Translate to English Translate to Spanish Translate to French Translate to German Translate to Italian Translate to Russian Translate to Chinese Translate to Japanese

  

 

Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


O Clube Mefisto / Tess Gerritsen
O Clube Mefisto / Tess Gerritsen

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

O Clube Mefisto

 

PECCAVI

A palavra latina foi inscrita com sangue na cena de um crime particularmente macabro: "Pequei". A expressão, mais sinistra ainda nessa solitária noite de Natal, parece uma forma de saudação perversa à médica-legista de Boston, Maura Isles, e à detective Jane Rizzoli. Ambas estabelecem rapidamente uma ligação entre o assassínio da jovem que ali jaz e a psiquiatra Joyce O'Donnell, uma celebridade muito controversa que é também uma adversária de Maura e que faz parte de uma sociedade secreta denominada o Clube Mefisto.

Os membros desse clube dedicam-se à análise do mal. Será ele explicável pela ciência? E terá uma presença física? Andarão os demónios pelos caminhos da Terra? Baseando-se numa imensidão de factos históricos e numa misteriosa simbologia religiosa, os investigadores do Clube Mefisto procuram demonstrar uma teoria inquietante: Satanás e os seus demónios estão, de facto, entre nós.

Mas então o aparecimento de mais um cadáver, desta vez junto à casa onde se reúne o Clube Mefisto, vem evidenciar que alguém ou alguma coisa anda realmente pela cidade em busca de novas vítimas. Os membros do clube começam a recear o próprio tema das suas investigações. Terão eles inadvertidamente invocado uma qualquer entidade das sombras?

Maura e Jane são assim arrastadas para uma terrível viagem ao âmago do mal. Onde irão enfrentar um inimigo bem mais perigoso do que todos aqueles que já alguma vez perseguiram. Um inimigo cuja tarefa apenas se iniciou...

 

Pareciam a família perfeita.

Era isso que o rapaz pensava enquanto se encontrava de pé ao lado da cova aberta do pai e ouvia o pastor contratado ler banalidades da Bíblia. Somente um pequeno grupo se reunira nesse dia de Junho quente e infestado de insectos para assistir ao enterro de Montague Saul, não mais do que uma dúzia de pessoas, muitas das quais o rapaz nunca vira antes. Nos últimos seis meses estivera longe, no colégio interno, e agora estava a ver algumas dessas pessoas pela primeira vez. A maior parte delas não lhe interessava minimamente.

Mas a família do seu tio, essa sim, interessava-lhe muito. Valia a pena examiná-la.

O Dr. Peter Saul parecia-se muito com o seu falecido irmão, Montague, magro e cerebral nos seus óculos de lentes grossas que lhe davam um ar de mocho, cabelo castanho a rarear para uma inevitável calvície. A sua mulher, Amy, tinha um rosto redondo e terno, e continuava a lançar olhares preocupados ao seu sobrinho de quinze anos, como se ansiasse por envolvê-lo nos seus braços e abafá-lo com um abraço. O filho deles, Teddy, tinha dez anos, e era todo ele magricelas. Um pequeno clone de Peter Saul, até mesmo nos óculos de lentes grossas.

Finalmente havia a filha, Lily. De dezasseis anos.

Madeixas do seu cabelo tinham-se soltado do rabo-de-cavalo e agora pegavam-se-lhe à cara com o calor. Parecia desconfortável no seu vestido preto, e continuava a mexer-se impetuosamente para trás e para a frente, como se se preparasse para fugir dali. Como se preferisse estar em qualquer lugar menos neste cemitério, afastando o zumbido dos insectos.

Parecem tão normais, tão vulgares, pensou o rapaz. Tão diferentes de mim. Então, de repente, o olhar de Lily cruzou-se com o seu, e ele sentiu um frémito de surpresa. De mútuo reconhecimento. Nesse instante, quase conseguia sentir o olhar dela a penetrar nas mais obscuras fissuras do seu cérebro, examinando todos os lugares secretos que nunca ninguém vira. Que ele nunca deixara que vissem.

Inquieto, desviou o seu olhar. Focando-o, em vez dela, nas outras pessoas que se encontravam à volta da sepultura: a governanta do seu pai, o advogado, os dois vizinhos do lado. Meros conhecimentos que estavam ali somente por uma questão de conveniência social, e não por estima. Conheciam Montague Saul apenas como o tranquilo erudito que regressara recentemente de Chipre, que passara a vida preocupado só com livros, mapas e pequenas peças de cerâmica. Não conheciam realmente o ser humano. Tal como não conheciam realmente o filho dele.

Por fim, o serviço fúnebre terminou e o grupo avançou para o rapaz. Como uma amiba preparando-se para o ingerir com a sua compaixão, para lhe dizer como lamentavam que ele tivesse perdido o pai. E tão pouco tempo depois de ter regressado aos Estados Unidos.

- Pelo menos tens aqui família para te ajudar - disse-lhe o pastor. Família? Sim, suponho que estas pessoas são a minha família, pensou o rapaz, enquanto o pequeno Teddy se aproximava timidamente, empurrado pela mãe.

- Agora vais ser o meu irmão - disse Teddy. -Vou?

- A mãe preparou o teu quarto. É mesmo ao lado do meu.

- Mas eu estou a morar aqui. Na casa do meu pai. Perplexo, Teddy olhou para a mãe.

- Ele não vem connosco para a nossa casa? Amy Saul atalhou.

- Não podes viver sozinho, querido. Só tens quinze anos. Talvez gostasses igualmente de Purity, vais gostar de ficar connosco.

- A minha escola é no Connecticut.

- Sim, mas o ano escolar acabou. Em Setembro, se quiseres regressar ao teu colégio, claro que podes fazê-lo. Mas durante o Verão virás para nossa casa.

- Eu não ficarei sozinho aqui. A minha mãe virá ter comigo.

Fez-se um longo silêncio. Amy e Peter olharam um para o outro, e o rapaz conseguiu perceber o que eles estavam a pensar. A mãe dele abandonou-o há muito tempo.

- Ela vem ter comigo - insistiu. O tio Peter disse suavemente.

- Falamos disso depois, filho.

À noite, o rapaz ficou acordado na cama, na casa do seu pai na cidade, ouvindo as vozes dos seus tios murmurando lá em baixo, no escritório.

O mesmo escritório em que Montague Saul tinha trabalhado nestes últimos meses na tradução dos seus frágeis fragmentos de papiro. O mesmo escritório onde, há cinco anos, sofrera uma apoplexia, desabando sobre a sua secretária. Estas pessoas não deviam estar ali, entre as preciosidades do seu pai. Eram invasores da sua casa.

- Ele não passa de um rapazinho, Peter. Precisa de uma família.

- Não podemos propriamente arrastá-lo para Purity se não quiser ir connosco.

- Quando se tem apenas quinze anos não temos voto na matéria. São os adultos que têm de tomar decisões.

O rapaz saiu da cama e deslizou para fora do quarto. Rastejou até metade da escada para ouvir a conversa.

- E, na verdade, quantos adultos é que ele conheceu? O teu irmão não era exactamente um bom exemplo disso. Estava tão embrulhado nas ligaduras das suas velhas múmias que provavelmente nunca reparou que tinha uma criança debaixo dos pés.

- Isso é injusto, Amy. O meu irmão era um bom homem.

- Bom, mas tolo. Nem consigo imaginar que tipo de mulher poderia sonhar ter um filho com ele. E depois deixa o filho para o Monty educar? Não consigo compreender que uma mulher fizesse tal coisa.

- O Monty não se saiu assim tão mal na educação dele. O rapaz tem tido notas altas na escola.

- É essa a tua bitola para o que faz um bom pai? O facto de o rapaz ter notas altas?

- Ele é também um homenzinho aprumado. Vê como se portou durante o serviço fúnebre.

- Está entorpecido, Peter. Viste uma única emoção na cara dele, hoje?

- O Monty também era assim.

- Insensível, é isso que queres dizer?

- Não, um intelectual. Um espírito lógico.

- Mas, por baixo de tudo isso, tu sabes bem que este rapaz devia estar a sofrer. Deu-me vontade de chorar, ver quanto ele precisa da mãe neste momento. Ver como ele insiste que ela voltará para estar com ele, quando sabemos que não o fará.

- Não sabemos que será assim.

- Nem sequer chegámos a conhecer essa mulher! O Monty limitou-se a escrever-nos um dia do Cairo para nos comunicar que tinha um filho acabado de nascer. Tanto quanto sabemos, ele apanhou-o no meio dos juncos, como o Moisés em criança.

O rapaz ouviu o chão estalar por cima dele e olhou de relance para o alto das escadas. Ficou espantado por ver a prima, Lily, a olhar para ele por cima do corrimão. Estava a observá-lo, a estudá-lo, como se ele fosse alguma criatura exótica que nunca tivesse visto antes e tentava perceber se era perigosa.

- Ah! - disse a tia Amy. - Estás acordado!

Os tios tinham acabado de sair do escritório e estavam no fundo das escadas, a olhar para ele. Parecendo também um pouco consternados com a eventualidade de ter ouvido por acaso toda a conversa deles.

- Sentes-te bem, querido? - perguntou Amy.

- Sinto, tia.

- É tão tarde. Talvez devesses voltar agora para a cama?

Mas ele não se mexeu. Ficou parado na escada por alguns instantes, perguntando-se como seria viver com esta gente. O que poderia aprender com eles. Isso poderia tornar interessante o Verão, até a mãe vir ter com ele.

- Tia Amy, já tomei uma decisão - disse ele.

- Sobre quê?

- A respeito do meu Verão e onde gostaria de o passar. Ela calculou logo o pior.

- Por favor, não tomes decisões apressadas! Nós temos uma casa realmente muito boa, mesmo junto ao lago, e tu terás um quarto só para ti. Pelo menos vem fazer-nos uma visita antes de decidires o que vais fazer.

- Mas eu já decidi que vou ficar convosco.

A tia calou-se, momentaneamente estupefacta. Depois o seu rosto abriu-se num sorriso e ela subiu os degraus a correr para o abraçar. Cheirava a sabonete Dove e a shampô Breck. Tão comum, tão vulgar. Depois um risonho tio Peter deu-lhe uma palmada afectuosa no ombro, a sua maneira de dar as boas-vindas a um novo filho. A felicidade deles era como um rolo de algodão-doce, arrastando-o para o seu universo, onde tudo era amor, luz e riso.

- Os pequenos vão ficar tão contentes por vires connosco! - disse Amy. Ele olhou de lado para o alto das escadas, mas Lily já não estava lá.

Tinha-se escapulido, sem que ninguém visse. Vou ter de ficar de olho nela, pensou. Porque ela já está de olho em mim.

- Agora fazes parte da nossa família - disse Amy.

Enquanto subiam as escadas juntos, ela estava já a contar-lhe os seus planos para o Verão. Todos os lugares onde o iriam levar, todos os pratos especiais que iriam cozinhar para ele quando chegassem a casa. Ela parecia feliz, mesmo estonteada, como uma mãe com o seu filho recém-nascido.

Amy Saul não fazia ideia do que estavam prestes a levar para casa com eles.

 

Doze anos mais tarde

Talvez isto fosse um erro.

A Dr.a Maura Isles parou antes dos portais da Nossa Senhora da Divina Luz, sem saber se devia entrar. Os paroquianos tinham já entrado e ela ficou sozinha na noite enquanto a neve caía suavemente sobre a sua cabeça descoberta. Através das portas fechadas da igreja ouviu a organista começar a tocar o Adeste Fidelis e compreendeu que nesta altura já estariam todos sentados. Se ia mesmo juntar-se a eles, era esse o momento para entrar.

Hesitou, porque verdadeiramente o seu lugar não era entre os fiéis que estavam dentro dessa igreja. Mas a música chamou-a, tal como a promessa de calor e o consolo de rituais conhecidos. Aqui fora, na rua escura, encontrava-se sozinha. Sozinha na véspera de Natal.

Subiu as escadas, entrando no edifício.

Mesmo a esta hora tardia, os bancos da igreja estavam cheios com as famílias e crianças sonolentas que tinham sido tiradas das camas para a missa do Galo. A chegada atrasada de Maura atraiu diversos olhares e, enquanto os acordes do Adeste Fidelis se desvaneciam, ela deslizou rapidamente para o primeiro lugar vazio que encontrou, perto da entrada. Quase imediatamente a seguir teve de se levantar para acompanhar o resto da assistência quando se iniciou o cântico de entrada. O padre Daniel Brophy aproximou-se do altar e fez o sinal da cruz.

- A graça e a paz de Deus nosso Pai e de Nosso Senhor Jesus Cristo estejam convosco - disse ele.

- E contigo também - murmurou Maura, juntamente com a assistência. Mesmo depois de todos estes anos longe da Igreja, as respostas fluíam naturamente dos seus lábios, aí arraigadas por todos os domingos da sua infância. "Senhor, tem misericórdia de nós. Cristo, tem misericórdia de nós. Senhor, tem misericórdia de nós."

Embora Daniel não se desse conta da presença dela, os olhos de Maura estavam fixados nele. No seu cabelo escuro, nos seus gestos graciosos, na sua boa voz de barítono. Esta noite, podia observá-lo sem vergonha, sem constrangimento. Esta noite podia olhar para ele à vontade.

- "Dá-nos a alegria eterna no reino dos Céus, onde Ele vive e reina contigo e com o Espírito Santo, um só Deus para todo o sempre."

Voltando a sentar-se no banco, Maura ouviu tosses abafadas e o choramingar de crianças cansadas. Velas tremeluziram no altar, numa celebração de luz e de esperança nesta noite de Inverno.

Daniel começou a ler.

- E o anjo disse-lhes, "Não temais: eis aqui vos trago a boa nova de grande alegria, que o será para todo o povo..."

São Lucas, pensou Maura, reconhecendo a passagem desse Evangelho. Lucas, o médico.

- "... e isto vos servirá de sinal: encontrareis uma criança envolta em..."

- Ele calou-se, o seu olhar pousando subitamente em Maura. E ela pensou: Será assim tão surpreendente ver-me aqui esta noite, Daniel?

Ele limpou a garganta, baixou os olhos para as suas anotações e continuou a ler: "Encontrareis uma criança envolta em faixas e deitada numa manjedoura."

Embora soubesse agora que ela se encontrava sentada no meio do seu rebanho, o olhar dele não voltou a cruzar-se com o dela. Não enquanto se cantava o Cantate Domino e o Dios Sanctificatus, não durante o ofertório ou a celebração da Eucaristia. Quando outros à sua volta se levantaram e fizeram fila para receber a comunhão, Maura permaneceu no seu lugar. Se não acreditamos, seria hipocrisia partilhar a hóstia, beber o vinho.

Então o que é que estou afazer aqui?

No entanto, permaneceu ali durante o ritual de conclusão da cerimónia, a bênção e a despedida.

- Ide na paz de Cristo.

- Dêmos graças a Deus - responderam os paroquianos.

Com a missa concluída, as pessoas começam a fazer fila para sair da igreja, abotoando os casacos, calçando as luvas enquanto se dirigiam lentamente para a saída. Maura também se pôs de pé e estava mesmo a entrar no corredor quando viu de relance que Daniel tentava captar a sua atenção, implorando-lhe silenciosamente que não saísse. Ela voltou a sentar-se, reparando nos olhares curiosos das pessoas enquanto passavam pelo seu banco. Ela sabia o que viam ou o que imaginavam que viam: uma mulher sozinha, desejosa de umas palavras de conforto por parte do sacerdote, na véspera de Natal.

Ou veriam mais do que isso?

Não retribuiu os olhares deles. Enquanto a igreja se esvaziava, ficou a olhar em frente, com os olhos fixados estoicamente no altar. Pensando: É tarde e eu devia ir para casa. Não sei que eventual bem me pode fazer se ficar.

- Olá, Maura.

Ergueu os olhos e viu que Daniel a olhava fixamente. A igreja ainda não estava vazia. A organista ainda estava a despachar a sua música envolvente e vários membros do coro estavam ainda a vestir os casacos; todavia, naquele instante, a atenção de Daniel estava tão centrada em Maura que ela podia ser a única outra pessoa ali presente.

- Passou-se muito tempo desde a tua visita - disse ele.

- Creio que sim.

- Foi em Agosto, não foi?

Então tu também tens andado à minha procura. Ele deslizou para o banco ao lado dela.

- Fiquei surpreendido por te ver aqui.

- Afinal de contas é véspera de Natal.

- Mas tu não és crente.

- Continuo a apreciar os rituais. Os cânticos.

- Foi só por isso que vieste? Para entoar alguns hinos? Cantar alguns Améns e Dêmos graças a Deus!

- Eu queria ouvir alguma música. Estar com outras pessoas.

- Não me digas que estás sozinha esta noite. Ela encolheu os ombros e riu-se.

- Tu conheces-me, Daniel. Não sou bem um animal gregário.

- Eu só pensei... Quer dizer, julguei...

- O quê?

- Que estarias com alguém. Sobretudo esta noite. E estou. Estou contigo.

Ficaram os dois em silêncio enquanto a organista atravessava o corredor, transportando o seu saco com as pautas de música.

- Boa noite, Mistress Easton. Obrigado pela sua encantadora actuação.

- Foi um prazer. - A organista lançou um último olhar perspicaz a Maura e depois seguiu em direcção à saída. Eles ouviram a porta a fechar-se e ficaram finalmente sós.

- Então porque é que demoraste tanto?

- Bom, tu sabes como é esta história de ter que lidar com a morte. Nunca pára. Um dos nossos patologistas teve de ser hospitalizado, para fazer uma operação à coluna, há poucas semanas, e nós tivemos de o substituir nessas funções. Tem sido uma azáfama, só isso.

- Podes sempre pegar no telefone e fazer uma chamada.

- Sim, eu sei. - Também ele podia fazer isso mas nunca fez. Daniel Brophy nunca pisaria o risco, e talvez isso fosse bom: ela estava a lutar com uma tentação suficiente para os dois.

- Como é que tens passado? - perguntou ela.

- Soubeste do ataque que teve o padre Roy no mês passado? Eu avancei para o lugar de capelão da polícia.

- A detective Rizzoli contou-me isso.

- Eu estava naquele local do crime em Dorchester, há poucas semanas O agente da polícia que foi morto. Vi-te lá.

- Eu não te vi. Devias ter dito olá, pelo menos.

- Bom, tu estavas muito atarefada. Totalmente concentrada no teu trabalho, como é costume. - Ele sorriu. - Tu consegues parecer tão intensa Maura. Sabias disso?

Ela soltou uma risada.

- Talvez seja esse o meu problema.

- Problema? -Afugento os homens.

- A mim não me afugentaste.

Como é que poderia fazer isso?, pensou ela. O teu coração não está disponível para ser partido. Olhou intencionalmente para o relógio e pôs-se de pé

- É tão tarde e já te tirei tanto tempo.

- Não tenho propriamente nenhum assunto urgente a resolver - disse ele enquanto caminhava ao seu lado para a saída.

- Tens um rebanho inteiro de almas para cuidar. E é véspera de Natal

- Deves ter reparado que eu também não tenho mais nenhum lugar para onde ir esta noite.

Maura parou e virou-se para ele. Ficaram ali sozinhos na igreja respirando os odores das velas e do incenso, cheiros familiares que traziam à memória uma infância de outros Natais e outras missas do Galo. Tempos em que entrar numa igreja não causava nenhuma da agitação que ela agora sentia

- Boa noite, Daniel - disse ela, virando-se para a porta.

- Vão-se passar outros quatro meses até eu voltar a ver-te? - disse ele atrás dela.

- Não faço ideia.

- Tenho sentido a falta das nossas conversas, Maura.

Ela hesitou novamente, com a mão pronta para abrir a porta.

- Eu também senti a falta delas. Talvez por isso não devamos voltar a tê-las.

- Não fizemos nada que nos envergonhe.

- Ainda não - disse ela em voz baixa, com os olhos postos não nele mas na pesada porta trabalhada, que se encontrava entre ela e a fuga.

- Maura, não devemos deixar as coisas assim entre nós. Não há nenhuma razão para não mantermos algum tipo de... - Ele parou de falar.

O telemóvel dela estava a tocar.

Ela tirou-o da bolsa. A esta hora, um telefone a tocar não poderia significar nada de bom. Enquanto atendia a chamada, sentiu os olhos de Daniel postos em si, sentiu a sua própria reacção nervosa com o olhar dele.

- Doutora Isles - disse ela, com uma voz artificialmente fria.

- Feliz Natal - disse a detective Jane Rizzoli. - Fiquei um bocado espantada por ver que não estava ainda em casa. Telefonei para lá primeiro.

- Vim à missa do Galo.

- Xi, já é uma da manhã. Ainda não acabou?

- Sim, Jane. Já acabou e ia agora sair daqui - disse Maura, num tom de voz que cortava cerce mais perguntas. - O que é que tens para mim? - perguntou. Porque já sabia que esta chamada não era para saber como ela estava, mas sim uma convocatória.

- A morada é o dois dez de Prescott Street, East Boston. Uma residência particular. O Frost e eu chegámos aqui há meia hora.

- Pormenores?

- Estamos perante uma vítima, uma mulher nova.

- Homicídio?

- Ah, sim.

- Pareces muito segura.

- Vai ver quando chegar cá.

Desligou e viu que Daniel continuava a observá-la. Mas o momento certo para correr riscos, para dizer coisas de que ambos poderiam vir a arrepender-se, já tinha passado. A morte tinha feito a sua intervenção.

- Tens de ir trabalhar?

- Estou a fazer o turno da noite. - Voltou a meter o telemóvel na bolsa.

- Dado que não tenho família na cidade, ofereci-me.

- E logo nesta noite?

- O facto de ser Natal não faz muita diferença para mim.

Ela abotoou a gola do casaco e saiu do edifício, para a noite lá fora. Ele seguiu-a e enquanto ela caminhava pesadamente através da neve acabada de cair e em direcção ao carro, ficou a vê-la do alto dos degraus, com as suas vestes brancas batidas pelo vento. Olhando de relance para trás, ela viu-o levantar a mão num aceno de despedida.

Ainda acenava quando ela arrancou dali.

 

As luzes azuis de três carros da polícia pulsando através de uma filigrana de neve a cair anunciavam a todos que se aproximavam: alguma coisa aconteceu aqui, algo terrível. Maura sentiu o pára-choques da frente raspar no gelo enquanto apertava o seu Lexus junto da neve acumulada, dando espaço para outros veículos passarem. A esta hora, na véspera de Natal, os únicos veículos que poderiam aparecer nesta rua estreita deviam ser, como o dela, os de membros da comitiva da Morte. Demorou um instante a fortalecer-se contra as exaustivas horas que se seguiriam, com os seus olhos cansados hipnotizados por todas as luzes cintilantes. Sentia os braços e as pernas entorpecidos; a sua circulação de sangue tornou-se mais espessa. Acorda, pensou. Está na hora de ires trabalhar.

Saiu do carro e o súbito golpe de ar frio dissipou o sono do seu cérebro. Caminhou através de neve seca recentemente caída que se afastava sussurrando como penas brancas diante das suas botas. Embora fosse uma e meia da madrugada, havia luzes acesas em várias das modestas casas ao longo da rua, e, através de uma janela decorada com estampas festivas de renas voadoras e bengalas de rebuçado, viu a silhueta de um vizinho curioso a espreitar da sua casa aquecida para uma noite que já não era silenciosa nem santa.

- Olá, Doutora Isles? - chamou um polícia da patrulha, um agente mais velho que ela reconheceu vagamente. Manifestamente, sabia quem ela era. Todos eles sabiam quem ela era. - Como é que conseguiu ter tanta sorte esta noite, ha?

- Podia perguntar-lhe o mesmo, agente.

- Calculo que nós dois tirámos as palhinhas mais curtas. - Soltou uma risada. - Feliz maldito Natal.

-A detective Rizzoli está lá dentro?

- Está sim, ela e o Frost têm estado a filmar tudo em vídeo. -Apontou para uma residência onde todas as luzes estavam acesas, uma casinha rectangular aglomerada numa fila de casas mais antigas e cansadas. - Nesta altura já devem estar prontos para si.

O som de um vómito violento fê-la olhar de relance para a rua, onde uma mulher loura estava dobrada sobre si própria, agarrando o seu casaco comprido para evitar sujar a bainha enquanto vomitava para cima da neve acumulada.

O guarda fungou. Murmurou para Maura.

- Aquela vai dar uma óptima detective de homicídios. Veio passear para o local do crime como se fosse na série Cagney and Lacey. Dando ordens a todos à volta dela. Pois é, uma verdadeira valentona. Depois vai para a casa, dá uma olhada e logo a seguir vemo-la a vomitar na neve. - Riu-se.

- Nunca a tinha visto. É dos Homicídios?

- Ouvi dizer que acabou de ser transferida dos Narcóticos e Costumes. A brilhante ideia do comissário em trazer mais raparigas. - Abanou a cabeça.

- Ela não vai ficar muito tempo. É a minha previsão.

A detective limpou a boca e caminhou, vacilante, para os degraus da entrada, onde se deixou cair.

- Olhe lá, detective - chamou-a o guarda. - Talvez queira afastar-se do local do crime? Se vai vomitar outra vez, pelo menos faça-o onde eles não estão a recolher provas.

Um polícia mais novo, que estava ali ao pé, soltou um riso fininho.

A detective loura pôs-se de pé num salto e, no meio dos seus movimentos rápidos e cintilações brilhantes, as luzes do carro-patrulha realçaram a sua cara envergonhada.

- Acho que me vou sentar no meu carro durante um minuto - murmurou.

- Sim. Faça isso, minha senhora.

Maura ficou a ver a detective a retirar-se para o refúgio do seu veículo. Que horrores é que ela própria estava prestes a enfrentar dentro daquela casa?

- Doutora - chamou-a o detective Barry Frost. Tinha acabado de sair da casa e estava no alpendre, encolhido dentro de um quebra-vento. O seu cabelo louro erguia-se em tufos, como se tivesse acabado de sair da cama. Embora a sua cara tivesse sido sempre macilenta, o brilho amarelo lançado pela luz do alpendre fazia-o parecer mais doentio do que era habitual.

- Deduzo que aí as coisas estejam bastante mal - disse ela.

- Não é o género de coisas que se queira ver no Natal. Achei que era melhor vir até cá fora e apanhar um pouco de ar.

Ela parou no fundo das escadas, reparando na confusão de pegadas que tinham sido deixadas no alpendre coberto de neve. - Posso ir por aqui?

- Pode. Essas pegadas são todas da polícia de Boston.

- E quanto a pegadas que constituam provas?

- Não encontrámos grande coisa aqui fora.

- O quê, ele voou pela janela?

- É como se tivesse varrido as pegadas atrás dele. Ainda pode ver algumas das marcas das varridelas.

Ela franziu o sobrolho.

- Este criminoso está atento aos pormenores.

- Espere até ver o que está lá dentro.

Ela subiu os degraus e calçou as protecções dos sapatos e as luvas. Visto de perto, Frost parecia ainda pior, o seu rosto abatido e pálido. Mas ele respirou fundo e ofereceu-se corajosamente:

- Posso ir consigo lá dentro.

- Não, faça uma pausa aqui fora. A Rizzoli pode mostrar-me o local.

Ele fez um aceno de concordância mas não estava a olhar para ela; tinha os olhos fixos na rua com a intensa concentração de alguém tentando segurar o jantar no estômago. Ela deixou-o entregue à sua batalha e estendeu a mão para o puxador da porta. Estava já preparada para o pior. Poucos momentos antes, chegara ali exausta, tentando manter-se acordada; agora conseguia sentir a tensão a crepitar como estática através dos seus nervos.

Entrou na casa. Parou ali, com o seu pulso acelerado, e olhou para uma cena completamente não alarmante. O vestíbulo tinha um soalho de madeira de carvalho polida. Da entrada podia ver a sala de estar, que se encontrava mobilada com peças díspares: uma cama defuton esparramada, um pufe, uma estante feita com tábuas de contraplacado e blocos de betão. Até aqui, nada que gritasse local do crime. O horror ainda estava para vir: ela sabia que estava à espera nesta casa, porque tinha visto o seu reflexo nos olhos de Barry Frost e na cara pálida da detective.

Atravessou a sala de estar para a sala de jantar, onde viu quatro cadeiras à volta de uma mesa de pinho. Mas não foi na mobília que ela concentrou a sua atenção: foi na maneira como tudo estava disposto na mesa, como se fosse uma refeição em família. Um jantar para quatro.

Um dos pratos tinha um guardanapo de pano dobrado sobre ele, com o tecido salpicado de sangue.

Estendeu a mão cuidadosamente para o guardanapo. Levantando uma das pontas, deu uma olhadela ao que estava por baixo, no prato. Largou imediatamente o guardanapo e deu um passo vacilante para trás, sobressaltada.

- Vejo que encontrou a mão esquerda - disse uma voz. Maura virou-se para trás.

- Pregaste-me um susto.

- Quer ver uma coisa realmente assustadora? - disse a detective Jane Rizzoli. - Então venha comigo. - Virou-se e seguiu pelo corredor à frente de Maura. Tal como Frost, Jane parecia que tinha acabado de sair da cama. As suas calças estavam amarrotadas, o seu cabelo escuro um emaranhado crespo.

Mas, ao contrário do Frost, ela mexia-se destemidamente, com os seus sapatos cobertos por papel a fazer um som sibilante no soalho. De todos os detectives que apareciam regularmente na sala das autópsias, Jane era a única mais propensa a dirigir-se imediatamente para a mesa, a debruçar-se sobre ela para ver mais de perto, e agora não mostrava qualquer hesitação enquanto seguia pelo corredor. Era Maura que se deixava ficar para trás, com o seu olhar atraído pelos pingos de sangue no chão.

- Mantenha-se deste lado - disse Jane. - Descobrimos algumas pegadas indistintas aqui, seguindo nas duas direcções. Um tipo qualquer de sapato desportivo. As pegadas estão já bastante secas mas não quero sujar nada.

- Quem é que deu a notícia?

- Foi uma chamada para o 112. Feita logo após a meia-noite.

- Feita de onde?

- Daqui mesmo. Maura franziu o sobrolho.

- Foi a vítima? Tentou pedir ajuda?

- Não havia nenhuma voz em linha. Alguém marcou apenas o número de emergência e deixou o telefone fora do descanso. O primeiro carro-patrulha chegou aqui dez minutos depois da chamada. Os agentes encontraram a porta destrancada, chegaram ao quarto e passaram-se. - Jane parou junto de uma porta e olhou de relance por cima do ombro para Maura. Um olhar de aviso.

- Aqui está o que nos faz ficar com os cabelos em pé.

A mão amputada já era suficientemente assustadora.

Jane afastou-se para o lado. Deixando Maura olhar para dentro do quarto. Ela não viu a vítima, só viu o sangue. Em média, um corpo humano contém talvez cinco litros de sangue. A mesma quantidade de tinta vermelha, derramada à volta de um pequeno quarto, pode salpicar cada uma das superfícies. O que os seus olhos estupefactos descobriram, quando olhou da entrada do quarto, foi apenas esses salpicos extravagantes, como bandeirolas brilhantes agitadas por mãos impetuosas através de paredes brancas, através dos móveis e da roupa de cama.

- Sangue arterial - disse Rizzoli.

Maura conseguiu apenas fazer um aceno de concordância, silencioso, enquanto o seu olhar seguia os arcos de salpicos, lendo a história de horror escrita a vermelho nessas paredes. Como estudante do quarto ano de Medicina prestando serviço rotativo no serviço de urgência, tinha visto certa vez uma vítima de tiroteio a sangrar na mesa dos traumatizados. Com a pressão sanguínea a descer, o cirurgião de serviço, numa medida desesperada, tinha feito uma laparotomia de emergência, esperando controlar a hemorragia interna. Abrira o abdómen, soltando um jorro de sangue arterial que brotou da aorta dilacerada, salpicando as batas e as caras dos médicos. Nos últimos segundos frenéticos, enquanto aspiravam e ensopavam pensos esterilizados, tudo aquilo em que Maura se conseguia concentrar era no sangue. O seu brilho lustroso, o seu cheiro a carne. Ela estendera a mão para o abdómen aberto a fim de agarrar um retractor e o calor que se entranhara através das mangas da sua bata era tão calmante como um banho. Nesse dia, na sala de operações, Maura tinha visto o alarmante esguicho que até mesmo uma fraca pressão arterial pode gerar.

Agora, enquanto observava as paredes do quarto, era mais uma vez o sangue que detinha a sua atenção, que registava o historial dos últimos segundos de vida da vítima. Quando foi feito o primeiro corte, o coração da vítima ainda batia, ainda gerava uma pressão sanguínea. Ali, por cima da cama, era onde o primeiro salpico abrupto tinha alcançado, fazendo um arco alto na parede. Após algumas palpitações fortes, os arcos começavam a decair. O corpo tentaria compensar a descida da pressão, as artérias contendo-se, o pulso acelerando. Mas a cada batida do coração iria exaurir-se, acelerando a sua própria morte. Quando, por fim, a pressão se desvanecesse e o coração parasse, não haveria mais esguichos, apenas um gotejar tranquilo enquanto o que restava de sangue pingava. Esta era a morte que Maura via registada nestas paredes e nesta cama.

Então o seu olhar subiu, fixado em algo que quase lhe escapara entre todos esses salpicos. Algo que fez os cabelos da sua nuca ficarem subitamente em pé. Numa das paredes, desenhadas com sangue, estavam três cruzes invertidas. E por baixo delas uma série de símbolos crípticos:

- O que é que aquilo significa? - perguntou Maura em voz baixa.

- Não fazemos ideia nenhuma. Temos estado a tentar descobrir. Maura não conseguia tirar os olhos da inscrição. Engoliu em seco.

- Com que raio é que estamos a lidar aqui?

- Espere até ver o que vem a seguir. - Jane deu a volta para o outro lado da cama e apontou para o chão. - A vítima está mesmo aqui. A maior parte dela, de qualquer modo.

Só quando Maura deu a volta à cama é que a mulher ficou à vista. Estava deitada de costas e sem roupas. A sangria tinha exaurido a pele, deixando-a da cor do alabastro, e Maura subitamente lembrou-se da visita que fizera a uma sala do Museu Britânico, onde dúzias de estátuas romanas fragmentadas se encontravam em exposição. A erosão de séculos tinha lascado o mármore, partido cabeças, quebrado braços, até serem pouco mais do que bustos anónimos. Era isso que ela via agora, olhando para o corpo deitado. Uma Vénus quebrada. Sem cabeça.

- Segundo parece, ele matou-a ali, na cama - disse Jane. - Isso explicaria os salpicos nessa parede em especial e todo o sangue que está no colchão. Depois empurrou-a para o chão, talvez porque precisasse de uma superfície firme para acabar de cortar. - Jane respirou fundo e desviou o olhar, como se tivesse chegado subitamente ao limite e não pudesse continuar a olhar para o cadáver.

- Tu disseste que o primeiro carro-patrulha demorou dez minutos a responder a essa chamada para o 112 - disse Maura.

- Exactamente.

- O que foi feito aqui, estas amputações, a remoção da cabeça, isso devia ter demorado mais do que dez minutos.

- Demo-nos conta disso. Não creio que fosse a vítima a fazer essa chamada.

O som de passos fê-las virar a cabeça e viram Barry Frost à porta, parecendo nada desejoso de entrar no quarto. -A equipa forense já chegou - disse ele.

- Diz-lhes para entrarem. - Jane fez uma pausa. - Não pareces nada bem. -Acho que estou bastante bem. Dadas as circunstâncias.

- Como é que está a Kassovitz? Já acabou de vomitar? Dava-nos jeito uma ajuda aqui.

Frost abanou a cabeça.

-Ainda está sentada no carro. Não me parece que o estômago dela esteja preparado para isto. Vou chamar os da polícia científica.

- Diz-lhe para se recompor, por amor de Deus! - gritou-lhe Jane quando Barry se afastou do quarto. - Detesto que uma mulher me deixe desapontada. Dá má fama a todas nós.

O olhar de Maura regressou ao busto no chão. -Encontraste...?

- O resto dela? - disse Jane. - Sim. Já viu a mão esquerda. O braço direito está na banheira. E agora creio que chegou a altura de lhe mostrar a cozinha.

- O que é que está lá?

- Mais surpresas. - Jane começou a atravessar o quarto, em direcção ao corredor.

Virando-se para a seguir, Maura captou um súbito vislumbre de si própria no espelho do quarto. A sua imagem reflectida devolveu-lhe um olhar cansado, o cabelo preto escorrido com a neve derretida. Mas não foi a imagem da sua cara que a fez parar.

- Jane - murmurou. - Olha para isto.

- O quê?

- Aqui no espelho. Os símbolos. - Maura virou a cara e fixou os olhos no que estava escrito na parede. - Estás a ver? É uma imagem invertida! Não são símbolos, são letras, escritas para serem lidas ao espelho.

Jane olhou para a parede e depois para o espelho.

- É uma palavra?

- É. Soletrando-se, lê-se Peccavi. Jane abanou a cabeça.

- Mesmo invertida não me diz nada.

- É latim, Jane.

- Quer dizer o quê?

- Eu pequei.

Por instantes, as duas mulheres ficaram a olhar uma para a outra. Depois Jane largou uma risada súbita.

- Bom, é um assombro de uma confissão para si. Acha que umas Ave-Marias apagam este pecado especial?

- Talvez esta palavra não se refira ao assassino. Talvez tenha só a ver com a vítima. - Ela olhou para Jane. - Eu pequei.

- Castigo - disse Jane. - Vingança.

- É um motivo possível. Ela fez algo que enfureceu o assassino. Pecou contra ele. E isto é a desforra dele.

Jane respirou profundamente.

- Vamos para a cozinha. - Conduziu Maura pelo corredor. À entrada da cozinha parou e olhou para Maura, que se tinha detido no limiar, demasiado estupefacta com o que via para dizer uma palavra.

No chão de ladrilho, um grande círculo vermelho tinha sido desenhado com o que parecia ser giz vermelho. Espaçados em torno da sua circunferência estavam cinco montes pretos de cera que derretera e esfriara. Velas, pensou Maura. No centro desse círculo, colocada de tal forma que os olhos estivessem virados para elas, encontrava-se a cabeça cortada de uma mulher.

Um círculo. Cinco velas pretas. É um sacrifício ritual.

- Portanto agora é suposto que eu vá para casa, indo ter com a minha menina - disse Jane. - De manhã, vamo-nos todos sentar à volta da árvore e abrir presentes e fazer de conta que há paz na terra. Mas eu estarei a pensar... nesta coisa... a olhar para mim. Feliz maldito Natal.

Maura engoliu em seco.

- Sabemos quem ela é?

- Bom, não arrastei para aqui os amigos e vizinhos dela para obter uma identificação correcta. Olhe lá, reconhece aquela cabeça que está no chão da cozinha? Mas baseando-me na foto da carta de condução diria que esta é a Lori-Ann Tucker. Vinte e oito anos. Cabelo e olhos castanhos. - Jane riu-se bruscamente. - Junte todas as partes do corpo e é tudo o que consegue obter.

- O que é que sabes dela?

- Encontrámos um talão de cheque na bolsa dela. Trabalha no Museu da Ciência. Não sabemos em que qualidade, mas a avaliar pela casa, pela mobília

- Jane olhou de relance para a sala de jantar -, ela não estava a ganhar uma tonelada de dinheiro.

Ouviram vozes e o o ruído de passos quando a eqipa forense entrou na casa. Jane recompôs-se imediatamente para os receber com alguma semelhança da sua habitual autoconfiança. A destemida detective Rizzoli que todos conheciam.

- Olá, rapazes - disse ela, quando Frost e dois criminalistas entraram cuidadosamente na cozinha. - Ganharam uma coisa divertida.

- Meu Deus - murmurou um dos criminalistas. - Onde é que está o resto da vítima?

- Em várias divisões. Podem querer começar por... - Ela calou-se, o seu corpo subitamente inteiriçado.

O telefone na bancada da cozinha estava a tocar. Frost era o que estava mais perto dele.

- O que é que achas? - perguntou, olhando de esguelha para ela. -Atende.

Frost pegou cuidadosamente no telefone com a sua mão enluvada.

- Está? Está? - Um momento depois pousou-o. - Desligaram.

- O que é que diz o identificador de chamadas? Frost carregou na tecla respectiva.

- É um número de Boston.

Jane tirou o seu telemóvel e olhou para o número no mostrador.

- Vou tentar fazer uma chamada de resposta - disse ela e marcou o número. Ficou à escuta enquanto tocava. - Ninguém atende.

- Deixa-me ver se esse número ligou para aqui antes - disse Frost. Voltou atrás no registo, revendo cada chamada que tinha entrado ou saído desta linha. - OK, aqui está a chamada para o 112. Meia-noite e dez.

- O nosso criminoso, anunciando o seu trabalhinho manual.

- Há outra chamada, pouco antes dessa. Um número de Cambridge. - Ergueu os olhos. - Foi feita à meia-noite e cinco.

- Será que o nosso criminoso fez duas chamadas deste telefone?

- Se é que foi o nosso criminoso. Jane fixou os olhos no telefone.

- Vamos pensar um pouco nisto. Ele está aqui na cozinha. Acabou de matála e de a cortar. Cortou-lhe a mão, o braço. Colocou a cabeça dela aí, no chão. Para quê ligar a alguém? Queria gabar-se disso? E a quem é que iria telefonar?

- Descobre - disse Maura.

Jane voltou a usar o seu telemóvel, desta vez para ligar ao número de Cambridge.

- Está a chamar. OK, cheguei a um atendedor de chamadas. - Calou-se e o seu olhar subitamente atingiu Maura. - Não vai acreditar nisto, sabe a quem é que este número pertence?

- Quem?

Jane desligou e ligou novamente para o mesmo número. Passou o telemóvel a Maura.

Maura ouviu tocar quatro vezes. Depois o atendedor automático respondeu com uma gravação. A voz soou instantaneamente, sinistramente familiar.

Ligou para a Doutora Joyce P. O'Donnell. Eu quero mesmo saber notícias suas, por isso deixe uma mensagem e eu volto a ligar-lhe.

Maura desligou e o seu olhar cruzou-se com a expressão igualmente estupefacta de Jane.

- Porque é que o assassino iria ligar para a Joyce O'Donnell?

- Está a brincar - disse Frost. - É o número dela!

- Quem é essa? - perguntou um dos criminalistas. Jane olhou para ele.

- Joyce O'Donnell - disse ela - é uma vampira.

 

Não era aqui que Jane queria estar nesta manhã do dia de Natal.

Ela e Frost estavam sentados dentro do Subaru dela, estacionado na Brattle Street, observando a grande mansão colonial branca. Da última vez que Jane visitara esta casa, era Verão e o jardim tinha sido impecavelmente cuidado. Vendo-o agora, numa estação diferente, estava novamente impressionada pela maneira como cada detalhe era de bom gosto, desde os acabamentos das telhas cinzentas até à encantadora grinalda de flores na porta da frente. O portão de ferro forjado estava decorado com ramos de pinheiro e laços vermelhos, e através da janela da fachada ela podia ver a árvore, deslumbrante com as suas decorações. Isso era uma surpresa. Mesmo as sanguessugas celebravam o Natal.

- Se não quiseres fazer isto - disse Frost - eu posso falar com ela. -Achas que eu não posso lidar com isto?

-Acho que isto vai ser muito difícil para ti.

- O que vai ser difícil é manter as minhas mãos longe do pescoço dela.

- Estás a ver? Era isso que eu queria dizer. A tua atitude vai acabar por se sobrepor. Vocês as duas têm um historial em comum e isso marca tudo. Não consegues ser neutral.

- Ninguém podia ser neutral, sabendo quem ela é. O que ela faz.

- Rizzoli, ela só faz aquilo para que lhe pagam.

- Tal como as putas. - Só que as putas não fazem mal a ninguém, pensou Jane, olhando para a casa de Joyce O'Donnell. Uma casa paga com o sangue de vítimas de homicídios. As putas não dançam valsas nos tribunais em elegantes vestidos St. John nem levam a testemunha a fazer a defesa de carniceiros.

- Tudo o que estou a dizer é isto, tenta manter-te fria, está bem? - disse Frost. - Não temos de gostar dela. Mas não nos podemos permitir irritá-la.

- Achas que é esse o meu plano?

- Olha para ti. As tuas garras já estão de fora.

- Apenas em defesa própria. - Jane abriu a porta com um empurrão.

- Porque sei que essa cabra vai tentar enfiar as garras dela em mim. - Saiu do carro, enterrando-se até à barriga da perna na neve, mas ela mal deu pelo frio a entranhar-se nas meias; o seu arrepio mais profundo não era físico. A sua atenção estava posta na casa, no encontro que ia ter, com uma mulher que conhecia demasiado bem os receios secretos de Jane. Que também sabia como tirar partido desses receios.

Frost abriu o portão e eles subiram o caminho ajardinado. A calçada estava coberta de gelo e Jane estava a esforçar-se tanto para não escorregar que, quando chegou aos degraus do alpendre, já se sentia desequilibrada e pouco segura no seu andar. Não era a melhor maneira de enfrentar Joyce O'Donnell. Nem ajudou que, quando a porta de entrada se abriu, O'Donnell estivesse tão elegante como sempre, cabelo louro cortado curto de uma maneira requintada, a sua blusa cor-de-rosa toda abotoada e as calças caqui perfeitamente ajustadas à sua silhueta atlética. Jane, no seu cansado conjunto preto, com as bainhas das calças molhadas pela neve derretida, sentia-se como a pedinte à porta da mansão. Exactamente como ela quer que eu me sinta.

Joyce O'Donnell fez uma ligeira e fria inclinação de cabeça. - Detectives. - Ela não deu imediatamente um passo para o lado, fez uma pausa intencional para demonstrar que aqui, no seu próprio território, era ela quem mandava.

- Podemos entrar? - perguntou finalmente Jane. Sabendo que, evidentemente, seriam autorizados a entrar. Que o jogo tinha já começado.

Joyce O'Donnell fez-lhes um gesto para entrarem.

- Não é assim que eu gosto de passar o dia de Natal - disse ela.

- Também não é exactamente como nós gostamos de o passar - replicou Jane. - E tenho a certeza que não era o que a vítima queria.

- Tal como lhes disse, as gravações já tinham sido apagadas - disse O'Donnell, indo à frente deles para a sala de estar. - Podem ouvi-las mas não há lá nada para escutar.

Não tinha mudado grande coisa desde a última vez que Jane visitara esta casa. Viu as mesmas pinturas abstractas nas paredes, os mesmos tapetes orientais de cores vivas. O único elemento novo era a árvore de Natal. As árvores da infância de Jane tinham sido enfeitadas com gosto aleatório, os ramos pendendo com o sortido díspar de ornamentos que sobreviveram dificilmente aos anteriores Natais dos Rizzoli. E havia fitas decorativas, montes delas. Arvores Vegas, era assim que Jane as costumava chamar.

Mas nesta árvore não havia uma única fita decorativa. Não havia Vegas nesta casa. Em vez delas, dos ramos pendiam prismas de cristal e lágrimas prateadas, reflectindo os raios do sol de Inverno nas paredes, como palhetas luminosas que dançavam. Até mesmo a sua maldita árvore de Natal me faz sentir incapaz.

Joyce O'Donnell dirigiu-se para o seu atendedor de chamadas.

- Isto é tudo o que eu tenho agora - disse ela e carregou na tecla adequada. A voz digital anunciou: - Não tem mensagens novas. - Ela olhou para os detectives. - Infelizmente, a gravação que queriam desapareceu. Assim que cheguei a casa, ontem à noite, ouvi todas as minhas mensagens. Apaguei-as logo a seguir. Quando cheguei à vossa mensagem, em que pediam para guardar a gravação, era demasiado tarde.

- Quantas mensagens é que havia? - perguntou Jane.

- Quatro. A vossa era a última.

- A chamada em que estávamos interessados deve ter entrado por volta da meia noite e dez.

- Sim, e o número ainda ali está, no registo electrónico. - Joyce O'Donnell carregou numa tecla, rebobinando para a chamada das 0.10. - Mas quem quer que tenha ligado nessa altura não disse nada. - Ela olhou para Jane.

- Não havia nenhuma mensagem.

- O que é que ouviu?

- Já lhe disse. Não havia nada.

- Ruídos externos? TV, trânsito?

- Nem sequer respiração pesada. Apenas alguns segundos de silêncio e depois o clique de desligar. Foi por isso que a apaguei imediatamente. Não havia nada para ouvir.

- Conhece o número dessa ligação? - perguntou Frost.

- Devia conhecer?

- É isso que lhe estamos a perguntar - disse Jane, e o tom mordaz na sua voz era inequívoco.

Os olhos de Joyce O'Donnell cruzaram-se com os seus e Jane viu, nesse olhar, um brilho de desprezo. Como se eu nem sequer merecesse a sua atenção.

- Não, não reconheci esse número de telefone - disse a outra.

- O nome de Lori-Ann Tucker diz-lhe alguma coisa?

- Não. Quem é essa?

- Ela foi assassinada na noite passada, na sua própria casa. Essa chamada foi feita do telefone dela.

Joyce O'Donnell calou-se e depois fez um comentário de bom senso.

- Podia ter sido engano.

- Não creio, Doutora O'Donell. Julgo que a chamada era mesmo para si.

- Porquê telefonar-me e depois não dizer nada? É mais provável que ela tenha ouvido a gravação no meu atendedor de chamadas, percebido que se tinha enganado no número, e simplesmente desligado.

- Não acredito que tenha sido a vítima a telefonar-lhe.

Mais uma vez Joyce O'Donnell fez uma pausa, agora mais longa.

- Compreendo - disse. Avançou para uma cadeira de braços e sentou-se. Mas não porque estivesse abalada. Parecia perfeitamente calma, sentada nessa cadeira, uma imperatriz diante da corte. - Acha que foi o assassino que me telefonou.

- Não parece nada preocupada com essa possibilidade.

- Ainda não sei o suficiente para me preocupar. Não sei nada sobre este caso. Portanto porque é que não conta mais? - Fez um gesto para o sofá, um convite para as suas visitas se sentarem. Era o primeiro sinal de hospitalidade que ela dava.

Porque agora nós temos algo interessante para lhe oferecer, pensou Jane. Ela captou um cheiro de sangue. É exactamente o que esta mulher deseja.

O sofá era de um branco imaculado e Frost parou antes de se instalar nele, como se receasse sujar o tecido. Mas Jane nem sequer lhe deitou um segundo olhar. Sentou-se com as suas calças molhadas pela neve, de olhos postos em Joyce O'Donnell.

- A vítima era uma mulher de vinte e oito anos - disse Jane. - Foi assassinada ontem à noite, por volta da meia-noite.

- Há suspeitos?

- Não fizemos detenções.

- Portanto não fazem ideia de quem é o assassino.

- Só estou a dizer que não fizemos detenções. O que estamos a fazer é seguir pistas.

- E eu sou uma delas.

- Alguém ligou para si da casa da vítima. Pode muito bem ter sido o assassino.

- E porque é que ele, partindo do princípio que é um ele, queria falar comigo?

Jane inclinou-se para a frente. - Ambas sabemos porquê, doutora. É o que faz para viver. Provavelmente tem um bom clube de fãs lá fora, todos os assassinos que a consideram amiga deles. É famosa, sabia?, entre o grupo dos assassinos. É a psiquiatra que fala com monstros.

- Tento compreendê-los, só isso. Estudá-los.

- Defende-os.

- Sou uma neuriopsiquiatra. Sou muito mais habilitada para testemunhar em tribunal do que a maioria dos peritos que vão lá para isso. Nem todos os assassinos devem estar na prisão. Alguns deles são pessoas seriamente afectadas.

- Pois, eu conheço a sua teoria. Bate-se na cabeça de um miúdo, estragam-se os seus lóbulos frontais, e ele é absolvido de toda a responsabilidade por tudo o que faça a partir daí. Pode matar uma mulher, cortá-las aos bocados e mesmo assim vai defendê-lo no tribunal.

- Foi isso que aconteceu a esta vítima? - O rosto da médica tinha assumido uma perturbadora vivacidade, os seus olhos brilhantes e cruéis. - Ela foi desmembrada?

- Porque é que pergunta isso?

- Só queria saber.

- Curiosidade profissional?

Joyce O'Donnell recostou-se na cadeira.

- Detective Rizzoli, eu entrevistei imensos assassinos. Ao longo dos anos reuni amplas estatísticas sobre motivos, métodos, padrões. Por isso, sim, é curiosidade profissional. - Fez uma pausa. - O desmembramento das vítimas não é assim tão invulgar. Especialmente se for para ajudar na eliminação dos corpos das vítimas.

- Não foi essa a razão neste caso.

- Tem a certeza?

- É bastante óvio.

- Ele expôs propositamente as partes do corpo? Fez uma encenação?

- Porquê? Tem por acaso alguns amigos tarados que fazem esse tipo de coisas? Tem alguns nomes que queira partilhar connosco? Eles escrevem-lhe, não é? O seu nome anda por aí. A médica que adora ouvir todos os pormenores.

- Se me escrevem, é geralmente em cartas anónimas. Não me dizem os seus nomes.

- Mas recebe cartas - disse Frost.

- Ouço o que as pessoas têm para dizer.

- Assassinos.

- Ou fingidores. Se eles dizem a verdade ou não, é-me impossível confirmar.

- Pensa que alguns deles estão apenas a partilhar as suas fantasias?

- E provavelmente nunca as põem em prática. Só precisam de uma maneira de exprimir necessidades inaceitáveis. Todos nós as temos. O homem de maneiras mais moderadas sonha acordado, por vezes, com coisas que gostaria de fazer a mulheres. Coisas tão tortuosas que não se atreve a contar a ninguém. Aposto que até mesmo você alberga alguns pensamentos inconvenientes, detective Frost. - Ela manteve os olhos fixos nele, um olhar que pretendia fazê-lo sentir pouco à vontade. Frost, diga-se a seu favor, nem sequer corou.

- Alguém lhe escreveu sobre fantasias de desmembramento? - perguntou ele.

- Ultimamente, não.

- Mas alguém o fez?

- Tal como disse, o desmembramento não é invulgar.

- Como fantasia ou como um acto real?

- Os dois. Jane disse.

- Quem é que lhe tem escrito sobre as suas fantasias, Doutora O'Donnell?

A médica cruzou o seu olhar com o de Jane.

- Essa correspondência é confidencial. É por isso que eles se sentem seguros por me contarem os seus segredos, os seus desejos, os seus devaneios.

- Essas pessoas alguma vez lhe telefonam?

- Raramente.

- E fala com eles?

- Não os evito.

- Guarda uma lista deles?

- Não se pode falar de uma lista. Não me consigo lembrar da última vez que isso aconteceu.

- Aconteceu ontem à noite.

- Bom, eu não estava cá para atender.

- Também não estava aqui às duas da manhã - disse Frost. - Telefonámos-lhe nessa altura e fomos atendidos pela sua máquina.

- Onde é que estava ontem à noite? - perguntou Jane. A médica encolheu os ombros.

- Estava fora.

- Às duas da manhã da véspera de Natal?

- Estava com amigos.

-A que horas é que chegou a casa?

- Provavelmente por volta das duas e meia.

- Devem ser grandes amigos. Importa-se de nos dizer os seus nomes?

- Sim, importo-me.

- Porquê?

- Porque é que não quero ver a minha privacidade violada? Tenho mesmo de responder a essa pergunta?

- Isto é a investigação de um homicídio. Uma mulher foi assassinada ontem à noite. Foi um dos mais brutais locais de crime que presenciei.

- E quer o meu álibi.

- Só estou curiosa por saber porque é que não nos quer dizer.

- Sou suspeita? Ou só está a tentar mostrar-me quem é que manda?

- Não é suspeita. Por enquanto.

- Então nem sequer tenho obrigação de falar convosco. - Bruscamente, Joyce O'Donnell pôs-se de pé e começou a andar para a porta. - Eu vou convosco até à saída.

Frost também começou a levantar-se, depois viu que Jane não se mexia e voltou a afundar-se no sofá. Jane disse.

- Se se importasse um pouco com a vítima, se visse apenas o que ele fez a Lori-Ann Tucker...

Joyce O'Donnell virou-se para a encarar.

- Porque é que não me conta? O que é que foi exactamente feito nela?

- Quer os pormenores, é isso?

- É a minha área de estudos. Preciso de conhecer os detalhes. - Ela avançou para Jane. -Ajuda-me a compreender.

Ou deixa-te excitada. Por isso pareces subitamente interessada. Mesmo desejosa de saber.

- Disse que ela foi desmembrada - disse a médica. - A cabeça foi removida?

- Rizzoli - disse Frost, com um tom cauteloso na voz.

Mas Jane não precisou de revelar nada; O'Donnell já tinha chegado às suas próprias conclusões.

- A cabeça é um símbolo tão poderoso. Tão pessoal. Tão individual.

- A médica aproximou-se mais, movendo-se como um predador. - Levou-a com ele, como um trofeu? Uma lembrança do seu assassínio?

- Diga-nos onde estava ontem à noite.

- Ou deixou a cabeça no local? Num lugar onde poderia causar o choque máximo? Um lugar onde fosse impossível passar despercebida? Uma bancada de cozinha, talvez? Ou um lugar proeminente no chão?

- Com quem é que esteve?

- É uma mensagem forte, expor uma cabeça, um rosto. É a maneira do assassino lhe dizer que tem o controle total. Está a mostrar-lhe como você é impotente, detective. E como ele é poderoso.

- Com quem é que esteve? No mesmo instante em que lhe saíram essas palavras, Jane soube que tinha cometido um erro. Deixara que a outra a aguilhoasse e tinha perdido a cabeça. O definitivo sinal de fraqueza.

- As minhas relações de amizade são assunto privado - disse a médica, e acrescentou com um sorriso tranquilo. - Excepto aquela que já conhece. O nosso conhecimento mútuo. Ele continua a perguntar-me por si, sabe? Quer sempre saber o que anda a fazer. - Ela não tinha de dizer o nome. Ambas sabiam que estava a falar de Warren Hoyt.

Não reajas, pensou Jane. Não deixes que ela perceba quão profundamente enterrou as garras em mim. Mas sentiu a sua própria cara a ficar tensa e viu Frost olhar para ela preocupado. As cicatrizes que Hoyt deixara nas mãos de Jane eram somente as feridas mais evidentes; havia outras bem mais fundas. Mesmo agora, dois anos depois, ela vacilava com a simples menção do nome dele.

- Ele é um admirador seu, detective - disse a médica. - Embora não volte a andar por sua causa, não lhe guarda nenhum rancor.

- Não me interessa nada o que ele pensa.

- Fui vê-lo na semana passada. Mostrou-me a sua colecção de recortes de notícias. O seu arquivo Janie, como lhe chama. Quando você estava presa àquela cama de hospital, durante o Verão, ele manteve a TV ligada toda a noite. Via tudo. - Joyce O'Donnell fez uma pausa. - Disse-me que você tinha uma bebé.

As costas de Jane ficaram rígidas. Não a deixes fazer-te isso. Não a deixes enterrar mais as garras.

- Creio que o nome da sua filha é Regina, não é?

Jane pôs-se subitamente de pé, e embora fosse mais baixa do que a outra, algo nos olhos de Jane fez a médica dar bruscamente um passo atrás. - Voltaremos a fazer-lhe outra visita - disse Jane.

- Visite-me sempre que quiser - disse a O'Donnell. - Não tenho mais nada a dizer-lhe.

- Ela está mentir - disse Jane.

Ela abriu com força a porta do carro e deslizou para o lugar atrás do volante. Sentou-se aí, com os olhos postos numa cena que era um verdadeiro postal de Natal, o sol brilhando em pingentes de gelo, as casas geladas enfeitadas com coroas de flores e azevinho. Não havia espalhafatosos Pais Natais e renas nesta rua, nem extravagâncias nos telhados, como nas de Revere, onde ela tinha crescido. Lembrou-se da casa de Johnny Silva, mesmo abaixo da casa dos seus pais, na mesma rua, e das longas filas de curiosos vindos de quilómetros ali à volta que faziam um desvio pela rua deles, apenas para ficarem de boca aberta perante o espectáculo fulgurante de luzes que os Silvas punham no seu jardim da frente em todos os meses de Dezembro. Aí se podiam encontrar o Pai Natal, os três Reis Magos e a manjedoura com Maria e Jesus e um jardim zoológico com tantos animais que teriam afundado a arca de Noé. Tudo iluminado como um carnaval. Podia fornecer-se energia a uma pequena nação africana com a electricidade que os Silvas gastavam em cada Natal.

Mas aqui, na Brattle Street, não havia desses espectáculos berrantes, somente uma elegância contida. Não havia nenhum Johnny Silva a viver aqui. Ela preferia ter aquele idiota do Johnny como vizinho do que a mulher que vivia naquela casa.

- Ela sabe mais sobre este caso do que aquilo que nos está a dizer.

- Como é que chegaste a essa conclusão? - perguntou Frost.

- Por instinto.

- Julguei que não acreditavas no instinto. É o que estás sempre a dizer-me. Que não há nada melhor do que um palpite feliz. - Mas eu conheço esta mulher. Sei o que mexe com ela. - Ela olhou para Frost, cuja palidez de Inverno parecia ainda acentuada pelos fracos raios solares. - Ela recebeu mais do que uma chamada sem palavras da parte do assassino, ontem à noite.

- Estás a fazer conjecturas.

- Porque é que a apagou?

- Porque é que não havia de fazer isso? Se quem lhe ligou não deixou nenhuma mensagem?

- Isso é o que ela diz.

- Caramba, ela conseguiu mexer contigo. - Abanou a cabeça. - Eu sabia que ela ia fazer-te isso.

- Nem sequer conseguiu ficar perto.

-Ah sim? Quando ela começou a falar da Regina, isso não te deixou furiosa? Ela é psiquiatra. Sabe como te manipular. Nem sequer devias ter contacto com ela.

- Quem é que devia fazer isso? Aquela palerminha da Kassovitz?

- Alguém que não tivesse um historial com ela. Alguém que ela não possa atingir. - Deitou a Jane um olhar inquiridor que a fez desejar sair dali. Eles eram parceiros já há dois anos e, embora não fossem propriamente amigos íntimos, compreendiam-se um ao outro de uma maneira que simples amigos ou mesmo amantes raramente conseguem, porque tinham partilhado os mesmos horrores, travado as mesmas batalhas. Frost, melhor do que ninguém, mesmo melhor do que o seu marido, Gabriel, conhecia o seu historial com Joyce O'Donnell.

E com o assassino conhecido como Cirurgião.

- Ela ainda te assusta, não é? - perguntou ele, calmamente.

- Tudo o que ela faz é deixar-me furiosa.

- Porque ela sabe o que realmente te assusta. E nunca deixa de te lembrar a existência dele, nunca se esquece de trazer o nome dele à conversa.

- Como se eu estivesse minimamente receosa de um tipo que nem sequer consegue mexer os dedos dos pés? Que nem sequer consegue fazer chichi se uma enfermeira não lhe enfiar um tubo na pila? Ah sim, estou mesmo assustada com o Warren Hoyt.

- Ainda continuas a ter os pesadelos?

A pergunta dele fê-la calar, gelada. Não lhe podia mentir: ele daria por isso. Portanto não disse nada, apenas ficou a olhar em frente, para essa rua perfeita com as suas casas perfeitas.

- Eu continuaria a tê-los - disse ele -, se isso me tivesse acontecido. Mas não aconteceu, pensou ela. Fui eu que senti a lâmina de Hoyt na minha garganta, sou eu que tenho as cicatrizes do seu bisturi. Sou eu que ainda penso nisso, que faço fantasias com isso. Embora ele nunca mais pudesse voltar a magoá-la, só o facto de saber que era o objecto dos seus desejos dava-lhe arrepios.

