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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


O ENIGMA DE ALEXANDRE / Will Adams
O ENIGMA DE ALEXANDRE / Will Adams

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

O ENIGMA DE ALEXANDRE

 

                       Deserto da Líbia, 318 a.C.

Havia um olho-d'água na parte mais baixa da caverna. Lembrava um prego negro cravado na base de uma perna retorcida, carbonizada e mutilada. Uma camada espessa de líquen e outras imundícies cobria sua superfície, quase inerte durante séculos, apenas oscilando e estremecendo ao toque dos insetos que ali viviam ou pipocando pelas bolhas de gás expelidas das pro­fundezas do deserto que cercava a caverna.

De repente, a película arrebentou e a cabeça e os ombros de um homem emergiram da água. Com seu rosto voltado para o alto, sugou desesperadamente o ar salvador através de suas narinas e da boca escancarada, como se tivesse estado debaixo d'água além do limite de sua resistência. A intensidade de sua respiração não diminuía enquanto o tempo passava; pelo contrário, ficava cada vez mais desesperada, como se o coração fosse explodir dentro do peito. Mas, aos poucos, o pior passou.

Não havia luz alguma no interior da caverna, nem mesmo uma fosforescência na água, e o alívio do homem por ter sobrevivido ao passeio aquático transformou-se bem depressa em angústia de que ele teria apenas trocado uma forma de morrer por outra. As apalpadelas, foi explorando a margem à sua volta, até encontrar um trecho menos elevado. Impulsionou-se para cima e girou o corpo para se sentar na borda. Quase por reflexo, pôs a mão sob a túnica ensopada para puxar sua adaga; mas, na verdade, não havia muito perigo de que ele tivesse sido perseguido. Precisara lutar para conquistar cada centímetro de sua fuga pela água. Seria interessante ver aquele líbio gordo, que tentara espetá-lo com a espada, tentar segui-lo; com certeza ele teria entalado na passagem, que só iria soltá-lo quando ele perdesse um pouco de carne.

Algo passou zunindo por seu rosto. Ele gritou de medo e lançou as mãos para o alto. O eco foi curiosamente longo e profundo demais para ter ocor­rido no que ele imaginara ser uma caverna pequena. Algo mais passou revoluteando por ele. Parecia um pássaro, mas nenhum pássaro poderia voar naquela escuridão. Talvez um morcego. Ele havia visto colônias ao cair da tarde, cobrindo os pomares distantes como mosquitos. Suas esperanças au­mentaram. Se estes fossem os mesmos morcegos, certamente havia uma saí­da daquele lugar. Examinou com as mãos as paredes rochosas e começou a escalar a menos íngreme. Ele não tinha um bom preparo físico, então a subida na escuridão foi um pesadelo, embora, pelo menos, a parede estivesse cheia de reentrâncias onde ele poderia se segurar. Cada vez que alcançava um lugar sem saída, ele retornava e procurava outro caminho. E mais outro. Ho­ras se passaram. E mais horas. A fome e o cansaço foram crescendo. Em certo momento despencou até o começo, gritando de terror. Uma perna quebrada poderia significar o seu fim da mesma forma que seria para uma mula, mas, em vez disso, bateu com a cabeça numa pedra e perdeu os sentidos.

Ao voltar a si, por uns felizes instantes ele não soube ao certo onde estava ou por quê. Quando a memória voltou, sentiu tamanho desespero que che­gou a considerar voltar por onde viera. Mas ele não podia enfrentar aquela passagem de novo. Não. Melhor seguir em frente. Tentou escalar a parede rochosa novamente. E mais uma vez. E finalmente, na tentativa seguinte, alcançou uma saliência precária, bem acima do chão da caverna, com espa­ço suficiente apenas para que ele pudesse ficar de joelhos. Engatinhou para a frente e foi subindo, com a parede à sua esquerda, o vazio desconhecido à sua direita, e a certeza constante de que um simples descuido o mergulharia em direção à morte certa. Esse conhecimento, em vez de paralisá-lo, aumen­tou ainda mais sua atenção.

A saliência foi ficando mais estreita, fazendo-o sentir como se estivesse engatinhando dentro da barriga de uma serpente de pedra. Pouco depois, a escuridão deixou de ser tão completa. E, então, ficou quase claro, e ele emergiu espantado em plena luz do sol poente, tão intensa depois de sua longa cegueira que ele teve que erguer o antebraço para proteger os olhos.

O sol poente! Pelo menos um dia se passara desde a emboscada de Ptolomeu. Aproximou-se cuidadosamente da borda e olhou para baixo. Nada além de rocha íngreme e a morte certa. Depois olhou para cima. Ainda era muito inclinado, mas não parecia impossível. O sol iria se pôr em breve. Ele começou a escalada, sem olhar para baixo ou para cima, preferindo o pro­gresso à pressa. A paciência foi útil. Várias vezes o arenito esfarelou-se entre suas mãos ou sob seus pés. O último clarão da luz do dia se apagou quando ele chegou a uma borda saliente. Não iria mais voltar para dentro, então reuniu todas as forças de que dispunha, impulsionou-se com unhas, mãos e cotovelos, arrastou freneticamente joelhos e pés, raspou a pele na rocha dura até deixá-la em carne viva, até que finalmente conseguiu subir na saliência, deitando-se de costas e virando agradecido para o céu noturno.

Quelônimo jamais dissera que era corajoso. Era um homem especializado na cura e no aprendizado, não na guerra. E, no entanto, sentia a reprovação silenciosa de seus companheiros. "Juntos na vida; juntos na morte" — esse havia sido o juramento que todos fizeram. Quando Ptolomeu finalmente os encurralara, os outros tomaram sem hesitar o chá de folhas de louro-cereja que Quelônimo tinha preparado, para evitar que a tortura soltasse suas línguas. Todavia, ele próprio fraquejara. Sentira um terrível medo de perder tudo aquilo antes do momento certo — o presente maravilhoso da vida, a visão, o cheiro, o toque, o gosto, a gloriosa capacidade de pensar. Jamais voltaria a ver as colinas de sua terra natal, as exuberantes margens de seus rios, as florestas de pinheiros e abetos prateados! Jamais voltaria a ouvir os sábios na praça do mercado. Jamais seria abraçado por sua mãe, ou provocaria sua irmã, ou brincaria com seus dois sobrinhos! Por isso, apenas fingira tomar o veneno. E então, assim que os outros morreram à sua volta, ele fugira para dentro das cavernas.

A lua Iluminou seu caminho pela descida, mostrando o deserto à sua volta, fazendo-o perceber o quão sozinho estava. Seus ex-companheiros haviam sido escudeiros do exército de Alexandre, destemidos senhores da terra. Em nenhum lugar encontrara mais segurança do que junto a eles. Sozinho, sentia-se fraco e frágil, vagando numa terra de deuses estranhos e línguas incompreensíveis. Desceu a encosta cada vez mais rápido, com o medo de Pã crescendo dentro de si, e começou uma corrida desabalada, até tropeçar e cair pesadamente sobre a areia compacta.

Ao se levantar, foi sentindo um temor crescente, embora, a princípio, ele não soubesse bem sua causa. Mas então silhuetas estranhas começaram a ganhar forma na escuridão. Quando ele percebeu o que eram, começou a chorar. Caminhou até onde estava o primeiro par. Bilip, que o carregara nos braços quando ele perdera as forças perto de Areg. Iatrocles, que lhe contara histórias fantásticas sobre terras distantes. Cleomenes e Herakles eram os próximos. Não importava se estivessem mortos; a crucificação era a pena aplicada a criminosos e traidores pelos macedônios, e Ptolomeu queria deixar claro que era assim que ele considerava esses homens. Todavia, não foram esses homens que traíram o desejo que Alexandre expressara no leito de morte sobre onde ele deveria ser enterrado. Não foram esses homens que colocaram suas ambições pessoais acima dos desejos de seu rei. Não. Esses homens procuraram apenas fazer o que o próprio Ptolomeu deveria ter feito, ou seja, construir para Alexandre uma tumba próxima à de seu pai.

Alguma coisa na simetria das cruzes chamou a atenção de Quelônimo. Elas estavam em pares. Por todo o caminho, elas estavam em pares. Entre­tanto, seu grupo havia sido de 34. Ele próprio e mais 33. Número ímpar. Como podiam estar todas em pares? Um leve sopro de esperança. Talvez alguém mais tivesse escapado. Ele começou a percorrer às pressas a horrível alameda de morte. Sim, velhos amigos em ambos os lados; mas nenhum de­les era o seu irmão. Vinte e quatro cruzes. E em nenhuma estava seu irmão. Vinte e seis. Ele fez uma prece silenciosa aos deuses, com uma crescente sensação de esperança. Vinte e oito. Trinta. Trinta e duas. E em nenhuma delas o seu irmão. E as cruzes chegaram ao fim. Por um momento sentiu uma maravilhosa euforia. Mas ela não durou muito. Como se um punhal tivesse sido cravado entre suas costelas, ele percebeu o que Ptolomeu tinha feito. Soltou um grito de angústia e raiva e caiu de joelhos na areia.

Quando sua raiva finalmente se acalmou, Quelônimo era um homem diferente, um homem com um propósito determinado. Já havia traído uma vez o juramento feito a esses homens. Não o trairia de novo. Juntos na vida; juntos na morte. Sim. Ele devia isso a eles. A qualquer preço.

 

                       Recifes de Ras Mohammed, Sinai, Egito

Daniel Knox estava cochilando tranqüilamente na proa quando a garota resolveu, em deliberada provocação, ficar na frente do seu sol da tarde. Ele abriu os olhos e, ao ver quem era, encarou-a um pouco preocupado, porque Max deixara claro que, naquele dia, ela seria de Hassan al-Assyuti, e Hassan tinha a orgulhosa e comprovada reputação de ser violento, principalmente com quem se intrometesse em seus assuntos.

Pois não? — perguntou Knox.

Então você é realmente um beduíno? — lançou ela. — Quero di­zer, aquele Max disse que você era beduíno, mas, quero dizer, você não parece ser. Quero dizer, não me leve a mal, quero dizer, você até parece, sua cor, seus cabelos e sobrancelhas, mas...

Não era nenhuma surpresa essa moça ter despertado o interesse de Hassan, pensou Knox enquanto ela seguia divagando. Ele era conhecido por sua tara por louras jovens, e essa tinha um sorriso encantador e olhos de um incrível azul-turquesa, assim como uma pele atraente, com algumas sardas claras e traços rosados de acne, e uma silhueta perfeitamente contornada por seu biquíni de tons verde-limão e amarelo-claro.

— A mãe de meu pai era beduína — falou ele, para ajudá-la a sair de seu labirinto. — Só isso.

Uau! Avó beduína! — Ela considerou isso um convite para se sentar. - Como ela era?

Knox se apoiou no cotovelo, apertando os olhos contra o sol.

Ela morreu antes de eu nascer.

Ah, sinto muito. — Uma mecha úmida de cabelo louro caiu sobre a face dela. Com as duas mãos, puxou os cabelos para trás e os segurou numa espécie de rabo de cavalo de tal forma que seu busto se projetou sobre ele.

Então você cresceu aqui? No deserto?

Ele deu uma olhada em volta. Estavam todos no convés do barco de mergulho de Max Strati amarrado a uma bóia no meio do mar Vermelho.

Deserto? — perguntou ele.

Ah! — Ela deu uma batidinha de brincadeira no peito dele. — Você sabe o que eu quero dizer!

Sou inglês — disse ele.

Gostei da sua tatuagem. — Ela percorreu com a ponta do dedo a estrela azul e dourada de 16 pontas em seu bíceps direito. — O que é?

É a Estrela de Vergina—esclareceu Knox. — O símbolo dos argeades.

De quem?

A antiga família real da Macedônia.

O quê? Você quer dizer algo como Alexandre, o Grande?

Muito bem.

Ela franziu o nariz.

Então você é fã dele? Sempre ouvi dizer que ele era apenas um brutamontes beberrão.

Nesse caso, você ouviu mal.

Ela sorriu, contente por ter sido ridicularizada.

Então me conte.

Knox franziu o cenho. Por onde é que se começa com um homem como Alexandre?

Ele estava sitiando uma cidade chamada Multan — começou. — Isso foi no final de uma campanha. Seus homens estavam exaustos de lutar. Só queriam voltar para casa. Mas Alexandre não queria nada disso. Ele foi o primeiro a subir a muralha. Os defensores tinham empurrado todas as outras escadas de assalto, então ele ficou ali sozinho. Qualquer homem normal teria pulado para longe, para a segurança, certo? Sabe o que Alexandre fez?

O quê?

Ele pulou para dentro da muralha. Sozinho. Era a única maneira de garantir que seus homens o seguiriam. — E foi o que eles fizeram. Des­truíram a fortaleza procurando por ele e chegaram a tempo de salvá-lo. Os ferimentos que sofreu naquele dia talvez tenham contribuído para a sua morte, mas enriqueceram também as lendas sobre ele. — Alexandre cos­tumava se vangloriar de ter cicatrizes por todo o corpo, exceto nas costas.

Ela riu.

Ele parece um psicopata.

Eram outros tempos — disse Knox. — Depois de capturar a mãe do imperador da Pérsia, ele a colocou sob sua proteção pessoal. Quando ele morreu, a mulher ficou tão triste que deixou de se alimentar e definhou até morrer também. Não era sequer seu próprio filho que havia morrido, imagine. Fora Alexandre. Ninguém faz algo assim por um psicopata.

Hum — disse ela. Estava claro que já tinha ouvido o bastante daque­le assunto.

Ficou de joelhos, apoiou a palma de sua mão esquerda no convés perto de Knox e estendeu o braço direito para a caixa de isopor vermelha e branca do outro lado dele. Abriu a tampa e ficou escolhendo, sem pressa alguma, entre as garrafas e latas que estavam ali para gelar, e enquanto fazia isso seus seios exuberantes com bicos rosados como pétalas balançavam livres dentro do top de seu biquíni. De repente, Knox ficou um pouco nervoso; saber que estava sendo provocado não diminuía a eficácia da provocação. Mas o lembrava à força de Hassan também, então ele fez uma careta e desviou os olhos para outra direção.

Ela voltou a se sentar, com uma garrafa na mão e um sorriso maroto nos lábios.

Quer um pouco? — perguntou.

Não, obrigado.

Ela deu de ombros e tomou um gole.

Então, faz muito tempo que você conhece Hassan?

Não.

Mas você é amigo dele, não é?

Estou na folha de pagamento dele, querida. Só isso.

Mas ele é zen, certo?

Essa não é a maneira mais inteligente de se descrever um muçulmano.

Você sabe o que eu quis dizer.

Knox deu de ombros. Era tarde demais para ela mudar de idéia. Hassan a havia trazido de uma boate, não de uma escola dominical. Se ela não tivesse gostado dele, deveria ter dito não; simples assim. Ingenuidade é uma coisa, burrice é outra. Ela sabia muito bem o que estava fazendo com o próprio corpo.

Naquele momento Max Strati surgiu por entre a fileira de cabines. Aproximou-se rapidamente.

E aí, o que está acontecendo por aqui? — perguntou friamente.

Ele viera para Sharm el-Sheikh de férias vinte anos antes e nunca mais voltara para sua terra. O Egito lhe fizera muito bem; Max não arriscaria desagradar Hassan.

Apenas conversando — disse Knox.

Na hora de folga, por favor, não durante o trabalho — advertiu Max. — O Sr. al-Assyuti gostaria que seus convidados dessem um últi­mo mergulho.

Knox levantou-se.

Vou preparar as coisas.

A garota ergueu-se também e bateu palmas, fingindo entusiasmo.

Ótimo! Não achei que iríamos para debaixo d'água outra vez.

Acredito que você não irá conosco, Fiona — disse Max, categórico. — Não temos tanques suficientes. Você ficará aqui com o Sr. al-Assyuti.

Ah. — De repente, ela pareceu assustada como uma criança. Hesi­tante, apoiou a mão no braço de Knox. Ele se desvencilhou dela e andou furioso em direção à popa, onde ficavam guardadas caixas plásticas com roupas de mergulho, pés de pato, respiradores e máscaras, junto à estante de ferro dos tanques de ar. Um olhar de relance confirmou o que Knox já sabia; havia tanques de sobra. Sentiu um arrepio súbito na nuca. Os olhos de Max provavelmente estavam queimando às suas costas, então fez um esforço para não olhar à sua volta. A garota não era problema seu. Já era bastante grande para tomar conta de si própria. Ele não tinha qualquer ligação com ela; nenhum compromisso. Dera muito duro para se estabelecer naquela cidade; não ia jogar tudo pela janela por causa de uma adolescente mimada que havia avaliado mal o preço do seu almoço. As justificativas que Knox criava não adiantaram muito. Ele sentiu um nó apertar no estômago enquanto se agachava junto aos tanques e começava a verificar os equipamentos.

 

                           Escavação da FAM no delta do Nilo, norte do Egito

— Olá! — chamou Gaille Bonnard. — Tem alguém aí?

Esperou pacientemente, mas não houve resposta. Estranho. Kristos o tinha assegurado de que Elena estava precisando de ajuda para traduzir um óstraco, mas não havia sinal dela ou de sua caminhonete. E o galpão, onde ela costumava trabalhar, estava fechado. Gaille ficou um pouco irritada. Não se importava de caminhar 15 minutos de um sítio ao outro, mas sim de perder tempo. Mas então percebeu que a porta do alojamento estava entreaberta, algo que nunca acontecera antes, pelo menos não desde que Gaille chegou lá. Ela bateu, depois abriu a porta e olhou para dentro, deixando en­trar um pouco da luz do sol. As paredes internas eram cobertas de estantes cheias de lamparinas elétricas, martelos, picaretas, cestas, cordas e outros equipamentos de arqueologia. No chão havia um buraco escuro, quadrado, do qual se projetava o topo de uma escada de madeira.

Gaille agachou-se, colocou as mãos em concha em volta da boca e gri­tou para dentro do buraco, mas não obteve qualquer resposta. Esperou alguns segundos e chamou de novo. Continuava tudo quieto. Levantou-se, colocou as mãos na cintura e pensou. Elena Koloktronis, chefe de escava­ções da Fundação Arqueológica Macedônia, era uma daquelas líderes que adiavam que toda a equipe era composta de incompetentes e, por isso, ten­tava fazer tudo sozinha. Com freqüência interrompia uma atividade pelo meio para atender outra. Talvez tenha sido isso o que ocorrera dessa vez. Ou então houve somente um mal-entendido com o recado. O problema era que, para Elena, nada nunca estava certo. Se você fosse procurá-la, deveria ter ficado onde estava. Se não saísse do lugar, ela ficaria furiosa por você não ter ido procurá-la.

Gaille agachou-se outra vez, com as pernas doendo depois de um longo dia de trabalho, e chamou uma terceira vez, começando a sentir um pouco de apreensão. E se Elena tiver caído? Acendeu uma lamparina elétrica, mas o poço era fundo e o facho de luz perdeu-se na escuridão. Não faria mal algum em ir conferir. Ela não morria de amores por altura, então respirou fundo enquanto apoiava a mão na escada e colocava cuidadosamente um pé no primeiro degrau e o outro no seguinte. Quando se sentiu segura, começou a descida, com cautela. A escada rangeu, bem como as cordas que a manti­nham presa à parede. O poço era mais fundo do que ela imaginara, talvez uns 6 metros. Em geral, não se podia ir tão fundo no delta sem encontrar o lençol freático, porém o sítio estava no topo de uma colina, protegido das inundações anuais do Nilo — uma das razões pelas quais tinha sido ocupado na Antigüidade. Ela chamou outra vez. Silêncio total, exceto pelo som de sua própria respiração, amplificado pela exiguidade do espaço. Grãos de terra se soltavam das paredes e caíam à sua volta. A apreensão foi cedendo à curiosi­dade. Ela havia escutado algumas insinuações sobre esse lugar, é claro, mas nenhum de seus colegas ousava falar abertamente sobre ele.

Por fim chegou ao fundo, esmagando com os pés lascas de basalto, granito e quartzo como se velhos monumentos e estátuas tivessem sido reduzidos a fragmentos e jogados ali. Uma passagem estreita conduzia à esquerda. Chamou outra vez, porém mais baixo, torcendo para que não tivesse respos­ta. A lamparina começou a piscar e tremeluzir e acabou apagando. Gaille bateu-a contra a parede e a luz voltou como um punho se abrindo. Seus pés esmigalhavam lascas de pedra à medida que avançava.

Na parede à esquerda havia uma pintura de cores extraordinariamente vivas. Era evidente que a haviam limpado, talvez até retocado. Mostrava o perfil de uma figura humanóide vestida como um soldado, porém com a cabeça e a juba de um lobo cinzento, segurando uma clava na mão es­querda e na direita um estandarte militar com a base apoiada entre os pés e uma bandeira escarlate desdobrada junto a seu ombro direito sobre um céu azul-turquesa.

Os antigos deuses egípcios não eram a especialidade de Gaille, mas ela sabia o suficiente para identificar Wepwawet, um deus-lobo que acabou se fundindo a outros e se tornou Anúbis, o chacal. Originalmente, ele era visto como um batedor do exército, e sua imagem era inserida com freqüência nos shedshed— estandartes militares egípcios iguais ao que ele estava segurando ali. Seu nome queria dizer "Aquele que Abre os Caminhos", razão pela qual o mini-robô que fora projetado para explorar os misteriosos canais de ven­tilação das Grandes Pirâmides havia sido batizado com uma versão de seu nome, Upuaut. Até onde Gaille sabia, Wepwawet caíra no ostracismo du­rante o Reinado Médio, cerca de 1.600 a.C. Portanto, aquela pintura ali deveria ter mais de 3.500 anos. Todavia, o shedshed que aparecia em sua mão contava uma história diferente. Pois nela estavam representados a cabeça e os ombros de um belo jovem com uma expressão beatífica no rosto, um pouco inclinado para cima como uma madona renascentista. Era difícil saber com certeza quando se olhava um retrato de Alexandre, o Grande. Seu impacto na iconografia fora tão profundo que durante séculos depois as pessoas bus­cavam imitar sua aparência. Mas, se aquele não era o verdadeiro Alexandre, sem dúvida fora influenciado por ele, o que significava que aquela pintura não podia ser anterior a 332 a.C. E isso levantava uma questão óbvia: o que diabos ele estava fazendo num estandarte segurado por Wepwawet mais de um milênio após o deus-lobo ter caído no esquecimento?

Gaille parou de pensar nesse enigma e continuou em frente, ainda murmurando o nome de Elena, embora apenas como desculpa no caso de encontrar alguém. Sua lamparina apagou-se outra vez, mergulhando o lo­cal em completa escuridão. Ela chocou-a na parede de novo e a luz voltou a acender. Passou por outra pintura, aparentemente idêntica à primeira, embora não estivesse totalmente limpa. As paredes começavam a mostrar sinais de chamuscamento, como se um grande incêndio tivesse aconte­cido por ali. Vislumbrou um pedaço de mármore branco mais adiante e dois lobos de pedra deitados, porém alertas. Mais lobos. Gaille franziu o cenho. Quando os macedônios tomaram o Egito, deram nomes gregos a muitas das cidades por razões administrativas, quase sempre tendo como base os nomes dos deuses cultuados no local. Se Wepwawet era o deus cultuado ali, então com certeza deveria ser...

Gaille! Gaille! — Elena gritava de longe atrás dela. — Você está aí embaixo, Gaille?

Gaille voltou correndo pela galeria.

Elena? — perguntou. — É você?

Que raios você pensa que está fazendo aí embaixo?

Achei que tinha caído. Pensei que estivesse com algum problema.

Saia daí — ordenou Elena, furiosa. — Agora.

Gaille começou a subir. Ficou quieta até chegar ao topo, e então dis­se rapidamente:

Kristos me falou que você estava querendo...

Elena avançou para cima dela.

Quantas vezes eu lhe avisei que esta é uma área restrita? — berrou. — Quantas vezes?

Desculpe, Sra. Koloktronis, mas...

Quem diabos você pensa que é? — O rosto de Elena estava vermelho, e os tendões de seu pescoço pareciam saltar como os de um cavalo de corri­da. — Como você ousa ir lá embaixo? Como ousa?

Pensei que você havia caído — repetiu Gaille inutilmente. —Achei que podia estar precisando de ajuda.

Não me interrompa enquanto eu estiver falando.

Eu não estava...

Não se atreva! Não se atreva!

Gaille ficou muda. Por um instante pensou em responder à altura. Não fazia três semanas, afinal, que Elena lhe telefonara de repente e implorara, implorara, que ela tirasse um mês de licença do projeto do Dicionário Demótico na Sorbonne para assumir o lugar de seu assistente em lingüística que ficara doente. Mas o instinto ajuda a saber com quem é possível medir forças, e Gaille sabia que não tinha chance alguma. A primeira explosão de Elena deixara Gaille chocada. Seus novos companheiros minimizaram a situação, explicando-lhe que ela agia assim desde que o marido morrera. Ela fervia com uma fúria interior como um planeta em formação, irrom­pendo em espasmos imprevisíveis de violência indiscriminada, flamejante e, às vezes, espetacular. Isso agora tinha virado quase rotina, algo a ser te­mido e aplacado, como a ira dos deuses antigos. Então Gaille ficou quieta e engoliu todos os comentários mordazes e brutais de Elena sobre sua falta de habilidade, sua ingratidão, os problemas que aquele incidente, sem dú­vida, acarretaria à sua carreira quando viesse à tona, embora, é claro, ela garantisse que faria o possível para protegê-la.

Desculpe-me, Sra. Koloktronis — disse Gaille quando o discurso final­mente começou a amainar. — Kristos me disse que a senhora queria me ver.

Eu mandei ele lhe dizer que eu estava indo.

Ele não me falou isso. Eu apenas quis ter certeza de que a senhora não havia caído.

Aonde você foi?

A lugar algum. Apenas examinei o fundo.

Muito bem — falou Elena com má vontade. — Então não falemos mais nisto. Mas não mencione nada a Qasim, ou não terei como protegê-la.

Não direi nada, Sra. Koloktronis — disse Gaille. Qasim, represen­tante residente do Conselho Superior, fazia tanto mistério sobre este lugar quanto Elena. Não havia dúvida de que Elena ficaria em maus lençóis se tivèsse que admitir que deixara a porta destrancada e sem vigilância.

Venha comigo — chamou Elena, trancando a porta de aço e conduzin­do Gaille para o outro lado do galpão. — Quero sua opinião sobre um óstraco. Tenho 99,9 por cento de certeza sobre a sua tradução. Talvez você possa me ajudar com o 0,1 por cento que falta.

Claro, Sra. Koloktronis — concordou Gaille com docilidade. — Obri­gada.

 

— Você é idiota? — rosnou Max, que seguira Knox até a proa do barco de mergulho. — Está querendo morrer? Eu não lhe falei para deixar a mulher de Hassan em paz?

Ela veio conversar comigo — respondeu Knox. — Você queria que eu fosse grosseiro?

Você estava dando bola para ela.

Era ela quem estava se jogando para cima de mim.

Isso é ainda pior. Meu Deus! — Max olhou em volta com uma ex­pressão assustada. Trabalhar para Hassan costumava causar esse efeito.

Desculpe — disse Knox. — Ficarei longe dela.

É bom que fique. Acredite em mim, se Hassan não for com a sua cara, tanto você quanto seu amigo Rick podem esquecer seu projetinho, seja lá que merda for.

Fale mais baixo.

Estou só avisando. — Max balançou o dedo como se tivesse algo mais a dizer, mas deu meia-volta e foi embora.

Knox ficou observando-o enquanto ele se afastava. Não gostava de Max, e Max não gostava dele. Mas ambos tinham um relacionamento importan­te. Max era o dono de uma escola de mergulho, e Knox era um instrutor competente e confiável que sabia convencer turistas a recomendarem o cur­so a quem eles conheciam durante as viagens; e ele cobrava bem barato. Em troca, Max o deixava usar seu barco e o sistema de sonar para algo que ele chamava com deboche de "seu projetinho". Knox sorria com ironia. Se Max soubesse o que ele e Rick estavam procurando, não seria tão indiferente.

Knox chegara a Sharm quase três anos antes. Apenas quatro semanas depois, algo extraordinário aconteceu. Algo relacionado à mesma tatuagem que chamara a atenção de Fiona.

Numa noite, enquanto saboreava uma cerveja na varanda, um australia­no alto e forte o abordou.

Posso lhe fazer companhia? — ele perguntara.

Sirva-se.

Meu nome é Rick.

Daniel. Mas todo mundo me chama de Knox.

Eu sei. Foi o que me disseram.

Knox olhara para ele..

Você andou se informando sobre mim?

Dizem que você é arqueólogo.

Já fui.

E desistiu para ser instrutor de mergulho? — perguntara Rick, com ceticismo.

— A carreira é que desistiu de mim — explicara Knox. — Nós brigamos.

Ah. — Ele se inclinara para a frente. — Tatuagem interessante.

Você acha?

Rick fez que sim.

Se eu lhe mostrar uma coisa, você não vai contar para ninguém, vai?

Claro que não. — Knox deu de ombros.

Rick metera a mão no bolso e tirara uma caixa de fósforos. Dentro dela, envolto por um pedaço de flanela, havia um pingente dourado em forma de gota com cerca de 2 centímetros de comprimento e um furo na ponta para passar um prendedor ou uma corrente. Havia pontos róseos mostran­do o local onde aquilo havia estado grudado num coral. E em sua base via-se uma estrela quase imperceptível de 16 pontas.

Eu encontrei isto há uns dois anos — dissera Rick. — Achei que você poderia me dizer algo mais sobre ela. Quero dizer, este é o símbolo de Alexandre, certo?

É. Onde foi que você achou isso?

Rá! — respondera Rick, pegando o pingente de volta, guardando-o cuidadosamente no estojo improvisado e colocando-o de volta no bolso. — Até parece que eu vou contar. E aí? Você tem alguma idéia do que seja?

Pode ser qualquer coisa — dissera Knox. — O ornamento de um manto, de uma taça de bebida, algo assim. Um brinco, talvez.

O quê? — Rick franzira as sobrancelhas. —Alexandre usava brincos?

A estrela não significa que isto era um objeto pessoal dele. Podia ser de alguém de sua família.

Ah. — O australiano parecera desapontado.

Knox olhara-o desconfiado.

E você achou isso nos recifes aqui, certo?

Sim. Por quê?

É estranho, só isso. Alexandre jamais chegou perto deste lugar. Nem seus homens.

Rick debochara.

E eu pensei que você era arqueólogo! Até eu sei que ele veio ao Egito. Veio visitar aquele lugar lá no meio do deserto.

O oráculo de Amon no oásis de Siuá. Sim. Mas ele não passou por Sharm, pode acreditar. Ele foi pela costa norte do Sinai.


Ah. E aquela foi sua única visita, então?

Sim, tirando... — E de repente o coração de Knox se acelerara dentro do peito quando lhe ocorrera uma idéia louca. — Meu Deus... — murmurara.

O que foi? — perguntara Rick, animado, olhando para ele.

Não. Não. Não poderia ser.

O quê? Diga.

Knox sacudira a cabeça com determinação.

Não. Não foi nada, tenho certeza.

Vamos, cara. Agora você vai ter que me contar.

Só se você me contar onde encontrou isso.

Rick dirigira-lhe um olhar astucioso.

Você acha que tem mais? É o que está pensando, não é?

Não exatamente. Mas é possível.

Rick hesitara.

E você é mergulhador, não é?

Sou.

Um companheiro seria uma boa idéia. Não é fácil chegar lá sozinho. Se eu lhe contar, vamos juntos, certo?

Claro.

Certo, então desembuche.

Muito bem. Mas lembre-se de que é pura especulação. A possibilidade de ser o que eu estou pensando que é...

Tudo bem. Desembuche, vai.

Quer a história completa ou só um resumo?

Rick sacudiu os ombros.

Eu não tenho mais nada para fazer.

Primeiro preciso lhe contar um pouco do cenário. Alexandre veio para o Egito somente uma vez na vida, como já falei, e ficou aqui por uns poucos meses. Passou pelo norte do Sinai até o delta do Nilo, e então foi a Mênfis, a antiga capital, bem ao sul do Cairo, onde ele foi coroado. Depois disso foi outra vez para o norte, fundou Alexandria, e seguiu pela costa em direção oeste até Paretônio, hoje Mersa Matruh, e de lá para o sul através do deserto até Siuá. Parece que ele e sua comitiva se perderam. Segundo um relato, eles teriam morrido de sede se não fosse por duas serpentes falantes que os guia­ram até o oásis.

Aquelas serpentes falantes. Sempre por perto quando você precisa.

Aristóbulo conta uma história mais plausível, de que eles seguiram um par de corvos. Passe algum tempo no deserto e com certeza vai ver al­guns desses. Eles são provavelmente o único tipo de pássaro que se pode encontrar em muitos lugares. Quase sempre estão em pares. E são uns malandros também; se não conseguem achar serpentes ou gafanhotos para comer, ficam rondando seu acampamento em busca de restos antes de ir para o oásis mais próximo. Assim, se você os seguir...

Rick balançou a cabeça.

Como golfinhos num mar de areia.

Se você quiser interpetrar desse modo — concordou Knox. — En­fim, eles levaram Alexandre até Siuá, onde ele consultou o oráculo e depois voltou para o deserto; mas dessa vez ele se dirigiu para o leste ao longo das trilhas das caravanas para o oásis Bahariya onde há um templo famoso consagrado a ele, e de lá voltou para Mênfis. Foi mais ou menos isso. De­pois, voltou a enfrentar os persas. Mas então, após sua morte, ele foi trazido de volta ao Egito para ser sepultado.

Ah! E você acha que isto é dessa ocasião?

Acho que é possível. Você tem que levar em conta o seguinte: estamos falando de Alexandre, o Grande. Ele conduziu 30 mil macedônios através do Helesponto para vingar a invasão da Grécia por Xerxes, sabendo que encon­traria exércitos dez vezes maiores que o seu. Esmagou os persas não uma ou duas, mas sim três vezes, e então continuou em frente. Lutou um número in­contável de batalhas e venceu-as todas, tornando-se o homem mais poderoso que o mundo jamais vira. Quando seu melhor amigo Hefestião morreu, ele o colocou no topo de uma pira de madeira belamente esculpida de 80 metros de altura; foi algo como construir a Opera de Sidney, jogar um fósforo aceso e ficar apreciando o fogo. Por aí você pode imaginar o quanto seus homens in­sistiriam em fazer algo muito especial quando o próprio Alexandre morresse.

Entendo.

Uma pira estava fora de questão. O corpo de Alexandre era precioso demais para ser queimado. Antes de tudo, um dos deveres de um novo rei macedônio era enterrar seu antecessor. Assim, quem estivesse de posse do corpo de Alexandre tinha direito de reivindicar o trono, sobretudo porque Alexandre não havia deixado nenhum sucessor óbvio e todos estavam dispu­tando poderes.

Rick apontou para o copo vazio de Knox.

Quer mais uma?

Pode ser. Obrigado.

Duas cervejas — gritou Rick para o barman. — Desculpe. Você es­tava dizendo que todos estavam disputando poderes.

Sim. O trono estava vago. Alexandre tinha um irmão, mas ele era re­tardado. Sua esposa, Roxana, estava grávida, mas ninguém podia garantir que ela teria um filho homem; e, de qualquer modo, Roxana vinha de um povo bárbaro, e os macedônios não tinham conquistado o mundo conhecido para serem governados por um mestiço. Então houve uma reunião do exército, na Babilônia, onde foi firmado um acordo. O irmão retardado e a criança por nascer, se fosse do sexo masculino (e acabou sendo, Alexandre IV), poderiam governar juntos: porém, as várias regiões do império seriam administradas por sátrapas, que prestariam contas a um triunvirato. Está acompanhando?

Sim.

Um dos generais de Alexandre chamava-se Ptolomeu. Por acaso, foi ele quem começou com a história sobre as serpentes falantes. Mas não se deixe enganar: ele era um homem muito esperto e competente. Chegou à conclusão de que, sem Alexandre para manter o império unido, este se fragmentaria, e ele queria o Egito para si. O Egito era rico, ficava fora do caminho e dificilmente seria envolvido em guerras de terceiros. Então ele providenciou para si a satrapia e se acomodou nela, acabando por se proclamar faraó e fundar a dinastia ptolomaica, que terminou em Cleópatra. Tudo bem até aqui?

As cervejas chegaram e eles levantaram seus copos num brinde.

Continue — disse Rick.

Não foi fácil para Ptolomeu se fazer faraó — continuou Knox. — Os egípcios não reconheceriam um qualquer. A legitimidade era uma coisa que prezavam muito. Alexandre era especial: um deus vivo de inquestionável san­gue real que tinha expulsado os odiados persas; não haveria vergonha em ser governado por um homem como ele. Mas Ptolomeu era um joão-ninguém, no conceito dos egípcios. Assim, uma das coisas de que ele precisava era um símbolo de realeza.

Ah — disse Rick, limpando a espuma de seu lábio superior. — O corpo de Alexandre.

Na mosca. — Knox abriu um sorriso. — Ptolomeu queria o corpo de Alexandre. Mas ele não era o único. O líder do triunvirato macedônio se chamava Pérdicas, e ele também tinha suas ambições. Desejava levar o cor­po de Alexandre para a Macedônia e enterrá-lo ao lado de Felipe, o pai dele, na tumba real de Aigai, no norte da Grécia. Mas transportá-lo da Babilônia para a Macedônia não era uma tarefa fácil. Não se podia simplesmente em­barcá-lo no primeiro navio. Ele tinha que fazer a viagem em grande estilo.

Rick balançou a cabeça.

Eu sou assim também.

Um historiador chamado Diodoro da Sicília fez uma descrição bem detalhada de tudo isso. O corpo de Alexandre foi embalsamado e colocado num caixão de ouro batido e coberto de essências aromáticas caríssimas. E foi encomendado um catafalco — ou seja, uma carruagem funerária. Era tão espetacular que levou mais de um ano para ficar pronto. Era um templo dourado sobre rodas, com 6 metros de comprimento e 4 de largura. Co­lunas jônicas douradas entremeadas de acantos suportavam uma abóbada alta de escamas douradas com aplicações de pedras preciosas. Um mastro dourado se erguia da cúpula, brilhando como um raio ao sol. Em cada um de seus cantos havia uma estátua dourada de Niké, a antiga deusa da vitória, erguendo um troféu. Na cornija dourada estavam gravadas cabeças de íbis das quais pendiam anéis de ouro suportando uma guirlanda brilhante e multicolorida. Os espaços entre as colunas eram preenchidos por uma rede dourada protegendo o caixão do sol abrasador e das chuvas. A entrada da frente era guarnecida por leões dourados.

Isso é um montão de ouro — disse Rick, incrédulo.

Alexandre era extremamente rico — respondeu Knox. — Ele possuía mais de 7 mil toneladas de ouro e prata somente em seus tesouros da Pérsia. Foram necessários 20 mil mulas e 5 mil camelos só para transportá-los. Sabe como eles costumavam guardá-los?

Como?

Eles o derretiam e derramavam no interior de vasos que depois eram quebrados.

Cacete! — Rick deu uma risada. — Eu adoraria achar um deles.

Exatamente. E os generais não ousaram fazer economia. Alexandre era um deus para os soldados macedônios. Se tivesse sido mesquinho te­ria perdido com facilidade a lealdade de seus homens. Enfim, a carruagem funerária acabou ficando pronta. Mas era tão pesada que os construtores precisaram inventar rodas e eixos com amortecedores, e até a estrada teve que ser preparada por uma equipe de especialistas, e eram necessárias 64 mulas para puxá-la. — Knox fez uma pausa para tomar mais um gole da cerveja. — Sessenta e quatro mulas — repetiu, balando a cabeça. — E cada uma delas usava uma coroa dourada e uma coelheira decorada com pedras preciosas. E tinha um sino de ouro pendurado dos dois lados da cabeça. E cada um desses sinos teria dentro um badalo de ouro exatamente como esse que você tem dentro de sua caixa de fósforos.

Você está me sacaneando — disse Rick, visivelmente chocado.

E, resumindo — Knox deu uma risada —, todo o catafalco, todo o ouro, simplesmente desapareceu da história sem deixar qualquer vestígio.

 

                 Canteiro de obras de um hotel em construção, Alexandria

Mohammed el-Dahab tinha um porta-retrato com a foto da filha, Layla, sobre sua escrivaninha. A fotografia era de dois anos antes, pouco tempo antes de ela ficar doente. Desenvolvera o hábito de olhá-la constantemente enquanto trabalhava. Algumas vezes, contemplar seu rosto lhe dava alegria. Normalmente, como agora, ele se sentia desolado. Apertou a ponte do nariz entre o polegar e o indicador e murmurou uma prece curta, porém sincera. Ele rezava desse modo por ela por volta de umas trinta vezes a cada dia, assim como durante suas rek'ahs formais. Até agora suas preces não tinham feito muito, mas a fé era assim. Se não fosse testada não significaria nada.

Lá de fora vinha um barulho perturbador. Gritos e gargalhadas de júbi­lo. Ele olhou irritado pela janela de sua sala. O trabalho na obra havia sido interrompido. Os operários estavam reunidos num canto e Ahmed dança­va feito um dervixe num moulid. Mohammed se apressou em sair da sala, furioso. Alá o amaldiçoara com a equipe mais preguiçosa de todo o Egito. Qualquer coisa era motivo de desculpa! Ele fez uma expressão de desgosto a fim de se preparar psicologicamente para dar uma bronca adequada, mas, quando percebeu o que causara o alvoroço, abandonou esse pensamento. A escavadeira tinha aberto um grande buraco no solo, expondo uma escada­ria em espiral que se descia para dentro de um poço negro e profundo que ainda estava coberto de poeira. Ela parecia amarelada, escura e velha; tão velha quanto a própria cidade.

Mohammed e seus homens se entreolharam com o mesmo pensamento. Quem sabe por quanto tempo isto permaneceu oculto? Quem imagina que ri­quezas podem existir lá no fundo? Alexandria não era somente uma das gran­des cidades da Antigüidade, mas guardava também um tesouro perdido famoso no mundo inteiro. Quem ali não havia sonhado em descobrir o sarcófago dourado do fundador da cidade, Iskandar al-Akbar, ninguém menos que Alexandre, o Grande? Garotos cavavam buracos em jardins públicos; mulheres fofocavam sobre os ecos estranhos que ouviam quando batiam nas paredes do porão de suas casas; ladrões invadiam cisternas antigas e porões proibidos dos templos e mesquitas. Mas se estivesse em algum lugar, era ali, bem no coração do antigo Quarteirão Real da cidade. Mohammed não era dado a divagações banais, mas, vendo o poço profundo à sua frente, sentiu um nó apertado no estômago.

Seria este, finalmente, o seu milagre?

Pediu a lanterna de Fahd e colocou o pé esquerdo devagar no primeiro degrau. Mohammed era um homem corpulento e sentia o coração bater na garganta enquanto colocava todo o peso sobre a pedra sulcada, mas esta o sustentou sem reclamar. Ele experimentou mais alguns degraus, mantendo as costas voltadas para o calcário áspero da parede externa. A interna, que separava a escada em espiral do grande poço central, era feita de tijolos em decomposição; muitos se haviam soltado, deixando buracos pretos no lugar. Mohammed atirou uma pedra através de uma abertura e esperou com a respiração suspensa até, após seu coração bater quatro vezes, ouvi-la batendo no fundo. A escada se estreitava no alto, e ele percebeu que ela era inteira escavada na própria rocha: mais uma escultura do que uma construção! Saber disso lhe trouxe maior confiança. Continuou a descer, contornando a espiral. Por fim a escada acabou, passando sob um portal em arco e dando numa grande sala circular, entulhada até a altura da canela com areia, pe­dras e tijolos caídos. No centro, quatro pilares maciços circundavam a base aberta do poço central. A tênue luz do dia que penetrava pela abertura refle­tia nas partículas de poeira em suspensão no ar, rodopiando como planetas, grudando em seus lábios e fazendo cócegas em sua garganta.

Lá embaixo era fresco e havia uma silêncio maravilhoso em compa­ração com o barulho incessante do canteiro de obras. Além da escada da qual ele acabara de sair, havia outros três portais em arco à volta da rotunda em que se encontrava, um para cada ponto cardeal. Havia tam­bém bancos curvos com cobertura incrustada de conchas encavados nas paredes de pedra calcária, que estavam decoradas por suntuosas esculturas de deuses a cavalo, medusas aterrorizantes, touros empinados, pássaros voando, flores desabrochadas e cortinas de hera. Além da primeira arcada via-se um escuro corredor descendente entulhado de detritos e poeira. Mohammed engoliu em seco, aflito e ansioso, ao afastar as teias de aranha que cobriam essa arcada. Uma passagem lateral rebaixada saía do corredor sinuoso para uma câmara alta e espaçosa com as paredes recobertas por fileiras de aberturas quadradas. Uma catacumba. Ele se dirigiu à parede do lado esquerdo, iluminou um crânio amarelo empoeirado e deslocou-o com um dedo. Do maxilar caiu uma pequena moeda escurecida. Ele a apanhou, examinou e depois a colocou de volta no mesmo lugar. Com a lanterna iluminou o interior do buraco. Lá no fundo, uma pilha de crâ­nios e ossos havia sido amontoada para dar lugar a ocupantes posteriores. Mohammed fez uma careta ao ver isso e voltou ao corredor principal para continuar sua exploração. Passou por mais quatro câmaras mortuárias an­tes de descer um lance de 12 degraus, depois outras cinco antes de atingir outro lance de degraus que acabavam no lençol freático.

Voltou à rotunda. Ahmed, Husni e Fahd também tinham descido e es­tavam de joelhos, vasculhando os entulhos.

Ficou intrigado com o fato de eles não terem ido mais longe até perceber que ali era o único lugar com luz natural e que a única lanterna disponível estava com ele.

- Que lugar é este? — indagou Ahmed. — O que foi que eu descobri?

- Uma necrópole — respondeu Mohammed categoricamente. — Uma cidade dos mortos.

Vagamente irritado com a presença deles, Mohammed atravessou um segundo portal em direção a uma câmara alta, ampla e fechada revestida com blocos de calcário. Uma sala de banquete, talvez, aonde enlutados te­riam vindo uma vez ao ano para prestar homenagem a seus entes queridos.

Um pequeno lance de escadas descia do último portal para um pequeno átrio. Numa parede de mármore branco, sobre um degrau, havia portas me­tálicas duplas altas, enegrecidas e cravejadas, com maçanetas hexagonais. Mohammed puxou a maçaneta da porta da esquerda, que se abriu com um som estridente. Esgueirou-se pela abertura e entrou numa antecâmara gran­de, alta e vazia. O gesso das paredes se soltara em vários lugares, revelando calcário rústico. Duas linhas de caracteres gregos estavam gravadas na verga sobre a arcada na parede do outro lado da sala, mas não significavam nada para Mohammed. Ele transpôs um degrau elevado e entrou numa outra câ­mara, a principal, com dimensões similares à primeira, porém duas vezes mais profunda. No centro havia um pedestal que lhe chegava à altura do joe­lho e dava uma forte impressão de que algo importante, como um sarcófago, repousara sobre ele. Se fosse isso, desaparecera havia muito tempo.

Um escudo de bronze fosco estava preso na parede ao lado da entrada. Ahmed tentou arrancá-lo dali.

— Pare! — gritou Mohammed. — Você está louco? Está mesmo dispos­to a correr o risco de passar dez anos em Damanhur por causa de um escudo velho e um punhado de vasos quebrados?

Além de nós, ninguém mais sabe disso — respondeu Ahmed. — Quem pode imaginar que tesouros existem aqui? Deve ter o bastante para todos nós.

Este lugar já foi saqueado há séculos.

Mas não por completo —- observou Fahd. — Os turistas pagam pre­ços absurdos por todo tipo de quinquilharia antiga. Meu primo tem uma tenda perto de Gomhurriya. Ele sabe o valor dessas coisas. Se o trouxermos aqui embaixo...

Prestem atenção — disse Mohammed. — Todos vocês. Não vão levar nada daqui e nem contar a ninguém o que viram.

—- Quem foi que lhe deu o direito de tomar essa decisão? — perguntou Fahd. — Foi Ahmed quem achou isto aqui, não você.

Mas este projeto é meu e não de vocês. Este canteiro de obras é meu. Se uma palavra sequer sobre isso vazar vocês terão que se ver comigo. Entenderam? — Encarou cada um deles, até que todos acabaram por ir embora. Observando-os partir, sentiu-se ansioso. Confiar segredos a homens como aqueles era o mesmo que colocar água numa peneira; as favelas de Alexandria estavam coalhadas de bandidos que cortariam vinte gargantas ao menor boato de tal recompensa. Mas ele não iria ceder por causa disso. Durante toda a vida Mohammed se esforçara para ser uma pessoa correta. A virtude sem­pre fora uma fonte de grande satisfação para ele. Sempre que saía de um recinto depois de ter feito algo particularmente generoso ou sensato, ficava imaginando carinhosamente as palavras de admiração que estariam sendo pronunciadas ao seu respeito. Então Layla ficara doente e ele percebera que não dava mais a menor bola para o que as pessoas pensavam dele. Só se im­portava com fazer o que fosse preciso para sua filha ficar boa.

O problema agora era como transformar esta descoberta em algo útil para essa finalidade. Pilhá-la seria impraticável. Apesar de todo o otimismo de Ahmed, não havia tesouros suficientes para todos; e se ele tentasse ex­cluir os outros, eles o entregariam aos patrões, ou talvez até à polícia. Isso seria muito ruim para Mohammed. Como mestre de obras, tinha o dever legal de comunicar o achado ao Conselho Superior de Antigüidades. Se o Conselho descobrisse que ele tinha mantido isso em segredo, Mohammed perderia o emprego, sua licença de trabalho e quase que certamente também a liberdade. Não podia correr esse risco. Seu salário era ridículo, mas era tudo o que se interpunha entre Layla e o abismo.

A solução, quando finalmente lhe ocorreu, era de tamanha simplicidade que ele ficou pasmo de não ter pensado nela antes.

 

— Com licença. Pode me dar uma ajuda aqui?

Knox levantou os olhos e viu Roland Hinz segurando o enorme traje de mergulho preto.

— Claro — respondeu sorrindo. — Desculpe-me. Eu estava com o pen­samento longe daqui.

Colocou-se atrás do alemão gigante para ter certeza de que ele não cairia ao tentar vestir o macacão. Isso não seria uma boa coisa. Roland era um ban­queiro de Stuttgart com intenção de investir no mais recente empreendimento de Hassan no Sinai. A festinha de hoje era dedicada sobretudo a ele. O ho­mem estava se divertindo bastante, alegre por causa do champanhe, bastante cheirado e incomodando todo mundo. Na verdade, ele não devia nem chegar perto da água, mas Hassan pagava bem para deixar as regras flexíveis. E não apenas as regras. Fazer Roland entrar no traje de mergulho era como tentar enfiar um edredom de volta para dentro da capa; ele ficava fazendo barulhos de estalo com diversas partes de seu corpo. E estava achando isso extrema­mente engraçado. Tudo para ele parecia muito engraçado. Era evidente que ele se achava o máximo. Tropeçou nos próprios pés e riu histericamente quan­do, junto com Knox, escorregou e se estatelou no convés, olhando em volta como se esperasse aplausos calorosos dos outros convidados.

Knox o ajudou a se levantar com um sorriso forçado e ajoelhou-se para enfiar a proteção nos pés dele. Seus pés eram inchados, com tons amarelos e rosados, e havia sujeira incrustada entre os dedos como se eles não fos­sem lavados há anos. Knox tratou de se distrair fazendo sua mente vagar para aquela tarde em que compartilhara com Rick suas idéias sobre o catafalco de Alexandre. A grande euforia inicial do australiano não durara muito tempo.

Então esse cortejo veio através do Sinai, não foi? — perguntara.

Não — dissera Knox. — Não segundo nenhuma de nossas fontes.

Que saco, cara — protestou Rick, recostando-se em sua cadeira e balançando a cabeça agressivamente. — Eu estava ficando animado.

Você quer que eu lhe diga o que sabemos?

Pode ser — respondeu, ainda chateado. — Por que não?

Certo — disse Knox. — A primeira coisa que você tem que entender é que nossas fontes são muito duvidosas. Não possuímos relatos de nenhu­ma testemunha ocular sobre a vida e as campanhas de Alexandre. Tudo o que temos vem de historiadores antigos citando outros ainda mais antigos. São relatos de segunda, terceira e até mesmo de quarta mão.

Telefone sem fio — sugeriu Rick.

Exatamente. Mas é ainda pior que isso. Quando o império de Ale­xandre se dividiu, cada uma das várias facções queria se apresentar como a melhor e deixar as demais piores, e por isso escreveu-se um monte de propaganda. Aí chegaram os romanos. Os césares idolatravam Alexandre.

Os republicanos o detestavam. Consequentemente, os historiadores foram muito seletivos em seus relatos, dependendo do lado que eles defendiam. De um modo ou de outro, a maior parte do que temos é bastante tendenciosa. Descobrir a verdade é um pesadelo.

Entendi.

Mas temos bastante certeza de que o catafalco viajou ao longo do Eufrates, da Babilônia até Opis e daí seguiu rumo ao noroeste ao longo do Tigre. Foi um cortejo magnífico, como você pode imaginar. As pessoas percorreram centenas de quilômetros só para vê-lo. E, em algum momento em 322 ou 321 a.C., ele chegou à Síria. Daí em diante, pouco se sabe. Leve em conta que estamos falando de duas coisas aqui. A primeira é o corpo embalsamado de Alexandre dentro do caixão. A segunda é a carruagem funerária e todo o restante do ouro. Certo?

Certo.

Hoje sabemos razoavelmente bem o que aconteceu com o corpo e o caixão de Alexandre. Ptolomeu o roubou e levou para Mênfis, provavelmente com a ajuda do comandante da escolta. Mas não sabemos o que aconte­ceu com o restante do catafalco. Diodoro diz que o corpo de Alexandre acabou sendo levado dentro dele para Alexandria. Entretanto, seu relato é confuso, e parece claro que, na verdade, ele está falando sobre o caixão e não sobre o catafalco. E a descrição mais vivida vem de um sujeito chamado Eliano. Ele diz que Ptolomeu estava tão receoso de que Pérdicas tentasse recuperar os restos mortais de Alexandre que vestiu outro corpo com as mes­mas roupas e uma mortalha e o colocou numa carruagem de prata, ouro e marfim para que Pérdicas perseguisse o engodo enquanto o corpo de Alexan­dre era levado para o Egito por outro caminho.

Rick franziu o cenho.

Você está dizendo que Ptolomeu deixou o catafalco para trás?

É isso o que Eliano sugere — disse Knox. — Lembre-se de que o prêmio maior era Alexandre. Ptolomeu precisava levá-lo de volta ao Egito bem rápido, e não dava para se deslocar rapidamente levando o catafalco. Estima-se que ele andava no máximo 10 quilômetros por dia, e isso com uma equipe enorme de sapadores preparando a estrada. Eles levariam meses para chegar até Mênfis. E a viagem não seria exatamente discreta. Até hoje nunca ouvi falar de algum relato de que ele tivesse sido visto ao longo da rota mais óbvia saindo ao sul da Síria através do Líbano e Israel até o Sinai e o Nilo; e com certeza alguém o teria visto.

Então ele o deixou para trás, como falei?

É possível que sim. Mas o catafalco representava uma enorme for­tuna bruta. Quero dizer, coloque-se no lugar de Ptolomeu. O que você teria feito?

Rick pensou durante alguns minutos.

Eu teria dividido o cortejo — disse. — Mandaria um pessoal na frente com o corpo. Os outros iriam por outro caminho com o catafalco.

Knox deu um sorriso largo.

É o que eu faria também. É claro que não há provas. Mas faz sentido. A próxima pergunta é como. A Síria fica no Mediterrâneo, portanto ele pode ter sido transportado de barco. Mas o Mediterrâneo era infestado de piratas e Ptolomeu teria necessidade de adquirir barcos; e se ele considerasse isso possível, sem dúvida usaria esse meio para levar o corpo de Alexandre, mas temos bastante certeza de que ele não achava que era.

Quais eram as alternativas?

Bem, presumindo que ele não tinha meios de deslocar o catafalco, pode tê-lo partido em pedaços menores que pudessem ser manejados e os levado pelo sudoeste ao longo da costa através de Israel para o Sinai; mas é quase certo que este tenha sido o caminho que ele próprio percorreu com o corpo de Alexandre, e não faz sentido dividir o cortejo se todos iriam seguir a mesma rota. Então há uma terceira possibilidade: a de que ele o tenha mandado para o sul pelo golfo de Acaba e daí por barco, con­tornando a península do Sinai até a costa do mar Vermelho.

A península do Sinai. — Rick sorriu. — Quer dizer, por esses reci­fes daqui?

Esses recifes muito perigosos — acrescentou Knox.

Rick riu e levantou seu copo num brinde.

Então vamos encontrar o danado.

E era exatamente isso que vinham tentando fazer desde então, embo­ra sem sucesso. Na verdade, pelo menos Knox tivera um sucesso relativo. De início Rick se interessara apenas em encontrar tesouros. Porém quanto mais procuravam, mais ele aprendia, mais ficava instigado pela arqueologia. Ele ha­via sido mergulhador da marinha australiana, o mais próximo de operativos especiais que a Austrália tinha em suas forças armadas. O trabalho em Sharm permitia que Rick continuasse mergulhando, mas ele sentia falta do espírito de estar em uma missão. Essa busca restituíra esse sentimento a tal ponto que ele estava decidido a começar uma nova carreira em arqueologia submarina, e estudava para valer, pedindo emprestados os livros e todo o material de con­sulta de Knox e enchendo-o de perguntas.

Roland já estava calçado com os protetores. Knox ficou de pé e ajudou-o a prender o cinto com os pesos, e então passou em revista as verificações de segurança. Ouviu passos no passadiço sobre sua cabeça, e erguendo a vista vislumbrou Hassan debruçado no guarda-corpo olhando para baixo.

— Vão se divertir, rapazes.

É isso aí! — entusiasmou-se Roland, fazendo sinal de positivo com os polegares. — Sempre nos divertimos muito.

E não tenham pressa para voltar.

Hassan acenou para trás e Fiona apareceu, relutante. Estava vestida com calças compridas de algodão e uma camiseta fina, como se roupas mais mo­destas pudessem protegê-la de alguma forma, mas ainda assim ela tremia. Seu biquíni úmido tinha molhado a camiseta, e os mamilos, endurecidos, estavam visíveis. Ao ver que Knox a olhava, Hassan deu um sorriso predatório e passou um braço em volta dos ombros dela, quase desafiando-o a reagir.

Pelas ruas de Sharm corria o boato de que Hassan tinha cortado a gar­ganta de um primo em segundo grau que dormira com uma mulher em quem ele estava interessado. Dizia-se que ele deixou um turista americano em estado de coma após espancá-lo porque este protestara contra as propos­tas indecentes que Hassan fizera a sua mulher.

Knox abaixou a vista e olhou à sua volta, na esperança de compartilhar com alguém o peso da responsabilidade. Max e Nessim, o ex-paraquedista que era chefe da segurança de Hassan, estavam verificando os trajes de mergulho um do outro. Knox não conseguiria nenhum apoio deles. Ingrid e Birgit, duas escandinavas que Max tinha trazido para fazer companhia a Roland, já estavam equipadas e esperavam junto à escada da popa. Knox buscou o olhar de Birgit, mas ela sabia bem de suas intenções e manteve os olhos distantes. Ele olhou novamente para a ponte. Hassan continuava a sorrir para ele, ciente do que se passava em sua mente. Um macho alfa em sua plenitude, desfrutando a disputa. Correu a mão devagar pelo cor­po de Fiona até seu traseiro, agarrando e apertando sua nádega. Hassan tinha vindo de baixo até se tornar, aos 30 anos, o agente marítimo mais importante do canal de Suez. Não se consegue isso sendo bonzinho. Ago­ra diziam que ele estava entediado, querendo estender seu império em todas as direções possíveis, incluindo o turismo, comprando propriedades à beira-mar na recessão que se seguira a recentes ataques terroristas.

Roland ficou finalmente pronto. Knox o ajudou a descer a escada e en­trar nas águas do mar Vermelho, e então ajoelhou-se para lhe entregar os pés de pato que deveriam ser calçados dentro d'água. O alemão corpulento deu uma cambalhota para trás, como se fosse uma roda-d'água, e voltou à superfície novamente, gargalhando como um louco e chapinhando na água.

— Espere — falou Knox com firmeza. — Vou aí em um instante. —- Ajustou seu equipamento, o cinto e o tanque, pendurou a máscara no pescoço e pegou os pés de pato. Começou a descer a escada e estava para largá-la quando deu uma última olhada para o passadiço. Hassan ainda o encarava, balançando a cabeça fingindo-se desapontado. Ao seu lado, ansiosa, Fiona tinha cruzado os braços sobre o peito. Seu cabelo estava em desalinho e seus ombros, caídos, uma expressão de infelicidade. Ela de repente pareceu tão jovem quanto era, ou mais; uma criança que havia co­nhecido um egípcio simpático num bar e achado que ganhara um passeio de graça, confiante de que poderia se esquivar de quaisquer pretensões que ele tivesse. Seus olhos estavam arregalados, perdidos e assustados, embora ainda esperançosos, como se ela acreditasse que tudo correria bem, pois em geral as pessoas eram boas.

Por um segundo Knox imaginou que era a sua irmã Bee quem estava ali.

Ele sacudiu a cabeça com irritação. A garota não tinha nada a ver com Bee. Ela era adulta. Fazia suas próprias escolhas. Da próxima vez teria mais discernimento e ponto. Deu uma olhada por cima do ombro para ter certeza de que não havia nada no mar atrás dele, colocou o regulador na boca, mordeu-o com força e se jogou de costas para espalhar água como fogos de artifício nas águas mornas do mar Vermelho. Forçou-se a não olhar para trás enquanto conduzia Roland para o recife, mantendo- se a apenas 4 metros de profundidade, bem perto da superfície caso algo desse errado. Um circo de peixes tropicais os observava com atenção, porém sem medo. Às vezes, ficava difícil saber quem era o espetáculo e quem era a platéia. Um bodião-gigante, circundado por um cardu­me de peixes-anjos e labros, virou-se e se afastou majestosamente. Knox mostrou-os a Roland fazendo gestos exagerados de mergulhador; novatos sempre gostavam de se achar iniciados no assunto.

E assim chegaram aos corais, uma parede ocre e púrpura que descia irregularmente nas profundezas escuras. A água estava calma e límpida; a visibilidade era excepcional. Knox olhou ao redor divagando e viu o casco escuro do barco e as manchas ameaçadoras de peixes grandes nas águas mais frias e profundas. Sentiu então uma dor ao se lembrar do pior dia de sua vida, quando foi visitar sua irmã no CTI em Tessalônica depois do acidente de carro. O lugar lhe causara forte opressão, com o som dos aparelhos de manutenção da vida, o assobio contínuo dos respiradores, o pulso precário dos monitores, o sussurro respeitoso, quase enlutado da equipe do hospital e dos visitantes. A médica fizera o possível para prepará-lo, mas ele ainda estava muito abalado depois de ter passado pelo necrotério, onde precisara identificar seus pais, e por isso ficara tão chocado ao ver Bee conectada a um tubo e vários outros aparelhos. Ele se sentira deslocado, como se estivesse assistindo a uma peça de teatro ao invés da realidade. A cabeça dela estava incrivelmente inchada, e sua pele, pálida e azul. Ele ainda se lembrava da palidez de cera, da flacidez incomum do corpo de sua irmã. Nunca tinha reparado como ela era sardenta em volta dos olhos e na curva do cotovelo. Ele não soubera o que fazer. Olhara para a médica, que fizera um gesto para que ele se sentasse ao lado da irmã. Sentira-se estranho ao colocar sua mão sobre a dela; a família nunca havia sido muito de demonstrações físicas de afeto. Pressionara a mão fria da irmã sob a dele e sentira uma intensa e súbita angústia, um sentimento meio paternal. Apertara os dedos dela contra os seus, levara-os aos lábios e lembrara-se de como brincava com os amigos sobre como era terrível ter que tomar conta de uma irmã mais nova.

Ele não tinha mais que fazer isso.

Tocou no braço de Roland e apontou para o alto. Chegaram juntos à super­fície. O barco estava a cerca de 60 metros. Não havia sinal de ninguém no con­vés. Knox sentiu um tremor de ansiedade no peito quando seu coração se deu conta antes de sua cabeça de qual fora sua decisão. Soltou o regulador da boca.

— Fique aqui — ordenou a Roland. E então partiu em fortes braçadas através da água cristalina.

 

Mohammed el-Dahab apertava a sua pasta contra o peito enquanto a mu­lher o conduzia à sala de Ibrahim Beyumi, chefe do Conselho Superior de Antigüidades em Alexandria. Ela bateu na porta uma vez antes de abri-la e gesticular para que ele entrasse. Um homem garboso e de aspecto um tanto efeminado estava sentado atrás de uma escrivaninha de pinho. Ergueu a vista e olhou para eles.

Pois não, Maha? — perguntou.

Este é Mohammed el-Dahab, senhor. Um construtor. Ele diz que encontrou algo no canteiro de obras em que trabalha.

Algo de que espécie?

Talvez seja melhor que ele mesmo lhe conte — sugeriu.

Muito bem. — Ibrahim suspirou. Indicou com a mão para que Moham­med se sentasse a uma mesa no canto da sala. Mohammed olhou em volta e constatou desanimado, com seus olhos de construtor, o estado em que se encon­travam as paredes de madeira almofadada, o teto alto rachado, faltando pedaços do revestimento de gesso do forro, e os desenhos mofados de monumentos de Alexandria. Se aquele era o escritório do principal arqueólogo de Alexandria, antigüidades não deviam render tanto dinheiro quanto ele pensara.

Ibrahim leu sua expressão.

Eu sei — lamentou. — Mas o que posso fazer? O que é mais impor­tante, as escavações ou o meu conforto?

Mohammed deu de ombros enquanto Ibrahim veio se sentar ao seu lado. Sua aparência, pelo menos, era a de um homem rico, em seu terno elegante e seu relógio de ouro. Ele colocou suas mãos sobre o colo de modo afetado e perguntou:

Então o senhor encontrou algo, não?

Sim.

Importa-se de me dizer do que se trata?

Mohammed engoliu em seco. Ele era um homem corpulento que não se amedrontava facilmente com perigos físicos, mas sentia-se intimidado diante de pessoas instruídas. Entretanto, havia algo gentil nas maneiras de Ibrahim. Ele parecia ser um homem confiável. Mohammed colocou sua pasta sobre a mesa, abriu-a e tirou de dentro dela o porta-retrato com a fo­tografia de Layla, mostrando-a para Ibrahim. Tocar e ver a sua imagem lhe devolveu a coragem.

Esta é minha filha — disse. — Seu nome é Layla.

Ibrahim olhou intrigado para Mohammed.

Alá com certeza o abençoou.

Sim, obrigado. Infelizmente Layla está doente.

Ah — disse Ibrahim, inclinando-se para trás. — Sinto muito.

