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O EXPRESSO TRANSIBERIANO / Heinz Konsalik
O EXPRESSO TRANSIBERIANO / Heinz Konsalik

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

O EXPRESSO TRANSIBERIANO

 

            - Parece-me, meu caro camarada, que isto é um autêntico pesadelo de comboio, verdadeiramente satânico. No entanto, sinto-me orgulhoso de ser um dos seus revisores! - disse Bons Fedorovitch Mulanov a Fedja, o jovem empregado de mesa do vagão-restaurante.

            Ambos estavam a fumar no corredor entre o vagão-restaurante e uma carruagem-cama de segunda classe e iam olhando, pela janela, para a paisagem que corria, à espera de avistar as primeiras casas de Gorki.

            Era um quadro monótono: florestas de bétulas e pinheiros por entre planícies e campos infindáveis, antevendo-se algumas aldeias enterradas em socalcos, uma enorme propriedade com amplos armazéns para guardar ferramentas, tanques e um pequeno riacho.

            Conquanto fosse Primavera, o céu estava carregado de nuvens e desde há duas semanas que chovia ininterruptamente. Não havia, por isso, mais nenhum caminho desempedido por essa região, apenas um carreiro sinuoso e lamacento, através do qual os veículos tinham de aventurar-se - tal como há séculos.

            Evidentemente que também havia estradas boas, amplas e sólidas, autênticos oásis no meio de tanta solidão; mas para onde quer que nos virássemos aparecia de novo a paisagem campestre da velha e eterna Rússia, a qual se enterrava em lama duas vezes por ano: na Primavera e no Outono, quando a chuva fazia anunciar quer o calor abrasador do Verão, quer o frio glacial do Inverno.

            -           Tu agora viajas muito - prosseguiu Mulanov, e expeliu o fumo na direcção do tecto abaulado do vagão. O percurso entre Moscovo e Víadivostoque é qualquer coisa! Atravessa metade do mundo! Já não existem comboios assim em parte nenhuma. Apesar disso volto a dizer: este comboio é demoníaco!

            -           E porquê, Boris Fedorovitch? - O jovem empregado de mesa esmagou o seu cigarro com o pé.

            O vagão-restaurante estava quase vazio: apenas três passageiros com ar entediado liam o jornal e bebiam chá.

            -           Este é o comboio mais bonito de toda a União Soviética. O transiberiano! Estou corado de tanta alegria, tal como ficaria uma rapariguinha. Exactamente como da primeira vez que aqui vim.

            -           O comboio é realmente bonito. Mas as pessoas, Fedja, as pessoas! - Mulanov apontou para o primeiro aglomerado de casas de Gorki. A carruagem abrandou e começou a deslizar suave e vagarosamente nos carris; uma enorme automotora passou por eles. - Há já sete anos que faço este percurso, sem reclamações. O camarada director da linha estendeu-me a mão e elogiou-me. A quem mais aconteceu isto, hen? - Mulanov, orgulhoso, encostou-se à parede.

            Era um homem robusto, de estatura mediana, com um pequeno bigode e pouco cabelo. Usava o seu uniforme de ferroviário como se de um general se tratasse e quando percorria e inspeccionava os corredores do "seu comboio", fazia-o como se passasse em revista uma guarda de honra.

            -           Sabes o que é que isso significa? - Agora que já não havia mais paragens, Mulanov retomou o seu assunto predilecto. - Nenhuma reclamação, convivendo com estas pessoas neste comboio! Todas elas, pequenos diabinhos, digo-te eu. Várias centenas de diabinhos sobre dois carris durante dez dias e dez noites, sempre atrás de ti, para onde quer que vás! "Camarada director", disse eu quando ele me apertou a mão, "eu tenho nervos de aço e do mais forte e resistente!" E ele riu-se tanto que a sua barriga se mexeu e quase fez com que se engasgasse.

Mulanov coçou a cabeça, quase calva. - É preciso ser-se diplomata e psicólogo, Fedja. E também é necessário aprender a conhecer as pessoas, de imediato! É preciso conhecê-las à primeira vista quando embarcam contigo e se instalam nos seus compartimentos. Vê-se logo a maneira como elas cuidam das malas e como tiram os casacos. Também se vê se cumprimentam os companheiros de viagem, se mandam nas suas mulheres, se gritam com os filhos, se refilam muito, se apresentam ós bilhetes quando vamos fazer a inspecção... Alguns saúdam-nos delicadamente com um ligeiro aceno de cabeça; outros nem sequer olham, outros ainda procuram o bilhete e praguejam; há até quem descalce os sapatos, como se fosse ali que tivessem guardado os bilhetes, e outros seguem o exemplo, como se achassem que estamos ali para os servir! E isto durante dez dias e dez noites... só te digo, Fedja, é o mesmo que servir o Diabo no Inferno! Mas apesar disso, sinto-me orgulhoso de ser revisor...

            Através da janela podia já ver-se os arredores de Gorki.

            Primeiro distinguiam-se as velhas casas do tempo em que Gorki ainda se chamava Nijni Novgorod, em seguida os grandes blocos habitacionais em construção. Pareciam caixas de betão, todas iguais e incaracterísticas, como tantas outras por esse mundo fora. "Caixotes" que se erguiam sob um céu nublado, produzindo um efeito ainda mais cinzento e sinistro do que de costume.

            Finalmente, o expresso entrou na gigantesca estação e logo ficou rodeado de uma confusão de carris, cabos eléctricos, depósitos e oficinas.

            - Mais um par de crianças infernais que embarcou!

- Mulanov sacou do seu livrinho de apontamentos. Porque não nos avisaram antes? Segunda classe, não interessa! Primeira classe: dois funcionários do Partido, quatro geólogos, um professor de física que queria ir até Irkutsk. Ah! E ali que temos!? - Mulanov mostrou o registo de passageiros ao jovem empregado de mesa.

Werner Forster, cabina três, carruagem cinco. É um dos compartimentos do Estado, camarada. Tem apenas dois lugares... o espaço é agora reservado, mas antigamente dava para seis pessoas. São os piores lugares, Fedja! E logo reservados para um ministério! Temos de tratá-los da melhor maneira possível. Werner Forster, um alemão! Mulanov fechou o seu livrinho de apontamentos.

            "Deve ser um homem importante. Vai até ao fim da linha, Víadivostoque. Gostaria de cumprimentá-lo em alemão: Bom dia, camarada! Os estrangeiros são importantes, Fedja. O nosso comboio é o cartão-de-visita da União Soviética e aquilo que depois disserem de nós, repercurtir-se-á por todo o país.

            O comboio parou. Boris Fedorovitch Mulanov voltou rapidamente a ajeitar o seu boné, abriu a porta com violência e saltou para a plataforma.

            Pelos altifalantes ainda ressoava o anúncio da chegada do comboio. "É Olga", pensou Mulanov. Olga com a sua voz apressada, mas clara e expressiva. Olga, com o seu traseiro generoso... A madona de Casã, cujos pormenores mais insignificantes eram conhecidos de todos desde há sete anos...

            Não era difícil reconhecer Werner Forster. Estava junto a dois enormes malões de pele de porco, que já de si chamavam a atenção dos passageiros soviéticos. E a roupa! O fato era de fazenda inglesa, cinzento-acastanhada com quadrados azuis. Os sapatos eram de tipo mocassina, de um couro macio e avermelhado. No braço tinha um casaco de pele de raposa - comprado em Moscovo -, uma máquina fotográfica pendurada ao pescoço e ao outro ombro trazia uma maleta com uma correia comprida. Não usava chapéu...

            Um homem assim obviamente que dava nas vistas, uma vez que na Rússia as pessoas eram diferentes.

            Mulanov endireitou-se e dirigiu-se em passo de marcha ao alemão. Estacou a três passos dele como se alguém tivesse gritado "Alto!", e levou a mão à pala do boné, como que a fazer continência.

            - Bom dia, camarada - saudou ele. - Eu sou o seu revisor!

            Werner Forster inclinou a cabeça cordialmente. Fazer esta grande viagem era um sonho que acalentava desde rapazinho e agora tornara-se realidade. Procurou o bilhete, mas Mulanov, generosamente, interrompeu o seu gesto.

            - Por favor, queira acompanhar-me.

            Mulanov desejou que o alemão o tivesse compreendido e para seu espanto, Forster respondeu em russo:

            - O senhor é muito amável. Obrigado!

            "Que pronúncia horrorosa", pensou Mulanov. Falava uma espécie de russo misturado com sotaque alemão, mas dava para percebê-lo.

            Haveria boas oportunidades de entabular conversa: a viagem durava dez dias até Víadivostoque.

            Talvez se pudesse - com muito cuidado - chegar a saber como vivem os Alemães. Por exemplo, um revisor alemão, como ele! As comparações são sempre úteis.

            Podia dizer-se que a família Mulanov vivia razoavelmente. Ele tinha uma mulher encantadora e dois filhos, ainda crianças, e um apartamento com duas divisões, em Moscovo. Uma casa de banho para cada três apartamentos - não se podia considerar bom? E até à data ainda não houvera reclamações com a água quente. O prédio do lado não tinha tanta sorte, porque andava sempre com problemas desse género. Era preciso utilizar uma grua, sempre que havia necessidade de usar a água quente. Um músico que lá vivia ainda outro dia dissera que tudo aquilo soava como uma nota em

lá-bemol! E queria compor uma sonata sobre esse tema...

            Mulanov fez uma coisa que estava um pouco abaixo da sua dignidade: agarrou numa das belas malas de pele de porco e

levou-a ao alemão, na carruagem cinco.

            Ao passar pelas carruagens de segunda classe - compartimentos enormes para sessenta pessoas - os passageiros admiravam-se, arrumavam a sua bagagem de encontro à janela, entravam nas carruagens como piratas abordando galeões, empurravam-se uns aos outros e comportavam-se tal como Mulanov esperava e sabia, por experiência própria, desde há sete anos. Os passageiros de primeira classe já haviam embarcado. Tinham lugares marcados e procuravam-nos em silêncio.

            - Por favor, camarada - disse o revisor, indicando uma enorme janela fechada. - É este o seu compartimento. Apenas para duas pessoas. Faremos tudo para lhe agradar.

            - Estou certo de que sim. - Forster seguiu o revisor até à larga porta de correr. No compartimento já estava sentado um passageiro que, assim que Mulanov e Forster entraram, se levantou de imediato.

            - Posso ajudá-lo em alguma coisa? - perguntou o homem.

            - Oh! Obrigado, mas não é necessário.

            Werner Forster levantou a mala e pô-la na bagageira, pendurou o casaco de peles num cabide, pousou a máquina fotográfica e a capa no banco comprido e estofado.

            Mulanov retirou uma mesinha debaixo da janela e estendeu uma toalha branca na mesa depois de armada.

            Forster viajava num comboio soviético de luxo pela primeira vez. Até então, visitara a União Soviética de avião, ou de carro. E os pequenos comboios rústicos, que uma vez precisou de utilizar, fizeram-lhe lembrar os contos de Tolstoi ou de Gorki: eram ronceiros, oscilantes e ruidosos, mas tinham história.

            No cumprimento do seu dever, Mulanov voltou a fazer rapidamente o controlo dos bilhetes normais e dos especiais da carruagem do Estado. Fez uma saudação, muito direito, e deixou o compartimento.

            Atravessou o enorme comboio até à segunda classe. Aí havia uma discussão por causa de um lugar à janela. Um idiota qualquer reservara o mesmo lugar duas vezes com o mesmo bilhete e agora estavam dois homens um contra o outro, como David e Golias, brigando por causa disso.

            Um deles era um gigante, com uma bonita voz de baixo, mas ligeiramente gago, e o outro era pequeno como uma doninha e sem papas na língua e era difícil fazer com que estivesse quieto.

            - Silêncio! gritou Mulanov. - Isto é o transiberiano, camaradas, e não um comboio qualquer! Dois números iguais? E acham que a culpa é minha? Porque não se estabelece um acordo? Um dia senta-se um à janela, outro dia o outro, e assim vão alternando! Será assim tão difícil? Podemos começar pelo camarada mais pequeno...

            - Mas por... porquê? - gritou logo o gigante, gaguejando. - Ele te.. tem lugar ao pé das baga... gens!

            - Um calhau sem miolos! - berrou de imediato o mais pequeno. - Camarada revisor, posso apresentar-lhe um atestado médico! Está aqui na minha mala. Há quatro anos que sofro de flatulência crónica. Preciso sentar-me direito e estar recostado. Se me sentar torcido, pode acontecer sem querer...! Quer que seja mais claro, camarada? Já sabe que sofro de flatulência... Fica à sua responsabilidade!

            No seu compartimento, Werner Forster sentou-se junto à janela e olhou para fora. Através da extremidade aberta da plataforma avistou uma linha férrea, ligeiramente afastada. Ali havia composições de máquinas e carruagens, umas paradas, outras a chegar e algumas a serem limpas.

            Essa gare estava vazia, observou Forster, já que um grande comboio com contentores de mercadorias fechados estava a ser vigiado por dois soldados da milícia. Traziam metralhadoras a tiracolo e faziam-se acompanhar de cães.

            O homem que partilhava consigo o compartimento tossiu discretamente. Forster virou a cabeça.

            - Vamos conviver durante dez dias - disse o homem em russo, mas falando propositadamente devagar e com clareza. - Isso é bom para as pessoas se conhecerem. Chamo-me Pal Viktorvitch Karsanov e sou professor de agronomia.

            Levantou-se e inclinou-se com cortesia. Forster cumprimentou-o de igual modo. Tal como tinha lido em Tolstoi, pensou ele de novo.

            É este o mistério da Rússia, com o qual se pasma. Há mais de cinquenta anos que tudo na Rússia se encontrava em transformação e de tal maneira que determinou a nova face do mundo - mas no fundo a sua alma continuava russa, como sempre fora: enigmas humanos entre o céu e o Inferno!

            Tal como este comboio! Acima de tudo falava-se de socialismo; todos os homens são iguais... mas havia uma segunda classe com sessenta lugares e compartimentos especiais só com dois lugares. Esses eram reservados aos oficiais superiores, funcionários do Partido e convidados do Estado.

            Quem é que pregou por uma sociedade sem classes? Teria sido Lenine?

            - Chamo-me Werner Forster e sou engenheiro.

            Posto isto sentaram-se um em frente do outro, olharam pela janela e tentaram encontrar assunto para o início de uma conversa.

            "Ele parece ser um honesto pai de família", pensou Forster. Devia ser bondoso, pacato; o cabelo, grisalho, já rareava no topo. Usava um fato com a etiqueta do armazém Stirallka, como todos costumavam usar. Estes fatos pareciam autênticos trapos depois de aguentarem chuvadas e remendos sucessivos. Os sapatos já tinham levado meias-solas muitas vezes; a camisa azulada estava amarrotada, apenas a gravata vermelha era nova.

            Um "tio" simpático, um professor que conhecia melhor as suas fórmulas do que sabia endireitar as dobras das calças.

            - O senhor é alemão? - perguntou Karsanov.

            - Vê-se logo, não é? - Forster riu-se como um garoto. O seu rosto franco parecia agora não ter idade. Tanto podia ter dezoito anos como trinta. Na verdade, tinha trinta e três anos. - Tive muito trabalho para aprender a falar russo, de modo a poder fazer-me entender. Para um alemão, o russo é um pesadelo!

            - Retribuo-lhe o cumprimento. - Karsanov ria igualmente. - Para os estrangeiros, o alemão é uma língua em que uma pessoa parece ter seixos a rolar na boca

e dá estalidos com a língua. O senhor também vai até Víadivostoque?

            - Sim. O meu sonho de criança tornou-se realidade. - Forster voltou a olhar pela janela. O comboio que estava lá fora a fazer manobras interessava-o muito. Os milicianos com os cães estavam, aparentemente, a vedar toda aquela área. Para além deles não se via mais ninguém. Nenhum trabalhador, nenhum maquinista e também nenhuma mulher com o seu lenço desbotado na cabeça, daquelas que lavavam as carruagens por fora com esfregonas compridas.

            - Em Víadivostoque ainda tenho de apanhar um barco para casa.

            - Uma viagem magnífica!

            - O senhor trabalhou na Rússia?

            - Sim. Na instalação de gasodutos, a partir da Alemanha. Era uma espécie de comandante. Havia lá muito que organizar.

            - Naturalmente, os gasodutos! Uma boa causa, meu caro senhor! Dois povos diferentes aproximam-se por fim, porque se chega à conclusão de que precisamos todos uns dos outros. Como se chamava o seu pai?

            Forster olhou para Karsanov atónito.

            - Anton Forster. Porquê?

            - Esplêndido! - Karsanov sorriu amigavelmente. É mais fácil falar em russo quando se sabe. Permite-me que lhe chame Werner Antonovitch? Eu sou Pal Viktorovitch! Nos próximos dez dias iremos aprender a estimarmo-nos ou a odiarmo-nos. Poderá uma pessoa saber isso de antemão?

            No comboio fechado acontecia já qualquer coisa de estranho.

            Através de algumas frechas agitavam-se lenços ao vento e pedaços de papel rodopiavam sobre os carris.

            Os milicianos ficaram inquietos, aproximaram-se das carruagens e bateram lá com os punhos. Os cães puxavam pelas trelas e ladravam, mas os lenços não desapareciam. Continuavam a esvoaçar pelas fendas até que dois milicianos arrancaram os lencinhos com o cano das metralhadoras.

            - Veja aquilo, Pal Viktorovitch - disse Forster. - Aquele vagão de mercadorias ali! Há lenços a esvoaçar nos ventiladores. Os vagões também transportam pessoas. Aí está a explicação para a presença da milícia com os cães... Julgava que já não havia disto na União Soviética!

            - Olhe para outro lado, Werner Antonovitch - rosnou Karsanov.

            O tom da sua voz tinha mudado de repente. Soava irritada e mais dura do que antes.

            - Faz três dias que discuti este assunto com outras pessoas, em Moscovo.

            Forster apontou na direcção do vagão de mercadorias. Os milicianos continuavam a bater com a coronha das armas nos vagões fechados e vociferavam ao mesmo tempo.

            - "Dirão Sakharov e Soljenitsine a verdade?", - perguntei eu. - Faço parte de uma geração que no final da guerra tinha quatro anos de idade. O que os nossos pais nos contavam, o que mais tarde lemos nos livros era tão inacreditável, e depois o que nos ensinavam na escola... Quem é que tem razão? Quando Soljenitsine...

            - Não pronuncie esse nome! - interrompeu Karsanov de mau modo. Estendeu as pernas robustas e pestanejou, mal-humorado, olhando na direcção do comboio e dos milicianos. - Há sempre dois lados de se verem as coisas. Por um lado, pode ir-se a uma casa de banho e admirarem-se as instalações na mais perfeita higiene, por outro lado e, em comparação, diz-se apenas: cheira que tresanda! Ambos têm razão. Para quê negar? De facto, ali fora está um vagão com inimigos do Estado. Não é o dever de uma nação zelar pela ordem? Exterminar todo e qualquer começo de desordem? A União Soviética é um país pacífico. Naturalmente que ainda há dificuldades por todo o lado... O que durante mil anos foi descurado, não se pode endireitar em cinquenta! Quem não consegue ver isto...

            Karsanov levantou-se e abotoou o casaco do seu fato. As calças tinham tomado o formato dos joelhos, a fazenda estava amarrotada nas costas. Werner Forster olhou para ele de baixo para cima.

            - Também há deportações para campos de concentração?

            - No seu país, os condenados são transportados em coches dourados, por acaso? A Rússia tem outras dimensões, por isso os meios de transporte também têm de ser diferentes.

            Karsanov abandonou o compartimento.

            Forster viu quando ele se apeou e atravessou a plataforma com passos apressados. Dirigiu-se a um quiosque para comprar limonada e pastéis, encontrou-se com um funcionário da estação e dirigiu-se-lhe.

