

Keating e os rapazes foram levar Chris e Ginny a casa e voltaram a Welton já o dia estava a nascer.

- Estou exausto, esgotado - disse Todd, entrando no quarto. - Vou dormir até ao meio-dia.

Mas, poucas horas depois, Charlie, Knox e Meeks entraram no quarto de Todd. Estavam pálidos. Olharam para Todd, que ressonava baixinho.

- Todd, Todd. - Charlie abanou-o devagarinho para o acordar.

Todd abriu os olhos e sentou-se na cama com cara de sono. Demorou algum tempo a habituar-se à luz, voltou afechar os olhos e encostou-se para trás. Depois, estendendo o braço, pegou no relógio e, vendo as horas, fez uma careta:

- São só oito horas - disse, voltando a deitar-se e tapando a cabeça com os cobertores.

Mas, sentindo que alguma coisa estava mal, Todd afastou os cobertores e sentou-se, de olhos bem abertos. Os amigos continuavam ali, de pé, à sua frente.

- Todd, o Neil morreu. Suicidou-se com o revólver dopai - disse o Charlie.

Todd sentiu a cabeça a andar à roda:

- Não, meu Deus! Neil! Não! - gritou Todd e,saltando da cama, saiu a correr em direcção às casas de banho, onde se ajoelhou no chão e vomitou e vomitou até parecer queestava a vomitar o próprio estômago. Os amigos esperaram por ele, impotentes.

Todd saiu da casa de banho, limpando a boca. Lágrimas corriam-lhe livremente pela cara.

- Têm de saber que foi o pai dele! - exclamou, começando a andar de um lado para o outro, como um louco. - O Neil nunca faria uma coisa assim! Ele amava a vida!

- Não estás a dizer que o pai dele... - disse Knox.

- Não, fisicamente não, claro! - gritou Todd. - Mas mesmo que o sacana não tenha premido o gatilho, foi ele que... - Os soluços de Todd abafaram as palavras até que, por fim, se conseguiu controlar. - Mesmo que não tenha sido ele a disparar, foi o pai do Neil que o matou. Toda a gente tem de ficar a saber!

Todd fugiu dos outros a correr, mas não conseguiu chegar à porta. Encostando-se à parede e dizendo o nome de Neil uma e outra vez, deixou-se escorregar até ao chão, a chorar. Os outros acharam por bem deixá-lo chorar o desgosto sozinho e saíram.

Sem saber que os rapazes já estavam ao corrente, Keating estavasentado à secretária na sala de aula vazia, lutando por controlar o que sentia. Levantando-se, dirigiu-se devagar para a carteira de Neil. Pegou num dos livros, o que ele próprio dera a Neil, a muito usada antologia, e ao abri-lo os olhos fixaram-se na inscrição que ele próprio fizera, anos atrás: «Poetas Mortos». Incapaz de controlar a emoção, Keating deixou-se cair na cadeira de Neil e, escondendo a cabeça nos braços, deixou escapar um soluço de angústia e dor.

O dia seguinte amanheceu frio e sombrio, um dia lúgubre de Inverno. O vento soprava em rajadas fortes que vergastavam a procissão liderada pelo triste lamento da gaita-de-foles.

Neil foi sepultado na cidade de Welton. Os Poetas Mortos levavam o caixão aos ombros. A mãe de Neil, de rosto coberto por um véu preto, observava a procissão ao lado do marido, ambos atordoados pela dor. Nolan, Keating e outros professores e alunos assistiam solene­mente.

Depois do funeral, a escola inteira reuniu-se na capela. Os professores, incluindo Keating, permaneceram de pé, ao longo das paredes. Foi cantado um hino antes de o capelão se dirigir aos presentes.

- Deus Todo-Poderoso, concede-nos a graça de confiarmos à Tua infinita misericórdia o nosso querido Neil Perry. Abençoa-o e protege-o. Faz com que a luz do Teu semblante pouse sobre ele e sê piedoso com ele. Levanta até ele o Teu olhar e dá-lhe paz, agora e para sempre. Ámen.

- Ámen.

Nolan substituiu o capelão no pódio e disse:

- Meus senhores, a morte de Neil Perry é uma tragédia. Era um aluno brilhante, um dos melhores de Wel­ton, e sentiremos a sua falta. Contactámos os vossos pais e explicámos a situação. Todos me comunicaram o seu pesar. A pedido da família de Neil, esta questão será convenientemente investigada. Esperamos de vós completa cooperação.