Os médicos falam que ela tem linfoma de Burkitt. Apareceu na sua barriga do tamanho da uma uva, e depois como uma manga, debaixo de sua pele. Os cirurgiões removeram o tumor. Ela fez quimioterapia. Pensa­mos que ela havia vencido.

Ibrahim alisou o pescoço.

Maha me contou que o senhor encontrou algo...

Os médicos são boas pessoas — disse Mohammed. — Mas traba­lham em excesso e têm poucos equipamentos. Não têm recursos. Estão esperando...

Desculpe, mas Maha disse que o senhor tinha encontrado...

Estão esperando que a doença dela progrida até o ponto em que não haja mais nada a ser feito. — Mohammed inclinou-se para a frente e falou baixo, porém com firmeza: — Esse momento ainda não chegou. Minha filha ainda tem uma chance.

Ibrahim hesitou, e então perguntou com relutância:

Que chance é essa?

Um transplante de medula.

Ibrahim expressou com o rosto um horror educado.

Mas isso não é incrivelmente caro?

Mohammed fez um gesto de mão como se afastasse essa idéia.

Nosso Instituto de Pesquisas Médicas tem um programa de trans­plantes subvencionados pelo governo, mas não aceitam um paciente a me­nos que já tenham identificado um doador compatível. E não irão realizar exames de compatibilidade se o paciente já não estiver inscrito no programa.

Com certeza isso impossibilita...

É a maneira deles de escolherem sem ter que escolher. Mas, a menos que eu os possa bancar esses exames, minha filha morrerá.

Ibrahim murmurou em voz bem baixa:

O senhor não espera que o CSA...

Esses exames não são caros — atalhou Mohammed. — O problema é que as chances de compatibilidade são pequenas. Minha mulher e eu, nossos familiares próximos, nossos amigos, todos já nos submetemos aos exames, porém não tivemos sucesso. Posso pedir a outras pessoas, primos distantes, amigos de amigos, mas somente se eu bancar algo organizado. Tentei con­seguir empréstimos em vários lugares, mas essa doença já me trouxe tantas dívidas que... — Sentiu que as lágrimas chegavam aos seus olhos; começou a chorar, e baixou a cabeça para evitar que Ibrahim reparasse.

Fez-se silêncio por um tempo. Então Ibrahim murmurou:

Maha disse que o senhor encontrou algo em sua obra.

Sim.

Estou entendendo que o senhor quer dinheiro para esses exames em troca de me contar sobre o seu achado, é isso?

Sim.

O senhor sabe que tem a obrigação legal de me informar.

Sim.

E que pode ir para a prisão se não o fizer.

Mohammed levantou o rosto e com tranqüilidade encontrou o olhar de Ibrahim.

Sim.

Ibrahim balançou a cabeça e gesticulou apresentando sua sala decadente.

E o senhor entende que não posso lhe prometer nada?

Sim.

Muito bem. Por que não me conta o que descobriu?

 

Knox alcançou rapidamente o barco. Tirou os pés de pato, jogou-os para bordo e pulou para dentro da embarcação. Não viu sinal de Fiona ou de Hassan. Agora que estava ali, não tinha certeza do que fazer. Sentiu-se exposto e um tanto ridículo. Desafivelou e retirou o cinto e o tanque e levou-os consigo, cruzando silenciosamente o convés até os camarotes. Experimentou as portas, abrindo uma a uma e olhando para dentro. Che­gou por fim a uma porta trancada. Sacudiu a maçaneta. Ouviu um grito abafado vindo de dentro e depois o silêncio.

Tem gente que gosta da violência e a procura. Knox não era desse tipo. Teve uma súbita visão de estar ali em pé, o que o deixou bastante nervoso. Virou-se e se afastou, mas a porta se abriu atrás dele.

Sim? — perguntou Hassan.

Desculpe — disse Knox, sem se voltar. — Foi um engano.

Volte aqui! — gritou Hassan, irritado. — Sim, você. O garoto de Max. Estou falando com você. Venha cá.

Knox virou-se com relutância e se aproximou de Hassan, olhando submisso para baixo. Hassan nem se preocupou em ficar na frente, deixando que Knox visse Fiona deitada na cama, com os braços cru­zados sobre os seios nus e as calças de algodão puxadas até os joelhos unidos e levantados. Havia um corte sobre seu olho direito; seu lábio superior estava sangrando. Uma camiseta branca rasgada estava larga­da no chão.

E então? — perguntou Hassan. — O que você queria?

Knox olhou mais uma vez para Fiona. Ela sacudiu a cabeça, como se quisesse dizer que estava tudo bem, que poderia lidar com isso, que ele não devia se envolver. Aquele pequeno gesto despertou em Knox algo totalmen­te inesperado, uma espécie de fúria. Ele balançou seu tanque de mergulho como se fosse uma bola de demolição contra o plexo solar de Hassan, fazen­do-o se curvar. Em seguida atingiu-o de lado na mandíbula, e ele camba­leou para trás. Agora que tinha começado, Knox não conseguia mais parar. Acertou Hassan mais uma, duas vezes, até que ele desmoronou no chão. Só quando Fiona o afastou de Hassan é que sua mente voltou a clarear.

Hassan estava inconsciente, com o rosto e o peito cobertos de sangue. Parecia tão mal que Knox ajoelhou-se e ficou aliviado ao sentir a pulsação em sua garganta.

Rápido — disse Fiona, puxando-o pela mão. — Os outros estão voltando.

Saíram correndo do camarote. Max e Nessim estavam nadando de vol­ta para o barco. Gritaram furiosamente ao verem Knox. Ele correu para o passadiço, arrebentou a fiação embaixo do rádio de comunicação e da ignição. As chaves ficavam, guardadas num compartimento de plástico no chão. Tirou todas de lá. O bote auxiliar estava amarrado na popa por uma corda. Desceu correndo a escada, puxou o bote, ajudou Fiona a subir nele, embarcou em seguida, desamarrou a corda, sentou-se ao volante e enfiou a chave na ignição no instante em que Max e Nessim os alcançaram e come­çaram a subir a bordo. Knox fez uma curva fechada com o bote e partiu em disparada; o turbilhão de água desequilibrou Max, mas Nessim conseguiu se segurar e entrou no bote. Era um sujeito forte, esse Nessim, completa­mente enfurecido, mas estava em desvantagem com seu traje de mergulho e o tanque. Knox deu outra guinada com o bote e fez com que ele fosse arremessado para fora.

Knox corrigiu o rumo e acelerou em direção a Sharm. Balançou a ca­beça, incrédulo. Já era. Agora já era, merda. Precisava chegar ao seu jipe antes que Hassan ou Nessim pudessem dar o alarme. Se o pegassem...

Meu Deus! Sentiu-se mal só em pensar no que eles poderiam fazer. Ele precisava sair de Sharm, do Sinai, até do Egito. E tinha que ser naquela noite. Deu uma olhada em volta. Fiona estava sentada no banco de trás com a cabeça baixa, batendo os dentes e com uma toalha azul cobrindo os ombros trêmulos. De jeito nenhum ele conseguia imaginar por que ela lhe lembrara Bee. Deu um murro no painel, com raiva de si mesmo. Se havia uma coisa que ele detestava era a memória. Você se mata de trabalhar para construir uma vida num lugar como este que não tem qualquer ligação com o seu passado; sem amigos, família, nada que o prenda. Mas não é o bastante. Você leva suas lembranças consigo aonde quer que vá, e elas fodem a sua vida num instante.

 

Ibrahim Beyumi acompanhou Mohammed até a rua para se despedir, agra­deceu sua visita e observou-o dobrar a esquina e sumir. Poderia tê-lo segui­do, é claro, e descoberto assim a localização do canteiro de obras. Mas a história do grandalhão o comovera, inclusive pelo fato de ele ter colocado sua carreira e sua liberdade nas mãos de Ibrahim, e ele sempre gostava de re­compensar a confiança. Além do mais, Mohammed lhe deixara um número de telefone para o caso de alguma novidade, então seria relativamente fácil localizá-lo se houvesse necessidade.

Maha, a assistente de Ibrahim, fez menção de se levantar quando ele se aproximou de sua escrivaninha, mas Ibrahim lhe sinalizou que conti­nuasse sentada e começou a consultar um grande mapa das ruas de Ale­xandria que estava pregado na parede atrás dela. Como sempre, o mapa o deixava cheio de orgulho, marcado com todas as antigüidades de sua que­rida cidade, incluindo a coluna de Pompeia, o Ras el-Tin, os cemitérios latinos, o teatro romano, o forte Qaitbey. Havia ali sítios admiráveis, que Ibrahim valorizava ao máximo, embora no fundo soubesse que nenhum deles pertencia ao primeiro escalão das antigüidades egípcias. Alexandria não ostentava pirâmides, nenhum Karnak ou Abu Simbel, nenhum Vale dos Reis. E, no entanto, havia 2 mil anos seus edifícios eram verdadeiras maravilhas. O farol de Faros fora considerado uma das Sete Maravilhas. O Templo das Musas era a principal referência de conhecimento e cultura no mundo. O Templo de Serápis assombrará os adoradores com o seu esplendor e a ilusão de suas estátuas, que pareciam voar. Os palácios reais de Cleópatra eram imersos em uma extraordinária atmosfera de romance. E, acima de tudo, a cidade exibira o mausoléu de seu patriarca, o próprio Alexandre, o Grande. Se apenas uma dessas grandes maravilhas tivesse sobrevivido, Alexandria com certeza iria competir com Luxor ou Gizé em termos turísticos. Mas nada restara.

Aquele homem — falou Ibrahim.

Sim?

Ele encontrou uma necrópole.

Maha olhou ao redor.

Ele falou onde?

No antigo Quarteirão Real.

Ibrahim contornou com o dedo o local aproximado e em seguida bateu no centro da área. Por incrível que pudesse parecer, era impossível ter cer­teza sequer dos limites da cidade antiga, sem falar nas ruas e nos prédios. Eles todos eram vítimas da localização de Alexandria. Com o Mediterrâ­neo ao norte, o lago Mariut ao sul e a oeste, e o delta pantanoso do Nilo a leste, não havia como ela se expandir. Quando era necessário construir novos prédios, os velhos tinham que ser demolidos. O forte Qaitbey foi construído sobre as ruínas das fundações do farol de Faros. E os blocos de arenito dos palácios ptolomaicos foram reaproveitados nos templos roma­nos, nas igrejas cristãs e nas mesquitas islâmicas, reproduzindo as várias eras da cidade.

Ele se voltou para Maha com um sorriso de contador de histórias.

Você sabia que Alexandre delimitou pessoalmente as muralhas de nossa cidade?

Sabia, senhor — respondeu ela, obediente, mas sem olhar para cima.

Ele fez um furo em um saco de farinha e traçou uma trilha, mas pássaros de todos os tamanhos e cores vieram comê-la. Algumas pessoas devem ter ficado desconcertadas pela imagem. Alexandre não.

Não, senhor.

Ele sabia que isso queria dizer que nossa cidade forneceria abrigo e sustento às pessoas de todas as nações. E ele estava certo. Sim, estava certo.

Sim, senhor.

Estou entediando você?

O senhor tinha falado que queria que estas correspondências fossem enviadas hoje, senhor.

Queria mesmo, Maha. Realmente.

Alexandre não viveu o bastante para ver sua cidade construída. Foram Ptolomeu e seus descendentes que tiraram proveito dela, governando o Egi­to com cada vez menos autoridade até que os romanos assumiram, e de­pois foram expulsos pelo avanço em 641. A capital administrativa foi então transferida para o sul, primeiro para Fustat e mais tarde para o Cairo. O comércio com a Europa havia decaído; não existia mais a necessidade de um porto no Mediterrâneo. O delta do Nilo assoreou-se; os canais de água doce deixaram de ser usados. O declínio de Alexandria continuara inexoravel­mente depois que os turcos assumiram o controle, e quando da invasão de Napoleão, na virada do século XIX, ali viviam menos de 6 mil pessoas. Mas desde então a cidade mostrou sua capacidade de recuperação e atualmente em torno de 4 milhões de habitantes se aglomeravam num espaço restrito que tornava impossível escavações sistemáticas. Portanto, arqueõlogos como Ibrahim dependiam dos empreendedores, que ainda demoliam velhas cons­truções para abrir lugar para novas. E sempre que isso acontecia, havia uma leve chance de que se descobrisse algo extraordinário.

Ele chegou a descrever uma área bem detalhadamente — disse Ibrahim. — Um pátio com portas de bronze levando a uma antecâmara e a uma câma­ra principal. O que você imagina que seja?

Uma tumba? — arriscou Maha. — Ptolomaica?

Ibrahim concordou com a cabeça.

Dos primeiros anos da era ptolomaica. Bem no começo. — Respi­rou profundamente. — Na verdade, para mim soou como a tumba de um rei macedônio.

Maha levantou-se e se virou com os dedos apoiados na mesa.

O senhor não está querendo dizer... — começou. — Mas eu pensava que Alexandre tivesse sido sepultado em um grande mausoléu.

Ibrahim permaneceu calado por vários segundos, compartilhando o en­tusiasmo dela, tentando se decidir se devia desanimá-la suavemente agora ou se arriscar a partilhar suas esperanças mais loucas. Decidiu decepcioná-la.

— Sim, ele foi. Era chamado Sema; a palavra grega para "tumba"? Ou talvez Soma, a palavra deles para "corpo".

— Ah — disse Maha. — Então, esse não é Alexandre?

Não.

O que será?

Ibrahim deu de ombros.

Teremos que escavar para descobrir.

Como? Achei que já havíamos gastado toda a nossa verba.

E essa era a questão. Todo o orçamento anual de Ibrahim já estava comprometido. Tinha obtido dos franceses e dos americanos o máximo possível. Era assim que as coisas aconteciam por ali, justamente porque as escavações eram um negócio de oportunismo. Se muitos sítios interessantes fossem encontrados durante um mesmo período fiscal, ele simplesmente não teria como cuidar de todos. Virava então uma questão de triagem. Naquele exato momento todos os seus arqueólogos de campo estavam envolvidos direta ou indiretamente com projetos por toda a cidade antiga. A escavação des­se novo sítio demandaria mais recursos, especialistas e pessoal. E não era algo que pudesse ser adiado até o ano fiscal seguinte. A escadaria estava no meio das fundações do futuro estacionamento do hotel; Mohammed podia encaixar umas duas semanas no prazo para as escavações, mais que isso iria arruinar o seu cronograma. Era uma questão importante para Ibrahim. Para desvendar a velha Alexandria, ele dependia quase que completamente de que os incorporadores e as construtoras informassem sobre achados sig­nificativos. Se ele adquirisse reputação de ser uma pessoa difícil de se lidar, eles simplesmente deixariam de notificá-lo, mesmo que fossem obrigados por lei a fazê-lo. Por muitas razões, esse último sítio era uma dor de cabeça que ele não desejava ter. Por outro lado, era uma tumba do começo da épo­ca macedônia, possivelmente um achado bastante significativo. Não podia ignorá-la. Simplesmente não podia.

Havia uma possível fonte de recursos, ele sabia. Sentiu a boca seca e pegajosa só de pensar nela, inclusive porque isso representaria uma transgressão a todos os protocolos do CSA. Mas não ele via alternativa. Jun­tou um pouco de saliva para molhar a boca e poder ajudá-lo a falar e forçou um sorriso.

Aquele empresário grego que vive nos oferecendo patrocínio.

Maha levantou as sobrancelhas.

O senhor não está se referindo a Nicolas Dragoumis, está?

Sim — disse. — Ele mesmo.

Mas achei que o senhor tivesse dito que ele era... — Ela o olhou nos olhos e parou de falar.

Sim — reconheceu ele. — Mas você tem alguma sugestão melhor?

Não, senhor.

Ibrahim havia adorado quando Nicolas Dragoumis entrara em contato pela primeira vez. Patrocinadores eram sempre bem-vindos. Contudo, algu­ma coisa sobre o comportamento dele deixara Ibrahim apreensivo. Depois de desligar o telefone, ele procurara o site corporativo do Grupo Dragoumis, cheio de links para suas subsidiárias de afretamento, seguros, construção, mídia, importação e exportação, eletrônica, artefatos aero-espaciais, imobi­liária, turismo, segurança e outros. Encontrara uma seção de patrocínios que explicava que o Grupo Dragoumis só apoiava projetos que ajudassem a comprovar a grandeza histórica da Macedônia, ou que trabalhassem para restaurar a independência da Macedônia grega. Ibrahim não era um espe­cialista em política grega, mas sabia o suficiente para não estar interessado em se envolver com separatistas macedônios.

Em outro lugar do site ele encontrara uma página com uma foto dos diretores reunidos. Nicolas Dragoumis era alto, magro, bem-apessoado e bem-vestido. Porém havia sido o homem em pé ao centro do grupo que mais inquietou Ibrahim. Philip Dragoumis, presidente e fundador do gru­po, tinha um aspecto ameaçador, a tez morena, barba rala e uma mar­ca de nascença avermelhada acima da maçã do rosto do lado esquerdo, e um olhar incrivelmente poderoso, mesmo por meio da fotografia. Um homem a ser evitado. Mas Ibrahim não tinha escolha. Seu coração bateu um pouco mais forte, um pouco mais alto, como se ele estivesse à beira de um precipício.

Bem. Então você pode me passar o número do telefone dele, por favor?

 

Knox guiou o bote pela praia para perto de onde estava seu jipe e desembar­cou na água. Fiona já estava mais controlada, e agora insistia em voltar para o hotel. Pela maneira como evitava encarar Knox, ela parecia ter chegado à conclusão de que a ira de Hassan seria dirigida a Knox e não a ela; portanto, o lugar mais seguro para ficar seria qualquer um longe dele. Não era tão burra, afinal. Knox acelerou seu jipe furiosamente. Achava bom não ter que se preocupar com ela, mas mesmo assim ficou irritado. Seu passaporte, seu dinheiro e seu cartão de crédito estavam na bolsa em volta de sua cintura. O laptop, as roupas e os livros, e todo o seu material de pesquisa, estavam no seu quarto do hotel, mas ele não se atreveria a ir buscá-los.

Na estrada principal, defrontou-se com sua primeira decisão importante. Nordeste em direção à fronteira de Israel ou pela autoestrada da costa oeste em direção à porção africana do Egito? Israel representava segurança, mas a estrada estava em péssimo estado, congestionada e, além disso, cheia de barreiras militares de inspeção. Então, para o oeste. Ele chegara ali havia nove anos, pelo mar, em Port Said. Parecia um lugar adequado por onde sair. Mas Port Said ficava no Suez, e Suez pertencia a Hassan. Não. Ele tinha que sair do Sinai completamente. Precisava chegar a um aeroporto internacional. Cairo, Alexandria, Luxor.

Pressionou o celular contra a orelha enquanto dirigia, avisando Rick e os outros amigos para que tomassem cuidado com Hassan. Em seguida desligou o telefone, para evitar que rastreassem o sinal. Acelerou o seu velho jipe o máximo possível, fazendo o motor rugir. As chamas azuis das plata­formas de petróleo do golfo de Suez brilhavam ao longe, como se fossem um inferno distante. Elas combinavam com o seu humor. Viera dirigindo por menos de uma hora quando avistou um posto militar logo adiante, uma barreira de blocos de concreto entre duas cabines de madeira. Suprimiu uma vontade súbita de fazer meia-volta e fugir. Aqueles postos eram rotina no Sinai; não havia nada suspeito ali. Sinalizaram para que desviasse para o acostamento, e em seguida sentiu o solavanco ao deixar a pista e passar para a areia fofa. Um guarda baixo de ombros largos veio andando empertigado em sua direção, com um ar arrogante. Era do tipo que gosta de provocar homens mais fracos até que se irritem e o agridam, para então espancá-los e protestar inocentemente que foram eles que começaram. Estendeu a mão para pegar o passaporte de Knox e o levou consigo. Havia pouco tráfego; os outros soldados estavam batendo papo em volta de um rádio com seus fu­zis automáticos pendurados displicentemente nos ombros. Knox manteve a cabeça baixa. Havia sempre algum deles disposto a exibir seu conhecimento de inglês.

Um bicho verde e comprido andava vagaroso pela beirada do vidro da janela aberta. Era uma lagarta. Não, uma centopeia. Ele pôs o dedo na frente dela. O animal subiu sobre ele sem hesitação, fazendo cócegas com com suas patas. Knox levantou a mão para observá-lo de perto enquanto o bicho continuava seu caminho sem suspeitar que fora seqüestrado e que sua situação se tornara precária. Ficou vendo o bicho percorrer seu pulso de um lado a outro, sentindo uma espécie de camaradagem. As centopeias tinham grande prestígio junto aos antigos egípcios. Eram intimamente ligadas à morte, porém de um modo bem-visto, pois se alimentavam dos insetos mi­croscópicos que por sua vez se alimentavam dos cadáveres. Por isso, eram consideradas protetoras do corpo humano, preservando-o da decomposição e, assim, tidas como um aspecto do próprio Osíris. Ele bateu de leve com a mão do lado de fora da porta do jipe até que a centopeia se desprendeu e caiu no chão. Então colocou a cabeça para fora da janela e a observou ir embora até perdê-la na escuridão.

Dentro da cabine o oficial estava lendo os detalhes de seu passaporte ao telefone. Colocou o fone no gancho, sentou-se na mesa e esperou uma liga­ção de resposta. Os minutos se passaram. Knox olhou à sua volta. Ninguém mais estava sendo parado: davam só uma olhada e mandavam seguir. Final­mente o telefone soou na cabine. Knox observou com apreensão enquanto o oficial estendia a mão para atender.

 

                           Uma igreja fora de Tessalônica, no norte da Grécia

— Aquele carneiro que viste, o qual tinha dois chifres, são estes os reis da Média e da Pérsia — proferiu do púlpito o velho pregador, lendo a Bíblia em voz alta. — Mas o bode peludo é o rei da Grécia; e o grande chifre que tinha entre os olhos é o primeiro rei. — Fez uma pausa e olhou para a igreja lotada. — Todos os estudiosos da Bíblia lhes dirão a mesma coisa — disse, inclinando-se um pouco para a frente e abaixando o tom de voz como se confidenciasse para os fiéis. — O carneiro do qual Daniel fala representa Dario, o rei persa. O rei da Grécia representa Alexandre, o Grande. Es­ses versículos falam da derrota que Alexandre infligiu aos persas. E sabem quando Daniel os escreveu? Seiscentos anos antes do nascimento de Cristo, 250 anos antes do nascimento de Alexandre. Duzentos e cinqüenta anos! Vo­cês conseguem sequer imaginar o que vai acontecer no mundo daqui a 250 anos? Daniel conseguiu.

Nicolas Dragoumis balançava a cabeça em concordância enquanto escu­tava. Conhecia o texto do pregador palavra por palavra. Ele próprio escrevera uma grande parte e trabalhara com o velho por vários ensaios até que cada palavra estivesse perfeita. Mas não se podia prever realmente o efeito que aquelas palavras teriam nos ouvidos do público. Aquela era a primeira noite delas, e até então tudo estava indo bem. Atmosfera: isso era o principal. Foi por isso que escolheram esta velha igreja, embora aquela não fosse uma missa oficial. A lua estava visível através dos vitrais. Um pássaro piava empoleirado sobre uma viga. Espessas portas escondiam o mundo exterior. O odor do incenso invadia as narinas e disfarçava o cheiro genuíno do suor. A única luz no ambiente vinha das fileiras de velas brancas grossas, claro o suficien­te para que os fiéis pudessem conferir em suas próprias Bíblias se aqueles versículos eram mesmo do capítulo 8 do Livro de Daniel, como o pregador havia garantido, mas escuro o bastante para manter um clima de mistério, de desconhecido. As pessoas daquela parte do mundo sabiam que as coisas eram mais estranhas e complexas do que a ciência tentava representar. Assim como Nicolas, elas entendiam o conceito de mistérios.

Ele olhou para os bancos. Essa gente maltrapilha, com vidas breves, en­velhecida antes do tempo, realizando trabalhos pesados aos 14 anos, viran­do pais aos 16, avós aos 35, poucos passando dos 50; rostos barbados, secos de cansaço, amargurados pela decepção, pele áspera e escura de tanto sol, mãos calejadas em uma luta sem fim contra a fome. E bravos também, um ressentimento efervescente diante de sua pobreza e dos impostos punitivos que tinham de pagar pelo pouco que conseguiam ganhar. Raiva era bom. Deixava-os receptivos a idéias raivosas.

O pregador empertigou-se, relaxou os ombros e continuou sua leitura.

— O ter sido quebrado, levantando-se quatro em lugar dele, significa que quatro reinos se levantarão da mesma nação, porém não com a força dele. — Ele contemplou os fiéis com seus olhos azuis e a expressão ligeiramente maníaca de um louco e profeta. Nicolas tinha escolhido bem. — "O ter sido quebrado" — repetiu. — Essa frase se refere à morte de Alexandre. "Quatro reinos se levantarão da mesma nação." E essa se refere à divisão do Império Macedônio. Como todos vocês sabem, ele se dividiu em quatro por quatro sucessores: Ptolomeu, Antígono, Cassandro e Seleucos. E lembrem-se, isso foi escrito por Daniel quase trezentos anos antes.

Mas agitação e raiva não eram suficientes, avaliou Nicolas. Onde havia pobreza sempre havia agitação e raiva; mas nem sempre revolução. Há dois milênios existe agitação e raiva na Macedônia, primeiro sob a opressão dos romanos, depois dos bizantinos e otomanos. E toda vez que eles conquista­vam a liberdade do jugo de um, algum outro vinha substituí-lo. Havia cem anos, o panorama parecia finalmente mais promissor. A Revolta de Ilinden de 1903 foi sufocada com grande brutalidade, mas em 1912, 100 mil macedônios se aliaram a gregos, búlgaros e sérvios para finalmente expulsarem os turcos. Aquele deveria ter sido, por direito, o dia do nascimento de uma Ma­cedônia independente. Mas eles foram traídos. Seus ex-aliados se voltaram contra eles, as chamadas Grandes Potências colaboraram com a infâmia, e a Macedônia foi dividida em três pelo desprezível Tratado de Bucareste. A parte sul, próxima ao mar Egeu, foi anexada à Grécia; o norte, à Sérvia, e o território ao leste, incluindo a cordilheira Pirin, à Bulgária.

Ainda de um deles saiu um chifre pequeno, o qual cresceu muito para o sul e para o oriente, e para a terra formosa. O chifre pequeno é Demétrios — afirmou o pregador. — Para aqueles de vocês que talvez não lembrem, Demétrios era o filho de Antígono, e fez-se proclamar rei da Macedônia, ainda que não tivesse o sangue de Alexandre.

O Tratado de Bucareste! Só o nome tinha já o poder de perverter e tortu­rar o coração de Nicolas. Durante quase cem anos as fronteiras estabelecidas pelo Tratado permaneceram praticamente inalteradas. E os abomináveis gregos, sérvios e búlgaros fizeram o possível para que a história, a língua e a cultura da Macedônia desaparecessem. Cercearam a liberdade de expres­são e prenderam qualquer um que mostrasse o menor sinal de oposição. Apropriaram-se das terras dos agricultores macedônios e as reocuparam com forasteiros. Arrasaram aldeias, orquestraram assassinatos e estupros em massa e escravizaram macedônios, que eram obrigados a trabalhar até mor­rer. Perpetraram limpeza étnica em grande escala, sem um pio de protesto do restante do mundo. Mas nada disso funcionou. Essa era a verdade. O espírito de nacionalismo macedônio continuou queimando com força. Sua língua sobreviveu, assim como sua cultura e religião, em bolsões por toda essa região ancestral. Elas continuaram vivas através dessas pessoas simples, porém orgulhosas, através dos sacrifícios que elas já haviam feito e que em breve seriam preparadas para fazer novamente pelo bem maior. E então seu país amado poderia finalmente ser livre.

E se engrandeceu até o exército do céu; e lançou por terra algumas das estrelas desse exército, e as pisou. Sim, ele se engrandeceu até o príncipe do exér­cito; e lhe tirou o holocausto contínuo, e o lugar do seu santuário foi deitado abaixo. "E o lugar do seu santuário foi deitado abaixo" — repetiu o prega­dor. — É este o lugar. É a Macedônia. A terra onde nascemos. Saibam, foi Demétrios quem começou o caos que tem dominado a Macedônia desde então. Demétrios. No ano de 292 a.C. Guardem essa data. Guardem bem: 292 a.C.

O celular começou a vibrar no bolso de Nicolas. Poucas pessoas sabiam esse número, e ele dera ordens estritas a Katerina, sua assistente, para não lhe repassar qualquer ligação naquela noite, a não ser que fosse uma emer­gência. Levantou-se e andou em direção à porta dos fundos.

Pronto?

É Ibrahim Beyumi, senhor — falou Katerina.

Ibrahim quem?

O arqueólogo de Alexandria. Eu não queria lhe incomodar, porém ele diz que é urgente. Encontraram alguma coisa. Precisam de uma posição sua o quanto antes.

Está bem, coloque-o na linha.

Pois não, senhor.

Ela transferiu a ligação. Outra voz falou:

Sr. Dragoumis. Aqui fala Ibrahim Beyumi. Do Conselho Supe­rior de...

Sei quem você é. O que quer?

O senhor foi generoso ao oferecer patrocínio em certos...

Acharam alguma coisa?

Uma necrópole. Uma tumba. Uma tumba macedônia. — Respirou fundo. — Pela descrição que me deram, parece que é a Tumba Real de Aigai.

Nicolas segurou o telefone com mais força e virou-se de costas para a igreja.

Você achou uma tumba real macedônia?

Não — disse Ibrahim apressadamente. — Tudo que tenho até agora é a descrição feita por um construtor. Só saberei realmente do que se trata depois de inspecionar pessoalmente.

E quando você fará isso?

Amanhã de manhã, bem cedo. Desde que eu consiga financiamento, pelo menos.

Ao fundo ainda soava a voz do pregador.

Depois ouvi um santo que falava — recitou ele, extraindo cada gota harmoniosa das palavras da Bíblia —; e disse outro santo àquele que falava: Até quando durará a visão relativamente ao holocausto contínuo e à trans­gressão assoladora, e à entrega do santuário e do exército, para serem pisotea­dos? Por quanto tempo a Macedônia e os macedônios serão pisoteados? Por quanto tempo iremos pagar pelo pecado de Demétrios? Lembrem que isto foi escrito trezentos anos antes do pecado de Demétrios, que ocorreu em 292 a.C.!

Nicolas colocou uma das mãos sobre a orelha, para se concentrar melhor.

Você precisa de financiamento antes de fazer a inspeção? — falou com ironia.

Estamos em uma situação peculiar — disse Ibrahim. — O homem que relatou a descoberta tem uma filha muito doente. Ele quer recursos antes de falar.

Ah. — Uma esmola. A inevitável baksheesh.— E quanto? Ao todo.

Em termos de dinheiro?

Nicolas tensionou os dedos dos pés, frustrado. Essas pessoas.

Sim — disse, com uma paciência exagerada. — Em termos de dinheiro.

Vai depender do tamanho que o sítio tiver, de quanto tempo teremos, que tipo de artefatos...

Em dólares norte-americanos. Milhares, dezenas de milhares, cente­nas de milhares?

Ah. Em geral uma escavação de emergência como essa custa 6 ou 7 mil dólares por semana.

Quantas semanas?

Vai depender de...

Uma? Cinco? Dez?

Duas. Três, se tivermos sorte.

Certo. Você conhece Elena Koloktronis?

A arqueóloga? Encontrei-a uma ou duas vezes. Por quê?

Ela está numa escavação no delta. Katerina lhe dará seu número de contato. Convide-a amanhã. Se ela der o aval para essa tumba, o Grupo Dragoumis lhe dará 20 mil dólares. Acredito que isso cubra todas as suas despesas com a escavação, e mais qualquer criança doente que aparecer.

Obrigado — disse Ibrahim. — É muita generosidade.

Fale com Katerina. Ela lhe colocará a par de nossas condições.

Condições?

Você não acha que investiríamos esse montante sem condições, não é?

Mas...

Como eu disse, fale com Katerina. — E fechou o telefone, desligando-o.

Ele me respondeu: Até 2.300 tardes e manhãs; então o santuário será purificado. Duas mil e trezentas tardes e manhãs! — exclamou o prega­dor exultante. — Duas mil e trezentas tardes e manhãs! Mas este não é o texto original. O texto original fala de "tardes e manhãs de sacrifícios". E esses sacrifícios aconteciam uma vez por ano. Duas mil e trezentas tardes e manhãs, portanto não significam 2.300 dias. Não. Significam 2.300 anos. E quem poderá dizer qual é a data 2.300 anos depois do pecado de Demé­trios? Ninguém? Então deixem que eu lhes diga. É o ano de 2008 do Nosso Senhor. É agora. É hoje. Hoje, o nosso santuário finalmente será purificado. É o que está escrito na Bíblia, e a Bíblia nunca mente. E lembrem-se: isso foi previsto exatamente por Daniel, seiscentos anos antes do nascimento de Cristo. — Ele sacudiu o dedo tanto em sinal de repreensão quanto de exortação. — Está escrito, minha gente. Está escrito. Esta é a nossa hora. Esta é a nossa hora. Vocês são a geração escolhida, escolhida por Deus para cumprir as ordens d'Ele. Quem de vocês recusará Seu chamado?

Nicolas observou com satisfação as pessoas olharem umas às outras, murmurando impressionadas. Esta era realmente a hora delas, ele pensou, e não era por acaso. Seu pai trabalhara para isso durante quarenta anos, e ele durante 15. Tinham agentes em cada vilarejo, cidade e aldeia. Vastos depó­sitos de armas, comida e água estavam de prontidão nas montanhas. Vete­ranos das guerras da Iugoslávia os treinaram no uso de armamentos e em táticas de guerrilha. Tinham agentes infiltrados em governos locais e nacio­nais, espiões nas forças armadas, amigos na comunidade internacional e na Diáspora Macedônia.

A guerra de propaganda também estava à toda. A grade de programa­ção das rádios e TVs do Grupo Dragoumis estava lotada de programas concebidos para insuflar o entusiasmo macedônio e seus jornais estavam coalhados de histórias de heroísmo e sacrifício do povo macedônio, bem como de relatos sobre o estilo de vida opulento e a crueldade desconsiderada dos dominadores atenienses. E estava funcionando. Raiva e ódio cresciam por todo o norte da Grécia, mesmo entre aqueles que tinham pouca simpa­tia pela causa separatista. Distúrbios civis, revoltas, cada vez mais incidentes de conflitos étnicos. Todos os medidores indicando um terremoto iminente. Mas eles ainda não estavam prontos. Por mais que Nicolas desejasse, eles ainda não estavam prontos. Uma revolução precisava de um povo tão re­voltado a ponto de querer mártires. Começar a atacar agora poderia parecer promissor por um tempo, mas depois tudo cairia por terra. Viria a reação. O exército grego ocuparia as ruas, famílias seriam ameaçadas e empresas in­vestigadas. Haveria prisões arbitrárias, espancamentos e contrapropaganda. A causa deles sofreria um atraso de anos, talvez fosse prejudicada de modo irreversível. Não. Eles ainda precisavam de algo mais antes do início. Algo muito específico. Um símbolo pelo qual o povo da Macedônia estaria pre­parado para lutar até a morte.

E era possível que esse telefonema recebido do Egito pudesse lhes ofere­cer isso.

 

O oficial do exército egípcio ainda estava ao telefone. Parecia estar falando por muito tempo. Veio com uma caneta e um bloco de papel e abaixou-se para anotar o número da placa do jipe de Knox. Depois voltou para dentro da cabine e o leu para quem estava do outro lado da linha.

As chaves do jipe estavam na ignição. Por um momento louco, Knox pensou arriscar uma arrancada. Se Hassan o pegasse, estaria liquidado de qualquer modo. Mas, embora os soldados egípcios parecessem bastante ale­gres e relaxados, tudo mudaria em um instante se ele fugisse. A ameaça de homens-bomba era simplesmente grande demais por ali para que corressem riscos. Ele seria morto antes de percorrer 50 metros. Obrigou-se, então, a relaxar e aceitar que seu destino não estava em suas mãos.

O oficial repôs o fone no gancho cuidadosamente, recompôs-se e saiu. Não estava mais empertigado. Parecia pensativo, até apreensivo. Fez um gesto para seus homens. Na mesma hora ficaram todos em estado de alerta. Ele se inclinou um pouco para falar pela janela aberta do jipe, batendo a lombada do passaporte de Knox nas costas dos dedos da mão esquerda.

Disse:

Ouvi boatos de uma história bem impressionante.

Knox sentiu um nó no estômago.

Que boatos?

—De um incidente envolvendo Hassan al-Assyuti e um jovem estrangeiro.

Não sei nada sobre isso — disse Knox.

Fico satisfeito — respondeu o oficial, forçando a vista na direção da estrada que vinha de Sharm, como se esperasse que algum veículo apareces­se a qualquer momento. — Porque, se os boatos forem verdadeiros, o jovem estrangeiro em questão tem um futuro sombrio.

Knox engoliu em seco.

Ele estava estuprando uma garota — despejou. — O que eu de­via fazer?

Informar às autoridades.

Estávamos no meio do mar, porra.

Tenho certeza de que você terá a oportunidade de contar o seu lado da história.

O cacete! — respondeu Knox. — Estarei morto em menos de uma hora.

O oficial corou.

Você deveria ter pensado nisso antes, não?

Deveria ter protegido meu rabo, é o que quer dizer? Como você está fazendo agora?

Esta briga não é minha — resmungou o oficial.

Knox balançou a cabeça.

No meu país as pessoas pensam que todos os egípcios são covardes e ladrões. Eu lhes digo que estão erradas. Digo-lhes que os egípcios são pes­soas honradas e corajosas. Mas talvez o erro seja meu.

Houve um murmúrio irritado. Um dos soldados estendeu a mão para dentro da janela aberta. O oficial agarrou o pulso dele.

Não — ordenou.

Mas ele...

Não.

O soldado recuou, um pouco envergonhado, enquanto o oficial olhava pensativo para Knox, claramente sem saber ao certo o que fazer. Um par de faróis apareceu sobre a colina atrás do carro.

Por favor — suplicou Knox. — Dê-me uma chance, só isso.

O oficial percebeu também a aproximação dos faróis. Tensionou a mandíbula ao se decidir. Jogou o passaporte em cima do assento do passageiro e fez um sinal para que seus homens liberassem a passagem.

Saia do Egito — aconselhou. — Não é mais um lugar seguro para você.

Knox respirou profundamente.

Estou partindo esta noite.

Ótimo. Vá logo antes que eu mude de idéia.

Knox engrenou o jipe e saiu acelerando. Suas mãos começaram a tremer incontrolavelmente à medida que seu corpo era invadido pela euforia da fuga. Contève-se até alcançar uma boa distância do posto, e então soltou um berro e deu um soco no ar. Tinha feito uma coisa idiota e impulsiva, mas parecia que ele havia conseguido se safar.

 

Nessim, chefe de segurança de Hassan al-Assyuti, chegou à pousada onde Knox se hospedara em Sharm e encontrou o recepcionista roncando suave­mente atrás do balcão. Ele acordou com um grito abafado quando Nessim desceu o tampo do balcão com um baque pesado.

Knox — falou Nessim. — Estou procurando Daniel Knox.

-- Ele não está — informou o recepcionista, respirando com força.

Sei que ele não está — disse Nessim friamente. — Quero ver o quar­to dele.

Mas o quarto é dele! — protestou o recepcionista. — Não posso sim­plesmente mostrá-lo ao senhor.

Nessim levou a mão ao bolso da jaqueta para apanhar a carteira, fazendo questão de deixar o recepcionista ver o coldre da arma que trazia pendurada no ombro. Tirou cinqüenta libras egípcias e colocou-as no balcão.

Estou pedindo com educação — disse.

O recepcionista passou a língua sobre os lábios.

Só desta vez, suponho.

Nessim seguiu o homem gordo escada acima, ainda aborrecido pelo que havia acontecido no barco, a humilhação de ter sido superado por um va­gabundo estrangeiro. A princípio ele supôs que seria fácil achar Knox, mas não estava sendo tão simples assim. Um de seus contatos no exército lhe passara a informação de que Knox dera um jeito de se safar através de uma barreira militar. Quando ouviu aquilo, Nessim sentiu uma pontada forte de raiva e frustração. Aquilo era para ter sido tão simples! Mas ele sabia que não devia meter os pés pelas mãos. Só um idiota desafiaria o exército egípcio; e Nessim não era idiota.

O recepcionista destrancou e abriu a porta do quarto de Knox, olhando nervosamente para os lados com medo de que algum outro hóspede repa­rasse no que estava acontecendo. Nessim entrou. Ele tinha uma noite para capturar Knox, e só porque Hassan ainda estava sedado para controlar a dor. Quando acordasse na manhã seguinte iria querer saber que progresso havia sido feito.

Ele iria querer Knox.

Nessim conferiu as roupas surradas penduradas no armário, vasculhou os bolsos da bolsa de lona vermelha no fundo, agachou-se para olhar os livros enfileirados no chão junto à parede. Havia alguns romances de ação, mas a maioria era de livros acadêmicos sobre arqueologia e o Egito. Havia também CDs, alguns de música e outros para o laptop dele. Pegou um documento encadernado. Na primeira página estava escrito, em inglês e em árabe:

 

             Escavação de Mallawi

             Notas da Primeira Estação

             Richard Mitchell e Daniel Knox

 

Nessim folheou o documento. Eram textos e fotografias de uma esca­vação perto de um antigo assentamento ptolomaico a alguns quilômetros de Mallawi, na região central do Egito. Pensativo, recolocou o documento onde estava. Por que razão um egiptólogo estaria trabalhando como instru­tor de mergulho em Sharm? Conferiu mais alguns documentos. Pelo que conseguia entender, eram mapas e fotografias de cadeias de recifes. Tirou a bolsa de lona do armário e enfiou dentro dela todos os documentos de Knox. Guardou também os CDs e disquetes. Na primeira gaveta da escriva­ninha achou fotocópias de seu passaporte e da carteira de motorista, possi­velmente como precaução em caso de perda dos originais, e um punhado de fotografias coloridas para passaporte, certamente reservadas para os vários documentos que os estrangeiros têm que tirar a fim de poder trabalhar no Sinai. Ele apanhou todas elas e colocou nos bolsos de sua jaqueta. Pegou então o laptop e a bolsa de lona para levar consigo. O recepcionista soltou um gemido contido.

Sim? — perguntou Nessim. — Algum problema?

Não — disse o recepcionista.

Ótimo. Um conselho. Se eu fosse você daria fim no restante das coi­sas dele. Duvido que o seu amigo volte tão cedo.

Não?

Não. — Nessim deu ao homem um de seus cartões de visita. — Mas me chame se ele aparecer.

 

Os mosquitos estavam de mau humor naquela noite. Gaille havia acendido dois incensos, ahotoado bem a blusa branca no colarinho e nos punhos, enfiado a bainha das calças para dentro das meias e coberto de repelente o restante de pele que tinha ficado exposto; ainda assim, aqueles demônios diáfanos achavam um jeito de se alimentar dela e depois se gabavam com aquele zumbido enfurecedor deles e se refugiavam no teto de seu quarto no hotel, bem longe do alcance de qualquer represália, mesmo que ela subisse na cadeira. Para onde terá ido o espírito de fraternidade feminista? Lá esta­va outra vez aquele zumbido exibido atrás de sua orelha. Deu um tapa no pescoço que foi mais uma autopunição por se deixar atacar tão facilmente. O estrago já estava feito. O lado de sua mão direita começou a latejar e a ficar vermelho. A mão com que segurava o mouse era alvo fácil enquanto digitava aquelas malditas notas sobre a escavação todas as noites. Fez uma pausa momentânea e olhou pela janela. Uma noite de folga apenas não iria matar ninguém. Uma cerveja gelada e um pouco de conversa. Mas se Elena a pegasse no bar...

Sua porta se abriu sem aviso e a própria Elena entrou de supetão como se fosse a dona do quarto. Não tinha consideração alguma pela privacidade dc ninguém, mas que Deus ajudasse quem tivesse a ousadia de bater em sua porta sem ter avisado por escrito com duas semanas de antecedência!

Pois não? — perguntou Gaille.

Acabei de receber um telefonema — disse Elena. Seu olhar para Gaille parecia hostil, como se estivesse em desvantagem e imaginasse que Gaille tentaria tirar o máximo de proveito. — Ibrahim Beyumi. Você o conhece? E o chefe do Conselho Superior em Alexandria. Parece que ele encontrou uma necrópole. Ele acha que parte dela pode ser ma­cedônia. Quer que eu vá lá com ele para averiguar. Disse também que estava montando uma equipe para uma possível escavação e me pergun­tou se eu poderia dar assistência especializada. Tive que lembrar a ele que eu precisava cuidar da minha própria escavação. De qualquer modo, mencionei que você estava disponível.

Gaille franziu o cenho.

Ele precisa de ajuda com línguas?

É uma escavação de emergência — bufou Elena. — O trabalho se resume em registrar, retirar, processar e armazenar. O trabalho de tradução virá mais tarde.

Então...

Gaille, ele precisa de um fotógrafo.

Ah! — Gaille ficou confusa. — Mas eu não sou fotógrafa.

Você tem uma câmera, não é? Tem tirado fotografias para nós, não é? Está me dizendo que elas não são boas?

Só as tirei porque a senhora pediu...

Agora então a culpa é minha?

Gaille perguntou, em um tom queixoso:

E Maria?

E com quem nós ficaremos? Você está insinuando que é tão boa fotó­grafa quanto ela?

Claro que não. — A única razão que a fizera trazer sua câmera era fo­tografar óstracos antigos muito desbotados a fim de deixar os escritos mais nítidos com o programa de tratamento de imagens de seu laptop. — Eu só quis dizer que não sou...

E Maria não fala árabe nem inglês — observou Elena. — Ela seria inútil para Ibrahim, e estaria sozinha. É isso o que você quer?

Não. Só estou dizendo que...

Só está dizendo que! — repetiu Elena debochada, imitando sua voz.

Isso tudo é por causa do que aconteceu hoje cedo? — perguntou Gaille. — Eu já lhe falei que náo vi nada lá embaixo.

Elena sacudiu a cabeça.

Uma coisa não tem nada a ver com a outra. É muito simples. O chefe do Conselho Superior em Alexandria pediu a sua ajuda. Você realmente quer que eu diga a ele que se recusou?

Não — respondeu Gaille, infeliz. — Claro que não.

Elena balançou a cabeça.

Amanhã cedo iremos fazer uma análise preliminar. Prepare suas ma­las e esteja pronta para partirmos às 7h. — Deu uma olhada na bagunça do quarto de Gaille, sacudiu a cabeça com uma exagerada expressão de censura e bateu a porta ao sair.

 

Foi com tristeza que Knox abandonou seu jipe num estacionamento mensalista. Ele fora seu fiel companheiro desde que chegara ao Egito. Oitocentos mil quilômetros marcados no hodômetro e o motor ainda prometia mais. Acaba-se desenvolvendo amor por um carro depois que ele fez tanta coisa boa pelo dono. Knox deixou as chaves e o tíquete do estacionamento debai­xo do banco. Telefonaria para algum de seus amigos no Cairo para ver se alguém gostaria de ficar com ele.

O aeroporto estava movimentado. Havia tanta obra de renovação que to­dos os serviços estavam entulhados na metade do espaço total. Knox puxou o boné para cima dos olhos, embora parecesse pouco provável que o pessoal de Hassan tivesse chegado ali antes dele. Havia algumas opções de vôos para ele. Muitos aviões chegavam ao Egito tarde da noite, fazendo meia-volta para chegar aos seus aeroportos de origem ao nascer do sol. Ele foi andando ao longo da fileira de balcões de check-in. Londres? Nem pensar. Após jogar sua vida no lixo, a última coisa que você desejaria era ser lem­brado disso pelo sucesso de velhos amigos. Atenas não era uma boa idéia, também. Quando surtara após a tragédia em sua família, a Grécia virara território proibido para ele. Stuttgart? Paris? Amsterdã? Pensar sobre esses lugares o deprimiu terrivelmente.

Uma mulher de cabelos pretos na fila para Roma cruzou olhares com ele e sorriu timidamente. Essa parecia ser uma razão tão boa quanto qual­quer outra. Ele se dirigiu ao balcão de informações para ver se ainda havia passagens. O homem na frente dele na fila estava reclamando da taxa extra pelo transporte de seu computador. Knox se desligou. Volte para casa, o oficial lhe aconselhara naquela barreira militar. Mas o Egito era a sua casa. Ele já vivia lá fazia dez anos. Aprendera a amá-lo, apesar de todo o calor, desconforto, caos e estardalhaço. Mais do que tudo, ele adorava o deserto, suas linhas imaculadas e abrasadoras, a extraordinária solidão que propor­cionava, os pores do sol caleidoscópicos e a névoa fria nos vales das dunas ao final da madrugada. Amava o trabalho pesado das escavações, a emoção ante possíveis descobertas, aquele estímulo glorioso que sentia ao sair da cama todas as manhãs. Não que ele tivesse conseguido mais oportunidades para trabalhar com escavações.

O homem à sua frente finalmente pagou. Knox deu um passo adiante, com os nervos à flor da pele. Se era para ele ter qualquer problema, ali seria onde o descobriria. A atendente sorriu educadamente. Knox perguntou se havia lugares vagos; ela lhe assegurou que sim, havia muitos. Knox entregou o passaporte e um cartão de crédito. Ela digitou algo e olhou para cima.

— Mi scusi un momento. — Saiu com o passaporte e o cartão dele e desa­pareceu por uma porta no fundo da barraca. Ele se inclinou sobre o balcão para ver o que estava na tela. Não viu nada alarmante. Olhou para o saguão à sua volta. Tudo parecia normal.

A atendente voltou. Seus olhos pareciam evitar os dele. Mantinha o pas­saporte e o cartão de crédito numa das mãos, ligeiramente fora do alcance dele. Knox deu outra olhada à sua volta. Equipes de seguranças surgiram quase que ao mesmo tempo de portas nas duas extremidades do saguão. Knox debruçou-se para a frente para tomar o passaporte e o cartão da mão da moça assustada, e depois virou-se, abaixou a cabeça e saiu andando com passos rápidos, sentindo o coração bater descompassado. A sua esquerda um dos seguranças gritou. Knox deixou de lado a encenação e correu rumo à saída. As portas eram automáticas, mas se abriam tão devagar que ele teve que se virar de lado, e mesmo assim bateu nelas com o ombro e precisou forçar a passagem. Um guarda do lado de fora tirou o fuzil do ombro tão depressa que se atrapalhou e deixou-o cair no chão.

Knox fugiu pela esquerda, afastando-se das luzes brilhantes do termi­nal e metendo-se na escuridão distante. Saltou sobre uma cerca, desceu correndo por um barranco até um ponto de ônibus mal iluminado, passou pulando no meio de um grupo de jovens viajantes sentados em suas mochilas e chocou-se contra a parede de uma passagem subterrânea, esfolando a palma da mão. Dois faxineiros uniformizados que dividiam um cigarro olharam espantados quando Knox passou correndo no meio deles, aspirando pela boca aberta a fumaça do tabaco negro. Virou à esquerda, correndo à toda e ignorando a gritaria e as sirenes. Havia árvores à sua esquerda; embrenhou- se no abrigo delas e correu por mais dez minutos até não agüentar dar nem mais um passo, então parou e dobrou-se sobre si mesmo com as mãos apoia­das nos joelhos, arfando. Os faróis dos carros passavam devagar patrulhan­do as estradas; lanternas vasculhavam as árvores. O suor sob sua camisa esfriou-se; Knox tremia ao sentir o próprio cheiro. Isso era ruim. Se a polícia o pegasse, não faria qualquer diferença se ele pudesse convencê-los de sua história. Hassan já o teria segurado pelos colhões. Ele considerou as opções que possuía. Estava claro que portos e aeroportos já haviam sido alertados. Os postos de fronteira teriam sua fotografia. No Cairo era possível conse­guir qualquer tipo de documento falsificado, mas Hassan tinha longo poder de alcance. Logo ficaria sabendo que Knox estava no Cairo, e daria a ordem. Não. Ele precisava se mandar o mais depressa possível. Poderia escapar dali dentro de um táxi ou ônibus, mas os motoristas se lembrariam dele. Os trens estavam sempre cheios de soldados e policiais. Era melhor arriscar-se a voltar para o jipe.

Ouviu gritaria à sua esquerda, e um disparo. Knox retraiu-se e se abai­xou. Levou um tempo até perceber que eles estavam atirando nas sombras. Tinha recobrado o fôlego e a compostura. Agachou-se e continuou a se mover até alcançar a cerca do estacionamento mensalista, que era alta, mas não tinha arame farpado. Escalou-a por um poste de concreto e pulou para o outro lado, ferindo as juntas dos dedos na tela de arame. Correu abaixa­do entre os focos de luz e as fileiras de carros estacionados. O local estava deserto. Os passageiros que iam embarcar já estavam dentro do terminal; os que chegaram de viagem já haviam ido embora. Foi com o jipe até a guarita e pagou o vigia sonolento. A cancela foi erguida.

Luzes azuis dos carros de polícia passavam velozes à sua esquerda enquanto Knox saía para a rodovia principal. Ele, por sua vez, virou à di­reita e seguiu em direção ao Cairo. As luzes foram diminuindo e acabaram por desaparecer de seu retrovisor. Em disparada, carros de polícia com luzes piscando passaram em sentido contrário pela outra pista. Percebeu que ti­nha parado de respirar e precisou obrigar-se a inspirar.

Merda, para onde ele deveria ir agora? Não podia ficar no Cairo. Mas tinha que evitar os postos de controle também. Isso excluía o Sinai, o de­serto ocidental e o sul. Alexandria, então. Ficava distante apenas três horas ao norte e, de todas as cidades do Egito, era a de que Knox mais gostava. Como tinha amigos por lá também, poderia evitar os hotéis. Mas era um fugitivo; não queria comprometer a situação de qualquer outra pessoa. Pre­cisava encontrar alguém que acreditasse nele, que fosse corajoso e aprecias­se uma pequena transgressão vez ou outra só para agitar o sangue. Sendo assim, havia somente um candidato. Knox sentiu seu astral melhorar pela primeira vez depois de tantas horas. Pisou fundo no acelerador e disparou em direção ao norte.

 

— Mais attends!— gritou Augustin Pascal para o idiota que estava batendo à sua porta, fosse ele quem fosse. — J'arrive! J'arrive! — Passou por cima da garota nua deitada com o rosto entre os travesseiros dele. Com aqueles cabelos longos e ondulados num tom castanho-claro, parecia ser Sophia. Ele levantou a cabeleira dela para ter certeza. Merda! Merda! Ele passara uma semana excitado pela expectativa de transar com ela e desperdiçara a opor­tunidade ficando completamente bêbado a ponto de não se lembrar de nada.

A velhice é uma coisa terrível.

As batidas na porta recomeçaram, ecoando junto com a equipe de demo­lição dentro de seu crânio. Deu uma olhada no despertador. Cinco e meia! Cacete, eram 5h30! Isso era inacreditável!

Mais attends!— gritou outra vez.

Para emergências, ele mantinha garrafas de água e cilindros de oxigênio junto à mesinha de cabeceira. Alternou grandes goles de uma com inalações profundas do outro, até sentir-se capaz de ficar em pé sem cair de joelhos. Enrolou uma toalha velha na cintura, acendeu um cigarro e foi atender a porta. Era Knox.

— Que merda é essa? O que você quer? — perguntou Augustin. — Você sabe que horas são, porra?

Estou com problemas — falou Knox. — Preciso de ajuda.

 

Ibrahim ia exultante dirigindo seu carro pelas ruas de Alexandria. O sol mal aparecera no horizonte, mas ele estava empolgado demais para conti­nuar na cama. Tivera um sonho durante a noite. Não. Não tinha sido bem isso. Mas ficara deitado meio acordado, à espera do toque do despertador, quando, de repente, foi dominado por uma estranha e intensa sensação de bem-estar. Não conseguia tirar da cabeça a idéia de que estava na iminência de viver algo grandioso.

Estacionou em frente à casa de Mohammed. O lugar tinha um aspec­to miserável: um alto edifício de apartamentos com paredes esburacadas e desbotadas, as portas da frente quebradas e penduradas nas dobradiças, os fios internos do interfone saindo da caixa. Mohammed já o estava esperan­do na entrada. Seus olhos brilharam quando viu a Mercedes de Ibrahim e então atravessou a rua orgulhoso, andando devagar e olhando para todos os lados, como se fosse um ator ou um esportista saboreando a glória de estar em cena, desejando que todos os seus amigos e vizinhos o vissem entrar no carro.

Bom dia — disse Ibrahim.

Vamos em grande estilo, é? — disse Mohammed, empurrando o ban­co do carona totalmente para trás para acomodar suas pernas, e mesmo assim esforçando-se para se encaixar.

Sim.

Minha mulher está muito animada — comentou o homem corpu­lento. — Ela está convencida de que encontramos Alexandre. — E tentou avaliar com o canto dos olhos a reação de Ibrahim.

Eu duvido, infelizmente — respondeu Ibrahim. — Alexandre foi sepultado num mausoléu enorme.

E isto não poderia ser uma parte dele?

Ibrahim deu de ombros.

É bem pouco provável. Não foi apenas Alexandre, veja bem. Os ptolomeus também foram sepultados junto dele. — Voltou-se para Moham­med e sorriu. — Queriam que a glória de Alexandre se refletisse um pouco neles. Entretanto, tal pretensão não deu muito certo. Quando Augusto, o imperador romano, fez sua peregrinação à tumba de Alexandre, os sacerdo­tes lhe perguntaram se ele também gostaria de ver os corpos dos ptolomeus. Sabe o que ele respondeu?

O quê?

Que ele tinha vindo para ver um rei e não cadáveres.

Mohammed riu alto. Os alexandrinos se deliciavam quando os poderosos eram humilhados. Ibrahim ficou tão satisfeito que arriscou outra história.

Você conhece a Coluna de Pompeia?

Claro. Posso vê-la de lá de minha obra.

Sabia que ela não teve nada a ver com Pompeia? Não. Foi erigida em homenagem ao imperador Diocleciano depois que ele trouxe uma força expedicionária até aqui para sufocar um levante. Ele estava tão furioso com os alexandrinos que jurou se vingar de todos até que o volume de sangue alcançasse a altura dos joelhos de seu cavalo. Adivinhe o que aconteceu.

Não posso imaginar.

-— O cavalo tropeçou e esfolou os joelhos, que ficaram cobertos de san­gue. Diocleciano tomou isso como um sinal e poupou a cidade. Seus oficiais erigiram a coluna e uma estátua em memória disso. Mas sabe o que os ale­xandrinos fizeram?

Não.

Também erigiram uma estátua. Mas não para Diocleciano. Para o cavalo dele.

Mohammed soltou outra gargalhada e deu um tapa no joelho.

Para o cavalo dele! Gostei!

Eles estavam se aproximando do centro da cidade.

Para que lado eu vou? — perguntou Ibrahim.

Esquerda — indicou Mohammed. — E depois, outra vez à esquerda. — Pararam enquanto esperavam a passagem de um bonde. — Então, onde é que ficava a tumba de Alexandre? — perguntou.

Ninguém sabe ao certo. A antiga Alexandria sofreu muito com in­cêndios, revoltas, guerras e terremotos. Houve também um maremoto ca­tastrófico. Primeiro toda a água dos portos foi sugada, então as pessoas avançaram para apanhar peixes e objetos de valor que ficaram para trás. Aí veio a onda. Não tiveram nenhuma chance.

Mohammed sacudiu a cabeça, assombrado.

Jamais soube disso.

Não. Enfim, a cidade fez-se em ruínas e todos os grandes monu­mentos se perderam, até mesmo o mausoléu de Alexandre. E nunca mais o encontramos, embora tenhamos tentado, acredite. — Inúmeros escavadores haviam tentado, incluindo Heinrich Schliemann, que havia acabado de triunfar em Tróia e Micenas. Todos saíram daqui de mãos abanando.

O senhor deve ter alguma idéia.

Nossas fontes afirmam que sua localização era a nordeste do antigo entroncamento — disse Ibrahim. — O problema é que não temos certeza de onde isso ficava. Com todos esses novos edifícios, veja bem. Duzentos anos depois, sim. Há mil anos, seria fácil. Mas agora...

Mohammed deu uma olhada disfarçada para Ibrahim.

Dizem que Alexandre foi sepultado sob a mesquita do profeta Daniel. Dizem que ele está num caixão de ouro.

Receio que estejam errados.

Então por que dizem isso?

Por alguns instantes, Ibrahim ficou em silêncio tentando organizar seus pensamentos.

Você sabia que Alexandre é citado no Alcorão? — perguntou. — Sim, como o profeta Zulkarnein, aquele com os dois chifres. Leão, o Africano, escritor árabe do século XVI, falou sobre peregrinações de religiosos muçul­manos à sua tumba e disse que ficava perto da igreja de São Marcos, como a mesquita do profeta Daniel. E há lendas árabes de um profeta Daniel que conquistou toda a Ásia, fundou Alexandria e foi sepultado aqui num caixão de ouro. Quem mais poderia ser, senão Alexandre? Certamente é possível entender que as pessoas confundam a mesquita com a tumba de Alexandre. Aí um grego afirmou ter vislumbrado um corpo usando um diadema num trono dentro das catacumbas da mesquita. A idéia é muito sedutora. Porém, tem apenas um problema.

Qual?

Está completamente errada.

Mohammed riu.

Tem certeza?

Eu próprio pesquisei as catacumbas — confirmou Ibrahim. — Pode acreditar, elas são romanas, não ptolomaicas. Quinhentos ou seiscentos anos mais novas. Mas a idéia pegou, inclusive porque nosso melhor mapa da antiga Alexandria marca o local do mausoléu muito perto da mesquita.

Então pronto!

Foi feito para Napoleão III — disse Ibrahim. — Ele precisava de informações sobre a antiga Alexandria para sua biografia sobre Júlio César, então perguntou a seu amigo Khedive Ismail. Mas não havia um mapa confiável àquela época, então Ismail contratou um homem chamado Mahmoud el-Falaki para desenhá-lo.

Certamente é mais fácil fazer pesquisas se você é um imperador.

De fato — concordou Ibrahim. — E o mapa é realmente um trabalho primoroso. Mas não é perfeito, infelizmente. Ele também foi incluenciado pelas velhas lendas, pois assinalou a tumba de Alexandre perto da mesquita, e todos os livros atuais de pesquisa e de história o incluem, e mantêm o mito vivo. O pobre imã vive sendo importunado pelos turistas que esperam encontrar Alexandre. Mas não o acharão lá, acredite.

Onde deveriam procurar?

A nordeste do antigo entroncamento, como eu disse. É provável que esteja perto do cemitério da Terra Santa. Um pouco ao noroeste dos Jardins de Shallalat.

Mohammed parecia um pouco decepcionado. Ibrahim bateu de leve em seu braço.

Não perca as esperanças ainda — animou-o. — Tem uma coisa que eu não lhe disse.

O quê?

Não contei isso a ninguém. Não quero que comecem a espalhar boatos por aí, entende? E você não deve se animar demais. Não mesmo.

Diga.

Alexandre não tinha apenas uma tumba em Alexandria. Tinha duas.

Duas?

Sim. Soma, o grande mausoléu do qual lhe falei, foi construído por volta de 215 a.C., por Ptolomeu Filopátor, o quarto dos reis ptolomaicos. Mas antes disso houve uma tumba diferente, mais ao estilo tradicional macedônio.

Mais parecido, digamos, com aquele que você e seus homens encontraram ontem.

Mohammed olhou para ele, intrigado.

O senhor acha que foi esse túmulo que nós achamos?

Não — disse Ibrahim gentilmente. — Realmente não acho que seja. Estamos falando de Alexandre, lembre-se. Os ptolomaicos com certeza te­riam construído algo espetacular para ele. — Não que se soubesse como isso seria. Não se sabia nem quando o corpo de Alexandre foi trazido de Mênfis para lá. O consenso moderno diz que teria sido em 285 a.C., quase quarenta anos depois de sua morte, embora ninguém tenha explicado de maneira sa­tisfatória por que a transferência teria demorado tanto. Acreditamos que seu corpo tenha ficado em exposição, então é pouco provável que o encontre­mos em algum local subterrâneo. Além disso, Alexandre foi adorado como deus durante séculos. As autoridades locais jamais tolerariam que sequer sua tumba anterior fosse transformada numa necrópole qualquer.

Mohammed parecia desapontado.

Então por que o senhor diz que esta poderia ser a tumba dele?

Porque isso é arqueologia. — Ibrahim sorriu. — Nunca se sabe ao certo.

E havia também mais uma coisa, embora fosse algo que ele não dese­java repartir. Desde que ele era menino, sendo embalado por seu pai com histórias impressionantes sobre o fundador da cidade, Ibrahim antecipava qual seria o seu destino: um dia ele faria parte da redescoberta da tumba de Alexandre. Nessa manhã, enquanto permanecera desperto na cama, tivera uma reprise daquele sentimento, uma convicção de que era che­gada a hora. E, apesar de toda a sua apreensão intelectual, no fundo do coração sabia que a tumba de Alexandre tinha algo a ver com aquilo que iriam inspecionar.

 

Nessim estivera ativo a noite inteira numa correria furiosa para pegar Knox antes que Hassan acordasse. Mas fracassara. Quinze minutos antes fora convocado ao hospital e agora estava ali, tensionando o punho para se preparar antes de bater à porta do quarto do patrão, no centro médico de Sharm.

Nessim alistara-se no exército egípcio aos 17 anos. Tornara-se paraquedista, integrara a elite. Porém uma torção no joelho havia colocado um fim em suas esperanças de continuar na ativa, então rejeitara uma transferência ao tédio e se tornara mercenário nas intermináveis guerras africanas. Em uma ocasião, um morteiro caíra em seu colo, porém não explodiu; em vez disso, convencera-o de que era chegada a hora de uma mudança de ritmo. De volta ao Egito, tinha feito nome como guarda-costas antes de ser recru­tado por Hassan para ser seu chefe de segurança. Se ele fosse um homem medroso, jamais teria sobrevivido a essa vida. Mas havia algo em Hassan que lhe metia medo. Ter que lhe dar notícias ruins lhe metia medo.

Entre — murmurou Hassan. Sua voz estava mais suave do que o habitual, e um pouco ofegante. Ele perdera um dente e sofrerá graves es­coriações nas costelas, o que tornava sua respiração dolorosa. — E então? — perguntou.

O senhor pode, por favor, nos deixar a sós? — Nessim perguntou ao médico que estava ao lado da cama.

Com prazer — disse o médico, de forma ligeiramente mais enfática do que devia.

Nessim fechou a porta logo que ele saiu.

Pegamos a garota — informou a Hassan. — Estava tentando entrar num ônibus.

E Knox?

Quase o pegamos. No aeroporto do Cairo. Ele conseguiu escapar.

Quase? — disse Hassan. — Para que serve esse quase?

Desculpe, senhor.

Hassan fechou os olhos. Com certeza gritar era muito doloroso.

E você se considera meu chefe de segurança? — disse. — Olhe para mim! E você deixou o homem que fez isso sair livre pelo Egito como se ele estivesse em uma excursão?

Pedirei minha demissão assim que...

