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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


O ESPIÃO QUE SABIA DEMAIS / John Le Carre
O ESPIÃO QUE SABIA DEMAIS / John Le Carre

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblio VT

 

 

 

A verdade é que se o velho Major Dover não tivesse caído morto nas corridas de Taunton, Jim nunca teria vindo para Thursgood. Chegou no meio do período letivo, sem entrevista prévia. Eram já meados de maio, embora ninguém pudesse dizê-lo se olhasse para o tempo. Arranjara o emprego através de uma dessas agências meio duvidosas; especializadas em fornecer professores para as escolas pre­paratórias. Viera apenas para "quebrar um galho", dar as aulas do velho Dover, até que pudesse ser encontrada pes­soa mais adequada. "Um lingüista", informa Thursgood na sala dos professores. "Uma medida temporária", acres­centou, afastando o cabelo da testa num gesto de autode­fesa. "Pridô." Soletrou: "P-R-I-D. . .", francês não era a matéria de Thursgood, por isso consultou o pedaço de papel, "... E-A-U-X. O primeiro nome é James. Acho que nos servirá muito bem até julho." Os professores não tiveram a menor dificuldade em entender tais sinais.

 

 

 

 

Jim Prideaux era um "branco pobre" na comunidade docente. Fazia parte do mesmo lamentável grupo a que pertencera a falecida Mrs. Loveday, que tinha um casaco de lã persa e ensinara teologia elementar até que seus che­ques foram devolvidos por falta de fundos; ou do ex-pro­fessor Maltby, que era pianista e fora convocado para colaborar numas investigações da polícia e, tanto quanto se sabia, ainda a estava ajudando, tendo deixado de pre­parar o coral. A grande mala de Maltby ainda se encon­trava no porão, à espera de instruções. Vários professores, principalmente Marjoribanks, eram favoráveis à abertura da mala. Diziam que ela continha tesouros notoriamente desaparecidos: o retrato da mãe libanesa de Aprahamian, por exemplo, emoldurado em prata; o canivete suíço de Best-Ingram, desses usados no Exército; e o relógio da inspetora. Mas o rosto sem rugas de Thursgood assumira uma expressão resoluta, contrária à abertura. Apenas cinco anos haviam transcorrido desde que herdara a escola do pai, mas esse tempo lhe ensinara que é melhor deixar cer­tas coisas trancadas.

Jim Prideaux chegara numa sexta-feira, durante um forte temporal. A chuva rolava como fumaça de canhão pelas ravinas pardacentas dos Quantocks, escorrendo rapi­damente pelos vazios campos de críquete e penetrando no arenito das fachadas dos edifícios, que estavam caindo aos pedaços. Apareceu logo depois do almoço, dirigindo um velho Alvis que puxava um reboque de segunda mão, em outros tempos azul. O começo da tarde em Thursgood é uma hora tranqüila, breve trégua na luta constante de cada dia escolar: os rapazes vão descansar no dormitório; os professores ficam sentados em sua sala, tomando café, lendo os jornais ou corrigindo trabalhos dos alunos; e Thursgood lê um romance para sua mãe. Em toda a es­cola, portanto, somente o pequeno Bill Roach de fato assistiu à chegada de Jim, reparou na fumaça que saía do capô do Alvis quando o carro veio chegando a gemer, des­cendo pelo caminho esburacado, com os limpadores de pára-brisa fustigados pela chuva, puxando um reboque, estremecendo em meio às poças de água.

Naquele tempo, Roach era calouro, tido como pouco inteligente, ou mesmo meio débil mental. Thursgood era sua segunda escola preparatória em dois períodos letivos. Menino gorducho e balofo, sofria de asma e passava gran­de parte de seus momentos de descanso ajoelhado na pon­ta da cama a olhar pela janela. Sua mãe vivia faustosa­mente em Bath, e todos diziam que o pai dele era o mais rico da escola, distinção que custava bem caro ao filho. Provindo de um lar desfeito, Roach era também um obser­vador por natureza: reparara que Jim não havia estacio­nado o carro em frente ao prédio da escola, mas conti­nuara a fazer uma curva até chegar à altura da cavalariça. A configuração do terreno era familiar àquele homem e, mais tarde, Roach concluiu que Jim deveria ter realizado uma operação de reconhecimento, talvez estudado algum mapa. Mesmo depois de ter chegado à cavalariça, ele não parou o carro, seguindo velozmente através da relva mo­lhada para não perder o impulso. Em seguida, galgou uma ondulação do terreno e entrou precipitadamente no Bura­cão, nele desaparecendo. Roach chegou a recear que o reboque se fosse dobrar ao meio, à beira do Buracão, mas Jim a transpôs tão depressa que, em vez de dobrar-se em dois, o reboque levantou a traseira e sumiu como um coe­lho gigantesco no interior de sua toca.

O Buracão é uma peça do folclore de Thursgood. Escancara-se através de uma extensão de terras não culti­vadas, entre o depósito de frutas e a cavalariça. Observando-o, vê-se que ele não passa de uma depressão do terre­no, coberta de capim, com saliências na face norte, cada qual mais ou menos da altura de um rapaz, e cheio de moitas em tufos, que se tornam esponjosas no verão. Essas elevações conferem ao Buracão sua virtude especial de área de recreio, e também sua fama, que varia a cada nova geração de alunos: são os vestígios de uma mina de prata a céu aberto, e os rapazes as escavam, cheios de entusiasmo, à procura de tesouros; são um forte romano-britânico, diz-se em outro ano, e os meninos encenam ba­talhas com porretes e projéteis de barro. Para outros, o Buracão seria uma cratera aberta por uma bomba do tem­po da guerra, e as saliências que ele tem só poderiam ser cadáveres sentados, que a explosão sepultou. A verdade é mais prosaica: há seis anos, não muito antes de haver abruptamente fugido com uma recepcionista do Castle Hotel, o pai de Thursgood lançara um apelo para que fosse aí construída uma piscina, persuadindo os rapazes a fazer uma grande escavação, com uma extremidade funda e outra rasa. Mas o dinheiro arrecadado foi insuficiente para financiar esse plano ambicioso e, por isso, foi desper­diçado em outros, como a aquisição de um novo projetor para a escola de arte, e a iniciativa de cultivar cogumelos no porão de um dos prédios. Pessoas malévolas chegaram a afirmar que o dinheiro foi empregado no adorno de um ninho para certos amores ilícitos, até que, finalmente, os dois pombinhos fugiram para a Alemanha, país natal da heroína da história.

Jim nada sabia a respeito dessas associações. O fato é que apenas por uma questão de sorte escolhera exatamente aquele recanto de Thursgood, dotado de atributos sobrenaturais, na opinião de Roach.

Roach ficou aguardando à janela, mas não viu mais coisa alguma. O Alvis e o reboque estavam fora do seu campo de visão. E se não fosse o rastro molhado que sul­cava a relva, o rapaz poderia ter ficado cismando se aquilo tudo não passaria de um sonho. Mas o rastro era real, e por isso, quando soou a campainha anunciando o fim do descanso, ele enfiou suas botas de cano alto e caminhou a custo debaixo da chuva até a beira do Buracão, ficando a espiar para baixo: lá estava Jim, metido numa capa de chuva do tipo usado no Exército, tendo na cabeça um chapéu deveras extraordinário, de abas largas, como um desses que se usam num safari, mas peludo e com um dos lados dobrado para cima, formando um rolo petulante, à moda dos piratas. A água escorria do chapéu como de uma calha.

O Alvis estava diante da cavalariça. Roach nunca soube explicar como Jim conseguiu safá-lo do Buracão, mas o reboque se encontrava no que deveria ter sido a extremidade funda da escavação, plantado sobre uma pla­taforma de tijolos gastos pelo tempo. Jim, sentado no de­grau do reboque, sorvia alguma bebida de um cantil verde, de plástico, e esfregava o ombro direito como se o tivesse batido em algum lugar, enquanto a chuva escorria de seu chapéu. Em seguida, levantou o chapéu e Roach viu-se a contemplar um rosto corado e de expressão muito feroz, que se tornava ainda mais ameaçadora por causa da som­bra projetada pela aba do chapéu, como também pela pre­sença do bigode castanho, escorrido pela chuva, que o transformara em presas. E aquele rosto era cortado de rugas irregulares, em todos os sentidos, tão fundas e si­nuosas que Roach concluiu, num outro lampejo de seu ta­lento imaginativo, que Jim havia passado fome em algum lugar dos trópicos, e tornara a engordar. Seu braço esquer­do ainda estava erguido de encontro ao peito, e seu ombro direito alçado até a altura do pescoço. Mas toda a massa confusa de seu corpo se enrijecera como a de um animal congelado sobre alguma superfície: um cervo, pensou Roach, num auspicioso impulso, um animal nobre.

Quem é você? indagou uma voz num tom mui­to militar.

Meu nome é Roach. Sou um calouro.

Por um momento, aquele rosto que parecia feito de tijolos mediu Roach de alto a baixo, protegido pela som­bra do chapéu. Em seguida, com acentuado alívio, suas feições descontraíram-se num esgar de riso igual ao de um lobo. E sua mão esquerda, ainda agarrando o mesmo om­bro direito, recomeçou a lenta massagem, ao mesmo tempo que o homem tomava um longo trago de seu cantil de plástico.

Levantando-se e voltando as costas abauladas para Roach, Jim começou a fazer o que parecia um detalhado exame das quatro pernas do reboque, investigação bastante crítica, que exigiu acentuado balançar da suspensão e forte inclinação da frente do reboque, estranhamente decorada, bem como a colocação de vários tijolos em diversos ângu­los e pontos. Enquanto isso, a chuva da primavera caía ruidosamente em cima de tudo: o casaco do homem, seu chapéu e a capota do velho reboque. Roach reparou que o ombro direito de Jim não se movera durante todas essas manobras, permanecendo enfiado de encontro ao pescoço como se fosse uma pedra, debaixo da capa de chuva. Por esse motivo, ficou imaginando se Jim acaso não seria uma espécie de gigante corcunda, e se as costas de todos os gigantes corcundas não doíam como as daquele homem. E reparou também, como algo de caráter geral, dessas coisas que se guardam na memória, que as pessoas que sentem dores nas costas caminham em passadas largas, o que es­taria ligado ao seu equilíbrio.

Calouro, não é? Bem, eu não sou um calouro prosseguiu Jim, num tom muito mais cordial, enquanto puxava uma das pernas do reboque. Sou um veterano. Tão velho como Rip Van Winkle[1], se você estiver interes­sado em saber. Até mais velho do que ele. E você? Você tem amigos?

— Não — disse Roach com simplicidade, naquele tom apático que os escolares sempre empregam para dizer "não", deixando todas as reações positivas a seus interlo­cutores. Mas Jim não deu qualquer resposta, de sorte que Roach subitamente foi tomado de um estranho sentimento de afinidade e esperança em relação àquele homem.

— Meu outro nome é Bill — acrescentou. — Fui batizado com o nome de Bill, mas Mr. Thursgood me chama de William.

— Bill, hem? O impagável Bill[2]. Alguém já chamou você assim?

— Não, nunca.

— É um bom nome, de qualquer maneira.

— Eu acho que sim.

— Conheço uma porção de Bill. Todos são boas pessoas.

Dessa maneira, as apresentações estavam feitas, por assim dizer, e Jim não mandou Roach dar o fora. Por isso o menino ficou lá no alto, olhando para o Buracão através dos óculos embaciados pela chuva. Os tijolos, observou Roach atemorizado, haviam sido tirados dos canteiros de pepinos. Vários já estavam meio soltos, e Jim deveria tê-los afrouxado um pouco mais. Pareceu a Roach uma coisa maravilhosa que alguém, mal chegando a Thursgood, ti­vesse tamanha confiança em si mesmo a ponto de furtar o material da escola para satisfazer um propósito particular. E ficou duplamente maravilhado porque Jim puxara um cano de chumbo do hidrante para obter água, pois esse hidrante era objeto de uma norma especial da escola: tocar nele era falta passível de castigo corporal.

— Escute, Bill. Você por acaso terá uma coisa pare­cida com uma bola de gude?

— Coisa parecida com quê? — indagou Roach, apal­pando os bolsos num jeito meio aturdido.

— Uma bola de gude, rapaz! Uma bola de gude re­donda: uma bolinha. Será que os meninos não jogam bola de gude hoje em dia? Nós jogávamos quando eu estava na escola.

Roach não tinha bolas de gude, mas Aprahamian pos­suía uma coleção delas, que tinham vindo de Beirute, de avião. Bastaram cerca de cinqüenta segundos para que Roach fosse correndo até a escola, apanhasse uma bola de gude, enfrentando os mais vigorosos protestos, e voltasse, ofegante, ao Buracão. Aí chegando, hesitou um pouco: para ele, o Buracão já pertencia a Jim, e teria necessidade de pedir licença para lá entrar. Mas Jim desaparecera no interior do reboque. Assim, depois de esperar durante al­guns instantes, Roach desceu cuidadosamente pelo barran­co e ofereceu a Jim a bola de gude através da porta do reboque.

Jim não deu imediatamente com os olhos em Roach. Estava tomando um trago, do cantil, e contemplando pela janela as nuvens negras que se dilaceravam em todas as direções sobre os Quantocks. Aquele movimento de sorver, observou Roach, era de fato bastante difícil, pois Jim não conseguia engolir com facilidade se permanecesse de pé, ereto, e tinha de curvar o torso para trás a fim de obter um certo ângulo. Enquanto isso a chuva voltara a cair pesadamente e com ruído sobre o reboque, como se fosse cascalho.

— Eu estou aqui —- disse Roach, mas Jim não se moveu.

— O problema com um Alvis é o desgraçado não ter o diabo das molas — resmungou Jim, finalmente, di­rigindo-se mais à janela do que à visita. — A gente guia todo o tempo com o traseiro apoiado em cima do osso. Isso aleija qualquer um. — E torcendo de novo o tronco, sorveu mais um gole.

— É isso mesmo — confirmou Roach, muito espan­tado de que Jim imaginasse que ele soubesse dirigir.

Jim tirara o chapéu. Seus cabelos cor de areia eram cortados curto e notavam-se alguns locais que alguém havia tosado demais com a tesoura. Ficavam principal­mente de um lado, por isso Roach adivinhou que o próprio Jim cortava seus cabelos com o braço bom, o que o fazia parecer ainda mais torto.

— Eu trouxe uma bola de gude para o senhor — disse Roach.

— Ótimo. Obrigado, rapaz. — E segurando a bola de gude ele a rolou devagar sobre a mão áspera e coberta de talco. Roach percebeu imediatamente que Jim era do­tado de grande habilidade para fazer qualquer espécie de coisas: era um homem familiarizado com ferramentas e objetos em geral.

— Está fora do nível, Bill, como você está vendo — confidenciou ele. — Assim como eu. Olhe só — e vol­tou-se deliberadamente para a janela maior. Um filete de alumínio estendia-se ao longo de seu bordo inferior, aí co­locado para coletar a condensação da umidade. Nele colo­cando a bola de gude, Jim ficou a observar como a mesma rolava até a extremidade, caindo ao chão.

— Está empenada — repetiu ele. — Enviesa na parte traseira. Um homem não pode aceitar uma coisa dessas. Onde você se meteu, sua bruxa?

O reboque não era um lugar acolhedor, observou Roach, curvando-se para apanhar a bola de gude. Poderia ter pertencido a qualquer pessoa, embora estivesse escru­pulosamente limpo. Um beliche, uma cadeira de cozinha, um fogão de navio, um botijão de gás. Nenhum retrato da mulher dele, pensou Roach, que ainda não havia conhecido homens solteiros, com exceção de Mr. Thursgood. Os úni­cos objetos pessoais que conseguiu descobrir foram uma mochila de pano forte, pendente da porta, uma caixa de costura guardada ao lado do beliche e um chuveiro de fa­bricação caseira, feito de uma lata de biscoitos perfurada, muito bem soldada no teto. Em cima da mesa havia uma garrafa que continha uma bebida incolor, gim ou vodca. Roach o sabia porque era isso que seu pai bebia quando o menino ia ao apartamento dele nos fins de semana, du­rante as férias.

— Na direção leste—oeste está tudo certo, mas na direção norte—sul ela está empenada, não há a menor dúvida — declarou Jim, testando o outro bordo da janela.

— Qual é o seu forte, Bill? — indagou.

— Não sei — respondeu Bill num tom apático.

— Você com certeza é bom em alguma coisa. Todo mundo o é. E o futebol? Você é craque no futebol?

— Eu não.

— Então você é um rapaz muito estudioso? — inda­gou Jim displicentemente ao abaixar-se, soltando uma es­pécie de grunhido e se encaminhando em direção à cama para tomar um trago do cantil. — Devo dizer que você não tem cara de ser muito estudioso — acrescentou polidamen­te. — Embora seja um rapaz solitário.

— Não sei — repetiu Roach, dando um passo em direção à porta, que estava aberta.

— Então o que você faz de melhor? — perguntou Jim, tomando outro grande gole. — Você tem de dar para alguma coisa. Todo mundo é assim. A melhor coisa que eu fazia era jogar pedrinhas sobre a água, de ricochete.

A pergunta dirigida a Roach naquela hora fora infe­liz, pois a mesma indagação o perseguia durante a maior parte do tempo em que ficava acordado. Na verdade, re­centemente ele chegara a duvidar se teria algum propósito na vida. Julgava-se completamente incapaz para o trabalho e os esportes. Até mesmo a rotina diária da escola, como fazer a própria cama e cuidar das próprias roupas, parecia estar além de suas possibilidades. E talvez não fosse nem mesmo piedoso, tinha-lhe dito a velha Mrs. Thursgood, porque fazia caretas demais, na capela. Ele se censurava muito por causa dessas limitações, mas principalmente pela ruína do casamento dos pais. Deveria ter pressentido sua aproximação e tomado medidas para impedir que isso acontecesse. Até mesmo chegava a pensar se não fora mais diretamente responsável por isso, digamos, se não seria anormalmente causador de desarmonias, talvez preguiçoso, e se acaso seu mau caráter não teria provocado aquele rompimento. Na última escola que freqüentara, havia pro­curado encontrar uma explicação para isso, começando a gritar, simulando ataques de paralisia cerebral, doença de que sofria sua tia. Seus pais conversaram sobre o assunto de maneira razoável, como de costume faziam, e o puse­ram em outra escola. Por conseguinte, aquela pergunta casual, atirada sobre ele no reboque apertado, por aquele indivíduo solitário, colocou-o repentinamente à beira de um desastre. Sentiu o coração bater forte, reparou que seus óculos ficaram embaciados e que o reboque começara a dissolver-se num mar de sofrimento. Roach nunca soube se Jim percebeu tudo isso, pois o homem subitamente lhe voltara as costas arqueadas, dirigindo-se até a mesa para tomar mais um trago do cantil de plástico, proferindo fra­ses lacônicas.

— Você é um bom observador. Isso você é. É o que eu lhe digo, rapaz. Nós, solitários, sempre somos bons observadores. Ninguém confia na gente, não é mesmo? Ninguém me viu. Eles me abandonaram de verdade. E eu lá no horizonte, parado. Pensei que você fosse um feiti­ceiro. O melhor olheiro desta região se chama Bill Roach, sou capaz de apostar. Se estiver de óculos, não é isso?

— Sou mesmo — concordou Roach, cheio de gra­tidão.

— Bem. Você vai ficar observando tudo — ordenou Jim, enfiando na cabeça o chapéu de safari —, enquanto eu vou dar uma saída para equilibrar as pernas do reboque. Faça isso, está bem? Mas onde se meteu o raio da bola de gude?

— Está aqui.

— Dê um aviso quando ela se deslocar, ouviu? Em qualquer direção que ela role: norte, sul, qualquer uma. Compreendeu?

— Compreendi.

— Você sabe onde fica o norte?

— Fica naquela direção — respondeu Roach ime­diatamente, estendendo um braço ao acaso.

— É isso mesmo. Bem. Você me avisa quando ela rolar — repetiu Jim, desaparecendo na chuva. Passado um momento, Roach sentiu que o chão oscilava sob seus pés, e ouviu outro rugido, de dor ou de cólera, enquanto Jim lutava contra a perna do reboque, desaprumada.

 

Durante todo o período daquele verão, os rapazes mimosearam Jim com um apelido. Fizeram várias tentati­vas até encontrar um que os contentasse. Experimentaram Soldado de Cavalaria, que lhe captou aquele jeito militar, suas pragas ocasionais inteiramente inofensivas, seu pe­rambular solitário pelos Quantocks. Apesar disso, Soldado de Cavalaria não pegou e os rapazes tentaram Pirata e, durante algum tempo, Goulash. Este último porque Jim gostava de comidas temperadas e também por causa do cheiro de caril, cebola e páprica que os saudava em mor­nas baforadas quando desfilavam através do Buracão a caminho das vésperas. Goulash, sim, também por causa do francês impecável de Jim, que teria um toque sentimental. Spikely, da Quinta Série B, era capaz de imitá-lo com per­feição. "Você ouviu a pergunta, Berger? O que Emile está olhando?" Um movimento convulso da mão direita. "E não fique olhando assim para mim, rapaz, eu não sou ne­nhum feiticeiro. Q'est-ce qu'il regarde, Emile, dans le tableau que tu as sous le nez? Mon cher Berger, se você não soltar bem depressa uma lúcida frase em francês, je te mettrai tout de suite à la porte, tu comprends[3], criatura desprezível?"

No entanto, essas terríveis ameaças nunca eram cum­pridas, nem em francês nem em inglês. De um modo estra­nho, de fato, acrescentavam-lhe uma aura de brandura, que o cercava, uma brandura que só seria possível nos homens vistos através dos olhos de meninos.

Mas Goulash também não os satisfez. Faltava-lhe o quê de vigor que havia em Jim. Não levava em conta seu inglesismo apaixonado. O único assunto em que se poderia contar que Jim seria capaz de perder tempo era este: bas­tava que o "desprezível" Spikely ousasse fazer um comen­tário depreciativo sobre a monarquia, louvasse os encan­tos de algum país estrangeiro, de preferência que tivesse clima quente, para que Jim ficasse rubro e falasse aos borbotões durante uns bons três minutos a respeito do pri­vilégio de alguém nascer inglês. Sabia que os rapazes esta­vam implicando com ele, mas não conseguia deixar de inflamar-se. Muitas vezes terminava sua homília com um riso de arrependimento e resmungava alusões aos arenques vermelhos e às notas "vermelhas", como também às caras vermelhas de certas pessoas que tinham vindo fazer algum trabalho extra, perdendo seu futebol. Mas a Inglaterra era a devoção de Jim, e, quando se tratava desse assunto, nin­guém sofria por causa dela.

— É o melhor lugar deste mundo — trovejou certa vez. — E você sabe por quê? Você sabe por quê, cria­tura desprezível?

Spikely não sabia. Por isso, Jim tomou de um lápis e desenhou um globo terrestre.

— A oeste, a América — disse ele —, cheia de lou­cos ambiciosos, que estão estragando o que herdaram. A leste, a China e a Rússia — ele não fazia distinção entre uma e outra: — condenações injustas e apaixonadas, cam­pos de concentração, e uma longa e malsinada marcha sem destino. No meio...

Finalmente se fixaram no apelido de Rino, abrevia­tura de rinoceronte.

Isso em parte era um trocadilho com "Prideaux", mas também uma alusão ao seu gosto de viver retirado, sua disposição pelos exercícios físicos, que eles sempre obser­vavam. Tremendo na fila do chuveiro, a primeira coisa que viam pela manhã era o Rino caminhando pesadamente pela Combe Lane, com a mochila às costas abauladas, voltando de sua marcha matinal. Na hora em que iam para a cama, vislumbravam seu vulto solitário através do telha­do de plástico transparente da quadra de basquetebol: lá estava Rino incansavelmente atacando a parede de concre­to. E por vezes, nas noites de calor, ficavam escondidos a observá-lo das janelas do dormitório enquanto ele brandia um terrível e velho taco, ziguezagueando pelo campo de golfe, muitas vezes depois de lhes ter lido um livro de aven­turas muito inglês: Biggles, Percy Westerman ou Jeffrey Farnol, apanhado ao acaso na encardida biblioteca. Depois de cada tacada, ficavam à espera do grunhido, quando ele começava a endireitar-se. Raramente se desapontavam. To­mavam meticulosamente nota da contagem dos pontos. No campeonato de críquete dos professores, Rino fez cinco pontos antes de abandonar a partida, arremessando uma bola lançada a Spikely em curva alta, do extremo do cam­po. "Apanhe, criatura desprezível. Apanhe e continue. Muito bem, Spikely. Você é um bom rapaz. Para isso é que você está aí."

Apesar de seu amor à tolerância, era-lhe atribuída grande compreensão da psicologia dos criminosos. Cita­vam vários exemplos disso. O mais convincente de todos ocorreu alguns dias antes do encerramento do período le­tivo, quando Spikely descobriu, na cesta de papéis de Jim, um rascunho da prova do dia seguinte, e o alugou aos candidatos a cinco pence cada um. Vários rapazes pagaram e passaram uma noite de agonia decorando respostas à luz de lanternas, no dormitório. Mas quando chegou a hora do exame, Jim deu outra prova completamente diferente.

— Vocês podem olhar essa prova sem pagar nada — trovejou ao sentar-se. E desfraldando o Daily Telegraph, mergulhou calmamente nos últimos conselhos dos "feiticeiros", que os rapazes entenderam significar, na prá­tica, as pessoas que tivessem pretensões a ser intelectuais, mesmo que escrevessem a favor da rainha.

Houve ainda o último incidente, o da coruja, que ocupava um lugar à parte em suas opiniões a respeito de Jim, pois envolvia a morte, fenômeno diante do qual os meninos reagem de diversas maneiras. Como o tempo con­tinuasse frio, Jim levou um balde de carvão para a sala de aula e, numa quarta-feira, acendeu a lareira e sentou-se de costas para o calor, enquanto fazia um ditado de francês. Primeiro, caiu um pouco de fuligem, da qual nem tomou conhecimento. Depois, veio a coruja, uma coruja-de-igreja, das grandes, que havia sem dúvida feito seu ninho lá no alto, durante muitos invernos e verões, no tempo de Dover, quando não limpavam a chaminé. To­cada pela fumaça, estonteada e enegrecida por ter ficado debatendo-se nela até a exaustão, a coruja primeiro caiu sobre as brasas e acabou por desabar ruidosamente, massa informe, no assoalho de madeira, aí ficando arqueada, mas ainda a respirar, de asas abertas, fitando os rapazes através da fuligem que lhe empastava os olhos. Não houve um só que não se mostrasse aterrorizado. Até mesmo Spikely, que era um tipo corajoso, amedrontou-se. Mas não Jim que, num átimo, dobrou-lhe as asas e levou-a para fora da sala, sem dizer palavra. Eles nada ouviram, embora ficas­sem à escuta, como uns clandestinos, até que o barulho de água corrente veio do corredor, pois Jim estava lavando as mãos. "Ele está fazendo pipi", declarou Spikely, sendo premiado com uma nervosa risada geral. Mas ao saírem em fila da sala de aula, viram que a coruja, ainda dobrada, estava bem morta, aguardando sepultura no alto do monte de adubo, junto ao Buracão. Seu pescoço, como notaram os mais corajosos, fora quebrado. Só um guarda-caça, de­clarou Sudeley, que tinha um, saberia matar uma coruja tão bem.

 

Entre os outros membros da comunidade de Thursgood, as opiniões a respeito de Jim não eram assim unâ­nimes. O espectro de Mr. Maltby, o pianista, custou a desaparecer. A inspetora, colocando-se ao lado de Bill Roach, declarou que Jim era um herói e precisava de cuidados. Um milagre conseguir fazer as coisas com aque­las costas! Marjoribanks afirmou que ele fora atropelado por um ônibus, quando estava embriagado. Foi ainda Mar­joribanks, por ocasião do campeonato de críquete do cor­po docente, no qual Jim tanto brilhou, que chamou atenção para o suéter dele. Marjoribanks não jogava críquete, mas tinha abalado para assistir à partida de Jim com Thursgood.

— Você acha que aquele suéter é dele mesmo ou foi furtado? — indagou num tom de voz agudo e zom­beteiro.

— Isso é muito injusto de sua parte, Leonard — censurou Thursgood, batendo no lombo de seu cão labrador. — Dê uma dentada nele, Ginny, dê uma dentada nesse homem mau.

No entanto, quando chegou de volta à sua sala de trabalho, Thursgood já não tinha vontade de rir, e ficou extremamente nervoso. Sabia lidar com falsos oxfordianos, como também, no seu tempo, conhecera professores de letras clássicas que não sabiam grego e pastores que nada entendiam de teologia. Tais homens, diante das provas de que eram embusteiros, ficavam completamente abatidos, começavam a chorar e se afastavam ou permaneciam nos cargos, recebendo apenas a metade dos ordenados. Mas aqueles que se recusavam a revelar suas legítimas reali­zações pertenciam a uma espécie que ele nunca havia encontrado, mas sabia de antemão que não apreciava. Tendo consultado o calendário da Universidade de Oxford, telefonou para a agência de um certo Mr. Stroll, da firma Stroll & Medley.

— Que deseja o senhor saber precisamente? — inda­gou Stroll, dando um horrível suspiro.

— Bem, nada de preciso.

A mãe de Thursgood estava fazendo um bordado e parecia não estar ouvindo coisa alguma.

— Quero saber apenas o seguinte — prosseguiu Thursgood. — Quando uma pessoa solicita um curriculum vitae a ser fornecido por escrito, estima que seja completo. Ninguém quer lacunas. Pelo menos quando paga uma taxa pelo trabalho.

Nessa altura Thursgood se deu conta de que estava imaginando, meio irrefletidamente, se acaso teria desper­tado Mr. Stroll de um sono profundo, no qual novamente mergulhara.

— Homem muito patriota — observou Stroll final­mente.

— Eu não o empreguei por seu patriotismo.

— Ele esteve recebendo parte do salário — sussur­rou Stroll, como se o fizesse através de terríveis baforadas de fumaça de cigarro. — Encostado. Problema de coluna.

— Perfeitamente. Mas eu presumo que não esteve hospitalizado durante os últimos vinte e cinco anos. Touché — murmurou para a mãe, pondo a mão no bocal do telefone. E mais uma vez lhe passou pela cabeça que Stroll tinha adormecido.

— O senhor só irá ficar com ele até o final do pe­ríodo letivo — falou Stroll num tom brando. — Se não gostar dele, mande-o embora. O senhor pediu um homem barato para prestar serviços temporariamente, e foi isso que obteve.

— Isso pode ser — replicou Thursgood, disposto a enfrentar a parada. — Mas eu lhe paguei uma taxa de vinte guinéus e meu pai teve negócios com o senhor du­rante muitos anos. Por isso eu me acho no direito de ter certas garantias. O senhor escreveu que, posso ler?, "antes de ser ferido, teve várias nomeações no exterior, de cará­ter comercial e de prospecção". Pois bem: isso dificil­mente seria descrição capaz de esclarecer um emprego que durou uma vida inteira, não é verdade? — A mãe de Thursgood assentiu com a cabeça, continuando a fazer seu bordado. E repetiu alto, como um eco: "Não é ver­dade?" — Esta é minha primeira observação. Vamos con­tinuar. — "Não continue demais, meu querido", advertiu-lhe a mãe. — Acontece que eu sei que ele esteve na Uni­versidade de Oxford em 1938. Por que não concluiu o curso? O que houve de errado? — indagou Thursgood.

— Parece que eu me lembro de ter acontecido algo por essa época — disse Stroll ao cabo de uma eternidade. — Mas eu creio que o senhor é muito jovem para lem­brar-se disso.

— Ele não pode ter estado preso todo esse tempo — comentou a mãe de Thursgood, após um silêncio muito prolongado, ainda sem levantar os olhos do bordado.

— Esteve em algum lugar — declarou Thursgood num tom mal-humorado, fitando o Buracão para além do jardim açoitado pelo vento.

 

Durante todas as férias de verão, enquanto era desconfortavelmente transferido de uma casa para outra, sen­do acolhido e rejeitado, Bill Roach atormentou-se a respeito de Jim, pensando que talvez suas costas estivessem doendo, e no que iria fazer para arranjar dinheiro, agora que não tinha alunos e só estaria recebendo a metade do ordenado. E, o pior de tudo, estaria na escola quando se iniciasse o novo período letivo? Bill tinha a impressão, que não conseguia descrever, de que Jim vivia de maneira tão precária na face da Terra a ponto de poder, a qual­quer momento, despencar no vácuo. Relembrou as cir­cunstâncias de seu primeiro encontro com Jim e, de modo especial, a pergunta de Jim sobre a amizade. E experi­mentou o sagrado terror de que assim como ele, Roach, falhara no amor para com os pais, também falhara para com Jim, principalmente por causa da diferença de idade entre ambos.

Por conseguinte, Jim se tinha afastado e já estava procurando algum companheiro em outro lugar, perscru­tando outras escolas com seus olhos desbotados. Imaginou também que Jim, como ele próprio, tivera alguma grande afeição que o desapontara, a qual muito desejava substi­tuir. Mas nesse ponto as especulações de Bill Roach che­garam a um impasse: não tinha a menor idéia sobre a maneira de os adultos gostarem uns dos outros.

Muito pouca coisa de prático poderia fazer. Consul­tou um livro de medicina, interrogou a mãe a respeito de corcundas e teve grande vontade de surripiar uma garrafa de vodca do pai, para levá-la a Thursgood como um engodo, mas não ousou fazê-lo. Quando, finalmente, o chofer de sua mãe o deixou junto àqueles odiados degraus, não parou nem para dizer adeus, correndo o mais que pôde até o alto do Buracão. E que imensa alegria! Lá estava o reboque de Jim no mesmo lugar, na mesma extremidade, um pouco mais sujo do que antes, com um novo bocado de terra ao lado. Bill imaginou que seria destinado aos legumes do inverno. Jim, sentado no degrau do reboque, abriu-se num arremedo de riso, como se tivesse ouvido os passos de Bill, que se aproximava, e preparado aquela expressão de boas-vindas antes que ele aparecesse ali, no barranco.

Naquele mesmo período letivo, Jim inventou um ape­lido para Roach. Deixou Bill de lado, chamando-o de Jumbo. Não deu razões para isso, e Roach, como acontece às pessoas que são batizadas, não estava em condições de fazer qualquer objeção. Em paga, Roach nomeou-se guar­dião de Jim: um guardião-regente, assim se imaginava. Uma pessoa que vinha tomar o lugar de outra, substituir o amigo de Jim que partira, quem quer que fosse esse amigo.

 

Ao contrário de Jim Prideaux, George Smiley não era naturalmente dotado para correr debaixo de chuva, prin­cipalmente durante as horas mortas da noite. Na realidade, poderia ser a forma definitiva da qual Bill Roach repre­sentaria o protótipo. De baixa estatura, atarracado e, na melhor das hipóteses, já de meia-idade, tinha a aparência de um gentil londrino, desses que não herdam a terra. Suas pernas eram curtas, seu jeito de andar seria tudo, menos ágil; suas roupas eram caras, mas assentavam-lhe mal e estavam encharcadas; seu sobretudo, que tinha um ar de viuvez, era desse tecido preto e frouxo, feito para reter a umidade, com as mangas compridas demais, ou então os braços de Smiley seriam muito curtos, como os de Roach quando usava sua capa de chuva, cujos punhos quase lhe ocultavam os dedos. Por uma questão de vai­dade, Smiley não usava chapéu, acreditando, acertadamen­te, que ficaria ridículo se o fizesse. "Parecia um abafador de ovo", observara sua bela esposa não muito antes da última vez que o abandonara. E a crítica da mulher per­durara, como freqüentemente acontecia. Por esse motivo, a chuva tinha formado grossas e irremovíveis gotas sobre as espessas lentes de seus óculos, forçando-o alternada­mente para a rua ou para a calçada que margeava as enegrecidas arcadas da Victoria Station. Caminhava na direção oeste, rumo ao refúgio de Chelsea, onde morava. Seus passos, por um motivo qualquer, eram um tanto incertos. E se Jim Prideaux emergisse das sombras e qui­sesse saber se ele tinha amigos, Smiley provavelmente res­ponderia que preferia arranjar um táxi.

Roddy é um grande fanfarrão resmungou com seus botões quando um novo dilúvio caiu-lhe sobre as gordas bochechas, escorrendo até sua camisa completa­mente encharcada. Por que eu não me levantei e saí?

Lugubremente, Smiley mais uma vez passou em revista os motivos de sua atual desdita, e concluiu, com a frieza inseparável do lado humilde de sua personalidade, que aquelas atribulações haviam sido criadas por ele próprio.

Desde o começo o dia tinha sido de muita atividade. Levantara-se tarde demais, depois de trabalhar até altas horas da madrugada, hábito que se insinuara nele desde sua aposentadoria, no ano anterior. Reparando que não havia café em casa, entrara na fila da mercearia até per­der a paciência. Em seguida, decidira-se altivamente a cui­dar de seus negócios pessoais. O extrato de sua conta bancária, que o correio lhe entregara pela manhã, revelava que a mulher havia sacado a parte de leão de sua pensão mensal. Muito bem, decidiu ele, iria vender alguma coisa. Essa reação foi pouco razoável porque estava decentemen­te provido de recursos, e o obscuro banco da City, respon­sável pelo pagamento de sua pensão, o fazia com regula­ridade. Não obstante, embrulhando uma antiga edição de Grimmelshausen, modesto tesouro que datava de seus dias na Universidade de Oxford, saiu de casa solenemente rumo à livraria de Heywood Hill, na Curzon Street, onde às vezes fazia uma cordial pechincha com o proprietário. No meio do percurso, ficou ainda mais irritado, e entrou numa cabina telefônica, marcando um encontro com seu advo­gado para aquela tarde.

Mas como você consegue ser tão vulgar, George? Ninguém se divorcia de uma mulher como Ann. Mande-lhe umas flores e venha almoçar comigo.

Esse conselho deu-lhe novo ânimo. E Smiley se apro­ximou de Heywood Hill de alma leve, mas caiu nos braços de Roddy Martindale, que saía do Trumper's, depois de seu corte semanal de cabelos.

Martindale não tinha o menor direito de impor-se a Smiley, quer profissional quer socialmente. Trabalhava no setor, digamos, material do Ministério do Exterior, e sua obrigação consistia em almoçar com dignitários ou visitá-los, quando ninguém mais os tivesse recebido em sua pró­pria toca. Era um solteirão sem compromissos, com uma negra cabeleira e essa agilidade que só os gordos possuem.

Dava-se ao luxo de usar uma flor na lapela e de vestir ternos claros, simulando, sob os mais frágeis pretextos, manter estreitas relações nas grandes salas dos fundos de Whitehall. Alguns anos antes, quando ainda não tinha sido dispensado, adornara o grupo de funcionários de Whitehall, na qualidade de coordenador do serviço de in­formações. Durante a guerra, tendo certa facilidade para a matemática, também freqüentara a orla do serviço se­creto. E certa vez, como nunca se cansava de contar, trabalhara com John Landsbury nas tarefas de codifica­ção do Circus, que tiveram certa importância, de caráter temporário. Mas a guerra, como Smiley por vezes tinha de recordar a si próprio, ocorrera trinta anos antes.

— Ora viva, Roddy! — exclamou Smiley. — Prazer em vê-lo.

Martindale falava com aquela voz estentórica e cheia de confiança dos que pertencem à classe superior da so­ciedade, de tal jeito que Smiley, durante certas férias pas­sadas no exterior, mais de uma vez o deixara, mudando-se de hotel, em busca de algum refúgio.

— Meu caro amigo. Mas é o mestre em pessoa! Disseram-me que você estava trancado em companhia dos monges, em St. Gall, ou em algum outro lugar, debruçado sobre manuscritos! Confesse tudo a mim de uma vez. Que­ro saber de tudo que você tem feito, todos os pormenores. Você está passando bem? Você ainda ama a Inglaterra? E como está a encantadora Ann? — O olhar irrequieto de Martindale percorreu a rua de cima a baixo até deparar com o volume embrulhado de Grimmelshausen, que Smi­ley sobraçava. — Aposto uma libra contra um penny que é um presente para ela. Dizem que você a estraga de maneira absurda com seus mimos. — A voz dele baixou à altura de um murmúrio nas montanhas. — Escute — prosseguiu. — Você não está de volta àqueles trabalhos habituais, está? Não me diga que tudo é camuflagem, George. — A língua pontuda de Martindale explorou os cantos úmidos de sua pequena boca e, em seguida, como a língua de uma cobra, enroscou-se e desapareceu.

Smiley foi idiota a ponto de comprar a própria fuga, concordando em jantar com Martindale naquela mesma noite, num clube de Manchester Square, ao qual ambos pertenciam, mas que Smiley evitava como se fosse uma praga, principalmente porque Roddy Martindale era mem­bro dele. Quando caiu a noite, Smiley ainda estava digerindo o almoço do White Tower, onde seu advogado, homem que apreciava as coisas boas da vida, decidira que só uma farta refeição poderia curar George de sua melancolia. Martindale, por caminhos diferentes, chegara à mesma conclusão, e ambos, durante quatro longas horas, debruçados sobre iguarias que não apeteciam a Smiley, discorreram sobre nomes como se fossem os de esqueci­dos jogadores de futebol. Jebedee, que havia sido o antigo preceptor de Smiley: "Mas que perda para nós, Deus o tenha!", murmurou Martindale. Tanto quanto Smiley sa­bia, ele nunca tinha posto os olhos em Jebedee. "E que talento na matéria, não é mesmo?", prosseguiu ele. "Um dos realmente grandes, eu sempre digo." Em seguida, che­gou a vez de Fielding, o especialista de Cambridge em França medieval: "Mas que encantador senso de humor. Um espírito fino!" Depois foi a vez de Sparke, da Escola de Línguas Orientais, e, finalmente, a de Steed-Asprey, que fundaria aquele mesmo clube só para escapar dos chatos como Roddy Martindale. "Você sabia que eu conheci o pobre irmão dele? A metade do talento e o dobro dos músculos. Deus o guarde! O miolo foi todo para o outro."

E Smiley, através de uma névoa de drinques, escutara aquelas asneiras, dizendo "sim" e "não", ou "que pena", "não, ele nunca o conhecera", até que, numa lúgubre ine­vitabilidade, Martindale chegou a coisas mais recentes, às mudanças na esfera do poder e ao afastamento de Smiley do serviço. Como se poderia prever, ele começou pelos últimos dias de Control:

— Seu velho chefe, George, que Deus o tenha, foi o único que sempre manteve o próprio nome em segredo. Não em relação a você, naturalmente. Ele nunca teve segredos para você. Smiley e Control eram carne e unha, assim se dizia, até o fim.

— Todos eram muito lisonjeiros para comigo.

— Deixe de histórias, George. Eu sou um velho sol­dado, não se esqueça. Você e Control eram exatamente isso que eu disse. — Durante alguns momentos, aquelas mãos rechonchudas se uniram num símbolo de casamento. — Por isso é que você foi jogado fora, não se iluda. Por isso é que Bill Haydon ficou em seu lugar. Por isso é que Percy Alleline é o chefão, e não você.

— Se você assim diz, Roddy.

— Digo, sim. E digo mais do que isso. Muito mais.

Quando Martindale chegou mais perto dele, Smiley sentiu o odor de uma das sensíveis criações de Trumper, o cabeleireiro.

— Digo mais uma coisa: Control não morreu. Tem sido visto. — Com um gesto alvoroçado, Martindale silenciou os protestos de Smiley. — Deixe-me acabar. Willy Andrewartha deu de cara com ele no aeroporto de Jo'burg, na sala de espera. Não era um fantasma. Control em carne e osso. Willy estava no bar, tomando uma soda por causa do calor. Você não tem visto Willy ultimamente. Está uma pipa de gordo. Ele se voltou e lá estava Control a seu lado, vestido como um horrível bôer. No momento em que deu com os olhos em Willy, tratou de dar o fora. Que tal isso? Agora sabemos que Control não morreu coisa alguma. Foi expulso por Percy Alleline e seus três cúmplices. Por isso Control caiu na clandestinidade, na África do Sul. Deus o guarde! Bem, você não pode cen­surá-lo. Não há de censurar um homem por querer um pouco de paz no outono da vida. Eu não o censuro.

A monstruosidade dessa afirmação, atingindo Smiley através de um muro cada vez mais espesso de exaustão espiritual, deixou-o momentaneamente sem poder falar.

— Isso é ridículo! — exclamou Smiley. — É a his­tória mais tola que eu já ouvi. Control está morto. Morreu de um ataque do coração, depois de uma longa enfermi­dade. Além disso, ele detestava a África do Sul. Detestava qualquer lugar, exceto o Surrey, o Circus e o campo de críquete de Lord's. Para falar a verdade, Roddy, você não deveria espalhar histórias desse tipo. — E Smiley poderia ter acrescentado que ele próprio havia sepultado Control naquele odioso crematório do East End, sozinho, na véspera do Natal do ano anterior. O pároco estava ocupado com um sermão.

— Willy Andrewartha sempre foi o mais deslavado mentiroso — declarou Martindale, bastante tranqüilo. — Eu disse a mesma coisa a ele: aquilo era o mais absurdo contra-senso. E acrescentei: Willy, você deveria ter ver­gonha de si mesmo.

E logo a seguir, como se jamais tivesse subscrito por pensamentos ou palavras aquela estúpida opinião, Martin­dale disse mais:

— Foi o escândalo tcheco que pregou o último prego no caixão de Control, creio eu. Aquele pobre infeliz que levou um tiro nas costas e saiu nas manchetes dos jornais. Aquele que era sempre tão íntimo de Bill Haydon, assim ouvimos dizer. Tínhamos de chamá-lo de "Ellis", e ainda lhe damos esse nome, não é verdade? Mesmo que soubés­semos o verdadeiro nome dele tão bem como o nosso.

Martindale esperou maliciosamente que Smiley lhe desse mais alguma informação, mas este não tinha a menor intenção de dizer coisa alguma. Por isso Martindale tentou uma terceira abordagem:

— De qualquer maneira não consigo acreditar muito em Percy Alleline como chefe. E você? Será minha idade, George, ou apenas meu natural cinismo? Diga-me, por favor, você julga tão bem as pessoas! Eu penso que o poder assenta mal naqueles que cresceram junto com a gente. Será essa a explicação? Para mim há bem poucas pessoas capazes de exercer o poder, hoje em dia. E o pobre Percy é uma criatura tão óbvia! Eu sempre penso nisso. Especialmente para vir depois de Control, aquela pequena serpente. E o grande companheirismo entre eles! Como se poderá levar esse homem a sério? Basta a gente pensar nele nos velhos tempos, refestelado no bar do Traveller's, chupando aquele cachimbo e pagando drinques para pessoas importantes. Bem! Na realidade a gente gosta mesmo que a perfídia seja sutil. Você não concorda co­migo? Ou você não liga para isso, desde que a perfídia tenha sucesso? Qual é o truque dele, George, qual a fór­mula secreta que ele tem?

Martindale falava com muito entusiasmo, inclinado para a frente, com um olhar ávido e cheio de animação. Só a comida seria capaz de emocioná-lo assim tão pro­fundamente. E acrescentou:

— Vivendo à custa do talento dos subordinados. Bem! Talvez isso hoje signifique liderança.

— Realmente, Roddy, eu não posso ser útil a você — declarou Smiley debilmente. Nunca conheci Percy como uma força, você compreende. Apenas como um... — Ele não conseguiu encontrar a palavra.

