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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


O DOMADOR DE VENTOS / P. R. Morrison
O DOMADOR DE VENTOS / P. R. Morrison

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

O DOMADOR DE VENTOS

 

Archie Stringweed está prestes a fazer dez anos e as coisas estão cada vez mais esquisitas. Sua mãe, Cecille, parece nervosa e corre para atender o telefone toda vez que ele toca. O pai, Jeffrey, anda às voltas com terríveis dores de cabeça e a cada dia parece mais desmemoriado. Seu avô paterno também passa a sofrer crises de fraqueza e acaba hospitalizado. Para completar, uma enorme onda de frio envolve a casa do menino — a única a ficar totalmente coberta de neve, em toda a aldeia de pescadores em que vivem.

São muitos os mistérios e segredos a rodear os Stringweed. Archie vai começar a entender essa história, a da maldição que recai sobre os primogênitos de sua família, com a repentina chegada do tio Rufus, sumido há muitos anos. Com seu espírito aventureiro, Rufus vai ajudar Archie a quebrar o encanto que fez com que o pai e o avô do garoto perdessem toda a coragem a partir do décimo aniversário, o que acontecerá também com ele, caso não enfrente o tornado Huigor, que se aproxima com toda força.

A tarefa não é nada fácil, mas é das mais nobres. A bravura capaz de enfrentar um tornado e uma maldição, e que dará à sua família o acesso à verdadeira liberdade, virá só de Archie...

 

 

Pouco antes da meia-noite do dia 18 de dezembro, Wes­tervoe, uma pequena aldeia de pescadores na Escócia, foi atingida por um vento oeste. Ele balançou os barcos ancorados no porto, assobiou ao longo da deserta rua principal e subiu velozmente a colina por entre casas construídas muito perto umas das outras, fazendo bater portões de jardins, soprando fuligem chaminés abaixo e girando o cata-vento da igreja. Mas ele guardou a sua força plena para a última casa perto do topo da colina.

A Fronteira dos Ventos tinha três andares, com pequenas janelas aparecendo por entre uma espessa camada de hera. Sua cobertura de telhas vermelhas era apenas visível acima do castanheiro-da-índia que crescia na sua frente, e, como a casa tinha mais de duzentos anos de idade, a hera parecia a única coisa que a impedia de ser derrubada pelo vento.

Archie Stringweed vivia nessa casa com seus pais, Jef­frey e Cecille. Seu quarto ficava no sótão, e sua janela dava para o mar e estava na altura dos telhados da aldeia, o que significava que ele podia ouvir e sentir toda a força do vento, que, especialmente agitado nessa noite, mantinha-o acorda­do enquanto gemia e assobiava nos beirais.

Mas, deitado no escuro com os olhos fechados, ouvindo os galhos da árvore baterem contra a vidraça, Archie perce­beu que alguma coisa não estava muito certa. Não que esti­vesse com medo de que as rajadas pudessem soprar as janelas para dentro e sugá-lo para fora, para dentro da noite — o que já era suficientemente ruim —, mas o garoto tinha certeza de que o vento estava falando com ele. E, embora não pudes­se entender o que estava dizendo, sabia que era alguma coisa que ele não queria ouvir.

Havia mais uma coisa. Ele achava que o vento o estava observando. Ultimamente tinha aparecido atrás dos cantos e dado risada na cara dele, e se insinuado sobre ele, soprando por trás. Às vezes o envolvia pelos ombros e gritava em seus ouvidos.

Archie estava a ponto de puxar o cobertor por cima da cabeça, para abafar os gemidos do vento, quando algo ines­perado aconteceu. Ele ficou deitado, perfeitamente quieto, e escutou. Ouvia apenas o silêncio. Subitamente, o vento se ex­tinguiu.

Ele abriu um olho — que era azul. Depois o outro — que era verde. Através de uma pequena clarabóia bem acima da sua cama, viu que o céu não estava mais escuro e nublado, estava brilhante e claro, lustroso como vidro polido. Uma es­trela cadente o cruzou, deixando um rastro verde-prateado, e Archie pulou para fora da cama e correu para a outra jane­la, puxando a cortina bem a tempo de vê-la reaparecer acima do telhado, viajando tão depressa que desaparecia e reapa­recia por trás dos galhos da árvore. Ele fechou os olhos e fez um desejo.

“Por favor, por favor, por favor...”

Quando Archie abriu os olhos de novo, a estrela tinha desaparecido.

Ele apoiou a mão na vidraça e estremeceu da cabeça aos dedos dos pés: parecia estar encostando em gelo. Espalhou o hálito morno pelo vidro para formar uma névoa fina e escre­veu seu nome, “Archie”. Bafejou outra névoa fina sobre a vi­draça e começou a traçar o contorno do seu rosto: um oval perfeito. Acrescentou as orelhas (maiores do que gostaria), um nariz (nem pequeno nem grande demais) e uma boca sor­ridente (o lábio superior de grossura semelhante à do inferior). Então desenhou dois olhos amendoados. Estava esboçando os tufos rebeldes do seu cabelo cor de areia quando um mo­vimento súbito no reflexo o distraiu. Ele se voltou e viu uma bolinha de cintilante luz verde pairando junto à cama,

Archie ficou absolutamente quieto. Seu primeiro instinto foi gritar, chamando a mãe e o pai, no entanto, no momento em que esse pensamento lhe passou pela cabeça, descobriu que não era medo o que sentia, mas curiosidade. Não conse­guia tirar os olhos da luz cintilante e tremeluzente, e sentiu-se perfeitamente calmo quando uma vozinha dentro da sua ca­beça lhe disse para não ter medo.

Archie atravessou o quarto pé ante pé e a luz verde flu­tuou para cima, fazendo os cavaleiros pendurados no móbile sobre a cama girarem gentilmente.

“O que você quer?”, sussurrou ele.

A luz flutuou para o alto e por cima da sua cabeça em di­reção à porta.

“Temos de ficar em silêncio”, disse a ela. “Minha mãe tem sono leve”.

Archie abriu a porta e o som dos roncos do seu pai subi­ram do andar de baixo. A luz pairou acima do seu ombro, criando um caminho verde nos degraus da escada, convi­dando-o a seguir. Ele desceu na ponta dos pés, hesitando no patamar do primeiro andar para olhar em direção à porta parcialmente aberta do quarto dos seus pais. Sem perigo de ser pego, ele desceu furtivamente o lance seguinte, que era muito mais largo, com um grosso corrimão de madeira e um degrau que rangia, o terceiro a contar de baixo. Para evitar pisar nele, agarrou-se à grande bola de madeira no balaústre e pulou para o chão, aterrissando ao lado do relógio de pên­dulo bem quando ele começou a bater a meia-noite. Archie soltou um gritinho de surpresa. Segundos depois, a mãe o chamava.

“Archie?” A voz dela denotava uma mistura de nervosis­mo e sono, o que a fazia soar como outra pessoa, um estra­nho que entrara sorrateiramente na casa enquanto ele estava ouvindo o vento. “É você aí embaixo?”, perguntou ela, a voz preocupada chegando mais perto.

A luz, que estava pairando na frente do mostrador do re­lógio, encolheu para o tamanho de uma bolinha de gude e desapareceu dentro do porta-guarda-chuva, deixando Archie no vestíbulo escuro, somente com o brilho fraco das luzes da rua para quebrar a escuridão.

A silhueta da sua mãe apareceu no topo da escada.

“O que você está fazendo?”, ela perguntou suavemente.

“Eu... eu estava só indo tomar um gole de água”.

“Volte para a cama”, sussurrou ela. “Não acorde o seu pai”.

O pai dele estava roncando tão alto que Archie não achou que aquela fosse uma possibilidade, mas subiu a escada de volta assim mesmo.

“Boa noite, mamãe”, disse ao passar por ela no patamar. A mãe esticou um braço e acariciou-lhe a cabeça.

“Archie?”

“Sim?”

Ele ouviu-a respirar fundo, como que se preparando para dizer algo importante, mas em vez disso passou os braços em volta dele e segurou-o tão apertado que ele pôde ouvir o co­ração dela batendo através do pijama axadrezado. Ela soltou um suspiro cansado e uma mecha de longos cabelos escuros caiu para a frente, roçando a ponta do nariz dele. Archie sen­tiu um espirro chegando.

“Você ficou resfriado?”, perguntou ela, sem notar que a insuportável comichão no nariz o estava fazendo tremer.

“Estou bem”, Archie conseguiu dizer, e então o espirro explodiu.

“Vá para a cama. Mantenha-se aquecido. Você sabe como o seu peito fica chiando quando você se resfria”.

Ele começou a subir a escada para o sótão, mas sabia que ela iria esperar ali até ele estar seguro no seu quarto. Voltou-se para olhá-la. As mãos dela estavam juntas embaixo do quei­xo, como se estivesse rezando, mas Archie sabia que ela fazia isso quando estava preocupada. Sua mãe se preocupava um bocado.

“Boa noite”, disse ele enquanto recomeçava a subir.

“Durma bem”, sussurrou ela quando ele fechou a porta.

Mas dormir era a última coisa que ele tinha em mente. Archie sentou-se na beira da cama, bem desperto. Sentiu-se tentado a descer de novo e procurar a estranha bola de luz tremeluzente, mas era provável que sua mãe estivesse acor­dada, especialmente porque o relógio de pêndulo ainda es­tava batendo. Esperou até que soasse a última badalada an­tes de abrir a porta, apenas o suficiente para dar uma olhada para fora.

A casa estava tão silenciosa quanto possível com os ron­cos incessantes do seu pai, e escura também. Ele deixou a porta entreaberta e foi para a cama, para aguardar a volta da bola de luz, mas, quando o vento começou a soprar de novo, ouviu alguém sussurrar o seu nome.

“Aaaar-chiiie”.

Não parecia uma voz humana, e não soava como um fan­tasma, mas, quando ela deu um gritinho que mais parecia uma risada, Archie soube com certeza de quem era aquela voz, e dessa vez entendeu o que estava sendo dito.

“Ele vem vindo. Ele vem vindo”, gemeu o vento do lado de fora da janela.

Archie puxou o cobertor por cima da cabeça e desapare­ceu nas profundezas mornas da sua cama. E lá ficou, suando assustado, até o vento se transformar em um sussurro distan­te e as sombras começarem a sumir. Finalmente caiu no sono, sem perceber a bolinha de luz verde que repousava em seu travesseiro, observando-o até os primeiros raios da manhã se insinuarem no quarto.

 

Eram oito e cinqüenta e três da manhã no momento em que Archie desceu as escadas de pijama. Estava no meio de um bocejo quando ouviu a batida pesada da aldraba. Ele abriu a porta e o carteiro sorriu embaixo do seu gorro pontudo.

“Bom dia, Archie. Tenho uma entrega registrada”. As man­gas do grosso casaco vermelho e azul do carteiro roçaram con­tra o corpo do garoto enquanto ele olhava para o endereço no pacote.

“Está escrito: A. Stringweed, Fronteira dos Ventos, Wes­tervoe, Escócia, Reino Unido. Eu me pergunto, quem poderia ser?”, provocou o carteiro.

Archie engoliu um grito de empolgação, mas logo disse: “Sou eu! Hoje é o meu aniversário”.

“Outra vez? Você já não teve um no ano passado tam­bém?” Uma rajada de vento subiu velozmente pelo caminho do jardim e tentou arrancar o gorro do carteiro.

A lufada de ar frio beliscou os pés descalços de Archie e ele estremeceu, lembrando-se de alguma coisa da noite ante­rior. Mas aquilo teria de esperar, pois o carteiro estava lhe pe­dindo para assinar o livro de entregas registradas. Ele estava escrevendo a letra A quando a caneta foi arrancada dos seus dedos. Ele ergueu os olhos, e ali, como se aparecida do nada, estava a mãe dele, com o seu roupão azul felpudo e um leve cheiro de bacon. Uma nuvem de ar morno a seguira da cozi­nha, e Archie sentiu também cheiro de torradas e chá. Ela olhava para ele como se o garoto tivesse acabado de cometer um ato muito perigoso.


“Archie”, suspirou ela, e seus grandes olhos castanhos piscaram desconfiados. “Você não deve abrir a porta sem ve­rificar quem está do outro lado”. O vento chacoalhou a tampa da caixa de cartas presa no lado de dentro da porta enquanto ela acrescentava: “Você nunca sabe quem pode estar esprei­tando lá fora”.

O carteiro não ficou nem um pouco feliz em ser conside­rado um “espreitador”, e para mostrar o que sentia deu uma pequena tossida de desaprovação.

“Bom dia, Cecille”, disse rigidamente.

Cecille pareceu nem notar. Estava mais preocupada com o pequeno pacote marrom que o carteiro lhe estendia. Ela olhou como se não se atrevesse muito a tocá-lo. Um ar de de­sapontamento surgiu no seu rosto quando ela identificou a caligrafia.

“Este pode ficar com os outros”, murmurou ela.

“É um presente do tio Rufus, não é?”, disse Archie. “Tem selos e carimbo estrangeiros”. Ele ergueu os olhos para ela. “Posso ficar com ele este ano? Afinal, estou com dez anos”.

Mas os lábios de Cecille continuaram apertados enquan­to ela assinava o livro de entregas registradas, agradecendo rapidamente ao carteiro. Archie se preparava para dizer algu­ma coisa, mas a porta foi fechada de repente. Segundos de­pois, uma coleção de envelopes coloridos foi empurrada para a caixa de cartas, seguida pela voz do carteiro dizendo “Feliz aniversário, Archie”.

Mas Archie já estava seguindo a mãe pelo vestíbulo, olhando o cinto do roupão dela se arrastar no chão, recolhendo poeira do tapete. Ele estava pensando em um jeito de recupe­rar o pacote do tio Rufus, que ela carregava com os braços esticados, como se fosse algo a ser mantido a uma distância segura. Então seus cotovelos se projetaram para fora dos dois lados do corpo e ela começou a andar energicamente.

“O bacon!” Ela virou bruscamente à direita, para dentro da cozinha.

Bem ao lado da porta havia uma grande mesa de cozi­nha enterrada embaixo de jornais velhos, dinheiro trocado, uma chave de fenda, canetas, lápis e um tubo de creme para as mãos. Tinha também a louça do café-da-manhã. Archie ob­servou sua mãe colocar o pacote em cima dos jornais e correr para o fogão, onde pegou uma frigideira chiante.

O pai de Archie, Jeffrey Stringweed, estava sentado à me­sa da cozinha, uma das mãos segurando a cabeça e a outra, uma caneca de chá. Ele deu um sorriso sonolento de lado e, erguendo a cabeça da mão, disse: “Feliz aniversário, Archie!”.

Estava usando um amarrotado pijama listrado azul e branco e mocassins de pele de carneiro. Seu cabelo castanho era uma massa emaranhada de nós e, abaixo de seus olhos, sombras em meia-lua repousavam sobre bolsas de pele mur­cha. Ele olhou para o pacote em cima da pilha de jornais.

“O carteiro já passou, Cecille?”

“Sim, e você deveria ter estado com os ouvidos atentos”. Ela voltou-se do fogão e deu uma olhada significativa para ele. “Está lembrado?”

Lentamente, ele começou a se dar conta.

“Oh... sim”, e Jeffrey soltou um longo e amplo bocejo. “Parece que não con­sigo despertar direito esta manhã. Me sinto como se tivesse sido drogado”.

Cecille voltou a se atarefar com a frigideira e balançou a cabeça. Algo muito estranho estava acontecendo com Jeffrey. Começara duas semanas atrás e a cada dia ficava pior. Todas as manhãs ele abria os olhos, mas levava uma hora e tanto para acordar completamente. Era como se estivesse sonâm­bulo, sem saber onde estava. Um par de vezes saíra pela por­ta da frente calçando chinelos, e em outra ocasião saíra para o trabalho mas, ao chegar ao portão da frente, não sabia mais do seu destino. Com o avançar da manhã sua memória me­lhorava, e quando voltava para casa à noite já era ele mesmo outra vez. Até agora, conseguira evitar quaisquer repercus­sões sérias, mas, sendo gerente do banco local, a situação fica­va preocupante. Neste momento, esforçava-se para lembrar o que Cecille lhe dissera com respeito a ficar atento à chega­da do carteiro naquela manhã.

Archie interrompeu seus pensamentos.

“Papai, recebi um pacote do tio Rufus e a mamãe não quer me deixar abrir”.

“Tio Rufus? Veja bem”, e Jeffrey pigarreou, limpando a garganta antes de perguntar: “É mesmo, Cecille?”.

E ela respondeu, como que falando com a frigideira: “To­dos os anos é a mesma coisa. Rufus manda alguma coisa com­pletamente inadequada”. Cecille estava virando o bacon para tostar o outro lado quando ele escapou do garfo e caiu com o lado errado para cima, sobre um ovo. “Não posso nem co­meçar a adivinhar o que se passa na cabeça do seu irmão, Jeffrey. Pode-se pensar que ele quer aleijar o seu único sobri­nho — seu único afilhado”. Ela espetou o ovo frito com o gar­fo e depois pulou para trás quando ele espirrou óleo quente em sinal de protesto. Ela lambeu o óleo das costas da mão e resmungou: “Rufus sabe que este ano é diferente”.

Archie viu o pai lançar um olhar de advertência para ela, e passou-lhe pela cabeça perguntar “Por que este ano é dife­rente?”, mas estava preocupado com o pacote fechado, pou­sado provocantemente na beirada da mesa.

“Já estou velho o bastante para abrir os meus próprios presentes”, garantiu ele. “Já tenho dez anos”.

Os olhos injetados de Jeffrey piscaram de novo para Ce­cille. “Bem, ele tem uma certa razão aqui...”

Cecille virou-se de frente para o marido, parecendo mui­to irritada e incomodada.

“Mas que ótimo você dizer isso, Jeffrey! Agora quero saber quem vai recolher os pedaços depois que ele cortar uma artéria!” E então, apontando o garfo para o acusado, ela levantou a voz e acrescentou: “Certamente não você, que qua­se desmaia ao ver um ovo rachado”.

Jeffrey ficou surpreso com aquela explosão tão pouco ca­racterística.

“Você está se sentindo bem, Cecille?”

Ela assentiu, mas não parecia tão segura.

“Desculpe... Não sei o que me deu...”

Archie, nesse meio-tempo, fora tomado por um súbito e inesperado surto de bravura.

“Você não tem o direito de tirar o meu presente de mim”. Ele agarrou o pacote na mesa e saiu correndo pela porta. Ouviu o que pensou ser um garfo caindo no chão, e então Cecille precipitar-se atrás dele, seguindo uns poucos passos atrás enquanto ele disparava escada acima, de três em três degraus.

“Cecille?” Ele ouviu o pai chamar. “Talvez este ano...”

Archie entrou correndo no banheiro e bateu a porta atrás dele, o coração disparado enquanto girava o ferrolho.

“Abra esse pacote e não haverá chá de aniversário esta tarde”, ameaçou Cecille, e a porta sacudiu quando ela cha­coalhou a maçaneta.

Archie baixou os olhos para o pacote em suas mãos e tentou decidir o que era mais importante para ele: chá com George e Sid, ou abrir o pacote misterioso. O que ele poderia conter de tão perigoso? Afinal, Archie era mais ou menos adulto agora, e o pacote fora endereçado a ele.

Ele se agachou e rasgou o papel marrom, depois remo­veu duas camadas de plástico bolha e alguma coisa pequena e metálica caiu no piso ladrilhado. Houve um pequeno mo­mento de silêncio de ambos os lados da porta, até Cecille dizer: “Eu quero que você abra a porta”.

Archie pegou o objeto. Era uma pequena moeda de ouro com marcas estranhas, e quando ele a segurou entre os dedos uma corrente gelada percorreu-lhe a pele. Ele deixou cair a moeda e ela rolou pelo piso. Ele se agachou para olhá-la mais de perto contra o fundo branco dos ladrilhos.

“Eu vou contar até cinco”, Cecille dizia agora, “e se você não abrir...”

Mas Archie não estava ouvindo porque tinha certeza de ter visto aquelas marcas em algum lugar antes; se ao menos pudesse lembrar-se onde...

Cecille começou a contar alto: “um... dois... trêês”. A por­ta sacudiu. “Archie? Eu vou lhe dar a última chance de abrir a porta”. Houve uma longa pausa e então ela berrou: “qua­tro!”. A maçaneta da porta foi chacoalhada, e havia pânico em sua voz quando ela gritou: “Jeffrey! Ele não está abrindo a porta”.

Logo depois vieram o som dos passos relutantes de Jef­frey nos degraus e o murmurar de vozes.

Archie, nesse meio-tempo, estava examinando a moeda. Interessante, ao toque ela não dava a sensação gelada que ele sentira momentos antes. Archie passou um dedo por cima de uma gravação de um pássaro de asas abertas, depois virou a moeda do outro lado. Na parte de trás encontrou a imagem de uma adaga, com serpentes enrascadas no cabo.

“cinco!”, disse Cecille.

Segundos depois Jeffrey dizia: “Muito bem, Archie. Ago­ra eu vou entrar”.

Archie abriu a porta.

Jeffrey estava plantado de lado diante da porta, os om­bros erguidos, pronto para arremeter. Ele não se moveu, nem Cecille. Ambos pareciam estar estudando-o cuidadosamente. Com certeza Archie se sentiu mais valente ao devolver o olhar interrogativo de sua mãe.

Jeffrey deu um passo mais para perto, para olhar melhor, hesitou um momento, como que se preparando para escolher as palavras cautelosamente, e depois, com o seu tom calmo de costume, perguntou: “O que tem aí na sua mão?”.

Archie abriu os dedos para mostrar a moeda.

Cecille olhou para o objeto o tempo necessário para se assegurar de que não apresentava perigos ocultos. Foi para Archie que ela dirigiu um olhar penetrante.

“Havia alguma outra coisa no pacote?”

Archie balançou a cabeça. “Não”.

“Nem um cartão ou uma carta?”, Jeffrey perguntou.

“Não”. Archie encarou de novo o olhar fixo de Cecille. “É ouro”, ele lhe disse, e ergueu a moeda para que a mãe pudes­se vê-la mais claramente. “Acho que é uma moeda da sorte”.

“Da sorte?”, repetiu Cecille. “Não pode ser... com certeza Rufus não iria...” E ela se virou, saiu andando em direção ao seu quarto, desapareceu dentro dele e fechou a porta.

Jeffrey ainda estava examinando a moeda. “Se não havia nenhum cartão, então não sabemos com certeza se é do tio Rufus”.

Archie não estava convencido. “Bem, nós não sabemos de mais ninguém que more em um país estrangeiro, sabemos?” Um soluço débil veio do quarto ao lado. “O que está acontecendo, papai?”

“Nada para se preocupar. Sua mãe apenas precisa de um minuto ou dois sozinha”. Jeffrey pôs a mão no ombro de Ar­chie. “Que tal descermos para a cozinha, para salvar o bacon?” Ele estalou os lábios exageradamente. “Hummmm... Estou com fome”.

Mas Archie não estava sentindo nem um pouco de fome. Por que sua mãe estava agindo de modo tão estranho? E por que ela não lhe desejara feliz aniversário? E não era só isso, ele aparentemente não ganhara nenhum outro presente além da moeda de ouro.

Estava se sentindo confuso e, por alguma razão, um pou­co assustado também. Em parte, porque aquela não era a pri­meira vez em que a ouvia dizer as palavras “este ano é diferen­te”, mas também por causa do modo como as dissera, como se soubesse que algo desagradável estava prestes a acontecer.

O relógio de pêndulo estava batendo nove horas quando eles chegaram ao último degrau, o que provocou uma súbita lembrança da noite anterior. Teria sido um sonho, ou ele real­mente estivera lá no escuro com uma estranha bola de luz verde tremeluzente?

Jeffrey estava perambulando pela cozinha, ainda tentando parecer entusiástico sobre comer ovos com bacon frito demais no desjejum, sem se dar conta de que Archie não estava mais atrás dele. Archie, de fato, estava puxando guarda-chuvas e bengalas para fora do porta-guarda-chuva e espiando lá den­tro, desapontado por não achar nenhuma bola de luz esprei­tando no fundo. Estava repondo tudo no lugar quando Jeffrey reapareceu na porta da cozinha com uma expressão intriga­da, mas então um brilho de reconhecimento perpassou-lhe o rosto e ele abriu um largo sorriso.

“Acho que você não vai encontrar os seus presentes de aniversário aí dentro, filho”.

 

Até onde Archie podia se lembrar, a mesma coisa acon­tecia todos os anos. Um pacote do tio Rufus chegava no dia do seu aniversário, apenas para ser escamoteado sem ter sido aberto. Ele percebera isso pela primeira vez alguns dias an­tes de completar cinco anos. Cecille saíra para comprar ovos para fazer um bolo, e Archie estava ajudando Jeffrey e vovô Stringweed a fazer consertos no galpão do jardim depois de mais uma noite de vento tempestuoso. Eles estavam prestes a começar a pregar as tábuas quando Archie ouviu a batida da aldraba da porta da frente e correu contornando o canto da casa, quase colidindo com o carteiro, que vinha no sentido oposto, trazendo um pequeno pacote marrom.

Archie primeiro se maravilhou com os selos exóticos e depois começou a ler lentamente o nome escrito com tinta preta em grandes letras de fôrma: Archie Stringweed. En­quanto Jeffrey e vovô conversavam com o carteiro sobre a hera que subia pelas paredes externas, ele abriu o seu próprio pa­cote. Dentro, encontrou uma velha sacola cinzenta de lona com cordões de puxar, contendo o mais estranho par de óculos de nadador que já vira.

Ele os levou ao rosto. “São grandes demais”, disse, con­tendo as lágrimas de desapontamento. “A água vai entrar”.

Vovô olhou atônito, mas foi o carteiro quem falou: “Não são óculos de nadador. São óculos de aviador. Segunda Guer­ra Mundial, pelo jeito. Se eu fosse você, tomaria cuidado com eles. Eu diria que são valiosos”.


Vovô os tirou dele gentilmente enquanto Archie exami­nava as camadas de papel de embrulho. “Olhe! Também há um cartão!”

Mas vovô não estava ouvindo; olhava fixamente para os óculos, com uma expressão triste e distante. A mesma que exibira quando o seu papagaio australiano de estimação fora morto em um estranho acidente no ano anterior, esmagado pela porta da sala de estar quando ela se fechou violentamen­te com uma súbita corrente de ar.

Quando Archie pediu ao avô que lesse o cartão, ele ba­lançou a cabeça e disse com uma voz muito calma: “Talvez mais tarde”.

Mas, quando Cecille voltou para casa, os óculos e o cartão tinham desaparecido. Archie não ficou muito desapontado, porque ela lhe prometera comprar um novo par amarelo, mas percebeu uma mudança no estado de espírito de todos. Os três estavam na cozinha, falando em vozes veladas. Eles paravam e sorriam se ele entrasse para pegar uma bebida ou um biscoito, mas assim que saía de novo as vozes voltavam, e não havia como se enganar sobre de quem estavam falando. O nome Rufus era mencionado seguidamente; e de um modo um tanto triste pelo vovô, de maneira pragmática por Jeffrey e com crescente impaciência por Cecille.

Por fim, vovô pôs o chapéu e saiu da casa em silêncio, como se não pudesse mais falar sobre aquilo.

O que haveria com aquele tio estranho e distante que cau­sava tal efeito na família?

Apenas uma semana antes do seu décimo aniversário, por exemplo, o lamento do vento do lado de fora da janela acordara Archie, e ele descera para pegar um copo de água, sem que ninguém o visse, e ouvira a voz exaltada da mãe. Ele foi furtivamente até o quarto dos pais e ficou do lado de fora, atrás da porta, que estava aberta apenas o suficiente para que a visse sentada, usando o seu grande roupão azul, atarefada­mente escovando os cachos de cabelos castanhos. Seu pai es­tava deitado na cama, e tudo o que podia ver era o topo da cabeça dele refletido no espelho da penteadeira.

“O que Rufus está pretendendo?”, dizia ela. “No ano passado ele mandou um relógio de bolso que nem era novo, uma coisa velha e surrada. E aquele alfinete pontudo se pro­jetando para fora poderia ter ferido violentamente Archie. No ano anterior, foi uma lanterna. Além do fato de não fun­cionar, o metal estava gasto e cheio de farpas. E no primeiro aniversário dele, você se lembra? Ele veio com uma faca”.

“Uma adaga”, aparteou o pai com ar cansado.

“Ele se foi há nove anos. Nos primeiros dois anos nós nem ficamos sabendo se estava vivo ou morto”.

Jeffrey deu um gemido.

Cecille continuou: “Ele simplesmente se levantou e par­tiu, deixando para você o trabalho de recolher os pedaços. Suponho que Rufus ache que enviar um cartão-postal de vez em quando para a sua mãe e o seu pai seja suficiente, e que mandar aqueles presentes estranhos para Archie com cartões esquisitos e crípticos o isente de suas obrigações. Bem, não isenta, não no que diz respeito às obrigações dele como padri­nho”. Ela girou o corpo na banqueta para olhar diretamente para Jeffrey. “Ele vem mandando esses presentes desde que Archie tinha três anos, mas agora já é hora de parar. Rufus sabe que este ano é diferente. Quero que você fique de olho no carteiro. Você está me ouvindo, Jeffrey? Se algum presente de aniversário estranho chegar, quero que você o ponha em uma caixa junto com todos os outros — os cartões também — e quero que você mande tudo de volta para Rufus... onde quer que ele esteja. Não quero mais os presentes esquisitos dele nesta casa”.

Archie ouviu seu pai dar uma resmungada sonolenta e observou a mãe acabando de escovar os cabelos.

“É simplesmente muito esquisito”, disse ela consigo mes­ma, “tudo isso”. Ela então apagou o abajur e se deitou.

Archie esqueceu da sua água e voltou silenciosamente para o seu quarto, pensando no que acabara de ouvir. Ele guardou no fundo da memória as palavras “este ano é diferen­te”, enquanto procurava no dicionário a palavra “críptico”. Foram necessárias algumas tentativas, já que não tinha certe­za sequer de como se escrevia críptico, mas por fim encon­trou: “secreto, misterioso; de significado obscuro”. Tio Rufus enviara cartões secretos e misteriosos. E o que era aquilo de uma adaga, e uma lanterna, e um relógio? Archie calculou que se tio Rufus lhe dera um presente por aniversário desde os seus três anos, então ao todo oito presentes, incluindo a adaga que ganhara na primeira vez, estavam em algum lugar nos quartos em volta. Não apenas isso, ele teria de encontrá-los antes que o pai os pusesse em uma caixa e devolvesse ao tio Rufus. Alguma coisa muito estranha estava acontecendo, e, agora que ele era quase um adulto, tinha a intenção de des­cobrir a verdade.

 

Archie estava começando a acreditar que seu décimo ani­versário seria um dia totalmente miserável. Não havia come­çado muito bem, especialmente com a mãe e o pai em grave discussão no quarto deles, a portas fechadas. Ele sentou-se sozinho na cozinha para comer seu café-da-manhã de ovos com bacon esturricado. Simplesmente não entendera por que a sua mãe estava tão aborrecida com tio Rufus por mandar uma moeda da sorte. Olhou para ela sobre a mesa da cozinha, ao lado do seu prato. Que mal poderia uma pequena moeda de ouro lhe fazer?

Finalmente seus pais desceram, comportando-se como se nada de estranho tivesse acontecido. Cecille vestira um longo cardigã em diversos tons de marrom, pusera seus brin­cos favoritos de gotas de ouro, prendera o cabelo em um rabo-de-cavalo alto e realçara o seu sorriso de “tudo-vai-muito-bem” com batom vermelho. Para complementar essa sensação de normalidade, ela e Jeffrey decidiram que Archie poderia ficar com a moeda, mas ela deveria ser guardada em lugar seguro.

“Para o caso de ser valiosa”, informou Jeffrey.

Cecille sugeriu que ele pusesse a moeda no cofre da casa, mas Archie já decidira escondê-la na sua caixa de truques mágicos, mais provavelmente junto com o baralho, para o ca­so de sua mãe mudar de idéia e vir procurá-la quando ele não estivesse por perto. Ele se deu conta de que deveria ser extra-vigilante, e isso incluía manter os olhos abertos para pistas de onde tinham sido escondidos os presentes de aniversário do tio Rufus. Quanto aos cartões crípticos, tinha cer­teza de que, caso os encontrasse e lesse, iria chegar ao fundo do mistério. Parecia que o lugar mais óbvio para começar a busca seria o estúdio do seu pai, lá no porão. Mas Archie iria precisar de uma razão muito boa para vasculhar os armários e gavetas dele sem permissão.

Archie ficou pensando no problema por tanto tempo que Cecille por fim olhou para ele e perguntou: “Você não vai abrir os seus presentes de aniversário, Archie?”.

Cinco pacotes de tamanhos variados estavam arruma­dos sobre o sofá da sala de estar. O que apenas vinha provar que os seus pais eram muito bons em interceptar o carteiro e esconder pacotes.

O maior de todos era uma caixa quadrada, embrulhada em papel vermelho. Archie decidiu deixá-la para o fim e op­tou por abrir o pequeno pacote verde. Primeiro leu a etiqueta do presente: “Feliz aniversário, Archie. Desculpe não poder­mos estar com você hoje, mas guarde um pouco do seu bolo de aniversário para nós até que o vovô esteja se sentindo me­lhor. Com amor, vovó e vovô Stringweed”.

Seus avós moravam em Breckwall, uma cidadezinha a onze quilômetros de distância, e todos os anos vinham visi­tá-lo no seu aniversário, mas este ano vovô Stringweed esta­va doente.

“Fortes dores de cabeça”, explicou Cecille. “E tonturas também”. O que era motivo de preocupação, pois até alguns dias atrás ele gozava de perfeita saúde, sentindo-se bem o bastante, de fato, para consertar as persianas à prova de tem­pestades das janelas da sua casa e adaptar vedações em todas as portas externas.

Archie pegou a pequena caixa verde e sacudiu, tentando adivinhar o que poderia ter dentro, antes de desfazer o em­brulho e encontrar uma caixa transparente. Dentro havia um relógio que também tinha cronômetro e alarme, e uma luz azul fluorescente que se acendia no mostrador ao apertar um botão. Archie tentou assobiar de prazer, mas, embora já tives­se dez anos de idade, ainda não conseguia extrair uma nota aguda dos lábios.

Havia um pouco de Lego e um livro sobre as Cruzadas, da tia Sylvia e do tio Will, e uma máquina de fazer chocolate, dos seus dois primos. Então veio a grande caixa vermelha dos seus pais. Estavam ambos sorrindo nervosamente quando ele começou a desembrulhá-la.

Archie estava pedindo patins de rodas desde que tinha sete anos, e a cada aniversário sua mãe dizia: “Talvez no ano que vem, quando você for um pouco mais velho. Eles são pe­rigosos demais para um menininho que mora no topo de uma colina”.

Bem, agora ele tinha dez. Com certeza este ano ele já es­tava velho o bastante. Pela forma e pelo peso da caixa, deci­diu que não poderia conter outra coisa. Em sua excitação, Archie rasgou o papel com as duas mãos, já se imaginando a disparar em volta do pátio da escola para admiração de cada aluno e cada professor. Ele avistou sua mãe sorrindo nervo­samente, as mãos entrelaçadas embaixo do queixo, o rabo-de-cavalo pendendo sobre um ombro. Seu pai balançava a cabeça, urgindo-o a revelar a bem embalada surpresa. No momento seguinte Archie arrancou um grande pedaço de papel vermelho para ver surgir a palavra “walkie-talkies”.

“Achamos que seria divertido conversar com você en­quanto está lá em cima no seu quarto”, dizia sua mãe enquan­to ele olhava desapontado para a caixa. “Me pouparia ter de chamá-lo para descer para o chá”. Ela se inclinou e deu-lhe um grande beijo na bochecha. “Feliz aniversário, Archie”. E então, antes que ele se desse conta, ela o apertou em seus bra­ços. “Nós o amamos muito”.

“Obrigado, mamãe”.

“Ainda há mais”, dizia Jeffrey. “Olhe dentro da caixa”.

Archie a abriu e ficou alegremente surpreso ao encontrar um jogo de computador que ele queria havia séculos, chama­do Cavaleiro dos Cinco Tigres.

“Sensacional. Muito obrigado”. Ele estava admirando os cavaleiros na tampa quando o telefone tocou.

“Eu atendo”, disse Cecille, e correu para fora da sala, fe­chando a porta atrás de si. Segundos depois ela estava de volta, dizendo: “Foi engano”.

“Quem estavam procurando?”, perguntou Jeffrey.

Cecille pareceu não ouvi-lo, pois bateu palmas e disse: “Vamos dar uma ordem nisto”.

Ela ficou muito atarefada, recolhendo papel de embru­lho e mudando de lugar os cartões que estavam sobre a larei­ra para abrir espaço para os cartões de parabéns de Archie. Mas estava agindo de modo estranho outra vez, pois, muito embora estivesse sorrindo, Archie pôde ver uma lágrima so­litária se formando no canto de um olho.

“Quer experimentar os walkie-talkies, Archie?”, pergun­tou seu pai. “As pilhas já estão dentro. Pronto para funcionar”.

“Vou levar um para cima comigo. Acho que vou brincar um pouco com o Lego”.

Archie já tinha subido o primeiro lance da escada quando o walkie-talkie acordou para a vida crepitando.

“Chamando aniversariante, chamando aniversariante. Está na escuta?”

Archie pôde ouvir o pai com perfeita clareza, já que sua voz também subia da sala de estar pela escada.

“Aniversariante na escuta, alto e claro”, respondeu ele pelo aparelho.

“O aniversariante está feliz?”

“O aniversariante está muito feliz”, disse Archie, o que era verdade, mas quando começou a subir para o seu quarto no sótão não pôde deixar de sentir que um par de patins o teria deixado ainda mais feliz.

 

Se Archie ficou desapontado com seu walkie-talkie, ele se alegrou rapidamente com uma visita à casa pouco depois.

Ezekiel Arbuthnott vivia em um pequeno chalé mais abaixo na colina, próximo da igreja. Era um professor aposen­tado, tesoureiro do fundo municipal da aldeia e um experien­te pescador de águas costeiras. O outro interesse de Ezekiel era o tempo. O que ele não sabia sobre formações de nuvens, direção do vento e humor do mar não valia a pena saber. Também era o melhor amigo do vovô Stringweed. Os dois gostavam de falar a Archie de suas aventuras da juventude, e, como a memória de Ezekiel era muito boa, ele jamais se es­quecia do aniversário de Archie. Às vezes chegava um ou dois dias atrasado com o seu presente, mas no décimo aniversário de Archie estava batendo à porta às dez e meia da manhã, trazendo uma sacola de compras vermelha e branca e pare­cendo muito satisfeito consigo mesmo. Embaixo do seu boné chato e do casaco impermeável com uma faixa verde fluores­cente atravessando o peito, ele parecia um anão de jardim.

Ele não quis entrar na casa.

“Vocês, gente boa, têm um dia atarefado pela frente”, in­sistiu ele. “Só vim entregar estes presentes para o rapaz em questão e desejar-lhe feliz aniversário”.

Archie pensou ter visto Ezekiel piscar quando aceitou a sacola, embora não pudesse ter certeza, já que os olhos de Ezekiel estavam parcialmente escondidos embaixo das gros­sas sobrancelhas brancas.

Então Ezekiel voltou-se para Jeffrey. “O vento diminuiu. Eu estava meio que esperando um tempo tempestuoso de­pois das rajadas da última noite”.

Jeffrey balançou a cabeça. “Se um tornado tivesse passa­do por cima de nós na última noite, eu não teria ouvido nada”.

“Um tornado?”, disse Ezekiel.

O ar ficou gelado e Cecille estremeceu. “Está muito frio aí fora. Tem certeza de que não quer entrar?”

Ezekiel tinha certeza absoluta. “Os irmãos Harvey vão me levar no barco deles esta manhã. Me disseram que a pes­caria está boa em volta da rocha do Musgo”.

Ele então desejou a Archie feliz aniversário de novo e foi andando pelo caminho do jardim até sua bicicleta, que deixa­ra encostada junto ao portão. Os três aguardaram na soleira da porta enquanto ele fazia duas tentativas de jogar a perna por cima do quadro da bicicleta.

“Parece que vai nevar”, disse depois de montar, e então, com um aceno, ele partiu.

“Obrigado de novo”, gritou Archie, e logo depois a cam­painha da bicicleta de Ezekiel soou em resposta.

“O céu parece estar claro demais para nevar”, comentou Cecille, e então ela e Jeffrey entraram em casa, deixando Ar­chie em pé do lado de fora, junto à porta. Ele estava olhando pelos galhos da árvore para o céu claro e azul, quando uma es­pessa nuvem branca pairou por cima do telhado e, enquanto ele olhava, um único floco de neve veio flutuando na sua di­reção. Ele abriu a boca, preparando-se para pegá-lo, quando uma forte lufada de vento passou assobiando pelo canto da casa e deu uma risada tão forte que o fez cambalear para trás através da porta. Archie soltou um grito de surpresa e um momento depois a lufada de vento se foi.

“O que você disse?”, perguntou Jeffrey de dentro do ves­tíbulo.

“Nada”, disse Archie endireitando-se. “Devem ser os meus ouvidos”, disse Jeffrey. “Estava cer­to de que você falou alguma coisa”.

“Archie”, gritou Cecille da cozinha. “Venha para dentro antes que pegue um resfriado”.

Archie fechou a porta e imediatamente a tampa da caixa de cartas se abriu e uma lufada de vento uivou, “Looogo, looo­go”, antes de se fechar de novo com uma batida. E tudo ficou quieto e silencioso outra vez.

Ele continuou olhando para a caixa de cartas até uma voz atrás dele perguntar: “Está tudo bem, Archie?”.

Ele se voltou e viu Jeffrey observando-o com expressão preocupada.

“Sim. Estou ótimo”, respondeu, embora os cabelos da sua nuca estivessem eriçados. Archie pensou em contar ao pai que o vento estava falando com ele, mas decidiu não fazer isso, pois ele mesmo mal podia acreditar. Talvez estivesse en­ganado. Havia também outra razão. Se Cecille descobrisse, iria provavelmente cancelar o seu chá de aniversário e man­tê-lo dentro de casa até a primavera. Então, a caminho da co­zinha, ele conseguiu dar um pequeno soco brincalhão no ar.

“Quer ver o que Ezekiel me trouxe?”

“Claro”, disse Jeffrey, com um olho atento na caixa de cartas enquanto ouvia Archie abrir os seus presentes.

“Um livro sobre o tempo!”, exclamou Cecille. “É um pre­sente muito útil”.

Archie começou a abrir o seu segundo presente. Jeffrey, nesse meio-tempo, continuava de olho na caixa de cartas. Sem nenhum vento soprando, nem mesmo uma brisa, como é que a tampa estava se abrindo sozinha lentamente, deixando en­trar um raio de luz do dia que caía sobre o tapete desbotado do vestíbulo? Ela continuou a se abrir até que a voz excitada de Archie gritou: “Luvas de boxe!”, e nesse instante ela se fe­chou com um ruído forte.

 

A neve continuou a cair. Quando Sid e George, os melho­res amigos de Archie, chegaram, logo depois das duas horas, o telhado, a calçada e o jardim estavam cobertos por uma es­pessa camada branca, e a árvore do lado de fora da casa pa­recia uma gigantesca teia branca de aranha. Não havia vento, nem uma única lufada inesperada surgindo de lugar nenhum.

Os dois meninos estavam na soleira da porta com um presente de aniversário embrulhado em cores vivas nas mãos enluvadas, os olhos familiares espiando por trás de um amon­toado de chapéus, cachecóis e casacos forrados. O outro ami­go de Archie, William, não pôde vir porque estava sofrendo de uma crise séria de amigdalite. George não tinha esse pro­blema e deu um forte assobio de aprovação diante da neve empilhada em volta da casa. Uma coisa que Archie teria ado­rado realizar era ser capaz de assobiar — especialmente tão bem quanto George.

Sid, que quase conseguia assobiar, trouxera para Archie uma caixa de seis bolas de gude gigantes que sua mãe encon­trara em uma feirinha de objetos usados, cada qual contendo um cavaleiro em miniatura.

Archie decidiu que o cavaleiro de armadura prateada com escudo vermelho era o seu favorito, já que parecia muito o cavaleiro de papelão que Archie fizera para se parecer com ele próprio, pendurado no móbile de cruzados acima da sua cama.

O presente de George era um par de óculos de visão no­turna, que funcionavam muito bem, ele podia garantir, tinha experimentado na noite anterior. Pode até ver o irmão mais novo, Stan, cutucando o nariz e grudando a meleca na cabe­ceira do seu beliche.

Archie levou Sid e George para o seu quarto e lhes mos­trou os outros presentes. Sid adorou as luvas de boxe e lutou alguns rounds contra um travesseiro. George achou que os walkie-talkies eram uma idéia especialmente boa, muito em­bora concordasse que não tão boa quanto um par de patins.

“Por que eles não lhe deram?”, perguntou Sid, que esta­va agora explorando a embalagem do jogo do Cavaleiro dos Cinco Tigres.

“Perigoso demais”, disse Archie com jeito infeliz.

“Então ela não sabe que você desceu a colina com os meus patins?”, disse Sid.

“Minha mãe diz que a gente precisa experimentar um pouco de perigo para crescer”, disse George, que já tinha que­brado um pulso e um tornozelo, e sofrido uma concussão de­pois de cair com os seus patins. Ele também tinha diversas ci­catrizes de acidentes envolvendo o seu skate, o seu pula-pula e a sua bicicleta. Para o Natal ele pedira um kart.

Archie teria gostado de mostrar a George e Sid a miste­riosa moeda de ouro, que estava seguramente escondida na sua caixa de mágicas, mas alguma coisa lhe dizia que aquilo devia ser mantido em segredo — pelo menos até que tivesse algumas respostas para o mistério do tio Rufus.

O walkie-talkie que estava na cama de Archie crepitou e a voz de Jeffrey sugeriu que, como havia parado de nevar, eles deviam ir para o jardim e fazer uma guerra de bolas de neve.

“Quem sabe jogar uma ou duas na direção do cachorro do vizinho, que não pára de latir”, acrescentou ele baixinho, para o caso de Cecille estar ouvindo.

Como esperado, o cão começou a latir assim que eles pu­seram um pé para fora, no jardim dos fundos. Eles não po­diam vê-lo por causa da neve recém-caída que cobria a cerca, mas sabiam que estava perto pelas arfadas, rosnados e mais latidos.

Sid deu uma olhada para a cerca farfalhante e disparou de volta para dentro de casa.

“Eu não gosto de cachorros barulhentos”, disse, final­mente.

“Tudo bem”, disse Archie. “Ele não pode passar pela cer­ca. É grande demais”.

“Grande quanto?”, perguntou Sid, ainda nervoso.

“Eu tenho uma idéia”, disse George. Ele fez uma bola de neve e atirou; ela roçou a cabeça de Jeffrey antes de desapa­recer do outro lado da cerca. Logo depois o cão deu um ga­nido surpreso, e então silenciou.

“Eu consegui. Eu consegui!”, gritava George, triunfante, quando um grande bloco de neve caiu de uma árvore e ater­rissou na sua cabeça. Ele começou a sacudir o cabelo selvage­mente. “Está gelado! Está escorrendo pela minha nuca”.

Archie e Sid estavam muito ocupados rindo para ajudá-lo, portanto coube a Jeffrey limpar a neve da gola do casaco de George. Foi então que ele notou um aglomerado fofo de penas brancas misturadas com a neve.

“Depressa”, gritou George. “Está derretendo!”

Jeffrey decidiu não aumentar o desconforto de George mencionando as penas, então apertou-as em uma bola e a jogou de lado. George, enquanto isso, não perdeu tempo em preparar sua vingança e rapidamente fez duas bolas de neve gigantes.

“Tome isto!”, gritou, lançando uma contra Archie e outra na direção de Sid.

A guerra de bolas de neve de aniversário começara ofi­cialmente, mas Jeffrey estava momentaneamente distraído. Ele olhou para cima, para os galhos da árvore carregados de neve, tentando entender como um punhado de penas bran­cas se misturara ao bloco de neve que caíra tão precisamente em cima da cabeça de George, mas, por mais que tentasse, não conseguiu encontrar nenhuma explicação. Ainda esta­va distraído pelo pensamento quando viu três bolas de ne­ve atravessando o ar velozmente na sua direção, todas elas certeiras.

“O que foi isso?”, disse Archie.

Ele estava com George e Sid no seu quarto, depois da guerra de bolas de neve e da construção de um enorme bo­neco. Eles estavam agora jogando o seu novo jogo de compu­tador, o Cavaleiro dos Cinco Tigres.

“Escutem”, sussurrou Archie.

“O quê?”, disse Sid, sem desviar os olhos da tela do computador. Ele estava se preparando para destruir o Tercei­ro Tigre com uma tocha flamejante, enquanto George olhava impaciente, esperando que todos os tigres não fossem des­truídos antes de chegar a sua vez.

Então ouviu-se o som de novo. Tap, tap, tap. Todos se vol­taram e olharam para a janela, que estava coberta de neve. A luz do dia quase se acabara e o quarto estava mais ou menos no escuro, a não ser pelo brilho da tela do computador.

“É só um galho de árvore encostando no vidro”, decidiu George.

“Não”, disse Archie. “É um som mais agudo que isso”. Ele atravessou o quarto para olhar mais de perto.

“É fantasmagórico”, disse Sid, levantando-se da mesa do computador. “Vou acender a luz”.

“Ainda não”, disse George, aboletando-se na cadeira que Sid acabara de deixar vaga. “Você não poderá ver o lado de fora se acender a luz”.

Archie a essa altura estava em pé junto à janela, espremi­do entre uma cadeira e a mesa, espiando através de uma pe­quena área do vidro que não estava coberta de neve.

“Venham ver isso”, disse ele baixinho.

Alguma coisa na sua voz deixou os outros curiosos.

“Talvez seja um fantasma”, disse George com jeito tra­vesso.

Sid engoliu em seco. “Vamos descer. Estou com fome”.

“Não façam barulho”, disse Archie quando os meninos se insinuaram atrás dele e olharam por cima do seu ombro. Deu um passo para o lado e eles se curvaram para olhar atra­vés de um canto da vidraça.

Do outro lado da janela, um grande olho verde fluores­cente contemplava os três, e, quando eles se aproximaram do vidro para ver melhor, ele piscou.

“É um fantasma?”, perguntou Sid, recuando.

O som agudo de batidas contra o vidro soou de novo e flocos de neve caíram para revelar um bico cinzento.

“É um pássaro”, disse Archie.

“E dos grandes”, disse George, soltando um assobio suave.

O pássaro continuou a bater no vidro com o grande bico.

“Ele quer entrar. Abra a janela, Archie”, disse George.

Archie abriu a janela e um golpe gelado de vento soprou flocos de neve através da mesa. O pássaro pulou para dentro e pousou sobre um desenho que Archie tinha feito do rei Ri­cardo Coração de Leão. Ele tinha uma pequena bolsa presa a uma perna.

George engoliu em seco e recuou alguns passos. “Ele tem pernas cinzentas!”

“Talvez esteja com frio”, sussurrou Sid, grudado às cos­tas da jaqueta de George.

Archie fechou a janela. “Acho que é um ganso da neve. Deve ter se desgarrado com o vento”.

O quarto agora parecia muito escuro e assustador, e ha­via um enorme pássaro em cima da mesa. Archie se esgueirou para trás dele, para acender a pequena luminária da mesa, e o pássaro esticou as asas alarmado quando a luz se acendeu.

Sid recuou lentamente em direção à porta. “Quem vai ti­rar a bolsa da perna dele?” Ele olhou para George, que olhava nervosamente para o enorme bico do pássaro.

“Precisamos distraí-lo”, decidiu Archie. “Dêem-lhe algu­ma coisa de comer”.

“Que tal as batatinhas fritas que a sua mãe nos deu?”, sugeriu George. Ele tirou uma do saco e, de uma distância se­gura, atirou-a sobre a mesa. O pássaro a apanhou e a segurou no bico. Então, inesperadamente, ergueu a perna como que convidando-os a remover a bolsa.

“É o seu aniversário, Archie. Acho que você devia fazer isso”, disse Sid da sua posição perto da porta.

Archie avançou e cautelosamente esticou um braço na direção da perna do pássaro. Ele não se moveu, ficou quieto, o grande olho de conta observando-o enquanto o garoto, mui­to gentilmente, puxava o cordão. A bolsa caiu sobre a mesa.

O pássaro jogou a cabeça para trás e engoliu a grande ba­tatinha frita.

“Acho que ele quer mais uma”, disse George, que estava se sentindo ligeiramente mais corajoso e começou a espalhar batatinhas pela mesa. Archie, enquanto isso, estava investi­gando a bolsa.

“O que tem dentro?”, quis saber Sid, e então levou um grande susto, quando ouviu a voz de Cecille chamando na escada.

“Meninos! O chá está pronto. Lavem as mãos e desçam”. “Já vamos”, gritou Archie.

O pássaro entrou em pânico ao som da voz de Archie, es­ticou as suas asas enormes e decolou. George olhou para cima impressionado enquanto ele voava em volta do quarto. Sid cobriu a cabeça com os braços e gritou.

O próximo som que ouviram foi Cecille correndo escada acima e perguntando: “O que está acontecendo aí dentro?”.

Os três meninos ficaram paralisados. O pássaro pousou sobre a cama de Archie. Uma batida leve soou na porta.

Archie a abriu apenas o bastante para mostrar a cabeça. “Estávamos contando histórias de fantasmas”.

“Quem gritou?”, quis saber Cecille, enquanto tentava olhar para dentro do quarto.

George apareceu atrás de Archie.

“Fui eu. Desculpe”.

“Onde está Sid?”, perguntou ela.

“Aqui”, disse ele, dando pulos atrás de George e acenan­do com os braços.

“Para baixo em cinco minutos, meninos. Não se esque­çam de lavar as mãos”.

Eles fecharam a porta e encostaram as costas contra ela, olhando firme para o ganso da neve. Ele estava confortavelmente instalado sobre o cobertor azul, arrumando as suas pe­nas com calma.