Não quero sua demissão — rebateu Hassan. — Quero Knox. Quero-o aqui. Você entende isso? Quero que esse homem seja trazido à minha presença. Quero olhar na cara dele. Quero que ele veja o que fez e que saiba o que vai lhe acontecer por causa disso.

Sim, senhor.

Não quero saber o que vai custar. Não me interessa quanto você terá que gastar. Nem saber quantos favores você terá que cobrar. Use o exército. Use a polícia. Tudo o que for necessário. Fui claro?

Sim, senhor.

Então? — perguntou Hassan. — Por que ainda está aqui?

Com todo o respeito, senhor, há meios diferentes de pegá-lo. Um deles, como o senhor devidamente sugeriu, é usar os nossos contatos na polícia e no exército.

Hassan fitou-o intrigado. Era um homem ardiloso, apesar de seu ódio.

Mas...?

Foi relativamente fácil conseguir o auxílio deles ontem à noite. Dis­semos apenas que Knox tinha causado um incidente sério num barco, mas que os detalhes ainda estavam meio confusos. Mas se amanhã ou depois ainda precisarmos de sua ajuda ativa, eles esperarão que apresentemos pro­vas do tal incidente sério.

Hassan olhou para Nessim, incrédulo.

Você está querendo dizer que o que ele fez contra mim não é pro­va suficiente?

Claro que não, senhor.

Então o que você está dizendo?

Até agora, bem poucas pessoas sabem qualquer coisa além de rumo­res. Eu próprio escolhi a equipe médica que está tratando o senhor. Eles sabem muito bem que não devem falar nada. Tenho homens de confiança guardando a sua porta. Ninguém entra aqui sem minha permissão explíci­ta. Mas, se envolvermos a polícia, eles vão querer investigar. Virão lhe fazer perguntas e fotografá-lo; falarão com os outros convidados que estavam no barco, incluindo aquele seu amigo de Stuttgart e a garota. O senhor deve se perguntar se isso seria bom neste momento; ou ainda se realmente seria bom para a sua reputação que fotos dos seus ferimentos chegassem aos jornais ou à internet com descrições exageradas de como eles foram infligidos, pois nós dois sabemos que o senhor tem tanto inimigos quanto amigos na polícia. E o senhor deveria também se perguntar como essa divulgação repercutiria na sua autoridade se as pessoas vissem o que um mero instrutor de mergulho lhe fez e que ele conseguiu escapar, mesmo que por pouco tempo.

Hassan franziu a testa. Sabia o valor de ser temido.

Qual é nossa alternativa?

Retiramos as queixas. Dizemos que foi um mal-entendido. Livramo-nos da garota. O senhor deve ficar fora de vista até se recuperar. Enquanto isso, vamos nós mesmos atrás de Knox.

Fez-se um longo silêncio.

Muito bem — disse Hassan enfim. — Mas você se encarregará disso pessoalmente. E eu espero resultados. Entendido?

Sim, senhor. Entendi perfeitamente.

 

Era a primeira vez que Gaille ia a Alexandria. Havia um congestionamen­to na Corniche. Os mastros dos iates e dos barcos de pesca no porto leste balançavam como dançarinos de flamenco embalados pela brisa fraca que carregava um cheiro suave de maresia. Ela apoiou a cabeça no encosto do banco e protegeu os olhos contra o sol da manhã que se infiltrava por entre os blocos altos de hotéis, edifícios de apartamentos e escritórios ornamenta­dos com antenas parabólicas. O lugar estava despertando para a atividade como um bocejo gigantesco. Das cidades egípcias, Alexandria sempre fora a que dormia até mais tarde. Lojas estavam erguendo suas portas de aço e estendendo os toldos. Grupos de senhores distintos saboreavam seus cafés nas confeitarias e observavam calmamente os meninos e meninas de rua cir­culando no meio dos carros, vendendo maços de cigarros e lenços de papel. As ruelas que partiam da pista principal eram estreitas, escuras e vagamente ameaçadoras. Um bonde que já estava lotado de passageiros parou para receber mais gente. Um policial vestido com um uniforme incrivelmente branco e quepe levantou a mão para desviar o tráfego para a direita. Um velho trem de passageiros, rangendo e estalando, atravessou um cruzamento com uma lentidão debochada. Uns garotos brincavam de pega-pega nos vagões abertos que transportavam gado.

Elena olhou para o relógio.

Tem certeza de que o caminho é este mesmo?

Gaille deu de ombros, em dúvida. Seu único mapa era uma fotocópia malfeita de um guia de viagem ultrapassado. No entanto, tinha uma desa­gradável sensação de que vir parar ali já havia sido uma grande bobagem, embora tivesse aprendido o suficiente sobre a sua nova chefe para saber que não deveria admiti-lo.

Acho que sim — respondeu, de maneira ambígua.

Elena suspirou alto.

Você podia ao menos tentar.

Eu estou tentando. — Gaille não conseguia afastar a suspeita de que estava sendo punida pela transgressão do dia anterior, ou pelo menos afasta­da convenientemente da escavação do delta por causa daquilo.

Estavam se aproximando de um grande cruzamento. Elena olhou para ela na expectativa de que ela indicasse a direção.

Vire à direita — disse Gaille.

Tem certeza?

Deve ser em algum lugar por aqui, à esquerda ou à direita.

Algum lugar por aqui, à esquerda ou à direita? — debochou Elena. — Isso é muito útil.

Gaille pôs a cabeça para fora da janela, sentindo o cérebro reclamar da falta de sono e café. Havia um canteiro de obras à frente, uma enorme cons­trução de concreto com vergalhões pendurados no topo parecendo patas de uma aranha gigantesca. Ela disse, angustiada:

Acho que deve ser este aqui.

Você acha que deve ser este aqui ou este é o lugar realmente?

Jamais estive em Alexandria — protestou Gaille. — Como deve­ria saber?

Elena bufou com força c balançou a cabeça, mas sinalizou para a esquer­da e passou pelos portões duplos, entrando por uma pista esburacada. Três egípcios estavam conversando animados no fim da pista.

Aquele é Ibrahim — murmurou Elena, com tanta má vontade que Gaille teve que reprimir um sorriso. Se Elena pensasse que ela estava se ga­bando...! Estacionaram. Gaille abriu a porta do seu lado bem depressa e saiu do carro, sentindo momentaneamente uma onda de timidez desanimadora.

Em geral sentia-se tranqüila em situações profissionais, mas não levava a menor fé em si mesma como fotógrafa e por isso julgava-se uma farsa. Foi até a caçamba do carro supostamente para verificar seus equipamentos e pertences, mas, na verdade, queria se esconder.

Elena gritou seu nome. Respirou fundo para se recompor, colocou um sorriso nos lábios e contornou o veículo para encontrá-los.

Ibrahim — disse Elena, acenando para o homem elegante no centro do grupo. — Gostaria de lhe apresentar Gaille.

Nossa estimada fotógrafa! Somos imensamente gratos.

Não sou bem uma...

Gaille é uma fotógrafa excelente — interrompeu-a Elena, dirigindo a ela um olhar de repreensão. — E o melhor de tudo é que ela também é uma especialista em línguas antigas.

Esplêndido! Esplêndido! — Ele gesticulou para os outros dois ho­mens, que desenrolavam no chão uma planta do terreno. — Mansoor e Mohammed — disse. — Mansoor é meu braço direito. Ele dirige todas as nossas escavações em Alexandria. Eu não poderia sobreviver sem ele. E Mohammed é o mestre de obras da construção deste hotel.

Muito prazer em conhecê-los — falou Gaille.

Os dois olharam para ela, acenando educadamente. Ibrahim sorriu de forma distraída e consultou o relógio.

Falta apenas uma pessoa. Você conhece Augustin Pascal?

Elena bufou.

Somente por sua reputação.

Sim — concordou Ibrahim, sério. — Ele é um ótimo arqueólogo submarino.

Não foi isso que eu quis dizer — disse Elena.

Ah.

Passaram-se mais alguns minutos antes que se ouvisse o ronco de um motor entrando pelos portões da obra.

Ah — disse Ibrahim —, aí vem ele.

Um homem de 30 e poucos anos numa brilhante motocicleta preta e cromada, sem capacete, com seu longo cabelo negro agitando-se livremen­te, aproximou-se devagar, desviando dos buracos na pisra. Estava usando óculos espelhados, tinha uma barba por fazer de dois dias, um casaco de couro, calças jeans e botas de motoqueiro pretas de cano alto. Abriu o des­canso da moto com o pé, desmontou dela e tirou do bolso da camisa um cigarro e um Zippo de bronze.

Você está atrasado — disse Ibrahim.

Desolé — resmungou ele, protegendo a chama do isqueiro. — Tive um imprevisto.

Mansoor perguntou com ironia:

Sophia, talvez?

Augustin deu um sorriso maldoso.

Você sabe que eu jamais me aproveitaria de minhas alunas des­sa maneira.

Elena estalou a língua e murmurou um palavrão em grego. Augustin sorriu e virou-se para ela estendendo a mão.

E então? — perguntou. — Viu alguma coisa que lhe agrada?

Como poderia? — respondeu Elena. — Você está bem na frente.

Mansoor riu e deu um tapa no ombro de Augustin, mas este permane­ceu tranqüilo. Olhou Elena de cima a baixo e sorriu em franca aprovação, talvez até insinuando-se, pois Elena era uma mulher muito atraente, e a raiva lhe acrescentava certo charme. Gaille retraiu-se e deu meio passo para trás, à espera da inevitável erupção, mas Ibrahim colocou-se entre eles dois a tempo.

Bem — disse ele, com alegria e nervosismo —, podemos começar?

Os antigos degraus em espiral pareciam precários. Gaille descia com cuidado. Mas todos chegaram ao fundo sem sobressaltos e se reuniram na rotunda. Podia-se ver sob os escombros o canto de um mosaico de pedras pretas e brancas. Gaille murmurou para Elena indicando isso.

Ptolomaico — declarou Elena em voz alta, agachando-se para afastar o pó. — Duzentos e cinqüenta antes de Cristo, mais ou menos.

Augustin apontou para as paredes esculpidas.

Aquelas são romanas — afirmou.

Você está insinuando que eu não sei identificar um mosaico mace­dônio?

Estou insinuando que os relevos são romanos.

Ibrahim levantou as mãos.

Que tal o seguinte — sugeriu. — De início era a tumba particular de algum macedônio rico. Aí trezentos anos depois uns romanos a descobri­ram e a transformaram numa necrópole.

Isto poderia explicar a escada — admitiu Elena relutante. — Os macedônios não costumavam construí-las em espiral. Eram retas ou em retângulos.

E eles teriam que alargar o poço quando a expandiram para a ne­crópole — concordou Augustin. — Para fornecer iluminação e ventilação, descer os corpos e retirar as pedras na escavação. Eles costumavam vendê- las para construtores, sabem?

Sim — disse Elena, mordaz. — Eu sabia, obrigada.

Gaille não estava prestando a menor atenção. Olhava para o círculo do céu na altitude acima de sua cabeça, meio desorientada. Cristo, aquilo ia bem além dos conhecimentos dela. Uma escavação de emergência não dava segundas chances. Dentro das duas próximas semanas o mosaico, aqueles relevos incríveis e tudo o mais precisariam ser fotografados. De­pois disso, provavelmente o lugar seria selado para sempre. Artefatos como aqueles mereciam um profissional de verdade, alguém com olhar treinado, experiência, equipamentos sofisticados e iluminação. Gaille puxou ansiosa a manga de Elena, mas esta obviamente percebeu o que ela queria discutir e afastou sua mão, seguindo Mohammed pelos degraus que desciam para o átrio da tumba macedônia. O tom amarelo desbotado da pedra calcária aparecia à volta dos blocos brilhantes de mármore branco da fachada e das quatro colunas jônicas embutidas e do entablamento acima destas. O grupo parou por alguns instantes para admirar, então prosseguiram pela porta entreaberta de bronze até a antecâmara da tumba.

Vejam! — disse Mansoor, iluminando as paredes laterais. Todos se aproximaram para examiná-las. Havia tinta no gesso, porém muito des­botada. Tinha sido prática comum na Antigüidade que momentos impor­tantes da vida das pessoas sepultadas fossem pintados nas paredes de suas tumbas. — Você pode fotografar isso aqui? — pediu ele.

Não sei bem como elas vão ficar — respondeu Gaille, com a voz baixa.

Será preciso lavar as paredes primeiro — disse Augustin. — Com muita, muita água. Os pigmentos podem estar parecendo mortos, mas dê-lhes um tanto de água e eles voltarão à vida como flores desabrocham. Pode acreditar.

Não use água demais — advertiu Mansoor. — E não prepare a ilu­minação muito perto, também. O calor das lâmpadas vai rachar o gesso.

Desesperada, Gaille se voltou para Elena, que, fazendo questão de evitar seu olhar, dirigiu o foco da lanterna para a inscrição sobre o portal da câ­mara principal.

"Áquilo dos 33" — disse Augustin, traduzindo o grego antigo.

O facho de luz desapareceu da inscrição naquele momento, quando Ele­na atrapalhou-se e deixou a lanterna cair, xingando tão agressivamente que Gaille olhou espantada para ela.

Ibrahim iluminou a inscrição com sua lanterna, permitindo que Augus­tin traduzisse a inscrição inteira.

"Áquilo dos 33" — ele leu. — "Para ser sempre o primeiro e de todos os mais distinguir-me."

Isso é Homero — murmurou Gaille. Todos olharam para ela, surpre­sos. Ela sentiu suas faces enrubescerem.

É da Ilíada — explicou.

Isso mesmo — confirmou Augustin. — Sobre um homem chamado Glauco, se não me engano.

Na verdade ela aparece duas vezes — disse Gaille timidamente. — Uma sobre Glauco e outra sobre Aquiles.

Aquiles, Áquilo — completou Ibrahim. — Com certeza se achava grandioso. — Continuava olhando a inscrição enquanto seguia Mohammed para dentro da câmara principal, então tropeçou no degrau baixo e foi ao chão com as mãos e os joelhos. Todos riram quando ele se levantou e sacudiu a poeira fazendo a expressão de autocensura daqueles que se acidentam com freqüência. Augustin chegou até o escudo pendurado na parede.

O escudo de um hipaspista — disse ele. — Um escudeiro — ex­plicou, vendo Ibrahim franzir a testa. — A tropa de elite de Alexandre. A melhor unidade de guerreiros do exército mais bem-sucedido da história do mundo. Talvez ele não estivesse sendo tão presumido afinal de contas.

 

O sol da manhã bateu no rosto de Knox, que estava deitado no sofá de Augustin tentando recuperar o sono. Resmungou e virou-se de costas, mas não adiantou. O dia já estava quente e úmido. Levantou-se de má vonta­de, tomou um banho, revistou o quarto de Augustin à procura de roupas, colocou um pouco de café na máquina e ligou-a. Passou uma quantidade generosa de manteiga e geléia de framboesa num croissant e devorou tudo enquanto vagava pelo apartamento em busca de alguma distração. A TV egípcia era, na melhor das hipóteses, pavorosa, mas no aparelho portátil de Augustin, de imagem trêmula e em preto e branco, era impossível assistir a qualquer coisa. E não havia nada para ler, exceto jornais amassados e revistas de histórias em quadrinhos. Aquele não era um apartamento para se passar o tempo. Era feito para se dormir, de preferência acompanhado.

Saiu para a sacada. Havia prédios idênticos dos dois lados, todos no mesmo tom bege sem-graça, com roupas colocadas para secar nas sacadas e as onipresentes antenas parabólicas voltadas para os seus satélites assim como os fiéis se voltam para Meca. Ainda assim, ele se sentia contente por estar ali. Poucos egiptólogos admitiriam abertamente, mas olhavam para Alexandria com desprezo. Praticamente nem consideravam que a era greco-romana tivesse sido egípcia. Mas Knox não pensava assim. Para ele, esse pe­ríodo tinha sido a era de ouro do Egito, e Alexandria a sua cidade dourada. Dois mil anos atrás ela fora a maior metrópole da Terra, berço das maiores mentes da Antigüidade. Arquimedes tinha estudado ali, assim como Ga­leno e Orígenes. A Septuaginta fora traduzida ali. Os famosos trabalhos de Euclides haviam sido publicados ali. A própria palavra química vinha dali; al-Khemia era a terra negra do Egito, e alquimia era a arte egípcia. Aristarco propusera sua teoria heliocêntrica ali, mais de mil anos antes de ela ter sido redescoberta por Copérnico. Eratóstenes havia calculado com enorme precisão a circunferência da Terra por extrapolação a partir das dis- crepâncias dos comprimentos das sombras feitas pelo zênite do sol durante o solstício de verão ali e em Assuã, a cerca de 850 quilômetros ao sul. Quanta imaginação! Quanta curiosidade e trabalho intelectual! Uma colisão sem precedentes de culturas, uma efervescência de pensamento equivalente a Atenas, e que não foi superada até a Renascença. Knox achava inacreditável que alguém pudesse desprezar tais conquistas e considerá-las de segunda categoria ou pensar que...

De repente seus pensamentos foram interrompidos por um barulho vindo de dentro da casa, como se alguém estivesse tentando pigarrear silenciosamen­te. Será que seu esconderijo já fora descoberto? Ficou no canto da sacada de forma a não poder ser visto através das portas de vidro e grudou-se contra a parede.

 

Ibrahim caminhava ao lado de Mohammed, que levava o grupo através da necrópole. Por mais que tivesse evitado desesperadamente criar grandes expectativas antes de visitar este lugar, sentia agora uma espécie de anti-clímax diante do fato de que sua desejada tumba real demonstrara ser apenas o túmulo de um soldado comum. Mas era um profissional e concentrou-se com seriedade buscando entender melhor o que estava investigando.

A primeira câmara mostrou-lhe muito do que ele precisava saber. Cada parede era cortada por colunas de loculi, semelhante às gavetas de um vasto necrotério; e cada um deles estava entulhado de restos mortais humanos, meio soterrados por uma terra arenosa escura, embora houvesse alguns caí­dos no chão, talvez derrubados por ladrões à procura de tesouros. Mistura­das aos ossos e detritos foram encontradas uma figura quebrada de faiança, algumas moedas verdes e enegrecidas datadas dos séculos I a IV d.C., vários fragmentos de terracota de lamparinas fúnebres, jarras e estatuetas. Havia também pedaços de pedra e gesso. Os locidi costumavam ser selados após os sepultamentos, mas os saqueadores os haviam arrebentado para ter acesso ao seu conteúdo.

O senhor acha que encontraremos múmias? — perguntou Moham­med. — Uma vez levei minha filha ao seu museu. Ela ficou fascinada pe­las múmias.

Acho bem pouco provável — respondeu Ibrahim. — As condições climáticas daqui não são propícias. E mesmo que elas tivessem resistido à umidade, jamais teriam resistido aos ladrões de túmulos.

Ladrões roubavam múmias? — espantou-se Mohammed. — Elas eram valiosas?

Ibrahim balançou a cabeça vigorosamente.

Um motivo era que as pessoas muitas vezes escondiam jóias e outros objetos de valor nas cavidades dos corpos, então os ladrões os desenterravam e reabriam tudo em busca disso. Mas as próprias múmias também tinham grande valor. Em particular na Europa.

O senhor quer dizer para os museus?

De início, não — disse Ibrahim. — Veja só, cerca de seiscentos anos atrás, os europeus achavam que o betume fazia muito bem para a saúde. Era a droga milagrosa daquela época. Todas as boticas tinham que ter um estoque disso. A procura era tão grande que a oferta não dava conta. As pessoas começaram a procurar novas fontes. Você sabe quão enegrecidos os restos mumificados podem ficar; as pessoas passaram a acreditar que as múmias haviam sido embebidas em betume. É daí que vem a palavra "mú­mia", sabia? "Mumia" é betume em persa, e a maior parte dessa substância vinha da Pérsia.

Mohammed fez uma careta.

As pessoas usavam as múmias para fazer remédio?

Os europeus, sim — respondeu Ibrahim, dando ao corpulento mes­tre de obras um sorriso de cumplicidade. — Mas, enfim, Alexandria estava bem no centro desse comércio, e esse é um dos motivos por que nunca des­cobrimos sequer um fragmento de múmia por aqui, embora saibamos com certeza que aqui se praticava a mumificação.

Entraram em outra câmara. Mansoor iluminou um selo de gesso com sua lanterna. Havia traços difusos de pintura representando uma mulher sentada apertando a mão de um homem de pé.

Uma dexiosis — murmurou.

A mulher está morta — explicou Ibrahim. — Eles estão se despedin­do pela última vez.

Ou talvez ele esteja aí com ela — murmurou Mohammed. — Pare­cem bem lotadas essas tumbas.

Gente demais. Pouco espaço. Assim era Alexandria. Estima-se que 1 milhão de pessoas viviam aqui. Você já viu Gabbari?

Não.

É enorme. Uma verdadeira cidade dos mortos. E há também Shatby e Sidi Gabr. Mas ainda assim não eram suficientes. Principalmente depois que o cristianismo se popularizou.

Mohammed franziu a testa.

E por quê?

Antes dos cristãos, muitos alexandrinos optavam pela cremaçáo — explicou. — Vê esses nichos nas paredes? Eles foram projetados para abrigar urnas e caixões. Mas os cristãos acreditavam na ressurreição, eles precisa­vam de seus corpos.

Então esta é uma necrópole cristã?

É uma necrópole alexandrina — respondeu Ibrahim. — Nela irá encontrar aqueles que acreditavam nos deuses egípcios, nos gregos, nos ro­manos, judeus, cristãos, budistas, pessoas de todas as religiões da Terra.

E agora, o que será feito delas?

Ibrahim balançou a cabeça.

Vamos estudá-las. Podemos aprender muita coisa sobre sua dieta, saúde, taxas de mortalidade, composição étnica, práticas culturais. Muitas outras coisas.

Vocês as tratarão com respeito?

Claro, meu amigo. Claro.

Voltaram e entraram em outra câmara.

O que é isso? — perguntou Augustin, apontando o facho de sua lanterna através de um buraco na parede para um pequeno lance de escadas que desaparecia na escuridão.

Não sei. — Mohammed deu de ombros. — Não o vi antes.

Ibrahim teve que se agachar para poder passar. Mohammed teve que passar de gatinhas. Parecia ser a tumba de uma família rica, dividida em dois espaços adjacentes por uma fileira de pilares esculpidos. Cinco sarcófagos de pedra de tamanhos diferentes estavam junto às paredes, todos de­corados por uma grande variedade de estilos e crenças. Havia uma imagem de Dionísio gravada na pedra calcária sobre representações de Ápis, Anúbis e um disco solar. Reentrâncias na pedra acima de cada sarcófago conti­nham vasos canópicos, que talvez ainda conservassem o conteúdo original — estômago, fígado, intestinos e pulmões do morto. Outros objetos reluziam no chão: fragmentos de lamparinas e ânforas funerárias, escaravelhos, pequenas jóias de prata e bronze cravejadas de pedras foscas.

Que maravilha — murmurou Augustin. — Como os ladrões conse­guiram não perceber isto?

Talvez a entrada estivesse escondida — sugeriu Ibrahim, chutando os detritos. — Um terremoto ou simplesmente a passagem do tempo.

Quão antigo? — perguntou Mohammed.

Ibrahim olhou para Augustin.

Primeiro século da era cristã? — sugeriu. — Talvez segundo.

Chegaram enfim ao lençol freático. Os degraus desapareciam dentro da água de forma provocadora, sugerindo que existiam mais câmaras submer­sas. O lençol freático se havia elevado e descido dramaticamente no decorrer dos séculos; com sorte, talvez isso tivesse impedido os ladrões de roubar o que estivesse ali abaixo.

Augustin inclinou-se e agitou a água com as mãos.

Temos orçamento para bombear? — perguntou.

Ibrahim deu de ombros. Bombeamento era uma atividade cara, baru­lhenta, suja e quase sempre ineficaz. Também significava a introdução de um tubo enorme pela passagem e escadaria acima, o que atrapalharia as escavações principais.

Se for imprescindível.

Se você quiser que eu explore antes, precisarei de um parceiro. Esses lugares são perigosos.

Ibrahim concordou.

O que você quiser. Deixarei por sua conta.

 

O celular de Nessim tocou enquanto ele se aproximava de Suez.

Pronto?

Uma voz de homem do outro lado disse:

Sou eu.

Nessim não reconheceu quem o estava chamando, mas achou melhor não perguntar. Na noite anterior havia entrado em contato com muitas pes­soas, e algumas delas faziam questão de que sua relação com Hassan fosse conhecida. Os celulares eram notoriamente vulneráveis; era preciso presu­mir que sempre havia alguém monitorando as atividades.

O que você encontrou?

Seu homem tem uma ficha.

Ah! Agora reconhecia. O Serviço de Segurança Egípcio tinha informa­ções sobre Knox. Curioso.

E?

Não vamos falar sobre isso pelo telefone.

Estou me dirigindo para o Cairo agora. O mesmo acordo da últi­ma vez?

Às 6h — concordou o homem. E desligou.

 

Knox ainda estava em pé na sacada de Augustin, esperando que a qualquer momento as portas de vidro fossem abertas e o intruso aparecesse. Só agora percebia que aquele apartamento era uma ratoeira. A saída de emergência, o elevador e as escadas eram todas do lado de fora da porta, no corredor. Fora isso... Não havia outras sacadas para as quais pudesse saltar, nenhuma sa­liência sobre a qual pudesse andar. Segurou firme o parapeito e inclinou-se para fora para olhar o inflexível chão de concreto do estacionamento seis an­dares abaixo. Poderia pular da sacada onde estava para a do apartamento de baixo, mas se errasse... seus dedos dos pés ficaram dormentes só de pensar.

Dentro do apartamento de Augustin o ruído aumentou. Um estranho invadira o apartamento só para ficar lá pigarreando. Ele arriscou uma olhadela através da porta de vidro, mas não viu nada de anormal. Outro pigarro, e depois um assobio, e finalmente ele se deu conta. Entrou, sacudindo a cabeça para si mesmo, e viu a cafeteira de Augustin soltando as últimas gotas de café. Serviu-se de uma xícara e levantou um brinde debochado a si mesmo no espelho. Ele não era bom nisso, inclusive porque achava difícil de suportar o confinamento. Já estava sentindo uma espécie de claustrofobia e uma leve câimbra nos braços e nas panturrilhas. Ansiava poder fazer uma caminhada revigorante, queimar um pouco de energia ansiosa, mas não ousava sair. Os homens de Hassan na certa já estariam mostrando sua fotografia em estações de trem, hotéis e empresas de táxi, e vasculhando estacionamentos à procura do seu jipe. Knox sabia que precisava dar uma sumida. Mas ainda assim...

Augustin tinha saído às pressas logo cedo para inspecionar alguma antigüi­dade recém-descoberta. Por Deus, como Knox desejava que ele estivesse ali.

 

Ibrahim sentia-se profundamente apreensivo ao subir a escada em espiral até a luz do dia. Precisaria relatar o que vira para Nicolas Dragoumis, e tinha plena consciência de que não apenas os fundos para a escavação dependiam do resultado disso; também estava em jogo a esperança de Mohammed para o tratamento de sua pobre filha. Apertou o braço daquele homenzarrão para tranquilizá-lo da melhor maneira possível e se afastou um pouco junto a Elena, enquanto Mohammed o observava ansiosamente discar o número do Grupo Dragoumis, informar nome e assunto e aguardar.

Então? — perguntou Nicolas do outro lado.

É um ótimo sítio — disse Ibrahim. — Há algumas maravilhosas...

Você me prometeu uma tumba real macedônia. É uma tumba real macedônia ou não?

Eu prometi algo que parecia uma tumba real — disse Ibrahim. — E parece. Infelizmente, acredito que seja a tumba de um escudeiro, não de um rei ou nobre.

Um escudeiro? — falou Nicolas, com desprezo. — Você espera que o Grupo Dragoumis gaste 20 mil dólares na tumba de um escudeiro?

Os escudeiros eram a elite de Alexandre — protestou Ibrahim. — Este homem, Áquilo, teria sido...

O quê? — interrompeu Nicolas, incrédulo. — Qual foi o nome que você disse?

Áquilo.

Áquilo? Você tem certeza absoluta?

Sim. Por quê?

Elena está aí?

Sim.

Passe a ligação para ela. Agora! Quero falar com ela.

Ibrahim deu de ombros e entregou o telefone. Elena se afastou um pouco e virou de costas para que ele não pudesse ouvi-la. Falou por um minuto inteiro antes de devolver-lhe o telefone.

O senhor terá o dinheiro — disse ela.

Não entendo — respondeu Ibrahim. — O que há de tão especial com esse tal de Áquilo?

Não sei do que o senhor está falando.

Sabe sim.

O Sr. Dragoumis quer que o mantenham informado de tudo.

Claro. Eu próprio telefonarei para ele sempre que...

Não pelo senhor. Por mim. Ele pediu que me fosse dado acesso irrestrito.

Não. De forma alguma eu posso concordar com...

Receio dizer que o Sr. Dragoumis insiste nisso.

Mas essas não foram as nossas condições.

Agora são. — Elena deu de ombros. — Se você deseja o apoio dele...

Ibrahim olhou para Mohammed, que torcia as mãos enquanto esperava.

Muito bem — suspirou. — Tenho certeza de que podemos dar um jeito. — Acenou para Mohammed para fazê-lo saber que tinha conseguido o dinheiro. O homenzarrão fechou os olhos e curvou-se aliviado, e então foi ao seu escritório para dar os próprios telefonemas.

Mansoor surgiu da escadaria e foi juntar-se a Ibrahim.

Então? — perguntou. — Vamos continuar?

Sim.

Destrutiva ou não destrutiva?

Ibrahim balançou a cabeça, pensativo. Boa pergunta. Em duas semanas, se o grupo do hotel conseguisse carta branca, toneladas de entulho seriam jogadas escadaria abaixo, como uma espécie de aterro, e sua entrada seria bloqueada e coberta por um estacionamento, de forma que ninguém jamais poderia descer lá outra vez. Se isso fosse de fato acontecer, seria preciso primeiro tirar de lá tudo o que fosse de valor, incluindo as pinturas das paredes, as esculturas e o mosaico do piso da rotunda. Era perfeitamente possível, mas demandava tem­po, especialistas e equipamento pesado, e eles precisariam começar a planejar imediatamente. Por outro lado, Alexandria estava lamentavelmente pobre de sítios históricos, em especial os da era ptolomaica. Se eles pudessem negociar com o hotel o acesso permanente, este sítio seria um acréscimo valioso ao ro­teiro turístico da cidade; mas somente se as características originais fossem preservadas ali e devidamente protegidas durante a escavação.

Não destrutiva — disse Ibrahim depois de algum tempo. — Vou conversar com o pessoal do hotel. Talvez eles compreendam o valor de ter uma antigüidade dentro de seu terreno.

Mansoor bufou.

E talvez nos ofereçam suítes de cobertura de cortesia puramente por generosidade.

Sim. Bem, deixe-me falar com eles. Mas você pode cuidar da escava­ção, certo?

Não será fácil — disse Mansoor. — Posso dar um tempo em Shatby. Não há muita urgência nela. Podemos transferir a equipe, o gerador e a ilu­minação. Mas ainda assim precisaremos de mais pessoal.

Espalhe a notícia. Temos orçamento.

Sim, mas com uma equipe grande precisaremos de ventilação; e não quero gente subindo artefatos por essas escadas. Isso seria pedir por acidentes. Precisaremos de um elevador sobre a escadaria. E Augustin vai querer uma bomba. Sei que vai. E não é só com as necessidades para o sí­tio que precisaremos nos preocupar. Há 1.500 loculi para serem esvaziados, o que significa 6 ou 7 mil conjuntos de restos humanos chegando ao museu ou à universidade nas próximas duas semanas. Precisaremos de especialistas treinados prontos para recebê-los. — Ele estalou os dedos. — Perceba que nossas duas semanas passarão assim.

Ibrahim sorriu. Mansoor sempre gostou de imaginar um problema de forma muito mais grave, de modo que a satisfação em resolvê-lo fosse maior.

Então é melhor ir começando — sugeriu.

 

Áquilo!

Nicolas quase não podia acreditar. Mas, ao mesmo tempo, ele acredi­tava. O que estava escrito estava escrito. E a restauração da grandeza da Macedônia estava escrita, e não apenas no Livro de Daniel.

O que aconteceu? — gritou Julia Meias acima do rugido do motor do Lamborghini Murciélago conversível dele.

Ela era uma jornalista ambiciosa de um jornal canadense e viera entre­vistar ele e seu pai para um artigo sobre a Macedônia. No Canadá havia uma grande comunidade de macedônios expatriados, uma fonte de apoio tanto financeiro quanto moral. E ela não era nem um pouco feia. Talvez, se as coisas se desenrolassem de maneira favorável...

Nós, do Grupo Dragoumis, patrocinamos pesquisas históricas em vários lugares do mundo — gritou ele de volta. — Afinal, a verdade não está restrita a um só lugar.

Freou para fazer uma curva e subir a colina, mas um caminhão bran­co apareceu virando a curva adiante, descendo com mais velocidade do que seria prudente para a idade de seu motor e seu tamanho. Nicolas não estava disposto a esperar, não com uma bela garota a seu lado. Deu um toque mais fundo no acelerador do Murciélago e cruzou na frente do caminhão, de modo que seu motorista freasse e desviasse, buzinando im­potente. Julia deu um gritinho e olhou com admiração para Nicolas. Ele riu, exultante. Sentia-se bem. Finalmente as coisas estavam acontecendo. A vida era assim. Nada durante um ano, dois anos, e de repente vinha tudo de uma vez.

Você estava me contando sobre Aristandro — gritou ela, e o vento fez sua saia esvoaçar sobre as coxas, obrigando-a a puxá-la para baixo de forma recatada.

Nicolas diminuiu um pouco a velocidade, para que pudessem conversar num tom de voz mais razoável.

Ele era o profeta preferido de Alexandre — disse ele. — Após a morte de Alexandre, ele teve uma visão em que a terra onde Alexandre fosse enter­rado seria inconquistável ao longo dos tempos.

E?

Um homem chamado Pérdicas, principal sucessor de Alexandre, de­sejava sepultá-lo nas Tumbas Reais de Aigai, com seu pai, Felipe. — Che­garam ao topo de uma colina, vendo as planícies férteis do norte da Grécia estendendo-se abaixo. Nicolas levou o carro ao acostamento, estacionou, saiu e apontou Aigai para ela. — As tumbas foram descobertas trinta anos atrás. São magníficas. Você deveria ir visitá-las.

Irei sim —- concordou ela. — Mas esse homem, Pérdicas obviamente não trouxe o corpo de Alexandre para casa.

Não — confirmou Nicolas. — Em vez disso, outro general macedônio, chamado Ptolomeu, levou-o para o Egito. — E sacudiu a cabeça, lamentoso. — Imagine! Se não tivesse sido por isso, a Macedônia não seria conquistada ao longo dos tempos!

Julia franziu a testa.

Você não pode estar falando sério.

Por que não?

Mas... é apenas uma profecia.

Nicolas balançou a cabeça.

Não. E um fato histórico. Veja bem. Pérdicas era o único homem com autoridade para manter o império unido. Ele tentou reaver o corpo de Alexandre das mãos de Ptolomeu, mas este se escondeu atrás do Nilo, e centenas de homens de Pérdicas morreram afogados ou atacados pelos cro­codilos ao tentarem cruzar o rio. Seus próprios oficiais ficaram tão furiosos que o assassinaram dentro de sua própria tenda. Depois disso, o império desmoronou. Os herdeiros legítimos de Alexandre foram assassinados. Era cada um por si. Mas imagine se Pérdicas tivesse tido sucesso.

Sim?

Ele passou o braço esquerdo em volta do ombro dela, puxando-a mais para seu lado, e abriu o outro braço num arco, mostrando a magnífica vista, que chegava até o brilhante Egeu azul.

—Veja isso — disse, orgulhoso.—Macedônia. Não é uma vista fantástica?

Sim — concordou ela.

Pérdicas era um homem honrado. Ele teria protegido a vida do filho de Alexandre e preservado o império. E se Alexandre IV tivesse sido um décimo do homem que seu pai tora, a profecia de Aristandro certamente se concretizaria.

Achei que você havia mencionado que o corpo de Alexandre foi leva­do para o Egito — observou Julia. — E o Egito não permaneceu exatamen­te inconquistável ao longo dos tempos, não é?

Nicolas riu. Ele gostava de garotas bonitas e espirituosas.

Não — reconheceu ele. — Mas veja o que aconteceu. Os ptolomeus se mantiveram no trono enquanto respeitaram os restos mortais de Alexan­dre. Mas então Ptolomeu IX derreteu o caixão de ouro dele para pagar o exército, e isto foi o fim deles. E quem sucedeu aos ptolomeus?

Quem?

Os césares. Eles reverenciavam Alexandre, sabia? Júlio César chorava por ter ficado tão aquém de Alexandre. Augusto, Sétimo Severo, Caracala e Adria­no, todos eles fizeram peregrinações para realizar sacrifícios a seu mausoléu. Ele era o herói deles. Mas então houve revoltas, a tumba de Alexandre foi profanada c os romanos perderam o Egito para os árabes. A mensagem está clara, não?

Está? — Julia franziu a testa.

Honre Alexandre e prospere. Ignore-o e pereça. E na Macedônia, mais do que em qualquer lugar da Terra, Alexandre certamente teria sido honrado. Daí se conclui que jamais teríamos sido conquistados.

Julia afastou-se dele, um tanto desconcertada. Olhou seu relógio e esbo­çou um sorriso amarelo.

Talvez devêssemos seguir caminho — disse. — Seu pai está esperan­do por mim.

Claro — concordou Nicolas. — Não devemos deixar meu pai espe­rando. — Voltou para o conversível, religou o motor e desfrutou seu ronco profundo. Da maneira como ele dirigia, em apenas 15 minutos estariam na casa de seu pai.

Uau! — murmurou Julia quando ela apareceu adiante.

É uma recriação do palácio real de Aigai — disse Nicolas. — Só que maior. Atualmente era raro seu pai sair de casa. Fora ficando cada vez mais recluso com o passar dos anos e deixara a maior parte de seu império nas mãos de administradores profissionais para que ele pudesse se concentrar em sua verdadeira ambição.

Costis, chefe da segurança de seu pai, saiu para recebê-los.

Esta é Julia — apresentou Nicolas. — Ela veio entrevistar meu pai. Mas, primeiro, preciso de alguns minutos com ele.

Ele está na adega — informou Costis. Nicolas voltou-se para Julia.

Talvez depois eu possa levar você de volta para a cidade.

Obrigada — disse cautelosa —, mas acho que posso pegar um táxi. Ele riu outra vez, achando graça do desconforto dela. Julia tinha pareci­do perturbada desde que ele lhe falara sobre a profecia de Aristandro. Esses ocidentais! Ficavam espantados diante da mera sugestão de algo sagrado. Era bom que ela não tivesse estado na igreja na noite anterior, que ele não lhe tivesse falado sobre o Livro de Daniel. Ou seja, a profecia comple­ta, incluindo a descrição do homem predestinado a devolver a liberdade à Macedônia.

A única maneira de chegar à adega era por um elevador protegido. Nico­las estava entrando nele. As portas de aço se fecharam com suavidade. Ele colocou o olho num scanner de retina, e então o elevador começou a descer devagar, vibrando ligeiramente ao parar. Um guarda armado estava a postos na adega na qual seu pai guardava todos os seus maiores tesouros. Nicolas digitou seu código. A porta de aço abriu-se. Ele saiu, pensando ainda no Livro de Daniel, sobretudo nos versículos que 2.500 anos antes haviam prometido um redentor para o seu povo.

 

Mas, no fim do reinado deles, quando os transgressores tiverem chegado ao cúmulo, levantar-se-á um rei, feroz de semblante e que entende de enigmas.

Grande será o seu poder, mas não de si mesmo; e destruirá terrivel­mente, e prosperará, e fará...

Pela sua sutileza fará prosperar o engano na sua mão; no seu coração se engrandecerá, e destruirá...

 

Seu pai, como que por uma espécie de telepatia, já estava em pé em frente ao armário com porta de vidro no qual estavam expostos alguns exemplares dos papiros de Mallawi, suas mãos repousando, tal qual as de um padre, sobre uma moldura de nogueira, olhando para as folhas amareladas e as letras negras desbotadas. Um sentimento de profundo amor, admiração e orgulho encheu o peito de Nicolas quando o contemplou. De fato, um rei feroz de semblante!

Dragoumis levantou o rosto e fitou o filho com seus olhos negros inexpressivos.

Sim? — perguntou.

Eles encontraram Aquilo — revelou Nicolas, com uma empolgação difícil de conter. — Já começou.

 

Um caminhão azul deu uma fechada no carro de Elena enquanto ela retor­nava para o delta, forçando-a a pisar fundo no freio. Ela espremeu a buzina até o caminhão voltar para a outra pista. Quando fez a ultrapassagem, abai­xou o vidro da janela, agitou o punho e gritou para o motorista perplexo al­gumas frases malcriadas em árabe, para que ele percebesse a sua indignação. Ela estava desconcertada por causa da conversa com Nicolas. Isso e aquele maldito francês presunçoso. Os dois haviam atiçado lembranças de Pavlos, seu falecido marido, e Elena detestava isso, porque, toda vez que acontecia, ela voltava a sofrer a recordação dolorosa da perda. Ouvira falar de Pavlos muito tempo antes de conhecê-lo pessoalmente; sentira-se igualmente en­furecida e interessada pelo tom, a agressividade e a sagacidade de seus ar­tigos ridicularizando o nacionalismo macedônio. Ficara também intrigada pelas fofocas sobre mulheres embriagadas que se ofereciam para ele. Ela era uma mulher orgulhosa e independente e, como tantas mulheres semelhan­tes, desejava apaixonar-se perdidamente. Eles finalmente se conheceram em lados opostos de um programa de debates pelo rádio em Tessalônica. Logo de cara ele a surpreendera. Ela havia esperado alguém sarcástico, agressivo, bem-vestido e convincente. Pavlos não fora nada daquilo. Embora ele não fosse exatamente arrogante, Elena jamais conhecera um homem tão seguro de si. Desde o primeiro aperto de mão ela percebera que estava encrencada.

Ele tinha um jeito perturbador de olhar para ela, tanto naquele momento quanto depois, como se ela estivesse inteiramente exposta, como se ele enten­desse não apenas tudo o que ela dizia, mas também o que ficava nas entre­linhas. Observava-a como se ela fosse um filme que ele já havia visto antes.

Ele dominara o debate inteiro, neutralizando os melhores argumentos dela com humor e atacando incansavelmente seus pontos fracos. Descon­certada, Elena tentou pressioná-lo citando Keramopoullos sobre o estilo idiossincrático da cerâmica macedônia, antes de se lembrar de que, na ver­dade, a referência era de Kallipolitis. Ela olhara para ele temerosa, e o vira sorrir. Por um instante terrível, sua reputação acadêmica estivera à mercê dele. Esse instante mudara a vida dela.

Nos dois dias que se seguiram, Elena ficara vagando por seu museu num ir e vir constante, sala por sala, abraçando-se como se fosse uma viciada em drogas. Sempre que tentava trabalhar, logo em seguida uma ansiedade a dominava, como se fosse fome. Jamais precisara telefonar para qualquer ho­mem, mas ligara para Pavlos. Temendo que ele fosse debochar dela, Elena se apresentara bruscamente e observara que ele havia levantado questões inte­ressantes no debate. Ele agradecera. Elena então perdera a coragem. Pressio­nara o telefone contra o rosto, desejando dizer algo inteligente ou ofensivo, mas sem saber o quê. Quando ele a convidara para jantar, ela quase chorou.

Como foi o encontro? Foi maravilhoso. Ela não se lembrava de muitos detalhes, como se a intensidade de seu amor tivesse sido simplesmente mais do que sua memória podia registrar. Mas ela se lembrava da felicidade que sentira. Até mesmo agora, algumas vezes, podia experimentar um momento intenso de alegria, ao ver algum sósia dele na rua ou sentir o cheiro do cigar­ro que ele fumava nas mãos de algum desconhecido, ou receber um olhar masculino como o de Pavlos, como o daquele francês arrogante, certo de que poderia levá-la para a cama quando bem quisesse.

A morte de Pavlos deixara Elena devastada. É claro. Ela ainda não se recuperara. Como poderia? O sofrimento da perda não fora como ela havia imaginado, assim como acontecera com o amor. Tinha pensado que a dor da perda seria como uma gigantesca onda do mar que a elevaria até um pico de infelicidade para depois depositá-la de volta em algum lugar próximo de onde estivera antes. Mas não havia sido assim. O sofrimento modificou por completo sua estrutura, tal como o carbono modifica o ferro-gusa derretido.

Sim, pensou, a metáfora era perfeita: o sofrimento da perda a transfor­mara em aço.

 

A mulher enfiou o envelope pardo pela janela traseira do Saab de Nessim quando ele parou para comprar um maço de cigarros de um ambulante. Ele arrancou levantando uma nuvem de poeira e voltou para o estacionamento subterrâneo de seu hotel, então pegou o envelope e o levou consigo para lê-lo no quarto. Era fino demais para o que ele esperaria de uma ficha pessoal, mas, por outro lado, sequer imaginara que Knox tivesse uma. Folheou os papéis, quase ilegíveis após tantas fotocópias, com fotografias quase totalmente pretas.

Logo ficou claro que o Serviço de Segurança não se interessara nem um pouco em Knox. Ficaram interessados num outro homem, um tal de Richard Mitchell, com quem Knox trabalhara durante muitos anos. Mitchell, ao que parecia, havia falado demais; acusara o chefe do CSA, um homem com excelentes relações, de vender papiros no mercado negro. Uma atitude impensada que resultara precisamente naquilo que qualquer um poderia esperar: ele fora isolado da comunidade de egiptólogos e jamais recebera novas permissões para fazer escavações.

Aquilo pelo menos explicava o que Knox estivera fazendo em Sharm: matando o tempo até que a poeira assentasse, sonhando com um tesouro no fundo do mar. Mas isso não ajudava muito a localizá-lo. A última folha da ficha, contudo, era outra história. Tinha uma lista de todos os amigos e conhecidos de Knox e informava seus nomes e endereços também.

 

Nur recebeu Mohammed na porta. Parecia exausta. Isso significava que Layla tivera um dia ruim.

Você está linda — disse ele, beijando o rosto dela e entregando-lhe um pequeno buquê de flores.

— Como você conseguiu comprar isso? — protestou, chorosa.

— É um presente — afirmou ele gentilmente. — Foi Sharif quem man­dou para você. — Olhou para o corredor atrás dela, para o quarto de Layla. — Ela está acordada?

Nur fez que sim.

Mas cansada.

Não vou demorar.

Bateu levemente à porta da filha, abriu e entrou. Ela sorriu ao vê-lo. Ele se ajoelhou ao lado de sua cama, enfiou a mão no bolso e tirou de lá uma rainha negra que ele entalhara e envernizara. Gostava de trabalhar a madeira. Nos raros momentos de calmaria na obra ele costumava vasculhar as caçambas de entulho à procura de pedaços de madeira que ele pudesse atacar com sua faquinha. Era uma boa terapia. Se ele não podia fazer nada pela saúde de sua filha, ao menos podia criar algo que a deixasse feliz.

Ela abriu os olhos, maravilhada. Pegou a peça de mogno envernizada, lambeu-a com a ponta da língua e apertou-a contra o peito como se fosse uma boneca. Por alguma razão, Layla rejeitara as bonecas desde que ficara sabendo de sua doença. Nem os doces faziam sucesso com ela. Era como se sua vida tivesse ficado séria demais para essas distrações infantis.

Você vai ler para mim hoje à noite? — perguntou ela.

Claro.

Ela se aninhou na cama, aparentemente satisfeita. Eles já haviam entra­do em contato com todas as pessoas que conheciam e implorado para que fizessem os exames. Aquele esforço lhe trouxera conforto, fazendo-o sentir que estava contribuindo. Mas agora ele estava mais uma vez dependendo de outros. Agora estava esperando. E isso, esperar, era a pior coisa do mundo para um pai.

Sentia-se profundamente infeliz quando saiu do quarto da filha. Nur mordeu o lábio, mas não pôde conter as lágrimas. Tinha passado a vida chorando, secando de dentro para fora. Mohammed tomou-a nos braços e deu-lhe um abraço apertado para confortá-la. Às vezes, ele se sentia tão pró­ximo do desespero que quase desejava que o pior acontecesse, só para que tudo acabasse. Sua ótima carreira; suas lindas mulher e filha. Tudo aquilo que um dia parecera tão perfeito. Ele murmurou, hesitante:

Será que ela está boa o bastante para sair?

Sair? — Havia uma nota de histeria na voz de Nur. — Para onde?

Para a obra.

Nur o empurrou.

Você enlouqueceu? — gritou.

Mohammed a abraçou de novo.

Escute: esse arqueólogo Ibrahim de quem lhe falei, o da Mercedes, é quem está pagando os nossos exames. Ele tem dinheiro, tem influência. Ele vive num mundo diferente do nosso. Layla precisa de todos os amigos que puder conseguir naquele mundo.

Ele pode ajudar?

Mohammed hesitou. Nur tinha o hábito de puni-lo pelas promessas que ele fazia para acalmá-la nos momentos difíceis.

Quem sabe? — murmurou. — Mas ele é um homem bom, um ho­mem gentil. Se ele conhecer Layla pessoalmente, quem sabe o que Alá o levaria a fazer?

 

— Olhe só o que eu trouxe! — disse Augustin alegremente, mostrando dois sacos plásticos. — Baguetes de falafel e cerveja, que tal? Como nos velhos tempos.

Ótimo.

Augustin franziu a testa.

— Você não me parece muito feliz.

— Um pouco de saco cheio — admitiu Knox.

Um dia. Será que você não consegue sobreviver nem um dia?

São essas suas malditas histórias de Tintim — resmungou Knox en­quanto ajudava o amigo a desempacotar a comida. — Será que você não pode me arranjar nada decente para ler?

Como o quê?

—Algo sobre arqueologia. Que tal os relatórios sobre suas escavações no porto? Adoraria saber o que você tem descoberto.

Claro — concordou Augustin. — Sem problema. Eu os trarei ama­nhã à noite. Mas se você está ansioso...

Sim?

Esse sítio que eu fui visitar hoje, uma necrópole. Ela se aprofunda até o lençol freático e daí para baixo. Mas Ibrahim não quer bombear. Quer que eu explore. Eu ia levar Sophia, mas se você está realmente ficando maluco...

Um pequeno tremor de medo e expectativa percorreu Knox.

Sério?

Por que não? Ela é mais bonita que você, sim, mas não é tão boa mergulhadora. Você sabe como espaços fechados podem ser perigosos.

Como eu vou chegar ao sítio?

Na garupa da minha moto — disse Augustin, entregando-lhe uma garrafa gelada de Stella. — Você pode usar meu capacete. Alguém devia usá-lo, afinal. Ninguém vai nos parar, prometo. A polícia da cidade é um desastre. Estou aqui há dez anos e jamais fui parado. E se formos, tant pis! Ainda tenho meus documentos da minha última ida a Cyrene. Aqueles líbios desgraçados não me deixaram entrar com meu nome ver­dadeiro! Eu! Só por causa de uma carta que escrevi sobre aquele maluco do Kadafi. Tive que ir com o nome de Omar Malik, um caminhoneiro de Mersa Matruh, acredita? Se eu posso ser tomado por um caminhoneiro de Mersa Matruh, você também pode.

Knox sacudiu a cabeça. Ele não acreditava que estava sequer pensando no assunto. Mas Augustin tinha uma admirável falta de respeito pelas re­gras normais de comportamento, e sua atitude era contagiosa.

E quando estivermos no sítio?

Sem problemas. Deixe que só eu fale. Não que vá ser preciso falar muito. Lembre que na parte de cima há um canteiro de obras em atividade. Na parte de baixo há sabe Deus quantas câmaras, com cem loculi em cada uma, todos entulhados de ossos e objetos que Mansoor deseja colocar no museu dentro de duas semanas. É um caos. Escavadores vindos do museu, da universidade, do litoral. Apenas um segurança na entrada da escadaria, mas tudo o que se precisa para passar por ele é um crachá padrão do CSA, e eu mesmo posso arranjar um para você. Com um nome bem esquecível. John Smith. Charles Russel. Mark Edwards. Sim! Perfeito. Mark Edwards. Você tem mesmo cara de Mark Edwards.

Knox balançou a cabeça, inseguro.

Você sabe o que o Cairo pensa de mim. Se eu for descoberto, pode sobrar para você.

O Cairo que se foda —- reclamou Augustin. — Fico mal só em pen­sar no que aquele babaca do Yusuf fez com você e o Richard. Acredite, ajudar você será um prazer. Além do mais, como vão descobrir? Eu não vou falar nada. Você vai?

Alguém pode me reconhecer.

Não creio. Ibrahim talvez, mas ele é um bom homem e não faria nada. De qualquer modo, ele não visita mais os sítios, pode acabar sujando o terno. Além dele, não há mais ninguém que você conheça. E todos são amigos, exceto uma linda grega mal-humorada chamada Elena e sua...

Elena? — Knox coçou a testa. — Elena Koloktronis?

Augustin fez uma careta.

Você a conhece?

Não — grunhiu Knox —, foi somente um palpite.

Como você sabe dela?

Lembra-se do que aconteceu a meus pais e a minha irmã?

Claro. Por quê? Ela teve alguma coisa a ver com aquilo?

Era o marido dela quem estava dirigindo.

Ah. E ele...? Ele também...?

Sim.

Sinto muito — disse Augustin. — Sinto por você e por ela. Mas isso não importa. Ela não estará lá amanhã.

Tem certeza?

Ela está dirigindo uma escavação no delta. Só veio hoje para trazer a fotógrafa francesa dela. Gaille Dumas, ou algo assim.

Uma fotógrafa? — Knox sacudiu a cabeça. — Não.

Então está tudo certo — disse Augustin. Abriu um sorriso e levantou sua garrafa de cerveja para fazer um brinde. — O que pode dar errado?

 

Augustin estava certo quanto a entrar no sítio na manhã seguinte. Foi tran­qüilo. Acertou também quanto ao entusiasmo de Knox em participar outra vez de uma boa escavação. Já fazia muito tempo. Tempo demais. Só estar no sítio era uma felicidade para ele. O barulho, os cheiros, as provocações. Lá em cima, um gerador roncava produzindo energia para um elevador que retirava um fluxo ininterrupto de cestos feitos de pneus velhos de caminhão, carregados de entulho para ser separado à luz do dia e depois levado para o museu ou um aterro sanitário; lâmpadas e ventiladores estavam espalhados por toda a necrópole com quilômetros de fios brancos; e escavadores com máscaras de proteção e luvas brancas estavam ajoelhados nas tumbas aper­tadas removendo com cuidado objetos e restos humanos.

Augustin tinha levado para baixo todo o equipamento de mergulho an­tes de pegar Knox. Foram direto para o lençol freático, vestiram as rou­pas de mergulho e verificaram atentamente os equipamentos um do outro. Pessoas que haviam mergulhado tantas vezes quanto eles às vezes faziam uma inspeção superficial dos itens de segurança. Mas num labirinto fecha­do como aquele não se podia simplesmente largar o cinto de contrapeso e voltar para a superfície se algo desse errado. Não havia superfície.

Augustin segurava um carretel com corda de náilon, inspirado em Teseu. O problema é que não havia onde amarrar a ponta da corda.

— Fique aqui — falou, e desapareceu por instantes para voltar trazendo um cesto da escavação cheio de entulho. Amarrou a corda nele e deu alguns puxões. Ambos se amarraram com uma linha de segurança, ligaram suas lanternas de mergulho e entraram na água, e Augustin foi desenrolando a corda à medida que avançavam. Nenhum dos dois usava pés de pato. Haviam se preparado com contrapesos suficientes para poderem andar. Le­vantavam mais sedimentos assim, porém era mais fácil manter o sentido de orientação.

Assim que mergulharam encontraram a entrada para uma câmara, com a maioria dos loculi ainda selados. Em um deles a lanterna de Augustin mostrou uma pintura perturbadora de um homem com olhos grandes encarando-os. As aberturas dos loculi vizinhos se haviam decomposto. Algo metálico reluziu sob as lanternas. Augustin puxou cautelosamente uma lamparina funerária e a colocou em sua bolsa.

Visitaram mais três câmaras. O corredor fazia várias curvas. A corda ficou presa. Augustin deu um puxão e ela se desprendeu. A água foi ficando cada vez mais turva. Algumas vezes ficava tão remexida que eles quase não enxergavam um ao outro. Knox verificou seu suprimento de ar. Cento e trinta bars. Eles tinham concordado em mergulhar em três lances; o pri­meiro indo, o segundo voltando e um terceiro de segurança. Ele mostrou o marcador a Augustin, que apontou para o lugar de onde tinham vindo. O corda estava meio frouxa. Ele enrolou o carretei. E continuou enrolando. Então se virou para Knox e o tamanho do branco de seus olhos dentro da máscara demonstrou seu alarme. Knox franziu a testa e abriu as mãos. Au­gustin segurava a ponta solta da corda alaranjada que estivera amarrada nas alças do cesto da escavação, mas que, de algum modo, se soltara.

 

Crianças deixavam Ibrahim pouco à vontade. Sendo filho único, ele não ti­nha sobrinhas ou sobrinhos, e tampouco havia perspectiva de se tornar pai. Mas Mohammed havia se virado do avesso para abrir espaço para ele e sua equipe nessa escavação. Ibrahim não poderia negar à filha dele um passeio pelo sítio, embora achasse uma loucura trazer uma criança doente para um lugar poeirento e mórbido como aquele.

Um dos homens de Mohammed veio procurá-los numa das câmaras.

Telefone para o senhor — resmungou. — É do escritório central.

Mohammed fez uma cara de desagrado.

Desculpe — disse para Ibrahim. — Tenho que ir atender. Mas volto logo. O senhor poderia segurar Layla um minuto?

— Claro. — Ibrahim se preparou para receber de Mohammed o em­brulho de cobertores e faixas, mas a pobre menina era leve como uma pluma. Ele sorriu nervosamente para ela. Layla também sorriu. Parecia estar morrendo de medo dele, muito ciente de que ele devia considerá-la um estorvo.

Ela perguntou:

Esse homem não era egípcio, então? — As feridas em sua boca a fa­ziam se retrair e estalar a língua. Ibrahim se retraía também.

Isso mesmo — disse Ibrahim. — Ele era grego, do norte, do ou­tro lado do mar. Seu pai é um homem muito inteligente. Sabia que esse homem era grego porque encontrou uma moeda chamada óbolo na boca dele. Os gregos acreditavam que os espíritos precisavam dela para pagar um barqueiro chamado Caronte que os levava pelo rio Estige até o ou­tro mundo.

O outro mundo? — perguntou Layla. Seus olhos estavam arregala­dos de espanto, como se a pele à volta deles tivesse sido puxada. Ibrahim engoliu em seco e desviou a vista. Por um momento sentiu-se à beira das lágrimas. Uma menina tão nova, com um destino tão severo.

Estava começando a ficar com os braços cansados quando afinal Mo­hammed voltou. Ele sorriu para Layla com tanta afeição que Ibrahim se sentiu perdido e envergonhado, como se não tivesse direito a seu lu­gar no mundo, ao ar que respirava e ao espaço que ocupava, à sua vida tranqüila.

Deu um passo para trás e refugiou-se na sombra.

Aqueles exames com que pudemos lhes ajudar — murmurou para Mohammed. — Onde eu posso fazê-los?

 

Knox e Augustin se olharam preocupados, mas eram mergulhadores expe­rientes e não entraram em pânico. Verificaram quanto lhes restava de ar; cada um ainda tinha vinte minutos, 25 se não o desperdiçassem. Augustin apontou para a frente. Knox concordou com a cabeça. Precisavam descobrir como sair dali, ou pelo menos um bolsão de ar onde pudessem esperar até que o sedimento voltasse a baixar e eles pudessem enxergar de novo.

Chegaram a um corredor sem saída. Knox aproximou o mostrador da máscara para verificar a pressão do ar, que diminuía continuamente. Mantinham as mãos nas paredes para guiar-se na turvação cegante. Em mergulhos noturnos em Sharm, seus colegas haviam falado muito sobre visibilidade zero. Com todo o lodo que levantaram, aquilo ali era indescritivelmente pior. Knox quase não podia ler o mostrador, mesmo que o segurasse junto à máscara.

Encontraram outro corredor sem saída. Talvez fosse o mesmo. Poderiam muito bem estar andando em círculos. Quinze bars. Começaram a nadar, agora já tendo dado várias voltas e perdido todo senso de direção, sentindo o medo crescer, a respiração acelerada sugando rapidamente o pouco que lhes restava de seu precioso ar, apenas cinco bars, já na zona vermelha, e então Augustin agarra o ombro de Knox, empurra o rosto contra o dele, arranca o próprio regulador, aponta desesperadamente para a própria boca, e Knox lhe passa suas reservas que também já chegavam ao fim e, chegando a outra bifurcação, Au­gustin aponta para a direita, e Knox, certo de que eles já tinham ido pela direita da última vez, puxa-o para a esquerda, e eles brigam pela decisão, e Augustin insiste em sua opção pela direita, e Knox resolve confiar nele, e ambos nadam o mais rápido possível, se batendo e se chutando, arranhando as paredes e o teto, e Knox sufoca-se quando seu tanque fica vazio e sente a pressão em seus pulmões, e encontra outra parede, e Augustin puxa-o com violência degraus acima, e irrompem no ar livre, e cospem o regulador, e respiram agradecidos, os dois homens deitados lado a lado, com os peitos arfando como foles frenéticos.

Augustin virou a cabeça para o lado para olhar para Knox com um bri­lho nos olhos, como se estivesse pensando em alguma coisa engraçada mas ainda não conseguisse falar.

Há mergulhadores idosos — disse enfim, ofegante — e há mergulha­dores audaciosos.

A gargalhada doeu nos pulmões de Knox.

Eu acho que você devia arranjar uma bomba, cara.

Acho que você tem razão — concordou Augustin. — E não vamos falar a ninguém sobre isso, certo? Pelo menos não nos próximos dois anos. Eu supostamente sou um profissional.

Boca fechada — concordou Knox. Levantou-se com esforço, desafivelou o cinto e o colete e soltou-os junto com o tanque vazio no chão de pedra.

Veja! — apontou Augustin. — O cesto desapareceu.

Knox franziu a testa. Augustin estava certo. Aliviado por ter saído da água com vida, esquecera o que havia ocasionado o problema.

Que diabos! — Acocorou-se onde o cesto estivera. Ele havia achado que o nó de Augustin se havia soltado sozinho. — Você não acha que isso pode ter sido obra de Hassan, acha?

O rosto de Augustin exibiu uma expressão cheia de pesar.

—Não — disse ele. — Temo que tenha sido algo mais simples do que isso.

O quê?

Era um cesto cheio de entulho — observou Augustin. — E qual é a prioridade número um de Mansoor?

Knox fez uma careta e fechou os olhos.

Você quer dizer que é evacuar todo o entulho do sítio?

Este é nosso dia de sorte, meu amigo.

Ouviram passos leves vindo pelo corredor. Knox olhou para cima e viu uma jovem morena, magra, esguia e atraente surgir das sombras com uma câmera digital pendurada no pescoço.

Seu dia de sorte? — perguntou ela. — Encontraram alguma coisa?

Augustin levantou-se num salto e se aproximou, colocando-se entre ela e Knox.

Veja! — exclamou, tirando a lamparina funerária e apontando para a água. — Câmaras e mais câmaras de loculi selados!

Fantástico. — Seus olhos deslizaram de Augustin para Knox. — Meu nome é Gaille — disse ela.

Ele não teve opção a não ser levantar-se.

Mark — respondeu.

Muito prazer, Mark.

Igualmente.

Como vão as fotografias? — perguntou Augustin, tocando o om­bro dela.

Bem — explicou Gaille. — Mansoor trouxe toda a iluminação do museu para que eu possa fotografar a antecâmara, mas as lâmpadas esquen­tam demais se ficarem acesas durante muito tempo. O revestimento, sabem. Não queremos que ele rache.

Claro que não. — Colocou o braço ao redor de seu ombro e tentou desviá-la de Knox. — Escute, eu soube que você está sozinha na cidade, cer­to? Talvez possamos jantar juntos? Eu posso lhe mostrar a velha Alexandria.

Os olhos dela se iluminaram.

Isso seria ótimo, sim. — Ela pareceu tão entusiasmada que corou e sentiu-se obrigada a se explicar. — É que em meu hotel não tem restaurante e eles não deixam que os hóspedes levem comida para os quartos, e eu real­mente odeio comer sozinha em restaurantes. Sinto-me tão exposta, sabe? Como se todos estivessem me olhando.

E por que não olhariam? — perguntou Augustin, galante. — Uma moça bonita como você! Em que hotel você está?

No Vicomte.

Aquele lugar terrível! Por quê?

Ela deu de ombros, encabulada.

Pedi ao motorista do táxi que me indicasse um hotel central e barato.

E ele levou seu pedido ao pé da letra. — Augustin riu. — Então nos vemos à noite. Às 8h, certo? Eu passo lá para apanhá-la.

Ótimo. — Ela olhou dele para Knox, que estava em pé nas sombras. — Você vem também, não? — perguntou.

Ele sacudiu a cabeça.

Acho que não vou poder.

Ah. — Ela tocou os quadris e fez uma cara meio desapontada. — Bem, então até mais tarde. — E retirou-se andando pelo corredor com um passo ligeiramente forçado, como se tivesse a impressão, bastante justifica­da, de que estava sendo observada.

 

De volta ao apartamento de Augustin, Knox tentava passar o tempo sentado no sofá. Não era fácil. Tintim já era ruim na primeira leitura. Ficou andan­do pela sala e saiu à sacada. Parecia faltar uma eternidade para o pôr do sol. E ainda nem sinal de Augustin. Às 7h30 o telefone tocou. Knox não ousou atender e deixou que a secretaria eletrônica recebesse a mensagem.

— Sou eu — gritou Augustin, o som de música alta batendo ao fundo, em meio a gargalhadas e tilintar de copos e garrafas. — Atenda esse telefo­ne, por favor?

Knox obedeceu.

Onde diabos você está? Disse que estaria de volta horas atrás.

Ouça, meu amigo — respondeu Augustin. — A coisa está complica­da no trabalho.

— Trabalho? — replicou Knox secamente.

Preciso que você ligue para aquela fotógrafa, Gaille Dumas. Aquela do Vicomte. Explique para ela que estou no meio de uma crise. Apagando incêndios.

Ela está sozinha na cidade — protestou Knox. — Você não pode dar um bolo nela.

Exatamente — concordou Augustin. — É por isso que eu preciso que você o faça por mim. Afinal, se ela ouvir esta barulheira aqui, vai duvidar que eu esteja dizendo toda a verdade.

Por que você não a chama para encontrá-lo?

Estou com outros planos. Sabe aquela Beatrice sobre a qual lhe falei?

Pelo amor de Deus! Ligue você mesmo para ela.

Estou lhe pedindo como amigo, Daniel. Como foi mesmo que você disse? Sim: estou com problemas. Preciso de ajuda.