Um sujeito que luta para superar os competidores sugeriu Martindale com um brilho no olhar. Sempre pensando na púrpura de Control, dia e noite. Agora que ele está usando o manto, a massa o adora. Mas quem será o braço direito dele, George? Quem estará conquistan­do para ele a reputação que ele tem? Percy se vem portando maravilhosamente. Isso a gente ouve de todo mundo. Pe­quenas salas de leitura no Almirantado, pequenas comis­sões são criadas, com nomes engraçados, e o tapete ver­melho é estendido para Percy em todos os lugares aonde ele vai, nos corredores de Whitehall. Ministros pouco im­portantes recebendo condecorações das altas esferas, e pes­soas em quem a gente nunca ouviu falar ganhando meda­lhas por nada fazerem. Eu já vi tudo isso antes, você sabe.

Roddy, eu não posso ser útil a você insistiu Smiley, fazendo menção de levantar-se. — Na verdade, você está falando de coisas além do meu alcance.

Martindale o segurou pelo braço, impedindo que ele se erguesse, prendendo-o à mesa com aquela mão úmida, enquanto falava ainda mais depressa:

Então quem é o cérebro? Não é Percy, isso com certeza. E não me diga que os americanos começaram a confiar em nós outra vez. E Martindale agarrou Smiley com mais força. O impetuoso Bill Haydon, nosso mo­derno Lawrence da Arábia[4]. Deus o abençoe! Veja você: é o Bill, seu velho rival.

A língua de Martindale apontou novamente, reco­nheceu o terreno e retraiu-se, deixando em sua fisionomia o rastro de um leve sorriso.

— Disseram-me que houve tempo em que você e Bill compartilharam tudo declarou Martindale. Mes­mo assim ele nunca foi ortodoxo, foi? Os grandes talentos nunca são ortodoxos.

Deseja mais alguma coisa, Mr. Smiley? indagou o garçom.

Então é Bland, essa grande esperança malograda, esse professor de uma universidade de tijolos de segunda classe. Martindale ainda não havia soltado o braço de Smiley. E se os dois não estão fazendo as coisas andar, há de ser alguém afastado do serviço, não é mesmo? Isto é, alguém que se finja de afastado. E se Control está morto, quem resta a não ser você?

Eles estavam vestindo os sobretudos. Os porteiros já se tinham retirado, e os dois tinham ido buscar os casa­cos nas prateleiras vazias.

— Roy Bland não foi professor de nenhuma univer­sidade de tijolos declarou Smiley em voz alta. Esteve no St. Anthony's College, de Oxford, se você quiser ficar sabendo.

"Deus me ajude, aquilo foi o máximo que eu poderia ter feito", pensou Smiley.

Deixe de bobagens replicou Martindale num tom áspero. Smiley o havia irritado. Parecia triste e ludi­briado; rugas de aflição se tinham formado na parte mais baixa de seu rosto. — St. Anthony's College é de segunda classe. Não faz a menor diferença haver um pouco de pedra na mesma rua. Mesmo que Bland tenha sido seu protegido, Smiley. Espero que agora ele seja o protegido de Bill Hay­don. Não faça o cartaz dele. Bland pertence a meu grupo, não é do seu. Bill sempre foi o pai deles todos. Tira provei­to deles. Bem, Haydon tem seu encanto, não é fato? Não é como alguns de nós. Isso eu chamo possuir os atributos de uma estrela. É dos poucos que têm essa virtude. Disse­ram-me que as mulheres se prostram diante dele, se é bem isso que as mulheres fazem.

Boa noite, Roddy.

Lembranças a Ann. Não se esqueça.

Não me esquecerei.

Não se esqueça mesmo.

Chovia torrencialmente e Smiley estava molhado até os ossos. Deus, por castigo, retirara todos os táxis das ruas de Londres.

 

"Absoluta falta de capacidade de querer as coisas", disse Smiley de si para si ao declinar cortesmente das sugestões de uma mulher que estava no vão de uma porta. "Fala-se em polidez, quando, na realidade, tudo não passa de fraqueza. Você é um frívolo, Martindale. Solene, afe­tado, efeminado, improdutivo..." E Smiley caminhava em largas passadas como a evitar algum obstáculo invisí­vel. "Fraqueza", prosseguiu ele, "inaptidão para viver uma vida auto-suficiente, liberta das instituições." Uma poça de água esvaziou-se dentro de um de seus sapatos. "E das ligações emocionais que sobrevivem, há muito tempo, depois de extintas suas finalidades. Minha mulher, por exemplo, o Circus, ou morar em Londres." Táxi!

Smiley adiantou-se, cambaleando, mas era tarde. Duas jovens, rindo debaixo de um guarda-chuva, entraram com dificuldade no táxi, numa agitação de braços e pernas. Levantando inutilmente a gola do sobretudo preto, ele continuou a marcha solitária. "Grande esperança malogra­da", murmurou furiosamente. "Um pouco de pedra na mesma rua. Bombástico é o que você é. Abelhudo, im­pertinente ..."

Em seguida lembrou-se, tarde demais, de haver es­quecido o Grimmelshausen no clube.

Diabo! exclamou entre dentes, estacando em sua marcha para dar maior ênfase à expressão. Diabo! Praga dos infernos!

Venderia a casa de Londres: estava decidido. Já de volta a ela, sob o toldo, encolhido ao lado da máquina de vender cigarros, esperando que amainasse aquele agua­ceiro, tomara aquela grave decisão. O valor dos imóveis em Londres tinha subido de maneira desproporcionada. Ele ouvia falar nisso em toda parte. Muito bem. Venderia a casa e, com uma parte do dinheiro que obtivesse, com­praria um chalé nos Cotswolds. Em Burfold? Não, o trá­fego era muito intenso. Steeple Aston, esse era o lugar. Nele fixaria residência como pessoa afastada do mundo, homem um tanto excêntrico, divagador, mas dotado de dois ou três hábitos apreciáveis, como falar sozinho en­quanto caminhava pelas calçadas. Talvez antiquado. Mas quem não o seria nos dias de hoje? Ultrapassado, mas fiel a seu tempo. Em certos momentos, afinal, todos os homens fazem suas opções: andaria para a frente ou para trás? Nada havia de desonroso em não ser tangido por qualquer aragem moderna. É preferível ter mérito, entrin­cheirar-se, ser um carvalho de sua geração. E se Ann quisesse voltar, bem, ele lhe mostraria a porta da rua.

Ou não mostraria, conforme... bem... conforme as condições em que ela quisesse voltar.

Consolado por essas visões, Smiley chegou à King's Road, parando na calçada como se a fosse atravessar. De ambos os lados havia alegres boutiques. À sua frente, a Bywater Street, um beco sem saída que tinha exatamente cento e vinte metros de comprimento. Quando ele viera morar ali, aqueles chalés georgianos possuíam um discreto e singelo encanto; jovens casais conseguiam viver ali com quinze libras por semana, tendo um inquilino no porão, e não pagando qualquer imposto por causa disso. Agora, as janelas inferiores eram protegidas por telas de aço, e três carros para cada casa amontoavam-se no meio-fio. Smiley passou-os em revista por uma questão de velho hábito, reparando os que lhe eram familiares e os que não conhecia. Entre os últimos, notou os que possuíam antenas e espelhos extras, os que eram furgões, de que os olheiros tanto gostam. Em parte ele assim procedeu como se esti­vesse fazendo um teste de memória, um jogo particular de Kim[5], para preservar a mente da atrofia da condição de aposentado, precisamente como em outros tempos deco­rava os nomes das lojas, no ônibus que seguia seu trajeto rumo ao Museu Britânico, do mesmo modo como sabia quantos degraus tinha cada lance da escada de sua casa, ou em que sentido se abria cada uma das doze portas que ela tinha.

Smiley encontrava, porém, outra razão para isso: o medo, o medo secreto que acompanha todos os profis­sionais até o túmulo, o medo de que, um belo dia, emer­gindo de um passado tão complexo que ele próprio não seria capaz de recordar-se de todos os inimigos que poderia ter feito, um desses inimigos o descobrisse e viesse exigir prestação de contas.

No extremo da rua, uma vizinha estava passeando com seu cão. Vendo Smiley, ergueu a cabeça para dizer alguma coisa, mas ele não tomou conhecimento da moça, sabendo que a indagação seria a respeito de Ann. Atra­vessou a rua. Sua casa estava às escuras, e as cortinas encontravam-se como as tinha deixado. Subiu os seis de­graus que levavam à porta da frente. Desde a partida de Ann, a faxineira também se afastara e somente Ann tinha a chave dessa porta. Havia duas fechaduras, um ferrolho Banham e outro Chubb Pipekey, além de duas cunhas que ele mesmo havia feito, de carvalho, cada qual do tamanho de uma unha de polegar, que eram introduzidas no dintel, acima e abaixo do ferrolho Banham. Um resquício dos tempos em que fazia trabalhos de campo. Recentemente, sem mesmo saber por quê, recomeçara a usá-las. Talvez não quisesse que Ann o colhesse de surpresa. Encontrou uma de cada vez, tateando-as com as pontas dos dedos. Terminada essa rotina, deu volta ao ferrolho, abriu a porta e sentiu a correspondência, que chegava ao meio-dia, des­lizar sobre o tapete.

O que deveria receber? German Life and Letters? Philology? Sim, Philology, concluiu. Já estava atrasada. Acendendo a luz do saguão, curvou-se e passou os olhos na correspondência. "Conta entregue", do alfaiate, um terno que não havia mandado fazer, mas suspeitava ser um dos que estariam enfeitando o amante de Ann; a conta de gasolina de uma garagem, de Henley (mas que estariam eles fazendo em Henley, pensou Smiley, no dia 9 de ou­tubro?); uma carta do banco, referente à permissão para descontar um cheque em favor de Lady Ann Smiley, numa agência do Midland Bank, de Immingham. "Que diabo estariam eles fazendo em Immingham?", indagou ao do­cumento. "Quem já teria tido um caso amoroso em Imming­ham, pelo amor de Deus? E onde ficava Immingham?"

Ainda estava pensando nesse problema quando repa­rou num guarda-chuva desconhecido, que estava no porta-guarda-chuvas. Era de seda e tinha um cabo de couro, costurado, e aro de ouro, sem qualquer inicial. Passou-lhe pela mente a seguinte reflexão, com uma rapidez incapaz de ser medida no tempo: desde que o guarda-chuva estava seco, deveria ter sido colocado ali antes das seis horas, quando começou a cair a chuva. E também não havia umidade no porta-guarda-chuvas. E o guarda-chuva era elegante, com a ponteira muito pouco arranhada, embora não fosse novo. Por conseguinte, pertencia a uma pessoa ágil, até mesmo jovem, como o último namorado de Ann. Mas de que modo o dono desse guarda-chuva sabia da existência das cunhas, conhecia o jeito de recolocá-las em seu lugar depois de haver entrado na casa? E como tivera presença de espírito e pusera a correspondência de encon­tro à porta, sem dúvida depois de nela mexer e de a ler? Era muito provável que também conhecesse Smiley. Não era um amador, mas um profissional como ele, tendo tra­balhado durante algum tempo muito chegado a ele, co­nhecendo sua "letra", como se diz na gíria profissional.

A porta da sala de visitas estava entreaberta. Smiley empurrou-a um pouco mais, de mansinho, e indagou:

— É Peter?

Através da abertura da porta, divisou dois sapatos de camurça, displicentemente apontando de uma das extremidades do sofá.

— Se eu fosse você, George, meu velho, não tiraria o casaco — falou uma voz cordial. — Temos muito que andar.

Cinco minutos depois, metido num imenso sobretudo de viagem marrom, presente de Ann e o único que não estava molhado, George Smiley se viu sentado, de mau humor, no banco do carro esporte extremamente ventoso de Peter Guillam, que o estacionara numa praça vizinha. Seu destino era Ascot, lugar famoso por suas mulheres e seus cavalos. E talvez menos famoso pelo fato de nele residir Oliver Lacon, que servia no Gabinete do ministro, na qualidade de consultor de várias comissões mistas e de cão de guarda em matéria de informações. Ou então, como Guillam o definira de maneira menos reverente, era o prefeito-chefe de Whitehall.

 

Enquanto permanecia em sua cama, acordado, em Thursgood, Bill Roach ficou pensando nas últimas mara­vilhas que haviam acontecido com ele durante sua vigilân­cia diária do bem-estar de Jim. Na véspera, Jim espantara Latzy. Na quinta-feira, furtara a correspondência de Miss Aaronson. Ela ensinava violino e religião. Roach a tratava bem porque ela era afetuosa. Latzy, o ajudante do jardi­neiro, era um PD, dissera a inspetora, gente que não falava inglês, ou falava muito mal esse idioma. PD queria dizer "Pessoa Diferente", declarou a inspetora, ou, de qualquer maneira, que não tinha participado da guerra. Mas na véspera Jim falara com Latzy pedindo seu auxílio para o clube dos automóveis, e eles conversaram em PD, ou na língua que os PDs falavam. E Latzy crescera, na hora, uns trinta centímetros.

A questão da correspondência de Miss Aaronson era mais complexa. Havia dois envelopes no aparador da sala dos professores, na quinta-feira pela manhã, depois do serviço religioso, quando Roach foi até lá buscar os ca­dernos de sua turma: uma carta endereçada a Jim e outra a Miss Aaronson. A de Jim estava datilografada. A sala dos professores estava vazia quando Roach fez essas observações. Apanhou os cadernos e ia calmamente saindo da sala quando nela entrou Jim pela outra porta, rubro e ofegante, vindo de sua caminhada matinal.

— Vai indo, Jumbo, a campainha já tocou — disse ele, inclinando-se sobre o aparador.

— Sim, professor.

— Que tempo horrível, não é, Jumbo?

— É mesmo.

— Então vai andando.

Chegando à porta, Roach voltou-se e olhou para Jim, novamente ereto, inclinado para trás a fim de abrir a edi­ção matutina do Daily Telegraph. O aparador estava vazio: os dois envelopes haviam desaparecido.

Teria Jim escrito para Miss Aaronson e mudado de opinião? Talvez pedindo-a em casamento? Outra idéia ocorreu a Bill Roach. Jim havia recentemente comprado uma velha máquina de escrever, uma Remington em peti­ção de miséria, que consertara com suas próprias mãos. Teria nela datilografado sua própria carta? Seria tão soli­tário a ponto de escrever cartas para ele mesmo e também furtar as dos outros? Roach adormeceu.

 

Guillam dirigia o carro de maneira apática, mas a toda velocidade. O perfume do outono impregnava o auto­móvel, e a lua cheia iluminava o céu, ao passo que man­chas de neblina pairavam sobre os descampados. O frio era irresistível. Smiley ficou imaginando que idade teria Guillam e calculou que seria homem de seus quarenta anos. Todavia, sob aquela luz poderia ser um estudante universitário a remar nas águas do rio: fazia as mudanças com longos e harmoniosos movimentos, como se estivesse passando a alavanca através da água. De qualquer maneira, refletiu Smiley irritadamente, o carro era juvenil demais para Guillam. Tinham atravessado a floresta de Runnymede em disparada, e começavam a subir a colina de Egham. Estariam rodando há uns vinte minutos, e Smiley fizera uma dúzia de perguntas a Guillam, sem receber resposta que valesse um centavo. Agora, principiava a ser tomado de um receio importuno, ao qual se recusava a atribuir um nome familiar.

— Causa-me surpresa que eles não tenham despe­dido você com o resto de nós declarou Smiley, num tom não muito agradável, aconchegando-se mais nas abas do sobretudo. Você tinha todas as qualificações: era bom de trabalho, leal, discreto.

Eles me encarregaram de cuidar dos caçadores de escalpos.

Meu Deus! exclamou Smiley, estremecendo. E levantando a gola do casaco ao redor do volumoso queixo, começou a lembrar-se daquilo em vez de evocar outras recordações mais perturbadoras: Brixton e o lúgu­bre edifício de uma escola, de pedra, que servia de sede para os caçadores de escalpos. O nome oficial deles era Viagem. Tinham sido criados por Control, por sugestão de Bill Haydon, nos dias pioneiros da guerra fria, quando os assassinatos e os seqüestros, as chantagens-relâmpago constituíam moeda corrente. E seu primeiro chefe fora indicado por Haydon. Formavam um pequeno grupo, cerca de doze homens, e estavam lá para cumprir tarefas do tipo "atacar e fugir", sujas ou arriscadas demais para os residentes que serviam no exterior. Um bom trabalho de informação, Control sempre havia pregado, seria gradativo e baseado numa espécie de brandura. Os caçadores de escalpos eram exceção à regra. Não eram de trabalhar gradativamente, nem brandamente. Refletiam, portanto, mais o temperamento de Haydon do que o modo de ser de Control. E agiam individualmente, motivo por que fica­vam alojados por detrás de sua parede de pedra, encimada de cacos de vidro e arame farpado.

Eu perguntei se lateralismo significa alguma coisa para você.

Decerto que não.

É a doutrina que está valendo. Nós costumávamos subir e descer. Agora vamos em frente.

Que significa isso?

No seu tempo, o Circus funcionava em bases regionais: a África, os satélites, a Rússia, a China, o su­deste da Ásia. Cada região era chefiada pelo seu próprio feiticeiro. Control ficava sentado no céu e manobrava os cordões. Você não se lembra?

Isso me faz recordar coisas muito antigas.

Bem. Hoje em dia tudo possui caráter operacio­nal e fica sob a responsabilidade de pessoas individuais. Chama-se Estação de Londres. As regiões acabaram, e o lateralismo é que está imperando. Bill Haydon é o chefe da Estação de Londres, tendo Roy Bland como seu ime­diato, ao passo que Toby Esterhase fica correndo de um lado para o outro como um poodle. Eles constituem um serviço dentro do serviço. Compartilham seus próprios segredos e não se misturam com a plebe. Isso nos torna muito mais seguros.

Parece uma idéia muito boa disse Smiley cau­telosamente, não tomando conhecimento da insinuação.

Como as lembranças recomeçaram a fervilhar em sua mente, foi tomado de um extraordinário sentimento: estava vivendo duas vezes aquele dia, primeiro com Martindale, no clube, agora, novamente, ao lado de Guillam, num so­nho. Passaram por um bosque de pinheiros recém-plantados. O luar abria estrias entre as árvores.

Smiley começou a falar:

Existe alguma palavra de... — Em seguida, in­dagou num tom mais especulativo: Que notícias você me dá de Ellis?

Está de quarentena disse Guillam laconica­mente.

Sem dúvida. Certamente. Eu não tenho a intenção de me intrometer. Mas ele pode locomover-se? Ele se res­tabeleceu? Consegue andar? Sei que essas coisas de coluna são muito delicadas.

Dizem que ele vai indo razoavelmente bem. E como vai Ann? Ainda não tinha perguntado por ela.

Bem. Muito bem.

Estava escuro como breu no interior do carro. Eles tinham saído da estrada e estavam rodando sobre cascalho. Negros muros de folhas de roseiras de cada lado. Apare­ceram umas luzes e, em seguida, uma alta varanda e as linhas fuseladas de uma casa de forma irregular ergueram-se acima das copas das árvores. A chuva havia parado. Todavia, quando Smiley saiu do carro e respirou aquele ar fresco, ouviu em volta o gotejar incessante das folhas molhadas.

"É isso mesmo", pensou ele, "chovia quando vim até aqui antes. O nome de Jim Ellis estava nas manchetes dos jornais."

 

Tinham lavado as mãos e inspecionado, no vestiário que tinha um pé-direito alto, o equipamento de alpinismo de Lacon, sem gosto e atirado sobre uma cômoda Sheraton. Estavam sentados em semicírculo, rodeando uma ca­deira vazia. Aquela casa era a mais feia de todas, num raio de vários quilômetros, e Lacon a escolhera por causa de uma canção. A Berkshire camelot, assim a chamara certa vez, explicando a coisa a Smiley, "construída por um milionário abstêmio". A sala de visitas era grande, com uns vitrais de seis metros de altura e uma galeria de pinho, acima da entrada. Smiley reparou nas coisas que lhe eram familiares: um piano de armário, coberto de par­tituras de músicas, velhos retratos de indivíduos envergando becas e um monte de convites impressos. Procurou o remo da Universidade de Cambridge, encontrando-o jogado so­bre a lareira. Ardia o mesmo fogo, pequeno demais para a enorme grelha. Uma atmosfera de penúria predominava sobre a de opulência.

Você está gostando de seu afastamento, George? indagou Lacon, como se estivesse falando bem junto ao ouvido de uma tia surda. Você não sente falta do contato humano? Eu acho que sentiria. O trabalho é um velho companheiro da gente.

Lacon era um homem comprido, desgracioso e com um rosto de menino: o bastião da Igreja e do serviço de espionagem, o talento do Circus, como Haydon havia dito. O pai dele era dignitário da Igreja da Escócia e sua mãe era de linhagem nobre. Por vezes, os mais elegantes jor­nais de Londres escreviam a seu respeito, chamando-o de "novo estilo", porque era jovem. A pele do rosto de Lacon estava esfolada, porque ele se barbeara apressadamente.

Eu acho que vou indo muito bem, obrigado disse Smiley polidamente. E com o propósito de falar com mais liberdade, acrescentou: Sim. Sem dúvida. E você? Vai tudo bem com você?

Não houve grandes mudanças no meu caso. Tudo muito regular. Charlotte obteve a bolsa de estudos Rhodes, o que foi muito agradável.

— Ótimo.

E sua esposa? Tudo "legal" com ela?

As expressões que Lacon empregava também eram as de um menino.

Ela está muito bonita, obrigado disse Smiley, tentando galhardamente responder à altura.

Todos ficaram observando as portas duplas. Ouviram, a distância, o ruído de passos no piso de cerâmica. Smiley percebeu que se tratava de duas pessoas, ambas do sexo masculino. As portas abriram-se e o vulto de um homem de alta estatura apareceu em silhueta. Durante uma fração de segundo Smiley vislumbrou um outro homem por de­trás dele, moreno, baixo e atento. Mas somente o primeiro entrou na sala, e as portas foram cerradas por mãos in­visíveis.

Passe a chave na porta, por favor pediu Lacon. Eles ouviram o estalido da chave. Você conhece Smiley, não é mesmo?

Creio que sim declarou o vulto ao começar sua longa caminhada em direção a eles, vindo daquela remota escuridão. Creio que ele me deu emprego, em certa ocasião. Não foi, Mr. Smiley?

A voz dele era suave como a fala arrastada de um sulino, mas tinha um sotaque das colônias. Ninguém se enganaria sobre isso.

Meu nome é Tarr. Ricki Tarr, de Penang.

Um lampejo vindo do fogo da lareira iluminou parte do sombrio sorriso e transformou um dos olhos daquele homem numa cavidade oca.

Eu era o garoto do advogado, o senhor se lembra? Ora essa, Mr. Smiley, o senhor trocou minhas primeiras fraldas.

E lá estavam todos os quatro de pé, Guillam e Lacon olhando para os dois como se fossem padrinhos deles, ao passo que Tarr apertou a mão de Smiley, uma, duas, três vezes, a terceira para os fotógrafos.

Como vai passando, Mr. Smiley? É um grande prazer vê-lo.

Soltando a mão de Smiley, afastou-se em direção à cadeira que lhe fora reservada, enquanto Smiley ficou a imaginar: sim, tudo poderia ter acontecido com Ricki Tarr. "Meu Deus", pensou ele, "há duas horas eu estava dizendo a mim mesmo que iria refugiar-me no passado!" Sentiu sede e achou que era de medo.

Dez anos? Doze? Naquela noite ele não teria noção do tempo. Uma das tarefas de Smiley, em outras épocas, consistia em aceitar ou vetar a admissão de recrutas: nin­guém era aceito sem sua aprovação nem treinado sem sua assinatura aposta no programa de treinamento. A guerra fria estava no auge; havia procura de caçadores de escalpos; as residências do Circus, no exterior, tinham recebido ordens de Haydon para que encontrassem pessoas ade­quadas. Steve Mackelvore, de Jacarta, apareceu trazendo Tarr. Mackelvore era um ex-professor, e trabalhava dis­farçado em agente de transporte de mercadorias. Desco­brira Tarr, embriagado e furioso, dando pontapés para todos os lados, procurando uma jovem chamada Rose, que o tinha abandonado.

Segundo a história contada por Tarr, ele estava liga­do a um grupo de belgas que fazia contrabando de armas entre as ilhas e o litoral. Não gostava dos belgas e estava farto de contrabandear armas e ainda furioso com eles porque lhe haviam roubado Rose. Mackelvore calculou que Tarr reagiria bem à disciplina e que era jovem o bastante para ser treinado no tipo de operações violentas realizadas pelos caçadores de escalpos, protegidos pelos muros do seu lúgubre edifício escolar, em Brixton. Após as habituais investigações, Tarr foi enviado a Cingapura para ser mais uma vez submetido a um teste e, em seguida, encaminhado ao Centro de Treinamento de Sarratt, para uma terceira inquirição. Nessa altura, Smiley entrara em cena, no papel de moderador, realizando com Tarr uma série de entre­vistas, algumas de caráter hostil.

O pai de Tarr era um advogado australiano que mo­rava em Penang, segundo parecia. A mãe dele, uma atriz de teatro de revista, mal paga, de Bradford, viera para o oriente com uma companhia teatral inglesa, antes da guerra. O pai de Tarr, Smiley se lembrava disso, tinha preocupações evangélicas e pregava sermões nas casas de oração do lugar. A mãe de Tarr possuía uma discreta ficha que revelava certos antecedentes criminais, mas o pai dele não sabia disso ou não se importava com o fato. Quando sobreveio a guerra, o casal saiu de Cingapura por causa do filho, que era um menino. Alguns meses depois, Cin­gapura caiu em poder do inimigo e Ricki Tarr começou sua educação no cárcere de Xanji, sob a supervisão dos japoneses. Em Xanji o pai dele pregava a caridade de Deus a todas as pessoas que encontrasse. E, se os japone­ses não o tivessem perseguido, seus companheiros de prisão teriam feito o mesmo em nome deles. Com a libertação da cidade, os três voltaram para Penang. Ricki tentou estudar direito, mas interrompia o curso com muita fre­qüência, e o pai atirou-lhe em cima alguns pregadores para que afastassem o pecado de sua alma a poder de pancada. Tarr fugiu para Bornéu. Aos dezoito anos, era contraban­dista de armas, recebendo paga integral e fazendo o diabo em torno das ilhas da Indonésia. Foi assim que Mackelvore o conheceu.

Depois de ter concluído o curso do Centro de Trei­namento, irrompeu uma situação de emergência na Malá­sia. Tarr foi novamente admitido como contrabandista de armas. Praticamente as pessoas que encontrou foram seus antigos amigos belgas. Viviam por demais atarefados em fornecer armas aos comunistas para que se preocupassem com onde ele havia estado, e andavam com falta de homens. Tarr realizou algumas entregas para eles a fim de denunciar seus contatos. Certa noite os embriagou, ma­tou a tiros quatro deles, incluindo Rose, e pôs fogo no barco dos homens. Deixou-se ficar na Malásia e fez mais alguns trabalhos antes de ser chamado de volta a Brixton, sendo treinado para participar de operações especiais no Quênia, ou, numa linguagem menos requintada, para caçar mau-mau[6] por dinheiro.

Depois do Quênia, Smiley quase o perdeu de vista, mas certos incidentes ficaram gravados em sua lembrança porque poderiam ter dado origem a escândalos, e Control teria de ser informado a esse respeito. Em 1964, Tarr foi enviado ao Brasil para fazer uma proposta de suborno direto a certo encarregado de compras de armas, que se sabia estar muito comprometido. Tarr entrou no assunto sem maiores rebuços e o funcionário, em pânico, informou tudo à imprensa. Tarr estava passando por holandês e ninguém perdeu a calma, exceto o serviço secreto holan­dês, que ficou furioso. Na Espanha, um ano depois, agindo conforme instruções de Bill Haydon, aplicou uma chanta­gem num diplomata polonês, e "queimou" o homem — co­mo diria um caçador de escalpos —, que se apaixonara por uma bailarina. A primeira safra foi boa, e Tarr foi elo­giado e recebeu uma gratificação. Mas quando voltou a servir-se novamente do polonês, este escreveu uma confissão a seu embaixador e atirou-se do alto de uma janela, encorajado ou não a proceder desse modo.

Em Brixton, costumavam dizer que Tarr era sujeito a acidentes. Guillam, pela expressão de seu rosto imaturo, mas que ia envelhecendo, enquanto todos estavam sentados em semicírculo em torno do débil fogo da lareira, cha­mou-o de coisas muito piores.

— Bem, acho que é melhor eu dar meu recado — disse Tarr num tom jovial, acomodando o corpo na ca­deira, muito à vontade.

 

Aconteceu mais ou menos há seis meses prin­cipiou Tarr.

Foi em abril comentou rispidamente Guillam. Vamos precisar as coisas, está bem? Precisar tudo.

Então foi em abril disse Tarr serenamente. As coisas andavam bastante calmas em Brixton. Creio que haveria meia dúzia de nós, de confiança. Pete Sembrini tinha chegado de Roma, Cy Vanhofer havia acabado de dar um golpe em Budapeste. Tarr deu um sorriso mali­cioso. — Pingue-pongue e sinuca na sala de espera de Brixton. Não era isso mesmo, Mr. Guillam?

Foi uma temporada idiota.

De repente, sem mais nem por quê continuou Tarr —, chegou uma requisição-relâmpago da agência de Hong Kong. Havia uma delegação soviética na cidade, de baixo nível, procurando aparelhos elétricos para o mercado de Moscou. Um dos delegados estava sempre metido em boates. Chamava-se Boris, Mr. Guillam conhece os deta­lhes. Não tinha ficha. Mandaram vigiá-lo durante cinco dias, e a delegação iria demorar-se mais doze. A coisa era quente demais, politicamente, para os rapazes de Hong Kong lida­rem com ela. Eles pensaram que uma abordagem-relâmpago seria capaz de dar certo. A safra não prometia ser assim tão especial, e daí? Talvez nós a comprássemos pelo preço do mercado, não é certo, Mr. Guillam?

Comprar pelo preço do mercado significa vender ou trocar alguma coisa com outro serviço secreto: um comér­cio de desertores mal pagos, com o qual lidam os caçadores de escalpos.

Não tomando conhecimento de Tarr, Guillam decla­rou o seguinte:

O sudeste da Ásia era a área de Tarr. Ele estava sem nada que fazer, por isso determinei que fosse realizar uma investigação no local e apresentasse um relatório por telegrama.

Cada vez que outra pessoa dizia alguma coisa, Tarr mergulhava num sonho. Seu olhar se fixava em quem esti­vesse falando, seus olhos cobriam-se de névoa e havia uma pausa, como se ele recobrasse os sentidos antes de reco­meçar sua história.

Eu fiz o que Mr. Guillam determinou disse ele. Sempre procedo assim, não é fato, Mr. Guillam? Sou realmente um bom rapaz, mesmo quando impulsivo.

Tarr seguiu de avião na noite seguinte, 31 de março, um sábado, com um passaporte australiano que o descrevia como vendedor de automóveis. E levou dois passaportes suíços, em branco, escondidos no forro da mala. Eram documentos para casos de emergência, e seriam preenchidos se as circunstâncias o exigissem: um para Boris e o outro para ele próprio. Marcou um encontro, num automóvel, com o funcionário de Hong Kong, não muito longe do hotel onde se hospedou, o Golden Gate, em Kowloon.

Nessa altura, Guillam inclinou-se para Smiley e mur­murou:

Thesinger, o palhaço peludo. Antigo major dos Carabineiros Africanos do Rei. Nomeação de Percy Alleline.

Thesinger apresentou um relatório sobre os movimen­tos de Boris, baseado em observações de uma semana.

Boris era um verdadeiro mistério disse Tarr.

Não consegui entender aquele homem. Vinha embriagando-se todas as noites, sem interrupção. Estava há uma semana sem dormir, e os olheiros de Thesinger já andavam com as pernas bambas. Boris acompanhava a delegação o dia inteiro, enquanto ela inspecionava fábricas. E parti­cipava dos debates, portando-se como um jovem e bri­lhante funcionário soviético.

Que idade tinha ele? indagou Smiley.

Guillam interveio, dizendo que o pedido de visto do passaporte de Boris dizia que ele tinha nascido em Minks, em 1946.

À noite ele voltava para a Hospedaria Alexandra — continuou Tarr —, uma velha casa na zona norte, onde a delegação se havia metido. Fazia as refeições com o grupo. Em seguida, lá pelas nove horas, saía de mansi­nho por uma porta lateral, tomava um táxi e ia para as casas noturnas mais conhecidas, do lado de Kowloon. O ponto que ele preferia freqüentar era o Cat's Cradle, na Queen's Road, onde pagava drinques para os negociantes do bairro e se portava como um grão-senhor. Ficava por aí até meia-noite. Do Cat's Cradle ele cortava pelo túnel de volta a Wanchai, para um bar chamado Angelika, onde as bebidas eram mais baratas. Sozinho. O Angelika é um bar que tem um inferninho no subsolo, freqüentado por turistas e marinheiros. E Boris parecia gostar disso. Tomava três ou quatro drinques e guardava os recibos. Bebia principalmente aguardente, mas, de vez em quando, tomava vodca para variar. Tivera um caso com uma garota eurasiana, e os olheiros de Thesinger foram atrás dela e lhe compraram a história. Ela contou que Boris era um solitário e que ficava sentado na cama, lamentando-se porque a mulher não tinha talento à altura do seu. Aquilo era uma verdadeira penetração nas linhas do inimigo — acrescentou Tarr sarcasticamente no momento em que Lacon avançou ruidosamente em direção ao fogo tênue da lareira e o atiçou, aproximando uma brasa de outra, avivando-as. — Os olheiros de Thesinger tinham sido man­dados para a cama, com um copo de leite. Não queriam saber das coisas.

Às vezes, enquanto Tarr falava, seu corpo permanecia absolutamente imóvel, como se estivesse ouvindo a pró­pria voz, reproduzida para ele mesmo escutar.

— Boris chegou dez minutos depois de mim — pros­seguiu Tarr — e veio acompanhado de uma loura grandalhona, uma sueca, que trazia uma garota chinesa a reboque. Como estivesse escuro, eu me mudei para uma mesa vizi­nha à deles. Pediram uísque. Boris pagou a despesa e eu fiquei sentado a uns dois metros de distância, observando aquele grupo nojento e ouvindo sua conversa. A garota chinesa ficou de boca fechada, a sueca foi quem mais falou. Eles conversavam em inglês. A sueca perguntou a Boris onde ele estava hospedado e Boris disse que estava no Excelsior, uma deslavada mentira, porque estava hospe­dado na Alexandra, com o resto do pessoal. Muito bem: a Hospedaria Alexandra está no fim da lista dos hotéis, e o Excelsior soava melhor. Por volta de meia-noite, o grupo se separou. Boris declarou que precisava voltar para o hotel porque teria muito que fazer no dia seguinte. Isto foi a se­gunda mentira, porque ele não ia voltar para o hotel, mais do que... quem foi mesmo?, o médico, sim, do livro O mé­dico e o monstro[7], que se fantasiava e ia para a farra. Então quem era Boris?

Durante breves instantes, ninguém ajudou Tarr.

Hyde — disse Lacon, olhando para suas mãos vermelhas e esfregando-as. Sentando-se novamente, cru­zou as mãos no colo.

— Hyde -— repetiu Tarr. — Obrigado, Mr. Lacon. Eu sempre o considerei versado em letras. Então eles pagaram a conta e eu fui caminhando até Wanchai para lá estar antes que ele chegasse ao Angelika. A essa altura eu tinha certeza de que andava fazendo a jogada errada.

E Tarr enumerou cuidadosamente suas razões, com seus dedos longos e secos: primeiro, ele nunca tinha visto uma delegação soviética que não contasse com um par de gorilas, uma guarda de segurança cujo papel seria manter os rapazes afastados da boa vida. Como Boris podia escapulir uma noite atrás da outra? Em segundo lugar, não gostava do jeito com que ele sacava seu dinheiro estrangeiro. Para um funcionário soviético isso seria contra a natureza, insistiu Tarr. Um funcionário soviético não tinha de forma alguma esse maldito dinheiro. E, se tivesse, compraria bugigangas para a mulher. Em terceiro lugar, não gostava do jeito de mentir que ele tinha. Era muito solto de língua, demais para ser decente.

Por isso Tarr ficou à espera de Boris no Angelika e, sem dúvida, passada uma meia hora, Mr. Hyde apareceu, desacompanhado. Sentou-se e pediu um drinque. Era a única coisa que ele fazia. Ficar sentado e beber como uma esponja.

Mais uma vez coube a Smiley ser gratificado com o calor do charme de Tarr:

Então o que há, Mr. Smiley? o senhor me enten­de? Eu estava observando pequenas coisas declarou ele, ainda dirigindo-se a Smiley. A maneira como ele esco­lhia onde sentar-se. O senhor pode acreditar em mim. Se nós estivéssemos naquele lugar não poderíamos ter sentado numa cadeira melhor do que Boris. Ele contava com as duas saídas e com a escada; descortinava uma ótima visão da entrada principal e de tudo que se passava, como também estava do lado direito e protegido pela parede do lado esquerdo. Boris era um profissional, Mr. Smiley, não havia a menor dúvida quanto a isso. Estava esperando algum contato, talvez operando com uma caixa postal, ou farejando à procura do passe de algum trouxa como eu. Agora escutem isso: uma coisa é "queimar" um agen­te comercial mal pago, mas outra bem diferente é bater pernas atrás de um cobra treinado num centro de espiona­gem. Não é isso mesmo, Mr. Guillam?

Desde a reorganização dos caçadores de escalpos respondeu Guillam —, eles não têm poderes para andar atrás de agentes duplos. Tudo deve ser comunicado a Londres, logo que essas pessoas forem localizadas. Os rapazes receberam uma ordem de Bill Haydon nesse sen­tido, de caráter permanente. Se houver até mesmo um indício de oposição, devem abandonar o terreno.

E Tarr acrescentou para que Smiley o ouvisse de modo especial:

Com o lateralismo, nossa autonomia foi reduzida ao mínimo. E eu já estive em jogadas mais do que duplas confessou Tarr num tom de virtude ofendida. Acre­dite em mim, Mr. Smiley, eles são uma cambada de vermes.

Estou certo de que são isso mesmo afirmou Smiley, ajustando os óculos.

Tarr telegrafou para Guillam, dizendo "não há ven­das", e reservou passagem aérea de volta. Depois foi fazer umas compras. Mas como seu avião só sairia na quinta-feira, pensou, antes de deixar a cidade, apenas para fazer jus às despesas, bem que poderia invadir o quarto de Boris.

Alexandra é uma casa velha, um verdadeiro par­dieiro em ruínas, perto da Marble Street, rodeado de va­randas de madeira. Quanto às fechaduras, elas cedem quando vêem gente se aproximando.

Por conseguinte, num abrir e fechar de olhos Tarr estava dentro do quarto de Boris, de costas para a porta, esperando que sua vista se habituasse com o escuro. Ainda estava ali, de pé, quando uma mulher lhe dirigiu a palavra em russo, sonolenta, deitada na cama.

Era a mulher de Boris explicou Tarr. Estava chorando. Eu irei chamá-la de Irina, está bem? Mr. Guil­lam conhece todos os detalhes.

Smiley já estava fazendo uma objeção. Era impos­sível que ela fosse mulher de Boris. O Centro jamais permitiu que um casal saísse junto da Rússia, na mesma ocasião. Uma pessoa ficava no país, e a outra se afas­tava...

Concubinato declarou Guillam secamente. Casamento não oficial, mas de caráter permanente.

Há muitas ligações que são o contrário, hoje em dia disse Tarr, num inopinado esgar de riso dirigido a ninguém. E Guillam lançou-lhe outro olhar frio.

 

Desde o início da reunião, Smiley assumira, de modo geral, um ar de inescrutabilidade budista que nem a his­tória de Tarr nem as raras intervenções de Lacon ou de Guillam poderiam fazê-lo abandonar. Ficou recostado na cadeira, com as pernas curtas dobradas, a cabeça inclinada para a frente e as mãos gordas cruzadas sobre o generoso ventre. Seus olhos empapuçados se tinham fechado por detrás das grossas lentes, e o único movimento que fazia era o de limpar os óculos com o forro de seda da gravata. Quando assim procedia, seus olhos, úmidos e expostos, adquiriam um aspecto que embaraçava as pessoas que o surpreendessem nesse gesto. Sua intervenção, porém, e o tom professoral e vazio que veio em seguida à explicação de Guillam agiram como advertência para o resto do grupo, resultando num arrastar de cadeiras e num pigarrear.

Lacon adiantou-se, dizendo:

George, quais são seus hábitos em matéria de bebida? Posso oferecer-lhe um uísque ou qualquer outra coisa? Ofereceu o drinque de maneira solícita, como se fosse aspirina para uma dor de cabeça, e explicou: Eu ia me esquecendo de dizer que George gosta de um trago. Vamos. Afinal estamos no inverno. Um trago de alguma coisa?

Não, obrigado disse Smiley.

Teria gostado de tomar um pouco de café, mas, por algum motivo, não ousou pedi-lo. E também lembrou-se de que aquele café era horrível.

E você, Guillam?

Também Guillam achou que era impossível aceitar qualquer bebida alcoólica de Lacon. Este nada ofereceu a Tarr, que prosseguiu imediatamente sua narrativa.

Tarr aceitou calmamente a presença de Irina. Tinha preparado um plano de retirada antes de entrar no hotel e começou a representar sua comédia. Não sacou do re­vólver, não tapou a boca da mulher com a mão, não fez qualquer dessas tolices, conforme se expressou. Disse que tinha vindo falar com Boris sobre um assunto particular, que sentia muito mas ia ficar ali sentado até que ele apa­recesse. Em bom australiano, como assentava a um ofen­dido vendedor de automóveis vindo de tão longe, explicou que embora não quisesse intrometer-se na vida de ninguém, preferia ir para o inferno do que admitir que sua garota e seu dinheiro fossem furtados por um russo meio sujo, que não tinha recursos para pagar seus próprios prazeres. E falou sobre uma série de abusos, mas conseguiu manter um tom de voz tranqüilo. Em seguida, ficou à espera do que iria fazer.

Foi assim que tudo começou disse Tarr. Eram onze e trinta da noite quando ele entrou no quarto de Boris. Dele saiu à uma e trinta da madrugada, prometendo encontrar-se com Irina na noite seguinte. A essa altura, a situação já era inteiramente outra.

Nós nada fizemos de impróprio, Mr. Smiley. Tome nota. Ficamos apenas amigos acrescentou.

Durante um momento, aquele brando sorriso escar­ninho deu a impressão de que pretendia conhecer os mais íntimos segredos de Smiley.

Sem dúvida assentiu Smiley num tom monó­tono.

Nada havia de exótico na presença de Irina em Hong Kong, e nenhuma razão para que Thesinger tivesse sabido disso, Tarr explicou. Ela era, de pleno direito, membro da delegação. Era técnica em compras têxteis.

Pense apenas nisso. Irina era muito mais bem qualificada do que o homem dela, se assim posso chamá-lo. Uma mulher simples, um pouco intelectualizada demais para meu gosto, mas era jovem e tinha um sorriso bonito mesmo, isto é, quando parava de chorar acrescentou Tarr, enrubescendo de maneira estranha. Era uma boa companhia insistiu ele, como se estivesse argumentando contra a opinião generalizada. Quando Mr. Thomas, de Adelaide, entrou na vida dela, ela estava na última lona, preocupando-se com o que haveria de fazer com o demônio do Boris. Pensou que eu fosse o arcanjo Gabriel, a quem poderia falar sobre o marido, sem que soltasse os cachorros atrás dela. Não tinha amigos na delegação e ninguém em quem pudesse confiar em Moscou. Assim ela disse. Quem nunca passou por uma situação dessas não sabe o que significa uma pessoa fazer tudo para pre­servar uma relação meio destruída, enquanto vive sempre se deslocando de um lugar para outro.

Smiley mais uma vez mergulhara em profundo transe.

— Um hotel atrás do outro — continuou Tarr —, uma cidade depois de outra, e sem poder falar com natura­lidade com as pessoas, retribuir o sorriso de um estranho; foi assim que ela descreveu a existência que levava. Irina considerava aquilo uma situação insuportável, Mr. Smiley, e havia um bocado de coisas atiradas pelo quarto e uma garrafa de vodca, vazia, ao lado da cama, como prova de tudo. Por que não poderia ela ser como as pessoas nor­mais? Por que não teria o direito de apreciar o sol do bom Deus como o resto de nós? Ela gostava de ver coisas, gostava das criancinhas estrangeiras. Por que não poderia ter um filho? Ficava sempre dizendo: "Uma criança nas­cida em liberdade, e não no cativeiro. Eu sou uma criatura alegre, Thomas. Eu sou uma mulher normal, sociável. Eu gosto de gente. Por que terei de iludir as pessoas, se eu gosto delas?" Depois ela disse que o problema era ter ela sido escolhida, muito tempo antes, para um trabalho que a congelava como se fosse uma velha, afastando-a de Deus. Por isso é que tinha tomado "umas e outras" e estava chorando. A essa altura, esqueceu-se do marido, por assim dizer, e estava se desculpando por tomar mais um trago. — Tarr vacilou novamente, acrescentando: — Dizem que querer é poder, e Irina tinha poder, possuía qualidades. Ela talvez quisesse obter as coisas a todo custo, mas era capaz de se dar completamente. Eu percebo a generosidade de uma mulher ao primeiro encontro, Mr. Smiley. Tenho talento para isso. E aquela mulher era feita para ser gene­rosa. Meu Deus! Como a gente define uma intuição? Cer­tas pessoas são capazes de sentir o cheiro da água no subsolo...

Ele parecia estar à espera de alguma prova de com­preensão.

— Eu entendo — disse Smiley, e ficou puxando o lobo da orelha.

Observando Smiley com uma expressão de estranha dependência, Tarr guardou silêncio durante mais algum tempo. Finalmente, disse o seguinte:

— Cancelei meu vôo e mudei de hotel.

Smiley arregalou os olhos abruptamente, indagando:

— O que o senhor mandou dizer a Londres?

— Nada.

— E por quê?

— Porque ele é um louco varrido — declarou Guillam.

— Talvez eu pensasse que Mr. Guillam iria dizer: "Volte para Londres, Tarr" — respondeu ele, lançando para Guillam um olhar de quem sabe das coisas, olhar que não foi retribuído.

— Há muito tempo — prosseguiu Tarr —, quando eu era um menino pequeno, cometi um erro e entrei numa armadilha feita por uma mulher.

— Ele fez o papel de burro com uma garota polo­nesa — disse Guillam. — Percebeu generosidade nela também.

— Eu sabia que Irina não estava preparando nenhu­ma armadilha de amor. Mas como haveria de esperar que Mr. Guillam acreditasse em mim? Não havia jeito.

— Contou o caso a Thesinger? — indagou Smiley.

— Deus me livre!

— E que razões apresentou a Londres para adiar seu vôo?

— Eu deveria seguir no avião de quinta-feira. Ima­ginei que ninguém, aqui, sentiria falta de mim até a terça-feira seguinte. Especialmente pelo fato de Boris ser um bobo que nada valia.

— Ele não apresentou razões — comentou Guillam —, e as secretárias registraram sua ausência, sem licença, na segunda-feira. Ele infringiu todos os artigos do regula­mento e alguns que nem constam do regulamento. Lá pelos meados da semana até o próprio Bill Haydon já estava em pé de guerra. E eu tinha de ouvir tudo — acrescentou com azedume.

