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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


O DOTE ESPANHOL / Candace Camp
O DOTE ESPANHOL / Candace Camp

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblio VT

 

 

 

 

Inglaterra, século XIX

Segundo a lenda, trata-se de uma fortuna em moedas de ouro, jóias e peças antigas. E, até mesmo, um leopardo feito em ouro, com olhos de esmeraldas e uma coleira de rubis.

O dote espanhol... perdido. Por causa de uma mulher. No final do século dezessete, “Black Maggie” Verrere ficou noiva de sir Edric Neville, em um esforço para unir as duas famílias. Porém, ela fugiu para a América com outro homem! E o dote desapareceu. As duas famílias, Verrere e Neville, odeiam-se desde então.

Agora, cento e cinqüenta anos depois, uma outra mulher da família Verrere está interessada no dote. Encontrá-lo é a única esperança de Cassandra Verrere em proporcionar um futuro para seus irmãos mais novos. E para si mesma.

Infelizmente, ela precisa da ajuda de um Neville.

Mas, confiar em um Neville? Impensável!

 

 

 

 

 

 

A porta do quarto se abriu. Um homem entrou, carregando uma vela, que mal penetrava a escuridão. Mesmo assim, ele conseguiu divisar a cama e aproximou-se.

A mulher que ocupava o leito encontrava-se deitada de costas para ele, as curvas generosas escondidas sob as cobertas. Ele parou, tomado de incerteza. Imaginara encontrá-la acordada, para recebê-lo com o ardor que demonstrara horas antes. Aproximou a vela da cama, iluminando assim os cabelos loiros, espalhados sobre o travesseiro. Haviam sido as mechas douradas que haviam lhe despertado o interesse muito mais do que o rosto perfeito.

Apagou a vela e colocou-a sobre a mesa-de-cabeceira. Então, tirou os sapatos e deitou-se na cama. Ela não se moveu, nem falou. Ele se perguntou se ela estaria mesmo adormecida, o que seria estranho, uma vez que ela mesma marcara o encontro para meia-noite. Talvez estivesse fingindo, a fim de manter a ilusão de que ainda guardava algum resquício de inocência. Ou, então, acreditava que isso o deixaria mais excitado. E ele tinha de admitir que era mesmo excitante deitar-se junto de um corpo quente e macio, aparentemente sem defesas e sem resistências.

Afundou o rosto nos cabelos sedosos, ao mesmo tempo em passava um braço em torno dela. Foi imediatamente invadido por uma onda de desejo. A suave fragrância de rosas era muito mais agradável do que o perfume forte que ela usava, horas antes. Afastou-lhe os cabelos e roçou os lábios no pescoço delicado.

Ela suspirou profundamente, provocando nele um sorriso de satisfação. Então, ele continuou a beijá-la no pescoço, no rosto, na orelha, enquanto uma de suas mãos deslizava pelo corpo dela, levando consigo as cobertas. Descobriu que ela usava apenas uma camisola simples, de algodão branco. Ficou surpreso, pois esperava encontrar uma peça mais provocante. Então, riu consigo mesmo. Não lhe ocorrera que a moça fosse tão esperta. A simplicidade da camisola era, definitivamente, muito mais excitante do que peças mais sofisticadas, Ora, talvez sua noite terminasse muito melhor do que ele havia imaginado. Felizmente, mudara de idéia e decidira aceitar o convite de Joanna.

Suas mãos continuaram a passear pelo corpo dela, enquanto seus lábios depositavam beijos suaves na pele macia. Acariciou-lhe os seios, a curva feminina dos quadris, o ventre liso e firme. Sentiu o sangue ferver nas veias. Com dedos ligeiramente trêmulos, abriu os primeiros botões da camisola, até descobrir um dos ombros dela. Então, beijou-o.

Colou o corpo ao dela e deslizou uma das mãos pelo ventre de Joanna, para então acomodá-la entre as coxas dela. Ela gemeu baixinho e afastou as pernas, abrindo-se para ele. O silêncio dela era infinitamente excitante, pois a respiração cada vez mais rápida e ruidosa parecia uma manifestação de seus instintos mais básicos, que lutavam por liberdade e satisfação. Ele a acariciou com intimidade, sendo recompensado por outro gemido, este ainda mais profundo.

Então, ela se virou para ele, oferecendo-lhe os lábios entreabertos, ao mesmo tempo em que o envolvia com os braços. Ele sentiu o desejo ameaçar sufocá-lo. Ligeiramente atordoado pela paixão, puxou a camisola até a altura dos quadris dela e passou a acariciá-la sem a barreira do algodão, arrancando-lhe mais gemidos e suspiros.

Totalmente embriagado pelo desejo, ele queria tocar cada centímetro daquele corpo. Ao mesmo tempo em que teve o ímpeto de penetrá-la imediatamente, queria prolongar ao máximo aqueles momentos de infinito prazer. Não esperava nada parecido com o que estava acontecendo, quando aceitara o convite da srta. Moulton. Ela lhe parecera artificial, como se estivesse tentando seduzi-lo com algum propósito obscuro. Por isso mesmo ele não planejara visitá-la. Fora a dificuldade que encontrara para dormir que o fizera mudar de idéia e ir até o quarto de Joanna. Agora, porém...

Enquanto a acariciava e beijava, aspirando-lhe o perfume suave, não encontrava a paixão premeditada que havia esperado. O corpo dela era como uma fogueira sob o seu. A maneira como ela reagia a seus beijos, como suspirava e gemia, indicava um misto de paixão e inexperiência. Ele não se lembrava de jamais ter se sentido tão excitado.

Sentindo-se prestes a explodir e percebendo que ela se aproximava dos picos do prazer, abandonou-lhe os lábios e passou a beijar-lhe os seios fartos.

Ela emitiu um gemido alto, o corpo serpenteando de encontro ao dele. Segundos depois, ela explodiu em clímax, provocando nele uma satisfação jamais sentida antes, por ter proporcionado verdadeiro prazer a uma mulher. Erguendo a cabeça, ele sorriu. E foi então que viu a confusão nos olhos dela, agora abertos, fixos nos seus. E também viu, com o sentimento de quem chega à beira de um precipício, que a garota em seus braços não era Joanna Moulton.

 

Cassandra mergulhou em um prazer sem igual. Jamais em sua vida experimentara algo parecido. Desde o momento em que adormecera, começara a ter sonhos coloridos e deliciosos. Caminhava por sua casa, a velha mansão. Chesilworth, e não a residência muito mais luxuosa, porém, menos agradável, de sua tia. Sentia-se satisfeita e feliz. Seu pai ainda vivia e estava estudando, na biblioteca. As paredes eram pintadas de uma tonalidade creme, que – tornava todos os cômodos muito aconchegantes. Ao passar por um dos quartos viu, pela porta aberta, a cama imensa, coberta por uma colcha de veludo vermelho. As velas acesas lá dentro eram convidativas e Cassandra entrou no quarto. Porém, viu-se em um jardim luxuriante. A mesma brisa que provocava o farfalhar das folhas, agitava-lhe os cabelos e provocava uma sensação estranha, mas muito agradável, no pescoço. Ela estremeceu de prazer. O sol aquecia seus ombros, enquanto a brisa continuava a acariciar seu corpo. Fechando os olhos, ela se entregou às sensações.

O prazer foi se tornando mais intenso, à medida que a brisa suave acariciava-lhe a pele: Ela se deu conta de que, agora, estava nua, mas isso não representou motivo de preocupação. Deleitou-se com a sensação que o sol e o ar fresco provocavam. Então, havia um homem a seu lado, mas isso também não a incomodou. Conhecia-o, embora não pudesse ver-lhe o rosto. Ao sentir que ele a tocava, estremeceu. E abandonou-se ao prazer daqueles beijos ardentes. Quando uma das mãos dele deslizou por entre suas pernas, ela arqueou o corpo, buscando algo que não saberia identificar. De repente, seu corpo foi sacudido por ondas de êxtase.

Cassandra abriu os olhos, subitamente desperta, e descobriu que um estranho a fitava.

Por um momento, ela não foi capaz de reagir. Então, à medida que a mente sonolenta clareava, foi tomada de imenso horror. Abriu a boca para gritar, mas ele percebeu sua intenção e impediu-a, pousando a mão firme sobre seus lábios. O que a deixou ainda mais assustada. Cassandra pôs-se a lutar, atingindo-o na orelha e, depois, no peito. Ele abafou um gemido de dor e usou o peso do próprio corpo para imobilizá-la.

Embora ele fosse mais forte, Cassandra não era do tipo que se entregaria com facilidade. Assim, aproveitando-se da vantagem de contar com as duas mãos livres, enquanto ele tinha de usar uma delas para impedi-la de gritar, esmurrou e chutou, tentando machucá-lo. Foram necessários alguns minutos para que ele conseguisse imobilizá-la completamente.

E foi então que Cassandra se deu conta do poder daquele homem, bem como do corpo viril sobre o seu. E, pior, deu-se conta também de que o sangue fervia em suas veias.

Desejou recuperar sua capacidade de raciocinar normalmente. Por que sentia-se tão atordoada? E o que um homem rico e influente como sir Philip Neville fazia em seu quarto, em sua cama?

– Não grite! – ele sussurrou, fitando-a nos olhos. – Juro que não vou lhe fazer mal algum. Vou soltá-la, se prometer não gritar.

Ela balançou a cabeça e sir Philip retirou a mão devagar, temendo que ela tentasse gritar novamente.

– Juro que não lhe farei nenhum mal. Sairei deste quarto imediatamente. Não vou lhe fazer mal. Compreende?

– É claro que compreendo! – Cassandra sibilou. – Não sou idiota!

Ele se afastou com um suspiro contrariado.

– Que confusão! Você é a mulher errada.

– Assim espero. – Ela se sentou. – Ai! Minha cabeça dói. Sinto-me estranha.

Voltou a encarar o homem sentado a seu lado e refletiu que deveria estar assustada. Porém, passado o choque inicial, tendo reconhecido o estranho como sendo sir Philip Neville, o medo de Cassandra dera lugar à mais pura confusão.

Ao mesmo tempo, as sensações provocadas pelo sonho ainda a perturbavam e ela buscou refúgio no sarcasmo.

– Quem é a moça cujo quarto o senhor pretendia invadir? – inquiriu.

– Não seria invasão. Eu estaria apenas aceitando um convite.

– Ah, sim! Eu deveria saber que sir Philip Neville recebe inúmeros convites para entrar em quartos de mulheres.

Neville estudou-a por um longo momento.

– Você é uma mulher um tanto peculiar – concluiu.

– O senhor não é o primeiro a dizer isso – Cassandra retrucou, consciente de que o comentário não fora um elogio.

– Seria de se esperar que uma jovem estivesse muito mais aflita, na situação em que se encontra.

– Prefere que eu fique aflita? Não vejo como uma crise histérica melhoraria a situação.

– Não melhoraria em nada, mas seria mais... normal...

– Devo ser uma mulher anormal. Afinal, é o que minha tia e minha prima vivem dizendo. Elas acreditam que foi por isso que não consegui me casar, mas tenho certeza de que a escassez de pretendentes à minha mão deveu-se mais à situação triste de nossas finanças, do que à minha atitude. Conheço mulheres muito mais estranhas que eu, que se casaram muito bem. Por coincidência, todas elas tinham pais ricos.

– Sou obrigado a concordar com o seu ponto de vista.

Sir Philip fitou-a com ar fascinado. Nunca antes conhecera uma mulher capaz de falar com tamanha franqueza. Aliás, era muito raro conversar com uma mulher que não começasse, imediatamente, a flertar com ele. Sir Philip havia chegado à conclusão de que uma renda de cem mil libras por ano atuava como um poderoso afrodisíaco..

– Voltando ao assunto – Cassandra continuou em tom frio –, por quê, exatamente, entrou em meu quarto, e não no da mulher que o convidou?

– Creio que me enganei no caminho – Neville respondeu, acendendo a vela que deixara na mesa de cabeceira e retirando do bolso o bilhete. – E estranho, pois as instruções são claras: quinta porta, à direita da escada.

Intrigada, Cassandra ajoelhou-se na cama e espiou por cima do ombro dele. E ficou horrorizada ao reconhecer as letras desiguais e ligeiramente borradas.

– Meu Deus! E a caligrafia de Joanna!

Neville virou-se, furioso, amassando o papel.

– Esta correspondência é particular!

– Tenho minhas dúvidas, uma vez que o senhor está lendo o bilhete em minha cama.

– A reputação dessa moça estaria arruinada, se isso se tomasse público.

– Desculpe, mas creio que é a minha reputação que corre risco maior, com o senhor dentro de meu quarto.

– Imagino que a senhorita não vá sair por aí, contando que recebeu a visita de um homem em seu quarto, no meio da noite. E, como não tenho a menor intenção de revelar o incidente a ninguém, sua reputação está salva.

– É claro que não vou contar nada! – Cassandra retrucou, irritada com a preocupação excessiva que ele demonstrava com relação à reputação de Joanna. – Na minha opinião, é com Joanna que deve se preocupar. É evidente que ela é tão estúpida, que o mandou ao quarto errado. – Apanhou o papel que ele havia amassado e alisou-o na palma da mão. – Agora compreendo. Veja. Ela escreveu quarta porta, não quinta.

O problema é a caligrafia abominável de Joanna. Além disso, ela se esqueceu de escrever o “a”. O que não é surpresa, pois sempre foi péssima em ortografia. Foi por isso que o senhor errou de quarto. Tenho mais experiência com os bilhetes de Joanna.

– Nesse caso, é uma pena que eu não tenha consultado a senhorita, antes. Infelizmente, eu não S l ia que precisaria de uma intérprete.

– Não precisa ser rude! E, também, não precisa se preocupar com a sua reputação, ou melhor, da reputação da moça em questão. Eu jamais mancharia o nome de minha própria família com fofocas. Caso não saiba, Joanna é minha prima.

– Sua prima? Estranho... Não me lembro de tê-la visto na companhia dela.

– Isso acontece com freqüência – Cassandra informou-o com naturalidade.

Estava habituada a ser ofuscada pela prima bonita e namoradeira. Geralmente, os cabelos dourados e grandes olhos azuis de Joanna monopolizavam as atenções masculinas.

Aos vinte e sete anos, Cassandra já se conformara com a condição de solteirona. Nunca fizera sucesso com os homens. Não despertara o interesse de nenhum pretendente na temporada em que debutara na sociedade e seu pai não tivera dinheiro para que ela pudesse freqüentar outras temporadas. Porém, ela sabia que aparecer em bailes e outros eventos sociais não a ajudariam a conquistar um marido. Em primeiro lugar, detestava flertes. Em segundo, embora não fosse feia, seus traços estavam muito longe de serem perfeitos. As maçãs do rosto eram salientes, o queixo, muito firme e a boca, grande demais para atender as exigências da moda dos lábios em forma de “botão de rosa”. Até mesmo seus olhos, que ela considerava seu melhor atributo, eram de uma tonalidade cinza que não chamava a atenção de ninguém. E, para piorar, sua maneira franca e direta não atraía os homens.

Assim, fora com satisfação que retornara ao seio de sua família, em Chesilworth, depois de apenas um ano na sociedade. Ficara entediada com os compromissos que tivera de cumprir, mas fizera o esforço por sua família que, como sempre, encontrava-se em sérias dificuldades financeiras. Se um homem de boa posição houvesse pedido sua mão, ela teria se casado, mesmo contra vontade. Para seu alívio, isso não acontecera e ela pudera voltar a usar suas roupas simples e cuidar da casa de seu pai.

Encontrara satisfação afetiva na criação dos irmãos mais novos e sua sede intelectual era saciada na companhia do pai. Não sentia falta de nada em sua vida, mas também não se permitia pensar demais no que poderia estar lhe faltando. Em festas, sentava-se junto das matronas, observando o comportamento fútil dos mais jovens, pois não suportava a conversa insípida das moças solteiras. Nos dois últimos anos, passara a usar uma touca sobre os cabelos, assumindo assim a condição de solteirona.

Portanto, não era de admirar que os homens a olhassem com indiferença, mas isso a poupava de ter de conversar sobre banalidades..

No entanto... foi impossível evitar a pontada de mágoa diante da idéia de que sir Philip nem sequer a notara, embora houvesse parado a menos de um metro de distância, para conversar com sua tia Ardis e a prima Joanna.

– O senhor estava ocupado – continuou, sem esconder o que sentia.

– Compreendo.

Neville estudou-a à luz da vela e ficou chocado por não ter notado aquela criatura de olhos grandes, cabelos loiros e outros traços muito atraentes. Baixou os olhos e descobriu que a camisola, ainda desabotoada, deslizara por um dos ombros dela, revelando um seio firme e claro, bem como o mamilo rosado. Mesmo vestida e penteada, era inconcebível que aquela mulher não houvesse lhe chamado a atenção!

Cassandra seguiu a direção dos olhos dele e, horrorizada, viu o seio à mostra. Com as faces ardendo, fechou a camisola e começou a abotoá-la. Aquela era, definitivamente, a pior situação que ela já enfrentara em sua vida! Como poderia encará-lo novamente? Nunca antes alguém vira mais do que seus vestidos, todos muito sóbrios, exibiam. Agora, aquele homem, que não passava de um estranho, a via com a intimidade de um marido. E, pior, por que sua camisola estava aberta? Desesperada, Cassandra lembrou-se das sensações embriagantes de seu sonho. O que realmente acontecera? Seria possível que ela não estivesse sonhando, mas sim sendo tocada por um homem de verdade? Teria sir Philip sido o responsável pela explosão de prazer que, finalmente, a despertara?

Ergueu os olhos para ele, ainda com as faces ruborizadas. Estava embaraçada, mas não era o tipo de mulher capaz de fugir à verdade.

– O que aconteceu aqui? – inquiriu. – Sinto-me estranha. Tive sonhos bizarros... Foi real? O que eu fiz?

Sir Philip hesitou por um instante, mas então inclinou-se e tomou as mãos dela nas suas.

– A senhorita não fez nada, eu garanto. Entrei no quarto, acreditando ser o de outra pessoa. A senhorita estava em meio a um sonho agitado. Pensando que era Joanna, tomei-a nos braços e tentei acordá-la, mas a senhorita dormia profundamente. Eu... Eu a beijei e, então, a senhorita acordou. Foi quando descobri que não estava no quarto da srta. Moulton.

– Foi só isso?

– Sim, claro. O que mais poderia ter acontecido?

Cassandra suspirou, aliviada.

– Nada. Foi apenas... peculiar. Eu sentia que não estava realmente dormindo, mas não conseguia acordar. – Sem dúvida, teve um dia cansativo.

A verdade era que, fisicamente, o dia de Cassandra fora monótono, mas a atividade social era, para ela, muito cansativa.

– Bem, acho melhor o senhor sair, agora.

– Tem razão. – Ele se levantou e encaminhou-se para a porta, seguido por Cassandra. – Obrigado.

– Por nada – ela replicou de maneira automática, mas então, perguntou: – Por que está me agradecendo?

– Por ter agido como uma jovem calma e razoável. .

Poucas teriam reagido como a senhorita.

– Ah... Creio que não sou muito sensata – Cassandra murmurou, pousando a mão no trinco da porta. – Espere. Deixe-me verificar se não há ninguém no corredor.

Sir Philip assentiu e recuou um passo.

Cassandra abriu apenas uma fresta da porta e espiou.

Então, levou a mão aos lábios, assustada, e voltou a fechá-la depressa. Virou-se para ele com olhos, arregalados.

– O que foi? – Sir Philip perguntou, apreensivo.

– Minha tia! – ela respondeu em um sussurro aflito.

Sem pensar, Cassandra trancou a porta. A última coisa que desejava era tia Ardis invadindo seu quarto.

– O que ela está fazendo aqui? – Neville perguntou, também sussurrando.

– Não faço a menor idéia. Acha que ela pode tê-lo visto entrar aqui? Se ela bater na porta, terá de se esconder. Acha que consegue fugir pela janela?

– Estamos no segundo andar – ele lembrou.

– Deve haver uma treliça, ou uma árvore...

– A senhorita parece experiente nesse tipo de situação – sir Philip comentou com ironia.

– Que absurdo!

A discussão foi interrompida por batidas pesadas na porta do quarto ao lado. Cassandra sobressaltou-se, mas, então, suspirou aliviada.

– Graças a Deus! Ela está batendo na porta de Joanna.

– Joanna! – tia Ardis gritou. – Abra a porta!

– Sua tia tem o hábito de acordar a todos no meio da noite?

– Não. Aliás, não faço idéia do que está se passando.

Ela sempre se deita antes das dez.

– Joanna!

Cassandra voltou a abrir uma fresta da porta, para espiar a tia. Ficou surpresa ao descobrir que tia Ardis, uma mulher de proporções mais que generosas, ainda usava o espartilho por baixo do robe de veludo vermelho. Os cabelos ainda se encontravam presos na trança que ela enrolava na nuca, durante o dia. O que poderia ter acontecido?

– Joanna! Pela última vez, abra a porta! Quem está aí, com você? Ouvi vozes.

– Vozes! – Cassandra sussurrou, virando-se para sir Philip. – Acha que ela nos ouviu?

Neville sacudiu a cabeça e Cassandra refletiu que isso seria improvável, uma vez que o quarto da tia ficava além do de Joanna.

Naquele momento, a porta do quarto ao lado de abriu e Joanna sussurrou, desesperada:

– Pare com isso, mamãe! É cedo demais! Ele ainda não chegou!

Boquiaberta, tia Ardis fitou a filha com ar horrorizado. Todas as portas do corredor se abriam e as pessoas espiavam com expressões sonolentas, irritadas e curiosas.

– O que está havendo? – inquiriu o coronel Rivington. – Que comoção é essa?

– Eu... – tia Ardis balbuciou, empalidecendo.

– Sinto muito – Joanna desculpou-se com um sorriso meigo. – Por favor, perdoe .minha mãe. Ela estava... estava...

– Preocupada! – a mãe finalmente recuperou a voz. – Eu estava preocupada. Ouvi Joanna gritar. Acho que estava tendo um pesadelo.

– Isso mesmo – a filha concordou, depressa.

Tive um pesadelo.

Cassandra fechou a porta com cuidado e franziu o cenho.

– Estranho. Por que elas... – parou de falar ao perceber a expressão furiosa no rosto de sir Philip. O que foi?

– Agora, compreendo – ele murmurou com desgosto. – Fiquei surpreso quando a srta. Moulton praticamente se atirou para mim, esta tarde. Antes disso, ela havia se comportado como uma simples namoradeira. Então, de repente, transformou-se em uma mulher ousada.

Lembrou-se de que ela esbarrara nele, “acidentalmente”, três vezes, naquela tarde. E, também, do beijo promissor atrás de uma árvore, quando ela lhe passara o bilhete com discrição.

– Não estou entendendo. Do que o senhor está falando? .

– Do plano de suas parentas. Sua prima escreveu aquele bilhete, convidando-me para visitar o quarto dela à meia-noite. Pareceu estar disponível para atender às intenções menos honradas possíveis. Mas estava tudo combinado. Sua tia faria um escândalo quando eu estivesse lá, acordando a todos com a gritaria.

Cassandra arregalou os olhos.

– Está dizendo que Joanna o convidou apenas para que titia pudesse apanhá-lo em situação comprometedora? Mas... por quê? Por que minha prima arruinaria a própria reputação, dessa maneira?

Um leve sorriso curvou os lábios de Neville. A dificuldade em compreender o plano sórdido da tia revelava muito sobre o caráter de Cassandra.

– Minha cara, duvido que sua prima se importasse com a reputação, desde que o escândalo lhe trouxesse riqueza e um nome de prestígio. E, de qualquer maneira, a reputação dela estaria a salvo, uma vez que eu teria de me casar com ela.

– Elas planejaram tudo, para forçá-lo a casar com Joanna? – Cassandra inquiriu, incrédula. – Não posso acreditar!

Porém, bastaram alguns segundos de reflexão para que ela reconhecesse a verdade nas palavras de sir Philip. Afinal, por que a tia faria tanto barulho à porta do quarto da filha, senão para atrair a atenção de vários observadores? E por que tia Ardis, que nunca se deitava depois das dez, encontrava-se de espartilho e cabelos presos, àquela hora da noite? A resposta era simples. Como esperava ser vista por muita gente, não fora capaz de se apresentar como realmente dormia.

– Foi por isso que eu me senti tão atordoada – murmurou. – Tia Ardis deve ter colocado um pouco do láudano, que sempre leva consigo, no leite. Eu de. veria ter desconfiado, quando ela veio ao meu quarto, trazendo uma caneca de leite morno, para me ajudar a dormir. Ela sabe que tenho sono muito leve e que é freqüente eu demorar muito a adormecer. Não queria que eu ouvisse barulhos, como de você entrando no quarto de Joanna, e fosse investigar.

– Sem dúvida, a senhorita está certa. Foi mesmo uma sorte a caligrafia da srta. Moulton ser tão ruim.

Do contrário, a senhorita seria forçada a se tornar minha prima.

 

Cassandra cobriu as faces coradas com as mãos. Não sabia se se sentia furiosa ou humilhada. Como a tia e a prima eram capazes de tomar uma atitude tão desprezível? A simples idéia de ver Joanna tentando prender aquele homem a ela pelo resto da vida despertou em Cassandra o impulso de esbofeteá-la.

– Estou tão envergonhada,.sir Philip. Peço desculpas por minha família. Não sei o que as levou a agir assim.

– A atração pelo dinheiro pode levar as pessoas a atitudes bizarras.

– Isso não é desculpa para tamanha falta de princípios. Sinto muito – ela voltou a se desculpar, com lágrimas nos olhos. – Deve nos achar horríveis.

Ele sorriu, tomou a mão dela e levou-a aos lábios.

– Minha cara, eu jamais poderia considerá-la horrível. Para ser sincero, a senhorita quase recuperou a minha fé na humanidade.

O contato dos lábios dele com a sua pele, lembrou Cassandra das sensações que tomavam conta de seu corpo, quando ela acordara. Foi obrigada a desviar o olhar do dele.

– Eu... Deixe-me ver se todos já voltaram para seus quartos. – Abriu a porta e espiou. Verificando que o corredor encontrava-se deserto, virou-se para sir Philip. – Não há mais ninguém lá fora.

– Nesse caso, creio que devo deixá-la. – Voltou a sorrir. – Obrigado por ter me proporcionado uma noite muito interessante, srta. Moulton.

– Ah, eu... – Cassandra parou de falar, concluindo que aquele não era o momento mais apropriado para explicar que seu nome não era Moulton. – Mais uma vez, peço desculpas pelo que minha prima e minha tia fizeram.

– E eu lhe devo desculpas pelo meu comportamento pouco cavalheiresco.

Mais uma vez, Cassandra sentiu as faces arderem.

Abaixou a cabeça e recuou um passo, para que ele pudesse sair. Fechou a porta e esperou, tensa, por vozes que indicassem que ele fora apanhado. Porém, o silêncio foi total. Voltou a espiar o corredor e certificou-se de que estava deserto. Sir Philip se fora. Voltou a fechar a porta com um suspiro. Por que aquilo tinha de acontecer? Justamente naquela noite e, pior, com sir Philip Neville!

Sentou-se na cama, desanimada. Planejara tudo com tanto cuidado, para que a tia a levasse àquela festa, depois de saber que sir Philip estaria presente. Fora preciso sutileza para convencer a preguiçosa tia Ardis das dificuldades de garantir que uma jovem ativa como Joanna tivesse companhia constante, durante os entretenimentos comuns a festividades organizadas em residências campestres. Escondendo o desejo de participar da festa, levara dias para persuadir a tia de que a melhor solução seria levá-la, pois assim a mais velha teria com quem dividir a tarefa de acompanhar a filha solteira. Com fingida relutância, Cassandra finalmente aceitara a incumbência.

Não fora nada fácil, uma vez que sua natureza franca e direta não incluía o uso corriqueiro de subterfúgios. Agora, porém, era provável que seu sacrifício houvesse sido em vão. Como poderia sequer encarar sir Philip novamente, sabendo o que Joanna tentara fazer com ele? E, também, sabendo da situação tão íntima na qual ele conhecera a própria Cassandra!

Uma onda de calor a invadiu, diante da lembrança de seu sonho: dos beijos ardentes e apaixonados, das carícias sensuais. Teria tudo aquilo realmente acontecido? Teria sua mente drogada transformado a realidade em sonho? Cassandra emitiu um gemido desesperado. Jamais voltaria a encarar sir Philip, se houvesse se abandonado nos braços dele. Ele garantira que nada havia acontecido, mas poderia ter sido apenas cavalheiro demais para dizer a verdade.

Pensou na intensa explosão de prazer, que finalmente a despertara. O que fora aquela sensação de êxtase, que deixara seu corpo fraco e latejante? Nada em sua experiência sequer se aproximava do que ela sentira, então.

Seria uma mulher devassa? Ora, tratava-se de uma idéia absurda. A verdade era que Cassandra tivera pouquíssima experiência com os homens. Aparentemente, não sabia conversar com eles. A maneira direta com que costumava conversar com o pai parecia fazer com que os jovens se afastassem dela, rapidamente. Tia Ardis lhe dissera que moças solteiras não deviam discutir assuntos tediosos como história e política. E, menos ainda, emitir opiniões fortes e radicais. Segundo sua tia, jovens donzelas deveriam sorrir e flertar, agitar o leque diante do rosto, com timidez, e usar os olhares para atrair pretendentes: Cassandra simplesmente não podia assimilar a noção de que um homem fosse capaz de escolher uma mulher, baseado em risinhos tolos e conversas banais.

Bem, era verdade que Cassandra jamais tivera um pretendente, enquanto a insípida Joanna, que nunca pronunciara uma palavra sensata, via-se cercada deles, em todas as festas. O que, aparentemente, comprovava as palavras de tia Ardis. Cassandra concluíra que não era romântica o bastante, nem se interessava por homens o suficiente, para fazer o papel de donzela, a fim de arranjar um marido. Se a tia tivesse razão, então, os homens eram tolos demais para Cassandra sequer cogitar passar o resto da vida com um deles. O melhor seria continuar solteira e dona de si. Possuindo natureza tão prática e tão pouco romântica, era difícil acreditar que tivesse alguma tendência devassa. Se tivesse, seu sonho fora a única manifestação daquele traço de sua personalidade.

Endireitou as costas, dizendo a si mesma que seus pensamentos não passavam de uma grande bobagem. Sir Philip não tentara protegê-la, quando dissera que nada havia acontecido. Ele havia, simplesmente, falado a verdade. A única coisa que ele fizera fora deitar-sé junto dela, acreditando estar na cama de Joanna. Em seguida, vira o rosto de Cassandra e se dera conta do erro cometido.

Com um suspiro aliviado, decidiu que havia permitido que sua imaginação voasse longe demais. As sensações peculiares que havia experimentado haviam sido, sem dúvida, parte do sonho estranho que tivera. Estava certa de que tia Ardis, ou a própria Joanna, haviam colocado láudano em seu leite. A poção para dormir havia afetado seus sonhos, além de ter provocado tamanha sonolência.

Sir Philip não pensaria que ela era uma devassa. Aliás, ele havia declarado que apreciava sua integridade. Cassandra disse a si mesma que não tinha motivos para se sentir envergonhada, diante dele. E o fato era que precisava falar com ele. O futuro de sua família dependia de sua capacidade de convencê-lo a ajudá-la. O comportamento de sua prima fora lamentável, mas Cassandra teria de pensar nos irmãos e levar seu plano adiante. Era imperativo encontrar a herança de sua família e sir Philip era a única pessoa que poderia ajudá-la. Não poderia permitir que algumas situações embaraçosas a desviassem de seu caminho. Conversaria com sir Philip no dia seguinte.

Balançou a cabeça com ar decidido, como se estivesse discutindo a questão com alguém. Então, deitou-se, puxou as cobertas e apagou a vela. Voltara a sentir-se segura de si. No dia seguinte, daria prosseguimento ao seu plano.

 

Sir Philip Neville caminhava pelo jardim de rosas, mal notando o aroma suave, ou o colorido intenso das flores. Sua mente concentrava-se na jovem que ele conhecera na noite anterior, em situação um tanto bizarra. Não conseguira pensar em outra coisa, naquela manhã, bem como durante a maior parte da noite. E pensar que ela era parenta das ardilosas Moulton!

Era difícil reconhecer alguma semelhança com Joanna, no semblante franco e aberto da prima. Provavelmente, a maioria dos homens diria que Joanna era muito mais bonita. De fato, até a noite anterior, ele mesmo teria concordado. Os olhos azuis de Joanna, assim como a boca pequena e delicada, estavam mais de acordo com os padrões de beleza. Porém, ao pensar na pele clara, nos contornos bem delineados do rosto, no queixo firme da outra, os traços de Joanna tomavam-se vagos na mente de Neville. Ah, os cabelos loiros, tão claros... Como ele podia não ter notado aquela jovem antes?

Tal pergunta o perseguira a noite toda. Não era possível que a beleza de Joanna o tivesse cegado para tudo mais. Era verdade que a srta. Moulton era lindíssima. Além disso, seus olhares e sorrisos insinuantes haviam lhe despertado o interesse sexual. Por outro lado, sir Philip ficara entediado com a conversa dela, como acontecia com a maioria das mulheres que o assediavam, na esperança de serem pedidas em casamento. Ele nem sequer planejara aceitar o convite para ir ao quarto dela, pois concluíra que alguns momentos de prazer não justificariam o sacrifício de ouvi-la falar de penteados e vestidos e outras futilidades.

Agora, agradecia aos céus pelo momento em que decidira visitá-la. Do contrário, não teria conhecido a outra srta. Moulton, que representava uma perspectiva muito mais interessante que a prima. Pensou no dia anterior, quando lady Arrabeck, a anfitriã, o apresentara à sra. Moulton e à filha dela. Lembrou-se vagamente de uma outra mulher, um pouco afastada, que fitava a janela com ar entediado. Philip tivera a impressão de tratar-se de uma mulher mais velha e não acreditava que aquela pudesse ser a prima de Joanna.

Por que não se dera conta de que ela era uma jovem senhorita? A resposta era simples. Ela estivera usando roupas escuras e muito simples, além de uma touca sobre os cabelos. Philip perguntou-se por que ela se escondia daquela maneira, certo de que qualquer mulher daria tudo para ter cabelos tão claros e sedosos.

Sentiu uma pontada de desejo ao lembrar-se da sensação provocada pelos cabelos dela em suas mãos. Lembrou-se também do sabor daqueles lábios generosos, da maciez da pele de alabastro... e do prazer que suas carícias haviam proporcionado a ela. Com um sorriso, reconheceu que aquela fora a única mulher cujo prazer em seus braços ele poderia afirmar com certeza ter sido autêntico.

Era verdade que outras mulheres haviam sorrido, gemido e suspirado, ao receberem suas carícias, parecendo enlevadas pela paixão. Com elas, porém, ele nunca soubera ao certo se tal prazer era real, ou simples fingimento, na intenção de agradá-lo.

Sir Philip tornara-se muito rico ainda bem jovem, herdando do avô materno uma fortuna considerável.

A morte do pai, alguns anos depois, aumentara tal riqueza, incorporando a ela as propriedades dos Neville. Embora seu título fosse apenas de baronete, a família Neville orgulhava-se de sua linhagem de sangue azul, tendo contado com incontáveis duques, condes e viscondes, ao longo de sua história. A combinação de riqueza e um bom nome haviam transformado Philip em um cobiçado prêmio, aos olhos de fêmeas predadoras, desde mães aristocráticas, à caça de um marido para suas filhas, até atrizes, dançarinas e prostitutas, ansiosas por luxos que só um homem de posição poderia lhes oferecer. Assim, ele aprendera a ver com cinismo a atração que exercia sobre as mulheres, antes mesmo de completar vinte anos de idade. Geralmente, preferia os acordos mais objetivos que mantinha com suas amantes, aos flertes de jovens senhoritas de boas famílias. Estava certo de que as últimas teriam lhe dirigido sorrisos insinuantes e olhares ousados, mesmo que ele fosse corcunda e vesgo, pois só estavam interessadas no nome e na fortuna dos Neville.

Porém, mesmo com as mulheres experientes e atraentes que tinha como amantes, Philip jamais se enganara. Sabia que, para elas, agradá-lo era um meio de vida e, por isso, não confiava em suas declarações de amor e, menos ainda, em seus suspiros de prazer.

Na noite anterior, ao contrário, não existira artifício, ou fingimento. A jovem reagira a ele de maneira inconsciente e instintiva. E fora aquela manifestação tão honesta de desejo que mais o intrigara. A simples lembrança o deixava excitado, ainda agora.

Parou e olhou na direção da casa, na esperança de avistar a srta. Moulton. Fora o que fizera durante a maior parte da manhã. Queria conversar com ela de novo, ouvir aquela voz agradável, desprovida das afetações que a maioria das jovens utilizava. Queria vê-la à luz do dia, para certificar-se de que a pele clara e olhos luminosos eram mesmo como ele se lembrava.

Até aquele momento, porém, não vira sinal dela, embora diversas jovens houvessem se mostrado dispostas a acompanhá-lo em sua caminhada pelo jardim.

Perguntou-se se ela tinha o hábito de acordar tarde, ou se era o tipo de criatura delicada que passava o tempo todo dentro de casa, temendo expor-se ao sol.

Naquele momento, ouviu passos atrás de si e u a voz feminina cumprimentou-o:

– Ah, sir Philip! É um prazer vê-lo de novo.

Era a voz dela. Neville virou-se para encará-la. Era alta, de porte orgulhoso, parecendo não se importar com o fato de que muitos homens não alcançavam aquela estatura. E, também, era esbelta, embora seu corpo estivesse escondido por um vestido marrom, mais apropriado a uma governanta, do que à sobrinha de Ardis Moulton. Os cabelos encontravam-se presos sob um chapéu de.abas largas.

Sir Philip deu um passo à frente, sem perceber o sorriso que curvava seus lábios, geralmente impassíveis. Examinou-lhe os traços fortes e voltou a se sentir culpado por ter não ter prestado atenção nela, na véspera. Aquele era um rosto difícil de esquecer. Lamentou o fato de ela estar usando chapéu, pois desejava ver os cabelos loiros brilhando ao sol.

– É uma surpresa muito agradável, srta. Moulton.

Minha caminhada matinal costuma ser tediosa, mas, se concordar em me acompanhar, tenho certeza de que tornará meu passeio bem mais interessante – convidou-a, oferecendo-lhe o braço.

Cassandra aceitou o braço oferecido, com um sorriso largo. Esperava que o rubor em suas faces não a traísse. Avistara sir Philip alguns minutos antes e se aproximara lentamente, reunindo coragem para falar com ele. Quando finalmente o alcançara, o sorriso que ele exibira fizera seu coração disparar. Cassandra nunca sentira aquilo. antes, assim como nunca se descobrira sorrindo para um homem, sem motivo algum. Disse a si mesma que tais reações deviam-se à ansiedade provocada pelo assunto que tinha a discutir com ele.

– Meu nome não é Moulton – corrigiu-o, tentando ignorar as batidas descompassadas de seu coração.

– Desculpe o meu erro, mas como o nome de sua tia é Moulton, pensei...

– Minha tia é esposa do irmão de minha mãe. – Compreendo. Qual é o seu nome, então?

A coragem abandonou-a no último instante, e ela respondeu, simplesmente:

– Cassandra...

– Cassandra! – ele repetiu com um brilho divertido no olhar. – Um nome um tanto pesado para uma criança.

– Talvez papai e mamãe acreditassem que um nome assim me desse poderes proféticos. Quando nasci, meu pai vivia sua fase grega. Portanto, tive sorte por não ter sido chamada de Perséfone, ou Electra.

– Tem razão.

– Meus irmãos me chamam de Cassie, que não é tão mau.

– Cassandra não é mau. Juro que não foi o que eu quis dizer. Acho apenas....

– Eu sei. É o tipo de nome de os pais não deveriam impor a um bebê.

Sir Philip sorriu.

– Eu não seria tão radical.

– Está apenas tentando ser simpático.

– E seu pai continuava vivendo a fase grega, quando seus irmãos nasceram?

Cassandra soltou uma risada deliciosa, que provocou sensações estranhas em Philip.

– Quer saber se eles se chamam Ajax, Agamenon e Deméter?

– Exatamente – ele respondeu, rindo também.

– Minha irmã se chama Olívia, que vem do latim.

Os gêmeos são Crispin e Hart.

– Perfeitamente britânicos.

Cassandra assentiu e, então, viu que se aproximavam do belo labirinto, moldado em cercas vivas.

– Vamos entrar? – sugeriu. – Estive aqui, ontem, e consegui percorrê-lo inteiro. Há uma linda fonte, no centro..

Philip sentiu uma onda de calor percorrer-lhe o corpo ao imaginar-se caminhando junto de Cassandra na privacidade do labirinto.

– Sim, é uma excelente idéia.

– É interessante, embora não seja muito difícil. O que tínhamos em casa era complicado demais. Até nós nos perdíamos, lá dentro. Uma vez, quando Crispin e Hart eram pequenos, desapareceram no labirinto e foram necessárias horas de busca para encontrá-los. Papai pensou em destruir o labirinto, mas consegui convencê-lo a bloquear a entrada, apenas.

Cassandra omitiu o fato de que, nos últimos anos, o labirinto fora negligenciado porque a família não tinha dinheiro para contratar um jardineiro. Em alguns pontos, as passagens haviam, simplesmente, deixado de existir, pois o mato tomara conta de tudo.

– Onde fica á sua casa?

– Em Cotswolds, perto de Fairbourne. Depois da morte de papai, passamos a viver com tia Ardis, que mora perto de nossa antiga casa. Sentimos saudade de lá, mas nossa situação vai mudar e voltaremos para casa – acrescentou com determinação.

Caminhar pelos caminhos intricados do labirinto, onde imperava o silêncio e uma grande sensação de paz, era como estar em um mundo diferente daquele onde ocorria uma festa grandiosa. Quando já se aproximavam do centro, Cassandra respirou fundo e reuniu coragem para fitar sir Philip nos olhos e confessar:

– Ainda não lhe disse o meu sobrenome.

– Sei disso.

Ele havia notado a omissão, mas decidira controlar a curiosidade.

– Bem, como já disse, não sou uma Moulton. Meu nome é Verrere.

Sobressaltado, ele a fitou com ar desconfiado.

– Ah... uma pérfida Verrere.

Cassandra pôs as mãos na cintura e lançou-lhe um olhar furioso.

– Um cruel Neville! – retrucou.

Por um longo momento, ficaram ali, parados, olhando fixamente um para o outro. Então, sir Philip retomou a caminhada.

– E o que uma Verrere poderia querer com um Neville? – perguntou.

Cassandra tentou escolher as palavras certas. Esperara por aquele momento durante meses e, provavelmente, aquela seria a sua única oportunidade. Não queria perdê-la.

– Sei que, há muitos anos, nossas famílias são...

– Inimigas? – ele completou.

– Creio que “inimigas” seja uma palavra forte demais. Faz mais de cem anos que um Verrere e um Neville não tentam matar um ao outro.

– Um grande feito, eu diria.

Houvera um tempo em que as duas famílias estavam sempre sacando espadas, uma contra a outra. Qualquer comentário de um Neville sobre um Verrere, era imediatamente interpretado como ofensa mortal, e vice-versa. Ao longo dos anos, tal inimizade fora se tornando menos intensa, até chegar ao simples nível social, com as duas famílias sempre tentando superar a outra, em termos de festas, carruagens e corridas de cavalos. Neste último século, até isso mudara, de maneira que uma anfitriã já podia convidar um Neville e um Verrere para a mesma festa, sem temer perder a amizade de nenhum deles.

Cassandra suspeitava de que a intensa rivalidade diminuíra tanto, porque a fortuna dos Verrere fora se dissipando, enquanto a dos Neville continuara crescendo. Os Verrere, simplesmente, não podiam mais competir com os Neville em qualquer aspecto. Exceto, é claro, no título, Chesilworth. Na verdade, enquanto o pai de Cassandra ainda era vivo, a família havia se retirado das listas de convidados dos grandes eventos sociais. Já nos tempos de seu avô, a casa de Londres fora vendida para saldar dívidas e as despesas de aluguel e roupas necessárias às temporadas londrinas haviam se tornado altas demais para eles. Rupert, seu pai, era um estudioso e, por isso, fora com prazer que abandonara as temporadas sociais, preferindo gastar o pouco que lhe restava em livros e obras de arte.

– Espero que o senhor não possua mentalidade tão estreita, a ponto de usar o meu nome contra mim Cassandra continuou, encarando-o com ar de desafio.

Os lábios dele se curvaram com ironia.

– Quando era criança, aprendi que, se fosse desobediente, um Verrere viria me pegar. No entanto, creio que serei capaz de me defender dessa Verrere, em particular.

– Vim para pedir a sua ajuda, não para lutar.

– Minha ajuda? Um Verrere pedindo ajuda a um Neville? .

Cassandra franziu o cenho, irritada com o ceticismo dele.

– Pretende continuar se fazendo de tolo? Vim a esta festa, especialmente para conversar com o senhor, mas se não é capaz de deixar de lado os seus preconceitos mesquinhos, para ouvir o que tenho a dizer, terei perdido o meu tempo.

Sir Philip não conteve um sorriso diante das palavras atrevidas.

– Desculpe, srta. Verrere. Tentarei manter a seriedade, já que meu bom humor a desagrada. Porém, devo dizer que acho bizarro um Verrere sequer pensar em pedir a minha ajuda. E, para ser sincero, não sei se estarei disposto a dá-la..

– Bem, não tenho como saber se vai me ajudar ou não. Por outro lado, espero que seja razoável e perceba que nós dois sairíamos lucrando..

– Acho que não estou entendendo. A que lucros se refere?

– É exatamente o que estou tentando explicar. Veja, chegamos ao centro do labirinto. Por que não nos sentamos no banco. Assim, poderei lhe dar todos os detalhes.

– Sim, claro. .

Com gestos cavalheirescos, Neville limpou o banco com um lenço. Então, os dois se acomodaram e Cassandra começou:

– Estou à procura do dote espanhol.

– De quê? – ele inquiriu, com ar confuso.

– Deve ter ouvido falar do tesouro. Afinal, foi esse o motivo da inimizade entre nossas famílias.

No final do século dezessete, os Neville e os Verrere haviam decidido formar uma aliança, através de um casamento. Sir Edric Neville se casaria com a filha de Richard Verrere, lorde Chesilworth. A noiva, Margaret, fugira da propriedade dos Neville, na véspera do casamento, para se juntar ao homem que realmente amava. O resultado fora um escândalo de proporções imensas, especialmente porque o dote substancial que ela levara consigo também havia desaparecido. Fora esse incidente que levara as duas famílias a se odiarem pelos dois séculos seguintes.

– Está se referindo ao dote de Black Maggie?

Philip indagou, utilizando o apelido pejorativo que fora conferido a Margaret, insinuando tratar-se de uma criatura maligna, uma bruxa, talvez.

Cassandra lançou-lhe um olhar de reprovação.

– Se está falando de Margaret Verrere, sim, estou me referindo ao dote dela. Era uma coleção de jóias espanholas, conquistada por Colin Verrere, no final do século dezesseis.

– Roubada, você quer dizer – Philip corrigiu, com ar de desprezo. – Colin Verrere foi um pirata.

– Ele navegava com licença de corso da própria rainha Elizabeth – ela retrucou. – Era um patriota, além de excelente navegador e guerreiro.

– Pirataria legalizada. Creio que os espanhóis que ele matou não tenham tido a chance de perceber a diferença.

– Estavam em guerra – Cassandra lembrou-o com frieza. – A Espanha era o nosso inimigo e quaisquer danos causados à economia deles representava lucro para a Inglaterra e para a rainha.

– Sim, mas não foi por coincidência que os bolsos de lorde Chesilworth ficaram tão cheios de “patriotismo”!

A irritação de Cassandra tornava-se incontrolável.

– Não consigo entender como um inglês possa ter tamanha simpatia por um país que tentou invadir o dele.

Neville deu de ombros.

– Não tenho nenhuma paixão particular pela Espanha, srta. Verrere. Porém, acredito em dizer a verdade, em vez de mascarar a ganância sob o disfarce de “Deus, rainha e pátria”.

– Francamente, sir Philip, está me parecendo que o senhor tem imenso prazer em ser difícil. – Tal comentário provocou o riso de Neville.

– Talvez a senhorita esteja certa. De qualquer maneira, não faz diferença. Não existe dote algum. Tudo não passa de uma lenda.

– Uma lenda! E por que o seu antepassado o perseguiu com tamanho afinco? Por que insistiu, até morrer, que o dote lhe pertencia, por direito?

 

– Com certeza, Chesilworth possuía algumas das jóias que o avô dele roubou dos espanhóis, mas o valor de tal tesouro foi exagerado ao longo dos anos. Quem pode garantir que o dote era mesmo tão valioso, e que Chesilworth realmente o mandou com a filha? Pode ter sido um plano sórdido, para enganar sir Edric.

– Que absurdo! Eu mesma li a lista do que foi colocado na bagagem de Margaret, nos livros de contabilidade dos Verrere. Esmeraldas e rubis da América do Sul, moedas de ouro, diversas jóias e, a peça mais valiosa, um leopardo em ouro maciço, com olhos de esmeraldas e uma coleira de rubis. Tratava-se de uma obra de arte, além de possuir grande valor monetário. Era a jóia mais valiosa da coleção espanhola de Colin Verrere.

– Se o tesouro foi mesmo colocado entre a bagagem e enviado à mansão Haverly, com Margaret Verrere, então Black Maggie levou-o consigo, quando fugiu sir Philip afirmou, convicto. – É evidente que sir Edric não ficou com o dote, pois se fosse assim, não teria perseguido Chesilworth por tanto tempo. E Chesilworth morreu afirmando que o tesouro não estava com ele. Portanto, ou Chesilworth estava mentindo, ou Black Maggie levou o dote com ela para a América, a fim de tornar mais fácil sua vida com o amante.

– Quer fazer o favor de chamá-la assim! Margaret Verrere não era uma ladra e não levou o tesouro espanhol com ela, mas sim, deixou-o na propriedade dos Neville, quando fugiu.

– A senhorita fala como se a conhecesse, mas ela morreu há, pelo menos, cento e cinqüenta anos.

– Cento e cinqüenta e cinco, para ser exata. Ainda assim, sinto como se a conhecesse, pois li os diários dela.

Por um momento, sir Philip permaneceu em silêncio, aparentemente surpreso.

– Essa história torna-se mais fantástica a cada minuto – declarou. – Srta. Verrere, se esse é mesmo o seu nome, estou começando a acreditar que alguém está tentando me pregar uma peça.

– Francamente, sir Philip! – Cassandra exclamou, lançando-lhe o mesmo olhar que, em geral, fazia seus irmãos calarem. Infelizmente, o efeito não foi o mesmo com sir Philip. – O senhor é o ser humano mais desconfiado que já tive o desprazer de conhecer. Primeiro, não acredita que um dote, que foi registrado em livros de contabilidade e perseguido por um de seus ancestrais durante décadas, exista. Então, não acredita que foi realmente levado à propriedade dos Neville. Agora, diz não acreditar que sou quem digo que sou. Não compreendo. É desconfiado por natureza, ou se deparou com tantos mentirosos, que se transformou em um homem desiludido?.

Neville suspirou.

– Duvido da sua história, minha cara, porque trata-se de algo difícil de acreditar. Quanto ao dote espanhol, tudo aconteceu há tanto tempo e tantas histórias foram inventadas a respeito, que não temos como saber qual delas é a verdadeira.

– Temos, sim. É exatamente o que estou tentando lhe dizer. Tenho os diários de Margaret Verrere.

– Como conseguiu encontrá-los?

– Do sr. Perryman Simons, um livreiro de Londres.

Ele vendeu os diários a meu pai. Provavelmente, o senhor não sabe, mas meu pai, falecido lorde Chesilworth, tinha profundo interesse pelas histórias sobre o dote espanhol.

– Ouvi dizer que foi uma... grande paixão dele.

– Pela expressão em seu rosto, imagino que tenha ouvido dizer que ele era obcecado pelo assunto. “Louco” foi a palavra usada por muitos, para descrevê-lo. Não se preocupe em poupar os meus sentimentos, pois não sou uma mulher delicada. Além do mais, já ouvi isso antes, bem como coisas bem piores. Mas, o que quer que as pessoas digam, meu pai foi um homem inteligente, um estudioso. Baseara suas hipóteses em fatos sólidos, não em fantasias. E claro que teve acesso a registros e diários da família, que foram passados de geração a geração. Ele sabia que Margaret Verrere não era o tipo de mulher que levaria o dote consigo. Afinal, os Verrere sempre se orgulharam de seu princípio de honra.

– Algo de que Margaret pareceu ter se esquecido, quando quebrou o contrato de casamento com sir Edric e abandonou-o no altar.

– Ela estava apaixonada por outro homem! Tinha o direito de se casar por amor, em vez de se submeter a um casamento por interesse, pelo bem da aliança entre duas famílias. Sir Edric era rico e poderoso, mas todos sabem como os Neville adquiriram o dinheiro e a influência que possuem. Existe uma longa história de comportamento cruel, insensível e predatório. Sem dúvida, sir Edric era igual aos outros.

– Muito diferente de um pirata que atacava embarcações espanholas – Neville retrucou com ironia.

– Colin Verrere era um homem de ação, eu concordo, mas também era um homem da rainha, lutando contra os inimigos do reino. Ele seguia um código de lealdade e honra. Os Verrere, ao menos, não foram tiranos, que faziam o que bem entendessem para conseguir terras e dinheiro, sem consideração por mais ninguém. Não fizeram fortuna, na Idade Média, declarando guerra a quem quer que possuísse terras que os agradassem. Também não viviam na corte, arrancando favores do rei.

– Está insinuando que os Neville fizeram isso? Sir Philip pôs-se de pé, furioso. – Que ganharam dinheiro com a infelicidade alheia e de conflitos pouco honrosos? De presentes de reis? Os Neville sempre foram astutos, mas nunca desonrados. E era muito mais comum que o rei lhes pedisse dinheiro, do que o contrário. Eram bons guerreiros e me orgulho disso. Porém, não lutavam sem ter uma causa justa. Investiram o dinheiro onde renderia mais, em vez de gastá-lo em obras de arte de valor duvidoso, ou festas fantásticas. Os Verrere são sonhadores, incapazes de tomar decisões inteligentes, no que diz respeito aos negócios.

– Como se isso fosse tudo na vida! – Cassandra contra-atacou. – Sim, os Verrere foram sonhadores e ainda o são. Não há nada de errado nisso. São os sonhadores que constroem impérios e criam obras-primas. Os Verrere são estudiosos, mais interessados em coisas belas, do que no preço do chá, ou do tabaco.

– Ah, mas o preço do chá e do tabaco são muito importantes para alguém que queira gastar dinheiro com coisas belas.

Cassandra sentiu as faces arderem. Era óbvio que ele sabia das circunstâncias financeiras em que sua família se encontrava. Sem dúvida, os investimentos infelizes de seu pai em invenções e empreendimentos maravilhosos haviam se tornado fofoca.

– O senhor tem razão – admitiu –, mas o entusiasmo pelo conhecimento parece não ter nada em comum com tino comercial.

Neville suspirou, sentindo a irritação se dissipar e sentindo-se culpado pela grosseria que acabara de cometer. O fato de saber os empreendimentos idiotas do pai de Cassandra não justificava a atitude lamentável de dizer isso a ela.

– Perdoe-me – murmurou. – Eu não quis dizer...

– É claro que quis dizer exatamente o que disse ela o interrompeu com um suspiro. – Sei que meu pai não foi um bom administrador, assim como meu avô, também não. Basta ver o que aconteceu aos Verrere ao longo dos anos. O senhor tem razão. O amor pela beleza e pelo conhecimento não traz dinheiro. Ainda assim, eu jamais desejaria que meu pai houvesse sido diferente.

Ele foi um homem bom e eu o amava muito.

– Foi um afortunado por ter uma filha como você. Cassandra sorriu.

– Espero que ele tenha sentido o mesmo.

– Tenho certeza que sim. Todos sabem que Chesilworth valorizava a família acima de tudo..

– Sim, ele nos deu muito amor. – Cassandra respirou fundo, lutando para conter as lágrimas. – Desculpe. Acho que ainda sinto muito a falta dele.

– Sou eu quem deve pedir desculpas – sir Philip declarou, constrangido..– Eu...

– Não, não. Fui eu quem fugiu ao assunto. Estávamos discutindo os diários.

– Ah, sim, os diários. – A ironia voltou a brilhar nos olhos de sir Philip. – Voltemos a eles.

Margaret registrou sua vida em sete diários, desde de que fugiu para a América. O sr. Simons os vendeu ao meu pai, pouco antes de sua morte. – Cassandra preferiu omitir o fato de que seu pai pagara uma pequena fortuna pelos volumes, deixando a família em situação ainda pior. – Infelizmente, papai lera apenas uma pequena parte deles, quando adoeceu. Depois que ele morreu, li um por um. Neles, Margaret diz que deixou o dote na propriedade dos Neville. Além disso, deixou instruções sobre como encontrá-lo. Se trabalharmos juntos, o senhor e eu poderemos encontrar o dote espanhol.

 

Cassandra exibiu um sorriso triunfante e reclinou-se no banco, esperando ansiosa pela reação dele.

Sir Philip estudou-a por um momento e, então, falou com cuidado:

– Srta. Verrere, não acha um tanto... conveniente que esses diários tão antigos, escritos por uma mulher que vivia nas colônias, tenham vindo parar justamente na Inglaterra?

Ela suspirou.

– Eu já imaginava que trabalhar com um Neville fosse difícil. O senhor não tem espírito de aventura? Não tem interesse em encontrar um tesouro, escondido por gerações?

– Não tenho interesse por contos de fadas – ele replicou. – Francamente, srta. Verrere, é evidente que tudo isso não passa de um embuste. Depois de tantos anos, os diários aparecem na Inglaterra, mesmo tendo ficado nos Estados Unidos todo esse tempo. E, por acaso, caem nas mãos do sr. Simons, o livreiro predileto de seu pai. Sinto muito, mas está me pedindo demais, ao esperar que eu acredite nessa história.

Cassandra contou até dez, tentando controlar a irritação. Afinal, sempre soubera que não seria fácil convencer um Neville de que seu plano era bom. Mesmo assim, acalentara a esperança de que sir Philip fosse menos enfadonho que o pai, sir Thomas, tivera fama de ser. Certamente, a entrada de sir Philip em seu quarto não fora nada enfadonha, mas estava claro que a mente dele funcionava como a de qualquer outro Neville.

– Não há embuste algum – falou com voz macia. – O sr. Simons disse que um americano, descendente de Margaret Verrere, vendeu os diários a ele. Trata-se de um comerciante que, de tempos em tempos, vem à Inglaterra a negócios. Quando decidiu vender os diários, concluiu que, como Margaret era inglesa, conseguiria um preço mais alto por eles, aqui. Imagino que os americanos não tenham muito respeito por coisas antigas.

– Certamente, eles não têm imaginação, ou espírito de aventura, para sair à caça de tesouros.

– Antes de procurar pelo sr. Simons, esse homem visitou diversos livreiros – Cassandra continuou, ignorando o comentário maldoso. – Simons só se interessou mais que os outros, porque conhecia papai e sabia que ele compraria os diários.

– Pois eu acho muito mais provável que esse Simons, ou algum camarada dele, falsificou os diários, justamente por saber do interesse de seu pai na história.

– Sir Philip! Perryman Simons é um livreiro renomado, de Londres. Meu pai foi cliente dele durante muitos anos. O sr. Simons jamais lhe venderia uma falsificação! E mesmo que houvesse feito isso, por que incluiria tantos detalhes sobre o dote, se não ganharia nada com isso?

– Não? Aposto que as informações sobre um tesouro escondido tenham facilitado a venda dos diários. E, também, aposto que ele cobrou caro.

– Foi caro – Cassandra admitiu, relutante –, mas era documentos históricos de grande importância para papai. Ele os teria comprado, mesmo que não tivessem qualquer referência ao dote. – o livreiro não poderia ter certeza disso. Srta. Verrere, receio que seu pai foi vítima de um homem inescrupuloso.

– Nem quero pensar nas coisas que aconteceram em sua vida, para torná-lo tão cínico!

– Pense na noite passada e saberá de uma delas.

Cassandra lembrou-se do truque arquitetado pela tia e pela prima para forçar Neville a se casar com Joanna.

– Ah...

– Simplesmente, conheço mais do mundo o que a senhorita. Creio que acredita demais na. bondade das pessoas e, provavelmente, herdou essa ingenuidade de seu pai.

– Meu pai não era desconfiado como o senhor, mas não era tolo. Conhecia o sr. Simons muito bem.

– Não posso afirmar que Simons forjou os diários.

Talvez ele tenha sido uma vítima, também. E possível que o verdadeiro culpado tenha sido o homem que os vendeu a ele.

– Que teria de ser impecável em seu trabalho, para enganar tanto meu pai, um amante de livros antigos, quanto o sr. Simons, um dos melhores livreiros do país.

Nenhum dos dois manifestou qualquer dúvida quanto à autenticidade dos documentos. A menos, claro, que o senhor sugira que os diários tenham sido falsificados há cento e cinqüenta anos, para que um dia, um descendente da família pudesse ganhar algum dinheiro, vendendo-os a meu pai.

– Não, claro que não.

– Meu pai era um grande conhecedor de livros.

Teria percebido se os diários fossem obras recentes.

Haveria notado a diferença no papel, ou na tinta. Quem quer que houvesse falsificado os diários, teria trabalhado muito para que parecessem autênticos. Não é possível que tanto trabalho valesse a pena, pelo que meu pai pagou por eles. Isso, sem mencionar as horas necessárias para alguém inventar e, então, escrever tudo aquilo. É mais provável que sejam mesmo os diários de Margaret Verrere.

– Ainda assim, acho difícil acreditar que uma mulher escreveria em seu diário as instruções sobre como encontrar um tesouro. As pessoas escrevem diários para si mesmas e ela sabia onde o tesouro estava.

– Ela não escreveu as instruções. Os comentários sobre o dote encontram-se espalhados pelos vários livros e, geralmente, são indiretos. No primeiro volume, que ela começou a escrever logo após sua chegada na América, Margaret diz estar preocupada por não ter notícias do pai. Havia enviado uma carta para ele e não tivera resposta. Portanto, não sabia se ele a recebera. Mais tarde, ela conta que tal carta continha o segredo do dote. Foi por isso que ela a enviou.

– Então, é óbvio que Chesilworth recebeu a carta, seguiu as instruções e encontrou o dote. Simplesmente, não se deu ao trabalho de escrever a ela e contar-lhe a verdade. Provavelmente, continuava furioso por ela ter transformado o nome dele em sinônimo de traição.

– Sir Philip, creio que será muito difícil trabalharmos juntos, se o senhor continuar a se referir ao incidente dessa maneira. Eu esperava que um homem moderno como o senhor, fosse capaz de admitir que uma mulher tem o direito de se casar com quem lhe agrade.

– Concordo plenamente com tal direito, mas não aceito a maneira como ela lidou com a situação. Ficar noiva para, então, fugir na véspera do casamento não pode ser considerado um comportamento correto.

– Claro. É muito pior do que invadir o quarto de jovens solteiras, no meio da noite, e atacá-las – Cassandra retrucou em tom ácido.

– Eu não a ataquei! E a senhorita sabe que cometi um erro.