“O que vamos fazer agora?”, sussurrou Sid. Ele e George olharam para Archie.

“Vamos descer e tomar chá”, decidiu Archie. “Dar a ele tempo para descansar. Vamos trazer escondido um pouco de comida para ele. Talvez depois de descansado ele voe para fora de novo”.

Os três olharam para o ganso, que parecia muito à von­tade.

“E se ele não voar?”, disse Sid. “Teremos de contar à sua mãe e ao seu pai?”

“Não”, disse Archie. Ele já estava começando a suspeitar que havia algo além do que inicialmente pensara em relação a essa visita. “Nem uma palavra a eles, prometido?” Archie viu que os dois meninos estavam olhando de modo incerto para o ganso. “George?”

“Prometido”, disse George sem tirar os olhos do pássaro.

“Sid?”

Por fim, Sid assentiu. “Mas a sua mãe vai ficar malu­quinha”.

Archie tentou ser tranqüilizador. “Não se ela não souber. Ajam normalmente e depois voltem aqui para cima o mais rápido possível”.

Archie foi abrir a porta, mas George o impediu. “Então mostre para nós o que havia na bolsa”.

A bolsa era feita de couro marrom-escuro, com um cor­dão de puxar, e Archie pôde apalpar alguma coisa pequena e dura lá dentro. Ele virou a bolsa de cabeça para baixo e dei­xou o conteúdo cair na palma da sua mão. Um arrepio gela­do percorreu seus dedos.

“É uma moeda”, disse George com um quê de desapon­tamento.

“É só o que há?”, perguntou Sid. “Nenhuma mensagem secreta nem nada?”

Archie olhou para dentro da bolsa para ter certeza. Mas se os amigos estavam desapontados, seu coração havia dispa­rado de excitação. A moeda em sua mão era muito similar à que ele recebera pelo correio naquela manhã. George a pegou e examinou atentamente.

“É uma moeda estrangeira. Você não pode nem gastá-la. Mas, no entanto, parece de ouro”.

Sid estava mais preocupado com o grande pássaro abo­letado na cama e com o modo como estava agora olhando para eles, como se pudesse entender cada palavra que estava sendo dita.

“Estou com fome”, Sid anunciou.

Archie devolveu a moeda à bolsa e a pôs no bolso da cal­ça. “Agora, lembrem-se. Enfiem um pouco de comida nos bolsos e nós nos encontraremos aqui em cima assim que pos­sível. Temos uma missão a cumprir”.

Os meninos marcharam para fora, mas, antes de fechar a porta, Archie olhou de novo para dentro do quarto. Havia al­guma coisa naqueles olhos curiosamente brilhantes e verdes que lhe dava uma sensação reconfortantemente familiar.

Cecille ficou surpresa com a rapidez com que os meni­nos tomaram o seu chá. Estavam sentados em volta de uma mesa na sala de estar que ela decorara especialmente com uma toalha de mesa de papel branco e pratos e copos de plás­tico azul. Salsichas, coxinhas de frango e batatas fritas desa­pareceram de seus pratos com uma velocidade notável.

“Vocês, meninos, certamente ficaram com um grande ape­tite jogando bolas de neve esta tarde. Alguém quer bolo de aniversário?”

Três mãos se ergueram.

Cecille apagou a luz do teto e depois as luzes da árvore de Natal, em preparativo para trazer o bolo cerimoniosamen­te para a sala. Eles aguardaram na luz difusa do vestíbulo. Da cozinha, Jeffrey pediu silêncio. De cima, veio um forte gri­to de ave.

Os meninos olharam para o teto.

“O que foi isso?”, perguntou Cecille. “Vocês ouviram al­guma coisa?”

“Foi a minha imitação de ganso da neve”, disse George. “Um ganso da neve que mal pode esperar por um bolo de aniversário”. Ele produziu um guincho convincente do fun­do da garganta e Archie e Sid fizeram questão de rir muito mais alto que o necessário.

“Então não espere mais, ó ganso impaciente”, disse Jef­frey aparecendo na porta, segurando o bolo no alto.

“Não vai acender as velas, senhor Stringweed?”, pergun­tou George.

“Oh. Esqueci”, disse Jeffrey envergonhado, e desapare­ceu de novo dentro da cozinha.

Os três meninos estavam olhando para o teto, rezando para que não houvesse mais guinchos do pássaro, quando Archie se deu conta de que Cecille o observava atentamente, como se estivesse procurando evidências ou pistas no seu rosto. Mas ela logo saiu daquele estado pensativo quando Jeffrey reapareceu na porta da sala de estar com as bolsas em­baixo dos olhos iluminadas pelo brilho tremeluzente de dez velas acesas.

“Pode começar com a banda, Cecille”, disse ele, muito seguro de si.

Cecille começou a cantar “Parabéns a você” com voz agu­da, os brincos e o rabo-de-cavalo balançando no ritmo. Jef­frey juntou-se a ela em uma rica voz de tenor. Então Sid e George também entraram no balanço e cantaram enquanto o bolo de chocolate, na forma de alguma coisa que pretendia ser um elmo de cavaleiro mas na verdade parecia uma bola murcha de futebol americano, era segurado no alto em laba­redas de velas tremeluzentes.

Jeffrey o colocou sobre a mesa e Archie foi convidado a fazer um desejo antes de soprar as velas.

Sid e George o observaram atentamente enquanto ele fe­chava os olhos, e todos aguardaram em silêncio durante um tempo que pareceu infinito.

“Aposto que ele está desejando ganhar patins no Natal”, disse Sid baixinho.

Cecille e Jeffrey trocaram um olhar preocupado bem no momento em que Archie abriu os olhos, tomou um fôlego enorme e apagou todas as velas com um sopro. Ele sorriu misteriosamente para si mesmo através das finas plumas de fumaça.

Houve muitos aplausos enquanto Cecille acendia as lu­zes de novo, e Jeffrey começou a cortar a cobertura cinzenta de chocolate com uma grande faca. Todos os pensamentos sobre o grande pássaro pousado na cama de Archie foram temporariamente esquecidos enquanto os meninos crava­vam os dentes nas úmidas camadas achocolatadas.

Cecille ergueu a faca acima do bolo e perguntou: “Al­guém vai querer mais?”.

Três mãos se levantaram outra vez.

“Podemos levar para cima, por favor, por favor?”, im­plorou Archie.

“Queremos acabar o jogo no computador”, disse Sid ner­vosamente, e uma mancha rosa brilhante apareceu em cada bochecha.

“Vocês não preferem jogar alguns jogos de salão?”, per­guntou Cecille enquanto cortava mais três fatias.

“Estamos velhos demais para jogos de salão, mamãe. Is­so é para bebês”.

Jeffrey envolveu cada uma das três fatias de bolo em grandes guardanapos vermelhos.

“Podem ir, meninos. Não vão ficar doentes agora”.

Sid e Archie já haviam deixado a mesa, seguidos de per­to por George, que teve de se espremer para fora da sua ca­deira, que ficara prensada contra a parede.

“O que é isso atrás do seu blusão, George?”

Todos se voltaram para olhar quando Cecille puxou al­guma coisa que ficara presa na lã.

“Ora, vejam, é uma pena”, disse Jeffrey. Ele estava tentan­do se lembrar onde tinha visto penas brancas recentemente, e então lhe veio à lembrança: ele as tinha visto naquela mesma tarde, misturadas a um bloco de neve na gola do casaco de George.

Os meninos, enquanto isso, entreolhavam-se. Ninguém sabia o que dizer ou fazer. Nem mesmo George.

“Acho que posso adivinhar de onde veio aquela pena”, disse Cecille.

Todos se voltaram para ela. Seus lábios estavam ligeira­mente franzidos e suas sobrancelhas erguiam-se interrogati­vamente, enquanto ela examinava melhor a pena. O coração de Sid batia depressa e ele teve de morder o lábio para não deixar escapar o seu segredo.

Então ela deu um sorriso. “Chega de guerras de traves­seiros, por favor”.

Os meninos ficaram tão aliviados que já tinham passado pela porta e corriam escada acima quando ela gritou atrás deles: “Trinta minutos para arrumar tudo”.

 

O ganso estava exatamente onde o haviam deixado, dei­tado sobre a cama de Archie, só que agora enrodilhado em um sono muito confortável e profundo.

“Talvez ele acorde se jogarmos um pouco de comida pa­ra ele”, disse George enquanto eles ficaram ali em pé, olhan­do para o pássaro.

“Eu trouxe duas salsichas”, disse Sid. Ele as tirou do bol­so, deixando uma mancha de gordura nas suas melhores cal­ças cinzentas, e jogou-as para o pássaro. Ele nem se mexeu.

George tirou uma coxinha de frango e duas batatas fritas dos bolsos, mas tivera o bom senso de enrolá-las em um guar­danapo. Ele se aproximou apenas o suficiente para colocá-las perto da cabeça do pássaro, antes de recuar rapidamente.

“E ele ganha três pedaços de bolo de chocolate de sobre­mesa”, concluiu Archie.

Todos balançaram a cabeça concordando, e cada um pôs uma fatia de bolo na cama, ao lado das salsichas, da coxinha e das batatas. Mas o pássaro continuou dormindo.

“E se acendêssemos a outra luz?”, disse Archie. “Quem sabe ele acorde...”

“Acho perigoso. Pode assustá-lo de novo”, disse Sid. “E aquele bico parece muito perigoso”.

“Eu tenho uma idéia”, disse George. “Vamos tentar can­tar baixinho”.

Então todos eles cantaram “Parabéns a você”, inclusive Archie, até que começaram a rir tanto que não conseguiram mais cantar. O pássaro tirou a cabeça de baixo da asa ao som das risadas. Ele deu uma olhada em volta do quarto, esticou o longo pescoço em direção às salsichas, ao frango e às bata­tas, cutucou-os com o bico, mas não pareceu interessado em comer nada daquilo. Então começou a bicar pedacinhos de bolo de chocolate.

“Desça até o banheiro, George, e traga um pouco de água”, disse Archie. “Há um balde plástico no armário em­baixo da pia”.

George não estava muito certo. “E se eu topar com a sua mãe ou o seu pai?”

“Eles estão tirando a mesa. Desça sorrateiramente, e eles não vão nem ouvir”.

Sid estava parecendo cada vez mais preocupado com o apetite do ganso para bolo. “Você acha que ele vai comer os três pedaços? Eu bem que gostaria de levar o meu comigo para casa”.

“Isso não é hora de ficar pensando no seu estômago, Sid”, disse Archie.

Os dois ficaram em silêncio, observando o pássaro devo­rar o segundo pedaço de bolo e depois esticar o bico em di­reção ao terceiro. Sid gemeu de desapontamento.

George voltou com o balde de água e o colocou no chão ao lado da cama. O pássaro esticou o pescoço na direção dele.

“Ponha o balde perto da mesa”, disse Archie. “Precisa­mos fazer o pássaro sair da cama”.

De fato, o pássaro ficou em pé, distendeu as asas e desli­zou para o chão. George pegou o balde e o colocou sobre a mesa. “Vamos levá-lo mais para perto da janela”.

Ele recuou num passo apressado quando o pássaro voou para cima da mesa e começou a beber do balde, esparraman­do água por cima dos desenhos de Archie.

“Certo”, disse Archie. “Vou abrir a janela”.

“Por que simplesmente não chamamos o seu pai?”, disse Sid nervosamente.

Mas Archie já estava se insinuando em direção à janela. Muito devagar, ele a abriu e as penas do pássaro se agitaram com o ar gelado. Ele parou de beber, olhou para cima e de­pois para a escuridão. Então foi andando até o peitoril da jane­la. Uma lufada de neve rodopiou como um pequeno tornado e o pássaro abriu as asas e saiu voando para a espessa corti­na branca de neve.

“Ele se foi”, disse Sid, aliviado. “Feche a janela”.

Archie se inclinou para o ar frio da noite e tentou ouvir os sons do pássaro — um bater de asas, ou um grito —, mas só escutou um silêncio total enquanto a neve caía compacta através da árvore. Ele olhou para cima e viu que não havia céu, olhou para baixo e não havia terra. Ele gostou do silên­cio gelado, e estava se imaginando no centro de uma grande nuvem branca semovente quando sentiu que alguém estava puxando o seu blusão. Trouxe a cabeça de volta para dentro e sacudiu a neve do cabelo.

“Depressa, feche a janela antes que ele resolva voltar”, insistiu Sid. Seus olhos se arregalaram de medo quando acres­centou: “Pode ser que haja mais lá fora”.

George foi mais pragmático. “Vamos ver de novo o que havia na bolsa”.

Archie fechou a janela e tirou a pequena bolsa do bolso. Sid estava mais interessado em investigar o que restara do bolo de chocolate na cama de Archie, mas conseguiu pergun­tar de que país viera a moeda.

“Não está escrito”, disse George. “Há somente algum tipo de pássaro de um lado e...”, ele virou a moeda, “... uma estrela do outro”.

“Deixe-me ver”, disse Archie. No lugar onde havia uma adaga na outra moeda que ele escondera, nesta de fato tinha uma estrela.

Archie estava cada vez mais empolgado. Era coincidên­cia demais. Duas moedas, quase idênticas, e ele as recebera no mesmo dia. Só podia significar uma coisa. O pássaro de­via ter sido enviado especialmente para entregar-lhe a moe­da, mas por quem? E, mais importante, por quê?

 

Archie não estava conseguindo dormir. Ficava rolando sobre as migalhas de bolo em seu lençol e podia sentir o chei­ro das salsichas frias e das coxinhas de frango que escondera embaixo da cama.

Ele olhou para o seu relógio novo. Eram quase onze e meia da noite. Do lado de fora ainda nevava. Podia ver as sombras trêmulas contra a janela, flocos enormes e grossos, como penas de ganso, acolchoando-o contra os terrores da noite, mas não havia vento. A casa estava encasulada em um silêncio macio e branco e, cansado como estava, ainda tinha uma forte sensação de expectativa. Sentia uma certeza de que algo importante estava prestes a acontecer na sua vida; de que ele estava à beira de uma grande aventura, e que tudo isso tinha a ver com as duas moedas de ouro escondidas no seu baralho. Se era assim que a gente se sentia ao fazer dez anos, então ele gostava muito.

Estava fechando os olhos de novo quando um som pare­cido com um enorme estrondo de trovão reverberou pela casa. Archie sentou-se na cama e acendeu o abajur. Já podia ouvir o pai e a mãe conversando no patamar abaixo, e logo depois as passadas pesadas do pai descendo apressadamente a escada. Alguém estava batendo com a aldraba de bronze, forte e se­guidamente.

Archie pulou para fora da cama e desceu do sótão em di­reção a Cecille, que estava debruçada sobre o corrimão do primeiro andar.

“O que está acontecendo?”, perguntou.


“Sshhhh”, fez ela observando Jeffrey, que se aproximava cautelosamente da porta da frente.

Archie começou a correr escada abaixo, mas a voz ansiosa de Cecille o chamou de volta. Ele parou quatro degraus abai­xo dela, ouvindo as batidas, que agora eram tão fortes que as paredes da casa pareciam estremecer. Jeffrey foi chegando mais perto da porta.

“Quem está aí?”, gritou ele, e as batidas cessaram.

Os três ficaram muito quietos, aguardando uma respos­ta. Então uma voz abafada gritou do outro lado da porta, e somente Jeffrey, por estar tão perto, pôde ouvir com clareza.

A voz de Jeffrey passou de trêmula de ansiedade para uma aguda incredulidade quando disse: “Quem?”.

Ele acendeu a luz de fora e um pequeno brilho amarelo apareceu na janela acima da porta.

“Quem é, Jeffrey?”, ciciou Cecille. “Não abra a porta”.

Mas ele já estava destravando a tranca de cima, depois a tranca de baixo e finalmente girando a chave na fechadura.

“Jeffrey!”, ela ciciou novamente, e, quando ele continuou a ignorá-la, juntou os dedos embaixo do queixo como se fos­se rezar.

A porta da frente se abriu e, contra o fundo de neve cain­do e empilhada em volta do umbral, havia uma fantasma­górica figura branca com cabeça em forma de cone. A figura sacudiu a neve de cima dela, bateu os pés e deu um passo de­sengonçado para dentro do vestíbulo.

Archie de início sentiu uma mistura de medo e curiosi­dade, mas a expressão estupefata e enlevada do seu pai ao olhar para o estranho o tranqüilizou. Jeffrey se virou e ergueu os olhos para a escada, onde estavam Archie e Cecille.

“Vejam só quem está aqui!”, dizia ele, como se não pu­desse acreditar muito em si mesmo. “É Rufus. Ele voltou”.

 

Depois que tio Rufus já estava dentro de casa, e a porta havia sido fechada, e a luz do vestíbulo acesa, sua cabeça afi­nal parecia perfeitamente normal, para grande alívio de Ar­chie. O chapéu de lã que estava usando ficara tão coberto de neve que dera a impressão de uma estranha silhueta pontu­da, mas agora que ele o tirara parecia relativamente comum. Archie não tinha tanta certeza quanto ao cabelo emaranhado.

Na verdade, depois que a neve sobre as sobrancelhas de Rufus derreteu, e o seu nariz vermelho degelou, e seus lábios mudaram de azul para um vermelho rosado, Archie viu o quanto tio Rufus e seu pai eram parecidos. A única diferença real era que Rufus era meia cabeça mais alto e um tanto mais magro.

A casa escura e sonolenta ficou movimentada de repen­te: luzes se acenderam, o fogo da cozinha foi atiçado e uma chaleira fervia. O casaco, as botas e o estranho chapéu do tio Rufus foram todos arrumados perto de aquecedores para secar, com camadas de jornal embaixo para absorver os pin­gos. Cecille reaqueceu as salsichas e as coxinhas de frango que sobraram do chá e Rufus rapidamente os comeu, acom­panhados de torradas. Archie sentiu uma pontada de culpa quando pensou na comida embaixo da sua cama, mas Rufus se encheu de queijo, biscoitos e bolo de aniversário. Ele sus­pirava de prazer entre as bocadas de comida. Questionado por Cecille, explicou como chegara ao aeroporto de Edim­burgo naquela tarde apenas para descobrir que a sua baga­gem tinha sido extraviada, presumivelmente enviada para a França. Então, depois do que pareceram horas resolvendo os problemas, ele pegara o trem para o norte, o qual quebrou devido ao excesso de neve nos trilhos, e, como se isso não fosse o bastante, tivera de esperar por um ônibus em substi­tuição.

A essa altura ninguém estava ouvindo. Enquanto Rufus falava de sua dura jornada, Archie, Jeffrey e Cecille focaliza­ram a atenção sobre ele: na maneira como seu rosto se movia enquanto falava, na cor dos olhos de um azul profundo con­tra o marrom da pele curtida pelas intempéries, no modo co­mo pegava a comida gulosamente com os dedos e, acima de tudo, na total estranheza da sua chegada tão tarde da noite.

Archie estava sentado à mesa, ouvindo sem escutar, ob­servando a comida que caía da boca de Rufus, os pingos de gordura na barba, as unhas compridas demais e o cheiro de viagens no estrangeiro — a aura de aventura. Ele não que­ria que a manhã chegasse nunca, jamais. Queria ficar sentado ouvindo tio Rufus e suas histórias para sempre, o que dava na mesma, já que ninguém parecia estar falando nada com muito sentido.

Cecille não demonstrava interesse nenhum nas viagens de Rufus. Sua única preocupação era se ele queria mais um pouco de queijo, se a torrada estava suficientemente tostada, se queria açúcar e leite no seu chá. E Jeffrey, que normalmente estaria roncando exausto a essa hora da noite, puxara uma cadeira para perto da mesa e estava examinando cada movi­mento de Rufus e sua aparência física, como se não pudesse acreditar no que estava vendo e ouvindo.

Quando Rufus decidiu que não conseguia mais comer, recostou-se na cadeira, esfregou a barriga com satisfação e voltou os olhos azuis para Archie.

“Acredito que congratulações pelo aniversário seriam apropriadas, Archie. Então, quantos anos você tem agora?”

“Dez”, disse Archie orgulhosamente.

“Uma boa idade para se ter. A idade da aventura”.

Archie sorriu empolgado e já estava quase agradecendo a tio Rufus por ter lhe mandado a moeda quando pegou Jef­frey olhando para Cecille, que por sua vez estava olhando nervosamente para Rufus.

“Quais são os seus passatempos favoritos?”, Rufus esta­va agora perguntando.

“Eu gosto de jogos de computador. E também de ler so­bre cavaleiros”.

“Você não gosta de ficar ao ar livre? Que tal futebol?”

“Archie não gosta muito de correr”, disse Cecille.

“Me faz sentir enjôo, e eu sinto uma pontada”, expli­cou ele.

“Natação?”, disse tio Rufus.

Archie sacudiu a cabeça de novo.

“Archie não gosta do frio”, disse Cecille.

“Tenho problemas com a minha respiração bilateral”, acrescentou Archie.

“Vejo que você tem uma árvore bem forte lá fora. Gosta de trepar nela?”

“Archie não gosta de alturas. Elas o deixam tonto”, disse Cecille.

Rufus não fez mais perguntas, apenas assentiu com a cabeça.

“Eu também gostava de ler sobre cavaleiros. Sabe, quan­do eu estive na Romênia...”

“Você esteve na Romênia?”, Jeffrey interrompeu de re­pente.

Rufus assentiu. “E quando eu estive lá, visitei um caste­lo e...”

“O que você estava fazendo na Romênia?”, interrompeu Jeffrey novamente.

“Apenas visitando. De qualquer modo, Archie, eu estive no pátio desse castelo, olhando para os altos torreões que me cercavam, e sobre o torreão mais alto de todos havia a está­tua de um cavaleiro, contemplando os campos a distância. E eu pensei comigo mesmo: a liberdade deve ser isso. Ficar aci­ma das limitações que o medo põe no nosso caminho, nos mantendo enraizados no mesmo velho lugar, impedindo que nos ergamos acima das coisas comuns. Aquele cavaleiro lá em cima era um símbolo da libertação do espírito”.

Archie ouvia atentamente. Não tinha muita certeza do que Rufus queria dizer, mas sabia que ele estava falando so­bre bravura.

“Você gostaria de ser um cavaleiro, Archie?”, perguntou Rufus.

Archie riu. “Não existem cavaleiros hoje em dia, tio Rufus”.

“Talvez não usando armaduras retinintes, mas você gos­taria de ser bravo e destemido?”

Cecille voltou-se da pia, onde estava empilhando os pra­tos da ceia, para lavá-los no dia seguinte.

“Hora de ir para a cama!”, ela anunciou. “Definitivamen­te, é tarde demais para um menino de dez anos estar acorda­do. Até os cavaleiros precisam dormir”.

Archie achou que ela havia falado com uma ponta de sarcasmo. Rufus pareceu não notar.

“Então também deve ser hora do seu presente de aniver­sário”, disse ele.

Archie estava quase lembrando Rufus de que já recebera o seu presente de aniversário naquela manhã, quando de re­pente um prato caiu ruidosamente no chão e se quebrou. To­dos viraram-se para Cecille, que estava olhando de modo sig­nificativo para Jeffrey, como se ele devesse saber no que ela estava pensando. Ele olhou de volta, tentando adivinhar o que supostamente deveria fazer ou dizer. Houve um rangido ruidoso de uma cadeira sendo empurrada para trás sobre o piso ladrilhado.

“A minha mochila ainda está no vestíbulo, Jeffrey?”, disse tio Rufus, levantando-se da cadeira.

Jeffrey assentiu, embora sua atenção ainda estivesse con­centrada na olhada significativa de Cecille. Enquanto Rufus desaparecia pela porta, piscando para Archie e dizendo “Vol­to já”, Jeffrey se levantou da mesa, aproximou-se da pia e co­meçou a recolher os cacos do prato quebrado.

“Faça alguma coisa”, sussurrou Cecille para ele.

“Como o quê, por exemplo?”

“Intercepte”, disse ela cripticamente, lançando um olhar para a porta aberta que levava ao vestíbulo.

Jeffrey suspirou e murmurou algumas palavras baixinho, que soaram como “Agora não importa mais”.

Tio Rufus voltou para a cozinha trazendo alguma coisa embrulhada em tecido roxo brilhante. Sentou-se novamente e colocou aquilo sobre a mesa diante de Archie.

“Feliz aniversário”.

Archie desenrolou delicadamente o presente e deparou com uma bola de vidro presa a uma base circular de latão. Dentro da bola havia pequenos recortes dourados, no forma­to da lua, do sol e das estrelas.

“Um peso para papéis!”, exclamou Cecille, aliviada.

“E muito bonito também”, acrescentou Jeffrey, que esta­va espiando por cima do ombro dela.

“Isso impede os papéis de caírem da sua mesa”, explicou ela.

Archie olhou para Rufus para confirmar, mas ele apenas piscou. Embora Archie tivesse ficado ligeiramente intrigado com a reação, agradeceu a Rufus pelo presente.

“Agora, para a cama”, ordenou Cecille, e pelo tom de voz dela Archie entendeu que não adiantava discutir.

“Também não me faria mal dar uma dormida”, disse tio Rufus. Ele esticou os braços acima da cabeça e deu um gran­de bocejo.

“Vou mostrar onde é o banheiro”, disse Archie. “Vou arrumar o quarto de hóspedes no porão”, disse Cecille.

“Vou buscar um pijama para você”, disse Jeffrey Archie saiu com Rufus.

“O seu quarto é lá embaixo, ao lado do estúdio do pa­pai”, e ele apontou para a escada do porão. “O banheiro fica no andar de cima”.

Eles subiram juntos a escada, com Archie agradecendo a Rufus pelo presente de aniversário.

“Foi um prazer, Archie”, retrucou ele. “Um peso para pa­péis é sempre útil”. Então ele abaixou a voz até um quase sussurro. “Mas um climascópio é muito mais interessante”.

“O que é um climascópio?”

Eles tinham chegado ao patamar do primeiro andar e Rufus olhou por cima do corrimão para se certificar de que ninguém estava ouvindo. Então pegou a bola de vidro e a se­gurou no alto, para que os planetas dourados brilhassem debaixo da luz do teto.

“Um climascópio diz quando tempestades estão se apro­ximando”.

“Como ele faz isso?”, perguntou Archie.

Rufus começou a rodar a bola na sua mão. “Os planetas começam a girar. Gentilmente no começo, depois cada vez mais rápido à medida que as tempestades se aproximam”.

Archie ficou muito impressionado. “Tio Rufus, este é de­finitivamente o melhor presente de aniversário que já ganhei. Obrigado por me mandar a moeda de ouro, foi muito simpá­tico, mas um climascópio...” Ele soltou um assobio de admi­ração, que saiu na verdade como um guincho, mas por sorte Rufus pareceu nem notar. Estava pensativo demais, e apenas colocou o climascópio de volta nas mãos de Archie.

“Uma moeda, você disse?”

Archie assentiu. “O que querem dizer as gravações do pássaro e da adaga?”

Rufus considerou a pergunta por algum tempo. Então sorriu e disse animadamente: “A moeda! Ah, sim, sim. Fico contente por você ter gostado. Guardou-a em um lugar se­guro?”.

“Oh, sim”, disse Archie. “Muito seguro, e a outra tam­bém”.

“A outra?”

Archie abaixou a voz até quase um sussurro. “Aquela que o ganso da neve trouxe esta tarde. Você sabe quem mandou?”


Rufus abriu a boca para falar, mas foi a voz de Cecille que eles ouviram, “boa noite, Archie”, gritou ela ao pé da es­cada.

Rufus concordou. “Vá para a cama. Já é tarde”, sussur­rou ele. “Amanhã continuaremos com o nosso papo”.

Os pés de Cecille já estavam subindo apressadamente a escada; quando ela chegou ao patamar, Rufus havia desapa­recido no banheiro e Archie estava seguro no seu quarto.

Archie estava sentado na cama, olhando para o climas­cópio, e Cecille entrou para dar boa-noite. Usualmente, quan­do ele ia dormir tarde, ela arrumava o seu cobertor, apagava o abajur e lhe dava um beijo. Mas essa noite, muito embora já fosse bem mais de meia-noite, ela sentou na cama dele e sorriu.

“Então, você gostou do seu aniversário?”, perguntou Ce­cille.

“O melhor que já tive”, disse Archie. “É uma pena que vovó e vovô Stringweed não puderam vir, mas por outro lado tio Rufus apareceu. É bom tê-lo de volta, não é?”

Ela continuou a sorrir. “É claro que é bom ter a família por perto”.

“Quando eu for mais velho, quero sair para explorar o mundo, como tio Rufus”. “Você quer?”

Archie assentiu. “Quero ser bravo e destemido e viver aventuras”.

Cecille pareceu surpresa com essa confissão. “Você tem certeza?”

“Sim, porque agora que tenho dez anos me sinto dife­rente”.

“Diferente como, Archie?”

“Mais corajoso. Acho que agora, a cada ano vou ficar mais e mais corajoso, até ficar tão corajoso quanto tio Rufus. En­tão, meu sonho é sair e explorar o mundo também”.

Cecille esticou o braço e começou a acariciar os cabelos do filho. “Todos nós temos os nossos sonhos, Archie, e para a maior parte de nós eles nunca poderão ser mais do que isso”.

Archie bocejou e Cecille tirou o climascópio das suas mãos e o colocou sobre a mesa-de-cabeceira. “Você sabe que nós o amamos muito, não sabe?”

“Sim”, disse ele, ajeitando-se embaixo do cobertor. Seus olhos estavam muito pesados, mas ainda assim Cecille conti­nuou sentada na cama. Archie gostava de ouvir a voz suave dela falando com ele. E, embora seus olhos estivessem fecha­dos, continuou ouvindo. Era como se a mãe estivesse lendo uma história para ele; às vezes você ouve cada palavra, e ou­tras vezes, quando você está muito cansado, já não importa tanto a história, mas apenas o ritmo tranqüilo e gentil de uma voz embalando você para dormir. Era essa a sensação que Archie tinha naquele momento.

“Às vezes temos de aceitar o fato de que o nosso futuro pode ser diferente do que imaginamos”, dizia ela. “Quando é esse o caso, você deve se esforçar muito para não ficar pen­sando demais no que poderia ter sido. Em vez disso, é impor­tante aceitar o seu lugar no mundo. A felicidade pode vir de prazeres tão simples quanto as lembranças da infância e o amor da família... a bravura assume muitas formas”.

Archie percebeu que sua mãe parara de falar e então sen­tiu-a inclinar-se para beijar-lhe a testa. Mas estava com sono demais para abrir os olhos.

“Boa noite, mamãe”, murmurou ele.

“Boa noite, Archie”, sussurrou ela, apagando o abajur. Então ela caminhou silenciosamente em direção à porta.

“Definitivamente, eu vou ser um explorador, mamãe”, ela ouviu-o murmurar.

Cecille hesitou.

“Durma bem, Archie. Sonhe bastante”, sussurrou ela. “Se ao menos eu pudesse torná-los realidade para você...”

 

Havia caído tanta neve durante a noite que quando Jef­frey foi abrir a porta da frente, na manhã seguinte, ele a en­controu solidamente congelada. Depois de muito chutar e puxar, ela finalmente cedeu, revelando uma cortina de neve grudada à porta, que imediatamente desabou para dentro, em volta dele.

Do lado de fora, a casa parecia envolvida por uma luva branca gigante. Uma espessa camada de neve agora cobria as paredes revestidas de hera, e os galhos da árvore pareciam longos dedos brancos. Em alguns lugares a neve era tão funda que chegava acima do topo das botas de borracha de Archie.

Archie e Jeffrey puseram-se rapidamente a trabalhar, limpando o caminho da porta até o portão da frente. Com um sol reluzente em um céu sem nuvens, eles tiveram de apertar os olhos contra a brancura deslumbrante. Já tinham quase acabado de cavar o caminho para fora quando tio Rufus apareceu na soleira da porta, usando uma calça e um blusão que pertenciam a Jeffrey. Mas a transformação mais notável estava no seu rosto, totalmente barbeado, livre da barba que ostentava na noite anterior. Ele também cortara o cabelo o que, de algum modo, o fazia parecer muito mais normal. Archie notou que ele estava usando as botas da noite anterior, que agora via serem feitas de uma pele de animal marrom-escura — de urso, Archie decidiu. Rufus colocou as mãos na cintura e olhou para os galhos da árvore cobertos de neve.

“Estupendo”, disse ele. “Verdadeiramente estupendo”.


“Dormiu bem?”, perguntou Jeffrey, jogando para o lado mais uma pazada de neve.

“Acho que sim”, disse Rufus, entre duas inspirações fun­das de ar gelado. “Lembro-me da minha cabeça encostando no travesseiro na noite passada, e de repente esta manhã che­gou. Portanto, tudo o que aconteceu no meio tem pouca im­portância”. Ele encheu os pulmões de ar e, quando expirou de novo, começou a produzir um estranho som de cantilena.

Cecille apareceu, vindo do outro lado da casa, usando um chapéu de pele com protetor de orelhas e tantas camadas de roupas que mal conseguia andar, que dizer carregar os bal­des que segurava, um em cada mão. O vapor da água quente girava e se enroscava acima das suas mãos enluvadas, e suas bochechas estavam rosadas de frio. Os olhos verdes faiscavam na luz branca da manhã, mas o faiscar logo se transformou em irritação quando ela viu Rufus desfrutando o ar matinal enquanto Jeffrey dava duro limpando a neve.

Ela pôs um dos baldes no chão. “Saia do caminho, Ru­fus”, ordenou ela por cima da cantilena do hóspede. “Vou la­var os degraus com água morna. Limpar a neve de uma vez por todas”.

Rufus deu um passo desengonçado para a esquerda e viu-se afundado até o joelho em um monte de neve. Imper­turbável, ele fechou os olhos e recomeçou a sua cantilena.

Cecille jogou água em cima dos degraus, e pedaços de pedra apareceram imediatamente embaixo da neve derretida.

“Bastante sal na água”, disse ela com satisfação. “Vai im­pedir que congele”.

Rufus abriu os olhos e fitou o céu sem nuvens.

“Vem vin­do mais neve do norte”. Suas narinas se dilataram quando ele inspirou profundamente. “Posso sentir o cheiro”. Ele en­tão lambeu a ponta do dedo indicador e o ergueu no ar.

“Hummmm”, disse pensativo. “Sugiro uma caminhada matinal, Archie”.

Jeffrey suspirou e tirou as luvas. Entregando-as a Rufus, disse: “Use estas. Vou dar uma parada”. Ele esfregou a base da espinha com a mão. “Depois que vocês derem a sua cami­nhada, talvez possam acabar de cavar a passagem”.

Cecille, nesse meio-tempo, estava olhando atentamente para alguma coisa que encontrara caída no degrau de baixo. “Oh, céus! Vejam só o tamanho disto”. Na mão dela havia uma grande pena branca e encharcada. “Será que penas de gaivota ficam tão grandes assim?”

“É enorme”, disse Jeffrey.

“Agora, isso é mesmo uma coincidência”, disse Cecille. “George estava com uma pena destas grudada no blusão dele ontem. Está lembrado, Jeffrey?”

Jeffrey estava balançando a cabeça, lembrando-se vaga­mente de alguma coisa sobre bolas de neve e penas.

O estômago de Archie roncou de tanta excitação. “Posso ficar com ela?”

Cecille segurou a pena fora do alcance dele.

“Não dentro de casa”, advertiu. “Provavelmente tem mi­lhares de ácaros rastejando por cima dela”. Sua montanha de roupas deu um estremeção de nojo.

“Não vou levá-la para dentro”, disse Archie, arrancan­do-a dos dedos da mãe e espetando-a do lado do seu chapéu de lã. “Venha, tio Rufus, vamos ver quanta neve se acumulou no topo da colina Brinkles. Talvez possamos construir um homem de neve lá em cima”.

Cecille ficou observando as longas passadas desengon­çadas de Rufus atrás de Archie pelo caminho e pelo portão afora. Depois que ambos desapareceram de vista, ela voltou-se para Jeffrey.

“O que você acha?”, sussurrou ela.

Ele empurrou o chapéu para trás, revelando uma testa enrubescida. “Eu disse a você, Cecille, que não há nada com o que se preocupar agora. O futuro foi selado ontem”.

“Então por que Rufus voltou? Depois de todos esses anos? E ele parece tão estranho. Como um selvagem. E toda aquela cantilena, o que os vizinhos vão pensar se ele conti­nuar a se comportar desse jeito?”

“Rufus sempre foi excêntrico; aventureiro. Não como eu”. Ele fincou a pá na neve. “Um covarde criado em casa”.

“Você não é um covarde, Jeffrey. Rufus não carrega o far­do que você carrega. A bravura assume muitas formas. Ser um Stringweed primogênito é uma delas”.

Gargalhadas distantes interromperam a conversa deles. Jeffrey suspirou. “E agora Archie terá de carregar esse fardo”. Ele olhou para ela. “Você alguma vez já desejou...”

“Não! Desejar é perda de tempo. Desejos não se tornam realidade”.

“Pena não podermos dizer o mesmo de...”

“Sshhhh”, fez ela nervosamente, olhando por cima do ombro. Quando se certificou de que ninguém os estava ou­vindo, ela continuou: “Nós não precisamos de desejos, Jef­frey. Estamos felizes com o que temos”.

“Nós estamos felizes?”, perguntou ele.

“É claro que estamos”.

Jeffrey pareceu ficar pensativo. “Eu estava pensando em quando nos encontramos pela primeira vez. Você se lembra?”

Cecille sorriu. “Meu primeiro dia no banco? Eu me apre­sentei para o trabalho às nove e meia, e às nove e cinqüenta e três nós conseguimos ficar trancados na caixa-forte”.

Jeffrey sorriu também, mas então voltou às lembranças. “E, enquanto estávamos esperando para ser salvos, você me contou que estava planejando uma viagem em volta do mun­do. Você disse que desejava ter uma passagem naquele minu­to. E você disse isso de novo. Você disse que estava desejando uma grande aventura, para que nunca mais precisasse voltar ao banco ou a Westervoe. Naquela época você tinha desejos...”

“Tenho algo melhor que uma passagem de avião. Tenho você e Archie. E não consegui vocês fazendo desejos. Con­segui vocês no mundo real. O mundo no qual estou muito feliz”. Ela sorriu. “Chega de falar de desejos. Vamos entrar e beber alguma coisa quente”.

Jeffrey observou-a pegando os baldes e caminhando em direção aos degraus da porta. “Você notou uma coisa?”, per­guntou ele.

Ela parou e se voltou. “O quê?”

“Escute”.

Ela escutou.

“Nenhum vento ainda”, explicou ele. “Nem mesmo uma brisa. E o cachorro do vizinho não latiu nem uma vez esta manhã”.

Eles ficaram olhando um para o outro, contemplando o silêncio inusitado, quando ele foi subitamente rompido pelo som do telefone tocando.

“Eu atendo!”, disse Cecille, e subiu correndo os degraus para dentro da casa sem sacudir a neve das botas. Jeffrey fi­cou onde estava, ouvindo as risadas agora distantes de Ar­chie e a voz de Cecille apenas audível ao telefone. Então ela o chamou, dizendo que era engano e que ia pôr a chaleira no fogo.

Jeffrey ergueu os olhos para o céu e observou uma nu­vem branca, solitária, flutuando acima dele. O que foi que Rufus dissera na noite anterior, “nos erguermos acima das coi­sas comuns...”? Por que teria dito aquilo, quando sabia per­feitamente que aquele jamais poderia ser o caso de Archie? Jeffrey estava contente por ter Rufus em casa, a salvo e bem, mas esperava que a sua volta não trouxesse problemas. Jeffrey esfregou os olhos de um jeito cansado. Outra dor de cabeça estava começando. Ele sacudiu a neve das suas botas e entrou na casa, sem perceber que quando a porta se fechou atrás dele outra grande pena branca flutuara do céu e estava agora caí­da sobre a soleira recém-lavada.

 

A cerca de meio caminho do topo da colina Brinkles, Ru­fus e Archie fizeram uma pausa e estavam fazendo um ho­mem de neve.

Tinham acabado o corpo e Archie observava enquanto Rufus rolava a cabeça em outra camada de neve antes de co­locá-la sobre os ombros. Durante toda a manhã ele estivera esperando por uma oportunidade de começar a fazer per­guntas importantes, que iriam resolver o mistério dos cartões e presentes crípticos. Contudo, agora que tinha Rufus todo só para si, Archie não tinha muita certeza de como introduzir o assunto.

Rufus deu um passo atrás do homem de neve para ad­mirar a sua obra.

“Um bom trabalho matinal. O que você acha?”

Archie pareceu adequadamente pensativo enquanto ava­liava o homem de neve. “Precisamos fazer os olhos, e um na­riz, e uma boca”. Ele olhou para Rufus cautelosamente. “Ou poderíamos colocar apenas um par de óculos. Óculos de aviador da Segunda Guerra Mundial”.

Rufus estava olhando para ele de modo igualmente cau­teloso. “Você tem óculos de aviador da Segunda Guerra Mundial?”

Archie balançou a cabeça. “Eu também não tenho um re­lógio velho. Ou uma lanterna que não funciona. E nem mes­mo uma adaga”.

Rufus assentiu. “Mais alguma coisa que você gostaria de colocar nele mas não tem?”

Archie fez que não mais uma vez e olhou para Rufus na expectativa de alguma resposta.

“Entendo”, disse Rufus após considerar muito. “Então eu suponho que você não tem um pé de coelho numa corren­te de ouro, uma pequena flauta de madeira entalhada à mão, uma chave de ouro ou uma lente de aumento?”

Archie balançou a cabeça de novo, os olhos arregalados de interesse. “Mas eles estão lá em casa. Não sei exatamente onde, mas provavelmente no mesmo lugar em que estão os cartões crípticos”.

Rufus não demonstrou nenhuma reação à menção dos cartões. Em vez disso, começou a comprimir mais punhados de neve em volta do pescoço do homem de neve. Archie não tinha certeza do que fazer ou dizer em seguida, assim tirou a pena branca do chapéu e tentou colocá-la na cabeça do ho­mem de neve. Estava simplesmente fora do seu alcance, por­tanto Rufus a pegou e a enfiou no topo, bem no centro.

“Fico pensando, de que tipo de pássaro veio essa pena?”, perguntou Archie. “Um ganso da neve, acho”.

“Na verdade, é de uma gaivota do gelo”, disse Rufus, cuja voz ficara muito mansa.

“Eu nunca ouvi falar de gaivotas do gelo”, disse Archie.

Rufus acariciou a pena. “Supostamente uma ave mítica. Protetora e guardiã de quem está preparado para desafiar o poder do vento”.

Archie considerou o que Rufus acabara de dizer enquan­to alisava a neve na cara do homem de neve.

“Se é mítica, então não é real? E se não é real”, ele voltou-se para olhar para Rufus, “então como temos uma de suas penas?”

Rufus olhou por cima do ombro antes de sussurrar: “Eu disse ‘supostamente’ mítica”.

“Então você acha que é real?”, disse Archie. “É parecida com um ganso da neve?”

“Uma gaivota do gelo pode mudar de tamanho, portanto pode ser maior ou menor, mas o que ela não pode mudar é a cor dos seus olhos. São de um verde fluorescente vivo. Quan­do uma gaivota do gelo morre, ela se transforma em um brilho-guia verde; nós os chamamos de Sentinelas”.

“Eu vi uma Sentinela!”, disse Archie, e seus olhos, um verde e um azul, olharam para Rufus como quem espera por mais. “E eu vi uma gaivota do gelo também. Ela veio para a minha janela na noite passada. Me trouxe uma moeda igual à que você me mandou, bem, quase igual, só que tinha uma estrela de um lado no lugar da adaga, e tio Rufus...” ele to­mou fôlego, “... o que está acontecendo?”

Rufus tirou a pena da cabeça do homem de neve e fixou-a de volta no chapéu de Archie.

“Vamos até o topo da colina. O que eu tenho para lhe contar pode ser mais bem entendido de uma posição mais es­tratégica”.

Enquanto eles continuavam a caminhada em direção ao topo, Archie notou que a neve não caíra tão pesadamente so­bre as encostas mais altas, diferentemente dos montes que se acumularam em volta da casa. Quanto mais alto subiam, mais leve era a cobertura de neve, até que quando chegaram ao topo havia apenas algumas manchas esparsas em cima do capim seco. Eles pararam sem fôlego, os rostos formigando com o ar gelado, e olharam para a aldeia lá embaixo.

As águas azuis da baía marulhavam contra os muros do porto e, sem nenhum vento a soprar, eles podiam ouvir o motor de popa de um pequeno barco na baía. Enquanto exa­minava a cena pacífica, Archie mostrou para Rufus onde George morava. Mas quando o seu dedo virou na direção da casa de Sid, notou um fato estranho.

“Por que a neve é tão mais compacta em volta da nossa casa?”

“Se você tem alguma coisa que quer proteger, o que faz com ela?”, perguntou Rufus.

Archie pensou nas duas moedas na sua caixa de mágicas. “Ponho em algum lugar seguro?”, ele sugeriu.

Rufus assentiu. “Ou a envolve em alguma coisa macia, quem sabe?”

Archie olhou de novo para a espessa camada de neve co­brindo a sua casa.

“Você quer dizer que a neve está protegendo a nossa casa?”

“Protegendo você”, disse Rufus. “Do quê?” “Do vento”.

Archie estava se sentindo muito confuso. “Eu não enten­do”. Ele olhou em volta nervosamente. “O que o vento quer comigo?”

Rufus pousou uma mão tranqüilizadora no ombro dele. “Vou pedir a você que guarde um segredo, Archie. Só por enquanto. Porque o que estou prestes a lhe contar é tão im­portante que, se o segredo não for protegido, a maldição de Huigor pode jamais ser quebrada”.

“A maldição de Huigor?”

Rufus assentiu e começou a falar com voz abafada.

“Séculos atrás um cavaleiro de nome Gustaph deixou a Escócia para lutar com o rei Ricardo nas Cruzadas. Ele era forte e bravo e lutou em muitas batalhas, mas, à medida que os anos foram passando e a sua bravura se tornou legendária, ele foi ficando arrogante. Foi então que cometeu o seu único erro sério. Ele acreditou que era indestrutível, que de algum modo estava protegido contra ferimentos, e assim, quando a guerra acabou, em vez de ficar agradecido por ter sobrevivido e poder voltar para casa com os outros cavaleiros, ele foi pro­curar mais perigos para provar a sua infalibilidade. No cami­nho, encontrou um homem que se ofereceu para ler o seu destino em troca de comida e água. O adivinho olhou na sua bola de cristal e disse ter visto infortúnios se aproximando do cavaleiro e de todas as gerações da sua família. O cavaleiro ficou zangado e disse que o adivinho era um mentiroso, uma fraude, porque nenhum infortúnio poderia recair sobre um homem de sangue nobre que lutara pelo seu rei e era visto como um dos mais bravos cavaleiros que já haviam posto o pé na cristandade. Ele ficou tão zangado que tomou de volta a comida e a água.

“O adivinho disse que se ele fosse de fato um homem honrado, nunca o teria chamado de mentiroso tão abertamen­te, e nunca teria tirado comida e água de um viajante faminto. Entretanto ainda havia tempo para retratar suas palavras. Uma demonstração de humildade iria mudar o curso do des­tino da família.

“Enraivecido porque um reles adivinho falara com ele daquele modo, o cavaleiro ergueu-se e foi puxar a espada, mas algo estranho aconteceu. O adivinho começou uma can­tilena e ergueu a bola de cristal para pegar o fulgor do sol. A luz que se refletiu era tão forte que quase cegou o cavaleiro. Ele tentou erguer a espada, mas descobriu que ela estava pe­sada demais para ser erguida, seus braços enfraqueceram e suas pernas doeram. Ele desabou no chão, exausto.

“‘A arrogância’, disse-lhe o adivinho, ‘nunca deve ser con­fundida com bravura. A coragem assume muitas formas. Ela pode ser silenciosa e invisível. O valor não é privilégio dos ricos e poderosos, mas vem de um entendimento do mundo.’

“Pela primeira vez, o cavaleiro sentiu medo. Ele pergun­tou por que havia perdido a sua força e o adivinho lhe contou que colocara uma maldição sobre ele e as futuras gerações da sua família. Todos os filhos primogênitos estavam agora des­tinados a crescer com medo do mundo a partir do seu décimo aniversário, e, à medida que cada geração transmitisse a mal­dição, o nome da família perderia a sua alta consideração.

“O cavaleiro implorou ao adivinho que quebrasse a mal­dição, oferecendo-lhe ouro e pedras preciosas. Mas o adivi­nho disse ao cavaleiro que ele não deveria ter concluído, pela sua aparência, que o mago não possuía vintém. De fato, ele vinha de uma família abastada, que possuía a sua própria ri­queza. Então ele se envolveu no seu manto, pegou a bola de cristal e foi embora para dentro de uma súbita tempestade de areia. O cavaleiro estava fraco demais para segui-lo e, de­pois que conseguiu reunir força suficiente, lentamente ence­tou a viagem de volta à Escócia”.

“Por que eu tenho de manter a história em segredo, tio Rufus?”, perguntou Archie. “O que ela tem a ver comigo?”

“Porque o sobrenome da família do cavaleiro era Strongwood, que significa ‘madeira forte’; nome que, com o passar dos séculos e o estabelecimento da maldição sobre a famí­lia — que perdeu terras e poder —, passou a ser conhecido como Stringweed, que é um tipo de alga daninha”. “Você está falando da nossa família?” Tio Rufus assentiu tristemente. “E você, Archie, como um filho primogênito Stringweed, está prestes a herdar a mal­dição. Exatamente como o seu pai e o seu avô”.

Archie lembrou-se subitamente de sua mãe sentada à penteadeira dizendo ao seu pai que ela achava Rufus estra­nho. Naquele momento ele estava começando a pensar que talvez ela tivesse razão.

Rufus sentiu o desapontamento e a incredulidade dele. “Ainda está em tempo de quebrar a maldição”, disse ele em tom tranqüilizador. “Então o seu pai e o seu avô terão sua coragem restaurada, e gerações de coragem Stringweed ainda presa dentro de Huigor serão libertadas”. Archie não pareceu muito convencido. “O vento já tentou falar com você?”, perguntou Rufus. Archie não respondeu, porque um calafrio estava subindo pelas suas costas por baixo do casaco e por baixo da lã do chapéu. Seus olhos estavam arregalados de medo, mas ele também sentia excitação, porque Rufus sabia sobre o vento falante. Ainda assim, havia algo que ele não entendera.

“Se a maldição começou no meu décimo aniversário”, disse Archie pensativo, “então eu já estou amaldiçoado”.

“Ainda não”, disse Rufus. “Passei nove anos viajando pelo mundo, e durante esse tempo descobri uma coisa muito significativa. A maldição é sempre trazida pelo mesmo torna­do. Seu nome é Huigor. Ele pode chegar na data exata do dé­cimo aniversário ou em algum momento logo depois”.

“Um tornado?”

“É aí que reside o desafio. Precisamos encontrar todos os artefatos que mandei para você. Eles são cruciais para quebrar a maldição e restaurar o nome da família. Todos eles vêm com o poder da história. Cada artefato pertenceu a um ances­tral, um primogênito homem da família Stringweed. A lente de aumento pertenceu ao seu bisavô. A adaga pertenceu ao seu tataravô, Stanley Stringweed; os óculos de aviador eram do seu avô”.

Archie ficou muito animado com essas informações. “Vovô Stringweed foi um piloto da Segunda Guerra Mundial?”

“Receio que não. A maldição e a miopia acabaram com isso. Ele na verdade usava os óculos para descascar cebolas”. Rufus balançou a cabeça como se quisesse se livrar da ima­gem. “De qualquer modo, há alguma coisa que você gostaria de saber?”

Naquele momento havia apenas uma coisa na cabeça de Archie e, embora ele estivesse tremendo, sua voz estava firme.

“Como eu posso quebrar a maldição?” Rufus deu uma relanceada por cima do ombro. Mais tranqüilo, ele se voltou de novo para Archie.

“Você precisa entrar no tornado e então destruí-lo”. “Isso é impossível!”

“Esperemos que não. É por isso que precisamos encon­trar cada um dos artefatos. Todos eles parecem objetos co­muns, mas à medida que a maldição se aproximar eles irão liberar uma energia poderosa e protetora, que o ajudará em sua batalha contra Huigor”.

Archie ainda estava tentando absorver essa última infor­mação quando Rufus apontou para baixo, na direção da Fron­teira dos Ventos.

“As vozes que você ouve são de lufadas foras-da-lei, que romperam com Huigor. Com tanta neve protegendo a casa, elas não vão chacoalhar as janelas tão facilmente, nem fazer a árvore ranger tão ruidosamente, e a neve macia irá mostrar o caminho delas na hora em que tentarem se aproximar sor­rateiramente de você”.

“Como a nevada sabe cair sobre a nossa casa?”

Rufus voltou-se para olhar para Archie. “Quando o mo­mento chegar, a sua pergunta será respondida. Agora, quan­do o vento falou com você pela primeira vez?”

“Sexta-feira à noite. Ele disse: ‘Ele vem vindo’”.

“Sexta-feira à noite?” Rufus começou a murmurar consi­go mesmo. “Sim, isso faz sentido. A decolagem atrasou por causa de ventos fortes... turbulência sobre o canal Irlandês...”

Archie engoliu em seco, nervosamente. “Devemos pedir ajuda ao papai?”

“Não. Ele não pode nos ajudar. Não, temos de enfrentar este desafio sozinhos”.

Uma lufada isolada de vento ergueu-se de lugar nenhum, envolveu-os e desapareceu de novo. Rufus tirou uma luva, pegou a pena do chapéu de Archie e equilibrou a ponta dela no dedo médio. A pena começou a girar gentilmente e Rufus ergueu os olhos para o céu, inclinando a cabeça de lado para ouvir. Ele cheirou o ar e então balançou a cabeça, como que confirmando o que já suspeitara.

“Temos de voltar para casa. Ele está a caminho”.

“O que está a caminho?”

Rufus voltou-se para olhar para ele, os olhos cheios de preocupação.

“O tornado. Receio que Huigor já tenha encontrado você”.