Certo — suspirou Knox. — Deixe comigo.

Obrigado.

E boa sorte com a sua crise — respondeu Knox com um tom ferino.

Pegou a lista telefônica, folheou procurando o hotel Yicomte. Estava com pena da garota, sentindo-se culpado no lugar de Augustin. Era purita­no em relação a coisas desse tipo. Quando se convida uma garota para sair, principalmente uma que demonstra desejar muito a companhia, é preciso aparecer. A sombra de uma longa noite se estendia diante dele. Ninguém com quem conversar, nada para ler, nada para ver na televisão. Dane-se, ele pensou. Danem-se Hassan e seus capangas. Entrou no quarto de Augustin para pegar uma camisa limpa e um boné. Deixou um bilhete junto ao tele­fone, desceu para a rua e chamou um táxi.

 

Naquela noite, Ibrahim não conseguiu relaxar em casa. Seu braço coçava no lugar onde a enfermeira tinha colhido sangue para o exame de compati­bilidade. Ele continuava pensando nos olhos castanhos arregalados daquela pobre menina. Continuava pensando em sua situação e sua coragem. En­fim, não pôde mais permanecer sentado ali. Levantou-se, foi até o escritó­rio e tirou um livro de uma estante, algo que seu pai lera para ele quando Ibrahim era criança. Saiu de casa e pegou o carro.

O apartamento de Mohammed ficava no nono andar. Os elevadores es­tavam enguiçados. Quando Ibrahim finalmente conseguiu chegar lá em cima, precisou apoiar as mãos nos joelhos por um minuto e recuperar o fôle­go. Que esforço devia ser subir aquilo carregando uma criança inválida! Isso levou-o a pensar em sua infância e educação privilegiadas, tudo facilitado pela riqueza do pai. Ele ouviu, vindo de dentro, a discussão contida de um casal que já havia suportado tensões demais, se esforçando para não deixar que a filha amada os escutasse. De repente, sentiu-se envergonhado; um intruso. Estava a ponto de ir embora quando a porta se abriu inesperada­mente e saiu uma mulher com um lenço sobre a cabeça e vestida de maneira formal, como se estivesse indo visitar alguém. Ela parecia tão surpresa em vê-lo quanto ele a ela.

Quem é você? — perguntou. — O que está fazendo aqui?

Desculpe — disse, sem graça. — Trouxe uma coisa para Mohammed.

O que é?

Só um livro. — Tirou-o da bolsa. — Para a filha dele. Sua filha.

A mulher olhou perplexa para Ibrahim.

Isto é para Layla?

Sim.

Mas... quem é você?

Meu nome é Ibrahim.

O arqueólogo?

Sim.

Ela mordeu o lábio inferior, pensativa. Então voltou a entrar no apar­tamento.

Mohammed! — disse. — Venha cá. Seu amigo arqueólogo veio visitá-lo.

Mohammed saiu de um quarto lateral, abaixando a cabeça para passar sob a verga da porta.

Pois não? — perguntou ansioso. — Algum problema lá no sítio?

Não — respondeu Ibrahim, deixando o livro um pouco mais à mos­tra. — É que... Meu pai costumava ler este livro para mim. Achei que talvez você e sua filha... —Abriu o livro e folheou algumas páginas, mos­trando as lindas ilustrações no miolo, imagens sobre a história e o mito de Alexandre.

Mas é lindo — impressionou-se Mohammed. Olhou para sua mulher, que hesitou e então balançou a cabeça em concordância. — Layla passou o resto da tarde falando sobre o senhor — continuou, segurando Ibrahim pelo cotovelo. — Tenho certeza que ela ficará muito mais feliz se o senhor mesmo lhe entregar o presente.

 

Alexandria era normalmente uma das cidades mais acolhedoras do Egito, mas as tensões entre o Ocidente e o mundo árabe chegaram lá também, e um jovem egípcio acompanhado de sua mulher dirigiu um olhar desafia­dor a Knox, que pagava o táxi em frente ao hotel de Gaille. Em condições normais ele esqueceria o assunto; com Hassan na sua cola aquilo perturbou sua mente. Todas aquelas pessoas. Como saber quem era perigoso? As sorri­dentes ou as carrancudas?

O hotel de Gaille era no sexto andar. O velho elevador rangia e sacudia enquanto passava por andares escuros. Ele abriu a porta pantográfica e saiu. O recepcionista careca de meia-idade conversava com um jovem barbudo. Ambos olharam para Knox sem sequer tentar esconder seu desdém.

Pois não? — perguntou o recepcionista.

Gaille Dumas, por favor — falou Knox.

A francesa?

Isso mesmo.

Qual é o seu nome, senhor?

Knox teve que pensar um segundo para lembrar o nome que Augustin lhe dera.

Mark — falou. — Mark Edwards.

Sente-se, por favor.

O recepcionista voltou-se para seu amigo e continuou a conversa. Knox sentou-se numa poltrona azul com o estofamento branco saindo do forro desgastado. Passou-se um minuto. O recepcionista não fez qualquer mo­vimento para chamar Gaille. Outro minuto passou. Os dois homens se­guiam conversando, sem olhar na direção dele, desprezando-o claramente. Knox não tinha nenhum desejo de chamar atenção, mas há momentos em que não fazer nada chamava mais atenção do que fazer alguma coisa, então ele se levantou, sacudiu de sua calça os fiapos do estofamento e foi em dire­ção à recepção.

Chame-a para mim — pediu.

Num minuto.

Colocou a mão no balcão.

Chame-a — disse. — Agora.

O recepcionista fez uma cara de má vontade, mas pegou o fone e dis­cou o número do quarto. Um toque abafado de telefone soou no final do corredor.

A senhora tem um visitante — disse ele. Colocou o fone de volta no gancho e retomou a conversa com o amigo sem dirigir uma palavra a Knox.

Outro minuto se passou. Uma porta abriu e se fechou. Passos apressados soaram nas tábuas do assoalho. Gaille surgiu usando tênis, calças jeans des­botadas e um blusão preto.

Mark — levantou as sobrancelhas —, o que você está fazendo aqui?

Augustin não pôde vir, infelizmente. Problemas no trabalho. Espero que você não se incomode com uma substituição de última hora.

De modo algum. — Ela olhou para baixo e fez uma expressão de desgosto ao examinar o jeito desleixado com que estava vestida. — Estamos indo a algum lugar chique?

Você está ótima — Knox a tranqüilizou. — Está linda.

Obrigada. — Ela sorriu tímida. — Então vamos? Estou morrendo de fome.

Ele a conduziu até o elevador. O recepcionista e seu amigo barbudo os encararam quando Knox fechou a porta pantográfica com um pouco mais de força do que o necessário. Dentro era escuro e apertado; apenas duas pes­soas cabiam ali de forma confortável. Seus ombros se encostavam enquanto o elevador rangia descendo devagar os seis andares.

Simpático, aquele homem — murmurou ele quando já não podiam mais ser ouvidos.

O cara em Tinta era ainda pior, acredita? — falou Gaille. — Ele ficava me olhando, sabe, como se culpasse todas as mulheres pelos males na história do mundo. Dava vontade de perguntar por que ele trabalhava no hotel. Por que não trabalhar na Associação Cristã de Moços, ou algum outro lugar só para homens?

Knox deu uma gargalhada e abriu a porta de novo ao chegarem ao an­dar térreo.

Você gosta de frutos do mar?

Adoro.

Há um restaurante ao qual já fui muitas vezes. Não vou há algum tempo, mas acho que podíamos experimentar.

Acho ótimo. Então você conhece bem Alexandria?

Eu conhecia. — Depois de descerem os degraus do prédio, ele a conduziu para uma rua mais tranqüila, longe da agitação confusa da Sharia Nabi Daniel. Com Hassan na sua cola ele precisava ficar fora de vista. Ficava atento a tudo à sua volta, sentia-se observado, pessoas estranhando-o à primeira vista e olhando-o uma segunda vez. Na escuridão atrás deles, um homem vestindo um man­to azul-claro falava baixo e rápido ao celular, lançando olhares em sua direção.

Você está bem? — perguntou Gaille. — Algum problema?

Não — respondeu Knox. — Desculpe, eu estava um pouco distraído.

Chegaram a uma bifurcação na rua, com um minarete numa esquina, o que deu a ele a oportunidade de ocupar o nervosismo com um pouco de conversa.

A mesquita de Attarine — disse ele, apontando em sua direção. — Sabia que foi nela onde encontraram o sarcófago de Alexandre, o Grande?

Nem sabia que o tinham encontrado.

Seu patrício, Napoleão — afirmou Knox. — Quando ele mandou seu pessoal saquear os tesouros do Egito.

Sim. — Gaille sorriu. — Antes de seus ingleses canalhas os rouba­rem dele.

Meus patrícios os terem preservado para a civilização, você quer dizer. Enfim, eles encontraram um imenso sarcófago de brecha coberto de hieróglifos, que ninguém conseguiu decifrar na época, mas os nativos juravam que era de Alexandre. Ele era o ídolo de Napoleão, que decidiu também ser sepultado naquele sarcófago e mandou que o levassem para a França. Mas, então, nós ingleses o desviamos para o Museu Britânico, onde ele pode ser visto ao lado da Pedra da Rosetta.

Vou procurá-lo.

O homem continuava atrás deles à mesma distância, falando ao celular com seriedade. Knox sentiu a ansiedade crescendo. Conduziu Gaille por uma rua lateral estreita para ver se isso o afastaria deles.

E claro que — continuou ele —, quando os hieróglifos foram final­mente decifrados, viu-se que aquele não era o sarcófago de Alexandre, mas sim de Nectanebo II.

Ah.

Deu uma olhada ao redor novamente, mas a rua estava vazia.

Exatamente — disse, permitindo-se relaxar um pouco. — Os nativos venderam gato por lebre. Que vergonha! Ninguém sequer considerou que podia haver um fundo de verdade na história. Afinal de contas, certamente Ptolomeu nunca iria colocar Alexandre, o Grande, no sarcófago de um fa­raó fugitivo como Nectanebo, não é?

É, parece pouco provável.

Exato. Você sabe alguma coisa sobre Nectanebo?

Gaille deu de ombros.

Um pouquinho.

Ele foi o último faraó nascido no Egito. Derrotou os persas e enco­mendou a construção de muitos prédios novos, incluindo um templo em Saqqara, a cidade dos mortos para Mênfis, a capital do Egito naquela época.

Não sou totalmente ignorante, sabe. Eu conheço Saqqara.

Encomendou também esse sarcófago — Knox sorriu —, embora ja­mais o tenha usado. Os persas voltaram e Nectanebo teve que fugir. Assim, quando Ptolomeu tomou o Egito, vinte anos depois, e precisou guardar o corpo de Alexandre em algum lugar enquanto construía um mausoléu adequado para ele em Alexandria, tanto o templo quanto o sarcófago de Nectanebo estavam disponíveis.

Você está dizendo que ele os usou para quebrar um galho?

De repente, o homem que os estivera seguindo antes apareceu à frente deles ainda falando ao celular com uma voz baixa, porém séria. Olhou para eles e imediatamente baixou a vista. Knox guiou Gaille para uma viela late­ral, provocando nela uma expressão de estranheza. Logo ele se arrependeu da escolha. A viela era escura e deserta, e seus passos ecoavam no calça­mento, enfatizando quão sozinhos eles estavam. E ao olhar para trás, viu o homem entrando atrás deles na mesma viela.

O que houve? — perguntou Gaille. — Qual é o problema?

Nada — disse Knox, tomando-a pelo braço e apertando o passo. — Estou morrendo de fome, só isso.

Ela franziu a testa, sem se convencer, mas deu de ombros e deixou para lá.

Você estava me falando sobre o sarcófago — comentou ela.

Sim — concordou ele. Olhou em volta e ficou aliviado ao constatar que se haviam distanciado de quem os seguia. — Ptolomeu certamente precisava de um quebra-galho. Na verdade, passaram-se muitas décadas até que ele transferisse Alexandre para Alexandria. E isto poderia explicar como o sarcófago apareceu aqui. Quero dizer, você devia ver essa coisa. É mons­truoso. Mas era perfeito para proteger o corpo de Alexandre em trânsito.

Isto também faz sentido do ponto de vista egípcio — concordou Gaille. —Você sabia que eles acreditavam que Alexandre fosse filho de Nectanebo II?

Knox franziu a testa.

Você não está se referindo àquela velha história do Romance de Ale­xandre? Esse livro foi um best-seller instantâneo na Antigüidade, recheado de meias-verdades, exageros e mentiras sobre Alexandre, inclusive a histó­ria de Nectanebo II ter ido à corte macedônia, onde teria seduzido Olímpia, a esposa de Felipe, e gerado Alexandre.

Há mais do que isso. Quando Alexandre derrotou os persas em Issos, não se tornou apenas o soberano de facto do Egito. Aos olhos egípcios, isso provou que ele era o legítimo sucessor de Nectanebo. Você sabia que um dos títulos egípcios que ele recebeu foi "aquele que expulsou os estrangeiros", exatamente como Nectanebo?

Ei! — falou Knox. — Eu que pensei que você tinha dito não saber nada sobre Nectanebo?

Eu disse que sabia um pouco. — Gaille sorriu. — Na França, isso conta como um pouco. Na Inglaterra, talvez não.

Então você acha que a história do Romance de Alexandre é digna de crédito, é? — perguntou ele, levando-a para a direita ao mesmo tempo que dava mais uma olhada para trás. O homem continuava seguindo-os e pare­cia mais perto. E dois outros homens apareceram na esquina adiante. Knox preparou-se para correr. Mas os dois homens continuaram a caminhar sem prestar atenção a Knox ou ao seu perseguidor.

Bem, obviamente, ela não é verdadeira — disse Gaille. — Necta­nebo jamais chegou nem perto da Grécia. Porém, certamente acredito que essa história fez sucesso entre os egípcios. Talvez o próprio Alexandre tenha incentivado isso. Ele era incrivelmente brilhante na conquista de corações e mentes. Eu sempre pensei que esta foi uma das razões pelas quais ele foi a Siuá. Quero dizer, todos presumem que ele foi para lá porque o Oráculo de Amon era muito reverenciado pelos gregos. Mas os egípcios também o reverenciaram durante séculos. Você sabia que todos os faraós da 28a dinas­tia iam a Siuá para serem reconhecidos e que todos eles eram representados com chifres de carneiro, assim como Alexandre?

Finalmente, chegaram à Corniche. Uma onda quebrou contra as pedras, lan­çando espuma até bem além do topo do paredão e deixando o asfalto da estrada brilhando. Knox virou-se uma vez mais para ver que seu perseguidor colocara o telefone no bolso e olhava para os lados como se estivesse esperando alguém.

É mesmo? — perguntou Knox.

Gaille balançou a cabeça vigorosamente.

Os egípcios eram persistentes quanto à legitimidade de seus faraós. Alexandre sucedeu Nectanebo, portanto, em certo sentido, é claro que ele era seu filho. A história sobre Nectanebo ter dormido com a mãe dele foi apenas uma maneira conveniente de explicar isso. — Ela sorriu, embaraça­da. — Enfim. Já chega dessa conversa. Onde fica esse seu restaurante?

Logo ali adiante. — Ele olhou para trás uma última vez. Seu perseguidor estava avançando com um largo sorriso para uma mulher de cabelos pretos e duas crianças pequenas, as quais pegou nos braços, rindo alegremente enquanto as girava. Knox respirou aliviado. Era pura paranóia. Então lembrou a si mesmo que, embora dessa vez tivesse sido alarme falso, ele não podia se descuidar.

Chegaram ao restaurante, um lugar elegante à beira-mar. Gaille olhou para Knox horrorizada c depois para as próprias roupas surradas.

Mas você tinha dito que não era um lugar chique! — protestou.

Não é. E você está linda.

Ela apertou os lábios, como se soubesse que ele estava mentindo, embora ele não estivesse. Gaille tinha um jeito que ele sempre achara irresistível, transbordante de delicadeza e inteligência. Ela disse:

Só vesti essas coisas horríveis porque não queria dar ao seu amigo Augustin nenhum incentivo. Se eu soubesse que seria você...

Um sorriso se abriu no rosto de Knox.

Você está dizendo que quer me dar algum incentivo?

Não foi nada disso que eu quis dizer. — Gaille corou intensamente. — Apenas que acho que posso confiar em você.

Ah — disse Knox, meio chateado, abrindo a porta para que ela en­trasse. — Confiável. Isso é quase tão ruim quanto dizer que sou bonzinho.

Pior. — Gaille sorriu. — Muito pior.

Subiram um lance de escadas e entraram no salão de jantar.

Não peça nada que seja de água doce — aconselhou, ajudando-a a sen­tar-se de modo a poder ver o porto leste. — E um milagre que qualquer coisa possa sobreviver nos lagos daqui da região. Mas os frutos do mar estarão bons.

Está anotado.

Knox desdobrou um guardanapo ao sentar-se.

E então, como vai a fotografia?

Vai indo bem. Melhor do que eu esperava, para ser honesta. — Ela se debruçou sobre a mesa para fazer uma confidência. — Não sou fotógrafa coisa nenhuma, sabia?

Não?

Na verdade, sou papirologista. A câmera apenas me ajuda a montar fragmentos. Dá para se fazer coisas incríveis com os softwares de hoje.

Então como foi que você conseguiu esse trabalho?

Minha chefe me ofereceu como voluntária.

Ah. Elena. Muita bondade da parte dela. Então você está trabalhan­do com ela no delta?

Sim.

Em quê?

Num velho assentamento — respondeu com entusiasmo. — Encon­tramos vestígios de muros citadinos, residências e cemitérios. Tudo do Ve­lho Reinado até o início da era ptolomaica.

Uau. Que lugar é esse?

Ah. — De repente ela pareceu hesitante, como se tivesse dito o que não devia. — Ainda não temos uma identificação definitiva.

Mas vocês devem ter alguma idéia.

Eu realmente não posso falar sobre isso — disse Gaille. — Elena fez com que todos assinássemos um termo.

Ora, vamos. Não direi nada a ninguém, juro. E você mesma falou que eu era confiável.

Não posso. De verdade.

Então me dê uma pista. Só uma.

Por favor. Realmente não posso.

É claro que pode. E quer. Você sabe que quer.

Ela o encarou.

Você já ouviu a expressão "colocar a cabeça na boca do lobo"? É o mesmo que desobedecer Elena. Não se faz isso duas vezes, acredite.

Está bem — resmungou Knox. — Como você começou a trabalhar para ela? Quero dizer, trata-se de uma escavação grega, não? Você não me parece exatamente grega.

O especialista de Elena ficou doente. Ela precisava de alguém que o substituísse. Alguém deu meu nome a ela. Você sabe como é.

Sei.

Uma tarde recebi uma ligação dela. Fiquei lisonjeada. E não tinha nada que me impedisse. Além disso, é muito bom ler sobre o Egito nos livros, mas não é a mesma coisa, não é?

É verdade — concordou Knox. — Então essa é sua primeira escavação?

Ela confirmou, balançando a cabeça.

Detesto falar de mim mesma. Agora é sua vez. Você é arqueólogo submarino, certo?

Um arqueólogo que sabe mergulhar.

E também é um intelectual esnobe?

Ele deu uma risada.

Ao extremo.

Onde você estudou?

Cambridge.

Ah. — Ela fez uma careta.

Você não gosta de Cambridge? — protestou Knox. — Como pode não gostar de Cambridge?

Não é que eu não goste de Cambridge. Não gosto de uma pessoa que estudava lá.

Um arqueólogo? — Ele sorriu. — Ótimo! Quem era?

Ah, tenho certeza de que você não o conhece — concluiu ela. — Seu nome é Daniel Knox.

 

— Maravilhoso! — Augustin riu, batendo palmas, quando Knox lhe con­tou tudo mais tarde naquela noite. — Mas isso é simplesmente maravilhoso. O que você fez?

Que merda eu podia eu fazer? — resmungou Knox. — Respondi que nunca tinha ouvido falar nele e mudei de assunto.

E não tem nenhuma idéia de por que ela não gosta de você? Não transou com ela uma vez e sumiu?

Não.

Tem certeza? É isso que costuma me acontecer. Knox amarrou a cara.

Tenho.

Então o que teria sido?

Não sei. — Ele deu de ombros, desamparado. — Não tenho idéia. A menos que...

O quê?

Ah, não! — falou Knox, sentindo o rosto corar. Colocou a mão sobre a testa. — Ah, meu Deus!

O que foi?

O nome dela não é Gaille Dumas, seu idiota. É Gaille Bonnard.

Dumas, Bonnard, qual é a diferença? E afinal quem é essa tal de Gaille Bonnard?

Ela é a filha de Richard — respondeu Knox. — E isso. — E acrescen­tou, com tristeza: — Não é de se estranhar que me odeie.

 

Estava abafado no quarto de Gaille, mesmo com as portas da sacada aber­tas. A fagulha que passou pelo rosto de Mark quando ela mencionou o nome Daniel Knox, sua apressada mudança de assunto, o jeito como daí em diante ele ficou tão pouco à vontade. Ela se detestou por ter falado pelos cotovelos; estava se divertindo bastante até então. É claro que eles teriam se conhecido. Francamente, seria incrível que dois arqueólogos formados em Cambridge com mais ou menos a mesma idade não tivessem sido amigos.

Alguns ódios são baseados em princípios. Outros são pessoais. Sempre que Gaille pensava em Knox, mesmo sem nunca o ter conhecido pessoal­mente, sentia um misto dos dois, como serpentes se contorcendo em seu peito. Sua mãe havia sido cantora de cabaré. Tivera um breve romance com Richard Mitchell, engravidara e o obrigara a um casamento fadado ao fra­casso, entre outros motivos por que ele acabaria descobrindo que preferia homens. Gaille tinha apenas 4 anos quando seu pai as deixou e se mandou para o Egito. Sua mãe, lutando para aceitar um marido homossexual e lidar com um declínio na carreira, descarregara a frustração na filha. Também tinha procurado alívio em todas as drogas que encontrara, até que na véspe­ra de seu aniversário de 50 anos, avaliara mal um de seus freqüentes pedi­dos de ajuda habituais e tivera uma overdose.

Quando criança, Gaille fizera o possível para conviver com a insegu­rança, a raiva e a violência da mãe, mas nunca fora o suficiente. Poderia ter enlouquecido devido à tensão, mas tivera uma válvula de escape para aliviar a pressão crescente. Era o único mês, a cada ano, em que ela acompanhava o pai em suas escavações no norte da África ou no leste do Mediterrâneo, do qual adorava cada segundo.

Aos 17 anos, Gaille esperava se juntar à segunda temporada do pai a oes­te de Mallawi, no Egito central. Ela passara 11 meses estudando o cóptico, os hieróglifos e o hierático, num esforço desesperado de provar definitiva­mente seu valor de modo que o pai não tivesse escolha a não ser contratá-la em tempo integral. Porém, apenas três dias antes de seu voo, ele aparece­ra sem avisar no apartamento delas em Paris. A mãe entrara num de seus surtos e não deixara que ele visse a filha. Gaille teve de se ajoelhar do lado de fora da pequena sala de estar para ouvi-los através da porta de compen­sado. Havia uma televisão ligada com o volume alto em algum programa com risadas automáticas, então ela não conseguira ouvir tudo; mas ouvira o suficiente. Ele estava adiando o trabalho em Mallawi para tratar de um problema pessoal urgente. A temporada só iria recomeçar depois que Gaille já estivesse de volta à escola.

Aquela temporada acabaria sendo o triunfo máximo de seu pai. Apenas oito semanas depois ele descobrira um arquivo ptolomaico tão importante que Yusuf Abbas, futuro secretário-geral do Conselho Superior de Anti­güidades, assumira o controle pessoalmente. Gaille devia ter estado lá, mas não estivera. Um jovem egiptólogo precoce de Cambridge chamado Daniel Knox havia sido contratado no lugar dela. Aquele era o problema pessoal urgente de seu pai! Uma coceira dentro das calças. A traição fora tão dolorosa que Gaille passara a evitá-lo daquele momento em diante. Embora ele tivesse tentado entrar em contato para se desculpar, ela ja­mais lhe dera uma chance. E, ainda que estivesse tão comprometida com a egiptologia que não conseguisse ver mérito em qualquer outro tipo de vida, ela evitara o Egito até bem depois de ele ter morrido e o chamado de Elena tê-la surpreendido.

Gaille jamais conhecera Knox; jamais quisera. Porém ele lhe escrevera uma carta de pêsames, que continha um comovente relato dos últimos anos da vida de seu pai. Ele dizia que seu pai pensava e falava sempre sobre ela, e que quando ele caíra para a morte em um penhasco no deserto ocidental, não houve nada que qualquer um pudesse ter feito para salvá-lo, e que seus últimos pensamentos haviam sido para ela, que seu último pedido fora que Knox a procurasse e lhe dissesse tudo aquilo. Gaille achara isso ao mesmo tempo profundamente perturbador e imensamente consolador.

E então um dia chegou um pacote vindo do oásis de Siuá contendo todos os documentos e pertences de seu pai. Havia também o boletim policial sobre o acidente e transcrições das declarações feitas pelos dois guias que o haviam acompanhado naquela escalada fatal. Ambos testemunharam que Knox poderia ter salvado seu pai se tivesse tentado, mas que, ao invés disso, se afastara e ficara apenas observando. Ambos atestaram também que a queda tinha resultado em sua morte instantânea, que seu corpo já estava frio quando Knox ou qualquer outro o alcançara. Que não houve, portanto, como ele ter mencionado quaisquer últimos desejos. Aquilo tudo havia sido uma mentira.

Antes de ter recebido e lido o boletim, ela já odiava Knox por princípios. Desde então, o ódio se tornara pessoal também.

 

Em seu tempo de soldado, Nessim aprendera a ter consciência da fisiologia do medo. Saber o que se passava no interior do seu corpo era uma boa ma­neira de controlá-lo. O coração batia mais rápido, deixando o hálito mais quente; aquele gosto metálico no fundo da garganta não era outra coisa senão glândulas injetando adrenalina no organismo em preparação para a luta ou a fuga; um formigamento nos dedos das mãos e dos pés e um relaxa­mento na bexiga e nos intestinos era o sangue sendo enviado para os lugares onde a necessidade seria maior.

Ele estava junto à janela de seu quarto de hotel, ligando para Hassan enquanto olhava para o rio dez andares abaixo.

Encontrou-o? — perguntou Hassan quando a ligação se completou.

Ainda não, senhor. Mas estamos fazendo progressos.

Progressos? — perguntou Hassan causticamente. — É o mesmo tipo de progresso a que você se referiu ontem?

Contratei uma boa equipe, senhor.

Ah, muito bem. Uma equipe.

Sim, senhor. — E era verdade, apesar do desprezo de Hassan. Ve­lhos companheiros, muito interessados naquele trabalho, e que tinham demonstrado ser confiáveis e discretos. Ele lhes dera o nome de Knox, a pla­ca de seu carro, cópias de seu retrato e mais alguns detalhes de que ele dis­punha, e então mandara alguns deles vigiarem as casas dos conhecidos de Knox e outros para hotéis de turistas e estações. Providenciara um rastreamento para o celular dele, de forma que se ele em algum momento o ligasse seria possível estabelecer sua localização num raio de menos de 100 metros. Instalara também detectores em todas suas contas bancárias e cartões de crédito. No Egito, tudo era possível quando se tinha dinheiro.

Ouça — falou Hassan —, não quero progressos. Quero Knox.

Sim, senhor.

Ligue amanhã. Tenha boas notícias.

Sim, senhor.

Nessim recolocou o telefone no gancho com um ligeiro tremor na mão e sentou-se na cama, seus ombros caídos. Enxugou a testa. Seu pulso ficou molhado com o suor da pele. Aquele era outro dos sintomas. Ele estava com todos. Pensou por um momento em raspar sua conta bancária e simples­mente sumir. Mas Hassan sabia muito sobre ele. Sabia sobre sua irmã. Sabia sobre Fatima e o filho deles. Além do mais, o senso de honra de Nessim o impedia de fugir de um dever profissional apenas porque ele o achava di­fícil ou perigoso. Assim, em vez disso, ele pegou a ficha do Serviço Secreto sobre Knox e ficou olhando o texto enegrecido mais uma vez. Ela não havia sido atualizada por anos. Muitas das pessoas listadas ali tinham mudado de endereço ou deixado de vez o Egito. Outras eles nem conseguiram encon­trar. Mas ela era a melhor esperança de Nessim, e ele rezava para que lhe rendesse frutos.

 

Augustin e Knox chegaram ao sítio bem cedo, ansiosos para começar, con­fiantes de que a bomba lhes daria espaço suficiente para explorar. Ambos sabiam muito bem que bombear água de um sítio arqueológico em Alexan­dria não era uma tarefa fácil. O solo de calcário era extremamente poro­so e chupava água como se fosse uma esponja gigante. Portanto, logo que começassem a bombear, essa esponja começaria a liberar o que absorvera, substituindo a água retirada até que por fim fosse restaurado o equilíbrio. Eles não tinham esperanças de alcançá-lo, não com os recursos de que dis­punham. Podiam apenas ganhar algum tempo.

Entretanto, desde o momento em que chegaram ao sítio ficou óbvio que algo estava seriamente errado. O motor da bomba engasgava como um fu­mante crônico correndo atrás de um ônibus. Eles desceram correndo. Era evidente que uma vedação havia se rompido. A água vazou e encharcou desde o piso côncavo da rotunda até a tumba macedônia, onde as lâmpadas brilhavam sob a água turva como se fossem luzes de uma piscina.

Augustin disparou escada acima para desligar o motor da bomba. Knox desconectou as tomadas, tirou os sapatos e as calças, juntou todas as lâmpa­das e ventiladores e os colocou nos degraus, fora da água. A bomba parou; o conteúdo dos tubos gorgolejou e retrocedeu. Knox esperou que se fizesse silêncio e voltou a ligar as tomadas e jogou luz naquela bagunça.

Augustin veio encontrá-lo no topo da escada, balançando a cabeça, desolado.

Merde! Mansoor vai me capar por isso.

Podemos trazer a bomba para cá?

Eu apenas mandei instalá-la — grunhiu Augustin. — Não sei como ela funciona. — Mas um lampejo de inspiração iluminou seu rosto. Ele desapareceu dali para voltar em seguida com quatro cestos da escavação, jogando dois para Knox e usando os outros para retirar a água.

Você deve estar brincando! — protestou Knox.

Tem uma idéia melhor? — argumentou Augustin, já avançando pelo corredor até o lençol freático. Knox fez a mesma coisa. Os cestos pesados forçavam seus ombros e cotovelos e deixavam vergões vermelhos em seus dedos. Eles sorriam um para o outro enquanto esvaziavam os cestos e su­biam correndo de novo. Depois de algumas viagens, começaram a chegar outros escavadores. Eles viram o que tinha acontecido e também foram apanhar cestos. Num instante havia uma equipe inteira trabalhando. De­pois de umas dez viagens, as pernas de Knox pareciam ser feitas de bor­racha. Ele fez uma pausa para descansar na câmara principal para não atrapalhar o trabalho dos outros. Apesar do ceticismo inicial de Knox, a idéia de Augustin estava dando certo. O nível da água tinha baixado tanto que os degraus entre o átrio e a antecâmara e entre esta e a câmara princi­pal estavam servindo como barragens, criando três reservatórios separados. Agachado para banhar as palmas e os dedos doloridos na água fria, Knox percebeu algo curioso. O nível da água na câmara principal estava mais baixo que o da antecâmara, e também mais baixo que o degrau que as separava.

Franziu a testa, esquecendo seu esgotamento, e saiu para o átrio.

Alguém aí tem fósforos? — perguntou.

 

Quando Gaille chegou, o sítio estava uma bagunça. Ela ainda não tinha terminado de fotografar a câmara principal, então sua primeira reação foi de ansiedade por talvez ter perdido a chance. Tirou os sapatos, enrolou as bainhas das calças e desceu para dar uma olhada mais de perto. Seu companheiro do jantar da noite anterior já estava lá dentro, jogando palitos de fósforo quebrados nos cantos da parede.

- Dando um tempo, hein? - perguntou.

- Veja! - disse ele, apontando para a antecâmara. - Está vendo como o nível da água está mais alto lá?

Gaille entendeu na mesma hora o que ele estava querendo dizer.

- Então por onde esta água daqui está se esgotando?

- Exato - falou Knox, entusiasmado. - Supostamente este lugar foi escavado na rocha sólida. - Ele jogou o último palito numa quina, os dois ficaram observando os palitos convergirem lentamente.

- Gostei muito de ontem à noite - murmurou Gaille.

- Eu também.

- Talvez possamos repeti-la em outra ocasião.

- Eu adoraria - disse ele. Mas então fez uma expressão séria. - Escute, gaille, preciso lhe dizer algo antes.

- É sobre Knox, não é? - perguntou ela. - Ele é seu amigo, não é?

- Aqui não é o lugar para falarmos disso. Posso ir a Vicomte mais tarde?

Ela sorriu, entusiasmada.

- E vamos sair depois. Mas dessa vez eu convido.

Passos chapinharam na água da antecâmara, e Mansoor apareceu acompanhado de Elena.

- O que está acontecendo aqui? - perguntou Mansoor, irritado.

Gaille virou-se para Knox, esperando sua explicação, mas ele apenas abaixou a cabeça, agarrou os cestos e saiu, deixando Elena e Mansoor boquiabertos.

- Quem era aquele? - perguntou Mansoor.

- O parceiro de mergulho de Augustin - explicou Gaille. - Acho que a bomba foi em parte idéia dele.

- Ah! - disse mansoor.

- Espero que ele não pense que estou zangado com ele. É com aquele desgraçado do Augustin que eu quero falar. - Sacudiu a cabeça num misto de divertimento e exasperação. - E para que servem aqueles palitos de fósforos? - perguntou.

Ninguém está tirando água daqui — explicou Gaille, apontando para a discrepância entre os níveis. — Queríamos saber por onde ela está saindo.

E?

Os palitos parecem convergir no plinto. — Agacharam-se em volta dele, iluminando com suas lanternas dezenas de trilhas de bolhas de ar que vinham de baixo. — Áquilo dos 33 — murmurou Gaille, ocorrendo-lhe uma idéia súbita. — "Para ser sempre o primeiro e de todos os mais distinguir-me."

A inscrição sobre o portal? — Mansoor franziu a testa. — O que tem ela?

Os gregos adoravam jogos de palavras.

Desembuche, garota — disse Elena.

Gaille fez uma careta, temendo que eles a achassem louca.

É só que... vocês não acham que a inscrição poderia significar que os demais... ou seja, os outros 32... sejam menos distintos que Áquilo?

Mansoor deu uma risada e lhe dirigiu um olhar intrigado.

Você é fotógrafa?

Gaille corou, ciente do olhar fulminante de Elena.

Lingüista, na verdade.

Vou trazer Ibrahim aqui embaixo — falou Mansoor. — Ele precisa ver isto com os próprios olhos.

 

Knox encontrou Augustin no lençol freático vestindo sua roupa de mergulho.

Elena o reconheceu? — perguntou a Knox.

Acho que não. E Mansoor veio em cima de você?

Não tanto. — Augustin abanou a mão como se ela estivesse fervendo. — Mas quase. Ufa! Cheguei a pensar que ia virar sopa de lagosta. — Ele apontou para a água. — Um cara esperto sairia um pouco de cena. Quer ir explorar?

Vamos nessa — concordou Knox.

Apesar da pane, a bomba fizera um bom trabalho durante a noite, de modo que a água agora lhes chegava à altura do queixo. Eles logo percebe­ram que aquilo ali era um verdadeiro labirinto, um tamanho complexo de passagens e câmaras que ambos se entreolharam com uma expressão de alí­vio, conscientes da sorte que tiveram em sair dali vivos. Numa das câmaras, a parede do fundo estava pintada com contornos de loculi, mas não havia sido quebrada. Knox levou uns instantes para deduzir o motivo. No teto havia um buraco irregular, como se os trabalhadores o tivessem quebrado por acaso e encontrado outro ambiente.

Ei, companheiro — disse Knox, iluminando com sua lanterna —, veja isso.

Augustin se aproximou.

Que diabo é isso? — E franziu a testa.

Ajude-me a subir.

Augustin juntou as mãos e levantou Knox até a nova câmara. A altura era suficiente para ele poder ficar de pé sem bater a cabeça no teto. Knox colocou a mão na parede oposta, construída de blocos de pedra calcária, e a massa entre eles virou poeira.

Ajude-me a subir, seu cretino — disse Augustin. — Quero ver com meus próprios olhos.

Knox deu-lhe a mão. Quando já estavam os dois ali, saíram explorando o lugar. Um caminho estreito levava para a direita. Ele terminava em uma fresta apertada que dava numa via paralela flanqueada por uma segunda parede de blocos e desta para uma terceira com uma parede externa de rocha sólida. Então uma única câmara, de cerca de 6 metros de lado e uns 2 metros de altura, dividida por paredes internas formando três ca­minhos que se ligavam em uma lateral, como um "E" maiúsculo. Eles foram juntos até o fim do caminho central. Um lance de cinco degraus subia até uma virada em ângulo reto e um segundo lance de degraus que desaparecia no teto. Do alto vinham pancadas abafadas, soltando poeira das paredes.

Jesus! — murmurou Knox. — O que foi isso?

Augustin deu um soco no teto. Um sorriso de compreensão apareceu em seu rosto.

— A rotunda — disse ele. — Esta deve ser a escadaria original. Sim. Os macedônios cavaram demais e acabaram chegando ao lençol freático. E então? Construíram essas paredes de pedra calcária como suportes e fize­ram um novo piso, cobrindo-o com um mosaico. Parfait! Os construtores da necrópole simplesmente encontraram isso aqui sem querer cinco sécu­los depois.

 

A água já havia sido totalmente drenada da câmara principal quando Ibrahim chegou ao sítio. Descer equipamento pesado para lá não era uma tarefa fácil, então Mansoor pediu a ajuda de Mohammed. Os dois enfiaram pés de cabra como alavancas sob um lado do plinto e o levantaram. A pedra soltou estalos ao ceder, protestando por todos os séculos em que estivera junto ao chão. Eles a levantaram uns poucos centímetros, forçando os múscu­los dos braços e do peito, arqueando os pés de cabra sob o peso.

Ibrahim e Elena ajoelharam-se para iluminar por baixo com suas lan­ternas. Havia um buraco redondo e negro no chão, com talvez 1 metro de diâmetro. O plinto era pesado demais para que Mohammed e Mansoor agüentassem muito tempo. Mansoor soltou primeiro, dando um grito de advertência; em seguida foi Mohammed, que a deixou cair com um estron­do, levantando poeira que entrou pelo nariz e pela garganta de Ibrahim e lhe provocou um acesso de tosse.

E então? — perguntou Mansoor abanando as mãos.

É um buraco — respondeu Ibrahim.

Quer que a gente desloque o plinto? — indagou Mohammed.

É possível?

Vou precisar de ajuda e mais equipamentos, mas é possível sim.

Ibrahim sentiu os olhares cheios de expectativa sobre ele, mas ainda as­sim ele hesitou. Nicolas havia prometido 20 mil dólares, mas eles receberam somente a metade até então, e o resto seria mandado após uma conclu­são satisfatória. Katerina colocara bastante ênfase na palavra "satisfatória", deixando muito claro que deixar de informar um achado como esse seria considerado altamente insatisfatório. E ele não teria como mantê-lo em se­gredo, pois Elena já sabia. De súbito lhe veio à mente a filha de Mohammed e sua vida sendo mantida por um fio.

Dêem-me um momento — pediu. — Preciso fazer uma ligação. — Chamou Elena para que o seguisse escadaria acima e então ligou para o Grupo Dragoumis, tampando o ouvido com a mão para bloquear os baru­lhos da obra. Ficou ouvindo uma música popular meio destoante enquanto aguardava que a ligação fosse completada. Esfregou o dedo na ponte na­sal, inquieto.

A música parou de repente.

Pronto? Aqui é Nicolas.

Aqui é Ibrahim. De Alexandria. O senhor disse para chamá-lo se encontrássemos algo.

E?

Tem alguma coisa sob a tumba macedônia. Talvez seja um buraco.

Um buraco? — Ibrahim pôde ouvir o tom de excitação na voz de Nicolas. — E aonde vai dar?

É quase certo que em lugar nenhum. Na maioria das vezes é o que acontece. Mas vamos precisar mover o plinto para ter certeza. Estou ligando porque o senhor deixou claro que desejava ser informado imediatamente.

Isso mesmo.

Vou providenciar para que o plinto seja removido agora. Volto a ligar assim que...

Não — disse Nicolas de forma enfática. — Eu preciso estar aí para ver isso.

Esta é uma escavação de emergência — protestou Ibrahim. — Não temos tempo para...

Amanhã à tarde — insistiu Nicolas. — Chegarei aí à lh. Não faça nada antes disso. Entendido?

Sim, mas repito: é muito provável que não seja nada. O senhor virá até aqui e não haverá nada e...

Vou estar aí — cortou Nicolas. — Nesse meio-tempo, ninguém entra lá. Quero guardas. Quero um portão de aço.

Sim, mas...

Apenas faça isso. Mande a conta para Katerina. E quero falar com Elena. Ela está aí?

Sim, mas...

Passe o telefone para ela.

Ibrahim deu de ombros, sem ação.

Ele quer falar com você.

Ela balançou a cabeça, pegou o aparelho e se afastou um pouco, virando-se de costas novamente para que a conversa não fosse ouvida.

 

Depois de falar com Elena, Nicolas desligou o telefone e recostou-se na cadeira, respirando um tanto pesadamente. Uau, que telefonema foi aquele. Daniel Knox em Alexandria! E em seu sítio! E logo naquele momento tão sensível... Levantou-se e foi até a janela, massageando com força a parte de baixo das costas, que de repente pareceu extremamente tensa.

A porta de sua sala se abriu. Katerina entrou trazendo uma pilha de pa­péis. Sorriu ao vê-lo massageando a coluna.

Qual é o problema? — brincou. — O senhor soube algo a respeito de Daniel Knox ou coisa parecida? — Ele a encarou com um olhar fulmi­nante. — Ah! — disse ela, colocando os papéis em sua mesa e se retiran­do apressada.

Nicolas voltou a se sentar. Poucas pessoas tinham conseguido incomodá- lo tanto quanto Knox. Durante seis semanas, dez anos antes, o homem fi­zera uma série de calúnias ultrajantes contra seu pai e sua empresa, e todos ficaram quietos e não... fizeram absolutamente nada. Seu pai concedera ao homem imunidade, e a palavra de seu pai era lei, então tudo ficou por isso mesmo. Mas Nicolas ainda amargava a humilhação. Inclinou-se para a frente e chamou Katerina pelo interfone.

Desculpe, senhor — disse ela, antes que ele pudesse falar. — Não tive a intenção de...

Esqueça — interrompeu. — Preciso estar em Alexandria amanhã à tarde. Nosso avião está disponível?

Acredito que sim. Vou verificar.

Obrigado. E aquele egípcio que intermediou a compra daqueles pa­piros. Ele providencia outros serviços, não? — Nicolas não precisou dizer a Katerina a que tipo de serviços se referia.

O Sr. Mounim? Sim, senhor.

Bom. Passe-me o número dele, por favor. Tenho um trabalho para ele.

 

Ibrahim reuniu sua equipe principal na rotunda para anunciar a visita do patrocinador. Tentou mostrar entusiasmo com a notícia. Tentou dar a en­tender que a idéia tinha partido dele. Pediu que as pessoas ficassem dispo­níveis para fazerem apresentações, se necessário, e prometeu chá, café com bolinhos e um almoço mais tarde no museu, e lembrou a todos sutilmente que aquele homem era quem pagava os salários. Sugeriu que aproveitassem a visita como se fosse um evento. Em resumo, fez de tudo para que aquilo parecesse uma coisa boa. Depois de falar, abriu-se para perguntas. Ninguém disse uma palavra. Eram arqueólogos; detestavam patrocinadores. A reu­nião foi encerrada e todos voltaram ao trabalho.

 

Era fim de tarde. Hosni cochilava no assento do motorista de seu velho Citroen quando a motocicleta preta e cromada estacionou em frente ao edi­fício de apartamentos, levando dois homens. Quem a pilotava vestia jeans, camiseta branca e jaqueta de couro; o passageiro usava calças claras de al­godão, um moletom azul e um capacete vermelho que retirou para poder falar com o companheiro. Hosni pegou a foto de Knox, mas não conseguia saber com certeza àquela distância, não com uma fotografia tão pequena. Os dois apertaram as mãos. O da garupa entrou enquanto o outro fez uma curva fechada e saiu em disparada. Hosni contou os andares. Augustin Pas­cal morava no sexto. Cerca de vinte segundos mais tarde viu através de seu binóculo as portas da sacada sendo abertas e o cara da garupa aparecer, se espreguiçando. Hosni tateou os bolsos à procura do celular e ligou para o número de Nessim.

Pronto? — disse Nessim.

Aqui é Hosni, chefe. Acho que o encontrei.

Nessim inspirou rapidamente, ansioso.

Tem certeza?

Não cem por cento — respondeu Hosni, que conhecia Nessim o suficiente para saber que não deveria lhe dar falsas esperanças. — Tenho somente esta foto. Mas, sim, estou convencido de que é ele mesmo.

Onde você está?

Em Alexandria. Apartamento de Augustin Pascal. Conhece? O ar­queólogo submarino.

Bom trabalho — disse Nessim. — Não o perca. E não o deixe perce­ber que está sendo vigiado. Estarei aí o mais rápido que puder.

 

Elena já havia passado tempo suficiente indo e vindo entre Alexandria e o delta, então reservou um quarto no famoso hotel Cecil. Ficava a apenas dez minutos a pé do muquifo onde Gaille estava hospedada, mas em qualquer outro aspecto era um mundo muito diferente. Elena não podia desperdiçar os preciosos recursos reservados à escavação para paparicar uma mera es­pecialista em lingüística, afinal, mas ela era outra história. Estava ali como principal representante da Fundação Arqueológica Macedônia. Ela devia à dignidade daquela instituição poder viajar com estilo.

Passou o anoitecer organizando seus papéis. Era extraordinário quão burocrático podia ser a tarefa de dirigir uma escavação no Egito. Estava começando a ficar cansada quando ouviu baterem à sua porta.

Entre — falou. A porta se abriu e se fechou atrás dela. Elena ter­minou de somar os valores de uma coluna de números, então deu um meio-giro na cadeira para ver, com um leve tremor desconcertante, o francês da necrópole parado à sua frente, com seus jeans e sua jaqueta de couro.

Que diabos você está fazendo aqui? — perguntou ela.

Augustin andou até a janela como se o quarto fosse dele. Abriu a cortina para contemplar o porto.

Bela vista — disse. — A minha é o varal dos outros.

Eu lhe fiz uma pergunta.

Ele se virou de costas para a janela e apoiou-se no aparelho de ar-condicionado.

Estive pensando em você — disse.

O quê?

Sim. Da mesma forma que você esteve pensando em mim.

Eu lhe asseguro — disse ela — que você não ocupou um instante de meus pensamentos.

De fato? — zombou ele.

Sim — disse Elena. — De fato. — Mas sua voz saiu um pouco tre­mida, e o sorriso insolente de Augustin se abriu ainda mais. Elena fechou a cara. Ela era atraente, bem-sucedida, rica e acostumada a ser perturbada por conquistadores baratos como aquele. Normalmente lidava com eles sem nem pensar, através de um olhar de desprezo fulminante que incinerava com tanta eficiência que ela nem reparava mais nas cinzas que caíam no chão. Mas agora, ao lançar esse olhar para Augustin, não houve faísca ele nem virou cinzas. Simplesmente o absorveu com aquele seu sorrisinho ofen­sivo e continuou a encará-la.

Por favor, saia — ordenou. — Estou trabalhando.

Mas ele não saiu. Permaneceu lá de costas para a janela.

Eu reservei uma mesa — falou. — Não gostaria de apressar você, mas...

Se você não sair — rebateu ela, friamente —, chamarei a segurança.

Ele concordou com a cabeça.

Faça o que achar melhor.

Ela sentiu um calafrio na barriga ao puxar o telefone para perto de si. Era um daqueles velhos aparelhos analógicos. Discou o primeiro número, esperando que isso fosse suficiente para ele. Mas Augustin não se mexeu. Continuou ali, com aquele maldito sorriso arrogante nos lábios. O disco do telefone fez aquele barulho metálico suave enquanto voltava à posição inicial. Ela discou o segundo número. O fone encostado em seu rosto estava frio. Colocou o dedo no aparelho para discar o terceiro número, mas então o seu braço pareceu ter desistido, como se todos os músculos estivessem atrofiados. Ele se aproximou, tirou o fone de sua mão e o colocou de volta no gancho.

Você vai querer se aprontar — disse ele. — Estarei lá embaixo.

 

— Nós o encontramos — disse Nessim.

Houve um momento de silêncio no outro lado da linha. Depois de tan­tas decepções, Hassan parecia impressionado.

Tem certeza?

Hosni o localizou — continuou Nessim. — Ele está no apartamento de um amigo. Vim para cá logo que recebi o telefonema. Ele saiu há uns 15 minutos sem a menor preocupação. Deve estar pensando que paramos de procurá-lo. Mas é ele mesmo, sem dúvida.

Onde ele está agora?

Dentro de um táxi. Indo em direção a Ramla.

Você o está seguindo?

Claro. Quer que o agarre?

Fez-se silêncio outra vez. E então:

Ouça bem. Eis o que eu quero.

 

Knox ficou surpreso e satisfeito com o carinho com que Gaille o recebeu naquela noite.

— Chegou bem na hora — disse ela, entusiasmada. — Ibrahim me pe­diu que preparasse uma apresentação sobre as pinturas da antecâmara para amanhã. Preciso de uma vítima com quem treinar. — Ela o conduziu para o quarto, desafiando o olhar venenoso do recepcionista. As portas da sacada estavam abertas e ouvia-se uma cacofonia na rua abaixo, jovens falando e rindo animados esperando a noitada, e um bonde distante chacoalhan­do nos trilhos como se fosse uma cozinha hiperativa. O laptop dela estava aberto na mesa e o descanso de tela exibia padrões estranhos. Ela moveu o mouse e surgiu na tela uma colorida pintura de parede de dois homens.

Knox se inclinou para a frente franzindo a testa.

Mas que diabos? Foi tirada lá no sítio?

São as paredes laterais da antecâmara.

Mas... são apenas de reboco. Como você conseguiu deixá-las assim?

Ela deu um sorriso de prazer.

Seu amigo Augustin. Ele me disse que usasse água. Muita água. Tal­vez não tanto quanto vocês bombearam hoje de manhã, mas...

Ele riu e deu uma batidinha reprovadora de leve no ombro dela, provo­cando uma centelha inesperada que deu nos dois um pequeno choque.

Você fez um excelente trabalho — disse ele, se recuperando. — Fi­cou fantástico.

Obrigada.

Sabe quem são esses caras?

O da esquerda é Aquilo. O ocupante da tumba.

Knox franziu o cenho. O nome Àquilo lhe soava estranhamente fami­liar. Mas por que não? Havia sido bastante comum entre os gregos.

E o outro? — perguntou.

É Apoles ou Apeles de Cós.

Apeles de Cós? — perguntou Knox, incrédulo. — Você se refere ao pintor?

Ele era pintor?

Knox confirmou.

O preferido de Alexandre, o Grande. Ele não queria que seu retrato fosse pintado por nenhum outro artista. Costumava ir ao seu ateliê para aborrecer todo mundo com suas opiniões sobre arte até que Apeles finalmente o mandasse se calar, pois mesmo os meninos que preparavam as tintas ficavam se divertindo à custa dele.

Gaille riu.

Isso exigia coragem.

Alexandre gostava de pessoas de espírito forte. Além disso, Apeles sabia agradar tão bem quanto zombar. Ele pintou Alexandre segurando um raio, exatamente como Zeus. Onde é isso aí? Diz em algum lugar?

Em Efeso, até onde consigo determinar, mas você pode ver as lacunas por si mesmo.

Isso faria sentido — disse Knox. — Foi para lá que Alexandre rumou após sua vitória sobre os persas. — Então se inclinou sobre Gaille, fechou a imagem da tela e abriu outra que mostrava soldados atravessando a água. — Perga — disse, encarando-a. — Você sabe sobre essa?

Não.

Fica na costa da Turquia, de frente para Rodes. Se quiser ir daqui para o sul, pode atravessar as montanhas, que é difícil, ou então pode ir pelo litoral. O problema é que só se pode fazer esse percurso quan­do estiver soprando um vento norte, que faz com que o mar recue o suficiente para permitir a passagem. Quando Alexandre partiu, estava soprando um vento sul, mas você sabe como ele era: continuou em fren­te, e o vento virou bem na hora, durando o tempo exato para que ele e seus homens atravessassem. Tem gente que diz que essa foi a semente da história de Moisés separando as águas do mar Vermelho. Afinal, Alexan­dre atravessou a Palestina pouco depois, enquanto a Bíblia ainda estava sendo escrita.

Gaille fez uma careta.

Isso é um pouco fantasioso, não?

Você não deveria subestimar o impacto da cultura grega sobre os judeus — protestou Knox. — Eles não seriam humanos se não tivessem fi­cado um pouco impressionados por Alexandre. Muitos judeus tentaram as­similá-la, mas não foi fácil, até porque o cerne da vida social grega havia sido o ginásio, e gymnos em grego significa nu, então tudo, por definição, ficara à mostra. Os gregos valorizavam o prepúcio como uma obra de arte divina, e consideravam a circuncisão um ato bárbaro. Muitos judeus tentaram então reverter o trabalho do mohel, cortando a pele em volta da base da glande ou então pendurando pesos metálicos no pouco que lhes restava.

Quando falei que era fantasioso não quis dizer nesse sentido — ex­plicou Gaille. — Estou apenas dizendo que histórias de água desaparecen­do milagrosamente para permitir que o herói passasse não são exatamente desconhecidas na mitologia antiga. Tampouco as enchentes enviadas para dizimar os inimigos. Se eu tivesse que apostar, seria no rei Sargão.

O acadiano?

Gaille fez que sim com a cabeça.

Mil anos antes de Moisés e 2 mil antes de Alexandre. Há uma fonte que descreve como foi que o Tigre e o Eufrates secaram à sua frente. E ele já havia estabelecido uma semelhança com Moisés.

Knox franziu a testa.

O que você quer dizer?

A mãe dele o colocou dentro de uma cesta de juncos e o despachou no rio — contou Gaille. — Como Moisés. Ele foi encontrado por um homem chamado Akki, que o criou como filho. Imagine que naquela época era comum a troca de crianças. Isso dava aos poetas um jeito de representar a ação da justiça cósmica. Veja Edipo, que é abandonado pelo pai para morrer e acaba voltando para matá-lo.

Knox concordou.

É incrível como as mesmas histórias ficam reaparecendo por todo o Mediterrâneo oriental.

Não é tão incrível — replicou Gaille. — A região era uma vasta zona de comércio, afinal, e os mercadores sempre gostaram de trocar histó­rias fantásticas.

E estava infestada de menestréis, é claro. E você sabe qual era a gran­de fama dos menestréis.

Errantes. — Gaille sorriu, levantando e virando o rosto. Os olhos de ambos se encontraram por um momento, e Knox sentiu uma agitação perturbadora em seu peito. Fazia muito tempo que tivera uma mulher com quem pudesse compartilhar sua vida e suas paixões, e não apenas a cama: Tempo demais. Voltou a olhar para a tela um tanto confuso. — Então este é um mapa das campanhas de Alexandre? — perguntou.

Não exatamente — disse Gaille, também um tanto confusa. — Da vida de Àquilo. Por acaso, a de ambos foi igual. — Sem olhar para Knox, ela abriu outra imagem, uma cidade murada circundada por água e ameaçada por um sátiro desproporcional, um deus grego antropomórfico parte ho­mem, parte bode. — Esta aqui me confundiu. Pensei que pudesse ser Tiro, vendo as muralhas e a água, mas...

É Tiro mesmo — afirmou Knox.

Como você pode ter tanta certeza?

Tiro era famosa por ser inexpugnável — explicou a ela. — Até mesmo Alexandre teve problemas com ela. Uma noite, enquanto a sitiava, ele sonhou que um sátiro estava zombando dele. Alexandre perseguiu-o sem cessar, mas o sátiro continuava se esquivando, até que ele finalmente o pegou e acordou. Seus videntes interpretaram isso dizendo que satyros era composto de duas palavras, sa e tyros, que queriam dizer respectivamente "sua" e "Tiro". Tiro será sua. Seria apenas questão de tempo e esforço. E assim foi.

Para infelicidade de seus habitantes.

Ele poupou todos aqueles que se refugiaram nos templos.

Sim — concordou Gaille com dureza. — E depois massacrou 2 mil deles crucificando-os.

Talvez.

Não tem talvez. Consulte suas fontes.

Os macedônios costumavam crucificai os criminosos depois de ma­tá-los — respondeu Knox calmamente. — Como nós britânicos, que os expúnhamos em cadafalsos. Para desencorajar outros.

Ah. — Gaille franziu a testa. — Mas por que Alexandre iria considerar criminosos os habitantes de Tiro? Eles estavam apenas defendendo seus lares.

Alexandre mandou mensageiros para discutir os termos de rendição antes de aplicar o sítio. Os habitantes de Tiro os mataram e arremessaram seus corpos do alto das muralhas. Naquele tempo isso era uma negativa absoluta. — Ele olhou para Gaille outra vez, intrigado com alguma coi­sa. — Essa é uma baita tumba para um escudeiro, não acha? Quero dizer, um átrio, uma antecâmara e uma câmara principal. Sem falar nas colunas jônicas, em uma fachada esculpida, em portas de bronze e em todas essas pinturas. Tudo aquilo deve ter custado uma fortuna.

Alexandre pagava bem

Mas não tão bem. Além disso, era assim que os reis macedônios eram sepultados. Parece, não sei, pretensioso, não acha?

Gaille concordou.

Amanhã de tarde irão erguer o plinto. Talvez isso nos dê algumas respostas. Você estará lá, não?

Provavelmente não.

Mas você deveria ir — disse ela, séria. — Nós não a teríamos desco­berto sem você.

Ainda assim.

Não entendo — reclamou ela. — O que está acontecendo?

Havia tristeza nos olhos dela, bem como confusão. Knox sabia que não podia continuar mentindo. Fez uma expressão de quem tinha um assunto difícil para abordar e então se ajeitou na cadeira, se afastando um pou­co dela.

Sabe quando antes eu falei que precisava lhe contar algo?

É sobre aquele maldito Knox, não? — reclamou Gaille. — Ele é o seu melhor amigo ou coisa parecida?

Não é bem isso.

Não vamos deixar que ele se intrometa entre nós — suplicou ela. — Naquela noite eu só estava falando da boca para fora. Sério. Ele não significa nada para mim. Para falar a verdade, nem o conheço.

Knox olhou firmemente nos olhos dela, até que a compreensão começas­se a surgir. Então ele balançou a cabeça.

Conhece sim — falou.

 

Demorou algum tempo para que Gaille assimilasse completamente o que Knox estava dizendo. Então, sua expressão gelou.

Saia daqui — disse ela.

Por favor — suplicou ele. — Deixe-me...

Saia. Saia já daqui.

Olhe. Sei como você deve estar se sentindo, mas... Ela foi até a porta e a escancarou.

Fora!

Gaille — suplicou de novo. — Deixe-me explicar.

Você já teve uma chance. Mandou-me aquela carta, lembra?

Não foi do jeito você pensa. Por favor, deixe-me...

Mas o recepcionista ouvira a discussão. Ele agora estava à porta do quar­to de Gaille, e agarrou Knox pelo braço e o puxou para fora.

Você embora — disse. — Eu chamo polícia.

Knox tentou se livrar dele, mas o homem tinha dedos surpreendente­mente fortes, que estavam cravados de forma vingativa em sua carne, não lhe dando outra chance a não ser ir embora ou começar uma briga. Chega­ram ao saguão. O recepcionista o empurrou para dentro do elevador, bateu no botão do térreo e fechou a porta pantográfica com violência.

Não volte — advertiu, apontando-lhe o dedo.

O elevador sacudiu e começou a descer. Knox ainda estava atordoado ao chegar ao térreo e descer os degraus da entrada. A expressão de raiva no ros­to de Gaille não apenas o chocou, mas também o fez perceber o tanto que estava se apaixonando por ela. Caminhou para a direita e virou à direita ou­tra vez, dirigindo-se à viela que ficava nos fundos do hotel que, como muitas outras em Alexandria, fora transformada em estacionamento improvisado, de modo que ele precisou se esgueirar entre carros espremidos.

Lembrou-se de repente da carta que lhe havia mandado e das menti­ras que ela continha. Sentiu um calor intenso no rosto; parou na viela tão abruptamente que um homem que vinha andando logo atrás se chocou com ele. Knox levantou as mãos para se desculpar e ia começar a falar quando sentiu o cheiro de alguma substância química, e de súbito um pano úmido e quente foi pressionado contra seu nariz e sua boca, e a escuridão come­çou a envolvê-lo. Tarde demais, percebeu que deixara de se preocupar com o Sinai, com Hassan. Tentou lutar, se afastar, mas o clorofórmio já tinha entrado em seu sistema, então desmontou inerte nos braços de seu atacante.

 

Passava um pouco das 23h30 quando Augustin trouxe Elena de volta para o hotel Cecil. Ele a convidara para ir a uma boate; ela argumentara que tinha muito trabalho a fazer. Mesmo assim ele insistiu em acompanhá-la até o saguão.

Não há necessidade de você subir — disse ela secamente quando che­garam aos elevadores. — Tenho certeza de que estarei em segurança daqui em diante.

Vou levá-la até o seu quarto — anunciou ele, galante. — Jamais me perdoaria se lhe acontecesse alguma coisa.

Ela suspirou e balançou a cabeça, mas não resistiu. Havia um espelho no elevador. Os dois se observaram nele, depois um ao outro, seus olhares se cruzaram e eles sorriram por causa da própria vaidade. Ele a conduziu à porta.

Obrigada — disse ela, apertando-lhe a mão. — Eu me diverti.

Fico satisfeito.

Elena tirou a chave da bolsa.

Vejo você amanhã então.

Certamente. — Ele não fez qualquer menção de ir embora.

Você não se esqueceu de onde ficam os elevadores, não é? — pergun­tou ela sugestivamente.

Ele deu um sorriso malicioso.

Acho que você é o tipo de mulher que não tem medo do que quer. Estou certo quanto a isto?

Está.

Ótimo. Então deixe-me ser bem claro. Se você me pedir mais uma vez para ir embora, eu irei.

Fez-se silêncio por alguns instantes. Elena balançou a cabeça pensativa enquanto abria a porta e entrava.

Bem? — perguntou, deixando a porta aberta atrás de si. — Você vai entrar ou não?

 

Knox recuperou a consciência lentamente, sentindo lábios, narinas e gar­ganta queimando e uma náusea. Tentou abrir os olhos. Suas pálpebras ti­nham sido coladas. Tentou levar uma das mãos ao rosto, mas os pulsos estavam amarrados atrás das costas. Tentou gritar, mas a boca estava fecha­da por uma fita adesiva. Ao se lembrar do que tinha acontecido, seu coração disparou e seu corpo estremeceu num grande espasmo e se arqueou no chão. Alguma coisa atingiu-o com força por trás da orelha e ele mergulhou outra vez na escuridão.

Quando voltou a si, novamente, foi um pouco mais cauteloso. Permi­tiu que seus sentidos reunissem informações. Ele estava deitado de bruços. Algo que parecia um tapete macio com uma protuberância no meio que fa­zia pressão em suas costelas. Seus calcanhares e pulsos estavam presos com tanta força que seus dedos formigavam. Sentia um gosto de cobre, e a boca parecia pegajosa por causa de um corte no interior da bochecha. O ar tinha um cheiro enjoativo de cigarro e gel de cabelo. Percebeu a vibração suave de um motor caro. Um carro passou em velocidade, seu som distorcido pelo efeito Doppler. Ele estava deitado em um carro. Estava sendo levado para Hassan. De novo o desamparo do pânico. Uma golfada de vômito subiu-lhe à garganta, parando no fundo da boca. Respirou fundo pelo nariz até a náu­sea desaparecer. Procurou pensar com calma. Não necessariamente aqueles que o pegaram eram homens de Hassan. Poderiam ser freelancers em busca de uma recompensa. Se conseguisse fazê-los falar, poderia estabelecer um diá­logo, negociar, oferecer algo melhor a eles. Tentou se sentar, mas recebeu outro golpe brutal atrás da cabeça.

O carro fez uma curva para a esquerda e começou a sacudir por um terreno irregular. Knox fazia o possível para amortecer os solavancos. Suas costelas estavam chacoalhadas e contundidas. O carro seguiu por um tempo que pareceu eterno, até parar abruptamente. As portas se abriram. Alguém o agarrou pelas axilas e o tirou para fora, jogando-o sobre solo arenoso. Ele foi chutado nas costas e sentiu unhas pegando a fita adesiva de seu rosto. Ela foi arrancada de seus olhos, levando junto alguns cílios e deixando a pele sensível. Três homens estavam de pé, vestidos de jaquetas pretas e com más­caras de esqui, fazendo as tripas de Knox parecerem água. Ele tentou dizer a si mesmo que os homens não estariam escondendo os rostos se não tivessem a intenção de deixá-lo vivo. Isso não ajudou. Um deles arrastou Knox pelas pernas até um poste de madeira cravado no chão. Apanhou vários pedaços de arame farpado e os enrolou em torno dos calcanhares de Knox.

Embora o carro deles estivesse parado meio atravessado, Knox conseguiu ver a placa traseira. Ele a gravou na memória. Outro homem abriu o porta-malas e pegou um rolo de corda, jogando-o na areia. Deu um nó em uma das extremidades e passou-a pela barra de reboque do carro e deu um puxão para se assegurar de que estava firme. Fez um nó de forca na outra extremi­dade, foi até Knox, passou a laçada em seu pescoço e apertou-a firme até a corda beliscar a pele macia de sua garganta.

Knox perdera de vista o terceiro homem. Agora o via a dez passos de distância, filmando tudo com seu celular. Demorou alguns minutos para que Knox entendesse o que estava acontecendo. O homem estava gravando um vídeo para enviá-lo como prova a Hassan. Isso explicava também as máscaras. Eles não queriam fazer uma filmagem deles cometendo um as­sassinato com os rostos expostos. Foi então que Knox soube que ia morrer. Ele se debateu, mas suas amarras estavam muito firmes. O motorista fez o motor rugir como se fosse um jovem motoqueiro lançando uma provoca­ção. As rodas traseiras levantaram areia. Então o carro saiu em disparada, levando a corda consigo. Knox se preparou; ele gritava dentro de sua morda­ça. O homem com o celular aproximou-se para enquadrar a cena do clímax enquanto a corda se erguia, vibrava e ficava tensa.

 

— Espero que você tenha boas notícias para mim — disse Hassan.

Nessim, mesmo ao telefone, fechou os olhos como se estivesse rezando.

Tivemos um contratempo, senhor.

Um contratempo?

Alguém o pegou primeiro.

Alguém?

Sim, senhor.

Não estou entendendo.

