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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


O ELO DE ALEXANDRIA / Steve Berry
O ELO DE ALEXANDRIA / Steve Berry

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

O ELO DE ALEXANDRIA

 

PALESTINA

ABRIL DE 1948

A paciência de George Haddad acabou enquanto olhava furioso para o homem amarrado à cadeira. Da mesma forma que ele, o prisioneiro tinha pele morena, nariz aquilino e os olhos castanhos fundos de um sírio ou libanês. Mas naquele homem havia algo de que Haddad simplesmente não gostava.

— Só vou perguntar mais uma vez. Quem é você?

Os soldados de Haddad haviam apanhado o estranho havia três horas, pouco antes do amanhecer. Ele estivera andando sozinho, desarmado. O que era idiotice. Desde que, no mês de novembro anterior, os ingleses haviam decidido dividir a Palestina em dois Estados, um árabe e o outro judeu, a guerra entre os dois lados explodira. No entanto, aquele idiota havia entrado direto numa fortaleza árabe, sem oferecer resistência, e não tinha dito nada desde que fora amarrado à cadeira.

— Ouviu, idiota? Eu perguntei quem você é - disse Haddad em árabe, que o sujeito obviamente entendia.

— Sou um Guardião.

A resposta não significou nada.

— O que é isso?

— Somos guardiões do conhecimento.

Haddad não estava com clima para charadas. Ainda na véspera clandestinos judeus haviam atacado um povoado próximo. Quarenta palestinos, homens e mulheres, tinham sido arrebanhados até uma pedreira e mortos a tiros. Nada incomum. Os árabes estavam sendo sistematicamente assassinados e expulsos. A terra que suas famílias haviam ocupado por 1.600 anos estava sendo confiscada. A nakba, a catástrofe, estava acontecendo. Haddad precisava estar lá fora, lutando contra o inimigo, e não ouvindo aquele absurdo.

— Somos todos guardiões de algum tipo de conhecimento - deixou claro. — O meu é o de como apagar da face da Terra cada sionista que puder encontrar.

— Motivo pelo qual eu vim. A guerra não é necessária.

Esse sujeito era mesmo idiota.

— Você é cego? Os judeus estão inundando este lugar. Estamos sendo esmagados. Tudo que nos resta é a guerra.

— Você subestima a decisão dos judeus. Eles sobreviveram  durante séculos e continuarão sobrevivendo.

— Esta terra é nossa. Vamos vencer.

— Há coisas mais poderosas que balas que podem lhes dar a vitória.

— Isso mesmo. Bombas. E temos um monte. Vamos esmagar cada um de vocês, ladrões sionistas.

— Não sou sionista.

A declaração veio em voz calma, e então o homem ficou em silêncio. Haddad percebeu que precisava acabar com o interrogatório. Não havia tempo para becos sem saída.

— Vim da biblioteca para falar com Kamal Haddad - disse o homem finalmente.

A fúria de George Haddad cedeu à confusão.

— É o meu pai.

— Disseram-me que ele morava neste povoado.

O pai dele havia sido acadêmico, formado em história da Palestina, e ensinara na faculdade em Jerusalém. Um homem grande na voz e no riso, no coração e na alma, recentemente havia atuado como emissário entre os árabes e os ingleses, tentando acabar com a maciça imigração judaica e impedir a nakba. Seus esforços tinham fracassado.

— Meu pai morreu.

Pela primeira vez, viu preocupação nos olhos vazios do prisioneiro.

— Eu não sabia.

Haddad recuperou uma lembrança que desejaria perder para sempre.

— Há duas semanas ele pôs o cano de um fuzil na boca e explodiu a cabeça. Deixou um bilhete dizendo que não podia ver a destruição de sua pátria. Sentia-se responsável por não ter conseguido impedir os sionistas. - Haddad encostou o revólver, que agora segurava, no rosto do guardião.

— Por que você precisava do meu pai?

— É a ele que minha informação deveria ser passada. Ele é o convidado.

A raiva cresceu.

— Do que você está falando?

— Seu pai era um homem que merecia grande respeito. Era culto, tinha o direito de compartilhar nosso conhecimento. Por isso vim, para convidá-lo a compartilhar.

A voz calma do sujeito acertou Haddad como um balde d'água apagando uma chama.

— Compartilhar o quê?

O guardião balançou a cabeça.

— Isso é só para ele.

— Ele morreu.

— O que significa que outro convidado será escolhido.

Sobre o que aquele sujeito estava arengando? Haddad havia capturado muitos prisioneiros judeus torturando-os para descobrir o que podia, depois atirando no que restasse deles.

Antes da nakba, plantava oliveiras, mas, como o pai, sentia-se atraído pela academia e queria estudar mais. Agora isso era impossível. O estado de Israel estava sendo estabelecido, suas fronteiras escavadas em antiga terra árabe, com os judeus aparentemente sendo compensados pelo mundo pelo Holocausto. E tudo isso à custa do povo da Palestina.

Aninhou o cano da arma entre os olhos do homem.

— Acabo de me tornar o convidado. Fale sobre seu conhecimento.

Os olhos do homem pareceram penetrar nele, e por um momento uma estranha inquietação o dominou. Aquele emissário claramente já havia enfrentado dilemas. Haddad admirava a coragem.

— Vocês travam uma guerra desnecessária, contra um inimigo mal-informado - disse o homem.

— Do que, em nome de Deus, você está falando?

— Isso é para o conhecimento do próximo convidado.

A manhã estava chegando ao meio. Haddad precisava dormir. Com esse prisioneiro, havia esperado descobrir a identidade de alguém da clandestinidade judaica, talvez até dos monstros que haviam trucidado aquelas pessoas na véspera. Os ingleses desgraçados estavam fornecendo fuzis e tanques aos sionistas. Durante anos os ingleses haviam considerado ilegal o fato de os árabes possuírem armas, o que os havia deixado numa séria desvantagem. Certo, os árabes existiam em maior número, mas os judeus estavam mais bem preparados, e Haddad temia que o resultado dessa guerra fosse a legitimidade do Estado de Israel.

Olhou de volta para uma expressão dura, inabalável, olhos que jamais se afastavam dos seus, e soube que aquele prisioneiro estava preparado para morrer. Matar havia se tornado muito mais fácil para Haddad nos últimos meses. As atrocidades dos judeus ajudavam a aplacar o pouco que restava de sua consciência. Tinha apenas 19 anos, e seu coração havia se transformado em pedra.

Mas guerra era guerra.

Por isso puxou o gatilho.

 

COPENHAGUE, DINAMARCA

TERÇA-FEIRA, 4 DE OUTUBRO, TEMPO ATUAL

1H45

Cotton Malone olhou direto no rosto da encrenca. Do lado de fora da porta aberta de sua livraria estava sua ex-mulher, a última pessoa que ele esperava ver ali. Registrou rapidamente o pânico nos olhos cansados dela, lembrou-se das batidas que o haviam acordado alguns minutos antes e pensou instantaneamente no filho.

— Onde está Gary? - perguntou.

— Seu filho-da-puta. Eles o pegaram. Por sua causa. Pegaram meu filho. - Ela saltou à frente, os punhos fechados se chocando contra os ombros dele. — Seu filho-da-puta desgraçado. - Malone agarrou os punhos da mulher e parou o ataque enquanto ela começava a chorar. — Deixei você por causa disso. Achei que esse tipo de coisa tinha acabado.

— Quem pegou o Gary? - Mais soluços foram a resposta. Ele continuou segurando os braços dela. — Pam. Escute. Quem pegou o Gary?

Ela o encarou.

— Como, diabos, vou saber?

— O que você está fazendo aqui? Por que não procurou a polícia?

— Porque disseram para não fazer isso. Disseram que, se eu chegasse perto da polícia, o Gary estaria morto. Disseram que saberiam, e eu acreditei.

— Quem disse?

Ela soltou os braços, o rosto inundado de fúria.

— Não sei. Só disseram para eu esperar dois dias, depois vir aqui e lhe dar isto. - Remexeu na bolsa a tiracolo e pegou um celular. Lágrimas continuavam a escorrer-lhe pelas bochechas. — Disseram para você se conectar e abrir seu e-mail.

Ele teria ouvido direito? Se conectar e abrir seu e-mail?

Desdobrou o telefone e verificou a freqüência. Megahertz suficiente para torná-lo capaz de conexões mundiais. O que o fez pensar. Subitamente se sentiu vulnerável. A Hojbro Plads estava silenciosa. À esta hora, ninguém andava pela praça.

Seus sentidos despertaram.

— Entre. - Puxou-a para a loja e fechou a porta. Não havia acendido nenhuma luz.

— O que é? - perguntou ela, a voz despedaçada pelo medo.

Ele a encarou.

— Não sei, Pam. Diga você. Nosso filho parece ter sido levado por não sei quem, e você espera dois dias antes de contar a qualquer pessoa? Não acha isso maluco?

— Eu não iria colocar a vida dele em risco.

— E eu iria? Como é que eu já fiz isso?

— Sendo você mesmo - disse ela em tom gelado, e ele instantaneamente se lembrou do motivo pelo qual não vivia mais com a mulher.

Um pensamento lhe ocorreu. Ela nunca estivera na Dinamarca.

— Como me encontrou?

— Eles me explicaram.

— Quem, diabos, são eles?

— Não sei, Cotton. Dois homens. Só um falava. Alto, moreno, rosto chato.

— Americano?

— Como é que eu vou saber?

— Como ele falava?

Ela pareceu se controlar.

— Não. Não era americano. Tinha sotaque. Europeu.

Ele gesticulou com o telefone.

— O que devo fazer com isto?

— Ele mandou que você abrisse seu e-mail e tudo seria explicado.

Pam Malone olhou nervosa as estantes ao redor, imersas em sombras.

— Lá em cima, não é?

Gary devia ter dito a ela que ele morava em cima da loja.

Malone certamente não dissera. Os dois tinham se falado apenas uma vez desde que ele saíra do Departamento de Justiça e deixara a Geórgia no ano anterior, e havia dois meses, em agosto, que ele levara Gary para casa depois da visita de verão. Ela lhe dissera friamente que Gary não era seu filho biológico. Que o garoto era produto de um caso ocorrido 16 anos antes, como reação dela à infidelidade de Malone. Desde então ele havia lutado com esse demônio e ainda não aceitara as implicações. Uma coisa ele decidira na época: não tinha intenção de falar de novo com Pam Malone. Qualquer coisa necessária seria dita entre ele e Gary.

Mas aparentemente as coisas haviam mudado.

— É - disse ele. — Lá em cima.

 

Entraram no apartamento, e ele se sentou à escrivaninha.  Ligou o laptop e esperou que os programas rodassem. Pam finalmente havia controlado as emoções. Ela era assim. Seu humor vinha em ondas. Picos altíssimos e abismos profundos. Era advogada, como ele, mas, enquanto ele trabalhava para o governo, ela cuidava de julgamentos arriscados para empresas que saíam na Fortune 500, que podiam se dar ao luxo de pagar os custos altíssimos de seu escritório de advocacia. Quando Pam entrou na faculdade de  direito, ele pensou que a decisão era um reflexo dele, um modo de os dois compartilharem uma vida. Mais tarde percebeu que era um modo de ela conquistar independência.

Assim era Pam.

O laptop estava pronto. Ele acessou a caixa de entrada.

Vazia.

— Não tem nada aqui.

Pam correu para ele.

— Como assim? Ele mandou abrir seu e-mail.

— Isso foi há dois dias. Por sinal, como você chegou aqui?

— Eles tinham uma passagem, já comprada.

Malone não pôde acreditar no que ouviu.

— Está maluca? O que você fez foi dar dois dias de vantagem a eles.

— Acha que eu não sei? - gritou ela. — Acha que sou uma idiota completa? Eles disseram que meus telefones estavam grampeados e que eu estava sendo vigiada. Se eu deixasse de seguir as instruções, sequer um pouquinho, Gary estaria morto. Eles me mostraram uma foto. - Ela se controlou e as lágrimas escorreram de novo. — Os olhos dele... ah, os olhos dele. - Ela desmoronou outra vez. — Ele estava apavorado.

O peito de Malone latejou e suas têmporas queimaram.

Intencionalmente ele havia deixado para trás uma vida de perigo cotidiano para encontrar algo novo. Será que essa vida agora o perseguia? Segurou a borda da mesa. Não adiantaria nada os dois desmoronarem. Se eles - quem quer que fossem - quisessem Gary morto, o garoto já estaria morto. Não. Gary era uma moeda de troca, aparentemente um modo de obterem a atenção integral de Malone.

O laptop soltou um bipe.

Seu olhar saltou para o canto inferior direito da tela:

RECEBENDO E-MAIL. Então viu OLÁ surgir na linha do remetente e A VIDA DO SEU FILHO no espaço reservado para assunto. Manobrou o cursor e abriu o e-mail.

 

VOCÊ TEM UMA COISA QUE EU QUERO. O ELO DE ALEXANDRIA.  VOCÊ O ESCONDEU E É A ÚNICA PESSOA NA TERRA QUE SABE ONDE ENCONTRÁ-LO. VOCÊ TEM 72 HORAS. QUANDO ESTIVER COM ELE, APERTE O BOTÃO NÚMERO 2 DO TELEFONE. SE EU NÃO TIVER NOTÍCIAS NO FIM DE 72 HORAS, VOCÊ NÃO TERÁ MAIS FILHO. SE DURANTE ESSE PERÍODO VOCÊ ME SACANEAR, SEU FILHO PERDERÁ UM APÊNDICE VITAL. 72 HORAS. ENCONTRE-O E NEGOCIAREMOS.

 

Pam estava parada atrás dele.

— O que é o Elo de Alexandria?

Ele não disse nada. Não poderia dizer. Na verdade, era a única pessoa no planeta que sabia e dera sua palavra.

— Quem mandou essa mensagem sabe tudo a respeito. O que é?

Ele olhou para a tela e soube que não haveria como rastrear a mensagem. O remetente, como ele próprio, sabia usar buracos negros - servidores de computador que roteavam os e-mails aleatoriamente através de um labirinto eletrônico.

Não era impossível de seguir, mas muito difícil.

Levantou-se da cadeira e passou a mão pelo cabelo. Tinha pensado em cortá-lo na véspera. Afastou o sono dos ombros e respirou fundo algumas vezes. Antes havia posto uma calça jeans e uma camisa de manga comprida que estava aberta, expondo uma camiseta cinza, e de repente sentiu um arrepio de medo.

— Droga, Cotton...

— Cale a boca, Pam. Preciso pensar. Você não está ajudando.

— Não estou ajudando? Que diab...

O celular tocou. Pam saltou para o aparelho, mas ele a afastou e disse:

— Deixe.

— Como assim? Pode ser o Gary.

— Caia na real.

Ele pegou o telefone depois do terceiro toque e atendeu.

— Demorou bastante - disse a voz masculina em seu ouvido. Malone captou um sotaque holandês. — E, por favor, nada de bravatas do tipo "se você machucar o garoto eu o mato". Nenhum de nós tem tempo para isso. Suas 72 horas já começaram.

Malone ficou quieto, mas lembrou-se de algo que havia aprendido muito tempo atrás. Nunca deixe o outro lado estabelecer a barganha.

— Enfie no seu rabo. Não vou a lugar nenhum.

— Você arrisca muito a vida do seu filho.

— Primeiro eu vejo o Gary. Falo com ele. Depois vou.

— Dê uma olhada lá fora.

Ele correu até a janela. Quatro andares abaixo, a Hojbro Plads continuava silenciosa, a não ser por duas figuras paradas do lado oposto da área calçada de pedras.

As duas silhuetas tinham armas no ombro.

Lançadores de granadas.

— Acho que não - disse a voz em seu ouvido.

Dois projéteis dispararam pela noite e romperam as janelas abaixo dele.

Ambas explodiram.

 

VIENA, ÁUSTRIA

2H12

O ocupante da Cadeira Azul ficou olhando enquanto um carro deixava duas pessoas sob uma entrada coberta. Não era uma limusine nem nada explicitamente pretensioso, só um sedan europeu de cor discreta, uma visão comum nas movimentadas ruas da Áustria. O perfeito meio de transporte para evitar a atenção de terroristas, criminosos, polícia e repórteres curiosos. Mais um carro chegou e deixou os passageiros, depois saiu para esperar entre as árvores escuras num estacionamento pavimentado. Mais dois apareceram dentro de alguns minutos. O Cadeira Azul, satisfeito, deixou seu quarto no segundo andar e desceu ao térreo.

A reunião acontecia no lugar de sempre.

Cinco cadeiras douradas, de encosto reto, formavam um círculo amplo sobre um tapete húngaro. As cadeiras eram idênticas, a não ser por uma, que tinha uma echarpe azul-real no encosto almofadado. Junto a cada cadeira havia uma mesa dourada que sustentava um abajur de bronze, um bloco de escrever e um sino de cristal. À esquerda do círculo ficava uma lareira de pedra acesa, cuja luz dançava nervosamente nos murais do teto.

Cada cadeira estava ocupada por um homem.

Estavam designados em ordem decrescente de autoridade.

Dois ainda possuíam cabelos e saúde. Três eram carecas e frágeis. Todos tinham pelo menos 70 anos e vestiam ternos discretos, com os sobretudos escuros e os chapéus de feltro cinza pendurados em cabides de latão num dos lados. Atrás de cada um estava outro homem, mais jovem - o sucessor da cadeira, presente para ouvir e aprender, mas não para ser ouvido. As regras eram antigas. Cinco Cadeiras, quatro Sombras. O Cadeira Azul comandava.

— Peço desculpas pela hora tardia, mas recebemos uma informação perturbadora há algumas horas. - A voz do Cadeira Azul era tensa e fraca.          — Nosso último empreendimento pode estar prejudicado.

— Risco de revelação? - perguntou o Cadeira Dois.

— Talvez.

O Cadeira Três suspirou.

— O problema pode ser resolvido?

— Acho que sim. Mas é necessário agir imediatamente.

— Alertei dizendo que não deveríamos interferir nisso - lembrou o Cadeira Dois asperamente, balançando a cabeça. — As coisas deveriam ter tido permissão de seguir o curso natural.

O Cadeira Três concordou, como havia feito na reunião anterior.

— Talvez isso seja sinal de que deveríamos ter deixado em paz. Muito pode ser dito sobre a ordem natural das coisas.

O Cadeira Azul balançou a cabeça.

— Nossa última votação foi contrária a esse rumo. A decisão foi tomada, de modo que devemos segui-la. - Ele fez uma pausa. — A situação exige atenção.

— A realização envolveria tato e habilidade - disse o Cadeira Três. — A atenção indevida derrotaria o objetivo. Se pretendemos ir adiante, recomendo darmos autoridade total a die Klauen der Adler para agir.

As Garras da Águia.

Dois outros assentiram.

— Já fiz isso - disse o Cadeira Azul. — Convoquei esta reunião porque minha ação anterior, unilateral, exige ratificação.

Uma moção foi feita, mãos se ergueram.

Quatro a um, o assunto foi aprovado.

O Cadeira Azul ficou satisfeito.

 

COPENHAGUE

O prédio de Malone sacudiu como um terremoto e inchou com um jorro de calor que subiu pelo poço da escada. Ele mergulhou na direção de Pam e os dois caíram num tapete puído que cobria o piso de tábuas. Ele a protegeu enquanto outra explosão sacudia os alicerces e mais chamas subiam.

Olhou para a porta.

O incêndio grassava lá embaixo.

A fumaça se acumulava numa nuvem que escurecia cada vez mais.

Levantou-se e correu para a janela. Os dois homens haviam sumido. Chamas lambiam a noite. Ele percebeu o que acontecera. Eles haviam incendiado os andares de baixo. A idéia não era matá-los.

— O que está acontecendo? - gritou Pam.

Malone ignorou-a e levantou a janela. A fumaça dominava rapidamente o ar do lado de dentro.

— Venha - disse, e correu para o quarto.

Enfiou a mão embaixo da cama e puxou a mochila que sempre mantinha pronta, mesmo na aposentadoria, como havia feito por 12 anos enquanto era agente do Setor Magalhães. Dentro estava seu passaporte, mil euros, documentos de identidade extras, uma muda de roupas e sua Beretta com munição. Seu influente amigo Henrik Thorvaldsen recentemente havia recuperado a arma com a polícia dinamarquesa - confiscada quando Malone se envolvera com os Cavaleiros Templários alguns meses antes.

Pôs a mochila no ombro e enfiou os pés num par de tênis de corrida. Não havia tempo para amarrar os cordões. A fumaça consumia o quarto. Abriu as duas janelas, o que ajudou.

— Fique aqui - disse.

Prendeu o fôlego e correu pelo escritório até o poço da escada. Quatro andares se abriam abaixo. No térreo ficava a livraria; o segundo e o terceiro andares eram depósitos, no quarto ficava o apartamento. O primeiro e o terceiro andares estavam em chamas. O calor queimava seu rosto e o obrigou a recuar. Granadas incendiárias. Tinha de ser.

Correu de volta para o quarto.

— Não há como sair pelas escadas. Eles garantiram isso.

Pam estava encolhida perto da janela, engolindo o ar e tossindo. Malone passou por ela e pôs a cabeça para fora. Seu quarto ficava num canto. O prédio ao lado, que abrigava uma joalheria e uma loja de roupas, era um andar mais baixo, com o telhado plano e cercado de parapeitos de tijolos que, pelo que haviam lhe dito, datavam do século XVII. Olhou para cima. Sobre a janela ficava uma cornija enorme que se projetava para fora e envolvia a frente e a lateral do prédio.

Alguém certamente devia ter chamado o corpo de bombeiros e o esquadrão de resgate, mas ele não ficaria esperando uma escada.

Pam começou a tossir com mais força, e ele também estava com dificuldade para respirar. Malone virou a cabeça dela.

— Olhe ali - disse, apontando para a cornija. — Agarre-se e vá para a lateral do prédio. Você pode pular de lá para o telhado do outro prédio.

Os olhos dela se arregalaram.

— Pirou de vez? Nós estamos no quarto andar.

— Pam, este prédio pode explodir. Há tubulações de gás natural. Aquelas granadas são projetadas para criar um incêndio. Eles não atiraram neste andar porque queriam que nós saíssemos.

Ela não parecia registrar o que ele estava dizendo.

— Temos de sair antes que a polícia e os bombeiros cheguem.

— Eles podem ajudar.

— Quer passar as próximas oito horas respondendo a perguntas? Só temos 72.

Ela pareceu compreender instantaneamente a lógica e olhou para a cornija.

— Não posso, Cotton. - Pela primeira vez, sua voz não tinha irritação.

— Gary precisa de nós. Temos de ir. Olhe para mim e faça exatamente o que eu fizer.

Ele pendurou a mochila no ombro e saiu pela janela.

Segurou a cornija, sentindo a pedra áspera quente, mas suficientemente fina para que seus dedos conseguissem agarrar com firmeza. Pendurou-se pelos braços e foi se balançando, de mão em mão, até o canto. Mais alguns metros depois da esquina, jogou-se no teto plano ao lado. Voltou correndo à frente do prédio e olhou para cima. Pam ainda estava na janela.

— Venha. Como eu fiz.

Ela hesitou.

Uma explosão rasgou o terceiro andar. Os vidros das janelas

choveram sobre a Hojbro Plads. As chamas varreram a escuridão. Pam se encolheu entrando de novo. Um erro.

Um segundo depois, sua cabeça surgiu e ela tossiu violentamente.

— Você tem de vir agora - gritou ele.

Por fim ela pareceu aceitar que não havia escolha. Conforme ele havia feito, passou pela janela e agarrou a cornija. Depois colocou o corpo para fora e se pendurou.

Malone viu que os olhos dela estavam fechados.

— Você não precisa olhar. Só mova as mãos, uma de cada vez.

Ela fez isso.

Dois metros e meio de cornija se estendiam entre o lugar onde ele estava e onde ela lutava para se mover. Mas Pam estava se saindo bem. De mão em mão. Até que Malone viu as figuras embaixo, na praça. Os dois homens estavam de volta, desta vez com fuzis.

Ele arrancou a mochila rapidamente e mergulhou a mão dentro, encontrando sua Beretta.

Disparou duas vezes contra as figuras 15 metros abaixo. O som ricocheteou nos prédios ao redor da praça, em ecos agudos.

— Por que está atirando? - perguntou Pam.

— Continue vindo.

Outro tiro e os homens embaixo se espalharam.

Pam encontrou a esquina. Ele olhou para ela rapidamente.

— Dê a volta e venha na minha direção.

Examinou a escuridão embaixo, mas não viu os homens armados. Pam estava manobrando, uma das mãos presas à cornija, a outra tentando encontrar um local para se firmar.

Então perdeu o apoio.

E caiu.

Ele estendeu a mão, ainda segurando a arma, e conseguiu agarrá-la. Mas os dois tombaram no telhado. Ela estava ofegando. Ele também.

O celular tocou.

Malone se arrastou até a mochila, encontrou o telefone e o abriu.

— Achou divertido? - perguntou a mesma voz de antes.

— Algum motivo para explodir meu prédio?

— Foi você que disse que não ia sair.

— Quero falar com o Gary.

— Eu faço as regras. Você já usou 36 minutos de suas 72 horas. Se fosse eu, estaria correndo. A vida do seu filho depende disso.

A linha ficou muda.

Sirenes se aproximavam. Malone pegou a mochila e saltou de pé.

— Temos de ir.

— Quem era?

— Nosso problema.

— Quem era?

Uma fúria súbita o envolveu.

— Não faço idéia.

— O que ele quer?

— Uma coisa que não posso dar.

— Como assim, não pode? A vida do Gary depende disso. Olhe em volta. Ele explodiu sua loja.

— Nossa, Pam, eu não saberia disso se você não tivesse mostrado.

Ele se virou para ir embora.

Ela o agarrou.

— Aonde nós vamos?

— Encontrar respostas.

 

Dominick Sabre estava na extremidade leste da Hojbro Plads, olhando a livraria de Cotton Malone queimar.

Caminhões de bombeiro amarelo-fluorescente já estavam posicionados, e a água era espirrada nas janelas cheias de chamas.

Até agora, tudo bem. Malone estava em movimento. A ordem a partir do caos. Seu lema. Sua vida.

— Eles desceram pelo prédio ao lado - disse a voz em seu fone de ouvido.

— Para onde foram? - sussurrou ele no microfone de lapela.

— Para o carro de Malone.

Bem no alvo.

Bombeiros corriam pela praça, arrastando mais mangueiras, aparentemente querendo garantir que as chamas não se espalhassem. O incêndio parecia estar se divertindo. Livros raros queimavam com entusiasmo. Logo o prédio de Malone se transformaria em cinzas.

— Todo o resto está no lugar? - perguntou ao homem ao lado dele, um dos dois holandeses que ele contratara.

— Eu mesmo verifiquei. Prontos para ir.

Um grande planejamento fora feito para o que aconteceria em seguida. Ele não sabia sequer se o sucesso seria possível - o objetivo era intangível, esquivo -, mas se a trilha que estava seguindo levasse a algum lugar, ele estaria preparado.

Mas tudo dependia de Malone.

 

Seu nome de batismo era Harold Earl, e em nenhum lugar do material disponível havia uma explicação sobre a origem do apelido Cotton. Malone tinha 48 anos, 11 a mais do que Sabre. Mas, como ele, era americano, nascido na Geórgia.

Sua mãe era natural do sul; seu pai, um militar de carreira, comandante da marinha cujo submarino havia afundado quando Malone tinha 10 anos. De modo interessante, Malone havia seguido os passos do pai, cursando a Academia Naval e a escola de vôo, depois mudara abruptamente de direção e acabara tirando um diploma de advogado pago pelo governo. Foi transferido para a Procuradoria-Geral, onde passara nove anos. Treze anos atrás havia mudado de direção outra vez e passara para o Departamento de Justiça, no recém-formado Setor Magalhães, que cuidava de algumas das investigações internacionais mais discretas dos Estados Unidos.

Ali permanecera até o ano anterior, aposentando-se com o posto de comandante, deixando os Estados Unidos, mudando-se para Copenhague e comprando um sebo de livros raros.

Crise de meia-idade? Problema com o governo?

Sabre não tinha certeza.

E então houve o divórcio. Isso Sabre havia estudado. Quem sabia? Malone parecia um quebra-cabeça. Mesmo sendo um bibliófilo comprovado, nada nos perfis psicológicos que Sabre havia lido explicava satisfatoriamente todas as mudanças radicais.

Outras coisinhas apenas confirmavam a competência do oponente.

Fluência razoável em várias línguas, nenhum vício ou fobia conhecidos e tendência à automotivação e dedicação obsessiva. Malone também era abençoado com memória idética, coisa que Sabre invejava.

Competente, experiente, inteligente. Muito diferente dos idiotas que ele havia contratado - quatro holandeses com pouco cérebro, nenhuma, moral e disciplina escassa.

Ficou nas sombras enquanto a Hojbro Plads se apinhava de gente vendo o trabalho dos bombeiros. O ar noturno pinicava seu rosto. O outono na Dinamarca parecia apenas um rápido prelúdio do inverno, e ele enfiou os punhos fechados nos bolsos do paletó.

Fora necessário incendiar tudo que Cotton Malone havia trabalhado durante um ano para alcançar. Nada pessoal.

Apenas negócios. E se Malone não entregasse exatamente o que ele queria, Sabre mataria o garoto sem hesitação.

O holandês junto dele - que havia telefonado para Malone - tossiu, mas continuou em silêncio. Uma das regras implacáveis de Sabre fora deixada clara desde o início. Só falem quando eu me dirigir a vocês. Não tinha tempo nem vontade de bater papo.

Olhou o espetáculo por mais alguns minutos. Por fim, sussurrou no microfone de lapela:

— Todo mundo fique atento. Sabemos para onde ele foi, e vocês sabem o que fazer.

 

4H

Malone parou o carro na frente da Christiangade, a mansão de Henrik Thorvaldsen, que se erguia na costa leste da Zelândia dinamarquesa, adjacente ao mar de Oresund. Ele havia dirigido os mais de três quilômetros ao norte de Copenhague no Mazda último modelo que mantinha estacionado a alguns quarteirões da livraria, perto do Christianburg Slot.

Depois de descer do telhado, ficara olhando os bombeiros na tentativa de conter o incêndio que devastava o prédio. Sabia que seus livros estavam perdidos, e se as chamas não devorassem cada volume, o calor e a fumaça causariam danos irreparáveis. Olhando a cena, tinha lutado contra uma fúria crescente, tentando praticar o que havia aprendido há muito tempo. Nunca odeie seu inimigo. Isso atrapalhava o julgamento. Não. Ele não precisava odiar. Precisava pensar.

Mas Pam estava tornando isso difícil.

— Quem mora aqui? - perguntou ela.

— Um amigo.

Ela havia tentado arrancar informações dele durante a viagem, mas Malone falara pouca coisa, o que só parecia alimentar a fúria de Pam. Antes de cuidar dela, ele precisava se comunicar com outra pessoa.

A casa escura era um exemplar genuíno do barroco dinamarquês - três andares, construída com tijolos engastados em arenito e coberta por um telhado graciosamente curvo feito de cobre. Uma ala era virada para o interior e a outra encarava o mar. Trezentos anos antes, um Thorvaldsen a havia construído, depois de converter lucrativamente toneladas de turfa sem valor em combustível para produzir vidro. Outros Thorvaldsen mantiveram-na amorosamente com o passar dos séculos e acabaram transformando a Adelgade Glasvaerker, com seu característico símbolo de dois círculos com uma linha embaixo, no principal fabricante de vidros da Dinamarca. O conglomerado moderno era comandado pelo atual patriarca da família, Henrik Thorvaldsen, o responsável por Malone estar morando na Dinamarca.

Malone caminhou até a sólida porta da frente. Um carrilhão que lembrava uma igreja de Copenhague ao meio-dia anunciou sua presença. Ele apertou o botão de novo e em seguida bateu à porta. Uma luz se acendeu numa das janelas de cima. Depois outra. Alguns instantes depois ele ouviu trancas sendo liberadas e a porta se abriu. O homem que o olhava certamente acabara de acordar, mas seu cabelo cor de cobre estava penteado, o rosto era uma máscara de controle polido, o roupão de algodão sem qualquer amarrotado.

Jesper. O mordomo de Thorvaldsen.

— Acorde-o - disse Malone em dinamarquês.

— E qual seria o propósito de um ato tão radical às 4 horas da madrugada?

— Olhe para mim. - Ele estava coberto de suor, sujeira e fuligem. — É importante o suficiente?

— Estou inclinado a achar que sim.

— Vamos esperar no escritório. Preciso do computador dele.

 

Primeiro Malone encontrou sua conta de e-mail dinamarquesa para ver se mais alguma mensagem fora mandada, mas não havia nenhuma. Em seguida, acessou o servidor seguro do Setor Magalhães, usando a senha que sua antiga chefe, Stephanie Nelle, havia lhe dado. Mesmo estando aposentado e não fazendo mais parte da folha de pagamento do Departamento de Justiça, em troca do que fizera por Stephanie recentemente na França, ela havia lhe dado uma linha de comunicação direta. Com a diferença de fuso horário - eram apenas 22h de segunda-feira em Atlanta -, sabia ele que sua mensagem seria passada diretamente a ela.

Levantou os olhos do computador quando Thorvaldsen entrou arrastando os pés na sala. O velho dinamarquês aparentemente havia demorado para se vestir. Seu corpo baixo e curvo, produto de uma coluna que há muito se recusava a ficar reta, estava oculto pelas dobras de um suéter grande demais, cor de abóbora. O cabelo farto e prateado estava embolado em um dos lados, as sobrancelhas densas e indomadas. Rugas fundas cercavam a boca e a testa, e a pele macilenta sugeria que evitava o sol - o que Malone sabia ser verdade, já que o dinamarquês raramente se aventurava ao ar livre. Num continente onde o dinheiro antigo significava bilhões, Thorvaldsen estava no topo de todas as listas dos mais ricos.

— O que está acontecendo? - perguntou Thorvaldsen.

— Henrik, esta é Pam, minha ex-mulher.

Thorvaldsen lançou-lhe um sorriso.

— Prazer em conhecê-la.

— Não temos tempo para isso - disse ela, ignorando o anfitrião.                  — Precisamos cuidar do que está acontecendo com o Gary.

Thorvaldsen encarou Malone.

— Você está péssimo, Cotton, e ela parece ansiosa.

— Ansiosa? - disse Pam. — Acabo de pular de um prédio em chamas. Meu filho está desaparecido. Estou afetada pela diferença de fuso horário e não como há dois dias.

— Vou mandar preparar um pouco de comida. - A voz de Thorvaldsen permaneceu inexpressiva, como se esse tipo de coisa acontecesse toda noite.

— Não quero comida. Quero saber do meu filho.

Malone contou a Thorvaldsen o que havia acontecido em Copenhague, depois disse:

— Acho que o prédio já era.

— O que é a menor das nossas preocupações.

Malone captou a escolha de palavras e quase sorriu. Gostava disso em Thorvaldsen. Estava sempre do seu lado, não importando o que acontecesse.

Pam andava de um lado para o outro como uma leoa enjaulada. Malone notou que ela havia perdido alguns quilos desde que tinham se falado pela última vez. Ela sempre fora magra, com cabelos compridos e ruivos, e o tempo não havia escurecido o tom claro de sua pele sardenta. Suas roupas estavam tão esfrangalhadas quanto os nervos, mas no geral ela mostrava a mesma boa aparência de anos atrás, quando ele havia se casado com ela pouco depois de entrar para o JAG da Marinha. Esse era o negócio com Pam: era fantástica por fora. O problema era por dentro. Mesmo agora, seus olhos azuis, avermelhados de chorar, conseguiam transmitir uma fúria gelada. Era uma mulher inteligente e sofisticada, mas no momento estava confusa, atordoada, com raiva e medo. Nada disso, segundo as estimativas dele, era bom.

— O que você está esperando? - perguntou ela rispidamente.

Malone olhou para a tela do computador. O acesso ao servidor do Setor ainda não fora liberado. Mas, como ele não estava mais na ativa, seu pedido certamente estava sendo repassado para a aprovação de Stephanie. Ele sabia que, assim que ela soubesse quem estava chamando, iria se conectar imediatamente.

— Era isso que você costumava fazer? - perguntou ela. — Ter gente tentando pôr fogo em você? Atirando? Era isso que você fazia? Está vendo onde colocou a gente? Viu onde a gente foi parar?

— Sra. Malone - disse Henrik.

— Não me chame assim - respondeu ela rispidamente. — Eu deveria ter mudado de sobrenome. O bom senso me mandou fazer isso no divórcio. Mas não, eu não queria que meu nome fosse diferente do nome de Gary. Não posso dizer absolutamente nada sobre o precioso pai dele. Nenhuma palavra. Não, Cotton, você é o cara. Um rei aos olhos do garoto. A pior coisa que já vi.

Ela queria uma briga, e ele meio que desejou ter tempo para isso.

O computador soltou um pin. A tela se converteu na página de acesso do Setor.

Malone digitou a senha, e um instante depois a comunicação foi estabelecida. As palavras CAVALEIROS TEMPLÁRIOS apareceram. Era a apresentação em código de Stephanie. Ele digitou ABADIA DES FONTAINES, o lugar onde, alguns meses antes, ele e Stephanie haviam encontrado os remanescentes modernos daquela ordem medieval. Alguns segundos depois apareceu:

“O que é Cotton?”

Ele digitou um resumo do que havia acontecido. Ela respondeu:

“Tivemos uma invasão aqui. Há dois meses. Os arquivos confidenciais foram acessados.”

“Pode explicar isso?”

“Não no momento. Queríamos manter isso em segredo.”

“Preciso verificar umas coisas. Fique firme e eu volto logo.”

“Onde você está?”

“Na casa de seu dinamarquês predileto.”

“Diga a ele que eu o amo.”

Malone ouviu Henrik dar um risinho e soube que, como dois pais divorciados, Stephanie e Henrik se toleravam simplesmente por causa dele.

— Só vamos ficar aqui sentados esperando? - perguntou Pam.

Os dois tinham lido por cima do ombro de Malone.

— É exatamente o que vamos fazer.

Ela partiu para a porta.

— Você pode ficar. Eu vou fazer alguma coisa.

— O quê, por exemplo? - perguntou ele.

— Vou à polícia.

Ela abriu a porta. Jesper estava no corredor, bloqueando o caminho. Pam olhou para o mordomo.

— Saia da frente.

Jesper ficou firme.

Ela se virou e olhou Henrik, furiosa.

— Diga ao seu empregado para sair, ou então eu o tiro da frente.

— Pode tentar - disse Thorvaldsen.

Malone ficou feliz por Henrik ter previsto a bobagem dela.

— Pam. Minhas entranhas estão reviradas, assim como as suas. Mas a polícia não pode fazer absolutamente nada. Estamos lidando com um profissional que está pelo menos dois dias à nossa frente. Para fazer o melhor pelo Gary, eu preciso de informações.

— Você não derramou uma lágrima. Nem a mínima sugestão de surpresa, absolutamente nada. Como sempre.

Ele se ressentiu daquilo, em particular vindo de uma mulher que apenas dois meses antes havia lhe informado calmamente que ele não era pai do filho dos dois. Malone havia chegado à conclusão de que a revelação não significava nada quando se tratava de seu sentimento por Gary - o garoto era seu filho e sempre seria -, mas a mentira fazia uma diferença gigantesca no que ele pensava sobre a ex-mulher. A raiva subiu por seu pescoço.

— Você já fez besteira. Deveria ter me ligado no segundo em que a coisa aconteceu. Você é tão inteligente, deveria ter encontrado um modo de fazer contato comigo ou com Stephanie. Ela está lá em Atlanta mesmo. Em vez disso, deu dois dias a esses caras. Não tenho tempo nem energia para lutar com você e com eles. Sente esse rabo e cale a boca.

Ela permaneceu imóvel como uma pedra, num silêncio pensativo. Por fim rendeu-se e afundou, largada, num sofá de couro.

Jesper fechou a porta suavemente e permaneceu do lado de fora.

— Diga-me uma coisa - pediu Pam, os olhos fixos no chão, o rosto rígido como mármore.

Ele sabia o que ela queria saber.

— Por que não posso dar o que ele quer? Não é tão simples assim.

— A vida de um garoto está em risco.

— De um garoto, não, Pam. Do nosso filho.

Ela não respondeu. Talvez finalmente tivesse percebido que ele estava certo. Antes de agir, precisavam de informações.

Ele estava encurralado. Como no dia seguinte às provas da faculdade de direito, ou quando requisitou a transferência da Marinha para o Setor Magalhães, ou quando entrou no escritório de Stephanie Nelle e se demitiu.

Espera, anseio, querer, tudo isso combinado com não saber.

Então ele também se perguntou o que Stephanie estaria fazendo.

 

WASHINGTON, D.C.

SEGUNDA-FEIRA, 3 DE OUTUBRO

22H30

Stephanie Nelle ficou satisfeita por estar sozinha. A  preocupação nublava seu rosto, e ela não gostava que ninguém, em particular os superiores, a vissem preocupada.

Raramente se permitia ser afetada pelo que acontecia no campo, mas o seqüestro de Gary Malone a havia afetado profundamente. Estava na capital a trabalho e havia acabado uma reunião num jantar com o conselheiro de segurança nacional. Um Congresso cada vez mais moderado estava propondo mudanças em várias leis pós-11 de setembro.

Estava crescendo o apoio para permitir que as medidas de emergência fossem deixadas de lado, de modo que a administração se preparava para uma luta. Na véspera, várias altas autoridades haviam feito rodadas em programas de entrevistas para censurar os críticos, e os jornais matinais também tinham publicado matérias mandadas pela máquina de publicidade da administração. Ela fora chamada de Atlanta para ajudar a fazer lobby no dia seguinte com senadores importantes. A reunião desta noite fora um preparativo - um modo, tinha certeza, de todo mundo ficar sabendo exatamente o que ela pretendia dizer.

Stephanie odiava política.

Havia servido a três presidentes durante seu tempo no Departamento de Justiça. Mas a administração atual fora, sem dúvida, a mais difícil de ser aplacada. Decididamente à direita do centro e a cada dia indo mais para este extremo, o presidente já obtivera o segundo mandato e lhe restavam três anos no cargo, de modo que estava pensando em seu legado, e que epitáfio melhor do que o homem que esmagou o terrorismo?

Tudo isso não significava nada para ela.

Presidentes iam e vinham.

E como as decisões antiterrorismo que estavam em risco já haviam se mostrado úteis, ela garantira ao conselheiro de segurança nacional que seria uma boa menina de manhã e diria todas as coisas certas no Capitólio.

Mas isso fora antes de o filho de Cotton Malone ter sido levado.

 

O telefone no escritório de Thorvaldsen tocou com um som agudo que chacoalhou os nervos de Malone. Henrik atendeu.

— É bom ter notícias suas, Stephanie. E também amo você. - O dinamarquês sorriu da própria ironia. — Sim, Cotton está aqui.

Malone pegou o telefone.

— Fale.

— Por volta do Dia do Trabalho nós notamos uma falha no sistema, que havia acontecido muito antes. Alguém conseguiu dar uma olhada nos arquivos confidenciais. Um, em particular.

Ele sabia qual era.

— Você entende que, ao guardar essa informação, colocou meu filho em risco?

A outra ponta da linha ficou em silêncio.

— Responda, droga.

— Não posso, Cotton. E você sabe por quê. Só diga o que vai fazer. - Ele sabia o que a pergunta realmente significava. Ele entregaria o Elo de Alexandria àquela voz do telefone celular?

— Por que não deveria?

— Você é o único que pode responder a essa pergunta.

— O que vale arriscar a vida do meu filho? Preciso entender a história inteira. O que não me disseram há cinco anos.

— Também preciso saber disso - respondeu Stephanie. — Também não fui informada.

Ele já ouvira essa fala.

— Não me sacaneie. Não estou no clima.

— Desta vez estou sendo sincera. Eles não me contaram nada. Você pediu para entrar, e eu recebi a autorização para isso. Contatei o procurador-geral, de modo que terei respostas.

— Como alguém sequer ficou sabendo do elo? Aquela coisa toda foi classificada em níveis muito acima de você. Esse era o trato.

— Excelente pergunta.

— E você ainda não disse por que não me contou sobre o vazamento.

— Não, Cotton. Não disse.

— Não lhe ocorreu a idéia de que eu era a única pessoa na Terra que sabe sobre aquele elo? Você não conseguiu ligar os pontos?

— Como eu poderia ter previsto tudo isso?

— Com os seus vinte anos de experiência. Porque você não é uma imbecil. Porque nós somos amigos. Porque... - A preocupação dele estava se derramando num jorro. — Sua estupidez pode custar a vida do meu filho.

Ele viu que as palavras haviam abalado Pam, e esperou que ela não explodisse.

— Sei disso, Cotton.

Ele não ia dar moleza.

— Nossa, agora me sinto melhor.

— Vou cuidar disso aqui. Mas posso lhe oferecer uma coisa. Tenho um agente na Suécia que pode chegar à Dinamarca no meio da manhã. Ele vai lhe contar tudo.

— Onde e quando?

— Ele sugeriu a Kronborg Slot. Às 11 horas.

Malone conhecia o lugar. Não era longe, ficava empoleirado numa língua de terra desnuda que dava para o Oresund. Shakespeare havia imortalizado a fortaleza monstruosa quando situou Hamlet ali. Agora era a atração turística mais popular da Escandinávia.

— Ele sugeriu o salão de baile. Imagino que você saiba onde isso tudo fica, não é?

— Estarei lá.

— Cotton. Vou fazer todo o possível para ajudar.

— Para ser sincero, é o mínimo que você pode fazer.

E ele desligou.

 

WASHINGTON, D.C.

TERÇA-FEIRA, 4 DE OUTUBRO

4H

Stephanie entrou na casa de O. Brent Green, procurador-geral dos Estados Unidos. Um carro tinha acabado de levá-la a Georgetown. Ela havia telefonado para Green antes da meia-noite e pedido o encontro cara a cara, dizendo brevemente o que tinha acontecido. Ele quisera um pouco de tempo para uma investigação, e ela não tivera escolha além de aceitar.

Green esperava em seu escritório.

Ele havia servido ao presidente durante todo o primeiro mandato e fora um dos poucos membros do gabinete que concordara em ficar para o segundo. Era um defensor popular de causas cristãs e conservadoras - um solteirão da Nova Inglaterra cujo nome não estava relacionado a qualquer sugestão de escândalo e que, mesmo àquela hora da madrugada, projetava um vigor sério. O cabelo e o cavanhaque estavam aparados com precisão e muito bem penteados, o corpo magro coberto por um terno de risca de giz característico. Tivera seis mandatos no Congresso e era governador de Vermont quando foi chamado pelo presidente para o Departamento de Justiça. Suas palavras francas e sua abordagem direta o haviam tornado popular com os dois lados da política, mas a personalidade distante parecia impedi-lo de ascender nacionalmente a um cargo mais alto que o de procurador-geral.

Ela nunca estivera dentro da casa de Green e havia esperado uma aparência carrancuda e pouco imaginativa, algo parecido com o homem em si. Mas, em vez disso, os cômodos eram quentes e aconchegantes - muitos tons de castanho-avermelhado, cinza-acastanhado, verde-claro e variações de marrom e laranja -, um efeito Hemingway, como anunciava uma rede de lojas de móveis de Atlanta.

— O assunto é incomum, mesmo para você, Stephanie - disse Green ao cumprimentá-la. — Mais alguma notícia de Malone?

— Ele estava descansando antes de ir à Kronborg. Com a diferença de fuso horário, deve estar indo para lá agora.

Green convidou-a a sentar-se.

— Esse problema parece estar crescendo.

— Brent, já falamos disso antes. Alguém no alto da cadeia alimentar acessou um banco de dados seguro. Sabemos que arquivos sobre o Elo de Alexandria foram copiados.

— O FBI está investigando.

— Isso é piada. O diretor está tão enfiado no rabo do presidente que não há perigo de alguém na Casa Branca ser envolvido.

— Observação exótica, como sempre, mas exata. Infelizmente este é o único procedimento disponível a nós.

— Poderíamos dar uma olhada.

— O que só provocaria encrenca.

— Coisa com a qual estou acostumada.

Green sorriu.

— É mesmo. - Ele fez uma pausa. — Estou me perguntando: o quanto você sabe de fato sobre esse elo?

— Quando mandei Cotton para a briga, há cinco anos, foi sabendo que eu não precisava saber. O que não é incomum. Lido com muitas coisas assim, por isso não me preocupei. Mas agora preciso saber.

O rosto de Green mostrou alguma preocupação.

— Provavelmente estou para violar uma infinidade de leis federais, mais concordo: é hora de você saber.

 

Malone olhou para a elevação rochosa da Kronborg Slot. Antigamente, seus canhões eram apontados para navios estrangeiros que atravessavam os estreitos indo e vindo do Báltico, e as taxas coletadas faziam inchar o tesouro dinamarquês. Agora as paredes bege erguiam-se sombrias contra um céu azul-claro. Não era mais uma fortaleza, apenas um prédio da renascença nórdica cheio de torres octogonais, pináculos e telhados de cobre pintados de verde que mais faziam lembrar a Holanda do que a Dinamarca. O que era compreensível, Malone sabia, já que um holandês do século XVI fora fundamental no projeto do castelo. Ele gostava do local. Os lugares públicos podiam ser os melhores pontos para se ficar invisível. Ele havia usado muitos durante o tempo que passara no Setor.

A vinda do norte, de Christiangade, tinha demorado apenas 15 minutos. A propriedade de Thorvaldsen ficava no meio do caminho entre Copenhague e Helsingor, a movimentada cidade portuária adjacente à fortaleza. Malone havia visitado Kronborg e Helsingor, caminhado pelas praias próximas em busca de âmbar - um modo relaxado de passar uma tarde de domingo. A visita de hoje era diferente. Ele estava tenso.

Pronto para brigar.

— O que estamos esperando? - perguntou Pam, o rosto fixo como uma máscara.

Malone fora obrigado a trazê-la. Ela havia insistido com veemência, ameaçando causar mais problemas se fosse deixada para trás. Ele certamente podia entender a falta de vontade dela de apenas esperar com Thorvaldsen. A tensão e a monotonia criavam uma mistura volátil.

— O sujeito disse que estaria aqui às 11 horas.

— Já perdemos tempo demais.

— Nada que fizemos foi perda de tempo.

Depois do telefonema de Stephanie, ele conseguira dormir algumas horas. Não faria bem nenhum a Gary se ficasse meio acordado. Também havia trocado de roupa, vestindo as que estavam na mochila. As de Pam foram limpas por Jesper. Eles também haviam tomado o café-da-manhã.

Portanto, estava pronto.

Olhou o relógio: 10h20.

Carros começavam a encher os estacionamentos. Logo chegariam ônibus. Todo mundo queria ver o castelo de Hamlet. Ele não poderia se importar menos.

— Vamos.

— O elo é uma pessoa - disse Green. — Seu nome é George Haddad. Um erudito palestino, estudioso da Bíblia.

Stephanie conhecia o nome. Haddad era amigo pessoal de Malone e, havia cinco anos, pedira especificamente a ajuda dele.

— O que vale a vida de Gary Malone?

— A biblioteca perdida de Alexandria.

— Você não pode estar falando sério.

Green assentiu.

— Haddad achava que a havia localizado.

— Como isso poderia ter qualquer relevância atualmente?

— Na verdade, poderia ser bem relevante. Essa biblioteca foi a maior concentração de conhecimento no planeta. Ficou de pé durante seiscentos anos, até meados do século VII, quando os muçulmanos finalmente assumiram o controle de Alexandria e expurgaram tudo que fosse contrário ao islamismo. Meio milhão de rolos, códices, mapas, qualquer coisa: a biblioteca tinha uma cópia. E até hoje ninguém encontrou nenhum pedaço de pergaminho.

— Mas Haddad descobriu?

— Foi o que deu a entender. Ele estava trabalhando numa teoria bíblica. Não sei o que era, mas a prova de sua teoria supostamente estava contida na biblioteca perdida.

— Como ele sabia disso?

— De novo, não sei, Stephanie. Mas há cinco anos, quando nosso pessoal na Cisjordânia, no Sinai e em Jerusalém fez alguns pedidos inocentes de vistos, acesso a arquivos, escavações arqueológicas, os israelenses ficaram loucos. Foi então que Haddad pediu ajuda a Malone.

— Para uma missão cega, da qual não gostei.

Cega significava que Malone recebera ordem de proteger Haddad sem fazer nenhuma pergunta. Ela se lembrava que Malone também não gostara da condição.

— Haddad só confiava em Malone - disse Green. — Motivo pelo qual Cotton acabou escondendo-o e é o único que hoje sabe do paradeiro de Haddad. Aparentemente, a administração não pareceu se incomodar em esconder Haddad, desde que controlasse o caminho até ele.

— Para quê?

Green balançou a cabeça.

— Faz pouco sentido. Mas há uma idéia do que pode estar em jogo.

Ela estava escutando.

— Num dos relatórios que eu vi, havia Gênesis 13:14-17 escrito na margem. Sabe o que é?

— Não sou muito boa com a Bíblia.

— “E disse o Senhor a Abrão: Levanta agora os teus olhos e olha desde o lugar onde estás para o lado do norte, e do sul, e do oriente, e do ocidente, porque toda esta terra que vês, hei de dar a ti, e à tua descendência, para sempre.”

Isso ela sabia. Uma aliança que, durante séculos, fora a reivindicação bíblica dos judeus à Terra Santa.

— Abrão removeu sua tenda e viveu na planície de Mamre, e ali construiu um altar ao Senhor - disse Green. — Mamre é Hebron, hoje na Cisjordânia, a terra que Deus deu aos judeus. Abrão se tornou Abraão: E essa única passagem bíblica está no âmago de todas as desavenças no Oriente Médio.

Disso ela também sabia. O conflito entre judeus e árabes no Oriente Médio não era uma batalha política, como muitos percebiam. Em vez disso, era um debate interminável em relação à Palavra de Deus.

— E há mais um fato interessante - disse Green. — Logo depois de Malone esconder Haddad, os sauditas mandaram tratores para o oeste da Arábia e derrubaram cidades inteiras. A destruição prosseguiu por três semanas. Pessoas foram realocadas. Prédios foram arrasados. Não restou absolutamente nada dessas cidades. Claro que é uma parte fechada do país, de modo que não houve cobertura da imprensa, nenhuma atenção foi atraída.

— Por que eles fariam isso? Parece exagerado, até para os sauditas.

— Ninguém jamais encontrou uma boa explicação. Mas eles fizeram isso muito deliberadamente.

— Precisamos saber mais, Brent. Cotton precisa saber. Ele tem uma decisão a tomar.

— Verifiquei com o conselheiro de segurança nacional há uma hora. Incrivelmente, ele sabe menos sobre isso do que eu. Ouviu falar do elo, mas sugeriu que eu conversasse com outra pessoa.

Ela sabia.

— Larry Daley.

Lawrence Daley servia como subsecretário de segurança nacional, próximo do presidente e do vice-presidente. Daley jamais aparecia no circuito de programas de entrevistas das manhãs de domingo. Também não aparecia na CNN nem na Fox News. Era um poderoso ator por trás dos panos. Uma ligação entre os altos escalões da Casa Branca e o resto do mundo político. Mas havia um problema.