Tarr e Irina encontraram-se na noite seguinte. E tornaram a ver-se na outra noite. O primeiro encontro deles foi num café, e foi bem difícil: tomaram muito cuidado para não ser vistos, porque Irina estava tremendo de medo, não exatamente do marido, mas da guarda de segurança da delegação, dos gorilas, como Tarr os chamava. Recusou-se a beber. Na segunda noite, Tarr ainda continuava à espera da generosidade de Irina. Tomaram um bondinho que sobe o pico Vitória, imprensados entre matronas americanas, de meias brancas e sombra nos olhos. Na terceira noite Tarr alugou um carro e a levou a passeio pelos Novos Territórios, até que ficou muito nervoso por estar tão perto da fronteira chinesa. E tiveram de arranjar algum escon­derijo. Apesar disso, ela apreciou muito o passeio, os vivei­ros de peixes e os arrozais. Tarr também gostou do passeio, porque veio provar aos dois que não estavam sendo vigiados. Mas Irina ainda "não se tinha aberto", conforme disse ele.

— Agora vou contar uma coisa estranha como o diabo sobre essa fase do caso. No começo, fiz o papel de Thomas, o australiano, sem hesitar. Contei uma porção de histórias sobre a fazenda de criação de carneiros que tinha, fora de Adelaide, e sobre um grande prédio, na rua principal da cidade, com uma fachada de vidro e um anúncio luminoso no qual se lia "Thomas". Ela não acreditou em mim. Ficou assentindo com a cabeça e dei­xou o tempo correr, esperando que eu abrisse o jogo. E dizia "Sim, Thomas", "Não, Thomas", mudando de as­sunto.

Na quarta noite, Tarr a levou de carro até as colinas que dominam a praia do Norte, e Irina confessou: tinha-se apaixonado por ele, trabalhava no Centro de Moscou com o marido. E declarou ter certeza de que Tarr também pertencia ao mesmo ofício que eles. Era capaz de dizer isso pela vivacidade dele e pelo jeito que ele tinha de "ouvir com os olhos".

— Irina concluíra que eu era coronel do serviço secreto inglês — declarou Tarr, sem esboçar o mais leve sorriso. — Começava a chorar e, logo em seguida, a rir. Na minha opinião ela estava à beira de tornar-se um caso de hospício. Às vezes falava como heroína louca, de livro de bolso, outras vezes como uma menina direita, de subúrbio. Os ingleses eram seu povo predileto, repetia sem­pre. São cavalheiros. Levei-lhe uma garrafa de vodca, e ela bebeu a metade da garrafa mais ou menos em quinze segundos. Um viva para os cavalheiros ingleses. Boris era o chefe e Irina, a sua auxiliar. O trabalho era dividido pelos dois. Um dia ela falaria com Percy Alleline e lhe contaria um grande segredo, somente a ele. Boris estava fazendo um serviço para os negociantes de Hong Kong e tinha, paralelamente, a tarefa de cuidar de uma caixa postal para a agência soviética do lugar. Irina fazia o papel de correio, codificava as informações e fazia as trans­missões de rádio, em alta velocidade, para despistar quem estivesse à escuta. Assim é que representavam seus papéis. O senhor compreende? Os dois bares noturnos eram os pontos de encontro e de retirada de seu contato local, nessa ordem. Mas o que Boris queria realmente era beber e andar atrás das bailarinas, ou então cair em depressão. Às vezes fazia caminhadas de cinco horas porque não tolerava permanecer no mesmo quarto com a mulher. Iri­na se limitava a ficar à sua espera, chorando, embriagando-se e imaginando que estaria sentada, sozinha, ao pé da lareira de Percy, contando-lhe tudo quanto sabia. Eu fiquei ouvindo Irina falar, no alto do morro ou sentada no carro. Não me mexi, para não quebrar o encanto. Fi­camos olhando o crepúsculo baixar sobre a baía, vimos aparecer a lua, linda, e os camponeses que deslizavam perto de nós, com suas longas varas e seus lampiões de querosene. Só nos faltava Humphrey Bogart, de smoking. Eu mantive aquele aparato da garrafa de vodca e deixei que ela falasse. Não movi um músculo. Verdade, Mr. Smiley, verdade — declarou Tarr, com o jeito vago de um homem ansioso por ser acreditado. Mas Smiley per­manecia de olhos fechados, surdo a qualquer apelo. — Ela se abriu completamente — Tarr explicou —, como se isso tivesse sido um repentino acidente, alguma coisa de que não participara. Contou-me a história de toda sua vida, desde o nascimento até a chegada do Coronel Thomas, isto é, minha chegada. O pai, os pri­meiros amores, o recrutamento, o treinamento, seu re­pugnante casamento pela metade, tudo, enfim. Contou como Boris e ela se conheceram no mesmo grupo de trei­namento, tendo ficado juntos desde então. Disse seu ver­dadeiro nome, seu nome no trabalho e os nomes de guerra com que tinha viajado e feito transmissões pelo rádio. Em seguida, apanhou a bolsa e começou a mostrar-me seu equipamento de trabalho: uma caneta-tinteiro que conti­nha, no interior, o código de sinais; a máquina fotográfica oculta; essas coisas. "Aguarde até que Percy veja isso", disse eu, brincando. Era um material fabricado em série, reparem bem, nada feito por artesãos. Mas, apesar dis­so, de primeira. E, para terminar, ela começou a falar na sujeira da organização soviética de Hong Kong, infor­mações, lugares seguros, caixas do correio. Eu estava a ponto de ficar louco, procurando guardar tudo aquilo na memória.

— Mas você guardou — disse Guillam laconica­mente.

— Guardei — concordou Tarr.

Ele de fato se lembrava de quase tudo. Sabia que ela não dissera toda a verdade, mas compreendia que falar a verdade é difícil no caso de uma mulher que tinha sido espiã desde a adolescência. E admitiu que, para uma prin­cipiante, ela estava se portando razoavelmente bem.

— Eu senti isso nela — disse Tarr, num outro lam­pejo de falsa condescendência. — Senti que nós estávamos no mesmo comprimento de onda. Não havia confusão alguma.

— Isso mesmo — declarou Lacon, numa de suas raras interferências. Estava muito pálido, mas se era de cólera ou por causa do efeito da luz cinzenta das primeiras horas da manhã, que se filtrava através da persiana, isso não se poderia afirmar.

 

— Eu estava numa situação estranha — continuou Tarr. — Encontrei-me com Irina no dia seguinte e no outro, e calculei que, se ela ainda não era esquizoide, pouco faltava para isso. Às vezes falava que Percy ia dar-lhe um alto posto no Circus, onde trabalharia com o Coronel Thomas, e travava discussões infernais comigo sobre a patente que teria, de tenente ou de major. No momento seguinte, declarava que não faria espionagem para mais ninguém: ia cultivar flores e fazer amor sobre o feno com Thomas. Em seguida, vinham-lhe idéias de convento: as freiras batistas iam lavar-lhe a alma. Eu quase morri. Quem já ouvira falar em freiras batistas? perguntei a ela. Não tinha importância, disse Irina. Os batistas eram os maiores, e a mãe dela, que era camponesa, sabia muito bem dessas coisas. E o segundo segredo que ela ia me con­tar era aquele. Então qual seria o maior de todos? Nada de palpites. Tudo quanto ela disse foi o seguinte: nós estávamos em perigo de morte, um perigo maior do que eu poderia imaginar. Não haveria esperanças para nós dois, a menos que ela tivesse aquela conversa especial com o Irmão Percy. Mas qual era o perigo, pelo amor de Deus? indaguei eu. Que é que ela sabia e eu não?

Ela se mostrou frívola a mais não poder. Mas, quan­do ele insistiu, fechou-se no silêncio, e ele tomou um susto de morte: e se ela voltasse para casa e contasse tudo a Boris?

— Meu tempo era curto — prosseguiu Tarr. — Es­távamos na quarta-feira, e a delegação deveria tomar o avião para Moscou na sexta. O trabalho não era sujo, de maneira alguma, mas como poderia eu ter confiança numa doida daquela? O senhor sabe como são as mulhe­res quando estão apaixonadas, Mr. Smiley. Mal conse­guem...

Guillam já o tinha interrompido, dizendo:

— Conserve a cabeça fria, está bem? — ordenou ele.

E Tarr ficou emburrado durante alguns momentos.

— Tudo quanto eu sabia — prosseguiu ele — é que Irina queria desertar, conversar com Percy, como o cha­mava. Tinha três dias pela frente, e quanto mais depressa desse o grande salto, melhor para todos nós. Se eu espe­rasse muito mais tempo, ela daria com a língua nos dentes. Por isso mergulhei de cabeça e fui procurar Thesinger. Ver minha cara foi a primeira coisa que lhe aconteceu quando estava abrindo a loja.

— Quarta-feira, dia 11 — murmurou Smiley. — Às primeiras horas da manhã, em Londres.

— Eu acho que Thesinger pensou que eu fosse um fantasma — declarou Tarr. — Mas eu queria falar com Londres. Assunto pessoal com o chefe da Estação de Lon­dres. Ele discutiu comigo como um possesso, mas deixou-me fazer o que eu queria. Sentei-me na mesa de trabalho dele e mandei um telegrama em código, que eu mesmo elaborei, usando um bloco de papel, enquanto Thesinger ficou me observando como um cão doente. Nós tínhamos de fazer a abertura e o fecho da mensagem como se fosse em código usado no comércio, pois Thesinger se fazia passar por agente de exportações. Isso me tomou mais meia hora. Eu estava nervoso, realmente nervoso. Em se­guida, queimei o diabo do bloco e datilografei a mensagem na máquina do telégrafo. A essa altura, não havia ninguém na face da Terra, exceto eu próprio, que soubesse o que significavam aqueles números naquela folha de papel. Nem mesmo Thesinger. Ninguém, exceto eu. Solicitei para Irina o tratamento que se dispensa aos desertores, devendo ser tomadas medidas de emergência. Pedi todas as vantagens, sobre as quais ela nunca me havia falado: dinheiro, cida­dania britânica, uma nova identidade, nada de situação muito em evidência e um canto para morar. Afinal de con­tas, eu era o "agente comercial" dela, por assim dizer. Não era isso mesmo, Mr. Smiley?

Smiley levantou os olhos como se estivesse surpreso com o fato de Tarr se haver dirigido a ele, e disse, de um jeito incrível:

— Sim. Creio que de certo modo o senhor era isso mesmo.

— Ele também ia levar sua parte, se é que eu o conheço bem — disse Guillam num resmungo.

Percebendo ou adivinhando o que isso significava, Tarr ficou furioso:

— Isso é uma deslavada mentira — esbravejou, en­rubescendo fortemente —, isso é uma... — Depois de encarar Guillam durante um momento, voltou à sua his­tória: — Fiz um resumo da carreira dela até os últimos tempos, suas promoções, incluindo as tarefas que havia desempenhado no Centro de Moscou. Pedi a presença de "inquisidores" e o envio de um aparelho da Royal Air Force. Ela pensou que eu estava solicitando uma entrevista pessoal com Percy Alleline para ela, em campo neutro, mas eu imaginei que nós teríamos vencido um obstáculo quando tivéssemos acabado com aquilo. Sugeri que de­veriam mandar uns dois informantes de Esterhase para tomarem conta dela, talvez um médico também.

— Por que informantes? — indagou Smiley rispida­mente. — Eles não estão autorizados a lidar com deser­tores.

— Os informantes eram do grupo de Toby Esterhase, com base em Brixton, não em Acton — disse Tarr. — A tarefa deles consistia em prestar serviços de apoio nas ope­rações mais importantes: observar, ficar à escuta, levar informações e cuidar das casas de segurança. Bem... Toby veio ao mundo depois de seu tempo, Mr. Smiley — explicou Tarr. — Dizem que até seu pessoal subalterno só anda de Cadillac. E também furta o pão da boca dos caçadores de escalpos, se tiver oportunidade para isso, não é mesmo, Mr. Guillam?

— Eles se tornaram os assaltantes da Estação de Londres — declarou Guillam lacónicamente. — Fazem parte do lateralismo.

— Eu calculei que os "inquisidores" levariam seis meses para tirar tudo a limpo sobre ela. E, por certos mo­tivos, Irina estava doida pela Escócia. Tinha grande von­tade de ali passar o resto de seus dias. Com Thomas. Criando seus filhinhos nas charnecas. Eu pus no telegrama o endereço da Estação de Londres e classifiquei-o como "resposta-relâmpago" e "só para autoridades".

Essa é a nova fórmula de impor restrições máxi­mas informou Guillam. — Acredita-se que reduz a ma­nipulação dos documentos nas salas de codificação.

Não na Estação de Londres? indagou Smiley.

Isso é problema deles.

Você ouviu dizer que Bill Haydon conseguiu esse posto, creio eu disse Lacon, voltando-se para Smiley. É o chefe da Estação de Londres. Na realidade, é o chefe de operações, exatamente como Percy o foi quando Control lá estava. Eles mudaram todos os nomes. Isso é que aconteceu. Você sabe como são seus velhos camaradas em matéria de nomes. Você devia utilizar um nome seu, Guillam, por exemplo.

Obrigado. Creio que faço uma idéia — disse Smi­ley polidamente. E indagou de Tarr, num tom de voz vago e despistador: Ela falou num grande segredo, o senhor disse.

Isso mesmo.

O senhor deixou transparecer alguma coisa sobre isso em seu telegrama para Londres?

Smiley havia tocado em um ponto sensível, sem a menor dúvida. Encontrara um ponto que doía, porque Tarr estremeceu, lançando um olhar de suspeita a Lacon e outro a Guillam.

Percebendo o que significava aquilo, Lacon imediata­mente retrucou:

Smiley não sabe de mais nada além do que você lhe contou até agora, não é fato, Guillam?

Guillam assentiu com a cabeça, ficando a observar Smiley.

Eu contei a Londres o mesmo que ela me disse admitiu Tarr com irritação, como uma pessoa a quem tivessem surripiado uma boa história.

Com que palavras, precisamente? indagou Smi­ley. Será que o senhor se lembra?

Ela disse que possuía outras informações impor­tantíssimas, de interesse para o Circus, mas ainda não as revelara a mim. De qualquer modo, foi mais ou menos isto.

Obrigado. Muito obrigado disse Smiley.

Os três ficaram esperando que Tarr prosseguisse.

Solicitei também ao chefe da Estação de Londres que informasse a Mr. Guillam que eu estava com os pés bem firmes na terra e não andava brincando em serviço.

Isso foi feito? indagou Smiley.

Ninguém me falou nada declarou Guillam se­camente.

Eu fiquei por lá o dia inteiro, à espera de uma res­posta continuou Tarr. Mas até o cair da noite, nada! Irina estava fazendo seu trabalho diário, normal. Eu insisti com ela, o senhor compreende. Ela pretendeu simular uma febrezinha para ficar de cama, mas eu nem quis ouvir falar nisso. A delegação tinha de visitar umas fábricas em Kowloon, e eu disse a Irina que fosse junto com os outros e fizesse uma cara inteligente. Obriguei-a a jurar que não tocaria em bebida de espécie alguma. Eu não queria que ela se envolvesse numa cena dramática, de amadora, nos últimos momentos. Queria que esses momentos fossem nor­mais até a hora em que ela desse o salto. Esperei até a noite e enviei outro telegrama a Londres.

O olhar mortiço de Smiley fixou-se no rosto pálido que tinha diante de si. E ele indagou:

O senhor, naturalmente, recebeu uma resposta...

Sim. Recebi: "Nós lemos seu telegrama". Só isso. Eu vivi aquele drama durante a noite inteira. Ao amanhe­cer, ainda não havia recebido outra resposta. Fiquei pen­sando: "Talvez o avião da RAF já esteja a caminho. Londres está esticando a coisa, fazendo todas as ligações antes de nos receber". Quero dizer, quando uma pessoa está assim tão longe das outras, tem de acreditar que elas são gente boa. Apesar de tudo quanto possa pensar sobre elas, essa pessoa tem de acreditar nisso. Isto é, às vezes os outros são bons, não é verdade, Mr. Guillam? Nin­guém veio em socorro de Tarr. Eu estava preocupado com Irina, o senhor compreende? Tinha certeza de que, se ela tivesse de esperar mais um dia, iria desabar. Final­mente, veio a resposta. Mas aquilo não era uma resposta. Era um pretexto para dificultar as coisas: "Infor­me em que seções ela trabalhou, os nomes de seus contatos anteriores e as relações que tem no Centro de Moscou, o nome de seu atual chefe, a data de sua admissão no Cen­tro". Meu Deus, nem sei o que mais. Redigi uma rápida resposta, porque tinha um encontro com Irina às três horas, perto da igreja.

— Que igreja? — indagou Smiley.

— A Igreja Batista inglesa. — Para espanto geral, Tarr enrubesceu novamente. — Ela gostava de ir até lá — informou ele. — Não para assistir ao serviço religioso, só para ficar olhando. Eu me demorei perto da igreja, afetando naturalidade, mas Irina não apareceu. Era a pri­meira vez que faltava a um encontro comigo. Nosso re­fúgio era no alto da colina, a três horas dali. Em se­guida, bastaria descer durante dois minutos até a igreja, até nos encontrarmos. Se ela estivesse com alguma difi­culdade, deixaria a roupa de banho no peitoril da janela. Irina tinha mania de nadar: nadava todos os dias. Eu fui correndo à Alexandra: não havia roupa de banho à janela. Eu tinha de matar o tempo durante duas horas e meia. Não poderia fazer outra coisa a não ser esperar.

— Qual foi a prioridade do telegrama da Estação de Londres para o senhor? — indagou Smiley.

— "Imediata" — disse Tarr.

— Mas a sua foi "relâmpago", não foi? — insistiu Smiley.

— Os meus dois telegramas foram "relâmpago" — confirmou Tarr.

— O telegrama de Londres estava assinado? — per­guntou Smiley.

Guillam interveio, dizendo:

— Os telegramas não são mais assinados. As pessoas que não fazem parte do grupo lidam com a Estação de Londres como um todo.

— Era do tipo chamado "decifração pelo destina­tário"?

— Não — disse Guillam.

Eles ficaram esperando que Tarr prosseguisse.

— Eu dei um pulo ao escritório de Thesinger — disse Tarr —, mas não era muito popular lá. Thesinger não gos­ta de caçadores de escalpos, tinha alguma grande operação em andamento na China continental, e parecia estar pen­sando que eu iria "quebrar o galho" dele. Por isso fiquei sentado num café e tive a idéia de que poderia ir até o aeroporto. Era uma idéia do tipo "é possível que eu vá ao cinema". Pedi ao chofer do táxi que corresse para valer. Nem discuti o preço com ele. O táxi voou como um bólido. Entrei na fila de informações e inda­guei a respeito de todas as partidas para a Rússia, ou conexões para lá. Fiquei quase doido, percorrendo as listas de vôos, esbravejando com os empregados chineses, mas não tinha havido saída alguma desde a véspera e nenhum avião levantaria vôo até a noite. Então tive um palpite. Precisava saber se não teriam saído aviões especiais ou algum vôo que não constasse dos horários, aviões de carga, ou de passageiros, não previstos. Não havia nada, realmente nada, na rota de Moscou desde a manhã do dia anterior. Então uma jovem veio com a resposta que eu buscava: era uma das aeromoças chinesas, que tinha uma queda por mim. Estava me fazendo um favor. Um avião soviético, que não constava das escalas de vôo, decolara duas horas antes, transportando apenas quatro passageiros. O centro de atração da viagem era uma mulher inválida. Em coma. Tiveram de carregá-la até o avião, numa padio­la, e o rosto estava envolto em ataduras. Dois enfermeiros e um médico a acompanhavam. As pessoas eram essas. Eu dei um pulo até a Alexandra, numa derradeira esperança. Nem Irina nem o falso marido dela tinham registrado sua saída do quarto do hotel. Não obtive resposta. A desgra­çada da espelunca nem sabia que eles tinham partido.

Talvez a música já estivesse tocando há muito tempo, mas só então Smiley reparou nela. Ouviu trechos soltos, provenientes de diversas partes da casa: uma escala de flauta, uma canção infantil num gravador, uma peça para violino, executada com mais segurança. As muitas filhas de Lacon estavam saindo da cama.

 

Talvez ela tivesse ficado doente declarou Smiley num tom apático, dirigindo-se mais a Guillam do que a qualquer outra pessoa. Talvez ela estivesse em coma. Pelo jeito, era uma pessoa bastante complicada, isso na melhor das hipóteses acrescentou, olhando de soslaio para Tarr. Afinal de contas, só haviam transcorrido vinte e quatro horas entre seu primeiro telegrama e a par­tida de Irina. O senhor dificilmente poderia fazê-los chegar até Londres dentro desse prazo.

Isso é possível declarou Guillam, olhando para o chão. É extremamente rápido, mas pode dar certo, se alguém em Londres... — Todos ficaram à espera da conclusão de Guillam. Se alguém em Londres dispu­sesse de um bom mensageiro. E em Moscou também, na­turalmente.

Foi exatamente o que eu disse a mim mesmo declarou Tarr orgulhosamente, valendo-se do argumento de Smiley e não tomando conhecimento do raciocínio de Guillam. Foram minhas próprias palavras, Mr. Smiley. "Relaxe, Ricki", disse a mim mesmo, "você estará dando tiros na própria sombra, se não for cuidadoso como o diabo."

Ou então os russos perceberam as intenções dela insistiu Smiley. Os guardas de segurança descobriram o caso amoroso e a afastaram. Seria de admirar que não o tivessem descoberto, do jeito que vocês dois se portaram.

Ou ela contou tudo ao marido sugeriu Tarr. Eu entendo de psicologia tanto quanto qualquer pessoa. Sei o que pode acontecer entre marido e mulher quando eles brigam. Irina quis aborrecer o marido. Espicaçar o homem, provocar uma reação nele: "Quer saber o que eu andei fazendo enquanto você ficava se embriagando e caindo na farra?" Coisas assim. Boris sai, conta tudo aos gori­las, eles a agarram à força e a levam para a Rússia. Eu examinei todas essas possibilidades, Mr. Smiley, acredite em mim. Examinei todas elas. Fiz o que qualquer homem faz quando sua mulher o abandona.

Vamos ao caso, sim? resmungou Guillam, irritado.

Bem disse Tarr. Concordo que fiquei um pouco transtornado durante umas vinte e quatro horas. Mas eu não costumo ficar assim, não é fato, Mr. Guillam?

Fica muitas vezes disse Guillam.

Eu estava me sentindo um bocado abatido. Frus­trado, como se poderia dizer.

A convicção de que alguma coisa que lhe agradava lhe havia sido brutalmente arrancada levou Tarr a um estado de fúria que o deixou tresloucado. E ele a extravasou per­correndo seus antigos pontos. Foi ao Cat's Cradle, em segui­da dirigiu-se até o Angelika e, pela madrugada, tinha visitado meia dúzia de outros lugares, para não mencionar algumas garotas pelo caminho. Em certo momento, atravessou a cidade e fez um rebuliço perto da Alexandra. Estava espe­rando trocar duas palavras com aqueles gorilas da seguran­ça. Quando passou a carraspana, começou a pensar em Irina, nas horas em que haviam estado juntos, e decidiu que, antes de tomar o avião de regresso a Londres, faria uma visita às caixas de cartas para ver se acaso ela não lhe teria escrito antes de partir.

Até certo ponto declarou Tarr era uma coisa que eu deveria fazer. Acho que não poderia suportar a idéia de uma carta de Irina ficar enfiada no buraco de uma parede, enquanto ela podia estar sendo torturada acrescentou Tarr, que era um homem sempre capaz de se redimir.

Havia dois pontos em que deixavam cartas um para o outro. O primeiro não ficava longe do hotel, situando-se no terreno de um edifício.

O senhor já viu aqueles andaimes de bambu que eles usam? perguntou Tarr, dirigindo-se a Smiley. Eu já vi andaimes da altura de vinte andares, e os cules, aos montes, correm por cima deles, carregando chapas de concreto pré-moldado. Era um pedaço de encanamento, abandonado acrescentou Tarr —, jeitoso, bem à altura do ombro. Parecia-me provável que se Irina estivesse apres­sada, usaria o cano como caixa postal. Mas quando lá cheguei, a caixa estava vazia. O segundo ponto ficava no fundo da igreja. Era a parede atrás de um velho guarda-roupa. Quando a gente se ajoelha no último banco e começa a tatear, encontra uma tábua frouxa. Por trás dessa tábua há um nicho de coisas imprestáveis, lixo e sujeira. E garanto que era um ótimo lugar para a gente deixar cartas. O melhor possível.

Seguiu-se uma breve pausa, iluminada pela visão de Ricki Tarr e sua amante do Centro de Moscou ajoelhados um ao lado do outro, no último banco de uma igreja ba­tista, em Hong Kong.

Nessa caixa de correspondência continuou Tarr encontrei não uma carta, mas um diário completo. A letra era bonita, e o diário estava escrito dos dois lados do papel, de sorte que a tinta preta de um lado por vezes era visível do outro. Fora escrito com muita pressa e sem rasuras. Eu sabia que Irina mantinha um diário, em seus períodos lúcidos. Isto não é o diário, repare bem disse Tarr. É apenas minha cópia.

Enfiando a longa mão dentro da camisa, Tarr tirou uma bolsa de couro, presa por uma grossa tira também de couro. Dela retirou um chumaço de papel encardido.

Acho que ela pôs o diário lá antes de eles a pe­garem continuou Tarr. Talvez estivesse fazendo, ao mesmo tempo, suas últimas orações. Eu próprio fiz a tra­dução.

Não sabia que o senhor falava russo disse Smiley, comentário que passou despercebido a todos, ex­ceto a Tarr, que imediatamente esboçou uma imitação de riso.

Um homem tem necessidade de possuir certas qua­lificações nessa profissão, Mr. Smiley explicou ele, en­quanto ajeitava as páginas de papel. Talvez eu não tenha sido grande coisa no estudo de direito, mas saber uma outra língua pode ser decisivo. Espero que o senhor conheça o que dizem os poetas. E Tarr levantou os olhos, enquanto seu trejeito de riso se acentuava: "A posse de outra língua é a posse de outra alma". Quem escreveu isso foi um grande rei, Carlos V. Meu pai nunca se esque­cia de uma citação. Isto eu posso assegurar. O engraçado é que o velho não sabia falar língua alguma além do inglês. Vou ler o diário em voz alta, se o senhor não se importar.

Ele não sabe uma palavra de russo disse Guillam. Os dois falavam nossa língua o tempo todo. Irina tinha feito um curso de três anos de inglês.

Guillam decidira ficar olhando para o teto, e Lacon resolvera olhar para as próprias mãos. Somente Smiley ficou observando Tarr, que ria tranqüilamente de sua ino­cente piada.

Tudo pronto? indagou ele. Bem, então vou começar. Ela me chamava pelo meu prenome: "Tho­mas, escute". Eu lhe disse que era Tony, mas para ela eu era sempre Thomas. Entendido? "Este diário é um presente para você, caso eles me levem antes que eu converse com Alleline. Eu preferia dar minha vida a você e, naturalmen­te, meu corpo. Mas é mais provável que este mísero segre­do seja tudo quanto eu tenha para fazer você feliz. Apro­veite-o bem." Tarr levantou os olhos, dizendo: Está datado de segunda-feira. Ela escreveu o diário em qua­tro dias.

A voz dele se tornara monótona, quase de tédio.

"No Centro de Moscou há mais tagarelice do que estimariam nossos superiores. Especialmente os pequenos gostam de se fazer de importantes e de dar a impressão de estar por dentro das coisas. Há dois anos, estive ligada ao Ministério do Comércio e trabalhei como supervisora da seção de arquivos de sua sede, na Praça Dzerjinski. O tra­balho era muito chato, Thomas, o ambiente muito desagra­dável, e eu não era casada. Nós éramos levados a suspeitar uns dos outros. E uma pessoa fica tão tensa quando nunca pode abrir o coração! Subordinado a mim havia um em­pregado chamado Ivlov. Embora Ivlov não estivesse à minha altura, socialmente ou na hierarquia, a atmosfera opressiva resultou numa dependência mútua de nossos tem­peramentos. Perdoe-me, às vezes só o corpo fala por nós. Você deveria ter aparecido antes, Thomas! Em várias oca­siões Ivlov e eu trabalhamos juntos no turno da noite e, finalmente, concordamos em desafiar o regulamento e nos encontrar fora do edifício. Ele era louco, Thomas, como você, e eu o queria. Nós nos víamos num café, num bairro pobre de Moscou. Na Rússia nos ensinam que não há bairros pobres, mas isso é mentira. Ivlov me disse que seu verdadeiro nome era Brod, mas que não era judeu. Trouxe-me um pouco de café, que lhe era enviado ilegalmente por um camarada de Teerã, e também uns pares de meias. Ele era tão gentil! E disse que me admirava muito e que já tinha trabalhado numa seção encarregada do registro de todas as características dos agentes estrangeiros emprega­dos pelo Centro. Eu dei uma risada e declarei que esse registro não existia: era uma idéia de sonhadores imaginar que tantos segredos pudessem estar reunidos num só lugar. Nós dois éramos sonhadores, creio eu."

Tarr novamente interrompeu a leitura, dizendo: — Chegamos a um outro dia. Ela se despede com uma penca de "bom dia, Thomas", orações e umas pala­vras de amor. "Uma mulher não pode escrever para o vento", dizia ela, por isso estava escrevendo para Thomas. O sujeito dela saía cedo, e ela tinha uma hora a seu dispor. "Na segunda vez nós nos encontramos no quarto de um primo da mulher de Ivlov, professor da Universidade Esta­tal de Moscou. Não havia mais ninguém presente. O en­contro, extremamente secreto, envolveu o que nós chama­ríamos, num relatório, de ato incriminador. Eu penso, Thomas, que você mesmo deve ter praticado algum ato desses, mais de uma vez. Nesse encontro Ivlov me contou uma história que nos ligou numa amizade ainda mais ínti­ma. Thomas, você precisa tomar cuidado. Já ouviu falar em Karla? Ele é uma velha raposa, a mais astuta do Cen­tro, a mais secreta. Até o nome dele é desses que os russos não entendem. Ivlov parecia extremamente assustado ao contar-me essa história, que se referia, segundo ele, a uma grande conspiração, talvez a maior que temos. A história de Ivlov vai a seguir, você deve narrá-la apenas às pessoas de máxima confiança, Thomas, por causa de seu caráter extremamente sigiloso. Não deve contá-la a ninguém do Circus, porque não poderá confiar em ninguém até que o enigma tenha sido desvendado. Ivlov me disse que não tinha trabalhado nos registros dos agentes. Isso era men­tira: inventara essa coisa apenas para provar a mim a gran­de profundidade de seus conhecimentos a respeito das ati­vidades do Centro e para certificar-se de que eu não amava ninguém. A verdade é que havia trabalhado como auxiliar de Karla, numa dessas grandes conspirações, e de fato servira na Inglaterra, supostamente na qualidade de motorista e encarregado dos códigos, na Embaixada. Para isso deram-lhe o nome de guerra de Lapin. Desse modo, Brod tornou-se Ivlov e Ivlov transformou-se em Lapin. O pobre Ivlov tinha grande orgulho disso. Eu não disse a ele o que significava 'lapin'[8] em francês. A fortuna de um homem tem de ser medida pelo número de nomes que ele usa! A tarefa de Ivlov era servir como 'toupeira', isto é, agente de grande poder de penetração, assim chamado porque faz profundas escavações na estrutura do imperia­lismo ocidental, nesse caso, o inglês. Os 'toupeiras' são muito preciosos para o Centro, porque são necessários lon­gos anos para colocá-los, freqüentemente de quinze a vinte. A maior parte dos 'toupeiras' ingleses foram recrutados por Karla, antes da guerra, na mais alta burguesia, até mesmo na aristocracia e na nobreza. Eram pessoas revol­tadas contra suas origens, e que se tornaram secretamente fanáticas, muito mais fanáticas do que os camaradas in­gleses da classe operária, que são preguiçosos. Vários se estavam inscrevendo no Partido quando Karla os fez parar a tempo, orientado-os para a execução de trabalhos espe­ciais. Alguns lutaram na Espanha contra Franco, e os agentes de Karla, em busca de talentos, lá na Espanha, os encontraram e os encaminharam a ele para que fossem recrutados. Outros foram obtidos durante a guerra, quando houve aquela aliança de conveniência entre a Rússia so­viética e a Grã-Bretanha. Outros o foram posteriormente, desapontados porque a guerra não trouxera o socialismo para o Ocidente..." Aqui está ilegível — anunciou Tarr, sem olhar para coisa alguma além de seu manuscrito. — Eu escrevi "apagado". Acho que o homem voltou mais cedo do que ela esperava. A tinta é um borrão só. Deus sabe onde Irina enfiou o diabo da coisa. Talvez debaixo do colchão.

Se isso pretendia ser uma piada, não produziu o me­nor efeito.

— "O 'toupeira' com quem Lapin trabalhava em Londres era conhecido pelo nome de Gerald, em código. Fora recrutado por Karla e estava ligado a uma grande conspiração. O trabalho junto aos 'toupeiras' é executado somente por camaradas de alta capacidade, declarou Ivlov. Assim, embora Ivlov-Lapin parecesse um joão-ninguém, na Embaixada, sujeito a muitas humilhações por causa de sua aparente insignificância, como ficar ao lado das em­pregadas, no bar, durante as recepções, era de fato pessoa importante, o assistente secreto do Coronel Gregor Viktorov, cujo nome de guerra, na Embaixada, era Polyakov."

A essa altura, Smiley fez sua única intervenção, soli­citando que o nome fosse soletrado. Como um ator inter­rompido em meio a uma fala, Tarr respondeu rudemente:

— P-o-l-y-a-k-o-v. Entendeu?

— Obrigado — disse Smiley com imperturbável cor­tesia, de um jeito que indubitavelmente deu a entender que esse nome não tinha para ele o menor significado. Tarr prosseguiu:

"Viktorov é um antigo profissional e de grande astúcia, disse-me Ivlov. Seu cargo é, aparentemente, o de adido cultural, e nessa qualidade ele se entende com Karla. Como adido cultural, Polyakov organiza palestras nas uni­versidades e associações britânicas, sobre assuntos culturais da União Soviética. Mas seu trabalho noturno, como Co­ronel Gregor Viktorov, consiste em dar informações a Gerald, e dele recebê-las, segundo instruções de Karla, do Centro de Moscou. Com esse propósito, o Coronel Viktorov-Polyakov se utiliza de intermediários, e o po­bre Ivlov foi um deles, durante algum tempo. Apesar disso, Karla, em Moscou, é quem de fato controla Gerald." Agora, de fato, o diário muda — declarou Tarr. — Ela escrevia à noite, às pressas, tensa e morta de medo, porque estava rabiscando todas aquelas desgraçadas páginas. Fala em ruídos de passos no corredor, nos sórdidos olhares que os gorilas lançam para ela. Não foi transcrito. Está certo, Mr. Smiley?

E, como Smiley assentisse com a cabeça, Tarr pros­seguiu:

— "As medidas relativas à segurança de Gerald eram excepcionais. Os relatórios redigidos em Londres e envia­dos a Karla, para o Centro de Moscou, mesmo depois de codificados, eram divididos em duas partes, que eram re­metidas por correios distintos; alguns desses relatórios eram escritos com o emprego de uma tinta invisível, sob a cor­respondência convencional da Embaixada. Ivlov me con­tou que Gerald trazia material conspiratório em quantidade superior à que Viktorov-Polyakov era capaz de manipular de maneira conveniente. Grande parte desse material era constituída de filmes não revelados, freqüentemente atingin­do trinta rolos por semana. Quem abrisse o invólucro dos filmes do lado errado os exporia imediatamente à luz, velando-os. Outros tipos de material eram transmitidos oral­mente por Gerald, em reuniões de caráter extremamente secreto, sendo gravados em fitas especiais, que só poderiam ser ouvidas com a utilização de complicadas máquinas. Tais fitas também seriam apagadas se expostas à luz ou colocadas em máquinas inadequadas. As reuniões eram de tipo relâmpago, sempre em locais diferentes, sempre re­pentinas. Isso é o que eu sei, além de que tudo ocorreu na época em que a agressão fascista contra o Vietnam estava na sua pior fase. Na Inglaterra, os reacionários da extrema direita haviam novamente assumido o poder. E também sei que, segundo Ivlov-Lapin, Gerald era alto funcionário do Circus. Eu lhe conto isso, Thomas, porque gosto muito de você e me decidi a admirar todos os ingleses, você acima de todos. Não quero imaginar um cavalheiro inglês portando-se como traidor, embora, naturalmente, eu acre­dite que Gerald estava certo quando se aliou à causa dos operários. E também receio pela segurança de qual­quer pessoa empregada pelo Circus para uma conspiração. Thomas, eu gosto muito de você. Tome cuidado com estas informações: elas poderiam causar dano também a você. Ivlov era um homem parecido com você, embora o cha­massem de Lapin..."

Tarr fez uma pausa, hesitou, e disse:

— Há um trecho, no fim, que...

— Leia o trecho — murmurou Guillam.

Erguendo o papel um pouco de lado, Tarr o leu com o mesmo ritmo arrastado:

"Thomas, eu estou contando isso a você porque ando com medo. Hoje de manhã, quando acordei, ele estava sentado na cama, olhando para mim como um doido. Quando eu desci para tomar café, os guardas Trepov e Novikov me observaram como uns animais, comendo muito displicentemente. Tenho certeza de que se encontravam ali já há muitas horas, e com eles estava um rapaz da agência, Avilov. Você terá sido indiscreto, Thomas? Não terá fa­lado mais do que me levou a crer? Agora você compreende por que só Alleline serviria. Você não precisa censurar-me, eu adivinho o que você disse a eles. Eu me sinto livre, no fundo do coração. Você viu apenas meu lado mau: a bebida, o medo, as mentiras em que vivemos. Mas o meu eu profundo arde dentro de mim com uma luz nova e abençoada. Eu costumava pensar que o mundo secreto era um lugar à parte, e que eu havia sido para sempre dester­rada, vivendo numa ilha de pessoas que só existem pela metade. No entanto, Thomas, não estou num lugar à parte. Deus me mostrou que Ele está aqui, bem no meio do mundo real, em torno de nós. E basta que uma pessoa abra a porta e saia para ser livre. Thomas, você precisa querer sempre obter a luz que eu encontrei. Ela se chama amor. Agora vou levar este papel para nosso lugar secre­to, e aí deixá-lo enquanto ainda há tempo. Meu Deus, espero que ainda haja tempo! Meu Deus, dá-me um santuá­rio em tua Igreja! Lembre-se disto: eu amei você lá tam­bém."

Tarr ficara extremamente pálido, e suas mãos, no momento em que abriu a camisa para recolocar o diário na bolsa, estavam trêmulas e úmidas.

— Há ainda um trecho final — disse ele. — É assim: "Thomas, por que você só conseguia lembrar-se de tão poucas orações de sua infância? Seu pai era um homem bom e grande". Eu não lhes disse que ela era maluca? — comentou Tarr.

Lacon abrira as persianas e a suave luz do dia inun­dava a sala em sua plenitude. As janelas davam para um pequeno cercado onde Jackie Lacon, uma garotinha re­chonchuda e de tranças, tendo à cabeça um pequeno chapéu-coco, estava cuidadosamente guiando seu pônei a meio galope.

 

Antes de Tarr sair, Smiley fez-lhe algumas perguntas, sem encará-lo. Seus olhos míopes ficaram olhando para algum ponto remoto, e seu rosto gorducho assumira uma expressão de desalento por causa daquela tragédia.

— Onde está o original desse diário? — indagou.

— Tornei a colocá-lo na caixa do correio. Imagine o seguinte, Mr. Smiley: no momento em que achei o diá­rio, Irina já estava em Moscou há umas vinte e quatro horas. Pensei que ela não teria muito fôlego quando che­gasse a hora dos interrogatórios. É muito provável que a tenham castigado severamente no avião, e repetido a dose quando o aparelho aterrissou. E depois a tenham interro­gado, logo que os rapazes acabaram de tomar o café da manhã. Assim é que eles fazem com as pessoas tímidas: primeiro a força bruta, depois as perguntas. Não é isso mesmo? Então deve ter sido uma questão de dois ou três dias para que o Centro enviasse uma pessoa a fim de dar uma busca no fundo da igreja, não é verdade? Eu também tinha de considerar minha própria segurança — concluiu Tarr, sentenciosamente.

— Isso quer dizer que o Centro de Moscou estaria menos interessado em cortar-lhe a cabeça se tivesse pensa­do que ele não havia lido o diário — declarou Guillam.

— O senhor fotografou o relatório? — indagou Smiley.

— Eu não ando com máquinas fotográficas. Comprei um caderno de um dólar. Copiei o diário nele e tornei a pôr o original em seu lugar. Todo esse trabalho levou qua­tro horas.

Tarr falou sem encarar Guillam e, depois, desviou o olhar. Um profundo medo, que lhe ressumava do íntimo, tornou-se subitamente patente em seu rosto, àquela luz da manhã.

— Quando voltei para o hotel — prosseguiu ele —, meu quarto estava um verdadeiro pandemônio. Eles tinham arrancado até o papel das paredes. E o gerente me disse: "Saia daqui. Vá para o inferno". E não quis dar expli­cações.

Smiley soltou um grunhido dispéptico, de compreen­são, e declarou:

— Esses encontros que o senhor e Irina tiveram; as caixas de cartas, os sinais de segurança e os pontos de retirada; quem propôs o esquema, o senhor ou ela?

— Ela — respondeu Tarr.

— Quais eram os sinais de segurança? —- indagou Smiley.

— Linguagem corporal. Se eu estivesse de colarinho aberto, ela saberia que eu havia feito um reconhecimento e verificado que a "barra" estava "limpa". Mas se eu esti­vesse de colarinho abotoado, era preciso adiar o encontro até o refúgio.

— E Irina?

— Era a bolsa. Na mão direita ou na mão esquerda. Eu chegava primeiro e ficava esperando em algum lugar onde ela me pudesse ver. Isso lhe permitia escolher: ir em frente ou dar o fora.

— Tudo isso aconteceu há mais de seis meses. Que tem feito o senhor desde então?

— Tenho descansado — disse Tarr asperamente.

— Ele entrou em pânico e virou um bicho-do-mato. Tocou-se para Kuala Lumpur e ficou numa das vilas nas montanhas. Isso é o que ele diz. Tem uma filha chamada Danny — informou Guillam.

— É. Danny é minha filhinha — acrescentou Tarr.

— Ficou acoitado com Danny e a mãe dela — disse Guillam, interrompendo, como era de seu hábito, tudo quanto Tarr dizia. — Ele tem mulheres espalhadas pelo mundo inteiro, mas essa parece a mais importante de todas, no momento.

— Por que o senhor escolheu esta ocasião especial para nos vir procurar? — Tarr permaneceu em silêncio. — Não quer passar o Natal com Danny?

— Sem dúvida.

— Então o que aconteceu? Alguma coisa o ame­drontou?

— Havia uns boatos — disse Tarr num tom indeciso.

— Que espécie de boatos?

— Uns franceses apareceram em Kuala Lumpur e disseram que eu estava devendo dinheiro a eles. Queriam botar um advogado no meu rastro. Eu não devo dinheiro a ninguém.

— Ele ainda está classificado no Circus como deser­tor? — indagou Smiley.

— Tudo leva a crer — respondeu Guillam.

— E o que eles fizeram a esse respeito até agora? — perguntou Smiley.

— Isso está fora da minha alçada. Ouvi uns rumores de que a Estação de Londres realizou umas sessões beli­cosas contra ele, há algum tempo. Mas eu não fui convi­dado e não sei em que deram as coisas. Em nada, acho eu. Como de costume.

— Que passaportes ele tem usado?

— Joguei fora o de Thomas no dia em que cheguei à Malásia — disse Tarr, que já tinha sua resposta pronta.

— Achei que Thomas não seria exatamente flor que se cheirasse, em Moscou, e que seria melhor eu acabar ime­diatamente com a raça dele. Em Kuala Lumpur arranjei um passaporte britânico com o nome de Poole.

Tarr passou o passaporte a Smiley, acrescentando:

— Não é mau, pelo dinheiro que me custou.

— Por que o senhor não usou um de seus passapor­tes suíços de emergência? — Seguiu-se uma cautelosa pausa. — Ou o senhor os perdeu quando deram busca em seu quarto no hotel?

— Ele escondeu os passaportes logo que chegou em Hong Kong — disse Guillam. — Procedimento normal.

— Então por que não se utilizou deles? — indagou Smiley.

— Eles estavam numerados, Mr. Smiley — respondeu Tarr. — Poderiam estar em branco, mas estavam numera­dos. Eu estava me sentindo um pouco agitado, para falar com franqueza. Se Londres tinha os números, talvez Mos­cou também os tivesse, se o senhor compreende o que eu quero dizer.

— Então o que fez o senhor com os passaportes suí­ços de emergência? — indagou novamente Smiley, num tom cordial.

— Ele diz que os jogou fora — declarou Guillam. — É mais provável que os tenha vendido. Ou trocado por aquele outro.

— Como? Jogou fora de que modo? O senhor os queimou?

— Isso mesmo. Eu queimei os passaportes — decla­rou Tarr, num tom nervoso, de desafio e medo ao mesmo tempo.

— Então quando disse que aquele francês estava per­guntando pelo senhor...

— Ele estava procurando Poole.

— Mas quem teria ouvido falar em Poole exceto o homem que falsificou o passaporte? — indagou Smiley, folheando-o. Tarr nada disse. — Diga-me — continuou Smiley —, como viajou para a Inglaterra?

— Por uma rota fácil, a de Dublin. Não houve pro­blemas. — Tarr mentia mal, quando pressionado. Talvez seus pais devessem ser censurados por isso. Era excessi­vamente rápido quando não tinha uma réplica pronta, e agressivo demais quando inventava alguma resposta.

— Como o senhor chegou até Dublin? — perguntou Smiley, examinando os carimbos das fronteiras, que havia no meio da página.

— Foi facílimo! Um caminho juncado de rosas — disse Tarr, que recobrara a confiança em si mesmo. — Te­nho uma garota que é aeromoça da South African. Um amigo meu me transportou como carga até Capetown. Aí minha garota tomou conta de mim e me arranjou uma viagem de carona até Dublin, com um dos pilotos. Como todo mundo sabe, lá no Oriente eu nunca saí da península.

— Estou fazendo todo o possível para verificar isso — disse Guillam, olhando para o teto.

— Bem, tome muito cuidado, meu amigo — replicou Tarr num tom áspero, voltando-se para Guillam. — Eu não quero ver gente errada nos meus calcanhares.

— Por que veio procurar Mr. Guillam? — indagou Smiley, ainda profundamente mergulhado no passaporte de Poole. O passaporte parecia ter sido bastante usado, manuseado, nem muito cheio de anotações nem demasiado vazio. — Considerando o fato de que o senhor estava assustado, naturalmente — prosseguiu Smiley.

— Mr. Guillam é meu chefe — declarou Tarr com virtuosa unção.

— Não lhe passou pela cabeça que ele poderia exa­tamente entregá-lo a Alleline? Afinal de contas, o senhor é um homem procurado pelo chefe supremo do Circus, não é verdade?

— Sem dúvida — concordou Tarr. — Mas eu acho que Mr. Guillam não aprecia os novos arranjos mais do que Mr. Smiley.

— Tarr também tem muito amor à Inglaterra — ex­plicou Guillam num tom sarcástico.

— Sem dúvida. Fico com saudades da pátria.

— O senhor não pensou em procurar outra pessoa, além de Mr. Guillam? Por que não uma das agências no exterior, onde correria menos perigo? Mackelvore ainda é o chefe, em Paris? — Guillam confirmou com um aceno de cabeça. — Então o senhor poderia ter ido procurar Mr. Mackelvore. Ele o recrutou e o senhor poderia confiar nele. É um veterano no Circus. O senhor poderia ter fi­cado em segurança, em Paris, em vez de arriscar a pele aqui. Meu bom Deus, Lacon! Depressa!