– Então, dê à pobre Margaret o direito de ter cometido um erro, também. O senhor não sabe o que, exatamente, a situação envolvia, ou quanto ela temia o pai e sir Edric. Eu sei. Li todos os diários, onde ela registrou o medo que a acompanhou. Margaret ainda temia que o pai a encontrasse e a forçasse a voltar para a Inglaterra.

– Não se esqueça de que Margaret era apenas uma moça de dezessete anos, sozinha e assustada, que fez a única coisa que lhe pareceu razoável.

Apreciando o semblante de Cassandra, iluminado pelo entusiasmo que ela sentia pela antepassada, Neville descobriu-se desejoso de voltar a tocá-la, como na noite anterior. E concluiu que aquele era o lugar perfeito, bem como o momento perfeito, para um interlúdio amoroso. Exceto pelo fato da senhorita em questão estar obcecada pela caça a um tesouro duvidoso.

– Está bem – disse, tratando de controlar os impulsos. – Partirei do pressuposto de que Bla... Margaret Verrere não era má pessoa, mas apenas uma jovem confusa e assustada. E, também, aceitarei que os diários são autênticos. Como vamos encontrar o dote?

– Bem, pelo que pude compreender, Margaret escondeu o dote na propriedade dos Neville e, então, escondeu as instruções sobre como encontrá-lo na mansão da propriedade. E, também, enviou uma carta ao pai, revelando-lhe o segredo. Como não tivesse resposta, enviou mais duas cartas, temendo que ele não houvesse recebido a primeira. Temia, além disso, que ele não houvesse lido as cartas recebidas, pois era um homem muito teimoso.

– Talvez sir Edric, ou um de seus descendentes, tenha descoberto o tesouro – sir Philip sugeriu. – A senhorita disse que ela deixou instruções na Mansão Haverly.

– Nesse caso, o senhor certamente saberia, pois as jóias fariam parte do patrimônio de sua família.

– Provavelmente, mas, por outro lado, não sei bem que tipo de homem ele era. Pode ter sido um patife que jamais admitiria ter encontrado o dote, com medo de ser obrigado a devolvê-lo aos Verrere. E possível que tenha vendido as jóias e guardado o dinheiro.

– Não resta dúvida de que o senhor conhece seus parentes bem melhor do que eu – Cassandra comentou em tom de desdém. – No entanto, duvido que ele tenha conseguido encontrar alguma coisa. Segundo os diários de Margaret, as pistas que ela deixou na Mansão Haverly não seriam suficientes para levar ao tesouro.

– Mas a senhorita disse...

– Sim, eu disse que ela deixou instruções, mas está claro que nem sir Edric, nem o pai dela, seriam capazes de descobrir o esconderijo, sem ajuda um do outro. Era justamente o propósito de Margaret forçar uma aproximação entre as duas famílias. Assim, ela não se sentiria tão mal pela inimizade que havia provocado com sua fuga.

– Então, precisamos encontrar a carta que ela enviou ao pai e as instruções deixadas na Mansão Haverly, para que possamos encontrar o dote?

Neville não pôde evitar uma pontada de interesse pelo mistério, embora a história fora, provavelmente, inventada.

– Exatamente. Talvez sejam duas metades de um mapa. Não sei ao certo, mas Margaret parecia certa de que seria impossível encontrar a fortuna, sem unir as duas partes.

– Interessante – Neville murmurou, pensativo, enquanto Cassandra reprimia um sorriso de satisfação.

Onde, na Mansão Haverly, ela escondeu as instruções?

– Não tenho certeza.

– Pensei que os diários deixassem isso claro.

– As referências são um tanto vagas. Aparentemente, encontram-se dentro de um livro.

– Um livro! – sir Philip repetiu, desolado. – Devem haver milhares de livros, na biblioteca. E se o volume em questão foi jogado fora, depois de tantos anos?

Cassandra franziu o cenho. Tal possibilidade já lhe ocorrera.

– Imagino que ela tenha escolhido um livro valioso, que jamais seria jogado fora.

– Mesmo ao longo de duzentos anos?

– Bem, é claro que Margaret não imaginou que tanto tempo se passasse, antes que alguém tentasse encontrar as instruções.

– E isso é tudo o que a senhorita sabe? Que estão escondidas em um livro?

– Margaret não mencionou o título – Cassandra respondeu com cuidado.

Sua ancestral fora mais específica sobre o livro, mas ela não tinha certeza de que poderia contar a sir Philip exatamente o que Margaret escrevera. Afinal, ele era um Neville e nada o impediria de procurar pelo tesouro sozinho.

– Ah!– ele exclamou, parecendo perceber a desconfiança dela. – A senhorita sabe mais do que está me dizendo!

– Não pode esperar que eu lhe conte tudo, quando ainda nem concordou em me ajudar. Aliás, nem sequer admite que os diários são verdadeiros. Dou-lhe minha palavra de que serei inteiramente franca e honesta, uma vez que estejamos trabalhando juntos. Não me agradam transações duvidosas.

Embora sir Philip não acrescentasse “ao contrário de sua tia e sua prima”, ambos pensaram na mesma coisa. Ele se pôs de pé e começou a andar de um lado para o outro, considerando o plano maluco de Cassandra.

– Está sugerindo que, se eu concordar, iremos à Mansão Haverly, onde procuraremos por um livro cujo título você desconhece, em um local sobre o qual você não tem certeza? E, se por algum milagre, o encontrarmos, deverei ajudá-la a encontrar o tesouro, escondido nas minhas terras e, então, entregá-lo a você?

– Só metade – Cassandra corrigiu-o. – Acho justo dividirmos o lucro.

– Minha cara srta. Verrere, parece-me mais razoável que o dote passe a ser todo meu – sir Philip argumentou com ar divertido. – Afinal, é na minha propriedade, na minha casa, que a senhorita espera encontrar, tanto as instruções, quanto o tesouro.

– Isso é absurdo! – ela declarou, levantando-se, furiosa. – Sir Edric nunca conquistou o direito ao dote, uma vez que não houve casamento algum. O tesouro pertencia a Chesilworth, por direito. – Só então, percebeu o riso que ele se esforçava para conter e deu-se conta de que sir Philip só queria provocá-la. Assim, continuou: – Além do mais, como já disse, as instruções escondidas em sua casa não são suficientes. E sou eu quem possui a outra metade da informação.

– Está falando sério? Encontrou uma das cartas enviadas ao seu antepassado?

– Bem... ainda não.

– Compreendo.

– Mas vou encontrá-la – ela insistiu. – Eu planejava esperar para conversar com o senhor, somente depois de haver encontrado a carta. Porém, esta oportunidade surgiu e eu tinha de aproveitá-la. Não sabia se jamais teria a chance de me encontrar com o senhor novamente. Como deve ter percebido, raramente participo de eventos sociais. Porém, já estou trabalhando no meu plano. Há algumas semanas, começamos a vasculhar o sótão da Mansão Chesilworth. São muitos baús, repletos de todo tipo de coisas. No momento, estamos na época do príncipe regente, mas ainda temos muitos baús para abrir. Tenho certeza de que as cartas encontram-se guardadas em um deles.

– Verdade? Percebi que a senhorita disse: “estamos”. Por acaso, há mais alguém envolvido nessa aventura?

– Meus irmãos. Eles estão me ajudando. É por eles que desejo tanto encontrar o dote. Mesmo metade do tesouro seria o bastante para recuperar a propriedade Chesilworth e nos permitir deixar de viver pela caridade de minha tia. Crispin herdaria a mansão e, talvez, Hart receba alguma ajuda, para iniciar algum negócio lucrativo. E Olívia poderia debutar, quando chegar à idade.

– Vejo que tem grandes planos para essa fortuna, que ainda nem sequer encontrou.

Cassandra fitou-o com ar de desafio.

– Vejo que o senhor não aprova. Mais uma vez, os Verrere entregam-se a seus sonhos.

– Tem uma imagem errada a meu respeito, srta. Verrere. Não tenho nada contra sonhos. Apenas receio que a senhorita vá ficar desapontada, quando os seus não se realizarem.

– Se isso acontecer, terei de enfrentar a decepção. Mas não acredito que vou me desapontar. Estou certa de que encontrarei as cartas.

Neville suspirou. Olhou para ela e descobriu-se desejoso de ajudá-la... Ora, aquela história era absurda!

– Srta. Verrere, não acha tudo isso muito dramático? Refiro-me a amantes em fuga, famílias em guerra, tesouros escondidos, mapas...

– Sim, muito dramático – ela concordou com entusiasmo. – Não é maravilhoso?

– Eu quis dizer – sir Philip explicou com paciência –, que talvez seja dramático demais para ser verdadeiro. Essa história parece ter sido inventada.

– Mas nós dois sabemos que a maior parte é verdade.

– Cassandra protestou. – Margaret realmente fugiu com outro homem, na véspera do casamento. Ela tinha um dote fabuloso, que desapareceu na mesma ocasião e que nunca foi encontrado. As duas famílias passaram a se detestar desde então. As únicas novidades são os diários e a possibilidade de encontrarmos o tesouro.

– Precisamente o que exige credulidade excessiva. Srta. Verrere, sei que sou um homem extremamente desconfiado, mas aprendi que as respostas mais simples são, geralmente, as corretas. Margaret Verrere não escondeu o dote, nem deixou instruções para que ele fosse encontrado. Ela não escreveu diários que, por coincidência, foram parar nas mãos dos Verrere, duzentos anos depois. A resposta é que ela levou o dote para a América e usou a fortuna para sua nova vida na colônia. As informações mais recentes não passam de um plano para vender alguns livros a preço altíssimo, para um homem que todos sabiam ser obcecado pelo assunto.

Neville parou de falar, ao dar-se conta de que, mais uma vez, fora grosseiro.

– Devo entender que se recusa a me ajudar – Cassandra concluiu, desanimada. Apostara todas as suas esperanças naquele homem, mas ele a decepcionara. – Peço desculpas por ter desperdiçado o seu tempo – murmurou, antes de virar-se e começar a se afastar.

Sir Philip segurou-a pelo braço.

– Espere!

Cassandra voltou a fitá-lo, lutando para conter as lágrimas.

– Srta. Verrere, a única coisa que questiono é a autenticidade dos diários. A coincidência de eles estarem nas suas mãos, depois de todos esses anos, é demais para eu aceitar.

– Já expliquei ao senhor que não foi coincidência, mas sim uma progressão lógica. Será que não percebe?

– Não, não percebo. Só consigo ver uma jovem adorável, de quem um patife certamente tirou vantagem. Uma mulher que ainda chora a morte do pai, alimentando a esperança de que o sonho dele se torne realidade.

Os olhos cinzentos de Cassandra faiscaram.

– Não sou uma garotinha fútil, incapaz de reconhecer más intenções. Meu pai não foi tolo, assim como eu também não sou. Os diários são autênticos, mas o senhor é frio demais para acreditar. Eu deveria saber que um Neville acharia a história romântica demais.

– Srta. Verrere, juro que não a considero uma garotinha fútil. Ao contrário, considero-a uma mulher inteligente e bonita. Tenho grande admiração pela senhorita. – Ele fez uma pausa e sorriu. – Também não me falta romantismo. Na verdade, neste exato momento, os pensamentos que cruzam a minha mente são extremamente românticos.

Cassandra respirou fundo, descobrindo-se incapaz de desviar o olhar daqueles olhos castanhos, que possuíam um brilho dourado espetacular. Sentiu a garganta seca e não foi capaz de pronunciar uma só palavra.

Philip deslizou a mão por seu braço, até pousá-la em suas costas e puxá-la para si.

– Sua história é a única coisa que não acho atraente na senhorita.

– Sir Philip... – ela gaguejou, ao .mesmo tempo em que os joelhos ameaçavam vergar.

Ele se inclinou e beijou-a com suavidade, a princípio. Então, os lábios dele tornaram-se ousados e exigentes e Cassandra sentiu o sangue ferver em suas veias. Por um longo momento, entregou-se ao prazer, sem pensar na decepção, no plano frustrado, ou em qualquer outra coisa.

– Cassandra... – sir Philip murmurou, ao afastar os lábios dos dela e pousá-los em seu pescoço.

Por alguma razão, o som da voz profunda trouxe Cassandra de volta à realidade. Então, ela se lembrou de onde estavam, bem como do fato de ele ter acabado de considerar a história do dote espanhol uma fraude, classificando-a como ingênua.

Com um gesto brusco, desvencilhou-se dos braços que a enlaçavam e aplicou uma forte bofetada no rosto de sir Philip. Por um momento, os olhos dele exibiram o brilho da ira, mas a impassividade reassumiu seu posto, imediatamente.

– Peço que me perdoe – ele declarou com voz tensa.

– Eu deveria ter imaginado! – Cassandra explodiu.

– O senhor não tem o menor interesse em ouvir o que estou dizendo. Tudo o que quer é roubar alguns beijos, enquanto estamos aqui, em um lugar tão sossegado. Como não percebi antes? Fingiu estar interessado em minha história, apenas para ter uma desculpa de ficar a sós comigo! E claro que um homem que tem o hábito de invadir o quarto de moças solteiras só pensa em aproveitar-se das mulheres. Tem razão, sou ingênua, como disse, mas não por acreditar nos diários de Margaret Verrere, e sim por não ter me dado conta de que, além de ser um Neville, o senhor não passa de um libertino!

– Espere um instante! – Neville protestou, indignado. – Foi a senhorita quem disse que precisava conversar comigo. E, também, foi sua a sugestão de que entrássemos no labirinto.

– Não acredito que, agora, vai usar isso contra mim! Eu, simplesmente, queria um lugar tranqüilo para conversar. Não tive a intenção de convidá-lo a me beijar!

– Verdade. Foram os seus lábios que fizeram o convite.

– O senhor é insultante!

– Honesto, eu diria. Se pensar melhor, vai se lembrar de que retribuiu meu beijo de boa vontade. Ao menos, até se lembrar de que deveria agir como uma moça pudica.

Neville sentia-se contrariado pelo fato de seu corpo ainda desejá-la com ardor, mesmo estando ele tão irritado com a atitude de Cassandra. Nunca antes uma mulher exercera sobre ele efeito tão peculiar.

– Fui uma tola ao acreditar que um Neville poderia me ajudar. Gostaria de nunca ter falado com o senhor.

Aliás, gostaria de jamais tê-lo visto!

Com isso, ela girou nos calcanhares e afastou-se. – Espere! Não, srta. Verrere...

Neville partiu no encalço dela, mas Cassandra caminhava rapidamente e, além disso, já conhecia o caminho da saída do labirinto. Assim, mesmo ouvindo-o gritar seu nome, percorreu rapidamente as alamedas e, poucos minutos depois, saía para o jardim. Parou de repente, ao deparar com a tia e a prima, que a fitaram com desdém.

– Francamente, Cassandra, não há motivo para correr dessa maneira! – tia Ardis censurou-a. – Seus modos são, definitivamente, lamentáveis!

– Desculpe, tia Ardis – ela replicou de maneira automática. – Bom dia.

Já ia passando pelas duas, a caminho da mansão, quando sir Philip emergiu do labirinto, praguejando:

– Diabos, srta. Verrere!

Tanto Joanna, quanto tia Ardis, viraram-se de pronto, exibindo expressões dóceis e sedutoras.

– Que surpresa agradável encontrá-lo, sir Philip – a mãe declarou com um sorriso largo.

– Um acontecimento esperado, eu diria, uma vez que estamos hospedados na mesma propriedade – ele retrucou em tom seco.

Ao mesmo tempo em que agitava o leque com afetação, Joanna emitiu seu risinho tolo, como se ele houvesse contado uma piada muito inteligente.

– Srta. Moulton – ele a cumprimentou. – Espero que esteja se sentindo melhor, depois do terrível pesadelo de ontem à noite.

Boquiaberta, Joanna olhou para a mãe, que também parecia não saber o que dizer. Sir Philip virou-se para Cassandra, que o fitou com olhar gelado.

– Tenham um bom dia – ele resmungou, antes de virar-se e afastar-se. Por um longo momento, Joanna e tia Ardis observaram-no, horrorizadas. Então, a filha exclamou:

– Ele sabia, mamãe!

– Não diga bobagens – a mãe ordenou, lançando um olhar significativo na direção de Cassandra.

– Não tentem esconder nada de mim – Cassandra advertiu-as. – Estou a par da armadilha que prepararam para sir Philip. E é óbvio que ele também sabe de tudo.

– Você contou a ele! – Joanna acusou, indignada.

– Joanna! – tia Ardis repreendeu-a.

– Ora, mamãe, ela já sabe. Provavelmente, anda ouvindo atrás das portas. – Isso não é necessário – Cassandra corrigiu-a.

Qualquer um que tenha ouvido o escândalo de sua mãe, diante da porta do seu quarto, ontem à noite, logo perceberia o que as duas pretendiam. E, dada a maneira ostensiva como você se atirou para cima de sir Philip, à tarde, não seria difícil adivinhar quem era a vítima.

A sra. Moulton emitiu um gemido mortificado, mas a filha adiantou-se para Cassandra, furiosa.

– Você está com ciúme! – gritou.

Tia Ardis teve o bom senso de segurar o punho erguido da filha com força.

– Joanna! Pare com isso! Não vou permitir que você faça uma cena, durante a festa de lady Arrabeck. A situação já não está a nosso favor. – Olhou em volta, ansiosa, temendo que outros convidados houvessem presenciado o comportamento de Joanna. Então, virou-se para Cassandra e sussurrou: – Acha mesmo que todos pensam que nós... que Joanna...

Percebendo a expressão humilhada no rosto da tia, Cassandra chegou a ter pena dela. Porém, perdera o interesse em continuar participando daquela festa, e sabia que se a tia não temesse o desprezo dos demais convidados, ficaria hospedada ali por muitos dias. Provavelmente, acabaria se convencendo de que sir Philip ainda estava interessado em Joanna e não mediria esforços para tê-lo como genro. Joanna era, sem sombra de dúvida, uma moça excepcionalmente bonita. Tia Ardis, porém, nem desconfiava que a futilidade da filha pudesse afastar os homens. Acreditava que todos eles ficavam fascinados diante de tamanha beleza. E, com certeza, acreditaria que, se sir Philip continuasse vendo Joanna todos os dias, acabaria se apaixonando por ela, apesar do que acontecera na noite anterior.

Por tudo isso, Cassandra declarou:

– Tenho certeza de que achara, no mínimo, muito estranho o fato de a senhora estar gritando diante da porta de Joanna. E o fato de ela ter dito que “ele” ainda não estava lá, não ajudou em nada.

– Está vendo? – tia Ardis voltou-se para a filha. – Eu disse que você não deveria ter falado nada! Qualquer um pode ter ouvido.

– Receio que sir Philip tenha ouvido, também – Cassandra acrescentou. – Provavelmente, já se aproximava do quarto, quando ouviu tudo e, sabendo que “ele” só poderia se referia a ele mesmo, deve ter concluído rapidamente o que se passava.

– Eu não o convidei – Joanna protestou em tom pouco convincente.

Cassandra não se deu ao trabalho de comentar. Limitou-se a lançar à prima um olhar incrédulo.

– Não pense que só porque conseguiu passear com ele pelo labirinto, conseguiu despertar o interesse de sir Philip – Joanna atacou com uma careta. – Ele jamais se interessaria por uma mulher que só pensa em livros.

– Tem toda razão – Cassandra replicou com voz tranqüila. – A verdade é que nos encontramos por acidente. Ele não conseguia encontrar a saída e tive de mostrar a ele.

– Você não entende nada de homens, Cassandra! Eles sempre querem saber mais do que nós.

– É uma pena, pois a maioria não sabe coisa alguma.

– Garotas, por favor! – tia Ardis interrompeu-as.

– Parem com isso! Precisamos pensar no que fazer. Não vou suportar ficar aqui, sabendo que todos nos olham, pensando que... que...

– Que vocês arquitetaram um plano para forçar sir Philip Neville a se casar com Joanna? – Cassandra completou, sem piedade.

– Francamente, Cassandra, uma moça deveria ser menos direta em seus comentários.

– Desculpe, tia Ardis. Sei que a situação seria difícil demais para a senhora. Talvez, a melhor solução seja irmos embora.

– Tem razão. Voltaremos a Dunsleigh imediatamente. Em breve, ninguém mais se lembrará do incidente. – Então, ela franziu o cenho. – O que vou dizer a lady Arrabeck? Não posso ofendê-la.

– Diga que estou doente. Irei para o meu quarto, agora mesmo. À tarde, a senhora poderá dizer a lady Arrabeck que estou passando muito mal e que insisto em voltar para casa. Diga que sou uma criatura muito frágil.

– Ora, você é saudável como um touro – Joanna apontou. – Lady Arrabeck não sabe disso.

– Você não parece doente.

– Farei o possível, a menos que você queira bancar a inválida., Joanna considerou a cena romântica que faria, pálida e frágil, apoiando-se na prima, com passos fracos. Talvez tivessem de pedir àquele criado atraente que vira na véspera, para carregá-la até a carruagem. Seus lábios se curvaram em um sorriso.

– Acho que será melhor assim – decidiu. – Seria muito mais natural mamãe preocupar-se com a minha saúde. Cassandra, dê-me seu braço.

Cassandra conteve a irritação pela encenação dramática da prima, dizendo a si mesma que faria qualquer coisa para se ver longe do odioso Neville. Recusou-se a lembrar de como sir Philip arruinara seus planos. Nem tudo estava perdido. Voltaria para casa e retomaria a procura pelas cartas. Quando as encontrasse, pensaria em um meio de encontrar o dote espanhol sozinha.

 

Joanna encarnou seu papel de doente com tamanho entusiasmo, que Cassandra teve de se esforçar para não perder o controle. Depois de aplicar pó branco no rosto, a prima atirou-se na cama, “fraca” demais para fazer as próprias malas. O que resultou em trabalho dobrado para Cassandra, que conseguiu dar por encerrada a tarefa no meio da tarde, mesmo sendo interrompida a todo instante pela tia, que insistia em dar ordens contraditórias.

Finalmente, Joanna foi carregada por um criado grandalhão e grisalho, até a carruagem. Cassandra e a tia embarcaram em seguida, recebendo os cumprimentos da filha de lady Arrabeck. Minutos depois, deixavam a propriedade.

– Tirem essa coisa de cima de mim! – Joanna ordenou, referindo-se ao cobertor com que havia sido agasalhada, assim que atravessaram os portões. – Estou suando como um cavalo!

– Você é uma excelente atriz, prima – Cassandra comentou com um sorriso, notando as gotas de suor que escorriam, deixando suas marcas no pó branco.

– Por que mandaram aquele criado horrível me carregar? – Joanna lamentou, furiosa com o desfecho da história. – E por que não havia ninguém para nos ver sair?

– Lady Patrícia nos acompanhou até a carruagem – a mãe lembrou. – Foi um gesto muito delicado.

– Ora, mamãe, ela é apenas a filha solteirona!

– O que vai acabar acontecendo com você, se continuar a cometer erros como o de ontem à noite!

– Eu errei! Foi a senhora que não pôde esperar pela hora certa, fez um escândalo cedo demais e o afugentou!

– Cheguei lá exatamente na hora combinada. Foi ele quem se atrasou.

– E a culpa é minha?

– E. Se ele não estava ansioso para visitá-la, foi porque você não soube encantá-lo.

– Fiz tudo o que me passou pela cabeça! Sorri, flertei e até fingi interesse naqueles escritores antigos e idiotas de que ele tanto gosta, quando nem sequer ouvi falar de nenhum deles! E, também, retirei o babado do decote do vestido, à tarde.

– Verdade, e inclinou-se uma dúzia de vezes, para apanhar o leque que não parava de cair no chão Cassandra apontou em tom seco.

– Está vendo? Até Cassandra reconheceu os meus esforços – Joanna defendeu-se, sem perceber o sarcasmo da prima. – O homem parece feito de pedra! Tive de beijá-lo, para provocar alguma reação.

– Você não foi sutil – tia Ardis concluiu. – Ele ficou desconfiado. Foi por isso que ficou pelos corredores, espionando o seu quarto.

Cassandra suspirou e virou-se para a janela, tentando ignorar a discussão entre mãe e filha. Precisava decidir o que fazer. Apesar das idéias corajosas de horas antes, estava desesperada com a rejeição de sir Philip. Apostara todas as suas esperanças nele. Imaginara que enfrentaria alguma dificuldade em convencer um Neville a ajudá-la, mas confiara no famoso gosto dos Neville pelo dinheiro, para convencê-lo. Não lhe ocorrera que ele consideraria a história fantástica, ou que a classificaria como uma jovem tola e ingênua. E, menos ainda, que ele se interessaria mais por beijá-la, do que por encontrar o tesouro.

Sentiu as faces arderem à lembrança do beijo ardente e das sensações desconhecidas que a haviam invadido. Tratou de afastar tais pensamentos, pois tinha de se concentrar na busca do dote espanhol. Sentiu vontade de chorar ao pensar que, talvez, a descoberta do tesouro houvesse se tornado impossível para sempre. Quando começara a ler os diários de Margaret, dera-se conta de que o dote era a solução para os problemas de sua família. Desde então, contara com isso para sair da casa da tia, levando consigo os irmãos.

Sir Phillip deixara claro que conhecia a situação financeira dos Verrere, mas Cassandra duvidava que ele soubesse dos detalhes. Seu pai morrera praticamente sem um centavo. Ela tivera de vender a maior parte da mobília para pagar dívidas, mas o pior fora ter de mudar-se para a casa da tia. A Mansão Chesilworth era uma construção nobre, mas fora negligenciada durante gerações e encontrava-se em péssimo estado de conservação. Seria necessária uma alta soma em dinheiro para contratar as reformas que a tornariam habitável, novamente. Deixar seu lar fora muito doloroso, mas a humilhação de viver à custa da caridade da tia era uma sombra que acompanhava Cassandra dia e noite. Tio Barlow, irmão de sua mãe, era um bom homem, de quem todos gostavam. Infelizmente, ele passava a maior parte do tempo na vila, ou em Londres. Aparentemente, era a natureza interesseira da esposa que provocava nele tal atitude.

Tia Ardis ressentia-se da presença dos sobrinhos do marido, tanto quanto gostava de dar-lhes ordens. Jamais deixava de queixar-se da despesa e dos problemas que eles lhe criavam, classificando Cassandra como uma solteirona sem atrativos, Olívia como uma menina atrevida e os gêmeos como garotos endiabrados e malcriados. Fazia questão de deixar claro para quem a conhecesse que o sacrifício de tê-los ali era desumano.

Joanna considerava Cassandra um excelente parâmetro para comparações estéticas. Crispin e Hart, porém, com doze anos de idade, representavam um incômodo sem igual, uma vez que, com suas brincadeiras, atrapalhavam as inúmeras horas de descanso da bela prima. Mas era Olívia quem Joanna realmente detestava. Aos catorze anos, a menina já começava a se transformar em uma verdadeira beldade e, em breve, se tornaria uma ameaça ao domínio que Joanna exercia sobre o pequeno círculo social de Dunsleigh.

Mais do que tudo, Cassandra queria tirar sua família daquela casa e voltar a viver em Chesilworth. Seu tio fora designado guardião de seus irmãos e ela sabia que seria fácil convencê-lo a permitir que ela mesma os educasse, desde que tivesse uma casa decente onde acomodá-los e dinheiro suficiente para roupas e alimentação de qualidade. E o dote espanhol lhe forneceria tais recursos. Agora, porém, sir Philip derrubara por terra todos os seus sonhos de liberdade.

– ...não é um partido tão bom.

Cassandra despertou de seus pensamentos, ao ouvir a tia referir-se a sir Philip novamente. Ergueu os olhos, surpresa.

– O que está querendo dizer, titia? A senhora mesma não disse que ela era um dos melhores partidos da Inglaterra? – lembrou em tom inocente.

Tia Ardis franziu o cenho, contrariada pela memória da sobrinha.

– Ah, sim, ele é um bom partido – admitiu –, mas não possui título. Nesse aspecto, até mesmo lorde Benbroke seria melhor.

– Lorde Benbroke tem quase sessenta anos e sofre de gota.

– E verdade, mamãe – Joanna concordou depressa.

– Lorde Benbroke está fora de cogitação.

– Eu não quis dizer que você deveria se casar com ele. Simplesmente, ele tem um título que Neville não tem. Mas estou certa de que existem outros, ainda mais ricos.

– Ouvi dizer que Richard Crettigan é o homem mais rico do país – Cassandra informou-as.

A tia mostrou-se chocada.

– Richard Crettigan é um... um comerciante!

– Um comerciante de Yorkshire – Joanna completou. – Imagine ter de ouvir aquele sotaque horrível, pelo resto da vida!

– Creio ser reconfortante saber que existem outras opções para Joanna – Cassandra explicou.

Tia Ardis ignorou a alfinetada e disse:

– Ouvi dizer que sir Philip é um libertino.

– Quem disse isso? – Cassandra inquiriu, apreensiva. – Daphne Wentworth. E disse que, em Londres, todos sabem disso. É claro que a filha dela, Teresa, mostrou-se bastante interessada em Neville e que Daphne faria qualquer coisa para eliminar a concorrência. Ainda assim, a sra. Carruthers estava conosco e confirmou que ele tem uma certa reputação.

– Que reputação? – Cassandra insistiu, sem compreender por que as palavras da tia a irritavam tanto.

– De sedutor – tia Ardis confidenciou em um sussurro.

– Ora, como elas poderiam saber?

Apesar dos protestos, Cassandra lembrou-se dos beijos de sir Philip e do efeito que eles haviam provocado.

Além disso, consciente de não ser bonita, só podia concluir que ele tentava beijar todas as mulheres que atravessavam o seu caminho. .

– São apenas boatos – acrescentou.

– É mais que isso. Ouvi muitas coisas... – a mais velha insinuou em tom sombrio.

– Que coisas?

– Coisas que moças decentes como você e Joanna não devem ouvir..

– Ora, mamãe, você sempre diz isso – a filha queixou-se.

A verdade era que uma jovem capaz de atrair um homem ao seu quarto, no intuito de forçá-lo ao casamento não era uma criatura inocente, cuja sensibilidade poderia ser ferida por histórias pecaminosas. No entanto, Cassandra manteve-se calada, pois não queria. desafiar a tia por uma questão tão insignificante quanto a reputação de sir Philip Neville. Além do mais, ele provavelmente era o que as fofocas diziam.

Voltou a virar-se para a janela e a viagem prosseguiu em silêncio.

 

Cassandra despertou confusa é descobriu que a tia e a prima dormiam no banco à sua frente. Ao sentir o estômago roncar de fome, afastou a cortina da janela e constatou que já anoitecera. Mesmo assim, reconheceu a alameda de entrada da propriedade da tia e sentiu-se animada. Certamente, tudo pareceria melhor quando ela estivesse junto dos irmãos.

A carruagem parou diante da porta, que foi aberta pelo mordomo...

– Sra. Moulton – ele cumprimentou a patroa, curvando-se e estendendo a mão para ajudá-la a descer.

Tia Ardis limitou-se a balançar a cabeça e entrou em casa, seguida por Joanna. Cassandra foi a última da sair da carruagem e cumprimentou o homem com um sorriso largo..

– Olá, John.

Ele também sorriu, o que era incomum ao criado sempre sisudo.

– Olá, senhorita. É bom tê-la de volta.

– Obrigada. Como vai a sua irmã? O bebê já nasceu? – Não, senhorita, mas pode chegar a qualquer momento.

Assim como a maior parte da criadagem da mansão Moulton, John Soames sentia que o ambiente se tornara muito mais agradável com a chegada da família Verrere. Diferentes da sra. Moulton e de sua filha, os Verrere sabiam os nomes de todos os criados e estavam sempre prontos a oferecer um sorriso, ou uma palavra de agradecimento. Muitas vezes, um vaso quebrado durante alguma brincadeira dos gêmeos era varrido e jogado fora sem qualquer menção ao incidente. E, também, refeições secretas eram levadas à sala de estudos, quando Olívia ou os meninos encontrava-se dê castigo, por alguma traquinagem.

– Cassie!

Dois meninos loiros, seguidos por uma garota de tranças douradas desceram os degraus da entrada correndo. Cassandra abriu os braços para recebê-los.

– Crispin! Hart... O que aconteceu com a sua mão? Olívia... Ah, você ficou ainda mais bonita, enquanto estive fora.

A menina riu.

– Ora, faz só três dias que você se foi! O que aconteceu? Por que voltaram tão depressa?

– Você precisava ver tio Barlow, ao ouvir John anunciar que a carruagem estava chegando. Ele parecia uma lebre que acabou de ouvir o latido dos cães de caça! – Crispin zombou.

– Ele começou a olhar em volta, como se procurasse por um buraco onde se esconder! – Hart acrescentou com uma gargalhada.

– Ele ficou em casa todas as noites, desde que tia Ardis partiu – Olívia contou com alegria. – Foi tão bom! Deixou que jantássemos com ele e conversou conosco sobre todo tipo de coisas. Não foi tão bom quanto estar com papai, mas fez com que eu me lembrasse de casa.Cassandra teve de reprimir as lágrimas. – Também sinto falta de papai, Olívia.

– Foi demais! – Hart, que apreciara muito mais as conversas do tio sobre cachorros, do que os comentários eruditos do pai, declarou. – Ele disse que vai nos levar para caçar, da próxima vez que for a Buckinghamshire, se tia Ardis permitir.

– Acha que ela vai nos permitir alguma diversão? Duvido.

– Pode estar enganado, Crispin – Cassandra apontou. – Tia Ardis ficaria satisfeita por se ver livre de vocês por alguns dias. Tratarei de convencê-la das vantagens em termos de sujeira e barulho, de se mandar dois garotos de doze anos para uma longa caçada.

– Está falando sério?

– É claro que estou. Não posso prometer, mas vou tentar.

– Eu sei – Crispin assegurou-a.

Mais sério e compenetrado que o irmão, ele sabia que a genialidade e a inteligência de Cassandra nem sempre venceriam o poder da tia..

– Conte-nos o que aconteceu na festa, Cassandra!

– Olívia pediu com impaciência.

– Conseguiu falar com sir Philip? – Hart perguntou, ansioso. – Ele vai nos ajudar?

– Prometo contar tudo, mais tarde. Agora, deixe-me entrar e cumprimentar tio Barlow.

Quando entraram, tia Ardis repreendia o marido, que realmente parecia uma lebre assustada.

– Pude ver da carruagem que a sala de estudos está mais iluminada que uma árvore de Natal. Um grande desperdício, uma vez que as crianças já deveriam estar na cama.

– Não achei que as velas fossem excessivas – tio Barlow tentou explicar-se. – Vi Olívia tentando ler à luz de uma única vela e achei que ela não deveria forçar esses olhinhos tão lindos.

Dirigiu um sorriso à sobrinha, sem se dar conta de que, do ponto de vista da esposa, acabara de dizer as palavras erradas.

– Quanta bobagem! – ela exclamou, fitando Olívia com desdém. – Ajeite a saia, menina. Está parecendo um moleque.

– Sim, tia Ardis – Olívia replicou em tom submisso. Cassandra abraçou e beijou o tio rapidamente e levou os irmãos para o quarto que dividia com a irmã.

– Agora – Olívia começou, depois de sentar-se na cama –, conte-nos tudo, Cassie. Por que tia Ardis voltou tão depressa?

– Isso não interessa! – Crispin queixou-se. – Quero saber sobre sir Philip e o tesouro.

– Tia Ardis e Joanna tiveram um imprevisto Cassandra resumiu, uma vez que não poderia contar às crianças o que realmente acontecera. – Quanto ao tesouro, receio não ter boas notícias. Sir Philip se recusou a nos ajudar.

– Eu sabia que não poderíamos contar com um Neville! – Hart resmungou.

– Como vamos encontrar.o tesouro, se os Neville têm a outra metade das instruções? – Crispin argumentou..

– Não precisamos disso – Hart afirmou. – Poderemos encontrá-lo sozinhos. Não é, Cassie?

– É claro que poderemos – ela respondeu com um sorriso. – Só vamos demorar um pouco mais, mas não pretendo desistir.

– Mas... o que vamos. fazer? – Olívia perguntou.

– Temos de encontrar as cartas. Então, poderei mostrá-las a sir Philip e provar que o tesouro existe e que pode ser encontrado.

 

Aquele fora o melhor plano que Cassandra conseguira arquitetar, embora não estivesse convencida de sua eficácia.

– Ele não acreditou no tesouro? – Hart inquiriu, chocado.

– Não. Acha que os diários são falsificações. É um homem teimoso e de mente estreita, mas quando tiver as evidências nas mãos, será obrigado a acreditar.

– Ajudaremos você a procurar as cartas – Crispin afirmou, com a gravidade de sua posição de lorde Chesilworth.

– Claro! – Olívia concordou. – Sempre que a bruxa não estiver por perto, fugiremos para Chesilworth.

– Olívia, comporte-se – Cassandra repreendeu-a, antes de sorrir para os três. – Eu sabia que poderia contar com vocês.

Abraçando os irmãos, prometeu a si mesma que não os decepcionaria. Encontraria as cartas e faria com que sir Philip acreditasse em sua história.

 

Tia Ardis não aprovava as visitas de Cassandra e seus irmãos a Chesilworth. Desde que Cassandra se mudara para lá, a mais velha passar a encarregá-la da maior parte da administração doméstica, pois preferia usar seu tempo no quarto, descansando, ou fofocando com as poucas amigas que possuía. Por isso, considerava um grande inconveniente as saídas da sobrinha.

– Não sei o que você faz lá, o dia todo – declarou com petulância. – Aquele lugar está em ruínas.

– Estou tentando impedir que a ruína se alastre. Por isso, mantenho a casa limpa e verifico se não há goteiras e vazamentos – Cassandra mentiu.

Não tinha a menor intenção de contar à tia o que realmente faziam lá, pois tinha certeza de que as visitas seriam proibidas.

– Acho que deveria usar melhor o seu tempo tia Ardis comentou. – Afinal, esta é a sua casa, agora.

Cassandra controlou o ímpeto de responder com uma grosseria.

– Sei disso, tia Ardis, mas Chesilworth é a herança de Crispin. Devo garantir que ele tenha algo a receber, quando tiver idade para isso. Seria demais esperar que a senhora e tio Barlow continuem a nos sustentar, mesmo depois de os meninos terem atingido a maioridade.

A tia pareceu nunca ter pensado nesse aspecto antes.

– Bem... Sim, você tem razão. Ainda assim, acho demais você ir todos os dias...

– Irei somente quando a senhora não precisar de mim.

Ardis passou a precisar de Cassandra, três a quatro vezes por semana. Nos outros dias, os quatro irmãos corriam para Chesilworth e prosseguiam no exame metódico dos baús, no sótão.

Era Cassandra quem se encarregava da maior parte do trabalho, uma vez que os gêmeos distraíam-se facilmente com objetos antigos, e Olívia cansava-se rapidamente. Assim mesmo, estava progredindo e, à medida que avançavam, abrindo os baús na ordem em que haviam sido dispostos, descobriam que voltavam no tempo. Olívia encontrara um saiote de arame, típico do século dezoito, o que animara Cassandra, pois a convencera de que se aproximavam da época .em que as cartas haviam sido escritas.

Em uma manhã, quando ela se sentia particularmente ansiosa para se entregar à sua busca, tudo parecia interferir em seus planos. Quando, finalmente, tendo atendido a todas as exigências da tia, preparava-se para subir e vestir roupas mais velhas, o mordomo abriu a porta da sala e anunciou:

– O sr. David Miller, madame.

Aproximou-se de Ardis e entregou-lhe um cartão.

– Quem é? – ela perguntou, intrigada.

– Um americano, madame. Diz ser parente de lorde Chesilworth.

– Está se referindo a Crispin?

– Sim, madame.

Tia Ardis e Joanna viraram-se para Cassandra, que deu de ombros.

– Nunca ouvi falar desse cavalheiro – declarou.

– Bem, mande-o entrar, Soames – a tia ordenou e voltou á encarar Cassandra. – Seria um impostor? Como pode um americano dizer-se parente de vocês?

– Se não me engano, alguns membros da família Verrere emigraram para a colônia, titia.

– Sem dúvida, acredita que Chesilworth, só por -causa do título, seja um homem rico. Escreva o que eu digo: ele pretende tirar dinheiro de vocês.

– Se for assim, receio que vá se decepcionar Cassandra replicou com bom humor.

Um momento depois, Soames voltou a aparecer, anunciando:

– Sr. David Miller.– Um jovem entrou, exibindo um sorriso hesitante.

Estava na casa dos vinte anos, tinha olhos azuis e cabelos loiros, além de um bigode que parecia ter sido cultivado apenas para dar um ar mais respeitável ao rosto juvenil. Cassandra considerou-o um rapaz atraente e confirmou sua opinião ao detectar um brilho de interesse nos olhos de Joanna.

O sr. Miller curvou-se em uma reverência.

– Por favor, perdoem-me a visita inesperada. Sei que deveria ter escrito para me apresentar, mas quando me vi em Londres, com algum tempo livre, não resisti à tentação de conhecer meus primos ingleses.

– Sente-se, por favor. Sou a srta. Cassandra Verrere – ela se apresentou. – Meu irmão é o lorde Chesilworth, mas receio que ainda seja um garoto. Esta é minha tia, sra. Moulton e a filha dela, srta. Joanna Moulton.

O jovem cumprimentou as duas, antes de sentar-se.

– Sou parente dos Verrere, embora distante. Uma de minhas antepassadas era uma Verrere. Ela e o marido estabeleceram-se em Boston, há quase duzentos anos.

Cassandra quase perdeu a voz.

– Qual era o nome de sua antepassada? – indagou.

– Margaret Verrere. Conta a lenda familiar que foi uma história muito romântica. Ela fugiu com um homem sem título, ou riqueza e, para escapar à ira da família dela, seguiram para a colônia.

– Não acredito.

– Ah, mas é verdade – David Miller assegurou.

– Desculpe-me. Eu não quis dizer que não acredito na história, mas sim, que não acredito em tamanha coincidência, pois acabo de ler os diários de Margaret.

Ele sorriu.

– Esplêndido! Espero que tenha gostado. Fui eu quem os vendeu ao sr. Simons: Sou comerciante, em Boston, e costumo visitar Londres todos os anos, para conhecer as novidades. No ano passado, trouxe os diários de Margaret Stone, que era o seu nome de casada, e os vendi a um livreiro chamado Simons. Quando voltei, neste ano, fui visitá-lo e ele me contou que vendei os diários a lorde Chesilworth, membro da família Verrere. Fiquei satisfeito que os volumes tenham voltado ao seio da família e decidi que não poderia partir, sem conhecê-los.

– Fico contente que tenha decidido vir.

Joanna, que perdera o interesse pelo jovem, no momento em que descobrira ser ele um mero comerciante, ficou ainda mais entediada com a conversa sobre livros e antepassados.

– Bem – o sr. Miller dizia –, temi que me considerasse grosseiro.

– Estou feliz por conhecê-lo. Acho a história de Margaret fascinante, assim como meu pai. Foi ele o lorde Chesilworth que comprou os diários, mas faleceu há alguns meses. Ele teria gostado muito de conversar com o senhor e, certamente, teria muitas perguntas a fazer.

– Precisamos conversar sobre livros, Cassandra? – Joanna interrompeu os dois.

– Desculpe, srta. Moulton – Miller dirigiu-lhe um sorriso. – E claro que considera cansativo ouvir duas pessoas falarem de seus antepassados. Se entendi bem, a senhorita não é parente de Margaret.

– Não faço a menor idéia de quem seja essa Margaret – Joanna confessou com um risinho tolo.

– Minha prima e minha tia não têm parentesco com os Verrere – Cassandra explicou. – Somos relacionadas através de minha mãe.

– Compreendo.

– Mas, por favor, sr. Miller, conte-me como encontrou os diários e por que decidiu vendê-los – Cassandra pediu, lamentando que sir Philip não estivesse ali, para ouvir a verdadeira história dos diários.

– Minha avó tinha grande interesse pela história da família e guardava tudo o que encontrava: bíblias, certidões de nascimento, casamento e óbito. Quando ela morreu, minha mãe simplesmente armazenou tudo em baús, no sótão. Mamãe morreu há quase dois anos. Foi quando abri os baús e encontrei todo tipo de relíquias familiares, inclusive os diários de Margaret.

Incapaz de suportar a conversa por mais tempo, Joanna aproveitou a pausa feita pelo sr. Miller e sugeriu:

– Por que não mostra os jardins ao sr. Miller, Cassandra? Os americanos sempre se interessam pelos jardins ingleses..

– Sinto muito, srta. Moulton, se a estou entediando com minha conversa, mas acho que fiquei entusiasmado por conhecer uma prima distante.

– Tem razão, prima Joanna – Cassandra concordou, grata pela sugestão que lhe proporcionaria momentos de tranqüilidade para continuar a conversa. – Terei prazer em mostrar os jardins ao sr. Miller. Importa-se se continuarmos a nossa conversa lá fora, senhor?

Depois de apreciarem os canteiros bem cuidados, acomodaram-se em um banco.

– Conte-me o resto da história – Cassandra pediu.

– Leu os diários? Por que decidiu vendê-las?

– Sei que vai me classificar como um americano ignorante, srta. Verrere, mas. não me interesso por livros e, menos ainda, por árvores genealógicas – ele explicou com um sorriso embaraçado.

– Perfeitamente compreensível. Não espero que todas as pessoas partilhem dos meus interesses. Então, não leu os diários?

– Não. Apenas folheei alguns volumes. Não sabia o que fazer com eles, pois não tinha interesse em guardá-los, nem coragem para jogá-los fora, por causa de seu valor histórico. Então, um amigo sugeriu que eu os vendesse aqui, na Inglaterra, alegando que os ingleses costumam interessar-se por história. Como já disse, vendi-os ao sr. Simons. Antes disso, porém, mostrei os, diários a diversos livreiros, mas nenhum deles quis comprá-los.

– Felizmente!

Cassandra descobriu que já gostava do sr. Miller, que era franco e aberto como a maioria das pessoas jamais seria. E, também, era atraente, muito mais que sir Philip.

– Meu pai ficou entusiasmado com a possibilidade de ser as palavras escritas por Margaret – continuou. – A história dela, especialmente da fuga para a América, era um dos maiores interesses dele.

Continuaram conversando por muito tempo. Ao saber que a casa onde Margaret vivera ainda existia, e que fora, de fato, o lar de Cassandra, o sr. Miller pediu para conhecer o lugar.

Foram a Chesilworth naquela mesma tarde, acompanhados por Olívia e os gêmeos, que bombardearam o sr. Miller com perguntas sobre os Estados Unidos. Ele respondeu a todas elas com grande paciência.

– Vai nos ajudar a procurar pelo tesouro? – Hart perguntou, entusiasmado.

– O quê?.

– O dote de Margaret – o menino explicou.

– Meu irmão se refere a uma informação contida nos diários – Cassandra esclareceu.

– Ela mencionou um tesouro? – o americano inquiriu, surpreso.

– O diário explica como encontrá-lo – Crispin acrescentou e, juntamente com Hart, pôs-se a contar sobre os mapas. – Uma parte está na carta que procuramos no sótão. A outra pertence a sir Philip, mas ele não quer nos ajudar.

– Uma caça ao tesouro! – o sr. Miller exclamou. – Maravilhoso! É uma pena que eu não possa ficar na Inglaterra para ajudá-los.

– Por que não pode ficar? – Crispin perguntou. – Não atormentem o sr. Miller, garotos – Cassandra repreendeu-os. Então, virou-se para o visitante. – Se puder ficar, será um prazer tê-lo conosco.

– Infelizmente, tenho negócios a tratar, em Londres. Além disso; meu navio parte para a América dentro de uma semana. – Depois de refletir por um momento, ele deu de ombros. – Bem, talvez eu possa estender minha visita por mais um dia. – Ao se deparar com a mansão Chesilworth, ficou boquiaberto.

– Ora, mas isto é um castelo!

– Não exagere! – Cassandra riu.

– Não existe nada parecido, nos Estados Unidos.

– Deve ter sido difícil deixar este lugar.

Cassandra assentiu, embora não fosse a grandiosidade da propriedade que lhe provocasse saudade, mas sim a história familiar que permeava as pareces, agora úmidas.

Mostraram a casa ao sr. Miller, que retomou na tarde seguinte para ajudá-los .no sótão. No final, ele estendeu a visita por mais um dia e foi com evidente relutância que partiu.

Depois disso, a rotina na Mansão Moulton voltou ao normal Cassandra cuidava da administração da casa e, sempre que podia, ia a Chesilworth com os irmãos, para procurar pelas cartas.

Uma semana depois da partida do sr. Miller, Cassandra prosseguia com o exame dos baús, enquanto os gêmeos brincavam e Olívia descansava, tentando fugir do calor fatigante.

Cassandra acabou de guardar o conteúdo do baú que esvaziara e tomou um verdadeiro banho de poeira, ao fechá-lo. Foi quando ouviu um ruído no andar de baixo, seguido pela voz alegre de Joanna:

– Cassandra!.

O que Joanna fora fazer em Chesilworth? Então, ouviu passos na escada. Em seguida, um homem entrou no sótão. Pondo-se de pé, Cassandra compreendeu por que sua prima se dera ao trabalho de ir até lá.

– Bom dia, srta. Verrere – sir Philip cumprimentou-a com um sorriso largo.

 

– Sir Philip! – Cassandra exclamou, incrédula.

– Srta. Verrere, é um prazer vê-la de novo – ele disse, com um brilho estranho no olhar.

Cassandra deu-se conta de que sua aparência não poderia ser pior. Suada e empoeirada, envergava um de seus vestidos mais velhos, e os cabelos apresentavam-se em total desalinho. Olhou para a entrada do sótão e viu Joanna, que a observava com um sorriso malévolo. Teve vontade de esganá-la, pois só então compreendeu por que a prima se dera ao trabalho de enfrentar o calor para ir até Chesilworth. Joanna sabia o estado em que sir Philip encontraria Cassandra.

– Devo dizer que estou surpresa, sir Philip – murmurou, tentando salvar a dignidade. – Não esperava vê-lo de novo. Especialmente, aqui.

– Estava voltando da festa de lady Arrabeck, quando me ocorreu que Dunsleigh seria um excelente lugar para fazer uma parada.

– É uma grande coincidência estarmos justamente no seu caminho de casa – Cassandra comentou com ironia, pois sabia que ninguém, em sã consciência, passaria por Dunsleigh para ir da propriedade de lady Arrabeck até a Mansão Haverly.

– Não é mesmo? – Ele exibiu um sorriso inocente.

Ora, Cassandra pensou, sir Philip só poderia estar ali por causa do tesouro. Sentiu-se grata por ele ter inventado uma desculpa, a fim de não revelar o verdadeiro motivo de sua visita.

– Por favor, desculpe a minha aparência – ela disse.

– É impossível limpar o sótão sem me sujar inteira.

– Não há de que se desculpar. Como sempre, a senhorita está encantadora.

Sentindo o rubor tomar conta de suas faces, Cassandra desviou o olhar.

– Deixe-me apresentá-lo a meus irmãos. Este é Crispin, lorde Chesilworth. Hart, seu gêmeo, e Olívia. Crianças, este é sir Philip Neville.

Neville cumprimentou um a um e, ao beijar a mão de Olívia, declarou:

– Vejo que temos mais uma beldade na família.

A expressão no rosto da menina deixou claro que sir Philip já a conquistara. Atrás deles, ainda parada ao lado da entrada, Joanna suspirou ruidosamente, abanando-se com afetação.

– Está quente demais, aqui dentro – protestou. – Não sei como suporta ficar aqui, Cassandra. Tenho certeza de que eu desmaiaria.

– Ah, você sabe que não costumo desmaiar à toa – Cassandra retrucou. – Talvez fosse melhor você descer. O salão é bem mais fresco.

– Boa idéia – Joanna concordou, satisfeita. – Podemos ir para casa, sir Philip. Cassandra e as crianças se juntarão a nós, quando terminarem o trabalho.

– Agradeço a preocupação, srta. Moulton – sir Philip falou, lançando-lhe um olhar rápido e desinteressado. – Creio que deve voltar para casa, se o calor a incomoda, mas vou ficar por aqui. Pelo que vejo, a srta. Verrere está precisando de ajuda.

Joanna ergueu uma sobrancelha. – Vai ajudá-la a limpar o sótão?

– Se é esse o trabalho a fazer, sim.

– Ora, mas... não posso voltar sozinha para casa. – Seu cavalariço poderá acompanhá-la.

– Bem, é diferente... Ele não é um cavalheiro.

– Não confia em seus próprios criados? – Neville indagou, surpreso.

– Sim... Não foi isso o que eu quis dizer... Eu... – Se está com medo de voltar sozinha com Jessup – Olívia sugeriu com ar inocente –, talvez seja melhor esperar lá embaixo. Terminaremos dentro de poucas horas, não é, Cassie?

– Sim. Acho boa idéia, Joanna – Cassandra concordou, lutando contra o riso.

Depois de lançar um olhar fulminante para a prima, Joanna foi sentar-se sobre o baú mais próximo.

– Por onde devemos começar, srta. Verrere? – sir Philip já perguntava, aparentemente esquecido da presença da outra.

– Bem, acabei de examinar este e já ia abrir o próximo. O senhor poderia começar pelo seguinte.

– Ao trabalho – Neville declarou com bom humor e abriu o baú, levantando uma nuvem de poeira.

Cassandra ajoelhou-se diante do baú ao lado. Ainda encontrava dificuldade em acreditar que sir Philip estava em Chesilworth. Por outro lado, já não se importava por estar suja e desalinhada, pois importante mesmo era a presença dele ali.

– Decidiu acreditar em mim, senhor? – perguntou em um sussurro.

– Nunca desacreditei na senhorita. Apenas achei que havia sido enganada.

– Ah, então, em vez de mentirosa, considerou-se uma tola.

Ele lhe lançou um olhar divertido.

– Seria impossível pensar algo assim sobre a senhorita.

– O que o fez mudar de idéia?

– Digamos que, por enquanto, estou disposto a me abster de julgamentos.

Na verdade, que ele jamais sequer sonharia em contar a ela, era que, embora continuasse duvidando da existência do tesouro e dos tais mapas, sir Philip ficara profundamente entediado, na mansão de lady Arrabeck, após a partida de Cassandra. Passara o tempo todo lembrando-se da inteligência dela, de seu senso de humor e, mais que tudo, do corpo esbelto em seus braços.

Disse a si mesmo que já estava velho demais para sair à caça de tesouros. Além disso, não acreditava na história fantástica sobre o dote espanhol. Por outro lado, convenceu-se de que não lhe faria mal algum passar algumas horas na companhia agradável de Cassandra Verrere. Na verdade, nem mesmo a idéia desanimadora de ter de suportar, também, a companhia da sra. e da srta. Moulton, o haviam feito mudar de idéia.

– Tenho certeza de que não vai demorar a se convencer da verdade – Cassandra afirmou. – Depois de ler os diários, vai se dar conta de que são autênticos.

Além disso, os baús foram armazenados em ordem e já estamos a mais ou menos cinqüenta anos da época de Margaret. Logo encontraremos os pertences do pai dela.

– Se é que ele guardou as cartas.

A possibilidade de o pai furioso haver jogado fora as cartas era algo em que Cassandra nem queria pensar.

– Vamos encontrá-las – persistiu.

Continuar a esvaziar os baús, à procura de um pacote de cartas. Sir Philip divertia-se com achados antigos, como um livro de etiqueta que o fez rir às gargalhadas.

– O que está fazendo? – Joanna inquiriu, irritada. Não compreendia a atitude de sir Philip. Quase explodira de felicidade quando o mordomo anunciara a chegada dele, pois concluíra que o desejo dele por ela era tão intenso, que ele até se esquecera do plano que ela arquitetara com a mãe.

Porém, sir Philip logo começara a perguntar por Cassandra e insistira em cavalgar até Chesilworth. Fora muito cavalheiro ao assegurar Joanna de que ela não precisaria acompanhá-lo, mas ali estava uma oportunidade que mulher nenhuma, em sã consciência, deixaria passar. Agora, era incompreensível a insistência dele em permanecer ali, naquele lugar sujo e abafado, rindo com Cassandra de coisas que, aos olhos de Joanna, não tinham a menor graça.

Joanna estreitou os olhos, observando a maneira como Cassandra sorria para Neville. Os olhos cinzentos pareciam iluminados e ela estava quase... bonita! Mesmo desgrenhada e coberta de poeira! Tal constatação deixou Joanna apreensiva e irritada. Seria possível que Cassandra acreditasse que sir Philip estivesse interessado nela?

– O que está fazendo, Cassandra? – repetiu.

– Por que estão examinando cada um desses baús?

– Achei que poderíamos encontrar algo interessante – a prima respondeu em tom vago.

– Está deixando sir Philip coberto de poeira!

– Não me importo, srta. Moulton – ele replicou de bom humor. – Estou me divertindo um bocado.

E era verdade. Apesar do calor e da sujeira, sir Philip nunca fizera nada tão divertido, antes. Era delicioso examinar o conteúdo dos baús e partilhar seu divertimento com Cassandra. Além do mais, ela era, sem dúvida, a única mulher que não se importava por ser surpreendida naqueles trajes. Ignorando a própria aparência, ela conversava com ele naturalmente, divertindo-se, também.

Olhou para Joanna, cuja aparência impecável começava a sofrer os efeitos do calor. Apesar de estar vestida como uma lady e comportar-se como tal, se comparada com Cassandra, parecia fútil e desinteressante.

Cada vez mais irritada, Joanna decidiu que uma atitude mais drástica se fazia necessária. Assim, pôs-se de pé.

– Não suporto mais o calor excessivo – declarou.

– Vou descer.

– Como quiser, Joanna – Cassandra falou. – Fique à vontade.

– Até logo, srta. Moulton – sir Philip despediu-se distraído, pois sua atenção concentrava-se em um pacote de cartas que acabara de retirar do baú.

Entusiasmado com o achado, nem percebeu o olhar faiscante que Joanna lhe lançou, antes de descer a escada ruidosamente.

– Cassandra... – murmurou baixinho.

Ela virou e sentiu o coração acelerar ao deparar com o pacote de cartas.

– Receio serem recentes demais – disse, embora apanhasse os envelopes com dedos trêmulos. Porém, assim que examinou a caligrafia, suspirou. – São de Edna Verrere. Já encontrei dúzias de cartas dela. .Era uma filha muito dedicada, que escrevia para a mãe regularmente, depois que se casou.

Tendo visto as cartas, os gêmeos aproximaram-se, ansiosos.

– Ah, Edna de novo! – Hart protestou.

– Pensamos que vocês haviam encontrado as cartas de Margaret – Crispin falou.

– Não. Estes baús são de períodos mais recentes – Cassandra explicou..

– Por que não deixa alguns baús de lado e começa a examinar os de períodos mais distantes? – Neville sugeriu.

– Já tentamos, mas a ordem não é perfeita. Chegamos a encontrar objetos de períodos diferentes em um mesmo baú.

– Além disso – Olívia acrescentou com um sorriso divertido –, Cassandra não abre mãe de seu senso de ordem.

– Estou apenas tentando impor um mínimo de ordem a este caos – a irmã defendeu-se. – Se dependesse de vocês, em dois dias, todo o conteúdo de todos os baús, estariam espalhados pelo sótão há muito tempo.

– Provavelmente, mas já teríamos encontrado as cartas.

– Se não houvessem se esquecido de procurar entre livros e roupas.

Habituado às discussões das irmãs sobre questões de ordem, Crispin ignorou-as e dirigiu-se a sir Philip.

– Vai nos ajudar a procurar pelo dote espanhol?

Notando o brilho de esperança nos olhos do menino, Neville descobriu-se incapaz de desapontá-lo.

– Sim, desde que consigamos encontrar as cartas.

– Ainda bem! Eu tinha esperança de que o senhor acabaria se mostrando um homem de bom senso, mesmo depois de Cassandra ter dito que não era.

Philip lançou um olhar irônico para Cassandra.

– Foi isso o que ela disse a meu respeito?

– Crispin! – Olívia advertiu-o. – Cassie não disse isso!

– Ela disse que o senhor não tinha imaginação Hart revelou. – Mas disse que o senhor não tinha culpa de ser um Neville.

– Srta. Verrere, estou magoado – sir Philip declarou, contendo o riso.

– Não seja ridículo! – Cassandra revirou os olhos. – Eu disse isso ao senhor, em primeiro lugar. Porém – virou-se para os gêmeos –, já chega de contar tudo o que eu disse. Não é educado contar aos outros o que as pessoas falam.

– Especialmente, quando estão maldizendo alguém – Crispin completou, também contendo o riso.

Cassandra fingiu que ia agarrá-lo, mas o menino esquivou-se com agilidade. Todos riram e, então, ela sugeriu:

– Agora, é melhor vocês três voltarem ao trabalho. A menos que prefiram fazer companhia a Joanna, lá embaixo.

Rindo às gargalhadas, as crianças retomaram seus lugares. Cassandra e sir Philip voltaram ao trabalho e, durante as duas horas seguintes, prosseguiram no exame minucioso dos baús. Foram interrompidos duas vezes pelo cavalariço de Joanna, que subiu para comunicar o desejo da patroa em ir embora, mas só pararam de trabalhar quando a luz que entrava pelas janelas estreitas começava a se tornar insuficiente. Então, desceram, ainda mais empoeirados.

Encontraram Joanna sentada na cozinha, tamborilando os dedos na mesa com impaciência. Sem esconder o descontentamento, ela se pôs de pé, de cenho franzido.

– Finalmente!Cassandra, você não tem a menor consideração por ninguém, a não ser você mesma!

– Eu não a obriguei a ficar aqui – Cassandra argumentou. – Poderia ter voltado para casa, quando quisesse.

Joanna estreitou os olhos, como se estivesse prestes a ter um de seus ataques de raiva. Mas, então, pareceu dar-se conta de que tal comportamento não seria apropriado à ocasião. Com grande esforço, exibiu um leve sorriso para sir Philip.

– Sinto muito que tenha sido submetido a isso, sir Philip. .

– Como já disse, eu me diverti um bocado.

– O senhor é muito gentil.

Com isso, Joanna aproximou-se e quase enroscou o braço no dele, mas mudou de idéia ao constatar que o paletó dele encontrava-se imundo.

– Por favor, srta. Moulton, não se aproxime de mim – ele pediu com gentileza. – Estou sujo demais.

Então, Neville aproximou-se de Cassandra e tomou-lhe o braço, conduzindo-a na direção da porta.

Lá fora, o cavalariço ajudou Joanna a montar, mas sir Philip anunciou que preferia caminhar, levando seu cavalo pelas rédeas. Joanna ficou furiosa, pois planejara ficar a sós com Neville, durante a cavalgada de volta e, no entanto, viu-se isolada do grupo, uma vez que era a única a percorrer o trajeto a cavalo. Embora Cassandra e sir Philip lhe dirigissem alguns comentários corteses, seria impossível participar da conversa tediosa dos dois, sobre um livro que ela jamais ouvira falar. Seu consolo foi lembrar-se de que os homens não gostavam de mulheres intelectuais.

Quando chegaram à Mansão Moulton, foram recebidos por tia Ardis, que se adiantou, sorridente, para sir Philip. Porém, ao perceber o estado de sujeira das roupas dele, arregalou os olhos.

– Meu Deus! O que... Bem, vamos entrar – convidou, solícita, sem querer pensar no que aconteceria ao revestimento adamascado de seus sofás.

– Não, obrigado – sir Philip falou. – Preciso retornar à hospedaria e trocar de roupa.

– Não vai nos dar o prazer de se hospedar em nossa casa? Não me diga que veio até aqui, para ficar um único dia!