 

O almoço de domingo foi uma experiência exasperante. Archie ficou olhando para Jeffrey enquanto ele comia, ten­tando ver se ele parecia diferente de algum modo agora que sabia que pesava uma maldição sobre o pai. Mas ele parecia estar exatamente como sempre: bondoso, esquecido, mas ainda assim o seu maravilhoso e gentil papai. Talvez ser amal­diçoado não seja assim tão ruim, afinal.

Archie aguardou até Cecille ir para a copa, a fim de pe­gar uma caixa de creme de leite, e Rufus sair para encher os baldes de carvão no galpão, antes de fazer a pergunta que es­tava pulando em sua cabeça.

“Se você pudesse fazer alguma coisa empolgante, papai, qual a que mais gostaria de fazer?”

Jeffrey olhou para ele por cima do seu jornal pelo que pa­receu ser um tempo muito longo. Archie estava começando a pensar que ele não ouvira a pergunta, mas então Jeffrey co­meçou a falar, lenta e pensativamente.

“Be-em. Acho que voar deve ser muito empolgante; a sensação de pairar no céu ao despertar do sol, ou ao anoite­cer, quando o sol se põe. A Estrela do Norte aparecendo. Ou talvez ficar no topo de uma montanha olhando o mais longe que os olhos podem alcançar, acima de todos e de tudo”.

“Então por que você não faz isso?”

“Oh”. Jeffrey deu uma risada curta, que mais pareceu uma tossida. “Nós, os Stringweed, não temos uma boa cabe­ça para as alturas...” Sua voz foi sumindo como se ele não conseguisse se lembrar muito bem do que estava falando.

“Nós podíamos ir juntos”, sugeriu Archie. “Aonde?”

“Subir num avião, ou escalar até o topo de uma mon­tanha”.

Jeffrey estava olhando para ele muito cautelosamente. “Você não iria achar isso nem um pouquinho assustador?”

“Não. Que tal na semana que vem?”, persistiu Archie.

“É inverno, Archie. Escalar montanhas nesta época do ano não é muito sensato. Frio demais, eu acho”.

“Na primavera, então?”

“Talvez”.

“Vamos prometer um ao outro agora”.

“Eu não posso fazer essa promessa, Archie”.

“Então eu prometo que na próxima primavera nós va­mos escalar até o topo do monte do Duende e assistir ao pôr-do-sol e olhar para as estrelas”.

Por baixo do sorriso de Jeffrey havia descrença.

Cecille entrou alegremente, trazendo uma caixa de creme de leite. Estava cheirando-a, desconfiada. “Não confio naque­la geladeira. Não me parece suficientemente fria. Você acha que o creme está estragado, Jeffrey?” Ela enfiou a caixa em­baixo do nariz do marido, e ele deu uma cheirada.

“Está ótimo”, disse ele, erguendo o nariz do recipiente. Jeffrey olhou para Archie e sorriu suavemente, sem perceber que havia uma pequena mancha branca de creme de leite na ponta do seu nariz. Pela primeira vez na sua vida, Archie olhou para aquele rosto bondoso e familiar e recebeu de volta o olhar de alguém que, ele sabia, não era verdadeiramente o seu pai.

Archie estava determinado a quebrar a maldição dos Stringweed. Com o tornado chamado Huigor já a caminho, não havia tempo a perder, e ele e Rufus teriam de começar com o seu plano de batalha imediatamente.

Ele estava pensando como faria sua mãe e seu pai saírem de casa quando o telefone tocou.

“Eu atendo!”, berrou Cecille com a boca cheia de torta e creme, mas Archie já estava em pé e fora da sua cadeira.

Ela o seguiu até o vestíbulo. Mas Archie chegou ao tele­fone primeiro.

“Alô? Archie Stringweed falando”.

“Me dê o telefone”, insistiu Cecille, a mão esticada. Ha­via uma nota de pânico em sua voz.

“Alô, Ezekiel”, disse Archie, e Cecille soltou um suspiro de alívio.

Jeffrey apareceu na porta da cozinha.

“Quem está no te­lefone?”

“Ezekiel”, sussurrou Cecille.

Archie agradeceu pelos presentes de aniversário e entre­gou o fone a Cecille dizendo: “Parece urgente”.

Ele então voltou à cozinha para terminar a sua torta de maçã, mas Jeffrey continuou em pé à porta da cozinha, ou­vindo um lado da conversa, que consistia em Cecille repetin­do: “Eu sei... eu sei... eu sei”.

Quando a chamada finalmente terminou, ela transmitiu as preocupações de Ezekiel a Jeffrey. Faltando menos de uma semana para o Natal, a árvore do centro comunitário ainda não tinha sido comprada e decorada. Eles também iriam pre­cisar de luzes novas, já que o seu único conjunto fora devolvi­do quebrado pelo grupo de teatro local. Ezekiel então sugeri­ra que o comitê realizasse uma reunião de emergência naquela mesma tarde, e, como Cecille era presidente do comitê, ela na­turalmente teria de comparecer.

“Eu só não sei se deveríamos gastar dinheiro em uma ár­vore e luzes”, suspirou ela. “Há tantas outras prioridades. As janelas precisam ser consertadas logo, antes que a chuva as arruine de vez”. Ela evitou os olhos de Jeffrey ao concluir: “Teremos simplesmente de aceitar que o centro comunitário pareça muito melancólico este ano”.

Houve uma pausa silenciosa em que nenhum deles fa­lou. Então Jeffrey perguntou: “Você está esperando um tele­fonema, Cecille?”.

“Por quê?”

“Você parece ficar tensa cada vez que o telefone toca”.

Ela balançou a cabeça.

“Não, não estou!”

“Como se estivesse esperando um telefonema”.

“Eu não estou esperando um telefonema, e eu não estou tensa!”, insistiu ela.

O telefone começou a dar sinal de ocupado e Cecille olhou para o aparelho, ainda tão apertado em sua mão que os nós dos seus dedos haviam ficado brancos.

“Você pode pôr no gancho agora”, disse Jeffrey. Sua voz estava calma e desconfiada, e Cecille ficou aliviada em escapar do seu olhar interrogativo quando ele subiu a escada para o banheiro, para tomar umas pílulas contra dor de cabeça. Mas quando ela se sentou novamente à mesa para terminar a sua torta de maçã com creme, pegou Rufus observando-a.

Cecille o ignorou e continuou comendo, o que não foi fá­cil, porque os penetrantes olhos azuis dele estavam fixos nela do mesmo modo que os de Jeffrey haviam estado, a não ser por uma diferença. Os olhos de Rufus estavam tão cheios de repreensão que ele poderia ter se levantado e dito: “Você não me engana. Eu sei que você está escondendo a verdade”.

Jeffrey se ofereceu para ir à reunião do comitê no centro comunitário junto com Cecille. Tinha certeza de que a sua ex­periência com o banco poderia prover algum conselho finan­ceiro inspirado, ou pelo menos algumas idéias para levantar fundos. Afinal, ele era tesoureiro do Clube de Regatas, do Clube Subaquático e, recentemente, da Associação de Mer­gulhadores em Águas Profundas. E era um tesoureiro muito bom. Comparecia a todas as reuniões e jamais perdia os jantares dançantes.

Jeffrey e Cecille vestiram várias camadas de roupa, en­quanto Archie permanecia no vestíbulo, observando, aguar­dando e desejando que eles se apressassem e fossem embora.

“Não vá molhar os pés”, Cecille disse a Archie enquanto calçava suas botas de borracha. “Se você sair, lembre-se de usar as suas botas. Senão vai acabar se resfriando”.

Archie prometeu tomar cuidados redobrados e fez ques­tão de se despedir deles do lado de dentro da porta, bem afas­tado do degrau molhado da entrada. Quando o som dos pas­sos deles esmagando a neve sumiu na distância, o único ruído que restou foi o da própria respiração regular de Archie.

Estava tão silencioso que ele podia fazer de conta que era a única pessoa que restara no mundo, e praticar o seu asso­bio sem medo de alguém dar risada. Ele lambeu os lábios, encheu os pulmões, formou o mais perfeito círculo com a bo­ca e soprou. Somente uma nota muito pequenina e trêmula apareceu nos seus lábios e desapareceu outra vez, mas o seu sopro continuou e se transformou em uma névoa branca e gelada que começou a girar, formando um longo funil. Um calafrio passou pelos seus pés, cobriu os dedos e então se ar­rastou para cima, através das pernas, até o peito. Ele olhou para o funil e lembrou-se de que em algum lugar distante, mais longe do que os seus olhos podiam ver ou seus ouvidos podiam ouvir, um poderoso tornado vinha em sua direção e a única pessoa que poderia ajudá-lo era tio Rufus. Tio Rufus, com seu estranho chapéu pontudo e botas de pele de urso.

Latidos altos no jardim do vizinho romperam o silêncio da neve. Archie olhou na direção da cerca e escutou o cão atrás dela, soando mais agitado que de costume. A cerca na frente da casa era muito mais fina que a do jardim dos fundos e ele podia ver o focinho de um labrador preto bisbilhotando. O cão olhou para ele e deu um rosnado profundo de advertên­cia. Mais ou menos ao mesmo tempo Archie notou um movi­mento ao lado do caminho do jardim. Uma fina camada de neve havia se formado em uma onda rasa de flocos que flu­tuava gentilmente na sua direção. Enquanto continuava a ob­servar, ele notou que não havia vento para arrastá-la; ela es­tava se movendo por sua própria vontade. Com essa consta­tação, veio o fascínio. O cão latindo não conseguiu distrair a atenção de Archie da onda branca rodopiante, que ganhava velocidade e rolava para cima do primeiro degrau da porta.

No momento seguinte ele sentiu a mão de Rufus no seu ombro, puxando-o de volta para dentro da casa e batendo a porta.

Archie não conseguiu esconder o tremor assustado em sua voz quando ouviu a tampa da caixa de cartas chacoalhar.

“Eu pensei que a neve estava aqui para me proteger”.

Rufus se ajoelhou e olhou para ele de modo tranqüili­zador.

“O que você acabou de presenciar é outra das brisas foras-da-lei de Huigor. Sua função é se aproximar sorrateira­mente e assustá-lo. Fique de olho na neve, ela lhe mostrará onde elas estão. Lembre-se de que elas não são fortes o bas­tante para machucá-lo. Não dê ouvidos aos seus sussurros e gemidos. E o mais importante: não fique com medo”.

Archie achou que as brisas foras-da-lei estavam fazendo um trabalho muito bom, porque ele de fato ficara com medo. “Rufus, eu acho que não sou suficientemente corajoso para batalhar contra um tornado”.

Archie ficou aliviado porque Rufus não pareceu preocu­pado demais com essa confissão.

“É você quem decide”, confirmou ele.

Então Archie lembrou-se do rosto do seu pai olhando para ele à mesa da cozinha, com uma mancha de creme no nariz.

“Eu vou desafiar Huigor”, declarou por fim Archie. “Eu vou livrar o meu pai da maldição. Então ele será valente o bas­tante para ficar em pé no topo de uma montanha e assistir ao pôr-do-sol e ao aparecimento das estrelas. Assim como o seu cavaleiro romeno no alto do torreão do castelo. Eu quero ficar lá com ele, mas nenhum de nós será capaz de fazer isso se eu fracassar. Eu também me tornarei um covarde”.

“O seu pai não é um covarde”, disse Rufus com firmeza. “Ele nunca fugiu. Há muitas coisas que ele gostaria de fazer, mas a maldição não permite. Ela enche os seus pensamentos e planos de medos. Ele imagina toda sorte de problemas e obstáculos que não pode superar e por fim perde a vontade de realizá-los. Essa é a maldição de Huigor. Uma vida enfa­donha, segura e sem aventuras. É a presença de Huigor se aproximando que o está deixando doente. As dores de cabeça e a perda de memória irão desaparecer quando o tornado passar, mas ele nunca estará livre até que a maldição seja quebrada”.

Archie sentiu uma determinação renovada. “Eu vou tor­ná-lo livre”.

Rufus balançou a cabeça. “Nesse caso, vou ajudá-lo em tudo que puder. Esta tarde é um momento tão bom quanto qualquer outro para começar a nossa busca. Vamos iniciar. Temos oito presentes para encontrar, e pouco tempo para isso”.

 

O estúdio de Jeffrey ficava numa sala sombria no porão, com uma pequena janela que dava para o jardim dos fundos. Uma cadeira de sala de jantar, uma escrivaninha riscada de imbuia, um arquivo e dois armários de parede, todos des­trancados, ocupavam o espaço do quarto. Uma poltrona co­berta por um tecido desbotado de tema floral era a única evi­dência de conforto.

Rufus estava olhando dentro de um dos armários de pa­rede, abarrotado de cima a baixo com folhetos de viagens de férias. Ele puxou para fora um impresso colorido datado do inverno de 1993. Na capa, os Alpes suíços apareciam cobertos de neve, com um esquiador sorridente por cima de uma pe­quena fotografia de um homem e uma mulher usando blusões grossos e brindando um ao outro com uma taça de vinho tinto. Ele examinou um punhado de outros folhetos, anun­ciando férias prolongadas na América, no Extremo Oriente e na Austrália.

“Papai não gosta de viajar em aviões, navios ou trens”, Archie tentou explicar. “Ele diz que sairia de férias se não ti­vesse de viajar. Desejaria poder ser simplesmente transporta­do para lá, sem ter de sair de casa”.

Rufus soltou um suspiro solidário. “Uma pena. A reali­dade é muito mais empolgante”.

“Você já esteve no mundo inteiro?”, perguntou Archie.

“Quase inteiro”. Rufus fechou a porta do armário. Ele abriu o armário ao lado, que também estava atulhado de cima a baixo com velhos folhetos de viagem. “É isso aí”, disse ele vivamente, “vamos manter o foco”.

A função de Archie era ficar de ouvidos atentos para a volta dos pais para casa. Rufus, enquanto isso, se encarregava da busca, já que seria injusto pedir a Archie para bisbilhotar no estúdio de Jeffrey. Mas como todos os cantos pareciam estar tomados por folhetos e livros de viagem, não levou mui­to tempo até Rufus pôr as mãos na cintura e anunciar com um ar cansado: “Não adianta, não há nada aqui”. Ele verifi­cou as horas no seu relógio de pulso. “Quase quatro horas. É melhor dar o dia por encerrado”.

Archie, no entanto, não estava pronto para desistir. “Mas nós não encontramos coisa nenhuma”, disse ele desanimado.

Rufus tentou explicar as dificuldades da situação. “Nós não queremos ser pegos bisbilhotando, queremos? Se formos pegos, teremos que ou contar a verdade sobre o desafio da maldição, coisa que a sua mãe jamais aceitaria...”

Archie balançou a cabeça, concordando.

“... ou contar mentiras, coisa que, me parece, nenhum de nós quer fazer”.

Archie concordou novamente.

Rufus tentou alegrá-lo. “Vamos achar uma oportunidade de vasculhar a casa outra vez amanhã. O seu pai vai estar no banco e Cecille me disse que estará trabalhando no bazar de caridade pela manhã”.

Mas para Archie amanhã estava longe demais. Ele queria continuar procurando por todos os cantos da casa, até encon­trar o que estavam procurando. Não havia tempo a perder.

“Acho que a seguir devemos verificar o armário embai­xo da escada”, dizia Rufus quando eles emergiram do porão. “Talvez o melhor jeito seja procurar primeiro nos lugares mais óbvios. Pode ser até mais simples do que estávamos imaginando. Afinal, os seus pais não sabem que precisa­mos dos presentes, portanto não teriam razão para escondê-los em lugares improváveis”.

Archie estava desalentado demais para mencionar que estivera procurando os presentes desde a noite em que escuta­ra os pais discutindo sobre o tio Rufus. Quando voltou furti­vamente ao seu quarto naquela noite, já tinha se decidido a começar a procura o mais cedo possível, mas sem despertar suspeitas. Sua solução fora se oferecer para arrumar os armá­rios, explicando que precisava ganhar um dinheirinho extra para comprar presentes de Natal. Sua mãe achou a idéia mui­to boa. Infelizmente ela sugerira que ele arrumasse os armá­rios da cozinha, o que significava cuidar de prateleiras de sa­cos furados de farinha, açúcar e arroz, jogar fora potes de picles e geléia vencidos, para depois ser incumbido de dar um jeito no armário das panelas. Aquilo lhe tomara horas, e ele sabia com certeza que, no fim, absolutamente nada estaria es­condido na cozinha. Bem, nada de intencional.

Ele achou um folheto sobre vidros duplos para isola­mento termoacústico, uma mosca varejeira seca e um pacote de garfos de plástico em uma assadeira. Um cupom ofere­cendo vinte pence de desconto em um pão-de-ló (vencido em 8 de junho); vinte recibos de compras no fundo da fruteira e um tubo de cola sem tampa grudado em uma coleção de es­panadores quase irreconhecíveis embaixo da pia.

Talvez Rufus estivesse certo — quem sabe encontras­sem alguns dos seus presentes no armário embaixo da esca­da —, mas Archie duvidava.

Também não havia sentido em procurar no quarto dos seus pais; ele já tinha feito isso. É verdade que o fato de sua mãe entrar e perguntar o que ele estava fazendo interrompera a sua busca. Ela correra os olhos pelo quarto, desconfiada, enquanto ele ficava lá plantado de boca aberta, tentando desesperadamente inventar alguma desculpa, até que as pala­vras “Eu estava apenas procurando idéias para um presente de Natal para o papai” saíram atabalhoadamente.

Archie estava convencido de que ela não iria acreditar, mas Cecille o abraçou e sapecou um grande beijo molhado na sua bochecha. “Você sabe o que eu estou vendo?”, pergun­tara ela quando os dois olharam para seus reflexos empoeirados no espelho da penteadeira.

Ele dera uma balançada confusa de cabeça. Estaria ela se referindo à sua cara, vermelha como o enorme boneco de Humpty Dumpty sentado em cima do guarda-roupa?

Não, porque ela abrira um largo sorriso e sussurrara: “Estou vendo um filho maravilhoso e atencioso”.

Quando Archie estava pensando neles dois em pé diante do espelho, ocorreu-lhe que havia um lugar fulgurantemente óbvio onde ele não pensara em procurar: o próprio Humpty Dumpty de cara vermelha sentado em cima do guarda-roupa.

O relógio de pêndulo começou a bater as quatro horas no momento exato em que a porta da frente se abriu e Ce­cille e Jeffrey entraram, com as botas cobertas de neve. Já es­tava escuro lá fora e o ar gelado se agarrava às suas roupas e à sua pele.

“É simplesmente estrambótico”, Cecille estava dizendo. “A três ruas de distância não há praticamente nenhuma ne­ve. Mas assim que passamos o nosso portão, começa a nevar de novo e o vento acaba”.

Ela começou a chutar fora as suas botas, fazendo voar torrões de neve, que caíram nos pés de Archie. Ele sentiu a neve derreter através das meias e molhar os dedos dos pés. Jeffrey puxou uma luva com os dentes enquanto falava ao mesmo tempo.

“Ezekiel disse que o seu jardim dos fundos estava em­baixo de meio metro de neve, mas o jardim da frente tinha apenas uma leve camada”. A luva saiu e ele começou a tirar a outra do mesmo modo.

“Aquecimento global”, disse Rufus. “Eu me lembro de quando estive na Rússia...”

Jeffrey parou o que estava fazendo. A luva ainda estava pendurada entre os seus dentes quando ele perguntou: “Você esteve na Rússia?”.

Rufus assentiu e continuou. “Inundações numa semana e uma onda de calor na outra”.

Eles todos seguiram Cecille até a cozinha, onde ela se aconchegou ao calor do fogão.

“Como foi a sua tarde?”, perguntou ela, examinando Archie à procura de indícios de que ele estivera do lado de fora. Imediatamente ela flagrou as manchas úmidas nas meias dele. “Archie, você não molhou os pés, molhou? Você sabe como é suscetível a resfriados”.

Ele já estava quase dizendo “Não, eu não molhei os pés”, quando lhe veio uma idéia à cabeça.

“Meus pés de fato ficaram um pouco úmidos”, e deu uma tossida deliberada para reforçar a encenação.

“Vá pôr meias secas imediatamente”, disse Cecille. “Vou preparar alguma coisa quente para você tomar”.

“Eu vou encher mais um par de baldes de carvão”, disse Rufus.

“Eu vou lhe dar uma mão”, disse Jeffrey.

“Não, não. Não é preciso”, disse Rufus. “Estas mãos já carregaram jarros de água por quilômetros nas planícies afri­canas”.

Jeffrey não pôde esconder a inveja. “Você esteve na África?”

“Sim”, disse Rufus. “E isso me lembra de uma coisa. Eu dei de encontro com um homem em Botsuana que disse co­nhecer você. Veio de Exeter. Professor qualquer-coisa. Agora, como era mesmo o nome dele?” Rufus inclinou a cabeça para trás e olhou para o teto, pensativo. “Vou me lembrar em um minuto”.

Fez-se um silêncio na cozinha enquanto eles olhavam e aguardavam que Rufus se lembrasse do elusivo nome.

Por fim ele balançou a cabeça. “Não consigo me lembrar”. Ele olhou diretamente para Cecille. “Mas vou conseguir. Mais cedo ou mais tarde. Enquanto isso, vou buscar o car­vão. Você tem uma lanterna, Cecille? Parece estar bem es­curo lá fora”.

Ela não se mexeu, mas continuou olhando para Rufus com a mais estranha das expressões.

“Cecille?”, perguntou ele.

“O quê?”, disse ela por fim.

“Você tem uma lanterna?”, repetiu Rufus.

“No peitoril da janela”, disse ela mansamente. “Não se esqueça de colocá-la de volta exatamente onde a encontrou. Lanternas precisam ser localizadas rapidamente em uma emergência”.

Rufus aceitou a exigência sem um murmúrio e, com a lanterna na mão, saiu para o vestíbulo em direção à porta dos fundos. Ninguém se mexeu, ouvindo o matraquear metálico dos baldes, seguido pela pancada da porta se fechando. Eles puderam ouvir os pés dele esmagando a neve do lado de fora, no caminho até o galpão, nos fundos do jardim. Archie olhou para os pais enquanto eles ouviam os sons abafados dos passos de Rufus. Jeffrey foi o primeiro a falar.

“Um homem de Exeter que me conhece?” Sua expressão mudou de pensativa para intrigada. “Nós conhecemos um professor de Exeter, Cecille?”

Ela estava junto à pia, enchendo a chaleira, e o que quer que Jeffrey tenha dito se perdeu no ruído da água correndo.

“Você disse alguma coisa?”, perguntou ele.

“Não”, retrucou Cecille sem se voltar. “Eu não disse nada”.

O que surpreendeu Archie, pois ele observara o reflexo da mãe na janela e sua boca seguramente se mexera. O que ela teria dito que agora deveria ser mantido em segredo para o pai?

Cecille terminou de encher a chaleira e ao voltar-se viu Archie olhando fixamente para ela.

“Você ainda não foi trocar as meias?”

“Estou indo agora”. Ele levantou-se da cadeira. “Acho que vou ficar no meu quarto e jogar o Cavaleiro dos Cinco Tigres”.

“Tudo bem”, disse Cecille, pegando xícaras e pires em um armário.

Archie subiu a escada pulando de três em três degraus, parou no patamar do primeiro andar e dirigiu-se pé ante pé ao quarto dos seus pais. A porta estava entreaberta e, quando ele a empurrou, as dobradiças rangeram. Ele fez uma careta e ficou muito quieto, aguardando uma reação lá embaixo, mas quando ela não veio se espremeu pela pequena abertu­ra para dentro do quarto.

Estava às escuras, com apenas um caminho de luz se in­filtrando pela janela. O vizinho, dono do labrador-ladrador, deixara a sua luz externa de segurança acesa, o que era um golpe de sorte, já que lhe proporcionava luminosidade sufi­ciente para movimentar-se pelo quarto sem precisar acender o abajur.

Archie tinha um plano. Ele ergueu a cadeira da penteadei­ra, colocou-a diretamente em frente ao enorme guarda-roupa e subiu. As camadas de roupas em cima da cadeira davam um pouco de altura extra, suficiente para agarrar o enorme Humpty Dumpty e jogá-lo em cima da cama. Mas Archie não era alto o bastante para ver em cima do guarda-roupa, e de qualquer jeito estava escuro demais. Ele esticou o braço para cima e passou a mão às cegas pelo tampo, mas não encontrou nada ali, apenas grandes bolas peludas de poeira, certamente cheias de aranhas mortas e vivas. Ficou na ponta dos pés, quase despencando da cadeira, e esticou o braço o mais longe que pôde. Então sentiu alguma coisa. Era uma caixa mais ou menos do comprimento de uma caixa de sapatos, porém ra­sa, e estava fora do alcance por muito pouco. Ele se voltou e olhou em torno do quarto, e seus olhos recaíram sobre uma forma escura pendurada na parede ao lado da penteadeira. Era um coçador de costas de madeira que sua mãe dera ao seu pai no Natal anterior, um presente de brincadeira, mas o cabo comprido com a mãozinha entalhada na ponta era exa­tamente a ferramenta de que ele precisava.

Ele o tirou da parede e estava prestes a subir de novo na cadeira quando ouviu a voz de Rufus do lado de fora, no jar­dim. Alguma coisa na maneira como ele falava baixinho des­pertou a curiosidade de Archie. Ele espiou pela janela e en­tão, silenciosamente, ergueu-a uns poucos centímetros.

“...então vamos precisar de reforços de tropas”, Rufus estava dizendo. Ele parecia ansioso quando perguntou: “Vo­cê pode fazer isso por mim?”.

Archie se esforçou por ouvir uma resposta de quem quer que fosse que estivesse falando com ele, mas o som que veio a seguir foi o matraquear dos baldes quando Rufus os ergueu. Então a lanterna foi acesa de novo e Archie o viu emergir de trás de uma das árvores, ao lado do jardim, e caminhar em direção à porta dos fundos.

Archie deslizou a janela de volta, fechando-a. Com quem Rufus estivera conversando? E o que era aquilo de tropas? A porta da cozinha se fechou com uma batida e Archie pros­seguiu com a tarefa de resgatar a caixa em cima do guarda-roupa.

Foram necessárias quatro ou cinco tentativas para enganchar o coçador de costas na caixa e puxá-la para si, mas quando finalmente a tinha nas mãos Archie sentiu uma ma­ravilhosa sensação de conquista, que rapidamente se desva­neceu quando ouviu passos subindo a escada.

Archie agarrou o Humpty Dumpty, jogou-o de volta em cima do guarda-roupa, arrastou a cadeira de volta para a pen­teadeira e, quando os passos já se aproximavam do topo da escada, caiu sobre as mãos e os joelhos e se esgueirou para baixo da cama. A luz de segurança do lado de fora foi apaga­da, deixando-o na escuridão total enquanto tentava se de­sembaraçar da comprida colcha que caía até o chão. Também não havia muito espaço, devido aos muitos pares de sapatos de sua mãe. Além disso ele estava tentando não respirar mui­to alto nem gritar, o que era difícil, já que percebera, deitado lá no escuro, que alguma coisa estava se escondendo embai­xo da cama junto com ele.

Começou com um pequeno ponto de luz na frente do seu olho verde. Archie piscou várias vezes, acreditando que aquilo tivesse algo a ver com ilusões de ótica e com a incapa­cidade de focalizar na escuridão total. Ele fechou os olhos com muita força e abriu de novo, esperando que a luz tivesse desaparecido, mas ela ainda estava lá — só que tinha se ex­pandido até o tamanho de uma bola de tênis. Também estava flutuando em volta da sua cabeça, cintilando e tremeluzindo enquanto flutuava de uma extremidade da cama para a ou­tra, como se estivesse examinando a pesada colcha que caía até o chão. Ele se sentiu tentado a rastejar para fora da cama, mas os passos na escada se aproximavam cada vez mais.

Ele fechou os olhos e rezou para que, quem quer que es­tivesse subindo a escada, não estivesse a caminho do sótão. Se sua mãe ou seu pai descobrissem que não estava no quar­to e viessem procurá-lo, como iria explicar o que estava fa­zendo embaixo da cama deles, com a luz apagada, agarrando uma caixa que antes estava em cima do guarda-roupa deles? E havia também a questão da bola de luz verde embaixo da cama com ele. O que sua mãe teria a dizer sobre isso?

Os passos se detiveram do lado de fora do quarto, e ele ouviu a porta roçar contra o tapete quando foi aberta. Archie mal se atrevia a respirar. A bola de luz pareceu sentir a serie­dade da situação, pois parou de tremeluzir e estava agora flutuando gentilmente ao lado da cabeça do menino.

Archie podia dizer que era sua mãe quem estava na soleira da porta. Os passos eram leves e ele reconheceu o chei­ro do perfume familiar antes de ela puxar a porta, fechando-a. Archie suspirou aliviado quando ouviu o clique da fechadu­ra. Ele ouviu-a caminhar pelo patamar em direção ao banhei­ro. Houve um momento nervoso quando os frascos de perfu­me sobre a penteadeira chacoalharam com a batida da porta do banheiro, mas então veio o som de água correndo nos en­canamentos. Agora era o momento de uma escapada rápida. Archie ergueu a colcha e a bola de luz tremeluzente disparou para fora e lançou um caminho na escuridão em direção à porta. Agarrando a caixa, ele rastejou para fora da cama e abriu a porta, apenas o bastante para se espremer através dela. Relanceou para trás a tempo de ver a bola de luz enco­lher de novo até virar um pontinho e escapulir pela chaminé.

Archie correu escada acima para o seu quarto no sótão e, quando acendeu a luz, fechou a porta e sentou-se na cama, estava tremendo. Tinha sido por pouco, no futuro teria de ser mais cuidadoso, mas quando olhou para a velha caixa empoeirada em suas mãos soube que havia encontrado o pri­meiro dos oito presentes que Rufus lhe mandara.

Ele desamarrou o barbante e ergueu a tampa. Dentro ha­via alguma coisa pesada, envolvida em veludo roxo. Ele de­senrolou o pano e encontrou uma adaga.

“Uau!”, disse, e soltou um assobio desafinado. O cabo tinha a forma de duas cabeças de serpente entrelaçadas. Imediatamente ele se lembrou de algo e pôs a adaga sobre a cama enquanto ia abrir o armário de brinquedos, sob o beirai do telhado.

Puxou uma caixa de baralho do conjunto de mágicas e sacudiu o conteúdo na mão. As duas moedas de ouro estavam na sua palma. Olhou para a figura em uma delas, uma adaga com cabeças de serpente entrelaçadas, e, como esperado, no­tou ser idêntica à adaga na caixa. A outra moeda tinha a figu­ra de uma estrela, que o lembrou da volta da bola de luz ver­de. Mas agora sabia o que era. Sentinela, Rufus a chamara. Quando as gaivotas do gelo morriam, transformavam-se em Sentinelas. Mas onde estaria agora?

Ele olhou para cima, através da janela da clarabóia, quan­do uma estrela cadente cruzou o céu. Fechou os olhos para fazer um desejo, mas sabia que tinha de ser rápido. Desejos feitos depois que uma estrela desapareceu não se tornavam realidade.

Quando abriu os olhos de novo, voltou à questão da adaga. Não pôde resistir a pegá-la e segurá-la como um cava­leiro segura a sua espada, mas quando a agarrou uma coisa inesperada aconteceu. Ele sentiu uma súbita explosão de energia percorrê-lo e viu-se erguendo-a bem acima da cabe­ça e soltando um brado de guerra.

“Vitória, vitória!”, ele entoou.

Houve uma leve batida na porta. Bem no momento em que Archie escondeu a adaga e a caixa embaixo do travessei­ro, Cecille entrou no quarto. Estava trazendo uma caneca de chocolate quente, que colocou sobre a mesa-de-cabeceira.

“Está se divertindo?”, perguntou ela. Seus olhos estavam esquadrinhando o quarto e finalmente se fixaram no compu­tador, que estava desligado. “Não me diga que você já se can­sou do Cavaleiro dos Cinco Tigres?”

“Estava olhando no meu telescópio”, respondeu Archie. “Olhando as estrelas. Plutão está muito forte esta noite”.

“Ah, isso é bom”, e ela deu uma relanceada polida para o céu noturno.

“E agora vou ler o livro que Ezekiel me deu. Sobre o tempo”.

Cecille pareceu impressionada. “Você está atarefado. Não vou mais perturbá-lo”. Então ela cruzou a porta, dizendo: “Beba o seu chocolate antes que esfrie”.

Archie se perguntou se a sua mãe ficaria tão impressio­nada se soubesse que a caixa do topo do guarda-roupa dela estava escondida embaixo do seu travesseiro. Ou que ele es­tava para desafiar um tornado.

Abriu o livro em uma página totalmente ocupada pela fi­gura de um enorme tornado criando um caminho de destrui­ção através de uma pequena cidade. Começou a ler em voz alta: “O som de um tornado que se aproxima lembra o de um grande jato decolando. Há um forte cheiro de enxofre, seme­lhante ao de comida apodrecendo, e os relâmpagos dentro do funil podem às vezes produzir um cheiro sufocante”.

Archie ergueu os olhos para os cavaleiros pendurados no móbile artesanal acima da sua cama, em especial o cava­leiro com as letras as na armadura prateada e vermelha. Es­tendeu o braço para cima, deu um piparote no cavaleiro com o dedo e, enquanto o observava rodopiar indefeso, um pen­samento ficou dando voltas e mais voltas na sua cabeça, como o cavaleiro. Mesmo que encontrasse todos os artefatos, con­seguiria encontrar também a coragem para batalhar contra Huigor?

 

De acordo com o relógio da igreja eram duas e vinte e seis da manhã. E, de acordo com o cata-vento acima do reló­gio, nenhum vento estava soprando. O cata-vento tinha o formato de uma escuna com as velas infladas, a proa apontan­do resoluta por cima dos telhados das casas para o mar adian­te. A aldeia de Westervoe dormia sob a luz do luar, e todas as casas estavam às escuras, menos uma: o chalé pertencente a Ezekiel Arbuthnott.

A luz da sala estava acesa, como de costume, bem como a do quarto, brilhando forte em uma janela sem cortinas.

O quarto em si parecia mais um estúdio que um dormitó­rio, com mapas pregados em qualquer espaço de parede que não estivesse coberto por prateleiras de livros. A cama estava posicionada em ângulo reto com a janela, deliberadamente restringindo a vista, pois Ezekiel tinha medo do que podia ser visto do lado de fora, no escuro. Sobre a mesa ao lado da cama havia um globo terrestre, equilibrado no topo de uma grande pilha de livros, todos eles histórias de aventura.

Ezekiel estava sentado na cama lendo um livro chamado Jornada para as trevas: uma história de exploradores perdidos, e seus olhos pareciam enormes por causa dos óculos com lente grossa que usava.

Ele parou de ler subitamente e olhou desconfiado por cima do livro. Inclinou a cabeça para o lado e escutou. O som veio de novo, um rangido metálico, como o de um portão sem lubrificação. Tirou os óculos, pôs o livro de lado, incli­nou-se e abriu a gaveta da sua mesa-de-cabeceira e, pela segunda vez naquela noite, tirou de lá um telescópio de latão. Ele o estendeu até o fim e depois levantou-se cautelosamente da cama, segurando o telescópio como se fosse uma espada enquanto atravessava o quarto pé ante pé.

Encostou o ouvido direito na porta do quarto e, como que duvidando estar à altura da tarefa, virou-se e pôs o outro ouvido contra a porta. Não havia mais rangidos metálicos, apenas o silêncio solitário da noite. Ele girou a maçaneta len­tamente e espiou para fora, para o vazio.

Uma campainha de vento feita de baleias de vidro, pen­durada no lustre do vestíbulo, estava completamente imóvel, bem como outra campainha de vento no fim da escada, acima da porta da frente. Para se certificar ainda mais, ele levou o telescópio ao olho e mirou mais uma vez o lado de fora, através da janela. A luminosidade da casa recaía sobre uma árvore no jardim, e ele focalizou uma grande campainha de vento de madeira pendurada imóvel em um galho. Ezekiel estava começando a achar que tinha imaginado o rangido me­tálico quando o ouviu outra vez. Era um som que conhecia bem; o cata-vento da igreja estava se movendo.

“Eu sei que você está lá fora”, murmurou ele, esquadri­nhando o céu através dos galhos da árvore. “A Estrela do Norte está brilhante esta noite”, disse consigo mesmo. “Sim, a Estrela do Norte de fato parece inusitadamente grande”. Ocorreu-lhe que ela não estava cintilando como as outras es­trelas, e também havia algo mais com ela, a forma, o tom de verde, e... “Ela piscou!”

Como se o tivesse ouvido, a silhueta de um pássaro com grande envergadura de asas saiu voando da árvore e desapa­receu por cima do telhado da casa. Surpreso, Ezekiel deu um passo para trás.

“Um albatroz?” Então ele se lembrou de uma coisa. “Não pode ser. Eles não têm olhos verdes e brilhantes”.

Esqueceu tudo sobre o rangido metálico e correu de vol­ta para o quarto, para espiar pela janela, mas o estranho pás­saro não podia mais ser visto em lugar nenhum.

Se não era um albatroz, disse para si mesmo, então o que poderia ser?

Uma corrente fria se insinuou entre seus pés descalços, fazendo-o estremecer, e ele devolveu o telescópio à gaveta e subiu de novo na sua cama quente.

Recostou-se nos travesseiros e esfregou os olhos. “Estou tão cansado”, sussurrou, sem conseguir dormir. O cata-vento podia ranger e as campainhas de vento podiam soar o quanto quisessem durante o dia, mas à noite era diferente. A noite era quando as coisas aconteciam. Quando tudo e todos esta­vam em silêncio, permitindo que sons inesperados ecoassem, sons que não se deveria ouvir. A noite você podia olhar pela janela e ver movimentos quando nada deveria estar se mo­vendo. Na cabeça de Ezekiel não havia dúvidas de que algu­ma coisa muito estranha estava acontecendo em volta de Westervoe, mas em especial na Fronteira dos Ventos. Por que havia tanta neve empilhada ao redor da casa dos Stringweed, e por que, com freqüência, havia uma nuvem cúmulo pairan­do acima do telhado deles? Havia algo de inusitado com aquelas nuvens: se você olhasse por tempo suficiente, veria clarões verdes dentro delas. E o que fazia com que elas se­guissem sempre o mesmo caminho, em direção à rocha do Musgo, sem que houvesse uma brisa sequer para soprá-las?

E havia mais uma coisa. Outro dia ele observara Archie ser arrastado pela calçada por uma lufada de vento que saiu de lugar nenhum, e tão depressa que seus pés mal tocaram o chão. Ezekiel decidiu que, como amigo da família de toda uma vida, era seu dever ficar de olho atento no jovem Archie, especialmente desde que todas essas estranhas ocorrências coincidiram com o seu décimo aniversário e o retorno de Ru­fus Stringweed.

 

Archie estava com problemas para dormir. Sua cabeça zunia com mil pensamentos, principalmente sobre tornados e sobre encontrar os sete artefatos faltantes.

Lá embaixo, o relógio de pêndulo bateu três horas.

Ele bocejou alto, rolou para o lado e fechou os olhos. Um momento depois rolou para o outro lado e seus olhos se abri­ram de novo. Decidiu que, já que estava totalmente desperto, bem que poderia fazer alguma coisa útil. Acendeu o abajur e pegou a adaga embaixo do travesseiro.

Ele esperava, ao focalizar a atenção na adaga, ter alguma idéia de onde procurar pelos outros sete presentes. Quando isso não funcionou, foi até a mesa junto à janela e desenhou uma planta da casa, indicando todos os armários, em todos os recintos.

Ele excluiu os armários do banheiro, que estavam atu­lhados de tubos, loções e frascos de substâncias com perfu­mes enjoativos. Quanto ao armário de remédios, bem, era es­treito demais para conter qualquer coisa além de alguns frascos de preparados para tosse, pílulas para dor de cabeça e os tônicos e vitaminas do seu pai. Archie pôs uma grande cruz vermelha sobre aqueles armários. Sentou-se, olhando para a planta, e a sua caneta pairou sobre o armário embaixo da escada e o quarto de hóspedes, onde Rufus estava dor­mindo. Certamente Rufus teria pensado em procurar no seu próprio quarto, mas para ter certeza absoluta perguntaria a ele de manhã.

Archie suspirou. Seria tão simples se pudesse perguntar diretamente ao seu pai onde estavam os presentes, mas Ru­fus fora muito insistente em dizer que seu pai iria tentar im­pedir que eles quebrassem a maldição se suspeitasse de al­guma coisa.

“Eu queria, eu queria saber o que fazer”.

Estava tão preocupado que não percebeu um pequeno movimento do lado de fora da janela. Flocos de neve empi­lhados sobre o peitoril da janela começaram a flutuar para ci­ma em pequenas ondas espiraladas contra o vidro. Então uma voz riu baixinho.

Archie endireitou o corpo e percorreu o quarto com os olhos. Aquele riso teria vindo de perto, atrás ou acima dele?

“Quem está aí?”, perguntou.

“Ele vem vindo”, disse a voz, tão perto que parecia estar dentro da sua cabeça, e tão suave e ofegante que ele não tinha certeza se ouvira bem. O quarto subitamente pareceu frio e os cabelos em volta da sua testa se eriçaram ligeiramente, como se pegos em uma brisa suave. Então o móbile acima da cama se mexeu, pondo os cavaleiros a marchar em um círculo vacilante. Archie pegou a adaga e uma forte onda de bravu­ra fluiu através dele.

“Quem vem vindo?”, perguntou.

Não havia mais o riso baixinho. “Huigor”, disse o sus­surro.

Archie viu a sua planta da casa se erguer da mesa e flu­tuar para o chão. Ele apertou o cabo da adaga.

“Eu não tenho medo de Huigor”.

A voz riu de novo. “É o que veremos”.

Ele sentiu o ar frio circundá-lo, e depois ir embora. A ja­nela deu uma única chacoalhada e a agitação da neve no pei­toril se acalmou. Archie olhou para o seu climascópio do outro lado e viu que os planetas dentro dele estavam girando. Ele ainda estava segurando a adaga, o que lhe deu coragem para dizer outra vez “Eu não tenho medo”, mas quase pulou da cadeira quando ouviu uma voz diferente, mais alta, vinda de baixo da cama.

“Archie? Archie, não tenha medo. Você pode me ouvir?”

Ele apertou forte a adaga e espiou embaixo da cama. Caí­do no chão, estava o seu walkie-talkie e a voz que vinha dele pertencia a Rufus.

“Recebendo alto e claro”, respondeu Archie rapidamente.

“Mantenha a voz baixa”, instruiu Rufus. “Desça até o po­rão o mais depressa e silenciosamente que puder, e tome cuida­do com o degrau rangedor”.

“Recebido e entendido”, disse Archie. “Câmbio e desli­gando”.

Ele se segurou no corrimão e, quando chegou ao terceiro degrau a contar de baixo, agarrou-se ao balaústre e pulou para o chão. Ficou imóvel, no aguardo de qualquer movi­mento no quarto dos pais. Inusitadamente, Jeffrey não estava roncando. Quando se certificou de que eles ainda dormiam, seguiu na ponta dos pés pelo tapete do vestíbulo e depois correu para o porão.

A porta do quarto de Rufus se abriu. Ele estava em pé, totalmente vestido, usando suas botas de pele de urso, o cha­péu pontudo e o casaco, e com a mochila pendurada em um ombro. Ele pôs o dedo indicador nos lábios e então fez sinal a Archie para entrar. Uma vez fechada a porta, a Sentinela apareceu atrás dele e espalhou sua luminosidade verde pelo quarto. Rufus pareceu surpreso e um pouco preocupado.

“O que é isso na sua mão?”, quis saber.

Archie ergueu a adaga. “Eu a encontrei em cima do guar­da-roupa de mamãe e papai. Fui procurar enquanto você es­tava buscando carvão. É um dos seus presentes, não é?”

“Mais alguma coisa que você queira me contar?”, per­guntou Rufus.

“Os planetas dentro do climascópio estão girando”.

Rufus concordou com a cabeça. “Mais alguma coisa?”

“Uma brisa fora-da-lei entrou no meu quarto. Mas eu não fiquei com medo; a adaga me ajudou a ser corajoso”.

“Ela disse alguma coisa?”

“Primeiro ela riu e depois disse que Huigor vinha vindo”.

Rufus começou a marchar pelo pequeno quarto; sua ex­pressão, um misto de preocupação e concentração. A Sentinela seguiu de um lado para outro com ele, pairando bem acima do seu ombro. Archie observou, tentando entender as roupas de frio e a mochila no ombro dele.

“Onde você esteve, Rufus?”

“Lugar nenhum. Ainda”. Ele continuava marchando e olhando atentamente para o chão.

“Você vai se encontrar com as tropas?”, perguntou Ar­chie. “Posso ir com você?”

Rufus parou de marchar e a Sentinela estacou atrás da sua cabeça. Quando Rufus se voltou e olhou para Archie pa­recia estar usando uma auréola verde.

“O que você sabe sobre as tropas?”, perguntou ele, os olhos arregalados de surpresa.

“Nada”, disse Archie rapidamente. “Só ouvi por acaso você falando com alguém no jardim. Com quem você estava falando?”

“Talvez você tenha ouvido mal. As vezes eu falo sozinho”.

Archie sabia que não tinha se enganado. “Você estava atrás da árvore”, persistiu ele. “A lanterna estava apagada”.

“Você realmente mantém os olhos e ouvidos abertos, não é? Estou impressionado”.

“Posso ir com você?”

“Era essa a intenção”.

Rufus estava olhando para ele de cima a baixo, e Archie se deu conta do quão despreparado devia estar parecendo, descalço e de pijama de algodão desbotado.

“Minhas botas e meu casaco estão junto à porta da cozi­nha”, disse o menino. “Vou pegar umas calças e um blusão na lavanderia”.

Rufus concordou com a cabeça. “Depressa. Precisamos voltar antes do amanhecer”.

Archie não tinha idéia de aonde eles estavam indo quan­do se esgueiraram pela porta da cozinha para o jardim dos fundos. Estava muito frio do lado de fora, tão frio que ele mal conseguia respirar; cada vez que puxava o ar era como se ti­vesse engolido um pedaço de gelo. Ele estremeceu e a Sentinela deslizou para dentro da mochila de Rufus.

“Você está bem?”, sussurrou Rufus, e Archie assentiu fu­riosamente por via das dúvidas, caso o tio usasse o frio como desculpa para deixá-lo para trás. Eles caminharam lentamente em volta da casa para minimizar o som dos passos esmagan­do a neve, Archie pisando nas pegadas de Rufus, o que era difícil, considerando a extensão dos seus passos. Mas quando eles já estavam descendo em direção ao portão da frente, dois olhos apareceram de repente no meio da cerca que os separa­va do jardim vizinho. Seguiu-se um rosnado baixo e um latido alto e gelado.

“Oh, não”, queixou-se Rufus. O cão rosnou outra vez, tentando forçar caminho através da cerca.

“Ele vai acordar todo mundo”, sussurrou Archie.

Mas Rufus já estava agachado na frente de uma abertu­ra na cerca, os olhos no mesmo nível dos olhos do cão. Ele parou de latir imediatamente e soltou apenas um pequeno ganido antes de se virar e ir embora.

“O que você fez?”, perguntou Archie depois que eles passaram o portão e já estavam subindo a colina.

“Um truquezinho que aprendi com os nômades da sava­na”, murmurou Rufus. “Não funciona tão bem com leões”.

Archie nunca tinha estado fora de casa na calada da noi­te antes. O mais tarde que chegara a sair fora às onze e meia, e tinha sido por acidente. Naquela ocasião eles tinham ficado sem gasolina quando voltavam de um jantar de aniversário de Cecille. Os dois ficaram sentados no carro por uma hora enquanto Jeffrey saiu no meio da noite para buscar ajuda. Ele levantara a gola para se proteger do vento e em apenas quatro ou cinco passos curtos desaparecera na escuridão, e Archie sentira um medo terrível de que jamais o visse de novo.

Mas agora era a sua vez de sair no meio da noite com Ru­fus. Archie enterrou as mãos nos bolsos e, através do forro grosso das luvas, sentiu o tranqüilizante cabo da adaga. Ele o agarrou e não sentiu nem um pouco de medo de quaisquer brisas foras-da-lei que pudessem insinuar-se sobre ele.

A Sentinela reaparecera de dentro da mochila de Rufus para iluminar o caminho à frente e, para se divertir, mudava de forma: ou um raio luminoso ou uma bola de luz verde tremeluzente.

Eles andaram sem parar, subindo a colina Brinkles e an­dando por cima dela, passando pelo homem de neve que ti­nham construído naquela manhã e através da charneca, até chegar aos limites de um antigo campo de aviação da Segun­da Guerra Mundial.

“Aonde estamos indo, tio Rufus?”, perguntou Archie, pois suas pernas tinham começado a doer e os dedos dos pés estavam amortecidos. Ele também não sentia mais a ponta do nariz e o seu estômago pedia um lanchinho.

Rufus parou de andar. Estava sem fôlego e nuvens de vapor saíam da sua boca quando o hálito quente encontrava o ar gelado. Demorou um pouco para responder, e quando falou suas palavras criaram pequenas bolsas intermitentes de névoa.

“Não falta muito agora, Archie. Estamos quase lá”.

Eles passaram por um enorme vão em uma cerca muito avariada, em volta do campo, e caminharam em direção a um edifício que ainda tinha paredes porém muito pouco telhado. Rufus pegou a mão de Archie enquanto eles contornavam a construção e então chegavam à entrada, que tinha três vezes o tamanho de toda a fachada da casa de Archie. O garoto es­tava começando a se sentir apreensivo com aquele prédio grande e escuro, caindo aos pedaços, mas a Sentinela tremeluzente disparou à frente deles e se expandiu em um acolhedor clarão que iluminou o lugar todo, e o único item que ele abri­gava. Archie sufocou um grito de surpresa e olhou para Rufus, que sorria orgulhosamente.

“Archie”, disse ele erguendo o braço e apontando para o avião vermelho vivo que aparecera diante deles, “apresento-lhe Monika”.

 

A primeira pergunta que Archie fez ao tio foi: “Onde vo­cê arranjou esse avião?”. Sua segunda pergunta foi: “Para onde vamos voar?”.

“Eu peguei o avião na Irlanda”, disse Rufus. “É um Ces­sna 1939. E nós vamos fazer uma visita à rocha do Musgo”.

“Dá para aterrissar um avião na rocha do Musgo?”, per­guntou Archie, tentando não parecer nervoso.

“Esta belezinha pode aterrissar praticamente em qual­quer lugar”, disse Rufus. Ele abriu a mochila e tirou de lá um par de óculos de aviador. “Também fiz minhas buscas esta noite”, e a Sentinela espalhou a sua luminescência para dar a Rufus um sorriso tingido de verde.

Archie mal pôde conter a excitação. “Os óculos de avia­dor da Segunda Guerra Mundial! Você os encontrou!”

“Estavam no galpão de carvão”, explicou Rufus. “Enro­lados em uma toalha de chá e enfiados em um vão acima da porta. Você jamais saberia que estavam lá a não ser que con­seguisse enfiar a cabeça ali dentro e dar uma torcida de cento e oitenta graus”. Ele esfregou a nuca e fez uma careta fingida. “Não faço um número de contorcionismo desde que me vi pendurado de cabeça para baixo em um eucalipto na Austrá­lia oriental. Tinha um coala envolvido na história, se me lem­bro bem”.

“Você esteve na Austrália?”, perguntou Archie, cheio de admiração pelo seu intrépido tio.

“Sim”, disse Rufus. “Muito embora eu tenha feito ques­tão de evitar eucaliptos na segunda visita. Agora suba, e va­mos seguir caminho”.

Archie nunca estivera em um avião antes. Ele também nunca estivera em um trem ou em um barco. Jeffrey não gos­tava de viajar para muito longe de casa, assim eles tinham passado os verões a uns poucos quilômetros de casa, no lito­ral, perto de onde moravam vovó e vovô Stringweed. Agora aqui estava ele, usando os óculos de aviador, decolando para a rocha do Musgo.

Rufus deu partida no motor, acendeu as luzes e eles ro­daram para fora do hangar abandonado. Viraram para a es­querda, em direção à pista, e Archie sentiu o avião vibrar enquanto ganhavam velocidade. O ruído do motor ficou en­surdecedor quando Rufus acelerou, tão rápido que o avião fez Archie pular e oscilar de um lado para outro enquanto disparavam para dentro da noite. Então ele teve a sensação de ser empurrado para trás no seu assento enquanto o avião se inclinava para cima e eles subiram pelo ar, cada vez mais alto, na direção da lua e das estrelas. Em sua empolgação Archie se esqueceu completamente dos pés frios e da fome crescente. E nem mesmo notou que uma gota molhada se for­mou na ponta do seu nariz e caiu na manga do casaco.

Se ao menos Sid e George pudessem vê-lo agora. Se ao menos o mundo inteiro pudesse vê-lo agora.

Archie olhou para Rufus, prestes a dizer-lhe que aquele era o dia mais emocionante da sua vida, mas Rufus parecia estar muito atarefado fazendo o avião voar. Sua cabeça virava de um lado para outro, olhando por uma janela, depois pela outra, à procura de alguma coisa. Estava muito escuro e Ar­chie esperava que ele soubesse aonde estava indo, já que não dava para ver muita coisa além das estrelas.

Então, repentinamente, duas bolas de luz verde aparece­ram perto do avião.

“Aha”, disse Rufus, soando aliviado. “Nosso sistema de navegação chegou”, e ele acenou boas-vindas às Sentinelas.

No momento seguinte eles estavam descendo e Archie endireitou-se no seu assento para poder ver melhor através da janela. Estavam voando muito perto do mar, que, sob o brilho das luzes da aeronave, parecia uma massa negra semovente matizada com uma cor amarela suja. No entanto, muito mais assustadoras eram as rochas assomando na escu­ridão. Ele jamais poderia ter imaginado como são os grandes penhascos vistos bem de perto, ou quão ameaçadores os bri­lhantes olhos redondos de centenas de aves marinhas po­diam parecer, olhando para você das saliências estreitas.

