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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


O ECO NEGRO / Michael Connelly
O ECO NEGRO / Michael Connelly

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

O ECO NEGRO

 

                   Domingo, 20de Maio

O rapaz não conseguia ver no escuro, mas não precisava. A experiência e uma grande prática disseram-lhe que estava bom. Limpo e uniforme. Traços suaves, movendo o braço inteiro enquanto rodava gentilmente o pulso. Mantendo o berlinde em movimento. Sem pingos. Lindo.

Ouvia o silvo do ar a sair e conseguia sentir o rolar do berlinde. Eram sensações que o confortavam. O cheiro recordou-lhe a peúga dentro da algibeira e pensou em apanhar uma pedrada. Talvez a seguir, decidiu. Não queria parar agora, não queria parar até ter acabado a alcunha com um único traço ininterrupto.

Mas, de repente, parou quando o som de um motor se sobrepôs ao do silvo da lata de spray. Olhou em volta, mas não viu luz nenhuma excepto a do reflexo branco prateado da lua no reservatório e da lâmpada fraca por cima da porta da casa das bombas, que ficava a meio caminho do outro lado da barragem.

Mas o som não morreu. Havia um motor a aproximar-se. Ao rapaz, parecia-lhe um camião. E agora achava que conseguia ouvir o barulho dos pneus a esborrachar o cascalho da estrada de acesso que rodeava o reservatório. Estava a aproximar-se. Quase três da manhã e havia alguém a aproximar-se. Porquê? O rapaz levantou-se e atirou a lata de aerossol por cima da vedação, para a água. Ouviu-a bater no matagal, falhando o alvo por pouco. Tirou a peúga do bolso e decidiu-se por uma rápida inalação apenas para ganhar coragem. Enfiou o nariz na meia e inspirou furiosamente os vapores da tinta. Balançou para trás nos calcanhares e as pálpebras piscaram involuntariamente. Atirou a meia por cima da vedação.

O rapaz levantou a mota e empurrou-a para o outro lado da estrada, de volta à erva alta e aos arbustos de cavalinha e aos pinheiros no sopé da colina. Era um bom esconderijo, pensou ele, e poderia ver o que estava a chegar. O barulho do motor era agora mais forte. Ele tinha a certeza de que estava apenas a uns segundos de distância, mas não via o clarão dos faróis. Isto confundia-o. Mas era demasiado tarde para fugir. Deitou a mota na erva alta e castanha e parou o rodar da roda da frente com a mão. Depois, colou-se ao chão e ficou à espera do que estava para chegar, de quem estava para chegar.

Harry Bosch conseguia ouvir o helicóptero lá em cima, algures por cima da escuridão, às voltas na luz. Por que é que não aterrava? Por que é que não trazia ajuda? Harry estava a deslocar-se por um túnel escuro e cheio de fumo e as pilhas estavam a acabar. O clarão da lanterna ia fican-do cada vez mais fraco em cada metro percorrido. Precisava de ajuda. Precisava de se mover mais depressa. Precisava de chegar ao fim do túnel antes da luz se acabar e ele ficar sozinho na escuridão. Ouviu o helicóptero dar mais uma volta. Por que é que não aterrava? Onde é que estava o auxílio de que ele precisava? Quando o zumbido das pás se voltou a afastar, sentiu o terror crescer e moveu-se mais depressa, raste-jando sobre os joelhos esfolados e a sangrar, uma mão a levantar a luz fraca, a outra a apalpar o chão para se equilibrar. Não olhou para trás, pois sabia que o inimigo estava atrás dele na escura névoa. Invisível, mas estava lá. E a aproximar-se.

Quando o telefone tocou na cozinha, Bosch acordou imediatamente. Contou os toques, perguntando-se se teria perdido o primeiro ou o segundo, perguntando-se se teria deixado o atendedor de chamadas ligado.

Não tinha. A chamada não foi atendida e os toques não pararam senão depois dos oito exigidos. Distraidamente, interrogou-se de onde é que teria vindo aquela tradição. Por que não seis toques? Por que não dez? Esfregou os olhos e olhou em redor. Estava outra vez enfiado na cadeira da sala, a confortável poltrona reclinável que era a peça central do seu escasso mobiliário. Considerava-a a sua cadeira das vigias. Contudo, isto era uma denominação errónea, porque ele dormia frequentemente na cadeira, mesmo quando não estava de serviço.

A luz matinal atravessava a abertura nas cortinas e recortava a sua marca no chão de pinho claro. Ele observou as partículas de pó que flutuavam preguiçosamente na luz junto da porta de vidro de correr.

A lâmpada do candeeiro, na mesa ao lado dele, estava acesa e a televisão encostada à parede, com o som muito baixo, transmitia um daqueles programas de Jesus das manhãs de domingo. Na mesa ao lado da cadeira, estavam os companheiros da insónia: cartas de jogar, revistas e romances policiais estes apenas rapidamente folheados e logo abandonados. Havia um maço de cigarros amachucado em cima da mesa e três garrafas de cerveja vazias marcas variadas que outrora tinham feito parte de pacotes de seis da mesma tribo. Bosch estava completamente vestido, incluindo uma gravata amarrotada presa à camisa branca com um alfinete de prata do 187.

Levou a mão ao cinto e depois para trás, para a zona por baixo dos rins. Esperou. Quando o pager electrónico tocou, desligou o apito irritante num segundo. Tirou o aparelho do cinto e olhou para o número. Não se surpreendeu. Levantou-se da cadeira, espreguiçou-se e descontraiu as articulações do pescoço e da nuca. Dirigiu-se para a cozinha onde estava o telefone em cima do balcão. Escreveu: «Domingo, 8:53 A.M.» num bloco de notas que tirou do bolso do casaco antes de marcar o número. Ao segundo toque, uma voz disse:

Departamento da Polícia de Los Angeles, Divisão de Hollywood. Daqui é o agente Pelch, em que é que o posso ajudar?

Bosch disse:

Uma pessoa pode morrer no tempo que demoras a deitar isso tudo cá para fora. Deixa-me falar com o sargento de serviço.

Bosch descobriu um maço de cigarros ainda fechado no armário da cozinha e acendeu o primeiro cigarro do dia. Limpou o pó a um copo e encheu-o com água da torneira, depois tirou duas aspirinas de um frasco de plástico que também estava no armário. Estava a engolir a segunda quando, finalmente, um sargento chamado Crowley atendeu a chamada.

O quê, apanhei-te na igreja? Telefonei para tua casa. Ninguém atendeu.

Crowley, o que é que tens para mim?

Bem, eu sei que te fizemos sair ontem à noite naquela coisa da TV. Mas continuas de serviço. Tu e o teu parceiro. Todo o fim-de-semana. Portanto, isso quer dizer que ficas com o DB1 do Lago Hollywood. Dentro de um cano lá em cima. Fica na estrada de acesso à Barragem Mulholland. Sabes onde é?

Conheço o sítio. Mais alguma coisa?

 

DB em inglês Dead Body: cadáver. (N. T.)

 

A patrulha já saiu. O ME e o SID já foram notificados. A minha gente não sabe o que é que lá tem, excepto que é um DB. O corpo está uns nove metros dentro do cano. Não querem entrar lá dentro, lixar uma possível cena de crime, percebes? Mandei-os contactar o teu parceiro pelo pager, mas ele ainda não telefonou para cá. Também não responde de casa. Pensei que se calhar vocês os dois estavam juntos ou qualquer coisa dessas. Mas depois pensei, não, ele não é o teu estilo. E tu não és o dele.

Eu contacto-o. Se eles ainda não entraram lá, como é que sabem que é um DB e não apenas um tipo qualquer a dormir?

Oh, eles entraram um bocadinho, sabes, e levaram um pau, ou qualquer coisa do género, e espetaram o tipo um bom bocado. Teso como um carapau.

Eles não queriam lixar a cena de um crime, mas foram pôr-se a espetar o corpo com um pau? Que maravilha. Estes tipos entram para isto mal saem da faculdade ou quê?

Ei, Bosch, recebemos uma chamada, temos de ir ver. OK? Queres que a gente passe todas as nossas chamadas sobre cadáveres directamente para os homicídios sem verificarmos? Vocês ficavam malucos ao fim de uma semana.

Bosch esborrachou a ponta do cigarro no lava-louças de aço inoxidável e olhou para fora pela janela da cozinha. Olhando para o fundo da colina, conseguia ver um dos carros eléctricos de turistas a passar pelo meio dos enormes estúdios de som de cor beige da Universal City. Um lado de um dos edifícios do tamanho de um quarteirão estava pintado de azul celeste, com uns farrapinhos de nuvens brancas; para filmar os exteriores quando o exterior natural de L.A. ficava castanho como trigo.

Bosch perguntou:

Como é que recebemos a chamada?

Anónima para o nove um um. Um pouco depois das quatro da manhã. A operadora disse que veio de uma cabine pública no Boulevard. Alguém que andava por lá na brincadeira, descobriu a coisa dentro do cano. Não quis dar o nome. Disse que era um cadáver no cano, mais nada. Têm a gravação no centro de comunicações.

Bosch sentiu que estava a ficar zangado. Tirou o frasco das aspirinas de dentro do armário e meteu-o no bolso. Enquanto pensava na chamada das 04.00, abriu o frigorífico e inclinou-se lá para dentro. Não viu nada que o interessasse. Olhou para o relógio.

Crowley, se a informação chegou às quatro da manhã, por que é que só agora é que me estão a chamar, quase cinco horas depois?

Olha, Bosch, tudo o que tínhamos era uma chamada anónima, mais nada. A telefonista disse que era um miúdo, ainda por cima. Eu não ia mandar um dos meus homens meter-se naquele cano no meio da noite por causa de uma informação destas. Podia ter sido uma brincadeira. Podia ter sido uma emboscada. Podia ter sido qualquer coisa, por amor de Deus. Esperei até haver luz e as coisas acalmarem um bocado por aqui. Mandei lá alguns dos meus homens no fim do turno. Por falar em turnos, estou de saída. Tenho estado à espera de ter notícias deles e de falar contigo. Mais alguma coisa?

Bosch teve vontade de lhe perguntar se lhe teria ocorrido que estaria escuro dentro do cano quer lá fossem escarafunchar às quatro da manhã ou às oito, mas deixou passar. De que é que serviria?

Mais alguma coisa? voltou a perguntar Crowley.

Bosch não conseguia lembrar-se de mais nada, mas Crowley preen-cheu o espaço vazio.

Provavelmente, não passa de um agarrado que se matou, Harry. Não é nenhum caso um oitenta e sete importante. Está sempre a acontecer. Raios, lembras-te que tirámos um de lá, do mesmo cano, no ano passado...? Ei, bem, isso foi antes de vires para Hollywood... por isso, estás a ver, o que eu estou a dizer é que um tipo qualquer enfia-se neste mesmo cano estes vagabundos, eles estão sempre a ir dormir para ali e ele é um espertalhão, mas injecta-se com uma carga valente e pronto. Lá vai ele. Só que nós não demos com ele tão depressa dessa vez e, com aquele sol todo a bater no cano durante um par de dias, o tipo fica assado lá dentro. Tão assadinho como um peru no Natal. Mas não cheirava tão bem.

Crowley soltou uma gargalhada com a sua própria piada. Bosch não se riu. O sargento de serviço continuou: é

Quando tirámos este tipo cá para fora, ainda tinha a agulha espetada no braço. Agora é a mesma coisa. Não passa de uma merda vulgar, de um caso sem importância. Vais até lá e ao meio-dia já estás outra vez em casa, dormes uma sesta e se calhar ainda vais a tempo de apanhar os Dodgers. E no próximo fim-de-semana? É a vez de outro tipo qualquer aparecer no cano. Tu estarás de folga. E vão ser três dias de descanso. Na próxima semana, temos o Memorial Day1. Por isso, faz-me um favor. Vai lá ver o que é que eles lá têm.

 

Memorial Day feriado americano em honra dos americanos mortos em combate. É comemorado na última segunda-feira de Maio, embora alguns estados o comemorem no dia 30de Maio. (N. T.)

 

Bosch meditou uns segundos e estava prestes a desligar, mas de repente perguntou:

Crowley, o que é que querias dizer com essa de não terem descoberto esse outro tão depressa? O que é que te faz pensar que encontrámos este depressa?

Os meus homens, que lá estão, dizem que este cadáver não tem mais cheiro de que uma poça de mijo. Deve ser recente.

Diz aos teus homens que eu estou lá daqui a quinze minutos. Diz-lhes para não mexerem em mais nada da porra da minha cena.

-Eles...

Bosch sabia que Crowley ia recomeçar a defender os seus homens, mas desligou antes que tivesse de o gramar. Acendeu outro cigarro enquanto se dirigia à porta da rua para trazer o Times que estava no degrau. Abriu os quatro quilos do jornal de domingo em cima do balcão da cozinha, perguntando para consigo quantas árvores teriam morrido. Encontrou o suplemento do imobiliário e folheou-o rapidamente até descobrir um grande anúncio das Valey Pride Properties1. Percorreu com o dedo a lista das Casas Em Exposição até encontrar uma morada e uma descrição com a indicação telefonar jerry. Marcou o número.

Valley Pride Properties, em que é que lhe podemos ser úteis?

Jerry Edgar, se faz favor.

Passaram-se uns segundos e Bosch ouviu uns dois estalidos indicativos da transferência da chamada antes do seu colega aparecer na linha.

Daqui é o Jerry, em que é que lhe posso ser útil?

Jed, acabámos de receber outra chamada. Na Barragem Mulholland. E tu nem sequer tens o teu pager a funcionar.

Merda! disse Edgar e seguiu-se um silêncio.

Bosch quase o conseguia ouvir a pensar, tenho três casas para mostrar hoje. O silêncio continuou e Bosch imaginou o colega no outro lado da linha com o seu fato de 900dólares e a testa toda franzida.

Que chamada?

Bosch contou-lhe o pouco que sabia.

Se quiseres que tome conta disto sozinho, não me importo disse Bosch. Se houver alguma coisa com o Noventa e Oito, eu posso justi-ficar. Digo que ficaste a tratar daquela coisa da TV e que eu estou a tratar do cadáver no cano.

Sim, eu sei que me fazias isso, mas está tudo bem, vou já a caminho. E só arranjar alguém que me substitua aqui.

 

00 Valley Pride Properties Propriedades Orgulho do Vale. (N. T.)

 

Combinaram encontrar-se no local onde estava o corpo e Bosch desligou. Ligou o atendedor de chamadas, foi buscar dois maços de cigarros ao armário e meteu-os na algibeira. Abriu outro armário e tirou o coldre de nylon que tinha a sua arma, uma Smith & Wesson de 9 mm com um acabamento acetinado, de aço inoxidável e carregada com oito balas XTPs1. Bosch lembrou-se do anúncio que tinha visto uma vez numa revista da polícia. Actuação Terminal Extrema. Uma bala que expande ao impacto até 1,5 vezes a sua largura, atingindo profundidade terminal no corpo e deixando um máximo de canais de feridas. Quem quer que tinha escrito aquilo estava coberto de razão. Bosch tinha matado um homem um ano antes com um tiro de uma distância de seis metros. Entrara por baixo do sovaco direito, saíra pelo mamilo esquerdo, desfazendo o coração e os pulmões no caminho. XTP. Máximo de canais de feridas. Prendeu o coldre no cinto, no lado direito para poder esticar a mão pela frente do corpo e sacar a arma com a mão esquerda.

Entrou na casa de banho e lavou os dentes sem usar pasta. Passou um pente pelo cabelo e olhou durante um bom bocado para aqueles seus olhos de quarenta anos, raiados de vermelho. Depois estudou os cabelos grisalhos que iam suplantando firmemente os castanhos da cabeleira encaracolada. Até o bigode estava a ficar cinzento. Tinha começado a ver bocadinhos grisalhos no lavatório quando se barbeava. Levou a mão ao queixo, mas decidiu que não ia fazer a barba. E saiu de casa sem mudar sequer de gravata. Sabia que o seu cliente não se ia ralar.

Bosch descobriu um espaço onde não havia cagadelas de pombos e apoiou os braços no parapeito do gradeamento que corria ao longo da parte de cima da Barragem Mulholland. Com um cigarro pendurado nos lábios, olhou pela fenda entre as colinas para a cidade lá em baixo. O céu era de um cinzento carregado e a névoa da poluição era uma mortalha perfeitamente moldada por cima de Hollywood. Algumas das torres distantes da baixa da cidade atravessavam o veneno, mas o resto da cidade estava debaixo do manto. Parecia uma cidade fantasma.

Havia um ligeiro cheiro a qualquer produto químico na brisa quente e, passado um bocado, ele identificou-o. Malathion. Tinha ouvido na rádio que os helicópteros da mosca da fruta tinham andado na noite anterior a pulverizar Hollywood Norte até ao Desfiladeiro Cahuenga. Pensou no sonho que tinha tido e lembrou-se do helicóptero que não aterrava.

 

N.Y. XTP Extreme Terminal Performance. (N. T.)

 

Atrás de si, estava a extensão azul esverdeada do reservatório de Hollywood, 228 milhões de litros da água potável da cidade presa na velha e veneranda barragem num desfiladeiro entre duas das colinas de Hollywood. Uma faixa de argila seca com cerca de dois metros corria ao longo de toda a margem, lembrando que L.A. já ia no quarto ano de seca. Mais ao longe, na margem do reservatório, erguia-se uma vedação de elos de corrente, com três metros de altura, que rodeava toda a borda da água. Bosch tinha estudado esta barreira logo que chegara e tinha-se perguntado se a protecção era para as pessoas num dos lados da vedação ou para a água no outro.

Bosch vestia um macaco azul por cima do fato amarrotado. O suor debaixo dos braços e nas costas tinha atravessado as duas camadas de roupa. Tinha o cabelo húmido e o bigode escorrido. Tinha estado dentro do cano. Conseguia sentir as cócegas leves e quentes dos ventos de Santa Ana a secar-lhe o suor da nuca. Este ano tinham chegado cedo.

Harry não era um homem de grande estatura. Faltavam-lhe uns escassos centímetros para o metro e oitenta e era magro. Os jornais, quando o descreviam, chamavam-lhe rijo. Por baixo do fato macaco, os músculos eram como cordas de nylon, força escondida pela economia do tamanho. O cinzento que lhe salpicava o cabelo era mais parcial em relação ao lado esquerdo. Os olhos eram pretos-acastanhados e raramente traíam qual-quer emoção ou intenção.

O cano estava em cima do chão e estendia-se cerca de cinquenta metros ao longo da estrada de acesso ao reservatório. Estava todo enferrujado, por dentro e por fora, estava vazio e não era utilizado a não ser por aqueles que usavam o seu interior como abrigo ou o exterior como tela para tinta de spray. Bosch não fazia a menor ideia da sua utilidade até o guarda lhe ter fornecido voluntariamente a informação. O cano era uma protecção contra a lama. As chuvas fortes, dissera o guarda, conseguiam soltar a terra e fazer com que a lama deslizasse pelas encostas para dentro do reservatório. O cano de noventa centímetros de largura, ali abando-nado por qualquer projecto desconhecido apadrinhado pelo distrito ou pelo governo, tinha sido colocado numa área de deslizamento de terras como a primeira e única defesa do reservatório. O cano estava seguro por uma barra de ferro com cerca de dois centímetros de espessura que passava por cima dele e estava cravada no cimento por baixo dele.

Bosch tinha enfiado o fato macaco antes de entrar no cano. As letras LAPD1 estavam impressas nas costas. Depois de o tirar da mala do carro

 

LAPD Los Angeles Police Department. (N. T.)

 

e de o ter enfiado, deu-se conta de que, provavelmente, estava mais limpo do que o fato que estava a tentar proteger. Mas vestiu-o à mesma porque sempre o tinha feito. Era um detective metódico, supersticioso e tradicional.

Enquanto rastejara de lanterna na mão pelo cilindro claustrofóbico que tresandava a humidade, tinha sentido a garganta a apertar-se e o bater do coração acelerar. Um vazio familiar nas entranhas dominara-o. Medo. Mas tinha acendido a lanterna e a escuridão desaparecera junta-mente com aquela sensação assustadora e ele metera-se ao trabalho.

Agora, estava de pé, junto da barragem, a fumar e a pensar nas coisas. Crowley, o sargento de serviço, tinha tido razão, não havia dúvida que o homem dentro do cano estava morto. Mas também se tinha enganado. Isto não ia ser um caso fácil. Harry não ia voltar a casa a tempo para dormir uma sesta ou para ouvir o relato dos Dodgers na KABC. As coisas não estavam certas. Harry ainda não tinha percorrido três metros dentro do cano quando ficara com a certeza disso mesmo.

Não havia rastos dentro do cano. Ou melhor, não havia rastos que servissem fosse para o que fosse. O fundo do cano estava sujo, cheio de lama seca cor de laranja e coberto de sacos de papel, garrafas de vinho vazias, bolas de algodão, seringas usadas, camas de jornais o lixo dos sem-abrigo e dos drogados. Bosch tinha estudado tudo aquilo à luz da lanterna enquanto avançava lentamente até ao corpo. E não tinha encontrado nenhum rasto claro deixado pelo morto, que estava deitado dentro do cano com a cabeça virada para a frente. Isto não fazia sentido. Se o morto se tivesse arrastado de moto próprio, teria havido qualquer indicação disso. Se tivesse sido arrastado lá para dentro, também teria havido qualquer indicação. Mas não havia nada e esta falta foi apenas a primeira das coisas que preocuparam Bosch.

Quando chegou junto do cadáver, descobriu que a camisa do morto uma camisa preta de gola rente ao pescoço estava puxada para cima da cabeça do homem com os braços lá metidos dentro. Bosch já tinha visto bastantes pessoas mortas para saber que nada era literalmente impossível durante os últimos suspiros. Tinha trabalhado num caso de suicídio em que um homem que tinha dado um tiro na cabeça tinha mudado de calças antes de morrer, aparentemente por não ter querido que o seu corpo fosse encontrado coberto de dejectos humanos. Mas a camisa e os braços do homem morto dentro do cano não pareciam aceitáveis a Harry. Para Bosch, o corpo parecia ter sido arrastado para dentro do cano por alguém que o puxava pelo colarinho.

Bosch não tinha mexido no corpo nem tirado a camisa da cara. Viu que era um homem branco. Não detectou nenhuma indicação imediata do ferimento fatal. Depois de ter acabado o exame do corpo, Bosch passou com todo o cuidado por cima do cadáver, a cara chegando a ficar a quinze centímetros dele, e continuara a percorrer os restantes quarenta metros do tubo. Não encontrou nenhuns rastos nem nada que tivesse qualquer valor como prova. Vinte minutos depois, estava outra vez à luz do sol. Depois mandou entrar um técnico de indícios chamado Donovan para fazer um mapa do lixo no interior do cano e fazer um vídeo do corpo no local. A cara de Donovan traiu a sua surpresa por ter de entrar no cano para um caso que ele já tinha despachado como um OD1. Tinha bilhetes para os Dodgers, calculou Bosch.

Depois de ter deixado o cano ao cuidado de Donovan, Bosch acen-dera um cigarro e encaminhara-se para o gradeamento da barragem para contemplar a cidade poluída e meditar.

No gradeamento, conseguia ouvir o ruído do trânsito, filtrando-se da Hollywood Freeway lá em baixo. Até parecia suave àquela distância. Como um oceano calmo. Através da abertura do desfiladeiro, via piscinas azuis e telhados de telha à espanhola.

Uma mulher com um top de alças branco e uns calções verde-lima passou por ele a correr em redor da barragem. Tinha um pequeno rádio preso no cinto e um fiozinho amarelo levava o som até aos auscultadores presos à cabeça. Parecia estar num mundo só seu, sem se dar conta do grupo de polícias à frente dela até chegar à fita amarela da cena do crime esticada de um lado ao outro na ponta final da barragem. Ficou uns momentos a correr no mesmo sítio, o comprido cabelo louro colado aos ombros com o suor, e observou os polícias que, por sua vez, estavam quase todos a olhar para ela. Depois, deu meia volta e voltou para trás passando de novo por Bosch. Os olhos dele seguiram-na e viram-na desviar-se do caminho para evitar qualquer coisa. Bosch dirigiu-se para o sítio e descobriu vidro no pavimento. Olhou para cima e viu a lâmpada partida no suporte por cima da porta da casa das bombas. Mental-mente, tomou nota para perguntar ao guarda se a lâmpada tinha sido verificada nos últimos tempos.

Quando Bosch voltou para o seu poiso no gradeamento, a sombra de um movimento chamou-lhe a atenção. Olhou para baixo e viu um coíote a farejar pelo meio das agulhas dos pinheiros e do lixo que cobria

a terra por baixo das árvores à frente da barragem. O animal era pequeno e o pêlo feio e com grandes peladas. Já só havia um pequeno número deles nas áreas protegidas da cidade, reduzidos a alimentarem-se dos restos deixados pelos humanos.

Estão a tirá-lo cá para fora disse uma voz atrás dele.

Bosch voltou-se e viu um dos polícias fardados que tinha sido destacado para a cena do crime. Assentiu com a cabeça e seguiu atrás dele, afastando-se da barragem, passando por baixo da fita amarela, de regresso

ao cano.

 

1 OD Over Dose. (N. T.)

 

Uma cacofonia de resmungos e arquejos ecoava para fora da boca do cano coberto de graffiti. Um homem sem camisa, com as costas forte-mente musculadas arranhadas e sujas, emergiu de lá de dentro, às arrecuas, arrastando uma folha de plástico preto grosso em cima da qual estava o corpo. O morto continuava com a cara voltada para cima com a cabeça e os braços escondidos pela camisa preta em volta deles. Bosch olhou em volta à procura de Donovan e viu-o a guardar uma câmara de vídeo na parte de trás da carrinha azul das peritagens. Harry foi ter com ele.

Agora vou precisar que voltes lá dentro. Todo o lixo que lá está, jornais, latas, sacos, vi umas agulhas, algodão, garrafas, preciso disso tudo metido em sacos.

E para já respondeu Donovan. Esperou uma fracção de segundo e acrescentou: Não estou a dizer nada, mas, Harry, quero dizer, estás mesmo convencido que isto é um caso a sério? Que vale a pena estarmos a ter todo este trabalho?

Acho que não vamos saber até o cortarem. Começou a afastar-se, mas parou.

Olha, Donnie, eu sei que é domingo e... ah... obrigado por voltares lá.

Não há problema. São mais umas horas extraordinárias para mim. O homem sem camisa e um técnico do gabinete do médico legista

estavam de cócoras inclinados sobre o cadáver. Ambos calçavam luvas brancas de borracha. O técnico era Larry Sakai, um tipo que Bosch conhecia há muitos anos, mas de quem nunca gostara. Tinha uma caixa de apetrechos de pesca aberta no chão, ao lado dele. Tirou um bisturi de dentro da caixa e fez um corte de dois centímetros e meio no lado do corpo, logo acima da coxa esquerda. Não saiu sangue do golpe. Então, tirou da caixa um termómetro e prendeu-o na extremidade de uma sonda curva. Enfiou-a na incisão, e de forma precisa, mas bruta girou-a e fê-la subir até ao fígado.

O homem sem camisa fez uma careta e Bosch reparou que ele tinha uma lágrima azul tatuada no canto exterior do olho direito. Pareceu a Bosch que, de certo modo, era apropriado. Era o máximo de simpatia que o morto iria receber.

A hora da morte vai ser uma chatice disse Sakai. Não levantou os olhos do trabalho. Aquele cano, estás a ver, com o calor a subir, vai distorcer a perda de temperatura no fígado. O Osito fez uma leitura lá dentro e era de trinta graus. Dez minutos depois já era trinta e um. Não temos uma temperatura fixa nem no corpo nem no cano.

E daí? perguntou Boch.

E daí, quer dizer que não te vou dar nada aqui. Tenho de o levar e fazer uns cálculos.

O que queres dizer é que vais entregá-lo a alguém que saiba fazer os cálculos? perguntou Bosch.

Vais ter quando fores buscar a autópsia, não te preocupes, pá. -Já agora, quem é que se vai dedicar ao corte hoje?

Sakai não respondeu. Estava ocupado com as pernas do morto. Agarrou em cada um dos sapatos e manipulou os tornozelos. Moveu as mãos pelas pernas acima e meteu-as por baixo das coxas, levantando uma perna de cada vez e observando quando se dobraram pelo joelho. Depois carregou com as duas mãos no abdómen como se estivesse a tentar detectar contrabando. Por fim, meteu a mão por baixo da camisa e tentou virar a cabeça do morto. Não se mexeu. Bosch sabia que o rigor mortis começava pela cabeça, espalhando-se pelo resto do corpo até chegar às extremidades.

O pescoço deste tipo está completamente preso disse Sakai. O estômago está a ficar na mesma. Mas as extremidades ainda têm bastante movimento.

Tirou um lápis de trás da orelha e carregou com a ponta da borracha na pele da parte lateral do torso. Havia umas manchas cor de púrpura na metade do corpo mais perto do chão, como se o corpo estivesse meio cheio de vinho tinto. Era a lividez post mortem. Quando o coração pára de bombear, o sangue procura o nível do chão. Quando Saki carregou com o lápis na pele escura, esta não ficou branca, sinal de que o sangue já tinha coagulado por completo. O homem estava morto há horas.

A lividez post mortem está completa disse Sakai. Isso e a rigidez fazem-me concluir que este tipo está morto já há seis horas, talvez mesmo oito horas. E aquilo que te posso dizer, Bosch, até podermos trabalhar as temperaturas.

Sakai não olhou para cima ao dizer isto. Ele e o outro chamado Osito começaram a virar para fora os bolsos das calças verdes do morto. Estavam vazios, tal como estavam as grandes algibeiras, tipo sacos, das coxas. Viraram o corpo para o lado para inspeccionarem os bolsos de trás. Enquanto faziam isto, Bosch inclinou-se para olhar de perto para as costas expostas do morto. A pele estava púrpura da lividez e da porcaria. Mas não viu arranhões ou marcas que lhe permitissem concluir que o corpo tinha sido arrastado.

Nada nas calças, Bosch, disse Sakai continuando a não olhar para cima.

Depois começaram a puxar delicadamente a camisa preta para baixo, destapando a cara. O morto tinha cabelo hirsuto, mais cinzento do que o preto original. A barba não estava tratada e parecia andar pelos cinquenta anos, o que fez com que Bosch calculasse que devia andar pelos quarenta. Havia qualquer coisa na algibeira do peito da camisa e Sakai tirou-a para fora, olhou para ela durante uns curtos instantes e depois meteu-a num saco de plástico que o companheiro segurava aberto.

Bingo! exclamou Sakai entregando o saco a Bosch. O equipamento completo. Simplifica-nos imenso o trabalho.

A seguir, Sakai abriu por completo as pálpebras entreabertas do morto. Os olhos eram azuis com uma membrana leitosa por cima. As duas pupilas estavam tão contraídas que tinham o tamanho da mina de uma lapiseira. Olhavam sem verem para Bosch, cada uma das pupilas um pequeno vazio negro.

Sakai escreveu umas notas numa prancheta. Tinha chegado a uma conclusão a respeito daquele caso. Depois, tirou uma almofada de tinta e um cartão para impressões digitais da caixa ao lado dele. Cobriu de tinta os dedos da mão esquerda e começou a comprimi-los no cartão, um de cada vez. Bosch admirou a perícia e a rapidez com que ele estava a trabalhar. Mas, de repente, parou.

Ei! Vê lá isto.

Sakai moveu delicadamente o dedo indicador. Girava em todas as direcções. Era evidente que a articulação estava partida, mas não havia qualquer sinal de inchaço ou hemorragia.

Parece-me post mortem disse Sakai.

Bosch dobrou-se para ver melhor. Tirou a mão do morto a Sakai e apalpou-a com as mãos dele, sem luvas. Olhou para Sakai e depois para Osito.

Bosch, não comeces ladrou Sakai. Não te ponhas a olhar para ele. Ele sabe como se faz. Fui eu mesmo quem o treinou.

Bosch não lembrou a Sakai que tinha sido ele a guiar a carrinha da ML que largara um cadáver preso a uma maca de rodas na Ventura Freeway uns meses atrás. Durante a hora de ponta. A maca rolara pela saída do Lankershim Boulevard e chocara com as traseiras de um carro numa bomba de gasolina. Por causa da divisória em fibra de vidro na cabina, Sakai só tinha percebido que perdera o cadáver quando chegara à morgue.

Bosch entregou a mão do morto ao técnico da medicina legal. Sakai voltou-se para Osito e fez uma pergunta em espanhol. A pequena cara castanha de Osito ficou muito séria e ele abanou a cabeça numa negativa.

Ele nem sequer tocou nas mãos do tipo lá dentro. Por isso, é melhor esperares até o cortarmos antes de começares a falar de uma coisa de que não tens a certeza.

Sakai acabou de transferir as impressões digitais para o cartão e depois entregou o cartão a Bosch.

Enfia-lhe as mãos num saco disse-lhe Bosch, embora não fosse preciso dizê-lo. E os pés.

Endireitou-se e recuou, começando a abanar o cartão para secar a tinta. Com a outra mão, levantou o saco de plástico com a prova que Sakai lhe tinha entregado. Lá dentro, um elástico prendia uma agulha hipodérmica, um frasquinho meio cheio de uma coisa qualquer que parecia água suja, um bocado de algodão e uma carteira de fósforos. Era o equipamento de um drogado e parecia razoavelmente novo. A agulha estava limpa e não tinha sinais de corrosão. O algodão, calculou Bosch, só tinha sido utilizado como filtro uma ou duas vezes. Havia uns minúsculos cristais castanho esbranquiçados no meio das fibras. Virando o saco, conseguia ver o interior dos dois lados da carteira de fósforos e viu que só faltavam dois fósforos.

Naquele momento, Donovan saía do tubo a rastejar. Trazia um capa-cete de mineiro equipado com uma lanterna. Numa das mãos, trazia vários sacos de plástico, cada um deles contendo ou um jornal amarelado ou o invólucro de um alimento qualquer ou uma lata de cerveja amachucada. Na outra, trazia uma prancheta onde tinha feito o diagrama indicando a posição em que cada um dos artigos tinha sido encontrado dentro do cano. Tinha teias de aranha penduradas no capacete. O suor escorria-lhe pela cara e manchava a máscara respiratória de pintor que lhe tapava a boca e o nariz. Bosch levantou o saco que continha o equipamento do drogado. Donovan parou imediatamente.

Descobriste algum fogão lá dentro? perguntou Bosch.

Merda, ele é um agarrado? disse Donovan. Eu sabia. Porra, para que é que estamos a fazer isto tudo?

Bosch não respondeu. Esperou que o outro lhe respondesse.

A resposta é sim, encontrei uma lata de Coca-cola disse Donovan. O técnico passou em revista os sacos de plástico que tinha na mão

e estendeu um a Bosch. Continha duas metades de uma lata de Coca-cola. A lata tinha um aspecto razoavelmente novo e tinha sido cortada ao meio com uma faca. A parte de baixo tinha sido invertida e a superfície côncava tinha sido utilizada como recipiente para aquecer heroína e água. Um fogão. A maior parte dos drogados já não usavam seringas. Trazer uma colher era um motivo para se ser preso. As latas eram fáceis de arranjar, fáceis de utilizar e de deitar fora.

Precisamos que tirem as impressões digitais ao kit e ao fogão o mais depressa possível disse Bosch. Donovan assentiu com cabeça e levou o seu carrego de sacos de plástico para a carrinha da polícia. Bosch voltou a concentrar a sua atenção nos homens da ML.

Ele não tinha nenhuma faca, pois não? perguntou Bosch.

Exactamente respondeu Sakai. Porquê?

Preciso de uma faca. A cena fica incompleta se não houver uma faca.

E depois? O tipo é um agarrado. Os agarrados roubam os agarrados. Provavelmente, os amigalhaços dele levaram-na.

As mãos enluvadas de Sakai enrolaram as mangas da camisa do morto. Isto revelou uma rede de cicatrizes em ambos os braços. Marcas antigas de agulhas, crateras deixadas pelos abcessos e infecções. Na dobra do cotovelo esquerdo, havia uma marca recente de agulha e uma enorme hemorragia amarelada e encarniçada por baixo da pele.

Bingo! exclamou Sakai. Eu diria que este tipo enfiou uma dose valente no braço e, pssst, foi-se. Como já disse, tens um caso de droga, Bosch. Vais poder ir cedo para casa. Vai ouvir os Dodgers.

E o que toda a gente não pára de me dizer respondeu Bosch. E, provavelmente, Sakai tinha razão, pensou ele. Mas não queria dar

aquilo já por encerrado. Havia demasiadas coisas que não encaixavam. Os rastos que não existiam dentro do cano. A camisa puxada para cima da cara. O dedo partido. Não haver faca.

Por que é que todas as marcas são antigas excepto uma? perguntou mais para si próprio do que para Sakai.

Quem sabe? respondeu Sakai. Se calhar tinha-se deixado disso durante uns tempos e depois decidiu voltar a meter-se. Um agarrado é um agarrado. Não há razões.

Ao olhar fixamente para as marcas nos braços do morto, Bosch reparou numa tinta azul na pele logo abaixo da manga que estava enrolada e presa no bíceps esquerdo. Não conseguia ver o suficiente para perceber o que lá estava escrito.

Puxa isso para cima disse ele apontando.

Sakai puxou a manga até ao ombro, revelando uma tatuagem a azul e vermelho. Era o desenho, tipo caricatura, de um rato em pé nas patas traseiras, com um enorme e desagradável sorriso, cheio de dentes. Numa das mãos, o rato segurava uma pistola e na outra uma garrafa de qualquer coisa alcoólica com o rótulo xxx. As palavras a azul por cima e por baixo do desenho estava esborratada pela idade e pelo esticar da pele. Sakai tentou ler:

Diz «Força»... não, «Primeiro». Diz «Primeiro de Infantaria»1. Este tipo esteve na tropa. A parte de baixo não faz... é outra língua. «Non... Gratum... Anum... Ro...» Não consigo decifrar esta parte.

Rodendum disse Bosch. Sakai olhou para ele.

Latim de sacristão disse-lhe Bosch. Não presta para nada. Ele era um rato dos túneis. Vietname.

Tanto faz disse Sakai. Deitou um olhar avaliador ao cadáver e ao cano e continuou: Bem, ele acabou num túnel, não é verdade? Uma espécie de túnel.

Bosch estendeu a mão nua para a cara do homem e afastou o desgrenhado cabelo preto e cinzento da testa e dos olhos vazios. O facto de ele estar a fazer isto sem luvas fez com que os outros parassem o que estavam a fazer para observarem este comportamento invulgar e, até mesmo pouco higiénico. Bosch não lhes prestou atenção. Olhou para a cara durante um bom bocado, sem dizer nada, sem ouvir uma única palavra que pudesse ter sido dita. No instante em que percebeu que conhecia a cara, tal como conhecia a tatuagem, a imagem de um jovem passou-lhe pela cabeça. Esquelético e bronzeado, o cabelo cortado à escovinha. Vivo, não morto. Levantou-se e afastou-se rapidamente do corpo.

Ao fazer aquele movimento repentino e inesperado, chocou violen-tamente contra Jerry Edgar, que, tendo finalmente chegado, se tinha

 

No original «Force», «First», «First Infantry». (N. T.)

 

aproximado do grupo à volta do cadáver. Deram ambos um passo para trás, momentaneamente estonteados. Bosch levou a mão à testa. Edgar, que era muito mais alto, levou a dele ao queixo.

Merda, Harry! exclamou Edgar. Estás bem?

Sim. E tu?

Edgar olhou para a mão para ver se havia sangue.

Sim. Desculpa lá. Por que é que te lembraste de saltar desta maneira?

Não sei.

Edgar olhou por cima do ombro de Bosch para o cadáver e depois foi atrás do colega que se afastava.

Desculpa, Harry disse Edgar. Fiquei uma hora lá sentado à espera que aparecesse uma pessoa para me substituir. Vá, conta-me, o que é que temos aqui?

Edgar continuava a esfregar o queixo enquanto falava.

Ainda não tenho a certeza respondeu-lhe Bosch. Quero que te metas num destes carros patrulhas que tenha um TCM. Um que funcione. Vê se consegues a ficha de um Meadows, Billy,... ah, .. .é melhor usares William. A DN deve ser 1950. Precisamos de arranjar uma morada da DGV.

E o morto?

Bosch fez que sim com a cabeça.

Nada, nenhum endereço no BI dele?

Não há BI. Eu é que o reconheci. Por isso verifica na caixa. Deve haver um contacto qualquer nestes últimos anos. Pelo menos, qualquer coisa relacionada com a droga na Divisão de Vaíi Nuys.

Edgar afastou-se em direcção à fila dos carros pretos e brancos estacionados, à procura de um com um terminal de computador móvel montado no painel de instrumentos. Como era um homem possante, parecia que se deslocava devagar, mas Bosch sabia, por experiência, que Edgar era um homem difícil de acompanhar. Edgar estava impecavelmente vestido com um fato castanho com uma fina risca branca. O cabelo estava cortado rente e a pele era quase tão suave e tão preta como a da casca de uma beringela. Bosch observou Edgar a afastar-se sem conseguir evitar perguntar para com os seus botões se ele não teria cronometrado a sua chegada de forma a estar suficientemente atrasado para evitar ter de amarrotar o fato enfiando um fato macaco e rastejando dentro do tubo.

Bosch foi até ao porta bagagens do carro e tirou a máquina fotográfica Polaroid. Voltou para junto do cadáver, pôs um pé de cada lado do corpo e dobrou-se para tirar umas fotografias à cara. Três deviam chegar, decidiu ele e meteu os três cartões saídos da máquina em cima do cano enquanto as fotografias se iam revelando. Não conseguia deixar de olhar para a cara, para as mudanças que o tempo tinha feito. Pensou naquela cara e no sorriso inebriado que a franzia na noite em que todos os ratos do Primeiro de Infantaria saíam da casa das tatuagens em Saigão. Os esgotados americanos tinham levado naquilo quatro horas, mas todos se tinham tornado irmãos de sangue ao porem a mesma divisa nos ombros. Bosch lembrava-se da alegria de Meadows com os camaradas e o medo que todos partilhavam.

Harry afastou-se do corpo enquanto Sakai e Osito desdobravam um grande e pesado saco de plástico preto com um fecho de correr a todo o comprimento. Quando o saco estava desdobrado e aberto, os homens da Medicina Legal ergueram Meadows e colocaram-no lá dentro.

Parece a porra do Rip Van-Winkle comentou Edgar ao aproximar-se.

Sakai correu o fecho e Bosch viu que alguns dos cabelos encaracolados de Meadows tinham ficado presos no fecho. Meadows não se importaria. Uma vez, tinha dito a Bosch que estava destinado ao interior de um saco para cadáveres. Toda a gente estava, dissera ele.

Edgar segurava um pequeno bloco de notas numa mão e uma caneta Cross de ouro na outra.

William Joseph Meadows, 21-7-50. Parece-te ele, Harry?

Sim, é ele.

Bem, tinhas razão, temos múltiplos contactos. Mas não só relacionados com a merda da droga. Temos assalto a um banco, tentativa de assalto, posse de heroína. Uma detenção por vagabundagem aqui mesmo, na barragem, há cerca de um ano e tal. E ele tinha mesmo umas quantas queixas relacionadas com a droga. A da Van Nuys a que te referiste. O que é que ele era a ti, o teu informador?

Não. Conseguiste a morada?

Vive no Valley. Sepulveda, ao pé da destilaria. Um bairro muito mau para se vender uma casa. Então, se ele não era o teu informador, como é que conheces este tipo?

Não o conhecia... pelo menos, ultimamente. Conheci-o numa vida diferente.

O que é que queres dizer com isso? Quando é que conheceste este gajo?

 

A última vez que vi o Billy Meadows foi há vinte anos, ou qual-quer coisa do género. Ele era... foi em Saigão.

Sim, isso deve ter sido há vinte anos.

Edgar aproximou-se das Polaroids e olhou para as três caras de Billy Meadows.

Conhecia-lo bem? perguntou.

Não lá muito bem. Quase tão bem como conseguimos conhecer alguém naquele sítio. Aprendes a confiar a tua vida a pessoas que, depois, quando tudo acaba, descobres que nem sequer conheces a maior parte delas. Nunca mais o vi desde que voltei. Falei uma vez com ele ao telefone, no ano passado, mais nada.

Como é que o reconheceste?

Ao princípio não o reconheci. Depois vi a tatuagem no braço. Isso fez-me lembrar da cara. Acho que uma pessoa se lembra de tipos como ele. Pelo menos, eu lembro-me...

Também acho...

Deixaram que o silêncio se instalasse durante um bocado. Bosch estava a tentar decidir o que fazer, mas só conseguia pensar na coincidência de ter sido chamado para a cena de um crime e vir a descobrir Meadows. Edgar interrompeu o devaneio.

Então, queres dizer-me o que é que descobriste que parece esquisito nisto? Ali o Donovan parece apavorado com todo o trabalho que lhe estás a dar.

Bosch explicou a Edgar todos os problemas, a ausência de rastos visíveis no interior do cano, a camisa puxada para cima da cabeça, o dedo partido e o facto de não haver nenhuma faca.

Nenhuma faca? perguntou o companheiro.

Precisava de qualquer coisa para cortar a lata ao meio e fazer um fogão... se o fogão era dele.

Podia ter trazido o fogão com ele. Podia alguém ter lá entrado e ter levado a faca depois do tipo ter morrido. Se é que havia alguma faca.

Sim, pode ter sido isso. Não há rastos que nos digam seja o que for.

Bem, sabemos pelo cadastro dele que era um agarrado. Era assim quando o conheceste?

Até certo ponto. Utilizador e passador.

Ora aí tens, um drogado desde há muito tempo, não consegues predizer o que é que eles vão fazer, quando é que estão pedrados ou não. São casos perdidos, Harry.

Mas ele tinha largado... pelo menos, eu julgava que sim. Só tem uma picada recente no braço.

Harry, tu disseste que não vias o tipo desde Saigão. Como é que sabes que ele tinha largado ou não?

Não o vi, mas falei com ele. Ele telefonou-me uma vez, no ano passado. Em Julho ou Agosto, penso eu. Tinha sido apanhado numa rusga pelo carro dos narcóticos em Van Nuys. Não sei como, talvez por ter lido nos jornais, ou qualquer coisa assim, sabia que eu era polícia e telefonou-me para o Departamento dos Assaltos e Homicídios. Telefona da cadeia de Van Nuys e pergunta-me se o posso ajudar. Ele teria de cumprir, o quê, uns trinta dias na choça, mas estava de rastos, disse ele. E ele, ah..., disse só que não podia cumprir pena desta vez, não era capaz de largar aquilo assim, sozinho...

Bosch calou-se sem completar a história. Passado um bocado, Edgar incitou-o a continuar.

E?... Vá lá, Harry, o que é que fizeste?

E eu acreditei nele. Falei com o polícia. Lembro-me que o apelido dele era Nuckles. Um bom nome para um polícia de giro, pensei eu. E depois telefonei para a VA1 lá em Sepulveda e meti-o num programa. O Nuckles concordou. Também é um veterano. Conseguiu que o promotor pedisse ao juiz para ser brando. Bem, o certo é que a clínica da VA para doentes ambulatórios o aceitou. Umas seis semanas depois, telefonei para saber como é que iam as coisas e disseram-me que ele tinha conseguido, tinha feito a desintoxicação e estava tudo a correr bem. Quero dizer, foi o que eles me disseram. Disseram que estava no segundo nível da manutenção. A falar com um psiquiatra, terapia de grupo... Não voltei a falar com o Meadows depois daquele primeiro telefonema. Ele nunca mais telefonou e eu não tentei entrar em contacto com ele.

Edgar consultou o bloco de notas. Bosch conseguia ver que a página para onde ele estava a olhar estava em branco.

Olha, Harry disse Edgar -, isso continua a ser há um ano. E isso é uma data de tempo para um drogado, não é? Quem sabe? Ele já pode ter descarrilado e voltado à desintoxicação umas três vezes desde essa altura. Não é isso que nos interessa agora. A pergunta é: O que é que queres fazer em relação a hoje?

Acreditas em coincidências? perguntou Bosch.

Não sei. Eu...

Não há coincidências.

Harry, não sei de que é que estás a falar. Mas sabes o que eu penso? Não estou a ver nada que me chame a atenção. Um tipo rasteja para dentro dum tubo às escuras, se calhar não consegue ver o que está a fazer, mete demasiado sumo no braço e pifa. Mais nada. Se calhar estava outra pessoa qualquer com ele que apagou os rastos quando saiu. Também levou a faca. Podem ter sido cem coisas...

Às vezes, elas não chamam a atenção Jerry. Aqui, o problema é esse. E domingo. Toda a gente quer ir para casa. Jogar golfe. Vender casas. Ver o jogo. Ninguém se rala. Estão só a fingir. Não vês que é com isso que eles estão a contar?

Quem são «eles, Harry?

Quem quer que seja que fez o trabalhinho.

Calou-se durante um minuto. Não estava a convencer ninguém e quase se podia incluir a ele próprio. Apelar ao sentido de dedicação de Edgar era um erro. Ele ia largar o emprego mal fizesse os vinte anos. Depois ia pôr um anúncio do tamanho de um cartão de visita no jornal do sindicato «reformado do LAPD faz descontos para os seus camaradas» e ganhar um quarto de um milhão de dólares a vender casas a polícias ou dos polícias no Vale de San Fernando ou no Vale de Santa Clarita ou no Vale do Antílope, ou em qualquer outro vale que estivesse a ser o alvo das bulldozers nessa altura.

Para quê entrar no cano? perguntou Bosch por fim. Disseste que ele vivia lá em cima, no Vale. Em Sepulveda. Para que é que havia de descer até aqui?

Harry, quem sabe? O tipo era um agarrado. Se calhar a mulher expulsou-o de casa. Se calhar, matou-se lá e os amigos arrastaram o corpo até aqui porque não queriam ter a chatice de explicar o que tinha acontecido.

Isso também é um crime.

Sim, é um crime, mas não te esqueças de me informar quando descobrires um DA1 que abra um processo por causa disso.

O equipamento dele parecia limpo. Novo. As outras marcas do braço pareciam antigas. Não me parece que ele andasse outra vez a injectar-se. Pelo menos, regularmente. Há qualquer coisa que não está certa nisto tudo.

 

VA Veterans Administration. (N. T.)

DA Distnct Attorney representante do Ministério Público. (N. T.)

 

Bem, não sei se Sabes, com a SIDA e essas coisas todas, eles devem manter o equipamento limpo.

Bosch olhou para o colega como se não o conhecesse.

Harry, ouve aquilo que te estou a dizer. Aquilo que te estou a dizer é que ele pode ter sido o teu camarada lá nos túneis há vinte anos, mas, este ano, era um agarrado. Nunca irás conseguir explicar todas as coisas que ele fez. Não sei nada acerca do equipamento ou dos rastos, mas sei que isto não parece ser um daqueles casos em que devemos matar-nos a trabalhar. Isto é um caso das nove-às-cinco, fins-de-semana e feriados excluídos.

Bosch desistiu pelo menos, naquela altura.

Vou até Sepulveda disse ele. Vens ou vais voltar para a tua venda de casas?

Eu faço o meu trabalho, Harry respondeu Edgar num tom suave. Só porque não estamos de acordo não quer dizer que eu não vá fazer aquilo para que me pagam. Nunca foi assim e nunca será. Mas se não gostas da maneira como eu trato das coisas, vamos ao Noventa e Oito amanhã de manhã e tentamos arranjar uma troca.

Bosch ficou imediatamente arrependido daquele golpe baixo, mas não o manifestou. Disse:

  1. Vai andando para lá, vê se está alguém em casa. Vou ter contigo mal acabe de tratar das coisas aqui.

Edgar dirigiu-se para o cano e agarrou numa das fotografias de Meadows. Enfiou-a no bolso do casaco e depois desceu a estrada em direcção ao carro sem voltar a dirigir a palavra a Bosch.

Depois de Bosch ter despido o fato macaco e o ter dobrado e arrumado na mala do carro, ficou a ver Sakai e Osito a pôr o cadáver em cima de uma maca e a levá-la para as traseiras da carrinha azul. Começou a andar, pensando em qual seria a melhor forma de conseguir que a autópsia fosse considerada prioritária, o que queria dizer, que estivesse feita pelo menos no dia seguinte e não quatro ou cinco dias depois. Apanhou o técnico da medicina legal quando este estava a abrir a porta do motorista.

Vamo-nos embora, Bosch.

Bosch pôs a mão na porta, segurando-a de forma a que esta não se abrisse o suficiente para Sakai conseguir entrar.

Quem é que está a cortar hoje?

Neste? Ninguém.

Vá lá, Sakai. Quem é que está de serviço?

O Sally. Mas ele nem se vai aproximar deste, Bosch.

Olha, já estive a discutir com o meu parceiro. Agora, não comeces tu também, OK?

Bosch, tu olha. Tu ouve. Estou a trabalhar desde as seis da noite passada e esta é a sétima cena onde já estive. Tivemos atropelados, afo-gados, um caso de sexo. As pessoas estão a morrer por se encontrarem connosco, Bosch. Não há descanso para ninguém e isso quer dizer que não há tempo para aquilo que tu pensas que pode ser um caso. Por uma vez, ouve o que te diz o teu parceiro. Este vai ser um caso de rotina. Isto quer dizer que vamos pegar-lhe na quarta-feira, talvez quinta. Prometo que não passará de sexta-feira. E, de qualquer das maneiras, os resultados dos tóxicos implica dez dias de espera, pelo menos. Sabes isso. Por isso, para que é essa pressa toda, porra?

Implicam. Os resultados dos tóxicos implicam dez dias de espera, pelo menos.

Vai à merda!

Diz ao Sally que preciso dos preliminares hoje. Passo por lá mais logo.

Meu Deus, Bosch, ouve o que te estou a dizer. Temos cadáveres nas mesas amontoadas no corredor, que já sabemos que são oitenta e sete e vão ser os próximos a serem cortados. O Salazar não vai ter tempo para aquilo que parece ser, a mim e a todas as outras pessoas que aqui estão, excepto tu, um caso de um agarrado. Sem margens para dúvidas. O que é que lhe vou dizer para o convencer a fazer o corte hoje?

Mostra-lhe o dedo. Diz-lhe que não havia rastos dentro do cano. Pensa em qualquer coisa. Diz-lhe que pela BD?«ele era um tipo que sabia muito bem o que eram as agulhas para ter tomado uma overdose.

Sakai encostou a cabeça ao painel lateral da carrinha e desatou às gargalhadas. Depois abanou a cabeça como se uma criança tivesse dito uma piada.

E sabes o que é que ele me ia dizer? Ia dizer que não interessa nada há quanto tempo é que eles andam a injectar-se. Todos eles acabam por fazer borrada. Bosch, quantos agarrados com sessenta e cinco anos é que vês por aí? Nenhum chega a essa idade. No fim, a agulha lixa todos. Tal como esse gajo dentro do cano.

Bosch voltou-se para trás e olhou em volta para se certificar que nenhum dos polícias uniformizados os estava a ver e a ouvir. Depois, fitou o rosto de Sakai.

Limita-te a dizer-lhe que passo por lá mais tarde disse numa voz muito calma. Se ele não encontrar nada nos preliminares, então, tudo bem, podem enfiar o corpo dele no fim da bicha do corredor ou podem ir estacioná-lo na bomba de gasolina em Lankershim. Nessa altura, já não me rala, Larry. Mas vais dizer-lhe. A decisão é dele, não é tua.

Bosch tirou a mão da porta e recuou. Sakai entrou na carrinha e bateu com a porta. Ligou o motor e olhou para Bosch através da janela durante um bom bocado antes de a abrir.

Bosch, tu és uma porra dum chato. Amanhã de manhã. É o melhor que consigo fazer. Hoje é impossível.

O primeiro do dia?

Mas deixa-nos em paz hoje, OK?

O primeiro?

Sim. Sim. O primeiro.

Claro, vou deixar-vos em paz. Então, vemo-nos amanhã.

Nem pensar, pá. Amanhã vou estar a dormir.

Sakai voltou a fechar a janela e arrancou. Bosch recuou para o deixar passar e, quando o carro desapareceu, ficou sozinho a olhar para o cano. E foi a primeira vez que reparou nos graffitis. Não que não tivesse reparado que o exterior do tubo estava literalmente coberto de mensagens pintadas, mas, desta vez, olhou para os rabiscos um a um. Muitos eram velhos, desbotados um quadro de letras que compunham ameaças que ou já tinham sido esquecidas há muito ou já tinham sido concretizadas. Havia slogans: Abandonem LA. Havia nomes: Ozone, Bomber, Stryker, muitos outros. Uma das palavras mais recentes chamou-lhe a atenção. Eram só três letras, a uns três metros e meio do final do tubo Sha. As três letras tinham sido pintadas num único movimento fluído. A parte de cima do00estava dentada e depois contornada, dando a impressão de uma boca. Uma bocarra aberta. Não tinha dentes, mas Bosch conseguia senti-los. Dava a ideia de que a obra não tinha sido acabada. Mesmo assim, era um bom trabalho, original e limpo. Apontou-lhe a Polaroid e tirou uma fotografia.

Bosch encaminhou-se para a carrinha da polícia, enfiando a película no bolso. Donovan estava a arrumar o seu equipamento numas prateleiras e os sacos com as provas numas caixas de madeira de vinho do Napa Valley.

Encontraste fósforos queimados lá dentro?

Sim, um recente respondeu Donovan. Ardido até ao fim. Estava a uns três metros da entrada. Está ali, no diagrama.

Bosch agarrou numa prancheta onde estava um papel com um diagrama do tubo, mostrando a localização do corpo e onde tinham estado os outros materiais tirados do interior do cano. Bosch reparou que o fósforo tinha sido encontrado a uns quatro metros e meio do corpo. Donovan mostrou-lhe então o fósforo, metido dentro do seu próprio saco de plástico.

Eu depois digo-te se condiz com a carteira de fósforos no equipamento do tipo disse-lhe ele. Se é que era nisso que estavas a pensar.

E as fardas? O que é que eles encontraram? perguntou-lhe Bosch.

Está tudo ali respondeu Donovan apontando para um caixote de lixo de madeira onde estavam mais sacos de plástico.

Estes continham o lixo apanhado pelos polícias da patrulha que tinham feito a busca à área num raio de cinquenta metros do tubo. Cada um dos sacos continha a descrição do local onde o objecto tinha sido encontrado. Bosch tirou os sacos um a um e examinou o conteúdo de cada um. A maior parte eram porcarias que não deveriam ter nada a ver com o cadáver dentro do cano. Havia jornais, farrapos de pano, um salto alto, uma meia branca com tinta azul seca lá dentro. Um trapo para snifar.

Bosch agarrou num saco que continha a tampa de uma lata de tinta spray. O saco seguinte tinha a lata de spray. O rótulo dizia que era Azul Oceano. Bosch sopesou o saco e percebeu que a lata ainda tinha tinta. Levou o saco para junto do cano, abriu-o e, carregando com a ponta de uma caneta no botão, esguichou uma linha azul ao lado da palavra Sha. Carregou demasiado. A tinta escorreu pela superfície curva do cano e pingou para o cascalho. Mas Bosch conseguiu ver que as cores condiziam.

Pensou naquilo durante uns instantes. Por que é que um pintor de graffitis havia de deitar fora uma lata ainda meia de tinta? Olhou para o que estava escrito no saco da prova. Tinha sido encontrada perto da borda do reservatório. Alguém tinha tentado atirar a lata para o lago, mas tinha falhado. Mais uma vez, voltou a perguntar: Porquê? Acocorou-se ao pé do cano e olhou atentamente para as letras. Concluiu que, fosse qual fosse a mensagem ou o nome, não tinha sido acabado. Tinha acontecido qualquer coisa que fizera com que o artista interrompesse o que estava a fazer e deitasse fora a lata, a tampa e a meia para snifar por cima da vedação. Teria sido a polícia? Bosch puxou do bloco de notas e escreveu uma nota para se lembrar de telefonar a Crowley depois da meia-noite para saber se alguém dos homens dele tinha andado a patrulhar o reservatório durante o turno da madrugada.

Mas se não tivesse sido um chui a fazer com que o tipo atirasse a tinta por cima da vedação? E se o pintor tivesse visto o cadáver a ser metido no cano? Bosch pensou no que Crowley lhe tinha dito sobre a chamada anónima a informar do cadáver. Um miúdo, nada menos. Teria sido o pintor que telefonara? Bosch levou outra vez a lata para a carrinha da polícia e entregou-a a Donovan.

Tira as impressões digitais a isto a seguir ao equipamento e ao fogão disse-lhe. Penso que é capaz de pertencer a uma testemunha.

Certo respondeu Donovan.

Bosch desceu as colinas e apanhou a rampa do Barham Boulevard para entrar na auto-estrada de Hollywood em direcção ao norte. Depois de ter subido ao longo do Desfiladeiro Cahuenga, seguiu para oeste pela auto-estrada de Ventura e depois outra vez para norte pela auto-estrada de San Diego. Levou cerca de vinte minutos a percorrer os dezassete quilómetros. Era domingo e havia pouco trânsito. Saiu em Roscoe percorreu uns dois quarteirões para este, entrando no bairro de Meadows em Langdon.

Sepulveda, tal como a maior parte das comunidades suburbanas de Los Angeles, tinha bairros bons e maus. Bosch não estava à espera de relvados bem cuidados e passeios cheios de Mercedes e Volvos na rua de Meadows e não ficou desapontado. Os apartamentos já tinham dei-xado de ser atraentes há mais de dez anos. Havia grades em todas as janelas do rés-do-chão e graffitis em todas as portas de garagens. O cheiro penetrante da destilaria em Roscoe impregnava toda a zona. Tudo aquilo cheirava como um bar às quatro da manhã.

Meadows tinha vivido num bloco de apartamentos com a forma de um00que fora construído nos anos cinquenta, quando o cheiro das flores secas dos lúpulos ainda não se sentia e ainda existia esperança no bairro. Havia uma piscina no meio do pátio, mas há muito que estava cheia de areia e de terra. Agora, o pátio consistia num terreno com a forma de um rim cheio de erva castanha rodeado por cimento sujo. Meadows tinha vivido num apartamento de esquina no cimo das escadas. Bosch conse-guia ouvir o permanente rugido da auto-estrada enquanto subia as escadas e percorria a passagem em frente dos apartamentos. A porta do 7B não estava fechada à chave e abria para uma pequena divisão que era simultaneamente sala, casa de jantar e cozinha. Edgar estava encostado ao balcão a escrever no bloco de notas.

Um sítio agradável, não é? comentou ele.

Pois é respondeu Bosch, olhando em volta. Não está ninguém em casa?

Não. Falei com a vizinha da porta ao lado e ela disse-me que não via ninguém por aqui desde anteontem. Disse que o tipo que morava aqui lhe tinha dito que se chamava Fields e não Meadows. Giro, hem? Ela disse que ele vivia sozinho. Estava cá há cerca de um ano, não se dava com ninguém. Era tudo o que sabia.

Mostraste-lhe a fotografia?

Sim, ela reconheceu-o. Mas não gostou de ter de olhar para a fotografia de um morto.

Bosch dirigiu-se para um pequeno corredor que levava à casa de banho e a um quarto de dormir. Perguntou:

Forçaste a fechadura?

Não... estava aberta. Palavra. Bati umas duas vezes e, quando estava a preparar-me para ir buscar a bolsa ao carro para tratar da porta, resolvo experimentar a porta, só por tentar.

E ela abriu-se.

Abriu-se.

Falaste com o senhorio?

A senhoria não está. Era suposto estar, mas se calhar saiu para almoçar ou para se injectar. Acho que toda a malta que vi por aqui é agarrada.

Bosch voltou para a sala e olhou em volta. Não havia muito que ver. Um sofá forrado de vinyl verde estava encostado a uma parede, uma cadeira estofada estava encostada à parede contrária com um pequeno televisor a cores ao lado, em cima da carpete. Na casa de jantar, havia uma mesa com tampo de fórmica e três cadeiras em volta. A quarta cadeira estava sozinha, encostada à parede. Bosch olhou para uma velha mesa de café cheia de queimaduras de cigarros em frente do sofá. Em cima dela, havia um cinzeiro a transbordar e um livro de palavras cruzadas. Havia cartas de jogar dispostas num jogo do solitário que não tinha sido acabado. Havia um Tv Guide. Bosch não fazia a menor ideia se Meadows fumava, mas sabia que não se tinham encontrado cigarros no cadáver. Tomou nota mentalmente para verificar depois.

Edgar disse:

Harry, esta casa foi revistada. Não é só por a porta não estar fechada à chave e isso, quero dizer, há outras coisas. Foi tudo revistado. Fizeram um trabalho meio decente, mas percebe-se. Foi à pressa. Vai ver a cama e o armário, percebes logo o que eu quero dizer. Vou tentar outra vez a senhoria.

Edgar saiu e Bosch atravessou outra vez a sala em direcção ao quarto. No caminho, sentiu o cheiro a urina. No quarto, deparou-se com uma cama de casal sem cabeceira, encostada a uma parede. Havia uma descoloração gordurosa na parede branca no sítio onde Meadows devia costumar apoiar a cabeça quando estava sentado na cama. Em frente da cama, encostada à parede havia uma cómoda velha com seis gavetas. Ao lado da cama, estava uma mesinha de cabeceira barata de rotim, com um candeeiro em cima. Não havia mais nada no quarto, nem sequer um espelho.

Bosch estudou primeiro a cama. Não estava feita e as almofadas e os lençóis estavam amontoados no meio. Bosch reparou que o canto de um dos lençóis estava metido entre o colchão e o estrado de molas. Era óbvio que a cama não tinha sido feita assim. Bosch puxou o canto para fora do colchão e deixou-o solto e caído do lado da cama. Levantou o colchão como se quisesse espreitar para baixo dele e depois baixou-o outra vez. O canto do lençol ficou outra vez entalado entre o colchão e o estrado das molas. Edgar tinha razão.

A seguir, abriu as seis gavetas da cómoda. A roupa que lá havia roupa interior, meias brancas e escuras e várias T-shirts estava toda muito bem dobrada e não parecia ter sido mexida. Quando fechou a gaveta esquerda do fundo, reparou que ela não deslizava com facilidade e não fechava até ao fim. Puxou-a toda para fora da cómoda. Depois tirou outra gaveta. A seguir, tirou as outras todas. Quando tinha todas as gavetas tiradas, inspeccionou a parte de baixo de cada uma delas para ver se estava ou tinha estado alguma coisa lá presa com fita adesiva. Não encontrou nada. Voltou a colocá-las, mas foi mudando a ordem até conseguir que todas deslizassem facilmente e fechassem por completo. Quando terminou, as gavetas estavam todas numa ordem diferente. Na ordem certa. Concluiu que alguém tinha tirado as gavetas para fora para procurar por baixo e atrás delas e as tinha voltado a enfiar numa ordem errada.

Entrou no armário-arrumação. Só um quarto do espaço disponível é que estava utilizado. No chão, havia dois pares de sapatos, um par de Reeboks para correr que estavam sujos de terra e de pó cinzento e um par de botas de atacadores que pareciam ter sido limpas e engraxadas recentemente. Havia mais pó cinzento na carpete. Baixou-se e agarrou um bocadinho com as pontas dos dedos. Parecia pó de cimento. Tirou um saquinho para guardar provas do bolso e meteu um bocadinho do granulado lá dentro. Depois, voltou a guardar o saco e levantou-se. Havia cinco camisas penduradas em cabides, uma branca com colarinho e quatro pretas de mangas compridas e sem colarinho, iguais à que Meadows tinha vestida. Em cabides ao lado dos das camisas, estavam pendurados dois pares de jeans muito desbotados e dois pares de calças largas estilo Karate. Os bolsos dos quatro pares de calças tinham sido virados do avesso. No chão, um cesto de plástico para a roupa suja continha um par de calças pretas, T-shirts, meias e um par de boxers.

Bosch saiu do armário e deixou o quarto. Parou na casa de banho do corredor e abriu o armário dos remédios. Lá dentro, havia um tubo de pasta de dentes quase gasto, um frasco de aspirinas e uma caixa vazia de seringas para insulina. Quando fechou o armário, olhou para a sua própria cara e viu o cansaço nos olhos. Alisou o cabelo com a mão.

Harry voltou para a sala e sentou-se no sofá, à frente do jogo do solitário por acabar. Edgar entrou.

O Meadows alugou esta casa no dia um de Julho último disse ele. A senhoria já voltou. Era um aluguer de pagamento mensal, mas ele pagou onze meses de entrada. Quatrocentos dólares por mês. Isso quer dizer que ele pagou quase cinco mil a pronto. Ela disse que não lhe tinha pedido referências. Limitou-se a receber o dinheiro. Ele vivia...

Ela disse que ele pagou onze meses? interrompeu Bosch. Foi um acordo, tipo, pagas onze e ficas com o décimo segundo à borla?

Não, eu perguntei-lhe isso e ela disse que não, que tinha sido ele. Era exactamente assim que ele queria pagar. Disse que ia deixar a casa no dia um de Junho, deste ano. Isso é... o quê... daqui a dez dias? Ela disse que ele tinha vindo para cá por causa de um trabalho qualquer, está convencida que ele veio de Phoenix. Ela disse que ele era uma espécie de supervisor de turno na escavação do túnel do projecto para o metro da baixa. Ficou com a impressão que era só isso que o trabalho ia demorar e que, depois, ele iria voltar para Phoenix.

Edgar estava a olhar para as notas do caderno, revendo a conversa com a senhoria.

E praticamente tudo. Ela também o identificou pela fotografia. Também o conhecia como Fields. Bill Fields. Disse que ele tinha um horário muito esquisito, como se estivesse no turno da noite, ou qualquer coisa dessas. Disse que, na semana passada, o viu chegar a casa de manhã, a ser despejado de um jipe beige ou castanho-claro. Não temos o número da matrícula, porque ela não estava a olhar. Mas disse que ele estava todo sujo e foi assim que ela ficou a saber que ele estava a voltar do trabalho.

Ficaram calados durante alguns instantes. A pensar.

Por fim, Bosch disse:

  1. Edgar, tenho negócio para te propor.

Tens um negócio para mim? Está bem, vamos lá ouvir isso.

Vais para casa ou voltas para a tua demonstração de casas, ou outra coisa qualquer. Eu encarrego-me disto a partir daqui. Vou buscar a cassete ao centro de comunicações e voltar para o gabinete para começar a dar andamento à papelada. Vou ver se o Sakai conseguiu a identificação através do familiar mais próximo. Julgo, se me estou a lembrar bem, que o Meadows era da Louisiana. De qualquer das maneiras, tenho a autópsia marcada para as oito horas de amanhã. Também a posso ir buscar quando for para a esquadra.

«Agora, a tua parte: amanhã acabas aquela coisa da TV da noite passada e vais entregar tudo ao DA. Não deve haver problemas com isso.

Quer dizer que ficas com a parte que está mergulhada na merda e me deixas ir passear. O caso travesti-mata-travesti é do mais claro e chato que há.

Pois é. Mas há uma coisa que eu também quero. Amanhã, quando vieres do Valley para o serviço, pára na VA de Sepulveda e vê se os consegues convencer a deixar-te ver o processo do Meadows. Pode ser que lá haja alguns nomes que nos possam ser úteis. Como já disse, suposta-mente, ele andava a falar com um psiquiatra na unidade para pacientes ambulatórios e a frequentar um desses grupos idiotas. Talvez um desses tipos andasse a injectar-se com ele e saiba o que é que aconteceu aqui. É muito improvável, eu sei. Se eles te chatearem, telefona-me que eu vou tratar de um mandado de busca.

Parece-me um bom negócio. Mas estou preocupado contigo, Harry. Quero dizer, tu e eu não somos parceiros há muito tempo e eu sei que, provavelmente, queres trabalhar de forma a conseguires voltar para o Departamento dos Assaltos e Homicídios na baixa, mas eu não vejo onde está o ganho em estarmos a esfalfarmo-nos com isto. Sim, esta casa foi virada do avesso, mas a questão não é essa. A questão é porquê. E perante o aspecto das coisas, nada me parece muito interessante. O que parece é que alguém despejou o Meadows lá no cano da barragem depois de ele ter batido as botas e revistou a casa à procura do fornecimento dele. Se é que ele tinha.

Provavelmente, foi isso mesmo que aconteceu disse Bosch passados uns instantes. Mas há um par de coisas que continuam a aborrecer-me. Quero pensar nelas mais um bocadinho até me sentir seguro.

Bem, como já disse, por mim, não há problema nenhum. Estás a dar-me a parte limpa do negócio.

Acho que vou dar mais uma vista de olhos. Vai andando. Encontro-me contigo amanhã quando voltar da autópsia.

Tudo bem, companheiro. -E... Jed?

-Sim?

Isto não tem nada a ver com eu querer voltar para a baixa.

Sozinho, Bosch sentou-se a pensar e a examinar a sala à procura de segredos. Os olhos acabaram por pousar nas cartas de jogar espalhadas à frente dele em cima da mesinha de apoio. O Solitário. Viu que os quatro ases já estavam todos de fora. Pegou no monte das cartas restantes e começou a percorrê-lo, tirando três cartas de uma vez. Enquanto o fazia, deparou-se com o dois e o três de espadas e o dois de copas. O jogo não tinha chegado a um empate. Tinha sido interrompido. E nunca fora acabado.