Smiley se tinha levantado. Apertou a boca com as costas da mão e ficou olhando pela janela. No cercado do pônei, Jackie estava chorando, deitada de bruços, enquan­to o pônei, sem cavaleiro, galopava por entre as árvores. Eles ainda estavam observando a cena quando a mulher de Lacon, bonita, com seus cabelos compridos e usando grossas meias de inverno, saltou por cima da sebe e levan­tou a criança do chão.

— Essas crianças estão sempre levando tombos — observou Lacon, bastante aborrecido. — Nessa idade elas não se machucam. — E, num tom que mal se poderia con­siderar mais amável, acrescentou: — Você sabe, George. Uma pessoa não pode ser responsável por todo mundo.

Tornaram a sentar-se, lentamente.

— E se o senhor fosse para Paris, que rota teria tomado? — recomeçou Smiley.

— A mesma que usei para ir à Irlanda. Em seguida, iria de Dublin a Orly, penso eu. O que o senhor esperaria que eu fizesse: caminhasse sobre as ondas?

Ao ouvir isso Lacon ficou rubro, levantando-se. Pro­feriu uma exclamação irritada. Mas Smiley pareceu não alterar-se. Tomou novamente o passaporte, folheando-o devagar, de trás para a frente, até o começo, e indagou:

— Como entrou em contato com Mr. Guillam?

Guillam respondeu por Tarr, falando muito depressa:

— Ele sabia em que garagem eu guardo meu carro. Deixou um bilhete nele, dizendo que estava interessado em comprá-lo, e assinou um de seus nomes de guerra: Trench. Sugeriu um lugar onde nós nos pudéssemos avis­tar, acrescentando um velado apelo para que tivéssemos um encontro reservado, antes que eu me decidisse por um ponto. Eu trouxe Fawn comigo, de "babá".

Smiley o interrompeu, indagando:

— Fawn é aquele que esteve há pouco junto à porta?

— Isso mesmo. Ficou protegendo minha retaguarda, enquanto conversávamos — disse Guillam. — Eu o con­servei perto de nós desde então. Logo que ouvi a história de Tarr, liguei para Lacon de um telefone público, pedin­do-lhe uma entrevista. Mas, George, por que você não volta a tratar desse assunto só entre nós dois?

— Você telefonou para Lacon daqui ou de Londres? — indagou Smiley.

— Daqui — respondeu Lacon.

Houve uma pausa e Guillam explicou o seguinte:

— Acontece que eu me lembrava do nome de uma moça do escritório de Lacon. Mencionei o nome dela e disse que Lacon me tinha pedido que falasse com ele ur­gentemente sobre um assunto particular. Não foi perfeito, mas foi o melhor que pude imaginar, naquela hora... Bem, não havia qualquer razão para eu supor que o diabo do telefone estivesse censurado — acrescentou Guillam, rompendo o silêncio que se havia formado.

"Havia todas as razões para isso", disse Smiley para si próprio.

Smiley tinha fechado o passaporte e estava examinando sua encadernação à luz de um abajur que havia a seu lado.

— É muito boa, não é verdade? — observou displi­centemente. — De fato muito boa. Eu diria que é obra de um profissional. Não consigo encontrar uma falha.

— Não se preocupe, Mr. Smiley — retrucou Tarr, pegando de volta o passaporte. — Não foi feito na Rússia.

Quando chegou à porta, Tarr estava de novo sorri­dente. E declarou, dirigindo-se aos três, à saída da com­prida sala:

— Se Irina estiver com a razão, os senhores vão precisar de um novo Circus. Por isso, se todos nós ficar­mos juntos, penso que nos poderíamos instalar no andar térreo. — E dando um tapa na porta, acrescentou, num tom jocoso: — Vamos, querido, sou eu, Ricki.

— Obrigado. Agora está tudo bem. Abra a porta, por favor — bradou Lacon.

Passado um instante, alguém deu volta à chave, e sur­giu a figura morena de Fawn, a "babá". E o ruído dos pas­sos de quatro pessoas se foi apagando no grande vazio da casa, acompanhado pelo choro distante de Jackie Lacon.

 

Do outro lado da cerca, longe do cercado do pônei, estendia-se uma quadra de tênis, oculta entre as árvores. Não era uma boa quadra, sendo raramente aparada. Na primavera, a grama ainda estava encharcada por causa do inverno, e o sol, por mais forte que fosse, não conseguia secá-la, ao passo que, no verão, as bolas desapareciam em meio à vegetação. Naquela manhã, a quadra achava-se coberta de folhas até a altura do tornozelo de um homem: tinham-se amontoado lá, vindas de todas as partes do jar­dim. Mas no contorno da quadra, acompanhando mais ou menos o retângulo do aramado, uma vereda serpenteava por entre as faias, e por ela vinham caminhando Smiley e Lacon. Smiley tinha ido apanhar seu casaco de viagem, mas Lacon vestia apenas um terno surrado. Talvez por esse mo­tivo preferisse andar depressa e num ritmo descoordenado. Cada passo o levava a adiantar-se muito, de sorte que era constantemente obrigado a fazer alto, com os ombros e os cotovelos erguidos, esperando até que Smiley, mais baixo do que ele, o alcançasse. Em seguida, desabalava de novo, ganhando distância. Assim completaram duas voltas, até que Lacon rompeu o silêncio:

— Quando você me procurou, há um ano, fazendo uma sugestão parecida, acho que a repeli. Creio que lhe devo pedir desculpas. Eu andava meio frouxo. — Seguiu-se um cômodo silêncio, enquanto Lacon meditava a res­peito de sua negligência. — Eu lhe dei instruções para que você abandonasse suas investigações.

— Você me disse que eram contra o regulamento — declarou Smiley num tom lúgubre, como se estivesse re­lembrando o mesmo lamentável erro.

— Foram essas as palavras que eu empreguei? Meu Deus! Como fui solene!

Ouvia-se o choro incessante de Jackie, vindo da casa.

— Você nunca teve, não é mesmo? — Lacon excla­mou imediatamente, num tom de voz agudo, com a cabeça cheia daquele choro.

— Tive o quê?

— Filhos. Você e Ann.

— Nunca.

— E sobrinhos?

— Um só.

— Do seu lado?

— Não. Do lado dela.

"Talvez eu nunca tenha saído deste lugar", pensou Smiley, olhando em derredor. As rosas trepadeiras, os ba­lanços quebrados, os poços de areia encharcados, a casa agreste e vermelha, destacando-se de maneira gritante à luz da manhã. "Talvez nós tenhamos ficado aqui desde a última vez."

Lacon estava novamente se desculpando:

— Eu lhe digo que não confiei absolutamente em seus motivos. Passou pela minha cabeça que Control o instigara, você me entende. Um meio de firmar-se no poder e manter Percy Alleline à margem — disse Lacon, reco­meçando a andar aos trancos, em largas passadas, com as mãos afastadas do corpo.

— Isso não — replicou Smiley. — Control não sabia de nada. Agora eu percebo. Naquela ocasião eu não compreendi. É um pouco difícil saber quando podemos confiar nas pessoas e quando não podemos. As pessoas vivem conforme padrões bem diferentes, não é verdade? Quero dizer, são obrigadas a viver assim. Eu admito. Não estou julgando ninguém. Nossos fins são os mesmos, afinal de contas, embora nossos meios sejam di­ferentes — acrescentou ele, saltando sobre uma valeta. — Certa vez ouvi alguém afirmar que a moralidade é uma questão de método. Você aceita isso? Suponho que não. Você diria que a moralidade se consubstancia nas metas, eu espero. Mas é difícil saber quais são nossas metas. Esse é o problema, especialmente quando se nasce na Inglaterra. Não podemos esperar que as pessoas determinem para nós qual há de ser nossa política. A única coisa que podemos pedir é que a apóiem, não é mesmo? Uma coisa com­plicada.

Em vez de acompanhar Lacon, Smiley sentou-se no banco enferrujado de um balanço, aconchegando-se mais em seu sobretudo até que, afinal, Lacon retrocedeu furtiva­mente e aboletou-se ao lado dele. Durante algum tempo, ficaram balançando-se ao ritmo das ferragens que gemiam.

Por que cargas d'água ela foi escolher Tarr? murmurou finalmente Lacon, brincando com seus longos dedos. Não consigo imaginar uma pessoa mais im­própria.

Eu acho que você teria de fazer essa pergunta a uma mulher, não a mim declarou Smiley, voltando a pensar onde seria Immingham.

É verdade concordou Lacon generosamente. Um perfeito mistério. Vou encontrar-me com o minis­tro às onze horas anunciou num tom de voz mais baixo. Tenho de colocá-lo a par da situação. Ele é seu primo, membro do Parlamento acrescentou, forçando um gra­cejo íntimo.

É primo de Ann, na realidade corrigiu Smiley, no mesmo tom ausente. Muito afastado, eu poderia acrescentar. Mas é primo dela, sem dúvida.

E Bill Haydon também é primo de Ann? Nosso eminente chefe da Estação de Londres?

Eles já tinham feito esse jogo anteriormente.

Por um outro ramo da família. Bill também é primo dela. Ann pertence a uma antiga família, de sólida tradição política. Com o passar do tempo, ficou muito ra­mificada acrescentou Smiley, de maneira totalmente supérflua.

A tradição ficou ramificada? Lacon apreciava acentuar uma ambigüidade.

Não. A família.

Mais além daquelas árvores, pensou Smiley, os carros continuavam passando. Mais além daquelas árvores esten­dia-se todo um mundo. Mas Lacon era o dono daquele castelo vermelho, e possuía um senso de ética cristã que não lhe prometia qualquer recompensa exceto um título de cavaleiro, o respeito de seus pares, uma polpuda pensão e dois ou três cargos de diretor, na City.

De qualquer maneira, vou avistar-me com ele às onze horas. Lacon tinha se levantado de maneira abrup­ta e estava caminhando outra vez.

Smiley teve a impressão de ouvir o nome "Ellis", que lhe voltava à lembrança, flutuando no ar da manhã, im­pregnado do odor das folhas. Durante um momento, como lhe acontecera no carro, ao lado de Guillam, um estranho nervosismo se apoderou dele.

Afinal de contas disse Lacon nossas posi­ções eram perfeitamente honrosas. Achando que Ellis tinha sido traído, você propôs uma caça às bruxas. Meu mi­nistro e eu achamos que tinha havido uma grande incom­petência da parte de Control, ponto de vista no mínimo compartilhado pelo Ministério do Exterior, e queríamos uma vassoura nova.

Eu compreendo muito bem seu dilema decla­rou Smiley, falando mais para si mesmo do que para Lacon.

Eu fico satisfeito com isso. E não se esqueça, George, você era o homem de Control. Ele preferiu você a Haydon. Quando perdeu o domínio da situação, lá para o fim, e lançou-se àquela aventura absolutamente extraor­dinária, foi você quem se levantou em favor dele. Ninguém a não ser você, George. Não é todos os dias que o chefe do nosso serviço secreto entra numa guerra privada contra os tchecos.

Era claro que ainda doía a lembrança de tudo aquilo. E Lacon prosseguiu:

Em outras circunstâncias, suponho que Haydon poderia ter sido encostado, mas você estava em situação difícil...

E Percy Alleline era o homem do ministro comentou Smiley num tom de voz suficientemente brando para que Lacon se moderasse e lhe desse ouvidos.

Não que você suspeitasse de alguém. Você não denunciou ninguém. Uma investigação desorientada pode ser terrivelmente destruidora.

Ao passo que uma vassoura nova sempre varre melhor comentou Smiley.

Percy Alleline? Tudo considerado, ele tem agido muitíssimo bem. Proporciona informações, em vez de criar escândalos, mantendo-se literalmente dentro de suas atri­buições. E ganhou a confiança dos clientes. Que eu saiba, ainda não invadiu a Tchecoslováquia.

Com Bill Haydon servindo de fiel, quem a teria invadido?

Control o teria feito, sem a menor dúvida de­clarou Lacon impetuosamente.

Eles se tinham detido junto à piscina vazia e estavam olhando para sua extremidade mais funda. Lá de suas águas sujas Smiley imaginou ouvir outra vez o tom insi­nuante de Martindale: "Pequenas salas de leitura no Almirantado, pequenas comissões com nomes esquisitos".

Aquela fonte especial de Percy ainda está operan­do? indagou Smiley. O material Bruxaria, ou que nome tenha hoje em dia.

Eu não sabia que você estava por dentro disso declarou Lacon, num tom nada satisfeito. Desde que você está perguntando, respondo que sim. A fonte Merlin é nosso baluarte. E Bruxaria ainda é o nome de seu pro­duto. Tanto quanto possa lembrar-me, o Circus não obti­nha há muitos anos um material tão bom.

E ainda está sujeito a todo aquele tratamento especial?

Certamente. E agora que isso aconteceu, não te­nho a menor dúvida de que teremos de tomar precauções ainda mais rigorosas.

Eu não procederia assim, se fosse você. Gerald poderá desconfiar.

Essa é a questão, não é mesmo? observou Lacon rapidamente.

A força de Lacon era imprevisível, refletiu Smiley. Parecia um magro e debilitado lutador de boxe cujas luvas fossem grandes demais para seus punhos. No entanto, logo em seguida punha-se a examinar as pessoas com sua com­paixão cristã.

Nós podemos agir. Podemos realizar uma inves­tigação, porque todos os instrumentos de um inquérito se acham em mãos do Circus, talvez com Gerald. Podemos observar, ficar à escuta, abrir a correspondência. Para fazer qualquer dessas coisas seria preciso contar com os recursos dos informantes de Esterhase. E o próprio Ester­hase, como qualquer outro, deve ser considerado suspeito. Podemos fazer interrogatórios, podemos tomar medidas que limitem o acesso de determinadas pessoas aos segredos delicados. Mas fazer qualquer dessas coisas seria correr o risco de alarmar Gerald. Esse é o problema mais antigo de todos, George. Quem poderá espionar os espiões? Quem poderá farejar um "toupeira" sem correr atrás dele?

E Lacon, numa terrível tirada de humor, acrescentou, num ousado aparte:

Um outro "toupeira", sem dúvida.

Num assomo de energia, Smiley se tinha afastado e estava caminhando à dianteira de Lacon, pisando forte, pela vereda que dava para o cercado do pônei.

Entre no jogo, Smiley. Procure o pessoal da se­gurança. É gente entendida. Fará o serviço para você.

O ministro não aceitaria isso. Você sabe perfei­tamente bem o que pensam ele e Alleline a respeito dessa coisa de competição. E estão certos, eu diria. Um grande número de antigos administradores das colônias a remexer nos papéis do Circus! Você poderia convocar o Exército para investigar a Marinha?

Não há termo de comparação — objetou Smiley.

Mas, como servidor civil, Lacon já preparara sua se­gunda metáfora, dizendo:

Muito bem. O ministro há de preferir ficar sob um telhado cheio de goteiras a ver seu castelo demo­lido por gente de fora. Isso o satisfaz? O ponto de vista dele é absolutamente certo, George. Nós temos agentes realizando trabalhos de campo e não daríamos grande coisa por sua integridade física se os homens do serviço de se­gurança entrassem no páreo.

Então chegou a vez de Smiley moderar-se, indagando:

Quantos são eles?

Uns seiscentos, mais ou menos.

E por trás da Cortina?

Temos um orçamento para cento e vinte.

Lacon nunca hesitava em questões de números e fatos de qualquer espécie: eram o ouro com que lidava, arran­cado do solo cinzento da burocracia.

Tanto quanto eu possa calcular, diante dos mapas financeiros continuou ele —, quase todas essas pessoas se acham atualmente em atividade.

Smiley deu um comprido passo.

Então eu posso dizer a ele que você fará isso, não posso? acrescentou Lacon num tom inteiramente informal, como se os problemas fossem de pouca impor­tância. Você se encarregará da tarefa e irá limpar as estrebarias? Mexer-se, fazendo tudo quanto for necessário? Afinal, é sua geração. Seu legado.

Smiley tinha aberto a porta do cercado do pônei, batendo-a com força à sua retaguarda. Estavam um diante do outro, divididos pela débil estrutura da cerca. Lacon, ligeiramente corado, tinha nos lábios um sorriso concilia­tório.

Por que falo em Ellis? indagou ele num tom coloquial. Por que falo no caso de Ellis quando o nome do pobre homem era Prideaux?

Ellis era o nome de guerra que ele tinha.

Sem dúvida. Havia tantos escândalos naquele tem­po que a gente se esquece dos detalhes. Houve uma pausa. Lacon balançou o braço direito e disse: Ele era amigos de Haydon e não seu?

Eles foram colegas em Oxford, antes da guerra comentou Smiley.

E companheiros de sala, no Circus, durante a guerra e depois. A famosa associação Haydon-Prideaux. Meu predecessor falava interminavelmente sobre isso. Mas você nunca foi íntimo dele, foi? indagou Lacon.

De Prideaux? Não.

Ele não é seu primo?

Pelo amor de Deus! murmurou Smiley.

Lacon ficou novamente sem jeito, mas um propósito obstinado o levou a continuar encarando Smiley. E in­dagou:

Não há uma razão emocional ou de qualquer outra natureza que você acredite poder afastá-lo dessa mis­são? Você precisa falar, George insistiu Lacon ansio­samente, como se aquilo fosse o que ele mais desejasse. Esperou uma fração de segundo e, em seguida, reco­meçou, dizendo: Embora eu não ache que hoje exista um verdadeiro problema. Há sempre uma parte de cada um de nós que pertence ao domínio público, não é fato? O contrato social age nos dois sentidos, e você sempre soube que eu tenho razão. Prideaux também.

Que significa isso? indagou Smiley.

Meu Deus! Ele levou um tiro, George. Uma bala nas costas é considerado um grande sacrifício. Até mesmo em seu mundo, não é verdade?

 

Quando se viu só, Smiley permaneceu de pé no ex­tremo da cerca, debaixo das árvores gotejantes, procuran­do controlar suas emoções, respirando fundo. Como se fosse uma doença antiga, o ódio o colheu de surpresa. Desde que fora afastado, vinha negando a existência desse ódio, mantendo-se a distância de tudo quanto pudesse de­flagrá-lo: jornais, ex-colegas, fofocas iguais às de Martindale. Transcorrida toda uma existência apoiada em seu talento e em sua considerável memória, tinha se decidido de corpo e alma pela profissão de esquecer. Havia-se forçado a dedicar-se a trabalhos de erudição, que o tinham ajudado bastante a distrair-se enquanto estava no Circus. Mas agora, que se via desempregado, eles não re­presentavam coisa alguma, absolutamente nada. Ele poderia ter exclamado: "Nada vezes nada!"

"Queime tudo", Ann havia sugerido a título de cola­boração, referindo-se a seus livros. "Ponha fogo na casa, mas não se deixe apodrecer."

Se para ela "apodrecer" significava "conformar-se", tinha razão para perceber que esse era seu alvo. Havia ten­tado, realmente se esforçado para isso, ao aproximar-se do que os anúncios das companhias de seguros denominam o anoitecer da existência. Ser tudo quanto um rentier[9] modelo deveria ser. Embora ninguém, especialmente Ann, reconhecesse esse esforço. Todas as manhãs, quando se levantava da cama, e todas as noites, quando ia deitar-se, geralmente sozinho, lembrava a si próprio que nunca havia sido indispensável. Ensinara a si mesmo a admitir que naqueles últimos e miseráveis meses da carreira de Control, quando os fracassos se sucediam numa rapidez vertiginosa, ele fora culpado por ver as coisas fora de suas justas pro­porções. E se o antigo profissional de vez em quando se rebelava dentro dele e dizia: "Você sabia que o lugar tinha ficado ruim, sabia que Jim Prideaux fora traído. Que tes­temunho mais eloqüente do que uma ou duas balas nas costas?", ele replicava: "Vamos admitir que eu estivesse certo". Dizia a si próprio: "Pura vaidade acreditar que um espião gordo, de meia-idade, haveria de ser a única pes­soa capaz de manter o mundo em seu lugar". Em outras ocasiões pensava assim: "Nunca ouvi dizer que alguém tenha saído do Circus sem alguma tarefa inacabada..."

Somente Ann, embora não fosse capaz de penetrar no íntimo de suas atividades, recusava-se a aceitar tais evi­dências. Ela era de fato muito apaixonada em questões de trabalho, como só as mulheres são capazes de ser, e real­mente o concitava a retomar as tarefas no ponto em que as tivesse deixado, jamais se desviando delas por causa de argumentos fáceis. Não que soubesse dos fatos. Mas que mulher jamais parou por falta de informação? Ela sentia as coisas e desprezava-o por ele não agir de acordo com a própria intuição.

Agora, no exato momento em que estava bem perto de começar a crer em seus próprios dogmas, façanha que não era absolutamente facilitada pela paixão de Ann por um ator desempregado, o que acontecia era apenas o fato de os espectros de seu passado, todos reunidos, Lacon, Control, Karla, Alleline, Esterhase, Bland e, finalmente, o próprio Bill Haydon, entrarem em sua cela para informá-lo alegremente, ao arrastá-lo de volta para aquele mesmo jardim, de que era verdadeiro tudo quanto ele vinha deno­minando vaidade.

"Haydon", repetia Smiley para si próprio, "já é inca­paz de deter o fluxo da memória." Até esse nome era como um golpe violento. "Dizem que você e Bill compartilha­vam tudo, antigamente", comentara Martindale. Smiley fi­cou olhando para as mãos gordas, e reparou que estavam trêmulas. Estaria velho demais? Incapaz? Com medo de ir à caça? "Há sempre uma dúzia de razões para não se fazer nada", Ann gostava de dizer. Isso era, de fato, a desculpa dileta para muitos de seus desacertos. E acrescentava: "Há apenas uma razão para a gente fazer alguma coisa: faz porque quer". Ou será obrigado a fazer? Isso Ann negaria com veemência: a coerção, diria ela, é apenas outra pala­vra para uma pessoa fazer o que quer, ou deixar de fazer aquilo de que tem medo.

 

Os filhos que nascem entre os irmãos mais velhos e os mais moços choram mais do que os outros. Apoiada ao ombro da mãe, acalmando sua dor e seu orgulho ferido, Jackie Lacon ficou olhando as pessoas que saíam. Primei­ro, os dois homens que não tinha visto antes, um alto, o outro baixo e moreno. Partiram numa camioneta pequena e verde. Ninguém lhes disse adeus, reparou ela, ou até mesmo se despediu deles. Em seguida, o pai seguiu em seu carro. Finalmente, um homem louro e de boa aparência, e outro, baixo e gordo, enfiado num enorme sobretudo que parecia a manta de um pônei, dirigiram-se para um carro esporte que estava estacionado sob as faias. Durante um momento ela realmente pensou que alguma coisa deveria estar errada com o gordo: acompanhava o outro tão deva­gar e tão penosamente! Em seguida, vendo o bonitão se­gurar a porta do carro para o gordo, este pareceu acordar e caminhou apressadamente, de um jeito saltitante. Inex­plicavelmente, esses movimentos tornaram a perturbá-la. Um mar de tristeza se apoderou dela e sua mãe não con­seguiu dar-lhe consolo.

 

Peter Guillam era um homem cavalheiresco e suas lealdades conscientes eram determinadas por suas afeições. As outras se haviam formado há muito tempo, no Circus. Seu pai, um francês, homem de negócios, fora espião da rede do Circus durante a guerra, e sua mãe, inglesa, reali­zara misteriosas tarefas na seção de códigos. Até oito anos antes, disfarçado em agente de uma empresa de transpor­tes, Guillam tivera seus próprios homens no norte da Áfri­ca francesa, o que foi considerado uma tarefa de morte. Foi descoberto, seus homens foram enforcados e ele entrou na longa meia-idade dos profissionais encostados. Traba­lhou para terceiros em Londres, às vezes para Smiley, rea­lizou algumas operações com base na Inglaterra, entre elas dirigir uma rede de garotas que não eram "interconscientes", como se diz no jargão profissional. E quando o grupo de Alleline tomou o poder, foi mandado "pastar" em Brixton porque, segundo ele próprio acreditou, seus contatos entre ele e Smiley eram errados. Assim é que teria resolu­tamente contado a história de sua vida até a última sexta-feira. No final, trataria principalmente de suas relações com Smiley.

Naquele tempo vivia principalmente junto às docas de Londres, aliciando redes de baixo nível, constituídas de marinheiros: quaisquer estranhos, marujos poloneses, rus­sos e chineses, nos quais porventura conseguisse deitar a mão. Nos intervalos dessa atividade, ficava sentado numa pequena sala do primeiro andar do Circus a consolar Mary, uma bonita secretária. E sentia-se perfeitamente feliz, salvo quanto ao fato de que ninguém, no exercício de cargo im­portante, jamais respondesse aos memorandos que ele enviava. Quando usava o telefone, a linha estava sempre ocupada ou ninguém o atendia. Tinha vagamente ouvido dizer que havia problemas, mas sempre havia problemas. Era do conhecimento geral, por exemplo, que Alleline e Control estavam às turras um com o outro. Mas não fa­ziam outra coisa há muitos anos. Soube também, como todas as demais pessoas, que uma grande operação fracas­sara na Tchecoslováquia e que Jim Prideaux, chefe dos caçadores de escalpos, o mais antigo auxiliar tcheco, um homem que tinha sido o braço direito de Bill Haydon du­rante a vida inteira, levara um tiro e fora encostado. Isso, resumiu ele, explicava todo aquele silêncio eloqüente e aquelas fisionomias abatidas, e também justificava aquela cólera maníaca de Bill Haydon. As notícias a esse respeito faziam correr um frêmito nervoso por todo o edifício: era como a cólera de Deus, dizia Mary, que adorava as paixões violentas. Mais tarde, ouviu falar na catástrofe denomi­nada Testemunho. Haydon lhe dissera muito depois que tinha sido a operação mais incompetente do mundo, lan­çada por um velho para sua glória agonizante, e Jim Pri­deaux fora o preço dessa catástrofe. Os jornais publicaram pequenos tópicos sobre o assunto, houve pedidos de infor­mações no Parlamento, e até mesmo rumores, jamais ofi­cialmente confirmados, de que tropas britânicas, na Ale­manha, haviam sido colocadas em estado de alerta.

Finalmente, quando perambulava pelas salas de um e de outro, começou a perceber que todos já haviam tomado conhecimento desses fatos algumas semanas antes. O Circus não estava apenas mudo, mas também congelado. Coisa alguma lhe chegava ou dele saía. Nem mesmo ao nível em que Guillam trabalhava. No prédio, as pessoas que ocupavam posições de comando tinham sido enterra­das. E quando era dia de pagamento, não havia envelopes amarelos nos escaninhos, isso porque, na opinião de Mary, as secretárias não tinham recebido as instruções mensais para preparar tais envelopes. De vez em quando alguém afirmava ter visto Alleline saindo de seu clube com uma cara furiosa, ou que Bill Haydon renunciara porque tinha sido desautorizado ou sabotado. Mas Bill vivia renuncian­do. Dessa vez, afirmavam os boatos, as razões eram um pouco diferentes: Haydon estava uma fera porque o Circus não pagara o preço exigido pelos tchecos para a repatria­ção de Jim Prideaux. Dizia-se que era excessivamente elevado, em matéria de agentes ou de prestígio. E que Bill explodira num de seus acessos de chauvinismo, tendo de­clarado que qualquer preço seria justo para trazer de volta à pátria um inglês leal: que se desse tudo a eles e se con­seguisse o retorno de Jim.

Foi então, numa tarde, que Smiley surgiu à porta de Guillam e sugeriu um drinque. Mary não percebeu quem era e disse apenas "olá", com sua voz arrastada, num estilo sem classe. Quando eles saíram do Circus, um ao lado do outro, Smiley deu boa-noite aos porteiros com uma reserva fora do comum. Num bar da Wardour Street, declarou: "Fui despedido". Nada mais.

Do bar eles foram até uma casa de vinhos, perto de Charing Cross, onde havia música, mas que estava inteira­mente vazia.

Eles deram a razão? indagou Guillam. Ou foi porque você engordou?

Smiley tinha se prendido à palavra "razão". Naquela altura, já inteiramente bêbado, embora de maneira educa­da, a palavra "razão", enquanto caminhava cambalean­do, ao longo do aterro do Tâmisa, não lhe saía da mente.

Razão como lógica, ou razão como motivo? indagou ele, numa voz que mais parecia de Bill Haydon do que dele próprio. O estilo polêmico de Haydon, no pe­ríodo anterior à guerra, na Oxford Union, parecia, naqueles dias, estar em todos os ouvidos. Ou razão como estilo de vida? Os dois sentaram-se num banco. Eles não tinham de dar razões a mim. Eu posso escrever minhas próprias e malditas razões. Mas isso não é a mesma coisa insistiu ele enquanto Guillam o conduzia cuidadosa­mente para dentro de um táxi, dava ao chofer dinheiro e o endereço de Smiley. Isso não é a mesma coisa que a tolerância idiota que resulta de não ligar mais para nada.

Amém disse Guillam, percebendo tudo clara­mente, enquanto observava o carro que se afastava: se­gundo as normas do Circus, a amizade que existia entre eles dois terminara naquele instante. No dia seguinte, Guillam soube que outras cabeças tinham rolado, e que Percy Alleline deveria ficar como "vigia da noite", com o título de chefe interino, ao passo que Bill Haydon, para espanto geral, trabalharia sob as ordens de Alleline. Ou, como dis­seram os mais sábios, "acima" das ordens deste último. Pelo Natal, Control já tinha morrido. "Eles pegarão você a seguir", declarou Mary, que viu naqueles acontecimentos uma espécie de segundo assalto ao Palácio de Inverno. Ela chorou quando Guillam foi degredado para a "Sibéria" de Brixton a fim de preencher, ironicamente, a vaga de Jim Prideaux.

Subindo os quatro degraus do Circus, naquela tarde chuvosa de segunda-feira, a mente de Guillam iluminou-se com a perspectiva de uma felonia, e ele passou em revista os acontecimentos, decidindo-se a começar naquele dia a viagem de volta.

 

Passara a noite anterior em seu espaçoso apartamento, em Eaton Place, em companhia de Camila, uma estudante de música longilínea e de rosto belo e triste. Embora não contasse mais de vinte anos, seus cabelos negros eram estriados de fios brancos, talvez em conseqüência de algum trauma sobre o qual nunca fazia a menor referência. E, possivelmente, como outro efeito do mesmo trauma indes­critível, não comia carne de espécie alguma, nada usava que fosse feito de couro e não tocava em qualquer bebida alcoólica. Parecia a Guillam que somente no amor ela era livre dessas misteriosas restrições.

Ele passara a manhã sozinho em seu quarto literal­mente sórdido, em Brixton, fotografando documentos do Circus, tendo retirado uma máquina fotográfica minúscula de seu equipamento operacional, o que freqüentemente fazia, para conservar a prática. O encarregado de guardar esse material indagara: "Luz do dia ou luz elétrica?" E eles tinham travado um cordial debate a respeito das características do filme. Guillam informara à secretária que não queria ser perturbado e, fechando a porta, começou a trabalhar de acordo com as exatas instruções de Smiley. As janelas ficavam no alto da parede. Mesmo sentado, porém, ele via o céu e a ponta do telhado de uma nova escola, na estrada.

Começou pelas obras de consulta, retiradas de seu próprio cofre. Smiley dera prioridade a isso. Primeiro, o guia pessoal, distribuído apenas aos funcionários graduados e que fornecia os endereços, números de telefones, nomes verdadeiros e nomes de guerra de todo o pessoal do Circus lotado em Londres. Em segundo lugar, o manual dos encargos do pessoal, que incluía um diagrama, dobrado, da reorganização do Circus sob a chefia de Alleline. Ao centro do diagrama ficava a Estação de Londres, de Bill Haydon, como se fosse uma gigantesca aranha em sua teia. "Após o fiasco de Prideaux", dizia-se que Bill afirmara, num assomo de cólera, "não teremos mais esses malditos exércitos particulares, nem as mãos esquerdas sem saber o que as mãos direitas estão fazendo." Alleline, reparou Guillam, era incluído duas vezes no diagrama: uma como chefe e outra como diretor de Fontes Especiais. Segundo um boato, essas fontes é que mantinham o Circus em marcha. Nada mais, na opinião de Guillam, poderia expli­car a inércia do Circus, em matéria operacional, e o prestígio que desfrutava em Whitehall. A esses documen­tos, por insistência de Smiley, ele acrescentara a relação, revista, dos encargos dos caçadores de escalpos, sob a forma de uma carta de Alleline, que começava assim: "Caro Guillam", e estabelecia em seus detalhes a redução das atribuições dele. Em vários casos Toby Esterhase é quem saíra ganhando: era o chefe dos informantes do Acton, o único órgão, fora do Circus, que de fato crescera com o lateralismo.

Em seguida, Guillam transportou sua mesa e fotogra­fou, também segundo as instruções de Smiley, um punhado de circulares de rotina que poderiam ser úteis como leitura preliminar. Incluíam um estouro indignado de Admin so­bre as casas de segurança da área de Londres — "Trate-as bem, como se fossem suas" — e outro acerca do abuso dos telefones do Circus, que não constavam da lista de assinantes, para chamadas de caráter particular. Final­mente, uma carta pessoal muito áspera, advertindo-o "pela última vez de que sua carteira de motorista, com seu nome de guerra, está vencida" e que, se ele não se desse ao tra­balho de renová-la, seu nome seria enviado às secretárias para a devida ação disciplinar.

Guillam guardou a máquina fotográfica e voltou a seu cofre. Na prateleira de baixo havia um monte de rela­tórios de informantes, com a assinatura de Toby Esterhase e carimbados com a palavra de código "Machadinha". Esses papéis davam os nomes e os falsos empregos de duzentos ou trezentos agentes de espionagem soviéticos que operavam em Londres sob o disfarce de exercer ativida­des legais ou semilegais, no comércio, na Agência Tass, na Aeroflot, na Rádio de Moscou, ou em funções consula­res e diplomáticas. Onde era apropriado, davam também notícias das investigações dos informantes, ou nomes das "linhas auxiliares", o jargão para contatos realizados du­rante as investigações e não, necessariamente, levados até o fim. Os relatórios eram reunidos em volumes anuais e suplementos mensais. Guillam consultou primeiro os volu­mes e depois os suplementos. Às onze e doze fechou o cofre, telefonou para a Estação de Londres, pela linha direta, e mandou chamar Lauder Strickland, da seção ban­cária:

— Lauder, aqui fala Peter, de Brixton. Como vão as coisas?

Peter? O que podemos fazer por você?

O tom foi rápido e reticente. Assim como se dissesse: "Nós, da Estação de Londres, temos amigos mais im­portantes".

Tratava-se do problema de um dinheiro sujo, explicou Guillam: financiar um trabalho contra um correio diplo­mático francês que parecia estar à venda. Com seu tom de voz mais brando, Guillam indagou se Lauder acaso poderia arranjar tempo para que eles dois se encontrassem e discutissem o assunto. Lauder indagou se o projeto já es­tava aprovado pela Estação de Londres e Guillam respon­deu que não, mas que já tinha enviado os papéis a Bill, pela mala direta. Lauder Strickland ficou mais manso e Guillam insistiu, dizendo que havia um ou dois aspectos encrencados, e que achava estar precisando de um cérebro como o dele, Lauder. Este declarou que poderia dispor de meia hora.

A caminho do West End, Guillam deixou os filmes na modesta loja de um farmacêutico chamado Lark, em Charing Cross Road. Lark, se aquele homem era ele, era muito gordo e tinha punhos imensos. A farmácia estava vazia.

— São filmes para revelar — declarou Guillam.

Lark apanhou o embrulho, levou-o para uma sala que ficava nos fundos da farmácia e, quando voltou, disse, numa voz de chocalho:

Tudo pronto. Em seguida, bufou como se es­tivesse soltando uma baforada de cigarro, o que não era o caso. Acompanhou Guillam até a porta e a fechou rui­dosamente. "Onde, neste mundo de Deus", imaginou Guil­lam, "George encontra gente assim?" Comprara umas pas­tilhas para a garganta. Todos os movimentos deveriam ser levados em conta. Smiley o advertira: "Presuma que o Circus tenha soltado os cães em seu encalço durante as vinte e quatro horas do dia". "Mas o que haveria de novo nisso?", pensou Guillam. Toby Esterhase poria seus cães no rastro da própria mãe, se isso lhe rendesse um tapinha nas costas, dado por Alleline.

De Charing Cross ele foi caminhando até o Chez Vic­tor para almoçar com seu chefe, Cy Vanhofer, e com um capanga que dizia chamar-se Lorimer e se vangloriava de compartilhar sua amante com o embaixador da Alemanha Oriental em Estocolmo. Lorimer declarou que a menina estava pronta a entrar no jogo, mas precisava obter a cida­dania britânica e receber muito dinheiro contra a entrega da primeira pescaria. Ela faria tudo, disse Lorimer: ler a correspondência do embaixador, dar buscas nos aposen­tos do homem e até pôr cacos de vidro no banho dele, o que se considerou uma piada. Guillam reparou que Lorimer estava mentindo, e sentiu-se inclinado a pensar que Vanhofer também. Mas foi bastante sensato para per­ceber que não se encontrava então em condições de dizer quando uma pessoa estava mentindo. Guillam gostava do Chez Victor, mas não tinha a menor lembrança do que comera. Ao sair do restaurante, entrou no vestíbulo do Circus e reparou no motivo de seu esquecimento: era a excitação que sentia.

Alô, Bryant.

Muito prazer em vê-lo, Mr. Guillam. Sente-se, por favor disse Bryant.

Obrigado, Bryant disse Guillam, sem parar nem para tomar fôlego. E aboletou-se num banco de ma­deira, pensando em dentistas e em Camila. Ela era uma aquisição recente e um tanto caprichosa. Já fazia algum tempo e as coisas não evoluíam tão depressa para ele. Co­nheceram-se numa festa e ela falou sobre a verdade, sozi­nha num canto, bebendo suco de cenoura. Guillam comen­tou, de passagem, que a ética não era seu forte. Por esse motivo, eles não poderiam ir para a cama juntos? Ela refle­tiu gravemente por alguns instantes. Em seguida, foi apa­nhar o casaco. Desde esse dia, Camila se deixou ficar, preparando rissoles de castanhas e tocando flauta.

O vestíbulo parecia mais sujo do que nunca. Três velhos elevadores, um balcão de madeira, um cartaz de chá Mazawattee, a guarita de sentinela de Bryant, toda de vidro, com um calendário contendo paisagens da Ingla­terra, uma fileira de telefones empoeirados.

Mr. Strickland está a sua espera disse Bryant ao aparecer. E com vagarosos movimentos carimbou uma ficha cor-de-rosa: "Hora — 14:25. P. Bryant, porteiro". A grade do elevador do centro chocalhava como um feixe de gravetos secos.

Já era tempo de você pôr um pouco de óleo nesta geringonça disse Guillam enquanto esperava que o elevador começasse a funcionar.

Vivo implorando isso declarou Bryant, repe­tindo sua queixa predileta. — Eles não tomam a menor providência. Um homem não pode viver pedindo as coisas até ficar roxo. Como vai passando sua família?

Muito bem respondeu Guillam, que não tinha família de espécie alguma.

— Ótimo — comentou Bryant. Olhando para baixo, Guillam viu aquela cabeça cor de creme desaparecer sob seus pés. Mary chamava Bryant de morangos com creme e baunilha, lembrou-se Guillam: cara vermelha, cabelos brancos e sem brilho.

Dentro do elevador, Guillam examinou o passe: "Li­cença para entrar no ls", dizia o cabeçalho. "Finalidade da visita: seção bancária." E mais: "Este documento deverá ser devolvido à saída". E um espaço em branco, para "a assinatura de quem vai receber".

Prazer em vê-lo, Peter. Como vai você? um pouco atrasado, acho eu. Mas isso não tem importância.

Lauder estava esperando atrás da divisória, com seu metro e meio de altura, de camisa branca e secretamente nas pontas dos pés, para receber sua visita. No tempo de Control, aquele andar do prédio era um ir e vir de pessoas atarefadas. Hoje em dia, uma barreira fechava-lhe a en­trada, e um porteiro com cara de rato examinou detida­mente o passe de Guillam.

— Meu Deus! Há quanto tempo você tem esse mons­tro? — indagou Guillam, curvando-se diante de uma nova e reluzente máquina de fazer café. Duas moças, que esta­vam enchendo uns copos grandes, olharam em torno e disseram "olá, Lauder", fitando Guillam. A mais alta o fez lembrar Camila: os mesmos olhos de brasas dormidas, censurando a insuficiência dos homens.

— Você não faz idéia de quantos homens-horas isso me poupa — exclamou Lauder. — É fantástico. Verdadei­ramente fantástico. — E quase deu um esbarrão em Bill Haydon, em seu entusiasmo.

Bill estava saindo de sua sala, um aposento hexagonal que dava para a Compton Street e para a Charing Cross Road. Vinha na mesma direção que eles, embora a um quilômetro por hora, velocidade máxima no caso de Bill. Na rua ele era outro. Guillam também já observara isso, nos jogos de treinamento, em Sarratt. E certa vez numa encrenca noturna, na Grécia. Na rua, ele era rápido e cheio de vivacidade. Naquele úmido corredor, sombrio e remoto, seu rosto era outro. Ao ar livre, com seus traços fortes, parecia ser modelado pelos longínquos lugares onde tinha servido. Era sempre assim: nenhum teatro de operações deixara de ter a marca de Haydon, observara Guillam, com admiração no olhar. Várias vezes, em sua própria carreira, Guillam tivera o, mesmo e estranho encontro com aquela marcha exótica de Bill. Um ou dois anos antes, Guillam ainda trabalhava para o serviço secreto da Mari­nha e tinha como uma de suas metas reunir uma equipe de olheiros que espionassem o litoral vizinho aos portos chineses de Wenchow e Amoy. Então descobriu, com es­panto, que esses olheiros de fato eram agentes chineses que tinham ficado naquelas cidades, havendo sido recru­tados por Bill Haydon durante alguma esquecida façanha de guerra. Estavam equipados com rádios, possuíam ma­terial camuflado e, com isso, podiam estabelecer contatos. Em outra ocasião, examinando umas fichas de guerra de membros importantes do Circus, mais levado pela nostalgia daquele período do que por otimismo profissional, Guillam encontrou duas vezes o nome de guerra de Haydon, num instante: em 1941 ele estava dirigindo uma frota de barcos de pesca francesa, à entrada do estuário de Helford; no mesmo ano, tendo Jim Prideaux como seu auxiliar direto, estabeleceu linhas de correios através da Europa meridional, dos Balcãs a Madri. Para Guillam, Haydon pertencia àquela geração do Circus que estava desapare­cendo e não se repetiria, à qual seu pai e George Smiley também haviam pertencido. Era uma geração única e, no caso de Haydon, de sangue azul, que vivera com vagar uma dúzia de vidas, comparadas à sua própria existência apres­sada, e que, transcorridos trinta anos, havia dado ao Circus aquela sua atmosfera impregnada de aventura. E isso estava desaparecendo.

Avistando os dois homens, Haydon permaneceu imó­vel como uma rocha. Havia um mês que Guillam falara com ele. Haydon provavelmente estivera fora, em alguma atividade não esclarecida. Agora, à luz do vão de sua porta aberta, parecia estranhamente moreno e alto. Tinha alguma coisa nas mãos, mas Guillam não pôde identificar o que seria: uma revista, uma pasta de arquivo ou um relatório. A sala dele, dividida em duas por sua própria sombra, tinha a desordem do quarto de um estudante universitário, com um aspecto monacal e caótico. Relatórios, papéis de cópia e dossiês jaziam aos montes por toda parte; à parede, um quadro de avisos, de baeta, estava cheio de cartões-pos­tais e recortes de jornais; ao lado desse quadro, torto e sem moldura, pendia uma das velhas telas do próprio Haydon, um quadro abstrato, arredondado, nas ásperas cores do deserto.

— Olá, Bill — disse Guillam.

Deixando a porta aberta — uma infração ao regula­mento da casa —, Haydon entrou antes deles, ainda sem dizer palavra. Estava vestido com sua habitual extravagân­cia: as aplicações de couro de seu paletó haviam sido costuradas em forma de losangos, e não de quadrados, o que lhe dava, visto de costas, o aspecto de um arlequim. Seus óculos estavam acavalados no topete grisalho. Por um momento, os dois acompanharam Haydon de maneira incerta, até que, sem qualquer aviso prévio, subi­tamente ele se voltou, parecendo uma estátua que esti­vesse girando lentamente sobre seu pedestal, e cravou o olhar em Guillam. Haydon esboçou um sorriso, suas so­brancelhas, em forma de crescentes, ergueram-se como as de um palhaço, e seu rosto tornou-se belo e absurda­mente jovem.

Que diabo você está fazendo por aqui, "seu coi­sa"? indagou jovialmente.

Levando a pergunta a sério, Lauder começou a expli­car o caso do francês e do dinheiro sujo.

Não se esqueça de pôr os talheres debaixo de chave disse Bill, falando diretamente a ele. Esses malditos caçadores de escalpos seriam capazes de roubar o ouro das obturações dos dentes de uma pessoa. E tran­que as moças também acrescentou ele, como se estives­se pensando melhor, com o olhar ainda fixo em Guillam —, se elas consentirem. Mas desde quando os caçadores de escalpos "lavam" seu próprio dinheiro? Essa parte sempre foi nossa.

Lauder é que estava fazendo isso. Nós estamos apenas gastando a grana.

Eu só cuido de papéis disse Haydon, dirigindo-se a Strickland num tom de súbita rispidez. Não ando mais atravessando malditas cercas de arame.

Já foram encaminhados para você declarou Guillam. Provavelmente agora se encontram em sua caixa de entrada de papéis.

Num último gesto de insistência para que passasse adiante dele, Guillam sentiu o olhar azul-pálido de Haydon atravessando-lhe as costas durante toda a extensão que percorreu até dobrar a primeira volta do corredor.

Um sujeito fantástico declarou Lauder, como se Guillam nunca tivesse visto Bill Haydon. A Estação de Londres não poderia estar em melhores mãos. Uma capacidade incrível. Um passado incrível. Brilhante. "Ao passo que você," pensou Guillam cheio de irritação, "é brilhante por tabela, ao lado de Bill, da máquina de fazer café e dos bancos." Suas reflexões foram interrom­pidas pela voz cáustica e cockney de Roy Bland, que saía de uma porta diante deles.

Espere um minuto, Lauder. Você encontrou o demônio do Bill em algum lugar? Está sendo chamado com urgência.

O eco fiel e centro-europeu de Toby Esterhase veio da mesma direção: Com urgência, Lauder. Nós estamos em estado de alerta por causa dele.

Tendo chegado ao último e estreito corredor, Lauder estaria talvez uns três passos adiante e já pensava qual seria sua resposta a essa pergunta no momento em que Guillam se aproximou do vão da porta aberta e olhou para dentro da sala. Bland, esparramado pesadamente sobre sua mesa de trabalho, tirara o paletó e estava agarrado a um jornal. Manchas de suor rodeavam-lhe as axilas. O pequeni­no Toby Esterhase debruçava-se sobre ele como um maître, um teso embaixador em miniatura, com os cabelos pratea­dos e o queixo estirado para a frente, numa expressão ina­mistosa, estendendo a mão para o jornal como se estivesse recomendando alguma especialidade da casa. Era evidente que haviam lido o mesmo documento quando Bland deu com os olhos em Lauder Strickland, que vinha passando.

Eu de fato vi Bill Haydon disse Lauder, que tinha o hábito de repetir as perguntas para torná-las mais interessantes. Suspeito de que esteja vindo ver vocês, neste momento. Acha-se a poucos passos daqui, lá no corredor. Trocamos algumas palavras sobre dois ou três assuntos.