– Não, sra. Moulton. Pretendo passar algum tempo em Dunsleigh, mas jamais me atreveria a chegar para uma visita, sem notificá-la com antecedência.

– Isso não é problema. A Mansão Moulton está sempre pronta a receber hóspedes – tia Ardis mentiu.

A discussão prosseguiu, mas sir Philip venceu a disputa, recusando-se com grande gentileza a abusar da hospitalidade da sra. Moulton e, também, declinando o convite para jantar naquela noite. Só não escapou à promessa de voltar a visitá-los no dia seguinte.

Assim que ele desapareceu na distância, ela levou as mãos ao peito, com expressão de êxtase.

– Quem poderia imaginar que sir Philip Neville viria a Dunsleigh, com o único propósito de nos visitar?

– Lilah Davenport ficará roxa de ciúme, quando souber! Joanna, esse foi o melhor sinal que poderíamos ter recebido. Ele, simplesmente, não conseguiu ficar longe de você.

Olívia revirou os olhos.

– Realmente, ele demonstrou imensa dificuldade em ficar longe dela, esta tarde – alfinetou.

Joanna finalmente perdeu a compostura.

– Sir Philip é educado demais para partir logo depois de ter chegado a um lugar! – afirmou. – Provavelmente, foi por culpa sua que ele não quis ficar para jantar, ou se hospedar em nossa casa. Deve ter ficado com medo de que você tivesse outra armadilha para forçá-lo a trabalhar em meio à sujeita e ao calor.

– Desconfio que ela tenha tido medo de outro tipo de armadilha – Cassandra replicou calmamente.

– Como se atreve!

– Querida prima, receio que você se exponha a esse tipo de comentário. Não é necessário um grande atrevimento.

Com isso, Cassandra entrou em casa.

Joanna seguiu-a, furiosa.

– Por que mais ele viria até aqui, se não fosse para me ver? Espero que você não esteja alimentando ilusões de que ele tenha algum interesse por você!

– Acontece que ele veio até aqui para ver Cassandra – Crispin interferiu, irritado pelo ataque à irmã.

– Não se intrometa – Joanna ordenou em tom de desdém. – Você não passa de um moleque, que não sabe de nada.

– Sei muito mais do que você pensa!

– Crispin – Cassandra advertiu-o, lançando-lhe um olhar que o fez calar-se imediatamente. Então, voltou a encarar a prima, impassível. – Não tenho qualquer ilusão com respeito a sir Philip. Agora, se me der licença, preciso tomar um banho.

Subiu para o quarto; deixando Joanna parada no hall, sem saber o que dizer.

Sir Philip fez a prometida visita pela manhã e tia Ardis não se deu ao trabalho de avisar Cassandra. de que ele havia chegado. Assim, ela só foi informada da presença dele, quando Olívia entrou no quarto com a notícia.

– Aquela mulher é uma bruxa! – a menina praguejou, corando de raiva. – Ela está tentando, deliberadamente, escondê-lo de você, pois sabe que ele não veio para ver Joanna.

Cassandra respirou fundo, na tentativa de fazer o coração recuperar seu ritmo normal. Olhou-se no espelho, mas logo lembrou-se de que não importava o que vestisse, ou como penteasse os cabelos, pois Neville não estava preocupado com isso.

– Acho que tia Ardis realmente acredita que ele veio para ver Joanna. Afinal, nós sabemos o que ela pensa da habilidade da filha para atrair todos os homens do mundo!.

– A maior habilidade dela é se iludir – Olívia retrucou –, mas ela não mandou avisar você de que ele está lá embaixo, só para impedir que você se divirta.

– Nossa tia é uma pessoa um tanto egoísta – Cassandra concordou. – No entanto, desta vez, acho que ela está diante de alguém muito mais habituado a conseguir o que quer. E, como sabemos que sir Philip não está exatamente apaixonado por nossa querida prima – exibiu um sorriso malicioso –, talvez seja interessante esperarmos para ver o que vai acontecer.

– Tem razão – Olívia também riu e sentou-se na cama. – Ele é bonito, não é?

– Sir Philip?

– Ora, Cassie, de quem mais eu estaria falando? E não tente fingir que nem reparou naquele sorriso maravilhoso.

– Sim, ele se torna atraente, quando sorri.

– É melhor mudar o seu jeito, irmãzinha – Olívia provocou-a. – Você ainda não é uma solteirona e sir Philip sabe disso.

– Do que está falando? – Cassandra inquiriu, corando. Seria possível que sua irmã, de apenas catorze anos, houvesse percebido que havia algo mais entre ele e sir Philip, além do interesse pelo tesouro?

– Acho que ele está interessado em você. O que há de errado nisso?

– Nada, nada. Desculpe-me, Liv. Estou um pouco tensa por estarmos tão próximos de encontrar as cartas.

Ao ouvirem a batida na porta, as duas irmãs trocaram olhares triunfantes. Uma das criadas, abriu a porta e anunciou:

– A sra. Moulton pede que vá até a sala, srta. Verrere. – Então, pôs a perder seu. ar formal, com um sorriso maroto. – Ouvi dizer que um certo cavalheiro não pára de perguntar pela senhorita.

– Obrigada, Janie – Cassandra agradeceu e seguiu a criada.

Sir Philip levantou-se quando ela entrou na sala, sem esconder o alívio.

– Srta. Verrere, é muito bom saber que a senhorita está se sentindo bem.

– E por que não estaria?

– Sua tia suspeitava que a senhorita estivesse doente – ele explicou, com um leve toque de ironia na voz.

Cassandra dirigiu um sorriso meigo e inocente à tia.

– A senhora é muito atenciosa, ao se preocupar .com minha saúde, tia Ardis, mas sinto-me tão bem quanto me sentia, quando tomamos juntas, o desjejum.

– Eu estava dizendo à sua tia e à sua prima, que achei a arquitetura de Chesilworth muito interessantes – sir Philip informou-a, enquanto ela se sentava do outro lado da sala, uma vez que as outras duas mulheres haviam tomado os lugares mais próximos a ele. – Gostaria muito de fazer outra visita à propriedade.

– Se quiser, poderemos ir esta tarde – Cassandra sugeriu.

– Eu adoraria.

Joanna soltou uma de suas risadas tolas e forçadas.

– Ora, sir Philip, posso assegurar que existe uma porção de lugares muito mais interessantes do que Chesilworth, para serem visitados em Dunsleigh. Como o senhor pôde ver, aquele lugar está caindo aos pedaços.

– Sim. Admiro antiguidades – ele comentou. – Nada desperta mais o meu interesse do que coisas velhas.

– Vai achar a história de Chesilworth interessante, também – Cassandra falou. – Talvez, queira ver os livros dos quais falávamos, ontem.

– Ah, seria ótimo!

– Cassandra – Joanna voltou a interferir –, tenho certeza de que sir Philip não está interessado em seus livros velhos e tolos, – Muito pelo contrário, srta. Moulton. Estou muito interessado. Ontem, a srta. Verrere e eu conversamos sobre tais livros. De fato, partilhamos interesse semelhante por história.

O esforço que Joanna tinha de fazer para continuar sorrindo aumentava a cada instante.

– Existem passeios muito mais prazerosos, por aqui -lembrou e, então, recitou uma lista de locais a serem visitados.

O sorriso de sir Philip não foi menos forçado.

– Realmente, srta. Moulton, está me oferecendo uma fantástica lista de opções. Eu não sabia que Dunsleigh poderia ser tão interessante para um visitante. Esta tarde, porém, já me comprometi a visitar Chesilworth, com a srta. Verrere..

Percebendo que a filha estava prestes a perder o controle, tia Ardis intercedeu:

– Se é para onde o senhor deseja ir, na companhia de Joanna e Cassandra, é para onde irá. Aliás, iremos todos. Afinal, o senhor não pode sair por aí, com duas moças solteiras, sem companhia adequada – acrescentou em tom de brincadeira forçada. – Pedirei aos criados que preparem um piquenique para nós.

Dessa vez, foi sir Philip quem pareceu prestes a explodir. Cassandra foi rápida:

– Que idéia maravilhosa! Não imaginei que prima Joanna quisesse se juntar a nós, em nossa exploração do sótão. É melhor trocar de roupa e vestir algo velho e surrado. Do contrário, vai arruinar o seu lindo vestido.

– Não tenho a menor intenção de explorar aquelas ruínas!

– Então, o que pretende fazer, enquanto sir Philip, eu e as crianças estivermos explorando Chesilworth?

– A srta. Verrere tem razão – Neville concordou, tendo recuperado seu charme. – Não vai querer que seus belos cabelos acabem cobertos de poeira, srta. Moulton. E, também, estragar um vestido tão elegante e sujar uma pele tão perfeita... Ah, seria um pecado!

Cassandra teve de se esforçar para não rir, mas depois de mais alguns comentários açucarados, sobre como seria bom voltar para a Mansão Moulton e encontrar Joanna “linda como sempre”, mãe e filha estavam convencidas de que a excursão era mais apropriada a crianças.

– Agora, se me derem licença – sir Philip falou, levantando-se –, preciso cuidar de alguns assuntos, antes de explorar Chesilworth, esta tarde.

Joanna e tia Ardis insistiram para que ele ficasse, mas como Neville não cedesse, decidiram aceitar a partida, com uma condição:

– Promete participar da festa que daremos amanhã, à noite? – Joanna pediu, fazendo beicinho.

– Festa? – sir Philip inquiriu, aflito.

– A festa que mamãe e eu estamos organizando para amanhã. Estávamos justamente comentando que foi uma grande coincidência o senhor ter vindo nos visitar, justamente quando vamos dar uma festa.

Cassandra permaneceu em silêncio, embora a notícia da festa fosse uma novidade para ela.

– E claro que nossas festas não se comparam àquelas das temporadas londrinas – tia Ardis esclareceu. – Mas, vivendo isolados no campo, também precisamos nos divertir.

– Será um jantar para alguns poucos amigos Joanna explicou – O senhor virá, não?

– Claro... Será um prazer. Agora, realmente, preciso ir.

Curvou-se para beijar a mão de cada uma e, quando chegou a vez de Cassandra, sussurrou:

– Dez minutos. No poço que vimos ontem.

Ela não precisou de mais que um segundo para se recuperar da surpresa.

– Até mais tarde, sir Philip. Teremos uma tarde muito produtiva, prometo.

 

Com um sorriso satisfeito, sir Philip se foi. No mesmo instante, Joanna e a mãe explodiram em entusiasmo, tentando planejar a festa e, ao mesmo tempo, regozijar-se pela inveja que esperavam provocar em todos os conhecidos. Assim, mal perceberam quando Cassandra deixou a sala.

Depois de apanhar a touca e os diários de Margaret, saiu pela porta dos fundos e dirigiu-se, apressada, ao velho poço. Como não quisesse perder tempo, levou a touca na mão, deixando os cabelos soltos ao vento.

Sir Philip, que se encontrava à espera, não conteve um sorriso ao constatar que os cabelos loiros, claríssimos, eram tão lindos ao sol, quanto à luz fraca das velas.

– Foi pontual, srta. Verrere. Admiro essa qualidade em uma mulher.

– Verdade? Fico contente, mas imagino que não haja nada de errado em um homem se atrasar.

Ele riu.

– Peço desculpas. Deveria dizer que aprecio tal qualidade em qualquer pessoa. – Apanhou os diários das mãos dela. – Vamos nos sentar naquele banco? Notei-o, ontem, quando voltávamos de Chesilworth e já desconfiava que teríamos necessidade de um local apropriado para encontros clandestinos.

– Acho que lhe devo um pedido de desculpas por minha tia e minha prima.

– Creio ser razoável que elas concluam que estou interessado em alguém. Afinal, não é preciso um grande conhecimento de geografia para saber que Dunsleigh fica a quilômetros de meu caminho de volta para casa.

– Tem razão. Deve me achar tola por esconder meus planos de meus parentes..

– Ah, não! Muito pelo contrário, não só compreendo, como aprovo a sua atitude. Quanto menos gente souber, melhor.

Cassandra dirigiu-lhe um olhar divertido.

– Para me poupar do embaraço, quando descobrir que tudo não passa de um engano?

Ele deu de ombros.

– Talvez. Não sabemos o que as pessoas podem dizer, ou fazer, uma vez informadas sobre a existência de um tesouro. Olhe para mim. Quem diria que sir Philip Neville passaria horas em um sótão empoeirado e abafado, à procura de cartas antigas?

– Quando houver lido os diários que eu trouxe, tenho certeza de que vai se sentir melhor com relação ao que está fazendo.

– Ah, sim. – Sir Philip examinou cada volume cuidadosamente. – Devo admitir que parecem autênticos e muito antigos.

– Acredita, agora?

– É claro que não sou especialista, mas como a senhorita disse, se foram falsificados, exigiram muito tempo e talento do impostor

– Posso garantir que o preço que meu pai pagou não justificaria tanto trabalho. E, agora, tenho mais um argumento a favor do sr. Simons, além da excelente reputação. Conheci o homem que vendeu os diários a ele.

– O quê? – Sir Philip empertigou-se, franzindo o cenho.

Cassandra ficou satisfeita com o efeito de sua revelação.

– Ele veio nos visitar. Chama-se David Miller e é nosso parente distante.

– Como sabe que é seu parente? – Neville inquiriu, desconfiado.

– Francamente, sir Philip! Pensei que houvesse decidido desconfiar menos de tudo e de todos. Ele disse que era descendente de Margaret e não vi motivos para duvidar.

– É possível que o sr. Simons tenha sido a primeira vítima desse tal de David Miller, que pode ser o verdadeiro falsificador.

– Isso é absurdo! Não faz sentido, pois ele teria recebido menos do que o sr. Simons, com a venda dos diários.

– Bem, nesse aspecto, sou obrigado a concordar com a senhorita. Mas... Por que ele não os vendeu diretamente ao seu pai?

– Porque, na ocasião, ele nem sabia que tinha parentes aqui. O sr. Miller é um comerciante de Boston, que vem à Inglaterra uma vez por ano. No ano passado vendeu os diários ao sr. Simons. Quando retomou, neste ano, foi visitar o livreiro e, só então, soube que os volumes haviam sido vendidos aos Verrere. É claro que ficou curioso para nos conhecer.

– Sei...

– Vendeu os diários aqui por acreditar que conseguiria um preço melhor. Encontrou-os entre os pertences da mãe, mas não se interessa por livros, nem por história. Acho que sua preocupação sobre a autenticidade dos diários são infundadas.

Sir Philip voltou a examinar os diários. Era mesmo difícil continuar acreditando que fossem falsos.

– Que outro lucro poderia haver? – indagou.

– O que disse?

– Nada. Apenas pensei alto. A senhorita está certa.

Os diários parecem mesmo antigos. Tem certeza de que foram escritos por Margaret Verrere?

– Ah, sim! Basta ler o início. Veja – abriu o primeiro deles. – Ela começou a escrever logo após a fuga, durante a viagem de navio. Aqui estão registrados todos os receios dela com relação ao pai, bem como sua felicidade por ter escapado a um casamento sem amor.

Sir Philip leu um trecho, antes de voltar a erguer . os olhos.

– Sim, é evidente que se trata do trabalho de uma moça jovem, repleto de drama e emoções violentas. Cassandra .ergueu uma sobrancelha.

– O que o senhor, sem dúvida, não aprova. – Apanhou o diário e abriu-o em uma página, marcada por um pedaço de papel. – Aqui está a primeira menção à carta enviada ao pai. Mais adiante, ela explica por que gostaria que as duas famílias se unissem na busca do dote. – Acompanhou com a ponta do dedo a passagem que leu em voz alta: – “...por essa razão, deixei parte da solução do mistério nas mãos de Neville.” . – Como sabemos, ele passou a vida inteira procurando pelo tesouro – sir Philip lembrou. – Portanto, não creio que a informação estivesse nas mãos dele.

– É possível que ela tenha deixado instruções, que foram perdidas. Não sei. Margaret não foi clara quanto a onde as deixou. Anos depois, porém, voltou a tocar no assunto. – Abriu outro volume e leu: – “...juntamente com o mapa de Neville, que escondi no Livro das Rainhas.” – Livro das Rainhas? – ele repetiu. – O que é isso? – Eu esperava que o senhor soubesse, uma vez que se trata de um livro existente em sua casa.

– Um livro que existia em minha casa, há quase duzentos anos – sir Philip corrigiu-a. – Nunca ouvi falar em nenhum Livro das Rainhas. Provavelmente, esse não é o título da obra.

– Ocorreu-me que poderia se tratar da história das rainhas da Inglaterra. Ou, talvez, sobre uma rainha em particular. É difícil dizer com certeza, pois a caligrafia de Margaret é muito rebuscada e a tinta já está um tanto apagada. Além disso, naquela época, eles tinham o hábito de usar letras maiúsculas para quase tudo. Portanto, nem sei se esse seria ou não o título. Por outro lado, sendo um livro, calculei que estivesse em sua biblioteca.

– É possível, se não foi vendido, emprestado, ou jogado fora...

– Não diga isso! – Cassandra interrompeu-o, horrorizada.

– Faz muito tempo, srta. Verrere. Nem todos os meus antepassados davam valor aos livros, inclusive meu pai.

– Sim, mas, certamente, Margaret escolheria um livro muito valioso, ou muito conhecido, a fim de garantir que não seria jogado fora.

– Valioso ou conhecido, naquela época.

– Se era mesmo valioso, seria de se esperar que fosse guardado para futuras gerações.

– Bem, temos muitos livros antigos, em nossa biblioteca, na Mansão Haverly. Creio que nós poderíamos procurar por ele..

– Nós? – Cassandra repetiu, surpresa.

Temera que, uma vez inteirado dos detalhes, sir Philip insistisse em procurar pelo tesouro sozinho.

– Claro – ele respondeu com um sorriso. – Por acaso, pensou que eu examinaria todos aqueles livros sozinho? De jeito nenhum, minha cara. Se estou ajudando â senhorita com o sótão de Chesilworth, nada mais justo que me ajude com a biblioteca de Haverly.

Cassandra sorriu.

– Será um prazer. – O problema é se teremos dificuldade em examinar o seu sótão.

– O que quer dizer?

– Quero dizer que sua tia e sua prima não são fáceis de manobrar.

– Ah, sim, eu sinto muito. Joanna parece obcecada pela idéia de conquistá-lo. Sei que não é muito decente, mas acho que a única saída é continuarmos fazendo o que fizemos hoje. Teremos de manter segredo sobre nossas atividades.

– A senhorita é uma mulher de intelecto privilegiado... para não mencionar a sua gentileza.

– Por ajudá-lo a escapar da companhia de Joanna e tia Ardis?

Ele sorriu.

– Já mencionei que, também, é muito franca?

– Não. – Ela lhe devolveu o sorriso. – Não é necessário. Já me disseram isso antes.

Philip sabia que era absurdo estar ali, sentado, divertindo-se com o comportamento peculiar daquela jovem. Porém, tinha de admitir que conversar com ela era muito mais interessante do que todos os entretenimentos oferecidos pela sofisticada lady Arrabeck. Se seus amigos soubessem como conhecera aquela moça, certamente pensariam que ele havia enlouquecido.

– Srta. Verrere – falou, subitamente sério, tomando a mão dela entre as suas. – Tive outro motivo para vir até aqui.

Embora Cassandra estremecesse ao contato, não fez qualquer tentativa de impedi-lo.

– Que motivo, senhor? – perguntou.

– Preciso lhe pedir desculpas.

– Desculpas? Ah, se está se referindo ao modo colho nos conhecemos, já se desculpou. Além do mais, não foi sua culpa. Não há necessidade de voltarmos a falar no assunto.

– Não, não, embora meu comportamento não tenha sido nada cavalheiresco. Queria me desculpar pela maneira como agi na manhã seguinte, no labirinto.

Cassandra descobriu-se sem voz, diante da lembrança do beijo que ele lhe dera.

– Não existe desculpa para o que fiz – sir Philip continuou –, exceto pela minha falta de controle. A senhorita parece exercer um certo... efeito sobre mim.

– Verdade? – Cassandra inquiriu, surpresa.

Neville não conteve uma risada.

– Minha cara, essa não é a reação de uma jovem a um pedido de desculpas de um cavalheiro. Faz com que eu sinta vontade de beijá-la de novo.

– Ah...

Ela simplesmente não sabia o que dizer.

– Não estou me desculpando pelos meus sentimentos. Eu... Bem, olhando para a senhorita agora, sinto o mesmo desejo de beijá-la.

A voz dele tornou-se rouca e Cassandra sentiu os joelhos tremerem. Nunca antes um homem a fitara com aquele olhar faminto.

– Gostaria de me desculpar – Philip explicou por tê-la levado a pensar que não ouvi o que tinha a dizer, ou que estava apenas interessado em um... relacionamento físico. Quero que saiba que a considero uma verdadeira dama.

– Eu... aceito seu pedido de desculpas.

– E quero deixar claro que jamais seria capaz de pressioná-la. Não vou usar o fato de estarmos trabalhando juntos para... para me aproveitar da senhorita.

– Por favor, não se desculpe. Devo ser honesta e admitir que nós dois tivemos culpa no que aconteceu.

Cassandra ergueu os olhos e reconheceu o brilho da satisfação nos dele.

– Está dizendo que não fui o único a sentir aquela atração?

Com essas palavras, sir Philip acariciou-lhe a face e ela tratou de se afastar, antes que seus pensamentos se tornassem um caos.

– O fato de sermos, ambos, culpados, não significa que aquilo deva acontecer de novo – declarou, à beira do pânico, uma vez que não, fazia idéia de como reagiria caso ele a beijasse. – Como vamos trabalhar juntos, creio que o melhor a fazer é agirmos como colegas profissionais.

– E posso perguntar que profissão é essa? – ele indagou com ar divertido. – Caçadores de tesouros? A palavra para isso não seria “pirata”?

– O senhor entendeu muito bem. Devemos agir como se... como se o senhor estivesse trabalhando junto a outro homem, Neville preferiu omitir o fato de que, se ela fosse um homem, ele já teria esquecido toda a história. O que o levara a procurá-la fora ela mesma, não um dote antigo e perdido.

– Se não for assim – Cassandra acrescentou nosso trabalho será prejudicado.

– Como já disse, não tenho a menor intenção de pressioná-la – ele lembrou, levantando-se.

– Bom. Podemos nos encontrar em Chesilworth, mais tarde?

– Não creio que, hoje, seja necessário mantermos segredo. Prefiro acompanhá-la..

– Não sei se é seguro o senhor aparecer na Mansão Moulton. Não sabemos que planos elas podem ter arquitetado para prendê-lo lá. Além do mais, não preciso de acompanhante, pois meus irmãos estarão comigo. E Dunsleigh é o mais tranqüilo dos lugares. Olívia vive se queixando de que nada acontece por aqui.

– Com dois garotos de doze anos por perto? Não sei como isso é possível!

– Ora, o que os irmãos fazem não conta como acontecimento.

– Tem razão. Pelo que pude perceber, a srta. Olívia gosta de aventuras.

– Todos nós, como deve ter notado, somos uma família de sonhadores.

– Ah, vejo que tal afirmação vai me perseguir pelo resto da vida!

Cassandra riu.

– Prometo não voltar a mencioná-la. Afinal, o senhor se juntou a nós, em nosso sonho.

– Sem o mesmo entusiasmo, eu receio.

– Não se preocupe. Isso também vai mudar.

Por um momento, sir Philip perdeu-se em pensamentos sobre beijar aqueles lábios carnudos. Porém, lembrando-se da promessa de não se aproveitar dela, forçou-se a recuar um passo e curvar-se em um gesto cavalheiresco.

– Bem, então, nos encontraremos em Chesilworth.

Que tal à uma hora?

– Perfeito. Estaremos lá.

Embora fingisse indiferença, Cassandra sentia uma estranha relutância em se separar de sir Philip.

 

Assim que entrou em casa, Cassandra viu-se mergulhada em um mar de atividades. Embora tia Ardis houvesse fingido que a festa já fora planejada, a idéia só surgira naquela manhã. Portanto, restavam todas as providências a tomar, como lista de convidados, convites, limpeza dos salões, arranjos de flores, cardápio. Seria um evento pequeno, uma vez que, ria opinião da sra. Moulton, eram poucos os habitantes da região rural que mereciam assistir ao seu triunfo de ter sir Philip Neville .como convidado. E, claro, quem melhor que a eficiente sobrinha para cuidar de tudo?

Cassandra conseguiu dar andamento a todas as suas tarefas, a tempo de fugir dali logo após o almoço. Com os irmãos, foi a Chesilworth, onde sir Philip os esperava. Passaram a tarde toda trabalhando, embora se divertissem muito, também. As horas agradáveis passaram tão depressa, que eles se atrasaram e perderam a hora do chá na Mansão Moulton.

No dia seguinte, mais uma vez, Cassandra passou a manhã inteira cuidando da festa, que aconteceria à noite. Então, juntou-se aos irmãos na caminhada já familiar até Chesilworth.

Quando se aproximavam da casa, avistaram dois homens. Um deles apontava uma espingarda para o outro. Horrorizada, Cassandra reconheceu o homem armado. Era Jack Chumley, antigo capataz de Chesilworth. O outro era sir Philip.

– Chumley! – ela gritou, ao mesmo tempo em que corria na direção deles, seguida pelos irmãos..

– O que está fazendo com sir Philip? – Hart inquiriu, tendo sido o primeiro a recuperar o fôlego.

– Está dizendo que conhecem esse sujeito? Chumley perguntou, surpreso. – Acabei de surpreendê-lo, rondando a casa.

– Rondando! Não, Chumley...

– Achei que ele estava tentando invadir a Mansão.

– Por favor, abaixe a arma – Cassandra pediu.

Sir Philip é nosso convidado. Combinamos encontrá-lo aqui. – Então, virou-se para Neville. – Peço desculpas, sir Philip. Não sei por que Chumley o tratou dessa maneira.

– Vou explicar por quê – Chumley declarou.

Foi por causa das coisas estranhas que aconteceram aqui.. na noite passada. Não sou mais seu empregado, mas não vou permitir que esse tipo de coisa aconteça no lugar onde vivi e trabalhei a vida inteira.

– Sabemos disso, Chumley. Mas, do que está falando? Que coisas estranhas aconteceram aqui?

– Ainda não sabe? Todos na vila comentavam, esta manhã. Foi Ned Plumpton quem me contou. Estão dizendo que há fantasmas em Chesilworth.

– Fantasmas? – Cassandra repetiu, confusa.

– Sim, fantasmas! – Chumley confirmou com desdém. – Eu disse a eles que estão loucos. Nunca existiram fantasmas, em Chesilworth. Se fosse assim, o patrão teria largado tudo para persegui-los.

Cassandra sorriu.

– Tem razão, mas ainda não compreendo...

– Além de Plumpton, a sra. Brookman também ouviu os rumores. Quem contou a ela foi o fazendeiro Crawford. Ora, conheço Crawford e sei que é um homem sensato, mas ela me disse que foi o filho dele quem viu o fantasma. Então, fui até a fazenda de Crawford e ele confirmou a história. O filho dele....

– Ben?

– Não! Ben não é muito certo da cabeça, senhorita.

Foi o jovem Alf, da mesma idade dos nossos meninos, além de muito inteligente. Quando o menino contou que viu luzes nas janelas, Crawford soube que ele dizia a verdade.

– Luzes? Em Chesilworth? – Cassandra indagou, lançando um olhar para sir Philip, que parecia tão preocupado quanto ela.

– Sim. Crawford acompanhou o filho até aqui e também viu luzes, nas janelas do sótão.

– Sei... – Cassandra murmurou.

Agora, tudo estava claro. Alguém estivera no sótão, durante a noite. E só poderia haver uma razão para isso: procurar pelas cartas, incógnito.

– E claro que eu sabia que não havia fantasma algum. Provavelmente, um invasor, à procura de uma casa abandonada onde pudesse ficar. Apesar de o sótão ser a parte mais desconfortável, na minha opinião. Assim mesmo, achei que deveria vir até aqui e verificar se havia sinais de arrombamento. E quem eu encontro, rondando a casa?

– Meu bom homem, eu não estava rondando Philip protestou. – Estava apenas esperando pela srta. Verrere e pelos irmãos dela.

– E como eu podia saber? Nunca vi o senhor por aqui.

– Ele estava dizendo a verdade, Chumley – Cassandra assegurou –, mas foi boa idéia você ter vindo até aqui.

– Tenho esse dever para com o lorde, que Deus o tenha em bom lugar.

– Papai ficaria muito grato. Agora, acho que pode voltar para casa. Não esperamos que fique aqui, cuidando de Chesilworth. Nós mesmos procuraremos por sinais de arrombamento.

O velho exibiu expressão de dúvida.

– Talvez seja melhor eu ir com vocês. Podem precisar de uma arma.

– Tenho certeza de que, seja quem for, já está longe daqui..

Chumley, porém, recusou-se a partir, enquanto não examinasse todas as portas e janelas. E foi com ar de triunfo que apontou o vidro quebrado, através do qual o invasor alcançara o trinco de uma das janelas. Então, ofereceu-se para pregar tábuas na janela.

Inspecionaram os andares superiores, na companhia de Chumley. Como já esperavam, não encontraram ninguém, nem sinais da presença de um estranho ali.

Quando Chumley desceu para consertar a janela, Crispin indagou:

– Quem pode ter sido? Alguém estaria procurando pelo nosso tesouro?

– Pode ter sido um mendigo, simplesmente Cassandra sugeriu –, à procura de abrigo para passar a noite.

– No sótão? – Olívia inquiriu, incrédula. – Com todas aquelas camas, lá embaixo?

– Tem razão, mas isso parece tão absurdo. Quem poderia ser?

Cassandra teve o cuidado de evitar olhar para sir Philip, temendo que ele lesse seus pensamentos. O maior suspeito de ter procurado pelas cartas, sozinho, era ele!

Só ele tinha acesso à outra metade do mapa. Sabendo onde se encontrava, poderia roubar a carta de Margaret e, assim, ficar com as duas metades. Talvez estivesse apenas fingindo ao dizer que não conhecia o Livro das Rainhas..

– Que talo seu primo americano? – sr. Philip sugeriu.

– Quem? – ela despertou dos pensamentos sombrios.

– O antigo dono dos diários. Sr. Miller é o nome dele, não?

– Não! – Olívia negou com veemência. – Ele jamais faria isso. David é um bom homem.

Cassandra observou a irmã em silêncio. Já desconfiava que a menina houvesse desenvolvido um certo interesse no americano atraente. Bem, não tinha tempo para se preocupar com isso, no momento, pois havia problemas bem mais sérios a resolver.

– Francamente, sir Philip, suas suspeitas não param de crescer. Antes, desconfiou que o sr. Miller havia falsificado os diários.

– Agora, que alguém invadiu o sótão, a situação tornou-se muito diferente. Como a senhorita mesma disse, a falsificação teria sido trabalhosa demais, para um lucro tão pequeno. Mas, se os diários são autênticos e o sr. Miller os leu, então, sabia que poderia encontrar uma grande fortuna, na Inglaterra.

– Ainda não vejo sentido na sua hipótese – Cassandra insistiu. – Por que ele venderia os diários, se sabia da existência de um. tesouro? Poderia vir aqui e roubar as cartas do sótão, roubar o livro de sua biblioteca, sem levantar a menor suspeita, pois ninguém saberia da existência dos mapas. Todos nós atribuiríamos o incidente a um ladrão qualquer.

– Está se esquecendo de que ele é um americano, totalmente distanciado dos acontecimentos. A história do dote perdido certamente não foi contada de geração a geração, como ocorreu em nossas famílias. Quando ele leu os diários, não sabia por onde começar a busca. Não sabia. onde os Neville e os Verrere viviam, ou quem poderia ter os tais mapas. Na verdade, não teria como saber que o dote ainda não foi encontrado. Nossas famílias poderiam ter se unido, como era o desejo de Margaret, e encontrado o tesouro. O melhor a fazer seria tentar vender os diários na Inglaterra e esperar que um Neville, ou um Verrere, os comprasse. Então, seria fácil seguir as pistas e localizar os mapas. Afinal, ele seguiu os diários até encontrar a senhorita.

– Ele só queria nos conhecer – Olívia voltou a protestar.

– E, se não estou enganado – sir Philip continuou, inexorável–, contou a ele que estavam procurando pelas cartas, no sótão. Imagino que tenha mencionado a outra parte do mapa, que estaria em poder dos Neville. Tudo o que ele teria de descobrir é a localização da Mansão Haverly, para procurar pelo livro em questão. Dessa maneira, a busca se tornaria bastante simples. Bastaria invadir o sótão de Chesilworth, encontrar as cartas e, então, viajar até Haverly e invadir a biblioteca.

– E por que ele esperaria um ano? – Cassandra argumentou. – Ele poderia ter seguido os diários, assim que papai os comprou. Teria o mesmo resultado. Por que esperar até agora? Está se esquecendo de um detalhe muito importante: somente agora alguém decidiu procurar pelas cartas. A mim parece que essa pessoa acabou de tomar conhecimento da existência delas.

Sir Philip ergueu uma sobrancelha e sua voz adquiriu tom sombrio.

– Está insinuando que sou eu o ladrão?

 

Cassandra hesitou diante do tom de voz gelado, mas conseguiu manter a calma.

– Há uma certa lógica na idéia.

Neville fitou-a por um longo momento, antes de dizer: – Sim, é muito lógico que a senhorita confie em um homem, sobre quem não sabe absolutamente nada, como David Miller, e desconfie de um membro de uma das famílias mais antigas e honradas da Inglaterra e, além disso, dono de uma riqueza tão grande, que o tal dote espanhol faria pouca diferença em seus cofres.

A arrogância dele pôs fim ao sentimento de culpa que invadira Cassandra pela dúvida.

– Sem dúvida – retrucou –, os homens ricos jamais procuram aumentar suas fortunas, ou agem como vilões gananciosos. Somente nós, os pobres, possuímos um senso de moral tão baixo, que somos capazes de fazer qualquer coisa por dinheiro. E, também, somente estrangeiros desconhecidos invadem residências alheias.

Neville não escondeu o embaraço.

– Não foi isso o que eu quis dizer. Simplesmente, apontei que a sua lógica favorece um estranho, a alguém que a senhorita conhece.

– Acontece que não conheço nenhum dos dois Cassandra lembrou. – Na verdade, conversei mais com David Miller, do que com o senhor, uma vez que ele passou alguns dias conosco. No entanto, sei que o senhor é um Neville e, historicamente, os Neville nunca foram amigos dos Verrere. Também sei que, geralmente, as grandes riquezas são obtidas por meios desonestos, e que os homens ricos estão sempre tentando aumentar seu patrimônio. Não tenho a intenção de acusar o senhor, ou o sr. Miller, ou quem quer que seja, enquanto não tiver maiores evidências. Sempre faço o possível para ser justa.

Sir Philip cerrou os dentes, furioso por Cassandra concluir com tamanha facilidade que ele poderia ser o intruso.

– É o senhor quem detesta coincidências – ela continuou. – Não acha suspeito o fato de a invasão ter ocorrido na noite seguinte à sua chegada aqui? E de ter acontecido duas semanas depois de o senhor ter tomado conhecimento do tesouro... e um ano depois de o sr. Miller ter vendido os diários?

Os olhos castanho-dourados de Neville faiscaram.

– Também é suspeito que tenha acontecido uma semana após a visita do sr. Miller, quando a senhorita mostrou a ele onde procurava pelas cartas. – Emitiu um suspiro contrariado. – Está determinada a me transformar em vilão, não está?

– Não. Gostaria de confiar em meu parceiro – Cassandra declarou com sinceridade. – Por outro lado, é difícil acreditar que o sr. Miller estivesse mal-intencionado. E não faz o menor sentido que ele tenha esperado um ano para dar o seu golpe.

– Faz sentido, se considerar que, ao vender os diários, ele não sabia se a história era verdadeira, ou se as famílias ainda existiam. Talvez só quisesse o dinheiro da venda dos diários, mas, ao voltar e conversar com o sr. Simons, descobriu a existência dos Verrere e do tesouro. Então, reconsiderou a questão e concluiu que poderia se tornar um homem rico.

– O senhor está especulando.

– De fato. Foi o que fizemos nos últimos minutos.

– Não fazemos a menor idéia de quem entrou aqui. Nem podemos ter certeza de que as cartas tiveram algo a ver com a invasão.

– Não vejo sentido em outras possibilidades.

– Infelizmente, aprendi que, muitas vezes, o que menos faz sentido é justamente a resposta dos grandes mistérios.

– Está sugerindo que foi mera coincidência? – Cassandra inquiriu, ligeiramente irritada.

– Não. E uma possibilidade, mas não acredito. Acho que, agora, mais do que nunca, precisamos encontrar as cartas com a máxima urgência.

– Concordo plenamente. Por isso, sugiro pararmos com as especulações e começarmos a trabalhar.

– Por onde devemos começar? – Philip perguntou, tirando o paletó.

Trabalharam em silêncio por um longo tempo, até Olívia provocar um sobressalto em todos.

– Vejam!

– O que foi? – Cassandra aproximou-se, preocupada. – Que cheiro horrível!

– Acho que é cânfora. Venha ver que roupas maravilhosas!

– Sim, são muito bonitas.

Tratava-se de uma saia, acompanhada por um corpete, de veludo verde, ricamente bordado em dourado. Apesar de um pouco desbotado, o traje ainda guardava seu esplendor.

– De que época seria, Cassandra? – Olívia perguntou. – Acha que era usado nas festas da corte? Ou seria um vestido de casamento?

–– De uma coisa tenho certeza: trata-se de um traje para ocasiões especiais. Não estou certa quando à época, mas arriscaria dizer que foi feito nos tempos do rei Charles II, no século dezessete.

– É tão romântico! – a mais nova exclamou, segurando o vestido diante de si.

– Veja isto!

Cassandra retirou do mesmo baú um par de sapatos, também de veludo bordado, mas de um: azul escuro. Possuía salto grosso e bico quadrado.

– Como alguém poderia usar uma coisa destas?

Olívia riu. – E enorme!

– Grande demais para ter pertencido a uma mulher – Cassandra concordou. – Com certeza, foi usado por algum lorde Chesilworth.

– Está brincando! – Crispin protestou, incrédulo.

– Os homens usavam roupas muito coloridas, naquela época – sir Philip explicou. – Em minha casa, há um retrato de um antepassado, usando sapatos muito parecidos.

– Vamos experimentar! – Olívia sugeriu. – Por favor, Cassandra...

– Está bem, mas tenha cuidado. O tecido está velho e pode se rasgar.

– É grande demais para mim. Vamos vesti-lo em você. .

As duas esconderam-se atrás de uma pilha de caixas.

Olívia ajudou Cassandra a trocar <> vestido.

– Ah, Cassie... É lindo! – Puxou a irmã para exibi-la a sir Philip e aos irmãos. – Vejam como caiu bem em Cassie.

– Realmente – Sir Philip concordou, examinando Cassandra da cabeça aos pés, com olhar fascinado.

– Se tenho de me fantasiar, recuso-me a ser a única – ela protestou, embaraçada, antes de retirar uma outra peça do baú. – Ah! Sir Philip, terá de vestir isto.

Estendeu a ele um casado de mangas bufantes, todo bordado.

Após um momento de hesitação, ele aceitou o desafio. Uma vez vestido, parecia um cavaleiro antigo, faltando-lhe apenas a espada fia bainha.

Cassandra prendeu a respiração diante da visão espetacular, então, puxou-o pela mão.

– Venha. Vamos ver como estamos.

Foi somente quando pararam diante do espelho apoiado a uma das paredes, que ela se deu conta de que ainda segurava a mão dele. Soltou-a no mesmo instante, mas seu olhar fixou-se no dele, através do espelho. Não era divertimento o que iluminava as profundezas castanhas, mas sim, a chama do desejo, que provocou tremores imediatos em Cassandra. De repente, ela se descobriu desejando que os irmãos não estivessem ali.

Com certo esforço, afastou-se.

– Se continuarmos brincando, nunca encontraremos as cartas – declarou. – Vamos voltar ao trabalho.

– Sim... Claro – sir Philip concordou, aparentemente perturbado..

– Cassie, o que devo fazer com os outros objetos guardados neste baú? – sir Philip perguntou.

– Examine tudo com cuidado. Afinal, é o primeiro baú, cujo conteúdo data do século que nos interessa.

Cassandra conseguiu falar no tom prático de, sempre, disfarçando as batidas frenéticas de seu coração.

– Por que Olívia e os garotos não trabalham da parede para cá? – Neville sugeriu. -;– A senhorita e eu continuaremos no sentido oposto. E possível que o baú que procuramos encontre-se no meio.

Cassandra concordou e voltou a esconder-se atrás das caixas, para trocar o vestido antigo pelo que usava antes. Então, retomou a tarefa metódica de procurar pelas cartas..

Trabalharam a tarde toda, mas não encontraram nada que pudesse se relacionar a Margaret Verrere. Quando Cassandra, finalmente, sentou-se nos calcanhares com – um suspiro cansado, sir Philip retirou o relógio do bolso.

– Receio que tenhamos de parar. Ainda terei de voltar à hospedaria e me arrumar para o jantar.

 

– Ah, meu Deus! – Cassandra exclamou, levantando-se de um pulo. – Que horas são? – Quando sir Philip respondeu, ela soltou um gemido. – Como pude me distrair tanto! Preciso voltar para casa, imediatamente.

Antes de deixar a Mansão Moulton, certificara-se de que tudo estava sendo feito de acordo. Porém, seria impossível ter certeza de que nenhum problema imprevisto surgiria no decorrer do dia. Agora, atrasada como estava, certamente não teria tempo para se arrumar como gostaria.

Depois de despedir-se, apressada, de sir Philip, disse a si mesma que isso não tinha importância. Nunca fizera sucesso em festas e, quando Joanna estava presente, com sua beleza e vivacidade, não sobravam olhares para Cassandra. Nem mesmo um vestido novo ela tinha para usar, naquela noite. O traje de cetim, cor de café com leite que mandara escovar e arejar já tinha mais de três anos.. Além disso, a cor não favorecia seus traços, mas ela não contava com alternativa melhor.

Embora não quisesse admitir, a verdade era que daria tudo pelo vestido que sua tia usaria naquela noite. Não exatamente o vestido, mas o tecido. Tratava-se de uma peça de seda cinza-claro, cujo brilho apresentava nuances em lilás e violeta, além de criar à ilusão. visual da presença de outros tons pastéis. Seria perfeito para realçar seus olhos cinzentos e sua pele clara.

Um. dia, quando visitavam Fairbourne, tia Ardis vira Cassandra parada diante de uma vitrine e aproximara-se para saber o que chamara a atenção da sobrinha.

– Que tecido lindo! – Ardis exclamara.

Por um momento, Cassandra animara-se, na esperança de que a tia lhe comprasse o tecido de presente, tendo percebido que seria a cor perfeita para ela. Porém, a sra. Moulton continuara:

– Ainda bem que você .0 viu, Cassandra. Ficará perfeito em um vestido para mim, com detalhes em renda preta, talvez. Venha, vamos entrar.

Com o coração apertado, Cassandra observara a discussão de tia Ardis com a costureira, que não conseguiu demover a freguesa da idéia de enfeitar o vestido com tantos laços, babados e rendas, que o resultado final foi ridículo. Cassandra não acreditava que a tia houvesse feito aquilo por crueldade. Na verdade, Ardis era tão egoísta, que nem sequer lhe ocorria abrir mão de alguma coisa que gostasse, em beneficio de quem quer que fosse.

Sentiu uma pontada de pesar quando, envergando o vestido fora de moda, com os cabelos presos em um coque simples, olhou para a tia e viu o brilho suave da seda macia. Mas, como não tinha o hábito de perder tempo, lamentando circunstâncias que não poderia mudar, tratou de ocupar-se, garantindo que o jantar transcorresse sem qualquer incidente.

Quando conversava com o sr. Harrelson; preso a uma cadeira por causa do último, de uma série interminável de acidentes ocorridos durante caçadas, sentiu um arrepio na nuca e não pôde resistir ao impulso de olhar para trás..

Sir Philip estava parado na porta, fitando-a. Ao perceber que fora visto por ela, sorriu e adiantOu-se naquela direção. Infelizmente, tia Ardis foi rápida e interceptou-o no meio do caminho, arrastando-o para outro lado, sob o pretexto de apresentá-lo ao vigário, sua esposa e filha.

Assim, Cassandra só conversou com SIT Philip depois do jantar. Sendo o centro das atenções, ele não passou um instante desacompanhado e, além disso, Cassandra não queria dar à tia e à prima o menor motivo para dizerem que ela estava competindo com Joanna pela atenção dele. Embora não partilhasse das ilusões das duas sobre o interesse de sir Philip, Cassandra sabia que, enquanto elas se concentrassem na tarefa de persegui-lo, sua própria seria muito mais fácil, pois as duas não se importariam com o que Cassandra fizesse, ou deixasse de fazer.

Ainda assim, depois do jantar, quando Cassandra aproveitava uma pausa na conversa tediosa e estridente da irmã do sr. Winton, deu de encontro com sir Philip, que avançara na direção dela.

– Sir Philip! Desculpe-me! Não percebi que estava atrás de mim.

– Eu me escondi atrás de um vaso, pois tive de agüentar a srta. Winton durante dez minutos intermináveis ainda há pouco e, por isso, decidi ser cuidadoso – ele confidenciou em voz baixa.

– O senhor é um homem sábio – Cassandra murmurou.

– Não conversamos nem uma vez, esta noite. Toda vez que me dirijo na sua direção, a senhorita desaparece. Está me evitando, srta. Verrere?

– É claro que não – ela respondeu, deixando-se levar sorrateiramente para o hall de entrada. – O senhor é o convidado de honra. Todos disputam a sua atenção.

– Muito mais do que eu gostaria.

– Achei que não deveria tomar o seu tempo, uma vez que passei a tarde toda em sua companhia.

– Mesmo assim, poderia ter tido um pouco de piedade – ele insistiu, fingindo-se magoado. – Meu sofrimento seria bem menor, se pudesse desfrutar de alguns minutos de uma conversa inteligente.

– Ora, sir Philip, estou lisonjeada – Cassandra zombou.

– Estou dizendo a verdade, srta. Verrere. Se eu ouvir mais uma descrição dos dotes em pintura, ou ao piano, da filha de alguém, acabarei estrangulando um dos convidados!

Cassandra teve de reprimir o riso.

– O senhor ainda não viu nenhuma das telas, nem ouviu uma sonata, dessas moças encantadoras.

– Não, mas ouvi falar delas, assim como conheci as moças em questão. Mediocridade é a única palavra que me vem à mente.

– Dunsleigh é um lugar bastante limitado. Certo de que Cassandra sequer tinha consciência dos próprios atributos, sir Philip não se cansava de admirar a maneira como os olhos dela brilhavam quando ela sorria, ou da textura suave de sua pele clara. No entanto, notara o vestido fora de moda, de cor apagada, que ela usava. Imediatamente, foi tomado pelo desejo de comprar um traje elegante, de uma. cor que realçasse aqueles lindos olhos cinzentos, que valorizasse o corpo esbelto. Algo feito no tecido do vestido da sra. Moulton, sem as rendas e babados, claro. A seda delicada faria maravilhas pela compleição clara de Cassandra.

Infelizmente, uma mulher decente não poderia sequer pensar em aceitar um vestido de baile, como presente de um homem, exceto seu pai ou seu irmão. Mesmo um colar de pérolas para enfeitar-lhe o pescoço seria impensável, se não fosse dado pelo noivo, ou marido. Pela primeira vez em sua vida, sir Philip revoltou-se contra as restrições sociais. Era absurdo que um homem pudesse cobrir com os presentes mais caros uma mulher de virtude duvidosa, enquanto uma outra, virtuosa, mas pobre, não pudesse aceitar nada de homem algum. Ah, como gostaria de dar um presente a Cassandra, só ,para ver os olhos dela se iluminarem de prazer.

– Aí estão vocês! – a voz de tia Ardis interrompeu-os. Cassandra e Philip viraram-se para ela, ligeiramente sobressaltados – O que pensa que está fazendo, Cassandra? – a tia repreendeu-a em tom de falsa brincadeira. – Não pode ficar conversando com sir Philip no hall, enquanto todos os convidados encontram-se no salão. Sir Philip, peço que desculpe minha sobrinha. Ela não está acostumada com a vida em sociedade.

– Eu percebi. Aliás, é o que mais me agrada, nela.

Tia Ardis forçou um sorriso.

– Ora, ora, se continuar usando esse seu charme com estas pobres moças do campo, deixará um exército de corações partidos para trás, quando for embora.

Sir Philip lançou um olhar conformado para Cassandra, quando Ardis tomou-lhe o braço e arrastou-o de volta para o salão. Cassandra observou-os desaparecerem e, então, suspirou. Foi como se o brilho da noite houvesse se dissipado e só lhe restasse esperar pelo final da festa.

O que não demorou a acontecer. Depois que sir Philip se retirou, os convidados foram se despedindo, um a um. Pouco depois, a casa estava vazia. Tia Ardis desabou sobre uma cadeira, como se houvesse trabalhado muito para organizar aquela festa. Porém, recuperou-se depressa e lançou-se em uma discussão frenética com Joanna, sobre cada gesto de sir Philip que, claro, era incapaz de disfarçar sua paixão crescente por Joanna.

Cassandra tratou de se retirar e foi direto para o quarto, onde encontrou Olívia profundamente adormecida. Despiu-se e deitou-se. Deixou o lampião aceso, pois sabia que assim não dormiria profundamente. Acordou menos de duas horas depois e, verificando que Olívia continuava dormindo, saiu da cama em silêncio e vestiu-se. Abriu o baú ao pé da cama e retirou um cobertor, que enfiou debaixo do braço. Então, apagou o lampião e saiu na ponta dos pés.

Assim que seus olhos se habituaram à escuridão, foi até o escritório do tio. De dentro de um dos armários, retirou um revólver e um pacote de balas. Carregou a arma e guardou-a cuidadosamente no bolso da saia.

Nunca tivera de usar um revólver antes, mas como seu pai acreditava que a educação dos filhos, homens e mulheres, deveria ser completa, ela tivera aulas de tiro e, como em tudo mais, saíra-se muito bem. Sentia-se confiante de que seria capaz de se defender, caso fosse necessário. Fez sua última parada na cozinha, a fim de apanhar um lampião, e saiu na direção de Chesilworth.

Ao ouvir a história contada por Jack Chumley, Cassandra decidira quase imediatamente que a única maneira de descobrir quem estava procurando pelas cartas seria voltar a Chesilworth, à noite. Seu plano era simples. Ficaria escondida no pequeno bosque atrás da mansão e, quando uma luz aparecesse no interior da casa, ela se aproximaria para ver quem era o intruso. Levara o cobertor para ter um pouco de conforto, caso a espera fosse longa. A arma serviria como proteção. Inicialmente, pensara em confrontar ó sujeito, mas concluiu que, mesmo armada, isso seria muito arriscado. Bastaria saber quem ele era.

Não conseguia acreditar que fosse sir Philip, nem o sr. Miller. Sir Philip tinha muitos defeitos, mas sendo um homem rico e de posição, não arriscaria ser apontado como ladrão, por causa do que, para ele, seria uma quantia relativamente pequena. E, afinal de contas, haviam combinado dividir o tesouro, quando o encontrassem. O sr. Miller, por sua vez, possuía um dos semblantes mais honestos que Cassandra já vira. Como poderia um homem que conversava com tamanha franqueza, ser um vilão?

Bem, todas as suas hipóteses baseavam-se exclusivamente em seus instintos. Cassandra precisava de provas.

Quando chegou ao pequeno bosque, atrás de. Chesilworth, estendeu o cobertor no chão, apagou o lampião e sentou-se, recostada no tronco de uma árvore. Agora, só lhe restava esperar.

A noite estava muito escura e silenciosa. Os últimos dias haviam sido um tanto cansativos. Por duas vezes, Cassandra quase adormeceu, mas forçou-se a despertar. Quando seus olhos já pesavam de novo, ela teve um sobressalto. Após alguns segundos de confusão, deu-se conta do que a despertara de uma vez por todas. Fora o brilho de um lampião, aproximando-se da casa.

Imediatamente, seu coração disparou e ela se pôs de pé, rapidamente. Ao mesmo tempo, enfiou a mão no bolso da saia, fechando-a em torno da arma, o que lhe proporcionou certa confiança.

Começou a caminhar lentamente na direção da mansão. Como não poderia acender o lampião, precisava ser cuidadosa para não pisar em um buraco e acabar ferida.

A luz desapareceu. Ou o intruso apagara o lampião, ou estava dando a volta na casa, provavelmente à procura de uma entrada fácil, uma vez que a janela quebrada fora fechada. Cassandra lamentou o fato de Chumley ter pregado tábuas em lugar do Vidro quebrado, pois isso deixaria claro que a invasão fora descoberta e o sujeito poderia calcular que havia alguém à sua espera, na escuridão.

Tal pensamento fez Cassandra apressar o passo. Mantendo os olhos fixos no chão, ela, de súbito, pressentiu um movimento à sua esquerda. Porém, antes que pudesse virar-se, um grande peso abateu-se sobre ela, derrubando-a.

Desesperada, Cassandra pôs-se a lutar, usando para isso braços e pernas. Uma cotovelada atingiu algo sólido e ela ouviu um gemido abafado, ao mesmo tempo em que as mãos que a seguravam afrouxaram o aperto. Ela aproveitou a oportunidade para tentar escapar, mas ele foi mais rápido e conseguiu alcançá-la. Uma das mãos dele agarraram-lhe o decote do vestido e, quando Cassandra girou o corpo, ainda tentando fugir, o tecido rasgou-se até a cintura. A mão dele deslizou por seus seios nus.

– Ah, meu Deus!

Cassandra preparou-se para gritar, mas, então, sua mente registrou o timbre daquela voz. Ele a forçou a deitar-se de costas, segurando-lhe os dois braços com firmeza. Por um longo momento, olharam fixamente um para o outro, mas divisando as feições, uma vez que a escuridão era quase total.

– Sir Philip! – Cassandra finalmente exclamou, sentindo-se como se houvesse sido apunhalada pelas costas. – Foi o senhor! O senhor é o ladrão!

 

– Eu deveria saber – sir Philip falou com amargura, antes de sentar-se e libertá-la.

Cassandra não se moveu, pois seu coração parecia pesar uma tonelada.

– Por quê? – inquiriu, à beira das lágrimas. – Por que está tentando roubar as minhas cartas?

Neville fitou-a por um momento, como se demorasse para compreender o significado das palavras dela.

– Acha que eu... Ora, sua tola! Não sou o ladrão! Pensei que a senhorita fosse.

– Eu? Ficou maluco? Por que eu invadiria a minha própria casa, para procurar pelas cartas, se já faço isso todas as tardes?

– Não foi isso o que eu quis dizer.

– O quê, exatamente, o senhor quis dizer?

– Estou tentando explicar que não percebi que era a senhorita, quando a ataquei. Vi alguém se aproximando da casa. Está muito escuro. Achei que o ladrão havia voltado, na intenção de invadir a casa novamente. Então, pulei sobre ele... ou melhor, sobre a senhorita.

– Está querendo dizer que veio até aqui, na tentativa de apanhar o intruso? – Cassandra indagou, irritada.

– Claro. Quando seu ex-capataz contou-nos sobre a invasão, decidi vir aqui, à noite, e esperar que o bandido aparecesse.

– Foi exatamente o que eu vim fazer – ela o informou, soltando uma risada de puro alívio.

– Ora, não poderia ter sido ele quem se aproximara com o lampião. Como um homem poderia ter voltado tão depressa e atacá-la pelas costas?

– Mas ele estava aqui! – lembrou-se de súbito. Vi um lampião, dando a volta na casa. Foi por isso que me aproximei.

– Planejava confrontá-lo? – Neville quase gritou. – Francamente, Cassandra! Esse homem deve ser perigoso!

– Não se preocupe. Tenho um revólver – Cassandra declarou, retirando a arma do bolso.

– Um revólver! E, ainda, pede que eu não me preocupe? Pelo amor de Deus, vire essa coisa para lá! A senhorita é uma ameaça para si mesma e todos os que a cercam!

– Eu! – ela retrucou, indignada. – Não sou eu quem ataca as pessoas, sem ao menos esperar para saber quem é! E o que estamos fazendo aqui, sentados? O intruso...

– Já deve estar longe – Neville completou. – Ou a senhorita acha que ele ficaria por perto, enquanto lutávamos, gritávamos e discutíamos?

– Não, acho que não. Agora, quer fazer o favor de sair de cima de mim – falou, exasperada, quando puxou a saia e descobria que estava presa, debaixo do corpo de sir Philip.

Ele a fitou com aquele olhar faminto, que Cassandra já vira antes. Só então, ela se deu conta da conotação de suas palavras, e sentiu as faces arderem.

– Eu não... não quis dizer... – balbuciou, sem saber o que mais poderia dizer, sem tornar a situação ainda pior.

Arriscou um olhar de soslaio para sir Philip, mas ele já não a fitava nos olhos, pois algo mais abaixo havia lhe chamado a atenção. Foi quando Cassandra lembrou-se do ruído de tecido se rasgando, pouco antes.

Baixou os olhos e, horrorizada, constatou que seu vestido encontrava-se aberto, deixando à mostra os dois seios, cobertos apenas pelo algodão fino e quase transparente da combinação.

Engoliu em seco, profundamente embaraçada. Como podia se ver, mais uma vez, em situação tão comprometedora, com aquele mesmo cavalheiro? Porém, quando voltou a fitá-lo, o sentimento que a invadiu não foi embaraço. Ao contrário, foi um misto de orgulho e prazer, por saber que a visão de seu corpo seminu provocava nele aquele olhar faminto.

Notou que os olhos dele baixaram ainda mais, pousando em suas pernas, claramente delineadas pela saia do vestido. Ao se vestir, Cassandra decidira não usar saiote, pois queria ter a maior liberdade de movimentos possível.

Sir Philip voltou a fitá-la nos olhos e, após um breve instante, declarou com ousadia:

– Quero você.

De repente, ele se sentiu incapaz de raciocinar com clareza, pois o desejo assumira o controle de sua mente, assim como de seu corpo. Os cabelos de Cassandra estavam soltos, pálidos e sedosos, pedindo carícias. E aquele corpo esbelto, tão perto...

Cassandra passou a língua pelos lábios, incapaz de pensar em qualquer coisa, que não fosse a lembrança da boca de Philip na sua, das mãos dele deslizando pelo seu corpo.

– Não foi um sonho, foi? – murmurou. – Na noite em que nos conhecemos, eu não estava sonhando. Você estava fazendo aquelas coisas...

– Sim, eu a beijei. Eu a toquei.

Ele ergueu a mão e pousou-a sobre um dos seios de Cassandra. Apesar do sobressalto provocado pela carícia inesperada, ela não pôde reagir. Sentiu-se como se estivesse hipnotizada, e limitou-se a fitá-lo em silêncio.

Philip deslizou a mão por debaixo da combinação, a fim de acariciar-lhe os seios, sem qualquer barreira entre sua pele e a dela. Viu-se prestes a perder o controle, quando Cassandra estremeceu de prazer.

– Cassandra... – murmurou baixinho, aproximando-se e dobrando uma perna, de maneira que ela pudesse apoiar as costas em seu joelho.

Abriu a combinação, expondo os seios fartos à luz suave do luar. Deleitou-se com a visão da pele clara, contrastando com os mamilos escuros e rijos.

– Você é linda – falou com voz rouca, ao mesmo tempo em que, com as pontas dos dedos, circundava as curvas arredondadas.

Cassandra fechou os olhos e, suspirando, abandonou-se à paixão, como se toda a sua energia houvesse sido drenada por aquela mão que parecia operar verdadeiros milagres, quando em contato com seu corpo.

Trêmulo de desejo, Philip reconheceu que, apesar de suas boas intenções, estava determinado a fazer amor com Cassandra naquele lugar, naquela noite. Sabia que, dentro de poucos instantes, ela estaria deitada no chão, enquanto suas mãos a acariciavam, enquanto seus lábios a beijavam. Então, fariam amor, até estarem ambos plenamente saciados, até que ela fosse irremediavelmente sua.

Passou os braços em torno dela e puxou-a para si, beijando-a com ardor.

– Quem está aí? – uma voz masculina inquiriu aos berros, exercendo o efeito de um balde de água fria sobre a paixão dos dois. – Levante-se e identifique-se, antes que eu atire!

Phílip imobilizou.-se, emitindo um gemido frustrado.

– Chumley! – Cassandra sussurrou, aflita.

– O quê? – Philip perguntou, confuso.

– Está me ouvindo? – a voz voltou a soar na escuridão. – Mandei levantar-se!

– É Chumley! – Cassandra repetiu. – O homem que o surpreendeu aqui, ontem.

Depois de praguejar baixinho, Philip ergueu as duas mãos e declarou:

– Não atire. Viemos em paz.

– Chumley, sou eu, Cassandra Verrere.

Não foi fácil levantar-se e, ao mesmo tempo, segurar as roupas rasgadas, mas Philip ajudou-a.

– Srta. Cassandra! – Chumley exclamou, chocado, aproximando-se rapidamente. – O que está fazendo aqui? Quase atirei na senhorita!

Percebendo o dilema de Cassandra com relação ao vestido, Philip apressou-se em tirar o paletó e cobri-la com ele.

– Sinto muito por tê-lo alarmado, Chumley. Não esperava encontrá-lo aqui., – Ora, alguém tinha de proteger a casa!

– Aparentemente, foi o que ocorreu a todos nós Philip comentou com uma pontada de irritação. Chumley examinou-o, desconfiado.

– O senhor de novo! O que está fazendo aqui?

– Sir Philip e eu viemos pelo mesmo motivo que você – Cassandra explicou. – Nós três esperávamos surpreender o intruso. Infelizmente, não nos comunicamos sobre nossos planos. Receio que nosso homem tenha escapado, a menos que você estivesse usando um lampião, há alguns minutos.

– Não, senhorita. Eu não sairia à caça de um ladrão, com um lampião para anunciar a minha chegada!

– Tem razão. Bem, imagino que, agora, não fará mal algum iluminarmos este lugar – ela falou com um suspiro.

Então, virou-se para apanhar o lampião e aproveitou a oportunidade para enfiar os braços pelas mangas do casaco de Philip e abotoá-lo. Assim, seu vestido arruinado não poderia ser visto.– Quanto ao sangue que ainda fervia em suas veias, aquecendo-lhe o corpo de maneira estranha, felizmente ninguém poderia perceber o que se passava dentro dela. Ajeitou os cabelos rapidamente, acendeu o lampião e voltou a se juntar aos dois homens.

Eles também haviam acendido lampiões e, no momento, estudavam-se com ar de reprovação.

– Tenho certeza de que seu pai ficaria furioso se soubesse que a senhorita está aqui, a esta hora, na companhia de um estranho.

– Sir Philip não é um estranho, Chumley, mas sim um amigo da família. Além disso, vim sozinha. Nós nos... encontramos aqui. Ele pensou que eu fosse o ladrão.

Chumley emitiu um som que expressava com clareza sua opinião sobre um homem capaz de confundir a srta. Verrere com um ladrão.

– Não creio que tenha sido boa idéia a senhorita ter saído de casa sozinha, no meio da noite.

– Na minha opinião, uma jovem sozinha e indefesa, andando pelos campos, na madrugada, é inconcebível! – sir Philip argumentou com veemência.