Começou a ficar agitado. Olhou para dentro do cinzeiro de vidro verde e viu que todas as pontas de cigarro eram de Camel sem filtro. Era a marca de Meadows ou do assassino? Levantou-se e começou a andar pela sala. Voltou a sentir o leve cheiro a urina. Voltou para o quarto. Abriu as gavetas da cómoda e tornou a olhar para o conteúdo delas. Não lhe ocorreu nada. Dirigiu-se para a janela e olhou para fora, para as traseiras de um dos prédios do outro lado do beco. Havia um homem com um carrinho de supermercado no beco. Estava a revolver com um pau o interior de um caixote de lixo. O carrinho estava meio cheio de latas de alumínio. Bosch afastou-se da janela e sentou-se na cama, encostando a cabeça à parede no sítio en que devia ter estado a cabeceira e onde a tinta branca era de um cinzento sujo. A parede estava fria.

Diz-me qualquer coisa sussurrou ele para ninguém. Qualquer coisa tinha interrompido o jogo de cartas e Meadows

tinha morrido ali, era o que ele pensava. Depois, Meadows tinha sido levado para o cano. Porquê? Porque é que não o tinham deixado ali? Bosch encostou a cabeça à parede e olhou directamente para o outro lado do quarto. Foi nesse momento que reparou num prego enfiado na parede. O prego estava a uns noventa centímetros acima da cómoda e tinha sido pintado de branco juntamente com a parede, há já muito tempo. Fora por isso que não o tinha visto anteriormente. Levantou-se e foi espreitar atrás da cómoda. No espaço de sete centímetros entre ela e a parede, viu o canto de uma moldura caída. Afastou com o ombro a cómoda pesada da parede e agarrou na moldura. Deu uns passos atrás e sentou-se na borda da cama a estudá-la. O vidro estava partido numa intrincada teia de aranha, provavelmente originada pela queda. O vidro partido obscurecia parcialmente uma fotografia a preto e branco de vinte por vinte e cinco centímetros. Tinha bastante grão e estava a começar a ficar amarelo-acastanhado em volta das margens. A fotografia tinha mais de vinte anos. Bosch sabia disso pois, entre duas rachas do vidro, viu a sua própria cara juvenil, a olhar em frente, sorrindo.

Bosch virou a moldura ao contrário e, com todo o cuidado, dobrou para trás os pregos que mantinham o cartão das costas no sítio. Quando estava a puxar a fotografia amarelada para fora, o vidro deu finalmente de si e caiu no chão aos estilhaços. Ele afastou os pés dos vidros, mas não se levantou. Estudou a fotografia. Não havia nenhuma marca nem à frente nem atrás que dissesse onde ou quando tinha sido tirada. Mas ele sabia que devia ter sido por volta do final de 1969 ou do princípio de 1970, porque alguns dos homens na fotografia tinham morrido depois disso.

Eram sete na fotografia. Todos ratos dos túneis. Todos sem camisa, exibindo orgulhosamente as marcas das T-shirts e as tatuagens, as chapas identificadoras de cada um deles presas umas às outras com fita cola para não tilintarem quando rastejavam pelos túneis. Tinham de estar no Sector do Eco do Distrito de Cu Chi, mas Bosch não conseguia perceber nem lembrar-se de qual era a aldeia. Os soldados estavam em pé numa trincheira, colocados de ambos os lados da entrada de um túnel que não era maior do que do cano onde mais tarde Meadows viria ser encontrado morto. Bosch olhou para si próprio e achou que o seu sorriso na fotografia era idiota. Agora, à luz do que estava ainda por vir depois daquele momento ter sido captado, aquele sorriso envergonhava-o. Depois olhou para Meadows na fotografia e viu o sorriso fino e o olhar vazio.

Bosch olhou para os estilhaços dos vidros entre os pés e viu um papel cor-de-rosa, com o tamanho aproximado de um bilhete de base-bol. Levantou-o pelos cantos e examinou-o. Era uma cautela de uma loja de penhores na baixa. O nome do cliente que lá estava escrito era William Fields. O artigo penhorado estava descrito como uma pulseira antiga, de ouro com incrustações de jade. A cautela tinha a data de seis semanas atrás. Fields tinha conseguido 800dólares pela pulseira. Bosch enfiou a cautela num saco para provas que trazia no bolso e levantou-se.

A viagem até à baixa levou uma hora por causa do trânsito que se dirigia para o estádio dos Dodgers. Bosch ocupou o tempo a pensar no apartamento. Tinha sido revistado, mas Edgar tinha tido razão. Tinha sido um trabalho feito à pressa. Os bolsos das calças eram uma indicação óbvia. Mas as gavetas da cómoda deviam ter sido voltadas a meter como deviam ser e a fotografia e a cautela escondida da loja de penhores não deviam ter passado despercebidos. Qual teria sido a pressa? Concluiu que tinha sido o facto do corpo de Meadows se encontrar no apartamento. Tinha de ser removido.

Bosch saiu na Broadway e seguiu para sul, passando pela Times Square, em direcção à casa de penhores situada no Bradbury Building. A Baixa de L.A. estava tão sossegada como Forest Lawn na maior parte dos fins-de-semana e ele não estava à espera de encontrar a Happy Hocker aberta. Estava apenas curioso e só queria passar por lá e deitar uma olhadela à loja antes de se dirigir para o centro de comunicações. Mas, quando ia a passar em frente da fachada da loja, viu um homem lá fora com uma lata de spray a pintar a preto a palavra ABERTO numa placa de contra-placado. Bosch conseguiu ver os fragmentos de vidro no passeio sujo por baixo do contraplacado. Encostou à berma do passeio. O pintor da lata de spray já estava lá dentro quando ele chegou à porta. Entrou passando em frente do raio de um olho eléctrico que fez soar uma campainha algures por cima de todos os instrumentos musicais pendurados do tecto.

Não estou aberto, aos domingos não gritou um homem do fundo da loja.

Estava de pé atrás de uma caixa registadora cromada que estava em cima de um balcão de vidro.

Não é isso que diz o letreiro que acabou de pintar.

Sim, mas isso é para amanhã. As pessoas vêem as tábuas nas montras e julgam que estamos fechados. Eu não estou fechado. Estou aberto para fazer negócio, excepto aos fins-de-semana. Só ali vou ter a tábua durante uns dias. Pintei ABERTO para as pessoas ficarem a saber, está a ver? Recomeço amanhã.

E o dono do negócio? perguntou Bosch enquanto puxava da carteira e mostrava o distintivo. Isto só lhe vai tomar uns minutos.

Oh, polícia. Por que é que não disse logo? Passei o dia todo à espera da polícia.

Bosch olhou em volta, confuso, mas depois percebeu.

Está a falar da montra? Eu não vim por causa disso.

O que é que quer dizer? O polícia da patrulha disse-me para esperar por um detective da polícia. Estou aqui desde as cinco da manhã.

Bosch olhou em redor da loja. Estava cheia da colecção habitual de instrumentos de sopro, velharias electrónicas, jóias e artigos para colecções. -Olhe, Mr... Obinna. Oscar Obinna das casas de penhores de Los Angeles e Culver City.

Mr Obinna, os detectives não tratam de casos de vandalismo aos fins-de-semana. Quero dizer, se calhar até já nem tratam durante a semana.

Qual vandalismo? Isto foi uma penetração. Roubo qualificado.

Quer dizer um arrombamento? O que é que levaram?

Obinna apontou para dois balcões expositores de vidro que flanqueavam a caixa registadora. A placa de cima de cada um dos balcões tinha sido desfeita em mil bocados. Bosch aproximou-se e conseguiu ver pequenos artigos de joalharia, anéis e brincos com ar de baratos, no meio dos estilhaços. Mas também viu pedestais para jóias revestidos de veludo, placas em espelho e suportes de madeira para anéis onde deviam estar peças, mas não estavam. Olhou em volta, mas não viu outros estragos na loja.

Mr Obinna, posso telefonar ao detective de serviço e ver se ainda cá mandam alguém hoje, e se assim for, a que horas é que vêm. Mas eu não vim por causa disto.

Bosch puxou do envelope de plástico transparente com a cautela lá dentro. Levantou-o para Obinna poder ver.

Pode mostrar-me esta pulseira, se faz favor?

Mal tinha acabado de dizer aquilo, sentiu-se invadido por um mau pressentimento. O penhorista, um homem pequeno, redondo, com pele escura e cabelo preto em farripas coladas no crânio calvo, olhou incredu-lamente para Bosch, com as espessas sobrancelhas escuras muito franzidas.

Não vai fazer o relatório das minhas vitrinas?

Não, senhor, não vou. Estou a investigar um homicídio. Mostre-me por favor a pulseira que foi penhorada correspondente a esta cautela. Depois, telefono para o departamento e fico a saber se vai vir cá alguém hoje por causa do seu assalto. Agradeço-lhe a sua cooperação.

Arre! Mas que gente! Eu coopero. Mando as minhas listas todas as semanas, até tiro fotografias para os vossos homens das penhoras. E quando a única coisa que peço é um detective para investigar um roubo, aparece-me um que diz que o seu trabalho são os homicídios. Já aqui estou à espera desde as cinco da manhã!

Dê-me o telefone. Vou mandar cá vir alguém.

Obinna tirou o auscultador de um telefone da parede por trás de uma das vitrinas partidas e entregou-lho. Bosch ditou-lhe o número para ele marcar. Enquanto Bosch falava com o detective de serviço em Parker Center, o prestamista procurou a cautela no livro de registos. A detective de serviço, uma mulher que Bosch sabia nunca ter estado envolvida em nenhuma investigação de campo com a Divisão de Assaltos e Homicídios em toda a sua carreira, perguntou a Bosch como é que ele estava e depois disse-lhe que tinha encaminhado o arrombamento da casa de penhores para a esquadra da zona, embora soubesse que não havia lá nenhum detective nesse dia. A esquadra da zona era a Divisão Central. Mesmo assim, Bosch deu a volta ao balcão-expositor e marcou o número da Divisão Central. Não houve resposta. Enquanto o telefone continuava a tocar sem ser atendido, Bosch iniciou uma conversa só de um lado.

Sim, fala o Harry Bosch, dos detectives de Hollywood. Queria saber em que pé está o arrombamento da Happy Hocker na Broadway... Sim, ele está aqui. Sabem quando?... hum, hum, hum... Exactamente, Obinna, OBI-NNA.

Olhou para Obinna que assentiu ao ouvi-lo soletrar o nome correctamente.

Sim, ele está aqui à espera... Certo... Eu digo-lhe. Obrigado. Desligou o telefone. Obinna olhou para ele com as sobrancelhas

espessas levantadas em arco.

Tem sido um dia muito ocupado, Mr Obinna disse-lhe Bosch.

Os detectives saíram, mas virão cá. Já não devem demorar muito. Dei o seu nome ao polícia de serviço e disse-lhe para os mandar cá o mais depressa possível. Bem, e agora posso ver a pulseira?

Não.

Bosch pescou um cigarro do maço que tirou do bolso do casaco. Sabia o que estava para vir ainda antes de Obinna ter esticado o braço para uma das vitrinas partidas.

A sua pulseira... desapareceu disse o dono da casa de penhores.

Estive a ver no meu registo. Tinha-a aqui na vitrina porque era uma peça muito bonita, muito valiosa para mim. Agora, desapareceu. Somos ambos vítimas do ladrão, não é?

Obinna sorriu, aparentemente feliz por partilhar a sua desdita. Bosch olhou para o brilho dos estilhaços do vidro no fundo da vitrina. Concordou com a cabeça dizendo:

E verdade.

Está um dia atrasado, detective. Uma pena.

Disse que só estas duas vitrinas é que tinham sido roubadas?

Sim. Partiram e agarraram. Rápido. Muito rápido.

A que horas?

A polícia telefonou-me às quatro e meia da manhã. E a hora que está no alarme. Vim logo. O alarme, quando a janela foi arrombada, o alarme disparou. Os polícias não encontraram ninguém. Esperaram até eu chegar. Depois, fiquei à espera dos detectives que não vêm. Não posso limpar as vitrinas até eles chegarem para investigarem o crime.

Bosch estava pensar nas horas. O cadáver largado no cano em qualquer momento antes do telefonema anónimo para o 911 das quatro da manhã. A casa de penhores assaltada por volta da mesma hora. Uma pulseira posta no prego pelo morto fora levada. Não existem coincidências, disse para consigo.

O senhor disse-me qualquer coisa sobre umas fotografias. Listas e fotografias para especificar os objectos penhorados?

Sim, LAPD, é verdade. Entrego as listas de tudo o que recebo aos detectives dos penhores. E a lei. Eu coopero a cem por cento.

Obinna assentia com a cabeça e, de sobrancelhas franzidas, olhava lugubremente para o expositor partido.

E quanto às fotografias? insistiu Bosch.

Sim, as fotografias. Estes detectives dos penhores... eles pedem-me para tirar fotografias das minhas melhores aquisições. Ajuda-os a identificar melhor os objectos roubados. A lei não obriga, mas eu digo, claro, coopero em tudo. Compro aquela máquina Polaroid. Guardo as fotografias se eles quiserem vir ver. Nunca vêm. E uma aldrabice.

Tem uma fotografia desta pulseira?

As sobrancelhas de Obinna voltaram a arquear-se enquanto ele considerava aquela ideia pela primeira vez.

Acho que sim respondeu ele e desapareceu atrás de um cortinado preto que tapava uma porta atrás do balcão. Voltou uns momentos depois com uma caixa de sapatos cheia de fotografias Polaroid, cada uma delas com uma tira de papel químico amarelo presa com um clipe. Percorreu rapidamente as fotografias, puxando de vez em quando uma para fora, erguendo as sobrancelhas e voltando a enfiá-la no lugar. Por fim, descobriu aquilo que procurava.

Cá está. E esta.

Bosch agarrou na fotografia e observou-a atentamente.

Ouro antigo com jade cravado, muito bonita disse Obinna. Lembro-me dela, do melhor que há. Não admira que o filho da mãe que me rebentou a montra a tenha levado. Feita nos anos trinta, México...

O bco Negro

Dei ao homem oitocentos dólares. Não pago muitas vezes um preço destes por uma jóia. Lembro-me de um calmeirão que veio cá com o anel da Super Bowl. Mil novecentos e oitenta e três. Muito bonito. Dei-lhe mil dólares. Nunca o veio buscar.

Estendeu a mão para mostrar o enorme anel de ouro que ainda parecia maior no seu dedo pequenino.

O tipo que empenhou a pulseira, também se lembra dele? perguntou Bosch.

Obinna pareceu intrigado. Bosch concluiu que observar as sobrancelhas dele era a mesma coisa do que observar duas lagartas a atacarem-se mutuamente. Tirou do bolso uma das Polaroids de Meadows e entregou-a ao comerciante. Ele observou-a de perto.

O homem está morto disse Obinna passados uns momentos. As lagartas pareciam estremecer de medo. O homem parece morto.

Não preciso da sua ajuda para saber isso respondeu Bosch. Quero saber se foi ele que empenhou a pulseira.

Obinna devolveu a fotografia, dizendo:

Acho que sim.

Alguma vez cá veio penhorar qualquer coisa antes ou depois da pulseira?

Não. Acho que me lembraria dele. Digo que não.

Preciso de levar isto disse Bosch, agarrando na Polaroid da pulseira. Se precisar que lha devolva, telefone-me.

Pôs um dos seus cartões em cima da caixa registadora. O cartão era dos baratos, com o nome e o número do telefone escritos à mão, tudo na mesma linha. Enquanto se dirigia para a porta da rua, passando por baixo de uma fila de banjos, Bosch consultou o relógio de pulso. Voltou-se para Obinna que estava outra vez a ver as Polaroids.

Mr Obinna, o agente de serviço disse para eu lhe dizer que se os detectives não chegassem dentro de meia hora, o senhor devia ir para casa porque eles só virão amanhã de manhã.

Obinna olhou para ele sem dizer palavra. As lagartas avançaram e colidiram uma contra a outra. Bosch olhou para cima e viu-se reflectido na curva de latão polido de um saxofone pendurado do tecto. Um tenor. Depois voltou-se e saiu, a caminho do centro de comunicações para ir buscar a gravação.

O sargento de serviço no centro de comunicações por baixo do City Hall deixou Bosch gravar a chamada para o 911 de uma das enormes bobinas duplas que nunca paravam de rolar e gravar os gritos da cidade.

A voz do operador de serviço era feminina e negra. A voz de quem telefonava era masculina e branca. Parecia de um rapaz.

Nove um um, emergência. O que é que está a participar? -Uh... uh...

Posso ajudá-lo? O que é que quer participar?

Oh, sim, quero participar que têm um tipo morto dentro de um cano.

Disse que está a participar um cadáver?

Sim, é isso mesmo.

O que é que quer dizer com um cano, senhor?

Ele está num cano ao pé da barragem.

Que barragem é essa?

Uh, sabe qual é, aquela onde têm o reservatório da água e essas coisas todas, o letreiro de Hollywood.

Está a referir-se à barragem de Mulholland, senhor? Por cima de Hollywood?

Sim, é isso. Acertou. Mulholland. Não me conseguia lembrar do nome.

Onde é que está o corpo?

Lá em cima, têm um grande cano velho. Sabe, aquele onde as pessoas dormem. O tipo morto está dentro do cano. Está lá.

Conhece a pessoa?

Não, porra, nem pensar.

Não está a dormir?

Merda, não o rapaz riu-se nervosamente. Está morto.

Como é que tem a certeza?

Tenho a certeza. Só lhe estou a dizer. Se não quiser...

Pode dizer-me o seu nome?

O que é isto? Para que é que precisa do meu nome? Eu só o vi. Não fui eu que o matei.

Como é que eu posso saber se é um telefonema a sério?

Vá ver o cano, fica logo a saber. Não sei que mais lhe posso dizer. O que é que o meu nome tem a ver com isso?

Para os nossos registos, senhor. Pode dizer-me o seu nome?

Uh... Não.

Senhor, vai ficar aí até chegar um agente?

Não, já nem lá estou. Não estou lá, minha. Estou...

Eu sei. Tenho aqui a informação que diz que o senhor está num telefone público em Grower, perto do Hollywood Boulevard. Vai esperar pelo agente?

Como...? Não interessa, tenho de me ir embora. Vão verificar. O corpo está lá. Um tipo morto.

Senhor, nós gostaríamos de falar...

A chamada foi interrompida. Bosch enfiou a cassete no bolso e saiu do centro de comunicações pelo caminho por onde tinha entrado.

Já há dez meses que Harry Bosch estava no terceiro andar do Parker Center. Tinha trabalhado na RHD1 a Divisão dos Assaltos e Homicídios durante quase dez anos, mas nunca mais lá voltara depois da sua suspensão e posterior transferência da brigada dos Homicídios Especiais para os detectives de Hollywood. No dia em que recebera a ordem, a secretária dele tinha sido limpa por dois parvalhões dos Assuntos Internos chamados Lewis e Clarke. Tinham despejado as coisas dele na mesa dos Homicídios na Esquadra de Hollywood e depois tinham-lhe deixado uma mensagem no atendedor de casa dizendo-lhe que era ali que as podia voltar a encontrar. Agora, dez meses depois, estava de volta ao andar sagrado do esquadrão dos detectives de elite do departamento e estava satisfeito por ser domingo. Não ia haver caras conhecidas. Não haveria motivo para ter de desviar a cara.

A Sala 321 estava vazia, exceptuando o detective de serviço durante o fim-de-semana que Bosch não conhecia. Harry apontou para o fundo da sala ao mesmo tempo que dizia:

Bosch, detectives de Hollywood. Preciso de usar a caixa.

O homem de serviço, um jovem com o corte de cabelo que tinha conservado desde que saíra dos Fuzileiros, tinha um catálogo aberto em cima da secretária. Virou a cabeça para olhar para os computadores ao longo da parede do fundo como se se quisesse certificar de que eles ainda lá estavam e depois voltou-se de novo para Bosch.

E suposto usar o da sua divisão disse-lhe. Bosch passou por ele.

Não tenho tempo para ir até Hollywood. Tenho uma autópsia daqui a vinte minutos mentiu ele.

Sabes, já ouvi falar de ti, Bosch. E verdade. O espectáculo da TV e isso tudo. Costumavas estar neste andar. Costumavas.

A última frase ficou suspensa no ar como uma nuvem de poluição e Bosch tentou ignorá-la. Enquanto se dirigia para os terminais dos computadores, não conseguiu evitar que os olhos se desviassem para a sua antiga secretária. Perguntou de si para consigo quem é que a estaria

 

RHD Robbery Homicide Division. (N. X)

 

agora a utilizá-la. Estava a abarrotar e reparou que os cartões no Rolodex tinham os cantos muito direitos e lisos. Novos. Harry voltou-se e olhou para o detective de serviço que ainda estava a olhar para ele.

Esta é a tua secretária quando não estás de serviço aos domingos? O rapaz sorriu e assentiu com a cabeça.

Bem a mereces, miúdo. Estás mesmo bem para o papel. Esse cabelo, esse sorriso estúpido. Vais longe, vais.

Só porque foste expulso daqui por teres a mania que sozinho és um exército... ah, vai-te foder, Bosch, tu já não és nada!

Bosch puxou uma cadeira com rodas de uma das secretárias e empurrou-a para a frente do PC IBM em cima de uma mesa encostada à parede do fundo. Carregou no botão e, segundos depois, as letras cor de âmbar apareceram no écran: «Homicide Information Tracking Mana-gement Automated Network».

Durante uns curtos instantes, Bosch sorriu perante aquela necessidade imparável que o departamento tinha de acrónimos. Parecia-lhe que todas as unidades, todas as tarefas, todos os ficheiros dos computadores tinham sido baptizados com nomes que davam aos seus acrónimos o ar de serem uma elite. Para o público, os acrónimos queriam dizer acção, grandes números de efectivos militarizados aplicados nos problemas vitais. Havia HITMAN, COBRA, CRASH, BADCATS, DARE1. Uma centena de outros. Estava convencido que, algures, no Parker Center, havia alguém que passava o dia todo a inventar acrónimos que despertassem a atenção. Os computadores tinham acrónimos, até as ideias tinham acrónimos. Se a tua unidade especial não tivesse um acrónimo, então não passavas de um merdas neste departamento.

Mal entrou no sistema HITMAN, apareceu no ecrã um formulário padrão com várias perguntas e ele preencheu os espaços em branco.

Depois escreveu três expressões de pesquisa: «Mulholland Dam», «overdose» e «overdose encenada». Depois carregou na tecla para executar. Meio minuto depois, o computador disse-lhe que uma pesquisa de oito mil casos o trabalho de cerca de dez anos armazenados no disco duro do computador tinha encontrado apenas seis resultados. Bosch chamou-os um a um. Os primeiros três eram assassinatos não solucionados de mulheres jovens que tinham sido encontradas mortas na barragem, no princípio dos anos oitenta. Tinham sido estranguladas. Bosch

 

HITMAN Assassino Contratado; CRASH Colisão; BADCATS Gatos Maus; DARE Valentia. (N. T.)

 

leu-os de relance e passou à frente. O quarto caso era o de um corpo que tinha sido encontrado a flutuar no reservatório cinco anos antes. A causa da morte não tinha sido afogamento, mas continuava desconhecida. Os últimos dois eram mortes por overdose. O primeiro ocorrera durante um piquenique no parque por cima do reservatório. Bosch achou que parecia muito normal e passou adiante. O último caso era o de um cadáver encontrado no cano catorze meses atrás. A causa da morte tinha sido posteriormente atribuída a uma paragem cardíaca devido a uma over-dose de heroína.

«O falecido era conhecido por frequentar a área da barragem e dor-mir no cano», dizia a informação do computador. «Não há mais desenvolvimentos.

Era a morte a que Crowley, o sargento de serviço de Hollywood, tinha mencionado quando acordara Bosch naquela manhã. Bosch carregou numa tecla e imprimiu a informação sobre a última morte, embora não lhe parecesse que tivesse alguma coisa a ver com o seu caso. Saiu do programa, desligou o computador e ficou sentado durante uns momentos a pensar. Sem se levantar, rolou a cadeira para outro PC. Ligou-o e introduziu a sua palavra chave. Tirou a Polaroid do bolso, olhou para a pulseira e introduziu a sua descrição para uma pesquisa nos registos de propriedade roubada. Isto, por si só, já era uma arte. Teve de descrever a pulseira da maneira como julgava que os outros polícias o fariam, polícias que eram capazes de estar a introduzir as descrições de todo um inventário das jóias levadas num assalto ou num roubo. Descreveu a pulseira muito simplesmente como «pulseira de ouro antiga com um desenho de golfinho embutido em jade». Carregou na tecla e trinta segundos depois, o ecrã do computador disse: «Não foram encontrados resultados». Tentou outra vez, escrevendo «pulseira de ouro e jade» e voltou a carregar na tecla. Desta vez, havia 436 resultados. Demasiados. Precisava de arranjar uma rede mais apertada. Escreveu: «Pulseira de ouro com peixe de jade» e carregou na tecla. Seis resultados. Já era melhor.

O computador informou que uma pulseira de ouro com um peixe de jade gravado tinha aparecido em quatro relatórios de crimes e dois boletins do departamento que tinham sido introduzidos no sistema computadorizado desde que este tinha sido criado em 1983 Bosch sabia que, devido às imensas duplicações de registos em todos os departamentos da polícia, todas as seis entradas podiam ser e provavelmente eram do mesmo caso ou relatório de uma pulseira perdida ou roubada.

 

Chamou os relatórios abreviados para o ecrã do computador e descobriu que a sua suspeita estava correcta. Os relatórios tinham tido como origem um único roubo em Setembro na Sixth e Hill na baixa. A vítima era uma mulher chamada Harriet Beecham, de setenta e um anos, de Silver Lake. Bosch tentou lembrar-se daquela localização, mas não conseguiu recordar de que edifício ou negócio se tratava. Não havia nenhum resumo do crime no computador; ia ter de ir aos registos e tirar uma cópia em papel. Mas havia uma descrição resumida da pulseira de ouro e jade roubada a Beecham. A pulseira que Harriet Beecham tinha dado como roubada podia ou não ter sido a que Meadows tinha empenhado a descrição era demasiado vaga. Havia vários números de relatórios suplementares no relatório do computador e Bosch anotou-os todos no caderno de notas. Enquanto o fazia, pensou que a perda de Harriet Beecham tinha gerado uma quantidade invulgar de papel.

A seguir chamou as informações nos dois boletins. Ambas tinham vindo do FBI, a primeira tinha saído duas semanas depois de Harriet Beecham ter sido assaltada. Tinha sido posteriormente reemitida três meses mais tarde, quando as jóias de Harriet Beecham ainda não tinham sido encontradas. Bosch apontou o número do boletim e desligou o computador. Atravessou a sala para a secção dos roubos/assaltos comerciais. Numa prateleira de aço que percorria toda a parede do fundo, havia dúzias de dossiers pretos que continham os boletins e BOLOs1 dos últimos anos. Bosch tirou para baixo o que tinha marcado Setembro e começou a procurar. Depressa percebeu que os boletins não estavam por ordem cronológica e não tinham saído todos em Setembro. De facto, não havia ordem nenhuma. Ele era capaz de ter de procurar em todos os dez meses que tinham decorrido desde o assalto a Beecham até conseguir encontrar o boletim de que precisava. Tirou uma braçada de pastas da prateleira e sentou-se à mesa da secção dos assaltos. Momentos depois, sentiu a presença de uma pessoa do outro lado da mesa.

O que é que queres? perguntou sem olhar para cima.

O que é que eu quero? repetiu o detective de serviço. Quero saber que porra é que estás a fazer, Bosch. Isto já não é o teu local de trabalho. Não podes entrar por aqui dentro como se fosses o chefe da banda. Põe essa merda outra vez na prateleira e, se a quiseres consultar, volta cá amanhã de manhã e pede, diabos te carreguem. E não me venhas com histórias acerca de uma autópsia. Já aqui estás há meia hora!

 

1 BOLO Acrónimo de BE ON THE LOOK OUT, que corresponderá a Ficar Atento (a qualquer pessoa ou coisa). (N. T.)

 

Bosch levantou a cabeça para olhar para ele. Calculou que deveria andar pelos vinte e oito anos, talvez vinte e nove, ainda mais novo do que Bosch era quando tinha conseguira entrar para a Divisão de Assaltos e Homicídios. Ou os padrões tinham baixado ou a RHD já não era o que era. Bosch sabia que, de facto, eram as duas coisas. Voltou a olhar para a pasta dos boletins.

Estou a falar contigo, estúpido! trovejou o detective.

Bosch estendeu o pé por baixo da mesa e deu um pontapé à cadeira à sua frente. A cadeira saltou da mesa e as costas atingiram violenta-mente o detective nas virilhas. Ele dobrou-se e soltou um som oomf, agarrando a cadeira para se apoiar. Bosch sabia que agora tinha a sua reputação a favor dele. Harry Bosch: um solitário, um lutador, um assassino. Vá lá, miúdo, estava ele a dizer, faz qualquer coisa.

Mas o jovem detective limitou-se a olhar embasbacado para Bosch, a fúria e a humilhação que sentia sob controlo. Era um polícia que era capaz de puxar da arma, mas que, se calhar, não era capaz de carregar no gatilho. E mal Bosch se apercebeu disso, soube que o rapazola se iria embora.

O jovem detective sacudiu a cabeça, abanou as mãos como se estivesse a dizer: já chega disto, e voltou para a sua secretária.

Vá lá, fedelho, participa de mim gritou Bosch para as costas do rapaz.

Vai-te foder! retorquiu o rapazote fracamente.

Bosch sabia que não tinha com que se preocupar. O Departamento dos Assuntos Internos nem sequer leria uma queixa de um agente da polícia sobre outro sem ter uma testemunha ou uma gravação que a corroborasse. A palavra de um polícia contra a palavra de outro polícia era uma coisa em que nunca tocariam neste departamento. Lá no fundo, sabiam que a palavra de um polícia por si só não valia nada. Era por isso que os chuis dos Assuntos Internos andavam sempre aos pares.

Uma hora e sete cigarros depois, Bosch descobriu-o. Uma fotocópia de outra fotografia Polaroid da pulseira de ouro e jade fazia parte de um pacote de cinquenta páginas de descrições e fotografias de propriedade perdida num roubo ao WestLand National Bank na Sixth e Hill. Agora Bosch já era capaz de visualizar o endereço e lembrava-se do esfumado vidro escuro do edifício. Nunca tinha entrado no banco. Um assalto a um banco em que tinham levado jóias. Não fazia muito sentido. Estudou a lista. Quase todos os artigos eram peças de joalharia e eram demasiadas para um assalto vulgar. Só Harriet Beecham estava dada como tendo ficado sem oito anéis, quatro pulseiras e quatro brincos, tudo peças antigas. Além disso, estes artigos estavam listados como perdidos num roubo e não num assalto. Procurou um resumo do crime na folha Fiquem Atentos, mas não encontrou nenhum. Apenas o contacto no FBI: Agente Especial E. D. Wish.

Depois reparou num rectângulo, na folha Fiquem Atentos, em que estavam anotadas três datas para a data do crime. Um assalto com a duração de três dias durante o primeiro fim-de-semana de Setembro. O fim-de-semana do Dia do Trabalhador, lembrou-se ele. Os bancos da baixa estão fechados três dias. Tinha de ter sido um roubo aos cofres dos depósitos. Um trabalho feito por um túnel? Bosch recostou-se na cadeira e meditou naquilo. Por que é que não se tinha lembrado daquilo? Um roubo daqueles devia ter estado nos meios de comunicação durante dias e dias. Tinha de ter sido discutido no departamento durante ainda mais tempo. Depois lembrou-se que estivera no México no Dia do Trabalhador e que lá tinha ficado durante as três semanas seguintes. O assalto ao banco tinha ocorrido enquanto ele estava a cumprir um mês de suspensão por causa do caso Dollmaker. Inclinou-se para a frente, agarrou no telefone e marcou um número.

Times, Bremmer.

Fala o Bosch. Estou a ver que ainda te apanho a trabalhar aos domingos, hem?

Das duas às dez, todos os domingos, sem uma excepção. Então, o que é que se passa? Não falo contigo desde... ah... o teu problema com o caso Dollmaker. Que tal achas a Divisão Hollywood?

Serve. Pelo menos, por agora.

Estava a falar baixo para o detective de serviço não ouvir.

Ah, com que então é assim? Bem, ouvi dizer que apanhaste com o presunto da barragem esta manhã.

Joel Bremmer já fazia a cobertura da secção da polícia para o Times há mais tempo do que a maioria dos polícias estavam ao serviço, incluindo o próprio Bosch. Não havia muita coisa que ele não ouvisse contar sobre o departamento ou não pudesse descobrir com um simples telefonema. Um ano antes tinha telefonado a Bosch para lhe pedir que comentasse os seus vinte e dois dias de suspensão. Bremmer tinha sabido disso antes do próprio Bosch. De um modo geral, o departamento da polícia odiava o Times, e o Times nunca poupava críticas ao departamento. Mas, no meio disso tudo, havia o Bremmer em quem todos os polícias podiam confiar e muitos, como Bosch, confiavam mesmo.

Sim, esse caso é meu respondeu Bosch. Para já, não é nada de especial. Mas preciso de um favor. Se a coisa se desenrolar como neste momento me parece que vai acontecer, vai ser uma coisa que vais querer saber.

Bosch sabia que não precisava de lhe deitar nenhum isco, mas queria que o repórter soubesse que poderia haver qualquer coisa mais tarde.

Do que é que precisas? perguntou Bremmer.

Como sabes, eu não estava na cidade no último Dia do Trabalhador porque estava a gozar as minhas férias prolongadas, cortesia do DAI. Por isso, deixei escapar este. Mas houve...

O trabalhinho do túnel? Não vais fazer-me perguntas sobre o trabalhinho do túnel, pois não? Aquele, aqui, na baixa da cidade? Todas aquelas jóias? Títulos negociáveis, acções da bolsa e talvez até mesmo drogas?

Bosch ouviu a voz do repórter subir uma oitava com a excitação. Ele tinha acertado, tinha sido um assalto por meio de um túnel e a história tinha tido grande impacto. Se Bremmer estava assim tão interessado, então era porque era um caso muito importante. No entanto, Bosch estava surpreendido por não ter ouvido falar nisso quando regressara ao trabalho em Outubro.

Sim, é esse mesmo respondeu. Eu não estava cá na altura e, por isso, não o acompanhei. Foi feita alguma prisão?

Não, continua aberto. O FBI é que está a tratar disso, segundo as últimas informações que obtive.

Quero ver os recortes esta noite. Pode ser?

Vou fazer cópias. Quando é que vens?

Vou para aí daqui a bocadinho.

Posso concluir que isto tem qualquer coisa ver com o cadáver desta manhã?

É o que parece. Talvez. Olha, neste preciso momento não posso falar. E sei que os tipos do FBI é que têm o caso. Vou falar com eles amanhã. É por isso que preciso de ver os recortes esta noite.

Estarei aqui.

Depois de ter desligado o telefone, Bosch olhou para a fotocópia do FBI da pulseira. Não havia dúvida que era a peça que tinha sido empenhada por Meadows e que estava na Polaroid de Obinna. A pulseira na fotografia do FBI estava no pulso cheio de manchas do fígado de uma mulher. Três peixinhos encrostados a nadar numa onda de ouro. Bosch deduziu que devia ser o pulso de setenta anos de Harriet Beecham e a fotografia devia, muito provavelmente, ter sido tirada para efeitos do seguro. Olhou para o detective de serviço que continuava a folhear o catálogo das armas. Tossiu alto, como tinha visto Nicholson fazer num filme, ao mesmo tempo que arrancava a folha BOLO do dossier. O jovem detective levantou os olhos para olhar para Bosch e depois voltou para as armas e as balas.

Enquanto Bosch dobrava a folha dentro da algibeira, o seu pager electrónico apitou. Tomou nota do número e ligou para a Esquadra de Hollywood, à espera de ouvir dizer que havia outro cadáver à espera dele. Quem atendeu a chamada foi um sargento de serviço chamado Art Crocket, a quem toda a gente tratava por Davey.

Harry, ainda estás na rua?

Estou em Parker Center. Tinha de verificar umas coisas.

Óptimo, então já estás perto da morgue. Um técnico de lá chamado Sakai diz que precisa de falar contigo.

De falar comigo?

Ele disse para te dizer que aconteceu uma coisa qualquer e que vão fazer a autópsia hoje. Neste preciso momento, por sinal.

Bosch levou cinco minutos a chegar ao County-USC Hospital e quinze a descobrir um sítio para estacionar. O gabinete do médico legista ficava atrás de um dos edifícios do centro médico que tinham sido fechados depois do terramoto de 87. Era um pré-fabricado amarelo de dois andares sem qualquer estilo arquitectónico nem vida. Quando Bosch estava a passar as portas de vidro por onde entravam os vivos para entrar no átrio da frente, cruzou-se com um detective do gabinete do xerife com quem tinha passado algum tempo, quando estava a trabalhar na brigada especial Night Stalker nos princípios dos anos oitenta.

Olá, Bernie! cumprimentou Bosch sorrindo-lhe.

Ora, vai-te foder, Harry! respondeu Bernie. Os outros também contam!

Bosch ficou uns breves instantes parado a ver o detective dirigir-se para o parque de estacionamento. Depois entrou, virando à direita para um corredor do tom verde do governo, passando por dois conjuntos de portas duplas o cheiro a ficar cada vez pior. Era o cheiro da morte e do desinfectante industrial. A morte tinha vantagem. Bosch entrou na sala da preparação com os seus mosaicos amarelos. Larry Sakai já lá estava a vestir uma bata de papel por cima do equipamento hospitalar. Já tinha colocado a máscara e as botas de papel. Bosch tirou um conjunto igual

de uma das caixas de cartão em cima de um balcão de aço inoxidável e começou a vestir-se.

O que é que se passa com o Bernie Slaughter? perguntou Bosch. O que é que lhe aconteceu que o pôs tão lixado?

Tu. O que lhe aconteceu foste tu respondeu Sakai sem olhar para ele. Ontem de manhã recebeu uma chamada. Um tipo de dezasseis anos mata o melhor amigo dele com um tiro. Lá em Lancaster. Parece que foi um acidente, mas o Bernie está à espera que a gente verifique o trajecto da bala e os resíduos da pólvora. Quer fechar o caso. Disse-lhe que íamos tratar disso hoje, ao fim do dia, e por isso, ele veio para cá. Só que afinal não vamos mexer-lhe hoje. Porque o Sally ficou em pulgas para tratar do teu. Não me perguntes porquê. Ele deu uma vista de olhos ao corpo quando o trouxe e disse que íamos tratar dele hoje. Disse-lhe que teríamos que passar à frente de alguém e ele disse-me para passar-mos à frente do Bernie. Mas eu não consegui contactá-lo a tempo de ele não vir. E por isso que o Bernie está lixado. Sabes que ele vive muito longe, lá para o Diamond Bar. É uma grande viagem para nada.

Bosch já tinha posto a máscara, a bata e as botas e foi atrás de Sakai até à sala das autópsias.

Então, se calhar, ele devia era estar lixado com o Sally e não comi-go comentou ele.

Sakai não respondeu. Aproximaram-se da primeira mesa onde se encontrava Billy Meadows, deitado de costas, nu, o pescoço preso a um bocado de madeira de cinco por dez. Havia seis mesas de aço inoxidável na sala. Todas tinham calhas ao longo dos lados e buracos de escoamento nos cantos. Cada uma delas tinha um cadáver em cima. O Dr. Jesus Salazar estava dobrado sobre o peito de Meadows, de costas voltadas para Sakai e Bosch.

B00 tarde, Harry, tenho estado à tua espera disse Salazar, conti-nuando a não olhar para eles. Larry, vou precisar de umas lâminas disto.

O médico legista endireitou-se e voltou-se. Na palma da mão en-fiada numa luva de borracha, tinha uma coisa que parecia um naco quadrado de carne e tecido muscular cor-de-rosa. Colocou-o num reci-piente de aço inoxidável, do tipo daqueles em que se cozem os Brownies e entregou-o a Sakai.

Dá-me verticais, uma do trajecto do furo e outras duas, uma de cada lado, para podermos comparar.

Sakai agarrou no recipiente e saiu da sala a fim de ir para o labo-ratório. Bosch viu que o bocado de carne tinha sido cortado do peito de Meadows, uns dois centímetros e meio por cima do mamilo esquerdo.

O que é que encontrou? perguntou Bosch.

Ainda não tenho a certeza. Vamos ver. A questão é: o que é que tu encontraste, Harry? O meu técnico disse-me que estavas a exigir que fizéssemos a autópsia deste caso ainda hoje. Porquê?

Eu disse-lhe que precisava dela para hoje porque a queria despachada amanhã. Pensava que era isso que tínhamos combinado.

Sim, foi o que ele me disse, mas eu fiquei curioso. Adoro um bom mistério, Harry. O que é que te fez pensar que isto cheirava a esturro, como vocês, os detectives, costumam dizer?

Já não dizemos, pensou Bosch. Mal uma expressão começa a ser usada nos filmes e as pessoas como Salazar a passam a utilizar, passa à história.

Na altura, eram só umas coisas que não encaixavam respondeu Bosch. Agora já há mais coisas. Na minha opinião, parece um homicídio. Não tem nada de misterioso.

Que coisas?

Bosch puxou do bloco de notas e começou a passar as páginas enquanto falava. Fez a lista das coisas que tinha achado erradas na cena da morte: o dedo partido, a falta de rastos distintos no interior do cano, a camisa puxada para cima da cara.

Ele tinha um kit de droga no bolso e encontrámos um fogão no cano, mas não me parece certo. Dá-me mais a ideia que foram lá plantados. Parece-me que a picada que o matou é a que está ali no braço. As outras cicatrizes nos braços já são antigas. Há anos que ele não andava a usar os braços.

Nisso, tens toda a razão. Para além da picada recente no braço, a zona das virilhas é o único sítio em que as picadas são recentes. No interior das coxas. Uma zona que normalmente só é utilizada pelas pessoas que se dão a grandes trabalhos para esconder o vício. Mas, também podia ter sido a primeira vez que ele tinha voltado a usar o braço. Que mais tens, Harry?

Ele fumava, tenho a certeza disso. Não havia nenhum maço de cigarros no cadáver.

Não pode ter havido alguém que o tenha roubado do cadáver? Antes de ele ter sido descoberto. Um daqueles mendigos que anda ao lixo?

É verdade. Mas porquê levar os cigarros e deixar o equipamento? E ainda há o apartamento dele. Alguém revistou a casa toda.

Pode ter sido alguém que o conhecia. Alguém que andava à procura do sítio onde ele escondia a droga.

Também pode ser verdade Bosch folheou mais umas páginas do bloco de notas. O kit encontrado no corpo tinha cristais de um castanho esbranquiçado no algodão. Já vi bastante heroína com alcatrão para saber que torna o algodão castanho escuro, por vezes, até mesmo preto. Por isso, parece que foi um produto de boa qualidade, provavel-mente estrangeiro, que foi injectado no braço. E isso não condiz com a maneira como ele estava a viver. Aquilo é material da zona alta.

Salazar meditou uns instantes antes de dizer:

Isso são uma data de suposições, Harry.

Mas a última coisa é... e eu ainda estou a começar a trabalhar nisto... que ele esteve envolvido num assalto qualquer.

Bosch fez-lhe um breve resumo do que tinha descoberto sobre a pulseira, o seu furto do cofre forte do banco e depois da loja de penhores. O território de Salazar eram os pormenores forenses do caso. Mas Bosch sempre confiara em Salazar e descobrira que, por vezes, ajudava debater outros aspectos de um caso com ele. Tinham-se conhecido em 1974, quando Bosch era um polícia que fazia rondas e Sally era o novo assistente do médico legista. Bosch tinha sido encarregado de fazer ser-viço de guarda e controlo de multidões na East Fifty-fourth em South--Central onde uma troca de tiros com o Exército de Libertação Symbio-nese tinha deixado uma casa completamente destruída pelo fogo e cinco cadáveres nos escombros fumegantes. Sally tinha sido encarregado de descobrir se haveria um sexto Patty Hearst algures, no meio dos escombros. Os dois tinham passado três dias lá e, quando, finalmente, Sally desistiu, Bosch tinha ganho a aposta de que ela ainda estava viva. Algures.

Quando Bosch acabou de contar a história da puiseira, parecia que a preocupação de Sally sobre a morte de Meadows não ser um mistério tinha sido aplacada. Dava a ideia de que tinha ficado cheio de energia. Voltou-se para um carrinho de rodas onde estavam amontoados os seus instrumentos de corte e puxou-o para o lado da mesa de autópsia. Ligou um gravador activado por voz e escolheu um escalpelo e uma vulgar tesoura de poda. Disse:

Bem, vamos lá ao trabalho.

Bosch recuou uns passos para evitar qualquer salpico encostou-se a um balcão onde estava um tabuleiro cheio de facas, serras e escalpelos. Reparou que um letreiro preso com fita cola num dos lados do tabuleiro dizia: Para Afiar.

Salazar olhou para o corpo de Bill Meadows e começou:

O cadáver é o de um caucasiano bem desenvolvido, com cerca de um metro e setenta e três, setenta e cinco quilos de peso e um aspecto geral consistente com a idade de quarenta anos. O corpo está frio e não embalsamado, com o rigor mortis totalmente instalado e a consequente lividez fixa.

Bosch viu-o começar, mas de repente reparou no saco de plástico com a roupa de Meadows em cima do balcão, ao lado do tabuleiro dos instrumentos. Puxou-o para si e abriu-o. O cheiro a urina atacou-lhe de imediato as narinas e, por instantes, pensou na sala do apartamento de Meadows. Calçou um par de luvas de borracha enquanto Salazar continuava a descrever o cadáver.

O indicador esquerdo mostra uma fractura palpável sem laceração nem contusão petequial nem hemorragia.

Bosch olhou por cima do ombro e viu que Salazar estava a abanar o dedo partido com a ponta romba do escalpelo enquanto falava. Concluiu a descrição exterior do corpo referindo os furos na pele.

Há feridas de perfurações hemorrágicas, do tipo hipodérmicas, na zona superior do interior das coxas e no lado interior do braço esquerdo. A perfuração do braço exsude um fluído corporal e parece ser mais recente. Sem crostas. Há outra perfuração na parte superior esquerda do peito que exsuda uma pequena quantidade de fluído corporal e parece ser ligeiramente maior do que a causada pela perfuração hipodérmica.

Salazar pôs a mão em cima do microfone do gravador e disse diri-gindo-se a Bosch:

Vou mandar o Sakai preparar umas lâminas desta perfuração no peito. Parece muito interessante.

Bosch assentiu com a cabeça e voltou-se outra vez para o balcão, começando a ouvir abrir as roupas de Meadows. Atrás dele, ouvia Salazar a usar a tesoura da poda para abrir o peito do morto.

O detective virou todas as algibeiras do avesso e examinou os bocadinhos de fio. Virou as meias do avesso e examinou o forro das calças e da camisa. Nada. Tirou um escapelo do tabuleiro marcado Para Afiar e cortou os pontos do cinto de cabedal de Meadows, desfazendo-o todo. Mais uma vez, nada. Por cima do ombro, ouviu Salazar a dizer:

O baço pesa cento e noventa gramas. A cápsula está intacta e ligeiramente enrugada e a parênquima é de um vermelho pálido e trabécular.

Bosch já tinha ouvido aquilo centenas de vezes. A maior parte das coisas que o patologista dizia para o seu gravador não tinha qualquer significado para o detective que estava ao pé. Aquilo de que o detective estava à espera era do resultado final. O que é que tinha matado a pessoa estendida na fria mesa de aço inoxidável? Como? Quem?

A vesícula biliar tem paredes finas estava Salazar a dizer. Contém alguns centímetros cúbicos de bílis esverdeada e não tem pedras.

Bosch voltou a enfiar as roupas dentro do saco de plástico e selou-o. A seguir, tirou de dentro de outro saco de plástico os pesados sapatos de couro para trabalho que Meadows trazia calçados. Deu conta da poeira de um laranja avermelhado que caía do interior dos sapatos. Outra indicação de que o corpo tinha sido arrastado para dentro do cano. Os tacões tinham raspado na lama seca no fundo do cano fazendo com que a poeira entrasse para dentro dos sapatos.

Salazar disse:

A mucosa da bexiga está intacta e contém apenas sessenta mili-litros de urina amarela clara. Os genitais externos e a vagina não têm nada de particular.

Bosch deu meia volta. Salazar tinha a mão a tapar o microfone do gravador.

Humor de médico legista disse ele. Só queria ver se estavas a ouvir, Harry. Um dia podes vir a ter de testemunhar sobre isto. Para me apoiares.

Duvido respondeu Bosch. Eles não gostam de matar o júri de aborrecimento.

Salazar ligou a pequena serra eléctrica circular que era utilizada para abrir o crânio. O barulho que ela fazia era igual ao de uma broca de dentista. Bosch voltou-se outra vez para os sapatos. Estavam bem oleados e bem tratados. As solas de borracha mostravam apenas um desgaste modesto. Entalada num dos sulcos profundos da sola do sapato direito, estava uma pedrinha branca. Bosch tirou-a para fora com o escalpelo. Era um pedacinho de cimento. Lembrou-se do pó branco no tapete do armário de Meadows. Perguntou para consigo se o pó ou o bocado de pedra da sola do sapato poderiam corresponder ao cimento que tinha protegido o cofre forte do WestLand Bank. Mas, se os sapatos estavam tão bem tratados, poderia a pedra ter estado na sola durante os nove meses que já se tinham passado desde que o cofre forte fora assaltado? Parecia improvável. Talvez fosse do seu trabalho no projecto do metro.

Se é que ele realmente tinha esse emprego. Bosch enfiou o pedaço de cimento num pequeno envelope de plástico e meteu-o na algibeira, juntamente com os outros que tinha vindo a coleccionar durante o dia. Salazar disse:

O exame da cabeça e do conteúdo do crânio não revela trauma-tismos nem situações patológicas subjacentes nem anomalias congénitas. Harry, agora vou tratar do dedo.

Bosch voltou a guardar os sapatos no saco de plástico correspon-dente e voltou para junto da mesa da autópsia quando Salazar colocava um raio-X da mão esquerda de Meadows na janela de luz instalada na parede.

Estás a ver aqui? Estes fragmentos? perguntou ele enquanto indicava as nítidas pequenas manchas brancas no negativo. Havia três delas ao pé da articulação partida. Se isto fosse uma fractura antiga, estas, com o tempo, ter-se-iam deslocado para a articulação. Não há cicatrizes discerníveis no raio-X, mas vou dar uma olhadela.

Voltou para junto do corpo e utilizou um escalpelo para fazer uma incisão em00na pele por cima da articulação do dedo. A seguir, dobrou a pele para trás e foi espetando o escalpelo na carne cor-de-rosa, dizendo:

Não... não... nada. Isto foi post mortem, Harry. Achas que pode ter sido feito por um dos meus homens?

Não sei respondeu Bosch. Não me parece. O Sakai disse que ele e o companheiro tinham sido muito cuidadosos. Eu sei que não fui eu. Como é que explicas não haver nada na pele?

Isso é uma pergunta interessante. Não sei. A verdade é que o dedo foi partido sem que o exterior tivesse sido atingido. Não sei responder a isso. Mas não deve ter sido muito difícil fazê-lo. Basta agarrar no dedo e puxar para baixo. Basta teres estômago para isso. Assim.

Salazar deu a volta à mesa. Levantou a mão direita de Meadows e puxou o dedo para trás. Não conseguiu arranjar apoio para fazer a força suficiente e o dedo não se partiu.

Mais difícil do que eu pensava comentou ele. Talvez o dedo tenha sido atingido com qualquer objecto rombo. Uma coisa que não ferisse a pele.

Quando Sakai voltou com as lâminas quinze minutos depois, a autópsia estava acabada e Salazar estava a coser o peito de Meadows com um grosso cordel encerado. A seguir usou uma mangueira pendurada por cima da cabeça para lavar os detritos do corpo e fazer assentar o cabelo. Sakai prendeu as pernas uma à outra e os braços ao corpo com corda, para impedir que se movesse durante os vários estádios do rigor mortis. Bosch reparou que a corda passava por cima da tatuagem no braço de Meadows, mesmo por cima do pescoço do rato.

Com o polegar e o indicador, Salazar fechou os olhos de Meadows.

Leva-o para o frigorífico disse ele a Sakai. Depois, virando-se para Bosch, continuou: Vamos lá ver estas lâminas. Isto parece-me estranho porque o buraco era maior do que o de uma agulha de droga normal e a sua localização, no peito, era invulgar.

O furo é claramente antemortem, possivelmente, perimortem só houve uma leve hemorragia. Mas a ferida ainda não estava cicatrizada. Por isso, estamos a falar de pouquíssimo tempo antes da morte, ou mesmo durante a morte. Talvez seja a causa da morte, Harry.

Salazar levou as lâminas para um microscópio que estava em cima da bancada ao fundo da sala. Escolheu uma das lâminas e colocou-a na platina. Inclinou-se para observar e meio minuto depois comentou:

Interessante.

Depois olhou rapidamente para as outras lâminas. Quando acabou, voltou a colocar a primeira na platina.

OK, basicamente, o que eu fiz foi remover uma secção, com seis centímetros quadrados, do sítio onde este furo estava localizado. Entrei no peito, com o corte, a uma profundidade de quatro centímetros. A lâmina é uma dissecação vertical da amostra, mostrando a trajectória da perfuração. Estás a perceber?

Bosch disse que sim com a cabeça.

Óptimo. É mais ou menos como cortar uma maçã de forma a expor o trajecto de uma lagarta. A lâmina traça o caminho da perfuração e qualquer impacto imediato ou dano. Agora, vê tu.

Bosch inclinou-se para a ocular do microscópio. A lâmina mostrava uma perfuração a direito, com cerca de dois centímetros e meio de profundidade que atravessava a pele e entrava no músculo, estreitando-se em largura como uma agulha. A cor rosada do músculo passava a um tom castanho escuro à volta do ponto mais profundo da perfuração.

O que é que isto quer dizer? perguntou ele.

Quer dizer respondeu Salazar que a perfuração atravessou a pele, atravessou a faseia quer dizer, a camada de gordura fibrosa e depois entrou directamente no músculo peitoral. Estás a ver a cor mais escura do músculo à volta da penetração?

Sim, estou a ver.

Harry, isso quer dizer que o músculo está queimado nesse sítio.

Bosch desviou o olhar do microscópio para Salazar. Pensou que era capaz de perceber a linha de um sorrisinho por baixo da máscara do patologista.

Queimado?

Uma arma de aturdir disse o patologista. Procura uma que dispare o seu dardo de eléctrodos bem para o fundo do tecido da pele. Uma profundidade de cerca de quatro centímetros. Embora, neste caso, seja provável que o eléctrodo tenha sido enfiado mais para dentro do peito manualmente.

Bosch pensou uns instantes. Uma arma de aturdir seria virtual-mente impossível de encontrar e seguir a pista. Sakai voltou para a sala e encostou-se à bancada junto da porta, a observar. Salazar foi buscar ao carrinho das ferramentas três frascos de sangue e dois contendo um líquido amarelado. Havia também um pequeno recipiente de aço inoxidável com um bocado castanho de uma substância que Bosch reconheceu, pela experiência adquirida naquela sala, como sendo o fígado.

Larry, toma as amostras para os tóxicos disse Salazar. Sakai agarrou nelas e desapareceu outra vez da sala.

Estás a falar de tortura? Choques eléctricos? perguntou Bosch.

Diria que é o que me parece respondeu Salazar. Não o suficiente para o matar, o traumatismo é demasiado pequeno. Mas, possivelmente, foi o suficiente para lhe extrair informações. Uma carga eléctrica pode ser muito persuasiva. Acho que há muita documentação sobre isso. Com o eléctrodo posicionado no peito do sujeito, provavelmente, ele conseguia sentir a electricidade a entrar-lhe directamente no coração. Teria ficado paralisado. Disse-lhes tudo o que eles queriam e depois, a única coisa que pôde fazer foi olhar enquanto eles lhe enfiavam no braço a dose fatal de heroína.

Podemos provar alguma coisa disto?

Salazar olhou para os mosaicos do chão e levou o dedo à máscara, coçando o lábio por baixo dela. Bosch estava a morrer por um cigarro. Estava na sala de autópsias há quase duas horas.

Provar alguma coisa? repetiu Salazar. Clinicamente, não. Os testes aos tóxicos estarão prontos daqui a uma semana. Digamos que, por hipótese, eles provam que houve uma overdose de heroína. Como é que vamos provar que foi outra pessoa que lha meteu no braço e não ele mesmo? Clinicamente, não podemos. Mas podemos provar que no momento da morte, ou pouco antes, houve uma agressão traumática ao corpo na forma de um choque eléctrico. Ele estava a ser torturado.

Depois da morte, há o dano inexplicável provocado no primeiro dígito da mão esquerda.

Voltou a esfregar a máscara com o dedo e concluiu:

Eu podia testemunhar que isto é um homicídio. A totalidade das provas médicas indicam morte às mãos de outros. Mas, por agora, não há motivo. Vamos esperar pelos resultados dos testes e depois voltamos a debruçarmo-nos os dois sobre o assunto.

Bosch escreveu uma paráfrase daquilo que Salazar tinha acabado de dizer no seu bloco de notas. Ia ter de incluir aquilo tudo no seu relatório.

Claro que disse Salazar provar isto a um júri de forma a não haver qualquer dúvida é outra história. Cá para mim, Harry, vais ter de encontrar essa tal pulseira e descobrir porque é que valeu a pena torturar e matar um homem por causa dela.

Bosch fechou o bloco de notas e começou a despir a bata de papel.

O sol poente incendiava o céu de cor-de-rosa e laranja com as mesmas tonalidades intensas dos fatos dos surfistas. Era uma ilusão mara-vilhosa, pensou Bosch enquanto seguia para norte, pela auto-estrada de Hollywood, a caminho de casa. Aqui, os ocasos tinham esse efeito. Faziam uma pessoa esquecer-se que era a nuvem de poluição que fazia com que as cores fossem tão brilhantes, que, por trás de cada belo quadro podia haver uma história muito feia.

O Sol pairava como uma bola de cobre na janela do lado do condutor. Ele tinha o rádio do carro sintonizado numa estação de jazz e Coltrane estava a interpretar Sou/ Eyes. No banco ao lado dele, estava um dossier contendo os recortes dos jornais de Bremmer. O dossier estava seguro com uma embalagem de seis Henry00s. Bosch saiu em Barbam e subiu a Woodrow Wilson entrando nas calinas por cima da Studio City. A casa dele era composta por uma única divisão em madeira, com uma estrutura metálica e pouco maior do que uma garagem em Beverly Hills. Estava pendurada da colina, por cima do precipício, e estava apoiada em três pilares de aço no seu ponto central. Era um sítio muito assustador para se estar durante um terramoto, desafiando a Mãe Natureza a soltar os pilares e a fazer a casa deslizar pela colina abaixo como um trenó. Mas a vista era a compensação. Da varanda de trás, Bosch conseguia olhar para nordeste para lá de Burbank e Glendale. Conseguia ver as montanhas de uma tonalidade púrpura para lá de Pasadena e Altadena. Por vezes, conseguia ver as chamas cor de laranja e o fumo dos fogos que consumiam os arbustos das colinas. A noite, o barulho da auto-estrada lá em baixo abrandava e os holofotes da Universal City varriam o céu. Olhar para o Valley nunca deixava de dar a Bosch uma sensação de poder que ele não era capaz de explicar a si próprio. Mas sabia que era uma razão a razão principal que o levara a comprar a casa e a não querer deixá-la nunca.

Bosch tinha-a comprado há oito anos atrás, antes da explosão da imobiliária se ter tornado seriamente endémica, com uma entrada de 50000 dólares. Isso deixara-o com uma hipoteca de 1400 dólares por mês, que ele podia pagar facilmente uma vez que as únicas coisas em que gastava dinheiro eram comida, álcool e jazz.

O dinheiro para a entrada tinha vindo de um estúdio que lhe pagara pelo direito de usar o nome dele numa mini-série baseada numa sequência de assassinatos dos proprietários de salões de beleza de Los Angeles. Durante as investigações, Bosch e o seu parceiro foram interpretados por dois actores de TV de nível médio. O parceiro agarrara nos seus cinquenta mil dólares e na pensão e mudara-se para Enseneda. Bosch aplicara os seus numa casa que ele não tinha a certeza de conseguir resis-tir a um tremor de terra, mas que o fazia sentir-se o príncipe da cidade.

Apesar da resolução de Bosch de nunca se mudar, Jerry Edgar, o seu parceiro actual e agente imobiliário em part-time, disse-lhe que a casa valia agora o triplo do que ele pagara por ela. Sempre que o assunto das propriedades imobiliárias vinha à baila, o que era frequente, Edgar aconselhava Bosch a vendê-la e a comprar outra. Edgar queria fazer negócio. Bosch só queria ficar onde estava.

Já estava escuro quando ele chegou à casa da colina. Bebeu a primeira cerveja de pé, na varanda de trás, a olhar para o manto das luzes lá em baixo. Bebeu a segunda garrafa sentado na sua cadeira das vigias, o dossier fechado no colo. Não tinha comido nada durante todo o dia e a cerveja fez efeito imediato. Sentia-se letárgico, mas agitado, o corpo a dizer-lhe que precisava de comida. Levantou-se, foi para a cozinha e fez uma sanduíche de peru enlatado que trouxe para a cadeira com outra cerveja.

Quando acabou de comer, sacudiu as migalhas da sanduíche de cima do dossier e abriu-o. Tinha havido quatro histórias sobre o assalto ao WestLand Bank no Times. Leu-as pela ordem em que tinham sido publi-cadas. A primeira era apenas um texto muito curto que tinha saído na página três na secção de notícias locais do jornal. Aparentemente, a informação tinha sido recolhida na terça-feira em que o roubo tinha sido descoberto. Nessa altura, o LAPD e o FBI não estavam interessados em falar com a imprensa ou em deixar que o público soubesse o que tinha acontecido.

AUTORIDADES INVESTIGAM ASSALTO A BANCO

Uma quantidade não especificada de valores foi roubada do WestLand Bank, na baixa, durante os três dias de feriado do fim-de-semana, disseram as autoridades na terça-feira.

O assalto, a ser investigado pelo FBI e pelo Departamento da Polícia de Los Angeles, foi descoberto quando os gerentes do banco, localizado na esquina da Hill Street com a Sixth Avenue, chegaram na terça-feira e descobriram que os cofres da caixa-forte tinham sido saqueados, informou o Agente Especial do FBI John Rourke.

Rourke disse que ainda não fora feita uma estimativa da perda de valores. Mas fontes próximas da investigação disseram que tinha sido levado mais de um milhão de dólares em jóias e outros valores depositados pelos clientes no banco.

Rourke também se recusou a dizer como é que os assaltantes entraram na caixa-forte, mas informou que o sistema de alarme não estava a funcionar como devia ser. Recusou-se a dar mais informações.

Um porta voz do WestLand recusou, na terça-feira, falar sobre o assalto. As autoridades disseram que não havia prisões nem suspeitos.

Bosch escreveu o nome John Rourke no bloco de notas e passou para a história seguinte que era muito maior. Tinha sido publicada um dia depois da primeira e tinha sido publicitada no cimo da primeira página da secção de notícias locais. Tinha um título duplo e estava acompanhada pela fotografia de um homem e de uma mulher no interior da caixa-forte, a olhar para uma abertura do tamanho de uma tampa de um poço de inspecção. Atrás deles estava uma pilha de cofres. A maior parte das pequenas portas na parede do fundo estavam abertas. O nome de Bremmer constava como o autor da notícia.

PELO MENOS 2 MILHÕES DE DÓLARES LEVADOS NO ASSALTO AO BANCO ATRAVÉS DE TÚNEL; BANDIDOS TIVERAM FIM-DE-SEMANA DOS FERIADOS PARA ESCAVAR E ENTRAR NA CAIXA-FORTE

O artigo desenvolvia a primeira história, incluindo o pormenor dos criminosos terem aberto um túnel até ao interior do banco, escavando cerca de cento e cinquenta metros a partir de um esgoto de escoamento das águas das chuvas que passava por baixo da Hill Street. A história dizia que tinha sido utilizada uma carga explosiva para rebentar o chão do cofre-forte. Segundo o FBI, os ladrões tinham provavelmente passado a maior parte do fim-de-semana no interior da caixa-forte, abrindo os cofres com berbequins. Pensava-se que o túnel do esgoto até à caixa-forte tinha sido escavado durante as sete ou oito semanas que antecederam o assalto.

Bosch fez uma nota para perguntar ao FBI como é que o túnel tinha sido aberto. Se tinha sido utilizado equipamento pesado, a maioria dos alarmes dos bancos, que mediam o som assim como as vibrações da terra, teriam captado o movimento no solo e teriam tocado. Além disso, perguntou para consigo, por que é que o explosivo não teria feito disparar os alarmes?

Voltou-se então para o terceiro artigo, publicado no dia seguinte ao segundo. Este não era escrito por Bremmer, embora ainda tivesse aparecido na primeira página da secção notícias locais. Era uma reportagem sobre as dúzias de pessoas que faziam fila no banco para verem se os seus cofres estavam entre os que tinham sido arrombados e esvaziados. O FBI escoltava-as até à caixa-forte e depois recolhia as suas declarações. Bosch leu e releu a história com toda a atenção, mas encontrou sempre a mesma coisa: pessoas zangadas ou perturbadas, ou ambas as coisas por terem perdido o que tinham depositado nos cofres porque acreditavam que era mais seguro do que tê-los em casa. No final da história, havia uma referência a Harriet Beecham. Tinha sido entrevistada quando saía do banco e contara ao repórter que tinha ficado sem uma colecção de objectos preciosos, coleccionados durante as viagens que fizera com Harry, o marido já falecido. A história dizia que Harriet Beecham estava a limpar as lágrimas com um lenço de renda.

Fiquei sem os anéis que ele me comprou em França, uma pulseira de ouro e jade do México contara Beecham. Quem quer que fez isto, roubou-me as minhas recordações.

Muito melodramático. Bosch perguntou para consigo se esta última citação não teria sido inventada pelo repórter.

A quarta história no dossier tinha sido publicada uma semana mais tarde. Da autoria de Bremmer, era pequena e tinha sido enterrada nas últimas páginas das notícias locais, onde eles enfiavam todas as notícias referentes ao Valley. Bremmer dizia que a investigação do assalto ao WestLand estava a ser feita exclusivamente pelo FBI. O LAPD tinha fornecido apoio inicial, mas, à medida que as pistas iam arrefecendo, o caso ficara nas mãos do FBI. O Agente Especial John Rourke era novamente citado nesta história. Disse que os agentes ainda continuavam a trabalhar a tempo inteiro no caso, mas que não se tinham feito quaisquer progressos e que não tinham identificado nenhuns suspeitos. Nenhum dos valores roubados dos cofres, disse ele, tinha aparecido.

Bosch fechou o dossier. O caso era demasiado importante para o FBI o largar como um vulgar assalto a um banco. Gostaria de saber se Rourke teria dito a verdade sobre a ausência de suspeitos. Pensou se o nome de Meadows teria aparecido alguma vez. Duas décadas antes, Meadows tinha combatido e, por vezes, vivido nos túneis por baixo das aldeias do Vietname do Sul. Tal como todos os combatentes dos túneis, ele sabia fazer demolições. Mas isso era para destruir um túnel com explosivos. Teria ele aprendido a rebentar com o chão de cimento e aço da caixa-forte de um banco? Nessa altura, Bosch lembrou-se que Meadows não teria tido obrigatoriamente de saber. Ele tinha a certeza que o trabalho do WestLand tinha sido feito por mais de uma pessoa.

Levantou-se e foi buscar outra cerveja ao frigorífico. Mas, antes de voltar para a poltrona, passou pelo quarto onde foi buscar um velho álbum de recortes à gaveta de baixo da cómoda. Outra vez sentado na cadeira, bebeu metade da cerveja e abriu o álbum. Havia montes de fotografias soltas no meio das folhas. Tinha tido a intenção de as orga-nizar, mas nunca tinha chegado a fazê-lo. A verdade é que raramente abria o álbum. As folhas estavam amareladas e as pontas estavam mesmo castanhas. Estavam quebradiças, tal como acontecia com as recordações que as fotografias evocavam. Pegou numa fotografia de cada vez e examinou-a, apercebendo-se a dada altura que nunca as tinha chegado a colar porque gostava da ideia de segurar cada uma das fotografias, sentindo-a na mão. *

Todas as fotografias tinham sido tiradas no Vietname. Tal como a fotografia que tinha encontrado em casa de Meadows, estas eram quase todas a preto e branco. Nessa altura, em Saigão, era mais barato revelar fotografias a preto e branco. Bosch estava em algumas das fotografias, mas a maioria delas tinham sido tiradas por ele com uma velha Leica que o pai adoptivo lhe tinha dado antes de ele se ir embora. Foi um gesto de reconciliação por parte do Velho. Ele não tinha querido que Harry fosse e tinham discutido por causa disso. Fora por isso que a máquina tinha sido oferecida. E aceite. Mas Bosch não era do género de contar histórias quando voltou e, por isso, as fotografias tinham sido deixadas espalhadas por entre as páginas do álbum, para nunca serem coladas e raramente serem vistas.

Se havia um tema recorrente nas fotografias, eram as caras sorridentes e os túneis. Em quase todas, havia soldados de pé, numa pose desafiadora, à frente da entrada de um buraco de onde, provavelmente, tinham acabado de sair depois de o terem conquistado. Para uma pessoa de fora, as fotografias pareceriam estranhas, talvez mesmo fascinantes. Mas, para Bosch, eram tão assustadoras como as fotografias que ele tinha visto nos jornais de pessoas presas nos escombros de carros todos destruídos à espera que os bombeiros as tirassem de lá. Eram fotografias das caras sorridentes de rapazes que tinham descido até ao inferno e tinham voltado para sorrirem para a objectiva. Da luz para a escuridão, era o que eles chamavam às entradas nos túneis. Cada uma era um eco negro. Lá dentro não havia nada a não ser a morte. Mas, mesmo assim, eles iam.

Bosch virou uma folha enrugada do álbum e deparou-se com Billy Meadows a olhar para ele. Era indubitável que esta fotografia tinha sido tirada poucos minutos depois da que Bosch encontrara no apartamento de Meadows. O mesmo grupo de soldados. A mesma trincheira e o mesmo túnel. Sector do Echo, Distrito de Cu Chi. Mas Bosch não estava lá porque tinha deixado o grupo para tirar a fotografia. A sua Leica tinha apanhado o olhar vazio e o sorriso pedrado de Meadows a pele clara parecia cera, mas retesada. Tinha captado o verdadeiro Meadows, pen-sou Bosch. Voltou a meter a fotografia na folha e passou para a seguinte. Esta era dele mesmo. Não havia mais ninguém no enquadramento. A máquina tinha disparado quando ele estava sem camisa, a tatuagem no ombro muito queimado a receber o sol poente que entrava pela janela. Atrás dele, mas desfocada, estava a entrada escura de um túnel destapado no chão de palha da cabana. O túnel estava obscurecido, escuridão ameaçadora, como a boca horripilante no quadro de Edvard Munch,oGrito.

Era um túnel na aldeia a que eles chamavam Timbuk2, lembrou-se Bosch ao olhar para a fotografia. O seu último túnel. Não estava a sorrir na fotografia. Os olhos estavam afundados em olheiras sombrias. E tam-bém não estava a sorrir agora que olhava para ela. Segurou a fotografia com as duas mãos, esfregando distraidamente os polegares nas bordas, para cima e para baixo. Ficou a olhar para a fotografia até que a fadiga e o álcool o arrastaram para um torpor pensativo. Quase como um sonho. E ele recordou aquele último túnel e recordou Billy Meadows.

Entraram três. Saíram dois.

O túnel tinha sido descoberto durante uma rusga de rotina numa pequena aldeia do Sector E. A aldeia não tinha nome nos mapas de reconhecimento e, por isso, os soldados chamaram-lhe Timbuk2. Os túneis não paravam de aparecer por todos os lados e, por isso, não havia ratos que chegassem para todos. Quando a boca do túnel foi encontrada dentro de uma palhota, debaixo de um cesto de arroz, o primeiro sargento não tinha querido esperar que aparecesse um helicóptero com mais ratos. Queria sair dali, mas sabia que não o podia fazer sem investigar o túnel. Por isso, o primeiro-sargento tinha tomado uma decisão, como tantas outras durante a guerra. Mandara entrar três dos seus próprios homens. Três virgens, borrados de medo, com uns seis meses de mato, somando o tempo de todos. O sargento disse-lhes para não avançarem muito, para se limitarem a colocar os explosivos e a sair de lá. «Sejam rápidos e cubram-se uns aos outros.» Os três soldados inexperientes entraram obedientemente no buraco. Só que, meia hora mais tarde, só dois é que saíram.

Os dois que tinham conseguido sair disseram que os três se tinham separado. O túnel ramificava-se em várias direcções e eles separaram-se. Estavam a contar isto ao primeiro-sargento quando se ouviu um grande estrondo e uma enorme nuvem de fumo, poeira e fragor irrompeu da boca do túnel. Os explosivos C-4 tinham detonado. O tenente da companhia apareceu nesse momento e disse que não sairiam da zona sem o homem que faltava. Toda a companhia esperou um dia que o fumo e o pó assentassem no túnel e depois dois ratos dos túneis Harry Bosch e Billy Meadows foram largados por um helicóptero. Não queria saber se o soldado desaparecido estava morto, disse-lhes o tenente. Tirem-no de lá. Não ia deixar um dos seus homens naquele buraco.

Vão buscá-lo e tragam-no cá para fora para lhe podermos dar um enterro decente disse-lhes o tenente.

Meadows respondeu:

Nós também não deixaríamos um dos nossos ali dentro. Bosch e Meadows desceram pelo buraco e descobriram que a entrada

principal dava para uma divisão onde estavam guardados cestos de arroz e de onde saíam três outras passagens. Duas tinham desabado com as explosões. A terceira continuava aberta. Era aquela onde tinha entrado o soldado desaparecido. E foi nela que os dois entraram.