A assembleia terminou e, em silêncio, os rapazes saíram em fila da capela. Charlie, Todd, Knox, Pitts, Meeks e Cameron saíram juntos, mas depois separaram-se, cada um para seu lado.

Mais tarde, todos menos Meeks e Cameron estavam reunidos na arrecadação, na cave do dormitório. Meeksbateu à porta e entrou.

- Não o consigo encontrar - Meeks abanou a cabeça.

- Disseste-lhe que nos íamos encontrar aqui? -perguntou Charlie.

- Disse. Duas vezes.

- Pronto. Lindo! - Charlie levantou os braços,fatídico. Foi até à janela e olhou para o outro lado do relvado, para o edifício administrativo. Voltou-se e olhou para os amigos: - Pronto, estamos feitos.

- Porquê? - perguntou Pitts.

- O Cameron é um delator! E está neste precisomomento no gabinete do Nolan a bufar tudo!

- Tudo o quê?

- O Clube, Pitts! Pensa um bocadinho! - Os outros continuavam sem perceber. - Eles precisam de um bode expiatório - continuou Charlie. - Isto é o tipo de coisa que pode arruinar uma escola.

Os rapazes entreolharam-se. Do outro lado da porta ouviram um barulho, e Knox foi espreitar. Viu Cameron e chamou-o.

Cameron olhou para ele e hesitou, mas acabou por se juntar aos outros na arrecadação. Knox fechou aporta e todos olharam para Cameron.

- O que é que se passa, rapazes? - perguntou Cameron, inocentemente.

- Contaste tudo, não foi, Cameron? - disse Char­lie agarrando-o pelo colarinho.

- Vai para o inferno, Charlie! Não sei de que é que estás para aí a falar!

- O que eu estou para aqui a falar é que acabaste de ir contar ao Nolan tudo sobre o Clube, isso é oque eu estou para aqui a falar! - gritou Charlie.

- Não sei se sabes, Dalton, mas nesta escola existe uma coisa chamada código de honra. Se umprofessor te faz uma pergunta, respondes com a verdade ou és expulso.

Charlie lançou-se mais uma vez sobre Cameron:

- Meu grandessíssimo...

Meeks e Knox conseguiram agarrá-lo a tempo.

- Charlie... - disse Knox.

- O tipo é um bufo! - gritou Charlie. - Está implicado até à ponta dos cabelos e então decidiu bufar para salvar apele!

- Não lhe toques, Charlie. Bates-lhe e então é que és mesmo expulso - avisou Knox.

- De qualquer maneira vou ser expulso - disse Charlie, sacudindo os outros.

- Lá isso é verdade. E vocês, se forem espertos, fazem Exatamente o que eu fiz e cooperam com o Nolan. De qualquer maneira, não nos querem a nós. Nós somos vítimas. Nós e o Neil.

- O que é que isso quer dizer? - perguntou Char­lie. - Quem é que eles querem?

- O Keating, claro. O «Capitão» em pessoa. Não pensaste que ele podiarealmente evitar ser responsabilizado, pois não?

- Pelo Neil? O Keating responsável pelo queaconteceu ao Neil? É isso que andam a dizer? - Charlie conseguiu que Knox e Meeks o largassem.

- Quem é que havia de ser? - disse Cameron. - A administração? O pai dele? Foi o Keating que nos fez fazer tudo, não foi? Se não fosse ele, o Neil estaria agora confortavelmente sentado à secretária a estudarQuímica e a sonhar com o seu futuro de médico.

- Isso é mentira! - gritou Todd. - Keating nunca nos disse o que fazer. Neil adorava representar!

- Acredita no que quiseres. - Cameron encolheu os ombros. - Cá para mim, deixem o Keating levar com a culpa. É ele ou nós.

- Meu sacana! - Charlie lançou-se para Cameron e deu-lhe um soco. Cameron caiu e começou a deitar sangue do nariz.

- Charlie! - lamentou-se Knox.

Cameron levantou os olhos, esfregou a cara, com um esgar malicioso, e disse:

- Acabaste de assinar os papéis de expulsão, Nu-wanda.

Charlie virou-lhe as costas e saiu da arrecadação. Os outros seguiram-no.

Cameron ficou sozinho, deitado no chão.

- Se forem espertos, fazem como eu! - gritou. - De qualquer maneira, eles já sabem tudo. O Keating não podem salvar, mas podem salvar-se vocês!