— Não confio no sujeito - disse ela.

Green pareceu captar o algo mais que o tom de voz de Stephanie sugeria, mas não disse nada, observando-a com penetrantes olhos cinzentos.

— Não temos controle sobre Malone - deixou claro Stephanie. — Ele fará o que tiver de fazer. E neste momento está agindo com raiva.

— Cotton é um profissional.

— É diferente quando alguém da família está correndo perigo. - Ela falava por experiência própria, tendo recentemente lutado com fantasmas de seu próprio passado. — Ele é o único que sabe onde George Haddad está - disse Green. — Ele tem todas as cartas do baralho.

— E é exatamente por isso que o estão espremendo. - Green manteve o olhar fixo nela.

Stephanie sabia que seu dilema certamente estava sendo transmitido através de uma suspeita que ela não conseguia afastar dos olhos.

— Diga, Stephanie, por que não confia em mim?

 

OXFORDSHIRE, INGLATERRA

9H

George Haddad estava parado em meio à multidão e ouvia os especialistas, sabendo que estavam errados. O evento não passava de um modo de atrair a atenção da mídia para o Museu Thomas Bainbridge e os pouco louvados criptoanalistas de Bletchley Park. Certo, aqueles homens e mulheres anônimos haviam trabalhado em segredo absoluto durante a Segunda Guerra Mundial, terminando por decifrar o código Enigma da máquina alemã e apressando o fim da guerra. Mas infelizmente sua história não seria totalmente contada até que a maioria deles estivesse morta ou velha demais para se importar. Haddad podia entender a frustração. Ele também já havia trabalhado em segredo.

Ele também havia descoberto uma grande revelação.

E nem era mais conhecido como George Haddad. Na verdade, tinha usado nomes falsos demais para se lembrar de todos. Cinco anos antes, fora para a clandestinidade e não mantinha contato com ninguém. Num aspecto isso era bom.

Em outro, o silêncio abalava seus nervos. Graças a Deus, somente um homem sabia que ele estava vivo, e Haddad confiava completamente nessa pessoa.

Na verdade, estaria morto, se não fosse ele.

Sair hoje era correr um risco. Mas ele queria ouvir o que os supostos especialistas tinham a dizer. Lera sobre o programa no Times e tinha de admirar os ingleses. Eles adoravam acontecimentos da mídia - a cena estava montada com a precisão de um filme de Hollywood. Um monte de ternos e rostos sorridentes, uma infinidade de câmeras e gravadores.

Por isso fez questão de permanecer atrás das lentes. O que era fácil, já que o foco da atenção de todo mundo era o monumento.

Havia oito espalhados pelo jardim da propriedade, todos erguidos em 1784 pelo então conde, Thomas Bainbridge.

Haddad conhecia a história da família. Em 1624, os Bainbridge haviam comprado a propriedade, oculta num recanto de Oxfordshire e rodeada de bosques de bétulas, e ergueram uma enorme mansão jacobina no centro de 240 hectares. Outros Bainbridge conseguiram manter a propriedade até 1848, quando a Coroa adquiriu o título por meio de um leilão por falta de pagamento de impostos e a rainha Vitória abriu a casa e o terreno como um museu.

Desde então os visitantes vinham ver os móveis de época e vislumbrar como era viver no luxo séculos atrás. A biblioteca passara a ser considerada uma das melhores em obras do século XVIII. Mas em anos recentes o lugar era mais visitado pelo monumento, já que a Bainbridge Hall possuía um enigma, e os turistas do século XXI adoravam segredos.

Ele olhou para o caramanchão de mármore branco.

A imagem de cima, ele sabia, era Les Bergers d'Arcadie II,

Os pastores da Arcádia II, uma obra sem importância pintada por Nicolas Poussin em 1640, imagem reversa de sua obra anterior Os pastores da Arcádia. A cena pastoral representava uma mulher olhando, enquanto três pastores se reuniam em volta de um túmulo de pedra, apontando para as letras gravadas ET IN ARCÁDIA EGO. Haddad sabia a tradução. E na Arcádia eu. Uma inscrição enigmática que fazia pouco sentido. Embaixo dessa imagem ficava outro desafio. Letras aleatórias cinzeladas num padrão.

 

D   O.V.O.S.V.V.A.V.V.  M

 

Haddad sabia que o pessoal da nova era e os fanáticos por teorias da conspiração haviam trabalhado durante anos com essa combinação de letras, desde que haviam sido redescobertas uma década antes por um repórter do Guardian em visita ao museu.

— A todos vocês aqui hoje - estava dizendo um homem alto e corpulento diante dos microfones — nós, da Bainbridge Hall, damos as boas-vindas. Talvez agora possamos saber o significado da mensagem que Thomas Bainbridge deixou neste monumento há mais de duzentos anos.

Haddad sabia que o homem que falava devia ser o curador do museu. Duas pessoas flanqueavam o administrador - um homem e uma mulher, ambos idosos. Ele vira as fotos dos dois no The Sunday Times. Ambos haviam sido criptoanalistas de Bletchley Park, convocados para avaliar as possibilidades e decifrar qualquer código que o monumento supostamente contivesse. E o consenso geral parecia ser que o monumento era um código.

O que mais poderia ser? Haviam perguntado muitos.

Haddad ficou ouvindo o curador explicar que fora publicado um anúncio relativo ao monumento, e 130 soluções tinham sido oferecidas por uma variedade de criptógrafos, teólogos, lingüistas e historiadores.

— Algumas eram bastante bizarras - disse o curador, — implicando OVNIS, o Santo Graal e Nostradamus. Claro, essas soluções em particular vinham com pouca ou nenhuma prova para sustentá-las, por isso foram rapidamente descartadas. Alguns candidatos achavam que as letras eram um anagrama, mas as palavras que eles montaram faziam pouco sentido.

Algo que Haddad podia entender muito bem.

— Uma solução promissora veio de um ex-decifrador de códigos americano. Ele desenhou 82 matrizes de decodificação e acabou extraindo as letras SEJ do seqüenciamento. Revertido, isso vira JES. Aplicando uma complexa grade de bandeira, ele extraiu Jesus H Defy. Nossos consultores de Bletchley Park acharam que essa era uma imagem que negava a natureza divina de Cristo. Esta solução é uma tentativa remota, para dizer o mínimo, porém é intrigante.

Haddad sorriu daquele absurdo. Thomas Bainbridge fora um homem dedicadamente religioso. Não teria negado Cristo.

A senhora idosa ao lado do curador subiu ao pódio. Tinha cabelos prateados e usava um conjunto azul-pálido.

— Este monumento nos proporcionou uma grande oportunidade - disse ela em voz melodiosa. — Quando eu e outros trabalhávamos em Bletchley, enfrentamos muitos desafios com os códigos alemães. Eles eram muito difíceis. Mas, se a mente humana pode conceber um código, também pode decifrá-lo. As letras aqui são mais complexas. Pessoais. O que torna sua interpretação difícil. Nós, que fomos contratados para estudar todas as 130 soluções possíveis para este quebra-cabeça, não pudemos chegar a um consenso evidente. Como o público, ficamos divididos. Mas um significado possível fazia sentido. - Ela se virou e indicou o monumento atrás. — Acho que isto é um bilhete de amor.

Ela parou, aparentemente permitindo que suas palavras fizessem efeito.

— OVOSVAVV representa Optimae Uxoris Optimae Sororis Viduus Amantissimus Vovit Virtutibus. Isso quer dizer, aproximadamente, "um viúvo dedicado à melhor das esposas e à melhor das irmãs". Esta não é uma tradução perfeita. Em latim clássico, Sororis pode significar "das companheiras" além de "das irmãs". E vir, esposo, seria melhor do que viduus, viúvo. Mas o significado é claro.

Um dos repórteres perguntou sobre o D e o M que ladeavam o agrupamento de oito letras.

— É bem simples - disse ela. — Dis Manibus. Uma inscrição romana. "Aos deuses do outro mundo, salve." É como o nosso Descanse em paz. Essas letras encontram-se na maioria das lápides romanas.

Ela parecia bastante satisfeita consigo mesma. Haddad queria fazer umas poucas perguntas pertinentes que iriam estourar a bolha intelectual da mulher, mas não disse nada.

Simplesmente ficou olhando os dois veteranos de Bletchley Park serem fotografados diante do monumento, com uma das máquinas alemãs Enigma, emprestada especialmente para a ocasião. Montes de sorrisos, perguntas e comentários elogiosos.

Thomas Bainbridge era de fato um homem brilhante.

Infelizmente, Bainbridge nunca conseguira transmitir seus pensamentos de modo eficaz, então seu brilho se desvaneceu e acabou desaparecendo sem ser apreciado. Para a mente do século XVIII, ele parecia um fanático. E o curioso monumento ali adiante, a imagem reversa de uma pintura obscura e um amontoado de letras, fora erguido por um motivo.

Um motivo que Haddad conhecia.

Não era um bilhete de amor, nem um código, nem uma mensagem. Era algo totalmente diferente.

Um mapa.

 

KRONBORG SLOT

10H20

Malone pagou as seis coroas para ele e Pam entrarem no castelo. Seguiram um grupo que havia saído de um dos três ônibus.

Dentro, uma exposição fotográfica mostrando vislumbres das muitas produções de Hamlet recebeu-os. Ele pensou na ironia do local. Hamlet era uma peça sobre um filho vingando o pai; no entanto, ali estava ele, um pai lutando pelo filho. Seu coração doía por Gary. Jamais quisera que o garoto ficasse em situação difícil e, durante 12 anos, enquanto trabalhava no Setor, sempre mantivera um limite claro entre o trabalho e a casa. Mas agora, um ano depois de ter se afastado voluntariamente, seu filho estava em cativeiro.

— Era isso que você fazia o tempo todo? - perguntou Pam.

— Em parte.

— Como conseguia viver assim? Minhas entranhas estão reviradas. Ainda estou tremendo por causa de ontem à noite.

— Você se acostuma. - E ele falava sério, mesmo que há muito tempo estivesse cansado de mentiras, meias-verdades, fatos improváveis e traidores.

— Você precisava desse barato, não é?

O corpo dele estava pesado de exaustão, e não sentia clima para aquela briga familiar.

— Não, Pam. Eu não precisava. Mas era o meu trabalho.

— Egoísta. É o que você era. Sempre.

— E você era simplesmente um raio de sol. A esposa que sempre apóia, que defende o marido. Tanto que ficou grávida de outro homem, teve um filho e me deixou pensar que ele era meu durante 15 anos.

— Não tenho orgulho do que fiz. Mas não sabemos quantas das suas mulheres ficaram grávidas, não é?

Ele parou de andar. Aquilo precisava ter um fim.

— Se você não calar a boca, vai fazer o Gary ser morto. Eu sou a única esperança dele e, neste momento, não é produtivo brincar com a minha cabeça.

Essa verdade provocou um clarão momentâneo de compreensão nos olhos amargos dela, um instante em que a Pam Malone que ele havia amado reapareceu. Malone desejou que aquela mulher pudesse permanecer ali, mas, como sempre, sua guarda subiu e olhos mortos o encararam de volta.

— Mostre o caminho - disse ela.

 

Entraram no salão de baile.

O espaço retangular se estendia por sessenta metros. Janelas se enfileiravam dos dois lados, cada uma posta em fundas alcovas de alvenaria grossa, com a luz oblíqua lançando um feitiço sutil no piso xadrez. Cerca de uma dúzia de visitantes se espalhava admirando enormes telas a óleo que pontilhavam as paredes de um tom amarelo-claro, principalmente cenas de batalhas.

Na outra extremidade, diante de uma lareira, Malone viu um homem baixo e magro com cabelos castanho-avermelhados.

Lembrava-se dele, do Setor Magalhães. Lee Durant. Havia falado com Durant algumas vezes em Atlanta. O agente viu-o e desapareceu por uma porta.

Malone foi pelo corredor.

Passaram por uma série de cômodos, cada um esparsamente decorado com móveis da renascença européia e tapeçarias de parede. Durant permanecia cinco metros adiante.

Malone o viu parar.

Ele e Pam entraram na sala identificada como Câmara do Canto. Tapeçarias adornavam as paredes brancas e simples.

Apenas alguns móveis se espalhavam no piso opaco, em preto-e-branco.

Malone apertou a mão de Durant e apresentou Pam.

— Fale o que está acontecendo. Stephanie disse para falar com você, não com ela.

— Por mais que eu quisesse que ela não estivesse aqui, ela está; portanto, não embrome.

Durant pareceu pensar na situação, depois disse:

— Também recebi ordens para fazer o que você pedisse.

— Fico feliz em saber que Stephanie foi tão solícita.

— Vá direto ao assunto - disse Pam. — Estamos com prazo curto.

Malone balançou a cabeça.

— Ignore-a. Diga o que está acontecendo.

— Obtiveram acesso aos nossos arquivos confidenciais. Não houve qualquer evidência de hackers ou de passagem forçada pelos firewalls, de modo que certamente usaram uma senha. A senha é trocada a intervalos regulares, mas várias centenas de pessoas tinham acesso.

— Não restaram traços em nenhum computador específico?

— Zero. E nenhuma digital nos dados. O que indica que quem fez isso sabia o que estava fazendo.

— Presumo que alguém esteja investigando.

Durant assentiu.

— O FBI, mas até agora, nada. Cerca de 12 arquivos foram vistos, um dos quais era o Elo de Alexandria.

O que, pensou Malone, poderia explicar por que Stephanie não o havia alertado imediatamente. Havia outras possibilidades.

— Aqui vai a parte interessante. Neste momento, os israelenses estão superligados, em particular durante as últimas 24 horas. Nossas fontes dizem que essa informação foi descoberta ontem, vinda da Cisjordânia, de um dos agentes palestinos deles.

— O que isso tem a ver?

— As palavras Elo de Alexandria foram mencionadas.

— O que você sabe?

— Só fiquei sabendo disso há uma hora, por intermédio de um dos meus contatos. Ainda não fiz contato integral com Stephanie.

— Em que isso ajuda? - perguntou Pam.

Malone falou com Durant:

— Preciso saber mais.

— Eu lhe fiz uma pergunta - disse Pam, levantando a voz.

A civilidade de Malone acabou.

— Eu disse para você me deixar cuidar disso.

— Você não tem intenção de dar nada a eles, não é? - Seus olhos chamejaram e ela pareceu pronta para dar um soco.

— Minha intenção é pegar o Gary de volta.

— Está disposto a arriscar a vida dele? Só para proteger uma porcaria de arquivo?

Um grupo de visitantes cheios de máquinas fotográficas entrou na sala. Malone viu que Pam teve o bom senso de ficar quieta e sentiu-se grato pela interrupção.

Definitivamente fora um erro trazê-la. Teria de largá-la assim que saíssem de Kronborg, mesmo que isso significasse trancá-la numa sala da mansão de Thorvaldsen.

Os visitantes saíram.

Ele encarou Durant e disse:

— Fale mais do...

Um estouro o espantou, então a câmera presa ao teto, no canto, explodiu num chuveiro de fagulhas. Em seguida soaram mais dois estouros. Durant foi jogado para trás enquanto rosas de sangue brotavam de furos em seu terno cor de azeitona.

Um terceiro tiro soou, e Durant desmoronou no chão.

Malone girou.

Havia um homem a seis metros dali, segurando uma Glock.

Malone enfiou o braço direito sob o paletó para encontrar sua arma.

— Não precisa - disse o homem calmamente, e jogou a arma.

Malone pegou-a. Segurou o cabo da pistola, dedo no gatilho, apontou e disparou.

A resposta foi apenas um clique.

Seu dedo apertou de novo o gatilho.

Mais cliques.

O homem sorriu.

— Você não acha que eu iria entregá-la carregada.

Então o atirador saiu correndo da sala.

 

WASHINGTON

4H40

Stephanie pensou na pergunta de Brent Green: “Por que não confia em mim?” - e decidiu ser direta com o chefe.

— Todo mundo nesta administração quer que eu vá embora. Não sei por que ainda estou aqui. De modo que, no momento, não confio em ninguém.

Green balançou a cabeça diante da suspeita dela.

— Aqueles arquivos foram acessados por alguém que tinha uma senha - acrescentou ela. — Claro, eles examinaram uma dúzia, ou mais, porém nós dois sabemos atrás de qual estavam. Apenas alguns de nós sabem do Elo de Alexandria. Eu nem conheço os detalhes, só que enfrentamos um monte de problemas por uma coisa aparentemente insignificante. Muitas perguntas. Nenhuma resposta. Ora, Brent. Nós dois não somos exatamente unha e carne, então por que eu deveria confiar em você agora?

— Sejamos claros. Eu não sou seu inimigo. Se fosse, não estaríamos tendo esta conversa.

— Tenho amigos neste negócio que me disseram isso muitas vezes, e não falavam nem um pouco a sério.

— Os traidores são assim.

Ela decidiu testá-lo mais.

— Você não acha que deveríamos trazer mais pessoas para o círculo?

— O FBI já está dentro.

— Brent, estamos atuando no escuro. Precisamos saber o que George Haddad sabe.

— Então está na hora de lidarmos com Larry Daley, na Casa Branca. Qualquer estrada que pegarmos vai dar direto nele. É melhor irmos à fonte.

Ela concordou.

E Green pegou o telefone.

 

Malone ouviu a pessoa que acabara de assassinar Lee Durant gritar que lá dentro havia um homem com uma arma, que havia atirado em alguém.

E ele ainda estava segurando a Glock.

- Ele está morto? - murmurou Pam.

Pergunta idiota. Mas ficar com a arma do crime na mão era

Mais idiota ainda.

— Venha.

— Não podemos simplesmente deixá-lo.

— Ele está morto.

A histeria encheu os olhos dela. Malone se lembrou da primeira vez em que tinha visto alguém morrer, por isso não pegou pesado.

— Você não deveria ter visto isso. Mas precisamos ir.

O som de passos correndo no piso ecoou fora da sala. Era a segurança, presumiu ele. Segurou a mão de Pam e puxou-a para a extremidade oposta da Câmara do Canto.

Passaram por mais salas, cada uma igual à outra, esparsamente mobiliadas com peças de época, iluminadas pela fraca luz da manhã. Notou mais câmeras e soube que teria de evitá-las. Enfiou a Glock no bolso do paletó e pegou a Beretta.

Entraram numa sala identificada como Câmara da Rainha.

Escutou vozes atrás. Aparentemente o corpo fora encontrado. Mais gritos e passos correndo, vindo na direção deles.

A Câmara da Rainha era um apartamento. Três portas levavam para fora. Uma para uma escada para cima, a outra para uma escada para baixo, e a última passagem era para outra sala. Nenhuma câmera de segurança à vista. Examinou a decoração, tentando decidir o que faria. Um grande armário erguia-se encostado na parede externa.

Decidiu se arriscar.

Correu para o armário e segurou as maçanetas de ferro da porta dupla. Dentro era espaçoso e estava vazio. Grande o suficiente para os dois. Sinalizou para Pam. Pela primeira vez ela veio sem comentar.

— Entre - sussurrou ele.

Antes de entrar, entreabriu as duas saídas para as escadas.

Depois entrou no armário e fechou as portas, esperando que os perseguidores presumissem que haviam subido, descido ou retornado ao castelo.

 

Stephanie ouviu enquanto Brent Green informava o acontecido a Larry Daley. Não conseguia deixar de imaginar se aquele escroto arrogante do outro lado da linha já não

saberia de cada detalhe, e mais ainda.

— Conheço o Elo de Alexandria - disse Daley pelo viva-voz.

— Poderia nos contar? - perguntou Green.

— Desejaria poder. É confidencial.

— Para o procurador-geral e a chefe de uma das nossas mais importantes agências de informação?

— Só está disponível para um grupo muito seleto. Infelizmente nenhum de vocês dois se qualifica.

— Então, como foi que outra pessoa conseguiu dar uma espiada? - perguntou Stephanie.

— Você ainda não deduziu?

— Talvez tenha deduzido.

O silêncio penetrou na sala. Aparentemente, Daley havia recebido a mensagem.

— Não fui eu.

— O que mais você diria? - perguntou ela.

— Cuidado com a boca.

Stephanie ignorou a cutucada.

— Malone vai entregar o elo a eles. Ele não vai arriscar o filho.

— Então terá de ser impedido - disse Daley. — Não vamos entregar isso a ninguém.

Ela captou o significado.

— Você quer só para você, não é?

— Está certíssima.

Stephanie não conseguiu acreditar no que ouvia.

— A vida de um garoto pode estar em risco.

— O problema não é meu - declarou Daley.

Ligar para Daley tinha sido um erro, e ela podia ver que agora Green também percebia isso.

— Larry - disse Green. — Vamos ajudar o Malone. E não tornar a tarefa dele mais difícil.

— Brent, esta é uma questão de segurança nacional, e não um caso de caridade.

— É interessante - disse Stephanie - como você não está nem um pouco preocupado porque alguém acessou nossos arquivos confidenciais e ficou sabendo tudo sobre esse secretíssimo Elo de Alexandria, uma suposta questão de segurança nacional.

— Você informou esse vazamento há mais de um mês. O FBI está cuidando da situação. O que você está fazendo a respeito, Stephanie?

— Disseram para eu não fazer nada. O que você fez, Larry?

Um suspiro veio pelo alto-falante.

— Você é mesmo um pé no saco.

— Mas ela trabalha para mim - esclareceu Green.

— Acho o seguinte - disse Stephanie. — O que quer que seja esse elo, de algum modo tem a ver com o que vocês, gênios da Casa Branca, conceberam como política externa. Na verdade, você gosta do fato de os arquivos terem sido violados e de alguém ter essa informação. O que significa que vai deixar que essas pessoas façam seu trabalho sujo.

— Algumas vezes, Stephanie, os inimigos podem ser amigos. - A voz de Daley havia baixado até um sussurro. — E vice-versa.

Um nó se formou na garganta dela. Agora suas suspeitas eram fato.

— Você vai sacrificar o filho de Malone em nome do legado de seu presidente?

— Eu não comecei isso - respondeu Daley. — Mas pretendo usá-lo.

— Não se eu puder evitar.

— Se interferir, você será demitida. Não por você, Brent, mas pelo próprio presidente.

— Isso poderia se tornar um problema - disse Green.

Ela captou a ameaça na voz dele.

— Está dizendo que ficaria do lado dela? - perguntou Daley.

— Sem dúvida.

Ela sabia que essa era uma ameaça que Daley não poderia ignorar. A administração possuía algum controle sobre as ações de Green como procurador-geral. Mas se ele se demitisse, ou fosse demitido, estaria aberta a temporada de caça na Casa Branca.

O viva-voz ficou mudo. Ela imaginou Daley sentado em seu escritório, pensando na encrenca.

- Estarei na sua casa em trinta minutos.

— Por que precisamos nos encontrar? - perguntou Green.

— Garanto, vai valer a pena.

A linha estalou e ficou muda.

 

Malone ficou parado dentro do armário, ouvindo passos que entravam correndo na Câmara da Rainha. Pam estava aninhada ao seu lado, o mais perto que haviam ficado em anos. Um cheiro familiar subia dela, como baunilha doce, um cheiro que ele recordava com uma mistura de alegria e agonia. Engraçado como os cheiros disparavam as lembranças.

Ainda segurava a Beretta e esperava não ter de usá-la. Mas não tinha intenção de ser preso, principalmente quando Gary precisava dele. Sem dúvida um dos motivos para matar Durant era isolá-los. Outro fora impedir que soubessem de qualquer informação útil. Mas ele se perguntava como alguém teria sabido do encontro. Não haviam sido seguidos a partir de Christiangade, disso tinha certeza. O que significava que os telefones de Thorvaldsen deviam estar monitorados. O que significava que sua ida direto a Christiangade fora prevista.

Não podia ver Pam, mas sentia o desconforto dela.

Considerando toda a intimidade que haviam compartilhado, agora eram simplesmente estranhos.

Talvez até inimigos.

Vozes agarraram seus pensamentos. Os passos ficaram mais fracos, depois se perderam no silêncio. Ele esperou, dedo no gatilho, o suor brotando nas palmas das mãos.

Mais silêncio.

Não havia como enxergar nada sem abrir as portas do armário. O que poderia ser desastroso se alguém permanecesse na sala.

Mas não poderia ficar ali para sempre.

Entreabriu a porta, com a arma preparada.

A Câmara da Rainha estava vazia.

— Vamos descer a escada - murmurou, e os dois passaram pela porta aberta e desceram uma escada circular junto à parede externa do castelo. No térreo, chegaram a uma porta de metal que ele esperava não estar trancada.

O trinco cedeu.

Saíram para uma manhã luminosa. Um mar de grama

brilhante cheia de cisnes se estendia das paredes do castelo

até o mar. A Suécia pairava no horizonte, 5 quilômetros do

outro lado da água cinza-amarronzada.

Malone enfiou a Beretta sob o paletó.

— Temos de sair daqui - disse ele. — Mas devagar. Não atraia atenção. - Dava para ver que ela ainda estava abalada pelo assassinato, por isso sugeriu: — Você vai ficar vendo a coisa repetidamente no cérebro, mas isso vai passar.

— Sua preocupação é tocante. - De novo a voz dela estava cheia de ameaça.

— Então engula o seguinte: provavelmente essa não é a última pessoa que vai morrer antes que isto acabe.

Malone foi na frente, pelas fortificações diante do estreito.

Havia poucos visitantes por perto. Chegaram a um local que ele sabia que era a Bateria Principal, onde canhões antigos já haviam ficado e onde Shakespeare permitira que Hamlet encontrasse o fantasma do pai. Uma muralha se erguia do mar. Ele jogou a Glock na água turbulenta.

Sirenes uivavam ao longe.

Foram lentamente até a entrada principal. Ao ver luzes piscando e mais policiais correndo para o terreno, Malone decidiu esperar antes de sair. Era improvável que alguém tivesse uma descrição deles, e duvidava que o atirador tivesse ficado para dá-la. A idéia certamente não era que eles fossem presos.

Por isso se misturou à multidão.

Depois viu o atirador.

A 50 metros dali, indo direto para o portão principal, caminhando, para não atrair atenção.

Pam também o viu.

— É aquele cara.

— Eu sei.

Ele começou a avançar.

— Você não vai - pediu ela.

— Não pode me impedir.

 

VIENA, ÁUSTRIA

11H20

O Cadeira Azul se perguntou se o Círculo havia se comprometido com o rumo adequado. Por oito anos, die Klauen der Adler, o Garras da Águia, havia levado adiante as tarefas devidas. Certo, eles o tinham contratado coletivamente, mas numa base cotidiana Dominick Sabre trabalhava diretamente sob o controle do Cadeira Azul, o que significava que ele havia passado a conhecê-lo muito melhor do que os outros.

Sabre era americano, nascido e criado lá - a primeira vez que isso acontecera no Círculo. Eles sempre haviam empregado europeus, mas uma vez um sul-africano lhes servira bem.

Cada um daqueles homens, inclusive Sabre, fora escolhido não somente por sua capacidade individual, mas também pela mediocridade física. Todos tinham altura, peso e feições medianos. A única característica notável em Sabre eram as marcas no rosto, resquícios de um surto de catapora. O cabelo preto de Sabre era cortado reto e sempre mantido grudado por gel que lhe acrescentava brilho. A barba crescida costumava cobrir parcialmente as bochechas; o Cadeira Azul sabia que era para esconder as cicatrizes, mas também para desarmar as pessoas ao redor.

Sabre mantinha uma aparência relaxada e geralmente usava roupas de um tamanho maior que o ideal, que escondiam um corpo magro e musculoso - certamente também no esforço de ser constantemente subestimado.

A partir de um perfil psicológico que Sabre teve de fazer antes de ser contratado, o Cadeira Azul ficou sabendo que havia algo que atraía o americano para o desafio à autoridade. Mas esse mesmo perfil também revelou que, quando ele recebesse uma tarefa, se ficasse sabendo do resultado pretendido e fosse deixado em paz, sempre cumpriria o trabalho.

E era isso que importava.

Ele e os Cadeiras não poderiam se importar menos com o modo como determinada tarefa era feita, só que o resultado desejado fosse alcançado. Assim, a ligação deles com Sabre fora frutífera. No entanto, um homem sem moral e com

pouco respeito pela autoridade precisava ser vigiado.

Em especial quando a aposta era alta.

Como agora.

Assim, o Cadeira Azul pegou o telefone e digitou.

 

Sabre atendeu ao celular, esperando que o telefonema fosse

de seu homem na Kronborg Slot. Em vez disso, a voz tensa

do outro lado pertencia ao patrão.

— Como o Sr. Malone recebeu seu cumprimento inicial? - perguntou o Cadeira Azul.

— Bem. Ele e a ex-mulher saíram pela janela.

— Como você previu. Mas será que não estamos atraindo atenção desnecessária?

— Mais do que eu gostaria, mas foi necessário. Ele tentou pagar para ver, por isso teve de notar que não está no comando. Mas daqui em diante serei mais discreto.

— Faça isso. Não precisamos que a polícia fique muito envolvida. - Ele fez uma pausa. — Pelo menos não mais do que já está.

Sabre estava escondido numa casa alugada no lado norte de Copenhague, a alguns quarteirões do Amalienborg, o palácio real junto ao mar. Havia trazido Gary Malone da Geórgia até ali com o falso argumento de que o pai dele corria perigo, e o garoto havia acreditado graças a uma identificação falsa do Setor Magalhães que Sabre lhe mostrara.

— Como está o garoto? - perguntou o Cadeira Azul.

— Ansioso, mas acha que esta é uma operação do governo dos Estados Unidos. De modo que permanece calmo, por enquanto.

Eles haviam aterrorizado Pam Malone com uma foto do filho. O rapaz também havia cooperado com isso, pensando que estavam produzindo credenciais de segurança.

— O garoto não está perto demais do Malone?

— Ele não teria ido voluntariamente a nenhum outro local. Sabe que o pai está perto.

— Sei que você tem isso sob controle. Mas seja cuidadoso.

Malone pode surpreendê-lo.

— Por isso temos o filho dele. Ele não vai prejudicar o garoto.

— Precisamos do Elo de Alexandria.

— Malone vai nos levar diretamente para lá.

Mas o telefonema do homem em Kronborg ainda não havia chegado. Para que tudo desse certo, era fundamental que seu agente atuasse exatamente segundo as instruções.

— Também precisamos que isso seja resolvido nos próximos dias.

— Será.

— Pelo que você me contou - disse o Cadeira Azul, — esse tal de Malone é um espírito livre. Tem certeza de que ele ficará devidamente motivado?

— Não se preocupe. Neste momento, estamos fornecendo motivação mais do que suficiente.

Malone saiu do terreno da Kronborg Slot e viu o homem caminhando calmamente para Helsingor. Ele adorava a praça do mercado da cidade, os becos elegantemente antiquados e as construções de tijolos e madeira. Mas nada desse sabor renascentista importava hoje.

Mais sirenes uivavam à distância.

Ele sabia que assassinatos eram algo raro na Dinamarca.

Como este havia acontecido num Sítio Histórico Nacional, certamente sairia em todos os noticiários. Precisava notificar Stephanie de que um de seus agentes fora morto, mas não havia tempo. Presumia que Durant estivesse viajando com o nome verdadeiro - esse era um padrão no Setor -, de modo que, assim que as autoridades locais percebessem que a vítima trabalhava para o governo americano, as pessoas certas seriam contatadas. Pensou em Durant. Era uma pena.

Mas havia muito tempo que Malone aprendera a não desperdiçar emoções com coisas que não podia mudar.

Diminuiu o passo e puxou Pam para o lado.

— Precisamos ficar afastados. Ele não está prestando atenção, mas ainda pode nos ver.

Atravessaram a rua e ficaram grudados a uma bela fileira de prédios diante de um caminho estreito junto ao mar. O atirador estava 30 metros à frente. Malone observou enquanto ele virava uma esquina.

Chegaram à mesma esquina e espiaram. O homem caminhava por uma rua de pedestres ladeada de lojas e restaurantes. Havia muitas pessoas por ali, por isso ele decidiu arriscar.

Foram atrás.

— O que estamos fazendo? - Perguntou Pam.

— A única coisa que podemos fazer.

— Por que simplesmente não dá o que eles querem?

— Não é tão simples assim.

— Claro que é.

Ele manteve o olhar adiante.

— Obrigado pelo conselho.

— Você é um escroto.

— Também amo você. Agora que estabelecemos isso, vamos nos concentrar no que estamos fazendo.

O objetivo deles virou à direita e desapareceu.

Malone avançou rapidamente, olhou ao redor da esquina e viu o atirador se aproximar de um cupê Volvo sujo. Esperava que ele não estivesse indo embora. Não haveria como segui-lo. Seu carro estava muito longe. Ficou olhando o homem abrir a porta do motorista e jogar alguma coisa dentro do carro. Em seguida fechou a porta e voltou na direção dos dois.

Malone e Pam se enfiaram numa loja de roupas no momento em que o atirador passou em frente, voltando na direção de onde tinham vindo. Malone se esgueirou até a porta e viu o homem entrar num café.

— O que ele está fazendo? - perguntou Pam.

— Esperando a agitação diminuir. Não forçar a barra. Simplesmente ficar firme, se misturar. Ir embora mais tarde.

— Isso é loucura. Ele matou um homem.

— E só nós sabemos disso.

— Por que matá-lo, afinal?

— Para abalar nossos nervos. Silenciar qualquer fluxo de informação. Um monte de motivos.

— Esse é um negócio nojento.

— Por que acha que eu saí? - Ele decidiu usar o interlúdio em vantagem própria. — Vá até o carro e traga-o até aqui. - Em seguida apontou para um beco na estação de trem junto ao mar. — Estacione e me espere. Quando ele sair, terá de ir naquela direção. É o único caminho para fora da cidade.

Entregou-lhe as chaves e, por um instante, lembranças de outras ocasiões em que lhe dera chaves de carro chacoalharam em seu cérebro. Pensou no passado. Saber que ela e Gary estavam em casa, depois de uma missão, sempre lhe trouxera algum conforto. E por mais que nenhum dos dois quisesse admitir, um dia eles haviam sido bons um para o outro. Lembrava-se do sorriso dela, de seu toque. Infelizmente, a mentira de Pam sobre Gary agora

coloria todas essas coisas agradáveis com suspeita. Fazia-o pensar. Questionar se toda a vida deles juntos não fora uma ilusão.

Ela pareceu sentir seus pensamentos e suavizou o olhar, como a Pam anterior ao tempo em que coisas ruins mudaram os dois. Por isso ele disse:

— Vou achar o Gary. Juro. Ele vai ficar bem.

Na verdade queria que ela respondesse, mas Pam não disse nada.

E o silêncio feria.

Por isso ele se afastou.

 

OXFORDSHIRE, INGLATERRA

10H30

George Haddad entrou na Bainbridge Hall. Nos últimos três anos, fora um visitante freqüente, desde que se convencera de que a resposta ao seu dilema estava dentro daquelas paredes.

A casa era uma obra-prima de pisos de mármore, tapeçarias Mortlake e enfeites ricamente coloridos. A grande escadaria, com painéis florais elaboradamente esculpidos, datava da época de Carlos II. Os tetos de gesso eram da década de 1660. Os móveis e os quadros, dos séculos XVIII e XIX.

Tudo era uma demonstração do estilo rural inglês.

Mas era também muito mais.

Um enigma.

Assim como o monumento do caramanchão branco no jardim, onde membros da imprensa ainda estavam reunidos, ouvindo os supostos especialistas. Assim como o próprio Thomas Bainbridge, o desconhecido conde inglês que vivera no final do século XVIII.

Haddad conhecia a história da família.

Bainbridge nascera num mundo de privilégios e grandes expectativas. Seu pai havia servido como principal nobre de Oxfordshire. Ainda que sua posição na sociedade tivesse sido fixada pela riqueza e pela tradição da família, Thomas Bainbridge não cumpriu o serviço militar tradicional e voltou a atenção para os estudos acadêmicos - principalmente história, línguas e arqueologia. Quando o pai morreu, ele herdou o título de conde e passou décadas viajando pelo mundo, sendo um dos primeiros ocidentais a explorar intimamente o Egito, a Terra Santa e a Arábia, documentando suas experiências numa série de diários publicados.

Aprendeu sozinho o hebraico antigo, língua em que o Velho Testamento foi escrito originalmente. Um tremendo feito, considerando que o dialeto era principalmente oral e consonantal e que desaparecera do uso comum por volta do século VI antes de Cristo. Escreveu um livro publicado em 1767 que desafiava as traduções conhecidas do Velho Testamento, questionando boa parte do conhecimento convencional de seu tempo; passou o final da vida defendendo suas teorias, morrendo amargo e falido, sem a fortuna da família.

 Haddad conhecia bem aquele texto, tendo estudado cada página em detalhes. Podia entender os problemas de

Bainbridge. Ele também questionara o conhecimento  convencional, com conseqüências desastrosas.Gostava de visitar a casa, mas, infelizmente, boa parte da mobília original fora há muito perdida para os credores, inclusive a impressionante biblioteca de Bainbridge. Só nos últimos cinqüenta anos parte da mobília fora encontrada. A vasta maioria dos livros continuava desaparecida, indo de colecionadores para vendedores e daí pra o lixo, o que parecia o destino de boa parte do conhecimento registrado da humanidade. No entanto, Haddad conseguira localizar alguns volumes, passando o tempo remexendo na infinidade de sebos de livros raros espalhados por Londres.

E na internet.

Que tesouro incrível! O que eles poderiam ter feito na Palestina, sessenta anos antes, com essa rede de informações instantânea!

Ultimamente, pensava muito em 1948.

Quando havia segurado um fuzil e matado judeus durante a nakba. A arrogância da geração atual sempre o espantava, considerando os sacrifícios feitos pelos predecessores.

Oitocentos mil árabes postos no exílio. Na época ele estava com 19 anos, lutando na resistência palestina - era um dos líderes de campo -, mas tudo fora inútil. Os sionistas prevaleceram. Os árabes estavam derrotados. Os palestinos se tornaram párias.

Mas a lembrança permanecia.

Haddad tentara esquecer. Realmente queria esquecer. Mas matar tinha conseqüências. E para ele fora uma vida inteira de arrependimento. Tornou-se acadêmico, abandonou a violência e se converteu ao cristianismo, mas nada disso o livrou da dor. Ainda podia ver os rostos mortos. Em especial um. O homem que se chamava de Guardião.

Vocês travam uma guerra desnecessária, contra um inimigo mal-informado.

Essas palavras haviam se gravado a fogo em sua memória naquele dia de abril de 1948, e o impacto delas acabou mudando-o para sempre.

Somos guardiões do conhecimento. Da biblioteca.

Aquela observação havia mapeado sua vida.

Continuou andando pela casa, pensando nos bustos e nas pinturas, nas gravuras, nos dourados exóticos e nos lemas enigmáticos. Caminhando contra uma corrente de recém-chegados, acabou entrando na sala de estar, onde toda a

antiga gravidade de uma biblioteca de faculdade se misturava com graça e inteligência femininas. Concentrou-se nas estantes, que um dia haviam mostrado o conhecimento variado de muitas eras. E nas pinturas, que lembravam pessoas que tinham moldado particularmente o rumo da história.

Thomas Bainbridge fora um convidado, assim como o pai de Haddad. No entanto, o Guardião chegara à Palestina duas semanas tarde demais para entregar o convite, e uma bala da arma de Haddad havia silenciado o mensageiro.

Encolheu-se diante da lembrança.

A impetuosidade da juventude.

Sessenta anos haviam se passado, e agora ele via o mundo com Olhos mais pacientes. Se ao menos esses mesmos olhos tivessem encarado o Guardião em abril de 1948, ele poderia ter encontrado mais cedo o que procurava.

Ou talvez não.

Aparentemente, o convite precisava ser merecido.

Mas como? Seu olhar revirou a sala.

A resposta estava ali.

 

WASHINGTON, D.C.

5H45

Stephanie ficou olhando enquanto Larry Daley desmoronava numa das poltronas do escritório de Brent Green. Fiel à sua palavra, o vice-conselheiro de segurança nacional havia chegado em menos de meia hora.

— Belo lugar - disse Daley a Green.

— É meu lar.

— Você sempre foi um homem de poucas sílabas, não é?

— As palavras, como os amigos, devem ser escolhidas com

cuidado. O sorriso amigável de Daley desapareceu.

— Eu esperava que não partíssemos tão cedo para a garganta um do outro.

Stephanie estava ansiosa.

— Faça esta visita valer a pena, como você disse ao telefone.

As mãos de Daley seguraram os braços estofados da poltrona.

— Espero que vocês dois sejam razoáveis.

— Isso depende - disse ela.

Daley passou a mão pelo cabelo curto e grisalho. Sua boa aparência projetava uma sinceridade juvenil que poderia facilmente deixar as pessoas desarmadas, por isso Stephanie ficou alerta para manter a concentração.

— Presumo que você não vá nos dizer o que é o elo, não é? - perguntou ela.

— Não quero ser indiciado por violar a Lei de Segurança Nacional.

— Desde quando violar leis o incomoda?

— Desde agora.

— Então, o que está fazendo aqui?

— Quanto vocês sabem? - perguntou Daley. — E não digam que não sabem de nada, porque eu ficaria realmente desapontado.

Green repetiu o pouco que já havia relatado sobre George Haddad.

Daley assentiu.

— Os israelenses piraram de vez por causa do Haddad. Depois os sauditas entraram em cena. Isso nos chocou. Geralmente eles não se incomodam com coisa alguma que seja bíblica ou histórica.

— Quer dizer que mandei Malone às cegas para aquele atoleiro há cinco anos? - perguntou Stephanie.

— O que, acredito, é a função de seu cargo.

Ela se lembrou de como a situação havia deteriorado.

— E quanto ao atentado a bomba?

— Foi aí que a merda acertou no ventilador.

Um carro-bomba havia destruído um café de Jerusalém com Haddad e Malone dentro.

— A explosão era para Haddad - disse Daley. — Claro, como era uma missão às cegas, Malone não sabia. Mas conseguiu tirar o sujeito inteiro.

— Sorte nossa - observou Green com sarcasmo.

— Não venha com essa merda. Nós não matamos ninguém. A última coisa que queríamos era que Haddad morresse.

A raiva de Stephanie estava crescendo.

— Você colocou a vida de Malone em risco.

— Ele é profissional. Isso faz parte do trabalho.

— Não mando meus agentes para missões suicidas.

— Caia na real, Stephanie. O problema no Oriente Médio é que a mão esquerda nunca sabe o que a direita está fazendo. O que aconteceu é típico. Os militantes palestinos simplesmente escolheram o café errado.

— Ou talvez não - disse Green. — Talvez os israelenses ou os sauditas tenham escolhido o certo, não?

Daley sorriu.

— Você está ficando bom nisso. Foi exatamente por isso que concordamos com os termos de Haddad.

— Então diga: por que é necessário que o governo americano encontre a biblioteca perdida de Alexandria?

Daley aplaudiu baixinho.

— Bravo. Muito bem, Brent. Imaginei que, se suas fontes sabiam sobre Haddad, também diriam essa parte.

— Responda à pergunta - disse Stephanie.

— Algumas vezes, coisas importantes são mantidas nos lugares mais estranhos.

— Isso não é resposta.

— É só isso que vocês terão.

— Você está de conluio com o que acontece lá - declarou ela.

— Não, não estou. Mas não vou negar que há outros na administração que estão interessados em usar isso como a rota mais rápida para resolver um problema.

— E qual é o problema? - perguntou Green.

— Israel. Um punhado de idealistas arrogantes que não ouvem uma palavra que os outros dizem. Mas num instante mandam tanques ou helicópteros para aniquilar tudo e todos, em nome da segurança. O que aconteceu há alguns meses? Eles começaram a bombardear a Faixa de Gaza, uma das bombas saiu do caminho, e toda uma família que fazia piquenique na praia foi morta. O que eles disseram? Desculpe. Foi mal. - Daley balançou a cabeça. — Se apenas mostrassem um pouquinho de flexibilidade, um grama de boa vontade, as coisas poderiam ser alcançadas. Não. É do jeito deles ou de jeito nenhum.

Slephanie sabia que, ultimamente, o mundo árabe vinha sendo muito mais conciliador do que Israel - certamente como resultado do que acontecera no Iraque, onde a decisão americana foi demonstrada em primeira mão. A simpatia mundial pelos palestinos vinha crescendo constantemente, alimentada por uma alteração de liderança, por uma moderação nas políticas militantes e pela idiotice dos linha-duras israelenses. Ela se lembrava de ter visto nos noticiários a única sobrevivente daquela família na praia, uma menina, chorando ao ver o pai morto. Negócio forte. Mas se perguntava o que poderia ser feito, realisticamente.

— Como eles planejam fazer alguma coisa em relação a Israel? - Então a resposta lhe veio. — Vocês precisam do elo para isso?

Daley ficou quieto.

— Malone é o único que sabe onde está - esclareceu ela.

— Um problema. Mas não intransponível.

— Você queria que Malone agisse. Só não sabia como obrigá-lo.

— Não vou negar que isso é uma espécie de oportunidade.

— Seu filho-da-puta - cuspiu ela.

— Olhe, Stephanie. Haddad queria desaparecer. Ele confiava em Malone. Os israelenses, os sauditas e até os palestinos pensavam que Haddad havia morrido na explosão. Assim, fizemos o que o sujeito queria, depois apoiamos a idéia toda e passamos para outras coisas. Mas agora o interesse de todo mundo está instigado de novo, e nós queremos Haddad.

Ela não ia lhe permitir nenhuma satisfação.

— E quanto a quem mais possa estar atrás dele?

— Vou cuidar deles como qualquer político faria.

O rosto de Green ficou sombrio de raiva.

— Vai fazer um acordo?

Stephanie precisava descobrir mais.

— O que poderia ser descoberto em documentos de dois mil anos de idade? E isso presumindo que os manuscritos tenham sobrevivido, o que é improvável.

Daley olhou de lado. Stephanie percebeu que ele viera para impedir que ela e Green interferissem - de modo que talvez fizesse um agrado aos dois.

— A Septuaginta.

Ela achou difícil esconder a perplexidade.

— Não sou especialista - disse Daley, — mas, pelo que me disseram, uns duzentos anos antes de Cristo, eruditos da Biblioteca de Alexandria traduziram as escrituras hebraicas, nosso Velho Testamento, para o grego. Um negócio fantástico para a época. Essa tradução é tudo que conhecemos do texto original em hebraico, já que ele sumiu. Haddad afirmou que a tradução, bem como todas as outras que se seguiram, tinha erros fundamentais. Disse que os erros mudaram tudo e que poderia provar isso.

— E daí? - perguntou ela. — Como isso mudaria alguma coisa?

— Não sei dizer.

— Não sabe ou não quer?

— Nesta circunstância, é a mesma coisa.

— Ele se lembra da Sua aliança para sempre - sussurrou Green, — da palavra que Ele prescreveu para mil gerações, da aliança que Ele fez com Abraão e Seu juramento a Isaac. Então Ele confirmou a Jacó por estatuto, e a Israel como aliança eterna, dizendo: "A vós darei a terra de Canaã como parte de vossa herança."

Ela viu que aquelas palavras comoviam genuinamente o sujeito.

— Uma promessa importante - disse Green. — Uma das muitas do Velho Testamento.

— Então você entende nosso interesse?

Green assentiu.

— Entendo, mas questiono a possibilidade de isso ser provado.

Ela também não entendeu isso, mas quis saber.

— O que você está fazendo, Larry? Perseguindo fantasmas? Isso é loucura.

— Garanto que não é.

Rapidamente as implicações ficaram reais. Malone estivera certo em censurá-la. Ela deveria ter lhe contado imediatamente sobre a invasão aos computadores. E agora o filho dele estava correndo riscos, graças ao governo americano, que aparentemente estava disposto a sacrificar o garoto.

— Stephanie - disse Daley. — Conheço essa expressão. O que você está planejando?

De jeito nenhum ela diria alguma coisa àquele demônio. Por isso engoliu a humilhação, sorriu e disse:

— Exatamente o que você quer, Larry. Absolutamente nada.

 

COPENHAGUE

12H15

Dominick Sabre sabia que a próxima hora seria crítica. Já havia assistindo aos relatos do assassinato na Kronborg Slot pelas estações de televisão de Copenhague. O que significava que Malone e sua ex-mulher estavam agora em movimento.

Finalmente tivera notícias do homem que havia despachado ao castelo e ficou feliz ao ver que ele tinha seguido as ordens.

Olhou o relógio, depois saiu da sala da frente para o quarto dos fundos, onde Gary Malone estava sendo mantido. Eles haviam conseguido pegar o garoto na escola, usando credenciais oficiais e conversa dura, tudo supostamente em nome do governo dos Estados Unidos. Dentro de duas horas tinham saído de Atlanta num vôo fretado. Pam Malone fora abordada enquanto estavam viajando e recebera ordens precisas. Todos os relatórios a descreviam como uma mulher difícil, mas uma foto e os pensamentos de danos causados ao filho haviam garantido que ela fizesse exatamente o que eles desejavam.

Ele abriu a porta do quarto e pôs um sorriso no rosto.

— Queria dizer que tivemos notícias de seu pai.

O garoto estava sentado junto à janela, lendo um livro. Na véspera havia pedido vários volumes, que Sabre obtivera. O rosto jovem se iluminou ao ouvir falar do pai.

— Ele está legal?

— Numa boa. E agradeceu ao saber que você estava conosco. Sua mãe também está com ele.

— Mamãe está aqui?

— Outra equipe a trouxe.

— Isso é novidade. Ela nunca veio aqui. - O garoto fez uma pausa. — Ela e meu pai não se dão bem.

Conhecendo a história conjugal de Malone, Sabre sentiu alguma bisa.

— Como assim?

— Divórcio. Eles estão separados há um bom tempo.

— Isso é difícil para você?

Gary pareceu pensar a respeito. Era alto para a idade, magro, com cabelos castanho-avermelhados. Cotton Malone era um contraste total. Pele clara, membros grossos, cabelos claros.

Por mais que tentasse, Sabre não podia encontrar nada do pai nas feições do filho.

— Seria melhor se eles ficassem juntos. Mas entendo por que não estão.

— É bom que você entende. Você tem cabeça boa.

Gary sorriu.

— É o que meu pai sempre diz. Você conhece meu pai?

— Ah, conheço. Nós trabalhamos juntos durante anos.

— O que está acontecendo aqui? Por que estou correndo perigo?

— Não posso falar disso. Mas uns caras muito ruins estão atrás do seu pai e iam tentar pegar você e sua mãe, por isso entramos no caminho para proteger os dois. - Ele podia ver que a explicação não era totalmente satisfatória.

— Mas meu pai não trabalha mais para o governo.

— Infelizmente os inimigos dele não se importam com isso. Só querem machucá-lo.

— Isso tudo é bem esquisito.

Sabre forçou um sorriso.

— Faz parte do negócio, infelizmente.

— Você tem filhos?

Ele pensou no interesse do garoto.

— Não. Nunca me casei.

— Você parece um cara legal.

— Obrigado. Estou fazendo o meu trabalho. - Ele fez um gesto e perguntou: — Você malha?

— Jogo beisebol. A temporada acabou há um tempo. Mas eu gostaria de bater uma bola.

— Na Dinamarca isso é difícil. O beisebol não é o passatempo nacional aqui.

— Já vim aqui nos dois últimos verões. Gosto um bocado.

— É o tempo que você passa com seu pai?

Gary assentiu.

— Praticamente a única chance que temos de ficar juntos. Mas tudo bem. Acho bom ele morar aqui. Ele fica feliz.

Sabre pensou ter sentido alguma coisa de novo.

— Isso deixa você feliz?

— Às vezes. Em outras eu gostaria que ele estivesse mais perto.

— Já pensou em morar com ele?

O rosto do garoto se franziu de preocupação.

— Isso mataria minha mãe. Ela não iria querer.

— Às vezes você tem de fazer o que é necessário.

— Já pensei nisso.

Sabre riu.

—Não pense demais. E tente não ficar chateado.

— Sinto falta da minha mãe e do meu pai. Espero que eles estejam bem.

Sabre já ouvira o bastante. O garoto estava calmo. Não causaria problema, pelo menos na próxima hora, que era tudo de que ele precisaria.

Depois disso, não importaria o que Gary Malone fizesse.

Assim, foi para a porta e disse:

— Não se preocupe. Tenho certeza de que tudo isso vai acabar logo.

 

Malone estava parado na Rua de Helsingor vigiando o café.

Um fluxo constante de fregueses havia entrado e saído. Seu alvo estava sentado o uma mesa perto da janela, bebericando numa caneca. Presumiu que Pam estaria com o carro, estacionado na estação de trem, esperando. Era melhor que estivesse. Quando esse cara agisse, ele só teria uma chance.

Se seus adversários estivessem em algum lugar perto, e ele acreditava firmemente nisso, esta poderia ser sua única rota para chegar a eles.

O surgimento de Pam na Dinamarca o havia incomodado.

Mas ela sempre havia causado esse efeito. Um dia, o amor e o respeito os haviam ligado, ou pelo menos era o que ele pensava; agora, somente Gary os unia.

Sua mente repassou o que ela havia dito em agosto. Sobre Gary.

— Depois de anos mentindo para mim, você quer ser justa?

— Você também não foi santo há alguns anos, Cotton.

— E por causa disso você tornou minha vida um inferno.

Ela deu de ombros.

— Eu também tive uma aventura. Achei que você não iria se importar, pensando bem.

— Eu lhe contei tudo.

— Não, Cotton. Eu peguei você.

— Mas você deixou que eu pensasse que o Gary era meu.

— E é. Em todos os sentidos, menos no sangue.

— É assim que você racionaliza a coisa?

— Não preciso racionalizar. Só achei que você deveria saber a verdade. Eu deveria ter contado no ano passado, quando nos divorciamos.

— Como você sabe que ele não é meu filho?

— Cotton, faça exames. Não me importo. Só saiba que você não é o pai do Gary. Faça o que quiser com a informação.

— Ele sabe?

— Claro que não. Isso é entre vocês dois. Ele nunca saberá por mim.

Malone ainda podia sentir a raiva que o havia inundado enquanto Pam continuava calma. Os dois eram muito diferentes, o que também poderia explicar por que não estavam mais juntos. Ele havia perdido o pai na juventude, mas fora criado por uma mãe que o adorava. A infância de Pam havia sido apenas tumulto. Sua mãe era uma mulher volúvel com emoções conflitantes, que cuidava de uma creche. Ela havia acabado com as economias da família não apenas uma, mas duas vezes. Os astrólogos eram seu ponto fraco. Jamais conseguia resistir a eles, ouvindo ansiosa enquanto lhe diziam exatamente o que ela queria escutar. O pai de Pam era igualmente perturbado, uma alma distante que se importava muito mais com aeromodelos do que com a mulher e os três filhos. Havia trabalhado por quarenta anos numa fábrica de sorvete, empregado assalariado que nunca fora mais que gerente intermediário. Lealdade misturada com uma falsa sensação de contentamento - assim fora o sogro de Malone até o momento em que o vício de três maços de cigarro por dia finalmente parou seu coração.

Até eles se encontrarem, Pam conhecera pouco amor ou segurança. Avarenta com as emoções, mas exigindo dedicação, sempre dera muito menos do que exigia. E chamar a atenção para essa realidade só provocava raiva. O erro dele com outras mulheres, no início do casamento, apenas provava o ponto de vista dela: que não era possível contar com coisa alguma nem ninguém.