Rastejaram pela escuridão, Meadows à frente, usando as lanternas parcimoniosamente, até que chegaram a um beco sem saída. Meadows

apalpou o chão sujo do túnel até descobrir a porta escondida. Abriu-a e dois desceram para outro nível do labirinto. Sem dizer uma palavra, Meadows apontou para um lado e afastou-se a rastejar. Bosch sabia que ia para o outro lado. Agora, cada um deles ficaria sozinho, a não ser que os VC estivessem à espera lá à frente. O caminho de Bosch era uma passagem serpenteante que estava tão quente como um banho de vapor. O túnel cheirava a humidade e a latrina. Sentiu o cheiro do soldado desaparecido antes de o ver. Estava morto, o corpo a apodrecer, mas sentado no meio do túnel com as pernas abertas e esticadas, as pontas dos dedos viradas para cima. O corpo estava encostado a um poste preso no chão do túnel. Um bocado de arame, cravado uns dois centímetros e meio no pescoço, estava enrolado à volta do poste e mantinha-o direito. Com medo de uma armadilha, Bosch não lhe tocou. Fez incidir o feixe de luz da lanterna na ferida do pescoço e seguiu o rasto de sangue seco que descia pela frente do corpo. O morto vestia uma T-shirt verde com o nome escrito a stencil branco na parte da frente. Al Crofton, dizia por baixo do sangue. Havia moscas atoladas nas crostas de sangue do peito e, por um breve instante, Bosch interrogou-se como é que elas tinham conseguido chegar tão lá abaixo. Apontou a luz para as virilhas do soldado morto e viu que também essas estavam negras com o sangue seco. As calças estavam rasgadas e Crofton parecia ter sido violentamente atacado por um animal selvagem. O suor começou a fazer arder os olhos de Bosch e a sua respiração começou a alterar-se, mais rápida do que ele queria. Apercebeu-se disso de imediato, mas também se apercebeu de que não conseguia fazer nada para o impedir. A mão esquerda de Crofton, com a palma virada para cima estava pousada no chão, ao lado da coxa. Bosch virou a luz para ela e viu os testículos ensanguentados. Sufocou o impulso para vomitar, mas não conseguiu evitar que começasse a arfar. Pôs as mãos em concha sobre a boca e tentou abrandar as arfadas. Não resultou. Estava a perder o controlo. Estava a entrar em pânico. Tinha vinte anos de idade e estava apavorado. As paredes do túnel estavam a apertar-se à sua volta. Rebolou para longe do cadáver e deixou cair a lanterna, o feixe de luz ainda apontado para Crofton. Bosch deu pontapés nas paredes de barro e enrolou-se em posição fetal. O suor nos olhos foi substituído por lágrimas. Ao princípio vieram silenciosas, mas depressa os soluços lhe sacudiam o corpo todo e o barulho que fazia parecia ecoar em todas as direcções na escuridão, exactamente em direcção ao sítio onde Charlie estava sentado à espera. Em direcção ao inferno.

 

                   Segunda-feira, 21 de Maio

-Dosch acordou na sua poltrona de vigia por volta das quatro da manhã. Tinha deixado aberta a porta de correr que dava para a varanda e os ventos de Santa Ana enfunavam as cortinas, como se fossem fantasmas, para dentro da sala. O vento quente e o sonho tinham-no posto a suar. Depois, o vento tinha-lhe secado a humidade da pele deixando como que uma capa de sal. Saiu para a varanda e encostou-se ao varandim de madeira a olhar lá para baixo, para as luzes do Valley. Os holofotes da Universal há muito que se tinham apagado e da auto-estrada no desfiladeiro não vinha nenhum ruído de trânsito. Ao longe, talvez em Glendale, ouviu o barulho de um helicóptero. Procurou e descobriu a luz vermelha que se deslocava baixinho por cima da baía. Não andava aos círculos e não tinha holofotes. Não era da polícia. Julgou então que conseguia sentir um leve cheiro do pesticida Malathion, intenso e amargo, no vento vermelho.

Voltou para dentro e fechou a porta de correr de vidro. Pensou em ir para a cama, mas sabia que não iria conseguir dormir mais nessa noite. Acontecia frequentemente com Bosch. O sono vinha cedo. Mas não durava. Ou não vinha até que o sol nascente recortasse delicadamente o contorno das colinas no nevoeiro matinal.

Tinha andado na clínica para as perturbações do sono da VA, em Sepulveda, mas os psiquiatras não o conseguiram ajudar. Disseram-lhe que estava num ciclo. Iria ter períodos extensos de transes de sono profundo invadidos por sonhos tortuosos. Isto seria seguido por meses de insónia, o espírito a reagir defensivamente aos terrores que o esperavam no sono. A sua mente reprimiu a ansiedade que você sente pela parte que desempenhou na guerra, dissera-lhe o médico. «Tem de aplacar esses sentimentos durante as horas em que está acordado para que o seu sono possa decorrer sem perturbações. Mas o médico não compreendia que o que estava feito estava feito. Não se podia recuar para reparar o que tinha acontecido. Não se pode tapar uma ferida da alma com um penso rápido.

Tomou um duche, fez a barba e depois estudou a cara no espelho, lembrando-se de como o tempo tinha sido tão pouco generoso para com Billy Meadows. O cabelo de Bosch estava a ficar grisalho, mas era espesso e encaracolado. A excepção dos círculos por baixo dos olhos, a cara era lisa e bonita. Limpou o resto do creme da barba e vestiu o fato beige de verão e uma camisa Oxford azul-clara. Num cabide dentro do armário, descobriu uma gravata castanha com uns pequenos elmos de gladiador que não tinha nódoas nem rugas em exagero. Prendeu-a com o alfinete de gravata do 187, enfiou a arma no cinto e saiu para a escuridão que já anunciava a aurora. Meteu-se no carro e seguiu para a baixa para comer uma omelete, torradas e café no Pantry, em Figueroa. Aberto vinte e quatro horas por dia desde a Depressão. Um letreiro gabava-se de que, desde essa altura, a casa nunca tinha estado um único minuto sem cliente nenhum. Bosch, sentado ao balcão, olhou em volta e viu que, naquele momento, era ele que carregava o recorde em cima dos ombros. Estava sozinho.

O café e os cigarros fizeram com que Bosch ficasse preparado para enfrentar o dia. Voltou a apanhar a auto-estrada de volta à parte alta de Hollywood, passando por um mar gelado de carros que já lutavam para chegar à baixa. A Esquadra de Hollywood ficava na Wilcox, a um par de quarteirões a Sul do Boulevard, de onde provinha a maior parte da sua actividade. Bosch estacionou junto do passeio da frente porque não se ia demorar e não queria ficar preso nas traseiras com o engarrafamento que se gerava com a mudança dos turnos. Enquanto atravessava o pequeno átrio, viu uma mulher com um olho negro que estava a chorar e a preencher um relatório com o agente da recepção. Mas ao fundo do átrio, quando se voltava à esquerda para a sala dos detectives, estava tudo sossegado. O detective de serviço no turno da noite devia ter saído para responder a uma chamada ou então estava na «suite dos noivos», uma arrecadação no segundo andar onde havia dois catres, o primeiro a chegar, o primeiro a ser servido. A agitação e o barulho da sala dos detectives pareciam congelados. Não estava lá ninguém, mas as compridas secretárias distribuídas ao roubo, trânsito, juvenil, assalto e homicídio estavam todas numa confusão, inundadas de papelada. Os detectives entravam e saíam da polícia. A papelada nunca mudava.

Bosch dirigiu-se para o fundo da sala para ligar a máquina do café. Olhou, através de uma porta nas traseiras da sala, para o fundo do corredor onde ficavam localizados os bancos de detenção e a cela. A meio do corredor que levava à cela, um rapaz branco, com rastas louras, estava sentado e algemado a um banco. Um adolescente, não teria mais de dezassete anos, calculou Bosch. Era contra a lei da Califórnia, metê-los numa cela com adultos. O que era a mesma coisa do que dizer que era capaz de ser perigoso para os coiotes meterem-nos numa cela na companhia de dobermans.

Para onde é que estás a olhar, cabrão? gritou o rapaz a Bosch do fundo do corredor .

Bosch não disse nada. Deitou um pacote de café dentro do filtro de papel. Um polícia uniformizado meteu a cabeça de fora da porta do gabinete do comandante que ficava mais ao fundo do corredor.

Já te disse gritou o polícia para o miúdo. Voltas a repetir e eu vou aí apertar mais um furo das algemas. E depois como é que vais limpar o cu na retrete?

Acho que vou ter de usar a porra da tua cara!

O polícia fardado entrou no corredor e dirigiu-se para o rapaz, os duros sapatos pretos a darem passadas compridas e maldosas. Bosch enfiou o recipiente do filtro na máquina do café e carregou no botão. Afastou-se da porta do corredor e dirigiu-se para a mesa dos homicídios. Não queria ver o que ia acontecer ao miúdo. Arrastou a cadeira do lugar onde estava para junto de uma das máquinas de escrever comunitárias noutra mesa. Os formulários pertinentes de que precisava estavam numas divisórias numa prateleira na parede por cima da máquina de escrever. Enfiou no rolo da máquina uma folha em branco do formulário para o relatório da cena do crime. Depois, tirou o caderno de notas da algibeira e abriu-o na primeira página.

Ao fim de duas horas a dactilografar, fumar e beber mau café, uma nuvem azulada pendurada ao pé das luzes do tecto por cima da mesa dos homicídios, Bosch terminara a miríade de formulários que acompanham a investigação de um homicídio. Levantou-se e foi fazer fotocópias na Xerox ao fundo do corredor. Reparou que o rapaz das trancinhas já lá não se encontrava. A seguir, foi buscar um dossier azul novo ao armário do material de escritório depois de ter aberto a porta com o auxílio do seu cartão de identificação do LAPD e enfiou um conjunto desses relatórios nas três argolas. Escondeu o outro conjunto num dossier azul velho que conservava metido na gaveta de um ficheiro e que estava iden-tificada com o nome de um caso não resolvido. Quando acabou, releu o que acabara de escrever. Gostou da ordem que a papelada deu ao caso. Em muitos outros casos anteriores, tinha criado o hábito de reler o livro do homicídio todas as manhãs. Ajudava-o a criar teorias. O cheiro do plástico do dossier novo recordou-lhe outros casos e encheu-o de energia. Andava novamente à caça. No entanto, os relatórios que tinha dactilografado e arrumado no livro do homicídio não estavam completos. No Relatório Cronológico do Agente Encarregado da Investigação, tinha deixado de fora várias partes das suas tarde e noite de domingo. Omitiu a ligação que tinha feito entre Meadows e o assalto ao Banco WestLand. Também deixou de fora as visitas à casa de penhores e ao Times para falar com Bremmer. Também não havia quaisquer resumos destas entrevistas. Ainda só estava na segunda-feira, o segundo dia. Queria esperar até ter contactado com o FBI antes de registar qualquer destas informações no registo oficial. Primeiro, queria saber, exactamente, o que é que se estava a passar. Era uma precaução que tomava em todos os casos. Já tinha saído do departamento antes de qualquer dos outros detectives terem chegado para iniciar um novo dia de trabalho.

Às nove horas, Bosch já tinha seguido de carro para Westwood e estava no sétimo andar do Edifício Federal no Wilshire Boulevard. A sala de espera do FBI era austera, os habituais sofás cobertos de plástico e a habitual riscada mesa de apoio com os números velhos do FBI Eulletin abertos em leque sobre o verniz do falso revestimento de madeira granulada. Bosch não se deu ao trabalho de se sentar ou de ler. Ficou em pé, à frente das cortinas brancas e transparentes que cobriam as janelas do tecto até ao chão, a ver o panorama. A janela virada a norte oferecia uma vista que se estendia do Pacífico para leste, cobrindo o contorno das Montanhas de Santa Monica, até Hollywood. As cortinas funcionavam como uma camada de nevoeiro por cima da camada de poluição. Estava de pé, com o nariz quase a tocar no suave tecido de gaze a olhar para baixo, para o outro lado de Wilshire, para o Cemitério da Administração dos Veteranos. As pedras tumulares despontavam da relva bem aparada como filas a seguir a filas de dentes de bebés. Ao pé da entrada do cemitério, estava a decorrer um funeral, com uma guarda de honra em sentido. Mas não havia uma grande multidão de acompanhantes. Mais a norte, no cimo de uma elevação onde não havia pedras tumu-lares, Bosch via vários trabalhadores a remover torrões de terra e a escavar uma comprida fatia de terra com o auxílio de uma escavadora. Enquanto apreciava a vista, ia verificando de tempos a tempos o andamento do trabalho, mas não conseguia perceber o que é que estavam a fazer. O buraco era demasiado comprido e largo para uma campa.

Por volta das dez e meia, o funeral do soldado terminara, mas os trabalhadores do cemitério continuavam a trabalhar na colina. E Bosch continuava à espera ao pé da cortina. Finalmente, atrás dele, uma voz dirigiu-se-lhe.

Todas essas campas. Umas fileiras tão perfeitas. Faço os possíveis para nunca olhar lá para fora por estas janelas.

Bosh voltou-se. Ela era alta e esbelta com cabelo castanho ondulado até aos ombros e madeixas louras. Um bronzeado bonito e pouca maquilhagem. Parecia rígida e talvez um pouco cansada demais para aquela hora tão matutina, com aquele ar que as mulheres polícias e as prostitutas costumam ter. Vestia uma saia e casaco castanhos e uma blusa branca com um laço cor de chocolate. Ele apercebeu-se das curvas assimétricas das ancas dela por baixo do casaco. Trazia qualquer coisa pequena do lado esquerdo, talvez uma Rugar, o que não era usual. Bosch sempre tinha visto as mulheres detectives trazerem as armas nas carteiras.

E o cemitério dos Veteranos disse-lhe ela.

Eu sei.

Ele sorriu, mas não por causa daquilo. Tinha estado à espera que a Agente Especial E. D. Wish fosse um homem. Por nenhuma razão especial a não ser o facto da maioria dos agentes do FBI destacados para os bancos serem homens. As mulheres faziam parte da imagem mais recente do FBI e não era habitual encontrá-las nas brigadas dajiesada. Estas eram fraternidades compostas praticamente só de dinossauros e marginalizados, tipos que não conseguiam ou não queriam aguentar o enfoque dado pelo departamento ao combate cerrado às investigações dos crimes de colarinho branco, espionagem e droga. Os dias de Melvin Purvis e dos pistoleiros, estavam praticamente acabados. Os assaltos aos bancos já não eram vistosos. A maior parte dos ladrões de bancos não eram profissionais. Eram drogados que andavam à procura de massa suficiente para se aguentarem durante uma semana. Claro que roubar um banco continuava a ser um crime federal. E era por essa única razão que o departamento ainda se incomodava.

Claro disse ela. Você deve saber isso. Em que é que o posso ajudar, detective Bosch? Sou a agente Wish.

Trocaram um aperto de mão, mas Wish não fez qualquer movimento em direcção à porta por onde tinha entrado. Estava fechada e a lingueta tinha encaixado. Bosch hesitou um instante e depois disse:

Bem, esperei toda a manhã para falar consigo. E sobre o assalto ao banco... Um dos seus casos.

Sim, foi o que disse à recepcionista. Peço desculpa de o ter feito esperar, mas não tínhamos nenhuma entrevista marcada e eu tinha outro assunto urgente. Gostaria que tivesse telefonado primeiro.

Bosch assentiu com a cabeça, mostrando que compreendia a situação, mas, mais uma vez, não houve nenhuma indicação de que o ia convidar a entrar. Isto não está a correr bem, pensou ele.

Por acaso não tem café lá dentro? perguntou ele.

Ah... sim, acho que temos. Mas não podíamos ser breves? A verdade é que estou mesmo no meio de uma coisa neste momento.

Quem não está?, pensou Bosch. Ela usou uma chave-cartão para abrir a porta e depois empurrou-a toda para trás, mantendo-a aberta para ele passar. Lá dentro, levou-o por um corredor onde havia placas nas paredes ao lado das portas. O FBI não tinha a mesma afinidade com os acrónimos que a polícia tinha. As placas estavam numeradas Grupo 1, Grupo 2 e assim por diante. Enquanto iam andando, ele foi tentando identificar a pronúncia dela. Era ligeiramente nasal, mas não como a de Nova Iorque. Filadélfia, decidiu ele, talvez New Jersey. Não era de certeza do Sul da Califórnia apesar do bronzeado.

Simples? Perguntou-lhe ela.

Nata e açúcar, se faz favor.

Ela voltou-se e entrou numa sala que estava equipada como uma pequena cozinha. Havia uma bancada e armários, uma máquina de café para quatro chávenas, um microondas e um frigorífico. Aquilo fez lembrar a Bosch os escritórios de advogados a que tinha ido para prestar depoimentos. Bonito, perfeito, caro. Ela entregou-lhe uma chávena de plástico com café e indicou-lhe que se servisse da nata e do açúcar. Ela não ia tomar nenhum. Se era uma tentativa para o fazer sentir-se desconfortável, deu resultado. Bosch sentia-se como se estivesse a impor-se e não como alguém que trazia boas notícias, uma abertura num caso importante. Seguiu-a pelo corredor e entraram na porta seguinte que estava marcada como Grupo 3Era a unidade dos assaltos aos bancos e dos raptos. A sala tinha praticamente o tamanho de uma loja de conveniência. Era a primeira sala de uma esquadra federal em que Bosch entrava e a comparação com a sua era deprimente. Aqui, a mobília não tinha nada a ver com nada do que já tinha visto numa esquadra do LAPD. Até havia uma carpete no chão e uma máquina de escrever ou um computador em quase todas as secretárias. Havia três filas de cinco secretárias e todas elas, com excepção de uma, se encontravam vazias. Um homem de fato cinzento, sentado na primeira secretária da fila do meio, segurava um telefone. Não levantou a cabeça quando Bosch e Wish entraram. Exceptuando o barulho de fundo de um canal táctico que provinha de um scanner em cima de um armário de arquivos ao fundo da sala, aquilo podia ter pas-sado pelo gabinete de uma sociedade de venda de propriedades.

Wish sentou-se à primeira secretária da primeira fila e fez sinal a Bosch para se sentar no lugar ao lado. Isto fez com que ele ficasse sentado entre Wish e o Fato Cinzento ao telefone. Bosch pousou o café em cima da secretária dela e começou logo a perceber que o Fato Cinzento não estava de facto ao telefone, embora o tipo não parasse de dizer «Hã-hã, hã-hã» ou «Hum-hum» a cada instante. Wish abriu uma gaveta da secretária e tirou uma garrafa de plástico com água, parte da qual deitou num copo de papel.

Tivemos um código duzentos e onze numa caixa económica em Santa Monica e quase toda a gente foi para lá explicou ela quando o viu observar a sala quase deserta. Eu estava a fazer a coordenação a partir daqui. Foi por isso que você teve de ficar à espera lá fora. Desculpe.

Não tem importância. Apanharam-no?

O que é que o leva a dizer que foi um ele? Bosch encolheu os ombros.

As percentagens.

Bem, eram dois. Um de cada. E, sim, apanhámo-los. Estavam num carro roubado de Reseda, cujo roubo já tinha sido participado ontem. A mulher entrou e tomou conta do negócio. O homem ficou ao volante. Apanharam a 10para a 405 e depois entraram no Aeroporto de Los Angeles, onde deixaram o carro à frente de um carregador na United. Depois meteram-se na escada rolante para o terminal das chegadas, apa-nharam um autocarro para a estação Flyaway em Van Nuys e depois um táxi para fazerem outra vez o caminho todo de regresso a Venice. Até a um banco. Tivemos sempre um helicóptero do LAPD em cima deles. Nunca olharam para cima. Quando ela entrou no segundo banco, pensámos que íamos assistir a outro 211, por isso, deitámos-lhe a unha quando estava na bicha para um dos caixas. A ele, apanhámo-lo no parque de estacionamento. Afinal, descobrimos que ela ia depositar o que tinha gamado do primeiro banco. Uma transferência interbancária, da forma mais complicada. Vemos pessoas muito estúpidas neste trabalho, detec-tive Bosch. O que é que posso fazer por si?

Pode tratar-me por Harry.

Enquanto estou a fazer o quê por si?

Cooperação interdepartamental disse ele. Assim a modos como o que estava a fazer com o nosso helicóptero esta manhã.

Bosch bebeu um pouco do café e disse:

O seu nome apareceu-me ontem num BOLO. Um caso com um ano lá na baixa. Estou interessado nele. Trabalho nos homicídios na Divisão de Holly...

Sim, eu sei -interrompeu a Agente Wish.

...wood.

A recepcionista mostrou-me o cartão que você lhe deu. A propósito, não precisa dele?

Era um golpe baixo. Bosch viu o seu triste cartão de visita em cima do elegante mata-borrão verde dela. Andara no bolso dele durante meses e os cantos estavam a encaracolar. Era um daqueles cartões genéricos que o departamento dava aos detectives que faziam serviço externo. Tinha gravado o distintivo da polícia e o número de telefone da Divisão de Hollywood, mas não tinha nome. Uma pessoa podia comprar uma almo-fada de tinta, encomendar um carimbo e sentar-se à secretária no princípio de cada semana a carimbar uma dúzia de cartões. Ou podia limitar-se a escrever o nome na linha com uma caneta e a não distribuir demasiados. Bosch tinha optado por esta última solução. Nada que o departamento fizesse o conseguiria voltar a envergonhar.

Não, pode ficar com ele respondeu. A propósito, não tem um? Num movimento rápido e impaciente, ela abriu a gaveta do meio,

tirou um cartão de um tabuleirinho e pousou-o no tampo da secretária ao lado do cotovelo que Bosch tinha lá apoiado. Ele bebeu outro gole de café enquanto baixava os olhos para o ler. O E era de Eleanor.

Bem, seja como for, você sabe quem eu sou e de onde é que venho começou ele. E eu sei algumas coisas sobre si. Por exemplo, inves-tigou, ou está a investigar, um assalto a um banco no ano passado em que os assaltantes entraram pelo chão. O caso do túnel. O WestLand National.

Reparou que lhe tinha despertado a atenção imediatamente e achou que o Fato Cinzento tinha sustido a respiração. Tinha atirado o anzol para o sítio certo.

O seu nome está nos boletins. Eu estou a investigar um homicídio. Estou convencido que está relacionado com o seu caso e quero saber... Basicamente, quero saber o que é que você sabe... Podemos falar dos suspeitos, possíveis suspeitos... Acho que somos capazes de andar à procura das mesmas pessoas. Acho que o meu homem pode ter sido um dos seus assaltantes.

Wish ficou calada durante uns instantes a brincar com um lápis que tinha tirado do mata-borrão. Fez deslizar o cartão de Bosch em cima do quadrado verde com a ponta da borracha. O Fato Cinzento continuava a fingir que estava ao telefone. Bosch olhou para ele e os olhares de ambos cruzaram-se por breves instantes. Bosch baixou-lhe a cabeça e o Fato Cinzento desviou o olhar. Bosch deduziu que estava a olhar para o homem cujos comentários tinham aparecido nos artigos do jornal. O Agente Especial John Rourke.

Você é capaz de fazer melhor do que isto, não é verdade, detec-tive Bosch? perguntou Wish. Quero dizer, você limita-se a entrar por aqui dentro a acenar-me com a bandeira da cooperação e espera que eu lhe abra os nossos ficheiros.

Bateu três vezes com a ponta do lápis na secretária, abanando a cabeça como se estivesse a ralhar com uma criança.

E se me desse um nome? continuou ela. E se me desse uma razão para essa ligação? Geralmente, costumamos lidar com esses pedi-dos através dos canais próprios. Temos agentes de ligação que avaliam os pedidos das outras agências policiais para partilharmos as nossas informações e os nossos ficheiros. Você sabe isso. Acho que seria melhor...

Bosch tirou o boletim do FBI com a fotografia da pulseira da companhia de seguros do bolso. Desdobrou-o e colocou-o em cima do mata-borrão. Depois, tirou a Polaroid da loja de penhores e largou-a em cima da secretária.

WestLand National disse ele batendo com um dedo no boletim. A pulseira foi empenhada há seis semanas atrás numa loja da baixa. Quem a empenhou foi o meu homem. Agora, está morto.

Ela olhou atentamente para a Polaroid da pulseira e Bosch percebeu que a estava a reconhecer. Ela ainda não tinha esquecido o caso.

O nome é William Meadows. Encontrei-o ontem de manhã, dentro de um cano na barragem de Mulholland.

O Fato Cinzento deu o monólogo por terminado dizendo:

Agradeço a informação. Tenho que desligar. Estamos a encerrar um duzentos e onze. Hum-Hum... Obrigado... Para si também, obrigado.

Bosch não olhou para ele. Estava a observar Wish. Sentia que ela queria olhar para o Fato Cinzento. Os olhos saltaram naquela direcção, mas regressaram rapidamente à fotografia. Havia qualquer coisa que não estava certa e Bosch resolveu atirar-se de cabeça e quebrar o silêncio.

Por que é que não nos deixamos de tretas, agente Wish? Tanto quanto sei, vocês nunca recuperaram uma única acção, um único título, uma única moeda, uma única jóia, uma única pulseira de ouro e jade. Não têm nada. Por isso, vá-se lixar com os agentes de ligação. O que eu quero saber é o que é isto? O meu homem pôs a pulseira no prego; acabou por morrer. Porquê? Temos investigações paralelas, não acha? O mais provável é tratar-se até da mesma investigação.

Nada.

Ora vejamos, o meu homem: ou os vossos assaltantes lhe deram a pulseira ou ele roubou-a a eles. Ou então, muito possivelmente, era um deles. Se calhar, não era suposto que a pulseira aparecesse já. Ainda não apareceu mais nada. E ele lembra-se de quebrar as regras e vai pôr a dita no prego. Eles limpam-lhe o sebo, vão à loja de penhores e voltam a roubá-la. Qualquer coisa deste tipo. O que interessa é que estamos à procura das mesmas pessoas. E eu preciso que me dêem uma pista para poder começar.

Ela ainda permanecia calada, mas Bosch percebeu que estava a tomar uma decisão. Desta vez, resolveu esperar.

Fale-me dele disse ela por fim.

E ele falou. Contou-lhe tudo. O telefonema anónimo. O cadáver. O facto do apartamento ter sido revistado. O ter encontrado a cautela da loja de penhores escondida por trás da fotografia. O ter ido à loja de penhores só para descobrir que a pulseira tinha voltado a ser roubada. Não contou que tinha conhecido Meadows.

Levaram mais alguma coisa dessa loja de penhores, ou foi só esta pulseira? perguntou ela quando ele acabou.

Claro que sim. Mas só para esconder o que realmente queriam. A pulseira. Na minha opinião, o Meadows foi morto porque, quem quer que o tenha matado, queria a pulseira. Foi torturado antes de ser assassinado porque queriam saber onde é que ela estava. Conseguiram o que queriam, mataram-no e foram buscar a pulseira. Importa-se que eu fume?

Importo-me sim. O que é que poderia ser assim tão importante nessa pulseira? Esta pulseira não é mais do que uma gota no oceano de tudo aquilo que foi levado, de tudo aquilo que nunca apareceu.

Bosch já tinha pensado nisso, mas não fazia ideia nenhuma. Respondeu:

Não sei.

Se ele foi torturado, como você diz, por que é que a cautela da loja lá ficou dando azo a que o encontrasse? E por que é que tiveram que arrombar a loja de penhores para lá conseguirem entrar? Você está a dizer que ele lhes disse onde é que estava a pulseira, mas não lhes deu a cautela?

Bosch também tinha pensado nisso. Respondeu:

Não sei. Talvez ele soubesse que eles não o iam deixar vivo. Por isso, só lhes deu metade do que eles precisavam. Guardou uma coisa para si. Era uma pista. Ele deixou a cautela como uma pista.

Bosch pensou no cenário. A primeira vez que tinha começado a juntar as peças todas tinha sido quando relera os seus apontamentos e os relatórios que tinha escrito à máquina. Decidiu que era a altura para jogar mais uma cartada.

Conheci o Meadows há vinte anos.

Conhecia a vítima, detective Bosch? A voz dela ergueu-se, acusadora. Por que é que não disse isso logo que entrou aqui? Desde quando é que o LAPD permite que os seus detectives andem por aí a investigar as mortes dos seus amigos?

Eu não disse isso. Disse que o conheci. Há vinte anos. E não pedi que me dessem este caso. Estava de serviço e era a minha vez. Fui chamado. Foi uma...

Não queria dizer a palavra coincidência.

Isto é tudo muito interessante disse Wish. Também é bastante irregular. Nós... Eu não sei se o podemos ajudar. Penso...

Olhe, quando o conheci, foi no Exército dos Estados Unidos. O Primeiro de Infantaria no Vietname. OK? Estávamos lá os dois. Ele era aquilo a que se costumava chamar um rato dos túneis. Sabe o que é que isso quer dizer?... E eu também o era.

Wish não disse nada. Estava outra vez a olhar para a pulseira. Bosch tinha-se esquecido por completo do Fato Cinzento.

Os Vietnamitas tinham túneis por baixo das aldeias disse Bosch. Alguns já tinham cem anos. Os túneis iam de palhota a palhota, aldeia a aldeia, selva a selva. Até passavam por baixo dos nossos campos. Havia-os por todo o lado. Era esse o nosso trabalho, nós os soldados dos túneis, enfiarmo-nos nessas coisas. Havia uma outra guerra completamente diferente por baixo do chão.

Repentinamente, Bosch apercebeu-se que, sem contar com um psicólogo e a um grupo de apoio na VA de Sepulveda, nunca tinha falado a ninguém sobre os túneis e sobre aquilo que lá fazia.

E o Meadows, bem, ele era bom naquilo. Por mais estranho que parecesse alguém gostar de descer para toda aquela escuridão só com uma lanterna e uma 45, bem, a verdade é que ele gostava. Por vezes, entrávamos e levávamos horas lá dentro, outras vezes, levávamos dias...

E o Meadows__Bem, o Meadows foi a única pessoa que lá conheci que

não tinha medo de ir. A vida ao nível do chão é que o assustava.

Ela não disse nada. Bosch olhou para o Fato Cinzento que estava a escrever num bloco amarelo que Bosch não conseguia ler. Bosch ouviu alguém comunicar pelo canal táctico que estava a transportar dois prisioneiros para a cadeia.

E é assim que, vinte anos depois, você tem um crime num túnel e eu um combatente dos túneis morto. Ele foi encontrado dentro de um cano, um túnel. Estava na posse de um objecto do vosso crime. Bosch apalpou os bolsos todos à procura dos cigarros e de repente lembrou-se que ela tinha dito que não. Temos de trabalhar juntos neste caso. E já.

Sabia pela expressão da cara dela que não tinha resultado. Esvaziou a chávena de café, preparando-se para se dirigir para a porta. Não olhou para Wish. Ouviu o Fato Cinzento voltar a agarrar no telefone e marcar um número. Olhou para baixo, para o resíduo de açúcar no fundo da chávena. Odiava açúcar no café.

Detective Bosch -, começou Wish lamento que tenha esperado tanto tempo na recepção esta manhã. Tenho muita pena que este soldado que você conhecia, Meadows, tenha morrido. Quer tenha sido ou não há vinte anos, tenho mesmo. Tenho simpatia por ele, por si, por aquilo que podem ter tido de passar... Mas também tenho pena de, neste momento, não o poder ajudar. Vou ter de seguir os procedimentos protocolares estabelecidos e falar com o meu supervisor. Entrarei em contacto consigo. O mais depressa possível. Por agora, é tudo o que posso fazer.

Bosh atirou a chávena para dentro de um cesto de papéis ao lado da secretária e estendeu o braço para agarrar na Polaroid e na página do boletim.

Podemos ficar com a fotografia? perguntou a agente Wish. Preciso de a mostrar ao meu supervisor.

Bosch não largou a Polaroid. Levantou-se e colocou-se em frente da secretária do Fato Cinzento. Segurou a fotografia à frente da cara do homem.

Ele já a viu disse por cima do ombro dele enquanto saía do gabinete.

O subchefe Irvin Irving estava sentado à secretária a ranger os dentes e a contrair os músculos dos maxilares como se fossem bolas de borracha dura. Estava perturbado. E este apertar e ranger de dentes era um hábito seu quando estava perturbado ou num estado de espírito solitário e contemplativo. Em resultado disso, a musculatura dos maxilares tinha-se tor-nado a característica mais pronunciada das suas feições. Quando se olhava de frente, as linhas dos maxilares de Irving eram mais largas do que as orelhas, que estavam coladas ao crânio rapado e tinham um feitio que lembrava asas. As orelhas e os maxilares davam a Irving um ar intimidante se não mesmo estranho. Parecia que era só boca e que os seus molares eram capazes de esmagar berlindes. E Irving fazia tudo o que podia para promover esta imagem do feroz cão de guarda de um ferro-velho que conseguia enterrar os dentes num ombro ou numa perna e arrancar um bocado de carne do tamanho de uma bola de softbalP. Era uma imagem que o tinha ajudado a ultrapassar o seu único entrave enquanto polícia de Los Angeles o estúpido do nome e que só o poderia ajudar na sua longa e há muito planeada ascensão até ao gabinete do chefe, no sexto andar. Por isso, satisfazia o hábito, ainda que isso lhe custasse dois mil dólares num novo conjunto de implantes molares de dezoito em dezoito meses.

Irving apertou com força o nó da gravata em roda do pescoço e passou a mão pela careca reluzente. Estendeu a mão para o besouro do intercomunicador. Embora pudesse ter carregado com toda a facilidade no botão do altifalante e ladrado a sua ordem, esperou que a sua nova adjunta respondesse primeiro. Era outro dos seus hábitos.

Sim, Chefe?

Ele adorava ouvir aquilo. Sorriu e depois inclinou-se para a frente

Iate a sua enorme queixada ficar a escassos centímetros do altifalante do intercomunicador. Era um homem que não confiava que a tecnologia pudesse fazer aquilo que era suposto fazer. Tinha que pôr a boca no altifalante e gritar.

 

Softball jogo semelhante ao basebol e jogado com uma bola mais macia; bola para esse mesmo jogo. (N. T.)

 

Mary, arranje-me o dossier de Harry Bosch. Deve estar nos activos. Soletrou-lhe o primeiro e o último nome.

É para já, Chefe.

Irving recostou-se para trás, sorriu por entre os dentes cerrados, mas nessa altura achou que estava a sentir qualquer coisa desalinhada. Passou com toda a destreza a língua por cima do último molar inferior esquer-do, à procura de um defeito na superfície lisa, talvez uma ligeira fissura. Nada. Abriu a gaveta da secretária e tirou um espelhinho. Abriu a boca e examinou os dentes detrás. Voltou a arrumar o espelho e tirou um bloco Post-it azul-claro onde fez uma anotação para telefonar a marcar uma revisão aos dentes. Fechou a gaveta lembrando-se daquela vez em que tinha enfiado na boca um bolinho da sina num jantar com o vereador do West-side da cidade. O molar inferior da direita tinha-se desfeito com o bolinho duro. O cão do ferro-velho preferiu engolir os bocados do dente a expor a sua fraqueza ao vereador, de cujo voto poderia vir a precisar e a ter no futuro. Durante o jantar, tinha chamado a atenção do vereador para o facto do seu sobrinho, um mecânico no LAPD, ser um homos-sexual não assumido. Irving referiu que estava apenas a fazer o melhor que podia para proteger o sobrinho e impedir que ele fosse descoberto. O departamento era tão homofóbico como uma igreja do Nebraska e se a notícia se espalhasse e chegasse aos ouvidos dos soldados rasos, explicou Irving ao vereador, o agente podia esquecer a hipótese de ser promovido. Também podia contar com uma perseguição brutal por parte da restante nata de L.A. Irving não precisava de referir as consequências se houvesse um escândalo público. Mesmo no liberal Westside, não iria ser nada útil às ambições de ascensão a Presidente da Câmara por parte de um vereador.

Irving estava a sorrir com esta lembrança quando a agente Mary Grosso bateu à porta e entrou no gabinete com um dossier de três centímetros de grossura na mão. Pousou-o no tampo de vidro da secretária de Irving. Não havia mais nada naquela superfície cintilante, nem sequer um telefone.

Tinha razão, Chefe. Ainda estava nos ficheiros activos.

O subchefe encarregado da Divisão dos Assuntos Internos inclinou-se para a frente e disse:

Pois é, acho que não cheguei a mandá-lo transferir para os arquivos porque tinha a sensação que ainda não nos tínhamos visto livres do detective Bosch. Ora vejamos, quer-me parecer que devem ser o Lewis e o Clarke.

Abriu o dossier e leu as anotações na parte de dentro da capa.

 

Exactamente. Mary, faça-me o favor de mandar chamar o Lewis e o Clarke.

Chefe, viu-os na sala da esquadra. Estavam a preparar-se para uma BOR1. Não sei bem de qual caso.

Bem, Mary, eles vão ter que cancelar a audiência com a Comissão dos Direitos. E, por favor, não use siglas quando falar comigo. Sou um polícia lento e cuidadoso. Não gosto de atalhos. Não gosto de siglas. Vai acabar por aprender isso. Agora, vá dizer ao Lewis e ao Clarke que quero que adiem a audiência e se venham apresentar imediatamente.

Contraiu os músculos dos maxilares e manteve-os assim, duros como bolas de ténis. Mary Grosso precipitou-se para fora do gabinete. Irving descontraiu-se e começou a percorrer as páginas do dossier, voltando a familiarizar-se com Harry Bosch. Reparou no registo militar de Bosch e na sua rápida subida no departamento. Das patrulhas para os detectives e daí para a Divisão dos Assaltos e Homicídios em oito anos. Depois a queda: transferência administrativa no ano anterior da Divisão dos Assaltos e Homicídios para os homicídios da esquadra de Hollywood. Devia ter sido expulso, lamentou-se Irving enquanto estudava as entradas na cronologia da carreira de Bosch.

Seguidamente, Irving analisou o relatório de avaliação de um exame psicológico feito a Bosch no ano anterior a fim de determinar se ele deveria ser autorizado a regressar ao serviço depois de ter matado um homem desarmado. O psicólogo do departamento escrevera:

Através das suas experiências na guerra e na polícia, incluindo o supracitado e importante tiroteio que resultou em fatalidade, o sujeito acabou por ficar, em grande medida, dessensibilizado em relação à violência. Fala em termos de violência ou nos aspectos da violência como sendo uma parte aceite da sua vida quotidiana, durante toda a sua vida. Por conseguinte, é improvável que aquilo que aconteceu anteriormente venha a actuar como um impedimento psicológico caso ele se venha a encontrar novamente em circunstâncias em que tenha de actuar com força mortal para se proteger a si ou a outros. Estou certo que será capaz de agir sem a menor hesitação. Será capaz de premir o gatilho. De facto, a sua conversa não revela quaisquer efeitos negativos provocados pelo tiroteio, a não ser que a sua sensação de satisfação com o resultado do incidente a morte do suspeito deva ser considerada inapropriada.

 

1 BOR Board Of Rights. (N. T.)

 

Irving fechou o dossier e tamborilou em cima dele com uma unha impecavelmente tratada. A seguir, agarrou num comprido cabelo castanho da agente Mary Grosso, calculou ele que estava em cima do tampo de vidro e deitou-o para o cesto de papéis ao lado da secretária. Harry Bosch era um problema, pensou ele. Um bom polícia, um bom detective de facto, Ainda que de má vontade, Irving admirava o trabalho dele nos homicídios, particularmente a sua propensão pelos assassinos em série. Mas o subchefe estava convencido que, a longo prazo, os marginais não trabalhavam bem dentro do sistema. Harry Bosch era um marginal e iria sê-lo sempre. Não fazia parte da família do LAPD. E agora tinha chegado ao conhecimento de Irving algo muito pior. Bosch não só tinha deixado a família como parecia estar envolvido em actividades que iriam prejudicar a família, envergonhar a família. Irving deci-diu que tinha de agir com determinação e depressa. Fez girar a cadeira e ficou a olhar pela janela para a Câmara Municipal do outro lado da Los Angeles Street. Depois, o olhar desceu, como sempre acontecia, para a fonte de mármore em frente do Parker Center, o memorial aos agentes da polícia mortos no cumprimento do dever. Estava ali a família, pensou ele. Estava ali a honra. Cerrou os dentes com toda a força sentindo-se forte e triunfante. Naquele preciso instante, a porta abriu-se.

Os detectives Pierce Lewis e Don Clarke entraram no gabinete e perfilaram-se. Nenhum deles falou. Podiam ser irmãos. Ambos usavam o cabelo castanho cortado à escovinha, tinham a mesma amplitude de braços dos levantadores de pesos e vestiam fatos conservadores de seda cinzenta. O de Lewis tinha uma risca fininha cor de carvão, o de Clarke tinha uma castanha. Ambos eram de constituição larga e baixa. Ambos se deslocavam com uma ligeira inclinação do corpo para a frente como se esti-vessem a avançar pelo mar dentro, abrindo caminho pelo meio das ondas com as caras.

Meus senhores disse Irving, temos um problema um pro-blema prioritário com um agente que já cruzou o limiar da nossa porta. Um agente com quem os dois já lidaram com um certo sucesso.

Lewis e Clarke olharam um para o outro e Clarke permitiu-se um sorriso um sorriso pequeno e rápido. Não fazia a mínima ideia de quem pudesse ser, mas gostava da ideia de perseguir os reincidentes. Ficavam tão desesperados.

Harry Bosch disse Irving. Esperou uns instantes para que o nome lhes dissesse alguma coisa e continuou: Vão precisar de dar um passeiozinho até à Divisão de Hollywood. Quero abrir-lhe um um ponto oitenta e um imediatamente. O queixoso vai ser o Federal Bureau of Investi-gation.

O FBI? exclamou Lewis. O que é que ele lhes fez?

Irving repreendeu-o por usar a sigla do departamento federal e mandou os dois sentarem-se em duas cadeiras à frente da secretária dele. Passou os dez minutos seguintes a contar-lhes o telefonema que recebera do FBI.

O departamento diz que é demasiada coincidência concluiu ele. E eu concordo. Ele pode estar sujo nesta história e os agentes federais querem-no fora do caso Meadows. No mínimo, parece que ele inter-veio para ajudar este suspeito, antigo camarada de armas, a evitar passar uma temporada na prisão no ano passado, possivelmente para que ele pudesse cometer este assalto ao banco. Se o Bosch sabia disto, ou se teve mais algum envolvimento no crime, não sei. Mas vamos descobrir o que é que o detective Bosch anda a fazer.

Irving fez aqui uma paragem, contraindo o maxilar com toda a força, para que a sua mensagem fosse claramente entendida. Lewis e Clarkesabiam que o melhor era não interromperem. E Irving continuou:

Esta oportunidade abre a porta para o nosso departamento fazer aquilo que não conseguiu realizar anteriormente em relação ao Bosch: eliminá-lo. Os senhores informam-me directamente. Oh, e eu quero que o supervisor do Bosch, um tal tenente Pounds, receba cópias dos vossos relatórios diários. Discretamente. Mas, comigo, vão fazer mais do que dar-me as cópias. Quero relatórios telefónicos duas vezes por dia, de manhã e à noite.

Vamos a caminho disse Lewis, levantando-se.

Sejam audaciosos, mas cuidadosos aconselhou Irving. O detective Harry Bosch já não é a celebridade que foi em tempos. Mas, seja como for, não o deixem escapar-se por entre os dedos.

A vergonha que Bosch sentira por ter sido tão pouco cerimoniosa-mente mandado embora pela agente Wish, tinha-se transformado em fúria e frustração enquanto descia no elevador. Parecia uma presença física no peito que lhe saltava para dentro da garganta enquanto a cela de aço inoxidável descia. Estava sozinho e, quando opager no cinto deu sinal, deixou-o apitar durante os quinze segundos que lhe eram concedidos em vez de o desligar. Engoliu a fúria e a vergonha que sentia e transformou-as numa resolução. Quando saiu do elevador, olhou para o número de telefone no mostrador digital do pager. O código da área era 818, o do Valley, mas não reconheceu o número. Dirigiu-se para uma das cabines telefónicas no pátio em frente do Federal Building e mar-cou o número. Noventa cêntimos disse uma voz electrónica. Felizmente, tinha os trocos necessários. Meteu as moedas e a chamada foi apanhada a meio do toque por Jerry Edgar.

Harry começou ele logo a dizer, sem um olá sequer, ainda aqui estou, na VA, e estou a ser empurrado de uns para os outros, meu. Não têm nenhum arquivo do Meadows. Dizem que tenho que ir através do DC ou arranjar um mandado de busca. Digo-lhes que sei que há um processo, sabes, por causa daquilo que me contaste. Digo-lhes: «Olhem, se eu for arranjar um mandado de busca, vocês são capazes de ir procurar para ficarem a saber onde é que está este processo? «E eles andam à procura durante um bom bocado e quando voltam finalmente a aparecer é para dizerem que sim, tinham tido um processo, mas tinha desaparecido, tinha sido levado. Adivinha quem é que o veio buscar com uma ordem do tribunal, no ano passado?

O FBI.

Sabes alguma coisa que eu não saiba?

Não tenho estado propriamente com o cu sentado. Eles disseram quando é que o FBI o levou ou porquê?

Não lhes disseram porquê. O agente do FBI limitou-se a aparecer lá com o mandado e a levá-lo. Levantou-o em Setembro passado e ainda não o devolveu. Não deu nenhuma explicação. A porra do FBI nunca tem de dar explicações.

Bosch ficou calado enquanto pensava naquilo. Eles já sabiam de tudo aquilo. Wish sabia da existência de Meadows, dos túneis e de tudo o resto que Bosch lhe tinha acabado de contar. Tudo aquilo tinha sido uma representação.

Harry, estás aí?

Sim, ouve, eles mostraram-te alguma fotocópia da papelada ou sabem o nome do agente?

Não, não conseguiram encontrar a cópia do recibo da intimação e ninguém se lembra do nome do agente, exceptuando o facto de ser uma mulher.

Anota este número onde eu estou. Volta lá, aos registos, e pede para ver outro processo, só para ver se lá está. O meu processo.

Ditou a Edgar o número do telefone onde estava, a data do nascimento, o número do cartão da segurança social e o nome completo, soletrando o seu nome próprio verdadeiro.

-Jesus! Isso é que é o teu nome? perguntou Edgar. Harry é um diminutivo? Como é que a tua mãe se lembrou de uma dessas?

Tinha uma pancada pelos pintores do século quinze. Tem a ver com o apelido. Vai lá ver do processo e depois telefona-me. Fico aqui à espera.

Nem sequer sou capaz de pronunciar isto, meu.

Rima com anónimo1.

  1. Vou experimentar. A propósito, afinal onde é que tu estás?

Numa cabine pública. Em frente do FBI.

Bosch desligou antes que o companheiro pudesse fazer mais perguntas. Acendeu um cigarro e encostou-se à cabine telefónica enquanto observava um pequeno grupo de pessoas que se deslocava num círculo no comprido relvado verde à frente do edifício. Seguravam tabuletas e cartazes feitos em casa em protesto contra uma proposta para conceder novas licenças petrolíferas na Baía de Santa Mónica. Viu cartazes que diziam: «Digam Não Ao Petróleo», «A Baía Ainda Não Está Suficientemente Poluída?», «Estados Unidos de Exxon», ete, etc.

Reparou que estavam duas equipas de noticiários de televisão no relvado a filmar a manifestação. A chave era exactamente isso, pensou ele. Exposição. Desde que os meios de comunicação aparecessem e a manifestação aparecesse no noticiário das seis, o protesto tinha sido bem sucedido. Bosch viu que o aparente porta-voz do grupo estava a ser filmado e entrevistado por uma mulher que ele reconheceu ser do Channel 4. Também estava a reconhecer o porta-voz, mas não sabia de onde. Ao fim de alguns instantes a observar o à vontade do homem perante a câmara, durante a entrevista, Bosch identificou-o. O tipo era um actor de TV que costumava fazer de bêbado numa popular série de comédia que Bosch tinha visto uma ou duas vezes. Embora o tipo ainda se parecesse com um bêbado, o programa já tinha acabado.

Bosch ia no segundo cigarro, encostado à cabine telefónica e a começar a sentir o calor do dia, quando ergueu os olhos para as portas de vidro do edifício e viu a agente Eleanor Wish a sair. Estava a olhar para baixo, com a mão metida na carteira à procura de qualquer coisa e não

 

Em inglês anonymous (anónimo) rima com Hieronymus (Hieronymus Bosch (1450?--1516) , pintor holandês). (N. T.)

 

o tinha visto. Muito rapidamente e sem analisar porquê, Bosch baixou-se atrás dos telefones e, usando-os como um escudo protector, foi-se deslocando à volta deles enquanto ela passava. O que ela tinha estado a pro-curar na carteira eram os óculos. Já os tinha postos quando passou pelos manifestantes sem sequer deitar um olhar na direcção deles. Subiu a Veteran Avenue em direcção ao Wilshire Boulevard. Bosch sabia que a garagem do FBI ficava por baixo do edifício. Eleanor Wish estava a andar na direcção oposta. Ia a qualquer sítio ali perto. O telefone tocou.

Harry, eles também têm o teu processo. O FBI. O que é que se passa?

A voz de Edgar parecia aflita e confusa. Ele não gostava de ondas. Não gostava de mistérios. Era o tipo de homem que cumpria o seu horário das nove às cinco e nada mais.

Não sei o que é que se passa, não me quiseram dizer replicou Bosch. Vai andando para o gabinete. Falamos lá. Se lá chegares antes de mim, quero que telefones para o projecto do Metro. Pessoal. Vê se o Meadows lá trabalhava. Experimenta também com o nome Fields. Depois trata da papelada relativa à facada da TV. Como combinámos. Trata da tua parte da combinação. Eu vou lá ter contigo.

Harry, disseste-me que conhecias este tipo, o Meadows. Se calhar devíamos avisar o Noventa e oito que há um conflito, que devíamos entregar o caso ao RHD ou a qualquer outra pessoa que esteja disponível.

Jed, falamos daqui a bocadinho. Não faças nada nem fales com ninguém acerca disto até eu chegar aí.

Bosch desligou o telefone e dirigiu-se para o Wilshire Boulevard. Conseguia ver que Eleanor Wish já tinha virado para este em direcção à Westwood Village. Encurtou a distância entre os dois, atravessou para o outro lado da rua e continuou atrás dela. Teve o cuidado de não se aproximar demasiado para que o seu reflexo não aparecesse nos vidros das montras para onde ela ia olhando ao passar. Quando ela chegou ao Westwood Boulevard, virou para norte e atravessou Wilshire, para o lado da rua onde Bosch se encontrava. Este enfiou-se na entrada de um banco. Momentos depois, voltou a sair para o passeio, mas ela tinha desaparecido. Olhou para cima e para baixo, correu até à esquina. Viu-a meio quarteirão mais à frente, a subir a Westwood para entrar na Village.

Wish abrandou à frente de umas montras e parou em frente de uma loja de artigos desportivos. Bosch conseguia ver manequins femininos na montra, vestindo camisas e calções de correr verde-lima. A moda do ano passado em saldo hoje. Wish olhou para os fatos durante alguns instantes e depois continuou, só voltando a parar quando entrou na zona dos teatros. Entrou no Strattons Bar & Grill.

Bosch, do outro lado da rua, passou pelo restaurante sem olhar e continuou até à esquina seguinte. Parou em frente do Bruin, debaixo do toldo do velho teatro e olhou para trás. Ela não tinha saído. Perguntou para consigo se haveria uma saída pelas traseiras. Consultou o relógio de pulso. Era um bocadinho cedo para almoçar, mas talvez ela gostasse de evitar as multidões. Talvez gostasse de comer sozinha. Atravessou a rua para a outra esquina e meteu-se debaixo do toldo do Fox Theater. Conse-guia ver através do vidro da janela da frente do restaurante, mas não conseguiu detectá-la. Atravessou o parque de estacionamento ao lado do restaurante e entrou no beco das traseiras. Viu que havia uma porta de aceso público nas traseiras. Teria ela dado por ele e usado o restaurante para se escapar? Já se tinha passado muito tempo desde que ele tinha andado sozinho na peugada de uma pessoa, mas não lhe parecia que ela tivesse dado por ele. Desceu a viela e entrou pela porta das traseiras.

Eleanor Wish estava sentada sozinha na fila de reservados de madeira ao longo da parede da direita do restaurante. Como qualquer polícia cuidadoso, tinha-se sentado de frente para a porta, por isso, não viu Bosch senão quando ele deslizou pelo banco à frente dela e agarrou no menu a que ela já tinha deitado uma olhadela e largado.

Nunca cá estive disse-lhe ele. Há alguma coisa boa?

O que é isto? Perguntou ela com a surpresa claramente estampada no rosto.

Não sei, pensei que era capaz de querer companhia.

Seguiu-me? Você seguiu-me?

Pelo menos, estou a ser muito franco a este respeito. Sabe uma coisa? Cometeu um erro lá no gabinete. Mostrou-se demasiado fria. Eu entro por ali dentro com a única pista que vocês tinham há nove meses e você só quer falar de agentes de ligação e outras tretas. Havia qual-quer coisa que não estava certa, mas eu não consegui perceber o que era. Agora, já sei.

De que é que está para aí a falar? Não interessa, também não quero saber.

Fez um movimento para deslizar para fora do banco, mas Bosch estendeu o braço por cima da mesa e prendeu-lhe firmemente o pulso. A pele dela estava quente e húmida depois de todo aquele passeio. Ela parou e voltou-se para Bosch dardejando-o com uns olhos castanhos tão zangados e excitados que teriam sido capazes de lhe gravar o nome numa pedra tumular.

Largue-me! disse ela com a voz muito controlada, mas com uma nota de tensão que sugeria que era capaz de perder a cabeça por completo.

Largou-a.

Não se vá embora. Por favor.

Ela hesitou um instante e ele trabalhou depressa. Disse:

Está tudo bem. Compreendo as razões para esta coisa toda, para a recepção tão fria, para tudo. Tenho de dizer que de facto foi um bom trabalho, isso que você fez. Não posso levar-lhe a mal.

Bosch, ouça-me, não sei do que é que está a falar. Acho...

Eu sei que você já sabia do Meadows, dos ratos dos túneis, de tudo. Você foi buscar os ficheiros dele da tropa, também levou os meus, provavelmente, levou todos os ficheiros de todos os ratos que conseguiram sair vivos daquele sítio. Deve ter havido qualquer coisa no trabalhinho do WestLand que fez a ligação aos túneis daqueles tempos.

Ela olhou para ele durante um longo momento e ia começar a falar quando apareceu uma criada com um bloco e um lápis.

Para já é só um café simples e uma Evian. Obrigado disse Bosch antes que Wish ou a empregada tivessem tempo para abrir a boca.

A empregada afastou-se a escrever no bloco.

Pensava que você era um chui de nata e açúcar disse Wish.

Só quando as pessoas tentam adivinhar aquilo que eu sou.

Os olhos dela pareceram suavizar-se, mas apenas um bocadinho.

Detective Bosch, olhe, não sei como é que sabe aquilo que julga que sabe, mas não vou discutir o caso do WestLand. É exactamente como lhe disse no departamento. Não posso fazê-lo. Lamento. Acredite que lamento mesmo.

Bosch disse:

Acho que se calhar devia sentir-me ofendido, mas não sinto. Foi um passo lógico na investigação. Eu teria feito a mesma coisa. Vocês agarram em todas as pessoas que encaixem no perfil rato de túnel e passam-nas pela peneira.

Você não é suspeito, Bosch, OK? Por isso, esqueça isso.

Eu sei que não sou suspeito. Soltou uma gargalhada forçada. Estava a cumprir a minha suspensão no México e posso prová-lo. Mas você já sabe isso. Por isso, por mim, tudo bem, vou esquecer isso. Mas preciso daquilo que você tem sobre o Meadows. Você foi buscar os ficheiros dele em Setembro. Deve ter feito um trabalho completo sobre ele. Vigilância, associados conhecidos, antecedentes. Talvez... aposto que até o fizeram lá ir e tiveram uma conversa com ele. Preciso disso tudo agora hoje, não daqui a três, quatro semanas, quando um oficial de ligação qualquer resolver pôr o carimbo.

A empregada voltou com o café e a água. Wish puxou o copo para perto de si, mas não bebeu.

Detective Bosch, você foi retirado do caso. Lamento. Não devia ser eu a informá-lo disso. Mas retiraram-lhe o caso. Quando voltar para o seu gabinete, vai ficar a sabê-lo. Fizemos um telefonema depois de você ter saído.

Ele estava a segurar na chávena do café com as duas mãos, os cotovelos assentes na mesa. Pousou a chávena no pires com toda a cautela, não fossem as mãos começarem-lhe a tremer.

O que é que fizeram? perguntou Bosch.

Lamento disse Eleanor Wish. Depois de você ter saído, o Rourke o tipo a quem você enfiou a fotografia debaixo do nariz ele ligou para o número no seu cartão e falou com um tal tenente Pounds. Contou-lhe a visita que nos tinha feito e sugeriu que havia um conflito, você estava a investigar a morte de um amigo. Disse mais outras coisas e...

Que outras coisas?

Olhe, Bosch, eu sei quem você é. Admito que fomos buscar os seus ficheiros, que o investigámos. Raios, para fazer isso, bastava-nos ler os jornais dessa altura. Você e aquela coisa do Dollmaker. Por isso, sei o que é que teve de passar com os tipos dos Assuntos Internos e isto não vai ajudar, mas quem decidiu foi o Rourke. Ele...

Que outras coisas é que ele disse?

Disse a verdade. Disse que tanto o seu nome como o do Meadows tinham aparecido na nossa investigação. Disse que vocês os dois se conheciam. Pediu para você ser tirado do caso. Por isso, nada disto tem qualquer interesse.

Bosch estava a olhar para longe, para lá do reservado.

Quero ouvir a sua resposta disse ele. Sou suspeito?

Não. Pelo menos não era até ter aparecido lá esta manhã. Agora, não sei. Estou a tentar ser honesta. Quero dizer, você tem de ver isto pondo-se na nossa posição. Um tipo que investigámos o ano passado entra por ali dentro e diz que está a investigar o assassinato de um outro tipo que também investigámos e com grande atenção. O primeiro tipo diz: «Mostrem-me os vossos dossiers».

Ela não precisava de lhe dizer tudo o que já dissera. Ele sabia disso e sabia que, provavelmente, ela estava a colocar-se numa situação difícil ao dizer-lhe fosse o que fosse. Apesar de toda a merda em que tinha acabado de se meter, ou em que o tinham metido, Harry Bosch estava a começar a gostar da fria e dura Eleanor Wish.

Se não quer falar-me do Meadows, então diga-me uma coisa a meu respeito. Disse que me tinham investigado e que depois me tinham lar-gado. Como é que me ilibaram? Foram ao México?

Isso e outras coisas. Ela olhou para ele durante uns instantes antes de continuar. Você foi ilibado bastante depressa. Ao princípio, ficámos excitados. Quero dizer, fomos vasculhar os dossiers das pessoas com experiência de túneis no Vietname e, ali mesmo no cimo do monte, estava o famoso Harry Bosch, a superstar dos detectives, livros escritos sobre os seus casos. Um filme para a TV, uma série. E o tipo que, por acaso, tinha andado a encher os jornais, o tipo cuja estrela se tinha estilhaçado com um mês de suspensão e uma transferência da elite da Divisão de Assaltos e Homicídios para ... hesitou.

O esgoto acabou ele por ela.

Ela baixou os olhos para o copo e continuou.

Por isso, o Rourke começou imediatamente a pensar que se calhar era assim que você estava a ocupar o tempo, a escavar este túnel para o banco. De herói a vilão, isto era a sua forma de se vingar da sociedade, uma maluqueira destas. Mas quando analisámos os seus antecedentes e fizemos umas perguntas discretas, soubemos que tinha ido passar o mês ao México. Mandámos uma pessoa a Ensenada para verificar. Estava ilibado. Por essa altura, também tínhamos conseguido o seu processo da VA em Sepulveda ah, foi isso, foi com estes que você contactou esta manhã, não foi?

Ele assentiu com a cabeça. Ela continuou.

Seja como for, nos ficheiros médicos, havia os relatórios dos psiquiatras... Desculpe. Isto parece uma invasão tão grande.

Quero saber.

A terapia para o PTS. Quero dizer, você está completamente funcional. Mas tem manifestações de stress pós-traumático que se revelam na insónia e, entre outras coisas, na claustrofobia. Um médico até chegou a escrever que você nunca mais voltaria a entrar num túnel daqueles. De qualquer das maneiras, entregámos um perfil seu no nosso laboratório de ciências comportamentais em Quântico. Eles eliminaram-no como suspeito, disseram que era improvável que você cometesse um crime para obter ganhos financeiros.

Calou-se uns instantes, deixando que tudo aquilo assentasse.

Aqueles ficheiros da VA são velhos disse Bosch. Toda a his-tória é velha. Não vou sentar-me aqui a argumentar motivos para ser considerado um suspeito. Mas essas coisas da VA são velhas. Não vejo um psiquiatra, da VA ou outro, há cinco anos. E quanto a essa merda da fobia, entrei num túnel para olhar para o Meadows ainda ontem. O que é que acha que os vossos psiquiatras lá de Quântico escreveriam sobre isso?

Bosch sentia que a cara estava a ficar vermelha de vergonha. Tinha falado demasiado. Mas quanto mais se tentava controlar e disfarçar, mais sangue lhe subia à cara. A empregada de ancas largas escolheu aquele momento para vir trazer mais café.

Já podem pedir? perguntou-lhes.

Não respondeu Eleanor Wish sem despegar os olhos de Bosch. Ainda não.

Querida, vamos ter uma enchente de gente para o almoço e vamos precisar da mesa para as pessoas que querem comer. Ganho a vida com os que têm fome. Não com os que estão tão zangados que não conseguem comer.

Afastou-se deixando Bosch a pensar para consigo que se calhar as empregadas de mesa eram melhores observadoras do comportamento humano do que a maioria dos polícias. Eleanor Wish disse:

Lamento muito tudo isto. Devia ter-me deixado levantar quando me quis ir embora.

A vergonha tinha desaparecido, mas a raiva continuava lá. Já não estava a olhar para fora do reservado. Estava a olhá-la de frente.

Você julga que me conhece através de uns papéis num dossier? Você não me conhece. Diga-me lá o que sabe.

Eu não o conheço. Sei coisas a seu respeito disse ela. Fez uma pausa para reunir as ideias. Você é um homem institucional, detective Bosch. Toda a sua vida. Abrigos para jovens, lares adoptivos, o exército, depois a polícia. Nunca largou o sistema. Uma instituição social imperfeita a seguir à outra.

Bebeu água e pareceu indecisa sem saber se devia ou não continuar. Continuou:

Hieronymus Bosch... a única coisa que a sua mãe lhe deu foi o nome de um pintor que morreu há quinhentos anos. Mas calculo que as coisas que você já viu tornariam todas aquelas coisas bizarras dos sonhos que ele pintava parecerem a Disneylandia. A sua mãe estava sozinha.

Teve de o abandonar. Você cresceu em lares adoptivos, casas de abrigo para jovens. Sobreviveu a isso e sobreviveu ao Vietname e sobreviveu ao departamento da polícia. Pelo menos, até agora. Mas é um marginal num emprego para gente que pertence, faz parte dele. Chegou até ao RHD e trabalhou em casos muito importantes, mas continuou sempre a ser um marginal. Fazia as coisas à sua maneira e eles acabaram por o pôr fora, exactamente por isso.

Esvaziou o copo parecendo estar a dar tempo para que Bosch pudesse impedi-la de continuar. Mas ele não o fez.

Bastou um erro continuou ela. Matou um homem no ano passado. Era um assassino, mas isso não teve importância. Segundo os relatórios, você pensou que ele estava à procura de uma arma debaixo da almofada da cama. Afinal, veio-se a ver que estava à procura do capachinho. Quase dava para rir, mas o Departamento dos Assuntos Internos arranjou uma testemunha que disse que ela já o tinha avisado anteriormente de que o suspeito guardava o capachinho debaixo da almofada. Uma vez que ela era uma prostituta de rua, a sua credibilidade foi posta em causa. Não foi o suficiente para o pôr fora da polícia, mas custou-lhe o seu posto. Agora, você trabalha em Hollywood, o sítio a que a maior parte das pessoas do departamento chama o esgoto.

A voz sumiu-se. Tinha acabado. Bosch não disse nada e seguiu-se um longo período de silêncio. A empregada passou pelo reservado, mas percebeu que o melhor era não se lhes dirigir.

Quando voltar para o seu gabinete disse Bosch por fim diga ao Rourke para fazer mais um telefonema. Ele tirou-me do caso, pode voltar a meter-me.

Não posso fazer isso. Ele não vai fazer isso.

Oh, vai pois, e diga-lhe que tem até amanhã de manhã para o fazer.

Ou então? O quê? O que é que você pode fazer? Quero dizer, sejamos honestos. Com o seu cadastro, provavelmente, amanhã já estará suspenso. Mal o Pounds desligou o telefone, depois de falar com o Rourke, deve ter telefonado para o Departamento dos Assuntos Internos, se não foi o próprio Rourke a fazê-lo.

Não interessa. Ou amanhã de manhã me dizem qualquer coisa ou diga ao Rourke que vai ler uma história no Times sobre a forma como um tipo que o FBI considerava como suspeito num importante assalto a um banco, ainda para mais, um suspeito sob vigilância do FBI, foi assassinado debaixo do nariz do departamento, levando consigo as respostas para o célebre assalto ao WestLand por meio de um túnel. Os factos podem não estar todos correctos nem na ordem exacta dos acontecimentos, mas não devem errar por muito. E, mais importante do que isso, vai proporcionar uma boa leitura. E vai fazer ondas até DC. Vai ser muito embaraçoso e vai também servir de aviso para quem quer que matou o Meadows. E assim, nunca os irão apanhar. E o Rourke vai ser sempre conhecido como o tipo que os deixou escapar.

Ela olhou para ele e abanou a cabeça como se estivesse acima de toda aquela trapalhada.

Não sou eu que decido. Vou ter de lhe dizer isso e deixá-lo decidir o que fazer. Mas, se eu estivesse no lugar dele, obrigava-o a mostrar o jogo. E digo-lhe já, com toda a franqueza, que é exactamente isso que lhe vou dizer para fazer.

Não é bluff nenhum. Você andou a estudar-me, sabe que eu vou ter com os media e que os media vão gostar de me ouvir. Seja esperta. Diga-lhe que não é bluff nenhum. Eu não terei nada a perder se o fizer. E ele não vai ter nada a perder por me tornar a meter no caso.

Bosch começou a deslizar no banco para sair do reservado. Parou e atirou um par de notas de dólar para cima da mesa.

Têm o meu dossier. Sabem onde é que me podem contactar.

Sim, sabemos, claro que sim disse ela e depois chamou: Hei, Bosch?

Ele parou e voltou-se para trás para olhar para ela.

A prostituta da rua? Estava a dizer a verdade? Em relação à almo-fada?

Não o fazem sempre?

Bosch estacionou o carro no parque atrás da esquadra na Wilcox, acendeu um cigarro e foi a fumar até chegar à porta das traseiras. Apagou a beata no chão e entrou, deixando atrás de si o cheiro a vomitado que saía pelas janelas de rede das celas de detenção nas traseiras da esquadra. Jerry Edgar andava de um lado para o outro no átrio de entrada das traseiras à espera dele.

Harry, temos uma reunião urgente com o Noventa e Oito.

Sim? Sobre quê?

Não sei, mas ele tem andado a entrar e a sair da porta de vidro de dez em dez minutos à tua procura. Tens o beeper e o Motorola desli-gados. E eu vi dois fatinhos dos Assuntos Internos da baixa entrarem lá para dentro com ele há um bom bocado.

Bosch assentiu com a cabeça sem dizer nada de reconfortante ao colega.

O que é que se passa? perguntou Edgar atabalhoadamente. Se temos de contar alguma história, era melhor acertarmos os pormenores antes de entrarmos ali. Tu é que já tens experiência destas merdas, eu não.

Não tenho a certeza do que é que está a acontecer. Acho que nos estão a expulsar do caso. Pelo menos a mim.

Parecia muito descontraído com tudo aquilo.

Harry, eles não chamam os tipos do IAD para fazerem isso. Passa-se qualquer coisa, pá. E só espero que, seja lá o que for que fizeste, não me tenhas lixado também.

Edgar envergonhou-se imediatamente do que tinha dito.

Desculpa, Harry, não queria dizer isso.

Acalma-te. Vamos lá ver o que é que o homem quer.

Bosch dirigiu-se para a sala de trabalho dos detectives. Edgar disse que ia cortar pelo gabinete do turno de serviço e depois entrar pela frente para não parecer que tinham estado a combinar uma história. Quando Bosch chegou à sua secretária, a primeira coisa em que reparou foi que o livro azul do homicídio do caso Meadows tinha desaparecido. Mas também reparou que quem quer que o tinha tirado não se tinha apercebido da cassete com a gravação da chamada para o 911. Bosch agarrou na cassete e meteu-a no bolso do casaco no preciso instante em que a voz do Noventa e Oito trovejava do gabinete envidraçado na parte da frente da sala da esquadra. Gritou uma palavra apenas: «Bosch!» Os outros detectives levantaram as cabeças e olharam em volta. Bosch levantou-se e dirigiu-se vagarosamente para a caixa de vidro, como chamavam ao gabinete do tenente Harvey «Noventa e Oito» Pounds. Através das janelas, viu as costas dos dois fatinhos que lá estavam sentados com Pounds. Bosch reconheceu-os como sendo os dois detectives do Departamento dos Assuntos Internos que tinham tratado do caso Dollmaker. Lewis e Clarice.

Edgar entrou na sala pela porta do átrio da frente no preciso momento em que Bosch ia a passar e entraram os dois juntos na caixa de vidro. Pounds, com uma expressão mortiça no olhar, estava sentado à secretária. Os homens dos Assuntos Internos não se mexeram.

Primeiro que tudo: nada de fumar, Bosch, estás a ouvir? disse Pounds. Esta manhã a esquadra tresanda a cinzeiro. Nem sequer vou perguntar se foste tu.

A política do departamento e da cidade tinha proibido o fumo em todos os gabinetes partilhados por uma comunidade, como era o caso da sala da esquadra da polícia. Era permitido fumar num gabinete particular se fosse do próprio ou se o ocupante do gabinete autorizasse que os visitantes fumassem. Pounds era um fumador reformado e muito militante. A maior parte dos trinta e dois detectives que ele comandava fumavam como agarrados. Quando o Noventa e Oito não estava por perto, muitos deles iam para o gabinete dele para dar umas passas rápidas em vez de saírem para o parque de estacionamento onde perderiam os telefonemas e onde o cheiro a mijo e a vomitado migravam das janelas das traseiras das celas dos bêbados. Pounds tinha ganhado o hábito de fechar à chave a porta do gabinete, mesmo para as viagenzinhas rápidas pelo corredor até ao gabinete do comandante da esquadra, mas qualquer pessoa com um abre-cartas conseguia abrir a porta em três segundos. O tenente estava constantemente a encontrar o espaço interior do seu gabinete empestado de fumo. Tinha duas ventoinhas na sala de três metros por três metros e uma lata de Glade em cima da secretária. Uma vez que a frequência do empestanço tinha aumentado com a transferência de Harry Bosch do Parker Center para os detectives de Hollywood, o Noventa e Oito estava convencido de que Bosch era o maior culpado. E tinha razão, mas nunca tinha conseguido apanhar Bosch em flagrante.

Quer dizer que é este o assunto? perguntou Bosch. Fumar no gabinete?

Senta-te mas é ladrou-lhe Pounds.

Bosch levantou as duas mãos para mostrar que não havia cigarros entre os dedos. Depois voltou-se para os dois homens dos Assuntos Internos.

Bem, Jed, parece que somos capazes de estar prestes a arrancar numa expedição do Lewis e do Clarke. Já não via estes dois grandes exploradores em acção desde que me mandaram para umas férias no México, sem ajudas de custo. Foi aí que fizeram o seu melhor trabalho. Cabeçalhos de jornais, entrevistas, a coisa toda. As estrelas dos Assuntos Internos.

As caras dos dois polícias dos Assuntos Internos ficaram imediata-mente vermelhas de fúria.

Desta vez, podias fazer um favor a ti próprio e manteres essa boca esperta fechada disse Clarke. Estás metido num belo sarilho, Bosch. Estás a perceber?

Sim, percebo. Obrigado pela dica. Também tenho uma para vocês. Voltem aos fatos descontraídos que costumavam vestir antes de se tor-narem lacaios do Irving. Sabem, aquelas coisas amarelas que condiziam com os vossos dentes. O poliéster ficava-vos melhor do que a seda. De facto, um dos tipos ali na cela da preventiva até disse que os fundilhos desses fatos estão a ficar lustrosos com todo o trabalho que vocês fazem sentados à secretária.

Está bem, está bem! interrompeu Pounds.

Bosch, Edgar, sentem-se e calem-se por um minuto. Este...

Meu tenente, eu não disse nada! começou o Edgar. Eu...

Cala-te! Toda a gente calada! Calem-se durante um minuto! ladrou Pounds. Meu Deus! Edgar, para que fique registado, estes dois são dos Assuntos Internos, se é que ainda não o sabias, os detectives Lewis e Clarke. O que é...?

Quero um advogado disse Bosch.

Eu também acrescentou Edgar.

Ora, tretas! disse Pounds. Vamos conversar sobre isto e esclarecer umas quantas coisas e não vamos cá meter nenhuma merda da Liga para a Protecção da Polícia. Se quiserem um advogado, arranjem um depois. Para já, vão-se sentar aqui, os dois, e responder a umas perguntas. Se não o fizerem, Edgar, tu vais saltar para fora desse teu fato de oito-centos dólares e voltar ao uniforme e tu Bosch, porra, Bosch, provavel-mente, desta vez, vais mesmo para a rua.