- Porque é que estamos a falar dele? - disse ela. - Isto tem a ver com a Joyce O'Donnell.

- Não podes separá-los.

- Não sou eu que passo o tempo todo a trazer o nome dele à conversa. Vamo-nos ficar pelo que interessa, está bem? Joyce P. O'Donnell é a razão pela qual o assassino resolveu telefonar-lhe.

- Não podes ter a certeza de que foi o assassino quem lhe telefonou.

- Falar com a O'Donnell é a noção de sexo pelo telefone que cada pervertido pode ter. Eles podem contar-lhe as suas fantasias mais doentias e ela absorve-as e pede mais, enquanto toma notas. Foi por isso que ele lhe telefonou. Queria gabar-se da sua façanha. Queria um ouvido prestável e ela era a pessoa óbvia a quem telefonar. A Doutora Crime. - Rodando furiosamente a chave na ignição, ligou o motor. Ar frio irrompeu das aberturas do ar condicionado. - Foi por isso que ele lhe telefonou. Para se gabar. Para se deleitar com a atenção dela.

- Porque é que ela havia de mentir a respeito disso?

- Porque é que ela não queria dizer-nos onde estava na noite passada? Faz-nos perguntar com quem é que estava. Se essa chamada não seria um convite.

Frost franziu o sobrolho, olhando para ela.

- Tu estás a dizer o que eu penso?

- A certo momento antes da meia-noite, o nosso assassino fez o seu retalhar-e-dividir na Lori-Ann Tucker. Depois fez uma chamada telefónica para a O'Donnell. Ela afirma que não estava em casa: que o seu atendedor de chamadas é que atendeu. E se estivesse em casa nessa altura? Se tivessem falado um com o outro?

- Nós ligámos para casa dela às duas horas. Ela não estava a responder.

- Porque já não estava em casa. Disse que tinha saído para se encontrar com amigos. - Jane olhou para ele. - E se fosse apenas um amigo? Um novo amigo perspicaz, brilhante.

- Por favor! Tu não pensas mesmo que ela estava a proteger este assassino?

- Eu não a deixaria de fora de nenhuma possibilidade. - Soltou o travão e afastou-se do passeio. - Nenhuma.

 

- Isto não é maneira de passar o dia de Natal - disse Angela Rizzoli, levantando os olhos do fogão e olhando para a sua filha. Quatro panelas ferviam em fogo brando nos bicos de gás, com as tampas a chocalhar, enquanto o vapor se enrolava num anel nebuloso em torno dos cabelos molhados de suor de Angela. Ela levantou a tampa de uma das panelas e deitou um prato cheio de nhoques feitos em casa na água a ferver. Eles caíram lá dentro e o seu salpicar anunciou que o jantar estava agora quase pronto. Jane passou os olhos em volta pela cozinha, onde se viam inúmeros pratos de comida. O maior medo de Angela Rizzoli era que alguém, algum dia, saísse da sua casa com fome.

Não seria o caso hoje.

Na mesa da cozinha estava uma perna de cordeiro assada, condimentada com orégãos e alho, e uma frigideira de batatas fritas alouradas com alecrim. Jane viu pão italiano e uma salada de rodelas de tomate e de queijo mozzarella. Uma salada de feijão verde era a única contribuição que Jane e Gabriel tinham trazido para o banquete. No fogão, as panelas a ferver soltavam ainda outros aromas e na água a ferver os tenros nhoques subiam e desciam e redemoinhavam.

- O que é que eu posso fazer aqui, mãe? - perguntou Jane.

- Nada. Estiveste a trabalhar hoje. Senta-te ali.

- Queres que rale o queijo?

- Não, não. Deves estar cansada. O Gabriel diz que estiveste acordada toda a noite. - Angela mexeu rapidamente na panela com uma colher de pau.

- Não entendo porque é que tinhas também de trabalhar hoje. É absurdo.

- É o que tenho de fazer.

- Mas é Natal.

- Diz isso aos maus da fita. - Jane tirou o ralador do armário e começou a raspar um pedaço de queijo Parmesão nas lâminas. - Já agora, porque é que o Mike e o Frankie não estão aqui a ajudar? Deves ter estado a cozinhar toda a manhã.

- Ora, tu sabes como são os teus irmãos.

- Pois. - Fungou. Infelizmente.

Na sala ao lado, o futebol retumbava na TV, como de costume. Berros de vozes masculinas juntaram-se ao rugido da multidão no estádio, todos eles aclamando um tipo qualquer com nádegas apertadas e uma bola de pele de porco.

Angela debruçou-se sobre a salada de feijão verde para a inspeccionar.

-Ah, isto tem bom aspecto! Com que é que está temperada?

- Não faço ideia. O Gabriel é que a fez.

- Tens tanta sorte, Janie. Arranjaste um homem que cozinha.

- Se deixasses o pai à fome uns dias, ele também aprenderia a cozinhar.

- Não, não aprenderia. Limitava-se a definhar à mesa, esperando que o jantar fosse lá parar sozinho. -Angela ergueu a panela de água a ferver e virou-a, despejando os nhoques cozinhados num coador. Quando o vapor se dissipou, Jane viu a cara suada de Angela, enquadrada por cabelos escorridos. Lá fora, o vento cortante percorria ruas cobertas de gelo, mas aqui, na cozinha da sua mãe, o calor corava as caras delas e enchia as janelas de vapor.

- Aqui está a mãe - disse Gabriel, entrando na cozinha com uma Regina completamente desperta nos seus braços. - Olha quem é que já acordou da sua sesta.

- Ela não dormiu muito - disse Jane.

- Com aquele jogo de futebol a decorrer? - Ele riu-se. - A nossa filha é definitivamente uma admiradora dos Patriots. Devias ter ouvido o uivo dela quando os Dolphins marcaram.

- Deixa-me segurar nela. - Jane abriu os braços e abraçou uma Regina que se contorcia contra o seu peito. Só tem quatro meses, pensou, e a minha bebé já está a desprender-se de mim. A selvagem pequena Regina tinha vindo ao mundo com os punhos a girar, com o seu rosto roxo de tanto berrar. Estás assim tão impaciente para crescer? Perguntou-se Jane enquanto embalava a filha. Não queres ficar bebé durante algum tempo e deixar-me pegar em ti, saborear-te, antes da passagem dos anos te mandar sair subitamente pela nossa porta?

Regina agarrou o cabelo de Jane e deu-lhe um doloroso puxão. Encolhendo-se, Jane afastou aqueles dedos obstinados e baixou os olhos para a mão da filha. E de repente pensou numa outra mão, fria e sem vida. A filha de outra pessoa, agora jazendo aos bocados na morgue. Aqui está, Natal. Neste dia especial, eu não devia ter de pensar em mulheres mortas. Mas enquanto beijava o cabelo sedoso de Regina, enquanto inalava o odor de sabonete e shampô de bebé, não conseguia encerrar a memória de outra cozinha e do que estivera a olhar para ela no chão de ladrilhos.

- Olhe lá, mãe, está no intervalo. Quando é que comemos?

Jane levantou os olhos para o seu irmão mais velho, Frankie, quando ele entrou pesadamente na cozinha. A última vez que o vira fora há um ano, quando ele viera de avião da Califórnia para passar o Natal. Desde então, os ombros dele tinham ficado ainda maiores. Todos os anos, Frankie parecia ficar mais entroncado e os seus braços estavam agora tão musculados que não caíam a direito, balançavam arqueados como os dos símios. Todas aquelas horas nas salas de halterofilismo, pensou ela, e onde é que isso o levou? Está maior mas não certamente mais esperto. Ela lançou uma olhadela de apreço a Gabriel, que estava a abrir uma garrafa de Chianti. Mais alto e mais magro do que Frankie, tinha a compleição de um cavalo de corrida, não de um cavalo de tiro. Quando se tem um cérebro, pensou, para que é que são precisos músculos monstruosos?

- O jantar está pronto daqui a dez minutos - disse Angela.

- Isso significa que vai cair em cima do terceiro tempo - disse Frankie.

- Porque é que vocês, rapazes, não desligam a televisão? - disse Jane.

- É o jantar de Natal.

- Pois, e nós já teríamos comido um bocado mais cedo se tivesses chegado a tempo e horas.

- Frankie - replicou Angela. - A tua irmã esteve a trabalhar toda a noite. E repara que ela está aqui a ajudar. Por isso não comeces a implicar com ela!

Fez-se um súbito silêncio na cozinha enquanto tanto o irmão como a irmã olhavam espantados para Angela. Será que a mãe tomou partido por mim, pela primeira vez?

- Bem, isto é mesmo um grande Natal - disse Frankie, enquanto saía repentinamente da cozinha.

Angela despejou o coador de nhoques escorridos para uma tigela de servir à mesa e deitou-lhe em cima o fumegante molho de vitela.

- Não dão valor ao que as mulheres fazem - murmurou. Jane riu-se.

- Só agora é que deste por isso?

- Como se não merecêssemos algum respeito? - Angela estendeu a mão para uma faca de cozinha e atacou um raminho de salsa, triturando-o com golpes rápidos. - A culpa é minha. Devia tê-lo educado melhor. Mas na realidade é culpa é do teu pai. É ele que dá o exemplo. Não me estima, faça eu o que fizer.

Jane olhou de relance para Gabriel, que escolheu esse momento para se escapar convenientemente dali.

- Ó... mãe? O pai fez alguma coisa para te aborrecer?

Angela olhou por cima do ombro para Jane, com a lâmina da sua faca poisada em cima da salsa cortada.

- Tu não queres saber.

- Sim, quero.

- Não vou entrar por aí, Janie. Ah, não. Acho que cada pai merece o respeito do filho, seja o que for que ele faz.

- Portanto ele fez mesmo alguma coisa.

- Já te disse, não vou por aí. - Angela juntou a salsa cortada e lançou-a para dentro da tigela de nhoques. Depois andou com passo pesado até à porta da cozinha e gritou, sobrepondo-se ao som do televisor. - Jantar! Sentem-se.

Apesar da ordem de Angela, demorou alguns minutos antes que Frank Rizzoli e os seus dois filhos conseguissem separar-se do televisor. O espectáculo do intervalo tinha começado, e raparigas de pernas compridas com lantejoulas pavoneavam-se no palco. Os três homens Rizzoli ficaram ali sentados com os olhos cravados no ecrã. Só Gabriel se levantou para ajudar Jane e Angela a levar os pratos de comida da cozinha para a sala de jantar. Embora não dissesse uma palavra, Jane entendeu o olhar que lhe lançou.

Desde quando o jantar de Natal se transformou num cenário de guerra?

Angela atirou com a tigela de batatas assadas para a mesa, dirigiu-se à sala de estar e agarrou o controlo remoto. Com um clique, desligou o televisor.

Frankie resmungou.

- Oh, mãe. A Jessica Simpson vai aparecer daqui a dez... - Ele viu a cara de Angela e calou-se imediatamente.

Mike foi o primeiro a saltar do sofá. Sem dizer nada, acorreu obedientemente à sala de jantar, seguido com um ar mais carrancudo pelo irmão, Frankie, e pelo Frank sénior.

A mesa estava posta de uma maneira magnífica. Velas tremeluziam em castiçais de cristal. Angela tinha exposto o seu serviço azul e dourado, os guardanapos de linho e os novos copos de vinho que acabara de comprar nas lojas Dansk. Quando Angela se sentou e passou os olhos pelo banquete, não foi com orgulho mas com um ar de amargo descontentamento.

- Tudo isto parece magnífico, Mistress Rizzoli - disse Gabriel.

- Ora, obrigado. Eu sei que tu dás valor à quantidade de trabalho que dá uma refeição como esta. Porque tu sabes cozinhar.

- Bem, na verdade não tive outra opção, vivendo sozinho durante tantos anos. - Estendeu a mão por baixo da mesa e apertou a mão de Jane. - Tive sorte por encontrar uma rapariga que sabe cozinhar. - Quando está presente, era o que devia ter acrescentado.

- Eu ensinei à Janie tudo o que sei.

- Mãe, pode passar o cordeiro? - pediu Frankie.

- Desculpa?

- O cordeiro.

- O que é que aconteceu ao por favor? Não to passo até dizeres isso. O pai de Jane suspirou.

- Caramba, Angie. É Natal. Não podemos apenas dar de comer ao rapaz?

- Ando a alimentar este rapaz há trinta e seis anos. Não vai passar fome só porque lhe peço um pouco de delicadeza.

- Ha... mãe? - arriscou o Mike. - Podia, ha, por favor passar as batatas?

- Obedientemente, acrescentou de novo: - Por favor?

- Sim, Mikey. - Angela estendeu-lhe a tigela.

Durante alguns instantes ninguém falou. Os únicos sons eram os de mandíbulas a mastigar e de talheres a bater nos pratos. Jane olhou de relance para o pai, sentado numa ponta da mesa, e depois para a mãe, sentada na outra ponta. Não havia contacto visual entre eles. Podiam estar a jantar em salas diferentes, tão distantes se encontravam um do outro. Jane não tinha muitas oportunidades para estudar os pais mas esta noite sentiu-se forçada a fazê-lo, e o que viu deixou-a deprimida. Quando é que ficaram tão velhos? Quando é que os olhos da mãe começaram a murchar e o cabelo do pai a rarear até ficar tão fino?

Quando é que começaram a odiar-se mutuamente?

- Então, Janie, diz-nos lá o que é que te manteve atarefada na noite passada - disse o pai dela, olhando para a filha, evitando intencionalmente olhar mesmo de lado para Angela.

- Hum, ninguém quer mesmo ouvir falar disso, pai.

- Eu quero - disse Frankie.

- É Natal. Acho que se calhar...

- Quem é que foi "espremido"?

Ela olhou de relance para o seu irmão mais velho.

- Uma mulher nova. Não era bonito de se ver.

- Não me incomoda nada falar disso - disse Frankie, metendo um pedaço de cordeiro cor-de-rosa na boca. Frankie, o Sargento-Mor, desafiando-a para o enojar.

- Este caso ia-te mesmo incomodar. Tal como me incomoda a mim.

- Ela era gira?

- O que é que isso tem a ver?

- Só estava a perguntar.

- É uma pergunta estúpida.

- Porquê? Se ela é gira, isso ajuda-te a entender os motivos desse tipo.

- Para a matar} Por amor de Deus, Frankie.

- Jane - disse o pai dela. - É Natal.

- Bom, a Janie tem razão - replicou Angela. Frank olhou para a mulher, espantado.

- A tua filha blasfema à mesa e tu atiras-te a mim?

- Achas que só as mulheres bonitas é que merecem ser mortas?

- Mãe, eu não disse isso - afirmou o Frankie.

- Ele não disse isso - disse o pai.

- Mas é o que tu pensas. O que vocês os dois pensam. Só as mulheres bonitas é que merecem atenção. Amem-nas ou matem-nas, só é interessante se forem bonitas.

- Ora, por favor.

- Por favor o quê, Frank? Tu sabes que é verdade. Olha para ti. Jane e os irmãos olharam com o sobrolho franzido para o pai.

- Olhar para ele porquê, mãe? - perguntou Mike.

- Angela - disse Frank -, é Natal.

- Eu sei que é Natal! - Angela levantou-se de repente e soltou um soluço.

- Eu sei. - Saiu de repente da sala, dirigindo-se à cozinha.

Jane olhou para o pai.

- O que é que se passa? Frank encolheu os ombros.

- Mulheres nessa idade. Mudança de vida.

- Isto não é só mudança de vida. Vou ver o que é que a estar a aborrecer.

- Jane levantou-se da cadeira e seguiu a mãe para a cozinha

-Mãe?

Angela não pareceu ouvi-la. Estava de pé, virada de costas, batendo natas numa tigela de aço inoxidável. O batedor chocalhava, enviando manchas de salpicos brancos para cima da bancada.

- Mãe, estás bem?

- Tenho de começar a tratar da sobremesa. Esqueci-me completamente de bater as natas.

- Qual é o problema?

- Devia ter isto pronto antes de nos sentarmos à mesa. Tu sabes que o teu irmão Frankie fica impaciente se tiver de esperar muito pelo prato seguinte. Se o obrigarmos a ficar ali sentado mais de cinco minutos, quando damos por isso já voltou a ligar aquele televisor. - Angela estendeu a mão para o açúcar e espalhou uma colher cheia na tigela enquanto o batedor agitava as natas. - Pelo menos o Mikey tenta fazer o que pode para ser simpático. Mesmo quando tudo o que vê são maus exemplos. Para onde quer que olhe, só maus exemplos.

- Ouve, eu sei que há alguma coisa errada.

Angela desligou o batedor e com ombros curvados olhou para as natas, agora batidas tão espessamente que quase pareciam manteiga.

- O problema não é teu, Janie.

- Se é vosso, é também meu. A mãe virou-se e olhou para ela.

- O casamento é mais difícil do que julgas.

- O que é que o pai fez?

Angela desatou o avental e atirou-o para a bancada.

- Podes servir o bolo de natas por mim? Estou com dor de cabeça. Vou lá para cima deitar-me.

- Mãe, vamos falar disto.

- Não vou dizer mais nada. Não sou esse tipo de mãe. Nunca obrigaria os meus filhos a tomar partido. - Angela saiu subitamente da cozinha e subiu a correr a escada para o quarto.

Perplexa, Jane regressou à sala de jantar. Frankie estava demasiado ocupado a cortar o seu segundo bocado de cordeiro para sequer levantar os olhos. Mas Mike tinha um ar ansioso. Frankie podia ser bronco mas Mike, manifestamente, compreendera que havia algo de seriamente errado esta noite. Ela olhou para o pai, que estava a esvaziar a garrafa de Chianti para o seu copo.

- Pai? Queres dizer-me o que se passa? O pai bebeu um gole de vinho. -Não.

- Ela está realmente transtornada.

- E isso é entre ela e eu, está bem? - Levantou-se e deu uma palmada no ombro de Frankie. - Anda. Acho que ainda podemos apanhar o terceiro tempo.

- Este foi o Natal mais lixado que alguma vez tivemos - disse Jane enquanto regressavam a casa de carro. Regina tinha adormecido no banco de trás e, pela primeira vez nessa noite, Jane e Gabriel podiam ter uma conversa sem interrupções. - Habitualmente as coisas não se passam assim. Quer dizer, temos as nossas brigas e tudo isso, mas a minha mãe geralmente acaba por nos dar uma ensaboadela no fim. - Olhou de lado para o marido, cujo rosto era ilegível na escuridão do carro. - Lamento.

- Porquê?

- Tu não sabias que te estavas a casar numa casa de doidos. Agora, provavelmente, já te estás a perguntar em que é que te meteste.

- Sim, sim. Diria que é tempo de mudar de mulher.

- Bom, deves pensar um bocadinho nisso, não?

- Jane, não sejas ridícula.

- Que raio, há alturas em que gostaria de fugir da minha família.

- Mas eu certamente não quero fugir de ti. - Ele desviou o olhar para a estrada, onde a neve arrastada pelo vento girava diante dos faróis. Por instantes seguiram em frente sem falarem. Depois ele disse: - Sabes? Nunca ouvi os meus pais discutir. Nem sequer uma vez, em todos os anos em que me ia tornando adulto.

- Vá lá, reconhece. Eu sei que a minha família é um bando de espalha-brasas.

- Tu vens de uma família que deixa transparecer os seus sentimentos, só isso. Eles batem com as portas e gritam e riem-se como hienas.

- Ah, isto está a ficar cada vez melhor.

- Eu só queria ter crescido numa família assim.

- Claro. - Ela riu-se.

- Os meus pais não gritavam, Jane, e não batiam com as portas. Também não se riam muito. Não, a família do coronel Dean era demasiado disciplinada para alguma vez se dignarem a ter algo tão vulgar como emoções. Não me lembro de alguma vez o ouvir dizer "Amo-te", a mim ou à minha mãe. Tive de aprender a dizer isso. E ainda estou a aprender. - Olhou para ela.

- Tu ensinaste-me a fazê-lo.

Ela tocou na coxa dele. O seu rapaz calmo e impenetrável. Ainda faltava ensinar-lhe algumas coisas.

- Por isso nunca peças desculpas por eles - disse ele. - Foram eles que te fizeram.

- As vezes tenho dúvidas. Olho para o Frankie e penso, por favor, meu Deus, deixa-me ser o bebé que eles encontraram na soleira da porta.

Ele riu-se.

- As coisas estavam bastante tensas esta noite. O que se passava ali, já agora?

- Não faço ideia. - Ela recostou-se no banco. - Mas mais cedo ou mais tarde vamos ficar a saber tudo.

 

Jane calçou umas botas de papel, vestiu a bata cirúrgica e apertou o laço atrás da cintura. Olhando através da parede de vidro que dava para o laboratório de autópsias, pensou: Na verdade não quero ir lá para dentro. Mas Frost estava já na sala, de bata e máscara, mostrando apenas o suficiente para Jane ver a sua careta. O assistente de Maura, Yoshima, tirou umas radiografias de um sobrescrito e montou-as no negatoscópio. As costas de Maura impediam que Jane visse a mesa, escondendo aquilo que ela tinha pouca vontade de enfrentar. Apenas há uma hora, estava sentada à mesa da sua cozinha, Regina arrulhando no seu colo, enquanto Gabriel preparava o pequeno-almoço. Agora os ovos mexidos agitavam-se no seu estômago e ela desejava arrancar a bata e voltar a sair do edifício para a neve purificadora.

Em vez disso empurrou a porta para a sala de autópsias.

Maura olhou por cima do ombro e o seu rosto não deixou transparecer qualquer hesitação quanto às normas a seguir. Ela era apenas uma profissional como qualquer outro, pronta para fazer o seu trabalho. Embora ambas lidassem com a morte, Maura tinha muito mais intimidade com ela, sentia-se muito melhor quando tinha de a encarar.

- íamos agora começar - disse Maura.

- Fiquei presa no trânsito. As estradas estão uma confusão esta manhã.

- Jane prendeu a sua máscara enquanto se aproximava do fundo da mesa. Evitou olhar para os restos mortais, preferindo concentrar a sua atenção no negatoscópio.

Yoshima carregou no interruptor e a luz vacilante acendeu-se, brilhando atrás de duas filas de películas. Radiografias do crânio. Mas estas não eram como as radiografias do crânio que Jane vira antes. Onde a coluna cervical devia estar, viu apenas algumas vértebras e depois... nada. Somente a sombra irregular de tecidos moles onde o pescoço tinha sido cortado. Ela imaginou Yoshima a posicionar essa cabeça para fazer as radiografias. Tê-la-ia rolado como uma bola de praia enquanto recolhia imagens na cassete, enquanto desviava o colimador? Afastou-se do negatoscópio.

E deu por si a olhar para a mesa. Para os restos mortais, apresentados numa posição anatómica. O torso estava de costas, as partes cortadas pousadas aproximadamente onde deveriam estar. Um quebra-cabeças em carne e osso, as peças à espera de serem reunidas. Embora não quisesse olhar para isso, estava ali: a cabeça, que se tinha inclinado sobre a orelha esquerda, como se a vítima se tivesse virado para olhar de lado.

- Preciso de ver esta ferida mais de perto - disse Maura. - Podes ajudar-me a mantê-la em posição? - Uma pausa. - Jane?

Sobressaltada, Jane viu Maura a olhar para ela.

- O quê?

- O Yoshima vai tirar fotografias e eu preciso de espreitar através do ampliador. - Maura agarrou o crânio com as suas mãos enluvadas e rodou a cabeça, tentando ajustar as bordas da ferida. - Assim, tenta mantê-la nesta posição. Calça umas luvas e dá a volta para esta ponta.

Jane olhou de relance para Frost. Antes tu do que eu, disseram os olhos dele. Ela avançou para a cabeceira da mesa. Parou aí para calçar as luvas, depois baixou as mãos para segurar a cabeça. Deu por si a encarar os olhos da vítima, cujas córneas eram baças como cera. Um dia e meio na câmara frigorífica tinha esfriado a carne, e enquanto ela colocava as suas mãos em concha no rosto, lembrou-se da bancada do talhante no seu supermercado local, com as galinhas geladas envolvidas em plástico. No fim, somos todos simplesmente carne.

Maura debruçou-se sobre a ferida, examinando-a através do ampliador.

- Parece ser um único golpe de um lado ao outro do anterior. Lâmina muito afiada. O único entalhe que vejo é um bocado atrás, por baixo das orelhas. Retorno mínimo de faca de serrilha.

- Uma faca de pão não muito bem afiada - disse Frost, a sua voz ouvindo-se muito ao longe. Jane ergueu os olhos e viu que ele se tinha afastado da mesa e estava a meio caminho do lavatório, com a mão a tapar a máscara.

- Quando falo de faca de serrilha, não estou a referir-me à lâmina - disse Maura. - É um padrão de corte. Cortes sucessivos indo cada vez mais fundo, no mesmo plano. O que vemos aqui é um corte inicial muito profundo, feito directamente na cartilagem tiroideia, baixando para a coluna vertebral. Depois uma desarticulação rápida, entre a segunda e a terceira vértebra cervical. Pode ter levado menos de um minuto a terminar esta decapitação.

Yoshima aproximou-se com a sua câmara digital, tirando fotos muito perto da ferida. De frente, de lado. O horror visto de todos os ângulos.

- Muito bem, Jane - disse Maura. - Vamos ver o plano da incisão. - Maura agarrou na cabeça e virou-a ao contrário. - Segura-a assim para mim.

Jane captou um vislumbre de carne cortada e da traqueia aberta, e desviou abruptamente o olhar, segurando cegamente a cabeça na posição desejada.

Mais uma vez Maura aproximou-se com o ampliador para examinar a superfície de corte.

- Vejo estriamentos na cartilagem tiroideia. Penso que a lâmina era de serrilha. Tira umas fotos disto.

Uma vez mais, o obturador clicou quando Yoshima se debruçou para fazer mais fotos. As minhas mãos vão ficar nestas fotos, pensou Jane, este instante preservado para os arquivos de provas. A cabeça dela, as minhas mãos.

- Disse... disse que havia salpicos de sangue arterial na parede - disse Frost.

Maura concordou.

- No quarto.

- Ela estava viva.

- Estava.

- E esta... decapitação... demorou apenas segundos?

- Com uma faca afiada, uma mão hábil, um assassino pode certamente fazer isso nesse tempo tão curto. Só a coluna vertebral é que o pode atrasar.

- Então ela soube o que estava a acontecer, não foi? Deve ter sentido tudo.

- Duvido muito disso.

- Se alguém nos corta a cabeça, devemos estar conscientes pelo menos durante alguns segundos. Foi o que ouvi no The Art Bell Show. Um médico qualquer estava na rádio com ele, a falar do que é ser guilhotinado. Que provavelmente ainda estamos conscientes enquanto a nossa cabeça cai no balde. Na verdade podemos sentir-nos a cair lá dentro.

- Isso pode ser verdade, mas...

- O médico disse que Maria, rainha dos Escoceses, estava ainda a tentar falar, mesmo depois de lhe terem cortado a cabeça. Os lábios dela continuavam a mexer-se.

- Caramba, Frost - disse Jane. - Como se eu precisasse de ser ainda mais horrorizada?

- É altamente improvável - disse Maura -, e não estou a dizer isto só para o sossegar. - Ela virou a cabeça de lado na mesa. - Apalpe o crânio. Neste ponto.

Frost olhou para ela, horrorizado.

- Não, deixe estar. Não preciso de fazer isso.

- Vamos lá. Calce uma luva e passe os dedos pelo osso temporal. Há uma laceração do escalpe. Só dei por isso depois de ter limpo o sangue. Apalpe o crânio aqui e diga-me o que detecta.

Era manifestamente a última coisa que Frost quereria fazer, mas calçou uma luva e hesitantemente pousou os dedos no crânio.

- Há um, ha, declive no osso.

- Uma fractura do crânio rebaixada. Pode vê-la na radiografia. - Maura dirigiu-se ao negatoscópio e apontou para as linhas do crânio. - Nas imagens feitas de lado, vê fracturas bifurcando-se a partir desse ponto de impacto. Irradiam como uma teia de aranha através do osso temporal. Na verdade, é exactamente isso que chamamos a este tipo de fractura. Um padrão de mosaico ou teia de aranha. Está numa localização particularmente crítica, porque a artéria meníngea média passa mesmo aqui por baixo. Se a rompermos, o paciente sangra na cavidade craniana. Quando abrirmos o crânio, veremos se foi isso que aconteceu. - Olhou para Frost. - Isto foi uma pancada forte na cabeça. Penso que a vítima estava inconsciente quando começou a incisão.

- Mas ainda estava viva.

- Sim. Estava certamente ainda viva.

- Não sabe se ela estava inconsciente.

- Não há feridas defensivas nos seus membros. Não há indícios físicos de que tenha resistido. Não deixamos que alguém nos corte o pescoço sem lutarmos. Creio que ela estava abalada por essa pancada. Não penso que tenha sentido a lâmina. - Avançou para o lado direito do cadáver, agarrou no braço amputado e levantou a extremidade cortada para o ampliador. - Temos mais marcas do instrumento aqui na superfície da cartilagem, onde ele desarticulou a articulação do cotovelo - disse ela. - Parece que a mesma lâmina foi usada aqui. Muito afiada, serrilhada. - Ela opôs o braço solto ao cotovelo, como se estivesse ajuntar as peças de um manequim, e observou a correspondência. Não havia nenhuma expressão de horror no rosto dela, somente concentração. Podia estar a examinar maquinetas ou rolamentos, não carne dilacerada. Não o membro de uma mulher que costumava levantar esse braço para escovar o cabelo, para acenar. Para dançar. Como é que Maura conseguia fazer isso? Como é que conseguia vir para este edifício todas as manhãs, sabendo o que a esperava? Dia após dia, pegando no bisturi, dissecando a tragédia de vidas cortadas pela raiz? Eu também lido com essas tragédias. Mas não tenho de serrar crânios ou meter as minhas mãos no tórax dos cadáveres.

Maura deu a volta para o lado esquerdo do cadáver. Sem hesitar, agarrou na mão decepada. Congelada e exaurida de sangue, parecia feita de cera, não de carne, como a ideia que um aderecista de filmes poderia ter do que deveria parecer uma mão verdadeira. Maura passou o ampliador por cima dela e inspeccionou a superfície crua do corte. Por instantes não disse nada mas uma ruga estava agora gravada na sua testa.

Pousou a mão e levantou o braço esquerdo para examinar o coto do pulso. A sua ruga ficou mais funda. Voltou a pegar na mão e opôs as duas feridas, tentando fazer coincidir as superfícies cortadas, mão com pulso, pele cor de cera com pele cor de cera.

Pousou bruscamente as partes do corpo e olhou para Yoshima.

- Podes mostrar as radiografias do pulso e da mão?

- Já acabaste de ver todas estas radiografias do crânio?

- Volto a vê-las mais tarde. Agora quero ver a mão e o pulso esquerdos. Yoshima retirou o primeiro conjunto de radiografias e montou uma nova série. Contra o fundo iluminado do negatoscópio, mão e dedos brilharam, as colunas de falanges como delgados caules de bambu. Maura descalçou as luvas e aproximou-se do negatoscópio, com os olhos cravados nas imagens. Não disse nada; foi o seu silêncio que indicou a Jane que havia ali algo muito errado.

Maura virou-se e olhou para ela.

- Fizeste buscas em toda a casa da vítima?

- Sim, claro.

- Na casa inteira? Em todos os armários, em todas as gavetas?

- Não havia lá muita coisa. Ela tinha-se mudado poucos meses antes.

- E o frigorífico? O congelador?

- A equipa forense passou tudo a pente fino. Porquê?

- Vem ver esta radiografia.

Jane tirou as suas luvas sujas e dirigiu-se ao negatoscópio para ver as películas. Não viu lá nada que explicasse o repentino tom de urgência de Maura, nada que não correspondesse ao que vira pousado na mesa.

- Para onde é que é suposto eu olhar?

- Vês esta imagem da mão? Estes ossinhos aqui são chamados carpais. Formam a base da mão, antes de os ossos do dedo se ramificarem. - Maura pegou na mão de Jane para fazer a demonstração, virando-a com a palma para cima, revelando a cicatriz que para sempre lembraria a Jane o que outro assassino lhe fizera. Um registo de violência, marcado na sua carne por Warren Hoyt. Mas Maura não fez comentários sobre a cicatriz; em vez disso, apontou para a base carnuda da palma da mão de Jane, junto do pulso.

- Os ossos carpais estão aqui. Na radiografia, parecem oito pedrinhas. São apenas pequenos pedaços de osso, mantidos juntos por ligamentos e músculos e tecidos conjuntivos. Estes dão às tuas mãos flexibilidade, permitem-nos executar uma gama completa de tarefas espantosas, desde esculpir a tocar piano.

- Muito bem. E então?

- Este aqui, nesta série mais próxima - Maura apontou para a radiografia, para um osso perto do pulso -, é chamado escafóide. Vais reparar que existe um espaço de articulação por baixo dele, e a seguir, nesta película, há uma lasca distinta de outro osso. Faz parte do processo estilóide. Quando ele cortou esta mão, também retirou um fragmento do osso do braço.

- Ainda não consigo ver a importância disso.

- Agora olha para a radiografia do coto do braço. - Maura apontou para outra radiografia. - Vês a extremidade periférica dos dois ossos do antebraço. O osso mais fino é o cúbito, o osso engraçado. E o grosso, no lado do polegar, é o rádio. Aqui está o processo estilóide de que eu falava há pouco. Vês aonde eu quero chegar?

Jane franziu a testa.

- Está intacto. Nesta radiografia, esse osso está todo aqui.

- Exactamente. Não só está intacto como ainda há um pedaço do osso seguinte agarrado a ele. Uma lasca do escafóide.

Naquela sala fria, Jane sentiu subitamente a cara a ficar entorpecida.

- Ena pá - disse em voz baixa. - Isto está a começar a soar mal.

- É mesmo mau.

Jane virou-se e regressou à mesa. Baixou os olhos para a mão amputada, pousada ao lado do que julgara, do que todos eles tinham julgado, ser o braço a que antes estivera presa.

- As superfícies de corte não coincidem - disse Maura. - Nem as radiografias.

Frost disse.

- Está dizer-nos que esta mão não é dela?

- Vamos precisar de uma análise de ADN para confirmar. Mas creio que a prova está aqui, no negatoscópio. - Virou-se e olhou para Jane. - Há uma outra vítima que vocês ainda não encontraram. E nós temos a mão esquerda dela.

 

15 DE JULHO, QUARTA-FEIRA. Fase da Lua: Lua Nova.

Estes são os rituais da família Saul.

Às 13 horas, o tio Peter regressa a casa depois de ter passado metade da sua jornada na clínica. Muda de roupa, veste jeans e T-shirt e dirige-se para a sua horta, onde uma selva de tomateiros e pepinos sobrecarrega as suas latadas.

Às 14 horas, o pequeno Teddy sobe a colina vindo do lago, carregando a sua cana de pesca. Mas não apanhou nada. Ainda não o vi trazer para casa um único peixe.

Às 14.15, as duas amigas de Lily sobem a colina, trazendo fatos de banho e toalhas. A mais alta, julgo que o seu nome é Sarah, também traz um rádio. A sua estranha e agressiva música perturba agora o que, fora isso, seria uma tarde silenciosa. As toalhas delas espalham-se pela relva, as três raparigas aquecem-se ao sol como felinos sonolentos. A pele delas brilha com o protector solar. Lily senta-se e estende a mão para a sua garrafa de água. Quando a leva aos lábios, fica subitamente quieta, olhando para a minha janela. Vê-me a observá-la.

Não é a primeira vez.

Pousa lentamente a garrafa de água e diz qualquer coisa às suas duas amigas. As outras raparigas erguem-se agora, sentam-se e olham na minha direcção. Por instantes ficam a olhar para mim, tal como eu estou a olhar para elas. Sarah apaga o rádio. Todas elas se levantam, abanam as toalhas e entram na casa.

Um momento depois, Lily bate à minha porta. Não espera pela resposta mas entra sem ser convidada no meu quarto.

- Porque é que nos estavas a observar? -pergunta.

- Só estava a olhar pela janela.

- Estavas a olhar para nós.

- Porque por acaso vocês estavam ali.

O seu olhar pousa na minha secretária. Em cima dela, aberto, está o livro que a minha mãe me deu quando fiz dez anos. Geralmente conhecido como o Livro Egípcio dos Mortos, é uma colectânea de antigos textos fúnebres. Todos os feitiços e encantamentos de que precisamos para navegar na vida depois da morte. Aproxima-se do livro mas hesita em tocar-lhe, como se as páginas lhe pudessem queimar os dedos.

- Estás interessada em rituais de morte? -pergunto.

- Não passam de superstições.

- Como é que podes saber isso se não tentares fazê-los?

- Tu consegues mesmo ler estes hieróglifos?

-A minha mãe ensinou-me. Mas esses são apenas feitiços menores. Não são os realmente poderosos.

-E o que é que um feitiço poderoso pode fazer? - Ela olha para mim, um olhar tão directo e inflexível que me leva a perguntar se ela não será mais do que parece. Se não a subestimei.

- Os feitiços mais poderosos - digo-lhe - podem ressuscitar os mortos.

- Queres dizer, tal como em A Múmia? - ri-se.

Ouço mais risinhos atrás de mim e viro-me para ver as suas duas amigas paradas na entrada do quarto. Têm estado a escutar-nos e olham para mim com desdém. Eu sou manifestamente o rapaz mais esquisito que elas conheceram. Não fazem ideia de como sou realmente diferente.

Lily fecha o Livro dos Mortos.

- Vamos nadar, meninas - diz ela e sai rapidamente do quarto, deixando atrás de si o doce odor do seu protector solar.

Através da minha janela, vejo-as descer a colina, em direcção ao lago. A casa está agora silenciosa.

Vou até ao quarto de Lily. Da sua escova de cabelo arranco longos fios de cabelo castanho e meto-os no meu bolso. Destapo as loções e cremes no seu toucador e cheiro-os; cada odor traz consigo uma centelha de memória: Lily na mesa dopequeno-almoço. Lily sentada a meu lado no carro. Abro as suas gavetas, o seu armário, e toco nas roupas dela. Roupas que qualquer adolescente americana podia usar. Afinal de contas, ela é apenas uma rapariga, nada mais. Mas precisa de ser vigiada.

É o que eu faço melhor.

 

Siena, Itália. Agosto

Lily Saul acordou de repente, saindo de um sono profundo, e ficou deitada a respirar dificilmente entre lençóis torcidos. A luz ambarina do fim da tarde brilhou através das fendas das persianas de madeira parcialmente fechadas. Na obscuridade por cima da sua cama, uma mosca zumbiu, dando voltas em antecipação do sabor da sua carne húmida. O seu medo. Sentou-se no colchão delgado, empurrou para trás o cabelo emaranhado e massajou a cabeça enquanto as batidas do seu coração se tornavam gradualmente mais lentas. O suor escorreu das suas axilas, embebendo a T-shirt. Tinha conseguido dormir no meio do pior calor da tarde, mas o quarto ainda parecia sufocante, a atmosfera suficientemente pesada para a abafar. Não posso continuar a viver assim para sempre, pensou, ou acabo por enlouquecer.

Talvez já esteja louca.

Levantou-se da cama e dirigiu-se à janela. Mesmo os ladrilhos debaixo dos pés irradiavam calor. Abrindo completamente as persianas, olhou através da minúscula praça, para os edifícios cozendo como fogões de pedra ao Sol. Uma neblina dourada cobria cúpulas e telhados de um tom ocre. O calor de Verão tinha levado os sensíveis habitantes de Siena para dentro de casa; só os turistas estariam agora lá fora, vagueando de olhos arregalados pelas ruas estreitas, bufando e suando enquanto subiam a íngreme ladeira que leva à basílica ou posando para fotos na Piazza del Campo, com as solas dos seus sapatos derretendo-se e ficando pegajosas na tijoleira abrasadora: todas as habituais coisas turísticas que ela própria tinha feito quando chegara a Siena, antes de se acomodar aos ritmos dos habitantes da terra, antes de o calor de Agosto se ter aproximado desta cidade medieval.

Por baixo da sua janela, napiazzetta, ninguém se mexia. Mas enquanto se afastava da janela vislumbrou algo a mexer-se na sombra de uma porta. Ficou muito quieta, com os olhos postos nesse ponto. Não consigo vê-lo. Será que ele consegue ver-me? Então o habitante que se abrigava nessa entrada imergiu do seu esconderijo, trotou através dapiazzetta e desapareceu.

Era apenas um cão.

Dando uma risada, afastou-se da janela. Nem todas as sombras escondem monstros. Mas algumas escondem. Algumas sombras seguem-nos, ameaçam-nos, onde quer que vamos.

Na sua minúscula casa de banho salpicou a cara com a água morna e puxou para trás o seu cabelo escuro, fazendo um rabo-de-cavalo. Não perdeu tempo a maquilhar-se: durante este último ano tinha largado quaisquer hábitos que a pudessem atrasar. Andava sempre com uma pequena mala mais uma mochila, possuía apenas dois pares de sapatos, as suas sandálias e ténis. Jeans, T-shirts e camisolas levavam-na do calor do Verão para o gelo do Inverno. Quando a buscamos a sério, a sobrevivência é apenas uma questão de disposição em camadas, seja de roupa seja de defesas emocionais. Não deixar entrar os elementos, repelir as ligações.

Manter-se a salvo.

Agarrou na mochila e saiu do quarto para o corredor sombrio. Aí parou, como sempre fazia, e inseriu um pedaço rasgado de fósforo de cartão na ombreira inferior, enquanto fechava a porta e a trancava. Não que a velha fechadura impedisse alguém de entrar. Tal como todo o edifício, tinha provavelmente séculos.

Estimulada pelo calor, saiu para apiazzetta. Parou, esquadrinhando o espaço deserto. Era ainda demasiado cedo para que a maioria dos habitantes saísse e andasse por ali, mas dali a uma hora deviam acordar das suas sestas estimuladas pelo almoço e começar a regressar às lojas e aos escritórios. Lily ainda tinha algum tempo para si antes de Giorgio esperar que regressasse ao trabalho. Era uma oportunidade para caminhar e limpar as suas teias de aranha, para visitar os seus covis favoritos na sua cidade favorita. Estivera em Siena apenas três meses e começava já a sentir a cidade a afastar-se lentamente dela. Em breve teria de a deixar, tal como deixara cada um dos outros lugares que amava.

Já fiquei aqui demasiado tempo.

Atravessou apiazzetta e começou a subir a ruela estreita que conduzia à Via di Fontebranda. O seu percurso levou-a ao antigo fontanário da cidade, passando por edifícios que outrora tinham albergado artesãos medievais e, mais tarde, matadouros. A Fontebranda era um ponto de referência da Siena outora celebrada por Dante, e as suas águas eram ainda transparentes, ainda convidativas, mesmo passados tantos séculos. Ela tinha vindo aqui uma vez, durante a lua cheia. Segundo a lenda, era nessa altura que os lobisomens vinham banhar-se nas águas, antes de se voltarem a transformar em seres humanos. Nessa noite, não vislumbrou nenhum lobisomem, somente turistas bêbados. Talvez fossem uma e a mesma coisa.

Subindo agora a colina, as suas resistentes sandálias batendo nas pedras ardentes, passou pelo Santuário e Casa de Santa Catarina, a santa padroeira de Siena, que sobrevivera durante longos períodos não comendo mais nada senão o Santíssimo Sacramento. Santa Catarina tivera vívidas visões do Inferno, do Purgatório e do Inferno, e desejara a glória e a divina agonia do martírio. Após uma longa e desconfortável doença, tudo o que conseguira fora uma decepcionante morte vulgar. Enquanto subia a colina, Lily pensou: Eu também tive visões do Inferno. Mas não tenho nenhum interesse pelo martírio. Quero viver. Fazer seja o que for para viver.

Quando alcançou a Basílica di San Domenico, a sua T-shirt estava encharcada de suor. Parou ofegante no alto da colina, olhando do alto para a cidade, para os seus telhados nublados, até parecerem desfocados na neblina estival. Era uma vista que lhe fazia doer o coração, porque sabia que teria de sair dali. Já se demorara em Siena mais do que devia e sentia agora o mal a alcançá-la, quase podia sentir o seu cheiro vago, vil, trazido pelo vento. A toda a sua volta, turistas derreados enchiam o alto da colina, mas ela manteve-se num silencioso isolamento, um fantasma entre os vivos. Já morta, pensou. Para mim, isto é tempo emprestado.

- Desculpe, menina? Fala inglês?

Sobressaltada, Lily virou-se e viu um homem e uma mulher de meia-idade vestindo T-shirts U'Penn iguais, e calções largos. O homem segurava uma máquina fotográfica que parecia complexa.

- Querem que vos tire uma fotografia? - perguntou Lily.

- Isso era óptimo! Obrigado. Lily agarrou na câmara.

- Esta tem algum truque?

- Não, basta carregar no botão.

O casal entrelaçou os braços e posou com a vista de Siena estendendo-se como uma tapeçaria medieval atrás deles. A sua recordação de uma escalada árdua num dia quente.

- Você é americana, não é? - disse a mulher, enquanto Lily devolvia a câmara. - Então de onde é? - Era apenas uma pergunta amigável, algo que inúmeros turistas perguntavam uns aos outros, uma maneira de comunicarem com outros companheiros de viagem longe de casa. Mas imediatamente pôs Lily em guarda. A curiosidade deles é quase certamente inocente. Mas não conheço estas pessoas. Não posso ter a certeza.

- Oregon - mentiu.

- A sério? O nosso filho vive lá! De que cidade?

- Portland.

- Essa agora, o mundo é mesmo pequeno! Ele vive na Northwest Irving Street. Isso fica perto de si?

- Não. - Lily estava a recuar, afastando-se destas pessoas dominadoras que provavelmente a seguir iriam insistir para que fosse tomar café com elas, e fazer-lhe ainda mais perguntas, buscando mais pormenores que não fazia tenções de partilhar. - Tenham uma boa visita!

- Olhe, gostaria de...

- Tenho de me encontrar com uma pessoa. - Disse-lhes adeus e fugiu dali. As portas da basílica agigantaram-se à sua frente, oferecendo-lhe um local de refúgio. Entrou lá dentro, nesse silêncio fresco, e soltou um suspiro de alívio. O templo estava quase vazio; somente uns quantos turistas vagueando pelo vasto espaço e as suas vozes ditosamente abafadas. Ela caminhou para o arco gótico, onde o sol brilhava através dos vitrais em pedaços de luz preciosa, passando pelos túmulos de nobres de Siena alinhados ao longo das duas paredes. Virando para o nicho de uma capela, parou diante do ornamentado altar de mármore e fixou o olhar no relicário contendo a cabeça preservada de Santa Catarina de Siena. Os seus restos mortais tinham sido divididos e distribuídos como santas relíquias, o seu corpo em Roma, o pé em Veneza. Soubera ela que seria esse o seu destino? Que a sua cabeça iria ser arrancada do tronco decadente, a sua cara mumificada exposta a inúmeros turistas suados e a alunos tagarelas das escolas?

As endurecidas órbitas dos olhos da santa fitavam-na atrás do vidro. É este o aspecto da morte. Mas tu já sabias, não é, Lily Saul?

Estremecendo, Lily saiu do nicho da capela e atravessou rapidamente a igreja cheia de ecos, regressando à entrada. Novamente lá fora, quase se sentiu grata pelo calor. Mas não pelos turistas. Tantos estranhos com máquinas fotográficas. Qualquer um deles podia tirar-lhe furtivamente uma foto.

Deixou a basílica e começou a descer a colina, através da Piazza Salimbeni, passando pelo Palazzo Tolomei. O emaranhado de ruas estreitas confundia facilmente os turistas mas Lily conhecia o caminho através desse labirinto, e caminhou rapidamente, sabendo onde ia, em direcção ao seu destino. Já estava atrasada, porque se demorara tempo de mais na colina, e Giorgio iria certamente ralhar com ela. Não que essa perspectiva lhe causasse qualquer tipo de terror, porque os resmungos de Giorgio nunca tinham consequências significativas.

Por isso, quando chegou ao local de trabalho quinze minutos atrasada, nem sequer sentiu o menor sinal de temor. A pequena campainha tocou na porta, anunciando a sua entrada na loja, e ela inalou os odores familiares de livros empoeirados, cânfora e fumo de cigarro. Giorgio e o seu filho, Paolo, estavam debruçados sobre uma secretária perto das traseiras da loja, ambos usando lentes de ampliação encaixadas nas suas cabeças. Quando Paolo levantou os olhos, um imenso olho fixou Lily como se fosse o de um ciclope.

- Tens de ver isto! - disse-lhe em italiano. -Acabou de chegar. Enviado por um coleccionador de Israel.

Estavam tão excitados que nem tinham dado pelo atraso dela. Lily pousou a mochila atrás da sua secretária e abriu caminho entre a mesa antiga e o banco monacal de carvalho. Passando pelo sarcófago romano que agora servia, vergonhosamente, como contentor temporário para armazenar arquivos. Passou por cima de um caixote aberto que espalhara aparas de madeira pelo chão, e franziu a testa ao ver o objecto na secretária de Giorgio. Era um bloco de mármore cinzelado, talvez parte de um edifício. Reparou na patina em duas superfícies adjacentes, um brilho ligeiro deixado por séculos de exposição ao vento, à chuva e ao sol. Era uma pedra angular.

O jovem Paolo tirou a lente e o seu cabelo escuro ficou em pé. Sorrindo para ela com esses tufos de cabelo que lembravam orelhas, parecia um dos lendários lobisomens de Siena, embora um totalmente inofensivo e encantador. Tal como o seu pai, Paolo não tinha um único pingo de crueldade, e, se não fosse pelo facto de ela ser inevitavelmente forçada a magoá-lo, Lily tê-lo-ia facilmente aceite como amante.

- Acho que vais gostar desta peça - disse ele, e passou-lhe a sua lupa. É precisamente o tipo de coisas em que estás sempre interessada.

Ela debruçou-se sobre a pedra angular e examinou a figura humana aí inscrita. Estava erecta, com uma saia presa à cintura e pulseiras e anéis decorativos nos tornozelos. Mas a cabeça não era humana. Encaixou a lupa na cabeça e aproximou-se mais. Quando os pormenores se tornaram visíveis através da lente, sentiu um súbito arrepio. Viu dentes caninos salientes e dedos revestidos de garras. E cornos.

Endireitou-se, com a garganta seca, a sua voz estranhamente distante.

- Disseste que o colecionador é de Israel?

Giorgio confirmou com um aceno de cabeça e retirou a sua lupa, revelando uma versão de Paolo mais velha e rechonchuda. Os mesmos olhos escuros, mas rodeados por rugas de expressão.

- Este tipo é novo para nós. Por isso não podemos ter a certeza da proveniência desta peça. Ou se podemos confiar nele.

- Como é que aconteceu ele mandar-vos esta peça? Giorgio encolheu os ombros.

- Chegou hoje nesse caixote. É tudo o que sei.

- Ele quer que lhe vendam a peça?

- Só pediu que a avaliássemos. O que é que achas?

Ela esfregou um dedo na patina. Sentiu novamente o arrepio, passando da pedra para o seu corpo. - De onde é que disseste que veio? Giorgio deitou a mão a um maço de papéis.

- Diz que a adquiriu há oito anos, em Teerão. Creio que deve ter sido contrabandeada. - Encolheu novamente os ombros e piscou o olho. - Mas o que é que nós sabemos, eh?

- Persa - murmurou ela. - Este é Ahriman.

- O que é Ahriman? - perguntou Paolo.

- Não é quê, é quem. Na Pérsia antiga, Ahriman é um demónio. O espírito da destruição. - Pousou a lupa na secretária e respirou profundamente.

- Para eles era a personificação do mal.

Giorgio deu uma risada e esfregou as mãos, exultante.

- Estás a ver, Paolo? Eu disse-te que ela sabia. Diabos, demónios, ela conhece-os a todos. Tem sempre resposta para tudo.

- Porquê? Paolo olhou para ela. - Nunca entendi porque estás tão interessada em coisas maléficas.

Como é que ela podia responder a essa pergunta? Como é que lhe podia dizer que uma vez vira a Besta olhos nos olhos e que ela lhe devolvera o olhar? Que a vira? Desde então tem-me perseguido.

- Portanto é autêntica? - perguntou Giorgio. - Esta pedra angular?

- Sim, julgo que é.

- Então tenho de lhe escrever imediatamente, eh? Ao nosso novo amigo em Telavive. Dizer-lhe que a enviou para o negociante certo, alguém que compreende o seu valor. - Com muito cuidado, voltou a meter a pedra dentro do caixote. - Para algo tão especial vamos certamente encontrar um comprador.

Quem é que quereria ter esta monstruosidade em sua casa? pensou Lily. Quem desejaria ter o mal a olhar para si na sua própria parede?

Ah, quase me esquecia - disse Giorgio. - Sabes que tens um admirador?

Lily franziu o sobrolho.

- O quê?

- Um homem veio à loja à hora do almoço. Perguntou-me se uma mulher americana trabalhava para mim.

Ela ficou muito quieta.

- O que é que lhe disseste? Paolo disse.

- Eu consegui evitar que o pai dissesse alguma coisa. Podíamo-nos meter em trabalhos, visto que não tens licença.

- Mas agora tenho estado a pensar nisso um pouco mais - disse Giorgio.

- E acho que se calhar ele tem um fraquinho por ti. Foi por isso que perguntou. - Giorgio piscou-lhe o olho.

Ela engoliu em seco.

- Disse o nome dele?

Giorgio deu uma palmada de brincadeira no braço do filho.

- Estás a ver? - repreendeu-o. - Tu mexes-te muito devagar, rapaz. Agora vem aí outro homem e ficamos sem ela.

- Qual era o nome dele? -Lily perguntou novamente, numa voz mais aguda. Mas nem o pai nem o filho pareceram dar-se conta da mudança da sua atitude. Estavam demasiado ocupados a provocar-se mutuamente.

- Não deixou nenhum nome - disse Giorgio. -Acho que ele quer jogar o jogo da identidade secreta, eh? Levar-te a adivinhar.

- Era um homem novo? Que aspecto tinha?

- Ah. Então estás interessada.

- Havia algo - fez uma pausa - invulgar nele?

- O que queres dizer com isso, invulgar? Não humano, era o que ela queria dizer.

- Tinha olhos muito azuis - adiantou Paolo, vivamente. - Olhos estranhos. Muito claros, como os de um anjo.

Exactamente o oposto de um anjo.

Ela virou-se e dirigiu-se imediatamente à janela, espreitando através do vidro coberto de pó para os transeuntes. Ele está aqui, pensou. Descobriu-me em Siena.

- Ele volta, cara mia. Sê paciente - disse Giorgio. E quando voltar não posso estar aqui. Apanhou a mochila.

- Lamento - disse. - Não me estou a sentir bem.

- O que é que tens?

- Acho que não devia ter comido aquele peixe ontem à noite. Não se está a dar bem comigo. Preciso de ir para casa.

- O Paolo leva-te lá.

- Não! Não. - Ela abriu a porta com força, arrancando um som estridente da campainha. - Eu fico bem. - Saiu da loja a correr e não olhou para trás, receando que Paolo tentasse correr atrás dela, insistindo em fazer de cavalheiro e escoltá-la. Não podia permitir que a atrasasse. Agora a pressa era essencial.

Tomou um caminho sinuoso para regressar ao seu apartamento, evitando piazzas cheias de gente e ruas principais. Em vez disso, atalhou por ruelas minúsculas, circundando constantemente em direcção às proximidades da Fontebranda. Só levaria cinco minutos a emalar as suas coisas. Tinha aprendido a ser versátil, a avançar no instante em que surgia um alerta, e tudo o que tinha a fazer era atirar as suas roupas e o estojo de toucador para dentro da mala e tirar os euros que juntara do seu esconderijo atrás da cómoda. Nestes últimos três meses, Giorgio tinha-lhe pago em notas às escondidas, sabendo muito bem que ela não tinha licença de trabalho. Ela tinha reunido um bom pé-de-meia para a ajudar a manter-se quando não tinha trabalho, suficiente para se aguentar até se instalar numa nova cidade. Só tinha de pegar no dinheiro e na mala e partir. Directamente para a estação de autocarros.

Não. Não, pensando melhor, seria aí que ele devia esperar que fosse. Um táxi era melhor. Mais caro, sim, mas se o utilizasse só para sair da cidade, talvez para a levar tão longe como San Gimignano, podia apanhar um comboio para Florença. Aí, no meio da multidão fervilhante, poderia desaparecer.

Não entrou no seu edifício pela piazzetta; aproximou-se dele pela escura rua lateral, passando por latas de lixo e bicicletas presas com correntes, e subiu pela escada das traseiras. Música trombeteava num dos outros apartamentos, espalhando-se através da porta aberta para o corredor. Era aquele adolescente triste da porta ao lado. Tito e o seu maldito rádio. Captou um vislumbre do rapaz, sentado desleixadamente no sofá. Prosseguiu em direcção ao seu apartamento. Estava mesmo a tirar as chaves quando viu o fósforo rasgado e ficou quieta.

Já não estava metido em cunha na ombreira: tinha caído para o chão.

O seu coração bateu com força enquanto recuava. Ao passar pela porta de Tito, o rapaz levantou os olhos do sofá e acenou-lhe. Entre todos os momentos inconvenientes para começar a mostrar-se amigável, tinha escolhido este. Não me digas uma palavra, suplicou silenciosamente. Não te atrevas a dizer seja o que for.

- Hoje não trabalhas? - gritou-lhe em italiano.

Ela virou-se e desceu as escadas a correr. Quase tropeçou nas bicicletas enquanto corria pela ruela. Estou demasiado atrasada, pensou, enquanto contornava rapidamente a esquina e subia uma curta série de degraus. Mergulhando num jardim abandonado, acocorou-se atrás de um muro desmoronado e ficou aí muito quieta, mal ousando respirar. Cinco minutos, dez. Não ouviu passos, sons de perseguição.

Se calhar o fósforo caiu sozinho. Se calhar ainda posso recuperar a minha mala. O meu dinheiro.

Arriscando uma olhadela por cima do muro, espreitou para a ruela. Ninguém.

Arrisco? Ouso ir até lá?

Deslizou novamente para a viela. Seguiu o caminho por uma série de ruas estreitas até chegar perto da piazzetta. Mas não avançou para esse espaço aberto: preferiu avançar lentamente para a esquina de um edifício e espreitar para a janela do seu apartamento. As persianas de madeira estavam abertas, tal como as deixara. Através do crepúsculo crescente, viu algo a mexer-se nessa janela. Uma silhueta, somente durante alguns segundos, enquadrada pelas persianas.

Recuou rapidamente para trás do edifício. Merda. Merda.

Abriu a mochila e remexeu na carteira. Quarenta e oito euros. Suficiente para algumas refeições e um bilhete de autocarro. Talvez suficiente para uma corrida de táxi até San Gimignano, mas não para muito mais. Tinha um cartão multibanco, mas não se atrevia a usá-lo senão em grandes cidades, onde podia facilmente misturar-se com a multidão. A última vez que o utilizara tinha sido em Florença, numa noite de sábado, quando as ruas estavam cheias de gente.

Não aqui, pensou. Não em Siena.

Deixou a piazzeeta e encaminhou-se mais profundamente para as ruelas atrás da Fontebranda. Essa era a vizinhança que ela conhecia melhor; aí podia escapar a qualquer um. Encontrou o caminho para uma cafetaria minúscula que descobrira semanas antes, frequentada apenas por habitantes da cidade. Lá dentro, era tão escuro como uma caverna e a atmosfera pesada com o fumo de cigarros. Sentou-se numa mesa de canto, pediu uma sanduíche de queijo e tomate e um expresso. Depois, enquanto a tarde passava, outro expresso. E mais outro. Esta noite não iria dormir. Podia ir a pé para Florença. Eram apenas... o quê, trinta e dois, quarenta quilómetros? Já tinha dormido nos campos. Roubara pêssegos, arrancara bagos de uva no escuro. Podia voltar a fazê-lo.

Devorou a sua sanduíche, metendo todas as migalhas na boca. Não sabia quando é que poderia voltar a comer. Na altura em que saiu da cafetaria, a noite tinha caído e podia deslocar-se através de ruas escuras com pouco receio de ser reconhecida. Havia outra opção. Era arriscada, mas podia poupar-lhe uma longa caminhada de quarenta quilómetros.

E o Giorgio faria isso por ela. Levá-la-ia de carro até Florença.

Fartou-se de andar, evitando o Campo, ficando-se pelas ruas laterais. Quando chegou à residência de Giorgio, doíam-lhe as barrigas das pernas, tinha os pés magoados pelas pedras desiguais do pavimento. Parou a coberto da escuridão, olhando para a janela. A mulher de Giorgio morrera há anos e agora pai e filho partilhavam o apartamento. As luzes estavam acesas lá dentro, mas não viu movimento no primeiro piso.

Não era tão imprudente que fosse bater à porta da frente. Preferiu dar a volta para o pequeno jardim nas traseiras, passar o portão e roçar por fragrantes tomilhos e lavandas para bater à porta da cozinha.

Ninguém respondeu.

Esticou-se para ouvir se a televisão estava ligada, pensando que talvez não a pudessem ouvir, mas só escutou os sons abafados de trânsito na rua.

Tentou rodar a maçaneta: a porta abriu-se logo.

Bastou-lhe dar uma olhadela. Um vislumbre de sangue, de braços estendidos e caras caídas no chão. De Giorgio e Paolo, enrolados um no outro, num último abraço.

Ela recuou, com a mão a tapar-lhe a boca, a sua visão nublada pelas lágrimas que lhe inundavam a cara. Culpa minha. Isto foi tudo culpa minha. Foram mortos por minha causa.

Recuando aos tropeções através da lavanda, chocou com o portão de madeira. O choque fê-la recuperar rapidamente os seus instintos.

Vai. Corre.

Afastou-se do jardim, não perdendo tempo a fechar o portão atrás de si e desceu a rua a correr, as suas sandálias batendo nas pedras da calçada.

Não abrandou o seu andamento até alcançar os arredores de Siena.

 

- Estamos absolutamente certos de que há uma segunda vítima? - perguntou o tenente Marquette. - Ainda não temos confirmação do ADN.

- Mas temos dois tipos diferentes de sangue - disse Jane. - A mão amputada pertencia a alguém com sangue de tipo O positivo. Lori-Anne Tucker é do tipo A positivo. Por isso a Doutora Isles acertou em cheio.

Fez-se um longo silêncio na sala de reuniões. O Dr. Zucker disse em voz baixa.

- Isto está a tornar-se muito interessante.

Jane olhou do outro lado da mesa para ele. O olhar intenso do psicólogo forense Dr. Lawrence Zucker tinha-a sempre deixado desconfortável. Ele olhava agora para ela como se fosse o único foco da sua curiosidade e ela quase conseguia sentir o olhar dele a abrir um túnel no seu cérebro. Tinham trabalhado juntos durante a investigação do Cirurgião, há dois anos e meio, e Zucker sabia como ela se sentira depois perseguida por essa memória. Sabia dos seus pesadelos, dos seus ataques de pânico. Tinha visto o seu hábito de esfregar constantemente as cicatrizes nas palmas das mãos, como se desejasse massajar essas recordações para as afastar de si. Desde então, os pesadelos com Warren Hoyt tinham-se desvanecido. Mas quando Zucker olhava para ela desta maneira, sentia-se exposta, porque ele sabia quão vulnerável ela estivera. E Jane tinha ressentimentos contra ele por causa disso.