– Depende da jovem – Chumley replicou, coçando o queixo. – Se a srta. Cassandra trouxe uma arma, o que acredito que tenha feito, pois é muito esperta, eu diria que o ladrão precisaria de proteção. Ela atira melhor do que muitos homens que conheço.

– Obrigada, Chumley – Cassandra agradeceu, lançando um olhar triunfante para Neville. – Tentei explicar isso a sir Philip, mas ele não compreendeu. Agora, em vez de ficarmos aqui, parados e discutindo, que tal procurarmos pelo ladrão?

Sem esperar pela resposta, encaminhou-se para os fundos da casa, onde vira o lampião pela última vez.

Chumley seguiu-a sem questionar. Com um suspiro exasperado, sir Philip foi se juntar a eles.

– Por que tem de sair sempre na frente, sem proteção, Cassandra? – protestou, irritado. – Ainda vai se arrepender disso.

– Não seja ridículo! Tenho certeza de que o intruso já está longe daqui. Além do mais, creio que já ficou esclarecido que sou perfeitamente capaz de me defender. Ali! – ela apontou para um par de janelas. – Foi onde vi o ladrão.

Os três se aproximaram, usando os lampiões para iluminar o solo. Chumley foi o primeiro a avistar as pegadas.

– Vejo marcas, onde o solo está mais úmido.

– Sim, são pegadas nítidas– sir Philip concordou.

– Definitivamente, pertencem a um homem – Cassandra concluiu.

– Um homem grande – Neville acrescentou.

– Alto, talvez – Chumley contribuiu –, mas não muito pesado.. A terra é fofa, aqui. Se o sujeito fosse pesado, o sapato teria deixado marcas mais fundas.

Alto, mas não pesado, Cassandra pensou. Um homem do tamanho de sir Philip! Sem pensar, ela baixou os olhos para os sapatos dele.

Neville percebeu o olhar dela e seus lábios se curvaram em um sorriso irônico.

– O tamanho é o mesmo – declarou –, mas o estilo não combina com o meu.

Com gestos exagerados, ele estendeu um pé e virou-o para um lado e outro, para que Cassandra pudesse se certificar de que o sapato que ele usava não coincidia com as pegadas no solo.

– Francamente, sir Philip – ela falou com desdém – se parasse de brincar, quem sabe encontrássemos alguma pista útil.

Virou-se e seguiu Chumley, que dava a volta na casa.

– Veja, senhorita – ele chamou, parando e aproximando o lampião do chão.

Cassandra e Philip foram até lá e distinguiram mais uma pegada. Embora fosse do outro pé, era, sem dúvida, o mesmo modelo de sapato. Aquela marca, porém, apresentava um detalhe interessante. Havia um pequeno “v” no salto.

– O que é isso? – Cassandra indagou. – Uma marca qualquer – Neville sugeriu.

– Sim, senhorita – Chumley concordou. – Ele deve ter pisado em alguma coisa que marcou o salto do sapato.

– Portanto, só nos resta inspecionar os sapatos de todos os homens da região, à procura de um com um “v” no salto esquerdo – sir Philip concluiu com sarcasmo.

– É a única pista que temos, até agora – Cassandra protestou. .

– Sim, mas ainda não temos um suspeito.

– Pensei que o senhor tivesse um – ela retrucou, irritada. – Meu primo americano.

Ao ver Chumley erguer as sobrancelhas, Cassandra arrependeu-se do comentário. A última coisa que desejava eram fofocas locais sobre tesouros e mapas escondidos em Chesilworth.

– Na verdade, ele continua sendo o primeiro da minha lista – Philip confirmou. – Mas, como não fazemos idéia do paradeiro do sr. Miller, será impossível examinarmos os sapatos dele.

– Eu estava brincando – Cassandra falou depressa, lançando-lhe um olhar significativo. – O fato de o senhor haver criado uma antipatia gratuita por David Miller não quer dizer que ele seja um ladrão. Além disso, como Chumley pode confirmar, não há nada de valor, em Chesilworth..

– A senhorita tem razão. A prataria está bem guardada.

– Exatamente. O sr. Miller esteve aqui e pôde ver com os próprios olhos o estado em que a propriedade se encontra. – Cassandra esperava que seus argumentos fossem suficientes para desencorajar qualquer fofoca sobre seu primo americano. Mesmo assim, decidiu desviar os pensamentos de Chumley. – Acho que foi algum forasteiro...

– Pode ser, senhorita – o mais velho concordou de pronto. – As pessoas da região não roubariam a sua família.

– Provavelmente, essa pessoa viu o tamanho da casa e imaginou que encontraria algo de valor, lá dentro – ela acrescentou.

– Sem dúvida – Philip também concordou, deixando claro que havia compreendido a intenção de Cassandra.

– O que significa que o intruso está por perto – ela continuou. – Afinal, ele esteve aqui duas noites seguidas. Onde passou o dia?

– Tem razão, senhorita. Alguém deve tê-lo visto.

Perguntarei aos moradores de Dunsleigh, amanhã, se viram algum estranho por aqui.

– Também perguntarei na hospedaria onde me encontro – Philip prometeu –, mas não podemos nos esquecer de que ele pode, perfeitamente, estar hospedado em outra cidade próxima.

Encontraram mais três ou quatro pegadas, afastando-se da casa. Mais adiante, porém, o solo torna-se mais duro e seco, e não havia sinal do intruso.

– O barulho o assustou e ele fugiu – Philip afirmou.

– Vou acompanhá-la até sua casa, srta. Verrere.

Cassandra deu-se conta de que, pouco antes, ele a chamara. de Cassandra. Agora, estavam de volta a “srta. Verrere”. Bem, pensou, pouco antes, estavam...

Ora, seria melhor não pensar mais nisso!

– Garanto que sou perfeitamente capaz de voltar sozinha – replicou em tom formal.

– Não duvido, mas se pensa que vou permitir que uma jovem volte para casa sozinha, no meio da noite, quando há um ladrão à solta por aí, está enganada.

– O cavalheiro está certo, srta. Cassandra – Chumley concordou com certa relutância. – Se ele não for, eu irei.

Cassandra sabia que o ex-empregado faria exatamente o que estava dizendo e, como a casa de sua tia ficava no lado oposto à dele, decidiu aceitar a oferta de Neville.

– Está bem, sir Philip.

Caminharam em silêncio, lado a lado. Cassandra conhecia a opinião de sir Philip sobre o intruso.e sobre o fato de ela ter ido vigiar a casa, sozinha. E, como ele conhecia a opinião dela sobre os dois assuntos, ambos mantiveram-se calados. Os pensamentos de Cassandra concentravam-se no momento em que sir Philip a apanhara... e no que ocorrera a seguir.

O incidente diminuíra em muito a importância de um ladrão estar rondando a casa. Ainda assim, ela não tinha a menor intenção de conversar com ele sobre isso. Já era embaraçoso demais ter de caminhar ao lado de sir Philip, sentindo-se perturbada por aquela proximidade. Não poderia negar que havia gostado, e muito, os beijos e as carícias de Philip.

Perguntou-se o que ele pensava dela, por ter reagido com tamanho ardor. O que ele queria? O que sentia por ela? E, mais importante, o que ela sentia por ele? Nunca antes Cassandra descobrira-se tão confusa.

Caminhando ao lado dela, sir Philip não estava menos confuso. Sabia que devia desculpas a Cassandra, pelo que fizera. Permitira que a paixão dominasse seus atos, mesmo depois de ter prometido a ela que aquilo jamais voltaria a acontecer. Parecia haver alguma coisa em Cassandra Verrere, que o fazia esquecer-se das regras segundo as quais costumava viver, que apagava os limites, geralmente claros, entre o comportamento que poderia ter com uma mulher de virtude duvidosa, e o comportamento esperado para com uma moça decente. Nunca em sua vida fora tomado pela paixão incontrolável que Cassandra lhe despertava. Talvez fosse a inocência das reações dela, a paixão natural, que o excitava tanto. Ou, quem sabe, o contraste entre os beijos tão doces de Cassandra, com suas respostas afiadas. Philip não saberia dizer. Tudo o que sabia era que queria muito continuar a ver a srta. Verrere.

E, também, queria muito beijá-la de novo.

Foi por essa razão que desistiu de pedir desculpas, pois isso implicaria em prometer nunca mais agir daquela maneira e Philip tinha um palpite de que não seria capaz de honrar tal promessa. Na verdade, nem queria honrá-la. Só queria continuar seguindo por aquele caminho, até descobrir onde chegaria.

Cassandra parou de repente e segurou-lhe o braço. Philip virou-se para fitá-la, sentindo o coração disparar pela expectativa do que ela teria a dizer.

– Lá está a casa de minha tia, entre as árvores – ela anunciou.

– Estou vendo.

– É melhor que eu vá sozinha a partir daqui. Seria desastroso se alguém me visse voltando para casa, a esta hora, na companhia de um homem. Especialmente, sendo o senhor.

Ele assentiu, decepcionado por Cassandra não ter feito um comentário mais pessoal. Ora, o que estava esperando? Que ela pedisse que continuassem do ponto onde haviam parado, quando interrompidos por Chumley?

– Tem razão. Vá em frente. Ficarei aqui, para ter certeza de que chegará em casa sã e salva.

– Tenho certeza de que isso não será necessário.

– Vamos nos encontrar em Chesilworth, amanhã?

– ele perguntou, ignorando as últimas palavras dela.

– Sim. Estarei lá à uma hora.

– Bom. Até amanhã.

Cassandra assentiu e, sem dizer mais nada, virou-se e partiu na direção da casa. Sir Philip permaneceu onde estava, observando-a afastar-se. Quando a viu desaparecer por uma porta lateral, virou-se com um suspiro e tomou o longo caminho de volta à cidade.

A suave batida na porta do quarto acordou Cassandra. Ela gemeu e virou-se na cama, arrependida de ter pedido à criada que a chamasse cedo, para que ela pudesse cuidar da limpeza. Porém, sabia que o melhor seria limpar e arrumar a casa antes que tia Ardis e Joanna acordassem. Assim, Cassandra teria a tarde livre para trabalhar em Chesilworth.

Com um suspiro, afastou as cobertas e levantou-se. Abriu a porta para a criada e permitiu que a moça a ajudasse a vestir-se. Então, aceitou as torradas com café que haviam sido levados em uma bandeja. Sentindo-se um. pouco melhor, desceu para supervisionar a limpeza, bem como para ajudar a criadagem.

Foi uma surpresa agradável descobrir que ainda não eram onze horas, e a casa já se encontrava impecável. Assim, Cassandra poderia começar o seu trabalho no sótão algumas horas mais cedo. Afinal, seria muito mais fácil escapar dali, uma vez que tia Ardis ainda nem sequer saíra de seu quarto. Decidida, Cassandra pediu à cozinheira que lhe preparasse um lanche e partiu duas horas antes, deixando para trás os irmãos, que lamentaram ter de ficar para a aula semanal de religião.

Era um dia bonito e agradável e Cassandra percorreu o trajeto até Chesilworth cantarolando. A cada dia, a possibilidade de encontrar as cartas tornava-se maior, o que serviu para animá-la. Tratou de afastar o pensamento de que a perspectiva de voltar a encontrar sir Philip aumentava ainda mais suas expectativas de ter um dia maravilhoso.

Assim que avistou a casa, parou, examinando-lhe a silhueta imensa e escura. Pela primeira vez em sua vida, foi tomada de um sentimento negativo com relação a Chesilworth. Seria impossível esquecer de que alguém invadira a casa, duas noites antes, e tentara fazer o mesmo na noite anterior. Como poderia ter certeza de que o intruso não voltara mais tarde, e que obtivera sucesso em sua tentativa? Como saber que não havia alguém, naquele exato momento, procurando pelas cartas, no sótão?

Por um momento, Cassandra desejou ter esperado pela hora marcada com sir Philip, ou ter encontrado uma desculpa para dispensar os irmãos da aula de religião.

Sacudiu a cabeça, afastando os pensamentos indesejados. Disse a si mesma de que estava em Chesilworth, seu lar, e não em um castelo assustador. Conhecia cada centímetro daquela casa. E, mesmo que o intruso houvesse retornado na noite anterior, o que era muito improvável, ele não teria ficado ali até o meio do dia, sabendo que alguém poderia aparecer.

Recusando-se a perder a coragem, entrou na cozinha e acendeu o lampião que costumava deixar sobre a mesa, antes de subir para o sótão.

A casa deserta parecia mais silenciosa do que de hábito. Cassandra teve de se forçar a não olhar para os recantos escuros. No andar superior, porém, teve de percorrer os longos corredores, a fim de alcançar a escada estreita que levava ao sótão. Sentiu um arrepio na espinha, mas não olhou para trás.

Sabia que estava se deixando assustar por nada, que sua mente estava criando um clima ameaçador ao seu redor. Ainda assim, descobriu-se incapaz de controlar o medo. Chegou a pensar em descer e esperar por sir Philip à sombra de uma árvore. No entanto, descartou a idéia imediatamente, pois detestava covardia. Disse a si mesma que, assim que começasse a trabalhar, certamente esqueceria toda aquela bobagem e que seria um desperdício impensável abrir mão daquelas duas horas, tão preciosas.

Subiu os degraus com passos determinados. Uma vez dentro do sótão, olhou em volta e concluiu que ninguém estivera ali. Depois de fechar a porta, iniciou seu trabalho, retomando do ponto onde haviam parado, na véspera.

Como previra, distraiu-se na busca das cartas e esqueceu-se das sombras fantasmagóricas ao seu redor. Mais tarde, porém, um ruído chamou-lhe a atenção. Cassandra apurou os ouvidos e, instantes depois, o mesmo ruído se repetiu. Alerta, ela se levantou e atravessou o sótão nas pontas dos pés. Quando se aproximava da porta, os ruídos tornaram-se claros e distintos: eram passos no corredor do andar superior. Alguém caminhava exatamente debaixo do sótão. Sentindo um forte aperto no peito, ela ficou imóvel.

Passado o primeiro momento de pânico, Cassandra conseguiu correr em silêncio e esconder-se atrás de uma pilha de caixas. O aperto em seu peito ameaçou sufocá-la, quando os passos tomaram a escada.

De repente, a porta do sótão se abriu e um homem apareceu.

 

Era sir Philip.

Cassandra suspirou, aliviada. Porém, antes que tivesse tempo de chamá-lo, ou de sair de seu esconderijo, um outro pensamento lhe ocorreu. Sir Philip dissera que a encontraria ali, à uma hora,. como de costume. O que ele estaria fazendo lá, quase duas horas antes?

Uma dolorosa pontada de desconfiança atravessou-lhe o peito. Teria ele chegado mais cedo, na intenção de procurar sozinho pelas cartas?

Cassandra não considerou o motivo pelo qual tal traição da parte de sir Philip provocava tamanho sofrimento. Limitou-se a observá-lo, desolada, o coração disparado, enquanto ele olhava em volta.

– Srta. Verrere? – Neville chamou, erguendo o lampião acima da cabeça. – Cassandra?

Ela esperou em silêncio.

– Diabos! – Sir Philip praguejou. – Onde ela se meteu? Cassandra!.

O silêncio que se seguiu foi profundo. Tanto, que Cassandra temeu que ele ouvisse a sua respiração. Então, ele voltou a praguejar e começou a descer a escada.

Ele estava indo embora, sem ter procurado pelas cartas! O peito de Cassandra, tão apertado momentos antes, pareceu prestes a explodir de felicidade. Ela se levantou de um pulo e abandonou o esconderijo.

Neville virou-se e, ao vê-la, não escondeu a irritação.

– Cassandra! O que está fazendo? Por que não respondeu, quando chamei? Estava se escondendo?

Ao mesmo tempo em que ele voltou a subir os degraus, Cassandra aproximou-se. Sentia-se tola, tanto por ter ficado tão assustada, quanto por ter suspeitado das intenções de sir Philip.

– Sim – admitiu, embaraçada. – Eu estava sozinha e ouvi alguém subindo a escada... Fiquei um pouco assustada.

– Com razão – ele retrucou em tom rude, embora tomasse a mão dela e a apertasse com força. – Onde estava com a cabeça, quando decidiu vir sozinha até aqui, sabendo que alguém tem rondado a propriedade? Não acreditei quando o mordomo ,de sua tia disse que você havia saído para visitar Chesilworth!

– Esteve na casa de tia Ardis?

– Sim. Eu tinha de fazer uma visita de cortesia pela festa que me ofereceram, ontem à noite. Para ser sincero, calculei que, se chegasse cedo, encontraria mãe e filha ainda dormindo. E, também, imaginei que teria a oportunidade de conversar com você em um lugar mais agradável e menos abafado do que este sótão.

Cassandra não conteve um sorriso.

– Está insinuando que não considera este aposento elegante?

– A verdade, srta. Verrere – ele respondeu com ar teatral– é que qualquer aposento se torna elegante, quando a senhorita se encontra dentro dele.

Ela riu e voltou ao baú que estivera examinando. Era incrível como passara a se sentir bem, depois de descobrir que suas suspeitas sobre sir Philip eram infundadas.

De boa vontade, Sir Philip pôs-se a trabalhar no baú ao lado. Enquanto examinavam as antiguidades, riam e conversavam. Quando ele retirou do baú um traje masculino, Cassandra sentiu o coração acelerar.

Era o mesmo tipo de roupa usada por Richard Verrere, lorde Chesilworth, pai de Margaret, em um retrato pendurado na galeria dos antepassados, no segundo andar.

Ansiosa, ela foi se ajoelhar ao lado de Neville, observando atentamente cada objeto que ele retirava do baú. Infelizmente, tudo o que havia eram roupas e Cassandra emitiu um suspiro desanimado.

– Ao menos, estamos chegando perto – Philip encorajou-a. – Vamos ao próximo baú.

Para isso, tinha de afastar uma poltrona pesada e, quando o fez, descobriu que havia uma caixa de metal escondida sob ela.

Cassandra puxou a caixa, encarregando-se do exame de seu conteúdo, enquanto Philip dedicava-se ao referido baú. Ao virá-la, ela descobriu que um cadeado prendia o fecho. Não fazia idéia de onde encontrar a chave e quase deixou a caixa de lado. No entanto, não pôde deixar de pensar que aquele seria o recipiente ideal onde proteger cartas, ou objetos de valor, dos efeitos do tempo. Olhou em volta, à procura de um instrumento com o qual pudesse quebrá-lo. Finalmente, avistou um atiçador de brasas.

Depois de tentar quebrar o cadeado várias vezes, em vão, pediu ajuda a sir Philip. Mesmo sendo muito mais forte, ele também encontrou dificuldade, mas acabou conseguindo.

Cassandra ergueu a tampa e deparou com um livro de contabilidade. Abriu-o e sobressaltou-se ao constatar a data: onze anos depois da fuga de Margaret com seu amante. Com cuidado, deixou o livro de lado e foi retirando os demais documentos, um a um. Encontrou notas de venda de cavalos e gado, todas realizadas nos anos seguintes ao casamento frustrado de Margaret.

Retirou uma escritura de terras e, então, sobre outro livro de contabilidade, estava um pacote de cartas, amarradas por uma fita preta. Nos envelopes, estava a caligrafia já tão familiar a Cassandra.

Foi com mãos trêmulas que ela retirou o pacote de dentro da caixa.

– Philip...

Ele se virou e, ao deparar a expressão no rosto de Cassandra, aproximou-se rapidamente.

– Meu Deus! São as cartas de Margaret?

Cassandra assentiu, antes de falar com voz também trêmula:

– Esta é a caligrafia dela. Mal posso acreditar. Estas são as cartas que Margaret Verrere enviou ao pai!

– É tudo verdade – sir Philip declarou, surpreso.

– E difícil acreditar... Os diários, as cartas, o mapa... é tudo verdade.

Cassandra estreitou os olhos.

– Está dizendo que ainda não acreditava?

Estavam sentados à sombra de um grande carvalho, em frente à Mansão Chesilworth, depois de terem devorado o lanche que Cassandra levara consigo. O pacote de cartas encontrava-se ao lado de Neville e, de quando em quando, ele as tocava, como se precisasse se convencer de que eram mesmo reais. Haviam aberto as cartas, rompendo o lacre de cada envelope. Tratava-se de uma seqüência tocante de tentativas de uma filha em se reconciliar com o pai inflexível. Cassandra concluiu que, se o lorde estava mesmo determinado a não fazer as pazes com Margaret, acertara em não abrir as cartas, pois elas teriam derretido até mesmo um coração de pedra. Só de passar os olhos por elas, à procura de alguma menção ao mapa, Cassandra ficara com os olhos cheios de lágrimas.

– Não, eu não acreditava – sir Philip confessou.

– Talvez eu desejasse que fosse verdade e, depois que o intruso invadiu Chesilworth, achei que os diários poderiam ser verdadeiros, mas nunca cheguei a acreditar que as cartas continuariam aqui, depois de tanto tempo, ou que uma delas continha o mapa do tesouro.

– Algo parecido com um mapa do tesouro – Cassandra corrigiu-o, voltando a abrir o papel amarelado sobre a saia.

Sir Philip espiou por cima do ombro dela.

– Continua não fazendo o menor sentido – comentou. O papel apresentava linhas desenhadas aqui e ali, além de um quadrado que Cassandra acreditou indicar um edifício, com uma seta apontando na direção contrária. Em dois pontos, havia números. Em outro, a palavra “Littlejohn”. A letra “N”, escrita em um lado foi interpretada ,por Cassandra e Philip, de comum acordo, como Norte.

– Eu sei – Cassandra suspirou. – Eu esperava encontrar alguma informação que nos desse ao menos uma pista da localização do tesouro, mas... Margaret fez um excelente trabalho.

– Espero que, quando encontrarmos a outra metade, isto é, se a encontrarmos, tudo se esclareça. Seria terrível descobrirmos dois mapas incompreensíveis.

– O outro mapa deve conter a chave deste. Não acredito que uma mulher que escrevia tão bem, fosse capaz de desenhar um mapa sem sentido. Acho que o detalhe mais importante é “Littlejohn”. Existe algo, perto de sua casa, chamado Littlejohn?

– Claro! – Philip respondeu com uma risada.

O problema é que existem coisas demais chamadas Littlejohn. Trata-se de um nome comum, na região. Várias famílias têm o sobrenome Littlejohn, assim como uma campina, um riacho, ou melhor, dois riachos. E, claro, uma estrada onde moram dois ou três membros de uma das famílias Littlejohn também se chama Littlejohn, por uma questão de conveniência.

Com um gemido, Cassandra dobrou o mapa e guardou-o.

– Tenho certeza de que decifraremos o mistério, quando encontrarmos o outro mapa. Simplesmente, recuso-me a perder a esperança. – Sorriu. – Especialmente hoje, quando encontramos o que eu quase desisti de encontrar.

Philip inclinou-se, até que seus rostos ficassem a . poucos centímetros de distância. Cassandra fitou-o nos olhos, que se tornavam dourados à luz do sol. Queria que ele a beijasse de novo, mas tratou de afastar-se.

– É melhor irmos embora – falou, começando a levantar-se. – Temos muito o que fazer, agora que encontramos o mapa.

– Claro – ele concordou, relutante. – Vou acompanhá-la até sua casa. Precisamos tomar as providências para a sua ida à Mansão Haverly.

Desamarrou o cavalo para conduzi-lo pelas rédeas até a Mansão Moulton.

Cassandra sentiu o peito inflar de felicidade, diante da perspectiva de viajar com sir Philip até a casa dele.

Disse a si mesma que tal reação devia-se à possibilidade de encontrar o segundo mapa.

– Sim, claro. Quando poderemos partir?

– De quanto tempo você precisa para fazer as malas? Ela sorriu.

– Isso, posso fazer esta noite. Não costumo carregar dezenas de baús em minhas viagens.

Sir Philip fitou-a com ar surpreso. A mãe dele era incapaz de se preparar para uma viagem a Londres, ou a Bath, em, menos de uma semana.

– Ouvida? – Cassandra desafiou com um sorriso. Ele riu.

– Não! Só um tolo lhe lançaria um desafio como esse. Você seria capaz de passar a noite em claro, só para provar que estou enganado.

Quando chegaram na Mansão Moulton, encontraram tia Ardis e Joanna sentadas na sala. Tia Ardis levantou-se, com um sorriso largo.

– Sir Philip! Que surpresa agradável!

Estendeu a mão para ele e lançou um olhar fulminante para Cassandra, quando Philip inclinou-se. Cassandra sabia que a tia estava furiosa, não só por descobrir que sir Philip estivera na companhia da sobrinha, mas também porque, como Cassandra o fizera entrar sem ser anunciado, Ardis e Joanna não haviam tido a chance de se embelezarem para recebê-lo.

– Ora, prima, onde foi que encontrou um acompanhante tão maravilhoso? – Joanna perguntou com um sorriso falso.

– Nós nos encontramos quando eu voltava de um passeio – Cassandra respondeu depressa, temendo que a tia se pusesse contra ela, ao saber que Cassandra passara horas com sir Philip. Na verdade, já temia que sua ida à Mansão Haverly encontrasse obstáculos.

– Sir Philip estava chegando da cidade.

– É verdade. Vim agradecê-las pela festa maravilhosa de ontem à noite – Philip confirmou.

Passou alguns minutos elogiando a comida, os convidados e a decoração, até tia Ardis e Joanna esquecerem completamente da sua irritação pelo fato de ele ter chegado junto de Cassandra.

– Também vim por causa de uma carta que recebi de minha mãe, esta manhã – acrescentou em tom casual.

– Como vai sua simpática mãe? – tia Ardis perguntou, como se conhecesse a outra mulher há anos, quando na verdade, jamais a vira.

– Muito bem, obrigado. Ela escreveu para dizer que ficou feliz pela minha decisão de passar por Dunsleigh, a caminho de casa. E pediu que a senhora dê sua permissão para que eu acompanhe a srta. Verrere, em uma visita à Mansão Haverly.

A expressão sorridente de Ardis pareceu congelar-se por um momento..

– Srta. Verrere – repetiu, parecendo atordoada. – Cassandra? Sua mãe convidou Cassandra para visitá-la?

– Sim. Como a senhora deve saber, minha avó e a avó da srta. Verrere foram amigas.

Cassandra ergueu as sobrancelhas, mas não disse nada, esperando que tia Ardis simplesmente se recusasse ,a admitir que não sabia de algo tão importante.

– E mesmo? – a mais velha replicou em tom vago.

– Sim. Na verdade, foram muito amigas. Minha avó gostaria muito de conhecer a neta de alguém que lhe foi tão querida. Por isso, minha mãe pediu que eu leve a srta. Verrere para uma visita.

– Não pode levar Cassandra! – Joanna explodiu, furiosa.

– Não posso? – sir Philip fitou-a com ar desdenhoso. Percebendo a mudança na expressão dele, tia Ardis falou depressa:

– Pobre Joanna. Ela ficaria desolada sem a prima. As duas são inseparáveis. Mas estou certa de que o convite de lady Neville se estende a nós, também, Joanna. Afinal, ela não pode esperar que uma jovem solteira viaje sozinha, para visitar uma família que ela nem conhece. Ora, eu jamais permitiria que Cassandra viajasse com um cavalheiro, sem companhia apropriada.

Exibiu um sorriso para Philip, que compreendeu de pronto a ameaça velada. Ardis Moulton não daria permissão para que Cassandra fosse à Mansão Haverly, se ela e Joanna não fossem com eles. E, claro, sir Philip não poderia levá-la sem permissão, pois isso criaria um escândalo enorme.

Assim, ele retribuiu o sorriso.

– Peço perdão se me expressei mal, sra. Moulton.

Minha mãe convidou a família inteira. A senhora, a srta. Moulton, lorde Chesilworth, master Hart e a srta. Olívia. Minha avó quer conhecer todos. os netos da amiga.

– As crianças? – tia Ardis repetiu em tom estridente. – O senhor deve estar brincando! As crianças não têm idade para viajar.

– Eles têm doze e catorze anos, que é a idade certa para fazer uma viagem. Se não me engano, era a minha idade, quando meus pais me levaram a Londres, pela primeira vez.

Cassandra teve de morder o lábio para não rir na expressão de ultraje no rosto da tia. ..

– Ora, sir Philip, eu... Bem, não haveria espaço para todos, na carruagem. Seis pessoas... e crianças são inquietas e barulhentas. Meus nervos não suportariam.

– Sra. Moulton – ele replicou .com voz aveludada –, eu jamais a submeteria a tamanho sacrifício. Os Verrere viajarão em minha carruagem. Assim, a senhora e sua filha terão a carruagem Moulton só para si. E eu, claro, irei a cavalo.

Ardis fitou-o, desconsertada.

– Muito bem, está tudo acertado – ele concluiu, tomando o silêncio. dela por concordância. – Quando podemos partir, senhoras? Amanhã, de manhã?

– Amanhã! Seria impossível... – Ardis parou e sorriu. – Ah,já entendi! O senhor está brincando conosco! Sabe que nós, mulheres, jamais podemos nos preparar para uma viagem, em menos de três dias.

Cassandra cerrou os dentes. Já era ruim o bastante o fato de a tia ter conseguido infiltrar-se, juntamente com Joanna, naquela viagem. Atrasar a partida, quando Cassandra mal podia conter a ansiedade de encontrar o mapa, era demais!

– Ah, não, titia! Não será necessário esperarmos tantos, se eu ajudar a senhora e Joanna com as malas. Tenho certeza de que estaremos prontas para partir, depois de amanhã.

Cassandra sabia que, de uma maneira ou de outra, a maior parte do trabalho ficaria sob sua responsabilidade. Joanna e a mãe só dificultariam a tarefa, mudando de idéia várias vezes sobre que roupas levar.

– Excelente! – sir Philip sorriu para tia Ardis. – Partiremos depois de amanhã. Agora, se me dão licença, também tenho muitas providências a tomar.

Neville não explicou que a primeira das providências seria escrever uma carta para a mãe, informando-a da chegada iminente de seis desconhecidos, para uma visita de duração indefinida. E, também, para informar a avó de que ela acabara de adquirir uma amiga falecida, cujos netos ela estava ansiosa para conhecer.

Sir Philip mal atravessara a soleira da porta, quando Joanna partiu para o ataque:

– Por que ele convidou você, Cassandra? O .que você fez para que ele a convidasse?

– Não fiz nada – Cassandra respondeu com ar inocente. – Tudo aconteceu porque a minha avó era amiga da dele.

– Nunca ouvi nada sobre isso – tia Ardis comentou, desconfiada. – Aliás, quem ouviu falar de um Neville, amigo de um Verrere?

– Isso foi há tanto tempo, que já não tem importância – Cassandra falou em tom casual. – Além do mais, tenho certeza que elas foram amigas antes de se casarem. Deve ser por isso que a avó de sir Philip ficou tão ansiosa por nos conhecer, pois perdeu contato com minha avó, quando uma delas se casou com um Neville, e a outra, com um Verrere.

A tia não pareceu convencida.

– Por que você nunca me contou nada sobre essa amizade?

– A verdade, titia, é que eu não sabia de nada, até sir Philip me contar, esta tarde. Eu não fazia idéia de que vovó era amiga de uma Neville. Bem, é claro que ela não desejaria discutir algo assim em nossa família.

Cassandra gostaria que Philip a houvesse informado sobre a mentira que contaria, antes de contá-la.

– Pois tudo isso está me parecendo muito suspeito.

– Ora, por que sir Philip inventaria uma história como essa? Não vejo outra razão para ele convidar minha família para visitar a Mansão Haverly.

– Isso é verdade – a tia concordou, embora continuasse fitando a sobrinha com desconfiança.

Cassandra decidiu escapar, antes que a tia Ardis a bombardeasse com outras perguntas difíceis. Pediu licença e saiu da sala, subindo a escada apressada, ansiosa para dar a notícia aos irmãos.

 

Cassandra dobrou o último de seus vestidos e colocou-o no baú, fechando a tampa com um suspiro cansado. Depois de conversar com os irmãos, que haviam ficado mais excitados do que ela imaginara com a notícia da descoberta das cartas e quase igualmente entusiasmados com a perspectiva de visitar a casa de sir Philip, ela passara o resto do dia preparando-se para a viagem..

Além da própria bagagem, teve de supervisionar os preparativos de Olívia e dos gêmeos, uma vez que os três seriam capazes de incluir itens como bastões de críquete e coleções de borboletas, e se esquecerem das roupas de baixo. Também precisou deixar instruções relativas à administração da casa, enquanto estivessem fora, e observar de perto o trabalho das criadas, na preparação da bagagem da tia e da prima.

Tal tarefa tornara-se particularmente difícil, uma vez que Joanna mudava de idéia a todo instante, sobre que vestidos levar. E, claro, cada vestido necessitava dos sapatos e acessórios adequados. Além disso, Joanna, como sempre, não suportava deixar nenhum de seus adorados chapéus para trás. Foi preciso muita sutileza, paciência e certa dose de crueldade, para reduzir o número de caixas de chapéus a três.

Embora houvesse acabado de fechar seu baú, Cassandra ainda tinha outras coisas afazer, antes de ir se deitar. Em primeiro lugar, precisava fazer cópias do mapa que haviam encontrado. Temia, não só perder o documento precioso, mas também, que o papel frágil se rasgasse nas dobras. Acabariam destruindo o mapa se continuassem dobrando e desdobrando o papel amarelado, como certamente fariam, na tentativa de solucionar o mistério. Por isso, ela planejara colocar uma folha de papel fino sobre o documento e copiar a informação contida nele.

Quando atravessava o quarto para trancar a porta, sobressaltou-se com uma batida na mesma. No instante seguinte, a porta se abriu, antes que ela tivesse a chance de responder, e sua tia entrou.

Vestindo um robe de cetim azul, a pele engordurada por algum tipo de creme e papelotes nos cabelos, tia Ardis era uma figura realmente impressionante.

– Tia Ardis, posso ajudá-la? – Cassandra perguntou, surpresa por vê-la acordada tão tarde.

– Não, querida. Eu vim ajudá-la.

– Ajudar-me? De que maneira?

– Você é como uma filha para mim, Cassandra.

Tenho certeza de que sabe disso.

Cassandra murmurou algo incompreensível, enquanto conduzia a tia à única cadeira do quarto. Então, puxou o banquinho da penteadeira e sentou-se.

– Estou preocupada apenas com o seu bem, minha querida – Ardis começou.

Cassandra ficou apreensiva, temendo que a tia a proibisse de ir à Mansão Haverly.

– Sinto-me na obrigação de adverti-la sobre sir Philip.

Por um momento, Cassandra não sabia o que dizer.

Teria tia Ardis descoberto sobre os mapas? Sobre o tesouro? Estaria ali para dizer que Philip a trairia?

– Do que está falando, titia?

– Você pode não ser mais jovem, Cassandra, mas sei que não tem experiência nas coisas do mundo. Por isso, ainda não percebeu o que um homem como sir Philip procura.

Ora, tia Ardis não se referia ao tesouro!

– Está tentando me dizer que sir Philip é um libertino? A mais velha balançou a cabeça com ênfase.

– Exatamente. Sei que, normalmente, você é a moça mais sensata que já conheci, mas um homem como sir Philip... bonito, charmoso, sedutor... bem, ele seria capaz de virar a cabeça de qualquer mulher.

Cassandra sentiu o rubor aquecer-lhe as faces e amaldiçoou a pele clara, que sempre a traía. Ora, a tia pensaria que ela acalentava sentimentos por sir Philip.

– Posso garantir que não vejo nele nada além de um... um amigo.

Ardis estreitou os olhos e disse:

– Espero que esteja dizendo a verdade. Sir Philip tem lhe dado pequenas atenções, desde que chegou aqui. Sei muito bem como uma garota que não está acostumada a esse tipo de coisa pode se deixar cegar.

– Uma solteirona como eu, é o que a senhora quer dizer – Cassandra falou, empinando o queixo.

– Céus! Não! Você é uma jovem adorável, mas só teve uma única temporada e seu pobre pai, que Deus o tenha, a educou de maneira tão estranha que... bem, ninguém esperava que você conseguisse um marido. Só estou tentando dizer que a sua falta de experiência pode levá-la a interpretar um elogio de sir, Philip da maneira errada.

– Não tenho qualquer ilusão a esse respeito. Não acredito que sir Philip tenha qualquer afeto por mim. Pode ficar tranqüila quanto a isso.

– Não estou me referindo a afeto. Alguns homens perseguem uma mulher, não por gostarem dela, mas apenas na esperança de receber certos favores. Aproveitam-se dela, brincam com seus sentimentos, quando não têm a menor intenção de fazer qualquer oferta honrada.

– E sir Philip é esse tipo de homem?

– Ouvi alguns rumores...

– Rumores? Não tem certeza de nada?

– Quando se ouve os mesmos rumores muitas vezes, de muitas fontes diferentes, creio que não se deve ter dúvidas com relação à verdade contida neles. Dizem que ele mantém uma amante na cidade.

– Muitos homens fazem isso – Cassandra colocou-se na defensiva. – Afinal, ele não é casado.

– Sim, mas ouvi dizer que ele persegue mulheres o tempo todo, que é um homem dominado pelos apetites mais vulgares. Na festa de lady Arrabeck, ouvi até... – Ardis baixou a voz para um sussurro. – Ouvi que ele mantém uma casa para seus bastardos, perto da Mansão Haverly.

– O quê? A senhora não pode estar falando sério! A tia balançou a cabeça vigorosamente.

– Estou. Também não pude acreditar, quando soube.

Achei que seria atrevimento demais, mas lady Arrabeck não disse uma, palavra em contrário. A sra. Livenham, que me contou isso, jurou ser verdade. Ela diz que ele tem uma casa repleta de filhos ilegítimos, com uma enfermeira para cuidar deles. Disse que são seis, ou sete.

– Sete!

– Isso mesmo. Se um homem tem tantos filhos nascidos em pecado, e que ele reconhece como seus e até mesmo sustenta, devem existir outros. E está muito claro que as infelizes mães dessas crianças não são todas atrizes, ou prostitutas, que ele mantém como amantes. Pelo que sei, mulheres sem moral sabem como evitar que essas coisas aconteçam. Quanto às mulheres casadas com quem ele se relacionam... bem, essas podem ter os filhos dele, dizendo serem dos pobres maridos traídos. O que significa que a maioria daquelas crianças é filha de jovens honestas como você, que foram seduzidas e arruinadas por ele.

– Não acredito nisso – Cassandra declarou. – Talvez ele mantenha amantes, mulheres da noite, mas não acredito que seja imoral a ponto de arruinar jovens inocentes!

– Ah... – tia Ardis sacudiu a cabeça com pesar. – Muitas vezes, o demônio aparece sob a forma de um anjo.

– Ele não faz questão de agradar – Cassandra argumentou. – Não escolhe apenas palavras doces.

Muito pelo contrário, ele e eu discutimos o tempo todo.

Apesar de suas palavras, Cassandra não pôde evitar a lembrança dos beijos de Philip, ou das mãos dele, passeando por sue corpo, despertando sensações que ela jamais imaginara existirem. Seriam as carícias dele tão prazerosas, justamente porque ele as aperfeiçoara com muitas outras jovens? Em uma coisa, tia Ardis estava certa: Cassandra não tinha experiência alguma.

– Não entendo – murmurou. – Se ele é um libertino imoral, por que encoraja sua própria filha a se associar com ele? Não em medo que ele tente seduzi-la, também?

Tia Ardis soltou uma risadinha.

– Existe uma grande diferença entre a situação de Joanna e a sua. Joanna é uma jovem em idade de se casar, herdeira de uma bela herança. Quando um homem como sir Philip demonstra interesse nela, sabe que o resultado final será casamento. Mesmo que a seduzisse, a família dela o forçaria a casar-se.

– Como a senhora tentou forçá-lo, na festa de lady Arrabeck.

– Não sei de onde você tira essas idéias absurdas!

Eu jamais poria Joanna em posição comprometedora, com homem algum. Quando uma moça está... ficando mais velha, quase uma solteirona, como você, e; pior, sem beleza ou fortuna, deveria estar claro que um partido como sir Philip Neville não está interessado em se casar com ela. Especialmente se considerar que você tem dois irmãos e uma irmã para criar. Que homem poderia querer carregar um fardo como esse? Você é exatamente o tipo de moça que esses homens perseguem.

Cassandra levantou-se, furiosa.

– É muito bom ouvir a sua opinião sobre mim! Isso confirma tudo o que penso da senhora. Pode ficar tranqüila, pois sir Philip não tem qualquer interesse por mim, seja para me seduzir, ou para se casar. Assim como eu não tenho o menor interesse por ele, exceto por ele ser uma das pouquíssimas pessoas inteligentes com quem tive o prazer de conversar, desde que vim para esta casa. Recuso-me a acreditar que ele arruíne, deliberadamente, jovens inocentes, mas mesmo que fosse verdade, eu jamais seria apanhada nessa teia. Quanto aos meus irmãos, nem todo mundo considera crianças inteligentes e divertidas como sendo um fardo. É evidente que sir Philip gosta deles, uma vez que os convidou para visitar sua casa. O que, eu gostaria de acrescentar, ele não fez com a senhora, ou com Joanna!

– Ora! Nunca ouvi tamanha barbaridade! – tia Ardis também se pôs de pé, as faces coradas. – Depois de tudo o que fiz por você, tem a coragem de falar comigo nesse tom! E quando eu só estava tentando salvá-la da desgraça!

– E eu estava apenas dizendo a verdade!

– Vou lhe dizer uma coisa. Nunca vai encontrar um marido, se não aprender a controlar a língua!

– Não tenho o menor desejo de ter um marido que não suporte ouvir a verdade.

As duas fitaram-se por um longo momento. Então, Ardis marchou até a porta, sem olhar para a sobrinha.

– Estarei esperando por um pedido de desculpas, pela manhã – declarou, antes de sair.

Cassandra fez uma careta para a porta fechada. Sabia que teria de pedir desculpas. Por mais presunçosa e cruel que sua tia fosse, era uma parente mais velha, que merecia cortesia. Porém, o pedido de desculpas teria de esperar até a manhã seguinte, pois, no momento, Cassandra fervilhava de raiva.

Não podia ser verdade! Cassandra tinha certeza de que sir Philip não era uma criatura tão vil. Não acreditava que ele fosse capaz de deixar atrás de si um rastro de pobres virgens seduzidas e arruinadas. Talvez fosse dono de grande apetite. Sentiu uma onda de calor invadi-la, ao lembrar-se da própria experiência com tal apetite. Porém, não se tratava de um patife.

Ele não obteria prazer às custas do sofrimento alheio.

Não?

Pensou na noite em que ele a beijara. Certamente, sir Philip não agira como um cavalheiro, então. O que teria acontecido se Chumley não os tivesse interrompido?

E quanto às outras vezes? Tinha de admitir que o comportamento de sir Philip para com ela tivera sempre um caráter sexual. Seria isso um sinal de que ele pretendia seduzi-la e, então, abandoná-la?

Definitivamente, Cassandra não sabia nada sobre os homens. Considerando o que as mulheres mais velhas diziam, eles perseguiam mulheres por apenas dois motivos: amor honrado, ou sexo imoral. E Cassandra sabia que, por mais grosseira que tia Ardis fosse, estava certa ao dizer que ela era uma solteirona, sem beleza, nem dinheiro. O que não constituía a descrição de uma mulher que despertasse idéias de casamento nos homens.

Portanto, se sir Philip estava interessado nela, só poderia ser pelo sexo. Poderia ele ser tão baixo, tão cruel?

Cassandra suspirou. Ainda não conseguia acreditar que sir Philip fosse um monstro assim. Ele não conversava com ela, ria com ela, fingindo gostar de sua companhia, só porque pretendia levá-la para a cama.

Porém, era impossível fazer calar a voz persistente que lhe perguntava: “Por que outra razão ele estaria interessado em você?”

 

Cassandra reclinou a cabeça no encosto do banco da carruagem e suspirou com prazer. Dormira pouco nas duas últimas noites e o dia anterior fora longo e estafante. Mesmo assim, conseguira cumprir com todas as suas tarefas, inclusive a de pedir desculpas à tia, pelas palavras duras que lhe dissera. O clima entre as duas continuava tenso, mas, ao menos, a mais velha não criara qualquer problema com relação à viagem..

Como já era esperado, Ardis tentou todas as estratégias que lhe ocorreram para convencer sir Philip a viajar na carruagem dos Moulton, junto dela e Joanna, mas ele recusara, com muita cortesia, alegando que preferia cavalgar.

Cassandra, por sua vez, estava mais do que satisfeita com o arranjo feito. A carruagem dos Neville era muito mais espaçosa e luxuosa do que a da tia, além de melhor conservada. Como o dia estivesse quente, manteve as janelas abertas, o que lhe permitia conversar com Sir Philip, que cavalgava, ao lado da carruagem. E, quando o barulho os forçava a alguns minutos de silêncio, ela aproveitava para estudá-lo, sem que ele soubesse que estava sendo observado.

Apreciando a destreza com que ele dominava o cavalo, a postura ereta, os cabelos negros que refletiam a luz do sol e os traços másculos, não pôde deixar de se perguntar se havia algo de verdadeiro em tudo o que a tia lhe contara.

Quando pararam em uma hospedaria para dar descanso aos cavalos, quatro puro-sangues sensacionais, Hart e Crispin bombardearam sir Philip de perguntas sobre os animais.

Rindo, Philip sugeriu que os meninos conversassem diretamente com o cocheiro.

– Will! – chamou. – Temos dois candidatos a cocheiro, aqui! Por que você e Tommy não dão uma boa aula a eles?

– Agora mesmo, sir Philip – o cocheiro respondeu de bom humor, fazendo um sinal para que o assistente, Tommy, se encarregasse dos cavalos. – O que acham de tomar o meu lugar, para saberem como é a vista lá de cima?– perguntou aos gêmeos.

– Está falando sério? – Crispin perguntou, incrédulo, enquanto Hart parecia emudecido pela surpresa.

– Também posso subir? – Olívia perguntou.

Will mostrou-se confuso, sem saber o que responder, mas Philip sorriu e disse:

– E claro que pode, srta. Olívia. Isto é, se sua irmã não fizer objeção..

Cassandra sorriu e assentiu, satisfeita por ele não ter negado um prazer tão simples à menina..

– Olívia oscila entre querer usar penteados sofisticados, saias longas e namorar, e subir em árvores com os irmãos – ela comentou, divertida. – Obrigada por permitir que ela os acompanhe. Sei que muitos consideram impróprio a uma menina fazer uma coisa dessas, mas papai e eu sempre acreditamos que não é certo restringir as atividades de acordo com o sexo da criança. Papai dizia que o que restringe a mente e enfraquece a vontade.

– E evidente que seu pai aplicou tais princípios a você, também.

 

– Obrigada. Vou receber o comentário como um elogio.

– Mas foi um elogio.

Fitaram-se por um momento, sorrindo um para o outro. – Olívia! – O grito histérico de tia Ardis sobressaltou-os. – Desça daí agora mesmo! Cassandra, onde está com a cabeça, permitido que ela se comporte como um moleque?

– Está tudo bem, tia Ardis – Cassandra respondeu, tranqüila, enquanto Olívia simplesmente ignorava a ordem da tia. – Sir Philip deu permissão aos três e o cocheiro está tomando conta deles.

– Mas Olívia... – Ardis aproximou-se, parecendo mais chocada a cada momento. – Já é lamentável que o lorde de Chesilworth esteja dando um verdadeiro espetáculo, mas uma menina...

– Lorde Chesi1worth tem apenas doze anos – Cassandra lembrou-a. – Não se pode esperar que ele se comporte como um adulto, seja qual for o seu título.

– Uma jovem não pode se sentar no banco do cocheiro!

– Tenho idéias bastantes modernas, no que diz respeito a crianças – sir Philip declarou, com um brilho divertido no olhar. – Creio que não devemos restringir a mente, seja de um menino, ou de uma menina. .

Ardis pareceu querer discutir, mas fez um esforço para se conter.

– Muito bem, sir Philip... Se é esse o seu desejo...

– Vamos entrar, senhoras? – ele sugeriu, já conduzindo-as para dentro. – Tenho certeza de. que o dono da hospedaria vai lhes oferecer um salão privativo, além de refrescos.

– Será ótimo. Viajar é tão cansativo – Joanna murmurou, enroscando o braço no de sir Philip e apoiando-se nele, como se houvesse percorrido aqueles quilômetros a pé..

– Podem ir – Cassandra falou. – Vou caminhar um pouco, antes de entrar.

– Excelente idéia – Philip concordou. – Deixe-me acompanhar sua tia e sua prima até a hospedaria.

Então, caminharei com a senhorita.

Cassandra recebeu um olhar fulminante de Joanna, quando Neville desvencilhou-se do braço dela e, com gestos impessoais, levou as duas para dentro da hospedaria.

Enquanto esperava por ele, Cassandra observou os irmãos e logo se convenceu de que os três encontravam-se em boas mãos, estando aos cuidados de Will.

Quando sir Philip se juntou a ela, saíram pela rua principal da pequena vila. Cassandra sabia que a tia a repreenderia por caminhar na companhia de Neville, mas não estragaria o passeio por isso. O que Ardis lhe contara ainda a perturbava, mas ela tinha esperança de descobrir a verdade, embora soubesse que jamais teria coragem de perguntar diretamente a ele.

– Conte sobre sua casa – pediu.

– A Mansão Haverly é muito antiga, construída com pedras cinza de Norfolk.

– Nunca estive em Norfolk.

– É um lugar bastante isolado. Há séculos, as pessoas vão para lá, quando querem fugir de alguma coisa.

Os pântanos representavam uma grande barreira, no passado. Dizem que é por isso que existem tantas igrejas por lá. Os religiosos se mudavam para lá em busca de paz. E claro que, agora, com os pântanos drenados, a região é mais acessível, mas pouca gente passa por lá, uma vez que não há nada além, exceto o mar.

– Não quero nem pensar no que sua mãe vai dizer, ao receber um verdadeiro bando de visitantes.

– Mamãe já está acostumada com minhas excentricidades. Desde que não seja perturbada, é uma mulher muito tranqüila. Como temos uma excelente governanta, mamãe raramente é perturbada. Na verdade, a sra. Benby vai me dar um belo puxão de orelha, por tê-la avisado tão em cima da hora, mas mamãe não vai se abalar. Minha irmã, por outro lado, ficará feliz por ter companhia.

– Eu não sabia que tem uma irmã.

– Qualquer um pode ter irmãos – Philip replicou com um sorriso zombeteiro. – Até mesmo criaturas rígidas e sem imaginação, como os Neville.

– Não foi isso o que eu quis dizer. Simplesmente...

Não sei explicar por que, mas você parece ser filho único.

Ele deu de ombros.

– Na verdade, fui o único filho, até os quinze anos, quando ela nasceu. Mas, então, eu estava na escola e, por isso, não tivemos um relacionamento estreito, enquanto ela era pequena.

– Qual é o nome dela?

– Georgette. Vai gostar dela. É uma garota cheia de energia e curiosidade.

– Com certeza – Cassandra murmurou, desejando que Georgette gostasse dela também, embora não conseguisse encontrar uma razão lógica para tal desejo.

– Senhor! – um jovem gritou atrás deles, correndo para alcançá-los. – A senhora pediu que eu viesse encontrá-los. Disse que a senhorita deve ter cuidado com o sol e que é melhor voltar à hospedaria.

Cassandra suspirou, irritada. Sabia que a tia não estava preocupada com sua saúde, mas sim com o tempo que ela estava mantendo sir Philip longe de Joanna. Dirigiu um sorriso ao empregado da hospedaria.

– Diga a ela que já estamos a caminho.

O mau humor da tia ficou evidente–, no momento em que Cassandra e Philip entraram no pequeno salão privativo, onde Ardis e Joanna bebericavam refrescos, enquanto Crispin, Hart e Olívia conversavam e riam, demonstrando excesso de energia..

– Sir Philip! – Hart cumprimentou, entusiasmado. – Foi demais! Eles nos deixaram ajudar a alimentar e dar água aos cavalos e Will até me permitiu segurar o chicote!

– Verdade? Nesse caso, só posso concluir que ele gostou muito de você.

– Ele deu o chicote a cada um de nós – Olívia explicou, lançando um olhar zombeteiro para o irmão.

– Will disse que poderemos nos revezar, durante a viagem, no banco do cocheiro, com ele. Se o senhor permitir, é claro – Crispin falou.

– Will disse isso?

– Sim – Olívia confirmou. – Disseque nossas perguntas são inteligentes e que nunca conheceu crianças como nós. Isso é bom, não é?

– Sem dúvida – Neville respondeu com um sorriso.

– Se Will fez o convite, não serei eu quem vai impedi-los.

– Quem vai primeiro? – Hart indagou.

Apanhado de surpresa pelo impasse, Philip olhou para Cassandra, em busca de ajuda.

– Eu, claro – Crispin declarou. – Afinal, sou o lorde Chesilworth.

– Ah! Acha que isso lhe dá o direito de fazer tudo em primeiro lugar?

– Sou a mais velha – Olívia argumentou. – Além disso, se vocês fossem dois cavalheiros, cederiam seus lugares a uma dama.

– Dama! Você? – Hart zombou.

– Seu argumento não vale, se realmente quer fazer tudo o que os meninos fazem – Cassandra apontou.

– Hart poderia dizer que deve ir primeiro, porque é o mais novo, ou porque, como não receberá título, nem terras, deveria ter certas compensações. Minha sugestão é que decidam no jogo do palitinho.

– Excelente sugestão – Philip concordou, grato pela idéia.

No final, Hart foi o primeiro, seguido por Olívia e Crispin, que assumiu um ar de nobreza, como se houvesse cedido o seu lugar aos irmãos.

Com as crianças se revezando junto ao cocheiro, sobrou espaço na carruagem e sir Philip aproveitou a oportunidade para amarrar seu cavalo na traseira e viajar junto de Cassandra. Sem dúvida, Ardis e Joanna estavam furiosas, mas não havia nada que pudessem fazer, uma vez que viajavam em carruagens separadas.

Na verdade, Cassandra e Philip não ficaram sozinhos nem por um segundo, uma vez que tinham sempre duas das crianças dentro da carruagem. Porém, podiam ao menos conversar sobre o que lhes agradasse, como a dificuldade de interpretar o mapa encontrado, a possível localização do segundo mapa e, claro, do tesouro.

Pararam para almoçar, já pelo meio da tarde, em Banbury. Cassandra observou, divertindo-se um bocado, as manobras da tia e da prima para se sentarem ao lado de sir Philip, monopolizando a companhia dele e excluindo Cassandra. Sentada do outro lado da mesa, ela viu os olhos de sir Philip tomarem-se sonolentos, enquanto Joanna falava sem parar, fazendo comentários infantis e contando histórias absolutamente desinteressantes.

Assim que terminaram de comer, ele se pôs de pé, sem esconder o alívio, e declarou que deveriam apressar-se, se quisessem chegar ao seu destino antes do anoitecer.

Infelizmente, tal objetivo não foi alcançado, uma vez que a carruagem dos Moulton teve uma de suas rodas quebradas. Depois de deixá-la em conserto, seguiram viagem, com Ardis e Joanna na carruagem dos Neville. Ocorreu a Cassandra que a tia poderia ter sido perfeitamente capaz de providenciar o pequeno acidente, a fim de juntar-se a sir Philip. Porém, a alegria das duas durou pouco, pois, percebendo que a carruagem ficaria apinhada, cavalheiro que era, ele voltou a cavalgar.

– Covarde – Cassandra sussurrou, quando ele passou por ela, ao sair da carruagem.

Como resposta, recebeu um rápido sorriso de cumplicidade.

Chegaram após o anoitecer em uma mansão, situada perto de Northampton. Era a casa de lorde e lady Philby, tios de Philip. Lady Philby era uma mulher tão esnobe e tediosa, que até mesmo Ardis encontrou dificuldade em disfarçar os bocejos. O lorde, por sua vez, era um tipo bonachão, que realizou a proeza de beliscar os traseiros das três jovens presentes. Foi um grande alívio para todos quando, encerrado o jantar, alegando cansaço da viagem, puderam retirar-se para seus quartos.

Sir Philip acompanhou Cassandra até o quarto que ela dividiria com a irmã e, uma vez diante da porta, inclinou-se para beijar-lhe a mão, sussurrando com uma piscadela:

– Toda família tem suas ovelhas negras, não concorda? Mesmo exausta, Cassandra não pôde conter uma gargalhada.

A torre da Catedral Ely apontava para o céu, chamando a atenção dos passantes, mesmo a distância. Com a cabeça para fora da carruagem, Cassandra emitiu um sonoro suspiro.

– Ah... É mais linda do que imaginei!

Virou-se para Philip, com os olhos brilhando. Aquele era o terceiro dia de viagem, mas o cansaço se dissipara diante da beleza da catedral, reluzente ao sol da tarde.

– A melhor época do ano, para se ter uma vista perfeita, é o outono, ao pôr-do-sol. A torre ergue-se em meio à neblina e o sol poente parece tingi-la de dourado. Assim, é fácil compreender porque foi, centenas de anos atrás, um refugio para aqueles que eram caçados.

– Eely – Crispin falou com pronúncia carregada, fazendo uma careta. Então; virou-se para Olívia e disse: – Cuidado, Livvy, ou as enguias virão pegá-la!

– Agora, isso seria impossível – sir Philip corrigiu-o com um sorriso. – Mas você está certo, a palavra “Ely” vem de “eel”, que significa enguia. Originalmente, Ely era uma ilha, em meio ao pântano. As enguias eram o principal alimento da população local.

– Podemos entrar? – Olívia perguntou.

– Dizem que a catedral é linda, por dentro – Cassandra comentou.

– E é. Prometo trazê-los, um dia desses, pois a Mansão Haverly não fica longe daqui. Hoje, creio que seja melhor seguirmos viagem.

– Sim, tem razão – Cassandra concordou.

Crispin também assentiu em concordância. O entusiasmo pela viagem diminuíra sensivelmente ao longo daqueles três dias, até mesmo para os incansáveis gêmeos.

Depois de atravessarem a pequena vila que circundava a catedral, Cassandra continuou olhando pela janela, deleitando-se com a paisagem.

– Tudo é muito diferente, aqui. Os terrenos são tão planos. O que é aquela saliência, que parece acompanhar a estrada por muitos quilômetros?

– E um rio.

– Um rio?

– Sim, as margens dos rios são mais altas que os terrenos ao seu redor. Quando os pântanos foram drenados, no século dezessete, foi preciso elevar as margens dos rios, para evitar que transbordassem.

– Por que os pântanos foram drenados? – Crispin perguntou, decepcionado. – Eu gostaria tanto de vê-los.

– Você verá. Ainda existe um pântano em nossas terras. O Neville daqueles tempos, pai de sir Edric, que foi noivo de Margaret, não aprovava a idéia da drenagem. Quando o conde Bedford trouxe Vermuyden, um especialista holandês, para drená-las, meu antepassado manteve-se firme. Quando ele morreu, o filho dele, que foi o noivo abandonado, contratou outro holandês para drenar nossas terras. No entanto, em respeito à memória do pai, deixou intacta uma pequena parte do pântano. Iremos até lá, enquanto estiverem hospedados na Mansão Haver1y.

– Não compreendo por que queriam livrar-se do pântano – Crispin persistiu.

– Dinheiro, meu caro. Como sua irmã poderá lhe contar com detalhes, os Neville sempre tiveram verdadeira paixão por dinheiro. A terra obtida pela drenagem dos pântanos é preta e rica para o plantio. No lugar de muitos acres de pântanos improdutivos, agora temos muitos acres de lavoura, bastante lucrativos.

– Gostaria de ter visto a terra como era antes. – Para dizer a verdade, Crispin, eu também – Philip confessou com uma pontada de nostalgia. – Lembro-me com saudade dos tempos que passei no pântano Blackley.

– O que são todos aqueles moinhos? – Olívia perguntou. – Por que há tantos deles?

– Eram usados para bombear a água dos pântanos. E claro que não são mais usados, uma vez que, hoje, existem máquinas a vapor para realizar esse trabalho. No século dezessete, existiam muitos mais, drenando a terra continuamente, a fim de impedir que a água retomasse. – É fascinante – Cassandra comentou. – É como se estivéssemos em outro país.

– Muitos dizem que uma região pantanosa é um mundo à parte.

Pouco mais de duas horas depois, deixaram a estrada e seguiram pela alameda que levava à Mansão Haverly. Cassandra não parava de suspirar diante da beleza da vegetação, cuidada com esmero. Philip sorriu, satisfeito pela reação dela.

Mais adiante, a alameda terminava bem em frente a uma magnífica casa de pedras cinzentas, parcialmente cobertas por hera. Ao mesmo tempo em que sentiu prazer ao admirar a beleza da propriedade, Cassandra lamentou o final da viagem. Haviam sido três dias cansativos, mas, também, maravilhosos. Ela passara a maior parte do tempo na companhia de sir Philip e longe da tia e da prima.

 

Vários criados postaram-se diante da entrada, esperando que a carruagem parasse. Então, abriram a porta do veículo e baixaram os degraus. Um homem de idade aproximou-se, com seus cabelos brancos e porte digno.

– Bom dia, sir Philip. Seja bem-vindo – declarou, curvando-se.

– Bom dia, Shivers. Gostaria de apresentar-lhe meus convidados: srta. Cassandra Verrere, srta. Olívia, lorde Chesilworth e master Hart, ali, sentado com o cocheiro. Não pense que está enxergando em dobro.

O lorde e master Hart são gêmeos.

– Evidente, senhor – o mordomo reconheceu, voltando a curvar-se.

A segunda carruagem chegou e sir Philip tratou de apresentar a sra. Moulton e Joanna. Naquele momento, algo azul atravessou a porta com a velocidade de um raio.

– Philip! – a menina gritou, atirando-se nos braços dele.

– Georgette! – Philip abraçou-a e deu-lhe um beijo no rosto. – Você nunca vai aprender a se comportar como uma dama? Meus convidados vão pensar que é um moleque!

Georgette virou-se para o grupo reunido, com um sorriso contagiante. Era bonita, parecida com o irmão, com cabelos escuros e cacheados e os mesmos olhos castanho-dourados.

– Estou muito feliz em vê-los! – declarou. – Faz muito tempo que Phi1ip não traz ninguém para nos visitar e a vida é muito desinteressante, aqui. – Fez uma pausa, parecendo ligeiramente embaraçada. – Perdoem-me. Acho que me expressei mal. Eu ficaria feliz em vê-los, mesmo que a vida aqui fosse agitada. Mas, como não é, confesso que me sinto duas vezes feliz!

Antes que Philip pudesse apresentar a irmã, uma mulher mais velha apareceu na porta, sorrindo, os braços estendidos.

– Philip, meu querido!

– Mamãe. – Ele também sorriu e beijou-a. – Você está linda, como sempre.

– Você é um amor! Agora, apresente-me a todos.

– Sim, Philip, por favor – Joanna pediu, aproximando-se para enlaçar o braço dele de maneira possessiva. – Estou ansiosa para conhecer a sua família.

Philip fitou-a, surpreso. Naquele momento, outra mulher apareceu. Tinha vinte e poucos anos e, embora não fosse feia, vestia o mais simples dos trajes.

– Sarah! – lady Neville chamou-a. – Venha ver Philip. Ele acabou de chegar com os convidados.

– Sim, eu vi... É por isso que... Bem, não quero atrapalhar...

– Bobagem – lady Neville assegurou-a. – Você nunca atrapalha. Afinal, já é praticamente da família. Não é, Philip?

A jovem corou, mas não escondeu o prazer provocado pelas palavras da mãe de Philip.

– A srta. Yorke estava nos fazendo uma visita, quando vocês chegaram – lady Neville explicou. – Ela cuida de Silverwood e é uma grande amiga da família.