Todd estava sentado à janela, a olhar para o edifício administrativo do outro lado do relvado, e viu Meeks sair acompanhado do Dr. Hager. No quarto que tinham partilhado, a cama de Neil estava desfeita e a secretária vazia.

Alguns minutos depois, Todd foi até à porta e esprei­tou para o corredor para ver os dois entrarem nodormi­tório. Meeks atravessou silenciosamente o átrio e o Dr. Hager ficou a observá-lo até ele entrar no respectivo quarto.

Meeks passou por Todd sem sequer olhar para ele, mas Todd viu que estava a chorar. Assim que Meeks fechou a porta do quarto, o Dr. Hager chamou, impaciente:

- Knox Overstreet!

Knox saiu do quarto e foi ter com Hager. Juntos, atravessaram o relvado e entraram no edifício do gabinete de Nolan.

Todd esperou uns minutos e foi até ao quarto de Meeks. Bateu à porta e disse:

- Meeks, é o Todd.

- Vai-te embora! - foi a resposta. - Tenho deestudar.

Todd percebeu o que tinha acontecido.

- O que é que aconteceu ao Nuwanda? - quis saber. Do outro lado, veio a resposta:

- Expulso.

Todd estava aturdido.

- O que é que tu lhes disseste? - perguntou.

- Nada que eles ainda não soubessem.

Todd voltou ao quarto e olhou pela janela para ver Knox e o Dr. Hager a voltarem para o dormitório. Mais uma vez, Todd foi espreitar. Knox e o Dr. Hager apareceram no átrio. O queixo de Knox tremia e ele estava prestes a chorar. O rapaz entrou no quarto dele e fechou a porta devagarinho.

Então, Todd ouviu o próprio nome:

- Todd Anderson!

Todd respirou fundo e olhou para o tecto. Abriu a porta e foi ter com o professor.

O Dr. Hager arrastava os pés e estava visivelmente ofegante de tanto andar de um lado para o outro. Parou um segundo à porta do edifício administrativo para recuperar o fôlego e entrou.

Todd seguiu-o pela escadaria que levava ao gabinete do Reitor, sentindo-se como se fosse a caminho da morte.

Nolan estava sentado à secretária e Todd ficou surpreendido por ver os pais também sentados no gabinete.

- Pai, mãe - cumprimentou.

- Sente-se, Anderson - ordenou Nolan.

Todd sentou-se na cadeira vazia, em frente a Nolan, e fitou os pais, cujo olhar, frio e lúgubre, estava cravadonele. Todd começou a transpirar.

- Anderson, parece-me que já juntámos todas aspeças deste puzzle. Admite pertencer a este Clube dosPoetas Mortos?- perguntou Nolan.

Todd olhou para os pais e para Nolan e fechou os olhos. Antes que pudesse acenar que sim com a cabeça, ouviu a voz dura do pai:

- Responde à pergunta!                     .

- Sim - disse Todd baixinho.                        

- Sim, senhor Reitor - repetiu Todd, ligeiramente mais alto que da primeira vez.

Nolan olhou para Todd e depois para os pais dele. Pegou numa folha de papel e disse:

- Tenho aqui uma descrição completa do que se passava nas reuniões desse clube. Diz aqui como o vosso professor Keating vos encorajou a criar o clube e a usá-lo como fonte de inspiração para comportamentos ir­responsáveis eexcessivos. Está aqui também a maneira como Keating, tanto na sala de aula como fora dela, encorajou Neil Perry a seguir a obsessão de se tornar actor, sabendo perfeitamente que tal ia contraas ordens do se­nhor Perry. Foi o inegável abuso de poder da parte de Keating que levou Neil ao suicídio. - Nolan estendeu o papel a Todd e acrescentou: - Lê o documento com cui­dado, Todd. E, se nãotens nada a acrescentar ou a emendar, assina-o.

Todd pegou no papel e leu-o com cuidado, demorando bastante. Quando terminou, tinha as mãos a tremer. Gaguejando, conseguiu perguntar:

- O... q... que... é quev... vaia... ac... acontecerão p... prof... professor Keating?

O senhor Anderson levantou-se e, agarrando-lhe no pulso, abanou-o:                                                   

- O que é que isso te importa?