Ela desviou o olhar e focou-o nos outros dois detectives, Barry Frost e Eve Kassovitz. Juntar Kassovitz a esta equipa tinha sido um erro. O seu vomitado diante de todos no monte de neve era agora do conhecimento público de toda a unidade e Jane podia ter previsto as piadas convenientes que tinham sido feitas depois disso. No dia a seguir ao Natal, um gigantesco balde de plástico, rotulado como o nome de Kassovitz, tinha aparecido misteriosamente no balcão de recepção da unidade. A mulher devia ter-se limitado a rir disso, ou talvez a ficar furiosa. Em vez disso, tinha um ar tão abatido como uma foca espancada, e estava afundada na sua cadeira, demasiado desmoralizada para dizer alguma coisa. Não iria certamente sobreviver neste clube de rapazes se não aprendesse a reagir.

- Portanto temos um assassino que não só desmembra as suas vítimas disse Zucker - como também transfere partes dos corpos de um local de crime para outro. Tem uma foto da mão?

- Temos montes de fotos - disse Jane. Passou a pasta da autópsia a Zucker.

- Pela sua aparência, podemos ter a certeza de que é a mão de uma mulher.

As imagens eram suficientemente pavorosas para revirar o estômago de qualquer pessoa, mas o rosto de Zucker não deixou transparecer qualquer choque ou nojo, enquanto passava os olhos pelas fotos. Apenas uma curiosidade aguçada. Ou era aquela avidez que ela via nos olhos dele? Seria que se deleitava com a visão das atrocidades cometidas no corpo de uma mulher nova?

Ele parou na foto da mão.

- As unhas não têm verniz mas os dedos parecem certamente bem cuidados. Sim, concordo que parece ser a mão de uma mulher. - Olhou de relance para Jane, os seus olhos claros espreitando-a por cima dos óculos de aros metálicos. - O que é que tem sobre estas impressões digitais?

- A pessoa que tinha essa mão não possui antecedentes criminais. Não fez serviço militar. Não há nada no NCIC.

- Ela não consta de nenhuma base de dados?

- Não através das impressões digitais, de qualquer modo.

- E esta mão não será lixo hospitalar? Uma amputação feita no hospital, talvez?

Frost disse:

- Verifiquei isso junto de todos os centros médicos da zona da grande Boston. Nas últimas duas semanas houve duas amputações de mãos, uma no Mass Gen, outra no Pilgrim Hospital. Ambas foram resultantes de lesões graves. A primeira foi um acidente numa serração. A segunda foi o ataque de um cão. Em ambos os casos, as mãos estavam tão gravemente mutiladas que não puderam voltar a ser cosidas. E no primeiro caso foi um homem.

- Esta mão não foi retirada de lixo hospitalar - disse Jane. - E não foi mutilada. Foi cortada com uma lâmina muito afiada e de serrilha. Isso também não foi feito com qualquer perícia cirúrgica. A ponta do rádio foi cortada sem nenhuma tentativa aparente para controlar a perda de sangue. Não houve laqueação de veias nem dissecação de camadas de pele. Apenas um corte limpo.

- Temos quaisquer pessoas desaparecidas que possam corresponder a este perfil?

- Não no Massachusetts - disse Frost. - Estamos a fazer uma busca intensa na rede. Procurando qualquer mulher branca. Ela não podia estar desaparecida há muito tempo, visto que a mão parece bastante fresca.

- Pode ter sido congelada - disse Marquette.

- Não - respondeu Jane. - Não se vê nenhum dano celular ao microscópio. Foi o que a Doutora Isles disse. Quando se congelam tecidos, a expansão da água rompe células, e ela não encontrou nada disso. A mão pode ter sido posta no frigorífico, ou embalada em água gelada, como fazem para transportar órgãos doados. Mas não foi congelada. Por isso pensamos que a pessoa a quem esta mão pertencia foi provavelmente morta apenas há poucos dias.

- Se é que foi morta - disse Zucker.

Todos olharam para ele. A terrível insinuação dessas palavras fê-los calar.

- Pensa que ela possa ainda estar viva? - perguntou Frost.

- As amputações feitas em alguém e por si mesmas não são fatais.

- Caramba - disse Frost. - Cortar-lhe a mão sem a matar...

Zucker passou os olhos pelo resto das fotos da autópsia, parando em cada uma delas com a concentração de um joalheiro espreitando pela sua lupa. Por fim pousou-as todas.

- Há duas razões possíveis para que um assassino despedace um corpo. A primeira é meramente prática. Precisa de se livrar dele. Esses são assassinos que são autoconscientes e que têm um objectivo. Compreendem a necessidade de se livrarem das provas forenses e escondem os seus crimes.

- Assassinos organizados - disse Frost.

- Se o desmembramento é seguido pela dispersão ou ocultação de partes do corpo, isso implica que houve planeamento. Um assassino cognitivo.

- Estas partes não estavam de modo nenhum escondidas - disse Jane.

- Foram deixadas espalhadas pela casa, em lugares onde ele sabia que seriam encontradas. - Passou a Zucker outra pilha de fotos. - Estas foram feitas no local do crime.

Ele abriu a pasta e parou, olhando fixamente para a primeira imagem.

- Isto está a tornar-se ainda mais interessante - murmurou.

Ele olha para uma mão cortada num prato raso e é essa a palavra que lhe vem à cabeça?

- Quem é que pôs a mesa? - Ergueu os olhos para ela. - Quem é que dispôs os pratos, os talheres, os copos de vinho?

- Julgamos que foi o assassino.

- Porquê?

- Quem é que pode saber porquê?

- Quero dizer, porque é que partiram do princípio de que foi ele a fazer isso?

- Porque havia uma mancha de sangue por baixo de um dos pratos, onde ele o colocou.

- Impressões digitais?

- Infelizmente, não. Usou luvas.

- Prova de que houve um planeamento antecipado. Premeditação. Zucker dirigiu o seu olhar, mais uma vez, para a foto. -A mesa foi posta para quatro. Será isto significativo?

- O seu palpite é tão bom como o nosso. Havia oito pratos no armário, por isso ele podia ter posto mais. Mas optou por usar apenas quatro.

O tenente Marquette perguntou.

- Com que é que pensa que estamos a lidar aqui, Doutor Zucker?

O psicólogo não respondeu. Passou as fotos lentamente, uma a uma, parando na imagem do braço amputado na banheira. A seguir passou para a foto da cozinha e parou. Fez-se um silêncio muito longo enquanto ele olhava para as velas derretidas, para o círculo desenhado no chão. Para o que se encontrava pousado no centro desse círculo.

- Parece ser algum tipo de ritual estranho encenado para nós - disse Frost.

- O círculo de giz, as velas acesas.

- Isto parece certamente ritualístico. - Zucker ergueu os olhos e o fulgor que havia neles causou um arrepio na nuca de Jane. - O assassino desenhou este círculo?

Jane hesitou, espantada com essa pergunta.

- Quer dizer... por contraposição com a vítima?

- Não estou a fazer quaisquer suposições. Espero que também não esteja. O que é que lhe dá tanta certeza de que a vítima não desenhou este círculo? Que ela não começou por ser uma participante voluntária no ritual?

Jane sentiu vontade de rir. Pois, eu também me vou oferecer para ter a cabeça cortada. Ela disse:

- Tinha de ser o assassino a desenhar esse círculo e a acender as velas. Porque não encontrámos pedaços de giz na casa. Depois de o ter utilizado para desenhar no chão da cozinha, levou-o consigo.

Zucker recostou-se na cadeira, reflectindo.

- Então este assassino desmembra mas não esconde as partes do corpo. Não desfigura o rosto. Deixa poucas provas forenses, indicando uma consciência do cumprimento da lei. Todavia, entrega-nos, por assim dizer, a maior das pistas: uma parte do corpo de outra vítima. - Fez uma pausa. - Deixou vestígios de sémen?

- Não foi detectado nenhum no corpo da vítima.

- E no local do crime?

-A equipa forense passou a casa a pente fino com ultravioletas. O CrimeScope descobriu inúmeros cabelos mas não sémen.

- Mais uma vez, isso é característico do comportamento cognitivo. Ele não deixa provas de actividade sexual. Se é realmente um criminoso sexual, então é suficientemente controlado para esperar até poder gozar em segurança o momento em que se solta.

- E se ele não é um criminoso sexual? - perguntou Marquette.

- Então não tenho a certeza completa do que tudo isto representa - disse Zucker. - Mas o desmembramento, a exposição das partes do corpo. As velas, o círculo de giz. - Olhou para todos os que estavam à volta da mesa. - Tenho a certeza que estamos todos a pensar o mesmo. Rituais satânicos.

- Era véspera de Natal - acrescentou Marquette. - A mais santa das noites.

- E o nosso assassino não estava lá para homenagear o Príncipe da Paz

- disse Zucker. - Não, estava a tentar convocar o Príncipe das Trevas.

- Há outra foto que devia ver - disse Jane, apontando para a pilha de fotos que Zucker ainda tinha na mão. - Havia uma coisa escrita, deixada na parede. Desenhada com o sangue da vítima.

Zucker encontrou a foto.

- Três cruzes invertidas - disse. - Podem muito bem ter significado satânico. Mas o que são estes símbolos por baixo das cruzes?

- É uma palavra.

- Não consigo vê-la.

- É uma imagem ao contrário. Consegue lê-la se a puser diante de um espelho.

Zucker ergueu a sobrancelha.

- Você sabe, não é verdade, a importância da escrita invertida? -Não. Qual é?

- Quando o Diabo faz um pacto para comprar a sua alma, o pacto é redigido e assinado com escrita invertida. - Ele franziu o sobrolho ao olhar para a palavra. - Então o que é que diz?

- Peccavi. É latim. Significa: "Eu pequei."

- Uma confissão? - sugeriu Marquette.

- Ou uma bazófia - disse Zucker. - Anunciando a Satanás, "Eu cumpri as tuas ordens, Amo." - Olhou para todas as fotos expostas na mesa. - Gostaria muito de ter este assassino numa sala de interrogatórios. Há aqui tanto simbolismo. Porque é que dispôs as partes do corpo precisamente desta maneira? Qual o significado da mão no prato? Dos quatro lugares postos na mesa de jantar?

- Os Quatro Cavaleiros do Apocalipse - disse a detective Kassovitz em voz baixa. Era uma das poucas vezes em que abrira a boca durante a reunião.

- Porque é que sugere isso? - perguntou Zucker.

- Estamos a falar de Satanás. Do pecado. - Kassovitz pigarreou, parecendo reconquistar a sua voz enquanto se sentava mais direita. - Estes são temas bíblicos.

- Os quatro lugares postos podiam também significar que ele tinha três amigos invisíveis que se juntavam a ele para uma ceia de meia-noite - disse Jane.

- Não aceita o tema bíblico? - perguntou Zucker.

- Eu sei que parece satanismo - disse Jane. - Quero dizer, temos ali tudo: o círculo e as velas. A escrita invertida, as cruzes ao contrário. É como se devêssemos chegar a essa conclusão.

- Acha que foi meramente encenado dessa maneira?

- Talvez para esconder a verdadeira razão pela qual Lori-Ann Tucker foi morta.

- Que motivos poderia haver? Ela tinha problemas amorosos?

- Era divorciada mas o ex-marido vive no Novo México. Aparentemente, fizeram uma separação amigável. Ela mudou-se para Boston apenas há três meses. Parece não ter tido namorados.

- Tinha trabalho?

Eve Kassovitz disse. - Falei com o supervisor dela no Museu da Ciência. A Lori-Ann trabalhava na loja de recordações. Ninguém tinha conhecimento de quaisquer conflitos ou problemas.

Zucker perguntou. - Temos a certeza absoluta disso? - Dirigiu a pergunta a Jane, não a Eve Kassovitz, uma falta de atenção que fez esta corar. Era mais outro golpe na sua auto-estima já demolida.

- A detective Kassovitz acabou de lhe dizer o que sabemos - disse Jane, apoiando a sua colega de equipa.

- Muito bem - disse Zucker. - Então porque é que esta mulher foi morta? Porquê fazer esta encenação para parecer Satanismo, se na verdade não era isso?

- Para o tornar interessante. Para chamar a atenção.

Zucker riu-se. - Como se ele não tivesse já chamado a nossa atenção?!

- Não a nossa. A atenção de alguém que é muito mais importante para este assassino.

- Está a falar da Doutora O'Donnell, não está?

- Sabemos que o assassino telefonou à O'Donnell, mas ela afirma que não estava em casa.

- Não acredita nela?

- Não podemos confirmar, visto que ela apagou todas as mensagens. Disse que desligaram a chamada.

- O que é que a leva a pensar que isso não é verdade?

- Sabe quem ela é, não sabe?

Ele ficou a olhar para Jane durante um instante. - Eu sei que vocês as duas tiveram conflitos. Que a amizade dela com Warren Hoyt a incomoda.

- Isto não tem a ver comigo e com a O'Donnell...

- Mas claro que tem. Ela mantém uma amizade com o homem que quase a matou a si, o homem cuja fantasia mais profundamente preservada é a de completar essa tarefa.

Jane inclinou-se para a frente, cada um dos seus músculos subitamente tenso.

- Não vá por aí, Doutor Zucker - disse ela em voz baixa.

Ele fixou-a e algo que viu nos olhos dela fê-lo lentamente encostar-se para trás.

- Considera a O'Donnell suspeita?

- Não confio nela. É uma pistoleira ao serviço dos maus da fita. Paguem-lhe o suficiente para depor e ela irá ao tribunal defender qualquer assassino. Dirá que ele sofreu danos neurológicos e não é responsável pelos seus actos. Que o seu lugar é o hospital, e não a cadeia.

Marquette acrescentou.

- Ela não é popular entre as forças da lei, Doutor Zucker. Em parte nenhuma.

- Ouça, mesmo que gostássemos dela - disse Jane -, ainda ficávamos com perguntas sem resposta. Porque é que o assassino lhe telefonou do local do crime? Porque é que ela não estava em casa? Porque é que ela não nos diz onde estava?

- Porque sabe que você já é hostil.

Ela não faz ideia de como posso ser hostil.

- Detective Rizzoli, está a insinuar que a Doutora O'Donnell teve algo a ver com este crime?

- Não. Mas ela não está acima da exploração dessa possibilidade. Alimentando-se disso. Fosse ou não intencional, ela inspirou-o.

- Como?

- Sabe que um gato doméstico, por vezes, mata um rato e trá-lo para casa, para o seu dono, como uma espécie de oferta? Um sinal de afecto?

- Pensa que o nosso assassino está a tentar impressionar a O'Donnell.

- Foi por isso que lhe ligou. Foi por isso que montou este elaborado cenário de morte, para espicaçar o interesse dela. Depois, para ter a certeza de que a sua obra era noticiada, telefonou para o 112. E algumas horas depois, enquanto estávamos na cozinha, ligou para a casa da vítima de um telefone público, só para ter a certeza de que nós estávamos lá. Este criminoso está a enrolar-nos a todos. As forças da lei. E a O'Donnell.

Marquette disse:

- Será que ela se apercebe do perigo em que pode estar? Sendo o foco da atenção de um assassino?

- Não pareceu muito impressionada.

- O que é preciso para assustar essa mulher?

- Talvez quando ele lhe mandar esse sinal de afecto. O equivalente de um rato morto. - Jane fez uma pausa. - Não esqueçamos que a mão de Lori-Ann Tucker continua desaparecida.

 

Jane não conseguia deixar de pensar naquela mão enquanto estava na sua cozinha, cortando galinha fria para uma ceia tardia. Levou-a para a mesa, onde o seu marido, habitualmente muito bem arranjado, estava sentado com as mangas arregaçadas e baba de bebé no colarinho. Haveria algo mais sensual do que um homem a fazer pacientemente arrotar a sua filha? Regina soltou um forte arroto e Gabriel riu-se. Que doce e perfeito momento era esse. Todos eles juntos, seguros e saudáveis.

Então ela baixou os olhos para as fatias de galinha e lembrou-se do que ficara noutro prato raso, noutra mesa de jantar de outra mulher. Empurrou o prato para o lado.

Somos apenas carne. Como a galinha. Como a vaca.

- Julguei que tinhas fome - disse Gabriel.

- Acho que mudei de ideias. De repente, isto não parece assim tão apetitoso.

- É o caso, não é?

- Só gostava de poder parar de pensar nele.

- Vi os ficheiros que trouxeste para casa esta noite. Não pude deixar de passar os olhos por eles. Eu também ficaria preocupado.

Jane abanou a cabeça.

- Tu devias estar de férias. O que é que estás a fazer, dando uma olhadela por fotos de autópsias?

- Estavam mesmo aí em cima da bancada. - Pousou Regina no carrinho de bebé. - Queres falar disso? Atira isso para mim, se quiseres. Se achares que ajuda.

Ela olhou de relance para Regina, que estava a observá-los com olhos alarmados, e subitamente deu uma gargalhada.

- Caramba, quando ela tiver idade para compreender, isto vai ser realmente uma conversa familiar adequada. Então, querida, quantos cadáveres sem cabeça é que viste hoje?

- Ela não pode compreender o que dizemos. Por isso fala comigo. Jane levantou-se e dirigiu-se ao frigorífico, tirou uma garrafa de Adam's

Ale e fez saltar a tampa.

- Jane?

- Queres mesmo saber os pormenores?

- Quero saber o que é que te está a incomodar tanto.

- Tu viste as fotos. Sabes o que me está a incomodar. - Sentou-se novamente e bebeu um gole de cerveja. - Às vezes - disse calmamente, olhando para a garrafa húmida -, penso que é uma loucura ter filhos. Amamo-los, educamo-los. Depois vemo-los partir para um mundo onde são magoados. Onde se encontram com gente como... - Como Warren Hoyt, era o que estava a pensar, mas não disse o nome dele: quase nunca dissera o seu nome. Era como se, ao dizê-lo em voz alta, estivesse a convocar o próprio Diabo.

O súbito zumbido do intercomunicador fê-la endireitar-se de um salto. Ergueu os olhos para o relógio de parede.

- São dez e meia.

- Vamos ver quem é. - Gabriel foi até à sala de estar e carregou no botão do intercomunicador. - Sim?

Uma voz inesperada respondeu pelo altofalante.

- Sou eu - disse a mãe de Jane.

- Suba, Mistress Rizzoli - disse Gabriel, e carregou no botão para lhe abrir a porta. Lançou um olhar de surpresa para Jane.

- É tão tarde. O que é que ela está a fazer aqui?

- Quase tenho medo de perguntar.

Ouviram os passos de Angela nas escadas, mais lentos e mais pesados do que era habitual, acompanhados por um intermitente baque surdo, como se ela estivesse a puxar algo atrás de si. Só quando chegou ao patamar do segundo andar é que viram o que era.

Uma mala.

- Mãe? - disse Jane, mas mesmo quando disse isso não podia quase acreditar que esta mulher com o cabelo despenteado e mesmo uma expressão desorientada era a sua mãe. O casaco de Angela estava desabotoado, a aba da gola estava virada para dentro, e as suas calças estavam ensopadas até ao joelho, como se se tivesse arrastado por um monte de neve para chegar ao prédio deles. Agarrava a mala com as duas mãos e parecia pronta para a lançar a alguém. Qualquer pessoa.

Tinha um ar ameaçador.

- Preciso de ficar convosco esta noite - disse Angela.

- O quê?

- Bom, posso entrar ou não?

- Claro que sim, mãe.

- Dê cá, deixe-me levar isso, Mistress Rizzoli - disse Gabriel, agarrando a mala.

- Estás a ver? - disse Angela, apontando para Gabriel. - É assim que um homem se deve comportar! Vê que uma mulher precisa de ajuda e avança logo. É isso que um cavalheiro deve fazer.

- Mãe, o que é que aconteceu?

- O que aconteceu? O que aconteceu? Não sei por onde começar. Regina soltou um queixume de protesto por ter sido ignorada demasiado tempo.

Angela correu imediatamente para a cozinha e levantou a sua neta do carrinho de bebé.

- Oh querida, pobre menina! Não fazes ideia o que te espera quando cresceres. - Sentou-se à mesa e embalou a bebé, abraçando-a tão estreitamente que Regina se contorceu, tentando libertar-se dessa sufocante mulher desvairada.

- Muito bem, mãe - suspirou Jane. - O que é que o pai fez?

- Não serei eu a contar-te.

- Então quem é que me vai contar?

- Eu não enveneno os meus filhos contra o pai deles. Não é correcto os pais criticarem-se um ao outro.

- Já não sou uma miúda. Preciso de saber o que se passa.

Mas Angela não deu qualquer explicação. Continuou a embalar para a frente e para trás, abraçando a bebé. Regina parecia cada vez mais desesperada para escapar a esse aperto.

- Hum... quanto tempo é que achas que vais ficar connosco, mãe?

- Não faço ideia.

Jane ergueu os olhos para Gabriel, que até agora tivera o bom senso de ficar fora da conversa. Viu a mesma expressão de pânico nos seus olhos.

- Posso precisar de encontrar um novo lugar para viver - disse Angela.

- O meu próprio apartamento.

- Espera aí, mãe. Não estás a dizer que nunca voltarás.

- É exactamente isso que estou a dizer. Vou fazer uma vida nova, Janie.

- Ela olhou para a sua filha com o queixo erguido em desafio. - Outras mulheres o fazem. Deixam os maridos e fazem muito bem. Não precisamos deles. Podemos sobreviver sozinhas.

- Mãe, não tens um emprego.

- O que é que achas que tenho feito nos últimos trinta e sete anos? Cozinhando e limpando para aquele homem? Achas que ele alguma vez agradeceu? Limita-se a vir para casa e a engolir o que lhe ponho à frente. Nem sequer aprecia a atenção que vai dentro disso. Sabes quantas pessoas me disseram que eu devia abrir um restaurante?

Na verdade, pensou Jane, ia ser um óptimo restaurante. Mas não estava disposta a dizer fosse o que fosse para encorajar esta loucura.

- Por isso não voltes a dizer-me Tu não tens um emprego. O meu emprego foi cuidar daquele homem, e não tenho nada para o demonstrar. Posso muito bem fazer o mesmo trabalho e ser paga por ele. - Abraçou Regina com vigor renovado e a bebé soltou um guincho de protesto. - Ficarei convosco só por pouco tempo. Durmo no quarto da bebé. O chão chega-me perfeitamente. E tomarei conta dela quando vocês forem trabalhar. Somos todos importantes na educação de uma criança, sabes?

- Está bem, mãe. - Jane suspirou e dirigiu-se ao telefone. - Se não queres contar-me o que se passa, talvez o pai o faça.

- O que é que estás a fazer?

- Estou a telefonar-lhe. Aposto que ele já está pronto para pedir desculpa.

- Aposto que está com fome e quer que o seu chef pessoal volte. Pegou no telefone e marcou o número.

- Nem sequer vale a pena incomodares-te - disse Angela. O telefone tocou uma vez, duas.

- Estou-te a dizer, ele não vai atender. Nem sequer está lá.

- Bom, onde é que ele está? - perguntou Jane.

- Está na casa dela.

Jane franziu o sobrolho enquanto o telefone da casa dos pais continuava a tocar sem ninguém atender. Desligou lentamente e virou-se para enfrentar a mãe.

- A casa de quem?

- Dela. Da puta.

- Meu Deus, mãe.

- Deus não tem nada a ver com isso. -Angela engoliu um repentino gole de ar e a sua garganta cerrou-se num soluço. Continuou a embalar Regina agarrada ao peito.

- O pai anda a encontrar-se com outra mulher?

Sem conseguir falar, Angela fez um sinal de confirmação com a cabeça. Ergueu a mão para limpar a cara.

- Quem? Com quem é que ele anda a encontrar-se? - Jane sentou-se para olhar a mãe nos olhos. - Mãe, quem é ela?

- É do trabalho dele... - sussurrou Angela.

- Mas ele trabalha com um grupo de velhos tipos.

- Ela é nova. Ela... ela é... - a voz de Angela subitamente quebrou-se

- mais nova.

O telefone tocou.

Angela ergueu de repente a cabeça.

- Eu não falo com ele. Diz-lhe isso.

Jane olhou de relance para o número no mostrador digital mas não o reconheceu. Talvez fosse o pai a ligar-lhe. Talvez estivesse a ligar do telefone dela. Da puta.

- Detective Rizzoli - disse num tom rude. Uma pausa e depois.

- Estás a ter uma noite difícil, é isso?

E está a ficar pior, pensou ela, reconhecendo a voz do detective Darren Crowe.

- O que é que se passa? - perguntou.

- Coisas más. Estamos aqui em cima na Beacon Hill. Tu e o Frost vão querer vir até cá. Detesto ser eu a dizer-te isto mas...

- Não é esta a tua noite?

- Esta é de todos nós, Rizzoli. - Crowe parecia mais amargo do que nunca, sem traços do seu habitual sarcasmo. Ele disse, em voz baixa: É um dos nossos.

Um dos nossos. Um polícia.

- Quem é?

- É a Eve Kassovitz.

Jane não conseguiu falar. Ficou ali com os dedos a ficarem entorpecidos em torno do telefone, pensando, Eu vi-a apenas há algumas horas.

- Rizzoli? Ela pigarreou.

- Dá-me a morada.

Quando desligou, viu que Gabriel tinha levado Regina para a outra sala e Angela estava agora sentada com os ombros descaídos, os seus braços tristemente vazios. - Desculpa, mãe - disse Jane. - Tenho de sair.

Angela fez um desmoralizado encolher de ombros.

- Evidentemente. Vai lá.

- Falamos quando eu voltar. - Inclinou-se para beijar a face da mãe e viu de perto a pele descaída de Angela, os seus olhos baixos. Quando é que a minha mãe ficou tão velha?

Prendeu a arma no cinto e tirou o casaco do armário. Enquanto o abotoava ouviu Gabriel dizer:

- Isto é uma altura muito má.

Virou-se para o olhar. O que é acontece quando eu ficar velha, como a minha mãe? Também vais deixar-me por uma mulher mais nova?

- Posso ficar fora durante um bom bocado - disse ela. - Não esperes por mim.

 

Maura saiu do Lexus e as suas botas rangeram no pavimento coberto de gelo, abrindo caminho através de gelo tão fino como vidro. A neve, que se derretera durante as horas em que havia luz solar mais quente, tinha-se voltado a congelar num ápice, com o vento brutalmente frio que soprara ao cair da noite, e sob múltiplos clarões das luzes dos carros-patrulha cada superfície brilhava, escorregadia e perigosa. Ela viu um polícia a patinar ao longo do passeio, braços a girar para se equilibrar, e viu a carrinha da equipa forense a derrapar de lado quando travou, quase beijando o pára-choques traseiro de um carro-patrulha estacionado.

- Veja onde põe os pés aí, doutora - gritou-lhe um polícia da patrulha, do outro lado da rua. - Já tivemos um agente caído no gelo esta noite. Acho que ele deve ter partido o pulso.

- Alguém devia pôr sal nesta estrada.

- Pois. - Resmungou. - Alguém devia. Dado que a cidade certamente não tem estado a par do nosso trabalho esta noite.

- Onde está o detective Crowe?

O polícia apontou uma mão enluvada para a fila de elegantes vivendas.

- Número quarenta e um. Fica a algumas casas ao cimo da rua. Posso levá-la lá.

- Não é preciso, obrigada. - Ela parou quando outro carro-patrulha dobrou a esquina e derrapou contra a beira do passeio. Contou pelo menos oito carros-patrulha estacionados já a entupir a rua estreita.

- Vamos precisar de espaço para a carrinha da morgue passar - disse ela.

- Estes carros precisam todos de estar aqui?

- Sim, precisam - disse o polícia. O tom da sua voz fê-la virar-se para ele. Iluminada pelos clarões das luzes giratórias, a sua cara estava talhada em sombras tristes. - Todos nós precisamos de estar aqui. Devemos-lhe isso.

Maura pensou no local do crime na véspera de Natal, quando Eve Kassovitz ficara dobrada sobre si mesma na rua, vomitando para um monte de neve. Lembrou-se também de como os agentes da patrulha se tinham rido entre dentes da detective que vomitava. Agora essa mesma detective estava morta e os que se riam dela estavam silenciosos, substituído o riso pelo respeito rigoroso devido a qualquer agente da polícia caído no cumprimento do dever.

O bafo do polícia saiu-lhe da boca numa urgência furiosa.

- O namorado dela também é um dos que estão aqui.

- Outro agente da polícia?

- Sim. Ajude-nos a apanhar este assassino, doutora. Ela concordou.

- Vamos apanhá-lo. - Começou a subir o passeio, dando-se conta, subitamente, de todos os olhares que deviam estar a observar o seu avanço, os de todos os agentes que se tinham certamente apercebido da sua chegada. Eles conheciam o seu carro: todos sabiam quem ela era. Viu acenos de cabeça entre as figuras obscuras que permaneciam juntas, os seus bafos largando vapor, como fumadores reunidos para uma furtiva rodada de cigarros. Eles conheciam o sinistro propósito da sua visita, tal como sabiam que qualquer um deles podia, um dia destes, ser o infeliz objecto da sua atenção.

O vento subitamente lançou uma nuvem de neve e ela inclinou-se, baixando a cabeça contra o frio cortante. Quando voltou a levantá-la deu por si a olhar para alguém que não esperava ver ali. Do outro lado da rua encontrava-se o padre Daniel Brophy, falando em voz baixa com um jovem agente da polícia que se tinha apoiado contra um carro-patrulha do departamento da polícia de Boston, como se estivesse demasiado fraco para se aguentar de pé. Brophy pôs o braço sobre os ombros desse homem para o confortar, e o agente desmoronou-se contra ele, soluçando, enquanto Brophy o envolvia com os seus braços. Outros polícias encontravam-se ali perto num silêncio envergonhado, arrastando as botas, de olhos postos no chão, manifestamente desconfortáveis com essa exposição do seu sofrimento mais nu. Embora Maura não pudesse ouvir as palavras que Brophy murmurava, viu o jovem polícia a acenar com a cabeça, ouviu-o a forçar uma resposta sufocada pelas lágrimas.

Nunca poderia fazer o que o Daniel faz, pensou. Era muito mais fácil cortar carne morta e perfurar ossos do que enfrentar a dor dos vivos. De repente, Daniel ergueu a cabeça e viu-a. Por um breve instante só olharam um para o outro. Depois, ela virou-se e seguiu a caminho da vivenda, onde uma fita indicando o local do crime se agitava ao vento a partir do corrimão de ferro forjado do alpendre. Ele tinha a sua tarefa e ela tinha a dela. Era a altura de se concentrar nela. Mas mesmo quando tinha os olhos postos no passeio à sua frente, a sua mente estava com o Daniel. Perguntando-se se ele ainda estaria ali quando ela terminasse a sua tarefa. E, se estivesse, o que aconteceria a seguir? Devia convidá-lo a sair dali para tomar um café? Iria isso fazê-la parecer demasiado ousada, demasiado carente? Deveria dizer apenas boa noite e seguir o seu caminho, como sempre?

O que é que eu quero que aconteça?

Chegou ao edifício e parou no passeio, erguendo os olhos para a encantadora residência de três andares. Lá dentro, cada uma das luzes estava acesa. Degraus de tijoleira conduziam a uma maciça porta de entrada, onde um batente metálico cintilava com o brilho intenso de lanternas decorativas de gás. Apesar da época, não havia decorações festivas neste alpendre. Era a única porta de entrada da rua sem coroa de flores. Através das amplas janelas arqueadas, viu o tremeluzir de uma fogueira acesa na lareira, mas nenhum cintilar de luzes na árvore de Natal.

- Doutora Isles?

Ouviu o guinchar de dobradiças metálicas e olhou de relance para o detective que acabara de abrir o portão de ferro forjado ao lado da casa. Roland Tripp era um dos polícias mais velhos da unidade de homicídios e esta noite mostrava manifestamente bem a sua idade. Ficou por baixo da lanterna de gás e o brilho amarelou a sua pele, realçando os seus olhos inchados e pálpebras descaídas. Apesar do volumoso blusão de penas, parecia resfriado e falou com um maxilar apertado, como se tentasse conter o bater dos dentes.

- A vítima está aqui atrás - disse ele, abrindo bem o portão para a deixar entrar.

Maura passou através dele e o portão bateu atrás do polícia, fechando-se. Ele indicou o caminho para um estreito pátio lateral, o caminho deles iluminado pelo sacudido feixe da luz da sua lanterna. O caminho tinha sido limpo de neve desde a última tempestade e os tijolos tinham apenas uma ligeira camada de neve trazida pelo vento. Tripp parou com a sua lanterna apontada para o pequeno monte de neve à beira do caminho. Para o salpico de cor vermelha.

- Foi isto que deixou o mordomo preocupado. Viu este sangue.

- Há aqui um mordomo?

- Ah, sim. Estamos a falar de muito dinheiro.

- O que é que ele faz? O proprietário desta casa?

- Ele diz que é um professor de História reformado. Ensinava no Boston College.

- Não fazia ideia de que os professores de História viviam tão bem.

- Devia dar uma olhadela lá dentro. Isto não é a casa de um professor. Este tipo arranjou dinheiro de outra maneira. - Tripp apontou o feixe da sua lanterna para uma porta lateral. - O mordomo saiu por aqui, transportando um saco de lixo. Começou a andar para aquelas latas de lixo quando reparou que o portão estava aberto. Foi quando primeiro teve uma suspeita de que algo não estava certo. Então voltou para trás, subindo este pátio lateral, olhando em volta. Viu o sangue e soube que algo não estava realmente certo. E notou mais sangue correndo ao longo destes tijolos, em direcção às traseiras da casa.

Maura fixou os olhos no chão.

-A vítima foi arrastada por este caminho.

- Vou mostrar-lhe. - O detective continuou a andar para as traseiras da vivenda, entrando num pequeno pátio. A sua lanterna varreu ladrilhos cobertos de gelo e canteiros de flores, agora defendidos do Inverno por uma protecção de ramos de pinheiro. No centro do pátio estava um belveder branco. No Verão, seria sem dúvida um lugar delicioso para passar o tempo, um lugar à sombra para alguém se sentar, beber café e aspirar os odores do jardim.

Mas o actual ocupante do belveder não estava a aspirar coisa nenhuma.

Maura tirou as suas luvas de lã e substituiu-as por luvas de borracha. Não a protegiam contra o vento gélido que atravessava directamente para a sua pele. Acocorando-se, afastou o lençol de plástico que tinha sido colocado sobre aquela forma amarfanhada.

A detective Eve Kassovitz jazia de costas, braços de um lado e outro do corpo, o seu cabelo louro emaranhado com sangue. Estava vestida com roupas escuras: calças de lã, um casaco azul-marinho e botas pretas. O casaco estava desabotoado e a camisola metade puxada para cima, mostrando pele nua manchada de sangue. Tinha um coldre posto à cintura e a arma ainda estava presa no lugar. Mas foi no rosto do cadáver que Maura fixou os olhos e o que viu fê-la recuar, horrorizada. As pálpebras da mulher tinham sido cortadas e retiradas, deixando os olhos dela arregalados num eterno olhar fixo. Gotas de sangue tinham secado em ambas as têmporas, como lágrimas vermelhas.

- Eu vi-a apenas há seis dias - disse Maura. - Noutro cenário de morte.

- Ergueu os olhos para Tripp. A cara dele estava oculta pelas sombras e tudo o que ela viu foi aquela silhueta maciça agigantando-se por cima dela.

- Aquele lá em cima, em East Boston.

Ele fez um sinal de concordância.

- A Eve juntou-se à unidade apenas há algumas semanas. Veio dos Narcóticos e Costumes.

- Ela vivia aqui perto?

- Não, minha senhora. O apartamento dela é lá em baixo em Mattapan.

- Então o que é que fazia aqui em Beacon Hill?

- Mesmo o namorado dela não fazia ideia. Mas temos algumas teorias a respeito disso.

Maura pensou no jovem polícia que acabara de ver a soluçar nos braços de Daniel.

- O namorado dela é aquele agente da polícia? O que está com o padre Brophy?

- O Ben tem estado a aceitar isto com muita dificuldade. Também foi uma horrível maneira de ficar a saber o que acontecera. Estava em patrulha quando ouviu a conversa pelo rádio.

- E ele não tem ideia do que ela estava a fazer aqui? Vestida de preto e trazendo uma arma?

Tripp hesitou o tempo suficiente para ela reparar.

- Detective Tripp? - disse ela. Ele suspirou.

- Nós fizemo-la passar por um mau bocado. Sabe, por causa do que aconteceu na véspera de Natal. Talvez a provocação a tivesse deixado um pouco descontrolada.

- Isso tinha a ver com o facto de ela ter ficado enjoada no local do crime?

- Sim. Eu sei que é criancice. É só uma coisa que fazemos uns aos outros na unidade. Brincamos, insultamo-nos uns aos outros. Mas a Eve, receio que tenha tomado isso como uma questão pessoal.

- Mesmo assim isso não explica o que estava a fazer em Beacon Hill.

- O Ben diz que, depois de todas aquelas provocações, ela estava fixada na ideia de demonstrar o que valia. Pensamos que estava aqui em cima a trabalhar no caso. Se foi assim, não se incomodou a contar a mais ninguém da equipa.

Maura baixou os olhos para o rosto de Eve Kassovitz. Para os seus olhos fixos. Com mãos enluvadas, afastou madeixas de cabelo embebidas em sangue seco para revelar uma laceração no escalpe, mas não conseguiu detectar quaisquer fracturas. O golpe que tinha rasgado aquela aba do escalpe não parecia suficientemente grave para lhe ter causado a morte. A seguir concentrou-se no busto. Levantou delicadamente a camisola, descobrindo a caixa torácica e fixou os olhos no sutiã manchado de sangue. A ferida da facada penetrava na pele mesmo por baixo do esterno. O sangue tinha já secado, a crosta congelada obscurecendo as bordas da ferida.

- A que horas é que foi encontrada?

- Por volta das 22 horas. O mordomo saiu mais cedo, por volta das 18, para trazer cá para fora um saco de lixo, e nessa altura não a viu.

- Ele trouxe o lixo duas vezes esta noite?

Havia um jantar para cinco pessoas na casa. Um monte de pratos, um monte de lixo.

- Então estamos a pensar num momento de morte entre as 18 e as

22 horas.

- Exactamente.

- E a última vez que a detective Kassovitz foi vista viva pelo namorado?

- Por volta das três da tarde. Mesmo antes de ele partir para o seu turno.

- Então tem um álibi.

- Incontestável. O colega esteve com ele toda a noite. - Tripp fez uma pausa. - Precisa de ver a temperatura do corpo ou outra coisa? Porque nós já vimos a temperatura do ambiente, se precisar. Estão seis graus.

Maura olhou para as roupas grossas do cadáver.

- Não vou tirar uma temperatura rectal aqui. Não quero despi-la no escuro. A vossa testemunha já restringiu o momento da morte. Partindo do princípio de que ele é correcto quanto às horas.

Tripp resmungou.

- Provavelmente até à fracção de segundo. Devia conhecer este mordomo, Jeremy. Agora já sei o significado de retentor anal.

Uma luz cortou a escuridão. Ela ergueu os olhos para uma silhueta a aproximar-se, o feixe luminoso de uma lanterna varrendo o pátio.

- Olá, doutora - disse Jane. - Não sabia que já estava aqui.

-Acabei de chegar. - Maura pôs-se de pé. Naquela obscuridade não conseguia ver a cara de Jane, apenas a volumosa auréola do seu cabelo. Não esperava ver-te aqui. Foi o Crowe que me telefonou.

- Ele também me ligou.

- Onde é que ele está?

- Lá dentro, a interrogar o proprietário da casa. Tripp fungou.

- Claro que está. Lá dentro é mais quente. Eu é que tenho de gelar o rabo aqui fora.

- Caramba, Tripp - disse Jane. - Parece que gostas tanto do Crowe como eu.

- Ah, pois, um tipo tão adorável. Não admira que o seu antigo parceiro tenha pedido a reforma antecipada. - Ele bufou de raiva e o vapor soltou-se em espirais, desaparecendo na escuridão. - Acho que devíamos rodar o Crowe pela unidade. Espalhar um pouco a dor. Podemos fazer turnos tomando conta do Rapaz Bonito.

- Acredita em mim, eu já tomei conta dele mais do que devia - disse Jane. Focou a sua atenção em Eve Kassovitz e a sua voz baixou. - Ele foi um idiota com ela. Aquilo foi ideia do Crowe, não foi? O balde para vomitar na secretária?

- Pois foi - admitiu Tripp. - Mas nós fomos todos responsáveis, de certa maneira. Talvez ela não estivesse aqui se... - Suspirou. - Tens razão. Fomos todos uns idiotas.

- Disse que ela veio aqui por trabalhar no caso - disse Maura. - Havia uma pista?

- O'Donnell - disse Jane. - Ela era uma convidada do jantar desta noite.

- A Kassovitz estava a segui-la?

- Nós falámos resumidamente sobre a vigilância. Era apenas uma questão a ponderar. Ela nunca me disse que ia fazê-la.

- A O'Donnell estava aqui, nesta casa?

- Ainda está lá dentro, a ser interrogada. - O olhar de Jane regressou ao corpo. - Eu diria que o admirador fiel da O'Donnell lhe deixou outra oferta.

- Pensas que isto foi feito pelo mesmo assassino?

- Sei que foi.

- Houve aqui uma mutilação dos olhos mas nenhum desmembramento. Nem símbolos ritualísticos, como em East Boston.

Jane olhou de relance para Tripp.

- Tu não lhe mostraste?

- Ia agora fazê-lo.

- Mostrar-me o quê? - perguntou Maura.

Jane ergueu a sua lanterna e mostrou-o na porta das traseiras da vivenda. O que Maura viu fez-lhe sentir um arrepio na espinha. Na porta estavam três cruzes de cabeça para baixo. E desenhado por baixo, em giz vermelho, estava um único olho aberto.

- Eu diria que é obra do nosso rapaz - disse Jane.

- Pode ser uma imitação. Muitas pessoas viram esses símbolos no quarto de Lori-Ann. E os polícias contam coisas.

- Se ainda precisa de ser convencida... - Jane apontou a sua lanterna para o fundo da porta. No único degrau de granito, conduzindo à casa, estava um pacote envolvido por um pano. - Nós embrulhámo-lo só o suficiente para deixar ver o que está dentro - disse Jane. - Creio que encontrámos a mão esquerda de Lori-Ann Tucker.

Uma súbita rajada de vento varreu o pátio, fazendo levantar uma neblina de neve que picou os olhos de Maura, gelando rapidamente as suas bochechas. Folhas mortas crepitaram do outro lado do pátio e o belveder rangeu e estremeceu por cima deles.

- Pensaste na possibilidade - disse Maura calmamente - de o crime desta noite não ter nada a ver com a Joyce O'Donnell?

- Claro que tem. A Kassovitz segue a O'Donnell até aqui. O assassino vê-a, escolhe-a como a sua próxima vítima. Ainda está ligado com a O'Donnell.

- Ou ele pode ter visto a Kassovitz na véspera de Natal. Ela estava lá, no local do crime. Ele podia estar a vigiar a casa de Lori-Ann Tucker.

- Quer dizer, a apreciar toda a acção? - perguntou Tripp.

- Sim. A apreciar o facto de que toda a excitação, todos aqueles polícias, estavam lá por causa dele. Por causa do que tinha acabado de fazer. Que sensação de poder!

- Então ele segue a Kassovitz até aqui - disse Tripp - porque ela capta a sua atenção nessa noite? Caramba, isso lança um diferente ponto de vista sobre isto.

Jane olhou para Maura.

- Isso significa que ele podia estar a observar cada um de nós. Agora já conheceria todas as nossas caras.

Maura inclinou-se e voltou a cobrir o corpo com o lençol. Sentiu as suas mãos entorpecidas e desajeitadas enquanto tirava as luvas de borracha e calçava as de lã. - Estou enregelada. Não posso fazer mais nada aqui fora. Deviam levá-la para a morgue. E eu preciso de descongelar as minhas mãos.

- Já chamou a carrinha?

- Eles vêm a caminho. Se não se importam, acho que vou esperar por eles no meu carro. Quero sair deste vento.

-Acho que todos nós devíamos sair deste vento - disse Tripp.

Voltaram para trás pelo pátio lateral, e atravessaram o portão de ferro para o brilho amarelado do candeeiro de gás. Do outro lado da rua, formando silhuetas arredondadas pelas luzes giratórias dos carros-patrulha, estava um grupo de polícias. Daniel encontrava-se no meio deles, mais alto do que os outros homens, com as mãos enterradas nos bolsos do seu sobretudo.

- Pode entrar lá dentro connosco e esperar - disse Jane.

- Não - disse Maura, olhando para o Daniel. - Vou sentar-me no meu carro.

Jane ficou um momento calada. Também tinha reparado no Daniel e provavelmente adivinhara a razão pela qual Maura se demorava cá fora.

- Se quer ficar mais quente, doutora - disse Jane -, não vai conseguir isso aqui fora. Mas acho que a escolha é sua. - Ela bateu no ombro de Tripp.

- Anda daí. Vamos voltar lá para dentro. Ver o que o Rapaz Bonito está a fazer. - Eles subiram os degraus, entrando na casa.

Maura parou no passeio, de olhos postos em Daniel. Não parecia ter notado que ela estava ali. Era embaraçoso, com todos aqueles polícias de pé à volta dele. Mas o que é que havia ali que envergonhasse, na verdade? Ela estava ali para fazer o seu trabalho, e ele também. É a coisa mais natural do mundo duas pessoas conhecidas saudarem-se uma à outra.

Maura atravessou a rua, em direcção ao círculo de polícias. Só então Daniel a viu. Tal como os outros homens e todos eles se calaram quando ela se aproximou. Embora lidasse com agentes da polícia todos os dias, e os visse em todos os locais de crime, nunca se sentira completamente à vontade com eles, ou eles com ela. Esse desconforto mútuo nunca fora tão evidente como neste momento, quando sentiu os olhares deles postos em si. Podia adivinhar o que pensavam dela. A fria Dr.a Isles, nunca nos fazendo rir. Ou talvez estivessem intimidados: talvez fosse o Dr. antes do seu nome que a tornasse um ser à parte, fazendo dela um ser inacessível.

Ou talvez seja apenas eu. Talvez tenham medo de mim.

- A carrinha da morgue deve chegar aqui a qualquer momento - disse ela, abrindo a conversa com uma pura questão de trabalho. - Se pudessem abrir espaço para ela na rua.

- Sem dúvida, doutora - disse um dos polícias e tossiu.

Seguiu-se novo silêncio, com os polícias a olhar para outras direcções, para qualquer lugar menos para ela, arrastando os pés no pavimento frio.

- Bom, obrigada - disse ela. - Vou esperar no meu carro. - Nem sequer olhou para Daniel, mas simplesmente virou-se e afastou-se.

- Maura?

Ela olhou de relance para trás ao ouvir a voz dele e viu que os polícias ainda estavam a observá-la. Há sempre um público, pensou. O Daniel e eu nunca estamos sozinhos.

- O que é que sabes até agora? - perguntou ele.

Ela hesitou, consciente de todos os olhares postos nela.

- Não muito mais do que qualquer dos outros, nesta altura.

- Podemos falar disso? Talvez me ajude a confortar o agente Lyall se souber mais sobre o que aconteceu.

- É complicado. Não tenho a certeza...

- Não tens de me contar algo que não te sintas à vontade para revelar.

Ela hesitou.

- Vamos sentar-nos no meu carro. Está mesmo ali ao fundo da rua. Caminharam juntos, com as mãos enfiadas nos bolsos, cabeças baixas contra as rajadas de vento gelado. Ela pensou em Eve Kassovitz, jazendo sozinha no pátio, o seu cadáver já frio, o seu sangue congelando nas veias. Nesta noite, com este vento, ninguém queria fazer companhia aos mortos. Chegaram ao carro dela e meteram-se lá dentro. Ela ligou o motor para accionar o aquecimento, mas o ar que saiu das aberturas do ar condicionado não dava calor.

- O agente Lyall era o namorado dela? - perguntou ela.

- Está destroçado. Não creio que eu tenha sido capaz de lhe dar muito conforto.

- Eu não poderia fazer o teu trabalho, Daniel. Não sou boa a lidar com a dor.

- Mas tu lidas com ela. Tens de o fazer.

- Mas não ao nível em que tu o fazes. Quando é ainda tão crua, tão recente. Eu sou aquela de quem eles esperam todas as respostas, não a que chamam para os confortar. - Olhou para ele. Na escuridão do carro era apenas uma silhueta. - O último capelão do Departamento de Polícia de Boston durou apenas dois anos. Tenho a certeza de que a pressão contribuiu para o seu ataque.

- O padre Roy tinha sessenta e cinco anos, sabes?

- E parecia ter oitenta, da última vez que o vi.

- Bom, responder a convocações nocturnas não é fácil - admitiu ele, a sua respiração embaciando os vidros. - Também não é fácil para os polícias. Ou para os médicos ou os bombeiros. Mas nem tudo é mau - acrescentou, rindo-se suavemente - dado que ir aos cenários de morte é a única ocasião que tenho para te ver.

Embora não conseguisse ver os olhos dele, sentiu o seu olhar na cara e ficou grata pela escuridão.

- Tu costumavas visitar-me - disse ele. - Porque é que deixaste de fazer isso?

- Fui à missa do Galo, não fui? Ele soltou uma risada cansada.

- Toda a gente aparece no Natal. Mesmo os que não são crentes.

- Mas eu estava lá. Não estava a evitar-te.

- Tens estado a fazer isso, Maura? A evitar-me?

Ela não disse nada. Durante um instante olharam um para o outro na obscuridade do carro. O ar que soprava das saídas de ar condicionado mal aquecera e os dedos dela ainda estavam entorpecidos, mas conseguiu sentir o calor a subir-lhe às bochechas.

- Eu sei o que se passa - disse ele, em voz baixa.

- Não fazes ideia.

- Sou tão humano como tu, Maura.

De repente ela riu-se. Era um som amargo.

- Bom, isto é um lugar-comum. O padre e a paroquiana.

- Não reduzas as coisas a isso.

- Mas é um lugar-comum. Provavelmente aconteceu mil vezes antes. Padres e donas de casa chateadas. Padres e viúvas solitárias. É a tua primeira vez, Daniel? Porque certamente é a primeira vez para mim. - Subitamente envergonhada por ter virado a sua fúria contra ele, desviou os olhos. O que é que ele tinha feito, na verdade, senão oferecer-lhe a sua amizade, a sua atenção? Eu sou a arquitecta da minha própria infelicidade.

- Se isso te faz sentir melhor - disse ele, calmamente - posso dizer-te que não és a única a sentir-se infeliz.

Ela ficou completamente silenciosa enquanto o ar sibilava nas saídas. Manteve o seu olhar fixado em frente, no pára-brisas agora embaciado com a condensação, mas todos os seus outros sentidos estavam inteiramente focados nele. Ainda que fosse cega e surda, mesmo assim saberia que ele estava ali, tão sintonizada estava com cada aspecto da presença dele. Sintonizada, igualmente, com o bater do seu coração, com o crepitar dos seus nervos. Sentira uma emoção perversa com a declaração que ele fizera da sua infelicidade. Pelo menos ela não era a única que sofria, não era a única que ficava deitada na cama, à noite, sem conseguir dormir. Nos assuntos do coração, o sofrimento anseia por companhia.

Ouviu bater com força na sua janela. Sobressaltada, virou-se para ver uma silhueta fantasmática espreitando através do vidro embaciado. Baixou o vidro e viu a cara de um polícia de Boston.

- Doutora Isles? A carrinha da morgue chegou.

- Obrigada. Vou já para lá. -A sua janela zumbiu ao fechar-se, deixando o vidro listrado por linhas de água. Desligou o motor do carro e olhou para Daniel. - Temos duas opções - disse ela. - Podemos ser ambos infelizes. Ou podemos ir em frente com as nossas vidas. Eu escolho ir em frente. - Saiu do carro e fechou a porta. Aspirou um ar tão frio que parecia secar-lhe a garganta. Mas o ar também varreu qualquer indecisão que ainda restasse na sua mente, deixando-a mais clara e concentrada com grande intensidade no que tinha de fazer a seguir. Deixou o carro e não olhou para trás. Uma vez mais, subiu o passeio, movendo-se de poça em poça de luz quando passava por baixo dos candeeiros de iluminação pública. Daniel estava agora atrás dela: à sua frente esperava-a uma mulher morta. E todos estes polícias, ali à volta. O que é que eles esperavam? Respostas que ela poderia não ser capaz de lhes dar?

Puxou o casaco mais para si, como se quisesse resguardar-se dos olhares deles, pensando na véspera de Natal e noutro cenário de morte. Pensando em Eve Kassovitz, que se demorara na rua, nessa noite, esvaziando o estômago no monte de neve. Teria ela sentido sequer uma centelha de premonição de que seria o próximo alvo da atenção de Maura?

Todos os polícias se juntaram em silêncio perto da casa enquanto a equipa da morgue trazia Eve Kassovitz numa maca com rodas pelo pátio lateral. Quando a maca trazendo o corpo amortalhado emergiu através do portão do ferro, ficaram de cabeça descoberta ao vento frígido, uma solene fila azul homenageando um dos seus. Mesmo depois de a maca ter desaparecido dentro do veículo e de as portas se terem fechado, não romperam as fileiras. Só quando as luzes da traseira piscaram, afastando-se na escuridão, é que os bonés voltaram a ser postos, e eles começaram a separar-se, voltando aos seus carros-patrulha.

Também Maura estava a dirigir-se ao seu carro quando a porta da frente da vivenda se abriu. Ergueu os olhos quando uma luz quente se espalhou e viu a silhueta de um homem ali de pé, olhando para ela.

- Desculpe. É a Doutora Isles? - perguntou.

-Sim?

- Mister Sansone gostaria de a convidar a entrar na casa. Está muito mais quente lá dentro e acabei de fazer uma nova cafeteira de café.

Ela hesitou ao fundo dos degraus, olhando para o brilho quente que enquadrava o criado. Ele mantinha-se muito direito, observando-a com uma assustadora quietude que a fez pensar numa estátua de tamanho natural que uma vez vira numa loja de presentes engraçados, um mordomo em pasta de cartão segurando uma bandeja de bebidas falsas. Olhou de relance para o fundo da rua, na direcção do seu carro. Daniel tinha já partido e ela não tinha nada que a aguardasse ansiosamente senão uma solitária viagem de carro e uma casa vazia.

- Obrigada - disse ela e começou a subir os degraus. - Dava-me jeito uma chávena de café.

 

Maura entrou no calor do salão da frente. A sua cara estava ainda entorpecida pelas picadas do vento. Só quando ficou diante da lareira, esperando que o mordomo avisasse Mr. Sansone da sua presença, é que as sensações regressaram lentamente às suas faces; sentiu o agradável vigor de nervos reanimados, de pele corada. Dali conseguia ouvir o murmúrio de conversas noutra sala: a voz do detective Crowe, pontuada por questões, a que respondia uma voz mais baixa, quase inaudível. A voz de uma mulher. Na lareira, faúlhas saltaram e o o fumo aumentou, e ela percebeu que eram mesmo toros a arder, e não a falsa lareira de gás que ela tinha suposto. O quadro medieval a óleo pendurado por cima da lareira podia também ser autêntico. Era o retrato de um homem usando um manto de veludo cor de vinho, com um crucifixo de ouro pendurado ao pescoço. Embora não fosse jovem, e o seu cabelo escuro tivesse fios prateados, os seus olhos brilhavam com um fogo juvenil. À luz vacilante dessa sala, aqueles olhos pareciam penetrantemente vivos.

Ela estremeceu e virou-se, estranhamente intimidada pelo olhar fixo de um homem quase certamente morto há muito tempo. A sala tinha outras curiosidades, outros tesouros para examinar. Viu cadeiras estofadas com seda listrada, um vaso chinês que resplandecia com a patina de muitos séculos, um aparador de pau-rosa onde estavam pousadas uma caixa de charutos e uma garrafa de cristal com brandy. O tapete sobre o qual se encontrava mostrava um trajecto usado para o seu centro, prova da sua antiguidade e dos incontáveis sapatos que tinham andado por cima dele, mas o relativamente intocado perímetro revelava a inconfundível qualidade de lã espessa e a habilidade do tecelão. Ela baixou os olhos para os seus pés, para uma tapeçaria de vinhas intricadas contorcendo-se em cima de um fundo bordeaux para enquadrar um unicórnio deitado por baixo de um caramanchão de árvores. De repente, sentiu-se mal por estar em cima de uma tal obra-prima. Afastou-se dela, para o soalho de madeira, e mais perto da lareira.

Uma vez mais estava de frente para o retrato por cima do rebordo da lareira. Uma vez mais, o seu olhar ergueu-se para os olhos penetrantes do sacerdote, olhos que pareciam estar também postos nela.

- Está na minha família há várias gerações. É espantoso, não é, como as cores estão ainda tão intensas? Mesmo passados quatro séculos.

Maura virou-se para encarar o homem que tinha acabado de entrar na sala. Entrara ali tão silenciosamente, era como se se tivesse simplesmente materializado atrás dela, e ela foi tão apanhada de surpresa que nem sabia bem o que dizer. Ele estava vestido com uma camisola de gola alta escura, o que realçava ainda mais o seu cabelo grisalho. Todavia, pela sua cara, não devia ter mais do que cinquenta anos. Se tivessem apenas passado um pelo outro na rua, ela teria olhado para ele porque as suas feições eram tão interessantes e tão impressionantemente familiares. Ela viu uma testa alta, um porte aristocrático. Os seus olhos escuros captaram o cintilar da luz da lareira, por isso pareciam iluminados por dentro. Ele tinha-se referido ao retrato como sendo uma relíquia da família e ela viu imediatamente a semelhança de traços familiares entre o retrato e este homem. Os olhos eram iguais.

Ele ergueu a mão.

- Olá, Doutora Isles. Eu sou Anthony Sansone. - O olhar dele estava fixado com tanta intensidade na sua cara que se perguntou se já se tinham encontrado antes.

Não. Certamente me lembraria de um homem tão atraente.

- Fico contente por finalmente a conhecer - disse ele, apertando-lhe a mão. - Depois de tudo o que ouvi a seu respeito.

- Da parte de quem?

- Da Doutora O'Donnell.

Maura sentiu a sua mão a esfriar na dele e afastou-a.

- Não consigo imaginar porque é que eu seria tema de conversa.

- Ela tinha só boas coisas para dizer a seu respeito. Acredite em mim.

- Isso é surpreendente.

- Porquê?

- Porque eu não posso dizer o mesmo a respeito dela - disse ela. Ele fez um sinal de entendimento.

- Ela consegue ser desagradável. Até termos a oportunidade de a conhecermos melhor. De valorizar a sua perspicácia.

A porta abriu-se tão silenciosamente que Maura nem deu por isso. Só o tímido tinido suave de porcelana a alertou para o facto de o mordomo ter entrado na sala, transportando uma bandeja com chávenas e uma cafeteira. Pousou-as numa mesa baixa, olhou para Sansone com ar interrogativo e depois retirou-se da sala. Nem uma única palavra havia passado entre eles: a única comunicação tinha sido aquele olhar e o sinal de cabeça em troca; todo o vocabulário necessário entre dois homens que obviamente se conheciam um ao outro suficientemente bem para dispensar palavras desnecessárias.

Sansone fez-lhe um gesto para a convidar a sentar-se e Maura recostou-se numa poltrona Império estofada com seda listrada.

- Peço desculpa por confiná-la ao salão da frente - disse ele. - Mas o Departamento de Polícia de Boston parece ter requisitado as outras salas enquanto fazem os seus interrogatórios. - Deitou café numa chávena e estendeu-lha. - Parto do princípio de que já examinou a vítima?

- Já a vi.

- O que é que acha?

- Sabe bem que não posso fazer comentários.

Ele encostou-se para trás na sua cadeira, parecendo perfeitamente à vontade no brocado azul e dourado.

- Não estou a falar do corpo em si mesmo - disse ele. - Compreendo perfeitamente que não possa discutir as suas descobertas clínicas. Estava a referir-me ao próprio local. A forma do crime.

- Devia perguntar isso ao principal investigador, a detective Rizzoli.

- Estou mais interessado nas suas impressões.

- Sou médica. Não sou detective.

- Mas calculo que tenha uma visão especial sobre o que aconteceu esta noite no meu jardim. - Inclinou-se para a frente, com os seus olhos escuros como carvão cravados nos dela. - Viu os símbolos desenhados na minha porta das traseiras?

- Não posso falar sobre...

- Doutora Isles, se o fizer não estará a revelar seja o que for. Eu vi o corpo. Tal como a Doutora O'Donnell. Quando o Jeremy encontrou a mulher, voltou logo para dentro de casa. Para nos informar.

- E então o senhor e a O'Donnell foram vaguear lá para fora, como turistas, para dar uma olhadela?

- Nós somos o extremo oposto de turistas.

- Pararam para pensar nas pegadas que podem ter destruído? Os vestígios que contaminaram?

- Nós sabíamos exactamente o que estávamos a fazer. Tínhamos de ver o local do crime.

- Tinham?

- Esta casa não é só a minha residência. É também um local de encontro para colegas vindos de todo o mundo. O facto de a violência ter atacado tão perto deixa-nos alarmados.

- Qualquer pessoa ficaria alarmada por encontrar uma pessoa morta no seu jardim. Mas a maioria das pessoas não iria marchar lá para fora, com a sua convidada para jantar, só para espreitar.

- Precisávamos de saber se era apenas um simples caso de violência ocasional.

- Em vez de quê?

- Um aviso, enderereçado especificamente para nós. - Pousou a sua chávena de café e concentrou a sua atenção tão completamente nela que Maura se sentiu presa à cadeira estofada de seda. - Viu realmente os símbolos a giz na porta? O olho. As três cruzes invertidas.

-Vi.

- Eu soube que houve outra chacina na véspera de Natal. Outra mulher. Outro cenário de crime com cruzes invertidas desenhadas na parede do quarto.

Ela não precisou de confirmar que isso acontecera: este homem tinha certamente visto a resposta na sua cara. Maura conseguia quase sentir o seu olhar a sondá-la profundamente e vendo demasiado.

- Podíamos falar igualmente disso - disse ele. - Eu já conheço os pormenores mais importantes.

- Como é que sabe? Quem é que lhe contou?

- Pessoas em quem confio.

Ela soltou uma risada incrédula.

- A Doutora O'Donnell é uma delas?

- Quer goste dela ou não, ela é uma autoridade na sua área. Veja os seus trabalhos sobre os assassinos em série. Ela compreende essas criaturas.

- Alguns diriam que se identifica com eles.

- Num certo nível, temos de o fazer. Ela deseja rastejar para dentro das suas cabeças. Examinar cada uma das suas fendas.

A maneira como Maura se sentira examinada pelo olhar de Sansone apenas há alguns momentos.

- É preciso ser-se um monstro para reconhecer outro - disse Maura.

- Acredita mesmo nisso?

- A respeito de Joyce O'Donnell, sim. Acredito nisso. Ele inclinou-se ainda mais para ela e a sua voz baixou para um murmúrio íntimo.

- Poderá a sua antipatia pela Joyce ser meramente pessoal?

- Pessoal?

- Por ela saber tanto sobre si? Acerca da sua família?

Maura devolveu o olhar fixo dele, num silêncio de estupefacção.

- Ela contou-nos a respeito de Amalthea - disse ele.

- Não tinha o direito de fazer isso.

- A prisão da sua mãe é uma questão que pertence aos arquivos públicos. Todos sabemos o que Amalthea fez.

- Estamos a falar da minha vida privada...

- Sim, e ela é um dos seus demónios pessoais. Compreendo isso.

- Por que raio é que isso lhe interessa?

- Porque você interessa-me. Olhou o mal de frente. Viu-o no rosto da sua própria mãe. Sabe que está aí, na sua linhagem. É isso que me fascina, Doutora Isles: que provenha de uma ascendência tão violenta e, apesar disso, esteja aqui, trabalhando ao lado dos anjos.