Nem mães, nem pais, nem irmãos, nem maridos.

Todos fracassavam.

E ela também fracassara.

Ter um filho fora do casamento e jamais contar ao marido que ele não era o pai. Ela ainda parecia estar pagando o preço desse fracasso.

Malone deveria lhe dar uma folga. Mas eram necessários dois para fazer um trato, e ela não estava disposta - pelo menos por enquanto.

O atirador desapareceu da janela.

A atenção de Malone voltou rapidamente para o café.

Viu o homem sair do prédio e ir para o carro estacionado, entrar e ir embora. Abandonou seu posto, correu pelo beco e viu Pam.

Atravessou a rua e pulou no banco do carona.

— Ligue e fique preparada.

— Eu? Por que você não dirige?

— Não temos tempo. Aí vem ele.

Malone viu o Volvo virar a esquina pela rua paralela ao mar e passar rapidamente.

— Vá - ordenou.

E ela foi atrás.

 

George Haddad entrou em seu apartamento em Londres. A viagem a Hainbridge Hall havia gerado a frustração de sempre, por isso ignorou o computador que sinalizava a existência de e-mails não lidos e sentou-se à mesa da cozinha.

Durante cinco anos havia ficado morto. Saber, mas não saber. Entender, mas ao mesmo tempo estar confuso.

Balançou a cabeça.

Que dilema.

Olhou em volta. A magia calma e limpa do apartamento não existia mais. Sem dúvida era hora. Outros deviam saber. Ele devia essa revelação a cada alma destruída na nakba, cuja terra foi roubada, cuja propriedade foi tomada. E devia isso aos judeus.

Todo mundo tinha direito à verdade.

A primeira vez, havia meses, parecia não ter dado certo. Por isso no dia anterior pegara o telefone de novo.

Agora, pela terceira vez, digitou uma ligação internacional.

 

Malone olhava a estrada adiante enquanto Pam acelerava pela rodovia litorânea, indo para Copenhague, no sul. O Volvo estava oitocentos metros à frente. Ele havia permitido que vários carros passassem, o que proporcionava alguma segurança, mas tinha alertado, mais de uma vez, para ela não ficar muito atrás.

— Não sou agente secreto - disse Pam, os olhos grudados no pára-brisa. — Nunca fiz isso antes.

— Eles não ensinam isso na faculdade de direito?

— Não, Cotton. Ensinaram a você na escola de espionagem.

— Gostaria que existisse uma escola de espionagem.

Infelizmente tive de aprender no serviço.

O Volvo acelerou e Malone se perguntou se teriam sido vistos. Mas então percebeu que o carro estava simplesmente ultrapassando outro. Notou que Pam começava a acompanhar o ritmo.

— Não. Se ele estiver olhando, isso é um truque para descobrir se tem companhia. Eu posso vê-lo; portanto, fique onde está.

— Eu sabia que a formação no Departamento de Justiça daria frutos.

Frivolidade. Isso era raro nela. Mas Malone apreciou o esforço. Esperava que a perseguição valesse a pena. Gary tinha de estar por perto, e ele só precisava de uma chance para pegar o garoto.

Chegaram aos arredores da capital. O trânsito diminuiu de velocidade até se arrastar. Estavam quatro carros atrás quando o Volvo manobrou pelo Charlottenlund Slotspark, entrou a norte de Copenhague e virou para o sul entrando na cidade. Pouco antes do palácio real, o Volvo virou para oeste e serpenteou entrando num bairro residencial.

— Cuidado - disse Malone. — Aqui é fácil sermos vistos. Fique para trás.

 

Pam deixou mais espaço. Malone conhecia essa parte da cidade. A Kosenborg Slot, onde as jóias da coroa dinamarquesa eram expostas, ficava a alguns quarteirões dali, e o jardim botânico era perto.

— Ele está indo para algum lugar específico. Todas essas casas são parecidas, de modo que é preciso saber aonde se vai.

Mais duas viradas, e o Volvo seguiu por uma rua ladeada de árvores. Malone mandou que ela parasse na esquina e viu o homem virar numa entrada de veículos.

— Vá até o meio-fio - disse, indicando.

Enquanto ela estacionava, ele pegou a Beretta e abriu a porta.

— Fique aqui. E estou falando sério. Isso pode ficar feio, e não posso encontrar Gary e cuidar de você ao mesmo tempo.

— Acha que ele está aqui?

— Há uma boa chance.

Malone esperava que ela não dificultasse as coisas.

— Certo. Vou esperar.

Ele começou a saltar do carro. Ela segurou seu braço. O aperto era firme, mas não hostil. Um jorro de emoção o atravessou.

Ele a encarou e viu claramente o medo nos olhos de Pam.

— Se ele estiver lá, traga-o de volta.

 

WASHINGTON, D.C.

7H20

Stephanie ficou feliz por Larry Daley ter ido embora.

Gostava menos do sujeito a cada vez que ficavam perto um do outro.

— O que você acha? - perguntou Green.

— Uma coisa está clara. Daley não faz idéia do que é o Elo de Alexandria. Só sabe sobre George Haddad e espera que o sujeito saiba alguma coisa.

— Por que diz isso?

— Se soubesse, não perderia tempo conosco.

— Ele precisa de Malone para encontrar Haddad.

— Mas quem diz que ele precisa de Haddad para conectar alguma coisa? Se os arquivos confidenciais estivessem inteiros, ele não perderia tempo com Haddad. Simplesmente contrataria alguns cérebros, deduziria o que é e partiria daí. - Ela balançou a cabeça. — Daley é um artista da embromação, e nós acabamos de ser embromados. Ele precisa de Cotton para encontrar Haddad porque não sabe porcaria nenhuma. Espera que Haddad tenha todas as respostas.

Green se recostou na cadeira com uma ansiedade sincera.

Ela estava começando a pensar que havia julgado mal esse sujeito da Nova Inglaterra. Ele ficara ao lado dela contra Daley, chegando a deixar claro que se demitiria se a Casa Branca a demitisse.

— A política é um negócio nojento - murmurou Green. — O presidente é um incapaz. Sua agenda parou. O tempo está acabando. Ele está definitivamente procurando um legado, seu lugar nos livros de história, e homens como Daley acham que têm o dever de proporcionar isso. Concordo com você. Ele está jogando verde. Mas não imagino como isso pode ser útil.

— Parece que é uma coisa suficientemente poderosa para fazer com que os sauditas e os israelenses agissem há cinco anos.

— E isso é significativo. Os israelenses não tendem a ser melindrosos. Algo fez com que quisessem Haddad morto.

— Cotton está numa tremenda encrenca. O filho dele corre risco e ele não vai receber nenhuma ajuda nossa. Na verdade, oficialmente vamos nos recostar e olhar, depois nos aproveitar dele.

—  Acho que Daley está subestimando a oposição. Houve muito planejamento.

Ela concordou.

— Esse é o problema dos burocratas. Acham que tudo é negociável.

O celular no bolso de Stephanie assustou-a com a vibração.

Ela havia deixado ordens para não ser perturbada a não ser que fosse algo vital. Atendeu, ouviu por um momento e depois desligou.

— Acabo de perder um agente. O homem que mandei para se encontrar com Malone. Foi morto no castelo de Kronborg.

Green ficou quieto.

A dor cresceu em Stephanie

— Lee Durant tinha mulher e filhos.

— Alguma notícia do Malone?

Ela balançou a cabeça.

— Não ouviram falar nada.

— Talvez você estivesse certa, antes. Talvez devêssemos envolver outras agências.

A garganta dela apertou.

— Não daria certo. Temos de cuidar disso de outro modo.

Green ficou imóvel, lábios apertados, olhos fixos, como se soubesse o que precisava ser feito.

— Pretendo ajudar Cotton - disse ela.

— E o que poderia fazer? Você não é agente de campo.

Stephanie se lembrou de como Malone lhe dissera a mesma coisa, não muito tempo atrás, na França, mas ela se saíra muito bem.

— Vou arranjar ajuda. Pessoas em quem confio. Tenho muitos amigos que me devem favores.

— Eu também posso ajudar.

— Não quero que você se envolva.

—  Mas já estou envolvido.

— Não há nada que você possa fazer.

— Você pode se surpreender.

— E o que Daley faria, então? Não temos idéia de quem são os aliados dele. É melhor eu fazer isso discretamente. Fique de fora.

O rosto de Green não registrou nada.

— E quanto à reunião de hoje no Capitólio?

— Farei isso. Desse modo, Daley pode ser acalmado.

— Vou lhe dar toda a cobertura que eu puder.

Um sorriso dobrou os cantos da boca de Stephanie.

— Sabe, talvez estas tenham sido as melhores horas que já passamos juntos.

— Lamento que não tenhamos passado mais tempo desse jeito.

— Eu também - disse ela. — Mas tenho um amigo que precisa de mim.

 

Malone deixou o carro e se aproximou da casa onde o Volvo estava estacionado. Não podia chegar pela frente - havia janelas demais, muito pouca cobertura -, por isso entrou num beco coberto de grama, adjacente à casa vizinha, e se aproximou pelos fundos. As moradias nessa parte de Copenhague eram como seu bairro em Atlanta - ruas sombreadas, com compactas residências de tijolos rodeadas por quintais igualmente compactos na frente e atrás.

Escondeu a Beretta na lateral do corpo e usou as folhagens para esconder seu avanço. Até agora não tinha visto ninguém. Uma cerca viva que chegava à altura dos ombros separava um quintal do outro. Com movimentos estratégicos, posicionou-se onde podia enxergar por cima da cerca e viu a porta dos fundos da casa na qual o atirador havia entrado. Antes que pudesse decidir alguma coisa, a porta dos fundos se abriu e dois homens saíram.

O atirador de Kronborg e outro homem, baixo, atarracado e sem pescoço.

Os dois estavam conversando e rodearam a casa até a porta da frente. Malone obedeceu aos seus instintos e saiu rapidamente do esconderijo, entrando no quintal dos fundos por uma abertura na cerca. Correu direto para a porta dos fundos e, com a arma preparada, entrou.

A casa de um andar estava silenciosa. Dois quartos, uma sala íntima, cozinha e banheiro. A porta de um dos quartos estava fechada. Examinou rapidamente os cômodos. Vazios.

Aproximou-se da porta fechada. Sua mão esquerda segurou a maçaneta, a direita estava com a arma, o dedo no gatilho.

Girou a maçaneta lentamente, depois empurrou a porta.

E viu Gary.

O garoto estava sentado numa cadeira, ao lado da janela, lendo. Levou um susto, levantou o olhar das páginas, em seguida seu rosto se iluminou ao perceber quem estava ali.

Malone também sentiu um jorro de exultação.

— Papai. - Então Gary viu a arma e perguntou: — O que está acontecendo?

— Não posso explicar. Mas temos de ir.

— Eles disseram que você estava encrencado. Os homens que estão tentando machucar mamãe e eu estão aqui?

Malone assentiu enquanto o pânico o dominava.

— Estão. Temos de ir.

Gary levantou-se da cadeira, e Malone não conseguiu se conter. Abraçou o filho com força. O filho era seu - em todos os sentidos. Pam que se fodesse.

— Fique atrás de mim. Faça exatamente o que eu disser. Entendeu?

— Vai haver problema?

— Espero que não.

Retornou pelo mesmo caminho até a porta dos fundos e olhou para fora. O quintal estava vazio. Só precisaria de um minuto para escaparem.

Saiu com Gary junto aos calcanhares.

A abertura na cerca viva ficava a uns cinco metros.

Posicionou Gary à sua frente, já que, quando vira pela última vez, os dois homens estavam indo para a rua. Com a arma a postos, correu direto para o quintal vizinho. Mantinha a atenção no flanco, deixando Gary ir na frente.

Passaram pela abertura.

— Que previsível!

Malone girou e se imobilizou.

Parados a seis metros dele estava o Sem Pescoço, segurando Pam e uma Glock com silenciador encostada no pescoço dela. O atirador de Kronborg se encontrava ao lado, a arma apontada diretamente para Malone.

— Encontrei sua ex-mulher vindo para cá. - Disse o Sem Pescoço, com sotaque holandês. — Presumo que você tenha dito para ela ficar no carro, não é?

O olhar de Malone se grudou ao de Pam. Os dela imploravam que ele a perdoasse.

— Gary - disse ela, incapaz de se mexer.

— Mamãe.

Malone captou o desespero na voz dos dois. Posicionou Gary de novo atrás dele.

— Vejamos o que você fez, Malone. Seguiu meu homem do castelo até a cidade, esperou que ele saísse e foi atrás, pensando que seu garoto estaria aqui.

Definitivamente era a voz do celular na noite anterior.

— E tudo estava certo.

O outro homem não se abalou. Uma sensação enjoativa invadiu o estômago de Malone.

Ele fora induzido.

— Tire o pente dessa Beretta e jogue-o longe.

Malone hesitou, depois decidiu que não tinha escolha.

Obedeceu.

— Agora vamos negociar. Eu lhe dou sua ex e você me dá o garoto.

— E se eu disser para você ficar com a ex?

O homem deu um risinho.

— Tenho certeza de que não quer que seu filho fique olhando enquanto eu estouro o cérebro da mãe dele, que é exatamente o que eu vou fazer, porque realmente não quero ficar com ela.

Os olhos de Pam se arregalaram diante da perspectiva do que sua idiotice havia provocado.

— Papai, o que está acontecendo? - perguntou Gary.

— Filho, você terá de ir com ele...

— Não - gritou Pam. — Não.

— Ele vai matar você - deixou claro Malone.

O dedo do Sem Pescoço estava firme no gatilho da Glock, e Malone torceu para que Pam ficasse imóvel. Olhou para Gary.

— Você tem de fazer isso pela sua mãe. Mas vou voltar para pegar você. Juro. Pode contar com isso. - E abraçou o garoto de novo. — Eu amo você. Seja forte por mim. Certo?

Gary assentiu, hesitou por um momento e foi na direção do

Sem Pescoço, que soltou Pam. Ela abraçou Gary instantaneamente e começou a chorar.

— Você está bem? - perguntou Pam.

— Estou.

— Deixe-me ficar com ele - disse ela. — Não vou causar nenhum problema. Cotton pode encontrar o que vocês querem e seremos bonzinhos. Prometo.

— Cale a boca - respondeu Sem Pescoço.

— Juro. Não vou causar problema.

Ele apontou a arma para a testa dela.

— Tire esse rabo daqui e feche a matraca.

— Não o pressione - disse Malone a ela.

Pam deu mais um abraço em Gary, depois recuou lentamente na direção dele.

Sem Pescoço deu um risinho.

— Boa escolha.

Malone olhou para o adversário de cima a baixo.

Subitamente a arma do sujeito girou para a direita e três balas se cravaram sem som no atirador do Kronborg. O corpo se desequilibrou, depois caiu de costas no chão.

A mão de Pam cobriu a boca.

—  Meu Deus.

Malone viu a expressão chocada nos olhos de Gary.

Nenhuma criança de 15 anos deveria ser forçada a ver aquilo.

— Ele fez exatamente o que mandei. Mas eu sabia que você ia segui-lo. Ele não. Na verdade, me disse que não tinha sido seguido. Não tenho tempo para idiotas. Esse pequeno exercício foi para tirar sua bravata. Agora vá pegar o que eu quero. - Sem Pescoço apontou a Glock para a cabeça de Gary. — Temos de sair sem que você interfira.

— Todas as balas da minha arma foram jogadas fora.

Malone olhou para Gary. Era interessante, mas o rosto do garoto não demonstrava qualquer ansiedade. Nem pânico. Nem medo. Apenas decisão.

Sem Pescoço e Gary começaram a se afastar.

Malone segurava a arma junto ao corpo, sua mente revirando possibilidades. Seu filho estava a apenas alguns centímetros de uma Glock carregada. Ele sabia que, assim que Gary tivesse ido, não teria escolha além de entregar o elo. Durante o dia todo tinha evitado essa decisão desagradável, já que ela geraria enormes dilemas. Sem Pescoço havia claramente previsto o que ele faria desde o início, sabendo que todos terminariam ali mesmo.

Seu sangue pareceu virar gelo e uma sensação perturbadora o atravessou.

Desconfortável.

Mas familiar.

Manteve os movimentos naturais. Esta era a regra. Sua antiga profissão tinha a ver com chances. Avaliar as possibilidades.

O sucesso sempre fora um fator de dividir as chances pelos riscos. Sua própria pele estivera muitas vezes na reta, e em três situações o risco fora maior que as chances e ele fora parar num hospital.

Isto era diferente. Seu filho estava em jogo.

Graças a Deus todas as chances eram a seu favor.

Sem Pescoço e Gary se aproximaram da abertura na cerca viva.

— Com licença - disse Malone.

Sem Pescoço virou.

Malone disparou a Beretta e a bala encontrou o peito do homem. Ele pareceu não saber o que havia acontecido - seu rosto era uma mistura de perplexidade e dor. Finalmente o sangue escorreu dos cantos de sua boca e seus olhos se renderam.

Ele caiu como uma árvore sob a força de um machado, estremeceu por um momento e parou.

Pam correu até Gary e o envolveu nos braços.

Malone baixou a arma.

 

Sabre ficou olhando enquanto Malone matava seu último agente. Estava parado na cozinha de uma casa que dava para os fundos da moradia onde Gary Malone fora mantido nos últimos três dias. Quando alugara aquela casa, também alugara esta.

Sorriu.

Malone era esperto, e seu agente era a incompetência em pessoa. O fato de jogar o pente fora havia esvaziado as balas da arma, menos a que já estava na câmara. Qualquer bom agente, como Malone, sempre mantinha uma bala na câmara. Lembrou-se da época de seu treinamento nas forças especiais do exército, quando um recruta havia atirado na própria perna depois de supostamente descarregar a arma - esquecendo-se da bala na câmara.

Ele havia esperado que, de algum modo, Malone suplantasse seus contratados. Essa era a idéia. E a oportunidade viera assim que ele vira Pam Malone indo para a casa. Havia se comunicado por rádio com o lacaio e dito para usar o descuido dela com o objetivo de deixar as coisas ainda mais claras para Malone, subornando o sujeito com a promessa de um bônus para que atirasse no outro.

Felizmente Malone havia garantido que o pagamento jamais fosse feito.

O que também significava que não restava ninguém vivo  para conectar Sabre a qualquer coisa.     

Melhor ainda, Malone estava com o filho de volta, o que deveria acalmar os instintos mais perigosos do inimigo.

Mas isso não significava que sua tarefa estivesse completa.

De jeito nenhum.

Na verdade, só agora ela poderia finalmente começar.

 

QUARTA-FEIRA, 5 DE OUTUBRO

VIENA, ÁUSTRIA

13H30

Sabre freou diante do portão e baixou a janela do lado do motorista. Não mostrou qualquer identificação, mas o guarda o fez passar imediatamente. O enorme castelo ficava 50 quilômetros a sudoeste do centro da cidade, em meio a florestas conhecidas simplesmente como os Bosques de Viena. Com três séculos de idade e construído por aristocratas, suas paredes cor de mostarda, de esplendor barroco, abrigavam 75 cômodos espaçosos, tudo isso encimado por íngremes telhados de ardósia alpina.

Um sol luminoso atravessava o pára-brisa escuro do Audi, e Sabre observou que a pista asfaltada e os estacionamentos laterais estavam todos vazios. Só os guardas no portão da frente e alguns jardineiros cuidando dos caminhos perturbavam a paisagem tranqüila.

Aparentemente seria uma discussão particular.

Parou sob uma entrada coberta e saiu numa tarde agradável.

Imediatamente abotoou o paletó Burberry e seguiu um caminho de pedras até a schmetterlinghaus, um enclave de ferro e vidro cerca de 100 metros ao sul da construção principal. Pintada de um verde sem adornos, com paredes forradas por centenas de painéis de vidro húngaro, a imponente estrutura do século XIX se misturava facilmente à floresta ao redor. Dentro, o solo fortificado sustentava uma variedade de plantas exóticas, mas a construção tinha seu nome - schmetterling - devido às centenas de borboletas que voavam livres.

Ele abriu uma precária porta de madeira e entrou num saguão com piso de terra. Uma cortina de couro mantinha o ar úmido e quente lá dentro.

Passou por ela.

Borboletas dançavam no ar acompanhadas por uma música instrumental suave. Bach, se não estava enganado. Muitas plantas estavam florindo, e a cena tranqüila fazia um contraste espantoso com as imagens nítidas do outono delineadas pelo vidro coberto de umidade.O dono da construção, o Cadeira Azul, estava sentado em meio às folhagens. Possuía o rosto de alguém que trabalhava demais, dormia de menos e não se importava nada com a alimentação. O velho usava um terno de tweed por cima de um suéter de cardigã. O que certamente era desconfortável, pensou Sabre. No entanto, notou em silêncio, as criaturas de sangue frio precisavam de muito calor.

Tirou o paletó e se aproximou de uma cadeira vazia.

— Guten morgen, Herr Sabre.

Sabre sentou e respondeu ao cumprimento. Aparentemente, o alemão seria a língua do dia.

— Plantas, Dominick. Nunca perguntei, mas o que você sabe  sobre elas?

— Só que produzem oxigênio a partir do dióxido de carbono.

O velho sorriu.

— Você não diria que elas fazem muito mais que isso? E a cor, o calor, a beleza?

Sabre olhou para a floresta tropical transplantada, viu as borboletas e escutou a música pacífica. Não se importava nada com a estética tranqüilizante, mas sabia que era melhor não expressar essa opinião, por isso disse simplesmente:

— Essas coisas têm seu lugar.

— Sabe alguma coisa sobre borboletas?

Um prato de porcelana coberto de bananas enegrecidas estava no colo do velho. Insetos com asas de safira, carmim e marfim devoravam, ansiosos, a oferenda.

— O odor as atrai. - O velho acariciou gentilmente as asas de uma. — Criaturas realmente lindas. Pedras preciosas aladas, explodindo no mundo com um jorro de cor. Infelizmente vivem apenas algumas semanas antes de se juntarem de novo à cadeia alimentar.

Quatro borboletas de um ouro esverdeado chegaram para o banquete.

— Esta espécie é bastante rara. Papilio dardanus. Cauda-de-andorinha. Importo as crisálidas diretamente da África.

Sabre odiava insetos, mas tentou parecer interessado e esperou.

Por fim, o velho perguntou:

— Foi tudo bem em Copenhague?

— Malone está a caminho de encontrar o elo.

— Como você previu. Como sabia?

— Ele não tem escolha. Para proteger o filho, precisa expor o elo, de modo a não ficar mais vulnerável. Um homem assim é fácil de prever.

— Ele pode perceber que foi manipulado.

— Tenho certeza de que sim, mas ele realmente acha que, no final, conseguiu se dar bem. Duvido que presuma que eu quisesse aqueles dois homens mortos.

Uma ruga de diversão tomou o rosto do velho.

— Você gosta desse jogo, não é?

— Tem alguns aspectos satisfatórios. - Sabre parou antes de acrescentar: — Quando bem jogado.

Mais algumas borboletas se juntaram às que estavam no prato.

— Na verdade, é muito parecido com estas preciosas criaturas - disse o Cadeira Azul. — Elas se empanzinam, atraídas pela comida fácil. - Dedos nodosos seguraram uma pelas asas, com o espiráculo escuro e as pernas minúsculas se retorcendo enquanto o inseto tentava se libertar. — Eu poderia facilmente matar este espécime. Isso seria difícil?

O Cadeira Azul soltou o inseto. Asas laranja e amarelas bateram e se sustentaram no ar.

— Mas poderia, com a mesma facilidade, deixá-la ir. - O velho se concentrou em Sabre, os olhos cheios de satisfação. — Use os instintos de Malone a nosso favor.

— Esse é o plano.

— O que você fará quando o elo for encontrado? - perguntou o Cadeira Azul.

— Depende.

— Malone terá de ser morto.

— Posso cuidar disso.

O velho lançou-lhe um olhar.

— Pode ser um desafio.

— Estou preparado.

— Há um problema.

Sabre se perguntou por que fora chamado a Viena.

— Os israelenses foram alertados. Parece que George Haddad deu outro telefonema para a Cisjordânia, e espiões judeus na Autoridade Palestina informaram o contato dele em Tel Aviv. Eles sabem que ele está vivo, e presumo que também saibam onde está.

Isso era realmente um problema.

— Os outros diretores sabem disso e ratificaram a autoridade que eu lhe dei para cuidar do assunto como achar melhor.

Coisa que ele planejava fazer, de qualquer modo.

— Como você sabe, os israelenses têm motivações muito diferentes das nossas. Nós queremos o elo. Querem que ele desapareça.

Sabre assentiu.

— Eles bombardearam seu próprio povo naquele café só para matar Haddad.

— Os judeus são um problema - declarou o Cadeira Azul baixinho. — Sempre foram difíceis. Ser diferente e obstinado produz um orgulho sem limites.

Sabre decidiu deixar o comentário sem resposta.

— Pretendemos ajudar a acabar com o problema judaico.

— Eu não sabia que havia um problema.

— Não para nós, mas para nossos amigos árabes. De modo que você deve ficar à frente dos israelenses. Eles não podem interferir.

— Então preciso ir embora.

— Para onde Malone foi?

— Londres.

O Cadeira Azul ficou quieto, concentrado nos insetos que adejavam sobre seu colo. Por fim, espantou as borboletas.

— No caminho para Londres, há uma parada que você tem de fazer.

— Há tempo para isso?

— Não temos escolha. Outro contato com o governo israelense tem informações que só revelará, pessoalmente, a você, e ele quer ser pago.

— Não é o que todos querem?

— Ele está na Alemanha. Isso não deve demorar muito. Use um dos jatos da companhia. Disseram que esse homem foi descuidado. Está exposto, mas não sabe. Resolva nossa conta com ele.

Sabre entendeu.

— E não preciso dizer que haverá outros lá, vigiando. Por favor, torne o show memorável. Os israelenses precisam entender que, nesse caso, as apostas são altas. - O velho se remexeu na cadeira, depois virou o nariz fino como estilete na direção do prato. — Além disso, você sabe o que ocorre neste fim de semana?

— Claro.

— Preciso de um dossiê financeiro sobre um certo indivíduo. Até sexta-feira. Pode ser feito?

Ele sabia a resposta certa, mas também não tinha tempo para isso.

— Certamente.

O Cadeira Azul disse o nome a ser investigado, depois falou:

— Faça com que a informação seja entregue aqui. Enquanto isso, faça o que faz melhor.

 

WASHINGTON, D.C.

7H30

Stephanie decidiu ficar na capital. Todos os principais envolvidos estavam ali, e se quisesse ajudar Malone, precisaria ficar muito perto de um deles. Estava ligada a Atlanta e à sede do Setor Magalhães através do laptop e do celular, e no momento tinha três agentes indo à Dinamarca.

Outros dois já se encontravam em Londres, e mais um estava indo para Washington. Seu quarto de hotel, por enquanto, seria o comando central.

Estivera esperando durante os últimos vinte minutos, e quando o telefone sobre a mesa finalmente tocou, ela sorriu.

Uma coisa em relação a Thorvaldsen: ele era pontual.

Levantou o fone.

— Sim, Henrik.

— Tinha tanta certeza que era eu?

— Bem na hora.

— Atrasar é grosseria.

— Concordo totalmente. O que descobriu?

— O bastante para saber que temos um problema.

No dia anterior, Thorvaldsen havia despachado um esquadrão de investigadores para rastrear os movimentos dos dois homens mortos. Como um deles havia matado um agente federal, ela também pôde pedir ajuda à Europol.

— Já ouviu falar da der Orden des Goldenen Vliesses? A Ordem do Velo de Ouro?

— É um cartel econômico europeu. Sei sobre ele.

— Preciso de uma conexão com seu laptop pela internet.

— Isso é confidencial - disse ela em tom leve.

— Garanto que, com o que sei, tenho toda a permissão de que preciso.   Ela disse qual era o endereço de roteamento. Um minuto depois, cinco fotografias se materializaram em sua tela. Três eram fotos de rosto; duas, de corpo inteiro. Os cinco homens tinham mais de 70 anos, rostos como caricaturas, cheios de ângulos opacos, frios e inexpressivos, todos com um verniz de sofisticação - a postura aristocrática de homens acostumados a ter o que queriam.

— A Ordem do Velo de Ouro foi formada de novo no fim dos anos 1940, logo depois da socialização comunista da indústria austríaca. Foi organizada em Viena, e a participação inicial era restrita a um seleto grupo de industriais e financistas. Nos anos 1950 se diversificou, acrescentando magnatas de outros ramos, inclusive mineração, junto com mais financistas.

Ela puxou um bloco de anotações e clicou uma esferográfica.

— Como assim, formada de novo?

— O nome vem de uma ordem medieval francesa que Filipe, o duque de Borgonha, criou em 1430. Mas aquele grupo de cavaleiros durou apenas algumas décadas. Durante os séculos surgiram reencarnações, e uma Ordem Social do Velo de Ouro ainda existe na Áustria. Mas é o cartel econômico de mesmo nome que representa ameaça.

Os olhos dela estavam grudados na tela, a memória absorvendo os rostos sérios.

— Um grupo interessante - disse Thorvaldsen. — Um rígido código de estatutos governa os negócios da Ordem. A participação é restrita a 71 pessoas. Um círculo de cinco diretores comanda. O que é chamado de Cadeira Azul preside tanto o Círculo quanto a Ordem. Essas pessoas usam mantos carmim e penduram medalhões de ouro no pescoço. Cada medalhão é forjado com a imagem de adagas de fogo e pederneiras emitindo línguas de chama ao redor de um velo de ouro. Bastante dramático. - Ela concordou.

— Você precisa saber sobre os cinco que estão na sua tela. O rosto na esquerda superior é de um industrial austríaco, Alfred Hermann. No momento ele ocupa a Cadeira Azul. Multibilionário, é dono de fábricas de aço na Europa, minas na África, plantações de borracha no Extremo Oriente e tem investimentos bancários em todo o mundo.

Thorvaldsen explicou sobre os outros quatro. Um possuía participação majoritária no banco VRN, que tinha influência nacional na Áustria, na Alemanha, na Suíça e na Holanda, além de empresas farmacêuticas e automobilísticas. Outro dominava os mercados de seguros na Europa e possuía empresas de investimentos que cuidavam de carteiras para muitas nações da União Européia. O terceiro era o único dono de duas empresas francesas e uma belga que, fora dos Estados Unidos, eram as principais produtoras de aeronaves.

O último se designava "rei do concreto", já que suas empresas eram as principais produtoras na Europa, na África e no Oriente Médio.

— Um grupo formidável - disse ela.

— Para dizer o mínimo. Um nítido sabor ariano permeia os diretores, e sempre permeou, já que sócios alemães, suíços e austríacos dominam. Os diretores são eleitos pelos sócios e  têm cargos vitalícios. Simultaneamente é escolhido um Sombra, que pode imediatamente substituí-lo em caso de morte. O Cadeira Azul é eleito pelos diretores e também tem cargo vitalício.

— Demônios eficientes.

— Eles se orgulham disso. Todos os sócios se reúnem duas vezes por ano numa assembléia formal, uma no fim da primavera e a outra pouco antes do inverno, numa propriedade de 160 hectares que pertence a Alfred Hermann, perto de Viena. No resto do ano, os negócios são conduzidos pelos diretores ou por meio de comissões. Há um chanceler, um tesoureiro e um secretário, além de uma equipe de apoio que trabalha perto do castelo de Hermann. A organização é intencionalmente formada por poucas pessoas. Para não haver atrasos parlamentares desnecessários.

Ela fez anotações no bloco.

— O Cadeira Azul não tem direito a voto, seja no Círculo ou na Assembléia, a não ser que haja empate. Os números ímpares, de 71 sócios e cinco diretores, cria a possibilidade.

Ela teve de admirar os esforços investigativos de Thorvaldsen.

— Fale dos sócios.

— A maioria é de europeus, mas quatro americanos, dois canadenses, três asiáticos, um brasileiro e um australiano estão entre os atuais 71. Homens e mulheres. Elas foram aceitas há décadas. A substituição é apenas ocasional, mas uma lista de espera garante que os 71 sempre serão mantidos.

Ela estava curiosa.

— Por que a sede é na Áustria?

— Pelo mesmo motivo pelo qual muitos de nós têm dinheiro lá. Uma determinação expressa na constituição do país proíbe violações do sigilo bancário. O dinheiro é difícil de ser rastreado. A Ordem é bem financiada. Os sócios são avaliados igualmente, a partir de um orçamento projetado. O do ano passado ultrapassou 150 milhões de euros.

— E em que eles gastam esse dinheiro?

— No que as pessoas procuram há séculos: influência política, principalmente em relação aos esforços da Comunidade Européia para centralizar a moeda e reduzir as barreiras comerciais. O crescimento da Europa Oriental também interessa a eles. Reconstruir a infra-estrutura da epública Tcheca, da Eslováquia, da Hungria, da Romênia e da Polônia é um grande negócio. Por meio de algumas contribuições cuidadosamente feitas, os sócios obtiveram mais do que seria justo nos contratos.

— Mesmo assim, Henrik, 150 milhões de euros não podem ser gastos simplesmente para garantir contratos e subornar políticos.

— Você está certa. Há um objetivo maior no que o grupo faz.

Ela estava ficando impaciente

— Estou esperando.

— O Oriente Médio. É a maior prioridade deles.

— Como, afinal, você sabe de tudo isso?

O silêncio veio do outro lado da linha.

Ela esperou.

— Eu sou sócio.

 

LONDRES

12H30

Malone desceu a rampa junto com Pam, desembarcando do vôo da British Airways. Haviam passado a noite em Christiangade, depois voado juntos de Copenhague à Inglaterra: Pam faria uma parada curta no retorno à Geórgia, Malone teria lá seu destino final.

Gary fora deixado com Thorvaldsen. O garoto conhecia o dinamarquês devido aos dois últimos verões que passara com o pai. Até que pudesse determinar exatamente o que estava acontecendo, Malone achava que Christiangade era o lugar mais seguro para Gary.

Como medida extra, Thorvaldsen contratara um grupo de seguranças particulares para patrulhar a propriedade. Pam não ficara muito feliz com a decisão, e os dois haviam discutido. Por fim, ela havia entendido a sensatez, em especial considerando o que havia acontecido em Atlanta.

Com o fim da crise, ela precisava retornar ao trabalho. Havia partido rapidamente, sem avisar ao escritório. Deixar Gary não era o que ela desejava, mas por fim admitiu que Malone poderia protegê-lo melhor que ela.

— Espero que eu ainda tenha um emprego - disse.

— Imagino que suas horas extras sejam suficientes para garantir o perdão. Vai contar a eles o que aconteceu?

— Terei de contar.

— Tudo bem. Diga o que for preciso.

— Por que você está continuando com isso? Por que não deixa para lá?

Ele notou que ela parecia ter abandonado boa parte do mau humor durante o sono. Havia se desculpado repetidamente pelo dia anterior e ele tinha dito que não era nada. Na verdade, não queria conversar com ela e, graças a terem feito as reservas na última hora, não tiveram de sentar juntos durante o vôo. O que era bom. Ainda havia coisas que precisavam ser ditas sobre Gary. Coisas desagradáveis. Mas agora não era hora.

— É o único modo de garantir que a coisa não aconteça de novo - disse ele. — Se eu não for o único a saber sobre o elo, não serei mais um alvo. Aliás,   nem você e o Gary.

— O que você planeja fazer?

Ele realmente não sabia.

— Vou descobrir quando chegar lá.

Abriram caminho pelo salão apinhado em direção ao  terminal, com o silêncio e os passos pensativos dos dois sinalizando que era melhor ficarem separados. Sentidos adormecidos, afinados pelos 12 anos como agente do Departamento de Justiça, estavam alertas de novo. Ele havia notado uma coisa no avião. Um homem. Sentado três fileiras à frente, do lado oposto da cabine. Havia entrado em Copenhague, e algo nele chamara a atenção de Malone.

Nada durante o vôo tinha representado problema. Mas, apesar de o homem ter desembarcado antes deles, agora estava posicionado atrás dos dois.

E isso parecia um problema.

— Você atirou naquele homem ontem sem a mínima sugestão de remorso - disse Pam. — Isso é assustador, Cotton.

— A segurança do Gary estava em risco.

— Era isso que você costumava fazer?

— O tempo todo.

— Já vi mais morte do que desejaria. Ele também.

Continuaram andando. Malone podia ver que ela estava pensando. Sempre soubera quando o cérebro dela borbulhava.

— Não falei ontem - disse ela, — com tudo que aconteceu, mas há um novo homem na minha vida.

Ele ficou satisfeito, mas se perguntou por que ela estaria contando.

— Faz muito tempo que a gente não se preocupa com a vida um do outro.

— Eu sei. Mas ele é meio especial. - Ela levantou o braço e mostrou o pulso. — Me deu este relógio.

Ela parecia orgulhosa, por isso Malone foi indulgente.

— Um TAG Heuer. Nada mau.

— Foi o que pensei, também. Quase me matou de surpresa.

— Ele trata você bem?

Ela confirmou com a cabeça.

— Gosto de ficar com ele.

Malone não sabia o que dizer.

— Só falei para você saber que talvez seja a hora de fazermos as pazes.

Entraram no terminal apinhado. Era hora de se separarem.

— Posso ir com você? - perguntou ela. — Meu avião para Atlanta só sai daqui a sete horas.

Na verdade, ele estivera ensaiando a despedida, pretendendo fazê-la de modo casual.

— Não é boa idéia. Preciso fazer isso sozinho. - Ele não precisava dizer o que os dois estavam pensando.

Especialmente depois de ontem.

Ela assentiu.

— Entendo. Só achei que seria um bom modo de passar a tarde. Ele ficou curioso.

— Por que você gostaria de ir comigo? Achei que queria ficar longe de tudo isso.

— Quase fui morta por causa desse tal elo, por isso fiquei curiosa. E, além do mais, o que vou fazer no aeroporto?

Malone teve de admitir que a aparência dela era fantástica - cinco anos mais nova que ele, mas parecia mais jovem ainda.

E a expressão estava muito parecida com a da antiga Pam, ao mesmo tempo desamparada, independente e bonita, para que ele agisse de modo irreverente. O rosto sardento e os olhos azuis lançavam um jorro de lembranças pelo seu cérebro, lembranças que ele havia lutado com força para reprimir, em especial a partir de agosto, quando ficara sabendo que não era o pai de Gary.

Ele e Pam haviam sido casados por muito tempo. Tinham compartilhado uma vida. Boa e ruim. Ele estava com 48 anos, divorciado há mais de um, separado há quase seis.

Talvez fosse hora de superar isso. O que passou passou, e ele não fora nenhum anjo.

Mas a negociação das pazes teria de esperar, por isso disse simplesmente:

— Volte para Atlanta e fique longe de encrenca, certo?

Ela sorriu.

— Eu poderia lhe dizer o mesmo.

— Isso é impossível para mim. Mas tenho certeza de que o novo homem da sua vida gostaria de ter você em casa.

— Ainda precisamos conversar, Cotton. Nós dois evitamos o assunto.

— Vamos conversar, mas depois de tudo isso. Que tal uma trégua até lá?

 

— Certo.

—  Aviso a você sobre como as coisas estão andando, e não se preocupe com o Gary. Henrik vai cuidar dele. O garoto vai estar bem protegido. Você tem o número do telefone, pode falar com ele quando quiser.

Deu um aceno animado para ela, acompanhando o sorriso, depois foi na direção da saída do terminal para pegar um táxi. Não tinha trazido bagagem. Dependendo de quanto tempo fosse ficar, compraria algumas coisas mais tarde, depois de encontrar o elo.

Mas antes de sair do prédio precisava verificar mais uma coisa.

Junto à porta de saída, aproximou-se de um balcão de informações e pegou um mapa da cidade. Virou-se e examinou-o de modo casual, permitindo que o olhar fosse do mapa para o fluxo de pessoas que passavam pelo amplo terminal.

Tinha esperado que o sujeito estivesse aguardando sua saída, se de fato o estivesse seguindo.

Em vez disso, seu problema seguiu Pam.

Agora ele estava preocupado.

Jogou o mapa no balcão e atravessou o terminal. Pam entrou num dos muitos cafés, aparentemente decidida a passar o tempo com uma refeição ou um café. O sujeito assumiu posição num free shop de onde podia observar claramente o lugar.

Interessante. Aparentemente, Malone não era o prato do dia.

Ele também entrou no café.

Pam estava sentada num reservado, e ele foi até lá. A surpresa inundou o rosto dela.

— O que está fazendo aqui?

— Mudei de idéia. Por que não vem comigo?

— Eu realmente gostaria.

— Com uma condição.

— Sei. Minha boca fica fechada.

 

Stephanie deixou as palavras de Thorvaldsen passarem de novo por sua mente. Depois perguntou com calma:

— Você é sócio da Ordem do Velo de Ouro?

— Há trinta anos. Sempre achei que não passava de um modo de pessoas com dinheiro e poder se misturarem. É o que

fazemos na maior parte do tempo...

— Quando não estão pagando políticos nem subornando para obter contratos.

— Qual é, Stephanie. Você sabe como é o mundo. Eu não  faço as regras. Só jogo pelas que estão estabelecidas.

— Diga o que sabe, Henrik. E, por favor, sem embromar.

— Meus investigadores rastrearam os dois homens que morreram ontem  descobriram que são de Amsterdã. Um tem uma amante. Ela disse que o amante trabalhava regularmente para outro homem. Ela conseguiu vê-lo uma vez e, pela descrição, acho que também o vi.

Ela esperou mais.

— De modo interessante, já há muitos anos, nas reuniões da Ordem, ouvi falar um bocado sobre a biblioteca perdida de Alexandria. O ocupante da Cadeira Azul, Alfred Hermann, é obcecado pelo assunto.

— Você sabe por quê?

— Ele acredita que podemos aprender muito com os antigos.

Disso ela duvidava, mas precisava saber:

— Qual é a ligação entre os dois homens mortos e a Ordem?

— O homem que a mulher descreveu esteve presente em reuniões da Ordem. Não é sócio. É empregado. Ela não ouviu o nome dele, mas o namorado usou um termo que já escutei antes, também. Die Klauen der Adler.

Ela traduziu em silêncio. Garras da Águia.

— Você vai me contar mais?

— Que tal quando eu tiver certeza?

No mês de junho anterior, quando Stephanie havia conhecido Thorvaldsen, ele não fora muito aberto, o que só havia alimentado o atrito que já existia entre os dois. Mas desde então ela aprendera a não subestimar o dinamarquês.

— Certo. Você disse que o interesse principal da Ordem era o  Oriente Médio. Como assim?

— Agradeço por não me pressionar.

— Em algum momento tenho de começar a cooperar com você. Além disso, você não iria me contar mesmo.

Thorvaldsen deu um risinho.

— Somos muito parecidos.

— Bom, isso me deixa apavorada.

— Não é muito ruim. Mas, respondendo à sua pergunta sobre o Oriente Médio, infelizmente os árabes só respeitam a força. Mas também sabem negociar e têm muito com que barganhar, em especial o petróleo.

Ela não podia questionar essa conclusão.

— Quem é o inimigo número um dos árabes? - perguntou Thorvaldsen.        — Os Estados Unidos? Não. Israel. É o espinho no pé deles. E fica lá. Bem no meio do mundo deles. Um Estado judeu. Separado em 1948, quando quase um milhão de pessoas, se você acreditar no que dizem os árabes, foram retiradas à força. Terras que palestinos, egípcios, jordanianos, libaneses e sírios reivindicaram durante séculos foram simplesmente entregues pelo mundo aos judeus. A nakba, a catástrofe, como eles chamam. Um nome adequado. - Thorvaldsen fez uma pausa. — Para os dois lados.

— E a guerra irrompeu imediatamente - disse Stephanie. — A primeira de muitas.

— Cada uma delas, felizmente, vencida por Israel. Nos últimos sessenta anos, os israelenses se agarraram à terra deles, e tudo porque Deus disse a Abraão que seria assim.

Ela se lembrou da passagem que Brent Green havia citado. E disse o Senhor a Abrão: Levanta agora os teus olhos, e olha desde o lugar onde estás, para o lado do norte, e do sul, e do oriente, e do ocidente, porque toda esta terra que vês, hei de dar a ti, e à tua descendência, para sempre.

— A promessa de Deus a Abraão é um dos motivos pelos quais a Palestina foi dada aos judeus - disse Henrik. — Supostamente era a pátria ancestral deles, legada pelo próprio Deus. Quem pode argumentar contra isso?

— Pelo menos um erudito palestino, que eu saiba.

— Cotton me falou sobre George Haddad e a biblioteca.

— Ele não deveria ter contado.

— Não creio que Cotton ligue a mínima para as regras neste momento, e, atualmente, você também não é uma das pessoas prediletas dele.

Ela merecia isso.

— Minhas fontes em Washington dizem que a Casa Branca quer encontrar Haddad. Presumo que você saiba disso.

Ela não respondeu.

— Imaginei que você não fosse confirmar ou negar. Mas há  algo acontecendo aqui, Stephanie. Um acontecimento importante. Homens de poder geralmente não perdem tempo com bobagens.

Ela concordava.

— Você pode explodir as pessoas. Aterrorizá-las a cada dia. Isso não resolve nada. Mas quando possui o que seu inimigo quer, ou que não quer que os outros tenham, você possui poder verdadeiro. Eu conheço a Ordem do Velo de Ouro. Influência. É isso que Alfred Hermann e a Ordem querem.

— E o que farão com ela?

— Se ela atacar o coração de Israel, como é bem possível, o mundo árabe negociaria para obtê-la. Todo mundo na Ordem pode lucrar a partir de relações amigáveis com os árabes. Somente o preço do petróleo basta para atrair a atenção deles, mas novos mercados para seus produtos e serviços... é um preço ainda maior. Quem sabe? A informação pode até mesmo questionar o Estado judeu, o que poderia aliviar uma infinidade de feridas abertas. A defesa de Israel por parte dos Estados Unidos, tão antiga, é cara. Quantas vezes isso já aconteceu? Uma nação árabe afirma que Israel deveria ser destruído. A ONU avalia a situação. Os Estados Unidos são contra. Todo mundo fica com raiva. Espadas são empunhadas. Então concessões e dólares têm de ser distribuídos para aplacar os ânimos. Se isso não fosse mais necessário, imagine como o mundo... e os Estados Unidos... poderiam ser muito mais conciliadores. E este poderia ser o legado que Larry Daley queria para o  presidente.

Mas ela precisava perguntar:

— O que poderia ser tão poderoso assim?

— Não sei. Mas há alguns meses você e eu lemos um documento antigo que mudava fundamentalmente tudo. Algo de poder igual poderia estar presente aqui também.

Ele estava certo, mas a realidade era:

— Cotton precisa dessa informação.

— E vai tê-la, mas primeiro precisamos saber de toda a história.

— E como você planeja fazer isso?

— A Ordem terá seu encontro de inverno neste fim de semana. Eu não ia, mas agora vou.

 

LONDRES

13H20

Malone desceu do táxi e examinou a rua calma. Um monte de fachadas com telhados de duas águas, postes laterais finos e floreiras nas janelas. Cada uma das pitorescas casas georgianas parecia um sereno lar de antiguidade, um lugar que naturalmente abrigaria traças de livros e acadêmicos.

George Haddad devia se sentir em casa.

— É aqui que ele mora? - perguntou Pam.

— Espero que sim. Não tenho notícias dele há quase um ano. Mas este é o endereço que recebi há três anos.

A tarde estava fresca e seca. Mais cedo, ele havia lido no The Times que a Inglaterra ainda estava no meio de uma incomum seca de outono. O homem do aeroporto não os havia seguido, mas talvez alguém tivesse assumido a tarefa, já que o sujeito estava claramente em comunicação com outros. Mas não havia nenhum outro táxi à vista. Era estranho ainda estar com Pam, mas ele merecia a sensação de incômodo. Tinha pedido isso ao insistir para que ela  viesse.

Subiram os degraus e entraram no prédio. Malone se demorou no saguão, longe das vistas, vigiando a rua.

Mas nenhum carro ou pessoa apareceu.

A campainha do apartamento no terceiro andar tilintou discretamente. O homem de pele cor de azeitona que atendeu à porta era baixo e de corpo ligeiramente cheio, com cabelo branco-acinzentado e rosto quadrado. Os olhos castanhos ficaram vívidos quando ele viu quem era, e Malone notou um instante de empolgação reprimida no largo riso de boas-vindas.

— Cotton! Que surpresa. Estive pensando em você outro dia mesmo.

Os dois apertaram as mãos calorosamente e Malone apresentou Pam. Haddad convidou os dois a entrar. A luz do dia era diminuída pelas grossas cortinas de renda e Malone absorveu rapidamente a decoração, que parecia uma mistura intencional: havia um piano, vários aparadores, poltronas, abajures adornados com cúpulas de seda xadrez e uma mesa de carvalho, onde um computador era tragado por livros e papéis.

Haddad balançou o braço como se quisesse abarcar o

atulhamento.

— Meu mundo, Cotton.

As paredes eram cheias de mapas, tantos que o papel verde-sálvia era praticamente invisível. O olhar de Malone percorreu-os, e ele notou que representavam a Terra Santa, a Arábia e o Sinai, com a linha temporal variando dos dias atuais até a antiguidade. Alguns eram fotocópias, outros originais, todos interessantes.

— Mais da minha obsessão - disse Haddad.

Depois de uma afável troca de amenidades, Malone decidiu ir ao ponto.

— As coisas mudaram. Por isso estou aqui. - E explicou o que havia acontecido no dia anterior.

— Seu filho está bem? - perguntou Haddad.

— Está. Mas há cinco anos eu não fiz perguntas porque essa coisa era parte do meu trabalho. Não é mais; portanto, quero saber o que está acontecendo.

— Você salvou minha vida.

— O que deveria me comprar a verdade.

Haddad levou-os à cozinha, onde se sentaram ao redor de uma mesa oval. O ar tépido pendia quente com um leve perfume de vinho e tabaco.

— É complicado, Cotton. Eu mesmo só entendi nos últimos anos.

— George, preciso saber de tudo.

Uma compreensão inquieta passou entre os dois. Velhas amizades podiam se atrofiar. As pessoas mudavam. O que um dia era apreciado entre duas pessoas se tornava desconfortável. Mas Malone sabia que Haddad confiava nele, e queria retribuir a confiança. Por fim, o velho falou.

Malone ouviu enquanto Haddad lhes contava sobre 1948, quando, aos 19 anos, havia lutado na resistência palestina, tentando impedir a invasão sionista.

— Atirei em muitos homens - disse Haddad. — Mas houve um que nunca esqueci. Ele foi procurar meu pai. Infelizmente aquela alma abençoada já havia se matado. Nós capturamos o homem, pensando que ele era sionista. Eu era jovem, cheio de ódio, sem paciência, e ele falava absurdos. Por isso atirei nele. - Os olhos de Haddad se umedeceram. — Era um Guardião e eu o matei, de modo que não fiquei sabendo de nada. - O palestino fez uma pausa. — Até que, cerca de cinqüenta anos depois, incrivelmente, outro Guardião me visitou.

Malone se perguntou sobre a importância daquilo.

— Ele apareceu na minha casa e parou no escuro, dizendo a mesma coisa que aquele primeiro homem havia dito em 1948.

— Sou um Guardião.

Será que Haddad tinha ouvido direito? A pergunta se formou imediatamente em sua cabeça.

— Da biblioteca? Vai me oferecer um convite?

— Como sabe disso?

Ele contou ao homem o que acontecera havia muito tempo.

Enquanto falava, Haddad tentou avaliar o visitante. Era magro, com cabelos totalmente pretos, bigode grosso e pele queimada de sol com textura de couro curtido. Bem vestido, mas com discrição, e modos igualmente discretos. Não diferente do primeiro emissário.

O homem ficou em silêncio e Haddad decidiu que, desta vez, ele também seria paciente. Por fim, o Guardião disse:

— Nós estudamos seus escritos e suas pesquisas publicadas. Seu conhecimento do texto antigo da Bíblia é impressionante, assim como sua capacidade de interpretar o hebraico antigo. E seus argumentos sobre as traduções aceitas são convincentes.

Ele apreciou o elogio - que costumavam ser poucos e escassos na Cisjordânia.

— Somos um grupo antigo. Há muito tempo, os primeiros Guardiões salvaram boa parte da biblioteca de Alexandria da destruição. Um grande esforço. De vez em quando, oferecemos um convite para aqueles que, como o senhor, podem se beneficiar.

Muitas questões se formaram na mente de Haddad, mas ele perguntou:

— O Guardião que eu matei disse que a guerra que estávamos travando não era necessária. Que há coisas mais poderosas do que balas. O que ele quis dizer?

— Não sei. Obviamente seu pai não conseguiu aparecer na biblioteca, de modo que jamais se beneficiou de nosso conhecimento, e nós não nos beneficiamos do dele. Esperamos que o senhor consiga.

— Como assim, não conseguiu aparecer?

— Para ter o direito de usar a biblioteca, a pessoa deve passar pela saga do herói. - O homem pegou um envelope. — Interprete estas palavras com sabedoria e eu o verei na  entrada, onde terei a honra de permitir que entre na biblioteca.

Ele aceitou o envelope.

— Sou um velho. Como poderia fazer uma jornada longa?

— O senhor encontrará a força.

— Por que deveria?

— Porque na biblioteca o senhor encontrará respostas.

— O meu erro - disse Haddad - foi contar às autoridades palestinas sobre essa visita. Mas falei a verdade. Não podia fazer a jornada. Quando informei o que havia acontecido, pensei que estava falando com amigos na Cisjordânia. Mas espiões de Israel ouviram tudo, e pouco depois você e eu estávamos naquele café que explodiu.

Malone se lembrou do dia. Um dos mais apavorantes de sua vida. Ele mal conseguira sair e tirar Haddad.

— O que vocês estavam fazendo lá? - perguntou Pam, com preocupação na voz.

— George e eu nos conhecíamos havia anos. Compartilhamos um interesse por livros, em especial a Bíblia. - Ele apontou. — Este homem é um dos maiores especialistas do mundo. Gosto de revirar o cérebro dele.

— Eu nunca soube que você era interessado por isso - disse Pam.

— Aparentemente, havia muita coisa que nenhum de nós sabia sobre o outro. - Malone viu que ela havia registrado o que ele realmente quisera dizer, por isso deixou a verdade pairar e disse: — Quando George sentiu que havia problema e não confiou nos palestinos, pediu minha ajuda. Stephanie me mandou para descobrir o que estava acontecendo. Assim que aquela bomba explodiu, George quis ir embora. Todo mundo presumiu que ele havia morrido na explosão. Por isso eu o fiz desaparecer.

— Com o codinome de Elo de Alexandria - disse Pam.

— Alguém obviamente descobriu a meu respeito - declarou Haddad.

Malone assentiu.

— Os arquivos de computador foram invadidos. Mas não há qualquer menção de onde você mora, só que eu sou o único que sabe de seu paradeiro. Por isso foram atrás do Gary.

— E lamento realmente. Eu jamais desejaria colocar seu filho em perigo.

— Então diga, George, por que há pessoas querendo você morto?

— Na época em que o Guardião me visitou, eu estava trabalhando numa teoria relativa ao Velho Testamento. Anteriormente havia publicado vários estudos sobre a situação atual desse texto sagrado, mas estava formulando mais uma coisa.