            Devia ser um diálogo bastante extenso e desagradável, uma vez que o empregado tirava o boné nervosamente e Karsanov gesticulava com ambos os braços.

            Karsanov dizia de facto:

            - Quem é o responsável por esta porcaria? Não olhem assim para mim com esse ar aparvalhado, camaradas! Ali daquele lado está um vagão com destino à Sibéria, bem à vista, para quem quiser ver! Está ali, como se sabe, desde que o transiberiano chegou cheio de estrangeiros! E ainda se admiram em Moscovo de que a propaganda do Ocidente tenha tanta repercussão. Uma porcaria é o que isto é! Onde está o pessoal competente?

            Via-se que ninguém tinha competência.

            Karsanov foi com o empregado à cabina telefónica dos escritórios da estação para fazer um telefonema para o guarda-via, para o chefe da estação, para o comandante da milícia e, por fim, para o responsável local da KGB. Todos achavam aquela avaria um disparate, chegou até a ser considerada sabotagem - mas ninguém se considerava responsável. Quem quer que deixou o comboio dos deportados em frente do Expresso Transiberiano não se acusava.

            Alguém telefonou e deu uma ordem à qual todos os técnicos obedeceram. Electrificaram-se os carris, a milícia desfilou e cortou o movimento de tráfego e, meia hora antes da chegada do transiberiano, as portas dos vagões abriram-se e distribuiu-se a ração.

            Centenas de pessoas assistiram, mas como eram todas russas não deixaram transparecer qualquer reacção. Afortunado aquele que conseguisse livrar-se daquela estação.

            Karsanov atendeu furioso.

            - Isto é de pôr os nervos em franja! - exclamou ele em voz alta. - Sempre a mesma coisa! Cambada de incompetentes! Saibam que vou participar do acontecido a Moscovo, camaradas. Só me admiro como permitiram que acontecesse o que aconteceu naquele comboio, e tudo isto passivamente.

            Pelo altifalante ressoou de novo a voz clara da Olga do traseiro gordo:

            - Queiram embarcar todos os passageiros e fechar todas as portas! O Expresso Transiberiano vai partir dentro de momentos!

            Karsanov apressou-se em voltar para a sua carruagem.

            Saltou para dentro muito direito e Mulanov fechou a porta após a sua entrada. O estalido da porta a fechar-se soou como um tiro e Karsanov irritou-se ainda mais.

            - Então informou-se, Pal Viktorovitch? - perguntou-lhe Forster assim que Karsanov se atirou para cima do banco estofado, completamente ofegante e mal contendo a fúria.

            O comboio deu um solavanco e depressa se pôs em andamento silenciosamente ao longo da enorme estação de Gorki. O chefe da estação pôs-se em sentido, assim que o vagão número cinco passou por ele.

            Karsanov apertou os lábios e ignorou o gesto fervoroso do empregado: "Camarada, deixe-me em paz! Sou apenas um funcionário menor que deixa partir o comboio... "

            - Para onde vai aquele comboio?

            - Werner Antonovitch, temos de nos entender já que vamos conviver durante dez dias - replicou Karsanov

com uma calma forçada. - Crimes existem em todos os países. Na vossa América exemplar há mais do que, somando, no mundo inteiro! E sobre essas pessoas nem sequer se discute. Estamos entendidos?

            - Em princípio, sim, Pal Viktorovitch.

            - óptimo. - Karsanov tentou um sorriso, que lhe saiu pouco convincente. - Fiquemo-nos pela Rádio Erivan e as suas piadas. Se bem que também nos dê uma imagem completamente errada...

            Forster recostou-se no assento. Lá fora as casas passavam rapidamente.

            Imagens iguais em toda a parte, de quando um comboio deixa uma cidade.

            E daqui a alguns minutos voltaria a ver-se a terra toda enlameada e uma infinidade de campos, bosques e florestas encharcados pela chuva...

            - Não seria capaz de deixar esta terra, pois não?. - inquiriu Werner Forster, enquanto procurava um maço de cigarros no bolso do seu casaco de peles.

            - Nunca! Eu sou russo! - Karsanov esticou o queixo para a frente. - Para mim, a pátria é sagrada.

            Passadas duas horas, Forster saiu do compartimento para ir ao vagão-restaurante. Boris Fedorovitch Mulanov passou novamente por ele, enfiou a cabeça pela porta entreaberta e perguntou se estava tudo em ordem.

            Como não obteve resposta, fechou de novo a porta com um gesto rápido. Então percorreu todos os compartimentos e pôs-se ao pé de uma janela do corredor.

            "Que situação crítica", meditou ele. "O "paizinho" bondoso e o alemão! Quem diria?" Era preciso ficar de olho neles.

            Suspirou e preparou-se para pôr à prova os seus nervos de aço nos próximos dez dias.

            Forster e Karsanov não haviam trocado palavra nas últimas duas horas. Pal Viktorovitch lia um livro, cujo titulo era Os Heróis do Rio Sombrio e descrevia a maneira como quatro corajosos geólogos preambulavam no deserto de Kamchatka e por lá descobriram riquezas no solo. Era um livro interessante sobre a colonização da Sibéria.

            Forster olhava pela janela. O Sol tinha-se descoberto por entre as nuvens; a terra alagada parecia agora menos inóspita. As aldeias que se viam pelo caminho tinham um aspecto algo fantástico: cabanas de madeira com portas esculpidas e pintadas. Os telhados eram de colmo e cobertos de musgo, ou então pregados com tábuas ou cartão alcatroado e com pedras fortes para aguentar as tempestades outonais. Aí e cercadas de jardins, trabalhavam mulheres com enxadas e que olhavam de relance o comboio luxuoso à sua passagem. Os seus lenços de cabeça agitavam-se ao vento; nos vestidos desbotados havia como que uns resquícios de raios de sol, como se fosse possível adquirirem novas cores mais alegres.

            - Sempre imaginei que a Rússia fosse assim - disse uma vez Forster, mas Karsanov não lhe deu qualquer resposta.

            "Isto é outro atrevimento", pensou ele apenas. Aquelas cabanas brevemente iriam desaparecer, na sequência de um plano elaborado com um prazo de dez anos, para darem lugar a modernas quintas com depósitos centrais para albergarem toda a maquinaria. Aquelas cabanas eram típicas da Rússia! Só um alemão poderia pensar desse modo.

            A Rússia era para ele velhas cabanas, camponeses pobres, raparigas de seios fartos, balalaicas, caviar e vodca.

            Karsanov continuava a ler, ofendido, e apenas observava Forster de vez em quando pelo canto do olho.

            "Ele devora tudo com os olhos", observava Karsanov. Mas também não percebia que este país gigantesco não podia ser igual à sua região do Reno: casa por casa, rua por rua?

            No caminho para o vagão-restaurante, Forster chocou com uma mulher, que, de repente, lhe barrou o caminho. Não reparou que ela se aproximava na mesma direcção e o choque foi tão forte que ele cambaleou, não conseguindo equilibrar-se. Espalhou-se ao comprido ao tentar, em vão, agarrar-se a qualquer coisa firme. Em consequência disso, as suas mãos tremeram e ele apoiou-se, embaraçado, à parede do corredor.

            Dois seios enormes, redondos e firmes, moldavam-se a uma blusa fina, que mal conseguia encobri-los e um rosto de uma beleza provocante e selvagem, emoldurado por uma massa de cabelos vermelho-fogo, riu-se para ele.

            - Perdão - disse Forster embaraçado. - Devia estar quase a dormir. Não tive intenção...

            A mulher, com os cabelos flamejantes e os lábios grossos pintados de uma cor berrante, parou. Tapava o caminho com a sua figura impressionante.

            Para uma senhora, estava vestida e pintada de uma maneira estranha; e do modo como ela ali estava, o seu peito volumoso sobressaindo, as pernas algo abertas, um largo sorriso no seu rosto redondo, mas ainda bonito, fez lembrar a Forster uma rapariga de conduta duvidosa, que esperava à porta de uma casa num porto ou espreitava pela janela e que, em vez de falar do tempo, discutia o seu preço.

            - Mais um estrangeiro! - exclamou ela, e examinou Forster dos pés à cabeça. Para uma russa, ele, com o seu fato feito por medida, devia parecer um milionário. - Americano?

            - Não, alemão.

            - Vai até Víadivostoque?

            - Adivinhou.

            - Uma longa viagem, meu caro senhor!

            Ela respirou fundo e o seu peito chamou a atenção. Não podia deixar de ser! Forster comprovou-o como um árbitro que valida um golo.

            - Podemos falar sobre dormir...

            - Como disse? - perguntou Forster, admiradissimo.

            - Ainda agora mesmo o senhor disse que vinha a dormir no caminho.

            A ruiva apoiava-se com os braços a ambos os lados da parede do corredor. Todo o seu corpo se adivinhava esplêndido através do tecido fino: as linhas do corpo, as coxas, as ancas pareciam estar expostas.

            - Não se adormece em lado nenhum quando existem outras oportunidades. Eu estou no compartimento vinte e três. - A mulher riu-se para ele e o seu rosto pintado, no qual se adivinhavam melhores dias pretéritos, tornou-se cómico e trágico ao mesmo tempo - como uma máscara de palhaço. - Meu caro senhor, tem marcos alemães? Tem dez por cento de desconto em relação ao rublo!

            Forster compreendeu e o encontro começou a tornar-se divertido.

            - Talvez mais tarde - disse ele. - Agora tenho sede.

            Encostou-se à parede e ela assumiu uma tal postura que o seu peito farto, de novo, se fez notar. Nisto, suspirou profundamente e o seu olhar adquiriu uma expressão triste.

            - Tenho bebidas no meu compartimento.

            - A senhora tem um compartimento só para si? - perguntou Forster.

            - O que é que o levou a pensar isso, meu caro senhor? Há lá mais três passageiros comigo: um casal e uma rapariga.

            - Mas não pode ser... - cogitou Forster duvidoso. - A senhora não pode...

            - De noite cada um tem a sua cama! - A ruiva passou as mãos pelo peito com um gesto lascivo. - O casal dorme. São já pessoas de idade, é preciso que se note. E a rapariga? A quem é que incomoda? Ou dorme também, ou aprende alguma coisa com o que vir. Quem é que vai escandalizar-se com isso? Digamos, pelas dez horas? Vou tomar nota.

            - Não, de maneira nenhuma! - Forster empurrou-a ao sair. Só a ideia de ela gostar de espectadores fez com que um arrepio lhe percorresse as costas. - Parece-me que não vamos fazer negócio!

            - Então, quando quiser, camarada, irei ao seu compartimento!

            Forster pensou em Karsanov e abanou a cabeça com uma gargalhada. Pôs-se no lugar de Pal Viktorovitch como testemunha ocular e auditiva de uma aventura nocturna, absolutamente louca.

            - O meu companheiro de compartimento é uma pessoa muito distinta - riu-se ele. - Mas pode sempre perguntar-lhe. Carruagem cinco, compartimento número três. Talvez ele lhe leia qualquer coisa de Lenine.

            - Esses são os piores! - considerou a mulher. Baixou o peito para Forster poder passar.

            No vagão-restaurante ele mandou vir um chá e uma garrafa de água mineral. Depois voltou a contemplar a paisagem russa.

            "A próxima estação é Kirov", pensou. "Depois Perm, o passeio romântico através das florestas dos montes Urales e por fim Sverdlovsk. Aí já era a Sibéria, o portão para um gigantesco mundo novo, pouco dominado pelo homem: a taiga.

            Sverdlovsk...

            Werner Forster tirou os óculos de sol do seu casaco. O primeiro dia da Primavera estava a chegar ao fim: o Sol pôs-se, ofuscando com o seu brilho. O que é que o pai lhe contava sobre Sverdlovsk?

            A central de detidos, o acampamento exterior que se espalhava por toda a região. Encontravam-se aí perto de sessenta mil alemães de Estalinegrado...

            Tinha curiosidade em saber como era aquela região, na qual jaziam tantos compatriotas desconhecidos...

            "Todas as guerras são crimes", dizia o seu pai. "Todas elas, meu rapaz! Morrem pessoas aos milhões sem saber porquê. Será que, pelo menos, há uma explicação lógica para tal derramamento de sangue? E com isto o mundo tornou-se melhor e mais inteligente? Nem por sombras, antes pelo contrário!

            Os contrastes são ainda maiores e as ideologias ainda mais fanáticas, como se o sangue se tivesse transformado apenas em estrume para que a loucura crescesse mais exuberante...

            Forster bebeu o chá e meia garrafa de água, comprou ainda uma sanduíche de carnes frias - pão escuro com chouriço de fígado - e voltou para o seu lugar.

            Pouco depois, e à medida que se aproximava, ouviu uma enorme algazarra. Uma mulher gritava e nos intervalos gritava também Karsanov. Assim que Forster entreabriu a porta do compartimento, a exuberante ruiva esbarrou com ele. Já não se notavam vestígios dos seus ares marcadamente eróticos, antes reagia como uma verdadeira megera. Os seus olhos enfurecidos faiscavam.

            - Um malcriado, o seu companheiro! - gritou ela para Forster. - Um eunuco nojento! Ah, a sua companhia deve ser uma maravilha! Dez dias com ele e eu entrava para um convento! Venha ter comigo! Para irritá-lo não lhe cobro nada!

            - Um escândalo! - berrava também Karsanov, depois de ter dado pela presença de Forster. Estava vermelhissimo e tinha os cabelos completamente desalinhados de raiva, tal como um cão raivoso. - Estas putas são sempre insolentes! Veio até aqui, sentou-se à minha frente, abriu o casaco, de modo a que eu pudesse ver-lhe tudo até ao rabo e disse: "Então, velhote, não estás impressionado? Aproveita, não queres?" E eu dei logo um salto e comecei a gritar: "Fora daqui, sua grande cabra!" E ela ainda respondeu: "Não abuses, velhote! Não voltes a gritar comigo se é que queres manter o emprego. " O que é que se faz numa situação destas? Isto é uma afronta!

            Karsanov deixou-se cair no banco, extenuado, encostou a cabeça à almofada, ofegando ruidosamente.

            - Essas mulherezinhas deviam ser apedrejadas! - declarou ele mais tarde, quando a mulher saiu do compartimento a vociferar e depois de ter conseguido acalmar-se um pouco. Até aceitou um trago de conhaque russo do frasco de viagem que Forster lhe ofereceu, o qual lhe fez visivelmente bem. - Esta puta é particularmente impertinente. As outras são mais afáveis.

            - Como assim, as outras? Então há mais no comboio?

            - Faço esta viagem três vezes por ano, Werner Antonovitch. - Karsanov serviu-se outra vez do frasco de conhaque. - Há sempre uma ou outra.

            - Então há sempre prostitutas a bordo?

            - Do que é que você estava à espera? - Karsanov encolheu os ombros. - Proibem-se quando são detectadas, e são logo multadas. No entanto, apesar de tudo isso, elas continuam a vir. Já quase fazem parte do pessoal que trabalha no comboio. Desconfio de que o revisor recebe uma percentagem. Também isto é um escândalo! Mas vá lá uma pessoa poder prová-lo! É evidente que também vou participar desse burro, posso jurar-lhe! "Velhote", chamou-me ela. Tenho quarenta anos. Então um homem com quarenta anos é um velho? Será que pareço um velho jarreta? Ainda estou muito bem, Werner Antonovitch. Vou mandar prender essa maldita assim que chegarmos a Víadivostoque.

            - E logo em Víadivostoque porquê, Pal Viktorovitch? - perguntou Forster.

            - Então você acha que eu quero ser despedaçado pelos outros passageiros? - respondeu simplesmente Karsanov. - Dez dias e dez noites é muito tempo...

 

            Algures no caminho houve um atraso. Por que razão, nem sequer Mulanov teve conhecimento.

            Entre Perm e Sverdlovsk o comboio parou num desfiladeiro, no meio dos montes Urales, e assim que puderam continuar a viagem, o horário já estava tão alterado que só chegaram a Sverdlovsk ao princípio da noite.

            Mulanov sentia-se comprometido, pois tinha de informar os viajantes importantes da carruagem cinco e não sabia o que dizer. Presumiu que algum sinal tivesse ficado preso na neve. Viram-se efectivamente passar alguns grupos de trabalhadores, disfarçados nos seus grossos casacos de Inverno, que mais pareciam fantasmas ao andarem para cá e para lá por sobre os carris.

            Nos Urales estava-se de novo no Inverno. A região encontrava-se coberta por uma grossa camada de neve. Aqui não havia indícios da chegada da Primavera; neste lugar, em pleno mês de Março, ainda imperava o frio mais intenso.

            Forster estava perto da janela, quando finalmente entraram em Sverdlovsk.

            Karsanov dormia no seu banco desarmado e aberto, o qual se podia transformar numa bela cama, e ressonava.

            Nessa primeira noite que passaram juntos, ele já se tinha antecipadamente desculpado:

            - Eu tenho o hábito de ressonar, Werner Antonovitch. Quando se sentir incomodado, dê-me um apertão, ao de leve, no nariz. Ou então assobie ou emita um som claro e prolongado. Creia que isso ajuda muito! A minha mulher faz sempre isso. Não sei porque é que esse método resulta para quem ressona, mas assobiar sempre ajuda!

            Forster assobiou de novo e voltou a apertar o nariz de Karsanov. Resultou na perfeição e uma vez em Sverdlovsk, já ele estava satisfeito, porque Karsanov dormia profunda e pesadamente.

            Estava, pois, Forster entregue aos seus próprios pensamentos. Continuava a cogitar nas palavras de seu pai. E parece que o ouvia a contar:

            "Em Sverdlovsk construímos dois depósitos de água, tipo romano. Ainda lá estarão? Chegámos mesmo a misturar no cimento sal e açúcar, porque uma vez ouvi dizer que isso fazia o cimento mais consistente. Seria verdade? Naquela altura acreditávamos em tudo. Meu rapaz, estive um ano em Sverdlovsk. Fizemos uma comparação minuciosa com todos os outros depósitos. Éramos invejados por todos os batalhões. Alguns tinham a trabalhar para si, na construção da estação, brigadas de trabalho constituídas por mulheres russas. E os outros depósitos, como eram? Meu rapaz, havia dias em que já não era possível cavar mais buracos no chão para enterrar tantos corpos. Sverdlovsk era assim! "

            A estação estava quase vazia.

            Encontravam-se ali apenas dois passageiros para o transiberiano, cansados de tanto esperar, enregelados. O pobre Mulanov foi insultado e, no fundo, era quem menos culpa tinha do atraso do comboio.

            E então Forster viu-a...

            Ao princípio era apenas um vulto encoberto na sombra do grande quiosque fechado, tão encostado à parede que a luz do candeeiro da estação não conseguia abrangê-lo.

            Primeiro, os passageiros embarcaram e uma voz, de um funcionário igualmente cansado, fez soar no altifalante o habitual anúncio "fechar as portas". Enquanto isso, o mesmo vulto solitário fez-se notar.

            Forster distinguiu uma rapariga esbelta, a cabeça envolta num lenço desbotado, que lhe chegava aos ombros. Usava um casacão comprido, pespontado, e um casaco de linho cinzento.

            A jovem não tinha qualquer bagagem consigo. Correu apressadamente desde o quiosque através da plataforma até ao comboio e, ainda com a porta aberta, saltou para dentro de uma das carruagens de segunda classe.

            No mesmo instante, Mulanov percorreu a carruagerm, empurrou a porta ainda aberta e levantou o braço. O comboio aproximou-se, o revisor saltou para dentro e soprou nas mãos.

            - Que frio! Que terra esta, a Sibéria!.

            No Inverno era preciso usar abafos - ;pele de urso e no Verão apetecia andar nu.

            Ao voltar para o seu posto de trabalho, Mulanov passou pelo número vinte e três.

            Abriu a porta devagarinho e escutou. O casal de idade dormia; o lugar que a rapariga ocupava, em cima à esquerda, também estava silencioso. Porém, em baixo à esquerda, reinava a maior animação. A cama rangia e estremecia.