Durante alguns instantes fez-se silêncio na pequena sala, embora a tensão entre os cinco homens ameaçasse estilhaçar os vidros das janelas. Pounds olhou para a sala de trabalho e viu cerca de uma dúzia de detectives que pareciam muito activos, mas que, na realidade, tentavam apanhar, através do vidro, tudo o que podiam do que se estava a passar. Alguns tinham estado a tentar ler os lábios do tenente. Levantou-se e baixou as persianas que cobriam as janelas. Raramente o fazia. Era uma indicação para os seus subordinados de que aquilo era muito sério. Até Edgar mostrou a sua preocupação soltando um suspiro audível. Pounds voltou a sentar-se. Tamborilou com uma unha comprida no dossier de plástico azul que estava fechado em cima da secretária.

Okay, ora vamos lá ao que interessa começou ele. Vocês os dois estão afastados do caso Meadows. Isto é a primeira coisa. Nada de perguntas, estão fora. Agora, começando do princípio, vão contar-nos tudo e mais alguma coisa.

Nesse momento, Lewis com um estalido do fecho abriu uma pasta e tirou de lá de dentro um gravador de cassetes. Ligou-o e colocou-o em cima da secretária imaculada de Pounds.

Bosch só tinha começado a trabalhar com Edgar há oito meses atrás. Não o conhecia suficientemente bem para saber se ele aguentava este tipo de tratamento autoritário ou até que ponto conseguiria aguentar-se contra estes filhos da mãe. Mas conhecia-o suficientemente bem para saber que gostava dele e que não queria que ele ficasse entalado. O único pecado dele nesta história toda tinha sido ter querido a tarde de sábado livre para vender casas.

Isto é uma treta disse Bosch apontando para o gravador.

Desliga isso disse Ponds a Lewis, apontando para o gravador, que, na realidade, estava mais perto dele do que de Lewis.

O detective dos Assuntos Internos levantou-se e agarrou no gravador. Desligou-o, carregou no botão de rebobinar e voltou a colocá-lo em cima da secretária.

Depois de Lewis se ter voltado a sentar, Pounds disse:

Meu Deus, Bosch! O FBI telefona-me hoje para me dizer que te consideram um possível suspeito num maldito assalto a um banco. Dizem que o Meadows era um suspeito do mesmo trabalho e que, por isso, agora tu também deverias ser considerado como suspeito na morte do Meadows. Achas que não te vamos fazer umas perguntas a respeito disto?

Edgar estava a expirar ainda mais audivelmente. Estava a ouvir aquilo pela primeira vez.

Mantenha o gravador desligado e poderemos conversar disse Bosch.

Pounds pensou um bocadinho e respondeu:

Por agora, não há gravação. Conta-nos.

Primeiro que tudo, o Edgar não sabe peva acerca disto. Ontem fizemos uma combinação. Eu ficava com o caso do Meadows e ele ia para casa. Ele tratava do caso Spivey, o tipo da TV apunhalado na noite anterior. Esta coisa do FBI, o assalto ao banco, ele não faz a menor ideia do que é que se trata. Deixe-o ir embora.

Pounds parecia estar a fazer questão de não olhar nem para Lewis, nem para Clarke ou para Edgar. Tinha tomado a decisão sozinho. Isso provocou um ligeiro tremeluzir de respeito em Bosch, como uma candeia acesa mesmo no centro de um furacão de incompetência. Pounds abriu a gaveta da secretária e tirou para fora uma velha régua de madeira. Pôs-se a brincar com ela. Finalmente, olhou para Edgar.

Isso é verdade? Aquilo que o Bosch está a dizer? Edgar assentiu com a cabeça.

Sabes que isso faz com que a coisa fique feia para ele, como se ele estivesse a tentar guardar o caso só para si, a esconder-te as conexões?

Ele disse-me que conhecia o Meadows. Ele foi sempre muito franco. Era domingo. Não íamos arranjar ninguém que nos viesse substituir por causa dele o ter conhecido há vinte anos. Além disso, a maior parte das pessoas que aparecem mortas em Hollywood, a polícia conhecia-as de uma forma ou de outra. Essa história do banco e isso tudo, ele deve ter descoberto isso depois de eu me ter ido embora. Só agora, aqui sentado, é que estou a ouvir falar nisso.

OK disse Pounds. Tens algum dos papéis sobre este caso? Edgar abanou a cabeça.

OK, acaba aquilo que tens sobre... como é que lhe chamaram?... Spivey, isso, o caso Spivey. Vou arranjar-te outro parceiro. Não sei quem, mas depois digo-te. OK, é tudo, vai-te lá embora.

Edgar respirou fundo ainda mais audivelmente e levantou-se.

Harvey «Noventa e Oito» Pounds deixou que as coisas assentassem na sala durante alguns momentos depois de Edgar se ter ido embora. Bosch estava doido por um cigarro, nem que fosse só para o ter na boca. Mas não iria mostrar-lhes uma fraqueza daquelas.

OK, Bosch disse Pounds. Há alguma coisa que nos queiras dizer a respeito disto?

Há pois. É tudo uma aldrabice.

Clarke esboçou um sorrisinho escarninho. Bosch não lhe ligou nenhuma. Mas Pounds deitou ao detective dos Assuntos Internos um olhar fulminante que fez aumentar o respeito de Bosch.

O FBI disse-me hoje que eu não era suspeito disse Bosch. Investigaram-me há nove meses porque investigaram toda a gente que tinha trabalhado nos túneis no Vietname. Nessa altura, tinham descoberto uma ligação qualquer com os túneis. Tão simples como isso. Foi um bom trabalho, eles tinham de investigar toda a gente. Por isso, investigaram-me e passaram adiante. Raios, eu estava no México graças a estes dois imbecis quando se deu essa história do banco. O FBI limitou-se...

Supostamente disse Clarke.

Deixa-te de merdas, Clarke. Só estás a ver se arranjas um esquema para lá ires passar as tuas férias, à custa dos contribuintes. Podem telefonar para o FBI para confirmar e assim poupam dinheiro.

Bosch voltou-se então para Pounds e ajeitou a cadeira de forma a ficar de costas para os dois homens dos Assuntos Internos. Falou baixo para tornar claro que estava a falar com Pounds e não com eles.

O FBI quer-me fora do caso porque, um, apanhei-os completa-mente desprevenidos quando hoje lhes apareci de rompante a fazer-lhes perguntas sobre o assalto ao banco. Quero dizer, eu era um nome do passado e eles entraram em pânico e telefonaram para si. E, dois, querem ver-me fora do caso porque, provavelmente, meteram o pé na argola, quando deixaram o Meadows escapar no ano passado. Lixaram a única oportunidade que tiveram com ele e não querem que um departamento de fora se meta e veja isso ou que descubra aquilo que eles não conseguiram descobrir durante nove meses.

Não, Bosch, isso tudo é que não passa de uma grande treta disse Pounds. Esta manhã recebi um pedido formal do agente especial encarregado do caso que dirige a brigada dos bancos, um sujeito chamado...

Rourke.

Conhece-lo? Bem, ele pediu que...

Eu fosse imediatamente tirado do caso Meadows. Diz que eu conheço o Meadows, que, por acaso, até é o suspeito principal no assalto ao banco. Ele acaba por ser morto e eu estou encarregado do caso. Coincidência? O Rourke não acha. Eu também não estou lá muito seguro.

Foi exactamente o que ele disse. Por isso, é a partir daqui que vamos começar. Conta-nos lá o que sabes do Meadows, como é que o conheceste, quando o conheceste, não deixes nada de fora.

Bosch passou a hora seguinte a contar a Pounds a história de Meadows, dos túneis, da vez que o Meadows tinha telefonado, quase vinte anos depois, e de como ele, Bosch, tinha conseguido que ele entrasse para Outreach da VA em Sepulveda sem sequer o ter visto. Tudo feito apenas pelo telefone. Durante todo aquele tempo, Bosch nunca se dirigiu aos dois detectives dos Assuntos Internos, nem deu a entender que sabia que eles estavam na sala.

Não fiz segredo de que o conhecia rematou ele. Disse ao Edgar. Entrei por ali dentro e disse ao FBI. Acha que eu teria feito isso se tivesse sido eu que despachei o Meadows? Nem sequer o Lewis e o Clarke são assim tão estúpidos.

Bem... Santo Deus, Bosch, por que é que não me disseste? trovejou Pounds. Por que é que não está nos relatórios deste livro? Por que é que tenho de saber pelo FBI? Por que é que os Assuntos Internos têm de saber pelo FBI?

Então, não tinha sido Pounds que tinha feito o telefonema para os Assuntos Internos. Tinha sido o Rourke. Bosch perguntou para consigo se Eleanor Wish sabia disso e tinha mentido, ou se Rourke teria telefonado aos imbecis quando estava sozinho. Mal conhecia a mulher não conhecia a mulher mas deu por si a desejar que ela não lhe tivesse mentido.

Só comecei a trabalhar nos relatórios esta manhã disse Bosch. Ia completá-los depois de ter falado com o FBI. Obviamente, não tive oportunidade.

Bem, vou poupar-te a esse trabalho disse Pounds. Foi entregue ao FBI.

O que é que foi entregue? perguntou Bosch. O FBI não tem jurisdição sobre isto. Isto é um homicídio.

O Rourke disse que eles estão convencidos de que o assassinato está directamente ligado com a investigação em curso sobre o assalto ao banco. Vão incluir isto nas investigações deles. Nós vamos nomear o nosso próprio agente para o caso através de um contacto interdepartamental. Se e quando chegar a altura de acusar alguém de homicídio, o agente nomeado levará a acusação ao DA para que este actue.

Meu Deus, Pounds! Passa-se qualquer coisa. Não está a ver? Pounds voltou a meter a régua na gaveta e fechou-a.

Sim, passa-se qualquer coisa . Mas não a interpreto como tu disse ele. É tudo, Bosch. Isto é uma ordem. Estás fora. Estes dois homens querem falar contigo e tu ficas a fazer serviço de secretária até que os Assuntos Internos concluam a investigação.

Calou-se uns segundos antes de recomeçar com um tom solene. Um homem infeliz com o que tinha de dizer.

Sabes, mandaram-te para aqui no ano passado e eu podia ter-te posto em qualquer sítio. Podia ter-te metido na merda da secção dos roubos, às voltas com cinquenta relatórios por semana, completamente enterrado em papelada. Mas não o fiz. Apercebi-me das tuas qualidades e pus-te nos homicídios, coisa que julguei que querias. No ano passado, disseram-me que eras bom, mas que não te mantinhas dentro das linhas. Agora vejo que tinham razão. Até que ponto isto me vai prejudicar, não sei. Mas já não me vou ralar com aquilo que poderá ser melhor para ti. Agora, podes falar com esses gajos ou não. A verdade é que me estou nas tintas. Mas é o fim. Está tudo acabado entre nós. Se, não sei como, conse-guires safar-te desta, é melhor tentares arranjar uma transferência porque nunca mais vais fazer parte da minha secção de homicídios.

Pounds agarrou na pasta azul que estava em cima da secretária e levantou-se. Enquanto se dirigia para a porta, disse:

Tenho de dar isto a alguém que o vá entregar ao FBI. Vocês, rapazes, podem ficar com o gabinete durante todo o tempo que precisarem.

Fechou a porta e foi-se embora. Bosch pensou um pouco e concluiu que, na verdade, não podia censurar Pounds por aquilo que ele tinha dito ou feito. Tirou um cigarro e acendeu-o.

Ei! Não se pode fumar, ouviste o homem protestou Lewis.

Vai-te foder respondeu Bosch.

Bosch, és um homem morto disse Clarke. Desta vez, vamos queimar-te na fogueira. Já não és o herói que foste noutros tempos. Desta vez, não há problemas de RP. Ninguém se vai ralar com o que te acontece.

Levantou-se e voltou a ligar o gravador. Recitou a data, os nomes dos três homens presentes e o número que os Assuntos Internos tinham atribuído ao caso sob investigação. Bosch reparou que o número do caso já ultrapassava em cerca de setecentos o do caso da investigação interna que o tinha mandado para Hollywood, nove meses antes. Nove meses, e setecentos outros polícias tinham passado pela mesma tortura idiota. Ia chegar o dia em que já não restaria ninguém para fazer aquilo que estava escrito em todos os carros patrulha: servir e proteger.

Detective Bosch Lewis tomou o comando das operações num tom calmo e com uma articulação cuidada gostaríamos de lhe fazer algumas perguntas relacionadas com a morte de William Meadows. Queira informar-nos de qualquer associação ou conhecimento anterior que tenha tido com o falecido.

Recuso-me a responder a todas as perguntas sem a presença do meu advogado disse Bosch. Cito o meu direito a ser representado, consagrado na Declaração dos Direitos dos Polícias da Califórnia.

Detective Bosch, a administração do departamento não reconhece esse aspecto da Declaração dos Direitos dos polícias. Está obrigado a responder a estas perguntas e, se não o fizer, incorrerá numa pena de suspensão ou até mesmo de expulsão. O...

São capazes de me fazer o favor de alargar um pouco estas algemas? disse Bosch.

O quê? berrou Lewis perdendo o tom calmo e confiante. Clarke levantou-se e aproximou-se do gravador de cassetes dobran-do-se por cima dele.

O Detective Bosch não está algemado e há duas testemunhas presentes que podem atestar este facto disse ele.

São apenas os dois que me algemaram disse Bosch. E me bateram. Isto é uma violação completa dos meus direitos. Exijo que estejam presentes um representante do sindicato e o meu advogado para podermos continuar.

Clarke rebobinou a fita e desligou o gravador. Tinha a cara quase roxa de fúria e voltou a enfiar o gravador na pasta do colega. Foram precisos alguns instantes para que qualquer deles conseguisse articular uma palavra.

Clarke disse:

Vai ser um prazer dar cabo de ti, Bosch. Vamos pôr os papéis da suspensão em cima da secretária do chefe até ao final do dia. Vais ficar amarrado a uma secretária nos Assuntos Internos onde podemos manter-te debaixo de olho. Vamos começar com CUBO1 e avançar a partir daí, se calhar vamos mesmo até ao homicídio. Seja como for, já estás arrumado no departamento. Passaste à história.

Bosch levantou-se e os dois detectives dos AI fizeram o mesmo. Bosch deu uma última passa no cigarro, atirou-o para o chão, em frente de Clarke, e pisou-o, esfregando-o no linóleo polido. Sabia que eles preferiam limpar aquilo a deixarem que Pounds descobrisse que não tinham conseguido controlar a entrevista, nem o entrevistado. Passou pelo meio deles, expirou o fumo e saiu do gabinete sem dizer uma palavra. Lá fora, ouviu a voz quase descontrolada do Clarke a gritar-lhe:

Mantém-te longe deste caso, Bosch!

Evitando os olhares que o seguiam, Bosch atravessou a sala de trabalho e deixou-se cair na cadeira da sua secretária. Olhou para Edgar que estava sentado no seu lugar.

Portaste-te bem disse Bosch. Deves safar-te sem problemas. -E tu?

Estou fora do caso e esses dois cretinos vão apresentar uma queixa escrita de mim. Tenho esta tarde e pouco mais antes de receber uma ROD2.

Que grande porra!

O subchefe em exercício nos Assuntos Internos tinha de assinar todas as ordens de Suspensão do Serviço e as suspensões temporárias.

 

CUBO Conduct unbecoming an Officer. (N. T.)

ROD Relieved of Duty Suspensão do Serviço. (N. T.)

 

Penalizações mais duras tinham de ser levadas a uma subcomissão da direcção da polícia para serem aprovadas. Lewis e Clarke iriam começar por tentar uma ROD por conduta imprópria de um agente, ou CUBO, como era conhecida. Depois iriam trabalhar numa coisa mais grave para levarem à comissão. Se o subchefe assinasse uma ROD contra Bosch, este teria de ser notificado segundo os regulamentos do sindicato. Isso queria dizer em pessoa ou através de conversa telefónica gravada. Mal a notificação fosse feita, Bosch podia ser destacado para uma secretária nos Assuntos Internos no Parker Center ou mandado ficar em casa até à conclusão da investigação. Mas, como tinham acabado de prometer, Lewis e Clarke iriam pedir a transferência para os AI. Assim poderiam exibi-lo como um trofeu.

Precisas de alguma coisa minha para o caso Spivey? perguntou a Edgar.

Não. Tenho tudo pronto. Vou começar a dactilografar mal consiga arranjar uma máquina.

Chegaste a verificar, como te pedi, o emprego do Meadows no projecto do metro?

Harry, tu... Edgar devia ter-se arrependido do que ia dizer. Sim, verifiquei. Não sei se interessa para alguma coisa, mas eles disseram que nunca tiveram ninguém chamado Meadows nesse projecto. Há um Fields, mas é preto e hoje estava a trabalhar. E o Meadows provavelmente não andava a trabalhar sob outro nome qualquer porque eles não têm nenhum turno da meia-noite. O projecto está adiantado, se és capaz de acreditar nessa merda. Nessa altura, Edgar gritou:

Tenho prioridade na Selectric.

Nem pensar gritou um detective dos carros roubados chamado íinkly. Sou eu a seguir para essa.

Edgar começou a olhar em volta à procura de outro candidato. Ao fim do dia, as máquinas de escrever da sala valiam ouro. Havia uma dúzia de máquinas para trinta e dois detectives, isto se se incluíssem as manuais e as eléctricas com tiques nervosos como não respeitar margens ou não marcar os espaços.

Está bem gritou Edgar. Então sou depois de ti, Mink.

A seguir, Edgar baixou a voz, voltou-se para Bosch e perguntou:

Com quem é que achas que ele me vai pôr?

O Pounds? Não sei.

Era a mesma coisa do que adivinhar com quem é que a tua mulher 00 vai casar depois de teres carregado no botão do cronómetro. Bosch

não estava nada interessado em especular sobre quem é que iria ser o novo sócio de Edgar. Disse:

Olha, tenho de tratar de umas coisas.

Claro, Harry. Precisas de alguma ajuda? Qualquer coisa minha?

Bosch abanou a cabeça e agarrou no telefone. Ligou para o advogado e deixou uma mensagem. Era habitual serem precisas três mensagens até o tipo retribuir a chamada e Bosch tomou nota para não se esquecer de voltar a ligar. Depois, voltou-se para a sua agenda da secretária, descobriu o número que queria e ligou para o Arquivo dos Registos das Forças Armadas dos EU em St. Louis. Pediu para falar com um funcionário da polícia e apanhou uma mulher chamada Jessie St. John. Fez um pedido prioritário de cópias de todos os registos militares de Billy Meadows. Três dias, disse St. John. Desligou a pensar que nunca veria os registos. Eles iam chegar, mas ele não estaria nesta repartição, na sua secretária, a trabalhar naquele caso. A seguir ligou para Donovan no SID e ficou a saber que não havia impressões digitais latentes no kit en-contrado no bolso de Meadows e apenas umas manchas na lata de tinta spray. Os cristais castanhos claros encontrados no algodão do kit eram de heroína com 55% de pureza, mistura asiática. Bosch sabia que a maior parte da heroína vendida nas ruas e injectada nas veias tinha uma pureza de cerca de 15%. A maior parte era heroína de alcatrão feita por mexicanos. Alguém tinha dado a Meadows uma injecção muito forte. Na opinião de Harry, isso tornava os testes tóxicos de que estava à espera uma mera formalidade. Meadows tinha sido assassinado.

Nada mais da cena do crime tinha grande utilidade, exceptuando Donovan referir que o fósforo recentemente utilizado encontrado no cano não ter sido tirado da carteira de fósforos do kit de Meadows. Bosch deu a Donovan a morada do apartamento de Meadows e pediu-lhe para mandar uma equipa para o analisar. Disse-lhe para comparar os fósforos no cinzeiro na mesa de apoio com o da carteira do kit. Depois desligou perguntando para consigo se Donovan iria mandar alguém antes que a notícia de que Bosch estava fora do caso ou suspenso se espalhasse.

O último telefonema que fez foi para o gabinete da Medicina Legal. Sakai disse que tinham conseguido uma identificação do parente mais próximo. A mãe de Meadows ainda estava viva e tinha sido contactada em New Ibéria, Louisiana. Ela não tinha dinheiro para o mandar ir nem para o enterrar. Não o via há dezoito anos. Billy Meadows não iria voltar para casa. O condado de L. A. iria ter de o enterrar.

E a VA? perguntou Bosch. Ele era um veterano.

Certo. Vou ver isso disse Sakai e desligou.

Bosch levantou-se e foi buscar um pequeno gravador portátil a uma das gavetas do armário dos arquivos. O banco de dossiers corria ao longo da parede por trás da secção de homicídios. Enfiou subrepticiamente o gravador no bolso do casaco onde já tinha a gravação da chamada para o 911 e saiu da sala pelo corredor das traseiras. Passou pelos bancos das detenções e pelos calabouços e seguiu até ao gabinete do CRASH00. O gabinete minúsculo estava ainda mais cheio de gente do que o departamento dos detectives. Secretárias e arquivos para os cinco homens e uma mulher estavam enfiadas numa sala que não era maior do que o segundo quarto num apartamento em Venice. Ao longo de uma das paredes havia uma enfiada de armários para arquivos com quatro gavetas cada um. Na parede oposta, havia um computador e uma impressora. No meio havia três conjuntos de duas secretárias encostadas umas às outras. A parede do fundo tinha o habitual mapa da cidade com linhas pretas a indicar as dezoito divisões da polícia. Por cima do mapa estava o Top 10: fotografias coloridas dos dez maiores idiotas na Divisão de Hollywood de momento. Bosch reparou que uma era uma fotografia da morgue. O rapazola estava morto, mas ainda continuava na lista. Ora, isto é que é um idiota a sério, pensou ele. Por cima das fotografias, letras em plástico preto diziam: Recursos Comunitários Contra Os Rufias da Rua.

A única pessoa presente era Thelia King, sentada em frente do computador. Era exactamente isso que Bosch queria. Também conhecida por O Rei, que ela detestava, e Elvis, com que não se importava, Thelia King era a perita do computador no CRASH. Quando alguém queria traçar a linhagem de um bando ou apenas encontrar um delinquente juvenil à solta por Hollywood, Elvis era a pessoa com quem se devia contactar. Mas Bosch estava surpreendido por ela estar sozinha. Olhou para o relógio. Passava pouco das duas horas, demasiado cedo para as tropas dos bandos já estarem na rua.

Onde é que foi toda a gente?

Ei, Bosch! disse ela, desviando os olhos do ecrã. Funerais. Temos dois bandos diferentes, e estou a falar de tribos em guerra, a enterrarem os seus rapazes no mesmo cemitério no Valley. Mandaram toda a gente para lá para garantirem que não há chatices.

 

CRASH (Community Resources Against Street Hoodlums) Recursos Comunitários Contra Os Rufias da Rua. (N. T.)

 

E por que é que não foste com a rapaziada?

Voltei agora mesmo do tribunal. Por isso, antes que me digas porque é que estás aqui, Harry, porque é que não me contas o que é que aconteceu hoje no gabinete do «Noventa e Oito» Pounds?

Bosch sorriu. As notícias espalhavam-se mais depressa numa esquadra da polícia do que nas ruas. Fez-lhe um breve resumo do tempo que passara na caixa de vidro e da batalha que o esperava com os Assuntos Internos.

Bosch, tu levas as coisas demasiado a sério disse ela. Por que é que não arranjas qualquer actividade lá fora. Qualquer coisa que te mantenha são. Como o teu parceiro. É uma pena que esse filho da mãe seja casado. Ele ganha três vezes mais a vender casas do que nós conseguimos a darmos o corpo ao manifesto durante vinte e quatro horas por dia. Preciso de uma actividadezinha como a dele.

Bosch assentiu com a cabeça. Mas deixarmo-nos levar demasiado pela corrente está a levar-nos para o esgoto, pensou ele, mas não o disse. Às vezes, acreditava que ele levava as coisas na conta certa e que todas as outras pessoas não as levavam suficientemente a sério. Esse é que era o problema. Toda a gente tinha uma actividade extra.

De que é que precisas? perguntou ela. E melhor fazer isso já antes que eles divulguem a tua situação. Depois disso, passas a ser um leproso aqui.

Fica onde estás disse ele e, puxando uma cadeira para o lado dela, explicou-lhe o que precisava do computador.

O computador do CRASH tinha um programa chamado GRIT, um acrónimo dentro de um acrónimo, este para Gang-Related Information Tracking1. Os ficheiros do programa continham os elementos vitais sobre 55 000membros de bandos identificados e delinquentes juvenis na cidade. O computador também fazia a ligação com o computador no gabinete do xerife, que tinha cerca de 30000dos seus próprios membros de bandos nos ficheiros. Uma parte do programa GRIT era o ficheiro das alcunhas. Este armazenava referências a delinquentes por nomes de ruas e conseguia relacioná-los com os nomes verdadeiros, datas de nascimento, moradas, etc. Todas as alcunhas que despertavam a atenção da polícia através das fichas das detenções ou dos abanões relatórios dos interrogatórios de campo eram introduzidas no programa do

 

Gang-Related Information Tracking Busca de Informações Relativas a Bandos, (N. T.)

 

computador. Dizia-se que o ficheiro GRIT tinha mais de 90000 alcunhas lá introduzidas. Bastava uma pessoa saber que teclas usar. E Elvis sabia. Bosch deu-lhe as três letras que tinha.

Não sei se isto é a coisa toda ou só parte disse ele. Penso que é só parte.

Ela carregou nas teclas dos comandos para abrir os ficheiros GRIT, introduziu as letras S-H-A e carregou na tecla para iniciar. Levou cerca de treze segundos. Uma expressão carrancuda enrugou a cara cor de ébano de Thelia King.

Trezentos e quarenta e três resultados anunciou ela. Es capaz de já estar aí escondido há algum tempo, amor.

Bosch disse-lhe para eliminar os negros e os latinos. O tipo da gravação da chamada para o 911 parecia-lhe branco. Ela carregou em mais teclas e as letras amarelas do ecrã do computador refizeram a lista.

Assim já é melhor, dezanove resultados comentou Thelia King. Não havia nenhuma alcunha apenas com as três letras. Sha. Havia

cinco Shadows, quatro Shahs, dois Sharkeys, dois Sharkies e um para cada um dos nomes seguintes Shark, Shabby, Shallow, Shank, Shabot e Shame. Bosch recordou rapidamente o graffito que tinha visto no cano da barragem. Odentado, quase como uma boca aberta. A boca de um tubarão (Shark)?

Pede as variações para Shark disse a Thelia King.

Ela voltou a carregar numas quantas teclas e o terço superior do ecrã encheu-se com outras letras amarelas. Shark era um rapaz do Valley. Contacto limitado com a polícia; tinha ficado em liberdade condicional e fora obrigado a limpar graffitis depois de ter sido apanhado a pintar os bancos dos autocarros ao longo do Ventura Boulevard em Tarzana. Tinha quinze anos. Não era provável que tivesse estado lá em cima, na barragem, às três da manhã de um domingo, pensou Bosch. King foi buscar o primeiro Sharkie no ecrã. Estava presentemente num acampamento em Malibu para delinquentes juvenis. O segundo Sharkie estava morto, tinha morrido numa guerra de bandos entre os KGB Kids Gone Bad e os Vineland Boyz em 1989O nome dele ainda não tinha sido limpo dos registos do computador.

Quando Thelia King chamou o primeiro Sharkey, o ecrã encheu-se de informações e uma palavra a piscar no fundo do ecrã dizia «Mais».

Ora aqui temos um causador de problemas habitual disse ela.

O relatório do computador descrevia Edward Niese, um branco de dezassete anos de idade, conhecido por conduzir uma moto amarela com a matrícula JVN138, e que não tinha nenhuma ligação com bandos mas que usava Sharkey como identificação nos graffitis. Um fugitivo frequente de casa da mãe em Chatsworth. Seguiram-se dois ecrãs de contactos da polícia com Sharkey. Bosch concluiu, pela localização de cada detenção, que este Sharkey tinha preferência por Hollywood e West Hollywood quando fugia. Leu rapidamente até ao fim do segundo ecrã, onde encontrou uma detenção por vagabundagem no reservatório de Hollywood três meses antes.

E ele disse. Esquece o último miúdo. Cópia em papel?

Ela carregou nas teclas para imprimir o ficheiro do computador e apontou para a parede com os arquivos. Bosch foi até lá e abriu a gaveta do N. Encontrou um ficheiro de Edward Niese e tirou-o para fora. Lá dentro havia uma fotografia a cores. Sharkey era louro e parecia pequeno na fotografia. Tinha aquela expressão dorida e desafiadora que era tão comum como a acne nas caras dos adolescentes de hoje em dia. Bosch apercebeu-se de que aquela cara tinha qualquer coisa de familiar. Mas não a conseguia localizar. Voltou a fotografia. Estava datada de dois anos antes. Thelia King entregou-lhe o relatório impresso e ele sentou-se a uma das mesas vazias a estudá-lo assim como ao conteúdo do ficheiro.

Os crimes mais graves que o rapaz que chamava a si próprio Sharkey tinha cometido e em que tinha sido apanhado eram roubos em lojas, vandalismo, vagabundagem e posse de marijuana e speeds. Uma vez tinha ficado detido vinte dias no Sylmar Juvenile Hall, na sequência de uma das detenções por posse de droga, mas tinha saído em liberdade condicional, com a obrigatoriedade de ficar em casa. Todas as outras vezes que tinha sido apanhado tinha sido imediatamente libertado à guarda da mãe. Era um fugitivo de casa crónico e um rejeitado pelo sistema.

No ficheiro não havia muito mais informações do que as que constavam no computador. Uma pequena elaboração nos relatórios das detenções e mais nada. Bosch foi virando as folhas até descobrir o relatório da acusação de vagabundagem. Tinha seguido para intervenção preliminar e tinha sido retirada quando Sharkey concordara em voltar para casa, para a mãe, e ficar lá. Aparentemente, aquilo não tinha durado muito tempo. Havia uma informação de que a mãe o tinha dado como desaparecido ao agente da liberdade condicional duas semanas mais tarde. Segundo estes relatórios, ainda não tinha sido apanhado outra vez.

Bosch leu o resumo da detenção por vagabundagem feito pelo agente encarregado da investigação. Dizia:

O A/I entrevistou Donald Smiley, um guarda do Mulholland Dam, que disse que às 7 A.M. desta data entrou no cano situado ao longo da estrada de acesso do reservatório para o limpar do lixo acumulado. Smiley descobriu o rapaz a dormir numa cama feita de jornais. O rapaz estava sujo e incoerente quando acordou. O sujeito parecia estar sob o efeito de narcóticos. A polícia foi chamada e o A/I respondeu. O detido disse ao A/I que andava a dormir ali há algum tempo porque a mãe não o queria em casa. O A/I concluiu que o sujeito era um fugitivo procurado e prendeu-o nesta data por suspeita de vagabundagem.

Sharkey era uma criatura de hábitos, pensou Bosch. Tinha sido preso no reservatório dois meses antes, mas tinha voltado lá para dormir na manhã de domingo. Leu os restantes papéis à procura de indicações de outros hábitos que o pudessem ajudar a localizá-lo. Por uma ficha de 7,5 por 12,5 de um abanão, Bosch ficou a saber que Sharkey tinha sido detido e interrogado, mas não preso, no Santa Moica Boulevard, perto de West Hollywood, em Janeiro. Sharkey estava a atar os atacadores de uns Reeboks novos e o agente, pensando que provavelmente ele os tinha acabado de roubar, pediu a Sharkey que lhe mostrasse o recibo. Ele mostrou-lho e as coisas poderiam ter ficado por ali. Mas quando o rapaz tirou o recibo de uma bolsa de cabedal na motorizada, o polícia reparou num saco de plástico que estava lá dentro e pediu para o ver também. O saco continha dez fotografias de Sharkey. Estava nu em todas, em diversas poses, numas acariciava-se, noutras tinha o pénis erecto. O polícia tirou-lhe as fotografias e destruiu-as, mas anotou na ficha que ia alertar o gabinete do xerife em West Hollywood para o facto de Sharkey andar a distribuir fotografias aos homossexuais no Santa Monica Boulevard.

E era tudo. Bosch fechou o dossier, mas guardou a fotografia de Sharkey. Agradeceu a Thelia King e saiu do pequeno gabinete. Estava a andar pelo corredor das traseiras da esquadra, passando pelos bancos de detenção, quando localizou a familiaridade da fotografia. Agora o cabelo estava mais comprido e em trancinhas, o desafio a encobrir a expressão dorida da cara, mas Sharkey tinha sido o miúdo que estava algemado ao banco dos delinquentes juvenis no princípio da manhã daquele próprio dia. Bosch tinha a certeza absoluta. Thelia não tinha encontrado nenhuma referência na pesquisa computadorizada porque a detenção ainda não tinha sido introduzida. Bosch entrou no gabinete do comandante do serviço nocturno, explicou ao tenente o que procurava e foi-lhe indicada uma caixa com uma etiqueta que dizia Serviço A. M. Bosch procurou nos relatórios empilhados na caixa até encontrar os papéis referentes a Edward Niese.

Sharkey tinha sido apanhado às 4 A.M., a vaguear perto de um quiosque de jornais em Venice. Um agente da patrulha pensou que ele andava no engate. Depois de o ter prendido, foi ao computador e descobriu que era um fugitivo. Bosch leu a folha das prisões relativas aquele dia e viu que o rapaz tinha ficado detido até às 9 da manhã, quando o funcionário da liberdade condicional o tinha vindo buscar. Bosch telefonou para o funcionário da liberdade condicional em Sylmar Juvenile Hall, mas foi informado que Sharkey já tinha sido apresentado a um mediador do tribunal juvenil e entregue à custódia da mãe.

E esse é que é o maior problema dele disse o funcionário. Esta noite volta a fugir e vai andar por aí, pelas ruas. Garanto-lhe. Foi o que eu disse ao mediador, mas ele não estava disposto a meter o miúdo numa casa de delinquentes só porque ele tinha sido apanhado na vadiagem e a mãe é uma pega por telefone.

Uma quê? perguntou Bosch.

Devia estar no ficheiro. Pois é, enquanto o Sharkey anda na rua, a querida e velha mamã está em casa ao telefone, a dizer aos gajos que lhes vai mijar dentro da boca e pôr-lhes elásticos nas pichas. Tem anúncios nas revistas porno. Leva quarenta dólares por quinze minutos. Aceita MasterCard, Visa, põe-os à espera enquanto verifica noutro telefone se o número é válido e eles têm crédito. Bem, seja como for, ela anda a fazer isto, tanto quanto sei, há cinco anos. Os anos de formação do Edward foram passados a ouvir estas merdas. Não admira que o miúdo tenha dado em safardana e fugitivo. O que é que se esperava?

Há quanto tempo é que ele se foi embora com ela?

Por volta do meio-dia. Se o queres apanhar lá, é melhor ires já. Tens a morada?

Tenho.

E, Bosch, só uma coisa. Não estejas à espera de uma prostituta quando lá chegares. A mãe dele... não tem o ar do papel que faz ao telefone, se é que me entendes. A voz dela pode dar conta do recado, mas a cara até assusta um cego.

Bosch agradeceu-lhe o aviso e desligou.

Apanhou a 101 em direcção ao Valley e depois a 405 norte para a 118 e seguiu para ocidente. Saiu em Chatsworth e seguiu para as colinas rochosas e íngremes no canto superior do Valley. Havia um condomínio comunitário construído naquilo que ele sabia ter sido noutros tempos um rancho do cinema. Tinha sido um dos sítios que Charlie Manson e o seu grupo tinham usado para se esconderem. Dizia-se que partes do corpo de um dos membros desse grupo ainda continuavam desaparecidos e enterrados algures, por ali. A noite estava quase a cair quando Bosch lá chegou. As pessoas tinham saído dos empregos e dirigiam-se a casa. Havia muito trânsito nas ruas estreitas do bairro. Muitas portas a fecharem-se. Uma data de telefonemas para casa da mãe do Sharkey. Bosch tinha chegado demasiado tarde.

Não tenho tempo para falar com mais polícias disse Verónica Niese quando abriu a porta e olhou para o crachá. Mal o trago para casa, já ele está a sair outra vez. Não sei para onde é que ele vai. Diga-me o senhor. É o seu trabalho. Tenho três chamadas à espera, uma delas de longa distância. Tenho de ir.

Andava nos quarenta e muitos, gorda e cheia de rugas. Era óbvio que usava uma peruca e a dilatação dos olhos não era idêntica. Tinha o cheiro a meias sujas dos viciados em speed. Os clientes ficavam muito melhor servidos só com uma voz com que podiam construir um corpo e uma cara.

Mrs Niese, não ando à procura do seu filho por nada que ele tenha feito. Preciso de falar com ele por causa de uma coisa que ele viu. É muito possível que esteja em perigo.

Ora, tretas! Já ouvi essa muitas vezes.

Ela fechou-lhe a porta na cara e ele deixou-se ficar ali parado. Passados uns instantes, conseguiu ouvi-la ao telefone e pensou que era uma pronúncia francesa, mas não tinha a certeza. Só conseguia perceber algumas das frases que o fizeram corar. Pensou em Sharkey e concluiu que, na realidade, ele não era um fugitivo, porque ali não havia nada de que fugir. Saiu da porta e dirigiu-se para o carro. Tinha chegado a altura de dar o dia por terminado. E estava a ficar sem tempo. Clarke e Lewis já deviam ter entregue a queixa contra ele. Ia ser mandado para uma secretária na Divisão dos Assuntos Internos logo de manhã. Voltou à esquadra e assinou a hora de saída. Já toda a gente se tinha ido embora e não havia nenhum recado na secretária, nem sequer do advogado. A caminho de casa, parou no Lucky e comprou quatro latas de cerveja, duas do México, uma lager de Inglaterra, chamada Old Nick e uma Henrys.

Estava à espera de ter uma mensagem de Lewis e Clarke no atendedor de chamadas quando chegasse a casa. Não se enganou, mas a mensagem não era a que esperava.

Sei que estás aí, por isso ouve disse uma voz que Bosch reconheceu como sendo a de Clarke. Eles podem mudar de opinião, mas não podem mudar a nossa. Vamos ver-nos por aí.

Não havia mais mensagens. Ouviu a mensagem de Clarke três vezes. Alguma coisa lhes tinha saído furada. Seria possível que aquela sua fraca ameaça ao FBI de ir para os media tivesse dado resultado? Mas mesmo enquanto fazia a pergunta, duvidava que a resposta fosse um sim. Por isso, o que é que teria acontecido? Sentou-se na sua poltrona e começou a beber as cervejas, as mexicanas primeiro, ao mesmo tempo que folheava o álbum da guerra que se tinha esquecido de guardar. Quando o abrira no sábado à noite, tinha aberto uma recordação muito sombria. Deu por si completamente hipnotizado por ela, a passagem do tempo tinha esbatido a ameaça tal como esbatera as fotografias. A determinada altura, depois de ter ficado escuro, o telefone tocou e Harry atendeu antes que o gravador de chamadas o fizesse.

Bem disse o tenente Harvey Pounds, o FBI agora acha que são capazes de ter sido demasiado severos. Reavaliaram a situação e querem-te de volta. Vais passar a ajudar na investigação em tudo o que eles pedirem. Isto vem da administração, Parker Center.

A voz de Pounds traía a sua surpresa com aquele volte face.

E os Assuntos Internos? perguntou Bosch.

Não fizeram nenhuma queixa. Como já disse, o FBI voltou atrás e o mesmo acontece com os Assuntos Internos. Por agora.

Quer dizer que voltei.

Voltaste. Não por decisão minha. Só para que saibas, passaram por cima de mim porque eu lhes disse que se fossem todos lixar. Há qual-quer coisa nisto que cheira mal, mas acho que vai ter de ficar para mais tarde. Por agora, estás destacado. Vais trabalhar com eles até novas ordens.

E o Edgar?

Não te preocupes com o Edgar. Já não te diz respeito.

Pounds, você age como se me tivesse feito um favor em me ter posto na secção dos homicídios quando me expulsaram do Parker Center. Eu é que lhe fiz o favor, homem. Por isso, se está à espera que eu lhe peça desculpa, não conte com isso.

Bosch, não estou à espera de nada da tua parte. Tu é que te lixaste. O único problema é que podes ter feito com que eu também me lixasse.

Se dependesse de mim, não terias nada a ver com este caso. Estarias era a verificar as listas das casas de penhores.

Mas não depende de si, pois não?

Desligou antes que Pounds pudesse replicar. Ficou ali parado a pensar durante alguns momentos e ainda tinha a mão em cima do auscultador quando o telefone voltou a tocar.

O que é?

Um dia tramado, hem? disse a voz de Eleanor Wish.

Pensei que era outra pessoa.

Bem, calculo que já foi informado. -Já-Vai trabalhar comigo.

Por que é que mandou retirar os cães?

Simples, queremos manter esta investigação fora dos jornais.

Há mais do que isso.

Ela não disse nada, mas não desligou. Por fim, ele lembrou-se de qualquer coisa para dizer.

Amanhã, o que é que eu faço?

Venha ter comigo de manhã. Logo veremos.

Bosch desligou. Pensou nela e no facto de não saber o que é que se estava a passar. Não estava a gostar daquilo, mas agora não podia afas-tar-se. Foi para a cozinha e tirou a garrafa de Old Nick do frigorífico.

Lewis estava de costas para o trânsito, usando o corpo enorme para bloquear o barulho, impedindo-o de entrar na cabine pública.

Ele começa a trabalhar com o FBI... ah... o departamento, ama-nhã de manhã. O que é que quer que a gente faça? perguntou Lewis.

Irving não respondeu logo. Lewis imaginou-o no outro lado da linha, as mandíbulas completamente cerradas. Cara de Popeye, pensou Lewis com um sorriso trocista. Clarke aproximou-se, vindo do carro e sussurrou:

Qual é a piada? O que é que ele disse?

Lewis mandou-o embora fazendo uma careta que queria dizer «não me chateies».

Quem era esse? perguntou Irving.

Era o Clarke, senhor. Está ansioso por saber qual é a nossa missão.

O tenente Pounds falou com o sujeito em causa?

Sim, falou respondeu Lewis, perguntando para consigo se Irving

Pitaria a gravar a conversa. O tenente disse que o... ah... sujeito tinha do informado que ia trabalhar com o FBI... o departamento. Estão a juntar o homicídio ao assalto ao banco. Ele vai trabalhar com a Agente Especial Eleanor Wish.

Que tramóia será a dele? perguntou Irving, embora não estivesse à espera de nenhuma resposta e de nenhuma ter sido dada por Lewis.

Seguiu-se um silêncio na linha durante um bocado porque Lewis sabia muito bem que não podia interromper os pensamentos de Irving. Viu que Clarice se estava outra vez a aproximar da cabina e mandou-o embora com um gesto ao mesmo tempo que abanava a cabeça como se estivesse a tratar com uma criança impetuosa. A cabina telefónica sem porta ficava ao fundo do Woodrow Wilson Drive, ao lado do Barham Boulevard atravessando a Hollywood Freeway. Lewis ouviu o barulho de um reboque a passar na auto-estrada e sentiu ar quente a entrar na cabina. Olhou para as luzes das casas na encosta da colina e tentou descobrir qual vinha da casa de Bosch. Era impossível dizer. A colina parecia uma gigantesca árvore de Natal com demasiadas luzes.

Ele deve ter qualquer poder sobre eles disse Irving por fim. Ele forçou a entrada. Vou-te dizer qual vai ser a vossa missão. Vocês os dois vão andar em cima dele. De forma que ele não saiba. Mas fiquem com ele. Está a tramar alguma. Descubram o quê. E vão construindo o vosso caso um ponto oitenta e um. O Departamento Federal de Investigações pode ter retirado a queixa, mas nós não vamos recuar.

E quanto ao Pounds, quer que ele seja informado?

Para si tenente Pounds, detective Lewis. E sim, vão-lhe dando o vosso relatório diário da vigilância. Deve ser suficiente.

Irving desligou sem dizer mais nada.

Muito bem, senhor disse Lewis para o telefone desligado. Não queria que Clarke soubesse que tinha sido desconsiderado. Vamos manter-nos em cima dele. Obrigado, senhor. Boa-noite.

E desligou por sua vez sentindo-se envergonhado por o comandante não ter considerado necessário dar-lhe as boas noites. Clarke aproximou-se rapidamente.

Então?

Então, vamos voltar a apanhá-lo amanhã de manhã. Traz a tua garrafa para o chichi.

Só isso? Só temos que o vigiar?

Para já.

Merda. Quero revistar a casa desse filho da puta. Partir umas coisas. Provavelmente, ele tem as merdas do assalto lá em casa.

Se esteve envolvido, duvido que seja assim tão estúpido. Para já, ficamos na retaguarda. Se ele estiver sujo, logo veremos.

Oh, está sujo pois. Não te preocupes.

Veremos.

Sharkey estava sentado no muro de cimento na parte da frente do parque de estacionamento no Santa Monica Boulevard. Observava aten-tamente a entrada iluminada do 7-Eleven do outro lado da rua, analisando quem entrava e quem saía. A maior parte eram turistas e casais. Ainda não havia ninguém sozinho. Ninguém que servisse. O rapaz chamado Arson aproximou-se e disse:

Isto não vai dar nada, meu.

O cabelo de Arson era vermelho e estava moldado com gel numas chamazinhas espetadas. Vestia jeans pretos e uma T-shirt preta e suja. Estava a fumar um Salem. Não estava pedrado, mas tinha fome. Sharkey olhou para ele e depois para o sítio onde o terceiro rapaz, conhecido por Mojo, estava sentado no chão ao lado das motorizadas. Mojo era mais baixo e mais largo, com o cabelo preto colado à cabeça e preso num rabicho na nuca. As cicatrizes da acne faziam com que a cara dele tivesse sempre um ar soturno.

Vamos esperar mais uns minutos disse Sharkey.

Eu quero comer, meu protestou Arson.

Bem, o que é que achas que eu estou a tentar fazer? Todos queremos comer.

Se calhar devíamos ir ver como é que a Bettijane se está a sair disse Mojo. -Já deve ter feito dinheiro suficiente para nós podermos comer.

Sharkey olhou para ele e disse:

Vocês os dois podem ir indo. Eu vou ficar até conseguir. Quero comer.

Enquanto dizia isto, observava um Jaguar XJ6 castanho que estava a estacionar no parque da loja de conveniência.

E o tipo do cano? perguntou Arson. Achas que já o encon-traram? Podíamos lá ir e revistá-lo, ver se havia algum cacau. Não sei porque é que não tiveste tomates para fazeres isso ontem à noite, Shark.

-Ei! Vai tu lá acima sozinho e revista-o se quiseres respondeu Sharkey. Logo vemos quem é que tem tomates.

Não lhes tinha dito que telefonara para o 911 por causa do cadáver. Isso ainda lhes seria mais difícil de perdoar do que o medo que tinha tido em entrar dentro do cano. Um homem sozinho saiu do Jaguar.

Devia andar pelos trinta e muitos, cabelo cortado à escovinha, calças brancas largas e camisa, camisola enrolada à volta dos ombros. Sharkey não viu ninguém à espera no carro.

Hei, olhem para o Jag disse ele. Os outros dois olharam para a loja. Desta vez é que é. Vou-me embora.

Sharkey desceu do muro e atravessou o boulevard. Observou o dono do Jaguar através das janelas da loja. Tinha um gelado na mão e estava a olhar para o escaparate das revistas. Os olhos a rondar constantemente enquanto observava os outros homens na loja. Sharkey sentiu-se encora-jado quando viu o homem dirigir-se para a caixa registadora para pagar o gelado. Agachou-se em frente da loja, a grelha do Jaguar a um metro e pouco de distância.

Quando o homem saiu, Sharkey esperou que os olhos de ambos se cruzassem e que o homem sorrisse antes de falar.

Hei, senhor? disse ele enquanto se punha em pé. Estava cá a pensar se me podia fazer um favor?

O homem olhou em redor do parque de estacionamento antes de responder.

Claro. De que é que precisas?

Bem, estava a pensar se podia ir lá dentro e trazer-me uma cerveja. Eu dou-lhe o dinheiro e isso tudo. Só quero uma cerveja. Para descon-trair, percebe?

O homem hesitou.

Não sei... isso seria ilegal, não seria? Não tens vinte um anos. Podia meter-me em sarilhos.

Bem -, disse Sharkey com um sorriso -, tem cerveja em casa? Assim já não tinha de a comprar. Dar uma cerveja a uma pessoa não é nenhum crime.

-Bem...

Eu não ficava muito tempo. Se calhar podíamos relaxarmo-nos um bocadinho um ao outro, está a ver?

O homem voltou a olhar em volta do parque de estacionamento. Não estava ninguém a ver. Sharkey pensou que já o tinha agarrado.

Está bem disse o homem. Depois, posso voltar a trazer-te para aqui se quiseres.

Claro. Isso era bestial.

Seguiram para este na Santa Monica até Flores e depois viraram para sul e percorreram uns dois quarteirões até chegar a uma urbanização. Sharkey nunca olhou em volta ou tentou espreitar para trás pelos espelhos. Eles estavam lá atrás. Sabia que estavam. Havia um portão de acesso à propriedade de que o homem tinha a chave e que fechou atrás deles. Depois entraram em casa dele.

Chamo-me Jack disse o homem. O que é que queres que te traga?

Sou o Phil. Tem alguma coisa que se coma? Também tenho uma certa fome.

Sharkey olhou em volta à procura do intercomunicador de segurança e do botão que abria o portão. A maior parte da mobília do apartamento era de cor clara com uma espessa carpete num tom branco sujo.

Linda casa.

Obrigado. Deixa-me ver o que é que tenho. Se quiseres lavar a roupa, também podes fazê-lo enquanto cá estás. Não faço isto muitas vezes, sabes. Mas quando posso ajudar alguém, faço por isso.

Sharkey seguiu-o até à cozinha. A consola da segurança ficava na parede ao lado do telefone. Quando Jack abriu o frigorífico e se dobrou para olhar lá para dentro, Sharkey carregou no botão que abria o portão lá fora. Jack não reparou.

Tenho atum. E posso fazer uma salada. Há quanto tempo é que andas na rua? Não te vou chamar Phil. Se não me quiseres dizer o teu nome verdadeiro, não faz mal.

Um, atum seria óptimo. Não há muito tempo.

Estás limpo?

Sim, claro. Estou porreiro.

Vamos tomar precauções.

Tinha chegado o momento. Sharkey recuou para o hall de entrada. Jack levantou os olhos do frigorífico, uma tigela de plástico na mão, a boca ligeiramente entreaberta. Sharkey julgou ver um olhar de reconhecimento na cara dele, como se ele soubesse o que estava prestes a acontecer. Sharkey deu a volta ao puxador e abriu a porta. Arson e Mojo entraram.

Hei, o que é isto? perguntou Jack embora a voz traísse falta de confiança.

Correu para o hall e Arson, que era o maior dos quatro, deu-lhe um murro na cana do nariz. Ouviu-se um estalido como o de um lápis a partir-se e a tigela de atum caiu ao chão. E depois, a carpete de um branco sujo encheu-se de sangue.

 

                   Terça-Feira, 22 de Maio

Leanor Wish voltou a telefonar na terça-feira de manhã quando Harry Bosch estava a arranjar a gravata ao espelho da casa de banho. Disse que queria encontrar-se com ele numa cafetaria em Westwood antes de o levar para o departamento. Ele já tinha tomado duas chávenas de café, mas disse que iria lá ter. Desligou, apertou o botão do colarinho da camisa branca e apertou a gravata em volta do pescoço. Não se conseguia lembrar da última vez em que tinha prestado tanta atenção aos pormenores da sua aparência.

Quando lá chegou, ela estava num dos reservados ao longo da janela da frente. Tinha as duas mãos em redor do copo de água à sua frente e parecia bem disposta. Havia um prato empurrado para o lado com o invólucro de papel de um muffin. Dirigiu-lhe um sorriso delicado quando ele se sentou e chamou a empregada com a mão.

Só café disse Bosch.

Já comeu? perguntou Eleanor Wish quando a empregada se afastou.

Uh, não. Mas estou bem assim.

Você não come muito, já percebi.

Disse aquilo mais como uma mãe do que como uma detective.

Então, quem é que me vai dizer o que se passa? Você ou o Rourke? -Eu.

A empregada pousou uma chávena de café em cima da mesa. Bosch conseguia ouvir quatro vendedores no reservado ao lado a discutir por causa da conta do pequeno-almoço. Bebeu um golo do café quente.

Gostaria que o pedido do FBI para eu os ajudar fosse escrito num papel, assinado pelo agente especial sénior responsável pelo departamento de Los Angeles.

Ela hesitou uns instantes, pousou o copo e olhou directamente para ele pela primeira vez. Os olhos eram tão escuros que não deixavam transparecer nada a seu respeito. Nos cantos, Bosch viu o princípio de uma leve teia de rugas na pele bronzeada. Na linha do queixo, havia uma pequena cicatriz branca em forma de crescente, muito antiga e que mal se via. Perguntou para consigo se a cicatriz e as rugas a preocupavam, como ele estava convencido que preocupariam a maior parte das mulheres. Parecia-lhe ver na cara dela uma leve tristeza, como se um mistério guardado no interior tivesse conseguido abrir caminho até à superfície. Talvez fosse cansaço, pensou ele. Fosse como fosse, era uma mulher atraente. Calculou que deveria andar pelos trinta e poucos anos.

Acho que se pode conseguir isso disse ela finalmente. Há mais alguma exigência antes de começarmos a trabalhar?

Ele sorriu-lhe e abanou a cabeça.

Sabe, Bosch, recebi o seu livro do homicídio ontem e li-o todo esta noite. Por aquilo que você lá tem e para um dia de trabalho, foi uma obra bem feita. Com a maioria dos outros detectives, aquele cadáver ainda estaria na bicha de espera na morgue e inscrito como uma provável OD acidental.

Ele não disse nada.

Por onde é que devemos começar hoje? perguntou ela.

Estou a trabalhar numas coisas que ainda não estavam no livro. Por que é que não me conta primeiro tudo sobre o assalto ao banco? Preciso das informações completas. As únicas coisas que sei são as que vocês deram aos jornais e puseram nos BOLOS. Ponha-me a par e depois eu pego a partir daí e conto-lhe o que sei sobre o Meadows.

A empregada aproximou-se para ver como estavam a chávena dele e o copo dela. Então Eleanor Wish contou a história do assalto ao banco. Bosch lembrou-se de várias perguntas enquanto ela falava, mas tentou anotá-las mentalmente para perguntar depois. Apercebeu-se de que ela se sentia maravilhada com a história, o planeamento e a execução do golpe. Fossem eles quem fossem, os construtores do túnel, tinham o respeito dela. Deu por si a sentir-se quase invejoso.

Por baixo das ruas de L. A. disse ela, há mais de seiscentos quilómetros de canos de escoamento das águas pluviais que são suficientemente largos e altos para se poder lá passar de carro. A seguir a esses ainda temos mais canos secundários. Mais cento e sessenta quilómetros por onde se pode andar em pé, ou pelo menos, rastejar.

«Isso quer dizer que qualquer pessoa pode descer até lá abaixo e, se souber o caminho, aproximar-se de qualquer edifício da cidade que queira. E não é muito difícil descobrir o caminho. Os planos de toda a rede são do conhecimento público, estão arquivados em ficheiros no gabinete dos registos do condado. Seja como for, estes tipos utilizaram o sistema de drenagem para entrar no WestLand National.

Bosch já tinha calculado isso mesmo, mas não se deu ao trabalho de o dizer. Ela disse que o FBI estava convencido que havia pelo menos três homens debaixo do chão e um lá em cima, para actuar como vigia e outras funções necessárias. O da parte de cima provavelmente comunicava com os outros através da rádio, excepto possivelmente já perto do fim por causa do perigo das ondas rádio poderem fazer detonar os explosivos.

Os homens nos subterrâneos tinham-se deslocado pelo sistema de drenagem em veículos Honda todo-o-terreno. Havia uma entrada para o sistema de esgotos pluviais num leito seco na bacia do Los Angeles River a nordeste da baixa da cidade. Entraram lá para dentro, provavelmente sob a protecção da escuridão e, seguindo os mapas, deslocaram-se através do sistema de túneis até a um ponto por baixo do Wilshire Boulevard, na baixa, a uns nove metros de profundidade e a uns 150me-tros para oeste do WestLand National. Era uma viagem de cerca de três quilómetros e meio.

Uma máquina de furar industrial, com uma broca circular de sessenta centímetros de diâmetro, provavelmente de ponta de diamante, ligada a um gerador num dos ATVs1, foi utilizada para abrir um buraco na parede de cimento, com quinze centímetros de espessura, do túnel de escoamento de águas. A partir dali, os homens no subterrâneo começaram a escavar.

A entrada no cofre forte ocorreu no fim-de-semana do Dia do Trabalhador disse Eleanor Wish. Pensamos que eles devem ter começado a fazer o túnel três ou quatro semanas antes. Só deviam trabalhar à noite. Entrar, escavar um bocado e sair ao amanhecer. O DWP tem inspectores que passam revista, rotineiramente, ao sistema à procura de rachas e outros problemas. Trabalham de dia, por isso, os criminosos provavelmente não se arriscaram.

E o buraco que abriram de lado? Os tipos da água e da electricidade não dariam por isso? perguntou Bosch, sentindo-se imediatamente

 

(AU-terrain Vehicle) Veículo de todo-o-terreno. (N. T.)

 

aborrecido consigo mesmo por ter feito uma pergunta antes de ela ter acabado.

Não respondeu ela. Estes tipos pensaram em tudo. Tinham um bocado de contraplacado cortado num círculo de sessenta centímetros de diâmetro. Cobriram-no de cimento encontrámo-lo lá depois. Pensamos que quando saíam de manhã, tapavam o buraco com isto e punham mais cimento em volta das bordas que calcavam cuidadosamente. Ia parecer que era um cano de drenagem das chuvas que tinha sido aberto e fechado. Isso é uma coisa muito comum lá em baixo. Estive lá. Vemos destes canos abertos por todo o lado. Os sessenta centímetros são a medida padrão. Por isso, isto teria parecido normal. Não dava nas vistas e os criminosos limitavam-se a voltar na noite seguinte, entravam e cavavam mais um bocadinho em direcção ao banco.

Ela disse que o túnel tinha sido escavado principalmente com ferramentas manuais pás, picaretas, brocas alimentadas pelo gerador no ATV. Provavelmente, os homens utilizavam lanternas, mas também tinham utilizado velas. Algumas ainda estavam acesas no túnel depois do roubo ter sido descoberto. Estavam apoiadas em pequenos entalhes feitos nas paredes.

Isso faz-lhe lembrar alguma coisa? Perguntou Eleanor Wish. Ele assentiu com a cabeça.

Calculámos que eles avançavam de três a seis metros por noite continuou ela. Encontrámos dois carrinhos de mão no túnel. Tinham sido divididos ao meio e desmontados para caberem pelo buraco de sessenta centímetros e depois tinham sido montados outra vez para poderem ser usados durante a escavação. Um ou dois deles deviam ter como função fazer corridas para fora do túnel e despejar a terra e o lixo da escavação para a linha de drenagem principal. Há uma corrente de água regular no chão do cano que teria acabado por arrastar a terra para a corrente do rio. Calculamos que, em certas noites, o parceiro no exterior deve ter aberto as bocas de incêndio na Hill para conseguirem que a água corresse lá em baixo.

Quer dizer que tinham água lá em baixo mesmo durante uma seca.

Mesmo durante uma seca...

Eleanor Wish disse que quando os ladrões chegaram finalmente por baixo do banco, tinham utilizado os sistemas eléctricos e as linhas telefónicas do próprio banco. Com a baixa transformada numa cidade fantasma aos fins-de-semana, a sucursal do banco estava fechada aos sábados.

Por isso, na sexta-feira, depois das horas de expediente, os ladrões tinham desligado os alarmes. Um deles tinha de ser o homem das campainhas. Não o Meadows, este devia ser o homem dos explosivos.

O engraçado é que eles não precisavam de um homem das campainhas continuou ela. O alarme de sensor da caixa-forte tinha passado toda a semana a disparar. Estes tipos, com as escavações e brocas deviam ter estado a accionar os alarmes. Durante quatro noites seguidas, a polícia e o gerente foram chamados lá. Chegou a acontecer, três vezes na mesma noite. Não encontraram nada e começaram a pensar que o problema devia estar no alarme. O sensor de movimento e som estava desequilibrado. Por isso, o gerente chama a companhia do alarme e eles não podem mandar lá ninguém antes do final do fim-de-semana, sabe, Dia do Trabalhador. Por isso, este tipo, o gerente...

Desliga o alarme acabou Bosch por ela.

Exactamente. Ele resolve que não vai passar todas as noites do fim-de-semana prolongado a ser chamado ao banco. Tinha tudo combinado para ir para Springs, para o seu condomínio timeshare, jogar golfe. Desliga os alarmes. Claro que já não trabalha para o WestLand National.

«Por baixo da caixa forte, os bandidos usaram uma broca industrial arrefecida a água, que estava presa, virada para baixo, à parte de baixo da placa da caixa-forte, para abrir um buraco de cinco centímetros e meio através do metro e meio de cimento e aço. Os analistas da cena do crime do FBI calcularam que tinham levado cinco horas e só se a broca não tivesse aquecido demasiado. A água para a arrefecer vinha de uma torneira de uma conduta de água subterrânea. Utilizaram a água do banco.

Depois de terem aberto o buraco, encheram-no de C-4 disse ela. Estenderam o fio pelo túnel que tinham aberto até ao túnel de drenagem. E foi daí que o fizeram explodir.

Eleanor disse que os registos das respostas de emergência do Departamento da Polícia de Los Angeles mostravam que às 9 e 14 dessa manhã de sábado, os alarmes tinham soado num banco do outro lado da rua, em frente do WestLand National e numa joalharia a meio quarteirão de distância.

Calculamos que tenha sido a hora da detonação disse Eleanor Wish. Mandaram uma patrulha que revistou tudo, não descobriu nada, concluiu que os alarmes deviam ter sido activados por um tremor de terra e foi-se embora. Ninguém se deu ao trabalho de verificar o West-Land National. Os alarmes dele não tinham soltado nem um pio. Não sabiam que tinham sido desligados.

«Uma vez dentro da caixa-forte, continuou ela eles não se foram embora. Trabalharam durante todos os três dias do fim-de-semana, perfurando as fechaduras dos cofres, abrindo as gavetas e esvaziando-as.

Encontrámos latas vazias de comida, pacotes vazios de batatas fritas, embalagens de comida congelada, está a ver, mantimentos de sobrevivência contou Eleanor Wish. Dá a ideia que eles ficaram lá, dormiram por turnos, talvez. No túnel havia uma parte mais larga que parecia uma divisão pequena. Parecia uma divisão para dormir, achei eu. Encontrámos o padrão de um saco-cama impresso na terra do chão. Também encontrámos na areia as marcas feitas pelas coronhas das M-l6s traziam com eles armas automáticas. Não estavam a pensar renderem-se se as coisas dessem para o torto.

Deixou-o pensar naquilo durante uns momentos e depois continuou:

Calculamos que estiveram na caixa-forte umas sessenta horas, talvez mesmo um bocadinho mais. Abriram quatrocentos e sessenta e quatro cofres. De setecentos e cinquenta. Se eram três, isso dá cerca de cento e cinquenta e cinco cofres para cada um. Subtraindo cerca de quinze horas para descansarem e comerem durante os três dias que lá estiveram, temos cada homem a furar três, quatro cofres por hora.

«Deviam ter um limite de tempo disse ela. Talvez as três horas ou qualquer coisa parecida. Terça-feira de manhã. Se desistiram de furar nessa altura, deu-lhes tempo suficiente para arrumarem tudo e saírem. Agarraram no saque e nas ferramentas e puseram-se a andar. O gerente do banco, com um recente bronzeado de Palm Springs, descobriu o assalto quando abriu a caixa-forte para mais um dia de actividade. Terça-feira de manhã.

E é tudo concluiu ela. A melhor coisa que já vi ou ouvi falar desde que estou nesta profissão. Muito poucos erros. Descobrimos muita coisa sobre a maneira como o fizeram, mas muito pouco sobre quem o fez. O Meadows foi o mais perto que conseguimos chegar e agora está morto. Aquela fotografia que você me mostrou ontem. Da pulseira? Você tinha razão, é a primeira coisa que apareceu desses cofres, que a gente saiba.

Mas agora desapareceu.

Bosch ficou à espera que ela dissesse alguma coisa, mas ela não disse.

Como é que escolheram as caixas que brocaram? perguntou ele.

Parece que foi ao acaso. Tenho um vídeo no gabinete para lhe mostrar. Mas dá a ideia que disseram: «tu ficas com aquela parede, tu ficas com aquela» e assim por diante. Algumas das caixas ao lado das que foram arrombadas não foram tocadas. Porquê? Não sei. Não parece ter havido um padrão. No entanto, recebemos a informação de que noventa por cento das caixas que eles abriram tinham coisas lá dentro. A maior parte são coisas de que não podemos seguir a pista. Eles escolheram bem.

Como é que concluíram que eram três?

Calculámos que seriam precisos pelo menos esses para arrombarem tantos cofres utilizando uma broca. Além disso, era o número de ATVs que havia.

Ela sorriu e ele mordeu o isco.

OK, como é que sabem isso dos ATVs?

Bem, havia marcas na lama do cano de drenagem e identificámo-los pelos pneus. Também encontrámos tinta, tinta azul, na parede de uma das curvas do tubo de drenagem. Um deles tinha derrapado e batido na parede. O laboratório que analisou a tinta em Quântico descobriu o ano, o modelo e a marca. Corremos todos os vendedores de Hondas do Sul da Califórnia e descobrimos uma venda de três ATVs num stand em Tustin, quatro semanas antes do Dia do Trabalhador. O tipo pagou em dinheiro e carregou-os num atrelado. Deu um nome e uma morada falsos.

Quais?

O nome é Frederic B. Isley. Ia aparecer outra vez. Mostrámos ao vendedor algumas fotografias, incluindo a de Meadows, a sua e as de outras pessoas, mas ele não conseguiu identificar ninguém como sendo o Isley.

Limpou a boca com o guardanapo e largou-o em cima da mesa. Ele não conseguiu ver baton nenhum nele.

Bem disse ela. Já bebi água para uma semana. Vá ter comigo ao departamento e vamos rever tudo o que nós temos e o que você tem sobre essa coisa do Meadows. O Rourke e eu achamos que é a melhor maneira de começarmos. Esgotámos todas as pistas do assalto ao banco, temos andado a bater com a cabeça nas paredes. Talvez o caso Meadows nos dê a oportunidade de que precisamos.

Eleanor Wish pagou a conta, Bosch deu a gorjeta.

Foram nos respectivos carros para o Federal Building. Enquanto guiava, Bosch pensou nela e não no caso. Queria perguntar-lhe como tinha arranjado a cicatrizinha no queixo e não como é que ela tinha relacionado os sapadores do túnel do WestLand com os ratos dos túneis do Vietname. Queria saber o que é que lhe tinha dado aquela expressão doce e triste ao rosto. Seguiu o carro dela através de um bairro de apartamentos para estudantes ao pé da UCLA e depois pelo Wishire Boulevard. Encontraram-se no elevador na garagem do Federal Building.

Acho que o melhor é que você trate principalmente comigo disse ela enquanto subiam sozinhos no elevador. O Rourke... você e o Rourke não começaram bem e...

Nem sequer começámos disse Bosch.

Bem, se lhe der uma oportunidade, verá que ele é bom homem. Fez aquilo que pensou ser o melhor para o caso.

As portas do elevador abriram-se no décimo sétimo andar e ali es-tava Rourke.

Ora, aqui estão vocês os dois disse ele. Estendeu a mão a Bosch que a apertou sem muita convicção. Rourke apresentou-se.

Ia agora mesmo descer para tomar um café e comer um pãozinho disse ele. Querem fazer-me companhia?

Oh, John, viemos agora mesmo de uma cafetaria disse Eleanor Wish. Encontramo-nos contigo aqui.

Bosch e Eleanor Wish estavam agora fora do elevador e Rourke estava lá dentro. O agente especial limitou-se a concordar com um aceno de cabeça e as portas fecharam-se. Bosch e Eleanor Wish dirigiram-se para o gabinete.

De certa forma, ele é um bocado parecido consigo... esteve na guerra e isso tudo disse ela. Dê-lhe uma chance. Você não vai tornar as coisas mais fáceis se não descongelar um bocadinho.

Ele deixou passar aquilo. Desceram o corredor para a sala do Grupo 3 e Eleanor Wish apontou para uma secretária atrás da dela. Disse que estava vazia uma vez que o agente que a ocupava tinha sido transferido para o Grupo 2, a divisão da pornografia. Bosch pousou a pasta em cima da secretária e sentou-se. Olhou em volta da sala. Tinha muito mais gente do que no dia anterior. Cerca de meia dúzia de agentes estavam sentados às secretárias e três outros estavam de pé ao fundo da sala junto de um armário de ficheiros onde estava uma caixa de donuts. Reparou que havia uma televisão e um VCR numa prateleira ao fundo da sala. Não estava lá no dia anterior.

Você disse qualquer coisa acerca de um vídeo disse ele a Eleanor Wish.

Oh, sim. Vou preparar tudo e você pode ver enquanto eu respondo a uns telefonemas.

Tirou uma cassete vídeo de uma gaveta da secretária e dirigiram-se ambos para o fundo da sala. O grupo dos três afastaram-se silenciosa-mente com os seus donuts, alarmados com a presença de um estranho. Ela enfiou a cassete e deixou-o a ver sozinho.

O vídeo, obviamente gravado com uma câmara portátil, era uma viagem aos solavancos e nada profissional pelo rasto dos ladrões. Começava por aquilo que Bosch deduziu ser o esgoto de drenagem pluvial, um túnel quadrado que se afastava numa curva para uma escuridão que o foco da câmara não conseguia alcançar. Eleanor Wish tinha razão, era enorme. Um camião podia passar por ali. Uma pequena corrente de água movia-se vagarosamente pelo centro do chão de cimento. Havia limo e algas no chão e nas partes inferiores das paredes e Bosch quase conse-guiu cheirar a humidade. A câmara incidiu no chão verde-acinzentado. Havia rastos de pneus no limo. A cena seguinte era a entrada para o túnel dos ladrões, um buraco nítido aberto na parede do esgoto. Um par de mãos entraram na imagem segurando o círculo de contraplacado que Eleanor Wish dissera que tinha sido usado para tapar o buraco durante o dia. As mãos avançaram mais para dentro da imagem e depois apareceu uma cabeça de cabelos escuros. Era Rourke. Vestia um fato macaco escuro com letras brancas nas costas. FBI. Levantou o contraplacado e encostou-o ao buraco. Encaixava perfeitamente.

O vídeo deu um salto e a cena agora era o interior do túnel dos ladrões. Bosch sentiu-se esquisito ao ver aquilo que lhe trazia recordações dos túneis escavados à mão por onde tinha andado a rastejar no Vietname. Uma luz surreal tremeluzia das velas colocadas de seis em seis metros em nichos escavados na parede. Depois de se curvar durante uns dezoito metros, segundo os seus cálculos, o túnel virava abruptamente para a esquerda. Depois seguia praticamente a direito durante uns trinta metros, com as velas ainda a tremeluzir nas paredes. Por fim, a câmara chegou a um beco sem saída onde havia uma pilha de entulho, bocados de barras e placas de aço torcidas. A câmara subiu até a um buraco enorme no tecto do túnel. A luz jorrava da caixa-forte por cima. Rourke estava lá em pé, com o seu fato macaco, a olhar para baixo, na direcção da câmara. Passou um dedo pela garganta e a imagem foi outra vez cortada. Desta vez, a câmara estava dentro da caixa-forte, um plano da sala toda. Tal como na fotografia do jornal que Bosch vira, havia centenas de portas de cofres abertas. Havia caixas vazias empilhadas no chão. Dois técnicos da cena do crime estavam à procura de impressões digitais nas portas. Eleanor Wish e outro agente olhavam para cima, para a

parede de aço das portas dos cofres e tiravam notas. A câmara desceu para o chão e para o buraco para o túnel em baixo. A seguir, a fita ficou preta. Rebobinou-a, tirou-a e colocou-a em cima da mesa dela.

Interessante disse ele. Vi algumas coisas que já tinha visto. Nos túneis de lá. Mas nada que me tivesse feito começar a procurar ratos dos túneis em especial. Qual foi a pista para o Meadows, para as pessoas como eu?

Primeiro que tudo, havia o C-4 respondeu ela. A Divisão do Álcool, Tabaco e Armas de Fogo mandaram uma equipa inspeccionar o cimento e o aço do buraco. Havia vestígios do explosivo. Os tipos da ATF fizeram uns testes e descobriram o C-4. Tenho a certeza que conhece. Foi usado no Vietname. Os ratos dos túneis usavam-no para fazer implodir os túneis. A questão é que agora se pode arranjar coisas muito melhores, com mais área de impacto comprimido, mais fáceis de manusear e de detonar. Até mais barato. Também menos perigoso de manusear e mais fácil de obter. Por isso, deduzimos quer dizer, o tipo do laboratório ATF deduziu que a razão do C4 ter sido utilizado foi a do manuseador se sentir mais à vontade com ele, por já o ter utilizado antes. Daí, concluímos que deveria ser um veterano do Vietname.

«Outro corolário para o Vietname foram as armadilhas. Pensamos que antes de subirem para a caixa-forte para começarem a arrombar os cofres, armadilharam o túnel para protegerem a retaguarda. Mandámos um cão ATF por precaução, está a ver, para termos a certeza que não havia mais C-4 por ali. O animal obteve uma leitura indicadora de explosivos em dois sítios do túnel. A meio e à entrada aberta na parede do túnel de drenagem. Mas já não havia lá nada. Os ladrões tinham levado tudo com eles. Mas descobrimos buracos de estacas no chão do túnel e bocadinhos de fio nos dois sítios como aquelas coisinhas que ficam quando se está a cortar metros de fio com um alicate.