As rugas nos cantos dos olhos de Haddad se aprofundaram, e Malone ficou olhando o amigo lutar com os pensamentos.

— Os cristãos tendem a se concentrar no Novo Testamento - disse Haddad. — Os judeus usam o Velho. Ouso dizer que a maioria dos cristãos entende pouco o Velho Testamento, além de pensar que o Novo é uma realização das profecias do Antigo. Mas o Velho Testamento é importante, e há muitas contradições no texto, contradições que poderiam facilmente questionar sua mensagem.

Malone já ouvira Haddad falar sobre isso, mas desta vez sentiu uma nova urgência.

— Os exemplos abundam. O Gênesis dá duas versões conflitantes sobre a criação. Duas genealogias diferentes da prole de Adão são apresentadas. Depois o dilúvio. Deus diz a Noé para trazer vários pares de animais limpos e um par de não-limpos. Em outra parte do Gênesis é apenas um par de cada. Num versículo, Noé solta um corvo para procurar terra, mas em outro é uma pomba. Até a extensão da enchente é contraditória. Quarenta dias e quarenta noites ou 360? Os dois números são usados. Para não mencionar as dúzias de parelhas ou trios contidos nas narrativas, como os diferentes nomes usados para descrever Deus. Uma parte cita YHWH, Yavé, outra diz Elohim. Você não acha que pelo menos o nome de Deus deveria ser coerente?

A lembrança de Malone recuou alguns meses, até a França, onde ouvira reclamações semelhantes sobre os quatro Evangelhos do Novo Testamento.

— Atualmente, a maioria dos estudiosos concorda que o Velho Testamento foi composto por vários escritores durante um período de tempo extremamente longo - disse Haddad. — Uma hábil compilação de fontes variadas, feita por escribas compiladores. Essa conclusão é absolutamente clara e não é nova. Um filósofo espanhol do século XII foi um dos primeiros a notar que o texto em Gênesis 12:6, naquela época os cananeus estavam na terra, não poderia ter sido escrito por Moisés. E como Moisés poderia ser o autor dos Cinco Livros, já que o último descreve em detalhes o momento preciso e as circunstâncias de sua morte? E os muitos apartes literários. Por exemplo, quando antigos topónimos são usados, o texto observa que esses lugares ainda são visíveis hoje em dia. Isso aponta absolutamente para influências posteriores moldando, expandindo e elaborando o texto.

— E a cada vez que uma dessas redações ocorria - disse Malone — mais do significado original era perdido.

— Sem dúvida. A melhor estimativa é que o Velho Testamento foi omposto entre 1000 e 586 a.C. Composições posteriores surgiram por volta de 500 a 400 a.C. Então o texto pode ter sido mexido até 300 a.C. Ninguém tem certeza. Só sabemos que o Velho Testamento é uma colcha de retalhos, cada segmento escrito sob circunstâncias históricas e políticas diferentes, expressando diferentes pontos de vista religiosos.

— Aprecio tudo isso - disse Malone, pensando nas contradições do Novo Testamento discutidas na França. — Acredite, aprecio mesmo. Mas nada disso é revolucionário. Ou as pessoas acreditam que o Velho Testamento é a Palavra de Deus ou acreditam que é uma coletânea de narrativas antigas.

— Mas e se as palavras foram alteradas a ponto de a mensagem original não estar mais lá? E se o Velho Testamento, como conhecemos, não é, e nunca foi, o Velho Testamento de sua época original? Bom, isso poderia mudar muita coisa.

— Estou ouvindo.

— É disso que gosto em você - disse Haddad, sorrindo. — É um tremendo ouvinte.

Pela expressão de Pam, Malone podia ver que ela não concordava necessariamente, mas, mantendo a promessa, ficou quieta.

— Você e eu já conversamos sobre isso - disse Haddad. — O Velho Testamento é fundamentalmente diferente do Novo. Os cristãos aceitam o texto do Novo literalmente, a ponto de considerá-lo histórico. Mas as histórias dos Patriarcas, do Êxodo e da conquista de Canaã não são história. São uma expressão criativa da reforma religiosa que aconteceu há muito tempo num lugar chamado Judá. Certo, há núcleos de verdade nos relatos, mas eles são muito mais narrativa do que fato. Caim e Abel são um bom exemplo. Na época da narrativa havia apenas quatro pessoas na terra. Adão, Eva, Caim e Abel. No entanto, Gênesis 4:17 diz Caim se deitou com sua mulher e ela engravidou. De onde veio a mulher? Seria Eva? Sua mãe? Isso não seria estranho? Então, ao narrar a linhagem sanguínea de Adão, Gênesis 5 diz que Mahalale viveu 895 anos. Jared, oitocentos anos e Enoque, 365 anos. E Abraão. Supostamente estava com 100 anos quando Sara deu à luz Isaque, e ela estava com 90.

— Ninguém aceita isso literalmente - disse Pam.

— Os judeus devotos diriam o contrário.

— O que você quer dizer, George? - perguntou Malone.

— O Velho Testamento que conhecemos agora é resultado de traduções. A linguagem hebraica do texto original perdeu o uso por volta de 500 a.C. Assim, para entender o Velho Testamento, devemos aceitar as interpretações judaicas tradicionais ou procurar orientação dos dialetos modernos que descendem dessa língua hebraica perdida. Não podemos usar o primeiro método porque os eruditos judeus que interpretaram originalmente o texto, entre 500 e 900 d.C., mil anos ou mais depois de terem sido escritos, nem conheciam o hebraico antigo, por isso basearam sua reconstrução em adivinhações. O Velho Testamento, que muitos reverenciam como a Palavra de Deus, não passa de uma tradução aleatória.

— George, nós dois já discutimos isso antes. Os eruditos debateram o assunto durante séculos. Não é nada novo.

Haddad lançou-lhe um sorriso torto.

— Mas não terminei de explicar.

 

VIENA, ÁUSTRIA

14H45

O castelo de Alfred Hermann lhe proporcionava uma atmosfera que lembrava um túmulo. Sua solidão só era interrompida quando a Assembléia da Ordem se reunia ou quando os diretores se encontravam.

Nenhuma das duas coisas acontecia hoje.

E ele ficou satisfeito.

Estava enfurnado em seu apartamento particular, uma série de cômodos espaçosos no segundo andar do castelo, cada cômodo fluindo naturalmente para o outro, no estilo francês sem corredores. A sessão de inverno da 49ª. Assembléia começaria em menos de dois dias, e ele ficou satisfeito ao saber que todos os 71 sócios da Ordem estariam presentes. Até Henrik Thorvaldsen, que a princípio dissera que não iria, agora tinha confirmado. Os sócios não haviam conversado coletivamente desde a primavera; portanto, ele sabia que as discussões nos dias seguintes seriam árduas.

Como Cadeira Azul, sua tarefa era garantir que os procedimentos fossem produtivos. Os funcionários da Ordem já estavam trabalhando, preparando o salão de reuniões do castelo - e tudo estaria pronto quando os sócios chegassem para o fim de semana -, mas ele não estava preocupado com a Assembléia. Em vez disso, seus pensamentos se fixavam em descobrir a Biblioteca de Alexandria. Algo com que ele sonhava havia décadas.

Atravessou a sala.

A maquete, que havia encomendado anos atrás, ocupava o canto norte do aposento, uma espetacular miniatura do que deveria ter sido a Biblioteca de Alexandria na época de César. Puxou uma cadeira para perto, os olhos absorvendo os detalhes, a mente vagueando.

Duas colunatas dominavam. Ambas, ele sabia, seriam cheias de estátuas, os pisos cobertos de tapetes, as paredes com tapeçarias penduradas. Nos muitos bancos encostados nos corredores, estudiosos discutiam o significado de uma palavra ou a cadência de um verso, ou entravam em alguma controvérsia cáustica sobre uma nova descoberta. As duas câmaras cobertas se abriam para salas laterais, onde papiros, rolos de pergaminhos e códices posteriores estavam guardados em caixas, empilhados frouxamente, marcados para indexação ou guardados em prateleiras. Em outras salas, copistas trabalhavam para produzir réplicas que eram vendidas. Os membros desfrutavam um alto salário e isenção de impostos e recebiam alimentação e alojamento. Havia salões de palestras, laboratórios, observatórios - até mesmo um zoológico. Gramáticos e poetas recebiam os postos mais prestigiosos - médicos, matemáticos e astrônomos tinham os melhores equipamentos. A arquitetura era decididamente grega, e a coisa toda fazia lembrar um templo elegante.

Que lugar, pensou ele.

Que época!

Em apenas dois períodos a história humana teve o conhecimento radicalmente expandido em escala global.

Um aconteceu durante a renascença e continua até o presente, e o outro foi durante o século IV a.C., quando a Grécia dominava o mundo.

Pensou na época, trezentos anos antes de Cristo, e na morte súbita de Alexandre, o Grande. Seus generais brigaram pelo grande império, que acabou sendo dividido em três. E teve início a Era Helenística, um período de domínio grego mundial. Um desses terços do império foi reivindicado por um macedónio que pensava longe, Ptolomeu, que se declarou rei do Egito em 304 a.C., fundando a dinastia ptolomaica, cuja capital era Alexandria.

Os Ptolomeus eram intelectuais. Ptolomeu I era historiador. Ptolomeu II, zoólogo; Ptolomeu III, patrono da literatura. Ptolomeu IV era dramaturgo. Cada um deles escolheu grandes eruditos e cientistas como tutores dos filhos e encorajava grandes mentes a viverem em Alexandria.

Ptolomeu I fundou o museu, um local onde homens de estudo podiam se reunir e compartilhar conhecimento. Para ajudar nas tarefas, ele também estabeleceu a biblioteca. Na época de Ptolomeu III, em 246 a.C., havia dois locais: a biblioteca principal, perto do palácio real, e outra, menor, no santuário do deus Serápis, conhecida como Serapeu.

Os Ptolomeus eram grandes colecionadores de livros, despachando agentes por todo o mundo conhecido. Ptolomeu II trouxe toda a biblioteca de Aristóteles.

Ptolomeu III ordenou que todos os navios no porto de Alexandria fossem revistados. Caso fossem encontrados livros, eles seriam copiados, as cópias seriam devolvidas aos donos e os originais, guardados na biblioteca. Os gêneros iam desde poesia e história até retórica, filosofia, religião, medicina, ciência e leis. Cerca de 43 mil rolos de pergaminho acabaram sendo abrigados no Serapeu, disponíveis ao público em geral, e mais 500 mil ficavam no museu, restritos aos eruditos.

O que aconteceu com tudo isso?

Uma versão dizia que tudo foi queimado quando Júlio César lutou contra Ptolomeu XIII em 48 a.C. César havia ordenado que a frota real fosse incendiada, mas o fogo se espalhou pela cidade e pode ter consumido a biblioteca. Outra versão culpava os cristãos, que supostamente destruíram a biblioteca principal em 272 d.C. e o Serapeu em 391, parte de seu esforço para livrar a cidade de todas as influências pagãs. Um último relato creditou a destruição da biblioteca aos árabes depois de terem conquistado Alexandria em 642.

O califa Omar, quando perguntado sobre livros no tesouro imperial, teria dito: Se o que está escrito concorda com o Livro de Deus, não é necessário. Se discorda, não é desejado. Destrua-os. Assim, por seis meses, os pergaminhos teriam alimentado os banhos de Alexandria.

Hermann sempre se encolhia diante desse pensamento - o modo como uma das maiores tentativas que a humanidade fez para colecionar conhecimento poderia simplesmente ter queimado.

Mas o que realmente aconteceu?

Certamente, quando o Egito enfrentou inquietação crescente e agressões estrangeiras, a biblioteca se tornou vítima de perseguição, violência da turba e ocupação militar, não desfrutando mais de privilégios especiais.

Quando havia finalmente desaparecido?

Ninguém sabia.

E a lenda seria verdade? Dizia-se que um grupo de entusiastas havia conseguido retirar um rolo depois do outro, copiando alguns, roubando outros, metodicamente preservando o conhecimento. Cronistas haviam sugerido sua existência durante séculos.

Os Guardiões.

Ele gostava de imaginar o que aqueles entusiastas dedicados poderiam ter preservado. Obras desconhecidas de Euclides? Aristóteles? Agostinho? Junto com incontáveis outros homens que mais tarde seriam considerados pais de seus respectivos campos de conhecimento.

Era impossível dizer.

E era isso que tornava a busca tão fascinante.

Para não mencionar as teorias de George Haddad, que ofereciam a Hermann um modo de levar adiante os objetivos da Ordem. O Comitê Político já havia determinado como a desestabilização de Israel poderia ser manipulada para se obter lucro. O plano de negócios era ambicioso e viável. Desde que a pesquisa de Haddad pudesse ser provada.

Cinco anos antes, Haddad havia informado a visita de alguém conhecido como Guardião. Os espiões de Israel haviam dado essa informação a Tel Aviv. Os judeus tinham reagido com exagero, como sempre, e imediatamente tentaram matar Haddad. Felizmente os americanos tinham intervindo, e Haddad ainda estava entre os vivos. Hermann sentia-se igualmente agradecido porque suas fontes políticas americanas agora eram negociáveis, tendo recentemente confirmado esses fatos e acrescentado mais, motivo pelo qual Sabre agira contra Cotton Malone.

Mas quem sabia alguma coisa? Talvez Sabre descobrisse mais com o israelense corrupto que esperava na Alemanha.

A única certeza era George Haddad.

Ele precisava ser encontrado.

 

ROTHENBURG, ALEMANHA

15H30

Sabre caminhava pela rua calçada de pedras. Rothenburg ficava 100 quilômetros ao sul de Würzburg, era uma cidade murada, cercada por fortificações de pedra saídas diretamente da Idade Média. Dentro, ruas estreitas serpenteavam entre construções de madeira, tijolos e pedra.

Sabre procurava uma em particular.

A Baumeisterhaus ficava perto da praça do mercado, pertinho da antiga torre do relógio. Uma placa de ferro anunciava que a construção fora feita em 1596, mas no último século a estrutura de três andares havia abrigado um hotel e restaurante.

Passou pela porta e foi recebido pelo cheiro doce de pão e maçã com canela. Um estreito salão de jantar no térreo dava num pátio interno de dois andares, com as paredes brancas cheias de galhadas de cervos.

Um dos contatos da Ordem esperava num reservado de carvalho, uma figura pequena e insignificante conhecida somente como Jonah. Sabre foi até lá e entrou no reservado.

A mesa estava coberta por um refinado tecido cor-de-rosa.

Uma xícara de louça cheia de café preto estava diante de Jonah, com um bolinho doce meio comido.

— Coisas estranhas estão acontecendo - disse Jonah em inglês.

— O Oriente Médio é assim.

— Mais estranhas que o normal.

O homem era ligado ao Ministério do Interior de Israel, fazia parte da missão alemã.

— Você pediu que eu ficasse atento a qualquer coisa sobre George Haddad. Parece que ele ressuscitou dos mortos. Nosso pessoal está no maior tumulto.

Sabre fingiu ignorância.

— Qual é a fonte dessa revelação?

— Ele ligou para a Palestina nos últimos dias. Quer contar alguma coisa a eles.

Sabre já havia se encontrado três vezes com Jonah. Homens como ele, que colocavam os euros acima da lealdade, eram úteis, mas ao mesmo tempo exigiam cautela. Os traidores sempre são traídos.

— Que tal pararmos de embromar e você me dizer o que quer que eu saiba?

O homem saboreou um gole de café.

— Antes de desaparecer há cinco anos, Haddad recebeu a visita de alguém que se dizia um Guardião.

Sabre já sabia disso, mas não falou nada.

— Ele recebeu algum tipo de informação. A coisa é meio estranha, mas fica mais estranha ainda.

Sabre nunca havia apreciado o sentido de drama que Jonah gostava de invocar.

— Haddad não é o primeiro a ter essa experiência. Eu vi um dossiê. Houve outros três, desde 1948, que receberam visitas semelhantes de alguém que se dizia Guardião. Israel sabia sobre todas elas, mas todos esses homens morreram dias ou semanas depois da visita. - Jonah fez uma pausa. — Se você se lembra, Haddad quase morreu, também.

Ele começou a entender.

— Seu povo está guardando alguma coisa?

— É o que parece.

— Em que período de tempo essas visitas aconteceram?

— À intervalos de cerca de vinte anos, nos últimos sessenta, aproximadamente. Todos eram acadêmicos; um israelense e três árabes, inclusive Haddad. Todos os assassinatos foram feitos pelo Mossad.

Ele precisava saber.

— E como você conseguiu descobrir isso?

— Como falei, os dossiês. - Jonah ficou em silêncio. — Um comunicado veio há algumas horas. Haddad está morando em Londres.

— Preciso do endereço.

Jonah deu, depois disse:

— Homens foram mandados. Do esquadrão de assassinatos.

— Por que matar Haddad?

— Fiz a mesma pergunta ao embaixador. Ele já foi do Mossad e me contou uma história interessante.

— Presumo que seja por isso que estou aqui, não?

Jonah lhe deu um sorriso.

— Eu sabia que você era um homem inteligente. David Ben-Gurion percebeu que sua carreira política estava encerrada. Desde os dias em que era uma criança frágil na Polônia, ele havia sonhado que os judeus receberiam sua pátria bíblica. Por isso tornou-se pai da nação de Israel e guiou-a pelos anos tumultuados de 1948 a 1963, comandando suas guerras e sendo estadista.

Trabalho difícil para alguém que, na verdade, queria ser intelectual.

Devorou livros de filosofia, estudou a Bíblia, flertou com o budismo, até mesmo aprendeu um pouco de grego antigo para ler Platão no original. Possuía uma curiosidade implacável pelas ciências naturais e detestava ficção. A batalha verbal, e não o diálogo hábil, era seu modo predileto de comunicação.

No entanto, não era um pensador abstrato.

Em vez disso, era um homem duro, de feições marcadas, com um halo de cabelos prateados, maxilar que projetava força de vontade e temperamento vulcânico.

Havia proclamado a independência de Israel em maio de 1948, ignorando advertências de último minuto de Washington e passando por cima das previsões de juízo final feitas por seus auxiliares mais próximos. Lembrava-se de como, faltando horas para a sua declaração, as forças militares de cinco nações árabes invadiram Israel, juntando-se às milícias palestinas numa tentativa aberta de destruir os judeus. Ele havia liderado pessoalmente o exército, e um por cento da população judia acabara morrendo, assim como milhares de árabes. Mais de meio milhão de palestinos perderam suas casas. No fim, os judeus prevaleceram, e muitos passaram a considerá-lo uma mistura de Moisés, Davi, Garibaldi e Deus Todo-poderoso.

Durante mais 15 anos liderou seu país. Mas agora era 1965, e ele estava com quase 80 anos e sentia-se exausto. Pior ainda, estivera errado.

Olhou para a impressionante biblioteca. Tanto conhecimento. O homem que havia se chamado de Guardião dissera que a busca seria um desafio, mas que, se ele conseguisse ter sucesso, as recompensas seriam incalculáveis.

E o enviado estivera certo.

Um dia ele havia lido que a medida de uma idéia era como ela era relativa não somente ao seu tempo, mas também aos outros.

Seu tempo havia produzido o moderno Estado de Israel, mas, ao fazer isso, milhares de pessoas haviam morrido - e ele temia que muitas outras fossem perecer nas décadas seguintes. Judeus e árabes pareciam destinados a lutar. Ele achara que seu objetivo era digno, que a causa era justa, mas não achava mais.

Estivera errado.

Em relação a tudo.

Com cuidado folheou de novo o pesado volume aberto sobre a mesa. Três tomos assim haviam estado esperando quando ele chegara. O Guardião que o visitara seis meses antes ficara parado à entrada, com um riso largo no rosto enrugado.

Jamais Ben-Gurion havia sonhado com a existência de um lugar de conhecimento como aquele, e sentia-se grato porque sua curiosidade lhe permitira reunir coragem para a busca.

— De onde veio tudo isso? - perguntou ao entrar.

— Do coração e da mente de homens e mulheres.

Uma charada, mas também uma verdade, e o filósofo que havia nele entendeu.

— Ben-Gurion contou essa história em 1973, dias antes de morrer - disse Jonah. — Alguns dizem que ele estava delirando. Outros que sua mente vagueava. Mas o que quer que possa ter descoberto na tal biblioteca, ele guardou para si mesmo. Porém um fato é claro. A política e a filosofia de Ben-Gurion mudaram drasticamente depois de 1965. Ele se tornou menos militante, mais conciliador. Pediu concessões para os árabes. Muitos atribuíram isso à idade avançada, mas o Mossad achava que havia mais coisas. Tanto que Ben-Gurion passou a ser suspeito. Por isso nunca teve a permissão de um retorno político. Pode imaginar? O pai de Israel mantido a distância.

— Quem é esse tal Guardião?

Jonah deu de ombros.

— Os dossiês não dizem. Mas, de algum modo, o Mossad ficou sabendo de cada um dos quatro que receberam visitas e agiu rapidamente. Quem quer que sejam, Israel não quer que ninguém fale com eles.

— Então seus colegas planejam eliminar Haddad?

Jonah assentiu.

— Enquanto estamos conversando.

Sabre já ouvira o suficiente, por isso saiu do reservado.

— E o meu pagamento? - perguntou Jonah rapidamente.

Sabre tirou um envelope do bolso e jogou-o sobre a mesa.

— Isso deve acertar nossas contas atuais. Avise quando houver mais a dizer.

Jonah embolsou o suborno.

— Você será o primeiro.

Sabre ficou olhando o contato se levantar e ir não para a porta da frente, mas para uma alcova onde ficavam os banheiros. Decidiu que esta oportunidade era tão boa quanto qualquer outra e foi atrás.

À porta do banheiro, hesitou.

O restaurante estava ocupado pela metade, pouco iluminado e ruidoso, com os ocupantes das mesas distraídos, conversando em várias línguas.

Entrou, trancou a porta e examinou rapidamente o local. Dois cubículos, uma pia e um espelho, luz âmbar de luminárias incandescentes. Jonah ocupava o primeiro cubículo, o outro estava vazio. Sabre pegou um punhado de toalhas de papel e esperou até ouvir a descarga, depois tirou uma faca do bolso.

Jonah saiu do cubículo fechando o zíper da calça.

Sabre virou e mergulhou a faca no peito dele, girando-a para cima, depois, com a outra mão, apertou as toalhas de papel no ferimento. Ficou olhando o rosto do israelense encher-se primeiro de choque, depois ficar vazio. Manteve as toalhas no lugar enquanto tirava a faca.

Jonah tombou no chão.

Sabre recuperou o envelope no bolso do sujeito e em seguida limpou o metal na calça de Jonah. Rapidamente segurou os braços do morto e arrastou o corpo que sangrava para dentro do cubículo, sentando o cadáver no vaso sanitário.

Em seguida, fechou a porta do cubículo e saiu.

Lá fora, acompanhou uma guia que liderava um grupo visitando a rathaus da cidade. A mulher idosa apontou para a antiga prefeitura e falou sobre a longa história de Rothenburg.

Ele hesitou e ouviu. Sinos anunciaram as 16 horas.

— Olhem para o relógio e prestem atenção às duas janelas redondas dos dois lados do mostrador.

Todo mundo virou enquanto os painéis se abriam. Um homem mecânico apareceu e bebeu uma caneca de vinho enquanto outra figura olhava. A guia falou sobre o significado histórico. Máquinas fotográficas clicaram.

Fumadoras zumbiram. O acontecimento durou cerca de dois minutos. Enquanto Sabre caminhava para longe, vislumbrou um turista que habilmente afastou uma lente da torre do relógio e focalizou sua retirada.

Ele sorriu.

A exposição era sempre um risco quando a traição se tornava meio de vida. Por sorte, descobrira com Jonah tudo que queria saber, o que explicava por que esse ponto fraco fora permanentemente suprimido. Mas agora os israelenses sabiam quem era o contato de Jonah. O Cadeira Azul parecia não se importar e havia instruído especificamente que ele fizesse "um bom show".

E ele havia feito.

Para os israelenses e para Alfred Hermann.

 

LONDRES

14H30

 Malone esperou que George Haddad terminasse de explicar. Seu velho amigo estava divagando.

— Escrevi um texto há seis anos - disse Haddad. — Abordava uma teoria na qual eu estivera trabalhando, uma teoria falando de como o Velho Testamento foi originalmente traduzido do hebraico antigo.

Haddad contou sobre a Septuaginta, criada entre os séculos III a.C. e I a.C., a tradução mais antiga e mais completa do Velho Testamento para o grego, feita na Biblioteca de Alexandria. Então descreveu o Códice Sinaítico, um manuscrito do século IV do Velho e do Novo Testamentos usado por estudiosos posteriores para confirmar outros textos bíblicos, mesmo que nenhum soubesse se ele era correto. E a Vulgata Latina, completada mais ou menos na mesma época por São Jerônimo, a primeira tradução direta do hebraico para o latim, na qual foram feitas grandes revisões nos séculos XVI, XVIII e XX.

— Até Martinho Lutero - disse Haddad — mexeu na Vulgata Latina, retirando partes para sua fé luterana. Todo o significado daquela tradução é turvo. Muitas mentes alteraram a mensagem.

"A Bíblia do rei Jaime. Muitos acham que ela apresenta as palavras originais, mas foi criada no século XVII a partir de uma tradução da Vulgata para o inglês. Aqueles tradutores jamais viram o original em hebraico e, se viram, é improvável que tenham entendido. Cotton, a Bíblia que conhecemos hoje está a cinco idiomas de distância da primeira que foi escrita. A Bíblia do rei Jaime se proclama como autorizada e original. Mas isso não significa que seja genuína, autêntica ou mesmo verdadeira.

— Existe alguma Bíblia hebraica? - perguntou Pam.

Haddad assentiu.

— A mais antiga que sobrevive é o Códice Alepo, salvo da destruição na Síria em 1948. Mas esse é um manuscrito do século X d.C., produzido quase dois mil anos depois do texto original de sabe-se lá quem.

Malone vira o pergaminho quebradiço e creme daquele manuscrito, com tinta marrom desbotada, na Biblioteca Judaica Nacional de Jerusalém.

— No meu artigo - disse Haddad, — levantei a hipótese de como alguns manuscritos poderiam resolver essas questões. Sabemos que o Velho Testamento foi estudado por filósofos antigos na Biblioteca de Alexandria. Por homens que entendiam o hebraico antigo. Também sabemos que eles escreveram sobre suas idéias. Há referências a essas obras, citações e trechos, em manuscritos que sobreviveram, mas infelizmente os textos originais sumiram. Além disso, pode haver textos judaicos antigos; sabemos que a biblioteca acumulou muitos desses. A destruição em massa dos escritos judaicos se tornou comum mais tarde, em especial do Velho Testamento em hebraico. Somente a Inquisição queimou 12 mil cópias do Talmud. Estudar apenas uma delas poderia ser decisivo para resolver qualquer dúvida.

— Em que isso importa?

— Importa muito - disse Haddad. — Especialmente se ele estiver errado.

— Em que sentido? - perguntou Malone, ficando impaciente.

— Moisés dividindo o mar Vermelho. O Êxodo. Gênesis. Davi e Salomão. Desde o século XVIII, arqueólogos escavaram a Terra Santa feito loucos, tudo para provar que a Bíblia narra fatos históricos. No entanto, nem um fiapo de evidências físicas foi desenterrado confirmando qualquer coisa do Velho Testamento. O Êxodo é um bom exemplo. Supostamente milhares de israelitas caminharam pela península do Sinai. Acamparam em locais identificados especificamente na Bíblia, locais que ainda podem ser encontrados hoje. Mas nenhuma lasca de cerâmica, nem uma pulseira, nem nada desse período jamais foi encontrado para confirmar o Êxodo.

O mesmo vácuo de provas esteve presente quando a arqueologia tentou corroborar outros acontecimentos bíblicos. Vocês não acham isso estranho? Não haveria restos de pelo menos um incidente relatado no Novo Testamento em algum lugar naquela terra?

Malone sabia que, como muitas pessoas, Haddad considerava que a Bíblia tinha pouca história. Essa escola de pensamento acreditava que havia alguma verdade nela, mas não muita.

Malone também tinha dúvidas. Por suas próprias leituras, chegara à conclusão de que os que defendiam a narrativa como história formavam suas conclusões muito mais por considerações teológicas do que científicas.

Mas, mesmo assim, e daí?

— George, você já disse tudo isso antes, e concordo. Preciso saber o que é tão importante para sua vida estar em risco.

Haddad levantou-se da mesa e levou-os até onde os mapas adornavam as paredes.

— Passei os últimos cinco anos colecionando isto. Não foi fácil. Sinto vergonha de dizer que, na verdade, tive de roubar alguns.

— De onde? - perguntou Pam.

— Bibliotecas, principalmente. A maioria não permite fotocópias de livros raros. E, além disso, perdem-se detalhes em cópias, e são os detalhes que importam.

Haddad parou diante de um mapa que representava o moderno Estado de Israel.

— Quando a terra foi dividida em 1948 e os sionistas receberam sua parte, falou-se muito da aliança de Abraão. A palavra de Deus de que essa região - Haddad apertou o dedo no mapa -, esta terra exata, era supostamente de Abraão.

Malone observou as fronteiras.

— Ser capaz de entender o hebraico antigo me permitiu algumas idéias. Talvez demais. Há cerca de trinta anos, notei algo interessante. Mas, para avaliar essa revelação, é importante avaliar Abraão.

Malone conhecia a história.

— O Gênesis - disse Haddad — registra um acontecimento que afetou profundamente a história do mundo. Pode ser o dia mais importante de toda a história humana.

Malone ouviu enquanto Haddad falava de Abrão, que viajou da Mesopotâmia até Canaã, caminhando em meio à população, seguindo fielmente as ordens de Deus. Sua mulher, Sarai, continuava estéril e acabou sugerindo que Abrão copulasse com sua criada predileta, uma escrava egípcia chamada Agar, que havia ficado com eles desde que o clã fora expulso do Egito pelo faraó.

— O nascimento de Ismael - disse Haddad, — o primeiro filho de Abrão com Agar, torna-se fundamental no século VII d.C., quando uma nova religião se formou na Arábia: o islamismo. O Alcorão chama Ismael de apóstolo e profeta. Ele era muito aceitável à vista de seu Senhor. O nome de Abrão aparece em 21 dos 114 capítulos do Alcorão. Até hoje Ibrahim e Isma'il são nomes comuns para os muçulmanos. O próprio Alcorão ordena aos muçulmanos que sigam a religião de Abraão.

— Ele não era judeu nem cristão; mas era sincero na fé e não juntava nenhum deus a Deus.

— Bom, Cotton, vejo que andou estudando o Alcorão desde que conversamos pela última vez.

Cotton sorriu.

— Li uma ou duas vezes. Material fascinante.

— O Alcorão deixa claro que Abraão e Isma'il ergueram os alicerces da Casa.

— A Caaba - disse Pam. — O templo mais sagrado do islamismo.

Malone ficou impressionado.

— Quando foi que você aprendeu sobre o islamismo?

— Não aprendi. Mas assisto ao History Channel.

Ele captou o riso dela.

— A Caaba fica em Meca. Os muçulmanos adultos têm de fazer uma peregrinação até lá. O problema é que, quando se reúnem a cada ano, são tantas pessoas, que várias centenas morrem pisoteadas. Isso sai no noticiário o tempo todo.

— Os árabes, particularmente os árabes muçulmanos, remontam sua origem a Ismael - disse Haddad.

Malone sabia o que vinha em seguida. Treze anos depois do nascimento de Ismael, Deus disse a Abrão que ele seria pai de uma infinidade de nações. Primeiro recebeu a ordem de mudar seu nome para Abraão e o de Sarai para Sara. Então Deus anunciou que Sara daria à luz um filho. Nem Sara nem Abraão acreditaram em Deus, mas dentro de um ano nasceu Isaque.

— O dia desse nascimento pode ser o mais importante da história humana - disse Haddad. — Depois disso, tudo mudou. A Bíblia e o Alcorão discordam em muitos pontos relativos a Abraão. Cada um narra uma história separada. Mas, segundo a Bíblia, o Senhor disse a Abraão que toda a terra ao redor, a terra de Canaã, pertencia a Abraão e seu herdeiro, Isaque.

Malone sabia o resto. Deus apareceu a Jacó, filho de Isaque, e repetiu a promessa da terra, dizendo que por intermédio de Jacó viria um povo a quem a terra de Canaã pertenceria para sempre. Jacó recebeu a ordem de mudar seu nome para Israel. Os 12 filhos de Jacó criaram tribos separadas, reunidas pela aliança entre Deus e Abraão, e cada um estabeleceu sua família, as 12 tribos de Israel.

— Abraão é o pai de três das principais religiões do mundo - disse Haddad. — O islamismo, o judaísmo e o cristianismo têm raízes nele, ainda que a história de sua vida seja diferente em cada uma delas. Todo o conflito do Oriente Médio, que dura milhares de anos, é simplesmente um debate sobre qual relato é correto, qual religião tem o direito divino sobre a terra. Os árabes por meio de Ismael. Os judeus por meio de Isaque. Os cristãos com Cristo.

Malone lembrou-se da Bíblia e disse:

— O Senhor disse a Abrão: sai da tua terra, de teu povo e da casa de teu pai e vai à terra que te mostrarei. E far-te-ei uma grande nação, e abençoar-te-ei e engrandecerei o teu nome; e tu serás uma bênção. Abençoarei os que te abençoarem e amaldiçoarei os que te amaldiçoarem; e em ti serão benditas todas as famílias da terra.

— Você fala as palavras com tanta convicção - disse Pam.

— Elas têm significado - observou Haddad. — Os judeus acreditam que são elas que lhes dão a propriedade exclusiva da Palestina. Passei a maior parte de minha vida adulta estudando a Bíblia. É um livro incrível. E o que a separa de todas as outras narrativas épicas é simples. Nada místico nem mágico. Em vez disso, o foco é a responsabilidade humana.

— Você acredita? - perguntou Pam.

Haddad balançou a cabeça.

— Na religião? Não. Vi com muita clareza as manipulações dela. Em Deus? Isso é outra coisa. Mas vi a negligência d'Ele. Nasci muçulmano. Meu pai era muçulmano, assim como o pai dele. Mas, depois da guerra em 1948, algo me tomou. Foi quando a Bíblia se tornou minha paixão. Eu queria lê-la em  sua forma original. Saber o que ela realmente significava.

— Por que os israelenses querem você morto? - perguntou Malone.

— Eles são descendentes de Abraão. Aqueles que Deus disse que iria abençoar... e seus inimigos eram aqueles que Ele iria amaldiçoar. Milhões de pessoas morreram no correr dos séculos, milhares nos últimos cinqüenta anos, simplesmente para provar essas palavras. Recentemente, Cotton, fui envolvido num debate. Um homem particularmente arrogante num bar me disse que Israel possuía o direito absoluto de existir. Deu-me seis motivos, que dependiam separadamente da arqueologia, da história, da questão prática, da humanidade, da defesa e, para ele o mais importante, da autorização. - Haddad parou. — A autorização, Cotton. A autorização bíblica. A aliança de Abraão. A terra de Deus dada ao povo de Israel, proclamada em toda a sua glória nas palavras do Gênesis.

Malone esperou.

— E se entendemos tudo errado? - Haddad olhou com irritação para o mapa de Israel ao lado de outro mapa da Arábia Saudita.

— Continue - disse uma nova voz.

Todos se viraram.

Parado junto à porta da frente estava um homem baixo, com óculos e ficando careca. Ao seu lado estava uma mulher de 30 e poucos anos, pequena e compacta, morena. Ambos seguravam armas com silenciadores. Malone registrou imediatamente a marca e o modelo das armas e soube para quem os dois trabalhavam.

Para Israel.

 

WASHINGTON

9H50

  Stephanie terminou o café-da-manhã e sinalizou para o garçom, pedindo a conta. Estava num restaurante perto do Dupont Circle, não longe de seu hotel. Todo o Setor Magalhães fora mobilizado e sete de seus 12 advogados estavam ajudando-a diretamente. O assassinato de Lee Durant dera motivação a todos, mas havia riscos associados aos seus esforços. Outras agências de informação descobririam rapidamente o que ela estava fazendo, o que significava que Larry Daley não estaria muito atrás. Para o diabo com eles. Malone precisava de Stephanie, e ela não ia deixá-lo na mão. De novo.

Pagou a conta e parou um táxi que, 15 minutos depois, deixou-a na Rua 17, ao lado do parque National Mali. O dia estava claro e ensolarado, e a mulher para quem ela havia ligado duas horas antes ocupava um banco à sombra, não muito longe do Memorial da Segunda Guerra Mundial. Era uma loura de pernas compridas, corpo forte e, Stephanie sabia, uma astúcia que exigia que ela fosse tratada com cautela. Stephanie conhecia Heather Dixon havia quase uma década. Usando o sobrenome de casada, de um relacionamento com vida curta, Dixon era cidadã israelense ligada à missão Washington, parte do contingente do Mossad nos Estados Unidos. As duas haviam trabalhado juntas e uma contra a outra, o que era comum quando se tratava dos israelenses. Stephanie esperava que hoje fosse um encontro amigável.

— É bom ver você - disse, enquanto se sentava.

Dixon estava vestida com elegância, como sempre, com calça de xadrez em relevo marrom e dourado, camisa social branca e colete de buclê preto.

— Você parecia preocupada ao telefone.

— E estou. Preciso saber sobre o interesse de seu governo por George Haddad.

O olhar vazio de oficial de informações desapareceu do rosto atraente de Dixon.

— Você andou ocupada.

— Assim como vocês. Houve muita conversa sobre Haddad nos últimos dias. - Na verdade, Stephanie estava em desvantagem, porque Lee Durant fora seu ponto de contato com os israelenses, e ele não tivera chance de informar tudo que descobrira.

— Qual é o interesse americano? - perguntou Dixon.

— Há cinco anos, um dos meus agentes quase morreu por causa de Haddad.

— E então vocês esconderam o palestino. Guardaram-no para vocês. E não se incomodaram em contar ao aliado.

Agora estavam chegando ao cerne da questão.

— E vocês não se incomodaram em nos contar que tinham tentado explodir o sujeito, junto com meu agente.

— Disso não sei nada. Estou muito fora do círculo. Mas sei que Haddad reapareceu, e nós o queremos.

— Assim como nós.

— O que há de tão importante do lado de vocês?

Ela não conseguiu decidir se Dixon estava jogando verde ou embromando.

— Diga você, Heather. Por que os sauditas arrasaram povoados inteiros no oeste da Arábia há cinco anos? Por que o Mossad está concentrado em Haddad?

Stephanie cravou o olhar na amiga.

— Por que ele precisava morrer?

 

Um fatalismo calmo dominou Malone. Uma regra que todo mundo no serviço de espionagem respeitava era: não se meta com os israelenses. Malone tinha violado esse conhecimento ao permitir que Israel acreditasse que Haddad havia morrido no café bombardeado. Agora sabia que eles sabiam. Lee Durant dissera que os israelenses estavam agitados, mas não havia mencionado nada sobre a violação do segredo de Haddad. Caso contrário, Malone nunca teria permitido a vinda de Pam.

— Você realmente deveria trancar a porta - declarou o intruso. — Todo tipo de gente pode entrar.

— Você tem um nome? - perguntou Malone.

— Pode me chamar de Adão. Ela é Eva.

— Nomes interessantes para um esquadrão de assassinos israelenses.

— Como assim? - perguntou Pam. — Assassinos?

Ele a encarou.

— Eles vieram terminar o que começaram há cinco anos. - Em seguida, virou-se para Haddad, que não dava a mínima impressão de medo. — O que eles querem manter escondido?

— A verdade - respondeu Haddad.

— Não sei nada sobre isso - disse Adão. — Não sou político. Só um funcionário contratado. Minhas ordens são eliminar. Você entende isso, Malone. Já esteve nesse negócio.

É, ele podia entender. Mas Pam era outra coisa.

— Todos vocês estão pirados - disse ela. — Falam sobre matar como se isso fizesse parte do trabalho.

— Na verdade - disse Adão, — esse é o meu único trabalho.

Quando começara a trabalhar no Setor Magalhães, Malone havia aprendido que, muitas vezes, a sobrevivência dependia de saber quando se conter e quando agir. Enquanto olhava para o velho amigo, um guerreiro da antiga, viu que Haddad sabia que havia chegado o momento de escolher.

— Sinto muito - sussurrou Malone.

— Eu também, Cotton. Mas tomei minha decisão quando dei os telefonemas.

Será que ele ouvira direito?

— Telefonemas?

— Um há algum tempo, os outros dois recentemente. Para a Cisjordânia.

— Isso foi idiotice, George.

— Talvez. Mas eu sabia que você viria.

— Fico feliz em saber que você sabia, porque eu não.

O olhar de Haddad ficou mais tenso.

— Você me ensinou muita coisa. Lembro-me de cada lição, e até alguns dias atrás eu as segui rigidamente. Mesmo aquelas sobre salvaguardar o que realmente importa. - A voz havia ficado opaca e monótona.

— Você deveria ter me ligado primeiro.

Haddad balançou a cabeça.

— Devo isso ao Guardião em quem atirei. É o pagamento da dívida.

— Que coisa contraditória! - disse Adão. — Um palestino com honra.

— E um israelense que assassina - disse Haddad. — Mas nós somos o que somos.

A mente de Malone estava registrando as possibilidades.

Precisava fazer alguma coisa, mas Haddad pareceu sentir seu raciocínio.

— Você fez tudo o que podia. Por enquanto, pelo menos. - Haddad fez um gesto. — Cuide dela.

— Cotton, você não pode deixar que eles o matem - sussurrou Pam, com desespero na voz.

— Pode sim - disse Haddad, com um toque de amargura.

Depois o palestino olhou irritado para Adão. — Posso fazer uma última prece?

Adão sinalizou com a arma.

— Quem sou eu, para negar um pedido tão razoável?

Haddad foi na direção de um dos baús junto à parede e estendeu a mão para uma gaveta.

— Tenho aqui uma almofada sobre a qual me ajoelho. Posso?

Adão deu de ombros.

Haddad abriu lentamente a gaveta e usou as duas mãos para pegar uma almofada vermelha. Em seguida, o velho se aproximou de uma das janelas e Malone ficou olhando a almofada cair no chão.

Uma arma surgiu.

Presa firmemente na mão direita de Haddad.

 

Stephanie esperou uma resposta à pergunta.

— Haddad é uma ameaça à segurança de Israel - disse Dixon.  — Era há cinco anos e continua sendo.

— Pode explicar?

— Por que não pergunta isso ao seu pessoal?

Ela esperara evitar essa linha de questionamento, mas  decidiu ser honesta.

— Há uma divisão.

— E onde você está, nessa divisão?

— Tenho um ex-agente em situação difícil. Pretendo ajudá-lo.

— Cotton Malone. Sabemos. Mas Malone sabia em que estava entrando quando escondeu Haddad.

— O filho dele não sabia.

Dixon deu de ombros.

— Vários dos meus amigos morreram nas mãos de terroristas.

— Uma certa hipocrisia de sua parte, não?

— Não acho. Os palestinos nos deixam pouca opção quanto ao modo de lidar com eles.

Stephanie não pôde resistir:

— Eles não estão fazendo nada diferente do que os judeus fizeram em 1948.

Dixon deu um risinho.

— Se eu soubesse que teríamos essa discussão de novo, não teria vindo.

Stephanie sabia que Dixon não queria ouvir falar do terrorismo do fim dos anos 1940, que teve origem muito mais judaica do que árabe. Mas não daria folga à amiga.

— Podemos falar de novo sobre o Hotel Rei David, se você quiser.

O lugar em Jerusalém havia servido como quartel-general militar e de investigações criminais para os ingleses. Depois de uma agência judaica local ter sido atacada e documentos importantes terem sido levados para o hotel, militantes retaliaram com uma bomba em julho de 1946. Noventa e um mortos, 45 feridos. Quinze dos mortos eram judeus.

— Os ingleses foram alertados - disse Dixon. — Não foi nossa culpa se optaram por ignorar.

— O que importa se eles receberam o aviso? Foi um ato de terrorismo dos judeus contra os ingleses, um modo de levar adiante os objetivos de vocês. Os judeus queriam que os ingleses e os árabes saíssem da Palestina e usaram qualquer tática que funcionasse. Assim como os palestinos tentaram durante décadas.

Dixon balançou a cabeça.

— Estou enjoada de ouvir essa merda. A nakba é uma piada. Os árabes fugiram da palestina nos anos 1940 por conta própria, porque estavam morrendo de medo. Os ricos entraram em pânico; o resto partiu depois que os líderes árabes pediram. Todos acreditavam honestamente que seríamos esmagados em algumas semanas. Os que ficaram viajaram apenas alguns quilômetros para Estados árabes vizinhos. E ninguém, inclusive vocês, jamais fala sobre todos os judeus que foram obrigados a sair daqueles mesmos Estados árabes. - Dixon deu de ombros. — É tipo: E dai? Quem se importa com eles? Mas coitadinhos dos árabes. Que tragédia!

— Tome a terra de um homem, e ele lutará contra você para sempre.

— Nós não tomamos nada. Compramos a terra, e a maior parte consistia em pântanos sem cultivo e solo ruim que ninguém queria. E, por sinal, oitenta por cento dos árabes que partiram eram camponeses, nômades ou beduínos. Os donos de terras, os que criaram tanto estardalhaço, moravam em Beirute, no Cairo e em Londres.

Stephanie já ouvira isso.

— A fala partidária israelense nunca muda.

— Tudo o que os árabes tinham de fazer - disse Dixon — era aceitar a resolução da ONU de 1947, invocando dois Estados, um árabe e outro judeu, e todo mundo teria vencido. Mas não. Absolutamente não. Nada de acordo. A repatriação sempre foi e ainda é um pré-requisito funda-ental para qualquer discussão, e isso não vai acontecer. Israel é uma realidade que não desaparecerá. É doentio o modo como todo mundo se sente em relação aos árabes. Eles vivem em campos, como refugiados, porque a liderança árabe gosta que seja assim. Se não gostasse, teria feito algo a respeito. Em vez disso, usa os acampamentos e as zonas de moradia designadas como modo de desconcertar o mundo pelo que fez em 1948. Mas ninguém, inclusive os Estados Unidos, jamais os censura.

— Neste momento, Heather, só estou interessada no filho de Cotton Malone e em George Haddad.

— Assim como a Casa Branca. Nosso pessoal disse que vocês estavam interferindo na questão de Haddad. Larry Daley diz que você é um pé no saco.

— Ele realmente deve achar isso.

— Tel Aviv não quer interferências.

De repente, Stephanie se arrependeu da decisão de se encontrar com Dixon. Mas ainda precisava perguntar:

— O que há de tão importante? Diga, e eu posso ficar de fora.

Dixon deu um risinho.

— Essa é boa. Alguém já caiu?

— Achei que poderia funcionar aqui. - Ela esperava que a amizade das duas significasse alguma coisa. — Conosco.

Dixon olhou os caminhos de concreto ao redor. Pessoas andavam pelo parque, aproveitando o dia.

— Isto é sério, Stephanie.

— Até que ponto?

As mãos de Dixon foram às costas e reapareceram com uma arma.

— Até este ponto.

 

LONDRES

Malone viu a arma na mão de Haddad e soube que o amigo havia decidido que esta seria sua última tentativa. Não queria mais se esconder. Era hora de encarar seus demônios.

Haddad disparou primeiro, a bala se cravou no peito de Eva e fez a jovem saltar, com um ferimento jorrando sangue.

Adão disparou e Haddad gritou de agonia quando a bala rasgou sua camisa e estourou sua coluna, cobrindo os mapas atrás dele com manchas vermelhas.

As pernas de Haddad se dobraram, sua boca ficou escancarada, mas nenhum som escapou enquanto o velho despencava no chão.

Pam gritou, um falsete lancinante.

O ar pareceu ter saído da sala. Malone sentiu-se à mercê de um coração amargo.

Encarou Adão, que baixou a arma.

— Eu vim matá-lo, só isso - disse Adão, já sem amabilidade na voz.            — Meu governo não tem problema com você, Malone, ainda que tenha nos enganado. Mas esse era o seu trabalho. Então vamos deixar para lá.

— É muita gentileza sua.

— Não sou criminoso, só um assassino profissional.

— E ela? - perguntou Malone, apontando para o corpo de Eva.

— Não posso fazer nada. Assim como você não pode fazer nada por ele. Há um preço a se pagar pelos erros.

Malone não disse nada, mas estava meio enlouquecido de terror e angústia. Sem dúvida os tiros tinham sido ouvidos e a polícia fora chamada.

O israelense virou-se e desapareceu.

Passos recuaram escada abaixo.

Pam parecia congelada, olhando incrédula para o cadáver de Haddad, cuja boca ainda estava aberta num protesto final. Os dois trocaram olhares, mas não palavras. Malone quase podia entender o pensamento do israelense. Ele era, de fato, um assassino pago, empregado por um listado soberano, com autorização para matar. Mas, mesmo assim, o filho-da-puta era um criminoso.

George Haddad estava morto.

E havia um preço a ser pago por isso também.

Pensamentos sombrios o arrastaram. Ele se abaixou e pegou a arma de Haddad, depois se levantou e foi em direção à porta.

— Fique aqui - disse a Pam.

— O que você vai fazer?

— Matar o filho-da-puta.

        

Stephanie estava muito mais perplexa do que amedrontada com a visão de uma arma.

— Aparentemente, Heather, as regras mudaram. Achei que éramos aliadas.

— Isto é engraçado nas relações entre os Estados Unidos e Israel. Às vezes é difícil dizer de que lado estamos.

— E aparentemente vocês sentem uma certa liberdade desde que a Casa Branca ligou.

— É sempre bom quando os americanos estão em conflito.

— Larry Daley quer Haddad para si mesmo. Você sabe, não é? Isto é uma distração para ocupar seu tempo enquanto nossos agentes o encontram.

— Boa sorte. Só nós e Malone sabemos onde ele está.

Stephanie não gostou do que ouviu. Isso precisava acabar.

Desde que havia se sentado, os dedos de sua mão direita estavam pousados na perna, com as pontas em cima do controlador de rádio aninhado dentro da calça larga.

— Isso depende de a espionagem americana ter ou não uma fonte dentro da sua organização.

— Esta operação é mantida muito fechada, por isso duvido que haja algum vazamento. Além disso, Haddad provavelmente já está morto. Nossos agentes foram mandados há horas.

A mão esquerda de Stephanie foi na direção da arma enquanto a direita permanecia na perna.

— Qual é o sentido desta demonstração?

— Infelizmente, você se tornou um problema para o nosso governo.

— Nossa, achei que minha demissão bastaria.

— Não mais. Acredito que você tenha sido alertada para ficar fora disso, mas mobilizou todo o Setor. Contrariamente, claro, às ordens que recebeu.

— Larry Daley não me dá ordens.

— Mas o chefe dele dá.

Stephanie percebeu rapidamente que, se agora ela era um alvo, Brent Green também podia ser. Porém a morte do procurador-geral implicaria problemas logísticos bem maiores do que a dela. Aparentemente, a Casa Branca havia concluído que os cadáveres nunca apareciam nos noticiários das manhãs de domingo. Seus dedos se prepararam para apertar o botão de pânico.

— Você está aqui para fazer o trabalho sujo do Daley?

— Digamos, apenas, que nossos interesses são semelhantes. Além disso, gostamos quando a Casa Branca fica nos devendo.

— Está planejando atirar em mim aqui?

— Não preciso. Tenho alguns colegas dispostos a isso.

— Seu pessoal?

Ela balançou a cabeça.

— Espantosamente, Stephanie, você conseguiu fazer o que os políticos tentaram durante séculos. Os sauditas estão trabalhando conosco neste caso. Aparentemente, temos um objetivo comum, de modo que todas as diferenças foram postas de lado. - Dixon deu de ombros. — Só desta vez.

— E isso também elimina o problema de Israel matar uma americana. Dixon franziu o rosto fingindo pensar.

— Está vendo os benefícios? Nós encontramos o problema, eles o eliminam. Todo mundo ganha.

— Menos eu.

— Você conhece as regras. Seu amigo de hoje pode ser seu inimigo de amanhã, e vice-versa. Israel tem poucos amigos neste mundo, mas as ameaças vêm de toda parte. Fazemos o que é preciso.

Stephanie havia encarado uma arma pela primeira vez enquanto procurava os Cavaleiros Templários com Malone. Também havia testemunhado a morte na ocasião.

Felizmente havia planejado tudo.

— Faça o que tiver de fazer.

Seu dedo indicador direito ativou o sinal que alertaria os agentes, a menos de um minuto de distância, para virem. Só precisava embromar.

Subitamente, os olhos de Heather Dixon viraram para o alto, depois se fecharam quando sua cabeça tombou para a frente e seu corpo ficou frouxo.

A arma caiu na grama.

Stephanie segurou Dixon, que tombou em sua direção.

Depois viu. Um dardo com penas se projetava do pescoço de Dixon. Já vira um antes.

Calmamente, ela se virou.

Parada a pouco mais de um metro atrás do banco estava uma mulher. Alta, a pele da cor de um riacho lamacento, cabelo preto comprido. Usava um caro casaco de cashmere sobre jeans baixos, e toda a roupa justa enfatizava um corpo esguio, em forma. Segurava uma pistola de ar Magnum na mão esquerda.

— Agradeço o auxílio - disse Stephanie, tentando mascarar a surpresa.

— Foi para isso que vim.

E Cassiopeia Vitt sorriu.

 

Malone desceu correndo a escada em direção ao térreo. Não seria fácil matar Adão. Com os profissionais, nunca era.Continuou descendo de dois em dois degraus e verificou o pente da arma. Restavam sete balas. Disse a si mesmo para ter cuidado. Sem dúvida o israelense sabia que iria atrás dele.

Na verdade, tinha solicitado o desafio, já que, antes de sair, não confiscara a arma de Haddad. Os profissionais nunca deixavam esse tipo de oportunidade. E a frase sobre cortesia profissional não fazia sentido. Os assassinos não se importavam nem um pouco com protocolo. Eram os faxineiros do serviço de espionagem. Mandados exclusivamente para limpar a sujeira. As testemunhas faziam parte dessa sujeira. Assim, por que não limpar tudo? Talvez Adão quisesse um confronto. Matar um agente americano, aposentado ou não, tinha conseqüências. Mas se o agente atacasse primeiro, era outra coisa.

Afastou a confusão da mente enquanto chegava ao térreo.

Seu indicador se aninhou no gatilho e ele se preparou para uma luta.

Sentimentos familiares retornaram. Sentimentos que, como ele aprendera alguns meses antes, simplesmente faziam parte de sua psique. Na França, ele fizera as pazes com esses demônios ao perceber que era um jogador e sempre seria, independentemente de ter se aposentado. Na véspera, na Kronborg Slot, Pam o havia censurado dizendo que ele precisava daquele barato - que ela e Gary nunca haviam bastado. Ele havia se ressentido do insulto porque não era verdade. Ele não precisava do barato, mas certamente podia enfrentá-lo.

Saiu ao sol de outubro, que parecia forte depois da semi-escuridão do prédio, e desceu com calma a pequena escada da frente. Adão estava a 15 metros dali, caminhando pela calçada.

Malone foi atrás.