- Eu trabalho do lado da ciência e da razão, Mister Sansone. Os anjos não estão envolvidos nisso.

- Está bem, então não acredita em anjos. Mas acredita nas contrapartidas deles?

- Está a falar dos demónios] - Ela soltou uma gargalhada. - Claro que não.

Ele olhou-a durante um instante, parecendo vagamente desapontado.

- Visto que a sua religião parece ser a ciência e a razão, como disse, como é que a ciência explica o que aconteceu esta noite no meu jardim? E o que aconteceu àquela mulher na véspera de Natal?

- Está a pedir-me para explicar o mal.

- Estou.

- Não posso. Nem a ciência o pode fazer. Simplesmente existe. Ele concordou.

- É exactamente isso. Simplesmente existe, e sempre esteve connosco. Uma entidade real, vivendo entre nós, perseguindo-nos. À espera de se poder alimentar. A maioria das pessoas não tem consciência disso e não o reconhece, mesmo quando roça por elas, quando passa por elas na rua. - A sua voz tinha baixado para um sussurro. No momento de silêncio que se seguiu, ela ouviu o crepitar das chamas na lareira, o murmúrio de vozes na outra sala. - Mas você tem - disse ele. - Viu-o com os seus próprios olhos.

- Só vi o que qualquer polícia dos homicídios viu.

- Não estou a falar de crimes quotidianos. Maridos que matam mulheres, traficantes de drogas que matam a concorrência. Estou a falar do que viu nos olhos da sua mãe. A cintilação. A centelha. Não divina mas algo tremendo.

Um vento forte gemeu, descendo pela chaminé, espalhando cinzas contra o anteparo do fogão da sala. As chamas tremeram, cedendo diante de um intruso invisível. A sala subitamente ficou fria, como se todo o calor, toda a luz, tivessem sido sugados dali.

- Compreendo perfeitamente - disse ele - porque é que não queria falar da Amalthea. É uma terrível linhagem para ser herdada.

- Ela não tem nada a ver com aquilo que sou - disse Maura. - Ela não me educou. Nem sequer sabia da existência dela até há poucos meses.

- E apesar disso é sensível a esse assunto. Ela olhou-o nos olhos.

- Na verdade não quero saber.

- Acho estranho que não queira saber.

- Nós não herdamos os pecados dos nossos pais. Ou as suas virtudes.

- Algumas heranças são demasiado poderosas para serem ignoradas. Ele apontou para o quadro por cima da lareira. - Há dezasseis gerações entre mim e aquele homem. Apesar disso, nunca escaparei à sua herança. Nunca me conseguirei purificar das coisas que ele fez.

Maura fixou os olhos no retrato. Uma vez mais ficou espantada com a semelhança entre este homem sentado junto dela e o rosto que estava na tela.

- Disse que esse quadro era uma relíquia familiar.

- Uma relíquia que não me deixa feliz por tê-la herdado.

- Quem era ele?

- Monsignore Antonino Sansone. Este retrato foi pintado em Veneza, em

1561. No auge do seu poder. Ou, também poderia dizer, no ponto mais baixo da sua depravação.

- Antonino Sansone? O seu nome?

- Sou o seu descendente directo. Ela franziu o sobrolho para o quadro.

- Mas ele...

- Era um sacerdote. Era isso que ia a dizer, não era? -Sim.

- Levaria a noite toda a contar-lhe a história dele. Noutra altura, talvez. Digamos apenas que Antonino não era um homem devoto. Fez coisas a outros seres humanos que a fariam questionar o verdadeiro significado de...

- Fez uma pausa. - Não é um antepassado de que eu me orgulhe.

- E, no entanto, tem o retrato dele pendurado na sua casa.

- Como lembrança.

- De quê?

- Olhe para ele, Doutora Isles. É parecido comigo, não acha?

- Assustadoramente parecido.

- De facto, podíamos ser irmãos. É por isso que está ali pendurado. Para me lembrar que o mal tem rosto humano, talvez mesmo um rosto agradável. Podia passar ao lado dele, vê-lo sorrir para si, e nunca imaginaria o que ele está a pensar a seu respeito. Pode estudar num rosto tudo o que quiser, mas nunca chega a saber realmente o que está por baixo da máscara. - Inclinou-se para ela, o seu cabelo reflectindo a luz da lareira como um elmo prateado.

- Eles parecem-se connosco, Doutora Isles - disse ele, em voz baixa.

- Eles? Fala disso como se fosse uma espécie à parte.

- Talvez sejam. Remontando a uma era antiga. Tudo o que eu sei é que eles não são como nós. E a única maneira de os identificar é acompanhar o que fazem. Seguir a pista sangrenta, ouvir os gritos. Buscar o que a maior parte dos departamentos de polícia estão demasiado confusos para notar os padrões. Nós olhamos além do ruído de fundo dos crimes quotidianos, do rotineiro derramamento de sangue, para ver os pontos quentes. Nós temos cuidado com as pegadas de monstros.

- O que é que quer dizer com esse nós?

- As pessoas que estavam aqui esta noite.

- Os seus convidados para jantar.

- Nós partilhamos a crença de que o mal não é apenas um conceito. É real e tem uma presença física. Tem um rosto. - Fez uma pausa. - A certa altura das nossas vidas, cada um de nós viu isso em carne e osso.

Maura ergueu uma sobrancelha.

- Satanás?

- Seja qual for o nome que queira usar. - Encolheu os ombros. - Tem havido tantos nomes, desde os Antigos. Lúcifer, Abigor, Samael, Mastema. Cada cultura tem o seu nome para o mal. Os meus amigos e eu, cada um de nós confrontou-se pessoalmente com ele. Vimos o seu poder e tenho de o confessar, Doutora Isles: estamos assustados. - Olhou-a nos olhos. - Esta noite mais do que nunca.

- Pensa que este assassínio no seu jardim...

- Tem a ver connosco. Com o que fazemos aqui.

- E que é o quê?

- Nós vigiamos o trabalho dos monstros. Em todo o país, em todo o mundo.

- Um clube de detectives sentados em poltronas? É isso que me parece.

- O seu olhar regressou ao retrato de Antonino Sansone, que certamente valia uma fortuna. Bastava olhar de relance esta sala de estar para lhe dizer que este homem tinha dinheiro a rodos. E tempo para gastar em interesses excêntricos.

- Porque é que aquela mulher foi morta no meu jardim, Doutora Isles? - perguntou ele. - Porque é que foi escolhida a minha casa, nesta noite em especial?

- Pensa que tem tudo a ver consigo e com o seu clube?

- Viu os desenhos a giz na minha porta. E os desenhos na matança da véspera de Natal.

- E não faço ideia do que qualquer deles significa.

- As cruzes invertidas são símbolos satânicos vulgares. Mas o que me interessa é o círculo de giz na casa de Lori-Ann Tucker. O que foi desenhado no chão da cozinha dela.

Não valia a pena negar os factos: este homem já conhecia os pormenores.

- Então o que é que o círculo significa?

- Pode ser um anel de protecção. Outro símbolo tirado dos rituais satânicos. Ao desenhar esse círculo, Lori-Ann podia estar a tentar defender-se. Podia estar a tentar controlar as mesmas forças que estava a chamar das trevas.

- Espere. Pensa que a vítima o desenhou para repelir o diabo? - O seu tom de voz não deixava dúvidas sobre o que pensava da teoria dele: um absurdo total.

- Se ela o desenhou, então não fazia ideia de quem, ou do que, estava a convocar.

O fogo subitamente agitou-se, as chamas esticando-se numa garra brilhante. Maura virou-se quando a porta interior se abriu e a Doutora Joyce O'Donnell apareceu. Ela parou, manifestamente surpreendida por ver Maura. Depois a sua atenção virou-se para Sansone.

- Que sorte a minha. Depois de duas horas de perguntas, o homem mais bonito de Boston decidiu finalmente deixar-me ir para casa. Tu projectaste um raio de um jantar, Anthony. Esta é uma noite que nunca conseguirás superar.

- Esperemos que nunca o faça - disse Sansone. - Deixa-me ir buscar o teu casaco. - Levantou-se e abriu um painel de madeira, expondo um armário escondido. Segurou o casaco com gola de pele de O'Donnell e ela enfiou os braços nas mangas com graciosidade felina, os seus cabelos louros roçando pelas mãos dele. Maura viu familiaridade nesse contacto momentâneo, uma confortável harmonia de gestos entre duas pessoas que se conheciam bem.

Talvez demasiado bem.

Enquanto se abotoava, o olhar de O'Donnell poisou em Maura.

- Há muito tempo que não a via, Doutora Isles - disse ela. - Como está a sua mãe?

Ela vai sempre directamente à jugular. Não deixes que ela veja que extraiu sangue.

- Não faço ideia - disse Maura.

- Não voltou lá para a ver?

- Não. Mas provavelmente já sabia disso.

- Oh, eu terminei as minhas entrevistas com Amalthea há cerca de um mês. Não voltei a vê-la desde então. - Lentamente, O'Donnell enfiou luvas de lã em compridos e elegantes dedos. - Ela estava bem da última vez que a vi, no caso de estar interessada em saber.

- Não estou.

- Agora puseram-na a trabalhar na biblioteca da prisão. Ela está a tornar-se um rato de biblioteca. Lê todos os livros de psicologia a que consegue deitar a mão. - Fez uma pausa para dar à sua luva um último puxão. - Se alguma vez tivesse a oportunidade de ir para a faculdade, podia ter sido uma estrela.

Em vez disso, a minha mãe escolheu um caminho diferente. Predadora. Carniceira. Por mais que tentasse distanciar-se, por mais que enterrasse bem fundo qualquer pensamento sobre Amalthea, Maura não conseguia olhar para o seu reflexo no espelho sem ver os olhos da mãe, o queixo da mãe. O monstro espreitando-a do espelho.

- O historial do caso dela vai ocupar um capítulo inteiro do meu próximo livro - disse a outra. - Se alguma vez você aceitasse sentar-se e falar comigo, contribuiria em muito para a história dela.

- Não tenho absolutamente nada a acrescentar.

A psiquiatra sorriu simplesmente, manifestamente esperando a ofensa.

- Vale sempre a pena perguntar - disse ela, e olhou para Sansone. Um olhar que se demorou, como se tivesse algo mais a dizer, mas não o pudesse fazer na presença de Maura. - Boa noite, Anthony.

- Devo mandar o Jeremy acompanhar-te a casa, só para ficar sossegado?

- De modo nenhum. - Ela fez-lhe um sorriso que espantou Maura por ser nitidamente atiradiço. - Posso tomar conta de mim.

- Estas circunstâncias são diferentes, Joyce.

- Estás com medo?

- Seríamos loucos se não estivéssemos.

Ela lançou o cachecol à volta do pescoço, um floreado teatral para realçar que, ao menos ela, não ia deixar que algo tão trivial como o medo a afrouxasse. - Telefono-te amanhã.

Ele abriu a porta, deixando entrar um sopro de ar gelado, uma rajada de flocos de neve que se espalharam como faíscas pelo tapete antigo. - Tem cuidado contigo - disse ele. Esperou à entrada da casa, vendo enquanto Joyce O'Donnell caminhava para o seu carro. Só depois de ela ter arrancado dali é que fechou a porta. Uma vez mais, encarou Maura.

- Então você e os seus amigos pensam que estão do lado dos anjos - disse Maura.

- Creio que estamos.

- De que lado é que ela está?

- Eu sei que ela e as forças da lei não morrem de amores uns pelos outros. Mas o trabalho dela como testemunha de defesa é estar em desacordo com a acusação. E eu já conheço Joyce há três anos. Sei quais são as suas posições.

- Tem mesmo a certeza disso? - Maura pegou no casaco, que deixara em cima de um canapé. Ele não tentou ajudá-la a vesti-lo: talvez sentisse que ela, ao contrário da outra, não estava com disposição para ser mimada. Enquanto abotoava o casaco, Maura sentiu que estava a ser observada por dois pares de olhos. O retrato de Antonino Sansone também estava a observá-la, o seu olhar atravessando a neblina de quatro séculos, e ele não pôde deixar de olhar de relance na direcção do retrato, para o homem cujas acções, há tantos séculos, conseguiam ainda fazer estremecer o seu homónimo.

- Disse que tinha olhado o mal nos olhos - disse ela, virando-se para o seu anfitrião.

- Ambos o fizemos.

- Então agora já deve saber bem - disse ela - que ele usa um disfarce muito bom.

Saiu da casa e inspirou o ar que luzia com a neblina gelada. O passeio estendia-se diante dela como um rio escuro; candeeiros públicos lançavam pálidas ilhas de luz. Um solitário carro-patrulha estava estacionado do outro lado da rua, com o motor ligado, e ela viu a silhueta de um agente sentado no lugar do condutor. Ela levantou a mão num aceno.

Ele também lhe acenou.

Não há razão para ficar nervosa, pensou, enquanto começava a andar. O meu carro está mesmo ali ao fundo da rua e há um polícia por perto. Tal como Sansone. Olhou para trás e viu que ele ainda estava nos degraus da frente da sua casa, observando-a. Apesar disso, tirou as chaves do carro, mantendo o polegar apoiado no botão de alarme. Mesmo enquanto descia o passeio, esquadrinhava as sombras, buscando o mínimo movimento. Só depois de ter entrado no carro e trancado as portas é que sentiu a tensão a diminuir nos seus ombros.

É a altura de ir para casa. O momento para uma bebida forte.

Quando entrou em casa, encontrou duas mensagens novas no seu atendedor de chamadas. Foi primeiro à cozinha, para encher um copo de brandy, depois regressou à sala de estar, bebendo um gole, e carregou na tecla para ouvir. Quando ouviu o som da primeira voz ficou muito quieta.

- É o Daniel. Não me interessa que seja tarde quando ouvires isto. Por favor, liga-me. Odeio pensar que tu e eu... - Uma pausa. - Precisamos de falar, Maura. Liga-me.

Ela não se mexeu. Ficou apenas a agarrar o seu brandy, os seus dedos entorpecidos a envolver o copo enquanto passava a segunda mensagem.

- Doutora Isles, é Anthony Sansone. Só queria ter a certeza de que chegou em segurança a sua casa. Ligue-me e informe-me, está bem?

A máquina ficou silenciosa. Ela respirou fundo, estendeu a mão para o telefone e marcou.

- Residência Sansone. Fala o Jeremy.

- É a Doutora Isles. Podia...

- Olá, Doutora Isles. Eu vou chamá-lo para falar consigo.

- Diga-lhe só que já estou em casa.

- Eu sei que ele gostaria muito de falar consigo.

- Não é necessário incomodá-lo. Boa noite.

- Boa noite, doutora.

Ela desligou e ficou com a mão suspensa por cima do auscultador, preparada para fazer a segunda chamada.

Uma pancada forte no seu alpendre fê-la endireitar-se de repente. Foi até à porta da frente e acendeu a luz do alpendre. Lá fora, o vento redemoinhava neve fina como poeira. No alpendre, uma ponta de gelo caída jazia em pedaços brilhantes, como uma adaga partida. Desligou a luz mas ficou à janela a ver, enquanto um camião municipal passava a rugir, espalhando areia pela estrada gelada.

Voltou para o sofá e ficou a olhar para o telefone enquanto bebia o resto do seu brandy.

Precisamos de falar, Maura. Liga-me.

Pousou o copo, desligou o candeeiro e foi para a cama.

 

22 de Julho. Fase da Lua: Quarto Crescente

A tia Amy está ao fogão, a mexer uma panela de guisado, com uma cara tão contente como a de uma vaca. Neste dia nublado, com nuvens escuras a juntarem-se no céu a oeste, ela parece inconsciente do estrondo da trovoada. No mundo da minha tia, cada dia é um dia soalheiro. Não vê o mal, não receia o mal. É como o gado que engorda comendo trevo na herdade ao fundo da estrada, o gado que nada sabe sobre o matadouro. Ela não consegue ver além do brilho da sua própria felicidade, o precipício que está aos seus pés.

Não se parece nada com a minha mãe.

A tia Amy afasta-se do fogão e diz:

- O jantar está quase pronto.

- Eu ponho a mesa - proponho, e ela faz-me um sorriso de gratidão. Basta uma coisa de nada para lhe agradar. Enquanto disponho os pratos e guardanapos na mesa e coloco os garfos com os dentes para baixo, à maneira francesa, sinto o seu olhar amoroso pousado em mim. Ela só vê um rapaz tranquilo e agradável: é cega para aquilo que eu realmente sou.

Só a minha mãe é que sabe. A minha mãe consegue traçar a nossa linhagem desde os Hicsos, que governaram o Egipto a partir do Norte, na época em que o Deus da Guerra era sagrado. "O sangue de antigos caçadores corre nas tuas veias", disse a minha mãe. "Mas é melhor nunca falar disso, porque as pessoas não iriam entender".

Eu falo pouco quando nos sentamos para jantar. A família tagarela o suficiente para preencher qualquer silêncio. Falam do que Teddyfez no lago hoje, do que Lily soube enquanto estava em casa de Lori-Ann. Que bela produção de tomates vão colher em Agosto.

Quando acabamos de comer, o tio Peter diz:

- Quem é que quer ir à vila para comer um gelado?

Só eu escolho ficar em casa.

Da entrada da casa vejo o carro deles a afastar-se. Assim que ele desaparece descendo a colina, subo as escadas e entro no quarto dos meus tios. Tenho estado à espera da oportunidade para o explorar. O quarto cheira ao limão de polimento dos móveis. A cama está feita de lavado, mas há alguns pequenos sinais de desordem (os jeans do meu tio pousados numa cadeira, algumas revistas na mesinha-de-cabeceira) que confirmam que pessoas reais vivem neste quarto.

Na casa de banho deles, abro o armário dos remédios e encontro, juntamente com os habituais comprimidos para a dor de cabeça e para a gripe, uma receita passada há dois anos para o Dr. Peter Saul:

"Valium, 5 miligramas. Tomar um comprimido três vezes por dia se for necessário para evitar convulsões."

Há pelo menos uma dúzia de comprimidos no frasco.

Regresso ao quarto. Abro gavetas do toucador e descubro que o tamanho do sutiã da minha tia é o 36B, que a sua roupa interior é de algodão e que o meu tio veste calções de jockey de tamanho médio. Numa gaveta do fundo também encontro uma chave. É demasiado pequena para ser de uma porta. Creio saber o que abre.

Lá em baixo, no escritório do meu tio, consigo encaixar a chave numa fechadura e a porta do gabinete abre-se. Numa prateleira lá dentro está a sua pistola. É uma arma antiga que herdou dopai, única razão pela qual não se livrou dela. Nunca a tira para fora: creio que tem algum receio dela.

Fecho o gabinete à chave e devolvo-a à sua gaveta.

Uma hora mais tarde, ouço o carro deles a entrar na garagem, e vou lá para baixo para os receber enquanto eles regressam à casa.

A tia Amy sorri quando me vê. "Tenho tanta pena que não tenhas vindo connosco. Aborreceste-te muito?"

 

O berro dos freios pneumáticos do camião acordou Lily Saul. Ela ergueu a cabeça, resmungando com a dor na nuca, e pestanejou com olhos sonolentos para a paisagem rural que desfilava. O dia acabava de nascer e a névoa da manhã era uma neblina dourada sobre vinhas em declive e pomares cobertos de orvalho. Ela desejou que os pobres Paolo e Giorgio tivessem passado para um lugar tão belo como este: se alguém merecia o Paraíso, eram eles.

Mas eu não os verei lá. Esta será a minha única oportunidade para o Paraíso. Aqui, agora. Um momento de paz, infinitamente doce porque sei que não durará.

- Finalmente acordaste - disse o motorista em italiano, apreciando-a com os seus olhos escuros. Na noite passada, quando ele parara ao lado da estrada, mesmo à saída de Florença, para lhe dar boleia, ela não tinha olhado bem para ele. Agora, com a luz matinal a incidir sobre a cabina do camião, viu feições grosseiras, uma testa saliente e a barba de um dia eriçada no queixo. Ah, ela entendia aquele olhar que ele lhe dera. Queremos ou não queremos, Signorina? As raparigas americanas são fáceis. Dá-lhes uma boleia, oferece-lhes um lugar para ficarem e elas dormem contigo.

Só quando o Inferno gelar, pensou Lily. Não que não tivesse dormido com um estranho ou dois. Ou três, quando era necessário tomar medidas desesperadas. Mas esses homens não eram desprovidos de encanto e tinham oferecido o que ela precisava urgentemente na altura: não um abrigo mas o conforto dos braços de um homem. A oportunidade de gozar a breve mas agradável ilusão de que alguém a podia proteger.

- Se precisares de um lugar para ficar - disse o motorista. - Eu tenho um apartamento na cidade.

- Obrigada mas não.

- Tens algum lugar para onde ir?

- Tenho... amigos. Eles ofereceram-se para me deixar ficar lá.

- Qual é morada deles em Roma? Posso deixar-te lá.

Ele sabia que ela estava a mentir. Estava a testá-la.

- A sério - disse ele. - Não me custa nada.

- Basta deixar-me na estação de comboios. Eles vivem ali perto. Novamente o olhar dele a sondou. Ela não gostou dos olhos dele. Viu neles baixeza, como o lampejo de uma serpente enrolada que podia atacar a qualquer momento.

Subitamente ele encolheu os ombros e sorriu, como se isso não lhe importasse nada.

- Já estiveste em Roma? -Sim.

- O teu italiano é muito bom.

Mas não suficientememte bom, pensou. Abro a boca e eles ficam logo a saber que sou estrangeira.

- Quanto tempo é que vais ficar na cidade?

- Não sei. - A té deixar de ser seguro. A té poder planear o meu próximo movimento.

- Se alguma vez precisares de ajuda, podes telefonar-me. - Tirou um cartão-de-visita do bolso da camisa e entregou-lho. - Está aí o número do meu telemóvel.

- Eu vou telefonar-lhe um dia destes - disse ela, metendo o cartão dentro da mochila. Deixemo-lo agarrado a essa fantasia. Dar-lhe-ia menos problemas quando se fosse embora.

Na Stazione Termine de Roma, desceu do camião e despediu-se dele com um aceno. Sentiu os olhos dele a segui-la enquanto atravessava a rua para a estação ferroviária. Não olhou para trás, mas dirigiu-se directamente para o edifício. Aí, atrás das janelas, virou-se para ver o camião. Viu-o sentado lá dentro, à espera. Continua, pensou. Afasta-te de mim.

Atrás do camião, um táxi tocou a sua buzina. Só então o camião avançou.

Ela saiu da estação e vagueou pela Piazza della Repubblica, onde parou, atordoada pela multidão, pelo calor, pelo barulho e pela poluição dos veículos. Pouco antes de deixar Florença, tinha arriscado parar numa caixa multibanco e levantara trezentos euros, por isso agora sentia-se rica. Se tivesse cuidado, podia fazer o dinheiro durar duas semanas. Podia viver de pão, queijo e café, dormir em hotéis turísticos de preços mínimos. Esta era a zona ideal para encontrar instalações baratas. E com os enxames de turistas estrangeiros a entrar e a sair da estação de comboios, podia facilmente misturar-se com eles.

Mas tinha de ter cuidado.

Parando fora de uma loja de artigos variados, pensou em como poderia mais facilmente mudar a sua aparência. Pintar o cabelo? Não. Na terra das belezas de cabelos escuros, era melhor continuar morena. Mudar de roupa, talvez. Deixar de parecer americana. Trocar osjeans por um vestido barato. Deambulou por uma loja empoeirada e saiu de lá meia hora depois envergando um vestido de algodão azul.

Num impulso de extravagância, a seguir tratou de si com um prato bem cheio de spaghetti Bolognese, a sua primeira refeição quente em dois dias. O molho era bastante mau e as massas encharcadas em água e demasiado cozinhadas, mas ela devorou tudo, ensopando cada pedacinho de carne com o pão seco. A seguir, com a barriga cheia, o calor a pesar-lhe nos ombros,

arrastou-se sonolenta em busca de um hotel. Encontrou um numa rua lateral suja. Cães tinham deixado as suas recordações fedorentas junto da porta de entrada. Havia roupa lavada a ondular nas janelas e uma lata de lixo, zumbindo com moscas, a transbordar de desperdícios e garrafas partidas.

Perfeito.

O quarto que lhe foi atribuído dava para um sombrio pátio interior. Enquanto desabotoava o vestido, ficou de olhos postos lá em baixo, num gato escanzelado que saltava sobre algo demasiado pequeno para Lily perceber o que era. Um fio? Um rato condenado?

Ficando só com a roupa interior, deixou-se cair sobre a cama grumosa e escutou o zumbido das janelas com ar condicionado no pátio, o toque das buzinas e o roncar dos autocarros da Cidade Eterna. Uma cidade com quatro milhões de habitantes é um bom lugar para alguém se esconder durante algum tempo, pensou. Ninguém me encontrará facilmente aqui.

Nem mesmo o Diabo.

 

A casa de Edwina Felway ficava no subúrbio de Newton. Encontrava-se à beira do Braeburn Country Club coberto de neve, dominando o braço oriental de Cheesecake Brook, que era agora uma brilhante faixa de gelo. Embora não fosse certamente a maior casa nesta estrada de grandiosas residências, as suas encantadoras excentricidades distinguiam-na das suas vizinhas mais imponentes. Grossas trepadeiras de glicínias tinham subido pelos seus muros de pedra, agarrando-se aí como dedos artríticos, aguardando a Primavera para aquecer os seus entrenós e obter florescências. Enquadrado por uma das cumeeiras, um grande óculo com vitral espreitava como um olho multicolor. Por baixo do pontiagudo telhado de ardósia, pingentes de gelo cintilavam como dentes recortados. No jardim da frente, esculturas erguiam cabeças cobertas de gelo, como se emergissem da hibernação presa na neve: uma fada alada, ainda congelada a meio do voo; um dragão, com o seu sopro ardente temporariamente extinto; uma donzela graciosa, a coroa de flores na sua cabeça transformada pelo Inverno numa coroa de campânulas-brancas.

- O que é que achas? - perguntou Jane enquanto olhava pela janela do carro para a casa. - Dois milhões? Dois milhões e meio?

- Nesta vizinhança, mesmo ao pé do campo de golfe? Calculo que mais do que quatro - disse Barry Frost.

- Por esta velha casa esquisita?

- Não creio que seja assim tão velha.

- Bom, alguém se deu a muito trabalho para a fazer parecer antiga.

- Envolvente. Era o que eu lhe chamaria.

- Certo. A Casa dos Sete Anões. - Jane virou o carro para a entrada principal e estacionou ao lado de uma carrinha. Enquanto saíam do carro para um pavimento bem coberto de areia, Jane reparou no dístico de deficiente no pára-brisas da carrinha. Espreitando pela janela de trás, viu um elevador de cadeira de rodas...

- Olá, vocês aí! São os detectives? - chamou-os uma voz tonitruante. A mulher que estava no alpendre a acenar-lhes encontrava-se obviamente em boa forma física.

- Mistress Felway? - perguntou Jane.

- Sim. E você deve ser a detective Rizzoli.

- E o meu parceiro, detective Frost.

- Tenham cuidado com o pavimento, está escorregadio. Eu tento ter a entrada com areia para as visitas mas realmente não há nada que substitua sapatos confortáveis. - Confortável era uma palavra que manifestamente se aplicava ao guarda-roupa de Edwina Felway, notou Jane, enquanto subia os degraus para apertar a mão dela. Edwina vestia um casaco largo de tweed, calças de lã e Wellingtons de borracha, a vestimenta de uma mulher do campo inglesa, um papel que certamente parecia desempenhar, desde o seu sotaque até às suas botas verdes de jardinagem. Embora devesse ter sessenta anos, mantinha-se direita e robusta como uma árvore, o seu rosto atraente avermelhado pelo frio, os seus ombros tão largos como os de um homem. O cabelo grisalho, cortado como o de um pajem, estava preso atrás com pregadores de tartaruga, expondo um rosto com maçãs proeminentes e olhos azuis muito francos. Não precisava de maquilhagem: já era suficientemente impressionante sem ela.

- Pus a chaleira a aquecer - disse Edwina, entrando à frente deles na casa.

- Caso quisessem tomar chá. - Fechou a porta, descalçou as botas e enfiou os pés calçados com meias nuns chinelos gastos. Do andar de cima chegou o ladrar excitado de cães. Cães grandes, pelo som que faziam. -Ah, eu fechei-os no quarto. Eles não são nada disciplinados quando vêem estranhos. E são bastante assustadores.

- Quer que tiremos os sapatos? - perguntou Frost.

- Céus, esqueçam isso. De qualquer modo os cães estão sempre a entrar e a sair, arrastando areia cá para dentro. Não me posso preocupar com o chão. Esperem, deixem-me tirar-lhes os casacos.

Enquanto Jane despia o blusão, não conseguiu deixar de olhar para cima, para o tecto que se abobadava por cima deles. As traves abertas eram como as vigas de um salão medieval. O óculo com vitrais em que tinha reparado lá fora irradiava num círculo luminoso de cores cristalizadas. Para onde quer que olhasse, em cada parede, via coisas estranhas. Um nicho com uma Virgem de madeira, ornamentada com folha de ouro e vidros de muitas cores. Um tríptico ortodoxo russo pintado com tons de pedras preciosas. Estátuas de animais e xailes de oração tibetanos, e uma fila de bancos de carvalho. Encostado a uma parede estava um poste em forma de totem dos índios americanos que se erguia para o tecto de dois pisos.

- Ena - disse Frost. - Tem aqui um lugar realmente interessante, minha senhora.

- O meu marido era antropólogo. E coleccionador, até ficarmos sem espaço para pormos tudo aqui. - Apontou para a cabeça de águia que olhava com ar furioso do poste em forma de totem. - Essa coisa era a sua preferida. Há ainda mais disto em armazém. Provavelmente vale uma fortuna, mas eu fiquei ligada a cada uma destas peças horríveis e não me consigo separar delas.

- E o seu marido está...

- Morto. - Ela disse isso sem hesitar. Como uma coisa natural. - Ele era bastante mais velho do que eu. Já sou viúva há anos. Mas passámos uns bons quinze anos juntos. - Pendurou os casacos deles e Jane vislumbrou algo no armário desarrumado, uma bengala de passeio, de ébano, coroada por um crânio humano. Aquela monstruosidade, pensou, eu já a tinha deitado fora há muito tempo.

Edwina fechou a porta do armário e olhou para eles.

- Tenho a certeza de que vocês, detectives, estão assoberbados com esta investigação. Por isso pensei que devíamos tornar-vos as coisas mais fáceis.

- Mais fáceis? - perguntou Jane.

O crescente apito de uma chaleira fez Edwina olhar para o corredor.

- Vamos sentar-nos na cozinha - disse ela e foi à frente deles pelo corredor, com os seus chinelos gastos movendo-se rapidamente no velho soalho de carvalho. - O Anthony avisou-nos que vocês queriam fazer um monte de perguntas, por isso fizemos uma cronologia para vos dar. Tudo o que nos lembramos da noite passada.

- Mister Sansone discutiu isso consigo?

- Telefonou ontem à noite, para me contar tudo o que aconteceu depois de eu ter saído de lá.

- Lamento que o tenha feito. Teria sido melhor se não tivesse falado com ele acerca disso.

Edwina parou no corredor.

- Porquê? Para quê abordar isto às cegas? Se queremos ser úteis para a polícia, temos de ter a certeza dos nossos factos.

- Eu preferia ter depoimentos separados das vossas testemunhas.

- Cada membro do nosso grupo é bastante independente, acredite. Cada um de nós mantém as suas próprias opiniões. Nem o Anthony queria que fosse de outra maneira. É por isso que trabalhamos tão bem juntos.

O apito da chaleira foi bruscamente interrompido e Edwina olhou de relance para a cozinha.

-Ah, acho que ele já chegou lá. Ele? Quem é que estava na cozinha? Edwina correu para a cozinha e disse.

- Espera, deixa que eu faço isso.

- Está tudo bem, Winnie, já enchi o bule. Tu querias Irish Breakfast, não era?

O homem estava sentado numa cadeira de rodas, de costas viradas para os visitantes. Aqui estava o proprietário da carrinha parada na entrada. Ele girou a cadeira para os cumprimentar e Jane viu um emaranhado de débil cabelo castanho e óculos com espessos aros de tartaruga. Os olhos cinzentos que se cruzaram com os seus eram concentrados e curiosos. Parecia demasiado novo para ser filho de Edwina: não devia ter mais do que vinte e tal anos. Mas parecia americano e não havia traços familiares comuns entre a robusta e saudável Edwina e este pálido jovem.

- Deixem-me apresentar-vos - disse Edwina. - Estes são os detectives Frost e Rizzoli. E este é o Oliver Stark.

Jane franziu o sobrolho para o jovem.

- Você era um dos convidados do jantar de ontem à noite. Em casa do Sansone.

- Sim. - Oliver fez uma pausa, examinando o rosto dela. - Há algum problema nisso?

- Contávamos poder falar convosco separadamente.

- Eles não estão nada contentes por já termos discutido o caso entre nós

- disse-lhe Edwina.

- Eu não não previ que iam dizer isso, Winnie?

- Mas é muito mais eficaz desta maneira, captando os pormenores juntos. Poupa tempo a todos. - Edwina dirigiu-se à mesa da cozinha e juntou um enorme monte de jornais, tudo desde o Bangkok Post ao The Irish Times. Mudou-os para um balcão e a seguir puxou duas cadeiras. - Venham, sentem-se. Eu vou lá acima buscar o arquivo.

- Arquivo? - perguntou Jane.

- Claro que já começámos a fazer um arquivo. O Anmony pensou que poderiam querer cópias. - Ela saiu a passos largos da cozinha e ouviram-na a subir as escadas com passos bem firmes.

- Ela é como uma imensa sequóia, não é? - disse Oliver. - Não sabia que as deixavam crescer tanto em Inglaterra. - Rodou a sua cadeira para a mesa da cozinha e fez-lhes sinal para se juntarem a ele. - Eu sei que isto contraria tudo o que vocês da polícia acreditam. Interrogatórios separados de testemunhas e tudo isso. Mas isto é realmente mais eficaz. Mais, tivemos uma chamada em conferência esta manhã com o Gottfried, por isso estão a ter três depoimentos de testemunhas ao mesmo tempo.

- Esse seria Gottfried Baum? - perguntou Jane. - O quarto convidado para o jantar?

- Sim. Ele teve de apanhar um avião para Bruxelas na noite passada, razão pela qual ele e Edwina saíram mais cedo do jantar. Telefonámos-lhe há poucas horas para compararmos os nossos apontamentos. Todas as nossas memórias são concordantes. - Ele fez um sorriso baço a Jane. - Pode ser uma das únicas vezes na história em que estamos todos de acordo numa coisa. Jane suspirou.

- Sabe, Mister Stark...

- Ninguém me chama isso. Eu sou o Ollie.

Jane sentou-se para que o seu olhar ficasse ao nível dele. Ele respondeu-lhe com um olhar de divertimento moderado e isso irritou-a. Um olhar que dizia: Eu sou esperto e sei que sou. Certamente mais esperto do que uma mulher-polícia. Também a irritou que ele tivesse provavelmente razão: tinha o aspecto estereotipado do rapaz genial junto do qual sempre tivemos medo de nos sentarmos nas aulas de Matemática. O miúdo que entregava o seu exame de Álgebra quando todos os outros ainda se debatiam com o primeiro problema.

- Não estamos a tentar estragar as vossas regras habituais - disse Oliver.

- Só queremos ser úteis. E podemos ser, se trabalharmos juntos.

Lá em cima, os cães estavam a ladrar, com as unhas a bater para trás e para a frente no soalho, enquanto Edwina os mandava calar, e uma porta fechou-se com força.

- Pode ajudar-nos só por responder às nossas perguntas - disse Jane.

- Acho que compreendeu mal.

- O que é que não estou a perceber?

- Quão úteis podemos ser para vocês. O nosso grupo.

- Certo. Mister Sansone falou-me do vosso pequeno clube de luta contra o crime.

- É uma sociedade, não um clube.

- Qual é a diferença? - perguntou Frost. Oliver olhou para ele.

- A seriedade, detective. Temos membros em todo o mundo. E não somos amadores.

- É um profissional das forças da lei, Ollie? - perguntou Jane.

- Na verdade sou matemático. Mas o meu verdadeiro interesse é a simbologia.

- Desculpe?

- Interpreto símbolos. As suas origens e os seus significados, tanto os aparentes como os ocultos.

- Sim, sim. E Mistress Felway?

- Ela é antropóloga. Acaba de se juntar a nós. Veio altamente recomendada pelo nosso ramo de Londres.

- E Mister Sansone? Não é certamente um membro das forças da lei.

- Podia muito bem ser.

- Ele disse-nos que era um académico reformado. Um professor de História do Boston College. Isso não me parece ser um polícia.

Oliver riu-se.

- Anthony seria capaz de diminuir a sua própria importância. Ele é mesmo assim.

Edwina regressou à cozinha, trazendo uma pasta de arquivo.

- Quem é que é mesmo assim, Ollie?

- Estávamos a falar do Anthony. A polícia julga que ele é apenas um professor universitário reformado.

- E é isso mesmo que gosta de parecer. - Edwina sentou-se. - Não ajuda muito dar nas vistas.

- O que é que é suposto sabermos acerca dele, de qualquer modo? - perguntou Frost.

- Bem, sabem que é muito rico - disse Edwina.

- Isso era bastante óbvio.

- Quero dizer, extremamente rico. Aquela casa em Beacon Hill não é nada comparada com a propriedade que tem em Florença.

- Ou a sua casa em Londres - disse Oliver.

- E é suposto ficarmos impressionados com isso? - disse Jane. A resposta de Edwina foi um olhar frio.

- O dinheiro, só por si, raramente torna um homem impressionante. O que importa é o que faz com ele. - Pousou a pasta de arquivo na mesa diante de Jane. - Para si, detective.

Jane abriu a pasta na primeira página. Era uma cronologia dos acontecimentos da noite anterior, cuidadosamente passada à máquina, tal como eram recordados por três dos convidados para o jantar. Edwina, Oliver e o misterioso Gottfried Baum.

(Todos os tempos são aproximados.)

18.00: Edwina e Gottfried chegam.

18.15: Oliver Stark chega.

18.20: Joyce O'Donnell chega.

18.40: Primeiro prato servido por Jeremy...

Havia uma lista completa do menu. Consommé seguido por gelatina de salmão e uma salada de alface. Tornedó de carne com bolo de batata crocante. Uma degustação de Porto para acompanhar fatias de queijo Reblochon. E finalmente, com o o café, uma torta Sacher e natas batidas.

Às 21.30, Edwina e Gottfried partiram juntos para o aeroporto de Logan, onde Edwina deixou Gottfried para apanhar o seu voo com destino a Bruxelas.

Às 21.45, Oliver deixou Beacon Hill e seguiu direito para casa.

- E é o que nos lembramos da cronologia dos acontecimentos - disse Edwina. - Tentámos ser tão precisos quanto possível.

Chegando mesmo ao consommé, pensou Jane, passando os olhos pela cronologia. Não havia ali nada que fosse especialmente útil: repetia as mesmas informações que Sansone e o seu mordomo já tinham fornecido, mas com os pormenores culinários adicionais. O quadro geral era o mesmo: uma noite de Inverno; quatro convidados chegam a Beacon Hill com uma diferença de vinte minutos entre os primeiros e o último. Eles e o seu anfitrião partilham um jantar elegante e bebem vinho enquanto discutem os crimes do dia, nunca percebendo que, ali fora, no jardim gelado atrás do seu edifício, uma mulher estava a ser assassinada.

Um certo clube de combate ao crime. Estes amadores são menos que inúteis.

A página seguinte da pasta era uma folha de papel de carta com uma única letra impressa no alto: "M", em fonte gótica. E por baixo dela, uma anotação escrita à mão: "Oliver, a tua análise? A.S." Anthony Sansone? Jane passou para a página seguinte e viu uma fotografia que reconheceu imediatamente: os símbolos que tinham sido desenhados na porta do jardim de Sansone.

- Isto é do local do crime de ontem à noite - disse Jane. - Como é que arranjaram isto?

-Anthony enviou isso esta manhã. É uma das fotos que ele fez ontem à noite.

- Isto não é suposto ser para distribuição pública - disse Jane. - São provas.

- Uma prova muito interessante - disse Oliver. - Sabe qual é o significado, não sabe? Desses símbolos?

- São satânicos.

- Ah, essa é a resposta automática. Vê símbolos estranhos num local de crime e limita-se a deduzir que é obra de algum detestável culto satânico. Os vilões favoritos de toda a gente.

Frost disse.

- Acha que é outra coisa?

- Não estou a dizer que isto não podia ser um culto. Os satanistas usam realmente a cruz invertida como símbolo do Anticristo. E nessa chacina na véspera de Natal, a que teve a decapitação, havia esse círculo desenhado no chão em torno da cabeça da vítima. E as velas acesas. Isso certamente lembra um ritual satânico.

- Como é que sabe disso? Oliver olhou de lado para Edwina.

- Eles pensam mesmo que somos ignorantes, não é?

- Não interessa como soubemos os pormenores - disse Edwina. - O facto é que sabemos deste caso.

- Então o que é que pensa deste símbolo? - perguntou Frost, apontando para a fotografia. - O que parece um olho? É também satânico?

- Depende - disse Oliver. - Primeiro, pensemos no que viram no cenário do crime da véspera de Natal. Havia um círculo de giz vermelho no sítio onde ele colocou a cabeça cortada da vítima. E havia cinco velas queimadas no perímetro.

- Significando o quê?

- Bom, os círculos em si mesmos são símbolos bastante primitivos e universais. Podem significar todo o género de coisas. O Sol, a Lua. Protecção. Eternidade. Renascimento, o ciclo da vida. E, sim, é também usado por cultos satânicos para representar o órgão sexual feminino. Na realidade não sabemos o que significava para a pessoa que o desenhou nessa noite.

- Mas podia ter um significado satânico - disse Frost.

- Claro. E as cinco velas podem representar os cinco pontos de um pentagrama. Agora olhemos para o que foi desenhado ontem à noite, na porta do jardim de Anthony. - Apontou para a fotografia. - O que é que vê?

- Um olho.

- Diga-me mais sobre este olho.

- Tem, segundo parece, uma lágrima. E uma pestana espetada por baixo dele. Oliver tirou uma caneta do bolso da camisa e virou a página de papel de carta do outro lado em branco. - Deixem-me desenhá-lo mais nitidamente, para que possam ver exactamente quais são os diferentes elementos deste símbolo. - Na folha de papel reproduziu o desenho:

- Continua a parecer um olho - disse Frost.

- Sim, mas todas estas características, a pestana, a lágrima, fazem dele um olho muito específico. Este símbolo é chamado Udjat. Especialistas em cultos satânicos dir-vos-ão que isto é um símbolo do olho que tudo vê, de Lúcifer. A lágrima está aqui porque ele chora todas as almas que estão fora da sua infuência. Alguns teóricos da conspiração afirmam que é o mesmo olho impresso nas notas dos EUA.

- O que aparece no topo da pirâmide?

- Exactamente. Uma suposta prova de que as finanças do mundo são dirigidas por adoradores de Satanás.

- Então voltámos aos símbolos satânicos - disse Jane.

- É uma interpretação.

- Quais são as outras?

- Isto é também um símbolo usado pela antiga fraternidade dos Franco-Maçons. E nesse caso tem um significado bastante benigno. Para eles, simboliza esclarecimento, iluminação.

- A busca do conhecimento - disse Edwina. - Tem a ver com a aprendizagem dos segredos do seu mester.

Jane disse.

- Está a dizer que este homicídio foi feito por um franco-maçon?

- Deus do céu, não! - exclamou Oliver. - Não é nada disso que estou a dizer. Os pobres Franco-Maçons têm sido o alvo de tantas acusações mal-intencionadas que nem sequer as vou repetir. Estou só a dar-vos uma rápida lição de História. Esta é a minha área de estudos, sabem, a interpretação de símbolos. Estou a tentar explicar que este símbolo, Udjat, é bastante antigo. Foi usado ao longo da História com vários objectivos. Para algumas pessoas, o seu significado é sagrado. Para outras, é assustador, um símbolo do mal. Mas o seu significado original, no tempo do antigo Egipto, era bastante menos ameaçador. E especialmente prático.

- O que é que significava então?

- Representava o olho de Hórus, o deus do Sol. Hórus é geralmente representado em pinturas ou esculturas com uma cabeça de falcão num corpo humano. Era personificado na terra pelo faraó.

Jane suspirou.

- Então podia ser um símbolo satânico ou um símbolo de iluminação. Ou o olho de um certo deus egípcio com cabeça de pássaro.

- Há ainda outra possibilidade.

- Calculei que fosse dizer isso.

Oliver pegou novamente na caneta e desenhou outra variante do olho.

- Este símbolo - disse ele - passou a ser usado no Egipto por volta de

1200 a. C. É encontrado na escrita hierática.

- Isso ainda é o olho de Hórus? - perguntou Frost.

- Sim, mas reparem como o olho é agora formado por secções separadas. A íris é representada por este círculo, entre as duas metades da esclerótica. Depois temos a lágrima e a pestana revirada, como lhe chamaram. Parece mesmo uma versão estilizada de Udjat, mas na realidade tinha uma utilização muito prática como símbolo matemático. Cada parte do olho representa uma fracção. - Então escreveu números no esboço:

4DI

- Estas fracções surgem pela divisão de números seguintes em metade. O olho inteiro representa o número total, um. A metade esquerda da esclerótica representa a fracção um meio. A pestana é um trigésimo segundo.

- Está a dar voltas para chegar a algum ponto? - perguntou Jane.

- Claro.

- E que seria o quê?

- Que talvez haja uma mensagem específica neste olho. No primeiro cenário de crime, a cabeça cortada estava confinada por um círculo. No segundo cenário, há um desenho de Udjat no chão. E se estivessem ligados, esses dois símbolos? E se um símbolo fosse a chave para interpretar o outro?

- Uma chave matemática, é isso que quer dizer?

- Sim. E o círculo, no primeiro assassínio, representava um elemento de Udjat.

Jane franziu o sobrolho para os esboços de Oliver, para os números que ele tinha rabiscado nas várias secções do olho que tudo vê. - Está a dizer que o círculo no primeiro assassínio é realmente suposto ser a íris.

- Sim. E tem um valor.

- Quer dizer que representa um número? Uma fracção. - Ela ergueu os olhos para Oliver e viu que estava inclinado para ela, com um rubor de excitação nas faces.

- Exactamente - disse ele. - E essa fracção seria qual?

- Um quarto - disse ela.

- Certo. - Sorriu. - Certo.

- Um quarto de quê? - perguntou Frost.

-Ah, isso ainda não sabemos. Pode significar um quarto da Lua. Ou uma das quatro estações.

- Ou pode significar que ele completou apenas um quarto da sua tarefa

- disse Edwina.

- Sim - disse Oliver. - Talvez nos esteja a dizer que vêm aí mais mortes. Que está a planear um total de quatro.

Jane olhou para Frost.

- Havia quatro lugares postos na mesa de jantar.

Na pausa que se seguiu, o toque do telemóvel de Jane soou assustadoramente alto. Ela reconheceu o número do laboratório forense e atendeu imediatamente.

- Rizzoli.

- Olá, detective. É a Erin, dos Indícios de Provas. Lembra-se daquele círculo vermelho que estava desenhado no chão da cozinha?

- Sim. Estávamos mesmo agora a falar disso.

- Comparei esse pigmento com os símbolos do local do crime em Beacon Hill. Os desenhos na porta. Os pigmentos coincidem.

- Então o nosso criminoso usou o mesmo giz vermelho nos dois locais.

- Bom, é por isso que estou a ligar. Não é giz vermelho.

- Então o que é?

- É algo muito mais interessante.

 

O laboratório forense era na ala sul do Departamento de Polícia de Boston, na Schroeder Plaza, mesmo ao fundo do corredor vindo dos gabinetes da unidade de homicídios. A caminhada levou Jane e Frost a passar por janelas que davam para o bairro deteriorado e arruinado de Roxbury. Hoje, sob um manto de neve, tudo estava purificado e branco; mesmo o céu tinha ficado limpo, o ar cristalino. Mas essa visão cintilante atraiu apenas um olhar de relance de Jane: a sua concentração estava na Sala S269, o laboratório de indícios de provas.

A criminalista Erin Volchko estava à espera deles. Assim que Jane e Frost entraram na sala, rodou a cadeira do microscópio sobre o qual tinha estado curvada e recolheu uma pasta pousada na bancada. - Vocês devem-me uma bebida forte - disse ela -, depois de todo o trabalho que isto me deu.

- Tu dizes sempre isso - disse Frost.

- Desta vez é a sério. De todos os indícios de provas que vieram do primeiro local de crime, pensei que este seria o que nos daria menos trabalho. Em vez disso, tive de fazer pesquisas em todo o lado para descobrir com que é que aquele círculo tinha sido desenhado.

- E não foi com o velho giz comum - disse Jane.

- Não. - Erin passou-lhe a pasta. - Dá uma olhadela.

Jane abriu a pasta. Por cima de tudo estava uma folha de papel fotográfico com uma série de imagens. Manchas vermelhas num fundo desfocado.

- Comecei com um microscópio luminoso de grande ampliação - disse Erin. - Cerca de 600x1000. Esssas manchas que vês são partículas de pigmentos, recolhidas do círculo vermelho desenhado no chão da cozinha.

- Então o que é que isto significa?

- Algumas coisas. Podes ver que há vários graus de coloração. As partículas não são uniformes. O índice de refraccção também varia, de 2.5 a 3.01, e muitas dessas partículas são duplamente refringentes.

- Isso significa o quê?

- Que essas partículas são de óxido de ferro anídrico. Uma substância bastante comum que se encontra em todo o mundo. É o que dá à cerâmica as suas tonalidades distintas. É usado nos pigmentos artísticos para produzir as cores vermelha, amarela e castanha.

- Isso não parece nada especial.

- Foi o que pensei, até escavar mais fundo na matéria. Parti do princípio de que vinha de um pedaço de giz ou de um pastel, por isso fiz comparações com amostras que obtivemos de duas lojas locais que fornecem os artistas.

- Correspondências?

- Nenhuma. A diferença tornou-se imediatamente visível ao microscópio. Primeiro, os grânulos do pigmento vermelho no pastel mostraram muito menos variabilidade de cor e índice de refracção. Isso porque a maior parte dos óxidos de ferro anídricos hoje usados nos pigmentos são sintéticos: criados, não retirados da terra. Usam geralmente um composto chamado Vermelho de Marte, uma mistura de óxidos de ferro e de alumínio.

- Então estes grânulos de pigmento que se vêem aqui nesta foto não são sintéticos?

- Não, isto é óxido de ferro anídrico naturalmente produzido. É também chamado hematite, derivado da palavra grega para sangue. Porque é algumas vezes vermelho.

- Eles usam o material natural nas lojas de arte?

- Encontrámos algumas especialidades de giz e pastel que usam hematite natural como pigmento. Mas o giz contém carbonato de cálcio. E o pastel produzido industrialmente usa geralmente uma cola natural para unir o pigmento. Um certo tipo de goma, como celulose metílica ou tragacanto. É tudo misturado numa pasta, que é depois retirada através de um molde para fazer pasteis. Não encontrámos vestígios de tragacanto ou de qualquer goma aglutinadora nas amostras trazidas do local do crime. Nem encontrámos carbonato de cálcio suficiente para indicar que isto veio de giz de cor.

- Então não estamos a lidar com algo que tenham encontrado numa loja que fornece os artistas.

- Não localmente.

- Então de onde é que veio este material vermelho?

- Bem, vamos falar primeiro desse material vermelho. Do que ele é, exactamente.

- Chamaste-lhe hematite.

- Certo. Óxido de ferro anídrico. Mas quando é encontrado em cerâmica colorida tem também outro nome: ocre.

Frost disse.

- Não é isso que os índios americanos usam para pintar a cara?

- O ocre tem sido usado pela humanidade há pelo menos trezentos mil anos. Até foi encontrado nas cavernas do período do Neandertal. O ocre vermelho, em especial, parece ter sido universalmente valorizado nas cerimónias fúnebres, provavelmente por causa da sua semelhança com o sangue. É encontrado nas pinturas de cavernas da Idade da Pedra e nas paredes de Pompeia. Era usado pelos antigos para colorir os seus corpos como ornamentação ou pinturas de guerra. E era usado em rituais de magia.

- Incluindo cerimónias satânicas?

- É a cor do sangue. Seja qual for a religião, essa cor tem um poder simbólico. - Erin fez uma pausa. - Este assassino faz umas escolhas bastante invulgares.

- Creio que já sabemos isso - disse Jane.

- O que eu queria dizer é que ele está em contacto com a História. Não usou giz vulgar para os seus desenhos rituais. Em vez disso usa o mesmo pigmento primitivo que foi usado na era paleolítica. E não foi buscá-lo ao seu próprio jardim.

- Mas tu disseste que o ocre vermelho é encontrado na argila vulgar

- disse Frost. - Por isso talvez o tenha tirado da terra.

- Não se o seu quintal for em qualquer lugar aqui à volta. - Erin fez um sinal de cabeça para a pasta que Jane tinha nas mãos. - Vê as análises químicas. O que encontrámos na cromatografia gasosa e na espectroscopia Raman.

Jane passou para a página seguinte e viu uma impressão do computador. Um gráfico com múltiplos picos.

- Queres interpretar isto para nós?

- Certamente. Primeiro, a espectroscopia Raman.

- Nunca ouvi falar disso.

- É uma técnica da arqueologia para analisar artefactos históricos. Usa o espectro luminoso de uma substância para determinar as suas propriedades. A grande vantagem para os arqueólogos é que não destrói o artefacto. Pode analisar-se os pigmentos em tudo, desde as ligaduras das múmias ao Sudário de Turim, sem nunca se danificar o artigo de modo nenhum. Pedi ao Doutor lan MacAvoy, do departamento de arqueologia de Harvard, para analisar os resultados do espectroscópio Raman e ele confirmou que a amostra continha óxido de ferro, argila e sílica.

- Isso é ocre vermelho?

- Sim. Ocre vermelho.

- Mas já sabias isso.

- Mesmo assim, era bom que ele confirmasse. Depois o Doutor MacAvoy ofereceu-se para me ajudar a localizar a sua origem. De que parte do mundo é que este ocre vermelho veio.

- Consegues mesmo fazer isso?

- A técnica ainda está na fase de investigação. Provavelmente não se aguentará em tribunal como prova. Mas ele estava suficientemente curioso para fazer uma comparação com uma colecção de outros perfis que reuniu, provenientes de todo o mundo. Determina as concentrações de onze outros elementos nas amostras, como magnésio, titânio e tório. Segundo esta teoria, uma certa origem geográfica terá um perfil distinto de vestígio do elemento. É como olhar para amostras de terra num pneu de carro e saber que tem o perfil de chumbo-zinco de um distrito mineiro no Missouri. Neste caso, com este ocre, estávamos a conferir a amostra com onze variáveis distintas.

- As dos outros vestígios de elementos.

- Certo. E os arqueólogos compilaram uma colecção de origens de ocres.

- Porquê?

- Porque ajuda a determinar a proveniência de um artefacto. Por exemplo, de onde é que veio o pigmento do Sudário de Turim? De França ou Israel? A resposta pode comprovar as origens do sudário. Ou uma antiga pintura numa caverna: onde é que o artista obteve o seu ocre? Se veio de mil e seiscentos quilómetros de distância, diz-nos que ou ele próprio percorreu essa distância ou que havia alguma forma de comércio pré-histórico. É por isso que a colecção de origens dos ocres é tão valiosa. Dá-nos uma visão das vidas dos Antigos.

- O que é que sabemos sobre a nossa amostra de pigmento? - perguntou Frost.

- Bom. - Erin sorriu. - Primeiro, tem especialmente uma grande proporção de dióxido de manganésio: quinze por cento, dando-lhe um tom mais profundo, mais vivo. É a mesma proporção encontrada em ocres vermelhos que foram usados na Itália medieval.

- É italiano?

- Não. Os venezianos importavam-no de outras paragens. Quando o Doutor MacAvoy comparou o perfil completo dos elementos, descobriu que correspondia a uma certa localização, um lugar onde ainda hoje extraem ocre vermelho. A ilha de Chipre.

Jane disse: - Preciso de ver um mapa do mundo.

Erin apontou para a pasta. - Acontece que tirei um da Internet.

Jane passou para essa página.

- Muito bem, estou a ver. É no Mediterrâneo, mesmo a sul da Turquia.

- Parece-me que o giz vermelho seria muito mais fácil de usar - disse Frost.

- E muito mais barato. O vosso assassino escolheu um pigmento invulgar, proveniente de uma origem obscura. Talvez tenha laços com Chipre.

- Ou pode estar apenas a brincar connosco - disse Frost. - Desenhando símbolos estranhos. Usando pigmentos estranhos. É como se ele quisesse brincar com as nossas cabeças.

Jane ainda estava a estudar o mapa. Pensou no símbolo desenhado na porta no jardim de Anthony Sansone. Udjat, o olho que tudo vê. Olhou para Frost.

- O Egipto fica directamente a sul de Chipre.

- Estás a pensar no olho de Hórus?

- O que é isso? - perguntou Erin.

- É aquele símbolo deixado no local do crime de Beacon Hill - disse Jane. - Hórus é o deus egípcio do Sol.

- É um símbolo satânico?

- Não sabemos o que significa para este assassino - disse Frost. - Toda a gente tem uma teoria. É um satanista. É um entusiasta da História. Ou pode ser apenas uma mania por coisas antiquadas.

Erin concordou.

- Como o Filho de Sam. Lembro-me que a polícia perdeu imenso tempo a tentar saber quem era o misterioso Sam. Acabou por se descobrir que não passava da alucinação auditiva do assassino. Um cão que falava.

Jane fechou a pasta.

- Sabes, só espero que o nosso assassino também seja louco.

- Porquê? - perguntou Erin.

- Porque tenho muito mais medo da alternativa. De que este assassino seja perfeitamente lúcido.

Jane e Frost estavam sentados no carro enquanto o motor aquecia e se desembaciava o vidro do pára-brisas. Se fosse assim tão fácil dissipar o manto de nevoeiro que envolvia o assassino. Ela não conseguia formar uma imagem dele, não conseguia começar a imaginar como seria. Um místico? Um artista? Um historiador? Só sei que ele é um carniceiro.

Frost meteu a mudança e eles entraram no tráfego, que estava a mover-se muito mais devagar do que o habitual, em estradas escorregadias com o gelo. Sob o céu limpo, a temperatura estava a baixar e esta noite o frio seria o mais cortante deste Inverno. Era uma noite para ficar em casa e comer um guisado substancial, uma noite, assim esperava, em que o mal estaria afastado das ruas.

Frost seguiu para leste pela Columbus Avenue, depois dirigiu-se para Beacon Hill, onde planeavam dar outra olhadela ao local do crime. O carro por fim tinha aquecido, e ela temia ter de sair novamente, para esse vento, para o jardim de Sansone, ainda manchado com sangue congelado.

Ela reparou que se estavam a aproximar da Massachusetts Avenue e de repente disse:

- Podes virar à direita?

- Não íamos para casa do Sansone?

- Vira aqui.

- Se tu o dizes. - Virou à direita.

- Continua em frente. Para Albany Street.

- Vamos para o M. E.? -Não.

- Então para onde é que vamos?

- É mesmo ali. Mais dois quarteirões. - Ela viu os números a passar e disse. - Pára. Aqui mesmo. - Olhou para o outro lado da rua.

Frost encostou ao passeio e franziu o sobrolho para Jane.

- O Kinko's?

- O meu pai trabalha ali. - Deu uma olhadela ao relógio. - E já é meio-dia.

- O que é que estamos a fazer?

- Estamos à espera.

- Caramba, Rizzoli. Isto não é por causa da tua mãe, ou é?

- Está a lixar-me a vida toda.

- Os teus pais estão a ter uma desavença. Acontece.

- Espera até a tua mãe se mudar para tua casa. Vais ver como a Alice vai reagir.

- Tenho a certeza de que isso há-de acabar por passar e a tua mãe voltará para casa.

- Não, se há outra mulher envolvida. - Ele endireitou-se no assento. - Aí está ele.

Frank Rizzoli saiu da porta da frente do Kinko's e puxou o fecho do blusão. Olhou para o céu, teve um arrepio visível e exalou um bafo que fez um remoinho branco no frio.

- Parece que está no seu intervalo de almoço - disse Frost. - Qual é o problema?

- Aquilo - disse Jane em voz baixa. - Aquilo é o problema.

Uma mulher tinha também saído da porta, uma loura de longos cabelos vestindo um blusão preto de cabedal sobre calças de ganga muito justas. Frank sorriu e passou o seu braço pela cintura dela. Começaram a andar pela rua, afastando-se de Jane e Frost, abraçados um ao outro pela cintura.

- Que raio... - disse Jane. - É mesmo verdade.

- Sabes? Creio que devíamos sair daqui.

- Olha para eles. Olha para eles! Frost ligou o motor.

- Na verdade já comia alguma coisa. Que tal se fôssemos ao... Jane abriu a porta com um empurrão e saiu.

- Ó Rizzoli! Por favor.

Ela precipitou-se para o outro lado da rua e caminhou majestosamente pelo passeio, mesmo atrás do pai.

-Eh! - gritou. -Eh!

Frank parou, baixando o braço da cintura da mulher. Virou-se e ficou a ver, de queixo descaído, a filha a aproximar-se. A loura ainda não tinha desfeito o seu abraço e continuou agarrada a Frank, mesmo quando ele fez tentativas vãs para se soltar. Vista ao longe, a mulher parecera realmente alguém que chama a atenção, mas à medida que Jane se aproximava viu, abrindo-se em leque dos olhos dessa mulher, rugas fundas que mesmo uma maquilhagem espessa não conseguia esconder, e captou o cheiro a fumo de cigarro. Isto era o bom rabo pelo qual Frank trocara a mulher dele, uma lambisgóia com cabelo comprido? Este equivalente humano de um golden retriever?

Janie - disse Frank. - Não é o momento para...

- Quando é que é o momento?

- Eu telefono-te, está bem? Falamos disso esta noite.

- Frankie, querido, o que é que se passa? - perguntou a loura. Não lhe chames Frankie! Jane deitou-lhe um olhar furioso.

- E qual é o seu nome?

O queixo da mulher empinou-se.

- Quem é que quer saber?

- Limite-se a responder ao raio da pergunta.

- Sim, obrigue-me a responder! - A loura olhou para Frank. - Quem é esta?

Frank levou a mão à cabeça e gemeu, como se estivesse com dores.

- Ena, pá.

- Polícia de Boston - disse Jane. Tirou a sua identificação e estendeu-a para a cara da mulher. - Agora diga-me o seu nome.

A loura nem sequer olhou para a identificação: o seu olhar espantado estava posto em Jane.

- Sandie - murmurou.

- Sandie quê?

- Huffington.

- Mostre-me a sua identificação - ordenou Jane.

- Janie - disse o pai. - Já chega.

Sandie, obedientemente, tirou a carteira para mostrar a sua carta de condução.

- O que é que fizemos de errado? - Ela lançou um olhar de suspeita a Frank. - O que é que fizeste?

- Isto é tudo uma treta - disse ele.

- E quando é que a treta vai acabar, ha? - replicou Jane. - Quando é que vais crescer?

- Isto não tem a ver contigo.

- Ah não? Ela está agora sentada no meu apartamento, provavelmente desfeita em lágrimas. Tudo porque tu não consegues manter as tuas malditas calças abotoadas.

- Ela? - disse Sandie. - De quem é que estamos a falar?

- Trinta e sete anos de casamento e tu vais largá-la por esta rabuda?