O olhar de Bland desviou-se lentamente em direção a Guillam e se deteve, fixando-se nele. Sua gélida ava­liação fez lembrar, desconfortavelmente, a de Haydon.

Olá, Peter disse ele.

Nesse momento, o minús­culo Toby empertigou-se, endireitando a espinha, e voltou os olhos também para Guillam. Eram castanhos e tran­qüilos como os de um perdigueiro.

Olá disse Guillam. Qual é a piada?

Saudaram-se não apenas de maneira muito fria, mas positivamente hostil. Guillam tinha vivido como carne e unha com Toby Esterhase durante três meses, numa opera­ção muito cheia de artimanhas, na Suíça, e Toby não sor­rira uma única vez. Por isso seu olhar não o surpreendeu. Mas Roy Bland era uma das descobertas de Smiley, tipo impulsivo e de sangue quente. Tinha os cabelos ruivos, era corpulento, um intelectual primitivo cuja noção de dar boa-noite consistia em discorrer sobre Wittgenstein [10]nos bares de Kentish Town. Passara dez anos como merce­nário do Partido, perfazendo o circuito acadêmico através da Europa oriental. Agora, estava no Circus, do mesmo modo que Guillam, o que era coisa semelhante a um cativeiro. Seu estilo habitual era abrir-se num esgar de riso, dar um tapa no ombro das pessoas e despejar-lhes um bafo da cerveja que bebera na noite anterior.

— Não é piada nenhuma, Peter, amigo velho — disse Roy esboçando um tardio sorriso. — Estou surpreso de ver você. É só isso. Nós estamos acostumados a ter este andar só para nós.

Bill está aqui — declarou Lauder, muito satis­feito ao ver seu prognóstico tão prontamente confirmado. Numa réstia de luz, no momento em que Haydon entrou, Guillam reparou na estranha cor de suas faces: um verme­lho vivo, muito acentuado sobre os malares, mas profundo, causado pela ruptura de minúsculas veias. Isso lhe dava, pensou Guillam no auge de seu nervosismo, um ligeiro ar de Dorian Gray.

 

O encontro de Guillam com Lauder Strickland durou uma hora e vinte minutos. Guillam o esticou durante todo esse tempo e, enquanto se prolongou, seus pensamentos tornaram a voltar-se para Bland e Esterhase. Ficou imagi­nando que diabo estariam fazendo.

— Bem. Suponho que é melhor eu dar o fora e resolver tudo isso com a Dolphin — disse Guillam, final­mente. — Nós todos sabemos o que ela pensa a respeito dos bancos suíços. — As secretárias ficavam a apenas dois passos do setor bancário. — Vou deixar isto aqui — acres­centou, atirando o passe na mesa de Lauder.

A sala de Diana Dolphin cheirava a desodorante recém-aplicado. Sua bolsa de malhas de metal estava num cofre, ao lado de um exemplar do Financial Times. Ela era uma daquelas "noivas" bem cuidadas do Circus, com quem ninguém se casava. Sim, declarou Guillam num tom fatigado, os documentos operacionais já haviam sido sub­metidos à Estação de Londres. Ele compreendia que ter as mãos livres em matéria de dinheiro sujo era coisa do passado.

— Nesse caso nós estudaremos o problema e o in­formaremos do resultado — declarou ela, o que significava que iria perguntar a Phil Porteous, na sala ao lado.

— Então eu direi isso a Lauder — declarou Guillam antes de sair. E pensou: "Para a frente".

No lavatório dos homens, Guillam esperou trinta se­gundos diante da pia, observando a porta através do espe­lho e atento a qualquer rumor. Um estranho silêncio baixara sobre o andar inteiro. "Vamos", pensou ele, "você está ficando velho. Vá em frente." Atravessou o cor­redor, entrou ousadamente na sala dos funcionários de ser­viço, bateu a porta e olhou em volta. Calculou que teria uns dez minutos, e reparou que a porta que ele batera tinha feito menos barulho, naquele silêncio, do que uma porta sub-repticiamente fechada. "Vá em frente", pensou.

Guillam havia trazido sua máquina fotográfica, mas a luz era péssima. A janela, com uma cortina de filó, dava para um pátio cheio de canos enegrecidos. Ele não poderia se arriscar a usar uma lâmpada mais forte, mesmo que dis­pusesse de uma, e, por isso, usou a memória. Não parecia que muita coisa houvesse mudado desde que Alleline assu­mira a direção. Durante o dia, aquela saia era usada como local de descanso para as moças. E continuava a sê-lo, a julgar pelo odor de perfume barato que ainda exalava. En­costado a uma das paredes, havia um divã que, à noite, era transformado em péssima cama. Ao lado dele, um estojo de primeiros socorros com a cruz vermelha de sua face an­terior desbotada, e um aparelho de televisão que não fun­cionava. O cofre estava no mesmo lugar, entre o interrup­tor e os telefones trancados a cadeado. Guillam foi direta­mente ao cofre. Era um velho móvel, que poderia ser arrombado com um abridor de latas. Ele trouxera suas gazuas e duas ferramentas de uma liga leve. Então lem­brou-se de que a combinação costumeira era 32—22—11, e a experimentou: quatro para a esquerda, três para a direita, duas para a esquerda, depois para a direita, até que a porta cedeu. Quando Guillam abriu o cofre, levantou-se do fundo uma nuvem de poeira. Ele se afas­tou um pouco, agachando-se. Em seguida, levantou-se vagarosamente, encaminhando-se na direção da janela escura. No mesmo instante ouviu um som, como se fosse a nota isolada de uma flauta. Provavelmente tinha sido um carro freando na rua, ou talvez a roda de um car­rinho de arquivo, rangendo sobre o linóleo. Naquele ins­tante, porém, era uma das longas e dolentes notas dos exercícios de escalas praticados por Camila. Ela tocava flauta exatamente quando lhe dava na veneta: à meia-noite, de manhã cedo ou a qualquer outra hora. Não ligava a menor importância aos vizinhos, e parecia inteiramente apática. Lembrou-se dela, na primeira noite: "Qual é o seu lado da cama? Onde eu vou pôr minha roupa?" Guillam orgulhava-se de seu jeito delicado em relação a coisas desse tipo, mas Camila não se importava com isso: a técni­ca já era uma transigência, uma transigência com a reali­dade. Ela diria tratar-se de uma fuga da realidade. "Muito bem, então me tire desta situação."

As folhas do registro do trabalho diário estavam na prateleira do alto, em volumes encadernados, com as da­tas colocadas em suas lombadas. Pareciam livros de con­tabilidade de uma família. Ele tirou o volume de abril e estudou as listas de nomes na capa interna, imaginando se alguém não o estaria vendo da sala de duplicação, do outro lado do pátio. E se estivesse, haveria de importar-se com isso? Começou a examinar os verbetes, procurando as noites dos dias 10 e 11, quando teriam sido trocados os "sinais" entre a Estação de Londres e Tarr. Havia uma diferença de dez horas a mais entre Hong Kong e Londres, Smiley observara. O telegrama de Tarr e a primeira res­posta de Londres tinham sido transmitidos fora de hora.

Veio do corredor um súbito e crescente ruído de vozes e, durante um momento, Guillam chegou a imagi­nar que estava reconhecendo a voz de Alleline, que se elevava, contando alguma piada sem graça. Mas as fan­tasias eram muito fáceis, naquele momento. Guillam dis­punha de uma desculpa já preparada, e uma parte do seu próprio eu chegava até a acreditar nela. Se fosse pilhado, todo o seu eu acreditaria nessa desculpa. E se os inquisidores de Sarratt o submetessem a um interrogatório, ele teria uma saída. Nunca trabalhava sem dispor de uma saída. As vozes cessaram e o fantasma de Percy Alleline desapareceu com elas. O suor lhe escorria pelas costelas. Passou uma moça cantarolando uma canção de Hair. "Se Bill ouvir você ele vai matá-la", pensou Guillam. "Se há uma coisa capaz de irritar Bill, é essa história de cantaro­lar. 'Que é que você está fazendo aqui, sua coisa?'"

Em seguida, em seu fugaz divertimento, Guillam che­gou mesmo a ouvir a voz de trovão de Bill, furiosa, ecoan­do Deus sabe de que distância: "Pare com esses lamentos. Quem é essa maluca?"

"Para a frente. Se você parar, nunca mais começará de novo: há um tipo de nervosismo especial, capaz de secar uma pessoa e fazer com que dê o fora. Esse nervo­sismo lhe queima os dedos quando você toca nessas coisas, e lhe embrulha o estômago. Para a frente!" Guillam tor­nou a colocar o volume de abril em seu lugar e tirou outros quatro, ao acaso: os de fevereiro, junho, setembro e outu­bro. Folheou-os rapidamente, procurando encontrar com­parações, voltou a pô-los na prateleira e abaixou-se de novo. Pediu a Deus que a poeira assentasse. Por que alguém não se queixava daquilo? "É sempre a mesma coisa, quando muita gente se utiliza de um lugar: ninguém é res­ponsável; ninguém dá a menor importância." Ele estava procurando as listas de presença dos porteiros da noite. Encontrou-as na prateleira inferior, amontoadas junto a sacos de chá e latas de leite condensado: maços dessas folhas, em pastas do tipo envelope. Os porteiros as en­chiam e levavam para ali, duas vezes em cada turno de trabalho de doze horas: à meia-noite e, novamente, às seis da manhã. Podia-se lá confiar na correção deles, se o pessoal da noite estava espalhado por todo o edifício? Eles assinavam as listas, guardavam a terceira cópia e a enfiavam no cofre, ninguém saberia por que motivo. Assim é que se fazia antes do dilúvio, e parecia acontecer o mesmo agora.

Pó e sacos de chá na mesma prateleira, pensou Guil­lam. Há quanto tempo alguém teria tomado chá pela últi­ma vez?

Fixou novamente a atenção nos dias 10 e 11 de abril. Sua camisa estava colada às costelas. "O que acon­teceu? Meu Deus! Estou na última lona." Dobrou o corpo para a frente e para trás, novamente para a frente, duas, três vezes. Em seguida, fechou o cofre. Aguardou um pouco, ficou à escuta, lançou um derradeiro olhar para aquela poeira e caminhou em passos firmes pelo corredor, de volta à segurança do banheiro dos homens. No meio do trajeto, um ruído feriu-lhe os ouvidos: eram as má­quinas de codificar, o tilintar de telefones e a voz de uma moça que dizia: "Onde está o diabo do papel? Estava na minha mão". E de novo aquele misterioso som de flauta, porém já não igual ao de Camila, pela madrugada. "Da próxima vez eu a trarei para realizar esta tarefa", pensou ele cheio de irritação. "Sem qualquer transigência, cara a cara, do jeito que a vida deve ser."

Encontrou Spike Kaspar e Nick de Silsky no banheiro dos homens, de pé diante das pias, murmurando um para o outro, em frente ao espelho. Eram agentes das redes soviéticas de Haydon, e ficariam por ali anos a fio, conhe­cidos simplesmente como "os russos". Vendo Guillam, pararam imediatamente de falar.

Olá, vocês dois. Meu Deus! Vocês são realmente inseparáveis!

Eram louros, atarracados e pareciam mais russos do que os verdadeiros russos. Guillam ficou esperando até que eles saíssem, lavou a poeira das mãos e voltou para a sala de Lauder Strickland.

Deus me livre. Como fala a tal da Dolphin disse ele, displicentemente.

Ela é uma funcionária muito competente. A coisa mais parecida com o que há de indispensável que temos por aqui. Competentíssima, acredite em minhas palavras disse Lauder. Olhando atentamente para o relógio antes de assinar a ficha, acompanhou Guillam até o ele­vador. Toby Esterhase estava na grade conversando com o jovem e antipático porteiro.

Você vai voltar para Brixton, Peter? indagou num tom indiferente, com sua impenetrável expressão de costume.

Por quê?

Estou com um carro aí fora. Pensei que talvez pudesse levar você. Tenho coisas a tratar por aqueles lados.

Toby não falava perfeitamente nenhuma língua conhe­cida, mas falava todas as línguas. Na Suíça, Guillam ouvira o francês dele, com sotaque de alemão. E o alemão de Toby tinha sotaque de eslavo, ao passo que o inglês que ele falava era cheio de falhas, pausas e sons vocálicos errados.

Seria ótimo, Toby, obrigado. Mas eu acho que vou direto para casa. Boa noite para você.

— Direto para casa? Eu poderia levá-lo. Só isso.

Obrigado. Tenho de fazer umas compras. Todos esses meus malditos afilhados...

Sem dúvida disse Toby, como se tivesse algum afilhado. E estirou para à frente seu pequeno queixo de granito, desapontado.

"Que diabo ele quer?", pensou Guillam. "O pequenino Toby e o Meninão, os dois juntos. Por que me espionando? Alguma coisa que eles estavam lendo ou alguma coisa que souberam?"

Já na rua, Guillam foi descendo por Charing Cross Road olhando as vitrinas das livrarias, ao passo que uma parte de sua mente estava atenta às calçadas de ambos os lados. Tinha esfriado muito, começara a ventar e havia um ar de esperança nas fisionomias das pessoas que passavam por ele. Guillam sentiu-se estimulado. Até agora tinha vivido demais no passado, concluiu. Já era hora de nova­mente fazer as coisas. Em Zwemmers, examinou um livro com o título Instrumentos musicais através dos tempos e lembrou-se de que Camila teria uma aula, bem tarde, com o Dr. Sand, seu professor de flauta. Retrocedeu até Foyles, olhando, ao caminhar, as filas de pessoas à espera de ônibus. "Pense nisso num país estrangeiro", Smiley lhe dissera. Lembrando-se da sala de trabalho e do olhar de peixe morto de Roy Bland, Guillam não teve a menor dificuldade. E Bill Haydon: também teria a mesma suspei­ta que eles? Não, concluiu Guillam. Bill era de uma cate­goria igual à sua, incapaz de resistir a um impulso de leal­dade que sentia por Haydon. Bill não participaria de coisa alguma que não fosse, em primeiro lugar, dele próprio. Comparados com Bill, os outros eram uns pigmeus.

Quando chegou a Soho, pegou um táxi e mandou seguir para a Waterloo Station. Aí, usando um telefone nauseabundo, discou um número de Mitcham, no Surrey, e falou com o Inspetor Mendel, antigo membro do Setor Especial, conhecido de Guillam de outros tempos. Quando Mendel atendeu, Guillam mandou chamar Jenny e ouviu Mendel dizer secamente que lá não morava nenhum Jenny. Guillam pediu desculpas e desligou. Discou para saber as horas e simulou uma agradável conversação com o informante automático, isso porque havia uma mulher idosa do lado de fora da cabina, à espera de que ele ter­minasse. Agora Jenny deveria estar lá, pensou ele. Desli­gou e discou outro número de Mitcham. Dessa vez para uma cabina telefônica que ficava no extremo da avenida onde morava Mendel.

Aqui fala Will disse Guillam.

E aqui fala Artur disse Mendel jovialmente. Como vai você, Will?

Mendel era um tipo arguto, rápido no andar, de feições vivas e olhos brilhantes. Guillam imaginou ime­diatamente a figura exata de Mendel, debruçado sobre seu livro de apontamentos de policial, com o lápis pronto para tomar notas.

Quero dar-lhe as informações principais, agora, no caso de eu ficar embaixo de algum ônibus.

Está bem, Will declarou Mendel num tom consolador. Todo cuidado é pouco.

Guillam transmitiu lentamente sua mensagem, usando a linguagem referente a escolas, código que haviam combi­nado como derradeira proteção contra a possibilidade de alguma interceptação telefônica. Falou em exames, alunos, provas que tinham sido furtadas. Cada vez que fazia uma pausa, ouvia apenas um débil ruído de lápis. Imaginou que Mendel estivesse escrevendo, devagar e de maneira legível, e que só falaria depois de ter tomado nota de tudo.

Eu obtive ótimas fotos com o farmacêutico disse Mendel finalmente, depois de ter conferido tudo que escrevera. Saíram excelentes. Não se perdeu nenhuma.

Obrigado. Fico satisfeito com isso.

Mendel já tinha desligado.

"Eu direi uma coisa a favor dos 'toupeiras'", pensou Guillam. "O túnel é comprido e escuro em toda e sua extensão." Enquanto segurava a porta para a senhora idosa entrar, observou o receptor do telefone em seu gancho, re­parando como seu suor escorria dele, a gotejar. Refletiu sobre sua mensagem a Mendel, pensou novamente em Roy Bland e em Toby Esterhase, ambos a fitá-lo do vão da porta, e ficou imaginando onde se encontraria com Smiley e se ele se estaria acautelando.

Voltou a Eaton Place: precisava demais de Camila e sentiu-se um tanto amedrontado em face de suas razões. Seria realmente a idade que estava contra ele? De qualquer maneira, pela primeira vez na vida transgredira seus prin­cípios de nobreza: parecia possuído do sentimento de que estava sujo, até mesmo enojado consigo mesmo.

 

Certos homens idosos retornam a Oxford e descobrem que sua juventude lá está novamente acenando para eles, das pedras dos edifícios. Smiley não era um desses. Dez anos antes poderia ter sentido uma forte emoção. Não agora. Passando pela Biblioteca Bodleian, pensou vaga­mente: "Eu trabalhei aqui". Avistando a casa de seu antigo tutor, na Parks Road, lembrou-se de que, antes da guerra, em seu comprido jardim, Jebedee sugerira pela primeira vez que Smiley possivelmente gostaria de conversar "com uma ou duas pessoas que eu, Jebedee, conheço em Lon­dres". E, ouvindo os sinos da Tom Tower bater seis horas da tarde, reparou que estava pensando em Bill Haydon e Jim Prideaux, que aí deviam ter chegado no ano em que Smiley saía, sendo então colhidos pela guerra. E ficou a divagar sobre como seriam eles dois, juntos: Bill, pintor, polemista e homem de sociedade; Jim, um atleta, sóbrio de palavras. Nos seus melhores dias, no Circus, refletiu Smiley, essa distinção entre um e outro pratica­mente desaparecera: Jim tornou-se destro em atividades intelectuais e Bill proficiente nos trabalhos de campo, onde não era nenhum incapaz. Somente no final afirmou-se a antiga polaridade: o cavalo de tiro voltou à cavalariça e o homem de pensamento à sua mesa de trabalho.

Estavam caindo uns pingos de chuva, mas Smiley não o percebeu. Tinha viajado de trem e vindo a pé da estação, fazendo voltas durante todo o caminho: Blackwell, sua velha faculdade, depois, caminhar a esmo até, finalmente, tomar a direção norte. O crepúsculo chegara mais cedo, por causa das árvores.

Chegando a uma rua sem saída, andou ao acaso mais uma vez, e novamente se demorou a olhar as coisas. Pas­sou por ele uma mulher envolta num xale, de bicicleta, deslizando através dos fachos luminosos das lâmpadas das ruas, que dilaceravam a neblina. Apeando-se, ela abriu um portão e desapareceu. Do outro lado da estrada, um vulto embuçado estava passeando com seu cão. Não se poderia dizer se era homem ou mulher. A não ser isso, a estrada estava deserta, e também a cabina telefônica. Em seguida, dois homens passaram abruptamente por ele, conversando em voz alta sobre Deus e a guerra. O mais novo era quem mais falava. Ouvindo que o mais velho concordava com ele, Smiley supôs que este fosse um pro­fessor.

Smiley seguiu ao longo da alta cerca, que fazia uma saliência coberta de arbustos. A porta do número 15 tinha dobradiças macias: era uma porta dupla, mas só uma de suas metades era utilizada. Quando Smiley a empurrou, verificou que o trinco estava quebrado. A casa ficava bem no fundo, a certa distância, e quase todas as suas janelas estavam iluminadas. Numa delas, do andar superior, um jovem se debruçava a contemplar a noite; em outra, duas moças pareciam discutir; e, numa terceira, uma mulher muito pálida estava tocando viola, embora Smiley não conseguisse ouvir qualquer som. As janelas do andar tér­reo também se achavam iluminadas, mas suas cortinas haviam sido cerradas. A varanda era coberta de telhas e a porta da frente, almofadada, tinha vitrais e sua ombreira ostentava um velho aviso: "Depois das onze horas, use a porta lateral". Acima das campainhas, liam-se outros avisos: "Prince, três toques; Lumby, dois toques; Buss, não está em casa durante a noite. Encontrarei você, Janet". A campainha mais abaixo de todas dizia "Sachs", e Smiley apertou-a. Uns cães começaram imediatamente a latir e uma mulher pôs-se a esbravejar: "Flush, seu idiota. É apenas um estúpido qualquer. Cale essa boca, Flush!"

A porta abriu-se, apenas uma fresta, estando presa a uma corrente. Um corpo assomou na fresta. Enquanto Smiley se esforçava ao máximo para ver quem estaria na casa, dois olhos de megera, úmidos como os de um bebê, mediram-no de alto a baixo, observaram sua pasta e seus sapatos enlameados e desviaram-se para cima a fim de olhar para a alameda, que ficava além de seus ombros. Em seguida, mais uma vez o fitaram. Finalmente, o rosto pálido iluminou-se num sorriso encantador, e Connie Sachs, ex-rainha do Departamento de Pesquisas do Circus, manifes­tou sua alegria espontânea.

George Smiley! — exclamou, com um riso meio tímido, ao fazê-lo entrar. — Ora essa, meu querido! Pen­sei que você fosse um vendedor de aspiradores Hoover. Deus o abençoe! E era você, todo esse tempo, George!

Connie fechou rapidamente a porta. Era grandalhona, uma cabeça mais alta do que Smiley. Uma mecha de cabelos grisalhos lhe emoldurava o rosto comprido. Vestia uma jaqueta marrom, espécie de blazer, e pantalonas com elástico na cintura. Tinha o ventre caído como o dos ve­lhos. O fogo ardia lentamente na lareira. Uns gatos esta­vam deitados diante dele, e um spaniel sarnoso, cinzento, gordo demais para se mexer, estava acomodado num divã. Havia latas de comida e uma garrafa num carrinho. Da mesma tomada ela obtinha corrente elétrica para o rádio e para os aparelhos de enrolar cabelo. Um rapaz de longos cachos, que lhe caíam até os ombros, estava deitado no chão, fazendo umas torradas. Vendo Smiley, descansou seu tridente de latão.

— Ah, meu querido Jingle, não poderíamos deixar para amanhã? — implorou Connie. — Não é sempre que meu mais antigo amor vem me ver.

Smiley se esquecera de como era a voz dela. Connie a modulava constantemente, elevando seu timbre até as mais estranhas alturas.

— Eu darei a você uma hora inteira livre, meu que­rido — continuou Connie —, só para você. Está bem? É um dos meus burrinhos — explicou ela, dirigindo-se a Smiley muito antes de o rapaz estar além do alcance de sua voz. — Eu ainda dou aulas, não sei por quê, George — murmurou, observando-o orgulhosamente do outro lado da sala, enquanto Smiley tirava uma garrafa de xerez da pasta e enchia dois cálices. — Entre todos os homens encantadores que eu conheci, ele veio a pé — explicou ela ao spaniel. — Olhe para os sapatos dele. Veio a pé de Londres, não foi, George? Deus o proteja!

Beber era difícil, para ela. Seus dedos artríticos eram virados para baixo como se todos tivessem sido quebrados no mesmo acidente. E tinha o braço duro.

— Você veio sozinho, George? — indagou, procuran­do pescar um cigarro solto, no bolso do blazer. — Não veio acompanhado, veio?

Smiley acendeu um cigarro para ela, que o segurou como se fosse um canudo de fazer bolinhas de sabão, preso na ponta dos dedos. Em seguida, mediu Smiley de alto a baixo, com seus olhos astutos e róseos, e indagou: então o que ele queria de Connie, aquele menino travesso?

— Sua memória.

— Que parte da minha memória?

— Vamos voltar a assuntos antigos.

— Você está ouvindo só, Flush? — gritou para o spaniel. — Primeiro jogam a gente fora como um velho traste, depois vêm implorar coisas de nós. Mas que assun­tos, George?

— Eu trouxe uma carta de Lacon para você. Ele vai estar em seu clube, hoje, às sete horas da noite. Se você ficar receosa, ligue para ele da cabina telefônica da estrada. Mas eu preferia que você não fizesse isso, Connie. Se você achar que deve agir dessa maneira, ele fará todos os ruídos necessários, capazes de impressioná-la.

Ela estivera segurando Smiley, mas agora deixara cair as mãos, pesadamente, ao longo do corpo. E durante um bom espaço de tempo ficou perambulando pela sala. Sabia em que lugares poderia apoiar-se e quais os pontos que lhe dariam firmeza. E sempre a praguejar: "Esse demônio do George Smiley e todos os que o acompanham". Che­gando à janela, talvez por uma questão de hábito, afastou a extremidade da cortina, mas não parecia haver coisa alguma que lhe desviasse a atenção.

— Ah, George! Você que se dane sozinho! Como você permite que Lacon entre no jogo? Você bem que me poderia deixar entrar nele, enquanto está metido nisso.

Havia sobre a mesa um exemplar do Times daquele dia, com a seção de palavras cruzadas voltada para cima: todos os quadrados tinham sido preenchidos a tinta, numa caligrafia laboriosa, não havendo espaço em branco.

— Hoje eu dei a minha — disse Connie lá do canto escuro, debaixo da escada, animando-se com um gole tira­do do carrinho. — O encantador Will me possuiu. Meu burrinho predileto. Isso não foi notável da parte do rapaz? A vozinha de criança que ela tinha soou de um jeito um pouco estranho. Connie esfriou, George. Congelou. Congelou até os dedos dos pés.

Smiley percebeu que ela estava chorando e, por isso, foi buscá-la lá no escuro e a levou até o sofá. O copo de Connie estava vazio e ele o encheu até o meio. Os dois beberam, um ao lado do outro, enquanto as lágrimas de Connie rolavam pelo blazer e caíam nas mãos dele.

Ah, George! prosseguiu ela. Você sabe o que foi que ela me disse quando me mandou embora? Aquela perua do pessoal? Connie estava segurando uma ponta do colarinho de Smiley, retorcendo-a entre os dedos enquanto se ia animando. Você sabe o que ela disse? Com aquela voz de sargento-mor? "Você está per­dendo seu senso de proporção, Connie. Já chegou a hora de você entrar no mundo da realidade." Eu odeio o mundo da realidade. Eu odeio o mundo da realidade, George. Gosto do Circus e dos meus adoráveis rapazes.

Ela lhe segurou as mãos, procurando entrelaçar seus dedos nos dele.

— Polyakov — falou Smiley calmamente, pronun­ciando a palavra de acordo com as instruções de Tarr. Aleksey Aleksandrovich Polyakov, adido cultural da Em­baixada Soviética de Londres. Ele ressuscitou outra vez, exatamente como você previu.

Um carro estava parando na estrada. Ele ouviu ape­nas o ruído de suas rodas, pois o motor já tinha sido des­ligado. Em seguida, percebeu um rumor de passos, muito leves.

É Janet, "contrabandeando" o namorado sus­surrou Connie, com os olhos debruados de rosa, cravados nos dele, enquanto compartilhava seu momento de dis­tração. — Ela pensa que eu não sei. Você está me en­tendendo? Saltinhos de metal. O rumor cessara e houve apenas um discreto ruído. Ela está entregando a chave ao homem. Ele acha que faz menos barulho do que ela. Não consegue informou Connie.

A lingüeta da fechadura girou com um forte estalido, e Connie acrescentou, num murmúrio:

Vocês homens... — E num sorriso de desânimo, declarou: Ah, George, por que você se mete nisso? E, durante algum tempo, ela chorou por Aleksey Po­lyakov.

Os irmãos dela tinham ensinado em Oxford, lembrou-se Smiley. Seu pai tinha sido professor de alguma coisa. Control a conhecera numa partida de bridge e inventara um emprego para ela.

 

Connie começou a narrar sua história como se fosse um conto de fadas: "Era uma vez um desertor, chamado Stanley, lá pelo ano de 1963", aplicando à sua exposição a mesma lógica espúria, em parte inspiração, em parte oportunismo intelectual, produto de sua maravilhosa mente que nunca amadurecera. E o rosto branco de Connie ad­quiriu o brilho de um rosto suave, de avó, cheio de en­cantadoras reminiscências. Sua memória era tão vasta quanto seu corpo, e, com certeza, ela gostava mais da me­mória do que do corpo, pois havia posto tudo de lado para ouvir suas lembranças: a bebida, o cigarro e, até mesmo, por algum tempo, a passiva mão de Smiley. Já não estava molemente largada na cadeira, mas ereta, a cabeça grande meio de banda, e brincava sonhadoramente com a branca lanugem do cabelo. Smiley presumira que ela iria começar logo por Polyakov, mas Connie principiou falando de Stanley. Ele se esquecera da paixão que ela tinha por árvores genealógicas.

Stanley prosseguiu Connie era o nome de guerra de um inquisidor, usado por um desertor de quinta classe, do Centro de Moscou. Foi em março de 1963. Os caçadores de escalpos o trouxeram, já de segunda mão, vindo dos holandeses, e o despacharam para Sarratt. Pro­vavelmente, se não fosse aquela estúpida temporada, e se os inquisidores tivessem tido tempo, quem sabe se uma parte da coisa não teria vindo a público? Isso não acon­teceu. O irmão Stanley tinha em seu poder um minúsculo pedaço de ouro, e os homens encontraram esse ouro. Os holandeses falharam, mas o inquisidores o acharam, e uma cópia do relatório deles veio ter às mãos de Connie, o que foi outro milagre comentou ela de mau humor —, con­siderando que todos, especialmente em Sarratt, mantinham como princípio absoluto deixar as pesquisas de lado em suas listas de distribuição.

Pacientemente Smiley ficou à espera do tal pequeno fragmento de ouro, pois Connie estava numa idade em que a única coisa que um homem lhe daria seria tempo.

— Stanley havia desertado — continuou ela — quan­do realizava uma tarefa de correio em Haia. Era uma espécie de assassino profissional, e tinha sido mandado à Holanda para matar um emigrado russo que estava ata­cando os nervos do Centro. Em vez disso, decidiu en­tregar-se. Uma mulher o havia feito bancar o idiota — declarou Connie com profundo desprezo. — Os holandeses prepararam para ele uma armadilha de amor, meu querido, e o homem caiu nela de olhos completamente fechados. No propósito de prepará-lo para a missão, o Centro o colocara num de seus campos de treinamento, fora de Moscou, para que se aperfeiçoasse nas artes negras: atos de sabotagem, matar sem levantar suspeitas. Os holande­ses, depois que deitaram a mão nele, ficaram chocados com isso e fizeram do assunto o ponto central de seus interrogatórios. Puseram o retrato dele nos jornais e man­daram que fizesse desenhos de balas de cianureto e de todas as armas terríveis que o Centro tanto adora. Mas os inquisidores da Nursery sabiam essas coisas de cor. São uma espécie de milionários em Sarratt — explicou Con­nie. — Elaboraram um mapa de todo o conjunto, que abrangia várias centenas de alqueires de florestas e terras cobertas de lagos, e nele localizaram todas as construções de que Stanley se lembrava: lavanderias, cantinas, cabanas para palestras, estandes de tiro, todo esse lixo. Stanley lá estivera diversas vezes, e se lembrava de muita coisa. Eles pensaram que a história estava quase no fim quando Stan­ley ficou muito calado. Pegou um lápis e desenhou, no canto noroeste, mais cinco cabanas rodeadas de uma dupla cerca por causa dos cães de guarda. Essas cabanas eram novas, declarara Stanley, construídas nos últimos meses. Chegava-se até elas por uma estrada particular. Ele tinha visto algumas do alto de um morro quando fazia uma caminhada com seu instrutor, Milos. Na opinião de Milos, que era amigo de Stanley — disse Connie num tom muito sugestivo —, abrigavam uma escola especial, recém-funda­da por Karla para treinamento de militares nas técnicas de conspiração. Assim, meu caro, lá estávamos nós! — exclamou Connie. — Durante anos, tínhamos ouvido ru­mores de que Karla estava procurando organizar um exér­cito particular, dele próprio, no Centro de Moscou. Mas, pobrezinho, não tinha forças para isso. Nós sabíamos que ele tinha agentes espalhados pelo mundo inteiro e, natu­ralmente, quando começou a envelhecer, ficou preocupado. Era o mais antigo no posto, pensando que não seria capaz de dirigir seus agentes sozinho. Nós sabíamos que ele, como acontece com toda gente, era terrivelmente cioso desses agentes, e não podia nem ouvir falar em entregá-los às agências localizadas nos países visados. Isso ele não faria de jeito algum: você sabe como Karla detestava as agências: excesso de pessoal, lugares inseguros. E odiava também a velha guarda: uns covardes, como os chamava. Está certo. Agora ele dispunha de força e estava fazendo alguma coisa com isso, como procederia qualquer homem de verdade. Março de 1963 — repetiu Connie, caso Smiley se tivesse esquecido do ano. E Connie prosseguiu:

— Depois, nada, naturalmente. O jogo de sempre: ficar sentada, continuar fazendo outros trabalhos, à espera de que o vento tornasse a soprar. E tudo ficou assim durante três anos, até que o Major Mikhail Fedorovich Komarov, adido militar assistente da Embaixada Soviética de Tóquio, foi apanhado em flagrante, entregando seis rolos contendo dados secretíssimos do serviço de informa­ções, obtidos por um antigo funcionário do Ministério da Defesa do Japão.

Komarov era o herói do segundo conto de fadas de Connie: não um desertor, mas um soldado, com as divisas da arma de artilharia.

— E que medalhas, meu caro! Medalhas a granel! — explicou ela.

Komarov teve de sair de Tóquio tão às carreiras que o cachorro dele ficou fechado no apartamento e foi mais tarde encontrado morto de fome, coisa que Connie não perdoava. Ao passo que o agente japonês de Komarov foi devidamente interrogado, sem a menor dúvida e, por um feliz acaso, o Circus conseguiu comprar o relatório da Toka.

E por quê, George? Pense nisso: foi você quem tratou do negócio.

Com um muxoxo de vaidade profissional, bastante peculiar, Smiley admitiu que poderia ter sido ele.

A essência do relatório era simples. O funcioná­rio do Ministério da Defesa do Japão era um "toupeira". Tinha sido recrutado antes da guerra, durante a invasão japonesa da Manchúria, por um certo Martin Brandt, jor­nalista alemão que parecia estar ligado ao Komintern. Brandt declarou Connie era um dos nomes de Karla na década de 30. O próprio Komarov nunca fora membro da agência oficial de Tóquio, subordinada à Embaixada: trabalhara sozinho com um informante, em ligação direta com Karla, tendo eles feito a guerra juntos como oficiais. E melhor ainda: antes de chegar a Tóquio, freqüentara um curso especial de treinamento numa nova escola, fora de Moscou, fundada especialmente para discípulos de Karla, escolhidos a dedo. Conclusão: o irmão Komarov foi nosso primeiro e, infelizmente, não muito distinto diplomado pela escola de treinamento de Karla. Foi fuzilado, pobrezinho acrescentou ela, com um dramático tom de voz. Eles nunca enforcam ninguém: são impacientes demais, aqueles homens horrorosos.

"Então eu senti que poderia ir até a cidade. Sa­bendo que amigos procurar, pesquisei o arquivo de Kar­la. Passei três semanas percorrendo os boletins de de­signações do Exército soviético, em busca de registros disfarçados, até que, em meio a um grande número de sus­peitos, achei que tinha em mãos três novos e identificáveis pupilos de Karla. Todos eles eram militares, conheciam Karla pessoalmente e tinham de dez a quinze anos menos do que ele. Dei seus nomes como sendo Bardin, Stokovsky e Viktorov, todos coronéis."

Quando esse terceiro nome foi mencionado, pesou uma sonolência sobre a fisionomia de Smiley e seus olhos tornaram-se muito fatigados, como se estivessem afastando o tédio.

Mas o que aconteceu a todos eles? indagou.

Bardin mudou de nome, passando a ser Sokolov e depois Rusakov. Foi membro da delegação soviética enviada aos Estados Unidos, em Nova York. Não possuía ligação declarada com a agência local, não se envolveu em operações triviais, como andar atrás de pessoas, buscar talentos. Uma boa e sólida tarefa aparente. Ainda se en­contra por lá, que eu saiba.

E Stokovsky?

Caiu na clandestinidade. Montou um negócio de fotografia em Paris com o nome franco-romeno de Grodescu. Fundou uma filial em Bonn, e acreditava-se que dirigia outras fontes de Karla, na Alemanha Ocidental, através da fronteira.

E o terceiro, Viktorov?

Desapareceu sem deixar vestígios.

Meu Deus! disse Smiley, e seu tédio pareceu tornar-se mais fundo.

Treinados e desaparecidos da face da Terra acrescentou Connie. Poderão ter morrido, sem dúvida. A gente tende a esquecer as causas naturais.

De fato concordou Smiley. É isso mesmo. Ele possuía aquela arte, produto de muitos e mui­tos anos de trabalho no serviço secreto, a arte de ouvir por assim dizer com a "parte anterior" da mente, permi­tindo que os incidentes mais importantes se desenrolassem diretamente diante dele, ao passo que outra faculdade, inteiramente distinta, se empenhava num corpo-a-corpo com o contexto histórico. Esse contexto passava por Tarr e ia até Irina, e de Irina ao seu pobre amante, tão orgu­lhoso por ser chamado de Lapin e servir a um certo Coro­nel Gregor Viktorov, cujo nome de guerra, na Embaixada, era Polyakov. Em sua memória, essas coisas eram como parte de sua infância: nunca as esqueceria.

Houve fotografias, Connie? indagou ele lugu­bremente. Você obteve uma descrição física de todos?

De Bardin, nas Nações Unidas, naturalmente. E de Stokovsky também. Nós tínhamos uma velha foto pu­blicada na imprensa, de seus dias de soldado. Mas nunca pudemos verificar isso exatamente.

E de Viktorov, que desapareceu sem deixar ves­tígios? Poderia ter sido qualquer nome. Vocês não tinham bons retratos dele também? — indagou Smiley, atraves­sando a sala para servir-se de mais bebida.

Viktorov, o coronel, George — repetiu Connie com um sorriso terno e perdido. — Ele lutou como um terrier em Estalingrado. Não. Nunca tivemos uma fotogra­fia dele. É pena. Dizem que ele era cem furos acima dos outros. — Connie empertigou-se, afirmando: — Embora nós não saibamos nada sobre os outros, sem a menor dú­vida. Cinco cabanas e um curso de dois anos... Bem, meu querido, isso soma bem mais do que três diplomados, depois de todo esse tempo.

Com um pequeno suspiro de desapontamento, como a significar que até então não havia coisa alguma, em toda aquela narrativa, principalmente quanto à pessoa do Co­ronel Gregor Viktorov, que o levasse adiante em sua la­boriosa busca, Smiley sugeriu que eles passassem ao fenô­meno Polyakov, inteiramente sem qualquer relação com tudo mais — Aleksey Aleksandrovich Polyakov, da Embai­xada Soviética de Londres, mais conhecido por Connie como o querido Aleks Polyakov —, e estabelecessem exa­tamente em que ponto ele se enquadraria nos planos de Karla, e por que ela havia sido proibida de continuar suas investigações sobre ele.

 

Connie ficou então muito mais animada. Polyakov não era um herói de conto de fadas, era seu amado Aleks, embora nunca tivesse falado com ele e, provavelmente, nunca o tivesse visto em carne e osso. Puxara outra cadeira para mais perto da lâmpada de leitura, uma cadeira de balanço que aliviava certas dores: não conseguia ficar sen­tada por muito tempo em outro lugar. Inclinara a cabeça para trás, de sorte que Smiley estava olhando as brancas rugas de seu pescoço, enquanto ela balançava a mão de um jeito galante, lembrando-se de indiscrições de que não se arrependera, ao mesmo tempo que as especulações de sua mente lúcida, em termos de aceitáveis normas do ser­viço secreto, pareciam ainda mais desvairadas do que nunca.

— Ah, ele era tão bom! — disse ela. — Sete longos anos Aleks estivera aqui entre nós até que tivéssemos as mais vagas suspeitas. Sete anos, meu caro, e nem uma sensação agradável. Imagine só!

Connie referiu-se aos pedidos originais de visto no passaporte dele, durante aqueles neve anos: Polyakov, Aleksey Aleksandrovich, diplomado pela Universidade Es­tatal de Leningrado, adido cultural com o título de segun­do-secretario, casado mas desacompanhado da esposa, nas­cido no dia 3 de março de 1922, na Ucrânia, filho de um transportador de cargas, educação anterior não menciona­da. Ela prosseguiu com um sorriso nos lábios ao dar a primeira descrição da rotina dos informantes: altura, um metro e oitenta e oito, constituição robusta, olhos verdes, cabelos pretos, nenhum outro sinal característico visível. Um belo gigante. Grande contador de piadas, ela declarou dando uma risada.

— Ele era bom demais — afirmou Connie orgulhosamente. Tinha uma voz encantadora: cheia como a sua. Eu costumava ouvir as fitas duas vezes, só para ouvi-lo falar. Ele ainda estará mesmo por aqui, George? Eu nem gosto de perguntar, você compreende? Tenho medo de que eles todos mudem, e não quero mais saber deles.

Ele ainda está por aqui assegurou Smiley. Com o mesmo nome suposto, o mesmo posto.

E ainda morando naquela horrenda casinha su­burbana de Highgate, que os olheiros de Toby tanto detes­tavam? Meadow Close, 40, andar superior. Ah, era um lugar incômodo! Eu gosto de um homem que vive real­mente seu papel, e Aleks fez isso. Era o mais atarefado falcão da cultura que havia na Embaixada. Se você qui­sesse que alguma coisa fosse de fato realizada com rapidez, conferência, música, era só dizer. Aleks vencia a burocra­cia mais depressa do que qualquer outro homem.

Como ele conseguia fazer isso, Connie?

Não como você está pensando, George Smiley disse ela, e o sangue lhe afluiu ao rosto. Não. Aleksey Aleksandrovich não era nada mais do que parecia ser. Pergunte a Toby Esterhase ou a Percy Alleline. Puro como um lírio. Sem mácula, sob qualquer aspecto. Toby o infor­mará a esse respeito.

Eh! murmurou Smiley, enchendo o copo de Connie. Firme. Vamos à coisa.

Mentira exclamou ela, sem ficar mais calma. Tudo mentira. Aleksey Aleksandrovich Polyakov era um espião de quatro costados, treinado por Karla, se é que eu sou capaz de reconhecê-los, e os nossos nem me ouviam. "Você está descobrindo espiões embaixo da cama", dizia Percy. "Nossos informantes estão a postos", afirmava Percy, com aquele sotaque escocês. "Nós aqui não temos condições para luxos." Luxo, meu Deus! Pobre George prosseguiu Connie, chorando novamente. Você procurou ajudar. Mas o que poderia fazer? Você estava por baixo, George, não vá à caça com Lacon. Por favor, não vá.

Smiley tornou a guiá-la brandamente para o assunto Polyakov, e indagou por que ela tinha tanta certeza de que ele era um espião de Karla, diplomado pela tal escola especial.

Foi no Dia das Recordações soluçou Connie. Nós fotografamos as medalhas. Fotografamos mesmo.

 

Novamente o ano 1, o ano 1 de seu caso amoroso de oito anos com Aleks Polyakov. O curioso é que, segundo disse, ela tinha ficado de olho nele desde o momento em que chegara.

Oba, pensei eu disse Connie. Vou me di­vertir um pouco com você.

Ela não sabia exatamente por que pensava assim. Tal­vez fosse por causa da auto-suficiência dele, talvez pelo seu jeito decidido de andar, produto direto dos desfiles militares. E Connie declarou:

Ele era rijo como quê. O Exército impregnara-o de tudo aquilo. Ou talvez fosse por causa de sua maneira de viver. Ele escolheu uma casa, em Londres, da qual os informantes não conseguiam aproximar-se à distância de cinqüenta metros. Quem sabe talvez fosse por causa do trabalho dele. Já havia três adidos culturais: dois eram espiões, e a única coisa que o terceiro fazia era levar flo­res ao cemitério de Highgate, ao túmulo do pobre Karl Marx.

Ela estava meio tonta, de sorte que Smiley fê-la no­vamente andar um pouco, agüentando-lhe todo o peso, quando tropeçava.

Bem prosseguiu Connie. A princípio, Toby Esterhase concordou em colocar Aleks na Lista A, e man­dar que seus informantes de Acton o observassem durante vários dias, ao acaso, doze em cada trinta. E sempre que o seguiam, ele se revelava puro como um lírio. Meu queri­do, você pensa que eu iria telefonar para ele e dizer-lhe: "Aleksey Aleksandrovich, cuidado com o que fizer porque eu pus os cães de Toby em seu rastro. Por isso viva de acordo com as aparências, não faça asneiras"?

"Ele comparecia a solenidades, conferências, passeava no parque, jogava tênis. E a não ser dar doces às crianças, não poderia ser mais respeitável. Eu lutei para que houvesse uma cobertura permanente das atividades dele, mas isso foi uma batalha perdida. A máquina continuou funcionando e Polyakov foi transferido para a Lista B: ser observado de seis em seis meses, ou na medida em que os recursos o permitissem.

"Essa vigilância semestral não deu o menor resultado e, ao cabo de três anos, ele foi classificado como Persil: investigado em profundidade e considerado sem interesse para o serviço de informações." Connie nada pôde fazer e, realmente, ela havia praticamente começado a aceitar essa avaliação até que, num lindo dia de novembro, o encan­tador Teddy Hankie lhe telefonou, quase sem poder respi­rar, de Acton, para informar que Aleks Polyakov havia mandado às urtigas sua suposta identidade e exibido suas verdadeiras cores, afinal. Elas estavam totalmente desfral­dadas no topo do mastro.

— Teddy era um velho amigo —, prosseguiu Connie. — Veterano no Circus, e muito querido. Não me importava que ele tivesse noventa anos. Havia acabado o serviço e estava a caminho de casa quando o embaixador soviéti­co Volga passou por ele, indo para a cerimônia de colocar uma coroa de flores em algum lugar. Conduzia os três adi­dos. Um deles era Polyakov, que tinha mais medalhas do que uma árvore de Natal. Teddy seguiu depressa para Whitehall com sua máquina fotográfica e tirou umas fotos dos três, do outro lado da rua. Meu caro, alguma coisa estava a nosso favor: o tempo era perfeito; tinha chovido um pouco, mas depois, à tarde, fez um sol encantador. Teddy poderia ter captado o sorriso nas costas de uma mosca a trezentos metros de distância. Nós revelamos as fotos e lá estavam elas: duas por atos de bravura e quatro por participação em campanhas. Aleks Polyakov era um veterano de guerra e nunca dissera isso a ninguém, durante sete anos. Eu fiquei emocionada e nem tive tempo de pla­nejar minha campanha. Telefonei para Toby imediatamen­te e disse: "Escute o que eu lhe vou contar, um momento, seu anão húngaro envenenado. Foi uma ocasião em que o ego finalmente levou a melhor sobre o disfarce. Eu quero que você vire Aleks Aleksandrovich pelo avesso para mim, não há nenhum se, nem mas. O pequeno palpite aqui da Connie deu certo".

— E o que disse Toby? — indagou Smiley.

O spaniel cinzento deu um suspiro e ferrou novamente no sono.