            - Tudo em ordem, Kiaschka?

            - Bom dia, Bons Fedorovitch! - A voz de Kiaschka soou algo lasciva, sem que os ruidos fossem interrompidos. - Para ti quinze rublos!

            Satisfeito, Mulanov fechou a porta atrás de si. Ele ai'dava a poupar para comprar um carro e para um simples revisor isso não era muito fácil de conseguir...

 

            Werner Forster saiu do seu compartimento sem fazer barulho e foi às apalpadelas ao longo do corredor fracamente iluminado até à carruagem de segunda classe. "Quem será a rapariga?", meditava ele. Por que razão se escondeu ela e saltou para o comboio apenas no último instante? Sem bagagem, vestida como se tivesse saido directamente de um campo de trabalho?

            Onde estaria ela?

            O alemão vira o rosto da desconhecida durante menos de um segundo. Os seus olhos enormes, embora matreiros, estavam cheios de medo. Um olhar que o queimou.

            "Ela também me viu", pensou ele. "Deve ter-me avistado pela janela aberta e num acesso de desespero atirou-se para dentro do comboio. É claro que ela também me tinha visto - com um olhar que quase me despedaçou! Como pode alguém estar assim tão desesperado! "

            Continuando a tactear, alcançou a segunda classe e começou sistematicamente a examinar todos os passageiros. Sessenta em cada compartimento.

            Um concerto de dorminhocos: nuvens de respiração... Reparou em corpos todos torcidos nos seus lugares, crianças nas bagageiras e pessoas embrulhadas em mantas e sobretudos, deitadas no meio dos corredores das enormes carruagens. Viu um bêbedo que arrotou a dormir. Notou igualmente num casal jovem que fugiu, assustado, cada um para seu lado, mal Forster olhou para eles...

            "Quem será a rapariga?", continuava Forster a martelar. "Onde estará ela? O que é que terá acontecido para que tivesse aquele ar assim assustado?"

 

 

            Nem todas as pessoas que Mulanov conhecia, para além dele próprio, se indagavam com frequência por que razão esta viagem irreal de dez dias e dez noites tinha apenas um revisor. Considerado excelente, teve o privilégio de apertar a mão ao director da linha e só lhe era permitido tirar uma soneca de vez em quando. E sempre que alguém precisava dele, Mulanov encontrava-se no seu posto. Também lá estava sempre, mesmo quando não era necessário.

            Pelos vistos, não podia dormir, enquanto o seu comboio percorria um continente quase de ponta a ponta. Talvez fosse por isso que ele tinha sob a sua responsabilidade todas as carruagens, desde a número três à seis. Eram consideradas as melhores carruagens com os passageiros mais importantes de todo o comboio.

            Também por isso, Werner Forster encontrou Mulanov inadvertidamente quando regressava da sua busca nocturna às carruagens de segunda classe, à medida que ia tacteando as paredes da carruagem mal iluminada.

            - Está à procura de alguma coisa, camarada? - perguntou Boris Fedorovitch amigavelmente.

            Tinha-se posto à vontade: não trazia boné, desabotoara o casaco e abrira a camisa até à cintura.

            As carruagens estavam agradavelmente aquecidas. Enquanto lá fora o gelo fazia estalar os ramos das árvores, por aqui o suor corria pelo pescoço.

            - Não - retorquiu Forster, cansado. - Apenas me perdi. De repente, dei por mim na segunda classe.

            - É um problema, camarada. Aquela segunda classe é, de facto, um grande problema.

            Mulanov abotoou os botões de baixo do casaco, para não estar completamente desmazelado perante um importante convidado do Estado.

            Alguém sabia, por acaso, qual era, na verdade, o seu papel? Um alemão que viajava na cabina reservada unicamente a altos funcionários e generais - dava que pensar!

            Talvez fosse algum político famoso da Alemanha Ocidental, ainda que no relatório da central estivesse registado como "engenheiro". É possível que as personalidades importantes viajem incógnitas, hoje em dia.

            Nunca se saberia...

            Uma boa informação sobre o revisor Mulanov às pessoas certas e estaria, provavelmente, à vista uma nova promoção.

            - As pessoas estão para ali espalhadas, empestam a carruagem, comportam-se como rebanhos de carneiros e até ao fim da linha discutem umas com as outras e envolvem-se em brigas centenas de vezes. Só se devia permitir que houvesse primeira classe neste comboio, camarada. E, por outro lado, deveria haver um segundo comboio para os camponeses e trabalhadores. Não que sejamos discriminatórios, mas será um favor que fazemos aos passageiros com menos cultura, juntá-los num mesmo comboio com os outros mais instruídos? De forma nenhuma! Eles sentem-se inibidos, prejudicados nas suas vidas e é com certeza um tormento serem forçados a comportar-se de uma maneira que para eles só existe nos livros!

            Mulanov olhou para baixo, para o corredor, na mesma direcção de onde tinha vindo Forster a subir.

            - Precisou de alguma coisa, camarada?

            "Isso não te posso dizer", pensou Werner Forster. "Procuro dois olhos amedrontados e esbugalhados de pânico. O comboio é comprido - mas hei-de achar a rapariga nalgum lugar..."

            - Tinha ido ao vagão-restaurante - respondeu Forster evasivo.

            Mulanov admirou-se.

            - É exactamente no lado oposto, camarada! É logo por detrás do vagão quatro.

            Forster sorriu de soslaio.

            - Talvez já estivesse a cair de sono. Está alguém no

vagão-restaurante a estas horas?

            - Fedja está sempre lá. Os cozinheiros, no entanto, já estão a dormir há muito tempo. Uma pessoa tem de saber cozinhar, camarada. Num horário de trabalho fixo, só é preciso saber pegar nuns tachos ou fritar qualquer coisa numa frigideira. Comem-se umas gorduras e ainda se ganham uns poucos rublos com isso.

            O revisor Mulanov pôs-se em movimento. Era seu dever acompanhar de volta os viajantes importantes aos seus compartimentos.

            Forster seguiu-o. Por hoje dava a busca por terminada.

            - Ouvi dizer que Kiaschka o importunou. É verdade?

-           indagou Boris Fedorovitch.

            - Quem é Kiaschka? - replicou Forster de imediato. Estava a pensar na rapariga desconhecida que tinha saltado para o comboio como uma raposa assustada.

            - Ora, então não sabe, camarada? - Mulanov piscou os olhos.

            - Aquela mulherona ruiva?

            - Os passageiros reagem ao assunto de maneiras diferentes. O seu companheiro, Pal Viktorovitch ficou profundamente ofendido. Mas a maioria até gosta de usufruir de uns momentos de distracção. Entre Tjumen e Omsk, o percurso é aborrecido. Só se avistam árvores. E entre Krasnoiarsk e Irkutsk é só floresta e mais floresta! Depois por detrás de Tchita, ao longo de Amur... podemos ver ursos sobre os carris que choram de solidão, como se de gente se tratasse. Uma pessoa pode chegar a sentir-se melancólica, camarada, e por isso é que a K'aschka é necessária. Uma necessidade fisiológica que se impõe para afastar perturbações psíquicas. Posso, no entanto, cuidar para que ela não volte a entrar no seu compartimento.

            - Agradeço-lhe.

            Forster ansiava pela sua cama. A verbosidade de Mulanov complicava-lhe com os nervos.

            "Ela não tinha qualquer bagagem", pensou ele. E a maneira como saltara para o comboio - até parecia que não tinha bilhete. Um passageiro clandestino a bordo do Expresso Transiberiano? Como é que era possível esconder-se?

            Sob o olhar vigilante de Mulanov, isso parecia impossível e além do mais seria muito esquisito que o revisor não mencionasse qualquer rapariga com uma atitude tão descarada: atravessar a União Soviética sem bilhete...

            No seu compartimento, Karsanov sentou-se na cama e mirou-se de mau humor. Usava um daqueles pijamas às riscas, tipicamente russo, que se encontra em toda a parte.

            Karsanov deu por falta de Forster. Respirou aliviado quando, ao abrir a porta de correr, o revisor fez Forster entrar cortesmente.

            - Ei-lo de volta, Werner Antonovitch! - exclamou Karsanov.

            Esperou que a porta voltasse a fechar-se e que o revisor regressasse ao seu posto.

            - Diga-me só isto: foi fazer uma visita ao quarto daquela mulher ruiva, não é verdade? Uma tentação, temos de admitir, mas perigosa, muito perigosa! Gostaria de alertá-lo em relação àquela prostituta! É um erro chamar à sífilis a doença francesa, é antes de mais uma doença russa. É um facto histórico comprovado! Em mais lado nenhum há tantos idiotas e mutilados como na velha Rússia. Mas já está melhor, muito melhor! Varremos tudo com vassouras de ferro. Proibimos a prostituição, mas ainda existe clandestinamente; como a poderemos controlar? Como poderemos acabar com isso de vez? E vigaristas como esse Boris Fedorovitch ainda ganham com o negócio!

            - Está preocupado comigo sem necessidade, Pal Viktorovitch.

            Forster despiu-se, enfiou-se no seu pijama francês, para o qual Karsanov olhava atentamente. Podia ler-se nitidamente nos seus olhos que o russo pensava na decadência do Ocidente.

            Forster deitou-se na sua cama. Não se tapou, porque o compartimento estava superaquecido. O ar era pesado e a transpiração de Karsanov cheirava a azedo.

            - Você é casado? - perguntou o russo de repente.

            Forster fechou os olhos e pensou: "Cala-te, camarada.

Vi uma rapariga que não me sai do pensamento.

            - Não - respondeu ele apenas.

            -E porque não?

            - Não tenho tempo para essas coisas.

            - Os estudos e o trabalho são, por si só, tarefas da maior responsabilidade.

            - Tem razão. Boa noite, Pal Viktorovitch.

            "Ele está a esquivar-se", pensou Karsanov. "O que se passará com ele? Modificou-se nas últimas horas. Onde terá estado todo este tempo, se não esteve com Kiaschka?"

            Tinha de perguntar a Mulanov. Ou então...

            Levantou-se de mansinho, vestiu um roupão de banho liso, azul, e saiu do compartimento, só de pantufas nos pés.

            Boris Fedorovitch já tinha regressado ao seu lugar. Um bêbedo na carruagem de segunda classe - a número três - tinha armado confusão. Embriagado como estava, sentiu uma forte necessidade de urinar. Em vez de ir à casa de banho, como as pessoas educadas, pôs-se no meio do caminho e indecentemente urinou para o chão onde estavam estendidas algumas crianças a dormir.

            Daí resultou uma enorme gritaria, os pais das crianças ficaram indignados. Ameaçavam pancada... um deles até já estava preparado para atirar o bêbedo para fora do comboio. Uma camponesa idosa gritava que se devia castrar o tal indivíduo. "Mas teria sido realmente assim?", perguntou-se Mulanov.

            Apaziguou os ânimos à sua maneira.

            Transportou o bêbedo para o vagão das bagagens e largou-o ali entre os arrumadores. Eram dois rapazes altos e robustos que até ficaram contentes com a mudança. Logo após o fecho da porta, Mulanov ouviu-os a bater no bêbedo, que gemia.

            O revisor ficou satisfeito.

            Nessa noite, que já ia longa, ainda aconteceu outra coisa estranha.

            Karsanov vestiu o roupão por cima do pijama e acocorou-se para alcançar o aparelho de rádio e o telefone sem fios do compartimento do transiberiano, e distraiu-se a conversar com algum camarada em Moscovo. Enquanto isso, ia tomando apontamentos nas costas da ementa e terminou, por fim, com um rugido:

            - Isso é bom. Desligo!

            Mulanov sentou-se no canto do vagão e mastigou um pão com queijo. A acompanhar bebeu chá da sua garrafa-termo.

            Não se atreveu a dirigir a palavra a Karsanov; já sabia que o segundo homem do compartimento três tinha falado para um escritório em Moscovo. Também sabia que, como qualquer russo sem responsabilidades graves, não deveria tocar no assunto.

            - O alemão anda a passear pelo comboio? - inquiriu Karsanov rispidamente.

            Mulanov anuiu com a cabeça e engoliu um grande pedaço de pão com queijo.

            - Perdeu-se, camarada. Queria ir ter com Fedja ao

vagão-restaurante.

            - A esta hora?

            - Queixou-se de garganta seca.

            Karsanov terminou o interrogatório ao revisor, já que se estava a tornar improdutivo, e levantou-se.

            As informações de Moscovo eram insignificantes:

Werner Forster, engenheiro civil, tinha trinta e três anos de idade, residente em Duisburgo, solteiro, politicamente neutro, não filiado em nenhum partido. Estava na União Soviética como consultor técnico efectivo na construção

do gasoduto. Encontrava-se de regresso a casa, no final do cumprimento da sua tarefa. Viajava no transiberiano, porque sempre o tinha desejado fazer. Nada o faria mudar de ideias e adquirira um bilhete especial de primeira classe...

            Batia tudo certo. Era, portanto, um homem simpático e perfeitamente normal.

            E, todavia, Karsanov tinha o pressentimento inexplicável de que por debaixo daquela fachada calma e diplomática existia um homem discreto, que precisava esconder-se, quiçá, nalgum canto desconhecido. E os seus pressentimentos nunca tinham falhado. Confiava tanto neles como num contador Geiger, que, na presença da mais infima partícula radiactiva, oscila e zumbe. E esse zumbido fazia eco no cérebro de Karsanov, de todas as vezes em que ele pensava em Werner Forster...

            - Quem mais é que viaja em primeira classe? - perguntou Karsanov, à porta.

            Mulanov pousou o copo, pelo qual tinha estado, há pouco, a beber o chá.

            Era, de resto, um chá aromático com um ligeiro odor

a vodca. Se fizessem a Mulanov alguma pergunta relativa

a isso, ele respondia, sorrindo: "Primeiro desinfectei a

garrafa-termo... "

            - Vinte e duas pessoas, camarada.

            - São pessoas importantes, seu palhaço?

            Mulanov meditou sobre isso. "Ele chamou-me palhaço", pensou indignado. "Diz estas coisas impunemente e não é justo! Bravo, corajosa Kiaschka, que lhe chamaste "velhote" na cara!"

            - Um general - enumerou devagar Mulanov -, um membro do Comité Central e dois professores até Ulan-Ude. Até agora, e para Víadivostoque, apenas vão dez camaradas; um pouco mais adiante, na carruagem número três, vai um cantor de ópera. Exercita a voz quatro horas por dia: duas de manhã e duas à tarde. O general quer fuzilá-lo, o mais tardar até Irkutsk!

            Aqui também não havia nada de especial a assinalar. Karsanov interrompeu-o e voltou para o seu compartimento.

            Forster fingiu que dormia, mas não parava de pensar na rapariga desconhecida. Era impossível conseguir adormecer, quando não se podia afastar uma lembrança tão suave e agradável.

            Era louco, mas começou de novo a ver, em pensamento, o rosto da rapariga desconhecida. Não com intenção erótica, antes pelo contrário, apenas imaginava um retrato dela. Como seria ela sem o lenço na cabeça, sem o casaco de algodão e sem o casacão comprido e pespontado, sem as grossas meias de lá e sem as resistentes botas de camponesa?

            "Ela tinha um rosto magro, quase faminto", pensou Forster. O que tinha de maior eram os olhos... devia ter um corpo frágil e delicado, escondido sob as grossas roupas de Inverno, que lhe caíam mal, como se tivessem sido compradas para outra pessoa. De que cor seria o seu cabelo?

            Forster imaginava que ela fosse uma jovem que tivesse sempre tido muito pouco que comer e que, com os seus grandes olhos, via o mundo do qual apenas conhecia couves azedas, batatas pisadas, cevadinha espessa e, nos dias de festa, um tacho de requeijão com pepinos e beterraba.

            Karsanov deitou-se na sua cama e esticou-se. Pigarreou várias vezes na esperança de uma reacção por parte de Forster; mas como não surgia nenhum ruído da parte do seu companheiro, virou-se de lado e adormeceu.

            No dia seguinte entraram na estação de Tiummen sob um sol radioso e dourado, que se erguia sobre as florestas cobertas por uma espessa camada de neve e as margens geladas e cintilantes do Nitza. Parecia um espelho forrado de prata.

            Aqui a Sibéria já era mais marcante. Viam-se, nas pessoas que estavam à espera na estação, grossos casacos de peles. Faziam lembrar gigantescas raposas ali paradas em pé. Nuvens brancas de respiração pairavam sobre as suas cabeças e parecia que se transformavam em gelo.

            Na plataforma, avistavam-se as peles de um homem encoberto por uma carroça. Vendia leite em pequenos pacotes congelados.

            Karsanov também comprou um pacote de duzentos e cinquenta gramas para si e colocou o saco de plástico em cima do aquecimento.

 

            Há três dias que Forster vagueava pelo comboio sem ter conseguido ainda achar a rapariga.

            A aventura desta viagem única, a realização do seu sonho de juventude, transformou-se na obsessão de apenas querer descobrir a desconhecida.

            Pelas janelas passava - na sua plena e majestosa invernia - a taiga; pararam em Omsk e Novosibirsk, em Anshero-Sudschensky e Krasnoiarsk...

            Nomes que estavam enraizados na imensidão da região há já um século e ao serem pronunciados, engasgavam as pessoas: voluntários e deportados, colonizadores e aventureiros, comerciantes e cossacos, técnicos e caçadores.

            Dia após dia, noite após noite, Forster ficava mais inquieto.

            Já conhecia todos os cantos do comboio, à excepção do vagão das bagagens e da locomotiva.

            Onde mais é que uma pessoa podia ainda esconder-se?

            Não havia muitas mais hipóteses a considerar que Werner Forster não tivesse já procurado saber.

            Karsanov observava estas excursões com desconfiança.

            - Que tanto tem você especificamente que andar por aí a fazer, Werner Antonovitch? - indagou ele no terceiro dia, ao anoitecer. - Isto aqui é um comboio e não um complexo desportivo. Quando sentir necessidade de correr, sempre pode percorrer a Sibéria a pé!

            - E eu admiro a sua calma, ficando para aí sentado!

- retorquiu Forster. - É-me impossível estar o dia todo num lugar. Se não faço movimento, enferrujo. Você, como está habituado a trabalhar sentado a uma secretária, naturalmente não nota diferença.

            Não era raro que Forster, nos seus passeios frequentes, esbarrasse com a ruiva Kiaschka.

            Ela fazia bons negócios, pois os homens do transiberiano tinham sempre - abençoados! - as mãos largas.

            O tédio começou a tomar conta de Forster, porque sempre que olhava para a floresta coberta de neve, via rios gelados, desfiladeiros profundos ou regiões pantanosas desoladas. Tudo isto, mergulhado na mais espessa neve, produzia o efeito da imagem de mesas cobertas de branco, sobre as quais os arbustos pareciam migalhas; a isso não conseguia resistir um russo patriota sem bocejar.

            Feliz aquele que podia pagar a uma mulher como Kiaschka! Meia horinha por cinco rublos. Era um preço razoável para um trabalho honesto.

            - O senhor ainda é um belo homem - afirmou Kiaschka a Forster, na terceira noite. Encontraram-se no corredor a caminho da carruagem cinco, em cujo compartimento número três, um geólogo já tinha explorado o corpo de Kiaschka e depois de satisfeito e saciado, ressonava. - É raro encontrar alguém como você. Mas os camaradas responsáveis pela linha fecham-no a sete chaves, como se você fosse feito de ouro. Um alemão genuíno e livre no transiberiano é, de facto, para nós uma pedra preciosa. Por que é que eu não lhe agrado? Não dê ouvidos a Karsanov; aquilo é um homem seco que está de mal com o mundo inteiro.

            Forster hesitou.

            Então meteu a mão no bolso, tirou um maço de cigarros e estendeu-o a Kiaschka. Eram cigarros americanos e os olhos pintados de Kiaschka começaram a brilhar. O seu rosto maquilhado, emoldurado pelo cabelo vermelho-vivo, adquiriu uma expressão algo infantil.