Arames de disparo disse Bosch.

Exactamente. Pensamos que eles armadilharam o túnel para evitarem intrusos. Se tivesse aparecido alguém por trás deles, o túnel teria ido ao ar. Teriam ficado soterrados debaixo da Hill Street. Pelo menos, os construtores do túnel levaram com eles os explosivos quando se foram embora. Evitaram que tropeçássemos neles.

Mas, provavelmente, uma explosão dessas teria rebentado com os ladrões e com os intrusos comentou Bosch.

Nós sabemos. Estes tipos não estavam dispostos a correr riscos. Estavam fortemente armados, fortificados e prontos para morrer. Vitória ou suicídio...

«Bem, seja como for, nós não nos lembrámos do possível envolvimento dos ratos do túnel até alguém ter apanhado qualquer coisa quando íamos a seguir os rastos dos pneus no esgoto principal. Os rastos estavam aqui e ali, não eram contínuos. Por isso, levámos uns dois dias a completar o traçado desde o túnel até à entrada junto do rio. Não era a direito. Aquilo lá em baixo é um labirinto. Tinha que se conhecer o caminho. Calculámos que os tipos não estavam sentados nos ATVs com uma lanterna e um mapa todas as noites.

O Hans e a Gretei? Deixaram migalhas ao longo do caminho?

Mais ou menos. As paredes lá em baixo têm uma data de tinta. Está a ver, marcas DWP, para saberem onde é que estão, que cano vai dar aonde, datas de inspecção, etc. Em algumas, a tinta é tanta que parecem a parede lateral de um 7-Eleven num barrio1 de L.A. oriental. Por isso, calculámos que os criminosos tinham marcado o caminho. Percorremos todo o caminho à procura de marcas recorrentes. Só havia uma. Uma espécie de símbolo da paz sem o círculo. Apenas três traços rápidos.

Ele conhecia a marca. Tinha-a usado nos túneis vinte anos antes. Três cortes rápidos na parede de um túnel feitos com uma faca. Era o símbolo que eles tinham usado para marcarem o caminho, para poderem voltar a encontrar o caminho de saída.

Eleanor Wish continuou:

Um dos polícias que lá estava nesse dia isto foi antes do Departamento da Polícia de Los Angeles nos ter entregado o caso um dos tipos dos assaltos disse que o reconhecia do Vietname. Ele não era um rato do túnel. Mas falou-nos deles. Foi assim que fizemos a ligação. A partir daí, fomos ao Departamento da Defesa e à VA e conseguimos os nomes. Conseguimos o do Meadows. O seu. Outros.

Quantos dos outros?

Ela empurrou uma pilha com uns dez centímetros de espessura de ficheiros, que estava em cima da secretária, na direcção dele.

Estão todos aqui. Se quiser, pode ver. Rourke chegou naquele instante.

A agente Wish já me falou da carta que você pediu disse ele. Não vejo nenhum problema. Vou escrever qualquer coisa e vamos tentar que o Agente Especial Sénior Whitcomb a assine ainda hoje.

Como Bosch não disse nada, Rourke continuou.

 

Em espanhol, no original. (N. T.)

 

Podemos ter reagido de forma exagerada ontem, mas espero ter conseguido esclarecer tudo com o vosso tenente e a vossa gente dos Assuntos Internos. Esboçou um sorriso que teria feito inveja a um político. A propósito, queria dizer-lhe que admiro o seu registo. O seu registo militar. Quanto a mim, também lá estive, três vezes. Mas nunca entrei nesses tenebrosos túneis. Mas estive lá, até ao fim. Uma pena.

Qual pena? Que tivesse acabado?

Rourke olhou para ele durante um longo momento e Bosch viu a vermelhidão espalhar-se-lhe pela cara desde o ponto em que as sobrancelhas escuras se encontravam. Rourke era um homem muito pálido com uma cara encovada que dava a ideia de que ele estava a chupar qualquer coisa amarga. Era alguns anos, não muitos, mais velho do que Bosch. Eram da mesma altura, mas Rourke tinha mais peso. Ao tradicional uniforme do FBI, blazer azul escuro e camisa azul clara, ele tinha acrescentado uma gravata vermelho vivo.

Olhe, detective, não é obrigado a gostar de mim, tudo bem disse Rourke. Mas, por favor, trabalhe comigo nisto. Ambos queremos a mesma coisa.

Bosch resolveu ceder para ver o que iria dar.

O que é que querem que eu faça? Expliquem-me exactamente o quê. Vou andar à vossa boleia ou querem mesmo que eu trabalhe?

Bosch, você é considerado um detective de primeira. Mostre-nos isso. Limite-se a continuar com o seu caso. Como nos disse ontem, você descobre quem matou o Meadows e nós descobrimos quem assaltou o WestLand National. Por isso, sim, nós queremos o seu melhor. Proceda como faria normalmente, mas com a Agente Especial Wish como sua parceira.

Rourke afastou-se, saindo da sala. Bosch calculou que ele deveria ter o seu próprio gabinete algures no sossego do corredor. Bosch voltou-se para a secretária de Eleanor Wish e agarrou no monte dos ficheiros.

OK, vamos lá então a isto disse-lhe.

Eleanor Wish requisitou um carro do departamento e conduziu enquanto Bosch analisava a pilha de relatórios militares que tinha no colo. Reparou que o seu era o primeiro. Deu uma olhadela pelos outros, mas só reconheceu o nome de Meadows.

Para onde? perguntou Eleanor Wish quando saiu da garagem e entrou na Veteran Avenue para apanhar a Wilshire.

Hollywood respondeu-lhe ele. O Rourke é sempre assim tão formal ?

Ela virou para leste e sorriu com um daqueles seus sorrisos que fazia Bosch interrogar-se se haveria alguma coisa entre ela e Rourke.

Quando quer respondeu ela. Mas é um bom administrador. Dirige bem a equipa. Teve sempre o tipo de chefe, acho eu. Penso que ele disse que esteve a comandar uma unidade ou qualquer coisa dessas quando esteve na tropa. Lá em Saigão.

Era impossível que houvesse qualquer coisa entre os dois, pensou ele. Uma pessoa não defende o amante dizendo que ele é um bom administrador. Não havia nada entre eles.

Está no ramo errado para ser administrador disse Bosch. Suba o Hollywood Boulevard, a zona a sul do teatro chinês.

Iam levar quinze minutos a chegar lá. Abriu o registo no cimo de todos era o dele e começou a dar uma vista de olhos pela papelada. No meio de uns relatórios psiquiátricos de avaliação, descobriu uma fotografia a preto e branco, quase igual a uma fotografia tirada pela polícia, de um jovem fardado, a cara sem marcas da idade ou da experiência.

Ficava bem de cabelo à escovinha disse Eleanor Wish interrompendo-lhe os pensamentos. Lembrou-me o meu irmão, quando vi essa fotografia pela primeira vez.

Bosch olhou para ela, mas não disse nada. Arrumou a fotografia e voltou a passar os olhos pelo dossier, lendo bocados de informação sobre um estranho que era ele próprio.

Eleanor Wish disse:

Conseguimos encontrar nove homens com experiência dos túneis do Vietname que viviam no Sul da Califórnia. Investigámo-los todos. Meadows foi o único que elevámos à categoria de suspeito. Era um drogado, tinha registo criminal. Também tinha uma história de trabalhar em túneis mesmo depois de ter voltado da guerra.

Conduziu em silêncio durante alguns minutos enquanto Bosch lia. Depois disse:

Vigiámo-lo durante um mês inteiro. Depois do assalto.

O que é que ele andava a fazer?

Nada que pudéssemos ver. Era capaz de andar a traficar droga. Nunca tivemos a certeza. Ia até Venice comprar heroína de três em três dias. Mas parecia que era apenas para consumo pessoal. Se andava a vender, nunca apareceram clientes. Nunca teve visitas durante todo o mês em que o andámos a vigiar. Raios, se tivéssemos conseguido provar que ele andava a traficar, podíamos ter-lhe deitado a mão e depois já tínhamos qualquer coisa decente com que o pressionar quando lhe falássemos do assalto ao banco.

Voltou a calar-se durante alguns momentos e depois, num tom que Bosch achou que era mais para se convencer a ela própria do que a ele, acrescentou:

Não andava a vender.

Acredito em si disse-lhe ele.

Vai dizer-me o que é que vamos procurar em Hollywood?

Vamos procurar uma testemunha. Uma possível testemunha. Como é que o Meadows vivia durante o mês em que o vigiaram? Quero dizer, em relação a dinheiro. Como é que ele arranjava dinheiro para ir a Venice?

Tanto quanto percebemos, vivia da segurança social e recebia um cheque de incapacidade da VA. Mais nada.

Por que é que desistiram ao fim de um mês?

Não tínhamos nada, e nem sequer tínhamos a certeza que ele tivesse alguma coisa a ver com o caso. Nós...

Quem é que mandou parar?

Foi o Rourke. Ele não podia...

O administrador.

Deixe-me acabar. Ele não podia justificar o custo de uma vigilância continuada sem quaisquer resultados. Estávamos a actuar baseados num palpite, nada mais. Você está a olhar para o assunto retrospectivamente. Mas já tinham passado quase dois meses após o assalto. Não havia nada ali que apontasse para ele. Na realidade, passado algum tempo, caímos na rotina. Pensámos que, fossem eles quem fossem, já deviam estar no Mónaco ou na Argentina. E não a comprar heroína de segunda categoria na praia de Venice e a viver num apartamento manhoso no Valley. Naquela altura, o Meadows não fazia sentido. O Rourke cancelou a vigilância. Mas eu concordei. Acho que agora sabemos que metemos água. Satisfeito?

Bosch não respondeu. Sabia que Rourke tivera razão em parar com a vigilância. Não há sítio nenhum em que a visão retrospectiva funcione melhor do que na actividade policial. Mudou de assunto.

Porquê aquele banco? Alguma vez pensaram isso? Porquê o WestLand National? Porque não o Wells Fargo ou uma caixa-forte em Beverly Hills? De qualquer das maneiras é provável que haja mais dinheiro nos bancos de Beverly Hills. Você disse que estes túneis subterrâneos vão ter a todo o lado.

E vão. Não sei responder a isso. Talvez eles tenham escolhido um banco da baixa porque queriam três dias completos para abrir os cofres e sabiam que os bancos da baixa não abrem aos sábados. Se calhar, só o Meadows e os amigos é que sabem a resposta. De que é que andamos à procura neste bairro? Não havia nada no seu relatório sobre uma possível testemunha. Testemunha de quê?

Tinham chegado ao bairro. A rua estava ladeada de motéis em ruí-nas que já tinham aquele ar deprimente no dia em que acabaram de ser construídos. Bosch apontou para um deles, o Blue Chateau, e disse-lhe para estacionar. Era tão deprimente como todos os outros dessa rua. Cimento, design dos princípios dos anos cinquenta. Pintado de azul-claro com uma faixa de um azul mais claro que já estava a descascar. Era um edifício de dois andares, com um pátio no meio e toalhas e roupas penduradas em quase todas as janelas abertas. Era um sítio onde o interior rivalizaria com o exterior na sua desolação, sabia Bosch. Onde os fugi-tivos se amontoavam, oito ou dez num quarto, os mais fortes a conseguirem a cama e os outros a dormirem no chão ou dentro da banheira. Havia sítios como este em muitos dos quarteirões ao pé do Boulevard. Sempre tinha havido e sempre haveria.

Ainda sentados no carro do departamento a olhar para o motel, Bosch contou-lhe a história do rabisco de tinta por acabar que tinha encontrado no cano do reservatório de água e do telefonema anónimo para o 911. Disse-lhe que estava convencido que a voz condizia com a tinta. Edward Niese, alcunha, Sharkey.

Estes miúdos, estes fugitivos, formam umas cliques de rua disse Bosch enquanto saía do carro. Não são exactamente bandos. Não é uma questão de território. E para protecção e negócio. Segundo os ficheiros do CRASH, a malta do Sharkey tem andado a vadiar por aqui, no Chateau, nestes dois últimos meses.

Quando Bosch fechou a porta do carro, reparou num carro que encostava ao passeio a meio quarteirão mais acima da rua. Deitou-lhe uma olhadela rápida, mas não reconheceu o carro. Julgou que conseguia distinguir duas pessoas lá dentro, mas estava demasiado longe para ter a certeza ou para dizer se eram Lewis e Clarke. Subiu um caminho de lajes até ao átrio de entrada por baixo de um letreiro de néon partido que indicava o escritório do motel.

No escritório, Bosch viu um velho sentado por trás de uma janela de vidro com um tabuleiro giratório na base. O homem estava a ler as notícias locais de Santa Anita. Não levantou os olhos até Bosch e Eleanor Wish estarem junto da janela.

Sim, senhores agentes, em que é que lhes posso ser útil?

Era um velho gasto cujos olhos tinham desistido de se preocupar com tudo o que fosse. Sabia reconhecer os polícias ainda antes de eles mostrarem os distintivos. E sabia que o melhor era dar-lhes o que eles queriam sem fazer grandes ondas.

Um miúdo chamado Sharkey disse Bosch. Qual é o quarto?

Sete, mas ele já se foi embora. Acho. A mota dele costuma estar ali na entrada quando ele anda por aqui. Não está lá mota nenhuma. Foi-se. Muito provavelmente.

Muito provavelmente. Há mais alguém no sete?

Claro. Há sempre alguém.

Primeiro andar?

Sim.

Porta traseira ou janela?

As duas coisas. Porta deslizante nas traseiras. Muito cara para se substituir.

O velho esticou a mão para o chaveiro e tirou uma chave de um gancho marcado 7. Pô-la no tabuleiro por baixo da janela, entre ele e Bosch.

O detective Pierce Lewis descobriu um recibo de uma caixa automática na carteira e usou-o para palitar os dentes. A boca tinha um sabor qualquer como se ainda tivesse um bocado das salsichas do pequeno--almoço metido em qualquer sítio. Passou o papel por entre os dentes, um a um, até os sentir completamente limpos. Deu um estalido de desagrado com a boca.

O que é? perguntou o detective Don Clarke. Conhecia as nuances comportamentais do companheiro. Limpar os dentes e fazer estalar os lábios queria dizer que havia qualquer coisa a aborrecê-lo.

Acho que ele nos topou, mais nada disse Lewis depois de ter atirado o papel para a rua pela janela do carro. Aquela olhadelazinha que ele deitou para o fundo da rua quando saiu do carro. Foi muito rápi-do, mas acho que nos topou.

Não topou nada. Se tivesse topado tinha vindo disparado até aqui para armar uma zaragata ou qualquer coisa dessas. E isso que eles fazem. Armam uma data de barulho, apresentam queixa. Já nos tinha atirado com a Liga de Protecção da Polícia aos calcanhares. Estou-te a dizer, os chuis são os últimos a aperceberem-se que estão a ser seguidos.

Bem... talvez respondeu Lewis.

Deixou as coisas ficarem assim para já. Mas continuou preocupado. Não queria lixar esta missão. Já tinha tido Bosch agarrado pelos tomates uma vez e o tipo tinha-se escapado porque Irving, aquele desbocado, tinha mandado que Lewis e Clarke se retirassem. Mas desta vez não ia ser assim, prometeu Lewis a si próprio. Desta vez, ele vai ao fundo.

Estás a tomar notas? perguntou ao colega. O que é que achas que eles estão a fazer naquele pardieiro?

A procura de qualquer coisa.

Estás a gozar comigo. Achas mesmo?

Chiça, acordaste com os pés de fora hoje?

Lewis desviou os olhos do Chateau para Clarke, que tinha as mãos cruzadas no colo e o assento inclinado para trás num ângulo de sessenta graus. Com os óculos espelhados a taparem-lhe os olhos, era impossível saber se estava acordado ou não.

Estás a tirar notas ou quê? perguntou Lewis em voz alta.

Se queres notas, por que é que não as tiras tu?

Porque estou a guiar. A combinação foi sempre essa. Tu não queres guiar, por isso escreves e tiras as fotografias. Vá, escreve qualquer coisa para podermos mostrar trabalho ao Irving. Caso contrário ele escreve um um oitenta e um sobre nós e esquece o Bosch.

Diz-se um ponto oitenta e um. Não vamos começar com atalhos, nem mesmo com a nossa linguagem.

Vai-te foder!

Clarke soltou um risinho trocista e tirou um bloco de notas do bolso de dentro do casaco e uma caneta Cross de ouro do bolso da camisa. Quando Lewis se certificou de que estavam a ser tiradas notas e voltou a olhar para o motel, viu um adolescente com rastas louras passar duas vezes pela rua numa mota amarela. O rapaz parou ao lado do carro de onde Lewis tinha acabado de ver Bosch e a mulher do FBI saírem. O rapaz fez uma pala com a mão por cima dos olhos e espreitou para dentro do carro pela janela do lado do condutor .

O que é isto? perguntou Lewis.

Um fedelho qualquer respondeu Clarke levantando os olhos dos apontamentos. Anda à procura de um rádio para fanar. Se ele avançar, o que é que fazemos? Damos cabo da vigilância para salvar a porcaria de um gravador do idiota?

Não vamos fazer nada. E ele não vai avançar. Vê o rádio Motorola. Sabe que é um carro da polícia. Já se está a afastar.

O rapaz acelerou a mota e deu mais duas voltas completas no meio da rua. Enquanto a mota girava, manteve os olhos fixos na porta de entrada do motel. Depois atravessou lentamente o parque de estacionamento e recuou outra vez para a rua. Parou atrás de um velho autocarro Volkswagen que estava estacionado no passeio e o escondia do motel. Parecia estar a observar a entrada do Chateau pelas janelas do velho auto-carro. Não reparou nos dois homens do Departamento dos Assuntos Inter-nos no carro estacionado atrás dele, a meio quarteirão de distância.

Vá lá, miúdo, põe-te a andar disse Clarice. Não quero ver-me obrigado a chamar a patrulha por tua causa. O filho da puta do delinquente!

Pega na Nikon e tira-lhe uma fotografia disse Lewis. Nunca se sabe. Pode acontecer qualquer coisa e iremos precisar dela. E já agora, quando estiveres a fazer isso, tira o número do letreiro do motel. Vamos ter de telefonar para cá depois para saber o que é que o Bosch e a rapariga do FBI estiveram a fazer.

Lewis podia ter agarrado com toda a facilidade na máquina fotográfica que estava no assento e tirado as fotografias, mas isso seria abrir um precedente perigoso que podia prejudicar o equilíbrio delicado das regras da vigilância. O condutor guia. O pendura escreve e faz todo o outro trabalho relacionado com isso.

Clarke agarrou obedientemente na máquina fotográfica, que estava equipada com zoom, e tirou fotografias ao rapaz da mota.

Tira uma com a matrícula da mota disse Lewis.

Eu sei o que é que estou a fazer respondeu Clarke, pousando a máquina.

Apanhaste o número do motel? Vamos ter de telefonar.

Apanhei. Estou a apontá-lo. Estás a ver? Qual é o problema? Provavelmente, o Bosch está a comer a gaja. Uma bela gaja federal. Se calhar, quando telefonarmos, descobrimos que eles alugaram um quarto.

Lewis olhou para ter a certeza que Clarke escrevia o número no registo da vigilância.

E talvez não disse ele. Acabaram de se conhecer. E, de qual-quer das maneiras, ele não é assim tão estúpido. Têm de lá estar à procura de alguém. Uma testemunha.

Mas não havia nada a respeito de uma testemunha no livro do assassínio.

Ele guardou-a para si. O Bosch é mesmo assim. E assim que ele trabalha.

Clarke não disse nada. Lewis voltou a olhar para o Chateau. Foi então que reparou que o rapaz tinha desaparecido. Não havia sinal da motorizada.

Bosch esperou um minuto para dar tempo a que Eleanor Wish chegasse às traseiras do Chateau para observar a porta deslizante do quarto número 7. Inclinou-se, encostou a orelha à porta e julgou ouvir uns sus-surros e uma ou outra palavra murmurada. Havia alguém no quarto. Quando chegou a altura, bateu com força à porta. Ouviu o barulho de movimento do outro lado da porta, passos rápidos na carpete mas ninguém respondeu. Voltou a bater, esperou e depois ouviu a voz de uma rapariga.

Quem é?

Polícia respondeu Bosch. Queremos falar com o Sharkey.

Não está cá.

Então acho que vamos falar consigo.

Não sei onde é que ele está.

Abra a porta, se faz favor.

Ouviu mais barulho, como se alguém andasse aos encontrões à mobília. Mas ninguém abriu a porta. Depois ouviu qualquer coisa a rolar, uma porta de vidro a deslizar e a abrir. Meteu a chave na fechadura do puxador a tempo de apanhar um vislumbre de um homem a sair pela porta de trás e a saltar da varanda para o chão. Não era Sharkey. Ouviu a voz de Eleanor Wish lá fora, a mandar o homem parar.

Bosch fez um inventário rápido do quarto. Um corredor de entrada com um armário à esquerda, casa de banho à direita, ambos vazios, exceptuando algumas peças de roupa no chão do armário. Duas camas duplas encostadas às paredes opostas, uma cómoda com um espelho pendurado na parede, uma carpete amarelo acastanhada muito gasta em volta das camas e no caminho para a casa de banho. A rapariga, de cabelo louro, pequena, com cerca de dezassete anos, estava sentada na borda de uma das camas com um lençol enrolado à volta dela. Bosch conseguiu ver o contorno de um mamilo comprimido contra o lençol encardido que, outrora, tinha sido branco. O quarto cheirava a perfume doce e barato.

Bosch, está tudo bem aí dentro? gritou Eleanor Wish do lado de fora.

Ele não a conseguia ver por causa de um lençol pendurado como uma cortina na porta deslizante.

Tudo bem. E você?

  1. O que é que temos?

Bosch dirigiu-se para a porta da varanda e olhou para fora. Eleanor Wish estava de pé, atrás de um homem que tinha os braços estendidos e as mãos na parede das traseiras do motel. Devia andar pelos trinta anos, com a pele amarelada de um homem que tinha acabado de cumprir um mês numa prisão do condado. As calças estavam abertas à frente. A camisa de xadrez estava mal abotoada. E olhava fixamente para o chão com o olhar esbugalhado de um homem que não tinha nenhuma explicação, mas que precisava desesperadamente de uma. Bosch ficou momentanea-mente espantado pela escolha que o homem aparentemente tinha feito de apertar a camisa primeiro do que as calças.

Ele está limpo disse ela. Mas parece um bocadinho nervoso.

Parece que temos aliciamento e sexo com uma menor se quiser perder tempo com isso. Caso contrário, solte-o.

Voltou-se para a rapariga sentada na cama.

Nada de aldrabices, quantos anos tens e quanto é que ele te pagou? Não estou aqui para te prender.

Quase dezassete respondeu ela num tom monótono, carregado de aborrecimento. Não me pagou nada. Ele disse que pagava, mas ainda não tinha chegado a isso.

Quem é que toma conta do vosso bando? O Sharkey? Ele nunca te disse para primeiro receberes o dinheiro?

O Sharkey não está sempre por perto. E como é que soube o nome dele?

Ouvi-o por aí. Onde é que ele pára hoje?

Já lhe disse, não sei.

O homem da camisa de xadrez entrou pela porta da frente seguido por Eleanor Wish. Tinha as mãos algemadas atrás das costas.

Vou prendê-lo. Quero fazê-lo. Isto é nojento. Ela parece...

Ela disse-me que tinha dezoito disse o Camisa de Xadrez. Bosch aproximou-se dele e abriu-lhe a camisa com um dedo. Tinha

uma águia de asas abertas no peito. Nas garras trazia um punhal e uma cruz suástica. Por baixo dizia Uma Nação. Bosch sabia que aquilo queria dizer a Nação Ariana, o bando da supremacia branca das prisões. Soltou a camisa deixando-a voltar ao sítio.

Ei, há quanto tempo é que saíste? perguntou.

Ei, vá lá, meu disse o Camisa de Xadrez. Isto é uma treta. Ela apanhou-me na rua. Deixe-me ao menos apertar as calças. Isto é uma treta.

Dá-me o meu dinheiro, filho da puta disse a rapariga. Saltou da cama, o lençol caiu para o chão, e atirou-se, nua, para os bolsos das calças do homem.

Tirem-na de cima de mim! Tirem-na de cima de mim! gritou o homem contorcendo-se para evitar as mãos dela. Estão a ver? Estão a ver? Ela é que devia ir dentro e não eu.

Bosch avançou, separou os dois e empurrou a rapariga para a cama. Colocou-se atrás do homem e disse para Eleanor Wish:

Dê-me as suas chaves.

Ela não se mexeu, por isso, ele meteu a mão no bolso e tirou a chave dele. Uma serve para todas. Abriu as algemas e empurrou o Camisa de Xadrez até à porta da frente. Abriu-a e empurrou-o para fora. O homem parou no corredor para abotoar as calças o que deu a Bosch a oportunidade de lhe pôr um pé no rabo e empurrar.

Põe-te a andar daqui para fora, cegueta disse ele enquanto o homem tropeçava pelo corredor fora. Este foi o teu dia de sorte!

A rapariga estava outra vez enrolada no lençol sujo quando Bosch voltou a entrar no quarto. Ele olhou para Eleanor Wish e viu a raiva nos olhos dela. Sabia que não era só por causa do homem da camisa de xadrez. Bosch olhou para a rapariga e disse:

Agarra na tua roupa, vai para a casa de banho e veste-te! Quando ela não se mexeu, disse: Vá, vá, toca a mexer!

Ela agarrou numas peças de roupa espalhadas pelo chão ao pé da cama e dirigiu-se para a casa de banho, deixando o lençol cair no chão. Bosch virou-se para Eleanor Wish.

Temos muitas coisas para fazer começou ele. Você ia perder o resto da tarde a recolher o testemunho dela e a prender o tipo. A verdade é que é uma ofensa comum e eu é que tinha de o prender. E era uma barraca; pode ser crime ou contravenção. E bastava uma olhadela para a cara daquela rapariga e o DA iria para a contravenção, se é que chegava mesmo a levar a coisa para a frente. Não valia a pena ter tanto trabalho. Aqui, a vida é assim, Agente Wish.

Ela olhou para ele com os olhos a ferver de raiva, os mesmos olhos que ele tinha visto quando lhe tinha agarrado no pulso para a impedir de se ir embora do restaurante.

Bosch, eu tinha decidido que valia a pena. Nunca mais me faça outra igual.

Ficaram ali parados, a olhar fixamente um para o outro, tentando não dar parte de fracos até a rapariga sair da casa de banho. Vestia uns jeans desbotados e rasgados nos joelhos e um top preto. Estava descalça e Bosch reparou que tinha as unhas pintadas de vermelho. Sentou-se na cama sem dizer uma palavra.

Temos de encontrar o Sharkey disse-lhe Bosch.

Porquê? Tem um cigarro?

Ele puxou do maço de cigarros e sacudiu-o para ela tirar um. Deu-lhe um fósforo e ela acendeu o cigarro sozinha.

Porquê? perguntou ela outra vez.

Por causa de sábado à noite disse Eleanor Wish desabrida-mente. Não o queremos prender. Não queremos chateá-lo. Só queremos fazer-lhe umas perguntas.

E eu? perguntou a rapariga.

E tu o quê? replicou Eleanor.

Vão-me arranjar chatices?

Queres saber se te vamos entregar à Divisão dos Serviços da Juventude, não é? disse Bosch. Olhou para Eleanor Wish tentando avaliar a reacção dela. Não conseguiu. Disse: Não, não vamos chamar a DYS se nos ajudares. Como é que te chamas? O teu nome verdadeiro.

Bettijane Felker.

Muito bem, Belttijane, não sabes onde é que está o Sharkey? A única coisa que queremos é falar com ele.

Só sei que ele está a trabalhar.

O que é que queres dizer? Onde?

Boytown. Provavelmente, está a tratar de negócios com o Arson e o Mojo.

Esses são os outros tipos do bando?

Certo.

A que sítio da Boytown é que eles disseram que iam?

Não disseram. Eles costumam é ir para os sítios onde há pane-leiros, acho eu. Está a perceber?

A rapariga não podia ou não queria ser mais explícita. Bosch sabia que não interessava. Tinha as moradas dos cartões dos interrogatórios e sabia que iria encontrar Sharkey num sítio qualquer de Santa Monica Boulevard.

Obrigado disse ele à rapariga e começou a dirigir-se para a porta.

Estava a meio do corredor quando Eleanor Wish saiu e passou por ele com um passo acelerado e zangado. Antes que ela dissesse qualquer coisa, ele parou num telefone público no corredor que levava ao escritório. Agarrou numa pequena agenda de telefones que trazia sempre consigo, procurou o número da DYS e marcou-o. Puseram-no à espera durante dois minutos enquanto uma telefonista transferia a chamada para uma linha de gravação automática para onde ele ditou a data, a hora e a localização de Bettijane Felker, suspeita de ser uma fugitiva. Desligou perguntando para consigo dali a quantos dias é que eles iriam receber a mensagem e quantos dias depois disso é que iriam apanhar Bettijane.

Já tinham entrado em West Hollywood no Santa Monica Boulevard e ela ainda continuava furiosa. Bosch tinha tentado defender-se, mas compreendera que não havia maneira de o conseguir. Por isso, deixou-se ficar sentado em silêncio a ouvir.

E uma questão de confiança disse Eleanor Wish. Não me interessa se vamos trabalhar juntos durante muito ou pouco tempo. Se você vai continuar com essa atitude de ser você a fazer e a decidir tudo, nunca irá haver a confiança de que precisamos para sermos bem sucedidos.

Ele olhava fixamente para o espelho do lado do passageiro, que tinha ajeitado de forma a poder ver o carro que arrancara atrás deles e os vinha a seguir desde o Blue Chateau. Tinha a certeza que eram Lewis e Clarke. Tinha visto o pescoço enorme e o cabelo à escovinha de Lewis atrás do volante quando o carro tinha parado a três carros de distância num semáforo. Não disse a Wish que estavam a ser seguidos. E se ela se tinha apercebido da perseguição, não tinha dito nada. Estava demasiado envolvida noutras coisas. Deixou-se ir ali sentado, a observar o carro e a ouvir as queixas dela sobre a maneira péssima como ele tinha tratado das coisas.

Por fim, disse-lhe:

O Meadows foi encontrado no domingo. Hoje já é terça-feira. É um facto da vida nos homicídios que as probabilidades, as hipóteses, de resol-ver um homicídio se vão tornando cada vez mais pequenas à medida que os dias vão passando. Por isso, peço desculpa. Não achei que nos iria ajudar perder um dia a prender um idiota que provavelmente foi aliciado a ir para um quarto de motel por uma prostituta de dezasseis anos com a experiência de trinta. Também não achei que valesse a pena esperar que a DYS viesse buscar a rapariga porque era capaz de apostar o meu ordenado em como a DYS já sabe quem é a rapariga e sabe onde é que ela está, se a quiserem apanhar. Em resumo, queria continuar com isto, deixar as outras pessoas fazerem o trabalho delas e fazer eu o meu. E isso queria dizer fazer o que estamos a fazer agora. Abrande aqui, no Rag-time. É um dos sítios que estava nos cartões.

Ambos queremos resolver isto, Bosch. Por isso, raios o partam, não seja tão estupidamente condescendente como se você tivesse esta nobre missão e eu estivesse aqui só pelo passeio. Estamos os dois metidos nisto. Não se esqueça.

Abrandou à frente da esplanada do café onde homens aos pares estavam sentados nas cadeiras brancas de ferro forjado das mesas de tampo de vidro, bebendo chá gelado com rodelas de laranja presas na borda dos copos biselados. Alguns dos homens olharam para Bosch e depois desviaram o olhar, desinteressados. Este varreu com o olhar a área da sala de jantar, mas não viu Sharkey. Enquanto o carro passava devagarinho, olhou para a rua lateral onde viu uns quantos jovens que passarinhavam por ali, sem fazerem nada, mas eram demasiado velhos para serem o Sharkey.

Passaram os vinte minutos seguintes às voltas pelos bares e restaurantes gays, mantendo-se quase sempre em Santa Monica Boulevard, mas não viram o rapaz. Bosch ia observando, reparando que os tipos dos Assuntos Internos se mantinham no seu posto, nunca se distanciando mais do que um quarteirão. Wish nunca disse uma palavra a respeito deles, mas Bosch sabia que os agentes da autoridade eram geralmente os últimos a aperceberem-se de que estavam a ser seguidos, porque eram os últimos a pensar que poderiam estar a ser vigiados. Eles eram os caçadores e não as presas.

Bosch tinha curiosidade em saber o que é que Lewis e Clarke estavam a fazer. Estariam à espera que ele infringisse alguma lei ou alguma regra da polícia com uma agente do FBI atrás? Começava a desconfiar que os dois detectives dos Assuntos Internos estavam apenas a exibir-se por conta própria. Se calhar, queriam que ele os visse. Uma espécie de susto psicológico. Disse a Eleanor Wish para encostar ao passeio à frente do Barneyos Beanery e saltou para fora do carro para ir usar o telefone público ao pé da porta do velho bar. Marcou o número da Divisão dos Assuntos Internos que conhecia de cor, uma vez que, no ano anterior, tinha tido de telefonar para lá duas vezes por dia, quando o tinham obrigado a ficar em casa enquanto decorriam as investigações. Uma mulher, a agente da recepção, atendeu o telefone.

O Lewis ou o Clarke andam por aí?

Não, senhor, não andam. Posso ficar com algum recado?

Não, obrigado. Uh... daqui é o tenente Pounds, detectives de Hollywood. Voltam já para o gabinete ou demoram-se? Preciso de confirmar uma coisa com eles.

Penso que eles estão em código sete até terminar o turno da tarde. Desligou. Não estavam de serviço até às quatro. Andavam a fazer

trafulhice, ou então, desta vez, Bosch tinha-lhes dado um pontapé com demasiada força nos tomates e eles andavam atrás dele no tempo livre. Voltou para o carro e disse a Eleanor Wish que tinha ido telefonar para o gabinete dele para saber se tinha mensagens. No momento em que estavam a meter outra vez o carro no meio do trânsito, viu a motorizada amarela encostada a um parquímetro a cerca de meio quarteirão de distância do Barnieos. Estava estacionada em frente de um restaurante de panquecas.

Ali disse ele apontando. Passe devagarinho para eu tirar o número.

Era a motorizada de Sharkey. Bosch comparou a matrícula com os apontamentos que tinha tirado do ficheiro do CRASH. Mas não havia sinal do rapaz. Eleanor deu a volta ao quarteirão e estacionou no mesmo sítio em frente do Barnieos onde tinham estado antes.

Então, ficamos à espera disse ela. Deste miúdo que você acha que pode ser uma testemunha.

Exactamente. E isso que eu penso. Mas não precisamos de perder tempo os dois. Pode deixar-me aqui se lhe apetecer. Eu vou para o restaurante e peço uma caneca de Henryos e uma tigela de chili e controlo a coisa pela janela.

Está tudo bem. Eu fico.

Bosch recostou-se preparando-se para a espera. Puxou dos cigarros, mas ela atacou-o ainda antes de ele ter tirado o cigarro do maço.

Já ouviu falar na avaliação do risco da inalação? Perguntou ela.

Na quê?

O fumo do cigarro em segunda mão. É mortal, Bosch. A EPA publicou isso no mês passado, oficialmente. Disse que era cancerígeno. Três mil pessoas por ano contraem cancro do pulmão do fumo passivo, como eles lhe chamam. Você está a matar-se a si próprio e a mim. Por favor, não fume.

Bosch voltou a enfiar o maço de cigarros na algibeira do casaco. Ficaram calados enquanto observavam a motorizada, que estava presa com uma corrente ao parquímetro. Bosch espreitou umas quantas vezes para o espelho retrovisor, mas não viu o carro da Divisão dos Assuntos Internos. Também foi olhando para Eleanor Wish sempre que pensava que ela não estava a olhar. O Santa Monica Boulevard foi-se enchendo de carros à medida que a hora de ponta se aproximava. Wish tinha a janela dela fechada para reduzir a entrada do monóxido de carbono, o que fazia com que o carro estivesse muito quente.

Por que é que está sempre a olhar para mim? perguntou ela depois de uma hora de vigilância.

Para si? Não sabia que estava a fazer isso.

Estava. Está. Já alguma vez tinha tido uma mulher como parceira?

Não. Mas não era isso que me faria olhar para si. Se é que estava a fazê-lo.

Então o que é? Se estava.

Estaria a tentar compreendê-la. Está a ver, porque é que está aqui, a fazer isto. Sempre pensei, quero dizer, pelo menos foi o que sempre ouvi, que a brigada dos bancos no FBI era para os dinossauros e os falhados, os agentes demasiado velhos ou demasiado estúpidos para usarem um computador ou conseguirem investigar os bens da escumalha de colarinho branco através da papelada. Pronto, aí tem. A divisão dos pesos mortos. Você não é um dinossauro e alguma coisa me diz que não é uma falhada. Alguma coisa me diz que você é uma barra, Eleanor.

Ela ficou calada durante uns momentos e Bosch julgou ver um leve sorriso brincar-lhe nos lábios. Depois desapareceu, se é que lá tinha estado.

Calculo que isso seja um cumprimento disfarçado. Se é, muito obrigada. Tenho as minhas razões para escolher o sítio onde estou no departamento. E, acredite, posso escolher mesmo. Quanto aos outros na divisão, não os caracterizaria como você fez. Acho que essa atitude, que, a propósito, parece partilhada por muitos dos seus colegas...

Ali está o Sharkey disse ele.

Um rapaz de trancinhas louras tinha saído de um beco lateral entre a loja de panquecas e um pequeno centro comercial. Estava acompanhado por um homem mais velho. Este trazia uma T-shirt que dizia «Os Maricas Estão de Volta!» Bosch e Eleanor Wish ficaram no carro a observar. Sharkey e o homem trocaram algumas palavras e depois Sharkey tirou qualquer coisa do bolso que entregou ao homem. O homem abriu o que parecia ser um baralho de cartas de jogar. Tirou umas quantas e devolveu as restantes. Depois deu a Sharkey uma nota verde.

O que é que ele está a fazer? perguntou Eleanor.

A comprar fotografias de bebés.

O quê?

Um pedófilo.

O homem mais velho continuou pelo passeio abaixo e Sharkey dirigiu-se para a motorizada. Dobrou-se para a corrente e o cadeado.

OK, vamos lá disse Bosch e saíram os dois do carro.

Aquilo já chegava para aquele dia, pensou Sharkey. Eram horas de recolher. Acendeu um cigarro e inclinou-se por cima do assento da motorizada para accionar a combinação de segurança do cadeado Master. As tranças caíram-lhe por cima dos olhos e sentiu o cheiro do produto de óleo de coco que tinha posto no cabelo na noite anterior em casa do tipo do Jaguar. Tinha sido depois de Arson ter partido o nariz do homem e o sangue se ter espalhado por todo o lado. Endireitou-se e ia começar a enrolar a corrente em volta da cintura quando os viu aproximar. Chuis. Estavam demasiado perto. Demasiado tarde para fugir. Tentando agir como se não os tivesse visto, fez uma lista mental de tudo o que trazia nas algibeiras. Os cartões de crédito já tinham marchado, vendidos, o dinheiro podia ter vindo de qualquer sítio, algum até tinha. Estava limpo. A única coisa que eles poderiam conseguir era a identificação feita pelo maricas se o pusessem numa fila de identificação. Sharkey estava espantado por o tipo ter feito queixa. Nunca ninguém o tinha feito.

Sharkey sorriu aos dois chuis que se aproximavam e o homem mostrou-lhe um gravador de cassetes. Um gravador de cassetes? O que era isto? O homem carregou num botão e, segundos depois, Sharkey reconheceu a sua voz. De repente, percebeu do que é que se tratava. Aquilo não tinha a ver com o gajo do Jaguar. Era por causa do cano.

E então? perguntou Sharkey.

Então, disse o homem com o gravador queremos falar contigo a este respeito.

Meu, não tive nada a ver com isso. Não vai atirar-me com nada... Hei, você é o tipo da esquadra. Sim, vi-o lá, na noite passada. Bem, não vai conseguir que eu diga que fiz aquela merda lá em cima.

Acalma-te, Sharkey disse o homem. Sabemos que não foste tu. Só queremos saber o que é que viste, mais nada. Volta a prender a mota. Nós trazemos-te outra vez para aqui.

O homem deu-lhe o nome dele e o da mulher. Bosch e Wish. Disse que ela era do FBI, o que tornava tudo muito confuso. O rapaz hesitou, depois baixou-se e voltou a prender a motorizada.

Bosch disse:

Só queremos dar um passeiozinho até Wilcox para te fazer umas perguntas e se calhar, para fazer um desenho.

De quê? perguntou Sharkey.

Bosch não respondeu; limitou-se a fazer um gesto com a mão, indicando que o acompanhasse e depois apontou para um Caprice cinzento um pouco mais acima da rua. Era o carro que Sharkey tinha visto à porta do Chateau. Enquanto iam andando, Bosch manteve a mão no ombro de Sharkey. Sharkey ainda não era tão alto como Bosch, mas tinha a mesma constituição magra e rija. O rapaz vestia uma camisa às manchas vermelhas e amarelas. Tinha uns óculos escuros pendurados ao pescoço por um fio cor de laranja. Pô-los enquanto se dirigiam para o Caprice.

OK, Sharkey disse Bosch quando chegaram ao pé do carro. Sabes como é a norma. Temos de te revistar antes de entrares para o carro. Assim não vais ter de ir algemado durante a viagem. Põe tudo em cima do capo.

Porra, você disse que eu não era suspeito protestou Sharkey. Não sou obrigado a fazer isto.

Já te disse, são as normas. Devolvemos-te tudo. Excepto as fotografias. Isso é que não podemos fazer.

Sharkey olhou primeiro para Bosch, depois para Wish e depois começou a meter as mãos nos bolsos dos jeans puídos.

Sim, sabemos das fotografias disse Bosch.

O rapaz pôs 46 dólares e 55 cêntimos em cima do capot, junta-mente com um maço de cigarros, uma carteira de fósforos, um canivete pequeno preso numa corrente e um conjunto de fotografias Polaroid. Eram fotografias de Sharkey e dos outros membros do bando. Em todas elas, os modelos estavam nus e em vários estádios de excitação sexual. Enquanto Bosch as ia virando uma a uma, Elenor Wish espreitou por cima do ombro dele, mas desviou rapidamente os olhos. Agarrou no maço de cigarros e inspeccionou-o, descobrindo um charro no meio dos Kools.

Acho que também vamos ter de ficar com isso disse Bosch.

Seguiram para a esquadra da polícia em Wilcox porque era hora de ponta e teriam levado uma hora para chegar ao Edifício do FBI em Westwood. Passava das seis quando chegaram à sala dos detectives que estava deserta, visto que toda a gente já tinha ido para casa. Bosch levou Sharkey para uma das salas de interrogatório de dois metros e meio por

dois metros e meio. Havia uma mesa pequena cheia de queimadelas de cigarro e três cadeiras na sala. Um letreiro escrito à mão numa das paredes dizia: «Nada de Choradeiras!» Sentou Sharkey no Escorrega uma cadeira de madeira com o assento muito encerado e cerca de meio centímetro de madeira cortado em cada uma das pernas da frente. A inclinação não era suficiente para se notar à vista desarmada, mas era o suficiente para a pessoa que se sentasse na cadeira se sentir desconfortável. Sentar-se-ia para trás como acontecia com a maioria dos casos difíceis e iria escorregando devagarinho para a frente. A única coisa que poderia fazer era inclinar-se para a frente, ficando com a cara quase colada à do seu inquisidor. Bosch disse ao rapaz para não se mexer dali e saiu da sala para combinar uma estratégia com Eleanor Wish, fechando a porta atrás de si. Ela abriu a porta a seguir a ele a ter fechado.

E ilegal deixar um menor numa sala fechada sem companhia disse ela.

Bosch fechou outra vez a porta.

Ele não se está a queixar disse ele. Temos de falar. O que é que acha dele? Quer ser você a tratar do assunto ou quer que seja eu?

Não sei respondeu ela.

Aquilo resolvia a questão. Era um não. Uma entrevista inicial com uma testemunha, uma testemunha relutante ainda por cima, exigia uma mistura habilidosa de sacanice, lisonja, exigência. Se ela não sabia, então não ia.

Você é que tem fama de ser o perito dos interrogatórios disse ela num tom de voz que Bosch achou trocista. É o que diz no seu processo. Não sei se isso quer dizer usar os miolos ou a força. Mas gostava de ver como é que se faz.

Ele assentiu com a cabeça, ignorando a alfinetada. Meteu a mão no bolso e tirou os cigarros e os fósforos do rapaz.

Entre e dê-lhe isto. Quero ir à minha secretária ver as minhas mensagens e preparar uma gravação. Quando viu a expressão da cara dela ao ver os cigarros, acrescentou: Primeira regra dos interrogatórios: fazer com que o sujeito se sinta confortável. Dê-lhe os cigarros. Contenha a respiração se não gostar.

Começou a afastar-se, mas ela perguntou:

Bosch, o que é que ele estava a fazer com aquelas fotografias? Então era aquilo que a estava a incomodar, pensou ele.

Olhe. Há cinco anos atrás, um miúdo como ele teria ido com aquele homem e teria feito sabe-se lá o quê. Hoje em dia, em vez disso, vende-lhe umas fotografias. Há tantos assassinos doenças e coisas dessas que estes garotos estão a ficar mais espertos. É mais seguro vender as tuas fotografias do que vender a tua carne.

Ela abriu a porta da sala dos interrogatórios e entrou. Bosch atra-vessou a sala da esquadra e foi ver o espigão cromado em cima da secretária onde estavam espetados os recados. O advogado tinha final-mente retribuído a chamada. O mesmo tinha acontecido com Bremmer do Times, embora tivesse deixado o pseudónimo que tinham combinado antes. Bosch não queria que ninguém que fosse meter o nariz na sua secretária ficasse a saber que a imprensa tinha telefonado.

Bosch deixou as mensagens no espigão, agarrou no seu cartão de identificação, dirigiu-se para o armário do equipamento e abriu a fechadura. Abriu uma cassete de noventa minutos nova e meteu-a no gravador na prateleira de baixo do armário. Ligou o aparelho para se certificar que a cassete de backup estava a funcionar. Carregou no botão de gravar e verificou se as duas cassetes estavam a girar. Depois voltou a atravessar a sala até à entrada e disse a um estafeta gordo que lá estava sentado para encomendar uma pizza para ser entregue na esquadra. Deu ao miúdo uma nota de dez dólares e disse-lhe para a levar à sala dos interrogatórios com três Coca-colas quando chegasse.

O que é que quer nela? perguntou o rapaz.

De que é que tu gostas?

Salsicha e peperoni. Odeio anchovas.

Pois pede anchovas.

Bosch voltou para a sala dos detectives. Eleanor Wish e Sharkey estavam calados quando ele entrou na pequena sala de entrevistas e ele teve a sensação de que não deviam ter conversado muito. Eleanor Wish não gostava do rapaz. Estava sentada à direita de Sharkey. Bosch sentou-se do lado esquerdo. A única janela da sala era um vidro espelhado na porta. Podia-se olhar lá para dentro, mas não se podia olhar para fora. Bosch decidiu ser frontal com o rapaz logo de início. Ele era um garoto, mas provavelmente era mais sensato do que a maioria dos homens que se tinham sentado no Escorrega antes dele. Se se apercebesse que estava a ser enganado, começaria a responder às perguntas com monossílabos.

Sharkey, vamos gravar isto porque nos poderá vir a ser útil voltar a ouvir o que foi dito disse Bosch. Como já te disse, não és suspeito, por isso, não tens de te preocupar com o que disseres a não ser, claro, que vás dizer que foste tu que o fizeste.

Está a ver o que é que eu queria dizer? protestou o rapaz Eu sabia que ia acabar por dizer isso e que ia ficar na fita. Merda, já estive numa sala destas, sabe?

E por isso que não te vamos aldrabar. Ora vamos lá dizer isto uma vez para ficar registado. Sou Harry Bosch, Departamento da Polícia de L. A., esta é Eleanor Wish, FBI, e tu és Edward Niese, também conhecido por Sharkey. Quero começar por...

Que merda é esta? Foi o presidente que foi arrastado para dentro daquele cano? O que é que o FBI está aqui a fazer?

Sharkey! gritou Bosch. Acalma-te. É só um programa de in-tercâmbio. Como quando andavas na escola e vinham uns miúdos de França ou qualquer coisa parecida. Pensa que ela veio de França. Está só a ver e a aprender com os profissionais. Sorriu e piscou o olho a Eleanor. Sharkey olhou para ela e também sorriu ao de leve. Primeira pergunta, Sharkey, vamos lá arrumar isto de uma vez para podermos passar ao que interessa. Foste tu que mataste o tipo no reservatório?

Foda-se, não! Eu...

Esperem um minuto, esperem um minuto interrompeu Eleanor Wish. Olhou para Bosch. Podemos ir lá fora só por um momento?

Bosch levantou-se e saiu. Ela foi atrás dele e, desta vez, fechou a porta da sala atrás de si.

O que é que está a fazer? perguntou Bosch.

O que é que você está a fazer? Vai ler os direitos ao miúdo, ou quer lixar esta entrevista logo do princípio?

O que é que está para aí a dizer? Não foi ele. Ele não é um suspeito. Só estou a fazer-lhe perguntas porque estou a tentar criar um padrão de entrevista.

Não sabemos que ele não é o assassino. Acho que lhe devíamos dizer quais são os seus direitos.

Dizemos-lhe quais são os direitos e ele vai pensar que julgamos que ele é um suspeito e não uma testemunha. Fazemos isso e bem podemos ir falar para as paredes. Ele não se vai lembrar de nada.

Ela voltou para a sala de interrogatórios sem dizer mais uma palavra. Bosch seguiu-a e recomeçou onde tinha parado, sem dizer nada sobre os direitos do rapaz.

Mataste o tipo no cano, Sharkey?

Não, meu, nem pensar. Só o vi, mais nada. Já estava morto.

O rapaz olhou para a direita, para Wish ao dizer aquilo. Depois endireitou-se na cadeira.

OK, Sharkey disse Bosch. A propósito, quantos anos tens? De onde é que és? Diz-me lá umas coisas destas.

Quase dezoito, meu, depois fico livre respondeu o rapaz a olhar para Bosch. A minha mãe vive em Chatsworth, mas eu tento não viver com... Porra, já tem isso tudo num dos seus livrinhos de apontamentos.

Es maricas, Sharkey?

Nem pensar, meu respondeu o rapaz, olhando duramente para Bosch. Vendo-lhes fotografias, que grande coisa, porra! Mas não sou um deles.

Fazes mais alguma coisa além de lhes venderes fotografias? Roubas uns quantos quando tens oportunidade? Arreias-lhes e ficas-lhes com a massa? Quem é que vai apresentar queixa? Certo?

Agora, Sharkey voltou a olhar para Eleanor Wish e levantou uma mão aberta.

Não faço essas merdas. Pensei que íamos falar do gajo morto.

E vamos, Sharkey disse Bosch. Só quero ter uma ideia de com quem é que estamos a lidar, mais nada. Vamos começar pelo princípio. Conta-nos a história. Mandei vir uma pizza e há mais cigarros. Temos tempo.

Não vai levar tempo nenhum. Não vi nada, só vi que o corpo lá estava. Espero que não haja anchovas.

Disse tudo aquilo a olhar para Wish enquanto se endireitava na cadeira. Tinha estabelecido um padrão em que olhava para Bosch quando estava a falar verdade e para Wish quando estava a disfarçar ou a mentir descaradamente. Os trapaceiros representavam sempre para as mulheres, pensou Bosch.

Sharkey, disse Bosch se quiseres podemos levar-te para Sylmar e passas lá a noite. Podemos recomeçar de manhã, talvez a tua memória já esteja um bocadinho...

Estou preocupado com a minha mota. Podem roubá-la.

Esquece a mota disse Bosch inclinando-se para a frente de forma a invadir o espaço pessoal do rapaz. Não te vamos apaparicar, Sharkey, ainda não nos contaste nada. Começa com a história e depois logo pensamos na mota.

OK, OK. Vou contar-vos tudo.

O rapaz estendeu a mão para os seus cigarros em cima da mesa e Bosch afastou-se e tirou um dos seus. Inclinar-se para a cara dele e depois afastar-se era uma técnica que Bosch tinha aprendido durante aquilo que lhe tinha parecido umas mil horas nestas pequenas divisões. Inclina-te para a frente, invade aqueles cinquenta centímetros que é todo deles, o espaço deles. Afasta-te quando consegues aquilo que querias. É subli-minal. A maior parte do que se passa num interrogatório da polícia não tem nada a ver com o que é dito. É a interpretação, as nuances. E, por vezes, aquilo que não é dito. Acendeu primeiro o cigarro de Sharkey. Eleanor Wish encostou-se para trás na cadeira quando eles soltaram o fumo azul.

Quer um cigarro, agente Wish? perguntou Bosch. Abanou a cabeça numa negativa.

Bosch olhou para Sharkey e trocaram um olhar cúmplice. Dizia: Eu e tu, pá. O rapaz sorriu. Bosch fez-lhe um gesto com a cabeça para começar a contar a sua história e ele fê-lo. E que história.

As vezes vou até lá acima para dormir disse Sharkey. Estão a ver? Quando não arranjo ninguém que me dê algum dinheiro para pagar o quarto do motel, ou assim. Às vezes, o quarto do motel do meu bando está demasiado cheio. Tenho de sair de lá. Por isso vou até lá acima, durmo dentro do cano. Na maior parte das noites, continua quente. Não é mau. Bom, seja como for, era uma dessas noites. Por isso fui até lá...

Que horas eram? perguntou Eleanor Wish.

Bosch deitou-lhe um olhar que dizia: Calma, faça as perguntas depois da história ter terminado. O rapaz estava a portar-se bastante bem.

Devia ser muito tarde respondeu Sharkey. Três, quatro da manhã. Não tenho relógio. Bem, fui até lá. E entrei no cano e vi o tipo que estava morto. Estava para ali deitado. Saí cá para fora e pus-me ao fresco. Não ia ficar ali com um morto. Quando cheguei cá abaixo, telefonei para vocês, nove um um.

Desviou o olhar de Wish para Bosch.

E é tudo disse ele. Dão-me uma boleia até à minha mota? Ninguém respondeu, por isso, Sharkey acendeu outro cigarro e

endireitou-se na cadeira.

Isso foi uma linda história, Edward, mas nós precisamos da história completa disse Bosch. E também precisamos dela certa.

O que é que quer dizer?

Quero dizer que parece feita por um atrasado mental, é isso que quero dizer. Como é que viste o corpo lá dentro?

Tinha uma lanterna explicou ele a Wish.

Não, não tinhas. Tinhas fósforos, encontrámos um. Bosch inclinou-se para a frente até ficar com a cara a trinta centímetros da do rapaz. Sharkey, como é que julgas que soubemos que eras tu que tinhas telefonado? Achas que a telefonista reconheceu a tua voz? «Oh, é o velho Sharkey. E um bom rapazinho, a telefonar-nos por causa de um cadáver.» Pensa, Sharkey. Tu assinaste o teu nome... ou pelo menos, metade, no cano lá em cima. Tirámos as tuas impressões digitais de uma lata de tinta. E sabemos que só rastejaste até meio do cano. Foi aí que te assustaste e fugiste. Deixaste um rasto atrás de ti.

Sharkey olhava em frente, os olhos ligeiramente levantados para a janela espelho na porta.

Sabias que o corpo lá estava antes de entrares. Viste alguém arrastá-lo para dentro do cano, Sharkey. Agora olha para mim e conta-me a história verdadeira.

Olhe, eu não vi a cara de ninguém. Estava escuro, meu disse o rapaz a Bosch.

Eleanor soltou um suspiro. Bosch teve vontade de lhe dizer que, se ela achava que o rapaz era uma perda de tempo, se podia ir embora.

Eu estava escondido disse Sharkey. Porque, tá a ver, ao princípio pensei que eles andavam atrás de mim ou qualquer coisa. Não tive nada a ver com isto. Por que é que me está a arrastar para isto?

Temos um homem morto, Edward. Temos de descobrir porquê. Não estamos interessados em caras. Isso não interessa agora. Conta-nos o que viste mesmo e depois deixas de estar metido nisto.

Acaba-se mesmo?

Acaba-se mesmo.

Bosch voltou a recostar-se e acendeu o seu segundo cigarro.

Bem, sim, eu estava lá em cima e ainda não estava muito cansado, por isso estava a fazer as minhas pinturas e ouvi um carro a aproximar-se. Uma merda. E o que era esquisito era que o estava a ouvir antes de o ver. Porque o gajo não tinha as luzes acesas. Por isso, meu, dei de frosques e escondi-me nos arbustos da colina ali ao lado, sabe, mesmo ao lado do cano, mesmo no sítio onde eu escondo a moto enquanto estou a dormir.

O rapaz estava a ficar mais animado, usando as mãos, abanando a cabeça e olhando quase só para Bosch.

Merda, pensei que aqueles gajos vinham à minha procura, como se alguém tivesse chamado os chuis por eu estar a pintar as minhas letras, ou qualquer coisa assim. Por isso, escondi-me. De facto, quando chegam lá um dos gajos sai do carro e diz ao outro que lhe cheira a tinta. Mas afinal nem sequer me viram. Só pararam ao pé do cano por causa do cadáver. E também não era um carro. Era um jipe.

Ficaste com a matrícula? perguntou Eleanor.

Não, porra, não tirei a matrícula. Merda, tinham as luzes apa-gadas e estava muito escuro. Bom, de qualquer das maneiras, eles eram três, se contarmos com o morto. Um dos tipos sai do carro, era o condutor, e puxa o tipo morto para fora da parte de trás do carro, tira-o debaixo de um cobertor ou qualquer coisa assim. Abriu uma portinha nas traseiras que esses jipes têm e arrastou o gajo para o chão. Era um pavor, pá. Eu vi perfeitamente que era verdadeiro, sabe, um tipo morto a sério. Caiu ao chão ao pé da parede. Como um morto. Fez um barulho como um corpo. Não foi como na TV. Como quando eles dizem qual-quer coisa como: «Oh, não, é um cadáver que ele está a arrastar para fora». Depois ele arrastou-o para dentro do cano. O outro gajo não o ajudou. Ficou no jipe. Por isso, o primeiro tipo, ele fez tudo sozinho.

Sharkey deu uma grande passa no cigarro e depois apagou-o no cinzeiro de lata, que já estava cheio de cinza e de beatas velhas. Deitou o fumo pelo nariz e olhou para Bosch que lhe fez sinal com a cabeça para continuar. O rapaz endireitou-se na cadeira.

Uhm, eu continuei ali e o tipo saiu do cano um minuto depois. Não foi mais do que isso. Olhou em volta quando saiu, mas não me viu. Foi até a um arbusto ao pé do sítio onde eu estava escondido e arrancou um ramo. E depois voltou para dentro do tubo durante um bocado. Conseguia ouvi-lo lá dentro a varrer ou qualquer coisa assim com o ramo. Depois ele voltou a sair e foram-se embora. Oh, uhm, ele começou a andar para trás e a luz da marcha atrás acendeu-se, tá a ver. Ele mudou logo de mudança, muito depressa. Então ouvi-o dizer qualquer coisa sobre não poderem ir em marcha atrás por causa da luz. Podiam ser vistos. Por isso, avançaram, para a frente, tá a ver, sem luzes. Desceram a estrada, passaram o reservatório e deram a volta ao outro lado do lago. Quando passaram por aquela casinha ao pé do reservatório, partiram a lâmpada. Vi-a apagar-se. Continuei escondido até deixar de ouvir o motor por completo. Depois saí.

Sharkey interrompeu a história por uns instantes e Eleanor disse:

Desculpem, podemos abrir a porta um bocadinho, para fazer sair um bocado do fumo?

Bosch estendeu o braço e abriu a porta sem se levantar ou tentar esconder o aborrecimento.

Vá, Sharkey, continua foi tudo o que disse.

Então, depois de eles se terem ido embora fui até ao pé do cano e chamei pelo tipo. Sabe, do género: «Ei, ai dentro» e «Está bem?», coisas dessas. Mas ninguém respondeu. Por isso, deitei a mota no chão de forma à luz entrar lá dentro e rastejei lá para dentro um bocadinho. Também acendi um fósforo, como disseram. E consegui vê-lo lá dentro e ele pareceu-me morto e tudo. Eu ia verificar, mas era demasiado arrepiante. Saí. Desci a colina e telefonei para os chuis. Foi tudo o que fiz, e não há mais

nada.

Bosch calculou que o rapaz ia roubar o cadáver, mas se tinha assustado a meio do caminho. Mas não tinha importância. O rapaz podia guardar esse segredo. Depois pensou no ramo arrancado do arbusto e utilizado pelo homem para limpar os rastos e todos os vestígios dentro do cano. Perguntou para consigo porque é que os polícias fardados não tinham reparado nem no ramo, nem no arbusto partido durante a busca na cena do crime. Mas não por muito tempo porque já sabia a resposta. Desmazelo. Preguiça. Não era a primeira vez que havia coisas que escapavam e não ia ser a última.

-Vamos saber da pizza disse Bosch, pondo-se de pé. Só demoramos uns minutos.

Fora da sala dos interrogatórios, Bosch controlou a fúria que sentia e disse:

A culpa foi minha. Devíamos ter conversado mais sobre a maneira como queríamos fazer isto antes de ouvirmos a história dele. Eu gosto de primeiro ouvir o que é que eles têm para dizer e só depois fazer perguntas. A culpa foi minha.

Não há problema disse Eleanor secamente. De qualquer maneira, ele não parece ser assim tão valioso.

Talvez. Pensou um bocadinho. Estava a pensar em voltar lá para dentro e falar mais um bocado com ele, talvez até em ir buscar um livro de fotografias para identificação. E se ele não começar a ficar melhor da memória, podíamos hipnotizá-lo.

Bosch não tinha maneira de saber qual iria ser a reacção dela à última sugestão. Fê-la de uma forma descontraída, com alguma esperança de que passasse despercebida. Os tribunais da Califórnia tinham deliberado que hipnotizar uma testemunha invalida o testemunho posterior dessa testemunha em tribunal. Se hipnotizassem Sharkey, ele nunca poderia ser testemunha em qualquer processo que pudesse resultar da investigação Meadows.

Eleanor Wish franziu o sobrolho.

Eu sei disse Bosch. Perdíamo-lo para o tribunal. Mas podemos nunca conseguir chegar a tribunal com o que ele nos deu agora. Como a Eleanor acabou de dizer, ele não é assim tão valioso.

Só não sei se devemos prescindir já da sua utilidade. Afinal, ainda estamos no início da investigação.

Bosch aproximou-se da porta da sala dos interrogatórios e olhou para o rapaz através do vidro que só funcionava para um lado. O rapaz estava a fumar outro cigarro. Pousou-o no cinzeiro e levantou-se. Olhou para a janela da porta, mas Bosch sabia que ele não podia ver para fora. Muito rápida e silenciosamente, o rapaz trocou a sua cadeira com a que Wish tinha estado a utilizar. Bosch sorriu e disse:

É um miúdo esperto. E capaz de haver ali mais coisas que não vamos conseguir apanhar se não o hipnotizarmos. Acho que vale a pena correr o risco.

Não sabia que você era um dos hipnotizadores do Departamento da Polícia de Los Angeles. Deve-me ter escapado isso no seu processo.

Tenho a certeza que deve ter havido muita coisa que lhe escapou replicou Bosch. Passados uns instantes, acrescentou: Suponho que sou um dos últimos que ainda por cá anda. Depois do Supremo Tribunal ter fechado essa porta, o departamento desistiu de treinar gente. Só havia uma turma. Eu era dos mais novos. A maior parte dos outros já se reformou.

Seja como for disse ela, não me parece que o devamos fazer já. Vamos conversar com ele mais um bocado, esperar uns dois dias, antes de o desperdiçarmos como testemunha.

Muito bem. Mas daqui a uns dois dias, quem sabe onde é que para um garoto como o Sharkey?

Oh, mas você está cheio de recursos. Descobriu-o desta vez. Pode tornar a fazê-lo.

Quer fazer alguma pergunta lá dentro?

Não, você está a sair-se muito bem. Desde que eu possa intrometer-me sempre que me lembrar de qualquer coisa...

Ela sorriu, ele sorriu e voltaram para a sala dos interrogatórios que cheirava a suor e a cigarros. Bosch deixou a porta aberta para arejar. Não foi preciso ela pedir.

Não há comida? perguntou Sharkey.

Ainda vem a caminho respondeu-lhe Bosch.

Bosch e Wish fizeram Sharkey repetir a história mais duas vezes, apanhando, aqui e ali, mais uns pormenores insignificantes. Fizeram-no em equipa. Parceiros, trocando olhares entendidos, acenos sub-reptícios, e até mesmo sorrisos. Bosch reparou que Wish escorregava algumas vezes na cadeira e pensou ver um sorriso na cara infantil de Sharkey. Quando a pizza chegou, Sharkey protestou por causa das anchovas, mas, mesmo assim, comeu três quartos da pizza e emborcou duas coca-colas. Bosch e Eleanor Wish abstiveram-se.

Sharkey disse-lhes que o jipe em que o corpo de Meadows tinha sido transportado era branco sujo ou beige. Disse que havia um distintivo na porta de lado, mas não o conseguiu descrever. Talvez aquilo fosse para parecer um veículo da DWP, pensou Bosch. Talvez fosse um veículo da DWP. Agora é que ele estava mesmo convencido que queria hipno-tizar o rapaz, mas decidiu não voltar a mencionar o assunto. Esperaria que Eleanor visse por si própria que tinham de o fazer.

Sharkey disse que quem tinha ficado no jipe enquanto o corpo era arrastado para dentro do cano, não dissera uma palavra durante todo o tempo em que ele os tinha estado a vigiar. Esta pessoa era mais pequena do que o condutor. Sharkey descreveu ter visto apenas um vulto pouco corpulento, uma silhueta vaga recortada pelo ténue luar que pairava por cima do denso pinhalzinho do perímetro do reservatório.

O que é que esse outro tipo fez? perguntou Eleanor Wish.

Só olhou, acho eu. Como um vigia. Nem sequer guiava. Acho que devia ser quem mandava ou assim.

O rapaz tinha conseguido ver melhor o condutor, mas não o suficiente para lhe descrever a cara ou fazer um desenho com os modelos de rostos do kit de identificação que Bosch tinha trazido para a sala. O condutor tinha cabelo escuro e era branco. Sharkey não conseguia, ou não queria, ser mais exacto na descrição. Vestia calças e casaco da mesma cor, talvez um fato macaco. Sharkey disse que ele também trazia uma espécie de cinto de equipamento ou avental de sapateiro. Os bolsos escuros para as ferramentas pendiam vazios nas ancas e agitavam-se como um avental na cintura. Bosch achou aquilo curioso e fez várias perguntas a Sharkey, partindo de ângulos diferentes, mas sem conseguir uma descrição melhor.

Uma hora depois tinham terminado. Deixaram Sharkey na sala cheia de fumo enquanto conferenciavam lá fora. Eleanor Wish disse:

Agora a única coisa que temos de fazer é descobrir um jipe com um cobertor na parte de trás. Fazer uma microanálise e comparar os

cabelos. O problema é que deve haver uns dois milhões de jipes brancos ou beiges neste estado. Quer que eu ponha um BOLO ou quer ser você a tratar disso?

Olhe, há duas horas não tínhamos nada. Agora já temos muita coisa. Se quiser, deixe-me hipnotizar o rapaz. Quem sabe, pode ser que consigamos um número de matrícula, uma descrição melhor do condutor. Talvez ele se lembre de um nome que tenha sido dito, ou seja capaz de descrever o emblema da porta.

Bosch estendeu as mãos com as palmas voltadas para cima. A sua oferta estava à disposição, mas ela já a tinha recusado anteriormente. E voltou a fazê-lo.

Ainda não, Bosch. Deixe-me falar com o Rourke. Talvez amanhã. Não me quero precipitar para uma coisa que pode vir a mostrar-se um erro. OK?

Ele assentiu e deixou cair as mãos.

E agora? perguntou ela.

Bem, o miúdo já comeu. Por que é que não o levamos e depois você e eu vamos comer qualquer coisa. Há um sítio...

Não posso disse ela.

.. .em Overland que eu conheço.

Já tenho planos para esta noite. Tenho pena. Talvez possa ficar para outra noite.

Claro.

Dirigiu-se para a porta da sala dos interrogatórios e espreitou pelo vidro. Tudo para evitar mostrar-lhe a cara. Sentia-se estúpido por ter avançado tão depressa com ela. Disse:

Se tiver de se ir embora, vá. Eu levo-o para um abrigo ou qual-quer coisa dessas para lá passar a noite. Não é preciso perdermos os dois o nosso tempo com isto.

Tem a certeza?

Sim, eu tomo conta dele. Arranjo um carro patrulha que nos leve. De caminho, vamos buscar a mota. Depois, eles levam-me ao meu carro.

Isso é simpático. Quero dizer, ir buscar a mota e tomar conta dele.

Bem, fizemos uma combinação com ele, lembra-se?

Lembro-me. Mas você interessa-se por ele. Vi como o tratava. Vê nele alguma coisa de si?

Ele virou a cara para olhar para ela.

Não, não especialmente disse ele. Ele não passa de mais uma testemunha que tem de ser entrevistada. Você acha que agora ele é um sacaninha de um filho da mãe. Espere até ele ter dezoito ou dezanove, se lá chegar, nessa altura vai ser um monstro. A viver à custa das pessoas. Esta não vai ser a última vez que ele vai estar sentado naquela sala. Vai passar a vida toda a entrar e a sair daqui até que mate alguém ou alguém o mate ele. É a lei de Darwin: a sobrevivência dos mais aptos. E ele está apto a sobreviver. Por isso, não, não me interesso por ele. Vou metê-lo num abrigo porque quero saber onde é que ele está não vá dar-se o caso de precisarmos dele. Mais nada.

Um belo discurso, mas não acredito. Já o conheço um bocadinho, Bosch. Você interessa-se, interessa-se mesmo. A maneira como lhe arranjou jantar e lhe perguntou...

Olhe, não me interessa quantas vezes é que leu o meu processo. Você acha que isso quer dizer que me conhece? Já lhe disse, são tudo tretas.

Tinha-se aproximado dela, até a cara estar apenas a trinta centímetros da dela. Mas ela desviou os olhos dele, baixando-os para o caderno de notas, como se o que ela tinha lá escrito tivesse alguma coisa a ver com o que ele estava a dizer.

Olhe continuou ele, nós podemos trabalhar nisto juntos, se calhar até conseguimos descobrir quem é que matou o Meadows, se tivermos mais abertas como esta com o miúdo hoje. Mas nunca seremos parceiros a sério e nunca nos conheceremos um ao outro. Por isso, se calhar, não devemos agir como se fôssemos. Não me fale do seu irmãozinho mais novo com o cabelo à escovinha e de como ele se parece comigo noutros tempos, porque não sabe como eu era. Um monte de papéis e de fotografias de um arquivo não dizem nada sobre mim.

Ela fechou o caderno de notas e meteu-o na carteira. Finalmente, levantou os olhos para o fitar. Ouviu-se bater à porta do lado de dentro da sala de interrogatórios. Sharkey estava a olhar para si próprio na janela espelhada da porta. Mas ambos o ignoraram e Eleanor Wish limitou-se a perscrutar Bosch com o olhar.

Você fica sempre assim quando uma mulher recusa jantar consigo? perguntou calmamente.

Não tem nada a ver uma coisa com a outra e você sabe-o muito bem.

Claro. Eu sei.

Começou a afastar-se e depois disse:

Ficamos assim, então. Amanhã às nove, encontramo-nos no departamento?

Ele não respondeu e ela foi-se embora em direcção à sala da esquadra. Sharkey voltou a bater na porta, Bosch olhou lá para dentro e viu o rapaz a espremer as borbulhas de acne no espelho da porta. Eleanor voltou-se para trás mais uma vez antes de sair.

Não estava a falar do meu irmãozinho mais novo disse ela. Ele era o meu irmão mais velho. E eu estava a falar de há muito tempo. Do ar dele quando eu era pequena e ele se ia embora por algum tempo, para o Vietname.

Bosch não olhou para ela. Não foi capaz. Percebeu o que vinha a seguir.

Lembro-me da cara dele nessa altura continuou ela, porque foi a última vez que o vi. E uma coisa que fica connosco. Ele foi um dos que não voltou.

Saiu.

Harry comeu a última fatia de pizza. Estava fria e ele detestava anchovas e achou que era aquilo mesmo que merecia. A mesma coisa com a coca-cola que estava quente. A seguir, sentou-se à secretária na secção dos homicídios e fez vários telefonemas até descobrir uma cama vazia, ou melhor, um espaço vazio, num dos abrigos onde não se faziam perguntas próximo do Boulevard. No Home Street Home não tentavam mandar os fugitivos para o sítio de onde tinham vindo. Sabiam que, na maior parte dos casos, a casa era um pesadelo pior do que as ruas. Davam às crianças um lugar seguro para dormir e depois tentavam mandá-las para qualquer sítio que não fosse em Hollywood.

Requisitou um carro sem identificação e levou Sharkey até à motorizada. Não cabia na bagageira, por isso, Bosch fez uma combinação com o rapaz. Sharkey ia na mota até ao abrigo e Bosch seguia-o no carro. Quando o rapaz lá chegasse e se inscrevesse, Bosch dava-lhe o dinheiro, a carteira e os cigarros. Mas não as Polaroid nem o charro. Esses iam para o lixo. Sharkey não gostou mas obedeceu. Bosch disse-lhe para se deixar ficar no abrigo durante uns dias, embora soubesse que, provavelmente, o rapaz se ia pôr a andar logo de manhã.