O avião deu uma guinada súbita e Archie se segurou na beirada do assento quando as asas começaram a oscilar de um lado para outro. Ele fechou os olhos e tentou não sentir medo, e então lembrou-se da sua adaga. Pôs a mão no bolso do casaco e apertou forte o cabo, e aquela sensação maravi­lhosa e cálida de bravura percorreu-o novamente até as pon­tas dos pés. O avião deu outra guinada, mais forte, e quando Archie abriu os olhos eles estavam se aproximando de uma pista de pouso gramada, iluminada pelas Sentinelas. Não foi uma aterrissagem suave; a força dos freios o empurrou para a frente no seu assento e a aeronave foi jogada de um lado para outro tão violentamente que Archie teve certeza de que ela se partiria ao meio. Foi somente depois que eles pararam completamente que ousou soltar o cabo da adaga.

Rufus desligou o motor e deu um largo sorriso para Ar­chie. “Você está bem?”

Archie assentiu e tirou os óculos de aviador. “Estamos na rocha do Musgo?”

“Estamos, mas não temos tempo para fazer turismo”.

Rufus ajudou Archie a descer do avião. “Daqui, é só uma caminhada curta. Fique perto”. Ele então acendeu a lanterna que tirara da mochila.

Archie podia sentir o cheiro da grama sobre a qual cami­nhavam, que dava uma sensação macia e esponjosa embaixo das botas, e podia ouvir o mar batendo contra os penhascos em algum lugar na escuridão. Mas, além do caminho de luz da lanterna, não dava para ver nada da paisagem em volta. Se eles viessem para a rocha do Musgo outra vez, traria os óculos de visão noturna que George lhe dera de aniversário.

Contudo, Rufus estava certo. Eles não tiveram de andar muito antes de chegar a uma grande escarpa avultando na escuridão. Uma centena de pequenas luzes verdes apareceu subitamente em volta da entrada de uma caverna e Rufus apa­gou a lanterna. Uma vez do lado de dentro, Archie pôde ou­vir água pingando e a presença de algum tipo de criatura viva, mas seus olhos não se adaptavam às trevas. Então veio um bater de asas acima da sua cabeça, tão perto que ele pôde sentir o vento nas bochechas. Mil luzinhas verdes acende­ram-se de repente, e, em seguida, mais asas batendo. Archie pensou imediatamente em morcegos gigantes e agarrou o braço de Rufus.

“Não há nada com que se preocupar, Archie”, disse Ru­fus baixinho. “Todos aqui são amigos”.

Uma Sentinela passou velozmente, seguida por outra, e outra, e mais outra, cada qual explodindo em um resplendor de luz. Archie viu que estava em uma grande caverna, maior e mais alta que uma catedral, porém o mais espantoso era a massa ondeante de gaivotas do gelo cobrindo o chão em vol­ta dele e enchendo todas as saliências até o teto da caverna. O silêncio foi inesperadamente quebrado quando elas estica­ram o pescoço para cima e, em uníssono com as batidas das asas enorme, soltaram um ensurdecedor brado de convoca­ção enquanto seus olhos verdes se fixavam no garoto. Rufus curvou-se para perto do seu ouvido.

“Eis as tropas, Archie”.

 

Tão subitamente como quando começaram, os grasnidos pararam, e o mar de aves dobrou e silenciou. As que estavam empoleiradas nas saliências se acalmaram e as que es­tavam no chão em volta de Archie ficaram totalmente quie­tas. Ele teve a impressão de que estavam esperando alguma coisa acontecer. Olhou para Rufus, que olhava ansioso para a entrada da caverna. Uma batida de asas fez Archie se virar quando uma gaivota do gelo tão grande quanto o avião de Rufus voou para dentro da caverna e planou acima deles, dando voltas e voltas, lançando uma enorme sombra circulan­te. Os pássaros no chão se afastaram para o lado para abrir uma clareira e a gaivota do gelo desceu em linha reta, pou­sando bem na frente de Archie e Rufus. O menino tentou muito não sentir medo, mas o bico do pássaro parecia ser mais ou menos do mesmo tamanho que o seu galpão de car­vão e tão branco quanto as penas que lhe cobriam o corpo. No entanto, o que realmente o preocupava eram os olhos ver­des e fixos; tão grandes e ofuscantes quanto os faróis do re-movedor de neve que o pai de Sid dirigia.

Rufus e o pássaro estavam agora olhando um para o ou­tro, olho no olho. Nenhum deles se moveu nem produziu som nenhum. Aquilo continuou pelo que pareceu a Archie um bom tempo. Tirando os olhos do pássaro gigante por um mo­mento, ele percorreu o resto do bando e viu que estavam to­dos olhando diretamente para ele. Deu um passinho mais para perto de Rufus e procurou a mão dele. Rufus apertou a mão de Archie, tranqüilizador, e o garoto se viu sendo levado mais para perto, até o pássaro avultar acima dele como uma imensa estátua de mármore, inabalável — a não ser por aqueles luminosos olhos vigilantes.

“Temos novidades para você, Archie”, disse Rufus, sua voz reverberando pela caverna. “As Sentinelas informam que Huigor está no meio do Atlântico. Seu caminho é errático, mas esperamos que ele irrompa daqui a dois pores-do-sol”. Alguns grasnidos impacientes soaram em uma das saliências mais altas e Rufus esperou até ficar tudo silencioso de novo antes de continuar. “Nós também sabemos que Huigor está viajando embaixo da água e criando uma onda gigantesca. Portanto, é essencial que o mantenhamos fora da baía e o tra­gamos para perto dos penhascos mais abaixo na costa”.

Houve mais grasnidos das aves, como que manifestando sua aprovação.

“O que eu devo fazer?”, disse Archie, e as aves impacien­tes silenciaram de novo.

A enorme gaivota do gelo inclinou a cabeça para baixo na direção do menino, fazendo-o recuar um passo, assustado, quando o olho enorme se aproximou. Mas Archie viu pura bondade refletida ali, e sentiu o calor que vinha das penas, por isso não ficou com medo, nem mesmo quando uma voz que ele não podia ouvir com os ouvidos começou a falar den­tro da sua cabeça. Enquanto continuava a olhar para dentro daquele olho verde incandescente ele soube que a voz per­tencia ao pássaro. Estava lendo a mente dele.

“Não tenha medo”, dizia a voz. “Huigor vive do medo. Mostre-lhe bravura, e ele enfraquecerá. A força do seu desa­fio o fará voltar ao pó. Quando esse momento chegar, Huigor será destruído”. O olho se aproximou mais, a voz ficou ainda mais suave. “Você tem muitos amigos. Eles se darão a conhe­cer quando chegar o momento certo, mas somente você, com a mão da coragem, poderá quebrar essa maldição. Nós o guiaremos e o protegeremos, mas depois que você entrar no caminho de Huigor não teremos mais poder. Leve com você o conhecimento de que o seu coração é muitas vezes mais forte que o dele”.

O pássaro ergueu novamente a cabeça, abriu as asas e voou diretamente para o teto. As Sentinelas começaram a en­colher, levando sua luz com elas, e o pássaro gigante desapa­receu nas trevas acima.

“Hora de partir”, disse Rufus.

As Sentinelas passaram velozmente por eles, e os pássa­ros no chão abriram caminho até a entrada da caverna. As aves empoleiradas nas altas saliências já tinham desapareci­do na escuridão crescente e, quando a última Sentinela voou para fora da caverna, somente alguns olhos verdes brilhantes ainda podiam ser vistos através do negrume, até que, um por um, os pássaros fecharam os olhos.

Uma vez fora da caverna, Rufus tirou a lanterna do bolso e a acendeu. Ele olhou para o horizonte.

“Melhor nos apressarmos”, disse ele. “Está ficando tarde”.

Eles subiram de volta no avião e Rufus entregou a mo­chila a Archie.

“Há alguns biscoitos e chocolate aí dentro. Sirva-se. Você merece”, acrescentou ele com um sorriso.

As luzinhas verdes da pista subitamente cintilaram sob os faróis do avião, marcando a rota que ele deveria tomar. Desta vez Archie não se sentiu tão apreensivo com os trancos, as chacoalhadas e o modo como o avião balançava de um lado para outro ao correr pela pista. De fato, estava no pro­cesso de desembrulhar uma grande barra de chocolate que encontrara na mochila quando, com um tranco e uma cha­coalhada, e mais um tranco, eles estavam no ar outra vez, e a caminho de casa.

Enquanto voavam através do céu noturno, logo acima do mar e perto dos penhascos, Archie se perguntou como diabos iria demonstrar bravura perante Huigor. Nunca lhe ti­nham permitido ser corajoso; de fato, não sabia como ser co­rajoso. Talvez devesse confiar em George, pois o amigo, que já sofrerá duas fraturas, uma concussão e diversos cortes e equimoses em suas muitas e precárias aventuras, era a pes­soa mais valente que conhecia — depois do tio Rufus, é claro.

Archie deu mais uma mordida no chocolate e acomodou-se no seu assento. Estava se sentindo muito cansado, e lem­brou-se com um gemido desanimado de que depois de pousar ainda teriam de encarar uma longa caminhada para casa através da charneca e colina abaixo. Ele desejou poder cair no sono ali mesmo e acordar na própria cama. Piscou com força para ficar acordado, tentando focalizar a cabeça de Rufus, que ficava se movendo para trás e para a frente e de um lado pa­ra o outro, olhando ansioso pela janela para o mar lá embai­xo. Pequenas cristas brancas tinham aparecido no topo das ondas, que não estavam lá quando eles sobrevoaram antes.

“O vento deve estar começando a chegar”, disse Rufus, mas não houve resposta de Archie, que finalmente caíra no sono, com uma barra de chocolate meio comida derretendo na mão.

 

A primeira coisa de que Archie teve consciência foi o ba­dalar do relógio de pêndulo; e então, quando sua cabeça emer­giu do cobertor, ele piscou com a luz brilhante do dia, que o fez suspeitar de que havia dormido demais. Ele deu um bo­cejo longo e sonolento e lambeu os lábios. Estavam doces e grudentos, um gosto familiar. Chocolate! De repente, ele se lembrou: na última vez estava no avião de Rufus no vôo da rocha do Musgo para casa, comendo uma barra de chocolate. Seus olhos se arregalaram com a lembrança, especialmente da caverna cheia de gaivotas do gelo. Ainda mais incrível foi que ele lera os pensamentos de uma gaivota do gelo gigante, e foi assim que veio a descobrir que Huigor estava agora no meio do Atlântico e iria irromper amanhã, alguma hora de­pois do pôr-do-sol.

Archie engoliu em seco, nervoso. Como diabos iria bata­lhar contra um tornado que estava neste exato momento cau­sando uma onda gigante? Não tinha certeza de estar à altura da missão. Era ótimo a gaivota do gelo lhe dizer para ser co­rajoso, mas exatamente quão corajoso teria de ser?

Ele se sentou na cama e descobriu que estava totalmente vestido. Então descobriu que não conseguia se lembrar de ter ido para a cama. Por mais que tentasse, não tinha lembrança de vir do aeroporto andando para casa através da charneca fria, ou da jornada colina abaixo até a casa. Rufus devia tê-lo carregado por todo o caminho.

No relógio de pulso novo que vovó e vovô Stringweed lhe tinham dado de aniversário eram pouco mais de nove horas. Archie saiu da cama e desceu a escada com as pernas bambas. Quando chegou ao degrau rangedor, agarrou-se ao balaústre e pulou para o chão, aterrissando na frente do re­lógio de pêndulo. Ele estava fazendo um estranho zumbido, como se quisesse tossir mas não conseguisse reunir forças para isso.

Então Archie ouviu um ruído de coisas sendo arrastadas, vindo do armário embaixo da escada. A porta estava aberta e ele encontrou Rufus lá dentro, agachado, empurrando de lado velhas caixas de sapatos e casacos enquanto vasculhava cada canto com a lanterna que estivera usando na noite anterior. Ele sorriu quando avistou o rosto sonolento e pálido de Archie.

“Bom dia”, disse ele. “Como se sente?”

“Ótimo”, disse Archie reprimindo outro bocejo. O garoto boxeou um pouco com o ar para provar o quanto estava óti­mo. “Encontrou alguma coisa?”, sussurrou ele.

Rufus apagou a lanterna, emergiu do armário e endirei­tou-se. Ele era realmente muito alto.

“Nada lá dentro, receio. E está tudo bem, você não pre­cisa sussurrar. O seu pai está no banco e a sua mãe foi até o bazar de caridade por um par de horas. Portanto, temos tem­po à vontade. Que tal um desjejum?

Na cozinha, Rufus serviu um copo de leite para Archie e um prato de torradas que tinham sido mantidas quentes no fogão.

“Desculpe ter adormecido na noite passada”, disse Ar­chie. “E desculpe por você ter tido de me carregar para casa”.

“Oh, mas eu não carreguei você para casa”, disse Rufus alegremente. “Você ganhou uma carona de um par de gaivotas do gelo”.

“Eu?”

“Você foi aconchegado no meio daquelas penas com um cobertor e ficou aquecido como uma torrada. Manteiga?” A faca já estava em posição, acima dó prato.

“Geléia, por favor”, disse Archie. “Você não ficou preo­cupado que eu pudesse cair das costas da gaivota do gelo?”

“Elas se expandem para qualquer tamanho que for ne­cessário. Sob medida, pode-se dizer. E eu posso garantir que você pareceu muito confortável. Elas prestaram um bom ser­viço também. Deixaram você bem na frente da janela do seu quarto. Tudo o que tive de fazer foi abri-la e puxar você para dentro”.

Archie arregalou os olhos. “Você acha que alguém pode ter nos visto?”

“Sem chance. As gaivotas provocaram uma pequena tem­pestade de neve para nos ocultar”.

“Como elas fizeram isso?”

“Uma gaivota do gelo pode transformar o próprio hálito em neve”.

Archie olhou para fora pela janela e viu a espessa cama­da de neve no jardim dos fundos.

Rufus balançou a cabeça. “É o trabalho das gaivotas do gelo. Elas costumam viajar em bandos que se parecem com grandes nuvens. Assim podem evitar ser detectadas. Mas se você olhar muito atentamente poderá ver os clarões verdes dos olhos delas. A maioria das pessoas não se dá ao trabalho de olhar atentamente para as nuvens”.

“Aquilo é um bando de gaivotas?” Archie estava apon­tando para uma grande nuvem que flutuava em direção à Fronteira dos Ventos.

Rufus foi até a janela para olhar mais de perto. “Sim”. Observando-a deslocar-se acima deles ele murmurou: “E um bando inusitadamente grande”.

Archie não percebeu a expressão preocupada de Rufus enquanto começava a comer a sua torrada. “O que nós va­mos fazer quanto aos seis presentes, tio Rufus? Na verdade só temos hoje para encontrá-los e Huigor vai chegar amanhã”.

Rufus voltou para a mesa. “Eu sei, eu sei. Estive pensan­do nisso”. Ele tirou um pedaço de papel do bolso da calça e pegou uma caneta que estava em cima da mesa. “Agora, ve­jamos. Temos a adaga e os óculos de aviador”. Ele ticou os itens com tinta verde e Archie pensou nos olhos verdes da gaivota do gelo. Rufus soltou um longo suspiro ao olhar para a lista. “Ficam faltando a lanterna, a lente de aumento, a cha­ve, o pé de coelho, a flauta e o relógio de bolso”.

“É um bocado de coisas para encontrar, não é?”, disse Archie, subitamente não apreciando mais a torrada e a geléia.

Rufus olhou para o rosto pálido e preocupado de Archie e adotou uma abordagem mais positiva. “Bem, temos a maior parte da manhã para dar uma boa xeretada por aí”. Ele pe­gou a caneta e equilibrou a ponta dela cuidadosamente no seu dedo indicador.

Archie ficou impressionado.

“Existe alguma coisa que você não possa fazer, Rufus?” “É claro que existe, só não consigo pensar nela no mo­mento”.

Mas logo Archie perguntou: “Você procurou no seu quar­to, Rufus?”.

Rufus assentiu e devolveu a caneta à mesa.

“Revirei tudo. Não há absolutamente nada embaixo de toda aquela poeira. Assim, só restam o quarto de despejo lá em cima e a sala de estar. Qual você quer?”

“Acho melhor eu cuidar do quarto de despejo”, disse Archie. “Mamãe fica nervosa quando eu estou por perto da sua coleção de peixes de vidro”.

“É justo”. Rufus sacudiu as migalhas de torrada do blusão de Archie. “Então vamos começar. Sinto que estou com sorte hoje!”

“Eu também!”, disse Archie. E disparou escada acima de quatro, como um cão entusiasmado.

Ele atacou o quarto de despejo e foi confrontado com a enormidade da sua tarefa. Mal se podia ver o tapete floral embaixo de caixas e mais caixas de bugigangas. A colcha cor-de-rosa estava coberta por pilhas de roupas velhas e sacolas transbordantes.

Archie desejou ter optado por procurar na sala de estar. Mas pôs mãos à obra, começando com a grande cômoda logo ao lado da porta. As duas pequenas gavetas de cima conti­nham telegramas velhos, chaves oxidadas, manuais de ins­truções, plugues de três pinos e um canivete enferrujado com cabo quadriculado. Ele então começou a vasculhar as gave­tas grandes e pesadas, cheias de roupas de cama velhas que cheiravam a naftalina. Dali ele passou a vasculhar uma arara de roupas de polietileno, e até passou através dela para o ou­tro lado, onde ficou cara a cara com uma lareira. Sobre a larei­ra havia uma velha pintura infantil ressecada, que consistia em cinco pinceladas de tinta vermelha, ao lado do que sua mãe escrevera “Um avião por Archie, com quatro anos”. Tam­bém sobre a lareira havia um pequeno carro azul com uma ro­da faltando, um pente cor-de-rosa e um pacote meio comido de pastilhas de hortelã.

A seguir ele procurou nos sacos de roupas de bebê empi­lhados dentro do seu velho berço, que também continha um par de aquecedores com ventilador quebrados. Quando che­gou ao pequeno armário ao lado da cama, onde eram guar­dados os álbuns de fotografias, ele já estava ficando entediado, e também um pouco cansado, depois da sua visita tarde da noite à rocha do Musgo. Sentou-se no chão e começou a fo­lhear um álbum que tinha sido dedicado ao seu primeiro ano de vida. Lá embaixo, o telefone estava tocando e pouco depois ele ouviu Rufus dizer a quem ligara que Cecille não estava em casa.

Archie não prestou muita atenção ao telefonema porque estava muito absorvido no álbum de fotografias. A primeira página tinha fotos de sua mãe sentada na cama do hospital segurando-o, seu rostinho parecido com um grande morango espiando para fora de um xale azul. Outra foto o mostrava dei­tado embaixo da árvore de Natal, perto do enorme Humpty Dumpty inflável. Archie continuou folheando as fotografias, parando para olhar uma tirada no dia do seu batizado. Um grande grupo estava reunido nos degraus da igreja e em pé, no centro e na frente, estavam sua mãe e seu pai, que segura­va Archie nos braços. O bebê esperneava chorando, embora todos os outros estivessem sorrindo, inclusive Ezekiel Ar­buthnott, em pé na fileira de trás, a cabeça como que apoia­da nos ombros de vovô e vovó Stringweed. Seus outros avós também estavam lá: vovô e vovó Caine, ambos parecendo magros e frágeis, segurando um ao outro pelo braço, como que para impedir que caíssem.

Rufus estava quase irreconhecível de terno e cabelo cur­to. Encontrava-se ao lado de Cecille, que segurava o seu cha­péu de abas largas para impedir que fosse levado para longe pelo vento. Era uma fotografia alegre e relaxada, contrastando com as tiradas no primeiro aniversário de Archie.

Em todas elas Rufus parecia miserável enquanto olhava Jeffrey, Cecille e Archie soprando a única vela no bolo de ani­versário. Em outra ele estava fazendo uma careta para o vovô Stringweed, que mostrava a Archie como usar um pião. Na única fotografia de Archie e Rufus juntos, ele finalmente con­seguira sorrir enquanto Archie lhe dava biscoitos de choco­late, mas ao fundo vovô Stringweed olhava incomodado.

Enquanto continuava a folhear as fotografias, Archie per­cebeu que a voz de Rufus ficara silenciosa. Mal dava para ou­vir suas palavras enquanto ele falava ao telefone. “Você tem certeza?”, Archie ouviu-o dizer.

Archie pôs o álbum de lado e foi devagarinho até a porta para ouvir.

“Então isso muda tudo”, Rufus dizia agora. “Não nos dei­xa muito tempo... É possível fazer isso sem eles? Não, achei que não”.

Archie chegou mais perto e o piso embaixo dele rangeu. Rufus parou de falar. Archie prendeu a respiração, e então ouviu Rufus dizer que precisava desligar. Archie voltou pé ante pé para dentro do quarto e continuou a olhar as foto­grafias.

“Achou alguma coisa?”

Archie ergueu os olhos e viu Rufus à porta do quarto de despejo.

Ele balançou a cabeça. “Nada”. Ele devolveu o álbum ao armário. “E você?”

“Coisa nenhuma. Conferi até na chaminé”. Rufus mos­trou as mãos, que estavam cobertas de fuligem. “Vamos conferenciar no banheiro enquanto eu me lavo”.

Depois que Rufus terminou de se esfregar e enxaguar, Archie se sentiu pronto para fazer a pergunta que tinha em mente.

“Rufus? Por que você foi embora no meu primeiro ani­versário?”

“Oh, eu já tinha decidido partir muito tempo antes disso”. “Mas por que naquele dia?”

Se Rufus ficou surpreso com a pergunta inesperada, ele não demonstrou.

“Na noite anterior ao seu aniversário eu estava no sótão do vovô Stringweed procurando decorações de Natal, quando dei com um porta-jóias de madeira. Dentro estavam todos os artefatos. No fundo do porta-jóias encontrei a adaga. Com ela, havia um bilhete dizendo que deveria ser entregue a todo primogênito homem dos Stringweed. Quando pergun­tei ao vovô por que ele não a dera a Jeffrey, ele disse que não havia sentido em remexer o passado, ‘o que tem de ser, tem de ser’. Eu soube então que tinha algo a ver com a maldição. Veja bem, ninguém nunca falara sobre isso. Acho que o vovô se convencera de que se ela não fosse mencionada não seria verdade. Decidi comigo mesmo que daria a adaga a você co­mo um presente de aniversário. Vovô ficou zangado. Então o seu pai juntou-se a ele. Eles me disseram que não cabia a mim presenteá-la e que a maldição não era da minha conta. Eu discordei. Como seu padrinho, eu achava que era da minha conta. Assim, enfiei todos os artefatos em uma sacola e fui embora. Estava determinado a fazer alguma coisa. Sinto mui­to ter perdido o seu segundo aniversário, mas era uma época especialmente delicada. Depois disso, mandei um artefato a cada ano para o seu herdeiro legítimo — você”.

Rufus continuou a esfregar as unhas mas ficou muito quieto, como que lembrando-se das suas aventuras naqueles anos. Sua cabeça estava bem inclinada para baixo e como Ar­chie estava bem perto pôde notar uma longa cicatriz na nuca do tio. Imaginou que algo muito terrível lhe acontecera.

“Você sentiu saudade de nós, Rufus?”

“Sim, senti”.

“Acho que a vovó sente saudade de você. Ela chora quan­do mamãe ou papai mencionam o seu nome. O vovô não diz nada, simplesmente sai para uma longa caminhada”.

Rufus estava olhando a água da torneira quente escorrer por cima de suas mãos perfeitamente limpas. Parecia estar perdido em pensamentos, mas então ele fechou a torneira, voltou-se para Archie e disse vivamente: “Vamos voltar ao trabalho?”.

Archie concordou. Já tinha informação suficiente, ao me­nos por enquanto.

“Do modo como vejo”, Rufus estava dizendo, “temos de entrar dentro da cabeça do seu pai. Tente imaginar onde ele teria escondido os presentes”. Ele foi enxugar as mãos, mas não havia toalha.

Archie apontou para uma porta diretamente em frente do banheiro. “No armário de roupa de cama. Prateleira de cima”.

O armário de roupa de cama cheirava a naftalina. Tinha prateleiras fundas e era forrado de madeira, deixando o inte­rior muito escuro. Archie acendeu a luz do armário, que lampejou e deu um estalo.

“Há uma lâmpada de reserva lá dentro em algum lu­gar”, disse ele, revirando uma caixa de papelão no fundo do armário.

Rufus puxou uma toalha da prateleira de cima, enxugou as mãos e então, descansando o pé na prateleira de baixo, içou-se para trocar a lâmpada. Enquanto ele se torcia para en­tregar a lâmpada velha a Archie, notou uma toalha de chá en­rolada sobre uma saliência funda do lado de dentro da mol­dura da porta.

“O que temos aqui?”

Ele pulou de volta para baixo. As tábuas do assoalho em­baixo do tapete estremeceram e uma camada de poeira se reorganizou.

Ele desenrolou a toalha e revelou uma pequena flauta en­talhada. “As nuvens se reúnem com a música”, murmurou ele.

“Há mais alguma coisa lá dentro”, disse Archie.

Rufus desenrolou mais a toalha e das dobras emergiu a lente de aumento folheada a ouro.

“Molduras de portas parecem ser um tema recorrente. Primeiro os óculos de aviador acima da porta do galpão, e agora estes”.

“Aposto que você vai sugerir que examinemos todas as molduras das portas de todos os armários”, disse Archie. “É exatamente o que eu ia sugerir”.

Archie já estava correndo escada acima para o sótão. “É melhor tentar o meu quarto primeiro”.

A primeira coisa que Rufus notou quando entrou no quarto de Archie foi o climascópio ao lado da cama. Ele olhou desconfiado. Se Huigor ainda estava a mais de um dia de dis­tância, por que girava tão depressa?

Archie já estava dentro do seu armário, que era bem pe­queno por estar perto dos beirais da casa, e não precisou de muito tempo até encontrar um lenço enrolado alojado acima da moldura da porta. Era um dos lenços de Jeffrey e alguma coisa estava embrulhada dentro dele. Ele o entregou a Rufus, que desenrolou o algodão empoeirado e revelou uma lanter­na preta bastante comum, com dois botões — um vermelho e outro verde.

Archie não pôde deixar de cantarolar excitado “Yes, yes, yes!”, mas quando foi pegá-la Rufus segurou firme.

Sua expressão e seu tom de voz se tornaram sérios quan­do ele explicou: “Você não deve usar a lanterna até que chegue o momento certo e você esteja preparado para a batalha. A me­dida que Huigor se aproximar o seu poder se tornará ativo, deflagrado quando a coragem perdida dos seus ancestrais for novamente despertada. Você entendeu?”.

Archie assentiu. “Entendi”.

“Que bom”, disse Rufus. Ele então embrulhou a lanterna na toalha azul juntamente com a flauta e a lente de aumento e os devolveu à saliência acima da porta para maior segu­rança. “Agora, só falta encontrar a chave, o pé de coelho e o relógio”.

Archie apresentou a sua planta da casa e eles começaram a procura em cada um dos armários. Quando terminaram, não tinham encontrado mais presentes.

Rufus tentou parecer otimista. “O relógio de bolso é de ouro maciço, e eu não acredito nem por um minuto que a sua mãe ou o seu pai teriam jogado fora algo valioso. A chave também é de ouro, bem como a corrente presa ao pé de coe­lho. Portanto, onde você guarda uma coisa valiosa para nin­guém encontrar?”

“Em um cofre?”, disse Archie.

“Exatamente. E existe um cofre nesta casa?”

“Não”.

“Exatamente. Portanto...?” Rufus estava olhando para Archie, aguardando a resposta que ele tão obviamente sabia.

Archie olhou de volta, tentando fazer o seu cérebro can­sado e confuso produzir a resposta certa. Rufus estava balan­çando a cabeça encorajadoramente, e então a resposta estalou na sua cabeça.

“No banco do papai!”, gritou ele excitado. “Ele os está escondendo em um cofre no banco!”

 

“Muito estranho”, dizia Ezekiel Arbuthnott consigo mes­mo enquanto dava uma pancadinha no barômetro pendura­do na parede do seu vestíbulo. O que ele viu o preocupou o bastante para dar outra pancadinha no vidro. Os ponteiros do barômetro balançaram um pouco, mas continuavam apon­tando firmemente para um pequeno adesivo que ele colara no vidro com as palavras “ventos com força de furacão”.

“Muito estranho”, disse ele de novo, e dirigiu-se para a janela da sala de estar.

Na baía, o mar estava calmo e uma grande nuvem bran­ca movia-se serenamente pelo céu em direção à rocha do Mus­go. Não havia absolutamente nada que sugerisse que um furacão estava a caminho. Ezekiel pegou o seu binóculo no peitoril da janela e examinou o horizonte. Um barco pesquei­ro estava retornando ao porto, seguido por uma ou duas gai­votas que mergulhavam para pegar restos de peixes que eram atirados do barco. Ele virou o telescópio para a direita e avistou um cardume de golfinhos brincando nas águas pro­tegidas da baía.

“Muito estranho”, disse ele para o seu gato rajado de cinza, Marley, que estava sentado quieto sobre uma mesa ao seu lado. Ele abaixou o binóculo. “Que tal um pouco de ar fresco, Marley?” Mas quando Ezekiel abriu a janela, o gordo gato deu um miado alto em protesto e pulou para o chão. Eze­kiel ouviu-o chiando baixinho, todo eriçado, enquanto fecha­va a janela. Depois Marley foi até uma grande poltrona perto do fogo e se curvou tão baixo quanto os seus ossos rígidos lhe permitiam. Embaixo da poltrona, os assustados olhos verdes do gato olhavam fixamente para ele.

“O que há, meu velho?”, perguntou Ezekiel. “Alguma coisa o assustou?”

O gato rosnou e se enrodilhou mais apertado.

Ezekiel tomou uma decisão. “Acho que preciso sair um pouco, dar uma volta de bicicleta”.

Ele vestiu o seu pesado casaco preto, o boné com prote­tores de orelhas e luvas grossas. Sua bicicleta estava apoiada em uma motoneta, e ele agarrou o guidão e a empurrou para fora através da porta da frente, para o ar gelado da manhã. A porta bateu atrás do velho, e depois de apenas um par de passos em direção ao portão ele se lembrou de alguma coisa. Voltou-se e olhou para a campainha de vento pendurada na árvore do jardim. Estava absolutamente quieta. Ele olhou pa­ra cima, apertando os olhos contra a luz forte do sol e viu ou­tra nuvem branca se movendo no céu azul.

“Muito, muito estranho”.

Ele jogou a perna por cima do quadro da bicicleta e cam­baleou inseguro pelo caminho, soando a campainha para avi­sar qualquer um que se aproximasse do portão do jardim, o que foi bom porque alguém estava justamente vindo pela calçada naquele exato momento.

“Bom dia, Ezekiel”, disse ela. Estava ligeiramente sem fôlego porque carregava duas sacolas de compras e usava um casaco vermelho forrado muito grande. Ezekiel não a reco­nheceu imediatamente porque ela ainda estava usando um chapéu de pele de carneiro com protetores de orelhas que lhe cobria a cabeça e metade do rosto. De fato, foi só depois de ela sorrir e dizer “Eu achei que a nossa reunião de ontem foi muito boa” que ele percebeu quem era a estranha.

“Bom dia, Cecille”, disse Ezekiel. “Foi muito boa mesmo, e eu preciso dizer que aquele seu marido teve idéias brilhan­tes. Com um pouco de sorte, teremos doações de luzes sufi­cientes para iluminar a aldeia inteira”.

“É o que esperamos”, disse Cecille. “Coloquei avisos em todas as lojas. Tudo o que podemos fazer agora é esperar”.

Ezekiel ergueu os olhos para a nuvem branca que se mo­via pelo céu. “Você vai me desculpar mas estou com pressa. Tenho alguns assuntos urgentes para tratar”, disse ele miste­riosamente.

Cecille olhou para o céu. “Manhã adorável”, disse ela. “A não ser em volta da nossa casa. Ainda há neve empilhada ao redor das paredes. Não consigo entender”.

Ezekiel desviou os olhos do céu para olhar para ela. “Vo­cê disse que a sua casa ainda está cercada de neve?”

“Sim”, disse ela. “O vento deve ter tomado uma direção inusitada na última noite. Soprou tudo para o nosso lado. Ima­gino que é por isso que a casa é chamada de Fronteira dos Ventos”.

“Não foi sempre chamada de Fronteira dos Ventos”, dis­se Ezekiel.

“Não?”, disse Cecille.

“Oh, não”, disse Ezekiel. “Ela já pertenceu a uma mulher chamada Bella Simm. Naquela época a casa era chamada de Brisa do Oceano. Já faz muito tempo, mas naqueles tempos Bella vendia bons ventos para marinheiros”.

“Ela vendia ventos?”, repetiu Cecille, sem acreditar mui­to no que estava ouvindo.

“Bons ventos”, corrigiu ele. “Isto é, até uma noite de grande tempestade, quando um dos barcos que voltavam para casa afundou logo antes de entrar na baía. Todo mundo pôs a culpa em Bella, acusaram-na de ser uma bruxa. Depois que ela deixou a aldeia, a casa foi rebatizada de Fronteira dos Ventos. Mas não foi culpa dela”. Ezekiel olhou pensativa-mente para Cecille por um momento antes de falar de novo. “Foi algo a ver com uma maldição”, disse ele, e olhou tão fundo nos olhos de Cecille que as pernas dela viraram geléia.

“Uma maldição?”, sussurrou ela. Certamente ele não es­tava se referindo à maldição deles. Ninguém devia saber.

Mas Ezekiel não explicou mais nada. Ele apenas montou de novo na sua bicicleta, como se uma maldição fosse a coisa mais normal do mundo.

“Sim”, disse ele. “Vocês deviam mudar o nome da sua casa. É um ímã para o vento, aquele lugar”.

Cecille tentou disfarçar sua ansiedade, dispensando com uma risada as palavras de advertência. “Nada pode mudar o vento. Se ele resolve soprar, ele vai soprar”.

“Talvez”, disse Ezekiel. Ele ergueu os olhos para o céu novamente quando outra nuvem branca passou lá em cima. “Eu realmente preciso ir”. Ele tocou a campainha e acenou enquanto descia a colina. “Vem vindo um furacão”, gritou, tentando não cambalear.

Mas Cecille nem ouviu. Ela estava muito ocupada obser­vando uma grande pena branca descer flutuando do céu e pousar gentilmente na ponta da sua bota.


 

O banco, do qual Jeffrey era gerente, se situava no lado norte da praça da aldeia, entre a banca de jornais e a hospe­daria da sra. Grieve. O pequeno canteiro no centro da praça estava ocupado por uma árvore de Natal tamanho gigante — com cerca de quatro metros e meio de altura —, enfiada em um grande barril de madeira e sustentada por cordas pre­sas à cerca.

Archie e Rufus passaram pelas portas do banco logo de­pois das onze da manhã e, uma vez lá dentro, viram-se no fim de uma longa fila de pessoas aguardando para ser aten­didas. Archie suspirou.

Uma voz próxima interpretou mal o suspiro.

“Já está entediado com as férias escolares, Archie?”

Era Karen, uma das funcionárias do banco. Estava afi­xando um aviso sobre os horários de funcionamento no Na­tal e Ano-Novo em uma das portas principais. Seus olhos pa­reciam enormes atrás das fortes lentes dos óculos, mas então ela reparou em Rufus e lhe deu o seu sorriso típico. Ele res­pondeu demonstrando grande interesse no aviso e até se ofe­receu para fincar uma das tachinhas para ela.

Mais ou menos ao mesmo tempo a porta de segurança se abriu e o sr. Ratteray, o assistente da gerência, que também era o pai de George, saiu por ela.

“Com licença, senhor Ratteray”, disse Archie, “será que eu poderia ver o meu pai por um minuto?”

O sr. Ratteray olhou para Archie com o tipo de expressão preocupada de alguém que está lidando com um problema urgente, mas logo estava sorrindo, parecendo o pai de George de novo.

“Aguarde aqui”, disse ele. “Estamos em um período mo­vimentado, mas eu sei que o seu pai sempre arranja um tem­po para você”. E depois de teclar o código de segurança ele desapareceu novamente pela porta.

Enquanto aguardavam, Archie se conscientizou da aten­ção que a estranha aparência de Rufus estava atraindo. Al­guns dos clientes mais velhos cochichavam uns com os outros enquanto olhavam sem pudor para as botas dele. Karen não pareceu nem um pouco preocupada com o chapéu de Rufus ou com o casaco de aviador da Segunda Guerra Mundial que ele estava usando. Talvez tivesse algo a ver com a sua defi­ciência visual, ou com o fato de ela nunca desviar os olhos do rosto dele. Archie ficou contente quando seu pai apareceu à porta de segurança, sorrindo alegremente e acenando para que eles entrassem.

Uma vez dentro da sala de Jeffrey, com a porta firmemen­te fechada, Rufus assumiu o comando.

“A razão por que estamos aqui, Jeffrey, é que eu preciso de um cofre para guardar objetos de valor e achei melhor tra­tar disso com você. Os itens que quero guardar são de natu­reza delicada”.

“O que você quer dizer com ‘delicada’? Há restrições quanto ao que é permitido guardar nesses cofres, Rufus”.

“Quando eu digo delicada, quero dizer... rara”.

“Entendo”, disse Jeffrey. Enquanto ele avaliava a infor­mação, sentou-se olhando para uma caneta-tinteiro que rola­va entre os dedos.

Archie e Rufus aguardaram. Lá fora, no corredor, ouvi­ram um riso de menina. Jeffrey parou de brincar com a cane­ta e olhou para Rufus.

“Você tem planos de visitar papai?”

Rufus ficou surpreso com a pergunta inesperada.

“Isso me passou pela cabeça”, disse ele calmamente.

Jeffrey olhou para Archie. “Recebi um telefonema da vo­vó esta manhã. Vovô foi levado para o hospital. Está tudo bem. Nada muito sério. Só uma precaução”. Então ele se voltou para Rufus, que estava olhando para ele com ar interrogativo. “Fortes dores de cabeça. Alucinações. Albatrozes, aparen­temente”. Ele rolou a caneta mais um pouco. “Ele perguntou por você”.

Rufus balançou a cabeça. “Vou vê-lo esta tarde”.

Isso pareceu satisfazer Jeffrey, e, com seu estado de espí­rito aliviado, ele colocou a caneta sobre a mesa e se levantou. “Agora que isso está combinado, vamos tratar da papelada. Então poderemos descer ao subsolo e colocar essas ‘rarida­des’ em um cofre”.

Archie nunca tinha estado no subsolo do banco. Ele se­guiu Rufus, que estava seguindo Jeffrey, por um corredor frio, estreito e mal iluminado. Não havia tapete no piso, somente um linóleo cinzento rangedor, e as paredes estavam pintadas de uma cor mostarda fosca. No fim do corredor, Jeffrey des­trancou uma porta de metal, e dentro da caixa-forte ligou uma luz fluorescente de teto, que levou um ou dois segundos para se acender. Archie conseguiu ver cerca de vinte peque­nos cofres embutidos em uma parede, todos trancados.

“Que legal, papai”, disse Archie. “Gostaria que tivésse­mos um desses cofres para guardar os nossos valores com se­gurança”. Ele manteve os olhos fixos no pai o tempo todo, procurando algum tipo de pista, mas Jeffrey não falou nada enquanto destrancava o cofre 338 e tirava de lá uma caixa de metal, que entregou a Rufus.

Archie estava determinado a não desistir. “Possuir algu­ma coisa valiosa não significa que ela vale um monte de di­nheiro”, persistiu ele. “Poderia ser alguma coisa que você não quer perder. Ou alguma coisa de que você pode realmente precisar no futuro. Não é verdade, papai?”

Jeffrey olhava para o filho, bem dentro de seus olhos.

“Alguma coisa o está preocupando, Archie?”

Archie balançou a cabeça.

“Não”.

“Você dormiu até tarde esta manhã. Está se sentindo bem?”

Archie assentiu.

Jeffrey curvou-se e aproximou o rosto, o que queria dizer que Archie podia na verdade olhar por cima do ombro dele e ver o que estava acontecendo no recinto. A Sentinela havia voado para fora da mochila de Rufus e estava agora pairando na frente dos cofres de parede. Rufus estava colocando algu­ma coisa no seu cofre quando a Sentinela começou a se agitar desenfreadamente na frente do cofre 333.

Archie sentiu os dedos do seu pai na bochecha, virando-lhe o rosto de frente para ele, para que Archie se concentrasse no que o pai estava prestes a dizer.

“A sua mãe me disse uma coisa esta manhã”, começou Jeffrey. “Ela me disse que encontrou o coçador de costas que ela me deu no Natal passado caído no chão, junto à janela. Você esteve no nosso quarto?”

Archie sentiu seu rosto e suas orelhas ficando vermelhos. Ele assentiu e engoliu em seco antes de dizer “Eu... eu... esta­va procurando os meus presentes”. Imediatamente se sentiu envergonhado por estar contando uma mentira para o pai. Mas decidiu que era apenas meia mentira, porque estivera procurando por um presente, só que era um dos presentes de aniversário de Rufus, e não o seu presente de Natal. Assim mesmo, seu pai ainda estava olhando no fundo dos seus olhos.

“Se precisa falar comigo sobre qualquer coisa, você sabe que pode”.

“Eu sei”, disse Archie.

Jeffrey balançou a cabeça e então sorriu e endireitou o corpo novamente.

“Sid e George estiveram no banco esta manhã. Disseram que estavam sacando parte das suas economias para com­prar presentes de Natal. Você já comprou o presente da sua mãe?”

Archie fez que não. Jeffrey enfiou a mão no bolso da cal­ça e tirou de lá uma nota de vinte libras. “Não resta muito tempo. Talvez você deva pensar em fazer umas compras de Natal. Sei que a sua mãe se encantou com uma rã de choco­late um tanto grande na vitrine da padaria”.

“Obrigado, papai”, e Archie lançou os braços em volta do pescoço de Jeffrey e deu-lhe um enorme abraço só por ele ser seu pai.

“Terminado”, anunciou Rufus atrás deles. Ele jogou a mochila de volta sobre os ombros e Archie notou que a Sen­tinela desaparecera outra vez.

Enquanto Jeffrey punha a caixa de depósitos de volta no cofre, em um buraco na parede, Archie quis mais que tudo contar-lhe que em apenas mais um dia a maldição de Huigor seria quebrada para sempre, mas em vez disso ele disse: “Pa­pai, você ainda quer subir ao topo do monte do Duende para ver o pôr-do-sol?”.

Jeffrey acabou de trancar o cofre e voltou-se de frente pa­ra ele.

“Subir ao topo do monte do Duende? Tem certeza de que nós combinamos? Você sabe que eu não me dou muito bem com alturas, Archie”. Ele viu o olhar de desapontamento no rosto do garoto, então completou: “É claro que vamos subir o monte do Duende”, e ele deu um sorriso tranqüilizador. “Assim que o tempo melhorar”.

Mas nenhum sorriso poderia esconder de Archie que seu pai havia esquecido da conversa. E nenhum sorriso poderia fazer Jeffrey sentir-se melhor a respeito. Ele não podia mini­mizar a sensação de ser um desapontamento para Archie.

Quando Rufus terminou o que estava fazendo e ele e Ar­chie caminhavam para a porta principal do banco, Jeffrey se sentiu extremamente agitado, muito embora não soubesse por quê. Ele ficou em pé nos degraus da saída, observando-os atravessar a praça. Então viu Rufus pôr uma mão tranqüilizadora no ombro de Archie e reconheceu o que estava sentin­do — ciúme. Tinha uma forte sensação de que Rufus e Archie estavam de algum modo envolvidos em um pacto secreto. Um subterfúgio do qual ele não participava e, talvez ainda mais preocupante, algo de que eles não queriam que ele par­ticipasse. Ao acenar para eles, sentiu um medo inesperado, que nunca sentira antes. Seria possível que Archie preferisse Rufus ao pai?

Quando eles já estavam novamente fora do banco, Ar­chie disse a Rufus: “Eu não gosto de contar mentiras para o papai”.

“Só mais um dia”, disse Rufus. “Então você nunca mais precisará contar mentira, nunca”. Ele decidiu alegrar o meni­no. “Você quer ouvir as boas novas?”

“O quê?”

“A Sentinela encontrou o cofre do seu pai”.

“Eu sei”, suspirou Archie. “E o número 333”. Rufus assentiu.

“Tem todos os sinais de que há ouro lá dentro”.

“O relógio, o pé de coelho e a chave?”, perguntou Archie com um novo entusiasmo. “Como vamos tirá-los de lá?”

“Ah”, disse Rufus. “Estas são as más novas”. Ele olhou em volta, para ver se não havia ninguém ouvindo. “Você não conhece nenhum ladrão de bancos, conhece?”

Archie balançou a cabeça e pareceu preocupado.

“Achei que não”, disse Rufus. “Mas não se preocupe. Só teremos de voltar depois que o banco fechar e fazer um trabalhinho noturno. Ao menos conhecemos o subsolo e sabe­mos qual é o cofre do seu pai”.

Archie ia justo perguntar a Rufus o que ele pusera no seu próprio cofre quando uma bola de neve lamacenta atingiu a sua nuca. Ele fez meia-volta, sacudindo a neve da gola, e viu Sid e George tentando o melhor que podiam se esconder atrás da árvore de Natal, muito embora Sid estivesse usando um inconfundível casaco cor de laranja, e George, um chapéu de esquiador roxo e amarelo.

“Por que você não vai passar algum tempo com os seus amigos, Archie?”, disse Rufus. “Faça umas compras de Natal”.

Archie não pareceu muito certo.

“Não se preocupe com nada”, disse Rufus. “Deixe tudo comigo”.

Outra bola de neve caiu bem perto dele. “ok”, disse Archie.

“Apenas mantenha os olhos e os ouvidos abertos”, acon­selhou Rufus. “Cuidado com os ventos foras-da-lei e não cor­ra riscos desnecessários”. Ele olhou para o relógio. “Vamos nos encontrar na Fronteira dos Ventos às três da tarde e traçar o nosso plano de ação para esta noite. Agora vá, e divirta-se”.

Archie não precisou de muito encorajamento e correu em direção às duas figuras que riam atrás da árvore. Se ele tives­se parado para dar uma olhada para trás teria visto Rufus ca­minhando pela calçada na direção da Fronteira dos Ventos, a cabeça baixa, mãos no bolso do casaco e parecendo realmen­te muito preocupado. Ele também teria avistado Ezekiel pas­sando na sua bicicleta, mantendo um olho atento nas nuvens enquanto seguia para o porto. E ele poderia nesse momento ter visto uma lufada especialmente forte de vento surgir de lugar nenhum e fazer o cata-vento da igreja girar uma volta completa.

 

Sid e George também não tinham conseguido fazer as suas compras de Natal. George achava que ficar rodando pe­las lojas era muito chato e Sid simplesmente não conseguia se decidir pelo que comprar. Com um orçamento total de vinte libras para seis presentes, a escolha deles era limitada. Quan­do se encontraram com Archie, estavam zanzando à espera de que algum milagre acontecesse.

“Quem é aquele que estava com você?”, quis saber George.

“Meu tio Rufus”.

“Parece meio estranho”.

“Ele é um explorador”.

Sid ficou impressionado. George fingiu não ter ficado.

“Que países ele visitou?”

“Acho que praticamente todos”.

“Ele já esteve na garagem de barcos de Norrie Bew?

Archie achava que não.

“Mais uma janela arrebentou”, disse George. “Quer dar uma olhada?”

Archie deu de ombros e disse “ok”, enquanto atrás dele ouvia Sid dar um suspiro preocupado.

A garagem de barcos de Norrie Bew era um barracão de madeira com telhado curvo de zinco. Ficava na ponta de uma rampa para lançamento de barcos e a coisa mais inusitada ali era a cor: um roxo sujo, descascando, com uma espessa cama­da de piche embaixo da pintura. Corria a história de que quan­do Norrie Bew ficou velho demais para construir barcos a remo ele trancou o barracão certa noite e nunca mais pôs os pés lá. Com o passar dos anos as molduras das janelas apodrece­ram e alguns vidros arrebentaram, mas, como Norrie era um parente distante de George, ele se sentia muito no direito de forçar a entrada lá de vez em quando.

Ele entrava da seguinte maneira: de um lado da garagem de barcos havia uma porta trancada com cadeado, que dava para um píer pavimentado. Do outro lado do barracão havia uma saliência de 25 centímetros suspensa acima do mar, por onde era possível se esgueirar para dentro. Se era maré baixa e você caía, atingia a praia de pedregulhos. Com maré alta, você caía diretamente em um mar tão profundo que não da­va para ver o fundo. Naquele dia, era maré alta.

Archie e Sid ficaram olhando enquanto George avança­va cautelosamente pela saliência estreita, empurrava de lado algumas tábuas soltas e desaparecia dentro do barracão.

“Ele está só querendo se mostrar”, queixou-se Sid.

Eles esperaram e então George apareceu em uma janela perto de onde eles estavam. Seu rosto parecia distorcido e cinzento atrás de vinte anos de imundície, mas seus olhos se mostraram em foco perfeito quando ele espiou por um bura­co no vidro.

“Aposto que o seu tio Rufus não ficaria com medo de entrar”.

Sid olhou ansioso para Archie. Archie olhou para Geor­ge. “Quem falou em ficar com medo?”

“Eu vou ficar aqui”, decidiu Sid. “Aquele barracão é mal-assombrado”.

Archie subiu na saliência estreita. Acima dele, a cabeça de George apareceu entre as tábuas soltas. “Está com medo?”

Archie balançou a cabeça. Estava determinado a não per­der o sangue-frio, mas, à medida que avançava lentamente mais para perto de onde George o aguardava, sentiu um arre­pio frio familiar na nuca. “Oh, não”, disse consigo mesmo, mas não dava para voltar. Ele se segurou em um peitoril enferru­jado e fechou os olhos. Dando a volta no canto do barracão, um vento vindo do mar precipitou-se na direção dele, sopran­do o capuz do seu casaco através de um lado do rosto. Ele sentiu os dedos sendo puxados da janela e as calças batendo contra as pernas. Tudo o que podia fazer era manter a cabe­ça baixa e esperar. Podia ouvir Sid dizendo a ele para agüen­tar, por cima do ruído do mar subindo e batendo contra o píer perto dos seus tornozelos, e então ouviu o vento rindo.

“Vá embora!”, disse ele ao vento. “Não tenho medo de você!”

No instante seguinte ele sentiu a mão de George segu­rando seu braço, e o vento desfaleceu. Juntos eles avançaram lentamente para o buraco na parede do barracão e rastejaram para dentro.

“De onde veio aquele vento?”, perguntou George, olhan­do através de uma janela para o mar plano e calmo.

Uma batida forte fez os dois darem um pulo. Do lado oposto do barracão, Sid estava espiando através da janela que­brada. Ele pôs a boca no buraco do vidro e gritou: “Eu disse que havia fantasmas. Eles estavam querendo impedir vocês de entrar no barracão”.

“Não se vêem fantasmas de manhã”, disse George, mas assim mesmo deu uma olhada geral pelo barracão sombrio. Archie fez o mesmo. Não havia muita coisa para ver: algumas tábuas empoeiradas; um saco de marinheiro de lona apodre­cida; uma bancada cheia de jornais velhos, pregos enferruja­dos e um martelo de madeira. Havia o cheiro de madeira, de­terioração, abandono e de tempos antigos e desconhecidos. Para Archie, algum tipo de fantasma ainda subsistia. Ele não tinha intenção de ficar muito tempo e, inusitadamente, Geor­ge pensou a mesma coisa. George pegou o martelo. “Vamos ver se conseguimos abrir a porta para o píer. Assim não tere­mos de voltar pela saliência”.

A porta estava fechada por fora com cadeado, mas o ferrolho que a mantinha trancada se soltara com o passar dos anos. George começou a martelar a porta e voaram estilhaços de madeira podre.

“Mais uma pancada deve bastar”, ele estava dizendo quando ouviram um lamento agudo.

George parou de bater e voltou-se para olhar para Archie. “O que foi isso?”

“E o fantasma”, disse Sid através da janela quebrada. “Ele voltou!”

“Eu vou dar o fora daqui”, disse George, e começou a chutar a porta.

Atrás dele, ouviu Archie dizer “Oh, não”.

George se voltou, e o que ele viu o fez soltar o martelo no chão. Os cabelos de Archie estavam eriçados e seus olhos se moviam de um lado para outro, como se ele estivesse procu­rando alguma coisa que não podia ver. Mas o pior estava por vir. Uma forte rajada de vento levantou os jornais da banca­da e começou a soprá-los em volta do barracão.

“Fan... taaaaas... maaa”, disse George, e começou a chu­tar a porta seguidamente, em terrível desespero. Como mes­mo assim ela não se abriu, ele disparou em direção às tábuas soltas na parede e subiu para a saliência. Archie tentou segui-lo, mas o vento o empurrou para trás, para dentro de uma massa de jornais esvoaçantes. Ele pensou em puxar a adaga do bolso do casaco, mas a rajada fora-da-lei prendeu os seus braços ao lado do corpo e ele começou a girar sem sair do lu­gar. Quanto mais forte ficava o vento, mais depressa ele gira­va, até ficar rodopiando como um pião.

Sid soltou um berro de terror através da janela quebrada, mas Archie não pôde ouvi-lo. Seus ouvidos estavam toma­dos por um lamento penetrante do vento. “Esteja avisado...” ele o ouviu dizer. Tentou gritar para George, mas mal conse­guia respirar. Estava começando a pensar que o vento nunca o deixaria ir, quando parou de rodopiar. Estava tão tonto que mal podia se manter em pé, e também não conseguia focali­zar as coisas direito. Tudo ainda estava girando e girando, in­clusive o rosto horrorizado de Sid olhando para ele do outro lado da janela. Com o canto do olho, viu os jornais tomarem a forma de uma onda e soube que o vento ainda não havia terminado. Viu-se sendo empurrado rudemente pelo barra­cão, com os braços ainda presos na lateral do corpo. Dessa vez ele gritou.

George conseguira passar pela saliência com seguran­ça. Embora seu primeiro instinto fosse correr, ele não ia dei­xar Archie para trás. Especialmente agora que ele berrava por socorro.

Sid ainda estava espiando através da janela quebrada. “Ele vai ser jogado contra a parede!”