- Tu não compreendes - disse Frank.

- Ah, eu compreendi tudo muito bem.

- Não fazes ideia do que é. Sou uma abelha obreira, é isso que sou. Um qualquer zangão para pôr comida na mesa. Tenho sessenta e um anos e o que é que tenho para mostrar que fiz alguma coisa? Não achas que mereço um pouco de divertimento, uma vez na vida?

- Achas que a mãe está a ter algum divertimento?

- Isso é problema dela.

- Também é meu.

- Bem, não sou responsável por isso.

- Olha lá - disse Sandie. - Esta é a tua filha? - Olhou para Jane. - Disse que era polícia.

Frank suspirou.

- Ela é polícia.

- Estás a partir-lhe o coração, sabias disso? - disse Jane. - Será que sequer te importas?

- E o meu coração? - interrompeu Sandie.

Jane ignorou a lambisgóia e manteve os olhos postos em Frank.

- Já nem sequer sei quem tu és, pai. Costumava ter respeito por ti. Agora olha para ti! Patético, apenas patético. Esta loura abana o rabo e tu és como qualquer cão idiota, a farejá-lo. Ah, sim, pai, agacha-te bem.

Frank espetou um dedo para ela.

- Já chega de fazeres isso!

- Pensas que esta rabuda vai tomar conta de ti quando estiveres doente, ha? Pensas que ela vai ficar ao teu lado? Que raio, será que ela sabe ao menos cozinhar?

- Como se atreve? - disse Sandie. - Você usou o seu distintivo para me assustar.

-A mãe vai voltar a aceitar-te, pai. Sei que vai. Vai falar com ela.

- Há uma lei contra o que você fez - disse Sandie. - Tem de haver! É assédio policial!

- Eu mostro-lhe o que é assédio policial - replicou Jane. - Basta continuar a pressionar-me.

- O que é que vai fazer, prender-me? - Sandie inclinou-se para ela, olhos semicerrados como fendas de uma máscara, - Vá lá. - A mulher esticou o dedo contra o peito de Jane e deu-lhe um forte empurrão. - Desafio-a a fazer isso.

O que aconteceu a seguir foi puramente instintivo. Jane nem sequer parou para pensar, simplesmente reagiu. Com um movimento circular da mão, agarrou o pulso de Sandie, fazendo-a enroscar-se. Através do afluxo do seu próprio sangue ouviu Sandie a berrar obscenidades. Ouviu o pai a gritar.

- Pára com isso! Por amor de Deus, pára! - Mas agora estava a agir automaticamente, com os nervos a disparar a toda a força enquanto empurrava Sandie para ficar de joelhos, da maneira como lidava com qualquer criminoso. Mas desta vez era a raiva que a impulsionava, fazendo-a torcer com mais força do que devia, fazendo-a desejar magoar esta mulher. Humilhá-la.

- Rizzoli! Caramba, Rizzoli, já chega!

O som da voz de Frost atravessou finalmente o bater da sua própria pulsação. Bruscamente soltou Sandie e recuou, ofegante. Baixou os olhos para a mulher que estava ajoelhada, choramingando, no passeio. Frank deixou-se cair de joelhos ao lado de Sandie e ajudou-a a pôr-se de pé.

- Que raio é que vais fazer agora? - Frank ergueu os olhos para a filha.

- Prendê-la?

- Tu viste. Ela empurrou-me.

- Estava transtornada.

- Foi ela que fez o primeiro contacto.

- Rizzoli - disse Frost, calmamente. - Deixa cair isto, está bem?

- Eu podia prendê-la - disse Jane. - Raios, eu podia.

- Pois, está bem - disse Frost. - Podias. Mas querias mesmo fazer isso? Ela soltou o fôlego.

- Tenho coisas mais importantes para fazer - murmurou. Depois virou-se e regressou ao carro. Quando entrou nele, o pai e a loura já tinham desaparecido ao virar da esquina.

Frost sentou-se ao lado dela e fechou a porta.

- Isso - disse ele - não foi uma coisa fixe para se fazer.

- Guia e cala-te.

- Tu foste lá à procura de uma luta.

- Tu viste-a? O meu pai anda com uma maldita lambisgóia!

- Mais uma razão para deveres ficar afastada dela mil quilómetros. Vocês as duas vão matar-se uma à outra.

Jane suspirou e descaiu a cabeça na mão.

- O que é que vou dizer à minha mãe?

- Nada. - Frost arrancou com o carro e afastou-o do passeio. - O casamento deles não te diz respeito.

- Vou ter de ir para casa e olhar para a cara dela. Ver todo o sofrimento dela. Isso faz com que me diga respeito.

- Então sê uma boa filha. Dá-lhe um ombro para ela chorar - disse ele.

- Porque vai precisar disso.

O que é que eu digo à minha mãe?

Jane estacionou num parqueamento junto do seu apartamento e ficou um instante ali sentada, receando o que viria a seguir. Talvez não devesse contar o que acontecera hoje. Angela já sabia do pai e da Miss Golden Retriever. Para quê esfregar-lhe isso na cara? Para quê humilhá-la ainda mais?

Porque se eu fosse a mãe queria que me contassem. Não quereria que a minha filha escondesse segredos de mim, por muito penosos que fossem.

Jane saiu do carro, debatendo-se com o que iria dizer, sabendo que, fosse o que fosse que decidisse, ia ser uma noite miserável, e que pouco podia fazer ou dizer para aliviar a dor da mãe. Sê uma boa filha, dissera Frost; dá-lhe um ombro para chorar. Está bem, isso ela conseguia arranjar.

Subiu as escadas para o segundo andar, sentindo os seus pés a ficarem mais pesados a cada degrau, ao mesmo tempo que amaldiçoava silenciosamente Miss Sandie Huffington, que tinha lixado as vidas de todos eles. Ah, eu fiquei de olho em ti. Basta que atravesses a rua com o sinal vermelho, lambisgóia, e eu estarei lá. Multas de estacionamento por pagar? Más notícias para ti. A mãe não pode ripostar mas eu posso certamente fazer isso. Ela enfiou a chave na porta do apartamento e parou, franzindo o sobrolho ao ouvir a voz da mãe lá dentro. O som da sua gargalhada.

Mãe?

Abrindo a porta, inalou o cheiro de canela e baunilha. Ouviu então uma risada diferente, assustadoramente familiar. Uma risada de homem. Entrou na cozinha e viu o detective reformado Vince Korsak, que estava sentado à mesa com uma chávena de café. Diante dele estava um enorme prato de biscoitos de açúcar.

- Eh - disse ele, erguendo a sua chávena de café em saudação. A bebé Regina, sentada mesmo ao lado dele no seu carrinho de bebé, também ergueu a sua mão minúscula, como se o estivesse a imitar.

- Hum... o que é que estás a fazer aqui?

- Janie! - repreendeu-a Angela, pousando em cima do fogão uma frigideira de biscoitos acabados de fazer, para arrefecerem. - Que maneira é essa de falares com o Vince?

Vince? Ela trata-o por Vince?

- Ele telefonou para te convidar a ti e ao Gabriel para uma festa - disse Angela.

- E a senhora também, Mistress Rizzoli - disse Korsak, piscando o olho a Angela. - Quanto mais miúdas forem, melhor!

Angela corou, e não era do calor do fogão.

- E eu aposto que lhe cheirou a biscoitos pelo telefone - disse Jane. -Aconteceu eu estar aqui a fazer uma fornada. Disse-lhe que se viesse já eu fazia rapidamente mais uma fornada para ele.

- Nem pensar que eu deixasse passar uma oferta dessas - riu-se Korsak.

- Eh, que bom teres a tua mãe aqui, ha?

Jane observou as migalhas por toda a camisa enrugada dele.

- Vejo que largaste a tua dieta.

- E eu vejo que estás de bom humor. - Ele bebeu um desleixado gole de café e passou uma mão gorda pela boca para se limpar. - Ouvi dizer que arranjaste um tipo esquisito, muito passado. - Fez uma pausa, olhando de relance para Angela. - Peço desculpa pela minha linguagem, Mistress Rizzoli.

- Ora, diga o que quiser - disse Angela. - Quero que se sinta em casa. Por favor, não o estimules.

-Algum tipo de culto satânico.

- Ouviste isso?

- A reforma não me tornou surdo.

Ou mudo. Por muito que ele a pudesse irritar com as suas piadas grosseiras e higiene horrível, Korsak era um dos investigadores mais perspicazes que ela conhecera. Embora estivesse reformado desde o ataque de coração que sofrera no ano anterior, nunca abandonara realmente o distintivo. Numa noite de fim-de-semana, ela ainda o podia encontrar a passar o tempo no JP Doyle's, um dos bebedouros favoritos da polícia de Boston, pondo-se em dia com as últimas histórias de guerra. Reformado ou não, Vince Korsak iria morrer polícia.

- Que mais é que ouviste? - perguntou Jane, sentando-se à mesa.

- Que o teu criminoso é um artista. Deixa uns desenhinhos giros. E gosta de... - Korsak fez uma pausa e olhou de lado para Angela, que estava a tirar biscoitos da frigideira - cortar e livrar-se das coisas. Estou a ficar quente?

- Um bocadinho demasiado quente.

Angela descolou o último dos biscoitos e guardou-os num saco com fecho de correr. Com um gesto teatral, colocou-os diante de Korsak. Esta não era a Angela que Jane esperara encontrar quando viesse para casa. A sua mãe estava, na verdade, numa grande azáfama na cozinha, juntando panelas e tigelas, salpicando água de sabão enquanto limpava o lava-loiças. Não parecia miserável ou abandonada ou deprimida: parecia dez anos mais nova. É isto que acontece quando o teu marido te abandona?

- Conta mais à Jane sobre a tua festa - disse Angela, voltando a encher a chávena de Korsak.

- Ah, pois. - Sorveu ruidosamente o café. - Estás a ver, eu assinei os meus papéis de divórcio na semana passada. Quase um ano de discussões por causa do dinheiro e finalmente acabou. Achei que era a altura de celebrar o meu novo estatuto de homem livre. Mandei decorar o meu apartamento todo. Um belo sofá de cabedal, uma televisão com grande ecrã. Vou comprar uns caixotes de bebidas, juntar alguns amigos e vamos todos fazer uma festa!

Ele tinha-se tornado num adolescente de cinquenta e cinco anos, com pança e careca coberta pelo cabelo lateral. Poderia ainda ficar mais patético?

- Por isso tu vais, não é verdade? - perguntou a Jane. - Segundo sábado de Janeiro.

- Deixa-me conferir a data com o Gabriel.

- Se ele não puder, podes sempre ir por ti. Vê só se levas esta tua irmã mais velha. - Piscou o olho a Angela e ela soltou uma risadinha.

Isto estava a tornar-se mais penoso a cada minuto que passava. Jane ficou quase aliviada ao ouvir o toque abafado do seu telemóvel. Dirigiu-se à sala de estar, onde pegou na bolsa e dela tirou o telemóvel.

- Rizzoli - disse ela.

O tenente Marquette não perdeu tempo com brincadeiras.

- Precisas de mostrar mais respeito ao Anthony Sansone - disse ele.

Na cozinha, ela podia ouvir Korsak a rir-se e esse som, de repente, irritou-a. Se vais namoriscar a minha mãe, por amor de Deus, leva-a para outro lado.

- Ouvi dizer que tu o fizeste passar por um mau bocado, a ele e aos amigos - disse Marquette.

- Talvez possa definir o que quer dizer com mau bocado?

- Interrogaste-o durante quase duas horas. Atormentaste com perguntas o mordomo dele, os seus convidados. Depois voltaste a vê-lo novamente esta tarde. Estás a fazer-lhe sentir como se fosse ele que está a ser investigado.

- Caramba, lamento se feri os sentimentos dele. Estávamos só a fazer o que fazemos sempre.

- Rizzoli, tenta meter na tua cabeça que o sujeito não é suspeito. -Ainda não cheguei a essa conclusão. A O'Donnell estava na casa dele.

A Eve Kassovitz foi morta no jardim dele. E quando o mordomo dele encontra o corpo, o que é que o Sansone faz? Tira fotografias. Passa-as aos amigos. Quer saber a verdade? Aquelas pessoas não são normais. Certamente o Sansone não é.

- Não é suspeito.

- Não o eliminei da lista.

- Podes confiar em mim neste caso. Deixa-o em paz. Ela fez uma pausa.

- Quer dizer-me mais alguma coisa, tenente? - perguntou tranquilamente. - O que é que eu não sei sobre Anthony Sansone?

- Ele não é uma pessoa que queiramos indispor.

- Conhece-o?

- Não pessoalmente. Só estou a transferir a palavra que veio de cima. Foi-nos dito para o tratarmos com respeito.

Ela desligou. Mudando-se para a janela, ficou a olhar um céu da tarde que não era azul. Mais neve vinha provavelmente a caminho. Ela pensou: Num momento pensamos que podemos ver para sempre e depois as nuvens avançam e obscurecem tudo.

Estendeu a mão novamente para o telemóvel e começou a marcar um número.

 

Maura observou através da janela de visionamento enquanto Yoshima, vestindo um avental de chumbo, posicionava o colimador sobre o abdómen. Algumas pessoas vêm trabalhar à segunda-feira de manhã receando que nada pior as espere do que um monte de papelada nova ou de mensagens. Nesta manhã de segunda-feira, o que aguardava Maura era a mulher que jazia naquela mesa, agora com o corpo nu. Maura viu Yoshima reaparecer detrás do escudo de chumbo para recuperar a cassete de película, a fim de ser revelada. Ele ergueu a cabeça e fez um aceno.

Maura passou a porta, voltando ao laboratório de autópsias.

Na noite em que se tinha acocorado, estremecendo, no jardim de Anthony Sansone, só vira este corpo à luz dos feixes das lanternas. Agora, a detective Eve Kassovitz jazia completamente nua para ser vista, com luzes fortes afastando qualquer sombra. O sangue tinha sido lavado do seu corpo, revelando os ferimentos em bruto, cor-de-rosa. Uma laceração no escalpe. Uma facada no peito, por baixo do esterno. E os olhos sem pálpebras, as córneas agora enevoadas por terem ficado expostas. Era para isso que Maura não conseguia deixar de olhar: esses olhos mutilados.

O som sibilante da porta anunciou a chegada de Jane.

- Ainda não começou? - perguntou Jane.

- Não. Vem mais alguém?

- Hoje sou só eu. - Jane parou a meio de atar a sua roupa, com o olhar subitamente fixado na mesa. Na cara da sua colega morta. - Eu devia-a ter apoiado - disse em voz baixa. - Quando aqueles idiotas da unidade começaram com as piadas estúpidas, devia-lhes ter posto cobro imediatamente.

- São eles que se deviam sentir culpados, Jane. Não tu.

- Mas eu própria tinha estado lá. Sei o que se sente. - Jane continuava de olhos postos nas córneas à vista. - Eles não vão ser capazes de embelezar estes olhos para o funeral.

- Terá de ser em caixão fechado.

- O olho de Hórus - disse Jane em voz baixa.

- O quê?

- Aquele desenho na porta do Sansone. É um símbolo antigo, remontando aos egípcios. É chamado Udjat, o olho que tudo vê.

- Quem é que contou isso?

- Um dos convidados do jantar do Sansone. - Olhou para Maura. -Aquelas pessoas, Sansone e os seus amigos, são estranhas. Quanto mais sei sobre eles, mais me arrepiam. Especialmente ele.

Yoshima saiu da sala de revelação, trazendo um maço de películas acabadas de revelar. Elas produziram um som musical quando as prendeu no negatoscópio.

Maura pegou na régua e mediu a laceração no escalpe, lançando as suas dimensões numa prancheta.

- Ele telefonou-me naquela noite, sabes - disse ela, sem erguer os olhos.

- Para ter a certeza de que eu tinha chegado bem a casa.

- O Sansone! Maura ergueu os olhos.

- Achas que ele é suspeito?

- Pensa nisto: depois de terem encontrado o corpo, sabe o que fez o Sansone? Antes mesmo de chamar a polícia? Foi buscar a máquina e tirou umas fotos. Mandou o mordomo entregá-las aos seus amigos na manhã seguinte. Diga-me se isso não é estranho.

- Mas consideras que ele é suspeito? Depois de fazer uma pausa, Jane admitiu.

- Não. E se o fizesse, isso iria trazer problemas.

- O que queres dizer com isso?

- O Gabriel tentou ir mais além por mim. Fez uns telefonemas para saber mais sobre o tipo. Tudo o que fez foi algumas perguntas e de repente as portas fecharam-se. O FBI, a Interpol, ninguém queria falar do Sansone. Obviamente tem amigos em cargos elevados que estão dispostos a protegê-lo.

Maura pensou na casa em Beacon Hill. O mordomo, as antiguidades.

- A riqueza dele pode ter algo a ver com isso.

- É tudo herdado. Certamente não fez fortuna a ensinar História Medieval no Boston College.

- De quanta riqueza é que estamos a falar?

- Aquela casa em Beacon Hill? É o seu equivalente de viver num bairro degradado. Também tem casas em Londres e Paris, mais uma propriedade familiar em Itália. O tipo é um solteirão desejável, está cheio de dinheiro e é bem-parecido. Mas nunca aparece nas colunas sociais. Nem em bailes de caridade nem em festas elegantes de recolha de fundos. É como se fosse um recluso completo.

- Não me pareceu o tipo de homem que encontramos no circuito das festas.

- Que mais é que pensas dele?

- Não tivemos uma conversa assim tão grande.

- Mas conversaste com ele naquela noite.

- Estava um gelo lá fora e ele convidou-me a entrar para tomar um café.

- Não te pareceu um pouco estranho?

- O quê?

- Que ele tivesse feito um esforço especial para te convidar a entrar?

- Apreciei o gesto. E, para que fique claro, foi o mordomo que veio cá fora para me buscar.

- A ti, especificamente? Ele sabia quem eras? Maura hesitou.

-Sim.

- O que é que ele queria de ti, doutora?

Maura tinha passado para o torso e agora media a ferida da facada no peito, lançando as dimensões na prancheta. As perguntas estavam a tornar-se demasiado incisivas e ela não gostava das implicações: que se tivesse deixado usar por Anthony Sansone.

- Não revelei nada de vital do caso, Jane. Se é isso que estás a perguntar.

- Mas falaste disso?

- Falei de muitas coisas. E, sim, ele queria saber o que eu pensava. Não é de admirar, visto que o corpo fora encontrado no jardim dele. Compreensivelmente, mostrou-se curioso. E talvez um pouco excêntrico. - Os seus olhos cruzaram-se com os de Jane e achou essa sondagem desconfortável. Baixou a sua atenção para o cadáver, para feridas que não a perturbavam tanto como as perguntas de Jane.

- Excêntrico? É essa a única palavra que te ocorre?

Ela pensou na maneira como Sansone a tinha estudado nessa noite, como os olhos dele reflectiam a luz da lareira, e outras palavras lhe vieram à mente. Inteligente. Atraente. Assustador.

- Não achas que ele é apenas um pouco arrepiante? - perguntou Jane.

- Porque eu acho.

- Porquê?

- Viste a casa dele. É como entrar num outro tempo. E não chegaste a ver as outras salas, com todos aqueles retratos a olhar para nós das paredes. É como entrar no castelo do Drácula.

- Ele é professor de História.

- Foi. Já não ensina.

- São provavelmente coisas herdadas e sem preço. Manifestamente, ele aprecia o seu legado familiar.

- Ah, pois, o legado familiar. Foi nisso que ele teve sorte. É quarta geração de curador de fundos.

- E apesar disso fez uma carreira académica de sucesso. Tens de lhe dar algum crédito por isso. Não se tornou um playboy ocioso.

- Aqui está a reviravolta interessante. O fundo fiduciário da família foi criado em 1905, pelo bisavô dele. Adivinha qual é o nome desse fundo?

- Não faço ideia.

- É chamado Fundação Mefisto.

Maura ergueu os olhos para ela, espantada.

- Mefisto? - murmurou.

- Temos de nos perguntar - disse Jane -, com um nome como esse, de que tipo de legado familiar é que estamos a falar?

Yoshima perguntou.

- O que significa esse nome? Mefisto?

- Fiz umas consultas - disse Jane. - É a abreviatura de Mefistófeles. Aqui a doutora provavelmente sabe quem ele foi.

- O nome vem da lenda do Doutor Fausto - disse Maura.

- Quem? - perguntou Yoshima.

- O Doutor Fausto era um mágico - disse Maura. - Desenhou símbolos secretos para convocar o Diabo. Um espírito maléfico chamado Mefistófeles apareceu e propôs-lhe um negócio.

- Que tipo de negócio?

- Em troca do conhecimento total da magia, o Doutor Fausto vendeu a sua alma ao Diabo.

-Então Mefisto é...

- Um servidor de Satanás.

Uma voz falou subitamente pelo intercomunicador.

- Doutora Isles - disse a secretária de Maura, Louise. - Tem uma chamada do exterior na linha um. É um Mister Sansone. Quer atender ou fico com a mensagem?

Falai no Diabo.

Maura cruzou um olhar com Jane e viu-a fazer um rápido sinal de concordância.

- Eu atendo a chamada - disse Maura, descalçando as luvas. Dirigiu-se ao telefone de parede e pegou no auscultador. - Mister Sansone?

- Espero não estar a interromper o seu trabalho - disse ele.

Ela olhou para o corpo na mesa. Eve Kassovitz não se importa, pensou. Não há ninguém tão paciente como um morto.

- Podemos falar durante um minuto.

- Este sábado faço um jantar aqui em minha casa. Gostaria muito que se juntasse a nós.

Maura fez uma pausa, perfeitamente consciente de que Jane estava a observá-la.

- Preciso de pensar nisso - disse ela.

- Tenho a certeza de que está a perguntar-se de que é que se trata.

- Realmente estou.

- Prometo não a atormentar com perguntas sobre a investigação.

- De qualquer modo não posso falar disso. Sabe que é assim.

- Entendido. Não é por isso que estou a convidá-la.

- Então porque é? - Uma pergunta grosseira, deselegante, mas tinha de a fazer.

- Partilhamos interesses comuns. Preocupações comuns.

- Não tenho a certeza de entender o que quer dizer.

- Junte-se a nós no sábado, por volta das sete da tarde. Podemos falar disso então.

- Deixe-me primeiro ver a minha agenda. Depois digo-lhe alguma coisa.

- Desligou.

- O que é que ele queria? - perguntou Jane.

- Só me queria convidar para jantar.

- Ele quer qualquer coisa de ti.

- Diz que não. - Maura foi ao armário buscar um novo par de luvas. Embora as suas mãos estivessem firmes quando as calçou, sentia a cara corada, o seu pulso a palpitar na ponta dos dedos.

- Acreditas nisso?

- Claro que não. É por isso que não vou. Jane disse calmamente.

- Talvez devesses ir.

Maura virou-se para a encarar.

- Não podes estar a falar a sério.

- Eu gostaria de saber mais coisas sobre a Fundação Mefisto. Quem são, o que fazem nas suas reuniões secretas. Posso não ser capaz de obter a informação de outra maneira.

- Então queres que eu faça isso por ti?

- Só estou a dizer que não creio que seja necessariamente má ideia se fores. Desde que tenhas cuidado.

Maura dirigiu-se à mesa. Baixando os olhos para Eve Kassovitz, pensou: Esta mulher era polícia e estava armada. No entanto, mesmo ela não foi suficientemente cuidadosa. Maura pegou no bisturi e começou a cortar.

A sua lâmina traçou um Y no busto, duas incisões feitas desde os ombros e que se encontravam mais abaixo do que era habitual, por baixo do esterno. Para preservar a ferida da facada. Mesmo antes de as costelas serem cortadas, antes de o peito ser aberto, ela sabia o que iria encontrar dentro do tórax. Podia vê-lo nas películas do peito agora penduradas no negatoscópio: o contorno globular do coração, mais largo do que devia ser numa mulher nova e saudável. Levantando a protecção do esterno e das costelas, espreitou para o interior do tórax e deslizou a sua mão por baixo do saco inchado que continha o coração.

Parecia um saco cheio de sangue.

- Tamponamento pericárdico - disse ela e olhou para Jane. - Ela sangrou para dentro do saco que envolve o coração. Visto ser um espaço confinado, o saco fica tão esticado que o coração não pode bombear. Ou a facada em si mesma pode ter causado uma arritmia fatal. Seja como for, esta foi uma matança rápida e eficaz. Mas ele tinha de saber para onde devia apontar a lâmina.

- Sabia o que estava a fazer.

- Ou teve sorte. - Apontou para a ferida. - Podes ver que a lâmina entrou mesmo abaixo do processo xifóide. Qualquer ponto acima disso, o coração está bastante bem protegido pelo esterno e pelas costelas. Mas se entrares aqui, onde esta ferida está localizada, e apontares a lâmina no ângulo certo...

- Atinge-se o coração?

- Não é difícil. Eu fiz isso como interna, no meu turno do serviço de urgências. Com uma agulha, claro.

- Num morto, espero.

- Não, ela estava viva. Mas não conseguíamos ouvir o bater do coração, a pressão sanguínea estava a cair e a radiografia do tórax mostrava um coração globular. Tinha de fazer alguma coisa.

- Então esfaqueaste-a?

- Com uma agulha cardíaca. Removi sangue suficiente do saco para a manter viva até estar pronta para a cirurgia.

- É como naquele romance de espionagem, Eye of the Needle - disse Yoshima. - O assassino esfaqueia as suas vítimas directamente no coração e elas morrem tão depressa que mal sai sangue. Isso faz uma matança bastante limpa.

- Obrigada por essa útil indicação - disse Jane.

- Na verdade, o Yoshima levanta uma boa questão - disse Maura. O nosso criminoso escolheu um método rápido para matar a Eve Kassovitz. Mas com a Lori-Ann Tucker demorou tempo a remover a mão, o braço, a cabeça. E depois desenhou os símbolos. Com esta vítima, não perdeu uma data de tempo. O que me faz pensar que a Eve foi assassinada por uma razão mais prática. Talvez ela o tivesse surpreendido e ele tivesse simplesmente de se livrar dela, imediatamente. Por isso fê-lo da maneira mais rápida que podia. Uma pancada na cabeça. E depois uma facada rápida no coração.

- Ele levou tempo a desenhar aqueles símbolos na porta.

- Como é que sabemos que não os desenhou antes? Para acompanhar a trouxa que deixou na soleira da porta?

- Quer dizer a mão. Maura concordou.

- A sua oferta.

A sua lâmina tinha voltado a trabalhar, cortando, amputando. Retirou os pulmões, que deixou cair numa bacia de aço, onde formaram uma massa esponjosa. Um olhar pela superfície rosada, alguns cortes em cada um dos lóbulos, disseram-lhe que tinham sido os pulmões saudáveis de uma não fumadora, designados para servirem bem a sua proprietária até uma idade avançada. Maura passou para o peritoneu, metendo as mãos enluvadas no abdómen para fazer a excisão do estômago, pâncreas e fígado. O ventre de Eve Kassovitz tinha sido invejavelmente liso, a recompensa, sem dúvida, de muitas horas passadas no ginásio. Quão facilmente todo esse esforço era reduzido por um bisturi a músculos incisos e pele aberta. A bacia foi-se enchendo lentamente com órgãos, espirais do intestino delgado brilhando como enguias enroladas, fígado e baço depositados num monte sangrento. Tudo saudável, tão saudável. Ela cortou o retroperitónio, removendo rins macios como veludo, cortou pedaços minúsculos, que enfiou num vaso de amostras. Eles mergulharam em formalina, arrastando remoinhos de sangue.

Endireitando-se, Maura olhou para o Yoshima.

- Podes pôr agora as radiografias do crânio? Vamos ver o que temos. Ele puxou para baixo as radiografias do torso e começou a montar uma nova série, que ela ainda não tinha examinado. Imagens da cabeça brilhavam agora no negatoscópio. Ela concentrou-se na tábua de osso mesmo por baixo da laceração no couro cabeludo, examinando o contorno do crânio em busca de alguma linha de fractura ou depressão reveladoras que não tivesse conseguido detectar pelo tacto, mas não viu nenhuma. Mesmo sem uma fractura, a pancada podia ter sido suficiente para atordoar a vítima, submetendo-a, derrubando-a tempo suficiente para o assassino lhe abrir o blusão e levantar-lhe a camisola.

Para enfiar a lâmina no seu coração.

De início, foi o crânio que concentrou a atenção de Maura. Depois passou para uma visão lateral e concentrou-se no pescoço, detendo o seu olhar no osso hióide: atrás dele estava uma opacidade em forma de cone, diferente de qualquer coisa que tivesse visto antes. Franzindo o sobrolho, aproximou-se mais do negatoscópio e ficou a olhar para essa anomalia. Na visão frontal, estava quase escondida ante a maior densidade das vértebras cervicais. Mas na visão lateral era claramente visível e não fazia parte da estrutura do esqueleto.

- Que raio de coisa é esta? - murmurou. Jane colocou-se ao lado dela.

- Para onde é que estás a olhar?

- Para esta coisa aqui. Não é osso. Não é uma parte normal do pescoço.

- Será qualquer coisa na garganta dela?

Maura virou-se e regressou à mesa e disse a Yoshima. - Podes ir-me buscar o laringoscópio?

De pé, à cabeceira da mesa, Maura inclinou o queixo para cima. Ela tinha usado pela primeira vez um laringoscópio quando era estudante do quarto ano de Medicina, ao tentar inserir uma sonda endotraqueal num homem que não conseguia respirar. As circunstâncias eram desesperadas, com o paciente em paragem cardíaca. O seu supervisor concedeu a Maura apenas uma tentativa de entubação. - Tens dez segundos - disse ele - e, se não conseguires, então faço eu. - Ela tinha colocado o laringoscópio e espreitado para a garganta, procurando as cordas vocais, mas só conseguiu ver a língua e a mucosa. Enquanto passavam os segundos, enquanto uma enfermeira pressionava o tórax e a equipa de emergência observava, Maura lutava com o instrumento, sabendo que em cada segundo que o paciente estava privado de oxigénio mais células cerebrais podiam morrer. O interno, finalmente, tirou-lhe o instrumento das mãos e empurrou-a com o cotovelo para fazer ele próprio esse trabalho. Tinha sido uma demonstração humilhante da sua incompetência.

Os mortos não requeriam uma intervenção tão acelerada. Agora, ao mesmo tempo que fazia deslizar a lâmina do laringoscópio para dentro da boca, não havia nenhum supervisor de coração aos pulos, nenhuma equipa de emergência a olhar para ela, nenhuma vida em perigo. Eve Kassovitz era um sujeito paciente enquanto Maura inclinava a lâmina, levantando a língua para a afastar. Debruçou-se e espreitou para dentro da garganta. O pescoço era comprido e esguio e na sua primeira tentativa Maura localizou facilmente as cordas vocais, como faixas rosa-pálidas flanqueando a entrada do ar. Preso entre elas estava um objecto que cintilou para ela.

- Fórceps - disse ela, estendendo a mão. Yoshima colocou o instrumento na palma da sua mão.

- Estás a vê-lo?

- Estou.

Maura agarrou o objecto e retirou-o suavemente da garganta. Deixou-o cair numa bandeja de amostras e ele fez barulho ao bater no aço inoxidável.

- Isso é o que eu penso? - disse Jane.

Maura virou o espécime e ele cintilou como uma pérola sob as luzes brilhantes. Uma concha.

 

A luz da tarde tinha escurecido até ficar um cinzento sombrio, na altura em que Jane guiou para o campus da Universidade de Harvard e estacionou o seu carro atrás do Conant Hall. O parque estava quase vazio e quando ela saiu do carro, para enfrentar um vento glacial, olhou de relance para os velhos edifícios de tijolo que pareciam desertos, para finos tufos de neve redemoinhando no pavimento gelado e percebeu que, quando tivesse terminado o que a trouxera aqui, já estaria escuro.

Eve Kassovitz também era polícia. No entanto, nunca viu a morte a aproximar-se.

Jane abotoou a gola do seu casaco e começou a andar para os edifícios do museu da universidade. Dentro de poucos dias, quando os estudantes regressassem das férias de Inverno, o campus voltaria novamente à vida. Mas neste fim de tarde frio, Jane caminhou sozinha, semicerrando os olhos contra o vento cortante. Chegou à entrada lateral para o museu e encontrou a porta fechada. Não era de admirar: era uma tarde de domingo. Deu a volta para a parte da frente, percorrendo dificilmente um caminho escavado entre montes de neve suja. Na entrada da Oxford Street ela parou, erguendo os olhos para o maciço edifício de tijolos. As palavras por cima da porta principal diziam MUSEU DE ZOOLOGIA COMPARADA.

Subiu a escadaria de granito e entrou no edifício e numa época diferente. Soalhos de madeira rangeram por baixo dos seus pés. Ela aspirou a poeira de muitas décadas e o calor de radiadores antigos e viu filas seguidas de vitrinas.

Mas não pessoas. A sala de entrada estava deserta.

Penetrou mais fundo no edifício, passando por caixas de vidro para guardar espécimes e parou para ver uma colecção de insectos emoldurados, presos com alfinetes. Viu monstruosos escaravelhos pretos com pinças prontas para arrancar pele tenra, e baratas aladas, de carapaças brilhantes. Com um calafrio, continuou a andar, passando por borboletas brilhantes como jóias, um armário com ovos de pássaros que nunca iriam ser chocados, e tentilhões emoldurados que nunca voltariam a cantar.

O ranger de passos indicou-lhe que não estava sozinha.

Virou-se e ergueu os olhos para o corredor estreito entre dois armários altos. Iluminado por detrás, pela luz invernosa que brilhava através da janela, o homem era apenas uma silhueta curvada e sem rosto, arrastando os pés na sua direcção. Só quando se aproximou mais, emergindo finalmente do seu poeirento esconderijo, é que ela viu o rosto enrugado, os óculos de aros metálicos. Olhos destorcidos espreitavam-na através de lentes grossas.

- Você não seria por acaso aquela mulher da polícia? - perguntou ele.

- Doutor Von Schiller? Sou a detective Rizzoli.

- Eu sabia que tinha de ser você. Mais ninguém viria até cá a estas horas tardias. A porta está normalmente fechada a esta hora, por isso está a ter algo como uma visita privada aqui. - Piscou-lhe o olho, como se este tratamento especial devesse ficar em segredo entre eles. Uma oportunidade rara para devorar com os olhos insectos mortos e pássaros empalhados, sem a multidão a pressionar. - Então, trouxe aquilo? - perguntou ele.

- Tenho-o mesmo aqui. - Tirou o saco de provas do bolso e os olhos dele iluminaram-se ao ver o conteúdo, visível através do plástico transparente.

- Venha, entre, então! Vamos subir para o meu gabinete onde posso ter uma boa visão dele através do meu ampliador. Os meus olhos já não são o que eram. Odeio a luz fluorescente lá em cima, mas preciso mesmo dela para algo como isto.

Ela seguiu-o para a escadaria, acertando a sua passada com o dolorosamente lento arrastar de pés dele. Poderia este tipo estar ainda a ensinar? Parecia demasiado velho para sequer subir as escadas. Mas Von Schiller fora o nome que lhe tinham recomendado quando ligou para o departamento de zoologia comparada e era inegável o brilho de excitação nos olhos dele quando localizou o que ela trouxera no seu bolso. Não conseguia esperar para pôr as suas mãos nisso.

- Sabe alguma coisa sobre conchas, detective? - perguntou Von Schiller, enquanto subia lentamente a escada, com a sua mão nodosa a agarrar o corrimão cinzelado.

- Só o que aprendi por comer amêijoas.

- Quer dizer que nunca as coleccionou? - Olhou de relance para trás. - Sabia que o Robert Louis Stevenson uma vez disse que "É talvez um destino mais afortunado ter gosto por coleccionar conchas do que ter nascido milionário"?

- Ele disse mesmo isso? - Acho que preferia ser milionária.

- É uma paixão que eu tenho desde criança. Os meus pais levavam-nos todos os anos para a costa de Amalfi. O meu quarto estava cheio com tantas caixas de conchas que eu mal conseguia mexer-me lá dentro. Ainda as tenho todas, sabe? Incluindo um encantador espécime de Epitonium celesti.

Bastante raro. Comprei-o quando tinha doze anos e paguei um preço bastante alto por ele. Mas sempre pensei que gastar dinheiro em conchas é um investimento. A mais refinada arte da Mãe-Natureza.

- Passou os olhos pelas fotos que lhe enviei por e-maill

- Ah, sim. Reencaminhei a foto para Stefano Rufini, um velho amigo meu. Consultor de uma companhia chamada Medshells. Eles localizam espécimes raros em todo o mundo e vendem-nos a colecionadores ricos. Ele e eu estamos de acordo quanto às prováveis origens da sua concha.

- Então o que é esta concha?

Von Schiller virou a cabeça para ela e sorriu-lhe.

- Acha que eu lhe dava uma resposta definitiva sem a examinar?

- Parece saber já o que é.

- Diminuí o número de possibilidades, é só o que lhe posso dizer. - Continuou a subir os degraus. - A sua classe é Gastropoda - disse ele. Subiu outro degrau. - Ordem: Caenogastropoda. - Outro degrau, outra frase. Superfamília: Buccinacea.

- Desculpe. O que é que significa isso tudo?

- Significa que a sua conchinha é, primeiro que tudo, um gastrópode, o que quer dizer pé estômago. É a mesma classe geral de moluscos como o caracol ou a lapa. São univalves, com um pé muscular.

- É esse o nome desta concha?

- Não, é apenas o da classe filogenética. Há pelo menos cinquenta mil variedades diferentes de gastrópodes em todo o mundo, e nem todas são habitantes do mar. A vulgar lesma, por exemplo, é um gastrópode, embora não tenha concha. - Chegou ao cimo das escadas e foi à frente, através de um corredor que tinha ainda mais expositores contendo uma silenciosa colecção de criaturas, cujos olhos de vidro devolviam a Jane um olhar de censura. Tão vívida era a impressão de ser observada que parou e olhou para trás, para a galeria deserta, uma sucessão de armários de espécimes conservados.

Não há ninguém aqui, só nós, animais assassinados.

Jane virou-se para seguir Von Schiller. Tinha desaparecido.

Por momentos ficou sozinha na ampla galeria, ouvindo apenas o bater forte do seu próprio coração, sentindo os olhares hostis dessas inúmeras criaturas presas atrás de vidros.

- Doutor Von Schiller? - chamou e a sua voz pareceu ecoar pelos sucessivos corredores.

A cabeça dele emergiu atrás de um armário.

- Bom, vem ou ou não? - perguntou. - O meu gabinete é mesmo aqui.

Gabinete era uma palavra demasiado grande para o espaço que ele ocupava. Uma porta com uma placa - DR. HENRY VON SCHILLER, PROFESSOR JUBILADO - conduzia a um recanto pouco maior do que um armário para guardar vassouras. Atafulhados lá dentro estavam uma mesa, duas cadeiras e pouco mais. Ele carregou no interruptor da parede e piscou os olhos com o brilho chocante da luz fluorescente.

- Vamos então ver isso - disse ele e agarrou avidamente no saco fechado que ela lhe estendeu. - Diz que encontrou isto num local de crime?

Ela hesitou e depois disse apenas que sim. Enfiado na garganta de uma mulher morta foi o que ela não disse.

- Porque é que pensa que é significativo?

- Estou à espera que me possa dizer.

- Posso mexer-lhe?

- Se for mesmo necessário.

Ele abriu o saco e com dedos artríticos tirou lá de dentro a concha.

- Ah, sim - murmurou, enquanto se encolhia atrás da secretária e se instalava numa cadeira que rangia. Ligou um candeeiro recurvado e puxou de uma lupa e de uma régua. - Sim, era o que eu pensava. Parece ter cerca de, ha, vinte e um milímetros de comprimento. Não é um espécime especialmente belo. Estes estriamentos não são nada bonitos e tem algumas lascas aqui, está a ver? Podia ser uma velha concha que tenha andado às voltas na caixa de algum coleccionador amador. - Olhou para cima, com os seus olhos azuis lacrimosos atrás dos óculos. - Pisania maculosa.

- É o nome dela? -É.

- Tem a certeza?

Ele pousou a lupa com força e levantou-se.

- Não confia em mim? - replicou. - Então venha daí.

- Não estou a dizer que não confio...

- Claro que é isso que está a dizer. - Von Schiller saiu rapidamente do seu gabinete, movendo-se com uma velocidade que ela nunca imaginara que fosse capaz. Zangado e com pressa de se defender, arrastou os pés por uma sucessão de galerias, conduzindo Jane para o interior de um soturno labirinto de armários de espécimes, passando pelos olhares fixos de incontáveis olhos mortos e por uma fila de mostradores enfiados no recanto mais remoto do edifício. Manifestamente, esta não era uma secção do museu muito visitada. Rótulos escritos à máquina estavam amarelecidos com o tempo e o pó cobria os vidros dos armários. Von Schiller encolheu-se num corredor estreito entre armários, abriu uma gaveta e tirou uma caixa de espécimes.

- Veja - disse ele, abrindo a caixa. Tirou um punhado de conchas e colocou-as, uma a uma, em cima de um mostrador de vidro. - Pisania maculosa. E aqui está outra, e mais outra. E aqui está a sua. - Olhou para ela com a indignação de um académico insultado. - Então?

Jane passou os olhos pela série de conchas, todas elas com as mesmas curvas graciosas, os mesmos estriamentos em espiral.

- Parecem iguais.

- Claro que parecem! São a mesma espécie! Eu sei do que estou a falar. Esta é a minha área, detective.

E que área realmente tão útil, pensou ela, ao mesmo tempo que puxava do seu bloco de notas.

- Diga-me lá outra vez o nome da espécie.

- Espere, dê cá isso. -Arrancou-lhe das mãos o bloco de notas e ela ficou a vê-lo a escrever o nome, de sobrolho carregado. Este não era um velhinho simpático. Não era de admirar que o tivessem escondido num armário de vassouras.

Ele devolveu-lhe o bloco de notas.

- Aí tem. Escrito como deve ser.

- Então o que é que isto significa?

- É o nome dela.

- Não, quer dizer, qual é a importância desta concha em particular?

- É suposto significar alguma coisa? Você é Homo sapiens sapiens, isto é Pisania maculosa. É só o que as coisas são.

- Esta concha é rara?

- De modo nenhum. Pode comprá-las facilmente pela Internet, de um número indeterminado de vendedores.

O que tornava a concha pouco menos do que inútil como maneira de seguir um assassino. Com um suspiro, Jane guardou o bloco de notas.

- São bastante comuns no Mediterrâneo - disse ele. Ela olhou para ele.

- No Mediterrâneo?

- E nos Açores.

- Desculpe. Não sei bem onde são os Açores.

Ele lançou-lhe um olhar zangado de quem não queria acreditar. Depois fez-lhe sinal para um dos mostradores, onde dezenas de conchas estavam expostas, juntamente com um mapa desbotado do Mediterrâneo.

- Veja - disse ele, apontando. - São estas ilhas aqui, a oeste da Espanha, A Pisania maculosa estende-se por toda esta zona, desde os Açores até ao Mediterrâneo.

- E em mais nenhum lugar? Nas Américas?

- Acabei de lhe dizer qual é a zona delas. Aquelas conchas que eu tirei para lhe mostrar foram todas recolhidas em Itália.

Ela ficou calada um instante, com os olhos ainda postos no mostrador. Não conseguia lembrar-se da última vez que tinha estudado um mapa do Mediterrâneo. O seu mundo, afinal de contas, era Boston: atravessar a fronteira do estado era o equivalente a uma viagem ao estrangeiro. Porquê uma concha? Porque esta concha em especial?

O seu olhar então concentrou-se na extremidade oriental do Mediterrâneo. Na ilha de Chipre.

Ocre vermelho. Conchas. O que é que o assassino estava a tentar dizer-nos?

- Ah - disse Von Schiller. - Não sabia que havia mais alguém aqui.

Jane não tinha ouvido passos, mesmo neste soalho de madeira que rangia. Virou-se e viu um jovem aproximar-se atrás dela. Muito provavelmente um estudante de pós-graduação, a avaliar pela sua camisa enrugada e pelas calças de ganga. Parecia realmente um erudito, com óculos de pesada armação preta, o seu rosto exausto mostrando uma palidez de Inverno. Ficou ali tão silencioso que Jane se perguntou se o homem podia falar.

Então as palavras saíram, num gaguejar tão atormentado que era penoso de ouvir.

- P-p-professor Von Schiller. Está na ho-ho-hora de f-f-fechar.

- Estamos mesmo a acabar, Malcolm. Eu queria mostrar à detective Rizzoli alguns exemplares da Pisania. - Von Schiller voltou a meter as conchas na caixa. - Eu fecho tudo.

-M-m-mas é meu...

- Eu sei, eu sei. Só porque cheguei a uma idade avançada já ninguém confia em mim para rodar uma estúpida chave. Ouve, eu ainda tenho alguns papéis na secretária que preciso de procurar. Porque é que não mostras à detective onde é a saída? Prometo fechar a porta quando sair.

O jovem hesitou, como se tentasse encontrar as palavras para protestar. Depois limitou-se a suspirar e a fazer um sinal de concordância. Jane voltou a meter o saco com a concha no bolso.

- Obrigada pela sua ajuda, Doutor Von Schiller - disse ela. Mas o velho senhor estava já a afastar-se, arrastando os pés, para devolver a caixa de conchas à sua gaveta.

O jovem não abriu a boca enquanto conduzia Jane através das soturnas salas de exposições, passando por animais presos atrás de vidros, os seus ténis mal produzindo um rangido no soalho de madeira. Este não era bem o lugar onde um jovem devia passar uma noite de domingo, pensou ela. Fazendo companhia a fósseis e borboletas presas com alfinetes.

Lá fora, através da obscuridade do início da noite, Jane caminhou dificilmente para o parque de estacionamento, com os seus sapatos a triturar neve arenosa. A meio caminho diminuiu o andamento e parou. Virando-se, esquadrinhou os edifícios escuros, as poças de luz lançadas pelos candeeiros públicos. Ninguém, nada se mexia.

Na noite em que morreu, será que Eve Kassovitz viu o seu assassino aproximar-se?

Apressou o passo, com as chaves já na mão, e dirigiu-se ao carro, que estava agora sozinho no estacionamento. Só depois de ter entrado e trancado a porta é que baixou a guarda. Este caso está a deixar-me de cabeça perdida, pensou. Nem sequer consigo atravessar um parque de estacionamento sem sentir que o Diabo está atrás de mim.

E a aproximar-se.

 

1 de Agosto. Fase da Lua: Cheia.

Ontem à noite a minha mãe falou comigo nos meus sonhos. Uma descompostura. Lembrando-me que tenho sido indisciplinado. "Ensinei-te todos os antigos rituais e para quê?", perguntou. "Para que não lhes ligasses? Lembra-te de quem és. És o escolhido." Eu não me tinha esquecido. Como poderia fazê-lo? Desde os meus primeiros anos, ela tinha recitado as histórias dos nossos antepassados, acerca dos quais Manetho de Sebennytos, no tempo de Ptolomeu II, escreveu: "Eles incendiaram as nossas cidades. Fizeram com que o povo sofresse todas as brutalidades. Fizeram guerra, desejando exterminar a raça."

Nas minhas veias corre o sangue sagrado de caçadores.

Estes são segredos que até mesmo o meu distraído e inconsciente pai não conhecia. Entre os meus pais, os laços eram meramente de ordem prática. Mas entre a minha mãe e eu, os laços atravessam o tempo, os continentes e chegam aos meus sonhos. Ela está descontente comigo.

E por isso esta noite levo uma cabra para a floresta.

Veio de boa vontade, porque nunca sentiu o aguilhão da crueldade humana. A Lua está tão brilhante que não preciso da lanterna para ver o caminho. Atrás de mim ouço os balidos confusos das outras cabras que acabei de soltar no estábulo do lavrador. Mas não vêm atrás de mim. Os seus chamamentos diminuem quando me interno mais profundamente na floresta, e agora tudo o que ouço é o som dos meus passos e o dos cascos da cabra no chão da floresta.

Depois de termos caminhado até bastante longe, ato a cabra a uma árvore. O animal pressente o que vai acontecer e solta um balido ansioso enquanto tiro as minhas roupas, despindo-me até ficar nu. Ajoelho no musgo. A noite está fria mas os meus tremores são de expectativa. Ergo a faca e as palavras rituais fluem dos meus lábios tão facilmente como sempre afizeram antes. Louvado seja o nosso senhor Seth, o deus dos meus antepassados. O deus da morte e da destruição. Ao longo de incontáveis milénios, ele tem guiado as nossas mãos, levando-nos do Levante para as terras da Fenícia e de Roma, a todos os cantos da terra. Estamos em todo o lado.

O sangue esguicha num jorro quente.

Quando tudo acaba, caminho nu, excepto pelos meus sapatos, para o lago. Sob o o luar brilhante entro dentro de água e lavo o sangue da cabra. Saio de lá limpo e entusiasmado. Só quando visto as minhas roupas é que o bater do meu coração finalmente abranda e a exaustão, subitamente, pousa o seu braço pesado sobre os meus ombros. Quase podia adormecer na relva mas não ouso deitar-me: estou tão cansado que podia não acordar antes de nascer o dia.

Regresso pesadamente à casa. Quando chego ao cimo da colina vejo-a. Lily está à beira do relvado, uma silhueta fina com cabelo resplandecente ao luar. Está a olhar para mim.

- Onde é que estiveste? -pergunta-me. Fui nadar.

-As escuras?

-É a melhor altura. - Lentamente caminho na direcção dela. Fica completamente quieta mesmo quando me aproximo o suficiente para lhe tocar.

- A água está morna. Ninguém consegue ver-te a nadares nua. - A minha mão está fria da água do lago e ela treme quando lhe acaricio a face. Será de medo ou de fascinação? Não sei. O que eu sei é que ela tem estado a observar-me nestas últimas semanas, tal como eu tenho estado a observá-la, e algo está acontecer entre nós. Dizem que o Inferno atrai o Inferno. Algures dentro dela, as trevas ouviram o meu apelo e estão a despertar para a vida.

Aproximo-me ainda mais. Embora ela seja mais velha do que eu, sou mais alto e os meus braços deslizam facilmente à volta da sua cintura enquanto me inclino para ela. Enquanto os nossos lábios se encontram.

A sua bofetada faz-me recuar, cambaleando.

- Não voltes a tocar-me - diz ela. Vira-se e encaminha-se para a casa.

A minha cara está ainda magoada. Demoro-me na escuridão, esperando que as marcas da sua bofetada desapareçam da minha face. Ela não faz ideia de quem eu sou realmente, de quem acabou de humilhar. Não faz ideia de quais serão as consequências.

Não durmo nessa noite.

Em vez disso, fico acordado na cama, pensando em todas as lições que a minha mãe me ensinou a respeito da paciência e de saber esperar pelo seu próprio momento. "O mais satisfatório dos prémios - disse ela - é aquele que te obriga a esperar por ele." Quando o Sol nasce na manhã seguinte, ainda estou na cama, pensando nas palavras da minha mãe. Pensando também naquela bofetada humilhante. Em todas as maneiras como Lily e as suas amigas me mostraram falta de respeito.

Lá em baixo, a tiaAmy está afazer opequeno-almoço. Cheira-me a café acabado de fazer e a bacon encaracolado numa frigideira. E ouço-a chamar.

- Peter? Viste a minha faca de carne?

 

Como era habitual num dia quente de Verão, a Piazza di Spagna era um mar de turistas suados. Rodavam de cotovelos encostados, máquinas fotográficas caras penduradas ao pescoço, caras afogueadas protegidas do Sol por chapéus moles e bonés de basebol. Do seu lugar alto, nas Escadarias Espanholas, Lily vigiava os movimentos da multidão, reparando nos remoinhos que envolviam os carrinhos dos vendedores, as correntes cruzadas de grupos excursionistas concorrentes. Atenta aos carteiristas, começou a descer a escadaria, afastando os inevitáveis vendedores de bugigangas que pairavam por ali como moscas. Reparou que diversos homens olhavam na sua direcção mas o interesse deles era meramente momentâneo. Uma olhadela, uma centelha de pensamento libidinoso e depois os olhos deles pousavam na fêmea que passasse a seguir. Lily mal pensou neles enquanto descia para a piazza, abrindo passagem entre um casal que se beijava parado nos degraus, um jovem estudioso debruçado sobre um livro. Ela misturou-se com aquele amontoado de gente. No meio das multidões sentia-se a salvo, anónima e isolada. Claro que isso não passava de uma ilusão: não havia nenhum lugar verdadeiramente seguro. Enquanto atravessava a piazza, andando aos ziguezagues entre turistas que tiravam fotos e crianças que chupavam gelados, sabia que era muito fácil ser localizada. As multidões forneciam cobertura tanto à presa como ao predador.

Alcançou o outro extremo da piazza e passou por uma loja que vendia sapatos e carteiras de marca que nunca conseguiria comprar, nem que juntasse dinheiro ao longo da sua vida. A seguir a ela encontrava-se um banco com uma caixa multibanco e três pessoas em fila à espera de a usarem. Lily juntou-se à fila. Quando chegou a sua vez, já tinha olhado bem para todos os que se encontravam por ali e não localizou ladrões prontos para atacarem de repente. Tinha chegado a altura de fazer um grande levantamento de dinheiro. Estava em Roma há quatro semanas e ainda não tinha arranjado trabalho. Apesar do seu italiano fluente, nem um simples posto de venda de café, nem uma única loja de lembranças tinha trabalho para ela e estava reduzida aos seus últimos cinco euros.

Inseriu o seu cartão, pediu trezentos euros e esperou que as notas aparecessem. O seu cartão voltou a sair, juntamente com um recibo impresso. Mas não o dinheiro. Olhou para o recibo, com o seu estômago subitamente descaído. Não precisava de traduzir para entender o que estava ali impresso.

Saldo insuficiente.

Muito bem, pensou, talvez tivesse pedido demasiado de uma vez. Acalma-te. Inseriu novamente o cartão, marcou o código e pediu duzentos euros.

Saldo insuficiente.

Nessa altura, a mulher atrás dela na fila estava já a soltar suspiros de despacha-te! Pela terceira vez, Lily inseriu o cartão. Pediu cem euros.

Saldo insuficiente.

- Eh, vai acabar isso em breve? Talvez hoje? - perguntou a mulher atrás dela.

Lily virou-se e encarou-a. Bastou esse olhar, moldado em raiva, para que a mulher recuasse, alarmada. Lily empurrou-a e voltou para apiazza, andando às cegas, por uma vez não se importando se alguém a estava a observar, a seguir. Quando chegou às Escadarias Espanholas já não tinha força nas pernas. Deixou-se cair nos degraus e pousou a cabeça nas mãos.

O seu dinheiro tinha desaparecido. Ela sabia que a sua conta estava a ficar baixa, que eventualmente se esgotaria, mas pensava que havia dinheiro suficiente, pelo menos, para mais um mês. Tinha dinheiro suficiente talvez para mais duas refeições e só isso. Esta noite não haveria hotel nem cama. Mas, olhem lá, estes degraus eram suficientemente confortáveis e não podia ter uma vista melhor. Quando ficasse com fome podia sempre mergulhar nos caixotes de lixo à procura de algum resto de sanduíche deixada por um turista.

A quem é que estou a tentar enganar? Tenho de arranjar algum dinheiro.

Levantou a cabeça, olhou em volta, pela piazza, e viu imensos homens sozinhos. Olá, rapazes, alguém quer pagar uma tarde com uma miúda quente e desesperada? Então viu três polícias a deambular pelas cercanias e chegou à conclusão que este não era um bom lugar para pescar clientes potenciais. Ser presa seria inconveniente: podia também revelar-se fatal.

Abriu o fecho da sua mochila e remexeu febrilmente lá dentro. Talvez houvesse um maço de notas que tivesse esquecido ali, ou algumas moedas soltas a chocalhar no fundo. Pouca sorte. Como se não ficasse de olho em cada cêntimo. Encontrou um rolo de pastilhas de mentol, uma esferográfica. Nenhum dinheiro.

Mas encontrou um cartão-de-visita, tendo impresso o nome FILIPPO CAVALLI. Imediatamente se lembrou do rosto dele. O motorista do camião com olhar lúbrico. - Se não tiveres lugar onde ficar - dissera -, tenho um apartamento na cidade.

Bem, sabes que mais? Não tenho lugar para ficar.

Ficou ali sentada nos degraus, descuidadamente esfregando o cartão com os dedos, até ficar espremido e dobrado. Pensando em Filippo Cavalli e nos seus olhos maldosos, a cara com a barba por fazer. Seria assim tão horrível? Ela já tinha feito coisas piores. Bastante piores.

E ainda estou apagar por isso.

Voltou a fechar o saco e olhou em volta, procurando um telefone. Olhos maldosos ou não, pensou, uma rapariga tem de comer.

Ficou no corredor diante do apartamento 4-G, endireitando nervosamente a sua blusa, alisando o cabelo. Então perguntou-se por que raio é que se devia sequer dar a esse trabalho, tendo em conta o ar desleixado desse homem na última vez que o vira. Senhor, pelo menos faz com que o seu hálito não seja asqueroso, pensou. Podia lidar com homens gordos e homens feios. Podia simplesmente fechar os olhos e não olhar. Mas um homem com hálito fedorento...

A porta abriu-se.

- Entra! - disse Filippo.

Assim que o viu, teve vontade de virar-se e fugir. Era exactamente como se lembrava, o seu queixo com os pêlos espetados da barba por fazer, os seus olhos esfomeados que já lhe devoravam a cara. Nem sequer se tinha dado ao incómodo de vestir roupas melhores para a receber, tinha uma T-shirt sem mangas e calças largas. Porque é que havia de se incomodar a lavar-se? Certamente sabia o que a trouxera ali e não era o seu corpo esculpido ou a sua inteligência brilhante.

Ela entrou no apartamento, onde os cheiros de alho e de fumo de cigarro disputavam a primazia. Tirando isso, não era um lugar demasiado horrível. Viu um sofá e uma cadeira, uma pilha de jornais, uma mesinha baixa. A janela da varanda dava para outro edifício de apartamentos. Através das paredes, podia ouvir o barulho da televisão de um vizinho.

- Um pouco de vinho, Carol? - perguntou ele. Carol. Quase se esquecera do nome que lhe tinha dado.

- Sim, por favor - respondeu. - E... por acaso tem alguma coisa para comer?

- Comida? Claro. - Ele sorriu, mas os seus olhos nunca deixaram de a olhar lubricamente. Ele sabia que estas eram apenas as brincadeiras antes da transacção. Trouxe-lhe pão, queijo e um pratinho de cogumelos marinados.

Não era bem um banquete: era mais um lanche. Portanto era isto o que ela valia. O vinho era barato, picante e adstringente, mas mesmo assim ela bebeu dois copos enquanto comia. Era melhor estar bêbeda do que sóbria para o que vinha a seguir. Ele sentou-se do outro lado da mesa, observando-a enquanto bebericava o seu próprio copo de vinho. Quantas mais mulheres teriam vindo a este apartamento, se tinham sentado a esta mesa da cozinha, preparando-se para o quarto? Certamente nenhuma delas veio de boa vontade. Tal como Lily, provavelmente precisavam de uma bebida ou de duas ou três antes de se dedicarem ao assunto.

Ele estendeu a mão por cima da mesa. Ela ficou muito quieta enquanto ele desabotoava os dois botões de cima da blusa. Depois, recostou-se sorrindo com a visão do seu decote.

Ela tentou ignorá-lo e deitou a mão a outro pedaço de pão, depois esvaziou o seu copo de vinho e voltou a enchê-lo.

Ele levantou-se e deu a volta por detrás dela. Acabou de desabotoar a sua blusa e fê-la deslizar pelos seus ombros, depois desapertou-lhe o sutiã.

Ela enfiou um bocado de queijo na boca, mastigou e engoliu-o. Quase o cuspiu quando as mãos dele se fecharam sobre os seus seios. Sentou-se rigidamente, de punhos fechados, reprimindo o instinto de se virar e lhe bater. Em vez disso deixou que ele estendesse a mão e lhe abrisse o fecho das calças de ganga. A seguir deu-lhe um puxão e ela obedientemente pôs-se de pé, para que ele lhe pudesse tirar o resto das roupas. Quando finalmente ficou nua na cozinha dele, ele recuou para apreciar a visão, com uma erecção evidente. Nem sequer se incomodou a tirar as suas roupas mas encostou-a à bancada da cozinha, abriu as suas calças e possuiu-a de pé. Possuiu-a tão vigorosamente que os armários abanaram e os talheres retiniram nas gavetas.

Despacha-te. Acaba, que raio.

Mas ele estava apenas a começar. Virou-a, empurrou-a para ficar de joelhos e possuiu-a no chão de ladrilhos. Depois foi na sala de estar, diante da janela da varanda, como se quisesse que o mundo visse que ele, Filippo, podia foder uma mulher em qualquer posição, em qualquer sala. Ela fechou os olhos e concentrou-se nos sons do televisor da porta ao lado. Música de espectáculo de um jogo de baques surdos, com um anfitrião italiano excitável. Concentrou-se na TV porque não queria ouvir Filippo a arquejar e a grunhir enquanto batia o seu corpo contra ela. Enquanto atingia o auge.

Ele desmoronou-se em cima dela, um peso morto e flácido que ameaçava sufocá-la. Esgueirou-se de baixo dele e ficou deitada de costas, o seu corpo escorregadio com os suores deles misturados.

Um instante depois, ele já estava a ressonar.

Ela deixou-o ali, no chão da sala de estar e foi para a casa de banho tomar um duche. Passou uns bons vinte minutos debaixo de água, lavando todos os vestígios dele. Com o cabelo a escorrer, voltou à sala para se certificar de que ele estava ainda a dormir. Estava. Silenciosamente, introduziu-se no quarto dele e vasculhou as gavetas do seu armário. Por baixo de um monte de meias encontrou um maço de notas: pelo menos seiscentos euros. Ele não dará pela falta de cem, pensou, contando as notas. De qualquer modo, tinha-os ganho.

Vestiu-se e estava mesmo a pegar na mochila quando ouviu os passos dele atrás de si.

- Vais-te embora tão cedo? - perguntou ele. - Como é que podes ter ficado satisfeita só com uma?

Ela virou-se lentamente para ele e forçou um sorriso.

- Só uma vez contigo, Filippo, é como dez vezes com qualquer outro homem.

Ele sorriu.

- É o que as mulheres me costumam dizer. Então estão todas a mentir.

- Fica. Eu faço-te o jantar. - Veio ter com ela e brincou com uma madeixa do seu cabelo. - Fica e talvez...

Ela pensou nisso dois segundos. Embora este pudesse ser um lugar onde passar a noite, exigia um preço demasiado elevado.

- Tenho de ir - disse ela, virando-se.

- Por favor, fica. - Fez uma pausa e depois acrescentou, com um tom de desespero. - Eu pago-te.

Ela parou e olhou para ele.

- É isso, não é? - disse ele em voz baixa. O seu sorriso desvaneceu-se, a sua cara descaindo lentamente para uma máscara cansada. Já não era o amante empertigado mas sim um homem de meia idade, triste, com uma grande barriga e sem mulher na sua vida. Antes, ela tinha pensado que os olhos dele pareciam maldosos; agora esses olhos pareciam meramente cansados, vencidos. - Eu sei que é verdade. - Suspirou. - Não vieste por minha causa. É dinheiro que queres.

Pela primeira vez, não lhe custou olhar para ele. Também pela primeira vez, resolveu ser franca com ele.

- Sim - admitiu -, precisava de dinheiro. Estou falida e não consigo encontrar trabalho em Roma.

- Mas tu és americana. Podes sempre voltar para casa.

- Não posso.

- Porque é que não podes? Ela desviou os olhos.