            - Americanos! - exclamou ela dando estalidos com a língua. - Posso fumar um?

            -à vontade.

            Fumou meio cigarro em silêncio, expelindo enormes e sôfregas baforadas. O seu rosto revelava a mais completa felicidade. Saboreou aquele cigarro com um prazer mais

evidente do que qualquer homem. Para ela era realmente um prazer, para os outros era um vício.

            Forster observava-a.

            "Será que posso arriscar?", pensou ele. "Ela é uma mulher e tem coração... não é preciso mais nada para falar desse segredo."

            - Vem comigo - convidou Kiaschka, assim que acabou de fumar o cigarro até ao fim, desta vez mais devagar, aproveitando cada milímetro de cigarro consumido.

- Tu és um bom homem. E aos bons homens eu não cobro dinheiro.

            Com os seus olhos escuros e expressivos, ela contemplou Forster com tristeza. Aquele vestido e aquela maquilhagem não combinavam com Kiaschka.

            - As boas pessoas são raras, alemão. A vida é, na verdade, como uma latrina, da qual alguns se servem e outros se agacham e recebem, por seu lado, o que sobra. Eu sempre estive por baixo. Já me prenderam dezenas de vezes e eu não trato mal os homens que me procuram. Agora é este Karsanov que já me ameaçou mais de uma dúzia de vezes mandar-me prender em VIadivostoque e isto porque Boris Fedorovitch me denunciou. Mas eu vou pregar-lhe uma partida! Em Chabarovsk desço e regresso a Moscovo no próximo transiberiano. Ah! Como ele vai ficar furioso, o lindo camarada! Vem, meu querido...

            Pegou na mão de Forster, mas ele encostou-se à parede e ficou quieto.

            - Kiaschka - disse ele devagar e com cautela e a sua lingua começou a ficar estranhamente pesada. - Você confia em mim... também posso confiar em si?

            - Eu sou um túmulo! Cega, surda e muda.

            - Estou à procura de uma pessoa...

            - Aqui no comboio?

            -Sim.

            - Como assim? Essa pessoa desapareceu?

            - É uma história muito esquisita, Kiaschka.

            Esperou, até que ela apagasse o cigarro americano. Então deu-lhe o maço e ela meteu-o dentro da blusa entre os fartos seios.

            Kiaschka riu-se em voz baixa. Acariciou Forster e pousou ambas as mãos no seu peito. Nesse instante, parecia uma rapariga alegre, coquete e agradável, com os seus cabelos pintados de vermelho.

            - Obrigada. Como te chamas?

            - Werner Antonovitch - respondeu Forster.

            - Bonito nome. Gosto de ti, Werner Antonovitch. Isto não é nenhuma transacção comercial...

            -           Eu sei, Kiaschka. Procuro uma rapariga...

            O         brilho nos seus olhos extinguiu-se, como se se tivesse apagado um farol.

            -           Prometeste-me que podia confiar em ti - disse Forster num ápice.

            -           Quem é ela? - quis saber Kiaschka.

            - Não sei. Por isso mesmo é que estou à procura dela. Tem de estar algures neste comboio, mas ainda não descobri onde. É uma rapariga com um casacão pespontado e um casaco acolchoado de linho cinzento desbotado, meias de lá e botas de camponesa fortes. Uma rapariga magra e a roupa fica-lhe demasiado grande.

            - Não pode estar no comboio, Werner Antonovitch. Kiaschka conhecia cada carruagem, cada compartimento, assim como todas as pessoas que ela logo cumprimentava com amabilidade.

            Por que razão não havia de ser simpática para com os outros camaradas? Uns jogavam à malha, outros às cartas e também Kiaschka os ajudava a passar o tempo. Uma mulherezinha valente - só os hipócritas ainda mantinham as calças vestidas...

            - Ela tem de estar no comboio! Saltou cá para dentro em Sverdlovsk, assim que nos preparávamos para partir!

            - Então não tem bilhete?

            - Presumo que não. Em todo o caso, não tem bagagem.

            -           Deve ser muito especial, para Mulanov ainda não ter dado com ela - aprovou Kiaschka. - Vamos pensar, Werner Antonovitch. Onde se esconde uma pessoa num comboio? Na casa de banho. Mas aí há sempre gente a

entrar e a sair e à espera... aí é muito perigoso! Debaixo de um banco, em segunda classe? Aí haveria muita gente a saber e também seria perigoso. Muitos olhos postos num lugar: seria muito arriscado! Então onde poderá ela estar? E qual é o teu interesse em encontrá-la?

            -           Isso também eu gostaria de saber.

            Forster agarrou, sem cerimónia, no peito de Kiaschka. Tirou de lá o maço, acendeu dois cigarros, meteu um entre os lábios de Kiaschka e enfiou, outra vez, o maço entre os seus voluptuosos seios.

            - Ela viu-me, tenho a certeza, aí por... um segundo, antes de desatar a correr e atirar-se para dentro do comboio. Foi um breve instante, menos de um segundo, mas abriu um buraco no meu coração, que me queima. És capaz de entender?

            -           Claro, Werner Antonovitch. - Kiaschka fumava, de novo, apressada, e expelia o fumo de encontro ao tecto abaulado da carruagem. - Apaixonei-me três vezes na minha vida. Quando os homens sabiam como eu ganhava o meu dinheiro, abandonavam-me.

            -           Nunca me apaixonei! - declarou Forster em voz alta.

            -           Que mentira mais infame, Werner Antonovitch!

            -           Eu nem a conheço.

            -           Ela deixou um vazio que arde no teu coração, só com um olhar. Isso já é suficiente!

            Kiaschka afastou-se da parede, apertou ainda mais o maço de cigarros com os dedos entre os seios, e fez sinal a Forster com a cabeça.

            -           Vou procurá-la, meu querido. Se a encontrar, cuspo-lhe em cima, dou-lhe umas bofetadas e então trago-ta. Ela é que tem a culpa de tu não quereres nada comigo...

            -           Dou-te cem rublos se não lhe tocares.

            -           E eu dou-te duzentos para tu me tocares. A vida é tão estúpida e também aquilo a que chamamos coração. Vai dormir, meu querido...

Afastou-se:    uma montanha de carnes firmes, e Forster observou como eram esguias as pernas comparadas com as ancas salientes e as curvas pronunciadas do traseiro.

            No compartimento, Karsanov ressonava tão alto como se a taiga e toda aquela região agreste o estimulassem.

            Aquele quadro coberto de neve que se via da janela, representando o imenso e gelado mar, era concludente. Forster comprimiu a testa quente de encontro ao vidro e olhou lá para fora, para o pálido gelo da noite silenciosa, que despertava com os apitos e os ruidos do transiberiano.

            "Esta Rússia grandiosa", pensou Werner Forster. "Esta Sibéria eterna! "

            Como é que costumava dizer o seu pai?

            Só se precisava de consultar o mapa para perceber quantas loucuras se tinham cometido desde há mil anos. Isto já não é um país... isto é um mundo dentro do próprio mundo, como aquelas bonecas russas tão conhecidas e coloridas, umas dentro das outras...

            Ao fim de meia hora, o alemão já não aguentava as ressonadelas de Karsanov. Voltou silenciosamente para o corredor, a fim de tentar encontrar a rapariga de Sverdlovsk.

            Passou pelo posto de trabalho de Mulanov, cuja porta estava aberta, mas - oh espanto! - Boris Fedorovitch dormia! Estava deitado no banco, com as mãos postas em cima da barriga e assobiava pelo nariz, enquanto dormia.

            Também estava tudo silencioso no compartimento de Kiaschka.

            Todo o comboio estava na penumbra. As luzes de presença dos corredores difundiam uma luz francamente depressiva. O barulho das rodas enervava-o e incomodava-lhe o cérebro.

            Werner Forster percorreu carruagem por carruagem.

            De repente viu-a. Estava no vagão dois, da segunda classe, numa daquelas carruagens enormes, na qual dormiam sessenta pessoas e as crianças estavam espalhadas pelo meio dos corredores.

            Nesta carruagem não havia bêbedos a incomodar as

pobres criancinhas, mas em compensação havia três camponeses que iam a um casamento em Tcheremchovo. Levavam quatro galinhas num cesto de verga e um caixote com respiradouros, onde transportavam um leitão. Quem podia impedir de levarem tudo aquilo como presente de casamento? Não os entregaram no vagão das bagagens, como lhes disseram, porque tinham de pagar muito pelo depósito e não podiam esbanjar. E era de tal maneira inexplicável o que pediam por tais coisas! Eram apenas galinhas, porcos, coelhos e patos vivos.

            Portanto não havia no vagão número dois um odor a urina, mas em compensação o compartimento aquecido cheirava como um estábulo.

            Esse vagão também ia até Irkutsk - aí deixaria de fazer parte da composição: seria desatrelado.

            Forster encobria-se na sombra perto da porta, quando, de repente, distinguiu um vulto agachado, furtivo, que surgiu da escuridão. Deslizou silenciosamente sobre as crianças que estavam deitadas, curvou-se por cima das pessoas que dormiam e uns dedos pequenos e rápidos aproveitaram a ocasião.

            Aqui agarravam numa coisa, ali noutra. Depois aquele vulto deslizou de novo, tão silenciosamente como se tivesse asas. Comprimiu-se de encontro aos corajosos camponeses, remexeu no cesto das provisões e apanhou, a toda a pressa, o que fosse comestível.

            Forster ficou muito quieto.

            Aquela grande sombra tornava-o quase invisível, e ele ficou como uma estátua. Esperava que ela viesse para mais perto e analisasse à vontade a fila de bancos ao pé dele...

            O pequeno vulto voltou a mover-se. O casacão fazia um barulho muito ténue ao roçar novamente pelas crianças adormecidas no meio do corredor...

            Forster não conseguia ouvir nada, só podia imaginar que ela rastejava suavemente, porque quando sessenta pessoas adormecidas respiram, pode até dançar-se com castanholas que ninguém dá por nada.

            Então ela passou por ele.

            Forster aproveitou logo a oportunidade para lhe agarrar na mão estendida e puxou-a para si de um golpe.

            Ela não gritou. Defendeu-se calada, com um desespero feroz, mordeu a mão de Forster, deu-lhe uma canelada, tentou dar-lhe uma joelhada no baixo-ventre, mas ele foi mais hábil. Forster conseguiu esquivar-se-lhe sempre; agarrou-a outra vez e

apertou-lhe os braços de tal maneira contra o corpo franzino e trémulo, que lhe faltou o ar. A sua cabeça virou-se para trás, a sua boca pequena estava aberta e a sua resistência diminuiu... A rapariga respirava com dificuldade e estava pendurada pelos braços, vencida e num total abandono. Apenas o estremecer do seu corpo se tornou mais forte, quase como uma convulsão.

            - Esteja quieta - segredou-lhe Forster. - Não tenha medo! Venha comigo!

            Ela sacudiu a cabeça, calada, e ergueu os punhos cerrados na direcção do nariz dele.

            Forster atirou com a cabeça para trás, mas o golpe desferido por ela passou rente ao queixo e acertou-lhe no pescoço.

            A rapariga tinha mais força do que se podia julgar de um corpo tão franzino e Forster voltou a precisar de todas as suas forças renovadas para dominá-la. Só então conseguiu arrastá-la para fora da grande carruagem para o patamar do vagão, na esquina entre a porta exterior e a casa de banho.

            A desconhecida endireitou os ombros e olhou-o.

            Foi outra vez o mesmo olhar, aquele desespero nos olhos que comoveu Forster profundamente.

            "Ela reconheceu-me", pensou ele. "Durante três dias

e três noites esteve apavorada que eu a encontrasse. Fui o

único que a viu, na estação de Sverdlovsk, quando saltou

para o comboio. "

            Era isto que dizia o seu olhar. Estava tudo muito claro

-           escrito nos seus olhos.

            De repente, ela começou a chorar.

            Foi tão inesperado que Forster estremeceu quando a cabeça estreita se afundou no seu peito e os cabelos negros roçaram o seu rosto. Os braços dela, delgados e marcados pela fome, oscilavam ao longo do corpo, como se ali não pertencessem.

            Forster passou o braço à volta dos ombros dela, que tremiam, desta vez com uma ternura hesitante, e acariciou-lhe as costas com a outra mão.

            E assim ficaram os dois durante um bocado, sem trocarem uma palavra, apenas abraçados.

            A rapariga continuava a soluçar, comprimindo o rosto de encontro ao peito de Forster, e ele sentia as lágrimas a molharem-lhe a camisa, atravessando o tecido e tocando-lhe a pele.

            E então, de repente, assim como tinha começado a chorar, tambem deixou de o fazer e levantou a cabeça. O rosto molhado brilhou como uma luz fraca reflectida num vidro branco e fino. Os olhos dela eram como dois buracos negros, ardendo na face cintilante e lisa...

            - Quando me entregar à milícia em Irkutsk vai ser a minha morte - disse ela então muito calma.

            A sua voz era juvenil, mas ao mesmo tempo plena de energia. Nada pediu e não choramingou - era quase um desafio: Decide-te! A vida ou a morte para mim! Forster respirou fundo.

            - Não vou entregá-la à milícia - declarou.

            Ela ergueu as sobrancelhas finas ao ouvi-lo falar. "Naturalmente pronunciei alguma coisa mal, neste maldito russo que aprendi na escola", pensou Forster. "Que coisa estranha! E eu que fiquei tão orgulhoso quando recebi o diploma, no qual estava escrito "muito bom". Alguma palavra deve ter tido uma pronúncia horripilante.

            - O senhor é estrangeiro? - perguntou a rapariga.

            - Sim. Sou alemão.

            - Um alemão! - Ela arriscou um sorriso tímido, mas quase de imediato esse impulso desapareceu-lhe do rosto.

- Se o senhor não fizer nada, faz o revisor.

            - A menina não tem bilhete? - perguntou Forster, sentindo-se idiota.

            Os olhos dela não ofereceram resistência... ele procurava as palavras certas, mas era como se andasse às voltas numa sala vazia.

            - Não. Mas isso já o senhor sabia. Percebeu logo, assim que eu saltei para o comboio.

            - Reconheceu-me?

            - Não esperava que estivesse alguém à janela, assim tão tarde. De repente vi-o. Mas nessa altura já era tarde de mais...

            -           Pretende viajar através da União Soviética sem bilhete?

            - Eu não tenho destino... Talvez desça entre Irkutsk e Tchita, se o senhor não me denunciar...

            -           Saltar com o comboio em andamento! Isso é uma loucura!

            - Nessa altura estará a andar mais devagar.

            Ela afastou os cabelos negros da testa. O seu rosto tinha feições correctas e era de uma beleza enigmática. Era uma mistura entre as feições asiáticas e europeias.

            - às vezes até pára, por causa da neve, sabe. Chega a atingir alguns metros de espessura. A tempestade arrasta-se da Mongólia até aqui e, por isso, a neve bloqueia a linha férrea e a sinalização. Torna-se muito fácil saltar. E então ninguém me pode apanhar nem perseguir... já estaria a percorrer a taiga e o comboio também tem de prosseguir a sua marcha.

            - E depois? - quis saber Forster.

            Ele continuou a envolvê-la e acariciou-lhe as costas. Forster não se aproveitou da situação e ela também não procurou impedi-lo.

            -           Depois? - Ela olhou-o de frente, como uma presa fita um caçador. - Eu quero viver. Mais do que isso não desejo...

            - E por que razão fez tudo isto?

            - Como posso contar-lhe? - Fitou-o e teve um movimento impaciente. - Deixe-me em paz, por favor. O revisor não tarda... e ai e a minha desgraça! O senhor, de certeza, não vai querer isso!

            - Não! Nunca! - Forster não a largou quando ela tentou fugir. - Procurei-a sem cessar. Desde Sverdlovsk que percorri o comboio inteiro, dia e noite.

            - Não me teria encontrado se eu não tivesse tido fome.

            Ela bateu contra o casacão comprido e pespontado. Era um casacão fino, daqueles que sempre usaram os reclusos... tinha grandes algibeiras, nas quais cabia tudo o que se quisesse comer, quando se estava necessitado.

            - Gostaria de ajudá-la - declarou Forster. A sua garganta estava seca. - Um destes dias descobrem-na, tal como eu também a apanhei. Temos de pensar noutra solução. A mais fácil e mais ousada seria esta: venha comigo para o meu compartimento!

            - Isso é impossível! - Ela arregalou os olhos para Forster horrorizada. - O revisor...

            - Perguntaremos a Kiaschka. Ela dar-nos-á, de certeza, um conselho.

            - Quem é Kiaschka?

            - A prostituta do transiberiano. Ela conhece bem todas as situações. Não! Não se vá embora.

            Foister deteve-a quando ela quis partir apressadamente.

            - Se Kiaschka não descobrir uma solução, então pode voltar para o seu esconderijo. Prometo-lhe.

            Forster segurou-lhe nas mãos sem saber por que o fazia. De repente inclinou-se para a frente e beijou-lhe os dedos contraídos.

            - Chamo-me Werner Antonovitch Forster - disse ele em voz baixa.

            - E eu Milda Tichonovna Lipski...

            - Milda... - Beijou-lhe a outra mão e sentiu-se feliz, como nunca se tinha sentido em toda a sua vida. - Que bonito nome, Milda...

            Sem resistência, como uma criança que se leva pela mão, ela foi com ele para a carruagem de primeira classe.

            Kiaschka ficou de mau humor quando Forster a acordou. Encontrava-se deitada numa cama estreita, um pouco enroscada e exausta do seu trabalho. Estava já a sonhar com uma pequena casinha nos bosques de Perenilko.

            Kiaschka sonhava com Perenilko quase todas as noites, desde que tinha visitado uma amiga que morava lá. Lydia Petrovna, assim se chamava a prostituta, que era menos bonita e atraente. Era mais alta do que Kiaschka e tinha um rosto comprido. Havia conseguido comprar a casa de campo com a ajuda de amigos ricos e também com a vida de artista que levava.

            E desde então esse era o grande objectivo da vida de Kiaschka...

            Efectivamente, Lydia Petrovna considerava-se uma artista, o que lhe garantia, na União Soviética, um tratamento especial e benévolo - principalmente por parte das autoridades.

            Para demonstrar a sua arte, Lydia Petrovna começara por pintar quadros horrorosos, mas que, apesar disso, tinham sido aceites. Ao que parece, foram considerados como fazendo parte de um estilo dito moderno. Em todo o caso, esta tal Lydia levava uma vida muito razoável. Já não precisava de andar pelos comboios ou de procurar clientes nos átrios dos hotéis. Era sustentada por três homens ricos e influentes e isso chegava-lhe perfeitamente.

            Perenilko! Florestas de bétulas e um rio límpido, alguns lagos naturais com cisnes selvagens e à noite, pela janela,

viam-se as corças a passar... Este era o culminar de uma carreira!

            Kiaschka tinha não só uma vontade de ferro como também a esperança reforçada de um dia vir a tornar-se vizinha da sua amiga Lydia Petrovna.

            No entanto, Kiaschka não queria pintar, mas sim esboçar desenhos de moda. Apesar de haver, na Rússia, poucas esperanças nesse campo de trabalho, ele era considerado artístico e isso bastava.

            - Calma! - exclamou Kiaschka, meio adormecida, enquanto Forster não parava de abaná-la. - O estabelecimento está fechado! Não sobrecarreguem a máquina, camaradas!

            - Kiaschka, acorda! - pediu Forster, meio à socapa.

-           Sou eu, Werner Antonovitch.

            - Despe-te e deita-te. - Automaticamente, ela chegou-se para a parede e deixou-lhe um espaço. - Por que é que vieste mesmo no final da noite, meu querido...

            Forster sacudiu-a outra vez com ambas as mãos, afastando-lhe, por completo, o cabelo ruivo do rosto.