“Venha!”, disse George. “Temos que abrir esta porta”.

Eles contornaram o barracão correndo e ouviram um po­deroso estrondo quando as portas se abriram violentamente. Momentos depois Archie foi arrastado em meio a um turbi­lhão de jornais, cambaleando desorientado e chegando peri­gosamente perto da beirada do píer. George agarrou o seu braço e Archie sentiu a própria mão puxada para trás apenas o suficiente para alcançar a adaga no seu bolso.

Ele a segurou e o vento guinchou furiosamente. Archie foi girado mais uma vez, a porta do barracão fechou-se com uma batida e, com outro lamento lancinante, o vento se foi. Archie foi deixado à beira do píer, atordoado. Ele via dobra­do, seus ouvidos zumbiam e sentia-se nauseado. Quando co­meçou a recuperar o foco, teve consciência da presença de um homem observando-o do outro lado do porto, e quando o ho­mem lentamente abaixou o binóculo dos olhos viu que era Ezekiel. Archie deu um passo trêmulo para a frente e ouviu um arquejo de advertência de Sid e George. Ele se deu conta de que estava se equilibrando precariamente na beirada do píer. Cambaleou para trás e, ao voltar-se, viu George e Sid olhando fixamente para ele, ambos com cara de terror absoluto.

“Corram!”, disse Sid, e suas botas de borracha batiam contra as pernas enquanto ele disparava pelo píer rumo à se­gurança das lojas.

George manteve sua posição, mas um lamento baixo dentro do barracão logo o fez mudar de idéia.

“Vamos dar o fora daqui!”, gritou ele.

Archie não discutiu. Teria preferido um fantasma ao ven­to fora-da-lei que acabava de tentar empurrá-lo para o mar, mas isso ele não podia dizer a George. Começou a correr, tão depressa quanto suas pernas instáveis lhe permitiam, até o alto do beco onde Sid esperava por eles, de olhos arregalados e apavorado.

“Viram! Eu disse a vocês que havia fantasmas”. Então, para disfarçar o fato de que fora o primeiro a fugir, Sid dis­se: “Eu vi a cara dele olhando para nós através da janela do barracão. Era como um esqueleto com pedaços de pele pen­durados”.

Foi o bastante. Houve uma rápida confusão quando os três se acotovelaram para escapar o mais rapidamente pos­sível para o mais longe possível. Eles correram pela rua em direção à loja Coisinhas Doces e ficou acertado que nunca mais iriam chegar perto da garagem de barcos de Norrie Bew. Mas para Archie aquele era o menor dos seus medos. A rajada fora-da-lei fora muito mais forte que todas as outras lufadas, e sua força muito mais assustadora do que poderia imaginar. Agarrar a adaga o ajudara a escapar dessa vez, mas que proteção ela lhe daria contra o poder pleno de um pode­roso tornado?


 

Cecille ficara sabendo de uma preocupante novidade no bazar de caridade, naquela manhã. Ela ainda estava pensan­do nisso quando pôs as sacolas de compras sobre a mesa da cozinha, foi até o vestíbulo e gritou na escada.

“Archie?”

Quando não ouviu resposta, Cecille subiu até o quarto dele, mas encontrou-o vazio. Para se distrair da preocupação, pegou um velho lenço empoeirado que estava caído no chão e o pôs em cima de uma pilha de roupas na cadeira. Estava prestes a descer as escadas correndo de novo quando repa­rou no peso de papéis sobre a mesa ao lado da cama. As for­mas douradas de lua e estrela estavam girando dentro dele. Ela o pegou e sacudiu, esperando que os planetas girassem mais depressa, mas eles continuaram no mesmo ritmo cons­tante. Um calafrio percorreu-lhe a espinha.

Cecille correu de volta para a cozinha e olhou pela jane­la. O único sinal de vida humana era o homem de neve olhan­do para ela da espessa camada de neve que cobria o chão. O único som que se ouvia era o latido do cão do vizinho.

Ela voltou para a sala. “Rufus?”

Sua voz pareceu ecoar na casa vazia. O que foi mesmo que Ezekiel tinha dito? Uma casa outrora habitada por uma mulher que vendia bons ventos para marinheiros. Uma mu­lher que fora estigmatizada como bruxa. Calafrios percorre­ram-lhe a espinha novamente.

Então o telefone tocou, e Cecille deu um pulo de susto. Ainda tremendo, ela atendeu e seu rosto gelou quando ouviu a voz do outro lado. Tentou interromper.

“Eu já disse a você... Não! Eu o proíbo de falar com Jeffrey. Revelar uma informação dessa natureza não vai bene­ficiar ninguém. Nossas vidas já são suficientemente difíceis... Que diferença pode fazer? O futuro está selado... Como assim ‘eu desejaria que a senhora me escutasse’? Desejos não resol­vem nada... Se você ligar de novo, vou denunciá-lo à polícia. Adeus, professor Himes”.

Ela desligou o telefone e notou uma grande marca preta na palma da sua mão direita. Imediatamente se virou e olhou, através da porta aberta da sala de estar, para a lareira, que es­tava preparada, pronta para ser acesa naquela noite. Havia fu­ligem sobre a acendalha de gravetos. Ela limpou o fone com a manga do casaco e começou a andar de um lado para outro no vestíbulo, lançando um olhar inquieto para o aparelho, co­mo se estivesse com medo de que ele tocasse de novo. Quando o relógio de pêndulo bateu onze e quarenta e cinco ela suspi­rou, nervosa. Para o coração parar de bater acelerado, respi­rou fundo e resolveu tirar da cabeça o telefonema — e o fato de que alguém com as mãos sujas de fuligem usara o telefo­ne enquanto ela esteve fora. Aquele alguém, ela decidiu, só podia ser Rufus. Por que ele estivera mexendo com a lareira? E também havia a questão do coçador de costas que encon­trara caído no chão do quarto. Supusera que Archie andara bisbilhotando, mas não poderia ter sido Rufus?

O relógio de pêndulo rangeu, chiou e retiniu. “Preciso mandar consertar isso”, disse ela. Então correu os olhos pela pintura descascando no vestíbulo, o papel de parede desbo­tado e o tapete puído. “Tudo precisa de conserto”, suspirou.

Foi então que reparou na porta aberta do armário embai­xo da escada. Ela a empurrou, mas, vendo que não se fecha­va, abriu a porta completamente e olhou lá dentro. O que viu fez seu coração sobressaltar-se. O armário tinha sido arrumado.

O saco de graxa de sapatos estava pendurado em um gancho e todos os sapatos tinham sido colocados lado a lado com os -pares combinando.

“Alguém andou bisbilhotando por aqui”, disse ela i mi sigo mesma. “E eu sei quem é essa pessoa”.

Ela desceu a escada pé ante pé até o porão e bateu de leve à porta do quarto de Rufus.

“Rufus? Você está aí?”

Seguiu-se o silêncio, então ela abriu a porta. De início, apenas enfiou a cabeça para dentro do quarto e deu uma olhada em volta. A cama estava feita, embora dois copos de água pela metade estivessem na mesa-de-cabeceira. O quar­to tinha uma luminescência rosada, a luz do dia passando através das cortinas vermelhas fechadas. Ela disse para si mesma que não estava bisbilhotando, mas o quarto precisa­va ser arejado. Entrou, abriu as cortinas, e elas imediatamen­te deslizaram para fora do trilho. Ela estalou a língua, irrita­da, antes de abrir a janela alguns centímetros. Então pegou um copo da mesa-de-cabeceira e deu outra olhada geral no quarto. O que estava procurando? Não sabia, assim como não sabia o que Rufus estivera procurando no armário embaixo da escada; pois tinha certeza de que era ele o culpado. Quem mais o poderia ter arrumado? Então um pensamento passou pela cabeça de Cecille. Estaria Archie procurando com ele? Seria Archie parte dessa conspiração? A ansiedade apertou-lhe o estômago.

Tinha de fazer alguma coisa, e essa coisa era abrir a ga­veta da mesa-de-cabeceira. Dentro havia um livro encader­nado em couro marrom, do tamanho de um livro de bolso. Tinha de ser um diário. Pôs o copo de volta sobre a mesa e pegou o livro, perguntando-se o que leria se ousasse abri-lo. Mas primeiro daria outra olhada rápida pelo quarto, para o caso de encontrar mais alguma coisa de interesse.

Cecille abriu o guarda-roupa, que estava vazio. Todas as peças que Rufus tomara emprestado de Jeffrey estavam em­pilhadas em uma cadeira. Ela ficou de joelhos, olhou embai­xo da cama e se sentiu completamente ridícula ao não encon­trar nada, a não ser uma meia furada. Para piorar as coisas, era cor-de-rosa com corações vermelhos, e pertencia a uma das suas sobrinhas, o que significava que estava lá jogada des­de o último verão. Estava pondo-se em pé novamente quan­do ouviu a porta da frente bater.

“Archie”, disse ela, a voz cheia de alívio, enquanto cor­ria para fora do quarto e escada acima. “Archie?”, chamou ela, esperançosa.

Mas era Rufus quem estava no vestíbulo, sozinho.

“Onde está Archie?”, perguntou ela, tentando manter o pânico afastado da voz.

“Saiu com um par de amigos dele”.

“Que amigos?”

“Não sei. Ele não me apresentou”.

“Você simplesmente o deixou sair com estranhos?”

“Estranhos não... amigos”. Rufus estava demonstrando a altura deles pondo a mão sobre o peito, mas Cecille o ignorou.

“Aonde estavam indo?”, interpelou ela.

“Não sei. Mas pareciam bons meninos”.

“Você não perguntou aonde estavam indo?”

“Eles não podem ir longe numa aldeia deste tamanho”.

“Você abandonou Archie?” O volume da voz de Cecille estava aumentando, mas era a expressão dos seus olhos que incomodava Rufus. Ele já tinha visto algumas coisas estra­nhas e desconcertantes em suas viagens pelo mundo, mas nunca vira tanta ansiedade em uma mulher. Pensou que se ao menos pudesse fazê-la ouvir, talvez conseguisse acalmá-la com o seu olhar, mais ou menos do mesmo modo como con­seguira sossegar o cão que latia no vizinho.

“Cecille, você não acha que talvez esteja reagindo exageradamente?”

Mas Cecille não queria saber dos conselhos do cunhado; ela nem mesmo olhava para ele, jogando a cabeça primeiro para um lado e depois para o outro, enquanto continuava com a invectiva. Definitivamente, uma leoa da savana, pen­sou Rufus. Ela ainda estava usando o chapéu de pele com os protetores de orelha, que voavam para todos os lados a cada vez que ela mexia a cabeça.

“Por que você voltou, afinal?”, demandou ela. “Nove anos e, então, pop!” Nesse ponto, os protetores de orelha su­biram em linha reta acima da cabeça dela, como um par de orelhas de coelho. Rufus poderia pensar em dar risada se ela não estivesse tão zangada. Sua voz também evoluíra para um guinchado muito desconcertante.

“Você me aparece vindo de lugar nenhum”, dizia ela. “Sem aviso. Por que você não pode fazer uma visita como uma pessoa normal? Por que precisa chegar na calada da noite?”

“Eu acho que onze e meia...”, Rufus tentou dizer.

“E sem nenhuma bagagem. Oh, convencional demais pa­ra gente como você. Não, em vez disso você precisa vir com algum conto-da-carochinha sobre ir para a França. Bem, eu tenho notícias para você”. Ela balançou a cabeça deliberada-mente. “O aeroporto estava fechado no sábado, portanto vo­cê não poderia ter vindo de avião. Aquela longa história não passava de uma grande mentira. Do começo ao fim”.

Um dos protetores de orelha do chapéu dela se alojara atravessado no topo da sua cabeça. Rufus esforçou-se muito para não pensar nela como algum tipo de animal peludo que foi pego contra o vento. Somando-se ao seu desconforto, ti­nha o problema de tentar não dar risada. Cecille pareceu in­terpretar o seu silêncio mordendo o lábio como uma indica­ção de algum tipo de culpa, e ela ergueu o queixo indignada.

“Então vamos, Rufus, assuma. Por que você está aqui? O que você está tramando? O que está escondendo?”

Se Cecille esperava que Rufus se acovardasse com a sua explosão, estava enganada. Ele estava enfurecedoramente calmo.

“Há sempre alguém escondendo alguma coisa. Não é mesmo, Cecille?”

A voz dela abrandou-se. “Do que você está falando?”

“Eu me lembrei do nome do homem de Exeter. Aquele que conheci em Botsuana. Que disse conhecer vocês”.

Ela não respondeu, mas Rufus percebeu pelo seu silên­cio que ela se lembrava claramente.

“Bem”, ele continuou. “Agora me deixe explicar isso di­reito... O nome dele é professor Neville Himes. Ele dirige uma pequena empresa que rastreia árvores genealógicas. De­pois que fomos apresentados ele perguntou se eu tinha algu­ma relação com Cecille Caine, que era casada com Jeffrey Stringweed, de Westervoe, Escócia”.

Cecille ainda não demonstrava nenhuma reação, embo­ra Rufus achasse que suas bochechas haviam assumido um tom de rosa mais profundo.

“Bem, parece que você havia pedido a ele que rastreasse a sua árvore genealógica e, ao fazer isso, ele descobriu que nós, Stringweed, e vocês, Caine, temos algo em comum”.

“O que isso tem a ver com a minha família? O que você está dizendo? Por que está tentando me assustar com as suas idéias bizarras?”

“Ninguém está tentando assustá-la. Você é que tem me­do da verdade”.

“Verdade? Uma bela palavra, vinda de você!”

“O professor Himes me telefonou esta manhã. Ele me contou que deixou perfeitamente claro para você o que fazer”.

“Eu não conheço ninguém com esse nome...”

“Acredito que ele tenha tentado explicar a razão por trás do seu comportamento superprotetor para com Archie. Está no seu sangue; você não pode evitar. Mas você pode ajudá-lo reconhecendo o passado e falando a verdade. Ninguém pode fazer isso por você. Veja bem, a maldição está afetando você também...”

“Maldição? Não sei do que você está falando. Não vou ficar ouvindo tamanha besteira”, disse Cecille desdenhosa-mente.

“É do interesse de Archie que você ouça, e como padri­nho dele eu...”

“Archie tem um pai de verdade. E um pai muito bom. Tu­do de que ele precisa recebe de Jeffrey. Ele esteve aqui cum­prindo com as suas obrigações de pai durante todos esses anos em que você esteve fora, tirando férias em volta do mun­do. Você não estava preocupado demais com as suas obrigações de padrinho, estava?”

Rufus olhou fixamente para ela. “E quanto às suas obrigações como mãe? Elas incluem sacrificar o futuro do seu filho porque você se recusa a reconhecer o passado?”

“Eu não preciso dos seus conselhos”, disparou Cecille. “Se você está realmente preocupado com o bem-estar de Archie, saia e vá procurá-lo. Se ele estiver desaparecido, vou responsabilizá-lo. Você pode pegar o Land Rover, e não me volte sem ele”.

Rufus achou que aquilo era provavelmente a coisa mais sensata a fazer. Daria a Cecille tempo para se acalmar e tam­bém para acabar de bisbilhotar no seu quarto. Ele estendeu a mão para ela.

“As chaves do carro estão no gancho atrás da porta”, fungou ela.

Rufus continuou com a mão estendida. Cecille olhou pa­ra a mão, depois para a sua própria, que ainda segurava a meia cor-de-rosa furada que estava jogada embaixo da cama havia pelo menos seis meses, mas foi o item na sua outra mão que a deixou sem fala, de constrangimento. Ela deu quatro pas­sos majestosos para a frente e, sem olhar Rufus nos olhos, de­volveu o diário encadernado em couro ao seu dono. Então se virou e foi embora para a cozinha de um jeito igualmente majestoso. Ela se plantou logo atrás da porta da cozinha e es­perou até Rufus descer para devolver o diário ao seu quarto e então subir as escadas de volta.

“Diga a verdade, Cecille”, ela o ouviu dizer. “Ajude Archie a se erguer acima do comum”.

Somente depois que ele pegou as chaves do carro e a porta da frente se fechou com uma batida Cecille se permitiu desabar na cadeira da cozinha, e, para dar vazão à sua frus­tração, ela prendeu a meia entre os dentes e a rasgou, como um animal enlouquecido de orelhas compridas.


 

George e Sid haviam se recuperado do seu encontro fan­tasmagórico na garagem de barcos de Norrie Bew. George comprara dois pacotes de caramelos e, ao abrir o segundo, sentiu voltar a sua fanfarronice de sempre. Sid, que estava com uma verba apertada, ainda chupava o único caramelo que George lhe oferecera, desejando não ter sido o primeiro a correr. Archie, enquanto isso, mantinha aberto um olho ner­voso para quaisquer outras lufadas de vento fora-da-lei.

Eles estavam diante da vitrine da padaria, admirando uma grande rã de chocolate. George deu um assobio de apro­vação, pois se tratava sem dúvida de uma guloseima muito formosa. Estava coberta por uma reluzente lâmina de alumí­nio verde e majestosamente sentada sobre uma folha de fel­tro, usando um colete de veludo vermelho muito vivo e uma coroa dourada colocada em um ângulo petulante. Archie po­dia ver por que sua mãe gostara dela.

George e Sid aguardaram do lado de fora enquanto Archie entrava porque o sr. Ashburn, o padeiro, os proibira de entrar na loja naquela manhã por estarem metendo o nariz na deco­ração dos bolos de Natal.

“Dois dias de azar se você avistar o dente de ouro dele”, disse Sid quando Archie entrou na padaria.

O lugar era tão pequeno que se houvesse mais do que seis clientes era preciso formar fila na calçada, não importa o clima. Um mostruário de vidro, que também servia de bal­cão, estendia-se por todo o comprimento da loja. Dentro ha­via oito tipos diferentes de pães de fôrma, fatiados na hora se solicitado, cinco tipos diferentes de pãezinhos e as panquecas e pães de minuto usuais, mas os bolos eram a especialidade do sr. Ashburn. Havia certificados de excelência em panificação pendurados na parede atrás do balcão, e acima da caixa registradora estava pendurada uma grande fotografia colori­da do sr. Ashburn presenteando o príncipe de Gales com um bolo durante uma visita dele à loja em 1982.

“Bom dia, mestre Stringweed”, disse um sr. Ashburn mui­to mais velho do que aparentava na fotografia. “O que posso lhe servir hoje?”

“Eu queria a rã de chocolate com a coroa de ouro”, disse Archie. Então se lembrou dos seus bons modos e acrescen­tou: “Por favor”.

O sr. Ashburn sorriu, mas felizmente manteve a boca fe­chada, escondendo qualquer evidência do dente de ouro. Ele não era nenhum jovem, nem era especialmente esbelto, mas conseguiu dar uma complicada torcida na parte de cima do corpo que deixaria verde de inveja um campeão de danças de salão enquanto pescava a rã na vitrine e a colocava sobre o balcão, na frente de Archie. Ele ajeitou o avental branco en­gomado e deu outro sorriso de boca fechada embaixo de um bigode grisalho perfeitamente aparado.

“Um belo espécime de anfíbio”, disse ele, dando uma palmadinha gentil na cabeça da rã. “Setenta por cento cacau sólido. Veio de longe, lá da França, essa rã. A única na loja. Sim, uma figura de chocolate de alto nível para pessoas de gosto exigente. Não que haja muitas por aqui”. Ele lançou uma olhadela enojada para Sid e George, que estavam com as caras achatadas contra a vitrine. Então voltou a atenção nova­mente para a sua bem-amada rã de chocolate. “E eu acredito que há um presente-surpresa dentro dela para a pessoa de sor­te que a ganhar”.

“É para a minha mãe”, disse Archie.

“Para a sua mamãe, é mesmo? Neste caso...” e o sr. Ash­burn torceu o corpo, estendeu o braço para dentro da vitrine outra vez e pescou um pequeno anjo de chocolate enrolado em papel dourado. “Com os meus cumprimentos. Toda ma­mar é um anjo na manhã de Natal”.

“Muito obrigado, senhor Ashburn”.

“Foi um prazer, Archie. É sempre um prazer servi-lo. Diferentemente daqueles dois pirralhos lá fora. Você devia manter distância daquela dupla até que eles aprendam um pouco de boas maneiras”. E, com um aceno ostensivo, man­dou que se afastassem da sua vitrine.

“São nove libras e noventa e nove. Também vai querer uma sacola, imagino?”

Archie assentiu e observou-o colocar os chocolates cuida­dosamente na sacola. Então esperou que o sr. Ashburn come­çasse a contar o troco para a nota de vinte libras em sua mão.

“Sete libras e noventa e nove... com mais um centavo são oito. Com mais uma libra são nove, e outra libra completa dez”.

A nota de dez libras ele segurou no ar, logo acima da mão de Archie.

“Transmita boas-festas de minha parte para o seu pai. Os cumprimentos de um pequeno negócio não devem ser nunca subestimados pelos serviços financeiros. Lembre-se, Archie, a padaria é o coração de uma pequena comunidade”.

Archie não tinha a menor idéia a o que ele se referia, mas assentiu assim mesmo. O sr. Ashburn sorriu de novo, e dessa vez uma série de dentes desiguais apareceu entre os seus lá­bios e o bigode. Archie disse silenciosamente “Não” consigo mesmo, mas a boca do sr. Ashburn se expandiu em um sor­riso ainda mais largo e um brilho de ouro cintilou no lado su­perior esquerdo da boca. Archie resmungou contrariado; dois dias de azar era a última coisa de que precisava. Ele ficou tão desapontado por ter avistado o elusivo dente de ouro que mal sentiu a nota de dez libras cair na sua mão.

“Sim, Archie”, dizia o sr. Ashburn, “certifique-se de di­zer ao seu pai que essa rã veio de Paris, França”. E ele lampejou outro sorriso, exibindo mais uma vez o temido dente de ouro.

George e Sid estavam encostados na vitrine da farmácia quando Archie os alcançou. Fitas azuis, vermelhas e doura­das adornavam seu interior, que estava orlado de luzes colo­ridas e piscantes de Natal, enquanto um Papai Noel de plás­tico acenava e balançava a cabeça entre frascos de perfume de um lado e de loção após-barba do outro. Archie notou que a barba do Papai Noel estava solta de um lado. Aquilo o lem­brou do seu próprio azar recém-adquirido.

“Você viu?”, perguntou Sid, excitado.

“Duas vezes”, disse Archie, desolado.

George soltou um dos seus assobios perfeitos e a desola­ção de Archie ficou completa.

“Duplo azar”, gritou Sid entusiasmado, e começou a dançar em círculos com as mãos acima da cabeça.

Archie enfiou a mão no bolso e seus dedos tocaram o ca­bo da adaga. Ele sentiu uma onda de bravura correr pelo seu braço acima e para dentro do peito. Não era justo que Geor­ge fosse capaz de assobiar quando ele não era, e ele não gos­tara de ver Sid dançando em triunfo como resultado do seu duplo azar.

“Chega!”, bradou Archie acima dos gritos entusiásticos e da dança.

Sid parou de dançar, os braços ainda acima da cabeça. “O quê?”

“Não agüento mais essa história de azar. Não vou mais deixar ninguém me dizer que eu tenho azar. Não vou!” “Foi só uma piada, Archie”.

“Você não devia fazer piadas com azar. É sério. Qualquer coisa pode acontecer quando você sugere azar às pessoas. Elas podem sofrer um acidente. Ou morrer”.

“Só se você acreditar”, disse George. Ele estava mascan­do um caramelo enquanto desembrulhava mais um. “Todo mundo sabe que azar não existe de verdade”.

“Como você sabe?”, perguntou Archie. “O que você en­tende de azar?”

“É só superstição. Minha avó me disse que as pessoas que acreditam em azar criam o azar”.

“É mesmo?”, disse Archie esperançoso. “Então a mesma coisa acontece com as maldições? Elas só existem se você acre­dita nelas?”

“Maldições?”, disse George, e pensou naquilo por um minuto enquanto puxava o caramelo que estava grudado nos seus dentes. “Aaaaaah, não tenho certeza. Mas, definitivamen­te, eu acharia que sim. Por quê?”

“Nada”, disse Archie depressa. “Só curiosidade”.

Um grosso borrifo de lama suja cobriu-lhe as botas quan­do uma bicicleta derrapou e brecou diretamente na sua fren­te. Era Brian Bain, irmão mais novo de Stewart, que trabalha­va no banco. Brian esticou uma perna e pôs o pé na parede ao lado da cabeça de Archie para se equilibrar, permanecen­do montado na bicicleta.

“O que vocês, garotos, estão tramando?”, perguntou, antes de tomar um longo trago de uma bebida gasosa.

“Nada”, disse George.

“O que você tem na sacola?”, perguntou ele a Archie. “Um presente de Natal para a minha mãe”. “O que é?”

Archie estava pensando em mandá-lo cuidar da sua pró­pria vida quando...

“É uma rã de chocolate”, disse Sid, que não queria saber de encrenca.

“Que espécie de presente de Natal é esse?” Brian deu uma cusparada por cima do ombro, enojado. “Para a minha mãe, eu vou dar uma sanduicheira”. Ele tomou outro trago de alguma coisa cor de laranja que fervia e crepitava na lata, depois enxugou a boca na manga do casaco de lã. A julgar pela camada de manchas impregnadas, parecia que ele havia enxugado ali uma semana de café-da-manhã, almoço e jan­tar. Depois de outra cusparada por cima do ombro, ele per­guntou a Archie: “O que você vai dar ao seu pai?”. “Não sei”.

“Posso dar uma sugestão?” “Se você quiser...”

“Quando você for ao Simpson Balofo comprar o peru, peça a ele para preparar também um grande saco de tripas, para o seu pai fazer delas coração”.

Ele tomou um último trago da lata, jogou-a na calçada ao lado do pé de Archie e atirou a cabeça para trás, para rir alto da sua própria piada. Archie encurvou os dedos em punho cerrado e estava prestes a usá-lo quando um enorme bolo de lodo preto com matizes esverdeados caiu na cara de Brian Bain. O riso se interrompeu abruptamente e Brian jogou a bi­cicleta de lado enquanto engulhava e cuspia, e engulhava, e cuspia.

“O que foi isso?”, guinchou ele, acabando de enxugar a sujeira na manga.

“Titica de passarinho”, disse Sid, maravilhado com o ta­manho da coisa.

George estava tentando não rir. “Uma avestruz, a julgar pelo tamanho”.

Archie, enquanto isso, olhava para o céu, observando cuidadosamente uma imensa nuvem branca, que lembrava um iceberg gigante, assomar por cima dos telhados. Era uma nuvem de estranha aparência, que parecia tremular e cintilar com clarões de verde e que tornou o ar gelado, enquanto uma enorme sombra cinzenta caía sobre a aldeia. Archie desfez o punho cerrado e abriu a mão a tempo de agarrar uma pena branca que caía, solitária.


 

Rufus estava se aproximando da base da colina no velho Land Rover de Jeffrey. Estava prestes a virar à esquerda para a rua Principal, que passava ao longo da costa, quando uma imensa nuvem flutuando sobre a baía o distraiu. A nuvem era de um branco brilhante, e quando Rufus olhou para ela captou estranhos clarões de verde fluorescente.

“Os reforços estão chegando cedo”, disse consigo mes­mo. “Os sinais não são bons”. Estava tão preocupado que ao dobrar a esquina viu-se avançando para cima de um Ezekiel um tanto instável na sua bicicleta, rodando na contramão. Ru­fus freou com força. Ezekiel cambaleou mais um pouco. Rufus desviou o carro para o lado oposto da rua. Ezekiel caiu da bi­cicleta. Rufus pulou para fora do carro e, quando chegou até ele, Ezekiel já tinha conseguido se sentar no chão, a bicicleta caída ao seu lado com as rodas girando devagarinho.

“Você está bem?”, perguntou Rufus. “Quebrou alguma coisa?”

Ezekiel balançou a cabeça e começou a murmurar incoe­rentemente.

“Diga de novo”, disse Rufus. “Um pouco mais devagar desta vez”.

Ezekiel ergueu os olhos para ele. Seu chapéu estava ligei­ramente de banda e havia uma mancha de pó na bochecha, mas a expressão de excitação nervosa em seus olhos foi o que mais preocupou Rufus.

“Ele vem vindo”, ele ofegou.

“Quem vem vindo?”, perguntou Rufus.

“O tornado”, arfou Ezekiel. “Esta noite”.

Rufus decidiu ignorar o comentário e cuidadosamente pôs Ezekiel em pé. Depois de acomodá-lo no assento diantei­ro do Land Rover, Rufus prendeu a bicicleta no bagageiro. Eles então seguiram pela rua estreita, mas quando pararam no centro médico Ezekiel foi um tanto inflexível em não que­rer entrar.

“Não deixo um médico chegar perto de mim há trinta anos. Se eu entrar agora, nunca voltarei vivo para casa”.

Nada que Rufus dissesse o fez mudar de idéia, assim eles seguiram em frente para a praça da aldeia, onde Rufus pode­ria fazer a volta com o carro. Foi então que ele reparou em Archie, na frente da farmácia, com Sid, George e Brian Bain. Ele parou o carro e abaixou o vidro da janela.

“Aonde você vai?”, perguntou Archie a Rufus. Estava olhando desconfiado para a cara suja de Ezekiel, e depois pa­ra a expressão preocupada de Rufus. Também não pôde dei­xar de notar a bicicleta no bagageiro.

“Ezekiel levou um tombo da bicicleta”, explicou Rufus. “Vou levá-lo para casa”. Então notou a mancha verde fluo­rescente na bochecha de Brian. “O que é isso no seu rosto?”

“Titica de passarinho gigante”, disse George, rindo. “Des­te tamanho”, e ele separou os braços completamente.

Brian Bain ficou furioso em ser alvo de risadas, o que deixou Sid preocupado. Para acalmar a situação, ele afirmou: “Dizem que ser atingido por titica de passarinho dá sorte”.

Brian não pareceu nem um pouco mais feliz, especial­mente agora que Rufus estava se debruçando para fora da ja­nela do carro para olhar mais de perto e dizendo: “Você foi alvejado”.

“Alvejado? O que você quer dizer?”, disse Brian.

“Se eu fosse você, ficaria dentro de casa por um ou dois dias”, disse Rufus. “Há uma boa chance de isso acontecer de novo”. Então ele voltou a atenção novamente para Archie, que estava sorrindo com a perspectiva de Brian ser alvejado novamente.

“Melhor entrar no carro”, aconselhou Rufus. “Sua mãe me mandou procurá-lo. Parece que nós dois estamos en­crencados”.

O sorriso de Archie se apagou. “Por que eu tenho de ir para casa?”, queixou-se ele.

“A mãe de Archie nunca o deixa ir a lugar nenhum sem ela”, disse George. Então se voltou para Brian. “Ela pensa que ele ainda é um bebê assustado”.

“Como o pai dele!”, disse Brian.

“Não sou um bebê assustado!”, disse Archie. “Sou muito mais corajoso do que você porque vou quebrar a mal...” Archie interrompeu-se quando Rufus engoliu em seco, surpreso.

“Quebrar o quê?”, perguntou George. “O que você vai quebrar?”

Archie se deu conta de que quase entregara o segredo. “Nada”, disse encabulado. “Vou para casa”. Ele se sentou no banco traseiro e, antes de fechar a porta, disse: “Depois a gen­te se vê”.

“Se a sua mamãezinha deixar, bebê chorão”, gritou Brian quando o carro arrancou.

Rufus olhou pelo espelho externo do carro. Brian Bain estava rindo outra vez, segurando a barriga e balançando o corpo teatralmente. Sid não parecia muito impressionado e George estava agora olhando com ar culpado para o Land Rover, que se afastava. Brian continuou rindo, jogando a ca­beça para trás e abrindo completamente a boca bem a tempo de outro enorme bolo de titica, ainda maior que o anterior, entrar goela abaixo. Rufus sorriu de satisfação.

“Eu odeio Brian Bain”, disse Archie muito alto. “Nunca mais vou falar com ele de novo em toda a minha vida. Ou com George Ratteray”.

Rufus estava quase dizendo alguma coisa apropriada­mente reconfortante quando uma voz inesperada manifes­tou-se no assento do passageiro dianteiro.

“Logo eles virão correndo”.

Ezekiel virou-se no seu assento, o seu chapéu caiu mais um pouco sobre o rosto e ele fitou Archie com um olho só. “Você só tem uma chance de fazer isso”. “Uma chance de fazer o quê?”, perguntou Archie. “Quebrar a maldição”.

Todos os pensamentos sobre Brian Bain e George se foram, enquanto Ezekiel continuava a prender a atenção de Archie com o seu olhar fixo de um olho só.

“Eu vi aquele tornado com os meus próprios olhos, e vou lhe dizer uma coisa... ele é mau”.

Arrepios percorreram o pescoço de Archie e atravessa­ram o seu couro cabeludo. Ele olhou para o reflexo de Rufus no espelho retrovisor e disse: “Ele sabe sobre Huigor?”.

Rufus assentiu e parou o carro na frente da casa de Ezekiel.

Tio e sobrinho desceram a bicicleta do bagageiro e ajuda­ram Ezekiel a entrar. Archie esperou enquanto Rufus encos­tava a bicicleta em uma velha motoneta ao pé da escada. Atra­vés da porta da sala de estar ele pôde ver um grande gato adormecido em uma poltrona ao lado da lareira. O gato abriu um olho verde desconfiado, deu uma boa olhada em todos eles e depois fechou-o novamente.

“O que foi que eu falei?”, dizia Ezekiel enquanto dava uma pancadinha no barômetro com as pontas dos dedos. “O ponteiro caiu de novo. Esperando ventos com força de fura­cão. Esse barômetro nunca errou em quarenta anos. E isso não é tudo. O gato não quer sair, e há nuvens cruzando o céu sem um pingo de vento. E os pescadores no porto dizem que na­da se mexe perto da rocha do Musgo. Até as gaivotas desa­pareceram. Eu fui até a praia, e as algas estão totalmente se­cas. Há uma tempestade chegando, sem dúvida. Mas é com o tornado que você tem de se cuidar”.

A expressão de Rufus não denunciou nada enquanto ele olhava para o barômetro. Tentou dar-lhe uma batidinha com os seus próprios dedos, mas ele continuou a apontar para o ade­sivo branco com as palavras “ventos com força de furacão”.

Rufus voltou-se para Ezekiel e perguntou: “O que você sabe do tornado?”.

“Siga-me”, disse Ezekiel, e eles marcharam para a sala de estar. Todas as superfícies estavam cobertas de livros, grá­ficos e mapas. Ezekiel fez espaço na mesa junto à janela, pen­durou um par de óculos de leitura em volta das orelhas e tirou um grande álbum de recortes da gaveta da mesa. Abriu na primeira página, que continha um recorte de jornal com uma fotografia, datado de 15 de junho de 1976. A manchete dizia: “barco de pesca reaparece misteriosamente depois de dezessete anos”.

Rufus começou a ler a matéria.

“Muito mistério envolve o reaparecimento do Megan Star, sumido desde uma excursão de pesca dezessete anos atrás. O barco foi encontrado flutuando duas milhas ao norte da ro­cha do Musgo, tarde da noite de sábado. A polícia não des­carta a teoria de que o seu reaparecimento pode ter alguma conexão com as condições de tempo anormais que atingiram a área naquela noite.

“O professor local Ezekiel Arbuthnott, que estava pes­cando nas vizinhanças na hora do tornado, disse ao nosso re­pórter: ‘Eu acredito que o Megan Star foi afundado pelo mes­mo tornado dezessete anos atrás’”.

Ezekiel sacudiu o punho para o recorte de jornal.

“Aquele tornado não tinha nada que estar lá no meio de junho. Ele apareceu de lugar nenhum. Pegou o barco no fundo do mar e o jogou de um lado para o outro como se fosse uma pena”.

“Mas isso é impossível”, disse Rufus.

“Vi com os meus próprios olhos. Eu havia estado perto da rocha do Musgo recolhendo cestos de pescador, e estava voltando. O sol já tinha se posto, mas deu para vislumbrá-lo claramente erguendo-se da água sem um respingo sequer. Quando ele se foi, lá estava o Megan Star na superfície. Ace­lerei o motor de popa ao máximo e persegui o tornado em di­reção à costa”. Ezekiel olhou para Archie. “Ele rodopiou em volta da casa onde sua avó e seu avô moravam na época. Achei que ele ia arrancar o telhado”.

“Você diz que ele saiu da água?”, disse Rufus, incrédulo.

“Exatamente. Como uma grande e horrenda serpente do mar”. Ezekiel apontou para a matéria do jornal. “Eles pensa­ram que eu estava louco. Mas não apareceu mais ninguém com outra explicação”.

Ele puxou um gráfico feito por ele mesmo, que estava debaixo de uma pilha de jornais, abriu e apontou para uma data marcada em tinta preta.

“Sete de março de 1916. Um tornado anormal atinge Westervoe. Dois dias depois do décimo aniversário de Stanley Stringweed. Esse era o seu bisavô, Archie”.

Ele apontou para outra data no gráfico. “Vinte e cinco de maio de 1946. Um tornado chega no dia seguinte ao décimo aniversário do seu avô. E a última vez que ele atacou: 13 de junho de 1976. O dia do décimo aniversário do seu pai. Todos eles filhos primogênitos Stringweed”.

Ezekiel olhou para Archie por cima dos óculos. “Então eu me lembrei de uma coisa muito estranha que aconteceu com o seu avô. Nós estávamos nos penhascos procurando ovos de gaivota no dia do seu décimo aniversário. Ele escalava aque­las pedras como uma aranha. E logo em seguida não quis sair de casa porque estava com medo do vento. Dizia que o vento estava falando com ele. Depois daquilo ele ficou com medo de tudo. E o seu pai? Um dia estava nadando pelo mar aber­to como um peixe, mas de repente passou a se recusar a en­fiar o dedão do pé na água depois que fez dez anos. Concluí que vocês, Stringweed, estavam amaldiçoados. E tinha algu­ma coisa a ver com o vento”.

Ezekiel olhou para Rufus. “Foi por isso que você voltou, não foi? Você vai resolver isso de uma vez por todas, e eu gostaria de oferecer a minha ajuda”.

Rufus estava impressionado. “Você certamente fez a sua lição de casa, Ezekiel, e lhe dou os parabéns, mas como acha que pode nos ajudar?”

“Posso manter uma lamparina de óleo acesa, e posso di­zer uma prece por você”.

“Aaaah”, disse Rufus, que estava se esforçando muito para não parecer ingrato, percebendo ao mesmo tempo que teria de voltar ao plano A, que era o assalto ao banco naque­la noite.

“Sim, vocês vão precisar de uma lamparina acesa quan­do o tornado aparecer hoje à noite”, concluiu Ezekiel.

“Não. Hoje à noite não”, disse Archie. “Amanhã. Depois do pôr-do-sol”.

“Oh, não”, disse Ezekiel. “Definitivamente, hoje à noite”.

Archie olhou para Rufus, que estava balançando a cabe­ça, pensativo. “Há mesmo indícios de algo assim”.

“Era sobre isso aquele telefonema esta manhã?”, pergun­tou Archie.

Rufus não demonstrou surpresa por Archie saber sobre o telefonema. Ele apenas balançou a cabeça. “E eu vi refor­ços das tropas voando para a rocha do Musgo. Estão um dia adiantados”.

“Mas não pode ser hoje à noite!”, disse Archie. “Não po­de ser. Eu não estou preparado!”


 

Cecille já havia se decidido. Daria a Archie mais trinta segundos, e se até então ele ainda não tivesse passado pela porta, telefonaria para Jeffrey. Mais dez segundos se passa­ram, e a essa altura a sua preocupação era quase insuportá­vel. Ela pegou o telefone e ligou para o banco.

“Jeffrey? Archie desapareceu”.

“Ele não pode ter desaparecido”, disse ele em tom cansa­do. “Esteve aqui no banco com Rufus um par de horas atrás”. “Fazendo o quê?” “Rufus abriu um cofre”.

“Um cofre? O que ele possui para querer manter em lu­gar seguro?”

“Não sei o que ele pôs naquele cofre, Cecille”, disse Jeffrey com a sua voz de gerente de banco. “Como você sabe, isso é confidencial”.

Ela descartou o comentário. “Aonde Archie poderia ter ido depois de sair do banco? Rufus veio para casa sozinho, ambíguo como de costume, dizendo que Archie saiu com ‘uns amigos’”.

“Sid e George vieram aqui esta manhã e sacaram dinhei­ro para comprar presentes. Os três provavelmente estão fa­zendo suas compras de Natal neste momento”.

“Provavelmente! Preciso saber com certeza”. O volume da voz dela estava começando a aumentar de novo. “Você não está preocupado por ele ter desaparecido? Especialmen­te agora que está amaldiçoado e não tem ninguém para pro­tegê-lo?!”

Jeffrey decidiu ser razoável. Oferecer conselhos práticos era a única abordagem possível quando Cecille ficava ansio­sa demais com a segurança de Archie.

“Por que você não telefona para George ou Sid? A proba­bilidade é de que ele esteja na casa de um ou de outro”.

Cecille ficou em silêncio por tempo apenas suficiente pa­ra Jeffrey se congratular por evitar mais uma crise; então ela falou de novo, só que desta vez sua voz era mais dura.

“E antes que você desligue, posso perguntar o que pla­neja fazer a respeito de Rufus?”

“Fazer?”, disse Jeffrey, massageando a testa para afastar o começo de mais uma dor de cabeça. O assunto da conver­sa deles mudara tão rapidamente que ele não tinha mais a menor idéia de sobre o que ela estava falando.

“Rufus vai ficar conosco para o Natal? Você perguntou a ele quais são os seus planos? Por que ele está aqui, afinal? Você disse a ele que o seu pai está no hospital?”

“Aconteceu alguma coisa?”, perguntou Jeffrey.

Houve outra pausa e quando Cecille falou de novo havia um tremor em sua voz.

“Tivemos uma discussão”, fungou ela. “Há cerca de meia hora”.

“Onde está Rufus agora?”, disse Jeffrey, enquanto a dor de cabeça se estabelecia atrás dos seus olhos. “Saiu para procurar Archie”.

Jeffrey suspirou, “ok. Estarei em casa em vinte minutos. Faça um sanduíche de carne defumada para mim. No pão in­tegral, e não exagere na manteiga”.

Ele pôs o fone no gancho. “Por que nada pode ser sim­ples, nunca?” Suspirou e abriu a gaveta da escrivaninha para pegar o último comprimido para dor de cabeça.

Quando Jeffrey subiu a colina já era quase uma e quinze da tarde. Estava tão absorto em seus pensamentos que so­mente quando chegou ao portão da casa se deu conta de que o tempo começava a mudar. Estava mais frio que nunca e o ar implacável fazia doer a garganta. Uma rajada de vento atin­giu o seu corpo e ele estremeceu. Podia quase acreditar que estava pegando uma gripe, e no entanto sentia-se forte e cheio de energia como há muito não sentia. Não apenas isso, sua memória parecia estar melhorando.

Daria a si mesmo exatamente vinte minutos para tranqüi­lizar Cecille a respeito do bem-estar de Archie; estavam atarefados demais no banco para ele se ausentar por qualquer pe­ríodo de tempo. Além disso, estava com muita coisa na cabeça, especialmente o telefonema que recebera logo antes de sair do escritório.

Quando Jeffrey abriu a porta da frente da Fronteira dos Ventos e entrou em casa, rezou em silêncio para que Rufus e Archie já tivessem retornado, e portanto Cecille se encontras­se mais calma.

“É você?”, ele a ouviu gritar da cozinha. E então Cecille apareceu no vestíbulo, olhando-o com expectativa e, coisa bi­zarra, usando o seu chapéu de pele com protetores de orelha.

“Eles já estão de volta?”, Jeffrey perguntou.

Cecille balançou a cabeça e a expressão do rosto da espo­sa lhe disse que ela estava quase em lágrimas. Decidiu assu­mir o controle.

“Cecille? Você recebeu um telefonema esta manhã? Por volta de onze e quarenta e cinco?”

Ela levou alguns momentos considerando a pergunta an­tes de dizer um muito definitivo “Não”.

“Tem certeza?”

Ela continuou olhando para ele. “Por que a pergunta?” “Tentei ligar. A linha estava ocupada”. “Oh, sim”, disse ela depressa. “Agora me lembro. Foi um engano”.

“Parece que estamos recebendo uma porção de ligações por engano. Quem estavam procurando?”

Cecille engoliu em seco. “Não reconheci o nome”.

“E ninguém mais ligou?”

“Não”.

“Você tem mesmo certeza?”, persistiu ele.

“Ninguém mais ligou”, confirmou Cecille.

Eles continuaram a olhar um para o outro. Jeffrey espe­rava que o seu olhar insistente a fizesse falar mais sobre a questão do telefonema. Cecille, contudo, estava irredutível em afirmar não ter recebido nenhuma outra chamada naquela ma­nhã, às onze e quarenta e cinco.

Por fim Jeffrey mudou de assunto. “Você telefonou para George e Sid?”

Cecille assentiu, aliviada porque o interrogatório sobre telefonemas havia acabado. “Tanto George como Sid disse­ram que Archie foi embora com Rufus e Ezekiel no nosso Land Rover”. Um pensamento horrível lhe ocorreu subita­mente. “Aposto que Archie não estava nem usando o cinto de segurança! E eu mencionei que a bicicleta de Ezekiel esta­va no bagageiro? E mais uma coisa. Rufus aparentemente es­tava muito interessado na cor das titicas de passarinho que caíram na cara de Brian Bain”.

“O quê?”, disse Jeffrey, parecendo confuso.

“Exatamente!”, dizia Cecille, cada vez mais exaltada. “E ele também andou arrumando o armário embaixo da escada e fuçando na lareira. Agora me diga, isso lá é comportamen­to de uma pessoa responsável?”

“Provavelmente existe uma explicação perfeitamente ra­cional para tudo isso...”, começou a dizer Jeffrey.

“Algo bizarro está acontecendo”, interrompeu Cecille. “E só há uma maneira de descobrir o que é”.

“Qual?”, perguntou ele.

Cecille virou-se e desceu correndo a escada para o porão. Momentos depois estava de volta e caminhando na direção dele com um livro encapado em couro na mão.

“O que é isso?”, ele perguntou.

“O diário de Rufus”.

Jeffrey pareceu horrorizado quando ela o pôs na mão de­le. “Eu não posso ler isto”. Ele o empurrou de volta para ela.

“Ele é seu irmão. Leia você. Se Archie está em perigo, vo­cê tem o direito de saber”. Ela repôs o diário firmemente na mão dele.

Jeffrey não pareceu nem um pouco mais convencido. “O que você quer que eu diga quando Rufus entrar e me encon­trar com isto?”

“Ele não vai te encontrar com isto, porque você vai se sentar na cozinha lendo e comendo o seu sanduíche de carne defumada, enquanto eu vigio da janela da sala da frente. Se ele aparecer, eu faço assim”. Ela pôs um dedo mínimo em cada canto da boca e deixou escapar um assobio estridente.

Jeffrey deu um pulo e, a distância, um cachorro começou a latir.

“Onde diabo você aprendeu a assobiar desse jeito?”

Cecille não respondeu, mas deu-lhe um leve empurrão em direção à cozinha. “Comece a ler, e por favor seja rápido”. Então ela saiu em um brusco abanar de protetores de orelha marrons, desaparecendo atrás da porta da sala de estar.

Jeffrey acomodou-se à mesa da cozinha e deu uma mor­dida no seu sanduíche de carne defumada, que fora feito com pão branco e com manteiga demais. Ele olhou para o livro de couro marrom ao lado do seu prato. Sigilo era o seu negócio, portanto abrir o diário de Rufus e ler os seus pensamentos pessoais era uma violação da confiança. Mas por outro lado havia a questão do comportamento estranho de Rufus, e ele também tinha de pensar em Archie — especialmente em Archie. Jeffrey viu-se dividido entre respeito pela privacida­de do irmão e os interesses da sua família, mas é claro que não havia ali nenhuma competição, e ele pôs o sanduíche de volta no prato e abriu o livro.

Nesse meio-tempo, Cecille estava se acomodando para a sua vigília junto à janela da sala de estar. Ela puxara uma ca­deira e estava espiando através dos galhos ornamentados da árvore de Natal, parecendo cada vez mais um animal acuado. Ela olhou para o jardim coberto de neve, metade dela que­rendo que Archie e Rufus viessem andando pelo caminho do jardim a qualquer momento, e metade querendo que eles fi­cassem afastados por tempo suficiente para que Jeffrey des­cobrisse o que Rufus Stringweed realmente estava tramando.


 

Rufus e Archie seguiram pelo caminho do jardim de Ezekiel em silêncio respeitoso. Eles o tinham deixado dor­mindo na poltrona junto à lareira, tentando recuperar o sono que perdera na noite anterior. Rufus ergueu os olhos para os galhos agitados da árvore e os sons irregulares da campainha de vento.

Eles subiram no Land Rover e Archie colocou o cinto de segurança. Quando estava subindo a colina, Rufus olhou pe­lo espelho retrovisor externo e viu o cata-vento da igreja girar subitamente do norte para o sul e para o norte outra vez. E, embora ainda fosse começo da tarde, o céu estava escurecen­do com o peso das grossas nuvens cinzentas.

Quando chegaram à Fronteira dos Ventos, dois minutos depois, Archie viu de relance Cecille espiando pela janela da sala da frente, por trás da árvore de Natal. Ao descer do Land Rover, ele a viu enfiando os dedos na boca, e ainda mais sur­preendente foi o assobio agudo que ela quase certamente deu antes de se virar para dentro da sala. Archie ficou olhando para a janela. Como se tudo já não estivesse indo mal o sufi­ciente ele tinha de descobrir bem naquele dia que sua mãe era capaz de assobiar, e tão forte e claro que fez o cão do vi­zinho latir.

Um vento frio subiu a colina zunindo, lembrando Archie do seu encontro com a lufada fora-da-lei naquela manhã, e ele saiu correndo pelo caminho do jardim.

No alto, uma risada assustadora soou através dos galhos da árvore. “O vento está ficando mais forte”, Archie ouviu Rufus dizer, enquanto ainda mais bancos de nuvens cinzen­tas cruzavam o céu.

“Onde você esteve?”, veio a voz ansiosa de Cecille. Archie ergueu os olhos e a viu em pé, na porta, olhando para ele com as mãos na cintura e o seu chapéu de pele na cabeça. “Fiquei enlouquecida de preocupação”, acrescentou Cecille quando o garoto passou roçando por ela e entrou no vestíbulo.

“Eu queria que você parasse de me tratar como um be­bê”, disse ele zangado.

Ela ficou tão surpresa que se limitou a olhar enquanto ele chutava fora uma bota e depois a outra, finalmente jogan­do o casaco no chão entre eles.

“Onde você esteve?”, insistiu Cecille, agora olhando acusadoramente para Rufus.

“Lugar nenhum”, disse Archie, com voz preocupada. En­tão pegou a sacola contendo a rã de chocolate e começou a subir a escada.

“O que você tem aí dentro?”, perguntou Cecille, rapida­mente mudando o seu foco de Rufus para a sacola.

“Nada”, disse Archie.

Ela olhou-o subir a escada, os ombros caídos sob o peso das preocupações.

“Como estão Sid e George?”, perguntou ela. “Muito bem”. Ele continuou subindo. “Você quer um sanduíche de carne defumada?” “Não estou com fome”.

Ele subiu os degraus restantes de dois em dois até che­gar ao seu quarto. Pouco antes de fechar a porta, ouviu Rufus dizer: “Eu bem que gostaria de um sanduíche, Cecille”.

Archie desabou na cama e ficou lá deitado, olhando para a árvore através da janela, observando os galhos que se mo­viam mais para perto do vidro. O vento estava aumentando, e depressa. Será que Huigor chegaria esta noite, como disse­ra Ezequiel?

Talvez ele devesse treinar um pouco. Archie levantou-se da cama, colocou suas luvas de boxe e começou a desferir al­guns golpes. Então ele se viu no espelho do guarda-roupa. As grandes luvas vermelhas penduradas em seus braços finos pareciam comprovar o que ele sentia: estava cansado e fraco demais para enfrentar um tornado. A força do vento fora-da-lei dentro da garagem de barcos de Norrie Bew lhe mostrara bem. Ele tirou as luvas, jogou-as em um canto e caiu de volta na cama. Desejava que tudo fosse embora. Desejava que Rufus nunca tivesse voltado e desejava nunca ter ouvido falar de Huigor, porém, mais que qualquer coisa, desejava que não existisse essa história de maldição.

Alguém bateu à porta do quarto. “Posso entrar?”

Antes que Archie pudesse responder, a cabeça de Jeffrey apareceu atrás da porta.

“Está tudo bem?”, perguntou ele. “Sua mãe disse que você não quer comer. Esse não é o Archie que eu conheço”.

“Não estou com fome”.

“Nem mesmo para um sanduíche de carne defumada?”

Archie deu um sorrisinho, o bastante para encorajar Jeffrey a entrar e fechar a porta. O pai trouxera um prato de sanduí­ches, que colocou sobre a mesa-de-cabeceira.

“Por que você não está no trabalho, papai?”

“Não pude resistir à possibilidade de um sanduíche de carne defumada”.

Archie sorriu de novo. Jeffrey foi até a janela e olhou pa­ra fora.

“O vento está aumentando. E está ficando mais frio tam­bém”. Ele se inclinou e olhou pelo telescópio, focalizando e refocalizando a distância. Por fim se endireitou e piscou se­guidamente. “Aquelas nuvens insistem em sair de foco. Pre­ciso mandar examinar meus olhos”. Ele se voltou para olhar para Archie. “Então, você foi fazer compras de Natal com George e Sid?”

“Sim. E comprei a rã de chocolate para a mamãe. Ah, e o senhor Ashburn disse para eu me certificar de transmitir os seus melhores votos de boas-festas a você. Também mencio­nou alguma coisa sobre a padaria ser o coração da aldeia”.

Jeffrey assentiu. “Verdade, mas um coração precisa de sangue para fluir através dele”.

Archie estava começando a achar que jamais entenderia o mundo dos adultos. Aparentemente ninguém dizia o que queria dizer, e todo mundo falava em um código que só os outros adultos entendiam.