Havia filas de carros estacionados dos dois lados da rua estreita. De avenidas movimentadas, nas duas extremidades do quarteirão, vinha o rugido contínuo do tráfego. Algumas pessoas caminhavam pela calçada oposta.

Falar seria perda de tempo.

Por isso levantou a arma.

Mas Adão virou-se.

Malone mergulhou na calçada.

Uma bala passou zumbindo, ricocheteando num carro. Ele rolou e disparou na direção de Adão. O israelense tivera a esperteza de abandonar a calçada, agora usando como cobertura os carros estacionados.

Malone rolou para a rua, entre dois carros.

Equilibrou-se nos joelhos e espiou através do pára-brisa, procurando o alvo. Adão estava entocado dez veículos adiante. Os pedestres na outra calçada se espalharam.

Então ele ouviu um gemido.

Virou-se e viu Pam caída na escada que levava ao prédio de George Haddad.

Seu braço esquerdo era uma massa de sangue.

 

WASHINGTON, D.C.

Stephanie ficou feliz de ver Cassiopeia Vitt. Na última vez em que havia trabalhado com a moura misteriosa, estavam nos Pirinéus franceses, emboladas num dilema diferente.

— Deite-a e vamos sair daqui - disse Vitt.

Stephanie levantou-se do banco e permitiu que a cabeça de Heather Dixon batesse nas ripas de madeira.

— Isso vai deixar um galo feio - disse Vitt.

— Como se eu me importasse. Ela estava prestes a me matar. Quer dizer por que você está aqui?

— Henrik achou que talvez você precisasse de ajuda. Ele não gostou da sensação que lhe causaram os contatos em Washington. Eu estava nas imediações, em Nova York, por isso ele perguntou se eu poderia ficar de olho em você.

— Como me achou?

— Não foi difícil.

— Lembre-me de incluí-lo na minha lista de cartões de Natal.

Cassiopeia sorriu.

— Ele pode gostar disso.

Stephanie indicou Dixon.

— Tremenda frustração. Eu achava que ela era minha amiga.

— No seu negócio, isso é meio difícil.

— Cotton está numa tremenda encrenca.

— Henrik acha a mesma coisa. Ele esperava que você ajudasse.

— No momento, sou um alvo.

— O que nos leva ao nosso outro problema.

Ela não gostou dessas palavras.

— A Sra. Dixon não veio sozinha. - Cassiopeia apontou para o Monumento a Washington. — Dois homens num carro naquela colina. E não parecem israelenses.

— São sauditas.

— Ora, isso é um tremendo feito. Como foi que você conseguiu enfurecer todo mundo?

Dois homens vinham pela crista do morro, na direção delas.

— Não tenho tempo de explicar. Vamos?

As duas foram rapidamente na direção oposta, 15 metros à frente dos perseguidores, o que não significava nada, se eles decidissem atirar.

— Presumo que você tenha planos para essa contingência - disse Stephanie.

— Não totalmente. Mas posso improvisar.

        

Malone esqueceu Adão e saiu de sua posição segura atrás do carro estacionado e foi até onde Pam estava sangrando. A poeira da rua se grudava na sua roupa. Ele se virou por um instante e captou um vislumbre do israelense correndo para longe.

— Você está bem? - perguntou a ela.

— Dói - disse Pam num sussurro estrangulado.

— Deixe-me ver.

Ela balançou a cabeça.

— Segurar... ajuda.

Malone começou a afastar a mão dela. Os olhos de Pam se arregalaram de dor e raiva.

— Não.

— Preciso ver.

Ele não precisou dizer o que os dois estavam pensando. Por que ela não ficou lá em cima?

Pam cedeu, retirou os dedos ensangüentados, e Malone viu o que suspeitava. A bala havia meramente acertado de raspão. Um ferimento na carne. Qualquer coisa pior já estaria evidente. As pessoas que levam tiros entram em choque. O corpo se desliga.

— Foi só de raspão - disse ele.

A mão dela apertou de novo o ferimento.

— Obrigada pelo diagnóstico.

— Tenho alguma experiência em levar tiros. Os olhos dela se suavizaram à constatação.

— Temos de ir - disse ele.

O rosto de Pam se franziu de dor.

— Estou sangrando.

— Não há escolha. - E ajudou-a a ficar de pé.

— Droga, Cotton.

— Sei que dói. Mas se você tivesse ficado lá em cima como eu falei...

Sirenes uivaram a distância.

— Temos de ir. Mas primeiro há mais uma coisa.

Ela pareceu recuperar a compostura, decidida a manter a calma e permanecer lúcida, por isso ele a guiou para dentro do prédio.

— Continue apertando - disse, enquanto subiam a escada até o apartamento de Haddad. — O sangramento deve parar. Não é tão fundo assim.

As sirenes estavam chegando mais perto.

— O que estamos fazendo? - perguntou ela enquanto chegavam ao terceiro andar.

Ele se lembrou do que Haddad havia dito pouco antes dos tiros. Você me ensinou muita coisa. Lembro-me de cada lição, e até alguns dias atrás eu as segui rigidamente. Mesmo aquelas sobre salvaguardar o que realmente importa. Quando havia escondido Haddad, ele ensinara o palestino a manter as coisas mais importantes prontas para ir embora a qualquer instante. Era hora de descobrir se Haddad havia falado sério.

Entraram no apartamento.

— Vá até a cozinha e arranje uma toalha - disse Malone — enquanto eu cuido disso.

Eles deviam ter uns dois ou três minutos.

Ele correu até o quarto. O espaço apertado não era muito maior que seu apartamento em Copenhague. Pilhas de livros e papéis largados havia muito tempo se espalhavam pelo chão, a cama estava desfeita, as mesinhas-de-cabeceira e a penteadeira, atulhadas como mesas de brechós. Notou mais mapas nas paredes. Israel, no passado e no presente. Não havia tempo para olhar.

Ajoelhou-se ao lado da cama e esperou que seus instintos estivessem certos.

Haddad havia ligado para o Oriente Médio sabendo que aconteceria um confronto. Quando o conflito inevitável chegou, não fugiu da luta; em vez disso, partiu para a ofensiva, sabendo que perderia. Mas o que seu amigo havia dito? Eu sabia que você viria. Idiota desgraçado. Não houvera necessidade de Haddad se sacrificar. A culpa em relação ao homem que ele assassinara décadas antes aparentemente havia girado na cabeça do velho durante muito tempo.

Devo isso ao Guardião em quem atirei. É o pagamento da dívida.

Isso Malone podia entender.

Sondou debaixo da cama e sentiu alguma coisa. Segurou e puxou uma mochila de couro, abrindo as fivelas rapidamente. Dentro havia um livro, três cadernos em espiral e quatro mapas dobrados. De todas as informações espalhadas no apartamento, ele esperava que aquelas fossem as mais importantes.

Precisavam ir.

Voltou correndo ao escritório. Pam saiu da cozinha com uma toalha apertando o braço.

— Cotton? - chamou ela.

Ele ouviu a pergunta na voz.

— Agora, não.

Com a mochila na mão, empurrou-a pela porta, mas não antes de pegar um xale no encosto de uma cadeira.

Desceram rapidamente.

— Como está o sangramento? - perguntou enquanto chegavam à calçada.

— Vou sobreviver. Cotton?

As sirenes estavam a menos de um quarteirão dali. Ele enrolou o xale nos ombros dela para esconder o ferimento.

Andaram de modo casual.

— Mantenha a toalha no braço - disse ele.

A uns 30 metros, encontraram um bulevar, e mergulharam num mar de rostos desconhecidos, resistindo à tentação de apressar o passo. Ele olhou para trás.

Luzes piscantes apareceram na outra extremidade do quarteirão e pararam diante da casa de Haddad.

— Cotton?

— Eu sei. Só vamos sair daqui.

Malone sabia o que ela queria. Quando haviam retornado ao apartamento, ele também tinha notado. Não havia sangue na parede. Nem no chão. Nenhum fedor sufocante de morte.

E os corpos de Eva e George Haddad haviam sumido.

 

VALE DO RENO, ALEMANHA

17H15

Sabre olhou para os morros altos que envolviam a beira do rio. Margens íngremes e escarpadas seguiam dos dois lados da fenda estreita. Florestas de folhas efêmeras abundavam, as laterais dos morros substituídas apenas por esparso mato verde e videiras magras. Durante quase setecentos anos, as elevações maiores haviam sustentado florestas com nomes como Rheinstein, Sooneck e Pfalz. Rodeando a curva traiçoeira do Loreley, onde antigamente navios afundavam devido às rochas e corredeiras, muito acima da margem leste do rio, viu a fortificação redonda do Burg Katz. Mais adiante ficava Stolzenfels, com a cor castanha de seu calcário de dois séculos pouco discernível. A marca final de sua jornada apareceu alguns minutos depois. A silhueta inconfundível de Marksburg.

Tinha deixado Rothenburg havia duas horas e seguido a auto-estrada em direção ao norte, mantendo constantes 150 quilômetros por hora, reduzindo apenas nos arredores de Frankfurt, onde havia encontrado o início do trânsito pesado do fim de tarde. De lá, duas rotas serpenteavam para o norte até Colônia: a A60 e a que seguia o Reno pela N9, de duas pistas. Ele havia decidido que a primeira metade da viagem seria por aqui, ao longo do rio, mas o resto teria de ser pela auto-estrada. Por isso saiu lentamente do vale antigo e seguiu as placas azuis até a A60.

Uma rampa de entrada apareceu e ele acelerou entrando na auto-estrada. Acelerou o BMW alugado e se acomodou na pista mais à esquerda. Uma colcha de retalhos de colinas, florestas e pastos rolava de cada lado.

Olhou pelo retrovisor.

Continuava sendo seguido pelo Mercedes prateado.

A uma distância respeitável e protegido por três carros, o Mercedes poderia facilmente ter passado despercebido. Mas Sabre estivera esperando, e eles não o desapontaram, seguindo-o desde que deixara Rothenburg. Imaginou se o corpo na Baumeisterhaus teria sido achado. Matar Jonah provavelmente havia economizado o trabalho dos israelenses - a traição custava muito caro no Oriente Médio -, mas os judeus também haviam perdido a oportunidade de interrogar um traidor, o que podia ter azedado o humor deles.

Sabre amava as superauto-estradas alemãs - três pistas largas, poucas curvas, raras saídas. Perfeitas para velocidade e privacidade. Uma placa informou que Colónia ficava a 82 quilômetros. Ele sabia de sua posição. Logo ao sul de Koblenz, 15 quilômetros a leste do Reno, com o rio Mosela se aproximando rapidamente.

Trocou de pista.

Mais atrás, depois do Mercedes, notou outros quatro veículos. Bem na hora.

Durante nove anos estivera procurando a Biblioteca de Alexandria, e tudo em nome do Cadeira Azul. O velho era obcecado por encontrar o que quer que houvesse lá, e inicialmente Sabre achara a busca ridícula. Mas à medida que descobriu mais, passou a perceber que o objetivo não era tão despropositado quanto pensara a princípio. Ultimamente começara a pensar que talvez até houvesse algo a ser encontrado. Os israelenses certamente estavam interessados.

Alfred Hermann parecia concentrado. Sabre descobrira muitas coisas. Agora era hora de usar esse conhecimento.

Para si mesmo.

Meses antes havia sentido que esta poderia ser sua oportunidade. Só poderia esperar que Cotton Malone fosse bom a ponto de evitar o que quer que os israelenses aprontassem para ele em Londres. Eles haviam se movido depressa. Sempre agiam assim. Mas, por tudo que Sabre sabia e pelo que havia testemunhado, Malone era um especialista, ainda que fora de forma. Deveria ser capaz de cuidar da situação.

O viaduto apareceu à frente.

Viu o primeiro dos quatro sedans passar pelo Mercedes prateado, trocar de pista e se posicionar abruptamente na frente.

Mais dois carros ficaram rapidamente paralelos ao Mercedes pela pista da esquerda.

Outro se grudou ao pára-choque.

Todos iam rapidamente para a ponte.

O vão se estendia por mais de 800 metros, com o rio Mosela serpenteando para o leste 120 metros abaixo. Na metade, exatamente como Sabre havia instruído, o carro da frente freou e o Mercedes prateado reagiu, freando todo o possível.

No momento em que isso aconteceu, os dois carros adjacentes bateram do lado do motorista e o carro de trás abalroou o pára-choque.

A combinação de golpes, junto com a velocidade, forçou o Mercedes para a direita, contra a murada de proteção.

Num instante o carro voou.

Sabre imaginou o que estaria acontecendo.

O torque da aceleração forçaria os ocupantes contra os bancos. Eles provavelmente tentariam soltar os cintos de segurança, mas jamais teriam essa chance. E, se tivessem, aonde iriam? A queda de 120 metros demoraria alguns segundos, e o choque do piso do carro batendo no rio seria como atingir concreto. Nada sobreviveria. A água gelada penetrando na cabine mandaria rapidamente o carro para o fundo lamacento, onde a correnteza acabaria por arrastá-lo para o leste, na direção do Reno que corria ainda mais rápido. Pronto.

Os quatro carros passaram e o motorista do veículo de trás acenou para ele. Sabre retribuiu o gesto. Aqueles homens tinham custado caro, já que o acordo fora de última hora, mas valeram cada euro.

Continuou acelerando para o norte em direção a Colônia.

Os israelenses demorariam alguns dias para determinar o que havia acontecido. Um problema estava morto em Rothenburg e a equipe de campo deles estava sumida. Sabre se perguntou se fora identificado. Provavelmente não. Se eles conheciam sua identidade, por que perder tempo tirando fotos? Não. Ele ainda era uma mercadoria desconhecida.

A confusão reinava. Em Israel e, logo, na Áustria.

Gostou daquilo.

Era hora de converter esse caos em ordem.

 

WASHINGTON, D.C.

Stephanie se perguntou o que sua nova companheira havia planejado. Cassiopeia Vitt era inteligente, rica e ousada, uma mulher que podia se virar em situações difíceis. Essa não era uma combinação ruim. Desde que ela tivesse planejado tudo.

— Como vamos sair daqui? - perguntou enquanto desciam correndo pelo parque.

— Tem alguma idéia?

Na verdade, Stephanie tinha, mas não disse.

— Foi você que apareceu do nada.

Cassiopeia sorriu.

— Não precisa bancar a engraçadinha.

— Estamos sendo arrebanhadas. Presumi que você soubesse disso.

O Memorial de Lincoln ficava adiante, na extremidade oeste do parque. O Reflecting Pool bloqueava qualquer retirada para o sul. Ao norte, árvores altas ladeavam um bulevar movimentado.

— Contrariamente ao que você e Henrik acreditam - disse ela — não estou desamparada. Tenho dois agentes na Constitution Avenue. Tinha acabado de apertar o botão de pânico quando você apareceu.

— Má notícia. Aqueles dois homens sumiram.

— Como assim?

— Logo depois de você se sentar com Dixon. Eles foram embora. - O parque terminava na base do Memorial de Lincoln. Ela olhou para trás. Os dois perseguidores haviam parado.

— Aparentemente, estamos onde eles querem.

Um táxi veio rugindo na direção delas, vindo da Independence Avenue.

— Já era hora - disse Cassiopeia, balançando um lenço preto.

O carro parou e elas pularam para dentro.

— Liguei há alguns minutos. - Cassiopeia bateu a porta traseira e disse ao motorista: — Só ande por aí. Vou dizer quando deve nos deixar.

O táxi acelerou.

Stephanie enfiou a mão no bolso e encontrou o celular.

Digitou o número dos agentes que havia posicionado como apoio. Dois homens que logo seriam demitidos.

— Quer dizer por que me deixaram aqui? - perguntou calmamente ao telefone.

— Recebemos ordem de ir embora - respondeu o homem.

— Eu sou sua chefe. Quem me contradisse?

— O seu chefe. - Incrível.

— Qual?

— O procurador-geral. O próprio Brent Green veio e disse para irmos embora.

        

Malone jogou a mochila de George Haddad na cama. Ele e Pam estavam num hotel não muito longe do Hyde Park, um local familiar que ele havia escolhido porque vivia cheio e porque, como tinha aprendido, não há melhor lugar para se esconder do que no meio de uma multidão. Além disso, gostava da farmácia ao lado. Lá comprou gaze, antiséptico e curativos.

— Tenho de cuidar desse braço - disse ele.

— Como assim? Vamos achar um hospital.

— Eu gostaria que fosse simples assim.

Sentou-se ao lado dela.

— Vai ser simples assim. Quero um médico.

— Se você tivesse ficado lá em cima como eu disse, nada teria acontecido.

— Achei que você precisava de ajuda. Você ia matar aquele homem.

— Você não entende, Pam? Não bastou ter visto o George morrer? Aqueles FDPs estão falando sério. Vão matá-la assim que a virem.

— Eu fui ajudar - disse ela, baixinho.

E Malone viu nos olhos dela algo que não via desde muitos anos. Sinceridade. O que levantou um monte de perguntas que ele não queria fazer. E, tinha certeza, ela não queria responder.

— MMdicos envolveriam polícia, e isso é um problema. - Ele respirou fundo algumas vezes. Estava desgastado pelo cansaço e pela preocupação. |— Pam, há um monte de envolvidos aqui. Não foram os israelenses que pegaram o Gary...

— Como você sabe?

— Pode chamar de instinto. Minhas entranhas dizem que eles não fizeram isso.

— Sem dúvida eles mataram o velho.

— Motivo pelo qual eu o havia escondido.

— Haddad ligou para eles, Cotton. Você ouviu. Ele ligou, sabendo que eles viriam.

— Ele estava cumprindo uma penitência. Matar tem conseqüências. George encarou a dele hoje. - E o pensamento no amigo morto voltou com uma pontada renovada de arrependimento. — Preciso cuidar desse ferimento.

Tirou o xale dos ombros dela e notou que a toalha estava pegajosa de sangue.

— Abriu de novo?

Ela assentiu.

— No caminho para cá.

Malone tirou a compressa.

— O que quer que esteja acontecendo é complicado. George morreu por um motivo...

— O corpo dele sumiu, Cotton. Junto com o da mulher.

— Parece que os israelenses limparam a sujeira depressa. - Ele examinou cuidadosamente o braço e viu que o corte era mesmo superficial.         — O que só prova o que estou dizendo. Há diversos envolvidos. Pelo menos dois, talvez três, possivelmente quatro. Israel não tem o hábito de matar agentes americanos. Mas as pessoas que assassinaram Lee Durant não parecem se importar. É quase como se estivessem procurando encrenca. E isso os israelenses nunca fazem.

Malone se levantou e entrou no banheiro. Quando voltou, abriu um vidro de anti-séptico e entregou uma toalha limpa a ela.

— Morda isto.

Um ar perplexo surgiu no rosto de Pam.

— Por quê?

— Preciso desinfetar o ferimento e não quero que ninguém escute você gritar.

Os olhos dela se arregalaram.

— Esse negócio dói?

— Mais do que você pode imaginar.

 

Stephanie desligou o celular. O próprio Brent Creen veio e disse para irmos embora. O choque enrijeceu sua coluna, mas décadas no negócio de espionagem não permitiram que nada em suas feições demonstrasse a surpresa.

Encarou Cassiopeia do outro lado do banco.

— Acho que, no momento, você é a única pessoa em quem posso confiar.

— Você parece desapontada.

— Não a conheço.

— Não é verdade. Na França você me verificou.

Cassiopeia estava certa - ela fora investigada, e Stephanie ficara sabendo que a beldade morena havia nascido em Barcelona, 37 anos antes. Meio muçulmana, mas não considerada devota, Cassiopeia possuía diplomas em engenharia e história medieval. Era a única acionista e dona de um conglomerado multicontinental com sede em Paris, envolvido num amplo espectro de empreendimentos internacionais valendo vários bilhões de dólares. Seu pai mouro havia fundado a empresa e ela herdara o controle, mas envolvia-se pouco com o funcionamento cotidiano. Além disso, era presidente de uma fundação holandesa que trabalhava junto com as Nações Unidas na luta contra a Aids e a fome no mundo, em particular na África. Stephanie sabia, por experiência própria, que Vitt evitava pouca coisa e era capaz de usar um fuzil com a precisão de um atirador de elite. Às vezes ousada demais para seu próprio bem, Cassiopeia tivera ligações com o falecido marido de Stephanie e sabia mais sobre a vida pessoal de Stephanie do que esta gostaria que qualquer pessoa soubesse. Mas confiava na mulher. Sem qualquer dúvida. Thorvaldsen havia escolhido com sabedoria ao mandá-la.

— Tenho um problema sério.

— Isso já sabemos.

— E Cotton está encrencado. É imperativo que eu faça contato com ele.

— Henrik não teve notícias dele. Malone disse que ligaria quando estivesse pronto, e você o conhece melhor que ninguém.

— E o Gary?

— É como o pai. Durão. Está em segurança com Henrik.

— Onde está Pam?

— Voltando para a Geórgia. Foi com Malone para Londres e viajaria a partir de lá.

— Os israelenses também estão em Londres. Um esquadrão de assassinos.

— Cotton é adulto. Pode cuidar disso. Temos de decidir o que fazer com o seu problema.

Stephanie também estivera pensando nessa questão. O próprio Brent Green veio e disse para irmos embora. O que poderia explicar por que a Polícia do Capitólio não havia aparecido. Em geral ela estava em toda parte. Olhou para fora do táxi e viu que estavam perto do Dupont Circle e de seu hotel.

— Temos de garantir que não fomos seguidas.

— O metrô poderia ser um modo melhor de ir.

Ela concordou.

— Para onde vamos? - perguntou Cassiopeia.

Stephanie olhou para a pistola de ar enfiada sob o casaco de Cassiopeia.

— Você tem mais dardos que põem as pessoas para dormir?

— Um monte.

— Então sei exatamente aonde precisamos ir.

 

LONDRES

19H30        

Malone ficou olhando Pam dormir. Estava afundado numa poltrona ao lado da janela do quarto do hotel. A mochila de George Haddad estava em seu colo. Ele estivera certo em relação ao anti-séptico: Pam havia mordido com força a toalha enquanto ele o passava no ferimento. Lágrimas cresceram em seus olhos, mas ela havia sido forte. Nenhum som demonstrou sua agonia. Sentindo-se mal por causa dela, Malone lhe trouxera uma blusa nova da butique do saguão.

Ele também estava cansado, mas seus "nervos do Setor", como ele os chamava, forneciam energia interminável aos músculos. Podia se lembrar de ocasiões em que passava dias sem comer, o corpo carregado de adrenalina, o foco fixo em permanecer vivo e fazer o serviço. Pensara que aquela empolgação era coisa do passado. Algo que nunca mais experimentaria.

E aqui estava.

No olho do furacão.

As últimas horas poderiam ter sido um pesadelo horrendo, só que, de um jeito nada onírico, os acontecimentos se repassavam com clareza em sua mente. Seu amigo George Haddad fora morto bem diante de seus olhos. Pessoas com objetivos estavam atrás de alguma coisa. Nada disso seria de sua conta num outro momento. Mas algumas daquelas pessoas haviam seqüestrado seu filho e explodido sua livraria. Não. Isso era pessoal.

Malone devia a eles.

E, como Haddad, pretendia pagar as dívidas.

Mas precisava saber mais.

Haddad fora enigmático em seus comentários tanto antes quanto depois do aparecimento dos israelenses. Pior ainda, não terminara de explicar o que havia notado anos antes - o que, exatamente, motivava Israel a matá-lo. Esperando que a mochila de couro em seu colo contivesse as respostas, desafivelou as correias e tirou um livro, três cadernos e quatro mapas.

O livro era um volume do século XVIII, com capa de couro trabalhado e quebradiça como pele seca ao sol. Nada do título era legível, por isso ele abriu cuidadosamente a capa e leu a folha de rosto.

Jornada de um herói, de Eusebius Hieronymus Sophronius.

Examinou as páginas.

Um romance escrito havia mais de duzentos anos, num estilo pouco imaginativo e pedante. Malone se perguntou sobre a importância daquilo e torceu para que os cadernos explicassem.

Folheou cada um deles.A letra apertada era de Haddad, escrita em inglês. Leu com atenção.

 

... As pistas que foram deixadas pelo Guardião se mostraram perturbadoras. A saga do herói é difícil. Acho que fui o idiota. Mas não o primeiro. Thomas Bainbridge também foi um homem tolo. Na última parte do século XVIII, ele aparentemente recebeu um convite para a biblioteca e completou a saga do herói. Uma condição para o convite deve ser que a visita fique em segredo. Os Guardiões não passaram dois milênios protegendo seu tesouro só para que ele fosse revelado por um convidado. Mas Bainbridge violou a confiança e escreveu sobre sua experiência. Num esforço para aliviar a traição, fez sua narrativa em forma de ficção intitulada, de modo pouco curioso, Jornada de um herói.

O livro foi publicado em edição limitada e mal foi percebido. Na época de Bainbridge, o mundo estava atulhado de narrativas fantásticas (romances que recebiam pouco respeito), assim, a jornada do protagonista a uma biblioteca mítica foi recebida com pouco entusiasmo. Encontrei um exemplar há três anos, que roubei de uma propriedade em Gales. Sua leitura oferece poucas idéias. Mas Bainbridge não pôde resistir a uma última violação da confiança que lhe foi dedicada pelos Guardiões. Nos anos anteriores à sua morte,ergueu um caramanchão no jardim de sua mansão em Oxfordshire. No mármore gravou a imagem de uma pintura e letras romanas. A pintura, de Nicolas Poussin, era conhecida originalmente como A felicidade vencida pela morte, mas o nome, mas comum hoje em dia é Os pastores da Arcádia II.

 

Malone conhecia pouco sobre Poussin, mas já ouvira o nome. Felizmente, num dos cadernos, Haddad havia dado alguns detalhes.

Poussin era uma alma perturbada, parecida com Bainbridge. Nasceu na Normandia em 1594 e os primeiros trinta anos de sua vida foram de sofrimentos e atribulações. Sofreu com a falta de patronos, com cortesões que não apreciavam seu trabalho, saúde ruim e dívidas. Até mesmo o trabalho no teto da Grande Galeria do Louvre o deixou pouco inspirado.

Só quando trocou a França pela Itália em 1642 aconteceu uma mudança. A viagem, que normalmente demoraria algumas semanas, custou a Poussin quase seis meses. Assim que chegou a Roma, começou a pintar com novo estilo e confiança, um estilo que não passou despercebido e rapidamente lhe rendeu o rótulo do mais celebrado artista de Roma. Muitos especularam que, em algum ponto de sua viagem, Poussin ficou à par de um grande segredo. De modo interessante, quando Os pastores da Arcádia foi terminado, o patrono que havia encomendado o quadro, o cardeal Rospigliosi, mais tarde papa Clemente IX, optou por não expor a obra, mantendo-a em seu apartamento particular.

Rospigliosi era um homem artístico, com interesse nas coisas ocultas e esotéricas. Possuía uma notável biblioteca particular e, com o tempo, os historiadores o rotularam de "o papa livre-pensador".

Uma pista do que Poussin pode ter experimentado pessoalmente pode ser encontrada numa carta escrita seis anos depois de terminado Os pastores da Arcádia. O homem que a escreveu, um padre, irmão do ministro das finanças de Luís XIV, achava que o que ficara sabendo com Poussin poderia ser do interesse da monarquia francesa. Encontrei a carta há alguns anos, em meio aos arquivos da família Cossé-Brissac:

“Ele e eu discutimos certas coisas, que com calma poderei explicar-lhe em detalhes - coisas que lhe darão, por intermédio do monsieur Poussin, vantagens que até mesmo reis teriam grande dificuldade para retirar dele, e que, segundo ele, é possível que mais ninguém descubra nos próximos séculos. E mais, essas são coisas tão difíceis de descobrir que nada atualmente nesta terra pode ser mais afortunado nem igual.”

Tremenda declaração - e enigmática, também. Mas o que Bainbridge ergueu em seu jardim é mais enigmático ainda. Depois de terminar Os pastores da Arcádia, por algum motivo inexplicável, Poussin pintou a imagem reversa do quadro no que foi rotulado de Os pastores da Arcádia II. Foi isso que Thomas Bainbridge escolheu para seu baixo-relevo em mármore. Não o original, mas a contrapartida.

Bainbridge era inteligente, e durante duzentos anos seu monumento, cheio de simbolismos, ficou na obscuridade.

 

Malone continuou lendo, a mente perdida num labirinto de possibilidades. Infelizmente, Haddad não revelou muito mais. O resto das anotações abordava o Velho Testamento, suas traduções e as incoerências narrativas. Nenhuma palavra sobre o que Haddad poderia ter notado e que gerara tamanho interesse. Nem havia qualquer mensagem de um Guardião, nenhum detalhe de qualquer saga de herói, apenas uma rápida referência no fim de um dos cadernos.

Na sala de estar da mansão de Bainbridge há mais da arrogância do proprietário. O título é mais particularmente reflexivo. A epifania de São Jerônimo. Fascinante e adequado, já que grandes sagas geralmente começam com uma epifania.

Era um pouco mais, mas mesmo assim restavam muitas perguntas sem respostas. E Malone havia aprendido que lutar com perguntas que não possuíam respostas era o modo mais rápido de imobilizar o cérebro.

— O que está lendo?

Ele levantou os olhos. Pam ainda estava deitada na cama, a cabeça no travesseiro, os olhos abertos.

— O que George deixou.

Ela sentou-se lentamente, afastou o sono dos olhos e olhou o relógio.

— Quanto tempo fiquei apagada?

— Cerca de uma hora. Como está o braço?

— Doendo.

— Vai doer durante alguns dias.

Ela esticou as pernas.

— Quantas vezes você levou tiros, Cotton? Três?

Ele assentiu.

— Não se pode esquecer de nenhum deles.

— Nem eu. Não sei se lembra, mas eu cuidei de você. Tinha cuidado mesmo.

— Eu amava você - disse ela. — Sei que pode não acreditar. Mas eu amava.

— Deveria ter me contado sobre o Gary.

— Você me magoou com o que fez. Nunca entendi por que teve de me trair. Por que eu não bastava.

— Eu era jovem. Idiota. Cheio de mim. Faz vinte anos, pelo amor de Deus. E depois disso me arrependi. Tentei ser um bom marido. Tentei mesmo.

— Quantas mulheres houve? Você nunca disse. - Ele não ia mentir.

— Quatro. Todas duraram apenas uma noite. - Agora ele queria saber.             — E você?

— Só um. Mas me encontrei com ele durante vários meses.

Aquilo doeu.

— Você o amava?

— Tanto quanto uma mulher casada pode amar alguém que não é o marido.

Ele entendeu o argumento.

— Gary resultou disso. - Ela parecia estar lutando com um ponto de interrogação que ficava retornando do passado. — Quando olho para o Gary, parte de mim fica com raiva do que eu fiz, que Deus me ajude, mas parte de mim agradece, também. Gary estava sempre presente. Você ia e vinha.

— Eu amava você, Pam. Queria ser seu marido. Estava realmente arrependido do que havia feito.

— Isso não bastou - murmurou ela, os olhos no chão. — Eu não sabia na época, mas acabei percebendo que nunca bastaria. Por isso ficamos separados cinco anos antes de nos divorciarmos. Eu queria o nosso casamento, mas ao mesmo tempo não queria.

— Você me odiava tanto assim?

— Não. Eu odiava a mim mesma, pelo que eu havia feito. Demorei anos para perceber isso. Ouça quem sabe das coisas: uma pessoa que se odeia tem um problema enorme. Simplesmente não percebe isso.

— Por que não me contou sobre o Gary quando tudo aconteceu?

— Você não merecia a verdade. Pelo menos era o que eu pensava. Só no último ano percebi o erro. Você me traiu, eu traí você, mas fiquei grávida. Você está certo. Eu deveria ter contado há muito tempo. Mas isso é a maturidade falando e, como você disse, nós dois éramos jovens e idiotas.

Ela ficou quieta. Ele não se intrometeu.

— Por isso fico com raiva de você, Cotton. Não posso me amaldiçoar. Mas também foi por isso que finalmente contei sobre o Gary. Você sabe que eu não precisava dizer uma palavra e você nunca saberia de nada, não é? Mas eu queria consertar. Queria fazer as pazes com você...

— E com você mesma.

Ela assentiu devagar.

— Acima de tudo. - Sua voz ficou embargada.

— Por que você foi atrás de mim quando saí da casa do Haddad? Você sabia que haveria um tiroteio.

— Digamos que foi outro gesto idiota.

Mas ele sabia que não era isso. Estava na hora de dizer a verdade.

— Você não pode voltar para Atlanta. Um homem a estava seguindo no aeroporto. Por isso voltei.

O rosto dela estava fixo num olhar pensativo.

— Você deveria ter me contado.

— É, deveria.

— Por que alguém me seguiria?

— Estão se preparando para outra oportunidade. Talvez uma ponta solta que precise ser amarrada.

Malone viu que ela havia entendido.

— Eles querem me matar?

Malone deu de ombros.

— Não faço idéia. Esse é o problema. Estamos tentando adivinhar.

Ela se deitou na cama, aparentemente cansada, dolorida e perplexa demais para discutir.

— O que você vai fazer? Haddad está morto. Os israelenses deveriam ir embora.

— Isso nos dá um campo aberto para descobrir o que George estava procurando. Aquela saga do herói. Ele deixou este material de propósito. Queria que fôssemos lá.

Ela acomodou a cabeça no travesseiro.

— Não. Ele queria que você fosse.

Malone viu-a se encolher de dor.

— Deixe eu arranjar um pouco de gelo para esse braço. Vai  ajudar.

— Não vou discutir.

Ele se levantou, pegou o balde vazio e foi até a porta.

— Eu gostaria de saber por quais coisas vale a pena morrer - disse ela.

Malone parou.

— Você ficaria surpresa ao ver como pode ser uma coisa pequena.

— Acho que vou ligar para o Gary enquanto você estiver fora. Quero ver se ele está bem.

— Diga que sinto falta dele.

— Ele está bem, lá?

— Henrik vai cuidar bem do garoto. Não se preocupe.

— Então onde vamos começar a procurar?

Boa pergunta. Mas quando olhou para o conteúdo da mochila do outro lado do quarto, soube que só havia uma resposta.

 

LONDRES

21H

Sabre olhou para a noite do outro lado da janela. Sua agente, que estivera esperando a chegada de Malone no aeroporto de Heathrow, havia seguido o ex-agente até esse apartamento, que ficava num sólido quarteirão de construções com telhados triangulares que certamente abrigavam vidas organizadas, boa ordem e privacidade cuidadosa. Tipicamente inglês.

Sua agente também tinha ouvido tiros dentro do prédio e assistido a um tiroteio que ocorrera em seguida entre Malone e outro homem, e a ex-mulher de Malone fora acertada de raspão por uma bala. Em seguida, o atacante havia fugido, e Malone durante o qual a ex-mulher haviam retornado ao prédio, antes de saírem com uma mochila de couro.

Isso havia sido horas antes, e Sabre não tivera notícias da agente desde então. Claro que ele estivera num vôo de Colônia para Londres durante a maior parte desse tempo, mas mesmo assim ela já deveria ter informado alguma coisa.

Estava exausto mas energizado, à medida que seu objetivo se aproximava cada vez mais.

Havia conseguido entrar facilmente no apartamento de George Haddad, perguntando a si mesmo se Haddad estaria lá, mas não havia ninguém. Mapas cobriam as paredes. Com sua microlanterna, Sabre examinara aquele material variado, mas as localizações - no Oriente Médio - não eram surpreendentes. Muitos livros e pilhas de papéis desorganizados também abordavam o assunto do dia.

A Biblioteca de Alexandria.

Durante uma hora havia examinado o material na pálida penumbra da microlanterna. Pensou no destino de Haddad.

O sujeito que Cotton Malone havia enfrentado na rua certamente era israelense. Em Rothenburg, Jonah tinha deixado claro que havia um esquadrão de assassinos indo para Londres. Será que Malone teria interrompido o trabalho deles? Será que eles tinham terminado a tarefa? Ou será que Haddad havia fugido e se escondido? Impossível saber, já que sua agente, sensata, havia seguido Malone.

Nenhum sentimento de triunfo o dominou, ainda que ele tivesse conseguido localizar Haddad exatamente de acordo com o plano. Só podia esperar que sua agente tivesse feito o trabalho igualmente bem.

Ele havia deixado para o final, mas o próximo objetivo era o computador. Assim, ligou a máquina e examinou a tela.

Apesar de toda a bagunça no apartamento, Haddad parecia ser um meticuloso organizador eletrônico.

Sabre abriu alguns arquivos e olhou.

Haddad havia pesquisado a Biblioteca de Alexandria em grandes detalhes. Mas, de modo interessante, também havia estudado os Guardiões. Alfred Hermann contara sobre eles a Sabre. Jonah preenchera algumas lacunas. Mas um dos arquivos de Haddad oferecia mais ainda.

“... Suas origens são desconhecidas, perdidas devido ao absurdo de homens antigos que, sem impunidade, apagaram a memória humana.

No século II, o homem havia dominado as artes da guerra e da tortura. Em muitas partes do mundo impérios haviam sido formados, o que gerou leis e uma certa segurança. Mas nenhum desses conceitos protegeu as pessoas de suas próprias regras. A religião se formou e os sacerdotes se tornaram aliados voluntários dos déspotas. O Egito foi um dos lugares onde aconteceu essa situação grotesca. Mas em algum ponto do século II, surgiu uma ordem religiosa egípcia que cultuava não o poder, mas sim a preservação do conhecimento.

Uma forma grosseira de vida monástica havia começado, onde homens de mentes e objetivos parecidos se reuniam.

Esses locais eram intencionalmente isolados e notoriamente evitados. Este grupo em particular teve sorte. Seus membros trabalhavam na Biblioteca de Alexandria como escriturários e guardas. A partir desses postos de serviço era possível o acesso a tudo, e à medida que a raça humana prosperava e aprendia mais sobre como aniquilar uns aos outros, esse grupo se recolheu em si mesmo.

Originalmente apenas copiavam textos, mas com o tempo passaram a roubar. O simples acervo da biblioteca (várias centenas de milhares de manuscritos) obrigava a decisões, mas nos trezentos anos seguintes, à medida que a biblioteca ia perdendo a importância para os poderosos, roubar textos ficou mais fácil, em particular porque não existiam inventários precisos. Na época da invasão muçulmana no século VII, os Guardiões possuíam boa parte da Biblioteca de Alexandria. Foi então que eles desapareceram, ressurgindo de tempos em tempos, oferecendo convites a alguns para se unirem a eles e aprenderem.”

 

Sabre continuou lendo, imaginando como George Haddad havia conseguido obter essas informações detalhadas.

Aquele palestino parecia cheio de surpresas.

Um movimento no canto do olhar pôs seus sentidos em alerta. As sombras se tornaram vivas. Uma forma escura se esgueirou para perto.

Suas mãos saíram do teclado. Infelizmente ele não portava uma arma. Virou-se, pronto para lutar.

Uma mulher se materializou na luz da tela do computador.

Sua agente.

— Esse tipo de idiotice pode deixar você machucada - disse ele.

— Não estou no clima.

Sabre a empregava regularmente para ajudar em toda a Inglaterra. Ela possuía ossos esguios e feições finas. Hoje, seu cabelo preto estava bem escovado e preso numa trança grossa.

— Onde você esteve? - perguntou ele.

— Seguindo Malone. Eles estão num hotel perto do Hyde Park.

— E Haddad?

Ela balançou a cabeça.

— Não sei. Fiquei com Malone. Ele se arriscou ao voltar aqui em cima, já que a polícia estava chegando, e foi embora com a tal mochila.

Sabre admirou os instintos dela.

— Ainda precisamos achar o palestino.

— Ele vai voltar, se já não estiver morto. Você parece diferente.

Os caracóis escuros e brilhantes e as roupas largas haviam sumido. Em vez disso, o cabelo estava curto, batido pelo vento, e de um castanho-claro. Sabre estava bem vestido, com jeans e uma camisa de algodão sob uma jaqueta de pano. Antes de sair da Alemanha, havia informado ao Cadeira Azul o que havia descoberto, depois feito a mudança física - tudo parte de seu plano cuidadosamente concebido, do qual Alfred Hermann sabia muito pouco.

— Você aprova? - perguntou ele.

— Gostava do outro jeito.

Ele deu de ombros.

— Talvez da próxima vez. O que está acontecendo?

— Pedi a uma pessoa para vigiar o hotel. Vai ligar se Malone fizer alguma coisa.

— Nada mais sobre os israelenses?

— O homem deles saiu correndo daqui.

Sabre olhou ao redor. Talvez fosse simplesmente esperar a volta de Haddad. Parecia o caminho mais fácil.

Definitivamente precisava de tudo que estava no computador de Haddad, mas não queria levar a máquina. Era um trambolho. Uma cópia seria melhor, e ele notou um pen drive no meio do entulho. Pegou o aparelho e conectou numa porta USB vazia.

Verificou o drive. Vazio.

Alguns cliques do mouse, e ele havia copiado todos os arquivos do disco rígido.

Depois notou outra coisa, atrás do monitor. Uma minúscula luz vermelha.

Olhou mais perto, em meio à confusão de papéis, e viu um gravador de bolso sobre a mesa. Levantou-o e não notou diferença na cobertura de poeira que havia sobre a mesa. O que significava que o aparelho fora posto ali recentemente.

A fita havia acabado, mas a energia continuava ligada.

Apertou o botão de rebobinar.

Sua agente ficou em silêncio.

Apertou o PLAY.

Todo o encontro entre Malone, Haddad e, depois, os israelenses fora gravado. Ele ouviu, pasmo, o assassinato de Haddad. A última coisa que escutou foi a declaração de Cotton Malone de que pretendia matar o filho-da-puta.

Desligou o aparelho.

— Haddad está morto? - perguntou a mulher. — Foi morto aqui? Por que não há uma cena de crime?

— Presumo que os israelenses tenham feito uma limpeza antes da chegada da polícia.

— E agora?

— Temos Malone. Vejamos aonde ele nos leva.

 

Malone saiu do quarto e andou pelo corredor. Antes havia notado uma máquina de gelo, o que era surpreendente. Mais e mais conveniências americanas pareciam estar invadindo os hotéis europeus.

Sentia raiva de si mesmo por ter posto Pam em perigo. Mas que escolha tinha na ocasião? Não poderia deixá-la em Heathrow sendo seguida por um homem. E quem era? Estaria envolvido com os que haviam seqüestrado Gary?

Parecia lógico. Mas ele ainda sabia muito pouca coisa. Os israelenses haviam reagido prontamente ao sinal de Haddad de que estava vivo. No entanto, Pam estava certa.

Com Haddad morto, os interesses deles estavam protegidos, seu problema estava resolvido. Mesmo assim, Pam é que fora seguida. Não ele.

Por quê?

Encontrou a máquina de gelo e descobriu que não estava funcionando. Ainda que o compressor fizesse barulho, não havia gelo dentro. Bem parecido com os Estados Unidos também, pensou.

Empurrou a porta da escada e desceu um andar.

Ali, a máquina estava cheia de gelo. Ficou parado num cubículo junto ao corredor e encheu o balde.

Ouviu a porta de um dos quartos se fechar com estrondo e, em seguida, vozes. Ainda estava pegando o gelo quando dois homens passaram pelo cubículo, falando empolgados.

Virou-se para ir embora e viu o perfil de um dos homens, junto com o corpo magro e a pele queimada de sol. O sujeito de Heathrow.

Aqui, um andar abaixo de onde eles estavam hospedados.

Recuou para o cubículo e espiou pela porta, vendo os dois homens entrarem no elevador. Subindo.

Correu para a escada e subiu aos saltos. Abriu a porta no instante em que o elevador soltava um pin e os homens saíam.

Passou pela porta e espiou cuidadosamente o corredor. Viu um dos homens pegar uma bandeja usada de serviço de quarto no tapete e equilibrá-la na mão. O outro pegou um revólver de cano curto. Iam direto para o quarto onde Pam estava.

Malone xingou-se.

A arma de Haddad estava na mesa do quarto. Ele não a havia trazido. Isso é que era esperteza. Teria de improvisar.

Os homens pararam junto à porta. O que estava com a arma bateu, depois ficou de lado. O outro fingiu que era garçom, com a bandeja equilibrada numa das mãos.

Outra batida.

Talvez Pam ainda estivesse ao telefone com Gary. O que lhe daria o momento de que precisava.

— Serviço de quarto - ouviu o homem dizer. Diferentemente dos hotéis americanos, nos quais os olhos mágicos eram padrão, os ingleses geralmente não os tinham, e este hotel não era exceção. Malone só podia esperar que Pam não fosse idiota o bastante para virar a maçaneta.

— Tenho um pedido de comida para entregar - disse o homem em voz alta.

Pausa.

— Um cavalheiro fez o pedido.

Droga. Pam poderia acreditar que ele havia feito o pedido enquanto ela estava dormindo. Precisava agir. Levantou o balde de gelo para esconder o rosto e começou a andar pelo corredor.

— A comida é para este quarto - estava explicando o sujeito.

Ele ouviu a tranca sendo aberta.

Espiando ao redor do balde levantado, viu o homem armado notá-lo. A arma foi escondida imediatamente. Malone usou esse instante de relaxamento e jogou o balde de gelo contra o rosto do homem armado, depois mandou o punho direito contra o queixo do que estava com a bandeja. Sentiu o osso estalar e o sujeito caiu no tapete, espalhando a bandeja e o conteúdo.

O do gelo se recuperou do choque inicial e estava levantando a arma quando Malone lhe deu dois socos na cabeça e uma joelhada no peito.

O sujeito despencou e ficou imóvel. A porta do quarto se abriu. Pam olhou para ele.

— Por que você ia abrir a porta? - perguntou ele.

— Achei que você tinha pedido comida.

Ele pegou a arma e enfiou-a no cinto.

— E eu não teria lhe avisado? - Em seguida, revistou rapidamente os homens, mas não encontrou qualquer identificação.

— Quem são eles? - perguntou Pam.

— Este é o que estava seguindo você no aeroporto.

Malone agarrou os braços do sujeito e o arrastou para o quarto. Depois segurou as pernas do outro e puxou-o para dentro.

— Você é uma mulher teimosa. - E chutou a porta, fechando-a.

— Eu estava com fome.

— Como está o Gary?

— Bem. Mas não consegui falar muita coisa.

Um dos homens começou a gemer. Eles logo ficariam conscientes. Malone pegou a mochila de couro e a arma de Haddad.

— Vamos embora.

— Vamos?

— A não ser que você queira estar por aqui quando eles acordarem.              - Malone viu que essa perspectiva não a agradava.

— Você tem uma arma - lembrou ela.

— Que não quero usar. Isto aqui não é o velho oeste. Estamos num hotel, com pessoas. Então vamos fazer o que é inteligente e ir embora. Há muitos hotéis nesta cidade.

Ela pegou o xale e envolveu os ombros com cuidado.

Deixaram o quarto e pegaram rapidamente o elevador.

Embaixo, saíram numa noite gélida. Ele examinou os arredores e concluiu que seria difícil saber se estavam sendo seguidos. Simplesmente havia muita coisa para olhar. A estação de metrô mais próxima ficava a dois quarteirões dali, por isso foi naquela direção, decidido a permanecer alerta.

Sua mente borbulhava.

Como o homem de Heathrow os havia encontrado? Mais perturbador ainda: como o sujeito que fingia ser garçom sabia que ele não estava no quarto?

Um cavalheiro fez o pedido.

Encarou Pam enquanto andavam.

— Você disse ao sujeito do outro lado da porta que não tinha pedido nada?

Ela assentiu.

— Foi então que ele disse que você pediu.

O que não estava totalmente correto. Ele dissera que um cavalheiro tinha feito o pedido.

Mas mesmo assim. Estaria adivinhando? De jeito nenhum.

 

WASHINGTON, D.C.

21H

Stephanie guiou Cassiopeia pelo bairro silencioso. Nas últimas horas, tinham ficado escondidas no subúrbio. Ela dera um telefonema para a sede do Setor de um telefone público num restaurante Cracker Barrei e ficara sabendo que Malone não fizera contato. O mesmo não podia ser dito em relação à Casa Branca. Haviam ligado três vezes do escritório de Larry Daley. Ela havia dito a seus funcionários que faria contato com ele na primeira oportunidade. Era uma coisa irritante, sabia. Mas que Daley ficasse imaginando que da próxima vez em que visse o rosto jovial de Stephanie, seria ao vivo pela CNN. Esse medo deveria bastar, por enquanto, para conter o subconselheiro de segurança nacional. Mas Heather Dixon e os israelenses eram outra história.

— Aonde vamos? - perguntou Cassiopeia.

— Cuidar de um problema.

O bairro era cheio de arquitetura beaux arts que estivera na moda, percebeu ela, entre os industriais do século XIX que haviam residido primeiro naquelas avenidas arborizadas. As fileiras de casas coloniais e as calçadas revestidas de pedra só faziam aumentar a sensação de riqueza no ar da noite.

— Não sou uma de suas agentes - disse Cassiopeia. — Gosto de saber em que estou entrando.

— Pode ir embora quando quiser.

— Bela tentativa. Não vai se livrar de mim tão facilmente.

— Então pare de fazer perguntas. Você interroga o Thorvaldsen assim?

— Por que não gosta dele? Na França você ficou discutindo o tempo todo com o sujeito.

— Olhe onde estou, Cassiopeia. Cotton está encrencado. Meu próprio pessoal me quer morta. Os israelenses e os sauditas estão atrás de mim. Você acha que é sensato eu gostar de alguém?

— Isso não é resposta à minha pergunta.

Não, não era. Mas ela não podia verbalizar a verdade. Que por causa da ligação de Thorvaldsen com seu falecido esposo, ele passara a conhecer seus pontos fortes e fracos, e perto dele ela se sentia vulnerável.

— Digamos que ele e eu nos conhecemos bem demais.

— Henrik está preocupado com você. Por isso pediu que eu viesse. Ele pressentiu encrenca.

— E agradeço por isso. Mas não significa que eu tenha de gostar dele.

Ela viu a casa, outra das muitas residências simétricas de tijolos com relevos, um pórtico de entrada e um teto de mansarda. Só havia luzes acesas nas janelas do térreo.

Examinou a rua.

Ainda silenciosa.

— Siga-me.

 

Alfred Hermann raramente dormia. Havia condicionado a mente, muito tempo antes, a funcionar com menos de três horas de descanso.

Não era velho o bastante para ter vivido pessoalmente a Segunda Guerra Mundial, mas guardava nítidas memórias de infância dos nazistas desfilando nas ruas de Viena. Nas décadas posteriores, havia lutado ativamente contra os soviéticos e desafiado seus regimes-marionetes que haviam dominado a Áustria. O dinheiro de Hermann datava dos Habsburgos e conseguira sobreviver a dois séculos de políticas voláteis. Nos últimos cinqüenta anos, a fortuna da família havia decuplicado, e boa parte desse sucesso poderia ser ligado à Ordem do Velo de Ouro. Estar intimamente associado a um grupo tão seleto de pessoas de todo o mundo trazia vantagens que seu pai e seu avô jamais haviam desfrutado. Mas estar no comando... isso proporcionava benefícios ainda maiores.

Porém, seu mandato estava chegando ao fim.

Depois de sua morte, a filha herdaria tudo. E o pensamento não era reconfortante. Certo, ela era como ele em alguns pontos. Ousada e decidida, apreciava o passado e cobiçava, com um entusiasmo semelhante ao dele, a mais preciosa mercadoria humana: o conhecimento. Mas permanecia sem polimento. Era uma obra inacabada. Uma obra que ele temia jamais ficar pronta.

Olhou para a filha que, como ele, dormia pouco. Havia lhe dado o nome de Margarete, o mesmo de sua mãe. Ela estava examinando a maquete da Biblioteca de Alexandria.

— Podemos encontrá-la? - perguntou ela em voz baixa. Ele chegou mais perto.

— Acredito que Dominick esteja perto. - Ela o avaliou com astutos olhos cinzentos.

— Não se pode confiar em Sabre. Não se pode confiar em nenhum americano.

Eles haviam tido essa discussão antes.

— Não confio em ninguém.

— Nem em mim?

Ele riu. Haviam tido essa discussão antes, também.

— Nem mesmo em você.

— Sabre tem liberdade demais.

— Por que pegar no pé dele? Nós lhe damos tarefas difíceis. Não é possível fazer isso e esperar que ele trabalhe do jeito que nós quisermos.

— Ele é um problema, mesmo com a engenhosidade americana e coisa e tal. Você simplesmente não sabe.

— Ele é um homem voluntarioso. Precisa de um objetivo. Nós lhe damos isso. Em troca, ele realiza nossos objetivos.

— Senti mais coisas nele ultimamente. Ele tenta mascarar a ambição, mas ela está ali. Você só precisa ficar atento.

Hermann pensou em provocá-la.

— Será que você se sente atraída por ele?

Ela zombou da pergunta.

— Isso nunca acontecerá. Na verdade, vou demiti-lo assim que você se for.

Hermann pensou na suposição dela, de que herdaria tudo.

— Não há garantia de que você será o Cadeira Azul. Essa escolha é feita entre os diretores.

— Eu estarei no Círculo. Garanto. Daí é um passo simples até onde você está.

Mas Hermann não tinha tanta certeza. Sabia dos contatos dela com os outros quatro diretores. Na verdade, os havia encorajado, como um teste. Sua riqueza ultrapassava em muito a dos outros em idade, volume e amplitude. As  instituições financeiras que ele controlava estavam tremendamente emaranhadas com outros sócios, inclusive três dos Cadeiras. Jamais algum deles ia querer que os outros soubessem dessa vulnerabilidade, e o preço do silêncio de Hermann era a lealdade deles. Ele havia manipulado suas fraquezas durante décadas, mas as tentativas da filha haviam sido débeis. De modo que era necessária uma palavra de cautela.

— Assim que eu tiver morrido, é verdade, Dominick terá de lidar com você, assim como você com ele. Mas não seja tão rápida. Você pode descobrir que homens com ele, com pouca emoção, sem moral, de coração ousado, são valiosos.

Esperava que ela estivesse escutando, mas temia, como sempre, que seus ouvidos permanecessem filtrados. A mãe de Margarete havia morrido quando ela estava com 8 anos e, em sua juventude, a filha parecera um produto dele - da costela, como ela costumava dizer -, mas a idade não havia amadurecido aquelas promessas antigas. Sua educação começara na França, continuara na Inglaterra e fora terminada na Áustria, e sua experiência nos negócios crescera nas diretorias das várias corporações de Hermann.

Mas os relatórios não haviam sido encorajadores.

— O que você faria se encontrasse a biblioteca? - perguntou ela. Hermann escondeu a diversão. Aparentemente, ela não queria mais falar de Sabre e de si mesma.

— Nem dá para imaginar os grandes pensamentos que existem lá.

— Ontem ouvi você falando sobre isso. Diga mais.

— Ah, o mapa de Piri Reis, de 1513, encontrado em Istambul. Eu estava falando disso. Não sabia que você estava escutando.

— Sempre escuto.

Ele riu da observação. Os dois sabiam que não era assim.