Connie ficou subitamente muito desolada. Mas falou o seguinte:

— Toby? Ah, o pequenino Toby me gratificou com sua vozinha de taquara rachada e declarou que Percy Alleline era o chefe de operações. Isso era atribuição dele, destacar os recursos. Eu logo soube que alguma coisa ia mal, mas pensei que fosse Toby. — Connie ficou em si­lêncio por alguns instantes e resmungou, de mau humor: — Fogo desgraçado! Basta a gente dar as costas e ele morre. Você sabe o resto. O relatório foi enviado a Percy. — Ela havia perdido o interesse. — "E daí?", indagou Percy. "Polyakov esteve no Exército russo. Era um exército grande e nem todos os que nele lutaram eram agentes de Karla." Muito engraçado — declarou Connie. — Ele me acusou de deduções anticientíficas. "Mas que expressão é essa?", indaguei. "Não é dedução de espécie alguma. É indução." Eu declarei: "Meu caro Percy, onde quer que você tenha aprendido palavras como essa, você me parece um detestável doutor ou outra coisa qualquer". Ele ficou danado, meu caro Smiley. E a título de conciliação soltou os cães no rastro de Aleks, e nada aconteceu. "Cerque a casa dele", disse eu. "O carro dele. Tudo. Arranje um fo­tógrafo. Vire o homem pelo avesso, ponha alguém para escutar o que ele fala. Forje uma falsa identidade. Dê uma busca. Mas, pelo amor de Deus, faça alguma coisa porque eu aposto uma libra contra um rublo que Aleks Polyakov está trabalhando com um 'toupeira' inglês". Então Percy mandou me chamar, todo cheio de altivez, de novo com aquele sotaque, e falou: "Você tem de largar de vez Polyakov. Tem de tirar esse homem da cabeça tola de mulher que você tem. Está me entendendo? Você e seu maldito Poli, como é mesmo o nome dele? Vocês são uma praga dos diabos, por isso largue o homem para lá!" Logo depois ele me mandou uma carta malcriada: "Nós falamos e você ficou de acordo". E acrescentou: "Cópia para a chefe do pessoal". Eu escrevi: "Sim, quer dizer, não" ao pé da carta e a devolvi para ele.

Connie voltou àquele tom de sargento-mor, dizendo: — "Você está perdendo o senso de proporção, Con­nie. É hora de você sair para o mundo da realidade".

Connie estava de ressaca. Novamente sentada, debru­çou-se sobre o copo. Tinha fechado os olhos e sua cabeça pendia para um lado.

— Meu Deus! — murmurou, tornando a acordar. — Oh, meu Senhor!

— Polyakov tinha um informante? — indagou Smiley.

— Por que haveria de ter? Ele, um falcão da cultura. Os falcões da cultura não precisam de informantes.

Komarov tinha um, em Tóquio. Você disse.

— Komarov era militar — acrescentou Connie num tom soturno.

— Polyakov também o era. Você viu as medalhas dele.

Smiley segurou a mão de Connie e ficou esperando.

Lapin, o coelho — declarou Connie —, escritu­rário e motorista da Embaixada.

A princípio, ela não conseguiu entender o que ele era. Suspeitava que fosse um certo Ivlov, também conhecido por Brod, mas não conseguiu comprová-lo e ninguém a ajudou em coisa alguma. Lapin passava praticamente o dia inteiro caminhando pelas ruas de Londres, olhando para as moças mas sem coragem de dirigir-lhes a palavra. No entanto, pouco a pouco ela começou a perceber as co­nexões. Polyakov deu uma recepção, Lapin ajudou a servir as bebidas. Polyakov foi recolher-se tarde da noite e, ao cabo de meia hora, Lapin apareceu, provavelmente para decifrar um telegrama. E quando Polyakov voou para Moscou, Lapin, o coelho, mudou-se para a Embaixada e passou a dormir lá até o regresso de Polyakov. E Connie acrescentou:

— Ele estava fazendo o serviço dele e do outro.

— Você comunicou isso também? — indagou Smiley.

— Claro.

— Que aconteceu?

— Fui despedida e Lapin voltou para sua pátria, todo fagueiro — disse Connie, dando uma risada. Depois bocejou, acrescentando: — Zás! Dias tranqüilos. Eu co­mecei a despencar ladeira abaixo, não foi, George?

O fogo estava quase apagado. Ouviu-se um baque surdo, vindo de algum lugar, lá do andar de cima. Talvez fosse Janet e seu amante. Connie começou a cantarolar e a bambolear-se ao som de sua própria música.

Smiley deixou-se ficar, tentando animá-la. Deu-lhe mais bebida e, finalmente, conseguiu despertá-la.

— Venha cá — disse ela. — Vou mostrar minhas medalhas a você. — Novos transportes no quarto de dor­mir. Ela guardava as medalhas numa pasta, em desordem, que Smiley teve de puxar de baixo da cama. Primeiro, sur­giu uma verdadeira medalha, num estojo, e uma citação datilografada, referindo-se a Connie pelo seu nome de guerra, Constance Salinger, e colocando-a na Lista do Primeiro-Ministro. — Isso porque Connie era uma boa moça — explicou ela, de rosto encostado no de Smiley. — E gostava de todos os magníficos rapazes.

Em seguida, surgiram fotografias de antigos membros do Circus: Connie, de pé, entre Jebedee e o velho Bill Magnus, tiradas em alguma parte da Inglaterra. Connie ao lado de Bill Haydon e de Jim Prideaux, os homens vestindo uniformes de críquete, e todos os três "parecendo muito bem", assim Connie se expressou, num campo de críquete de verão, em Sarratt, que se estendia por detrás dela com a relva cortada e batida pelo sol, as telas de críquete bri­lhando. E depois, um enorme copo, com várias assinatu­ras gravadas, de Roy, Percy, Toby e muitos outros: "Para Connie, com amizade, e a quem nunca diremos adeus!"

Finalmente, a contribuição especial de Bill: uma cari­catura de Connie, deitada em toda a extensão dos jardins do Palácio de Kensington, a espiar para a Embaixada so­viética com um telescópio: "Com afeto e cordiais recorda­ções para a muito querida Connie".

— Eles ainda se lembram dele aqui, você sabe. O menino de ouro. A sala dos professores do Colégio de Christ Church tem um ou dois quadros dele. Eles os reti­ram da parede com freqüência. Giles Langley me fez parar na High Street, outro dia, e indagou: "Você tem notícias de Haydon?" Eu não sei o que lhe respondi: "Sim. Não". A irmã de Giles ainda pertence às casas de seguran­ça, você sabia? — Smiley não sabia. — Giles disse o seguinte: "Nós sentimos falta do faro dele. Não educam mais as pessoas como Bill Haydon". Giles deve estar meio caduco. Declarou que tinha ensinado história moderna a Bill antes que a palavra "Império" se tornasse um nome sujo. E perguntou também por Jim Prideaux, "seu alter ego, poderíamos dizer, hum, hum, hum". Você nunca apre­ciou Bill, não é mesmo? —- Connie prosseguiu falando vagamente, enquanto tornava a arrumar tudo em seus lu­gares, embrulhando as medalhas em pedaços de plástico e pano. E prosseguiu: Eu nunca soube se você tinha ciúmes dele ou se ele tinha ciúmes de você. Ele era atraen­te demais, creio eu. Você sempre desconfiou de gente bo­nita. Só quanto a homens, repare bem.

Não seja absurda, minha querida Connie repli­cou George, baixando a guarda, dessa vez. Bill e eu éramos muito bons amigos. Que diabo leva você a dizer uma coisa dessas?

Nada. Ela quase se esquecera do que havia falado. Ouvi dizer que ele uma vez deu um passeio no parque com Ann, só isso. Ele não é primo dela ou coisa parecida? Eu sempre pensei que vocês se dariam tão bem um com o outro, você e Bill, se as coisas estivessem fun­cionando! Você teria trazido de volta o velho espírito. Em vez daquele escocês. Bill reconstruindo Camelot e George...

Connie deu uma risada.

George apanhando as migalhas completou Smiley.

Os dois sorriram, Smiley hipocritamente.

Me dê um beijo, George. Um beijo só.

Ela o acompanhou através da horta, caminho que seus inquilinos usavam. E disse gostar mais dele do que da vista sórdida dos novos bangalôs que os porcos dos Harrison tinham atirado no jardim da casa ao lado. Uma chuva fina estava caindo, e as poucas estrelas cintilavam grandes e pálidas, em meio à neblina. Na estrada, uns ca­minhões seguiam ruidosamente rumo ao norte, cortando a noite. Agarrando-se a Smiley, Connie subitamente ficou tomada de terror.

Você é um grande malvado, George. Você está me ouvindo? Olhe para mim. Não olhe para aquele lado. Está todo cheio de luzes fluorescentes e de Sodoma. Me dê um beijo. Gente maldita, no mundo inteiro, está reduzindo nossa época a nada. E por que você ajuda essa gente? Por quê?

Eu não estou ajudando ninguém, Connie.

Está sim, com certeza. Olhe para mim. Foi um bom tempo, você está me ouvindo? Um bom tempo mes­mo. Os ingleses podiam orgulhar-se disso. Vamos nos or­gulhar disso agora.

Connie puxou o rosto dele para junto do seu. Por isso Smiley a beijou na boca.

Pobres amores. Ela respirava forte, talvez não por causa de qualquer emoção, mas em razão de uma con­fusa mistura das emoções que a percorriam, como se fossem várias bebidas. Pobres amores. Treinados para servir ao Império, para governar os mares. Tudo acabado. Tudo extinto. Adeus, mundo. Você é o último, George. Você e Bill são os últimos. E o sujo do Percy também, até certo ponto.

Ele sabia que tudo ia acabar assim, mas não de ma­neira tão horrível. Tinha escutado essa mesma história, de Connie, em todos os natais, nas pequenas reuniões onde todos ficavam em torno de uns drinques e que se realiza­vam pelos cantos, no Circus.

Você não conhece Millponds, conhece? inda­gou ela.

Que é Millponds?

É o lugar onde mora meu irmão. Uma linda casa, num terreno encantador, perto de Newbury. Um dia abri­ram uma estrada. Um ruído infernal. Uma rodovia. Tira­ram todo o terreno. Eu cresci nesse lugar, você entende? Eles não venderam Sarratt, venderam? Eu tinha medo de que eles fizessem isso.

Tenho certeza de que não venderam.

Smiley estava ansioso por livrar-se dela, mas Connie se agarrava a ele mais impetuosamente, a ponto de Smiley sentir-lhe o coração bater de encontro a seu peito.

Se é ruim, não volte prosseguiu ela. Você promete? Eu sou um leopardo velho, velho demais para mudar minhas manchas. Quero lembrar-me de vocês como vocês eram. Uns rapazes adoráveis, adoráveis mesmo.

Smiley não estava com ânimo de deixá-la naquela escuridão, cambaleando por entre as árvores. Por isso foi andando com ela até a metade do caminho de volta a casa. Nenhum dos dois falou nada. Quando Smiley ia descendo pela estrada, ouviu Connie novamente a cantarolar, tão alto que parecia estar gritando. Mas coisa alguma se com­parava à confusão de seu íntimo, naquele momento: as correntes de alarma, ódio e repugnância, naquela caminha­da noturna às cegas. E só Deus poderia dizer que cadáveres haveria no final.

 

Smiley pegou um trem com destino a Slough, onde Mendel estava à sua espera com um automóvel de aluguel. Enquanto ambos se afastavam lentamente em direção ao brilho cor de laranja da cidade, ele ouviu o resumo das pesquisas feitas por Peter Guillam. Os livros de escritura­ção dos funcionários de plantão não encerravam qualquer registro das noites de 10 e 11 de abril, declarou Mendel. As páginas haviam sido cortadas a gilete. Os relatórios dos porteiros, referentes às mesmas noites, talvez estivessem faltando, como também os relatórios acerca das trans­missões.

Peter acha que isso foi feito recentemente. Há uma nota escrita em má caligrafia na página seguinte, dizendo assim: "Todos os inquéritos foram enviados ao chefe da Estação de Londres". A letra é de Esterhase e a data é de sexta-feira.

— Sexta-feira passada? — indagou Smiley, voltando-se tão de súbito que seu cinto de segurança deu um rangido de queixa. — Foi o dia em que Tarr chegou a Londres.

— É tudo, segundo Peter — comentou Mendel num tom imperturbável. E, finalmente, que a respeito de Lapin, aliás Ivlov, e acerca do adido cultural, Aleksandrovich Polyakov, ambos da Embaixada soviética em Londres, os relatórios do informante de Toby Esterhase não continham quaisquer elementos desfavoráveis a eles. Ambos haviam sido objeto de investigações e tinham sido classificados como Persil, a categoria mais limpa que existe. Lapin fora designado para servir em Moscou, um ano antes.

Mendel também trouxera, numa pasta, fotografias ti­radas por Guillam, o resultado de sua pilhagem em Brixton, reveladas e ampliadas, do tamanho de uma grande prancha. Perto da Paddington Station, Smiley saiu do carro e Mendel passou-lhe a pasta através da porta.

— Tem certeza de que não quer que eu vá com você? — indagou Mendel.

— Obrigado. São apenas cem metros.

— Que sorte a sua o dia ter vinte e quatro horas.

— É mesmo.

— Boa noite.

Mendel ainda estava segurando a pasta.

— Talvez eu tenha encontrado a escola — disse ele. — Fica num lugar chamado Thursgood, perto de Taunton. Ele primeiro trabalhou durante meio semestre no Berk­shire, como substituto. Em seguida, parece que foi para o Somerset. Arranjou um reboque, segundo ouvi dizer. Quer que eu verifique isso?

— Como você fará a coisa?

— Vou bater à porta dele. Vender-lhe um aspirador de pó Hoover, ficar conhecendo o homem no terreno social.

— Desculpe-me — disse Smiley. — Eu acho que estou me atirando contra sombras. Sinto muito. Foi uma grosse­ria de minha parte.

— O jovem Guillam também está se atirando contra sombras — declarou Mendel com firmeza. — Dizem que ele anda com uma cara engraçada por toda parte. Dizem que há alguma coisa, e que todos estão metidos nela. Disse a ele para tomar um drinque bem forte.

— Sim, é isso — concordou Smiley depois de refletir um pouco. — Isso é que deve ser feito. Jim é um profis­sional — explicou ele. — Um homem de campo, da velha guarda. É bom de trabalho, o que quer que possam ter feito com ele.

 

Camila tinha voltado tarde para casa. Guillam en­tendera que a lição de flauta com Sand terminaria às nove horas. No entanto, já eram onze quando Camila entrou em casa e Guillam, por isso, foi seco com ela, não conseguiu ser de outro jeito. Camila estava deitada, com os cabelos pretos, meio grisalhos, espalhados sobre o travesseiro, olhando para ele, que estava de pé junto à janela escura, observando a praça.

— Você comeu? — indagou ele.

— O Dr. Sand me deu de comer.

— Deu o quê?

Sand era persa, ela já lhe havia dito.

Camila não respondeu. Sonhando, talvez? Sonhos? Bife com nozes? Amor? Ela nunca se mexia na cama, salvo para abraçá-lo. Quando dormia, mal respirava. Às vezes ele acordava e ficava olhando para ela, a imaginar como haveria de sentir-se caso estivesse morta.

— Você gosta muito de Sand?

— Às vezes.

— Talvez você deva andar com ele e não comigo.

— Não é isso — disse Camila. — Você não entende.

Não. Ele não entendia. Primeiro, tinha sido um par amoroso, beijando-se no banco de trás de um Rover; de­pois, um solitário e estranho homossexual, com um chapéu de feltro mole, exercitando seu cão Sealyham; em seguida, duas moças dando um telefonema de uma hora, de uma cabina diante de sua porta da frente. Não precisava haver mais nada, exceto que os acontecimentos tinham sido con­secutivos, como uma mudança de guarda. Agora uma ca­mioneta parara e ninguém saíra dela. Mais amantes, ou uma equipe noturna de informantes. A camioneta já estava ali havia uns dez minutos quando o Rover se afastou.

Camila estava dormindo. Guillam, deitado ao lado dela, acordado, esperava o dia seguinte quando, a pedido de Smiley, pretendia furtar o arquivo do caso Prideaux, conhecido por Escândalo Ellis ou, no Circus, por Opera­ção Testemunho.

 

Em matéria de felicidade, aquele dia vinha em segun­do lugar na curta existência de Bill Roach. O dia mais feliz de todos ocorrera pouco tempo antes da dissolução de seu lar, quando seu pai descobrira um ninho de vespas no telhado e chamara Bill para que o ajudasse a destruí-lo com fumaça. O pai de Bill não era de fazer coisas ao ar livre, nem mesmo era jeitoso. Mas depois que Bill consul­tou o verbete "Vespas" em sua enciclopédia, eles foram de carro até a farmácia e compraram arsênico, queimando-o num prato debaixo do beiral, e mataram as vespas.

Hoje, Bill assistira à abertura solene da corrida de automóveis de Jim Prideaux. Até então eles tinham apenas desmontado o Alvis e polido o carro, montando-o nova­mente. Mas hoje, como recompensa pelo que haviam feito, com a ajuda de Latzy, o PD, colocando um monte de far­dos de palha no lado pedregoso da pista, em seguida cada um por sua vez tinha tomado o volante. Jim, de cronô­metro na mão, atravessou os portões, bufando e fazendo proezas, diante do vozerio dos que torciam por eles. "O melhor carro que já se fez na Inglaterra", assim é que Jim apresentara seu automóvel. "Não é mais fabricado por causa do socialismo." O carro tinha sido pintado, ostentava a bandeira inglesa no capo, sendo, indubitavelmente, o mais belo e o mais veloz na face da Terra. Na primeira volta, Roach chegara em terceiro lugar entre catorze com­petidores e, agora, em segundo lugar, alcançara os casta­nheiros sem se deter uma só vez, em marcha para a volta final e para bater um recorde. Nunca imaginara que al­guma coisa lhe pudesse dar tanto prazer. Ele gostava muito do carro, gostava muito de Jim e chegava até mesmo a gostar da escola. Pela primeira vez na vida, gostava de tentar vencer. Ouvia Jim a bradar "Vamos, Jumbo!" e via Latzy pular com uma improvisada bandeira de controle. Mas ao passar ruidosamente pelo poste, percebeu que Jim já não o estava mais observando, mas olhava para a pista, em direção às faias.

Qual foi o tempo? indagou Bill, ofegante.

Houve um leve murmúrio.

Cronometrista falou Spikely, arriscando a sor­te. O tempo, por favor.

Foi muito bom, Jumbo disse Latzy, também olhando para Jim.

Dessa vez, nem a impertinência de Spikely nem os pedidos de Roach tiveram resposta. Jim estava com os olhos cravados no outro lado do campo, na direção do caminho que o limitava a leste. Um rapaz chamado Coleshaw estava de pé ao lado dele tinha o apelido de Repolho Cru. Era um mau aluno da Terceira Série B, famoso por bajular os professores. O terreno era muito plano naquele ponto, antes de altear-se até as colinas. Após alguns dias de chuva, era comum ficar inundado. Por esse motivo, não havia uma boa sebe ao lado do caminho, mas uma cerca de moirões e arame. E também não havia árvores, apenas a cerca, o chão sem relevo e, por vezes, viam-se ao fundo os Quantocks, que hoje tinham desapare­cido no meio da brancura geral. Esse trecho plano poderia ter sido um pântano que acabava num lago ou simples­mente naquela brancura sem fim. Recortado nesse esbatido pano de fundo vinha caminhando um vulto isolado, um pedestre elegante, mas que não chamava a atenção, magro de rosto, com um chapéu de feltro mole, uma capa de chuva cinzenta e uma bengala que raramente usava. Observando-o, também, Roach concluiu que o homem queria andar mais depressa, mas estava caminhando devagar por algum motivo.

Você tem aí seus óculos, Jumbo? indagou Jim, fitando aquele vulto que estava quase à altura do poste que vinha a seguir.

Tenho, sim.

Quem é ele, então? Parece Solomon Grundy.

Isso eu não sei.

Você já viu esse homem por aqui?

Eu não.

Não é professor, nem é da vila. Então quem é ele? Um mendigo? Um ladrão? Por que ele não olha para este lado, Jumbo? O que haverá de errado conosco? Você não olharia, se visse uma porção de rapazes fazendo um carro dar o máximo? Será que ele não gosta de carros? Nem de rapazes?

Roach ainda estava pensando em sua resposta a todas essas perguntas quando Jim começou a falar com Latzy, num tom murmurado e monocórdio, que levou Roach ime­diatamente a pensar que havia alguma cumplicidade entre eles, uma espécie de vínculo estrangeiro. Essa impressão foi robustecida pela resposta de Latzy, claramente negati­va, dada com a mesma absoluta tranqüilidade.

Eu acho que ele tem alguma ligação com a igreja, professor disse Coleshaw. Eu o vi conversando com Wells Fargo, depois do serviço religioso.

O nome do vigário era Spargo, e ele era muito idoso. Corria em Thursgood uma lenda de que ele era, na reali­dade, Wells Fargo, que se aposentara.

Diante dessa informação, Jim refletiu por alguns ins­tantes e Roach, furioso, disse a si mesmo que Coleshaw estava inventando aquela história.

Você ouviu o que eles conversaram, Coleshaw?

Não, senhor. Ele estava examinando as listas dos nomes nos bancos da igreja. Mas eu não pude perguntar nada a Wells Fargo.

Nossas listas dos bancos da igreja? As listas dos bancos da igreja de Thursgood?

Foi isso mesmo. As listas dos bancos da igreja que pertencem à escola de Thursgood. Com todos os nossos nomes, e onde nós nos sentamos.

"E também onde os professores se sentam", pensou Roach, muito perturbado.

Quem vir esse homem de novo me fale. Ou quem enxergar qualquer pessoa estranha. Vocês estão entenden­do? Jim se dirigia a todos eles, levando a coisa na caçoada. Não se metam com gente estranha que fique rondando a escola. Na última escola em que eu ensinei nós tínhamos um desgraçado bando dessa gente. Eles fizeram uma "limpeza" na escola: carregaram prata, dinheiro e os relógios e rádios dos rapazes. Só Deus sabe o que eles não roubaram. Da próxima vez, ele vai roubar meu Alvis. O melhor carro que se fabricou na Inglaterra, e que não se fabrica mais. Qual a cor do cabelo dele, Jumbo?

É preto.

E a altura dele, Repolho Cru?

Um metro e oitenta.

Todo mundo parece ter um metro e oitenta para o Repolho Cru, professor disse um rapaz espirituoso, porque Coleshaw era miúdo e diziam que ele tinha sido alimentado a gim, em criancinha.

E a idade dele, Spikely?

Noventa e um anos.

A situação acabou em risadas. Foi concedida a Roach a oportunidade de dar outra volta, mas ele se saiu mal. Naquela noite Roach ficou angustiado, cheio de ciúmes porque o clube inteiro dos automobilistas, para não men­cionar Latzy, fora recrutado em massa para fazer parte do seleto grupo de olheiros. Era um triste consolo garantir a si mesmo que a vigilância deles jamais seria igual à sua, e que a ordem de Jim não duraria mais de um dia. Ou que ele, Roach, de ora em diante deveria redobrar de esforços para enfrentar o que era, sem dúvida, uma ameaça iminente.

O estranho de rosto magro desapareceu. Mas, no dia seguinte, Jim fez uma visita imprevista ao cemitério que ficava ao lado da igreja. Roach viu que ele conversava com Wells Fargo, diante de um túmulo que estava aberto. A partir de então, Roach observou que a fisionomia de Jim assumiu um permanente aspecto sombrio e adquiriu uma vivacidade que por vezes nele se assemelhava à cólera, quando caminhava, sozinho, diariamente, ao crepúsculo, ou quando ficava sentado em cima de um montículo, do lado de fora do reboque, indiferente ao frio e à chuva, fumando seu minúsculo charuto e sorvendo vodca até que a escuridão o envolvesse.

 

O Islay Hotel, em Sussex Gardens, onde George Smiley, no dia seguinte à sua visita a Ascot, instalara, com o nome suposto de Barraclough, seu quartel-general de operações, era um lugar muito tranqüilo, considerada sua posição, e perfeitamente adequado às necessidades de seu hóspede. Ficava uns cem metros ao sul da Paddington Station, sendo uma das velhas mansões de um platô, que era separado da avenida principal por uma fileira de plá­tanos e uma área de estacionamento de automóveis. O trá­fego não cessava, ruidoso durante a noite inteira. Mas o interior do hotel, embora fosse uma verdadeira orgia de papel de parede de cores destoantes e abajures de cobre, era extraordinariamente calmo. Nada acontecia no hotel, como também nada se passava naquele mundo, e essa impressão era robustecida pela presença de Mrs. Pope Graham, a proprietária do hotel, viúva de um major e dona de uma voz extremamente langorosa, que provocava uma sensação de profunda fadiga em Mr. Barraclough ou em qualquer outra pessoa que lhe buscasse a hospitalidade. O Inspetor Mendel, de quem ela havia sido informante por muitos anos, insistiu que o nome dela era apenas o comu­níssimo Graham. O Pope fora acrescentado para conferir dignidade, ou em deferência a Roma[11].

— Seu pai não foi um Greenjacket, foi, querido? — perguntou ela untuosamente enquanto lia o sobrenome Barraclough no registro. — Smiley pagou-lhe cinqüenta libras adiantadamente, por uma estada de duas semanas, e ela lhe deu o quarto número 8, porque ele desejava tra­balhar. Smiley pediu uma mesa e ela providenciou uma mesa de jogo, de pernas bambas. Norman, o mensageiro do hotel, a levou ao quarto. — É georgiana — suspirou ela, supervisionando a entrega da mesa. — O senhor vai gostar da mesa por minha causa, não é mesmo? — disse Mrs. Pope Graham. — Na verdade eu não deveria em­prestar essa mesa ao senhor. Pertenceu ao major.

Mendel havia acrescentado vinte libras às cinqüenta, do seu próprio bolso, em notas sujas de uma libra, como as chamava. Mais tarde Smiley o reembolsou. E disse à proprietária:

— Nem um pio sobre isso, a senhora entendeu?

— O senhor não precisa dizer nada — assegurou Mrs. Pope Graham, enfiando gravemente as notas no de­cote do vestido.

— Quero todos os detalhes — advertiu Mendel, re­festelado nos aposentos dela, no porão, diante de uma gar­rafa da bebida que ela apreciava. — Horas de entrada, contatos, estilo de vida e, acima de tudo — disse ele, erguendo um dedo enfático —, acima de tudo, mais im­portante do que a senhora possa imaginar, quero saber quais as pessoas suspeitas que mostrem qualquer interesse por seus empregados, sob qualquer pretexto, ou lhes façam perguntas. — Mendel lançou-lhe um olhar de comando, acrescentando: — Mesmo que eles declarem ser os guar­das da rainha e Sherlock Holmes combinados.

— Aqui somos apenas eu e Norman — declarou Mrs. Pope Graham, apontando para um rapaz trêmulo, enfiado num sobretudo preto, ao qual ela havia acrescen­tado um colarinho de veludo bege. — E eles não conse­guiriam grande coisa com o Norman, não é mesmo, que­rido? Você é tão sensível...

— E a mesma coisa quanto às cartas que forem recebidas — declarou o inspetor. — Quero saber as datas dos carimbos do correio e a hora em que foram enviadas, quando isso for legível. Mas nada de violar a correspon­dência ou de retê-la. E faça o mesmo em relação aos obje­tos dele. — O inspetor permitia-se falar num murmúrio quando deu com os olhos num grande cofre, uma das peças características do mobiliário. E acrescentou: — De vez em quando ele irá pedir que a senhora guarde certos obje­tos. Principalmente se forem papéis, talvez livros. Só uma pessoa terá permissão para examinar tais objetos, além dele. — E o inspetor deu um súbito arremedo de riso:

— Eu. A senhora compreendeu? Ninguém poderá saber que os tem em seu poder. E não remexa nesses objetos, porque isso ele descobriria. É muito vivo. É necessário que sejam manuseados por um perito. Não vou dizer mais nada — concluiu Mendel, embora comentasse com Smiley, pou­co depois de ambos voltarem de Somerset, que se as vinte libras fossem tudo quanto lhes haviam custado Norman e sua protetora, isso representaria o mais barato serviço de "babá" do mercado.

Ele estava enganado com essa fanfarronada, porém isso era desculpável, pois lhe seria difícil saber que Jim re­crutara o clube de automobilistas inteiro. Nem poderia ima­ginar os meios pelos quais Jim conseguiu, subseqüentemen­te, remontar às origens das cautelosas investigações de Mendel. E este último, ou qualquer outra pessoa, jamais teria adivinhado o estado de vigilância elétrica a que Jim aparentemente foi levado pela cólera e pela tensão de ficar à espera, talvez somadas a um grão de loucura.

O quarto número 8 ficava no último andar. Suas jane­las davam para o parapeito. Além desse parapeito estendia-se uma rua transversal onde havia uma livraria escura e uma agência de viagens que se chamava Vasto Mundo. A toalha de mão tinha bordadas as palavras "Swan Hotel Marlow".

Lacon apareceu na mesma noite, trazendo uma gorda pasta que continha a primeira fornada de papéis de seu escritório. Eles se sentaram na cama um ao lado do outro para conversar, e Smiley ligou um rádio transistorizado no intuito de abafar o som de suas vozes. Lacon considerou aquilo meio piegas: ele próprio parecia de certa forma um pouco velho demais para aquele piquenique. Na manhã seguinte, enquanto se dirigia ao trabalho, Lacon tornou a pegar os documentos e devolveu os livros que Smiley lhe dera para rechear sua pasta. Lacon sentia-se no pior estado de espírito, nesse papel. Suas maneiras eram as de quem se considerava ofendido e contrafeito. Deixou claro que detestava aquelas irregularidades. Com o frio que estava fazendo, ele adquirira um rubor permanente. Mas Smiley não poderia ler as pastas dos arquivos durante o dia, por­que estariam à disposição do pessoal de Lacon, e sua falta teria causado um grande alarido. Nem Smiley queria fazer isso. Sabia, melhor do que ninguém, que o tempo era desesperadamente curto. Durante os três dias que se su­cederam, sua maneira de proceder variou muito pouco. Todas as noites, quando ia apanhar o trem, na Paddington Station, Lacon deixava os documentos no hotel, ao passo que Mrs. Pope Graham furtivamente informava a Mendel que aquele homem desagradável e desengonçado tinha no­vamente aparecido, um homem que olhava de cima para ela e para Norman. Todas as manhãs, após três horas de sono e de haver tomado uma nauseante primeira refeição, composta de salsichas mal cozidas e tomates cozidos de­mais — não havia outra escolha no cardápio —, Smiley ficava aguardando a chegada de Lacon. Em seguida, saía naqueles frios dias de inverno, satisfeito, indo tomar seu lugar entre os colegas.

Foram noites extraordinárias para Smiley, sozinho, sem dormir, naquele último andar. Tempos depois, pen­sando nelas, embora os dias que intercalaram aquelas noites tivessem sido exatamente tão cheios e, na aparência, tão atarefados como outros quaisquer, ele se recordava daquelas noites como se tivessem constituído uma única jornada, praticamente uma única noite. "E você fará a coisa", Lacon dissera no jardim, despudoradamente, "an­dar para a frente e para trás?"

Quando Smiley relembrou os caminhos que trilhara em seu passado, um após outro, já não havia a menor diferença entre as duas coisas: para a frente ou para trás, tudo não passava da mesma jornada, e o destino estava à sua dianteira. Não havia coisa alguma, naquele quarto, nenhum objeto em meio àquele amontoado de coisas sem valor, naquele hotel, que o afastasse das salas de que se recordava. Estava de volta ao último andar do Circus, em sua sala simples, gravuras de Oxford nas paredes, exata­mente como a deixara um ano antes. Além de sua porta ficava a ante-sala, de teto baixo, onde as mulheres grisa­lhas de Control, as matronas, datilografavam sem fazer ruído e atendiam aos telefones, ao passo que no hotel um gênio ainda incógnito, no fundo do corredor, martelava pacientemente, dia e noite, uma velha máquina de escrever.

No extremo da ante-sala, no mundo de Mrs. Pope Graham, havia um banheiro e um aviso para que não fosse usado — ao passo que uma porta desnuda dava para o santuário de Control: um corredor com velhos armários de aço e velhos livros vermelhos, onde pairava um cheiro adocicado de pó e chá de jasmim. Por detrás de sua mesa de trabalho, lá estava Control, então uma ruína, com seu topete grisa­lho e seu sorriso morno, igual ao de uma caveira.

Essa transposição mental foi tão completa que Smiley, ao ouvir o telefone — a extensão era um extra que tinha de ser pago a vista —, teve de dar tempo a si mesmo para lembrar-se de onde estava. Outros sons exerciam sobre ele efeitos igualmente confusos, como o arrulhar dos pombos no parapeito e o ranger do mastro da antena de televisão, açoitada pelo vento, e a chuva que gorgolejava em cata­dupas na calha do telhado. Também esses sons pertenciam ao seu passado, e em Cambridge Circus só eram percebidos no quinto andar. Seu ouvido com certeza os selecionava por esse motivo: eram o jingle do pano de fundo do seu passado. Certa vez, de manhã cedo, percebendo o rumor de passos no corredor junto à porta do quarto, Smiley de fato se encaminhou até ela, esperando fazer entrar o encarregado dos códigos do Circus, que vinha à noite. Estava mergulhado nas fotografias de Guillam, naquele momento, procurando adivinhar, diante de informações de­masiado escassas, qual teria sido o provável procedimento do Circus, dominado pelo lateralismo, ao lidar com um telegrama vindo de Hong Kong. Mas em vez do encarre­gado dos códigos deparou com Norman, descalço e de pijama. Havia confetes espalhados pelo tapete, e dois pares de sapatos estavam diante da porta do quarto em frente, um de homem, outro de mulher, embora ninguém, no Islay Hotel, especialmente Norman, jamais fosse engra­xá-los.

— Deixe de ficar me espionando e vá deitar-se — disse Smiley. E quando Norman mal o fitou, ordenou: — Vá embora, está bem? — Quase acrescentou, mas se conteve a tempo: "homenzinho imundo".

"Operação Bruxaria", lia-se no título do primeiro vo­lume que Lacon lhe trouxera naquela primeira noite. Di­retrizes relativas à distribuição do produto especial. O resto da capa estava coberto de etiquetas de advertência e de instruções relativas ao manuseio do volume, incluindo uma que aconselhava, de maneira estranha, a quem acaso encontrasse o volume, que o devolvesse sem ler ao arquivista-chefe, no gabinete do ministro. No segundo volume lia-se: "Operação Bruxaria. Estimativas suplementares para o Tesouro, acomodações especiais em Londres, dis­posições financeiras especiais, gratificações, etc". "Fonte Merlin", dizia o terceiro volume, que estava ligado ao pri­meiro por uma fita cor-de-rosa. "Avaliações de clientes, custo real, exploração mais ampla. Ver também o anexo secreto." Mas esse anexo secreto não estava junto com o volume. E quando Smiley o solicitou, houve da parte de Lacon uma fria reação.

O ministro o guarda em seu cofre pessoal disse ele num tom ríspido.

Você conhece o segredo do cofre?

Decerto que não replicou Lacon, indignado.

Qual é o título do anexo?

Não poderá interessar a você, de maneira alguma. Não consigo atinar por que você deveria perder tempo andando atrás desse material. Isso, em primeiro lugar. Além do mais, é rigorosamente secreto e nós fizemos tudo quanto foi humanamente possível para que um mínimo de pessoas o lesse.

Até mesmo um anexo secreto tem título disse Smiley num tom conciliatório.

Esse não tem.

Ele dá a identidade de Merlin?

Não seja ridículo, Smiley. O ministro não exigiria isso e Alleline não haveria de querer informá-lo a esse respeito.

Que significa "exploração mais ampla"?

Eu me recuso a ser interrogado, Smiley. Você já não pertence à família, e sabe disso. De direito, eu deveria deixar você fora disso.

Fora da Operação Bruxaria?

Isso mesmo.

Nós temos uma lista das pessoas que foram afas­tadas dessa maneira? indagou Smiley.

Estava no arquivo de diretrizes — replicou Lacon, e quase bateu a porta na cara dele antes de se retirar, ouvindo o canto lento Where have all the flowers gone?, apresentado por um disk-jockey australiano. O minis­tro... — recomeçou Lacon. O ministro não gosta de explicações tortuosas. Ele diz o seguinte: só acredita no que possa ser escrito num cartão-postal. E fica muito im­paciente quando lhe dão alguma coisa que não possa apre­ender.

Não se esqueça de Prideaux, está bem? acres­centou Smiley. Qualquer coisa que você tenha sobre ele, até mesmo pequenas informações esparsas, é melhor do que nada.

Depois dessas palavras, Smiley deixou que Lacon o fuzilasse com o olhar durante algum tempo, e tentou uma segunda saída:

Você não está ficando maluco, está, George? Você sabe que Prideaux provavelmente nunca ouviu falar em Operação Bruxaria antes de levar um tiro? Eu realmente não consigo perceber por que você não consegue preo­cupar-se com o problema principal, em vez de estar cavou­cando em derredor.

Mas dessa vez Lacon tinha saído do quarto de Smiley.

Smiley voltou-se para o último volume do lote: "Ope­ração Bruxaria. Correspondência com o Departamento". A palavra "departamento" era um dos muitos eufemismos de Whitehall para designar o Circus. Esse volume fora organizado sob a forma de memorandos oficiais trocados entre o ministro imediatamente reconhecíveis por sua caprichada letra de menino de escola e Percy Alleline, naquela época ainda destacado para servir nos escalões inferiores da hierarquia do pessoal de Control.

"Foi uma temporada muito chata", refletiu Smiley, examinando aqueles arquivos tão manuseados, "para uma guerra tão longa e cruel."

 

Era essa guerra longa e cruel que Smiley agora revi­via, com suas principais batalhas, ao iniciar a leitura. Os arquivos continham somente o registro mais sucinto das coisas: a memória de Smiley abrangia muito mais. Os pro­tagonistas eram Alleline e Control e as origens da guerra eram nebulosas. Bill Haydon, que acompanhou com vivo interesse os acontecimentos, assegurava que os dois homens haviam aprendido a odiar-se em Cambridge, durante a bre­ve temporada de Control como professor dessa universi­dade, sendo Alleline um estudante do curso de graduação. Segundo Bill, Alleline fora aluno de Control, mau aluno, e este o cobria de escárnio.

A história era bastante grotesca para que Control se divertisse com ela: "Percy e eu somos irmãos de sangue, segundo dizem. Nós fizemos travessuras juntos, imagine só". Ele nunca confirmou isso.

Às meias verdades dessa natureza Smiley poderia acres­centar alguns fatos incontestáveis, de seu conhecimento, sobre o começo da vida dos dois homens. Enquanto Control não tinha pais ilustres, Percy Alleline era um es­cocês das Lowlands, natural de Manse. Seu pai era um pastor presbiteriano, e Percy, se não compartilhava de sua fé, havia sem dúvida herdado sua obstinada capacidade de persuadir as pessoas. Escapou de ir para a guerra, por um ou dois anos, e ingressou no Circus, vindo de uma empresa na City. Em Cambridge, fizera um pouco de política (um tanto à direita de Gengis Khan, dissera Haydon, que não era, Deus é testemunha, um liberal água-com-açúcar) e também praticara atletismo. Foi recrutado por uma figura sem importância, um certo Maston, que lhe arranjou, du­rante um breve período, uma colocação no serviço de con­tra-espionagem. Maston viu um grande futuro em Alleline, mas, tendo apregoado seus méritos de maneira veemente, caiu em desgraça. Percebendo que Alleline era um estorvo, o pessoal do Circus o despachou para a América do Sul, onde ele viajou bastante, supostamente na qualidade de empregado consular, sem voltar à Inglaterra.

Até o próprio Control admitiu que Percy se portou extremamente bem na América do Sul, lembrava-se Smi­ley. Os argentinos, que gostavam de seu tênis e de seu estilo de montar, tomaram-no por um cavalheiro, assim disse Control, e presumiram que Percy fosse um tolo, o que ele nunca foi. Quando passou o posto a seu sucessor, havia organizado uma rede de agentes ao longo dos dois litorais e estava abrindo as asas também para o norte. Depois de um período de licença, que passou em seu país, e de umas duas semanas de instrução, foi transferido para a Índia, onde seus agentes pareciam considerá-lo a reen­carnação do Raj britânico. Pregou-lhes a lealdade, não lhes pagando quase nada; e quando lhe pareceu conveniente, deles se descartou. Da Índia, foi para o Cairo. Esse posto deve ter sido difícil para Alleline, se não impossível, pois o Oriente Médio fora até então a área preferida de Hay­don. As redes do Cairo referiam-se a Bill exatamente nos mesmos termos que Bill Haydon empregara a respeito dele naquela noite fatal, em seu clube anônimo: um Lawrence da Arábia dos dias de hoje. Todos eles estavam combina­dos para transformar num inferno a vida do sucessor de Haydon. Mas, de certo modo, Percy abriu seu caminho. E, se tivesse apenas se conservado longe dos americanos, talvez fosse lembrado como melhor do que Haydon. Em vez disso, porém, houve um escândalo e um desentendi­mento declarado entre Percy e Control.

As circunstâncias em que tudo isso ocorreu ainda eram obscuras. O incidente aconteceu muito antes de Smiley ter sido elevado ao posto de grande camareiro de Control. Sem qualquer autorização de Londres, segundo parecia, Alleline envolveu-se numa estúpida conspiração americana que pretendia substituir um potentado local por outro de sua confiança. Alleline sempre demonstrara uma reverência fatal pelos americanos. Da Argentina, observara com admiração o modo como haviam desbaratado os po­líticos de esquerda através de todo o hemisfério: na Índia, encantara-se com sua habilidade em dividir as forças de centralização. Control, ao contrário disso, como a maior parte do pessoal do Circus, desprezava os americanos e todas as suas atividades, que ele freqüentemente procurava solapar.

A conspiração fracassara, as companhias britânicas de petróleo ficaram furiosas e Alleline, conforme a feliz expressão da gíria profissional, "dera o fora sem sapatos". Posteriormente, Alleline alegou que Control instara com ele para que prosseguisse e, em seguida, passara-lhe uma rasteira. E, mais ainda, havia até mesmo denunciado a tra­ma a Moscou. Quaisquer que tenham sido os fatos, quando Alleline chegou a Londres encontrou uma ordem que o despachou para servir diretamente junto à Nursery, onde deveria ser o responsável pelo treinamento dos principian­tes que estavam fazendo seu estágio probatório. Era um posto reservado ao pessoal "cansado", cujos contratos de trabalho deveriam terminar dentro de alguns anos, quando seriam aposentados. Restavam apenas alguns cargos em Londres, naquela época, para um homem com tantos anos de serviço e tantas qualificações como Percy, explicou Bill Haydon, chefe do pessoal.

"Então você terá de inventar um para mim", declarou Percy. Ele tinha razão. Conforme Bill confessou franca­mente a Smiley, algum tempo depois, ele, Bill, não tinha levado em conta o poder de pressão de Alleline.

— Mas quem são essas pessoas? — Smiley costumava indagar. — Como conseguem obrigar você a aceitar um homem, quando você não o quer?

— Os jogadores de golfe — disse Control rispida­mente. — Eles e os conservadores.

Alleline naquele tempo andava de namoro com a opo­sição e era recebido de braços abertos nada menos do que por Miles Sercombe, o tal que era lamentavelmente primo afastado de Ann e atual ministro de Lacon. Mas Control quase não tinha forças para resistir. O Circus encontrava-se em estagnação, e falava-se abertamente em jogar fora todo o material que havia para recomeçar tudo em outro lugar e com material novo. Os insucessos naquele mundo tradicionalmente ocorriam em série, mas essa série esta­va se revelando excepcionalmente longa. O produto caíra bruscamente, e uma quantidade cada vez maior desse pro­duto tornava-se suspeita. Nas questões importantes, o pulso de Control não se revelava muito forte.

Essa incapacidade temporária não perturbou a alegria de Control ao redigir a folha de atribuições de Percy Alle­line como diretor de operações. Ele a denominou "a cara­puça de burro posta na cabeça de Percy".

Smiley nada poderia fazer. Bill Haydon então se acha­va em Washington, tentando negociar um tratado de troca de informações com o que denominava os "fascistas puri­tanos da agência norte-americana". Mas Smiley fora ele­vado ao quinto andar e uma de suas tarefas consistia em manter os postulantes afastados de Control. Por isso Alle­line teve de procurar Smiley e indagar: "Por quê?" Percy ia à sala de Smiley quando Control estava ausente, só para convidá-lo a visitar aquele horrível apartamento que ele tinha, tomando o cuidado prévio de mandar sua amante ao cinema. E interrogava Smiley naquele seu sotaque la­mentoso: "Por quê?" Chegou mesmo a investir numa gar­rafa de uísque de malte, que obrigou Smiley a beber libe­ralmente, enquanto ele próprio se contentou com outra marca, mais barata.

"O que é que eu fiz a ele, George, de tão desgraça­damente especial? Nós tivemos uma ou duas escaramuças, mas o que há de tão fora do comum nisso, diga-me? Por que ele tem essa implicância comigo? Tudo o que eu peço é um lugar na mesa alta. Deus é testemunha de que meu passado me dá direito a isso."

Referindo-se à mesa alta, ele queria dizer o quinto andar.

A folha de atribuições que Control redigiu para Alle­line, vazada numa forma capaz de impressionar, à pri­meira vista, dava-lhe o direito de examinar todas as opera­ções antes de serem lançadas. Mas havia uma ressalva que tornava esse direito dependente da seguinte condição: o assentimento das seções operacionais. E Control tomou todas as cautelas para que isso não ocorresse. A folha de atribuições declarava que Alleline deveria "coordenar re­cursos e eliminar rivalidades regionais", uma idéia que Alleline havia desde então tornado realidade com o órgão da Estação de Londres. Mas as seções que dispunham de recursos, com os seus informantes, falsificadores, olheiros, etc, recusaram-se a abrir seus livros ao exame de Alleline, que não tinha poderes para obrigá-las a fazê-lo. Por isso Alleline estava à míngua, e suas caixas de papéis viviam sempre vazias a partir da hora do almoço.

"Eu sou um medíocre, é isso? Hoje em dia temos de ser gênios, prima-donas, e não desgraçados integran­tes do coro. Somos velhos. É isso."

Mas Alleline, em­bora isso pudesse facilmente ser esquecido ao olhar-se para ele, ainda era um homem bastante moço para sentar-se à mesa alta, tendo oito ou nove anos menos do que Haydon. E a diferença de idades ainda seria maior, em relação a Control.

Control mostrou-se irredutível. "Percy Alleline seria capaz de vender a própria mãe para obter uma cadeira na Câmara dos Lordes." E mais ainda, quando sua horrível doença começou a miná-lo, disse o seguinte: "Eu me recuso a legar o trabalho de toda minha vida a um cavalo de batalhão. Sou excessivamente orgulhoso para deixar-me lisonjear, velho demais para ser ambicioso, e sou feio como um sapo. Percy é exatamente o contrário, e existe um nú­mero bastante grande de homens de espírito, em Whitehall, que preferem seu tipo ao meu".

Poderia afirmar-se que Control indiretamente colocou a Operação Bruxaria em sua própria cabeça.

"George, venha cá", falou Control num tom incisivo, um belo dia, usando o telefone interno. "O irmão Percy está querendo me pisar nos calos. Venha cá senão vai correr sangue."

Foi numa época, Smiley se recordava, em que os guer­reiros fracassados estavam regressando de terras estrangei­ras. Roy Bland acabara de chegar de avião, de Belgrado, onde, com a ajuda de Toby Esterhase, estivera procurando salvar os destroços de uma rede em seus últimos estertores; Paul Skordeno, naquela época o chefe na Alemanha, aca­bara de enterrar seu melhor agente soviético em Berlim Oriental. Quanto a Bill, após sua infrutífera viagem, estava de volta ao Circus, furioso com a arrogância do Pentágono, a burrice do Pentágono, a duplicidade do Pentágono, afir­mando que havia chegado a hora de negociar com os mal­ditos russos.