Uma súbita rajada de vento chacoalhou a janela e então uma voz, como um gemido baixo, disse “Archie”. Ele se sen­tou na cama com as costas retas e ouviu. Outra rajada de vento atingiu a janela e ele ouviu o seu nome outra vez.

“Está se sentindo bem, Archie?”, seu pai perguntava.

Ele balançou a cabeça olhando para fora da janela, obser­vando a árvore balançar. O vento começou a rir.

“Looooogo”, ele gemeu, “looooogo”.

Jeffrey olhou por cima do ombro para a janela quando os galhos roçaram o vidro. “Que sons estranhos o vento pode fazer”. Ele se voltou de novo para olhar para Archie. “Pode­ria quase acreditar que ele estava falando com você”.

Archie olhou para ele. “O que você acha que ele estava dizendo?”

Jeffrey inclinou a cabeça para ouvir.

“Não tenho certeza. Mas deixe-me contar o que aconteceu no meu décimo aniversário”. Jeffrey empurrou para o lado as roupas que estavam empilhadas na cadeira. No topo estava um lenço empoeirado, com a letra J bordada em um canto. Um lenço que ele imediatamente reconheceu como sendo dele mesmo. Jeffrey deu uma olhada para o armário de Archie ao sentar. Então se recompôs e começou a sua história.

“Celebrei o meu aniversário com uma crise forte de catapora e dormi a maior parte do dia. Quando acordei, havia uma tempestade. De qualquer modo, estava deitado no meu quar­to, ouvindo o vento, e me dei conta de que ele estava chaman­do o meu nome. Quando contei ao seu avô, ele disse que era só uma alucinação por causa da febre. Disse que a mesma coi­sa lhe acontecera quando era menino, mas ele acreditara ser apenas o vento soprando nos canos”. Jeffrey continuou olhan­do para Archie. “Você já achou que o vento estava falando com você?”

“Sim”, sussurrou Archie.

“O que ele disse?”

Archie olhou para a expressão atenta do pai. “Ele disse... ele disse...” Então se lembrou de Rufus ter dito para manter tudo em segredo. “Ele disse que sanduíches de carne defu­mada demais fazem mal para a saúde”.

Jeffrey sorriu gentilmente e voltou à sua narrativa.

“Sim, era uma crise especialmente severa de catapora. Eu nunca mais me senti o mesmo depois daquilo”.

“O que ficou diferente?”, perguntou Archie.

“Me senti como se alguém tivesse contado uma piada que todo mundo entendeu, menos eu”.

“Alguém já chamou você de bebê chorão?”

“Ah, o tempo todo. Mas, por outro lado, eu era mesmo. Tudo me assustava. O escuro, o vento, as alturas, os espaços abertos, os espaços pequenos. Eu tentei evitar o apelido, mas não consegui”.

“George Ratteray me chamou de bebê chorão hoje e eu nunca mais vou falar com ele de novo”, anunciou Archie. “E Brian Bain...”, ele hesitou, “...ele disse que você é um covarde”.

Jeffrey inclinou a cabeça com ar compreensivo. “Os maio­res covardes têm medo de qualquer um que pense ou veja as coisas de modo diferente deles mesmos. Ser parte de um gru­po os faz sentir-se fortes. Nós, os Stringweed, aprendemos a conviver com nós mesmos, e esta é a nossa força”.

“Eu não acho que você seja um covarde”, disse-lhe Archie.

Jeffrey deu um sorriso incerto. “Talvez um dia eu sur­preenda todo mundo e me torne destemido como Rufus. Via­jando pela África e visitando castelos romenos”.

“Você gostaria que isso acontecesse mais que qualquer coisa no mundo, papai?”

“Eu tenho o mundo inteiro bem aqui”.

E, para provar isso, Jeffrey veio e sentou-se na cama ao lado de Archie, e abraçou o filho. Naquele exato momento ouviu-se o inconfundível crack de uma rã de chocolate quebrando-se em muitos, muitos pedaços.

Os dois exclamaram “Oh, não” e levantaram-se rapida­mente para ver o estrago. A sacola e seu conteúdo estavam achatados, no formato do traseiro de Jeffrey. Archie olhou dentro da sacola e, como esperado, a rã já não era mais reco­nhecível como a rainha de todos os anfíbios, com a sua coroa de ouro. Ele enfiou a mão na sacola e tirou um pequeno cole­te vermelho amarrotado.

“Não se preocupe”, disse Jeffrey. “Vou comprar outra a caminho do banco”. Ele estava tentando parecer o mais espe­rançoso que podia, mas Archie sabia que não ia adiantar.

“O senhor Ashburn não tinha outra. Esta veio de Paris, França”. Ele disse olhando para uma pequena estrela de vi­dro com os dizeres “Faça um desejo”, que achara no fundo da sacola. O presente-surpresa que a rã continha.

Naquela hora Jeffrey teve vontade de explicar a Archie por que fora um pai tão decepcionante, mas isso significaria revelar a verdade sobre a maldição dos Stringweed e, a julgar pelo ar atormentado de Archie, aquele não era um bom mo­mento para somar mais uma às suas preocupações.

Em vez disso, ele simplesmente disse “Sinto muito”.

“Está tudo bem”, disse Archie, inconsciente do fato de que Jeffrey estava se desculpando por muito mais que uma rã de chocolate quebrada.

Outra forte rajada de vento veio na direção da casa com um lamento agudo, que soava como uma risada cruel. Ambos olharam para a janela, onde uma camada de neve estava sen­do levantada do peitoril.

“O tempo está mudando depressa”, disse Jeffrey. “Me­lhor ficar dentro de casa. Eu tenho de voltar ao trabalho”. Ele então saiu do quarto, dizendo: “Lembre-se de comer a casca do seu sanduíche”.

Cecille devia estar esperando no patamar do primeiro an­dar, pois começou a falar baixinho no momento em que Jeffrey desceu correndo a escada do sótão. Sempre que sua mãe fa­lava baixinho com o pai, significava uma coisa: que estavam falando sobre ele. Archie ficou em pé à porta aberta do quar­to e ouviu.

“O que ele disse?”, ela estava perguntando. “Nada demais”, disse Jeffrey. “Acho que está apenas can­sado”.

Archie estava para fechar a porta quando ouviu sua mãe dizer algo que o fez parar.

“O que você fez com o diário de Rufus?”

“Ssssh”, fez Jeffrey, e começou a falar tão baixo que Archie pôde ouvir apenas as palavras “... no meu bolso... trabalho até tarde... Rufus vai visitar papai”. Seguiu-se o ruge-ruge enquanto eles desciam a escada, e Jeffrey vestia o casaco. Mas Archie captou mais algumas palavras: “...manter Archie aqui dentro, não queremos que ele...” . Então o volume da voz au­mentou de novo quando Jeffrey gritou: “Rufus, estou de saí­da. Quer uma carona até o ponto de ônibus?”.

Uma rajada de vento rugiu em volta da casa e o barulho das janelas chacoalhando abafou todos os outros sons até a porta da frente bater. Archie correu até a janela para ver Jeffrey e Rufus seguirem pelo caminho do jardim. Rufus estava co­locando o seu chapéu pontudo enquanto segurava um san­duíche entre os dentes. Jeffrey marchava à frente dele, seu comprido casaco preto drapejando ao vento enquanto ele o abotoava. Bolsas de neve estavam se formando em volta das suas pernas e então uma lufada de vento especialmente forte empurrou-o para o carro estacionado. Rufus olhou para a ja­nela do sótão enquanto fechava o portão e acenou. Archie ace­nou de volta, mas o sorriso era para o seu pai, que o observa­va do assento dianteiro do Land Rover. Ele apertou a estrela dos desejos, que ainda segurava na mão.

“Vou conseguir a sua coragem de volta, papai”, ele sus­surrou. “Vou consegui-la de volta e então ninguém nunca mais o chamará de covarde”.

Mas o que o seu pai estaria fazendo com o diário de Ru fus? Enquanto Archie observava o Land Rover se afastar em uma nuvem de fumaça do escapamento, se deu conta de que o diário certamente continha informações sobre Huigor. Se o seu pai descobrisse como eles pretendiam quebrar a maldi­ção, com certeza tentaria impedi-los. Ele tinha de avisar Rufus.

Estava andando pelo quarto de um lado para outro, ten­tando ter uma idéia, quando um grito estridente o fez olhar para a clarabóia. Ele pôs a estrela em um dos seus bolsos tra­seiros com zíper e subiu na cama. Empurrou a janela, e a for­ça do vento quase arrancou a alavanca da sua mão. Sem fôle­go, tentando segurá-la com as duas mãos, sentiu alguma coisa macia e branca roçar o seu rosto, e então, usando toda a sua força, ele fechou a janela de novo.

Archie virou-se e viu uma gaivota do gelo olhando para ele de cima do monitor do seu computador.

“Preciso que você leve uma mensagem a Rufus”, disse ele. “Urgente!”

Rapidamente, pegou papel e caneta e começou a escre­ver um bilhete, com cuidado para não revelar nada, para o caso de ele cair em mãos erradas. Decidiu que tudo o que precisava escrever era:

“Alerta vermelho, volte para a base. A”.

Archie dobrou o papel e o colocou na bolsinha em que viera a moeda, depois a pôs dentro do bico da gaivota. Dessa vez, ele abriu a janela que dava para a árvore. Quando o pás­saro alçou vôo lhe ocorreu, de repente, que não havia dito a ele para onde ir.

“O hospital”, gritou, mas sua voz se perdeu nas dobras da cortina, que foi soprada contra o seu rosto. Ele fechou a janela e olhou para fora através dos galhos agitados da árvore e por cima dos telhados, para as ondas de cristas brancas além da baía. Ergueu os olhos para a espessa nuvem cinzenta que atra­vessava o céu velozmente e ouviu o rugido do vento: “Huigor vem esta noite”. E uma brisa fria circulou pelo quarto.

Archie pegou um blusão grosso no guarda-roupa e, da prateleira de cima, uma pequena mochila vermelha. Seu re­lógio marcava uma e cinqüenta e sete da tarde. Tudo o que po­dia fazer agora era aguardar, na esperança de que Rufus re­cebesse a mensagem. Enquanto isso, iria se preparar o melhor possível para a iminente chegada de Huigor.

Archie sentou-se e fez uma lista dos itens que pretendia pôr na sua mochila:

 

uma lanterna de reserva;

a sacola contendo a rã de chocolate quebrada (para sus­tento);

três sanduíches de carne defumada embrulhados em guardanapos de folhas de azevinho e hera (para mais sustento);

os óculos de visão noturna que ganhara de George;

as bolas de gude que ganhara de Sid;

os presentes de aniversário de Rufus: lente de aumento, flauta, lanterna, adaga (que ainda estava no bolso do seu ca­saco, lá embaixo);

os óculos de aviador?

 

Estavam na mochila de Rufus, ou ainda estavam no avião? Era algo que teria de perguntar a Rufus quando ele voltasse.

 

Ele decidiu levar também as duas moedas de ouro e as pôs no bolso com zíper da calça, para maior segurança. Es­tava tentando decidir do que mais poderia precisar quando ouviu os passos de Cecille na escada e a voz dela chamando.

“Archie! George está no telefone”.

Ele escondeu a mochila embaixo da cama bem no mo­mento em que ela entrou no quarto.

“Está muito frio aqui dentro”, disse ela estremecendo. Olhou em volta e viu os sanduíches que não tinham sido co­midos na mesa-de-cabeceira, e então reparou que as estrelas e a lua dentro do globo de vidro estavam girando mais rápi­do que nunca. Ela estremeceu de novo. “Você abriu a janela?” Antes que Archie pudesse responder, ela já estava repetindo: “George está no telefone”.

“Bem, eu não quero falar com ele”, e Archie deixou se cair pesadamente na cama e virou as costas para ela.

“Você não está se sentindo bem?”, perguntou ela. “Não quer os seus sanduíches?”

“Estou bem”, disse Archie. “Só não quero falar com nin­guém”.

Ela pensou tê-lo ouvido dar um pequeno bocejo.

“Vou dizer a George que você está ocupado e pedir para ele telefonar mais tarde. Por que você não dá uma cochilada?”

“Não estou cansado”, murmurou ele para dentro do tra­vesseiro, e dessa vez deu um bocejo alto.

Cecille já havia decidido que ele estava exausto e fechou a porta silenciosamente atrás dela, como que esperando que ele já tivesse caído no sono. Archie abriu os olhos e ficou dei­tado onde estava, ouvindo os pés dela descendo apressados a escada e sua voz distante ao telefone com George.

Ele decidiu que iria descansar até Rufus voltar — melhor estar com a cabeça clara quando eles fizessem os planos —, mas seu cérebro estava agitado com imagens de gaivotas do gelo, aviões vermelhos, bolas de luz verdes, rãs de chocolate quebradas e George e Brian Bain rindo dele, porém mais que tudo não podia parar de pensar em Huigor, que estava pres­tes a entregar seu presente de aniversário amaldiçoado. Com o tempo se acabando, ele ainda não tinha todos os artefatos de que precisava e, enquanto ficava deitado ouvindo os ge­midos e lamentos do vento, desejou que Rufus voltasse logo.


 

Quando o ônibus, depois de viajar os onze quilômetros até Breckwall, deixou Rufus na frente dos portões do hospi­tal, já eram duas e vinte da tarde. A pouca luz do dia que res­tava agora estava escondida pela espessa nuvem cinzenta que pairava baixo no céu. O vento tentava violentamente arran­car o chapéu de Rufus e gotas de chuva atingiam seu rosto enquanto ele caminhava até a entrada do hospital. Uma por­ta automática abriu-se deslizando e ele foi soprado para den­tro, junto com um saco vazio de batatas fritas e um pequeno redemoinho de poeira.

Rufus encontrou uma placa apontando para a ala 19 e se­guiu o cheiro de antisséptico. Na entrada da ala 19, parou um momento para avaliar o cenário. As luzes do teto estavam to­das acesas, fazendo o céu do lado de fora parecer preocupantemente escuro. Correntes de papel dourado e vermelho for­mavam alças que atravessavam uma parede, e um homem de neve de plástico estava preso em uma das portas de vai­vém. O calor era sufocante. Seis camas estavam alinhadas de cada lado da ala, todas com colchas azuis, e cortinas em tons variados de amarelo e laranja dividiam os leitos. Os olhos de Rufus examinaram os grupos de visitantes reunidos em volta das camas até avistar uma mulher rechonchuda, usando um blusão vermelho vivo. Ele reconheceu imediatamente sua mãe pelo cabelo, que caía reto até o queixo, como sempre, mas agora tinha cor de pedra-sabão. Ela estava sentada ao lado da cama de um homem idoso, cujos olhos estavam fechados. Quando Rufus se aproximou, viu que a idade havia tornado os cabelos do pai tão brancos quanto uma asa de gaivota do gelo, e sua pele estava pálida e acinzentada. Talvez ele tives­se sentido a aproximação de Rufus, pois seus olhos se abri­ram, e então ambos estavam se entreolhando.

Se ficou surpreso com a aparência desgrenhada de Ru­fus, ele não demonstrou; nem sua mãe, que se levantou e dis­se com voz trivial: “Você escolheu um belo dia para voltar para casa. Na semana passada tivemos sol forte. Não é mes­mo, papai?”.

Seu pai inclinou ligeiramente a cabeça. “Consertei a por­ta da estufa”.

Rufus abraçou a mãe e beijou-lhe a bochecha antes de puxar uma cadeira e sentar-se.

“Como está se sentindo, papai?”

Seu pai fechou os olhos de novo. “As dores de cabeça são horríveis. Me fazem ver coisas”. “Que coisas?”

“Luzes verdes. Pássaros brancos gigantes no portão do jardim”. Ele deu um sorriso débil e fechou os olhos.

Rufus sentiu sua mãe se inclinar e sussurrar ao seu ou­vido.

“Também está ouvindo coisas. Diz que o vento está falan­do com ele”. Ela então foi até a janela, deixando-os conversar.

Seu pai abriu os olhos de novo. “Recebi o seu cartão-pos­tal. Tóquio, não era?”

“Você teria gostado do Japão, papai. As cerejeiras esta­vam em plena floração”.

“Nós também tivemos uma boa floração este ano. E no ano anterior. Pena que você perdeu”.

“Tinha alguns negócios urgentes para tratar”.

“Esses negócios estão feitos?”

“Quase. Tenho algumas pontas para juntar hoje à noite”.

O vento chacoalhou a janela ao lado da cama. Rufus sen­tiu seu pai apertar-lhe a mão e puxá-lo para perto.

“Archie sabe? É por isso que você veio para casa? Para contar a ele?”

“Para ajudá-lo. Escute, papai. Archie ainda não foi amal­diçoado. A dor que você sente é a maldição se aproximando. Quando a maldição for quebrada, as dores de cabeça vão de­saparecer. Você irá se sentir novo em folha”.

“Faça o que tem de fazer”, sussurrou ele. “Não deixe Ar­chie perder a oportunidade, como eu e Jeffrey perdemos”.

Uma rajada de vento especialmente forte fustigou a ja­nela e logo depois um relâmpago iluminou o céu. Todos na ala pararam de falar e aguardaram pelo trovão. Quando ele veio houve uma agitação entre os visitantes: levantando-se e preparando-se para partir, eles se mostravam ansiosos por chegar em casa antes da tempestade. Rufus olhou para o seu pai. Seus olhos estavam fechados de novo, dessa vez parecia ter adormecido. Rufus se voltou para a mãe, que estava em pé olhando pela janela.

“Preciso voltar antes que escureça. Você vai ficar bem?” Ela não pareceu ouvir e Rufus estava para repetir a per­gunta, apenas um pouco mais alto, quando ela fez meia-volta e o encarou. Estava tremendo. “O que foi, mamãe?” “Ele vê coisas”, sussurrou ela. “Eu sei”.

“Pássaros brancos gigantes. Olhos verdes fluorescentes”. “Sim”.

“Um deles acaba de passar voando do lado de fora da janela”.

Rufus estava no ponto do ônibus esquadrinhando o céu e os telhados, tentando vislumbrar a gaivota do gelo. Por que não estava se juntando ao resto das tropas na rocha do Musgo? Será que teriam sido colocadas fora de combate? Estariam seus membros feridos?

O vento estava tão forte que o ponto do ônibus estreme­cia, prestes a ser arrancado e arrastado para longe. Um ônibus comum encostou e Rufus esquadrinhou o céu mais uma vez à procura da gaivota do gelo antes de subir.

Ele ocupou o banco dianteiro a fim de ter uma visão cla­ra do céu e da estrada à frente. O ônibus fez mais duas para­das e então eles estavam na zona rural, seguindo diretamen­te contra o vento. O motorista estava tentando a todo curso manter o ônibus num caminho reto, enquanto o veículo osci­lava de um lado para outro nas fortes rajadas, fazendo os pas­sageiros se agarrarem com força nos assentos da frente. Rufus estava achando estranho que eles ainda não tivessem cruzado ninguém na estrada, quando viu uma grande bola branca movendo-se violentamente para fora do céu em direção a eles.

Não deu tempo de gritar. Alguma coisa muito grande atin­giu o pára-brisa e em seguida rolou para cima e atingiu o teto do ônibus, com outra batida ruidosa.

O motorista pisou no freio com toda a força e Rufus se agarrou à barra de segurança em volta do seu assento para evitar ser jogado para a frente. Um ou dois passageiros de­ram gritos assustados e então o ônibus parou.

“Está todo mundo bem?” A voz do motorista estava trê­mula, seus olhos examinando o pára-brisa. Rufus também es­tava olhando, bem como um grupo de passageiros que vie­ram para a frente do ônibus.

Por alguns segundos ninguém falou, apenas o vento en­toava o seu lamento. Então o motorista disse: “O que é aquilo?”.

O pára-brisa inteiro estava coberto pela marca deixada por uma enorme asa de pássaro. Uma ou duas grandes penas brancas estavam cravadas nos limpadores de pára-brisa.

“Pode ter sido um cisne”, disse um dos passageiros.

“Seja o que for, era grande”, disse outro.

“Sorte o pára-brisa não ter quebrado”, disse o motorista.

Todos continuaram a olhar até que uma voz ordenou: “Abra a porta! Preciso sair. Abra a porta agora”. Rufus estava colocando nas costas a sua mochila e tentando se espremer através da multidão que enchia o corredor do ônibus.

“Nada poderia sobreviver a uma pancada como aquela”, disse-lhe um passageiro.

“Abra a porta”, Rufus persistiu.

Um raio de luz iluminou subitamente o pára-brisa e um homem apareceu no acostamento da estrada, agitando uma lanterna. Estava usando uma comprida capa de chuva bege, que ondulava ao vento como um pára-quedas.

O motorista abriu a porta e o homem correu para dentro com uma rajada de vento.

“Um bocado de correntes de ar lá fora”, disse ele, sua capa desinflando. Ele falava em sentenças curtas e ofegantes. “Arvore caída na estrada. Nenhum trânsito para lado nenhum. Bombeiros atendendo outro chamado. Pode haver uma lon­ga espera”.

Ele olhou pelo pára-brisa para apontar na direção da ár­vore caída.

“O que é aquilo?”, perguntou ele, inclinando-se em dire­ção à marca no pára-brisa.

“Um cisne nos atingiu”, disseram dois passageiros ao mesmo tempo.

“Sorte que não atravessou o pára-brisa. Podia ter nos ma­tado”, disse o motorista.

Todos os passageiros balançaram a cabeça concordando e fizeram comentários adequadamente sérios sobre a sorte que tiveram em escapar.

O motorista olhou por cima do ombro para onde Rufus estivera. “Onde está aquele sujeito que queria sair?”

Uma fria corrente de ar vinda da traseira do ônibus fez todos se voltarem a tempo de ver Rufus empurrar a porta de emergência e pular para fora, no meio da tempestade.

O motorista balançou a cabeça. “Bem que eu achei que ele parecia meio maluco”.

Rufus correu de volta pela estrada, ajudado pelo vento que o empurrava por detrás. Ele tirara uma lanterna da mochila e projetava arcos de luz ao longo da estrada, para o topo das árvores agitadas e para o meio dos arbustos. Estava quase dan­do meia-volta quando ouviu um lamento agudo vindo da área do bosque ao lado. Ele pulou uma valeta e correu para os arbustos escuros. Logo adiante, pôde ver o que parecia ser um grande monte de neve acumulada em volta da base de uma árvore. Ao se aproximar, ele desligou a lanterna.

A gaivota do gelo estava caída de barriga para baixo, as asas totalmente abertas, a cabeça torcida para trás por cima do corpo, o pescoço quebrado. Rufus se ajoelhou perto da ave, protegendo-a contra o vento forte que lhe encrespava as pe­nas. Seu bico estava aberto, e ele removeu cuidadosamente a bolsinha de dentro dele. A gaivota abriu os olhos e deixou es­capar um grito lancinante, que se elevou através dos galhos das árvores. Rufus começou a entoar suavemente uma cantilena, enquanto observava o brilho fluorescente em seus olhos ir ficando mais fraco. O corpo do pássaro começou a tremer e quando ele abriu o bico de novo não produziu som nenhum. Logo depois o último pontinho de luz em seus olhos bruxuleou e morreu. Um clarão de relâmpago iluminou a área do bosque e Rufus viu muito claramente que ele estava morto. Aconche­gou-lhe a cabeça com delicadeza, acariciando as penas enquan­to lhe endireitava o pescoço. Ele então abriu a bolsinha e remo­veu o pedaço de papel. Acendeu a lanterna e leu a mensagem de Archie: “Alerta vermelho, volte para a base. A”. .

Rufus levantou-se e olhou em volta. Atrás dele estava a estrada escura e vazia. Nos outros três lados estava o bosque, com galhos de árvores curvando-se para baixo em sua dire­ção como pernas gigantes de aranha. O tempo era precioso e passava depressa, mas ainda assim ele esperou. Alguma coi­sa farfalhou na grama ali perto. Ele chutou o arbusto e um ra­to enorme saiu correndo para a valeta ao lado da estrada. Ru­fus continuou esperando. Agora já estava totalmente escuro o vento aumentava e ele estava com frio, mas ainda não podia ir embora.

Rufus continuou a montar guarda junto ao pássaro até ver o que estava esperando: a cor se exauria lentamente de suas penas, tornando-as transparentes, e quando a transfor­mação se completou as penas se encheram de uma luminescência iridescente. O pássaro começou a se mover. Ergueu a cabeça e a luz verde retornou aos seus olhos. Ele se levantou e se envolveu com as asas distendidas. Então começou a su­bir e, ao fazer isso, formou um círculo perfeito de luz branca com duas pequenas luzes verdes no centro.

O círculo branco exterior começou a encolher e as duas luzes verdes se fundiram e se expandiram até que tudo o que restava da gaivota do gelo era uma bola verde tremeluzente do tamanho da mão de Rufus. Rufus observou-a flutuar para cima através dos galhos agitados e depois desaparecer, como uma pequena estrela cadente cruzando o céu.

Rufus jogou a mochila por cima do ombro e correu de volta para a estrada. Os relâmpagos estavam ficando mais freqüentes e o vento ganhava força. Huigor poderia chegar a qualquer momento e ele ainda estava muito longe da Fron­teira dos Ventos. Tinha de voltar a Archie e ao banco antes que fechasse, mas com a estrada bloqueada pela árvore caída ele iria precisar de um milagre para chegar a tempo.


 

Archie estava sentado à janela do seu quarto havia quase duas horas, aguardando o retorno de Rufus para casa. Eles ti­nham combinado o encontro para as três da tarde, e já eram três e cinqüenta e oito.

Ele abriu a porta do quarto e o ar morno da casa aliviou-lhe o nariz e as mãos gelados. Desceu pé ante pé, tentando ouvir a voz de Rufus, mas o único som era de risos e aplau­sos vindos da televisão da cozinha.

Archie chegou ao vestíbulo e olhou para o cabideiro. O casaco de Rufus não estava pendurado lá, nem as suas botas estavam perto da porta. Na ponta dos pés, foi até o seu pró­prio casaco, que ainda estava caído no chão, onde o deixara. Tirou a adaga do bolso dele e a transferiu para o bolso da cal­ça, e então deu um pulo de susto quando o relógio de pêndu­lo soou uma única badalada desafinada. Definitivamente, al­guma coisa estava errada com o relógio. Preparando-se para seguir de volta para cima, Archie deu uma olhada mais de perto nele. Foi quando notou o pequeno buraco de fechadu­ra na porta do pêndulo. Estava brilhando em verde-gaivota do gelo.

Ele abriu a porta e a Sentinela que estava lá dentro espa­lhou sua luz, revelando a chave do mostrador do relógio pen­durada em um pequeno gancho, perto do pêndulo, mas, mais importante, ela lançou sua luz sobre um envelope marrom preso com fita adesiva na caixa de madeira do relógio.

Um estrondo de risadas e aplausos da televisão deu a Archie a cobertura de ruído de que precisava para parar o balanço do pêndulo, arrancar o envelope da caixa e escondê-lo no blusão. Ele então pegou a chave no gancho e a usou para abrir o mostrador do relógio. A Sentinela encolhera para o ta­manho de um grão de arroz e foi embora flutuando através do buraco da fechadura da porta da frente.

Dentro do compartimento do mostrador do relógio ha­via outra chave, de aparência muito peculiar: longa e fina, com um único dente em forma de seta, era feita de ouro. Tinha de ser a chave que eles estavam procurando. Ele a pôs no bolso, fechou o mostrador do relógio e estava fechando a porta do compartimento do pêndulo quando ouviu sua mãe dizer: “O que você está fazendo, Archie?”.

Cecille estava meio dentro e meio fora da cozinha, o aven­tal vermelho que ela usava estava todo salpicado de farinha.

“O relógio está fazendo um barulho estranho”, disse ele.

Mas ela estava mais preocupada com ele do que com o relógio.

“Como você está se sentindo?”, perguntou Cecille, an­dando até ele e pondo a palma da mão em sua testa para ve­rificar a temperatura. “Você dormiu muito tempo”, disse ela, olhando-o nos olhos à procura de indícios de doença.

Archie não a corrigiu. Tinha coisas mais importantes na cabeça.

“Rufus já está em casa?”, perguntou ele. “Não”, disse ela, apalpando os gânglios dos dois lados do pescoço dele. “Onde está ele?” “Foi visitar o vovô no hospital”. “Quando vai voltar?”

Ela relanceou para o relógio. “Achei que a esta altura ele já estaria em casa. Mas estamos falando sobre alguém que saiu pela porta um dia e ficou fora de casa por nove anos. En­tão quem sabe quando irá voltar?”

Eram más notícias para Archie. “Não diga isso. Ele tem de estar em casa esta noite. Não pode. Não pode”. Ele virou as costas e correu para o quarto.

“Archie?”, gritou Cecille. “Eu só estava brincando”. E, co­mo que para reforçar o que ela dissera, veio outro estrondo de aplausos e gargalhadas da tevê.

Archie sentou-se no chão do seu quarto, as costas contra a porta, mantendo-a fechada para o caso de Cecille subir a es­cada atrás dele. Prestou atenção em sons de passos, e, como não ouviu nenhum, tirou a chave de ouro do bolso e a pôs no tapete ao lado dele. Então puxou o envelope marrom de den­tro do blusão e o abriu. Encontrou sete cartões-postais, todos com o mesmo desenho na frente. Um pássaro branco de asas abertas, exatamente como as gravações nas suas duas moedas.

“Gaivotas do gelo”, sussurrou ele.

Foi onde tinha visto o símbolo antes: no cartão que rece­bera de Rufus no seu quinto aniversário, acompanhando os óculos de aviador. No verso de cada cartão estavam as pala­vras “Feliz aniversário” e uma dedicatória escrita e assinada por Rufus.

Archie examinou rapidamente os cartões. As inscrições diziam: Corra com a velocidade do vento; Destranque a prisão do medo; Aquele que possui visão vê além do horizonte; Olhe no olho da tempestade; O gelo aguarda o calor da incandescência; Não meça o tempo, deixe as mãos encontrarem o caminho; e, fi­nalmente, As nuvens se reúnem com a música. Ele lembrou-se de que Rufus dissera alguma coisa sobre nuvens e música quando eles encontraram a flauta naquela manhã.

Archie estava decidido. Ele pôs a chave de volta no bol­so, pegou a mochila embaixo da cama e pôs o envelope con­tendo os cartões dentro dela. Também guardou lá os itens da sua lista, com exceção dos óculos de aviador. Não tê-los era um problema, mas nem metade do tamanho do problema que era Rufus não voltar para casa. Decidiu que teria de entrar no banco sozinho, enquanto as portas ainda estavam abertas.

Ele vestiu um casaco e puxou o zíper para cima, calçou um velho par de tênis que encontrara no fundo do guarda-roupa e, com a mochila pendurada nas costas, subiu na mesa e abriu a janela.

Era um pouco como enfiar a cabeça num túnel de vento. O cabelo de Archie foi soprado de seu rosto para trás imedia­tamente, virado para cima em ângulo reto no seguinte, antes de cair em volta dos olhos. As cortinas drapejando ao lado do seu rosto tornavam duplamente difícil enxergar enquanto ele passava para fora, por cima do peitoril da janela. O vento es­tava tão forte que mal dava para respirar. Ele tentava soprar o garoto de volta para dentro do quarto e, no instante seguin­te, sugá-lo para fora de novo, mas Archie o ouvira vezes su­ficientes para saber que ele vinha avançando em fortes ondas que depois recuavam, seguidas por rajadas mais fracas. Ele aguardou por uma dessas rajadas mais fracas, o que lhe deu tempo apenas para estender o braço para fora e agarrar-se ao cano de escoamento, passar o braço em volta de um galho de árvore e puxá-lo contra seu corpo.

Ele envolveu o galho com seus braços e pernas, bem aper­tado, e disse para si mesmo que tudo ia dar certo se não olhas­se para baixo. Outra rajada forte balançou a árvore e ele fe­chou os olhos e esperou, desejando que ela se apressasse e recuasse logo para ele poder escorregar pelo galho em dire­ção ao tronco. Mas as rajadas continuavam chegando e ele foi jogado de um lado para outro, como se o galho estivesse ten­tando se livrar dele.

Archie abriu o seu olho verde e lá, no peitoril da janela, olhando para ele, estava uma gaivota do gelo. Estava absolu­tamente imóvel contra o vento enfurecido, os olhos fixos, sem piscar, na posição precária de Archie.

Ele não se atrevia a gritar por ajuda. Não podia correr o risco de ser ouvido por alguém. Mas se a gaivota do gelo não estava lá para ajudá-lo, então o que queria?

O vento recuou subitamente e Archie escorregou para o tronco, onde os galhos eram mais grossos e fortes. A árvore estava iluminada pelas luzes da casa, possibilitando-lhe esco­lher os galhos que iriam levá-lo pela rota mais segura até o chão. Ninguém poderia chamá-lo de bebê chorão agora, dis­se para si mesmo, enquanto se arrastava para baixo pelo últi­mo pedaço e pulava em cima de um monte de neve.

Ele olhou para a janela do seu quarto e viu que o peito­ril estava cheio de gaivotas do gelo, com uma ou duas voan­do em círculos dentro do quarto. Poder-se-ia pensar que o te­lhado inclinado acima da sua janela estava coberto por neve espessa, não fossem os muitos pares de olhos verdes olhan­do para ele.

Os pássaros estavam completamente imóveis e silencio­sos no vento impetuoso, sem demonstrar medo enquanto ele tentava arrancar-lhes as penas e açoitava seus corpos. Por to­da a sua volta Archie podia ouvir portões batendo, janelas cha­coalhando, além do cão do vizinho latindo. Podia também ouvir o rugido distante do mar batendo no muro do porto. Huigor estava cada vez mais perto.


 

Archie saiu correndo, o mais rápido que podia, colina abaixo em direção à aldeia. Uma ou duas vezes teve de segu­rar-se em um poste de iluminação para evitar ser derrubado no chão ou empurrado para trás pelo vento, e embora esti­vesse começando a se sentir exausto sabia que precisava con­tinuar. Tinha visto assaltos a bancos na tevê, mas nesses casos os ladrões sempre explodiam buracos nas paredes com dina­mite ou serravam as janelas com equipamentos para cortar metal. Já Archie só poderia alcançar a sala de cofres do banco do seu pai entrando pela porta da frente.

Quando chegou à praça da aldeia, um dos caixas do ban­co, Stewart, que por acaso era o irmão muito mais velho de Brian Bain, estava começando a fechar as portas. Stewart tam­bém era o goleiro do time local, e estava usando toda a força dos seus músculos naquele momento para fechar e trancar uma das pesadas portas duplas contra o vento. Archie não es­tava interessado em futebol, mas ficara fascinado ao ouvir um torcedor do time dizer que Stewart tinha dois pés esquerdos.

“Meu pai está me esperando”, disse Archie por cima do barulho do vento, e Stewart acenou para ele entrar. Por sorte, uma outra caixa, Karen, que mais cedo naquele dia explicara a Rufus os horários de abertura no Natal e Ano-Novo, estava justamente saindo pela porta de segurança.

“Olá, Archie. O vento não o carregou para longe?”, per­guntou ela com um sorriso.

Archie engoliu em seco e estava para balançar nervosa­mente a cabeça quando um estrondo forte fez os dois darem um pulo. Stewart finalmente conseguira fechar a segunda porta.

Karen ajustou os seus óculos de aro preto em cima do nariz.

“Oooh, Stewart, você me assustou”, disse ela com um medo exagerado.

Stewart empurrou algumas mechas de cabelo loiro para cima da testa e endireitou a gravata.

“Acho que devemos ir embora o mais depressa possível”, disse ele sem fôlego. “Parece que está havendo uma tempes­tade violenta lá fora”.

A perspectiva de deixar o trabalho mais cedo com Stewart impeliu Karen para fora do caminho de Archie, e ele aprovei­tou a distração dela para disparar através da porta de segu­rança antes de ela se fechar com uma batida. A sorte estava do seu lado e ele se viu sozinho.

No final do corredor, à esquerda, ficava a sala do seu pai, mas foi pela segunda porta à direita que ele desapareceu.

Estava escuro dentro do depósito de material de escritó­rio, com a única luz vindo através do buraco da fechadura e de uma pequena fresta embaixo da porta. Archie revirou a sua mochila e tirou de lá a lanterna, depois se acomodou em um canto ao lado das caixas de papel para fotocópias. Seu re­lógio marcava quatro e quarenta e cinco da tarde. Ele saberia que o banco estava vazio quando a luz do corredor fosse apa­gada. Nesse meio-tempo, a única coisa a fazer era esperar que ninguém abrisse a porta do depósito.

Enquanto estava ali sentado, ouvindo passos de passa­gem, vozes ocasionais e o som de telefones tocando, Archie começou a se sentir entediado, e depois com fome. Tirou os sanduíches de carne defumada da mochila e comeu, manten­do-se atento à luz que se infiltrava pelo buraco da fechadura. Quando estava prestes a comer as cascas, uma sombra entrou na frente do buraco da fechadura e ele apagou a lanterna. Alguém estava postado na frente da porta, bloqueando a luz do corredor.

“Está pronto para sair, Stewart?”, ele ouviu Karen dizer. “O senhor Stringweed vai ficar mais algum tempo. Ele disse que podíamos ir embora, que ele ligaria o alarme”.

“O que ele está fazendo lá em cima?”, ele ouviu Stewart perguntar baixinho. “Está de porta fechada a tarde inteira”.

“Não tenho certeza”, sussurrava Karen”, “mas quando entrei agora mesmo ele estava lendo um livro. Parecia um diário. Ele o fechou de repente quando me viu”.

“Ele está se comportando de um modo estranho desde que voltou do almoço”, disse Stewart, depois de considerar aquela nova informação. “Foi diretamente para o subsolo. Encontrei-o na escada, voltando de lá, com alguma coisa es­condida debaixo do casaco. Muito suspeito”.

“Você não acha que ele está roubando, acha?”, pergun­tou Karen, desfrutando o drama repentino.

“O velho Weedy? Roubando? Não seja idiota. Ele não tem coragem para isso”.

“Sssssh”, fez Karen, abafando o riso.

Archie estava quase pulando para fora e gritando “Não falem desse jeito do meu pai” quando se lembrou de que não devia sequer estar lá. Ficou tão zangando por alguém com dois pés esquerdos estar criticando o seu pai que deixou es­capar um urro de raiva.

“O que foi isso?”, ouviu Karen dizer.

Archie prendeu a respiração.

“Provavelmente o vento”, disse Stewart. “Ou o fantasma do pirata Olho de Sangue”.

Karen riu. “Eu não acredito nessas coisas”.

Archie não tinha certeza do que o assustara mais naque­le momento — o fantasma do pirata Olho de Sangue assom­brando o banco ou o som de Stewart trancando a porta do depósito.

“Diz a lenda que o fantasma dele foi visto no subsolo”, disse Stewart, removendo a chave da fechadura.

“Nunca mais vou sozinha para o subsolo”, Karen comen­tava enquanto eles seguiam pelo corredor. “A não ser que vo­cê venha comigo”, acrescentou ela com uma risadinha, antes de a porta de segurança se fechar atrás deles.

Archie foi deixado sozinho novamente, trancado dentro de um depósito muito escuro e silencioso em um banco mal-assombrado — e nem uma só pessoa no mundo inteiro sabia que ele estava lá.

 

Rufus calculou que estava a aproximadamente onze qui­lômetros de Westervoe: uma longa distância, que devia ser percorrida a pé e contra o vento. Para cada passo à frente ele se via soprado dois para trás. Para tornar as coisas piores, as pilhas da lanterna estavam ficando fracas, ele estava cansado e com frio, e nem um único veículo passara por ali.

Rufus estava se esforçando para não se sentir desanima­do e continuar esperançoso quando, através do incessante rugido do vento, foi alertado para um novo som. Não pôde ouvi-lo muito claramente por causa dos lamentos do vento, portanto parou de andar, ficou imóvel na beira da estrada e escutou.

Seria um trator? Ou trovão? Não podia ser trovão, pois sentia o chão vibrar, e parecia vir de alguma coisa viajando na sua direção. Um clarão de relâmpago iluminou a estrada e ele viu um enorme cavalo preto galopando até ele, os cascos batendo contra o acostamento gramado. Rufus manteve sua posição, esticou os braços dos dois lados do corpo e aguar­dou. O cavalo avançava ameaçadoramente e, quando parecia que eles iam colidir, estacou diretamente na frente dele e empinou, os cascos pateando no ar acima da cabeça de Ru­fus. Aterrorizado, com o branco dos olhos fitando debaixo da crina esvoaçante, o animal abriu a boca, bufou e relinchou alto. Rufus ergueu o braço e agarrou uma corda pendurada no cabresto do cavalo e sorriu. Era o milagre que ele estava esperando.

Usando sua técnica de olho-no-olho, acalmou o cavalo e, depois de algumas palavras gentis de encorajamento, o ani­mal permitiu-lhe acariciar suas costas. Não estava usando sela, o que significava uma cavalgada desconfortável, mas para Rufus, que certa vez já viajara cinqüenta quilômetros monta­do em pêlo em um asno, aquilo era um luxo, e ele pulou para o dorso do cavalo e partiu a galope em direção a Westervoe.

 

A porta da sala de Jeffrey no banco estava fechada. Ele es­tava sentado à mesa, a cabeça entre as mãos, olhando para a capa do diário de Rufus. Seu cabelo estava desgrenhado e as sombras embaixo dos olhos eram mais escuras que o usual. Parecia estar sentado naquela mesma posição há um bocado de tempo. Por fim, virou os olhos cansados para o relógio na parede, e, embora um pedaço de azevinho tivesse caído de modo a cobrir o número doze, ele podia dizer que eram seis horas.

Jeffrey espreguiçou-se, abrindo bem os braços, olhou pa­ra o alto e deu um enorme suspiro, bem quando a luz do teto começou a piscar. Ele observou a luz fluorescente oscilar en­tre muito pálida e muito brilhante, e então, depois de uma piscada especialmente desanimada, viu-se na escuridão to­tal. Ele tomou consciência do rugido profundo do vento do lado de fora da sua janela e dos fragmentos de vozes que che­gavam através dele; pessoas na praça estavam gritando umas com as outras.

Jeffrey estivera debruçado sobre o diário a maior parte da tarde e ficara tão absorto nas informações que enchiam as páginas que nem notara o quão selvagemente o vento aumen­tara. Pegou o telefone para ligar para Cecille, mas descobriu que as linhas haviam caído, assim como o fornecimento de ele­tricidade. Isso significava que a tempestade era muito mais séria do que ele pensara de início.

Ele se lembrou da pequena lanterna que se acostumara a trazer consigo desde a noite em que o Land Rover ficara sem gasolina, tirou-a do bolso do seu sobretudo e a acendeu. En­tão juntou os seus pertences.

Pôs o diário de Rufus na pasta, trancou as gavetas da es­crivaninha, vestiu o casaco e saiu para o corredor. Ao passar pelo depósito de material de escritório, ele parou e deu meia-volta. Poderia jurar ter visto um brilho de luz no buraco da fechadura. Respirou fundo para se acalmar e girou a maçane­ta da porta. Para seu alívio, estava trancada.

“Uma ilusão de ótica, muito provavelmente”, disse ele. “Ou era a luz da minha própria lanterna”, disse para si mesmo, enquanto descia apressado o corredor, passava pela porta de segurança e saía para o saguão principal do banco. Sem eletri­cidade, não poderia ligar o alarme; em vez disso teria de tran­car tudo do jeito antigo, usando apenas o seu jogo de chaves.

Havia dois conjuntos de portas para trancar antes de se ver do lado de fora, na rua. Um par de lampiões a óleo em uma ou duas janelas, dos dois lados da praça, projetava pe­quenas manchas de luz, e em algumas outras janelas Jeffrey podia ver o tremeluzir de velas e lanternas sendo carregadas de um quarto para outro. Fora isso, estava quase nas trevas. Ele olhou para o céu e viu o luar ocasionalmente por entre nuvens que se moviam com velocidade, mas o que não espe­rava era a ferocidade do vento.

Enquanto Jeffrey andava até o Land Rover, ouviu o es­trondo distante de algo metálico caindo no chão, seguido do som de vidros quebrando. De algum lugar abaixo, perto do porto, veio o som de um alarme de carro, uivando repetida­mente como um animal ferido.

Ele entrou no carro e deu partida no motor, ainda pen­sando sobre o que havia descoberto nas páginas do diário de Rufus. Se a informação estava correta, então em aproximada­mente vinte e quatro horas um tornado chamado Huigor iria chegar e cumprir a maldição dos Stringweed. Mas, pelo que podia ver, todas os indícios eram de que uma tempestade se­vera estava se aproximando naquele exato momento. Pode­ria Rufus ter entendido errado?

O diário também lhe contou que a sua perda de memó­ria e suas dores de cabeça eram causadas pela presença cada vez mais próxima de Huigor, e que sua saúde iria melhorar depois que Archie fosse amaldiçoado, e no entanto Jeffrey se sentia mais forte e com a cabeça mais clara a cada minuto. Pisou firme no acelerador e desejou que o velho carro andasse mais depressa. Tinha de voltar à Fronteira dos Ventos e con­frontar Rufus acerca do diário; em particular, sobre o papel que Archie teria em quebrar a maldição dos Stringweed.

Por toda a sua volta podia ouvir o vento rindo e guinchando, provocando-o, exatamente como fizera todos aqueles anos atrás — só que desta vez ele queria Archie. Se o diário de Rufus estivesse correto, e Archie ainda não estivesse amaldi­çoado, então tinha de chegar em casa e protegê-lo, antes que Rufus e Huigor chegassem a ele primeiro.

 

Cecille estava em um estado de espírito notavelmente alegre. A terceira fornada de empadas de carne estava assan­do, ela estava assistindo sem ser perturbada a outro concur­so televisivo e, melhor de tudo, Jeffrey logo estaria em casa para revelar o conteúdo do diário de Rufus.

Naquele momento, no aconchego da cozinha, apesar de uma corrente de ar que vinha de algum lugar, sentia-se tran­qüilamente satisfeita. Isto é, até se dar conta da porta batendo.

A janela da cozinha estivera chacoalhando de quando em quando na maior parte da tarde e a porta dos fundos dera pa­ra fazer um ruído surdo ocasionalmente, mas agora uma por­ta lá em cima batia com violência. Bem no momento em que ela se levantou para investigar, a televisão se apagou de repente. Ao mesmo tempo, a sala inteira ficou no escuro quando a for­ça caiu, e os únicos sons que se podia ouvir nas proximidades eram os últimos estertores eletrostáticos da tevê. Cecille piscou, tentando ajustar os olhos à nova escuridão, e então uma man­cha cinzenta retangular na parede oposta entrou em foco; era a janela, e ela arrastou os pés em sua direção, agarrando-se à beirada da mesa para orientação e apoio.

Havia uma lanterna de prontidão sempre no mesmo lu­gar, no peitoril da janela, para o caso de falta de energia, e ela correu os dedos pela saliência atrás da cortina, procurando-a. Ela suspirou irritada. Não estava lá. Obviamente Rufus não a tinha devolvido à sua posição exata, do lado esquerdo, depois de a pegar emprestada para ir buscar carvão. Ela se lembra­va muito claramente de ter dito a ele o quanto era essencial saber onde estavam as lanternas para momentos como este. Ela suspirou de novo, tomando nota mentalmente de ter outra conversa com ele sobre a segurança no lar. Então disse a si mesma que era ridículo ficar estressada por causa de Rufus, es­pecialmente quando a sua verdadeira preocupação era Archie, lá em cima, completamente sozinho e no escuro. Ele não cha­mara nem tentara descer, o que era estranho, mas talvez esti­vesse dormindo de novo e roncando como um bem-aventura­do no meio da crise.

A casa se tornara inusitadamente silenciosa, como se es­tivesse aguardando que o facho de luz da lanterna fosse aceso. Sem as brincadeiras alegres da tevê como fundo, Cecille ficou mais consciente dos rangidos e batidas, e do vento ululante, mas por baixo de tudo, ou talvez por cima de tudo isso, havia um novo silêncio pouco familiar. Ela finalmente localizou a lanterna no centro do peitoril da janela, obscurecida pelas fo­lhas e frutinhas da cerejeira de Natal.

“Está tudo bem, Archie, já estou indo”, gritou ela. “Estou com uma lanterna”.

Ela acendeu a lanterna e dirigiu o facho por toda a volta da cozinha, para todos aqueles cantos escuros que poderiam esconder sabe-se lá o quê.

“Tão silencioso”, disse consigo mesma enquanto saía pa­ra o vestíbulo, passando com o facho de luz pelo pêndulo. Ela parou e olhou, dando-se conta da fonte do silêncio pouco fa­miliar. O relógio havia parado às quatro horas e quatro mi­nutos daquela tarde: exatamente o momento em que vira Archie pela última vez.

Ela correu escada acima, o facho da lanterna pulando à frente de degrau em degrau, criando estranhos clarões nas paredes.

“Archie? Você não está me ouvindo?” Mas a única res­posta à sua pergunta foi outra forte batida da porta.

Ela desejou que Jeffrey estivesse ali com ela, ou até Rufus — qualquer um, de fato, pois o silêncio de Archie lhe dizia que alguma coisa estava muito errada. Ao subir correndo o último lance da escada para o sótão, a luz da lanterna bateu na porta fechada do quarto dele. Estava chacoalhando violen­tamente no batente, e uma corrente de ar soprava por baixo da porta com tanta força que levantou os cabelos em volta do seu rosto. Ela agarrou e virou a maçaneta, mas alguma coisa pesada e forte do outro lado mantinha a porta fechada. Ela bateu à porta com os punhos.

“Archie? Você está me ouvindo?”, gritou ela. “Archie? Você está aí dentro?”

O vento deu outro guincho agudo que ecoou por toda a casa, mas não foi nada em comparação com o berro que ela soltou quando uma mão se estendeu das trevas e agarrou-a firmemente pelo ombro.

 

Cecille se desvencilhou da mão que lhe agarrava o ombro, mas uma segunda mão a agarrou pelo pulso quando ela se preparou para golpear o intruso com a lanterna.

Então uma voz familiar disse: “Pare! Sou eu”.

A face de Jeffrey agigantou-se muito perto. “Archie está bem?”, perguntou ele. “A janela dele está aberta e as cortinas estão voando do lado de fora”.

Cecille ainda estava tremendo quando disse: “A porta não abre. Alguma coisa está impedindo que ela seja aberta. Não há resposta quando o chamo”.

“Onde está Rufus?”

“Não sei. Ainda não voltou do hospital”.

“Me dê licença”, disse Jeffrey. Ele agarrou a maçaneta e, com o ombro erguido, jogou todo o peso contra a porta e irrompeu no quarto. Algo mole atingiu-lhe o nariz. “Ora, que...”, ele começou a dizer quando a luz da sua lanterna ba­teu em uma parede de penas brancas rodopiantes.

Cecille conteve um grito quando o seguiu para dentro do quarto. “Penas brancas!”

“Gaivotas do gelo”, ela ouviu Jeffrey dizer quando a por­ta bateu atrás deles. Ela agarrou uma pena e a examinou de perto, à luz da lanterna. “Elas soltam penas antes de uma ba­talha”, disse ele baixinho, como que lendo em voz alta.

“Você leu o diário, não leu?”, perguntou Cecille.

Antes que Jeffrey pudesse responder, um véu de penas foi soprado em seu rosto e para dentro da sua boca.

“Archie?”, chamou Jeffrey através das penas rodopiar) tes. “Você está aí dentro?”

Ele dirigiu a lanterna para a cama vazia, enquanto Ce­cille começava a procurar em todos os cantos do quarto, a lanterna revelando a devastação causada pelo vento. Roupas tinham sido espalhadas pelo chão, a porta aberta do guarda-roupa balançava e os pôsteres pendiam arrancados das pare­des. Uma cortina tinha sido parcialmente arrancada do trilho e estava presa num galho da árvore.

Cecille se debruçou na janela, gritando o nome de Archie para dentro do estrondo do vento. Jeffrey dirigiu a lanter­na para a árvore e depois para o jardim lá embaixo, mas sa­bia que Archie não estava lá; os faróis do carro haviam mos­trado isso. Ele desenganchou a cortina da árvore e fechou a janela, e o turbilhão de penas começou a flutuar para o chão. Deu um passo em direção à porta, quando sentiu alguma coi­sa se amarrotar sob o seu pé. Caído no tapete, entre as penas, estava o móbile de Archie.

Jeffrey o pegou e viu que todos os cavaleiros tinham sido esmagados, menos um, o favorito de Archie, o cavaleiro ver­melho e negro com as iniciais as no escudo. O fato de ele ter sobrevivido intacto o persuadiu de que era um bom presságio, de que Archie estava seguro e bem.

“Olhe para isto”, disse a Cecille. Estava segurando o climascópio, e os planetas dentro dele giravam tão depressa que eram agora um borrão dourado. Embora ela estivesse se es­forçando muito para permanecer calma, seus olhos estavam arregalados, interrogativos. Cecille olhou para o rosto preo­cupado de Jeffrey. “Você disse que os pássaros estavam se preparando para a batalha. Que batalha? O que o diário lhe contou?”

“Archie sabe da maldição”, disse Jeffrey. “Rufus contou a ele”.

Cecille ficou muito quieta, ouvindo o vento bater feroz­mente contra a janela. O que mais o diário contara a Jeffrey?

Esta era uma situação sobre a qual ela não tinha controle, e quando falou de novo sua voz não era mais que um sussur­ro assustado.

“O que nós vamos fazer?”

E então, para surpresa dela, Jeffrey jogou os ombros para trás e disse numa voz que não era típica dele: “Nós vamos sair atrás dele, e vamos encontrá-lo”.

 

De dentro do depósito Archie podia ouvir o vento ululando. Parecia nunca estar longe, como se o estivesse seguindo. Uma corrente fria entrou por baixo da porta, fazendo arrepios subirem pelas suas pernas, e ele se aconchegou mais dentro do casaco para manter-se aquecido. Comeu outro sanduíche de carne defumada e olhou as horas no seu novo relógio de pulso. Tinham se passado exatamente dez minutos desde que ouvira Jeffrey deixar a sua sala e bater a porta de segurança.