Encontrei-te uma vez. Se precisar, posso voltar a fazê-lo disse ele enquanto o rapaz prendia a mota do lado de fora da casa.

Eu sei, eu sei respondeu Sharkey.

Era uma ameaça vã. Bosch sabia que tinha encontrado o rapaz quando ele não sabia que andavam à procura dele. Seria uma história muito diferente se ele se quisesse esconder. Bosch entregou-lhe um dos seus cartões baratos e disse-lhe para telefonar se se lembrasse de alguma coisa que pudesse ajudar.

Que possa ajudar quem? A mim ou a si?perguntou Sharkey.

Bosch não respondeu. Voltou a meter-se no carro e voltou para a esquadra em Wilcox, prestando atenção ao retrovisor para ver se era seguido. Não viu ninguém. Depois de ter entregue o carro, foi à sua secretária e agarrou nos arquivos do FBI. Dirigiu-se ao gabinete do oficial de serviço onde o tenente chamou uma das suas patrulhas para dar uma boleia a Bosch até ao Federal Building. O agente da patrulha era um jovem polícia com um corte de cabelo curtíssimo. Asiático. Bosch tinha ouvido na esquadra que se chamava Gung Ho. Seguiram em silêncio durante os vinte minutos que levaram até ao Federal Building.

Harry chegou a casa às nove. A luz vermelha do telefone estava a piscar, mas não havia mensagens. Ligou o rádio para ouvir o relato do jogo dos Dodgers, mas voltou a desligá-lo cansado de ouvir pessoas a falar. Em vez disso, pôs uns CDs de Sonny Rollins, Frank Morgan e Branford Marsalis no leitor e preferiu ouvir saxofone. Espalhou os dossiers em cima da mesa da casa de jantar e tirou a tampa a uma garrafa de cerveja. Álcool e jazz, pensou ele enquanto engolia. Dormir vestido. És mesmo o cliché do chui, Bosch. Um livro aberto. E igualzinho a todos os outros parvos que se devem atirar a ela todos os dias. Dedica-te apenas ao assunto que tens à tua frente. E não esperes mais nada. Abriu o dossier sobre Meadows, lendo atentamente todas as páginas, ao passo que, no carro com Wish, se tinha limitado a dar uma vista de olhos.

Meadows era um enigma para Bosch. Um viciado em comprimidos, um consumidor de heroína, mas um soldado que se tinha voltado a alis-tar para continuar no Vietname. Mesmo depois de o terem tirado dos túneis, ele ficou. Em 1970, depois de dois anos de túneis, tinha sido colocado numa unidade da polícia militar ligada à Embaixada Americana em Saigão. Nunca mais tinha visto o inimigo em acção, mas tinha ficado até ao fim. Depois do tratado e da retirada, em 1973, tinha sido desmobilizado e voltara a ficar, desta vez como um dos conselheiros civis ligados à embaixada. Toda a gente estava a voltar para casa, excepto Meadows. Só partiu a 30 de Abril de 1975, o dia da queda de Saigão. Estava num helicóptero e depois num avião a transportar refugiados para fora do país, a caminho dos Estados Unidos. Foi a sua última missão governamental: segurança no transporte em massa dos refugiados para as Filipinas e depois para os Estados Unidos.

De acordo com os registos, Meadows ficou na Califórnia do Sul depois de ter voltado. Mas as suas aptidões estavam limitadas à polícia militar, é assassino dos túneis e traficante de droga. Havia uma candidatura à polícia de Los Angeles no dossier, mas estava assinalada como recusada. Tinha falhado nos testes de droga. A seguir, constava uma folha do Computador das Informações Criminais Nacionais com todo o registo de Meadows. A primeira vez que fora preso, por posse de heroína, tinha sido em 1978. Liberdade condicional. No ano seguinte, foi outra vez preso, desta vez por posse com intenção de vender. Confessou-se culpado de posse apenas e apanhou dezoito meses em Wayside Honor Rancho. Cumpriu dez. Os dois anos seguintes foram marcados por detenções frequentes por acusações de abuso sendo marcas frescas de agulhas um delito para sessenta dias na cadeia. Parecia que Meadows não saía da porta giratória da cadeia do condado até 1981, quando foi dentro por um período de tempo mais substancial. Por tentativa de assalto, um crime federal. A folha do NCIC não dizia se tinha sido por assalto a um banco, mas Bosch calculou que devia ter sido para envolver os federais. A folha dizia que Meadows tinha sido condenado a quatro anos em Lompoc e tinha cumprido dois.

Tinha saído há poucos meses quando foi outra vez apanhado por assalto a um banco. Deviam tê-lo assustado. Confessou-se culpado e voltou mais cinco anos para Lompoc. Teria saído passado três anos, mas dois anos depois da sentença tinha sido apanhado numa tentativa de evasão. Apanhou mais cinco anos e foi transferido para Terminal Island. Meadows saiu de TI em liberdade condicional em 1988. Todos aqueles anos na choldra, pensou Bosch. Nunca soubera, nunca tinha sabido dele. O que é que teria feito se tivesse sabido? Pensou naquilo durante um bocado. Provavelmente, aquilo tinha mudado Meadows mais do que a própria guerra. Tinha saído em liberdade condicional para uma casa de apoio para veteranos do Vietname. Era um sítio chamado Charlie Company e ficava numa quinta a norte de Ventura, a cerca de sessenta e cinco quilómetros de Los Angeles. Ficou lá quase um ano.

Depois disso, não havia registos de mais contactos, segundo a folha. As acusações de posse de droga que tinham feito com que Meadows tivesse telefonado a Bosch um ano antes, não estavam registadas. Não havia mais nenhuma folha. Não havia mais nenhum contacto conhecido com a polícia desde que saíra da prisão.

Havia mais uma folha no processo. Esta estava escrita à mão e Bosch calculou que devia ser a letra clara e legível de Wish. Era uma história dos empregos e moradas. Coligidas das pesquisas dos registos da segurança Social e dos registos da DGV, as entradas desciam verticalmente do lado esquerdo do papel. Mas havia espaços em branco. Períodos de tempo não justificados. Meadows tinha trabalhado para os serviços de abastecimento de água da Califórnia do Sul quando voltara do Vietname. Era inspector das condutas. Perdeu o emprego seis meses depois por atrasos excessivos e demasiadas faltas por doença. Depois disso, deve ter tentado traficar heroína porque a emprego legal seguinte só estava registado depois de ele ter saído de Wayside em 1979Foi trabalhar para a DWP como inspector dos subterrâneos na divisão das condutas de recolha das águas pluviais. Perdeu o emprego seis meses depois pelas mesmas razões do da companhia das águas. Seguiam-se alguns outros empregos esporádicos. Depois de ter saído da Charlie Company tinha ido trabalhar para uma companhia de minas de ouro no Santa Clarita Valley durante alguns meses. E nada mais.

Havia cerca de uma dúzia de moradas registadas. A maior parte era de apartamentos em Hollywood. Havia uma casa em San Pedro antes de ter sido preso em 1979Se estava a traficar nessa altura, provavelmente obtinha a droga no porto de Long Beach, pensou Bosch. A morada de San Pedro teria sido útil.

Bosch também ficou a saber que ele tinha vivido no apartamento de Sepulveda desde que tinha saído da Charlie Company. Não havia nada no ficheiro sobre a casa de apoio ou sobre o que Meadows lá tinha feito. Bosch descobriu o nome do agente da liberdade condicional de Meadows na cópia dos seus relatórios de avaliação no final dos seis meses. Daryl Slater, trabalhava em Van Nuys. Bosch tomou nota no caderno de apontamentos. Também escreveu a morada da Charlie Company. Depois espalhou a folha das prisões, a história dos empregos e das moradas e os relatórios da liberdade condicional à frente dele. Numa folha de papel, começou a escrever uma cronologia, começando com Meadows a ser enviado para a prisão federal em 1981.

Quando acabou, muitos dos espaços em branco estavam preenchidos. Meadows tinha cumprido um total de seis anos e meio na prisão federal. Tinha saído em liberdade condicional no princípio de 1988, quando tinha entrado para o programa da Charlie Company. Passara dez meses no programa antes de se mudar para o apartamento em Sepulveda. Os relatórios da condicional mostravam que ele tinha arranjado emprego na mina de ouro do Santa Clarita Valley. Terminara a condicional em 1989 e tinha largado o emprego no dia seguinte ao responsável pela liberdade condicional ter assinado os papéis. Não voltara a ter nenhum emprego

conhecido desde essa data, de acordo com a Administração da Segurança Social. O IRS dizia que Meadows não tinha entregado nenhuma declaração desde 1988.

Bosch foi à cozinha, tirou uma cerveja do frigorífico e fez uma sanduíche de fiambre e queijo. Ficou em pé, junto ao lava-louça, a comer e a beber, tentando organizar mentalmente as coisas relativas ao caso. Estava convencido que Meadows tinha andado a planear o golpe desde que saíra de TI ou, pelo menos, desde que saíra da Charlie Company. Tinha um plano. Trabalhou em empregos legítimos até acabar o período de liberdade condicional. Depois, despediu-se e o plano entrou em acção. Bosch tinha a certeza disso. E achava que era, por conseguinte, provável, que tivesse sido ou na prisão ou na casa de apoio que Meadows se tinha juntado aos homens que tinham assaltado o banco com ele. E que o tinham matado.

Tocaram à campainha. Bosch olhou para o relógio e viu que eram onze horas. Dirigiu-se à porta e espreitou pelo óculo e viu Eleanor Wish a olhar para ele. Recuou, deitou uma olhadela ao espelho no hall de entrada e viu um homem com cabelo escuro e olhos cansados a olhar para ele. Passou a mão pelo cabelo e abriu a porta.

Olá disse ela. Tréguas?

Tréguas. Como é que sabia onde... não interessa. Entre.

Ela vestia a mesma roupa, ainda não tinha ido a casa. Bosch percebeu que ela tinha dado conta dos ficheiros e papéis espalhados na mesa.

Estava a fazer serão disse ele. A verificar umas coisas no dossier do Meadows.

Óptimo. Um... Calhou estar aqui perto e só queria, só cá vim para dizer que... Bem, tem sido uma semana terrível até agora. Para os dois. Talvez amanhã possamos recomeçar esta parceria.

Sim disse ele. E, escute, peço desculpa pelo que lhe disse há bocado... e lamento muito o que aconteceu ao seu irmão. Você estava a tentar dizer uma coisa simpática e eu... Pode ficar um bocadinho, beber uma cerveja?

Dirigiu-se à cozinha e foi buscar duas garrafas frescas. Entregou-lhe uma e fê-la passar pela porta de correr até á varanda. Estava fresco, mas de vez em quando soprava um vento quente que vinha do lado escuro do desfiladeiro. Eleanor Wish olhou para as luzes do Valley. Os holofotes da Universal City varriam o céu num padrão repetitivo.

Isto é muito bonito disse ela. Nunca tinha estado numa casa destas antes. É a isto que chamam um cantiléver?

Sim.

Deve ser assustador durante um tremor de terra.

É assustador quando passa o camião do lixo.

Então como é que veio parar a um sítio destes?

Umas pessoas, aquelas ali em baixo com os holofotes, deram-me uma data de dinheiro para usarem o meu nome e aquilo a que chamaram os meus conselhos técnicos para um programa de televisão. E eu não tinha mais nada a fazer com ele. Quando era miúdo e vivia no Valley, estava sempre a pensar no que seria viver numa casa destas. Por isso, comprei-a. Pertencia a um argumentista de cinema. Era aqui que ele trabalhava. É muito pequena. Só tem um quarto cama. Mas acho que nunca irei precisar de mais.

Ela encostou-se à balaustrada e, percorrendo a encosta com o olhar, fixou-o no arroyo. Na escuridão, só havia o contorno esbatido do bosque de carvalhos lá em baixo. Ele também se encostou e, distraidamente, começou a descascar bocadinhos da prata dourada do rótulo da cerveja e a atirá-los fora. O ouro cintilava na escuridão ao flutuar para longe da vista.

Tenho perguntas a fazer disse ele. Quero ir a Ventura.

Podemos falar disso amanhã? Não vim cá para trabalhar nos ficheiros. Ando a ler esses ficheiros há quase um ano.

Ele assentiu e ficou calado, decidindo deixá-la chegar ao que a tinha trazido ali. Passado algum tempo, ela disse:

Deve estar muito zangado com o que lhe fizemos, a investigação, nós a investigá-lo. Depois o que aconteceu ontem. Lamento imenso.

Bebeu um pequeno gole de cerveja e Bosch deu conta de que nem sequer lhe tinha perguntado se ela queria um copo. Deixou as palavras dela pairarem na escuridão durante uns longos instantes.

Não disse, por fim. Não estou zangado. A verdade é que não sei o que é que estou.

Ela voltou-se e olhou para ele.

Nós pensámos que você desistiria quando o Rourke lhe arranjou aquela chatice com o seu tenente. Claro, você conhecia o Meadows, mas isso já tinha sido há muito tempo. É isso que eu não entendo. Para si, isto não é mais um caso qualquer. Mas porquê? Deve haver mais alguma coisa. Lá no Vietname? Porque é que isto tem tanta importância para si?

Calculo que tenho razões. Razões que não têm nada a ver com o caso.

Acredito. Mas quer acredite quer não, isso não é o que me interessa. Estou a tentar perceber o que se passa. Preciso de saber.

Que tal está a cerveja?

Óptima. Diga-me qualquer coisa, detective Bosch.

Ele olhou para baixo e viu um bocadinho do letreiro dourado desaparecer na escuridão.

Não sei disse ele. Ou melhor, a verdade é que sei e não sei. Acho que tem a ver com os túneis. Uma experiência partilhada. Não é nada do género de ele me ter salvado a vida ou eu ter salvado a dele. Não é assim tão fácil. Mas sinto que há qualquer coisa que lhe é devida. Não interessa o que é que ele fez ou em que tipo de falhado se tornou depois. Talvez devesse ter feito mais alguma coisa do que uns quantos telefonemas a seu favor no ano passado. Não sei.

Não seja tonto disse ela. Quando ele lhe telefonou no ano passado, já estava bem envolvido nesta tramóia. Estava a usá-lo nessa altura. Até parece que também o está a usar agora, apesar de morto.

Já não tinha rótulo para descascar. Deu meia volta e encostou as costas ao parapeito. Com uma das mãos, rebuscou na algibeira e tirou um cigarro. Meteu-o na boca, mas não o acendeu.

O Meadows disse ele e abanou a cabeça ao lembrar-se do homem, O Meadows era especial... Naquela altura, nós todos não passávamos de um bando de garotos com medo do escuro. E aqueles túneis eram tão horrivelmente escuros... Mas o Meadows, ele não tinha medo. Oferecia-se, oferecia-se de novo, voltava a oferecer-se outra vez. Da luz para a escuridão. Foi o que ele disse que era uma missão num túnel. Nós chamávamos-lhe eco negro. Era como descer ao inferno. Uma pessoa está lá em baixo e consegue cheirar o próprio medo. Era como se estivéssemos mortos quando lá estávamos em baixo.

Tinham-se ido virando gradualmente e agora estavam de frente um para o outro. Ele estudou-lhe a cara e viu aquilo que julgou ser simpa-tia. Não sabia se era o que queria. Já se tinha deixado disso há muito tempo. Mas não sabia o que queria.

Por isso, todos nós, esses garotos assustados, fizemos uma promessa. Sempre que alguém descia para um desses túneis, fazíamos uma promessa. A promessa era que, acontecesse o que acontecesse lá em baixo, ninguém seria deixado ficar para trás. Não interessava se morrias lá em baixo, não serias deixado ficar. Porque nos faziam coisas, sabe. Como os nossos próprios operacionais de psicologia. E funcionava. Ninguém queria ser deixado para trás, vivo ou morto. Uma vez, li num livro que não interessa se estás deitado debaixo de uma pedra tumular de mármore numa colina ou no fundo de uma fossa de petróleo, quando estás morto, estás morto.

«Mas quem quer que escreveu isso não esteve lá. Quando se está vivo, mas assim tão perto da morte, pensa-se nestas coisas. E nessa altura interessa... e por isso, nós fizemos a promessa.

Bosch sabia que não tinha explicado nada. Disse-lhe que ia buscar mais uma cerveja. Ela disse-lhe que estava bem assim. Quando ele voltou, ela sorriu-lhe, mas não disse nada.

Deixe-me contar-lhe uma história acerca do Meadows disse ele. Está a ver, a maneira como eles resolviam as coisas era: destacavam uns quantos, talvez uns três de nós, ratos dos túneis, para sairmos com uma companhia. Por isso, quando eles davam com um túnel, nós descíamos, fazíamos o reconhecimento, púnhamos as minas, o que fosse preciso.

Bebeu um grande gole de cerveja fresca.

E, por isso, uma vez, isto devia ter sido em 1979, o Meadows e eu íamos na retaguarda de uma patrulha. Estávamos num baluarte VC e, pá, estava todo minado de túneis. Seja como for, estávamos a uns quatro, cinco quilómetros de uma aldeia chamada Nhuan Luc quando perdemos um dos homens da frente. Ele foi... desculpe, provavelmente, não quer ouvir isto. Com o que aconteceu ao seu irmão e isso tudo.

Quero ouvir. Por favor.

Pois este batedor foi morto por um sapa que estava num buraco de aranha. Era o que chamávamos às pequenas entradas numa rede de túneis. Por isso, alguém matou o sapa e eu e o Meadows tivemos que descer ao túnel para o inspeccionar. Descemos e tivemos imediatamente que nos separar. Era uma rede enorme. Eu fui por um dos túneis e ele por outro. Dissemos que íamos avançar durante quinze minutos e depois colocávamos os explosivos com um tempo de espera de vinte minutos, depois voltávamos para trás e íamos colocando mais ao longo do caminho... Lembro-me de ter encontrado um hospital lá em baixo. Quatro esteiras vazias, um armário de medicamentos, tudo ali, no meio do túnel. Lembro-me de ter pensado: Meu Deus, o que é que vai estar ali ao virar da esquina, um cinema drive-in ou qualquer coisa parecida? Quero dizer, aquela gente tinha-se enterrado ali dentro... Bem, de qualquer

 

VC-Vietcong. (N. T.)

 

das maneiras, havia um altarzinho e incenso a arder. Ainda a arder. Nessa altura, soube que eles ainda ali estavam, algures, os VCs, e assustei-me. Coloquei uma carga de explosivos e escondi-a atrás do altar e depois comecei a recuar o mais depressa que conseguia. Coloquei mais duas cargas no caminho, cronometrando tudo para rebentarem ao mesmo tempo. Chego ao sítio da entrada, está a ver, ao buraco original da aranha, e nada de Meadows. Esperei cinco minutos e estava a ficar apertado. Ninguém quer estar lá em baixo quando o C-4 explode. Alguns daqueles túneis têm cem anos. Eu não podia fazer nada, por isso trepei lá para fora. Ele também não estava lá.

Parou para beber um bocado de cerveja e pensou um bocado na história. Ela observava-o atentamente, mas não o pressionou.

Minutos depois, os meus explosivos rebentaram e o túnel, ou pelo menos a parte onde eu tinha estado, veio abaixo. Quem quer que lá estivesse estava morto e enterrado. Esperámos um par de horas para o fumo e a poeira assentarem. Prendemos uma ventoinha Mighty Mite e atirámos ar para dentro da entrada do poço e depois conseguimos ver o fumo a ser empurrado para fora e a sair pelos respiradouros e pelos outros buracos de aranha espalhados por toda a selva.

«E quando ficou limpo eu e outro tipo entrámos à procura do Meadows. Pensávamos que ele tinha morrido, mas tínhamos a promessa, acontecesse o que acontecesse, íamos tirá-lo de lá e mandá-lo para casa. Mas não o encontrámos. Passámos o resto do dia lá em baixo à procura, mas a única coisa que encontrámos foram VCs mortos. A maior parte deles tinham sido mortos a tiro, alguns tinham a garganta cortada. Todos tinham as orelhas cortadas. Quando voltámos para cima, o coma-dante disse-nos que não podíamos esperar mais tempo. Tínhamos recebido ordens. Fomo-nos embora e eu tinha quebrado a promessa.

Bosch estava a olhar fixamente para a noite, sem ver nada a não ser a história que estava a contar.

Dois dias depois, outra companhia passou pela aldeia, Nhuan Luc, e alguém descobriu uma entrada para um túnel numa palhota. Mandaram os ratos deles lá dentro e, ainda não tinham passado cinco minutos de lá estarem dentro, deram com o Meadows. Estava sentado como um Buda num dos corredores. Sem munições. A dizer disparates. Sem fazer sentido, mas estava bem. E quando tentaram trazê-lo com ele, não quis ir. Por fim, tiveram que o atar, prendê-lo com uma corda e mandar a patrulha içá-lo para fora. À luz do Sol, viram que ele trazia um colar de orelhas humanas. Presas nas chapas de identificação.

Acabou a cerveja e entrou em casa. Ela seguiu-o até à cozinha onde ele foi buscar outra garrafa. Ela pousou a dela meio acabada em cima da bancada.

E é esta a minha história. O Meadows era assim. Foi para Saigão para se tratar, mas voltou. Não conseguia estar longe dos túneis. Contudo, depois daquele, nunca mais foi o mesmo. Disse-me que se tinha bara-lhado e perdido lá dentro. Estava sempre a ir na direcção errada, matan-do tudo o que lhe aparecia pela frente. Dizia-se que havia trinta e três orelhas no colar. Uma vez houve alguém que me perguntou porque é que o Meadows tinha deixado que um dos VCs ficasse com uma orelha. Está a perceber, por o número ser ímpar. E eu disse que o Meadows tinha deixado que todos ficassem com uma orelha.

Ela abanou a cabeça. Ele assentiu com a dele. Bosch disse:

Quem me dera tê-lo encontrado daquela vez que voltei para o procurar. Abandonei-o.

Ficaram parados a olhar para o chão da cozinha durante um bom bocado. Bosch deitou o resto da cerveja para o lava-louça.

Só mais uma pergunta sobre a folha do Meadows e depois aca-bou-se o trabalho disse ele. Ele foi metido em Lompoc por causa de uma tentativa de evasão. Depois foi mandado para TI. Sabe alguma coisa disso?

Sei. E era um túnel. Tinham confiança nele e trabalhava na lavandaria. Os secadores a gás tinham ventiladores subterrâneos que passavam por baixo do edifício. Escavou por baixo de um deles. Não mais do que uma hora por dia. Disseram que, provavelmente, ele tinha andado naquilo durante seis meses antes de o descobrirem, quando os aspersores que eles usam no campo de jogos durante o Verão amoleceram o chão e este cedeu.

Ele assentiu com a cabeça. Tinha pensado que devia ter sido um túnel.

Os outros dois metidos naquilo continua ela. Um traficante de droga e um ladrão de bancos. Ainda estão dentro. Não têm nenhuma ligação com isto.

Voltou a assentir com a cabeça.

Acho que é melhor ir-me embora agora disse ela. Temos muita coisa para fazer amanhã.

Sim. Eu tenho mais uma data de perguntas.

Tentarei responder, se puder.

Passou rente a ele no pequeno espaço entre o frigorífico e a bancada e saiu para o corredor. Ele conseguiu sentir-lhe o perfume quando ela passou. Um cheiro a maçã, pensou ele. Reparou que ela estava a olhar para o quadro pendurado na parede oposta ao espelho do corredor. Estava dividido em três secções emolduradas separadamente e era uma reprodução de uma pintura do século quinze chamada o Jardim das Delícias. O pintor era holandês.

Hieronymus Bosch disse ela enquanto estudava a paisagem de pesadelo do quadro. Quando vi que era o seu nome completo, interroguei-me se...

Não há nenhuma relação interrompeu ele. A minha mãe, bem, ela gostava das coisas dele. Calculo que por causa do apelido. Mandou-me esse quadro uma vez. Disse numa nota que lhe lembrava L. A. Todas essas pessoas malucas. Os meus pais adoptivos... eles não gostavam dele, mas eu guardei-o durante muitos anos. Tenho-o aqui pendurado há tanto tempo quanto tenho a casa.

Mas gosta que lhe chamem Harry.

Sim, gosto de Harry.

Boa noite, Harry. Obrigada pela cerveja.

Boa noite, Eleanor... Obrigado pela companhia.

 

                   Quarta-feira, 23 de Maio

Às 10 da manhã, estavam na auto-estrada de Ventura, que atravessa o fundo do Vale de San Francisco para sair da cidade. Bosch ia a guiar e seguiam na direcção contrária à corrente do trânsito, em direc-ção a nordeste, para Ventura County, deixando para trás o manto de poluição que enchia o Valley como um creme sujo numa tigela.

Iam para a Charlie Company. O FBI tinha feito apenas uma investigação superficial de Meadows durante um programa extensivo da prisão, no ano anterior. Eleanor Wish disse que tinha pensado que era de importância mínima visto que a estadia de Meadows tinha terminado um ano antes do crime do túnel. Disse que o FBI tinha pedido uma cópia do processo de Meadows, mas que não tinha verificado os nomes dos outros presos que faziam parte do programa na mesma altura que Meadows. Bosch achava que tinha sido um erro. O registo dos empregos de Meadows indicava que o assalto ao banco fazia parte de um plano que levara muito tempo a preparar, disse ele a Wish. O assalto ao banco podia muito bem ter sido congeminado na Charlie Company.

Antes de sair, Bosch tinha telefonado ao agente da liberdade condicional de Meadows, Daryl Slater, e tinha recebido informações detalhadas sobre a Charlie Company. Slater disse-lhe que o sítio era uma quinta de produtos hortícolas, gerida pelo proprietário que era um coronel do exército que se tinha reformado e renascido. Tinha um acordo com o estado e as prisões federais para receber indivíduos recém saídos da prisão com a única condição de serem veteranos da guerra do Vietname. Isso não era uma exigência difícil de cumprir, disse Slater. Como em todas as outras prisões do país, as prisões da Califórnia tinham uma grande população de veteranos do Vietname. Gordon Scales, o antigo coronel, não se interessava com o tipo de crimes que os veteranos pudessem ter cometido. Só queria voltar a pô-los no bom caminho. O pessoal da quinta compreendia três pessoas, incluindo o próprio Scales, e não recebiam mais de vinte e quatro homens de cada vez. Trabalhavam nos campos das seis às três, parando apenas uma hora para o almoço ao meio-dia. Depois do dia de trabalho, havia uma sessão de uma hora denominada conversa da alma, depois o jantar e a televisão. Outra hora de religião antes das luzes se apagarem. Slater disse que Scales utilizava as suas ligações com a comunidade para arranjar empregos para os veteranos quando eles se encontravam prontos para enfrentar o mundo exterior. Em seis anos, a Charlie Company tinha uma percentagem de recidivas de apenas 11%. Um número tão invejável que Scales tinha recebido uma referência favorável num discurso do presidente durante a sua última campanha eleitoral pelo estado.

O homem é um herói disse Slater. E não por causa da guerra. Por causa do que fez depois. Quando uma pessoa tem um sítio como aquele, onde movimenta entre trinta a quarenta reclusos por ano, e só um em dez volta a malhar com os ossos na cadeia, então estamos a falar de umérito sensacional. Scales tem uma influência enorme nas comissões da liberdade condicional estatais e federais e em metade dos direc-tores das prisões deste estado.

Quer dizer que ele escolhe quem é que vai para a Charlie Company? perguntou Bosch.

Talvez não seja exactamente escolher, mas dá a aprovação final, sim disse o agente da Liberdade Condicional. Mas o nome deste homem já se espalhou. É conhecido em todos os blocos de celas onde haja um veterano a cumprir pena. Estes tipos vão ter com ele. Escrevem cartas, mandam Bíblias, telefonam, pedem aos advogados que o contactem. Tudo para conseguirem que o Scales se responsabilize por eles.

Foi assim que o Meadows foi lá parar?

Tanto quanto sei, foi. Já ia para lá quando mo entregaram. Vai ter de telefonar para a Terminal Island e pedir-lhes que consultem os arquivos. Ou falar com o Scales.

Bosch informou Eleanor Wish da conversa quando já iam na estrada. Fora isso, foi uma longa viagem com grandes períodos de silêncio. Bosch passou muito tempo a pensar na noite anterior. Na visita dela. Por que é que ela lá tinha ido? Depois de entrarem em Ventura County, voltou a concentrar-se no caso e fez-lhe algumas perguntas de que se tinha lembrado na noite anterior quando lia o processo.

Por que é que eles não entraram na caixa-forte principal? No West-land há duas caixas-fortes. A dos depósitos e a do banco, para as transacções a dinheiro e para as caixas multibanco. Os relatórios da cena do crime diziam que a planta das duas caixas-fortes eram iguais. A dos cofres era maior, mas a blindagem do chão era a mesma. Por isso, dá ideia que Meadows e os sócios podiam ter feito o túnel até à caixa-forte principal com a mesma facilidade, e depois podiam ter entrado, agarrado no que lá havia e saído. Não precisavam de ter corrido o risco de passar todo o fim-de-semana lá dentro. Nem tinham precisado de rebentar com os cofres.

Talvez não soubessem que eram iguais. Talvez julgassem que a caixa principal seria mais difícil.

Mas nós estamos a partir do princípio que eles tinham alguns conhecimentos da estrutura da caixa-forte antes de terem começado a trabalhar nisto. Por que é que não tinham as mesmas informações em relação à outra?

Eles não podiam fazer o reconhecimento da caixa-forte principal. Não está aberta ao público. Mas pensamos que um deles alugou um cofre na caixa-forte e foi lá dentro para a inspeccionar. Usou um nome falso, claro. Mas, está a ver, podiam inspeccionar uma das caixas-fortes, mas a outra não.

Bosch assentiu com a cabeça e perguntou:

Quanto é que havia na caixa-forte principal?

Assim, de repente, não sei. Devia estar nos relatórios que lhe entreguei. Se não está, está nos outros que estão no Departamento.

Mas mais, certo? Havia mais dinheiro na caixa-forte principal do que os dois ou três milhões em bens que eles tiraram dos cofres.

Acho que deve ter razão.

Está a perceber o que é que lhe estou a dizer? Se eles tivessem entrado na caixa-forte principal, o material teria lá estado em sacos ou pilhas. Ali mesmo à mão para eles o poderem levar. Teria sido mais fácil. Provavelmente, teria havido muito mais dinheiro e muito menos trabalho.

Mas, Harry, nós sabemos isso à posteriori. Quem sabe o que é que eles sabiam quando lá entraram? Se calhar, julgavam que havia muito mais nos cofres. Apostaram e perderam.

Ou talvez tenham ganhado. Ela olhou para ele.

Talvez houvesse outra coisa nos cofres que nós nem sequer imagi-namos. Que ninguém declarou ter sido roubada. Qualquer coisa que fazia com que a caixa-forte dos depósitos fosse um alvo melhor. Que a fizesse valer mais do que a outra.

Se está a pensar em droga, a resposta é não. Pensámos nisso. Pedimos à DEAo para lá ir e levar um dos cães e ele vasculhou todos os cofres abertos. Nada. Nem vestígios de droga. Depois farejou à volta dos cofres que os ladrões não tinham chegado a arrombar e escolheu um. Um dos mais pequenos.

Riu-se por uns instantes e depois continuou:

Por isso, quando arrombámos este cofre que tinha posto o cão maluco, descobrimos cinco gramas de coca num saco. O desgraçado que guardava o seu fornecimento de coca no banco foi preso só porque, por puro acaso, alguém se tinha lembrado de abrir um túnel para entrar lá.

Eleanor voltou a rir-se, mas Bosch achou que era um riso um bocado forçado. A história não tinha assim tanta graça.

Bem, seja como for, o caso contra o tipo foi anulado por um representante do Ministério Público porque disse que tinha sido uma busca ilegal. Tínhamos violado a privacidade do tipo quando arrombámos o cofre sem um mandado.

Bosch saiu da auto-estrada para a cidade de Ventura e continuou para norte.

Continuo a gostar da teoria da droga, apesar do cão disse ele ao fim de um quarto de hora de silêncio. Eles não são infalíveis, esses cães. Se a coisa estivesse bem empacotada e os ladrões a levaram, podia não ter deixado nenhum vestígio. Um par de cofres com coca lá dentro e o crime começa a valer a pena.

A próxima pergunta vai ser sobre as listas dos clientes, certo? perguntou ela.

Certo.

Bem, nós tivemos um trabalhão com isso. Investigámos toda a gente, chegando mesmo a investigar as compras das coisas que eles diziam que estavam nos cofres. Não descobrimos quem assaltou o banco, mas, provavelmente, poupámos às companhias de seguros do banco uns dois milhões por não terem de pagar por coisas que foram dadas como rou-badas e que nunca tinham existido.

Bosch parou numa bomba de gasolina para poder tirar um mapa debaixo do banco e procurar o caminho para a Charlie Company. Ela continuou a defender as investigações do FBI.

 

DEA Drug Enforcement Administration. (N. T.)

 

A DEA investigou todos os nomes na lista dos donos dos cofres e não descobriu nada. Nós introduzimos os nomes no NCIC. Encontrámos alguns nomes, mas nada de sério, a maior parte eram coisas antigas. Soltou mais uma daquelas gargalhadinhas falsas. Um dos donos de um dos cofres maiores tinha uma condenação por pornografia com crianças nos anos setenta. Tinha cumprido pena em Soledad. Bem, depois do assalto ao banco, foi contactado, mas disse que não lhe tinham rou-bado nada, disse que tinha esvaziado o cofre há pouco tempo. Mas dizem que os pedófilos nunca se conseguem separar dos seus materiais, das fotografias e dos filmes, até mesmo das cartas escritas sobre os garotos. E no banco não havia nenhum registo de ele ter ido ao cofre nos dois últimos meses antes do roubo. Por isso, calculámos que o cofre lhe servia para guardar a colecção. Mas, de qualquer maneira, aquilo não tinha nada a ver com o crime. Nada do que descobrimos tinha.

Bosch descobriu o caminho no mapa e saiu da bomba de gasolina A Charlie Company ficava na zona dos pomares. Pensou na história dela sobre o pedófilo. Havia qualquer coisa que não lhe soava bem. Revolveu-a na cabeça, mas não descobriu o que era. Deixou-a ficar a pairar e passou para outra pergunta.

Por que é que nunca se recuperou nada? Todas aquelas jóias, acções e obrigações e não aparece nada, excepto uma pulseira. Nem sequer nenhuma das outras coisas sem valor que foram levadas.

Estão a guardá-las até se sentirem seguros respondeu Eleanor.

Foi por isso que o Meadows foi liquidado. Saiu da linha e empenhou a pulseira antes de o poder ter feito, se calhar antes de todos concor-darem que já não havia perigo. Eles descobriram que ele a tinha vendido. Ele não quis dizer aonde e eles deram-lhe choques eléctricos até ele falar. E depois mataram-no.

E, por coincidência, sou eu que sou chamado.

Acontece.

Há qualquer coisa nessa história que não está certa disse Bosch.

Começamos com o Meadows a ser espremido, torturado, certo? Ele diz-lhes o que eles querem, eles injectam-no no braço com uma carga valente e vão buscar a pulseira à loja de penhores. Certo?

Certo.

Mas, está a ver, isso não funciona. Eu tenho a cautela. Estava escondida. Por isso, ele não a deu e eles tiveram que assaltar a loja e levar a pulseira, disfarçando o que queriam levando outras coisas. Por isso, se ele não lhes deu a cautela, como é que eles souberam onde é que estava a pulseira?

Penso que ele lhes disse respondeu Eleanor.

Não me parece. Não o vejo a dar uma coisa e a não dar a outra. Não tinha nada a ganhar por guardar a cautela. Se eles conseguiram arrancar-lhe o nome da loja, também teriam conseguido o papel.

Então, você está a dizer que ele morreu antes de lhes dizer fosse o que fosse. E eles já sabiam que a pulseira tinha sido empenhada.

Certo. Eles torturaram-no para conseguirem a cautela, mas ele resistiu, não cedeu. Mataram-no. Depois livraram-se do corpo e revolveram a casa. Mas continuaram a não encontrar o papel. Por isso, assal-taram a loja de penhores como se fossem ladrões de terceira categoria. A pergunta é: se o Meadows não lhes disse onde é que tinha empenhado a pulseira e eles não descobriram a cautela, como é que sabiam onde é que ela estava?

Harry, isso é especulação em cima de especulação.

E o que os chuis fazem.

Bem, não sei. Podem ter sido uma data de coisas. Eles podiam andar a seguir o Meadows porque não confiavam nele e viram-no entrar na loja. Podem ter sido uma data de coisas.

E pode ser que eles tivessem tido uma pessoa, um chui, por exemplo, que viu a pulseira nas folhas mensais das casas de penhores e lhes disse. As folhas vão para todos os departamentos da polícia do país.

Acho que esse tipo de especulação é irresponsável.

Tinham chegado. Bosch reduziu a velocidade numa entrada de cascalho por baixo de um letreiro de madeira com uma grande águia verde lá pintada e as palavras Charlie Company. O portão estava aberto e eles seguiram por uma estrada de cascalho com valas de irrigação de ambos os lados. A estrada dividia a quinta, tomates do lado direito e aquilo que pareciam pimentos do lado esquerdo. Mais à frente, havia um enorme celeiro com os lados em alumínio e uma casa baixa ao estilo dos ranchos. Atrás deles, Bosch viu um pomar de árvores de abacate. Entraram numa zona de estacionamento circular em frente da casa e Bosch desligou o motor.

Um homem com um avental branco que estava tão limpo como a cabeça rapada dele apareceu à porta de rede da entrada da frente.

O senhor Scales está? perguntou Bosch.

O coronel Scales? Não, não está, mas são quase horas do almoço. Nessa altura, ele volta dos campos.

O homem não os convidou a entrar para saírem do Sol e, por isso, Bosch e Eleanor voltaram para trás e sentaram-se no carro. Poucos minutos depois, chegou uma empoeirada carrinha pickup branca. Tinha uma águia dentro de uma grande letrapintada na porta do condutor. Saíram três homens da cabina e mais seis saltaram das traseiras. Moveram-se rapidamente para a casa. Iam dos trinta e tais aos quarenta e muitos. Vestiam calças da tropa verdes e T-shirts brancas, ensopadas de suor. Nenhum trazia bandana, óculos escuros ou mangas arregaçadas. Nenhum tinha o cabelo mais comprido do que meio centímetro. Os homens brancos estavam tão queimados que pareciam de madeira castanha manchada. O condutor, com o mesmo uniforme, mas com pelo menos mais dez anos, parou e deixou que os outros entrassem. Enquanto ele se aproximava, Bosch deu-lhe sessenta e poucos anos, mas era um tipo quase tão sólido como tinha sido aos vinte. O cabelo, o que se podia ver no crânio cintilante, era branco e a pele parecia casca de noz. Calçava luvas escuras.

Desejam alguma coisa? perguntou ele.

Coronel Scales? disse Bosch.

Exactamente. São da polícia?

Bosch assentiu e fez as apresentações. Scales não pareceu muito im-pressionado, mesmo com a menção do FBI.

Lembra-se que aqui há uns sete, oito meses, o FBI lhe pediu informações sobre um William Meadows que esteve algum tempo cá? perguntou Eleanor Wish.

Claro que me lembro. Lembro-me de todas as vezes que a vossa gente telefona ou aparece por cá a fazer perguntas sobre os meus rapazes. Não gosto nada, por isso lembro-me. Querem informações sobre o Billy? Ele está metido nalgum sarilho?

Agora já não está respondeu Bosch.

O que é que isso quer dizer? perguntou Scales. Até parece que está a dizer que ele morreu.

Não sabia? perguntou Bosch.

Claro que não. Conte-me o que é que lhe sucedeu.

Bosch pensou que via uma expressão de genuína surpresa e depois uma breve sombra de tristeza passou pelo rosto de Scales. A notícia tinha doído.

Foi encontrado morto há três dias em L. A. Homicídio. Pensamos que está relacionado com um crime em que ele esteve envolvido no ano passado e de que o senhor deve ter ouvido falar quando o FBI o contactou.

Aquela coisa do túnel? No banco de L.A.? perguntou ele. Sei aquilo que o FBI me contou. Mais nada.

Tudo bem disse Eleanor Wish. O que precisamos de si é uma informação mais completa sobre quem aqui estava na altura do Meadows. Já cobrimos isto anteriormente, mas estamos a fazer uma reverificação, à procura de qualquer coisa que possa ajudar. Está disposto a cooperar connosco?

Eu coopero sempre com vocês. Não gosto porque metade das vezes acho que vocês têm informações erradas. A maior parte dos meus rapazes, quando eles saem daqui, não voltam a pisar o risco. Temos um bom recorde aqui. Se o Meadows fez aquilo que estão a dizer que ele fez, é a excepção.

Nós compreendemos isso disse ela. E isto será estritamente confidencial.

Está bem, venham para o meu gabinete e podem perguntar tudo o que quiserem.

Quando entraram pela porta da frente, Bosch viu duas mesas compridas naquilo que provavelmente era a sala do rancho. Cerca de vinte homens estavam sentados à frente de pratos com o que parecia serem bifes fritos de frango e montes de vegetais. Nenhum olhou para Eleanor Wish. Isto porque estavam a dar graças silenciosamente, com as cabeças baixas, olhos fechados, mãos postas. Bosch viu tatuagens em quase todos os braços. Quando acabaram a oração, um coro de garfos bateu nos pratos. Uns quantos dos homens tiraram então algum tempo para olhar apre-ciadoramente para Eleanor. O homem de avental que tinha vindo à porta anteriormente, estava agora parado à porta da cozinha.

Coronel, o senhor vai comer com os homens hoje? perguntou ele. Scales assentiu, dizendo:

Estou despachado dentro de poucos minutos.

Percorreram um corredor e entraram pela primeira porta num gabinete que devia ter sido um quarto de dormir. Estava atravancado com uma secretária com um tampo do tamanho de uma porta. Scales apontou para duas cadeiras à frente dela e Bosch e Eleanor sentaram-se enquanto ele se instalava no enorme cadeirão estofado atrás da secretária.

Ora bem, eu sei exactamente o que sou obrigado por lei a dizer-vos e aquilo de que nem sequer sou obrigado a falar-vos. Mas estou disposto a fazer mais se isso ajudar e se chegarmos a um acordo. O Meadows... Eu a modos que sabia que ele ia acabar como vocês dizem que acabou.

Rezei ao Bom Deus que o guiasse, mas sabia. Vou ajudar-vos. Ninguém deve tirar uma vida num mundo civilizado. Absolutamente ninguém.

Coronel começou Bosch, agradecemos a sua ajuda. Quero que saiba, primeiro que tudo, que sabemos o tipo de trabalho que o senhor tem feito aqui. Sabemos que tem o respeito e o apoio tanto das autori-dades estaduais como das autoridades federais. Mas a nossa investigação do caso Meadows leva-nos a concluir que ele estava envolvido numa conspiração com outros homens que tinham as mesmas capacidades do que ele e...

Está a dizer que eram veteranos interrompeu Scales. Estava a encher um cachimbo com tabaco de uma caixa em cima da secretária.

Possivelmente. Ainda não os identificámos, por isso, não podemos ter a certeza. Mas se for esse o caso, parece que há a possibilidade dos conspiradores se terem encontrado aqui. Sublinho a palavra possibilidade. Por conseguinte, há duas coisas que queremos do senhor. Poder ver os registos que ainda tem do Meadows e uma lista de todos os homens que aqui estavam durante os dez meses que ele esteve cá.

Scales estava a calcar o cachimbo e, aparentemente, não ligou nenhuma ao que tinha sido acabado de dizer. Por fim, disse:

Não há qualquer problema com os registos dele... está morto. Por outro lado, suponho que deveria telefonar ao meu advogado para ter a certeza que posso fazer isso. Temos um bom programa aqui. E vegetais e dinheiro do estado, mas o FBI não cobre nada disto. Dependemos das dízimas da comunidade, das organizações cívicas, coisas assim. A má publicidade secará esse dinheiro mais depressa do que um vento de Santa Ana. Vou ajudar-vos, vou arriscar. O outro risco é perder a confiança dos homens que vêm para aqui para terem uma segunda oportunidade. Estão a ver, a maior parte desses homens que estava cá quando o Meadows estava, eles criaram vidas novas. Já não são criminosos. Se eu me ponho a dar os nomes deles a todos os chuis que aparecem, isso não dará uma imagem muito bonita do meu programa, pois não?

Coronel Scales, não temos tempo para pormos advogados a analisar isto disse Bosch. É um caso de homicídio. Precisamos destas informações. O senhor sabe que as podemos obter se formos para os departamentos estaduais e federais, mas isso ainda levaria mais tempo que o seu advogado. Também podemos conseguir tudo com uma intimação, mas pensámos que uma cooperação mútua seria o melhor. Estaremos muito mais dispostos a ser brandos se tivermos a sua cooperação.

Scales não se mexeu e, mais uma vez, pareceu não estar a ouvir. Um anel de fumo azul rodopiou como um fantasma do fornilho do cachimbo.

Estou a ver disse ele, por fim. Nesse caso, o melhor é eu ir buscar esses arquivos, não é verdade?

Levantou-se e dirigiu-se para uma fila de armários de arquivos beiges que forravam a parede atrás da secretária. Escolheu uma gaveta com as letras N-N-O e depois de uma curta busca tirou um ficheiro fino. Deixou-o cair em cima da secretária ao pé de Bosch.

Esse é o processo do Meadows disse ele. Agora vamos ver que mais é que podemos encontrar aqui.

Foi à primeira gaveta, que não tinha nada escrito no cartão da ranhura. Foi correndo os processos sem tirar nenhum para fora. Por fim, escolheu um e sentou-se com ele.

Podem ler esse ficheiro à vontade e eu posso fazer-lhes cópias de qualquer coisa que precisem dele disse Scales. Este é o meu organi-grama principal relativo às pessoas que passam por cá. Posso fazer-lhes uma lista de todas as pessoas que o Meadows cá pode ter conhecido. Suponho que precisem de DNs e PINs?

Seria uma grande ajuda, obrigado disse Eleanor.

Levaram apenas quinze minutos a ler todo o processo de Meadows. Ele tinha iniciado uma correspondência com Scales no ano anterior a ser libertado de TI. Tinha o apoio de um capelão e de um conselheiro interno que o conhecia porque ele tinha sido destacado para a manutenção do gabinete das admissões e colocações da prisão. Numa das cartas, Meadows descrevera os túneis em que tinha estado no Vietname e como se tinha sentido atraído pela sua escuridão.

«A maior parte dos outros tipos tinham medo de descer lá para dentro», escreveu ele. «Eu queria ir. Nessa altura não sabia porquê, mas, agora, penso que estava a testar os meus limites. Mas a realização pessoal que obtive disso era falsa. Eu era tão oco como o chão onde estávamos a lutar. A realização pessoal que agora tenho está em Jesus Cristo e em saber que Ele está comigo. Se me derem oportunidade e com a orienta-ção Dele, desta vez sou capaz de fazer as escolhas certas e deixar estas grades para trás para sempre. Quero passar do chão oco para o chão consagrado.»

Piroso, mas bastante sincero, acho eu disse Eleanor.

Scales levantou os olhos da secretária onde estava a escrever nomes, datas de nascimento e os números de identificação da prisão numa folha de papel amarelo.

Era sincero disse ele numa voz que sugeria que não havia outra alternativa. Quando o Billy Meadows saiu daqui, eu pensava, acreditava sinceramente que ele estava preparado para o exterior e que tinha largado as antigas alianças com as drogas e o crime. É óbvio que voltou a cair nessas tentações. Mas duvido que vocês os dois encontrem aqui aquilo de que andam à procura. Eu dou-vos estes nomes, mas eles não os vão ajudar.

Veremos respondeu Bosch.

Scales voltou para a sua escrita e Bosch observou-o. Estava demasiado consumido pela sua fé e lealdade para ver que podia ter sido usado. Bosch acreditava que Scales era bom homem, mas um homem que era talvez demasiado rápido a ver as suas crenças e esperanças noutra pessoa, numa pessoa como o Meadows, por exemplo.

Coronel, o que é que o senhor ganha com isto tudo? perguntou Bosch.

Desta vez, ele pousou a caneta, ajustou o cachimbo no maxilar cerrado, cruzou as mãos e respondeu:

Não é o que eu ganho. É o que o Senhor ganha.

Voltou a agarrar na caneta, mas depois ocorreu-lhe outra ideia.

Sabe, estes rapazes estavam destruídos de tantas maneiras quando regressaram. Eu sei, é uma história velha e já toda a gente a ouviu, toda a gente viu os filmes. Mas estes homens tiveram de a viver. Milhares regressaram e marcharam, literalmente, para as prisões. Um dia, estava a ler sobre isso e perguntei para comigo como teria sido se não tivesse havido uma guerra e estes rapazes nunca se tivessem ido embora. Teriam ficado em Omaha, em Los Angeles, em Jacksonville, New Ibéria e sei lá que mais. Teriam continuado a ir parar à prisão? Teriam dado em desalojados, vagabundos e casos mentais? Drogados?

«Para a maioria deles, duvido. Foi a guerra que lhes fez isso, que os empurrou para o mau caminho. Puxou com toda a força no cachimbo apagado. Por isso, tudo o que eu faço, com a ajuda da terra e de alguns livros de orações, é tentar voltar a meter dentro deles aquilo que a experiência do Vietname lhes tirou. E sou bastante bom nisso. É por isso que vos estou a dar esta lista, a deixar-vos ler esse dossier. Mas não estraguem o que nós aqui temos. Vocês os dois sentem uma desconfiança natural em relação se o que se passa aqui está certo. É saudável para pessoas na vossa posição. Mas tenham cuidado com o que há de bom aqui. Detective Bosch, o senhor parece-me ter a idade certa, também lá esteve?

Bosch assentiu com a cabeça e Scales disse:

Então sabe.

Voltou a concentrar-se na lista. Sem levantar os olhos, perguntou:

Querem fazer-nos companhia para o almoço? Os vegetais mais frescos do país na nossa mesa.

Eles recusaram e levantaram-se depois de Scales ter entregue a Bosch a lista com os nomes dos vinte e quatro homens que tinha encontrado. Quando Bosch se virou para a porta, hesitou e perguntou:

Coronel, importa-se que eu lhe pergunte que outros veículos tem aqui na quinta? Já vi a carrinha.

Não nos importamos que pergunte porque não temos nada a esconder. Temos mais duas carrinhas de caixa aberta iguais àquela, dois John Deeres e um veículo de tracção às quatro rodas.

Que tipo de veículo de tracção às quatro rodas?

Um jipe.

E de que cor?

Branco. Porquê? Passa-se alguma coisa?

Estou apenas a tentar clarificar umas coisas. Mas calculo que o jipe tem o emblema da Charlie Company na porta, tal como a carrinha?

Exactamente. Todos os nossos veículos estão identificados. Quando vamos a Ventura, temos orgulho no que conseguimos realizar. Queremos que as pessoas saibam de onde vêm os vegetais.

Bosch não olhou para os nomes da lista até estar dentro do carro. Não reconheceu nenhum, mas reparou que Scales tinha escrito as letras PH a seguir a oito dos vinte e quatro nomes.

O que é que isso quer dizer? perguntou Eleanor quando se inclinou para também ver a lista.

Purple Heart1 respondeu Bosch. Mais uma maneira de dizer para termos cuidado, acho eu.

E quanto ao jipe? perguntou ela. Ele disse que é branco e que tem um emblema na porta.

Viu como a carrinha estava suja. Um jipe branco sujo, podia ter parecido beige. Se for o jipe certo.

Ele não tem nada o tipo. O Scales. Parece-me honesto.

Se calhar é. Se calhar são as pessoas a quem ele empresta o jipe. Não quis insistir no assunto até sabermos mais.

 

Medalha atribuída a um membro das forças armadas americanas que foi ferido em combate. (N. T.)

 

Pôs o carro a trabalhar desceram a estrada de cascalho até ao portão. Bosch abriu a janela. O céu estava da cor de jeans desbotados e o ar era invisível e limpo e cheirava a pimentos verdes frescos. Mas não por muito tempo, pensou Bosch. Agora vamos voltar para a porcaria.

No caminho de volta à cidade, Bosch desviou-se da auto-estrada de Ventura e seguiu para sul pelo Malibu Canyon até ao Pacifico. Iam levar mais tempo, mas o ar limpo era como uma droga. Ele queria tê-lo durante o mais tempo possível.

Quero ver a lista das vítimas disse ele depois de terem percorri-do o desfiladeiro sinuoso e a superfície azul do oceano já se avistar ao longe. Aquele pedófilo que referiu. Há qualquer coisa nessa história que me está a chatear. Por que é que eles haviam de levar a colecção de garotos do tipo?

Harry, vá lá, não vai sugerir que foi uma razão, que estes tipos escavaram um túnel durante semanas e depois fizeram explodir o chão da caixa forte de um banco para roubar uma colecção de pornografia de miúdos?

Claro que não. Mas é isso que me levanta a questão. Por que é que eles levaram a coisa?

Bem, se calhar queriam-na. Se calhar um deles era pedófilo e gostou. Quem sabe?

Ou talvez fizesse tudo parte do disfarce. Levar tudo de todos os cofres que rebentaram para esconder o facto de que aquilo que eles real-mente queriam era um cofre só. Sabe como é, uma maneira de esborratar o quadro, por assim dizer, arrombando dúzias de cofres. Mas o alvo foi sempre qualquer coisa que estava num só cofre. O mesmo princípio do assalto à loja de penhores: levar uma data de jóias para esconder que só queriam a pulseira.

Mas com a caixa-forte, eles queriam qualquer coisa que depois não iria ser declarada como roubada. Qualquer coisa que não podia ser declarada como roubada porque iria meter o dono numa alhada grave. Como com o pedófilo. Quando lhe roubaram o material, o que é que ele podia dizer? Era de uma coisa desse género que os ladrões andavam à procura, só que muito mais valiosa. Qualquer coisa que faria com que assaltar a caixa-forte dos depósitos fosse muito mais interessante do que assaltar a caixa-forte, propriamente dita.

Qualquer coisa que fez com que se tornasse necessário matar o Meadows quando ele pôs em perigo toda a operação ao empenhar a pulseira.

Ela estava calada. Bosch olhou para ela, mas por trás dos óculos escuros, ela era impenetrável.

Parece-me que está outra vez a falar de drogas disse ela passado um bocado.E o cão disse que não havia drogas. A DEA não encontrou nenhumas ligações na nossa lista de clientes.

Talvez sejam drogas ou talvez não. Mas é por isso que devemos voltar a olhar para a lista dos donos dos cofres. Eu quero ver a lista. Quero ver se há alguma coisa que me faça ver luz. As pessoas que não declararam nada roubado. E por elas que quero começar.

Eu arranjo a lista. De qualquer das maneiras, não temos mais nada que fazer.

Bem, temos de ver estes nomes que o Scales nos deu disse Bosch.

Estava a pensar em levarmos as fotografias ao Sharkey.

Bem, acho que vale a pena tentar. Pelo menos, estamos a tentar.

Não sei. Acho que o rapaz está a esconder qualquer coisa. Penso que ele é capaz de ter visto uma cara naquela noite.

Deixei um memorando ao Rourke sobre a hipnose. Provavelmente, ele vai dizer-nos alguma coisa hoje ou amanhã.

Apanharam a Pacific Coast Highway que contornava a baía. A névoa da poluição tinha sido empurrada para terra e estava suficientemente límpido para se poder ver Catalina Island. Pararam no Aliceos Restaurante para almoçar e, uma vez que já era tarde, havia uma mesa livre ao pé da janela. Eleanor Wish pediu um chá gelado e Bosh uma cerveja.

Costumava vir a este cais quando era miúdo contou-lhe Bosch.

Eles metiam-nos num autocarro e levavam-nos a passear. Nessa época, havia uma loja de isco lá na ponta. Eu costumava pescar olhos de boi.

Miúdos do DYS1?

Sim. Bem, não. Nessa altura, chamava-se DPS2. Departamento dos Serviços Públicos. Há alguns anos atrás, compreenderam finalmente que precisavam de um departamento inteiro para os miúdos, por isso apareceram com o DYS.

Ela olhou pela janela do restaurante para a ponta do cais. Sorriu com as recordações dele e ele perguntou-lhe onde é que estavam as dela.

Por todo o lado. O meu pai era militar. Nunca passei mais de dois anos no mesmo sítio. Por isso, as minhas recordações não são de lugares, mas de pessoas.

 

DYS Department of Youth Services. (N. T.) DPS Department of Public Services. (N. T.)

 

Você e o seu irmão eram muito chegados? perguntou-lhe Bosch.

Sim, como sempre fora com o meu pai. Ele estava sempre lá. Até que se alistou e foi-se embora para sempre.

Trouxeram as saladas para a mesa e eles comeram um bocadinho, tagarelaram um bocadinho e depois, a determinada altura, entre a empregada ter tirado os pratos da salada e ter posto os pratos para o almoço, ela contou-lhe a história do irmão.

Todas as semanas ele escrevia-me de lá e todas as semanas me dizia que tinha medo, que queria voltar para casa disse ela. Não era uma coisa que ele pudesse dizer ao nosso pai, ou à nossa mãe. Mas a índole do Michael não era para aquilo. Nunca devia ter ido. Foi por causa do nosso pai. Não teve coragem para lhe dizer que não, mas teve coragem de ir para lá. Não faz sentido. Já alguma vez ouviu uma coisa tão estúpida?

Bosch não respondeu porque já tinha ouvido histórias semelhantes, incluindo a sua. E ela pareceu parar ali. Ou não sabia o que é que tinha acontecido ao irmão ou não queria contar os pormenores.

Passado um bocado, ela perguntou:

Por que é que você foi, Harry?

Ele já estava à espera da pergunta, mas em toda a sua vida nunca tinha sido capaz de lhe dar uma resposta verdadeira, nem sequer a si próprio.

Não sei. Não tinha escolha. A vida institucional, como você mesma já disse. Eu não ia para a universidade. Nunca cheguei a pensar seria-mente no Canadá. Acho que teria sido mais difícil ir para lá do que deixar-me recrutar e ir para o Vietname. E depois, em sessenta e oito, pode-se dizer que ganhei a lotaria do recrutamento. O meu número era tão baixo que eu sabia que ia ter de ir. Por isso, achei que iria ser mais esperto do que eles alistando-me, pensei que iria escolher o que queria.

E depois?

Bosch soltou uma pequena gargalhada, da mesma maneira arti-ficial como ela tinha rido anteriormente.

Entrei, fiz a recruta e aquelas tretas todas e depois chegou a altura de tomar uma decisão e escolhi a infantaria. Ainda hoje não percebo por-quê. Eles conseguem caçar-nos naquela idade, sabe? Somos invencíveis. Mal lá cheguei, ofereci-me para a brigada dos túneis. Foi assim uma coisa do género da carta que o Meadows escreveu ao Scales. Uma pessoa faz coisas que nunca irá conseguir entender. Sabe o que é que eu quero dizer?

Acho que sim disse ela. E quanto ao Meadows? Ele teve oportunidades para se ir embora e nunca o fez, continuou até mesmo ao fim. Por que é que alguém havia de querer ficar sem ser obrigado?

Havia muitos assim disse Bosch. Acho que não era nem vulgar nem invulgar. Alguns simplesmente não queriam abandonar aquelas paragens. Meadows era um deles. Também pode ter sido uma decisão comercial.

Está a referir-se às drogas?

Bem, eu sei que ele andava a consumir heroína quando lá estava. Sabemos que a estava a consumir e a vender depois, quando voltou para cá. Por isso, se calhar, quando lá estava, envolveu-se no tráfico e depois não quis abandonar uma coisa boa. Há muita coisa que aponta para isso. Ele foi transferido para Saigão depois de o terem tirado dos túneis. Saigão devia ter sido o sítio certo para estar, especialmente com a liberdade de movimentos dada pela embaixada que ele devia ter como PM. Saigão era a cidade do pecado. Prostitutas, haxixe, heroína. Era um mercado livre. Houve uma data de gente que se meteu nisso. A heroína deve-o ter feito ganhar bom dinheiro, especialmente se ele tivesse um plano, uma maneira de trazer alguma para cá.

Ela ia empurrando com o garfo bocados do peixe vermelho que não ia comer.

É injusto disse ela. Ele não queria voltar. Alguns dos rapazes queriam voltar, mas nunca tiveram oportunidade.

Sim, nunca houve nada de justo naquele lugar.

Bosch voltou-se e olhou pela janela para o oceano. Havia quatro surfistas com fatos de um vermelho brilhante a montar uma onda.

E a seguir à guerra, você foi para a polícia.

Bem, andei por aí durante algum tempo e depois entrei para o departamento. Naquela altura, parecia que a maior parte dos veteranos que eu conhecia, tal como o Scales disse hoje, ou iam para a polícia ou para as penitenciárias.

Não sei, Harry. Você parece um tipo solitário. Um detective particular, não um homem que tem de receber ordens de homens por quem não sente respeito.

Já não há operadores privados. Toda a gente recebe ordens... Mas todas estas coisas a meu respeito estão nos ficheiros. Você sabe isto tudo.

Nem tudo sobre uma pessoa pode ser registado no papel. Não é isso que você diz?

Ele sorriu enquanto a empregada levantava a mesa. Perguntou:

E quanto a si? Qual é a sua história com o FBI?

Muito simples, para dizer a verdade. Justiça criminal como especialização, contabilidade como sub-especialização, recrutada da Penn State.

Boas gratificações, bons subsídios, mulheres muito procuradas e valori-zadas. Nada de original.

Porquê a brigada dos bancos? Pensava que o caminho mais rápido era anti-terrorismo, coisas relacionadas com a administração, até mesmo drogas. Mas não a brigada pesada.

Fiz essa coisa da administração durante cinco anos. Também estive em DC, o sítio certo para se estar. O problema é que o rei ia nu, era tudo muito, muito chato. Sorriu e abanou a cabeça. Percebi que a única coisa que queria ser era polícia. Por isso, foi nisso que me tornei. Transferi-me para a primeira boa unidade de rua em que apareceu uma vaga. L.A. é a capital dos assaltos aos bancos do país. Quando apareceu uma vaga cá, puxei das minhas competências e consegui a transferência. Pode chamar-me dinossauro, se quiser.

E demasiado bonita para isso.

Apesar do bronzeado intenso, Bosch percebeu que o comentário a tinha embaraçado. Também o embaraçou a ele, ter-lhe escapado assim.

Desculpe disse ele.

Não. Não, foi simpático. Obrigada.

Bem, é casada, Eleanor? perguntou ele e ficando imediatamente todo vermelho, lamentando a sua falta de subtileza.

Ela sorriu com a atrapalhação dele.

Fui. Mas há muito tempo. Bosch assentiu com a cabeça.

Não tem nada... e o Rourke? Vocês os dois parecem...

O quê? Está a brincar?

Desculpe.

Desataram os dois a rir e depois continuaram com sorrisos e um longo e confortável silêncio.

Depois do almoço, passearam pelo cais indo até ao local onde, noutros tempos, Bosch estivera parado com uma cana de pesca na mão. Não havia ninguém a pescar. Vários dos edifícios no final do cais estavam abandonados. Na superfície da água ao pé de um dos pilares via-se o brilho de um arco-íris. Bosch reparou que os surfistas se tinham ido embora. Se calhar, os miúdos estavam todos na escola, pensou Bosch. Ou talvez já não se pescasse ali. Se calhar os peixes recusavam-se a vir até tão dentro da baía envenenada.

Há muito tempo que não vinha aqui disse ele a Eleanor. Encostou-se ao parapeito, os cotovelos na madeira rasgada por um milhar de facas para isco. As coisas mudam.

Regressaram ao Federal Building a meio da tarde. Eleanor Wish investigou os nomes e os números de identificação dos presos que Scales lhes dera no NCIC e nos computadores do departamento de justiça e pediu por fax fotografias da polícia de vários prisioneiros do estado. Bosch agarrou na lista dos nomes e telefonou para os arquivos militares dos Estados Unidos em St. Louis, pedindo para falar com Jessie St. John, a mesma funcionária com quem tinha tratado na segunda-feira de manhã. Ela disse-lhe que o ficheiro sobre William Meadows que Bosch lhe pedira já ia a caminho. Bosch não lhe disse que já tinha lido a cópia do FBI. Em vez disso, convenceu-a a ir buscar ao computador os nomes que ele tinha e a dar-lhe as biografias básicas de cada homem. Reteve-a até bastante depois do final do seu turno de trabalho às cinco horas de St. Louis. Mas ela disse-lhe que queria ajudar.

Às cinco horas de L.A., Bosch e Eleanor tinham vinte e quatro fotografias acompanhadas de curtos resumos dos registos militares e prisionais dos homens. Nada do que ali tinham saltou da secretária de Eleanor e atingiu qualquer deles na cabeça. Quinze dos homens tinham prestado serviço no Vietname durante o período em que Meadows lá tinha estado. Onze deles eram do exército dos Estados Unidos. Nenhum deles fora rato dos túneis, embora quatro fossem do Primeiro de Infantaria e tivessem estado com Meadows durante a primeira fase deste. Havia dois outros que tinham sido PMs em Saigão.

Concentraram-se nos registos do NCIC dos seis soldados que tinham pertencido ao Primeiro de Infantaria ou que tinham sido da polícia militar. Só os PMs é que tinham cadastro por assaltos a bancos. Bosch procurou nas fotografias e tirou a desses dois para fora. Olhou atentamente para as caras, meio à espera de obter uma confirmação da parte daqueles olhares duros e desinteressados que eles tinham voltado para as câmaras fotográficas.

Gosto destes dois disse ele.

Chamavam-se Art Franklin e Gene Delgado. Ambos tinham moradas de Los Angeles. No Vietname, tinham feito as duas comissões em Saigão, mas em unidades da PM diferentes. E não com a da embaixada a que o Meadows tinha estado ligado. Mas, de qualquer das maneiras, estavam na mesma cidade. Ambos tinham sido desmobilizados em 1973-mas, tal como Meadows, tinham continuado no Vietname como conselheiros militares civis. Ficaram lá até ao fim, Abril de 1975. Não havia a menor dúvida na cabeça de Bosch. Os três homens Meadows, Franklin e Delgado já se conheciam antes de se terem encontrado na Charlie Company no Condado de Ventura.

Já nos EU, a seguir a 1975, Franklin meteu-se numa série de assaltos em San Francisco e foi posto à sombra durante cinco anos. Foi condenado pelo crime federal de assalto a um banco em Oakland em 1984 e estava na TI ao mesmo tempo que Meadows. Foi em liberdade condicional para a Charlie Company dois meses antes de Meadows deixar o programa. Delgado era estritamente um criminoso estadual; três acusações por assalto em L.A., de que se conseguiu safar com uma pena na cadeia do condado, depois uma tentativa de assalto a um banco em Santa Ana em 1985. Declarou-se culpado perante um tribunal estadual depois de ter conseguido um acordo com as autoridades federais. Foi para Soledad, saindo em 1985 e chegando à Charlie Company três meses antes de Meadows. Saiu da Charlie Company um dia depois de Franklin chegar.

Um dia disse Eleanor. Isto quer dizer que eles os três só estiveram juntos na Charlie Company durante um dia.

Bosch olhou para as fotografias e para as descrições que as acompanhavam. Franklin era o maior dos dois. Um metro e oitenta, oitenta e seis quilos, cabelo escuro. Delgado era magro, um metro e sessenta e cinco, sessenta e cinco quilos. Cabelo escuro, também. Bosch observou atentamente as caras dos dois homens ao mesmo tempo que pensava nas descrições dos homens no jipe que tinham largado o cadáver de Meadows.

Vamos falar com o Sharkey disse ele passado um bocado. Telefonou para a Home Street Home e disseram-lhe o que ele já sabia que lhe iam dizer. O Sharkey tinha-se ido embora. Bosch tentou o Blue Chateau e uma voz velha e cansada disse-lhe que Sharkey e o seu bando tinham-se mudado ao meio-dia. A mãe desligou-lhe o telefone quando percebeu que ele não era um cliente. Eram quase sete horas. Bosch disse a Eleanor que tinham de voltar para as ruas para o encontrarem. Ela respondeu-lhe que iria ela a guiar. Passaram as duas horas seguintes em West Hollywood, quase sempre no corredor do Santa Monica Boulevard. Mas não havia sinais de Sharkey nem da mota acorrentada a um parquímetro. Interpelaram uns carros patrulhas do xerife e explicaram de quem andavam à procura, mas nem sequer aqueles pares de olhos extra ajudaram. Pararam junto do passeio do Oki Dog e Bosch pensou que, se calhar, o rapaz tinha voltado para casa da mãe e ela tinha desligado o telefone para o proteger.

Quer dar um passeio até Chatsworth? perguntou a Eleanor.

Por muito que eu gostasse de ver essa bruxa que você me diz que o Sharkey tem como mãe, estava a pensar era em dar o dia por terminado. Podemos encontrar o Sharkey amanhã. Que tal irmos ter aquele jantar que não tivemos a noite passada?

Bosch queria apanhar Sharkey, mas também a queria apanhar a ela. Eleanor tinha razão, havia sempre um amanhã.

Parece-me bem respondeu ele. Onde é que lhe apetece ir?

A minha casa.

Eleanor Wish vivia numa casa geminada de renda controlada que ela subalugava e que ficava a dois quarteirões da praia de Santa Monica. Estacionaram no passeio à frente da casa e, enquanto entravam, ela disse a Bosch que, embora vivesse perto, se quisesse ver o oceano tinha de ir até à varanda do quarto, inclinar-se toda e olhar para a direita até ao fundo do Ocean Parle Boulevard. Podia-se então ver uma nesga do Pacífico entre duas torres de um condomínio que tapava a marginal. Desse ângulo, acrescentou ela, ele também podia ver para dentro do quarto do vizinho da casa ao lado. O vizinho era um actor de televisão caído em desgraça que tinha dado em traficantezeco de drogas com uma procissão interminável de mulheres a entrar-lhe pelo quarto. Acabava por dar cabo da vista, por assim dizer, comentou ela. Disse a Bosch para se sentar na sala enquanto ela tratava do jantar.

Se gosta de jazz, tenho aí um CD que comprei há pouco tempo, mas que ainda não tive tempo para ouvir.

Ele dirigiu-se para a aparelhagem estereofónica, que estava arrumada em prateleiras ao pé de uma estante de livros fechada, e agarrou no CD novo. Era Falling in Love with Jazz, de Rollins e Harry sorriu para consigo porque tinha um igual em casa. Era um elo de ligação agra-dável. Abriu a caixa, pôs a música a tocar e começou a olhar em volta da sala. Havia pequenos tapetes em tons pastel e cobertas de cores claras na mobília. Havia livros de arquitectura e revistas sobre casas espalhados em cima de uma mesinha de tampo de vidro em frente de um sofá azul-claro. Estava tudo muito arrumado e limpo. Um quadro em ponto de cruz na parede ao lado da porta dizia «Bem-vindo A Esta Casa». Letras pequeninas bordadas no canto diziam EDS 1970, e Bosch perguntou para consigo o que seria a última letra.

Sentiu outra daquelas ligações psíquicas com Eleanor Wish quando se voltou e olhou para a parede por cima do sofá. Emoldurada em madeira preta, estava uma reprodução de Nighthawkso de Edward Hopper. Bosch não tinha o quadro em casa, mas estava familiarizado com a pintura e de vez em quando chegava mesmo a pensar nela quando estava

 

Nighthawk noitibó. (N. T.)

 

concentrado num caso ou numa vigilância. Uma vez tinha visto o original em Chicago e tinha ficado plantado à sua frente, a estudá-lo durante uma hora. Um homem calado e sombrio está sentado sozinho ao balcão de um diner voltado para a rua. Olha para outro cliente à sua frente, um homem muito parecido com ele, só que o segundo homem está com uma mulher. De certa forma, Bosch identificou-se com ele, com o primeiro homem. Eu sou o solitário, pensou Bosch. Sou o noitibó. O quadro, com as suas tonalidades escuras e sombras não se integrava naquela casa, percebeu Bosch. Por que é que Eleanor o tinha? O que é que ela via nele?

Observou o resto da sala. Não havia televisão. Só havia música na aparelhagem e os livros na estante de advogado encostada à parede em frente do sofá. Aproximou-se e deu uma vista de olhos à colecção através das portas de vidro. As duas prateleiras superiores eram quase todos livros eruditos das séries livros do mês que passavam depois a livros policiais de escritores como Crumley e Willeford, entre outros. Tinha lido alguns deles. Abriu a porta de vidro e puxou para fora um livro intitulado The LockedDoor. Tinha ouvido falar do livro, mas nunca o tinha visto para o comprar. Abriu-o para ver quantos anos tinha e resolveu o mistério da última letra no quadro a ponto de cruz. Na primeira página, escrito a tinta, estava Eleanor D. Scarletti-1979Ela devia ter ficado com o nome do marido depois do divórcio, pensou Bosch. Arrumou o livro e fechou a estante.

Os livros nas duas últimas prateleiras da estante iam dos relatos de crimes verdadeiros e dos estudos históricos da Guerra do Vietname até aos manuais do FBI. Até havia um manual sobre a investigação de homicídios do Departamento da Polícia de L.A. Bosch lera muitos desses livros. Num deles, até aparecia. Era um livro que o jornalista do Times Bremmer tinha escrito sobre o caso conhecido como Beauty Sbop Slasher1. Um tipo chamado Harvard Kendal, o retalhador, matou sete mulheres num ano em San Fernando Valley. Eram todas proprietárias ou empregadas de salões de beleza. Esperava que os salões fechassem, seguia as vítimas até casa e matava-as cortando-lhes as gargantas com uma lima de unhas muito afiada. Bosch e o seu parceiro da altura tinham chegado a Kendal através do número de uma matrícula que a sétima vítima escrevera num bloco no salão na noite anterior a ser assassinada. Nunca descobriram porque é que ela o tinha feito, mas os detectives suspeitavam que ela tinha visto Kendal a vigiar o salão da sua carrinha. Escreveu o

 

Beauty Shop Slasher O Retalhador dos Salões de Beleza. (N. T.)