Cassandra perguntou-se o que seria Silverwood e do que a jovem cuidava.

A pergunta foi imediatamente respondida por Georgette:

– Sim, ela cuida das crianças de Philip, o que não é fácil!

Philip sorriu e, desvencilhando-se de Joanna, tomou a mão da srta. Yorke.

– Bom dia, srta. Yorke. Como vão as crianças? – Bem, sir Philip, mas sentindo a sua falta.

– Tratarei de visitá-los amanhã, pela manhã. Agora, deixe-me fazer as apresentações.

Enquanto ouvia esse breve diálogo, Cassandra permaneceu imóvel, atordoada. Seu coração parecia pesar uma tonelada e seu estômago ameaçava criar-lhe problemas.

Não conseguia raciocinar, pois em sua mente ecoavam as palavras de Georgette: “as crianças de Philip”.

Era verdade! Sir Philip era tão promíscuo, que mantinha uma casa repleta de filhos ilegítimos, perto dali.

Cassandra não acreditara no que a tia lhe contara, pois a história lhe parecera absurda demais. Virou-se para tia Ardis, que balançou a cabeça com ar de reprovação.

Philip prosseguia com as apresentações e Cassandra esforçou-se para sorrir e cumprimentar a todos. A mãe dele cumprimentou-a com tranqüilidade, levando-a a perguntar-se como ela podia falar de Silverwood com tamanha naturalidade. Na opinião de Cassandra, acomodar uma porção de filhos ilegítimos, praticamente diante da porta da própria mãe, era lamentável. Era difícil compreender como á mulher aceitava tal situação com aquela aparente calma inabalável.

Lady Neville sugeriu que todos entrassem, mas a srta. Yorke recusou.

– Tenho certeza de que vocês têm muito o que conversar. Voltarei outro dia. – Dirigiu um sorriso aos convidados. – Espero que vocês visitem Silverwood, enquanto estiverem aqui.

Tia Ardis ficou boquiaberta, mas Cassandra conseguiu murmurar:

– Sim, claro. Obrigada.

Assim que a srta. Yorke se afastou, lady Neville insistiu:

– Vamos entrar, onde teremos mais conforto. Tenho certeza de que estão exaustos da viagem.

– Eu não – Joanna declarou, com um de seus sorrisos tolos. – Sir Philip fez com que a viagem se tornasse fácil e agradável. – Virou-se para a irmã de Philip. – Para ser sincera, estou ansiosa para ter uma longa conversa com Georgette. Posso chamá-la de Georgette? Philip falou tanto de você, que sinto como se nos conhecêssemos há muito tempo. – Passou o braço pelo da menina e, praticamente, arrastou-a na direção da porta. – Não tenho a menor dúvida de que seremos grandes amigas.

Georgette mostrou-se um pouco confusa, mas acompanhou Joanna e todos as seguiram. Tia Ardis segurou Cassandra pelo braço, esperando que os demais entrassem.

– Eu não lhe disse? – sussurrou ao ouvido da sobrinha.

– Sim, titia, a senhora disse.

– Espero que tenha levado minhas palavras a sério.

– Sim – Cassandra garantiu, tentando ignorar a náusea que a invadira. – Não se preocupe. Não há nada entre sir Philip e eu. E nunca haverá.

 

Embora escolhesse seu melhor vestido, ao se preparar para o jantar, Cassandra sentiu-se deselegante, sentada à imensa mesa da Mansão Haverly. A mobília era feita de madeira nobre, e os cristais, pratas e porcelanas, eram todos da melhor qualidade. E os candelabros de cristal que pendiam acima de sua cabeça banhavam o ambiente com sua luz suave.

Cassandra sabia que Chesilworth já possuíra a mesma elegância, mas ela não em seu tempo, nem de seu pai. Nem mesmo a Mansão Moulton, decorada sob os ditames da moda, e sem qualquer intenção de economia, não se comparava à beleza sem idade da Mansão Haverly.

O melhor vestido de Cassandra, além do que ela usara na festa da tia, dias antes, era um traje de seda marrom-café, que pertencera à sua mãe. Cassandra e Olívia haviam reformado o vestido, emprestando-lhe uma aparência mais moderna, mas além de a cor não favorecer a pele clara de Cassandra, o decote e as mangas não apresentavam um caimento perfeito. E, pior, era o tipo de cor apropriada a mulheres mais velhas, o que se confirmou quando a avó de Philip entrou na sala de jantar, usando um vestido de cor semelhante.

Em lady Neville, claro, parecia perfeito. Especialmente em contraste com os topázios espetaculares que enfeitavam o pescoço e as orelhas da velha senhoras. Além disso, era evidente que o tecido da cor de tabaco, fora trabalhado por uma grande modista, não por uma costureirazinha de Dunsleigh e, mais tarde, por duas garotas zelosas.

Cassandra estudou a figura formidável que era a velha lady Neville. Ficara surpresa ao ver-se sentada à direita de Philip, de frente para a avó dele, quando a mãe, assim como tia Ardis e Joanna, ocupavam lugares nas laterais. Então, dera-se conta de que, em termos de nobreza, superava não só sua tia e prima, mas também a mãe de Philip.

– Muito bem, meu anjo – a velha lady Neville começou em tom aristocrático, fitando Cassandra com olhar sugestivo. – Então, é você quem que tanto queria conhecer.

– Sim, madame – Cassandra respondeu com formalidade, grata pelo fato de Philip haver informado a avó sobre suas mentiras.

– Ah, eu havia me esquecido! – tia Ardis exclamou.

– A senhora foi amiga dá avó de Cassandra, não foi?

– Sim – a velha respondeu, fixando o olhar no vazio, fazendo Cassandra pensar que farsa a agradava, de certa forma. – Minha querida Caroline..

– Caroline? – Ardis indagou, confusa. – Pensei que o nome de sua avó fosse Emma, Cassandra.

Cassandra abriu a boca para falar, mas percebeu que lady Neville lançava para sua tia o mesmo olhar que dirigira a Joanna, pouco antes, ao ouvi-la chamar o neto de Philip. Como tal olhar fizera Joanna empalidecer e manter-se calada desde então, Cassandra decidiu esperar.

– Sem dúvida, a senhora está enganada – a velha declarou.

– Se não me engano – Cassandra falou –, vovó mudou de nome, a certa altura de sua vida. Conheceu uma prima que também se chamava Caroline e, por isso, começou a usar Emma, que era o seu segundo nome.

– Ah, sim, agora me lembro – lady Neville concordou. – Também me lembro da prima Caroline, que não era tão bonita quanto sua avó. Nunca pensei que viveria para ver um Verrere na Mansão Haverly.

– Não foi exatamente uma guerra de sangue, vovó – Philip comentou, divertido.

– E claro que não. Somos ingleses, afinal.

– Sim, vovó.

– E não pense que me engana com essa seriedade fingida! – lady Neville acrescentou com um sorriso afetuoso. – Eu jamais faria isso – Philip mostrou-se indignado.

– E não tente me distrair. Eu estava conversando com a srta. Verrere.

Ela estudou Cassandra por um momento, antes de dizer:

– Parece uma jovem muito sensata, srta. Verrere.

– Eu aprovo.

– Eu... Obrigada.

Cassandra não sabia em que fora aprovada, mas, assim mesmo, ficou contente.

– Já contou a Philip sobre o invasor, Violet? – a avó perguntou à nora.

– O quê? – Philip inquiriu, endireitando-se na cadeira.

– Eu me esqueci – lady Violet admitiu. – Já faz vários dias.

– Três dias, Violet – lady Neville corrigiu-a com impaciência.

– Mamãe! Por que não me contou? O que aconteceu?

Alguém invadiu nossa casa?

– A verdade é que pouca coisa aconteceu. Sem dúvida, foi por isso que me esqueci de lhe contar.

Lady Violet, envergando um vestido elegante, da cor indicada por seu nome, parecia mesmo ser do tipo que se esquecia das coisas com muita freqüência.

– Não ouvi nada. Foi Shivers quem me contou, no dia seguinte. Ele disse que alguém havia entrado em casa, no meio da noite. Felizmente, um dos criados ouviu um barulho e decidiu investigar. Encontrou o homem na biblioteca. Os dois lutaram e o intruso fugiu. Nada foi roubado.

– Na biblioteca? – Philip repetiu, olhando imediatamente para Cassandra.

– Sim. Estranho, não? Ele não tentou roubar objetos de prata, ou qualquer outra coisa de valor. Não há nada além de livros, na biblioteca. Deve ter imaginado que havia um cofre, lá.

– Provavelmente – Philip falou, tamborilando os dedos na mesa. – Tem certeza de que nada foi retirado da biblioteca?

– Não verifiquei, querido – lady Violet respondeu, surpresa, como se a idéia não houvesse lhe ocorrido.

– Além do mais, eu não saberia dizer se algo foi roubado de lá. Shivers me disse que foi Michael quem surpreendeu o homem. Por que não pergunta a ele se o ladrão estava carregando algo, quando fugiu?

– Boa idéia...

Cassandra gostaria de saber mais sobre o incidente, mas dali por diante, as duas ladies Neville cuidaram de manter a conversa focalizada em questões triviais. Depois do jantar, Cassandra passou o que lhe pareceu uma eternidade na sala de estar, junto das outras mulheres.

Lady Violet sugeriu que Joanna tocasse piano. Além de nunca ter sido boa pianista, Joanna estava tão nervosa com a presença da avó de Philip, que sua sonata transformou-se em um grande sofrimento para todos.

Lady Neville decretou que já haviam ouvido sonatas de mais por uma noite e, então, passaram a conversar sobre amenidades. Foi um alívio ver Philip entrar na sala, mas Cassandra ainda não podia conversar com ele a sós. Foi somente quando lady Neville retirou-se para seus aposentos e lady Violet permitiu que Joanna se sentasse ao piano novamente, que os dois puderam conversar.

Cassandra sabia que Joanna esperava que Philip fosse virar as páginas da partitura para ela, mas ele foi se sentar ao lado de Cassandra, baixando a voz para um sussurro:

– E então? O que você acha?

– Acho que o ladrão entrou na biblioteca à procura do Livro das Rainhas – Cassandra respondeu de pronto.

– Também acho. Certamente, foi a mesma pessoa que invadiu o sótão, em Chesilworth.

– Sim, mas estamos nos baseando em especulações. Afinal, nada foi levado daqui, ou de lá. Ao menos, até onde sabemos.

– Tenho certeza de que ele não levou nada: daqui. Acabo de conversar com Michael, o criado que o surpreendeu. Ele me contou que ouviu um vidro se quebrando na sala de música e foi investigar, imediatamente. Garantiu que o ladrão não teve tempo de apanhar nada e tem certeza de que o homem não carregava qualquer objeto nas mãos, uma vez que os dois lutaram por alguns minutos. Infelizmente, Michael diz que estava escuro demais e, por isso, ele não poderia descrever o sujeito.

Joanna diminuiu o ritmo da música, virando a partitura com dificuldade teatral, ao mesmo tempo em que lançava um olhar lânguido para Philip, que nem sequer percebeu o que acontecia. Quando teve de virar a página seguinte, ela conseguiu derrubar várias outras, e parou de tocar, abruptamente.

– Sinto muito – lamentou e abaixou-se para apanhá-las.

Com um suspiro, a mãe de Philip sugeriu:

– Philip, por favor, ajude a srta. Moulton a virar as páginas da partitura.

– O quê? – Distraído, Philip sobressaltou-se ao ouvir o próprio nome. – Ah...

Com uma careta, ele se levantou e obedeceu o pedido da mãe.

Cassandra retirou-se logo depois de lady Violet, deixando Philip sozinho para lutar contra as garras das duas Moulton. Ao entrar no quarto, não se surpreendeu ao encontrar os três irmãos acordados, mas não esperava encontrar Georgette com eles.

– Cassandra!

– Srta. Verrere! – Georgette levantou-se, assim como Olívia, aproximando-se de Cassandra. – Espero que não me considere atrevida, por estar aqui.

– Eu disse a ela que não havia problema – Olívia falou.

– É claro que não há problema – Cassandra confirmou. – Fico feliz por termos uma chance de conversarmos.

Georgette sorriu.

– Bom. Eu queria conversar com você, antes. Foi muito estranho o recado que recebemos de Philip, dizendo que traria visitas e pedindo a mamãe para mentir sobre vovó e sua avó. Não compreendemos o que estava acontecendo. Mamãe achou que Philip está apaixonado. Vovó considerou “decididamente peculiar” o fato de ele convidar uma Verrere para se hospedar aqui. Mais peculiar foi descobrirmos que se tratava de quatro membros da família Verrere! Para não falar das tais Moulton, de quem mamãe e vovó nunca ouviram falar. Foi a mais estranha das excentricidade de Philip.

Cassandra decidiu reservar seu julgamento. Em sua opinião, instalar os filhos bastardos perto de casa era muito mais peculiar do que trazer alguns convidados para casa.

– Mas não pudemos conversar – Georgette continuou –, por que a srta. Moulton ficou comigo a tarde toda, tagarelando sobre coisas sem importância. Não quero ser grosseira sobre sua prima, mas... ela é sempre assim, tão amigável?

Cassandra riu e Olívia respondeu com honestidade: – Não. Ela está apenas tentando ganhar a sua simpatia, na esperança que você tenha alguma influência sobre o seu irmão. Ou, então, acredita que sir Philip vai ficar tão impressionado pela maneira como ela trata você, que vai pedi-la em casamento, imediatamente.

– Bem que desconfiei – Georgette confessou. – A primeira carta de Philip indicava que ele traria apenas você – apontou para Cassandra. – Não entendi porque ele faria isso, se estava interessado na srta. Moulton.

– Ele não está interessado nela – Olívia afirmou.

– Joanna é a única a pensar assim.

– Além de tia Ardis – Cassandra corrigiu-a.

– Quem se importa com isso? – Hart manifestou-se. – A única coisa importante é o tesouro.

– Sim, o dote espanhol! – Georgette exclamou, batendo palmas. – Ainda bem que decidi não descer para jantar. Mamãe deu-me permissão, por ser uma ocasião especial, mas depois de passar horas com a srta. Moulton, achei que não suportaria a companhia dela de novo. Então, disse à cozinheira que queria comer com Olívia e os gêmeos. E disse à srta. Moulton que tinha de comer com as crianças. Foi a melhor decisão, pois Olívia, Hart e Crispin contaram tudo sobre Margaret Verrere e o tesouro e como vocês estão tentando encontrá-lo. Gostaria de ajudar. Posso?

– Claro, desde que seu irmão não faça objeções. – Ah, Philip não vai se importar. Ele é um irmão maravilhoso! Toda vez que vovó, ou tio Robert, atormentam mamãe porque ela me dá muita liberdade, Philip diz a ela que deve ignorá-los. Tenho certeza de que ele vai me deixar ajudar.

– Ótimo. Quanto mais cabeças para pensar na solução desse mistério, melhor. Olívia já lhe mostrou o mapa?

– Não consegui abrir o seu armário! – Olívia protestou.

– Sim, porque eu o tranquei. – Cassandra retirou a chave que prendera com um alfinete, por dentro do corpete do vestido. – Talvez eu seja cuidadosa demais, mas depois do que ouvi esta noite...

– Sobre o invasor? – Crispin completou. – Não é demais? Georgette nos contou que alguém entrou na biblioteca, à procura do livro de que precisamos.

– Não sabemos se ele queria esse livro. Só sabemos que entrou na biblioteca.

– O que mais ele poderia querer lá? – Crispin argumentou. – Essa história está se transformando em uma aventura e tanto!

– Pessoalmente, eu ficaria contente com a aventura de encontrar o tesouro. Não creio que seja necessário incluirmos um ladrão na história, para termos maior emoção.

Os jovens consideraram tal atitude pobre em imaginação, mas concordaram entre si que era comum pessoas “velhas” se comportarem assim. Cassandra mostrou o mapa a Georgette, que também não reconheceu nele qualquer local familiar. E, também, por mais vezes que lesse as passagens do diário, não fazia idéia do que poderia ser o Livro das Rainhas.

Cassandra não demorou a expulsar as crianças de seu quarto, pois queria descansar. Sentia-se exausta, muito mais pela depressão que se abatera sobre seu espírito, do que pela longa viagem. Saber que Philip realmente possuía uma casa repleta de filhos ilegítimos fora um golpe duro. Os beijos que haviam trocado, as carícias... Para ele, haviam significado apenas uma oportunidade de conquistar mais uma mulher, de acrescentar mais um coração partido à sua coleção.

Perturbada por tais pensamentos, Cassandra demorou a dormir e, quando finalmente adormeceu, teve sonhos agitados. Acordou na manhã seguinte, ainda cansada.

Encontrou apenas Georgette e Olívia à mesa do desjejum. As duas já haviam se tornado grandes amigas e Georgette estava dando a boa notícia de que sua governanta, srta. Pritchard, concordara em levar as meninas em um passeio, pelo resto do dia.

– Vamos de carruagem até o Mercado Downham. A vida é muito mais interessante, quando temos hóspedes.

– Onde estão os gêmeos? Eles também vão?

Olívia fitou a irmã, horrorizada.

– Não! Vamos fazer compras. Eles só atrapalhariam nosso passeio. Além disso, sir Philip prometeu a eles que o chefe dos cavalariços vai lhes mostrar tudo nos estábulos, quando voltarem.

– Voltarem?

– Sim. Eles foram com Philip, visitar os meninos, em Silverwood.

– Verdade?

Cassandra ainda estava chocada pela naturalidade com que Georgette e a mãe referiam-se às indiscrições ostensivas de Philip.

-– Você não se importa, não é? – a menina perguntou, apreensiva.

– Por Crispin e Hart terem ido com seu irmão?

Não. Muito pelo contrário. Sinto-me grata, pois tenho certeza de que os dois estão muito felizes.

– Algumas pessoas não gostariam de ver seus irmãos brincando com crianças como aquelas. Consideram impróprio. A sra. Carter, da vila, diz que é absurdo o simples fato de as crianças viverem aqui, pois são má influência.

O senso de justiça de Cassandra falou mais alto do que suas noções de moral.

– Ora, mas isso é uma coisa horrível! Como se as pobres crianças tivessem culpa!

– Exatamente o que eu penso. Mamãe diz que se sente orgu1hosa por Philip, pois a maioria dos homens ignora pobres crianças como aquelas. E eles não teriam sequer uma chance na vida, se Philip não cuidasse deles.

– Isso é verdade.

Cassandra tinha de admitir que Philip fora decente ao reconhecer os filhos e assumir o sustento e a educação deles. Porém, não compreendia como lady Violet podia se orgulhar do filho, pelos numerosos resultados de sua falta de caráter..

Ao ouvir passos no corredor e ver a mudança na expressão das meninas, Cassandra soube imediatamente quem se aproximava.

– Georgette! – Joanna cumprimentou com entusiasmo. – É maravilhoso vê-la de novo. Onde está sua mãe?

– Bom dia, srta. Moulton – Georgette retribuiu o cumprimento sem a mesma animação..

Joanna, porém, pareceu não perceber a diferença e sentou-se ao lado da irmã de Philip.

– Estou ansiosa para retomarmos nossas conversas – declarou.

– Infelizmente, não posso. Terei de passar o dia com minha governanta

– Tenho certeza de que, hoje, você poderia ser dispensada de seus estudos – tia Ardis insistiu em tom jovial. – Afinal, não é todo dia que você tem hóspedes.

– Philip é muito rígido com relação aos meus estudos – Georgette mentiu. – Não creio que ele ficasse satisfeito se soubesse que negligenciei meus deveres.

– Bem, se é o que Philip deseja...

Sem que a própria Joanna notasse, seus ombros relaxaram.

– Na verdade, está na hora de me retirar para a sala de estudos – Georgette declarou, levantando-se e levando Olívia consigo.

– Onde vai Olívia? – tia Ardis inquiriu.

– A governanta da srta. Neville teve a gentileza de convidar Olívia a participar das aulas – Cassandra respondeu.

– E Olívia gostou da idéia? – Joanna perguntou, chocada pela idéia de que alguém se dispusesse a aprender algo, de livre e espontânea vontade.

– Sim.

– Eu sempre disse que seu pai criou os filhos de maneira muito estranha – tia Ardis concluiu.

– Onde está sir Philip? – Joanna indagou, ansiosa.

– Ele já desceu para o desjejum?

– Tenho certeza de que ele virá logo, agora que você está aqui – a mãe afirmou. – Não tenho mais dúvidas de que ele está, decididamente, interessado em você.

Cassandra quase revirou os olhos. A tia praticamente obrigara Philip a convidar Joanna para aquela viagem e, agora, ela interpretava o acontecimento como prova de interesse!

Teve de suportar a companhia da tia e da prima pelo resto da manhã. Seu sofrimento foi ligeiramente aliviado quando lady Violet foi se juntar a elas, mas a mãe de Philip era uma mulher de natureza tão plácida, que se limitava a sorrir, enquanto Joanna tagarelava sem parar sobre as belezas da Mansão Haverly e, claro, a variedade do próprio guarda-roupa. Violet também concordou quando Joanna sugeriu um passeio, dizendo que providenciaria um piquenique em Linning Broad, no dia seguinte.

– As crianças vão adorar – Violet declarou, sorrindo.

– Está se referindo a Crispin e Hart? – Joanna perguntou, horrorizada.

– Sim, além de Olívia e Georgette.

– Ah, a querida Georgette! – Joanna voltou a sorrir. – Não consigo vê-la como criança.

– Não? Ela tem apenas dezesseis anos. – Violet suspirou. – Mas você tem razão. Receio que ela esteja crescendo muito depressa. Mais dois anos, e ela já estará na idade de debutar. Detesto participar da temporada social. Prefiro minha vida pacata, aqui, em Norfolk.

– O que é perfeitamente compreensível – Cassandra murmurou. – Este lugar é adorável.

– Talvez, quando chegar a ocasião de Georgette debutar, seu filho já esteja casado – Joanna sugeriu com um sorriso malicioso. – Então, a esposa dele poderá se encarregar da temporada de sua linda cunhadinha.

– Você acha? – Violet demonstrou surpresa e olhou para Cassandra, à espera de confirmação.

– Não seria uma surpresa – Joanna continuou, mas a mais velha mantinha os olhos fixos em Cassandra.

– Eu não saberia dizer – Cassandra falou com um sorriso constrangido. – Sir Philip pareceu ser um solteiro convicto.

– Assim como todos os homens são, até encontrar a mulher certa – Joanna replicou, ligeiramente irritada.

– Creio que devo convidar a srta. Yorke para o piquenique de amanhã – Violet mudou de assunto subitamente. – Ela é uma jovem tão adorável e quase nunca se diverte.

– Está se referindo à... governanta? – Joanna inquiriu, torcendo o nariz.

– Na verdade, ela cuida da educação das crianças. Quem organiza o serviço doméstico é a sra. Watson. – Violet levantou-se. – Agora, se me derem licença, preciso tomar as providências necessárias. Tenho de falar com Renri sobre o piquenique, embora não faça idéia de como explicar a ele o que quero, uma vez que ele não compreende uma palavra sequer em inglês. Não sei por que Philip o trouxe para cá, exceto pelos molhos deliciosos e, claro, as sobremesas. Geralmente, deixo que ele se encarregue de todas as decisões na cozinha, mas não sei como vou fazê-lo entender que quero fazer um piquenique..

– Cassandra pode falar com ele – Joanna ofereceu.

– Ela fala francês.

Cassandra surpreendeu-se pois a prima não tinha o hábito de apontar qualidades em quem quer que fosse. Porém, logo se deu conta de que Joanna esperava relegá-la ao plano a criadagem, ocupando-a com tarefas domésticas. Assim, Philip ficaria livre só para Joanna.

– E verdade? – Violet virou-se para Cassandra, admirada.

– Sim. Será um prazer conversar com ele, se a senhora quiser.

– Maravilhoso! Venha – puxou Cassandra pelo braço. – Vamos até a cozinha, agora mesmo. Assim, você poderá traduzir tudo o que quero pedir a ele.

Pela expressão de Joanna, era evidente que ela não havia imaginado que lady Violet fosse acompanhar Cassandra até a cozinha. Certamente, acreditara que a prima teria de resolver sozinha: aquela questão, enquanto a anfitriã permaneceria na sala, grata a Joanna pela sugestão.

Henri encontrava-se na cozinha e, ao vê-las, não se mostrou satisfeito. Mesmo assim, curvou-se com humildade e cumprimentou-as em francês. Cassandra respondeu ao cumprimento, fazendo os olhos do homem brilharem.

– Mademoiselle! – ele praticamente gritou, como se ela houvesse lhe oferecido um presente valioso.

Bastaram alguns minutos para que Cassandra simpatizasse com o francês solitário e o assegurasse de que lady Neville estava mais do que satisfeita com os pratos que ele preparava. Depois de elogiá-lo um bocado, explicou sobre o piquenique, um pedido que ele recebeu com um largo sorriso, dizendo que seria apenas mais um desafio aos seus talentos culinários.

As duas mulheres haviam acabada de deixar a cozinha, quando Philip entrou por uma porta lateral.

– Mamãe! Srta. Verrere. Justamente as duas pessoas que eu mais queria ver!

– Você é um amar, meu filho. – lady Violet ofereceu a rosto para um beijo.. – Estávamos conversando com nosso cozinheiro. A srta. Verrere fala francês.

Philip sorriu.

– A srta. Verrere é uma jovem muito culta e inteligente.

– Não tão jovem – Cassandra corrigiu-o.

Embora seu coração houvesse disparado ao vê-la, ela estava decidida a não se tornar mais uma vítima dos poderes de sedução de Philip Neville. Assim, não retribuiu o sorriso dele e tratou de manter a voz fria.

Philip ergueu uma sobrancelha, intrigado, mas limitou-se a dizer:

– Se não precisa mais da ajuda da srta. Verrere mamãe, prometi a ela que lhe mostraria a biblioteca.

– Fiquem à vontade, meu filho. Preciso enviar um convite à srta. Yorke.

– Convite?

– Explique a ele, por favor, querida – Violet pediu a Cassandra, antes de se afastar.

– O que você deve me explicar? – Philip perguntou.

– Faremos um piquenique, amanhã, em um lugar chamada Linning Broad.

– Todos nós?

– Sim, inclusive a srta. Yorke.

Philip gemeu baixinho.

– Eu deveria ter adivinhado que mamãe se acharia na obrigação de providenciar entretenimentos para nós. Bem, já que vamos perder o dia de amanhã, é melhor começarmos a trabalhar. Está preparada?

– Claro..

Ele lhe dirigiu um olhar estranho, mas não disse nada.

Cassandra ficou fascinada, ao entrar na biblioteca. Era simplesmente espetacular. Eram dois andares, com uma parede inteiramente recortada por imensas janelas. As outras três, eram cobertas de prateleiras, do teto ao chão, todas elas repletas de livras. No segundo andar, um mezanino estreito acompanhava cada parede. Na primeira, havia mesas e cadeiras confortáveis muita apropriadas para leitura.

– É linda! – ela exclamou, olhando em volta. – Nunca vi uma biblioteca assim!

Philip sorriu.

– Tinha certeza de que você ia gostar e estou muito feliz por ter acertado.

Cassandra não conteve um sorriso, mas reprimiu o impulso de aproximar-se dele, lembrando-se de que sir Philip era um sedutor sem caráter. Não poderia deixar-se enganar.

– Bem – falou em tom casual –, como temos muito trabalho a fazer, é melhor começarmos logo.

– Tem razão. – ele replicou, evidentemente desapontado. – Por onde devemos começar?

– Não sei. São tantos livros.

– Sugira o segundo andar, uma vez que é lá que se encontram os livras mais antigos.

– Certo. – Cassandra começou a subir a escada em espiral. – Que tal eu começar de um lado e você, do outro? Assim, nos encontramos no centro.

Philip seguiu-a, desolado. Aquela não fora a maneira que havia imaginado trabalhar com ela.

– Cassandra? Há algo errado?

– Não sei do que está falando.

– Você está estranha, hoje.

– Estranha?

– Sim. Parece zangada comigo, mas não sei o que fiz para magoá-la.

– Não há nada errado. Só quero começar logo o nosso trabalho. Você, não?

Ele estreitou os olhos, mas decidiu não discutir.

– Sim, claro. Ao trabalho.

Cassandra pôs-se a examinar cuidadosamente as prateleiras. Cada vez que deparava com um livro que pudesse, mesmo remotamente, se relacionar com rainhas, retirava-o do lugar e o abria.

A tarefa era cansativa e tediosa. Cassandra também havia se imaginado trabalhando ao lado de Philip, conversando e rindo, como fora no sótão de Chesilworth. Embora estivesse determinada a manter-se distante dele, a realização de tal desejo trouxera um sentimento de vazio quase insuportável.

Disse a si mesma que só importava encontrar o tesouro, e não passar o tempo na companhia de Philip. Assim, trabalharam a tarde inteira, mantendo a porta fechada e não atendendo ninguém. Sir Philip pediu a uma criada que lhes servisse o almoço na biblioteca e os dois comeram na mesa maior, falando pouco. O clima era constrangedor e Cassandra notou a confusão e a frustração de Philip. Gostaria de retomar o relacionamento amigável que tinham antes, mas não conseguia se sentir à vontade, uma vez que a lembrança dos filhos ilegítimos continuava a perturbá-la.

Assim que acabaram de comer, Cassandra sugeriu que voltassem ao trabalho. A busca pelo livro envolvia grande esforço físico, pois era preciso manter o corpo em posições extremamente desconfortáveis. Quando a hora do chá se aproximava, Cassandra sentia dores nas costas e nas pernas, mas o que mais a incomodava era o pescoço e os ombros. Ela se endireitou e massageou a região dolorida.

– Cansada? – Philip perguntou, bem atrás dela, ao mesmo tempo em que massageava-lhe os ombros.

Cassandra sobressaltou-se com a proximidade, pois não o ouvira aproximar-se. Assim que ele a tocou, foi invadida por sensação deliciosas e, ao mesmo tempo, indesejadas. Sabia que deveria dizer-lhe que parasse, mas só conseguiu emitir um gemido de alívio, pois a massagem era muito relaxante.

Foram necessários apenas alguns instantes para que a sensação de relaxamento se misturasse ao desejo intenso. Quando Philip roçou os lábios de leve no pescoço de Cassandra, ela suspirou profundamente, sentindo as pernas trêmulas.

– Cassandra... – ele murmurou. – Você é tão doce... Deslizou as mãos pelos braços dela e, lentamente, virou-a de frente. Então, inclinou-se para beijá-la.

 

– Não! – Cassandra desvencilhou-se de Philip, assustada pela torrente de sensações que ele lhe despertava com tamanha facilidade. – Não serei mais uma de suas conquistas!

– Minhas conquistas! – ele repetiu, confuso. – Do que você....

– Não!

Ela deu meia-volta e correu até a escada, descendo os degraus apressada. Sentiu-se grata por ele não ter tentado segui-la, pois não sabia se seria capaz de resistir, caso Philip tentasse beijá-la novamente. O problema era que seu auto controle parecia se pulverizar, quando estavam juntos.

Trancou-se no quarto, fechou as cortinas e ficou deitada na cama até a hora do chá, tentando colocar em ordem os sentimentos caóticos. O poder que Philip exercia sobre ela era absurdo. Isso a assustava Cassandra sempre fora senhora de si, em qualquer tipo de situação. Porém, cada vez que se via perto de Philip, parecia transformar-se em uma criatura indefesa, totalmente à mercê do desejo.

Por outro lado, seria justo reprimir aquela paixão que a queimava por dentro? Seria um erro tão grande ceder aos sentimentos que tinha por Philip? Os homens davam vazão aos desejos o tempo todo, sem que ninguém os desprezasse por isso. Tal atitude não lhes trazia mal algum, exceto por pobres crianças, como aquelas que viviam em Silverwood.

Disse a si mesma que não sabia se Philip estava mesmo interessado em seduzi-la e, então, abandoná-la.

Tal conclusão fora resultado das palavras de sua tia, que tinha grande interesse em manter Cassandra longe de Philip. Mas... e quanto às crianças de Silverwood?

Tia Ardis estava certa. Só mesmo um libertino sem caráter poderia ter tantos filhos bastardos.

A verdade era que, por mais fácil que fosse acreditar que ele era um patife, Cassandra não queira acreditar.

Seus sentimentos estavam impedindo que sua mente usasse. a razão. Ora, não poderia sequer alimentar qualquer sentimento com relação a ele!

Foi um alívio descer para o chá e descobrir que Philip não estava presente. Na hora do jantar, porém, Cassandra teve de se sentar ao lado dele. Philip manteve expressão sombria e pouco se dirigiu a ela. Embora houvesse conseguido a distância que tanto queria, Cassandra ficou ainda mais infeliz.

Depois do jantar, Joanna flertou ostensivamente com Philip. Para Cassandra, não foi fácil assistir à prima praticamente se atirando para ele. Pior que isso, era o fato de Philip não se mostrar tão contrariado por ter de suportar o assédio.

Assim que a avó de Philip se retirou, Cassandra foi para o quarto.. Trocou de roupa rapidamente e deitou-se, mas logo descobriu que cometera um erro, pois agitação provocada por seus sentimentos por Philip não a deixava dormir. Chegou a desejar não ter ido à Mansão Haverly.

O piquenique do dia seguinte impediu-os de trabalhar na biblioteca. Embora detestasse adiar a busca do mapa, Cassandra sentiu alívio por não ter de passar o dia fechada com Philip.

O piquenique foi um grande evento. Até mesmo a velha lady Neville participou. Na carruagem, seguiram as damas mais velhas e a srta. Yorke. Joanna, ao saber que Philip iria a cavalo, decidiu cavalgar também, embora isso significasse aceitar a companhia de Georgette, Olívia, Crispin e Hart. Como não estivesse disposta a, mais uma vez, observar a prima flertar com Philip, Cassandra optou pela carruagem. Um veículo aberto seguiu-os, levando diversos criados e a comida.

Dirigiram-se a um lago grande e raso, conhecido como broad. Lady Neville explicou que os broads eram áreas de onde os habitantes da região retiravam carvão de turfa, em um passado distante. Tal prática deixava buracos enormes, que logo se enchiam de água. A curta viagem por alamedas floridas, teria sido agradável, não fosse por tia Ardis, que falou sem parar, durante todo o trajeto, Enaltecendo os atributos da filha. A certa altura, Cassandra concluiu que o flerte de Joanna com Philip teria sido um preço mais que razoável por uma cavalgada ao ar livre, longe da tagarelice de sua tia.

Ergueu os olhos e viu espelhados no rosto da srta. Yorke os próprios sentimentos. Virou-se depressa, temendo cair na risada, ao mesmo tempo em que pensava que, talvez, Sarah Yorke pudesse se tornar uma boa amiga. Quando finalmente chegaram ao imenso carvalho, à sombra do qual se instalariam, as duas jovens saltaram da carruagem às pressas e afastaram-se rapidamente. Cassandra sorriu com ar de conspiração e a srta. Yorke retribuiu o sorriso.

O grupo que fora a cavalo desmontava. Ao perceber que Philip se dirigia para onde ela estava, Cassandra virou-se para a srta. Yorke e sugeriu uma caminhada à margem do lago.

Enquanto caminhavam, Sarah deu explicações sobre parte da vegetação local e sobre os pássaros.

– Está vendo aquelas borboletas? – apontou.

Este é um dos raros lugares onde são encontradas.

– Lindas! Você sempre viveu aqui? – Cassandra perguntou.

– Não, mas gosto muito daqui. Meu pai foi um grande estudioso da natureza, e eu costumava acompanhá-lo em suas excursões. E uma das razões pelas quais gosto tanto de ensinar crianças. Elas se interessam pela natureza.

– Deve ser uma excelente professora.

– Foi muita gentileza de sir Philip contratar-me.

Ele conhecia meu pai e não teve dificuldade em calcular a situação em que fiquei, quando papai morreu. Embora fosse um homem maravilhoso, o amor que tinha pela natureza o impedia de pensar em confortos materiais. Tentei escrever artigos para as revistas que publicavam os escritos de meu pai, mas eles se recusaram a aceitar trabalhos realizados por uma mulher.

Cassandra fez uma careta.

– Compreendo perfeitamente o que está dizendo.

– Eu não sabia o que fazer. Minhas habilidades são deficientes no que as pessoas consideram essencial para ser governanta de meninas. Não sei pintar, cantar, nem tocar piano. Minha caligrafia é apenas razoável. Papai nunca me ensinou essas coisas, pois não as considerava importantes. Treinou-me muito bem em matemática e ciências, o que não é valorizado nos estudos das meninas. Só me restava procurar emprego como dama de companhia, mas até nisso eu estava encontrando dificuldades. Já começava a me desesperar, quando sir Philip me contratou. Ele diz que pensou em mim, por achar que eu seria perfeita para cuidar das crianças, mas sei que foi a sua gentileza e generosidade que o fizeram escrever para mim.

– Sim, ele sabe ser generoso.

Cassandra tinha de admitir que Philip fora maravilhoso para com seus irmãos. E essa era apenas uma das coisas que faziam seu coração bater mais forte por ele.

Porém, ela não poderia esquecer-se de que Philip seduzia mulheres e, então, as abandonava, grávidas e solteiras.

– Que pássaros são aqueles? – indagou, a fim de mudar de assunto.

Sarah voltou a recitar seus conhecimentos sobre a fauna e a flora e as duas retomaram o caminho de volta até o velho carvalho, onde estavam os outros.

Os criados haviam espalhado cobertores no chão e colocado bancos para a mãe e a avó de Philip, além de Ardis. Georgette e Olívia conversavam sentadas no chão, longe das mais velhas. Os gêmeos jogavam bola com Philip e Joanna os observava.

Cassandra e Sarah sentaram-se junto às outras mulheres, mas Sarah logo se levantou, a fim de apanhar um copo de limonada para a avó de Philip.

– Essa moça simplesmente não consegue descansar e se divertir – Violet comentou. – Eu disse a ela que uma criada traria a limonada.

– Não se preocupe, Violet. Ela está fazendo o que quer – lady Neville assegurou.

– Acontece que ela foi convidada para se divertir, não para trabalhar.

– A srta. Yorke está se divertindo, Violet – a sogra insistiu. – Algumas pessoas simplesmente gostam de se ocupar.

Lady Violet pareceu não notar a alfinetada de lady Neville.

– Uma história tão triste – continuou. – O pai dela morreu muito pobre.

Ardis emitiu um suspiro sombrio.

– Nesse caso, ela nunca vai se casar. Moças sem beleza e sem fortuna...

– A srta. Yorke não é feia – lady Neville interrompeu-a, dando a Cassandra a impressão de que não gostava de sua tia.

– Mas, também, não é uma beldade. Só uma beldade conquista um marido, se não tiver dinheiro.

– Muitos homens apaixonam-se por outros atributos, que não a beleza – Violet comentou.

– Não me refiro a amor, minha cara lady Violet. Estou falando de casamento. A maioria dos homens não escolhe uma esposa por amor.

– Ela tem razão – lady Neville opinou. – A geração mais jovem pensa demais em amor. Como se pudéssemos fazer nossas escolhas com toda liberdade! As alianças familiares sempre se basearam na posição social e, claro, na riqueza.

– Uma boa aliança familiar não significa, necessariamente, um bom casamento – Cassandra argumentou.

– Bom em que sentido? – lady Neville inquiriu, com um brilho no olhar.

Não havia nada que a velha senhora apreciasse mais do que uma boa discussão.

– No sentido de felicidade – Cassandra respondeu.

– Meus pais foram muito felizes.

– E muito pobres – Ardis completou.

– Qual teria sido a vantagem de terem se casado por dinheiro, se fossem infelizes pelo resto da vida?

A discussão prosseguiu, cada vez mais animada.

Philip aproximou-se, com Joanna colada em seu braço. Os gêmeos vinham atrás, sujos e cansados.

– Sobre o que estão conversando? – Philip perguntou com um sorriso. – Ao que parece, trata-se de alguma questão muito interessante.

A avó sorriu para ele.

– A srta. Verrere estava nos dizendo quais são os seus pontos de vista sobre amor e casamento.

– Verdade? – Philip virou-se para Cassandra.

Gostaria muito de ouvi-los.

Cassandra sentiu as faces arderem.

– Acho que já esgotamos esse assunto. Além do mais, tenho certeza de que o senhor consideraria tal discussão tediosa.

– Muito pelo contrário. Sou todo ouvidos.

– Vou resumir para você – Violet ofereceu-se, surpreendendo a todos. – A srta. Verrere e eu acreditamos no amor e na capacidade de um homem amar uma mulher por algo que não seja beleza. Lady Neville e a sra. Moulton discordam.

– Ora, devo agradecer à senhora e à srta. Verrere por acreditarem que nós, homens, somos capazes de pensar e sentir em um plano superior.

– Ora, sir Philip – Joanna falou –, não diga que não valoriza a beleza em uma mulher.

– É claro que valorizo a beleza, tanto em um objeto de arte, em uma música, ou em uma mulher. – Philip conduziu Joanna até um banco e foi sentar-se entre a mãe e a avó, deixando a moça muito irritada. – No entanto, acredito que a beleza de uma mulher vai muito além de um rosto perfeito – acrescentou, olhando para Cassandra.

– Isso é óbvio! – lady Neville exclamou. – A questão é: você se casaria por amor? Não importa se vai se apaixonar pela beleza, ou por uma mente afiada.

– Você se casaria, se moça não tivesse um tostão? Ou se não fosse possível traçar sua árvore genealógica?

– Não posso falar pelos outros homens, mas posso afirmar que eu não me casaria sem amor. Bem, creio que não devemos discutir um assunto tão sério. Afinal, estamos aqui para nos divertir.

Joanna concordou de pronto e pôs-se a contar uma história tola, que Cassandra já ouvira diversas vezes.

Ignorando a prima, refletiu sobre as palavras de Philip.

Havia uma grande diferença entre não se casar sem amor e casar-se por amor. Ele, afinal, não respondera.

Se seria capaz de se casar com a mulher que amasse, mesmo que ela não tivesse dinheiro algum. Então, disse a si mesma que isso não importava, uma vez que não existia qualquer possibilidade de um envolvimento entre Philip e ela.

Depois de comerem, lady Neville voltou à carruagem para descansar. As crianças afastaram-se para brincar. Joanna pediu a Philip que a acompanhasse em um passeio.

Cassandra observou-os afastarem-se, subitamente invejosa do vestido elegante da prima. Gostaria muito de possuir um traje que não fosse reformado, ou feito de tecido barato.

Afastou-se do grupo e embrenhou-se no bosque, caminhando até encontrar um riacho. Então, sentou-se sobre uma pedra. Lembrou-se de todas as razões pelas quais não deveria importar-se com o fato de Joanna estar flertando com Philip. Afinal, tudo o que Cassandra precisava dele era ajuda para encontrar o dote espanhol.

Tentou se concentrar no tesouro e em como se sentiria ao encontrá-lo. Imaginou-se abrindo a caixa de metal e retirando de dentro dela o leopardo de ouro. Então, ergueria os olhos para Philip e...

– Sonhando acordada?

A voz de Philip invadiu seus devaneios e Cassandra teve um sobressalto.

– O que está fazendo aqui?

– Procurando por você – ele respondeu, sentando-se ao lado dela. – Desculpe se a assustei. Acho que estava muito distraída.

– Estava pensando no dote.

– Temos uma longa jornada pela frente. Não pensei que a busca na biblioteca fosse tão longa e trabalhosa. – Sim, vamos demorar um bocado.

– Espero não termos muitos outros piqueniques como o de hoje, para nos atrapalhar.

Cassandra forçou um sorriso.

– Estou surpresa por vê-lo aqui. Pensei que estivesse passeando com Joanna..

– Estava. Felizmente, ela se cansou. Aproveitei a oportunidade para abandoná-la, junto de minha mãe.

Uma risada escapou dos lábios de Cassandra. Era fácil imaginar a fúria da prima, àquela altura. Sem dúvida, Joanna se “cansara” em algum ponto do caminho, onde ela e Philip estariam a sós.

Philip também sorriu.

– De fato, a srta. Moulton não ficou muito feliz.

Como você pode ser parente dela?

– Ontem à noite, você não me pareceu exatamente desesperado para escapar dela.

Ele deu de ombros.

– Eu estava mal-humorado.

Como não queria discutir o que acontecera na véspera, na biblioteca, Cassandra desviou os olhos para o riacho.

– O que foi que eu fiz? – Philip perguntou. – Que ofensa cometi? Quando viajamos para cá... Bem, era completamente diferente. O que aconteceu, então? Está zangada por causa da sua prima? Deve saber que eu não...

– Não é Joanna. Eu... Bem, precisamos nos concentrar na busca do mapa. Isso é o que importa.

– Não é só o que importa em nossas vidas.

– Talvez não, mas arruinar a minha vida não faz parte dos meus planos.

– Arruinar... Cassandra, do que está falando, afinal?

– Você deveria saber.

– Eu jamais faria qualquer coisa para magoá-la!

Ainda desconfia de mim? Acha que vou roubar o tesouro de você? Juro que isso nunca sequer passou pela minha cabeça. Eu...

– Não é nada disso! – Agitada, Cassandra levantou-se. – Por favor, vamos voltar.

Philip pôs-se de pé, segurando-a pelo braço.

– Não enquanto você não me disser o que está errado.

– Nada está errado!

– Acha que sou idiota? De repente, você age como se me odiasse, mas diz que nada está errado?

– Não odeio você.

– Então, por que está me evitando?

– Não estou!

– Certo – Philip declarou com ironia. – O erro foi meu. Você não está fugindo, não me odeia, nada está errado.

Cassandra suspirou, irritada.

– Está bem. Se quer saber, não fez nada contra mim. Acontece que... Ora, como foi capaz de instalar aquela casa tão perto daqui?

Philip demorou um momento para perguntar:

– Do que você está falando?

– De Silverwood.

– Está me tratando assim por causa do lugar onde instalei os meninos?

– Exatamente. Já é lamentável que todos saibam sobre eles, que saibam que você... Mas, insultar sua mãe e sua avó dessa maneira!

Para surpresa de Cassandra, Philip mostrou-se profundamente decepcionado.

– É por isso que tem me evitado, que tomou aquela atitude na biblioteca, ontem? Porque dei um lar àquelas crianças?

– Não. Acho decente de sua parte sustentá-las e educá-las. .

– Obrigado. Seu entusiasmo é contagiante.

– Não pode esperar que eu o elogie por cumprir o seu dever! Não havia outra maneira? Colocá-los bem aqui, debaixo do nariz da sua mãe... Ela deve se sentir péssima!

– Nem todas as mulheres são como você. Acredite ou não, mamãe orgulha-se de mim.

– Tenho certeza disso!

Cassandra sentiu-se magoada pelo desprezo na voz dele, pela maneira como a tratava, como se ela estivesse errada.

– Nunca me ocorreu que você, justamente você, fosse fazer objeções quanto a Silverwood. Existem pessoas que acreditam que crianças como aquelas deveriam viver escondidas, mas nunca imaginei que você pensasse assim. Vejo que me enganei.

– E claro que se enganou! Se pensei que eu aprovaria o fato de você haver colocado todos os seus filhos ilegítimos para viver tão perto da sua família, se pensou que eu não me importaria por você ter uma porção de... de...

Philip fitou-a, boquiaberto, finalmente compreendendo o que se passava.

– Bastardos? Era o que ia dizer?

– Não exatamente, mas a idéia é essa. Concordo que muitos homens ignoram suas responsabilidades, mas não vejo como um ato de nobreza o que você fez. Acho, simplesmente, uma questão de decência.

– Está dizendo que sou decente por sustentá-los, mas um patife por instalá-los perto de minha casa.

– Acho uma falta de respeito para com sua mãe e sua avó. O que o torna um patife é o fato de trazê-los ao mundo.

– Compreendo. Por favor, diga-me como descobriu tudo isso?

– Todos sabem. Tia Ardis me contou.

– E você acreditou..

– É óbvio, não? Você não faz ó menor esforço pata esconder!

– Realmente, não sinto vergonha de Silverwood. Sentindo a ameaça das lágrimas, Cassandra virou-se e tomou o caminho de volta. Após um longo momento, Philip seguiu-a à distância. Cassandra continuou caminhando, rígida, e lutando contra as lágrimas. Havia acalentado a esperança de ouvir uma explicação para Silverwood, mas ele não dissera uma palavra para negar os rumores. Nem sequer se mostrara embaraçado.

Quando se aproximavam da saída do bosque, um grito ecoou no ar.

 

Cassandra começou a correr. O grito repetiu-se várias vezes. Philip passou por ela, também correndo na direção do lago. Alguém estava se afogando. Ao se aproximar, Cassandra descobriu ser Joanna. À margem do lago, todos corriam e gritavam, formando uma cena caótica.

– Levante-se! – Crispin gritava. – Não é fundo! Joanna, porém, desapareceu sob a água, reaparecendo em seguida.

Philip tirou o casaco e as botas e entrou no lado. Quando alcançou Joanna, abaixou-se para tomá-la nos braços. Cassandra não pôde deixar de notar que água não chegava sequer à altura da cintura dele. Também notou, quando Philip saiu da água com sua prima nos braços, que a blusa encharcada de Joanna tornara-se quase totalmente transparente.

– Eu disse que não era fundo – Crispin comentou. Philip acomodou Joanna no chão e ia se levantar, quando ela se agarrou em seus ombros.

– Obrigada, Philip! Você salvou minha vida! Foi muita sorte você estar aqui.

– Não precisa me agradecer – ele replicou em tom seco.

– Devo minha vida a você.

Aquilo foi demais para Crispin, que perdeu a paciência.

– Joanna, sua tola! O lago não é fundo o bastante para alguém se afogar. Eu disse a você que bastaria se levantar.. Não me ouviu?

– Mort, o cavalariço, disse que o lago é inteiro raso. Pode-se atravessá-lo andando – Hart acrescentou.

– Eu quase me afoguei! – Joanna insistiu, furiosa.

– Provavelmente, foi um de vocês quem me empurrou!

– O quê?

– Joanna, não minta – Olívia intercedeu. – Você escorregou e caiu.

– Não! Senti alguém me empurrar. Não vi quem era, mas imagino que tenha sido um desses dois demônios.

– Não fomos nós! – Crispin e Hart negaram em uníssono.

– Isso não é justo – Crispin continuou. – Se não viu quem foi, como pode nos acusar?

– Quem mais faria uma coisa dessa? – Joanna argumentou.

– Você não quer admitir que cometeu uma idiotice tão grande, quanto cair no lago Hart zombou.

– Tenho certeza de que ninguém teve culpa – Cassandra declarou com firmeza. – Essas coisas acontecem.

– Sim, sim, tem razão – a srta. Yorke concordou, obviamente perturbada pelo que acabara de acontecer. – Ninguém teve culpa.

Uma das criadas apanhou um cobertor e cobriu as roupas molhadas de Joanna, que mal pôde disfarçar a irritação.

Cassandra fazia idéia de como Joanna acabara dentro da água. Certamente, vira Philip. seguir na direção que Cassandra desaparecera e decidira trazê-lo de volta a qualquer preço. Sabendo que o lago era tão raso, sabia também que teria tempo de sobra para gritar e fingir que se afogava, sem correr nenhum risco verdadeiro, até Philip chegar para salvá-la. Era o tipo de atitude que Joanna tomaria. Infelizmente, Cassandra não poderia provar nada.

– Joanna! Minha filhinha! – Tia Ardis aproximou-se aos berros, tomou a filha nos braços e apertou-a contra si. – Você está bem, minha filhinha?

– Sim, estou bem, mamãe – Joanna respondeu, impaciente, lutando para desvencilhar-se do abraço, para voltar a se debruçar em Philip.

Philip, porém, aproveitara a oportunidade para recuar alguns passos, colocando-se fora do alcance dela. Mas ela não se deu por vencida.

– Por favor, Philip, poderia me carregar até a carruagem? – implorou com voz fraca. – Não terei forças para caminhar até lá e preciso voltar para casa. Não posso ficar mais aqui.

Embora não parecesse entusiasmado com a idéia, Philip não poderia negar tal pedido. Abaixou-se, tomou-a nos braços e seguiu para a carruagem.

Cassandra observou-os. O dia já não fora dos melhores e, agora, seria encerrado com chave de ouro, uma vez que ela teria de voltar para casa na carruagem apinhada, com, Joanna encharcada a seu lado. De repente, uma idéia maligna lhe ocorreu. Virou-se para Sarah e disse:

– Ah, meu Deus! Srta. Yorke, acho que não haverá espaço para todas nós, na carruagem.

– Tem razão – a outra concordou, desapontada.

– Seguirei com os criados.

– De maneira alguma! Por que não volta no cavalo de minha prima?

Cassandra foi duplamente recompensada, tanto pelo brilho que iluminou o semblante de Sarah, quanto pelo olhar irado que Joanna lhe lançou. Sabia que a prima egoísta não queria mulher alguma perto de Philip, nem mesmo a quieta e tímida srta. Yorke.

– Receio não cavalgar bem para... – Sarah começou a lamentar, mas Cassandra interrompeu-a.

– Não se preocupe. Joanna só monta cavalos muito mansos. Além do mais, sir Philip estará ao seu lado, caso precise ele ajuda.

– Bem, se acha boa idéia...

– Acho a idéia excelente – Philip declarou. – Como sempre, a srta. Verrere ofereceu a solução perfeita.

Sorridente, Sarah acompanhou Philip. Cassandra entrou na carruagem, recendo mais um olhar fulminante de Joanna.

– Fico contente pela srta. Yorke – Violet comentou.

– Ela merece se divertir mais um pouco.

– Concordo – Cassandra falou, sorrindo para a prima. – Tudo acabou se encaixando perfeitamente, não acha?

Na manhã seguinte, quando Cassandra deixava a mesa do desjejum, Philip perguntou-se, em tom seco e formal, se ela desejava trabalhar na biblioteca. Ela respondeu em tom semelhante e os dois se fecharam, mais uma vez, trabalhando em silêncio, em lados opostos do aposento. Mais tarde, as crianças se ofereceram para ajudar e, por algum tempo, a biblioteca ficou mais alegre.

Porém, o trabalho cansativo e tedioso logo os afugentou.

Philip e Cassandra retomaram o silêncio de antes.

O trabalho era não só maior como também muito mais demorado do que ela havia imaginado. Afinal, nem sabiam exatamente que tipo de livro procuravam.

Ao longo da tarde, Cassandra deparara com dois volumes que poderiam ser o livro em questão, mas depois de examiná-los, não havia encontrado qualquer evidência de um mapa. Philip também descobrira alguns livros que poderiam ser o objeto de sua busca, mas também acabara decepcionado.

Cassandra deu-se conta de que poderiam demorar dias, ou até mesmo semanas, para encontrar o livro certo. O problema era que, a cada minuto que passava perto de Philip, seu sofrimento aumentava. Tinha saudade de quando eles riam juntos e conversavam sobre os assuntos mais diversos. Agora, diziam apenas o que era necessário, e raramente fitavam-se nos olhos.

À noite, Cassandra não desceu para jantar, preferindo comer na companhia das crianças. Retirou-se logo para seu quarto, pois não tinha disposição de participar do jogo animado do quarteto, nem queria estragar a brincadeira dos mais jovens, com seu humor sombrio. Quando tentava pensar em algo que pudesse distrai-la, ouviu uma batida na porta.

– Entre – falou e surpreendeu-se ao ver lady Violet entrar.

Ficou curiosa com relação ao que parecia um grande pedaço de tecido, que a mãe de Philip carregava no braço, mas não disse nada.

– Olá, querida. Eu queria me certificar de que você está bem, uma vez que não desceu para jantar.

– Sinto muito se a deixei preocupada. Acho que meu bilhete não foi claro. Estou me sentindo bem. Apenas achei que deveria jantar com meus irmãos, pois é assim que fazemos em casa e...

– Não precisa explicar – Violet interrompeu-a com um sorriso. – Essa não foi a única razão que me trouxe aqui. Posso estender isto sobre a cama?

– Sim, claro.

Foi somente quando Violet estendeu o tecido sobre a cama, que Cassandra deu-se conta de que se tratava de um vestido. Feito de seda finíssima, cor de alfazema, era o traje mais lindo que ela já vira.

– E muito bonito! – exclamou.

– Gosta? Bom. – Violet sorriu. – Mandei fazer este vestido há algumas semanas, mas ele só me foi entregue hoje. Quando o experimentei, descobri que não ficou bem como eu imaginava. Cá entre nós, acho que ganhei alguns quilos, desde que o encomendei. Então, achei que, talvez, sirva em você.

– Bem, eu... – Cassandra havia adorado o vestido, mas algo lhe dizia que seria errado aceitá-lo. – Ora, certamente, a senhora não vai, simplesmente, se desfazer de uma roupa tão fina.

– O que mais posso fazer? Não poderei usá-lo, pois minha sogra faria um escândalo se me visse com um vestido tão justo. E Georgette é jovem demais para vestir um modelo assim.

– Deve haver mais alguém...

– Ah, desculpe-me! Se não gostou, compreendo. Eu jamais...

– Não! Por favor! Adorei o vestido. Apenas... Seria impossível explicar o sentimento provocado pela idéia de usar a roupa de outra pessoa. Lady Violet jamais compreenderia, pois nunca em sua vida precisara da caridade de ninguém.

– Por que não experimenta? – Violet sugeriu.

– Está bem – Cassandra concordou, descobrindo que não resistiria à tentação.

Com a ajuda da mais velha, trocou de vestido e, assim que se viu no espelho, apaixonou-se. Era exatamente o que ela estivera desejando, na véspera. O vestido não só lhe servia, como se houvesse sido desenhado para ela, como também a cor do tecido proporcionava o complemento perfeito para seus olhos e cabelos. Pensou em usá-lo no jantar da noite seguinte, perguntando-se se a expressão de Philip mudaria, quando ele a visse.

– Ficou maravilhoso em você! – Violet exclamou.

Ah, minha querida, você tem de aceitar este presente!

– Está bem. – Mais uma vez, Cassandra foi vencida pela tentação: – Muito obrigada, lady Violet.

– È um prazer, minha querida.

Na manhã seguinte, quando Cassandra desceu para tomar o café da manhã, Philip já deixara a mesa. Assim, depois de comer, ela foi à biblioteca. Ele estava lá, mas não examinava livros. Sentado a uma das mesas, lia um jornal. Ao vê-la, levantou-se e cumprimentou-a:

– Bom dia, srta. Verrere.

– Sir Philip..

– Notei que não desceu para jantar, ontem. Espero que não tenha tido problemas de saúde.

– Não. Jantei com as crianças. Tenho negligenciado meus irmãos, ultimamente.

– Compreendo... Bem, vamos trabalhar?

Subiram a escada e tomaram os lugares de costume.

Poucos minutos depois, Cassandra foi tomada pela desagradável sensação de que estava sendo observada. Virou-se e descobriu Philip realmente parara de trabalhar e a fitava.

– O que foi? – perguntou, apreensiva.

Ele abriu a boca para dizer alguma coisa, mas mudou de idéia e fechou o livro que tinha nas mãos com um gesto rude.

– Muito bem – declarou. – Já chega!

Desceu a escada e tocou a sineta. Quando um criado apareceu, deu-lhe algumas ordens em voz baixa e, então, voltou a subir. Cassandra observou tudo em silêncio, sem saber o que estava acontecendo.

– Venha – Philip ordenou, puxando-a pela mão.

– Acho que já é tempo de você ver uma coisa.

– Ver o quê?

O contato da mão de Philip na sua provocou-lhe tremores indesejados. Cassandra disse a si mesma que não passava de uma grande tola, mas não foi capaz de controlar os sentimentos, nem de resistir a ser levada por ele..

Quando Philip abriu a porta lateral, era perguntou, aflita:

– O que está fazendo? Aonde vamos?

– Logo vai saber – ele disse, dirigindo-se ao estábulo. – Vamos fazer uma visita.

– Uma visita? Do que está falando? Temos muito trabalho a fazer.

– Mas não consigo fazê-lo. Ao menos, não até esclarecer isso.

Cassandra sentiu um calafrio na espinha.

– Esclarecer o quê?

– Por que você tem de fazer tantas perguntas? – ele retrucou, irritado.

– Porque você me arrastou para fora da biblioteca, e se recusa a dizer para onde está me levando!

Um cavalariço conduziu uma charrete para fora do estábulo e, sem dizer nada, Philip ajudou-a a acomodar-se no veículo. Então, tomou as rédeas e saiu em disparada.

– Estou saindo sem chapéu e sem luvas! – Cassandra protestou. – Não posso visitar alguém, vestida como estou!

– Não se preocupe, pois não há formalidade, lá. Ninguém vai se importar.

– Eu vou! Ora, é claro que vão me achar muito grosseira!

– Não, não vão. Se acharem, você tem a minha permissão para dizer que eu a seqüestrei e não permiti que se arrumasse de acordo.

Cassandra exibiu um sorriso relutante.

– É exatamente o que vou fazer – declarou.

Como não conseguisse arrancar mais nenhuma informação, Cassandra decidiu aproveitar o passeio e a bela manhã de sol. Enquanto Philip dirigia a charrete, ela o observava. O que logo fez seus ânimos se dissiparem novamente, uma vez que era fácil perceber como ele podia seduzir tantas mulheres, com tamanha facilidade.

Depois de terem percorrido um trajeto relativamente curto, seguiram por uma alameda que terminava diante de uma casa de tijolos vermelhos. Quando se aproximavam, um grupo de meninos saiu correndo de trás da casa. Pararam abruptamente ao verem Philip e Cassandra, e começaram a pular e acenar com entusiasmo.

Cassandra sentiu o coração apertar-se.

– Onde estamos? Silverwood?

– Sim. – Philip puxou as rédeas, forçando o cavalo a parar. – Visitá-los vai lhe fazer mal?

Ela corou, furiosa, mas em vez de responder, saltou da charrete, sem esperar que ele a ajudasse.

– Philip! Philip! – gritou o menor garoto do grupo, antes de atirar-se sobre Philip, agarrando-se às pernas dele.

– Harry! Você vai me derrubar!

Os outros quatro meninos olhavam para Cassandra com curiosidade. Um deles tinha um braço atrofiado. Outro apresentava uma enorme mancha escarlate em uma das faces. O mais velho parecia ter quinze ou dezesseis anos. Cassandra ficou chocada, pensando que Philip começara muito cedo. Afinal, ele não poderia ter mais de trinta e quatro anos, agora.

– Bom dia, meninos – Philip cumprimentou-os, puxando o menor pela mão..

– Bom dia, sir Philip – eles responderam em coro, aproximando-se.

– Quero que conheçam alguém.

Apresentou Cassandra aos garotos, que a cumprimentaram com extrema cortesia.

Entraram na casa e, imediatamente; Sarah Yorke apareceu, ajeitando os cabelos e alisando a saia.

– Sir Philip! Que surpresa agradável. Srta. Verrere, como vai?

– Bem, obrigada.

– Decidi trazer a srta. Verrere para conhecer o excelente trabalho que faz aqui, srta. Yorke.

– Espero não estarmos atrapalhando – Cassandra acrescentou.

– De maneira alguma! Sir Philip é sempre bem-vindo. Afinal, esta é a casa dele.

– Por que não mostra a casa à srta. Verrere, Sarah? Explique tudo a ela, por favor. Prometi aos meninos que jogaria críquete com eles, quando voltasse aqui.

– Sim, claro – Sarah sorriu. – Eles vão adorar. Ela levou Cassandra à primeira sala, onde três meninos de idades variadas estudavam. Dois deles levantaram-se assim que a viram. O terceiro permaneceu sentado. Cassandra notou que suas pernas haviam sido amputadas logo acima dos joelhos.