Agora estava sozinho, com apenas a escuridão e muito possivelmente o fantasma do pirata Olho de Sangue para lhe fazer companhia.

Archie sacudiu as migalhas das roupas, guardou o resto dos sanduíches na mochila e a pendurou nas costas. Virou a maçaneta e imediatamente se lembrou de que estava trancado ali. Disse a si mesmo que ainda não havia necessidade de en­trar em pânico, pois no bolso da calça estava a chave de apa­rência estranha que encontrara dentro do relógio de pêndu­lo. Sentia-se seguro de que a chave era a resposta, mas ela era estreita demais e dançava na fechadura. Então seu dedo en­controu um pequeno entalhe na haste da chave. Quando o pressionou, pequenos pinos em forma de setas pularam fora da ponta para preencher a fechadura exatamente. Ele se lem­brou das palavras em um dos cartões que Rufus lhe enviara: “Destranque a prisão do medo”. Ele virou a chave.

“Yes!”, sussurrou quando a porta se abriu. Ele pressionou de novo o entalhe na chave e as pequenas setas se recolheram para dentro da haste. Se a chave servia em qualquer fechadura no banco, então a tarefa que tinha de cumprir seria fácil. Saber disso o fez sentir-se melhor.

Ele dirigiu o facho da lanterna para o corredor, esperan­do não encontrar a figura fantasmagórica do pirata Olho de Sangue espreitando em um canto escuro. Sem ninguém à vis­ta, ele caminhou rapidamente até os interruptores de luz, no topo da escada que o levaria até o subsolo. Mas, quando os acionou, o corredor e a escadas permaneceram nas trevas.

“Oh, não!”, disse ele, tentando mais uma vez. “Acabou a força!” Teria de descer para o subsolo contando apenas com a luz da lanterna. Olhou por cima do ombro para a escuridão que se estendia atrás dele. Olhou escada abaixo para o breu à sua frente, mas não podia desistir agora. “Não estou com medo, não estou com medo”, ficou repetindo para si mesmo enquanto começava a descer a escada. Mas de fato estava com medo dos lamentos lúgubres que chegavam a ele pelos enca­namentos e grelhas de ventilação. Seria o vento ou alguma outra coisa que estava produzindo aqueles gemidos?

Quando chegou ao último degrau, dirigiu o foco ao longo de todo o corredor, respirou fundo e correu para a caixa-forte, os tênis fazendo um estranho som de palmadas contra o piso de linóleo. Quando chegou à porta de metal estava tremendo tanto que precisou tentar um par de vezes até encontrar o en­talhe na chave para liberar as setas de metal. Mas para seu alívio a porta se abriu de primeira e ele entrou.

Estava frio e havia um cheiro úmido de noite. Archie agi­tou a lanterna de um lado para outro para iluminar as som­bras antes de dirigir-se ao cofre número 333: o cofre do seu pai. Ele o abriu com a chave, sentindo um misto de medo e excitação quando pôs a caixa metálica no chão, e depois um temor trêmulo ao erguer a tampa.

Ela continha uma série de envelopes de tamanhos diferen­tes, que ele foi juntando na mão até deparar com o fundo da caixa. Não havia relógio nem pé de coelho numa corrente de ouro. Soltou um suspiro desapontado e, em sua frustração, jo­gou os envelopes no chão, com lágrimas brotando dos olhos.

Para se consolar, pegou um grande pedaço de rã de cho­colate quebrada na mochila, arrancou o alumínio que o envol­via e enfiou o pedaço inteiro na boca. Enquanto comia, sentiu enjôo. Não apenas por causa do chocolate, mas porque não tinha idéia de onde mais procurar o relógio e o pé de coelho.

Enquanto isso, o estranho ulular no corredor estava fi­cando mais alto e o ruído nos encanamentos agora parecia um trem expresso. Ele começou a recolher os envelopes. Ca­da um deles ostentava a caligrafia do seu pai identificando o conteúdo: seguro do carro, seguro-saúde, e cerca de meia dú­zia identificados como seguro de vida. Então deparou com um simples envelope marrom contendo algo redondo e du­ro — como uma moeda, ou poderia ser um relógio? Ele enfiou a mão dentro do envelope e puxou uma medalha de ouro em uma fita com as cores do arco-íris. Preso a ele, por um alfinete de segurança, havia um pequeno certificado presenteado pelo Conselho Comunitário de Westervoe a Jeffrey Stringweed. Era datado de 12 de maio de 1976; um mês antes do décimo ani­versário do seu pai. Archie começou a ler os detalhes.

“Por um ato de bravura desprendida que resultou no salvamento da vida do menino de treze anos Herbert Bain, Quoybanks, Westervoe...”

“Herbert Bain?”, disse Archie. “O pai de Stewart e Brian Bain? Meu pai é um herói!”

Ele continuou lendo: “... mergulhando e trazendo-o à praia, onde procedeu à ressuscitação salvadora que resultou em plena recuperação”.

Archie olhou de novo para a medalha de ouro. Teria a Sentinela a confundido com o relógio quando examinou a cai­xa naquela manhã? Embora estivesse orgulhoso do ato de bravura do seu pai no passado, naquele momento precisava do relógio e do pé de coelho mais que qualquer outra coisa. Foi enquanto estava tentando imaginar o que Rufus faria no seu lugar que teve uma idéia. Devolveu tudo à caixa, tran­cou-a dentro do cofre, depois prosseguiu para o cofre núme­ro 338. O que quer que Rufus tivesse posto dentro da sua própria caixa poderia lhe dar uma pista sobre o que deveria fazer a seguir.

Usando a chave de ouro ele abriu o cofre e uma bola de luz verde disparou para fora. Archie sorriu levemente com a confortadora presença de uma Sentinela e voltou a atenção para a caixa de segurança. Ela continha um pequeno guarda-jóias de madeira, com uma fechadura de segredo em latão. Archie sacudiu a caixa e ela fez barulho, mas sem saber o se­gredo não conseguiria abri-la. A caixa de segurança também continha um rolo de papel-pergaminho preso por uma fita vermelha. Ele desamarrou o nó e, quando começou a desen­rolar o papel, seus olhos se arregalaram de surpresa. As pa­lavras “Brasão da Família Stringweed” estavam escritas em grandes letras atravessando a página. Ele desenrolou mais o pergaminho até aparecer a ilustração de uma adaga do lado de fora de um torreão de castelo e as palavras em latim Semper fortitudo em um estandarte sustentado no alto por duas águias.

“Semper fortitudo”, disse ele baixinho, enquanto desenro­lava o pergaminho ainda mais, e encontrava a árvore genealógica da família Stringweed.

Embaixo havia uma grande quantidade de texto manus­crito em tinta preta. As letras eram pequenas e decorativas, tornando difícil ler à luz da lanterna, mas Archie decifrou pa­lavras suficientes para deixá-lo de olhos arregalados perante o conhecimento exposto diante dele. Estava ainda tentando absorver tantas novas informações quando ouviu um ruído de vidro se quebrando em algum lugar dentro do banco. Lo­go depois veio o som da porta da caixa-forte se abrindo len­tamente com um rangido.

O coração de Archie, que já estava batendo forte, come­çou a bater ainda mais alto. “Capitão Olho de Sangue?”, ele sussurrou, enquanto aguardava pelo surgimento da terrível aparição na porta. Quando isso não aconteceu, ele rapida­mente devolveu o pergaminho e a caixa de jóias para dentro da caixa do cofre e a trancou. Era hora de sair do banco. O re­lógio e o pé de coelho não estavam lá e ele precisava encon­trar Rufus. A Sentinela, nesse meio-tempo, estava flutuando acima da sua mochila aberta, como que tentando lhe dizer para olhar ali dentro.

Archie encontrou os óculos de visão noturna que George lhe dera de aniversário e os colocou. Também agarrou as bo­las de gude de cavaleiros que ganhara de Sid e as pôs no mes­mo bolso do blusão em que estava a chave de ouro.

“Munição”, disse para si mesmo.

Sentiu-se muito mais feliz agora que tinha a Sentinela por companhia, e com os óculos de visão noturna sentiu-se muito mais confiante nas trevas. De qualquer modo, decidiu manter a lanterna acesa até estar seguro do lado de fora de novo.

Archie estava prestes a deixar a sala quando a porta se abriu e bateu contra a parede. Medo e surpresa o mantiveram enraizado no chão. Ficou olhando para o espaço escuro e va­zio além da porta — estava preenchido por um estranho la­mento que se aproximava. A Sentinela desapareceu atrás da porta. Archie entendeu sua mensagem, apagou a lanterna e se escondeu lá também, mal ousando respirar. Ele pôs a mão no bolso da calça, tirou a adaga de lá e imediatamente sentiu uma forte onda de coragem. E ele iria precisar, porque o la­mento no corredor soava agora como um brado de batalha — o mesmo lamento ameaçador que ouvira naquela manhã, na garagem de barcos de Norrie Bew. O vento fora-da-lei estava ficando mais forte e mais sinistro, e estava no corredor, blo­queando a sua rota de fuga.

Ele pôs a lanterna no bolso do blusão para livrar as mãos e então, agarrando a adaga com força, gritou: “Estou aqui dentro!”.

Houve um guincho lancinante e o vento entrou violenta­mente na sala. A Sentinela voou para o alto e por cima da porta, enquanto Archie deslizava em volta dela com a inten­ção de fechá-la, mas o vento o agarrou e ele se sentiu sendo jogado no chão, incapaz de se mover contra o peso que lhe apertava o peito. Procurou pela Sentinela e viu que o vento a deixara com a forma de uma garra verde fluorescente que vi­nha agora velozmente em sua direção. No instante seguinte a adaga foi arrancada da sua mão e levada para cima, em d-reção ao teto.

“Huigor não pode ser vencido...”, ele ouviu o vento dizer. “...Você desiste?”

“Não!”, arquejou ele, e a garra apontou a lâmina em sua direção.

Archie enfiou a mão no bolso do blusão e, quando a adaga veio voando para cima dele, lançou as bolas de gude e, embora não tivesse essa intenção, a chave de ouro também. Ouviram-se sons de vidro batendo contra metal, e talvez fos­se efeito dos óculos de visão noturna, mas pareceu a Archie que os cavaleiros não estavam mais dentro das bolas de gu­de, e sim girando em volta da adaga com suas espadas e lan­ças, atacando-a e arrancando-a do aperto da garra. A adaga finalmente caiu no chão com um ruído metálico. Archie es­tendeu a mão para o lugar onde ela caíra e a chave de ouro caiu na sua palma aberta.

“Semper fortitudo”, ele se viu dizendo.

Imediatamente o vento o largou e subiu em espirais para o teto, com a garra no centro.

Archie apanhou a adaga e conseguiu pôr-se em pé, mas a garra já vinha voando contra ele de novo.

Ele apontou a adaga para ela. “Semper fortitudo!”

O vento soltou um guincho agonizante e amainou, dei­xando a garra a flutuar no meio do ar.

Archie foi cambaleando de costas em direção à porta.

“Você desiste?”, perguntou uma voz por cima do seu ombro.

Ele fez meia-volta. “Nunca”, disse para as trevas.

A força do vento voltou rapidamente. “Esteja avisado”, ele gemeu. “Huigor irá sugá-lo e lançá-lo para as profundezas da noite”.

Archie correu para a porta com a garra em seu encalço. Quando atravessou a soleira, ele se virou e apontou a adaga. “Semper fortitudo”, entoava seguidamente.

O vento suspirou e enfraqueceu, o que permitiu à Sen­tinela transformar-se de garra em mão verde fluorescente, que bateu a porta, trancando o vento dentro da caixa-forte e deixando Archie em segurança do outro lado.

Archie olhou para o buraco da fechadura e o viu encher-se de uma intensa luz verde-escura; por enquanto, pelo me­nos, a Sentinela estava impedindo o vento de escapar. A por­ta começou a chacoalhar e a bater, e guinchos furiosos vinham de dentro da sala, mas ele já tinha disparado pelo corredor em direção à escada. Por toda a volta podia ouvir o ulular da tempestade lá fora, através dos encanamentos e das saídas de ar, e quando ele chegou ao topo da escada uma corrente fria agarrou seus tornozelos.

Archie passou correndo pela sala do seu pai e uma corren­te gélida avançou contra ele por debaixo da porta fechada. Archie sentiu-a beliscando seu rosto, tentando desacelerá-lo, mas continuou correndo, através da porta de segurança e pa­ra dentro da área de recepção, onde destrancou o primeiro conjunto de portas. Quando abriu as portas da entrada prin­cipal uma rajada de vento passou rugindo para dentro do banco, enquanto ele corria para fora, fechando a porta e trancando-a novamente.

Archie parou nos degraus do banco, tremendo, sem fôle­go e com muito medo.

Não tinha o relógio nem o pé de coelho. Nem mesmo sa­bia onde estava Rufus ou por onde começar a procurá-lo. O que faria? Quem poderia ajudá-lo agora?

 

Jeffrey e Cecille estavam no Land Rover, seguindo em di­reção à praça da aldeia. Jeffrey dirigia enquanto Cecille segu­rava o painel, como se quisesse forçar o veículo a andar mais depressa. Estava usando o seu casaco vermelho e o chapéu de pele com os protetores de orelhas.

“Rufus não tinha o direito de contar a Archie sobre a maldição”, disse ela. “Isso era nossa obrigação”.

“Mas nós não lhe contamos, contamos? Talvez haja se­gredos demais na nossa família”.

Cecille lançou-lhe um olhar culpado e depois mudou de assunto. “Aonde estamos indo?”

Jeffrey não respondeu a pergunta dela. Em vez disso, disse: “Vamos esperar que não seja tarde demais”.

Cecille não gostou do que estava ouvindo. “Tarde demais para o quê?”

Eles fizeram outra curva e ouviu-se o chiado dos pneus por cima do vento ululante.

Jeffrey decidira adiar o momento de contar a Cecille so­bre Huigor. Não via sentido em deixá-la preocupada. Em vez disso, contou-lhe que Rufus, e muito possivelmente Archie, planejavam entrar no banco fora do horário de expediente.

Cecille olhou para ele com o queixo caído, considerando aquela última reviravolta no mistério de Rufus. O Land Rover atingiu uma saliência na estrada e Cecille foi jogada contra o teto, o que pareceu ajudá-la a recuperar o seu arrebatamento usual.

“Eu sabia que Rufus estava aprontando uma das gran­des. É por isso que ele voltou, não é? Para nos roubar”.

Jeffrey estava balançando a cabeça. “Ele não pretende rou­bar o banco. Quer apenas ter acesso a ele. A última anotação no diário de Rufus foi domingo à noite. Ele menciona ter de descobrir um jeito de entrar no banco para examinar a caixa-forte, com a possibilidade de conduzir uma busca depois do expediente...”

“Exatamente como eu suspeitava”, interrompeu Cecille. “Todos aqueles cartões e presentes eram instrumentos de corrupção. Ele não é nada mais que um criminoso”. Sua voz confiante de repente deu lugar a um lamento. “Oh, Archie, Archie, onde está você?”

“Sshhh”, chiou Jeffrey. “Não consigo pensar com clareza se você fica com essa baboseira. Precisamos manter a calma. Pensar com clareza”.

Ele estava tão preocupado que acabou virando a esquina da praça depressa demais e teve de meter o pé no freio para evitar a árvore de Natal, que estava agora sendo jogada pelo vento de um lado para outro no meio da rua. A árvore ainda estava presa a um longo pedaço de corda que se enroscara em uma grade e demandava a força de três homens para se­gurá-la contra o vento. Um quarto homem estava tentando desenroscar a corda, e quando o carro parou ele se voltou e piscou incomodado com o clarão dos faróis do carro. Jeffrey abaixou a janela e o carro se encheu instantaneamente com uma corrente fria. Stewart, o caixa do banco dos pés esquer­dos, caminhou até eles, quase tropeçando na corda que esta­va tentando desembaraçar. Ele sorriu, a franja loira desbota­da se agitando na frente dos olhos.

“Olá, senhor Stringweed”. Ele deu uma olhada rápida para dentro do carro. “Noite tempestuosa. Ouvi dizer que a estrada para Breckwall está bloqueada, caíram muitas árvo­res”. Então, notando que uma pessoa em particular estava faltando, comentou: “Esqueceu-se do Archie?”. Ele sorriu pa­ra a expressão neutra de Jeffrey. “Não o deixou esperando no banco, deixou?”

“O quê?”, disse Jeffrey.

“Você viu Archie no banco?”, disse Cecille.

Stewart olhou para Jeffrey cautelosamente. “Não está lembrado? Ele entrou na sua sala logo antes da hora de fe­char”. A voz dele foi sumindo. “... Não entrou?”

Jeffrey abriu a porta do carro com um empurrão, fazen­do Stewart voar longe, e, à luz dos faróis do carro, pulou por cima da árvore de Natal e atravessou a praça correndo em di­reção ao banco, seu comprido casaco preto se enfunando co­mo as asas de um morcego gigante. Ele já tinha as chaves na mão quando subiu os degraus correndo, e momentos depois estava dentro do edifício com Cecille na sua cola. Em seguida, o estrondo da porta sendo violentamente fechada pelo vento ecoou por todo o edifício escuro.

“Espere por mim”, gritou Cecille, seguindo a trilha ama­rela da lanterna de Jeffrey.

Eles passaram juntos pela porta de segurança para o cor­redor, dirigindo o facho da lanterna para todos os cantos e abrindo todas as portas no caminho. Quando chegaram ao depósito de material de escritório, Jeffrey lembrou-se do bri­lho através do buraco da fechadura que ele tinha certeza de ter visto antes. Desta vez, não hesitou em girar a maçaneta e pareceu aliviado quando a porta se abriu.

A primeira coisa que notou foram as migalhas do san­duíche de carne defumada em cima de uma caixa de papel para fotocópias.

“Ele esteve aqui”, disse a Cecille.

A próxima porta que abriu foi a da sua própria sala, e uma corrente de ar passou por ele quando dirigiu a luz da lanterna para os quatro cantos da sala. O azevinho que deco­rara o relógio de parede estava agora caído no chão e cerca­do por vidro estilhaçado, mas não havia sinal de Archie.

“Siga-me”, disse ele, correndo escada abaixo para o sub­solo.

A porta para a caixa-forte estava batendo e chacoalhan­do furiosamente, e atrás dela os dois puderam ouvir estra­nhos lamentos e guinchos.

“Ele deve estar trancado lá dentro”, disse Jeffrey. “Es­tamos indo, Archie”, gritou ele, enquanto Cecille passava à sua frente e empurrava a porta, que se abriu. “Mas esta porta estava trancada”, Jeffrey tentou dizer através da imensa raja­da de vento que passou impetuosamente pela porta e esca­pou pelo corredor.

“Archie!”, chamou Cecille para a sala vazia. “O que ele estaria procurando lá dentro?” Seus olhos estavam arregala­dos, e iluminados pela luz da lanterna de Jeffrey. “Por que Archie iria querer roubar o banco? O que você está esconden­do de mim?”

Mas Jeffrey estava ocupado com outra coisa. Estava apon­tando a lanterna para o chão, para alguma coisa que brilha­va junto ao seu pé. Ele se curvou e pegou um pedaço de papel-alumínio verde-claro, e quando o desenrolou um grande olho de rã olhava para ele.

O pequeno grupo que estivera tentando segurar a árvo­re de Natal na praça estava aguardando quando Jeffrey e Ce­cille emergiram do banco. Stewart olhou por cima do ombro de Jeffrey na expectativa.

“Onde está Archie?”, perguntou quando a pesada porta se fechou. “Nenhum sinal dele, então?”, persistiu, e então, com um sorriso falso para si mesmo, acrescentou: “O senhor não o esqueceu de novo, esqueceu?”.

Jeffrey estava tentando parar de tremer. O medo pelo pe­rigo que Archie poderia estar passando certamente se mani­festara, mas ele também estava sentindo algo mais, algo que não sentia havia muito tempo. Virou-se para Stewart e disse: “Arranje mais alguém para ajudar e cubra a janela da minha sala com tábuas. Depois, sugiro que vá para casa e descanse um pouco. Quero você na minha sala amanhã cedo, às oito e meia, para discutirmos a sua atitude”.

A franja de Stewart estava achatada pelo vento e cobria seus olhos, mas ele ficou tão surpreso com a nova e inespera­da autoridade de Jeffrey que, em vez de empurrar o cabelo para o lado, viu-se batendo uma nervosa meia-continência.

“Si... si... sim, senhor, senhor Stringweed”, gaguejou. “Vou dar um jeito na janela agora mesmo”, e bateu outra nervosa meia-continência.

Cecille, enquanto isso, tinha pulado de volta para dentro do Land Rover. “O que está acontecendo?”, perguntou ela quando Jeffrey entrou. “Rufus está com Archie?”

Jeffrey sacudiu a cabeça. “Stewart mencionou árvores caídas na estrada para Breckwall. Rufus deve ter ficado reti­do lá”.

Cecille enfiou a cabeça entre as mãos e quando as lágri­mas começaram a rolar ela procurou um lenço de papel nos bolsos. Como não achou, abriu a pasta de Jeffrey, que estava no chão, aos pés dela. A essa altura já estava fungando alto.

“Preciso de tempo para pensar com clareza”, disse Jeffrey enquanto esfregava a cabeça, tentando extrair sentido dos pensamentos que lhe inundavam o cérebro. “Na ida estáva­mos muito apressados”, disse ele um momento depois. “Po­demos facilmente não ter reparado em Archie caminhando pela estrada”.

Cecille assentiu e Jeffrey deu partida no motor. “Aposto que a esta altura ele já está em casa”. Ele voltou-se para a mu­lher. “Enfim, aonde mais ele poderia ir?”

Jeffrey foi subitamente cegado por um clarão intenso. Ele piscou para se proteger da luz e viu que Cecille estava apon­tando a lanterna para ele. Para seu desgosto, na outra mão dela estava o pé de coelho na corrente de ouro. No colo dela estava uma velha bolsa com cordões de puxar. Ele piscou de novo e quando sua visão clareou pôde ver bem a expressão da mulher. Era uma expressão de nojo.

“Espero que isto não seja o que estou pensando que é, Jeffrey”.

“É exatamente o que você está pensando que é”, disse ele, sabendo que ela acabara de tirar a bolsa da sua pasta. “Nós combinamos...”

“Não”, ele revidou. “Você pediu que eu me livrasse dis­so, coisa que fiz... Eu guardei no banco”.

“Bem, isto não vai voltar para casa”. Ela estava seguran­do a corrente como se segurasse um rato morto pela cauda. Olhou dentro da bolsa e achou o relógio. “É atrás disso que Ru­fus estava? Para isso ele entrou no banco?”

Jeffrey assentiu.

Cecille pareceu ainda mais confusa. “Mas por quê?”

Uma forte rajada de vento balançou o Land Rover e um clarão de relâmpago distante se bifurcou através do céu.

“Vamos para casa”, disse Jeffrey. “Para ter certeza de que Archie não está lá sozinho esperando por nós. Então explica­rei tudo”.

Cecille pareceu se acalmar com a perspectiva de ir para casa e a possibilidade de encontrar Archie lá.

Eles seguiram de volta pelas ruas tortuosas. Jeffrey man­teve a velocidade baixa para que Cecille pudesse pôr a cabe­ça para fora da janela e iluminar os becos escuros com a lan­terna, para o caso de Archie ainda estar a caminho de volta para a Fronteira dos Ventos. Embora eles vislumbrassem ros­tos ocasionais nas janelas, árvores se agitando, portões osci­lando e uma ou duas pessoas forçando passagem contra o vento a caminho de casa, não havia sinal de Archie.

“Rápido, feche a janela”, gritou Jeffrey quando uma gran­de onda surgiu acima do quebra-mar, na frente deles.

Os limpadores de pára-brisa estavam lutando para afas­tar a água quando Cecille perguntou: “Por que Archie não nos contou que sabia da maldição?”.

“Não sei com certeza”, disse Jeffrey. Mas posso lhe dizer que ele ainda não foi amaldiçoado”.

Cecille ficou aliviada, mas confusa também. “Mas a mal­dição sempre cai no décimo aniversário do filho primogênito”.

“Aparentemente não. De acordo com o diário, a maldição cai quando chega um tornado de nome Huigor, o que pode ocorrer no décimo aniversário ou logo depois. O tornado é esperado amanhã. Archie e Rufus planejam quebrar a maldi­ção juntos, mas Archie esteve no banco sozinho e parece pro­vável que ele vá tentar fazer isso sem a ajuda de ninguém”.

“Mas como Archie pode quebrar a maldição sozinho?”, quis saber Cecille. “Ele só tem dez anos!”

Eles tinham se afastado do quebra-mar. Jeffrey parou o Land Rover no acostamento da estrada e voltou-se para olhar para Cecille.

“A solução para Archie quebrar a maldição está na sua mão”.

Cecille ergueu a lanterna. “Isto?”

“A sua outra mão”, disse Jeffrey solenemente.

Cecille ergueu a outra mão, que estava vazia.

“A bolsa cinzenta de cordões”, disse Jeffrey. “Archie está com todos os outros presentes que Rufus mandou. Eu verifi­quei antes de sairmos”.

Cecille estava se esforçando muito para esconder a irri­tação. “Por que você não os mandou de volta para Rufus?”

“Eles são parte da minha história”.

“Uma história amaldiçoada!”, retrucou ela.

“Você sabe, Cecille, houve ocasiões recentes que me fi­zeram pensar que você não deseja um futuro melhor para Archie”.

Cecille pareceu chocada. “Isso é ridículo! Sou a mãe dele. Só quero superprotegê-lo”.

“Escute só você mesma, você disse ‘superprotegê-lo’”. “Não, não disse”.

“Sim, você disse! Você disse ‘só quero superprotegê-lo’. Por quê?”

Os olhos de Cecille estavam arregalados, olhando para o marido. Já era suficientemente ruim que Archie estivesse de­saparecido, mas agora Jeffrey estava se comportando de um jeito muito estranho.

“Isso tem alguma coisa a ver com o diário?”, ela pergun­tou. “Se tem, eu quero que você me conte agora”.

A paciência de Jeffrey estava chegando ao fim. “De acor­do com o diário de Rufus, cada um dos presentes é um talis­mã”, explicou ele. “Cada talismã pertenceu a um ancestral dos Stringweed e está destinado a proteger Archie contra aquele tornado. Foi por isso que tirei o relógio e o pé de coe­lho do banco hoje à tarde. Depois de ler o diário, me dei conta de que ele precisava deles. O tornado não era esperado até amanhã, mas...”

Cecille deu um profundo suspiro de alívio. “Então temos mais algumas horas?”

Jeffrey balançou a cabeça. “Ele parece estar adiantado”.

“Quão adiantado?”

Uma rajada de vento balançou o Land Rover.

“Ele pode chegar a qualquer momento”.

Cecille olhou através do pára-brisa para a noite fustiga­da pela tempestade lá fora.

“É tudo culpa de Rufus! Se não fosse ele, ainda estaría­mos vivendo em bem-aventurada ignorância”.

“Não há nada de bem-aventurado em viver com medo”, afirmou Jeffrey com voz inesperadamente alta. “Pretendo fa­zer tudo o que puder para salvar Archie desse destino, por­tanto pare de se lamentar e me dê essa bolsa”.

Ela balançou a cabeça.

“Eu insisto”, disse Jeffrey, e esticou a mão mais para perto.

A mandíbula inferior de Cecille estava abrindo e fechan­do de novo de uma maneira confusa. “Archie ainda é uma criança. Ele não pode batalhar contra um tornado...” Sua voz foi sumindo enquanto olhava para a mão estendida.

“A bolsa!”

Ela tomou um fôlego trêmulo. “Eu não posso... eu... eu a joguei janela afora

 

Em vez de caminhar de volta pela rua principal e arris­car ser visto, Archie cortou caminho através de vielas estrei­tas sem iluminação e jardins escuros usando os seus óculos de visão noturna. Ele decidiu não usar a lanterna, pois pode­ria atrair atenção para si. Quinze minutos depois estava à porta de outra pessoa que sabia sobre Huigor. Para surpresa de Archie, Ezekiel parecia estar esperando por ele.

Ele olhou para Archie de cima a baixo e então enfiou a cabeça para fora, no vento.

“Você está sozinho?”

Archie assentiu.

“Certo”, disse Ezekiel, “estou pronto quando você es­tiver”.

Ele estava usando o seu capacete de proteção, um casaco com uma larga faixa verde fluorescente atravessando o peito e prendedores de calças de ciclista em volta dos tornozelos, mas foi a sua velha motoneta de 50 cilindradas que ele puxou para fora do vestíbulo e pela plataforma de madeira ao lado do degrau da porta. Havia luz que vinha do lampião a óleo na janela da sala de estar, apenas suficiente para permitir-lhe encontrar a ignição e ligar o motor. Ele entregou a Archie um segundo capacete.

“Pode subir”, gritou ele por cima do rugido do vento, dos rangidos do cata-vento em movimento e das notas errá­ticas de uma campainha de vento. “E segure-se firme”, ele acrescentou.

Archie agarrou-se ao casaco de Ezekiel e pulou para ci­ma da motoneta. Teria preferido se Rufus estivesse com eles, mas pelo menos não estava mais sozinho, e ficou aliviado ao descobrir que Ezekiel parecia saber aonde estava indo. Eles partiram colina acima numa velocidade tranqüila de cinqüen­ta quilômetros por hora, com um vento de mais de cem qui­lômetros por hora empurrando-os o tempo todo para a fren­te e além da casa de Archie. Archie manteve a cabeça baixa, só dando uma olhada rápida para a janela do seu quarto. Estava agora fechada, o que significava que sua mãe, e por­tanto o seu pai, sabiam a essa altura que ele fora embora, e como o Land Rover não estava estacionado em frente da casa ele adivinhou que eles tinham saído para procurá-lo. O único par de olhos que o viu passando pertencia ao cão do vizinho. Ele viu os dois por cima do portão, a boca abrindo e fechan­do, latindo furiosamente para o vento.

O vento soprava sem parar, impelindo Archie e Ezekiel em direção ao topo da colina, até a estrada dar em uma trilha estreita. A viagem era agora muito mais sacolejante e às vezes Ezekiel tinha de parar a motoneta completamente quando uma rajada especialmente violenta ameaçava derrubá-los. Por fim, a trilha ficou coberta demais de vegetação e eles pararam ao lado de um decadente estábulo abandonado. Manobraram a motoneta para dentro do estábulo e se prepararam para an­dar pelo resto do caminho, conservando os capacetes como proteção contra as rajadas geladas. Archie tirou a sua lanterna do bolso do blusão, acendeu-a e eles caminharam para dentro da noite.

A frente deles estendia-se uma área pantanosa, e com o vento soprando tão forte era difícil caminhar ereto. Eles incli­naram a cabeça bem baixo, forçando a passagem através das rajadas, empurrando um pé na frente do outro, mas seu ritmo era lento, e não ajudava em nada Ezekiel ficar tropeçando e enfiando os pés em tocas de coelho.

Apesar de as pilhas da lanterna estarem ficando fracas, Archie podia distinguir a cerca dilapidada do velho campo de pouso, o que era muito bom já que a exaustão de Ezekiel sig­nificava que Archie precisava mais ou menos arrastá-lo até lá.

“Não falta muito agora”, gritou ele, embora não tivesse certeza de que Ezekiel podia ouvi-lo, mas então o velho ba­lançou a cabeça. Outra preocupação de Archie era se o hangar poderia oferecer-lhes abrigo suficiente. Já estava sentindo os borrifos do mar no rosto: finas partículas de água sopradas para a terra das ondas enormes que se quebravam contra os penhascos. Ele lambeu os lábios e sentiu o gosto de sal, e es­perou que a onda gigante que Huigor estava criando ainda estivesse longe.

Eles pularam por cima do que restava da cerca e então, depois de conseguir ultrapassar o pavimento rachado de con­creto e a vegetação selvagem, entraram no hangar.

Ezekiel desabou contra uma parede e escorregou para o chão. Ele parecia realmente muito velho, especialmente pelo modo como sua cabeça caíra sobre o peito, e sua respiração se tornara rápida e irregular. Archie sentiu um novo medo; um tornado era uma coisa, um corpo morto era outra.

“Ezekiel? Você acha que consegue andar só mais um pou­co? Olhe!” E ele dirigiu a lanterna para o avião de Rufus.

Ezekiel pareceu se animar o bastante para ir cambalean­do até lá. Archie tirou a chave de ouro do bolso, destrancou a porta do passageiro e empurrou Ezekiel para dentro. Então destrancou a porta do piloto e subiu. Pôs a chave na ignição, tirou o capacete de proteção e abriu a mochila. Ezekiel estava claramente precisando de energia, portanto lhe deu alguns pedaços da rã de chocolate.

Para alívio de Archie, Ezekiel se recuperou de modo no­tavelmente rápido e, quando sua respiração começou a se acalmar, Archie perguntou: “O que devemos fazer agora?”.

“Não tenho idéia”, arfou o velho com a boca cheia de chocolate. “Suponho que vamos descobrir quando Rufus aparecer”.

Archie mal pôde agüentar o desapontamento. “Mas Ru­fus não vem. Pensei que você soubesse por que estamos aqui!”

Eles se entreolharam, depois olharam para fora pela ja­nela, em direção ao buraco escancarado no lugar onde outrora ficavam as portas do hangar.

O avião deu uma sacudida violenta, como que para lem­brá-los da chegada iminente de Huigor e do desamparo de sua situação.

“Por que você nos trouxe para cá?”, perguntou Archie.

Ezekiel continuou olhando pela janela. “Vi vocês dois se esgueirando para fora, tarde na outra noite. Fiz uma peque­na excursão investigativa até aqui sozinho e descobri o avião. Quando Rufus disse que reforços de tropas estavam voando para a rocha do Musgo, supus que era para lá que devería­mos ir”.

Archie tentou permanecer calmo.

“Rufus estava falando de gaivotas do gelo! Não de tropas de verdade!”

Ezekiel voltou-se e olhou para ele.

“Então ele não vem?”

Archie balançou a cabeça e ambos voltaram a olhar atra­vés das portas para a escuridão tempestuosa além delas.

“Semper fortitudo?”, disse ele, esperançoso.

“Latim”, informou Ezekiel. “Quer dizer ‘coragem até o fim’”.

Archie ficou impressionado.

“É o lema dos Stringweed”. Enquanto pensava no brasão da família e no lema suspenso no alto por duas águias, teve uma idéia. “A gaivota do gelo me contou que eu tinha amigos que me ajudariam no mo­mento certo. Bem, onde eles estão? Preciso deles agora”.

Nem bem ele pronunciara essas palavras quando uma pancada surda atingiu o teto da cabine. Alguma coisa come­çou a se mover acima deles em direção à frente do avião. Archie se inclinou para olhar e ao mesmo tempo um grande olho verde deslizou para baixo pelo pára-brisa.

Archie recostou-se surpreso, mas a lanterna ainda apon­tava diretamente para a janela, iluminando a cabeça de uma grande gaivota do gelo carregando uma bolsa no bico. Ela co­meçou a bater no vidro. Archie abriu a porta e se inclinou pa­ra fora para pegar a bolsa que lhe estava sendo oferecida. O que havia dentro o fez perder o fôlego. Muito cuidadosamente ele puxou para fora a corrente com o pé de coelho e a pendu­rou em volta do pescoço. Então tirou também um relógio de ouro e, depois de examiná-lo, prendeu-o com o alfinete no seu casaco.

“Você sabe o que isto significa, não sabe, Ezekiel? Estou com todos os meus presentes!”

Ezekiel não tinha idéia do que Archie estava falando, mas como o garoto parecia estar no controle da sua precária situação, achou muito razoável perguntar: “O que fazemos agora?”.

Archie, no entanto, não sabia, mas estava certo de que a resposta se encontrava nos cartões. Ele começou a examiná-los, relendo as mensagens. Então tirou todos os presentes da mochila e começou a identificá-los com os cartões.

O gelo aguarda o calor da incandescência certamente se apli­cava à lanterna. Ele decidiu que o cartão que dizia Olhe no olho da tempestade se referia à lente de aumento.

Corra com a velocidade do vento era o pé de coelho.

Não meça o tempo, deixe as mãos encontrarem o caminho. De­via ser o relógio.

Destranque a prisão do medo só podia ser a chave.

Ele levou a pequena flauta de madeira aos lábios e so­prou umas poucas notas aleatórias. Instantaneamente mais três gaivotas do gelo pousaram sobre o avião com uma pancada surda. Ele considerou isso por um momento e soprou mais uma nota cautelosa. Outra gaivota do gelo pousou sobre a asa ao seu lado.

“As nuvens se reúnem com a música. Eu posso convocar as tropas com a flauta! Estamos salvos, Ezekiel”.

Tudo de que precisava agora eram os óculos de aviador. Ele voltou-se e dirigiu o facho da sua própria lanterna para o assento traseiro do avião. Lá estavam os óculos, e ele os er­gueu triunfante enquanto lia o derradeiro cartão.

“Aquele que possui visão vê além do horizonte”.

“É verdade, sem dúvida”, disse Ezekiel, “e quando eu recuperar o fôlego vamos dar um jeito nesse tornado”.

Archie olhou para Ezekiel, que estava agora comendo um sanduíche de carne defumada, com casca e tudo. Ele cer­tamente não parecia forte o bastante para agüentar um torna­do. Para protegê-lo, Archie sabia que teria de chegar o mais longe possível, e depressa.

Ele pendurou os óculos de aviador no pescoço, encheu os bolsos do casaco com a lente de aumento, a lanterna e a flauta, e respirou fundo. O frio na barriga continuou quando ele abriu a porta da aeronave.

“Aonde você está indo?”, perguntou Ezekiel com a boca cheia de sanduíche de carne defumada.

“Pegar o presente de Natal do meu pai”, disse Archie, e ele fechou a porta do avião, deixando lá dentro um Ezekiel que parecia muito confuso.

 

Westervoe parecia uma cidade-fantasma quando Rufus passou a meio galope pelas ruas desertas e sem iluminação. Com a perspectiva de árvores caindo, telhados sendo arran­cados e mares revoltos inundando as ruas, todo mundo esta­va dentro de casa, abrigando-se de uma tempestade que ain­da não havia atingido o seu pico. Os relâmpagos iluminavam o céu enquanto Rufus cavalgava para dentro da praça, e ele suspirou de alívio ao distinguir os contornos de alguém en­colhido na entrada do banco.

“Archie?”, gritou ele cavalgando escadas do banco acima e pulando do cavalo.

A figura endireitou-se e Rufus viu, para seu desaponta­mento, que se tratava de um homem.

“Ainda não o encontrou?”, perguntou o homem. Ele es­tendeu a mão, convidando a um aperto. “Stewart Bain”, dis­se ele por baixo da sua franja agitada pelo vento. “Eu traba­lho no banco”.

Rufus apertou a mão do rapaz rapidamente e se apresen­tou. Então fez a pergunta que o preocupava.

“Archie está sumido?”

Stewart explicou a situação. “Weedy... ahn... O senhor e a senhora Stringweed estão procurando por ele. Archie esteve no banco mais cedo, mas havia desaparecido quando eles chegaram aqui. Não acredito que ele tenha ido longe nesta tempestade. Aposto que está abrigado em algum lugar seco e confortável. Gostaria de poder dizer o mesmo sobre mim”. Ele se virou e apontou para um grande buraco na janela da sala de Jeffrey. “Estou preso aqui, tentando dar um jeito na­quilo”. Ele voltou as costas para Rufus. “Imagino que você não sabe como fechar uma janela com tábuas, sabe?”

Mas Rufus já havia montado de novo no cavalo e estava a meio galope atravessando a praça, desaparecendo na noite como um assaltante de estrada no seu corcel negro.

As ondas quebravam enfurecidas por cima do quebra-mar. Pequenos botes empinavam na água, tentando se liber­tar das suas âncoras. Rufus sussurrou palavras encorajadoras ao ouvido do cavalo enquanto ele seguia cavalgando em meio às águas da inundação, e depois eles ganharam velocidade novamente e se dirigiram para a Fronteira dos Ventos.

O Land Rover de Jeffrey se fora e a casa estava às escuras, sem sequer uma lanterna ou vela para iluminar as janelas. Rufus soube então que eles ainda estavam procurando por Archie. Aonde ele poderia ter ido? Em desespero, viu-se gri­tando: “Archie? Onde está você?”.

A resposta veio de uma fonte inesperada. O cão do vizi­nho estava com ambas as patas em cima do portão e deu um único latido de advertência.

“Você tem alguma coisa para me contar?”, perguntou Ru­fus, e o cão latiu de novo.

Rufus olhou-o nos olhos e a mensagem que foi transmi­tida o fez abaixar-se e abrir o portão. “Encontre-os!”, disse ele ao cão. Então disse ao cavalo: “O mais rápido que puder. Não deixe os seus cascos tocarem o chão”.

O cavalo empinou nas patas traseiras, sem mais nenhum sinal de cansaço, e disparou colina acima a galope atrás do cão, que corria a toda velocidade.

 

Não havia lua, nem estrelas, nem luz verde tremeluzente para mostrar o caminho quando Archie saiu do hangar para dentro da noite. A única luz vinha da sua lanterna, e com as pilhas quase se esgotando havia claridade suficiente para iluminar apenas a terra em volta dos seus pés. O vento também estava mais forte, soprando direto no seu rosto co­mo se tentasse entrar dentro dele, enchendo-lhe o nariz, a bo­ca e os pulmões de ar gelado. Ele também enchia seus ouvi­dos com os guinchos, que soavam como cem aviões taxiando pela pista do campo de pouso, mas por cima de todo esse ba­rulho ele ouviu uma voz dizer: “Você desiste?”.

Archie balançou a cabeça e tentou se virar, mas o vento mudou subitamente de direção. Não estava mais puxando o fôlego dos seus pulmões, e sim fazendo-o dar meia-volta e empurrando-o para a frente.

“Oh-oh-oh”, disse ele enquanto era arrastado com uma força que mal permitia que seus pés tocassem o chão. Archie não conseguia evitar ser arrastado em direção à beira dos pe­nhascos, que estavam tão perto que ele podia sentir, ouvir e cheirar a água do mar batendo contra a face da rocha. Seus braços e mãos se agitavam descontroladamente para um la­do e para outro, tentando agarrar-se a alguma coisa, e em seu desespero ele deixou cair a lanterna.

“Socooooorrooo!”, gritou ele, mas sua voz se perdeu no rugido ensurdecedor do vento e do mar. Archie tentou gritar por socorro de novo, mas era tarde demais. De repente não havia mais chão embaixo dos seus pés, apenas negridão quando ele começou a cair, às cambalhotas e aos trambolhões, atra­vés dos borrifos gelados, em direção às pedras pontudas e ondas gigantescas lá embaixo.

Mal teve tempo de sufocar um grito de terror quando pousou pesadamente em cima de algo escorregadio e molha­do. Ficou completamente quieto, temendo que qualquer mo­vimento pudesse atirá-lo para fora da saliência em direção ao mar. Ao menos naquele momento estava seguro, mas como iria escalar de volta o penhasco no escuro, sem ajuda? Sua ca­sa parecia muito, muito distante, especialmente consideran­do que ninguém sabia onde ele se encontrava.

Estava tentando não chorar quando um relâmpago ziguezagueou, iluminando o céu, e ele viu tudo claramente. O mar abaixo parecia ter sido chacoalhado até se converter em um bando de cristas brancas. Elas vinham velozmente em dire­ção aos penhascos que se projetavam sobre eles, dentados e negros. Mas o que Archie não conseguia entender era como os penhascos estavam se movendo, passando por ele, nave­gando para longe, ao vento. Como podia ser? Ele começou a se perguntar se já estaria morto. Se estivesse, então não era nada de bom, porque aquilo não se parecia nem um pouco com a sua idéia de paraíso.

Outro relâmpago mostrou que não eram os penhascos que estavam se movendo — era o próprio Archie. Ele estava deitado em cima de uma nuvem branca e macia. Virou a cabe­ça e penas mornas roçaram sua bochecha, enquanto ele flu­tuava para cima e para a frente. Abaixo dele podia sentir o gentil sobe-e-desce de um coração batendo. Será que os anjos têm corações que pulsam?, perguntou-se. Teria preferido que o paraíso fosse mais claro, ensolarado e sem vento, mas tal­vez o anjo estivesse a caminho de lá — porém não importa quão maravilhoso o paraíso pudesse se revelar, ele não que­ria ir para lá sem os pais.

Archie sentou-se e virou para olhar o que estava deixan­do para trás, mas tudo o que pôde ver foi negridão, tudo o que pôde ouvir foram o vento e o mar. Estava com frio e molhado, o que também o deixava confuso, porque não achava que fantasmas sentissem frio. Outro relâmpago iluminou o céu e seu coração, muito vivo e pulsante, deu um pulo quan­do um grande olho verde apareceu e olhou para ele. Ele não sabia aonde estavam indo, mas ao menos por enquanto esta­va a salvo, sentado nas costas de uma grande gaivota do gelo, e para não correr nenhum risco agarrou-se com força à ave.

Sem parar, eles seguiram voando, chegando cada vez mais perto dos relâmpagos. Durante um clarão especialmen­te poderoso ele pôde ver de relance uma imensa muralha de água no horizonte que se movia em direção a eles.

A gaivota se inclinou fortemente para a esquerda. Archie ficou deitado de barriga e agarrado ao pescoço do pássaro, enterrando o rosto em suas penas. Outro clarão iluminou o horizonte e ele ousou dar mais uma olhada através das ondas. Se não estava enganado, a muralha de água mudara de dire­ção e os estava seguindo enquanto se dirigiam para a rocha do Musgo.

Eles voaram por cima dos penhascos e se dirigiram para a costa. Abaixo dele, Archie pôde ver as luzes verdes que ha­viam orientado Rufus na aterrisagem. A gaivota do gelo des­ceu planando no vento, e as pequenas luzes verdes se move­ram, tremeluziram e mudaram de forma antes de se abrigar nos arbustos. Por cima do lamento do vento ele pôde ouvir os grasnidos de muitos pássaros se comunicando. Olhou pa­ra cima, e uma cintilante nuvem branca de gaivotas do gelo mergulhava e mudava de forma, enquanto cada vez mais pás­saros começavam a se congregar.

Um ou dois passaram voando a caminho de juntar-se ao bando, seus olhos verdes brilhantes olhando nos dele, as ca­beças curvadas majestosamente enquanto distendiam as asas e elevavam-se para grandes alturas. Um pensamento ocorreu a Archie enquanto as observava desaparecer dentro da nuvem branca cintilante. Talvez as gaivotas do gelo fossem os seus próprios anjos, só dele.

 

Seis ou sete gaivotas voavam ao lado de Archie para acompanhar a sua descida rumo à boca da caverna. Dentro, as paredes estavam forradas de gaivotas, seus olhos brilhan­tes lançando uma luminescência verde fluorescente de cada saliência e de cada espaço disponível no chão, mas o único som que se podia ouvir era o constante bater de asas, enquan­to eles voavam mais e mais para dentro do espaço cavernoso. Não estava apenas absolutamente silencioso, estava gela­do. Eles seguiram voando, planando por cima das cabeças de gaivotas aninhadas no chão, e Archie estava começando a se perguntar quão profunda aquela caverna poderia ser quan­do duas grandes luzes verdes piscaram adiante.

A enorme gaivota do gelo que falara com ele em sua úl­tima visita alçou-se para fora das trevas. Ela distendeu as asas e houve um súbito movimento no chão abaixo deles quando pássaros se alvoroçaram, abrindo espaço para Archie e a gai­vota do gelo pousarem. Archie deslizou para fora das costas da gaivota e pôs-se em pé diante do pássaro imponente. Em­bora seu bico não se abrisse, ele ouviu sua voz dentro da ca­beça mais uma vez.

“Chegue mais perto”.

Sem Rufus ao seu lado ele sentiu medo, mas então, quan­do o pássaro leu seus pensamentos hesitantes, ouviu sua voz de novo.

“Não tenha medo. Somos suas amigas”. Archie deu um passo mais para perto, depois outro, e o pássaro acomodou-se no chão, numa tentativa de parecer menor. Ele inclinou a cabeça para Archie e olhou-o com olhos do tamanho de pratos, cheios de bondade.

“Huigor está se aproximando. Você está pronto?”

Archie sacudiu a cabeça. “Não sei o que preciso fazer”.

A gaivota assentiu, pensativa.

“Huigor se alimenta de água, ar e fogo. Acima da terra ele é invencível. Sua tarefa é trazê-lo para a terra, mas have­rá pouco tempo. Seu caminho de destruição está determina­do. Ele precisa ser aprisionado pelo céu e pela terra. Esteja pre­parado. Quando os relâmpagos entrarem no centro de Huigor ele deverá ser arrastado para baixo por um coração humano antes que toque o solo. Esse coração deverá ser o seu”.

“Você quer dizer que preciso deixar que Huigor me en­gula e então ser atingido por um relâmpago?”

A gaivota assentiu. “É o único jeito”.

“Sozinho!”

“Você tem tudo de que precisa. A única coisa que não po­demos lhe dar é coragem. Isso você já tem; se vai escolher usá-la, é uma decisão que somente você pode tomar”.

“Não acho que seja forte o bastante”.

“Corra como o vento, pois você tem a velocidade de um animal. Batalhe contra ele, pois dentro da adaga você tem a força de cem Huigors. O relógio é os seus olhos, observando o perigo oculto, e a lanterna irá queimar muros de resistên­cia. Mais poderosa que tudo é a lente de aumento; ela irá re­percutir dez vezes tudo o que vê. Use-a com sabedoria”.

“Mas e a onda gigante?”

“Não é nada com que você deve se preocupar. As tropas cuidarão dela”.

“Elas não podem cuidar de Huigor também?”

“Deixe-me mostrar uma coisa a você”. A gaivota do gelo ergueu a cabeça e soltou um suspiro forte que ecoou pela ca­verna, seu hálito criando uma corrente fria contra o rosto de Archie. Archie ficou olhando enquanto o hálito da gaivota se congelava em um lençol de gelo que se interpôs entre ele e o pássaro.

“Esqueça a onda”, ele ouviu a gaivota dizer. “Nós cuida­remos dela”.

Archie olhou em volta quando um murmúrio de assentimento se ergueu por entre os outros pássaros. A gaivota do gelo gigante continuou: “Huigor vem vindo mais acima na costa. Ele pretende causar destruição na aldeia antes de vol­tar para o mar. Você precisa partir, e depressa. As tropas lhe darão passagem segura, mas é a mão estendida da coragem que irá guiá-lo para o seu destino”.

Archie desejou mais que tudo que Rufus estivesse ao seu lado naquele momento. Ele saberia exatamente o que fazer.

“Tire a lanterna do seu bolso”, disse-lhe o pássaro. “O botão verde a ligará. O botão vermelho a desligará”.

As mãos de Archie estavam geladas por causa do frio, mas ele pegou a velha lanterna que Rufus lhe mandara. A gaivota do gelo abriu as asas e voou para cima em uma per­feita linha reta, pairando a cerca de dois metros de altura. “Agora, acenda a lanterna em cima do gelo”. ‘ Archie ligou a lanterna, mas não surgiu um facho de luz; em vez disso, uma chama branca projetou-se da lâmpada e derreteu o lençol de gelo que os separava.

Ele tentou soltar um assobio, mas como de costume não conseguiu. Em vez disso, a caverna se encheu de grasnidos de muitos pássaros nervosos. Ele desligou a lanterna e a gai­vota do gelo flutuou de volta para baixo.

Enquanto Archie examinava a lanterna e a poça de água que restara no chão, a gaivota disse: “Você deve partir agora, antes que Huigor chegue. Não há muito tempo”.

Quase simultaneamente os pássaros começaram com uma gritaria alta e confusa.

“Alguém se aproxima”, ele ouviu a gaivota do gelo dizer. O rugido do vento parecia se congregar do lado de fora da boca da caverna, e por um breve momento uma luz forte a cruzou e desapareceu novamente. “Um avião”, disse Archie excitado.

Os pássaros começaram subitamente a voar para fora do caminho, criando uma trilha enquanto ele seguia em direção à entrada, curvando-se para não colidir com nenhum pássa­ro voando baixo. Um par de vezes chegou a sentir asas ma­cias roçando contra o seu rosto. Quando chegou à boca da ca­verna, ouviu o inconfundível ronco de um motor de avião por cima do rugido do vento, e viu luzes aproximando-se pa­ra pousar, dando pulos no chão e vindo diretamente na sua direção — depressa demais, ele pensou quando as luzes do avião chegaram mais perto, ofuscando-o com seu brilho for­te, até parar a apenas alguns metros do lugar onde ele esta­va. O motor silenciou e a hélice foi girando mais devagar até parar completamente.

Archie ergueu os olhos para a pintura em vermelho vivo. A porta se abriu e Rufus gritou por cima do vento: “Estou feliz por vê-lo inteiro. É melhor você pular para dentro. Aque­la onda gigante está prestes a atacar, e eu prefiro não estar aqui quando isso acontecer”.

A gaivota gigante apareceu de repente atrás de Archie.

“As tropas estão prontas. Vá agora”.

Archie embarcou no avião ao lado de Rufus e prendeu o cinto de segurança. Logo eles estavam a caminho, rodando para fora da entrada da caverna, até ter espaço suficiente pa­ra fazer a volta. Então, em aceleração total, aceleraram trovejando pelo caminho de luzes verdes, com o vento contra eles. Quando já estava parecendo não haver mais grama à frente, as rodas se elevaram e eles estavam voando.

O avião mergulhou violentamente. Rufus nivelou-o e no escuro Archie viu os olhos verdes brilhantes de seis gaivotas do gelo voando dos dois lados deles.

“Onde você esteve? Como sabia onde me encontrar?”, perguntou Archie a Rufus.

“É uma longa história, mas eu vi você caindo do penhas­co. Pensei que você já era”. Rufus deu uma olhada de lado para Archie. “Então vi a gaivota do gelo”. Ele se voltou para conferir o painel de instrumentos. “Tirei Monika do hangar.

Suspeitei que você tivesse ido para a rocha do Musgo. Obri­gado por deixar a chave na ignição”. “Mas e Ezekiel?”

“Está ótimo. Indo para casa a cavalo, com um cão de es­colta”.