 

nome da matrícula como precaução mas depois não tinha tomado a mesma precaução ao ir para casa sozinha. Bosch e o colega chegaram até Kendal através da matrícula e descobriram que ele tinha passado cinco anos em Folston por uma série de assaltos a salões de beleza nas imediações de Oakland nos anos sessenta. Mais tarde descobriram que a mãe tinha trabalhado como manicure num salão de beleza quando ele era pequeno. Tinha treinado o seu ofício nas unhas do jovem Kendal e os psiquiatras concluiram que ele nunca tinha ultrapassado aquilo. Bremmer tinha escrito um best-seller a partir daquilo. E quando a Universal fez um filme da semana a partir dele, o estúdio pagou a Bosch e ao seu companheiro pela utilização dos seus nomes e assistência técnica. O dinheiro duplicou quando o filme deu origem a uma série policial. O companheiro deixou o departamento e mudou-se para Ensenada. Bosch continuou, investindo o seu dinheiro na casa alçada na colina virada para o estúdio de onde ele proviera. Bosch sempre achara que havia uma simbiose inexplicável nisso.

Li esse livro muito antes do seu nome ter aparecido nisto. Não fez parte da pesquisa.

Eleanor tinha vindo da cozinha com dois copos de vinho tinto. Harry sorriu.

Não ia acusá-la de nada disse ele. Além disso, não é sobre mim. É sobre o Kendal. De qualquer das formas, tudo aquilo foi pura sorte. Mas conseguiram fazer um livro e uma série de televisão com isso. Seja o que for que está lá dentro cheira bem.

Gosta de pasta?

Gosto de spaghetti.

É o que vamos comer. Fiz um grande tacho de molho no domingo. Adoro passar um dia inteiro na cozinha, sem pensar em mais nada. Acho que é uma boa terapia para o stress. E dura e dura. A única coisa que tenho de fazer é aquecê-lo e cozer umas massas.

Bosch bebeu um golo de vinho e continuou a observar o que o rodeava. Ainda não se tinha sentado, mas estava a sentir-se muito confor-tável na presença dela. Apontou para a reprodução de Hoper.

Gosto dele. Mas porquê uma coisa tão escura?

Ela olhou para o quadro e franziu o sobrolho como se fosse a primeira vez que pensava no assunto.

Não sei respondeu. Sempre gostei desse quadro. Há ali qual-quer coisa que me atrai. A mulher está com um homem. Por isso, não sou eu. Por isso, acho que se for alguém, seria o homem sentado com o seu café. Completamente sozinho, a observar os outros dois que estão juntos.

Vi-o uma vez em Chicago disse Bosch. O original. Tinha lá Ido por causa de uma extradição e tinha de esperar cerca de uma hora.

Por isso, fui ao Art Institute e ali estava ele. Passei toda essa hora a olhar para ele. Há qualquer coisa nele tal como você disse. Não me consigo lembrar do caso ou de quem é que tinha ido buscar. Mas lembro-me desse quadro.

Sentaram-se à mesa a conversar durante quase uma hora depois da comida ter desaparecido. Ela falou-lhe mais do irmão e da dificuldade que tivera em ultrapassar a raiva e a perda. Dezoito anos depois, ainda estava a tentar resolver aquilo, disse ela. Bosch disse-lhe que ele também ainda estava a tentar resolver as coisas. De tempos a tempos, ainda sonhava com os túneis, mas o mais frequente era ter de lutar contra a insónia. Contou-lhe como estava baralhado quando voltara, como a linha era fina, a escolha, entre o que ele tinha feito a seguir e o que o Meadows fizera. Podia ter sido diferente, disse ele e ela assentiu com a cabeça parecendo saber que era verdade.

Mais tarde, ela fez-lhe perguntas sobre o caso Dollmaker e a sua queda em desgraça na Divisão dos Assaltos-Homicídios. Era mais do que curiosidade. Sentiu que havia qualquer coisa importante no que lhe contava. Ela estava a tomar uma decisão a respeito dele.

Acho que já conhece as linhas gerais começou ele. Alguém andava a estrangular mulheres, quase todas prostitutas, e depois pintava-lhes a cara com maquilhagem. Base, baton vermelho, muito rouge nas faces, eyeliner bem marcado. Sempre a mesma coisa de todas as vezes. Também dava banho aos corpos. Mas nunca dissemos que parecia que as estava a transformar em bonecas. Um idiota qualquer acho que foi um gajo chamado Sakai do gabinete do médico legista deixou escapar que a maquilhagem era o denominador comum. E a seguir esta história do Dollmaker1 começou a aparecer na imprensa. Acho que foi o Channel 4 que apareceu com o nome. E pegou. A mim, parecia-me mais o trabalho de um cangalheiro. Mas a verdade é que não estávamos a ter grandes resultados. Não conseguimos nada sobre o tipo até ele chegar aos dois dígitos.

Não havia muitas provas físicas. As vítimas eram largadas em vários sítios, sem nenhum padrão, por todo o Westside. Sabíamos pelas fibras

 

Dollmaker palavra composta de Doll (boneca) e maker (fazedor, criador). Daria em português: Fazedor de bonecas. (TV. T.)

 

encontradas nalguns dos cadáveres que o tipo provavelmente usava um capachinho ou qualquer outro tipo de disfarce com cabelos, uma barba falsa, ou qualquer coisa dessas. As mulheres que tinham sido apanhadas na rua, conseguimos isolar as horas e os locais dos seus últimos engates. Fomos aos motéis que alugam quartos à hora e não descobrimos nada. Por isso, deduzimos que o tipo as apanhava de carro e depois as levava para um sítio qualquer, talvez a casa dele, ou um sítio seguro que ele usasse para cometer os crimes. Começámos a vigiar o Boulevard e os outros sítios onde as profissionais actuam e devemos ter dado cabo de uns trezentos engates até termos aquela sorte. Esta prostituta chamada Dixie McQueen telefona para a brigada uma manhã cedo, e diz que acabou de fugir ao Dollmaker e pergunta se há uma recompensa se o entregar. Bem, nós andávamos a receber chamadas como aquela durante toda a semana. Quero dizer, onze mulheres assassinadas e as pessoas começam a aparecer de todos os lados com pistas que não são pistas de ver-dade. E o pânico na cidade.

Eu lembro-me disse Eleanor.

Mas a Dixie era diferente. Eu estava a trabalhar no último turno no gabinete da brigada nesse dia e recebo a chamada. Fui falar com ela. Ela contou-me que este gajo que ela apanhou na Hollywood ao pé da Spa Row, sabe, ao pé da mansão da Cientologia, a levou para este apar-tamento-garagem em Silver Lake. Ela disse que enquanto o gajo se estava a despir, ela quis ir à casa de banho. Por isso, entra e enquanto faz correr a água, espreita para dentro do armário por baixo do lavatório, provavelmente para ver se havia qualquer coisa que valesse a pena roubar. Mas vê todos estes frasquinhos, caixinhas e todas estas coisas de mulheres. Olha para aquilo tudo e associa tudo. Assim, de repente. Bingo! Este tem que ser o gajo. Por isso, fica aterrorizada e resolve pirar-se. Sai da casa de banho e o gajo está metido na cama. Ela raspa-se pela porta da frente.

Bem, o que acontecia era que nós não tínhamos tornado públicas todas aquelas informações sobre a maquilhagem. Ou, melhor, o idiota que tinha dado a informação aos media não tinha dito tudo. Está a ver, nós sabíamos que o tipo guardava as coisas das vítimas. Elas eram encontradas com as carteiras, mas não havia cosméticos sabe, baton, rouge, sombras, coisas assim. Por isso, quando a Dixie me contou o que estava dentro do armário, despertou a minha atenção. Sabia que ela estava a dizer a verdade.

E foi aqui que eu meti água. Eram três da manhã quando acabei de falar com a Dixie. Toda a gente da brigada tinha ido para casa e eu fiquei ali a pensar que o tipo podia perceber que a Dixie o tinha topado e pôr-se ao fresco. Por isso, fui lá sozinho. Quer dizer, a Dixie também foi comigo para me mostrar o sítio, mas depois ficou sempre no carro. Mal lá chegámos, vi uma luz acesa por cima da garagem que ficava por trás daquela casa em ruínas na esquina da Hyperion. Telefonei a pedir reforços e, enquanto estou à espera, vejo pela janela, a sombra do tipo a andar de um lado para o outro. Algo me diz que ele está a preparar-se para cavar e levar tudo o que estava no armário com ele. E nós não tínhamos conseguido nenhumas provas nos onze cadáveres. Precisávamos das coisas que estavam no armário da casa de banho. A outra coisa a considerar era: e se ele tivesse alguém com ele? Está a ver, uma substituta da Dixie? Por isso fui lá. Sozinho. Já sabe o resto. Eleanor disse:

Entrou sem mandado e disparou contra ele quando ele estava a meter a mão debaixo da almofada da cama. Mais tarde, disse à equipa de atiradores que julgara que era uma situação de emergência. Ele tinha tido tempo suficiente para ter saído e arranjado outra prostituta. Você disse que isso lhe dava autoridade para entrar pela porta dentro sem mandado. Disse que disparou porque julgou que o suspeito ia agarrar numa arma. Foi um só tiro, na parte superior do torso, a uma distância de cinco, seis metros, se me lembro bem do relatório. Mas o Dollmaker estava sozinho e debaixo da almofada estava apenas a peruca dele.

Só o capachinho disse Bosch. Abanou a cabeça como um quarterback1 na manhã de segunda-feira. A equipa de atiradores ilibou-me. Ligámo-lo a dois dos corpos através do cabelo da peruca e conseguimos determinar que os produtos de maquilhagem da casa de banho pertenciam a oito das vítimas. Não havia a menor dúvida. Era ele. Eu estava ilibado, mas, nessa altura as moscas varejeiras apareceram. Uma expedição Lewis e Clarke. Deitaram a unha à Dixie e conseguiram que ela assinasse um depoimento a dizer que já me tinha dito antes que ele metia a cabeleira debaixo da almofada. Não sei o que é que eles usaram contra ela, mas sou capaz de imaginar. Os Assuntos Internos sempre me tiveram raiva. Não gostam de ninguém que não seja cem por cento da família. Seja como for, de repente, fico a saber que vão

 

Quaterback jogador que ocupa a posição de defesa no futebol americano. (TV. T.)

 

apresentar uma queixa do departamento contra mim. Queriam despedir-me e levar a Dixie ao júri de acusação para conseguirem levar-me a tribunal. Parecia que a água estava cheia de sangue e havia dois grandes tubarões brancos.

Parou ali, mas Eleanor continuou:

No entanto, Harry, os detectives dos Assuntos Internos interpretaram mal as coisas. Não se aperceberam que a opinião pública ia estar do seu lado. Você era conhecido nos jornais como o chui que resolvera os casos do Beauty Shop Slasher e do Dollmaker. Uma personagem de um programa de televisão. Não podiam dar cabo de si sem serem sujeitos a um exame público meticuloso e sem que o departamento ficasse mal visto.

Alguém acima deles meteu-se e impediu a jogada do tribunal disse Bosch. Tiveram de se contentar com dar-me uma suspensão e despromover-me para os Homicídios de Hollywood.

Bosch segurava o copo de vinho vazio e estava a rodá-lo distraida-mente entre os dedos, em cima da toalha.

E que belo acordo disse ele passado um bocado. E aqueles dois tubarões dos AI continuam a pairar por aí, à espera de apanharem os restos da matança.

Deixaram-se ficar sentados em silêncio durante um bocado. Ele estava à espera que ela fizesse a pergunta que já tinha feito uma vez. A prostituta tinha mentido? Mas não a fez e, passado um bocado, limitou-se a olhar para ele sorrindo. E ele sentiu-se como se tivesse acabado de passar o teste. Ela começou a levantar os pratos da mesa. Bosch aju-dou-a na cozinha e quando o trabalho estava terminado, pararam muito perto um do outro, a secar as mãos no mesmo pano da louça, e beijaram-se ao de leve. Depois, como se seguissem os mesmos sinais secretos, apertaram-se um contra o outro e beijaram-se com aquela fome que as pessoas sozinhas sentem.

Quero ficar disse Bosch depois de se ter afastado momentaneamente.

Eu quero que fiques disse ela.

Os olhos pedrados de Arson estavam brilhantes e reflectiam a noite de néon. Deu uma longa passa no Kool e guardou o fumo precioso dentro de si. O cigarro tinha sido mergulhado em pó-de-anjo. A cara rasgou-se num sorriso enquanto os jactos de fumo se escapavam pelas narinas. Disse:

És o único tubarão que conheço que é usado como isco. Tás a topar? Soltou uma gargalhada e deu outra passa antes de passar o cigarro

a Sharkey, que o afastou porque já tinha fumado o suficiente. Mojo agarrou-o.

Pois, estou a ficar farto desta merda disse Sharkey. Desta vez és tu.

Calma, meu. Tu és o único que és capaz de te safar com isso, meu. O Mojo e eu, nós não fazemos o papel tão bem como tu. Além disso, nós temos a nossa parte. Tu não és suficientemente grande para dares porrada nesses pandeiros.

Bem, por que é que não voltamos outra vez ao 7-Eleven? disse Sharkey. Não gosto disto de não saber quem é. Gosto mais do 7-Eleven. Aí nós escolhemos a nossa carne, não são eles que nos escolhem.

Nem pensar disse Mojo, falando pela primeira vez. Voltamos lá, não sabemos se aquele último gajo fez queixa ao xerife ou não. Temos que ficar longe durante algum tempo. Provavelmente, eles estão a vigiar o sítio do mesmo parque de estacionamento que nós usámos.

Sharkey sabia que eles tinham razão. Só achava que andar por Santa Monica no giro dos maricas estava a ficar demasiado sério. Não tardava nada, pensou ele, que os dois agarrados não tivessem vontade de atacar. Iam querer que ele fizesse tudo até ao fim, que conseguisse o dinheiro assim. Sabia que seria nessa altura que lhes diria adeus.

OK disse ele descendo o passeio. Não me fodam. Começou a atravessar a rua. Arson gritou atrás dele:

BMW ou melhor!

Como se eu precisasse que me dissessem, pensou Sharkey. Andou meio quarteirão em direcção a La Brea e encostou-se à porta de uma gráfica que estava fechada. Ainda estava a meio quarteirão do Hot Rods, uma livraria para adultos. Mas estava suficientemente perto para atrair o olhar de alguém que de lá saísse. Se o chui andasse à procura. Olhou para trás, na direcção contrária, e viu o clarão do charro na escuridão da entrada do beco onde Mojo e Arson estavam sentados nas suas motas. Sharkey ainda não estava ali há dez minutos quando um carro, um Grand Am novo, parou junto do passeio e a janela eléctrica desceu. Sharkey estava disposto a ignorar este lembrando-se do BMW ou melhor até que viu o brilho do ouro e se aproximou. A adrenalina subiu--Ihe em flecha. O pulso que o condutor tinha pousado no volante estava tornado com um Rolex Presidential. Se fosse verdadeiro, Arson sabia

onde poderiam conseguir 3000 dólares por ele. Mil para cada um sem falar no que o gajo poderia ter em casa ou na carteira. Sharkey examinou o homem. O tipo parecia um heterossexual, um homem de negócios. Cabelo escuro, fato escuro. Pelos quarenta e cinco anos, não muito grande. Sharkey até devia ser capaz de dar conta dele sozinho. O homem sorriu para Sharkey e disse:

Ei, como é que vai isso?

Não vai mal. O que é que se passa?

Oh, não sei. Só vim dar uma volta. Queres dar uma volta?

Aonde?

A nenhum sítio especial. Sei de um sítio onde podemos ir. Para estarmos sozinhos.

Tem cem dólares consigo?

Não, mas tenho cinquenta dólares para basebol nocturno.

A lançar ou a apanhar?

Sou um lançador. E trouxe a minha luva.

Sharkey hesitou e deitou uma olhadela para a entrada onde tinha visto o clarão do cigarro. Tinha desaparecido. Deviam estar prontos para avançar. Voltou a olhar para o relógio.

Fixe disse ele e entrou no carro.

O carro seguiu para oeste, passando pela entrada do beco. Sharkey conteve-se para não olhar mas julgou ouvir o barulho das motas deles a acelerarem. Vinham atrás.

Onde é que vamos? perguntou Sharkey.

Oh, não posso ir para casa contigo, meu amigo. Mas sei de um sítio para onde podemos ir. Ninguém nos incomodará.

Porreiro.

Pararam no semáforo em Flores o que fez com que Sharkey se lembrasse do tipo da outra noite. Estavam perto da casa dele. O Arson andava a bater com mais força, ao que parecia. Isto ia ter de terminar em breve ou acabariam por matar alguém. Esperava que o homem do Rolex o entregasse pacificamente. Não havia maneira de saber o que aqueles dois seriam capazes de fazer. Carregados de pó-de-anjo, estariam prontos para a guerra e para fazerem sangue.

De repente, o carro lançou-se para o cruzamento. Sharkey viu que a luz continuava vermelha.

O que é que se passa? perguntou asperamente.

Nada. Fartei-me de estar à espera. Mais nada.

Sharkey pensou que não haveria nada de suspeito em olhar para trás naquela altura. Voltou-se e só viu carros parados à espera no cruzamento. Não havia motorizadas. Aqueles filhos da mãe, pensou ele. Sentiu a humidade que se começava a formar na cabeça e as primeiras tremuras de medo. O carro virou à direita a seguir ao Barnieos Bearney e subiu a colina em direcção a Sunset. Depois viraram para este para Highland e o homem com o Rolex voltou a virar para norte.

-Já estivemos juntos alguma vez? perguntou o homem. Pareces-me familiar. Não sei, se calhar só nos vimos por aí.

Não, eu nunca... não me parece.

Olha para mim.

O quê? perguntou Sharkey espantado com a pergunta e com o tom duro da voz do homem. Porquê?

Olha para mim. Conheces-me? Já me viste antes?

O que é isto? Um anúncio a um cartão de crédito? Já disse que não, meu.

O homem saiu da estrada e entrou no parque de estacionamento oriental do Hollywood Bowl. Estava deserto. Conduziu depressa e sem dizer mais nada até à zona norte que estava às escuras. Sharkey pensou, se este é o teu sitiozinho, então o Rolex que tens no braço não é ver-dadeiro, pá.

Ei, o que é que estamos a fazer, meu? perguntou Sharkey. Estava a pensar numa maneira de se safar daquilo. Tinha a certeza

que Arson e Mojo, pedrados como estavam, se tinham perdido. Estava sozinho com aquele gajo e queria pôr-se ao fresco.

O estádio está fechado disse o Rolex. Mas eu tenho a chave dos vestiários, estás a ver? Só temos que apanhar o túnel por baixo do Cahuenga e depois, perto do sítio onde ele volta a subir, há um pequeno passadiço que nos leva a toda a volta. Não vai haver ninguém. Trabalho aqui. Conheço isto.

Por um instante, Sharkey ainda pensou em tentar atacar o homem sozinho, depois decidiu que não era capaz. A não ser que houvesse uma maneira de o apanhar de surpresa. Logo veria. O homem desligou o motor do carro e abriu a porta do seu lado. Sharkey abriu a dele, saiu e olhou para o outro lado da extensão às escuras do parque de estacionamento. Estava à procura de duas luzes de motorizadas, mas não havia nenhuma. Vou tratar deste tipo do outro lado, resolveu ele. Iria fazer a sua jogada. Ou bater e correr, ou apenas correr.

Encaminharam-se na direcção do letreiro que dizia Caminho de Peões. Havia um anexo em cimento com uma porta aberta e depois umas escadas. Enquanto desciam os degraus brancos, o homem com o Rolex pôs a mão em cima do ombro de Sharkey e depois agarrou-lhe o pescoço num gesto paternal. Sharkey conseguia sentir o metal frio da pulseira do relógio.

O homem disse:

Tens a certeza que não nos conhecemos, Sharkey? Que não nos vimos antes?

Não, meu. Já lhe disse, nunca estive consigo

Estavam já a meio do túnel quando Sharkey se apercebeu de que nunca tinha dito ao homem como se chamava.

 

                   Quinta-Feira, 24 de Maio

Para ele já tinha sido há muito tempo. E, no quarto de Eleanor, Harry Bosch foi desajeitado como um homem que está excessivamente consciente de si mesmo e sem prática. Tal como acontece com as primeiras vezes, não foi bom. Ela guiou-o com as mãos e com suspiros. E, depois, ele sentiu vontade de lhe pedir desculpa, mas não o fez. Abraçaram-se e dormitaram, o cheiro do cabelo dela na cara dele. O mesmo aroma a maçãs que ele tinha sentido na sua própria cozinha na noite anterior. Bosch estava apaixonado por ela e queria respirar o cheiro do seu cabelo a cada minuto. Passado um bocado, acordou-a com um beijo e voltaram a fazer amor. Desta vez, ele não precisou que ela o orientasse e ela não precisou das próprias mãos. Quando acabaram, Eleanor perguntou-lhe num sussurro:

Achas que uma pessoa pode estar só neste mundo sem se sentir solitária?

Ele não lhe respondeu logo e ela perguntou:

Estás só ou sentes-te solitário, Harry Bosch?

Ele pensou um bocado naquilo enquanto os dedos dela desenhavam suavemente a tatuagem do braço dele.

Não sei sussurrou ele por fim. Uma pessoa habitua-se de tal maneira às coisas tal como elas estão. E eu tenho estado sempre só. Acho que isso faz de mim um solitário. Até agora.

Sorriram na escuridão, beijaram-se e pouco depois ele ouviu a respiração profunda dela a dormir. Bosch levantou-se da cama. Enfiou as calças e saiu para a varanda para fumar. No Ocean Park Boulevard não havia trânsito e ele conseguia ouvir o barulho do oceano ali perto. As luzes estavam apagadas no apartamento ao lado. Estavam apagadas em todo o lado excepto na rua. Conseguia ver que os jacarandás ao longo do passeio

estavam a perder as flores. Elas tinham caído como neve violeta no chão e nos carros estacionados ao longo do passeio. Bosch apoiou-se no parapeito e soprou o fumo para o vento frio da noite.

Quando estava no segundo cigarro, ouviu a porta atrás de si deslizar e abrir-se e depois sentiu as mãos dela rodearem-lhe a cintura quando ela o abraçou por trás.

Há algum problema, Harry?

Nenhum, estou só a pensar. É melhor teres cuidado. Alerta cancerígeno. Já ouviste falar da servidão do risco da inalação?

Avaliação, Harry, não servidão. Em que é que estás a pensar? É assim que são a maior parte das noites para ti?

Bosch virou-se nos braços dela e beijou-lhe a testa. Ela vestia um robe curto de seda cor-de-rosa. Ele esfregou o polegar pela curva do pescoço dela.

Quase nenhuma noite é como esta. Não conseguia dormir, mais nada. Acho que estava a pensar numa data de coisas.

Em nós? perguntou ela dando-lhe um beijo no queixo.

Acho que sim. -E...?

Levou a mão à cara dela e desenhou-lhe o maxilar com os dedos.

Estava a pensar como é que arranjaste esta cicatrizinha aqui.

Oh... isso foi quando eu era pequena. Eu e o meu irmão, nós estávamos a andar de bicicleta e eu ia no guiador. E íamos a descer esta colina, chamava-se Highland Avenue isto foi quando vivíamos na Pensilvânia e ele perdeu o controlo. A bicicleta começou a derrapar de um lado para o outro e eu fiquei cheia de medo porque sabia que íamos cair. E precisamente quando ele de facto deixou por completo de a controlar e íamos a cair, ele gritou: «Ellie, não te vai acontecer nada!» Assim, sem mais nem menos. E porque ele tinha gritado aquilo, teve razão. Cortei o queixo, mas nem sequer chorei. Sempre achei que aquilo era uma coisa especial, ele ter-se preocupado mais comigo do que com ele próprio. Mas o meu irmão era mesmo assim.

Bosch largou-lhe o rosto. Disse:

Também estava a pensar que o que aconteceu entre nós foi bom.

Também acho, Harry. Bom para um par de noitibós. Agora, volta para a cama.

Voltaram para dentro. Primeiro, Bosch foi à casa de banho e usou o dedo como escova de dentes e depois voltou a enfiar-se por baixo do lençol com ela. O clarão azul de um relógio digital na mesinha de cabeceira marcava 2:26 e Bosch fechou os olhos.

Quando os voltou a abrir o relógio marcava 3:46 e havia um som chilreado irritante que vinha de algures no quarto. Percebeu que não estava no quarto dele. Depois lembrou-se que estava no quarto de Eleanor Wish. Quando finalmente se orientou, viu a sombra da figura dela dobrada ao lado da cama, as mãos a vasculharem as roupas dele.

Onde é que ele está? perguntou ela. Não o consigo encontrar.

Bosch agarrou nas calças, passou as mãos ao longo do cinto até encontrar o pager e o desligar sem ter de andar às apalpadelas. Já tinha feito aquilo muitas vezes às escuras.

Bolas! disse ela. Que irritante!

Bosch virou as pernas para fora da cama, enrolou o lençol à volta da cintura e sentou-se. Bocejou e depois avisou-a que ia acender a luz. Ela disse que estava bem e quando a luz se acendeu, atingiu-o nos olhos como o cintilar de um diamante. Quando a sua visão se recompôs, ela estava de pé à frente dele, nua, a olhar para o ecrã digital do pager na mão dele. Por fim, Bosch baixou os olhos para ver o número que não reconheceu. Esfregou a cara com a outra mão e passou-a pelo cabelo. Havia um telefone na mesa de cabeceira e puxou-o para o colo. Marcou o número e depois revolveu a roupa com as mãos à procura de um cigarro que pôs na boca, mas não acendeu.

Eleanor deu-se conta da sua nudez e dirigiu-se para uma cadeira para ir buscar o robe. Depois de o vestir, foi para a casa de banho e fechou a porta. Bosch ouviu a água a correr. Do outro lado, atenderam ainda não tinha terminado o primeiro toque. Jerry Edgar não atendeu com nenhuma saudação, apenas com um «Harry, onde é que estás?»

Não estou em casa. O que é que se passa?

Este miúdo de quem andavas à procura, aquele do telefonema para o nove um um, encontraste-o, não foi?

Sim, mas nós andamos outra vez à procura dele.

Quem é o «nós»? Tu e a mulher do FBI?

Eleanor saiu da casa de banho e sentou-se na borda da cama, ao lado dele.

Jerry, para que é que me estás a telefonar? perguntou Bosch. Estava a começar a sentir uma sensação de agonia no peito.

Qual é o nome do rapaz?

Bosch estava atordoado. Há meses que não adormecia tão profun-damente para ser agora acordado daquela maneira abrupta. Não se conseguia lembrar do nome verdadeiro de Sharkey e não queria perguntar a Eleanor porque Edgar podia ouvir e ficava a saber que estavam os dois juntos. Harry olhou para Eleanor e quando ela abriu a boca para falar, tocou-lhe com o dedo nos lábios abanando a cabeça.

E Edward Niese? perguntou Edgar perante o silêncio. É assim que o miúdo se chama?

A sensação de agonia desapareceu. Bosch sentiu um punho invisível enfiar-se debaixo das costelas e nas dobras das entranhas e do coração.

Certo disse ele. É esse o nome.

Deste-lhe um dos teus cartões?

Sim.

Harry, já não andam à procura dele.

Conta-me.

Vem cá tu ver. Estou no estádio. O Sharkey está no túnel dos peões por baixo do Cahuenga Park, no lado oriental. Logo vês os carros.

O estacionamento oriental do Hollywood Bowl devia estar deserto às quatro e meia da manhã. Mas quando Bosh e Eleanor Wish subiram a Highland até à entrada do Cahuenga Park, viram que a ponta norte da zona de estacionamento estava cheia do grupo habitual de carros e carrinhas oficiais que indicam o fim violento, ou pelo menos, inesperado, de uma vida. A fita de plástico amarela das cenas dos crimes formava um quadrado, fechando a entrada para a escada que descia para a passagem subterrânea dos peões. Bosch exibiu o distintivo e deu o nome a um polícia uniformizado que estava a controlar a lista dos agentes que deviam estar presentes. Ele e Eleanor passaram por baixo da fita e foram recebidos pelo barulho de uma máquina que ecoava da saída do túnel. Bosch percebeu pelo som que era um gerador que alimentava as luzes da cena do crime. No primeiro degrau, antes de começarem a descer, voltou-se para Eleanor e disse:

Queres ficar aqui? Não precisamos de ir os dois.

Sou polícia, por amor de Deus respondeu ela. -Já vi cadáveres antes. Vais-te armar em meu protector, Bosch? Deixa-me perguntar-te uma coisa: queres ficar tu aqui e eu desço?

Espantado com aquela mudança de humor repentina, Bosch não respondeu. Olhou para ela durante um longo momento, confundido. Começou a descer uns degraus à frente dela, mas parou quando viu o corpo grande de Edgar a sair do túnel e a começar a subir as escadas. Edgar viu Bosch e depois Bosch viu os olhos dele passarem por cima do ombro dele abarcando Eleanor Wish.

 

Hei, Harry disse ele. E a tua nova parceira? Já se devem estar a dar muito bem.

Bosch limitou-se a olhar fixamente para ele. Eleanor ainda estava uns degraus atrás e, provavelmente, não tinha ouvido o comentário.

Desculpa, Harry disse Edgar suficientemente alto para se fazer ouvir por cima do barulho do gerador. Fui inconveniente. Tem sido uma noite péssima. Devias ver quem é que eu tenho para meu novo parceiro, o inútil do filho da puta que o «Noventa e Oito» Pounds me arranjou.

Pensava que ias ficar com...

Não. Ouve-me isto: o Pounds pôs-me com o Porter dos carros. O gajo é um imbecil chapado.

Eu sei. Como é que o conseguiste arrancar da cama para isto?

Não estava na cama. Tive de o ir descobrir no Parrot em North Hollywood.é um daqueles clubes privados para bêbados. O Porter dá-me o número mal nos dizem que vamos ser parceiros e diz-me que é aí que passa a maioria das noites. Diz-me que tem lá um trabalhinho extra como segurança. Mas eu falei para o gabinete dos serviços de folga no Parker Center e não há lá nada registado. Sei que a única coisa que ele lá faz é meter-se nos copos. Ele devia estar praticamente desmaiado quando telefonei para lá. O barman disse que o pager do cinto tocou, mas ele nem o ouviu. Harry, acho que o tipo rebentava a escala se o fizéssemos soprar no balão neste preciso momento. Bosch assentiu com a cabeça e franziu o sobrolho durante os três segundos exigidos e depois esqueceu os problemas de Jerry Edgar. Sentiu Eleanor descer o degrau e ficar ao seu lado e apresentou-a a Edgar. Eles trocaram um aperto de mão, sorriram e Bosch disse:

Então, o que é que temos?

Bem, encontrámos isto no cadáver disse Edgar levantando um saco de plástico transparente.

Lá dentro, estava um montinho de fotos Polaroid. Mais fotografias de Sharkey nu. Ele não tinha perdido tempo a refazer o fornecimento. Edgar virou o saco e lá estava o cartão de Bosch.

Parece que o miúdo era um prostituto em Boytown disse Edgar, mas se já o apanhaste uma vez, já sabes isso. Seja como for, vi o cartão e calculei que devia ser o rapaz da chamada para o nove um um. Se quiseres descer e dar uma olhadela, está à vontade. Já examinámos a cena, por isso podes mexer no que quiseres. Mas não vais conseguir ouvir-te a pensar ali dentro. Houve alguém que passou por ali e partiu as luzes todas do túnel. Não percebi se foi o criminoso ou se as luzes já tinham sido partidas antes.

«Bem, seja como for, tivemos que instalar as nossas. E os cabos não eram suficientemente compridos para podermos pôr o gerador aqui em cima. Está lá dentro a berrar como se tivesse cinco cavalos-vapor.

Virou-se para voltar para o túnel, mas Bosch estendeu o braço e tocou-lhe no ombro.

Jed, como é que receberam a chamada disto?

Anónima. Não foi para uma linha do nove um um, por isso, não há gravações nem registos. Foi direita à esquadra de Hollywood. Era um homem, foi a única coisa que o merdoso, um daqueles rapazes gordos do Explorer que a recebeu, foi capaz de dizer.

Edgar voltou a enfiar-se no túnel. Bosch e Eleanor seguiram atrás dele. Era uma passagem comprida que curvava para a direita. O chão era de cimento sujo, as paredes de estuque branco com várias camadas de graffitti. Nada como uma dose da realidade urbana quando uma pessoa vai a deixar a sinfonia do estádio, pensou Bosch. O túnel estava às escuras, exceptuando a mancha de luz intensa que banhava a cena do crime mais ou menos ao meio dele. Bosch conseguia ver uma figura humana estendida de costas. Sharkey. Conseguia ver homens de pé a trabalhar no meio da luz. Bosch ia a andar com os dedos da mão direita a arrastarem-se ao longo da parede. Equilibrava-o. Havia um cheiro a mofo velho no túnel que se misturava com o novo odor da gasolina e a escape do gera-dor. Bosch sentia as gotas de suor que se começavam a formar na cabeça e nos sovacos. A respiração era rápida e superficial. Passaram o gerador que estava a uns nove metros da entrada e depois de outros nove metros, Sharkey estava deitado no chão do túnel sob a luz brutal dos holofotes.

A cabeça do rapaz estava encostada à parede do túnel num ângulo invulgar. Parecia mais pequeno e mais novo do que Bosch se lembrava. Os olhos estavam meio abertos e tinham o brilho vítreo familiar dos que não vêem. Vestia uma T-shirt preta com as palavras Guns No Roses manchadas de sangue. As algibeiras dos jeans desbotados estavam viradas para fora e vazias. Ao lado dele, estava uma lata de tinta spray metida num saco para as provas. Na parede por cima da cabeça dele, uma inscrição pintada dizia RIP1 Sharkey. A tinta tinha sido aplicada por uma mão inexperiente e em quantidade demasiada. A tinta preta tinha escorrido pela parede abaixo em linhas finas, algumas delas apanhando o cabelo de Sharkey.

 

RIP Rest In Peace Descanse Em Paz. (N. T.)

 

Quando Edgar gritou: «Queres ver isto?» por cima do ruído do gerador, Bosch sabia que ele se estava a referir à ferida. Como a cabeça de Sharkey fazia um ângulo para a frente, a ferida da garganta não estava visível. Só o sangue. Bosch abanou a cabeça, recusando.

Bosch reparou nos salpicos de sangue na parede e no chão a cerca de um metro do corpo. Porter, o beberrão, estava a comparar as formas das gotas com as dos cartões de salpicos de sangue presos numa argola de aço. Um técnico das cenas de crime chamado Roberge estava tam-bém a fotografar as manchas. As gotas salpicadas na parede eram elípticas, não era preciso cartões de salpicos para se saber que o garoto tinha sido morto ali mesmo, no túnel.

Pelo aspecto disto disse Porter em voz alta para ninguém em particular, alguém aparece por trás dele aqui, corta-lhe o pescoço e empurra-o de encontro à parede ali.

Só estás meio certo, Porter disse Edgar. Como é que alguém aparece atrás de alguém num túnel destes? Ele estava com outra pessoa e essa pessoa despachou-o. Não foi nenhum trabalho à sorrelfa, Porter.

Porter meteu os cartões no bolso e disse:

Desculpa, companheiro.

Não disse mais nada. Era gordo e pesadão com o aspecto com que muitos polícias ficam quando permanecem ao serviço mais tempo do que deviam. Porter ainda conseguia usar um cinto do tamanho 34, mas por cima dele, uma barriga tremenda saltava para fora como um toldo. Vestia um casaco de tweed com os cotovelos esgarçados. A cara era chupada e pálida como uma tortilla de farinha, por trás de um nariz de bêbado que era grande, mal feito e dolorosamente vermelho.

Bosch acendeu um cigarro e meteu o fósforo queimado na algibeira. Agachou-se como um apanhador de basebol ao lado do corpo e levantou o saco com a lata de tinta, sopesando-a. Estava quase cheia e isso confirmou aquilo que ele já sabia, já temia. Tinha sido ele que tinha matado Sharkey. De certo modo, pelo menos. Bosch tinha-o procurado e encontrado, tornando-o valioso, ou potencialmente valioso, para o caso. Havia alguém que não podia permitir isso. Bosch ficou ali agachado, com os cotovelos apoiados nos joelhos, com o cigarro na boca, a fumar e a estudar o corpo certificando-se de que não o iria esquecer.

Meadows tinha feito parte desta coisa o círculo de acontecimentos interrelacionados que tinham levado a que o matassem. Mas Sharkey não. Era lixo da rua e a sua morte ali, provavelmente, tinha poupado a vida de outra pessoa mais tarde. Mas não merecia isto. Nesta história, ele era um inocente. E isso significava que as coisas se tinham descontrolado e que havia regras novas para ambos os lados. Bosch apontou com a mão para o pescoço de Sharkey e um dos investigadores da Medicina Legal desencostou o corpo da parede. Bosch apoiou uma mão no chão para se equilibrar e fitou durante muito tempo o pescoço e a garganta rasgados. Não se queria esquecer de um único pormenor. A cabeça de Sharkey descaiu para trás expondo a grande ferida aberta. Os olhos de Bosch nunca se desviaram nem uma fracção de segundo.

Quando, finalmente, Bosch levantou os olhos do corpo, reparou que Eleanor já não estava no túnel. Levantou-se e fez sinal a Edgar para que o seguisse até lá fora para conversarem. Harry não queria ter de gritar mais alto do que o barulho do gerador. Quando saíram do túnel, viu que Eleanor estava sentada sozinha no primeiro degrau do cimo das escadas. Passaram por ela e Harry pousou a mão no ombro dela ao passar. Sentiu que ele ficara rígido com o toque dele.

Quando ele e o companheiro estavam razoavelmente longe do barulho, Harry perguntou:

O que é que os técnicos conseguiram?

Népia, uma porra de nada disse Edgar. Se foi obra de um gang, é a mais limpa que já vi. Não há uma única impressão digital, nem sequer parcial. A lata de tinta de spray está limpa. Não há arma. Não há testemunhas.

O Sharkey tinha um bando, costumavam estar num motel ao pé do Boulevard, até hoje, mas ele não tinha nada a ver com gangs disse Bosch. Está nos ficheiros. Era um trafulha espertalhão. Sabes como é, com as Polaroid, a enrolar homossexuais, coisas assim.

Estás a dizer que ele está nos ficheiros dos gangs, mas não pertencia a um gang?

Exactamente.

Edgar assentiu com a cabeça e disse:

Mesmo assim ele pode ter sido despachado por alguém que julgasse que ele era de algum.

Eleanor veio ter com eles, mas não disse nada.

Tu sabes que isto não é obra de gangs, Jed disse Bosch. -Sei?

Sim, sabes. Se fosse, não estaria ali uma lata de tinta cheia. Nenhum gajo de um gang larga uma coisa daquelas. Além disso, quem pintou aquela parede lá dentro não tinha mão para aquilo. A tinta escorreu. Quem o fez, não sabia patavina de pintura de paredes.

Anda cá só por um segundo disse Edgar.

Bosch olhou para Eleanor e fez-lhe sinal que estava tudo bem. Ele Edgar afastaram-se alguns passos e pararam ao pé da fita amarela.

O que é que este miúdo te contou e como é que ele andava por aí à solta se fazia parte de um caso? perguntou Edgar.

Bosch contou-lhe a história em linhas gerais e disse-lhe que não sabiam se o Sharkey era importante para o caso. Mas, aparentemente, alguém achava que sim ou então não quis arriscar-se a ficar à espera até saber. Enquanto falava, Bosch olhou para as colinas e viu a primeira luz ia alvorada a recortar as grandes palmeiras do cimo. Edgar deu um passo para o lado e também ele levantou a cabeça. Mas não estava a olhar para o céu. Tinha os olhos fechados. Por fim, voltou-se para Bosch.

Harry, sabes que fim-de-semana é este? perguntou ele. É o fim-de-semana do Memorial Day1. É o maior fim-de-semana de três dias deste ano. O início da estação do Verão. No ano passado, vendi quatro casas nesse fim-de-semana, ganhei quase tanto quanto ganhei num ano inteiro como polícia.

Bosch ficou perplexo com a súbita reviravolta na conversa.

O que é que estás para aí a dizer?

O que estou a dizer é... Não vou esfolar-me a trabalhar neste caso. Não me vai lixar este fim-de-semana como aconteceu no último. Por isso, o que eu estou a dizer é que, se quiseres ficar com ele, eu vou ter com o Pounds e digo-lhe que tu e o FBI querem ficar com ele por-que tem a ver com aquele em que vocês já estão a trabalhar. Caso contrário, vou trabalhar nele simplesmente como se fosse um dos das nove às cinco.

Diz ao Pounds aquilo que te apetecer, Jed. Não tenho nada com isso.

Bosch começou a andar em direcção a Eleanor e Edgar disse:

Só uma coisa. Quem é que sabia que tinhas encontrado o miúdo? Bosch parou e olhou para Eleanor. Sem se voltar para trás, respondeu:

Apanhámo-lo na rua. Entrevistámo-lo na esquadra de Wilcox. Os relatórios seguiram para o departamento. O que é que queres dizer com isso, Jed?

Nada respondeu Edgar. Mas Harry, se calhar tu e o FBI deviam ter tomado conta da vossa testemunha um bocadinho melhor. Se calhar tinham-me poupado tempo e tinham salvo a vida do rapaz.

 

Memorial Day a última segunda-feira de Maio, feriado dos EU para recordar os membros das forças armadas mortos em combate. (N. T.)

 

Bosch e Eleanor voltaram para o carro em silêncio. Mal se encontraram lá dentro, Bosch perguntou:

Quem é que sabia?

O que é que queres dizer? perguntou ela.

Aquilo que ele perguntou ali atrás, quem é que sabia do Sharkey? Ela pensou um bocado. Depois disse:

Do meu lado, o Rourke recebe os resumos diários dos relatórios e recebeu o memorando sobre a hipnose. Os resumos vão para os registos e são feitas cópias para o agente especial sénior. A fita da gravação da entrevista que me deste está fechada à chave na minha secretária. Não foi transcrita. Por isso, acho que qualquer pessoa podia ter lido aqueles resumos. Mas nem sequer penses nisso, Harry. Ninguém... Não pode ser.

Bem, eles sabiam que nós tínhamos o rapaz e que ele podia ser importante. O que é que isso te diz? Têm que ter alguém com acesso a informações internas.

Harry, isso é especulação. Podem ter acontecido uma data de coisas. Tal como tu mesmo lhe disseste, apanhámo-lo na rua. Qualquer pessoa podia estar a ver. Os próprios amigos dele, aquela rapariga, qualquer pessoa podia ter espalhado que andávamos à procura do Sharkey.

Bosch pensou em Lewis e Clarke. Deviam tê-lo visto a caçar Sharkey. Que papel é que eles estavam a desempenhar? Nada fazia sentido.

O Sharkey era um filho da mãe teso disse ele. Achas que ele ia entrar assim, sem mais nem menos, com uma pessoa qualquer neste túnel? Acho que ele não teve possibilidade de recusar. E para isso, era preciso uma pessoa com um distintivo.

Ou talvez alguém com dinheiro. Sabes que ele ia com qualquer pessoa desde que houvesse dinheiro metido no assunto.

Ela não pôs o carro a trabalhar e ficaram ali sentados a pensar. Por fim, Bosch disse:

O Sharkey foi uma mensagem.

O quê?

Uma mensagem para nós. Estás a ver? Deixaram o meu cartão com ele. Foi a única coisa que deixaram. E mataram-no num túnel. Querem que a gente saiba quem fez isto. Querem que a gente saiba que eles têm alguém cá dentro. Estão-se a rir de nós.

Ela ligou o carro.

Para onde?

Para o FBI.

Harry, tem cuidado com essa coisa de um homem no nosso meio. Se tentares vender isso e não for verdade, podes dar aos teus inimigos aquilo de que precisam para te enterrarem.

Inimigos, pensou Bosch. Quem são os meus inimigos desta vez?

Fui eu que causei a morte daquele miúdo. O mínimo que posso fazer é descobrir quem o matou.

Bosch olhou através das cortinas de algodão da sala de espera para o cemitério dos veteranos, enquanto Eleanor Wish destrancava a porta para os gabinetes do departamento. O nevoeiro rasteiro ainda não se tinha dissipado e levantado do campo das lápides, e lá de cima, parecia que um milhar de fantasmas se estava a erguer das suas caixas ao mesmo tempo. Bosch conseguia ver o corte escuro escavado na crista da colina do lado norte do cemitério, mas continuava a não perceber o que aquilo era. Parecia quase uma grande vala comum, uma extensa ranhura, uma ferida enorme. A terra exposta estava tapada com folhas de plástico preto.

Queres café? perguntou Eleanor Wish atrás dele.

Claro respondeu ele.

Afastou-se das cortinas e entrou atrás dela. O departamento estava deserto. Entraram na cozinha do gabinete e ele ficou a ver enquanto ela despejava um pacote de café moído para dentro do reservatório com o filtro e ligava a máquina. Ficaram de pé, em silêncio, a ver o café pingar devagarinho para dentro de um recipiente de vidro em cima da placa de aquecimento. Bosch acendeu um cigarro e tentou pensar apenas no café que estava a fazer. Ela afastou o fumo com a mão, mas não lhe disse para apagar o cigarro.

Quando o café ficou pronto, Bosch bebeu-o puro e sentiu-o atingir o seu sistema como um tiro. Encheu uma segunda chávena e levou as duas para a sala. Acendeu um cigarro na ponta do outro quando chegou à sua secretária temporária.

E o último prometeu quando a viu olhar.

Eleanor encheu uma chávena com água de uma garrafa que guardava na gaveta da secretária.

Alguma vez esgotaste essa coisa? perguntou-lhe ele. Eleanor ignorou a pergunta.

Harry, não nos podemos culpabilizar pela morte do Sharkey. Se a culpa fosse nossa, então teríamos de oferecer protecção a todas as pessoas com quem falamos. Devíamos ir buscar a mãe dele e metê-la num programa de protecção de testemunhas? E a rapariga do quarto do motel que o conhecia? Estás a ver? Seria uma maluqueira. O Sharkey era o Skarkey. Quando se vive segundo as leis da rua, morre-se segundo as leis da rua. Bosch não disse nada logo. Depois disse apenas:

Deixa-me ver os nomes.

Eleanor puxou do dossier do caso do WestLand. Folheou-o e tirou uma cópia impressa de computador com várias folhas dobradas como um acordeão. Atirou-a para cima da secretária dele.

Essa é a cópia completa disse ela. Toda a gente que tinha um cofre. Há umas notas escritas à frente de alguns nomes, mas provavel-mente não são relevantes.

Bosch começou a desdobrar a cópia e percebeu que era uma longa lista de nomes e cinco mais pequenas marcadas de A a E. Perguntou o que eram e ela deu a volta à secretária para espreitar por cima do ombro de Bosch. Ele voltou a sentir o cheiro a maçã do cabelo dela.

Ora bem, a lista comprida é, como eu já disse, a lista de todas as pessoas que tinham cofre. É uma lista geral. Depois fizemos cinco divisões, de A a E. A primeira a A é a dos cofres arrendados três meses antes do assalto. Quanto à B, fizemos uma divisão só com as pessoas que não declararam perdas com o assalto. Aé a dos becos sem saída; os donos dos cofres que, ou estavam mesmo mortos ou que não conseguimos descobrir porque tinham mudado de endereço ou tinham dado informações falsas quando os alugaram.

«A quarta e a quinta são listas resultantes da comparação com as três primeiras. Aé a das pessoas que alugaram os cofres nos três meses anteriores e que não declaram perdas. A E é a das pessoas da lista dos becos sem saída que também tinham alugado os cofres três meses antes. Percebeste?

Ele tinha percebido. A ideia do FBI tinha sido que a casa-forte tinha tido de ser analisada por dentro pelos ladrões antes do assalto e isso, muito provavelmente, tinha sido conseguido facilmente entrando no banco e alugando um cofre. Dessa maneira, tinham acesso legítimo; o tipo que tivesse alugado o cofre podia lá entrar sempre que quisesse durante as horas de expediente e observar tudo. Por isso, a lista das pessoas que tinham alugado um cofre nesses três meses tinha boas hipóteses de incluir o batedor.

Segundo, era provável que esse batedor não quisesse atrair as atenções sobre si depois do roubo e, por isso, podia não declarar nada como tendo sido roubado do seu cofre. Isso colocá-lo-ia na lista D. Mas se ele é não tivesse declarado nada ou tivesse dado informações não verificáveis, o nome dele estaria na lista E.

Só havia sete nomes na lista A e cinco na lista E. Um dos nomes da E tinha um círculo em toda a volta. Frederic B. Isley, de Park La Brea, o nome do homem que tinha comprado os três ATVs Honda em Tustin. Os outros nomes tinham uns V de visto à frente.

Lembras-te? perguntou Eleanor. Eu disse que esse nome iria aparecer outra vez.

Harry assentiu.

Isley disse ela. Pensamos que é o batedor. Alugou o cofre nove semanas antes do assalto. Os registos do banco indicam que ele fez ao todo quatro visitas à caixa-forte durante as sete semanas seguintes. Mas, depois do assalto, nunca mais voltou, fosse lá ele quem fosse. Nunca preencheu um relatório. E quando o tentámos contactar, descobrimos que a morada era falsa.

Têm alguma descrição?

Nenhuma que nos servisse para alguma coisa. Pequeno, moreno e talvez bonito foi o melhor que os funcionários do caixa-forte conseguiram. Deduzimos que este tipo era o batedor ainda antes de descobrirmos a história dos ATVs. Quando o dono de um cofre quer ver o cofre, o funcionário leva-o lá dentro, abre a portinha e depois acompanha-o até a uma das salas para esse efeito. Quando ele acaba, voltam os dois a levar a caixa para dentro e o cliente escreve as suas iniciais no cartão do cofre. Mais ou menos como numa biblioteca. Por isso, quando fomos ver o cartão do sujeito, deparámo-nos com as iniciais FBI. Tu és uma pessoa que não gosta de coincidências. Nós também não gostámos. Achámos que havia alguém que estava a fazer troça de nós. Mais tarde, isso foi confir-mado quando seguimos o rasto dos ATVs até Tustin.

Harry bebeu um golo de café.

Não é que nos tenha servido de muito continuou ela. Nunca o encontrámos. No entulho da caixa-forte, depois do assalto, descobrimos o cofre dele. Procurámos impressões digitais, assim como na porta. Nada. Mostrámos aos funcionários da caixa-forte várias fotografias a do Meadows também lá estava e eles não conseguiram reconhecer ninguém.

Podíamos mostrar-lhes as do Franklin e do Delgado, e ver se algum deles era o Isley.

Sim. É o que vamos fazer. Venho já.

Ela levantou-se e saiu e Bosch voltou ao café e à lista. Leu todos os nomes e moradas, mas nada lhe despertou a memória, exceptuando a mancheia de celebridades, políticos e outros semelhantes que tinham cofres. Bosch estava a ler a lista pela segunda vez quando Eleanor regressou. Trazia uma folha de papel que pousou na secretária dele.

Fui ao gabinete do Rourke. Ele já mandou a maior parte da papelada que eu entreguei para os registos. O memorando da hipnose ainda estava na caixa, por isso, ele ainda não o deve ter visto. Agora já não serve para nada e é capaz de ser melhor que ele não o veja.

Harry deitou uma olhadela ao memorando, dobrou a folha e guar-dou-a no bolso.

Com toda a franqueza disse ela, não me parece que nenhum dos papéis tivesse estado visível durante o tempo suficiente..., quero dizer, não vejo como. E o Rourke... ele é um tecnocrata e não um assassino. Como disseram de ti, ele não iria passar-se para o outro lado por causa de dinheiro.

Bosch olhou para ela e deu consigo a desejar fazer qualquer coisa que lhe agradasse, que a pusesse outra vez do seu lado. Não conseguia lembrar-se de nada e não era capaz de compreender aquela nova frieza nos modos dela.

Esquece isso disse ele e, depois, olhando outra vez para as listas, acrescentou: Até que ponto é que vocês levaram as investigações destas pessoas que não declaram perdas?

Ela olhou para a folha onde Bosch tinha feito um círculo em volta da lista B. Havia dezanove nomes na lista.

Investigámos cada um dos nomes para ver se tinham registos criminais começou ela. Fizemos uma entrevista telefónica e, mais tarde, uma entrevista cara a cara. Se algum agente sentisse vibrações estranhas ou se alguma das histórias não soasse bem, ia lá outro agente, sem se fazer anunciar, para fazer mais uma entrevista. Como que para ter uma segun-da opinião. Não tive nada a ver com essa parte. Tínhamos uma segunda equipa que tratou da maior parte das entrevistas pessoais. Se estás interessado nalgum nome em especial, posso ir buscar os resumos das entrevistas.

E quanto aos nomes vietnamitas que aparecem nas listas? Contei trinta e quatro donos de cofres com nomes vietnamitas, quatro estão na lista dos que não declararam perdas, um na dos becos sem saída.

O que é que têm os vietnamitas de especial? Provavelmente, tam-bém haverá uma lista, se a quiseres fazer, de chineses, coreanos, brancos, pretos e latinos. Estes bandidos eram a favor da igualdade.

Sim, mas vocês descobriram uma ligação com o Vietname relativamente ao Meadows. Agora temos o Franklin e o Delgado, possivel-mente, envolvidos. Os três foram PMs no Vietname. Temos a Charlie Company, que pode ou não fazer parte disto. Por isso, depois do Meadows ter passado a ser um suspeito e vocês começarem a ir buscar os registos militares de ratos dos túneis, fizeram mais alguma investigação relacionada com os vietnamitas das listas?

Não... Bem, sim. Em relação aos estrangeiros residentes, metemos os nomes deles no INS para ver há quanto tempo cá estavam, se estavam legais. Mas, praticamente, foi só isso. Calou-se durante uns instantes e depois disse: Estou a ver onde queres chegar. É uma falha na forma como tratámos do assunto. Estás a ver, só passámos a considerar que o Meadows era um suspeito, algumas semanas depois do assalto. Nessa altura, a maior parte dessas pessoas já tinham sido entrevistadas. Depois de termos começado a olhar para o Meadows, não me parece que tenhamos voltado para trás para ver se algum dos nomes da lista tinha alguma coisa a ver com ele. Pensas que um destes vietnamitas pode ter feito parte disto?

Nem sei em que é que estou a pensar. Estou só à procura de conexões. Coincidências que não são coincidências.

Bosch tirou o caderno de notas do bolso e começou a fazer uma lista de nomes, datas de nascimento e moradas dos vietnamitas que possuíam cofres. Pôs os nomes dos quatro que não tinham declarado perdas e o da lista dos becos sem saída no princípio. Tinha acabado de escrever os nomes e de fechar o caderno, quando Rourke entrou na sala, com o cabelo ainda molhado do duche matinal. Trazia uma caneca de café que dizia Boss num dos lados. Viu Bosch e Eleanor e olhou para o relógio.

Estão a começar cedo?

A nossa testemunha apareceu morta disse Eleanor sem qualquer expressão no rosto.

Santo Deus! Onde? Apanharam alguém?

Eleanor abanou a cabeça e olhou para Bosch com uma expressão de aviso para ele não começar nada. Rourke também olhou para ele.

Tem a ver com isto? perguntou ele. Há alguma prova disso?

Achamos que sim respondeu Bosch.

Santo Deus!

-Já disse isso comentou Bosch.

Devemos tirar o caso ao Departamento da Polícia de Los Angeles? Juntá-lo às investigações do Meadows?

Perguntou aquilo a olhar para Eleanor Wise. Bosch não fazia parte da equipa das tomadas de decisão. Ela não respondeu, por isso, Rourke acrescentou:

-Devíamos ter-lhe oferecido protecção?

Bosch não conseguiu resistir:

Contra quem?

Uma madeixa do cabelo molhado saltou do sítio e caiu para a testa de Rourke. A cara ficou muito encarnada.

Que raio é que isso quer dizer?

Como é que sabia que o LAPD tinha o caso?

O quê?

Acabou de perguntar se deviam tirar o caso ao LAPD. Como é que sabia que eram eles que o tinham? Nós não dissemos.

Parti desse princípio. Bosch, não gosto da insinuação que isso implica e não gosto nada de si. Está a insinuar que eu ou alguém... Se está a dizer que há uma fuga de informações policiais neste departamento, então eu próprio pedirei uma investigação interna hoje mesmo. Mas digo-lhe já que se houve alguma fuga não foi do departamento.

Então de onde é que podia ter sido, porra? O que é que aconteceu aos relatórios que lhe entregámos? Quem é que os viu?

Rourke abanou a cabeça.

Harry, não seja ridículo. Compreendo como se sente, mas vamos acalmar e pensar um minuto. A testemunha foi apanhada na rua e interrogada na Esquadra de Hollywood, depois foi largada num abrigo público para jovens.

«E, por último, você anda a ser seguido pelo seu próprio departamento, detective. Lamento, mas aparentemente nem a sua própria gente confia em si.

A expressão de Bosch endureceu. Sentia-se traído. Rourke só podia ter sabido da vigilância através de Eleanor. Ela tinha topado Lewis e Clarke. Por que é que não lhe tinha dito nada em vez de ir contar a Rourke? Bosch olhou para ela, mas ela estava a olhar para a secretária. Voltou a olhar para Rourke que estava a abanar a cabeça para cima e para baixo como se fosse uma mola.

Sim, ela apercebeu-se da vigilância logo no primeiro dia. Rourke olhou em redor da sala vazia, obviamente desejoso de ter mais

público. Estava a deslocar o peso do corpo de um pé para o outro como um pugilista à espera impacientemente no seu canto que o novo round começasse para poder desferir o murro final no adversário debilitado.

 

Eleanor Wish continuava calada, sentada à secretária. E, nesse momento, pareceu a Bosh que já tinha sido há um milhão de anos que tinham estado abraçados na cama. Rourke disse:

Se calhar você devia olhar para si próprio e para o seu departamento antes de começar a fazer acusações irresponsáveis.

Bosch não disse nada. Limitou-se a levantar-se e a dirigir-se para a porta.

Harry, onde é que vais? perguntou Eleanor da secretária.

Ele deu meia volta e olhou para ela durante um breve instante, depois continuou a andar.

Lewis e Clarke viram o Caprice de Bosch mal ele saiu da garagem do edifício federal. Clarke ia a guiar. Obedientemente, Lewis apontou a hora no registo.

Leva o diabo no cu disse ele. É melhor aproximarmo-nos mais dele.

Bosch tinha voltado para ocidente na Wilshire e seguia na direcção da 405. Clarke aumentou a velocidade para se manter atrás dele no meio do trânsito da hora de ponta matinal.

Eu também teria o diabo metido em qualquer parte se tivesse acabado de perder a minha única testemunha disse Clarke. Se tivesse feito com que a matassem.

Como?

Tu viste. Ele enfiou o miúdo no abrigo e foi-se embora todo contente. Não sei o que é que o rapaz viu ou o que é que lhes contou, mas foi suficientemente importante para ter de ser eliminado. O Bosch devia ter tomado conta dele muito melhor. Mantê-lo fechado a cadeado.

Na 405, seguiram para sul. Bosch ia dez carros mais à frente, mantendo-se agora na faixa lenta. A auto-estrada estava carregada com uma massa poluente e mal cheirosa de aço em movimento.

Acho que ele vai apanhar a 10 disse Clarke. Vai para Santa Monica. Se calhar, vai voltar a casa dela, provavelmente, esqueceu-se da escova de dentes. Ou ela vai voltar para se encontrar com ele e terem uma sessão matinal. Sabes o que te digo? Digo para o deixarmos ir e nós voltamos para falar com o Irving. Acho que podemos arranjar qualquer coisa com esta coisa da testemunha. Talvez negligência. Há o suficiente para conseguirmos levá-lo a tribunal administrativo. Ele seria pelo menos atirado para fora dos homicídios e, se o Harry Bosch não estiver autori-zado a trabalhar nos homicídios, pega na trouxa e vai-se embora. Mais um sulco na coronha do nosso revólver.

Lewis reflectiu sobre a ideia do colega. Não era má. Era capaz de dar resultado. Mas não queria dar a vigilância por terminada sem o Irving mandar.

Mantém-te atrás dele disse ele. Quando ele parar em qual-quer sítio, eu meto uma moeda e vejo o que é que o Irving quer fazer. Quando ele me ligou esta manhã por causa do miúdo, parecia bastante atiçado. Como se as coisas estivessem a ficar porreiras. Por isso, não quero largar isto sem ele dizer.

Como queiras. A propósito, como é que o Irving soube que o miúdo tinha sido despachado tão depressa?

Não sei. Atenção agora. Ele vai meter-se na 10.

Seguiram o Caprice cinzento de Bosch pela auto-estrada de Santa Monica. Agora estavam a afastar-se da cidade trabalhadora, seguindo na direcção contrária do trânsito e havia menos carros. Mas Bosch já não ia a acelerar. E passou as saídas para Clover Field e Lincoln que levavam à casa de Eleanor Wish, mantendo-se na auto-estrada até ela curvar por dentro do túnel e sair por baixo dos penhascos da praia já como a auto-estrada da Costa do Pacífico. Bosch seguiu para norte ao longo da costa com o sol a brilhar intensamente por cima dele e as montanhas de Malibu uns meros farrapos opacos na neblina ao fundo.

E agora? perguntou Clarke.

Não sei. Deixa-te ficar um bocado para trás.

Não havia muito trânsito na auto-estrada da Costa do Pacífico e estavam a ter dificuldade em manter sempre pelo menos um carro entre eles e o carro de Bosch. Embora Lewis continuasse a acreditar que os chuis nunca se davam ao trabalho de ver se estavam a ser seguidos, hoje, estava a fazer uma excepção a esta teoria com Bosch. A testemunha dele tinha sido assassinada, era possível que, instintivamente, ele pudesse desconfiar que alguém o tinha andado a seguir e que ainda andasse.

Pois é, deixa-te ficar cá atrás. Temos o dia todo e ele também.

A velocidade de Bosch manteve-se constante durante os sete quilómetros seguintes até ele virar para um parque de estacionamento ao pé do Aliceos e do cais de Malibu. Lewis e Clarke continuaram em frente. Oitocentos metros mais à frente, Clarke fez uma inversão de marcha ilegal e voltou para trás. Quando pararam no parque de estacionamento, o carro de Bosch ainda lá estava, mas não viram Bosch.

Outra vez o restaurante? disse Clarke. Ele deve adorar este sítio.

Ainda nem sequer está aberto a esta hora.

Começaram ambos a olhar para em todas as direcções. Havia outros quatro carros ao fundo do parque e as grades nos tejadilhos indicavam que pertenciam ao grupo de surfistas que subiam e desciam no mar a sul do cais. Por fim, Lewis viu Bosch e apontou. Estava a meio caminho da ponta do cais, a andar com a cabeça baixa e o cabelo a esvoaçar. Lewis olhou em volta, à procura da máquina fotográfica e lembrou-se que ainda estava no porta-bagagens. Tirou uns binóculos do porta-luvas e experimentou apontá-los para a figura cada vez mais pequena de Bosch. Foi olhando até Bosch chegar à ponta do estrado de madeira e apoiar os cotovelos no parapeito.

O que é que ele está a fazer? perguntou Clarke. Deixa-me ver.

Tu guias. Eu observo. De qualquer das maneiras, ele não está a fazer nada. Está só ali encostado. Tem de estar a fazer qualquer coisa.

Está a pensar. OK?... Olha. Está a acender um cigarro. Satisfeito? Está a fazer qualquer coisa... espera um minuto.

O quê?

Merda! Devíamos ter a máquina fotográfica preparada.

Que história é essa merda do «nós»? Hoje essa tarefa é tua. Eu estou a guiar. O que é que ele está a fazer?

Deitou qualquer coisa fora. Para a água.

Com os binóculos, Lewis via o corpo de Bosch encostado ao para-peito. Ele estava a olhar para a água lá em baixo. Não havia mais ninguém no cais tanto quanto Lewis conseguia ver.

O que é que ele atirou? Consegues ver?

Porra, como é que posso saber o que é que ele deitou? Não consigo ver a superfície da água daqui. Queres que eu vá ali fora e peça a um daqueles rapazes do surf para ir até lá e ver? Não sei o que é que ele atirou.

Acalma os cavalos! Só estava a perguntar. Bem, consegues lembrar-te da cor do objecto que ele atirou?

Parecia branco, como uma bola. Mas a modos que flutuou.

Julgava que tinhas dito que não conseguias ver a superfície.

Quero dizer, flutuou ao cair. Acho que era um lenço ou um papel qualquer.

O que é que ele está a fazer agora?

Só está ali encostado ao parapeito. Está a olhar para baixo, para a água.

Crise de consciência. Talvez salte e nós poderemos esquecer esta Porcaria toda.

Clarke soltou uma risadinha com a sua própria piada sem graça nenhuma. Lewis não se riu.

Pois, claro. Tenho a certeza que é isso mesmo que ele vai fazer.

Dá-me esses binóculos e vai telefonar. Vê o que é que o Irving quer que a gente faça.

Lewis entregou-lhe os binóculos e saiu do carro. Primeiro, foi até ao porta-bagagens, abriu-o e tirou a Nikon. Colocou a lente comprida e depois deu a volta até à janela do condutor e entregou-a a Clarke.

Tira-lhe uma fotografia para termos qualquer coisa para mostrar ao Irving.

Lewis correu para o restaurante à procura de um telefone. Estava de volta em menos de três minutos. Bosch continuava encostado ao parapeito na ponta final do cais.

O chefe diz para não interrompermos a vigilância em circuns-tância alguma informou Lewis. Também disse que os nossos relatórios são um nojo. Quer mais pormenores e mais fotografias. Apanhaste-o?

Clarke estava demasiado ocupado a olhar através da máquina para lhe responder. Lewis agarrou nos binóculos e olhou. Bosch continuava sem se mexer. Lewis não conseguia perceber. O que é que ele estava a fazer? A pensar? Para que é que ele tinha vindo até tão longe só para fazer isso?

O Irving que se foda, não querem lá ver disse Clarke de repente largando a máquina no colo para olhar para o colega. E sim, tirei-lhe umas fotografias. Chegam para o Irving ficar feliz. Mas ele não está a fazer nada. Está só ali encostado.

Já não está disse Lewis ainda a olhar pelos binóculos. Liga o motor. São horas do espectáculo.

Bosch afastou-se do cais depois de ter atirado o memorando da hipnose numa bola para a água. Como uma flor lançada para um mar agitado, aguentou-se uns breves momentos à superfície e depois afundou-se, desaparecendo por completo. A sua resolução de descobrir o assassino de Meadows estava agora ainda mais forte: agora também queria justiça para o Sharkey. Quando estava de regresso pelo velho cais de madeira, viu o Plymouth que o tinha estado a seguir sair do parque de estacionamento do restaurante. São eles, pensou ele. Mas não tinha importância. Não se ralava com o que eles tinham visto ou julgavam ter visto. Agora as regras eram novas e Bosch tinha os seus próprios planos para Lewis e Clarke.

Seguiu para leste na 10, em direcção à cidade. Nunca se deu ao trabalho de olhar para o retrovisor à procura do carro preto porque sabia que ele lá estava. Queria que estivesse.

Quando chegou a Los Angeles Street, estacionou numa zona proi-bida em frente do US Administration Building. No terceiro andar, atravessou umas das salas de espera atravancadas de gente do Serviço de Naturalização e Imigração. Aquilo cheirava como uma cadeia suor, medo e desespero. Uma mulher aborrecida estava sentada atrás de uma janela de vidro deslizante a fazer as palavras cruzadas do Times. A janela estava fechada. No parapeito, havia um aparelho de senhas igual aos dos talhos. Passados alguns momentos, ela levantou a cabeça para olhar para Bosch. Ele estava a mostrar o distintivo.

Conhece uma palavra com seis letras para um homem que está constantemente infeliz e só? perguntou ela depois de ter empurrado a janela para a abrir e ter verificado se tinha estragado alguma unha.

Bosch.

O quê?

Detective Harry Bosch. Anuncie-me. Quero falar com o Hector V.

Primeiro tenho de perguntar disse ela num tom amuado. Murmurou qualquer coisa para um telefone, depois agarrou no

estojo do distintivo de Bosch e colocou o dedo no nome do cartão de identificação. A seguir desligou.

Ele disse para entrar por trás. Carregou num botão da fechadura da porta ao lado da janela. Diz que você sabe o caminho.

Bosch apertou a mão de Hector Villabona numa sala de trabalho a abarrotar, ainda mais pequena do que a de Bosch.

Preciso de um favor. Preciso de algum tempo de computador.

Vamos lá a isso.

Era disso que Bosch gostava em Hector V. Ele nunca perguntava o quê ou quando antes de decidir. Era do tipo vamos-lá-a-isso. Não entrava nos jogos de aldrabices a que Bosch tinha acabado por acreditar que toda a gente na sua profissão se dedicava. Hector rolou a cadeira até a um IBM numa secretária encostada à parede e introduziu a sua palavra-chave.

Queres verificar nomes, certo? Quantos?

Bosch também não ia pôr-se com aldrabices. Mostrou-lhe a lista dos trinta e quatro nomes. Hector assobiou baixinho e disse:

OK, vamos vê-los, mas estes são vietnamitas, se os casos deles não forem tratados neste gabinete, os registos não estarão aqui. Só tenho o que está no computador. Datas de entrada, documentação, cidadania, tudo o que estiver no computador. Sabes como é, Harry.

Bosch sabia. Mas também sabia que a Califórnia do Sul era o lugar onde a maior parte dos refugiados vietnamitas se instalavam depois da travessia. Hector começou a escrever os nomes com dois dedos e, vinte minutos depois, Bosch estava a olhar para a cópia dos resultados.

De que é que andamos à procura, Harry? perguntou Hector enquanto examinava a lista com ele.

Não sei. Vês alguma coisa que te pareça invulgar? Passaram-se alguns momentos e Bosch pensou que Hector não

tinha visto nada de invulgar. Um beco sem saída. Mas estava enganado.

OK, este aqui. Acho que vais descobrir que ele tem ligações.

O nome era Ngo Van Binh. Não significava nada para Bosch a não ser que tinha vindo da lista B; Binh não tinha declarado nada como tendo sido roubado do seu cofre.

Ligações?

Tem influência disse Hector. Ligações políticas, acho que seria esse o termo. Estás a ver, o número do caso dele tem o prefixo GL. Esses são ficheiros tratados pelo nosso departamento dos casos especiais em DV. Geralmente, o SCB1 não trata de pessoas comuns. Muito político. Trata de casos de pessoas como o Xá, os Marcos, os desertores russos se forem cientistas ou bailarinos. Coisas dessas. Coisas que eu nunca vejo.

Assentiu com a cabeça e pôs o dedo no papel.

OK, depois temos as datas; são demasiado próximas. Aconteceu demasiado depressa, o que me diz que este caso meteu influências valentes. Não conheço este tipo de lado nenhum, mas sei que este tipo conhece pessoas. Olha para a data da entrada, 4 de Maio, 1975. Apenas quatro dias depois do tipo ter saído do Vietname. Ora calcula, o primeiro dia é para chegar a Manila e o último para entrar nos Estados Unidos. Isso deixa apenas dois dias de intervalo em Manila para ele conseguir autorização e conseguir o bilhete visado para o continente. Nessa altura, quer dizer, pá, eles estavam a chegar em barcos a transbordar a Manila. Impossível em dois dias a não ser que houvesse unto. Por isso o que isto quer dizer é que este gajo, este Binh, já trazia autorização. Tinha liga-ções. Não é assim tão invulgar, porque havia uma data de gente que tinha. Nós recebemos cá uma data de gente quando a merda rebentou por todo o lado. Muitos deles eram da elite. Muitos deles tinham apenas dinheiro para pagar e passarem a ser da elite.

 

SCB Special Cases Bureau. (N. T.)

 

Bosch olhou para a data em que Binh tinha saído do Vietname. 30 de Abril de 1975. O mesmo dia em que Meadows tinha saído pela última vez do Vietname. O dia em que Saigão caíra às mãos do Exército do Norte.

E esta DOD? continuou Villabona apontando para outra data.

IUm tempo muito curto para receber a documentação. 14 de Maio. Quer dizer, dez dias depois de chegar, o gajo recebe um visto. É demasiado rápido para o Zé comum. Ou neste caso, para o Ngo comum.

Então o que é que concluis?

É difícil de dizer. Ele podia ter sido um operacional. Ou podia apenas ter tido dinheiro suficiente para sair de helicóptero. Ainda correm uma data de boatos acerca desse tempo. Pessoas que enriqueceram. Os lugares nos transportes militares chegavam a dez mil dólares cada. Não há a menor dúvida que os vistos ainda custavam mais. Nunca foi nada confirmado.

Podes ir buscar o ficheiro deste tipo?

Claro. Se estivesse em DC.

Bosch ficou a olhar para ele e Hector acrescentou:

Todos os GLs estão lá, Harry. É lá que as pessoas com quem as pessoas têm ligações estão. Tás a perceber?

Bosch não respondeu.

Não fiques zangado, Harry. Eu vou ver o que é que consigo arranjar. Vou fazer uns telefonemas. Vais andar por aqui mais logo?