— Eu estava dizendo ao chanceler que o mapa foi desenhado numa pele de gazela por um almirante turco que havia sido pirata. Cheio de detalhes incríveis. O litoral da América do Sul está lá, mas os navegadores europeus ainda não haviam mapeado aquela região. O continente antártico também é mostrado, muito antes de ser coberto de gelo. Só recentemente, usando radares de solo, pudemos determinar o contorno daquele litoral. Mas a representação de 1513 é tão boa quanto a nossa. Na face do mapa, o cartógrafo anotou que usou mapas desenhados nos dias de Alexandre, senhor dos Dois Chifres. Pode imaginar? Talvez navegadores da antiguidade tenham visitado a Antártida milhares de anos atrás, antes de o gelo se acumular, e registrado o que viram.

A mente de Hermann redemoinhou com o que mais poderia ter se perdido nos campos da matemática, astronomia, geometria, meteorologia e medicina.

— O conhecimento não registrado é esquecido ou se torna turvo a ponto de não ser possível reconhecê-lo. Você sabe sobre Demócrito? Ele concebeu a idéia de que todas as coisas são feitas de um número finito de pequenas partículas. Hoje nós as chamamos de átomos, mas ele foi o primeiro a reconhecer sua existência e a formular a teoria atômica.

Escreveu setenta livros, sabemos disso a partir de outras referências, mas nenhum sobreviveu. E séculos se passaram antes que outros homens, em outros tempos, pensassem a mesma coisa.

"Não resta quase nada do que Pitágoras escreveu. Maneto registrou a história do Egito. A obra desapareceu. Galeno, o grande médico romano? Escreveu quinhentos tratados de medicina. Restam apenas fragmentos. Aristarco achava que o sol, e não a Terra, era o centro do universo. Mas Copérnico, que viveu setecentos anos depois, é o homem a quem a história credita essa revelação.”

Ele pensou em mais coisas. Eratóstenes e Strabo, geógrafos.

Arquimedes, físico e matemático. Zenódoto e sua gramática.

Calímaco, o poeta. Tales, o primeiro filósofo.

Todas as idéias deles se foram.

— Sempre foi assim - disse ele. — O conhecimento é a primeira coisa erradicada quando se obtém o poder. A história provou isso repetidamente.

— Então o que Israel teme?

Hermann sabia que ela acabaria chegando ao assunto.

— Talvez seja mais temor do que realidade - observou ela. — Mudar o mundo é difícil.

— Mas pode ser feito. Os homens... - ele fez uma pausa —... e as mulheres fizeram isso durante séculos. E a violência nem sempre provocou as mudanças mais monumentais. Freqüentemente foram meras palavras. A Bíblia mudou fundamentalmente a humanidade. O Alcorão também. A Carta Magna. A constituição americana. Bilhões de pessoas governam suas vidas segundo essas palavras. A sociedade foi alterada por elas. Não são tanto as guerras, mas os tratados que vêm em seguida, que realmente alteram o curso da história. O plano Marshall mudou o mundo mais expressamente do que a Segunda Guerra Mundial em si. As palavras são, de fato, as verdadeiras armas de destruição em massa.

— Você evitou minha pergunta - disse ela em tom brincalhão, que o fez lembrar da esposa morta havia muito.

— O que Israel teme? - repetiu ele.

— Por que não me diz?

— Talvez eu não saiba.

— Duvido.

Ele pensou em lhe contar tudo. Mas não havia sobrevivido sendo idiota. A língua solta fora a queda de muitos homens de sucesso.

— Digamos simplesmente que a verdade sempre é difícil de aceitar. Para as pessoas, para as culturas e até para as nações.

 

Stephanie foi na frente até o jardim dos fundos e ficou espantada por sua aparência bem cuidada. Havia flores em abundância. Ásteres coloridas, campânulas, varas-de-ouro, amores-perfeitos e crisântemos. Um terraço formava uma península, o piso de pedras repleto de móveis de ferro fundido e mais flores brotando em vasos decorativos.

Guiou Cassiopeia até o grosso tronco de um bordo alto, uma das três árvores frondosas que havia no jardim.

Olhou o relógio: 21h43.

Ela as levara tão longe devido a uma combinação de raiva e curiosidade, mas o passo seguinte era, irrefutavelmente, atravessar um limite.

— Esteja com a pistola preparada - sussurrou.

Cassiopeia enfiou um dardo no cano.

— Espero que você note minha obediência cega a essa idiotice.

Stephanie pensou no próximo passo.

Invadir a casa certamente era uma opção. Cassiopeia possuía as habilidades necessárias. Mas simplesmente bater à porta também funcionaria. Na verdade, ela gostava dessa abordagem. Mas o rumo foi determinado instantaneamente quando a porta dos fundos se abriu e uma forma preta caminhou para fora, em meio às pilastras esguias que sustentavam uma colunata estreita. O homem alto usava um roupão amarrado à cintura, os pés calçados com chinelos que faziam barulho no terraço.

Ela sinalizou para a arma, depois para a forma. Cassiopeia apontou e atirou.

Um estalo suave, depois um chiado acompanhou o vôo do dardo. A ponta encontrou o homem, que gritou enquanto a mão ia até o ombro. Ele pareceu mexer no dardo, depois ofegou e caiu. Stephanie correu até lá.

— Esse negócio funciona rápido.

— A idéia é essa. Quem é ele?

As duas olharam para o homem.

— Parabéns. Você acaba de atirar no procurador-geral dos Estados Unidos. Agora me ajude a arrastá-lo para dentro de casa.

 

QUINTA-FEIRA, 6 DE OUTUBRO

LONDRES

3H15

Sabre examinou o laptop. Nas últimas três horas, estivera estudando o que havia baixado do computador de George Haddad. E estava pasmo.

As informações certamente eram o que ele teria arrancado do próprio palestino, e sem o agravante de obrigar o árabe a falar. Aparentemente, Haddad passara anos pesquisando a Biblioteca de Alexandria, além dos míticos Guardiões, assimilando uma quantidade impressionante de dados.

Toda uma série de artigos se referia a um conde inglês chamado Thomas Bainbridge, de quem ele ouvira Alfred Hermann falar. Segundo Haddad, no final do século XVIII, Bainbridge visitou a Biblioteca de Alexandria, depois escreveu um romance sobre a experiência que, de acordo com as anotações, continha pistas para a localização da biblioteca.

Será que Haddad havia encontrado um exemplar?

Seria isso que Malone havia levado?

E havia a antiga propriedade de Bainbridge a oeste de Londres. Aparentemente, Haddad a visitara várias vezes e acreditava que havia mais pistas lá, em especial num caramanchão de mármore e em algo chamado A epifania de São Jerônimo. Mas nenhum detalhe explicava o significado das duas coisas. E havia a saga do herói.

Uma hora antes, ele havia encontrado um relato do que acontecera cinco anos antes na casa de Haddad, na Cisjordânia. Ele havia lido as anotações com interesse, e agora reorganizou os acontecimentos na mente, com a empolgação aumentada.

— Está dizendo que a biblioteca ainda existe? - perguntou Haddad ao Guardião.

— Nós a protegemos durante séculos. Salvamos o que se perderia devido à ignorância e à cobiça.

Hadad fez um gesto com o envelope que o visitante lhe havia entregado.

— Esta saga do herói mostra o caminho?

O homem assentiu.

— Para os que entendem, o caminho será óbvio.

— E se eu não entender?

— Então nunca mais nos veremos. Ele pensou nas possibilidades e disse:

— Temo que o que desejo descobrir ficará melhor se permanecer escondido.

— Por que diz isso? O conhecimento jamais deveria ser temido. Conheço seu trabalho. Também estudo o Velho Testamento. Por isso fui escolhido como seu Guardião. - O rosto do sujeito se iluminou. — Temos fontes que o senhor nem pode imaginar. Textos originais. Correspondências. Análises. De homens do passado distante, que sabiam muito mais que o senhor ou eu. Meu domínio do hebraico antigo não está no seu nível. Veja bem, para um Guardião, há níveis de progresso, e o único modo de ascender é por meio da realização. Como o senhor, sou fascinado pela interpretação cristã do Velho Testamento, como ele foi manipulado. Quero aprender mais, e o senhor pode me ensinar.

— E aprender o ajudará a ascender?

— Provar sua teoria seria uma grande realização para nós dois.

Então ele abriu o envelope.

 

Sabre rolou a imagem na tela até achar o conteúdo do envelope. Aparentemente, Haddad havia escaneado o documento. As palavras eram escritas em letra masculina, em ângulo inclinado, em latim. Por sorte, Haddad havia traduzido a mensagem. Sabre leu a saga do herói, o suposto caminho para a Biblioteca de Alexandria.

 

“Como são estranhos os manuscritos, grande viajante do desconhecido. Eles aparecem separadamente, mas para os que sabem, parece que as cores do arco-íris se tornam uma única luz branca. Como encontrar esse raio único? É um mistério, mas visite a capela junto ao Tejo, em Belém, dedicada ao nosso santo padroeiro. Comece a viagem nas sombras e termine na luz, onde uma estrela que se retira encontra uma rosa, fura uma cruz de madeira e converte prata em ouro. Encontre o lugar que forma um endereço sem lugar, onde é encontrado outro lugar. Depois, como os pastores do pintor Poussin, perplexos com o enigma, você será inundado pela luz da inspiração. Junte de novo as 14 pedras, depois trabalhe com esquadro e bússola para encontrar o caminho. Ao meio-dia, sinta a presença da luz vermelha, veja o rolo interminável da serpente vermelha de raiva. Mas cuidado com as letras. O perigo ameaça quem chega com grande velocidade. Se seu caminho permanecer fiel, a rota será segura.”

 

Sabre balançou a cabeça. Charadas. Não eram seu ponto forte. E ele não tinha tempo para lutar com elas. Havia examinado cada arquivo do computador, mas Haddad não decifrara a mensagem.

E isso era um problema.

Ele não era historiador, lingüista ou erudito bíblico. Alfred Hermann era o suposto especialista, mas Sabre se perguntou o quanto o austríaco realmente sabia. Os dois eram oportunistas, tentando aproveitar ao máximo uma situação única.

Mas por motivos diferentes.

Hermann estava tentando forjar um legado, colocar sua marca na Ordem do Velo de Ouro. Talvez até aplainar a ascensão de Margaret ao poder. Deus sabia que ela precisava de ajuda. Sabre sabia que ela seria eliminada assim que Hermann morresse. Mas se ele pudesse se antecipar a ela, ficar um passo adiante, fora do alcance, poderia ter sucesso.

Ele queria um passe direto para o topo, com todas as despesas pagas. Um assento à mesa. Barganhando o poder para se tornar sócio integral da Ordem do Velo de Ouro. Se a biblioteca perdida de Alexandria contivesse o que Alfred Hermann lhe dissera que poderia conter, possuí-la valeria mais do que qualquer fortuna familiar.

O celular tocou.

A tela de cristal líquido indicou que era sua agente. Já estava na hora. Atendeu.

— Malone está em movimento - disse ela. — Cedo demais. O que você quer que eu faça?

— Aonde ele foi?

— Pegou um ônibus para a estação de Paddington, depois um trem para o oeste.

— Oxfordshire fica na linha?

— Passa direto lá.

Aparentemente, Malone também estava curioso.

— Você arranjou aquela ajuda extra que eu pedi?

— Eles estão aqui.

— Espere na estação de Paddington. Estou indo.

Ele desligou o telefone.

Hora de começar a próxima fase.

 

Stephanie jogou uma jarra de água no rosto de Brent Green.

As duas haviam arrastado seu corpo frouxo para a cozinha e o amarrado numa cadeira com uma fita adesiva que Cassiopeia achou numa gaveta. O procurador-geral estremeceu voltando à consciência, sacudindo a cabeça para tirar a umidade dos olhos.

— Dormiu bem? - perguntou ela.

Green ainda estava voltando a si, por isso ela o ajudou com outro jorro d'água.

— Já chega - disse Green, as pálpebras totalmente abertas, o rosto e o roupão encharcados. — Presumo que haja um bom motivo para você ter decidido violar tantas leis federais. - As palavras saíram com a velocidade de melaço e o tom de um animador de enterros, ambas as coisas normais para Green.

Jamais ela o ouvira falar rápido ou alto.

— Diga você, Brent. Para quem está trabalhando?

Green olhou para as fitas que prendiam seus pulsos e tornozelos.

— E eu achava que estávamos fazendo progresso no nosso relacionamento.

— Estávamos, até que você me traiu.

— Stephanie, há anos me dizem que você é uma bomba prestes a explodir, mas sempre admirei essa característica. Porém, estou começando a entender a reclamação dos outros.

Ela chegou perto.

— Eu não confiava em você, mas você enfrentou o Daley, e eu achei que talvez, apenas talvez, eu estivesse errada.

—Tem alguma idéia do que aconteceria se meu pessoal da segurança viesse ver como estou? O que, por sinal, eles fazem toda noite.

— Bela tentativa. Você os descartou há meses. Disse que não eram necessários a não ser que o nível de ameaça se elevasse, coisa que não está acontecendo neste momento.

— E como sabe que não apertei o botão de pânico antes de ir para o terraço?

Ela tirou do bolso o transmissor.

— Eu apertei o meu, Brent, lá no parque, e sabe o que aconteceu? Absolutamente nada.

— Aqui pode ser diferente.

Ela sabia que Green, como todos os altos funcionários administrativos, portava um botão de pânico. O aparelho informava instantaneamente sobre algum problema a uma equipe de segurança próxima ou ao centro de comando do Serviço Secreto. Também podia servir como rastreador.

— Eu olhei suas mãos - disse ela. — As duas estavam vazias. Estava ocupado demais tentando descobrir o que o acertou.

O rosto de Green se enrijeceu e ele olhou para Cassiopeia.

— Você atirou em mim?

Ela fez uma reverência graciosa.

— Ao seu dispor.

— Qual é a substância química?

— Um agente de ação rápida que encontrei no Marrocos. Rápido, indolor e de ação curta.

— Posso atestar tudo isso. - Green virou-se de novo para Stephanie.             — Esta deve ser Cassiopeia Vitt. Ela conhecia Lars, seu marido, antes de ele se matar.

— Como é que você sabe disso? - Stephanie não havia contado a ninguém deste lado do Atlântico o que havia acontecido. Só Cassiopeia, Henrik Thorvaldsen e Malone sabiam.

— Pergunte o que veio perguntar - disse Green com decisão calma.

— Por que afastou meu pessoal de segurança? Você me deixou de bunda de fora para os israelenses. Diga que fez isso.

— Fiz.

A admissão a surpreendeu. Ela estava acostumada demais a mentiras.

— Sabendo que os sauditas tentariam me matar?

— Eu sabia disso também.

A raiva cresceu por dentro e ela lutou contra a ânsia de atacar, dizendo apenas:

— Estou esperando.

— Srta. Vitt - disse Green. — Está disponível para ficar de olho nessa mulher até que tudo isso acabe?

— Por que se importa? - explodiu Stephanie. — Você não é meu guardião.

— Alguém tem de ser. Ligar para Heather Dixon não foi inteligente. Você não está raciocinando.

— E preciso de você para me dizer isso?

— Olhe para si mesma. Aqui está você, agredindo a principal autoridade mantenedora da lei nos Estados Unidos a partir de pouca ou nenhuma informação. Seus inimigos, por outro lado, têm acesso a uma abundância de informações que estão usando com vantagem integral.

— O que, diabos, você está arengando? E não respondeu à pergunta.

— Verdade. Não respondi. Você queria saber por que tirei seus seguranças. A resposta é simples. Me pediram, e eu fiz.

— Quem pediu?

Os olhos de Green a examinaram com a expressão inabalável de um Buda.

— Henrik Thorvaldsen.

 

BAINBRIDGE HALL, INGLATERRA

5H20

Malone admirou o caramanchão de mármore no jardim.

Tinham pegado um trem em Londres e viajado 20 quilômetros para o norte, depois entraram num táxi na estação de trem na cidade próxima e foram para Bainbridge Hall. Ele havia lido todas as anotações de Haddad que estavam na mochila e folheado o romance, tentando entender o que estava acontecendo, lembrando-se de tudo o que ele e Haddad haviam discutido no correr dos anos. Mas havia chegado à conclusão de que o velho amigo havia levado as coisas mais importantes para a sepultura.

Acima se estendia um céu de veludo. Um frio vento noturno o enregelou. A grama bem aparada se estendia do jardim até um mar cor de estanho, com os arbustos formando ilhas de sombras. A água dançava numa fonte próxima. Ele havia se decidido por uma visita antes do amanhecer como o melhor modo de descobrir qualquer coisa e conseguira uma lanterna com o recepcionista do hotel.

O terreno não era cercado e, pelo que podia ver, não tinha alarmes. A casa em si, presumiu, seria outra coisa. Pelo que lera nas anotações de Haddad, a propriedade era um pequeno museu, dentre as centenas pertencentes à coroa britânica. Várias salas do térreo da mansão estavam iluminadas, e ele viu, através das janelas sem cortinas, o que parecia ser uma equipe de limpeza.

Voltou a atenção de novo para o caramanchão.

O vento farfalhou nas árvores e depois subiu para varrer as nuvens. O luar desapareceu, mas os olhos dele estavam totalmente acostumados à escuridão fantasmagórica.

— Você planeja me contar que negócio é esse? - perguntou Pam. Ela estivera num silêncio pouco característico durante toda a viagem.

Malone direcionou a luz para a imagem gravada no mármore.

— Isto é de uma pintura chamada Os pastores da Arcádia II. Thomas Bainbridge teve um bocado de trabalho para fazer com que ela fosse esculpida.

E contou o que Haddad havia escrito sobre a imagem, depois usou o facho da lanterna para acompanhar as letras embaixo.

 

D  O.V.O.S.A.V.V. M

 

— O que ele disse sobre isso? - perguntou Pam.

— Nem uma única palavra. Só que era uma mensagem e que há outras dentro da casa.

— O que certamente explica por que estamos aqui às 5 horas da manhã.

Ele captou a irritação.

— Não gosto de multidões.

Pam aproximou o olhar do mármore.

— Por que será que ele separou o D e o M desse jeito?

Malone não fazia idéia. Mas havia uma coisa que ele compreendia. A cena de Os pastores da Arcádia II mostrava uma mulher olhando, enquanto três pastores se reuniam ao redor de um túmulo de pedra, cada um apontando para as letras gravadas. ET IN ARCADIA EGO. Ele sabia a tradução.

E na Arcádia eu.

Uma inscrição enigmática que fazia pouco sentido. Mas ele já vira essas palavras. Na França. Contida num códice do século XVI descrevendo o que os cavaleiros templários haviam realizado em segredo nos meses anteriores à sua prisão em massa em outubro de 1307.

Et in arcadia ego.

Um anagrama para I tego arcana dei.

Eu escondo os segredos de Deus.

Contou a Pam sobre a frase.

— Você não pode estar falando sério - disse ela.

Malone deu de ombros.

— Só estou dizendo o que sei.

Precisavam explorar a casa. De uma distância segura no jardim, em meio a cinturões de altos cedros, ele examinou o térreo. Luzes se acendiam e apagavam enquanto o pessoal da limpeza trabalhava. As portas para o terraço dos fundos estavam abertas, apoiadas por cadeiras. Viu um homem sair carregando dois sacos de lixo, que jogou numa pilha, e depois desaparecer de novo lá dentro.Malone olhou o relógio. 5h40.

— Eles terão de terminar logo - disse. — Assim que saírem, devemos ter umas duas horas antes que alguém chegue para trabalhar. Este lugar só abre às 10h. - Ele ficara sabendo disso numa placa no portão principal.

— Não preciso dizer como isso é idiota.

— Você sempre quis saber o que eu fazia para viver, e nunca pude contar. Altamente secreto e aquela baboseira toda. Está na hora de descobrir.

— Eu gostava mais quando não sabia.

— Não acredito. Lembro como você ficava chateada.

— Pelo menos eu não tinha nenhum ferimento de bala.

Ele sorriu.

— Seu rito de passagem. - Depois sinalizou para ela ir. — Primeiro as damas.

 

Sabre ficou olhando as formas sombreadas de Cotton Malone e sua ex-mulher fundindo-se com as árvores atrás da Bainbridge Hall. Malone viera direto a Oxfordshire. Ótimo. Tudo se encaixava em sua curiosidade. Sua agente também fizera o serviço direito. Havia contratado os três homens extras que ele pedira e lhe entregado uma arma.

Respirou fundo algumas vezes e gostou do ar frio da noite, depois removeu a Sig Sauer do bolso da jaqueta.

Hora de se encontrar com Cotton Malone.

Malone se aproximou da porta dos fundos, que estava aberta, ficou de lado, abraçando as sombras, e espiou para dentro.

O cômodo do outro lado era uma elegante sala íntima. Uma luz brilhante cascateava do teto abobadado, iluminando a mobília dourada e as paredes forradas de madeira, animadas por tapeçarias e pinturas. Não havia ninguém à vista, mas ele escutou o zumbido de uma enceradeira e o som de um rádio do outro lado dos arcos.

Fez um gesto e os dois entraram.

Ele não sabia nada sobre a geografia da casa, mas uma placa lhe disse que estava na Sala Apolo. Lembrou-se do que Haddad havia escrito. Na sala de estar da Bainbridge Hall há mais da arrogância de Bainbridge. O título é particularmente reflexivo. A epístola de São Jerônimo. Fascinante e adequado, já que as grandes sagas costumam se iniciar com uma epifania.

Portanto, eles precisavam encontrar a sala de estar.

Levou Pam para uma das saídas que davam num saguão com as linhas majestosas de um transepto de catedral, arcos eloqüentemente empilhados um sobre o outro. Interessante a mudança abrupta de estilo e arquitetura. Uma luz mais fraca suavizava as silhuetas dos móveis em sombras cinzentas. Num dos arcos ele viu um busto.

Esgueirou-se pelo piso de mármore, tendo cuidado com as solas de borracha, e descobriu a figura de Thomas Bainbridge. O rosto de meia-idade era repleto de sulcos e curvas, o maxilar apertado, o nariz parecendo um bico, os olhos frios e meio franzidos. Pelo que lera nas anotações de Haddad, Bainbridge aparentemente fora um homem culto em ciência e literatura, além de colecionador - adquiria arte, livros e esculturas com avaliação calculada. Também fora um aventureiro, viajando à Arábia e ao Oriente Médio numa época em que os dois lugares eram tão familiares para os ocidentais quanto a lua.

— Cotton - disse Pam em voz baixa.

Ele se virou. Ela havia ido até uma mesa onde havia brochuras empilhadas.

— A planta da casa.

Malone chegou perto e pegou uma. Rapidamente encontrou o rótulo SALA DE ESTAR. Orientou-se.

— Por ali.

A enceradeira e o rádio continuavam o duelo no andar de cima. Saíram do saguão mal iluminado e seguiram serpenteando por amplos corredores até entrar num salão iluminado.

— Uau - disse Pam.

Ele também estava impressionado. O espaço grandioso lembrava o vestíbulo do palácio de um imperador romano.

Outro contraste espantoso com o resto da casa.

— Este lugar parece o Epcot - disse ele. — Cada sala é de um tempo e de um país diferente.

O brilho intenso de um lustre iluminava a escadaria de mármore branco, em cujo centro corria uma passadeira marrom e felpuda. Os degraus subiam direto até um peristilo de colunas jônicas afiladas. As curvas e espirais da balaustrada de ferro preto ligavam as colunas de mármore rosa. Nichos nos dois andares emolduravam bustos e estátuas como numa galeria de museu. Malone olhou para cima. O teto não ficaria deslocado dentro da catedral de St. Paul.

Balançou a cabeça.

Nada no exterior da mansão sugeria tamanha opulência.

— A sala de estar fica no alto daquela escada - disse ele.

— Parece que vamos encontrar a rainha.

Seguiram pela elegante passadeira escada acima. Uma porta dupla no topo se abria para uma sala escurecida. Ele apertou um interruptor e outro lustre, feito com presas de animais, se iluminou, mostrando um salão atulhado, usado e confortável, as paredes cobertas de veludo cor de sopa de ervilha.

— Não esperaria muito menos que isso - disse Malone, — depois daquela entrada.

Ele fechou a porta.

— O que estamos procurando? - perguntou Pam.

Malone examinou as pinturas nas paredes, na maioria retratos de figuras dos séculos XVI e XVII. Nenhuma que ele reconhecesse. Estantes de madeira de bordo se enfileiravam sob os retratos. Seu olhar de bibliófilo notou rapidamente que os volumes eram inócuos, só para decoração, sem qualquer valor histórico ou literário. Bustos de bronze ficavam em cima das estantes. De novo, nenhuma imagem familiar.

— A epifania de São Jerônimo - disse ele. — Talvez seja um daqueles retratos.

Pam circulou pela sala, examinando cada imagem. Contou-as. Quatorze. A maioria era de mulheres, vestidas elaboradamente, ou de homens adornados com perucas e mantos fartos, comuns trezentos anos antes. Dois sofás e quatro poltronas formavam um U diante de uma lareira de pedra. Malone imaginou que era ali que Thomas Bainbridge devia passar um bocado de tempo.

— Nenhum desses tem nada a ver com São Jerônimo - disse Pam. Ele estava perplexo.

— George disse que estava aqui.

— Podia estar. Mas não está mais.

 

WASHINGTON, D.C.

Stephanie olhou para Brent Green e sua expressão impassível deu lugar a um ar de perplexidade.

— Thorvaldsen disse para retirar meu pessoal de apoio? Como você conhece o sujeito?

— Conheço muita gente. - Brent indicou as fitas que o prendiam. — Se bem que, no momento, estou à sua mercê.

— Tirar a proteção foi idiotice - disse Cassiopeia. — E se eu não estivesse lá?

— Henrik disse que você estava e que podia cuidar da situação. Stephanie se esforçou para controlar a fúria.

— O rabo era meu.

— E você o colocou na reta, feito uma imbecil.

— Eu não tinha idéia de que Dixon ia me atacar.

— Exatamente o que quero dizer. Você não está pensando. - De novo Green indicou as amarras com a cabeça. — Este é outro exemplo de idiotice. Contrariamente ao que você possa pensar, uma equipe de segurança vai chegar aqui em pouco tempo. Ela sempre vem. Eu posso gostar de privacidade, mas, diferentemente de você, não sou imprudente.

— O que você está fazendo? Por que está metido nisso? Está trabalhando com Daley? Aquele negócio todo entre vocês dois hoje cedo foi só um show de circo para me embromar?

— Não tenho tempo nem paciência para shows de circo.

Stephanie não ficou impressionada.

— Já estou cheia de mentiras. O filho de Malone foi seqüestrado por minha causa. Cotton está em Londres agora mesmo, com um esquadrão israelense de assassinos. Não consigo encontrá-lo, de modo que não posso alertá-lo. A vida de George Haddad pode estar correndo risco. Então fico sabendo que meu chefe me deixou de bunda ao vento, sabendo que os sauditas querem me matar? O que eu deveria pensar?

— Que seu amigo, Henrik Thorvaldsen, se preocupou a ponto de mandar ajuda. Que seu outro amigo, eu, decidiu que a ajudante precisava trabalhar sozinha. Que tal? Faz sentido?

Ela pensou nas palavras.

— E outra coisa - disse Green. Ela o encarou, irritada.

— Este amigo se preocupa particularmente com o que acontece com você.

 

Malone estava aborrecido. Viera à Bainbridge Hall com a esperança de encontrar respostas. As anotações de Haddad lhe haviam apontado diretamente para ali. E, no entanto, nada.

— Talvez haja outra sala de estar, não? - disse Pam.

Mas ele verificou a brochura e viu que esse era o único espaço que tinha esse nome. O que estaria deixando de ver? Então notou uma coisa. Adjacente à alcova de uma das janelas, onde elaborados painéis de vitral esperavam o sol da manhã, um trecho da parede brilhava nu. Retratos enchiam todos os outros espaços disponíveis. Mas ali não. E a leve silhueta de um retângulo aparecia clara na cobertura da parede.

Ele correu até lá.

— Um dos quadros sumiu.

— Cotton, não estou tentando ser difícil, mas essa pode ter sido uma busca infrutífera.

Ele balançou a cabeça.

— George queria que viéssemos aqui.

Ele andou pela sala, pensando, e percebeu que não poderiam se demorar. Alguém da equipe de limpeza poderia vir naquela direção. Mesmo estando com as armas de Haddad e do perseguidor do aeroporto, ele não queria usar nenhuma das duas.

Pam estava examinando as mesas atrás dos dois sofás. Livros e revistas se empilhavam decorativamente em meio a esculturas e vasos de plantas. Estava examinando um dos pequenos bronzes - um homem idoso, a pele envelhecida, o corpo musculoso, usando um pano amarrado à cintura. A figura estava sobre uma pedra, o rosto barbudo concentrado num livro.

— Você precisa ver isto - disse ela.

Ele se aproximou e viu o que estava gravado na base da estátua.

SÃO JERÔNIMO

DOUTOR DA IGREJA

 

Ele estivera tão ocupado tentando encontrar peças complicadas que o óbvio havia lhe escapado. Pam indicou um livro embaixo da escultura.

— A epifania de São Jerônimo - disse ela. Ele examinou a lombada.

— Que olho bom.

Ela sorriu.

— Posso ser útil.

Ele segurou o bronze pesado e o levantou.

— Então seja útil e pegue o livro.

 

Stephanie não tinha certeza de como entender a observação de Brent Green.

— Como assim? Este amigo em particular?

— É meio difícil falar disso no momento.

E ela viu algo curioso nos olhos de Green. Ansiedade.

Durante cinco anos, ele fora o buldogue da administração em muitas batalhas com o Congresso, a imprensa e grupos de interesses especiais. Era um profissional consumado. Um advogado que defendia a administração num palco nacional.

Mas também era profundamente religioso e, que ela soubesse, jamais sequer uma sugestão de escândalo fora ligada a seu nome.

— Digamos - disse Green num meio sussurro — que eu não gostaria que os sauditas matassem você.

— Para mim, isso não é um grande conforto neste momento.

— E a equipe de segurança dele? - perguntou Cassiopeia. — Tenho a sensação de que ele não está blefando nesse sentido.

— Verifique a frente e fique de olho na rua - disse ela, deixando claro, pelo olhar, que queria um momento a sós com Green.

Cassiopeia saiu da cozinha.

— Certo, Brent. O que você tem a dizer que não podia falar na frente dela?

— Quantos anos você tem, Stephanie, 61?

— Não falo minha idade.

— Seu marido está morto há 12 anos. Isso deve ser difícil. Eu nunca me casei, de modo que não sei como é perder um cônjuge.

— Não é fácil. O que isso tem a ver?

— Sei que você e Lars estavam afastados quando ele morreu. Está na hora de você começar a confiar em alguém.

— Nossa, vou lhe dizer uma coisa. Vou marcar entrevistas, e todo mundo, inclusive os que estão tentando me matar, terá a chance de me convencer que é digno de confiança.

— Henrik não está tentando matar você. Cassiopeia não está. Cotton Malone não está. - Ele fez uma pausa. — Eu não estou.

— Você mandou minha equipe de apoio embora, sabendo que eu estava encrencada.

— E o que aconteceria se eu não tivesse mandado? Seus dois agentes teriam aparecido bruscamente, aconteceria um tiroteio, e o que seria resolvido?

— Eu teria Heather Dixon sob custódia.

— E de manhã ela estaria solta, depois que o secretário de Estado e provavelmente o próprio presidente interferissem. Então você seria demitida e os sauditas iriam matá-la quando quisessem. E sabe por quê? Porque ninguém se importaria.

As palavras dele faziam sentido. Desgraçado.

— Você agiu depressa demais e não pensou direito. - Os olhos de Green haviam se suavizado, e ela viu outra coisa que nunca tinha visto antes.

Preocupação.

— Mais cedo eu ofereci ajuda. Você recusou. Agora vou dizer o que você não sabe. O que não contei na hora.

Ela esperou.

— Eu deixei que o dossiê sobre o Elo de Alexandria fosse violado.

 

Malone abriu o livro sobre São Jerônimo, um volume fino, com apenas 73 folhas amareladas, com data de publicação de 1845. Folheou e absorveu alguns detalhes.

Jerônimo viveu de 342 a 420 d.C. Era fluente em latim e grego e, na juventude, fez pouco esforço para conter seus instintos amantes do prazer. Batizado pelo papa em 360, dedicou-se a Deus. Nos sessenta anos seguintes, viajou, escreveu tratados, defendeu a fé e tornou-se pai reconhecido da religião cristã. Traduziu o Novo Testamento pela primeira vez nessa época, perto do fim de sua vida, traduziu o Antigo diretamente do hebraico para o latim, criando a Vulgata Latina, que o Concílio de Trento, 1.100 anos mais tarde, proclamou como sendo o texto autorizado da Igreja católica.

Três palavras atraíram o olhar de Malone.

Eusebius Hieronimus Sophronius.

O nome de nascimento de Jerônimo.

Pensou no romance que estava na mochila de couro. A jornada de um herói, de Eusebius Hieronimus Sophronius.

Aparentemente, Thomas Bainbridge havia escolhido com grande cuidado seu pseudônimo.

— Alguma coisa? - perguntou Pam.

—Tudo. - Mas a empolgação dele enfraqueceu, substituída pelo frio de uma percepção desagradável. - Precisamos sair daqui.

Correu até a porta, apagou as luzes e abriu-a. O salão de mármore estava silencioso. O rádio continuava a tocar em algum cômodo distante, agora narrando algum tipo de esporte, com a multidão e o comentarista fazendo barulho.

A enceradeira estava silenciosa.

Levou Pam até o topo da escada.

Três homens entraram rapidamente no salão embaixo, com armas na mão.

Um levantou a dele e atirou. Malone empurrou Pam no chão.

A bala ricocheteou na pedra. Ele rolou com Pam para trás de uma coluna e viu-a fazer uma careta de dor.

— Meu braço - disse ela.

Mais três balas tentaram encontrá-los através do mármore.

Malone pegou a automática de Haddad e se preparou. Até agora, nenhum tiro fora acompanhado por um som alto - apenas estalos, como travesseiros sendo afofados.

Silenciadores. Pelo menos ele estava no lugar mais alto. De seu ponto de vista, percebeu dois atiradores avançando para o lado direito do piso inferior enquanto o outro permanecia à esquerda. Não podia deixar que os dois assumissem aquela posição - eles poderiam atirar ao redor da coluna - por isso disparou.

A bala errou, mas sua proximidade fez com que os atacantes hesitassem, o bastante para Malone ajustar a mira e acertar o homem da frente, que gritou e caiu no chão. O outro saltou em busca de cobertura, mas Malone conseguiu dar mais um tiro, que fez o perseguidor correr de volta para a entrada do salão. O sangue escorria do homem caído, formando um lago vermelho-vivo no mármore branco.

Mais tiros vieram na direção deles. O ar fedia a pólvora.

Restavam cinco balas na arma de Haddad, mas Malone ainda estava com a que havia tirado do sujeito do aeroporto.

Talvez mais cinco tiros. Registrou o medo nos olhos de Pam, mas, considerando tudo, ela continuava calma.

Pensou em recuar para a sala de estar. A porta dupla, se ele fizesse uma barricada de móveis, poderia lhes garantir alguns minutos para escapar por uma janela. Mas estavam no segundo andar, o que certamente implicaria mais obstáculos.

Mesmo assim, esse poderia ser o único plano, a não ser que os homens lá embaixo quisessem se expor e lhe garantir uma linha de tiro limpa.

O que não era provável.

Um dos homens foi até a base da escada. O outro cobriu seu avanço com quatro tiros que ricochetearam na parede atrás de Malone e Pam. Malone precisava economizar munição e não podia atirar até que achasse que valia a pena.

Então percebeu o que eles estavam fazendo.

Para que ele disparasse contra um, teria de se expor ao outro na borda da coluna. Por isso fez o inesperado, ignorando o lado esquerdo e se enrolando em volta do direito, acertando uma bala na passadeira vermelha à frente do sujeito que avançava.

O homem saltou da escada e procurou cobertura.

Pam levou a mão ao braço e Malone viu sangue. O ferimento havia se aberto de novo. Muitos movimentos bruscos. Os olhos azuis dela o encaravam de volta, cheios de medo.

Dois tiros ressoaram no salão.

Sem silenciador. De alto calibre.

Depois, silêncio.

— Olá - gritou uma voz de homem.

Malone olhou ao redor da coluna. Abaixo estava um homem alto, com cabelo louro-claro. Tinha testa alta, nariz curto e queixo redondo. Era atarracado e vestia jeans e uma camisa de algodão sob uma jaqueta de couro.

— Parecia que você precisava de ajuda - disse o homem, com a arma do lado direito do corpo.

Os dois atacantes estavam no chão, o sangue escorrendo no mármore. Aparentemente, o sujeito era bom atirador, também. Malone recuou de novo para trás da coluna.

— Quem é você?

— Um amigo.

— Desculpe se sou cético.

— Eu não o culparia. Fique aí e espere a polícia. Você pode explicar esses três cadáveres. - Malone ouviu passos recuando. — E, por sinal, de nada.

Algo lhe ocorreu.

— E a equipe de limpeza? Por que não está correndo para cá?

Os passos pararam.

— Estão inconscientes, lá em cima.

— Você fez isso?

— Eu não.

— Qual é o seu interesse?

— O mesmo de muitos que vieram aqui no meio da noite. Estou procurando a Biblioteca de Alexandria.

Malone não disse nada.

— Vou lhe contar uma coisa. Estou hospedado no Savoy, quarto 453. Tenho informações que duvido que você possua, e você pode ter algumas que não conheço. Se quiser conversar, venha me ver. Se não, provavelmente vamos nos encontrar de novo pelo caminho. A escolha é sua. Mas juntos talvez possamos acelerar o processo. Você é que sabe.

Saltos de sapatos ecoaram no piso, com passo firme, afastando-se pela casa.

— Que diabo foi aquilo? - perguntou Pam.

— O modo de ele se apresentar?

— Ele matou dois homens.

— E agradeço por isso.

— Cotton, temos de sair daqui.

— Nem diga. Mas, primeiro, precisamos saber quem são aqueles homens.

Malone saiu de trás da coluna e desceu correndo a escada de mármore. Pam foi atrás. Ele revistou os três corpos, mas não encontrou nenhuma identificação.

— Pegue as armas - disse, enfiando no bolso seis pentes extras apanhados nos corpos. — Esses caras vieram preparados para uma luta.

— Na verdade, estou me acostumando a ver sangue.

— Eu disse que ia ficar mais fácil.

Malone pensou mais no sujeito. Savoy. Quarto 453. O modo como tinha dito pode confiar em mim. Pam ainda estava segurando o livro sobre São Jerônimo e ele levava a mochila de couro tirada do apartamento de Haddad.

Pam virou-se para ir embora.

— Aonde você vai? - perguntou ele.

— Estou com fome. Imagino que o Savoy tenha um café-da-manhã excelente.

Ele riu.

Ela entendia rápido.

 

WASHINGTON, D.C.

Stephanie não tinha certeza se conseguia agüentar muito mais. Seu olhar se grudou em Brent Green.

— Explique-se.

— Nós permitimos que os arquivos fossem violados. Há um traidor, e nós o queremos.

— Nós quem?

— O Departamento de Justiça. É uma investigação altamente secreta. Só eu e dois outros sabemos. São meus dois assessores mais próximos, e eu colocaria minha vida nas mãos deles.

— Os mentirosos não dariam a mínima para a sua fé.

— Concordo. Mas o vazamento não está na Justiça. É mais alto. Fora do departamento. Nós jogamos uma isca, e ela foi mordida.

Stephanie não podia acreditar no que estava escutando.

— E, no processo, vocês arriscaram a vida de Gary Malone.

— Ninguém poderia ter previsto isso. Não tínhamos idéia de que alguém, além dos israelenses e dos sauditas, dava a mínima para George Haddad. O vazamento que estamos tentando fechar leva direto a eles, e a mais nenhum lugar.

— Que você saiba. - Os pensamentos dela se inundaram com a Ordem do Velo de Ouro.

— Se eu tivesse qualquer pista de que a família de Malone estava em perigo, nunca teria permitido essa tática.

Ela queria acreditar.

— Na verdade, achamos que o paradeiro de Haddad era uma informação relativamente inofensiva. Permitir que os israelenses soubessem que Haddad estava vivo não pareceu tão arriscado, em especial porque não havia nada no dossiê que indicasse onde ele estava escondido.

— A não ser uma trilha que levava direto a Cotton.

— E nós presumimos que, se fosse desafiado, Malone saberia o que fazer.

— Ele está fora, Brent - disse ela quase gritando. — Não trabalha mais para nós. E não colocamos ex-agentes em perigo, em especial sem que eles saibam.

— Nós avaliamos esses riscos e decidimos que, para descobrir o vazamento, eles valiam a pena. O garoto ser seqüestrado mudou tudo. Fico feliz porque Cotton conseguiu recuperá-lo.

— Isso é maravilhoso da sua parte. Vai ter sorte se ele não quebrar seu nariz.

— Essa Casa Branca é uma abominação - murmurou Green. — Um monte de sacanas hipócritas e corruptos.

Ela nunca ouvira Green falar assim.

— Eles vivem dizendo como são cristãos, como são americanos, mas só têm alianças consigo mesmos. E com o dólar. Uma decisão tem sido tomada depois da outra, cada uma delas envolta na bandeira americana, e não servem para nada além de engordar os bolsos das grandes corporações, entidades que colaboraram pesadamente para a causa do partido deles. Isso me deixa enojado. Participo de reuniões nas quais a política é decidida em termos do que aparece bem na televisão, e não do que é bom para o país. Fico quieto. Não digo nada. Jogo na equipe.Mas isso não significa que eu vá deixar que este país se prejudique. Fiz um juramento, e, diferentemente de muitos nesta administração, o meu significa alguma coisa.

— Então, por que não revelar o que eles são?

— Até agora, não tenho informações de que alguém tenha violado a lei. Nojentos, imorais, gananciosos? Já vi de tudo, mas não são ilegais. Garanto que se alguém, até o presidente, tivesse atravessado essa linha, eu teria agido. Mas ninguém foi tão longe assim.

— A não ser o responsável pelo vazamento.

— Exatamente por isso estou tão interessado. Uma represa tem de rachar antes de desmoronar.

Ela não se deixou enganar.

— Vamos encarar os fatos, Brent, você gosta de ser o principal mantenedor da lei, e não duraria muito se fosse atrás de um deles e fracassasse.

Grent a avaliou, com preocupação nos olhos.

— Gosto mais de você, viva.

Ela afastou a preocupação.

— Você descobriu o responsável pelo vazamento?

— Acredito que nós...

Cassiopeia voltou correndo à cozinha.

— Temos companhia. Dois homens acabaram de virar a esquina. Ternos e fones de ouvido. Serviço secreto.

— Meu pessoal - disse Green. — Vindo verificar se tudo está bem para a noite.

— Temos de ir - deixou claro Cassiopeia.

— Não - disse Green. — Soltem-me e eu cuido deles.

Cassiopeia foi até a porta dos fundos.

Stephanie tomou uma decisão, do tipo que tomara cem mil vezes. E mesmo tendo claramente feito escolhas péssimas durante o dia, como seu pai costumava dizer: Certo, errado, não importa. Só faça alguma coisa.

— Espere.

Foi até a bancada e abriu algumas gavetas até encontrar uma faca.

— Vamos soltá-lo. - Em seguida, se aproximou de Green e disse:                   — Espero que eu saiba o que estou fazendo.

 

Sabre correu pela floresta de Oxfordshire até onde havia deixado o carro. O amanhecer estava chegando ao interior inglês. A névoa amortalhava o campo ao redor e o ar frio estava úmido. Sentia-se satisfeito com seu primeiro encontro com Cotton Malone. Só o bastante para aguçar a curiosidade do americano, ao mesmo tempo que satisfazia qualquer paranóia. Matar os homens que ele contratara para atacar Malone havia parecido a apresentação perfeita. Ele teria matado os três, se Malone não tivesse acabado com um.

Sem dúvida Malone havia revistado os corpos depois de sua saída, mas Sabre se certificara de que nenhum homem usasse identificações. Suas instruções haviam sido para confrontarem Malone e o prenderem. Mas assim que Malone eliminou o primeiro, o jogo havia mudado. Ele não ficou surpreso. Em Copenhague, Malone havia provado que sabia se virar.

Felizmente havia encontrado o gravador no apartamento de Haddad. Isso, combinado com as informações do computador, havia garantido informações suficientes para atrair a confiança de Malone. Agora só precisava retornar ao Savoy e esperar.

Malone iria.

Saiu da floresta e viu seu carro. Outro veículo estava parado atrás, e ele viu sua agente andando de um lado para o outro.

— Seu filho-da-puta - gritou ela. — Você matou aqueles homens.

— E qual é o problema?

— Eu os contratei. Quantos outros você acha que posso empregar se ficarem sabendo que a gente mata nosso pessoal?

— Quem saberia disso, além de você e eu?

— Seu escroto. Eu fiquei olhando de fora. Você atirou neles pelas costas. Eles não viram nada. Era o que você pretendia o tempo todo.

Sabre chegou ao carro.

— Você sempre foi inteligente.

— Foda-se, Dominick. Aqueles homens eram meus amigos.

Agora ele estava curioso.

— Você dorme com algum deles?

— Não é da sua conta.

Ele deu de ombros.

— Está certa.

— Estou cheia de você. Acabou. Arranje outra ajudante. - Ela foi irritada até seu carro.

— Acho que não - gritou ele.

Ela virou-se para encará-lo, esperando uma bronca. Os dois já haviam discutido. Mas, desta vez, Sabre atirou em seu rosto.

Nada, nem ninguém, iria interferir. Muito esforço fora posto no que ele havia planejado. Estava para trair um dos cartéis econômicos mais poderosos do planeta. O fracasso teria conseqüências sérias. Por isso não iria fracassar. Não restaria nenhuma pista levando a ele.

Abriu a porta do carro e entrou.

Restava apenas Cotton Malone para cuidar.

 

Stephanie estava na cozinha, com Cassiopeia ao lado, e ouviu quando Brent Green atendeu à porta da frente e falou com os dois agentes do serviço secreto. Ou ela havia adivinhado certo ou as duas logo seriam presas.

— Isso é idiotice - sussurrou Cassiopeia.

— É idiotice minha, e eu não pedi que você nem Henrik se envolvessem.

— Você é uma vaca teimosa.

— Olha quem está falando. Você poderia ter ido embora. Eu diria que você também é meio teimosa.

Ouviu Green conversar amenidades sobre o tempo e dizer que tinha derramado um copo d'água no roupão. Ela havia libertado Green da cadeira e olhado, com diversão, enquanto ele tirava a fita adesiva dos pulsos e tornozelos. O que os comediantes dos programas de fim de noite não dariam para vê-lo se encolher enquanto os pêlos dos braços e das pernas saíam a cada puxão. Mas o sujeito da Nova Inglaterra havia alisado imediatamente o cabelo molhado e saído da cozinha.

Ela ouviu de novo o que Green dissera com convicção genuína: Este amigo se preocupa particularmente com o que acontece com você.

— Se ele nos entregar, estamos ferradas - sussurrou Cassiopeia.

— Ele não fará isso.

— O que faz você ter tanta certeza?

— Vinte anos de erros.

Finalmente, Green deu boa-noite aos agentes. Ela abriu a porta de vaivém e ficou observando enquanto Green olhava uma última vez pela veneziana. Ele se virou e disse:

— Satisfeita?

— Certo, Brent. E agora?

— Juntos vamos salvar sua pele e ao mesmo tempo fechar o vazamento.

— Por sinal, você não disse quem é o responsável.

— Não. Não disse. Porque não sei.

— Achei que você tinha dito que havia identificado a pessoa.

— O que comecei a dizer foi que acredito que podemos ter identificado o problema.

— Estou esperando.

— Você não vai gostar disso.

— Experimente.

— No momento, o principal elo dos israelenses é Pam Malone.

 

7H40

Henrik Thorvaldsen odiava viajar de avião, motivo pelo qual nenhuma de suas empresas possuía aeronaves. Para aliviar parte do desconforto, sempre ia de primeira classe e voava de manhã cedo. Os bancos maiores, as amenidades e a hora do dia aplacavam sua fobia. Gary Malone, por outro lado, parecia adorar a experiência. O garoto havia comido todo o desjejum servido pela aeromoça e a maior parte do de Henrik.

— Vamos pousar logo - disse ele a Gary.

— Fantástico. Em qualquer outra ocasião, eu estaria na escola. Agora estou na Áustria.

Ele e Gary haviam se tornado mais próximos nos últimos dois anos. Quando visitava Malone nas férias de verão, Gary havia ficado muitas noites em Christiangade. Pai e filho gostavam de velejar no barco de quarenta pés que ficava atracado no cais da propriedade, comprado havia muito tempo para viagens pelo Oresund até a Noruega e a Suécia, mas que agora quase nunca era usado. Quando era vivo, Cai, o filho de Thorvaldsen, adorava a água. O velho sentia uma falta tremenda do rapaz. Morto havia quase dois anos. Derrubado a tiros na Cidade do México por motivos que Thorvaldsen jamais ficara conhecendo.

Malone estava lá, numa missão, e fizera todo o possível, o que acabou levando os dois a se conhecerem. Mas Thorvaldsen não esquecia o que havia acontecido lá. Com o tempo descobriria a verdade sobre a morte do filho. Dívidas assim sempre eram pagas. Mas passar tempo com Gary lhe trazia parte da alegria que a vida lhe negara cruelmente.

— Fico feliz porque você veio - disse ele. — Não queria deixá-lo na casa.

— Nunca estive na Áustria.

— É um lugar lindo. Florestas densas. Montanhas nevadas. Lagos alpinos. Cenário espetacular.

Thorvaldsen ficara observando atentamente durante o dia anterior e parecia que Gary estava se saindo bem naquela situação difícil, em especial considerando que vira dois homens serem mortos a tiros. Quando Malone e Pam foram para a Inglaterra, Gary havia entendido por que eles precisavam ir. Sua mãe tinha de retornar ao trabalho e o pai precisava descobrir por que Gary corria perigo.

Christiangade era um lugar familiar, e Gary havia ficado de boa vontade. Mas na véspera, depois de ter falado com Stephanie, Thorvaldsen soube o que deveria ser feito.

— Esta reunião à qual você tem de ir - perguntou Gary — é importante?

— Pode ser. Terei de comparecer a várias sessões, mas vamos encontrar coisas para você fazer enquanto eu estiver lá.

— E meu pai? Sabe que estamos fazendo isso? Eu não contei à mamãe.

Pam Malone havia telefonado algumas horas antes e falado brevemente com Gary. Mas havia desligado antes que Thorvaldsen pudesse falar com ela.

— Tenho certeza de que um deles vai ligar de volta, e Jesper dirá onde estamos.

Ele estava se arriscando ao trazer Gary, mas havia decidido que era um gesto inteligente. Se Alfred Hermann estivesse por trás do seqüestro original, coisa em que Thorvaldsen acreditava com firmeza, ter Gary na Assembléia, cercado de homens e mulheres influentes de todo o mundo, cada um com seus assessores e seguranças, parecia o caminho mais garantido. Pensou no seqüestro. Pelo pouco que sabia sobre Dominick Sabre, o americano era um profissional, que não tendia a empregar auxiliares tão incompetentes como os três holandeses que haviam atrapalhado o seqüestro de Gary.

Algo não estava certo. Malone era bom, isso ele tinha de admitir, mas as coisas haviam se desdobrado com precisão espantosa. Será que aquilo tudo fora encenado para Malone? Um modo de instigá-lo? Nesse caso, Gary realmente não corria mais perigo.

— Lembre-se do que falamos - disse a Gary. — Cuidado com suas palavras. Há muitos ouvidos.

— Entendi.

Thorvaldsen sorriu.

— Excelente.

Agora só podia esperar que tivesse entendido Alfred Hermann corretamente.

 

VIENA

8H

Hermann empurrou de lado o café-da-manhã. Detestava comer, em particular no meio de uma multidão, mas adorava o salão de jantar do castelo. Havia escolhido pessoalmente a decoração neogótica, com os caixilhos das janelas e os caixotões do teto mostrando brasões de ilustres Cruzados, as paredes cobertas por telas que representavam a captura de Jerusalém pelos cristãos.

O café-da-manhã estava espetacular, como sempre, e um bando de garçons vestidos de branco atendia aos convidados. Sua filha estava sentada à outra extremidade da mesa comprida, e os outros 12 lugares eram ocupados por um grupo seleto de sócios da Ordem - o Comitê Político - que havia chegado no dia anterior para a Assembléia do fim de semana.

— Espero que todos estejam aproveitando bem - disse Margarete. Grupos de pessoas eram o que ela dominava melhor.

Hermann notou-a franzindo a testa para seu prato intocado, mas a filha não disse nada. Sua censura seria particular - como se o apetite, por si só, trouxesse vida longa e boa saúde. Se ao menos fosse tão fácil!

Vários membros do comitê falavam sem parar sobre o castelo e seus móveis exóticos, notando algumas mudanças que ele havia feito desde a primavera anterior. Mesmo que fossem homens e mulheres abastados, juntos não tinham sequer um quarto da fortuna de Hermann. Mas cada um era útil de algum modo. Assim, ele agradeceu por terem notado e esperou. Finalmente, disse:

— Estou interessado no que o Comitê Político planeja dizer à Assembléia sobre o Conceito 1223.

Essa iniciativa, adotada três anos antes na Assembléia da primavera, implicava um plano complexo para a desestabilização de Israel e da Arábia Saudita. Ele havia abraçado o conceito, motivo pelo qual cultivara fontes dentro dos governos israelense e americano - fontes que inesperadamente o levaram a George Haddad.

— Antes de fazermos isso - disse o chefe do comitê, — pode nos dizer se seus trabalhos estão rendendo frutos? Nossos planos terão de ser alterados se você não tiver sucesso.

Ele assentiu.

— Os acontecimentos estão se desdobrando. E rapidamente. Mas se eu tiver sucesso, já foi garantido um mercado para a informação?

Outro membro do comitê assentiu.

— Fizemos indagações na Jordânia, na Síria, no Egito e no Iêmen. Todos estão interessados, pelo menos em agendar conversas.

Ele ficou satisfeito. Havia aprendido que o entusiasmo de um Estado árabe - fosse em mercadorias, serviço ou terror - aumentava na proporção direta do interesse do vizinho.

— É arriscado ignorar os sauditas - disse outro. — Eles têm ligações com muitos dos nossos sócios. A retaliação poderia custar caro.

— Seus negociadores - respondeu ele — terão de garantir que eles fiquem calmos até que seja vantagem nossa lidar com eles.

— Não é hora de nos dizer exatamente o que está envolvido? - perguntou um dos membros do comitê.

— Não. Ainda não.

— Você está nos envolvendo profundamente numa coisa que, francamente, Alfred, me enche de dúvidas.

— Qual é a sua dúvida?

— O que poderia ser tão atraente para a Jordânia, a Síria, o Egito e o Iêmen, e não para a Arábia Saudita?

— A eliminação de Israel.

Um silêncio dominou o salão.

— Certo, esse é um objetivo comum para todas aquelas nações, mas também é impossível. O Estado está aí para ficar.

— O mesmo foi dito em relação à União Soviética. No entanto, quando o objetivo dela foi seriamente questionado, depois exposto como a fraude que era, vejam o que ocorreu. A dissolução em questão de dias.

— E você pode fazer com que isso aconteça? - perguntou outro.

— Eu não estaria desperdiçando nosso tempo se não achasse possível.