- Porque não posso. De qualquer modo não há lá nada para mim.

Ele reflectiu nas palavras dela durante um instante e chegou a uma conclusão razoável.

- A polícia anda à tua procura?

- Não. Não é a polícia.

- Então de quem é que estás a fugir?

Estou a fugir do Diabo em pessoa, foi o que ela pensou. Mas não podia dizer isso ou ele iria achar que estava louca. Respondeu simplesmente.

- De um homem. Alguém que me assusta.

Um namorado violento, foi provavelmente o que ele pensou. Fez um aceno de compreensão.

- Portanto precisas de dinheiro. Então vem. Posso dar-te algum. - Virou-se e começou a andar para o quarto.

- Espera. Filippo. - Sentindo-se agora culpada, meteu a mão no bolso e tirou os cem euros que tinha retirado da gaveta das meias. Como é que podia roubar um homem que estava tão desesperadamente faminto de companhia?

- Desculpa - disse ela. - Isto é teu. Precisava mesmo dele mas não devia tê-lo tirado. - Ela estendeu a mão para a dele e enfiou-lhe a nota na palma da mão. Mal conseguindo olhar para ele de frente. - Eu hei-de arranjar maneira de resolver as coisas por mim. - Virou-se e saiu.

- Carol. É esse o teu nome verdadeiro? Ela parou com a mão na maçaneta da porta.

- É um nome tão bom como qualquer outro.

- Dizes que precisas de um emprego. O que é que sabes fazer? Ela olhou para ele.

- Faço qualquer coisa. Sei limpar casas, servir à mesa. Mas tenho de ser paga em dinheiro.

- O teu italiano é muito bom. - Ele olhou-a de cima a baixo. - Tenho uma prima aqui na cidade - disse finalmente. - Organiza excursões.

- Que tipo de excursões?

- Ao Fórum, à basílica. - Encolheu os ombros. - Tu sabes, a todos os lugares onde os turistas vão habitualmente em Roma. Às vezes precisa de guias que falem inglês. Mas têm de ser cultos.

- Eu sou! Tenho um diploma em estudos clássicos. - A esperança renovada fez o seu coração bater mais depressa. - Sei bastante de História, na verdade. História do mundo antigo.

- Mas sabes coisas sobre Roma?

Lily soltou uma gargalhada repentina e pousou a mochila.

- Por acaso até sei - disse ela.

 

Maura ficou parada no passeio coberto de gelo a olhar para a residência de Beacon Hill onde as janelas estavam convidativamente iluminadas. A luz da lareira cintilava no salão da entrada, tal como na noite em que pela primeira vez passara aquela porta, atraída pelo bailado das chamas, pela promessa de uma chávena de café. Esta noite, o que a levava a subir os degraus era a curiosidade, em relação a um homem que tanto a intrigava como, tinha de admitir, a assustava um pouco. Tocou à campainha e ouviu-a retinir lá dentro, ecoando em salas que tinha ainda de ver. Esperava que fosse o criado a responder a esse toque e ficou admirada quando Anthony Sansone em pessoa abriu a porta.

- Não tinha a certeza de que realmente viesse - disse ele enquanto ela entrava.

- Nem eu - admitiu ela.

- Os outros vão chegar mais tarde. Pensei que seria bom se nós os dois falássemos, primeiro, a sós. -Ajudou-a a tirar o casaco e empurrou o painel secreto para o abrir, revelando o armário. Na casa deste homem as próprias paredes escondiam surpresas. - Então porque é que, afinal de contas, decidiu vir até cá?

- Você disse que tínhamos interesses comuns. Quero saber o que queria dizer com isso.

Ele pendurou o casaco e virou-se, uma figura impressionante vestida de preto, o seu rosto com um brilho dourado dado pela lareira.

- O mal - disse ele. - É isso que temos em comum. Ambos o vimos de perto. Olhámos para o seu rosto, sentimos o seu hálito. E sentimo-lo a olhar também para nós.

- Muita gente o viu.

- Mas você conheceu-o num nível mais pessoal.

- Está outra vez a falar da minha mãe.

- A Joyce diz-me que ninguém conseguiu ainda contar as vítimas de Amalthea.

- Não tenho acompanhado essa investigação. Tenho ficado à margem dela. A última vez que vi Amalthea foi em Julho e não faço tenções de voltar a visitá-la.

- Ignorar o mal não o faz afastar-se. Ainda aí está, ainda faz parte da sua vida...

- Não da minha...

- mesmo até ao seu ADN.

- Um acaso natural. Nós não somos os nossos pais.

- Mas num certo nível, Maura, os crimes da sua mãe devem pesar sobre si. Devem levá-la a perguntar-se.

- Se sou também um monstro?

- Faz essa pergunta a si mesma?

Ela fez uma pausa, muito consciente da maneira intensa como ele a observava. - Eu não sou nada como a minha mãe. Se for alguma coisa, sou o seu polo oposto. Veja a carreira que escolhi, o trabalho que faço.

- Uma forma de expiação?

- Não tenho nada que deva expiar.

- E, no entanto, escolheu trabalhar a favor das vítimas. E da justiça. Nem todos fazem essa escolha, ou fazem esse trabalho tão bem e tão intensamente como você. É por isso que a convidei esta noite. - Abriu a porta que dava para a sala seguinte. - É por essa razão que lhe quero mostrar uma coisa.

Ela seguiu-o para uma sala de jantar revestida de painéis de madeira, onde uma grande mesa estava já posta para o jantar. Cinco lugares, reparou, vendo os cálices de cristal e os pratos cintilantes debruados em azul-cobalto e ouro. Aqui havia outra lareira, com chamas bailando no fogão, mas a sala abobadada, com os seus quatro metros de pé alto, encontrava-se no lado frio da casa e ela ficou contente por ter ficado com a sua camisola de caxemira vestida.

- Primeiro, um cálice de vinho? - perguntou ele, segurando uma garrafa de Cabernet.

- Sim. Obrigada.

Ele deitou o vinho e estendeu-lhe o cálice, mas ela mal o olhou de relance: tinha os olhos fixos nos retratos pendurados nas paredes. Uma galeria de rostos, homens e mulheres, olhava através da patina dos séculos.

- Estes são só alguns - disse ele. - Os retratos que a minha família conseguiu reunir ao longo dos anos. Alguns são cópias modernas, outros são meras representações do que pensamos que era o aspecto deles. Mas alguns destes retratos são originais. Mostram o que estas pessoas devem ter parecido em vida. - Atravessou a sala e ficou diante de um retrato em especial. Era o retrato de uma mulher jovem com olhos escuros luminosos, com o seu cabelo preto delicadamente apertado na nuca. O seu rosto era oval e pálido, e nessa sala escura e iluminada pelo fogo a pele dela parecia translúcida e tão viva que Maura quase conseguia imaginar o pulsar nesse pescoço branco. A jovem mulher estava parcialmente virada para o artista, o seu vestido bordeaux cintilando com fios dourados, o seu olhar directo e destemido.

- O nome dela era Isabella - disse Sansone. - Este retrato foi pintado um mês antes do seu casamento. Exigiu bastante trabalho de restauro. Havia marcas de queimadura na tela. Teve sorte em sobreviver ao incêndio que destruiu a sua casa.

- É bela.

- Sim, era. Para sua grande desventura. Maura olhou para ele com o sobrolho carregado.

- Porquê?

- Era casada com Nicolo Contini, um nobre de Veneza. Segundo a opinião geral era um casamento feliz, até... - fez uma pausa - até Antonino Sansone destruir as suas vidas.

Ela olhou para ele, espantada.

- É o homem que está no retrato? Na outra sala? Ele confirmou.

- O meu distinto antepassado. Ah, era capaz de justificar todos os seus actos em nome da erradicação do Diabo. A Igreja sancionou isso tudo: a tortura, o derramamento de sangue, as mortes na fogueira. Os venezianos, em especial, eram bastante peritos na tortura e criativos na invenção de instrumentos cada vez mais brutais para extrair confissões. Por mais estranhas que fossem as acusações, umas quantas horas na masmorra com Monsignore Sansone fariam com que quase todos se declarassem culpados. Quer a acusação fosse a de praticar feitiçaria, ou de lançar feitiços contra os vizinhos, ou de conluio com o Diabo, confessar qualquer delas era a única maneira de fazer cessar a dor, de lhe ser concedida a misericórdia da morte. A qual, em si mesma, não era assim tão misericordiosa, visto que a maior parte deles eram queimados vivos. - Ele passou os olhos pelos retratos em volta. As caras dos mortos. - Todas estas pessoas que vê aqui sofreram às mãos dele. Homens, mulheres, crianças: não fazia distinções. Diz-se que ele acordava, todos os dias, ávido por cumprir a sua tarefa, e que se fortalecia animadamente com uma saudável refeição matinal de pão e carne. Depois envergava as suas vestes salpicadas de sangue e ia trabalhar, exterminando hereges. Na rua lá fora, mesmo através dos espessos muros de pedra, os transeuntes conseguiam ouvir os gritos.

O olhar de Maura circulou pela sala, interiorizando as caras dos condenados e imaginou essas mesmas caras magoadas e contorcendo-se com as dores. Quanto tempo teriam resistido? Quanto tempo se teriam agarrado à esperança de escaparem, uma hipótese de sobrevivência?

- Antonino derrotou-os a todos - disse ele. - Excepto um. - O seu olhar tinha voltado a pousar-se na mulher de olhos luminosos.

- Isabella sobreviveu?

- Ah não. Ninguém sobrevivia às atenções dele. Tal como todos os outros, ela morreu. Mas nunca foi vencida.

- Recusou-se a confessar?

- Ou a submeter-se. Só tinha de implicar o seu marido. De renunciar a ele, acusando-o de bruxaria e podia ter vivido. Porque o que Antonino realmente não queria a sua confissão. Queria a própria Isabella.

A sua beleza foi a sua desventura. Era o que ele tinha querido dizer.

- Um ano e um mês - disse ele. - Foi o tempo que ela sobreviveu numa cela sem aquecimento, sem luz. Todos os dias tinha uma nova sessão com o seu torcionário. - Olhou para Maura. - Eu vi os instrumentos dessa época. Não consigo imaginar nenhuma versão do Inferno que seja pior.

- E ele nunca a derrotou?

- Ela resistiu até ao fim. Mesmo quando lhe levaram o seu bebé recém-nascido. Mesmo quando lhe esmagaram as mãos, lhe arrancaram a pele das costas, lhe deslocaram as articulações. Cada uma dessas brutalidades era meticulosamente registada nos diários pessoais de Antonino.

- Viu mesmo esses diários?

- Sim, vi. Têm sido passados de geração em geração na nossa família. Estão agora guardados num cofre, juntamente com outras desagradáveis heranças desse tempo.

- Que legado horrível.

- Era o que eu queria dizer quando lhe disse que tínhamos interesses comuns, preocupações comuns. Ambos herdámos sangue envenenado.

O seu olhar estava novamente posto no rosto de Isabella e de repente ela registou algo que ele tinha dito há momentos. Eles levaram o seu bebé recém-nascido. Olhou para ele.

- Disse que ela teve um bebé na prisão.

- Sim. Um filho.

- O que é que lhe aconteceu?

- Foi entregue aos cuidados de um convento local, onde foi educado.

- Mas ele era o filho de um herege. Porque é que o deixaram viver?

- Por causa do pai dele.

Ela olhou para ele, estupefacta com o entendimento das suas palavras.

- Antonino Sansone? Ele confirmou.

- O rapaz nasceu onze meses depois de a mãe ter sido aprisionada.

O filho de uma violação, pensou. Então esta é a linhagem dos Sansone. Remonta ao filho de uma mulher condenada.

E de um monstro.

Passou os olhos em volta pelos outros retratos.

- Não creio que gostasse de ter estes retratos expostos em minha casa.

- Acha que é mórbido.

- Todos os dias teria de me lembrar. Seria perseguida pela recordação da maneira como morreram.

- Portanto iria escondê-los num armário? Evitando mesmo olhar para eles, do mesmo modo como evita pensar na sua mãe?

Ela endureceu a expressão.

- Não tenho razões para pensar nela. Não faz parte da minha vida.

- Mas faz. E pensa mesmo nela, não pensa? Não consegue evitar.

- Certamente não tenho o retrato dela na minha sala de estar. - Pousou o cálice de vinho na mesa. - Você pratica uma forma bizarra de veneração dos antepassados. Exibir o torcionário da família no salão da entrada, como se fosse um ícone, alguém de quem tivesse orgulho. E aqui, na sala de jantar, mantém uma galeria das suas vítimas. Todas estas caras a olhar para si, como uma colecção de trofeus. É o género de coisa que...

Um caçador iria exibir.

Ela calou-se, olhando para o seu cálice vazio, apercebendo-se do silêncio na casa. Havia cinco lugares postos na mesa, todavia ela era o único convidado que tinha chegado, talvez o único que tivesse sido realmente convidado.

Maura vacilou quando ele roçou pelo seu braço e estendeu a mão para o seu cálice vazio. Virou-se para voltar a enchê-lo e ela fixou os olhos nas suas costas, no perfil dos músculos por baixo da camisa preta de gola alta. Então ele virou-se para a encarar, com o cálice estendido. Ela pegou nele mas não bebeu, embora a sua garganta tivesse ficado seca de repente.

- Sabe porque é que estes retratos estão aqui? - perguntou ele calmamente.

- Só acho isso... estranho.

- Cresci com eles. Estavam pendurados na casa do meu pai, e na casa do pai dele. Tal como o retrato de Antonino, mas sempre numa sala separada. Sempre num lugar proeminente.

- Como um altar.

- De certa forma.

- Venera aquele homem? O torcionário?

- Preservamos a sua memória. Nunca nos permitimos esquecer quem, e o que, ele foi.

- Porquê?

- Porque é essa a nossa responsabilidade. Um dever sagrado que os Sansones aceitaram há muitas gerações, começando com o filho de Isabella.

- A criança nascida na prisão.

Ele confirmou.

- Quando Vittorio chegou à idade adulta, Monsignore Sansone já tinha morrido. Mas a sua reputação de monstro tinha-se espalhado e o nome de Sansone já não era uma vantagem, era mais uma maldição. Vittorio podia ter escapado ao seu nome, podia ter negado a sua linhagem. Em vez disso, fez o oposto. Abraçou o nome de Sansone, tal como o fardo que ele representava.

- Falou de um dever sagrado. Que tipo de dever?

- Vittorio fez o voto de reparar o que seu pai fizera. Se olhar para o nosso brasão de família verá as palavras: Sed libera nos a maio.

Latim. Ela olhou para ele com ar severo.

- Livra-nos do mal.

- Isso mesmo.

- E o que é que se espera exactamente que os Sansones façam?

- Caçar o Diabo, Doutora Isles. É isso que fazemos.

Por um instante ela não respondeu. Não pode estar a falar a sério, pensou, mas o olhar dele era absolutamente firme.

- Está a falar em sentido figurativo, claro - disse ela, finalmente.

- Eu sei que não acredita que ele exista realmente.

- Satanás? - não conseguiu deixar de rir-se.

- As pessoas não têm dificuldades em acreditar que Deus existe - disse ele.

- É por isso que se chama a isso fé. Não precisa de provas porque não há nenhuma.

- Se alguém acredita na luz, também tem de acreditar nas trevas.

- Mas você está a falar de um ser sobrenatural.

- Estou a falar do mal, destilado na sua forma mais pura. Manifestado sob a forma de criaturas reais, de carne e osso, andando no meio de nós. Isto não tem a ver com o crime impulsivo, o do marido ciumento que ultrapassou os limites, ou o do soldado assustado que ceifa um inimigo desarmado. Estou a falar de algo completamente diferente. Pessoas que parecem humanas, mas são o extremo oposto disso.

- Demónios?

- Se lhes quiser chamar assim.

- E você acredita realmente que eles existem, esses monstros ou demónios ou seja o que for que lhes chama?

- Eu sei que existem - disse ele calmamente.

O toque da campainha sobressaltou-a. Olhou de relance para o salão da frente, mas Sansone não se mexeu para responder à campainha. Ela ouviu passos e depois a voz do mordomo a falar no vestíbulo.

- Boa noite, Mistress Felway. Posso tirar-lhe o casaco?

- Estou um bocadinho atrasada, Jeremy. Lamento.

- Mister Stark e a Doutora O'Donnell também ainda não chegaram.

-Ainda não? Bom, então já me sinto melhor.

- Mister Sansone e a Doutora Isles estão na sala de jantar, se quiser ir ter com eles.

- Deus, preciso mesmo de uma bebida.

A mulher que irrompeu na sala era tão alta como um homem e parecia igualmente impressionante, os seus ombros quadrados realçados por um blazer de tweed com ombreiras de cabedal. Embora o seu cabelo fosse estriado com fios prateados, mexia-se com o vigor da juventude e a segurança da autoridade. Não hesitou, dirigiu-se directamente a Maura.

- Você deve ser a Doutora Isles - disse ela, e deu a Maura um aperto de mão decidido. - Edwina Felway.

Sansone estendeu-lhe um cálice de vinho.

- Como é que estão as estradas lá fora, Winnie?

- Traiçoeiras. - Bebeu um gole. - Estou espantada por o Ollie ainda não ter chegado.

- Só agora é que são oito horas. Ele vem com a Joyce.

O olhar de Edwina estava posto em Maura. Os seus olhos eram directos, até mesmo indiscretos.

- Tem havido qualquer avanço no caso?

- Não temos estado a falar disso - disse Sansone.

- A sério? Mas é a única coisa em que pensamos.

- Não posso discutir isso - disse Maura. - Tenho a certeza que compreende porquê.

Edwina olhou para Sansone.

- Queres dizer que ela ainda não aceitou?

- Aceitei o quê? - perguntou Maura.

- Juntar-se ao nosso grupo, Doutora Isles.

- Winnie, estás a antecipar-te um bocadinho. Ainda não expliquei completamente...

- A Fundação Mefisto? - disse Maura. - É disso que estão a falar? Fez-se silêncio. Na outra sala, um telefone começou a tocar. Edwina riu-se de repente.

- Ela está um passo à tua frente, Anthony.

- Como é que sabe da fundação? - perguntou ele, olhando para Maura. Depois soltou um suspiro compreensivo. - A detective Rizzoli, claro. Ouvi dizer que ela tem andado a fazer perguntas.

- É paga para isso mesmo - disse Maura.

- Já chegou à conclusão de que não somos suspeitos?

- É que ela não gosta de mistérios. E o vosso grupo é muito misterioso.

- E foi por isso que aceitou o meu convite esta noite. Para descobrir quem somos.

- Creio que já descobri - disse Maura. - E creio ter ouvido o suficiente para tomar uma decisão. - Pousou o cálice. - A metafísica não me interessa. Sei que existe mal no mundo e que sempre houve. Mas não é preciso acreditar em Satanás ou em demónios para o explicar. Os seres humanos são perfeitamente capazes de fazer o mal por si mesmos.

- Não está nem sequer um pouco interessada em se juntar à fundação?

- perguntou Edwina.

- Não teria aqui lugar. E creio que devo sair agora. - Virou-se e viu Jeremy parado à entrada da porta.

- Mister Sansone? - O criado segurava um telefone portátil. - Mister Stark acabou de ligar. Está bastante preocupado.

- Com quê?

- A Doutora O'Donnell devia ir buscá-lo mas ainda não apareceu.

- Quando é que era suposto estar em casa dele?

- Há quarenta e cinco minutos. Ele tem estado a ligar-lhe mas ela não responde nem no telefone de casa nem no telemóvel.

- Deixa-me tentar o número dela. - Sansone pegou no telefone e marcou, tamborilando com os dedos na mesa enquanto esperava. Desligou, ligou outra vez, com os seus dedos a bater mais depressa. Na sala ninguém falava: estavam todos a observá-lo, a ouvir o ritmo acelerado dos seus dedos. Na noite em que Eve Kassovitz morrera, estas pessoas tinham-se sentado nesta mesma sala, sem se darem conta de que a Morte estava mesmo ali fora. Que tinha encontrado o seu caminho para o jardim deles e deixara os seus estranhos símbolos na porta deles. Esta casa tinha sido marcada.

Talvez as pessoas dentro dela estivessem também marcadas. Sansone desligou.

- Não devia chamar a polícia? - perguntou Maura.

- Oh, a Joyce pode-se simplesmente ter esquecido - disse Edwina. - Parece um pouco prematuro pedir à polícia para vir a correr.

Jeremy disse.

- Quer que vá até lá de carro e confirme se a Doutora O'Donnell está em casa?

Sansone fixou o telefone por instantes.

- Não - disse por fim. - Vou eu. Prefiro que fiques aqui, no caso de a Joyce telefonar.

Maura seguiu-o até ao salão da frente, onde ele tirou o seu sobretudo do armário. Ela também vestiu o casaco.

- Por favor, fique e jante - disse ele, estendendo a mão para as chaves do carro. - Não é necessário ir a correr para casa.

- Não vou para casa - disse ela. - Vou consigo.

 

A luz do alpendre de Joyce O'donnell estava acesa, mas ninguém atendeu quando bateram à porta.

Sansone tentou rodar a maçaneta.

- Está trancada - disse ele e tirou o telemóvel do bolso. - Deixe-me tentar ligar-lhe mais uma vez.

Enquanto ele ligava, Maura afastou-se do alpendre e ficou no caminho de acesso, olhando para a casa da O'Donnell, para uma janela do segundo piso que lançava o seu brilho animado para a noite. Ouviu o som débil de um telefone a tocar lá dentro. Depois, mais uma vez, silêncio.

Sansone desligou.

- O atendedor de chamadas dela respondeu.

- Acho que está na hora de chamar a Rizzoli.

- Ainda não. - Tirou uma lanterna do bolso e dirigiu-se, através do caminho escavado, para o lado da casa.

- Onde é que vai?

Ele continuou a andar para a entrada dos carros, com o seu sobretudo preto a misturar-se com as sombras. O feixe da sua lanterna percorreu as lajes e desapareceu ao virar da esquina.

Ela ficou sozinha no jardim da frente, ouvindo o crepitar de folhas mortas nos ramos por cima dela. - Sansone? - chamou. Ele não respondeu. Ela ouviu apenas as batidas fortes do seu próprio coração. Seguiu-o, virando a esquina da casa. Aí parou na entrada dos carros vazia, com a sombra da garagem a agigantar-se diante dela. Começou a chamar por ele novamente mas algo a fez calar: a arrepiante noção de outra presença a vigiá-la, a segui-la. Virou-se e esquadrinhou rapidamente a rua. Viu um pedaço de papel, arrastado pelo vento, aos trambolhões na estrada como um fantasma que pairasse por ali.

Uma mão fechou-se sobre o seu braço.

Arquejando, afastou-se aos tropeções. Deu por si a olhar para Sansone, que se tinha materializado silenciosamente atrás dela.

- O carro dela está ainda na garagem - disse ele.

- Então onde é que ela está?

- Vou dar a volta pelas traseiras.

Desta vez ela não o perdeu de vista, seguiu-o atrás dos seus calcanhares enquanto ele seguia pelo jardim lateral, andando dificilmente através de neve intacta e profunda ao lado da garagem. Quando chegaram ao jardim das traseiras, as calças dela estavam ensopadas e neve derretida tinha-se entranhado nos sapatos, arrefecendo-lhe os pés. O feixe da lanterna dele deslocou-se através de arbustos e espreguiçadeiras, todos cobertos por um suave manto branco. Não havia pegadas, nem neve agitada. Um muro coberto por trepadeiras confinava o pátio, um espaço privado completamente escondido dos vizinhos. E ela estava aqui sozinha, com um homem que mal conhecia.

Mas ele não estava concentrado nela. A sua atenção estava focada na porta da cozinha, que não conseguia abrir. Ficou a olhar para ela um instante, ponderando o que devia fazer a seguir. Depois olhou para Maura.

- Sabe o número da detective Rizzoli? - perguntou. - Ligue-lhe.

Ela tirou o telemóvel do bolso e avançou para a janela da cozinha, procurando mais luz. Estava a preparar-se para marcar o número quando de repente fixou os olhos no lava-loiças da cozinha, mesmo junto à janela.

- Sansone - sussurrou.

- O que é?

- Há sangue aqui, junto ao ralo.

Ele deitou-lhe uma olhadela e o seu movimento seguinte chocou-a. Agarrou numa das espreguiçadeiras e atirou-a contra a janela. Vidros partidos, cacos rebentaram dentro da cozinha. Ele trepou lá dentro e segundos depois a porta abria-se.

- Também há sangue aqui no chão - disse ele.

Ela baixou os olhos para manchas vermelhas nos ladrilhos cremes. Ele saiu a correr da cozinha, com o seu sobretudo preto a flutuar atrás dele como uma capa, movendo-se tão depressa que, quando ela chegou ao pé das escadas, já ele estava no patamar do segundo piso. Ela fixou os olhos em mais sangue, rastos dele nos degraus de madeira de carvalho, ao longo do rodapé, como se um membro golpeado tivesse raspado na parede enquanto o corpo era arrastado lá para cima.

- Maura! - gritou Sansone.

Ela subiu as escadas a correr, chegou ao patamar do segundo piso e viu mais sangue, como marcas brilhantes de esqui no corredor. E ouviu o som, como se fosse o de água a gorgolejar num tubo de respiração. Antes mesmo de entrar no quarto, sabia o que ia enfrentar. Não uma vítima morta mas uma que lutava desesperadamente para viver.

Joyce O'Donnell jazia de costas, olhos arregalados num pânico mortal, um jorro de sangue a esguichar do seu pescoço. Ela inspirou dificilmente, com o sangue a chocalhar nos seus pulmões, e tossiu. Um repuxo vermelho vivo explodiu da sua garganta, salpicando a cara de Sansone, que se agachava por cima dela.

- Eu substituo-o! Ligue para o 112! ordenou Maura, ao mesmo tempo que se deixava cair de joelhos e pressionava a ferida com os seus dedos. Estava acostumada a tocar em carne morta, não viva, e o sangue que gotejou para as suas mãos era chocantemente morno. PRC, pensou. Esses eram as primeiras regras para salvar vidas: passagem de ar, respiração, circulação de sangue. Mas com um brutal corte no pescoço, de lado a lado, o atacante tinha comprometido todas as três regras. Sou médica, mas posso fazer tão pouco para a salvar.

Sansone terminou a sua chamada.

- A ambulância vem a caminho. O que é que posso fazer? -Arranje-me umas toalhas. Preciso de parar a hemorragia!

A mão de Joyce fechou-se subitamente no pulso de Maura, agarrando-o com a força do pânico. A pele estava tão escorregadia que os dedos de Maura deslizaram da ferida, libertando um novo esguicho. Outra respiração difícil, outro acesso de tosse, fizeram sair um repuxo da traqueia cortada. Joyce estava a afogar-se. Cada vez que respirava, inalava o seu próprio sangue. Gorgolejava no seu tubo respiratório, espumava nos seus alvéolos pulmonares. Maura tinha examinado os pulmões amputados de outras vítimas cujas gargantas haviam sido cortadas: conhecia o mecanismo da morte.

Agora estou a ver isso acontecer, e não posso fazer nada para o deter.

Sansone regressou a correr ao quarto, trazendo toalhas e Maura pressionou um atoalhado acolchoado no pescoço. O tecido branco tornou-se magicamente vermelho. A mão de Joyce agarrou o pulso dela ainda com mais força. Os seus lábios mexeram-se mas não conseguiu produzir palavras, só o chocalhar do ar borbulhando através do sangue.

- Está tudo bem, está tudo bem - disse Maura. -A ambulância está quase a chegar aqui.

Joyce começou a tremer, com os membros a estremecer, como se estivesse a ter um ataque apopléctico. Mas os seus olhos estavam conscientes e fixos em Maura. Será que ela vê isso nos meus olhos? Que eu sei que está morrer?

Maura ergueu os olhos quando ouviu o gemido distante de uma sirene.

-Aí está ela - disse Sansone.

- A porta da frente está trancada!

- Eu vou lá abaixo recebê-los. - Pôs-se de pé e ela ouviu-o a descer rapidamente as escadas para o primeiro piso.

Os olhos de Joyce estavam ainda despertos, arregalados. Os seus lábios mexeram-se agora mais depressa, e os seus dedos apertaram-se como uma garra. Lá fora, o gemido da sirene aproximou-se mais mas neste quarto os únicos sons eram os da respiração gorgolejante da mulher moribunda.

- Fique comigo, Joyce! - incitou Maura. - Eu sei que consegue aguentar-se!

Joyce puxou o pulso de Maura, safanões de pânico que ameaçavam arrancar a mão de Maura da ferida. A cada arquejo, gotas brilhantes esguichavam da sua garganta em erupções explosivas. Os seus olhos abriram-se ainda mais, como se vislumbrasse a escuridão que se abria diante dela. Não, balbuciou. Não.

Nesse instante, Maura percebeu que a mulher já não estava a olhar para ela mas para algo atrás dela. Só então ouviu o ranger do soalho.

O atacante dela nunca tinha saído da casa. Ainda estava aqui. Neste quarto.

Virou-se no preciso momento em que o golpe foi desferido sobre ela. Viu a escuridão a descer sobre si como asas de morcego e depois ficou esparramada. A sua face bateu com força no chão e ficou aturdida, com a visão escurecida. Mas conseguiu sentir, transmitido através das tábuas, o baque de passos a fugir, como se fosse o bater do coração da casa, pulsando contra a sua bochecha. A dor abriu caminho para dentro da sua cabeça e aumentou como um martelar constante que parecia enfiar pregos no seu crânio.

Não ouviu Joyce O'Donnell soltar o último suspiro.

Uma mão agarrou-lhe o ombro. Num repentino pânico, ela debateu-se, lutando pela sua vida, virando-se cegamente contra o seu atacante.

- Maura, pare. Maura!

As suas mãos agora presas nas dele, só conseguia alguns esforços fracos. Então a sua visão tornou-se mais clara e viu Sansone a olhar para ela. Ouviu outras vozes e vislumbrou o brilho metálico de uma maca. Virando-se, fixou o olhar em dois paramédicos que estavam acocorados sobre o corpo de Joyce O'Donnell.

- Não consigo encontrar pulsação. Não respira.

- Esta intravenosa está bem aberta.

- Meu Deus, olha este sangue todo.

- Como é que está a outra senhora? - O paramédico olhou para Maura Sansone disse.

- Parece bem. Creio que só desmaiou.

- Não - sussurrou Maura. Agarrou-lhe o braço. - Ele estava aqui.

- O quê?

- Ele ainda estava aqui. No quarto!

Subitamente ele percebeu o que ela estava a dizer, levantou o tronco, recuando com um ar chocado e pôs-se de pé.

-Não... espere pela polícia!

Mas Sansone estava já fora do quarto.

Ela esforçou-se para se sentar e vacilou, com a sua visão turva e ameaçando ficar nublada. Quando por fim o quarto ficou mais claro, viu dois paramédicos ajoelhados no sangue de Joyce O'Donnell, com o seu equipamento e embalagens descartáveis espalhados à volta deles. Um electrocardiograma traçado no osciloscópio.

Era uma linha contínua.

Jane enfiou-se no banco de trás do carro-patrulha, ao lado de Maura, e fechou a porta. Aquele sopro breve de ar frio varreu todo o calor do veículo e Maura começou a tremer novamente.

- Tens a certeza de que te estás a sentir bem? - perguntou Jane. - Se calhar devíamos levar-te às urgências.

- Quero ir para casa - disse Maura. - Posso ir para casa agora?

- Há mais alguma coisa de que te lembres? Quaisquer outros pormenores que te estejam a voltar à memória?

- Já te disse, não vi nenhuma cara.

- Só as roupas pretas dele. -Algo preto.

- Algo? Estamos a falar de homem ou de animal?

- Aconteceu tudo tão depressa.

- Anthony Sansone estava vestido de preto.

- Não era ele. Tinha saído do quarto. Foi lá abaixo para receber a ambulância.

- Pois, também é isso que ele diz.

A cara de Jane formava uma silhueta contra as luzes dos carros-patrulha estacionados do outro lado da rua. O habitual comboio de veículos oficiais tinha chegado e a fita demarcando o local do crime flutuava agora entre estacas plantadas no jardim da frente da casa. Maura estava sentada há tanto tempo no carro que o sangue no seu casaco secara, tornando o tecido tão duro como pergaminho. Teria de deitar fora este casaco: não queria voltar a vesti-lo.

Olhou para a casa, onde todas as luzes estavam agora acesas.

- As portas estavam fechadas quando chegámos aqui. Como é que ele entrou?

- Não há sinais de entrada forçada. Só aquela janela partida na cozinha.

- Tivemos de parti-la. Vimos sangue no lava-louças.

- E o Sansone esteve contigo o tempo todo?

- Estivemos juntos toda a noite, Jane.

- Excepto quando ele foi em perseguição. Ele diz que não viu ninguém cá fora. E agitou muito bem a neve quando foi fazer buscas fora da casa. Deu cabo de quaisquer pegadas que poderíamos ter usado.

- Ele não é suspeito neste caso.

- Não estou a dizer que é.

Maura calou-se, pensando de repente em algo que Jane acabara de lhe dizer. Não havia sinais de entrada forçada.

- A Joyce O'Donnell deixou-o entrar. - Olhou para Jane. - Deixou o assassino entrar na sua própria casa.

- Ou esqueceu-se de trancar a porta.

- Claro que trancou a porta. Não era estúpida.

- Também não jogou pelo seguro. Quando se trabalha com monstros, nunca se sabe qual deles nos vai seguir até casa. Estes assassínios tiveram sempre a ver com ela, doutora. Com o primeiro, ele atrai a atenção dela, telefonando-lhe. O segundo é feito mesmo fora da casa onde ela está a jantar. Tudo para chegar a isto. Ao acontecimento principal.

- Porque é que ela o teria deixado entrar?

- Talvez porque julgava que o podia controlar. Pensa em quantas prisões ela entrou, quantas pessoas como Warren Hoyt e Amalthea Lank ela entrevistou. Ela tornou-se próxima e íntima de todas elas.

Ouvindo a referência à sua mãe, Maura vacilou mas não disse nada.

- Ela era como um desses domadores de leões do circo. Trabalha com os animais todos os dias e começa a pensar que tem o controlo deles. Espera que, de cada vez que faz estalar o chicote, eles saltem como bons gatinhos. Talvez pense mesmo que eles a amam. E então, um dia, vira as costas e eles enterram-lhe os dentes no pescoço.

- Sei que nunca gostaste dela - disse Maura. - Mas se estivesses lá... se a tivesses visto morrer... - olhou para Jane. - Ela estava aterrorizada.

- Só porque está morta não vou começar a gostar dela. Ela é agora uma vítima, por isso devo-lhe os meus melhores esforços. Mas não posso deixar de pensar que ela atraiu isto.

Ouviram uma batida no vidro e Jane baixou o vidro da janela. Um polícia espreitou-as e disse:

- Mister Sansone quer saber se já acabaram de o interrogar.

- Não, ainda não acabámos. Diga-lhe para esperar.

- E o médico-legista está a arrumar as suas coisas. Tem mais algumas perguntas para ele?

- Eu ligo-lhe se tiver.

Através da janela, Maura viu o seu colega, Dr. Abe Bristol, sair da casa. Abe iria fazer a autópsia da O'Donnell. Se o que tinha acabado de ver lá dentro o perturbara, não dava sinais disso. Parou no alpendre, abotoando calmamente o seu casaco e calçando luvas quentes enquanto conversava com um polícia. Abe não teve de a ver morrer, pensou Maura. Não tem o sangue dela no seu casaco.

Jane abriu a porta do carro e um novo golpe de ar frio soprou lá para dentro.

- Venha, doutora - disse ela, saindo do carro. - Vamos levá-la a casa.

- O meu carro está ainda estacionado em Beacon Hill.

- Pode preocupar-se com o seu carro mais tarde. Arranjei-lhe uma boleia.

- Jane virou-se e chamou. - Padre Brophy. Ela está pronta para sair daqui.

Só então Maura reparou nele, parado nas sombras do outro lado da casa. Ele veio ter com elas, uma silhueta alta cujo rosto assumia feições vacilantes só quando passava pelas luzes bailarinas dos carros-patrulha.

- Tens a certeza de que te sentes suficientemente bem? - perguntou ele enquanto a ajudava a sair do carro. - Não queres ir ao hospital?

- Por favor, leva-me só para casa.

Embora ele lhe oferecesse o braço para se apoiar, Maura não o aceitou, manteve as mãos metidas nos bolsos enquanto andavam para o carro dele. Ela conseguia sentir os olhares dos agentes da polícia a observá-los. Ali vai a Dr.a Isles e aquele sacerdote, novamente juntos. Haveria ali algum que não tivesse reparado, que não tivesse feito perguntas a respeito deles?

Não há nenhuma maldita coisa sobre a qual valha a pena fazerem-se perguntas.

Escorregou para o banco da frente do carro dele e ficou a olhar em frente enquanto ele ligava o motor.

- Obrigada - disse.

- Tu sabes que eu faria isto por ti num instante.

- Foi a Jane que te chamou?

- Ainda bem que o fez. Tu precisas de um amigo que te leve a casa esta noite. E não de um polícia que mal conheces. - Afastou o carro do passeio e as luzes berrantes dos veículos das urgências desapareceram atrás deles.

- Tu estiveste demasiado próxima esta noite - disse ele em voz baixa.

- Podes crer que não era essa a minha intenção.

- Não devias ter entrado naquela casa. Devias ter chamado a polícia.

- Podemos falar de outra coisa?

- Haverá qualquer coisa de que possamos ainda falar, Maura? Ou é assim que vai ser a partir de agora? Tu não me visitares, não atenderes os meus telefonemas?

Ela olhou finalmente para ele.

- Não estou a ficar mais nova, Daniel. Tenho quarenta e um anos, o meu único casamento foi um desastre espectacular e tenho um talento especial para me envolver em casos perdidos. Eu quero casar-me. Eu quero ser feliz. Não posso dar-me ao luxo de perder tempo em relações que não vão a lado nenhum.

- Mesmo que a amizade, os sentimentos, sejam verdadeiros?

- As amizades desfazem-se o tempo todo. Tal como os corações.

- Sim - disse ele e suspirou. - Isso é verdade. - Continuaram a andar um momento em silêncio. Então ele disse. - Nunca foi minha intenção dar-te um desgosto.

- Não deste.

- Mas magoei-te. Sei disso.

- Magoámo-nos um ao outro. Tivemos de o fazer. - Fez uma pausa e acrescentou amargamente. - É o que o teu Deus todo-poderoso exige, não é? - As palavras dela pretendiam ferir e, pelo súbito silêncio dele, soube que tinham atingido o alvo. Ele não disse nada enquanto se aproximavam do bairro dela, enquanto estacionava na entrada dos carros da casa dela e desligava o motor. Ficou ali sentado um instante e depois virou-se para ela.

- Tens razão - disse. - O meu Deus exige demasiado. - E puxou-a para ele.

Ela devia ter resistido, devia-o ter afastado e saído do carro. Mas não fez isso, porque há muito desejava este abraço, este beijo. E mais, muito mais. Isto era uma loucura: nunca poderia dar certo. Mas nem o bom senso nem o Deus dele estavam agora entre eles.

Não nos deixes cair em tentação. Eles beijaram-se desde o carro até à porta principal da casa dela. Livra-nos do mal. Palavras fúteis, um mero castelo de areia contra a implacável maré. Entraram na casa. Ela não acendeu a luz e, enquanto se encontravam no vestíbulo às escuras, a escuridão parecia aumentar o som áspero das respirações deles, o frufru da lã. Ela soltou o casaco manchado de sangue, que caiu no chão formando um monte preto. Só a luz fraca que entrava pelas janelas iluminava o corredor. Não havia luzes para iluminar o pecado deles, nem outros olhos que testemunhassem a sua queda em desgraça.

Ela foi à frente para o quarto. Para a sua cama.

Durante um ano eles tinham andado às voltas nesta dança, cada passo aproximando-os deste momento. Ela conhecia o coração deste homem e ele conhecia o dela, mas a carne dele era a de um estranho, nunca antes tocada, nunca saboreada. Os dedos dela roçaram por pele quente e desceram pelo contorno da espinha dele, tudo isso um novo território que ela ansiava explorar.

O resto das roupas deles escorregou para o chão: a última oportunidade de voltarem atrás desapareceu.

- Maura - susssurrou ele, enquanto lhe beijava o pescoço, os seios. - Minha Maura. - As suas palavras eram tão suaves como as de uma oração, não ao seu Senhor, mas a ela. Maura não sentiu nenhuma culpa quando o recebeu nos seus braços. Não era o voto dela que era quebrado nem a consciência dela que iria sofrer. Esta noite, Deus, neste momento, ele é meu, pensou, rejubilando com a sua vitória enquanto Daniel gemia contra ela, enquanto ela envolvia as suas pernas em torno dele, atormentando-o, incitando-o. Eu tenho o que tu, Deus, nunca lhe podes dar. Tiro-o de ti. Reclamo-o para mim. Vai em frente e convoca todos os teus demónios: estou-me nas tintas.

Esta noite, Daniel também estava.

Quando por fim os corpos deles se libertaram, ele desabou nos braços dela. Durante muito tempo ficaram deitados em silêncio. Através da luz que vinha das janelas, ela conseguiu ver o brilho fraco dos olhos dele, fixados no escuro. Não a dormir mas a pensar. Talvez arrependido. À medida que os instantes passavam, ela já não conseguia aguentar esse silêncio.

- Estás arrependido? - perguntou finalmente.

- Não - sussurrou ele. Os dedos dele deslizaram pelo braço dela.

- Porque é que não estou convencida disso?

- Precisas de estar?

- Quero que estejas contente. O que fizemos é natural. É humano. - Fez uma pausa e disse, suspirando. - Mas talvez isso seja uma má desculpa para o pecado.

- Não era nisso que eu estava a pensar.

- Em que é que estás a pensar?

Ele deu-lhe um beijo na testa, o seu hálito aquecendo-lhe o cabelo.

- Estava a pensar no que acontece a seguir.

- O que é que queres que aconteça?

- Não quero perder-te.

- Não tens de me perder. A escolha é tua.

- A minha escolha - disse ele em voz baixa. - É como ter de escolher entre inspirar e expirar. - Rolou de costas. Por instantes ficou calado. - Creio que já te contei - disse ele - como é que fiz os meus votos.

- Disseste que a tua irmã estava a morrer. Com leucemia.

- E fiz um acordo. Um negócio com Deus. Ele cumpriu o prometido e Sophie está agora viva. Eu também cumpri a minha parte do acordo.

- Só tinhas catorze anos. Eras demasiado novo para comprometer o resto da tua vida.

- Mas eu fiz essa promessa. E posso fazer tanto bem em nome dele, Maura. Tenho sido feliz mantendo essa promessa.

- E depois conheceste-me. Ele suspirou.

- E depois conheci-te.

- Tens de escolher, Daniel.

- Ou tu afastas-te da minha vida. Eu sei.

- Não quero fazer isso. Ele olhou para ela.

- Então não faças, Maura! Por favor. Nestes últimos meses sem ti tenho andado perdido no deserto. Senti-me tão culpado por te desejar. Mas só pensava em ti.

- Então onde é que isso me leva, se ficar na tua vida? Tu tens de manter a tua Igreja mas o que é que eu vou ter? - Ela ficou de olhos postos na escuridão. - Nada mudou realmente, pois não?

- Tudo mudou. - Estendeu a mão para a dela. - Eu amo-te. Mas não o suficiente. Não tanto como amas o teu Deus.

No entanto, deixou que ele a puxasse novamente para os seus braços. Retribuiu os beijos dele com os seus. Desta vez o seu acto de amor não foi uma união terna: este acasalamento foi ardente, uma colisão de corpos. Não foi amor, foi punição. Esta noite tinham-se usado um ao outro. Se ela não podia ter amor, então teria luxúria. Dar-lhe algo para se lembrar, que o perseguisse naquelas noites em que Deus não fosse suficiente. Isto é o que deixarás de ter quando me deixares. Isto é o Paraíso de que te afastarás.

Antes da alvorada, ele afastou-se mesmo. Ela sentiu-o acordar a seu lado, e depois a sentar-se lentamente no outro lado da cama e começar a vestir-se. Mas claro: era domingo de manhã e o rebanho devia ser guardado.

Ele inclinou-se para lhe beijar o cabelo.

- Tenho de partir - sussurrou.

- Eu sei.

- Amo-te, Maura. Nunca pensei que diria isto a uma mulher. Mas estou a dizê-lo agora. - Acariciou-lhe a face e ela virou-se, para que ele não visse as lágrimas que lhe brotavam dos olhos.

- Deixa-me fazer-te um café - disse ela, começando a sentar-se.

- Não, fica quentinha na cama. Eu saio sozinho. - Outro beijo e ele pôs-se de pé. Ela ouviu-o andar para o corredor e a porta da frente a fechar-se.

Portanto, finalmente acontecera. Ela tinha-se tornado mais outro lugar-comum. Eva com a sua maçã. A tentadora seduzindo um homem santo para o pecado. Desta vez, a serpente que os seduzira não era Satanás, mas os seus próprios corações solitários. Você queria encontrar o Diabo, Mr. Sansone. Basta olhar para mim.

Olhe para cada um de nós.

Lá fora, o céu iluminou-se lentamente para uma alvorada fria e clara. Ela afastou os lençóis e o odor dos actos de amor deles desprendeu-se do linho quente: o poderoso odor do pecado. Não tomou um duche para o tirar de si, vestiu apenas um roupão, enfiou uns chinelos e foi para a cozinha fazer café. Junto do lava-louças, enchendo o jarro de água, olhou lá para fora e viu trepadeiras de clematite cristalizadas com o gelo, um rododendro aconchegado com folhas enroladas, e não precisou de olhar para um termómetro para saber que hoje o frio iria ser brutal. Imaginou os paroquianos de Daniel apertando os seus casacos enquanto saíam dos carros e se encaminhavam para a Igreja de Nossa Senhora da Luz Divina, enfrentando este domingo frio pelas edificantes palavras do padre Brophy. E o que é que lhes iria dizer esta manhã? Iria confessar ao seu rebanho que mesmo ele, o pastor deles, se tinha perdido no caminho?

Ligou a máquina de café e foi à porta para ir buscar o jornal. Saindo lá para fora, ficou impressionada com o frio. Queimou-lhe a garganta, picou-lhe as narinas. Não perdeu tempo a apanhar o jornal, que tinha aterrado no caminho da entrada, depois virou-se e subiu a correr os degraus do alpendre. Estava a deitar a mão à maçaneta da porta quando ficou de repente parada, com o olhar fixo na porta.

Nas palavras, nos símbolos, ali rabiscados.

Virou-se de repente, esquadrinhando freneticamente a rua. Viu raios de sol a fazer brilhar o pavimento gelado, ouviu apenas o silêncio de uma manhã de domingo.

Entrou apressadamente em casa, fechou a porta com força e correu o ferrolho. Depois correu para o telefone e ligou para Jane Rizzoli.

 

- Tens a certeza de que não ouviste nada ontem à noite? Pegadas no alpendre, algo invulgar? - perguntou Jane.

Maura estava sentada no sofá, tremendo apesar de ter vestido uma camisola e calças de lã. Não tinha tomado o pequeno-almoço, nem sequer tinha servido a si mesma uma chávena de café, mas não sentia o menor sinal de fome. Durante a meia hora antes de Jane e Frost chegarem, Maura ficara à janela da sua sala de estar, vigiando a rua, atenta a qualquer ruído, seguindo com os olhos cada carro que passava. O assassino sabe onde vivo. Sabe o que aconteceu ontem à noite, no meu quarto.

Doutora?

Maura ergueu os olhos.

- Não ouvi nada. A inscrição estava ali, na minha porta, quando acordei. Quando fui lá fora para ir buscar o meu... - Ela vacilou, com o coração subitamente a bater com força.

O seu telefone estava a tocar. Frost levantou o auscultador.

- Residência Isles. Fala o detective Frost. Lamento, Mister Sansone, mas agora estamos com um problema entre mãos e esta não é uma altura conveniente para o senhor falar com ela. Eu digo-lhe que telefonou.

Jane voltou a olhar para Maura.

- Tens a certeza de que a inscrição não estava já na tua porta quando chegaste a casa ontem à noite?

- Não a vi nessa altura.

- Usaste a porta da frente para entrar em casa?

- Usei. Normalmente entro pela garagem. Mas o meu carro ainda está em Beacon Hill.

- O padre Brophy acompanhou-te até à porta?

- Estava escuro, Jane. Não teríamos visto a inscrição. - Estávamos apenas concentrados um no outro. Só pensávamos numa coisa, em chegarmos ao meu quarto.

Frost disse.

- Vou dar uma volta lá por fora. Ver se há algumas pegadas. - Saiu pela porta principal. Embora ele estivesse agora a caminhar mesmo junto à casa, o som dos seus passos não atravessava as janelas de vidro duplo. Na noite passada, um intruso podia ter andado mesmo ao lado do seu quarto que ela não teria ouvido nada.

- Pensas que ele te seguiu até casa ontem à noite? - perguntou Jane.

- Desde a casa da O'Donnell?

- Não faço ideia. Podia tê-lo feito. Mas eu estive presente nos três locais de crime. No de Lori-Ann Tucker. No de Eve Kassovitz. Em qualquer dessas noites ele podia ter-me visto.

- E ter-te seguido até casa.

Maura abraçou-se a si mesma, tentando reprimir os seus tremores.

- Nunca dei por isso. Nunca percebi que estava a ser vigiada.

- Tens um sistema de alarme. Usaste-o na noite passada? -Não.

- Porquê?

- Eu... eu simplesmente esqueci-me de o ligar. - Tinha outras coisas na minha cabeça.

Jane sentou-se na cadeira diante dela.

- Porque é que ele iria desenhar aqueles símbolos na sua porta? O que é que achas que significam?

- Como é que eu poderia saber?

- E a mensagem que ele deixou... é a mesma que deixou no quarto de Lori-Ann Tucker. Só que desta vez não se deu ao trabalho de a escrever em latim. Desta vez quis ter a certeza de que iríamos entender exactamente o que ele queria dizer. - Eu pequei. - Jane fez uma pausa. - Porquê dirigir estas palavras em especial para ti?

Maura não disse nada.

- Achas que elas eram destinadas a ti? - O olhar de Jane estava de repente vigilante, sondando.

Ela conhece-me demasiado bem, pensou Maura. Ela percebe que não lhe estou a contar a história toda. Ou se calhar captou o perfume da luxúria na minha pele. Eu devia ter tomado um duche antes de eles chegarem cá: devia ter feito desaparecer o odor de Daniel.

Maura pôs-se de pé bruscamente.

- Não me consigo concentrar - disse ela. - Preciso de uma chávena de café. - Virou-se e dirigiu-se à cozinha. Aí atarefou-se deitando café em canecas, abrindo o frigorífico para ir buscar natas. Jane tinha-a seguido até à cozinha, mas Maura evitou olhar para ela. Colocou uma caneca fumegante diante de Jane e depois virou-se para a janela enquanto bebia, atrasando o mais que podia a revelação da sua vergonha.

- Há alguma coisa que me queiras contar? - perguntou Jane.

- Já te contei tudo. Acordei esta manhã e encontrei aquela inscrição na minha porta. Não sei o que hei-de dizer mais.

- Depois de teres saído da casa da O'Donnell, o padre Brophy trouxe-te directamente para casa?

-Sim.

- E não viste nenhum carro a seguir-vos? -Não.

- Bom, talvez o padre Brophy tenha reparado nalguma coisa. Vou ter de ver o que é que ele se lembra.

Maura interrompeu-a.

- Não precisas de falar com ele. Quer dizer, se ele tivesse reparado nalguma coisa ontem à noite devia ter-me dito.

- Mesmo assim tenho de lhe perguntar. Maura virou-se e encarou Jane.

- É domingo, sabes?

- Eu sei que dia é.

- Ele tem serviços religiosos.

Jane tinha semicerrado os olhos e Maura sentiu as suas faces afogueadas.

- O que é que aconteceu ontem à noite? - perguntou Jane.

- Já te disse. Vim directamente da casa da O'Donnell para aqui.

- E ficaste aqui dentro o resto da noite?

- Não saí de casa.

- E o padre Brophy saiu?

A pergunta, feita tão objectivamente, sobressaltou Maura, deixando-a sem palavras. Um instante depois, afundou-se numa cadeira junto da mesa da cozinha mas não disse nada, ficando apenas de olhos postos no seu café.

- Quanto tempo é que ele ficou? - perguntou Jane. Continuava a não haver emoção na sua voz, continuava a ser a mulher-polícia, embora Maura soubesse que havia censura atrás dessa pergunta e a culpa apertou a mão em torno da sua garganta.

- Ficou a maior parte da noite.

- Até que horas?

- Não sei. Ainda estava escuro quando ele saiu.

- E o que é que fizeram enquanto ele estava aqui?

- Isso não é relevante.

- Sabes que é. Estamos a falar do que o assassino pode ter visto através das janelas. O que o pode ter inspirado para escrever aquelas palavras na porta. As luzes da sala de estar estiveram acesas toda a noite? Tu e o Brophy estiveram ali sentados, a conversar?

Maura soltou um suspiro.

- Não. As luzes... estavam apagadas.

- A casa estava às escuras. -Sim.

- E alguém que estivesse lá fora, observando as tuas janelas, iria supor...

- Tu sabes que raio iria supor.

- E teria razão?

Maura olhou-a nos olhos.

- Eu estava de cabeça perdida ontem à noite, Jane! O Daniel estava ali por minha causa. Sempre esteve ali por minha causa. Não planeámos que isto acontecesse. Foi a única vez... a única vez... - A sua voz esmoreceu.

- Eu não queria ficar sozinha.

Jane também se sentou à mesa.

- Sabes, aquelas palavras assumem um novo significado. Eu pequei.

- Todos nós pecámos - replicou Maura. - Toda a gente.

- Não estou a criticar-te, certo?

- Sim, estás. Pensas que não consigo perceber isso na tua voz?

- Se te estás a sentir culpada, não é por causa de alguma coisa que eu tenha dito.

Maura olhou também para o olhar implacável de Jane e pensou, Ela tem razão, claro. A minha culpa só se deve a mim.

- Vamos ter de falar com o padre Prophy por causa disto, sabes. Por causa do que aconteceu ontem à noite.

Maura soltou um suspiro resignado.

- Por favor, quando falares com ele, sê discreta.

- Não costumo andar com as câmaras de TV atrás de mim, certo?

- O detective Frost não tem de saber disto.

- Claro que tem. É meu parceiro. Maura dexou cair a cabeça nas mãos.

- Oh, Deus.

- Isto é relevante para o caso, e tu sabes que é assim. Se eu não o contasse ao Frost ele teria todo o direito de falar em obstrução da justiça.

Portanto não vou ser capaz de voltar a olhar para o Frost sem sentir um reflexo da minha própria culpa, pensou Maura, encolhendo-se ao pensar na reacção de Frost. A reputação de alguém era uma coisa tão frágil: uma racha minúscula e logo se desintegrava. Durante dois anos, tinham-na olhado como a rainha dos mortos, a imperturbável médica-legista que podia olhar sem vacilar para visões que davam a volta ao estômago mesmo aos investigadores mais experientes. Agora olhariam para ela e veriam as fraquezas, as falhas de uma mulher solitária.

Ouviram-se passos no alpendre. Era Frost, de regresso à casa. Ela não queria estar presente quando ele soubesse a verdade sórdida. O tenso e rígido Barry Frost iria ficar chocado ao ouvir quem é que tinha dormido na sua cama.

Mas ele não era a única pessoa que entrara na casa. Maura ouviu vozes a conversar e ergueu os olhos ao reconhecê-las subitamente quando Anthony Sansone entrou rapidamente na cozinha, seguido por Frost.

- Você está bem? - perguntou-lhe Sansone. Jane disse:

- Esta não é uma boa altura para fazer uma visita, Mister Sansone. Importa-se de ir lá para fora?

Ele não ligou a Jane: o seu olhar estava fixo em Maura. Hoje não estava vestido de preto mas sim em tons de cinzento. Um blusão de tweed, uma camisa cinzenta. Tão diferente de Daniel, pensou ela: não consigo decifrar este homem e deixa-me perturbada.

- Acabei de ver as marcas na sua porta - disse ele. - Quando é que isso aconteceu?

- Não sei - disse ela. - Durante a noite de ontem.

- Eu devia tê-la trazido a casa. Jane interrompeu.

- Acho mesmo que devia sair agora.

- Espera - disse Frost. - Tens de ouvir o que ele diz, a respeito do que está na porta. O que pode significar.

- Eu pequei? Acho que o significado é bastante óbvio.

- Não são as palavras - disse Sansone. - Os símbolos por baixo delas.

- Já sabemos do olho que tudo vê. O seu amigo Oliver Stark explicou isso.

- Pode ter-se enganado.

- Não concorda que seja o olho de Hórus?

- Penso que pode representar algo completamente diferente. - Olhou para Maura. - Venha até lá fora e eu explico-lhe.

Maura não tinha vontade nenhuma de voltar a enfrentar aquelas palavras acusadoras na sua porta, mas a sua noção de emergência forçou-a a segui-lo. Saindo lá para fora, no alpendre, parou, piscando os olhos com a luz ofuscante do Sol. Estava uma bela manhã de domingo, uma manhã para ficar a beber café e ler o jornal. Em vez disso, sentia medo de ficar na sua própria casa, medo de olhar para a sua porta.

Respirou fundo e virou-se para enfrentar o que havia sido desenhado com ocre, que era a cor do sangue seco. As palavras Eu pequei clamavam para ela, uma acusação que a fazia querer encolher-se, esconder o seu rosto culpado.

Mas não foi nas palavras que Sansone se concentrou. Apontou para os dois símbolos desenhados por baixo delas. O maior, já o tinham visto antes, na porta do jardim dele.

- Isso parece-me exactamente o olho que tudo vê - disse Jane.

- Mas veja este outro símbolo - disse Sansone, apontando para uma figura junto do fundo da porta. Era tão pequeno que quase parecia um acrescento. - Desenhado a ocre, tal como nos locais de crime.

Jane disse.

- Como é que sabe do ocre?

- Os meus colegas têm de ver isto. Para confirmar o que eu julgo representar. - Tirou o telemóvel do bolso.

- Espere - disse Jane. - Isto não é uma exibição pública.

- Sabe interpretar isto, detective? Tem alguma ideia por onde se deve começar? Se quer encontrar este assassino, é melhor que entenda o seu pensamento. Os seus símbolos. - Começou a marcar um número. Jane não o impediu.

Maura agachou-se para poder examinar o desenho no fundo da porta. Viu cornos encurvados, uma cabeça triangular e olhos rasgados.

- Parece um bode - disse ela. - Mas o que é que significa? - Ergueu os olhos para Sansone. Iluminado por trás pela luz forte da manhã, ele era uma figura impressionante, negra e sem rosto.

- Representa Azazel - disse ele. - É um símbolo dos Vigilantes.

- Azazel era o chefe dos Seirim - disse Oliver Stark. - Eles eram demónios em forma de bode que assombravam os desertos antigos antes de Moisés, antes dos faraós. Remontando ao tempo de Lilith.

- Quem é Lilith? - perguntou Frost. Edwina Felway olhou para Frost, espantada.

- Não sabe quem ela é?

Frost fez um encolher de ombros envergonhado.

- Tenho de confessar que não sou tão versado assim na Bíblia.

- Ora, você não vai encontrar Lilith na Bíblia - disse Edwina. - Ela foi banida há muito da doutrina oficial da Igreja, embora tenha um lugar nas legendas hebraicas. Era a primeira mulher de Adão.

- Adão tinha outra mulher?

- Sim, antes de Eva. - Edwina sorriu perante a cara espantada dele.

- O quê, julga que a Bíblia conta a história toda?

Eles estavam sentados na sala de estar de Maura, reunidos à volta da mesinha de café, onde o caderno de desenho de Oliver se encontrava pousado entre chávenas e pratos vazios. Meia hora depois do telefonema de Sansone, Edwina e Oliver tinham chegado ali para examinar os símbolos na porta. Tinham conferenciado apenas alguns minutos no alpendre antes de o frio os ter arrastado para dentro de casa, a fim de tomarem um café quente e formularem algumas hipóteses. Hipóteses que agora impressionavam Maura enquanto intelectual insensível. A sua casa tinha sido marcada por um assassino e estas pessoas estavam calmamente sentadas na sua sala de estar, discutindo a sua bizarra teologia. Olhou de relance para Jane, que tinha uma indisfarçável expressão de estas pessoas são doidas. Mas Frost estava manifestamente fascinado.

- Nunca tinha ouvido dizer que Adão teve uma primeira mulher disse ele.

- Há toda uma história que nunca aparece na Bíblia, detective - disse Edwina -, uma história secreta que só se pode encontrar nas legendas hebraicas e cananitas. Elas falam do casamento entre Adão e uma mulher de espírito livre, uma tentadora sagaz que se recusou a obedecer ao seu marido ou a ficar por baixo dele como uma esposa dócil. Em vez disso exigia sexo louco em todas as posições e ridicularizava-o quando não conseguia satisfazê-la. Ela foi a primeira fêmea verdadeiramente libertada e não tinha medo de buscar os prazeres da carne.

- Ela parece bastante mais divertida do que Eva - disse Frost.

- Mas, aos olhos da Igreja, Lilith era uma abominação, uma mulher que estava para além do controlo dos homens, uma criatura tão insaciável sexualmente que acabou por abandonar o seu velho marido chato, Adão, e fugiu para ter orgias com demónios. - Edwina fez uma pausa. - E como resultado disso deu à luz o mais poderoso de todos os demónios, aquele que tem atormentado a humanidade desde então.

- Não está a falar do Diabo? Sansone disse:

- É uma crença que era comummente aceite na Idade Média: Lilith foi a mãe de Lúcifer.

Edwina fungou.

- Portanto está a ver como a história trata uma mulher decidida? Se ela recusa ser subserviente, se aprecia o sexo um pouco excessivamente, então a Igreja transforma-a num monstro. Passa a ser conhecida como a mãe do Diabo.

- Ou desaparece completamente da história - disse Frost. - Porque é a primeira vez que ouço falar de Lilith. Ou daquela criatura em forma de bode.

- Azazel - disse Oliver. Arrancou o seu último desenho e colocou-o em cima da mesinha para que todos pudessem vê-lo. Era uma versão mais pormenorizada da cara que tinha sido desenhada na porta de Maura: um bode cornudo com olhos rasgados e uma única chama ardendo no alto da sua cabeça. - Os demónios em forma de bode são mencionados no Levítico e em Isaías. Eram criaturas peludas que se divertiam com seres fogosos como Lilith. O nome Azazel remonta aos cananeus, provavelmente uma derivação de um dos nomes dos seus antigos deuses.

- E é a esse que o símbolo na porta se refere? - perguntou Frost.

- Essa seria a minha hipótese.

Jane riu-se, incapaz de conter o seu cepticismo.

- Uma hipótese? Ah, estamos mesmo a esclarecer os factos, não estamos?

Edwina disse:

- Acha que esta discussão é uma perda de tempo?

- Acho que um símbolo é o que quiser tfazer dele. Vocês pensam que é um demónio em forma de bode. Mas para o anormal que desenhou isso pode significar algo completamente diferente. Lembram-se de todo aquele material que você e o Oliver jorraram a respeito do olho de Hórus? As fracções, as fases da Lua? Então tudo isso passa a ser de repente um monte de disparates?

- Eu expliquei-lhe que o olho pode representar diversas coisas - disse Oliver. - O deus egípcio. O olho que tudo vê de Lúcifer. Ou o símbolo maçónico da iluminação, da sabedoria.