Bosch deu-lhe o número do FBI, mas não lhe disse que era do FBI. Voltaram a trocar um aperto de mão e Bosch saiu. No átrio do rés-do-chão, espreitou para a rua pelas portas de vidro fumado, à procura de Lewis e Clarice. Quando finalmente viu o Plymouth preto virar a esquina quando os dois detectives dos Assuntos Internos completaram outra volta ao quarteirão, Bosch saiu e desceu os degraus até ao carro. Usando a visão periférica, viu o carro dos Assuntos Internos abrandar e encostar ao passeio enquanto os dois esperavam que ele entrasse no carro e arrancasse.

Bosch fez o que eles queriam. Porque era o que ele queria.

A Woodrow Wilson Drive subia serpenteando, no sentido contrário ao dos ponteiros do relógio, à volta das Hollywood Hills, o asfalto rachado e remendado nunca suficientemente largo para passarem dois carros sem terem de reduzir cautelosamente a velocidade. Quando se sobe, as casas à esquerda rastejam na vertical pela encosta acima. Aquilo era dinheiro antigo, sólido e seguro. Telhados e reboco à espanhola. A direita, as casas mais modernas erguem destemidamente as suas divisões em estrutura de madeira por cima das ravinas rochosas de arbustos castanhos e margaridas do desfiladeiro. Estão equilibradas em estacas e esperança e estão tão tenuamente agarradas à beira da colina como os seus proprietários às posições que ocupam nos estúdios lá em baixo. A casa de Bosch era a quarta a contar da ponta do lado direito.

Quando fez a última curva, a casa ficou à vista. Ele olhou para a madeira escura, para o desenho caixa de sapato, à procura de um sinal de que qualquer coisa tinha mudado como se o exterior da casa lhe pudesse dizer se havia algo de errado com o interior. Nessa altura, olhou pelo espelho retrovisor e apanhou a frente do Plymouth preto a aparecer na curva. Bosch estacionou debaixo do telheiro ao lado da casa e saiu. Entrou sem olhar para trás, para o carro que o vigiava.

Tinha ido até ao cais para pensar no que Rourke tinha dito. E ao fazê-lo, pensou na chamada desligada que estava registada no seu aten-dedor de chamadas. Agora, dirigiu-se para a cozinha e ouviu as mensagens gravadas. Primeiro, havia a chamada desligada que tinha entrado na terça-feira e depois a mensagem de Jerry Edgar às primeiras horas da manhã quando Edgar tinha telefonado à procura de Bosch para lhe dizer para ir ter com ele ao Hollywood Bowl. Bosch voltou a andar com a fita para trás e voltou a ouvir a chamada desligada, censurando-se em silêncio por não ter dado conta da sua importância da primeira vez que a ouvira. Alguém tinha telefonado, ouvido a mensagem gravada dele desligado depois de ouvir o primeiro apito. O desligar tinha ficado gravado na fita. A maioria das pessoas, quando não queria deixar recado, teria muito simplesmente desligado mal ouvisse a voz gravada de Bosch a dizer que não estava em casa. Ou, se pensassem que Bosch estava em casa, teriam chamado pelo nome dele mal ouvissem o apito. Mas esta pessoa tinha ouvido a mensagem toda e só tinha desligado quando ouviu o sinal. Porquê? Bosch tinha deixado passar aquilo da primeira vez, mas agora estava convencido de que a chamada tinha sido um teste para um transmissor.

Foi ao armário ao lado da porta e tirou uns binóculos. Foi até à janela da sala e espreitou por uma nesga da cortina à procura do Plymouth preto. Estava meio quarteirão mais acima. Lewis e Clarke tinham passado pela casa, dado a volta e estacionado junto do passeio, virados para baixo e prontos para continuar a perseguição se Bosch saísse. Com os binóculos, Bosch conseguia ver Lewis ao volante a vigiar a casa. Clarke tinha encostado a cabeça ao encosto do banco e tinha os olhos fechados.

Nenhum deles parecia estar a usar auscultadores. Mesmo assim, Harry tinha de se certificar. Sem despegar os olhos dos binóculos, esticou a

mão para a porta da frente, abriu-a uns centímetros e voltou a fechá-la.

os homens no carro dos Ais não mostraram qualquer reacção. Clarke continuou com os olhos fechados. Lewis continuou a limpar os dentes com um cartão de visita.

Bosch concluiu que se eles tivessem posto um microfone lá dentro, este estaria a transmitir para um receptor que estaria longe. Era mais seguro assim. Provavelmente, uma bobine minúscula activada pelo som escondida no exterior da casa. Esperariam até ele se afastar no carro e depois um deles saltaria do carro recolheria rapidamente a bobine, substituindo-a por uma nova. Depois poderiam apanhá-lo antes de ele descer a colina e entrar na auto-estrada. Afastou-se da janela e fez uma inspecção rápida à sala e à cozinha. Verificou a parte de baixo das mesas e os objectos eléctricos, mas não encontrou o microfone e também não estava à espera de o encontrar. O sítio inteligente, como ele sabia, era o telefone que ele estava a guardar para o fim. Tinha uma fonte de alimentação e a sua colocação ali daria uma boa recepção do interior da casa assim como de todas as conversas que se fizessem pelo telefone.

Bosch agarrou no telefone e com um canivete pequenino que estava preso ao porta-chaves abriu a tampa do bucal. Lá dentro, não havia nada que não devesse estar. Tirou a tampa do auscultador. Estava lá. Usando o canivete, levantou o microfone com todo o cuidado. Preso atrás dele por um pequeno magnete, estava um transmissor pequeno, achatado e redondo com o tamanho aproximado de uma moeda de vinte e cinco cêntimos. Dois fios presos ao aparelho que, sabia ele, era activado pelo som e se chamava T-9. Um dos fios estava enrolado à volta de um dos fios do receptor do telefone, roubando electricidade para o microfone. O outro fio entrava na caixa do telefone. Bosch puxou-o para fora com todo o cuidado e saiu a fonte de energia suplementar: uma caixa pequena e delgada contendo apenas uma pequena pilha AA. O microfone era ali-mentado pela corrente do telefone, mas se o telefone fosse desligado, a pilha podia fornecer a energia necessária para cerca de oito horas. Bosch desligou o aparelho do telefone e colocou-o em cima da mesa. Agora estava a alimentar-se da pilha. Ficou a olhar para ele a pensar no que devia fazer. Era uma escuta clássica da polícia. Capacidade de alcance, de quatro metros e meio a seis, preparado para apanhar tudo o que fosse dito na sala. O alcance da transmissão era mínimo, talvez uns vinte e cinco metros, no máximo, dependendo da quantidade de metal dentro do edifício.

Bosch foi outra vez até à janela da sala e espreitou para a rua. Lewis e Clarke continuavam a não mostrar sinais de alerta ou de que o microfone tivesse sido descoberto. Lewis já tinha acabado de limpar os dentes. Bosch ligou o stereo e pôs um CD de Wayne Shorter. Depois saiu pela porta da cozinha para o telheiro do carro. Não podia ser visto do carro dos Assuntos Internos. Encontrou o gravador no primeiro sítio onde procurou: a caixa de junção por baixo do contador de electricidade na parede do fundo do telheiro para o carro. As duas bobines de cinco centímetros estavam a girar ao som do saxofone de Shorter. O gravador Nagra, tal como o T-9, estava ligado à corrente da casa, mas tinha uma pilha de reserva. Bosch desligou-o e levou-o para dentro, colocando-o em cima da mesa, ao lado do microfone.

Shorter estava a acabar «502 Blues». Bosch sentou-se na cadeira da vigília, acendeu um cigarro e pôs-se a olhar para o aparelho enquanto tentava imaginar um plano. Estendeu a mão, voltou a rebobinar a fita e carregou no play. A primeira coisa que ouviu foi a sua própria voz a dizer que não estava lá, depois a mensagem de Herry Edgar sobre o Hollywood Bowl. Os sons seguintes eram a porta a abrir e a fechar por duas vezes e depois o saxofone de Wayne Shorter. Tinham mudado as fitas pelo menos uma vez desde o último telefonema que ele tinha feito. Foi então que se apercebeu de que a visita de Eleanor Wish tinha sido gravada. Pensou naquilo e perguntou para consigo se o microfone teria apanhado o que fora dito na varanda das traseiras. As histórias de Bosch a respeito de si próprio e de Meadows. Ficou furioso ao pensar naquela intromissão, no momento delicado roubado por aqueles dois homens no Plymouyh preto.

Fez a barba, tomou um duche e vestiu roupa lavada, um fato castanho claro com uma camisa oxford cor-de-rosa e uma gravata azul. Depois, voltou à sala e meteu o microfone e o transmissor nos bolsos do casaco. Espreitou outra vez pelas cortinas com os binóculos: continuava a não haver movimento no interior do carro do Departamento dos Assuntos Internos. Voltou a sair pela porta lateral e desceu cuidadosamente pelo talude até à base do primeiro pilar, uma viga de aço I. Atravessou com toda a prudência o declive por baixo da sua casa. Pelo caminho, reparou que os arbustos secos estavam salpicados com farrapinhos de prata dourada, o rótulo da garrafa de cerveja que ele tinha arrancado e deitado fora pela varanda quando estava com Eleanor.

Mal chegou ao outro lado da casa, atravessou a colina, seguindo por baixo das três casas de pilares seguintes. Depois da terceira, trepou a

encosta e, na curva, espreitou para a estrada. Agora estava atrás do Ply-mouth preto. Arrancou os carrapichos das bainhas das calças e avançou descontraidamente para a rua.

Bosch aproximou-se sem ser notado da porta do lado do passageiro. A janela estava aberta e, no preciso instante em que abriu a porta de rompante, pensou que ouvia ressonar dentro do carro.

A boca de Clarke estava aberta e os olhos ainda fechados quando Bosch se inclinou para dentro do carro e agarrou os dois homens pelas gravatas de seda. Bosch colocou o pé no degrau da porta para servir de alavanca e puxou os dois homens para ele. Embora fossem dois, a vantagem era de Bosch. Clarke estava desorientado e Lewis não tinha muito mais noção do que ele do que se estava a passar. Puxá-los pelas gravatas queria dizer que qualquer luta ou resistência só servia para lhes apertar as gravatas em volta do pescoço cortando-lhes o ar. Saíram quase de boa vontade, tropeçando como cães presos pela trela e aterraram ao lado de uma palmeira plantada a cerca de um metro do passeio. Tinham as caras vermelhas e contorcidas. Levaram as mãos aos pescoços, agarrando os nós das gravatas enquanto se debatiam para voltar a meter ar nos pulmões. As mãos de Bosch foram-lhes aos cintos e arrancaram as algemas. Enquanto os dois detectives dos Assuntos Internos engoliam arfadas de ar através das gargantas reabertas, Bosch conseguiu algemar a mão esquerda de Lewis à mão direita de Clarke. Depois, do outro lado da árvore, meteu a mão de Lewis no outro conjunto de algemas. Mas Clarke percebeu o que é que Bosch estava a fazer e tentou levantar-se e liber-tar-se. Bosch voltou a agarrá-lo pela gravata e puxou-o para baixo com toda a força. A cara de Clarke veio para a frente e embateu na palmeira. Ficou momentaneamente atordoado e Bosch fechou a última algema no pulso dele. Os dois chuis dos AI estavam espojados no chão, presos um ao outro, com a palmeira no meio do círculo dos braços de ambos. Bosch tirou-lhes as armas dos coldres e depois recuou para recuperar o fôlego. Atirou as armas para o assento da frente do carro deles.

Tás feito conseguiu finalmente Clarke rosnar com a garganta inchada.

Conseguiram levantar-se e ficaram de pé com a palmeira no meio dos dois. Pareciam dois adultos apanhados a brincar à «minha macha-dinha».

Agressão a um colega, duas acusações disse Lewis. Conduta imprópria. Agora, podemos tramar-te por meia dúzia de outras coisas, Bosch. Tossiu violentamente e o cuspo atingiu o casaco do fato de Clarke. Solta-nos e talvez possamos esquecer isto.

Nem pensar. Não vamos esquecer porra nenhuma disse Clarke para o colega. Ele vai cair como um parvalhão em chamas.

Bosch tirou o aparelho de escuta do bolso e segurou-o na palma da mão de forma a que eles o vissem.

Quem é que se vai lixar? perguntou.

Lewis olhou para o microfone, percebeu o que era e disse:

Nós não sabemos nada a respeito disso.

Claro que não disse Bosch.

Tirou o gravador do outro bolso e estendeu-o também.

Um Nagras sensível ao som, é o que vocês usam nos vossos trabalhinhos, legais ou não, não é verdade? Descobri-o no meu telefone. Ao mesmo tempo que reparei que vocês, seus macacos, me têm estado a seguir por toda a cidade. Não é de concluir que vocês também me puseram o microfone para poderem ouvir além de ver?

Nem Lewis nem Clarke responderam e Bosch também não estava à espera que o fizessem. Reparou numa pequena gota de sangue no canto de uma das narinas de Clarke. Um carro que subia a Woodrow Wilson abrandou e Bosch puxou do distintivo e mostrou-o. O carro continuou a andar. Os dois detectives dos Assuntos Internos não gritaram a pedir ajuda o que fez com que Bosch se começasse a sentir seguro. Isto ia ser jogado à maneira dele. O departamento tinha tido tanta má publicidade por ter feito escutas ilegais a funcionários, dirigentes dos direitos civis, e até mesmo a estrelas de cinema, que estes dois não iam levantar problemas com aquilo. Salvar a própria pele vinha primeiro do que esfolar Bosch.

Têm um mandado a dizer que podem pôr-me sob escuta?

Ouve o que te estou a dizer, Bosch disse Lewis. -Já te disse que...

Não me parece. É preciso ter provas da existência de um crime para conseguir um mandado. Pelo menos, é o que sempre ouvi. Mas o Departamento dos Assuntos Internos não costuma preocupar-se com coisas dessas. Sabes o que é que o teu caso de agressão parece, Clarke? Enquanto vocês os dois me estiverem a levar à Comissão de Direitos e a conseguirem que me despeçam por vos ter arrastado para fora do carro e vos ter posto umas manchas de erva nos vossos cus brilhantes, eu vou levar-vos a vocês os dois, ao vosso patrão Irving, ao Departamento dos Assuntos Internos, ao chefe da polícia e à porra da cidade inteira a tribunal federal num processo da Quarta Emenda. Busca e detenção ilegais. E até junto também o Presidente da Câmara. Que tal?

Clarke cuspiu para a relva aos pés de Bosch. Uma gota de sangue do nariz caiu-lhe na camisa branca. Disse:

Não podes provar que fomos nós, porque não fomos.

Bosch, o que é que queres? perguntou Lewis furioso, a cara ainda mais vermelha do que quando a gravata lhe tinha sido apertada à volta do pescoço como se fosse um nó da forca.

Bosch começou a andar vagarosamente em redor dos dois, para eles terem de estar constantemente a virar as cabeças ou a dobrarem-se em volta da árvore para o poderem ver.

O que é que eu quero? Bem, por muito que despreze os dois, não estou particularmente interessado em arrastar os vossos cus para o tribunal. Arrastá-los pelo passeio já foi suficiente. O que eu quero...

Bosch, devias mandar examinar a porra da tua cabeça explodiu Clarke.

Cala-te, Clarke ordenou Lewis.

Cala-te tu retorquiu Clarke.

Por acaso, até já ma examinaram disse Bosch. E continuo a preferir ter a minha a ter uma das vossas. Vocês iam precisar de um proctologista para ver as vossas.

Disse isto quando passava por trás de Clarke. Depois afastou-se alguns passos e continuou a andar às voltas.

Ora bem, vou dizer-vos uma coisa: estou disposto a esquecer isto. a única coisa que têm de fazer é responder a umas perguntas e ficamos com este mal entendido arrumado. Solto-vos. Afinal de contas, fazemos todos parte da Família, não é assim?

Que perguntas, Bosch? perguntou Lewis. De que é que estás a falar?

Quando é que começaram a vigilância?

Terça-feira de manhã, apanhámos-te quando estavas a sair do FBI respondeu Lewis.

Não lhe digas pevas, pá disse Clarke ao colega.

Ele já sabe.

Clarke olhou para Lewis e abanou a cabeça como se não quisesse acreditar no que estava a ouvir.

Quando é que puseram o microfone em minha casa?

Não pusemos disse Lewis.

Mentira. Mas não interessa. Viram-me interrogar o miúdo em Boytown.

Foi uma afirmação e não uma pergunta. Bosch queria que eles pensassem que ele sabia praticamente tudo e só precisava de preencher umas lacunas.

Sim disse Lewis. Foi o nosso primeiro dia. Quer dizer que nos

topaste. E daí, porra?

Harry viu Lewis levar a mão na direcção do bolso do casaco. Avançou rapidamente e meteu a mão primeiro. Tirou um chaveiro que incluía uma chave das algemas. Atirou as chaves para dentro do carro. Por trás de Lewis, disse:

A quem é que contaram?

Contar? Sobre o miúdo? disse Lewis. A ninguém. Não contámos a ninguém, Bosch.

Vocês escrevem um relatório diário da vigilância, não escrevem? Tiram fotografias, não tiram? Aposto que há uma máquina no banco de trás do vosso carro. A não ser que se tenham esquecido e a tenham deixado no porta-bagagens.

Claro que fazemos isso tudo.

Bosch acendeu um cigarro e recomeçou a andar.

Para onde é que foi tudo?

Passaram-se alguns instantes antes que Lewis respondesse. Bosch viu-o trocar um olhar com Clarice.

Entregámos o primeiro relatório e o rolo ontem. Metemo-lo na caixa do chefe. Como de costume. Nem sequer sei se ele já olhou para ele. Foi o único relatório que fizemos até agora. Por isso, Bosch, tira-nos lá estas algemas. Isto é embaraçoso. As pessoas estão a ver-nos e essa merda toda. Podemos continuar a falar depois.

Bosch meteu-se entre os dois e, soprando o fumo para cima deles, disse que as algemas ficavam até a conversa acabar. Depois inclinou-se para a cara de Clarke e perguntou:

Quem mais recebeu uma cópia?

Do relatório da vigilância? Ninguém recebeu uma cópia, Bosch

respondeu Lewis. Isso seria violar as regras do departamento.

Bosch soltou uma gargalhada e sacudiu a cabeça ao ouvir aquilo. Sabia que eles não iriam admitir nenhuma ilegalidade ou violação das regras do departamento. Começou a afastar-se, em direcção a casa.

Espera um minuto, espera um minuto, Bosch! gritou Lewis-Entregámos uma cópia ao teu tenente. Está bem? Anda cá!

 

Bosch voltou a aproximar-se deles e Lewis continuou:

Ele queria manter-se informado. Tivemos que o fazer. O DC, o Irving, deu autorização. Fizemos o que nos mandaram fazer.

O que é que o relatório dizia sobre o miúdo?

Nada. Que era um miúdo qualquer, mais nada... Uh, «Sujeito envolveu-se numa conversa com um adolescente. O adolescente foi transportado para a Esquadra de Hollywood para interrogatório formal», qual-quer coisa parecida com isto.

Identificaram-no no relatório?

Não havia nome. Nós nem sequer sabíamos o nome dele. Palavra, Bosch. Só te andámos a vigiar. Agora, tira-nos as algemas.

E quanto à Home Street Home? Vocês viram-me levá-lo para lá. Estava no relatório?

Sim, estava no relatório.

Bosch voltou a aproximar-se para muito perto deles.

E agora aqui está a pergunta importante. Se já não há nenhuma queixa do FBI contra mim, por que é que o Departamento dos Assuntos Internos continua em cima de mim? O FBI ligou para o Pounds e retirou a queixa. E depois, vocês agem como se tivessem sido mandados parar, mas não pararam. Porquê?

Lewis ia começar a dizer qualquer coisa, mas Bosch interrompeu-o. Queria que fosse Clarke a responder.

Estás a pensar demasiado depressa, Lewis. Clarke não disse uma palavra.

Clarke, o miúdo que viste comigo acabou por ser morto. Alguém o matou porque ele falou comigo. E as únicas pessoas que sabiam que ele tinha falado comigo eras tu e o teu colega. Passa-se qualquer coisa e se eu não conseguir as respostas de que preciso, vou expor isto tudo, vou tornar tudo público. E vocês vão acabar com os vossos cus a serem inves-tigados pelos Assuntos Internos.

Clarke disse as suas primeiras palavras em cinco minutos.

Vai-te foder! Lewis intrometeu-se.

Olha, Bosch, eu explico-te. O FBI não confia em ti. A coisa é essa. Disseram que te meteram no caso, mas a nós disseram que não tinham a certeza a teu respeito. Disseram que forçaste a tua entrada e que eles vão ter de te ter debaixo de olho para terem a certeza que não estás a tramar alguma. É tudo. Por isso, disseram-nos para recuar, mas para continuarmos em cima de ti. Foi o que fizemos. É tudo, pá. Agora solta-nos. Mal consigo respirar e os pulsos estão a começar a doer-me com estas algemas. Puseste-as muito apertadas. Bosch voltou-se para Clarke.

Onde é que está a tua chave das algemas?

No bolso da frente respondeu ele.

Estava muito calmo, recusando-se a olhar para a cara de Bosch. Bosch deu a volta por trás dele e rodeou-lhe a cintura com as duas mãos. Tirou o porta-chaves do bolso de Clarke e depois murmurou-lhe ao ouvido:

Clarke, se voltares a entrar em minha casa, mato-te.

Depois puxou as calças e os boxers dos detectives até aos tornozelos e começou a afastar-se. Atirou o porta-chaves para dentro do carro.

Filho da puta! gritou Clarke. Eu mato-te primeiro, Bosch!

Enquanto conservasse o microfone e o Nagra em seu poder, Bosch estava razoavelmente convencido de que Lewis e Clarke não iriam tentar que o departamento apresentasse queixa dele. Tinham mais a perder do que ele. Um processo e um escândalo público interrompia-lhes a carreira no patamar para o sexto andar. Bosch meteu-se no carro e voltou para o Edifício Federal.

Demasiadas pessoas tinham sabido do Sharkey ou tinham tido oportunidade de saber, compreendeu ele quando tentava fazer uma avaliação da situação. Não havia nenhuma maneira expedita de identificar o informador interno. Lewis e Clarke tinham visto o rapaz e passado a informação a Irving e a Pounds e sabia-se lá a quem mais. Rourke e o funcionário dos registos do FBI também sabiam. E estes nomes nem sequer incluíam as pessoas da rua que podiam ter visto Sharkey com Bosch, ou que tinham ouvido que Bosch andava à procura dele. Bosch sabia que ia ter de esperar que os acontecimentos evoluíssem.

No Federal Building, a recepcionista ruiva por trás da janela de vidro do andar do FBI fê-lo esperar enquanto ligava para o Grupo 3-Voltou a observar o cemitério através da cortina de gaze e viu várias pessoas a trabalhar na trincheira aberta na colina. Estavam a forrar a ferida da terra com blocos de pedra preta onde, com o Sol, refulgiam intensos pontos de luz branca. E finalmente, Bosch achou que sabia o que é que eles estavam a fazer. A fechadura da porta atrás dele zumbiu e Bosch entrou. Era meio-dia e meia e toda a gente tinha saído excepto Eleanor Wish. Estava sentada à secretária a comer uma sanduíche de salada de ovo, do tipo das que são vendidas numas caixas de plástico triangulares em todas as cafetarias dos edifícios governamentais que ele conhecia.

 

A garrafa de plástico e o copo de papel estavam em cima da secretária. Trocaram um tímido «olá». Bosch sentia que as coisas entre eles tinham mudado, mas não sabia quanto.

Estás aqui desde manhã? perguntou ele.

Ela respondeu que não. Disse-lhe que tinha levado as fotografias de Franklin e Delgado aos funcionários da caixa-forte do WestLand National e que uma das mulheres tinha identificado Franklin como sendo Fredric B. Isley, o dono do cofre na caixa-forte. O batedor.

E o suficiente para um mandado, mas o Franklin não aparece disse ela. O Rourke mandou uma equipa às moradas que a DGV tinha dele e do Delgado. Telefonaram há bocadinho. Ou eles se mudaram ou nunca viveram naqueles sítios. Parece que desapareceram.

E agora? O que é que se segue?

Não sei. O Rourke está a falar em fechar a loja por agora, até os apanharmos. Provavelmente, vais ter de voltar para os Homicídios. Quando apanharmos um deles, voltamos a ir buscar-te para o trabalhares em relação ao homicídio do Meadows.

E também no do Sharkey. Não te esqueças.

Sim, esse também.

Bosch assentiu com a cabeça. Estava acabado. O departamento ia fechar o caso.

A propósito, tens um recado disse ela. Telefonaram para ti e deram o nome Hector. Mais nada.

Bosch sentou-se à secretária ao lado dela e marcou o número directo de Hector Villabona. Ele atendeu ao segundo toque.

E o Bosch.

Ei, o que é que estás a fazer com o FBI? perguntou ele. Telefonei para o número que me deste e alguém me disse que era o FBI.

Pois, é uma longa história. Eu depois conto-te. Conseguiste alguma coisa?

Não consegui grande coisa, Harry e também não vou conseguir. Não consigo obter o ficheiro. Este gajo, o Bihn, seja lá quem for, ele tem algumas ligações. Tal como calculámos. O ficheiro dele ainda está como classificado. Telefonei a um tipo que lá conheço e pedi-lhe para mo mandar. Ele telefonou a dizer que era impossível.

Por que é que ainda é secreto?

Quem sabe, Harry? E por isso que ainda está como classificado. Para que as pessoas não possam descobrir esta merda.

Bem, obrigado. Agora também já não parece tão importante.

Se tiveres uma fonte no Departamento de Estado, alguém com peso, é possível que tenham mais sorte do que eu. Eu não passo de um insignificante. Mas, ouve, há uma coisa que este tipo que eu conheço deixou assim a modos que escapar.

O quê?

Bem, estás a ver, eu dei-lhe o nome do Binh. E quando ele me telefonou disse: «Lamento. O ficheiro do capitão Binh é classificado». Foi exactamente assim que ele disse. Capitão, chamou-lhe ele. Por isso este tipo deve ter sido militar. Provavelmente, foi por isso que o tiraram de lá tão depressa. Se era militar, não há dúvida que lhe salvaram o couro.

Pois é disse Bosch. Depois agradeceu a Hector e desligou. Voltou-se para Eleanor e perguntou se ela tinha alguns contactos no Departamento de Estado. Ela abanou a cabeça negativamente.

Serviços Secretos militares, CIA, qualquer coisa dessas? insis-tiu Bosch. Alguém com acesso aos computadores?

Ela pensou durante uns instantes e disse:

Bem, há um tipo no andar do Estado. Conheço-o mais ou menos de DC. Mas o que é que se passa, Harry?

Podes telefonar-lhe e dizer que precisas de um favor?

Ele não fala ao telefone de assuntos de serviço. Teremos de ir lá abaixo.

Bosch levantou-se. Fora do gabinete, quando estavam à espera do elevador, contou-lhe do Binh, do seu posto militar e do facto de ele ter saído do Vietname no mesmo dia que Meadows. As portas do elevador abriram-se , entraram e ela carregou para o sétimo andar. Estavam sozinhos.

Tu sempre soubeste que eu estava a ser seguido pelos Assuntos Internos disse Bosch.

Vi-os.

Mas sabias antes de os teres visto, não sabias?

Isso faz alguma diferença?

Acho que faz. Por que é que não me disseste? Ela levou um bocado a responder. O elevador parou.

Não sei respondeu por fim. Desculpa. Não o fiz logo e depois, quando quis dizer-te não fui capaz. Pensei que ia estragar tudo. Calculo que, de certa maneira, estragou à mesma.

Por que é que não me disseste logo, Eleanor? Porque ainda havia dúvidas a meu respeito?

Ela olhou para o canto do elevador em aço inoxidável.

Ao princípio, sim, nós não estávamos seguros de ti. Não vou mentir sobre isso.

E depois do princípio?

A porta abriu-se no sétimo andar. Eleanor saiu dizendo:

Ainda aqui estás, não é verdade?

Bosch saiu atrás dela. Agarrou-a pelo braço e fê-la parar. Ficaram ali parados enquanto dois homens com fatos cinzentos quase iguais corriam para a porta aberta do elevador.

Sim, ainda cá estou, mas tu não me disseste nada acerca deles.

Harry, não podemos falar disso noutra altura?

O problema é que eles nos viram com o Sharkey.

Pois, foi o que eu pensei.

Bem, por que é que não disseste nada quando eu falei de informador interno, quando te estava a perguntar a quem é que tinhas contado do miúdo?

Não sei.

Bosch olhou para os pés. Sentia-se como se fosse o único homem no planeta que não compreendia o que se estava a passar.

Falei com eles disse ele. Eles garantem que só nos viram com o miúdo. Nunca se deram ao trabalho de investigar de que é que se tratava. Disseram que não tinham a identificação dele. O nome do Sharkey não constava dos relatórios deles.

E tu acreditas neles?

Nunca tinha acreditado antes. Mas não os vejo envolvidos nisto. Não encaixa. Eles andam apenas atrás de mim e são capazes de tudo para me apanharem. Mas não de matar uma testemunha. Isso seria uma loucura.

Talvez eles estejam a dar informações a alguém que esteja envol-vido e não saibam.

Bosch voltou a pensar em Irving e Pounds.

É uma possibilidade. O que interessa é que há alguém metido nisto cá dentro. Algures. Isto sabemos nós. E pode ser do meu lado. Pode ser do teu. Por isso, vamos ter de ter muito cuidado em relação às pessoas com quem falamos e ao que dizemos.

Passado um instante, olhou-a nos olhos e perguntou:

Acreditas em mim?

Ela levou muito tempo, mas por fim assentiu com a cabeça.

Não consigo pensar em nenhuma outra forma de explicar o que está a acontecer.

Eleanor dirigiu-se para a recepcionista enquanto Bosch se deixava ficar ligeiramente para trás. Alguns minutos depois, uma jovem saiu de uma porta que estivera fechada e levou-os por uns corredores até a um pequeno gabinete. Não estava ninguém sentado à secretária. Sentaram-se nas duas cadeiras em frente da secretária e esperaram.

Com quem é que vamos falar? perguntou-lhe Bosch num murmúrio.

Eu apresento-te e ele logo te diz o que ele quiser que tu saibas a respeito dele respondeu ela.

Bosch ia perguntar-lhe o que é que aquilo queria dizer quando a porta se abriu e um homem entrou. Parecia andar pelos cinquenta anos, cabelo prateado muito bem cuidado e penteado, compleição forte sob o blazer azul. Os olhos cinzentos do homem eram tão baços como as brasas numa barbecue no dia seguinte. Sentou-se e não olhou para Bosch. Manteve os olhos fixos em Eleanor Wish.

Ellie, é bom ver-te de novo disse ele. Como tens passado? Ela respondeu que estava óptima, trocaram mais umas amabilidades

e ela apresentou Bosch.

O homem levantou-se e esticou-se por cima da secretária para trocarem um aperto de mão.

Bob Ernest, vice-subsecretário, comércio e desenvolvimento, prazer em conhecê-lo. Então isto quer dizer que é uma visita oficial e não apenas uma visitinha para ver um velho amigo?

Pois é, lamento, Bob, mas estamos a trabalhar numa coisa e precisamos de ajuda.

Tudo o que eu puder, Ellie disse Ernest.

Estava a irritar Bosch e Bosch só o conhecia há um minuto.

Bob, precisamos de umas informações sobre uma pessoa cujo nome apareceu num caso em que estamos a trabalhar explicou Eleanor Wish. Penso que estás numa posição que te permitirá arranjar-nos essas informações sem grande dificuldade e sem perderes muito tempo.

O nosso problema é exactamente esse acrescentou Bosch. E um caso de homicídio. Não temos muito tempo para podermos usar os canais habituais. Para esperar pelas coisas de Washington.

Um residente estrangeiro?

Vietnamita respondeu Bosch.

Quando é que veio para cá? - 4 de Maio, 1975.

Ah, logo a seguir à queda. Estou a ver. Digam-me, em que raio de homicídio é que o FBI e o Departamento da Polícia de Los Angeles estão a trabalhar juntos e que envolve uma história tão antiga e, ainda por cima, também a história de outro país?

Bob começou Eleanor a dizer, acho que...

Não, não respondam exclamou Ernest. Acho que tens razão. Será melhor compartimentalizarmos as informações.

Ernest dedicou-se a endireitar o mata-borrão e os objectos em cima da secretária. Para começar, não havia nada fora do lugar.

Para quando é que precisam dessas informações? perguntou por fim.

Para agora respondeu Eleanor.

Nós ficamos à espera acrescentou Bosch.

Claro que compreendem que posso não conseguir nada, especial-mente tão em cima da hora?

Claro respondeu Eleanor.

Dêem-me o nome.

Ernest fez deslizar uma folha de papel por cima do mata-borrão. Eleanor escreveu o nome de Binh e empurrou-o para ele. Ernest olhou para o nome durante uns curtos instantes e levantou-se sem nunca tocar no papel.

Vou ver o que posso fazer disse ele e saiu da sala. Bosch olhou para Eleanor.

«Ellie»?

Por favor, não admito que ninguém me chame isso. E por isso que não atendo os telefonemas dele e nunca os retribuo.

Queres dizer, até agora. Vais ficar a dever-lhe um favor.

Se ele descobrir alguma coisa. E tu também vais ficar.

Acho que vou ter de deixar que ele me trate por Ellie. Ela não sorriu.

Afinal, como é que conheceste este tipo? Ela não respondeu.

Bosch disse:

Provavelmente está a ouvir o que nós estamos a dizer.

Olhou em volta da sala, embora, obviamente, qualquer aparelho de escuta que pudesse haver tivesse de estar escondido. Puxou dos cigarros quando viu um cinzeiro em cima da secretária.

Por favor, não fumes pediu Eleanor.

Só um.

Conheci-o quando estávamos os dois em Washington. Já nem me lembro a propósito de quê. Ele também era vice qualquer coisa do Departamento de Estado nessa altura. Tomámos umas bebidas. Mais nada. Algum tempo depois, ele transferiu-se para cá. Quando me viu no elevador e descobriu que também tinha sido transferida, começou a telefonar.

CIA, certo? Ou qualquer coisa muito parecida.

Mais ou menos. Acho eu. Não interessa se ele conseguir o que queremos.

Mais ou menos. Conheci uns merdosos como ele durante a guerra. Por muita coisa que ele nos venha a dizer hoje, vai ficar sempre muita coisa de fora. Para tipos deste calibre, a informação é a moeda de troca deles. Nunca dão tudo. Tal como ele disse, eles compartimentalizam tudo. São capazes de nos deixar morrer antes de dizerem tudo.

Podíamos parar de falar agora?

Claro... Ellie.

Bosch ocupou o tempo a fumar e a olhar para as paredes vazias. O tipo não fez nenhum esforço para fazer com que aquilo parecesse um gabinete a sério. Não havia bandeira no canto. Nem sequer uma fotografia do presidente. Ernest voltou ao fim de vinte minutos e, nessa altura, Bosch já ia no seu segundo meio cigarro. Quando o vice-subse-cretário do comércio e desenvolvimento entrou na sala de mãos vazias, disse:

Detective, importava-se de não fumar aqui dentro? Acho isso muito desagradável numa sala fechada.

Bosch apagou o cigarro na tigelinha preta no canto da secretária.

Desculpe disse ele. Vi o cinzeiro. Pensei que...

Não é um cinzeiro, detective disse Ernest num tom sombrio.

É uma tigela de arroz com trezentos anos. Trouxe-a comigo depois da minha comissão no Vietname.

Também já estava a trabalhar no comércio e desenvolvimento nessa época?

Desculpa, Bob, descobriste alguma coisa? intrometeu-se Eleanor.

Sobre o nome?

Ernest levou um bom bocado a afastar os olhos de Bosch.

Descobri muito pouca coisa, mas o que arranjei é capaz de ser útil. Este homem, Binh, é um antigo polícia militar de Saigão. Um capitão... Bosch, você é veterano desta altercação?

Está a referir-se à guerra? Sim, sou.

Claro que é disse Ernest. Diga-me, esta informação diz-lhe alguma coisa?

Não muito. Eu passei quase toda a minha comissão no interior do país. Não vi grande coisa de Saigão, excepto os bares dos Yanks e as salas de tatuagens. O tipo era capitão da polícia, isso devia ter algum signifi-cado para mim?

Suponho que não. Por isso, deixe-me dizer-lhe. Como capitão, o Binh dirigia a unidade de combate à droga do departamento da polícia.

Bosch pensou naquilo e disse:

OK, provavelmente, era tão corrupto como tudo o que estava relacionado com aquela guerra.

Suponho que, vindo do interior do país, você não sabe muita coisa sobre o sistema, a maneira como as coisas funcionavam em Saigão? perguntou Ernest.

Por que é que não nos explica? Parece-me que isso era do seu departamento. O meu era apenas tentar manter-me vivo.

Ernest ignorou a provocação. Resolveu também ignorar Bosch. Só olhou para Eleanor enquanto falava.

Era tudo muito simples, na verdade explicou ele. Se negociasses em substâncias, carne humana, jogo, qualquer outra coisa no mercado negro, eras obrigada a pagar uma tarifa local, uma dízima à casa, por assim dizer. Esse pagamento mantinha a polícia local afastada. Praticamente, garantia que o negócio não seria interrompido dentro de certos limites. Só tinhas de te preocupar com a polícia militar dos Estados Unidos. Claro, eles também podiam ser comprados, calculo eu. Sempre se falou nisso. Bem, seja como for, o sistema funcionou durante anos, desde o princípio do princípio até depois da retirada americana, até, calculo eu, 30 de Abril de 1975, o dia em que Saigão caiu.

Eleanor assentiu com a cabeça e ficou à espera que ele continuasse.

O envolvimento militar americano durou mais de uma década, antes disso havia os franceses. Estamos a falar de muitos, muitos anos de intervenção estrangeira.

Milhões disse Bosch.

O quê?

Está a falar de milhões de dólares de subornos.

Sim, exactamente. Dezenas de milhões quando se soma os anos todos.

E onde é que o capitão Binh encaixa nisso? perguntou Eleanor.

Estás a ver disse Ernest, a informação que tínhamos na altura era que a corrupção dentro da polícia de Saigão era orquestrada ou controlada por uma tríade chamada Os Três do Diabo. Pagavas-lhes ou não fazias negócio. Era muito simples.

Por coincidência, ou melhor, por não haver coincidência nenhuma, a polícia de Saigão tinha três capitães cujos domínios correspondiam perfeitamente, por assim dizer, aos da tríade. Um capitão encarregado do vício. Outro dos narcóticos. Outro da patrulha. Segundo as nossas informações, esses três capitães eram na realidade a dita tríade.

Está sempre a dizer «As nossas informações». Isso quer dizer as informações do comércio e desenvolvimento? Onde é que foi buscar isto?

Ernest recomeçou a arrumar as coisas em cima da secretária e depois dirigiu-se a Bosch deitando-lhe um olhar gelado.

Detective, veio ter comigo à procura de informações. Se quer saber qual é a fonte dessas informações, então está muito enganado. Veio ter com a pessoa errada. Pode acreditar no que eu lhe digo ou não. Isso não tem qualquer importância para mim.

Os dois homens entreolharam-se fixamente mas não disseram mais nada.

O que é que lhes aconteceu? perguntou Eleanor. Aos membros da tríade?

Ernest desviou os olhos de Bosch e respondeu:

O que aconteceu foi que quando os Estados Unidos retiraram as suas tropas em 1973, a fonte de recursos da tríade ficou bastante reduzida. Mas, como qualquer entidade de negócios responsável, eles já estavam à espera disso e procuraram uma maneira de a substituir. E as nossas informações à época eram de que eles mudaram consideravelmente de posições. Nos princípios da década de setenta passaram do papel de protecção às operações da droga em Saigão para o de se tornarem parte dessas operações. Através dos contactos políticos e militares e, evidentemente, do poder da polícia, solidificaram-se como intermediários de toda a heroína castanha que vinha das montanhas e era levada para os Estados Unidos.

Mas não durou disse Bosch.

Oh, não. Claro que não. Quando Saigão caiu em Abril de setenta e cinco, eles tiveram de sair. Tinham ganhado milhões, calcula-se que entre quinze a dezoito milhões de dólares americanos cada um. Não teriam o menor valor na nova cidade Ho Chi Minh e, de qualquer das maneiras, também não estariam vivos para os gozar. A tríade tinha de sair de lá se não queria enfrentar o pelotão de fuzilamento do Exército do Norte. E tinham que sair com o dinheiro...

E como é que o fizeram? perguntou Bosch.

Era dinheiro sujo. Dinheiro que nenhum capitão da polícia vietna-mita podia ou devia ter. Suponho que o podiam ter mandado para Zurique, mas é preciso não nos esquecermos de que estamos a lidar com a cultura vietnamita. Nascida da confusão e da desconfiança. Da guerra. Esta gente nem sequer confiava nos bancos do seu próprio país. E, além disso, já não era dinheiro.

O quê? perguntou Eleanor sem perceber.

Tinham andado a convertê-lo. Sabes o que são dezoito milhões em dinheiro? Se calhar enchiam uma sala. Por isso, eles arranjaram maneira de o encolher. Pelo menos, é o que julgamos.

Pedras preciosas disse Bosch.

Diamantes disse Ernest. Dizem que com o tipo certo de diamantes, dezoito milhões de dólares deles cabem em duas caixas de sapatos.

E num cofre de uma caixa-forte disse Bosch.

É possível, sim, mas, por favor, não quero saber aquilo que não preciso de saber.

O Binh era um dos capitães disse Bosch. Quem eram os outros dois?

Disseram-me que um deles se chamava Van Nguyen. E pensa-se que morreu. Nunca saiu do Vietname. Morto pelos outros dois ou pelo Exército do Norte. Mas nunca saiu. Foi confirmado pelos nossos agentes em Ho Chi Minh depois da queda. Os outros dois saíram. Vieram para cá. E ambos tinham passes, arranjados através das ligações e do dinheiro, calculo eu. Nisso não os posso ajudar... Havia o Binh, que ao que parece vocês descobriram, e o outro era Nguyen Tran. Veio com o Binh. Para onde foram e o que é que fizeram cá... nisso já não vos posso ajudar. Já passaram quinze anos. Mal eles fizeram a travessia, deixaram de ser preocupação nossa.

Por que é que vocês os deixaram entrar?

Quem é que diz que deixámos? Tem de perceber, detective Bosch, que muitas destas informações foram coligidas depois do facto.

Ernest levantou-se. Aquilo tinha sido toda a informação que ele es-tava disposto a descompartimentalizar naquele dia.

Bosch não queria voltar para o departamento. As informações de Ernest eram como anfetaminas no seu sangue. Queria andar a pé. Queria falar, queria fazer barulho. Quando entraram no elevador carregou no botão para o átrio de entrada e disse a Eleanor que iam sair. O departamento parecia um aquariozinho. Ele queria um espaço grande.

A Bosch sempre lhe tinha parecido que em todas as investigações, as informações iam aparecendo devagarinho, como a areia a cair lenta e regularmente pelo gargalo de uma ampulheta. Em determinado momento, havia mais informação no fundo da ampulheta. E então, a areia na parte de cima parecia começar a cair mais depressa, até se transfor-mar numa cascata. Estavam nesse momento com Meadows, o assalto ao banco, a coisa toda. As coisas estavam a começar juntar-se.

Saíram pelo átrio da frente e atravessaram para o relvado onde havia oito bandeiras dos Estados Unidos e uma do estado da Califórnia a adejar preguiçosamente nos postes dispostos em semicírculo. Desta vez não havia ninguém a protestar. O ar estava quente e anormalmente húmido para a época do ano.

Temos mesmo que andar a passear aqui fora? perguntou Eleanor. Preferia estar lá em cima, onde estaríamos ao pé do telefone. Podias tomar um café.

Quero fumar.

Dirigiram-se para norte, na direcção do Wilshire Boulevard. Bosch disse:

Estamos em 1975. Saigão está prestes a ir pelo cano abaixo. O capitão da Polícia Binh paga a pessoas para o tirar a ele e à sua parte dos diamantes dali para fora. A quem é que paga, não sabemos. Mas sabemos que ele consegue tratamento VIP durante toda a viagem. A maior parte das pessoas saíram de barco, ele foi de avião. Quatro dias de Saigão aos Estados Unidos. Está acompanhado por um conselheiro civil ameri-cano para ir aplainando as coisas. E o Meadows. Ele...

Ele pode ter estado acompanhado disse ela. Esqueceste-te da palavra «pode».

Não estamos no tribunal. Estou a dizer da maneira como vejo as coisas, OK? Depois, se não gostares, podes dizer à tua maneira.

Ela levantou os braços como se se estivesse a render e Bosh continuou.

Portanto, o Meadows e o Binh estão juntos. 1975. O Meadows está a trabalhar na segurança dos civis ou qualquer coisa parecida. Estas a ver, ele também se está a raspar dali. Ele pode ter ou não conhecido o

Binh dos seus negócios paralelos, do tráfico de heroína. O mais provável é ter conhecido. Provavelmente até trabalhou mesmo para o Binh. Ora, ele pode ter sabido ou não o que é que o Binh carregava consigo. O mais provável é que pelo menos fizesse alguma ideia.

Bosch parou para organizar as suas ideias e Eleanor, relutantemente, continuou.

Binh traz consigo o seu desagrado cultural ou desconfiança em meter o dinheiro nas mãos dos banqueiros. Além disso, também tem um problema adicional. O dinheiro dele não é legal. Não foi declarado, é desconhecido e é ilegal tê-lo com ele. Não o pode declarar nem fazer um depósito normal porque isso daria nas vistas e ele teria sido obrigado a explicar-se. Por isso, ele guarda a sua nada pequena fortuna na segunda coisa melhor: uma caixa-forte de um banco. Onde é que vamos?

Bosch não respondeu. Estava demasiado absorvido nos seus próprios pensamentos. Estavam em Wilshire. Quando o sinal para andar faiscou por cima do cruzamento, avançaram com o fluxo de corpos. No outro lado da rua, viraram para ocidente, caminhando ao longo das sebes que bordejavam o cemitério dos veteranos. Bosch retomou a história.

OK, então o Binh meteu a sua parte num cofre de um banco. Começa a viver o seu grande sonho americano como refugiado. Só que ele é um refugiado rico. Entretanto, o Meadows volta no fim da guerra, não consegue encaixar-se na confusão da vida normal, não consegue vencer o vício da droga e começa a traficar para alimentar o vício. Mas as coisas não são tão fáceis como em Saigão. É apanhado, passa algum tempo na choça. Sai, volta, sai e, finalmente começa a cumprir tempo a sério por acusações criminais federais relacionadas com assaltos a bancos.

Havia uma abertura na sebe e um caminho de lajes. Bosch meteu por ele e pararam a olhar para a vastidão do cemitério, as filas de pedras gravadas de um branco polido pelo tempo que se recortavam no mar de relva. A sebe alta abafava o ruído da rua. De repente, havia uma grande paz.

Parece um parque comentou Bosch.

E um cemitério sussurrou ela. Vamo-nos embora.

Não é preciso sussurrares. Vamos dar uma volta. É sossegado. Eleanor hesitou mas depois foi atrás dele quando ele seguiu pelo

caminho das lajes até a um carvalho velho que fazia sombra às campas de um grupo de veteranos da Primeira Guerra Mundial. Apanhou-o e continuou a conversa.

 

Bem, então agora temos o Meadows na TI. Não se sabe como, ouve falar desta Charlie Company. Consegue atrair a atenção deste soldado-ministro que dirige a comunidade, consegue o seu apoio e consegue sair mais cedo da TI. Na Charlie Company entra em contacto com dois velhos camaradas da guerra. Ou pelo menos é aquilo que supomos. O Delgado e o Franklin. Só que só há um dia em que os três estão todos juntos na Charlie Company. Apenas um dia. Estás a dizer-me que eles cozinharam isto tudo neste único dia?

Não sei disse Bosch. Pode ter acontecido. Mas duvido. Pode ter sido planeado mais tarde, depois de eles terem estabelecido contacto na quinta. O importante é que os temos juntos, ou muito perto, em Saigão, em 1975. Agora temo-los outra vez juntos na Charlie Company. A seguir, o Meadows acaba o cursinho, arranja uns quantos empregos para disfarçar até acabar a liberdade condicional. Depois, despede-se e desaparece.

-Até?

Até ao assalto ao WestLand. Entram e arrombam os cofres todos até encontrarem o do Binh. Ou talvez já soubessem qual era o dele. Devem tê-lo seguido quando andavam a preparar o golpe e devem ter descoberto onde é que ele guardava o que restava da sua parte dos diamantes. Precisamos de voltar a consultar os registos da caixa-forte para vermos se este Frederic B. Isley alguma vez fez uma visita ao mesmo tempo que o Binh. Aposto que vamos descobrir que fez. Viu qual era o cofre de Binh porque esteve lá ao mesmo tempo que ele.

«Depois, durante o assalto à caixa-forte, rebentaram o cofre dele e a seguir os outros todos, levando tudo como camuflagem. A genialidade disto foi eles saberem que o Binh não podia declarar o que lhe tinha sido roubado porque, legalmente, não existia. Eles sabiam disso. Foi perfeito. E o que fez que assim fosse foi eles terem levado todas as outras coisas para encobrir o seu alvo verdadeiro. Os diamantes.

O crime perfeito disse ela. até ao Meadows ter empenhado a pulseira com os golfinhos de ouro. E isso que faz com que o matem. O que nos trás outra vez à pergunta que já fazíamos há uns dias atrás. Porquê? E outra coisa que não faz sentido: por que é que, se o Meadows ajudou a saquear a caixa-forte, ele estava a viver naquele pardieiro? Era um homem rico que não agia como um homem rico.

Bosch continuou a andar em silêncio durante um bocado. Era a pergunta para a qual ele vinha à procura de uma resposta desde o seu encontro com Ernest. Pensou no pagamento adiantado de onze meses da renda de Meadows. Se estivesse vivo, estaria a mudar-se na semana seguinte. Enquanto passeavam pelo jardim de pedras brancas, tudo parecia encaixar. Já não havia areia nenhuma na parte de cima da ampulheta. Por fim, falou.

Porque o crime perfeito ainda só ia em metade. Ao empenhar a pulseira, estava a denunciá-lo cedo demais. Por isso, ele tinha de morrer e eles tinham de recuperar a pulseira.

Ela parou e olhou para ele. Estavam parados na estrada que dava acesso à secção da Segunda Guerra Mundial. Bosch reparou que as raízes de outro velho carvalho tinham empurrado algumas das lápides gastas, desalinhando-as. Pareciam dentes à espera das mãos de um dentista.

Explica-me lá isso, aquilo que acabaste de dizer disse Eleanor.

Eles arrombaram vários cofres para encobrirem que o que real-mente queriam era o que estava dentro do cofre do Binh. Certo?

Ela assentiu. Continuavam parados.

  1. Por isso, para continuarem a encobrir isso, o que é que eles tinham de fazer? Libertarem-se de todas as outras coisas de maneira a que elas nunca mais fossem encontradas. E eu não estou a falar em as venderem a passadores. Estou a dizer verem-se livres delas, destruírem-nas, afundarem-nas, enterrarem-nas para sempre, em qualquer sítio onde nunca mais fossem descobertas. Porque no minuto em que a primeira peça de joalharia ou qualquer moeda antiga, ou qualquer acção aparecesse e a polícia descobrisse, teriam uma pista e iriam à procura.

Então achas que o Meadows foi morto por ter empenhado a pulseira? perguntou Eleanor.

Não foi exactamente por causa disso. Há outras correntes a moverem-se no meio disto tudo. Por que é que, se o Meadows tinha uma parte dos diamantes do Binh, ele se havia de incomodar com uma pulseira que valia apenas uns milhares de dólares? Por que é que ele havia de viver da maneira que vivia? Não faz sentido.

Estás a baralhar-me, Harry.

Também eu estou baralhado. Mas analisa isto nesta perspectiva só por um minuto. Digamos que eles o Meadows e os outros sabiam onde é que os dois, o Binh e o outro capitão, o Nguyen Tran estavam e onde é que ambos tinham guardado o que restava dos diamantes que tinham trazido para cá. Digamos que havia dois bancos e os diamantes estavam em duas caixas-fortes. E digamos que eles iam assaltar as duas. Primeiro, limpam o banco do Binh. E agora vão atacar o do Tran.

Ela assentiu com a cabeça para indicar que o estava a acompanhar. Bosch sentia a excitação a aumentar.

  1. Estas coisas demoram tempo a planear, para prepararem toda a estratégia, para o planearem para uma altura em que o banco esteja fechado três dias seguidos porque é desse tempo todo que precisam para abrir o número suficiente de cofres para fingirem que era isso que queriam. E depois há o tempo de que necessitam para escavar o túnel.

Tinha-se esquecido de acender um cigarro. Percebeu isso naquele momento e meteu um na boca.

Estás a acompanhar-me?

Ela assentiu. Ele acendeu o cigarro.

OK, vejamos, o que teria sido a melhor coisa a fazer depois de assaltares o primeiro banco, mas antes de limpares o segundo? Ficas quietinha e não deixas transparecer nada. Vês-te livre de todas as coisas que tiraste como camuflagem, todas as coisas das outras caixas. Não ficas com nada. E sentas-te em cima da caixa dos diamantes do Binh. Não podes começar a negociá-los porque isso podia atrair a atenção para ti e estragar o segundo golpe. De facto, o Binh deve ter posto gente a farejar, à procura dos diamantes. Quero dizer, ao longo destes anos, ele andava provavelmente a vendê-los aos bochechos e devia estar familiarizado com a rede de receptadores de diamantes. Por isso, eles também tinham de ter cuidado com ele.

Quer dizer que o Meadows quebrou as regras disse ela. Ele guardou uma coisa. A pulseira. Os sócios descobriram e limparam-lhe o sebo. Depois assaltaram a casa de penhores e recuperaram a pulseira. Abanou a cabeça admirando o plano. A coisa teria sido perfeita se ele não tivesse feito aquilo.

Bosch assentiu. Ficaram ali parados, a olhar um para o outro e depois para o cemitério. Bosch deitou fora o cigarro e pisou-o. Ao mesmo tempo, olharam para o cimo da colina e viram as paredes negras do Memorial Aos Veteranos do Vietname.

O que é que aquilo está aqui a fazer? perguntou ela.

Não sei. É uma réplica. Com metade do tamanho. Mármore falso. Acho que eles andam com ele de um lado para o outro pelo país inteiro para o caso de alguém o querer ver e não poder ir a DC.

Eleanor soltou um queixume e voltou-se para ele.

Harry, esta segunda-feira é o Memorial Day!

Eu sei. Os bancos fecham dois dias. Alguns três. Temos de descobrir o Tran.

Ela preparou-se para voltar para o FBI. Ele deitou um último olhar ao memorial. A comprida placa de mármore fingido com todos os nomes gravados estava cravada na encosta da colina. Um homem com um uniforme cinzento varria o passeio à frente dele. Havia um monte de flores violeta de um jacarandá.

Harry e Eleanor permaneceram calados enquanto saíam do cemitério e voltavam pela Wilshire em direcção ao Edifício Federal. Foi então que ela fez a pergunta com que Bosch andava às voltas na cabeça e para a qual ainda não tinha encontrado uma resposta satisfatória.

Porquê agora? Porquê todo este tempo? Já passaram quinze anos.

Não sei. Se calhar é o momento exacto, mais nada. Pessoas, coisas, forças invisíveis, juntam-se de tempos a tempos. E o que eu acredito. Quem sabe? Se calhar o Meadows esqueceu-se por completo do Binh e, um dia, viu-o na rua por puro acaso, e veio-lhe tudo outra vez à memória. O plano perfeito. Se calhar o plano era de outra pessoa qualquer ou então foi mesmo pensado naquele dia que os três passaram juntos na Charlie Company. Os porquês nunca se sabem com exactidão. Só precisamos de saber «como» e «quem».

Sabes, Harry, se eles andam por aí, ou como deveria dizer, aí por baixo, a escavar um túnel novo, então temos menos de dois dias para os encontrar. Temos de mandar gente lá para baixo para os procurar.

Ele pensou que mandar uma equipa para os túneis da cidade à procura de uma possível entrada para um túnel dos bandidos era procurar uma agulha num palheiro. Ela tinha-lhe dito que havia mais de dois mil e quatrocentos quilómetros de túneis por baixo de L.A. era possível que não conseguissem encontrar o túnel dos bandidos mesmo que tivessem um mês. A chave tinha de ser o Tran. Descobrir o último capitão da polícia e depois descobrir o banco. Aí encontrariam os bandidos. E os assassinos de Billy Meadows. E de Sharkey.

Achas que o Binh nos entregaria o Tran? perguntou ele.

Ele não informou que a sua fortuna tinha sido roubada do banco, por isso, não me parece o género de pessoa que nos vá dizer onde está o Tran.

Exactamente. Acho que o melhor é tentarmos descobri-lo por nós antes de irmos falar com o Binh. E melhor deixar o Binh como último recurso.

Vou já para o computador.

Certo.

O computador do FBI e as redes de computadores a que ele tinha acesso não divulgaram o paradeiro de Nguyen Tran. Bosch e Eleanor não encontraram qualquer referência a ele no DMV, INS, IRS ou nos ficheiros da Segurança Social. Não havia nada nos ficheiros dos nomes fictícios dos registos do Condado de Los Angeles. Nenhuma menção dele nos registos do DWP, nem nos registos dos eleitores ou dos impostos sobre a propriedade. Bosch telefonou a Hector Villabona e confirmou que Tran tinha entrado nos Estados Unidos no mesmo dia de Binh, mas não havia mais registos. Passado três horas a olhar para as letras amarelas do ecrã do computador, Eleanor desligou-o.

Nada disse ela. Ele está a usar um nome diferente. Mas não o mudou legalmente, pelo menos neste país. Ninguém tem o rasto do tipo.

Ficaram sentados desiludidos e calados. Bosch bebeu o último golo de café de uma chávena de plástico. Passava das cinco e a sala de trabalho estava deserta. Rourke tinha ido para casa depois de ter sido informado das últimas novidades e de ter decidido não mandar ninguém para os túneis.

Sabem quantos quilómetros de túneis para controlo das águas há em L.A.? Tinha ele perguntado. Aquilo lá em baixo é como um sistema de auto-estradas. Estes tipos, se é que estão de facto lá em baixo, podem estar em qualquer sítio. íamos andar aos tropeções no escuro. Eles teriam tudo a favor deles e algum dos nossos podia acabar por ficar ferido.

Bosch e Eleanor sabiam que ele tinha razão. Não discutiram com ele e meteram-se ao trabalho para descobrirem Tran. E tinham fracassado.

Sendo assim, agora temos mesmo de ir ter com o Binh disse Bosch depois de acabar de beber o café.

Achas que ele vai cooperar? perguntou ela. Ele vai saber que se queremos o Tran, é porque devemos conhecer o passado dele. E os diamantes.

Não sei o que é que ele fará respondeu Bosh. Amanhã vou falar com ele. Tens fome?

Vamos falar com ele amanhã corrigiu ela e depois sorriu. E sim, tenho fome. Vamo-nos embora.

Comeram num grill na Broadway em Santa Monica. Eleanor escolheu o restaurante e, uma vez que ficava perto do apartamento dela, Bosch sentia-se muito bem disposto e descontraído. Um trio tocava num pequeno estrado de madeira ao canto da sala, mas as paredes de tijolo da casa abafavam o som tornando-o praticamente inaudível. Depois, Eleanor e Bosch deixaram-se ficar confortavelmente sentados a saborearem espressos. Havia entre eles um sentimento de ternura que Bosch sentia mas não sabia explicar. Não conhecia esta mulher que estava sentada à sua frente. Um olhar para aqueles duros olhos castanhos disse-lhe isso. Queria meter-se por trás deles. Tinham feito amor, mas ele queria estar apaixonado. Queria-a.

Parecendo, como sempre, ler-lhe os pensamentos, ela perguntou-lhe:

Vens para casa comigo hoje à noite?

Lewis e Clarke estavam no segundo nível do estacionamento da garagem do outro lado da rua, meio bloco abaixo do Broadway Bar & Grill. Lewis estava fora do carro, agachado junto ao parapeito, a observar através da máquina fotográfica. A objectiva com trinta centímetros de comprimento estava apoiada num tripé e apontada para a porta da frente do restaurante, a cem metros de distância. Esperava que as luzes por cima da porta fossem suficientes. Tinha um rolo de alta velocidade na máquina, mas a pintinha vermelha a piscar no visor estava a dizer-lhe para não tirar a fotografia. Ainda não havia luz suficiente. Apesar disso, resolveu experimentar. Queria uma fotografia.

Não vais conseguir nada disse Clarke atrás dele. Com esta luz é impossível.

Deixa-me fazer o meu trabalho. Se não conseguir, não consegui. Quem é que se importa?

O Irving?

Bem, ele que se foda. Ele disse-nos que queria mais documentação.é o que vai ter. Só estou a tentar fazer aquilo que o homem quer.

Devíamos tentar ir ali abaixo, ao pé daquele deli, tirar mais de perto...

Clarke calou-se e virou-se ao ouvir passos. Lewis manteve os olhos fixos na câmara, à espera de poder tirar a fotografia ao restaurante. Os passos pertenciam a um homem com o uniforme azul de um segurança.

Posso perguntar-lhes o que é que estão a fazer aqui? perguntou o guarda.

Clarke mostrou-lhe o distintivo e disse:

Estamos a trabalhar.

O guarda, um jovem negro, deu um passo em frente para ver melhor o crachá e a identificação e estendeu a mão para o segurar. Clarke levantou-o abruptamente, pondo-o fora do alcance dele.

Não toques nisso, mano. Ninguém mexe no meu crachá.

Isso diz LAPD. Vocês contactaram com o Departamento da Polícia de Santa Monica? Eles sabem que estão aqui?

Porra, mas quem é que quer saber disso? Deixa-nos em paz. Clarke voltou-lhe as costas. Ao ver que o guarda não se ia embora

voltou-se outra vez e perguntou:

Filho, precisas de alguma coisa?

Esta garagem é o meu território, detective Clarke. Posso estar onde muito bem entender.

Podes é pôr-te fora daqui. Eu posso...

Clarke ouviu o obturador da máquina fotográfica a fechar e o barulho do zumbido automático. Virou-se para Lewis que se endireitou a sorrir.

Consegui... uma fotografia de primeira disse Lewis enquanto se endireitava. Eles estão de saída, vamos embora!

Lewis dobrou as pernas telescópicas da objectiva e entrou rapida-mente para o assento do passageiro do Caprice cinzento pelo qual tinham trocado o Plymouth preto.

Até à vista, mano disse Clarke para o guarda enquanto deslizava para trás do volante.

O carro recuou obrigando o segurança a saltar para o lado para fugir do caminho. Clarke olhou pelo espelho retrovisor e sorriu enquanto seguia em direcção à rampa de saída. Viu o guarda a falar para um rádio que tinha na mão.

Fala o que quiseres, rapazinho! disse ele.

O carro dos Assuntos Internos parou ao lado da cabina de saída. Clarke entregou o bilhete e dois dólares ao homem na cabina. Ele aceitou, mas não levantou o cano às riscas pretas e brancas que servia de barreira.

O Benson diz que eu tenho de vos aguentar aqui, rapazes disse o homem da cabina.

O quê? Quem é o Benson, porra? perguntou Clarke.

É o segurança. Ele disse para esperarem um minuto. Naquele preciso instante, os dois agentes dos Assuntos Internos viram Bosch e Eleanor Wish passar no carro pela frente da garagem em direcção à Fourth Street. Iam perdê-los. Clarke exibiu o distintivo ao empregado.

Estamos em serviço. Levanta a porra da barreira. Já!

Ele vem já aí. Tenho de fazer o que ele diz. Senão perco o emprego.

Se não levantas essa merda, vais ficar sem ela, meu imbecil berrou Clarke.

Meteu o pé a fundo e acelerou o motor para mostrar que ia passar por ela.

Por que é que julga que temos um cano em vez de uma barreirinha de madeira? Vá. Avance. Aquele cano vai rebentar-lhes com o pára-brisas. Façam o que quiserem, mas ele está mesmo a chegar.

No retrovisor, Clarke viu o guarda a descer a rampa. A cara de Clarke estava a ficar vermelha de raiva. Sentiu a mão de Lewis no braço.

Calma, parceiro disse Lewis. Eles vinham de mão dada quando saíram do restaurante. Não os vamos perder. Vão para casa dela. Aposto uma semana de salário que é lá que os vamos encontrar.

Clarke sacudiu-lhe a mão e respirou fundo. Isso fez com que a sua expressão assumisse um ar mais plácido. Disse:

Estou-me nas tintas. Foda-se, não gosto nem um bocadinho desta merda!

No Ocean Park Boulevard, Bosch descobriu um lugar para arrumar o carro do lado oposto ao prédio de Eleanor. Estacionou, mas não fez nenhum movimento para sair do carro. Olhou para ela, sentindo a mesma emoção de minutos antes, mas sem saber ao certo onde iriam chegar com aquilo. Ela pareceu aperceber-se disso, se calhar também ela própria o sentia. Pousou a mão em cima da dele e inclinou-se para a frente para o beijar. Sussurrou:

Anda comigo.

Ele saiu e dirigiu-se para o lado dela. Eleanor já tinha saído e ele fechou a porta. Deram a volta à parte da frente do carro e depois pararam ao lado dele, à espera que um carro que se aproximava passasse. O carro trazia os máximos acesos e Bosch desviou os olhos para olhar para Eleanor. Por isso, foi ela que se apercebeu de que os faróis se viravam para eles.

Harry?

O quê?

Harry!

Bosch voltou-se outra vez para o carro que se aproximava e viu as luzes na realidade, eram quatro feixes de luz de dois conjuntos de faróis quadrados ao lado uns dos outros a incidir sobre eles. Nos poucos segundos que restavam, Bosch chegou à conclusão que o carro não ia passar por eles, mas que estava a avançar para cima deles. Não havia tempo, contudo, o tempo pareceu entrar em suspensão. Naquilo que lhe pareceu ser em câmara lenta, Bosch virou-se para a direita, para Eleanor. Mas ela não precisava de ajuda. Em simultâneo, saltaram para cima do capo do carro de Bosch. Ele estava a rolar por cima dela e os dois estavam a rebolar para o chão quando o carro se ergueu violentamente e se ouviu um som estridente de metal a rasgar-se. Com a visão periférica, Bosch viu uma chuva de chamas azuis a passar. Depois aterrou em cima de Eleanor na estreita faixa de relva que havia entre o lancil e o passeio propriamente dito. Estavam salvos, Bosch conseguiu aperceber-se disso. Assustados, mas salvos, pelo menos naquele momento.

Levantou-se com a arma firmemente agarrada com as duas mãos. O carro que tinha vindo contra eles não dava sinais de ir parar. Já estava a uns bons cinquenta metros para este, afastando-se e ganhando velocidade. Bosch disparou uma bala que lhe pareceu ter feito ricochete na janela de trás, demasiado fraca, àquela distância, para penetrar no vidro. Ouviu a arma de Eleanor disparar duas vezes ao seu lado, mas não viu nenhum dano no carro em fuga.

Sem dizerem uma palavra, enfiaram-se no carro de Bosch pela porta do lado contrário ao do condutor. Bosch conteve a respiração enquanto fazia girar a chave, mas o motor começou a trabalhar e o carro afastou-se do passeio com um guinchar de pneus. Bosch girou o volante de um lado para o outro à medida que acelerava. A suspensão parecia um pouco solta. Não fazia ideia da extensão dos estragos. Quando tentou olhar para o espelho lateral, viu que ele tinha desaparecido. Quando acendeu as luzes, só o farol do lado de Eleanor é que estava a funcionar.

O carro que os tentara atropelar levava um avanço de pelo menos cinco quarteirões e estava a chegar à lomba onde a Ocean Park Boulevard sobe e depois desce e desaparece. As luzes do carro apagaram-se no preciso momento em que ele descia a encosta desaparecendo do campo de visão. Estava a dirigir-se para Bundy Drive, pensou Bosch. Dali era uma corridinha até à 10. E aí, desapareceria por completo e eles nunca mais o veriam. Bosch agarrou no rádio e transmitiu um pedido de auxílio. Mas não conseguiu fazer uma descrição do carro, só pôde indicar a direcção em que seguiam.

Ele vai para a auto-estrada, Harry! gritou Eleanor. Estás bem?

Estou. E tu? Viste a marca?

Estou bem. Só assustada. Não vi a marca. Americano, pareceu-me-Uh... faróis quadrados. Não vi a cor, escuro é tudo o que sei. Não o conseguimos apanhar se ele conseguir chegar à auto-estrada.

 

Seguiam para leste pela Ocean Park, paralela à 10, que ficava a uns oito quarteirões de distância para norte. Aproximaram-se do cimo da subida e Bosch apagou o único farol que funcionava. Quando começaram a descer, viu o vulto do carro, de luzes apagadas, a passar o cruzamento iluminado em Lincoln. Sim, ele ia para a Bundy. Em Lincoln, Bosch virou à esquerda e carregou a fundo no acelerador. Voltou a acender as luzes. E, quando o carro aumentou de velocidade, ouviram o barulho de qualquer coisa a bater. O pneu da frente, do lado direito e o alinhamento estavam danificados.

Onde é que vais? perguntou Elenor.

Vou entrar na auto-estrada.

Mal Bosch tinha acabado de dizer aquilo, apareceram os sinais da entrada da auto-estrada e o carro fez uma ampla curva para a direita entrando na rampa. O pneu aguentou-se. Desceram a rampa a toda a velocidade em direcção ao trânsito.

Como é que vamos saber? gritou Eleanor.

O barulho do pneu era muito forte agora, um batimento quase contínuo.

Não sei. Procura os faróis quadrados.

Um minuto depois, estavam a entrar pela Bundy, mas Bosch não fazia a mínima ideia se tinha conseguido passar à frente do outro carro ou se ele já ia muito à frente. Vinha um carro a subir a rampa e a entrar na faixa. Era branco e estrangeiro.

Não me parece gritou Eleanor.

Bosch voltou a pisar no acelerador e continuou a andar. O coração batia-lhe no peito quase tão depressa como o pneu, em parte com a excitação da corrida, em parte com a excitação de ainda estar vivo e não todo partido no meio da rua, em frente do apartamento de Eleanor. Estava a segurar o volante com as duas mãos bem separadas uma da outra, incitando o carro a avançar como se estivesse a segurar as rédeas de um cavalo. Deslocavam-se pelo meio do trânsito escasso a cento e quarenta à hora, os dois a olhar para as frentes dos carros que passavam, à procura dos faróis quadrados ou de um lado direito amolgado.

Meio minuto depois, os nós dos dedos de Bosch, brancos como a neve enroladas em volta do volante, aproximaram-se de um Ford castanho que seguia a uns cento e dez quilómetros por hora na faixa lenta. Bosch virou o volante e, saindo de trás dele, ultrapassou-o. Eleanor tinha a arma segura com as duas mãos, mas estava a segurá-la abaixo da janela

para não ser vista do lado de fora do carro. O motorista branco nem sequer olhou para eles ou mostrou ter reparado neles. Quando passaram para a frente, Eleanor gritou:

Faróis quadrados, ao lado uns dos outros!

É o carro? perguntou Bosch excitado.

Não consigo... não sei. Não consigo ver o lado direito. Pode ser. O tipo não mostra reacção nenhuma.

Estavam agora com um avanço de três quartos do comprimento dum carro. Bosch agarrou na luz portátil que estava no chão do carro e, esticando o braço para fora da janela, colocou-a no tejadilho. Ligou a luz azul giratória e começou lentamente a desviar o Ford para a berma. Eleanor pôs a mão fora da janela e fez sinal ao carro para parar. O motorista começou a obedecer. Bosch travou bruscamente e deixou que o outro carro entrasse a toda a velocidade na berma; a seguir, Bosch guinou o carro e entrou na berma atrás dele. Quando os dois carros tinham parado ao lado de uma barreira de som, Bosch apercebeu-se de que estava com um grande problema. Ligou os máximos, mas só o farol do lado do passageiro é que continuava a funcionar. O carro da frente estava demasiado perto da barreira para Bosch e Eleanor conseguirem ver se o lado direito estava estragado. Entretanto, o condutor continuava sentado no seu lugar praticamente todo envolvido pela escuridão.

Merda! exclamou Bosch. OK. Não saias até eu te dizer que está tudo em ordem, está bem?

Está respondeu ela.

Bosch teve de atirar violentamente todo o seu peso de encontro à porta para a conseguir abrir. Saiu do carro com a arma numa mão e uma lanterna na outra. Segurava a luz à frente, afastada do corpo, e apontava-a para o condutor do carro da frente. Com o barulho do trânsito a atroar-lhe os ouvidos, Bosch começou a gritar, mas a buzina de um camião diesel abafou-o e uma rajada de vento provocada pelo camião que passava empurrou-o para a frente. Bosch experimentou outra vez, gritando ao condutor para pôr as duas mãos de fora da janela de forma a que ele as pudesse ver. Nada. Bosch voltou a gritar a ordem. Passado um longo momento, com Bosch posicionado ao lado do pára-choques esquerdo do carro castanho, o condutor acabou por obedecer. Bosch varreu a janela de trás com a luz da lanterna e viu que não havia mais ninguém dentro do carro. Avançou e fazendo incidir a luz em cima do condutor, mandou-o sair devagarinho.

O que é isto? protestou o homem.

Era pequeno, pele pálida, cabelo avermelhado e um bigode transparente. Abriu a porta do carro e saiu com as mãos no ar. Vestia uma camisa branca e calças beiges seguras com suspensórios. Olhou para a fila de carros que passava por eles quase como se agradecesse ter uma testemunha para o pesadelo que estava a passar.

Posso ver um distintivo? gaguejou ele.

Bosch precipitou-se para a frente, fê-lo dar meia volta e atirou-o contra as traseiras do carro, a c