– Estamos estudando matemática, nesta sala Sarah explicou. – Meninos, sir Philip está lá fora, preparando-se para um jogo de críquete. Podem sair, se quiserem.

Os dois que já estavam de pé, saíram correndo. O outro ficou.

– Não quer assistir ao jogo, Dennis? – Sarah perguntou.

– Por quê? – o menino retrucou com ar sombrio, Sarah deu lhe um tapinha no ombro.

– Bem, pode continuar estudando, ou fazer outra coisa que prefira, já que os outros saíram. – Conduziu Cassandra pelo corredor e, quando se encontravam a uma distância segura da primeira sala, sussurrou:

– Dennis ainda está muito revoltado. O que é compreensível. Foi atropelado por uma carroça de leite, quando tentava pegar uma carona, sem ser descoberto. Mas vai melhorar. Todos eles melhoram, depois de terem passado algum tempo aqui. Ele logo vai descobrir que ainda há muitas coisas na vida de que ele poderá desfrutar.

Entraram em outra sala, cujo chão era de pedra, onde três crianças brincavam com argila, sob a supervisão de uma mulher de aparência enérgica. Era evidente que dois dos meninos eram cegos. O outro emitia sons guturais. Sarah explicou que ele havia nascido surdo.

Cassandra foi invadida por uma sensação desagradável. Como era possível que tantos dos filhos de Philip apresentassem problemas físicos? Cego, surdo, aleijado, marcado no rosto... E ela ainda nem vira todos eles.

Sarah falava da convicção que partilhava com Philip de que as crianças poderiam aprender muito através da expressão artística, como modelagem em argila, desenho ou música.

– Incluímos todas as artes, inclusive a dança, no currículo. É incrível o que uma criança pode realizar, se lhe for dada uma chance. E, graças a Deus, sir Philip está determinado a proporcionar essa chance aos meninos.

Percebendo o brilho nos olhos da outra, Cassandra suspeitou que a tímida srta. Yorke sentia algo mais que gratidão pelo patrão atraente.

– Sir Philip está fazendo maravilhas por suas crianças – Cassandra comentou.

– Ah, sim! A maioria das pessoas não dá a menor atenção a crianças como estas. Se as vêem na rua, passam sem sequer olhar uma segunda vez. Mas sir Philip é uma alma generosa. Ele não só lhes dá casa, comida e educação, mas também reserva parte de seu tempo para visitá-los e brincar com eles.

O desconforto de Cassandra crescia a cada momento. Por que havia apenas meninos, ali?

Sarah mostrou-lhe a cozinha, onde uma mulher preparava o almoço. Então, pararam na porta dos fundos, para observar o jogo de críquete que Philip organizara no quintal. Alguns garotos apenas assistiam. Cassandra notou que um deles tinha a coluna completamente deformada e que outros dois apoiavam-se em muletas.

– São tantos... – murmurou.

– Sim, já não temos mais espaço. Lionel partirá em breve. É tão talentoso, que sir Philip conseguiu um lugar como aprendiz, para ele, na fábrica de Wedgwood. Mesmo assim, ficaremos com mais de vinte meninos. Não sei o que vamos fazer. Já transformamos o sótão em dormitório, mas os mais novos...

Quando Sarah a conduzia ao pequeno escritório, Cassandra perguntou à queima-roupa:

– De onde vêm esses meninos?

– De toda parte. Aceita uma xícara de chá?

– Não, obrigada. Estava dizendo...

– Ah, sim, de onde vêm os garotos. Se não me engano, sir Philip apanhou John, tentando roubar-lhe a carteira, em Londres.

– Roubar a carteira...

– Está vendo até onde vai a bondade de sir Philip?

Ele poderia, simplesmente, ter mandado o menino para a prisão. No entanto, levou-o para sua própria casa e ordenou que os criados cuidassem dele. Mas, ainda, sabia que aquela não era a melhor solução, pois sabia que havia muitos meninos como aquele, nas ruas de Londres, assim como no campo. Foi quando soube que o proprietário de Silverwood havia morrido e que os herdeiros queriam vender a casa: Acreditando ser o lugar ideal para levar seu plano a cabo, sir Philip comprou-a e me contratou. Como já lhe contei, ao salvar os meninos, ele salvou a mim, também. Começamos com quatro crianças, mas sir Philip continua trazendo todos os meninos abandonados que encontra. Dennis foi o mais recente. Sir Philip encontrou-o mendigando, em Manchester. A maioria foi encontrada assim, ou roubando para comer.

Cassandra estava atordoada.

– Mas... Ouvi dizer... Dizem que Silverwood é onde sir Philip abriga seus filhos ilegítimos.

– Ah, esses rumores malignos! – Sarah exclamou, furiosa. – As pessoas preferem acreditar na maldade, em vez da bondade dos outros. É claro que não filhos de sir Philip. São, simplesmente, pobres órfãos, abandonados por todos.

Os olhos de Cassandra encheram-se de lágrimas. Philip tomara uma atitude humana e generosa, mas ela o acusara de ser um sedutor imoral, de insultar a mãe, ao instalar seus bastardos tão perto da Mansão Haverly. Como pudera ser tão precipitada em seu julgamento? Sem dúvida, ele a desprezava, agora.

Continuou ouvindo Sarah falar dos meninos, de Philip e de sua filosofia de ensino. Contribuiu apenas com monossílabos para a conversa, pois a culpa não lhe permitia raciocinar com clareza. E, quando Philip finalmente apareceu, ela não foi capaz de fitá-lo nos olhos.

Almoçaram com os meninos em longas mesas de cavaletes, armadas à sombra das árvores, e Cassandra mal pôde acreditar na alegria que iluminava o semblante daquelas crianças, assim como na facilidade com que Philip conversava e brincava com elas. Mais uma vez, seus olhos encheram-se de lágrimas, pela lembrança de quanto fora injusta com ele.

Depois do almoço, partiram. Cassandra despediu-se de todos e caminhou até a charrete ao lado de Philip, ainda em silêncio e incapaz de encará-lo.

Foi só quando tomaram a estrada, que ela falou: – Devo-lhe um pedido de desculpas.

– Não a levei até lá par ouvir desculpas.

– Ainda assim, cometi um grande erro. Insultei você, quando deveria reverenciá-lo por sua generosidade. Agora entendo por que sua mãe e sua irmã demonstram tamanho orgulho. Eu deveria ter percebido, quando ouvia a maneira como se referiam a Silverwood e a você. – Finalmente, Cassandra virou-se para fita-lo. – Por que não me contou? Sabia o que eu pensava. Por que permitiu que eu continuasse acreditando...

– Sempre achei que as pessoas acreditam no que querem acreditar, embora seja doloroso saber que preferem acreditar no pior.

– Eu não queria! Tentei não acreditar.

Philip puxou as rédeas, levando a charrete para fora da estrada e parando debaixo de uma árvore.

– Então, por que acreditou? Por que preferiu dar crédito a rumores, do que ao que já sabia sobre mim?

– Foi o que tia Ardis me contou. Ela disse que todos comentavam que você era um sedutor, um libertino. Que você até mesmo mantinha uma casa para seus filhos ilegítimos. Eu disse a ela que isso era absurdo, mas quando chegamos na Mansão Haverly, você e sua mãe começaram a conversar sobre Silverwood. Então, descobri que realmente existia a tal casa, repleta de crianças. E sua mãe se referiu a elas como “as crianças de Philip”.

– Ora, foi apenas uma maneira de falar.

– Sei disso... agora. Naquele momento, porém, o que me ocorreu foi que tia Ardis estava certa... que você realmente tinha uma casa repleta de filhos ilegítimos.

– E que eu tive a audácia de instalá-los perto de onde moram minha mãe e minha avó. Como pôde acreditar que eu seria capaz de fazer uma coisa dessas? Como pôde pensar que eu passava a vida espalhando a minha semente, como gado reprodutor, sem a menor consideração pelas conseqüências?

– O que mais eu poderia pensar? As evidências estavam ali, bem diante de mim. A casa a que tia Ardis se referira, sua mãe e Georgette chamando os meninos de “suas crianças”.

– Poderia ter me perguntado – ele retrucou, magoado. – Eu teria lhe contado a verdade.

– E como eu saberia que estava dizendo a verdade? Se fosse do tipo que seduz jovens inocentes, para depois abandoná-las, não hesitaria em mentir.

– Por que insiste em falar de jovens inocentes? Filhos bastardos não são, necessariamente, produto da sedução de moças assim.

– É o que as pessoas dizem. Foi o que tia Ardis me contou. Se os rumores eram verdadeiros sobre a casa para seus filhos bastardos, então o resto também seria verdadeiro. Tia Ardis ressaltou que é mais provável que jovens inocentes engravidem, pois mulheres mais velhas e mais experientes sabem como evitar filhos. Além disso, eu sabia... – Cassandra corou. Eu sabia que você é mestre na arte de seduzir. Afinal... já havíamos nos beijado e...

– Não seduzi você! – Philip protestou. – O que aconteceu entre nós não foi premeditado, ou calculado. Simplesmente... Eu queria você. – A voz dele tornou-se rouca. – Não tentei atraí-la para uma armadilha. A verdade é que não consegui controlar o impulso de tê-la em meus braços. – Os olhos dourados passearam pelo corpo de Cassandra. – Que Deus me ajude, mas ainda não consigo.

Com essas palavra, inclinou-se para beijá-la.

 

Cassandra não resistiu. Retribuiu o beijo com ardor, erguendo as mãos trêmulas para acariciar o rosto de Philip. O simples contato de seus dedos com a pele dele provocou-lhe uma onda de calor.

Philip interrompeu o beijo apenas para tomá-la nos braços e acomodá-la em seu colo. Então, voltou a colar os lábios nos dela, enquanto sua mão deslizava por sobre o vestido de Cassandra, até pousar sobre um de seus seios. Quando ela arqueou o corpo, suspirando de prazer, Philip não conteve um gemido rouco.

Cassandra foi invadida por uma estranha sensação, como se seu corpo houvesse deixado de lhe pertencer, passando a ser domínio exclusivo de Philip. Mais incrível era o fato de que tal sensação não a assustou.

Ao contrário, excitou-a, e ela se sentiu entrando em mundo totalmente desconhecido, mas maravilhoso.

Philip desabotoou-lhe o corpete do vestido, para acariciar seus seios com maior intimidade.

– Cassandra – murmurou, enquanto seus lábios depositavam beijos nas faces e no pescoço dela.

Ao mesmo tempo, sua mão deslizou para debaixo da saia de Cassandra, para subir por suas coxas, até descobrir-lhe o centro mais íntimo de sua feminilidade.

O contato inicial foi um choque para ela, mas o embaraço que ameaçou invadi-la, foi varrido pela correnteza do desejo e do prazer, provocados pelas carícias de Philip. Os lábios que beijavam seu pescoço foram descendo lentamente, até encontrarem um de seus mamilos, já rijo e ereto. Naquele momento, Cassandra chegou a pensar que perderia a consciência. Nunca antes sentira nada parecido. Nem sequer imaginara existirem sentimentos como aquele.

Suas mãos acariciavam as costas e os ombros de Philip e, de repente, ela se deu conta de que queria sentir a pele dele sob os dedos. Queria tocá-lo como ele a tocava, beijar-lhe o pescoço, o peito, mordiscar-lhe a orelha.

– Ah, Philip... – sussurrou, com uma voz que já não parecia sua.

O cavalo relinchou e bateu com os cascos na terra, impaciente. Philip e Cassandra imobilizaram-se. O mundo real invadira aquele momento de paixão.

– Meu Deus! – Philip murmurou, fechando os olhos e respirando fundo, antes de endireitar-se com relutância. – Qualquer viajante poderia nos ver. – Olhou em volta. – Onde estou com a cabeça? Bem, é óbvio que minha cabeça não estava funcionando.

Cassandra deslizou para o banco da charrete, ruborizada pela constatação de como estavam expostos, ali. Começou a abotoar o corpete, com mãos trêmulas.

– Desculpe-me. Eu não deveria...

– Não foi culpa sua. Foi minha. Aqui estava eu, passando-lhe um sermão por ter acreditado que eu era um sedutor, e acabei atacando você como um animal faminto. Definitivamente, não tenho o menor controle, quando estou com você.

– O mesmo acontece comigo – Cassandra admitiu com honestidade, provocando uma nova onda de desejo em Philip.

– Ora, Cassandra, como espera que um homem exercite sua força de vontade, dizendo coisas assim? – ele indagou com uma risada.

– Philip... O que fizemos é mesmo tão errado? – Errado? Não! Não creio que seja errado. Apenas inconveniente para o momento e o lugar. Acredito, sinceramente, que o que quero fazer com você é certo. Infelizmente, o mundo não é tão tolerante quanto gostaríamos.

– Tem razão.

Percebendo que Cassandra mantinha os olhos fixos nas mãos cruzadas, Philip segurou-lhe o queixo, forçando-a a fitá-lo.

– Cassandra, eu jamais faria qualquer coisa para magoá-la, ou torná-la infeliz, ou ainda, para arruiná-la aos olhos da sociedade. Não vou mentir. Desejo você como nunca desejei outra mulher, antes. Mesmo assim, a decisão terá de ser sua. Não quero persuadi-la, ou seduzi-la. Não vou me aproveitar de você.

Ela sorriu.

– Vejo quanto me enganei, ao pensar aquelas coisas horríveis sobre você. É um homem muito bom. Philip devolveu-lhe o sorriso.

– Muita gente discordaria disso, mas fico satisfeito por você pensar assim. – Beijou-a de leve nos lábios e, então, apanhou as rédeas. – Agora, conversemos sobre amenidades. Assim, quem sabe, poderemos chegar em casa com algum ar de dignidade.

 

Cassandra usou o vestido que lady Violet lhe dera, para o jantar daquela noite. Deleitou-se com a expressão de Philip ao vê-la. Olívia e Georgette ajudaram-na com o penteado, de maneira que seus cabelos claros emolduravam-lhe o rosto, realçando a cor de seus olhos. Violet exibiu um sorriso satisfeito e lady Neville balançou a cabeça em aprovação. Cassandra ainda teve a satisfação de ver os olhares incrédulos da tia e da prima.

Depois do jantar, quando todos se sentaram na sala de estar, Philip sussurrou-lhe:

– Está testando o autocontrole masculino, com esse vestido, srta. Verrere.

Cassandra reprimiu o riso, mas seus olhos brilharam. – Na verdade, cavalheiro, é exatamente essa a idéia. Nos dias que se seguiram, os dois trabalharam arduamente na biblioteca, explicando aos parentes curiosos que Cassandra estava ajudando Philip a catalogar os livros da família Neville. A tarefa já não era mais cansativa, ou tediosa. Uma vez esclarecidas as dúvidas de Cassandra sobre o caráter de Philip, era fácil trabalharem juntos, conversando e rindo o tempo todo. Algumas vezes, as crianças os ajudavam, mas nem mesmo a perspectiva de encontrar o tesouro era mais atraente do que as brincadeiras barulhentas a que se entregavam, ao ar livre.

A tarde, Cassandra e Philip saíam para uma cavalgada. Embora perdessem algum tempo com isso, o intervalo era revigorante. Joanna sempre tentava impor sua companhia, mas Philip vinha desenvolvendo uma habilidade invejável de evitá-la. O destino favorito do casal eram as ruínas de um antigo mosteiro. Situado junto a um riacho, era um lugar bonito e sossegado.

– Se eu quisesse esconder um tesouro – Philip declarou, ao desmontar, em sua primeira visita com Cassandra –, escolheria este lugar.

– Eu também – ela concordara, fascinada pela beleza das ruínas. – Acha que foi aqui que Margaret escondeu o dote?

– Não seria uma surpresa. Era um lugar conhecido e, certamente, ela foi trazida aqui.

Cassandra olhou em volta.

– Ah, Philip, não se sente tentado a procurar?

Ele riu.

– Sinto, mas não creio que tenhamos a menor chance de encontrar o tesouro. Em primeiro lugar, não podemos começar a cavar todo o solo, por aqui. Em segundo, não sabemos se o dote foi enterrado. Pode, simplesmente, estar em um aposento qualquer.

– Que tal atrás de uma parede? – Cassandra sugeriu. – Uma sala secreta, talvez. Acha que o mosteiro tinha alguma parede falsa?

– Você é a sonhadora mais romântica que já conheci, srta. Verrere.

Sorrindo, Philip puxou-a para si e abraçou-a com força. Foi com dificuldade que resistiu ao impulso de beijá-la, mas lembrou-se de que prometera a si mesmo não tentar persuadi-la, ou seduzi-la.

Pela primeira vez em sua vida, Philip não sabia ao certo o que sentia, ou o que queria. De uma coisa tinha certeza: queria fazer amor com Cassandra. Tinha de admitir que, quando fora visitá-la pela primeira vez, em Dunsleigh, fora a intenção de estabelecer um relacionamento passageiro com ela que o levara até lá. Cassandra havia despertado o seu interesse, bem como o seu desejo. Embora sua política fosse evitar envolver-se com moças solteiras de boas famílias, Cassandra se mostrara tão diferente das outras, que ele decidira quebrar as próprias regras.

Agora, porém, por mais que a quisesse, não seria capaz de arriscar a reputação dela, caso seu relacionamento fosse descoberto, ou se ela ficasse grávida. Nunca se preocupara com isso antes, pois, como a própria Cassandra apontara, as mulheres com quem Philip costumava envolver-se eram experientes e saberiam como evitar problemas. Cassandra, no entanto, era diferente... em muitos aspectos.

Portanto, Philip encontrava-se em meio a um dilema terrível. Ao mesmo tempo em que se recusava a arruiná-la, sabia que não suportaria desistir de levá-la para a cama. Havia apenas uma saída: o casamento. E a idéia de casar-se com Cassandra era mais que interessante. A vida jamais seria tediosa, se ela fosse a sua companheira constante. Não teria de se preocupar com a paixão, pois a que existia entre eles era muito intensa. E, se um dia, tal paixão se dissipasse, como acontecera com todas as outras que ele sentira, ela continuaria sendo a melhor das amigas que um homem poderia ter. Philip sabia que, mais cedo ou mais tarde, teria de se casar, a fim de garantir a sucessão dos Neville. Cassandra pertencia a uma boa família, por mais estranhos que os Verrere pudessem parecer, às vezes.

O fato de ela não possuir fortuna não era problema, uma vez que Philip tinha dinheiro de sobra. Embora ela não fosse a bondade que as pessoas, certamente, esperavam que ele escolhesse para esposa, Philip a considerava muito mais bonita, com seus cabelos claros e olhos inteligentes, do que jovens como Joanna. E os filhos que ela lhe daria... Sentiu um forte aperto no peito, ao imaginar Cassandra grávida. Ora, seus filhos seriam alegres e inteligentes, como Olívia, Crispin e Hart. Philip perguntou-se se Cassandra lhe daria filhos gêmeos.

Sobressaltou-se ao perceber o rumo que seus pensamentos haviam tomado. Nunca antes pensara em casar-se. Seu pai fora um homem frio e o casamento dele com sua mãe não fora nada feliz. Philip crescera determinado a jamais cair naquela mesma armadilha, vendo-se preso a um casamento sem amor, com uma esposa apropriada, sentindo-se infeliz, entediado e, às vezes, furioso. Nunca lhe ocorrera a possibilidade de realmente amar uma mulher, ou de ser feliz ao lado de uma esposa. Até conhecer Cassandra...

Por ser incapaz de definir os sentimentos que o assaltavam, decidira não tomar nenhuma atitude, até ter certeza do que queria, ou deveria, fazer. Por isso, tratou de conter os impulsos. Se começasse a beijar e acariciar Cassandra, provavelmente, não conseguiria parar.

– Bem – declarou em tom falsamente casual –, é melhor voltarmos para o chá.

– Ah, sim – Cassandra replicou com um sorriso malicioso. – Deve estar ansioso para o seu encontro vespertino com Joanna.

Philip emitiu um gemido como resposta. Joanna vinha compensando as ausências dos dois, praticamente se atirando sobre ele na hora do chá. Não o deixava em paz nem por um segundo e as conversas que ele tentava estabelecer com qualquer pessoa eram prontamente interrompidas por Joanna.

– E você nunca faz nada para me ajudar! – ele protestou, ajudando-a a montar.

– Ora, você já é bem crescidinho! O mínimo que eu poderia esperar é que fosse capaz de defender-se dos ataques de uma mulher determinada.

– Determinada é muito pouco, para descrever as intenções de sua prima.

Com uma gargalhada, Cassandra fincou os calcanhares em seu cavalo, e saiu a galope na direção da mansão.

 

À medida que os dias foram passando, os dois foram ficando desanimados por não conseguirem encontrar o Livro das Rainhas. Haviam deparado com algumas biografias da rainha Elizabeth, mas todas haviam sido escritas nos últimos cem anos. Portanto, tais livros nem precisaram ser examinados.

Quando terminaram com o mezanino, Cassandra ficou profundamente preocupada, uma vez que os livros dispostos no primeiro andar eram bem mais recentes.

Ainda assim, continuaram procurando, até haverem examinado tudo o que havia na biblioteca. Nesse dia, sentaram-se a uma das mesas, desolados.

– Não está aqui – Philip anunciou o óbvio.

– Existe algum outro lugar, na mansão, onde sua família costuma guardar livros? – Cassandra perguntou, sem o menor entusiasmo.

– Meu pai e meu avô não tinham gosto pela leitura. É possível que alguns livros tenham sido guardados no sótão, por não serem bonitos como os demais. O interesse dos dois na biblioteca era puramente estético. Papai usava este aposento para fumar charutos e beber conhaque.

Cassandra cerrou os olhos com um suspiro, ao pensar em iniciar uma busca em outro sótão abafado.

– Para ser sincero – Philip acrescentou –, meu maior receio é que tenha sido jogado fora.

– Não encontraremos o tesouro sem o segundo mapa! – Cassandra choramingou. – Examinei o primeiro até meus olhos arderem, mas continua não fazendo o menor sentido.

– Sei disso. Também não reconheci nada sequer parecido com os arredores de Haverly. Perguntarei à minha mãe se ela se lembra de meu pai ter se livrado de alguns livros, ou de tê-los guardado no sótão.

Era urna verdadeira tortura imaginar que haviam trabalhado tanto e chegado tão perto, para serem frustrados no final, pela simples passagem do tempo. Philip detestava admitir urna derrota, em qualquer circunstância, e simplesmente não podia aceitar que o mistério permanecesse sem solução. Porém, deu-se conta de que o pior resultado de tudo aquilo seria ver Cassandra voltar para casa.

Desesperado, pôs-se a pensar em uma solução. De repente, endireitou-se na cadeira.

– Claro! Como não pensamos nisso antes? A sala de estudos!

– O quê?

– A sala de estudos. Há urna porção de livros lá e papai não se incomodaria em fazer nada com eles.

Reanimados, iniciaram urna nova busca na sala de estudos, revirando prateleiras e armários, com a ajuda das quatro crianças. Porém, mais uma vez, o esforço foi em vão.

– Bem – Cassandra concluiu, cansada –, creio que não nos resta opção, senão examinar o sótão.

 

– Tem razão – Philip concordou. – Perguntarei a mamãe e a vovó se elas sabem de algum outro lugar onde possamos encontrar livros.

Naquela noite, antes do jantar, ele foi ao quarto da mãe. Encontrou-a sentada diante da penteadeira, enquanto uma das criadas prendia seus cabelos. Violet não escondeu o prazer de ver o filho.

– Philip, querido! Que bom vê-lo! Lembra-se de quando era pequeno e gostava de ficar aqui, enquanto eu me preparava para o jantar?

– Sim, é uma das lembranças mais agradáveis que tenho.

– Sente-se – a mãe convidou-o, antes de virar-se para a criada. – Termine o meu penteado, Mary. Então, deixe-me a sós com meu filho. Tocarei a sineta, quando precisar de você novamente.

Conversaram sobre amenidades, enquanto Mary terminava o penteado da patroa. Quando a criada se retirou, Violet inclinou-se para Philip.

– Agora, conte-me o que o trouxe aqui.

– Um filho não pode, simplesmente, visitar a mãe? – Pode, em qualquer aposento da casa, mas como este é o único lugar onde ninguém vai nos interromper, imagino que o assunto seja particular.

Philip sorriu.

– Você é muito perceptiva, mamãe.

– Sou distraída apenas com algumas coisas. Agora, conte-me. Quer falar sobre a srta. Verrere?

– Por que diz isso?

– Não sou cega, Philip. Todos nesta casa já perceberam que você tem um interesse especial por ela. Até mesmo Sarah Yorke comentou sobre isso. Eu disse a ela que vocês são apenas bons amigos. Nem poderia ter dito qualquer outra coisa, uma vez que você não conversou comigo sobre as suas intenções.

Philip franziu o cenho.

– Não creio que esse assunto seja da alçada de mais ninguém, além de mim mesmo.

– Tem razão, mas passar o tempo todo na companhia dela, seja na biblioteca, cavalgando, ou conversando, após o jantar, pode encorajá-la a pensar que suas intenções são sérias. Além disso, dei a ela o vestido, seguindo à risca as suas instruções, embora não tenha contado a ninguém. O que estou realmente querendo dizer é que você não deve iludi-la.

– Eu jamais iludiria Cassandra!

– O que pretende fazer, então? Com certeza, não planeja casar-se com ela.

– Por quê? Acha a idéia tão absurda? Há anos você me atormenta com essa história de que tenho de me casar.

– Bem, é claro que você deve se casar, pelo bem da sucessão. No entanto, nunca pensei... Ora, Philip, não precisa me. olhar desse jeito! Não tenho nada contra a srta. Verrere. É uma jovem muito agradável, embora quando fale de Shakespeare e coisas assim não compreendo muito bem o que ela quer dizer. E uma boa mulher, generosa e eficiente, mas...

– Mas o quê? – Philip pressionou, cruzando os braços sobre o peito.

– Ela não é a melhor esposa que você poderia escolher. Eu soube que a família dela encontra-se em situação financeira lastimável. E aquela tia! – Violet revirou os olhos. – Nunca vi mulher mais detestável! E a filha é ainda pior!

– Também temos alguns parentes detestáveis Philip declarou com firmeza. – E dinheiro não é um dos requisitos que procuro em uma esposa.

– Mas, Philip, ela já não é tão jovem e, bem, nunca foi pedida em casamento..

– Pouco me importa o gosto dos outros homens. Acho a srta. Verrere... incomparável, fascinante... bonita. Concordo que ela não tem uma beleza comum, mas você sabe muito bem que nunca me interessei pelo que é comum..

Violet fitou-o, boquiaberta.

– Philip, está falando sério? Pretende casar com a srta. Verrere? Pensei que estivesse apenas se divertindo e...

– Não estou me divertindo com ela. Eu... Ora, não sei o que vou fazer! Considero Cassandra interessante e agradável. Gosto muito de passar meu tempo com ela, mas não a estou iludindo. Estamos trabalhando juntos em um projeto. É por isso que temos estado juntos o tempo todo. Acredite. Ela não está alimentando esperanças de casamento.

– Um projeto? – Violet repetiu, confusa. – Do que você está falando?

– Trata-se dos nossos antepassados e se relaciona com a animosidade existente entre nossas famílias, por tantos anos, assim como as razões que levaram a isso.

– Ah, sim, um projeto histórico.

– Exatamente.

– Nunca entendi o seu interesse por história.

– Não é a única, mamãe. Porém, esse é um dos motivos pelos quais a srta. Verrere e eu somos amigos. Conversamos muito sobre interesses comuns.

– Compreendo – a mãe murmurou em um tom que parecia indicar o contrário.

– Foi por causa desse projeto que vim procurá-la. Preciso da sua ajuda. Cassandra e eu estamos procurando por um livro conhecido como Livro das Rainhas.

Já ouviu falar dele?

– Não, querido, alias você sabe que conheço muito pouco sobre livros. E por isso que vocês dois têm passado tanto tempo na biblioteca?

– Sim, mas não o encontramos. Também procuramos na sala de estudos, sem sucesso. Existe algum outro lugar nesta casa, onde se guardem livros?

– Eu não saberia dizer... O sótão, talvez. Trata-se de um livro antigo? – Sim, muito antigo.

– Creio que alguns livros foram guardados lá, mas não posso afirmar com certeza. Pensarei mais sobre isso. Talvez eu me lembre.

Philip agradeceu a mãe com um beijo no rosto e dirigiu-se aos aposentos da avó. Já pronta para o jantar, ela estava sentada em uma poltrona, bordando.

– Philip, que surpresa! O que o traz ao meu quarto?

Ainda não decidiu pedir a mão daquela jovem?

– Que jovem?

Lady Neville fez uma careta.

– Não se faça de tolo comigo, meu rapaz. Sabe muito bem a quem me refiro. À moça cuja companhia você tem monopolizado, desde que chegou aqui. A srta. Verrere.

– Só se fala sobre isso, nesta casa?

– Em um lugar sossegado como este, temos de nos agarrar a qualquer fofoca que seja. Mas só um idiota acreditaria ser possível desmanchar-se em atenções para com uma mulher, durante duas semanas, sem levantar suspeitas sobre estar apaixonado.

– Não estou apaixonado.

– Então, está pensando em se casar.

– Se eu decidir me casar, prometo que a senhora será a primeira a saber. Talvez a segunda.

– Provavelmente, a terceira. Bem, então, o que o trouxe aqui, se não veio pedir o meu conselho sobre uma proposta de casamento a uma Verrere?

– Cassandra e eu estamos tentando encontrar um livro antigo, sobre uma rainha, ou rainhas. Foi escrito há, pelo menos, duzentos anos.

– Espero que não esteja insinuando que sou velha o bastante para saber algo sobre esse livro! – lady Neville protestou, indignada.

Philip sorriu.

– Não, vovó. Só quero saber se a senhora já ouviu falar de um livro assim, desde que veio morar aqui.

– Mudei-me para cá há cinqüenta e cinco anos, mas nunca conversamos muito sobre livros. Seu avô não se interessava por leitura e acho que transmitiu esse sentimento ao nosso filho. Não me lembro de nenhum livro sobre rainhas. A propósito, sobre quais rainhas?

– Não sei. E por isso que é tão difícil encontrá-lo. Trata-se de uma referência na história da família.

– Há duzentos anos?

– Sim.

– Espera que um livro permaneça no mesmo lugar por tanto tempo?

– Deveria ser um volume importante, que não seria facilmente jogado fora.

– Não existia livro importante para o meu marido. O pai dele o forçava a lê-los, quando criança. Ele jurou que, quando se tornasse adulto, nunca mais leria um livro. E acho que manteve sua palavra. – Lady Neville fez uma pausa, antes de empertigar-se. – Acho que sei quem pode lhe dar uma informação mais precisa. Tia Liliane!

– A tia de vovô? Ora, da última vez que fui visitá-la, ela não sabia quem eu era. Como ela poderia se lembrar de algo dos tempos de sua infância?

– Não sei. As pessoas parecem guardar as lembranças mais estranhas, na memória. Especialmente, quando ficam velhas. – A postura ereta de lady Neville, bem como a expressão de reprovação, indicava sua convicção de que ainda lhe faltavam muitos anos para atingir tal condição. – Às vezes, lembram-se perfeitamente do passado distante, mas se esquecem do que aconteceu horas antes. Meu pai ficou assim. Pensei em Liliane porque ela sempre foi uma leitora ávida, como o pai de seu avô.

– Obrigado, vovó. Eu sabia que a senhora me ajudaria.

Curvando-se em uma reverência, Philip saiu do quarto, assobiando. Sentia-se mais animado. Talvez tia Liliane não fosse uma grande ajuda, mas seria melhor do que nada. Além do mais, visitá-la significaria passar horas com Cassandra, longe de casa.

 

– Ela é irmã de seu avô? – Cassandra perguntou, a caminho da casa de tia Liliane.

– Não, é tia de meu avô.

– Nossa! Deve ser muito velha.

– Tem mais de noventa anos.

– Nesse caso, ela pode saber algo sobre o Livro das Rainhas.

Cassandra voltava a se sentir esperançosa. Quando Philip a convidara para visitar a tia, ela concordara por não querer perder a oportunidade de passar quase o dia todo a sós com Philip. Especialmente depois que ele respondera à sugestão de Joanna de que todos deveriam visitar a velha senhora, dizendo que tia Liliane estava fraca demais para receber mais que um ou dois visitantes por vez. Agora, porém, sentia-se animada por saber que a mulher poderia lhes dar alguma pista sobre o livro.

Demoraram três horas para chegar à casa antiga, construída no estilo dos Tudor.

– É linda! – Cassandra exclamou.

– Tia Liliane mudou-se para cá quando ficou viúva.

Não suportava a nora e, por isso, recusou-se a ir morar com o filho. Como já estava em idade avançada, a família preocupou-se com o seu bem-estar, vivendo sozinha, mas ela sempre foi um espírito independente. Eu costumava visitá-la, de vez em quando, e passava uma semana inteira aqui. Eu adorava todos aqueles livros e a maneira despreocupada com que ela encarava a vida. Comíamos nos horários mais estranhos e ela não se importava se decidisse desmontar alguma coisa, só para entender como funcionava.

– Parece gostar muito dela.

– Sim, muito. – Philip suspirou. – Mas é triste. Ela costumava ser tão animada e, agora, raramente sabe quem sou.

A criada conduziu-os até um quarto espaçoso, cujas janelas encontravam-se abertas. Diante de uma delas, tia Liliane encontrava-se sentada em uma cadeira de balanço. A postura curvada, os tufos de cabelos brancos escapando da touca escura e os olhos escuros emprestavam-lhe a aparência de um pássaro.

Ela fitou o casal por um longo momento, antes de apontar para uma cadeira. Philip ofereceu o lugar a Cassandra e apanhou outra cadeira para, si.

– Rosemary? – a velha inquiriu, sobressaltando Cassandra.

– Não, senhora. Meu nome é Cassandra.

– Conheço você? – Liliane praticamente gritava, em conseqüência da audição estar prejudicada pela idade.

– Não, senhora.

– Tia Liliane, deixe-me apresentá-la a Cassandra Verrere.

– Verrere! – a mulher arregalou os olhos. – Uma Verrere em minha casa?

– Não – ele respondeu depressa, dando-se conta do erro que cometera. – Ferrars. Eu disse Cassandra Ferrars.

Liliane assentiu, consciente da dificuldade que tinha em ouvir.

– Não conheço nenhum Ferrars. – Examinou Philip por um longo momento. – Faz muito tempo que você não vem aqui, Edward.

– Não sou Edward, tia Liliane. Sou Philip, filho de Thomas. – Os nomes pareciam não significar nada para ela. – Neto de sir Richard.

– Você não parece Richard.

– Não, titia. Não sou Richard. Sou o neto dele.

– Richard não tem idade para ser avô – ela declarou com irritação, mas, então, soltou uma risada alegre. – Ah! Você é o rapaz que se casou com Cecily, não é? Eu deveria ter adivinhado. Você sempre adorou pregar peças nos outros.

Liliane sorriu, aparentando gostar do rapaz que se casara com Cecily, apesar de suas brincadeiras. Philip suspirou e desistiu de esclarecer sua identidade.

– Viemos lhe perguntar sobre um livro, tia Liliane – falou.

– Que livro? – ela olhou em volta, confusa. – Não tenho nenhum livro, aqui. Meus olhos já não servem para a leitura. A esposa do pastor vem me visitar e lê para mim. Pula todas as partes difíceis e pensa que não percebo. – O semblante da velha senhora tornou-se triste. – Bem, cada um tem de se contentar com aquilo que tem.

Sem saber o que dizer, Philip olhou para Cassandra.

– Lembra-se da biblioteca da Mansão Haverly? – ela perguntou..

– E claro que me lembro! Que pergunta idiota!

– Desculpe, mas não a conheço bem.

– Sei disso. Você nunca me visitou com a mesma freqüência de sua irmã.

– Não... – Cassandra hesitou, mas decidiu assumir o papel de uma outra pessoa, fosse quem fosse. – Mas minha irmã me falou sobre um livro. Foi a senhora quem o mencionou para ela. Trata-se de um livro sobre rainhas.

– Rainhas? – Liliane franziu o cenho. – Quais?

– Não sei. Esse livro estava na biblioteca da Mansão Haverly e era muito antigo.

– Ora, havia muitos livros antigos, lá, minha jovem. Seria uma biografia, ou um livro de história?

– Não estou certa. Minha irmã disse, simplesmente, Livro das Rainhas.

O semblante de Liliane suavizou e ela riu.

– É claro! Por que não disse logo? Quer saber sobre o Livro da Rainha. Posso lhe dizer tudo o que quiser saber sobre ele.

 

Cassandra sentiu um arrepio na espinha. Seria possível que a velhinha esquecida soubesse mesmo algo sobre o livro? Por um momento, Cassandra perder a voz e foi Philip quem salvou a situação.

– Conhece esse livro? – ele perguntou.

– É claro que conheço, assim como todos na família. Trata-se do livro mais valioso da coleção de papai.

– É esse o título? Livro das Rainhas?

– Título? – Liliane fitou-o com expressão estranha.

– Do que está falando, meu jovem? Parece não saber que livro é.

– Não sei – Philip admitiu, à beira do desespero.

– Estamos tentando encontrá-lo.

A tia lançou-lhe um olhar descorçoado.

– Espere um instante, rapaz. Diz ser um Neville, mas não conhece o Livro das Rainhas?

– Não. Foi por isso que vim falar com a senhora. A família perdeu o livro e estamos tentando encontrá-lo.

– Perderam o livro de orações da rainha Elizabeth? – Liliane inquiriu, horrorizada.

De repente, as peças do quebra-cabeças se encaixaram.

– Agora, tudo faz sentido! – Cassandra exclamou.

– A mancha que pensei ser bolor, era um apóstrofe. The Queen’s Book, “o livro da rainha”. Era tão conhecido entre Os Neville, que eles saberiam imediatamente do que se tratava. E, se pertenceu à rainha Elizabeth, era valioso demais e jamais seria jogado fora. Margaret foi muito esperta ao usar um livro que permaneceria lá.

– Verdade, exceto pelo fato de que o livro não permaneceu em Haverly – Philip lembrou-a.

– Do que vocês estão falando? Não compreendo uma palavra – Liliane queixou-se.

– Tia Liliane, já se passou muito tempo, desde que a senhora viveu na Mansão Haverly. A senhora se casou e mudou-se de lá, há quase setenta anos. Em algum momento, o livro da rainha se perdeu. Lembra-se de sir Richard, seu sobrinho?

– O que Richard tem a ver com o livro?

– Bem, ele não gostava de livros como a senhora, seu irmão e seu pai.

– Sim, eu me lembro. Meu irmão vivia triste por isso.

– Ele não dava a menor atenção a qualquer livro. O filho dele, Thomas, era igual ao pai. E foi durante a vida de um deles que o livro desapareceu. Hoje, ninguém nem sabe do que se trata.

– Isso é absurdo! – ela exclamou, chocada. – Como poderia ter desaparecido?

– Quando foi a última vez em que a senhora viu o livro?

– Não me lembro. Acho que faz muito tempo... quando eu ainda era criança.

– Seu pai costumava guardá-lo na biblioteca?

– Não! Era valioso demais. Ele o mantinha em um pequeno cofre, no guarda-roupa do quarto dele. Às vezes, papai retirava o livro da rainha do cofre, para que eu pudesse apreciar as jóias:

– Jóias? – Cassandra inquiriu, apreensiva. Seria possível que algum Neville houvesse encontrado o dote, afinal?

– Sim, as jóias da capa. Vocês realmente nunca o viram?

– Não.

– Pode nos dizer como era a capa? – Philip pediu. – Assim, poderemos reconhecê-lo, se o encontrarmos.

– Era um livro de orações, não muito grande. A capa era de couro, com inscrições douradas. Havia três pedras preciosas na lombada. Um rubi e dois topázios. Pequenas pérolas enfeitavam as bordas. Na capa, lia-se: “O Livro das Preces Cristãs”. Na primeira página, havia a dedicatória: “A Sir Everard, meu leal cavaleiro”. E estava assinado “Elizabeth R.” Foi um presente. A rainha se hospedou na Mansão Haverly e deu o livro a sir Everard, antes de partir.

– A senhora faz idéia do que pode ter acontecido com o livro? – Cassandra perguntou.

– Não – Liliane respondeu, preocupada. – Deveria estar lá.

 

– Acha que está lá? – Cassandra perguntou, durante a viagem de volta. – Você pareceu saber do cofre a que sua tia se referiu.

– Sim. Há um pequeno cofre, no meu quarto de vestir. Imagino que, antigamente, era usado para guardar objetos de valor, mas papai instalou um cofre no escritório. Hoje, as jóias, escrituras e ações estão lá. Quando ao cofre no meu quarto, era onde papai guardava documentos oficiais. Já examinei tudo o que há lá dentro, várias vezes. Posso assegurar que não há livro algum.

– Agora, ao menos, sabemos exatamente o que estamos procurando – Cassandra concluiu, entusiasmada. – Vamos encontrá-lo!

– Sim. Mamãe ou vovó devem se lembrar do que aconteceu ao livro..

Cassandra mal podia esperar pelo momento que chegassem em Haverly. Na véspera, quase perdera a esperança de encontrar o segundo mapa. Todos os sonhos de um futuro para Chesilworth haviam parecido prestes a cair por terra. E, embora ela soubesse se puro egoísmo, tinha de admitir que a maior parte de sua tristeza devia-se ao fato de que, se não encontrassem o mapa, ela não teria mais motivos para continuar hospedada na casa de Philip. Agora, porém, uma ampla gama de possibilidades se abria diante de seus olhos.

Quando chegaram à Mansão Haverly, tiveram a infelicidade de deparar com Joanna, que certamente, estivera junto a uma das janelas, esperando por eles:

– Sir Philip – chamou, aproximando-se depressa.

– O dia foi tão longo sem a sua companhia! Foi uma grande malvadeza deixar-me na companhia de crianças o dia todo!

– Ora, mas pensei que havia se tornado uma grande amiga de minha irmã – Philip retrucou com voz aveludada, ao mesmo tempo em que se esquivava de ser agarrado pelo braço.

Por um momento, Joanna pareceu prestes a perder a compostura, mas recuperou-se rapidamente.

– Ah, mas eu não me referi à querida Georgette...

– Sabe onde está minha mãe?

Joanna foi apanhada de surpresa pela súbita mudança de assunto..

– Não, não sei.

– Sinto muito, mas teremos de deixar nossa conversa para mais tarde, srta. Moulton. Preciso falar com minha mãe, imediatamente. Agora, se nos der licença...

Sem esperar pela resposta, Philip conduziu Cassandra para a porta.

– Mas nem tivemos oportunidade de conversar – Joanna protestou.

– Teremos tempo de sobra para conversar, esta noite, srta. Moulton.

– Vou esperar ansiosa – ela praticamente gritou, com sua voz estridente.

Philip levou Cassandra a uma pequena sala de estar, onde encontraram Violet e lady Neville. As duas receberam-nos com sorrisos.

– Olá, querido. Como vai tia Liliane? – a mãe perguntou...

– Ela parece prestes a ser pulverizada por uma brisa mais forte, mas a enfermeira diz que ela goza de perfeita saúde..

– Devemos visitá-la, Violet – lady Neville declarou. – Nunca me dei muito bem com ela, mas creio que nessa idade, uma pessoa goste de receber visitas de seus parentes.

– Ela não fazia a menor idéia de que eu era – Philip continuou.

– Isso é muito triste. Então, ela não sabia nada sobre o livro?

Philip sorriu.

– Quanto a isso, não houve o menor problema. Ela soube exatamente do que estávamos falando. Não se trata de um livro qualquer. Alguma de vocês ouviu falar de um livro de orações, que foi dado a sir Everard Neville pela rainha Elizabeth?

Lady Neville franziu o cenho.

– Tenho uma vaga lembrança de ter ouvido algo sobre um livro de orações. O pai de sir Richard orgulhava-se muito de possuí-lo.

– Ao que parece, era um tesouro de família. Pertenceu à rainha Elizabeth e ela o deu, com uma dedicatória, a sir Everard, o que tornaria o livro muito valioso. Além disso, tinha pedras preciosas na lombada e pérolas em torno da capa.

– Ora, mas eu vi esse livro! – Violet exclamou. – Eu também – a sogra acrescentou. – Sir Richard guardava-o em um pequeno cofre.

– Não está mais lá. Já examinei aquele cofre muitas vezes.

– Não, não está – a mãe confirmou. – Há anos, Thomas queria comprar alguns cavalos de raça, para reprodução, mas não tinha dinheiro, na ocasião. O velho Stanley aconselhou-o a não vender ações, nem terras. Então, ele vendeu uma porção de coisas antigas, da casa. O saleiro de prata, a estátua quebrada que ficava a um canto da sala de música, embora eu nunca tenha compreendido como alguém poderia querer uma coisa como aquela, mesmo sendo grega, ou romana, nem sei. O tal livro com jóias na capa foi um dos itens vendidos. – Lançou um olhar de simpatia para o filho. – Sinto muito, querido, mas aquele livro não nos pertence há muito tempo.

Por um longo momento, Cassandra limitou-se a olhar fixamente para Violet incapaz de assimilar o duro golpe que acabara de sofrer. Então, sentou-se em uma poltrona, com um suspiro cansado.

– Está se sentindo bem, minha querida? – Violet perguntou, preocupada. – Esse livro é tão importante?

– Sim – Philip encarregou-se de explicar. – Os Verrere são grandes estudiosos, mamãe. Esse livro é... é parte da história da família.

– Ah... – a mãe murmurou, um pouco menos confusa.

Philip andou de um lado para o outro e, então, foi se, ajoelhar diante de Cassandra, tomando uma das mãos dela entre as suas.

– Não se preocupe. Vamos encontrá-lo – assegurou com um sorriso. – Um livro valioso como aquele não poderia ter, simplesmente, desaparecido. Deve existir um registro da venda. – Voltou a se levantar. – Mamãe?

– Sim, querido.

– Papai costumava negociar com algum livreiro em particular?

Lady Neville emitiu um ruído pouco feminino.

– Não faça perguntas absurdas, Philip! Meu filho, Thomas, gostava de livros tanto quanto o pai dele. Como teria um livreiro em particular, com quem negociar?

– Sendo um objeto valioso, certamente Stanley cuidou da venda.

– Provavelmente. Se estivesse vivo, Staley provavelmente se lembraria.

– O filho dele ainda administra nossos negócios. Deve ter guardado os livros de registros de venda do pai. Escreverei para ele imediatamente. Mesmo que não tenha os registros, tenho certeza de que conseguiremos descobrir o paradeiro do livro. Mesmo que tenhamos de visitar todos os livreiros de Londres.

– Claro! – Cassandra pôs-se de pé, sorrindo. – O sr. Simons poderá nos ajudar. Por que não pensei nisso antes? Iremos a Londres e falaremos com ele. Se ele não souber de nada, tenho certeza de que saberá nos informar quem costuma comprar esse tipo de obra. Quando podemos partir?

– Vão a Londres? – Violet indagou. – Assim, de repente?

Philip sorriu para Cassandra.

– A srta. Verrere é uma mulher de ação, mamãe. – Philip, srta. Verrere, pensem bem – lady Neville falou com expressão chocada. – Não podem estar pensando em viajar para Londres, juntos..

– Ora, vovó, a srta. Verrere cortaria a minha cabeça; se eu insistisse em ir sozinho.

– Sem dúvida. Não permitirei que se divirta sozinho.

– Impossível! – lady Neville decretou.

– Sua avó tem razão – Violet concordou. – Vocês não podem viajar sozinhos.

Philip suspirou.

– Nesse caso, teremos de levar companhia apropriada. Philip olhou para a mãe, quê sacudiu a cabeça com veemência.

– Não posso deixar Haverly, uma vez que temos hóspedes – Violet declarou.

– Não olhe para mim – lady Neville advertiu-o, antes mesmo que ele se virasse para ela. – Sou velha demais para viajar.

Philip rangeu os dentes.

– Bem, vejo que teremos de levar a tia de Cassandra.

Violet exibiu um sorriso largo.

– Excelente idéia!

– Para vocês, talvez – o filho resmungou.

Philip imaginou-se dentro da carruagem, com as duas Moulton, e a viagem perdeu o encanto. Mas bastou um olhar para o semblante animado de Cassandra para ele se esquecer do inconveniente. Seria capaz de suportar coisas muito piores, para vê-la feliz.

 

A felicidade de Ardis diante da perspectiva de ser hóspede de sir Philip Neville, em Londres, em plena temporada social, foi indescritível. Todos foram forçados a ouvir seus agradecimentos efusivos, além de insinuações sobre a afeição de sir Philip por “uma certa jovem” ser o verdadeiro motivo do convite. Violet limitou-se a sorrir. Na verdade, concordava com a sra. Moulton, embora não fosse tola o bastante para imaginar que era em Joanna que o filho estava interessado.

Lady Neville chegou à mesma conclusão e, mais tarde, naquela noite, sussurrou ao ouvido da nora:

– Eu não me surpreenderia se Philip nos comunicasse intenções de casamento, em breve. O que me surpreende é o fato de ele ter escolhido justamente uma Verrere.

– Ela parece ser uma excelente moça.

– Inteligente. Philip sempre demonstrou grande inclinação nessa direção. E ela não deve ter dinheiro algum, pois os Verrere nunca foram bons nos negócios. Meu sogro deve estar se revirando no túmulo!

– Será divertido comprar o enxoval – Violet comentou, animada com a possibilidade.

Lady Neville assentiu.

– Só espero que as desagradáveis Moulton não fiquem aqui, para sempre!

Naquele exato momento, a sra. Moulton cansava os ouvidos de Cassandra, com suas convicções sobre a paixão de Philip por Joanna. A filha, por sua vez, parecia prestes a explodir de satisfação, enquanto ouvia as palavras da mãe. Cassandra perguntou-se como as duas podiam ser cegas a ponto de não perceberem que Philip evitava Joanna o máximo que podia. Ele havia se fechado na biblioteca assim que a mãe e a avó haviam se retirado para seus aposentos.

– Tia Ardis – acabou interrompendo -a tia, pois já não suportava mais tanta tagarelice –, tem certeza de que sir Philip está interessado em Joanna?

A tia fitou-a, chocada.

– É claro que tenho! Por que mais ele nos convidaria para ir a Londres?

Cassandra não poderia explicar que ele as convidara apenas para que ela pudesse acompanhá-lo, pois Ardis seria capaz de se recusar a ir. Assim, tentou outra estratégia:

– Ele chegou a conversar com a senhora sobre as intenções dele para com Joanna?

– Não, mas ainda é cedo demais para isso. Você não está familiarizada, como eu e Joanna, com os sinais de um homem apaixonado. Sir Philip está dando todos os sinais.

– Verdade?

– Ah, sim. Não viu quando ele apanhou o leque de Joanna, ainda há pouco?

– Ela derrubou o leque aos pés dele. O que mais ele poderia fazer?

– E, todas as noites, ele se senta ao lado dela, depois do jantar.

– Ora, Joanna praticamente cola-se nele, no momento em que o vê!

– Você está com ciúme! – Joanna acusou-a.

Pensa que não percebi que está interessada nele? Saber que ele prefere a mim fere o seu orgulho. Não viu como ele se sentou ao meu lado, esta noite?

– Você se sentou ao lado dele – Cassandra corrigiu. – Estava no sofá, quando ele chegou e, então, foi se sentar na poltrona azul.

Joanna lançou-lhe um olhar fulminante.

– Espero que não esteja pensando que ele tem algum interesse em você, só porque passam o dia todo naquela biblioteca, trabalhando nessa tolice de história de famílias. Homem nenhum gosta de mulheres que sabem tanto sobre livros.

Cassandra decidiu não dizer mais nada. Era evidente que seria perda de tempo fazer a tia e a prima enxergarem a realidade.

– Bem, não creio que esta conversa vá chegar a algum lugar – declarou. – Vou me deitar.

Saiu da sala ignorando o sorriso triunfante de Joanna, que acreditava haver derrotado a inimiga. Quando chegava à escada, parou. Era cedo ainda, e a expectativa e ir a Londres e encontrar o livro da rainha havia lhe tirado o sono. Decidiu que um passeio pelo jardim, ao luar, lhe faria bem. Assim, virou à esquerda e saiu por uma porta lateral.

Caminhou por entre os canteiros, permitindo que a luz do luar e o perfume das rosas a acalmassem. Quando chegou nos limites do jardim, onde alguns degraus levavam a um imenso gramado, parou para apreciar a paisagem noturna. Era possível divisar o pequeno lago artificial e a casa de veraneio, à sua margem.

– Já esteve lá?

Sobressaltada, Cassandra virou-se e deparou com Philip, que sorria.

– Você me assustou! – queixou-se. – Como se aproxima, assim, tão sorrateiro?

– Esse é apenas um, entre os muitos talentos que possuo. Vim pelo meio dos canteiros, para alcançá-la. Estava na janela da biblioteca e vi quando você saiu.

– Achei que um passeio me acalmaria. Não consigo parar de pensar na viagem a Londres.

– Receio que tenhamos de adiar a viagem por alguns dias.

– Por quê?

– O administrador de minhas propriedades voltou a me visitar, hoje. Desde que chegamos, ele vem insistindo para que eu tome algumas providências, mas consegui adiar a tarefa até agora. Esta noite, porém, ele foi inflexível. Disse que preciso resolver alguns problemas, com urgência.

– Ah...

– Sinto muito, mas não tenho saída.

Cassandra sorriu.

– Eu compreendo. Não posso esperar que passe o tempo todo comigo, cuidando dos meus problemas.

– Seus problemas são meus, também. Além disso, gosto muito mais de passar meu tempo ao seu lado, do que de qualquer outra pessoa.

Ficaram ali, parados, olhando um para o outro. Cassandra disse a si mesma que não era uma boa idéia estar sozinha com Philip, à noite, no jardim.

– Preciso entrar – murmurou.

– Eu também.

Nenhum dos dois se moveu.

– Você é linda – Philip falou com voz suave. Cassandra sorriu.

– O luar deve estar afetando a sua visão. Sou, simplesmente, passável.

– Passável! – Ele estendeu a mão para afagar-lhe os cabelos. – Sua pele parece cetim. Seu nariz é perfeito. Tem os olhos mais inteligentes e alegres que já vi. Como tudo isso poderia ser classificado como “passável”?

Cassandra mal conseguia respirar.

– O senhor é minoria.

– Verdade? Ora, mas sou arrogante o bastante para acreditar que a minha opinião é a única que importa. Cassandra não conteve um sorriso.

– Sua boca – ele continuou, tocando de leve os lábios dela com as pontas dos dedos – é a boca mais tentadora que já tive o prazer de beijar.

Com isso, segurou o rosto dela entre as mãos e inclinou-se para beijá-la.

Embora fosse apenas um beijo rápido e suave, Cassandra sentiu o corpo em chamas. Colocando-se na ponta dos pés, passou os braços em torno do pescoço de Philip e voltou a colar os lábios aos dele.

Philip gemeu baixinho e apertou-a contra si. Beijaram-se longamente, intensamente, acariciando um ao outro com mãos trêmulas pelo desejo crescente.

Quando a mente já não registrava nada além da determinação de fazer amor com Cassandra, Philip descolou os lábios dos dela. Esforçando-se para não perder de vez a cabeça e deitá-la ali mesmo, no gramado, olhou em volta, à procura de um lugar onde pudessem se amar, sem serem surpreendidos.

Seus olhos pousaram no pequeno terraço construído nos limites do gramado, à margem do lago.

– Venha – sussurrou, puxando Cassandra pela mão.

 

Cassandra sabia que deveria protestar, resistir... ao menos, hesitar. Mas não podia, pois o desejo que tomara conta de Philip assumira também o controle dos atos dela. E não havia lugar para preocupações com responsabilidade, ou impropriedade. Nos últimos dias, haviam passado o tempo todo juntos, o que mantivera acesa a chama do desejo. Cassandra sabia que o autocontrole de Philip era um sinal do respeito que tinha por ela, uma indicação de que os rumores sobre ele não correspondiam sequer a parte da realidade. Ao mesmo tempo que era bom saber como ele se sentia com relação a ela, Cassandra não poderia dizer que gostara de tal comportamento. Cada vez que seus dedos se tocavam acidentalmente, que seus olhares se cruzavam, ela se lembrava da paixão que os beijos dele lhe despertavam, e queria sentir aquela paixão novamente.

Quando chegaram no terraço à beira da água, Philip voltou a tomá-la nos braços. Então, beijou-a com ardor. O corpo de Cassandra parecia haver adquirido vida própria. Seus sentidos aguçados registravam o sabor e o calor de Philip, assim como o som da água que banhava o pequeno os pilares que sustentavam parte do terraço, e a brisa fresca que lhe acariciava a pele em brasa.

Philip desabotoou-lhe o vestido e, com movimentos lentos, quase reverentes, soltou as fitas que prendiam a fina combinação ao corpo de Cassandra. Por um longo momento, limitou-se a observar os seios expostos, com admiração. Então, pousou as mãos sobre eles, acariciando os mamilos já rijos, deleitando-se com a reação inconfundível de Cassandra.

– Sonho com isso há semanas – ele murmurou. – Desde que nos conhecemos. Os últimos dias foram um verdadeiro inferno. Tive de lutar com todas as forças para não beijá-la, não tocá-la, embora a desejasse mais do que tudo em minha vida. Cassandra, você não faz idéia de como me sinto, quando estamos juntos.

– Sei como eu me sinto – ela replicou, começando a desabotoar os botões da camisa dele.

Philip fechou os olhos, enquanto Cassandra abria sua camisa. Quando chegou ao último botão, ela deslizou as mãos pelo peito largo, a fim de afastar o tecido. Ele gemeu baixinho, imóvel, entregue às sensações provocadas pelas carícias dela. Encorajada, pela reação dele, Cassandra explorou cada saliência e cada reentrância, sentindo o contorno de músculos e ossos, enroscando os dedos nos pelos negros e sedosos.

Livrando-se da camisa e atirando-a no chão, Philip voltou a beijá-la. Os seios de Cassandra pressionaram-lhe o peito. O contato de seus corpos, semi-despidos, fez crescer ainda mais o desejo de ambos. Cassandra descobriu-se querendo mais. Queria sentir o corpo inteiro de Philip, colado ao seu, sem barreiras. Queria senti-lo dentro de si. .

A idéia provocou-lhe um sobressalto, mas ela sabia que teria de ser aquele o desfecho do que haviam começado. Afastou-se de Philip que, por um momento, fitou-a com ar confuso. Então, começou a desabotoar a saia e tirar o volumoso saiote. Philip observou-a com olhar faminto, enquanto também acabava de se despir.

Uma vez nua, Cassandra ergueu os olhos para Philip. O embaraço causado por se mostrar inteira, pela primeira vez, a um homem, logo cedeu lugar ao orgulho e ao prazer, conseqüências da admiração evidente nos olhos dele. A constatação da nudez de Philip foi, de início, um choque. Porém, assim como a dela, logo se transformou em poderoso combustível para o desejo que a incendiava.

Philip pousou as mãos nos ombros de Cassandra e, lentamente, deslizou-as por sobre seus seios, seu ventre, acompanhando a curva dos quadris e descendo pelas coxas. Então, voltaram a subir, com a mesma lentidão e reverência. Em seguida, Philip colocou-se atrás de Cassandra, passando a explorar-lhe as costas e as nádegas.

Beijou-lhe o ombro, então o pescoço, enquanto uma de suas mãos acariciava-lhe os seios. A outra, depois de mover-se em círculos sobre o ventre liso de Cassandra, desceu devagar, até encontrar seu caminho por entre as coxas dela.

Cassandra sentiu os joelhos trêmulos e chegou a pensar que eles fossem vergar sob o peso de seu corpo. O prazer provocado pelas carícias íntimas de Philip era tão intenso, que ela não estava certa de que seria capaz de suportar as sensações que invadiam seu corpo. Mas Philip apertou-a contra si com um braço firme, sem jamais interromper a exploração detalhada e maravilhosa de sua intimidade, ou os beijos ardentes em seu pescoço e ombros. Sem que se desse conta do que fazia, Cassandra moveu os quadris, no ritmo imposto pela mão Philip entre suas pernas.

A reação inesperada dela quase pôs fim ao tênue controle que Philip mantinha sobre seus impulsos. Por um momento, ele ficou im6vel, respirando fundo, lutando contra o desejo que ameaçava sufocá-lo. Então, virou Cassandra de frente para si e voltou a beijá-la com ardor ainda maior.

Ela retribuiu o beijo com igual paixão, deslizando as mãos pelo corpo dele. Tomada por uma ousadia surpreendente, explorou cada centímetro do peito e do abdome de Philip, descendo lentamente até tocá-la com intimidade.

Os músculos de Philip ficaram tensos e ele emitiu um gemido quase animal. Depois de deleitar-se com as carícias dela por alguns instantes, tomou-a nos braços e foi acomodá-la em um dos longos bancos estofados, que acompanhavam a cerca do terraço.

Por um momento, fitou-a nos olhos, hesitante.

– Tem certeza de que é isto o que você quer? – perguntou.

Como resposta, Cassandra abriu os braços para recebê-lo. Com um sorriso satisfeito, Philip deitou-se e posicionou-se sobre ela. Sem nunca deixar de beijá-la, penetrou-a lentamente, a princípio, até vencer a barreira imposta pela virgindade.

Cassandra sentiu uma pontada de dor, um certo desconforto, mas que só durou alguns segundos. No momento em que sentiu Philip dentro de si, descobriu que as sensações de que havia desfrutado até aquele momento eram apenas uma amostra do verdadeiro prazer.

Ele logo passou a se mover mais e mais depressa, fazendo com que o desejo dela a impedisse de pensar, permitindo-lhe apenas sentir. Pouco a pouco, a tempestade de sensações foi atingindo seu pico e Cassandra soltou um grito de prazer, ao mesmo tempo em que seu corpo sacudia, como se abatido por ondas poderosas e incontroláveis. No mesmo instante, Philip também emitiu um som rouco e sufocado, estremecendo.

Lentamente, o mundo voltou a existir. Philip rolou para o lado, deitando-se de costas e aconchegando Cassandra em seus braços.

Nunca antes ela sentira tamanha paz. Estar nos braços de Philip era como estar em casa, o seu verdadeiro lugar no mundo.

 

Cassandra despertou com a luz do sol atingindo-lhe o rosto. Com um gemido sonolento, virou-se e afundou a cabeça no travesseiro, mas não conseguiu voltar a dormir. Então, espreguiçou e continuou deitada, lembrando-se dos acontecimentos da noite anterior.

Não haviam ficado por muito tempo no terraço. Philip fora o primeiro a recuperar-se do agradável estado de sonolência em que haviam mergulhado, dizendo que deveriam voltar logo para dentro. A última coisa que desejava era que alguém desse pela falta de Cassandra e saísse para procurá-la. Cassandra, porém, sentia-se feliz demais para se preocupar com a própria reputação. Mesmo assim, concordou com Philip e vestiu-se apressada, antes de voltar com ele pelas alamedas do jardim. Entrou sozinha, por uma porta lateral e subiu pela escada dos fundos, indo direto para seu quarto. Felizmente, não encontrou ninguém pelo caminho e, poucos minutos depois, dormia profundamente. Portanto, aquela era a primeira vez que realmente refletia sobre o que acontecera..