Nós também não, senhor. Ele entrou num hotel. Depois saiu. Cami­nhou para os fundos e percorreu uma viela. Outro homem o seguiu. Não de­mos importância até que um carro preto encostou e ele foi jogado na traseira.

Quer dizer que você deixou que o levassem?

Nós estávamos do outro lado da rua. Um bonde estava vindo.

Um bonde? — perguntou Hassan num tom gélido.

Sim, senhor.

Para onde foram?

Não sabemos, senhor. Como eu disse, havia um bonde. Não conse­guimos passar. — O maldito bonde simplesmente ficou parado enquanto Nessim buzinava, o condutor gordo dando um sorrisinho debochado, des­frutando a frustração deles.

Quem eram? Quem o levou?

Não sabemos, senhor. Estamos trabalhando nisso agora. Se tivermos sorte, foi alguém que ouviu falar do que ele lhe fez e acha que pode vendê-lo para nós.

E se não tivermos sorte?

Segundo sua ficha, ele tem um monte de inimigos. Talvez um deles o tenha encontrado.

Silêncio. Uma batida. Duas batidas. Três.

Quero que ele seja encontrado — disse Hassan. — E quero isso com urgência. Fui claro?

Nessim engoliu em seco.

Sim, senhor. Claro como água.

 

Knox sentia-se incomparavelmente mais velho ao caminhar com extrema dificuldade em direção ao norte, seguindo rastros de pneus na areia. Quan­do a corda acabara de se desenrolar e se esticara, ele percebera que ia mor­rer. Havia uma diferença qualitativa entre saber que se ia morrer e temer que talvez se morra. Causava coisas estranhas no coração. Fazia com que se pensasse de um jeito diferente sobre o tempo, o mundo e o nosso lugar dentro dele.

A corda havia sido cortada e emendada com fita adesiva. A fita arre­bentou no instante em que a corda ficou tensa, fazendo com que as duas partes se separassem, e Knox acabou caindo no chão, a bexiga esvaziando e o coração pulando como um novilho aterrorizado e ao mesmo tempo perplexo com a suspensão de sua sentença. O motorista voltara numa gran­de curva na areia para apanhar seus parceiros, que ficaram lá agachados o tempo todo, filmando a reação de Knox, como ele havia se urinado todo. Eles riram às gargalhadas, como se aquilo fosse a coisa mais engraçada que já tinham visto. Um deles atirou um envelope pela janela e o carro os levou embora, deixando Knox amarrado ali na estaca, com as calças encharcadas e o pescoço machucado pela corda.

Ele levou duas horas para conseguir se libertar de todos os nós. A essa altura, ele estava tremendo com o corpo inteiro. As noites no deserto eram frias. Secou suas calças da melhor maneira possível esfregando-as com pu­nhados de areia fina, e depois foi ver o envelope. Completamente branco. Nada escrito por fora. Quando o abriu, caiu um pouco de areia. Contra­peso para não que fosse levado pelo vento. Fora aquilo, continha apenas um cartão de cortesia da British Airways com quatro palavras: "Você já foi avisado."

Subiu uma pequena colina. Ao longe avistou os lampejos de faróis cor­rendo nas duas mãos de uma estrada movimentada. Foi andando num ritmo desanimado, cansado e vagaroso. Era fácil ser corajoso em face de ameaças imaginadas. Mas aquilo era diferente. E ele tinha outros em quem pensar também, principalmente Augustin e Gaille. Não podia se arriscar a expô-los ao perigo.

Era chegada a hora de ir embora.

 

Nicolas Dragoumis tinha o costume de acordar cedo, porém esta manhã acordou mais cedo que o habitual, ansioso como uma criança no Natal. Foi direto ao laptop para verificar seus e-mails. Conforme prometido, havia um de Gabbar Mounim. Impaciente, baixou e decodificou o filme enviado no anexo enquanto lia a mensagem, balançando a cabeça em aprovação. Seu pai sempre insistira que Knox não devia ser ferido, e Mounim deixou bem claro que seus homens não o tinham ferido, não efetivamente. Um pouco de clorofórmio, uma pancada na cabeça, um impacto em seu sistema. Isso não poderia valer como ferimento. Pelo contrário, faria com que ele prezasse ainda mais a vida.

Nicolas viu o filme pela primeira vez. Knox seqüestrado; Knox caído inconsciente no chão do carro; Knox arrastado para as areias do deserto; seu olhar de terror quando o carro acelerou! Nicolas estava exultante. E pensar que aquele desgraçado havia causado tamanho sofrimento a ele e seu pai! E agora olhe só para ele! Urinando-se como um menino de 8 anos. Viu o filme uma segunda vez, e mais outra, suas costas relaxando a cada quadro. Um trabalho muito bom. Muito bom mesmo. Porque, a menos que Nicolas não tivesse o talento que ele sabia que tinha de julgar o caráter das pessoas, aquela seria a última vez que ele veria Knox.

 

Estava amanhecendo quando Knox finalmente chegou à estrada do litoral, mas o fluxo do tráfego ainda era pequeno. Atravessou a estrada correndo, depois escalou uma duna e desceu até uma praia no Mediterrâneo. Despiu as calças e a samba-canção e lavou-as nas marolas, torcendo-as da melhor maneira possível. Pendurou-as nos ombros e andou ao longo da praia, su­jando agradavelmente os pés com a areia fria e grossa.

O sol levantou-se alaranjado, espalhando um cometa de fogo na espuma sobre o mar. Knox chegou a um condomínio murado de casas de veraneio, cujo portão aberto balançava ao vento. Parecia deserto. Aquelas proprieda­des só mostravam atividade durante fins de semana e feriados. Muitas das casas exibiam varais e em vários desses havia roupas, maios e toalhas esten­didas. Ele entrou no condomínio e perambulou entre as casas até encontrar uma velha galabiya cor de creme e um turbante ligeiramente úmidos, tal­vez por ser tão cedo e pela proximidade com o Mediterrâneo. Deixou suas calças como compensação, junto com tanto dinheiro quanto podia gastar. Então levou as peças consigo e desapareceu antes que alguém o visse.

Tudo bem que aqueles homens lhe haviam avisado para cair fora. Mas ele precisava de cartões de crédito, passaporte e documentos, e tudo havia ficado no apartamento de Augustin. Mais do que tudo, Knox precisava do jipe. Gastou mais de uma hora sinalizando por carona até que um veícu­lo de três rodas parou. O motorista falou com ele num árabe áspero. Ele respondeu no mesmo tom sem nem pensar, com a mente em outro lugar. Falaram sobre futebol; o homem era um torcedor entusiasmado do Ittihad. Apenas quando Knox saltou do veículo foi que percebeu que tinha sido tomado por um egípcio. Suas roupas de beduíno e seu biotipo, sem dúvida, além do forte bronzeado e da barba por fazer, contribuíram para isso.

Ele estava quase sem dinheiro, então pegou uma série de ônibus até o apartamento de Augustin, percorrendo o último quilômetro a pé. Cami­nhou pelo estacionamento em estado de alerta, caso contrário não teria percebido os dois homens num Freelander branco, um fumando um cigarro enrolado à mão e o outro escondido na sombra. Knox se aproximou. Pela janela traseira ele viu uma bolsa de lona vermelha, uma pasta preta de laptop e uma caixa de papelão contendo seus pertences do hotel no Sinai. Virou-se nos calcanhares e saiu dali rápido. Não havia se afastado muito quan­do se deu conta de que não fazia sentido fugir. Se Hassan o quisesse preso ou morto, não o teria deixado no deserto na noite anterior. Esses homens certamente estavam lá para se assegurar de que ele iria embora.

Virou-se outra vez e andou corajosamente em direção à entrada do pré­dio, de costas para o Freelander, na esperança de que seus trajes egípcios funcionassem como um manto de invisibilidade. Um faxineiro estava la­vando o piso de ladrilhos de terracota vermelha. Knox contornou a área mo­lhada e arriscou dar uma olhada enquanto esperava o elevador. Os homens ainda estavam no Freelander. Entrou no elevador e foi até o sétimo andar, descendo pela escada até o sexto e agachando-se abaixo do nível da janela antes de entrar no apartamento. Não havia sinal de Augustin. Por certo passara a noite fora se divertindo. Knox reuniu seus pertences e escreveu um bilhete curto agradecendo a Augustin pela hospitalidade e informando que ia pôr o pé na estrada, prometendo ligar quando fosse possível. Estava quase terminando quando ouviu passos do lado de fora e um barulho de chave na fechadura. Olhou paralisado de terror ao ver a maçaneta girando, a porta se abrindo e Nessim entrando com uma bolsa transparente na mão esquerda contendo equipamento eletrônico.

 

Knox e Nessim olharam-se embasbacados por um instante, ambos igual­mente surpresos. Nessim recompôs-se primeiro e meteu a mão dentro da jaqueta. O vislumbre do coldre no ombro dele reavivou Knox. Ele investiu contra Nessim e derrubou-o no chão. A arma foi jogada para longe, alcan­çando a escada e caindo pelo poço até espatifar-se seis andares abaixo. Knox correu para os degraus. Nessim se levantou às pressas. Desceram correndo, saltando lances inteiros, rebatendo nas paredes ao fazer curvas, Knox prati­camente ao alcance do braço de Nessim. Chegou ao saguão do térreo, ainda escorregadio após o trabalho do faxineiro. Diminuiu a velocidade o bastante para não perder o equilíbrio, mas os pés de Nessim escorregaram, fazendo-o estatelar-se em frente aos elevadores, torcer o tornozelo e praguejar com força. Knox saiu pela porta e correu para o jipe. Arriscou uma olhada para trás. Nessim também havia saído, mancando muito. Tinha recuperado sua arma, mas a trazia junto ao corpo. Aquele ambiente era público demais para esse tipo de coisa. Gritou para seu colega, que arrancou com o Freelander e veio pegá-lo.

Knox correu para o jipe, pulou para dentro e ligou a ignição. O motor pegou de primeira. Acelerou imediatamente, percorrendo uma viela estreita até a rua principal, na qual entrou tão repentinamente que os carros que vinham atrás dele tiveram que frear e desviar, cortando uns aos outros e buzinando como gansos enfurecidos. Um olhar pelo retrovisor: o Freelander lutava para forçar passagem pelo súbito engarrafamento. Knox aproveitou, virando à esquerda e mais uma vez à esquerda, perdendo-se num labirinto de ruas e olhando sem parar para os retrovisores, mas não havia mais sinal de­les. Permitiu-se relaxar um pouco. Então olhou novamente e lá estavam eles. Como diabos eles conseguiram? Pisou fundo no acelerador, mas o Freelander, mais rápido e fácil de manobrar, estava se aproximando inexoravelmente.

Pouco adiante, numa passagem de nível, Knox viu um trem de passagei­ros vindo pelo seu lado na estrada. O trânsito diminuiu a velocidade para lhe dar passagem. Knox meteu o pé e pegou a contramão, buzinando feito louco para os carros desviarem. O trem continuava se aproximando. Quase não havia espaço, mas ele continuou pisando fundo e cruzou os trilhos à toda, recebendo uma pancada da locomotiva no para-choque traseiro e sen­do empurrado contra um poste de madeira, mas havia conseguido passar, e desviou para a mão correta, desimpedida, ignorando os punhos levantados e as buzinas raivosas. Uma olhada pelo retrovisor. O trem havia parado, atravessado na rua. Aquilo lhe daria uma vantagem de pelo menos um mi­nuto, talvez dois. Dobrou uma esquina e estacionou.

De forma alguma Nessim o havia encontrado com muita facilidade. Não num labirinto como Alexandria. Se o apartamento de Augustin estava sen­do vigiado, talvez eles tivessem encontrado também seu jipe. Ficou de qua­tro. O transmissor estava colado com fita adesiva sob o chassi. Arrancou-o e correu para a rua. Sinalizou para um táxi e pagou ao motorista para que o entregasse no Sheraton de Montazah. Voltou então para o jipe e saiu no sentido contrário.

Nessim não era idiota. Logo perceberia que tinha sido enganado. Knox precisava tirar todo o proveito possível de sua pequena vantagem. Mas Alexandria não era como Londres, com centenas de vias de escape. Suas opções eram basicamente se dirigir para o Cairo ao sul, Port Said ao leste ou El Alamein ao oeste. Mas Nessim com certeza tinha apoio. Hassan não poupava recursos; todas as saídas estariam sendo vigiadas em busca de um velho jipe verde. Então talvez fosse melhor sair do radar até que eles baixassem a guar­da. Mas onde? Ele era nocivo; não se atreveria a prejudicar mais nenhum amigo. Nessim certamente procuraria em todos os hotéis de Alexandria. E Knox não podia ficar nas ruas. Qualquer um poderia reconhecê-lo. Preci­sava esconder-se.

A idéia que lhe ocorreu era ao mesmo tempo tão ousada e tão perfeita que ele deu uma risada e quase bateu na van que ia à sua frente.

 

Uma surpresa desagradável aguardava Nicolas Dragoumis quando ele e seu guarda-costas Bastiaan chegaram ao sítio da necrópole vindos do aeroporto de Alexandria. Tudo o que ele queria era remover logo o plinto e descobrir o que havia embaixo, mas Ibrahim evidentemente decidiu fazer daquilo um acontecimento. Os escavadores estavam perfilados para cumprimentá-lo, e havia mesas postas com toalhas brancas, cobertas com xícaras e bules de chá e bolinhos de aspecto horroroso. Era claro que se esperava que ele trocasse algumas palavras com aquelas pessoas. Ele não era bom nisso, ser gentil com gente irrelevante. Mas havia muita coisa em jogo, então ele cerrou os dentes, disfarçou o mau humor e fez o melhor que pôde.

 

Knox parou no primeiro caixa automático que encontrou e sacou algum dinheiro. Hassan já sabia que ele estava em Alexandria, portanto não fazia sentido ficar na encolha. Então foi comprar suprimentos: uma bolsa volu­mosa impermeável, comida, água, uma lanterna submarina, uma lamparina elétrica, pilhas sobressalentes, livros. Em uma loja de auto-peças ele comprou uma capa de lona verde. Depois, dirigiu até o bairro residencial de classe alta ao sul da estação ferroviária principal, estacionou o jipe e o cobriu com a lona.

Colocou seus suprimentos dentro da bolsa impermeável e a amarrou firmemente na cintura, colocando-a sobre a barriga de modo que, sob a túnica, ele parecesse apenas um homem gordo. Então foi o mais depressa possível para o sítio, exibindo sua identificação do CSA ao segurança que estava na escadaria, que permitiu sua passagem com um sinal de cabeça e sem dizer palavra. Na rotunda abaixo, dois operários estavam instalando um portão de aço na entrada da tumba macedônia, sob a supervisão de Mansoor, que levantou o rosto quando Knox passou.

Mansoor franziu a testa sem muita certeza de tê-lo reconhecido.

Ei, você! — chamou. — Venha cá.

Knox abaixou a cabeça e apertou o passo necrópole adentro.

Ei! — gritou Mansoor. — Pare aí.

Mas Knox continuou andando, passando por escavadores que traziam cestos de restos humanos para a rotunda. Os passos atrás dele só o faziam se apressar. Várias câmaras já haviam sido esvaziadas de artefatos, e sua iluminação, realocada para onde fosse mais necessária. Ele havia pretendido entrar em uma dessas câmaras e esconder-se num loculus vazio até o anoite­cer. Agora isso não seria mais possível.

Ei! — gritou Mansoor atrás dele. — Segurem esse homem! Quero falar com ele.

Knox continuou às pressas, descendo os degraus até chegar ao lençol freático e sem poder seguir adiante. Como a bomba fora retirada, o nível da água estava de volta à altura original, agora que todo o ar havia saído. Ele não tinha tempo. Entrou lentamente na água para não agitá-la demais. Saíram bolhas de sua túnica; a bolsa impermeável em sua cintura inchou e tentou boiar. A busca por ele estava cada vez mais próxima, eram conferidas todas as câmaras, uma a uma. Knox encheu os pulmões de ar, apoiou a mão esquerda contra a parede, mergulhou na água escura e impulsionou o corpo pelo corredor, orientando-se de memória.

Sua ânsia de ar crescia a um ritmo estável. Ele chegou à terceira câmara, nadou até o canto superior e ficou aliviado ao ver que sua bússola interna não o decepcionara. Impulsionou-se para cima e saiu da água, subindo para a câmara sob a rotunda, com a bolsa impermeável ainda em sua cintura. Tirou a túnica encharcada, desamarrou a bolsa, secou-se, vestiu calças e camiseta. Aquele lugar ali não era exatamente o Ritz, mas o manteria a salvo pelo menos por algum tempo. Um metro cúbico de ar lhe daria quase uma hora se ele não fizesse esforços. Dentro daquela câmara havia uns 48 metros cúbicos de ar, o que significava que ele poderia ficar ali aquela noite e o dia seguinte. Então voltaria depois que os escavadores tivessem ido embora, passaria a noite num loculus vazio e partiria com os outros na hora do al­moço. Claro, desde que ninguém descobrisse como ele havia desaparecido.

Tentou se acomodar de maneira confortável, mas não era fácil. Sozinho na escuridão, rodeado de tumbas submersas cheias de restos humanos, ainda esperando que alguém aparecesse, não era surpresa alguma que ele estivesse ansioso. Mas com o tempo ele foi sentindo também outras emoções. Inveja. Raiva. Tinha sido ele quem percebeu que havia alguma coisa sob o plinto. E no entanto lá estava ele, um fugitivo, enquanto outros iam poder erguê-lo. E estava tão perto! Afinal, a necrópole ocupava uma grande espiral, então a tumba macedônia estava a apenas alguns metros de distância dele.

Sim, pensou, franzindo a testa. A apenas alguns metros de distância.

Deslocar pedras era, nas circunstâncias mais favoráveis, um trabalho muito pesado. Era duas vezes mais difícil se o único acesso era através de um buraco estreito. Com a eletricidade, era fácil esquecer quão difícil deve ter sido o problema de iluminação para os antigos. Velas e lâmpadas de óleo consumiam oxigênio, então sistemas rudimentares de ventilação eram inestimáveis. Dois pontos de acesso eram muito melhores que apenas um, permitindo circulação tanto de ar quanto de trabalhadores. E quando a es­cavação tivesse terminado e o sigilo fosse fundamental, faria sentido selar definitivamente os acessos principais, talvez bloqueando-os com pedras e cobrindo-as com mosaicos.

Knox colocou a lamparina no chão e começou a examinar cuidadosa­mente as paredes, dando pancadas suaves nelas com a base da lanterna para ouvir o eco, na esperança de escutar um timbre um pouco mais alto que pudesse indicar uma parte oca. Ele testou da base até o topo, deslocando-se depois meio metro para a esquerda e reiniciando. Nada. Conferiu o solo e o teto, e então os degraus. Nada. Tensionou os maxilares, frustrado. Aquilo fazia tanto sentido. No entanto, parecia que ele se enganara.

 

Nicolas agüentara o máximo possível a tarefa de ser educado. Pegou Ibrahim pelo braço e o levou para um canto.

Talvez possamos começar logo — disse secamente. — Preciso voltar esta noite para Tessalônica.

Claro. Sim. Há apenas mais uma pessoa que eu gostaria que o se­nhor conhecesse.

Quem? — Nicolas suspirou.

Mohammed el-Dahab — disse Ibrahim, apontando para um homem enorme. — Ele é o mestre de obras da construtora.

E depois poderemos começar?

Sim.

Bom. — Andaram até o outro lado. — Salaam alekum — disse Ni­colas sem rodeios.

Wa alekum es salaam — respondeu Mohammed. — E obrigado. Obrigado.

Nicolas franziu o testa.

Pelo quê?

A menina doente de que lhe falei — lembrou Ibrahim. — É filha de Mohammed.

Nicolas olhou com surpresa para um e depois para o outro.

Você está dizendo que realmente há uma menina doente?

É claro — espantou-se Ibrahim. — O que o senhor pensou?

Desculpe — disse Nicolas de forma enfática. — Tenho lidado demais com seus compatriotas no Cairo. Achei que fosse baksheesh.

Não — enfatizou Mohammed. — Esse dinheiro fez toda a diferença para nós. Seu dinheiro deu uma chance à minha filha. Receberemos os re­sultados hoje à noite. Mas qualquer que seja, minha família será eternamente grata ao senhor.

— Não foi nada—disse Nicolas.—De verdade.—Voltou-se para Ibrahim e deu uma olhada no relógio. — Agora, realmente temos que começar.

 

Knox sentou-se na escuridão com as costas apoiadas contra uma das paredes de sustentação, mordendo o nó do dedo polegar em frustração. Fazia todo o sentido que o lugar tivesse uma conexão com a câmara inferior. No entanto, ele havia verificado cada centímetro quadrado do exterior da câmara que pôde alcançar, exceto apenas as áreas bloqueadas pelas paredes de sustentação.

Ele franziu a testa. Devia haver pelo menos uns 60 centímetros de pedra calcária acima de sua cabeça, e ainda assim havia paredes de sustentação. Ele ficou de joelhos, espalmou as mãos contra uma parede, encostou o rosto nela como se quisesse ouvir seus segredos. Por que raios alguém se daria esse trabalho? A câmara fora escavada em rocha sólida. O teto não precisava de escoras. Havia dezenas de câmaras nessa necrópole, e dezenas de necrópoles em Alexandria. Em nenhuma delas Knox tinha visto paredes de sustentação como aquelas. Talvez então não fossem paredes de sustentação. Talvez tivessem outra finalidade. Talvez estivessem escondendo algo.

Ele andou de um lado para o outro, inspecionando-as com atenção. Cada uma era composta de seis colunas de seis blocos. Os blocos tinham uns 30 centímetros de largura, 30 de altura e 1 metro de comprimento, e estavam enfileirados. Cada um deles encontrava-se com a parede exterior em apenas uma das extremidades. Se essas paredes estivessem de fato escondendo al­guma coisa, ele descobriria na junção. A argamassa já se havia desfeito. Ele empurrou com força o bloco superior, que rangeu, mas cedeu lentamente, revelando somente uma parede sólida. Knox a abandonou e se voltou para a segunda parede. Dessa vez, quando empurrou o bloco superior, viu uma fresta de espaço atrás. Ele tentou empurrar os dois blocos superiores juntos, mas eram muito pesados. Escalou a parede como um alpinista numa cha­miné rochosa e usou os pés para empurrar os blocos o máximo possível, deixando-os presos de forma precária entre os blocos restantes de baixo e o teto acima. Voltou a descer e inspecionou o que havia revelado. Um buraco apertado que dava em um espaço compacto do tamanho de um armário de vassouras e outra parede ao fundo. Encheu os bolsos com tudo que poderia ser necessário e se espremeu para passar primeiro pelo buraco, entrando de frente e caindo com as mãos com um grunhido.

Ligou a lanterna, limpou as palmas das mãos e foi inspecionar a parede mais afastada. Ela era feita de tijolos, em vez de blocos, pequenos o bastan­te para que uma pessoa pudesse manejá-los com relativa facilidade. Knox sentiu sua respiração se acelerar enquanto colocava a mão espalmada sobre ela. O que quer que existisse do outro lado devia ter a ver com o plinto que Ibrahim levantaria a qualquer momento. Colocou o ouvido contra a pare­de, mas não ouviu nada. Era loucura sequer considerar seguir em frente. Se ele fosse encontrado, teria que encarar muito tempo de cadeia. Mas estava tão perto! Na certa um só tijolo não ia fazer mal algum. Não se ele tives­se cuidado.

Raspou a argamassa desfeita e puxou apenas um tijolo, que colocou mui­to delicadamente sobre o chão. Ficou meio minuto tentando ouvir qualquer ruído. O silêncio era total. Tentou olhar pela abertura, mas ela era muito pequena para os olhos e a lanterna juntos. Então enfiou a lanterna pela abertura e olhou da melhor forma que pôde acompanhando a linha do braço. Mas a lanterna estava apontada para o lado errado, então ele não conseguia ver nada. Ao tentar virar a mão, sem querer seus dedos relaxaram um pouco e a lanterna escapuliu. Ele tentou pegá-la de volta, mas ela caiu em espiral até aterrissar em água rasa com um baque molhado, seu facho luminoso projetando marolas brancas fantasmagóricas na parede oposta.

 

Knox não tinha outra escolha senão recuperar a lanterna. Ibrahim, Mansoor e os outros estavam prestes a remover o plinto. Se a encontrassem, ele certamente seria descoberto. Além do mais, Knox tinha tempo. O local ainda estava em silêncio. Começou a desmontar a parede tijolo por tijolo, colocando-os com cuidado no chão, preservando a argamassa velha, de modo que ele pudesse reconstruir a parede exatamente como a havia encontrado. Quando criou um espaço suficiente, enfiou a cabeça, sentindo um cheiro acre de amônia. Era um corredor baixo e em arco com um piso molhado, como os esgotos vito­rianos. Suas paredes inclusive eram riscadas como se tivessem sido também construídas de tijolos em vez de escavadas, talvez para camuflar a passagem que ele acabara de abrir, mas era possível que fosse simplesmente porque os antigos consideravam a construção mais importante que a escavação.

Esticou o braço para pegar a lanterna, mas não conseguia alcançá-la sem apoiar o corpo na parede, a qual ele não confiava que fosse capaz de agüentar seu peso. Retirou outras duas fileiras de tijolos e passou uma perna sobre os que restaram. Sentiu a água gelada ao tocá-la com o pé descalço enquanto se curvava para pegar a lanterna. Apurou o ouvido. Nada além de silêncio. Agora ele estava ali. Seria um crime não dar uma olhada rápida.

Caminhou pelo corredor alagado espanando teias de aranha com as mãos, imaginando enguias e animais noturnos em volta de seus calcanhares descalços.

Chegou a uma câmara compacta sob uma chaminé que estava tampada por um tipo de laje. O plinto, sem dúvida. Voltou no outro sentido e chegou a um portal de mármore com uma inscrição em grego arcaico gravada em sua arquitrave.

Juntos na vida; juntos na morte. Quelônimo.

Quelônimo. O nome era familiar, assim como o de Áquilo. Mas sua me­mória não estava ajudando, e o tempo era curto. Então Knox passou sob o portal, chegando aos pés de uma escada de degraus de pedra que se alargava à medida que subia. E no topo...

Jesus Cristo! — murmurou Knox.

 

— O que está acontecendo? — perguntou Nicolas, vendo uma multidão de escavadores e outros convidados descerem a escadaria para a rotunda.

O que quer dizer, senhor? — Ibrahim franziu a testa.

Todas essas pessoas? — disse Nicolas. — Não acredito que você te­nha convidado essa gente toda.

Apenas para assistirem. Da antecâmara. Este é um grande momento para nós.

Não — disse Nicolas. — Você, eu, seu arqueólogo, Elena. E mais ninguém.

Mas eu já...

Falo sério. Se você deseja receber o restante do patrocínio do Grupo Dragoumis, mande essas pessoas embora agora mesmo.

Não é tão simples assim — protestou Ibrahim. — Precisamos de Mo­hammed para erguer o plinto. Precisamos da moça para tirar as fotografias. Ocasiões como esta não ocorrem com freqüência, sabe.

Muito bem. Esses dois. Mais ninguém.

Mas eu...

Mais ninguém — enfatizou Nicolas. — Isto não é um circo. E uma escavação séria.

— Está bem — suspirou Ibrahim. E voltou-se com um coração pesado por desapontar a multidão de escavadores animados.

 

Knox ficou boquiaberto ao lançar a luz de sua lanterna pelo interior da câmara como se fosse um holofote sobre uma cidade bombardeada. Não conseguia acreditar em seus olhos. A sua direita, uma plataforma havia sido lavrada na pedra calcária. Duas prateleiras continham 16 urnas de terracota ou esquifes dourados, totalizando 32. Jarros de vidro haviam tombado tanto nas prateleiras quanto no chão, tendo despejado seu conteúdo de pe­dras preciosas e semipreciosas. Também no chão havia inúmeros artefatos valiosos: espadas, lanças e escudos e ânforas de prata e de barro. Na parede mais afastada um mármore branco embutido estava gravado com uma lon­ga inscrição, mas se encontrava longe demais para ele ler.

Mas foi a parede da esquerda que fascinou Knox. Era um mosaico enor­me, delimitado no alto por um reboco pintado de azul-turquesa que re­presentava o céu, que por sua vez contornava o motivo principal como um traço de giz para marcar a posição de um cadáver. Trinta e três homens, evidentemente soldados, embora nem todos estivessem armados, formavam dois conjuntos que se sobrepunham, um no primeiro plano e o outro mais atrás. Eles pareciam extremamente tranqüilos e alegres. Alguns conversavam entre si, com os braços em torno dos ombros uns dos outros. Uns lutavam na areia ou jogavam dados. Mas, ajoelhado no centro, estava o ponto focai do mosaico e claramente o líder do grupo: um homem magro e elegante de cabelos castanhos que olhava resoluto para fora da parede. As duas mãos seguravam o punho de uma espada, enterrada fundo na areia. Knox piscou. Não era possível estudar a história greco-romana sem aprender sobre os mosaicos. Mas ele jamais tinha visto algo como aquilo.

Knox não tinha uma câmera fotográfica consigo, exceto a do seu celu­lar. E não o tinha ligado desde o Sinai, preocupado que Hassan pudesse localizá-lo, mas seria impossível o aparelho pegar algum sinal tão fundo sob a terra. Esgueirou-se com cuidado pela câmara, fotografando o mosaico, os esquifes, as riquezas sepulcrais espalhadas pelo chão, a inscrição. Ficou tão absorto nessa atividade que foi apenas ao ouvir um ruído de algo sendo arrastado no corredor atrás dele que se lembrou tarde demais, da retirada do plinto

 

Bastiaan e três guardas egípcios corpulentos mantiveram afastados da tum­ba macedônia os escavadores descontentes enquanto Mohammed e Mansoor atacavam o plinto da mesma maneira que tinham feito no dia anterior, enfiando pés de cabra em um dos lados e erguendo-o. Dessa vez foi mais fá­cil. Levantaram-no alguns centímetros, o suficiente para Ibrahim encaixar um macaco hidráulico e acioná-lo, elevando o plinto o bastante para colocar sob ele uma plataforma com rodas. Repetiram o processo do outro lado e simplesmente deslizaram o plinto até a parede.

Havia um grande buraco escuro no chão, como Ibrahim tinha vislum­brado antes. Todos se juntaram em volta. Mansoor iluminou o interior com a lanterna. A luz cintilou brilhante 5 metros abaixo.

Água — disse Mansoor. — Eu irei primeiro. — E virou-se para Mo­hammed. — Faça uma laçada numa corda. Você me ajuda a descer?

Sim — concordou Mohammed.

 

Knox não tinha tempo para sutilezas. Colocou a mão sobre a lâmpada de sua lanterna para bloquear parte da luz, permitindo apenas o suficiente para que pudesse enxergar o que estava fazendo, e então tirou a camiseta a fim de apagar suas pegadas na poeira enquanto saía da câmara e descia os de­graus. Mas Mansoor já estava sendo baixado pela corda, iluminando com a lanterna o chão e tudo à sua volta, de modo que Knox precisou retroceder para ficar fora de vista.

Há um corredor — gritou Mansoor, pousando na água rasa e se li­vrando da corda. — Vou dar uma olhada.

Não! — disse Ibrahim. — Espere.

Mas eu só vou...

Espere por nós.

A luz da lanterna apagou-se por instantes. Knox arriscou uma olhada e viu a corda sendo puxada de volta. Mas então Mansoor iluminou nova­mente o corredor, evidentemente frustrado, impedindo qualquer chance de Knox escapar. Alguém mais estava sendo baixado agora, Gaille, rodopiando de um lado para o outro na corda. Mansoor virou-se para ajudá-la. Essa era a única chance de Knox. Correu pelo corredor até a parede desmontada, fazendo o possível para não provocar ondas na água.

Mas Gaille deu um grito de alarme.

Há alguém ali! — gritou.

Knox passou pelo buraco da parede no momento em que Mansoor ilu­minou o corredor com a lanterna.

Não há ninguém — disse rindo. — Como poderia haver alguém?

Eu seria capaz de jurar — respondeu Gaille.

Foi sua imaginação — explicou Mansoor. — Lugares como este fa­zem isso.

Knox não estava prestando atenção, seu coração ainda disparado, reconstruindo freneticamente a parede pelo lado de dentro. Ele não podia se arriscar a acender a lanterna, então precisou trabalhar usando o tato e a pouca luz que vinha da lanterna de Mansoor, de Gaille e dos outros que vinham descendo um por um. Mas quando todos já estavam lá embaixo, sua parede ainda estava apenas três quartos refeita.

Ok — disse Ibrahim. — Vá na frente.

Knox ficou paralisado. Não podia fazer mais nada agora, a não ser ficar escondido na escuridão e rezar. As luzes das lanternas piscavam, brilhavam e ficavam quase ofuscanres. Havia ainda um grande buraco em sua parede. Eles na certa notariam. Mas de alguma forma todos passaram, um a um, com as cabeças abaixadas olhando para o chão, tomando cuidado com onde pisavam. Ibrahim, Mansoor, Elena, Gaille e, então, surpreendentemente, Nicolas Dragoumis. Nicolas Dragoumis! De súbito, a execução simulada da noite anterior tinha um suspeito novo em folha.

Todos pararam, assim como ele, para iluminar e ler a inscrição na arquitrave.

Vejam! — disse Elena entusiasmada, cutucando Nicolas. — Quelô­nimo!

Seu tom de voz e a presença de Nicolas Dragoumis fizeram Knox se lembrar enfim por que os nomes Quelônimo e Aquilo lhe pareceram tão familiares.

 

Ibrahim foi o primeiro a entrar na câmara. Ficou em admiração silenciosa enquanto os outros foram chegando e parando no degrau inferior. Ele olha­va à sua volta quase como se estivesse bêbado. Foi apenas quando Nicolas ameaçou entrar na câmara que ele voltou a si.

Pare! — disse. — Ninguém vai entrar.

Mas...

Ninguém vai entrar — repetiu. Ele de repente sentiu um surto de autoridade. Era o representante principal do Conselho Superior de Antigüidades no local, e aquela, ninguém poderia duvidar, era uma descoberta de importância histórica. Ele se virou para Mansoor. — Temos de informar ao Cairo imediatamente — disse.

Cairo? — Nicolas contraiu as pálpebras. — Isso é realmente necessá­rio? Tenho certeza de que este não é um assunto para...

É um assunto para quem eu disser que for.

Mas...

O senhor é o nosso patrocinador, somos gratos pelo apoio. Este as­sunto não lhe diz mais respeito. Fui claro?

Nicolas teve de forçar um sorriso.

Como queira.

Gaille, você irá fotografar, não?

Claro.

Mansoor, você fica com ela.

Certo.

Darei instruções a Mohammed e aos guardas para que não permitam mais ninguém aqui embaixo. Tomarei providências para que a necrópole seja evacuada. Quando você achar que as fotografias de Gaille são suficien­tes, recoloque o plinto sobre o buraco. Certifique-se então de que o sítio esteja vazio e sele a entrada da escadaria. Tenho certeza de que Mohammed encontrará um jeito. Sele completamente, veja bem. Ninguém deve entrar ou sair. Entendido?

Sim, senhor.

Pedirei a Maha para que providencie seguranças para dia e noite. Não saia antes de eles chegarem. Depois leve Gaille à minha casa. E não perca a câmera dela de vista.

Sim, senhor.

Quanto a mim, vou notificar o Conselho Superior de que acaba­mos de descobrir a antigüidade mais importante da história moderna de Alexandria.

 

Knox terminou de reconstruir a parede em silêncio antes que Ibrahim e os outros saíssem. Mas Gaille e Mansoor ficaram para trás tirando fotografias, então não se atreveu a se mexer, temendo que o mais leve ruído pudesse denunciar sua presença. As câimbras em suas coxas e batatas das pernas doíam terrivelmente quando Mansoor emfim deu-se por satisfeito e os dois foram embora.

Não havia tempo a perder. Se ele não saísse logo, ficaria selado ali dentro com todos os outros cadáveres. Limpou a área de vestígios de sua presença e esgueirou-se de volta até a câmara sob a rotunda, recolocando os blocos tal qual os tinha encontrado. Tirou todas as roupas e enfiou tudo na bolsa, entrou na água, tomou fôlego e nadou até os degraus, puxando a bolsa atrás de si. Teve sorte. Não havia ninguém esperando. Na verdade, toda a necrópole estava escura e silenciosa de um jeito lúgubre. Enxugou-se como pôde, vestiu as calças e a camiseta, encheu os bolsos com tudo de valor e enfiou o resto no fundo de um loculus vazio. Então correu para a rotunda. Ouviu metal guinchando e batendo ao chegar lá. Olhou para cima e viu a luz do dia parcialmente encoberta pelo fundo de um contêiner azul e um segundo já sendo colocado para completar o selo. Knox correu escada acima, com os músculos da coxa protestando, e mergulhou para fora no momento em que o contêiner era ajustado ao lugar. Todos olharam incrédulos quando ele se pôs de pé num salto e saiu correndo em direção aos portões.

— Detenham-no! — gritou Mansoor. — Alguém o pare!

Na saída do sítio, dois guardas bloquearam sua passagem. Knox abaixou um dos ombros, fintou para a direita, driblou um dos guardas pela esquerda e saiu para a rua, cruzando o tráfego, se esquivando de um micro-ônibus, se afastando de seus perseguidores, que gritavam para que as pessoas o pe­gassem e berravam em seus celulares. Knox entrou em uma viela indo em direção ao jipe, enquanto três homens corriam velozes atrás dele. Um lojista pulou para a calçada a fim de lhe bloquear a passagem, mas Knox ultrapas­sou a fraca investida, deu uma olhada para trás e viu que os três homens se aproximavam. E então dois soldados surgiram adiante, sacando suas armas. A situação estava ficando feia muito rapidamente, mas era tarde demais para parar agora. Com o peito doendo e uma pontada queimando no lado, virou para a esquerda agachado, suas pernas diminuindo o ritmo pelo ácido lático. Pulou um muro, agachou-se sob um portão e correu para a viela escura onde deixara o jipe, puxando a lona que o cobria apenas o suficiente para se enfiar debaixo dela, abrir a porta e se esticar nos bancos, respirando com sofreguidão e ao mesmo tempo tentando não fazer barulho, ouvindo passos frenéticos correndo pela viela atrás dele e rezando para que não o tivessem visto.

 

Ibrahim cumprimentou Gaille e Mansoor com impaciência quando eles finalmente chegaram à sua casa.

Houve um problema no sítio — explicou Mansoor. — Um intruso.

Um intruso?

Não se preocupe. Não chegou nem perto da tumba macedônia.

Vocês o pegaram?

Ainda estão procurando. Não poderá ir muito longe. — Mansoor ergueu o celular. — Irão me ligar assim que tiverem notícias.

Bom. E o sítio?

Selado. Os guardas também estão a postos. Por enquanto está tudo bem. E Yusuf?

Ele está numa reunião — disse Ibrahim.

Reunião? — Mansoor franziu a testa. — O senhor não mandou avisá-lo?

Ibrahim corou.

Você sabe como ele é. Retornará a ligação logo. — Virou-se para Gaille: — Podemos ver suas fotos?

Claro.

Ela transferiu as fotos para o laptop e foi abrindo uma a uma. Todos se juntaram em volta da mesa da cozinha para olhar.

Demótica — murmurou Ibrahim com tristeza, quando ela lhe mos­trou a inscrição. — Por que precisava ser demótica?

Gaille sabe demótico — informou Elena. — Ela está trabalhando no projeto de dicionário da Sorbonne.

Maravilha — disse Ibrahim com um largo sorriso. — Então você pode traduzir isso para nós?

Gaille deu uma risada seca. Demótico era uma língua grosseira, como Ibrahim devia saber muito bem. Perguntar se ela podia traduzir aquilo era como perguntar a alguém se falava inglês para em seguida começar a taga­relar em anglo-saxão primitivo.

O Egito Antigo tivera apenas uma língua falada principal, mas ela podia ser escrita por alguns alfabetos diferentes. O primeiro deles era o dos hieróglifos, pictogramas estilizados que se conhece de templos, tumbas e filmes de Hollywood. Apareceram por volta do ano 3.100 a.C. Egiptólogos pionei­ros acharam que era uma linguagem pictórica, na qual cada símbolo seria a representação de um único conceito. Mas, depois que se descobriu a Pedra de Rosetta, com um texto idêntico escrito em hieróglifos, demótico e gre­go arcaico, Thomas Young e depois Jean-François Champollion deduziram que aqueles pictogramas tinham um valor tanto simbólico quanto fonético; eram, em resumo, letras que podiam ser combinadas de formas variadas a fim de formar palavras e, portanto, um extenso vocabulário; e que aquela língua também tinha sintaxe e gramática próprias.

Os hieróglifos, ainda que tenham uma aparência fantástica nas paredes de templos e palácios e em documentos formais, eram complexos demais para serem práticos para o uso cotidiano. Quase no início, então, fora de­senvolvido em paralelo um alfabeto mais simples e ágil. Ficara conhecido como hierático, e se tornara a linguagem da literatura, dos negócios e da administração no Egito Antigo, motivo pelo qual foi encontrado em ma­teriais menos valiosos, como peças de madeira, papiros e óstracos. Então, por volta de 600 a.C., surgira uma terceira linguagem escrita chamada de­mótico, reduzindo o hierático a uma série de riscos, linhas e pontos, uma espécie de letra cursiva egípcia. Para piorar a situação, não tinha nem vogais nem espaços entre as palavras, seu vocabulário era amplo e vernacular, o alfabeto variava muito de região para região e se modificara imensamente ao longo dos séculos, de modo que era na verdade uma família de linguagens semelhantes, e não apenas uma. Dominá-la demandava anos de dedicação e uma pilha de dicionários do tamanho de um fusca. Dependendo de quão corrente fosse a inscrição, e dos recursos de que se dispunha, decifrá-la po­deria levar horas, dias ou mesmo semanas. Gaille resumiu isso tudo com uma olhada irônica para Ibrahim.

Sim, entendo — concordou ele, tendo a delicadeza de corar. — Mas ainda assim...

Gaille suspirou, embora na verdade estivesse eufórica com o desafio. No interior da câmara estava muito escuro para enxergar direito a inscrição. Mas sua máquina fotográfica tinha uma resolução impressionante, e as fotos ficaram bem nítidas, apesar da poeira e das teias de aranha, deixando os caracteres demóticos claramente legíveis. Ela voltou a diminuir a fotografia. Havia algo na inscrição que a incomodava, mas ela não conseguiu perceber bem o quê.

Então? — perguntou Ibrahim.

Por favor, deem-me um minuto, sim?

Claro. — E ele pediu que os outros saíssem para deixá-la em paz.

 

Knox ficou completamente imóvel deitado nos bancos da frente do jipe. Seus perseguidores haviam se reunido bem ao lado do carro e discutiam o que fazer enquanto recuperavam o fôlego. O suor sobre todo o seu corpo estava esfriando, provocando arrepios apesar do calor do dia. O jipe incli­nou-se com o peso de alguém sentando-se sobre o capô. Ouviu o barulho de um isqueiro sendo aceso, o cheiro de cigarros e pessoas conversando e debochando umas das outras por serem lentas e velhas demais. O jipe ran­geu quando mais alguém se apoiou nele. Deus do céu! Quanto tempo até que um deles decidisse ver o que existia sob a lona? Mas não havia nada que ele pudesse fazer senão permanecer imóvel. Nada, a não ser planos.

Mas que planos? Hassan, Nessim, os Dragoumis, a polícia, o exército e só Deus sabe quem mais estavam todos atrás dele. Ele não podia arriscar ligar o celular para ver as fotografias, pois Nessim poderia rastrear o sinal. Além disso, seria muito difícil ver qualquer coisa na tela diminuta do aparelho e mesmo assim ele precisava apagá-las o quanto antes, pois, se fossem descobertas, provariam sua presença na câmara inferior e lhe garantiriam dez anos de cadeia. O ideal seria poder trans­feri-las para o seu laptop, mas ele estava na traseira do Freelander de Nessim com o restante de suas coisas e, de qualquer forma, não tinha uma entrada USB, então a única maneira de passá-las para ele seria mandá-las para seu e-mail e depois descarregá-las. Mas nada disso iria acontecer enquanto ele estivesse ali no jipe com seus perseguidores sentados no capô.

Levou os pensamentos para outra direção: os nomes Quelônimo e Áquilo. Quando ele e Richard descobriram os arquivos ptolomaicos em Mallawi, havia material demais para ser traduzido durante as pesqui­sas. Então eles os conservaram, catalogaram e entregaram ao CSA para preservá-los e estudá-los depois. O método que preferiram havia sido o de juntar todos os fragmentos de um determinado papiro, fotografá-los e dar um único nome aos fragmentos e à fotografia, baseando-se no lugar onde tinham sido encontrados ou (se muitos tivessem sido encontrados no mesmo lugar) no nome de um lugar ou no de uma pessoa citados no texto. E dois nomes que apareciam com muita freqüência eram Áquilo e Quelônimo.

Havia muito que os originais tinham sido levados por Yusuf, do CSA, para "preservação", então só Deus sabia onde estariam agora, mas Knox tinha as fotos em CDs. Infelizmente, eles também estavam no porta-malas do Freelander de Nessim, provavelmente no estacionamento com circuito interno de televisão de algum hotel de luxo em Alexandria; e Knox não podia exatamente sair procurando de hotel em hotel na esperança de encon­trar o carro, quebrar o vidro e recuperar suas coisas. Não. Precisava pensar em outra solução.

O jipe se mexeu quando o homem saiu de cima do capô. Passos se ar­rastaram e se afastaram. Knox esperou até que o silêncio tivesse durado uns bons minutos, então saiu e retirou a lona. Não havia tempo a perder. Ele precisava dar uns telefonemas.

Apesar de encarar intensamente a inscrição, demorou ainda vários minu­tos para que Gaille descobrisse o que a estava perturbando. Mas ela enfim percebeu. A linha de baixo do texto estava incompleta e escrita da esquerda para a direita. Mas o demótico, assim com o árabe, era escrito da direi­ta para a esquerda.

A inscrição na tumba macedônia estava em grego. As poucas palavras nas pinturas da antecâmara estavam em grego. A dedicatória na arquitrave esta­va em grego. Os escudeiros eram gregos. Os deuses invocados eram gregos. Aquilo parecia demótico, mas não era para ser lido como tal, pelo menos não a princípio. E parecia um capricho trocar para demótico somente aquela inscrição. Então talvez o conteúdo simplesmente fosse sério demais para ser escrito em grego. Talvez quem a escreveu tenha escolhido o alfabeto demóti­co. Afinal, os antigos não haviam ignorado os códigos. O próprio Alexandre usara subterfúgios para esconder mensagens importantes. As Advertências dos Filhos da Aurora, um dos Pergaminhos do Mar Morto, usaram códigos para camuflar palavras particularmente importantes. Valério Probo escreveu um verdadeiro tratado sobre códigos de substituição. Eles haviam sido sim­ples, pois as pessoas os consideravam indecifráveis. Mas Gaille não.

Ela copiou a inscrição em seu bloco de anotações, procurando padrões enquanto escrevia. Se o código fosse uma simples transliteração e uma mes­ma palavra estivesse cifrada mais de uma vez, então iria produzir sempre seqüências idênticas. Não demorou muito para que ela decifrasse a primeira série, depois a segunda e a terceira. Esta última parecia particularmente útil: possuía dez caracteres e aparecia nada menos do que quatro vezes no texto. Tinha que ser uma única palavra. Uma palavra importante. O que poderia significar? Talvez o nome de uma pessoa. Repassou mentalmente todos os nomes que haviam encontrado na câmara superior. Aquilo era muito curto. Assim também eram Quelônimo e Apeles, Bilip e Timóleo. Teve um prin­cípio de euforia quando pensou em tentar Alexandre, mas também não deu certo. Ficou desanimada de novo. Levantou-se, andou pela pequena sala com passos rápidos, sentindo que estava se esquecendo de alguma coisa, fazendo um esforço quase físico para empurrar sua mente à resposta.

Quando finalmente se deu conta, ela corou e olhou à sua volta, receando que seu erro de iniciante pudesse ter sido percebido por alguém. Pois Ale­xandre, que era como o mundo o conhecia, era na verdade um nome latino. Para os gregos ele era conhecido como Alexandros. Voltou a sentar-se e usou as letras da palavra Alexandros para iniciar um alfabeto de transposição, substituindo os símbolos demóticos pelas letras gregas correspondentes ao longo do texto. Aquilo foi suficiente para ela supor a palavra adjacente à primeira Alexandros. Era Macedônia. Com metade do alfabeto decifrado, o resto veio com facilidade. Ela dominava o grego arcaico; fez a tradução em seu bloco, tão absorta na tarefa que perdeu a noção do tempo e de onde es­tava até que ouviu seu nome sendo chamado, trazendo-a de volta ao mundo real. Levantou os olhos e viu Ibrahim, Nicolas, Mansoor e Elena em pé num semicírculo olhando para ela em expectativa, como se alguém tivesse feito uma pergunta e estivessem à espera de sua resposta.

Ibrahim suspirou e disse:

Eu estava explicando para Nicolas como o demótico pode ser difícil. Queremos que o mínimo de gente tome conhecimento disso, então gostaríamos muito que você trabalhasse nisso sozinha. Quanto tempo acha que irá precisar? Um dia? Dois? Uma semana?

Aquele devia ser o momento mais gratificante da vida profissional de Gaille.

Na verdade — disse alegre, levantado seu bloco —, já acabei.

 

Nessim estava em seu quarto no hotel discutindo planos com Hosni, Ratib e Sami. Mas a conversa não estava muito animada. Knox tinha desaparecido do radar e nada que eles haviam tentado funcionara.

Era fim de tarde quando o telefone tocou: Badr, o contato de Nessim na empresa de telefonia, que estivera esperando Knox usar o celular.

Ele o ligou — disse ele, animado. — Está fazendo uma ligação.

Para quem?

Para ninguém. Está mandando imagens para um endereço de e- mail.

De onde?

Perto da estação ferroviária.

Fique na linha — disse Nessim. — Avise-me se ele sair de lá. — Hos­ni, Ratib e Sami já estavam de pé. Nessim acenou para eles. — Consegui­mos rastreá-lo — disse. — Vamos agir.

 

— Então? — falou Ibrahim entusiasmado. — Não nos deixe em suspense. Gaille balançou a cabeça. Pigarreou e começou a ler em voz alta:

"Eu, Quelônimo, filho de Hérmias, irmão de Aquilo, construtor, escriba, arquiteto, escultor, amante do conhecimento, viageiro de muitas terras, presto reverência a vocês, Grandes Deuses, por me permitirem trazer para este lugar debaixo da terra estes 32 escudeiros, heróis do Grande Conquis­tador, Alexandre da Macedônia, Filho de Amon. Agora cumpro meu jura­mento de enterrar num mesmo lugar os 33 que morreram na consumação do último desejo de Alexandre, que se construísse uma tumba para ele com vista para o lugar de seu pai. E, para realizar seu desejo, Áquilo e estes 32 construíram tal tumba e a guarneceram com bens apropriados para o filho de Amon."

Gaille ainda não tinha assimilado o texto até aquele instante. Estivera muito ocupada traduzindo-o. Mas ao lê-lo, percebeu quão chocante ele era. Ergueu o olhar e viu nos outros o mesmo espanto que ela sabia também ter em seu rosto.

Continue — insistiu Elena, ávida.

"E para cumprir seu desejo retiraram seu corpo da Muralha Branca para cruzar a terra vermelha de grande aridez até a abertura do lugar preparado embaixo da terra. E, perto daquele lugar, Ptolomeu, que é chamado O Sal­vador, os encurralou, levando-os a tirar a própria vida em vez de se subme­terem à sua tortura. Então Ptolomeu os crucificou por vingança e os deixou, crucificados, para servirem de carniça. Áquilo e os 32 deram suas vidas para honrar o desejo de Alexandre, Filho de Amon, em desafio a Ptolomeu, filho de nada. Eu, Quelônimo, homem da Macedônia, irmão de Aquilo, lhes suplico, Grandes Deuses, que recebam estes heróis em seu reino como rece­beram Alexandre."

Ela levantou os olhos outra vez para indicar que tinha terminado. As expressões de entusiasmo deram lugar a uma espécie de incredulidade atordoada. Ninguém falou por uns bons cinco segundos.

Foi Nicolas quem finalmente quebrou o silêncio:

Isso... — começou hesitante. — Isso significa o que eu penso que significa?

Sim — concordou Ibrahim. — Acho que sim.

 

Assim que as fotografias foram transmitidas, Knox as deletou de seu celu­lar, desligou-o e arrancou com o jipe antes que Nessim tivesse chance de encontrá-lo. Só mais um telefonema e estaria pronto. Estacionou perto da Coluna de Pompeia, comprou um ingresso e entrou. Era um espaço murado de cerca de 1 hectare, cercado por uma grande concentração de residências. A coluna em si ocupava um lugar de destaque no outeiro ao centro, mas na verdade toda a área delimitada era histórica porque era a antiga localização do famoso templo de Serápis.

Knox sempre tivera grande simpatia por Serápis, uma deidade benigna e inteligente que de certo modo fundira os mitos religiosos egípcios, gregos e asiáticos numa teologia única. Segundo uma tese, ele apareceu pela primeira vez na percepção dos gregos quando Alexandre estava moribundo na Babilônia. Uma delegação de seus homens foi ao templo de Serápis de lá para per­guntar se Alexandre deveria ser trazido ao templo ou se deveria permanecer onde estava. Serápis respondera que seria melhor que ele ficasse onde se en­contrava. A delegação obedecera, e Alexandre morrera pouco depois, o que teria sido a melhor coisa. Outros, entretanto, afirmaram que o culto a Serápis tinha suas raízes na cidade de Sínope, no mar Negro, enquanto ainda outros defendiam que Serápis era egípcio, porque durante séculos touros Ápis ha­viam sido sacrificados e enterrados em uma cripta enorme conhecida pelos gregos como Serapeu, contração de "Osíris-Ápis" ou "touro Ápis morto".

Knox deu uma olhada à sua volta para ter certeza de que ninguém estava vendo e se escondeu atrás da base da Coluna de Pompeia. Viu as horas no relógio, respirou fundo duas vezes, ligou o celular e começou a discar.

 

Como assim você o perdeu? — gritou Nessim.

Ele desligou o celular.

Nessim socou o painel do carro com tanta força que chegou a arranhar a pele da mão.

Qual era a última posição dele?

Como eu disse, perto da estação ferroviária.

Fique na linha — ordenou Nessim, costurando o trânsito. — Se ele fizer outra ligação, quero saber imediatamente. — Em cinco minutos che­garam à estação. Nessim dirigiu em torno dela por um momento, mas não havia qualquer sinal de Knox ou seu jipe.

Então Badr falou outra vez:

Ele ligou o celular de novo. Está fazendo outra ligação.

De onde?

Ao sul de onde você está — concluiu Badr. — Ele deve estar bem ao lado da Coluna de Pompeia.

Nessim e seus homens ficaram inclinados olhando pelas janelas enquan­to o carro seguia. Passando por uma rua lateral, ele vislumbrou a coluna de mármore apontando ao alto a cerca de 1 quilômetro de distância.

Estamos indo — disse ele.

Disparou pela rua, cortou o tráfego que ia para Sharia Yosef e daí seguiu por uma avenida larga com um muro de arenito à direita e a Coluna de Pompeia do outro lado. Fez uma volta em U e parou na calçada. Os quatro homens saltaram e correram para a bilheteria.

Esta é a única entrada? — Nessim perguntou à mulher enquanto entregava o dinheiro.

Sim.

Fique aqui — ordenou a Hosni, enquanto entrava com os outros no local. Então perguntou a Badr pelo celular: — Ele ainda está na linha?

Sim — confirmou Badr. — Você está bem em cima dele.

Então o pegamos —- exultou Nessim.

 

                            Nicolas levou Ibrahim para um canto.

Você tem um banheiro lá em cima? — perguntou, tocando a própria barriga. — Toda essa excitação parece ter feito coisas estranhas com a mi­nha digestão.

Claro — disse Ibrahim, apontando para a escada. — E a primeira à esquerda.

Obrigado. — Nicolas subiu apressado e se trancou no banheiro. En­tão pegou o celular para ligar para o pai e colocá-lo a par de todos os acon­tecimentos e descrever a essência da inscrição.

O que foi que eu lhe disse? — falou Dragoumis.

Você estava com a razão desde o começo -— reconheceu o filho.

E foi a moça quem decifrou? A filha de Mitchell?

Sim. Você também tinha razão em relação a ela.

Quero conhecê-la.

Vou providenciar isso assim que terminarmos — falou Nicolas.

Não. Agora. Esta noite.

Esta noite? Tem certeza?

Ela descobriu que havia uma câmara inferior na tumba macedônia — disse Dragoumis. — Percebeu que a inscrição era um código e o de­cifrou. Ela é a pessoa que vai encontrar o que estamos procurando. Sinto isso no fundo do peito. Ela deve estar do nosso lado quando isso aconte­cer. Entendeu?

Sim, pai. Vou cuidar disso. — Recebeu outras instruções, desligou e ligou para Gabbar Mounim, no Cairo.

Meu caro Nicolas — falou Mounim com entusiasmo. — Espero que você tenha ficado satisfeito com...

Mais do que satisfeito — disse Nicolas. — Ouça. Preciso de algo agora mesmo.

Claro. O que você quiser.

Creio que nosso amigo no CSA está em uma reunião — disse Ni­colas. — Quando ele sair, encontrará em sua mesa um recado dizendo que ligue para Ibrahim Beyumi em Alexandria. O senhor Beyumi vai querer marcar uma reunião urgente com ele. Quero que o nosso amigo convide uma terceira pessoa para essa reunião e que seja favorável ao que ela pedir. O nome dela é Elena Koloktronis. — Soletrou o nome dela. — Você pode informar ao nosso amigo que ele será recompensado com muita generosidade, assim como você. Sabe que sou um homem de palavra.

Ouviu-se uma risada curta do outro lado da linha.

Sei, sim. Considere o que pede como feito.

Obrigado. — Fez várias outras ligações e então acionou a descarga do vaso, lavou as mãos e voltou para baixo.

Sente-se melhor? — perguntou Ibrahim solícito ao encontrá-lo no térreo.

Nicolas sorriu.

Muito melhor, obrigado.

Você não vai acreditar no que acaba de acontecer. Yusuf Abbas re­tornou minha ligação. Ele me chamou para uma reunião urgente no Cairo.

E qual é a surpresa? — perguntou Nicolas franzindo o cenho. — Não era isso o que você queria?

Sim, mas ele convidou Elena também. E nenhum de nós consegue imaginar como ele sequer sabia que ela estava no país.

 

Nessim não viu de imediato qualquer sinal de Knox dentro do Sarapeion. Não viu sinal de quase ninguém, na verdade, exceto dois turistas coreanos tirando fotografias um do outro em frente à Coluna de Pompeia, e uma fa­mília jovem fazendo um piquenique modesto. Gesticulou para Rarib e Sami se espalharem e vasculharem o local. Eles foram devagar, verificando cada uma das várias covas, poços e câmaras. Mas chegaram à muralha de tijolos vermelhos sem encontrar qualquer traço de Knox.

Badr ainda estava na linha.

Você tem certeza de que ele está aqui? — perguntou Nessim rispidamente.

Você deve ter passado direto por ele. Não estou entendendo.

Nessim olhou para Ratib e depois para Sami. Ambos encolheram os ombros e sacudiram a cabeça. Apontou para a coluna, sugerindo que se reunissem em sua base. Chegou lá antes dos dois. Um saco de papel par­do agitava-se com o vento suave. Ele o cutucou com o pé, abrindo-o com cuidado. Dentro havia um celular. Nessim pegou-o e o virou, franzindo a testa, perguntando-se o que aquilo significava.

Naquele momento, do lado de fora da muralha veio um barulho de vidro sendo quebrado. Apenas quando o alarme de seu carro começou a tocar foi que Nessim percebeu que o barulho vinha do lugar onde ele havia deixado seu Freelander, com todos os pertences de Knox no porta-malas. Um motor velho roncou e foi embora antes que qualquer um deles pudesse reagir. Nes­sim fechou os olhos e levou a mão à testa. Ele odiava Knox. Odiava-o. Mas não podia deixar de admirá-lo também.

 

Nicolas se afastou dos outros com Elena para explicar como tinha providenciado a reunião dela com Yusuf Abbas e o que ela devia tentar conseguir na ocasião. Yusuf tinha ganância, mas era cauteloso. Se Elena pudesse dar-lhe um pretexto para ele a autorizar a explorar Siuá, e assim garantir uma gorda comissão, então ele permitiria. Mas seria preciso parecer legítimo. Uma pes­quisa epigráfica superficial, por exemplo, só com ela e a moça.

A moça? — Elena franziu a testa. — Podemos confiar nela?

Meu pai acredita que sim. E então? Você pode cuidar de Yusuf?

Deixe comigo.

Nicolas caminhou até Gaille, que estava transferindo as fotografias para o laptop de Ibrahim para mostrá-las a Yusuf. Quando ela terminou, Nico­las chamou-a para uma conversa e saíram juntos para o pequeno jardim de Ibrahim.

Meu pai quer conhecê-la — disse ele.

Seu pai? — Gaille pareceu um pouco preocupada. — Não compreen­do. Nem sei quem ele é.

Ele é o fundador e mantenedor da Fundação Arqueológica Mace­dônia — explicou Nicolas. — O que significa que é o seu patrão. Foi ele também quem sugeriu que Elena a contratasse.

Mas... por quê?

Ele conheceu seu pai — disse Nicolas. — Admirava-o muito. E tem acompanhado sua carreira ao longo dos anos. Quando Elena precisou de um substituto, ele naturalmente pensou em você.

Isso foi... muita bondade da parte dele.

Ele é um homem muito bom — concordou Nicolas, sério. — E quer que você jante com ele esta noite.

Gaille franziu o cenho.

Ele está em Alexandria?

Não. Tessalônica.

Mas... não entendo.

Nicolas sorriu.

Você já voou alguma vez num jato particular? — perguntou.

 

Knox correu pelas ruas secundárias de Alexandria, com seus pertences recuperados empilhados no banco ao seu lado. Havia sido ótimo dar uma volta em Nessim. Mas não custa muito para o orgulho começar a atrapalhar. Di­rigiu para o leste em direção a Abu Qir, afastando-se de seus perseguidores. Então estacionou para verificar o que havia conseguido.

A bateria de seu laptop só tinha carga para uma hora de uso. Procurou entre seus CDs de fotografias, conferindo nomes de arquivos, mas não en­controu nem sinal de Aquilo ou Quelônimo. Resmungou em frustração. Ou Nessim os deixara para trás ou os retirara do carro. Que azar era aquele? Levou um ou dois minutos para pensar em outra possível explicação.

Na esquina havia um telefone público. Ele não ousava ligar diretamente para Rick. Em vez disso, telefonou para um amigo em comum que traba­lhava na academia de esportes aquáticos do lado da casa dele em Sharm e pediu-lhe que o chamasse.

Em um minuto Rick estava do outro lado da linha.

Oi, companheiro? disse. — Esqueceu meu número, por acaso?

Pode estar grampeado.

Ah. Hassan, não é?

Isso. Ouça. Você pegou emprestado alguns dos meus CDs de fotografias?

Poxa, companheiro, desculpe. Estava apenas praticando meu grego.

Não tem problema. Mas preciso deles. Tem algum jeito de você trazê-los para mim?

Sem problema. Não estou fazendo nada aqui. Onde você quer me encontrar?

Ras el-Sudr?

Você quer dizer aquele buraco ao sul de Suez?

Esse mesmo — disse Knox. — Lá tem um hotel chamado Beach Inn. Quando você acha que consegue chegar lá?

Talvez dentro de umas quatro horas. Talvez cinco.

Perfeito. Você virá no seu Subaru?

A menos que tenha motivo para não o usar.

E bom primeiro verificar se não esconderam nenhum rastreador nele. E certifique-se de não estar sendo seguido. Esses caras são perigosos.

Eu também sou, companheiro — garantiu Rick.

Eu também sou.

 

Mohammed e Nur estavam apertando as mãos com força à espera do telefonema com os resultados dos exames de medula óssea. Usaram os serviços de um grupo médico particular com filiais em Alexandria, Cairo, Assiut e Port Said para facilitar para os amigos e parentes que moravam mais longe. Principalmente os parentes. A medula óssea era hereditária. A chance de se encontrar alguém compatível era consideravelmente maior dentro da família. Tinham testado mais 67 pessoas, gastando todo o dinheiro que Ibrahim conseguira. O Dr. Serag-Al-Din prometera que ligaria uma hora antes dando os resultados. Esperar o telefone tocar deve ter sido a experiência mais desesperadora da vida de Mohammed. Nur fez uma careta quando ele apertou sua mão com força demais. Ele se desculpou e soltou a mão dela. Mas Nur sentia tanta necessidade de contato quanto ele, então logo eles já estavam de mãos dadas novamente.

Layla estava na cama. Decidiram não lhe dizer nada do processo até que ele estivesse terminado. Mas ela era uma criança esperta, podia sentir o clima. Mohammed suspeitava que ela soubesse muito bem o que estava acontecendo, que estava prestes a receber uma sentença de vida ou morte.

O telefone tocou. Os dois se entreolharam. Nur fez uma careta e co­meçou a chorar. O coração de Mohammed disparou à medida que tirava o fone do gancho.

Alô? — disse. Mas era apenas a mãe de Nur, ansiosa para saber se eles já tinham alguma notícia. Ele mordeu o lábio, frustrado, e passou o telefone para ela. Nur livrou-se dela prometendo que ligaria assim que eles soubes­sem. Mohammed cruzou as pernas. Sua bexiga estava cheia e comprimida, mas ele não se atrevia a ir ao banheiro.

O telefone tocou outra vez. Mohammed respirou fundo antes de aten­der. Dessa vez era o Dr. Serag-Al-Din. Ele disse:

— Sr. el-Dahab. Espero que o senhor e sua esposa estejam bem.

Estamos ótimos, obrigado. Você já tem os resultados?

Claro que tenho os resultados — disse ele cordialmente. — Por que outro motivo acha que eu ligaria?

Então?

Aguarde só um momento. Acho que me perdi aqui na sua ficha.

Mohammed fechou os olhos e apertou os punhos. Vamos, seu filho de um cão. Diga algo. Qualquer coisa.

— Por favor — suplicou.

Ouviu-se um ruído de farfalhar de papéis. O Dr. Serag-Al-Din pigarreou.

Sim — disse. — Aqui está.