            O clarão fraco que penetrava no compartimento, proveniente da luz de presença do corredor, permitia precisamente que aquele lugar iluminado deixasse adivinhar o seu rosto.

            - Encontrei-a, Kiaschka. Acorda, mulher!

            - Encontraste quem?

            - A desconhecida de Sverdlovsk.

            Forster sentou-se na borda da cama e puxou a cabeça de Kiaschka para si.

            A rapariga espreguiçou-se, suspirou profundamente e enlaçou a cintura de Forster. Ele percebeu, então, que por debaixo da coberta de linho ela estava nua. Tinha uma pele firme, lisa e quente, sem vestígios de gorduras e um corpo robusto. Ele retirou a mão de imediato.

            - Precisamos da tua ajuda, Kiaschka.

            - Ah! Então apanhaste o passarinho?

            A prostituta do transiberiano parecia ver melhor no escuro do que o alemão. Ergueu-se, levantou a mão rapidamente e deu a Milda uma bofetada demasiado pesada.

            - Tal como o prometido! - afirmou Kiaschka. - Isto é porque ele está sempre a pensar em ti e em mim nem repara! - De seguida perguntou, na sua evidente exuberância, soerguendo-se, sem vergonha, na almofada: - Afinal o que é que vocês querem de mim, há? Querem que a esconda dentro da minha cama?

            - Qualquer coisa parecida, Kiaschka.

            Forster empurrou Milda para jundo de Kiaschka.

            Sentaram-se ao lado uma da outra, como galinhas no poleiro. Em frente dormia o casal idoso, respirando ruidosamente, e por cima deles, a jovem suspirava a dormir. Ela era, viera Kiaschka a saber, secretária de administração e viajava até Irkutsk para se apresentar no seu novo local de trabalho.

            - Não sei onde é que ela se pôde esconder, mas olha-a bem. Está quase a morrer de fome. Andava devagariinho pelo comboio e apanhava tudo o que se pudesse comer.

            - É verdade - respondeu Milda baixinho. - Não se incomodem por minha causa. Acima de tudo, longe de mim colocá-los em perigo.

            - Parece razoável. Ela é mais esperta do que tu, Werner Antonovitch. - Kiaschka afastou o cabelo ruivo da testa com os dedos esticados. - Donde é que tu és, avezinha?

            - Chamo-me Milda Tichonovna...

            - E queres ir à borla para a Sibéria? Vais ter com algum homem, não é verdade? Engenheiro ou geólogo? E ele mora onde? Estas prostitutas jovens... atravessam meio mundo, porque anseiam por uma cama aquecida! Quando Bons Fedorovitch te descobrir...

            - Não! Isso nunca...

            - Não vai ser possível evitar - retorquiu Kiaschka em tom seco.

            - É preciso achar uma maneira de ela poder ficar no meu compartimento. - Werner Forster pôs o braço à volta dos ombros de Milda. Sentiu como ela ainda tremia.

            Milda não se afastou, não lhe retirou a mão dos ombros. Em vez disso, encostou-se a ele completamente esgotada.

            Um sentimento de felicidade invadiu-o, uma sensação de calor até agora desconhecida fez o seu coração bater mais forte.

            - Se eu, mais tarde, comprasse um bilhete para Milda...

            - Onde é que julgas que estás? - Kiaschka riu baixinho, mas foi um riso amargo. - Julgas que estás num rápido para Colónia ou Paris, ou quê? Em que podes sentar-te e dizer: "Revisor, quero mais um bilhete de primeira classe para Víadivostoque"? E Mulanov sacava do seu livrinho de apontamentos e inscrevia o nome dela! Não é assim tão fácil! Ele vai querer saber donde vem Milda e a razão por que ela está sem bilhete. Qual a razão de um ratinho esfomeado viajar clandestinamente através da taiga? E então ela diz o quê?

            Kiaschka puxou Forster para o lado e olhou para Milda.

            -           Afinal tu vens de onde?

            - É uma longa história, Kiaschka.

            -           Guarda-a para ti! Não quero nem saber.

            Kiaschka apoiou a cabeça nas mãos e meditou muito sobre o assunto. O seu corpo branco era uma mancha ardente na enorme escuridão.

            - Há uma possibilidade - disse, por fim. - Mas será que ela estará apta a participar?

            -           Claro, Kiaschka. Se Milda ajudar...

            -           Pela lógica é imoral! - esclareceu Kiaschka filosoficamente. - Leva Milda para o teu compartimento, Werner Antonovitch, e explica a Mulanov, quando ele aparecer, que ela é uma colega minha. Da nova geração, percebes? Eu ensino-a!

            -           Será que ele acredita?

            - E porque não? Bons Fedorovitch vai ser forçado a acreditar quando ela lhe entregar a percentagem. O dinheiro convence sempre! Vinte por cento é a taxa destes gatunos! Vai custar-te um bom dinheiro, Werner Antonovitch!

            - Milda vale qualquer esforço.

            -           Ouviste, meu cisnezinho? - Kiaschka riu de novo.

- Vai ser uma prova de fogo! E o que é que vais dizer ao teu companheiro de viagem, Pal Viktorovitch? Não confio nele.

            -           Ele tem de acreditar no que Mulanov acreditar.

            Forster puxou Milda para si. Esta sentou-se muito quieta, algo sucumbida e curvada, e olhou a escuridão.

            - O teu conselho foi bom, Kiaschka - prosseguiu Forster. - Milda não precisa esconder-se mais nem roubar mais nada...

            - E o que é que pedes em troca? - A voz de Milda já estava cheia de um medo quase infantil.

            - O que é que um homem como ele pode pedir? - Kiaschka

riu-se em voz alta. De repente voltara a ficar ordinária. Um último resto de sono abandonou-a. - Tudo na vida tem um preço, Milda Tichonovna. Se fosse sempre tudo assim tão fácil...

            - Ela só conhece uma espécie de homens! - Forster interrompeu Kiaschka, levantou-se e arrastou Milda daquela cama também. - És minha convidada... nada mais!

            Apercebeu-se, pela primeira vez, de que se tratavam por tu. E isso veio muito naturalmente; foi um deslize na intimidade, o que demonstrava que de repente deixaram de ser estranhos um para o outro.

            Forster pôs o braço sobre os magros ombros de Milda e levou-a consigo até à porta do compartimento.

            - Assim não, meus queridos! - segredou-lhes Kiaschka. - Mesmo com vinte por cento o Mulanov não acredita que um ratinho cinzento como ela esteja metida neste negócio. Vamos à casa de banho. Cada profissão tem o seu cartaz; portanto, temos, também, de maquilhar Milda como convém.

            Dez minutos depois, Kiaschka e Milda regressaram da casa de banho. Forster quase não reconheceu aquela mesma desconhecida de Sverdlovsk.

            Aquela rapariga encolhida tinha-se tornado numa fera, refinadamente pintada a preceito, o cabelo muito bem penteado e uma boca que Forster julgou que brilhava. Era o rosto de uma boneca bonita, mas fria...

            Ele achou que Milda ficava melhor com a sua tristeza anterior, plena de juventude e sem artifícios.

            - Então? - perguntou Kiaschka orgulhosa. - Se ela tivesse outras roupas, ficaria muito melhor dentro do seu género. Vais ter trabalho, Werner Antonovitch, em afastar dela os outros homens. Hão-de fazer fila à porta do teu compartimento, como cães à espera de que se lhes atire um osso. E ela vai ver os rublos colados à janela...

            -           Gostava mais dela sem pintura - disse, mesmo assim, Forster.

            Milda olhou para ele com os seus grandes olhos pintados e ele entendeu este olhar. Era um agradecimento mudo e, de novo, Forster sentiu que ela se aproximara como ele jamais ousara desejar antes.

 

 

            Karsanov continuava a ressonar como uma serra mecânica, quando os dois entraram no compartimento e se sentaram na cama de Forster.

            Milda, receosa, rodeou os joelhos com as mãos e mirou Pal Viktorovitch, que estava todo tapado e deitado de costas.

            Forster tirou a sua garrafa-termo da mala e destapou-a. à noite tinha pedido ao empregado de mesa Fedja que enchesse a garrafa com chá quente e umas gotas de rum.

            Karsanov parecia ser do tipo antialcoólico. Em todas as estações comprava sempre pacotes de leite congelado, descongelava-os e bebia-os com visível prazer. Em compensação, fumava continuamente um tabaco fedorento, como quem pega fogo a um colchão.

            - Toma - ofereceu Forster e deitou o chá num copo. Ela inclinou a cabeça, agradecida. Bebeu o líquido fumegante com goles pequenos e sequiosos enquanto metia as mãos numa abertura lateral do seu casacão pespontado.

            Daí tirou pão, pedaços de chouriço, bolachas, um pepino embebido em vinagre, duas cebolas já descascadas, um ovo e um bocado de chocolate. Pôs tudo aquilo na mesa desmontável, perto da janela. Em seguida tirou uma faca do outro bolso.

            - Tenho fome - disse simplesmente. - É a minha primeira refeição das últimas vinte horas...

            - Quando o vagão-restaurante voltar a abrir, vamos tomar o pequeno-almoço - anunciou Forster. Sentia a garganta apertada.

            Agora, à luz clara do compartimento, viu como Milda Tichonovna era bela. Tinha um corpo frágil, mas os seios eram redondos e bem proporcionados. Por debaixo do comprido casacão entreviam-se umas pernas elegantes de gazela com pés pequenos, enfiados nas pesadas botas de camponesa, que os deformavam.

            Ela comeu depressa, sôfrega e avidamente. Tragou tudo misturado, as bolachas com o pepino; as cebolas com o chocolate; o chouriço com o ovo cru, o qual primeiro espetou com a ponta da faca e depois sorveu.

            Após a refeição, estendeu o copo e sorriu para Forster.

            - Queria mais um trago, Werner Antonovitch.

            - Bebe o que quiseres.

            -           Obrigada.

            Ela fechava os olhos enquanto bebia e ele admirou-a com uma sensação de felicidade.

            - Não iremos ao vagão-restaurante - decidiu ela. Um homem distinto como tu não deve expor-se, exibindo-se ao lado de uma... uma prostituta! Não ficaria bem.

            - Nesse caso, Fedja traz o pequeno-almoço ao compartimento. De resto, não indiquei com quem vou tomar as refeições. Sou um alemão livre!

            - Mas viajas num comboio soviético, Werner Antonovitch.

            Ela estava saciada, já não tinha sede e estava a ficar nitidamente cansada. De tal maneira que as suas pálpebras piscaram algumas vezes e teve dificuldade em mantê-las abertas na escuridão, quase adormecendo sentada, enquanto contemplava, lá fora, a taiga coberta de gelo, que ia passando.

            Forster deitou-a, com cuidado, na sua cama; arredou-lhe as pernas da almofada e aconchegou-a na cama.

            Ela sorriu-lhe agradecida, um sorriso de criança, no qual residiam todos os seus sonhos, voltou a cabeça um pouco de lado e adormeceu instantaneamente.

            A sua respiração tornou-se mais silenciosa, os últimos espasmos soltaram-se, o seu peito elevou-se e baixou-se num ritmo constante... Era a primeira vez, em três dias e três noites, que ela podia dormir despreocupada.

            Karsanov acordou por volta das sete horas da manhã.

            Forster tinha esperado por este momento e também se preparara para ele.

            Milda Tichonovna ainda dormia, deitada com as pernas encolhidas de lado. Perto do amanhecer, Forster tinha-lhe desabotoado um pouco a blusa azul-escura, para que assim ela pudesse respirar mais à vontade - mas apenas até ao início do peito. Depois de abrir a blusa teve medo; receou que ela o interpretasse mal quando acordasse.

            Karsanov espreguiçou-se, coçou o peito, tossiu com um pouco de catarro e descuidou-se.

            - Perdão, Werner Antonovitch! - desculpou-se de imediato. - Não tinha reparado que já estava acordado.

            Então endireitou-se e sentou-se na cama no seu pijama às riscas. Admirado, observou a rapariga desconhecida.

            - Quem é esta?

            - Milda.

            - O nome não vem ao caso! Como é que ela aparece na sua cama?

            - Como aparece alguém na cama de outra pessoa, Pal Viktorovitch. Metendo-se lá dentro.

            - Você hoje acordou muito espirituoso! - Karsanov examinou a rapariga com nítida repugnância. - Então não conseguiu controlar-se, meu caro? Pelo menos não trouxe para aqui aquela criatura horrível, Kiaschka. Sinto náuseas sempre que a vejo.

            Levantou-se, tirou o roupão e bocejou com abundância.

            Um agrónomo deve ganhar bem. Karsanov tinha três dentes de ouro, que cintilavam à luz clara da manhã.

            - Não quer acordá-la e tirá-la do compartimento?

            - Não. Por que haveria?

            - Porquê? Quer deixá-la criar raízes aí na sua cama?

-           Karsanov calçou as pantufas e arrastou-se até à porta.

-           Uma pessoa deve envergonhar-se dos hóspedes da

União Soviética que resolvem entregar-se a práticas tão

condenáveis e desordeiras num comboio! E este disfarce!

Parece uma camponesa! Jovem, não é?

            - Muito jovem, Pal Viktorovitch. Talvez ainda a possamos salvar da completa decadência.

            - Você acha! Eu não. As mulheres desta profissão são como carraças. Nunca se podem cultivar, apenas exterminar. Providencie para que ela já aqui não esteja quando eu voltar da casa de banho, Werner Antonovitch.

            Karsanov abriu a porta, saiu para o corredor, ainda olhou uma vez mais para a adormecida Milda, encolheu os ombros e afastou-se.

            Werner Forster nem considerou sequer a hipótese de acordar Milda. Cautelosamente, curvou-se sobre ela e beijou-a na testa. Ela nem se mexeu, apenas as suas pálpebras estremeceram muito levemente quando o seu corpo sentiu a ternura tímida daquele gesto.

            Antes de Karsanov regressar, apareceu Bons Fedorovitch Mulanov. Ironicamente, passou os dedos pelos lábios e enfiou a cabeça pela porta encostada.

            - Já tinha sido informado - cochichou ele. - Kiaschka já me tinha confidenciado que o senhor tinha trazido consigo uma aprendiza. Muito irregular... ainda não tinha presenciado nada assim. Mas os tempos modernizam-se muito depressa e é preciso habituarmo-nos! A mocidade é cada vez mais curta. Bom dia, camarada.

            - Bom dia, camarada revisor.

            - Chame-me simplesmente Boris Fedorovitch.

            Forster anuiu com a cabeça. Sentou-se perto de Milda, que ainda dormia, como um cão de guarda, daqueles que mordem assim que alguém se aproxima.

            - Pal Viktorovitch já está furioso - informou ele. Não se admire, Bons Fedorovitch, se ele fizer um grande escândalo com isto. Se Karsanov se comportar de um modo obsceno, eu dou-lhe pancada.

            - Vou reflectir sobre isso, camarada

            Mulanov abanou a cabeça, o seu bigode triste descaído sobre os lábios. "Dar pancada em Karsanov", pensava ele, "oh! Virgem Santíssima, vai trazer complicações! Há sete anos que faço este trajecto sem incidentes e, agora, aparece-me um! E que problema! Um alemão andar à tareia com Karsanov. E logo com ele! Se ele me desse uma bofetada, ainda vá, era uma agressão a um funcionário, embora fosse inadmissível. Mas logo Pal Viktorovitch?

Tornar-se-ia um assunto político da mais alta importância... "

            - Podia ter escolhido melhor, camarada - comentou Mulanov com à-vontade. - Está certo que Milda é uma rapariga encantadora, jovem e estaladiça como pãezinhos quentes acabados de sair do forno e, por isso mesmo, dá azo a conflito evidente! Quando já estiver madura tem de ir ter comigo. A Kiaschka disse que ela é ainda muito inexperiente.

            Mulanov precisou de seguir o seu caminho. Na carruagem cinco, a de luxo, com as elegantes cabinas de dormir, os passageiros acabavam de acordar. Era obrigação de Mulanov fazer as camas e transformá-las de novo em confortáveis bancos estofados.

            No vagão-restaurante já cheirava a chá e a café.

Aguardava-se um grande afluxo de pessoas para tomar o

pequeno-almoço.

            Karsanov regressou. Mal-humorado, como sempre, talvez em resultado da prisão de ventre que todas as manhãs o afligia. Ficou parado à porta, apontando, com o braço esticado, para Milda, que ainda dormia.

            - A puta ainda aí está!

            - Pal Viktorovitch, modere-se! - redarguiu Forster alto e claramente. - Milda é minha convidada!

            - Já lhe ouvi chamar muita coisa! - Karsanov entrou no compartimento e deixou a porta aberta. - Assim sempre areja um bocado. Cheira a mulher!

            - Você é um touro com ânsia de briga - replicou Forster em tom duro. - Você mesmo disse, quando nos

conhecemos, que tínhamos de viajar juntos durante dez dias e dez noites. Infelizmente... não podemos modificar a situação, a menos que eu troque com o cantor de ópera que o general quer fuzilar.

            -           Agradeço-lhe, Werner Antonovitch. - Karsanov fez uma careta. - A esse estrangulava-o logo. Que tanto canta ele a viagem toda, duas horas de manhã e duas à tarde? "Esta mãozinha está um gelo... " Quem é que consegue suportar? Prefiro uma coisa dessas... - Karsanov virou a cabeça na direcção de Milda e apressou-se a vestir-se. - Também já pensei sobre isto, Werner Antonovitch. Se você conseguir resistir este tempo todo...

            -           Um homem pode iludir-se, Pal Viktorovitch! Principalmente quando encontra uma rapariga como Milda.

            - Uma prostituta!

            Karsanov não teve dúvidas de que um homem vestido com um pijama às riscas não inspirava muito respeito. Enquanto fazia o nó da gravata, a sua dignidade ficou restabelecida.

            - O que é que você pensa fazer durante o resto da viagem?

            - O compartimento é suficientemente espaçoso para os três.

            Karsanov fitou Forster com sincero espanto.

            -           Você pagou a essa mulher o suficiente até Víadivostoque?

            - Claro que sim.

            "Deste-me uma boa ideia!", pensou Forster. "Porque não contratar uma prostituta por toda uma semana?"

            -           Devo aproveitar a rapariga toda para mim ou compartilhá-la com os outros homens que viajam no comboio? Isso pode não agradar a Kiaschka. Milda é a minha companheira privada de viagem.

            -           Vai ser bonito! - considerou Karsanov venenosamente. - Eu sou um homem moderno e de ideias esclarecidas, Werner Antonovitch, mas passar mais seis dias no mesmo espaço com...

            Karsanov remordeu algumas palavras zangadas e olhou lá para fora para a impenetrável taiga, inundada de sol e quase esmagada pela neve.

            -           Vão perturbar-me o sono.

            -           Só se você fizer questão em assistir!

            - Você é um bruto, Werner Antonovitch. Fiz de si uma ideia totalmente errada. - Karsanov tamborilou com os dedos na mesinha de desarmar e mostrava-se nervoso. - Estou a pensar se devo informar a milícia em Irkutsk, ou não.

            - Não deve fazer isso, Pal Viktorovitch.

            -           Oh! Isso é uma ameaça? - Karsanov debruçou-se sobre Forster. - Um alemão ameaça um russo num comboio soviético! Ah!

            - Eu quero a paz, Karsanov! Definitivamente!

            -           O que é que você tem contra a milícia?

            - E você o que tem contra Milda?

            -           Se nos bombardearmos reciprocamente com perguntas, não chegamos a lado nenhum!

            -           E porque não? Milda fica comigo! Isto é um facto consumado!

            Karsanov grunhiu algo incompreensível, levantou-se e saiu do compartimento.

            Forster pensou que ele se tinha ido queixar a Mulanov, ou retirado, com rancor, em direcção ao vagão-restaurante. Aí tomava o pequeno-almoço, irritava-se com Fedja e conspirava outra vilania.

            Forster ficou a matutar na sua discussão com Karsanov e não reparou quando Milda acordou.