Seus lábios curvaram-se em um sorriso. Amava Philip. Tal certeza a atingira quando se encaminhavam para o terraço. Naquele momento, Cassandra sabia exatamente o que estava fazendo e estava consciente das possíveis conseqüências. Caso tivesse alguma dúvida sobre seus sentimentos por Philip, teria hesitado. Porém, seu coração apresentara a mesma certeza manifestada por seu corpo.

Cassandra sabia que casamento não seria o resultado daquela noite de amor. Em uma coisa, sua tia tinha razão: homens como Philip não se casavam com mulheres sem fortuna. Mas isso não fazia a menor diferença. A única coisa que importava era saber que amava Philip e poder desfrutar daquele sentimento tão sublime.

Era uma mulher perdida, agora. Se alguém descobrisse o que acontecera na noite anterior, sua reputação estaria arruinada. Certamente, àquela altura, uma mulher virtuosa estaria se consumindo em remorso e arrependimento, o que Cassandra simplesmente não conseguia sentir. Ao contrário, descobriu-se invadida por uma felicidade que jamais conhecera antes.

Levantou-se e tocou a sineta, chamando a criada. Tomou banho e vestiu-se sem pressa. Quando desceu para tomar o desjejum, os pratos e travessas haviam sido retirados há muito tempo. Assim, ela se contentou com uma xícara de chá e algumas torradas, servidas por um criado. Ele também a informou de que Philip saíra cedo, dizendo que, provavelmente, só voltaria para o jantar.

O dia perdeu parte do brilho, depois que Cassandra recebeu tal notícia. Sentiu-se grata por ter dormido até tão tarde. Passou o resto do dia arrumando as malas para a viagem a Londres e, depois, passou algumas horas na sala de estudos, ouvindo apenas parte do que as crianças diziam, pois sua mente vagava pelas lembranças adoráveis da noite anterior..

Só voltou a ver Philip na hora do jantar. Assim que Cassandra apareceu, os olhos dele fixaram-se nos dela, exibindo um brilho que somente os dois poderiam compreender. Trocaram apenas umas poucas palavras em particular, participando da conversa geral, tanto durante a refeição, quanto depois, na sala de estar. Porém, Cassandra notou que, toda vez que olhava para Philip, ele a observava com uma expressão que ela nunca vira antes em seu rosto..

Perguntou-se o que aconteceria mais tarde, se ele se arriscaria a visitá-la, em seu quarto. Para isso, Philip teria de percorrer o corredor inteiro, passando pelos quartos da mãe, da avó e das duas Moulton. Seria perigoso, claro, mas ela não pôde deixar de desejar ardentemente que ele ousasse correr tal risco.

Assim, preparou-se para dormir com cuidado muito maior que o habitual. Tomou um banho longo e perfumado, escovou os cabelos até que eles brilhassem, e deixou-os soltos, em vez de prendê-los na costumeira trança. Como todas as suas camisolas fossem muito simples, de algodão branco, sem rendas ou babados, acabou escolhendo uma combinação que, geralmente, usava por baixo do vestido. Era simples, também, mas sem mangas e bastante decotada, escondia menos de seu corpo do que as camisolas de mangas compridas, fechadas até o pescoço.

Cassandra deitou-se, apagou o lampião e esperou pelo som dos passos de Philip. O que não aconteceu e, depois de uma longa espera, ela adormeceu.

Acordou com a sensação de que o colchão macio movia-se sob o peso de seu corpo. Antes que despertasse completamente, sentiu a mão firme deslizar por sua cintura. Então, Philip sussurrou ao seu ouvido:

– Sou eu. Não grite.

– Philip!

Cassandra: virou-se para ele com um sorriso.

– Desculpe-me por tê-la acordado. Quis ter certeza de que todos dormiam. Vovó tem ouvidos excelentes, quando lhe interessa..

– Estou contente por você ter vindo.

– Está? – Ele se inclinou para beijá-la de leve nos lábios. – Fiquei em dúvida se deveria, mas lembrei-me de que você não foi exatamente hostil, durante o jantar.

Ela riu.

– De fato, não fui.

Pensou em perguntar como fora o trabalho que ele fizera durante o dia, ou sobre a iminente viagem a Londres, mas deu-se conta de que não tinha vontade de conversar sobre isso, ou sobre qualquer outra coisa.

– Precisamos conversar – Philip declarou, afagando-lhe os cabelos. – Lamento ter passado o dia todo com Simpson, mas creio que amanhã será o mesmo. E, depois, quando estivermos a caminho de Londres, sua tia e sua prima estarão conosco o tempo todo. Portanto, temos de conversar agora.

Os olhos dele passaram a seguir a ponta dos dedos que passeavam pelo decote de Cassandra. Philip pareceu ter perdido a seqüência do que estava dizendo, mas ela não se importou. Definitivamente, não tinha o menor desejo de conversar. Algo lhe dizia que ele queria estabelecer parâmetros para aquele relacionamento e era isso, justamente, que ela não queria ouvir.

– Teremos tempo de sobra para conversar – Cassandra murmurou, deslizando a mão pelos ombros dele.

– O quê? Ah, sim, conversaremos mais tarde.

Philip beijou-a e, a partir daquele momento, falaram muito pouco.

 

Cassandra estava sozinha, quando acordou. Não havia esperado o contrário. Ao adormecer nos braços de Philip, sabia que ele logo voltaria ao quarto dele. Sentia-se grata por ele demonstrar tamanha preocupação com a sua reputação, mas ficou imaginando como seria bom acordar junto dele todas as manhãs. Imediatamente, repreendeu-se por se deixar levar por aquele tipo de fantasia. Isso jamais aconteceria e ela tinha de se acostumar à idéia.

Mais uma vez, não tinha muito o que fazer, com Philip longe de casa. No final da manhã, sua bagagem já estava pronta e a maior parte das malas da tia e da prima também já fora organizada. Joanna parecia muito satisfeita e Cassandra suspeitou que o motivo da alegria excessiva era o fato de Philip não estar passando o dia todo com Cassandra, como fizera desde que haviam chegado ali. Chegava a ser divertido pensar em como a prima estava enganada com relação aos sentimentos de Philip. Ainda assim, o sorriso petulante de Joanna a irritava..

Logo após o almoço, uma das criadas bateu na porta do quarto de Cassandra e entregou-lhe um bilhete.

Cassandra abriu-o e, ao ler a mensagem, sorriu. Era de Philip. Ele dizia que já estava terminando o trabalho que fora fazer com Simpson e pedia que ela fosse encontrá-lo às duas horas, no velho mosteiro.

Sem perder tempo, Cassandra vestiu o traje de montaria e correu para o estábulo. Depois de convencer o cavalariço de que não precisava de companhia, pois estava costumada a cavalgar sozinha, partiu, ansiosa, para seu destino.

Acabou chegando cedo demais e pão ficou surpresa ao constatar que Philip ainda não estava lá. Como o mosteiro fosse um dos lugares mais agradáveis, entre os que ela visitara ali, Cassandra não se importou. Desmontou, amarrou o cavalo a uma árvore e pôs-se a caminhar, espiando o que restava de vários aposentos do mosteiro..

Ouviu um ruído e virou-se, certa de que Philip havia chegado. Porém, não havia nada além de ruínas. Assim, continuou seguindo pelo que já fora um corredor. Quando passava por uma outra abertura, ouviu outro ruído. Desta vez, não teve tempo de virar-se, pois algo atingiu-a na cabeça, derrubando-a no chão. Primeiro, foi a dor lancinante. Então, veio a escuridão.

Cassandra recobrou a consciência lentamente. Sua cabeça latejava e ela sentiu-se nauseada. Abriu os olhos, descobrindo imediatamente que aquele fora um grande erro. Voltou a fechá-los e esperou que o mundo parasse de girar. Então, ficou ali, deitada, tentando ordenar os pensamentos.

Estava estendida sobre algo duro, um assoalho de madeira, talvez. O odor de poeira fez suas narinas arderem. Era abafado ali e o silêncio era total. Devagar, sua mente clareou, e ela se lembrou de que estava no mosteiro, caminhando pelo corredor, quando algo a atingiu. Sentira o rosto contra o chão e uma dor terrível na cabeça.

A lembrança fez a cabeça latejar novamente, mas não apagou a sua confusão. Onde estava? O que a atingira? A primeira idéia que lhe ocorreu foi de que uma pedra havia se soltado das paredes em ruínas e caído sobre ela. Porém, mesmo atordoada como estava, não demorou a concluir que tal teoria não fazia sentido. Se fosse assim, ainda estaria no mosteiro, não em um lugar fechado e escuro..

Com cuidado, ergueu a cabeça e foi se levantando, até encontrar-se sentada. Esperou que a náusea se dissipasse e, então, olhou em volta.

Não fazia idéia de que lugar era aquele. Tratava-se de uma construção redonda, muita alta. As paredes eram de tijolos e havia quatro janelas pequenas no alto. Uma escada de madeira, sem a maior parte dos degraus, subia até o teto, onde havia um buraco quadrado. No centro da construção uma espécie de pilar subia, até atravessar o teto. Em tomo do pilar, no chão, havia um tipo de máquina, com engrenagens. Tudo parecia muito velho, em desuso há muito tempo. Uma espessa camada de poeira cobria tudo.

No chão, havia uma marca, que começava onde Cassandra se encontrava e se estendia até uma pequena porta de madeira. Ela calculou que fora por ali que alguém a arrastara para dentro daquele lugar. Porém, não havia sinal da presença de qualquer outra pessoa ali.

Cassandra perdeu de vez a esperança de que havia sofrido um acidente. Era evidente que alguém a atacara, propositadamente, e a escondera naquele lugar estranho.

Levantou-se devagar, esperando até que a tontura e a dor cedessem. Então foi até a porta. Não que tivesse esperança de encontrá-la destrancada, mas tinha de tentar.

Como esperava, a porta não se moveu nem um milímetro, mesmo quando ela apoiou todo o peso de seu corpo contra ela. Com um suspiro, voltou a sentar-se no chão, apoiando as costas na porta. Onde estava, afinal? Aquele lugar lhe parecia tão estranho, que era como se ela houvesse sido transportada para um outro mundo.

Ficou ali sentada por um longo tempo, até que, de repente, deu-se conta de onde estava. Aquele só poderia ser um dos tantos moinhos que ela vira, espalhados pela propriedade. Tal constatação não era nada animadora, uma vez que confirmava suas suspeitas de que fora escondida em um lugar onde as pessoas nunca iam. Perguntou-se se alguém pensaria em procurá-la ali. Decidiu que o melhor a fazer seria pensar em um meio de escapar, em vez de esperar que alguém desse por sua falta e saísse à sua procura.

Levantou-se e voltou a examinar a porta, mas logo deu-se conta de que estava firmemente fechada por fora. Também não encontrou nenhuma dobradiça que pudesse tentar desmontar. Concluindo que seria impossível escapar, começou a esmurrar a madeira resistente e gritar por socorro, mas não obteve qualquer resposta.

Parou de bater e gritar e começou a andar pelo lugar, considerando as possibilidades e tentando ignorar o estômago, que começava a roncar de fome. Percebendo que a luz que entrava pelas janelas diminuíra, calculou que já passara da hora do chá. Teria de agir depressa, se não quisesse passar a noite ali. As janelas eram altas demais e, depois de examinar a escada apodrecida, decidiu que tentar subir por ela estava completamente fora de questão.

Pôs-se a fazer um inventário dos objetos dentro do moinho. Não eram muitos. Encontrou uma vassoura, que poderia ser útil, caso a pessoa que a atacara decidisse voltar. Havia também uma corda e ela logo tentou pensar em uma maneira de usá-la para chegar às janelas. Infelizmente, não havia nas paredes nada que ela pudesse usar como apoio. Restavam apenas uma cadeira quebrada, alguns parafusos e um pedaço de metal, que parecia ser uma peça que se soltara das engrenagens. Depois de muito refletir, Cassandra decidiu que a cadeira e o pedaço de metal serviriam melhor como armas, do que a vassoura.

Levou os achados para perto da porta e bateu na madeira com cada um deles, na esperança de que alguém a ouvisse. Depois de vários minutos de esforço vão, desistiu. Pensou em atirar algo por uma das janelas. Se alguém estivesse por perto, certamente notaria. O que não era provável, especialmente, com a noite se aproximando. Bem, ao menos, teria algo para fazer, em vez de ficar sentada, aumentando ainda mais a sua aflição. Era possível que, no dia seguinte, alguém visse o objeto caído junto ao moinho e decidisse investigar.

Apanhou uma perna da cadeira quebrada e atirou-a contra uma das j anelas. Nas primeiras, duas tentativas, o pedaço de madeira atingiu a parede. Na terceira, bateu na janela; mas sem força para quebrá-la. Foram necessárias mais quatro tentativas, antes que a perna da cadeira atingisse o centro do vidro, atravessando-o.

Cassandra soltou vitorioso e pulou e bateu palmas. Alguns minutos depois, novamente desanimada, voltou a sentar-se ao lado da porta. Conseguira realizar o feito, mas o que ganhara com isso?

O estômago voltou a roncar, lembrando-a de que não comia há muitas horas. O moinho tornava-se mais escuro a cada minuto e sombras assustadoras começavam a se formar. A idéia de passar a noite ali não era nem um pouco atraente.

Levantou-se, apanhou a cadeira quebrada e bateu com ela contra as engrenagens do moinho diversas vezes, até conseguir que outra perna se soltasse. Aquela, pensou, seria a sua melhor arma. Então, voltou para o seu lugar, junto da porta, empunhando a perna da cadeira em uma das mãos e a chapa metálica na outra. Não conseguiu pensar em mais nada que pudesse fazer para sair dali, ou para se proteger. Ao menos, estava bem armada, para o caso de receber uma visita noturna.

Não havia razão para a pessoa que a atacara voltar ali. Por outro lado, também não havia razão para quem quer que fosse atacá-la. Quem ganharia alguma coisa com isso? Cassandra não podia imaginar que alguém a detestasse a ponto de fazer uma barbaridade como aquela. A única pessoa que lhe ocorreu foi Joanna, que ficava cada dia mais furiosa pelo tempo que Philip passava na companhia de Cassandra. Joanna, porém, era preguiçosa demais para levar a cabo um plano tão elaborado. E, além disso, como poderia, miúda e delicada como era, ter conseguido arrastar Cassandra, inconsciente, do mosteiro até o moinho?

Não. Essa idéia era absurda.

O motivo só poderia estar relacionado com o tesouro, Cassandra concluiu. Provavelmente, a pessoa que invadira o sótão de Chesi1worth e a biblioteca da Mansão Haverly fora a mesma que a atacara. Ainda assim, era difícil compreender por que alguém a seqüestraria e trancaria ali. Ela e Philip ainda não haviam encontrado O segundo mapa. E se tal pessoa queria roubar o mapa encontrado em Chesilworth, por que atraí-la até o mosteiro e atingi-la na cabeça? Teria sido muito mais fácil roubar o mapa de seu quarto.

O único resultado possível de trancá-la ali, seria adiar a viagem a Londres. Mas, que lucro isso traria a alguém? Talvez o ladrão tivesse a chance de encontrar o livro, em Londres. Ao mesmo tempo, como saberia pelo que procurar? Ela e Philip haviam se inteirado de que livro procuravam havia poucos dias e só comentaram o acontecido com os familiares mais próximos. Nada daquilo fazia o menor sentido.

Só faria sentido se... Sua mente esquivou-se ao pensamento. Cassandra olhou em volta. A escuridão, agora, era total. Ouviu um rangido e sobressaltou-se. Disse a si mesma que era tolice assustar-se com ruídos. Não havia mais ninguém ali, disso tinha certeza. O moinho era velho e seria normal ouvir estalos e rangidos, mas não havia motivo para se assustar.

Infelizmente, os pensamentos corajosos pouco fizeram para tranqüilizá-la. Afinal, havia, realmente, algo a temer, mesmo que não estivesse ali dentro, com ela. Alguém a arrastara para lá e ela não fazia idéia de quando, ou como, conseguiria escapar. Se conseguisse.

Teria tal pessoa planejado deixá-la ali para morrer de fome?

Não. A sede a mataria antes. Já fazia algum tempo que sentia a boca e a garganta secas, o que se exacerbava por causa da poeira. Cassandra forçou-se a ignorar a fome, a sede e os ruídos estranhos que atravessavam a escuridão. Era como ignorar um elefante, bem à sua frente.

Voltou a pensar em quem fizera aquilo e por quê. Talvez Philip estivesse certo quanto a David Miller. Era mesmo suspeito o fato de ele ter aparecido, justamente quando ela procurava pelo mapa. O fato de ele parecer honesto e confiável não significava nada. Um vilão frio e calculista não encontraria dificuldade em fingir ser um anjo. David poderia ter lido os diários e, por não fazer idéia de como chegar aos mapas, vendera-os em Londres, na esperança de que o comprador o levasse ao tesouro.

Ainda assim, Cassandra não pôde evitar que a mesma pergunta a atormentasse: que lucro David Miller teria, ao trancá-la em um velho moinho? Não fazia sentido. A única pessoa que se beneficiaria... Cassandra parou, mas, então, forçou-se a levar o pensamento até fim, pois tinha de enfrentá-lo. A única pessoa que se beneficiaria de seu desaparecimento, ou de sua morte, era Philip.

 

– Ora, isso era ridículo! Furiosa, Cassandra levantou-se de um pulo, mas, como não tinha para onde ir, respirou fundo e voltou a sentar-se. Rejeitou a idéia de pronto. Philip jamais lhe faria mal! No entanto, lembrou-se, seria uma tolice perigosa não examinar todas as possibilidades. Especialmente, as mais óbvias.

Philip vira o mapa de Chesilworth diversas vezes. Poderia, inclusive, ter feito uma cópia. Agora, sabia exatamente o que procurar, em Londres. Seria fácil encontrar o livro, sem a ajuda de Cassandra. Com ela fora de seu caminho, teria o dote todo para si.

Cassandra estremeceu. Não! Não poderia acreditar. Philip não teria sido capaz de beijá-la e acariciá-la, de fazer amor com ela de maneira tão tema e apaixonada, para então, abandoná-la à morte, com tamanha frieza!

Porém, não conseguiu ignorar a voz fria e lógica da razão, que apontava para a possibilidade de ele não ter tido coragem de matá-la e, então, decidira deixá-la ali. Afinal, se não a matasse com as próprias mãos, talvez pudesse simplesmente esquecer o que fizera.

– Não – Cassandra negou em voz alta, como se discutisse a questão com outra pessoa..

Philip não era um covarde. Se decidisse matar alguém, mataria, simplesmente. E ela não acreditava que ele pudesse matá-la. Não tinha a ilusão de que Philip a amava, mas ele não era o tipo de homem capaz de fazer amor com uma mulher e, depois, matá-la.

Ora, mas ele não teria de matá-la. Bastaria adiar a viagem. Não seria necessário ir a Londres para encontrar o livro. Àquela altura, Philip já enviara uma carta ao seu homem de confiança, em Londres, pedindo que ele localizasse o registro de venda do livro. Também o instruíra para reaver o livro, mesmo que tivesse de dispor de uma alta quantia para isso. Tudo o que Philip precisava era dar tempo ao seu agente. Afinal, ele já conseguira adiar a partida em dois dias, por causa dos “negócios” que tinha de resolver com o administrador. Seria possível que não houvessem negócios a tratar e que tudo não passasse de uma tática desleal?

Tal desculpa serviria apenas por um ou dois dias, mas se Cassandra fosse seqüestrada, ele ganharia mais um ou dois dias, enquanto procuravam por ela. Então, provavelmente, ela ainda precisaria de mais algum tempo para se recuperar. Assim, o agente teria tempo de sobra para encontrar o livro. Quando Philip e Cassandra finalmente fossem a Londres, ele fingiria fazer tudo para localizar o livro, mas não o encontraria... quando, na verdade, já o teria.

Cassandra sentiu fortes náuseas. Era horrível, mas fazia sentido. Na verdade, era a única hipótese que fazia real sentido. Se qualquer outra pessoa estivesse à procura do livro, de nada adiantaria trancá-la ali. Tal pessoa precisaria dos dois mapas e seqüestrá-la não ajudaria em nada. Exceto Philip. E fora um bilhete dele que a levara ao mosteiro.

Apoiou-se na parede, sentindo as lágrimas molharem suas faces. Não podia ser Philip! Por mais sentido que fizesse, ela se recusava a acreditar. Amava-o e não poderia ter se enganado tanto. Não poderia amar um homem tão falso e ganancioso. E por que Philip faria amor com ela, se não se importava em deixá-la em um moinho abandonado, durante dias, assustada, faminta e com sede? Fazer amor com ela não mudaria em nada os planos dele.

Lembrou-se das suspeitas que alimentara com relação a Silverwood e de como estivera enganada sobre Philip. Agora, o mesmo acontecia. Estava tirando conclusões precipitadas, sem que tivesse evidências suficientes. Não poderia condená-lo, baseada em meras suposições.

No entanto, apesar de tal decisão, as dúvidas voltaram a atormentá-la diversas vezes durante a noite. Sozinha na escuridão, era difícil controlar o medo. Sobressaltava-se a qualquer ruído e, embora se sentisse esgotada, tinha medo de adormecer, pois ficaria vulnerável demais.

Pareceu a Cassandra que uma eternidade havia se passado quando, finalmente, o dia começou a amanhecer. Embora soubesse ter passado a noite inteira naquela mesma posição, agora sentia que podia suportá-la. Apoiou a cabeça na parede, fechou os olhos e adormeceu.

Quando acordou, descobriu-se deitada de lado, encolhida, no chão empoeirado. Sentou-se devagar, tentando analisar a situação bizarra em que se encontrava. Percebeu que o moinho estava bastante claro e bem mais quente. Deu-se conta de que o sol já estava alto no céu. Perguntou-se que horas seriam e por que acordara.

Levantou-se, esticando cuidadosamente os músculos rijos e doloridos. Daria tudo por um gole de água. Comida era o segundo item em sua lista de prioridades.

Decidiu que fazer barulho, na tentativa de ser encontrada, podia não fazer sentido durante a noite, mas, de dia, era possível que alguém a ouvisse. Assim, apanhou a chapa de metal e bateu com ela na porta até seus ouvidos doerem. Então, parou desanimada e pôs-se a andar de um lado para outro, sem saber o que mais poderia fazer. Foi quando ouviu algo.

Cassandra ficou imóvel e parou de respirar, apurando os ouvidos. O som se repetiu, distante, fora do moinho. Ao ouvir pela terceira vez, pareceram... vozes! Sim, eram vozes!

– Socorro! Alguém, por favor, ajude-me! – gritou, desesperada, olhando para a janela que havia quebrado na véspera. – Socorro!

As vozes foram se aproximando, até que ela reconheceu o chamado de Crispin:

– Cassandra!

– Crispin! Hart! Sou eu!

– Estou ouvindo! – um deles gritou em resposta e, quando voltou a falar, era evidente que estava mais perto. – Ali! O moinho!

Cassandra pulava e gritava como louca. De repente, correu até a porta e pôs-se a bater com a chapa de metal. Ouviu outras vozes e, então, Hart exclamou:

– Vejam! A porta está bloqueada! Richie, vá chamar sir Philip!

Depois de muito barulho, a porta se abriu e Cassandra atirou-se para fora..

– Crispin! Hart! – gritou, abraçando os dois irmãos, rindo e chorando, ap mesmo tempo. – Nunca em minha vida senti tamanha felicidade por ver alguém!

Os dois meninos puseram a falar e fazer perguntas, sem parar.

– O que você foi fazer lá dentro?

– Sabia que está imunda?

– Estamos procurando por você desde ontem, quando não apareceu para o chá!.

– Sir Philip e os criados passaram a noite toda vasculhando os campos e bosques!

– Ele não permitiu que nós o acompanhássemos, dizendo que precisávamos dormir – Crispin queixou-se –, mas não conseguimos pregar os olhos.

– É verdade – Hart confirmou. – Hoje, de manhã, saímos assim que a cozinheira nos serviu um pouco de pão com bacon. Sir Philip mandou um cavalariço nos acompanhar, mas foi bom porque, agora, ele foi chamar sir Philip.

– Sir Philip foi até o mosteiro de novo. Não sei porque ele acha que você está lá.

– Tia Ardis não pára de gemer e chorar, dizendo que você deve ter se afogado. Joanna queria ajudar sir Philip na busca, mas ele ficou furioso e disse que não queria que ela o atrasasse.

– Ela ficou vermelha de raiva – Crispin completou com um sorriso.

– Veja! – Hart apontou na direção dos campos. Lá vem ele.

Um cavaleiro seguia pela estrada em alta velocidade, diretamente na direção deles. Segundos depois, já era possível distinguir as feições de Philip. Antes mesmo que o cavalo os alcançasse, ele saltou da sela e correu, de braços abertos.

– Cassandra!

Sem pensar duas vezes, ela se atirou para Philip, cuja expressão era um misto de preocupação e desespero.

– Ah, Philip! – murmurou, antes de explodir em lágrimas.

Philip apertou-a contra si, fazendo-a sentir-se segura e protegida. Os gêmeos puseram-se a contar como haviam ouvido um barulho estranho, antes de reconhecer o pedido de socorro da irmã. Philip mal os ouvia, pois concentrava-se em abraçá-la e em convencer a si mesmo de que ela estava em seus braços, sã e salva.

Passara a pior noite de sua vida, procurando por Cassandra, sem ter a menor pista de onde ela poderia estar. Fora assombrado pelo medo de que ela houvesse fugido, por se sentir culpada e envergonhada pelo relacionamento ilícito que haviam iniciado. Então, descartar a idéia absurda, pois Cassandra era sensata demais para tomar uma atitude tão tola.

Porém, o medo e a culpa o haviam dominado e ele amaldiçoara a própria fraqueza de sucumbir ao desejo, na noite anterior. Fora ao quarto dela para dizer-lhe que se casariam o mais breve possível, que sua decisão de fazer amor com ela ocorrera juntamente com a decisão de torná-la sua esposa. Philip acreditara que Cassandra sabia que, mesmo levado pela paixão, ele jamais teria feito o que fez, se não estivesse certo de que ela era a única mulher que ele desejaria ter como esposa.

No entanto, não dissera nada. Não era do tipo que desperdiçava palavras de amor, e um pedido de casamento não era tão fácil para ele. Em sua família, as demonstrações de afeto eram raras e, muitas vezes, desajeitadas. Fora mais fácil expressar seus sentimentos por Cassandra através de beijos e carícias. Quando o desejo o invadira, na noite anterior, ele afastara da mente a necessidade de conversas. Quando Cassandra desaparecera, Philip se consumira em culpa, temendo que ela houvesse fugido, por acreditar que ele só queria tê-la como amante..

Agora, apertava-a como se nunca mais fosse soltá-la, murmurando:

– Está tudo bem. Não precisa mais ter medo.

– Ah, Philip! Estava tão escuro... Eu não sabia se alguém me encontraria...

– Eu sei, eu sei, mas está tudo acabado. – Beijou-lhe os cabelos. – Vou levá-la para casa.

Ela assentiu. O calor dos braços de Philip fez com que todas as suas dúvidas fossem esquecidas. Ele a acomodou no cavalo, à sua frente. Cavalgaram em um trote lento de volta para casa. O balanço do cavalo, assim como o cansaço e o esgotamento de Cassandra, levaram-na a um sono profundo.

Quando voltou a abrir os olhos, Cassandra estava em sua cama. Por um momento, foi tomada pelo medo que sentira durante a noite, mas logo deu-se conta de onde estava e suspirou, aliviada.

– Você acordou! – Olívia levantou-se da cadeira e aproximou-se da cama. – Graças a Deus! Pensei que não fosse acordar nunca!

Cassandra passou a língua pelos lábios ressecados e deu-se conta de que continuava com sede. Dormira sem comer, ou beber nada.

– Água – murmurou com voz rouca.

Olívia apressou em atender o pedido e Cassandra bebeu dois copos, de uma só vez. Então, voltou a deitar-se.

– Meu Deus! Estou muito suja – murmurou. – Vou arruinar os lençóis.

– Eu sei. Devia ter visto a expressão no rosto da arrumadeira, quando sir Philip insistiu em colocar você na cama, suja como estava. Mas ela teve o bom senso de não discutir. Ele parecia estar procurando por uma desculpa para estrangular alguém. – Olívia riu.

Tia Ardis começou a tagarelar que um homem não poderia entrar no quarto de uma moça solteira e ele lhe lançou um olhar... Ah, queria que você visse! Tia Ardis fechou a boca e não voltou a pronunciar nem mais uma palavra! Foi lady Violet quem o convenceu a sair, depois que ele acomodou você na cama. Ele insistiu em ficar, mas a mãe disse que você se assustaria se o visse daquele jeito. Disse que ele deveria descansar, tomar um banho e barbear-se, antes de vê-la de novo.

Cassandra afastou as cobertas e começou a se levantar, mas Olívia impediu-a.

– O que vai fazer? Tem certeza de que está bem?

– Não estou doente. Só passei a noite em um lugar extremamente desconfortável. O que preciso agora é comer e tomar um banho, nessa hora. Seja uma boa irmã e chame a criada.

Olívia obedeceu e, então, ajudou Cassandra a despir-se e a escovar os cabelos embaraçados. Uma criada preparou um banho quente, enquanto a outra providenciava uma bandeja com pão, carne fria e outras guloseimas. Cassandra desfrutou de tudo com prazer.

Acabara de se vestir e penteava os cabelos molhados, quando ouviu uma batida na porta. No instante seguinte, Philip entrou, sem esperar pela resposta.

– A criada informou-me de que você estava acordada. Como está se sentindo?

– Bem, obrigada.

Cassandra sentiu-se estranhamente reservada, na presença dele. Quando Philip a encontrara, as dúvidas haviam se dissipado e ela se sentira segura nos braços dele. Agora, porém, descansada e recuperada, a lógica voltara a impor as dúvidas em sua mente.

– Olívia, por favor, deixe-nos a sós – Philip pediu.

– Preciso conversar com sua irmã.

A menina não discutiu, embora a tia houvesse sido enfática ao dizer que sua obrigação seria manter Philip fora do quarto de Cassandra. Philip aproximou-se dela, o cenho franzido.

– Mandei alguns homens examinarem o moinho, à procura de pistas. Não encontraram. nada. O solo está seco demais. E inexplicável. Os meninos afirmam que a porta havia sido bloqueada por fora e insistem que alguém fez isso de propósito. É verdade? Como você foi parar lá dentro?

Cassandra sentiu os músculos tensos. Exceto pela pergunta inicial, ele não havia demonstrado a menor preocupação com as condições dela, depois de tudo pelo que passara.

– Ora, vejo que você decidiu assumir o papel de chefe da casa, até mesmo no meu quarto!

Philip lançou-lhe um olhar furioso. Passara a noite sem dormir e apavorado, sentia-se frustrado por não fazer idéia de quem fizera aquilo com Cassandra e, por fim, tivera de enfrentara o esforço de todos naquela casa, determinados a: mantê-lo longe de Cassandra.

– Não é hora para brincadeiras, Cassandra! Diga-me como foi parar lá.

– Eu não sei! Se soubesse, teria prazer em lhe contar. Só sei que alguém me atacou, no mosteiro. Quando acordei, estava dentro do moinho, com uma terrível dor de cabeça.

– Bem que desconfiei que você havia ido ao mosteiro – Philip disse, quase para si mesmo.

– É claro que fui ao mosteiro! Afinal, seu bilhete pediu que eu o encontrasse lá!

Depois das palavras ásperas, Cassandra observou-o com atenção, tentando medir-lhe a reação.

– Não escrevi bilhete algum.

– Acontece que recebi um bilhete, assinado por você.

– Onde está? Deixe-me vê-la.

– Pus no bolso do vestido. Quando acordei, no moinho, o bilhete havia desaparecido.

–Diabos!

– Acha que estou inventando essa história? – Cassandra inquiriu, irritada.

– É claro que não, mas não pode ter sido a minha caligrafia.

– Não estou familiarizada com a sua caligrafia.

– Alguém falsificou o bilhete, planejando atacá-la.

– Por que, Philip? É o que eu gostaria de saber. O que alguém teria a lucrar com isso?

– Deve ter sido por causa do mapa – ele murmurou. – Se você ficasse desaparecida por alguns dias e eu continuasse procurando por você, não viajaríamos no dia combinado. Se alguém, seu primo americano, por exemplo, quisesse encontrar o livro da rainha antes de nós....

– Em primeiro lugar, David Miller não está mais na Inglaterra.

– Isso foi o que ele lhe disse.

– Certo, mas como ele saberia sobre o livro? Só descobrimos do que se tratava há dois dias. Acha que sua mãe contou a ele? Ou, quem sabe, sua tia Liliane?

– Eu não sei! – Philip respondeu, quase aos berros. – Talvez um dos criados tenha ouvido. Ou, então, mamãe ou as crianças, comentaram algo na frente de criados. Se Miller subornou alguém...

– Acha que David tem rondado a Mansão Haverly, conversado com criados, subornado alguns deles, sem que ninguém o visse?

Ele deu de ombros.

– Realmente, parece improvável, mas quem poderia ser? Acha que foi um dos criados? Ou alguém de nossas famílias?

Cassandra não poderia mais omitir o detalhe mais cruel, que ela tanto tentara ignorar, mas não fora capaz.

– Como David Miller, ou qualquer outra pessoa, poderia saber que o mosteiro é o nosso lugar predileto, quando saímos para cavalgar?

Philip franziu o cenho, pensativo.

– Não sei... – De repente, compreendeu onde ela estava tentando chegar. – Meu Deus! Pensa que fui eu, não é? Acredita que eu a atraí ao mosteiro, ataquei-a e, então, tranquei-a no moinho! Por que eu... Ah, mas é claro! Com você fora do caminho, o tesouro seria todo meu. Não é isso? – Philip virou-se e chutou a cadeira, que foi parar na parede. – Depois de tudo o que nós... Como pode pensar que eu...

– Não quero acreditar nisso! – Cassandra declarou. – Tentei de todas as maneiras encontrar uma explicação. Não acho que você... Ora, é muito suspeito.

– Para o inferno com as idéias deturpadas dos Verrere! Você é incapaz de confiar em mim? Pois vou lhe dizer uma coisa. Nós vamos a Londres e vamos encontrar o maldito livro, bem como o mapa dentro dele. Então, vou encontrar o maldito tesouro e farei questão de atirar cada moeda, cada pedra preciosa, aos seus pés. Pode ficar com o dote espanhol. Não quero nada dele!

Cassandra empalideceu.

– Philip, por favor...

– O que você quer? Que eu prove que não a feri e assustei, nem a deixei com fome e com sede, trancada no moinho? Se não confia em mim, como posso fazê-la, acreditar que não sou essa criatura desprezível? Como posso provar que não escrevi o tal bilhete? Como posso provar que seria incapaz de fazer mal a um fio de cabelo seu, se o nosso amor não foi o bastante para convencê-la. Se eu disser que fiquei com o administrador até quatro horas da tarde, não vai adiantar, pois você vai pensar que contratei alguém para seqüestrá-la. Provavelmente, a mesma pessoa que contratei para invadir Chesilworth!

Cassandra começou a chorar, sentindo as palavras dele como facas a atravessar-lhe o peito.

– Ora, Cassandra, por favor, poupe-me de suas lágrimas.

Com isso, Philip girou nos calcanhares e saiu, batendo a porta atrás de si.

Cassandra atirou-se na cama e explodiu em soluços.

 

A viagem para Londres não foi nada agradável. Partiram no dia seguinte, pois Cassandra insistira que não precisava descansar pela noite terrível que passara no moinho. Na verdade, sentia-se péssima, mas não pelo incidente tenebroso, e sim porque sentia como se seu coração houvesse sido arrancado de seu peito. Só queria resolver de vez a história do tesouro e voltar a Chesilworth, onde poderia sofrer em paz.

Cassandra viajou na carruagem, com a tia e a prima, enquanto Philip cavalgava. Quando paravam para descansar, ou para comer, ela e Philip ignoravam-se, falando o que era estritamente necessário. Como seria de se esperar, Joanna estava radiante com o afastamento dos dois e passou a maior parte da viagem tentando arrancar de Cassandra o que havia acontecido para que Philip se mostrasse tão furioso. Como não conseguisse fazer a prima falar, pusera-se a especular sobre os costumes estranhos de Cassandra, que, certamente, ofendiam a maioria dos homens.

Joanna aproveitou o silêncio de Philip e Cassandra para falar sem parar, durante as refeições, e flertar ostensivamente com Philip. A infelicidade de Cassandra era profunda demais para permitir que ela se importasse com os avanços da prima. Sentia saudade da amizade agradável que partilhavam antes, quando riam, conversavam e até discutiam. Também sentia falta dos prazeres que haviam descoberto mais recentemente. Gostaria que a noite no moinho não houvesse existido. Daria tudo para afastar as dúvidas que sentia com relação a Philip, para poder dizer-lhe que confiava nele. Porém, era incapaz de mentir para Philip e, ao mesmo tempo, não conseguia livrar-se das suspeitas. Seu coração não acreditava que ele fosse capaz de fazer aquelas coisas, mas a razão insistia em atormentá-la com sua lógica implacável.

Em outras circunstâncias, ela teria adorado a casa dos Neville, em Londres. Situava-se em uma área sossegada de Mayfair e, embora fosse menor que a Mansão Haverly, não perdia nada em termos de elegância. O quarto de Cassandra dava vista para um jardim. À noite, o perfume das rosas entrava pela janela, lembrando-a da noite em que fora com Philip ao terraço junto a9 lago. Ela concluiu que teria sido melhor instalar-se em um quarto que desse para a rua.

Na manhã seguinte à sua chegada em Londres, Philip levou-a ao escritório do sr. Stanley, administrador dos negócios da família. Era um homem de aparência próspera, de seus quarenta e poucos anos. Ele explicou que não encontrara nenhuma referência da venda do livro, nos papéis do pai. A dificuldade residia, em parte, no fato de que lady Violet não se lembrava do ano exato em que a transação ocorrera.

– Eu já esperava – Philip falou. – Mesmo assim, continue procurando, Stanley.

– Sem dúvida, sir Philip.

– Imagino que meu pai não costumasse fazer negócios com nenhum livreiro em particular.

– Não, sir Philip. Seu pai pouco negociava com livros.

Saíram de lá e foram diretamente para a loja de Perryman Simons, que cumprimentou Cassandra com entusiasmo.

– Srta. Verrere! É tão bom vê-la de novo! Continua linda! – Simons era baixinho e gorducho, calvo e usava óculos. Parecia estar sempre alegre e de bem com a vida. – Já faz tantos meses. Pensei que não voltaria a vê-la. – Lançou um olhar curioso para Philip. Fiquei muito sentido, quando soube de seu pai. Era um bom homem.

– Sim, era. Obrigada.

– Está interessada em algum livro? Fique à vontade – ele ofereceu, apontando para as prateleiras repletas de volumes..

– Na verdade, estamos procurando por um determinado livro, sr. Simons. – Cassandra apresentou-o a Philip, antes de continuar: – Sir Philip está tentando encontrar um livro que pertenceu à família dele. Foi vendido pelo pai dele, mas trata-se de urna obra muito valiosa. Talvez o senhor tenha ouvido falar dela.

– Ora, ajudarei no que puder. Vamos ao meu escritório. – Conduziu-os a uma sala minúscula, no fundo da loja. – Sentem-se. Aceitam uma xícara de chá?

– Não, obrigada. Só queremos saber sobre o livro. – Que livro, exatamente, estão procurando?

– Trata-se de um livro de oração, que pertenceu à rainha Elizabeth. Pertenceu à família Neville durante muito tempo – Philip falou e, então, passou a descrever a capa valiosa.

Os olhos do livreiro começaram a brilhar.

– Nossa, que tesouro! Bem que eu gostaria de ter um livro assim em minhas mãos. Infelizmente, nunca o vi, pois certamente, eu me lembraria. Deixe-me ver... Bem, Samuel Arrington pode ter conhecimento dessa obra, uma vez que trabalha, predominantemente, com livros raros. E, também, podem procurar na livraria Cohn&Sons.

Deixaram a loja minutos depois, levando o endereço de três livreiros especializados em livros antigos e raros. Passaram O resto do dia visitando tais livrarias, mas sem obter o menor sucesso. Quando voltaram para casa, Cassandra sentia-se profundamente deprimida. Ter de enfrentar mais um jantar sombrio na companhia de Philip, não a fez sentir-se me1hor. Foi se deitar com o palpite de que sua causa estava, definitivamente, perdida.

Na manhã seguinte, Cassandra estava na sala de estar, preparada para mais uma excursão por livrarias, quando um criado informou-a de que Philip a esperava no escritório.

– O sr. Stanley está com ele – o criado acrescentou.

Cassandra animou-se imediatamente e, sem perder tempo, correu para o escritório. Quando entrou, Philip fitou-a e sorriu. Por um momento, foi como se aqueles últimos dias não houvessem existido. Cassandra sentiu o coração disparar e retribuiu o sorriso sem hesitar. Algo brilhou nos olhos e Philip e o sorriso morreu nos lábios dele.

– Srta. Verrere – anunciou em tom formal –, Stanley trouxe notícias. Achei que gostaria de ouvi-las.

– Sim, claro – ela replicou com cortesia, embora a alegria a houvesse abandonado.

– Por favor, Stanley, conte-nos o que descobriu.

– Encontrei um livro de contabilidade, datado de vinte anos atrás. Em meio aos registros de venda, consta um livro com jóias na capa. Embora meu pai não tenha registrado o título, lembrei-me de que o senhor mencionou as pedras preciosas e as pérolas.

– Excelente! Descobriu quem comprou o livro?

– Um livreiro, chamado Harrington Jones.

– Stanley, será recompensado pelo bom traba1ho. Poupou-nos de dias de buscas infrutíferas, em diversas livrarias. Agora, se nos der licença, precisamos encontrar o sr. Jones. Cassandra?

Com o entusiasmo que partilhavam, a caminhada até a loja do sr. Jones foi quase como nos velhos tempos.

O constrangimento pesado que se abatera sobre eles nos últimos dias, deixou de existir e, embora não conversassem muito, o silêncio não parecia forçado.

Assim que entraram na loja de Harrington Jones, um vendedor atendeu-os com grande cortesia, deixando claro que sabia reconhecer fregueses de bom nível.

– Em que posso lhes ser útil?

– Estamos tentando encontrar um livro que foi comprado pelo sr. Jones, há mais ou menos vinte anos. Foi meu pai quem lhe vendeu a obra e eu gostaria de tentar reavê-la. Seria possível conversar com o sr. Jones? Sou sir Philip Neville.

A menção do título fez o vendedor desmanchar-se em gentilezas.

–Tenho certeza de que o sr. Jones ficará honrado em recebê-los. Vou anunciá-los.

Poucos minutos depois, um homem de idade avançada, cabelos brancos, ligeiramente desgrenhados e olhar afiado, apareceu na porta de uma sala. Pela expressão especulativa em seu rosto, Cassandra concluiu que o livreiro tentava calcular que lucro poderia obter da situação.

– Harrington Jones – apresentou-se, convidando-os com um gesto a entrar na sala. Apontou para a única cadeira disponível, oferecendo a Cassandra. Philip e ele permaneceram de pé. – Em que posso ajudá-los?

Mais uma vez, Philip descreveu o livro e contou a história da venda. O homem assentiu, sem dizer nada.

Porém, o brilho em seus olhos fez Cassandra recuperar a esperança.

– É claro que será recompensado, se puder nos ajudar – Philip acrescentou com um sorriso.

O brilho nos olhos de Jones tomou-se intenso.

– O senhor é muito generoso, sir Philip.

Após uma rápida negociação, estabeleceram um preço razoável e Harrington Jones começou falar:

 

– Não me recordo da primeira transação, mas há cinco anos, a família do primeiro comprador trouxe o livro de volta para mim. O homem havia morrido e os herdeiros queriam vender toda a coleção. O livro de orações de Elizabeth era o maior tesouro, entre os demais. Vendi-o para um de meus melhores clientes, um ávido colecionador de livros antigos e raros. – Fez uma pausa, antes de dizer: – Devo avisá-lo, senhor, com toda honestidade, que não creio que ele vá vendê-lo. Trata-se de um homem muito rico, cuja maior paixão é a sua biblioteca.

– Compreendo. Mesmo assim, gostaria de conversar com ele.

– Chama-se Ernest Bigby. Posso lhe dar o endereço, se quiser..

– Obrigado.

Deixaram a loja minutos depois, deixando um sr. Jones mais feliz, com uma quantia polpuda no bolso.

– Ah, Philip! – Cassandra mal podia conter o entusiasmo. – Estamos quase conseguindo! Mal posso acreditar! O que vamos fazer se ele se recusar a vender o livro?

Philip sorriu, incapaz de resistir ao brilho nos olhos dela..

– Tentaremos, ao menos, dar uma olhada no livro. Geralmente, verdadeiros colecionadores não resistem a uma chance de exibir suas coleções. Se conseguirmos ter o livro em nossas mãos, poderemos folheá-lo e, se encontrarmos o mapa, encontraremos um meio de retirá-lo. Desde que o mapa ainda esteja dentro do livro.

– Acha que pode não estar lá? – Cassandra perguntou, apreensiva.

– Não sei, mas depois de tantos anos, e tendo passado por tantas mãos, seria difícil ninguém tê-lo encontrado.

– Recuso-me a pensar nessa possibilidade! Não é possível que tenhamos nos esforçado tanto, só para descobrir que o mapa foi perdido para sempre.

– Se depender da nossa vontade, estará lá.

Cassandra ergueu os olhos e detectou, nos de Philip, um brilho que a deixou sem fôlego. Ele desviou o olhar rapidamente e, quando voltou a fitá-la, seu semblante havia recuperado a impassividade.

Voltaram para casa, onde Philip escreveu um bilhete a Ernest Bigby, explicando o seu desejo de comprar o livro de orações de Elizabeth, que havia pertencido à sua família. Então, enviou um mensageiro imediatamente. Depois disso, não lhes restava nada a fazer, exceto esperar pela resposta de Bigby.

As horas seguintes foram de pura tensão. Sentada na sala de estar, Cassandra tentava concentrar-se em um bordado, uma ocupação que não estava entre as suas favoritas. No sofá ao lado, Joanna e tia Ardis falavam sem parar, sobre futilidades. Philip, de braços cruzados, em uma poltrona, mantinha-se silencioso como um túmulo. Quando Joanna sugeriu saírem para fazer compras, Cassandra agarrou-se à idéia, convencida de que qualquer coisa seria melhor do que continuar sentada ali.

Para sua surpresa, Philip insistiu em acompanhá-las. Joanna subiu para apanhar um chapéu, com um sorriso triunfante nos lábios. Cassandra sabia que a prima interpretaria a presença dele como prova de que Philip não podia viver sem ela. Concluiu que o passeio seria ainda pior do que as horas que haviam se passado até então.

– Por que quer ir conosco? – perguntou a Philip, irritada.

Ele ergueu uma sobrancelha.

– Faz objeção à minha companhia? Em minha própria carruagem?

– Podemos caminhar – ela retrucou. – Não precisamos da sua carruagem.

– Ah, mas vão precisar de um homem para carregar todos os pacotes que a srta. Moulton vai trazer.

– Um criado pode nos acompanhar.

– Por mais que a minha presença a desagrade, srta. Verrere, estou decidido a acompanhá-las. Caso não se lembre, alguém tentou lhe fazer mal há poucos dias. Sei que prefere pensar que fui eu o vilão da história, mas como sei que não sou, também sei que há alguém por aí, capaz de machucá-la. Portanto, não tenho a menor intenção de deixar que saia desta casa, a. menos que eu esteja ao seu lado. Fui claro?

– Perfeitamente. – Cassandra largou o bordado e levantou-se. – Acho que estou com dor de cabeça. Não poderei sair. Vou para o meu quarto.

Marchou para o quarto, desejando que Philip não encontrasse um meio de escapar da expedição com as Moulton. Decidiu que ele merecia tal sofrimento.

Sentou-se na poltrona e observou o jardim, lá embaixo. Seu peito parecia prestes a explodir, com tantos sentimentos conflitantes. Como tudo podia ter dado tão errado?

Passou o resto do dia no quarto e, na hora do jantar, disse estar doente e pediu que a criada levasse uma bandeja até lá. Também decidiu não ir à ópera, como fora planejado. Ouviu a voz animada de Joanna, no corredor, quando a prima saía do quarto. Não tinha dúvida de que ela escolhera o seu melhor vestido e que estava linda. Sabia que, depois de passar a noite toda ao lado de Philip, Joanna voltaria para casa, convencida de que ele a pediria em casamento. Mesmo sabendo que Philip mal suportava a prima, Cassandra sofria por saber que os dois estariam juntos: na ópera.

Era ela quem deveria sentar-se ao lado dele. Era ela quem o amava.

Deitou-se cedo, mas não conseguiu dormir. Mesmo depois de ter ouvido Joanna e tia Ardis chegarem e irem para seus quartos, continuou acordada, em sua cama. Não conseguia tirar da cabeça a lembrança de Philip entrando em seu quarto, algumas noites antes, deitando-se em sua cama e fazendo amor com ela. Daria tudo para que ele fizesse o mesmo, agora.

Seus olhos encheram-se de lágrimas. Disse a si mesma que estava enlouquecendo, que não poderia desejar fazer amor com um homem, suspeitando que ele tentara lhe fazer mal. Foi naquele momento que a constatação a atingiu como um raio. Cassandra não acreditava que Philip fizera nada para feri-la.

Sobressaltada, sentou-se na cama. Lembrou-se de todas as razões que tinha para desconfiar dele. Elas ainda estavam lá, a explicação lógica de quem a trancara no moinho e por quê. No entanto, era evidente que, ao mesmo tempo em que as dúvidas haviam povoado a sua mente, seu coração sempre soubera que Philip jamais lhe faria qualquer mal.

Afastou as cobertas e levantou-se. Como não percebera antes? A resposta era simples. Habituara-se a permitir que a razão governasse a sua vida. Por isso; quando as dúvidas a haviam assaltado, dera toda atenção a elas. Porém, tais dúvidas não haviam alterado os seus sentimentos por Philip, pois seus instintos lhe diziam que ele era inocente..

Com um soluço, que era um misto de alívio, remorso e amor, correu para fora do quarto. Percorreu o corredor até o fim, onde ficava o quarto de Philip, sem sequer olhar para o lado, pouco se importando se alguém a visse. Quando se viu diante da porta, não bateu. Simplesmente abriu-a, entrou e, então, voltou a fechá-la.

Philip estava parado no meio do quarto, tirando a camisa. Ao vê-la, limitou-se a fitá-la, confuso e surpreso.

– Cassandra, o que aconteceu?

– Nada aconteceu... exceto dentro de mim.

– Acho que não estou entendendo.

– Não sei bem corno começar. Tenho tanto medo de que você me odeie, que não vá aceitar minhas... Acho que não estou conseguindo me fazer entender.

– De fato – ele concordou, contrariado. – Mas posso assegurá-la de que não a odeio, Cassandra. Mesmo que quisesse, eu não conseguiria.

Cassandra respirou fundo...

– Obrigada. Eu... vim lhe pedir desculpas. Sei que errei e lamento muito. Acabo de descobrir que todas aquelas razões não têm a menor importância. A verdade é que não acredito que você tenha me trancado naquele moinho. A razão me diz como você poderia ter feito isso, por que faria... mas meu coração se recusar a acreditar que foi você.

– O que a fez mudar de idéia? – ele perguntou, parecendo cada vez mais confuso.

– Na verdade, nada mudou. É difícil explicar. Faz sentido que tenha sido você, mas não acredito que fosse capaz de me fazer qualquer mal.

– É claro que não seria. Ah, Cassandra...

– Perdoe-me por ter duvidado de você.

Philip sacudiu a cabeça.

– Não, eu estava errado ao esperar que você não tivesse nenhuma dúvida. Você é racional demais, para não considerar as conclusões óbvias. Eu estava magoado. Queria que você confiasse em mim cegamente.

– Mas eu confio cegamente em você – Cassandra afirmou com um sorriso, antes de atirar-se nos braços dele.

Com um suspiro de prazer, Cassandra deixou-se abraçar. Era ali que queria estar, aquele era o seu lugar. Beijaram-se com fervor e, então, ela acabou de livrá-lo da camisa, aproveitando a oportunidade para acariciá-lo com audácia.

Desta vez, foi ela quem tomou a iniciativa. Despiu-o, explorou-lhe o corpo com as mãos e com os lábios, atirou-o na cama e posicionou-se sobre ele, tirando a camisola e atirando-a no chão. Philip assistia com os olhos faiscando de desejo, lutando para conter o fogo que ameaçava consumi-lo..

Quando seus corpos se uniram, cavalgaram juntos pelas trilhas da paixão, até atingirem os picos do prazer.

Ficaram deitados por muito tempo, acariciando um ao outro com suavidade, murmurando coisas sem importância. Finalmente, com um suspiro, Philip lembrou-a de que seria melhor ela voltar para o quarto. Se adormecessem, seriam surpreendidos pelos criados, de manhã. Com relutância, Cassandra concordou. Vestiu a camisola, enquanto Philip apanhava o robe.

Depois de se certificar de que não havia ninguém no corredor, ele a conduziu até o quarto dela. Quando abriram a porta, a luz fraca do corredor iluminou o quarto apenas um pouco... o bastante para revelar a figura de um homem, remexendo uma das gavetas da penteadeira de Cassandra..

 

Cassandra gritou, assustada. Philip lançou-se para dentro do quarto. O homem ergueu o braço e algo voou no ar, atingindo Philip na cabeça. Ele cambaleou e, então, seguiu adiante, mas o ladrão conseguira tempo suficiente para atravessar o quarto e pular a janela.

Philip correu até lá.

– Diabos! Ele desceu pela árvore. O sujeito parece um macaco! Já está no chão. – Examinou a árvore rapidamente. – Não creio que agüente o meu peso concluiu, esmurrando o peitoril da janela. – Eu o tinha praticamente em minhas mãos!

– Você não teve culpa – Cassandra consolou-o, pousando a mão em seu braço.

– Não, mas é frustrante. – Philip suspirou. – Bem, vamos verificar os estragos que ele fez.

Naquele momento, Ardis apareceu na porta do quarto, empunhando um lampião. Joanna estava logo atrás dela, espiando por cima do ombro da mãe. As duas olhavam para o quarto com expressão chocada.

Vendo, pela primeira vez, o quarto iluminado, Cassandra também ficou horrorizada. Todas as gavetas da penteadeira haviam sido abertas e reviradas. Havia roupas e outros objetos espalhados pelo chão.

– O que aconteceu? – a tia perguntou.

– Alguém invadiu o quarto de Cassandra – Philip respondeu.

– Mas, para quê? Cassandra não possuía nada que seja valioso.

Joanna passou à frente da mãe, levando a mão à garganta, em um gesto dramático.

– O ladrão deve ter entrado no quarto errado. Certamente, pretendia roubar as nossas jóias, mamãe. Cambaleou até onde estava Philip, estendendo a mão trêmula para ele. – Ah, acho que vou desmaiar! Philip... ajude-me.

– Sente-se e ponha a cabeça entre os joelhos – Philip instruiu em tom prático e impaciente, ao mesmo tempo em que puxava uma cadeira e a forçava a sentar-se.

Joanna abriu a boca para protestar, mas ele já se virava para Cassandra.

– Talvez seja melhor você passar o resto da noite no quarto de sua tia – declarou.

– Não há necessidade. Tenho certeza de que ele não voltará. Ao menos, não esta noite.

Ardis parara de examinar a confusão no quarto e olhava fixamente para Philip e Cassandra. Notou que a sobrinha vestia apenas a camisola e que Philip parecia não ter nenhuma peça de roupa debaixo do robe.

– O que está acontecendo, afinal? – inquiriu, franzindo o cenho. – O que está fazendo no quarto de minha sobrinha, a esta hora, sir Philip?

– Está tudo bem, tia Ardis – Cassandra falou depressa. – Ele veio porque gritei, quando descobri que havia um ladrão em meu quarto.

A tia lançou-lhe um olhar desconfiado.

– Ouvi, quando você gritou, e vim imediatamente.

Ele já estava aqui. – Voltou a encarar Philip. – Por favor, retire-se, sir Philip.

– Titia, por favor! Posso assegurar que não há necessidade...

– Não se preocupe, sra. Moulton – Philip interrompeu com voz calma.

– Não me preocupar! Se alguém souber do que aconteceu aqui, a reputação de Cassandra estará arruinada.

Philip estreitou os olhos.

– Ah, mas ninguém ficará sabendo, não é mesmo, sra. Moulton? Além do mais, a reputação de Cassandra não corre risco algum, uma vez que ela se tornará minha esposa.

– O quê? – Cassandra ficou tão surpresa quanto a tia.

Ardis deu-se conta do erro tático que cometera e tentou, desesperada, corrigi-lo:

– Ah, não... Eu... Sir Philip, isso não será necessário. Os criados não o viram aqui e é claro que Joanna e eu jamais diremos uma palavra a ninguém. Afinal, trata-se da reputação da minha sobrinha.

– Tenho certeza de que a senhora não contaria a ninguém – Philip concordou. – No entanto, a srta. Verrere e eu estamos noivos.

– Não pode ser! Isso é absurdo!

Philip ergueu uma sobrancelha, olhando para Ardis como se ela houvesse chegado de outro planeta.

– Também fiquei surpreso quando Cassandra aceitou meu pedido de casamento. Afinal, é evidente que não a mereço. Mas, como senhora deve saber, ela é uma dama muito generosa.

– Não! Espere! – Joanna gritou, levantando-se de um pulo. – Mamãe! Faça alguma coisa! Ele não pode se casar com Cassandra!

– Pois posso afirmar, srta. Moulton, que não só posso, como vou me casar com ela.

– Mas... mas... – ela voltou a encará-lo com expressão magoada. – E quanto a mim?

– Estou certo de que a srta. Verrere fará questão que seja uma de nossas damas de honra. Não é, Cassandra, querida?

Cassandra não conteve o riso, diante da expressão horrorizada da prima.

– Claro, Joanna. Afinal, foram você e tia Ardis quem me aproximaram de Philip.

– Cassandra... espere... pense bem... – Ardis gaguejou. – Sir Philip, está se esquecendo de um detalhe muito importante. Cassandra não tem um centavo.

– Não preciso de uma esposa rica – ele respondeu com um sorriso amável. – Sei que a senhora vai ficar feliz em saber que o amor de Cassandra é o maior tesouro que eu poderia encontrar.

Cassandra teve de se esforçar para não cair na gargalhada.

– Mas, também, tem de pensar nas crianças, os irmãos dela – a tia insistiu. – O senhor deve concordar que educá-los será um fardo muito pesado.

– Adoro crianças.

– Não pode se casar com ele! – Joanna gritou para Cassandra. – Não pode se casar antes de mim!

O último pensamento pareceu demais para os nervos frágeis de Joanna, pois ela virou-se e saiu do quarto, correndo. Em seguida, ouviram uma porta bater. Tia Ardis fitou-os, boquiaberta, por mais alguns momentos e, então, foi atrás da filha.

Cassandra riu, mas admitiu que o sentimento de triunfo que a invadira era desprezível. Então, virou-se, quando Philip acendeu o lampião. Só então, viu o fio de sangue descendo pelo rosto dele.

– Philip! Está ferido!

– Sim – ele replicou em tom casual. – Ele me atingiu com força, com aquela caixinha. Ainda não me conformo que o deixei escapar!

– Você não teve culpa. Afinal, não esperávamos encontrar alguém no quarto. E, embora a sua cabeça seja dura, não creio que seja à prova de objetos voadores.. Sente-se na cama. Vou cuidar de você.

– Não é nada. O que importa é o mapa. Tenho certeza de que era o que ele procurava. Por que mais um ladrão entraria, justamente neste quarto?

– Ah, o mapa está seguro.

Cassandra foi até o guarda-roupa e abriu-o. Então, enfiou a mão no bolso de um de seus vestidos, e retirou o mapa, agitando-o no ar. Então, voltou a guardá-lo.

– Um lugar estranho para guardar algo valioso – Philip comentou.

– Com certeza, o último em que um ladrão pensaria. Se eu tivesse o hábito comum de guardar as coisas de valor em caixas e cofres, certamente teria escolhido a caixinha que ele atirou em você. Bem, de qualquer maneira, trata-se de uma simples cópia. Tenho outra na Mansão Haverly e deixei o original em casa.

– Mesmo assim, fico contente que o ladrão não o tenha encontrado.

Cassandra despejou água na bacia de porcelana e apanhou um lenço, antes de voltar ao lado de Philip.

– Conseguiu ver o rosto dele? – perguntou.

– Não – ele respondeu com pesar. – Estava escuro demais e fiquei um pouco atordoado pela pancada na cabeça. Tudo o que pude ver é que era um homem alto e magro.

– Também não pude vê-lo – Cassandra murmurou. – Ainda desconfio de seu primo americano. Ele pode ter contratado alguém.

– Ele voltou para os Estados Unidos – Cassandra lembrou-o.

– Isso foi o que ele lhe disse.

– Você vive repetindo isso.

– Bem, você só tem a palavra dele – Philip argumentou. – Ai! Ainda bem que você nunca pensou em ser enfermeira.

– Desculpe-me. Pronto. Isso é tudo o que posso fazer. Acho que vamos precisar de um curativo.

 

– Se não é o sr. Miller, querida, então, quem poderia ser? – Philip voltou ao assunto que o perturbava. Sempre achei que sua tia é perfeita para o papel de vilã.

Cassandra sorriu.

– Quem mais? – ele insistiu. – O sr. Simons, talvez? – Bem, não consigo imaginá-lo subindo e descendo por uma árvore! – ela comentou com uma risada, pensando no homem baixinho e gorducho.

– Graças a Deus, você não estava aqui, quando ele entrou – Philip murmurou com sinceridade. – Prometa que, daqui por diante, vai manter as suas janelas bem trancadas. Podemos estar noivos, mas creio que despertaremos terríveis fofocas, se eu passar todas as noites em seu quarto, a fim de protegê-la.

– Philip, quero conversar com você sobre isso – Cassandra falou com seriedade, quase se esquecendo do ladrão.

– Sobre datas, roupas e coisas assim? Prefiro deixar tudo em suas mãos, minha querida. Mamãe e vovó farão questão de ajudá-la e...

– Não é disso que estou falando. Não há necessidade de dizer que estamos noivos. Foi muita gentileza sua pensar em me proteger, mas garanto que tia Ardis não contará nada a ninguém.

– Cassandra! – Philip arregalou os olhos, fingindo-se chocado. – Ao que parece, está tentando livrar-se de mim! E estamos noivos a menos de uma hora! Quanta audácia!

– Philip, estou falando sério! Não é necessário nos casarmos. Minha reputação estará segura.

– Quer dizer que sua intenção é me usar e, então, atirar-me na sarjeta? – ele indagou com falsa indignação.

Cassandra rangeu os dentes, irritada.

– Será que não podemos conversar com um pouco de seriedade?

– Ah, mas eu estou falando sério. É você quem está pensando de maneira frívola. Estamos noivos e não há nada que você possa fazer para mudar isso.

– Minha opinião não conta?

– Conhecendo você, imagino que tenha um grande discurso sobre o assunto – Philip falou com um sorriso divertido. – No entanto, nada vai mudar o fato de que casamento é a nossa única opção. Se não está preocupada com a própria reputação, minha querida, pense na minha.