 

Ibrahim e Elena chegaram ao Cairo ao anoitecer para o encontro com Yusuf Abbas. O grande homem esperava-os em uma sala de reuniões de­corada, falando ao telefone. Dirigiu-lhes um olhar mal-humorado e ges­ticulou vagamente para as cadeiras. Ibrahim ligou seu laptop enquanto aguardava Yusuf acabar de discutir exercícios de matemática com seu filho. Ibrahim achava bastante difícil lidar com seu chefe, inclusive porque ele próprio era um homem sensível, e Yusuf tinha ficado absurdamente gordo desde que orquestrou seu golpe palaciano e depôs o homem dinâmico, po­pular e muito respeitável que o antecedera. O simples ato de ele se erguer de sua cadeira era um espetáculo fascinante, como ver um velho navio de guer­ra preparando-se para zarpar. Ele se preparava com alguma antecedência, aprontando os músculos como se fossem velas sendo infladas pelo vento, e o cordame rangeria, a âncora seria içada e pronto, pronto, pronto, zarpar! Na­quele momento seus braços pareciam duas lesmas gigantescas repousadas sobre a mesa polida de nogueira, mas de vez em quando ele levava um dedo à garganta, como se suas glândulas fossem as culpadas por sua obesidade, e não seu consumo constante de comidas calóricas. E quando as pessoas falavam com ele pela lateral, Yusuf movia apenas os olhos em vez da cabeça para vê-las, aproximando as pupilas dos cantos, a própria caricatura da ex­pressão suspeita.

Por fim terminou seu telefonema e virou-se para Ibrahim.

Quanta urgência — disse ele. — Acredito que exista um motivo.

Sim — concordou Ibrahim. — Existe. — E virou seu laptop para mostrar ao chefe as fotografias que Gaille tirou da câmara inferior, enquan­to explicava como ela tinha sido descoberta.

Os olhos de Yusuf iluminaram-se ao ver os esquifes.

São de... ouro? — perguntou.

Ainda não tivemos tempo para analisá-los — disse Ibrahim. — Mi­nha prioridade foi selar o sítio e informá-lo.

Certo. Certo. Você fez bem. Muito bem. — Lambeu os lábios. — Esta é uma descoberta notável. Vejo que terei de supervisionar pessoalmente a escavação.

Elena inclinou-se para a frente. Não muito, só o bastante para chamar a atenção de Yusuf.

Pois não? — perguntou ele.

Estamos ambos cientes da excepcional sorte que tivemos por o senhor ter podido nos reservar tempo para esta reunião, Sr. secretário-geral, pois sabemos o quanto ele é extraordinariamente precioso. — Ibrahim notou que o árabe dela era pomposo e canhestro, mas sua postura e o uso dos elogios eram impecáveis. — Alegra-nos que o senhor, assim como nós, con­sidere que esse achado tem importância histórica e ficamos encantados em ver o senhor se envolver no andamento da escavação. Entretanto, trazer-lhe essa notícia fantástica não foi o único motivo pelo qual o Sr. Beyumi e eu estávamos ansiosos para esta reunião. Há outro assunto que precisa de sua sabedoria e urgente avaliação.

Outro assunto? — perguntou Yusuf.

A inscrição — disse Elena.

Inscrição? Que inscrição? — Olhou furioso para Ibrahim. — Por que você não me falou dessa tal inscrição?

— Creio que falei, Sr. secretário-geral.

Está me contradizendo?

De jeito algum, Sr. secretário-geral. Desculpe-me. — E abriu outra vez a fotografia da inscrição.

Ah, esta — disse Yusuf. — Por que não disse que se referia a ela?

— Desculpe-me, Sr. secretário-geral. A culpa é minha. O senhor obser­vará que os caracteres são demóticos, mas a inscrição na verdade está em grego. — Ele gesticulou com a cabeça para Elena. — Uma colega da Sra. Koloktronis a decifrou. Posso explicar o que diz, se o senhor estiver interes­sado. Caso contrário, aqui está uma cópia da tradução.

A boca de Yusuf se movia enquanto ele lia o texto, seus olhos se esbugalhando à medida que ele assimilava as implicações. Ibrahim não se surpreendeu. Os egípcios da Antigüidade haviam conhecido Mênfis como Muralha Branca. A palavra "deserto" vinha originalmente de Desh Ret: a Terra Vermelha. Quelônimo se referiu a Alexandre como o "Filho de Amon", então o lugar de seu pai, em conseqüência, era o Oráculo de Amon no oásis de Siuá, onde fontes antigas sugeriam que Alexandre desejara ser sepultado. A inscrição, portanto, afirmava que um grupo de escudeiros ha­via roubado o corpo de Alexandre de debaixo do nariz de Ptolomeu em Mênfis e o levaram através do deserto ocidental até uma tumba que eles ha­viam preparádo próximo ao Oráculo de Amon no oásis de Siuá. Entretanto, Ptolomeu os havia perseguido e eles se suicidaram para não cair em suas mãos. Todos exceto Quelônimo, irmão de Aquilo, que conseguira evitar ser capturado e que mais tarde traria os restos de seus camaradas de volta para o sepultamento em Alexandria, cumprindo seu juramento.

Quando Yusuf terminou de ler, piscou duas vezes.

Devo... devo acreditar nisto? — perguntou.

A tradução está correta — respondeu Ibrahim, cauteloso. — Eu a ve­rifiquei pessoalmente. E acreditamos também que seja sincera. Afinal, como o senhor pôde ver pelas fotografias da câmara subterrânea, esse Quelônimo fez um esforço extraordinário para honrar aqueles homens. Não teria feito tudo aquilo para despistar.

Mas deve ter sido uma loucura — disse Yusuf, franzindo a testa. — Por que esses homens jogariam fora suas vidas em semelhante iniciativa?

Porque acreditavam que o último desejo de Alexandre era ser sepul­tado em Siuá — respondeu Elena. — Ptolomeu na prática traiu esse desejo quando começou a construir uma tumba em Alexandria. O senhor deve se lembrar de que Alexandre era um deus para essas pessoas. Elas teriam arriscado qualquer coisa para executar suas ordens.

Por favor, você não está me pedindo para acreditar que Alexandre está sepultado em Siuá, Sra. Koloktronis? — suspirou Yusuf.

Ibrahim sabia o que se passava na cabeça de seu chefe. No início dos anos 1990, outra arqueóloga grega tinha anunciado à imprensa mundial que ela havia encontrado a tumba de Alexandre no oásis de Siuá. Entre­tanto, sua afirmação foi rápida e compreensivelmente rejeitada. Siuá e Alexandre se haviam tornado uma espécie de piada interna na comunida­de arqueológica.

Não — reconheceu Elena. — O corpo embalsamado de Alexandre esteve em exposição em Alexandria séculos depois que essa inscrição foi feita. Ninguém está negando isso. Entretanto, é certamente possível que eles tenham capturado seu corpo e se dirigido para Siuá, onde tinham uma tumba pronta à sua espera.

Yusuf recostou-se em sua cadeira e olhou Elena com uma expressão grave.

Então — observou — o verdadeiro propósito de sua presença nes­ta reunião fica claro. A senhora não está preocupada com a escavação desse achado em Alexandria. Ah, não. A senhora veio aqui porque acre­dita que em algum lugar em Siuá existe uma tumba preparada com... como é que o Enigma de Alexandre cita mesmo? Sim, os "bens apropria­dos para o Filho de Amon". E sem dúvida quer minha permissão para procurá-las.

Alexandre foi o conquistador mais bem-sucedido da história — argu­mentou Elena. — Um dos maiores faraós do Egito. Imagine o que a desco­berta de sua tumba iria significar para este país. Imagine quantas honrarias recairiam sobre o secretário-geral cuja liderança iluminada a tornou pos­sível. Seu nome seria certamente venerado junto com os grandes patriotas desta nação.

Continue.

E o senhor não tem nada a perder. Sei que as chances de descobrir algo são extremamente pequenas. Sei que o orçamento do Conselho Supe­rior é imperdoavelmente apertado. Mas alguma coisa deve ser feita. Algo pequeno. Uma pesquisa epigráfica superficial de antigüidades, digamos, rea­lizada com a permissão do CSA. Apenas eu e uma colega. Qualquer coisa mais substancial acabaria gerando rumores. O senhor sabe como é Siuá com rumores.

Yusuf franziu o cenho.

Todas as colinas do oásis já foram vasculhadas, vasculhadas e vascu­lhadas de novo — observou. — Se essa tumba de fato existe e permaneceu oculta durante 23 séculos, você realmente acredita que possa encontrá-la em algumas semanas? Sabe quão extensa é a depressão de Siuá?

Não será fácil — admitiu Elena. — Mas vale o esforço. Pense na alternativa. Quando o conteúdo do Enigma de Alexandre vazar, todos os caçadores de tesouros do mundo irão convergir para Siuá. Se acharmos a tumba primeiro, poderemos nos antecipar a isso, ou pelo menos anunciar que não há nada lá. Qualquer opção seria preferível a uma corrida do ouro.

Só haverá uma corrida do ouro se a notícia se espalhar — obser­vou Yusuf.

Mas irá se espalhar — insistiu Elena. — Todos sabemos que vai acontecer. É natural com esses assuntos.

Yusuf balançou a cabeça para si mesmo.

Siuá é território do Dr. Sayed — disse ele com amargura, como se ti­vesse ressentimento do colega. — E o Dr. Sayed tem seus próprios métodos. Vocês irão precisar também da permissão dele.

Com certeza — concordou Elena. — Além do mais, sei que ele pos­sui uma notável coleção de materiais de referência. Talvez o senhor possa conversar diretamente com ele, pedir-lhe que nos permita acesso. Entendo, é claro, que não fará a menor diferença em sua decisão, que será tomada somente em função do maior benefício para o Egito, mas talvez o senhor possa informar a ele que nossos patrocinadores reservaram comissões bas­tante significativas para todos os nossos consultores do CSA, inclusive o senhor, naturalmente.

Não posso concordar com uma expedição de duração ilimitada — disse Yusuf. — Siuá é pequeno. Qualquer que seja sua história de fachada, as pessoas acabarão percebendo o que vocês estão fazendo. Sua presença irá começar justamente aquilo que desejam evitar.

Seis semanas — sugeriu Elena. — É tudo o que lhe pedimos.

Yusuf descansou as mãos sobre a barriga. Ele gostava de dar a palavra final sobre qualquer assunto.

Duas semanas — declarou. — Duas semanas a contar de amanhã. De­pois voltaremos a conversar, então decidirei se lhes dou mais uma quinzena.

 

Nessim andava de um lado para o outro em seu quarto de hotel, desejando que o telefone tocasse e que um de seus olheiros anunciasse que tinha avis­tado Knox antes que ele sumisse de novo. Dessa vez devia haver uma grande probabilidade. O simples fato de ele ter saído do esconderijo para recuperar seus pertences era um indício de que ele estava atrás de algo, que tinha um propósito e estava disposto a correr riscos em sua busca. Porém, apesar dis­so, Nessim não esperava realmente muita coisa. Havia algo em Knox que o fazia sentir-se pessimista e incompetente.

Parou de andar no meio do quarto, com um medo súbito diante da perspectiva de confessar a Hassan outro fracasso. Nessim precisava mostrar que estava fazendo alguma coisa. Precisava demonstrar que estava ativo. Até então ele usara apenas sua própria equipe na caça. Mas a hora da discrição já havia passado. Abriu a bolsa de dinheiro em sua cintura, verificou quanto tinha e se virou para Hosni, Ratib e Sami.

— Peguem seus telefones — ordenou. — Mil dólares para qualquer um que encontrar o jipe de Knox. Dois mil se ele estiver dentro.

Ratib fez uma careta.

— Mas todo mundo saberá que fomos nós — protestou. — Quando Knox aparecer morto, quero dizer.

Você tem uma sugestão melhor? — exclamou Nessim. — Ou talvez queira ser o próximo a falar para Hassan que ainda não encontramos Knox?

Ratib baixou os olhos.

- Não.

Nessim suspirou. O estresse estava começando a afetá-lo. E Ratib ti­nha razão.

Ok — disse. — Escolham apenas pessoas em quem vocês confiem. Uma em cada cidade. E digam-lhes para não espalharem, ou terão que se ver diretamente com Hassan,

Seus homens concordaram e pegaram seus celulares.

 

Quando o jato do Grupo Dragoumis tocou o solo de Tessalônica naquela noite, Gaille já havia decidido que poderia se acostumar a viajar daquela maneira, apesar da ponta de culpa que sentia pela enorme emissão de carbo­no produzida por uma viagem tão extravagante. Poltronas de couro branco tão confortáveis que a fizeram suspirar de prazer, uma janela do tamanho de uma TV widescreen, um mordomo de prontidão para preparar refeições e drinques, o co-piloto vindo consultá-la sobre suas preferências para o vôo de volta na manhã seguinte. Um funcionário da imigração veio cumprimentá- la com uma gentileza açucarada (qualquer amigo do Sr. Dragoumis, Srta. Bonnard...), e um Bentley azul com chofer conduziu-a rapidamente pelas colinas acima de Tessalônica, de modo que ela podia se recostar com tran­qüilidade e apreciar o céu noturno.

Chegaram a uma propriedade murada vigiada por guardas. Eles ges­ticularam para que o carro entrasse, e foram até um castelo branco e artisticamente iluminado. E então, para coroar o espetáculo, o próprio Dragoumis surgiu na porta da frente para recebê-la, as mãos entrelaçadas nas costas.

Depois de tudo que imaginara sobre ele durante a viagem, foi uma sur­presa e um alívio ver como ele era baixo e magro. Estava com a barba por fazer; parecia um camponês, e muito grego. Apenas por um momento ela pensou que não teria dificuldade em lidar com ele, que não havia nada a temer. Então ela chegou mais perto e percebeu que estava errada.

 

Knox cruzou o país para chegar a Ras el-Sudr. Sua rota passou por Tanta, a maior cidade do delta. Alguém lhe havia falado isso recentemente, mas ele não conseguia dizer quem tinha sido. Foi só quando ele já estava saindo pelo outro lado da cidade que se lembrou do comentário casual de Gaille sobre o recepcionista no hotel de lá. Deu uma parada no acostamento para pensar. Ele não dera muita atenção à escavação de Elena no delta. Havia muita coisa acontecendo ao mesmo tempo. Mas talvez isso tivesse sido um erro. Principalmente agora que Nicolas Dragoumis aparecera em cena.

Não era segredo para ninguém que a Fundação Arqueológica Mace­dônia de Elena era bancada pelo Grupo Dragoumis. E Knox sabia que os Dragoumis não tinham qualquer interesse no Egito, apenas na Macedônia. Se eles estavam financiando uma escavação no delta, portanto, estavam à procura de algo macedônio. E talvez isso tivesse alguma ligação com o que haviam encontrado em Alexandria. Não faria mal descobrir algo mais sobre isso.

Knox voltou para a cidade, encontrou um bar com uma lista telefônica e ligou para todos os hotéis de Tanta perguntando por Elena. Conseguiu na quinta tentativa.

Ela não aqui — informou o atendente da noite. — Alexandria.

E sua equipe?

Com quem você quer falar?

Knox desligou, anotou o endereço do hotel e correu de volta para o jipe.

 

Philip Dragoumis conduziu Gaille por arcadas e ao longo de pisos de mo­saico polido até uma sala de visitas decorada com lindos quadros a óleo e ta­peçarias nas paredes. Fez um pequeno gesto discreto e Gaille viu-se sentada numa cadeira acolchoada amarela sem saber bem o porquê.

Primeiro, um drinque — disse ele. — Depois jantaremos. Vinho tinto? É feito aqui na minha propriedade.

Obrigada. — Ela observava à sua volta enquanto ele abria uma garrafa e servia duas taças. Um retrato a óleo de um homem barbado com uma expressão determinada e uma grande cicatriz em volta do olho esquerdo ocupa­va um lugar de destaque sobre a imensa lareira. Era o retrato de Felipe II, pai de Alexandre, o Grande. Os olhos dela se alternaram do quadro para Dra­goumis, e Gaille percebeu com uma ligeira surpresa que ele pretendia traçar algum paralelo entre si próprio e Felipe, dando a entender que a marca de nascença que tinha sobre seu olho esquerdo era uma espécie de estigma, como se ele fosse a reencarnação de Felipe. — O senhor não acredita realmente nisso, certo? — indagou, antes que pudesse se conter. Ele riu alto e com sinceridade.

Há um ditado popular: quando um sábio negocia com um chinês, ele fala em mandarim.

E quando negocia com um supersticioso... — sugeriu Gaille.

O sorriso dele se alargou. Gesticulou para outro quadro, uma linda jo­vem de pele escura vestida com trajes esfarrapados de camponesa.

Minha mulher — disse ele. — Eu próprio pintei seu retrato. Puxando da memória.

Gaille sorriu, incerta.

O senhor percorreu um longo caminho — disse.

Percorri. Minha mulher, não. — Fez um gesto breve com a cabeça. — Ela está enterrada lá fora. Adorava a vista desta colina. Nós costumávamos an­dar até aqui. Foi por isso que eu comprei estas terras e construí minha casa aqui.

Sinto muito.

Quando jovem, eu era um agitador. Costumava ir de aldeia em aldeia pregando a causa macedônia. A polícia secreta de Atenas quis conversar comigo. Você pode imaginar que eu não compartilhava dessa vontade. Como não conseguiram me achar, visitaram minha mulher. Exigiram que ela lhes dissesse onde eu estava. Ela se recusou a responder. Derramaram gasolina sobre sua barriga, seus seios e braços. Ela permaneceu calada. Então atea­ram fogo. Mesmo assim ela não disse nada. Derramaram gasolina em nosso bebê. Finalmente ela falou. Abandonaram-na com queimaduras horríveis, mas talvez pudesse ter sobrevivido com tratamento adequado. Mas eu não tinha dinheiro para isso. Minha mulher morreu porque eu havia escolhido pregar em vez de trabalhar, Srta. Bonnard. O dia em que a sepultei foi o dia em que decidi parar de brincar de político e me tornar um homem rico.

Sinto muito — disse Gaille, abatida.

Dragoumis resmungou, como se reconhecesse o quanto essas palavras eram inadequadas. Então disse:

Conheci seu pai.

Seu filho me disse. Mas nós não éramos muito próximos, sabe.

Sim. Eu sei. Sempre lamentei isso.

Gaille franziu a testa.

Por que o senhor lamentaria?

Dragoumis suspirou.

Você deveria ter ido com ele para Mallawi, não?

Sim.

Mas então ele adiou seus planos?

Ele tinha um assunto pessoal urgente.

Sim — concordou Dragoumis. — Comigo.

Não-— disse Gaille. — Com um jovem chamado Daniel Knox.

Dragoumis fez um gesto vago, como se quisesse dizer que dava no mesmo.

Você sabe muito sobre Knox? — perguntou.

Não.

Os pais dele também eram arqueólogos. Especialistas na Macedô­nia. Vinham com freqüência a esta parte do mundo. Um casal encantador, uma filha adorável. Eles trabalhavam com Elena, sabia? Há dez anos foram visitar uma das escavações dela nas montanhas. O marido de Elena foi bus­cá-los no aeroporto. Infelizmente, na viagem até o sítio...

Gaille olhou para ele, atônita.

Todos eles? — perguntou.

Dragoumis confirmou.

Todos eles.

Mas... o que isso tem a ver com meu pai?

Foi um acidente. Um acidente terrível. Mas nem todo mundo acreditou.

O senhor está querendo dizer... assassinato? Não entendo. Por que alguém desejaria matar os pais de Knox?

Não os pais de Knox. O marido de Elena, Pavlos.

Mas quem desejaria matá-lo?

Dragoumis sorriu.

Eu, Srta. Bonnard — disse ele. — Eu.

 

Ras el-Sudr era uma cidade petrolífera que havia tentado ser um refúgio turístico também. Knox aguardou perto do estacionamento do Beach Inn para ter certeza de que Rick não fora seguido. Quando se deu por satisfeito, foi encontrá-lo.

Bom ver você, companheiro. — Rick sorriu.

Digo o mesmo.

Dias agitados, não? — Gesticulou com a cabeça para um bar perto dali. — Quer um drinque? Você pode me contar tudo.

Pode ser. — Escolheram uma mesa num canto escuro, onde Knox co­locou-o a par de tudo que tinha acontecido desde que ele fugira de Sharm.

Não acredito — disse Rick. — Aquele filho da mãe do Hassan colo­cou uma corda em seu pescoço? Vou matá-lo.

Na verdade — disse Knox —, não acho que tenha sido Hassan. Por ele a corda não estaria cortada.

Então quem?

Eu algum dia lhe contei o que aconteceu na Grécia?

Você quer dizer com os seus pais? Você me disse que tinha ocorrido um acidente na estrada. Nunca me disse que havia uma história.

Uma estrada sinuosa, um carro velho, uma noite de nevoeiro nas montanhas. O tipo de tragédia que acontece sempre, certo? O único pro­blema era que o motorista era um cara chamado Pavlos. Marido daquela Elena sobre a qual lhe falei. Um jornalista. Muito ousado. Um idealista contra a corrupção. Estava em plena campanha contra uma família muito rica e poderosa chamada Dragoumis, cobrando que seus negócios fossem investigados, esse tipo de coisa.

E você achou que ele foi morto para ser silenciado?

Na época, sim — confirmou Knox.

E o que você fez?

 

Gaille olhou horrorizada para Philip Dragoumis.

O senhor assassinou Pavlos?

Não — garantiu ele. — Juro a você pela alma de minha mulher que não tive nada a ver com a morte dele ou da família de Knox. O que eu quis dizer foi que certas pessoas acreditaram que eu tinha motivos para fazer isso.

Por quê? Que motivos?

Você precisa entender uma coisa, Srta. Bonnard. Sou um patriota macedônio. Esta região toda já foi a Macedônia. Então acabou dividida pelo Tratado de Bucareste e distribuída à Sérvia, à Bulgária e à Grécia. De­diquei minha vida a reverter essa grande injustiça. Porém algumas pessoas, como Pavlos, acreditavam que esta região pertencia à Grécia por direito. Elas tentaram me impedir. Pavlos era habilidoso com insinuações. Queria que minha vida e meus negócios fossem investigados não por me achar cor­rupto, mas porque sabia que isso deixaria uma mancha indelével. Quando ele morreu, os pedidos de investigação morreram junto. Então você pode entender por que as pessoas acharam que eu tinha sido o responsável. Mas não fui, lhe asseguro. Nunca sequer considerei Pavlos um inimigo, mas apenas um adversário, e há uma diferença gigantesca entre os dois. Mesmo que eu fosse um homem violento, o que não sou, jamais teria aprovado essa ação contra Pavlos. E a verdade é que eu não precisava. — Inclinou-se para mais perto de Gaille. — Posso confiar que você jamais dirá a Elena o que vou lhe contar agora?

Sim.

Bom. Pavlos havia sido indiscreto. Eu tinha provas irrefutáveis disso. A divulgação desse seu comportamento teria sido... problemática para ele. Nós havíamos conversado sobre isso. Eu lhe asseguro, ele não seria mais uma ameaça para mim.

É o que o senhor diz.

Sim. E o que digo. — Havia um traço de impaciência em seu comportamento. — Diga-me, Srta. Bonnard. Você vem trabalhando muito pró­xima a Elena Koloktronis nestas últimas três semanas. Acredita realmente que ela trabalharia para mim se achasse que eu assassinei seu marido?

Gaille pensou no assunto por um momento, mas só havia uma respos­ta possível.

Não.

E você precisa entender, Srta. Bonnard, que Pavlos era tudo para Ele­na. Acredite em mim: se ela tivesse achado que fui o responsável pela morte dele, teria garantido que o mundo inteiro soubesse.

Ela teria divulgado?

Ah, não — resmungou Dragoumis. — Ela teria me matado. — Ele sorriu ante a reação assustada de Gaille. — É um fato — disse simplesmen­te. — Teria sido uma questão de sangue. Isso ainda é uma tradição poderosa nesta região. Mas ao levar em conta o quanto ela o amava... — Ele balan­çou a cabeça. — Eu tinha receio de que ela fizesse alguma coisa. Tristeza demais precisa" de uma válvula de escape. Mas ela sabia a verdade. Seu ma­rido era um motorista impetuoso e afoito que não conservava o carro. Não. Elena ficou desolada, mas não se tornou um problema. Foi Knox, o jovem amigo de seu pai, quem se tornou um problema.

Knox? De que maneira?

Ele acreditava que eu havia assassinado sua família inteira para si­lenciar Pavlos — disse Dragoumis. — Não achava que eu devia me safar disso. Não é difícil entender o ponto de vista dele. Então ele tomou para si a campanha de Pavlos. Escreveu continuamente para políticos, jornais e emissoras de TV da região. Fez manifestações em frente a prédios do go­verno e delegacias de polícia. Pichou "Investigação Dragoumis" em letras enormes em frente à sede de minha empresa. Contratou balões de hélio com isso escrito, jogou panfletos de edifícios altos, pendurou faixas em guarda-corpos durante eventos esportivos televisionados, telefonou para programas de rádio...

Knox? Knox fez tudo isso?

Ah, sim — afirmou Dragoumis. — Foi impressionante, sobretudo quando se pensa que ele acreditava que eu era perfeitamente capaz de come­ter um assassinato. E foi prejudicial também. Ele era alguém com quem as pessoas se identificavam, como você pode imaginar. Ele fez com que pessoas conversassem. Pedi-lhe que parasse. Ele se recusou. Estava tentando deliberadamente me provocar para que eu tomasse uma atitude drástica, como se isso fosse comprovar seu argumento. Fiquei cada vez mais preocupado com ele. Knox só estava fazendo aquilo porque estava consumido pela dor. E ha­via alguns, solidários com a minha causa, que queriam silenciá-lo. Chegou a um ponto em que eu não podia mais garantir a segurança dele. E se algo acontecesse a ele... você pode imaginar. Eu precisava que ele fosse embora, mas ele se recusava a me ouvir. Então procurei alguém a quem ele escutaria.

Meu pai — falou Gaille, perplexa.

Ele era um amigo íntimo dos Knox. E eu também o conhecia. Pedi que ele viesse. De início ele estava relutante. O trabalho em Mallawi estava prestes a começar, como você sabe. Mas eu lhe assegurei que era uma ques­tão de vida ou morte. Ele veio. Fizemos um trato. Ele levaria Knox embora e o manteria quieto. Eu mandaria avisar que Knox não devia ser ameaçado. Seu pai "foi ao hotel onde ele estava hospedado. Knox aparentemente fez um discurso sobre a necessidade de enfrentar os tiranos. Seu pai ouviu-o educadamente e colocou algumas gotas de sonífero em sua bebida. Quando Knox acordou, ambos estavam num barco em direção a Port Said, e seu pai teve tempo para colocar um pouco de juízo na cabeça dele. É por isso, Srta. Bonnard, que eu lamento sua desavença com seu pai. Isso jamais teria acontecido se eu não tivesse pedido a intervenção dele.

 

No bar em Ras el-Sudr, Rick balançava devagar a cabeça enquanto assimi­lava a história de Knox sobre a sua rixa com os Dragoumis e sobre como ele foi parar no Egito com Richard Mitchell.

E eu que pensava que você era apenas mais um inglês sossegado — disse. — Tem mais algum gângster internacional na sua cola, ou são só esses?

Só esses. Que eu saiba, pelo menos. Mas adivinhe quem eu vi esta tarde?

Esse tal de Dragoumis?

Seu filho. Nicolas.

E ele é tão ruim quanto?

Pior, muito pior. Eu não gosto muito do pai, mas é preciso admirar o que ele conseguiu. E, além do mais, ele tem princípios. Quando dá a palavra, a mantém. O filho não passa de um babaca com uma heran­ça, sabe?

Sei muito bem. Então você acredita que essa surra no deserto tenha sido uma vingança dele?

Provavelmente.

E você não vai deixar barato, vai?

Não.

Rick sorriu.

Legal. Então qual é o nosso plano?

Nosso plano?

Qual é, companheiro? Você está em desvantagem numérica. Precisa da minha ajuda. E Sharm está às moscas, como eu disse.

Knox concordou.

Se você está falando sério, seria fantástico.

Ótimo. Então qual é nosso primeiro passo?

Vamos para Tanta.

Tanta?

Sim — disse Knox, consultando seu relógio. — E temos pouco tem­po, então que tal eu explicar quando chegarmos lá?

 

Dragoumis conduziu Gaille até a sala de jantar. Era um espaço amplo, com uma grande mesa de nogueira no centro. Dois lugares estavam postos a uma extremidade, iluminados por velas. Um criado esperava junto a um carrinho para servir a comida, um cozido escuro e cheio de carne com tem­peros desconhecidos.

Perdoe meu gosto simples — disse Dragoumis. — Nunca desen­volvi um paladar apurado. Se você aprecia alta culinária, deve jantar com meu filho.

Tenho certeza de que está delicioso — disse Gaille, cutucando a co­mida com o garfo, hesitante. — Desculpe-me, Sr. Dragoumis, mas estou curiosa. O senhor me trouxe até aqui apenas para falar sobre o meu pai?

Não — disse Dragoumis. — Eu a trouxe até aqui para lhe pedir ajuda.

Ajuda? — Ela franziu a testa. — Em quê?

Dragoumis inclinou-se para a frente. A luz das velas incidiu em seus olhos, fazendo suas íris parecerem pontilhadas de ouro.

O Enigma de Alexandre fala de uma tumba em Siuá repleta de bens apropriados para o Filho de Amon.

O senhor sabe sobre isso?

Claro que sei — disse Dragoumis com impaciência. — Ele também relata que os escudeiros se suicidaram antes que Ptolomeu tivesse uma chan­ce de... descobrir por meio deles onde ficava a tumba.

Sim.

Você já ouviu falar dessa tumba? Uma tumba em Siuá repleta de bens apropriados para um homem como Alexandre?

Não.

Então ela ainda não foi descoberta.

Se é que existiu.

Existiu — afirmou Dragoumis. — Existe. Diga-me, Srta. Bonnard: não seria incrível descobri-la? Você pode imaginar que bens seriam conside­rados apropriados para um homem como ele, o maior conquistador da his­tória? As armas que ele ganhou das guerras de Tróia? Seu exemplar pessoal de Homero, com notas de Aristóteles? Seja franca: você não deseja ser quem a descobrirá? Fama. Riqueza. Admiração. Você nunca mais precisará sc per­guntar, nas horas sombrias da madrugada, qual é seu propósito no mundo?

O senhor não entende como essas coisas funcionam — disse Gaille. — Ibrahim Beyumi está informando o secretário-geral do CSA. O que vier a acontecer dependerá dele. E ele não vai me incluir.

— Talvez você não tenha ficado sabendo. Elena também esteve presente nessa reunião.

Sim, mas...

— E convenceu o secretário-geral de que ela é a pessoa indicada para liderar essa busca.

O quê? Mas... como?

Elena é uma negociadora competente, acredite. Porém, não é tão competente em outros aspectos da arqueologia. Foi por isso que a chamei até aqui. Quero que você vá para Siuá com Elena. Quero que encontre essa tumba para mim.

Eu?

Sim. Você tem um dom, assim como seu pai tinha.

O senhor está superestimando minha...

Você descobriu a câmara inferior, não foi?

Na verdade, foi...

E você decifrou a inscrição.

Outra pessoa também a decifraria...

-— A humildade não me impressiona, Srta. Bonnard — disse ele. — O sucesso me impressiona. Elena tem muitas virtudes, mas lhe falta imagina­ção, empatia. Esse é o seu dom. É um dom de que a nossa causa necessita.

Sua causa?

Você pensa que ter uma causa está fora de moda?

Eu acho que "causa" é um termo político para derramamento de sangue — disse Gaille. — Não acho que a arqueologia deveria se relacionar com causas. Acho que deveria se relacionar com;a verdade.

Muito bem — concordou Dragoumis. — Que tal esta verdade? Meus dois avôs nasceram na Grande Macedônia. Quando adultos, um deles pas­sou a ser sérvio e o outro grego. Para pessoas como você, pessoas sem causas, pode parecer algo excelente que famílias como a minha sejam separadas e distribuídas como escravos. Mas um grupo de pessoas está bem convencido de que isso não é tão bom. Você seria capaz de adivinhar, talvez, quem são essas pessoas?

Imagino que o senhor esteja se referindo àquelas pessoas que se dizem macedônias — respondeu Gaille com a voz baixa.

Não desejo mudar seu modo de pensar, Srta. Bonnard — disse Dra­goumis. — Quero apenas lhe perguntar o seguinte: quem, de fato, deve decidir o que as pessoas são? Elas mesmas ou um terceiro? — Fez uma pausa para dar a ela uma chance de responder, mas Gaille não conseguiu pensar em nada para dizer. — Creio que há uma nação legítima da Grande Mace­dônia — ele continuou. — Acredito que essa nação foi dividida ilegalmente entre a Bulgária, a Sérvia e a Grécia. Acredito que o povo macedônio tem sofrido séculos de opressão injusta, décadas de limpeza étnica, e até hoje é perseguido porque não tem voz nem poder. Centenas de milhares de pes­soas nesta região concordam comigo, assim como outros tantos milhões pelo mundo afora. Elas compartilham cultura, história, religião e idioma entre si, e não com os Estados para onde foram mandadas. Dizem-se mace­dônias, independentemente do que a opinião mundial afirma que elas são. Acredito que essas pessoas merecem os mesmos direitos a liberdade, religião, auto-determinação e justiça que você admite como naturais. Essas pessoas são a minha causa. É em nome delas que eu lhe peço ajuda.

Voltou seus olhos para Gaille. Havia algo quase triunfante em seu olhar, sua autoconfiança. Ela tentou não encará-lo, mas não pôde evitar.

E você vai me ajudar — disse ele.

 

Knox estava decidido a esconder seu jipe em algum um lugar que Nessim não pudesse descobrir facilmente. Entrou por uma pista secundária estrei­ta ao sul de Tanta, com Rick seguindo-o em seu Subaru. Dirigiram em comboio por uns 15 minutos até que, sob a luz da lua, Knox avistou um conjunto de construções rurais abandonadas num campo de mato usado como depósito clandestino de lixo. Perfeito. Knox percorreu uma via de terra esburacada até um pátio de concreto rachado. O outro lado estava margeado por uma série de currais descobertos, com lama no piso, lixo nos cantos espalhado pelo vento, aberturas bloqueadas por uma fileira de bebedouros com um pouco de água de chuva. À esquerda de Knox havia um anexo baixo e feio feito de blocos de concreto com uma grande porta de aço, que arrastou no concreto com um barulho estridente quando eles a abriram. O interior estava vazio, a não ser por um cheiro penetrante de óleo diesel e urina e por manchas brancas de fezes de morcegos e de pássaros pelo chão. Knox estacionou ali dentro, levou para o Subaru tudo de que poderia precisar c cobriu o jipe com a lona.

Agora você pode me explicar? — perguntou Rick, enquanto eles se dirigiam a Tanta.

Certo — disse Knox. — Eu cheguei a lhe falar sobre a minha esca­vação em Mallawi?

Rick deu uma risada.

Você algum dia parou de falar sobre ela?

Então você já sabe o básico — disse Knox, abrindo seu laptop e conferindo os CDs que Rick tinha trazido enquanto falava. — Richard Mitchell e eu achamos um arquivo de papiros ptolomaicos. Deixamos todos sob os cuidados de Yusuf Abbas, agora secretário-geral do CSA. Ele gostou tanto do que viu que assumiu toda a escavação.

E depois você descobriu alguns dos papiros no mercado negro.

Exato. Agora, não existe um mercado muito amplo para papiros pto­lomaicos, mesmo os de boa procedência. Mas papiros roubados? A maioria dos compradores de sempre é de instituições acadêmicas. Elas não chegariam perto de material ilícito. Mas Philip Dragoumis se interessa em qualquer coisa que seja macedônia, principalmente se tiver relação com Alexandre.

E você acha que esses papiros têm?

A tumba superior em Alexandria foi construída para um escudeiro do exército de Alexandre chamado Aquilo — disse Knox. — A câmara inferior foi dedicada por um homem chamado Quelônimo. Esses dois nomes apa­receram no mesmo conjunto de papiros de Mallawi. Nós os fotografamos e os guardamos gravados em um dos CDs que você pegou emprestado. Veja. — Virou o laptop para que Rick pudesse ver a lista de nomes de arquivos, na qual se repetiam Áquilo e Quelônimo. — E ontem Nicolas e Elena reco­nheceram o nome de Quelônimo. Sou capaz de jurar.

Ok. Então há uma ligação entre os papiros de Mallawi e a tumba de Alexandria. Mas isso não explica o que viemos fazer em Tanta.

O Grupo Dragoumis está financiando uma escavação perto daqui. Eles não são de bancar escavações com chances mínimas de darem frutos, não num país estrangeiro. Estão atrás de alguma coisa. — Chegaram ao hotel da FAM e estacionaram do outro lado da rua para monitorar a entrada. — Acho que é tudo parte do motivo que trouxe Nicolas a Alexandria, o que signifi­ca que deve ser importante. Eu quero saber o que é. Mas não posso simples­mente telefonar e perguntar. Toda a equipe da escavação assinou acordos de confidencialidade, então ninguém vai falar nada, especialmente para mim.

Ah — disse Rick, sinalizando com a cabeça em direção ao hotel. — Mas eles estão hospedados aqui, certo?

— Exatamente. E daqui a mais ou menos uma hora irão sair para a jor­nada do dia. E nós vamos segui-los.

 

Elena acordou cedo, vendo a luz do sol entrando pela janela aberta do apartamento de Augustin, ouvindo barulhos da rua abaixo: motores de carros dando partida, portas batendo, famílias discutindo. Ela já havia decidido acabar a relação com Augustin quando voltara a Alexandria na noite ante­rior, antes que o caso pudesse ficar mais sério. Mas então ele tinha aparecido em seu hotel para levá-la para jantar, e dado aquele sorriso, e ela havia sen­tido um momento de arrepio, percebendo imediatamente que estava enga­nando a si mesma.

Permaneceu deitada, olhando-o com carinho. Era estranho — e completamente injusto — como os homens podiam parecer bonitos mesmo de­sarrumados. Seu cabelo era como a da medusa, com serpentes finas caindo sobre o rosto. Um fio de saliva escorria pelo canto de sua boca e molhava o travesseiro. E ainda assim ela o desejava. Pela primeira vez em uma década, sentia-se perdidamente libidinosa. E pensar que ela e Gaille partiriam para Siuá mais tarde naquela manhã! Elena precisava aproveitar ao máximo o tempo que eles tinham juntos.

Ela afastou o lençol de algodão para vê-lo melhor. Levou as mãos para baixo e começou a fazer um carinho suave na parte interna de suas coxas desde logo acima do joelho e subindo até o saco. Ele entumesceu, desco­berto, crescendo até tocar sua barriga. Um sorriso malicioso se abriu no rosto de Augustin, embora seus olhos permanecessem fechados. Nenhuma palavra foi dita. Ela o beijou na testa, no nariz e na boca. Seu hálito esta­va amargo, mas nem um pouco desagradável. As carícias foram ficando cada vez mais íntimas. Ambos estavam ávidos demais para esperar. Ele virou para o lado, vasculhou a mesinha de cabeceira em busca de uma camisinha, rasgou a embalagem com os dentes e colocou-a habilmente com uma das mãos. Fez uma careta de esforço ao penetrá-la, sustentando-se sobre as duas mãos, elevando o corpo. Recuou um pouco, balançou-se e a provocou, de modo que ela o desejasse mais e o puxasse de volta para dentro. Acabaram encontrando um ritmo. Ela esticou o pescoço para olhar o ponto em que se uniam, aquela longa sombra escura e dura dele saindo e voltando a entrar bem devagar. Elena havia esquecido quão fascinante uma trepada podia ser, algo tão absolutamente animal, tão diferente do ritual fútil de romance que a envolvia. Ele a empurrou para baixo, e fi­caram se encarando firmemente até que ela não pôde mais agüentar, e se contorceu e gritou enquanto gozava, e os dois escorregaram juntos para o chão. Deixaram-se ficar lá por uns trinta segundos, entrelaçados, sorrindo, recuperando o fôlego.

Ele levantou com agilidade.

Café?— perguntou.

Chocolate.

Ele foi nu para a cozinha, jogando fora a camisinha numa lixeira abarro­tada. Um fio cor de pérola ficou balançando de seu pênis. Ele o limpou com uma toalha de papel e abriu a geladeira.

Merde! — falou zangado. — Não tem leite.

Volte para a cama — reclamou ela. — Daqui a pouco terei que ir buscar Gaille para irmos ao aeroporto.

Preciso de café — protestou ele. — Preciso de croissants. — Vestiu as calças e a camisa do dia anterior. — Só um minuto, prometo.

Ela o viu sair pela porta. Algo parecido com felicidade se expandiu den­tro de seu peito. Todos aqueles anos saciando seus desejos com homens frouxos e afetados. Meu Deus, como era bom ter um homem de verdade em sua vida outra vez.

 

Foi difícil permanecer acordado. Rick tinha acabado de comprar duas xíca­ras de um café denso para si e para Knox na primeira lanchonete que abriu as portas quando quatro homens e três mulheres usando botinas, calças de algodão e camisas com a gola aberta desceram a escada do hotel bocejando e carregando mochilas. Alguns egípcios que vinham se reunindo havia uns vinte minutos foram ao encontro deles. Segundo a lei egípcia, toda escavação devia empregar mão de obra local. Todos subiram em duas ca­minhonetes, amontoando-se na frente ou se acomodando na caçamba. Um dos homens contou rapidamente quantos havia, e então as caminhonetes partiram pela estrada para Zagazig.

Rick esperou vinte segundos e então foi atrás deles. Era fácil seguir pes­soas no Egito. Havia tão poucas estradas que era possível ficar bem afastado. Eles viraram em direção a Zifta e entraram em uma pista de terra. Rick esperou até que eles não fossem mais do que uma nuvem de poeira e então continuou a segui-los. Dirigiram por mais uns 2 ou 3 quilômetros até avis­tarem uma das caminhonetes estacionada e ninguém à vista.

Vamos sair daqui antes que nos vejam — sugeriu Knox.

Rick fez uma volta com o carro e eles foram embora.

Vamos para onde agora?

Não sei quanto a você — bocejou Knox. — Mas eu não durmo há dois dias. Proponho que procuremos um hotel.

 

O dia havia passado com uma lentidão torturante para Mohammed el-Dahab, mas agora a tarde estava acabando e faltava muito pouco tempo. Ele andava para lá e para cá do lado de fora da ala de oncologia do Instituto de Pesquisas Médicas de Alexandria. Algumas vezes, ele aspirava grandes volumes de ar para dentro de seus pulmões; em outras, sua respiração ficava tão rápida e superficial que achava que ia desmaiar. A espera pelo telefonema com o resultado dos exames tinha sido cruel, mas nada em comparação com isto. Foi até a janela e encarou sem foco a cidade e o porto à noite. Tantos milhões de pessoas, e ele não dava a mínima para elas. Que Alá levasse to­das, mas deixasse sua Layla.

O Dr. Serag-Al-Din lhe dera boas notícias. Encontrara alguém compa­tível. Basheer. Uma prima em terceiro grau da mãe de Nur que chegara a se aproximar da morte quando seu prédio desabou anos antes. Na ocasião Mohammed não dera atenção alguma ao fato, sentira completa indiferença quanto à sua vida ou sua morte. Mas se ela tivesse morrido... Fechou os olhos e levou o punho até a boca. Não adiantava nada pensar nisso.

Mas a compatibilidade no exame por si só náo significava nada. Só vale­ria se agora o professor Rafai cedesse uma vaga para o transplante de medu­la de Layla. Mohammed estava ali para descobrir sua decisão.

Insha'Allah, insha'Allah — murmurava Mohammed repetidamente. O mantra pouco ajudava. Se ao menos Nur estivesse ali, alguém que o entendesse. Mas ela não tivera coragem. Ficara em casa cuidando de Layla, ainda mais apavorada que ele. — Insha'Allah — murmurava. — Insha'Allah.

A porta da ala de oncologia se abriu. Uma jovem enfermeira gorducha de grandes olhos castanhos saiu. Mohammed tentou interpretar sua expressão, mas não conseguiu perceber nada.

Queira me acompanhar, por favor, senhor? — disse ela.

 

Os pés de Kareem Barak estavam esfolados e doloridos. Ele havia cami­nhado muito por aquelas estradas desgraçadas com botas apertadas de solas furadas. Criticava a si mesmo por ter respondido ao chamado de Abdullah e aceitado suas condições. Cem dólares para quem encontrasse aquele jipe desgraçado! Tinha parecido bom demais para ser verdade. Mas quando Abdullah lhes designara áreas para a busca, passara a ele este pedaço ru­ral abandonado. Como os outros debocharam dele! Como se alguém fos­se parar um carro naquele lugar! Ele não sabia por que simplesmente não desistiu. Mas aqueles dólares o pegaram pelo pescoço, inclusive porque se Abdullah estava oferecendo uma recompensa de cem dólares, ele próprio ia ganhar cinco ou dez vezes mais, o que representava uma oportunidade para um jovem inteligente como Kareem. Mas primeiro ele precisava ter sorte.

O sol já estava se pondo quando ele avistou a estrada de terra e as cons­truções decadentes uns 200 metros mais adiante. Do jeito que seus pés doíam, daria no mesmo se fossem 200 quilômetros. De repente desejou uma grande tigela do kushari com cebolas fritas de sua tia, comido jun­to com grandes pedaços de aysh baladi, e o aconchego confortante de seu colchão. De jeito nenhum o jipe estaria ali. Chega! Fez uma carranca e deu meia-volta, mancando lastimosamente pelo caminho por que viera. Mas não tinha dado nem vinte passos quando um micro-ônibus lotado de meninas estudantes passou por ele. Uma delas o olhou e sorriu envergonha­da. Tinha uma pele bonita, olhos castanhos e lábios vermelhos sedutores. Acompanhando-a com o olhar, ele se esqueceu completamente do kushari, do colchão e da dor nos pés. Aquilo era o que ele mais queria na vida: uma mulher jovem e recatada para chamar de sua. E, apesar de todos os seus sonhos românticos, ele era realista o bastante para saber que jamais conse­guiria alguma enquanto não arranjasse muito dinheiro.

Virou-se, cheio de dores, e percorreu a pista até as construções rurais.

 

Até mesmo andar estava sendo difícil para Mohammed, enquanto ele seguia a enfermeira. Precisava se lembrar de como era, um passo depois do outro. Ela o conduziu para uma sala grande onde o professor Rafai mexia nas pas­tas de um arquivo branco. Mohammed o vira muitas vezes em plantão, mas jamais tivera a oportunidade de uma reunião particular. Não sabia o que pensar sobre isso. Certas pessoas tinham prazer em dar boas notícias; outras achavam que era seu dever dar as ruins.

Rafai virou-se para Mohammed com um sorriso afável e profissional que não dizia nada.

Sente-se, sente-se — disse, apontando para a sua pequena mesa re­donda no canto da sala. Pegou uma pasta marrom e aproximou-se. — Es­pero não ter feito você esperar muito tempo.

Mohammed engoliu em seco. Será mesmo que Rafai não entendia? De repente, tudo o que Mohammed queria era sair dali e esperar mais um pou­co. Quando a esperança era tudo o que um homem tinha, ele lutava para preservá-la.

Rafai abriu a pasta e olhou para uma folha de papel no interior através de seus óculos meia-lua. Franziu a testa como se tivesse acabado de ler algo em que não havia reparado antes.

O senhor entende o que um transplante de medula representaria? — perguntou, sem desviar o olhar da folha. — O senhor entende o que me pediu para fazer com sua filha?

Era uma sensação entorpccedora, a catástrofe. Mohammed sentiu frio e náuseas, mas ao mesmo tempo uma imensa calma. Tentou imaginar de­solado como daria a notícia para Nur e se Layla entenderia o que aqui­lo significava.

Rafai prosseguiu sem piedade:

A expressão "transplante de medula" induz ao erro. Na quimioterapia comum, nos concentramos apenas em células cancerosas que se dividem rapidamente; mas neste procedimento nós envenenamos deliberadamente o sistema inteiro do paciente a fim de destruir todas as células que se dividem rapidamente, sejam elas cancerosas ou sadias. Isto inclui a medula óssea. O transplante não é um tratamento. Ele é necessário porque, depois que aniquilarmos todas essas células, o paciente morrerá sem uma nova medula. É uma experiência traumática, extremamente dolorosa e sem garantia de sucesso. As rejeições ocorrem a despeito de compatibilidades perfeitas. E mesmo se a nova medula resistir, a convalescença é longa. Exames, exa­mes e mais exames. Este não é um tratamento de alguns dias. As seqüelas permanecem para toda a vida. E ainda há infertilidade, cegueira por cata­rata, cânceres secundários, complicações no fígado, nos rins, nos pulmões, no coração...

Mohammed então deu-se conta de algo. Rafai não estava ali porque a tarefa era difícil; estava ali porque desfrutava o exercício do poder. Moham­med avançou para abaixar a pasta de Rafai.

Diga o que tem que dizer — exigiu ele. — Diga logo. Olhe para mim.

Rafai suspirou.

O senhor deve compreender que não podemos fazer um transplante de medula em todos os pacientes que precisam dele. Concentramos nossos recursos, de acordo com evidências clínicas, naqueles que têm mais possibilidades de cura. Receio que o linfoma de sua filha tenha progredido tanto...

Porque você não quis fazer os exames a tempo! — gritou Moham­med. — Porque você não quis fazer os exames!

O senhor deve entender que todos aqui amam sua...

Mohammed levantou-se.

Quando você decidiu isso? Foi antes que fizéssemos os exames? Foi, não é? Por que não nos disse logo? Por que nos deixou passar por isso?

O senhor está enganado — disse Rafai. — Náo resolvemos os...

Há alguma coisa que eu possa fazer? — suplicou Mohammed. — Qualquer coisa? Eu imploro. Por favor. Você náo pode fazer isso.

Sinto muito. — Rafai sorriu delicadamente. A entrevista havia terminado.

Mohammed nunca antes tinha entendido as tentativas fracassadas de suicídio; aqueles comumente descritos como pedidos de socorro. Mas num momento de iluminação ele percebeu que algumas conversas eram simples­mente difíceis demais de serem iniciadas sem algum gesto que demonstrasse a avassaladora força dos sentimentos envolvidos. Ele não podia encarar Nur e Layla com aquela notícia. Era mais do que ele suportava. Então, em vez disso, levantou Rafai pela lapela do paletó e o empurrou contra a parede da sala.

 

A viagem até Siuá náo preparou Gaille para o oásis propriamente dito. Fo­ram sete horas de carro pela costa plana, decadente e entulhada de constru­ções do Mediterrâneo e depois para o sul através do deserto plano e vazio, com nada para ver quilômetro após quilômetro, a não ser um ocasional posto de gasolina ou uma cáfila de camelos selvagens. Mas então chegaram ao topo de uma colina e o incansável vazio foi subitamente interrompido por lagos salgados reluzentes e pomares de um verde brilhante. Estavam entrando na praça do mercado de Siuá enquanto um muezim chamava os fiéis para as preces e o sol desaparecia por trás das ruínas rosadas da velha fortaleza de Shali.

Gaille abaixou o vidro da janela e respirou fundo. Ficou mais animada. As ruas por ali eram largas, espaçosas e poeirentas. Havia poucos carros ou caminhões. As pessoas andavam a pé, de bicicleta ou em carroças puxadas por jumentos. Depois da agitação de Alexandria aquilo parecia maravilho­samente calmo e satisfeito. Siuá era realmente o fim do caminho. Não havia nada adiante a não ser o grande mar de areia. O oásis não tinha qualquer outra finalidade além de si mesmo.

Elas se hospedaram num hotel em meio a um pomar de tamareiras. Os quartos estavam recém-pintados, limpos e polidos, com janelas cintilantes e banheiros reluzentes. Gaille tomou um banho e trocou de roupa, então Elena bateu à sua porta e ambas saíram para visitar o Dr. Aly Sayed, o re­presentante do Conselho Superior de Antigüidades em Siuá.

 

Knox e Rick se abaixaram nos bancos dianteiros do Subaru quando uma das caminhonetes partiu aquela noite, com seus faróis iluminando o arvore­do onde eles se haviam escondido. Um bom dia de sono tinha recarregado as baterias de Knox; e também a de seu laptop. Ele voltou a abri-lo depois que a caminhonete foi embora e continuou a estudar os papiros de Mallawi.

Acho que o outro caminhão já deve ter ido embora — disse Rick. — Quero dizer, eles não podem trabalhar na escavação no escuro.

Vamos esperar mais dez minutos. Só por garantia.

Rick fez uma careta, mas aceitou.

Como está indo aí? — perguntou.

Não está mal. — A tela era velha e embaçada. As fotografias tinham sido tiradas para fins de catalogação, não decifração. A iluminação era irre­gular, para usar um termo brando. A maioria dos papiros estava completa­mente ilegível. Ainda assim, ele conseguia ler algumas palavras ou mesmo frases. Quase sempre eram vagas, como "e então aconteceu algo que me trouxe para Mallawi". Em outros lugares, o autor se referia muitas vezes ao "iluminado", "o portador da verdade", "o instruído", "o detentor do segre­do". E em outros lugares... — Não sei quem escreveu isso — falou Knox para Rick —, mas ele não foi muito respeitoso.

Como assim?

Os faraós ptolomaicos eram todos chamados Ptolomeu, então se distinguiam uns dos outros por seus títulos de culto. Por exemplo, o primeiro Ptolomeu era conhecido como Sóter, palavra grega para "salvador". Mas aqui ele é chamado de Sótades.

Sótades?

Um poeta e dramaturgo grego alexandrino obsceno. Escreveu um monte de versos homoeróticos, inventou o palíndromo e acabou em maus lençóis após zombar de Ptolomeu II Filadelfo, que casou com a própria irmã. A propósito, Filadelfo significa realmente "amante da irmã", mas aqui ele é chamado de "amante do pecado". Ptolomeu Evérgeta, "o benfeitor", é "o malfeitor". Filopátor, "amor paterno", é "mentira eterna". Epifânio, "o deus manifesto", é "o ardil manifesto". Entendeu a intenção?

Ele não era exatamente o maior satírico do mundo, não é?

Não. Mas simplesmente se referir aos ptolomaicos dessa forma...

Rick inclinou-se para a frente em seu assento, olhou o luar através do para-brisa, impaciente para começar.

Eles já devem ter saído — murmurou, ligando a ignição. — Va­mos entrar.

Mais cinco minutos.

Ok — grunhiu Rick, desligando o motor de novo. Inclinou-se para olhar o laptop. — O que mais você está encontrando?

Muitos nomes de lugares. Tânis, Buto, Busíris, Mendes. Todas elas cidades importantes no delta. Mas o lugar que aparece muito mais vezes é Licópolis.

Licópolis. Cidade dos Lobos, certo?

Esse era o nome grego para a velha Assiut — disse Knox. Assiut ficava a uns 80 quilômetros ao sul de Mallawi, onde os papiros haviam sido encon­trados, então sua referência repetida fazia algum sentido. Mas algo estava atiçando sua memória, e não era Assiut.

Um novo par de faróis veio vindo pela estrada de terra. Ambos se abai­xaram novamente.

Parece que você tinha razão — disse Rick, sorrindo com seus dentes brancos. A segunda caminhonete parou ao chegar na estrada, esperando que um carro passasse. Eles podiam ouvir o barulho do pisca-pisca e a conversa cansada dos trabalhadores na caçamba, satisfeitos pelo fim de um longo dia. E então a caminhonete saiu para a estrada para Tanta e se foi.

Certo — disse Rick, ligando a ignição mais uma vez. —Vamos então?

Vamos.

O luar era claro o bastante para que eles pudessem seguir apenas com as lanternas acesas, sem querer anunciar sua presença e ao mesmo tempo tentando não aparentar furtividade indevida. Chegaram até as árvores onde a caminhonete tinha estacionado antes. Uma estaca cravada no chão dizia em árabe e em inglês que aquela era uma área restrita, reservada pelo Conselho Superior de Antigüidades em parceria com a Fundação Arqueológica Macedônia. Eles retrocederam um pouco, esconderam o Subaru num pequeno matagal e saíram à busca.

Rick tinha ido fazer compras enquanto Knox ficara dormindo e agora lhe entregava uma lanterna, embora o luar ainda fosse suficiente para que ela não fosse necessária. Uma brisa fresca balançava os galhos dos arbustos. Um pássaro piou. Eles podiam ver o brilho âmbar constante de um assen­tamento distante e faróis amarelados correndo os dois sentidos de uma es­trada. A sola de suas botas acumulava terra à medida que eles cruzavam um campo. No canto mais afastado encontraram um sítio semi-escavado, uma colméia de poços de 4 por 4 metros cercados por cordas e divididos por mu­ralhas de terra, e uma série de covas com 1 metro de profundidade vazias, de conteúdo já removido, seus fundos ocultos na sombra da luz oblíqua da lua e ao lado de cada uma um monte de terra fresca. Eles não gastaram nem 15 minutos para conferir tudo aquilo.

Não é exatamente o Vale dos Reis, não é? — murmurou Rick.

Não se pode esperar que eles...

Shhhh! — disse Rick de repente, se agachando, levando um dedo aos lábios. Knox virou-se para ver o que tinha chamado sua atenção. Depois de vários segundos, ele viu: um pequeno brilho alaranjado entre as árvores. — Duas pessoas — sussurrou Rick. — Dividindo um cigarro. — Apon­tou para uma cova vazia cuja base estava mergulhada na escuridão. Knox balançou a cabeça, concordando.

Eles desceram para dentro dela, vendo pela beirada os dois homens de uniformes e bonés verde-escuro avançarem: eram seguranças particulares e não soldados ou policiais, mas traziam coldres pretos na cintura. Um deles segurava a coleira de um pastor alemão enorme, que rosnava e mostrava os dentes como se tivesse sentido algum cheiro, mas não sabia direito de onde vinha. O outro ficou curioso e acendeu sua lanterna para iluminar à sua volta enquanto ambos se aproximavam, conversando sobre um filme de TV a que eles tinham assistido mais cedo.

Rick esfregou um pouco de terra nas mãos e na nuca e gesticulou para que Knox fizesse o mesmo, e ficaram imóveis com os rostos volta­dos para baixo enquanto os dois guardas chegavam bem perto deles, o pastor alemão se animando cada vez mais, mas sendo puxado de volta e xingado. Um clarão da lanterna iluminou o fundo da cova e depois desa­pareceu. Uma guimba de cigarro ainda acesa caiu no rosto de Knox. Um dos homens, ainda falando com o companheiro, abriu o zíper da calça e urinou sobre a terra acima, salpicando uns pingos em torno de Knox e Rick, enquanto o outro fazia comentários sórdidos sobre uma atriz de quem ele gostava. Então os dois se viraram e foram embora, rebocando o cão agitado.

Rick foi o primeiro a se mexer.

Puta que pariu, essa passou perto — murmurou.

Precisamos sair daqui — concordou Knox.

Que besteira — disse Rick. — Dois homens e um pastor alemão tomando conta de um campo vazio? Quero ver o que estão protegendo realmente.

Eles estavam armados, companheiro — disse Knox.

Exatamente. — Rick sorriu. — A coisa está ficando interessante.

Não quero que você se machuque — disse Knox. — Não por mi­nha causa.

Que se foda. Faz muitos anos que eu não me diverto tanto. — E saiu antes que Knox pudesse dizer mais alguma coisa, andando agachado pelo chão, usando sua experiência para encontrar o caminho mais discreto. Knox o seguiu, agradecido por ter um amigo como aquele.

O luar formava sombras fantasmagóricas pelas árvores enquanto eles su­biam uma ladeira suave, mas longa. Knox avistou algo cinzento à frente e o indicou. Rick balançou a cabeça e fez sinal para que ele ficasse onde estava. Desapareceu por um minuto e reapareceu das sombras.

Duas construções — sussurrou. — Uma grande e uma pequena. Fei­tas de blocos de concreto. Sem janelas. Portas de aço. Cadeados. Mas os dois guardas estão do lado de fora da pequena. E nessa que precisamos entrar.

Pensei ter ouvido você dizer que era uma construção de blocos de concreto sem janelas. Como vamos entrar, porra?

Rick sorriu.

Você vai ver.

 

O Dr. Aly Sayed morava numa casa impressionante de dois andares no final de uma rua estreita arborizada. Um homem escuro, de cabelos, sobrancelhas e barba aparada brancos estava sentado do lado de fora com um copo numa das mãos, uma caneta-tinteiro grossa na outra e papéis espalhados sobre a mesa.

Olá! — saudou alegremente. — Vocês devem ser as amigas de meu secretário-geral.

Colocou o copo sobre os papéis para evitar que voassem com o vento e então saltou para a rua. Siuá ficava na antiga rota dos escravos e era evi­dente que ele tinha sangue negro, além de árabe, e parecia enfatizá-lo de propósito, com suas sandálias abertas, shorts cáqui e camisa de manga curta dourada e carmesim.

Você deve ser a Sra. Koloktronis — disse a Elena, apertando sua mão. — E Gaille Bonnard — disse, virando-se para ela. — Sim! Os olhos de seu pai.

Gaille ficou surpresa.

Desculpe?

Você não é filha de Richard Mitchell?

Sim, mas...

Bom! Quando Yusuf me disse para esperar Elena Koloktronis e Gaille Bonnard, eu pensei com meus botões, ah, sim, conheço esse nome! Quan­do seu pai morreu naquela queda terrível, eu mandei para você um pacote grande com papéis e pertences dele. Você o recebeu, sim?

—- Foi o senhor? Sim. Obrigada.

Aly retribuiu com um movimento discreto de cabeça.

-— Seu pai era meu grande amigo. Ficava sempre comigo. Vocês duas são muito bem-vindas, é claro. Mas a filha de um homem tão bom é mil vezes bem-vinda.

Obrigada.

Mas devo dizer que estou surpreso com o fato de Yusuf Abbas ter me falado de você em tão alta conta. —- Ele arqueou uma sobrancelha. — Não poderia ser porque desconhecesse quem era seu pai, poderia?

Não sei — disse Gaille, corando.

Talvez eu deva lhe dizer isso pessoalmente da próxima vez que nos falarmos — concluiu. Mas então percebeu a expressão dela e tocou em seu cotovelo. — É claro que sabe que estou brincando. Jamais faria isso. Dou-lhe minha palavra. Agora entrem. Vocês serão uma honra e um brilho para minha humilde casa. Entrem! Entrem!

Gaille e Elena se entreolharam enquanto o seguiam. Não haviam espe­rado uma recepção tão exuberante.

Ele bateu a palma da mão na parede amarela e áspera do exterior.

Kharshif — anunciou. — Barro e sal. Sólida como uma rocha, mas com uma fraqueza: vira lama novamente quando chove! — Colocou as mãos na cintura e deu uma gargalhada. — Felizmente não chove quase nunca em Siuá. Não desde 1985! Agora Siuá é um grande bloco de con­creto. — Deu uma pancada leve no peito. — Eu gosto das coisas feitas à maneira antiga.

A porta da frente se abria para um longo corredor. Fotografias emol­duradas competiam por espaço. Havia mais outras empilhadas no chão. Manchas desbotadas nas paredes indicavam que ele as mudava de lugar com freqüência. Ele não tinha vergonha de ser fotografado, com certeza. Estava presente em todas as fotos: discutindo assuntos de escavação num sítio; caçando com um oficial do exército, segurando uma gazela branca com uma ferida de bala na cabeça; equipado como um alpinista no meio de algum penhasco; passeando em Paris, St. Louis, Granada e cidades que Gaille não conseguia distinguir; cumprimentando dignitários, celebridades e especialistas egípcios. Seu ego não estava confinado a um canto; estava espalhado pela casa toda.

Chegaram à cozinha dele, com um grande fogão a lenha sob o céu noturno. Quando entraram, o motor de uma velha geladeira amarelada ligou e começou a fazer muito barulho. Aly deu um chute nela e o baru­lho diminuiu.

Aceitam uma bebida? — ofereceu. — Talvez vocês não saibam, mas em Siuá não há álcool. Nossos jovens gostam muito do labgi, o álcool que produzimos com as tâmaras; e o labgi faz com que eles gostem muito uns dos outros, portanto... chega de álcool! Nesse sentido, porém, minha casa é o oásis!

Gaille achou aquele bom humor efusivo meio desconcertante, como se ele estivesse gargalhando à custa delas. Aly abriu a porta da geladeira, reve­lando uma floresta de frutas e vegetais frescos, além de garrafas de cerveja e vinho branco. Ele apontou um dedo para Gaille.

Seu pai me colocou no mau caminho. Uma coisa terrível, o amor ao álcool. Cada vez que meu estoque está no fim, tenho que inventar um as­sunto do CSA no Cairo. E eu detesto o Cairo. Significa que tenho que fazer uma visita ao meu secretário-geral, e, acreditem, esse privilégio é tornado excelente por sua raridade.

Serviu-lhes as bebidas, conduziu-as de volta pelo corredor, destrancou uma porta azul, abriu-a, acendeu a luz e afastou-se para o lado. Uma deli­ciosa onda de ar fresco soprou de dentro. O aposento era grande e ricamente atapetado. Um aparelho grande de ar-condicionado sussurrava sob as janelas fechadas, trancadas e de persianas baixadas. Um computador, um scanner e uma impressora colorida repousavam sobre duas mesas, junto a três arquivos cinzentos e prateleiras brancas cheias de livros em cima de armários com portas de vidro trancadas. Gaille observou as linhas retas nas paredes. Não havia risco, pelo menos nessa sala, de as paredes se transformarem em barro.

Soube que vocês estão aqui para fazer pesquisas em nossos velhos sítios, não? — Aly gesticulou com a mão. — Minha coleção está às suas ordens. Tudo o que foi publicado sobre Siuá e o deserto ocidental está aqui. E o que não foi publicado também.

O senhor é extremamente generoso — falou Elena.

Ele agradeceu com um gesto da mão.

Aqui todos somos arqueólogos. Por que iríamos guardar segredos uns dos outros?

O senhor tem fotografias?

Claro. — Abriu a gaveta superior de um dos arquivos, tirou um gran­de mapa e o abriu. Linhas de marcação corriam de norte a sul e de leste a oeste, dando a cada quadrado um número de referência único que corres­pondia a uma determinada pasta, guardada em um dos arquivos, contendo fotografias aéreas granulosas em preto e branco, bem como algumas colori­das do sítio ao nível do solo.

Enquanto explicava o sistema a Elena, Gaille perambulava pelas estan­tes, passando os dedos por maços de recortes de jornais sobre as múmias douradas de Bahariya, histórias de Kharga, Dakhla e Farafra e sobre a geologia do deserto. Duas prateleiras inteiras eram dedicadas a Siuá, tão entulhadas de livros que ela precisou fazer força para retirar um exemplar da primeira edição de A Visit to Siwa, de Qibell. Gaille virou as páginas amareladas com extrema delicadeza. Ela adorava a extravagância de tais livros, antes que a ciência tornasse a extravagância uma coisa fora de moda.

Você conhece esses? — murmurou Aly, de repente a seu lado.

Não todos eles — admitiu — Na verdade...

Ele riu, mas dessa vez seu riso parecia mais gentil, delicado e autênti­co. Agachou-se para destrancar e abrir uma gaveta baixa de um arquivo. Dentro, prateleiras aramadas estavam entulhadas de pastas cinzentas e bege contendo papéis soltos. Cadernos e diários estavam amontoados em pilhas separadas. Ele encontrou e tirou uma pasta verde grossa e entre­gou-a a ela.

Você conhece o Manuscrito de Siuá? A história de nosso oásis escrita pelos muçulanos desde... — balançou a mão para indicar uma eternidade. — Estas notas em vermelho são minhas. Penso que você as achará valio­sas. — Colocou a pasta sobre a mesa e voltou aos livros. — Ah! Sim! Ahmed Fakhry. Um grande homem. Meu mentor e grande amigo. Você já leu suas obras?