            Quando a rapariga, tímida, lhe tocou no braço, ele

afastou-se e olhou para uma cara de aparência grotesca.

            A maquilhagem, que Kiaschka lhe tinha feito ao de leve, estava borrada. As cores garridas estavam todas misturadas. Forster sorriu com ironia e Milda tapou a cara com as duas mãos.

            - Não te rias! - pediu ela severamente. - A morte tem uma aparência menos divertida...

            - Tens de ir ter, imediatamente, com Kiaschka e pedir-lhe que te pinte outra vez. - Forster retirou-lhe as

mãos da cara e saudou-a com alegria. - Tiveste um sono espantosamente calmo, Milda. Foi melhor do que as expectativas.

            -           E Karsanov? Onde está ele?

            - Fugiu.

            -           E Mulanov?

            - Acreditou logo à primeira. Agora tens de discutir com ele a percentagem.

            Forster meteu a mão no bolso e tirou dez rublos.

            - Dá-lhos. Ele vai abraçar-te e chamar-te "filhinha".

            Ela olhou para as notas e pegou nelas com hesitação.

            Forster conseguia ler-lhe o olhar e adivinhou o seu pensamento: "Ele interessa-se por mim, protege-me e dá-me dinheiro - quando é que vai exigir uma recompensa? Não há ninguém que faça tudo de graça. Pelo menos eu não conheço...

            - Vai já ter com Kiaschka - disse ele e fechou-lhe a mão onde tinha colocado os rublos. - E em seguida procura Mulanov. É melhor fazeres isso, ou então...

            Ela acedeu, ergueu-se obediente, alisou o casacão com calma, abotoou a blusa até ao pescoço e afastou os cabelos negros e brilhantes da nuca.

            De repente, Forster sentiu medo de não voltar a vê-la. Teve receio de que ela se sumisse de novo no seu esconderijo misterioso, no qual tinha estado clandestina durante três dias. Não gostaria de ter de recomeçar as buscas. Com a diferença de que, desta vez, também Mulanov tomaria parte nas buscas, porque não iria querer perder a sua percentagem...

            - Voltarás, Milda? - perguntou ele.

            Ela acenou que sim com a cabeça e sorriu quase com tristeza.

            - Sim, Werner Antonovitch. Ainda vamos tomar o pequeno-almoço juntos...

            -           Só por isso?

            Ela olhou para ele com os olhos arregalados, não lhe deu resposta, virou-se abruptamente para a porta e saiu do compartimento à pressa.

            Werner Forster tinha pouco tempo para pensar sobre si e Milda, já para não falar na situação que se adivinhava pouco clara de resolver.

            Mulanov já tinha percorrido a parte de trás da carruagem e, ao fazer o seu serviço, viu que os convidados do Estado estavam sozinhos e forneceu-lhes as notícias mais frescas do dia.

            - Não há dúvida de que o comboio está esquisito nesta viagem - lamentou-se. - O camarada general está histérico. Repare: o tenor já começou os seus ensaios logo de manhãzinha! O general estava a dormir profundamente, quando acordou sobressaltado! Queria proibir todo o seu exército de entrar mais alguma vez numa ópera! E nunca tinha acontecido nada assim: e logo no comboio! Estou abalado!

            Forster pensava na incursão nocturna de Milda pelo comboio, através das carruagens, e abanou a cabeça.

            - O que é que foi roubado? - perguntou ele sem pensar. - Pão, um pepino, cebolas, chouriço... não se deve falar sobre isso, camarada revisor.

            - Cebolas e pepinos? Em que é que está a pensar, camarada?

            Mulanov alisou o seu bigode escorrido.

            - Uma senhora da carruagem dois deu por falta de um brinco! Foram-lhe à orelha enquanto dormia, um escândalo! E um patife roubou os sapatos a um senhor! Sapatos novos, ainda não tinham uma semana! Agora está sentado no seu lugar, em peúgas, completamente transtornado! Será que tem de sair descalço em Tchita? Vamos dar início a uma investigação. O director do comboio, Vitali Diogenovitch, e o meu colega, Wladlen Ifanovitch vão tomar parte nas buscas. Vai ser desagradável ter de dizer às pessoas: camaradas, abram as malas e mostrem-nos os sapatos! E a vítima, um homem chamado Dementi Michailovitch Skarnejkin, terá de andar connosco a examinar tudo, em peúgas! Um comboio estranho, desta vez, digo-lhe eu, camarada. - Olhou em volta. - Onde está Milda?

            - Está com Kiaschka. Logo a seguir vai ter consigo...

            - Nesse caso, tenho de apressar-me. - Mulanov cumprimentou muito direito e fechou a porta.

            Forster recostou-se e olhou pela janela.

            Floresta... floresta... floresta e por ela passavam os carris de via dupla, que pareciam cicatrizes infindáveis. Para além disso, apenas uma solidão branca, o sossego perfeito na neve gelada que cobria as árvores como uma insólita cobertura de açúcar. Estava um lindo dia!

            O sol frio e brilhante deixava a terra azulada a cintilar, como se estivesse salpicada de pequenos diamantes. O céu azul e sem nuvens era tão infinito como se só houvesse um único céu sobre toda a Rússia.

            Sibéria! Assim como se odeia, também se deve amá-la de todo o coração. Na paixão deste binómio amor-ódio é que reside o eterno mistério da taiga...

            Karsanov voltou. Tinha-se irritado com Fedja e com o cozinheiro no vagão-restaurante.

            Era o eterno martírio: o pequeno-almoço estava programado, planeado e desenrolava-se sem dificuldade. Mas é um problema quando uma pessoa quer mandar vir mais alguma coisa!

            Talvez uma fatia de pão, um pedaço de bolo ou apenas um ovo! Mais depressa chega um astronauta à Lua do que se obtém um ovo extra no vagão-restaurante do transiberiano! Demais a mais, com o desejo de que ele só tenha quatro minutos de cozedura!

            A cozinha sucumbiu quando Karsanov pediu, não só um ovo, mas também um pedaço de salsicha fumada e mel para adoçar o chá, que era efectivamente bom.

            Finalmente e ao fim de vinte minutos de espera, o ovo estava tão duro como uma pedra e a salsicha estava tristemente encarquilhada no prato. O mel nem sequer lhe chegaram a trazer.

            Gritou com Fedja cinco vezes e depois disso nunca mais o viu; ele permaneceu oculto por um tabique atrás da cozinha até que Karsanov se retirou.

            - Onde está Milda? - perguntou ele também, assim que entrou no compartimento.

            Forster acendeu um cigarro e estendeu o maço a Karsanov. Este hesitou, mas acabou por lhe pegar e observou a marca.

            -           Milda foi ter com Mulanov - respondeu Forster.

            -           Isto é de mais! Um funcionário a brincar aos proxenetas... O cigarro é americano?

            -           Exactamente.

-           Cheira como um traseiro de prostituta!

            -           Sempre pode atirá-lo pela janela, Pal Viktorovitch!

            -           E porque faria eu isso? Não tenho problema nenhum em fumá-lo! Em seguida, você vai fumar um dos meus. Um vigoroso cigarro soviético!

            Sentaram-se em frente um do outro, em silêncio por uns momentos, olharam lá para fora, para a taiga, e notaram que o comboio ia mais devagar.

            Havia neve sobre os carris e a locomotiva afastava-a para os lados, com um dispositivo especial.

            -           Já pensou? - perguntou Karsanov de repente.

            -           No quê? - indagou Forster, apagando o cigarro.

            Karsanov fumou o seu até ao filtro.

            -           Você quer mesmo alojar essa Milda no nosso compartimento até Víadivostoque?

            -           Não mudei as minhas intenções, Pal Viktorovitch.

            -           Quer então fazer desfilar uma grande pouca-vergonha diante dos meus olhos...

            - De maneira nenhuma! Façamos o seguinte: eu informo-o antecipadamente para você poder sair!

            -           Isso é de uma impertinência inaudita, sabia? Karsanov respirava com dificuldade pelo nariz. - Esperava um pouco mais de educação por parte de um alemão.

            -           Agradeço-lhe, mas as pessoas não são todas iguais. É que eu sou... do tipo erótico!

            -           Repugnante, Werner Antonovitch!

            -           Como quiser chamar-lhe. Eu sinto-me muito bem assim.

            Algumas casas de madeira iam deslizando lá fora e outras feitas de pedra estavam mergulhadas na neve. Surgiu uma pequena estação e o comboio parou.

            Era Tugun, uma das cidades da taiga, na qual tinham instalado linhas.

            Mais tarde foram viver para ali os cossacos, depois os voluntários sacrificados, amnistiados; deportados, que tiveram licença de partir quando se sacrificaram a ficar na Sibéria o resto da sua vida. E era assim o singular povo da Sibéria que ia crescendo, firme, como as árvores gigantescas da taiga.

            Mulanov saltou para a estação, bastante limpa. Dois outros funcionários do comboio seguiram-se-lhe, precisamente Vitali Diogenovitch e Wladlen Ifanovitch. Discutiam acaloradamente sobre os roubos, dirigiram-se aos escritórios da estação e voltaram com um miliciano, o qual parecia muito ciente do seu ofício.

            - Agora ele vai trazer aquelas putas pelo colarinho!

-           gritou Karsanov com regozijo. - Bravo! Ainda há funcionários cumpridores!

            - Não é nada disso. Tudo isto é por causa de uns roubos que houve no comboio.

            - Quem foi que lhe disse?

            - Mulanov. Foram roubados um brinco e um par de sapatos novos, de homem.

            - Deviam procurar debaixo das saias de Kiaschka e Milda, pois se calhar ainda encontram lá mais qualquer coisa!

            - Estou convencido disso - concordou Forster. Diga-me Pal Viktorovitch, para que diabo quereriam as raparigas sapatos de homem?

            - Para vender! Para que mais havia de ser?

            - A situação na União Soviética é assim tão má, para que uns sapatos usados sejam uma boa mercadoria para vender?

            Karsanov olhou para Forster tão zangado que deixou cair o resto do cigarro no cinzeiro.

            - Deve evitar essas insinuações infundadas, Werner Antonovitch! - declarou Karsanov de um modo grosseiro. - Será que no Ocidente não há negócio de mercadorias usadas?

            A porta abriu-se com violência e Milda precipitou-se para dentro do compartimento, deixando-se cair na cama de Forster. O seu rosto, maquilhado de novo por Kiaschka, exprimia um medo visível.

            - A milícia! - balbuciou ela. - Werner Antonovitch, a milícia está a dirigir-se para o comboio! - Ela ainda tinha os rublos na mão.

            - Ah! - berrou Karsanov triunfante. - Agora sempre estremece mais alguma coisa para além do peito! Não tarda o comboio ficará desinfectado de bichos!

            -           Cale essa boca, Pal Viktorovitch!

            Forster inclinou-se para o russo. As suas cabeças estavam agora muito próximas. os olhares desafiando-se:

            - Temos de ficar juntos até Víadivostoque... E ainda falta tanto tempo...

            - Isso será, por acaso, uma ameaça? - arfou Karsanov.

            - Chame-lhe o que quiser.

            -           Você não sabe quem eu sou!

            - É-me completamente indiferente!

            - Mesmo sendo um convidado do Estado, você não pode permitir-se fazer tudo o que lhe apetece!

            - Tenho o direito de ter uma companheira de viagem, nada mais. E você, que perturba a paz?! Sou um homem calmo, mas se arranjar problemas a Milda, então vai ver o meu outro lado! Fique sabendo que, mesmo no seu país, faço questão em defender totalmente a minha liberdade como ser humano. Caso contrário, isto vai tornar-se num assunto político...

            Forster recostou-se e passou o seu braço em volta dos ombros magros de Milda. Ela tremia de medo e aninhou-se naquele abraço protector.

            Kasanov observava com os dentes cerrados e a ranger a polícia a subir para o transiberiano.

 

            Uma pessoa tem de compreender a grande aflição por que Dementi Michailovitch Skarnejkin passou quando lhe roubaram os sapatos e aguentar os seus gritos.

            Tirou-os à noite, como qualquer outra pessoa de bem, dobrou o fato, colocou os sapatos debaixo da cama e enfiou-se debaixo da coberta para dormir descansado. Confiava na honestidade socialista dos seus companheiros de viagem e o que é que encontrou na manhã seguinte, ao acordar? Nada! Os sapatos tinham desaparecido!

            "Uns sapatos novinhos em folha", disse-lhes ele, "admirados por toda a família!"

            Como se alguém pudesse adivinhar!

            Ainda à despedida, na estação de Omsk, Lydia, a filha mais velha, lhe dissera:

            - Paizinho, vigia bem os teus sapatos. De certeza que vão olhar os teus pés com inveja! Neste mundo há mais invejosos do que amigos!

            Palavras sábias! Era uma rapariga inteligente, a sua Lydia. Também estudava filosofia.

            - Em que país nós vivemos! - vociferou Skarnejkin de imediato. Estava à porta da carruagem, em peúgas e com o rosto vermelhissimo.

            A porta que dava acesso ao seu compartimento encontrava-se aberta. Os companheiros de viagem estavam de cócoras, aflitos, ao pé dos bancos abertos e transformados em camas.

            -           Se as coisas continuarem assim, não tarda roubam-nos as ceroulas!

            -           Acalme-se! - berrou o polícia mais velho, levantando a mão energicamente.

            Mulanov lançou um olhar desesperado na direcção do seu director do comboio, Vitali Diogenovitch.

            O seu colega, Wladlen Ifanovitch, já tinha sido chamado duas vezes à carruagem onde se encontrava a senhora que fora roubada. Assim que viu a milícia, começou a faltar-lhe o ar e a

lamentar-se:

            -           O meu brinco! É uma peça herdada desde há já quatro gerações! Quem me ajuda? Sou apenas a pobre viúva de um general...

            -           Vamos proceder sistematicamente! - informou o polícia a Skarnejkin, e tirou um bloco de notas do casaco do uniforme. - Como se chama? Onde mora? Mostre-me o seu passaporte!

            - Sou eu o ladrão, porventura? - vociferou Skarnejkin. - Também tenho de ser interrogado, como se tivesse atirado com uma bomba para o Kremlin? Aqui está.

            Encostou-se à parede e levantou uma perna. A parte de baixo das meias estava suja.

            Aparentemente, o comboio não estava tão limpo como devia. Mulanov examinou as meias, após o que desviou o olhar, comovido.

            -           Isto não é uma investigação policial? Alguém, aqui no comboio, tem os meus sapatos! Investiguem: eu sou director de uma fábrica de sabão! É com os meus sabões que Brejnev lava as mãos!

            -           Ele tem razão - confirmou o polícia, e olhou muito sério para Mulanov e para o director do comboio. - O ladrão tem de estar ainda no comboio! Ninguém desceu e se houve quem já tivesse saltado para o meio da taiga, foi por causa destes malditos sapatos velhos...

            -           Velhos coisa nenhuma, eram sapatos maravilhosos!

-           Skarnejkin voltou a pôr a perna para baixo. - O que é que vai fazer, camarada?

            -           O que é que vamos fazer? - O polícia consultou o relógio de pulso. - O comboio ainda pode esperar mais dez minutos. Tenho de sair outra vez. Não tenho ordem para deixar seguir o comboio.

            -           Não pode viajar connosco, camarada! - gritou o pobre Dementi Michailovitch, enquanto esticava os braços, indignado. - Tem de me devolver os sapatos em boas condições! Não trago mais nenhum par. Quem é que vai pensar em viajar com um malão cheio de sapatos, quando se vai somente a uma conferência? Se calhar devo percorrer Tchita em peúgas?

            -           Em Tchita também há sapatos - disse o miliciano filosoficamente.

            -           E quem é que os paga, hen? Eu? Não! Nem pensar, camaradas! Passo a noite num comboio do Estado e sou roubado num comboio do Estado: é o Estado que tem de pagar o prejuízo! Fui claro?

            Mais claro não podia ser.

            De qualquer maneira, a polícia nada podia resolver e também não havia ali ninguém que pudesse dar os rublos a Skarnejkin para comprar sapatos novos. E se alguém competente estivesse presente, então, antes de mais, haveria uma montanha de impressos que tinham de ser preenchidos primeiro.

            Conseguiria fazer-se tudo em dez minutos durante uma paragem imprevista numa solitária estação da taiga?

            O revisor Wladlen Ifanovitch vinha a correr da carruagem número dois. Estava pálido e o corpo tremia-lhe todo.

            Ainda por cima, a locomotiva soltou um apito estridente, como quem queria dizer: "Continuemos, camaradas! Já tivemos atrasos suficientes entre Irkutsk e Víadivostoque. Há que compensá-los. Haverá tempestades de neve difíceis de esquecer. Temos de continuar, camaradas!"

            - A senhora teve um ataque! - gritou Wladlen. - Maldito brinco! E ainda temos de aguentar a conversa do brinco que veio lá do tempo dos czares! Como se isso fosse argumento! Um brinco do tempo da escravatura! Mas a senhora é viúva de um general, o que complica tudo. Chama-se Olga Federovna Platkina. Exactamente, a mulher do general Platkin! Ela exige que eu reviste todos os passageiros e que procure o raio do brinco!

            - E eu exijo que achem os meus lindos sapatos novos! - berrou Skarnejkin. - O comboio não deve prosseguir! Não há aqui neste sítio mais nenhum funcionário para além daqueles idiotas?

            Foi um erro.

            O polícia fuzilava-o com o olhar como se tivesse sido picado por uma tarântula. Fitou todos os camaradas com raiva, fechou o seu bloco de apontamentos e abriu a porta do vagão com violência.

            - Prossigam a viagem! - gritou ele friamente e com enorme desdém. - Um par de sapatos não dá a ninguém o direito de insultar um funcionário!

            Saltou para a neve e fechou a porta, antes que Skarnejkin pudesse recomeçar a gritaria.

            Realmente o comboio arrancou de novo, a marcha tornou-se mais rápida e deixou a solitária estação da taiga, na qual apenas costumavam parar comboios de madeira ou aquelas composições reduzidas que transportavam os camponeses para os mercados.

            - Isto requer uma reclamação! - disse Skarnejkin, e andava de um lado para o outro, em peúgas, no seu compartimento. - Brejnev lava as mãos com o meu sabonete, não se esqueçam disso, camaradas!

            Mulanov deixou ao director do comboio, Vitali Diogenovitch, a tarefa de acalmar Skarnejkin. Era para lidar com esse tipo de situações que ele ganhava mais.

            Quanto a Mulanov, foi lá para trás, para a carruagem do Estado, e abriu por completo a porta do compartimento de Karsanov. Milda fitou-o com uns olhos enormes e cheios de medo e enroscou-se em Werner Forster.

            - Ah! Agora estás perdida! - gritou Karsanov, esfregando as mãos. - Entre, Bons Fedorovitch! Onde está a milícia? Prenda finalmente esta mulherezinha!

            - Porquê?

            Mulanov deixou-se cair no banco ao lado de Forster. Achava o alemão simpático; um homem com quem se podia conversar e com paciência para ouvi-lo. Exactamente o oposto do nojento Karsanov, que queria ter sempre razão e - muito suspeito! - tinha telefonado para Moscovo pelo telefone do comboio.

            - Detenções é o que vamos ter logo que chegarmos a Irkutsk. Até lá temos de encontrar sozinhos o criminoso! Não pode ter saído do comboio. Está como numa ratoeira.

            - Reviste o quarto desta mulher! - exigiu Karsanov severamente, e apontou para Milda. - Ela exala medo pelos olhos!

            - É mas é medo de um homem como você! - replicou Forster em voz alta.

            Afastou o cabelo de Milda do seu rosto pálido e magro. Olhou para ela com ternura e Mulanov admirou-se

de como era possível ter-se para com uma mera prostituta um contacto tão intimo.

            "Mas os Alemães devem ser mesmo assim", pensou ele. "Sempre com o sentimento à flor da pele para com uma pobre alminha. Nisso somos tão parecidos, camarada: nós os Russos e vocês os Alemães!"