- Esses são significados opostos - disse Frost. - O Diabo contra a sabedoria?

- Eles não são nada opostos. Tem de se lembrar do significado do nome Lúcifer. Traduzido, o nome é "Portador da Luz".

- Isso não parece tão maléfico.

- Alguns diriam que Lúcifer não é o mal - disse Edwina -, que ele representa a mente que questiona, o pensador independente, as mesmas coisas que outrora ameaçavam a Igreja.

Jane resmungou.

- Então agora Lúcifer não é um tipo assim tão mau? Só fazia demasiadas perguntas?

-Aquele a quem chama Diabo depende da sua perspectiva - disse Edwina. - O meu falecido marido era antropólogo. Eu vivi em todas as partes do mundo, coleccionei imagens de demónios que pareciam chacais, gatos ou serpentes. Ou mulheres belas. Cada cultura tem a sua ideia própria sobre o aspecto do Diabo. Só há uma coisa em que quase todas as culturas, desde as tribos mais primitivas, estão de acordo: o Diabo existe mesmo.

Maura pensou naquele turbilhão de preto sem rosto no quarto da O'Donnell, na noite passada, e sentiu um arrepio na nuca. Ela não acreditava em Satanás. Mas acreditava no mal. E ontem à noite estive certamente na presença dele. O seu olhar recaiu sobre o desenho de Oliver do bode cornudo.

- Esta coisa... este Azazel... é também um símbolo do Diabo?

- Não - disse Oliver. - Azazel é muitas vezes usado como símbolo dos Vigilantes.

- Quem são esses vigilantes de que têm estado a falar? - perguntou Frost. Edwina olhou para Maura.

- Tem uma Bíblia, Doutora Isles? Maura olhou-a com o sobrolho franzido.

- Tenho.

- Pode ir buscá-la para nós vermos?

Maura dirigiu-se à estante e passou os olhos pela prateleira de cima, buscando a capa encadernada que conhecia tão bem. Tinha sido a Bíblia do seu pai. E Maura não a abria há anos. Tirou-a de lá e entregou-a a Edwina, que folheou as páginas, libertando uma baforada de pó.

-Aqui está. Génesis, capítulo seis. Versículos um e dois: "Como se foram multiplicando os homens na terra, e lhes nasceram filhas, vendo os filhos de Deus que as filhas dos homens eram formosas, tomaram para si mulheres, as que, entre todas, mais lhes agradaram."

- Os filhos de Deus? - perguntou Frost.

- Essa passagem refere-se quase de certeza a anjos - explicou Edwina.

- Diz que anjos desejaram mulheres terrenas, por isso casaram-se com elas. Um casamento entre o divino e o mortal. - Voltou a baixar os olhos para a Bíblia. - E aqui está o versículo quatro: "Ora naquele tempo havia gigantes na terra; e também depois, quando os filhos de Deus possuíram as filhas dos homens, as quais lhes deram filhos; estes foram valentes, varões de renome, na antiguidade." - Edwina fechou o livro.

- O que é que significa isso tudo? - perguntou Frost.

- Diz que tiveram filhos - disse Edwina. - É o único lugar da Bíblia onde estes filhos são mencionados. Esta descendência resultou dos acasalamentos entre humanos e anjos. Foram uma raça mista de demónios chamados Nefilim.

- Também conhecidos como Vigilantes - disse Sansone.

- Encontrará referências a eles noutras fontes anteriores à Bíblia. No Livro de Enoch. No Livro dos Jubileus. São descritos como monstros, gerados por anjos caídos que tiveram relações sexuais com mulheres humanas. O resultado foi uma raça secreta de híbridos que supostamente ainda andam entre nós. Diz-se que essas criaturas têm encanto e talento invulgares, beleza invulgar. Muitas vezes são altos, muito carismáticos. Mas não deixam de ser demónios e servidores das trevas.

- Vocês acreditam mesmo nisso? - perguntou Jane.

- Só lhe estou a dizer o que está nas santas escrituras, detective. Os antigos acreditavam que a humanidade não estava sozinha na terra, que outros chegaram cá antes de nós e que algumas pessoas, hoje, ainda transportam em si a linhagem desses monstros.

- Mas chamou-lhes filhos de anjos.

- Anjos caídos. Imperfeitos e maléficos.

- Portanto essas coisas, esses Vigilantes, são uma espécie de mutantes

- disse Frost -, híbridos.

Edwina olhou para ele.

- Uma subespécie. Violenta e predadora. Para eles, nós somos simples presas.

- Está escrito que, quando o Armagedão chegar - disse Oliver -, quando o mundo tal como o conhecemos acabar, o próprio Anticristo será um dos Nefilim. Um Vigilante.

E a marca deles está na minha porta. Maura fixou os olhos no desenho da cabeça do bode. Pretenderia esse símbolo ser um aviso? Ou um convite?

- Bom - disse Jane e olhou intencionalmente para o relógio. - Isto foi uma utilização realmente valiosa do nosso tempo.

- Continua a não ver a importância disto, não é? - disse Sansone.

- Dá uma boa história para contar à volta da fogueira mas não me faz ficar mais perto do nosso assassino.

- Fá-la entrar na cabeça dele. Diz-nos aquilo em que ele acredita.

- Anjos e demónios em forma de bode. Certo. Ou talvez o nosso assassino só goste de fazer jogos mentais com polícias. Portanto faz-nos perder o nosso tempo andando atrás de ocre e conchas. - Jane pôs-se de pé.

- A equipa deve chegar aqui a qualquer momento. Talvez vocês possam ir todos agora para casa, deixando-nos fazer o nosso trabalho.

- Espere - interrompeu Sansone. - O que é que acabou de dizer sobre conchas?

Jane não lhe ligou e olhou para Frost.

- Podes ligar à equipa forense e descobrir porque é que estão a demorar tanto?

- Detective Rizzoli - disse Sansone -, fale-nos das conchas.

- Você parece ter as suas próprias fontes. Porque é que não lhes pergunta isso?

- Isso pode ser muito importante. Porque é que não nos poupa esse esforço contando-nos?

- Primeiro, diga-me você. Qual é a importância de uma concha?

- Que tipo de concha? Bivalve, cónica?

- Isso adianta alguma coisa?

- Sim.

Jane fez uma pausa.

- É uma espécie de espiral. Um cone, suponho.

- Foi deixada num local de crime?

- Pode dizer isso.

- Descreva a concha.

- Ouça, não tem nada de especial. O tipo com quem falei diz que é uma espécie comum que se encontra em todo o Mediterrâneo. - Calou-se quando o seu telemóvel tocou. - Desculpem - disse ela, e saiu da sala. Durante alguns instantes ninguém disse nada. Os três membros da Fundação Mefisto olharam uns para os outros.

- Bem - disse Edwina em voz baixa -, eu diria que isso encerra a discussão.

- O quê? - perguntou Frost.

- A concha - disse Oliver - está presente no brasão de família do Anthony. Sansone levantou-se da sua cadeira e dirigiu-se à janela. Ficou aí a olhar

lá para fora, com as suas costas largas enquadradas em preto pela janela.

- Os símbolos foram desenhados com ocre vermelho, extraído de Chipre

- disse ele. - Sabe qual é a importância disso, detective Frost?

- Não faço ideia - admitiu Frost.

- Este assassino não está a fazer jogos com a polícia. Está a fazê-los comigo. Com a Fundação Mefisto. - Virou-se e encarou-os, mas o brilho ofuscante da luz matinal tornou a sua expressão impossível de decifrar. - Na véspera de Natal, ele mata uma mulher e deixa símbolos satânicos no local: as velas, o círculo de ocre. Mas a coisa mais importante que ele faz nessa noite é um telefonema para Joyce O'Donnell, um membro da nossa fundação. Isso foi o puxão na nossa manga. Pretendia chamar a nossa atenção.

- A vossa atenção? A mim parece-me que isto teve sempre a ver com a O'Donnell.

- Depois a Eve Kassovitz foi morta no meu jardim. Na noite em que estávamos reunidos.

- Era também a noite em que a O'Donnell era sua convidada para jantar. Foi ela que ele seguiu, que ele vigiava.

- Eu teria concordado consigo ontem à noite. Até então, todos os sinais apontavam para a Joyce como sendo o alvo. Mas estes símbolos na porta da Maura dizem-nos que o assassino não completou a sua obra. Continua à caça.

- Ele sabe de nós, Anthony - disse Edwina. - Está a encurtar o nosso círculo. A Joyce foi a primeira. A questão é, quem será a seguir?

Sansone olhou para Maura.

- Receio que ele pense que você é uma de nós.

- Mas não sou - disse ela. - Não quero ter nada a ver com o vosso delírio em grupo.

- Doutora? - disse Jane. Maura não a tinha ouvido regressar à sala. Jane estava parada à entrada, segurando o seu telemóvel. - Pode vir à cozinha? Precisamos de falar a sós.

Maura levantou-se e seguiu-a pelo corredor.

- O que é? - perguntou assim que entraram na cozinha.

- Podes tratar das coisas para tirar uma folga amanhã? Porque nós as duas precisamos de sair da cidade esta noite. Eu vou a casa fazer um saco com o necessário para uma noite. Volto aqui para te apanhar por volta do meio-dia.

- Estás a dizer-me que devo fugir e esconder-me? Só porque alguém escreveu na minha porta?

- Isto não tem nada a ver com a tua porta. Acabei de receber uma chamada de um polícia do Norte do estado de Nova Iorque. Ontem à noite encontraram o corpo de uma mulher. É claramente um homicídio.

- Porque é que um homicídio em Nova Iorque nos há-de dizer respeito?

- Ela não tinha a mão esquerda.

 

8 de Agosto. Fase da Lua: Quarto Minguante.

Todos os dias Teddy desce até ao lago.

De manhã, ouço o guinchar e o bater do guarda-vento e depois ouço os sapatos dele a descer os degraus do alpendre. Da minha janela vejo-o afastar-se da casa e encaminhar-se para a água, com a cana de pesca pousada no seu ombro magro e a caixa de apetrechos na mão. É um ritual estranho e inútil, acho eu, porque nunca traz os frutos do seu labor. Todas as tardes regressa de mãos vazias mas entusiasmado.

Hoje vou atrás dele.

Ele não me vê enquanto atravessa a floresta em direcção à agua. Mantenho-me suficientemente afastado atrás dele para que não possa ouvir os meus passos. De qualquer modo ele está a cantar, na sua voz aguda e infantil, uma versão desafinada da canção "Kookaburra" e inconsciente do facto de ser vigiado. Chega à beira da água, põe o engodo no anzol e lança a sua linha. A medida que passam os minutos, ele instala-se na margem relvada e olha para uma água tão tranquila que nem sequer o murmúrio do vento agita a superfície espelhada.

A cana de pesca dá um abanão.

Aproximo-me mais quando ele puxa a sua presa. É um peixe acastanhado e contorce-se na linha, cada músculo retorcendo-se num terror mortal. Aguardo o golpe fatal, esse instante sagrado do tempo quando a centelha divina salta para fora. Mas para minha surpresa Teddy agarra a sua presa, tira o anzol da sua boca e suavemente volta a meter o peixe na água. Agacha-se perto dele, murmurando-lhe qualquer coisa, como se pedisse desculpa por ter perturbado a sua manhã.

-Porque é que não ficaste com ele? -pergunto.

Teddy endireita-se de repente, sobressaltado com a minha voz.

Ah diz ele, és tu.

- Deixaste-o ir-se embora.

- Não gosto de matá-los. De qualquer modo era só uma perca.

Portanto voltas a atirá-los para a água?

- Hã-hã. - Teddy volta a meter o isco no anzol e lança-o à água.

- Então para que é que os apanhas?

- É divertido. É como um jogo entre nós. Entre mim e o peixe. Sento-me ao lado dele na margem. Insectos zumbem à volta das nosssas caras e Teddy enxota-os com a mão. Acabou de completar onze anos mas ainda tem a pele perfeitamente macia de uma criança e a penugem dourada de bebé na sua face capta o brilho do sol. Estou suficientemente perto dele para ouvir a sua respiração, para ver o pulsar no seu pescoço fino. Não parece incomodado com a minha presença: na verdade faz-me um sorriso tímido, como se isto fosse um prazer especial, partilhar a manhã de lazer com o seu primo mais velho.

- Queres tentar? - diz ele, oferecendo-me a cana.

Pego nela mas a minha atenção continua posta em Teddy, no fino brilho da sua transpiração na testa, nas sombras feitas pelas suas pestanas.

Um puxão na cana.

Apanhaste um!

Começo a enrolar e os esforços do peixe fazem as minhas mãos suar de expectativa. Consigo sentir as suas sacudidelas, o seu desespero para viver, transmitido através da cana. Por fim sai da água, com a cauda a agitar-se enquanto eu o faço dar uma reviravolta para a margem. Agarro as suas escamas viscosas.

-Agora tira o anzol-diz Teddy. - Mas tem cuidado para não o magoares.

Espreito para dentro da caixa de apetrechos e vejo uma faca.

Ele não consegue respirar fora da água. Despacha-te. Teddy insiste comigo.

Penso em deitar a mão à faca, segurar o peixe ondulante contra a relva e furá-lo atrás das guelras. Penso em abri-lo de alto a baixo até ao ventre. Quero sentir o peixe dar um último estremeção, quero sentir a força da sua vida a saltar directamente para mim num solavanco estimulante: o mesmo solavanco que senti quando tinha dez anos e fiz o juramento de Herem. Quando a minha mãe, por fim, me trouxe para o círculo e me estendeu uma faca. "Chegaste à idade", disse ela. "Está na altura de seres um de nós." Penso no último estremecimento do bode do sacrifício e lembro-me do orgulho nos olhos da minha mãe e dos murmúrios de aprovação no círculo de homens paramentados. Quero voltar a sentir essa emoção forte.

Um peixe não serve.

Retiro o anzol e deixo cair a ondulante perca dentro do lago. Faz um espadanar com a sua cauda e afasta-se rapidamente. O murmúrio de uma brisa agita a água e libelinhas tremem nos juncos. Viro-me para Teddy. E ele diz:

- Porque é que estás a olhar para mim dessa maneira?

 

Quarenta e dois euros em gorjetas: não era uma aquisição nada má para um domingo frio de Dezembro. Enquanto Lily dizia adeus ao grupo da excursão que tinha acabado de conduzir através do Fórum Romano, sentiu uma gota de chuva gelada a cair-lhe na cara. Ela olhou para cima, viu nuvens escuras ameaçadoramente baixas e estremeceu. Amanhã ia certamente precisar de uma gabardina.

Com aquele novo rolo de notas no bolso, encaminhou-se para o local de compras favorito de todos os estudantes somíticos de Roma: a feira da ladra de Porta Portese no Trastavere. Era já uma da tarde e os vendedores deviam estar a fechar as suas tendas mas ela podia ainda ter tempo para conseguir uma pechincha. Na altura em que chegou ao mercado, caía uma chuva miudinha. A Piazza di Porta Portese ressoava com o barulho dos caixotes a serem arrumados nos veículos. Ela não perdeu tempo e deitou a mão a uma camisola de lã em segunda mão por apenas três euros. Tresandava a fumo de cigarro mas uma boa lavagem iria remediar esse problema. Pagou mais dois euros por um impermeável com capuz que estava estragado apenas por uma risca de gordura preta. Agora confortavelmente vestida com as suas novas aquisições e com dinheiro ainda no bolso, deu-se ao luxo de passar os olhos pelo que havia ali.

Vagueou pela estreita passagem entre bancas, parando para remexer em cestas de bijuterias e moedas romanas falsas e prosseguiu em direcção à Piazza Ippolito Nievo e às bancas das antiguidades. Segundo parecia, todos os domingos ela acabava sempre nesta secção do mercado porque eram as coisas velhas, as coisas antigas, que realmente a interessavam. Um pedaço de tapeçaria medieval ou um simples bocado de bronze podia fazer o seu coração bater mais depressa. Quando chegou à zona das antiguidades, a maior parte dos vendedores já estavam a embalar as suas mercadorias e ela viu apenas algumas bancas ainda abertas, com os seus artigos expostos à chuva fina. Deambulou pelas magras ofertas, pelos vendedores mal-humorados e cansados e estava quase a sair da piazza quando o seu olhar caiu sobre uma pequena caixa de madeira. Parou, de olhos fixos nela.

Três cruzes invertidas estavam talhadas na tampa.

O seu rosto molhado pela chuva ficou subitamente gelado. Então reparou que os fechos da caixa estavam virados para ela e, com um riso envergonhado, virou a caixa para a sua orientação adequada. As cruzes ficaram viradas para cima. Quando se procura com muito esforço o mal, acabamos por vê-lo em todo o lado. Mesmo quando não está lá.

- Está à procura de artigos religiosos? - perguntou o vendedor em italiano.

Ela levantou a cabeça e viu a cara enrugada do homem, com os olhos quase ocultos por pregas de pele.

- Estou só a passar os olhos, obrigada.

- Veja. Há mais. - Colocou uma caixa diante dela e ela viu rosários de contas, uma escultura de madeira da Virgem e livros velhos, com as páginas encaracoladas pela humidade. - Veja, veja! Demore o tempo que quiser.

À primeira vista, não viu nada nessa caixa que a interessasse. Então olhou melhor para a lombada de um dos livros. O título estava gravado a ouro na encadernação: O Livro de Enoch.

Pegou nele e abriu-o na página inicial. Era a tradução inglesa feita por R.. Charles, uma edição de 1912 publicada pela Oxford University Press. Há dois anos, num museu de Paris, tinha visto um fragmento com vários séculos da versão etíope. O Livro de Enoch era um texto antigo, fazendo parte da literatura apócrifa.

- É muito antigo - disse o vendedor.

- Sim - murmurou ela -, é. -Diz aí 1912.

E estas palavras são ainda mais antigas, pensou ela, ao mesmo tempo que passava os dedos pelas páginas amarelecidas. Este texto era anterior em duzentos anos ao nascimento de Cristo. Estas eram histórias de um tempo anterior a Noé e à sua arca, anterior a Matusalém. Ela folheou as páginas e parou numa passagem que tinha sido sublinhada a tinta.

Espíritos maléficos provieram dos seus corpos, porque eles nasceram de homens e dos santos Vigilantes é o seu início e origem primitiva; eles serão espíritos malignos na terra e espíritos malignos serão chamados.

- Eu tenho muitas mais das coisas dele - disse o vendedor. Olhou para ele.

- De quem?

- Do homem que era o proprietário desse livro. Isto é tudo dele. - Fez um gesto abrangente para as caixas. - Ele morreu no mês passado e agora tem de se vender tudo. Se está interessada em artigos desses, tenho outro igual a esse. - Baixou-se para mexer noutra caixa e apareceu com um livro delgado, encadernado, que tinha a capa estragada e manchada. - É do mesmo autor

- disse ele. - R.. Charles.

Não era o mesmo autor, pensou ela, mas sim o mesmo tradutor. Era uma edição de 1913 do Livro dos Jubileus, mais outro texto anterior à era cristã. Embora o título Jubileus lhe fosse familiar, nunca tinha lido este livro. Levantou a capa e as páginas abriram-se naturalmente no capítulo dez, versículo cinco, uma passagem que estava igualmente sublinhada a tinta:

E tu sabes como os Vigilantes, os pais destes espíritos, agiram no meu tempo: e quanto a estes espíritos que estão vivos, aprisiona-os e mantémnos no lugar da condenação, e não deixes que eles tragam destruição aos filhos do teu servidor, meu Deus; porque eles são malignos e criados para destruir.

Na margem, escritas com a mesma tinta, estavam as palavras: Os filhos de Seth. As filhas de Caim.

Lily fechou o livro e de repente reparou nas manchas castanhas da capa de couro. Sangue?

- Quer ficar com ele? Lily olhou para ele.

- O que é que aconteceu a este homem? O proprietário destes livros?

- Já lhe disse. Morreu.

- Como? Encolheu os ombros.

- Vivia sozinho. Era muito velho, muito estranho. Encontraram-no fechado dentro do seu apartamento, com todos estes livros empilhados contra a porta. Portanto nem sequer conseguia sair. Louco, eh?

Ou aterrorizado, pensou ela, com o que podia entrar.

- Eu faço-lhe um bom preço. Quer o livro?

Ela olhou para o segundo livro, pensando no seu dono, jazendo morto e barricado no seu apartamento atravancado, e quase conseguiu sentir o cheiro de carne em decomposição a ressaltar das páginas. Ainda que sentisse repulsa pelas manchas na encadernação, desejava esse livro. Queria saber porque é que o dono dele tinha rabiscado aquelas palavras nas margens e se escrevera algo mais.

- Cinco euros - disse o vendedor.

Desta vez não regateou, pagou simplesmente o preço pedido e afastou-se com o livro.

Estava a chover mais quando subiu a húmida escada para o seu apartamento. Choveu toda a tarde enquanto ela estava sentada a ler à luz triste e insípida que vinha da janela. Leu coisas sobre Seth. O terceiro filho de Adão, Seth gerou Enos, que gerou Kenan. Era a mesma linhagem eminente da qual mais tarde saíram os patriarcas Jared e Enoch, Matusalém e Noé. Mas desta mesma linhagem também saíram filhos corruptos, filhos perversos que se acasalaram com as filhas de um antepassado homicida.

As filhas de Caim.

Lily deteve-se numa outra passagem sublinhada, as palavras há muito marcadas pelo homem cuja presença fantasmática agora parecia pairar sobre o seu ombro, ansioso por partilhar os seus segredos, para murmurar os seus avisos.

E a desordem aumentou na terra e toda a carne se foi corrompendo, tanto a dos homens como a do gado e animais e aves e tudo o que caminha sobre a terra, todos eles corromperam os seus caminhos e costumes, e começaram a devorar-se uns aos outros, e a desordem aumentou na terra e cada ideia dos pensamentos de todos os homens foi assim continuamente maléfica.

A luz do dia estava a desvanecer-se. Ela tinha estado sentada há tanto tempo, que deixara de sentir as pernas. Lá fora, a chuva continuava a bater na janela e nas ruas de Roma o tráfego rugia e buzinava. Mas aqui, no seu quarto, ela estava sentada num silêncio entorpecido. Um século antes de Cristo, antes dos Apóstolos, estas palavras já eram antigas, escritas sobre um terror tão antigo que hoje a humanidade já não recordava, já não assinalava a sua presença.

Voltou a baixar os olhos, mais uma vez, para o Livro dos Jubileus, para as agoirentas palavras de Noé, ditas aos seus filhos:

Porque eu vejo, e vede que os demónios começaram as suas seduções contra vós e contra os vossos filhos e agora temo por vossa causa, que depois da minha morte ireis derramar o sangue de homens sobre a terra e que vós, também, ireis ser exterminados da face da terra.

Os demónios estão ainda entre nós, pensou ela. E o derramamento de sangue já começou.

 

Jane e Maura seguiram de carro para oeste pela auto-estrada de Massachusetts, com Jane ao volante enquanto atravessavam a grande velocidade uma paisagem desolada de neve e árvores despidas de folhas. Mesmo nesta tarde de domingo partilharam a auto-estrada com um comboio de camiões monstruosos que enfezavam o Subaru de Jane quando ela acelerava para os contornar, como um insecto temerário. Era melhor não olhar. Maura preferiu concentrar-se nas anotações de Jane. A escrita dela era feita de rabiscos apressados mas não menos legível do que os rabiscos dos médicos que Maura aprendera há muito a decifrar.

Sarah Parmley, 28 anos. Vista pela última vez a 23/12 a pagar a conta no Motel Oakmont.

- Ela desapareceu há duas semanas - disse Maura. - E só agora é que descobriram o seu corpo?

- Foi encontrada numa casa devoluta. Aparentemente, é algo isolada. O guarda reparou no carro dela estacionado cá fora. Também encontrou a porta da frente aberta, por isso entrou para ver o que se passava. Foi ele que descobriu o corpo.

- O que é que a vítima estava a fazer numa casa vazia?

- Ninguém sabe. Sarah chegou à vila a 20 de Dezembro para acompanhar o enterro da tia. Toda a gente presumiu que ela tinha regressado à sua casa na Califórnia logo após o serviço fúnebre. Mas depois o patrão dela em San Diego começou a ligar, à procura dela. Mesmo então ninguém na vila pensou na possibilidade de Sarah nunca se ter ido embora.

- Olha para o mapa, Jane. Do Norte do estado de Nova Iorque até Boston... os locais de crime estão afastados quatrocentos e oitenta quilómetros. Porque é que o assassino iria levar a mão dela para tão longe? Talvez não seja dela.

- É a mão dela. Eu sei que é. Digo-lhe que as radiografias vão encaixar-se como as peças de um puzzle.

- Como é que podes ter tanta certeza?

- Vê o nome da vila onde o corpo de Sarah foi encontrado.

- Purity, Nova Iorque. É um nome raro mas não me diz nada.

- Sarah Parmley cresceu em Purity. Terminou o curso na escola secundária dela.

- E então?

- Então adivinha para onde é que a Lori-Ann foi fazer a escola secundária?

Maura olhou para ela, espantada.

- Ela era da mesma vila?

-Acertaste. E a Lori-Ann Tucler também tinha vinte e oito anos. Há doze anos, devem ter terminado o curso na mesma turma da escola secundária.

- Duas vítimas que cresceram na mesma vila e frequentaram a mesma escola. Deviam ter-se conhecido.

- E talvez fosse aí que este assassino as encontrou. Foi assim que as escolheu. Talvez estivesse obcecado por elas desde a escola secundária. Talvez elas o tivessem tratado com desdém e ele passou os últimos doze anos a pensar em maneiras de se vingar delas. Então, de repente, Sarah aparece em Purity para o funeral da tia e ele vê-a. Fica novamente furioso. Mata-a e corta a mão dela como recordação. Divertiu-se tanto a fazer isso que resolve fazê-lo outra vez.

- E então vai de carro até Boston para matar Lori-Ann? É uma longa caminhada para ir atrás de uma emoção forte.

- Mas não para uma boa vingança à moda antiga. Maura olhou para a estrada, pensando.

- Se tinha tudo a ver com vingança, porque é que ele telefonou à Joyce O'Donnell naquela noite? Porque é que virou a sua raiva contra ela?

- Só ela poderia responder a isso. E ela recusou-se a partilhar o segredo connosco.

- E porquê escrever na minha porta? Qual era a mensagem que queria deixar aí?

- Estás a falar de Eu pequei?

Maura corou. Fechando a pasta, ficou ali sentada com as mãos cerradas a pressionar o ficheiro. Portanto tinha-se voltado a isso outra vez. O único assunto de que ela não queria falar.

- Eu falei disso ao Frost - disse Jane.

Maura não disse nada, ficou apenas com o olhar fixo na estrada em frente.

- Ele precisava de saber. Já falou com o padre Brophy.

- Devias-me ter deixado falar primeiro com o Daniel.

- Porquê?

- Para que ele não fosse apanhado completamente de surpresa.

- Que nós sabemos de vocês os dois?

- Não digas isso com um ar tão crítico.

- Não me apercebi que o tivesse feito.

- Sinto-o na tua voz. Não preciso disso.

- Então é bom que não tivesses ouvido o que o Frost tinha a dizer sobre essa questão.

- Julgas que isto não acontece constantemente? As pessoas apaixonam-se, Jane. Cometem erros.

- Mas não tu - Jane parecia quase furiosa, traída. - Sempre pensei que eras mais esperta do que isto.

- Ninguém é assim tão esperto.

- Isto não pode ir a lado nenhum e sabes disso. Se alguma vez esperaste que ele casasse contigo...

- Eu já tentei o casamento, lembras-te? Foi um sucesso enorme.

- E o que é que achas que vai sair daqui? -Não sei.

- Bem, eu sei. Primeiro haverá toda a espécie de murmúrios. Os teus vizinhos perguntando-se porque é que o carro daquele padre está sempre estacionado em frente da tua casa. Depois vocês vão ter de se esgueirar para fora da cidade só para passarem algum tempo juntos. Mas finalmente alguém vai acabar por vos ver juntos. E então começa o mexerico. Vai ficar cada vez mais incómodo. Embaraçoso. Quanto tempo é que vão ser capazes de aguentar isso? Quanto tempo antes de ele ser forçado a fazer uma escolha?

- Não quero falar disso.

- Julgas que ele te vai escolher a ti?

- Pára com isso, Jane.

- Portanto julgas isso? - A pergunta era desnecessariamente brutal e, por instantes, Maura pensou sair na próxima cidade, alugar um carro e voltar para casa sozinha.

- Tenho idade suficiente para fazer as minhas próprias escolhas - disse ela.

- Mas qual vai ser a escolha dele?

Maura virou a cabeça e ficou a ver pela janela os campos cobertos de neve, postes de vedação caídos e meio enterrados nos bancos de neve. Se ele não optar por mim, ficarei realmente muito espantada? Ele pode dizer-me vezes sem conta que me ama muito. Mas alguma vez deixará a Igreja por mim?

Jane suspirou.

- Desculpa.

- É a minha vida, não é a tua.

- Pois, tens razão. É a tua vida. - Jane abanou a cabeça e riu-se. - Bolas, o mundo inteiro está a ficar completamente doido. Já não posso contar com coisa nenhuma. Nem com uma maldita coisa. - Continuou a guiar por instantes em silêncio, piscando os olhos para o pôr do Sol. - Não te falei das minhas próprias notícias maravilhosas.

- Que notícias?

- Os meus pais separaram-se. Finalmente Maura olhou para ela.

- Quando é que isso aconteceu?

- Logo a seguir ao Natal. Trinta e sete anos de casamento e, de repente, o meu pai começa a farejar uma louraça lá do trabalho.

- Lamento muito.

- Depois esta coisa contigo e com o Brophy: é como se toda a gente tivesse ficado louca por sexo. Tu. O idiota do meu pai. Até mesmo a minha mãe. - Fez uma pausa. - Vince Korsak convidou-a a saírem juntos. Isso diz bem como tudo se tornou estranho. - Subitamente Jane soltou um grunhido. - Oh, Deus. Acabei de me lembrar disso. Já pensaste que ele pode acabar por ser meu padrasto!

- O mundo não ficou assim tão louco.

- Pode acontecer. - Jane estremeceu. - Fico arrepiada só por pensar neles os dois.

- Então não penses nisso. Jane cerrou os dentes.

- Estou a tentar.

E eu vou tentar não pensar no Daniel.

Mas enquanto continuavam a andar para oeste, em direcção ao sol-poente, atravessando a cidade de Springfield e entrando nas ondulantes Berkshire Hills, ela só conseguia pensar nele. Inspirou e sentiu ainda o perfume dele, cruzou os braços e podia ainda sentir o seu toque, como se as memórias estivessem gravadas na sua pele. E perguntou-se: Será o mesmo para ti, Daniel? Quando estavas diante da tua congregação esta manhã e olhavas para as caras que te observavam, aguardando as tuas palavras, era a minha cara que vias, era na minha cara que pensavas?

Quando atravessaram a fronteira do estado, entrando no de Nova Iorque, a noite tinha caído. O seu telemóvel tocou e na penumbra do carro demorou um pouco a encontrá-lo no meio dos conteúdos misturados da sua bolsa.

- Doutora Isles - respondeu.

- Maura, sou eu.

Ao ouvir a voz de Daniel sentiu as bochechas a arder e ficou contente pelo facto de a escuridão esconder o seu rosto do olhar de Jane.

- O detective Frost veio ter comigo - disse ele.

- Eu tinha de lhes dizer.

- Claro que tinhas. Mas gostaria que me tivesses ligado. Devias ter-me contado.

- Desculpa. Deve ter sido tão embaraçoso, ouvir isso primeiro da boca dele.

- Não, eu estou a falar da inscrição na tua porta. Não fazia ideia nenhuma. Eu teria ido ter contigo num instante. Não devias ter enfrentado isso sozinha.

Ela fez uma pausa, vivamente consciente de que Jane estava a ouvir tudo. E iria certamente exprimir a sua desaprovação assim que a chamada terminasse.

- Passei pela tua casa há pouco - disse ele. - Esperava encontrar-te lá.

- Vou ficar fora esta noite.

- Onde é que estás?

- Estou no carro com a Jane. Acabámos de atravessar Albany.

- Estás em Nova Iorque? Porquê?

- Encontraram outra vítima. Nós pensamos... - a mão de Jane fechou-se subitamente no braço de Maura, um indesmentível aviso de que, quanto menos revelasse, tanto melhor. Jane já não confiava nele, agora que ele tinha mostrado ser demasiado humano. - Não posso falar disso - disse ela.

Fez-se silêncio na linha. E depois um tranquilo "Eu entendo".

- Há pormenores que temos de manter confidenciais.

- Não precisas explicar. Eu sei como isso funciona.

- Posso ligar-te mais tarde? - Quando não houver outro par de ouvidos à escuta.

- Não precisas fazer isso, Maura.

- Mas eu quero. - Preciso.

Ela desligou e olhou para uma escuridão apenas perfurada pelos feixes de luz dos faróis do carro delas. Tinham deixado a portagem para trás e a sua rota levava-as agora para sudoeste, por uma estrada que atravessava campos cobertos pela neve. Aqui, as únicas luzes que viam provinham de carros que passavam de vez em quando ou da iluminação de uma distante casa de quinta.

- Não vais falar com ele do caso, pois não? - perguntou Jane.

- Mesmo que o fizesse, ele é perfeitamente discreto. Sempre confiei nele.

- Bom, eu também.

- Isso quer dizer que já não confias?

- Tu estás com desejos, Maura. Não é a melhor altura para confiar nos teus juízos.

-Ambas conhecemos este homem.

- E eu nunca pensei...

- O quê, que ele iria dormir comigo?

- Só estou a dizer que podemos pensar que conhecemos alguém. E depois essa pessoa surpreende-nos. Faz qualquer coisa que nunca esperámos e percebemos

que estamos às escuras a respeito de todos. Todos. Se tu me tivesses dito há alguns meses que o meu pai ia deixar a minha mãe por uma galdéria, eu respondia-te que estavas doida. Digo-te, as pessoas são um maldito mistério. Mesmo as pessoas que amamos.

- E agora não confias no Daniel.

- Pelo menos no que diz respeito ao tal voto de castidade.

- Não estou a falar disso. Estou a falar desta investigação. De lhe contar pormenores que dizem respeito a nós as duas.

- Ele não é polícia. Não tem de saber nada.

- Ele estava comigo na noite passada. A inscrição na minha porta também era dirigida para ele.

- Quer dizer, Eu pequei!

O calor afluiu ao rosto de Maura.

- Sim - disse ela.

Por alguns instantes continuaram a andar em silêncio. Os únicos sons eram os dos pneus na estrada, o silvo do ar condicionado.

- Eu respeitava o Brophy, certo? - disse Jane. - Ele tem sido bom para a polícia de Boston. Quando precisamos de um sacerdote no local, ele vem logo, a qualquer hora da noite. Eu gostava dele.

- Então porque é que te viraste contra ele? Jane olhou para ela.

- Porque acontece gostar também de ti.

- Pois olha que não me dás essa impressão.

-Ah sim? Bom, quando fazes algo inesperado como isto, algo tão autodestrutivo, fazes-me pensar.

- O quê?

- Se também te conheço realmente.

Já passava das oito da noite quando finalmente encostaram no parque de estacionamento do Hospital Lourdes em Binghamton. Maura não estava com vontade de fazer conversa fiada quando saiu do carro, com os músculos presos pela longa viagem. Tinham parado só por breve tempo para um jantar silencioso num McDonald's de uma paragem de serviço e o seu estômago estava instável graças à condução de Jane, à refeição devorada à pressa, mas acima de tudo pela tensão entre elas, agora tão apertada que mais um apertão podia quebrá-la. Ela não tem o direito de me julgar, pensou Maura enquanto caminhavam pelo meio de bancos de neve escavada. Jane era casada e feliz e sentia-se moralmente superior. O que é que ela sabia sobre a vida de Maura, sobre as noites que ela passava sozinha vendo filmes antigos ou tocando piano para uma casa vazia? O abismo entre as vidas delas era demasiado grande para ser preenchido por uma verdadeira amizade. E, aliás, o que é que eu tenho em comum com esta cabra insensível e inflexível? Nada.

Entraram no hospital através da porta das urgências, com o vento frio a arrastar-se lá para dentro com elas enquanto as portas automáticas se fechavam. Jane foi directamente para o guiché da triagem de doentes e chamou.

- Olá? Posso obter aqui uma informação?

- É a detective Rizzoli? - disse uma voz atrás delas.

Elas não o tinham visto sentado sozinho na zona de espera dos pacientes. Agora ele levantou-se, um homem de rosto pálido vestindo um casaco de tweed sobre uma camisola verde de caçador. Não é polícia, calculou Maura, reparando na sua cabeça de cabelo despenteado, e ele confirmou rapidamente a sua impressão.

- Sou o Doutor Kibbie - disse ele. - Pensei em esperar aqui fora, para que não tivesse de descobrir o caminho para a morgue.

- Obrigada por se encontrar connosco esta noite - disse Jane. - Esta é a Doutora Isles, do gabinete de médicos-legistas.

Maura apertou a mão dele.

- Já fez a autópsia?

- Oh, não. Não sou patologista, sou apenas um humilde médico interno. Há quatro de nós que alternam como médicos-legistas do Condado de Chenango. Eu faço a investigação preliminar da morte e decido se é necessário fazer uma autópsia. A autópsia em si mesma será provavelmente feita amanhã à tarde, partindo do princípio que o médico-legista do condado de Onondaga pode vir de Siracusa até aqui.

- Devem ter o vosso próprio patologista neste condado.

- Sim, mas neste caso em particular... - Kibbie abanou a cabeça. - Infelizmente, nós sabemos que este homicídio vai gerar publicidade. Imenso interesse. Mais, pode acabar num espalhafatoso julgamento criminal, um dia destes, e o nosso patologista quis trazer outro médico-legista também para este caso. Só para que não se questionem as suas conclusões. É mais seguro quando se faz parte de um grupo, sabe? - Ele apanhou o sobretudo que estava numa cadeira.

- O elevador fica daquele lado.

- Onde é que está o detective Jurevich? - perguntou Jane. - Julguei que se ia encontrar connosco aqui.

- Infelizmente, o Joe foi chamado há bocado, por isso não pode vê-la esta noite. Ele disse que se encontraria consigo de manhã, na casa. Basta que lhe telefone amanhã. - Kibbie respirou fundo. - Então, estão preparadas para isto?

- É assim tão mau?

- Vamos pôr as coisas assim: espero nãovoltar a ver nada como isto. Começaram a andar pelo corredor até ao elevador e ele carregou no botão da descida.

- Passadas duas semanas, calculo que ela esteja em bastante mau estado

- disse Jane.

- Na verdade houve uma decomposição mínima. A casa estava devoluta. Sem aquecimento, sem energia. Devem estar uns quatro graus lá dentro. É como armazenar carne num frigorífico.

- Como é que ela foi lá parar?

- Não fazemos ideia nenhuma. Não havia sinais de entrada forçada, por isso ela devia ter uma chave. Ou o assassino.

A porta do elevador abriu-se e eles entraram, Kibble ladeado pelas duas mulheres. Um amortecedor entre Maura e Jane, que ainda não tinham trocado uma palavra desde que saíram do carro.

- A quem é que pertence a casa devoluta? - perguntou Jane.

- A uma mulher que vive agora fora do Estado. Herdou-a dos pais e há anos que tenta vendê-la. Não conseguimos contactá-la. Mesmo a agente imobiliária não sabe onde ela está. - Saíram do elevador na cave. Kibbie foi à frente pelo corredor e empurrou uma porta que dava acesso à antecâmara da morgue.

- Ainda bem que chegou, Doutor Kibbie. - Uma jovem mulher loura vestida com as roupas do hospital pousou o romance de bolso que estava a ler e levantou-se para os receber. - Estava a perguntar-me se ainda viria cá abaixo.

- Obrigado por esperares, Lindsey. Estas são as duas senhoras de Boston de que te falei. A detective Rizzoli e a Doutora Isles.

- Fizeram toda essa viagem de carro para ver a nossa rapariga, ha? Bom, deixem-me tirá-la cá para fora, para a verem. - Atravessou as portas duplas para o laboratório de autópsias e carregou no interruptor da parede. Luzes fluorescentes brilharam sobre a mesa vazia. - Doutor Kibbie, eu tenho mesmo de sair cedo. Pode voltar a metê-la no frigorífico e fechar tudo por mim quando acabarem? Basta puxar a porta do corredor quando se forem embora.

- Vais tentar apanhar o resto do jogo? - perguntou Kibbie.

- Se eu não aparecer, o Ian nunca mais me fala.

- O Ian fala?

Lindsey revirou os olhos.

- Doutor Kibbie. Por favor.

- Eu continuo a dizer-te que devias telefonar ao meu sobrinho. Ele está a fazer os preparatórios de Medicina em Cornell. Uma outra rapariga vai acabar por lhe deitar a mão, se não te apressares.

Ela riu-se ao mesmo tempo que abria a porta do frigorífico.

- Pois, como se eu alguma vez quisesse casar com um médico.

- Isso magoou-me a sério.

- Quer dizer, eu quero um tipo que esteja em casa à hora de jantar. - Puxou uma maca, rodando-a para fora do frigorífico. - Querem-na na mesa?

- Basta na maca. Não a vamos abrir.

- Deixe-me só confirmar se puxei a certa. - Deu uma olhadela à etiqueta ali presa e depois estendeu a mão para o fecho de correr. Não mostrou qualquer hesitação, qualquer repulsa enquanto abria o saco para expor o rosto do cadáver. - Sim, é ela - disse Lindsey e endireitou-se, atirando para trás o seu cabelo louro, mostrando a sua face rosada com o frescor da juventude. Um flagrante contraste com o rosto sem vida e olhos ressequidos que estavam fixos, virados para cima, na abertura da mortalha.

- Nós tomamos conta dela a partir daqui - disse o Dr. Kibbie. A rapariga acenou-lhes.

- Lembre-se de puxar a porta para a fechar - disse ela animadamente e saiu, deixando atrás de si um incongruente rasto de perfume.

Maura tirou umas luvas de látex de uma caixa no balcão. Depois dirigiu-se à maca e abriu completamente o saco. Enquanto o plástico se abria, ninguém disse uma palavra. O que jazia naquela maca deixou-os silenciosos.

A quatro graus de temperatura, o crescimento das bactérias é detido, pára a decomposição. Apesar de se terem passado pelo menos duas semanas, as temperaturas geladas da casa devoluta tinham preservado os tecidos moles do cadáver e não havia necessidade de ser ungido com mentol para ocultar quaisquer odores opressivos. As luzes implacáveis revelaram horrores muito piores do que a mera putrefacção. A garganta estava aberta e exposta por um único golpe fundo que tinha cortado a traqueia de lado a lado, descendo até à coluna cervical. Mas não foi esse golpe fatal da lâmina que captou o olhar de Maura: em vez disso fixou os olhos no torso. Na profusão de cruzes que tinham sido entalhadas nos seios, no abdómen. Símbolos sagrados recortados no pergaminho da pele humana.. Havia sangue incrustrado nos entalhes e inúmeros fios de sangue tinham-se infiltrado a partir de incisões pouco profundas e secado em linhas cor de tijolo, descendo pelos lados do torso.

O olhar dela passou para o braço direito, pousado ao lado do cadáver. Viu o círculo de nódoas negras, como uma cruel pulseira marcando o pulso. Olhou para cima e cruzou olhares com Jane. A partir daquele momento único, toda a raiva entre as duas mulheres estava esquecida, posta de lado pela visão dos últimos momentos de Sarah Parmley.

- Isto foi feito com ela ainda viva - disse Maura.

- Todos estes cortes. - Jane engoliu em seco. - Devem ter levado horas a fazer.

Kibbie disse.

- Quando a encontrámos, havia corda de nylon à volta do pulso que restava e nos dois tornozelos. Os nós estavam pregados ao chão, para que não se pudesse mexer.

- Ele não fez isto à Lori-Ann Tucker - disse Maura.

- Essa é a vítima de Boston?

- Foi desmembrada. Mas não torturada. - Maura deu a volta para o lado esquerdo do cadáver e baixou os olhos para o coto do pulso. A carne incisa tinha secado num couro castanho e os tecidos moles tinham-se contraído, expondo a superfície do osso cortado.

- Talvez ele quisesse algo desta mulher - disse Jane. - Talvez houvesse uma razão para a torturar.

- Um interrogatório? - disse Kibbie.

- Ou uma punição - disse Maura, concentrando-se no rosto da vítima. Pensou nas palavras que tinha riscado na sua porta. Na parede do quarto de Lori-Ann Tucker. Eu pequei.

Será esta a recompensa?

- Estes cortes não foram feitos ao acaso - disse Jane. - São cruzes. Símbolos religiosos.

- Ele também os desenhou nas paredes - disse Kibbie. Maura olhou para ele.

- Havia mais qualquer coisa nas paredes? Outros símbolos?

- Sim. Imensas coisas estranhas. Digo-lhe que só entrar naquela porta principal mexe-me com os nervos todos. Joe Jurevich vai mostrar-lhes isso quando forem à casa. - Olhou para o corpo. - Isto é tudo o que há para ver aqui, na verdade. O suficiente para lhes dizer que estamos perante um velhaco muito doente.

Maura fechou o saco do corpo, encerrando o plástico sobre olhos encovados, sobre córneas toldadas pela morte. Ela não iria fazer esta autópsia mas não precisava de um bisturi nem de sonda para saber como esta vítima tinha morrido: vira a resposta gravada na carne da mulher.

Voltaram a rolar a maca para o refrigerador e tiraram as luvas. Diante do lavatório, lavando as mãos, Kibbie disse:

- Há dez anos, quando me mudei para o Condado de Chenango, julguei que esta era a terra de Deus. Ar fresco, colinas onduladas. Gente que me acenava, que me alimentava com tartes quando eu fazia uma consulta ao domicílio. - Suspirou e fechou a torneira. - Não conseguimos escapar disso, não é? Uma grande cidade ou uma pequena vila, os maridos continuam a disparar sobre as mulheres, os miúdos continuam a fazer assaltos. Mas nunca pensei que veria este tipo de coisas doentias. -Arrancou uma toalha de papel e enxugou as mãos. - Muito menos numa aldeia como Purity. Vão ver o que eu quero dizer quando chegarem lá.

- A que distância fica daqui?

- Mais outra hora e meia, talvez duas horas de caminho. Depende de quererem arriscar as vossas vidas acelerando em estradas secundárias.

- Então é melhor irmos andando - disse Jane - se queremos achar lá um motel.

- Um motel? - riu-se Kibbie. - Se eu fosse a vocês parava na vila de Norwich. Não vão encontrar muita coisa em Purity.

- É assim tão pequena?

Ele atirou a toalha de papel para a lata do lixo.

- É deste tamanho.

 

As paredes do motel eram finas como papel. Deitada na cama, Maura podia ouvir Jane a falar ao telefone no quarto ao lado. Como deve ser bom, pensou, telefonar ao marido e rirem-se alto juntos. Partilhar um beijo em público, um abraço, sem primeiro ter de olhar em volta, à procura de alguém que nos possa conhecer e censurar. O seu próprio telefonema para Daniel tinha sido breve e furtivo. Ouvia-se outras pessoas a falar lá ao fundo, havia outras pessoas na mesma divisão a ouvi-lo, razão pela qual ele parecera tão reservado. Iria ser sempre assim? As suas vidas privadas separadas das suas vidas públicas, e nunca um cruzamento entre elas? Era este o verdadeiro preço do pecado. Não era o fogo do Inferno e a danação mas a grande mágoa.

No quarto ao lado, Jane terminou a chamada. Um momento depois, a TV foi ligada e então Maura ouviu o som de água a correr no chuveiro. Só havia uma parede a separá-las mas a barreira entre elas era muito mais impressionante do que madeira e estuque. Mal tinham dito uma palavra desde Binghamton e agora só o som da TV de Jane era uma contrariedade agravada. Maura puxou uma almofada para cima da sua cabeça, tentando acabar com o ruído, mas não conseguiu abafar os murmúrios de dúvida na sua mente. Mesmo quando o quarto de Jane ficou finalmente silencioso, Maura continuou acordada na sua cama e consciente da passagem dos minutos e depois das horas.

Ainda não eram sete da manhã quando finalmente saiu da cama, exausta da sua noite inquieta e olhou pela janela. O céu estava completamente cinzento. A neve tinha caído durante toda a noite e os carros no parque de estacionamento estavam cobertos por um manto branco. Ela queria ir para casa. Que o sacana que escreveu na sua porta fosse para o inferno. Queria o conforto da sua cama, da sua cozinha. Mas havia um dia comprido à sua frente, outro dia de silêncios ressentidos e de sarcasmos de censura por parte de Jane. Cerra os dentes e ultrapassa isso.

Precisou de duas chávenas de café antes de se sentir pronta para enfrentar o dia. Abastecida com um queijo dinamarquês seco, cortesia do pequeno-almoço continental do motel, carregou o seu saco do necessário para uma noite até ao parque de estacionamento, onde Jane já tinha o motor do carro ligado.

- O Jurevich vai encontrar-se connosco na casa - disse Jane.

- Sabes como se vai lá ter?

- Ele deu-me as instruções. - Jane olhou para Maura com o sobrolho franzido. - Bolas, pareces estar de rastos.

- Não dormi muito bem.

- O colchão era bastante mau, ha?

- Entre outras coisas. - Maura atirou o saco para o banco de trás e fechou a porta. Ficaram ali sentadas durante um instante sem falar, com o o aquecimento a soprar para os seus joelhos.

- Ainda estás chateada comigo - disse Jane.

- Agora não me apetece conversar.

- Só estava a tentar ser amiga, certo? Se vejo a vida de um amigo a descarrilar acho que é meu dever dizer qualquer coisa a respeito disso.

- E eu ouvi-te. - Maura apertou o cinto de segurança. - Podemos ir andando agora?

Saíram da vila de Norwich e dirigiram-se para noroeste, ao longo de estradas escorregadias com a neve recentemente caída. Nuvens espessas ameaçavam ainda mais neve para hoje e a vista que Maura tinha da janela estava manchada com tonalidades de cinzento. O queijo dinamarquês assentava como um bloco de betão no seu estômago e ela encostou-se para trás, fechando os olhos contra o enjoo.

Acordou sobressaltada no que lhe pareceu ser apenas alguns momentos depois, descobrindo que estavam agora a andar penosamente por uma estrada que não fora limpa, com os pneus do carro de Jane a rodar através da neve. Florestas densas apertavam a estrada de ambos os lados e as nuvens tinham escurecido mais desde que Maura adormecera.

- Ainda falta muito para chegar a Purity? - perguntou.

- Já passámos a povoação. Não perdeste nada.

- Tens a certeza de que é esta a estrada?

- Foram estas as indicações dele.

- Jane, vamos ficar presas aqui.

- Eu tenho tracção às quatro rodas, certo? E podemos sempre chamar um reboque.

Maura puxou do telemóvel.

- Não tenho rede. Boa sorte.

- Vê. Isto tem de ser o entroncamento - disse Jane, apontando para uma tabuleta da imobiliária que estava meio enterrada na neve. - A casa está para venda, lembras-te? - Acelerou e o Subaru resvalou a traseira, depois os pneus encontraram um ponto de apoio e agarraram a estrada, que agora começava a subir. As árvores separaram-se dando lugar a uma vista da casa que se encontrava na colina.

Jane encostou na entrada dos carros e ergueu os olhos para uma casa vitoriana de três pisos, elevando-se por cima delas.

- Ena - murmurou. - Isto é mesmo muito grande.

As fitas indicando um local de crime flutuavam nas grades de um alpendre totalmente coberto. Embora as madeiras estivessem a precisar muito de uma pintura, os sinais de abandono não conseguiam disfarçar o facto de ter sido outrora uma casa encantadora, com uma vista única. Elas saíram do carro e a neve arrastada pelo vento picou-lhes as caras enquanto subiam os degraus do alpendre. Espreitando por uma janela, Maura viu formas fantasmáticas de mobílias cobertas por lençóis, mas pouco mais do interior sombrio.

- A porta está trancada - disse Jane.

- A que horas é que era suposto que ele se encontrasse connosco?

- Há quinze minutos.

Maura soltou um bafo enevoado.

- Este vento é gelado. Quanto tempo mais é que devemos esperar?

- Deixe-me ver se tenho rede. - Jane olhou com ar carrancudo para o seu telemóvel. - Uma barra. Isto deve chegar.

- Vou-me sentar no carro. - Maura desceu os degraus e estava quase a abrir a porta quando ouviu Jane dizer: -Aí está ele.

Virando-se, Maura viu um jipe vermelho Cherokee a subir a estrada. Mesmo atrás dele vinha um Mercedes preto. O Cherokee estacionou ao lado do Subaru de Jane e um homem com cabelo cortado à escovinha saiu de dentro dele, vestido para este tempo com um volumoso casaco comprido e botas pesadas. Estendeu uma mão enluvada para Maura e ela viu uma cara fechada, olhos cinzentos frios.

- Detective Rizzoli? - perguntou ele.

- Não. Eu sou a Doutora Isles. O senhor deve ser o detective Jurevich. Ele confirmou enquanto apertavam as mãos.

- Faço parte do Gabinete do Xerife do Condado de Chenango. - Olhou de relance para Jane, que estava a descer os degraus do alpendre para vir ter com ele. - Você é a Rizzoli?

- Sou. Nós só chegámos aqui há poucos minutos... - Jane calou-se, com o olhar subitamente parado no Mercedes preto, no homem que acabara de sair dele. - Que raio é que ele está a fazer aqui?

- Ele previu que ia reagir dessa maneira - disse Jurevich.

Anthony Sansone caminhou a passos largos até eles, com o sobretudo preto agitado pelo vento. Fez um aceno de cabeça a Jane, uma saudação breve que reconhecia o óbvio: que ela não lhe dava as boas-vindas. Depois o seu olhar fixou-se em Maura. - Já viu o corpo? Ela confirmou.

- Ontem à noite.

- Acha que nós estamos a lidar com o mesmo assassino?

- O que é esse nós? - interrompeu Jane. - Não sabia que trabalhava com as forças da lei, Mister Sansone.

Imperturbável, ele virou-se para a encarar.

- Eu não me vou meter no vosso caminho.

- Isto é um local de crime. Nem sequer devia estar aqui.

- Não creio que o Condado de Chenango faça parte da sua jurisdição. Isto compete ao detective Jurevich.

Jane olhou para Jurevich.

- Está a dar-lhe acesso? Jurevich encolheu os ombros.

- A nossa equipa forense já fez o processamento da casa. Não há nenhum motivo para que ele não possa entrar lá connosco.

- Portanto isto agora é uma excursão pública.

- Isto foi clarificado através do gabinete do xerife, por um pedido especial.

- Pedido de quem?

Jurevich olhou de lado para Sansone, cujo rosto estava impassível.

- Estamos a perder tempo aqui - disse Sansone. - Tenho a certeza de que gostaríamos todos de sair desta ventania.

- Detective? - pressionou Jane.

- Se tem alguma objecção - disse Jurevich, manifestamente infeliz por ter sido apanhado no meio deles -, pode levá-la ao Departamento de Justiça. E agora porque é que não entramos antes de ficarmos gelados? - Subiu os degraus para o alpendre, com Sansone logo atrás dele.

Jane ficou a olhar para eles e disse em voz baixa.

- Qual é a influência dele, de qualquer modo?

- Talvez devesses perguntar-lhe isso - disse Maura e começou a subir os degraus. Jurevich tinha já aberto a porta principal, e ela seguiu os dois homens para o interior da casa. Lá dentro, estava pouco mais quente mas pelo menos agora encontravam-se abrigados do vento. Jane entrou atrás dela e fechou a porta. Depois do brilho ofuscante da neve, Maura levou algum tempo a adaptar os olhos à obscuridade interior. Olhando através de uma porta para o salão da frente, viu móveis cobertos por lençóis e o brilho baço de soalhos de madeira. A luz pálida do Inverno entrava através das janelas, lançando tons de cinzento na sala.

Jurevich apontou para o fundo das escadas.

- Não conseguem vê-las mas o luminol mostrou imensas manchas de sangue nestes degraus e neste vestíbulo. Parece que ele limpou tudo atrás dele enquanto saía da casa, portanto qualquer vestígio de pegadas é bastante indistinto.

- Passaram a casa toda com o luminol? - perguntou Jane.

- Luminol, ultravioleta, fonte alternativa de luz. Vimos todas as divisões. Há uma cozinha e uma sala de jantar depois dessa porta. E um escritório depois do salão. Tirando as pegadas aqui no vestíbulo, nada de muito interessante apareceu no primeiro piso. - Virou-se para as escadas. - A acção passou-se toda lá em cima.

- Disse que esta casa estava devoluta - disse Sansone. - Como é que o assassino entrou? Havia alguns sinais de entrada forçada?

- Não, senhor. As janelas estavam bem fechadas. E a agente imobiliária jura que tranca sempre a porta principal quando sai.

- Quem é que tem chaves?

- Bom, ela tem. E diz que elas nunca saem do seu gabinete.

- Quantos anos é que tem a fechadura?

- Credo, não faço ideia. Terá talvez uns vinte anos.

- Presumo que a dona também tenha uma chave.

- Ela não vem a Purity há muitos anos. Ouvi dizer que vive algures na Europa. Não conseguimos contactá-la. - Jurevich fez um aceno de cabeça para os móveis tapados com lençóis. - Há uma espessa camada de pó em cima disso tudo. Podem ver que ninguém vivia aqui há muito. É também uma pena. Uma casa como esta, solidamente construída para durar um século e está aqui vazia. O guarda vem cá acima uma vez por mês para ver como estão as coisas. Foi assim que encontrou o corpo. Viu o carro alugado de Sarah Parmley estacionado à frente da casa e depois encontrou a porta principal aberta.

- Investigou o guarda? - perguntou Jane.

- Ele não é suspeito.

- Porquê?

- Bom, para começar tem setenta e um anos. E acabou de sair do hospital há três semanas. Uma operação à próstata. - Jurevich olhou para Sansone.

- Está a ver o que os homens têm pela frente?

- Portanto temos diversas perguntas sem resposta - disse Sansone. Quem abriu a porta principal? Porque é que a vítima veio cá acima de carro em primeiro lugar?

- A casa está para venda - disse Maura. - Talvez tivesse visto a tabuleta da imobiliária. Talvez tivesse vindo até aqui por simples curiosidade.

- Ouça, são tudo especulações - disse Jurevich. - Falámos vezes sem conta acerca disto e continuamos sem saber porque é que ela veio cá acima.

- Fale-nos mais da Sarah Parmley - disse Sansone.

- Ela cresceu em Purity. Terminou o curso na escola secundária local. Mas tal como muitos outros miúdos, não conseguiu encontrar nada que a prendesse aqui, por isso mudou-se para a Califórnia e instalou-se lá. A única razão para ter voltado à vila foi porque a tia dela morreu.

- Morreu de quê? - perguntou Sansone.

-Ah, foi um acidente. Caiu pelas escadas abaixo e partiu o pescoço. Portanto a Sarah apanhou o avião para assistir ao serviço fúnebre. Ficou num motel perto da vila e pagou a conta no dia a seguir ao funeral. E foi essa a última vez que alguém a viu. Até sábado, quando o guarda encontrou o carro dela aqui. - Olhou para o alto das escadas. - Vou mostrar-lhes o quarto.

Jurevich foi à frente. A meio das escadas, parou e apontou para a parede.

- Esta foi a primeira em que reparámos - disse ele. - Esta cruz, aqui. É o mesmo símbolo que ele recortou por todo o corpo dela. Parece ter sido desenhado com um certo tipo de giz vermelho.

Maura olhou para o símbolo e as mãos dela ficaram paralisadas dentro das luvas.

- Esta cruz está invertida.

- Há mais como ela lá em cima - disse Jurevich. - Muitas mais. - À medida que eles continuavam a subir para o patamar do segundo piso, outras cruzes apareceram na parede. Inicialmente eram apenas algumas e dispersas. Depois, no sombrio corredor lá em cima, as cruzes multiplicaram-se como uma infestação furiosa concentrada ao longo do corredor, precipitando-se para uma porta.

- Aqui dentro as coisas tornam-se más - disse Jurevich.

O aviso dele fez Maura hesitar fora da sala. Mesmo depois de os outros terem entrado, ela parou no limiar, preparando-se para o que a esperava do outro lado da porta.

Deu um passo em frente, entrando numa câmara de horrores.

Não foi o lago de sangue seco no chão que captou o seu olhar: foram as marcas de mãos que cobriam todas as paredes, como se uma profusão de almas perdidas tivesse deixado o seu testamento sangrento ao passarem por esta sala.

- Estas marcas foram todas feitas com a mesma mão - disse Jurevich.

- Marcas idênticas da palma e das linhas dos montes. Não creio que o nosso assassino fosse tão estúpido que deixasse as dele. - Olhou para Jane.

- Aposto que estas foram feitas com a mão amputada de Sarah Parmley. A que apareceu no seu local de crime.

- Meu Deus - disse Jane. - Ele usou a mão dela como se fosse uma espécie de carimbo.

Usando o sangue como a sua tinta, pensou Maura, passeando o seu olhar pelas paredes. Quantas horas teria passado nesta sala, molhando a mão naquela poça de sangue, pressionando-a na parede como uma criança com um estojo de impressão? Então o seu olhar concentrou-se na parede mais próxima, numa inscrição que tinha sido obscurecida pelas marcas de mãos sobrejacentes. Aproximou-se mais, olhando fixamente para as palavras que seguiam ao longo da parede. Era latim, e as mesmas três palavras eram repetidas vezes sem conta. Seguiu o texto que dava a volta à sala numa linha contínua, prosseguindo através dos cantos, como uma serpente enrolando-se ainda mais apertadamente em torno deles.

Abyssus abyssum invocai abyssus abyssum invocai abyssus abyssum invocai...

O significado delas tornou-se subitamente claro e ela deu um passo atrás, gelada até aos ossos.

- Inferno atrai Inferno - murmurou Sansone. Ela não se tinha dado conta de que ele se colocara mesmo a seu lado.

- É isso que significa? - perguntou Jane.

- É o significado literal. Também tem outro.

- Inferno atrai Inferno já parece bastante agoirento.

- Abyssus abyssum invocai é um provérbio que remonta pelo menos a mil anos. Significa Uma má acção leva a outra.

Maura fixou os olhos nas palavras.

- Ele está a dizer-nos que isto é apenas o princípio. Ele está só a começar.

- E estas cruzes... - Sansone apontou para um enxame delas, agrupadas numa parede, como se estivessem reunidas para atacar - estão todas invertidas. É uma zombaria da Cristandade, uma rejeição da Igreja.

- Pois. Disseram-nos que é um símbolo satânico - disse Jurevich.

- Estas palavras e as cruzes foram inscritas aqui primeiro - disse Maura, com o olhar posto nos fios de sangue que tinham escorrido pela parede, obscurecendo parcialmente o fluxo do latim. Ela decifrou os salpicos, viu as gotículas em arco deixadas pelo esguicho do sangue arterial. - Antes de a matar, antes de lhe cortar o pescoço, ele demorou tempo a decorar estas paredes.

- A pergunta a fazer é - disse Jurevich - se ele escreveu estas palavras enquanto ela estava aqui deitada, à espera de morrer? Ou estava a sala já preparada como local de matança antes mesmo de a vítima chegar?

- E depois ele atraiu-a aqui?

- Há claramente provas de ter sido preparada. - Jurevich apontou para o soalho, onde o sangue tinha secado numa poça congelada. - Estão a ver ali os pregos? Ele veio equipado com um martelo e corda de nylon. Foi assim que a imobilizou. Atou a corda à volta dos pulsos e dos tornozelos dela. Pregou os nós ao chão. Assim que ela ficou presa, podia demorar o tempo que quisesse.