Archie foi distraído das perguntas sobre cavalos e cães pelos mergulhos erráticos da aeronave, que estava viajando perigosamente perto das ondas.

“Rufus? As gaivotas do gelo estão subindo mais alto no céu. Você não acha que devíamos segui-las?”

“O que foi?”, ele ouviu Rufus perguntar por cima do ronco do motor.

“As gaivotas do gelo estão voando mais alto do que nós”, gritou Archie. “Acho que talvez você devesse segui-las”.

Uma Sentinela apareceu diretamente na frente deles e Archie sentiu-se empurrado contra o assento quando Rufus inclinou o nariz do avião para cima. Sob as luzes da aerona­ve eles puderam ver os pássaros a cerca de seis metros acima e ainda subindo, mas essa não era a sua maior preocupação. O clarão de um relâmpago iluminara o céu, tornando visível uma enorme nuvem de gaivotas vindo na direção deles.

“Ai, não”, gemeu Archie, e cobriu os olhos com as mãos. “Mantenha sempre a cabeça fria”, dizia Rufus enquanto voavam em direção ao bando. “Nunca entre em pânico”.

Archie abriu o seu olho verde e viu os pássaros se sepa­rarem para abrir caminho. Milhares de outros olhos verdes cintilaram de passagem enquanto eles voavam em seguran­ça para o outro lado do bando. Ele estava quase soltando um suspiro de alívio quando outro relâmpago iluminou o céu e diretamente em frente estava uma onda gigante, elevando-se acima deles; só que ela não estava se movendo, porque era agora uma sólida muralha de gelo.

“Pare!”, gritou Archie, mas até ele sabia que não dava mais tempo de evitar uma colisão.

Ele tirou a lanterna do bolso, puxou os óculos de aviador para cima dos olhos e abriu a porta do avião. Com a aeronave voando para cima da muralha de gelo, apertou o botão da lan­terna e um raio de luz branca foi lançado, abrindo um buraco enorme, grande o bastante para que eles passassem.

“O que quer que você faça, não desligue essa coisa”, gri­tou Rufus quando eles entraram no túnel.

Archie mantinha os olhos fixos na luz da lanterna, mas através das paredes do túnel ele pôde reconhecer as formas congeladas de algas, caranguejos e lagostas. Então um olho es­pecialmente grande assomou bem perto, somente uns poucos centímetros dentro do gelo, e Archie pôde distinguir a carapaça de uma baleia congelada. Mas ele manteve sua concentra­ção focada e a mão firme enquanto o facho branco incandes­cente empurrava a água para a frente, até eles saírem voando diretamente para fora do outro lado, junto com uma peque­na cascata.

Archie desligou a lanterna. Pouco antes de puxar a porta do avião para fechá-la ele olhou para trás e viu relâmpagos se bifurcando no céu e atingindo a onda, despedaçando-a em blocos de gelo que desmoronaram no mar.

As gaivotas do gelo estavam esperando por eles do outro lado da onda e retomaram suas posições de vôo à frente da aeronave.

“Melhor ficar de olho nelas desta vez”, disse Rufus. “Se­guramente haverá mais algumas surpresas nos aguardando à frente”.

Archie apertou o cabo da adaga, de prontidão.

 

As gaivotas do gelo os levaram por um caminho por ci­ma do campo de pouso e atravessando o pântano, e então, depois que sobrevoaram a colina, a aldeia às escuras apare­ceu logo abaixo. Archie avistou a luz amarela de um lampião a óleo em uma janela perto da torre da igreja e, reconhecendo-a como a casa de Ezekiel, conseguiu se orientar. Olhou pa­ra fora da janela enquanto voavam por cima da Fronteira dos Ventos, desejando poder pular para fora, só por um minuto, para que seus pais soubessem que ele estava bem. Talvez na­quele exato momento eles estivessem olhando para o avião lá em cima. Ele acenou por via das dúvidas, para o caso de, por algum milagre, eles poderem vê-lo.

Sem que ele soubesse, as luzes vermelhas ao pé da coli­na, perto do quebra-mar, pertenciam ao Land Rover de Ce­cille e Jeffrey. Eles tinham dado uma volta completa em torno da aldeia depois de não terem encontrado Archie em casa, pa­rando nas casas de George e Sid e até batendo à porta de Ezekiel em sua procura por ele. Naquele exato momento eles estavam voltando, esquivando-se das ondas que passavam por cima do quebra-mar e procurando a bolsa que Cecille ati­rara pela janela do Land Rover.

“Estou vendo coisas, ou um avião acaba de passar por cima de nós perseguindo um bando de cisnes?”, perguntou Cecille.

“De volta para o carro”, decidiu Jeffrey. “Estamos per­dendo tempo. A bolsa não está aqui”. E então, mais especifi­camente: “Eu acho que sei onde Archie está”.

Houve muito bater de portas, cintos de segurança sendo presos e ruído de pneus acelerando no meio das águas da inundação. Momentos depois eles estavam seguindo em alta velocidade pelas ruas desertas, rumo ao campo aberto, o ven­to tão forte que Jeffrey estava com problemas em manter o Land Rover em linha reta.

“Aonde estamos indo agora?”, Cecille perguntou àquele novo Jeffrey, que ela mal reconhecia.

“Seguindo as luzes do avião”, disse ele.

Cecille estava inclinada para a frente, agarrando-se ao painel. “Achei que estávamos procurando Archie”. Sua voz estava ligeiramente mais ansiosa, um tanto mais alta.

“Nós estamos”, respondeu ele secamente. “E se as mi­nhas suspeitas estiverem certas, Archie está a bordo daquele avião”.

Cecille, no entanto, foi menos contida. “Archie voando em um avião? Mas ele tem medo de alturas. Ele fica enjoado no carro... e... oh, não... e se ele for atingido por um raio?”

“Acho que temos de ser positivos, Cecille”, respondeu Jeffrey com uma calma exagerada. Seus olhos estavam fixos no céu, mas sua ansiedade aparecia no tremor das mãos.

“De quem é aquele avião?”, perguntou Cecille, mas en­quanto perguntava já sabia a resposta. “Só pode ser do Rufus... Foi assim que ele chegou aqui no sábado à noite, não foi?”

Jeffrey pisou fundo no acelerador. “Espere”.

Eles dispararam para fora dos subúrbios da aldeia às es­curas e adentraram velozmente a noite negra por estradas vicinais desertas, flanqueadas de ambos os lados por altas mon­tanhas. Ocasionalmente, elas exibiam seu tamanho através de relâmpagos cada vez mais freqüentes.

Um coelho assustado começou a correr ao longo da estra­da na frente deles, trançando de um lado para outro, forçan­do Jeffrey a reduzir a velocidade enquanto as luzes do avião iam empalidecendo na distância.

“Quando Rufus aprendeu a pilotar um avião?”, disse Ce­cille. Ela mal podia conter sua confusão. “Ele não consegue nem encher uma tigela de cereal sem esparramar tudo”.

Jeffrey piscou os faróis do carro e o coelho desorientado desapareceu na noite. Pisou fundo no acelerador e eles segui­ram em velocidade vertiginosa, por pouco não acertando os galhos de árvores caídos à beira da estrada. Ele estava o tem­po todo de olho nas luzes do avião.

“Parece que eles estão virando”. Jeffrey brecou forte e fez uma curva fechada para a esquerda, pegando uma trilha na montanha. O Land Rover oscilava enquanto eles subiam a trilha íngreme e Jeffrey agarrava o volante com força, ao mes­mo tempo que olhava para o céu. “Espero que Rufus saiba o que está fazendo”.

A medida que o tempo se tornava mais tempestuoso, Cecille ia ficando mais e mais frenética, pois até onde lhe con­cernia eles estavam no meio de lugar nenhum, sem uma pro­va real de que Archie estivesse a bordo da aeronave. Ficava dizendo para si mesma que àquela altura ele poderia muito bem já ter voltado para casa e que eles deveriam fazer meia-volta e retornar a Westervoe.

“Afinal de contas, quem convidou Rufus a vir e quebrar a maldição?”, ela falou de repente.

“Não é caso de ser convidado”, disse-lhe Jeffrey. “Huigor não é apenas a maldição de Archie. Infelizmente, haverá ou­tros prejudicados pela presença dele”.

“Quem?”

“Você, por exemplo. Se Huigor não for quebrado esta noite você também se verá amaldiçoada. Então descobrirá que encher uma tigela de cereal sem esparramar nada se tor­nou a parte mais emocionante do seu dia”.

Cecille olhou fixamente para ele. “Eu? Amaldiçoada? Mas isso é impossível!”

“Por quê? Você sabe alguma coisa?”

“Não!”

“Se Archie não for bem-sucedido, nós três teremos de en­carar o mesmo futuro. Mas ele precisa de todos os presentes que Rufus mandou. Infelizmente agora ele está com dois a menos, graças a você, que jogou a bolsa pela janela”.

Cecille pareceu recuperar o bom senso. “Eu não pre­tendia... é como se alguma coisa estivesse me dizendo o que fazer... eu sinto muito...”, mas Jeffrey não ouvia; estava preocupado com outra coisa, pois as luzes do avião haviam reaparecido baixo no céu e estavam se dirigindo diretamen­te para eles.

 

Os relâmpagos estavam ficando cada vez mas freqüen­tes, e mais próximos também, e o vento jogava o avião de um lado para outro como uma pena de gaivota do gelo. Ele mer­gulhava, depois subia de novo, e guinava para um lado e pa­ra outro. Archie quis que eles aterrissassem logo, mas nesse meio-tempo Rufus permaneceu em silêncio, cada um deles mantendo os olhos nas gaivotas que estavam seguindo, pre­parando-se para quaisquer outras surpresas desagradáveis que os aguardassem adiante. Durante todo o tempo Archie ficou segurando a adaga. Estava tentando não pensar na dor de estômago, que subia até a garganta. Ou em como não con­seguia recuperar muito bem o fôlego nem impedir as mãos de tremer. Também se sentia enjoado. E seus olhos ficavam formigando com lágrimas indesejadas enquanto se imagina­va sendo sugado por um tornado e lançado para dentro da noite.

Ele ficava dizendo a si mesmo que ainda dava tempo de mudar de idéia. Não precisava aceitar o desafio. Poderia ir para casa a qualquer momento que quisesse. Ele foi subita­mente sacudido para fora desses pensamentos com o avião guinando para a esquerda e Rufus dizendo: “O que está acontecendo?”.

As gaivotas estavam virando e Rufus lutava para fazer o avião voltar e seguir o novo rumo dos pássaros.

“O vento mudou”, disse ele. “Nunca vi um vento mudar tão depressa. Mas, por outro lado, não estamos lidando com qualquer vento velho de guerra, estamos?”

Archie observou as gaivotas se precipitarem para fora de vista.

“Segure-se”, disse Rufus. “Estamos fazendo uma volta completa, e se não estou enganado vamos aterrissar no topo do monte do Duende”.

Outro relâmpago iluminou a face de Rufus. Archie deci­diu que a expressão dele era de intensa preocupação e não tinha nada a ver com medo.

“Apenas continue focalizando o horizonte”, Rufus esta­va dizendo para si mesmo. “Não olhe para a esquerda nem para a direita. Fique de olho no alvo”.

Eles ficaram em silêncio, ouvindo o vento, ouvindo o motor do avião, ouvindo as batidas rápidas e fortes dos seus próprios corações.

“Não tenho certeza se posso aterrissar com este vento”, anunciou Rufus de repente, e puxou o nariz do avião para cima, o que os fez subir novamente. “Desculpe, meu velho. Vamos fazer mais uma tentativa”.

“Isto é sério, não é, Rufus?”

Rufus assentiu e o avião estremeceu.

Archie puxou a flauta do bolso. “Vou chamar as gaivotas do gelo”.

“Não temos tempo de esperar por elas”. Dessa vez Archie definitivamente ouviu medo na voz de Rufus. “O vento está ficando forte demais para Monika. Não creio que possa man­tê-la voando muito mais tempo”.

Archie não hesitou e soprou a flauta várias vezes seguidas.

Rufus fez a volta com a aeronave e se dirigiu mais uma vez para o caminho de pouso. “Segure-se”, disse ele quando uma rajada especialmente forte balançou o avião.

Um relâmpago iluminou a terra em volta deles e Archie ficou boquiaberto quando centenas de gaivotas do gelo se er­gueram dos arbustos e da grama, criando uma parede dos dois lados para formar um escudo protetor contra o vento en­furecido. As linhas regulares de clarões verdes fluorescentes iluminaram a terra, criando luzes de aterrissagem.

“Sincronia perfeita!”, disse Rufus quando clarões de re­lâmpagos iluminaram o caminho de pouso, como se fosse dia.

Archie apertou o cabo da adaga e eles começaram a des­cida final. Quando as luzes realçaram o memorial da guerra no topo da colina, ele viu muito claramente o que era espe­rado dele — se ao menos Rufus conseguisse aterrissar em segurança.

 

O Land Rover de Jeffrey lutava para chegar ao topo do monte do Duende. As vezes mal se movia enquanto balança­va e patinava em buracos, grandes pedras e um terreno sem­pre desigual. Cecille sentiu-se tentada a pular fora e seguir andando, mas os relâmpagos mostravam o quanto a encosta era desolada e escura. Ficando dentro do carro pelo menos estava a salvo do vento atroador e penetrantemente frio, ape­sar de uma dor de cabeça estar se formando na base do seu crânio. Quando começou a massagear a nuca para espantar a dor, viu o rosto de Jeffrey ao brilho débil das luzes do painel. Ele não parecia o homem gentil de sempre, muito pelo con­trário, e, enquanto procurava uma palavra que descrevesse melhor a nova atitude do marido, surpreendeu ao pensar em “determinado”.

“Não vamos entrar em pânico”, ele estava dizendo en­quanto esquadrinhava o céu à procura de luzes de avião. Lo­go depois o Land Rover parou, quando os faróis bateram em uma rocha gigante que bloqueava o caminho. “Não esqueça a sua lanterna”, Jeffrey disse antes de desligar o motor e os faróis.

Cecille ainda estava procurando a lanterna quando Jeffrey saiu do carro, com a ferocidade do vento quase arrancando a porta da sua mão.

“Se você vem, venha agora. Não há tempo a perder”. Ele bateu a porta.

O clarão de um relâmpago mostrou que a lanterna esta­va enfiada ao lado do assento dela. Cecille a agarrou, saiu do carro e correu pela escuridão, gritando a Jeffrey para esperar. Mas sua voz não foi além da rajada de vento seguinte. Outro relâmpago mostrou Jeffrey como um vulto escuro no topo da trilha e a luz da lanterna dele desapareceu quando ele passou por cima do cume.

Cecille abriu a boca para gritar, mas uma rajada especial­mente forte a empurrou para trás, por cima de uma enorme rocha. Ela rolou trilha abaixo, parando subitamente dentro de um buraco muito grande. Em algum lugar pelo caminho, perdera o chapéu. Ela se sentou.

A encosta tinha ficado profundamente silenciosa. Ela aten­tou ao novo e inesperado silêncio, perguntando-se que estra­nha aberração da natureza estava ocorrendo, quando um rugido gigantesco fez seu coração dar um pulo e ela cobriu a cabeça com os braços.

O avião voava tão baixo no céu que ela quase poderia tê-lo tocado. Cecille olhou para cima bem a tempo de ver as lu­zes da cauda roçarem o topo do memorial da guerra e depois desaparecerem além do cume.

“Archie?”, ela sussurrou, esperando pelo barulho da ba­tida. Como ele não veio, ela se botou em pé de imediato, ten­tando ignorar a dor que sentia em um dos joelhos, e correu os últimos metros até o cume.

Ela alcançou Jeffrey enquanto ele estava parado olhando ao longe, no topo da colina. Um pequeno declive no cume es­condia uma superfície plana gramada, iluminada por luz ver­de. De cada um dos lados havia uma imensa parede de pás­saros. No fim dessa pista de pouso improvisada estava uma aeronave, a hélice começando a parar.

“O que está acontecendo?”, sussurrou ela em terror ofegante.

“Você não acha estranho o modo como o vento amai­nou?”, disse Jeffrey. Ele estava esquadrinhando o céu duran­te os clarões cada vez mais freqüentes dos relâmpagos.

“Nada mais me surpreende”, disse Cecille. “Tudo o que quero é Archie de volta. Só quero vê-lo em segurança”.

“Nós o teremos de volta”, disse Jeffrey. “Mas ele não será mais o mesmo”.

“O que você quer dizer com isso, não será mais o mesmo?” “Silêncio!”, sibilou ele. “Apague a sua lanterna. Escute”. Ela escutou. “O quê?”

Um sopro de vento roçou seu rosto e agitou-lhe os cabelos.

“Ali”, disse Jeffrey. “Ouviu aquilo?”

“Não, eu não...”, começou ela, quando um rugido pro­fundo, como uma gargalhada, soou perto do seu ouvido. Ela virou o corpo e olhou para dentro da escuridão.

“Você ouviu, não ouviu?”, Jeffrey estava perguntando.

Cecille assentiu lentamente, insegura, e então a risada veio novamente, turbilhonando em volta deles, dessa vez com uma voz junto, silvando: “Ele está chegando”.

Ela agarrou a mão de Jeffrey. “Quem está falando?”

“É o vento. Archie também está ouvindo”.

“O que ele quer?”

“Archie. Você”.

Um relâmpago revelou uma massa de nuvens negras se erguendo sobre o outro lado da montanha, e quando a nu­vem subiu mais eles viram um contorno sinistro em forma de funil.

Jeffrey agarrou Cecille pelo braço e a empurrou, por bai­xo de algumas rochas salientes, para dentro de uma pequena caverna. “É Huigor! Proteja-se”.

“Archie!”, ela gritou quando um relâmpago bifurcado cruzou o céu, tão fulgurante que ela fechou os olhos. O tro­vão estalou acima, e então o vento retornou, enquanto a nu­vem negra se aproximava deles. Em algum lugar no meio do caos Cecille ouviu gritos de pássaros. Ela abriu os olhos bem no momento em que as mãos de Jeffrey eram arrancadas das suas, e no momento seguinte o rosto dele desapareceu atrás de uma parede de penas brancas que se ergueu entre eles, fe­chando-a dentro da caverna.

Estava completamente escuro, a não ser pelo brilho ver­de dos olhos dos pássaros, todos virados para ela, silenciosos, aguardando. Ela deu um passo nervoso para a frente a fim de pegar a sua lanterna, caída em um canto perto da entrada blo­queada. Uma fileira de bicos se abriu ameaçadoramente e algu­mas gaivotas deram um grasnido de advertência. Ela deu um passo para trás.

“Archie precisa de mim”.

Os pássaros continuaram a fitá-la.

“O que vocês querem?”, perguntou ela.

A resposta veio em uma estranha voz sussurrante de den­tro das paredes da caverna. “Nós aguardamos a verdade”.

“Quem está aí? Que verdade?”, perguntou ela.

Os pássaros continuaram a fitá-la com olhos pacientes, sem piscar, pelo que pareceu uma eternidade. Por fim ela não pôde mais agüentar.

“Que diferença faz contar a verdade?”

Cecille esperou por uma resposta que não veio. O tempo estava passando. De fora da caverna e além da parede de pássaros, podia ouvir o rugido de Huigor. Ela se moveu em direção à entrada e as gaivotas abriram novamente os bicos ameaçadores.

“Vocês não entendem”, lamentou-se ela. “Eu preciso pro­teger Archie”.

A voz sussurrante reverberou pelas paredes da caver­na. “Você pode protegê-lo revelando a verdade. Você tem coragem?”

“Coragem! Eu preciso de coragem todos os dias! A mal­dição dos Stringweed agora é também a minha maldição. Eu a assisti devorar o coração de Jeffrey e agora ela quer o de Archie. Durante dez anos esperei por este dia, sabendo que quando o momento chegasse eu não poderia fazer nada para salvar meu filho do seu destino”.

“Nós aguardamos a verdade”.

Cecille estremeceu. Archie e Jeffrey estavam naquele exa­to momento à mercê de Huigor, e sua única chance de ajudá-los era escapando dessa prisão. Ela respirou fundo, e quando viu que havia se recomposto o suficiente, perguntou: “E se eles não me perdoarem?”.

“Da verdade vem o perdão”.

O rugido do vento do lado de fora da caverna ressoou na cabeça de Cecille; ela percebeu todo seu poder quando a ter­ra tremeu embaixo dos seus pés. Começou a se sentir ator­doada, como se tivesse sido pega em um vórtice que lhe su­gava a vida, e seus olhos começaram a se fechar. De repente, estava muito cansada. Se ao menos pudesse deitar e dormir até Huigor ir embora, mas a voz sussurrante dentro da caver­na não a deixava descansar.

“Você está enfraquecendo. Logo a maldição irá correr tam­bém através do seu sangue”. A voz estava começando a soar muito distante. “Não resta muito tempo. Renuncie ao passa­do, antes que seja tarde demais. Encontre a força...”

Cecille ouviu a voz tentando se lembrar do que deveria fazer. Se ao menos pudesse se concentrar, se ao menos pudes­se ficar acordada.

“Ele não vai conseguir sem você. Não desaponte Archie agora”.

Ela abriu os olhos. “Archie?”

A caverna se encheu com um suspiro gelado.

“Você vai falar a verdade?”

Ela olhou para a parede de pássaros e para os muitos olhos que a fitavam na expectativa, e eram os olhos de Archie que via refletidos na luz verde fluorescente. Ela se sentiu mais forte.

“Sim”, sussurrou. “Vou falar a verdade.

 

Archie imaginara que Huigor era grande, mas nada po­deria tê-lo preparado para a forma negra que varria o céu: uma serpente gigante ereta, com mandíbulas escancaradas prontas a engolir tudo em sua passagem.

Ele e Rufus estavam de olhos arregalados, enraizados nos seus assentos, assistindo da janela do avião o vulto for­midável se aproximar a cada relâmpago.

“Aquele é Huigor, sem dúvida”, disse Rufus. “Exata­mente como Ezekiel o descreveu, erguendo-se do mar perto da rocha do Musgo”. Rufus voltou-se para Archie. “Você está pronto?”

Archie estava se esforçando muito para não se sentir ab­solutamente terrificado com a perspectiva de ficar cara a cara com Huigor fora da segurança relativa do avião, mas agora chegara o momento de tomar a sua decisão. De repente ele sentiu muito frio. Rufus pegou sua mão, abriu à força os de­dos crispados e pôs a chave de ouro na sua palma.

“Destranque a prisão do medo”, disse ele. “Coragem até o fim”.

Quando Archie agarrou a chave, uma onda de calor pas­sou por ele, e o garoto se sentiu calmo o bastante para per­guntar: “Eu vou morrer?”.

“Ser amaldiçoado é uma morte em vida”.

Archie assentiu. Tinha tomado a sua decisão. Sua voz es­tava com um tremor nervoso quando disse: “Tenho de subir até o memorial da guerra”.

Rufus assentiu. “Você sabe que eu não posso ir junto. Agora é entre você e ele. Mas lembre-se, deixe que os artefa­tos o guiem”.

Archie devolveu a chave a Rufus. “Não preciso disto ago­ra. Fique com ela para proteger-se contra Huigor”. Então ele empurrou os óculos de aviador para a testa e abriu a porta do avião. Imediatamente o vento frio o puxou para fora. As pa­redes de gaivotas do gelo já estavam se rompendo e as Sen­tinelas estavam se contraindo em pontos minúsculos de luz. Ele estava sozinho.

Deu uma última olhada para trás, para o funil negro que se retorcia vindo em sua direção.

“Deixe que os artefatos o guiem”, dissera Rufus, e Archie ergueu a mão e apertou o pé de coelho pendurado em seu pescoço. O efeito foi imediato. Sentiu as pernas ficando mais fortes e começou a correr, impelido para a frente em longas passadas poderosas que roçavam o chão. Sentiu uma explo­são de euforia e empolgação, e uma energia avassaladora lhe dizendo que ele era capaz de tudo. Mas, enquanto continua­va a correr, a escuridão começou a desorientá-lo e ele lutou para encontrar o rumo. Agarrou o relógio preso ao seu casa­co e apertou o botão de ouro. Instantaneamente a terra se incandesceu em vermelho-lava e através dela uma linha serpenteante em laranja luminoso apareceu, mostrando-lhe o rumo a tomar.

O caminho assegurou que seus passos evitassem rochas e buracos ocultos, e ele se viu correndo tão depressa que mal podia sentir a terra embaixo dos pés; poderia estar correndo no ar. Mas sabia, sem mesmo olhar para trás, que Huigor se aproximava. Podia sentir o seu poder se alimentando do ar acima e ouvia o seu riso, como o rugido de mil leões avan­çando para a presa, o que apenas o fez correr mais depressa. Manteve os olhos fixos no memorial da guerra e, quando ele assomou mais próximo, tirou a adaga do bolso. Apertando outra vez o pé de coelho pulou para a frente, erguendo-se no ar para pousar suavemente na base do memorial.

Imediatamente a cor se exauriu da terra e o caminho la­ranja também se esvaiu. Estava de novo na escuridão da noi­te, com luz apenas suficiente para iluminar o contorno da fi­gura de bronze de um aviador elevando-se acima dele, a mão erguida triunfante para o céu. A mão da coragem, dissera a gaivota do gelo.

Para ter alguma chance de vencer o desafio, Archie sabia que teria de escalar até os ombros do aviador — assim o re­lâmpago atingiria o objeto mais alto, a adaga. Mas de onde estava parecia uma tarefa quase impossível; a estátua tinha pelo menos cinco metros de altura. Então, lembrou-se da len­te de aumento no bolso do casaco.

Era pequena e circular, engastada em um aro de ouro. A gaivota do gelo dissera que ela aumentaria dez vezes tudo o que visse, mas não havia absolutamente nada para sugerir como isso o ajudaria a escalar a estátua.

Huigor deu outro rugido e o estalo do trovão de um re­lâmpago próximo lembrou Archie de quão pouco tempo lhe restava. Mas ele ainda não estava a fim de desistir. Pôs a lente de aumento entre os dentes e, com a adaga ainda na mão, co­meçou a escalar a estátua; no entanto seus pés insistiam em escorregar na superfície lisa e seus dedos não conseguiam achar um apoio.

Outro clarão de relâmpago iluminou o topo da colina e ele viu o vulto negro de Huigor serpenteando em sua direção, a apenas segundos de distância. Ele o viu apanhar o avião co­mo se fosse de papel e jogá-lo de lado.

Archie deitou-se na base do memorial e deslizou a adaga para baixo do estômago, cobrindo-a com o peso do corpo. Então, com as duas mãos livres, agarrou-se à bota de bronze do aviador. Ali perto, ouviu gritos de pássaros, mas seu cha­mado se perdeu quando ele foi finalmente engolfado embai­xo do tornado turbilhonante e ululante, e Huigor rugiu em triunfo.

Ele não conseguia respirar, não conseguia enxergar, e quando seus dedos começaram a escorregar da bota de bron­ze ele ergueu os olhos aterrorizado. Huigor estava descendo, Inabalável, para perto dele.

“Socorro!”, gritou ele, e a lente caiu da sua boca. “Alguém me ajude!”, berrou para o seu próprio reflexo na lente, mas a escuridão estava se aproximando.

Primeiro as pernas começaram a se erguer, puxadas para cima pela força do vento, depois sentiu seu corpo ser ergui­do, até que somente as mãos ainda seguravam a estátua. Seus braços doíam pelo esforço, mas ele não era páreo para o po­der de Huigor. Seus dedos foram arrancados da bota de bron­ze e ele sentiu-se erguido para o céu. Tentou cegamente pe­gar a adaga, mas tudo o que conseguiu agarrar foi ar, cheio de poeira acre e sufocante. Os braços se agitavam descontroladamente e ele se sentiu sugado para cima pelos pés, para dentro do vórtice de Huigor.

Gaivotas do gelo se aproximaram, saídas das trevas, seus olhos verdes e fixos desafiando-o ao passar voando, as asas batendo impotentes contra o vento turbilhonante. Penas ar­rancadas caíram contra o seu rosto, e quando ele gritou por socorro elas encheram-lhe a boca. Archie lutou contra o po­der de Huigor com toda a força que conseguiu encontrar, po­rém sabia não haver mais nada que pudesse fazer. Ele não era páreo contra a força de um tornado, mas ainda assim agi­tou os braços, procurando alguma coisa à qual a esperança pudesse se apegar. E então, saindo da escuridão rodopiante que era o coração de Huigor, ele viu: uma enorme mão esten­dida aparecendo do meio da poeira. Archie a agarrou e ape­gou-se aos frios dedos metálicos da estátua.

“Eu não vou deixar escapar, não vou deixar escapar”, dis­se ele para si mesmo, enquanto Huigor soltava um rugido en­furecido. Fechou os olhos e viu o cavaleiro de que Rufus lhe falara, em pé no alto de uma torre de um castelo romeno, o corpo virado de costas para olhar ao longe. Archie começou a imaginar-se como aquele cavaleiro. Ele imaginou-se de ar­madura vermelha e prateada, a adaga na mão, e visualizou a sensação de força que ela lhe dava. Ele imaginou-se vencen­do a batalha.

Seria então imaginação sua seus pulsos estarem sendo fortemente seguros e seu corpo puxado de volta para baixo e ancorado nos ombros do aviador? Archie abriu os olhos e sentiu a adaga sendo enfiada de volta em sua mão, a força fa­miliar fluindo através dele, mais poderosamente do que nun­ca. Sentiu-se mais forte que dez cavaleiros, sentiu-se mais alto que dez estátuas e sentiu-se dez vezes mais determinado a se livrar da maldição de Huigor. Ele segurou a adaga com força, em prontidão, quando as nuvens de relâmpagos turbilhonaram através da boca hiante de Huigor.

O céu explodiu. Uma luz branca ofuscante despejou-se através do funil e ramificou-se em sua direção, e ele ergueu alto a adaga. A primeira explosão de luz atingiu a lâmina. Ela correu por sua mão e seu braço, atingindo-lhe o coração, que pareceu ter sido perfurado por um bloco de gelo, tão pesado e frio que Archie não pôde deixar de estremecer quando ela lhe encheu os pulmões, e depois tão quente que começou a derreter-lhe os ossos. O funil mudou de preto para branco e longos braços negros de raios pontudos se estenderam para ele como tentáculos, enrolando-se em volta do seu corpo, es­premendo o fôlego para fora dos pulmões. Ele deixou pender a cabeça à procura de ar. Através da névoa de luz branca ne­bulosa, viu-se olhando para um par de olhos, um verde e um azul, sua claridade tão forte e brilhante que dentro deles en­xergou a visão de uma gaivota do gelo fitando-o. Então ouviu a voz lá no fundo, dentro da sua cabeça.

“Huigor se contorce de raiva, mas seu poder enfraquece. Ele teme a sua força, a sua determinação. Agüente firme. O céu saca o seu arco. Logo as amarras do tempo serão libera­das. Abra os seus olhos. Clareza é verdade. Aceitação é força”.

A visão da gaivota esmaeceu, deixando Archie a fitar um olho verde e um azul. Foi quando Archie percebeu estar ob­servando o próprio reflexo magnificado. Os tentáculos ne­gros afrouxaram o aperto sufocante em seu peito e o ar retor­nou-lhe aos pulmões. Ele ergueu a cabeça e olhou para o céu, e ao fazer isso os óculos de aviador escorregaram-lhe da testa e cobriram seus olhos. Ele foi mergulhado em nova escuridão. Lentamente, começou a focar. As paredes rodopiantes de Hui­gor ainda giravam em volta dele, mas à medida que a visão clareava ele viu sombras escuras começarem a tomar forma dentro daquelas paredes. Depois viu-as se movendo. Huigor rugiu e se contorceu como um animal selvagem preso numa armadilha.

Um estalo explosivo ecoou do lado de fora do funil. Archie olhou para cima e viu um relâmpago ramificado dez vezes maior, mais rápido e mais fulgurante que qualquer um que já tivesse visto, disparando através do próprio centro de Huigor e dirigindo-se diretamente para ele.

“Esse é o tal”, disse ele, fechando os olhos. Empurrou a adaga para cima, distendendo os músculos do braço até doerem. “Eu o desafio em nome de todos os filhos primogênitos dos Stringweed”, bradou ele quando o primeiro raio atingiu a ponta da adaga.

Dessa vez ele não sentiu nada, a não ser uma forte cor­rente ondulante de calor. Podia ouvir o vento ao longe, mas naquele exato momento tudo estava calmo. Ele manteve os olhos fechados contra o cegante clarão branco. Por um mo­mento, ele não existiu; nada mais era senão gelo e calor e luz. Era metal também, ao se fundir ao bronze da estátua.

A força começou a ser drenada do seu corpo — ele que­ria dormir, manter os olhos fechados, mas uma batida persis­tente de tambor não o deixava descansar. A batida foi fican­do cada vez mais alta e mais forte, e ele a sentiu vibrando em seu peito, mantendo-o acordado. Então outro coração come­çou a bater no mesmo ritmo, e mais outro, e mais outro, até que havia tantos corações batendo que ele pensou que sua cabeça ia explodir. Mas, tão subitamente como começaram, eles pararam. Archie ergueu a cabeça, abriu os olhos e mirou para dentro do silêncio escuro. O peso de sua exaustão fez o braço cair ao seu lado, e ele ouviu um tinido metálico quan­do a adaga atingiu a estátua de bronze. Não havia outro som; nenhum vento, nenhum rugido, nenhum trovão, e ele sentiu os olhos começando a se fechar contra as trevas.

Então uma imensa cara de serpente feita de pó e sombras ergueu-se diante dele. Ela escancarou as mandíbulas e rugiu, soprando um vento frio no rosto de Archie.

“O medo tem um toque frio”, disse a serpente. “Ainda mais frio quando pega o seu coração. Pergunte ao seu pai”, e ela riu cruelmente. A cara agora estava tão perto que dava para sen­tir o seu hálito gelado. “O seu coração é forte. Você lutou bem. A terra ameaça me destruir. Sinto o seu puxão. Mas a batalha acabou. A sua coragem é minha. Ela me libertará deste limite terreno”.

Archie tentou erguer a adaga, mas não lhe restavam for­ças. A poeira sufocante queimava-lhe a garganta, e embora mal pudesse falar ele sussurrou: “Não tenho medo de você”.

A cara grotesca riu ameaçadoramente. “Tanta coragem... Vou me banquetear”.

As mandíbulas hiantes se abriram ainda mais, mas no fundo da sua escuridão uma voz distante podia ser ouvida. A estátua começou a tremer. A adaga caiu da mão de Archie. A cara de serpente começou a se torcer e se contorcer.

Ela jogou a cabeça para trás e tentou rugir, mas a voz den­tro da sua boca estava ficando mais forte e persistente. Era uma voz conhecida. Ele ouviu quando Cecille começou a renun­ciar à maldição em nome de seus ancestrais, clamando pela libertação de todas as almas presas por Huigor.

A cara começou a se dissolver. O pó encheu a sua boca, distorcendo as palavras.

“Caminhe com cuidado”, ela gemeu. Seu único olho rema­nescente fitava-o ameaçadoramente. “Onde a noite e as som­bras se encontram, ali estarei”.

Do que restava de sua boca, Cecille o chamava. “Cora­gem até o fim”, ele a ouviu dizer.

“Semper fortitudo”, ele sussurrou de volta.

Um grito lancinante reverberou dentro do tornado e uma centena de rajadas foras-da-lei desceu velozmente pelas pa­redes de Huigor, impotentes contra a força do puxão vindo da terra.

A cara de serpente esfarelou-se e desabou em uma nu­vem rodopiante de poeira cinzenta. O ulular calou-se e fez-se um calmo silêncio. Archie aguardou, e quando a poeira sufo­cante começou a clarear ele ergueu a cabeça e olhou para cima, através do funil que se agigantava sobre ele. A lua es­tava diretamente acima, derramando luz prateada nas trevas e iluminando as sombras semoventes. Elas começaram a to­mar forma e emergir de fora das paredes do funil, olhando para ele das saliências. Pessoas pálidas, translúcidas, velhas e jovens, homens e mulheres, crianças também, começaram a descer pelas camadas girantes e a se dispersar em todas as di­reções. Ele observou uma figura em particular marchar de­terminada em direção à estátua e desaparecer atrás da base com uma sombra muito mais velha que seguia seus passos. Quando todas as sombras já estavam livres Huigor estreme­ceu, e então a quietude em seu centro foi violentamente rom­pida pela erupção de uma imensa explosão de luz.

Anéis rodopiantes nas cores do arco-íris — roxo, laranja, vermelho, amarelo, verde e azul — saíram ondulantes e se espalharam pelo cimo da colina, criando uma cratera multi-colorida, tão brilhantemente fluorescente que Archie teve de piscar. Então todas as cores se fundiram, criando uma luz fluo­rescente azul-pálida, e dela saiu voando a gaivota do gelo gi­gante. Ela estendeu as asas e deslizou em direção a Archie.

“Deixe-me ver os seus olhos”.

Archie puxou os óculos de aviador para fora do rosto. Os olhos da gaivota estavam tão perto que ele pôde ver-se refle­tido na sua luminescência verde.

“Você enfrentou o desafio, Archie. Huigor foi destruído. Todas as almas cativas foram libertadas. A coragem do seu pai foi restaurada. A do seu avô também. Neste momento, energia e força fluem através dos seus corpos, trazendo a renovação”.

Archie fechou os olhos e, como num sonho, viu o cava­leiro de novo, no alto do torreão do castelo, só que desta vez ele se virou e fez uma reverência. Quando ele ergueu a cabe­ça, Archie viu a face do seu pai, que sorria.

A visão se dissipou e, embora seus olhos ainda estivessem fechados, Archie teve consciência de um bater de asas e a sen­sação de penas contra a sua bochecha. Também teve consciên­cia de estar sendo carregado nos braços de alguém, e de ser depositado no chão tão gentilmente que o fez lembrar-se do vôo nas costas de uma gaivota do gelo. Quando abriu os olhos, viu um homem olhando para ele, com uma aparência tão amarfanhada e exausta que Archie quase não o reconheceu.

“Papai?”, sussurrou ele em uma vozinha exausta.

“Sim, sou eu”, respondeu Jeffrey, fatigado. Ele colocou Archie sobre a base do memorial e então encostou-se na está­tua para se apoiar, antes de escorregar para baixo e sentar-se ao lado dele. Em sua mão estava a lente de aumento, que ele enfiou no bolso do casaco. Então recolheu a adaga que esta­va caída ao seu lado, sobre o pedestal.

“Foi você, papai”, disse Archie. “Você segurou a lente de aumento, e você me entregou a adaga. Você era a mão da coragem!”

Uma pequena ponta de luz verde surgiu de trás da está­tua e se expandiu até gerar um brilho suave, que iluminou o rosto de Jeffrey.

“Você sabe, houve um par de vezes hoje em que tive cer­teza de ter a adaga na minha mão. Como um cavaleiro, pron­to para a batalha”. Ele entregou a adaga a Archie. “Isto é seu, acredito”.

“A sua coragem voltou, papai. Eu a vi caminhar para fora de Huigor. Eu a vi dar a volta no pedestal da estátua, procu­rando você. A do vovô também, andando ereta e forte. Agora ele poderá sair do hospital e voltar para casa. Você viu, papai? Você viu a sua coragem?”

Mas não havia necessidade de responder essa pergunta. Archie já sabia, ao olhar nos olhos do homem que sorria para ele, que havia dado ao seu pai o melhor presente de Natal de todos os tempos. Exatamente como prometera fazer.

 

Uma voz feminina pôde ser ouvida chamando, preocupa­da: “Archie? Jeffrey? Onde estão vocês? Estão me ouvindo?”. “Aqui”, disse Jeffrey.

A luz de uma lanterna apareceu na escuridão e o rosto de Cecille pairava acima dela, parecendo assustada. “Vocês estão bem?”

“Um cavaleiro cansado da batalha, porém triunfante”, disse Jeffrey, e baixou Archie da base do monumento para os braços dela.

“Dois cavaleiros cansados da batalha, pelo que vejo”, disse ela entre lágrimas. Cecille foi beijar a bochecha de Archie, mas ele se desvencilhou dela.

“Eu estou bem, mamãe”. Quando seus pés finalmente tocaram o solo, ele acrescentou: “Não faça tempestade em co­po d’água”.

“Tempestade em copo d’água?”, ela balançou a cabeça, incrédula. “Você podia ter morrido”. Mas a sua preocupação logo se transformou em horror. “Archie! Isso que você está segurando é uma adaga?”

“Sim!” Ele ergueu a adaga para que ela pudesse vê-la mais de perto. Mas era a firme, determinada expressão dos olhos dele que ela estava examinando. Uma expressão que di­zia “Não me trate como um bebê”. Então Jeffrey estava certo. Ela tinha Archie de volta, e ele não era o mesmo.

“É uma adaga muito bonita”, concedeu ela.

“Quer dizer que posso ficar com ela?”

“Tenho certeza de que você será muito responsável”, dis­se Jeffrey, descendo ele mesmo do memorial. Ele olhou para Cecille. “E você, está bem? As gaivotas do gelo cuidaram de você, espero?”

Ela assentiu sem muita certeza. “Há uma coisa que pre­ciso lhe contar. É sobre o homem de Exeter...”

“Ah, você quer dizer o professor Neville Himes”.

Agora Cecille ficou confusa. “Você sabe?”

Jeffrey começou a sacudir a poeira do seu casaco. “Ele te­lefonou para mim hoje de manhã, no banco. Disse que tinha ligado para casa, mas não foi muito bem recebido. A polícia foi mencionada, acredito”.

Cecille pareceu encabulada. “Bem, naturalmente eu não teria chamado a polícia para valer”.

Jeffrey limpou mais uma mancha de poeira do seu casa­co. “O professor Himes explicou a situação muito claramen­te”. Cecille percebeu um quê de desapontamento na voz do marido quando ele acrescentou: “Embora eu tivesse preferi­do ouvir isso de você. A bravura assume muitas formas”, lem­brou ele.

Cecille notou que havia algo diferente no modo como Jeffrey falava e em sua postura, mais alto e reto, mas o que era especialmente diferente nele era a expressão segura em seus olhos.

Archie olhava da mãe para o pai e para a mãe outra vez. Ele se viu novamente no mundo dos adultos, onde ninguém falava nada que tivesse sentido.

“Por que você simplesmente não diz o que tem a dizer, mamãe? Não pode ser mais assustador que lutar contra um tornado. Coragem até o fim, está lembrada?”

A expressão nos olhos de Archie dizia a Cecille que o que ela tinha a contar não seria surpresa para ele.

“Ouvi a sua voz me chamando dentro de Huigor”, disse Archie.

Cecille respirou fundo e voltou-se para Jeffrey. “Eu sou descendente do homem que lançou a maldição sobre a famí­lia Stringweed. Originalmente, o nosso nome era Khan, não Caine. Quando descobri, fiquei envergonhada demais para admitir. Senti que de algum modo eu era culpada. Hoje, quan­do o professor Himes me telefonou, ele disse que eu estava ajudando a maldição sendo tão protetora com vocês dois. Era o sangue Khan, entende, me usando para impedir que vocês quebrassem a maldição. Não me dei conta de que era isso o que eu estava fazendo. Sinto muito”.

“Há quanto tempo você sabe?”, perguntou Jeffrey.

“Mais ou menos uma semana. Contatei o professor Himes em novembro, através de uma empresa que pesquisa árvores genealógicas”.

Jeffrey ficou olhando para ela, confuso, enquanto ela con­tinuava a explicação.

“Eu achei que uma árvore genealógica estampada numa toalha de chá seria um bom presente de Natal para você... mas então o professor Himes começou a me telefonar. Falan­do sobre Exterminadores Internacionais de Maldições. Que o nosso sobrenome era originalmente Khan e se eu sabia algu­ma coisa sobre uma maldição... e que a improvável combina­ção de um Khan com um Strongwood faria Archie mais forte. Que a mistura do nosso sangue fluindo através das veias de Archie enfraquecia a maldição... e como última descendente restante eu tinha de renunciar à maldição, coisa que fiz... na caverna... para as gaivotas do gelo”. Ela olhou com um jeito arrependido para Jeffrey. “Todos aqueles telefonemas, os en­ganos, bem, eram do professor Himes... Jeffrey? Diga alguma coisa. Por favor”.

Mas Jeffrey não conseguia falar. Continuou olhando para ela enquanto procurava palavras, e então elas vieram em um desabafo incrédulo. “Você achou que uma árvore genealógica em uma toalha de chá seria um bom presente de Natal?”

Nesse ponto uma gaivota do gelo, parecendo um tanto estupefata, com uma séria falta de penas, passou voando bai­xo por cima da cabeça de Cecille e pousou na asa do avião de Rufus, que fora arrastado para perto do monumento.

Rufus estava descendo da cabine. “Está todo mundo a salvo e presente?”

“Todos os Khan e Strongwood presentes e OK”, disse Jeffrey. “Algum dano colateral?”

“Monika ficou com alguns arranhões na pintura, mas na­da sério”.

Rufus olhou com admiração para a pintura empoeirada, enquanto a gaivota do gelo começava a pôr em ordem as pe­nas arrepiadas pelo vento. A ave parecia tão confusa quanto Archie, que estava tentando entender por que Rufus não es­tava interessado na sua batalha com Huigor.

“Eu quebrei a maldição, Rufus”.

“E que maldição seria essa?”, respondeu Rufus, embora parecesse muito mais interessado em arrancar um grande tufo de arbustos de uma roda.

“Huigor”, disse Archie, que estava começando a se sen­tir muito decepcionado com o tio. “Você não se lembra...?”

“Ah!” Rufus subitamente deu meia-volta com um enor­me sorriso. “Aquela maldição”, e Archie percebeu que ele es­tava só provocando. Rufus caminhou decididamente até ele e tirou a adaga da sua mão. “Ajoelhe-se!”

Archie ficou de joelhos e Rufus tocou gentilmente os seus ombros com a lâmina.

“Por grande fortitude e bravura em face de temor ini­maginável, proclamo que tu, Archie Stringweed, provaste ser um cavaleiro meritório. Restaurando a honra à nossa fa­mília e libertando almas aprisionadas de uma maldição des­prezível. Provaste também ser um membro à altura da EIM: a Exterminadores Internacionais de Maldições”.

Os olhos cansados de Archie piscaram e se arregalaram. “Exterminadores Internacionais de Maldições?”

Rufus sacou uma caixinha do bolso do casaco e a abriu. Dentro havia uma corrente de ouro presa a um aro de ouro.

“Pelos poderes a mim conferidos, concedo a ti a Medalha da Primeira Ordem”. Ele passou a corrente por cima da cabe­ça de Archie. “Ergue-te, Archie Stringweed. És agora um mem­bro da EM”.

Archie levantou-se.

“Você está com as moedas?”, perguntou Rufus.

Archie abriu o zíper do bolso da calça e deu as moedas a Rufus, que passou a apertá-las uma de cada lado do aro.

“A medalha que veio pelo correio no seu aniversário foi enviada pelo professor Himes”, explicou ele. “Nosso presi­dente honorário. Ele decidiu enviar a outra medalha por uma gaivota do gelo, como uma gentil introdução aos encantos dessas belas aves”.

Archie admirou a medalha na corrente, vendo claramen­te à luz da lanterna de Cecille.

“Você é membro da eim?”, perguntou ele.

“Sou, sem dúvida, Archie. Todos os membros são exter­minadores de maldições”.

Cecille deu um suspiro preocupado, que rapidamente suprimiu, e a cerimônia continuou.

“Ser um exterminador de maldições traz muitas respon­sabilidades”, observou Rufus. “Uma delas é um voto de si­lêncio com relação às nossas atividades. Receio que você não possa contar aos seus amigos sobre a eim. Segredo de Estado, você entende”.

Os olhos de Archie estavam de fato muito arregalados. “Então eu sou uma espécie de cavaleiro?”

“Sem dúvida você é”, disse Rufus.

Archie estava quase comemorando com um assobio, mas decidiu não dar vexame, especialmente porque seria de se es­perar que um exterminador de maldições soubesse assobiar.

“Um trabalho muito bem-feito”, disse Rufus. “Posso aper­tar a sua mão? De homem para homem?”

Archie endireitou os ombros e ficou o mais ereto que podia sobre as pernas um tanto bambas, enquanto Rufus aper­tava-lhe a mão e batia uma continência de aviador. Archie bateu continência em resposta.

“À vontade”, disse Rufus, e Archie deixou cair a mão.

Cecille e Jeffrey irromperam em uma salva de palmas e começaram a congratular Archie por sua bravura. Jeffrey en­tão apertou a mão de Rufus, e Cecille, muito inesperadamen­te, deu-lhe um beijo na bochecha.

“Quero agradecer-lhe, Rufus, por tudo o que fez por Archie. E pela família Stringweed”, disse ela.

Depois que se recuperou do beijo repentino, Rufus disse: “Você também desempenhou um papel importante, Cecille. Meus parabéns!”.

“Ouçam, ouçam”, disse Jeffrey, apertando a mão dela. “De agora em diante os Stringweed olham para o futuro”. Ele voltou-se para Archie. “Não é mesmo, campeão? Como está se sentindo?”

“Meio formigando. Como se estivesse cheio de eletrici­dade”.

“Olhe, Archie!”, disse Cecille, apontando na direção de um brilho laranja a distância. “Você deve ter devolvido a for­ça a Westervoe”.

“Todos a bordo!”, decidiu Rufus. “Monika tem combus­tível suficiente apenas para nos levar de volta enquanto a gai­vota do gelo voa”.

“Venha, Cecille”, disse Jeffrey. “Vamos voar para casa. Podemos vir buscar o Land Rover de manhã”.

“Quem quer sentar na frente?”, perguntou Rufus. “Sem brigas!”

“Papai quer!”, disse Archie. “Não é, papai?”

“Sim”, disse Jeffrey. “Eu acho que sim”.

Todos subiram a bordo e Cecille olhou pela janela para as duas fileiras de Sentinelas tremeluzindo dos dois lados da pista de pouso, como se aquilo fosse a coisa mais natural do mundo. Ela sorriu quando Jeffrey deu um grito de entusias­mo assim que o avião começou a se mover.

Archie segurou a mão de Cecille.

“É uma estrela dos desejos”, disse ele colocando um pe­queno objeto de vidro na palma da mão dela. “Agora você pode fazer um desejo sempre que quiser”.

O avião estava ganhando velocidade e o som do motor acelerando abafou as palavras de Cecille, mas Archie sabia que ela tinha dito “Obrigada”. Cecille se inclinou mais para perto, para que ele pudesse ouvi-la dizer: “Há um belo par de botas com patins na vitrine da loja de ferragens. Por que você não vai dar uma olhada amanhã? Se tiver vontade”.

Archie balançou a cabeça. “Mudei de idéia a respeito de patins”.

“Mudou?”

“Sim”, disse ele quando se elevaram no céu estrelado. “Agora que sou um cavaleiro, realmente acho que devia aprender esgrima”.

“Oh”, Cecille engoliu em seco antes de se recompor ra­pidamente. “Bem, se é isso que você realmente quer...”

“Conte comigo também”, Jeffrey estava dizendo. “E algu­mas aulas de rapel poderão vir a calhar para a nossa excur­são à montanha na primavera, e... e... e...” Sua voz foi sumin­do, mas a boca permaneceu aberta enquanto ele olhava para fora pela janela, em admiração silenciosa.

Eles estavam agora em pleno vôo, o céu iluminado pelo luar pálido e cheio de milhões de estrelas de brilhos e tama­nhos diferentes. Abaixo deles, uma nuvem branca cintilante parecia mudar de forma enquanto flutuava para cima.

“Um vôo de escolta honorário”, anunciou Rufus quando a nuvem os engolfou e eles se viram cercados por centenas de gaivotas do gelo voando ao lado em formação disciplina­da, o luar sobre as asas distendidas e os olhos verdes brilhan­do no escuro. Archie pressionou o rosto contra a janela, ten­tando distinguir qual o pássaro que aparecera à sua janela com a medalha, e qual o que o transportara para casa depois da sua primeira viagem à rocha do Musgo, e qual o salvara quando ele caiu do penhasco. Mas sabia que eram todos seus amigos. Ele acenou e eles subitamente se elevaram mais alto no céu e viraram para a esquerda, afastando-se em direção à rocha do Musgo, os corpos se transformando em silhuetas ao passar na frente da lua. Duas bolas de luz verde lançaram um lampejo de despedida.

“Olhe, uma estrela cadente”, disse Cecille empolgada. “E lá, mais uma”. Ela fechou os olhos e, apertando a estrela de vidro na mão, disse para Archie: “Depressa, faça um pe­dido, antes que elas desapareçam”.

Por mais que tentasse, Archie não conseguiu pensar em um só pedido para fazer. Naquele momento, já tinha tudo o que poderia querer.

Ele baixou os olhos para a medalha pendurada em seu pescoço. Estava escuro demais para vê-la direito, mas ele acom­panhou com o dedo a gravação do pássaro com as asas esten­didas. Ao fazê-lo, foi envolvido por uma suave luz verde e, ao erguer os olhos, viu o olho da gaivota do gelo gigante en­chendo a janela ao seu lado. Ele ergueu a medalha para mos­trá-la orgulhosamente ao pássaro.

“Um valor como o seu libera grandes forças”, ele a ouviu dizer. “Guarde-a em segurança, pois virão tempos em que tal bravura será novamente convocada”.

Tão repentinamente quanto aparecera, o pássaro se foi. Archie encostou o rosto na janela, esquadrinhando o céu, mas o único movimento que podia ser visto era o da nuvem cin­tilante flutuando em direção à rocha do Musgo.

Ele olhou para a sua medalha e dessa vez seus dedos acompanharam as palavras inscritas em volta do aro que a mantinha no lugar.

Archie Stringweed. Exterminador de Maldições.

O orgulho encheu-lhe os pulmões até ele quase não po­der mais respirar. Sentiu a boca se encurvar em um sorriso e a mais pura felicidade subiu-lhe pela garganta tão rápido que ele não pôde contê-la. Inspirou fundo e o avião foi preenchido pelas notas cristalinas de um assobio perfeitamente formado.

 

                                                                                P. R. Morrison  

 

                      

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