            -           Milda Tichonovna não tem nada a ver com isto! - declarou Mulanov com presteza.

            - Ah! Você já sabia? - rosnou Karsanov.

            - Sim, já sabia. Há testemunhas que podem prová-lo.

            - Que testemunhas? Werner Antonovitch! Ora, ele pagou-lhe! Kiaschka? Que diabo, quem vai acreditar nela? Aqui neste comboio, para além dos quartos destas mulheres, há passageiros importantes e honestos. Duvida disto, Mulanov? Ou foi alguém do pessoal do comboio?

            - Pal Viktorovitch, isso não é coisa que se diga - declarou Mulanov solenemente.

            - Então quem é que resta? É lógico?

            - a mesma lógica do macaco que prefere comer bananas em vez de cocos, porque as bananas são mais fáceis de descascar! - retorquiu Forster. - Mulanov, leve Milda consigo e tenha com ela uma conversa sensata. A milícia já se foi embora?

            -           Claro. Ela não pode ir até Irkutsk de graça, sem autorização...

            Milda levantou a cabeça. Os seus olhos eram suplicantes. Não queria ir, tinha medo, mesmo quando Mulanov lhe piscou o olho, amigavelmente.

            Era óbvio que ele queria acertar a percentagem no negócio e fazer os possíveis por cobrar já a primeira prestação.

            "Humilhante", pensou Milda. Era difícil acostumar-se a que tivesse de tornar-se prostituta de uma hora para a outra...

            Lá fora continuava a deslizar a taiga silenciosa e coberta de neve. Um conjunto de árvores gigantescas congelavam no imenso gelo.

            O Sol era quase branco, sem cor, como uma pilha de sorvetes luminosos.

            - Temos de proceder sistematicamente - disse Mulanov. - Carruagem por carruagem. Que situação ridícula! Tenho de o admitir. Quem roubou um par de sapatos e um brinco? Quem é que necessita disso neste comboio? Deve ser uma pessoa doente, um cleptomaníaco. É preciso descobrir o ladrão pelos seus olhos inquietos. - Apontou para Milda, que se tinha erguido devagar e estava à porta de cabeça baixa. - Ela tem olhos inquietos, Pal Viktorovitch. Uma pobre avezinha é o que ela é, que tem de ganhar a vida arduamente. - Levantou-se de um pulo, deitou um olhar a Forster e deu o braço a Milda. - Vamos, pombinha!

            Milda virou a cabeça mais uma vez e olhou para Werner Forster.

            Ele apaziguou-a, acenando-lhe com a cabeça, e então ela foi, obediente, com Mulanov e fechou a porta atrás de si.

            -           Corrupção por toda a parte! - exclamou Karsanov e recostou-se no assento.

            Bebeu vagarosamente o seu leite descongelado, fazendo-o passar algumas vezes entre os dentes, o que provocava um ruído sibilante. "Provavelmente está a lavar os dentes", pensou Forster enojado.

            -           Bandidos por todo o lado! - Karsanov pôs as mãos nos quadris e aí tamborilou com os dedos. - Werner Antonovitch, o que acha você de tão desejável em Milda Tichonovna? Ela é um manequim esfomeado, nada mais. Jovem, naturalmente e, se a alimentarmos bem, podem arredondar-se-lhe mais as formas... e depois? Não tenha vergonha em ser um homem tão robusto ao lado de um vermezinho. - Fez um gesto inequívoco com a mão e ofegou indignado.

            - Não! - respondeu Forster tranquilo. - Mas agora estamos sozinhos, você já tomou o pequeno-almoço...

            -           Foi péssimo, manifestamente mau! O chá parecia água de lavar pratos, o ovo era da idade da pedra lascada, o pão, esse, deslizava nos dentes de tão escorregadio que era!

            - Nada disso é culpa de Milda! - Forster ofereceu, de novo, ao russo os seus cigarros americanos e Karsanov tirou um, se bem que achasse que cheiravam mal.

- Por que razão se atira tanto a Milda, Pal Viktorovitch?

            -           Quem se atira a ela é você, não eu! à minha frente, seu porco! No entanto, eu estava a dormir...

            - Então só se pode dizer: que pena!

            Karsanov fumava irritado.

            -           O que quer você de mim? - quis ele saber após três baforadas profundas e lentas. - Tenho de aguentar essa rapariga aqui no meu compartimento a executar o seu ofício?

            Interrompeu-se.

            Pavoneava-se pelo corredor um homem alto, gordo, com um cachecol de lã à volta do pescoço. Não era uma coisa invulgar, mas este homem cantava a plenos pulmões e não se importava nada com o facto de as portas dos compartimentos se abrirem de repente e as pessoas olharem para ele completamente atónitas.

            - "Pai, mãe, irmãs, irmãos não quero mais este mundo... " - cantava ele. Tinha uma linda voz de tenor.

            - Mais um alienado! - exclamou Karsanov.

            -Undine...

            - O que é que ele disse?

            - Está a cantar uma ária de Lortzing, Undine.

            - Agora pode compreender-se que o general o queira fuzilar. Estas pessoas só deviam viajar no vagão das bagagens! Além disso, Werner Antonovitch, não gosto de Milda Tichonovna!

            - Melhor para mim, Pal Viktorovitch.

            -           Não digo como homem. Isso pode ser discutível.

Refiro-me à sua presença no comboio, que é estranha.

            Karsanov puxou mais uma baforada do cigarro americano, mas nunca admitiu que isso era um prazer.

            Forster observou o russo com atenção. Aquilo que ele tinha acabado de dizer há pouco, era, na verdade, muito perigoso!

            Havia qualquer coisa em Milda que parecia, de facto, invulgar. Isso acontecia mesmo a quem não sabia que ela viajava no comboio clandestinamente: que se tinha mantido escondida e só à noite, quando todos dormiam, é que ia procurar comida, que depois roubava.

            Kiaschka até tinha comentado com Forster, quando ele a levou até ela: "Meu bem, estamos como uma carraça sobre a pele. Isso é mesmo necessário?" E ele respondera em voz baixa: "Eu só quero que ela se sinta segura aqui ou onde quer que seja."

            Mas para onde queria ela ir? Disse que queria saltar para a taiga. Em qualquer lugar. O mundo é muito grande. Deve haver um lugar onde uma pessoa possa viver tranquila.

            De onde vinha ela? De Sverdlovsk? Fora aí que ela estava à espreita na estação e saltara para o comboio como um gato selvagem. Não tinha cara de quem tivesse vivido na grande cidade de Sverdlovsk. O que é que levava uma pessoa como Milda a esconder-se, precisamente, no Expresso Transiberiano?

            - Ela não se parece nada com uma puta - disse Karsanov subitamente e foi uma frase que Forster sentiu como se fosse um murro. - É isso! Apesar da pintura e do aspecto... não se parece nada com nenhuma! E para mim, isso é evidente.

            - Você deve ter uma grande prática em lidar com prostitutas! - insinuou Forster.

            - Elas já não me provocam, Werner Antonovitch! Mesmo para um homem como eu, casado, fiel e que despreza este tipo de mulheres. Tenho um olho clínico para distingui-las!

            - Quem sabe se não é porque Milda está agora a começar? É a sua primeira viagem! Daqui a dois anos parecerá outra! Depois você irá chamá-la com um estalar de dedos!

            -Não, não!

            Karsanov abanou a cabeça. Esmagou, com cuidado, o que restava do cigarro no rebordo do cinzeiro por baixo da janela.

            - Como ela está caída por si e se afeiçoou e como você quase que rasteja aos pés dela, é outra coisa! Porque tem ela medo? Você viu Kiaschka com medo da milícia? Sendo já conhecida por meio comboio? Mas a sua avezinha, considerando que é realmente inocente do pecado do furto, encolhe-se de medo sempre que vê uma farda.

            - Há pessoas que, só por verem um uniforme, sentem um medo terrível, quase sagrado. Tive uma tia em Gelsenkirchen que tratava o homem do gás como um general, e só porque ele usava na cabeça um boné com as insígnias da cidade.

            - Não queira desviar a minha atenção com a história da sua tia, Werner Antonovitch!

            Karsanov contemplava as árvores cobertas por uma espessa camada de neve e o extenso céu azul-claro, lá em cima. A região era acidentada, imensa e solitária.

            - Que aspecto tem uma prostituta? Acima de tudo, provocante, irritante com as suas roupas. E Milda é uma rapariga com trajes de camponesa, botas resistentes, meias grossas, casacão... Além disso, o lenço de cabeça parece do século passado, velho e desbotado... E uma pessoa vai nessa conversa, mesmo como sendo principiante? - Inclinou-se para a frente. O seu rosto astuto parecia-se com o de uma raposa. - Querem enganar-nos, é o que é! Sabe o que é que eu vou fazer quando Milda regressar? Vou submetê-la a um interrogatório rigoroso!

            - Está a esquecer-se de que Milda é minha convidada! - "Não é parvo", pensou Forster. "Menosprezei-o. - Quer apertar com Milda para ver se ela se enerva." Não tem o direito de interrogar a rapariga! - continuou Forster, mordaz.

            Mas Karsanov acenou com a cabeça várias vezes.

            - Cada cidadão soviético é obrigado, camarada, a intervir se o povo causa prejuízo na sua profissão! Esta Milda não é um malefício? Não é uma ferida nos corpos das nossas cidades? É o que iremos ver! Lenine incitou-nos a percorrer a vida sempre com os olhos vigilantes...

            Ao longo do corredor caminhava o general soviético. Usava uma farda, mas tinha, no entanto, desabotoado os botões de cima.

            Estava um calor sufocante no comboio, a ventilação estava realmente regulada, mas no tecto as clarabóias pareciam estar congeladas. O gelo da taiga era mortal.

            O general ficou especado à porta do compartimento. Reflectiu por uns momentos e depois abriu-a.

            Karsanov levantou-se de um pulo, enquanto Forster cruzou as pernas. Pal Viktorovitch observava a cena com as sobrancelhas franzidas.

            - Aquele idiota que canta passou por aqui? - perguntou o general. Parecia que andava à caça para, finalmente, poder eliminar o tenor.

            Karsanov acenou com a cabeça, solícito.

            -           Há coisa de um quarto de hora, camarada general. Estava a cantar...

            - Que mais podia ele estar a fazer? - O general entrou no compartimento e sentou-se no banco estofado ao lado de Forster. - Temos de fundar uma sociedade de interesses comuns, camarada. Só assim conseguiremos que ele deixe o comboio em Irkutsk! Se nos unirmos, conseguiremos que se mantenha afastado da nossa sociedade e assim já não perturbaria os nossos nervos com a sua cantoria.

            Olhou para Forster, que retirava da sua pasta uma pequena garrafa de conhaque. Tirou-lhe a rolha e deitou um pouco num copo de plástico.

            Notou que Werner Forster não se tinha impressionado com a sua agitação. Enquanto Milda não estivesse outra vez com ele, não tinha tempo para ter medo. Os seus nervos já estavam preparados para a luta.

            Mas agora soltara-se a ansiedade e ele via como estava próxima uma catástrofe.

            - à sua saúde, camarada! - disse o general quando Forster começou a beber o conhaque.

            - Ele é alemão! - elucidou Karsanov, e isso soou como se ele tivesse dito: "ali, no bonito banco estofado está uma estrumeira!"

            O general mirou Forster com mais atenção.

            - Que tal acha a União Soviética?

            - É um país imponente!

            - Está de regresso?

            - Sim. Vou até Víadivostoque e depois ao Japão. Esta viagem é para mim um sonho de criança, tornado realidade! Só é pena que haja sempre, por toda a parte, coisas difíceis de engolir...

            A alusão foi clara e Karsanov compreendeu-a muito bem. Respirou com força pelo nariz e sentou-se calado.

            O general entendeu o reparo de outro modo.

            - O tenor! - gritou ele quase com alegria. - Tem razão, camarada! Também o consegue ouvir? Começa logo de manhã às sete horas. "Esta mãozinha está um gelo..." Hoje de manhã começou às oito! Com isto, fico na cama, acordado desde as sete horas e aguardo pela altura em que aquele cão começa a cantar! É sadismo, meus senhores! Até eu começar a ficar nervoso: porque é que ele não canta (podia ficar doente, rouco ou suceder-lhe qualquer outra coisa) mas sim uiva? Mas não é a Bohême, não, desta vez o sujeito canta a Undine! "Pai, mãe, irmãs, irmãos... "

            - Nós ouvimos - confirmou Forster. - Quer um conhaque, senhor general?

            -           Aceito, com prazer. É russo?

            -           Não. Espanhol!

            - Espanhol! Conhaque de um país onde há uma ditadura? A que é que sabe? A aço e a ferro?

            - Experimente! Macio como a mão carinhosa de uma mulher...

            -           Ele deve saber! - interveio Karsanov, venenoso.

- O camarada alemão percebe disto! Que lhe parece, camarada general? Enquanto eu durmo, na ignorância, ele traz para dentro do nosso compartimento uma prostituta!

            - É imperdoável que você tenha adormecido! - O general

riu-se, pegou no copo de plástico, aspirou o cheiro do conhaque e bebeu-o com goles pequenos e repletos de prazer.

            "Um homem com quem se pode conversar", pensou Forster aliviado. Não adiantou nada a Karsanov querer interessar o general por Milda.

            - Admirável, este espanhol! Mas o nosso conhaque russo é melhor - disse ele ao pousar o copo.

            - Naturalmente!

            Forster acenou com a cabeça delicadamente e rolhou de novo o frasco de viagem. Karsanov, que não bebia álcool, saboreava o resto do seu leite descongelado pelo pacote.

            - Presumo, senhor general, que o senhor vai percorrer o comboio e recolher assinaturas contra o tenor?

            - É o que tenciono fazer! - O general agarrou no casaco do uniforme e tirou de lá um papel dobrado. Antigamente era mais fácil! Bastava uma ordem... e zás, aquele sujeito ia lá para fora! Mas hoje? Tornou-se tudo muito frouxo, muito liberal. A humanidade! Está toda efeminada. Sabem o que me respondeu aquele revisor, o Mulanov, quando eu exigi que ele chamasse o tenor à atenção? "Camarada general, Kostja Abramovitch Vorobjev tem um bilhete válido como o senhor e registado até Chabarovsk. Não se pode fazer nada!" Foi o que me disse aquele cretino, meus senhores. Kostja Abramovitch Vorobjev é como se chama aquele canalha do cantor!

            - Um cantor famoso! - Karsanov cometeu um erro imperdoável ao dizer isto, e quando deu pelo deslize era demasiado tarde. Ia precisamente acabar a frase, quando o general esbugalhou os olhos. - Ouvi-o em Moscovo, no Teatro Bolschoi, interpretar o Trovador. As pessoas rejubilaram e aplaudiram de pé...

            - Eu não rejubilo! - gritou o general irritado. Desdobrou o papel e espetou com ele debaixo do nariz de Karsanov.

            - Vai assinar, camarada?

            - Evidentemente que sim!

            Pal Viktorovitch apressou-se a ir buscar uma esferográfica ao seu casaco e inscrever o seu nome no abaixo-assinado. Depois estendeu a caneta a Forster.

            O general fez que não com a cabeça.

            - O nosso hóspede alemão não deve incomodar-se com os nossos problemas internos, como soviéticos que somos - disse ele. - Deve viajar sem preocupações. Se, por causa disso, ele se sentir molestado, camarada...

            - Não por causa do tenor - disse Forster. - Existem outras coisas...

            - Tem alguma reclamação a fazer, camarada? O general dobrou o papel e voltou a pô-lo no bolso.

            Karsanov estava com os cabelos em pé.

            - Werner Antonovitch refere-se aos ovos no

vagão-restaurante. Estão demasiado cozidos! E o café, muito fraco! E o pão, esse nem sequer se pode...

            - Tornou-se tudo muito frouxo, é o que sempre digo, meus senhores! - O general levantou-se. - Tive muito gosto em

conhecê-lo! Quem sabe não possamos vir a jogar juntos uma partida de xadrez! - Saudou-os e saiu do compartimento.

            Karsanov esticou as pernas e deitou um olhar zangado a Forster.

            - Você quis meter-me em apuros, não foi? - perguntou ele com voz rouca. - Mas não conseguiu! Os generais também podem ser idiotas, como viu. Uma farda não protege contra a esclerose. Você não é uma pessoa muito perspicaz, Werner Antonovitch!

            - Podemos até vir a ser os melhores amigos, se deixar Milda em paz.

            - E se eu não o fizer?

            - Vou jogar xadrez com o general.

            - Você não sabe jogar!

            - Precisamente. Irei dizer que você me põe tão nervoso que perco totalmente a noção lógica das coisas.

            - Indecente! Vergonhosamente indecente!

            Karsanov olhou pela janela. Floresta e mais floresta

-           infindável, a floresta mergulhada em gelo.

            - Vai ser uma linda viagem!

            - Já está a sê-lo.

                        Depois calaram-se os dois.

                        Olharam através da janela. Fizeram-no como se cada um deles estivesse sozinho no compartimento. Mas ambos sabiam que era apenas uma pausa para respirar. A sua guerra privada, cada vez mais tenaz, iria continuar...

 

 

                        Milda entregou a Mulanov a sua suposta percentagem, o dinheiro que Forster lhe havia oferecido. Com ele obteve a legitimidade de poder passar a "trabalhar" neste comboio.

                        Neste momento estava sentada com Kiaschka no compartimento desta última. O casal idoso ainda se encontrava a tomar o pequeno-almoço no vagão-restaurante e a jovem e tímida rapariga, que tinha de assistir à actividade nocturna de Kiaschka, estava sentada à janela e mastigava uma grande maçã.

                        -           Quem és tu? - perguntou Kiaschka baixinho.

Tinha-se pintado outra vez e usava um vestido com um decote enorme e pronunciado, o qual era exagerado mesmo para uma pessoa da sua condição.

                        Mulanov tinha olhado fascinado para o começo do seu peito voluptuoso e dissera:

                        - Pensa, minha pombinha, que também há crianças no comboio. Não deixes chegar ao ponto em que os pais delas te queiram bater.

                        -           Tu sabes muito bem quem eu sou - respondeu Milda à pergunta de Kiaschka. Encostou-se a um canto da parede e o seu rosto pálido, embora pintado, provocava uma profunda compaixão em todos aqueles que sentissem a consciência pesada.

                        -           Sei qual é o teu nome, mas se é o verdadeiro, isso já eu não sei. Acho que já pensei o suficiente sobre isso. És uma fugitiva?

            - Fugitiva? - Milda ainda se fechou mais em si. - De que fugiria eu?

            - E eu é que sei? Ninguém viaja clandestinamente no transiberiano para ir visitar uma tia algures...

            - Quando não se tem dinheiro...

            - Então também não se pode ter nenhuma velha tia a morar longe! Esquecemo-la.

            Kiaschka começou a pintar as unhas das mãos. O cheiro acentuado e adocicado do verniz propagou-se rapidamente pelo compartimento aquecido. Era um verniz vermelho luminoso com um efeito de madrepérola.

            - Não me queres dizer o que se passa contigo?

            - Não queiras saber, Kiaschka, é melhor assim! Também é melhor para ti...

            Mulanov deitou uma olhada para dentro do compartimento.

            Tinha estado com o director do comboio e veio a saber que, nas carruagens números um e dois, as investigações estavam em pleno andamento.

            Vitali e Wladlen estavam numa posição difícil. Onde quer que eles aparecessem e pediam que se abrissem as malas, encontravam sempre resistência. Todas as pessoas se ofendiam por serem suspeitas e com razão.

            Quem teria necessidade de roubar os sapatos novos a este senhor Skarnejkin? E também um brinco? Para que quereria uma pessoa só um brinco? Ainda se fossem dois! Ninguém tem só uma orelha!