Maura pensou no que tinha sido entalhado na carne de Sarah Parmley. Depois olhou para os mesmos símbolos desenhados nas paredes a ocre vermelho. Um crucifixo, virado ao contrário. A cruz de Lúcifer.

Sansone disse:

- Mas como é que ele iria atraí-la aqui? O que é que a pode ter arrastado para esta casa?

- Nós sabemos que foi feita uma chamada para o quarto dela no motel

- disse Jurevich. - No dia em que ela pagou a conta. A recepcionista do motel transferiu-a para o quarto dela.

- Não tinha falado disso - disse Jane.

- Porque não tínhamos a certeza da sua importância. Quer dizer, a Sarah Parmley cresceu nesta vila. Provavelmente devia conhecer imensas pessoas aqui, pessoas que lhe iriam telefonar depois do funeral da tia.

- Era uma chamada local?

- Feita do telefone público do posto de gasolina em Binghamton.

- Isso fica a algumas horas de distância.

- Exacto. Razão pela qual achámos que não fora feita pelo assassino.

- Há mais outra razão?

- Há. A pessoa que telefonou era uma mulher.

- A funcionária do motel tem a certeza disso? Já foi há duas semanas.

- Ela mantém o que disse. Interrogámo-la diversas vezes. Sansone disse:

- O mal não tem sexo.

- E quais são as hipóteses de uma mulher ter feito isto? - disse Jane, apontando para a parede e para as marcas sangrentas das mãos.

- Eu não rejeitaria automaticamente a possibilidade de ser uma mulher

- disse Sansone. - Não temos aqui pegadas que possam ser úteis.

- Eu não rejeito nada. Estou só a considerar as possibilidades.

- É tudo o que são. Possibilidades.

- Quantos assassinos é que você apanhou? - replicou Jane. Ele encarou-a com olhar firme.

- Creio que a resposta iria espantá-la, detective. Maura virou-se para Jurevich.

- O assassino deve ter passado horas aqui dentro, nesta casa. Deve ter deixado cabelos, fibras.

- A nossa equipa forense passou todas estas divisões com raios ultravioletas.

- Não podem ter saído daqui de mãos vazias.

- Ah, eles saíram com imensas coisas. Isto é uma casa antiga e esteve ocupada intermitentemente nos últimos setenta anos. Encontrámos cabelos e fibras em todas estas divisões. Encontrámos algo que nos surpreendeu. Deixem-me mostrar-lhes o resto da casa.

Voltaram para o corredor e Jurevich apontou para uma porta.

- Ali há outro quarto. Imenso pó, mais uns pêlos de gato, mas tirando isso nada que captasse o nosso interesse. - Continuou a andar pelo corredor, passando por outro quarto, por uma casa de banho com ladrilhos pretos e brancos, dando a essas divisões apenas gestos desdenhosos. Chegaram à última porta. - Vejam - disse ele. - Isto acabou por se revelar um quarto muito interessante.

Maura detectou o tom agoirento na voz dele, mas quando entrou no quarto não viu nada de alarmante, apenas um espaço despojado de todo o mobiliário, com paredes vazias. O soalho deste quarto encontrava-se em muito melhor estado do que o do resto da casa, com as suas tábuas recentemente renovadas. Duas janelas sem cortinados davam para o declive arborizado da colina, que descia para o lago gelado lá em baixo.

- Então o que é que este quarto tem de interessante? - perguntou Jane.

- O que descobrimos no soalho.

- Não vejo nada.

- Aparece quando o salpicamos com luminol. A equipa forense investigou a casa inteira, para ver onde o nosso assassino podia ter deixado vestígios de sangue. Para ver se ele tinha deixado vestígios que não conseguimos ver em outros quartos. Encontrámos pegadas suas no corredor, nas escadas e no vestíbulo, todas elas invisíveis a olho nu. Portanto sabemos que ele tentou limpar enquanto saía da casa. Mas não conseguimos realmente esconder o sangue. Salpiquem-no com luminol e ele aparece logo. - Jurevich olhou para o chão. - É claro que apareceu aqui.

- Mais pegadas? - perguntou Jane.

- Não apenas pegadas. Era como se uma onda de sangue tivesse invadido este quarto, manchando a parede. Podem vê-lo nas fendas entre as tábuas do soalho, onde se entranhou no bolor. Naquela parede ali havia grandes manchas, onde alguém tentou lavá-lo. Mas não conseguiu fazê-lo desaparecer. Mesmo que não consigam vê-lo agora, estava espalhado por todos os lados. Ficámos aqui, olhando para todo este maldito quarto a brilhar, e isso assustou-nos muito, posso dizer-vos. Porque quando voltámos a ligar as luzes o quarto tinha o aspecto que tem agora. Não se via nada. Nem um vestígio de sangue visível a olho nu.

Sansone olhou para as paredes, como se tentasse ver esses chocantes ecos da morte. Depois olhou para o chão, com as suas tábuas lixadas harmoniosamente.

- Isto não pode ser sangue recente - murmurou. - Algo mais aconteceu nesta casa.

Maura lembrou-se da tabuleta VENDE-SE, meio enterrada na neve, colocada no sopé da colina. Pensou nas madeiras gastas pelo tempo, na pintura a descascar-se. Porque é que uma casa tão encantadora tinha sido deixada abandonada tantos anos?

- É por isso que ninguém a quer comprar. Jurevich confirmou.

- Aconteceu há doze anos, pouco antes de eu me mudar para esta zona. Só soube disso quando a agente da imobiliária me contou. Não é algo que ela goste de publicitar, visto que a casa está no mercado, mas é passível de revelação. Um pequeno pormenor que qualquer potencial comprador gostaria de saber. E que os faz fugir para outro lado.

Maura olhou para o chão, para rachas e fendas abrigando sangue que não podia ver.

- Quem é que morreu aqui?

- Neste quarto foi um suicídio. Mas quando se pensa em tudo o mais que aconteceu nesta casa, é como se todo o maldito edifício fosse azarado.

- Houve outras mortes? Jurevich confirmou.

- Havia uma família a viver aqui nessa altura. Um médico e a sua mulher, um filho e uma filha. Mais um sobrinho a passar o Verão com eles. Segundo o que todos dizem, os Saul eram boa gente. Uma família unida, com imensos amigos.

Nada é bem o que parece, pensou Maura. Nunca é.

- O filho deles, de onze anos, morreu primeiro. Foi um acidente muito doloroso. O miúdo foi pescar para o lago e não regressou a casa. Calcularam que tivesse caído à agua e entraram em pânico. Encontraram o corpo dele no dia seguinte. A partir daí, as coisas só pioraram para esta família, Uma semana depois, a mãe deu um trambolhão pelas escadas abaixo e partiu o pescoço. Tinha andado a tomar sedativos e calcularam que tivesse perdido o equilíbrio.

- Isso é uma coincidência interessante - disse Sansone.

- O quê?

- Não foi assim que morreu a tia da Sarah Parmley? Uma queda nas escadas? Um pescoço partido?

Jurevich fez uma pausa.

- Pois é. Não tinha pensado nisso. Mas é uma coincidência, não é? Jane disse.

- Não nos tinha falado do suicídio. Jurevich confirmou.

- Foi o marido. Pensem nisso... o que ele deve ter sofrido. Primeiro o filho afoga-se. Depois a mulher cai pelas escadas abaixo. Portanto, dois dias depois, puxa da sua pistola, senta-se aqui neste quarto e rebenta a cabeça.

- Jurevich olhou para o chão. - É o sangue dele que está no soalho. Pensem nisso. Uma família inteira, praticamente dizimada em poucas semanas.

- O que é que aconteceu à filha? - perguntou Jane.

- Ela foi viver com amigos. Um ano depois acabou o curso na escola secundária e deixou a vila.

- É ela a dona da casa?

- É. Ainda está em nome dela. Tem tentado desfazer-se dela ao longo de todos estes anos. A agente da imobiliária diz que tem havido algumas pessoas interessadas mas depois sabem o que aconteceu e afastam-se. Você viveria nesta casa? Eu não, nem que me pagassem bastante. É um lugar azarado. Quase conseguimos sentir isso quando passamos aquela porta principal.

Maura olhou para as paredes em volta e estremeceu.

- Se se pode falar de casa assombrada, então seria esta.

-Abyssus abyssum invocai - disse Sansone tranquilamente. - Isso agora assume um significado diferente. Todos olharam para ele.

- O quê? - perguntou Jurevich.

- Foi por isso que ele escolheu esta casa para local da sua matança. Conhecia o historial desta casa. Sabia o que aconteceu aqui e foi atraído por isso mesmo. Podem chamar-lhe uma entrada para outra dimensão. Ou um vórtice. Mas há lugares escuros neste mundo, lugares imundos que só podem ser chamados amaldiçoados.

Jane soltou uma gargalhada inquieta.

- Acredita mesmo nisso?

-Aquilo em que eu acredito não interessa. Mas se o nosso assassino acredita nisso, então escolheu esta casa porque o atraía. Inferno atrai Inferno.

- Bolas - disse Jurevich -, está a fazer-me pele de galinha. - Olhou em volta para as paredes vazias e estremeceu, como se sentisse um vento gelado. - Sabe o que eu penso? Deviam queimar este lugar. Queimá-lo até aos alicerces. Ninguém no seu perfeito juízo iria comprá-lo.

- Disse que era uma família de um médico que vivia aqui - disse Jane.

- É verdade. Os Saul.

- E tinham um sobrinho com eles nesse Verão. Jurevich confirmou.

- Um miúdo de quinze anos.

- O que é que aconteceu a esse rapaz? Depois das tragédias?

- A agente imobiliária diz que o miúdo saiu de Purity pouco tempo depois. A mãe dele veio buscá-lo.

- Sabe mais alguma coisa sobre ele?

- Lembre-se, foi há doze anos. Ninguém o conhecia bem. E só esteve aqui nesse Verão. - Jurevich fez uma pausa. - Eu sei o que está a pensar. O miúdo teria agora vinte e sete anos. E saberia tudo o que aconteceu aqui.

- Pode também ter uma chave da porta principal - disse Jane. - Como é que podemos saber mais coisas dele?

- Pela prima dele, suponho. A mulher que é a dona desta casa, Lily Saul.

- Mas também não sabe como encontrá-la.

- A agente da imobiliária tem tentado. Jane disse:

- Gostaria de ver os relatórios da polícia sobre a família Saul. Calculo que as mortes tenham sido todas investigadas.

- Eu vou telefonar para o meu gabinete, mandar que fotocopiem os arquivos para si. Pode ir buscá-los quando sair da cidade. Vai voltar para Boston esta noite?

- É essa a nossa intenção, depois do almoço.

- Então vou tentar que tenham as fotocópias prontas nessa altura. Pode ser que lhe interesse ir ao Roxanne's Café. Têm óptimas sanduíches de peru em pão de cacete. E é mesmo diante do nosso gabinete.

- Isso dá-lhe tempo suficiente para fotocopiar tudo?

- Não há muita coisa nos arquivos, para além dos relatórios das autópsias e do xerife. Em todos os três casos, o modo e a causa da morte foram bastante evidentes.

Sansone tinha estado à janela, olhando lá para fora. Agora virou-se para Jurevich.

- Como é que se chama o vosso jornal local?

- Todo o Condado de Chenango é bastante coberto pelo Evening Sun. A sede deles é em Norwich. - Jurevich olhou para o relógio. - Não há mesmo mais nada para vos mostrar aqui.

Voltando lá para fora, ficaram ao vento cortante enquanto Jurevich fechava a porta principal e lhe dava um forte abanão para ter a certeza de que não se abriria facilmente. Se fizermos algum progresso para o nosso objectivo - disse ele a Jane - eu telefono-lhe. Mas julgo que este assassino acabará por ser presa sua. - Puxou o fecho do blusão e calçou as luvas.

- Agora ele está a brincar no seu bairro.

 

- Ele aparece no seu carro de luxo e consegue ser convidado logo para o local do crime - disse Jane, agitando uma batata fria diante da cara de Maura. - O que é isto? Quem é que o Sansone conhece na Justiça? Mesmo o Gabriel não conseguiu descobrir.

- Eles devem ter motivos para confiar nele.

- Ah, sim. - Jane meteu a batata frita na boca e agarrou noutra, com a agitação a aumentar-lhe o apetite. Em poucos minutos tinha reduzido uma enorme sanduíche em pão de cacete a algumas migalhas de crostas e bacon e agora estava a arrastar a última das batatas fritas numa poça de ketchup.

- Confiar num milionário que tem como passatempo a luta contra o crime?

- Multimilionário.

- Quem é que ele pensa que é, o Bruce Wayne? Ou o tipo daquela série antiga de TV. O tipo rico que era polícia. A minha mãe costumava ver isso.

- Deves estar a falar de Burkes Law.

- Pois. Quantos polícias ricos é que conhece? Maura suspirou e pegou na sua chávena de chá.

- Nem um.

- Exactamente. É uma fantasia. Um tipo chateado com dinheiro acha que seria emocionante fazer de Dirty Harry, só que não quer mesmo baixar-se e sujar-se. Não quer fazer uma ronda ou escrever relatórios de incidentes. Só quer guiar o seu Mercedes e dizer-nos, a nós idiotas, como é que as coisas devem ser feitas. Julga que não lidei já com tipos como ele? Todos pensam que são mais espertos do que a polícia.

- Não creio que ele seja um simples amador, Jane. Acho que vale a pena ouvir o que ele tem a dizer.

- Certo. Um ex-professor de História. - Jane esvaziou a sua chávena de café e espetou o pescoço por cima da divisória, procurando a empregada no meio do movimentado café. - Eh, menina? Pode-me voltar a encher... - Calou-se e depois disse a Maura. - Olha quem acabou de entrar.

- Quem?

- O nosso amigo.

Maura virou-se para a porta, olhando para além do balcão onde homens de boné se sentavam debruçados sobre cafés e hambúrgueres. Localizou Sansone no mesmo instante em que ele a viu. Quando atravessou a sala, uma dúzia de cabeças rodou na sua direcção, com os olhares fixos na impressionante figura de cabelo grisalho que passava ao lado das mesas e se dirigia para o recanto de Maura.

- Fico contente por ver que ainda estão aqui na vila - disse ele. - Posso fazer-lhes companhia?

- íamos agora sair - disse Jane, estendendo intencionalmente a mão para a carteira, esquecendo convenientemente a chávena de café novamente cheia.

- Isto só demora um minuto. Ou prefere que lhe envie isto por e-mail, detective?

Maura olhou para o maço de papéis que ele trazia.

- O que é isso tudo?

- Material dos arquivos do Evening Sun. - Pousou os papéis na mesa diante dela.

Ela afastou-se para o lado no banco, dando espaço para ele se sentar a seu lado na apertada divisória. Maura sentiu-se encurralada por este homem, cuja simples presença parecia dominar e esmagar o pequeno espaço.

- Os arquivos digitais deles só datam de há cinco anos - disse ele.

- Estas fotocópias foram feitas a partir dos arquivos de jornais encadernados, por isso a reprodução não é tão boa como eu desejava. Mas conta a história.

Maura pousou os olhos na fotocópia inicial. Era da primeira página do Evening Sun de 11 de Agosto, há doze anos. O seu olhar fixou-se imediatamente na notícia que estava junto do cabeçalho.

CORPO DE RAPAZ RECUPERADO DO LAGO PAYSON

A foto que acompanhava a notícia mostrava a imagem sorridente de um rapaz, segurando um gato tigrado nos seus braços. A legenda dizia: Teddy Saul tinha acabado de fazer onze anos.

- A irmã dele, Lily, foi a última pessoa conhecida que o viu ainda em vida - disse Sansone. - Foi também ela que o localizou a boiar no lago, um dia depois. O que espantou toda a gente, segundo a notícia, foi o facto de o rapaz ser bom nadador. E também havia um outro pormenor interessante.

Maura olhou para ele.

- Qual?

- Supostamente, ele desceu ao lago para pescar. Mas a sua caixa de apetrechos e a cana foram encontrados a uns bons vinte metros da beira de água"

Maura passou a fotocópia a Jane e olhou para a notícia seguinte, publicada a 18 de Agosto. Uma semana depois de o corpo do pequeno Teddy ser encontrado, a tragédia voltou a cair sobre a família Saul.

A MORTE DE MÃE ENLUTADA MUITO PROVAVELMENTE ACIDENTAL

Acompanhando a notícia estava outra foto, outra legenda dolorosa. Amy Saul fora retratada em tempos mais felizes, radiosa diante da objectiva enquanto segurava um bebé no colo. A mesma criança, Teddy, que ela iria perder doze anos mais tarde, nas águas do Lago Payson.

- Ela foi encontrada no fundo das escadas - disse Maura. Olhou para Jane. - Pela filha dela, Lily.

- Outra vez? A filha encontrou os dois? - Jane pegou na notícia fotocopiada. - Isto começa a parecer demasiado azar.

- E lembra-te da chamada feita para o quarto do motel de Sarah Parmley, há duas semanas. Era uma voz de mulher.

- Antes de saltarem já para as conclusões - disse Sansone -, não foi Lily Saul que encontrou o corpo do seu pai. Foi o primo dela. É a primeira e única vez que o nome de Dominic Saul aparece em qualquer destas notícias.

Maura passou para a terceira fotocópia e olhou para uma foto de um sorridente Dr. Peter Saul. Por baixo havia esta legenda: Deprimido com a morte da mulher e do filho. Olhou para Sansone.

- Há alguma foto de Dominic?

- Não. Mas é referido nessa notícia como sendo aquele que encontrou o corpo do tio. Foi também ele que chamou a polícia.

- E a rapariga? - perguntou Jane. - Onde é que a Lily estava quando isto aconteceu?

- Não diz.

Calculo que a polícia investigou o álibi dela.

- Você iria supor que sim.

- Eu não iria supor coisa nenhuma.

- Esperemos que a informação esteja nos ficheiros da polícia - disse Sansone -, porque não vai obtê-la do investigador em si mesmo.

- Porquê?

- Morreu no ano passado de um ataque cardíaco. Encontrei a sua necrologia nos arquivos do jornal. Portanto, tudo o que temos é o que está nos ficheiros. Mas pense na situação. Você é um polícia local, lidando com uma rapariga de dezasseis anos que acabou de perder o irmão, a mãe e agora o pai. Provavelmente encontra-se em estado de choque. Talvez esteja histérica. Vai assediá-la com perguntas, para saber onde ela estava quando o pai dela morreu, sendo que isso parece claramente um suicídio?

- O meu trabalho é fazer perguntas - disse Jane. - Eu teria perguntado.

Sim, ela teria perguntado, pensou Maura, olhando para a expressão inflexível de Jane e lembrando-se das perguntas implacáveis que lhe tinham sido feitas na manhã de ontem. Sem misericórdia, sem hesitações. Deus te ajude se Jane Rizzoli achar que és culpado de alguma coisa. Maura baixou os olhos para a foto de Peter Saul.

- Não há fotos de Lily. Também não sabemos qual é o aspecto dela.

- Na verdade há uma foto - disse Sansone. - E vai achá-la muito interessante. - Passou para a fotocópia seguinte e apontou para a notícia.

FUNERAL DE MÉDICO ATRAI GENTE ENLUTADA DE TODO O CONDADO

Amigos, colegas, mesmo estranhos reuniram-se no Cemitério Ashland numa bela tarde de Agosto para acompanhar o funeral do Dr. Peter Saul, que morreu no último domingo, vítima de um disparo de arma de fogo infligido a si mesmo. Foi a terceira tragédia a cair sobre a família Saul nas últimas duas semanas.

- Aí está ela - disse Sansone, apontando para a foto que acompanhava a notícia. - É a Lily Saul.

Era uma imagem pouco nítida, com o rosto da rapariga parcialmente encoberto por duas outras pessoas presentes no enterro e que a ladeavam. Tudo o que Maura conseguiu ver foi o perfil da cabeça baixa dela, velada por longos cabelos escuros.

- Isso não nos mostra muito - disse Jane.

- Não era a foto que eu queria que vissem - disse Sansone. - É a legenda. Vejam os nomes das raparigas que estão ao lado de Lily.

Só então Maura compreendeu porque é que Sansone tinha insistido tanto em mostrar estas fotocópias. A legenda por baixo da foto de uma Lily Saul dominada pela dor incluía dois nomes surpreendentemente familiares.

Lily Saul confortada pelas amigas Lori-Ann Tucker e Sarah Parmley.

- Aí está o elo que liga tudo - disse Sansone. - Três amigas. Duas delas estão agora mortas. Só Lily Saul está ainda viva. - Fez uma pausa. - E nem sequer podemos ter a certeza do estado dela.

Jane arrancou-lhe a fotocópia e olhou fixamente para ela.

- Talvez ela não queira que saibamos.

- É ela quem temos de encontrar - disse Sansone. - Ela saberá dar resposta às nossas perguntas.

- Ou pode ser a resposta. Não sabemos quase nada desta rapariga, Lily. Se ela se dava bem com a família. Se saiu daqui com uma bela herança.

- Não podes estar a falar a sério.

- Tenho de admitir o que aqui o Mister Sansone disse há bocado. O mal não tem sexo.

- Mas matar a própria família, Jane...

- Nós matamos aqueles que amamos. Sabes disso. - Jane olhou para a foto das três raparigas. - E talvez estas raparigas também soubessem. Doze anos é muito tempo para guardar um segredo. - Deu uma olhadela ao relógio. - Preciso de fazer umas perguntas na vila, ver que mais consigo saber sobre Lily. Alguém deve saber como podemos encontrá-la.

- Enquanto faz as suas perguntas - disse Sansone -, pode querer também perguntar sobre isto. - Passou outa fotocópia a Jane. O título dizia: Rapaz de South Plymouth Conquista os Maiores Prémios de 4-H.

- Ha... Devo fazer perguntas sobre touros premiados? - perguntou Jane.

- Não, é a notícia que está por baixo do título Ronda da Polícia - disse Sansone. - Quase me escapava. Na verdade, não a teria visto se não fosse por estar na mesma página, por baixo da notícia do afogamento de Teddy Saul.

- Refere-se a esta? Estábulo Vandalizado, Cabra Desaparecida!

- Veja a notícia.

Jane leu a notícia em voz alta.

- A polícia recebeu uma queixa de Eben Bongers, de Purity, de que vândalos entraram no seu estábulo na noite do passado sábado. Quatro cabras escaparam e três foram novamente apanhadas, mas uma delas continua desaparecida. O estábulo foi também desfigurado com entalhes de... - Jane parou e olhou para Maura - cruzes.

- Continue a ler - disse Sansone.

Jane engoliu em seco e voltou a baixar os olhos para o artigo.

- Entalhes similares têm sido encontrados em outros edifícios da zona. Quem tiver informações sobre isto deve contactar o Gabinete do Xerife do Condado de Chenango.

- O assassino estava aqui - disse Sansone. - Há doze anos estava a viver neste mesmo condado. E ninguém percebeu o que estava a andar no meio deles. Ninguém soube o que estava a viver no meio deles.

Ele fala como se este assassino não fosse humano, pensou Maura. Não diz quem mas o quê. Não um alguém mas um algo.

- E então, há duas semanas - disse Sansone -, este assassino regressa à casa onde os Saul outrora viveram. Desenha os mesmos símbolos nas paredes, enfia pregos no chão. Tudo isso em preparação para a sua vítima. Para aquilo que vai fazer a Sarah Parmley. - Sansone inclinou-se para a frente, com os olhos postos em Jane. - Não creio que Sarah Parmley fosse a sua primeira morte. Houve outras antes dela. Você viu como foi elaborado o cenário da morte de Sarah, quanto planeamento, quanto cerimonial foi ali envolvido. Isto foi um crime amadurecido, feito por alguém que teve meses, mesmo anos, para refinar os seus rituais.

- Nós requeremos uma busca no programa de informações sobre vítimas de crimes violentos. Procurámos crimes anteriores.

- Quais foram os vossos parâmetros de busca?

- Desmembramento. Símbolos satânicos. Sim, apareceram alguns casos noutros estados mas nada que correspondesse ao que procurávamos.

- Então alarguem a busca.

Se a alargarmos mais torna-se inútil. É demasiado genérica, uma rede demasiado grande.

- Estou a falar de uma busca internacional.

- Isso é uma rede muitíssimo grande.

- Não é uma rede demasiado grande para este assassino. Repare em todas as pistas que deixou. Inscrições em latim. Desenhos feitos com ocre vermelho de Chipre. Uma concha mediterrânica. Está praticamente a anunciar-lhe que viveu no estrangeiro. E provavelmente matou no estrangeiro. Garanto-lhe, se fizer buscas na base de dados da Interpol, vai encontrar mais vítimas dele.

- Como é que pode estar tão... - Jane fez uma pausa e os seus olhos subitamente semicerraram-se. - Você já sabe. Confirmou.

- Tomei essa liberdade. Este criminoso deixou vestígios claros por todo o lado. Não tem medo da polícia. Está completamente confiante na sua capacidade para se manter invisível. - Apontou para as fotocópias. - Há doze anos, o assassino estava a viver aqui. E já tinha as suas fantasias, já desenhava essas cruzes.

Jane olhou para Maura.

- Vou ficar aqui pelo menos mais outra noite. Há outras pessoas com quem preciso de falar.

- Mas eu preciso de ir para casa - disse Maura. - Não posso ficar longe tanto tempo.

- O Doutor Bristol pode tratar das coisas por ti, não pode?

- Tenho outras coisas de que preciso tratar. - Maura não gostou do olhar que Jane subitamente lhe lançou. As outras coisas sendo o Daniel Brophy?

- Eu vou voltar de carro para Boston esta noite - disse Sansone. - Pode ir de boleia comigo.

 

- A detective Rizzoli não pareceu muito contente quando você aceitou a minha oferta - disse Sansone.

- Ela está descontente com imensas coisas, nestes últimos tempos - disse Maura, olhando através da janela para campos cobertos por uma pele branca de neve. Embora a derradeira luz do dia tivesse desaparecido, a Lua estava a erguer-se no céu e o seu reflexo era brilhante como uma lanterna na neve.

- Eu incluída.

- Reparei na tensão que havia entre as duas.

- É assim tão óbvia?

- Ela não tentou escondê-la, pois não? - Lançou-lhe uma olhadela na penumbra do carro. - Vocês não podiam ser mais diferentes.

- Estou a descobrir isso cada vez mais.

- Conhecem-se há muito tempo?

- Há uns dois anos. Desde que eu aceitei este trabalho em Boston.

- Tem sido sempre assim tão tenso entre as duas?

- Não. É só porque... - Maura calou-se. Porque ela me desaprova. Porque está com aquele ar arrogante e moralista, e a mim não me é permitido ser humana, apaixonar-me. - Têm sido umas semanas desgastantes - foi assim que concluiu a frase.

- Ainda bem que temos esta oportunidade de falar a sós - disse ele. Porque aquilo que lhe vou dizer pode parecer absurdo. E ela pôs isso de lado sem hesitar. - Voltou a olhá-la de lado. - Espero que esteja mais disposta a ouvir-me.

- Porque julga que eu sou menos céptica do que ela? Não aposte nisso.

- O que é que achou do local do crime que vimos hoje? O que é que ele lhe disse sobre o assassino?

- Vi provas de uma mente gravemente perturbada.

- É uma possibilidade.

- Qual é a sua interpretação?

- Creio que há uma verdadeira inteligência por detrás disto. Não é apenas um qualquer maluco que se diverte a torturar mulheres. É alguém que tem um móbil claro e lógico.

- Novamente os seus demónios míticos.

- Eu sei que não aceita a existência deles. Mas viu aquela notícia sobre o estábulo que foi estragado há doze anos. Houve mais alguma coisa naquele relato que lhe tivesse saltado à vista?

- Além das cruzes entalhadas no estábulo?

- A cabra que desapareceu. Houve quatro cabras soltas daquele estábulo e o lavrador conseguiu recuperar apenas três. O que é que aconteceu à quarta?

- Talvez tivesse fugido. Talvez se tivesse perdido na floresta.

- No ***Levsiico, capítulo dezasseis, o outro nome dado a Azazel é "bode expiatório". Aquele que assume todos os pecados, todos os males da humanidade. De acordo com a tradição, o animal escolhido é levado para o deserto, carregando os pecados da humanidade com ele. E é solto aí.

- Voltámos novamente ao seu símbolo de Azazel.

- Um desenho da cabeça dele apareceu na sua porta. Não se pode ter esquecido disso.

Não, não me esqueci. Como é que podia esquecer-me de que a minha porta tem a marca de um assassino?

- Eu sei que é céptica - disse ele. - Eu sei que acha que isto acabará por ser como tantas outras investigações. Que acabará por nos levar a alguma personagem bastante vulgar, mesmo lamentável, que vive tranquilamente sozinha. Um outro Jeffrey Dahmer ou um Filho de Sam. Talvez este assassino ouça vozes. Talvez tenha lido vezes a mais a Bíblia Satânica de Anton La Vey e a tenha levado a peito. Mas pense numa outra possibilidade, algo muito mais assustador. - Olhou para ela. - Que os Nefilim, os Vigilantes, existem mesmo. Que sempre existiram e que ainda vivem entre nós.

- Os filhos de anjos caídos?

- Isso é meramente a a interpretação bíblica.

- Isto é tudo bíblico. E sabe que não acredito nisso.

- O Antigo Testamento não é o único em que estas criaturas são mencionadas. Elas aparecem nos mitos de culturas anteriores.

- Cada civilização tem os seus míticos espíritos malignos.

- Não estou a falar de espíritos mas sim de seres de carne e osso, com rostos humanos. Uma espécie paralela de predadores que se desenvolveram mesmo ao nosso lado. Cruzando-se connosco.

- E nesta altura não saberíamos da sua existência?

- Conhecemo-los pelo mal que fazem. Mas não os reconhecemos por aquilo que são realmente. Chamamos-lhes sociopatas ou tiranos. Ou Vlad, o Empalador. Eles encantam e seduzem para conquistar posições de poder e autoridade. Desenvolvem-se com a guerra, com a revolução, com a desordem. E nunca percebemos que são diferentes do resto de nós. Diferentes de uma maneira fundamental que remonta aos nossos códigos genéticos. Eles nascem predadores e o mundo inteiro é o terreno de caça deles.

- É essa a razão de ser da Fundação Mefisto? Uma busca dessas criaturas míticas? - Riu-se. - Também podem andar à procura de unicórnios.

- Há muitos de nós que acreditam nisso.

- E o que é que vão fazer quando finalmente encontrarem um? Matam-no

e exibem a cabeça dele como um trofeu?

- Nós somos um mero grupo de pesquisas. O nosso papel é identificar e estudar. E aconselhar.

- Aconselhar quem?

- As forças da lei. Fornecemos-lhes informação e análise. E elas usam o que lhes damos.

- As agências das forças da lei ligam mesmo ao que vocês têm a dizer?

- perguntou ela, com um indesmentível tom de descrença.

- Sim. Ouvem o que dizemos - foi tudo o que ele disse. A calma declaração de um homem tão seguro das suas afirmações que não via necessidade de as justificar.

Ela pensou na maneira tão fácil como ele tivera acesso a pormenores confidenciais da investigação. Lembrou-se que as perguntas de Jane sobre Sansone tinham sido respondidas com o silêncio por parte do FBI, da Interpol e do Departamento de Justiça. Estão todos a protegê-lo.

- O nosso trabalho não tem passado despercebido - disse ele e acrescentou em voz baixa -, infelizmente.

- Julguei que era essa a intenção. Ver o vosso trabalho reconhecido.

- Mas não pelas pessoas erradas. De alguma maneira eles descobriram-nos. Sabem quem somos e o que fazemos. - Fez uma pausa. - E julgam que você é um de nós.

- Nem sequer acredito que eles existem.

- Marcaram a sua porta. Identificaram-na.

Ela olhou para a neve iluminada pelo luar, para a sua brancura surpreendente na noite. Estava quase tão claro como de dia. Não havia céu encoberto nem escuridão. Qualquer movimento de uma presa seria visto nesta paisagem impiedosa.

- Não faço parte do vosso clube - disse ela.

- Pode muito bem ser. Foi vista em minha casa, foi vista comigo.

- Também visitou todos os três locais de crime. Só tenho andado a fazer o meu trabalho. O assassino pode ter-me localizado em qualquer dessas noites.

- Foi isso que pensei ao princípio. Que você tinha atravessado por acaso a linha de visão dele, uma presa casual. Foi também isso que pensei a respeito de Eve Kassovitz... que talvez ele a tivesse localizado no primeiro local de crime, na véspera de Natal, e que ela tinha atraído o interesse dele.

- Já não pensa que foi isso que aconteceu?

- Não, não penso.

- Porquê?

- Por causa da concha. Se eu tivesse sabido disso antes todos nós poderíamos ter tomado precauções. E a Joyce ainda poderia estar viva.

- Acha que a concha era uma mensagem para si?

- Durante séculos, os Sansone marcharam para a batalha sob a bandeira da concha. Isto foi uma provocação, um desafio dirigido à fundação. Um aviso do que viria a seguir.

- E o que é que poderá ser?

- O nosso extermínio. - Ele disse isso em voz baixa, como se só pelo facto de dizer essas palavras em voz alta pudesse fazer abater a espada sobre o seu pescoço. Mas ela não sentiu medo na voz dele, apenas resignação com a sorte que lhe estava destinada. Ela não conseguiu encontrar palavras para lhe responder. Esta conversa tinha-se desviado para um terreno estranho e Maura não conseguia encontrar a sua orientação. O universo dele era uma paisagem tão árida de pesadelos que só o facto de estar sentada com ele, no carro dele, alterava a sua própria visão do mundo. Mudava-a para um território desconhecido onde os monstros andavam. Daniel, pensou, preciso de ti agora. Preciso do teu toque, da tua esperança e da tua fé no mundo. Este homem é todo ele trevas e tu és a luz.

- Sabe como é que o meu pai morreu? - perguntou ele. Olhou para ele com ar carrancudo, espantada por essa pergunta.

- Desculpe?

- Acredite em mim, é relevante. Toda a história da minha família é relevante. Eu tentei afastar-me dela. Passei treze anos a ensinar no Boston College, pensando que podia viver uma vida normal como toda a gente, convencido de que o meu pai era apenas um excêntrico resmungão, tal como o pai dele, pensando que todas as histórias bizarras que ele me contara quando eu era pequeno eram uma pitoresca sabedoria familiar. - Olhou de relance para ela. - Acreditei nelas tanto como você agora, ou seja, nada de nada.

Ele parece tão racional. E contudo não é. Não pode ser.

- Eu ensinei História, portanto, conheço bem os mitos antigos - disse ele. - Mas nunca me conseguirá convencer de que outrora existiram sátiros ou sereias ou cavalos alados. Porque é que devia acreditar nas histórias do meu pai sobre os Nefilim?

- O que é que o fez mudar de ideias?

- Oh, eu sabia que algumas das coisas que ele me tinha contado eram verdadeiras. A morte de Isabella, por exemplo. Em Veneza, consegui encontrar o registo da sua prisão e morte em documentos da Igreja. Ela foi mesmo queimada viva. Deu mesmo à luz um filho, pouco antes de ser executada. Nem tudo que passou de geração em geração, nas histórias da família Sansone, era fantasia.

- E a parte relacionada com os seus antepassados serem caçadores de demónios?

- O meu pai acreditava nisso.

- E você?

- Eu acredito que há forças hostis que poderiam deitar abaixo a Fundação Mefisto. E agora descobriram-nos. Tal como descobriram o meu pai.

Ela olhou para ele, aguardando que explicasse.

- Há oito anos - disse Sansone -, voou para Nápoles. Ia encontrar-se com um velho amigo, um homem que ele conhecia desde os seus tempos de faculdade em New Haven. Eram ambos viúvos. Ambos partilhavam a paixão pela História antiga. Planeavam visitar o Museu Arqueológico Nacional nessa cidade e pôr-se em dia com as vidas um do outro. O meu pai estava bastante entusiasmado com essa visita. Era a primeira vez que eu ouvia al}" guma animação na voz dele, desde a morte da minha mãe. Mas quando ele chegou a Nápoles o amigo dele não estava no aeroporto. Ou no hotel. Ele telefonou-me, disse-me que algo estava terrivelmente errado e que tencionava regressar no dia seguinte. Percebi que estava perturbado mas que não iria dizer mais sobre isso. Creio que ele julgava que a nossa conversa estava a ser escutada.

- Ele pensava mesmo que o telefone estava sob escuta?

- Está a ver? Teve a mesma reação que eu tive. Que era apenas o meu velho pai excêntrico a imaginar novamente os seus demónios. A última coisa que ele me disse foi "eles descobriram-me, Anthony. Eles sabem quem eu sou".

- Eles?

- Eu sabia exactamente de que é que ele estava a falar. Era o mesmo disparate que eu ouvia desde miúdo. Forças sinistras no governo. Uma conspiração mundial de Nefilim, ajudando-se uns aos outros a alcançar o poder.

E assim que assumissem o controlo político poderiam caçar até se satisfazerem, sem qualquer receio de serem punidos. Tal como caçaram no Kosovo. E no Camboja. E no Ruanda. Eles florescem com a guerra, a desordem e o derramamento de sangue. Alimentam-se disso. É isso que o Armagedão significa para eles: um paraíso de caçadores. É por isso que estão impacientes por fazê-lo acontecer, que esperam ansiosamente por ele.

- Isso parece o supremo delírio paranóico.

- É também uma maneira de explicar o inexplicável: como as pessoas podem fazer coisas horríveis umas às outras.

- O seu pai acreditava nisso tudo?

- Ele queria que eu acreditasse. Mas foi a sua morte que me convenceu.

- O que é que aconteceu ao seu pai?

- Podia ter sido facilmente tomado por um roubo que correu mal. Nápoles é um lugar complicado e os turistas têm de ter cuidado lá. Mas o meu pai estava na Via Partenope, ao lado do golfo de Nápoles, uma rua quase sempre cheia de turistas. Mesmo assim, aquilo aconteceu tão rapidamente que ele não teve tempo de gritar por socorro. Simplesmente caiu no chão. Ninguém viu o assaltante dele. Ninguém viu o que aconteceu. Mas ali estava o meu pai, a esvair-se em sangue na rua. A lâmina entrou mesmo por baixo do esterno, cortou o pericárdio e furou o ventrículo direito.

- A mesma maneira como Eve Kassovitz morreu - disse ela em voz baixa. Um assassínio cruelmente eficiente.

- A parte pior para mim - disse ele - é que ele morreu pensando que nunca acreditei nele. Depois de termos falado pela última vez ao telefone, eu desliguei e disse a um dos meus colegas: "O velhote está finalmente pronto para o Thorazine."

- Mas agora acredita nele.

- Mesmo depois de chegar a Nápoles, uns dias mais tarde, eu ainda pensava que era um gesto de violência casual. Um turista infeliz no lugar errado e na altura errada. Mas enquanto estava na esquadra da polícia, aguardando uma cópia do relatório deles, um cavalheiro mais velho entrou na sala e apresentou-se. Eu tinha ouvido o meu pai mencionar o nome dele. Nunca soubera que Gottfried Baum trabalhava com a Interpol.

- Porque é que conheço esse nome?

- Era um dos meus convidados para jantar na noite em que Eve Kassovitz foi assassinada.

- O sujeito que saiu mais cedo para o aeroporto?

- Ele tinha um avião para apanhar nessa noite. Um voo para Bruxelas.

- Ele é membro da Fundação Mefisto? Sansone confirmou.

- Foi ele que me fez pensar, que me fez acreditar. Todas as histórias que o meu pai me contou, todas as suas loucas teorias a respeito dos Nefilim... Baum repetiu-as todas.

- Folie à deux - disse Maura. - Uma paranóia partilhada.

- Gostaria que fosse uma paranóia. Gostaria de poder afastá-la com um encolher de ombros, como você faz. Mas você não viu nem ouviu as coisas que eu, o Gottfried e outros vimos e ouvimos. A Fundação Mefisto está a lutar pela sua vida. Quatro séculos depois, somos os últimos. - Fez uma pausa.

- E eu sou o último da linhagem de Isabella.

- O último caçador de demónios - disse ela.

- Não fiz o mínimo avanço consigo, pois não?

- Vou-lhe dizer o que não compreendo. Não é muito difícil matar alguém. Se é você o alvo porque é que não se limitam a eliminá-lo? Não está escondido. Basta um disparo através da sua janela, uma bomba no seu carro. Para quê fazer jogos estúpidos com conchas? O que é que pretendem ao avisá-lo de que está na mira deles?

- Não sei.

- Pode ver que não é lógico.

- Pois não.

- E no entanto continua a pensar que estes homicídios têm todos a ver com a Mefisto.

Ele suspirou.

- Nem sequer vou tentar convencê-la. Só queria que considerasse a possibilidade de tudo o que lhe contei ser verdade.

- De haver uma irmandade mundial de Nefilim? De a Fundação Mefisto, e mais ninguém, estar igualmente consciente dessa vasta conspiração?

- A nossa voz começa a ser ouvida.

- O que é que vão fazer para se protegerem? Carregar as armas com balas de prata?

- Vou encontrar a Lily Saul.

Ela olhou para ele de sobrolho franzido. -Afilha?

- Não acha estranho ninguém saber onde ela está? Ninguém conseguir localizá-la? - Olhou para Maura. - A Lily sabe qualquer coisa.

- Porque é que pensa isso?

- Porque ela não quer ser encontrada.

- Creio que devia entrar consigo - disse ele -, só para a certeza de que está tudo bem.

Estavam dentro do carro, estacionado diante da casa dela, e através dos cortinados da sala de estar via as luzes a brilhar, os candeeiros acesos pelo seu temporizador automático. Antes de sair, na véspera, tinha apagado as marcas feitas na sua porta. Olhando através da penumbra, ela perguntou-se se haveria novas marcas feitas ali que não conseguia ver, novas ameaças escondidas nas sombras.

- Eu também acho que me sentiria melhor se entrasse comigo - admitiu.

Ele estendeu a mão para o compartimento das luvas, tirou de lá uma lanterna e ambos saíram do carro. Nenhum deles falou, estavam ambos concentrados nas cercanias: a rua escura, o rumor distante do trânsito. Sansone parou no passeio, como se tentasse captar o cheiro de algo que todavia não podia ver. Subiram os degraus do alpendre e ele ligou a lanterna para examinar a porta.

Não tinha nada de estranho.

Dentro da casa o telefone estava a tocar. Será o Daniel? Ela abriu a porta principal e entrou. Só levou alguns segundos a marcar o código no teclado para desligar o sistema de alarme, mas quando chegou junto do telefone ele já não tocava. Carregando na tecla do registo de chamadas, reconheceu o número dele e sentiu o desejo de levantar o auscultador e ligar-lhe. Mas Sansone estava agora mesmo ao lado dela na sala de estar.

- Parece-lhe que está tudo bem?

Ela fez um breve aceno de cabeça a confirmar.

- Está tudo óptimo.

- Porque é que não dá uma vista de olhos pela casa antes de eu me ir embora?

- Claro - disse ela e avançou pelo corredor. Enquanto ele a seguia, sentiu o olhar dele nas suas costas. Será que ele via isso na sua cara? Reconheceria o ar de uma mulher apaixonada? Foi de sala em sala, vendo janelas, abanando portas. Estava tudo fechado. Por uma simples questão de hospitalidade, devia oferecer-lhe um café e convidá-lo a ficar ali alguns minutos, depois de ter sido amável ao ponto de a trazer a casa. Mas não lhe apetecia ser hospitaleira.

Para seu alívio, ele não se demorou, virou-se para sair.

- Eu telefono-lhe amanhã de manhã para ver como está - disse ele.

- Eu fico bem.

- Precisa de ter cuidado, Maura. Todos nós precisamos. Mas eu não sou uma de vós, pensou. Nunca quis ser.

A campainha da porta tocou. Olharam um para o outro. Ele disse calmamente.

- Porque é que não vai ver quem é?

Ela respirou fundo e entrou no vestíbulo. Deu uma olhadela através da janela e abriu imediatamente a porta. Mesmo o golpe de ar frio não conseguiu afastar o rubor das suas faces quando Daniel entrou, com os braços estendidos já para ela. Então ele viu o outro homem no corredor e ficou ali parado.

Sansone quebrou suavemente o silêncio.

- O senhor deve ser o padre Brophy - disse ele, estendendo a mão. - Eu sou Anthony Sansone. Vi-o na casa da Doutora O'Donnell na outra noite, quando foi lá buscar a Maura.

Daniel confirmou.

- Já tinha ouvido falar de si.

Os dois apertaram as mãos, um cumprimento rígido e cauteloso. Depois Sansone teve o bom senso de fazer uma saída rápida.

- Ligue o seu sistema de alarme - lembrou a Maura.

- Vou ligar.

Antes de passar a porta da frente, lançou um último olhar curioso a Brophy. Sansone não era cego nem estúpido: devia provavelmente adivinhar o que este sacerdote estava a fazer em casa dela.

- Boa noite - disse ele e saiu.

Ela fechou a porta.

- Tive saudades tuas - disse ela e enfiou-se nos braços de Daniel.

- Pareceu um dia comprido - murmurou.

- Só pensava em voltar para casa. Estar contigo.

- Eu também só pensei nisso. Desculpa aparecer assim e apanhar-te de surpresa. Mas tinha de passar por aqui.

- É o género de surpresa que me agrada.

- Julguei que chegavas muito mais cedo.

- Parámos na estrada para jantar.

- Isso preocupou-me, sabes. Que viesses para casa de carro com ele.

- Não tinhas nada com que te preocupar. - Ela deu um passo atrás, sorrindo. - Deixa-me tirar-te o casaco.

Mas ele não fez nenhum gesto para o tirar.

- O que é que soubeste sobre ele, uma vez que passaram o dia inteiro juntos?

- Creio que ele é apenas um tipo excêntrico com imenso dinheiro. E com um passatempo muito estranho.

- Andar à procura de todas as coisas satânicas? Isso vai um pouco além do que eu penso ser estranho.

- A parte realmente estranha é que ele conseguiu juntar um círculo de amigos que acreditam todos na mesma coisa.

- Isso não te preocupa? Que ele esteja tão concentrado no lado escuro? Que ele esteja realmente à procura do Diabo? Tu conheces aquela frase, "Quando olhas muito para o abismo..."

- "O abismo está também a olhar para dentro de ti." Sim, eu conheço a frase.

- Vale a pena lembrá-la, Maura. Como as trevas facilmente se podem aproximar de nós.

Ela riu-se.

- Isso parece um dos teus sermões de domingo.

- Estou a falar a sério. Tu não sabes o suficiente sobre este homem.

Eu sei que ele te preocupa. Sei que ele te está afazer ciúmes. Tocou na cara dele.

- Vamos parar de falar dele. Ele não interessa. Vamos lá, deixa-me tirar-te o casaco.

Ele não fez um gesto para o desabotoar. Só então é que ela compreendeu.

- Não vais ficar aqui esta noite - disse ela. Ele suspirou.

- Não posso. Desculpa.

- Então porque é que vieste até cá?

- Já te disse, estava preocupado. Queria ter a certeza de que ele te trazia para casa em segurança.

- Não podes ficar, mesmo que sejam apenas algumas horas?

- Oxalá pudesse. Mas à última hora eles pediram-me para assistir a uma reunião em Providence. Vou ter de ir de carro até lá esta noite.

Eles. Ela não tinha nenhum direito sobre ele. A Igreja, claro, dirigia a vida dele. Eles eram os donos dele.

Daniel envolveu-a com os seus braços, com a sua respiração a acalentar-lhe o cabelo.

- Vamos para longe um dia destes - murmurou. - Um lugar qualquer fora da cidade.

Onde ninguém nos conheça.

Enquanto ele caminhava para o carro, ela ficou com a porta bem aberta, o frio a escorrer à sua volta, para dentro de casa. Mesmo depois de ele se afastar, ficou na entrada, inconsciente do cruel vento cortante. Era a sua justa punição por desejá-lo. Isto era o que a Igreja dele exigia deles. Camas separadas, vidas separadas. Poderia o próprio Diabo ser mais cruel?

Se eu pudesse vender a minha alma ao Diabo para ter o teu amor, creio que o faria.

 

Mrs. Cora Bongers encostou o seu peso substancial à porta do estábulo e ela abriu-se com uma chiadeira atormentada. Do interior escuro veio o balido nervoso de cabras e Jane sentiu o cheiro intenso de palha molhada e animais juntos no mesmo lugar.

- Não tenho a certeza de que possa ver muita coisa agora - disse Mrs. Bongers, apontando a sua lanterna para o interior do estábulo. - Lamento não ter recebido a sua mensagem mais cedo, quando ainda podíamos ter luz do dia.

Jane acendeu a sua própria lanterna. - Isto deve ser suficiente. Eu só queria ver as marcas, se ainda estão ali.

- Oh, ainda estão aqui. Costumavam irritar o raio do meu marido cada vez que entrava aqui e as via. Eu passava a vida a dizer-lhe para as pintar por cima, só para deixar de se queixar disso. Ele dizia que isso iria ainda enfurecê-lo mais, se tivesse de pintar o interior de um estábulo. Como se estivesse a fazer decoração para as cabras. - Mrs. Bongers entrou, com as suas botas fortes a pisar pesadamente o chão sujo, coberto por palha. Bastara a curta caminhada desde a casa para a deixar sem fôlego e ela parou, arfando ruidosamente, e apontou a sua lanterna para um cercado de madeira, onde uma dúzia de cabras estavam reunidas num ajuntamento instável. - Elas ainda sentem a falta dele, sabe? Ah, o Eben queixava-se constantemente do muito trabalho que isto lhe dava, ter de as ordenhar todas as manhãs. Mas ele amava estas meninas. Já morreu há seis meses mas elas ainda não se habituaram a que outra pessoa as ordenhasse. - Abriu o cercado e olhou de relance para Jane, que tinha ficado para trás. - Não tem medo das cabras, pois não?

- Temos mesmo de entrar aí?

- Ah, elas não lhe vão fazer mal. Tenha é cuidado com o seu casaco. Elas gostam de mordiscar.

Agora vejam se são simpáticas, cabras, pensou Jane enquanto entrava no cercado e fechava a porta atrás dela. Não mordam o polícia. Começou a andar com cuidado no meio da palha, tentando não sujar os sapatos. Os animais observavam-na com olhares frios e desinteressados A última vez que estivera assim tão perto de uma cabra tinha sido numa visita do seu segundo ano de escola a um jardim zoológico para crianças. Nessa altura olhou para a cabra, a cabra olhou para ela e quando deu por si estava estendida de costas com os seus companheiros de turma a rirem-se dela. Não confiava nos animais e manifestamente eles também não confiavam nela: ficavam afastados enquanto ela atravessava o cercado.

- Veja - disse Mrs. Bongers com a lanterna apontada para a parede. - Isto é apenas uma parte.

Jane aproximou-se mais, com o seu olhar fixado nos símbolos entalhados profundamente nas tábuas. As três cruzes do Gólgota. Mas esta era uma versão pervertida, com as cruzes de cabeça para baixo.

- Há também mais ali em cima - disse Mrs. Bongers e apontou o feixe de luz para a trave em cima, mostrando mais cruzes, entalhadas mais alto na parede.

- Ele teve de trepar a alguns fardos de palha para fazer aquelas. Tanto trabalho. Deve pensar que esses malditos miúdos teriam coisas melhores para fazer.

- Porque é que acha que foram miúdos que fizeram isto?

- Quem senão eles? Era Verão e estavam chateados. Não tinham melhor para fazer do que andar a estragar as paredes com golpes de navalha. Pendurar aqueles amuletos esquisitos nas árvores.

Jane olhou para ela.

- Quais amuletos?

- Bonecas feitas de ramos e coisas dessas. Coisinhas arrepiantes. Os do gabinete do xerife só se riram disso mas eu não gostei de as ver penduradas nas árvores. - Parou a olhar para um dos símbolos. - Ali, como essa.

Era uma figura esguia de um homem com o que parecia ser uma espada a sair de uma mão. Entalhado por baixo estava isto: RXX - VII.

- Seja o que for que isso signifique - disse Mrs. Bongers. Jane virou-se para ela.

- Eu li na Ronda da Polícia que uma das suas cabras desapareceu nessa noite. Chegou a recuperá-la?

- Nunca a encontrámos.

- Não havia nenhuns vestígios dela?

- Bom, há bandos de cães selvagens que andam por aqui às voltas, sabe. Eles teriam limpo muito bem cada bocado dela.

Mas nenhum cão fez isto, pensou Jane, voltando a olhar para os desenhos feitos à navalhada. O seu telemóvel tocou de repente e as cabras correram para o lado oposto do cercado, em pânico, misturando os seus balidos.

- Desculpe - disse Jane. Tirou o telemóvel do bolso, espantada por ter ainda rede naquele lugar. - Rizzoli.

Frost disse.

- Fiz o que pude.

- Porque é que isso me parece ser o início de uma desculpa?

- Porque não estou a ter muita sorte na busca de Lily Saul. Ela parece mudar de lugar constantemente. Sabemos que esteve em Itália pelo menos oito meses. Conseguimos um registo de levantamentos nas caixas multibanco durante esse período em Roma, Florença e Sorrento. Mas ela não utiliza muito o cartão de crédito.

- Oito meses como turista? Como é que ela tem recursos para isso?

- Ela viaja baratinho. E mesmo baratinho. Hotéis de quarta classe o tempo todo. Mais, ela pode ter trabalhado lá ilegalmente. Eu sei que teve um trabalho temporário em Florença, ajudando um conservador de museu.

- Ela tem preparação para isso?

- Tem um curso universitário em estudos clássicos. E quando ainda era estudante trabalhou numa escavação em Itália. Num lugar chamado Paestum.

- Por que raio é que não a conseguimos encontrar?

- A mim parece-me que não quer ser encontrada.

- Muito bem. E o primo dela, Dominic Saul?

- Ah, esse é um problema sério.

- Não me vais dar notícias boas esta noite, pois não?

- Tenho uma cópia do registo académico dele na Putnam Academy. É um internato em Connecticut. Ele esteve lá cerca de seis meses, enquanto fazia o décimo ano.

- Portanto ele teria... o quê, quinze, dezasseis anos?

- Quinze. Terminou esse ano e esperava-se que voltasse lá no Outono seguinte. Mas nunca voltou.

- Foi o Verão em que ficou com a família Saul em Purity.

- Exacto. O pai do rapaz tinha acabado de morrer, por isso o Doutor Saul levou-o para passar o Verão com eles. Quando o rapaz não regressou à escola, em Setembro, a Putnam Academy tentou localizá-lo. Por fim receberam uma carta da mãe dele, retirando-o da escola.

- Então para que escola é que ele foi?

- Não sabemos. A Putnam Academy diz que nunca receberam um pedido para encaminharem o currículo académico do rapaz. Foi o último registo dele que encontrei.

- E a mãe dele? Onde é que ela está?

- Não faço ideia. Não consigo encontrar o raio de uma coisa sobre essa mulher. Ninguém na escola alguma vez a conheceu. Tudo o que têm é uma carta, assinada por Margaret Saul.

- É como se todas estas pessoas fossem fantasmas. O primo. A mãe dele.

- Eu tenho a foto escolar do Dominic. Não sei se nos é muito útil, visto que ele tinha só quinze anos na altura.

- Qual é o aspecto dele?

- É um miúdo realmente bem-parecido. Louro, olhos azuis. E a escola diz que as provas dele estavam ao nível do génio. Era obviamente um rapaz esperto. Mas uma nota na ficha dele indica que o miúdo não parecia ter amigos.

Jane ficou a ver Mrs. Bongers a acalmar as cabras. Estava agachada perto delas, arrulando-as no mesmo estábulo sombrio em que, doze anos antes, alguém tinha entalhado símbolos estranhos na parede, alguém que podia muito bem ter passado a entalhar mulheres.

- Muito bem, aqui vai a parte interessante - disse Frost. - Estou agora a olhar para os papéis de inscrição do rapaz na escola.

-Sim?

- Há uma secção que o pai preencheu, a respeito de quaisquer especiais preocupações que pudesse ter. E o pai escreveu que esta era a primeira experiência de Dominic numa escola americana. Porque tinha vivido no estrangeiro a maior parte da sua vida.

- No estrangeiro? - Ela sentiu de repente a sua pulsação a bater num ritmo mais acelerado. - Onde?

- Egipto e Turquia. - Frost fez uma pausa e depois acrescentou, significativamente. - E Chipre.

O olhar dela voltou a fixar-se na parede do estábulo, no que tinha sido ali entalhado: RXX-VII.

- Onde é que estás agora? - perguntou.

- Em casa.

- Tens aí uma Bíblia?

- Porquê?

- Quero que me procures uma coisa.

- Deixa-me perguntar à Alice onde é que ela está. - Ouviu-o chamar a mulher, depois ouviu passos e Frost disse. - Pode ser a Bíblia na versão King James?

- Se é o que tens aí... Agora olha para o índice. Diz-me que partes é que começam com a letra R.

- Antigo ou Novo Testamento?

- Os dois.

Através do telefone ouviu as páginas a serem folheadas.

- Há o Livro de Rute. Romanos. E há o da Revelação, o Apocalipse.

- Para cada um desses livros lê-me as passagens do capítulo vinte, versículo sétimo.

- Está bem, deixa-me ver. O Livro de Rute não tem capítulo vinte. Só vai até ao quatro.

- Romanos?

- A Epístola aos Romanos acaba no capítulo dezasseis.

- E o Apocalipse?

- Espera aí. - Mais sussurro de páginas a serem folheadas. - Aqui está. Apocalipse, capítulo vinte, versículo sétimo. "E quando se completarem os mil anos, Satanás... - Frost fez uma pausa. A sua voz baixou para um murmúrio. - Satanás será solto da sua prisão."

Jane sentia o seu próprio coração a bater com força. Olhou fixamente para a parede do estábulo, para o entalhe da figura esguia empunhando a espada. Não é uma espada. É uma gadanha.

- Rizzoli? - disse Frost. Ela respondeu.

- Acho que sei qual é o nome do nosso assassino.

 

Debaixo da Basílica di San Clemente, o som da água a correr ecoava na escuridão. Lily apontou a sua lanterna através da grade de ferro que barrava a entrada para o túnel e o feixe revelou antigos muros de tijolo e o brilho fraco de água a correr muito lá em baixo.

- Há um lago subterrâneo por baixo da basílica - disse ela. - E podem ver aqui o rio subterrâneo, que nunca pára de correr. Por baixo de Roma há outro mundo, um vasto submundo de túneis e catacumbas. - Olhou para as caras extasiadas fixadas nela através da penumbra. - Quando regressarem à superfície, quando andarem pelas ruas, pensem nisso, pensem nos lugares escuros e secretos que se encontram debaixo dos vossos pés.

- Posso ver o rio mais de perto? - perguntou uma das mulheres.

- Sim, claro. Esperem, eu seguro a luz enquanto cada um vem espreitar pela grade.

Uma a uma, as pessoas do seu grupo excursionista revezaram-se, apertando-se ao lado de Lily, para espreitar o interior do túnel. Na verdade não havia grande coisa para ver. Mas quando se viaja para Roma, talvez a única visita de uma vida inteira, é dever de um turista olhar. Hoje, Lily tinha apenas seis na excursão, dois americanos, dois ingleses e um casal de alemães. Não era uma aquisição assim tão boa: não levaria para casa muito em matéria de gorjetas. Mas o que é que se podia esperar de uma quinta-feira fria em Janeiro? Os turistas do grupo de Lily eram agora os únicos visitantes no labirinto, e ela deixou que se demorassem enquanto se pressionavam contra a grade metálica, os seus impermeáveis estaladiços roçando nela. Ar húmido soprava do túnel, bafiento com o cheiro de pedra bolorentas e molhadas: o odor de épocas muito antigas.

- O que eram estes muros, originalmente? - perguntou o alemão. Lily tinha-o marcado como homem de negócios. Com sessenta e tal anos, falava um inglês excelente e vestia um caro sobretudo Burberry. Mas a mulher dele, suspeitava Lily, não era tão fluente em inglês, visto que a mulher quase não dissera uma palavra durante toda a manhã.

- Estes muros são os alicerces de casas que existiam aqui no tempo de Nero - disse Lily. - O grande incêndio do ano de 64 d. C. reduziu este bairro a um monte de escombros carbonizados.

- Foi o incêndio em que Nero tocava violino enquanto Roma ardia? perguntou o americano.

Lily sorriu, porque ouvira essa pergunta dúzias de vezes e quase conseguia adivinhar quem é que do grupo iria fazê-la.

- Na verdade, Nero não estava a tocar violino. O violino ainda não tinha sido inventado. Enquanto Roma ardia, foi dito que Nero tocava lira e cantava.

- E depois lançou a acusação do incêndio sobre os cristãos - acrescentou a mulher dele.

Lily desligou a lanterna.

- Venham, vamos avançar. Há muito mais para ver.

Ela foi à frente no labirinto sombrio. Por cima deles, o tráfego rugia em ruas movimentadas e os vendedores vendiam postais ilustrados e bugigangas aos turistas que percorriam as ruínas do Coliseu. Mas aqui, debaixo da basílica, havia apenas o som da água que corria eternamente e o rumor dos impermeáveis deles enquanto se deslocam pelo túnel sombrio.

- Este tipo de construção é chamado opus reticulatum - disse Lily, apontando para os muros. - É um trabalho de construção que alterna tijolos com tufo calcário.

- Two-fer? - Era novamente o americano. As perguntas estúpidas eram sempre feitas por ele. - Isso é, digamos, mais forte do que se for one-fer? - Só a mulher dele é que se riu, soltando um relincho forte e irritante.

- Tufa - disse o inglês - é na realidade cinza vulcânica compacta.

- Sim, é exactamente isso - disse Lily. - Era usada muitas vezes como elemento da construção nas casas romanas.

- Como é possível nunca termos ouvido falar dessa tal tufa? - perguntou a mulher americana ao marido, dando a entender que, se não sabiam da sua existência, é porque não podia existir.

Mesmo na penumbra Lily viu o inglês revirar os olhos. Ela respondeu com um divertido encolher de ombros.

- Você é americana, certo? - perguntou a mulher a Lily. - Miss? Lily fez uma pausa. Não gostava dessa pergunta tão pessoal.

- Na verdade - mentiu -, sou canadiana.

1 Há aqui um jogo de palavras que só resulta no inglês falado pelos americanos: "Tuwofer", contracção de "two for one", oferta de dois produtos pelo preço de um. (N. do T.)

- Sabia o que era tufa antes de se tornar guia? Ou isso é, digamos, apenas uma palavra europeia?

- Muitos americanos não conhecem a palavra - disse Lily.

- Bom, então está bem. É só uma coisa europeia - disse a mulher, satisfeita. Se os americanos não a conheciam, não podia ser importante.

- O que estão a ver aqui - disse Lily, avançando rapidamente com a excursão - é o que resta da villa de Titus Flavius Clemens. No século I d. C. isto era um lugar de encontros secretos para os cristãos, antes de serem aceites oficialmente. Nessa altura era ainda um culto primitivo que só conquistava popularidade entre as mulheres nobres. - Acendeu novamente a lanterna, usando o feixe de luz para direccionar o olhar deles. - Agora estamos a entrar na parte mais interessante destas ruínas. Esta parte só foi descoberta em 1870. Aqui vamos ver um templo secreto para rituais pagãos.

Atravessaram o corredor e colunas coríntias surgiram lá à frente nas sombras. Era a antecâmara do templo, ladeada por bancos de pedra, decorados com frescos e estuques antigos. Avançaram para o interior do santuário, passando por dois nichos sombrios, lugar de ritos de iniciação. No mundo lá de cima a passagem dos séculos tinha alterado ruas e linhas do horizonte mas nesta gruta antiga o tempo tin