Cassandra ficou furiosa. As brincadeiras de Philip anulavam suas tentativas de fazer o que era certo, agindo de maneira muito mais eficiente do que uma verdadeira discussão. E era evidente que ele sabia disso. A frustração de Cassandra tornava-se ainda maior porque seu coração não concordava com a oferta que tinha a fazer. A idéia de se casar com Philip a deixara muito feliz. Dera-se conta de que era isso o que ela mais queria na vida, mais que o dote espanhol, inclusive. Era difícil tomar uma atitude nobre e dispensar Philip da intenção impetuosa de salvar a reputação dela. No entanto, Cassandra não queria casar-se somente pelo senso de responsabilidade que ele já provara ter. Queria ser amada por Philip.

Com um suspiro, decidiu não insistir por enquanto. Voltaria ao assunto no dia seguinte. Talvez algumas horas de consideração o fizessem enxergar o que estaria jogando fora, unindo-se a ela.

– Vá dormir – declarou.

– Excelente sugestão. Espero que a siga, também.

– Philip trancou as janelas, antes de encaminhar-se para a porta.

– Tem certeza de que não prefere dormir no quarto de sua tia, ou de sua prima?

– Não diga bobagens! Aqui, eu teria apenas um ladrão para enfrentar. Se dormir com uma delas, provavelmente, serei assassinada durante o sono.

Ele riu e saiu do quarto, depois de beijá-la longamente, deixando-a sem fôlego, perguntando-se porque fora tola a ponto de protestar contra a idéia de casamento. Cassandra arrumou o quarto, dobrou e guardou suas roupas e deitou-se. Adormeceu imediatamente e, em vez de sonhar com ladrões e quartos revistados, sonhou com véus, grinaldas e alianças.

 

– Não acredito que seja capaz de fazer isso comigo! – tia Ardis choramingava. – Sangue do seu sangue. Depois de tudo o que fiz por você! Alimentei uma serpente, em meu próprio lar!

– Pode dizer o quê, exatamente, eu fiz? – Cassandra perguntou, no tom prático de sempre.

A tia lamentava-se havia dez minutos, sem lhe dar a menor chance de dizer uma palavra sequer.

– O que você fez? – Joanna repetiu, incrédula. – Roubou sir Philip de mim!

– Roubei? Joanna, sir Philip nunca foi seu.

– Ele se interessou por mim, primeiro!

– Por um dia, ou dois. Até descobrir quais eram os seus planos para agarrá-lo.

– Como se você não tivesse feito a mesma coisa!

As palavras da prima perturbaram Cassandra e ela não conseguiu pensar em nada para dizer.

– Está vendo? – Joanna falou em tom de triunfo. – Estou certa.

– Trata-se de uma situação completamente diferente – Cassandra afirmou. – Além do mais, não é da sua conta.

– Como não é da minha conta, se ele era meu, antes?

– Já disse que ele nunca foi seu!

– Eu a recebi em minha casa – Ardis retomou a ladainha. – Alimentei e vesti você. Até mesmo levei-a conosco à festa de lady Arrabeck, por que tinha pena de você. E veja como me retribui!

Cassandra cerrou um punho e bateu-o no braço da poltrona.

– Chega! Já ouvi demais! Em primeiro lugar, a senhora não me recebeu em sua casa, nem me vestiu, ou alimentou. Foi meu tio, irmão de minha mãe, quem fez isso. Se dependesse da senhora, meus irmãos e eu viveríamos com os criados. Em segundo lugar, não me levou àquela festa por caridade, ou generosidade. A senhora só queria alguém que a ajudasse a fazer companhia a Joanna. E, por último, não roubei sir Philip de Joanna. Ninguém poderia fazer isso, porque ele nunca teve o menor interesse nela. Mal suporta ficar no mesmo aposento que ela. Qualquer pessoa com um mínimo de inteligência teria percebido isso. Nunca entendi como vocês duas podiam acreditar que Philip estava interessado em Joanna, quando ele fazia tudo para evitar a companhia dela!

As duas limitaram-se a fitá-la, boquiabertas.

– Sir Philip pediu-me em casamento – Cassandra continuou – e é exatamente o que pretendo fazer. Não há nada que vocês possam fazer para mudar isso. Tudo o que estão conseguindo com essa atitude mesquinha é enfurecer sir Philip e eu, tanto que talvez nunca mais sejam convidadas à Mansão Haverly. Vocês têm a perspectiva de estabelecer um relacionamento mais próximo com lady Neville, o que significa livre acesso a círculos sociais, repletos de excelentes partidos. Se tiverem um pouco de bom senso, tratarão de agarrar essa oportunidade, em vez de ficarem lamentando a perda do que, na verdade, nunca tiveram!

– Bravo, querida!

Cassandra virou-se e deparou com Philip, parado na porta, batendo palmas. Corou até a raiz dos cabelos.

– Eu... Sinto muito.

– Não sinta. Conseguiu expressar exatamente o que eu sinto. – Ele olhou para Ardis e Joanna. – Agora, se me derem licença, gostaria de conversar em particular com minha futura esposa. Querida?

Ofereceu o braço, que Cassandra aceitou de pronto, deixando-se conduzir para o escritório.

– Por favor, desculpe-me por ter criado uma cena como aquela. Geralmente, não costumo ser...

– Não me decepcione! – Philip interrompeu-a com um sorriso. – Eu já estava me preparando para assistir a um espetáculo como aquele, muitas vezes ao longo de nossa vida. Foi mesmo muito divertido.

Cassandra fez uma careta.

– Estou mais interessada no que você quer conversar comigo. O que é?

– O sr. Bigby enviou a resposta ao meu bilhete.

– E, pela expressão no seu rosto, eu diria que as notícias não são boas.

– Ele se recusa a vender o livro.

Cassandra apanhou o bilhete que Philip lhe estendeu e começou a ler:

– Lamento informá-lo... mas vou me sentir honrado se o senhor visitar minha casa, esta tarde, para ver o livro de orações da rainha Elizabeth. Será um prazer mostrá-lo ao senhor, assim como o restante de minha coleção. – Ergueu os olhos para ele: – Philip!

– Também estou satisfeito. Já enviei a resposta, aceitando o convite, em meu nome e de minha noiva. Só não sei como conseguiremos o mapa.

– Que tal enfiar o livro no bolso, quando ele não estiver olhando?

Philip fingiu-se chocado.

– Eu não havia me dado conta de que estou prestes a me casar com uma vilã!

– Nós o devolveríamos assim que retirássemos o mapa – Cassandra protestou. – Mas não vai dar certo. Ele certamente perceberia. No entanto, não precisamos do livro, mas apenas do mapa. Você poderá procurá-lo, enquanto me encarregarei de distrair o sr. Bigby. Conheço muito sobre livros antigos, por causa de papai, e poderei fazê-lo falar por muito tempo.

– Cassandra... – Philip murmurou com semblante preocupado.

– O que foi? Por que está me olhando assim? – ela inquiriu, apreensiva, tomada pelo pavor de que ele fosse dizer que havia reconsiderado a idéia do noivado.

– Bem, eu... tenho medo de que o mapa não esteja lá.

– Ah...

Cassandra sentiu uma onda de alívio invadi-la.

– Já faz muita tempo e o livro passou por dois proprietários, depois de meu pai, além do livreiro. E só Deus sabe quantos Neville o examinaram. Receio que o mapa tenha sido encontrado e, simplesmente, jogado fora, uma vez que ninguém saberia o que era aquilo.

– Margaret não o deixaria em meio às páginas, pois provou ser mais inteligente que isso. Com certeza, escondeu-o sob a capa, ou prendeu-o a uma das páginas, a fim de garantir que não se perdesse com facilidade.

– Espero que esteja certa. Só não quero que fique desapontada, caso não encontremos nada.

– Não ficarei – Cassandra prometeu, surpresa ao perceber que dizia a mais pura verdade.

Começava a descobrir que seu amor por Philip ofuscava tudo o mais. Algumas horas depois, foram à casa do sr. Bigby, que os recebeu com um largo sorriso.

– Sir Philip! – cumprimentou, com um aperto de mão entusiasmado, deixando evidente que, por maior que fosse a sua fortuna, a visita de um baronete o impressionara. – É uma honra conhecer o senhor, assim como a srta. Verrere. Uma vez, li um artigo escrito por seu pai, senhorita. Um dos mais iluminados que já encontrei.

Ele era calvo, robusto e cheio de energia.

– Tenho certeza de que estão ansiosos para ver o livro – comentou e, em seguida, pediu ao mordomo que servisse refrescos na biblioteca, para onde conduziu Philip e Cassandra.

Tratava-se de um aposento quase tão vasto quanto a biblioteca da Mansão Haver1y. Algumas das prateleiras eram fechadas por vidros, com fechos resistentes.

– Estes são os meus livros raros.

Abriu a prateleira central, que abrigava um único livro. Pequenas pérolas emolduravam-lhe a capa de couro. Então, fez um gesto para Cassandra, convidando-a a retirar o volume de seu santuário.

Ela obedeceu, fascinada.

– É maravilhoso! – exclamou, esquecendo-se por um breve momento do mapa que procurava.

A descrição de Liliane fora perfeita. Cassandra abriu-o com extremo cuidado e leu a inscrição na primeira página:

– ”A Sir Everard, meu leal cavaleiro. Elizabeth R.” Minha nossa! Mal posso acreditar que tenho em minhas mãos um livro que já esteve nas mãos da rainha Elizabeth.

– É de tirar o fôlego, não? – o sr. Bigby indagou com um sorriso orgulhoso.

Depois de examiná-lo por alguns instantes, sem encontrar nada que pudesse chamar a atenção, Cassandra entregou o livro a Philip.

– Realmente, maravilhoso – ele murmurou, também fascinado.

No mesmo instante, Cassandra tomou o braço do sr. Bigby.

– Importa-se de mostrar-me o restante da sua coleção? Vejo que é imensa. Que tipo de livros são aqueles?

Tratou de levá-lo para longe de Philip.

Foi fácil fazê-lo falar sobre o que era, evidentemente, seu assunto predileto. Ele mostrou os melhores volumes a Cassandra que, graças à educação pouco convencional que recebera, pôde fazer perguntas inteligentes, prendendo-lhe a atenção.

Foram interrompidos por um criado que entrou para servir os refrescos.

Com um sorriso cortês, Philip devolveu o livro ao seu proprietário, agradecendo por ele ter lhe permitido folheá-lo.

– Se, algum dia, decidir vendê-lo, por favor, avise-me.

– Sim, claro, mas duvido que esse dia vai chegar... a menos que eu morra.

Bigby voltou a guardar o livro em seu lugar de destaque.

Cassandra olhou para Philip, tentando determinar se ele havia encontrado o mapa, mas a expressão dele não revelava coisa alguma. Ansiosa, ela teve de esperar quase uma hora para perguntar-lhe.

– Muito bem? – atacou, assim que entraram na carruagem.

Ele sorriu.

– Bem, examinei a capa e todas as páginas, mas não encontrei nada.

– Ah, não...

– Mas, então – Philip continuou –, deslizei a unha pelo forro da capa, bem junto à lombada e descobri uma minúscula abertura. Consegui inserir a ponta da unha na fenda e retirei isto.

Ergueu um pedaço de papel muito fino, dobrado várias vezes.

Cassandra parou de respirar.

– O mapa?

– O mapa.

 

Era difícil distinguir a tinta desbotada no papel amarelado, dentro da carruagem.

Ainda assim, não havia dúvida de que era um trabalho da mesma pessoa que fizera o mapa encontrado em Chesilworth. Cassandra ficou trêmula de entusiasmo. Por mais que houvesse acreditado no tesouro e desejado encontrá-lo, sempre guardara o receio de jamais conseguir juntar as duas partes do mapa e, portanto, nunca encontrar o dote.

– Não faz mais sentido que o outro – Philip concluiu –, mas talvez, quando pusermos os dois juntos, tudo se esclareça.

O plano de estudar os dois mapas teve de ser adiado, pois assim que entraram em casa, Ardis foi ao seu encontro.

– Ah, Cassandra, sir Philip, aí estão vocês. Temos um visitante.

Cassandra franziu o cenho. Não via a hora de comparar os mapas, mas como a tia anunciara o visitante da porta da sala de estar, seria impossível esquivar-se, sem ser grosseira. Assim, forçando um sorriso, foi até lá, seguida por Philip.

Parou de maneira tão abrupta, que Philip quase deu de encontro com ela. Incrédula, viu o homem sentado ao lado de Joanna levantar-se, com um largo sorriso nos lábios.

– Veja quem veio nos visitar! – Joanna anunciou, com um brilho maldoso-no olhar. – Seu primo americano.

Cassandra tratou de recuperar-se depressa.

– Sr. Miller, que surpresa. Pensei que havia retornado à América.

– Este é Miller? – Philip inquiriu em tom rude, lançando um olhar significativo para Cassandra, antes de encarar o homem.

Miller pareceu confuso, mas respondeu:

– Sim, David Miller, ao seu dispor.

Cassandra apresentou-os e, embora Philip o cumprimentasse com cortesia, continuou a fitá-lo com ar desconfiado.

– Também pensei que estaria em casa, a esta altura, srta. Verrere – Miller falou, respondendo ao comentário feito antes por Cassandra. – Porém, quando retornei a Londres, depois de minha visita a vocês, descobri que um grande atraso ocorrera em uma das encomendas que eu havia feito. Demorei dias para resolver a questão, mas, agora, creio está tudo certo. Devo partir na próxima semana.

– Lamento saber que teve problemas – Cassandra disse. – O que fez, para ocupar o seu tempo?

David pôs-se a descrever suas diversas visitas a museus e outros lugares interessantes.

– O senhor não saiu de Londres, para conhecer o interior inglês? – Philip perguntou.

– Não, exceto por minha visita aos Verrere e, claro, a ida a Manchester, para conversar pessoalmente com o fabricante atrasado. Para ser honesto, já não tinha mais o que fazer aqui. Foi por isso que, ontem, voltei à livraria do sr. Simons. Quando ele me disse que a srta. Verrere encontrava-se em Londres, fiquei muito feliz.

– Pobre sr. Miller, sentiu muito a sua falta – Joanna disse a Cassandra, lançando um olhar rápido para Philip, a fim de medir-lhe a reação. – Seu primo parece gostar tanto de você..

Cassandra sabia que Joanna acalentava a esperança de que a presença de David Miller fosse causar algum conflito entre Philip e ela o que a prima não sabia era que aquela visita fora uma verdadeira bomba. Ao que parecia, Philip tinha razão: Miller era o homem que havia invadido suas casas, à procura dos mapas. Era difícil conciliar o sorriso claro e as maneiras gentis, com a alma de um criminoso.

David corou ao ouvir as palavras de Joanna, e ela continuou:

– Quando eu disse a ele que você havia saído, para visitar o tal de sr. Bigby, para ver uns livros, ele decidiu esperar.

– Foi muita gentileza sua – Cassandra dirigiu-se a David.Ele ficou lá por algum tempo, conversando sobre amenidades, até Cassandra começar a encontrar dificuldade em manter o sorriso nos lábios. Afinal, não era fácil ser gentil com alguém, ao mesmo tempo em que tentava determinar se ele tinha a mesma altura do ladrão que invadira seu quarto, na véspera.

Quando David finalmente partiu, Cassandra e Philip, com os dois mapas em mãos, fecharam-se no escritório.

– Isto não faz o menor sentido! – Philip concluiu, irritado, depois de haverem tentado juntar os mapas em todas as posições possíveis. – São apenas nomes e símbolos, sem qualquer ligação entre si. Não há semelhanças, ou ponto de encontro.

Cassandra manteve s olhos fixos nos pedaços de papel, ocupada demais em conter as lágrimas. Seria terrível demais terem chegado até ali, para não serem capazes de solucionar o mistério.

Estendeu a mão e tocou o mapa retirado do livro de orações.

– Por que o papel é tão diferente? O mapa que encontramos em Chesilworth foi desenhado em papel grosso e resistente. Este é fino demais, poderia se rasgar facilmente.

– Sendo fino, seria mais fácil de esconder na capa do livro – Philip respondeu.

– Tem razão, mas um papel tão pequeno, não chegaria a fazer volume.

Cassandra olhou para a cópia que fizera. Decidira usar um papel bem fino, para facilitar o seu trabalho. Bastara colocá-lo sobre o original e passar o lápis por cima dos traços. Então, seu coração disparou.

– Ah, meu Deus!

– O que foi? – Philip inquiriu, sobressaltado.

Ocorreu-lhe alguma idéia?

– Não tenho certeza. Este papel fino... é igual ao que usei para copiar o outro mapa.

Com dedos trêmulos, colocou um sobre o outro e foi girando o de cima, devagar, até que tudo se encaixou. Traços se complementaram e palavras se juntaram. “Riacho” apareceu ao lado de “Littlejohn”. Logo abaixo do conjunto de linhas curvas e confusas, apareceu a palavra “bosque”. Além disso, o que parecia um edifício quadrado, agora, apresentava uma torre e a legenda “Saint Swithin”.

– Conheço esse lugar! – Philip anunciou. – A igreja fica a menos de dois quilômetros da Mansão Haverly. – E quanto a este chalé? E o muro de pedras?

Cassandra apontou a inscrição “quinze passos”, junto ao desenho identificado como “muro de pedras”. Do outro lado do muro, havia uma seta, indicando cinco passos, até o desenho de um pequeno baú, junto à palavra “dote”.

– Não conheço nada disso, mas precisamos lembrar de que o mapa foi feito há quase duzentos anos. O chalé, certamente, não existe mais. Por outro lado, não será difícil encontrar sinais de sua existência. O mesmo pode ter acontecido ao muro. – Olhou para Cassandra com um largo sorriso. – Agora, poderemos encontrá-lo, Cassandra. O tesouro está em nossas mãos.

 

Partiram para Haverly na manhã seguinte. Ardis protestou contra a viagem apressada que haviam feito, para ficarem apenas três ou quatro dias em Londres. Mesmo assim, permitiu que as criadas preparassem sua bagagem, sem criar maiores problemas. Aparentemente, decidiu seguir o conselho de Cassandra, a fim de não perder a ligação valiosa com a família Neville. Cassandra ouvira a tia sussurrar para a filha que “ainda restavam muitos peixes no mar”, na tentativa de acalmar Joanna, durante um de seus ataques de fúria.

Os criados haviam acabado de acomodar a bagagem na carruagem e os viajantes já se dirigiam para a porta, quando um visitante chegou e entrou, assim que o mordomo abriu a porta.

– Sir Philip! Se pensa que eu aceitaria isso, estava redondamente enganado!

– Sr. Bigby? – Cassandra fitou o homem, surpresa e confusa.

As maneiras gentis da véspera haviam dado lugar a um nervosismo descontrolado.

– O senhor me parece nervoso – Philip comentou.

– Gostaria de conversar em meu escritório?

– Vou falar aqui mesmo! O senhor pode ser baronete, ou qualquer outra coisa, mas não permitirei que leve a minha jóia... o meu precioso... – parou de falar, como se estivesse prestes a ter um verdadeiro ataque.

– Acalme-se – Philip ordenou e, ao perceber que sua postura aristocrática surtira o efeito desejado, falou: – Assim é melhor. Agora, por favor, explique do que está falando.

– Do livro de orações de Elizabeth, claro!

– O que tem o livro?

Bigby estreitou os olhos.

– Sabe muito bem! Não tente me enganar, com suas maneiras elegantes! O livro desapareceu!

Cassandra arregalou os olhos e Bigby virou-se para ela.

– Isso mesmo. Desapareceu. Foi roubado. Bem debaixo do meu nariz!

– E o senhor acha que fui eu? – Philip inquiriu, incrédulo e divertido, ao mesmo tempo.

– Quem mais poderia ser? O senhor queria comprá-lo e eu não queria vendê-lo. Conheço muito bem os aristocratas, habituados a conseguir o que querem, a qualquer preço. Quando informei que não venderia, o senhor foi até lá para examiná-lo e saber onde estava.

– Não, sr. Bigby – Cassandra falou. – Garanto que sir Philip não roubou o seu livro.

– E claro que não! Ele contratou um ladrão e explicou-lhe onde encontrar o livro.

O homem continuou com sua explosão de fúria, por mais algum tempo, proporcionando a Ardis e Joanna um espetáculo muito interessante. Porém, as afirmações de Philip e Cassandra finalmente começaram a convencê-lo.

– Dou-lhe minha palavra, sr. Bigby, que jamais roubaria aquele, ou qualquer outro livro. Nós também fomos vítimas de assaltos em nossas casas, tanto em Londres, quanto no campo. Foram três invasões.

– Três – o que levaram?..

– Nada, mas acreditamos que estavam procurando justamente por esse livro. O ladrão foi surpreendido na biblioteca da Mansão Haverly. Foi quando nos interessamos pelo livro de orações. Não sei quem é esse homem, mas tenho um suspeito. Prometo que, se durante a investigação que mandei fazer sobre o homem, seu livro for encontrado, cuidarei para que seja devolvido ao senhor.

– Está dizendo que contratou alguém para investigar David? – Cassandra perguntou, chocada.

– Sim. Hoje, pela manhã, contratei um homem para segui-lo. Deveria ter cuidado disso ontem, à noite. Assim, ele teria sido apanhado, na tentativa de roubar o livro do sr. Bigby.

– O que há de tão especial nesse tal livro? – Ardis perguntou.

– Estão dizendo que David Miller roubou um livro? – Joanna indagou, de olhos arregalados.

– São apenas suspeitas – Cassandra respondeu.

– Minha noiva tem o sr. Miller em alta conta – Philip murmurou com ironia, dirigindo-se ao sr. Bigby.

– Não é verdade – ela protestou. – Só gostaria de lembrar que David não saberia que o livro pertence ao sr. Bigby, agora. Só nós sabíamos.

– Está se esquecendo, minha querida, de que a srta. Moulton disse a ele que havíamos saído para visitar o sr. Bigby, “para ver uns livros”. Não creio que tenha sido difícil para ele somar dois mais dois.

– Ah, você tem razão – Cassandra concordou com um suspiro. – Acho que não há mais como escapar. O sr. Miller dever ser o ladrão.

– Receio que sim, querida. Sei que detesta pensar assim, mas está muito claro.

Mais calmo e, aparentemente convencido de que era apenas mais uma vítima do mesmo homem, o sr. Bigby se foi.

Ardis e Joanna não falaram de outra coisa, a manhã inteira, enquanto a carruagem se afastava de Londres.

Para Cassandra, a viagem de volta foi bem menos tediosa do que a ida para Londres. Philip viajou a maior parte do tempo na carruagem, suportando as duas Moulton, para poder ficar junto de Cassandra.

Ele não voltara a visitar o quarto dela, alegando não querer colocar em risco a reputação dela. Cassandra tinha dificuldade para dormir, pois não conseguia afastar as lembranças das noites que haviam passado juntos. Acabou admitindo para si mesma que sua maior esperança era de que Philip não demorasse a superar os impulsos nobres e voltasse a partilhar sua cama.

Quando chegaram na Mansão Haverly, as crianças correram para recebê-los. As duas ladies Neville apareceram em seguida, acompanhadas por Sarah Yorke.

– Ora, Philip, eu não esperava vê-lo de volta tão cedo – Violet foi dizendo. – Acabei de dizer à srta. Yorke que, provavelmente, você não voltaria em menos de duas semanas. Agora, vou passar por mentirosa.

Philip beijou a mãe e a avó.

– Simplesmente – explicou –, resolvemos nossos assuntos bem antes do que esperávamos. – Então, virou-se para Sarah. – Como vai, srta. Yorke?

– Estou muito bem, sir Philip, assim como os meninos. Eles ficarão exultantes quando souberem que o senhor já voltou. Agora, devo ir embora. Tenho certeza de que o senhor deseja ficar na companhia de sua família. Vim apenas para copiar a receita de manjar branco de lady Neville.

– Não, espere, srta. Yorke – Philip pediu. – A senhorita é praticamente da família e tenho um comunicado importante a fazer.

Todos viraram para fitá-lo com curiosidade. Cassandra adivinhou o que ele ia dizer e empalideceu. Não deveria ter permitido que a história de noivado fosse tão longe. Assumira uma atitude egoísta, deixando que ele continuasse a pensar em casamento. Tinha certeza de que lady Violet ficaria horrorizada e nem podia imaginar qual seria a reação da velha lady Neville.

Philip passou um braço em torno de seus ombros.

– Philip, não! Espere! – ela sussurrou, desesperada, mas ele se limitou a sorrir.

– Não seja tola. Este é o momento perfeito. – Philip virou-se para a assistência interessada e, ainda sorrindo, declarou: – Pedi a srta. Verrere em casamento e ela me deu a honra de aceitar.

Por um momento, o silêncio foi total. Cassandra desejou que um buraco se abrisse no chão e a engolisse. Então, lady Violet abriu os braços para o filho, com um sorriso de pura alegria.

– Philip, meu filho! Há tanto tempo espero por este dia! Você não pode imaginar como estou feliz!

Depois de Violet abraçá-lo, foi a vez de Georgette que, como sempre, esqueceu-se da compostura e atirou-se sobre o irmão.

– Eu sabia! Por que demorou tanto para se decidir? Eu disse a Olívia, dois dias depois de vocês terem chegado, que nunca havia visto você tão apaixonado!

O restante da família cercou-os, oferecendo os parabéns. A mãe de Philip abraçou Cassandra, dizendo-lhe que era bem vinda à família. Até mesmo lady Neville ofereceu o rosto para a futura neta beijar, comentando que o neto tinha muito bom gosto.

Cassandra hesitou por um instante, mas chegou à conclusão de que não poderia dizer à mãe e à avó de Philip que não pretendia exigir que ele cumprisse com sua palavra. Não poderia contar-lhes que, na verdade, não existira pedido de casamento. Haviam, apenas, sido surpreendidos em situação comprometedora. Bem, pensou, teria de cuidar disso em outra ocasião. Então, sorriu.

– Temi que as senhoras não fossem aprovar.

– Por que não? – lady Neville inquiriu. – Verrere sempre foi um bom nome. E, ainda, sendo irmã de lorde Chesilworth, você é uma das melhores escolhas que meu neto poderia ter feito.

– Obrigada.

Georgette abraçou Cassandra.

– Eu sempre sonhei em ter uma irmã e, agora, tenho duas! Além de mais dois irmãos... – Olhou para os gêmeos com um sorriso maroto – ...que serão irmãos maravilhosos, sendo as pestinhas que são!

Como seria de esperar, os meninos aproveitaram a deixa para desamarrar o cinto do vestido de Georgette. Então, as quatro crianças desapareceram, em uma brincadeira barulhenta de pega-pega.

– Srta. Verrere – Sarah Yorke aproximou-se de Cassandra. – Desejo-lhe muitas felicidades. Tenho certeza de que será uma linda noiva.

Embora Sarah sorrisse, Cassandra reconheceu uma sombra de tristeza nos olhos dela. Então, pensou que acertara em suas suspeitas de que Sarah nutria sentimentos mais profundos por Philip. Teve pena dela.

– Espero que possamos ser boas amigas, agora, que passarei a viver aqui.

– Eu também – Sarah falou, antes de virar para Philip, a fim de cumprimenta-lo pelo casamento.

Quando ela se foi, Philip voltou a abraçar Cassandra.

– Acho que todos receberam a notícia muito bem – comentou, satisfeito.

– Philip, sinto-me culpada por enganar sua mãe...

– Enganar? Do que está falando? Estamos noivos.

– Não exatamente. Você não me pediu em casamento. Disse aquilo apenas para acalmar tia Ardis.

– Cassandra, pensei que já havíamos esclarecido isso. Decidi me casar com você na noite em que a levei ao terraço, à margem do lago.

– Verdade?

– Claro! Eu sabia perfeitamente o que estava fazendo, o que aconteceria à sua reputação se eu, simplesmente, me aproveitasse de você. Estava consciente das possíveis conseqüências, também. Quando deixamos o jardim, minha decisão de pedi-la em casamento já estava tomada.

Cassandra queria ouvir que Philip a amava, mas jamais perguntaria. Afinal, não poderia pressioná-lo para obter uma coisa que só teria valor, se dada espontaneamente.

– Mas não é necessário – insisti. – Eu também sabia o que estava fazendo. Fui com você para o lago de livre e espontânea vontade.

– Eu também. – Philip franziu o cenho. – Está dizendo que não quer se casar comigo?

– Não – Cassandra respondeu com sinceridade.

– Não foi isso o que eu quis dizer.

– Bom. – Ele beijou-a na testa. – Quero lhe pedir um favor, querida. Não deixe mamãe persuadi-la a marcar uma data distante. Quero me casar com você o mais depressa possível.

Cassandra fitou-o nos olhos e refletiu que talvez estivesse errada por insistir naquele casamento, sabendo que Philip não a amava. Por outro lado, sabia também que não seria capaz de resistir. Casaria com ele, na esperança de que Philip viesse ,a amá-la, um dia... e de que ele não se arrependesse.

 

Na manhã seguinte, Cassandra e Philip saíram a pé, acompanhados das quatro crianças, e conduzindo uma pequena carroça, repleta de instrumentos e ferramentas de escavação. Todos vestiam suas roupas mais velhas. Cassandra fizera uma cópia dos dois mapas combinados, que Philip levava no bolso da camisa.

– Lá está o riacho Littlejohn – ele apontou, após alguns minutos de caminhada.

– No mapa, parece mais próximo – Georgette comentou.

– Não creio que Margaret Verrere tenha desenhado os mapas em escala -Philip replicou –, mas as distâncias indicadas deverão facilitar o nosso trabalho.

O bosque não se encontrava onde deveria estar e o grupo concluiu que, certamente, fora destruído. Continuaram seguindo pela estrada, mas, depois de haverem caminhado uma longa distância, ainda não haviam encontrado a grande pedra que seria a última referência, antes do chalé.

– Acha que a pedra também foi retirada? – Cassandra perguntou, preocupada.

– Não sei. Não me lembro de nada parecido, ao lado da estrada. – Philip protegeu os olhos com uma das mãos, contra a luz do sol, para olhar à distância. – Também não vejo sinal do chalé.

– Imagino que deveria haver, ao menos, uma das duas coisas, assim como do muro de pedras. Por que não nos afastamos quinze passos da estrada e tentamos novamente?

– Vamos tentar. Não creio que o local possa ser ainda mais distante. Se fosse, Margaret teria desenhado outros pontos de referência, como aquele imenso carvalho – apontou à direita. – Vamos seguir a sugestão de Cassandra, mas vamos formar uma linha. Assim, um de nós poderá encontrar alguma coisa.

Assim fizeram. Caminhando separados, formando uma linha reta e mantendo poucos metros de distância entre eles, seguiram na direção da qual haviam vindo, pelo terreno irregular ao lado da estrada.

A caminhada pareceu interminável. Cassandra sentia-se cansada e faminta. Também sentia fortes dores no pescoço, por andar olhando para baixo, além de muita sede. Calculou que as crianças estivessem sofrendo ainda mais.

– Vamos parar para descansar e comer o lanche que Henri preparou para nós – sugeriu. .

Philip concordou e todos se sentaram à sombra de uma árvore. Devoraram o almoço e, então, acomodaram-se para um descanso.

Revigorados, recomeçaram a busca tediosa. Hart encontrou um círculo de pedras e todos se animaram. Porém, acabaram concluindo que se tratava dos restos da fogueira de um acampamento. Continuaram caminhando, até que a torre da Igreja Saint Swithin apareceu acima das copas das árvores.

– Estamos de volta à igreja! – Olívia anunciou, desolada.

– Receio termos perdido alguma pista – Philip comentou.

Os quatro se sentaram e tentaram compreender o que havia acontecido.

– Como um lugar pode, simplesmente, desaparecer? – Olívia inquiriu.

– Já faz muito tempo – Cassandra lembrou-a. Se o chalé era de madeira e sapê, pode ter apodrecido.

– Não vamos encontrar o tesouro? – Crispin perguntou, lutando para conter as lágrimas.

– Tentaremos novamente – Philip prometeu. É possível que estejamos interpretando o mapa de maneira errada. Cassandra e eu voltaremos a examiná-lo, esta noite. Amanhã, conversarei com Jack Everson. A família dele vive na casa que vimos, do outro lado da estrada, há muito tempo. Perguntarei se ele já ouviu falar do tal chalé.

– Se não encontrarmos as referências marcadas no mapa, não teremos chance de encontrar o dote, não é? – Crispin insistiu..

– Receio que não – Philip admitiu.

O grupo que retornou à Mansão Haverly era muito, muito triste.

 

Cassandra sentou-se diante do espelho da penteadeira, escovando os cabelos com movimentos desanimados. Sentia-se exausta. Nem mesmo o longo banho que tomara ao chegar, dissipara o cansaço de seu corpo. Porém, muito pior que os músculos doloridos, era o cansaço de sua mente, e de sua própria alma. Havia anos que tentava descobrir o paradeiro do dote espanhol. Desde que lera os diários de Margaret, não pensara em outra coisa. Não só restabeleceria as finanças da família, mas também realizaria o sonho de seu pai e, também, de Margaret.

Cruzou Os braços sobre a penteadeira e apoiou neles a testa, dando vazão às lágrimas. O que sua família faria, agora? Era verdade que não precisariam mais viver na casa de tia Ardis. Philip assumiria o sustento de seus irmãos e Cassandra não tinha dúvida de que ele seria muito generoso. Mesmo assim, eles sempre se sentiriam constrangidos, pois estariam vivendo de caridade, como antes. Além disso, não poderiam esperar que Philip arcasse com a imensa despesa de reformar Chesilworth.

Sentiu algo afastar os cabelos de sua nuca. Então, lábios quentes pousaram em seu pescoço. Um arrepio percorreu o corpo de Cassandra.

– Philip... – murmurou, erguendo a cabeça e fitando-o através do espelho. – Como conseguiu entrar?

– Da maneira usual: pela porta. Está triste?

– Um pouco.

– Não se preocupe tanto. Faremos o possível para encontrar o tesouro, mas se não conseguirmos, quero que saiba que cuidarei de seus irmãos. Olívia terá o seu debut, além de um bom dote. Os meninos estudarão em Eton e Chesilworth será restaurada. Este será o meu projeto especial.

Os olhos de Cassandra voltaram a se encher de lágrimas.

– Você é muito generoso, mas não quero que minha família se torne um fardo para você.

– Não é um fardo. E não quero que se preocupe com isso. De agora em diante, deve se preocupar apenas com os preparativos do casamento.

Cassandra sorriu.

– Sua mãe quer organizar uma grande festa.

– Eu sei. Disse a ela que pode fazer a festa que quiser, desde que seja marcada para daqui um mês, no máximo.

– Um mês! Philip, é impossível planejar um casamento em apenas um mês. Mal teremos tempo de enviar os convites.

– Acredite. Mamãe já usou todos os argumentos. Ela disse que seria absurdo pensar em fazer qualquer coisa, em menos de seis meses. Disse também que se marcarmos uma data antes disso, boatos maldosos serão espalhados. Então, eu disse a ela que boatos muito piores serão provocados pela chegada de um bebê, apenas três ou quatro meses depois do casamento.

– Philip! Você não fez isso!

– Fiz. Não há a menor possibilidade de eu esperar seis meses para ter você em minha cama de novo. Aliás, três noites depois da minha promessa de não voltar ao seu quarto, aqui estou eu!

Segurou-a pelos ombros e forçou-a a levantar-se, apertando-a contra si.

– Você é tão linda – murmurou. – Não consigo ficar longe de você, assim como não consigo pensar em outra coisa. Passo o dia inteiro olhando para você e imaginando-a nua.

Beijaram-se longamente, acariciando-se com ternura, sem pressa. Foram se aproximando da cama e tirando as roupas pelo caminho, sem jamais interromperem os beijos e as carícias. Fizeram amor com paixão, como se houvesse passado três anos, e não três noites, separados. Então, abraçados e satisfeitos, adormeceram nos braços um do outro.

Algumas horas depois, Philip acordou sobressaltado. Estivera sonhando que corria de um moinho para outro, à procura de Cassandra. Apertou-a contra si, aliviado por senti-la segura em seus braços. Então, sua mente clareou e ele se sentou na cama.

– Meu Deus! Cassandra, acorde. Acho que acabo de solucionar o mistério!

 

– Cassandra abriu os olhos, sonolenta. – O que foi? Do que está falando?

– Sei por que não encontramos o tesouro. Por causa dos pântanos! Eles foram drenados, depois que Margaret deixou a Inglaterra. Quando ela vivia aqui, o pântano tomava toda a área dos pastos atuais.

– Claro! – Cassandra sentou, entusiasmada. – Tudo mudou muito. Lembra-se de que o riacho parece muito mais próximo, no mapa?

– E eu atribuí o fato à falta de escalas de medidas no mapa, mas acho que procuramos no lugar errado.

– Como vamos saber como era a área, antes da drenagem?

Philip já estava fora da cama, vestindo-se apressadamente. Cassandra imitou-o.

– Na biblioteca devem haver livros, contando a história de região. Com um pouco de sorte, encontraremos um mapa. Do contrário, voltaremos a visitar tia Liliane e perguntaremos se ela, algum dia, ouviu alguém comentar como eram estas terras, antes da drenagem do pântano.

Philip acendeu uma vela, enquanto Cassandra espiava o corredor. Uma vez certos de que não havia ninguém por ali, desceram para a. biblioteca.

Depois de algum tempo de procura, Cassandra encontrou o diário de um vigário, que descrevia a região em detalhes, mas não continha nenhum mapa.

– Vamos continuar procurando pelo mapa, mas não devolva esse livro à prateleira – Philip instruía. – Talvez, se lermos com calma, seremos capazes de reconstituir a aparência da propriedade, antes da drenagem.

Quando já amanhecia e os dois começavam a perder o entusiasmo, Cassandra retirou um livro preto e fino da prateleira e começou a ler o título:

– “Um Relato Verdadeiro da Drenagem de...” Philip! Encontrei um livro sobre a drenagem dos pântanos. – Abriu-o, antes mesmo que Philip se aproximasse. – Veja! Um mapa!

– Sim. Aqui está Saint Swithin, a estrada, mas... Ora, esta área cinzenta era um pântano. Foi lá que procuramos, ontem. Aquela não pode ser a estrada que Margaret desenhou no mapa..

– Sim, a anterior dava a volta no pântano que, uma vez drenado, permitiu que fizessem um caminho muito mais curto. Acha que a velha estrada ainda existe?

– Deve haver, ao menos, uma trilha, que nos levará ao chalé e ao muro de pedras. – Philip sorriu, esquecendo-se do cansaço. – E então? Quer tentar?

– Agora?

– Já clareou, lá fora.

– Está bem. Vou apanhar o meu chapéu. – Cassandra já se afastava, quando virou-se para Philip. – Devemos levar as crianças?

Ele hesitou, mas, então, sacudiu a cabeça.

– Não. Receio animá-los e, depois, decepciona-los de novo. Existe a possibilidade de não encontrarmos nada.

Cassandra concordou e correu até o quarto, a fim de apanhar o chapéu. Antes de saírem, pararam na cozinha para um rápido desjejum, deixando os criados curiosos. Então, apanharam uma pá em um canto do jardim e seguiram na direção da Igreja Saint Swithin.

Desta vez, quando chegaram lá, não seguiram pela estrada, mas sim na direção em que o mapa apontava. Para sua surpresa, logo encontraram uma trilha.

– Acha que é por aqui?

– Corresponde ao que há no mapa. Veja, o riacho está bem mais próximo.

– Lá está o bosque! – Cassandra apontou. – Ah, Philip, estamos na trilha certa!

Não demoraram a encontrar a grande pedra ao lado da estrada e partiram na busca do chalé. Foi um pouco difícil encontrar as ruínas, pois tudo o que restava eram algumas pedras, quase escondidas pela vegetação.

Cassandra sentiu o coração disparar. Estavam a apenas cinco passos do tesouro.. Foi tomada de um pânico irracional. E se não encontrassem o dote?

Philip fitou-a com expressão de dúvida, antes de apontar para as ruínas.

– E difícil saber onde ficava a entrada.

Passaram algumas horas tentando encontrar a localização correta. Philip colocava em um ponto do retângulo de pedras tombadas e caminhava cinco passos.

Então, parava e começava a cavar. Quando o buraco formado tornava-se razoável, sem sinal de um baú, ele voltava às pedras e caminhava cinco passos em outra direção. Quando o sol já se aproximava do centro do céu, Philip iniciou um novo buraco, mas a pá logo atingiu algo duro.

Cassandra aproximou-se, trêmula. – Acha que encontramos?

– É possível.

Philip cavou mais um pouco, em torno do objeto.

Então, os dois se ajoelharam e, com as mãos, puseram-se a afastar a terra. A tampa de um pequeno baú logo apareceu. Com cuidado, retiraram-no dali e colocaram-no no chão.

Por alguns momentos, limitaram-se a fitá-lo, em silêncio. Com o auxílio da pá, Philip quebrou o cadeado e fez um sinal a Cassandra.

– Abra-o. Afinal, é o seu tesouro.

Cassandra respirou fundo e suspendeu a tampa, revelando diversos saquinhos de veludo e muitas moedas. Sobre tudo isso, havia um objeto maior, também envolto por veludo. Philip apanhou um dos saquinhos e derramou o conteúdo na palma da mão. Eram pedras preciosas, não lapidadas, incluindo safiras, rubis e esmeraldas. Outro saquinho continha jóias antigas.

– Valem muito mais agora, do que valiam naquela época – Philip comentou, devolvendo os saquinhos ao baú. – Pelo que estou vendo, a quantia em moedas de ouro é bastante alta. Não vai desembrulhar o objeto maior?

– Estou com medo – Cassandra admitiu. – Passei tantos anos imaginando o leopardo de ouro, que receio me decepcionar.

Apesar de tal confissão, ela apanhou o objeto, acomodou-o sobre as coxas e retirou, cuidadosamente, o veludo. Um leopardo de ouro maciço refletiu os raios do sol. Tratava-se do trabalho de um ourives de muito talento, que o moldara em posição de ataque. Em torno do pescoço, havia uma coleira de rubis. Os olhos eram duas grandes esmeraldas.

– É lindo – Cassandra murmurou, fascinada. – Philip, já viu algo parecido?

Antes que ele pudesse responder, uma voz atrás deles declarou alegremente:

– Posso afirmar que eu nunca vi nada igual!

Os dois viraram-se, sobressaltados. A alguma distância, encontrava-se o sr. Simons. Sorria, como sempre, mas a grande espingarda em suas mãos não combinava com a imagem do gorducho bonachão.

– Sr. Simons! – Cassandra exclamou, mantendo os olhos fixos na espingarda que ele mantinha apontada para ela.

– Foi você! – Philip concluiu. – Todo esse tempo, as invasões...

– Claro! Assim que o sr. Miller entregou-me os diários, reconheci as possibilidades. Sabia que, se existia alguém capaz de encontrar o tesouro, era a srta. Verrere. Ela sempre foi muito esperta. Todas as vezes que negociei livros com ela, não tive grandes lucros. – Ele parecia satisfeito em falar, orgulhoso de seus feitos. – No início, achei que não suportaria a espera. Então, contratei alguém para roubar os mapas, mas logo vi que não conseguiria nada. Por isso, decidi que o melhor a fazer seria esperar que você dois localizassem os mapas para mim.

– Com certeza – Cassandra falou – prestamos um grande serviço ao senhor, quando fomos procurá-lo, em busca de informações sobre o livro de orações.

– Ah, sim. Eu nunca ouvir falar de tal obra, mas não tive dificuldade em descobrir onde se encontrava.

Retirou o pequeno livro do bolso e agitou-o no ar, como se esperasse receber aplausos.

– Então, deu-nos endereços de lugares onde tinha certeza de que não encontraríamos o livro, enquanto o senhor mesmo o procurava; para mandar seu homem roubá-lo..

– Exatamente. Mesmo assim, não consegui obter nenhum dos dois mapas. Quando recebi o livro e constatei que não havia mapa algum, concluí que vocês o haviam encontrado. Então, não tive escolha, senão segui-los. Devo confessar que fiquei desapontado, ontem. Aquela caminhada inútil deixou meu homem exausto, uma vez que ele teve de se manter escondido o tempo todo. Foi por isso que vim, pessoalmente, vigiar sua casa, hoje. E dei sorte!

– E quanto a David Miller? Também está metido nisso? Simons soltou uma gargalhada.

– Aquele inocente? Nunca! Tenho certeza de que se desconfiasse dos meus planos, ele ficaria profundamente chocado.

Cassandra lançou um olhar triunfante para Philip.

– Eu lhe disse que ele não era esse tipo de pessoa – declarou.

– Como também afirmou que o sr. Simons era um homem decente, não posso lhe dar créditos pela perspicácia – Philip replicou, desanimado.

– Agora, chega de conversa, crianças. Srta. Verrere, faça a gentileza de trazer esse belo leopardo até aqui. Sir Philip, lembre-se de que manterei minha arma apontada para a sua noiva. Portanto, não tente bancar o herói.

Cassandra levantou-se, segurando o leopardo com cuidado e encaminhou-se para ele. Quando se aproximava do sr. Simons, tropeçou e deixou a bela peça cair, perto dos pés dele. Em um gesto instintivo, Simons abaixou-se para apanhar o leopardo, distraindo-se da pontaria. Philip, que observava tudo com atenção, certo de que Cassandra não entregaria de mão beijada a fortuna que pertencia à sua família por direito, atirou-se para a frente e agarrou a espingarda.

Os dois homens lutaram por alguns segundos, mas Philip logo conseguiu arrancar a arma das mãos de Simons e atirá-la longe. Então, acertou um murro certeiro no queixo do mais velho, que tombou no chão. No momento seguinte, Simons estava deitado de bruços, com o joelho de Philip sobre suas costas e as mãos firmemente presas.

Sem perder tempo, Cassandra retirou o cinto do vestido e usou-o para amarrar as mãos de Simons atrás das costas. Então, enfiou a mão no bolso dele e retirou o livro de orações.

– Se não estou enganada, isto pertence ao sr. Bigby. Formavam um grupo um tanto estranho, caminhando de volta pela trilha, na direção da Mansão Haverly. Simons ia na frente, de mãos amarradas, seguido por Cassandra, que empunhava a espingarda, apontada para ele. Philip encerrava a procissão, carregando o baú no ombro.

Quando chegaram em casa, Philip entregou arma e prisioneiro aos cuidados de um criado, ordenando-lhe que levasse ambos ao chefe de polícia da vila, informando-o de que Philip logo iria até lá, a fim de relatar o crime cometido.

Então, ele e Cassandra subiram à sala de estudos, onde encontraram as quatro crianças bastante desanimadas.

Philip aproximou-se de Crispin e, ajoelhou-se, colocando o baú no chão. Abriu a tampa, deixando à mostra o leopardo, que repousava sobre as demais jóias e moedas.

– Lorde Chesilworth, aqui está o dote espanhol.

 

O resto do dia foi só de comemorações. Exibiram o conteúdo do baú aos outros residentes da casa, recontaram a história diversas vezes, riram e conversaram, sonharam junto às crianças, sobre o que fariam com o dinheiro. Philip cumprira sua palavra e dera aos Verrere tudo o que fazia parte do tesouro..

Quando Cassandra lembrou-o de que ele tinha direito à metade, uma vez que os ajudara a encontrá-lo, Philip sorriu.

– Não. Foi você quem planejou tudo. No início, nem acreditei na sua história. Se não fosse pela sua persistência, o baú teria ficado enterrado lá, para sempre. A menos que um fazendeiro de sorte o encontrasse por acidente. Além disso, o tesouro pertencia aos Verrere. Margaret não chegou a se casar com um Neville.

– Margaret queria que o dote fosse dividido entre as duas famílias.

– O que Margaret queria, era desfazer a inimizade que ela mesma havia criado, com sua fuga. Porém, você e eu estamos fazendo isso, com nosso casamento. O dinheiro não é mais necessário.

– Você é um homem muito generoso – Cassandra declarou, colocando-se nas pontas dos pés e beijando-o.

Philip sorriu é abraçou-a.

– É bom saber que pensa assim. Só tenho medo que, depois de se tornar lady Neville, você pare de me mimar.

– Por quê? Pretende ser um marido tão detestável, que eu possa deixar de pensar que é generoso?

– Detestável, não – ele respondeu, inclinando-se para beijá-la. – Apenas muito exigente.

Compreendendo o sentido das palavras dele, Cassandra pousou as mãos no peito dele para empurrá-lo.

– Philip! Sua mãe pode entrar a qualquer momento!

– Ah, ela ficaria chocada. – Philip voltou a beijá-la.

– No entanto, acho que ela já desconfia que sou incapaz de ficar longe de você.

Cassandra foi invadida por uma onda de calor. Era bom saber que Philip a desejava com tamanho ardor. Porém, ainda tinha receios com relação ao futuro, por saber que ele não a amava. Acreditava que a paixão poderia se apagar, um dia. O que restaria, então?

Bastou o pensamento sombrio, pois tal preocupação não era a única que a atormentava. Depois das comemorações, Cassandra pensara muito nos acontecimentos das últimas semanas. Uma coisa ainda não fazia sentido. Por que Simons a trancara no moinho?

Ela simplesmente não conseguia imaginar uma razão para ele ter feito aquilo. Afinal, precisava que Philip e Cassandra encontrassem os mapas. Do contrário, ele jamais poria as mãos no tesouro. E havia um detalhe contundente: o bilhete dizendo que ela deveria encontrar Philip no mosteiro. Como o sr. Simons, que jamais estivera com eles, saberia ser aquele o lugar predileto dos dois, em suas cavalgadas?

Na manhã seguinte, Cassandra foi até a prisão e persuadiu o chefe de polícia a permitir que ela conversasse com o prisioneiro.

– Olá, srta. Verrere – Simons cumprimentou-a, como se houvessem se encontrado na rua. – É um prazer revê-la. Espero, minha querida, que saiba que eu nunca tive a menor intenção de feri-la.

Cassandra fitou-o, boquiaberta, lembrando-se da espingarda que ele mantivera apontada para ela.

– Sempre gostei muito de você – ele continuou. – E do seu pai, também. Foi a ganância que me arruinou. Quando li sobre o dote, fui tomado de um desejo irracional de possuí-lo. Espero que, um dia, possa me perdoar.

– Também espero, mas no momento, meus sentimentos ainda não se abrandaram. Sr. Simons, se não pretendia me ferir, por que me trancou no moinho?

O homem fitou-a com expressão confusa.

– Moinho? Não faço a menor idéia do que está dizendo.

– Estou falando do dia em que o senhor contratou alguém para me atacar e, depois, me trancar no moinho. Foi mero acaso alguém ter me encontrado.

O livreiro continuou parecendo confuso.

– Como pode pensar que tive algo a ver com isso?

– O senhor me parece ser a única possibilidade.

Por mais que ele houvesse provado ser capaz de fingir qualquer sentimento que lhe interessasse, Simons exibiu uma expressão da qual Cassandra não teria como desconfiar. Ele realmente não sabia do que ela estava falando. Aliás, parecia nem saber do incidente no moinho.

A mesma pergunta na mente de Cassandra durante todo o trajeto de volta à Mansão Haverly. Se não fora o sr. Simons, então, quem a prendera no moinho? E por quê?

Quando atravessava o jardim para entrar em casa, deparou com Sarah Yorke.

– Srta. Verrere! – Sarah cumprimentou-a, aproximando-se com passos apressados. – Fiquei tão desapontada ao descobrir que não estava em casa! Vim até aqui para conversar com a senhorita.

– É um prazer revê-la, srta. Yorke – Cassandra mentiu, pois não estava disposta a conversar com ninguém, naquele momento.

– Por que não damos uma volta pelo jardim? Sarah sugeriu, olhando em volta, como se procurasse por alguma coisa..

– Está bem – Cassandra concordou, resignada. Viraram-se e atravessaram os canteiros de rosas, até chegarem ao gramado.

– Sobre o que gostaria de conversar? – Cassandra perguntou, percebendo que a outra não dissera mais nada.

– O quê? – Sarah fitou-a como se não soubesse do que ela falava.

– Disse que queria conversar comigo.

– Ah, não é nada em particular. Eu apenas queria ter a chance de passarmos algum tempo. juntos, de nos conhecermos melhor.

Cassandra deu-se conta de que Sarah estava agindo de maneira estranha. Suas palavras eram vagas e ela olhava em volta, a todo instante, como se quisesse ver, ou evitar, alguma coisa.

– Srta. Yorke... Há algo errado? Posso ajuda-la?

– Ajudar-me? – Sarah virou-se para ela com olhar furioso. – Ajudar-me! Como pode dizer uma coisa dessas?

Cassandra recuou um passo, alarmada pelo comportamento inesperado da outra.

– Por que não voltamos? – sugeriu, já se encaminhando para o jardim das rosas.

– Não! – Sarah mostrou-se ainda mais agitada.

– Não podemos voltar. É tarde demais!

Naquele momento, todas as peças do quebra-cabeças se encaixaram e Cassandra desvendou o mistério que a atormentava.

– Meu Deus! Foi você quem me trancou no moinho, não foi?

– Sim! Sim! – Sarah sibilou, ao mesmo tempo em que retirava uma pistola do bolso e a apontava para Cassandra.

– Srta. Yorke, por favor, abaixe a arma e vamos conversar. Não há necessidade de contarmos a ninguém que foi a responsável pelo incidente do moinho. Tenho certeza de que está arrependida.

– Eu não queria feri-la – Sarah falou com sinceridade.

– Gostava de você... Temos de nos afastar.

– Vamos! – ordenou, agitando a pistola.

Verdadeiramente assustada, Cassandra obedeceu.

– Vire à direita e entre no bosque.

– Sim, sim, claro – Cassandra concordou, sabendo que precisava de tempo para pensar no que poderia fazer para escapar daquele pesadelo. – Seria muito mais confortável conversarmos em casa e..

– Não me subestime – Sarah interrompeu-a.

– Não, eu jamais...

– Ora, não banque a boazinha! É igual aos outros, inclusive aquela sua prima. Pensei que era nela que ele estava interessado. Tão linda e sempre colada a ele... A srta. Moulton olhava para mim como se eu não fosse ninguém. Eu sabia que ela queria tirá-lo de mim.

– Joanna é assim com todo mundo – Cassandra explicou. – Acha que sua beleza a torna melhor que as outras mulheres.

Sarah exibiu um sorriso maligno.

– Quando a empurrei para dentro do lago, pensei que ficaria assustada e iria embora. No final, tudo o que consegui foi fazer com que ele a carregasse nos braços e tivesse uma boa amostra daquele corpo perfeito, envolto por roupas molhadas e transparentes. Depois, descobri que havia me enganado. Como pude ser tão tola! Deveria saber que Philip jamais se interessaria por uma criatura tão fútil. Ele a evitava o máximo que podia... mas passava a maior parte do tempo ao seu lado!

– Estávamos trabalhando juntos em um projeto Cassandra tentou explicar. – Estávamos apenas tentando encontrar o dote espanhol.

– Pare com isso! Pensa que sou idiota? Ele vai se casar com você!

Haviam atravessado o bosque e encaminhavam-se para uma parte mais selvagem da propriedade. Cassandra sabia que de nada adiantaria tentar convencer Sarah de que Philip não estava interessado nela, depois de ele haver anunciado o casamento.

– Eu não queria feri-la – Sarah repetiu. – Eu gostava de você. Além de não ser presunçosa, demonstrou interesse por Silverwood. Os meninos gostaram de você.

– Obrigada. Também gostei deles. Assim como gosto de você, Sarah. Não acha que poderíamos ser amigas?

– Como poderíamos ser amigas? Você tem tudo o que desejo para mim. Não posso, simplesmente, assistir a você se casar com Philip. – Caminharam mais um pouco e Sarah voltou a repetir: – Eu não queria feri-la.– Sabia que alguém a encontraria. Se isso não acontecesse, eu mesma a libertaria. Só queria assustá-la, para que fosse embora. Por que não foi embora? Assim, não precisaríamos chegar a este ponto.

– Ainda não precisamos – Cassandra argumentou.

– Sim! Sim! Você não foi embora! Agora, tenho de impedi-la de casar-se com Philip.

Cassandra preferiu não perguntar como Sarah faria isso.

– O fato de se livrar de mim não significa que Philip vai se casar com você.

– Não é verdade! Eu sempre soube que, um dia, ele seria meu. Philip perceberia que o amo mais do que qualquer outra pessoa. Ele foi muito para mim, dando-me o emprego em Silverwood. Não acha que isso indica um certo grau de afeto?

– Claro! Sei que sir Philip gosta muito de você, mas os sentimentos dele poderão mudar, se você...

– Ele nunca vai saber! É essa a beleza do meu plano. Vai parecer um acidente. Ninguém jamais suspeitará de mim.

– É claro que suspeitarão. Alguém pode ter nos visto, de uma das janelas da casa. Saberão que saímos juntas, que você foi a última pessoa a me ver.

– Cale a boca! – Sarah gritou e Cassandra achou melhor obedecê-la.

Era evidente que o controle da outra estava por um fio.

Continuaram caminhando, em silêncio. Cassandra rezou para que alguém realmente as tivesse visto, embora soubesse que ninguém ficaria alarmado com isso, pois pensariam que as duas estavam apenas saindo para um passeio.

– Ali! – Sarah anunciou com entusiasmo, apontando para um velho poço. – Vá para lá.

Compreendendo, finalmente, como Sarah pretendia fazer sua morte parecer acidental, Cassandra aproximou-se do poço.

– Isso não vai dar certo, Sarah. O poço está tampado. Seria muito difícil alguém cair dentro dele.

– Vai dar certo, sim! Tire a tampa.

– Não – Cassandra respondeu calmamente, cruzando os braços.

– Faça o que estou mandando, ou vou atirar!

– Atire, mas lembre-se de que ninguém acreditará em acidente. Todos saberão que fui assassinada. E posso lhe garantir que Philip fará tudo para saber quem matou a mulher com quem ele pretendia se casar... a mulher que ele ama.

Cassandra deu ênfase às últimas palavras, na tentativa de deixar Sarah furiosa a ponto de fazer alguma bobagem.

– Pare com isso! Não é verdade!

– Por que mais ele se casaria comigo? – Cassandra persistiu. – Todos sabem que os Verrere não têm dinheiro algum. Ele me ama e vai me amar sempre. Não importa o que você faça, jamais conseguirá fazer com que ele a ame.

Sarah avançou para ela, a mão trêmula ainda empunhando a pistola.

– Quando Philip descobrir que foi você quem me matou – Cassandra foi adiante –, vai odiá-la pelo resto da vida. Vamos, Sarah, atire.

Com um grito selvagem, Sarah atirou-se sobre ela, erguendo a pistola no ar, na intenção de atingir Cassandra na cabeça. Com agilidade, Cassandra esquivou-se e conseguiu agarrar o braço da outra, temendo que a arma disparasse. O que realmente aconteceu, mas a bala subiu na direção do céu.

Cassandra era mais alta, mas Sarah era mais forte. Assim, Sarah conseguiu derrubá-la no chão, para tentar atingi-la com a pistola. Cassandra virou a cabeça no último instante, conseguindo, mais uma vez, evitar o golpe. Furiosa, Sarah atirou a arma longe e segurou o pescoço de Cassandra com as duas mãos, para estrangulá-la, Então, ouviram ruídos e uma voz gritando. Em seguida, Philip apareceu às costas de Sarah, arrancando-a de cima de Cassandra. Como ela tentasse reagir, ele atingiu-a no queixo. Sarah caiu, inconsciente.

Então, Philip tomou Cassandra nos braços.

– Cassandra! Meus Deus, não permita que seja tarde demais! Cassandra, por favor, diga alguma coisa. Olhe para mim. – Apertou-a contra si, desesperado. – Meu amor, por favor, não morra. Você não pode me deixar.

Cassandra tentou falar, mas tudo o que conseguiu foi emitir um grunhido rouco.

Philip fitou-a.

– Você está bem?

Ela assentiu.

– Graças a Deus! – Voltou a abraçá-la. – Vi vocês duas caminhando pelo jardim, mas achei que havia algo estranho acontecendo. Por isso, parei na janela e fiquei observando. Então, vi a pistola na mão dela. Ah, fiquei tão apavorado! Tive medo de não alcançá-las a tempo. – Cobriu-a de beijos, antes de perguntar:

– Por que Sarah fez isso?

– Está apaixonada por você, Philip – Cassandra respondeu com um sorriso fraco.

– Apaixonada? Mas... como? Eu nunca...

– Eu sei. Dói muito amar e não ser amada.

– Mas como ela pôde pensar... Eu não poderia amá-la. Você é a única mulher que amo.

– Ama? – ela inquiriu, fitando-o nos olhos. – Você me ama?

– É. claro que amo! Por que mais a pediria em casamento?

– Porque tia Ardis nos surpreendeu em situação comprometedora.

– Como se eu me importasse! Eu já estava decidido a me casar com você. Sabe disso. Quando a levei para o lago, já sabia que a amava.

– Ah, Philip! – Cassandra exclamou, passando os braços em torno do pescoço dele. – Também amo você.

– Já estava na hora de você admitir isso. Pensei que teria de esperar. até estarmos casados, para você se declarar.

Beijaram-se longamente.

– Bem, prometo que não vai ter de esperar para ouvir de novo. Aliás, pretendo repetir isso dez vezes por dia. Te amo. Te amo. Te amo...

Cassandra fez questão de enfatizar suas palavras com beijos ardentes.

Com uma risada, Philip tomou-a nos braços. Cassandra suspirou, dando-se conta de que agora, sim, encontrara o verdadeiro tesouro que estivera procurando.

 

– Está linda! – Cassandra exclamou, admirando a Mansão de Chesilworth, sentada no jardim.

Philip insistira em restaurar a propriedade, alegando que seria aquele o seu presente de casamento para Cassandra. Agora, um ano e meio depois do casamento, a reforma estava quase completa. Até mesmo o jardim estava ainda mais bonito do que Cassandra se lembrava.

Sorriu para o homem sentado ao seu lado.

– Obrigada por tudo o que fez por Chesilworth.

Philip deu de ombros..

– Fizeram um belo trabalho. Acho que será agradável passarmos parte do ano aqui.

Mais uma vez, ele agia com generosidade, pensando no que significaria para Olívia e os gêmeos, poderem estar em sua própria casa, especialmente para Crispin.

– Está mesmo muito bonita – Joanna concordou.

Linda como sempre, Joanna estava sentada ao lado do noivo, um homem sossegado, que gaguejava quando falava e que parecia não se cansar de admirá-la. Chamava-se Anthony Gordon e o pai possuía um título escocês que o jovem Anthony herdaria. Cassandra o considerava desinteressante, mas era evidente que ele adorava Joanna e contentava-se em ouvi-la falar sem parar, murmurando apenas um “sim, querida”, de vez em quando.

Fora Philip quem os apresentara, em sua festa de casamento. Quando Cassandra o provocara sobre seu talento alcoviteiro, ele dissera:

– Achei que ele seria perfeito para Joanna. Não muito inteligente, quieto, admirador das coisas bonitas. E, melhor que tudo, vive na Escócia, o que significa que teremos de suportar a companhia de sua prima muito raramente.

Philip e Cassandra, assim como o resto da família, haviam viajado para Chesilworth a fim de assistir ao casamento de Joanna. Até mesmo Violet fora com eles. Somente lady Neville ficara em Haverly, alegando estar velha demais para viajar. Porém, confidenciara a Cassandra que tinha certeza de que o casamento de Joanna Moulton só poderia ser um evento muito enfadonho.

– Cassandra! – Crispin e Hart chamaram, do outro lado do Jardim.

Acenaram para a irmã, antes de retomarem a correria de sempre. A Cassandra, parecia que haviam crescido um palmo, no último ano. O pensamento a fez lembrar-se de que, no ano seguin