Um dos outros sócios, amigo de longa data, pareceu frustrado com sua postura oblíqua, então ele decidiu ser um pouco conciliador.

— Deixe-me perguntar o seguinte: e se a validade do Velho Testamento fosse questionada?

Alguns convidados deram de ombros. Um perguntou: — E daí?

— Isso poderia mudar fundamentalmente o debate no Oriente Médio - respondeu Hermann. — Os judeus são firmes em defender a verdade de sua Torá. É a Palavra de Deus e coisa e tal. Ninguém jamais os questionou seriamente. Houve conversas, especulações, mas se fosse provado que a Torá está errada, imaginem o que isso faria com a credibilidade dos judeus. Pense em como isso poderia incitar outros Estados do Oriente Médio.

Ele havia falado sério. Nenhum opressor jamais fora capaz de derrotar os judeus. Muitos haviam tentado. Os assírios. Os babilônios. Os romanos. Os turcos. A Inquisição. Até Martinho Lutero os desprezara.

Mas os supostos filhos de Deus haviam se recusado teimosamente a se render. Hitler podia ter sido o pior. No entanto, depois dele, o mundo meramente lhes garantiu sua pátria bíblica.

— O que você tem contra Israel? - perguntou uma mulher. — Desde o início questionei por que estamos perdendo tempo com isso.

A mulher de fato havia discordado, seguida de dois outros.

Eles claramente estavam em minoria e eram relativamente inofensivos, por isso Hermann permitia o discurso deles simplesmente como um modo de dar um ar de democracia ao processo.

— Isso tem a ver com muito mais do que Israel. - Ele viu que tinha a atenção de todos, até da filha. — Se for jogado corretamente, talvez possamos desestabilizar Israel e a Arábia Saudita. Neste caso, um está ligado ao outro. Se pudermos criar a quantidade adequada de tumulto nos dois Estados, controlá-lo e definir o momento em que acontece, podemos ser capazes de derrubar irrevogavelmente os dois governos. - Encarou o chefe do Comitê Político. — Vocês já discutiram como nossos sócios podem explorar esse processo uma vez que o ponhamos em movimento?

O velho assentiu. Era seu amigo havia décadas e estava perto do topo da lista para assumir um lugar no Círculo.

— O cenário que visualizamos se baseia no fato de os palestinos, jordanianos, sírios e egípcios quererem o que pudermos dar...

— Isso não vai acontecer - disse um dos homens, também da oposição.

— E quem pensaria que o mundo deslocaria quase um milhão de árabes para dar uma pátria aos judeus? - deixou claro Hermann. — Muitos no Oriente Médio diziam que isso também não iria acontecer. - Suas palavras saíram afiadas, por isso ele temperou o que diria a seguir com um tom de conciliação. — No mínimo poderemos derrubar aquele muro idiota que os israelenses ergueram para guardar suas fronteiras e questionar cada reivindicação antiga que eles fizeram. A arrogância sionista sofreria, talvez o suficiente para levar os Estados árabes ao redor a uma ação unificada. E nem falei do Irã, que adoraria mais que tudo obliterar Israel completamente. Isso seria uma bênção para eles.

— O que poderia causar tudo isso?

— Conhecimento.

— Você não pode estar falando sério. Tudo isso é baseado em nós ficarmos sabendo de alguma coisa?

Hermann não havia esperado essa discussão franca, mas este era o seu momento. O comitê reunido ao redor de sua mesa de refeições era encarregado, segundo os estatutos da Ordem, de formular a política coletiva, que era muito entrelaçada com iniciativas do Comitê Econômico porque, para a Ordem, política e lucro eram sinônimos. O Comitê Econômico havia estabelecido um objetivo de aumentar em pelo menos trinta por cento os ganhos para os sócios que desejavam investir pesadamente no Oriente Médio. Fora realizado um estudo, fora determinado um investimento inicial em euros, os lucros potenciais foram estimados sob as condições políticas e econômicas atuais, e depois vários cenários foram visualizados. No fim, um objetivo de trinta por cento foi considerado atingível. Porém, os mercados no Oriente Médio eram limitados, na melhor das hipóteses.

Toda a região podia explodir devido a qualquer ocorrência minúscula. Cada dia trazia novas possibilidades de desastre.

Assim, o que o Comitê Político buscava era consistência.

Métodos tradicionais - subornos e ameaças - não eram eficazes com pessoas que rotineiramente prendiam explosivos ao peito. Os homens que controlavam as decisões em lugares como Jordânia, Síria, Kuwait, Egito e Arábia Saudita eram ricos demais, guardados demais e fanáticos demais. Em vez disso, a Ordem entendera que era necessário encontrar uma nova forma de moeda - uma moeda que Hermann acreditava que possuiria em breve.

— O conhecimento é muito mais poderoso que qualquer arma - disse num sussurro.

— Tudo depende de qual seja o conhecimento.

Ele concordou.

— O sucesso dependerá de podermos disseminar o que ficarmos sabendo aos compradores certos, pelo preço certo, na hora certa.

— Eu o conheço, Alfred - disse um dos homens mais velhos. — Você planejou isso detalhadamente.

Ele riu.

— As coisas finalmente estão progredindo. Agora os americanos estão interessados, e isso abre toda uma nova rota de possibilidades.

— O que é que têm os americanos? - perguntou Margarete, com impaciência na voz.

A pergunta irritou Hermann. Ela precisava aprender a não revelar o que não sabia.

— Parece que há algumas figuras de poder nos Estados Unidos que também querem humilhar Israel. Eles vêem isso como benéfico para a política externa americana.

— Como é possível? - perguntou um dos membros do comitê.

— Árabes contra árabes, além de árabes contra judeus, vêm guerreando há milhares de anos. O que há de tão apavorante assim?

Ele havia estabelecido um objetivo elevado para si mesmo e para a Ordem, mas uma voz interior lhe dizia que sua diligência estava para ser recompensada. Por isso olhou para os homens e mulheres sentados à sua frente e declarou:

— Devo saber a resposta para essa pergunta antes do fim da semana.

 

WASHINGTON, D.C.

3H30

Stephanie estava sentada na poltrona, exausta. Brent Green a encarava do sofá. Na verdade, ele estava recostado numa postura relaxada, coisa que ela nunca vira antes. Cassiopeia havia adormecido no andar de cima. Pelo menos um deles estaria descansado. Ela certamente não. Pareciam ter se passado 48 dias, em vez de 48 horas, desde que estivera ali pela última vez, não confiando em Green, olhando de soslaio para o que ele tinha a dizer, com raiva de si mesma por ter colocado o filho de Malone em dificuldade. E ainda que Gary Malone estivesse agora em segurança, as mesmas dúvidas em relação a Brent Green redemoinhavam em sua mente, em especial considerando o que ele havia lhe dito algumas horas antes.

O principal elo dos israelenses é Pam Malone.

Aninhou nas mãos uma lata de Dr. Pepper diet que havia encontrado na geladeira de Green. Fez um gesto com ela.

— Você realmente bebe isto?

Ele confirmou com a cabeça.

— O gosto é igual ao original, mas sem açúcar. Pareceu um bom conceito.

Ela sorriu.

— Você é um cara estranho, Brent.

— Sou apenas um homem discreto, que não revela as coisas de que gosta.

Ela estava magoada e cansada, lutando contra uma ansiedade profunda que queria afastar sua atenção de Green. Eles haviam deixado intencionalmente todas as luzes apagadas, para sugerir a qualquer olhar observador que o ocupante da casa estaria dormindo.

— Está pensando no Malone? - perguntou ele através da escuridão.

— Ele está encrencado.

— Você não pode fazer nada até que ele ligue.

Ela balançou a cabeça.

— Isso não basta.

— Você tem um agente em Londres. Quais são as chances de encontrar Cotton?

Não era provável. Londres era uma cidade grande, e quem sabia se Malone estava lá? Ele poderia ter partido para qualquer outro lugar da Inglaterra. Mas ela não queria pensar em impossibilidades, por isso perguntou:

— Há quanto tempo você sabe sobre Pam?

— Não muito.

Stephanie se ressentia de ter sido mantida de fora e decidiu que, para ganhar alguma coisa, teria de dar.

— Há outro participante no seu jogo.

— Estou ouvindo. - O tom de Green indicava que seu interesse estava atiçado. Finalmente ela sabia algo que ele não sabia.

Contou o que Thorvaldsen havia dito sobre a Ordem do Velo de Ouro.

— Henrik nunca me falou uma palavra disso.

— Ah, que chocante! - Ela tomou outro gole do refrigerante. — Ele só conta o que quer que a gente saiba.

— Eles seqüestraram o filho de Malone?

— Estão no topo da minha lista.

— Isso explica algumas coisas. Os israelenses andam numa cautela incomum durante toda esta operação. Nós jogamos a isca do elo, esperando que o contato deles aqui a mordesse. Durante vários anos, discretamente, os diplomatas deles fizeram indagações sobre George Haddad. Nós não os enganamos totalmente quando Malone o escondeu. Eles reviraram os restos daquele café arruinado, mas a bomba fez um serviço completo. Mas mesmo depois de termos balançado a isca para eles notarem, os israelenses fizeram tudo com discrição.

— Diga algo que eu não sei.

— O seqüestro do filho de Malone nos deixou perplexos. Por isso adiei nossa reunião quando você ligou dando a notícia.

— E eu pensei que era simplesmente porque você não gostava de mim.

— É preciso paciência para agüentar você, mas aprendi a me adaptar.

Ela riu.

Green estendeu a mão para um prato de cristal na mesinha de centro, que continha amendoim salgado. Ela também estava com fome e pegou um punhado.

— Sabíamos que Israel não era responsável pelo seqüestro de Gary Malone - disse Green. — E ficamos curiosos quanto ao motivo de eles terem permanecido tão quietos quando isso aconteceu. - Ele fez uma pausa. — E, depois de você me ligar, fiquei sabendo sobre Pam Malone.

Ela estava escutando.

— Ela se envolveu com um homem há cerca de três meses. Um advogado bem-sucedido, de um escritório de Atlanta, sócio sênior, mas também judeu patriota. Tremendo defensor de Israel. O Departamento de Segurança Interna acredita que ele ajudou a financiar uma das facções mais militantes do governo israelense.

Stephanie sabia que o dinheiro americano alimentava havia muito a política israelense.

— Eu não fazia idéia de que você estava tão envolvido com as coisas em termos cotidianos.

— De novo, Stephanie, sou muitas coisas que você não sabe. Tenho uma imagem pública, o que é exigido. Mas quando aceitei este cargo, não pretendia ser um mero porta-voz. Sou a principal autoridade mantenedora da lei neste país e faço meu serviço.

Ela notou que Green não havia comido os amendoins. Em vez disso, com a palma da mão aberta, a forma escura de sua mão esquerda estava escolhendo entre eles.

— O que está fazendo? - perguntou ela.

— Procurando metades.

— Por quê?

— Tem mais sal nelas.

— O quê?

— Se você pega um amendoim inteiro, o meio não é salgado. Mas se ele estiver partido, há o dobro de sal.

— Você não está falando sério.

Ele pegou um amendoim e jogou-o na boca.

— Por que meio amendoim tem mais sal do que um inteiro?

— Você não está prestando atenção? - perguntou ele num tom divertido. — Duas metades salgadas, juntas, têm mais sal do que um inteiro. - Ele jogou outro na boca.

Ela não conseguiu decidir se ele estava falando sério ou só curtindo com sua cara, mas Green continuou procurando metades.

— O que você faz com os inteiros?

— Guardo ara o fim. Só como em último caso. Mas troco com você: um inteiro por uma metade.

Ela gostava deste Brent Green. Tinha um jeito brincalhão.

Um senso de humor sarcástico. De repente, sentiu vontade de protegê-lo.

— Você quer pegar aqueles idiotas arrogantes da Casa Branca tanto quanto eu. Você sabe o que falam a seu respeito. Chamam-no de o Bom Reverendo Green. Escondem coisas. Usam você apenas para melhorar a imagem deles.

— Gostaria de pensar que não sou tão insignificante assim.

— O que há de insignificante em botar na bunda deles? Se há alguém que precisa disso são eles. Inclusive o presidente.

— Concordo. - Green espanou cascas de amendoim da mão e continuou mastigando. Stephanie estava realmente começando a apreciar o sujeito sentado à sua frente.

— Fale mais sobre Pam - pediu ela.

— Ela e o advogado estão namorando há uns três meses. Sabemos que ele é ligado a Heather Dixon. Os dois se encontraram várias vezes.

Stephanie ficou perplexa.

— Estou deixando de entender alguma coisa. Como os israelenses iriam presumir que Pam se envolveria com uma coisa dessas? Ela e Malone estão separados há muito tempo. Mal se falam. E você mesmo disse que não acha que eles seqüestraram o Gary.

— Os israelenses tinham de saber alguma coisa que nós não sabíamos. Eles previram tudo isso, sabiam que iria acontecer, e sabiam que Pam Malone iria fazer contato com Cotton. É a única coisa que faz sentido. Ela foi cultivada intencionalmente. Agora fale dessa tal Ordem do Velo de Ouro. Acho que os israelenses também sabiam que eles estavam envolvidos, e que o garoto, em algum momento, seria seqüestrado. Talvez eles próprios estivessem planejando isso, não?

— Pam é espiã?

— O alcance de seu envolvimento é um mistério. E, infelizmente, o advogado de Atlanta com quem ela estava namorando morreu anteontem. - Green fez uma pausa. — A tiros, num estacionamento.

Nada de novo. O Oriente Médio rotineiramente comia seus próprios aliados.

— O que você sabe sobre ele?

— Estávamos avaliando sua participação num acordo de compra de armas. Tel Aviv diz publicamente que está tentando impedir esses acordos, mas em particular eles encorajam a prática. Disseram-me que o advogado deu em cima de Pam. Passou muito tempo com ela. Deu presentes. Esse tipo de coisa. Para alguém que quer que os outros pensem que ela é durona, Pam Malone é simplesmente solitária e vulnerável.

Stephanie captou alguma coisa no tom de voz dele.

— Isso também descreve você?

Green não respondeu imediatamente, e ela se perguntou se teria atravessado a fronteira emocional. Por fim, ele falou num sussurro:

— Mais do que você imagina.

Ela queria explorar esse caminho e já ia fazer uma tentativa quando passos soaram na escada. A silhueta de Cassiopeia apareceu junto à porta.

— Temos companhia. Um carro acaba de parar junto ao meio-fio.

Green se levantou.

— Não vi nenhum farol.

— Estavam apagados.

Stephanie ficou preocupada.

— Achei que você estava dormindo.

— Alguém tem de tomar conta de vocês dois.

O telefone tocou.

Ninguém se mexeu.

Outro toque.

Green caminhou pela escuridão, encontrou o aparelho sem fio e atendeu. Stephanie notou que seu tom de voz fingia sono.

Alguns instantes de silêncio.

— Então venha. Vou descer num instante.

Green desligou.

— Larry Daley. Está aí fora e quer falar comigo.

— Isso não é bom - disse Stephanie.

— Talvez não. Mas saiam da vista e vejamos o que o diabo quer.

 

LONDRES

8H15

Malone adorava o Savoy. Havia se hospedado ali algumas vezes, por conta dos governos americano e inglês. Uma coisa em relação ao Setor Magalhães é que as vantagens eram tão fartas quanto os riscos. Ele não ia ao hotel havia vários anos, mas ficou satisfeito ao ver que o estabelecimento do fim do período vitoriano ainda projetava sua mistura grandiosa de opulência e malícia. Sabia que um quarto virado para o Tâmisa podia custar mais do que a maioria das pessoas no mundo levava um ano para ganhar. O que significava que seu salvador aparentemente gostava de viajar em grande estilo.

Haviam saído rapidamente da Bainbridge Hall, roubando o furgão da equipe de limpeza, que Malone estacionara a alguns quilômetros da estação de trem. Ali apanharam o trem das 6h30 de volta a Londres. Tudo estava calmo na estação Paddington, e ele havia evitado táxis, pegando o metrô até o Savoy.

O braço de Pam parecia bem. O sangramento que começara na Bainbridge Hall havia parado. Dentro do hotel, ele encontrou um telefone interno e pediu para falar com o quarto 453.

— Você se move depressa - disse a voz do outro lado da linha.

— O que você quer?

— No momento, estou com fome. De modo que o café-da-manhã é minha prioridade.

Malone captou a mensagem.

— Desça, então.

— Que tal no café, dentro de dez minutos? Eles têm um ótimo bufê.

— Estaremos esperando.

 

O homem que apareceu à mesa deles era o mesmo de duas horas atrás, só que agora usava calça verde-oliva e camisa de sarja castanha. Seu rosto barbeado, bonito, estava cheio de boa vontade e civilidade.

— Meu nome é McCollum. James McCollum. As pessoas me chamam de Jimmy.

Malone estava cansado demais e com suspeitas demais para ser amigável, mas se levantou. O aperto de mão era firme e confiante. Os olhos do sujeito, cor de jade, o encararam de volta, ansiosos. Pam ficou sentada. Malone se apresentou e apresentou-a, depois foi direto ao ponto.

— O que estava fazendo na Bainbridge Hall?

— Você poderia ao menos me agradecer por ter salvado sua vida. Eu não precisava fazer aquilo.

— Estava passando por acaso na vizinhança?

Os lábios finos do sujeito se dobraram num riso.

— Você é sempre assim? Sem preliminares, vai direto à ação?

— Você está desviando da pergunta.

McCollum arrastou uma cadeira e se sentou.

— Estou com fome. Que tal comermos alguma coisa e eu te conto tudo?

Malone não se mexeu.

— Que tal responder à minha pergunta?

— Certo, no interesse da boa vontade. Sou um caçador de tesouros em busca da Biblioteca de Alexandria. Tenho procurado os restos dela há mais de uma década. Estava na Bainbridge Hall por causa daqueles três homens. Eles mataram uma mulher há quatro dias, uma fonte boa demais, por isso fiquei na trilha deles, esperando descobrir para quem trabalhavam. Em vez disso, eles me levaram a você.

— Lá você disse que tem informações que eu não tenho. O que o faz pensar isso?

McCollum empurrou a cadeira para trás e se levantou.

— Eu disse que poderia ter alguma informação que você não tem. Olhe, não tenho tempo nem paciência para isso. Já estive naquela propriedade. Você não é o primeiro a ir lá. Cada um de vocês, amadores, sabe um pouquinho da verdade misturada com muita fantasia. Estou disposto a barganhar com parte do que sei para descobrir o pouco que você pode saber. Só isso, Malone. Nada mais sinistro.

— Então você atirou na cabeça de dois homens para provar seu argumento? - perguntou Pam, e Malone viu a expressão de uma advogada cética.

McCollum encarou Pam.

— Atirei naqueles dois homens para salvar a vida de vocês. - Em seguida, olhou ao redor. — Adoro este lugar. Sabia que o primeiro martini foi servido no Bar Americano do Savoy? Hemingway, Fitzgerald, Gershwin... todos beberam lá. Um monte de histórias.

— Você gosta de história? - perguntou Pam.

— É uma necessidade ocupacional.

— Está indo a algum lugar? - perguntou Malone.

McCollum ficou de pé, rígido, com os modos calmos e sem se abalar, embora Malone tivesse deliberadamente tentado sacudi-lo.

— Você tem suspeitas demais para o meu gosto. Vá em frente. Faça a saga do herói. Espero que tenha sucesso. Aquele sujeito sabia das coisas.

— Como sabe disso?

— Como falei, estou nesta trilha há um tempo. Há quanto tempo você está? Sabe o que acho? Que você é um novato. Pior, que é um novato cheio de atitude. Já conheci um monte de gente assim. Acham que sabem tudo. A verdade é que não sabem nada. Essa biblioteca ficou escondida por 1.500 anos por algum motivo. - McCollum fez uma pausa. — Sabe, Malone, você é como o jumento parado num maravilhoso capim até a altura dos joelhos, com a cabeça por cima da cerca, comendo ervas daninhas. Prazer em conhecê-lo. Vou me sentar naquela mesa ali e tomar o café-da-manhã.

McCollum abriu caminho pelo café parcialmente ocupado.

— O que acha? - perguntou Malone a Pam.

— Arrogante. Mas você não pode acusá-lo disso.

Ele sorriu.

— Ele sabe alguma coisa, e não vamos descobrir sentados aqui.

Ela se levantou.

— Concordo. Vamos comer com nosso novo amigo.

Sabre sentou-se à mesa e esperou. Se tivesse calculado direito, eles viriam logo. De jeito nenhum Malone conseguiria resistir. Seu conhecimento tinha de estar limitado ao que George Haddad conseguira lhe dizer - o que, pela fita que ele havia escutado, não era grande coisa. O que Malone havia tirado do apartamento de Haddad antes de fugir poderia preencher lacunas, mas ele apostava que as questões vitais continuavam sem resposta.

O que também era um problema para ele.

Estava se obrigando a interagir. E esta era uma coisa diferente. Estava acostumado ao silêncio de seus próprios pensamentos - as companhias íntimas eram raras, confinadas a alguma mulher ocasional que lhe fornecia sexo. Ele contratava a maioria. Profissionais como ele, fazendo seu trabalho, dizendo à noite o que ele queria ouvir e indo embora de manhã. As realidades duras do perigo físico e da tensão intelectual, pelo menos para ele, mais neutralizavam do que estimulavam o sexo. Conseqüências graves minavam o cérebro. Ocasionalmente ele dormia com auxiliares contratadas. Mas, como a inglesa em quem havia atirado mais cedo, isso algumas vezes provocava efeitos colaterais irritantes. Em vez de romance, ansiava por solidão.

Já havia representado esse papel específico antes, com outros, quando precisava conquistar a confiança. As palavras e os atos, o modo como andava e se portava, a voz arrogante, tudo vinha de um dos muitos namorados de sua mãe. Era um policial violento em Chicago, onde ele havia morado quando estava com 12 anos. Lembrava-se de como o homem tentara impressioná-la com uma confiança inabalável. Lembrava-se de um jogo dos White Sox e de uma viagem à beira do lago. Mais tarde ficou sabendo que, como a maioria dos amantes da mãe, o policial só havia demonstrado interesse suficiente para impressioná-la. Assim que conseguiam o que realmente queriam, e que em geral era medido em noites na cama de sua mãe, a atenção acabava. Ele passou a odiar todos os pretendentes. Nenhum deles estava presente quando Sabre a enterrou. Ela morreu sozinha e falida.

E ele não repetiria o mesmo destino.

Levantou-se e foi para a fila do bufê.

Adorava o Savoy, quartos mobiliados com antiguidades caras e servidos por valetes do Velho Mundo. O tipo de luxo que Alfred Hermann e o resto da Ordem do Velo de Ouro costumavam desfrutar. Ele também queria esse privilégio. Em seus termos, não nos deles. Mas para alterar a realidade, precisava de Cotton Malone e perguntou a si mesmo se algo do que procurava estaria dentro da mochila de couro que Malone carregava. Até agora conseguira se manter um passo à frente do adversário e, com o canto do olho, ficou satisfeito ao ver que ainda mantinha a vantagem.

Malone e a ex-mulher estavam passando entre as mesas que se enchiam rapidamente.

— Certo, McCollum - disse Malone enquanto se aproximava. — Estamos aqui.

— Vai pagar a conta?

— Claro. É o mínimo que posso fazer.

Ele forçou um risinho.

— Só espero que não seja o máximo que você pode fazer.

 

WASHINGTON, D.C.

Stephanie e Cassiopeia recuaram para a cozinha enquanto Brent Green atendia à porta da frente. As duas retomaram a posição ao lado da porta de vaivém e ficaram ouvindo Green levar Daley para a sala de jantar e os dois sentarem-se à mesa.

— Brent - disse Daley, — temos alguns assuntos a discutir.

— Sempre tivemos, Larry.

— Temos um problema sério. E uso o plural porque vim ajudar você a resolvê-lo.

— Eu esperava que fosse importante, considerando a hora. Então, por que não diz qual é o nosso problema?

— Três corpos foram encontrados há pouco numa propriedade a oeste de Londres. Dois com balas na cabeça, o outro, no peito. Outro corpo, de uma mulher, foi encontrado a alguns quilômetros dali. Bala na cabeça. Uma arma do mesmo calibre deu os tiros na cabeça. Um furgão de limpeza foi roubado da propriedade. Os faxineiros foram deixados inconscientes. O furgão foi levado até uma cidade próxima e depois abandonado. Um homem e uma mulher foram vistos saindo do furgão, depois pegando um trem para Londres. O vídeo de vigilância da estação de Paddington confirmou que Cotton Malone e a ex-mulher saíram do trem.

Stephanie sabia aonde aquilo ia dar.

— Presumo - disse Green - que você está dando a entender que Malone matou essas quatro pessoas.

— É o que parece.

— Aparentemente, Larry, você jamais trabalhou como promotor num caso de assassinato.

— E você trabalhou?

— Em seis. Quando era assistente da promotoria estadual. Você não faz idéia se Malone atirou naquelas pessoas.

— Talvez não, Brent. Mas tenho o suficiente para deixar os ingleses alucinados. Vou deixar os detalhes para eles deduzirem.

Stephanie percebeu que isso poderia representar um problema para Cotton e viu nos olhos de Cassiopeia que a amiga concordava.

— Os ingleses identificaram Malone. O único motivo pelo qual não foram atrás dele é porque nos perguntaram o que ele está fazendo lá. Querem saber se é algo oficial. Por acaso você sabe a resposta?

O silêncio pairou no ar, e Stephanie imaginou a expressão de granito no rosto de Green. Esconder sentimentos era o que ele fazia melhor.

— Isso está fora da minha jurisdição. E quem pode dizer que Malone está fazendo alguma coisa que tenha a ver conosco?

— Acho que eu simplesmente pareço idiota.

— Nem sempre.

— Que gracinha, Brent. Humor. Isso é novo em você. Mas como eu estava dizendo, Malone está lá por algum motivo, e quatro pessoas morreram por causa dele, independentemente de ele ter puxado o gatilho. E acho que isso envolve o Elo de Alexandria.

— Mais saltos de lógica. É assim que a Casa Branca faz política?

— Eu não envolveria a Casa Branca. Você não está no topo da lista de pessoas prediletas deles no momento.

— Se o presidente não quer que eu sirva mais, certamente ele pode fazer algo a respeito.

— Não sei se sua demissão basta.

Stephanie percebeu que Daley finalmente estava chegando ao objetivo da visita.

— O que você tem em mente? - perguntou Green.

— O negócio é o seguinte. Os números do presidente nas pesquisas não andam muito bons. Certo, ainda temos três anos e então acaba nosso segundo mandato, mas gostaríamos de sair por cima. Quem não gostaria? E nada estimula mais os números das pesquisas que uma boa reunião em volta da bandeira, e nada revigora mais que um ato terrorista.

— Pela primeira vez você está correto.

— Onde está Stephanie?

— Como é que eu vou saber?

— Diga você. Há um ou dois dias você estava disposto a se demitir para apoiá-la. Eu digo para ela não envolver o Setor nesse negócio, e ela imediatamente mobiliza toda a porcaria da agência. Ela fez isso com sua aprovação?

— Não sou guardião dela.

— O presidente a demitiu. Ela foi substituída.

— Sem me consultar?

— Ele consultou a si mesmo, e isso basta. Ela está fora.

— E quem está encarregado do Setor Magalhães?

— Que tal uma pequena história? Não é minha. É de um dos meus livros prediletos, Hardball, de Chris Matthews. Ele não está do mesmo lado que eu na política, mas mesmo assim é um cara inteligente. Conta sobre quando o ex-senador Bill Bradley estava num jantar dado em sua homenagem. Bradley queria mais um pouco de manteiga e não conseguia que o garçom viesse na sua direção. Por fim, foi até o garçom e lhe disse que aparentemente ele não sabia quem ele era. "Sou Bill Bradley. Formado em Rhodes, jogador profissional de basquete, senador dos Estados Unidos, e gostaria de um pouco mais de manteiga."

O garçom não ficou impressionado e apenas disse que, aparentemente, Bradley não sabia quem ele era. E completou: "Sou o cara que cuida da manteiga." Veja bem, Brent, poder é o que você tem. De modo que, no momento, eu sou o encarregado do Setor Magalhães.

— Você não era um lobista corporativo antes de trabalhar na Casa Branca? E antes disso consultor político? O que o qualifica para cuidar da divisão mais sensível de inteligência do Departamento de Justiça?

— O fato de o presidente valorizar minha opinião.

— E o de que você puxa o saco dele sempre que ele aparece.

— Não vim aqui para discutir qualificações. A decisão foi tomada. Então, onde está Stephanie?

— Presumo que no hotel.

— Emiti um mandado para a prisão dela.

— E quem, no Departamento de Justiça, ajudou nisso?

— Os advogados da Casa Branca cuidaram das particularidades. Ela violou várias leis.

— Poderia me dizer quais?

— Que tal agredir um estrangeiro? Um membro da missão israelense jurou que Stephanie tentou matá-la. A mulher está com um galo feio na cabeça para provar.

— Você planeja abrir um processo?

— Planejo arrastar o rabo dela para algum lugar onde não haja repórteres. E de onde ela nunca retornará.

Mais silêncio.

— Coisas ruins acontecem, Brent.

— Isso me inclui?

— Na verdade, sim. Parece que os israelenses não gostam de você e não dizem o motivo. Talvez seja todo esse lixo cristão conservador que você gosta de pregar. - Daley fez uma pausa. — Ou talvez seja simplesmente porque você é um escroto. Não sei.

— Interessante o respeito que você tem pelo meu cargo.

— Tenho respeito pelas pessoas que me puseram no meu cargo, como você deveria ter. Sejamos claros. Poderíamos usar um bom ataque terrorista, e ninguém que eu conheço derramaria muitas lágrimas se você fosse a vítima. Haveria apenas ganhos: para nós. Nossos números nas pesquisas crescem. Todo mundo procura a liderança do presidente. A vida é boa.

— Então você veio aqui ameaçar o procurador-geral dos Estados Unidos?

— Ora, por que diz uma coisa dessas? Eu vim repassar a ameaça. É bom que você fique sabendo, para poder tomar as precauções de segurança adequadas. Stephanie também. Por algum motivo, os israelenses estão putos com ela. Mas, claro, você não sabe do paradeiro dela, então não podemos alertá-la. Que pena. Mas com você é diferente. Considere-se alertado.

— Presumo que os israelenses não se envolveriam pessoalmente em nenhum assassinato, não é?

— Claro que não. Aquele não é um Estado terrorista. Mas os israelenses são cheios de recursos e podem sublocar o projeto. Eles têm conexões com... digamos... elementos pouco agradáveis. Por isso você está sendo alertado.

Stephanie escutou alguém se levantar.

— Tudo isso faz parte do trabalho, Brent.

— E se eu for um bom menino e seguir as regras, esses elementos pouco agradáveis perderão o interesse em mim.

— Não posso dizer, realmente. Mas é possível. Por que não tenta, e então veremos?

A sala ficou em silêncio por mais tempo do que seria confortável. Stephanie imaginou dois leões se encarando.

— O legado do presidente vale tudo isso? - perguntou Green.

— É disso que você acha que se trata? De jeito nenhum. Trata-se do meu legado. Do que eu posso fazer. E esse tipo de capital político vale mais que ouro.

Ela ouviu solas de sapatos batendo no piso de madeira, afastando-se da cozinha.

— Larry - disse Green, elevando a voz.

Os passos pararam.

— Não tenho medo de você.

— Deveria ter.

— Dê o seu melhor tiro. Depois eu darei o meu.

— Claro. Brent, depois de eu dar o meu, você estará de volta a Vermont, a sete palmos da superfície, num caixão.

— Não tenha tanta certeza.

Daley deu um risinho.

— O engraçado disso tudo é que meus dois maiores pés no saco podem perfeitamente tirar esta administração da fossa. Isso é que é trabalhar com o que se tem.

— Talvez possamos surpreendê-lo.

— Continue pensando nisso. Tenha um ótimo dia.

Uma porta se abriu, depois se fechou.

— Ele foi embora - disse Green.

Stephanie saiu da cozinha e disse:

— Acho que você não pode mais me dizer o que fazer.

Ela registrou a fadiga no rosto dele.

— Você finalmente conseguiu ser demitida.

— E essa é a menor das nossas preocupações - deixou claro Cassiopeia.

— Há um traidor neste governo - disse Green. - E planejo encontrá-lo.

— Garanto, Sr. procurador-geral - disse Cassiopeia, —  que nunca lidou com esses tais elementos pouco agradáveis. Daley está certo. Os israelenses não vão fazer o trabalho sujo pessoalmente. Eles subcontratam. E as pessoas que eles empregam significam problema.

— Então todos precisamos ter cuidado.

Stephanie quase sorriu. Brent Green possuía mais coragem do que ela havia imaginado. Mas existia outra coisa. Ela havia detectado antes, e agora tinha certeza.

— Você tem um plano, não é?

— Ah, sim. Não estou sem recursos.

 

VIENA, ÁUSTRIA

10H50

Alfred Hermann se despediu do comitê político e pediu licença para sair da sala de jantar. Haviam lhe dito que seu convidado especial finalmente chegara.

Seguiu pelos corredores do térreo e entrou no espaçoso saguão do castelo no momento em que Henrik Thorvaldsen entrava. Grudou um sorriso no rosto e disse em inglês:

— Henrik. Que maravilhoso vê-lo!

Thorvaldsen também sorriu ao ver o anfitrião.

— Alfred. Eu não viria, mas decidi que simplesmente precisava conversar com todo mundo.

Hermann se aproximou e os dois se apertaram as mãos. Ele conhecia Thorvaldsen havia quarenta anos, e o dinamarquês havia mudado pouco. A coluna rígida e torta sempre estivera ali, dobrada num ângulo grotesco como um pedaço de lata amassada. Ele sempre admirara as emoções disciplinadas de Thorvaldsen, que permaneciam de modo estudado, educado, como se ele estivesse seguindo um programa fixo na memória. E isso exigia talento. Mas Thorvaldsen era judeu.

Não devoto nem explícito, mas, mesmo assim, era judeu.

Pior: era amigo íntimo de Cotton Malone, e Hermann estava convencido de que Thorvaldsen não viera à Assembléia para um contato social.

— Fico feliz em vê-lo aqui - disse Hermann. - Tenho muita coisa para conversar com você.

Os dois freqüentemente passavam tempo juntos na Assembléia. Thorvaldsen era um dos poucos membros cuja fortuna podia competir com a de Hermann. Era profundamente ligado à maioria dos governos da Europa, e seus bilhões de euros falavam por si.

Um brilho apareceu nos olhos do dinamarquês.

— Estou ansioso para ouvir tudo.

— E quem é este? - perguntou Hermann, indicando o garoto ao lado de Thorvaldsen.

— Gary Malone. Está comigo por algumas semanas enquanto o pai viaja, e decidi trazê-lo.

Fascinante. Thorvaldsen o estava testando.

— Maravilhoso. Virão mais alguns jovens com outros membros. Vou me certificar de que todos sejam adequadamente entretidos.

— Como eu tinha certeza que você faria.

Os empregados entraram com as bagagens. Hermann fez um gesto, e as bagagens foram levadas ao segundo andar. Ele já havia designado o quarto que Thorvaldsen ocuparia.

— Venha, Henrik. Ao meu escritório, enquanto seus pertences são acomodados. Margarete está ansiosa para vê-lo.

— Mas estou com o Gary.

— Traga-o. Vai ser ótimo.

 

Malone tomou seu café-da-manhã e tentou avaliar Jimmy McCollum, mas se perguntava seriamente se aquele era o verdadeiro nome do sujeito.

— Vai me dizer qual é o seu interesse em tudo isso? - perguntou McCollum. — A Biblioteca de Alexandria não é exatamente o Santo Graal. Outros procuraram, mas em geral são fanáticos ou malucos. Você não parece uma coisa nem outra.

— Nem você - disse Pam. — Qual é o seu interesse?

— O que aconteceu com seu braço?

— Quem lhe disse que alguma coisa aconteceu?

McCollum levou uma garfada de ovos à boca.

— Você o está segurando como se estivesse quebrado.

— Talvez esteja.

— Certo, não vai me contar.

McCollum encarou Malone.

— Há um monte de desconfiança aqui para com uma pessoa que salvou a pele de vocês dois.

— Ela fez uma boa pergunta. Qual é o seu interesse na biblioteca?

— Digamos que, se eu encontrasse alguma coisa, há pessoas que recompensariam meus esforços em muitos sentidos. Pessoalmente, acho que é perda de tempo. Mas tenho de me perguntar por que pessoas estão matando umas às outras. Alguém sabe de alguma coisa.

Malone decidiu lançar uma pequena isca na água.

— A saga do herói, que você mencionou. Sei sobre ela. São pistas que levam até a biblioteca. - Ele fez uma pausa. — Supostamente.

— Ah, elas levam. Acredite. Outros já estiveram lá. Nunca conheci nem falei com nenhum deles. Mas ouvi falar da experiência. A saga do herói é real, assim como os Guardiões.

Outra palavra-chave. O sujeito era bem informado. Malone voltou a atenção para um bolinho inglês, que cobriu de geléia de ameixa.

— O que podemos fazer um pelo outro?

— Que tal me dizer por que estava na Bainbridge Hall?

— A epifania de São Jerônimo.

— Ora, esta é nova. Poderia explicar?

— De onde você é? - perguntou Malone subitamente.

McCollum deu um risinho.

— Ainda está me avaliando? Certo, vou entrar no jogo. Nasci no grandioso estado do Kentucky. Louisville. E antes que pergunte, não cursei faculdade. Exército. Forças especiais.

— Ou seja: se eu verificar, será que vou encontrar um recruta chamado Jimmy McCollum? Está na hora de cair na real.

— Odeio dizer, mas tenho um passaporte e uma certidão de nascimento, e você vai encontrar meu nome neles. Cumpri meu tempo. Dispensado com honras. Mas isso tudo realmente importa? Parece que a única coisa que conta é o aqui e agora.

— Você está atrás de quê? - perguntou Malone.

— Espero que haja muitas coisas quando essa biblioteca for encontrada, mas ainda não sei qual é o seu interesse.

— Essa busca pode ser um desafio.

— Ora, é a primeira coisa que você diz e faz sentido.

— Quero dizer, há outros que também podem estar procurando.

— Diga algo que eu não saiba.

— Que tal os israelenses?

Malone captou um momento de perplexidade nos olhos animados de McCollum, depois a clareza retornou, junto com um sorriso.

— Adoro um desafio.

Hora de puxar a linha.

— Estamos com A epifania de São Jerônimo.

— Vai servir muito se você não souber qual é o significado.

Malone concordou.

— Eu tenho a saga do herói - disse McCollum.

Essa revelação segurou a atenção de Malone, em especial porque George Haddad não lhe deixara os detalhes dessa jornada.

— O que eu quero saber - continuou McCollum é: — você tem o romance de Thomas Bainbridge?

Pam ainda estava comendo: um pouco de frutas com iogurte. Ela certamente conhecia a primeira regra dos advogados - jamais revelar o que sabemos - porém Malone decidiu que, para receber, teria de dar.

— Tenho. Depois, para hipnotizar o ouvinte, acrescentou: — E mais.

McCollum franziu o rosto em admiração.

— Eu sabia que havia escolhido bem quando decidi salvar a pele de vocês.

 

Hermann ficou olhando Thorvaldsen e o garoto saírem do escritório. Margarete estava ao seu lado. Tinham tido uma agradável conversa de trinta minutos.

— O que está pensando? - perguntou à filha.

— Henrik é o de sempre. Pega muito mais do que dá.

— Essa é a natureza dele, assim como a minha. - E deveria ser

a sua, também, pensou. — Sentiu alguma coisa?

Ela balançou a cabeça.

— Nada em relação ao garoto? - perguntou ele.

— Parecia bem-educado.

Hermann decidiu contar algo que ela não sabia.

— Henrik está envolvido perifericamente com uma iniciativa atual do Círculo. É fundamental para o que discutimos durante o café-da-manhã.

— A Biblioteca de Alexandria?

Ele assentiu.

— Um dos amigos íntimos dele, um homem chamado Cotton Malone, faz parte do que está acontecendo.

— Sabre está cuidando da operação?

— Exatamente. Tudo está seguindo de acordo com os planos.

— O garoto se chama Malone. Ele também faz parte disso?

— É filho de Cotton Malone.

O rosto dela demonstrou surpresa.

— Por que ele está aqui?

— Na verdade, isso foi esperteza da parte do Henrik. Com os membros presentes, todos estaremos nos comportando do melhor modo possível. Este pode ser o lugar mais seguro para os dois. Claro, às vezes, acidentes acontecem.

— Você machucaria o garoto?

Ele a encarou com firmeza.

— Farei o que for necessário para proteger nossos interesses. Como você deveria estar disposta a fazer.

Ela não disse nada, e ele lhe permitiu um momento para pensar. Por fim, Margarete perguntou:

— Precisamos que um acidente aconteça?

Hermann ficou feliz porque ela estava começando a entender a seriedade da coisa.

— Depende do que nosso caro amigo Henrik tenha em mente.

 

— Como conseguiu esse nome? - perguntou McCollum. — Cotton.

— Na verdade, é bem... - começou Pam.

Malone interrompeu-a.

— É uma longa história. Podemos falar disso outra hora. Neste momento, quero saber sobre a saga do herói.

— Você é sempre sensível assim em relação ao seu nome?

— Sou sensível em relação a perder tempo.

McCollum estava terminando um prato de frutas. Malone notou que o sujeito comia de modo saudável. Aveia, morangos, ovos, suco.

— Certo, Malone. Eu tenho a saga. Recuperei-a de um convidado que morreu antes de partir.

— Ação sua?

— Dessa vez, não. Causas naturais. Encontrei-o e roubei a saga. Não pergunte quem era, porque não vou dizer. Mas tenho as pistas.

— E sabe se são verdadeiras?

McCollum deu um risinho.

— No meu ramo de negócios, nunca se sabe disso até chegar lá. Mas vou me arriscar.

— De que você realmente precisa? - perguntou Pam. Ela ficara num silêncio pouco característico durante o café-da-manhã. — Obviamente, você sabe mais que nós. Por que perder tempo conosco?

— Para ser honesto, tenho um problema. Um problema que não consigo resolver. Achei que vocês dois poderiam ajudar um pouco. Em troca, estou disposto a compartilhar o que tenho.

— E está disposto a atirar na cabeça de dois homens - disse Malone.

— Eles teriam feito o mesmo com vocês. O que, por sinal, deveria levar vocês a pensar. Quem ia querer isso?

Excelente pergunta, pensou Malone. Ninguém os havia seguido de Londres, disso tinha certeza. Não fazia sentido os assassinos estarem esperando por eles na Bainbridge Hall. Ele só decidira fazer a visita algumas horas antes.

— Essa saga - disse McCollum — tem muito mais do que eu havia pensado inicialmente. Agora você me diz que os judeus também estão envolvidos.

— Um amigo meu foi morto ontem, o que deveria acabar com o interesse de Israel.

— Esse amigo sabia algo sobre a biblioteca?

— Foi o que o levou a ser morto.

— Não é o primeiro.

Malone precisava saber uma coisa.

— Presumo que você vai querer oferecer os manuscritos encontrados a comerciantes.

McCollum deu de ombros.

— Quero lucrar com meu trabalho. Isso incomoda você?

— Se os manuscritos ainda existirem, precisariam ser preservados e estudados.

— Não sou ganancioso, Malone. Certamente em algum lugar da descoberta haverá algumas migalhas que eu poderia vender em troca do trabalho. - McCollum fez uma pausa. — Junto com o crédito pela descoberta, claro. Isso, em si, valeria alguma coisa.

— Fama e fortuna - disse Pam.

— A recompensa imemorial - disse McCollum. — As duas têm aspectos satisfatórios.

Malone já ouvira o suficiente.

— Fale das pistas.

McCollum estava sentado diante deles, elevado como uma divindade, malicioso como um demônio. Esse sujeito precisava ser vigiado. Matava com facilidade demais. Mas se possuía a saga do herói, poderia ser o único caminho dos dois.

McCollum enfiou a mão no bolso e pegou um pedaço de papel.

— É assim que ela começa.

Malone pegou a pequena folha e leu.

 

“Como são estranhos os manuscritos, grande viajante do desconhecido. Eles aparecem separadamente, mas para os que sabem, parece que as cores do arco-íris se tornam uma única luz branca. Como encontrar esse raio único? É um mistério, mas visite a capela junto ao Tejo, em Belém, dedicada ao nosso santo padroeiro.”

 

— Onde está o resto?

McCollum deu um risinho.

— Deduza esta parte, depois veremos. Um passo de cada vez.

Malone se levantou.

— Aonde você vai? - perguntou McCollum.

— Ganhar meu pão de cada dia.

 

WASHINGTON, D.C.

5H30

Stephanie havia enfrentado muitas coisas, mas jamais a prisão. Larry Daley estava aumentando a aposta.

— Temos de atacar o Daley agora - ela deixou claro.

Stephanie, Green e Cassiopeia estavam de pé na cozinha de Green, enquanto o café era preparado na bancada. O aroma fez com que ela se lembrasse que estava com fome.

— O que você tem em mente? - perguntou Cassiopeia.

Jamais, em 12 anos, ela havia comprometido a segurança do Setor. Era fiel ao juramento. Mas um abismo de dúvidas a deixava insegura em relação ao que fazer em seguida. Por fim, decidiu que havia apenas uma opção e disse:

— Estávamos investigando o Daley.

Uma nova seriedade varreu o rosto de Green.

— Explique.

— Eu queria saber o que o movia, por isso designei uma agente para descobrir. Ela trabalhou nele, esporadicamente, durante quase um ano. Fiquei sabendo um bocado de coisas.

— Você continua me espantando, Stephanie. Sabe o que teria acontecido se ele descobrisse?

— Acho que eu seria demitida; portanto, o que isso importa agora?

— Daley está tentando matar você. Talvez ele saiba.

— Duvido. Ela era boa. Mas Daley está enfiado até os olhos em encrenca. Você disse antes que nunca havia descoberto uma violação da lei. Eu descobri. Um monte. Financiamento de campanha, suborno, fraude. Daley é o canal para o que as pessoas de posses precisam obter da Casa Branca, pessoas que não querem que seus nomes apareçam em formulários.

— Por que não agiu contra ele?

— Estava planejando agir, então esse vazamento aconteceu.

Isso teve de esperar.

— E agora, que ele está no comando do Setor Magalhães, será que vai descobrir o que você fez? - perguntou Cassiopeia.

Ela balançou a cabeça.

— Tenho todas as informações guardadas em outro lugar, e a agente que fez as investigações se transferiu do Setor há meses. Só ela e eu sabíamos.

Green serviu duas canecas de café.

— O que você quer fazer?

— Como tenho aqui minha amiga que possui tantas habilidades, acho que poderíamos terminar a investigação.

— Não gosto nem um pouco disso - reagiu Cassiopeia.

Green fez um gesto.

— As senhoras podem pôr o que quiserem no café.

— Você não toma? - perguntou Stephanie.

— Nunca.

— Então por que tem uma cafeteira?

— Costumo receber visitas. - Ele fez uma pausa. — Ocasionalmente.

A solidez de Green, sua confiabilidade masculina, deu lugar por um instante a uma sinceridade de menino, e ela gostou daquilo.

— Alguém que eu conheça? - perguntou Stephanie.

Green sorriu.

— Você é cheio de surpresas - disse ela.

— Muito parecido com alguém que todos nós conhecemos - disse Cassiopeia, tomando o café.

Green assentiu, parecendo gostar da mudança de assunto.

— Henrik é um homem fascinante. Sempre um passo à frente. Mas e você, Stephanie? O que quer dizer com terminar a investigação?

Ela saboreou a bebida fumegante e deixou que um gole esquentasse sua garganta.

— Temos de fazer uma visita à casa dele.

— Por quê? - perguntou Cassiopeia. — Mesmo que conseguíssemos entrar, o computador dele certamente é protegido por senha.

Ela sorriu.

— Isso não é problema.

Green a examinou com ar de curiosidade, depois não pôde mais esconder a perplexidade.

— Você não precisa de senha, não é?

Ela balançou a cabeça e disse:

— É hora de pegar aquele FDP.

 

Malone entrou no centro de negócios do Savoy. As espaçosas instalações eram totalmente equipadas com computadores, máquinas de fax e copiadoras. Disse ao empregado o que necessitava e foi rapidamente levado a um terminal, com o custo debitada na conta de McCollum.

Começou a sentar-se, mas Pam o interrompeu.

— Posso? - perguntou ela.

Ele decidiu conceder-lhe a honra. Na vinda do café, Malone vira que Pam sabia o que ele pretendia fazer.

— Por que não? Pode ir fundo.

Entregou-lhe o papel com o início da saga e depois encarou McCollum.

— Você disse que conseguiu isso recentemente?

— Não. Não mencionei uma ocasião. Bela tentativa, Malone.

— Preciso saber. É importante. Nos últimos meses?

O benfeitor hesitou, depois assentiu.

Malone estivera pensando.

— Pelo que sei, os Guardiões vêm convidando pessoas para a biblioteca há séculos. Eles adaptam a busca ao tempo. Aposto que adaptam até ao convidado. Por que não? Tornam pessoal. Eles têm um trabalho enorme para todas as outras coisas. Por que não com isso?

McCollum assentiu.

— Faz sentido.

Pam estava digitando.

— A primeira parte - disse Malone. — Como são estranhos os manuscritos, grande viajante do desconhecido. Eles aparecem separadamente, mas para os que sabem, parece que as cores do arco-íris se tornam uma única luz branca. Como encontrar esse raio único? Isso é bobagem. Só um modo de dizer que há muitas informações. Mas a parte seguinte: É um mistério, mas visite a capela junto ao Tejo, em Belém, dedicada ao nosso santo padroeiro. É aí que começamos.

— Entendi - disse Pam.

Ele sorriu. Ela estava à sua frente, e Malone gostava disso.

— Fiz uma busca sobre Tejo e Belém.

— Isso não é fácil demais? - perguntou McCollum.

— Os Guardiões não podem desconhecer o mundo. A internet existe, então por que eles não presumiriam que um convidado poderia usá-la?

Olhou para a tela. O site que Pam havia encontrado era de Portugal, uma página de viagem e turismo que mostrava atrações locais em Lisboa e ao redor.

— Belém - disse Pam. — Perto do centro da cidade. Onde o rio Tejo encontra o mar.

Malone leu sobre a ponta de terra a sudoeste do centro de Lisboa. O lugar onde havia muito tempo as caravelas portuguesas partiam para o mundo ocidental. Vasco da Gama para a Índia, Magalhães para circunavegar o globo, Dias para rodear o Cabo da Boa Esperança. Belém acabou florescendo graças às riquezas - principalmente especiarias - que vinham do Novo Mundo. O rei português construiu um palácio de verão ali, e cidadãos ricos foram em bando rodeá-lo. Antigamente era uma municipalidade separada, mas agora representava um ímã para turistas que vinham desfrutar suas lojas, seus cafés e museus.

— Henrique, o Navegador, é ligado ao local - disse Pam.

— Vamos descobrir sobre uma capela dedicada ao nosso santo padroeiro - sugeriu Malone.

Alguns cliques do mouse, e Pam apontou para a tela.

— Estou muito à sua frente.

Um monstruoso prédio de pedra gasta pelo tempo encheu a tela. Pináculos elaborados subiam para um céu nublado. A aparência combinava arquitetura gótica e renascentista com óbvias influências mouras. Imagens ousadas salpicavam a fachada de pedra.

— Mosteiro de Santa Maria de Belém - leu ele na tela.

Pam subiu a imagem, e Malone leu que aquele era um dos monumentos mais conhecidos de Portugal, freqüentemente citado como o Mosteiro dos Jerônimos. Muitas das principais figuras do país, inclusive reis e rainhas, estavam enterrados ali.

— Por que isso apareceu? - perguntou ele a Pam.

Ela clicou num link.

— Digitei várias palavras-chave e o mecanismo de busca apontou direto para cá. Em 1498, quando Vasco da Gama retornou da viagem durante a qual descobriu o caminho para as Índias, o rei português garantiu recursos financeiros para construir o mosteiro. A Ordem de São Jerônimo tomou posse do lugar em 1500, e a pedra fundamental foi posta em 6 de janeiro de 1501.

Malone sabia da importância dessa data desde a infância. Sua mãe era católica e eles iam regularmente à igreja, em especial depois da morte de seu pai. Dia 6 de janeiro. Festa da epifania.

Seria isso que Haddad havia escrito em seu diário?

Grandes sagas costumam começar com uma epifania.

— A capela principal do mosteiro - disse Pam — foi dedicada a São Jerônimo. Cotton, você se lembra do que Haddad falou sobre ele.

Malone se lembrava. Era um antigo patriarca da igreja que, no século IV, traduziu muitos textos da escritura para o latim, inclusive o Velho Testamento.

— Há um link para mais coisas sobre São Jerônimo - disse ela, e a tela mudou com outro clique do mouse.

Os três leram. Malone viu primeiro.

— Ele é o santo padroeiro das bibliotecas. Parece que esta saga se inicia em Lisboa.

— Nada mau, Malone.

— Ganhamos nosso pão de cada dia?

— Como falei, sou péssimo para charadas. Vocês dois parecem ser bons nisso. Mas o resto é mais difícil.

Malone riu.

— Que tal tentarmos juntos e vermos aonde vai dar?

 

VIENA

13H

Thorvaldsen saiu do banheiro e ficou olhando Gary desfazer as malas. Além do que estava usando ao ser seqüestrado alguns dias antes, o garoto não tinha roupas. Assim, no dia anterior, Jesper havia ido a Copenhague e comprado algumas coisas.

— Esta casa é velha, não é? - perguntou Gary.

— Foi construída há muitas gerações, como Christiangade.

— Há muita coisa velha na Europa. Não é como nos Estados Unidos.

Thorvaldsen riu.

— Nós estamos por aqui há um pouco mais de tempo.

— Quarto fantástico.

O velho também achava as acomodações interessantes. No segundo andar. Perto do anfitrião. Era a primeira vez, para ele. Um aposento requintado, com móveis femininos, que certamente já havia pertencido a uma mulher de bom gosto.

— Você gosta de história? - perguntou Thorvaldsen.

Gary deu de ombros.

— Não gostava até os dois últimos verões. É muito mais interessante aqui, quando a gente vê.

O velho decidiu que era hora de contar ao garoto a situação em que estavam.

— O que achou de nosso anfitrião e da filha dele?

— Não muito amigáveis. Mas parecem gostar de você.

— Conheço Alfred há muito tempo, mas acho que ele está tramando alguma coisa.

Gary sentou-se na cama.

— Acho que ele pode estar por trás do seu seqüestro.

Ficou olhando enquanto o garoto começava a perceber a encrenca.

— Tem certeza?

Thorvaldsen balançou a cabeça.

— É por isso que estamos aqui. Para descobrir.

— Eu também quero saber. Aqueles homens magoaram minha mãe, e não gosto disso.

— Está com medo?

— Você não me traria aqui se eu estivesse correndo perigo.

Ele gostou da resposta. O garoto era esperto.

— Você viu dois homens morrerem. Poucos jovens de 15 anos podem dizer isso. Você está bem?

— O que papai matou merecia aquilo. Tentou me levar embora. Papai fez o que devia. O que você vai fazer?