Já passava da meia-noite no Islay. Uma visita retar­datária estava tocando a campainha. Isso lhe custaria dez xelins, que teria de dar a Norman, pensou Smiley, para quem a nova moeda inglesa ainda era coisa que o deixava perplexo. Com um suspiro, puxou para perto de si a pri­meira pasta dos arquivos da Operação Bruxaria, e, condes­cendendo em dar uma cautelosa lambida no dedo indicador e no polegar, começou a trabalhar, associando a memória oficial à sua própria.

 

"Nós conversamos", escreveu Alleline, apenas uns dois meses após aquela entrevista, numa carta pessoal e ligei­ramente histérica, dirigida ao eminente primo de Ann, o ministro, e registrada no arquivo de Lacon. "Os relatórios da Operação Bruxaria provêm de uma fonte extremamente sensível. Em minha opinião, nenhum dos métodos de dis­tribuição que existem em Whitehall está à altura do caso. O sistema de malas de despachos que utilizamos para a Operação Moscardo desabou quando os clientes de Whi­tehall perderam as chaves, ou por ocasião do vergonhoso caso em que um subsecretário, assoberbado de trabalho, deu sua própria chave a um assistente pessoal. Já me co­muniquei com Lilley, do Serviço de Informações da Mari­nha, que está pronto a colocar à nossa disposição uma sala especial de leitura no prédio principal do Almirantado, onde o material ficará à disposição dos clientes, sob a fis­calização de um porteiro sênior desse serviço. A sala de leitura será conhecida pela denominação de Sala de Confe­rências do Partido Trabalhista do Adriático, ou Sala do PTA. Os clientes que tiverem direito à leitura não serão portadores de passes, uma vez que esses passes estão su­jeitos a abusos. Em vez disso, deverão identificar-se pes­soalmente ao meu porteiro (Smiley reparou no pronome possessivo), que estará de posse de uma lista com as foto­grafias desses clientes..."

Lacon enviou ao Tesouro, ainda não convencido, por intermédio de seu odioso patrão, o ministro, diante de cujo nome sua submissão era invariável, a nota: "Mesmo admi­tindo que isso seja necessário, a sala de leitura terá de ser toda remodelada:

 

"1) o senhor autoriza as despesas?

"2) em caso afirmativo, tais despesas deverão correr por conta do Almirantado. O Departamento o reembolsará de maneira reservada;

"3) há também o problema dos porteiros extras. Mais uma despesa..."

 

"E há o problema da maior glória de Alleline", refle­tiu Smiley ao fechar lentamente o volume. Sua glória já brilhava como um farol, por toda parte. Percy estava a caminho da mesa alta, e Control já poderia estar morto.

Veio da escada um canto muito lindo. Um hóspede galês, completamente embriagado, estava dando boa noite a todos.

Quanto à Operação Bruxaria, lembrava-se Smiley, novamente apelando para sua memória, os arquivos não conheciam nada de mais humano. A Operação Bruxaria era, sem dúvida, a primeira tentativa de Percy Alleline, em seu novo posto, no intuito de lançar uma operação que fosse de fato sua. Mas como as atribuições que possuía o obrigavam a obter a aprovação de Control, os anteceden­tes dessa operação haviam nascido mortos. Durante algum tempo, por exemplo, ele se concentrara em escavar um túnel. Os americanos haviam aberto túneis de escuta em Berlim e em Belgrado, e os franceses tinham conseguido fazer algo de parecido contra os americanos. Pois bem: sob a bandeira de Percy, o Circus entraria no mercado. Control considerou o plano com benevolência: foi criada uma comissão constituída de pessoas dos vários serviços (conhecida pela denominação de Comissão Alleline); uma equipe de membros da seção de engenharia realizou uma investigação sobre os alicerces da Embaixada soviética de Londres, onde Alleline contava com o apoio irrestrito do mais recente regime militar, o qual, como os que o haviam precedido, ele muito admirava. Em seguida, de um jeito muito brando, Control derrubou a construção de Percy com alguns golpes certeiros, e ficou aguardando que ele aparecesse com algum novo projeto. Após vários golpes trocados entre os dois, era exatamente o que Percy estava fazendo naquela manhã cinzenta quando Control intimou peremptoriamente Smiley para que tomasse parte na festa.

Control estava sentado à sua mesa de trabalho, e Alleline permanecia de pé, junto à janela, havendo entre eles uma pasta simples, de cor amarela, fechada.

— Sente-se aí e dê uma olhadela nessa bobagem — disse Control.

Smiley acomodou-se na poltrona e Alleline continuou onde estava, apoiando os grandes cotovelos no peitoril da janela e olhando por sobre os telhados a Coluna de Nelson e as torres de Whitehall, que ficavam mais além.

Havia na pasta uma fotografia do que parecia ser um despacho naval soviético, de alto nível, com quinze páginas.

— Quem fez a tradução? — indagou Smiley, pensan­do que era boa demais para ter sido obra de Roy Bland.

— Foi Deus — respondeu Control. — Deus fez esta tradução, não é isso, Percy? Não pergunte nada a ele, George. Ele não lhe dirá.

Chegara o momento de Control parecer excepcional­mente jovem. Smiley lembrou-se de como Control perdera peso, de como suas faces estavam rosadas, e de como as pessoas que o conheciam pouco sempre o felicitavam por sua boa aparência. Somente Smiley, talvez, notara as mi­núsculas gotas de suor que, até mesmo naqueles dias, habi­tualmente pontilhavam o repartido do cabelo de Control.

O documento consistia precisamente numa aprecia­ção, supostamente elaborada pelo Alto Comando soviético, de uma recente manobra naval russa no Mediterrâneo e no mar Negro. No arquivo de Lacon, fora registrada sim­plesmente como Relatório n.° 1, sob o título "Naval". Durante meses o Almirantado havia implorado ao Circus que lhe fornecesse qualquer coisa sobre essa manobra. Por conseguinte, o documento tinha uma impressionante atua­lidade, que o tornou imediatamente suspeito aos olhos de Smiley. Era pormenorizado, mas tratava de assuntos de que Smiley não entendia, nem mesmo de maneira vaga: poder de desferir ataques de represália, procedimentos de radiativação do sistema de alerta do inimigo, em suma, a alta matemática do equilíbrio do terror. Se fosse verda­deiro, o documento seria ouro em pó. Mas não havia qual­quer razão concebível para se supor que fosse de fato ver­dadeiro. Todas as semanas o Circus processava dezenas de documentos, tidos como soviéticos, não solicitados. Alguns deles eram deliberadamente oferecidos pelos aliados, no seu próprio interesse; outros eram russos. Muito raramen­te um deles era utilizado; geralmente, porém, depois de haver sido rejeitado.

— Que iniciais são estas? — indagou Smiley, referin­do-se a umas anotações em russo, feitas à margem, a lápis. — Alguém sabe?

Control voltou a cabeça em direção a Alleline e de­clarou:

— Pergunte à autoridade. Não pergunte a mim.

— São de Zharov — disse Alleline. — Almirante da esquadra do mar Negro.

— Não estão datadas — objetou Smiley.

— São um rascunho — comentou Alleline, compla­centemente, com seu sotaque mais forte que de costume. — Zharov assinou-as na quinta-feira. O despacho defini­tivo, com essas emendas, começou a circular na segunda-feira, devidamente datado.

Era terça-feira.

— De onde veio? — indagou Smiley, ainda meio perdido.

— Percy não está capacitado a nos informar — disse Control.

— O que dizem seus avaliadores?

— Eles não examinaram o documento — declarou Alleline. — E mais: não vão pôr os olhos nele.

Lilley, meu irmão em Cristo — acrescentou Con­trol —, do Serviço de Informações da Marinha, deu um parecer preliminar, não foi isso, Percy? Percy mostrou-lhe o documento ontem à noite, enquanto bebericavam um gim com vermute, não foi, Percy? No Traveller's?

— No Almirantado.

— O irmão Lilley, sócio do Clube Caledoniano, que é o de Percy, é pessoa normalmente sóbria em louvores. Mas telefonou para mim há meia hora, e foi positivamente exagerado. Chegou até a dar-me parabéns. Considera o do­cumento genuíno e pede nossa permissão, a de Percy, su­ponho que deveria falar assim, para informar seus colegas do Almirantado a respeito das conclusões do documento.

— Isso é absolutamente impossível — disse Alleline. — O documento é apenas para ele ver, pelo menos durante mais umas duas semanas.

— A coisa é tão quente — explicou Control — que nós temos de deixá-la esfriar para que possa ser distribuída.

— Mas de onde veio isso? — insistiu Smiley.

— Ah, Percy imaginou um nome suposto. Não se preocupe. Ele nunca foi mole quando se trata de arranjar nomes supostos, não é mesmo, Percy?

— Mas qual foi o tipo de acesso? Qual o funcionário que tratou do caso?

— Você vai gostar disso — prometeu Control, num aparte. Estava indignado. Durante um convívio já tão lon­go com ele, Smiley não conseguiu lembrar-se de vê-lo assim tão furioso. Suas mãos finas e cobertas de sardas estavam trêmulas, e seus olhos, normalmente sem vida, fuzilavam de cólera.

— Fonte Merlin — disse Alleline, fazendo preceder sua declaração por um sugar dos dentes, ligeiro mas bem escocês. — É uma fonte altamente colocada, que tem aces­so aos níveis mais delicados dos órgãos soviéticos que de­finem os rumos da política. — E acrescentou, como se isso fosse um título de propriedade: — Nós conferimos ao pro­duto o título de Bruxaria.

Ele empregara o mesmo tipo de palavras, observou Smiley, numa carta altamente sigilosa e pessoal, dirigida a um amigo do Tesouro, pedindo maior discrição no paga­mento ad hoc para os agentes.

— Ele vai dizer que ganhou no próximo bolo espor­tivo — advertiu Control. Apesar de sua "segunda juven­tude", revelava a imprecisão de um velho quando se tratava de empregar linguagem popular. — Agora, Smiley, faça com que ele diga por que não quer contar as coisas a você.

Alleline permaneceu irredutível. Também enrubesce­ra, mas de triunfo, não de doença. Estufou o grande peito para pronunciar um longo discurso, dirigindo-se exclusi­vamente a Smiley, num tom monocórdio que parecia o de um sargento de polícia escocês prestando depoimento pe­rante algum tribunal.

— A identidade da Fonte Merlin é um segredo que não me cabe divulgar. É o fruto de um longo cultivo de certas pessoas deste serviço. Pessoas ligadas a mim, como estou a elas ligado. E que não se mostram de modo algum alegres com o índice de insucessos desta casa. Há muita coisa a ser jogada fora. Muita coisa que se perde e se des­perdiça. Escândalos demais. Eu já disse isso muitas vezes, mas poderia muito bem ter lançado palavras ao vento, diante da atenção que me dispensaram.

Ele está se referindo a mim explicou Control, num aparte. Eu sou o ele desta arenga, você compreen­de, Smiley?

Os princípios gerais das atividades de segurança foram esquecidos, neste serviço. É preciso saber: onde estão eles? Uma descentralização em todos os níveis. Onde estão eles? Há um excesso de críticas caluniosas, em nível regional, estimuladas pela cúpula.

Outra referência a mim acrescentou Control.

Dividir para reinar, eis o princípio que nos gover­na hoje em dia. As pessoas que deveriam estar ajudando a lutar contra o comunismo vivem todas tentando esganar-se. Nós estamos perdendo nossos parceiros mais altamente colocados.

Ele se refere aos americanos explicou Control.

Estamos perdendo nossos meios de subsistência, nosso respeito próprio. Já tivemos o bastante. Na verdade, ficamos empanturrados.

Alleline apanhou o relatório e o enfiou debaixo do braço.

E como todas as pessoas que já tiveram o bas­tante disse Control no momento em que Alleline saiu ruidosamente da sala ele quer mais ainda.

Durante algum tempo, os arquivos de Lacon, e não a memória de Smiley, retomaram a história. Era típico da atmosfera daqueles últimos meses que Smiley, trazendo à baila um problema, não recebesse subseqüentes informa­ções sobre como o caso evoluíra. Control detestava os fra­cassos, como detestava as doenças e, acima de tudo, seus próprios fracassos. Sabia que admitir um insucesso era viver com ele. E sabia que um serviço que não luta é incapaz de sobreviver. Detestava os agentes que usavam camisas de seda e avançavam em gordas fatias do orça­mento em prejuízo das redes, que viviam sobriamente e nas quais ele depositava confiança. Gostava do sucesso, mas odiava milagres, se estes afastassem seus outros propósitos situados no centro dos acontecimentos. Detestava a debi­lidade, como abominava o sentimentalismo e a religião, e não suportava Percy Alleline, que possuía a maior parte desses atributos em grau apreciável. A maneira pela qual Control lidava com tudo isso consistia, a rigor, em fechar a porta e retirar-se para a encardida solidão de suas salas no andar superior, sem receber visitas e mandando que todas as chamadas telefônicas fossem a ele encaminhadas pelas matronas. Aquelas mesmas tranqüilas matronas ser­viam seu chá de jasmim e lhe forneciam um número infi­nito de pastas de arquivos do escritório, que ele mandava buscar e devolvia, aos montes. Smiley as via empilhadas em frente à porta quando por ali andava, tratando de seus afazeres ou tentando manter o resto do Circus à tona, impedindo que tudo submergisse. Muitas daquelas pastas eram antigas, datando de antes da época em que Control começara a chefiar o grupo. Algumas eram de caráter pes­soal, biografias de antigos e atuais membros do serviço.

Control nunca dizia o que estava fazendo. Se Smiley o perguntasse às matronas, ou se acaso Bill aparecesse na sala de Control era seu predileto — e fizesse alguma pergunta, elas se limitariam a sacudir a cabeça ou a franzir o cenho, silenciosamente, erguendo os olhos para os céus. "É um caso em conclusão", diziam aqueles olhares amá­veis. "Estamos condescendendo com um grande homem, no final de sua carreira." Mas Smiley, agora a folhear pacientemente uma pasta após outra, lembrava-se, num des­vão de sua mente complexa, da carta de Irina para Ricki Tarr. Smiley sabia disso e, num sentido muito positivo, sentiu-se reconfortado com o fato: afinal, ele não era o primeiro a realizar essa viagem de exploração, pois o fan­tasma de Control era seu companheiro nas mais remotas paragens, e poderia mesmo ter permanecido presente em toda a Operação Testemunho, na undécima hora, se a morte não o tivesse obrigado a parar.

 

Outro café da manhã e um galês muito moderado, que não se mostrava inspirado por salsichas malpassadas e tomates cozidos demais.

Você quer isso de volta? indagou Lacon. Ou já acabou? Não há de ser muito esclarecedor, pois nem mesmo contém os relatórios.

— Hoje à noite, por favor, se você não se importar.

— Eu imagino que você já reparou que está pare­cendo uma ruína.

Smiley não o percebera. Mas na Bywater Street, quan­do ali voltou, o bonito espelho de Ann, com sua moldura dourada, mostrou-lhe que seus olhos estavam vermelhos e que suas fartas bochechas revelavam fadiga. Dormiu du­rante algum tempo. Em seguida, prosseguiu em seus mis­teriosos caminhos. Ao cair da noite, Lacon já estava a sua espera. Smiley entregou-se imediatamente à sua leitura.

 

Durante seis semanas, de acordo com os arquivos, o despacho naval não tivera um sucessor. Outras seções do Ministério da Defesa refletiam o entusiasmo do Almirantado diante do despacho original, e o Ministério do Exte­rior observara que "o documento lançara extraordinárias luzes acerca do agressivo pensamento soviético", o que quer que isso pudesse significar. Alleline persistira em suas exigências para que fosse dispensado um tratamento es­pecial à matéria, mas parecia um general que não dispu­sesse de tropa. Lacon referiu-se friamente ao "acompanha­mento um tanto atrasado", e sugerira ao seu ministro que ele deveria "esclarecer a situação junto ao Almirantado". Quanto a Control, não havia coisa alguma, segundo o arquivo. Talvez ele estivesse de joelhos e rezando para que o assunto não desse em nada. Nessa calmaria, o observa­dor Tesouro de Moscou notara que Whitehall tinha visto muita coisa igual àquela nos últimos anos: um estimulante relatório inicial, depois o silêncio ou, pior ainda, um es­cândalo.

Ele estava enganado. Na última semana, Alleline anunciou a publicação de mais três relatórios da Operação Bruxaria, todos no mesmo dia. E todos sob a forma de correspondência trocada entre os departamentos soviéticos, embora os assuntos fossem muito diferentes uns dos outros.

O Bruxaria n.° 2, conforme o sumário de Lacon, des­crevia as tensões do Comecon e se referia ao efeito degenerador das transações comerciais do Ocidente com seus membros mais débeis. Segundo o Circus, tratava-se de um relatório clássico do território de Roy Bland, abrangendo efetivamente o alvo que a rede Agravar, com base na Hungria, em vão atacara durante anos. "Excelente tour d'horizon", escreveu um cliente do Ministério do Exterior, "apoiado por alguns bons colaterais."

O Bruxaria n.° 3 discutia o revisionismo na Hungria e os reiterados expurgos de Kadar nos setores da vida po­lítica e acadêmica. A melhor maneira de pôr um fim àque­le falatório, na Hungria, dizia o autor do documento, to­mando de empréstimo uma expressão criada por Khruchov muito tempo antes, seria fuzilar mais alguns intelectuais. "Advertência salutar", escreveu o mesmo comentarista do Ministério do Exterior, "a todos os que se comprazem em pensar que a União Soviética está usando de brandura com seus satélites."

Esses dois relatórios eram, em essência, de caráter preliminar, mas o Bruxaria n.° 4 continha sessenta pági­nas, sendo considerado pelos clientes como sem paralelo. Era uma apreciação, de caráter altamente técnico, feita pelo Serviço Exterior Soviético, sobre as vantagens e des­vantagens de negociar-se com um presidente norte-ameri­cano debilitado. A conclusão, em síntese, era que, se a União Soviética desse uma colher de chá ao presidente, ajudando-o perante seu eleitorado, poderia obter valiosas concessões nos futuros debates sobre os mísseis nucleares de ogivas múltiplas. Mas o relatório punha seriamente em dúvida a conveniência de permitir-se que os Estados Uni­dos sentissem estar perdendo demais, porquanto isso po­deria induzir o Pentágono a desferir um golpe punitivo ou antecipado. O relatório provinha do verdadeiro âmago do território de Bill Haydon. Mas, como o próprio Haydon escreveu, num tocante memorando dirigido a Alleline, que foi prontamente copiado à revelia do próprio Haydon e enviado ao ministro, sendo arquivado em seu gabinete, "em vinte e cinco anos de investidas contra as metas nucleares soviéticas, ele jamais pusera as mãos em coisa alguma daquela qualidade". E concluiu: "Salvo se eu estiver mui­tíssimo enganado, tampouco o fizeram os americanos, nos­sos irmãos em armas. Sei que os dias de hoje ainda não são favoráveis. No entanto, ocorre-me que, se alguém levar esse material a Washington, poderá realizar uma ótima bar­ganha. De fato, se Merlin mantiver seus padrões, eu me aventuro a prever que poderemos comprar qualquer coisa que houver em estoque na agência americana".

Percy Alleline tinha sua sala de leitura. E George Smiley fez café no desprezado bico de gás que ficava ao lado do lavatório. O medidor do meio-dia estava a zero e Smiley, de mau humor, chamou Norman e mandou que ele lhe trouxesse cinco libras, trocadas em xelins.

 

Smiley continuou sua jornada, com crescente interes­se, através do magro registro daquela primeira reunião dos protagonistas, até os dias de hoje. Naquela época, tamanho clima de suspeição dominava o Circus que até mesmo entre Smiley e Control o assunto Fonte Merlin se transformara em tabu. Alleline trouxe os relatórios da Operação Bru­xaria e ficou aguardando na ante-sala enquanto as matro­nas os levaram a Control, que os assinou imediatamente, só para demonstrar que não os lera. Alleline levou os arquivos de volta, enfiou a cabeça no vão da porta entrea­berta de Smiley, resmungou um bom-dia e desceu as es­cadas pisando forte. Bland ficou a distância, e até mesmo as alegres visitas de Bill Haydon, que constituíam, tradi­cionalmente, uma parte da vida do Circus, e as conversas sobre questões de trabalho que, nos velhos tempos, Control gostava de estimular entre seus assistentes mais graduados, tornaram-se mais raras e mais breves, acabando por cessar de todo.

— Control está ficando maluco — Haydon disse a Smiley, com desprezo. — E se eu não estou enganado, está morrendo também. A questão é apenas saber o que vai tomar conta dele primeiro.

As habituais reuniões das terças-feiras foram suspen­sas, e Smiley viu-se constantemente acossado por Control para que viajasse ao exterior, cumprisse alguma missão confusa ou visitasse os distantes postos no país, Sarratt, Brixton, Acton e os demais, como seu enviado pessoal. Ele sentia cada vez mais que Control desejava mantê-lo ia distância. Quando os dois conversavam, Smiley percebia o pesado tom de suspeita que havia entre eles, de tal sorte que pensou seriamente se Bill não teria razão e se Control não estaria incapacitado para o trabalho.

Os arquivos do Gabinete do ministro esclareceram que os meses subseqüentes testemunharam o firme desenvolvi­mento da Operação Bruxaria, sem qualquer ajuda de Control. Os relatórios chegavam à razão de dois ou mesmo três por mês, e seu padrão, segundo os clientes, continuava excelente, embora o nome de Control raramente fosse neles mencionado, não sendo ele jamais convidado a co­mentá-los. Por vezes os avaliadores davam opiniões eva­sivas. Mais freqüentemente, queixavam-se de que a corroboração dos relatórios não seria possível porque Merlin os conduzia a áreas inexploradas. Não seria possível soli­citar aos americanos que verificassem as coisas? "Não poderíamos pedir-lhes isso", declarara o ministro. "Ainda não", dissera Alleline, que acrescentou, num memorando confidencial e que não foi lido por ninguém: "Quando o assunto estiver maduro, faremos mais do que barganhar nosso material pelo deles. Não estamos interessados numa única transação. Nossa tarefa consiste em estabelecer a pista de Merlin, sem dúvida alguma. Quando isso estiver feito, Haydon poderá dirigir-se ao mercado..."

Já não havia a menor dúvida sobre isso. Entre os poucos escolhidos admitidos às câmaras do Partido Traba­lhista do Adriático, Merlin era um vencedor. Seu material era preciso, freqüentemente confirmado retrospectivamente por outras fontes... Uma Comissão Bruxaria foi instituí­da sob a presidência do ministro, e Alleline foi nomeado seu vice-presidente. Merlin tornara-se uma indústria, e Control nem mesmo foi por ela empregado. Por esse mo­tivo, em desespero, ele despachara Smiley, com sua tigela de mendigo: "Eles são três, além de Alleline", disse Con­trol. "Interrogue-os, George. Tente os homens. Importu­ne-os. Dê-lhes o que quiserem comer."

Os arquivos eram também abençoadamente omissos acerca dessas reuniões, e elas se situavam nos piores des­vãos da memória de Smiley. Ele já então sabia nada haver na despensa de Control que pudesse matar a fome daque­les três homens.

 

Era o mês de abril. Smiley regressara de Portugal, onde estivera pondo uma pedra em cima de certo escândalo. Verificou, em seu regresso, que Control estava vi­vendo sob estado de sítio. Os arquivos jaziam espalhados pelo chão; novos fechos tinham sido adaptados às janelas. Control pusera o abafador de chá sobre seu telefone e, do teto, pendia um aparelho de proteção contra escuta clan­destina, algo parecido com um ventilador, que variava constantemente a altura do som que emitia. Durante as três semanas em que Smiley estivera ausente, Control se tornara um velho.

— Diga-lhes que estão comprando seu ingresso com dinheiro falso — ordenara ele, mal levantando os olhos de seus arquivos. —- Diga-lhes qualquer coisa. Eu preciso de tempo.

"Eles são três, além de Alleline", Smiley repetia de si para si, sentado à mesa de jogo do major, estudando a lista de Lacon que continha os nomes dos que haviam sido afastados da Operação Bruxaria. Eram então sessenta e oito visitantes, portadores de cartões que lhes permitiam entrar na sala de leitura do Partido Trabalhista do Adriá­tico. Cada um deles, como se fosse um membro do Partido Comunista, era numerado conforme a data de sua admis­são. A lista havia sido novamente datilografada depois da morte de Control.

De repente, o cérebro de Smiley, alerta enquanto lia todas as inferências, todas as conexões indiretas, foi to­mado de uma visão bastante estranha: ele e Ann estavam caminhando sobre os penhascos de Cornwall. Isso acon­tecera logo depois da morte de Control, a pior fase de seu longo e confuso casamento que Smiley seria capaz de recordar. Estavam numa parte bem avançada do litoral, em algum lugar entre Lamorna e Portchurno, e se tinham dirigido até ali, fora de temporada, aparentemente para que Ann respirasse o ar marinho a fim de curar sua tosse. Haviam tomado a estrada litorânea, perdidos em seus pen­samentos: ela a lembrar-se de Haydon, supunha Smiley, ao passo que ele pensava em Control, Jim Prideaux e na Operação Testemunho. Não havia a mais leve harmonia entre ambos. Tinham perdido completamente a tranqüili­dade quando estavam juntos. Eram um mistério um para o outro, e a conversação mais banal poderia tomar rumos estranhos e incontroláveis. Em Londres, Ann vivera de maneira desvairada, aceitando qualquer homem que a qui­sesse. Ele sabia apenas que ela estava procurando esquecer alguma coisa que a magoava ou preocupava muito. Mas Smiley não sabia como aproximar-se dela.

— Se eu tivesse morrido — perguntou Ann subita­mente —, em vez de Control, como você se sentiria em relação a Bill?

Smiley ainda estava pensando em uma resposta quan­do ela acrescentou:

— Às vezes eu acho que garanto sua opinião sobre ele. Será isso possível? Que eu de certo modo preserve a união entre vocês dois. Será isso possível?

— É possível — declarou Smiley, acrescentando: — Eu acho que dependo de Bill, de certo modo.

Bill é importante no Circus?

— Mais do que era, provavelmente.

— Ele ainda vai a Washington, lida com eles e os vira de cabeça para baixo?

— Acho que sim. Ouço dizer.

— Ele é tão importante como você era?

— Suponho que sim.

— Eu suponho — repetiu Ann. — Eu acho que sim. Eu ouço dizer. Então ele é melhor? Melhor do que você para agir, melhor na estratégia? Diga-me, por favor, diga-me. Você precisa fazer isso.

Ela estava estranhamente excitada. Seus olhos, lacrimejantes por causa do vento, fitavam Smiley com deses­pero. Segurou-lhe o braço com as duas mãos e, como se fosse uma criança, puxava-o para obter uma resposta.

— Você sempre me disse que não se deve comparar os homens — respondeu ele meio sem jeito. — Você sem­pre me disse que não pensava nesse tipo de comparação.

— Diga-me.

— Bem. Não. Ele não é melhor do que eu.

— Ele é tão bom como você?

— Não.

— E se eu não estivesse aqui, o que você pensaria dele? Se Bill não fosse meu primo, não fosse nada meu? Diga-me. Você o acharia melhor ou pior?

— Pior, creio eu.

— Então ache-o pior agora. Eu o repeli da família, de nossas vidas, de tudo. Aqui, neste momento. Eu estou jogando Bill no mar. Você está me entendendo?

Smiley compreendeu apenas o seguinte: "Volte para o Circus, acabe seu trabalho". Era uma das dez maneiras que ela tinha de dizer a mesma coisa.

Ainda perturbado com essa intromissão de sua me­mória, Smiley levantou-se meio agitado e dirigiu-se até a janela, seu ponto habitual de observação quando ficava distraído. Uma fileira de gaivotas, meia dúzia delas, havia pousado no parapeito. Ele deveria ter ouvido seus pios e se recordado daquela caminhada em Lamorna.

"Eu costumo tossir quando há coisas que não posso dizer", Ann lhe havia declarado certa vez. O que, então, ela não estava podendo dizer? perguntava ele soturnamente aos tubos das chaminés do outro lado da rua. Connie pode­ria dizer, Martindale também. Então por que Ann não po­deria?

— Eles são três, além de Alleline — murmurou Smi­ley de maneira audível. As gaivotas tinham desaparecido, voando todas de uma vez, como se houvessem descoberto algum lugar melhor. "Diga-lhes que eles estão comprando seu ingresso com dinheiro falso." E se os bancos aceitarem esse dinheiro? Se os peritos declararem que ele é verda­deiro, e se Bill Haydon o louvar até os céus? E se os arquivos do gabinete do ministro estiverem cheios de aplau­sos pelos novos bravos de Cambridge Circus que, afinal, acabaram com a má sorte?

Smiley escolhera primeiro Esterhase porque Toby lhe devia a carreira. Ele o recrutara em Viena. Era um estu­dante que estava morrendo de fome, morando nas ruínas de um museu do qual seu falecido tio fora curador. Smiley o levou a Acton, submetendo-o a um interrogatório, em sua mesa de trabalho de nogueira, com aquela fileira de telefones cor de marfim. Na parede, os Reis Magos ajoe­lhados, numa duvidosa pintura italiana do século XVII. Viam-se através da janela um pátio fechado, cheio de Car­ros que aí se amontoavam, caminhões, camionetas e moto­cicletas, e também cabanas de repouso onde os informantes matavam o tempo entre seus turnos de serviço. Primeiro, Smiley indagou a Toby acerca de sua família: ele tinha um filho que estava em Westminster e uma filha que cursava o primeiro ano de uma escola de medicina. Em seguida, Smiley disse a Toby que os informantes estavam com dois meses de atraso em seus cronogramas e, quando Toby se esquivou, Smiley perguntou-lhe diretamente se seus rapazes haviam estado executando algumas tarefas especiais nos últimos tempos, no país ou no exterior, o que Toby, por bons motivos de segurança, julgou que não deveria men­cionar em seus relatórios.

— Para quem eu faria isso, George? — indagara Toby, com aqueles olhos mortiços. — Você sabe que em meu livro isso é inteiramente ilegal. — As expressões idio­máticas, usadas por Toby, acabavam-se tornando ridículas.

— Bem. Eu imagino que você faria isso por Percy Alleline — insinuou Smiley, fornecendo-lhe uma desculpa. — Afinal de contas, se Percy mandou que você fizesse alguma coisa e não a registrasse, você estaria numa posição muito difícil.

— Mas que espécie de coisa, George?

— Limpar uma caixa postal estrangeira, "viciar" um cofre, espionar alguém, cercar uma Embaixada. Percy é o diretor de operações, afinal de contas. Você poderia pen­sar que ele estaria agindo de acordo com instruções do quinto andar. Eu acho que isso poderia acontecer de ma­neira bem razoável.

Toby olhou cautelosamente para Smiley. Tinha um cigarro na mão. No entanto, embora o tivesse acendido, não estava fumando. Era um cigarro desses que a própria pessoa enrola, que ele tirara de uma cigarreira de prata. Depois de acendê-lo, não o pôs na boca uma única vez. Ficou balançando o cigarro, de um lado para outro, por vezes aprumando-o como se fosse colocá-lo na boca, mas não o fez. Nesse meio tempo Toby falou, fazendo uma de suas afirmações de cunho pessoal, supostamente defi­nitivas, acerca da situação em que se encontrava nessa etapa da vida.

Gostava do serviço, disse. Preferia nele permanecer. Era sentimental a respeito do serviço. Tinha outros in­teresses e, a qualquer momento, eles poderiam exigir todo o seu tempo. Mas o serviço era do que mais gostava. Seu problema, dizia ele, era ser promovido. Não que ele o desejasse por motivos de ambição. Diria que seus moti­vos eram de caráter social.

— Você sabe, George, depois de tantos anos de tra­balho eu me sinto muito embaraçado quando esses rapazes jovens me dão ordens. Você entende o que eu quero dizer? Até mesmo Acton. Só esse nome, Acton, é ridículo para eles.

— Ah! — exclamou Smiley, num tom brando. — Que rapazes são esses?

Mas Esterhase perdera o interesse. Completada a declaração que havia feito, sua fisionomia reassumiu aque­la familiar expressão neutra, e seus olhos baços fixaram-se num ponto a meia distância.

— Você se refere a Roy Bland? — indagou Smiley. — Ou a Percy? Percy é jovem. Quem são eles, Toby?

— Eu não sei ao certo — exclamou Toby. — Geor­ge, quando um homem já passou da época de ser promo­vido e está metendo a cara no trabalho, qualquer pessoa que estiver acima dele na hierarquia parece jovem.

— Talvez Control pudesse fazer você subir — su­geriu Smiley, não se preocupando em cumprir ele próprio essa tarefa.

A resposta de Toby deu-lhe um calafrio:

— Bem, na realidade, você sabe, George, eu não tenho assim tanta certeza de que ele possa de fato agir dessa maneira. Escute uma coisa: eu quero dar um pre­sente a Ann — acrescentou ele, abrindo uma gaveta. — Quando eu ouvi dizer que você vinha aqui, telefonei para uns franceses, amigos meus. Alguma coisa bonita, para uma mulher impecável. Você sabe que eu nunca me es­queço de Ann, desde que nós nos encontramos, certa vez, num coquetel de Bill Haydon.

Foi assim que Smiley conquistou o prêmio de conso­lação, um perfume caro, contrabandeado, presumiu ele, por um dos informantes de Toby que regressara à Ingla­terra. E Smiley levou sua tigela de mendigo a Bland saben­do que, ao proceder assim, estava se aproximando mais de Haydon.

Voltando à mesa do major, Smiley deu uma busca nos arquivos de Lacon até encontrar um volume fino, mar­cado com a etiqueta "Operação Bruxaria — Subsídios Di­retos", que registrava as primeiras despesas com a Fonte Merlin. "Por motivos de segurança, propomos", escrevera Alleline em outro memorando pessoal dirigido ao ministro e datado de quase dois meses antes, "manter o financia­mento da Operação Bruxaria absolutamente separado de todos os demais documentos do Circus. Até que se possa encontrar uma adequada denominação sigilosa, solicito se­jam pagas subvenções diretamente do Tesouro, em vez de meros suplementos da verba do Voto Secreto, as quais, no momento oportuno, certamente acharão seu caminho até a contabilidade do Circus. Então eu lhe prestarei contas pessoalmente."

"Aprovado", despachou o ministro ao cabo de uma semana. "Desde que..."

Não havia ressalvas. Um rápido olhar lançado à pri­meira série de números mostrou a Smiley tudo quanto ele precisava saber: já em maio daquele ano, quando se rea­lizou aquela entrevista em Acton, Toby Esterhase fizera nada menos de oito viagens à custa do orçamento da Operação Bruxaria: duas a Paris, outras tantas a Haia, uma a Helsinque e três a Berlim. A finalidade de cada uma dessas viagens fora sucintamente descrita como "co­leta de produtos". De maio a novembro, quando Control desapareceu de cena, Esterhase realizou mais dezenove viagens. Uma delas o levou a Sófia, outra a Istambul. Nenhuma dessas viagens exigiu mais de três dias de au­sência. Foram realizadas, em sua maioria, nos fins de se­mana. Em várias delas, Toby foi acompanhado por Bland.

Para não levar as coisas ao extremo, Toby Esterhase, Smiley disso nunca duvidara seriamente, mentira de ma­neira deslavada. Era agradável encontrar um registro que confirmava essa impressão.

Os sentimentos de Smiley para com Roy Bland eram, naquela época, de caráter ambivalente. Evocando-os agora, concluiu que ainda tinham esse mesmo caráter. Um pro­fessor o descobrira, e Smiley o recrutara. A combinação havia sido estranhamente semelhante à que trouxera Smiley para a rede do Circus. Nessa ocasião, entretanto, não havia nenhum monstro alemão capaz de acender uma fla­ma patriótica, e Smiley sempre ficara um tanto embaraçado com os protestos de anticomunismo. A exemplo de Smiley, Bland não tivera verdadeira infância. O pai dele era um estivador, membro apaixonado de seu sindicato, e do Partido Comunista. A mãe de Bland morreu quando ele era menino. O pai detestava a educação, como detestava a autoridade. E quando Bland tornou-se um intelectual, o pai lhe meteu na cabeça que perdera o filho em bene­fício da classe dominante e procurou sufocá-lo. Bland abriu seu caminho na escola secundária e, durante as férias, trabalhava como um mouro, assim diria Toby, para con­seguir salário extra. Quando Smiley o encontrou na sala de seu tutor, em Oxford, ele tinha o aspecto exausto de alguém que acabasse de chegar de uma péssima viagem.

Smiley o tomou a seu cargo e, durante vários meses, foi se aproximando de uma proposta que Bland aceitou, principalmente, conforme Smiley presumiu, por causa de sua animosidade contra o pai. Vivendo de biscates estra­nhíssimos, Bland trabalhou com afinco na Biblioteca em Memória de Marx, e escreveu documentos esquerdistas para pequenas revistas que teriam desaparecido há muito tempo se o Circus não as subsidiasse. Durante as noites, ele erguia brindes em reuniões impregnadas de fumaça, nos bares e auditórios de escolas. Nas férias, ia para a Nursery, onde um fanático, de nome Thatch, dirigia uma escola para agentes de penetração que deveriam trabalhar em países estrangeiros, instruindo um aluno de cada vez. Thatch treinou Bland no ofício e cautelosamente empurrou suas opiniões progressistas mais para perto do campo marxista de seu pai. Três anos após a data de seu recru­tamento, em parte graças ao seu pedigree proletário e à influência do pai na King's Road, Bland conseguiu ser nomeado, pelo prazo de um ano, assistente de economia na Universidade de Poznam. Estava lançado.

Na Polônia ele se candidatou, com êxito, a um cargo na Academia de Ciências de Budapeste e, durante os oito anos seguintes, levou a existência nômade de um intelec­tual de esquerda de segunda categoria, em busca de luzes, freqüentemente estimulado, embora jamais inspirasse con­fiança. Esteve em Praga, voltou à Polônia, passou dois horríveis semestres em Sófia e seis em Kiev, onde teve um esgotamento nervoso, o segundo em dois meses. Mais uma vez a Nursery o tomou sob seus cuidados, dessa vez no propósito de pô-lo em forma. Foi considerado "lim­po"; suas redes foram confiadas a outros homens, e foi trazido para o Circus a fim de administrar, principal­mente de sua mesa de trabalho, as redes que havia re­crutado no campo. Recentemente, parecera a Smiley que Bland se tornara de fato o colega de Haydon. Se Smiley convidasse Roy para conversar, haveria cinqüenta por cento de probabilidade de que Bill se refestelasse em sua poltrona, rodeado de papéis, mapas e fumaça de ci­garro. Se procurasse Bill, não seria surpresa encontrar Bland, com sua camisa encharcada de suor, caminhando pesadamente de um lado para outro, sobre o tapete. Bill tinha a Rússia; Bland, os países satélites. No entanto, naqueles remotos dias da Operação Bruxaria, tal distinção quase desaparecera.

Eles se encontraram num bar em St. John's Wood, ainda em maio, às cinco e meia da tarde, num dia morto, quando o jardim estava vazio. Roy trouxera um menino de seus cinco anos, um Bland em miniatura, bonito, leva­do, de faces rosadas. Não explicou quem era o menino, mas, enquanto eles conversavam, Bland por vezes se cala­va e ficava observando o menino, que estava num banco, longe deles, comendo nozes. Apesar dos esgotamentos ner­vosos, Bland ainda trazia o imprimatur da filosofia de Thatch quanto a agentes no campo inimigo: confiança em si mesmo, participação positiva, uma sedução de Pied Piper e todas aquelas expressões incômodas que haviam transformado a Nursery, no auge da guerra fria, em algo semelhante a um centro de rearmamento moral.

— Então, qual é o assunto? — indagou Bland afavelmente.

— Não há realmente um assunto, Roy. Control acha que a situação atual não é saudável. Ele não estimaria ver você comprometido numa cabala. Nem eu.

— Ótimo. Então qual é o assunto?

— O que é que você quer comer?

Havia sobre a mesa um galheteiro, encharcado pela chuva que caíra antes, ali deixado desde a hora do almoço, e um molho de palitos de madeira, embrulhados em papel, no compartimento central do galheteiro. Apanhando um deles, Bland atirou o papel na relva e começou a limpar os molares com a extremidade mais larga de um palito.

— Bem. Que tal cinco mil libras, do Fundo dos Répteis?

— E também uma casa e um carro? — indagou Smiley, à guisa de piada.

— E mandar o rapaz para Eton — acrescentou Bland, piscando o olho para o menino ao passo que conti­nuava a palitar os dentes. — Eu já paguei, você compre­ende, George. Você sabe disso. E não sei o que comprei, mas paguei um dinheirão. Quero um pouco de volta. Dez anos de solidão em benefício do quinto andar, isso é muito dinheiro em qualquer idade. Até mesmo na sua. Deve haver alguma razão que me fez deixar-me cativar por todo aquele spiel, mas eu não consigo me lembrar do que foi. Deve ter sido sua personalidade magnética, Smiley.

O copo de Smiley ainda não estava vazio, por isso Bland foi buscar outro para si próprio, no bar, e também alguma coisa para o menino.

— Você é um tipo de suíno bem-educado — decla­rou ele com naturalidade. — O artista é um cara capaz de sustentar dois pontos de vista diametralmente opostos e assim mesmo funcionar. Quem afirmou isso?

Scott Fitzgerald — respondeu Smiley, pensando durante um momento que Bland estava se propondo a dizer alguma coisa sobre Bill Haydon.

— Bem. Fitzgerald sabia das coisas — afirmou Bland. Enquanto bebia, seus olhos ligeiramente esbugalhados desviaram-se para o lado, em direção à cerca, como se estivessem procurando alguém. — Eu estou positivamente na minha, George. Como bom socialista, ando atrás de dinheiro. E como bom capitalista, estou firmemente ao lado da revolução, porque se a gente não consegue der­rotá-la, deve espioná-la. Não me olhe desse jeito, George. É o nome do jogo, hoje em dia: você mexe com minha consciência. Eu levo você para casa em meu carro, está bem?

Bill já estava erguendo um braço quando disse o se­guinte:

— Estarei com você num minuto. — E gritou para o outro lado da relva: — Arranje mais um para mim!

Duas moças estavam andando de um lado para outro, além da cerca de arame.

— É essa a grande piada de Bill? — indagou Smiley, subitamente muito irritado.

— Que piada?

— Uma das piadas de Bill sobre a materialista Inglaterra, a sociedade dos que levam a vida na flauta?

— Poderia ser — disse Bland, e terminou sua bebida. — Você não gosta da piada?

— Não muito. Eu nunca ouvi dizer que Bill fosse um reformista radical. Que aconteceu com ele, de repente?

— Isso não é ser radical — replicou Bland, ressentindo-se de qualquer menosprezo ao seu socialismo ou ao de Haydon. — É simplesmente olhar para fora da maldita janela. É exatamente a Inglaterra de hoje, meu amigo. Ninguém quer isso, não é fato?

— Então como você propõe — indagou Smiley, ou­vindo o som da própria voz soar pomposamente, da pior maneira possível — destruir os instintos de aquisição e competição da sociedade ocidental, sem igualmente des­truir...

Bland tinha acabado de beber. E o encontro também chegara ao fim.

— Por que você há de se preocupar? Você conse­guiu o cargo de Bill. O que é que você quer mais, enquanto isso durar?

"E Bill conseguiu minha mulher", pensou Smiley, quando Bland se levantou para retirar-se. "E ele que vá para o inferno porque contou tudo a você!"

O menino tinha inventado uma brincadeira. Inclinara a mesa para o lado, e estava rolando uma garrafa vazia até que ela caísse no cascalho. Cada vez soltava a garrafa de mais alto do tampo da mesa. Smiley se retirou antes que a garrafa se despedaçasse.

Ao contrário de Esterhase, Bland nunca se preocupa­va em mentir. Os arquivos de Lacon não hesitavam em mencionar seu envolvimento na Operação Bruxaria.

"A Fonte Merlin", escrevera Alleline, num memo­rando datado de pouco depois da saída de Control, "é, sob todos os aspectos, uma operação a ser realizada por uma comissão... Não posso honestamente afirmar qual dos meus três assistentes merece maiores louvores. A ener­gia de Bland foi a inspiração de todos nós..." Estava respondendo à sugestão do ministro no sentido de que os responsáveis pela Operação Bruxaria fossem incluídos na lista dos que seriam agraciados no Ano Novo. "... embora o talento operacional de Haydon por vezes tenha ficado um pouco abaixo do engenho do próprio Merlin", acres­centou ele. Todos os três receberam medalhas. Foi confir­mada a nomeação de Alleline para o cargo de chefe e, com isso, ele recebeu seu ambicionado título de cavaleiro.

 

"O que Bill me fez", pensou Smiley.

Durante a maior parte das noites de Londres, há uma trégua em toda agitação. Passam-se dez, vinte, trinta mi­nutos, até mesmo uma hora, sem que um bêbado comece a gemer, uma criança a chorar ou os pneus de um carro a cantar, colidindo com outro carro. Nos jardins de Sussex isso acontece por volta das três horas da madrugada. Naquela noite tudo ocorreu antes, à uma hora, quando Smiley já estava de pé, mais uma vez junto a sua janela de água-furtada, espiando para baixo, como um prisio­neiro, o pedaço de terreno, coberto de areia, de Mrs. Pope Graham, onde uma camioneta parara pouco antes. O teto da camioneta estava cheio de frases: "Sidney noventa dias. Atenas, viagem direta. Mary Lou, nós estamos aqui". Uma luz brilhava no interior da camioneta e Smiley presu­miu que algumas crianças estavam nela dormindo aben­çoadamente, filhos de pais que não eram casados. Deve­riam ser chamados de "bichinhos". As janelas da camio­neta tinham cortinas.

"O que Bill me fez", pensou ele, ainda olhando para as cortinas cerradas da camioneta e sua resplendente proclamação de globe-trotter. "O que Bill me fez, e nossa cordial conversa na Bywater Street, nós dois a sós, velhos amigos, antigos camaradas de armas, 'que partilha­vam tudo um com o outro', conforme Martindale dissera com tanta elegância." Mas Ann havia saído naquela noite, para que os dois pudessem ficar a sós. "O que Bill me fez", repetiu Smiley em pensamento, sentindo o sangue subir-lhe ao rosto e acentuarem-se as cores de sua visão, ao passo que seu senso de moderação começava a descair perigosamente.

Quem era ele? Smiley já não conseguia vê-lo com nitidez. Cada vez que pensava nele, figurava-o grande de­mais, diferente. Até o caso de Ann com ele. Smiley pen­sava conhecer Bill bastante bem: seu brilho e suas limita­ções. Ele pertencia àquele grupo de antes da guerra, que parecia ter se extinguido para sempre, e conseguia ser ignominioso e magnânimo ao mesmo tempo. O pai dele era juiz de um tribunal superior; duas de suas lindas irmãs eram casadas com aristocratas. Em Oxford, ele era parti­dário da direita, que estava fora da moda, e não da es­querda, então em voga, mas jamais a ponto de exceder-se. Desde os dezessete ou dezoito anos havia sido explorador entusiasta e pintor amador, de atitudes corajosas, embora superambicioso. Várias de suas telas encontravam-se agora nas pretensiosas paredes do palácio de Miles Sercombe, em Carlton Garden. Tinha relações em todas as Embaixa­das e Consulados do Oriente Médio, e delas se valia im­placavelmente. Aprendia línguas estrangeiras com facili­dade e, quando chegou o ano de 1939, o Circus o apanhou, pois já estivera pensando nele há muitos anos. A guerra foi para Bill algo de deslumbrante. Tinha o dom da ubi­qüidade e o mérito de encantar as pessoas. Não era nada ortodoxo e, por vezes, mostrava-se imoderado. Seria pro­vavelmente heróico. Era inevitável a comparação com Lawrence da Arábia.