- Não tem importância, senhor Anderson, sente-se. Quero que ele saiba.- E voltando-se para Todd: - Não temos ainda a certeza se o professor Keating violou al­guma lei. Se for o caso, será levado a tribunal. O que nós podemos fazer, e as vossas assinaturas ajudarão agarantir, é que o professor Keating não volte a ensinar nunca maisais?- repetiu Todd. Impaciente, o pai de Todd levantou-se uma vez mais

e aproximou-se dele:

-Já chega! - gritou. - Assina o papel, Todd!

- Por favor, querido - disse a senhora Anderson, sem se levantar. - Faz isso por nós.

- Mas... ele vive para ensinar! É a vida dele! -gritou Todd.

- Isso a ti não te importa! - ripostou o pai, cada vez mais impaciente.

- E o pai? O que é que isso lhe importa? - gritou Todd. - Ele sim, importa-se comigo! O pai nunca quis saber de mim!

O senhor Anderson ficou lívido:

- Assina o papel, Todd - ordenou. Todd abanou a cabeça:

- Não. Não assino!

- Todd! - gritou a mãe.

- Nada disto é verdade. Não assino!

O senhor Anderson agarrou na caneta e tentou fazer com que Todd pegasse nela. Nolan levantou-se.

- Não faz mal. Ele que sofra as consequências. - Deu a volta à secretária e veio pôr-se em frente de Todd. - Acha que pode salvar o professor Keating? - perguntou-lhe. - Viu que tenho as assinaturas dos outros. Mas, se não assina, será castigado: durante o resto do ano, trabalhará à tarde depois das aulas e todos os fins-de-semana. E, se põe um pé fora do campus, é imediata­mente expulso.

Os pais de Todd olharam para ele, à espera que mudasse de ideias.

- Não assino - disse Todd, baixinho mas com convicção,

Então, depois das aulas venha ter comigo - disse Nolan. - Agora,saia.

Todd levantou-se e saiu do gabinete. Nolan olhou para os pais dele.                                                

- Pedimos desculpa, senhor Reitor - disse o senhor Anderson. - Sinto que, de alguma forma, aculpa disto é nossa.

- Nunca o devíamos ter mandado para esta escola - disse a senhora Anderson, de olhos postos no chão.

- Não, não - respondeu Nolan. - Os rapazes da idade dele são muito impressionáveis. Nós tratamos dele.

No dia seguinte, o professor de Latim seguia à frente de um grupo de alunos que, em fila, caminhavam pelorelvado coberto de neve recitando as declinações verbais. McAllister parou um momento a olhar para o andar das residências dos docentes e viu Keating à janela. Os professores olharam um para o outro durante um breve segundo, McAllister suspirou e continuou a andar com osrapazes.

Keating afastou-se da janela e começou a tirar da pra­teleira os seus adorados livros de poesia, Whitman, Byron, Wordsworth. Depois, com um suspiro de resignação, voltou a pô-los no lugar. Fechou a mala, olhou uma última vez para o seu minúsculo quarto e saiu.

Nessa mesma altura, os rapazes estavam na aula de Inglês. Todd estava todo encolhido, de olhar no chão, tal como no início do ano. Knox, Pitts e Meeks, humilhados, evitavam o olhar dos colegas. Os antigos iniciados d sentiam-se demasiado envergonhados para olharem uns para os outros sequer. Cameron era oúnico que parecia normal, sentado a ler como se nada tivesse acontecido.

Na sala, o que mais chamava a atenção era a ausência das carteiras que haviam pertencido a Neil e a Charlie.

De repente, a porta abriu-se e Nolan entrou. Os rapazes levantaram-se. Nolan sentou-se à secretária do professor e os rapazes sentaram-se outra vez.

- A partir de agora, e até aos exames, darei eu as aulas de Inglês - anunciou Nolan à classe. - Um professor permanente será procurado durante as férias. E agora... quem é que me podedizer até onde tinham chegado no livro de Pritchard?

Nolan olhou para classe. Ninguém disse nada.

- Anderson?

- O... livro... de Pritchard... - repetiu Todd, bai­xinho, e começou a remexer entre os outros livros, nervoso.

- Não ouço nada do que está a dizer, Anderson - repreendeu Nolan.

- Acho... acho que... estávamos... - continuou Todd no mesmotom.

- Cameron - disse Nolan, exasperado -, se não se importa...

- Passámos muitas coisas, senhor Reitor. Demos os românticos e alguns dos capítulos sobre a literatura do período a seguir à Guerra Civil.