Sim. — Aquela era a única pesquisa que ela havia conseguido fazer até então.

Excelente. Ah! E este! Traveis in Africa, Egypt and Siria From the Year 1792 to 1798, de W. G. Browne. O primeiro europeu em séculos a visitar Siuá, ou pelo menos a escrever sobre ela. Browne achava que éramos um povo detestável e sujo. Atiramos pedras nele porque ele fingia ser um homem de fé. Como o mundo avançou! Aqui está Belzoni, o fortão favorito de todos. E Frederick Hornemann. Alemão, claro, mas escrevia em inglês. Sua viagem foi patrocinada pela London African Society em, deixe-me ver, sim, 1798.

O senhor não tem nada mais atual?

Claro, claro. Muitos livros. Cópias de cada relatório de escavação. Mas acredite em mim, quando essas pessoas antigas nos visitaram, nossos monumentos e tumbas estavam em condições muito melhores. Agora mui­tos não passam de poeira e areia. "Meu nome é Ozymandias, rei dos reis." — Ele suspirou, balançando a cabeça tristemente. — Tanta coisa perdida. Você lê alemão, não?

Sim.

Bom. Nunca se sabe hoje em dia. Mesmo universidades importantes parecem estar distribuindo doutorados a pessoas que mal falam a própria língua. Aqui está, de J. C. Ewald Falls, Siwa: Die Oase des Sonnengottes in der Libyschen Wüste. E de Cailliaud, Voyage à Meroe; você deve ler este. E daquele bandido Drovetti! Tive que ir a Turim para ver o Canon of Kings. Turim! Pior até que o Cairo! Eles tentaram me matar com os bondes!

Quando podemos começar? — perguntou Elena.

Quando gostariam?

Hoje à noite.

- Hoje à noite! — Aly riu. — Vocês nunca descansam?

Temos apenas duas semanas.

Temo que hoje à noite não — disse Aly. — Tenho um compromisso. Mas sou um madrugador. Vocês são bem-vindas aqui amanhã a qualquer momento depois das 7 horas.

Obrigada.

 

Rick e Knox contornaram a construção contra o vento para que o pastor alemão não sentisse o cheiro deles. Demorou mais uns noventa minutos até que os guardas saíssem para uma nova ronda. Assim que se foram, Rick correu para a construção menor. Examinou os dois cadeados robustos, tirou do bolso um fio grosso de arame com um gancho na ponta e começou a destrancá-los rapidamente.

Onde raios você aprendeu a fazer isso? — murmurou Knox.

Nas Forças Especiais Australianas, companheiro. — Rick sorriu, co­locando os cadeados no bolso e indicando para Knox entrar. — Eles não ensinam tricô. — Havia um buraco fundo no chão e uma escada de madei­ra presa a uma parede. — São 16 minutos até o outro sítio — disse Rick. — Eu marquei. Com 16 mais para voltar, são 32. Temos que sair daqui a no máximo 25. Ok?

Então é melhor nos apressarmos — concordou Knox, com a adrena­lina pulsando enquanto descia na frente. A escada rangeu mas aguentou, e logo ele estava pisando sobre lascas de pedra. Rick o alcançou no instante seguinte. Os dois andaram lado a lado por um corredor estreito enquanto Rick ia iluminando com a lanterna as pinturas da parede.

Jesus! — murmurou. — Eu pensei que o Wolverine fosse da Marvel.

Não é o Wolverine — corrigiu Knox. — Deus-lobo. Wepwawet.

Rick dirigiu um olhar estranho para ele.

Qual o problema? — perguntou. — Viu algum fantasma?

Não exatamente.

Então o que foi? Já descobriu onde estamos ou coisa parecida?

Sim. Acho que sim.

Então desembucha, companheiro.

Knox franziu o cenho.

O que você sabe sobre a Pedra de Rosetta? — perguntou.

 

— Chefe! Chefe!

Nessim olhou com raiva para Ratib. Desde que eles ofereceram a re­compensa de mil dólares, os telefones não pararam de tocar. O jipe de Knox tinha sido visto em todos os lugares, desde Mersa Matruh até Assuá, assim como o próprio Knox. Nessim estava ansioso por algum resultado, nem que fosse só para que eles pudessem encerrar essa maldita busca e ter um pouco de paz. Porém quanto mais o tempo passava, menos esperança lhe restava.

Pois não? — disse ele.

É Abdullah, chefe — disse Ratib. — Você sabe, de Tanta. Dizem que um de meus homens achou o jipe.

Onde?

Ratib sacudiu a cabeça.

O rapaz não vai falar enquanto não receber o dinheiro. E ele quer mais. O rapaz está pedindo mil. E agora Abdullah também quer.

Nessim resmungou. Não era o dinheiro em si o problema — era de Hassan, no fim das contas —, mas sim a extorsão. Mas se fosse verdade... Verificou o dinheiro que tinha.

Diga-lhe que quero uma prova — respondeu. — Diga-lhe que mande fotos. Se for o carro, cada um vai ganhar 750.

Ratib balançou a cabeça.

O rapaz se recusa a voltar lá — disse. — Acha que será seguido por Abdullah e depois não ganhará nada.

Nessim deu uma risada. Ele próprio estivera com Abdullah duas vezes e em ambas as ocasiões instintivamente havia verificado seu bolso depois para ter certeza de que ainda tinha a carteira.

Peça-lhe que descreva exatamente o que viu.

Ratib concordou e obedeceu.

Está dizendo que o jipe estava coberto por uma lona verde — infor­mou. — Diz que deu uma olhada no interior. Diz que viu uma caixa com CDs e livros.

Nessim pegou o celular das mãos de Ratib.

Que livros? — perguntou.

Não sei — respondeu o rapaz. Ele parecia aterrorizado, como se es­tivesse lidando com algo muito além de sua capacidade. — Estavam numa escrita estrangeira.

Um lampejo do quarto de Knox no hotel, dos livros de arqueologia que ele havia recolhido.

Eles tinham figuras?

Sim.

De que tipo?

Ruínas — disse o rapaz. — Sabe como é? E aquelas pessoas que ca­vam no deserto.

Nessim tensionou o punho.

Fique exatamente onde está — avisou. — Estamos a caminho.

 

— A Pedra de Rosetta? — Rick franziu a testa enquanto tirava algumas fotografias da pintura com sua câmera digital antes de seguir em frente. — Sei o que seria de se esperar que eu soubesse. Por quê?

E o que é?

Rick deu de ombros.

—- É um pedaço grande de um monólito monumental. De basalto negro ou algo assim.

Uma pedra de quartzo — corrigiu Knox. — Na verdade ela deveria ser cinzenta brilhante com um veio róseo. A sua cor preta se deve ao excesso de cera e à poluição de Londres.

Ela tem escritos em três línguas — disse Rick. — Hieróglifos, de­mótico e grego. E foi achada em Rosetta pelos homens de Napoleão em 1799, certo?

Isso mesmo.

Pararam em frente a outra pintura, semelhante à primeira. Rick tirou duas fotos, o flash ofuscando-os na escuridão.

Eles perceberam que as inscrições poderiam ser a chave para decifrar os hieróglifos, então procuraram outros fragmentos. Dizem que eles valem seu peso em diamantes. — Olhou para Knox, intrigado. — É isso que estamos procurando? Os pedaços perdidos da Pedra de Rosetta?

Não.

Eles não acharam nada; mas descobriu-se depois que a pedra não era originária de Rosetta. Apenas tinha sido transportada para lá como material de construção.

As paredes estavam pretas, como se estivessem carbonizadas. Grandes talhos marcavam o barro cozido.

Um tremendo incêndio — murmurou Rick enquanto fotografava.

Você estava falando sobre a Pedra de Rosetta — insistiu Knox.

Sim. Foram feitas cópias dela. Houve uma corrida para decifrá-la. Jean-François Champollion foi quem finalmente conseguiu. Ele anunciou sua façanha em algum momento da década de 1820.

Em 1822. — Sexta-feira, 27 de setembro, para ser exato. Data consi­derada por muitos como o dia do nascimento da egiptologia moderna.

Rick deu de ombros.

É mais ou menos isso.

Nada mau — disse Knox. — Mas sabe o que faltou você mencionar?

O quê?

— A própria inscrição. O que dizia.

Rick deu uma risada pesarosa.

Você tem razão. Que coisa, não?

Você não é o único. E um grande monumento, uma imagem icônica, e quase ninguém sabe o que diz.

Então, o que diz?

Knox iluminou à frente com sua lanterna. O mármore branco de um portal brilhou palidamente, e de cada lado havia a imagem fantasmagórica de um lobo.

Ela contém o que ficou conhecido como o Decreto de Mênfis — ele disse, enquanto eles seguiam adiante. — Foi escrito para comemorar a as­censão de Ptolomeu V ao trono no ano 196 a.C. Na época, a Era de Ouro ptolomaica já estava morta e enterrada, é claro, graças a Ptolomeu IV.

O festeiro — comentou Rick, agachando-se para fotografar os lobos.

Exato. Antíoco III, o rei selêucida, pensou que ele era fraco e que seria fácil derrotá-lo. Conquistou Tiro, Ptolemais e a maior parte da fro­ta egípcia.

Poupe-me dos detalhes — disse Rick. — Lembre-se de que temos pouco tempo.

Ok — disse Knox enquanto caminhavam. — Houve a grande ba­talha de Raphia. Os egípcios venceram. A paz foi restaurada no país. Isso devia ter sido uma boa notícia.

Mas?

Os impostos já eram proibitivos. Ptolomeu teve de aumentá-los ainda mais para financiar sua guerra e as comemorações da vitória. A discórdia se espalhou. Pessoas abandonaram suas fazendas. Revoltas enormes ocorreram por todo o Egito. Ptolomeu foi assassinado, e seu sucessor, Ptolomeu V Epifânio, era apenas uma criança. Um grupo de rebeldes atacou postos militares e templos no delta do Nilo. Os homens de Epifânio os perseguiram. Eles se refugiaram numa fortaleza.

—- Isso mesmo — disse Rick, estalando os dedos. — Acharam que lá estariam a salvo. Estavam enganados.

Estavanji muito enganados — concordou Knox, enquanto eles des­ciam dois degraus até um segundo portal. — De acordo com a Pedra de Rosetta, os homens de Epifânio a invadiram e mataram a todos.

Encantador.

Você sabe onde tudo isso aconteceu? Foi num lugar chamado Licó­polis, no nomo de Busíris.

Nomo de Busíris? Isso não ficava mais ou menos onde estamos agora?

Exatamente — confirmou Knox ao chegarem ao portal. — Bem-vindo à fortaleza da antiga Licópolis.

Rick passou primeiro, com a lanterna iluminando à frente.

Jesus! — murmurou, ao ver o que havia lá dentro. E então virou-se e olhou para o lado, como se estivesse prestes a passar mal.

 

— Venham — sorriu Aly Sayed. — Esta não é uma noite para se desperdi­çar numa biblioteca.

Gaille e Elena o seguiram até sua mesa no lado de fora. Uma brisa havia esfriado a noite. De longe vinha o som de pássaros cantando. Gaille ouvia enquanto Elena c Aly conversavam amigavelmente sobre o que tinham em comum, pessoas que conheciam, sítios obscuros que haviam visitado.

Depois de um tempo ele se virou para Gaille.

Pobre do seu pai! — disse. — Penso muito nele. Meu estimado secre­tário-geral não o respeitava muito, como você deve saber. No meu caso, só trabalho com pessoas que respeito. Ninguém amou mais este país.

Obrigada.

Aly sorriu e voltou-se para Elena.

Agora me diga o que você veio fazer em Siuá. Yusuf sugeriu misteriosamente que você achou algo interessante em Alexandria.

Pode-se dizer que sim.

E isso tem conseqüências para Siuá?

Sim. — Elena tirou da bolsa um conjunto de fotografias feitas por Gaille. — Desculpe-me, porém Yusuf insistiu que eu fizesse o senhor pro­meter não mencionar nada a ninguém.

Perfeitamente — concordou Aly. — Meus lábios estão selados.

Obrigada. — Passou as fotos para ele, explicando como aquilo tinha sido encontrado, o que significava, e então leu a tradução do Enigma de Alexandre.

Uma tumba apropriada para Alexandre — murmurou Aly enquanto via as fotografias. — E você tem esperança de descobri-la em duas semanas?

Esperamos fazer progressos em duas semanas — disse Elena. — Para garantirmos mais duas.

Como?

O texto dá várias pistas. — Elena foi contando nos dedos. — Declara que a tumba estava à vista do Oráculo de Amon; que ficava no interior de uma colina; que sua abertura estava sob a areia; que foi escavada em segre­do. Amanhã de manhã, com sua permissão, faremos uma lista de todas as colinas com vista para o oráculo. E então iremos visitá-las.

Ele arqueou as sobrancelhas.

Você tem idéia de quantos sítios serão?

Podemos eliminar alguns. A tumba foi construída em segredo; isso exclui qualquer lugar próximo a antigos assentamentos ou rotas de comér­cio. E o trabalho de escavação provoca muita sede, então eles necessitariam de água fresca.

Este é o oásis das mil fontes.

Eu sei. Mas muitas são de água salobra, e a maioria das de água fresca está cercada de assentamentos.

Eles podem ter cavado o próprio poço.

E vamos procurá-lo — concordou Elena. — Temos uma lista de questões a conferir. Por exemplo, como o senhor bem sabe, é possível dis­tinguir a rocha escavada pelas marcas deixadas pelas ferramentas. Qualquer quantidade significativa de rochas com essas características será interessante. Cavar no deserto é um trabalho brutal. A areia é tão fina e seca que escorre como se fosse líquida. Os soldados macedônios eram engenheiros experien­tes. Devem ter usado uma ensecadeira. Suas fotos aéreas podem nos ajudar a descobrir seus contornos. Também encomendei um equipamento de sensoriamento remoto. Um magnetômetro de césio e uma aeronave não tripulada para tirar fotografias aéreas.

Aly continuava a examinar as fotografias. Gaille o observava distraída quando a expressão dele se paralisou. Aly se recompôs quase que de imedia­to, olhou à sua volta fingindo indiferença e folheou as demais fotos rapida­mente antes de devolvê-las.

Bom — disse —, desejo-lhes sorte.

Luzes brilhantes bruxulearam por entre os troncos das tamareiras. Um caminhão com capota de lona veio roncando pela rua e os freios guincharam quando ele parou. Aly levantou-se.

Yusuf sugeriu que vocês iriam precisar de guias — informou. — To­mei a liberdade de contatar Mustafa e Zayn. Eles são os melhores de Siuá. Sabem de tudo.

Obrigada — disse Elena. — Serão de grande ajuda.

Não tem de quê. Devemos trabalhar juntos, não é?

As portas do caminhão se abriram e dois homens saltaram. Aly virou-se para Gaille e disse:

Pensei neles dois assim que Yusuf me disse o seu nome.

Gaille franziu o cenho.

Por quê?

Ora, porque eles foram os guias que acompanharam seu pai naquele dia terrível. — E, por um breve momento, sua expressão perdeu toda a cordialidade. Ele a examinou quase com um distanciamento analítico, curioso quanto à reação dela. Mas então Aly se recompôs e seu sorriso estava de volta, e ele era de novo o anfitrião perfeito, radiante de energia benevolente, fazendo com que todos se sentissem à vontade.

 

Knox dirigiu a luz da lanterna à sua volta para ver o que fizera Rick se re­trair. Havia esqueletos espalhados pelo chão todo, alguns pequenos, e mui­tos ainda com fragmentos de roupas, além de jóias e amuletos.

Cara. — Rick fez uma careta. — Que diabos aconteceu?

Foi o cerco, lembra? — Knox falou com mais calma do que a que sen­tia. — Os homens devem ter lutado. E as mulheres, as crianças e os velhos, procurado abrigo. Um templo subterrâneo devia parecer o lugar perfeito. Até que foram trancafiados aqui e alguém provocou um incêndio entre eles e a única saída.

Meu Deus! Que maneira de se morrer.

Knox balançou a cabeça, tanro em resposta a Rick quanto para si mes­mo, lembrando-se forçosamente de um incidente numa das conquistas de Alexandre, o Grande. O povo de Samaria se revoltara e assassinara o governador macedônio. Como punição, Alexandre destruíra a cidade, executan­do todos os rebeldes nos quais pôde colocar as mãos e depois perseguindo outros até uma caverna do deserto. Em vez de entrar e capturá-los, ele fi­zera uma fogueira na entrada e asfixiara todos. Os restos deles haviam sido descobertos recentemente, junto a sinetes e documentos legais, o que foi considerado o mais antigo estoque já encontrado dos Pergaminhos do Mar Morto. Knox nunca dera muita atenção àquele incidente, uma nota de ro­dapé quase irrelevante nas campanhas de Alexandre. Mas de repente sentiu uma tristeza solidária por todos aqueles que se interpuseram no caminho da força avassaladora de Alexandre rumo à glória.

Rick tocou seu braço.

Não temos tempo para devaneios, companheiro. Só mais dez minutos.

Knox afastou o olhar dos cadáveres amontoados para observar o res­tante do espaço. Era de fato um templo grego subterrâneo, com colunas jônicas embutidas nas paredes exteriores e na frente do pronau. Uma plataforma de madeira tinha sido montada sobre blocos de concreto para permitir que os escavadores pudessem se deslocar rapidamente e sem cau­sar estragos. Knox entrou no pronau, vendo as paredes esculpidas com cenas pastorais, heras, frutas e animais, e daí passou para a cela, domi­nada por uma estátua de mármore branco de Alexandre montado num cavalo empinado.

Olhe! — disse Rick, apontando para um canto afastado. — Degraus.

A escada levava a uma cripta, com um sarcófago encostado na parede contendo uma inscrição em grego em sua lateral.

"Quelônimo" — Knox leu. — "Detentor do segredo, fundador da fé."

Quelônimo? — Rick franziu a testa. -— É aquele seu amigo dos papiros, certo?

E de Alexandria — acrescentou Knox. Havia também tanques de pedra ao longo das paredes, cheios de óstracos de calcário e de cerâmica. Knox pegou um e tentou ler a inscrição desbotada. — Um pedido aos deu­ses — disse.

Então isto aqui é um templo? Um templo para Quelônimo?

Knox balançou a cabeça.

Para Alexandre. Lá em cima vimos sua estátua. Mas Quelônimo deve ter sido seu fundador ou sumo sacerdote ou algo parecido. — Ele se agachou. — Então o que temos aqui? — perguntou a si mesmo. — Um velho de Mallawi escreve sobre sua infância em Licópolis. Ele reverencia Alexandre, Aquilo e Quelônimo. Despreza os ptolomeus, considerando-os mentirosos e impostores. E por que os homens de Epifânio foram tão im­placáveis quando invadiram a fortaleza? Todos foram trucidados ou levados para execução. —- Olhou para Rick. — Isto não parece mais do que uma revolta comum? Quero dizer, os rebeldes do sul receberam anistia. Por que então todas estas pessoas tiveram que ser mortas?

— Elas sabiam de alguma coisa — sugeriu Rick. — Precisavam ser silenciadas.

O detentor do segredo — concordou Knox. — Deve ter sido um tremendo segredo.

Alguma idéia?

Knox franziu a testa diante de uma possível resposta.

Os Ptolomeus nunca chegaram a conquistar realmente o coração dos egípcios — disse. — Eram apenas tolerados por causa da sucessão direta de Alexandre. Foi por isso que sempre tentatam se associar a ele. Chegaram a espalhar boatos de que Ptolomeu I era irmão de Alexandre e mandaram construir um mausoléu para que Alexandre e todos eles fossem sepultados juntos. Imagine o que poderia acontecer se a legitimidade dessa sucessão viesse a ser questionada.

Faço isso mais tarde, se você não se importa — disse Rick, tocando seu relógio. — Temos que nos mandar.

Knox concordou. Subiram rapidamente os degraus e voltaram pela pas­sarela e pelo corredor até a escada de madeira. Rick subiu primeiro, prefe­rindo agilidade a silêncio, e Knox esforçou-se para segui-lo.

Ok — murmurou Rick, quando chegaram ao topo. — Vamos nessa. — Abriu a porta de aço, fez Knox passar e trancou-a de volta com os cadea­dos. Ao longe, à esquerda deles, viram o tremeluzir da luz de uma lanterna e ouviram o rosnado de um cão. — No tempo exato — disse Rick sorrindo.

Mas então o segundo guarda saiu de detrás de uma árvore bem em frente a eles, fechando o zíper das calças. Os três se olharam surpresos. — Corra! — gritou Rick. — Corra!

 

Knox e Rick fugiram por entre as árvores, mantendo os braços levantados para proteger o rosto contra os galhos.

Parem! — gritou o guarda. — Parem ou eu atiro. — Ouviu-se um disparo. — Parem! — gritou outra vez.

Mas eles continuaram correndo, abrindo caminho pelo arvoredo até chegarem a um campo arado, então o cruzaram na direção aproximada de onde estava o Subaru, seus pés afundando no solo molhado, as bo­tas ficando mais pesadas com o acúmulo de lama. Atrás deles o pastor alemão latia, loucamente agitado. Knox sentiu uma fisgada do lado. Ele não tinha tanto preparo físico quanto Rick e começou a diminuir o ritmo. Olhou para trás. Eles haviam conseguido abrir uma boa dis­tância de seus perseguidores, mas aquele maldito pastor alemão já os tinha farejado.

Continue — gritou Rick um pouco adiante, percebendo que Knox estava se cansando. — O Subaru não está longe.

Correram por mais um minuto antes de ele olhar à sua volta outra vez. A noite tinha ficado nublada, mas ele pôde ver a silhueta dos guardas na terra arada. Um deles parou para mirar em Knox, fazendo uns dois disparos que passaram sem o atingir, e Knox tropeçou no chão duro, suas coxas protestando enquanto ele se levantava e continuava a correr com bastante dificuldade, lutando para respirar, sentindo a fisgada cada vez mais violenta no lado e se distanciando cada vez mais de Rick.

Os guardas devem ter percebido que não os alcançariam, então sol­taram o pastor alemão e pararam, atiçando-o na perseguição. O cão veio correndo pela terra fofa, ofegando até alcançar Knox, rosnando e mordendo sua perna. Ele se virou e tentou chutá-lo, mas tropeçou e caiu, e no mesmo instante o cão pulou para cima dele, indo direto para a garganta, babando enquanto Knox desesperadamente o manti­nha afastado, os dentes afiados fechando-se a centímetros de seu rosto. Os dois guardas estavam se aproximando, quase sem fôlego depois da longa perseguição. Knox achou que estava perdido, mas então ouviu o ronco de um motor, viu as luzes dos faróis se acenderem e o Subaru veio correndo e parou ao seu lado. Rick pulou para fora e avançou aos berros contra o cão, que ficou confuso, largou Knox e se afastou por tempo suficiente para que os dois entrassem às pressas no carro. Porém o pastor alemão recobrou-se rapidamente, pulando contra a porta de Knox e latindo furiosamente. Os guardas estavam quase em cima deles. Rick engatou a ré e enfiou o pé no acelerador. O carro acelerou para trás, fazendo uma curva pelo campo, disparando em seguida com a primeira e as outras marchas. Mais disparos. A janela do lado de Knox despedaçou-se e o para-brisa ficou opaco. Rick deu um soco no vidro para abrir um buraco e enxergar enquanto seguia correndo até a pista de terra e dela para a estrada de Tanta. Knox olhou para trás, mas seus perseguidores finalmente tinham desaparecido na escuridão. Guardas de serviços particulares de segurança que disparam armas em geral não costumam avisar às autoridades, mas talvez tivessem colegas que pudes­sem sair à procura do Subaru.

É melhor irmos para o jipe — disse Knox ainda ofegante.

Você acha isso uma boa idéia? Não devíamos ficar quietos por um tempo?

Knox balançou a cabeça.

Quelônimo foi referido constantemente como o detentor do segredo. Quero saber que segredo é esse. E aposto que a resposta está naquela maldita inscrição na caverna inferior de Alexandria. A escrita em demótico.

Mas eu pensei que você não sabia demótico.

E não sei — admitiu Knox. — E é por isso que devemos visitar um amigo.

Ah! E onde ele está então?

Você já esteve em Farafra?

Farafra! — reclamou Rick. — Isso é no meio do Egito.

Então não temos tempo a perder, não é?

 

Kareem arregalou os olhos quando Nessim abriu o zíper de sua bolsa na cintura e sacou um maço de notas de cinqüenta dólares. Ele jamais vira tanto dinheiro. Nunca imaginara que fosse possível. Observou, em transe, Nessim contar 15 notas para Abdullah e outras 15, que ficou segurando tentadoramente diante dele.

Leve-nos até o jipe.

Kareem sentou no banco de trás do Freelander, cujo vidro traseiro es­tava quebrado e remendado com uma folha de plástico. Havia começado a chover, fazendo com que Kareem tivesse dificuldade de dar orientações coerentes pelo terreno desconhecido. Jamais se sentira tão assustado na vida, nem tão entusiasmado. Estava com muito medo de que tivesse cometido algum tipo de erro absurdo ou de que o proprietário do jipe tivesse voltado para buscá-lo na última hora. E ele sabia que não iria perder apenas a recom­pensa. Uma olhada foi o bastante para perceber que Nessim e seus homens precisariam descontar a frustração em alguém.

Chegaram à pista de terra e guiaram até o pátio. Estacionaram e cami­nharam pela lama até a porta de aço do prédio, abrindo-a. Por um instante Kareem não viu nada lá dentro e seu coração acelerou loucamente, mas então conseguiu enxergar o jipe e engoliu em seco várias vezes, aliviado.

Um dos homens levantou a cobertura de lona para conferir a placa.

É o carro dele, sim — anunciou.

Bom. — Nessim abriu outra vez a bolsa e contou o dinheiro de Ka­reem. — Agora vá embora — disse rispidamente. — E não volte.

Kareem fez que sim vigorosamente. Apertou as notas com força enquan­to pisoteava o barro da pista de terra, correndo como se fugisse do diabo. Deu uma olhada para trás e viu Nessim distribuindo lanternas e pistolas, e em outra viu-os preparando uma emboscada. Alguém evidentemente es­tava em perigo mortal, mas Kareem não se importava. Sentia-se exultante, com sua vida finalmente prestes a começar.

 

A chuva tinha começado. A água caía em pancadas contra as janelas quebra­das e o para-brisa furado enquanto Rick e Knox se aproximavam de Tanta.

Você quer esperar ela passar? — perguntou Knox.

Bobagem — retrucou Rick, esforçando-se para enxergar adiante. — Não deve demorar muito. — Ele evidentemente entendia do clima da região, porque o pé-d'água passou logo. Ligaram o aquecedor do carro no máximo, deliciando-se com o calor nas calças encharcadas. Viraram ao sul de Tanta e saíram da estrada principal.

Onde raios é esse lugar? — murmurou Rick, enquanto procuravam a fazenda abandonada.

Logo adiante — disse Knox, com mais confiança na voz do que ele sentia. De repente, um jovem surgiu da escuridão à frente deles, encarando-os com a boca e os olhos bem abertos. Estava tão escuro sob o céu nublado que eles passaram direto pela pista de terra e tiveram de voltar de ré um pouco para entrar nela. A água da chuva tinha preenchido os bura­cos no chão; eles passaram em cima de vários deles, a suspensão do carro reclamando e os faróis dançando nas árvores e nos currais. Rick debruçou-se sobre o volante, olhando com toda a atenção para a frente, andando mui­to lentamente.

Knox olhou para o amigo.

O que houve, companheiro? — perguntou.

O rapaz pelo qual passamos — murmurou Rick. — Fiquei com um mau pressentimento.

— Quer voltar?

Ele balançou a cabeça.

Náo conseguiremos andar nem 15 quilômetros com o para-brisa des­se jeito; náo quando estivermos na estrada principal.

Então vá devagar.

O que acha que eu estou fazendo, porra?

Com nervos tensos c olhos bem abertos, seguiram pela trilha até o pátio. A água da chuva se havia acumulado em poças rasas no concreto, refletindo as luzes dos faróis. À frente havia uma área enlameada. Ambos viram as pegadas recentes ao mesmo tempo.

Merda! — xingou Rick. Enfiou o pé no acelerador e fez uma curva violenta em U, cantando pneus, e Knox bateu o corpo com força contra a porta.

O Freelander branco de Nessim surgiu em meio às árvores, seus faróis altos ofuscando os dois. Rick tentou desviar, mas derrapou no chão molha­do e patinou diretamente de encontro a ele, amassando os capôs de ambos, quebrando os vidros, ativando airbags e ficando presos em seus assentos. Knox precisou de um momento para se recuperar; um momento que ele não tinha. A porta de seu lado foi aberta e um porrete bateu em sua testa, atordoando-o. Foi agarrado pela gola da camisa e arrastado bruscamente pelo chão de concreto, desorientado demais para resistir, com os ouvidos zumbindo como um sino de igreja, até ser levado para o interior do anexo com Rick é a porta de aço ser fechada atrás deles. Nessim deu um chute em suas costas e ficou em pé sobre ele apontando contra seu peito.

Quem é o seu amigo? — perguntou, apontando a lanterna para Rick, que gemia e esfregava a testa, misturando um filete de sangue no cabelo. Ele tentou se levantar e ficar de joelhos, mas voltou a cair, vomitando e fazendo os egípcios darem gargalhadas.

Não é amigo — resmungou Knox, ainda inteiramente desorientado. — Motorista. Não sabe de nada disto. Deixe-o ir.

Claro — debochou Nessim.

Juro — disse Knox. — Ele não sabe de nada.

Então hoje é um dia muito ruim para ele, não é?

Knox apoiou-se em um dos cotovelos, começando a recuperar os sentidos.

Dá uma boa grana? — perguntou. — Trabalhar para al-Assyuti?

Por um momento a face de Nessim se enrubesceu ligeiramente.

Você não sabe nada da minha vida — disse.

E você sabe o suficiente da minha para acabar com ela, é?

Você fez por merecer — devolveu Nessim. — Devia saber o que ia acontecer.

Rick levantou-se, desta vez com sucesso.

O que está acontecendo? — falou, meio atordoado. — Quem sáo essas pessoas?

Não se preocupe com isso — disse Knox.

Eles estão armados — observou Rick, parecendo confuso e assusta­do. — Por que estão armados?

Knox franziu a testa olhando para o amigo. Tinha alguma coisa estra­nha no tom de voz dele. Talvez fosse apenas uma concussão, mas talvez es­tivesse tentando enganar Nessim e os outros para que não o considerassem uma ameaça. Afinal, nenhum deles teria informações sobre seu passado. Se era esse o caso, então Knox deveria ganhar algum tempo para que Rick pudesse fazer seu trabalho. Tempo e talvez escuridão. A única luz ali eram as várias lanternas, afinal, e se ele pudesse fazer com que todas convergissem para si...

Olhou furioso para Nessim.

Ouvi você dizer para aquela garota em Sharm que era paraquedista — disse. — Seu mentiroso de merda.

Não era mentira.

Paraquedistas tem honra — falou Knox com desdém. — Homens honrados não se vendem a estupradores e assassinos.

Nessim bateu no rosto de Knox com a lateral de sua arma, derrubando-o.

Homens honrados não recusam obrigações só porque não gostam delas — disse duramente.

Honra! — riu Knox, ficando de joelhos. — Você não sabe o signifi­cado da palavra. Você é só uma puta, se vendendo por...

Nessim bateu em Knox com ainda mais força, fazendo-o cair atordoado no chão, arranhando o rosto no concreto áspero. E foi ali, num torpor, que viu um borrão parecido com Rick agir. Um único soco derrubou o primei­ro homem. Com o cotovelo, fez o segundo se curvar, tirando-lhe a arma enquanto o homem caía e atirando na coxa do terceiro antes de apontar a arma para Nessim, que ainda estava em pé sobre Knox, paralisado.

Largue-a! — gritou Rick. — Largue a arma, porra! — Tanto a arma quanto a lanterna de Nessim caíram no chão de concreto. — De joelhos — gritou. — Todos vocês. De joelhos, porra. Agora!

Os egípcios obedeceram, inclusive o ferido, em estado de choque, que choramingava lamentavelmente, com suas calças creme ficando tingidas de vermelho.

Mão atrás das cabeças, seus merdas! — vociferou Rick, furioso em parte pelo tratamento que deram a Knox, porém mais porque o fizeram ter medo de morrer. Os egípcios devem ter lido os seus destinos na expres­são dele. A cor se esvaiu do rosto de todos. Apenas Nessim mostrava-se ainda, desafiador, preparando-se enquanto Rick apontava a arma para o seu nariz.

Knox lembrou-se da vergonha em Nessim antes, como ele havia reagido ante a acusação de não ser um homem honrado.

Não — disse, segurando o braço de Rick logo antes que ele puxasse o gatilho. — Nós não somos assim.

Você talvez não seja, porra — retorquiu Rick, tentando afastá-lo. — Eu sou.

Por favor, companheiro — disse Knox.

E que merda você sugere que façamos? — gritou Rick. — Deixá-los ir, para eles voltarem direto para cima de nós? Porra, isto é legítima defesa, companheiro. Nada mais.

Knox olhou outra vez para Nessim. A expressão dele não denotava nada, mas Knox tinha certeza de que Rick estava errado. Deixe-o ir, e seus valores pessoais não permitiriam que ele voltasse a persegui-los. Mas quanto aos outros... Ele se agachou para apanhar a arma de Nessim e olhou em volta pensando em alguma solução. Aquele anexo era pequeno, sem janelas e feito de blocos de concreto. Sua porta era de aço resistente e tinha dobradiças for­tes. Pegou a lona que cobria o jipe e estendeu-a no chão em frente a Nessim, então apontou a arma para o peito dele.

Tirem suas roupas — ordenou.

Não — respondeu Nessim com raiva.

Tirem — disse Knox. — Se não quiser fazer isso para o seu bem, faça pelo de seus homens.

Nessim tensionou os maxilares, mas olhou para seus homens e pareceu relaxar um pouco. Relutante, começou a desabotoar a camisa, indicando a seus homens para que fizessem o mesmo, jogando as roupas sobre a lona. Quando ficaram só de cuecas, Knox os revistou para ter certeza que não ti­nham nada escondido e então embolou a lona e colocou-a na traseira do jipe.

— Você pode tomar conta de todos sozinho? —- perguntou.

Rick respondeu com uma risada.

Você não viu?

Knox levou o jipe até onde estavam o Subaru e o Freelander. O Subaru não funcionava, mas o Freelander pegou na terceira tentativa, o barulho do motor indicando dano fatal. Engrenou a ré e dirigiu chacoalhando até o anexo. Rick saiu de costas, fechando a porta de aço com o pé, permitindo que Knox estacionasse junto a ela e puxasse o freio de mão. Talvez não fosse perfeito, mas aquilo poderia detê-los por algumas horas, tempo suficiente para que Knox e Rick cruzassem meio Egito.

Correram para o jipe. Rick sentou-se ao volante, arrancando com mais velocidade do que seria necessário, como se quisesse queimar o resto da rai­va que sentia, sem olhar para Knox uma única vez. Quanto a este, seu olhar estava perdido através do para-brisa, bastante transtornado diante da reve­lação de que seu amigo estivera preparado para executar aqueles homens. O silêncio entre os dois ficou bem desconfortável e Knox começou a temer que as coisas entre eles talvez nunca mais voltassem a ser como eram.

Foi Rick quem acabou falando:

Achei que tinha dito que aqueles caras eram perigosos — resmungou.

O que posso dizer, companheiro? — Knox sorriu. — Pensei que fossem.

 

Gaille e Elena seguiram ao pé da letra a recomendação de Aly e chegaram à casa dele às 7 horas em ponto, encontrando-o já trabalhando no lado de fora, com seus papéis presos embaixo do bule de chá de Siuá e de algumas xícaras, como se estivesse à espera das duas. Saudou-as calorosamente, e então conduziu-as à biblioteca e as deixou por conta própria.

Elena começou pelas fotografias aéreas; Gaille, pelos livros. Ao pegar o primeiro volume na estante, ele saiu com mais facilidade do que na noite anterior, como se a prateleira estivesse menos abarrotada. Ela olhou com mais atenção. Sim. Ela se lembrava com clareza de um volume de capa vermelha de couro que havia deixado manchas em seus dedos. Pegou um texto aca­dêmico moderno e conferiu a bibliográfia com a prateleira. Faltavam dois títulos básicos sobre Siuá. Mas aquela deveria ser uma coleção completa. Lembrou-se então da expressão estranha de Aly na noite anterior enquanto observara as fotos dela.

Elena — murmurou ela hesitante.

Elena olhou para ela, mal-encarada.

Sim?

Nada — respondeu Gaille. — Desculpe.

Conhecendo Elena, ela certamente iria questionar Aly, e a cooperação dele acabaria indo pelo ralo. Então apenas anotou os títulos que estavam faltando. Iria ligar para Ibrahim na primeira oportunidade e pedir que ele mandasse exemplares diretamente para o hotel delas.

 

Knox dormia profundamente no banco de passageiro do jipe quando Rick o despertou.

O que foi? — perguntou, ainda com os olhos meio fechados.

Barreira militar — murmurou Rick.

Maldição — disse Knox. As barreiras eram tão raras em Alexandria e no delta que ele tinha parado de se preocupar. Mas nas regiões central e sul do Egito, e nas áreas desérticas, elas eram lugar-comum. Reduziram a velo­cidade até parar. Dois soldados com aspecto de cansados, usando pesados uniformes para se protegerem do frio da manhã, se aproximaram devagar. Um deles bateu de leve na janela do jipe.

Passaportes — disse em inglês quando Rick baixou o vidro, claramen­te deduzindo que eles eram estrangeiros. Knox ainda tinha os documentos de Omar Malik que Augustin lhe dera, mas usá-los agora só iria levantar suspeitas. Pegou então seu passaporte britânico e o entregou. O soldado bocejou enquanto levava o documento e o de Rick para a guarita a fim de verificá-los.

Enquanto isso, o segundo soldado permaneceu em pé ao lado do jipe. Acendeu um cigarro, bateu o pé no chão e deu uma olhada pelo vidro de trás. Tarde demais, Knox lembrou-se do embrulho de lona contendo as rou­pas e demais pertences de Nessim e seus homens, incluindo as armas.

O soldado abriu a porta da traseira e inclinou-se para dentro.

O que é isto? — perguntou, colocando a mão sobre a lona.

—- Só algumas roupas — disse Knox, tentando ao máximo demons­trar tranqüilidade.

O soldado puxou uma das abas para verificar seu conteúdo. Tirou uma jaqueta e colocou-a diante de si para conferir o próprio reflexo no vidro antes de jogá-la de volta na trouxa e pegar duas camisas, e depois uma calça, revistando seus bolsos e tirando de um deles um celular caro, dando um sorriso insinuante para Knox como a dizer que ele havia encontrado um presente para si. Knox estava com a boca seca. Se aquele cretino achasse alguma das armas, eles teriam de dar muitas explicações.

Desculpe, mas essas coisas são nossas — disse Knox.

O soldado soltou um grunhido irritado e atirou as calças e o celular de volta para dentro da lona, batendo a porta com força maior que a necessária. Seu companheiro na guarita tinha terminado a ligação e estava voltando. O coração de Knox batia violentamente com apreensão, mas o soldado devol­veu os passaportes sem pestanejar e fez um gesto para que passassem. Knox e Rick seguraram os sorrisos dos lábios até quando já estavam bem longe.

Que tal isso? — disse Rick. — Talvez Hassan tenha desistido de você.

Duvido, companheiro — respondeu Knox. — Acho que ele não quer é que as autoridades fiquem sabendo de sua caçada.

— Isto já é alguma coisa, pelo menos. .

É — concordou Knox. — Com certeza. — Olhou para o embrulho na traseira. — Mas acho que devíamos jogar esta merda fora antes que te­nhamos problemas. O que você acha?

Acho que você está certo — concordou Rick.

 

Nicolas chegou ao escritório de Ibrahim para discutir um assunto delicado. Seu pai lhe dera a incumbência de obter certos artefatos da tumba macedô­nia para sua coleção particular: pelo menos um esquife dourado, mais uma seleção de armas. Isso era perfeitamente possível, especialmente agora que Yusuf havia assumido o controle pessoalmente. Seria só uma questão de criar réplicas convincentes e providenciar uma troca. Mas Ibrahim continuava en­volvido com a escavação, e Nicolas precisaria falar com ele, inclusive porque Yusuf insistia em ter um bode expiatório plausível no caso de as trocas se­rem descobertas.

Não estou o atrapalhando, estou? — perguntou Nicolas.

Não é nada que não possa esperar. — Ibrahim sorriu. — Só estou mandando alguns livros sobre Siuá para Gaille. Mas não acredito que o Dr. Sayed não tenha esses exemplares.

Nicolas acomodou-se na mesa do canto.

Estou certo de que o senhor sabe quanto o Grupo Dragoumis está satisfeito com o resultado de nossa parceria — afirmou.

Nós também estamos satisfeitos.

Nicolas balançou a cabeça e tirou um envelope grosso do bolso de seu paletó.

É a política de minha família recompensar o sucesso. — Colocou o envelope sobre a mesa entre os dois e sorriu para Ibrahim para indicar que ele deveria pegá-lo.

Ibrahim franziu o cenho ante o maço de notas no interior do envelope.

Para mim? — perguntou.

É um gesto de nosso apreço e gratidão.

Ibrahim fitou-o desconfiado.

E o que o senhor desejaria em troca desse dinheiro?

Nada. Apenas a continuação de nossa parceria.

Nicolas, na verdade, tinha uma microcâmera na altura do peito, com a lente disfarçada no segundo botão de cima para baixo. Todo mundo no CSA aceitava subornos, mas isso não os tornava lícitos. Se Ibrahim aceitasse aquela baksheesh como um bom menino, o filme seria usado para coagi-lo, passo a passo, até que ele estivesse completamente comprometi­do. Se ele não aceitasse, havia vários outros métodos que Nicolas pode­ria explorar.

Ibrahim hesitou, e então empurrou o envelope de volta pela mesa.

Se o senhor deseja colaborar ainda mais com nossa parceria — ele disse —, temos uma conta bancária para esse propósito, como tenho certeza de que o senhor já sabe.

Nicolas sorriu friamente e recolheu o dinheiro.

Como você achar melhor.

Algo mais? Ou posso voltar a...

Houve um barulho do lado de fora. A porta se abriu de supetão e Mo­hammed entrou apressado.

Sinto muito, senhor — disse Maha, resolutamente pendurada no bra­ço de Mohammed. — Não consegui impedi-lo.

Tudo bem, Maha — disse Ibrahim. Olhou para Mohammed fran­zindo a testa. — O que significa isso?

É Layla — falou Mohammed, com lágrimas escorrendo por seu ros­to. — Eles disseram não. Disseram não. Não irão tratá-la.

Meu caro amigo — disse Ibrahim com uma expressão de pesar, meio sem jeito. — Sinto muito.

Ela não precisa de compaixão. Precisa de ajuda.

Sinto muito. Não vejo o que mais posso fazer.

Por favor. Já pedi a todas as outras pessoas que conheço. O senhor é a última esperança dela.

Nicolas levantou-se e se afastou. Conversas sobre doenças sempre o deixavam pouco à vontade. Os livros que Ibrahim havia selecionado para Gaille estavam no canto da escrivaninha dele. Pegou um e folheou-o distraidamente.

Posso tentar falar com algumas pessoas — dizia Ibrahim. — Mas não conheço ninguém do hospital

Eu lhe suplico. O senhor tem que fazer alguma coisa.

O livro estava cheio de desenhos em preto e branco. Nicolas parou num que mostrava uma colina e um lago chamado Bir al-Hammam. Ha­via algo estranhamente familiar naquilo. Colocou o livro de volta e pegou outro. Este também tinha uma imagem de Bir al-Hammam, uma foto­grafia. Encarou a foto, e encarou mais um pouco, e finalmente descobriu o que elas tinham de familiar, e um intenso tremor orgástico percorreu seu corpo.

Nicolas? Nicolas? — chamou Ibrahim, ansioso. — O senhor está bem?

Nicolas chacoalhou a cabeça para despertar de seu devaneio. Ibrahim o olhava com uma expressão estranha. Sorriu e disse:

Desculpe-me. Eu estava muito longe, só isso. — Olhou à sua volta e verificou que Mohammed já havia ido embora. — Onde está o seu amigo? — perguntou.

Teve que ir embora — disse Ibrahim. — Receio que sua esposa esteja num estado deplorável. Prometi fazer o possível. Mas o que posso fazer? Aquela pobre menina!

Nicolas franziu o cenho com um ar pensativo.

Se eu pudesse ajudá-la o senhor ficaria agradecido, não?

Claro — disse Ibrahim. — Mas eu realmente...

Muito bem — disse Nicolas, colocando os livros de Gaille debaixo do braço — Então venha comigo. Vamos ver o que se pode fazer.

 

O Oráculo de Amon era simplesmente um amontoado de rochas a cerca de 4 quilômetros da cidade de Siuá. Apesar da antiga fama, não havia estacionamento, nem lanchonetes, nem preço para entrar. Quando Gaille, Elena e os guias chegaram lá bem cedo na manhã seguinte, não havia ninguém a não ser um velho mirrado sentado junto ao muro em frente à base do oráculo, com a mão trêmula estendida na esperança de conseguir alguma esmola. Gaille pegou sua bolsa.

— Você só vai incentivá-lo — alertou Elena. Gaille hesitou, e então entregou-lhe uma nota de qualquer forma. Ele sorriu agradecido.

Duas meninas com longos cabelos pretos trançados se aproximaram oferecendo os braços cobertos de pulseiras feitas em casa. Zayn fez uma carran­ca para elas, e ambas fugiram correndo, risontas.

A princípio Gaille tinha ficado um pouco insegura com relação a Mustafa e Zayn. Mas em pouco tempo começou a apreciá-los. O conhecimento que tinham sobre Siuá era impressionante. E existia algo comovente sobre a amizade entre eles: havia uma antiga tradição de casamento homossexual ainda persistindo em Siuá. Canções e poesia locais ainda celebravam tais relacionamentos. Ela não conseguiu evitar pensar no assunto.

Mustafa era grande, com a pele áspera e escura tanto por causa do sol quanto da natureza, a julgar pelas faixas mais claras em volta do pescoço e debaixo da pulseira do relógio. Ele era absurdamente ágil e estava em extre­ma boa forma, embora fumasse sem parar. Tinha uma relação especial com seu caminhão velho e temperamental. Nenhum dos mostradores funciona­va mais, e cada detalhe de adereço havia muito já não existia, da bolota da alavanca de câmbio até as borrachas dos pedais e os tapetes no piso.

Zayn, por sua vez, era um homem miúdo, e não tinha mais de 40 anos, embora seus cabelos e sua barba apresentassem mechas prateadas. Enquanto Mustafa estava dirigindo, Zayn parecera quase obcecado em azeitar e polir uma faca de lâmina fina e cabo de marfim que guardava entre as dobras de sua túnica. Cada vez que ele a guardava, a lâmina brilhante e sem manchas resvalava na bainha de modo que imediatamente tivesse que ser limpa outra vez, e ele então voltava a tirá-la, examinava-a, murmurava algumas obsce­nidades çm sua língua.

Uma escada curva íngreme passava sob um lintel e levava até o corpo principal do oráculo, um esqueleto de paredes que lembrava um barco de madeira que tivesse apodrecido no lodo de um estuário e depois ressecado. Ali, Gaille experimentou um momento de assombro silencioso. Não havia muitos lugares no mundo onde se pudesse ter certeza de que Alexandre em pessoa tivesse ocupado exatamente o mesmo espaço. Este era um deles. O oráculo fora venerado por todo o Mediterrâneo durante o tempo de Alexandre; um rival à altura do de Delfos, talvez até superior. Segundo a lenda, Héracles o visitava, e Alexandre havia afirmado que era seu descen­dente direto. Perseu também teria ido até o oráculo, e ele fora associado ao Império Persa, que Alexandre passara a reclamar para si. Címon, um general ateniense, ficara famoso ao mandar uma delegação a Siuá para perguntar ao oráculo se seu cerco ao Chipre seria bem-sucedido. O orá­culo recusara-se a responder, dizendo apenas que a pessoa que tinha feito a pergunta já estava com ele. Quando os emissários retornaram à frota, receberam a notícia de que Címon havia morrido naquele mesmo dia. Píndaro compusera um hino em honra ao oráculo; e após pedir-lhe a maior sorte que seres humanos poderiam ter, morreu imediatamente. Mas talvez o incidente a causar o maior impacto fora a invasão do Egito pelo rei persa Cambises. Ele enviara três exércitos: um para a Etiópia, o segundo para Cartago e o terceiro para cruzar o deserto até Siuá. Esse terceiro exército desaparecera sem deixar vestígios, e por causa disso o oráculo ganhara uma aura de respeito e temor.

Era por aqui que os sacerdotes desciam? — perguntou Gaille.

O sumo sacerdote saudou Alexandre como o pai dios — disse Elena, confirmando. — Filho de Deus. Você sabia que Plutarco sugeriu que ele dissera na verdade o pai dion? Hah! Só mesmo um sacerdote com colhões de tungstênio para se dirigir a Alexandre chamando-o de "meu garoto".

A menos que estivesse falando em nome do próprio Zeus.

— Sim. Talvez.

Como funcionava o oráculo?

Os sacerdotes levavam a manifestação física de Zeus-Amon num barco dourado decorado com pedras preciosas enquanto jovens virgens cantavam — respondeu Elena. — O sumo sacerdote lia as perguntas dos suplicantes, e Amon as respondia dançando para a frente ou para trás. Infe­lizmente, Alexandre recebeu uma audiência privada, então não sabemos ao certo o que ele perguntou ou ouviu.

Pensei que ele tinha perguntado sobre os assassinos de seu pai.

Essa é uma tradição — reconheceu Elena. — Diz-se que ele pergun­tou se todos os assassinos de seu pai já haviam sido punidos, e o oráculo respondeu que a pergunta não tinha sentido porque seu pai era divino e, portanto, não podia ser assassinado; mas todos os assassinos de Felipe II já haviam sido devidamente punidos, se era a isso que ele se referia. Isso é provavelmente apócrifo, claro. Tudo o que se sabe com certeza é que Amon se tornou o deus favorito de Alexandre e que ele mandou emissários para cá quando Hefestião morreu, e que pediu que fosse sepultado aqui também. — Elena pegou um punhado de areia, examinou-a por instantes e jogou-a fora.

Deve ter sido um golpe terrível para os sacerdotes do oráculo — disse Gaille. — Pensar que iam ter o corpo de Alexandre e depois descobrir que ele iria para Alexandria.

Elena concordou.

Ptolomeu aliviou as dores deles. Segundo Pausânias, ele lhes enviou um monólito inscrito com um pedido de desculpas, além de presentes valiosos.

Gaille escalou até onde pôde e olhou os arredores. A paisagem aqui náo era como a da Europa, onde as colinas e montanhas haviam sido erguidas pelas pressões geológicas e pelo tempo. Toda essa região fora um planalto de arenito, mas a maior parte tinha desmoronado. As colinas que restavam eram simplesmente as últimas combatentes. Ela localizou o norte, com Al-Dakrur à sua direita e o grande lago de sal e a cidade de Siuá à esquerda. A frente o ar era tão limpo que ela podia ver pelo binóculo linhas escuras de montes a muitos quilômetros de distância. A areia entre as elevações era ferida por ocasionais pedaços de rochas marrons da cor de nicotina, alguns deles menores que carros pequenos, e outros que pareciam blocos de pe­dra empilhados.

Por onde começaremos? — perguntou com desânimo.

Todas as tarefas imensas são apenas um grande número de tarefas pequenas — observou Elena de forma pomposa. Abriu um mapa no chão e pôs uma pedra em cada canto. Armou um tripé, prendeu uma câmera com lente teleobjetiva e começou um estudo rigoroso, focalizando a Colina dos Mortos de Siuá, ajustando a câmera até o horizonte, e depois de volta, antes de ajustar o enquadramento em meio milímetro para a direita. Cada vez que encontrava uma nova rocha ou colina, batia uma foto e chamava Mustafa e Zayn para vê-la através da lente. Eles discutiam um pouco até concordarem com um nome e a marcavam no mapa. Cada uma das marcas significaria uma visita e uma pesquisa epigráfica.

Gaille sentou-se sobre um pedaço de rocha e olhou para o deserto, com a brisa fustigando suas costas, jogando mechas de seus cabelos sobre olhos. E ela constatou, quase com surpresa, que se sentia feliz.

 

Nicolas pediu a Ibrahim que o levasse para sua casa. Precisava de algum lugar com privacidade para montar seu centro de atividades, e o hotel não seria adequado.

— Você poderia me dar licença por alguns minutos? — perguntou ao chegarem. — Tenho que... dar alguns telefonemas delicados.

Claro.

Como sempre, ligou para seu pai primeiro. Ele estava numa reunião. Nicolas mandou que o chamassem.

E então? — perguntou Dragoumis.

Eu o encontrei.

Tem certeza?

Tenho certeza dc ter encontrado o lugar. Se há alguma coisa dentro dele... — Explicou o que tinha acontecido, que ele havia visto as fotografias nos livros que Gaille pedira a Ibrahim.

Eu lhe disse que ela era a pessoa certa — disse Dragoumis.

Sim, pai, o senhor disse.

E então? Qual é o nosso plano?

Nicolas contou para o pai até onde havia chegado. Os dois conversaram, apuraram suas considerações e decidiram a equipe, os equipamentos necessários, as armas e os artigos de logística.

Serei o encarregado do operacional, é claro — disse Nicolas.

Não — respondeu Dragoumis. — Eu o farei.

Tem certeza? — perguntou Nicolas, ansioso. — O senhor sabe que não poderemos garantir sua segurança longe de...

Você acha que eu perderia isso? — perguntou Dragoumis. — Bata­lhei a vida inteira para isso.

Como quiser.

E bom trabalho, Nicolas. Você fez bem. Fez muito bem.

Obrigado. — Nicolas teve que enxugar os olhos. Não era muito fre­qüente que seu pai o elogiasse, mas isso só tornava ainda mais especiais as ocasiões em que ele o fazia. Terminou a ligação e ficou quieto, deslumbrado. E então ficou sério e sacudiu a cabeça para retomar o foco. Aquele não era o momento para ficar enrolando. Não havia conquistado nada até então, e não o faria se não começasse a se mexer. Ligou então para Gabbar Mounim, no Cairo.

Pronto? — disse Mounim. — Espero que tudo esteja a contento.

Como sempre — concordou Nicolas. — Mas há algo mais que eu gostaria que você fizesse para mim. Na verdade, duas coisas.

Com prazer.

Nosso amigo em comum. Gostaria que ele chamasse seu colega, o Dr. Aly Sayed do oásis de Siuá, para uma reunião de emergência. — Nicolas não pôde evitar a suspeita de que o Dr„ Sayed teria deliberadamente escondido de Gaille os livros, o que sugeria que ele fizera a mesma associação, e isto signi­ficava que precisava estar fora de Siuá enquanto eles estivessem trabalhando.

Qual a urgência dessa reunião, exatamente?

Amanhã, se possível.

Mounim respirou fundo.

Não será fácil, mas verei o que posso fazer. E a outra coisa?

— Você por acaso tem influência no Instituto de Pesquisas Médicas de Alexandria?

 

Elena estava voltando para a cidade quando Nicolas ligou no celular.

Precisamos nos ver — disse ele. — Quando você pode voltar para Alexandria?

Pelo amor de Deus, Nicolas, acabei de chegar aqui.

Não dá para esperar, Elena. Aconteceu algo. Meu pai quer conversar com você.

Seu pai? Ele está vindo para Alexandria?

Sim.

Elena respirou profundamente. Philip Dragoumis não deixava o norte da Grécia à toa. Se ele estava indo até lá, era por algo muito significativo.

Tudo bem — disse. — Onde?

Na casa de Ibrahim.

Quando?

Amanhã de manhã. Às 9 horas.

Estarei lá. — Fechou o celular já fazendo planos. Se saísse agora, poderia chegar a tempo de uma noite com Augustin.

Estão precisando de mim em Alexandria — falou para Gaille.

Alexandria? — Gaille franziu o cenho. — Você vai... ficar muito tempo lá?

Como eu vou saber?

Quer que eu e os rapazes comecemos a procurar?

Elena franziu a testa. Gaille tinha um hábito perturbador de descobrir coisas sem a ajuda dela.

Não — disse. — Não faça nada até eu voltar.

Como quiser.

 

— Você está querendo me dizer que Knox escapou outra vez? — perguntou Hassan incrédulo, depois que Nessim concluíra seu relatório.

Ele estava com um amigo — disse Nessim.

Um amigo?

Nós os encontraremos — afirmou Nessim, esforçando-se para soar mais agressivo do que na realidade se sentia.

Sua auto-confiança tinha sido totalmente abalada pelo que acontecera. Ver o jogo virar de forma tão absoluta provocaria isso em qualquer um, bem como ter passado a noite tentando escapar de um anexo ou vagan­do semi-nu pela zona rural carregando um companheiro ferido. Mas, para surpresa de Nessim, o que o afetara mais profundamente naquele fiasco todo foram as palavras de Knox sobre sua falta de honra. Nessim tinha idade e discernimento suficientes para saber que insultos não feriam a me­nos que fossem verdadeiros, e por isso agora ele não conseguia parar de se fazer perguntas penosas: Como pôde chegar a esse ponto? O que estava fazendo trabalhando para um homem como Hassan? O dinheiro era mesmo tão importante assim?

Iremos vigiar todos os seus amigos e conhecidos — disse. — Vamos oferecer outra recompensa. E apenas uma questão de tempo até o acharmos outra vez.

É o que você vem me dizendo — disse Hassan.

Sinto muito — disse Nessim. — Ele é mais competente nisso do que imaginávamos que fosse possível. Mas agora sabemos. Agora estamos preparados. Da próxima vez o pegaremos.

Próxima vez? Como posso ter certeza de que haverá uma próxima vez?

Mais uma semana. É tudo o que lhe peço.

Você pode me dar um bom motivo para eu não demitir você e con­tratá-lo em seu lugar?

Você teria de encontrá-lo primeiro — murmurou Nessim entre os dentes.

O que você disse?

Nada.

Seguiu-se um silêncio pesado. Então:

Acho que já é hora de conversarmos sobre isso cara a cara, não?

Cara a cara? — perguntou Nessim desolado.

Sim — disse Hassan. — Cara a cara.

 

Mohammed ficou surpreso ao ver o professor Rafai descer do táxi e fechar a porta atrás de si com força. Ele não havia esperado ver o oncologista de Layla outra vez; muito menos em seu canteiro de obras.

Algum lugar mais reservado? — perguntou Rafai, tremendo de raiva.

Reservado?

Para conversarmos.

Mohammed franziu a testa, confuso.

Agora?

Claro que é agora! Acha que vim aqui para marcar uma hora? — Mohammed deu de ombros e conduziu Rafai para a sua sala. — Não sei como você faz isso — gritou Rafai quando a porta se fechou. Retirou seus óculos meia-lua e gesticulou com eles como se fossem um bisturi, apontando para o rosto de Mohammed. — Quem você pensa que é? Eu baseio minhas de­cisões em evidências clínicas. Evidências clínicas! Você pensa que pode me intimidar para que eu mude de opinião?

Sinto muito pelo comportamento que tive em sua sala — disse Mo­hammed atônito —, mas eu já pedi desculpas. Estava sob imensa tensão. Não sabia o que mais...

Você acha que eu vim aqui por causa daquilo? — gritou Rafai. —- Náo estou falando daquilo.

Então o quê?

Só a sua filha! — gritou Rafai. — Apenas e sempre a sua filha! Você acha que ela é a única que está doente. Um menino chamado Saad Gama está à espera de um transplante de medula. Um verdadeiro estudioso do Islã. Quer explicar para ele que devemos adiar seu tratamento porque você tem amigos mais influentes? Quer dizer para os pais dele que o menino deve morrer para que sua filha tenha uma chance de viver? Você acha que eles não se importam com o filho?

Professor Rafai, em nome de Alá, do que é que o senhor está falando?

Não negue! Não me insulte negando isso! Sei que você fez isso, embo­ra não saiba como você tem esse poder... Bem, deixe-me lhe dizer: o sangue de Saad está em suas mãos! Em suas mãos, não nas minhas.

Mohammed sentiu um arrepio. Perguntou, desnorteado:

O que o senhor está dizendo? Está dizendo que fará o transplante em Layla?

Rafai olhou-o, furioso.

Estou dizendo que não vou arriscar meu departamento por causa disso.

Mas e o transplante dela? — insistiu Mohammed. — Layla vai rece­ber o transplante?

Diga aos seus amigos no Cairo para ficaram longe de mim e de minha equipe. Se o procedimento não for bem-sucedido, não nos responsabilizaremos, ouviu bem? Diga isso ao seu pessoal. Diga a eles. — E saiu apressado da sala.

As mãos de Mohammed tremiam tão incontrolavelmente que ele não conseguia sequer segurar o fone com firmeza enquanto tentava ligar para Nur.

 

Nicolas falava ao telefone com Bastiaan, seu guarda-costas, quando Ibrahim bateu na porta e entrou, trazendo uma xícara de café e um pratinho com bolos, que colocou num canto de sua mesa. Nicolas não parou de falar, mas começou a usar eufemismos e virou-se de costas.

Você providenciou as aquisições?

Vasileios está voando com seu pai. Ele foi instruído sobre o que precisamos.

E quando você chegará aqui?

Estou a caminho neste momento. Não devo demorar mais do que 15 minutos.

Bom. E garanta que... — Por trás dele Ibrahim ofegou. Nicolas virou-se e o viu com um dos livros de Gaille aberto nas mãos, encarando em choque uma foto de Bir al-Hammam. Nicolas fechou os olhos, irritado con­sigo mesmo. — Chegue em dez minutos — disse a Bastiaan em seu grego mais bronco. — Estamos com um problema. — Terminou a ligação e to­mou o livro das mãos de Ibrahim. — Há algo que preciso lhe falar — disse.

— O quê? Mas você viu essa foto de...

Rápido — disse Nicolas, segurando Ibrahim pelo braço e levando-o até a cozinha.

O que foi?—perguntou Ibrahim, confuso. — O que está acontecendo?

Nicolas abriu e fechou todas as gavetas até encontrar o que estava procu­rando. Ele ergueu a reluzente lâmina de 20 centímetros.

Ibrahim empalideceu.

— O que... o que você está fazendo com isso?

Segurando a faca com a mão esquerda, Nicolas estendeu o braço para o lado, e os olhos de Ibrahim acompanharam a ameaça brilhante. E então lhe deu um soco com a direita, fazendo-o cair de costas no chão. Ajoelhou-se junto a Ibrahim e pressionou o aço afiado contra sua garganta antes que ele pudesse se recuperar.

Meu colega Bastiaan está a caminho — disse. — Você vai ficar quie- tinho até ele chegar, não vai?

Sim — concordou Ibrahim.

 

Knox tinha tomado o volante para que Rick dormisse um pouco. Estavam no meio da tarde quando chegaram a Farafra e ele acordou Rick.

Chegamos, companheiro.

É sempre assim — grunhiu Rick irritado. — Um sonho tão bom!

Knox não vinha à casa de Ishaq fazia vários anos, mas Qasr al-Farafra era pequena e não foi difícil encontrá-la. Ele mal podia esperar para ver seu velho amigo. Sua história com Ishaq era bem antiga, desde a primeira temporada em Mallawi. Um homem pequeno e ridiculamente brilhante, Ishaq costumava passar a maior parte de seu tempo livre numa rede olhan­do preguiçosamente para o céu. Mas se lhe dessem algo em demótico para ser traduzido, em todo o Egito não haveria ninguém melhor que ele.

Infelizmente, quando estacionaram em frente à sua casa, as persianas estavam todas baixadas. Bateram à porta, mas ninguém respondeu. Foram até o Centro de Informações, pouco adiante na mesma rua, que fazia as vezes de escritório dele, mas lá também não havia ninguém.

Ele deve ter saído para alguma escavação — disse Knox, olhando para o relógio. — Vai voltar logo.

Vamos dar uma olhada nessas malditas imagens, então — murmu­rou Rick.

Não estão comigo.

Não o quê?

Knox olhou para ele.

Você acha que sou maluco a ponto de atravessar o Egito com provas incriminadoras em meu laptop suficientes para dez anos de sentença?

Então como diabos seu amigo vai traduzi-las?

Estão na internet, companheiro. Ishaq está conectado.

Sentaram-se à sombra de uma tamareira para esperar. O torpor se insta­lou. Quando moscas pousaram sobre os dois, eles não tinham sequer ener­gia para espantá-las.

Um garoto vestido com uma túnica e empurrando uma bicicleta velha grande demais para ele se aproximou hesitante.

Vocês procuram Ishaq? — perguntou.

Sim. Por quê? Você sabe onde ele está?

Ele ir para o Cairo. Uma reunião. Uma reunião grande. Todos os arqueólogos do deserto têm que ir lá.

Ele disse quando volta?

Amanhã. — O garoto deu de ombros. — Depois de amanhã.

Droga — murmurou Rick. — E agora?

Não sei — respondeu Knox. — Deixe-me pensar.

Eu não acredito nesse Quelônimo idiota. Tudo o mais estava em gre­go. Por que diabos ele tinha que usar demótico para essa maldita inscrição?

O queixo de Knox caiu; ele se virou para olhar o amigo.

O que foi? — perguntou Rick — O que foi que eu disse?

Acho que você acabou de resolver o problema — disse Knox.

 

Mohammcd ainda estava atordoado com a sua boa sorte quando o telefo­ne tocou.

Pronto? — atendeu.

Aqui é Nicolas Dragoumis. Você se lembra, eu ajudei a financiar os exames para...

Claro que me lembro, Sr. Dragoumis. O que posso fazer pelo senhor?

Penso que você deve ter recebido boas notícias.

Foi o senhor? O senhor é o meu amigo no Cairo.

Sim.

Obrigado! Obrigado! Estou cm dívida com o senhor, Sr. Dragoumis. Estarei eternamente em dívida com o senhor. Juro, qualquer coisa que o senhor precisar...

Qualquer coisa? — perguntou Nicolas secamente. — Você está fa­lando sério?

Juro pela minha vida.

Espero que não precise chegar a tanto — disse Nicolas. — Mas diga- me: vocês têm uma escavadeira no canteiro de obras?

 

Gaille não tivera muita coisa para fazer naquela tarde. Embora tivessem recrutado Mustafa e Zayn pela próxima quinzena, ela lhes dera o dia de folga e fora para a casa de Aly, a fim de pesquisar um pouco mais, porém encontrara-a trancada, e com um bilhete na porta dizendo que Aly tinha sido chamado ao Cairo. Voltara para o hotel e passara o restante da tarde à toa numa rede, antes de tomar uma chuveirada para despertar e então alugar uma bicicleta meio instável que ela agora pedalava até uma fonte de água fresca. Deixando a bicicleta percorrer um trecho curto com a roda livre, Gaille passou por uma carroça que levava três esposas de Siuá mu- mificadas em seus tarfottets de algodão azul-escuros bordados. Uma delas ergueu o capuz e deu um sorriso tímido e ao mesmo tempo radiante para Gaille. Ela não devia ter mais do que 14 anos.