Era verdade, admitiu Smiley, que Bill, em seu tempo, havia lidado com substanciais parcelas da história. Pro­pusera toda espécie de grandes projetos, capazes de res­taurar a influência e a grandeza da Inglaterra e, como Rupert Brooke, raramente empregava a palavra "Breta­nha". Mas Smiley, em seus raros momentos de objetividade, só conseguia lembrar-se de poucos desses projetos que ti­vessem ido além de sua etapa inicial.

Fora, por contraste, o outro lado da natureza de Haydon que ele, como colega, achara mais fácil respeitar: a capacidade, que ardia em fogo brando, de ser um admi­nistrador natural de agentes; seu raro senso de equilíbrio; a habilidade para lidar com agentes duplos; a montagem de operações fraudulentas; a arte de estimular afeições e até mesmo amor, embora isso contrariasse um grande nú­mero de outras lealdades suas.

"Como testemunha disso, minha mulher", pensou Smiley.

"Talvez Bill seja realmente fora de série", refletiu Smiley desanimadoramente, ainda se esforçando por chegar a um senso de proporções. Pensando nele agora, ao lado de Bland, Esterhase e até mesmo de Alleline, não parecia sinceramente a Smiley que todos estes fossem, em maior ou menor grau, imitações imperfeitas do original que era Haydon. E os pendores dele eram como etapas visando ao mesmo ideal inatingível do homem completo, ainda que essa noção fosse mal concebida ou mal colocada e que Bill fosse inteiramente indigno dela. Bland, com sua rude impertinência, Esterhase, com seu altivo e artificial ingle­sismo, Alleline, com sua débil capacidade de liderança. Sem Bill eles eram uma massa confusa. Smiley igualmente sabia, ou julgava saber a idéia lhe ocorreu agora como um ligeiro vislumbre de iluminação interior —, que Bill, por sua vez, valia muito pouco por si mesmo. Embora seus admiradores, Bland, Prideaux, Alleline, Esterhase e todo o resto do seu clube de fãs, pudessem ver nele o homem completo, a verdadeira habilidade de Bill consistia em usá-los, viver através deles para se completar: um pedaço aqui, outro ali, de suas identidades passivas, assim dissimulando o fato de que ele era menos, muito menos do que a soma de suas qualidades aparentes... e, final­mente, ocultar essa dependência sob a arrogância de um artista, chamando-os de criaturas de sua mente.

"Chega", disse Smiley em voz alta.

Afastando-se abruptamente de sua iluminação inte­rior, pondo-a de parte, cheio de irritação, considerando-a apenas mais uma teoria acerca de Bill, Smiley refrescou a mente superaquecida com as recordações de seu último encontro com Bill.

Eu suponho que você quer me atormentar sobre o maldito Merlin começou Bill. Parecia cansado e ner­voso. Era hora de seguir para Washington. Nos velhos tempos, teria trazido consigo uma garota qualquer e man­dado que ela fosse ficar sentada ao lado de Ann, no andar de cima, enquanto eles tratariam de negócios, esperando que Ann louvasse seus talentos junto à garota, pensou Smiley cruelmente. Todas eram a mesma coisa: tinham a metade da idade dele, enlameadas pela escola de artes, viscosas, grosseiras. Ann costumava dizer que ele possuía um estoque daquelas meninas. Certa vez, para chocar, trouxera uma horrorosa jovem chamada Steggie, auxiliar de barman de um dos botequins de Chelsea, que vestia uma camisa aberta e tinha uma corrente de ouro em torno dos rins.

Bem, eles de fato afirmam que você é quem es­creve os relatórios explicou Smiley.

Eu pensei que isso fosse a tarefa de Bland declarou Bill com seu riso de raposa.

Roy faz as traduções declarou Smiley. Você reduz os relatórios a um código. São datilografados em sua máquina de escrever. O material nunca é entregue às datilógrafas.

Bill ficou ouvindo tudo aquilo atentamente, de cenho franzido, como se pudesse, a qualquer momento, interrom­per Smiley com alguma objeção ou um tópico mais ade­quado. Em seguida, ergueu-se de uma funda poltrona e caminhou até uma estante de livros onde ficou de pé, uma prateleira mais alta do que Smiley. Retirou um volume, que puxou com seus dedos afuselados, examinou-o e fez um esgar de riso.

Percy Alleline não faria os relatórios anunciou, virando uma página. É essa a premissa?

É mais ou menos isso.

O que significa que Merlin também não os faria. Merlin seria capaz de redigir os relatórios se tivesse minhas fontes, não é isso mesmo? O que aconteceria se o desgraça­do Bill procurasse Control e lhe dissesse que havia fisgado um grande peixe, e queria cuidar dele sozinho? "Isso é muito elegante de sua parte, Bill, meu garotão", diria Control. "Faça exatamente como você quiser, Bill. De­certo você agirá assim. E tome um pouco desse horrível chá." Ele me daria uma medalha, agora, em vez de mandar você espionar pelos corredores. Nós éramos gente de classe. Por que hoje somos tão vulgares?

Ele pensa que Percy está interessado em tirar pro­veito disso declarou Smiley.

— E está. Eu também. Quero ser o chefe dos meni­nos. Você sabia disso? O tempo fez de mim alguma coisa, George. Meio pintor, meio espião. Houve uma época em que eu era de tudo um pouco. Desde quando a ambição é pecado em nosso imundo conjunto de predicados?

— Quem o manobra, Bill?

Percy? É Karla. Quem haveria de ser? Um indi­víduo de classe inferior, dotado de fontes das mais altas classes, há de ser um tipo vulgar e pretensioso. Percy está vendido a Karla, esta é a única explicação. — Bill vinha cultivando há muito tempo a arte de não entender deliberadamente as coisas. E acrescentou: — Percy é a toupeira da nossa casa.

— Eu quis dizer: quem manobra Merlin? Quem é Merlin? O que se está passando?

Afastando-se da estante, Haydon começou a caminhar pela sala, examinando os desenhos de Smiley, e indagou:

— Este é um Callot, não é? — retirando da parede um pequeno desenho emoldurado em ouro, e erguendo-o contra a luz. — É bonito. — Ajustou os óculos, inclinando-os para que servissem de lentes de aumento. Smiley tinha certeza de que Bill já havia olhado aquele desenho dezenas de vezes antes.

— É muito bonito. Será que alguém pensa que eu não sei onde tenho o nariz? Eu deveria ser o encarregado do alvo russo, você sabe. Dei-lhe os melhores anos de minha vida, organizei as redes, os descobridores de talentos. Vo­cês, rapazes do quinto andar, se esqueceram de como se di­rige uma operação que exige três dias de uma pessoa para pôr uma carta no correio, e nem mesmo recebe uma res­posta pelo trabalho que teve.

Smiley declarou lealmente:

— Sim, eu me esqueci. Sim, eu compreendo. Não, Ann não está em parte alguma de meus pensamentos. Nós somos colegas, afinal de contas, e homens civilizados. E estamos aqui para conversar sobre Merlin e Control.

— E vem esse carreirista chamado Percy, um des­graçado mascate caledoniano, sem sombra de classe, em­purrando um vagão carregado de mercadorias russas. É de amargar, você não acha?

— Acho, sim. Muito.

— O problema é que minha rede não é muito boa. É muito mais fácil espionar Percy do que...

Ele parou, cansado da própria tese. Sua atenção se concentrara num minúsculo Van Mieris a giz, uma cabeça. E declarou:

— Gosto muito disto.

— Foi Ann quem me deu.

— Alguma reparação?

— Provavelmente.

— Deve ter sido um pecado bem grande. Há quanto tempo você tem este quadro?

Mesmo então Smiley se lembrava de ter observado como a rua estava quieta. Terça-feira? Quarta-feira? E ele se recordava de haver pensado: "Não, Bill. Por sua causa eu ainda não ganhei um prêmio de consolação. Até esta noite você não vale nem mesmo um par de chinelos." Pensou, mas não disse.

— Control já morreu? — indagou Haydon.

— Está apenas ocupado.

— E o que faz ele o dia inteiro? Parece um eremita com aquela língua dele, esgaravatando em volta de si mesmo, naquela caverna lá em cima. Todos esses maldi­tos arquivos que ele lê. Para que isso, pelo amor de Deus? Uma viagem sentimental a um passado pouco atraente, aposto que é isso. Tem cara de gato doente. Suponho que isso também é culpa de Merlin. Será mesmo?

Novamente Smiley nada disse.

— Por que ele não come com a gente na cozinha? Por que não procura a companhia das pessoas, em vez de ficar desencavando coisas, em busca de raízes, lá em cima? Ele anda atrás de quê?

— Não sei se ele anda atrás de alguma coisa — disse Smiley.

— Ah, deixe de fitas. Com certeza ele anda atrás de alguma coisa. Eu tenho uma fonte, lá em cima, uma das matronas, você não sabia disso? Ela dá com a língua nos dentes, em troca de chocolate. Control tem estado trabalhando com afinco nos dossiês pessoais dos velhos heróis folclóricos do Circus, chafurdando na sujeira, ven­do quem era simpatizante do comunismo, quem era astro. A metade deles já está debaixo da terra. Fazendo um estudo de todos os nossos fracassos. Você consegue ima­ginar isso? E por quê? Porque nós tivemos o êxito em nossas mãos. Ele está louco, George. Apanhou aquela doença que se chama paranóia senil. Acredite em minha palavra. Acredite no que eu lhe estou dizendo. Ann algum dia falou com você a respeito do perverso Tib Fry? Ele pensava que os criados estavam cavoucando o jardim para descobrir onde ele tinha escondido o dinheiro. Afaste-se dele, George. A morte é uma coisa chata. Corte as amarras. Desça alguns andares. Junte-se à plebe.

Ann ainda não tinha voltado e por isso eles foram andando, um ao lado do outro, descendo a King's Road, à procura de um táxi. Bill explicou sua última visão acerca da política, ao passo que Smiley se limitava a dizer: "Sim, Bill", "Não, Bill", pensando em como haveria de comunicar os fatos a Control. Smiley se esquecera de qual era a visão particular de Bill, em assuntos de política. No ano anterior, Bill havia sido um grande falcão. Tinha querido destruir as forças defensivas da Europa e substituí-las inteiramente por armas nucleares. Era a única pessoa de Whitehall que ainda acreditava numa força dissuasora independente da Grã-Bretanha. Nesse ano, se as recordações de Smiley eram válidas, Bill era um enérgico pacifista inglês, e desejava a solução da Suécia sem os suecos.

Não apareceu nenhum táxi. A noite estava linda, e eles, como dois velhos amigos, continuaram a caminhar lado a lado.

— A propósito, se quiser se desfazer daquele Mieris, fale comigo, está bem? Eu pagarei por ele um preço de­cente.

Pensando que Bill estivesse com mais uma piada de mau gosto, Smiley voltou-se para ele, pelo menos disposto a mostrar-se irritado. Bill estava olhando para a rua, com o comprido braço erguido, fazendo sinal para um táxi que se aproximava.

— Meu Deus! Olhe para eles — bradou irritado. — O táxi está cheio de uns malditos judeus que vão para o charco.

— O traseiro de Bill deve estar parecendo uma gre­lha — resmungou Control no dia seguinte. — Passou dez dias sentado na cerca.

E ficou encarando Smiley durante alguns momentos, com um olhar perdido, como se estivesse querendo ver, através dele, alguma coisa diferente, menos carnal. Em seguida, baixou rapidamente os olhos e pareceu estar pros­seguindo sua leitura.

— Fico satisfeito porque ele não é meu primo — disse Control.

Na segunda-feira seguinte as matronas tinham sur­preendentes novidades para Smiley. Control seguira de avião para Belfast a fim de participar de uns debates com o Exército. Mais tarde, verificando as verbas para viagens, Smiley certificou-se de que aquilo era mentira. Ninguém do Circus tinha ido de avião para Belfast naquele mês, mas havia o registro de uma despesa referente a uma viagem de ida e volta a Viena, de primeira classe. E a pessoa que a autorizara era indicada como tendo sido G. Smiley.

Haydon, que também procurara Control, ficara abor­recido, dizendo: "Então, agora qual é o jogo? Arrastar a Irlanda para dentro da rede, criando uma diversificação ou um órgão qualquer, eu suponho. Meu Deus, nosso homem é um chato!"

 

A luz da camioneta se tinha apagado, mas Smiley continuou a olhar para sua capota espalhafatosa. "De que maneira eles vivem?", pensou. "O que fazem para obter água, arranjar dinheiro?" Tentou entender a logística da existência de um troglodita nos jardins de Sussex: água, esgotos, luz. "Ann resolveria isso muito bem, assim como Bill."

Os fatos. Quais seriam os fatos?

Os fatos eram os seguintes: num suave verão, ante­rior à Operação Bruxaria, ele voltou inesperadamente de Berlim, à noite, e encontrou Bill Haydon estirado no chão da sala de visitas de uma certa casa da Bywater Street, ao passo que Ann ouvia Liszt, na vitrola. Estava sentada do outro lado da sala, de roupão e sem pintura. Não houve cenas, e os dois portaram-se com a maior natu­ralidade. Bill explicou que tinha dado uma chegada ali, vindo do aeroporto, pois acabava de voltar de Wa­shington. Ann estava recolhida, mas insistira em levan­tar-se e recebê-lo. Admitiram que fora uma pena não terem vindo juntos de Heathrow, de carro. Bill se retirou e Smiley perguntou a Ann:

O que ele queria?

Deitar a cabeça no meu ombro e chorar.

Bill estava com um problema. Uma garota, e precisava abrir o coração, dissera Ann. Ele tem a Felicity, em Washington, que quer ter um filho, e a Jan, em Londres, que está esperando um bebê.

De Bill? indagou Smiley.

Deus é quem sabe. Tenho certeza de que Bill não sabe de quem é o filho.

Na manhã seguinte, Smiley verificou, involuntaria­mente, que Bill havia regressado a Londres dois dias antes, e não apenas um. Após aquele episódio, Bill mostrou uma deferência característica para com Smiley, e este a retri­buiu com gestos de cortesia que normalmente se associam a uma amizade mais recente. Smiley observou, no momento oportuno, que o segredo se tornara evidente, e ainda estava perplexo diante da rapidez com que tudo havia aconte­cido. Supunha que Bill se teria vangloriado daquilo com alguém, talvez Bland. Se isso fosse verdade, Ann trans­gredira três de suas próprias normas: Bill era do Circus e pertencia ao seu grupo, palavra que ela empregava quan­do se referia à família e a suas ramificações. De qualquer maneira, ela o recebera na Bywater Street, o que significava uma transgressão declarada do decoro territorial.

Recolhendo-se mais uma vez à sua vida solitária, Smiley ficou à espera de que Ann dissesse alguma coisa. Passou a dormir no quarto de hóspedes e arranjou uma série de compromissos noturnos para não ficar por demais informado das andanças de sua mulher. Pouco a pouco percebeu que ela se sentia profundamente infeliz: emagre­ceu, perdeu o senso de humor, e, se ele não a conhecesse tão bem, teria jurado que Ann estava atravessando uma forte crise de sentimento de culpa, até mesmo de auto-desprezo. Quando Smiley era atencioso com ela, Ann o repelia. Não demonstrou o menor interesse pelas compras de Natal e começou a ter uma tosse que a consumia. Smiley sabia que isso, no caso de sua mulher, era um sinal de ansiedade. Se não fosse a Operação Testemunho, eles teriam ido mais cedo para Cornwall. Em face da situação, tiveram de adiar a viagem até janeiro e, a essa altura, Control já tinha morrido, Smiley estava sem em­prego e a balança se desequilibrara. Ann, para sua própria mortificação, estava escamoteando a carta de Haydon que, a exemplo de muitas outras, poderia ter tirado do baralho.

Então o que teria acontecido? Teria ela acabado com o caso? Haydon o fizera? Por que ela nunca falara a res­peito do assunto? E isso seria importante, um caso entre tantos outros? Smiley desistiu. Como o gato de Cheshire, o rosto de Bill Haydon parecia recuar logo que Smiley avançava em sua direção, deixando ficar apenas aquele sorriso. Mas Smiley sabia que Bill tinha de certa forma magoado profundamente Ann, o que era o maior dos pecados.

 

Voltando com um suspiro à pouco atraente mesa de jogo, Smiley recomeçou a leitura dos progressos de Merlin desde seu afastamento compulsório do Circus. Reparou imediatamente que o novo regime de Percy Alleline acar­retara prontas e várias modificações favoráveis no estilo de vida de Merlin. Uma espécie de maturação, de fixação. As escapadas noturnas às capitais européias haviam ces­sado, o fluxo de informações se tornara mais regular e menos afoito. Havia ainda dores de cabeça, sem dúvida. Os pedidos de dinheiro, feitos por Merlin, as solicitações, nunca em tom ameaçador, prosseguiam. E diante do firme declínio do valor da libra, esses substanciais pagamentos em moeda estrangeira causaram grandes aflições ao Te­souro. A certa altura, houve até mesmo a sugestão, que nunca foi posta em prática, de que, tendo o país sido esco­lhido por Merlin, ele deveria estar disposto a arcar com uma parcela das suas vicissitudes financeiras. Haydon e Bland aparentemente explodiram diante desse argumento. "Eu não tenho ânimo", escreveu Alleline ao ministro, com rara franqueza, "para falar novamente sobre esse assunto com meu pessoal."

Houve também uma pendência a propósito de uma nova máquina fotográfica que havia sido desmontada, com grandes despesas, em vários componentes tubulares, tra­balho executado pela seção de engenharia, e adaptada a uma lâmpada comum, de fabricação soviética. A lâmpada, depois de gritos de dor, dessa vez provindos do Ministério do Exterior, foi despachada para Moscou pela mala diplo­mática. Depois, foi o problema da entrega. A casa não podia ser informada a respeito da identidade de Merlin, e não sabia qual o conteúdo da lâmpada. A lâmpada era pesada e não coube na mala do carro da casa. Após várias tentativas, conseguiu-se efetuar a entrega, mas a máquina fotográfica nunca funcionou, havendo um corre-corre entre o Circus e a casa de Moscou, por causa disso. Um modelo menos ambicioso foi levado até Helsin­que por Esterhase e entregue assim dizia o memorando de Alleline ao ministro a um "intermediário de con­fiança, que atravessará a fronteira sem ser molestado".

De repente, Smiley sentou-se, num sobressalto.

"Nós falamos no assunto", escreveu Alleline ao mi­nistro, num memorando datado de 27 de fevereiro do ano em curso. "E o senhor concordou em submeter ao Tesouro uma estimativa provisória, referente à instalação de uma casa em Londres, para ser levada à conta do orçamento da Operação Testemunho."

Smiley tornou a ler o memorando e o releu mais uma vez, lentamente. O Tesouro aprovara a despesa de sessenta mil libras para a compra da propriedade, e mais dez mil que se destinariam a móveis e instalações. No propósito de reduzir os custos, desejava o Tesouro que seus advo­gados cuidassem da escritura de transmissão do imóvel. Alleline recusou-se a revelar o endereço do prédio. E pelo mesmo motivo houve uma discussão a respeito de quem deveria guardar a escritura. Dessa vez o Tesouro fez pé firme, e seus advogados redigiram os documentos para que a casa fosse reivindicada caso Alleline morresse ou se tor­nasse insolente. Mas este guardou segredo acerca do en­dereço do prédio, além de se abster de justificar esse excepcional e dispendioso acréscimo a uma operação que estava, aparentemente, sendo realizada num país estran­geiro.

Smiley tentou ansiosamente encontrar uma explica­ção para tudo aquilo. Os arquivos financeiros, confirmou ele rapidamente, tiveram o escrúpulo de não fornecer qual­quer explanação. Continham apenas veladas referências à casa de Londres, e isso aconteceu quando as despesas foram duplicadas. Memorando do ministro a Alleline: "Presumo que o terminal de Londres ainda seja necessá­rio". E de Alleline ao ministro: "Indubitavelmente. Mais do que nunca, eu diria. Acrescentaria que os conheci­mentos do Circus ainda não aumentaram desde nossa con­versa". Que conhecimentos?

Somente quando voltou aos arquivos que avaliavam o produto da Operação Bruxaria é que Smiley encontrou a solução. O prédio fora pago em fins de março e ocupado sem demora. Exatamente na mesma data, Merlin começou a adquirir personalidade, o que se verificou através dos comentários dos clientes. Até então, aos olhos suspicazes de Smiley, Merlin havia sido uma máquina: impecável quanto à técnica de espionagem, estranha em matéria de acesso, livre das tensões que tornam tão difícil lidar com a maioria dos agentes. Agora, e de súbito, estava tendo um assomo de mau humor.

"Nós transmitimos a Merlin sua pergunta a respeito do ponto de vista predominante em Moscou sobre a venda dos excedentes de petróleo russo aos Estados Unidos. Su­gerimos a ele, a pedido seu, que isso estava em contradição com o relatório do mês passado, segundo o qual o Kremlin estava de namoro com o governo de Tanaka acerca de um contrato de venda de petróleo da Sibéria no mercado japonês. Merlin não viu qualquer contradição entre os dois relatórios e deixou de prever que mercado poderia ser favorecido em última instância."

Whitehall lamentou essa temeridade.

"Merlin não repetirá seu relatório, nem lhe acrescen­tará coisa alguma a respeito da repressão ao nacionalismo da Geórgia, e da rebelião em Tbilisi. Não sendo georgiano, aceita o ponto de vista russo de que todos os georgianos são ladrões e vagabundos, sendo melhor que fiquem atrás das grades..."

Whitehall concordou em não exercer qualquer pressão.

Merlin subitamente chegara mais perto. Seria apenas a aquisição de uma casa em Londres que dava a Smiley esse novo sentimento da proximidade física de Merlin? Do remoto silêncio de um inverno em Moscou, Merlin parecia estar, de repente, ali, sentado diante dele, naquele quarto em petição de miséria. Ou estaria na rua, além de sua janela, onde ele sabia que Mendel ficaria postado, de vez em quando, em sua vigilância solitária. Aqui, inesperada­mente, estava um Merlin que falava e respondia, dando suas opiniões gratuitamente. Um Merlin que tinha tempo para ser visto. Visto aqui, em Londres? Alimentado, obse­quiado, dando informações, numa casa de mil libras, en­quanto se tornava descomedido e fazia piadas sobre os georgianos? Qual o círculo de pessoas informadas que se formara até mesmo do círculo maior dos iniciados nos segredos da Operação Bruxaria?

A essa altura, uma figura improvável entrou em cena: J. P. R., um novo membro para o crescente número de avaliadores da Operação Bruxaria do Whitehall. Consul­tando a lista de instrução, Smiley verificou que seu nome era Ribble, e que ele era membro do Departamento de Pesquisas de Relações Exteriores. J. P. Ribble estava no jogo.

 

De J.P.R. ao Partido Trabalhista do Adriático (PTA):

Permitam-me chamar respeitosamente vossa atenção sobre datas. Operação Bruxaria, n.° 104 (discussões franco-soviéticas sobre a produção conjunta de aeronaves), datada de 21 de abril. Conforme a minuta que a acom­panha, Merlin obteve essa informação diretamente do General Markov, no dia seguinte àquele em que as partes contratantes chegaram a um acordo sobre a troca secreta de notas. Mas naquele dia, 21 de abril, segundo nossa Embaixada em Paris, Markov ainda se encontrava nessa cidade, e Merlin, conforme tes­temunha seu relatório de n.° 109, estava visitando um centro de pesquisas sobre mísseis, fora de Leningrado...

 

O memorando citava nada menos de quatro discre­pâncias "similares", as quais, em seu conjunto, sugeriam um grau de mobilidade, da parte de Merlin, que teria dado crédito ao seu milagroso homônimo.

  1. P. Ribble recebeu uma ordem, redigida com o mes­mo número de palavras, para cuidar de sua vida. Todavia, num memorando à parte, dirigido ao ministro, Alleline admitiu, de maneira fora do comum, algo que lançou uma luz inteiramente nova quanto à natureza da Operação Bruxaria.

 

Rigorosamente sigiloso e pessoal. Nós nos referimos a Merlin, como o senhor já está há algum tempo informado, não como uma única fonte, mas como informado, não como uma única fonte, mas como diversas fontes. Embora tenhamos envidado o máximo de esforços, por motivos de segurança, para dissimular esse fato junto aos nossos leitores, o simples volume do material torna extremamente difícil manter tal fic­ção. Não seria chegado o momento de esclarecer as coisas, pelo menos em fases limitadas? Pela mesma razão, não causaria nenhum mal ao Tesouro ficar sabendo que os dez mil francos suíços do salário mensal de Merlin, e igual quantia destinada a cobrir suas despesas correntes, mal poderiam ser conside­rados excessivos quando o pano tem de ser cortado de tantas diferentes maneiras.

 

O memorando terminava, porém, num tom incisivo:

 

Não obstante, ainda que concordemos em abrir as portas parcialmente, considero de importância funda­mental que o conhecimento da existência da casa de Londres, bem como a finalidade com que é utilizada, seja mantido, de modo absoluto, em grau mínimo. Na verdade, se a pluralidade de Merlin fosse conhe­cida pelos nossos leitores, isso agravaria a delicadeza da operação em Londres.

 

Inteiramente perplexo, Smiley leu essa correspondên­cia diversas vezes. Em seguida, como se lhe acudisse uma idéia súbita, levantou os olhos da leitura, com a fisionomia expressando a mais completa confusão. Na realidade, seus pensamentos eram tão intensos e complexos que o tele­fone tocou diversas vezes em seu quarto até que ele o atendesse, tirando o fone do gancho. Olhou para o relógio: eram seis horas da tarde, e estivera lendo há meia hora, pelo menos.

É Mr. Barraclough? Aqui é Lofthouse, da conta­bilidade.

Peter Guillam, usando a técnica de emergência, estava solicitando, por meio de expressões previamente combi­nadas, um encontro de emergência, e parecia estar abalado.

 

A entrada principal do Circus não dava acesso aos arquivos. Os dois homens caminharam dando voltas através de uma série de salas sujas, cheias de pessoas, e prosse­guiram através de pequenos lances de escada, na parte posterior do prédio, que mais se assemelhava a um sebo, igual àqueles que proliferavam em derredor, do que ao que se pode chamar de um grande departamento. Chegaram a um triste vão de porta, em Charing Cross Road, apertado entre uma casa de molduras e um café que ficava aberto o dia inteiro e que o pessoal estava proibido de fre­qüentar. Uma placa, encimando a porta, dizia: "Escola de línguas da cidade e do campo. Privativa do pessoal". Havia outra placa onde se lia "Q. e L. Distribuidora Ltda". Para ter acesso aos arquivos apertava-se uma ou outra campainha e ficava-se à espera de Alwyn, um fuzileiro naval efeminado que só falava de seus fins de semana. Até quarta-feira, mais ou menos, falava no último fim de semana e, depois disso, no próximo fim de semana. Na­quela manhã, terça-feira, estava num estado de espírito de indignado desassossego.

Mas que tempestade é essa? indagou ao em­purrar o livro sobre o balcão para que Guillam o assinasse. Desse jeito nós poderíamos viver num farol. Durante todo o sábado e o domingo inteiro eu fiquei só dizendo ao meu amigo: "Estamos no centro de Londres e escute só". O senhor quer que eu cuide disso?

Você deveria ter estado onde eu andei disse Guillam, passando a maleta de lona parda às mãos de Alwyn, que o esperava. Você fala em escutar. Mal con­segue ficar em pé!

"Não seja cordial em excesso", disse ele, de si para si.

Mesmo assim, é do campo que eu gosto confidenciou Alwyn, guardando a maleta num dos armários abertos que ficavam por detrás do balcão. — O senhor quer um número? Eu tenho que lhe dar um número. A Dolphin me mataria se soubesse que eu me esqueci de lhe dar um número.

— Eu confio em você — disse Guillam.

Subindo os quatro degraus, abriu a porta de vaivém que dava para a sala de leitura. Parecia um salão de conferências impro­visado: uma dúzia de mesas, todas voltadas na mesma direção, e uma parte mais alta onde ficava a cadeira da arquivista. Guillam ocupou uma mesa perto da parede dos fundos da sala. Ainda era cedo, dez e dez pelo seu relógio, e o único outro leitor era Ben Thurston, do Departamento de Pesquisas, que ali passava a maior parte de seu tempo. Muitos anos antes, fingindo ser um dissidente lituano, Ben havia participado de umas correrias pelas ruas de Moscou, com outros revolucionários, bradando "Morte aos opres­sores!" Agora ele se debruçava sobre seus papéis como um velho padre, com seus cabelos brancos, absolutamente imóvel.

Vendo Guillam de pé ao lado de sua mesa, a arqui­vista sorriu. Muitas vezes, quando Brixton ficava em ponto morto, Guillam passava um dia inteiro ali, pesquisando casos antigos, em busca de algum que pudesse ser reativa­do. Ela se chamava Sal: uma jovem gorducha e esportiva, que dirigia um clube para moças em Chiswick. Era faixa-preta de judô.

— Você quebrou alguns pescoços neste fim de se­mana? — indagou ele, apanhando um maço de papeletas de requisição.

Sal passou-lhe às mãos as notas que guardara para ele em seu armário de aço.

— Uns dois ou três. E você? O que fez de bom?

— Andei visitando umas tias em Shropshire.

— Umas tias... — repetiu Sal.

Ainda em sua mesa, ela preencheu as papeletas das duas referências que vinham a seguir na lista de Guillam. Ele a ficou observando, enquanto Sal as carimbava, desta­cava as cópias e as enfiava por uma fenda, em sua mesa.

— Corredor D — murmurou Sal, devolvendo as pri­meiras vias. — As 2-8 ficam a meia distância à sua direita, e as 3-1 ficam na seção logo abaixo.

Abrindo uma porta no extremo da sala, Guillam entrou no salão principal. Ao centro do mesmo, um ele­vador, que mais parecia uma gaiola de mineiros, transpor­tava os arquivos para o corpo principal do Circus.

Dois insignificantes empregados subalternos o estavam enchendo, ao passo que um terceiro permanecia de pé para fazer funcionar o elevador. Guillam adiantou-se len­tamente por entre as estantes, lendo as fichas fluorescentes dos seus números.

— Lacon jura que não tem papéis arquivados sobre a Operação Testemunho — Smiley lhe explicara com seu jeito habitual de quem estava preocupado. — Ele tem alguns papéis de reajustamento, relativos a Prideux, e nada mais. — E acrescentou, no mesmo tom lúgubre: — Receio que nós tenhamos de encontrar um meio de deitar a mão no que possa haver no registro do Circus.

No que se referia a "deitar a mão" deveria entender-se "furtar", no dicionário de Smiley.

Havia uma jovem de pé, numa escada. Oscar Allitson, o conferente dos manuscritos que eram manuseados, estava enchendo uma cesta de roupas com pastas de espiões de primeiro time, e Astrid, o encarregado da manutenção, consertava um radiador. As prateleiras eram de madeira, fundas como beliches, divididas em escaninhos por folhas de compensado. Guillam já sabia que a referência Testemu­nho era 4-4 8-2 E, o que significava seção 44, onde então se encontrava. "E" significava "extinto", sendo usado apenas no caso de operações concluídas. Guillam contou até o oitavo escaninho, a partir da esquerda. Testemunho deveria ser o segundo a partir da esquerda, mas não havia jeito de certificar-se disso porque as lombadas dos volumes não estavam marcadas. Completada sua operação de reconhe­cimento, retirou os dois arquivos que tinha solicitado, dei­xando as papeletas verdes nos ganchos de aço que havia para esse fim.

"Não será muita coisa, tenho certeza disso", Smiley lhe dissera, como se os arquivos finos fossem os mais fáceis. "Mas deve haver alguma coisa, a julgar pelas apa­rências", acrescentara. Isso era outro aspecto da personalidade de Smiley que Guillam não apreciou naquele mo­mento: Smiley falava como se as pessoas acompanhassem seu raciocínio, como se elas estivessem dentro de sua mente.

Guillam sentou-se e fingiu que estava lendo, mas passou o tempo todo pensando em Camila. Que deveria fazer? Bem cedo, naquela manhã, quando estava em seus braços, Camila lhe dissera que tinha sido casada. Às vezes falava daquele jeito, como se tivesse vivido vinte vidas. Tinha sido um erro, por isso ela e o marido se separaram.

— O que foi que deu errado?

— Nada. Nós não servíamos um para o outro.

Guillam não acreditou nela.

— Você obteve o divórcio? — indagou.

— Espero que sim.

— Não seja tola. Você deve saber se está divorciada ou não.

— Os pais dele trataram de tudo. Ele era estran­geiro.

— Ele manda dinheiro para você?

— Por que haveria de mandar? Não me deve nada.

Depois, ela tocou flauta novamente, no quarto de hóspedes, umas notas longas e intermináveis, à meia-luz, enquanto Guillam fazia café. "Ela será uma impostora ou um anjo?" E passou pela lembrança de Guillam, num ímpeto, escrever o nome dela nos registros. Camila iria ter uma lição com Sand dentro de uma hora.

Armado com uma ficha verde e uma referência 4-3 Guillam voltou a recolocar os dois arquivos em seus lu­gares e postou-se na seção vizinha à da Operação Teste­munho.

"Percurso sem unidades", pensou ele.

A jovem ainda estava em sua escada. Allitson desa­parecera, mas a cesta de roupa ainda se encontrava no mesmo lugar. O radiador já havia deixado Astrid exausto, e ele estava sentado ao lado do mesmo, lendo o Sun. A papeleta verde dizia 4-3 4-3, e Guillam encontrou a pasta imediatamente porque já a havia assinalado. Tinha uma sobrecapa cor-de-rosa, como a da Operação Teste­munho. E, tal como esta, possuía um razoável índice no corte das páginas. Guillam prendeu no gancho a papeleta verde. Voltou a atravessar o corredor que ficava entre as estantes, observou novamente Allitson e as moças e foi, em seguida, buscar a pasta da Operação Testemunho, recolocando-a em seu lugar, em substituição à que tinha nas mãos.

"Eu acho que o essencial, Peter", dissera Smiley, "é não deixar nenhum espaço vazio. Por isso eu lhe sugiro requisitar uma pasta parecida, fisicamente comparável, quero dizer, colocar essa pasta no espaço vazio deixado por..." "Estou entendendo", replicara Guillam.

Sobraçando naturalmente a pasta da Operação Tes­temunho em sua mão direita, com o título de encontro ao corpo, Guillam retornou à sala de leitura e sentou-se outra vez a sua mesa. Sal ergueu as sobrancelhas e disse alguma coisa. Guillam fez um sinal de cabeça para signi­ficar que tudo ia bem, pensando que isso era o que ela estava perguntando. Mas a moça fez-lhe um aceno para que se aproximasse. Pânico momentâneo. Levar a pasta ou deixá-la na mesa? "O que eu faria habitualmente?", perguntou-se ele. E deixou a pasta sobre a mesa.

— Juliet vai buscar café — sussurrou Sal. — Você quer um pouco?

Guillam pôs um xelim em cima do balcão.

Olhou para o relógio da sala e, em seguida, para seu próprio relógio. "Meu Deus! Pare de olhar para seu mal­dito relógio! Pense em Camila, pense nela que está come­çando a lição, pense naquelas tias com quem você não passou o fim de semana, pense em Alwyn, que não vai examinar sua pasta. Pense em qualquer coisa, menos nas horas. Você tem dezoito minutos de espera." "Peter, se você tiver a menor reserva, realmente não deverá pros­seguir. Coisa alguma será mais importante do que isso", dissera Smiley. Ótimo. Como uma pessoa há de identificar uma reserva quando sente engulhos e seu suor parece uma chuva secreta a escorrer por dentro da camisa? Nunca, ele jurou, nunca tinha passado tão mal assim.

Abrindo a pasta da Operação Testemunho, Guillam tentou ler alguma coisa.

Ela não era tão fina assim, mas também não era grossa. Mais parecia um "boneco", como Smiley havia dito: o primeiro conjunto de páginas continha uma des­crição do que não havia naquela pasta.

"Anexos 2 a 8 guardados na Estação de Londres, re­ferências cruzadas PFs ELLIS, Jim; PRIDEAUX, Jim; HAJEK, Vladimir; COLLINS, Sam; HABOLT, Max..." e Tio Tom Cobley e tudo o mais. "Para essas pastas, con­sulte H/Estação de Londres ou CC", o que significava Chefe do Circus, e as matronas por ele nomeadas. "Não olhe para seu relógio, olhe para o relógio da sala e trabalhe, seu idiota. Oito minutos. É estranho furtar pastas de ar­quivos sobre um antecessor da gente. É estranho ter Jim como antecessor, pense nisso, e uma secretária que tinha uma queda por ele, sem jamais mencionar seu nome." O único vestígio vivo que Guillam encontrou de Jim, além de seu nome de guerra nos arquivos, foi uma raqueta de squash, enfiada atrás do cofre, em sua sala, com as iniciais J. P. gravadas a mão, no cabo. Guillam mostrou-a a Eilen, uma rija e velha irlandesa, capaz de fazer Cy Vanhofer intimidar-se como um menino de escola. Ela de­satou a chorar copiosamente, embrulhando-a, e mandou-a às secretárias pela primeira mala, com uma nota pessoal dirigida a Dolphin, insistindo para que devolvesse a raqueta a ele, "se fosse humanamente possível". "Como vai seu jogo de squash atualmente, Jim, com um par de balas tchecas nas costas?"

Ainda oito minutos.

"Agora você poderá manobrar", dissera Smiley, "isto é, se não lhe for muito incômodo levar seu carro para ser lubrificado na garagem de seu bairro. Usando o tele­fone de casa para marcar o encontro, naturalmente, pois Toby poderá estar à escuta...", acrescentara ele.

"Vamos ter esperança. Meu Deus do céu. E todas as suas conversas íntimas com Camila? Ainda oito mi­nutos."

O resto do arquivo parecia consistir em telegramas do Ministério do Exterior, recortes de jornais tchecos, relatórios sobre o controle da imprensa de Praga, trechos de um arquivo de diretrizes sobre o reajustamento e a reabilitação de agentes que haviam sido descobertos, es­boços submetidos ao Tesouro, e uma autópsia feita por Alleline, censurando Control pelo fiasco. "Antes você do que eu, George."

Guillam começou mentalmente a medir a distância que separava sua mesa da porta dos fundos, onde Alwyn cochilava no balcão de recepção. Calculou que eram cinco passos, e decidiu fazer um ensaio tático. A dois passos da porta havia uma caixa de mapas que parecia um grande piano amarelo. Estava cheia de vários tipos de material de referência: mapas em grande escala, cópias atrasadas do Who's who, velhos Baedeckers. Metendo um lápis entre os dentes, Guillam apanhou a pasta da Operação Testemunho, encaminhou-se até a arca, escolheu um catá­logo de telefones de Varsóvia e começou a escrever uns nomes numa folha de papel. "Meu Deus", uma voz clamou em seu íntimo: "minha mão está fazendo tremer a pá­gina inteira. Veja só esses algarismos. Eu poderia estar bêbado. Como é que ninguém notou?" Juliet aproximou-se com uma bandeja e pôs uma xícara em sua mesa. Ele lhe jogou um beijo distraído. Escolheu outro catálogo, pensou que era de Poznan e o colocou ao lado do primeiro. Quando Alwyn cruzou a porta, Guillam nem levantou os olhos.

Telefone murmurou ele.

Que inferno! exclamou Guillam, mergulhado no catálogo. Quem será?

Linha externa. É algum grosso. É da garagem, creio eu, a propósito de seu carro. O homem está dizendo que tem más notícias para o senhor declarou Alwyn muito satisfeito.

Guillam estava segurando a pasta da Operação Testemunho com as duas mãos, aparentemente comparando-o com o catálogo. Mantinha-se de costas para Sal e sentia que seus joelhos estavam tremendo dentro das per­nas das calças. Ainda conservava o lápis enfiado na boca. Alwyn adiantou-se e segurou a porta vaivém para ele passar, o que fez, lendo a pasta. Parecia um menino do coro de uma igreja, pensou Guillam. Ficou esperando que um raio se abatesse sobre ele, que Sal gritasse "assas­sinato!", ou que o velho Ben, o superespião, saltasse su­bitamente em cima dele, mas nada disso aconteceu. Sen­tiu-se muito melhor: "Alwyn é meu aliado, eu confio nele. Estamos unidos contra Dolphin, posso ir em frente". A porta de vaivém fechou-se, Guillam desceu os quatro de­graus e lá estava novamente Alwyn, segurando a porta, aberta, da cabina do telefone. A parte interior dessa cabina era revestida de madeira, e a superior era de vidro. Tirando o receptor do gancho, Guillam colocou a pasta do arquivo a seus pés, e ouviu a voz de Mendel que lhe dizia que seu carro precisava de uma nova caixa de mudanças e que o trabalho custaria umas cem libras. Eles tinham combi­nado isso para obsequiar as matronas ou quem quer que ouvisse as fitas gravadas das conversações telefônicas. Guillam continuou aquele jogo até que Alwyn estivesse por detrás do balcão, tentando escutar suas palavras. "Está dando certo", pensou ele. "Já levantei vôo. Afinal, tudo está dando certo."

Bem, pelo menos obtenha dados sobre os prin­cipais agentes primeiro e descubra quanto tempo eles le­vam para fornecer a maldita coisa. Você obteve os números deles? E concluiu, irritadamente: Desligue.

Guillam entreabrira a porta e mantinha o bocal do telefone apertado contra as nádegas, porque estava muito empenhado em que essa parte da conversa não fosse gra­vada. Alwyn, pegue aquela mala para mim um mi­nuto, por favor.

Alwyn trouxe a pasta zelosamente, como um homem que presta socorros urgentes num jogo de futebol.

Perfeito, Mr. Guillam. Quer que eu abra a mala para o senhor?

Não. Atire-a aí. Obrigado.

A mala estava no chão, do lado de fora do cubículo. Guillam curvou-se, arrastou-a para dentro do cubículo e abriu o zíper. No meio da mala, junto com suas camisas e uma porção de jornais, havia três "bonecos" de pastas, um amarelo, outro verde e um terceiro cor-de-rosa. Ele retirou a pasta cor-de-rosa e um livro de endereços, subs­tituindo-os pela pasta da Operação Testemunho. Correu o zíper, ficou de pé e deu a Mendel um número de telefone, realmente o número certo. Desligou o telefone, entregou a Alwyn a mala e voltou para a sala de leitura com a pasta falsa. Remexeu na caixa dos mapas, manuseou mais uns dois ou três catálogos e encaminhou-se para o arquivo, levando a pasta falsa. Allitson estava cumprindo a comédia de rotina, empurrando e puxando a cesta de roupa.

Peter, me dê uma ajuda, estou atolado.

Um segundo.

Tornando a apanhar a pasta 4-3 do escaninho da Ope­ração Testemunho, substituiu-a pelo "boneco", restabele­ceu sua posição correta na seção 4-3 e retirou a papeleta verde do gancho. Deus está no céu e a primeira noite foi um êxito. Guillam poderia ter cantado em voz alta: "Deus está no céu e eu ainda posso voar".

Entregou a papeleta a Sal, que a assinou e a espetou no suporte apropriado, como sempre fazia. Mais tarde, naquele mesmo dia, iria fazer sua verificação. Se a pasta estivesse no lugar certo, jogaria fora a papeleta verde e a cópia da caixa. E nem mesmo a inteligente Sal se lem­braria de que ele estivera ao lado da seção 4-4. Guillam estava prestes a voltar para o arquivo e dar uma ajuda ao velho Allitson quando encontrou os dois olhos casta­nhos e inamistosos de Toby Esterhase.

Peter disse Toby em seu inglês não muito perfeito. Sinto muito incomodar você, mas nós estamos com uma pequena crise e Percy Alleline gostaria de ter uma conversa com você. É urgente. Você poderá ir lá agora? Seria muito gentil de sua parte.

Eles já estavam à porta, no momento em que Alwyn os deixava sair, quando Toby acrescentou:

Ele de fato quer uma opinião sua comentou com a obsequiosidade de um homem sem importância, mas que está subindo. Quer consultar você, saber sua opi­nião.

Num momento desesperadamente inspirado, Guillam voltou-se para Alwyn e disse:

Há um malote ao meio-dia para Brixton. Você poderia dar um telefonema para o serviço de transportes e pedir que levem isso até lá para mim?

Pois não disse Alwyn. Cuidado com o degrau.

"Reze por mim", pensou Guillam.

 

 

                                                                    CONTINUA

 

 

"Nossa sombra de ministro do Exterior", assim o chamava Haydon. Os porteiros o apelidaram de Branca de Neve, por causa de seus cabelos brancos. Toby Esterhase vestia-se como um modelo, mas no momento em que baixava os ombros e fechava seus minúsculos punhos parecia, sem dúvida, um lutador. Acompanhando-o através do corredor do quarto andar e tornando a reparar na má­quina de fazer café e na voz de Lauder Strickland expli­cando que "ele" não podia atender, Guillam pensou: "San­to Deus, estamos de volta a Berna e em fuga".

Passou-lhe pela cabeça dizer isso a Toby, mas con­cluiu que a comparação seria imprudente.

 

 

 

 

Sempre que pensava em Toby, era isso que lhe vinha à lembrança: a Suíça de oito anos passados, quando Toby era apenas um olheiro qualquer, com uma reputação cada vez maior de escutar as coisas como quem não queria nada. Guillam estava à toa no norte da África, por isso o Circus despachou os dois para Berna a fim de realizarem determinada operação: estragar os planos de uns belgas, negociantes de armas, que estavam se utilizando dos suíços para distribuir sua mercadoria em lugares inconvenientes. Alugaram uma villa ao lado da casa que estava em sua mira e, na mesma noite, Toby abriu uma caixa de ligação telefônica e adaptou-a, de sorte que eles ouviam as con­versações dos belgas no próprio telefone dos pobres ho­mens. Guillam era o chefe e Toby seu informante. Duas vezes por dia Toby deixava as fitas gravadas na agência de Berna, usando um carro estacionado, que servia de caixa de correio. Com a mesma facilidade Toby subornou o carteiro local para que lhe permitisse ver em primeira mão a correspondência dos belgas antes que...

 

 

[1] Personagem de Washington Irving, escritor e historiador norte-americano (1783-1859) que, no livro do mesmo nome, dorme durante vinte anos, após o que acorda e se espanta com as trans­formações por que passou o mundo nesse lapso de tempo.

[2] Trocadilho intraduzível. Em inglês, o substantivo comum Bill designa comercialmente a nota promissória, a letra de câmbio, a fatura. E Bill, nome próprio, é usualmente a corrutela de William

[3] Em francês no original, literalmente: "Que é que ele olha, Emile, no quadro que você tem debaixo do nariz? Meu caro Berger..., eu te porei em seguida porta afora, entendido?" (N. do E.)

[4] Legendário personagem britânico, Thomas Edward Shaw (1888-1935), arqueólogo, escritor, militar e político de fama, defensor, no início do século, de um império árabe unido ao império britâ­nico.

[5] Provável referência ao personagem e romance do escritor inglês Rudyard Kipling (1865-1936), descrito como um órfão irlandês de extraordinário sangue-frio e habilidade, utilizado pelo serviço se­creto britânico como espião, na Índia dominada.

[6] Membro de um grupo terrorista surgido no Quênia na década de 50 com o objetivo de lutar contra o jugo europeu e dar governo autônomo aos nativos.

[7] Nome em português do livro de Robert L. Stevenson Dr. Jekyll and Mr. Hyde.

[8] Coelho.

[9] Em francês no original: "capitalista"

[10] Josef Johann Wittgenstein (1889-1951). Filósofo austríaco.

[11] "Pope", substantivo comum, em inglês, significa "papa". Daí a referência.

 

 

                                                                

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