- E os realistas? - perguntou Nolan.

- Acho que esses não demos - disse Cameron. Nolan olhou fixamente para Cameron e depoispara

o resto da turma:

- Está bem. Então começamos do princípio. O que é a poesia? - E esperou que respondessem. Ninguém disse nada.

De repente, a porta abriu-se e Keating entrou.

- Vim buscar as minhas coisas - explicou a Nolan. - É melhor esperar que acabe aaula?

- Arrume as suas coisas, Keating - respondeu No­lan, irritado. - Meus senhores -disse para os alunos -, abram o livro na página . Cameron, faça o favor de ler a excelente introdução do Dr. Pritchard sobre como perceber poesia.

- Senhor Reitor, essa página foi arrancada – disse Cameron.

- Então peça o livro a alguém - disse Nolan, quase a perder a paciência.

- Todos os livros têm as páginas arrancadas, senhor Reitor.

Nolan olhou para Keating.

- Como assim, todas arrancadas?

- Senhor Reitor, nós... - começou Cameron.

- Deixe estar, Cameron - interrompeu Nolan. Eestendendo o seu livro a Cameron, ordenou: - Leia!Perceber poesia" do Prof. Dr. J.Evan Pritchard. De modo a perceber poesia completamente temos, primeiro, de estar perfeitamente familiarizados com o me­tro, a rima e as figuras de estilo utilizadas e, segundo, fazer as seguintes perguntas: ) o objectivo do poema foi bem ou mal transmitido...»

Enquanto Cameron lia, Keating permanecia de pé, ao lado do armário no canto da sala, a olhar para os seus antigos alunos. Todd tinha os olhos cheios de lágrimas. Viu Knox, Pitts, Meeks... demasiado envergonhados para olharem para ele, mas, mesmo assim, comovidos. Suspirou. Que irónico Nolan ter escolhido Exatamente aquele texto para ser lido quando ele entrou na sala! Acabou dearrumar as suas coisas e dirigiu-se para a porta. Quando Keating estava ao pé da porta, Todd saltou

da cadeira.

- Professor Keating! - gritou, interrompendo aleitura de Cameron. - Eles obrigaram toda a gente a assinar!

Nolan levantou-se, zangado, e ordenou a Todd que se calasse imediatamente. - Éverdade - continuou o rapaz. - Tem de acre­ditar em mim!

- Eu acredito, Todd - disse Keating. Nolan estava furioso:

- Saia imediatamente, Keating!

- Mas a culpa não foi dele! - continuou Todd. Nolan foi até à carteira de Todd e obrigou-o a sentar-se.

- Sente-se, Anderson! - gritou. - E não torne a abrir a boca! - E, voltando-se para o resto da classe: - O mesmo vale para todos: o próximo que abrir a boca é expulso! - Nolan voltou-se para Keating, que se tinha aproximado de Todd, como se o quisesse ajudar - Saia, Keating! Já!

Os rapazes olharam para Keating, que os fitou com atenção uma última vez, como a querer fixar na memória o semblante de cada um dos seus alunos. Depois, voltou-se e dirigiu-se para a porta.

- Capitão! Meu Capitão! - chamou Todd em voz alta.

Keating voltou-se e olhou para ele. A turma inteira olhou para Todd, que se levantou e subiu para cima da carteira. Lutando contra as lágrimas, Todd olhou para Keating.

- Sente-se imediatamente, Anderson! - gritou No­lan.

Quando o Reitor se preparava para puxar Todd à força para o chão, Knox, do outro lado da sala, repetiu o nome do professor e subiu para cima da carteira. Nolan dirigiu-se para Knox. Meeks, fazendo apelo a toda a sua coragem, subiu também para cima da carteira. Pitts fez o mesmo. E, um a um, outros rapazes seguiram-lhes o exemplo e subiram para cima das mesas, em silencioso reconhecimento.

Nolan desistiu de tentar controlar os rapazes e ficou a olhar, estupefacto, para a impressionante homenagem ao antigo professor de Inglês.

Keating, à porta da sala, dominado pela emoção, disse:

- Obrigado, rapazes... Eu... Muito obrigado.

Keating olhou para Todd e depois para cada um dos Poetas Mortos. Com um breve aceno de cabeça, Keating saiu, deixando os alunos de pé nas mesas, homenageando-o em silêncio.

 

                                                                                N.H. Kleinbaum  

 

                      

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