Os pneus da bicicleta estavam um pouco vazios. Pedalar na rua, pegajosa por causa do sol, era difícil. Ela ficou aliviada ao ver a fonte à sua frente, uma piscina pequena e profunda cercada por uma borda de pedras, com água clara até as pedras cinzentas do fundo e coberta por aglomerações de pálidas algas verdes. Havia ali vários zaggalah, cujo dia de trabalho na colheita de tâmaras terminara, olhando para Gaille sem esconder o interesse. Ela estava querendo nadar um pouco, mas não poderia encarar os olhares, então foi para o pomar beber uma xícara de chá amargo de Siuá com o jovem administrador.

O sol mergulhava atrás do grande lago de sal e das colinas mais além, irradiando uma luz laranja e púrpura no horizonte, e mais um dia se aca­bou. Gaille lembrou-se da jovem menina de Siuá na carroça, casada no desabrochar da puberdade para passar o resto da vida escondida do mundo, com a visão reduzida a uma abertura estreita, e teve uma epifania; uma compreensão vivida da mudança pela qual ela própria passara nas últimas semanas. Soube, naquele momento, que não poderia mais se esconder da vida no conforto físico e intelectual da Sorbonne, organizando dicionários obscuros de línguas mortas. Esse trabalho era tremendamente valioso, mas era afastado da realidade; sombras na parede. Ela não era uma acadêmica. Era uma arqueóloga, filha de seu pai.

Era hora de encontrar sua paz.

 

Rick e Knox encontraram um hotel com acesso à internet, onde baixaram as fotografias da câmara inferior. Mas decifração não era o forte de Knox e ele fez pouco progresso. Enquanto isso, Rick olhava as outras fotos da câmara inferior.

Quando ele chegou à foto do mosaico, franziu a testa e disse:

Já não vimos isso aqui antes?

O que você quer dizer?

Ele sacou a própria câmera digital e procurou nela a fotografia de Wepwawet segurando o estandarte de Alexandre. Knox entendeu logo de cara. O contorno do céu no mosaico e na pintura eram idênticos. No mosaico ele cercava a silhueta dos dois grupos de soldados. Na pintura, era Wepwawet e seu shedshed. Foi a visão do rosto de Alexandre que deu a Knox a inspiração de que ele precisava para decifrar o código. Ao terminar, rabiscou o texto e o traduziu para Rick.

Uma tumba cheia de bens apropriados para Alexandre — murmurou Rick. — Jesus!

Não me admira que os Dragoumis estejam atrás disso — disse Knox. — E eles estão na nossa frente. Precisamos nos mover.

Para onde?

Para Siuá, o lugar de Amon, pai de Alexandre. Siuá.

Siuá! — Rick deu uma risada. — Caramba, eu devia ter adivinha­do. — Mas ele estava tão animado quanto Knox com os progressos que estavam fazendo.

Consultaram um guia turístico que havia no jipe. Siuá não era tão longe assim, não para o vôo de um corvo, mas ficava do outro lado do deserto implacável. Para chegar até lá por estradas adequadas, tinha-se que ir ao norte até Alexandria, e então acompanhar a costa até Mersa Matruh, e depois para o sul outra vez. Três lados de um quadrado, uns 1.400 quilômetros no total. A alternativa seria pegar a antiga rota das caravanas. Tirava quase 1.000 quilômetros da conta, mas seria uma viagem muito mais perigosa.

O que você acha? — perguntou Rick.

Pelo deserto — disse Knox sem hesitar. — Pelo menos Nessim e seus homens não terão como nos encontrar.

Rick sorriu.

É o que eu queria que você dissesse.

A primeira providência era conseguir a permissão. Havia postos militares espalhados pelo deserto cuja única função era chatear os poucos turistas audaciosos que se aventuravam a cruzá-lo. Sair sem autorização adequada era pedir para ter dor de cabeça. Mas agora que o passaporte de Knox tinha sido liberado na barreira militar, seria apenas uma questão de tempo e baksheesh.

O comandante militar local pediu umas duas horas para preparar os papéis. Enquanto isso, Knox e Rick foram comprar algumas coisas: engradados de água e cestos de comida, um segundo estepe, latas de óleo e gasolina. Depois partiram, aproveitando ao máximo o frescor da noite até quando ele durasse.

 

Augustin abriu a porta de seu apartamento com um lençol branco mancha­do enrolado na cintura como um sarongue. Pela cara dele, Elena entendeu na mesma hora. Sentia uma calma plácida ao passar por ele e entrar no quarto. A garota tinha um cabelo louro espetado e um piercing de bronze no lábio inferior. Seus seios eram pequenos com bicos grandes e o pelo do púbis estava depilado.

— Então você é a mulher dele? — perguntou ela, pegando um maço de Marlboro Lights e um isqueiro de plástico.

Elena se virou. Augustin ia dizer alguma coisa, mas viu a expressão dela e pensou duas vezes. Ela desceu apressada as escadas e andou com passos firmes até o carro. Não lamentava não o ter avisado que estava vindo. Entre a ignorância e a certeza, ficava com a certeza sempre. Mas sua raiva crescia a cada passo que dava. Num sinal de trânsito, seu celular começou a tocar. Ela reconheceu o número de Augustin. Baixou o vidro da janela e atirou o telefone para fora, vendo-o ricochetear na rocha. O trânsito estava pesado. Ela segurou com força o volante e gritou, atraindo olhares intrigados das calçadas. Cortou um caminhão c disparou pela estrada do Cairo. Não tinha nenhum destino em mente. Queria apenas fazer o carro correr até que ele se desfizesse.

Isso não era por causa de Augustin. Elena percebia agora que ele não era nada, apenas uma tela em que ela projetara as lembranças de Pavlos. Ele era o seu homem, o único que ela amara de verdade. Durante dez anos, desejara estar com ele. Durante dez anos, sua vida tinha sido uma merda.

Uma carreta se aproximava rapidamente pela outra mão da estrada de duas pistas. As mãos de Elena tremeram ao volante e ela se inclinou sobre ele. Bateu contra a divisória central, quicou para o ar e teve que torcer o volante com força. O motorista da carreta agitou um punho e espremeu a buzina. Agora não. Ainda não. Ela perdera mais do que um marido ao per­der Pavlos. Perdera a honra. Dragoumis estava voando para lá. Estaria longe de casa. Estaria vulnerável. Dizem que é possível comprar qualquer coisa nos becos do Cairo. Para o Cairo era uma viagem de apenas duas horas ao sul dali. Era hora de conferir se o que dizia era verdade.

Elena tinha uma dívida de sangue para acertar.

 

Chovera durante a noite. As estradas estavam escuras e escorregadias. O trânsito esparso levantava borrifos de água que cintilavam como dia­mantes nos faróis de Mohammed. Antes mesmo de ele chegar à periferia de Alexandria, o estresse estava apertando sua coluna como um torniquete. Mohammed guiava debruçado sobre o volante, consultando o velocímetro e o relógio. Não ousava dirigir a caminhonete e sua carga a mais de 70 qui­lômetros por hora, mas também não ousava se atrasar. Nicolas insistira que ele deveria chegar a Siuá até o pôr do sol.

Fazia anos que ele não dirigia um veículo daquele tamanho e peso, mas logo pegou o jeito, principalmente ao entrar na autoestrada para Mersa Matruh, que era larga, reta e fácil. Tirou da carteira a fotografia de Layla e a colocou no painel para se lembrar de por que estava fazendo aquilo. Um carro de polícia apareceu em seu retrovisor lateral. Ele diminuiu a velocida­de ao ficar emparelhado com a caminhonete. Mohammed manteve os olhos na estrada à sua frente e a viatura enfim acelerou e foi embora. Seu coração aquietou-se.

Tocou na foto de Layla. Se tudo corresse bem, seu tratamento intenso de condicionamento com quimioterapia e radioterapia começaria no dia seguinte. Seu estado de saúde era tão grave que não havia tempo a perder. O Dr. Rafai e sua equipe médica iriam injetar, deliberada e sistematicamente, vários venenos em seu organismo. Em 15 dias mais ou menos, e se Alá per­mitisse, eles colheriam medula da bacia de Besheer, removeriam fragmentos de osso e sangue e a injetariam em Layla. Se isso desse certo, Layla começa­ria meses de exames, tratamento, reabilitação. Levaria ainda pelo menos um ano até que pudessem ter certeza. Enquanto isso, ele não tinha opção senão fazer o que Nicolas queria; porque ele deixara bem claro que aquilo que fora dado podia ser tirado com a mesma facilidade.

Mohammed tinha uma escavadeira na obra. A dificuldade havia sido arranjar a caminhonete de carga pesada. Nenhum de seus fornecedores ha­bituais tinha uma disponível, mas ele continuou no telefone, ligando para seus amigos e para os amigos de seus amigos, até que finalmente conseguiu arranjar uma. Depois, foi apenas uma questão de preencher formulários, buscar a caminhonete e levá-la ao canteiro de obras, colocar e fixar a es­cavadeira na caçamba, tudo sozinho, porque Nicolas reforçara que ele não deveria deixar ninguém saber o que estava fazendo.

E durante o tempo todo Mohammed ficara se perguntando por que Nicolas quereria aquele equipamento em Siuá. Nenhuma das respostas o agradava. O sol nascente se anunciou lá adiante sobre a estrada negra. Mo­hammed guiou em sua direção como um terrível presságio.

 

Knox olhava através do para-brisa do jipe para a extensão de areia à sua frente. O deserto apresentava sua maior beleza no começo da manhã ou no fim da tarde, quando o ângulo do sol criava um efeito de claro-escuro nas dunas douradas e o calor era menos intenso. Mas no restante do dia, com o sol alto, a paisagem se tornava insípida e monocromática, exceto nas áreas cobertas por uma camada de cristais de sal de algum mar havia muito de­saparecido, onde a luz era tão ofuscante que era preciso semicerrar os olhos para protegê-los.

A pista por onde ele estava dirigindo era usada desde a Antigüidade, uma velha trilha de caravanas que ia do Nilo até Siuá. Nas duas margens, havia ossos de camelos, latões de gasolina, pneus arrebentados, garrafas d'água vazias. Talvez estivessem ali havia uma semana; talvez décadas. O deserto ocidental não se reciclava como outros lugares. Ficava paralisado como uma cápsula do tempo. Seus lábios estavam bastante rachados pela desidratação; a língua, colada no céu da boca. Tomou outro gole da garrafa d'água que mantinha presa entre as pernas, bochechando um pouco antes de engolir. Porém em segundos sua boca já estava tão seca quanto antes. Deu uma olhada para trás para se certificar de que tinham suprimentos suficientes.

Em uma de suas viagens com Richard, refazendo as trilhas dos explora­dores do Clube Zerzura que haviam mapeado o deserto ocidental e a Gilf Kabir, Knox encontrara junto às cinzas de uma fogueira no vale de uma duna os restos de um homem vestido como beduíno, que parecia ter morri­do sentado de um ataque cardíaco fulminante; perto dele estava seu camelo coxo, que morrera junto, incapaz de se mover.

O que é aquilo? — perguntou Rick, apontando para a frente.

O para-brisa do jipe estava tão sujo que Knox teve que colocar a cabeça para fora da janela para ver direito. Havia uma escuridão baixa no hori­zonte, como se fosse chuva, porém não havia nuvens no céu e a chuva era a menor das preocupações ali no deserto ocidental.

Problema — murmurou Knox.

 

Elena estava com um humor ferino ao chegar à casa de Ibrahim logo depois de vir do Cairo.

Você está atrasada — falou Nicolas irritado, conduzindo-a até a co­zinha, onde Philip Dragoumis estava à mesa discutindo planos com Costis, seu chefe de segurança desde sempre, e várias pessoas de sua equipe, vete­ranos calejados nos vários conflitos balcânicos. — Eu lhe disse para chegar aqui às 9 horas.

A mera visão de Dragoumis fez a bolsa pendurada no ombro de Elena parecer mais pesada. Mas aquele não era o momento.

Tive um compromisso — disse ela. — De qualquer forma, para que a pressa?

Temos que estar em Siuá ao anoitecer.

Siuá! — protestou ela. — Você me fez dirigir até aqui só para me fazer voltar para lá de novo.

É para o seu próprio bem — disse Nicolas, indicando a tela do circui­to fechado de TV. — A senhora foi gravada ao chegar. Amanhã à noite será gravada ao sair. E Ibrahim irá jurar que você esteve aqui o tempo todo até lá.

Então como...

Há um portão nos fundos — disse Nicolas. — Interferimos na câmera apontada para ele a fim de não mostrar nada. — Olhou para o relógio. — Mas precisamos ir. Pode me passar o seu celular, por favor?

Por quê?

Porque se usá-lo enquanto estivermos viajando, você poderá ser rastreada — respondeu com paciência exagerada. — Não faz muito sentido ter um álibi se você o estraga com um telefonema.

Então como iremos nos comunicar?

Temos celulares nos carros — disse Nicolas. — Agora, por favor, passe-me o seu celular.

Não estou com ele — admitiu Elena, um pouco envergonhada. — Joguei-o fora.

Nicolas franziu a testa.

Jogou-o fora? Por quê?

Isso tem importância? Agora, o que está acontecendo? É bom que valha a pena.

Penso que você achará que vale — murmurou Dragoumis. Elena virou-se para ele e franziu o cenho. Dragoumis gesticulou para que ela se sentasse junto a ele à mesa. Abriu os dois livros sobre Siuá para ela ver e os colocou ao lado de uma fotografia do mosaico.

Meu Deus! — murmurou Elena.

Sim. Finalmente o encontramos. Agora só nos resta levá-lo de volta para casa.

Ela o olhou, horrorizada. Mesmo simpatizando profundamente com a causa macedônia, Elena também era uma arqueóloga. Sítios e artefatos eram sagrados para ela.

Levar para casa?

Claro. Para o que mais você acha que temos trabalhado?

Mas... isso é loucura. Você jamais conseguirá fazer isso.

Por que não?

Em primeiro lugar, pode não estar lá.

Se não está, não está. —- Dragoumis deu de ombros. — Mas está. Sinto isso aqui dentro.

Mas uma escavação como essa pode levar meses. Anos.

Temos uma noite — disse Nicolas, sorrindo. — Hoje. Lá encontrare­mos uma escavadeira. Eneas e Vasileios estão trazendo outros equipamentos e uma carreta com um contêiner. Um de nossos navios está indo para Ale­xandria. De manhã ele já terá atracado, dando bastante tempo para carre­garmos o que quer que encontremos. Acredite, nossos capitães são capazes de fazer malabarismos com contêineres selados. Será uma questão de dias até que esteja tudo de volta a Tessalônica, e aí poderemos anunciar.

Anunciar? Não pode! Todos irão saber que o roubamos.

E daí? Não poderão provar. Principalmente depois que você declarar que a FAM fez a descoberta nas montanhas da Macedônia. Como você é uma arqueóloga respeitada, as pessoas aceitarão sua palavra.

Não acredito! — protestou Elena. — Serei motivo de chacota inter­nacional.

Não vejo por quê. -— disse Nicolas. — Se é possível Alexandre ter uma tumba preparada para ele em Siuá, por que não na Macedônia?

Para Siuá temos uma explicação. O Enigma de Alexandre.

Sim — disse Dragoumis. — E o que ele diz, exatamente? Que os es­cudeiros prepararam uma tumba para Alexandre no lugar onde está seu pai; e que eles cruzaram o deserto para levá-lo até lá. Isso se aplica certamente a Siuá. Amon era o pai divino de Alexandre, e Siuá ficava do outro lado do deserto ocidental. Mas também se aplica à Macedônia. Felipe era o pai mortal de Alexandre. E os escudeiros teriam precisado atravessar o deserto do Sinai para chegar lá.

Elena ficou boquiaberta. Não podia contradizer aquela lógica, mas ainda assim sentia-se horrorizada.

Mas as pessoas saberiam — ela disse quase sem voz.

Com certeza esperamos que sim. — Nicolas sorriu.

O que você quer dizer?

Como você imagina que será a reação quando Atenas tentar arrancá-lo de nós, que é o que a pressão internacional os obrigará a fazer? Você pode imaginar o clamor? A Macedônia nunca aceitará isso.

Haverá guerra — disse Elena meio atordoada.

Sim — concordou Nicolas.

Elena virou-se para Dragoumis.

Pensei que você fosse um homem de paz — disse.

E sou — respondeu ele. — Mas toda nação tem o direito de se defen­der. E nós não somos diferentes.

 

O lugar onde o pai de Gaille morrera ficava na periferia oriental da depres­são de Siuá, a umas 3 horas da cidade indo de carro. Eles percorreram quase 100 quilômetros pela trilha para Bahariya e depois viraram para o norte. Era uma paisagem bonita, embora ligeiramente sombria. Rochedos altos sobressaíam no grande mar de areia. Não havia vegetação alguma ali. Uma serpente branca se afastou deles descendo por uma duna íngreme. Fora isso, Gaille não viu qualquer sinal de vida, nem sequer um pássaro.

Foi uma caminhada trôpega de 5 minutos desde onde estacionaram até o pé de um rochedo alto e abrupto. Um marco de pedras assinalava o lu­gar exato. O nome completo dele, Richard Josiah Mitchell, fora gravado toscamente na pedra de cima. Ele sempre odiara ser chamado de Josiah. Seus amigos mais íntimos — sabendo disso — o provocavam sem dó nem piedade. Ela pegou a pedra nas mãos e perguntou aos guias se algum deles tinha feito aquilo. Ambos sacudiram a cabeça e sugeriram que devia ter sido Knox. Ela colocou a pedra de volta ao lugar sem saber o que pensar.

Enquanto ela estava ali, Mustafa explicou como eles e Knox desceram correndo até ali para encontrar o pai dela já frio, com sangue espalhado por todo lado; como eles se ofereceram para ajudar Knox a levar o corpo para o caminhão; como Knox os rejeitara.

Ela olhou para onde tinham estacionado.

Você quer dizer aquele caminhão? — perguntou.

— Sim.

Ela se sentiu um pouco fraca.

O corpo de meu pai esteve no seu caminhão?

Mustafa pareceu um pouco sem graça. Contou a ela como ele e Zayn respeitavam seu pai, como aquilo tinha sido trágico, desnecessário. Gaille olhou para cima enquanto ele falava. O paredão de rocha era alto e íngreme acima deles. Ela sentiu os dedos do pé formigarem. Ficou um pouco tonta, enjoada. Gaille jamais gostara de altura. Deu um passo atrás, tropeçou e teria caído se Zayn não a tivesse segurado pelo braço e ajudado a recuperar o equilíbrio.

Ainda sentia vertigem enquanto ela e Mustafa escalavam o rochedo. Zayn preferiu ficar junto ao caminhão no caso de aparecerem ladrões. Gail­le bufou ligeiramente ao ouvir isso. Ladrões! Não havia ninguém num raio de 80 quilômetros. Mas não podia criticá-lo. O calor crescente e a subida íngreme tornavam a escalada muito mais difícil do que ela imaginara. Não havia um caminho, apenas uma série de plataformas inclinadas de pedras, cobertas com areia demais para permitir apoio firme. Mustafa ia à frente, subindo a passos largos com chinelos gastos, indiferente à sua grossa túnica branca e sua mochila pesada, que era cinco vezes maior que a de Gaille. Cada vez que se distanciava, acocorava-se como um sapo sobre um aflora­mento para fumar um de seus cigarros fedorentos e assistir com simpatia ao esforço dela para alcançá-lo. Gaille estava ficando cada vez mais revoltada. Será que ele não sabia que homens de sua idade não deviam inalar tanto tabaco e continuar em boa forma? Será que ele não percebia que devia estar fisicamente arruinado? Olhou para ele com um ar de reprovação. Ele ace­nou alegremente para ela. Os pés dela doíam apesar de estar usando botas de couro; as coxas e as panturrilhas tremiam com o cansaço e sua boca estava pegajosa com a sede.

Por fim conseguiu chegar até ele, deixou-se cair sentada no chão, pegou sua garrafa d'água, molhou-se um pouco e tomou um gole, e perguntou num lamento:

Ainda falta muito para chegarmos lá?

Dez minutos.

Ela o olhou desconfiada. Ele dizia sempre isso.

 

No início a tempestade de areia era relativamente fraca. Rick recostou-se no banco com um sorriso de alívio.

Não é assim tão ruim — disse.

Se não ficar pior.

Ainda havia luz suficiente para que Knox pudesse ver a pista, apesar da areia batendo contra a porta e a janela. Tempestades de areia geralmente se encaixam em duas categorias. Algumas eram, na prática, uma tempestade de poeira, com dezenas de metros de altura, que chegava a bloquear o sol e causava desorientação sem chegar a ser muito brutal. Outras — como esta — eram verdadeiras tempestades de areia, um vento violento que erguia grãos de areia das dunas e os atirava como chumbinhos de escopeta.

Não demorou muito para Rick arrepender-se de sua complacência, com o vento batendo tão forte neles que a suspensão rangia com o carro balançando para um lado e para o outro, a carroceria e as janelas sendo castigadas por uma artilharia constante, barulhenta e frenética, que pare­cia prestes a atravessar os vidros velhos e frágeis. A visibilidade ficou tão ruim que Knox mal podia enxergar a pista. Tantas vezes acabavam des­viando para cima da areia macia que se acumulava sob as rodas do carro ou sobre pedras pontiagudas que ameaçavam os pneus que Knox teve de engatar a primeira marcha e diminuir a velocidade até que o carro parecia se arrastar.

Não seria melhor pararmos? — perguntou Rick.

Knox balançou a cabeça. Parar, mesmo que por um minuto, faria com que o vento soprasse a areia acumulada debaixo dos pneus, afundando-os nos poços resultantes até que ficassem atolados. A areia então acabaria por se acumular em volta do jipe, bloqueando as portas e deixando-os dependentes de resgate. E não havia muita chance disso por ali.

Os ventos ficaram indescritivelmente furiosos. Eles estavam sendo precariamente chacoalhados para lá e para cá. As rodas do lado esquerdo rebaixaram de repente quando receberam uma rajada de vento particu­larmente forte, e por um instante eles ficaram com a impressão de que iriam tombar.

Meu Deus! — murmurou Rick, agarrando a maçaneta da porta quando o carro voltou a cair sobre as quatro rodas. — Você já passou por uma dessas antes?

Uma vez — disse Knox.

E quanto tempo durou?

Sete dias.

Você está de sacanagem.

Knox deu um pequeno sorriso. Não era freqüente ver Rick perturbado.

Você tem razão — admitiu. — Foi mais para sete dias e meio.

 

Uma baforada de tabaco entrou pela garganta de Gaille e a fez tossir. Mustafá levantou a mão num gesto de desculpa e enterrou a guimba do cigarro na areia pisando-a com o chinelo. Gaille jogou um pouco de água na palma da mão, molhou a testa e se levantou com relutância.

Quanto falta? — perguntou.

Dez minutos — disse, com entusiasmo.

Ela trincou os dentes. De jeito nenhum ela lhe daria a satisfação de im­plorar por mais um tempo de descanso. Seguiu-o exausta por uma vala na lateral do rochedo. Pouco depois, a vala acabou subitamente, e Gaille pôde enxergar dezenas de quilômetros adiante no deserto dourado. Ele pa­recia infinito.

Viu? — disse Mustafá, gesticulando com a mão teatralmente. — Dez minutos.

Deus do céu, como era alto ali. Gaille aproximou-se lentamente da bei­rada. O solo descia abruptamente até as rochas lá embaixo, um penhasco marrom-claro marcado por sombras negras. Havia uma saliência sobre o precipício que terminava no amparo seguro de uma vala. Mas era ridiculamente estreita, mais um beirai do que uma trilha.

Você atravessou aquilo? — perguntou ela.

Mustafá deu de ombros. Chutou os chinelos para fora dos pés e atraves­sou rapidamente, apoiando a mão esquerda na parede do penhasco, com as solas de seus pés se amoldando ao piso precário. Deslocou uma pedra pequena. Ela apoiou a mão na parede do rochedo e inclinou-se para ver a pedrinha cair. Ela bateu numa saliência na rocha e ricocheteou para longe. Ainda caindo. E caindo. Gaille quase não conseguia ver o marco de pedras lá embaixo.

Mustafá chegou ao outro lado.

Viu? — Sorriu. — Não é nada.

Ela balançou a cabeça. De jeito nenhum ela conseguiria fazer aquilo. Seu equilíbrio não era bom; seus tornozelos estavam cansados. Já seria difícil se estivessem ao nível do chão. Mas ali...

Mustafá deu de ombros e atravessou de volta. Gaille sentiu os dedos dos pés tensionarem só de vê-lo. Ele colocou a mão nas costas dela para encorajá-la. Ela estendeu hesitante o pé esquerdo até a primeira pequena sa­liência e trouxe o pé direito para junto dele. Passou um século olhando para o próximo lugar onde deveria colocar o pé. Deu o passo de forma trêmula, e depois outro. A sua volta, o mundo se distorceu e ficou pouco nítido. Ele se afastava dela ao mesmo tempo que se aproximava de seu rosto. Gaille quis voltar, mas não conseguiu se mexer. Fechou os olhos, pressionou as costas contra a parede do rochedo e abriu os braços para se equilibrar. Os dedos das mãos e dos pés pareciam fracos e exangues; os joelhos ameaçavam ceder. Foi então que ela entendeu finalmente o que tinha acontecido com seu pai e qual tinha sido a participação de Knox. Seus olhos se encheram de lágrimas quando ela percebeu o quanto estivera errada a respeito de Knox, a respeito de tudo.

Não posso fazer isso — disse. — Não posso...

Mustafa agarrou sua mão e a puxou para a segurança.

— Viu? — disse sorrindo. — Isso era tudo o que Knox devia ter feito.

Ela balançou a cabeça e deixou-se desabar numa bacia de pedras da qual não tinha chance de cair, sentindo ânsia de vômito. Deitou-se de costas, co­brindo os olhos com as mãos e enxugando as lágrimas do rosto. O seguro de vida de seu pai continha um bônus polpudo em caso de morte acidental, o suficiente para que Gaille comprasse um apartamento. Um apartamento! Ela se sentia aos cacos. Levantou-se com dificuldade, com as pernas bambas, e seguiu Mustafá pela longa e silenciosa descida.

 

Knox e Rick atravessaram a tempestade de areia por um tempo que pareceu durar horas. Os rugidos, assobios e uivos afligiam ambos, como harpias fu­riosas atacando a carroceria do jipe, tentando alcançá-los. O motor também estava cada vez mais esgotado e o radiador soltava engasgos perturbadores. Mas finalmente a tempestade começou a amainar; e então, no que pareceu pouco mais que um momento, o vento acabou completamente e eles saíram da tempestade, com nada além do deserto sem fim ao seu redor.

Fazia algum tempo que tinham saído da pista, e não havia mais sinal dela ou qualquer outro ponto de referência que lhes servisse de orientação Não tinham GPS nem um mapa decente pelo qual se guiar.

Você sabe onde estamos? — perguntou Rick.

Não.

E então que merda a gente faz agora?

Não se preocupe — respondeu Knox. Subiu no capô do jipe e olhou para o horizonte por meio do binóculo. As pessoas pensavam que o deserto era uma superfície plana homogênea, desprovida de personalidade e de ca­racterísticas reconhecíveis. Mas não era nada disso, não depois que se pas­sasse por ele algumas vezes. Cada região tinha sua personalidade e aparência próprias. Algumas eram como as planícies salinas nos Estados Unidos, onde são quebrados os recordes de velocidade terrestre. Outras eram como mares revoltos transformados em dunas; e embora as dunas se deslocassem, as for­mas subjacentes em si eram imortais e permanentes. E havia também nume­rosos rochedos e plataformas, muitos dos quais Knox já escalara.

O ar ainda estava enevoado, mas longe ao norte ele viu uma escarpa fami­liar. Dentro de uma meia hora tudo estaria certo de novo.

Devíamos comer alguma coisa — disse a Rick. — Deixar o motor descansar um pouco.

Sentaram-se à sombra do jipe e comeram arroz frio e legumes, bebendo água para ajudar a engolir, ao som dos rangidos do motor que ia aos poucos resfriando. Ao terminarem, encheram o radiador e partiram novamente, alcançando a pista onde Knox sabia que a encontrariam, e continuaram cru­zando o deserto aparentemente infinito. Mas não era infinito. Na verdade, pouco depois que escureceu, chegaram a uma pista pavimentada, e então o progresso foi rápido. Passada mais uma hora estavam chegando à praça principal de Siuá.

Eu mataria por uma bebida gelada — resmungou Rick.

Não se eu chegar primeiro — respondeu Knox.

 

Mohammed reabasteceu a 50 quilômetros ao norte de Siuá, e então dirigiu durante meia hora com o celular sobre o banco do carona, esperando ele pegar algum sinal. Quando finalmente isso aconteceu, encostou à beira da estrada e ligou para Nur. Era uma bênção simplesmente ouvir a voz dela. Suas premonições a respeito do próprio destino fatídico haviam ficado mais fortes a cada minuto. Mas então Nur falou o nome de Layla e Mohammed disse numa torrente de palavras o quanto amava as duas, e que se alguma coisa desse errado e se ela não o visse novamente...

Não fale assim! —- A agonia na voz de Nur o deixou chocado.

Ele respirou fundo para se acalmar, assegurou-a de que estava bem e que estaria dc volta na noite seguinte. Encerrou a ligação, desligou o celular antes que ela pudesse ligar de volta e viu as horas. Tinha feito um tempo excelente. Desceu da cabine, andou um pouco ao longo da beira da estrada e se agachou. Apanhou um punhado de areia e deixou-a escorrer, observan­do os pequenos montes e vales que restaram sob seus dedos. A areia estava tão quente pelo dia de sol escaldante que sua pele ficou vermelha. Apanhou outro punhado, como se acreditasse que, se punisse a si mesmo agora, seria capaz de evitar sofrimento maior no futuro.

Um beduíno num caminhão branco empoeirado buzinou e debruçou-se sobre a janela perguntando alegremente se ele precisava de ajuda. Moham­med agradeceu, mas gesticulou para que ele seguisse. Estava tão cansado que o tempo parecia passar com a metade da velocidade normal. O sol mergulhou no horizonte e finalmente desapareceu. Logo já estava escuro. Ele continuava olhando pela estrada em direção ao litoral. Ela era tão reta e plana que teria feito um romano chorar de alegria.

Quando viu os dois veículos 4x4 e uma carreta carregando um contêiner se aproximando, ele se levantou, bateu a areia de suas calças e subiu de volta para a cabine. Os veículos diminuíram a velocidade quando chega­ram ao seu lado. Uma luz acendeu no interior do 4x4 da frente. Nicolas debruçou-se pela janela e fez um gesto para que Mohammed os seguisse. Ele mostrou o polegar para cima e acelerou. Seguiu o comboio por mais alguns quilômetros pela estrada que ia para Siuá e então para cima da areia deserto adentro.

 

III

 

Gaille estava caminhando quando viu Knox e outro homem bebendo gar­rafas de água gelada sob o toldo de um café. Ela hesitou, e então se aproxi­mou. Ele se virou na direção dela e ficou surpreso ao vê-la.

Gaille — disse meio sem jeito.

— Daniel — respondeu ela.

Este é Rick — disse Knox, sinalizando com a cabeça em direção ao seu amigo.

Muito prazer.

Igualmente.

Ela se voltou para Knox.

Podemos conversar? A sós?

Claro. — Apontou para a rua. — Quer dar uma volta? — Quando ela concordou, Knox virou-se para Rick. — Você não se incomoda, cer­to, companheiro?

Não tenha pressa. Vou descolar alguma coisa para comermos.

Knox e Gaille saíram andando lado a lado.

Então? — perguntou ele.

Estive lá hoje.

Lá onde?

Onde meu pai morreu. Mustafá e Zayn me levaram.

Ah.

Ela se virou para encará-lo.

Quero saber o que aconteceu, Daniel. Quero a verdade.

Tenho certeza de que lhe contaram a verdade.

Tenho certeza de que eles me contaram o que viram — replicou ela, continuando a andar. — Mas isso não é exatamente a mesma coisa, não é?

Ele a olhou de soslaio.

O que você quer dizer com isso?

Você acompanhou meu pai quando ninguém mais o fez. Você não teria agido assim a menos que se importasse com ele. Então por que deixou que ele caísse?

Não deixei.

Sim, deixou. E deve ter tido um motivo. E eu acho que sei qual era. Ele já estava morrendo, não é?

Não sei do que você está falando.

O que era? Aids?

Foi um acidente — insistiu Knox.

Ela fez uma expressão de incredulidade.

Mustafá e Zayn me disseram que você os rejeitou quando se oferece­ram para ajudá-lo a carregar o corpo. Todo aquele sangue. E por isso que estou pensando em Aids.

Foi um acidente.

E depois é claro que você mandou cremá-lo tão depressa.

Já lhe disse que foi um acidente.

Você teria que ter dito isto, não é? Se não, seria considerado cúmplice de fraude. — Knox abriu a boca para falar, mas não disse nada. Na escuri­dão da travessa, era difícil interpretar sua expressão. Mas ela insistiu assim mesmo. — Ele fez você prometer que me escreveria, não foi? Dizer-me que ele pensava em mim? Por favor. Eu só preciso saber.

Knox ficou calado por alguns instantes.

Sim.

Ela balançou a cabeça várias vezes. Embora por dentro soubesse a verda­de, foi preciso um esforço para assimilá-la.

Diga-me — falou. — Diga-me tudo.

Não era apenas Aids. — Knox suspirou. — Todo o seu corpo estava entrando em colapso. Ele tinha câncer. Seus órgãos estavam definhando. Era apenas uma questão de tempo. Tempo e dor. Ele nunca foi o tipo de homem que gostaria de prolongar a vida num hospital ou ser um fardo. Você devia saber disso. Ele queria partir à sua própria maneira, num lugar que ele amava. E queria fazer algo por você, algo que o redimisse por ter sido um pai ruim.

Um pai ruim? — perguntou ela com tristeza. — Foi isso o que ele disse?

Sim.

E você simplesmente deixou que ele... que ele fosse adiante?

Ele não me deu escolha. No mínimo, minha escolha era estar lá ou não. Ele era meu amigo. Escolhi estar lá. — E acrescentou, obstinado: — Sinto muito se você acha que agi errado.

Não, não acho — ela respondeu. — Eu apenas queria ter estado lá também.

Você teve essa chance.

Sim — concordou ela. — Não precisa me dizer que me comportei mal. Sei disso. E sinto muito.

Terminaram a volta. Rick os viu e acenou. Os dois se juntaram a ele.

Frango crocante e batatas fritas — disse. — Então você é a famosa Gaille, não?

Gaille, sim — concordou. — Não sei quanto a ser famosa.

Para mim é. Knox fala de você sem parar.

Cale a boca, Rick — falou Knox.

Rick riu.

Então, como vai indo a sua busca?

Que busca?

Ora, querida; os bens apropriados para o Filho de Amon.

Ela olhou para um e para o outro.

Como vocês sabem disso?

Knox deu de ombros e sorriu:

Você não é a única que vem se comportando mal.

O que você quer dizer?

Lembra quando baixaram você pelo buraco sob o plinto? — Ele fez uma careta e imitou a voz dela: — Há alguém ali!

Os olhos dela se arregalaram.

Era você! — Deu uma gargalhada. — Daniel, aquilo foi terrível!

Eu sei. — Ele sorriu. — Então, teve sorte?

Não posso falar sobre isso. Dei minha palavra.

Para quem? — zombou Knox. — Para Elena? Nicolas Dragoumis?

Não. Yusuf Abbas.

Knox deu uma gargalhada.

Aquele safado? O homem é corrupto, Gaille.

Ele é o chefe do CSA.

Ele destruiu seu pai.

Eu não sei. — Gaille suspirou, levando as mãos à cabeça. — Não sei mais em quem confiar.

Pode confiar em mim — disse Knox. — Seu pai confiou. Ou se preferir falar com alguma autoridade, tente o Dr. Sayed. Você pode confiar sua vida a ele.

Tem certeza?

Como assim?

Ela hesitou e então falou:

Ele viu alguma coisa nas minhas fotografias da câmara inferior. Juro que viu. Depois disso sumiram alguns livros de suas prateleiras.

Knox franziu o cenho.

E você acha que ele os tirou de lá para impedi-la de fazer algu­ma associação?

Talvez.

Acredite, Gaille, se tiver sido isso, não foi para impedir você. Foi para impedir Yusuf. Vamos lá vê-lo.

Ela balançou a cabeça.

Ele não está aqui. Foi chamado ao Cairo. E sua casa está trancada.

Então que bom que temos Rick. — Knox sorriu. — Ele tem um ta­lento que podemos aproveitar.

 

Os nervos de Ibrahim, que nunca foram lá muito fortes, o abandonaram completamente desde que Nicolas tinha encostado aquela lâmina afiada contra sua garganta. Era mais fácil ter coragem em devaneios. Deixara-se ser forçado a alegar doença para faltar ao trabalho, e então redigir e assinar várias autorizações em papel timbrado do CSA para uma esca­vação no deserto ocidental, embora o local ficasse totalmente fora de sua jurisdição. Desde então, fora obrigado a ficar ao alcance do telefo­ne caso Nicolas fosse questionado e alguém telefonasse para comprovar sua assinatura.

Ele não havia sido deixado sozinho. Manolis e Sofronio, piloto e co-piloto de Nicolas, ficaram com ele. Trancaram todas as portas e janelas externas, guardaram as chaves e tomaram seu celular. E agora seguiam-no aonde quer que fosse, ao quarto ou até mesmo ao banheiro. E Sofronio falava árabe o suficiente para ouvir as conversas sempre que o telefone to­cava, pronto com o dedo no gancho para desligá-lo se Ibrahim tentasse qualquer coisa.

Nicolas e seus homens estavam claramente pretendendo saquear um te­souro histórico de valor incalculável em Siuá. Ibrahim tinha dedicado toda a vida à herança do Egito e agora estava ajudando esses gângsteres a roubá-la. Ele se virou abruptamente e andou para o escritório. Manolis o seguiu.

— Só vou buscar meu trabalho — disse Ibrahim, suspirando. Manolis o seguiu mesmo assim. Ibrahim tirou alguns papéis da gaveta de cima de sua escrivaninha e olhou de relance a fechadura da porta quando ia saindo da sala. A chave estava do lado de dentro, como ele havia imaginado. Saiu com Manolis, mas então reclamou consigo mesmo: — Minha caneta!

Manolis esperou enquanto Ibrahim voltava para o escritório e pegava uma caneta-tinteiro vermelha na escrivaninha, levantando-a para que ele visse. O coração de Ibrahim começou a bater descompassado e rápido de­mais, e sua boca ficou seca. Sua vida sedentária o deixara terrivelmente fora de forma. Colocou a mão na porta do escritório e disse a si mesmo que aquela era a hora. Sua mente ordenou que sua mão batesse a porta e virasse a chave, dando-lhe algum tempo para que ele pudesse se redimir... mas sua mão não obedeceu. Perdeu a coragem e saiu. Seus batimentos desaceleraram. A adrenalina baixou. Sentiu uma vontade urgente de urinar. Abaixou a cabeça, envergonhado de si mesmo. Um covarde, um fracassado, um nada. A vida de um homem era um presente de Alá: como ele desperdiçara a sua!

 

Bir al-Hammam. Dois picos gêmeos ligados por uma cadeia rochosa baixa. Encostas íngremes de areia que desciam de cada lado como uma pirâmide. Um lago de água doce no lado sul de sua base, cercado por juncos e mato. A lua, quase cheia, cintilava nas marolas criadas pelos insetos que pousavam na água e os peixes que os caçavam. Morcegos frugívoros gritavam ao sair de suas cavernas nas rochas erodidas de calcário e vinham se empanturrar nos pomares das redondezas.

Nicolas colocou os veículos parados num semicírculo em torno da base da colina a fim de esconder sua atividade. Não que fosse provável que al­guém passasse por ali. Afinal, estavam a 10 quilômetros ao norte de Siuá e a 3 da estrada ou do povoado mais próximo. Ele supervisionou a descarga do equipamento, distribuindo pás, picaretas, lanternas e armas. Ordenou a Leonidas que pegasse um dos AK47 e subisse no contêiner, para poder ficar de olho melhor.

O luar forneceu luz suficiente para Mohammed trabalhar. Abocanhava grandes porções do deserto com a escavadeira e as colocava para trás de si, gradualmente inclinando-se para a frente de modo que ele teve de sair de ré e cavar uma vala de acesso. A colina era como um iceberg, com a maior parte de sua massa escondida debaixo da areia. Depois de três horas, a esca­vadeira tinha sido completamente engolida pelo buraco que ele criara. Mas ainda não encontrara nada.

Nicolas e seus homens haviam observado ansiosamente no início, mas o interesse foi diminuindo à medida que as horas passaram sem sucesso. De vez em quando Nicolas pedia a Mohammed para fazer uma pausa e ia inspecionar a rocha que acabara de ser exposta. Durante esses intervalos Mohammed ficava olhando os arredores. As dunas eram tão frias e brancas que pareciam montes de neve. Leonidas desceu de seu posto de sentinela em cima do contêiner, reclamando de como era ingrato ficar lá. Ninguém subiu para substituí-lo. Os homens encolheram os ombros e acenderam cigarros.

Mohammed encheu novamente a escavadeira e descarregou a terra para trás de si. A areia descia com força pela encosta; o som parecia de chuva. Seus pensamentos zuniam e se embotavam com o cansaço. Já estava tão fundo no buraco que não pôde deixar de imaginar que estava cavando seu caminho para o inferno. Nicolas fez um sinal para ele dar mais uma parada e foi à frente com o pai para examinar o arenito. Sacudiu a cabeça frustra­do e chutou a rocha com raiva. Mohammed tentou não mostrar satisfação. Sua esperança era obedecer as ordens e não achar nada. Nicolas saiu do buraco com esforço e se aproximou dele. Mohammed baixou o vidro.

Chega — disse Nicolas. — Não há nada. Precisamos ir embora.

Mohammed gesticulou com a cabeça para a enorme vala que tinha feito.

Cobrimos aquilo?

Nicolas balançou a cabeça.

O primeiro vento vai resolver isso.

Como quiser. — Mohammed olhou por cima do ombro para mano­brar e sair da vala. Estava tão cansado que se esqueceu de trocar de marcha e a escavadeira deu um pulo para a frente, batendo na rocha da colina com a pá. Um pedaço de areia solidificada desprendeu-se e caiu. Ele balançou a cabeça irritado enquanto engrenava a ré e saía.

Houve um grito de animação, depois um coro. Os gregos se aglome­raram em volta da rocha, iluminando-a com suas lanternas. Mohammed ficou de pé na cabine. Só conseguiu ver um pedaço liso de mármore róseo do tamanho de uma das mãos aberta. Seu coração apertou. O que quer que fosse que aqueles homens estavam procurando, ele havia acabado de encontrá-lo.

 

A casa de Aly estava silenciosa e às escuras. As janelas estavam com as persianas fechadas, e a porta da frente, trancada. Rick pegou um pedaço de arame de aço e num instante eles estavam do lado de dentro.

— Não estou gostando disso — disse Gaille, nervosa.

Confie em mim. Aly é meu amigo. Ele entenderá. Vamos procurar esses livros.

Foi Rick quem os encontrou, debaixo do colchão de Aly. Eram cinco vo­lumes ao todo. Cada um pegou um livro e o folheou. Gaille viu o desenho a traço de Bir al-Hammam.

Vejam! — disse ela, colocando o livro sobre a cama. — A silhueta das colinas. É a mesma do mosaico.

E da pintura de Wepwawet — falou Knox.

Gaille o olhou, surpresa.

Você esteve lá também?

Estivemos em toda parte, querida — falou Rick sorrindo.

O detentor do segredo — murmurou Knox. — Então agora sabemos o que era: a localização da tumba que os escudeiros construíram para Ale­xandre, com todos os bens sepulcrais ainda lá dentro.

A localização exata — acrescentou Rick, apontando para os dois aflo­ramentos rochosos representados com precisão acima dos joelhos separados de Aquilo e dos pés afastados de Wepwawet, e entre os quais estavam a espada e o estandarte.

Gaille inspirou o ar, ansiosa. Knox olhou-a, intrigado.

— O quê?

— Eu pedi a Ibrahim que me mandasse exemplares desses livros. Então Elena foi chamada para Alexandria. Aly para o Cairo. Você não acha que alguém esteja... tentando alguma coisa, acha?

— Não sei — disse Knox num tom grave. — Mas acho que devíamos ir confirmar.

 

Era madrugada, então Knox não forçou o jipe até saírem da cidade, pisando fundo ao longo da pista irregular do deserto, a velha suspensão gemendo e guinchando à medida que eles quicavam e balançavam. O vento gelado entrava pelas frestas das portas e das aberturas de ventilação. Rick estava no banco traseiro, com o corpo inclinado para a frente entre os assentos dian­teiros, e Gaille estava com as mãos presas sob as axilas.

Devemos estar loucos! — disse ela tremendo. — Por que não volta­mos de manhã?

Não podemos arriscar.

Arriscar o quê? — resmungou ela. — Mesmo que saibam sobre a tumba, não podem simplesmente pilhá-la.

Acredite em mim: os Dragoumis farão exatamente isso, se o prêmio for grande o bastante.

Mas é grande o bastante? Quero dizer, com certeza eles serão desmas­carados. Arriscariam condenação internacional e uma vida na prisão em troca de alguns bens apropriados para Alexandre?

Talvez não seja isso o que eles querem. Talvez haja algo mais.

Como o quê? — perguntou Rick.

Só há uma coisa pela qual eles arriscariam tudo.

Vamos, companheiro. Desembuche.

Dragoumis quer uma Macedônia independente. Isso só irá acontecer com uma guerra aberta. Ele sabe disso. Mas nações não declaram guerra à toa. Precisam de uma causa. Algo maior que nacionalidades, em que todos possam acreditar. Os judeus lutaram pela Arca da Aliança. Os cristãos luta­ram pela Cruz Verdadeira. Se vocês fossem macedônios, pelo que iriam lutar?

Pelo corpo de Alexandre — disse Gaille desanimada.

O senhor do mundo, imortal e invencível — concordou Knox.

Mas isso não é possível — protestou Rick. — O corpo de Alexandre esteve exposto em Alexandria centenas de anos depois que morreram todos os escudeiros.

Esteve mesmo?

Claro — disse Gaille. — Júlio César o visitou. Otaviano. Caracala.

Knox abanou a mão, impaciente.

Obrigado pela aula de história, pessoal — disse —, mas considerem outra perspectiva. Imaginem que são Ptolomeu, acabando de se acomodar no Egito. Chega a notícia de que uns malditos escudeiros levaram o corpo de Alexandre. Vocês precisam desse corpo. É a única coisa que confere legi­timidade ao seu reinado. Vocês vão atrás deles. Mas quando os alcançam, não há sinal de Alexandre, e os escudeiros todos se mataram. Que diabos vocês fazem agora?

Um dublê? — Rick fez uma cara de espanto. — Está sugerindo que ele usou um dublê?

É uma possibilidade, não é? Quero dizer, Ptolomeu já havia usado um engodo para enganar Pérdicas. Com certeza a idéia pelo menos ocorreu a ele.

Mas Alexandre tinha o rosto mais famoso da Antigüidade — protes­tou Gaille. — Ptolomeu não poderia simplesmente embalsamar um substi­tuto e torcer para que ninguém percebesse.

Por que não? Lembre-se de que não havia TV. Nem fotografias. Havia memória e havia arte, ambas idealizadas. Vejam, Ptolomeu manteve Alexandre em Mênfis durante trinta ou quarenta anos antes de levá-lo para Alexandria. Isso confundiu os arqueólogos durante décadas. Vocês realmente acreditam que tenha demorado aquele tempo todo para construir uma tumba adequa­da? Ou que Ptolomeu tenha postergado a transferência deliberadamente para que pudesse realizar um grande evento oficial para a sucessão de seu filho? Bobagem. Talvez essa seja a resposta. Talvez Ptolomeu não pudesse arriscar o translado do corpo para uma cidade grega porque não era de Alexandre e ele tinha que esperar que todos que tivessem conhecido Alexandre estivessem mortos ou gagás o suficiente para não se lembrarem da cara dele.

— Você está delirando.

— Estou? Você própria me mostrou a pintura.

— Que pintura?

Aquela da antecâmara da tumba macedônia, de Áquilo com Apeles de Cós. Diga-me então: por que o pintor de retratos particular de Alexandre iria perder tempo com um humilde escudeiro? Poderia ser porque Áquilo estava servindo de modelo de Alexandre? Quero dizer, jamais encontramos o corpo dele em Alexandria, não é? E você viu o mosaico. Áquilo era baixo e magro com cabelos avermelhados. Agora descreva Alexandre.

Não — falou Gaille quase sem voz. — Não pode ser. — Mas um calafrio percorreu seu corpo.

Knox percebeu pela expressão dela.

— O quê? — perguntou. — Fale.

E só que — ela disse — sempre pareceu estranho que Quelônimo tenha sepultado os escudeiros no Quarteirão Real. Quero dizer, ali era o centro absoluto do poder de Ptolomeu. Levá-los para lá teria sido suicídio.

A menos que...

Quelônimo escreveu no Enigma de Alexandre que prometera reunir os 33 na morte como haviam sido na vida. Se você tem razão, digo, se real­mente era Áquilo quem estava sepultado como Alexandre em Alexandria, então a necrópole deveria estar tão próxima quanto fosse possível para Que­lônimo levar os outros escudeiros. Esse foi o esforço que fez para reuni-los.

Knox enfiou o pé na tábua. O jipe foi voando em meio à areia.

 

Elena observava extasiada enquanto Mohammed limpava a areia da laje de mármore, ajustava os dentes da pá da escavadeira entre o topo do mármore e o lintel de calcário e então a tombava para a frente. Retraiu-se ao vê-la cair, profissionalmente estarrecida com aquele vandalismo arrogante, mas a areia era fofa e ela não quebrou. Ainda estava determinada como nunca a conquistar sua vingança; mas ela também queria ver o que havia lá dentro. Em todos os sentidos possíveis, aquele era o clímax de sua carreira.

Todos pegaram suas lanternas e dirigiram a luz para a abertura escura. Um lance de degraus quase completamente submerso por um monte de areia conduzia a um corredor grosseiro com largura e altura suficientes apenas para dois homens ficarem de pé lado a lado. Elena seguiu Ni­colas e Philip Dragoumis por cinqüenta passos até o corredor se abrir numa câmara profunda. Porém, ao dirigirem ansiosamente os focos de suas lanternas pela câmara, verificaram logo que estava vazia, contendo apenas poeira e detritos: um recipiente quebrado para beber; uma ânfora de cerâmica; o cabo de uma adaga; ossos e penas de um pássaro supos­tamente preso ali séculos antes. Apenas as paredes recompensavam de alguma forma o esforço que eles fizeram para encontrar aquele lugar, com o arenito bruto belamente esculpido em baixo-relevo com as etapas da Via-Sacra, representando cenas da vida de Alexandre e guarnecidas com artefatos legítimos.

Na primeira, à esquerda deles, Alexandre era ainda um bebê em seu berço, estrangulando serpentes como Hércules — e com certeza aquelas um dia foram serpentes de verdade, mas o tempo as desintegrara, deixando apenas finas peles translúcidas apertadas entre suas mãos. Na segunda, ele levava seu famoso cavalo Bucéfalo para longe da própria sombra para domá-lo com mais facilidade. A terceira o mostrava com outros jovens aos pés de um ancião, talvez o próprio Aristóteles, que lia o que devia ter sido um rolo de pergaminho, mas que muito tempo antes se reduzira a fragmentos caídos no chão. A quarta mostrava Alexandre a cavalo incentivando seus homens numa batalha. A quinta era ele enfiando uma lança de madeira no peito de um soldado persa que estava armado com um machado de bronze. Então veio o célebre nó górdio. A lenda havia prometido soberania sobre toda a Ásia para a pessoa que conseguisse desatá-lo, mesmo que isso fosse impossí­vel; uma charada que Alexandre decifrara com sua costumeira objetividade simplesmente cortando a corda, representada aqui por um tronco esculpido de madeira com uma das extremidades envolta na junta metálica de uma biga e a outra presa num sulco feito na rocha. A cena seguinte o apresentava consultando o próprio oráculo de Amon, com o sumo sacerdote assegurando-o de sua divindade. E assim seguia, com suas vitórias, seus contratempos e seu leito de morte, tudo lindamente registrado. A última cena mostrava seu espírito ascendendo uma montanha para se reunir aos outros deuses, sendo recebido como um deles.

As luzes das lanternas passeavam entre essas esculturas impressionantes, criando sombras que se esticavam, dançavam, se encolhiam e se agitavam com vida depois de 2.300 anos de completa imobilidade. Ninguém ousou falar, pois, embora aquela fosse uma descoberta notável, não era o que eles esperavam, não era o que precisavam. Ou os escudeiros não conseguiram chegar tão longe com o corpo de Alexandre, ou alguém tinha estado ali antes deles.

Eu não acredito nisso — murmurou Nicolas, fechando o punho. — Eu não acredito nisso. Merda! Todo o nosso trabalho! Todo o nosso traba­lho! — Deu um grito inarticulado de frustração e chutou a parede de pedra.

Elena ignorou o ataque de raiva dele e se agachou perto do pé da monta­nha para onde o espírito de Alexandre estava ascendendo.

Há uma inscrição — disse para Dragoumis.

O que ela diz?

Elena limpou a poeira e apontou a lanterna num ângulo que acentuava as sombras para poder ver com mais facilidade.

"Suba aos céus secretos, Alexandre" — ela traduziu em voz alta —, "enquanto o seu povo aqui lamenta."

Há outra aqui — falou Costis, apontando a lanterna para a base do relevo que mostrava o bebê Alexandre estrangulando as cobras.

Foi o próprio Dragoumis quem a traduziu:

"Você não conhece a sua força, Alexandre. Você não sabe o quê ou quem é." — Ele olhou intrigado para Elena. — Isso significa alguma coisa para você?

É da Ilíada, não é?

Dragoumis concordou.

Ambas são. Mas o que fazem aqui?

Elena agachou-se diante de uma terceira cena, que mostrava uma luta feroz.

"Escudo colidia contra escudo e lança contra lança. O clamor era poderoso, e a terra ficava vermelha com sangue."

Dragoumis estava diante da imagem do nó górdio, combinando o foco de sua lanterna com a de Costis para ter uma visão melhor.

"O homem que desatar o nó que prende esta junta será o Senhor de toda a Ásia."

"Não fale em fugir, nem em medo" — disse Elena —, "pois não co­nheço nenhum dos dois."

Acompanharam as paredes decifrando as inscrições. Quando acabaram, Elena olhou para Dragoumis.

O que você acha?

Acho que precisamos de mais...

Um grande baque vindo de fora reverberou pelo corredor naquele mo­mento. O chão tremeu; poeira caiu das paredes. Nicolas olhou à sua volta e fechou os olhos com raiva ao perceber o que tinha acontecido.

Mohammed — murmurou.

 

A oportunidade pegara Mohammed de surpresa. Os gregos — cada um deles — tinham entrado na colina. Todos foram vencidos pela curiosidade. Ele aguardara um ou dois minutos, um pouco na expectativa de que algum deles percebesse o erro e saísse. Como ninguém veio, sua coragem come­çou a crescer. Se ele conseguisse prendê-los lá dentro, poderia ir até Siuá e trazer a polícia. Todos iriam para a cadeia por anos e não teriam como prejudicar Layla ou se vingar dele.

A primeira idéia que teve foi bloquear a entrada com um dos veículos, mas a forma de nenhum deles era apropriada. Então decidiu voltar a selar a entrada com a laje de mármore e cobri-la com areia. Passou os dentes da pá da escavadeira sob a laje e tentou levantá-la. Mas ela era tão pesada que as rodas traseiras saíram do chão e o mecanismo hidráulico guinchou e enguiçou, a laje deslizou de lado e caiu com força na areia. Mohammed praguejou. Eles com certeza teriam ouvido o barulho. Gritos de alarme vie­ram do interior da colina. Agora era tarde demais para desistir. Deu marcha a ré um pouco e acelerou para a frente para poder ganhar impulso e pegar a laje. Um grego chegou à entrada no momento exato em que a laje voltou perfeitamente ao seu lugar. Mohammed sentia-se exultante ao jogar mais e mais areia em cima dela. O mármore róseo desapareceu rapidamente, aprisionando todos lá dentro. Ele não conseguia acreditar em como aquilo havia sido simples. Nur estava certa; ela sempre dissera que se enfrentasse seus demônios, ele poderia conquistar qualquer...

Um barulho abafado de tiros. Um segundo disparo. Mohammed olhou aturdido para um cone formado na areia à sua frente, alargando-se e se aprofundando. Surgiu um pequeno buraco escuro. Um homem saiu dele. Mohammed manejou a pá da escavadeira em sua direção, mas o sujeito esquivou-se com facilidade e simplesmente apontou seu AK47 para o rosto dele. Mohammed retirou as mãos das alavancas e as levantou torpemente. Um segundo homem apareceu, e um terceiro. Ele pensou em Layla e no que aconteceria a ela agora, e ficou desesperado. Mais gregos subiram, sur­gindo como ratos. Costis abriu a porta da cabine, desligou o motor e tirou as chaves.

Nicolas apareceu, sacudindo a areia das mangas de sua camisa e de suas calças. Disse:

— Se algum dos meus homens soubesse operar essa máquina você esta­ria morto agora. Está entendendo?

Sim.

Você tem uma filha — disse. — A vida dela depende de nossa boa vontade. Está entendendo?

Sim.

Você vai colaborar?

Sim.

Ele fez um gesto com a cabeça para Costis, que havia voltado com um par de algemas. Prendeu uma das algemas no volante e a outra no pulso es­querdo de Mohammed, permitindo-lhe liberdade de movimentos suficiente para operar a máquina, mas não para fugir. Colocou as chaves num molho preso a seu cinto. E então franziu o cenho e olhou por cima do ombro na direção das dunas.

Isso foi um momento antes de Mohammed ouvir o que chamou sua atenção: o ruído fraco de um motor vindo de Siuá. Costis olhou para Ni­colas, que levantou a mão pedindo silêncio. O barulho desapareceu mo­mentaneamente, e então voltou ainda mais forte. Nicolas fez uma careta de preocupação. Era madrugada. Ninguém devia estar dirigindo pelo deserto, a menos que tivesse um motivo bem específico.

Quer que verifiquemos? — perguntou Costis.

Quero — disse Nicolas.

Costis sinalizou para que Leonidas, Bastiaan, Vasileios e Dimitris o acompanhassem. Todos pegaram armas e correram para os 4x4.

 

Havia sulcos e marcas antigas de rodas na areia. Knox passou por elas da mesma maneira que esquiadores aquáticos usam as marolas das lanchas que os rebocavam, fazendo os três sacudirem e quicarem em seus assentos. Para Gaille era uma questão de orgulho não reclamar, ainda que o cinto de segurança de seu assento tivesse quebrado anos antes e Knox precisasse esticar seu braço de vez em quando para mantê-la em seu lugar. A velha suspensão do jipe guinchava, rangia e batia. Knox reduziu a marcha, virou e subiu uma duna, forçando o motor nos últimos metros. Ao cruzarem a crista, Gaille viu à frente a silhueta de Bir al-Hammam, agora familiar. E então começaram a descida, vindo num ângulo tão oblíquo que as duas rodas do lado direito saíram do chão por um momento, ficando suspensas no ar. Knox prendeu Gaille no assento até voltarem a cair sobre as quatro rodas. Ela deu um sorriso para ele. Mas então ele olhou pelo retrovisor e franziu o cenho, visivelmente preocupado. Ela se virou e viu um 4x4 se aproximando rapidamente, com os faróis apagados, claramente não que­rendo ser visto.

Que diabos? — murmurou Rick.

São aqueles gregos desgraçados — disse Knox. Desceu correndo uma duna, pegando velocidade para subir outra vertente. Passaram voando sobre a crista e pularam para o outro lado, disparando pela areia compacta do vale.

— Tem dois — falou Rick, quando outro 4x4 surgiu no topo da duna à esquerda deles e desceu à toda, forçando Knox a derrapar para evitá-lo e jogando tanta areia para cima deles com as rodas que quase o fizeram parar. Knox trocou marchas, virando-os para a direção de onde tinham vindo, mas o velho jipe não era páreo para aqueles 4x4. Eles se aproximavam inexoravelmente, emparelhando-se nos dois lados e gesticulando para que Knox parasse. Ele fez um cavalo de pau e cortou para a esquerda, forçando o motorista a pisar no freio, deixando a areia vermelha por um instante, fazendo vibrar a traseira do 4x4. O jipe rugiu subindo outra duna, mas ela era íngreme e a areia era fofa, então os pneus carecas perderam tração e co­meçaram a rodar em falso.

Knox parou de insistir, deixou que a gravidade os levasse para baixo e virou o jipe. Um 4x4 bateu de frente contra o lado direito deles, erguendo as duas rodas do jipe. Ele bateu de novo, mais forte, fazendo-os tombar de lado e rasgar um pequeno sulco na areia antes de virar de ponta-cabeça. Gaille gritou e levantou as mãos para proteger a cabeça enquanto Knox tentava mantê-la no assento, mas ele não conseguiu impedir que ela se chocasse com força contra o para-brisa.

Pararam. Gaille estava tonta e enjoada. A porta dela se abriu. Um ho­mem estava ao seu lado, apontando-lhe um AK47 para o rosto. Ela o olhou aturdida. O homem fez um sinal para que saísse. Ela tentou obedecer, mas seus membros não quiseram funcionar. Ele a agarrou pelos cabelos e a pu­xou do carro com violência, ignorando seus gritos de dor. Knox engatinhou atrás dela, preparando-se para pular sobre o homem, mas outro grego estava esperando para emboscá-lo e deu uma coronhada com a arma em sua nuca, fazendo-o cair de cara na areia.

Rick saiu em seguida, com as mãos sobre a cabeça, parecendo amedron­tado. Mas estava só fingindo. Seu primeiro soco jogou o primeiro grego de costas ao chão. Rick arrancou o AK47 das mãos dele e virou-se para o segundo homem com o dedo já apertando o gatilho. Mas ele não che­gou a conseguir. Uma rajada flamejante amarela saiu do cano da arma do grego, houve o som percussivo de disparos de automática, o peito de Rick explodiu com vermelho, e ele foi atirado para trás na areia, deixando cair o AK47.

Rick! — gritou Knox, engatinhando para junto de seu amigo. — Ah, meu Deus! Rick!

Meu Deus, companheiro — balbuciou Rick, tentando levantar a ca­beça. — Que merda...?

Não fale — suplicou Knox. — Agüente firme.

Mas já era tarde, seus ferimentos eram graves demais. A tensão dos músculos de seu pescoço desapareceu e sua cabeça pendeu sem vida para um lado.

Knox virou-se, cheio de ódio no coração e determinação no olhar. Mas o atirador grego estava o observando perfeitamente confiante. Ele cuspiu na areia com negligência, dando a entender que aquilo era o que a morte de Rick significava, e apontou a arma para o peito de Knox.

Mãos atrás da cabeça — disse. — Ou vai ser o mesmo com você e a garota.

Knox deu um olhar duro para ele, mas não podia fazer nada. Jurou em silêncio que não deixaria de vingar a morte de Rick; então juntou as mãos atrás da cabeça, enquanto outro grego amarrava suas mãos e seus pés.

 

Ibrahim não conseguia dormir. Ficara acordado horas, pensando. Cada vez que conseguira se forçar a sentir um pouco de paz, sofrerá um novo espasmo de vergonha. Havia dedicado toda a vida ao estudo do Egito Antigo. Tor­nar-se cúmplice da violação de uma tumba — e que tumba! — iria denegrir para sempre o nome Beyumi. Ele não podia permitir que isso prejudicasse ainda mais sua honra. Não podia. Mas cada vez que se sentava na cama, decidido a fazer alguma coisa, sua coragem esmorecia. Não era esse tipo de homem. Não era homem de tipo nenhum. De qualquer forma, o que é que ele poderia fazer? Tinham-lhe tirado o celular, a extensão do telefone que fi­cava em sua mesinha de cabeceira e o cabo da internet. Trancaram as portas e janelas da casa e guardaram as chaves. Levantou-se de novo, foi até a porta do seu quarto e colocou a mão na maçaneta. Voltou para vestir seu robe. Respirou fundo por três vezes para criar coragem e abriu a porta.

Manolis estava dormindo num colchão no corredor. Ibrahim ficou pa­rado, esperando seu coração se acalmar. Passou sua perna esquerda sobre o corpo de Manolis. Uma das tábuas do assoalho rangeu sob o tapete. Ibrahim paralisou-se.

Manolis abriu os olhos. Ibrahim viu o brilho branco de suas córneas.

O que você está fazendo? — grunhiu.

Minha barriga — disse Ibrahim. — Preciso de uns comprimidos.

Espere. Eu vou com você.

Não se preocupe. Eu...

Eu vou com você.

 

Os dois 4x4 pararam em frente a Nicolas com um guinchar dos freios e levantando um pouco de areia. Bastiaan abriu a porta de trás do primeiro e retirou duas figuras para a areia. A primeira era um estranho sem vida, enrolado num tapete, com o peito dilacerado, uma imundície de sangue e tripas. E então a garota, Gaille, tonta e pálida, com os pulsos e tornozelos amarrados com pedaços de corda. Ela olhou à sua volta, claramente aterro­rizada, e fitou alguém que estava atrás dele.

Elena! — gritou, plangente. — Como você pôde?

Porque ela é patriota — retorquiu Nicolas friamente, quando Elena não disse nada.

Costis estava tirando um segundo homem da traseira do outro 4x4. Ele os encarou caído no chão. Knox! Nicolas sentiu uma ligeira náusea de repen­te, como se seu estômago não tivesse apreciado alguma coisa que ele come­ra. Havia algo a respeito de Knox que o fazia sentir-se um pouco impotente.

O olhar de Knox passou de Nicolas para onde estava seu pai.

Então! — falou com desprezo. — Um mero ladrão de túmulos.

Não tenho nada de mero — respondeu Dragoumis sereno —, como suspeito que você saiba muito bem.

Então conseguiu encontrá-lo? — perguntou Knox.

Ainda não — admitiu Dragoumis.

Ainda não? — Nicolas franziu a testa. — O que você quer dizer com ainda não? Não há nada lá.

Dragoumis dirigiu um olhar ácido para o filho.

Você não aprendeu nada sobre esse Quelônimo? — perguntou com impaciência. — Acredita realmente que ele era do tipo que entregaria seu maior segredo tão facilmente? — Apontou para Gaille e disse para seus ho­mens: — Ela entende o pensamento dele melhor que ninguém. Levem-na para dentro.

Não faça isso, Gaille — disse Knox rapidamente. — Não lhes dê nada.

Dragoumis voltou-se para ele

Você sabe que sou um homem de palavra. Portanto, deixe-me fazer- lhe uma oferta. Se vocês dois me ajudarem a encontrar o que procuramos, juro que libertarei ambos.

Claro! — zombou Knox. — Depois de tudo o que vimos!

Acredite em mim, Daniel, se nós encontrarmos o que procuramos