— Não sei bem. Mas muita gente estará aqui nos próximos dias. Gente poderosa. Com eles, posso descobrir o que temos de saber.

— Isso é como uma espécie de clube?

— Pode-se dizer que sim. Pessoas com interesses semelhantes que se juntam para falar desses interesses.

Na mesinha-de-cabeceira, o celular tocou. Thorvaldsen foi até lá e olhou o número. Era Jesper. Apertou o botão de falar.

— Estou recebendo um telefonema. De Tel Aviv.

— Então vamos ouvir.

Alguns segundos depois, quando a conexão foi estabelecida, Thorvaldsen escutou uma voz profunda de barítono perguntar:

— Henrik, o que andou fazendo?

— Como assim?

— Não banque o ingênuo. Quando você ligou ontem, eu fiquei com suspeitas, mas agora estou totalmente paranóico.

Na véspera, ele havia telefonado para o escritório do primeiro-ministro de Israel. Como doava milhões às causas dos judeus e financiava uma quantidade de políticos israelenses, inclusive o atual primeiro-ministro, seu telefonema não fora ignorado. Ele fizera uma pergunta simples: qual era o interesse de Israel em George Haddad?

De propósito, não havia falado diretamente com o primeiro-ministro, direcionando a pergunta por intermédio de seu chefe de staff, que agora, como ele notou, estava inquieto.

— Descobriu uma resposta para a minha pergunta?

— O Mossad nos disse para cuidar da nossa vida.

— É assim que eles falam com quem está no poder?

— É, quando querem que cuidemos da nossa vida.

— Então vocês não têm resposta?

— Não falei isso. Eles querem George Haddad morto e querem que Cotton Malone seja parado. Parece que Malone e a ex-mulher estão, no momento, a caminho de Lisboa, e isso depois de quatro pessoas serem mortas ontem à noite num museu a oeste de Londres. De modo interessante, os ingleses sabem que Malone estava envolvido nas mortes, mas não tentaram pegá-lo. Deixaram-no sair do país. Nosso lado acha que foi porque os americanos deram luz verde para o que ele fez. Acham que a América voltou para os nossos negócios, no que tange a George Haddad.

— Como é que seus subordinados sabem disso?

— Eles têm linha direta com Malone. Sabem exatamente onde está e o que está fazendo. Além do mais, vêm prevendo isso há algum tempo.

— Parece que todo mundo anda ocupado por aí.

— Para dizer o mínimo. O primeiro-ministro e eu valorizamos sua amizade. Você é um patrono desta nação. Por isso está recebendo este telefonema. O Mossad vai tirar Malone da linha. Há agentes a caminho de Lisboa. Se puder alertá-lo, faça isso.

— Eu gostaria de poder, mas não tenho como.

— Então, que Deus olhe por ele. Malone vai precisar.

A linha ficou muda.

Thorvaldsen apertou o botão e desligou o celular.

Em seguida, retomou a compostura.

— Só um probleminha com uma das minhas empresas. Ainda tenho negócios a fazer, sabe?

O garoto pareceu aceitar a explicação.

— Você disse que estávamos aqui por causa de uma espécie de clube, mas não contou o que isso tem a ver comigo.

— Na verdade, esta é uma ótima pergunta. Deixe-me responder enquanto caminhamos. Venha, vou lhe mostrar a propriedade.

 

Alfred Hermann ouviu a porta do quarto de Henrik Thorvaldsen se fechar. O equipamento de escuta instalado no aposento havia funcionado perfeitamente. Margarete estava sentada à sua frente enquanto ele desligava o alto-falante.

— Esse dinamarquês é um problema - disse Margarete.

Ela havia demorado muito a perceber. Sem dúvida Thorvaldsen estava ali para sondar, mas Hermann ficou pensando no telefonema. Seu velho amigo havia dito pouca coisa para indicar a natureza da ligação, e Hermann duvidava que tivesse algo a ver com negócios.

— Ele está certo? - perguntou Margarete. — Você seqüestrou o garoto?

Ele lhe permitira ouvir por um motivo, por isso assentiu.

— É parte do nosso plano. Mas também permitimos que ele fosse salvo. No momento, Dominick está cultivando as sementes que plantamos.

— A biblioteca?

Ele assentiu.

— Achamos que temos a pista.

— E você planeja dar essa informação a Sabre?

— Ele é nosso emissário.

Ela balançou a cabeça, enojada.

— Papai, ele é um oportunista ganancioso. Digo isso há anos.

A paciência de Hermann acabou.

— Eu não lhe permiti ficar sabendo o que está acontecendo para podermos discutir. Preciso da sua ajuda.

Ele viu que ela havia captado a tensão em sua voz.

— Claro. Eu não pretendia passar do ponto.

— Margarete, o mundo é um lugar complicado. Temos de usar os recursos disponíveis. Concentre-se. Ajude-me a lidar com isso que está acontecendo e deixe Dominick se preocupar com a parte dele.

Ela respirou fundo e exalou devagar por entre os dentes trincados, hábito que empregava rotineiramente quando estava nervosa.

— O que quer que eu faça?

— Ande por aí. Esbarre casualmente com Henrik. O sujeito acha que está em segurança aqui. Faça com que ele se sinta assim.

 

WASHINGTON, D.C.

10H30

Stephanie não gostou de sua nova aparência. O cabelo louro-prateado estava agora castanho-claro, resultado de um tingimento rápido feito por Cassiopeia. Maquiagem diferente, novas roupas e um par de óculos transparentes completavam a alteração. Não estava perfeita, mas era o bastante para ajudá-la a se esconder em público.

— Não uso calças de lã Geraldine há muito tempo - disse a Cassiopeia.

— Paguei muito por elas; portanto, tenha cuidado.

Ela riu.

— Como se você não pudesse pagar por isso.

Uma blusa de gola canoa e um casaco azul-marinho completavam a figura. Estavam sentadas no banco de trás de um táxi, no trânsito do fim da manhã.

— Mal a reconheci - disse Cassiopeia.

— Está dizendo que eu me visto como uma velha?

— Seu guarda-roupa merecia um pouco de atualização.

— Talvez, se eu sobreviver a tudo isso, você possa me levar às compras.

Um brilho de diversão surgiu nos olhos de Cassiopeia.

Stephanie gostava dela. Sua confiança podia ser contagiosa.

Iam à casa de Larry Daley. Ele morava em Cleveland Park, um belo bairro residencial não muito longe da catedral nacional. Ex-refúgio de moradores de Washington que buscavam escapar do calor da cidade, agora abrigava lojas de curiosidades, cafés da moda e um popular teatro art déco.

Ela mandou o motorista parar a três quarteirões do endereço e pagou a corrida. Andaram pelo resto do caminho.

— Daley é um escroto arrogante - disse Stephanie. — Acha que ninguém está olhando para ele. Mas mantém registros. Se você me perguntar, é uma tremenda idiotice, mas ele faz isso.

— Como você chegou perto dele?

— Ele é mulherengo. Simplesmente lhe dei a oportunidade.

— Papo de travesseiro?

— Do pior tipo.

A casa era mais um retiro vitoriano. A princípio, ela havia se perguntado como Daley podia pagar a hipoteca certamente astronômica, mas ficou sabendo que era alugada. Um adesivo numa janela do térreo dizia que a residência tinha alarme. Era o meio do dia, e Daley devia estar na Casa Branca, onde ficava pelo menos 18 horas. A imprensa conservadora adorava elogiar sua ética profissional, mas Stephanie não se deixava enganar. Ele só não queria ficar de fora do círculo nem por um momento.

— Faço um trato com você - disse ela.

O rosto de Cassiopeia se derreteu num riso esperto.

— Quer que eu invada?

— Depois eu cuido do alarme.

 

Sabre estava se ajustando à personalidade de Jimmy McCollum. Já o nome, em si, era outra coisa. Ele não o usava havia muito tempo, mas achou prudente fazer isso, dado que Malone poderia muito bem tentar verificá-lo. Nesse caso, ele apareceria nos registros do exército. Havia uma certidão de nascimento, cartão do seguro social e pouca coisa mais, porque ele havia trocado de nome assim que se mudara para a Europa. Dominick Sabre dava um ar de confiança e mística. Os homens que o haviam contratado sabiam pouco mais que seu nome, de modo que era importante que o rótulo provocasse a atração correta. Ele o havia encontrado num cemitério alemão, de um aristocrata morto na década de 1800.

Agora era Jimmy McCollum de novo.

Sua mãe lhe dera o nome de James por causa do pai dela, a quem ele chamava de Paizão - um dos poucos homens em sua vida que lhe haviam demonstrado respeito. Sabre não conhecera o pai, nem acreditava que a mãe soubesse qual dos amantes poderia ser o culpado. Apesar de ter sido uma boa mãe e de tê-lo tratado com gentileza, fora uma mulher digna de pena, indo de homem em homem, casando-se três vezes e desperdiçando todo o dinheiro que tinha. Ele saiu de casa aos 18 anos, para entrar para o exército. Ela queria que ele fosse para a faculdade, mas os estudos não lhe interessavam. Em vez disso, como a mãe, o que o atraía era a oportunidade. Mas, diferentemente dela, conseguira aproveitar cada uma que aparecera.

O exército. As forças especiais. A Europa. Os Cadeiras da Ordem.

Durante 16 anos havia trabalhado para os outros, fazendo o que mandavam, aceitando pagamentos, satisfeito com os elogios magros.

Agora era hora de trabalhar por conta própria.

Arriscado? Certamente.

Mas o Círculo respeitava o poder, admirava a inteligência e negociava somente com a força. Ele queria fazer parte.

Talvez até mesmo ser um Cadeira. Mais ainda, se a biblioteca perdida de Alexandria contivesse o que Alfred Hermann acreditava, ele poderia até afetar o mundo.

Isso significava poder.

Em suas mãos.

Tinha de encontrar a biblioteca.

E o homem sentado do outro lado do corredor no vôo da TAP de Londres a Lisboa iria lhe mostrar o caminho.

Cotton Malone e a ex-mulher haviam solucionado a primeira parte da saga do herói em alguns minutos. Sabre confiava que os dois poderiam decifrar o resto e, assim que isso estivesse feito, ele os eliminaria.

Mas não era idiota. Malone certamente estaria cauteloso.

Sabre só precisava ser imprevisível.

 

Stephanie ficou olhando enquanto Cassiopeia arrombava a fechadura da porta dos fundos da casa de Larry Daley.

— Menos de um minuto - disse ela. — Nada mau. Ensinam isso em Oxford?

— Na verdade, aprendi a arrombar minha primeira fechadura lá. Um armário de bebidas, se me lembro bem.

Ela abriu a porta e prestou atenção.

Bips soaram num corredor adjacente. Stephanie correu até o teclado e apertou um código de quatro dígitos, esperando que o idiota não tivesse alterado a seqüência.

Os bips pararam e a luz indicadora mudou de vermelho para verde.

— Como você sabia?

— Minha garota o viu digitar.

Cassiopeia balançou a cabeça.

— Ele não é mesmo um idiota?

— Isso se chama pensar com a cabeça errada. Daley achava que ela só estava ali para satisfazê-lo.

Examinou o interior iluminado pelo sol. Decoração moderna. Muito preto, prata, branco e cinza. Arte abstrata nas paredes. Nenhum significado em lugar nenhum. Que adequado!

— O que estamos querendo? - perguntou Cassiopeia.

— Por aqui.

Ela seguiu por um corredor curto até uma alcova, que, como sabia, servia de escritório. Sua agente havia informado que Daley baixava tudo em pen drives protegidos por senha, jamais mantendo qualquer dado no laptop nem no computador da Casa Branca. A garota de programa que sua agente havia contratado para seduzir Daley viu essa idiossincrasia numa noite enquanto Daley trabalhava no computador e ela trabalhava nele.

Disse a Cassiopeia o que sabia.

— Infelizmente, ela não viu onde era o esconderijo.

— Estava ocupada demais?

Stephanie sorriu.

— Todos temos nossos trabalhos. E não seja do contra. As garotas de programa estão entre as fontes mais produtivas.

— E você diz que eu sou deturpada.

— Precisamos encontrar o esconderijo.

Cassiopeia sentou-se numa poltrona de madeira que aceitou seu peso com guinchos e gemidos.

— Tem de estar ao alcance fácil.

Stephanie fez um inventário da alcova. A mesa tinha um mata-borrão, um suporte com canetas e lápis e fotos de Daley com o presidente e o vice-presidente, além de uma luminária de leitura. Estantes estreitas, do chão ao teto, ocupavam duas paredes. Toda a alcova teria menos de um metro quadrado. O piso, como o do resto da casa, era de madeira-de-lei.

Não havia muitos esconderijos.

Os livros nas estantes atraíram sua atenção. Daley parecia adorar tratados de política. Não eram muitos: cerca de uma centena. Brochuras e de capa dura, misturados, muitas lombadas com rachaduras, indicando que as páginas haviam sido lidas. Balançou a cabeça.

— Um conhecedor de política moderna, e lê todos os lados.

— Por que você tem essa atitude em relação a ele?

— É que eu sempre senti que precisava tomar um banho depois de estar perto dele. Para não mencionar que ele tentou me demitir desde o primeiro dia. - Ela fez uma pausa. — E finalmente conseguiu.

Uma chave fez barulho na fechadura da frente.

A cabeça de Stephanie virou. Olhou pelo corredor, na direção da frente da casa.

A porta se abriu e ela escutou a voz de Larry Daley. Depois ouviu outra pessoa. Uma mulher.

Heather Dixon.

Fez um sinal, e as duas foram rapidamente pelo corredor até um dos quartos.

— Deixe-me desligar o alarme - disse Daley.

Alguns segundos de silêncio.

— Estranho - observou Daley.

— Problema?

Stephanie soube imediatamente. Elas haviam esquecido de ligar de novo o sistema depois de entrar.

— Tenho certeza de que liguei o alarme antes de sair - disse Daley.

Alguns instantes de silêncio, então Stephanie ouviu o estalo de uma bala entrando na câmara.

— Vamos dar uma olhada - disse Dixon.

 

LISBOA

15H30

Malone olhou para o mosteiro de Santa Maria de Belém. Ele, Pam e Jimmy McCollum haviam ido de Londres a Lisboa e tomado um táxi do aeroporto até a beira do mar.

Lisboa ficava empoleirada num amplo conjunto de morros que davam para o estuário do Tejo, um lugar de largos bulevares simétricos e belas praças arborizadas. Uma das maiores pontes suspensas do mundo atravessava o rio poderoso e levava a uma alta estátua de Cristo com os braços abertos, abraçando a cidade a partir da margem leste. Malone visitara o lugar muitas vezes e sempre se lembrava de São Francisco, tanto na aparência física quanto na propensão da cidade para os terremotos. Vários haviam deixado marcas.

Todos os países possuíam coisas esplêndidas. O Egito, as pirâmides. A Itália, a catedral de São Pedro. A Inglaterra, Westminster. A França, Versailles. Ouvindo o chofer de táxi na corrida desde o aeroporto, ele soube que, para Portugal, o orgulho nacional vinha da abadia que se esparramava à sua frente. A fachada de calcário branco era maior que um campo de futebol, envelhecida como marfim antigo, e combinava mourisco, bizantino e gótico francês numa exuberância de decorações que parecia soprar vida nas paredes altíssimas.

Havia pessoas em toda parte. Um desfile de gente segurando máquinas fotográficas entrava e saía. Do outro lado de um bulevar movimentado e de trilhos de trem que ficavam diante da impressionante fachada sul, ônibus de turismo esperavam enfileirados em ângulo, como navios ancorados num porto. Uma placa informava aos visitantes que a abadia fora construída em 1500 para cumprir uma promessa feita pelo rei Manuel I à Virgem Maria e que fora erguida no lugar de um antigo hospital de marinheiros feito pelo príncipe Henrique, o Navegador. Colombo, Vasco da Gama e Magalhães haviam rezado ali antes de suas viagens. Através dos séculos, a enorme estrutura havia servido como convento, asilo de idosos e orfanato. Agora era tombada pelo Patrimônio Mundial, tendo recuperado boa parte de sua antiga glória.

— A igreja e a abadia são dedicadas a São Jerônimo - Malone ouviu uma guia dizer a turistas em italiano. — Isso é simbólico no sentido de que tanto São Jerônimo quanto seu mosteiro representaram novos pontos de partida para o cristianismo. Navios partiram daqui para descobrir o Novo Mundo e levar Cristo a ele. São Jerônimo traduziu a Bíblia para o latim, para que mais pessoas pudessem descobrir suas maravilhas. - Malone podia ver que McCollum também entendia a mulher.

— O italiano é uma das suas línguas? - perguntou.

— Sei o bastante.

— Um homem de muitos talentos.

— O que for necessário.

Malone captou a atitude carrancuda.

— O que vem em seguida na saga?

McCollum pegou outro pedaço de papel, no qual estava escrito parte do que havia no primeiro e mais frases cifradas.

 

“É um mistério, mas visite a capela junto ao Tejo, em Belém, dedicada ao nosso santo padroeiro. Comece a viagem nas sombras e termine na luz, onde uma estrela que se retira encontra uma rosa, fura uma cruz de madeira e converte prata em ouro. Encontre o lugar que forma um endereço sem lugar, onde é encontrado outro lugar. Depois, como os pastores do pintor Poussin, perplexo com o enigma, você será inundado pela luz da inspiração.”

 

Malone entregou o papel a Pam e disse:

— Certo. Vamos fazer uma visita e ver o que há.

Seguiram o denso enxame de turistas até a entrada. Uma placa indicava que a entrada para a igreja era grátis, mas era necessário pagar o ingresso para o resto dos prédios.

Dentro da igreja, no que era identificado como o coro inferior, o teto cheio de arestas entre as abóbadas era baixo e produzia uma semi-escuridão imponente. À esquerda ficava o cenotáfio de Vasco da Gama. Simples e solene, era cheio de símbolos náuticos. Outro túmulo, do poeta Luís de Camões, ficava à direita dele, junto com uma pia batismal.

Paredes nuas nos dois nichos faziam aumentar a austeridade e a grandiosidade. Pessoas se apinhavam nas alcovas.

Máquinas fotográficas espocavam. Guias turísticos falavam sobre a importância daqueles mortos.

Malone caminhou para dentro da nave e a semi-escuridão inicial do coro inferior deu lugar a um espanto luminoso.

Seis colunas esguias, cada qual com uma profusão de ornamentos entrelaçados com flores esculpidas, estendiam-se para o céu. O sol do fim de tarde se derramava por uma série de vitrais. Raios e sombras perseguiam uns aos outros pelas paredes de calcário, acinzentadas devido à idade. O teto em abóbada lembrava um feixe de costelas, as colunas como suportes de dossel, a trama sustentada no lugar como o cordame de um navio. Malone sentiu a presença dos sarracenos que um dia governaram Lisboa e notou adornos bizantinos. Mil detalhes se multiplicavam ao redor, sem repetição.

Notável.

Mais notável ainda, pensou, porque os pedreiros antigos tiveram a coragem de construir uma coisa tão enorme sobre o terreno trêmulo de Lisboa.

Bancos de madeira que um dia acomodaram monges agora abrigavam apenas os curiosos. Um baixo murmúrio de vozes ecoava na nave, periodicamente dominado por uma voz calma, através de um sistema de alto-falantes, que pedia silêncio numa variedade de línguas. Malone localizou a fonte daquele pedido. Um padre diante de um microfone, no altar do povo, no centro do interior em forma de cruz.

Ninguém parecia prestar atenção ao alerta - em especial os guias de turismo, que continuavam com seus discursos pagos.

— Este lugar é magnífico - disse Pam.

Ele concordou.

— A placa na frente diz que fecha às 17 horas. Precisamos de ingressos para ver o resto.

— Vou pegá-los - disse McCollum. — Mas a pista não nos leva somente a este lugar, à igreja?

— Não faço idéia. Para ter certeza, vamos dar uma olhada no que mais houver.

McCollum voltou pelo amontoado de gente até a entrada.

— O que você acha? - perguntou Pam, ainda segurando o papel.

— Sobre ele ou sobre a saga?

— Os dois são um problema.

Ele sorriu. Ela estava certa. Mas quanto à saga:

— Parte dela agora faz sentido. Comece a jornada nas sombras e complete na luz. A entrada faz isso lindamente. É como um porão e depois se abre para um pátio luminoso.

O padre alertou de novo em voz baixa para a multidão ficar em silêncio, e de novo todos o ignoraram.

— Ele tem um trabalho difícil - disse Pam.

— Como o do garoto que anota os nomes quando a professora sai da sala.

— Certo, senhor gênio - disse ela. — E quanto a onde uma estrela que se retira encontra uma rosa, fura uma cruz de madeira e converte prata em ouro. Encontre o lugar que forma um endereço sem lugar, onde é encontrado outro lugar?

Ele já estava pensando nisso, e sua atenção foi atraída à frente, para a chancela, onde uma planta retangular levava a uma parede côncava que formava o fundo do altar elevado, tudo isso encimado por uma combinação de domo hemisférico, cúpula cilíndrica e teto em caixotões de pedra. Colunas jônicas e coríntias se erguiam simetricamente de três lados da chancela, emoldurando câmaras de pedra abobadadas onde ficavam elaborados túmulos reais. Cinco pinturas envolviam a parede côncava, tudo isso atraindo o olhar para o majestoso sacrário barroco que ficava no centro, elevado, acima do altar.

Malone serpenteou por entre os turistas parados, indo até o lado mais distante do altar do povo. Cordas de veludo barravam a entrada para a chancela. Uma placa informava que o sacrário, feito inteiramente de prata, fora executado pelo ourives João de Sousa entre 1674 e 1678. Mesmo a cinco metros de distância, o ornamentado repositório, cheio de detalhes, parecia magnífico.

Ele se virou e olhou de novo para a nave, para além das colunas e dos bancos, até o coro inferior, por onde haviam entrado.

Então viu. No coro superior, para além de uma grossa balaustrada de pedra, 15 metros acima do piso da igreja. No alto da parede exterior mais distante, um olho enorme o encarava. A janela circular se estendia por três metros de diâmetro ou mais. Caixilhos e traçados se irradiavam do centro. As vigas de sustentação do teto teciam um caminho que serpenteava na direção dela e pareciam se dissolver em sua luminosidade sem sombras, clara como um refletor de palco e inundando o interior da igreja.

Um adorno comum a muitas igrejas medievais - que recebera o nome por causa da forma elaborada. Vitral em rosácea. Virado para o oeste. No fim do dia. Chamejante como o sol. Porém havia mais.

No centro da balaustrada do coro superior ficava uma grande cruz. Malone se adiantou e notou que a cruz se encaixava perfeitamente no círculo do vitral, com os raios brilhantes passando por ela e chegando à nave.

Onde uma estrela que se retira encontra uma rosa, fura uma cruz de madeira e converte prata em ouro.

Pelo jeito, haviam encontrado o lugar.

 

VIENA

16H30

Thorvaldsen admirou o espetáculo de Alfred Hermann: flores, água e mármore, o enorme jardim representando um trabalho óbvio de várias gerações. Caminhos sombreados serpenteavam a partir do castelo até vales gramados, trilhas calçadas de tijolos ladeadas por estátuas, baixos-relevos e fontes. De vez em quando, as influências francesas davam lugar a um claro gosto pela Itália.

— Quem são os donos deste lugar? - perguntou Gary.

— Os Hermann são uma família antiga na Áustria, assim como a minha na Dinamarca. Muito ricos e poderosos.

— Ele é seu amigo?

Pergunta interessante, considerando suas suspeitas.

— Até alguns dias atrás, eu acreditava que sim. Mas agora não tenho tanta certeza.

Estava satisfeito com o jeito inquisitivo do garoto.

Thorvaldsen sabia sobre as origens de Gary. Quando retornara de sua viagem aos Estados Unidos para levar Gary para casa depois da visita de verão, Malone havia lhe contado o que Pam revelara. Thorvaldsen havia fingido ignorância ao vê-la pela primeira vez algumas noites antes, mas soubera instantaneamente sua identidade. A presença dela em sua casa, com Malone, sinalizava encrenca, motivo pelo qual ele pusera Jesper do lado de fora da porta do escritório. Pam Malone estava tensa. Por sorte havia se acalmado. Neste momento, já deveria estar de volta à Geórgia. Em vez disso, a pessoa que havia ligado de Tel Aviv dissera: Parece que Malone e a ex-esposa estão, no momento, a caminho de Lisboa.

O que estaria acontecendo? Por que foram para lá? E onde estava o Garras da Águia?

— Viemos aqui para ajudar seu pai - disse a Gary.

— Papai nunca falou nada sobre sairmos de lá. Disse para eu ficar quieto e ter cuidado.

— Mas também disse para você fazer o que eu mandasse.

— De modo que, quando ele me der uma bronca, espero que você assuma a culpa.

Ele riu.

— Com prazer.

— Você já viu uma pessoa ser morta a tiros?

Thorvaldsen sabia que a lembrança da terça-feira devia ser perturbadora, não importando o quanto o garoto parecesse corajoso.

— Várias vezes.

— Papai matou o sujeito. Mas sabe de uma coisa? Não me importei.

Thorvaldsen balançou a cabeça diante daquela bravata.

— Cuidado, Gary. Nunca se acostume com a morte. Não importa o quanto alguém possa merecê-la.

— Não foi isso que eu quis dizer. Só que ele era um bandido. Ameaçou matar minha mãe.

Passaram por uma coluna de mármore sobre a qual havia uma estátua de Diana. Uma brisa acariciava as árvores e fazia tremer as sombras lançadas sobre a grama ondulante.

— Seu pai fez o que era necessário. Ele não gostou. Simplesmente fez.

— E eu também teria feito.

Dane-se a genética. Gary era filho de Malone. E mesmo tendo apenas 15 anos, sua indignação certamente podia ser provocada - assim como a do pai -, especialmente se um ente querido fosse ameaçado. Gary sabia que os pais tinham viajado para Londres, mas não sabia que a mãe continuava envolvida. Ele merecia a verdade.

— Sua mãe e seu pai estão indo para Lisboa.

— Foi sobre isso aquele telefonema no quarto?

Ele assentiu e sorriu diante do modo decidido com que o garoto recebeu a notícia.

— Por que mamãe ainda está com ele? Ela não disse nada sobre ficar quando ligou ontem à noite. Eles não se dão bem.

— Não faço idéia. Teremos de esperar até que um deles ligue de novo. - Mas Thorvaldsen também queria desesperadamente saber a resposta para essa pergunta.

Adiante, viu o lugar para onde iam, um pavilhão circular, de mármore colorido, encimado por ferro dourado.

A balaustrada aberta dava para um lago cristalino, com a superfície prateada calma à sombra.

Entraram e ele se aproximou de um corrimão.

Vasos enormes, cheios de flores aromáticas, espalhavam-se no interior. Como sempre, Hermann havia se certificado de que a propriedade estivesse digna de uma apresentação.

— Alguém está vindo - disse Gary.

Thorvaldsen não olhou para trás. Não precisava. Viu-a na mente. Baixa, atarracada, exalando alto enquanto andava.

Manteve o olhar na direção do lago e desfrutou o cheiro doce de grama, flores e experiência.

— Ela vem depressa?

— Como sabia que era uma mulher?

— Você vai aprender, Gary, que não pode vencer uma luta se seu inimigo não for, de alguma forma, previsível.

— É a filha do Sr. Hermann.

Thorvaldsen continuou admirando o lago, olhando uma família de patos nadar em direção à margem.

— Não diga nada a ela sobre coisa alguma. Escute, mas fale pouco. É assim que a gente descobre o que precisa saber.

Ouviu solas de sapatos batendo no piso de pedra do pavilhão e virou-se enquanto Margarete chegava perto.

— Na casa me disseram que você tinha vindo para cá - disse ela. — E lembrei que este é um de seus lugares prediletos.

Thorvaldsen sorriu diante da satisfação evidente dela.

— Tem privacidade. Fica longe do castelo. As árvores proporcionam tranqüilidade. Gosto deste lugar. Pelo que me lembro, era um dos prediletos da sua mãe.

— Papai construiu especialmente para ela. Minha mãe passou os últimos dias aqui.

— Sente falta dela?

— Minha mãe morreu quando eu era pequena. De modo que nunca fomos muito próximas. Mas papai sente falta dela.

— Você não sente falta da sua mãe? - perguntou Gary.

Mesmo o garoto tendo violado o que ele havia pedido, Thorvaldsen não se incomodou com a pergunta. Na verdade, também estava curioso.

— Claro que sinto. Mas simplesmente não éramos próximas, como mãe e filha.

— Parece que você adquiriu interesse pelos negócios da família e pela Ordem.

Thorvaldsen ficou olhando enquanto os pensamentos abriam caminho na mente dela. Margarete havia herdado mais a aparência rude e austríaca do pai do que a beleza prussiana da mãe. Não era uma mulher particularmente bonita - cabelos escuros, olhos castanhos, nariz fino e alto.

Mas quem era ele para julgar, considerando sua coluna torta, o cabelo revolto e a pele envelhecida? Pensou em possíveis pretendentes, mas decidiu que aquela mulher jamais se entregaria a alguém. Era uma tomadora.

— Sou a única Hermann que resta. - E acrescentou um sorriso que certamente pretendia ser reconfortante, mas que, em vez disso, chamejava irritação.

— Significa que vai herdar tudo isso?

— Claro. Por que não herdaria?

Ele deu de ombros.

— Não faço idéia do que seu pai pensa. Mas descobri que neste mundo não há garantias.

Thorvaldsen viu que ela não gostou do que ele estava sugerindo. Não deu tempo para a reação e perguntou:

— Por que seu pai tentou prejudicar este garoto?

A pergunta súbita provocou um ar perplexo. Obviamente, ela também não era mestre do estoicismo, diferentemente do pai.

— Não faço idéia do que está dizendo.

Ele ficou pensando. Talvez Hermann tivesse escondido dela os planos.

— Então não faz idéia do que die Klauen der Adler está fazendo?

— Ele não é minha responsabi... - Ela se conteve.

— Não se preocupe, minha cara. Eu sei sobre ele. Só estava imaginando se você também sabia.

— Aquele sujeito representa problema.

Agora ele sabia que Margarete não fazia parte de nada.

Informações demais fluíam livres demais.

— Concordo de coração. Mas, como você diz, nenhum de nós tem responsabilidade por ele. Só o Círculo.

— Eu não sabia que os sócios sabiam sobre ele.

— Há muitas coisas que eu sei. Em particular, o que seu pai está fazendo. Isso também é um problema.

Ela pareceu captar a convicção em seu tom de voz. Seu rosto gorducho mostrou um sorriso nervoso.

— Lembre-se de onde está, Henrik. Isto é território dos Hermann. Nós comandamos o que acontece aqui. Portanto, você não deveria se preocupar.

— Observação interessante. Tentarei não esquecer.

— Acho que, talvez, você e papai precisem terminar esta conversa.

Ela virou-se para ir embora, e ele ergueu um braço, num gesto rápido.

Saindo de trás de ciprestes grossos, pesados da idade, três homens se materializaram vestidos com roupas de camuflagem. Vieram correndo e chegaram no momento em que Margarete descia do pavilhão.

Dois dos homens a agarraram.

Um apertou sua boca com a mão.

Ela resistiu.

— Henrik - perguntou Gary, — o que Jesper está fazendo aqui?

O terceiro homem era seu mordomo, que viera de avião mais cedo e se infiltrara na propriedade. Pelas visitas anteriores, Thorvaldsen sabia - contrariamente ao que Margarete havia alardeado - que a segurança mais pesada era confinada à casa. As centenas de hectares restantes não eram cercadas nem patrulhadas.

— Fique imóvel - disse ele.

Ela parou de lutar.

— Você vai com estes cavalheiros.

A cabeça dela balançou violentamente.

Thorvaldsen havia esperado que ela se mostrasse difícil.

Então assentiu, e a mão sobre a boca de Margarete foi substituída por um pano que, como ele sabia, continha anestésico suficiente para induzir um sono profundo. Foram necessários apenas alguns segundos para os vapores fazerem efeito. O corpo dela ficou frouxo.

— O que está fazendo? - perguntou Gary. — Por que está machucando a moça?

— Não estou. Mas garanto que eles teriam machucado você se seu pai não tivesse agido. - Em seguida, encarou Jesper. — Mantenha-a em segurança, como combinamos.

O empregado assentiu. Um dos homens jogou o corpo atarracado de Margarete sobre o ombro e os três recuaram para as árvores

— Você sabia que ela viria aqui? - perguntou Gary.

— Como eu disse, é bom conhecer o inimigo.

— Por que você a está pegando?

Thorvaldsen gostava de lições e sentia falta de quando ensinava Cai.

— Não se deve dirigir um carro sem seguro. O que vamos fazer também tem riscos. Ela é o nosso seguro.

 

WASHINGTON, D.C.

Stephanie ficou imóvel. Heather Dixon estava armada e alerta. Os olhos de Cassiopeia reviraram o quarto, e Stephanie soube que sua colega estava procurando alguma coisa que pudesse ser usada como arma.

— O que é? - ouviu Daley perguntar a Dixon.

— Seu alarme está desligado. Isso significa que há alguém aqui.

— Grande salto de lógica, não acha?

— Você armou o painel antes de sair?

Um momento de silêncio se passou. Stephanie soube que estavam numa armadilha.

— Não sei - respondeu Daley. — Posso ter esquecido. Não seria a primeira vez.

— Por que não dou uma olhada, só para garantir?

— Porque não tenho tempo para você brincar de soldado, e essa arma na sua mão está me deixando excitado. Você é um tesão.

— Fazendo elogios, hoje. Isso vai lhe garantir tudo.

Mais silêncio, depois um protesto com um gemido meio abafado.

— Devagar com minha cabeça. Esse galo está doendo.

— Você está bem? - perguntou Daley.

Um zíper foi aberto.

— Largue essa arma - disse Daley.

Passos soaram na escada.

Stephanie olhou para Cassiopeia e sussurrou:

— Não acredito nisso.

— Pelo menos sabemos onde os dois estão.

Bem pensado, mas servia de pouco conforto.

— Tenho de verificar isso.

Cassiopeia apertou seu braço.

— Deixe-os.

Contrariamente às últimas 12 horas, durante as quais ela, na melhor das hipóteses, havia tomado decisões questionáveis, agora Stephanie estava pensando com clareza. Sabia o que precisava ser feito.

Esgueirou-se do quarto e entrou na sala íntima. Logo adiante uma escada subia, e a porta da frente ficava à direita. Ouviu vozes murmuradas, risos e o som de tábuas de piso sendo desafiadas.

— O que, diabos, está acontecendo? - perguntou-se Stephanie em voz alta.

— Sua investigação não descobriu isso?

Ela balançou a cabeça.

— Nem uma única palavra. Deve ser recente.

Cassiopeia desapareceu no corredor. Stephanie se demorou um momento e viu o mesmo revólver que Heather Dixon havia sacado contra ela na véspera caído numa poltrona.

Pegou a arma e saiu da sala.

 

Malone olhou para a rosácea e verificou o relógio: 16h40.

Nessa época do ano, o sol começaria a se pôr em algum momento nos próximos noventa minutos.

— Este prédio é orientado num eixo leste-oeste - disse a Pam. — Aquele vitral está lá para captar o sol da tarde. Temos de ir lá em cima.

Ele viu uma porta onde uma seta indicava o coro superior.

Foi até lá e encontrou, aninhada contra a parede norte da igreja, uma ampla escada de pedra com teto em abóbada cilíndrica que fazia o lugar parecer um túnel.

Seguiu uma multidão que subia.

No topo, entraram no coro.

Duas fileiras de bancos de madeira com encostos altos se encaravam, ornamentados com festões e arabescos. Acima deles ficavam pinturas barrocas de vários apóstolos. O corredor entre os bancos levava à parede oeste da igreja e à rosácea quase dez metros acima.

Olhou para o alto.

Grãos de poeira flutuavam nos raios luminosos de sol. Virou-se e examinou a cruz que se erguia na outra extremidade do coro superior. Ele e Pam se aproximaram da balaustrada e ele admirou o dramático realismo da imagem de Cristo esculpida. Uma placa na base informava em duas línguas:

 

CRISTO NA CRUZ

CHRIST ON THE CROSS

C. 1550

ESCULTURA EM MADEIRA POLICROMA

POLYCHROMED WOODEN SCULPTURE

 

— Onde uma estrela que se retira encontra uma rosa, fura uma cruz de madeira - disse Pam. — É isso.

Ele concordou. Mas estava pensando nas palavras seguintes.

E converte prata em ouro.

Olhou de novo para o luminoso vitral em rosácea e seguiu os raios poeirentos que passavam pela cruz e entravam na nave. Embaixo, a luz abria uma trincheira no piso xadrez, seguindo por um corredor central que dividia os bancos. As pessoas se amontoavam por ali e pareciam não notar. A luz continuava para o leste até o altar do povo e lançava uma leve linha luminosa sobre o tapete vermelho.

McCollum apareceu vindo do coro inferior e seguiu pelo corredor central em direção à frente da igreja.

— Ele deve estar imaginando onde estamos - disse Pam.

— Ele não vai a lugar nenhum. Parece que precisa de nós.

McCollum parou entre as últimas das seis colunas e olhou ao redor, depois se virou e os viu. Malone levantou a palma da mão indicando para ele esperar onde estava, depois mostrou o indicador, sinalizando que iriam descer num minuto.

Dissera a verdade a McCollum. Ele era bastante bom com charadas. Esta, a princípio, parecera confusa, mas agora, olhando para uma massa de esculturas, vigas de sustentação e arcos, uma harmonia de linhas e pedras entrelaçadas que o tempo, a natureza e a negligência mal haviam alterado, soube da solução.

Seu olhar seguiu os raios do sol poente que atravessava até a chancela, dividindo o grande altar, e encontrou o sacrário de prata.

Que brilhava como ouro.

Não havia notado o fenômeno quando estavam perto. Ou talvez o sol que se retirava ainda não estivesse no ângulo correto. Mas agora a transformação era clara.

Prata em ouro.

Viu que Pam também notou.

— Incrível - disse ela. — Como a luz faz isso.

A rosácea obviamente era posicionada para que o sol poente, pelo menos por alguns minutos, encontrasse o sacrário.

Aparentemente, o receptáculo de prata fora posto com grande deliberação, e uma das seis pinturas ao redor fora removida, perturbando a simetria que os construtores medievais adoravam.

Pensou na parte final da saga.

Encontre o lugar que forma um endereço sem lugar, onde é encontrado outro lugar.

E foi até a escada.

No térreo, aproximou-se das cordas de veludo que ainda bloqueavam o acesso à chancela. Notou o jogo de mármore preto, branco e vermelho, que dava uma atmosfera de nobreza - muito adequada, porque a chancela servia como mausoléu da família real.

O sacrário estava a dez metros de distância.

Uma inspeção de perto não fazia parte da experiência dos visitantes. O padre no altar do povo anunciava pelos alto-falantes que a igreja e o mosteiro iriam fechar em cinco minutos. Muitos grupos de turistas já estavam partindo, e mais pessoas iam em direção às saídas.

Ele havia notado antes que existia alguma espécie de imagem gravada na porta do sacrário, atrás da qual um dia fora guardado o santo sacramento. Talvez ainda abrigasse a hóstia. Mesmo sendo um local tombado pelo Patrimônio Mundial, mais atração turística do que igreja, a nave certamente era usada para cultos especiais. De modo semelhante à catedral de St. Paul e a de Westminster, na Inglaterra. O que explicaria por que as pessoas eram mantidas distantes do que era claramente a peça central do prédio.

McCollum se aproximou.

— Tenho os ingressos.

Malone apontou para o sacrário.

— Preciso olhar aquilo mais de perto, sem todas essas testemunhas.

— Pode ser difícil. Presumo que todos vão ser tirados daqui nos próximos minutos.

— Você não parece um homem que cede à autoridade.

— Nem você.

Pensou em Avignon e no que ele e Stephanie haviam feito lá numa noite chuvosa de junho.

— Então vamos encontrar um esconderijo até todo mundo ir embora.

 

Stephanie voltou na ponta dos pés até a alcova. Precisava encontrar o esconderijo de Daley antes que as coisas chegassem ao clímax lá em cima. Esperava que nem Dixon nem Daley estivessem correndo, mas Daley parecera apressado.

Cassiopeia já estava procurando em silêncio.

— O relatório dizia que ele nunca saía dessa escrivaninha com os pen drives. Usava-os no laptop, mas não saía com eles. Sempre dizia para ela ir para o quarto e que ele iria em seguida. - As palavras saíam mais como respiração do que voz.

— Estamos forçando a barra ficando aqui.

Stephanie parou e tentou ouvir.

— Parece que ainda estão ocupados.

Cassiopeia abriu as gavetas da escrivaninha, testando para achar esconderijos. Mas Stephanie duvidava que ela fosse encontrar alguma coisa. Era óbvio demais. Seu olhar examinou de novo as estantes e parou num dos tratados de política, um volume fino, cinza-acastanhado, com letras azuis.

Hardball, de Chris Matthews.

Lembrou-se da história que Daley havia contado a Green ao alardear sua recente autoridade sobre o Setor Magalhães.

O que ele havia dito?

Poder é o que você tem.

Pegou o livro, abriu-o e descobriu que o último terço das páginas fora colado junto; uma cavidade com cerca de sete milímetros de profundidade fora aberta. Aninhados ali dentro estavam cinco pen drives, cada um rotulado com um numeral romano.

— Como você sabia? - sussurrou Cassiopeia.

— Na verdade, estou apavorada por saber. Estou começando a pensar como aquele idiota.

Cassiopeia foi para os fundos da casa, em direção à porta, mas Stephanie pegou seu braço e fez sinal para a frente. Um ar confuso a encarou de volta, uma expressão que questionava: por que procurar encrenca?

Entraram na sala íntima, depois no foyer.

Um teclado de alarme junto à porta da frente indicava que o sistema ainda estava desligado. Stephanie segurou a arma de Dixon.

— Larry - gritou.

Silêncio.

— Larry. Podemos falar por um instante?

Passos soaram fortes no andar de cima, e Daley apareceu à porta do quarto, de calças, o peito nu.

— Adorei o cabelo, Stephanie. Novo look? E as roupas. Chiques.

— Só para você.

— O que está fazendo aqui?

— Ela mostrou o livro.

— Vim pegar suas coisas.

O susto inundou o rosto juvenil de Daley.

— Isso mesmo. É hora de você suar. E Heather? - Sua voz aumentou de volume. — Estou desapontada com sua escolha de amantes.

Dixon saiu nua do quarto, sem demonstrar um pingo de vergonha.

— Você está morta.

Stephanie deu de ombros.

— Isso veremos. No momento, estou com a sua arma. — E mostrou-a.

— O que você vai fazer? - perguntou Daley.

— Ainda não decidi. - Mas ela queria saber: — Vocês estão nessa há muito tempo?

— Não é da sua conta - respondeu Dixon.

— Mera curiosidade. Só interrompi para avisar que agora há mais coisas neste jogo, além da minha pele.

— Parece que você sabe um bocado de coisas - disse Daley. — Quem é sua amiga?

— Cassiopeia Vitt - respondeu Dixon.

— Fico lisonjeada ao saber que você me conhece.

— Devo a você aquele dardo no pescoço.

— Não precisa agradecer.

— Podem voltar para a cama - disse Stephanie.

— Acho que não. - Dixon começou a descer a escada, mas Stephanie apontou a automática.

— Não me pressione, Heather. Perdi o emprego recentemente e há um mandado de prisão contra mim.

A israelense parou, talvez sentindo que não era hora de desafiar.

— Para o quarto - disse Stephanie.

Dixon hesitou.

— Agora.

Dixon recuou para o topo da escada. Stephanie pegou as roupas da israelense, inclusive os sapatos.

— Você não ousaria se expor em público vindo atrás de nós - disse Stephanie a Daley. — Mas ela poderia. Isso pelo menos vai fazer com que ela se atrase um pouco.

E as duas saíram.

 

VIENA

18H40

Thorvaldsen vestiu o manto carmim. Todos os membros deviam usar o manto durante a Assembléia. A primeira sessão começaria às 19h, e ele não estava ansioso por ela.

Geralmente significava conversa demais e pouca ação.

Nunca precisara de uma cooperativa para alcançar seus objetivos. Mas gostava da camaradagem que acontecia depois das reuniões.

Gary estava sentado numa das poltronas.

— Como estou? - perguntou ele em tom jovial.

— Parece um rei.

O manto régio ia até os tornozelos, feito de veludo e ricamente bordado em fios de ouro com o lema da Ordem:

JE L'AY EMPRINS. Eu ousei.

Todo esse conjunto datava do século XV e da Ordem do Velo de Ouro original.

Pegou o cordão grosso. Ouro maciço com uma pederneira esmaltada, formando adagas de fogo. Um ornamentado velo de ouro pendia do centro.

— Isso é presenteado a cada membro quando é empossado. É o nosso símbolo.

— Parece caro.

— E é.

— Isso é mesmo importante para você?

Thorvaldsen deu de ombros.

— Eu gosto. Mas não é como uma religião.

— Papai disse que você é judeu.

Ele assentiu.

— Não sei muita coisa sobre os judeus. Só que milhões foram mortos na Segunda Guerra Mundial. Não é uma coisa que eu realmente entenda.

— Você não está sozinho. Os gentios tiveram dificuldade com nossa existência durante séculos.

— Por que as pessoas odeiam os judeus?

Ele havia pensado muitas vezes nessa questão - junto com os filósofos, teólogos e políticos que a haviam debatido durante séculos.

— Para nós, começou com Abraão. Tinha 99 anos quando Deus o visitou e fez uma aliança, criando um Povo Escolhido, os que herdariam a terra de Canaã. Mas, infelizmente, junto com essa honra vinha a responsabilidade.

Dava para ver que o garoto estava interessado.

— Você já leu a Bíblia?

Gary balançou a cabeça.

— Deveria. É um grande livro. Por um lado, Deus concedeu uma bênção aos israelitas. Tomar-se o Povo Escolhido. Mas foi sua resposta a essa bênção que acabou determinando seu destino.

— O que aconteceu?

— O Velho Testamento diz que eles se rebelaram, queimaram incenso, deram crédito a ídolos por sua boa sorte, caminharam segundo os ditames de seu próprio coração. Então Deus os espalhou entre os gentios, como castigo.

— E por isso que as pessoas os odeiam?

Thorvaldsen terminou de prender o manto.

— É difícil dizer. Mas desde essa época os judeus sofreram perseguições.

— Deus parece ter pavio curto.

— O Deus do Velho Testamento é muito diferente do Deus do Novo.

— Não sei se gosto do Velho.

— Você não está sozinho. - Thorvaldsen fez uma pausa. — Os judeus foram os primeiros a insistir em que o homem é responsável por seus próprios atos. Não era culpa dos deuses se a vida ficava ruim. A culpa era nossa. E isso nos fez diferentes. Os cristãos levaram isso mais longe. O homem provocou seu próprio exílio do Éden, mas como Deus amava o homem, redimiu-o com o sangue de seu filho. O Deus judeu é raivoso. A justiça é seu objetivo. O Deus cristão é de misericórdia. Uma diferença gigantesca.

— Deus deveria ser gentil, não deveria?

Thorvaldsen sorriu, depois olhou o aposento elegante ao redor. Era hora de ir ao ponto.

— Diga o que acha sobre o que aconteceu no pavilhão.

— Não sei se o Sr. Hermann vai gostar de você ter pegado a filha dele.

— Assim como seus pais não gostaram do que aconteceu com você. A diferença é que ela é adulta e você é um adolescente.

— Por que tudo isso está acontecendo?

— Imagino que logo saberemos.

A porta do quarto se abriu subitamente e Alfred Hermann entrou intempestivamente. Também usava um manto régio com medalhão dourado, mas seu manto era adornado com uma seda azul.

— Você está com a minha filha? - perguntou Hermann, o rosto cheio de fúria.

Thorvaldsen permaneceu rígido.

— Estou.

— E obviamente sabe que este quarto está grampeado.

— Isso não exigiu muita inteligência.

Dava para ver a tensão crescendo. Hermann estava em território não mapeado.

— Henrik, não tolerarei isso.

— O que você planeja fazer? Convocar o Garras da Águia para lidar comigo?

Hermann hesitou.

— É isso que você quer, não é?

Thorvaldsen chegou perto.

— Você atravessou a linha quando seqüestrou este rapaz. - Ele apontou para Gary.

— Onde está Margarete?

— Em segurança.

— Você não tem coragem de fazer mal a ela.

— Tenho coragem de fazer o que for necessário. Você deveria saber disso.

O olhar intenso de Hermann o agarrou como um gancho.

Thorvaldsen sempre achara o rosto ossudo do austríaco mais adequado para um agricultor do que um aristocrata.

— Achei que éramos amigos.

— Eu também. Mas parece que isso não significou nada quando você tirou este rapaz da mãe dele e destruiu a livraria do pai.

A primeira sessão da Assembléia estava para começar, motivo pelo qual Thorvaldsen havia planejado cuidadosamente o momento da revelação. Hermann, como o Cadeira Azul, devia exibir disciplina e confiança em todos os momentos. Jamais poderia permitir que os sócios soubessem de suas dificuldades pessoais.

E também não poderia se atrasar.

— Temos de ir - disse Hermann finalmente. — Isto não acabou, Henrik.

— Concordo. Para você, está apenas começando.

 

WASHINGTON, D.C.

13h30

— Você não acha que pegou pesado demais com o Daley? - perguntou Green a Stephanie.

Ela e Cassiopeia estavam na limusine de Green, cujo compartimento traseiro era isolado do banco da frente por uma chapa de Plexiglas. Green as havia apanhado no centro da cidade, depois de saírem da casa de Daley.

— Ele não viria atrás de nós. Heather poderia usar a roupa dele, mas não os sapatos. Duvido que ela nos perseguisse descalça e desarmada.

Green não pareceu convencido.

— Presumo que haja um objetivo em deixar Daley saber que você estava lá, não é?

— Também estou interessada em ouvir isso - acrescentou Cassiopeia.          — Poderíamos ter saído sem que ele soubesse.

— E eu ainda estaria na alça de mira. Assim ele tem de ter cuidado. Eu tenho uma coisa que ele quer. E, no mínimo, Daley é um comerciante.

Green apontou para o exemplar de Hardball.

— O que é tão vital assim?

Stephanie pegou o laptop que pedira para Green trazer.

Enfiou um dos pen drives numa porta vazia e digitou AUNT B'S no lugar da senha.

— Sua garota também ficou sabendo disso? - perguntou Cassiopeia.

Ela assentiu.

— É uma lanchonete em Maryland. Daley vai muito lá nos fins de semana. Comida rural. Um dos lugares prediletos dele. Pareceu-me estranho, pois eu considerava o Daley um conhecedor de restaurantes cinco estrelas.

A tela mostrou uma lista de arquivos, cada um tendo apenas uma palavra de título.

— Congresso - disse ela. E clicou em um. — Fiquei sabendo que Daley é mestre em datas e horários. Quando ele espreme um congressista para obter um voto, tem informações exatas sobre cada contribuição em dinheiro que já foi mandada para o sujeito. É estranho, porque ele nunca manda o dinheiro diretamente. Em vez disso, lobistas que gostam da idéia de conquistar favores da Casa Branca fazem o trabalho sujo. Isso me levou a pensar que ele mantém registros. Ninguém tem uma memória tão boa. - Ela apontou para a tela. — Aqui está um exemplo. - Contou. — Quatorze pagamentos a este cara, totalizando 187 mil dólares num período de seis anos. Aqui estão a data, o lugar e a hora de cada pagamento. - Ela balançou a cabeça. — Nada apavora mais um político do que os detalhes.

— Estamos falando de subornos? - perguntou Green.

Ela assentiu.

— Pagamentos em dinheiro. Dinheiro vivo. Não o suficiente para atrair atenção, mas o bastante para manter as linhas de comunicação abertas. Simples e doce, mas é o tipo de capital político que Daley acumula. Do tipo que a Casa Branca atual usa. Eles conseguiram aprovar algumas leis bem doces.

Green olhou para a tela.

— Devem ser cem congressistas ou mais.

— Ele é eficaz. Isso devo admitir. O dinheiro está espalhado. Dos dois lados do espectro político.

Ela clicou em outro arquivo, que mostrou uma lista de senadores. Cerca de trinta.

— Ele também tem um bando de juízes federais. Eles passam por problemas financeiros, como todo mundo, e Daley tem pessoas bem ali, para ajudar. Descobri um em Michigan que falou. Estava à beira da falência até que um de seus amigos apareceu com dinheiro. Sua consciência finalmente o dominou, em especial depois que Daley quis que ele decidisse um julgamento de um modo específico. Parece que o advogado de um processo importante que ele julgava era um grande colaborador do partido e precisava de uma pequena garantia de vitória.

— Os tribunais federais são um foco de corrupção - murmurou Green.          — Eu digo isso há anos. Dê uma nomeação vitalícia a alguém e você estará procurando encrenca. Poder demais, supervisão de menos.

Stephanie pegou outro pen drive.

— Um desses basta para indiciar vários daqueles urubus.

— Uma descrição eloqüente.

— É o manto preto. Eles parecem urubus empoleirados num galho, esperando para limpar uma carcaça.

— Que falta de respeito pelo nosso judiciário! - disse Green, rindo.

— Respeito é algo que se faz por merecer.

— Será que posso dizer uma coisa? - interveio Cassiopeia. — Por que simplesmente não vamos a público? Chamamos a atenção. Não é o modo como eu normalmente faço as coisas, mas parece que neste caso daria certo.

Green balançou a cabeça.

— Como você observou antes, não sei muita coisa sobre os israelenses. E você não entende a máquina de RP desta administração. É uma questão de ponto de vista. Eles turvariam a questão a ponto de obscurecê-la, e nós perderíamos Daley e o traidor.

— Ele está certo - disse Stephanie. — Não funcionaria. Temos de fazer isso nós mesmos.

O trânsito fez o carro parar, e o celular de Green tocou baixinho. Ele enfiou a mão no bolso do terno e tirou-o, examinando a tela.

— Isso pode ser interessante. - Em seguida, apertou dois botões e falou pelo viva-voz. — Estava esperando seu telefonema.

— Aposto que sim - disse Daley.

— Parece que talvez eu consiga não acabar naquele caixão em Vermont, afinal de contas.

— Esse é o negócio do xadrez, Brent. Cada movimento é uma aventura. Certo, vou lhe dar o crédito, sua jogada foi boa.

— Esse crédito você tem de dar a Stephanie.

— Tenho certeza de que ela está aí; portanto, parabéns, Stephanie.

— Obrigada, Larry.

— Isso muda pouca coisa - deixou claro Daley. — Os elementos que eu mencionei continuam agitados.

— Você precisa acalmá-los - disse Stephanie.

— Quer conversar? - perguntou Daley.

Stephanie começou a falar, mas Green levantou a mão.

— E qual é o benefício?

— Pode ser grande. Há muita coisa em risco.

Ela não pôde resistir.

— Mais do que o seu rabo?

— Muito mais.

— Você mentiu quando disse que não sabia nada sobre o Elo de Alexandria, não é? - perguntou Green.

— Mentira é uma palavra dura. Posso dizer que escondi fatos no interesse da segurança nacional. É esse o preço que terei de pagar?

— Acho razoável, pensando bem.