            Um companheiro de viagem de Skarnej kin tinha-lhe emprestado, com simpatia, um par de pantufas, com as quais ele acompanhava Vitali e Wladlen. Já tinha outro aspecto. Skarnejkin contava a toda a gente a história dos seus sapatos, que lhe tinham custado quinze rublos e que era com os seus sabonetes que o camarada Leonid Brejnev lavava as mãos...

            - Têm de estar aqui no comboio! - gritava ele em todos os compartimentos. - Camaradas, não impeçam o

rumo da justiça! Ninguém é suspeito, mas é preciso continuar a procurar, não é verdade?

            Foi comovente quando ele se encontrou, na carruagem dois, compartimento quatro, com a viúva do general, Olga Federovna Platkina, que também tinha sido roubada. Abraçaram-se, choraram juntos e depois amaldiçoaram o ladrão.

            - Preciso procurar na carruagem lá de trás - disse Mulanov com azedume.

            - Que absurdo! A primeira classe! Admite-se que vivemos numa sociedade sem diferença de classes, mas numa questão de roubo, é preciso distinguir o que é importante e o que é irrelevante!

            Ele mirou Milda, a quem Kiaschka já tinha pintado as unhas.

            - Presta atenção a Karsanov - aconselhou o revisor.

- Comporta-se como se tivesse bebido ácido. É um homem sinistro. Perguntei à telefonista, de empregado para empregada, como um segredo profissional, se ele tinha telefonado para Moscovo! E falou com quem? Com o Ministério do Interior! à noite! Um professor de agronomia! Uma pessoa conversa à noite sobre o quê? Sobre o cultivo do feijão? É um autêntico quebra-cabeças

            Mulanov fechou a porta e continuou o seu caminho.

            - Tenho medo, Kiaschka - disse Milda baixinho.

            - Werner Antonovitch proteger-te-á.

            - O que é que ele pode fazer? Eu não posso continuar neste comboio.

            - Esse reparo vem tarde de mais.

            Kiaschka acabou de pintar as unhas, pegou nas mãos de Milda e agitou-as no ar, para que o verniz secasse mais depressa.

            Milda deixava que lhe fizessem tudo, agia como se fosse uma boneca.

            - Ele não é um homem bonito? - perguntou Kiaschka subitamente.

            - Quem?

            - Werner Antonovitch. - E como Milda se calasse, Kiaschka continuou: - Apaixonaste-te por ele. - Disse isto em tom de conspiração.

            - Não é verdade! - Milda tirou as suas mãos das de Kiaschka com um safanão.

            - Também não podes mentir! - Kiaschka riu-se em voz baixa. - Mas ele está apaixonado por ti!

            - Impossível!

            - É fácil perceber quando se olha para ti. Ele vai contigo até Víadivostoque?

            - Sim.

            - E isso porquê, sua idiota?

            - Ele é um homem bondoso...

            - Não há homem nenhum que ofereça seja o que for a uma rapariga sem esperar nada em troca. Fixa isto! - Kiaschka fechou a bolsa das pinturas e atirou-a para a rede das bagagens. - Repara bem nos seus olhos! São todos iguais! Arregalam os olhos como bezerros e aí já se sabe em que é que estão a pensar...

            - Werner Antonovitch é diferente!

            Milda levantou-se de um salto. De repente, o seu pequeno rosto corou e até mesmo os seus olhos escuros brilharam coléricos.

            - Tu só conheces uma espécie de homens...

            - Ela ama-o! - Kiaschka riu-se e bateu nas suas próprias coxas gordas. - É mais do que evidente que ela o ama! Até já se transformou num diabinho, mal se tocou no nome de Werner Antonovitch...

            Milda arregalou os olhos com um gesto violento e saiu a correr. O riso oculto de Kiaschka perseguiu-a enquanto descia o corredor.

            "Ela é nojenta", pensou Milda, "ordinária e nojenta." Por que tinha ela que pronunciar aquelas coisas? Que sentido é que aquilo fazia, estar apaixonada por Werner Antonovitch? Daqui a seis dias embarcaria no navio para o Japão e nunca mais o veria. Nunca mais...!

            Parou e encostou a cara ao vidro frio da janela do corredor.

            Lá fora, a taiga estava muito próxima da linha férrea

- e muito próxima da floresta sufocante, toda coberta de neve.

            Nunca mais... Encontra-se um homem e sabe-se que dentro de seis dias nunca mais o veremos.

            Milda fechou os olhos e respirou profundamente. Doía-lhe o coração. Era uma dor que não conseguia dominar.

            Há pessoas que merecem apanhar na cara, onde quer que estejam. Aparece um indivíduo de quem logo à primeira vista se diz: "Oh, meu Deus! Não devia sequer ter nascido! "

            Oleg Tichonovitch era uma dessas pessoas. Era um rapaz repugnante, forte como um touro. Tinha músculos por todo o lado - até mesmo no cérebro - e, por ser tão forte, era por todos considerado tão sensível como uma máquina.

            Era construtor de pontes, daqueles que têm como responsabilidade soldar as barras de aço. Era uma boa profissão, honrada e qualificada - mas em todas as profissões existem pessoas que podem desonrar a sua fama.

            Oleg Tichonovitch andava, desde que tomara o transiberiano, à caça de uma mulher.

            Era de tal maneira asqueroso que a própria Kiaschka desprezou os seus rublos e até o esbofeteou. Ela podia dar-se a esse luxo. Quase todos os homens no comboio a protegiam e, portanto, Oleg desistiu de continuar a fazer as suas propostas a Kiaschka.

            Havia já uma hora que estava furioso por pensar que iria passar a noite sozinho, sem uma mulher! Foi então que encontrou Milda.

            Viu-a logo, ao longe, parada à janela do corredor e deu um estalido com a língua.

            "Deve ser ela", pensou. Kiaschka tinha uma aprendiza no comboio, isso já ele ouvira dizer.

            Ninguém sabia ao certo como ele tomara conhecimento; e Mulanov, a quem Oleg Tichonovitch tinha perguntado, não lhe dera qualquer resposta, mas também não desmentira o boato.

            E ali estava ela, em pessoa... com as unhas pintadas de um vermelho madrepérola e uma carinha maquilhada, embora parecendo uma campónia. Mas quem conseguisse ver através da fazenda grossa, percebia a beleza desta mulherezinha.

            Em frente, Oleg Tichonovitch!

            Pôs-se em andamento, assobiou por entredentes e apressou o passo, assim que Milda se afastou da janela.

            Ela olhou para trás e viu a corpulência de Oleg, a cara sorridente, e reconheceu imediatamente o perigo iminente que daí advinha.

            Então voltou-se e desatou a correr. Oleg Tichonovitch soltou um assobio estridente, bateu com o punho contra a parede da carruagem e gritou-lhe:

            - Pára aí, florezinha! Não queres vir aqui?

            Milda não reagiu. Pelo contrário, percorreu o corredor e abriu violentamente a porta que dava acesso ao outro vagão. Continuou a correr, mas Oleg foi atrás dela com passos largos e apressados.

            Esticou a sua grande cabeça e transformou-se em algo animalesco: o instinto natural que ansiava por uma mulher voltou à tona.

            Era uma perseguição autêntica, a que se tinha iniciado: uma caça impiedosa e - para Milda - algo de desesperado.

            Para Oleg Tichonovitch, aquela correria fazia pouco sentido. Milda era lesta como uma doninha, embora não lhe restassem grandes alternativas de fuga.

            Só havia um caminho através do corredor, de carruagem em carruagem, e, por fim, ao fundo do comboio, Oleg alcançou-a, já que não apareceram mais passageiros para atrapalhar. Demais a mais, a Oleg bastava um passo para cada três de Milda - o que diminuía cada vez mais a distância entre eles. Uma fuga inútil!

            Quando havia apenas alguns metros de distância entre eles, Milda começou a gritar.

            A sua voz clara esganiçou-se, e enquanto fugia, como da própria vida, olhava para os compartimentos e esperava que alguém surgisse e se interpusesse no caminho entre si e Oleg.

            Dois homens corajosos fizeram isso mesmo, ergueram-se dos seus lugares e abriram a porta dos seus compartimentos. Mas ao verem quem se aproximava e ao reconhecerem o vulto de Oleg, desapareceram rapidamente e fecharam as portas.

            Três homens que regressavam do vagão-restaurante

afastaram-se para o lado antes de poderem protestar e também Mulanov, ao ouvir o grito alarmante de Milda, levou um encontrão tão forte no peito que quase rebolou no chão.

            O gigante, enfurecido, empurrou-o para o lado e Mulanov achou por bem e, por agora, acocorar-se junto à parede e aguardar.

            Assim que Oleg desapareceu na carruagem seguinte, o revisor gritou com voz potente:

            - Aqui só há cobardes? Permanecem sentadinhos nos vossos lugares e observam indiferentes uma rapariga a ser perseguida! Todos os homens venham ter comigo!

            Abriram-se de novo algumas portas e caras embaraçadas olhavam para ele estarrecidas.

            Um homem pequeno e gordo com uns grandes óculos surgiu por entre os outros e limpou ao de leve o suor da testa com um lenço.

            - Chamo-me Avdej Ivanovitch Lukratin - disse ele.

- Sou advogado. Posso atestar que nós somos passageiros e não caçadores de pessoas! Acontece que num comboio do Estado quando sucedem irregularidades é obrigação dos funcionários manter a ordem e isto não é responsabilidade dos passageiros! É uma afirmação perfeitamente lógica e jurídica.

            - Bravo, Lukratin! - gritaram alguns dos que estavam lá atrás.

            - Comprámos bilhete e não uma entrada provisória para um hospital!

            - Isto é uma situação excepcional! - berrou Mulanov. - Todos os cidadãos soviéticos devem, pela lei...

            - A lei conheço eu melhor do que ninguém - gritou, entretanto, o pequeno e gordo advogado. - Não está escrito em lado nenhum que se deve, voluntariamente, deixar bater num deficiente...

            - Na guerra... - começou Mulanov.

            - Temos guerra, camarada? - interrompeu Laura.

- Por acaso, o transiberiano é uma fogueira como o Próximo Oriente? Trata-se de um interesse de Estado?

            - Trata-se de uma pessoa, Avdej Ivanovitch!

            - Juridicamente, estamos na presença de um assunto privado, revisor Mulanov. Vou queixar-me de que você incomoda os passageiros com coisas pueris! Um homem persegue uma rapariga; isso é uma coisa que acontece diariamente milhares de vezes! Sentemo-nos de novo, camaradas! Revisor Mulanov, esta viagem vai ter consequências para si!

            - Ele atirou-me ao chão e pisou-me! - vociferou Mulanov, fora de si. - É um animal selvagem!

            - Nesse caso, neutralize o indivíduo e ponha-o no seu devido lugar!

            Lukratin regressou solenemente ao seu compartimento.

            - Um quadro de funcionários verdadeiramente triste, que não se sabem defender! E queremos nós que este seja um país progressista...

            As portas bateram. Mulanov ficou sozinho na carruagem e tremia de raiva.

            Ainda esperou encontrar alguns homens corajosos, mas todos eles se mostraram indiferentes e olhavam, através da janela, a neve que sufocava a taiga.

            Então, Mulanov voltou-se e correu atrás de Oleg Tichonovitch com uma audácia mortal. Ouvia os gritos comoventes de Milda ao longe:

            - Socorro! Socorro! Ajudem-me!

            Werner Forster ouviu sem sequer suspeitar quem gritava.

            Olhou para Karsanov que lia um livro sobre a revolução de Outubro. Até agora não tinham trocado palavra.

            - Está alguém a gritar! - exclamou Forster. - Você não ouve? É alguém a gritar por socorro! Uma mulher...

            Karsanov fechou o livro e levantou a cabeça..

            - Realmente! É uma situação nova no transiberiano! Nos comboios de camponeses já é diferente: às vezes os casais agridem-se, mas ninguém liga. São pessoas autoritárias, os siberianos.

            Os gritos aproximavam-se e Forster reconheceu a voz. Levantou-se de um salto e precipitou-se para o corredor.

            Lá atrás, a porta do vagão abriu-se de repente e Milda lançou-se na carruagem, com os cabelos ao vento e agarrando com as duas mãos o casacão comprido, avançando rapidamente.

            Mesmo por trás dela surgiu Oleg Tichonovitch - qual touro enraivecido.

            - Milda! - gritou Forster ao mesmo tempo que empurrava a porta de correr. - Entra para aqui!

            Os olhos da rapariga, esbugalhados de medo, deram a Forster a imagem exacta do que estava a suceder.

            Ela emudeceu quando percebeu que estava apenas a alguns metros do seu compartimento. Conseguiu entrar, por um triz, e atirou-se para cima do banco estofado.

            Karsanov olhava para ela pasmado e meteu a mão direita no bolso das calças..

            Oleg Tichonovitch cerrou os punhos e apressou-se na sua corrida.

            - Sai do caminho, carcaça! - gritou ele para Forster. Os seus olhos estavam vermelhos, ergueu o peito e levantou a cabeça ao precipitar-se de encontro a Werner Forster.

            O embate foi medonho. O alemão foi atirado contra a parede, mas antes de Oleg poder voltar a bater-lhe, aconteceu algo de extraordinário. Oleg sentiu o chão faltar-lhe debaixo dos pés, as suas pernas fraquejaram, escorregou e caiu para trás.

            Com um rugido animalesco, voltou a levantar-se de um pulo, o seu punho fortaleceu-se como um martelo, mas também não acertou directamente no alvo desejado, tendo sido agarrado no ar pelo antebraço de Forster.

            Ouviu-se um som abafado e Forster fez uma careta de dor. Mas, em seguida, voltou a estar a postos. Preparou o braço, deu meia volta e desferiu um golpe e o gigante Oleg Tichonovitch voou pelo corredor e bateu com a cabeça de encontro à parede.

            Perturbado, cambaleou, mas não desistiu. Depois de respirar fundo por duas vezes, recuperou o fôlego, voltou-se e atirou-se outra vez a Forster.

            De repente, Karsanov estava perto de Forster, em mangas de camisa, perfeitamente calmo.

            - Eu sabia que você tinha uma tendência especial para golpes baixos! - disse ele ao seu companheiro de viagem. - Judo! Um homem honrado defende-se de outra maneira.

            Esperou que Oleg Tichonovitch voltasse à carga, até que este viu diante de si dois adversários, em vez de um. Então o braço de Karsanov ergueu-se. Segurava na mão uma coisa preta e esse objecto negro estalou com um som abafado no crânio enorme de Oleg.

            O gigante ficou imóvel, olhou para Karsanov incrédulo, revirou os olhos e caiu sobre si mesmo, como se tivesse sido atingido por um raio.

            Foi como se lhe tivessem desfeito os ossos. Invadiu o compartimento com o tronco; e Milda, que estava aninhada no banco, gritou outra vez bem alto.

            - Por favor - disse Karsanov muito calmo e apontou para o desmaiado. - É assim que se faz, camarada.

            Forster olhou para a mão de Karsanov. O objecto negro era uma pistola e o russo tinha-lhe batido com a coronha.

            - Você tem uma pistola consigo, Pal Viktorovitch? perguntou Forster pensativo.

            - É como vê, Werner Antonovitch.

            Karsanov saltou por cima do desmaiado e sentou-se à janela, como se nada tivesse acontecido. Milda estava sentada com as pernas dobradas e encostadas ao queixo e chorava em silêncio, com a cara escondida entre as mãos.

            - Em primeiro lugar, obriga-me a agradecer-lhe. Werner Forster olhou à sua volta.

            Atrás de si já se aglomeravam passageiros de outros compartimentos, incluindo o general e o tenor. Viam apenas o corpo de Oleg estendido no chão e não a trémula Milda. Não sabiam o que tudo aquilo significava.

            - É um verdadeiro camarada - disse o general, trocista, ao cantor -, aquele a quem a beleza dos seus cânticos fez perder a razão!

            - Deve ser um apreciador de música que entra em transe com o som da minha voz - respondeu o tenor. Iremos ouvir.

            - Você viaja sempre com uma arma? - perguntou Forster ao seu companheiro de viagem russo. Sentou-se perto de Milda, puxou-a para si e, por fim, rodeou-lhe os ombros trémulos com o braço. - Não chores, estás segura aqui - disse-lhe com ternura. - Aqui nenhum mal te acontece. Vou ficar sempre ao pé de ti.

            - Mas custou-lhe uma data de dinheiro - comentou Karsanov hostil. - Ela não faz isso de graça.

            Também Mulanov surgiu do corredor. Gritou mesmo ao pé da porta:

            - Não se mexa! Alto...

            Só então é que reparou no aglomerado de pessoas à porta do compartimento, agitou os braços no ar e levou as mãos à cabeça.

            - Mas que desgraça esta! - gemeu. - Eu pressenti-a.

            Continuou a correr, empurrou os outros passageiros para o lado e quase tropeçou nos pés estendidos de Oleg.

            - Ah! Que óptimo! - exclamou o revisor. - Ainda bem que existem homens corajosos! Ainda não se extinguiram como os mamutes!

            Cumprimentou o general, pulou por cima de Oleg Tichonovitch e sentou-se ao lado de Karsanov.

            - O senhor sempre me pareceu a coragem em pessoa, camarada - dirigiu-se ele a Forster.

            O alemão abanou a cabeça e apontou para Karsanov.

            - Foi Pal Viktorovitch! Desagradou-lhe que eu tivesse aplicado uns golpes de judo. Apesar de o judo ter sido uma luta inútil, já que o indivíduo tinha uma força descomunal.

            - O senhor! - Mulanov fitou Karsanov. "Como é que isto é possível?", pensou ele. "Parece uma ameixa seca e consegue derrubar tamanho gigante? Que truque é que utilizou? Tenho de lhe perguntar quando estiver sozinho." - Por favor, camaradas, regressem aos vossos compartimentos! - pediu, fazendo sinais a toda a gente. Este homem aqui derrubado cobiçava Milda. Mas mesmo uma rapariga como ela também tem o direito de escolher os homens que quer para si! Por favor, voltem para os vossos lugares. Não impeçam o desempenho das minhas funções; o rapaz teve o castigo que merecia!

            Nesse momento, apareceram também o director do comboio Vitali Diogenovitch, e o segundo-revisor, Wladlen Ifanovitch. Este trazia um par de algemas consigo, que o miliciano lhe tinha dado, no caso de apanharem o ladrão do comboio.

            Um revisor, na verdade, não tinha o direito de prender ninguém, mas estava-se na presença de uma emergência; nessas circunstâncias era perfeitamente justificável.

            As pessoas apinhavam-se ainda à porta do compartimento quando Wladlen e Mulanov puxaram os braços do desmaiado Oleg para a frente e o algemaram.

            - Manifesto o meu apreço por todos os envolvidos no caso! - declarou o general solenemente, enquanto se retirava. - Vou informar as autoridades competentes. Boris Fedorovitsch, também há cadeados para bocas de tenores?

            - Ainda não se inventaram, camarada general! disse Mulanov com um sorriso azedo. Em seguida saiu com os dois.

            - Uma lástima! - gritou o tenor com voz triunfante.

-           Devia fazer-se uma visita de cortesia às mais altas autoridades, de modo a que implantassem a ópera...

            Por fim, os curiosos dispersaram. O Expresso continuava a sua marcha através da taiga solitária.

            A maioria dos passageiros não reparava na paisagem. Liam, dormitavam, jogavam xadrez ou cartas, discutiam sobre os planos para o novo ano, contavam as suas histórias, fumavam ou bebiam chá.

            Por vezes surgiam aldeias mergulhadas na neve até aos telhados. Só se conseguiam ver as chaminés de pedra acima das brancas colinas. E algumas pessoas pensavam: "Como se pode viver aqui? De que vivem as pessoas neste lugar?"

            Ora! A floresta alimentava-as. Os animais selvagens quase saltavam directamente para dentro do tacho; nos rios havia peixe em abundância e quando o solo começava a degelar, também cresciam legumes, bagas e batatas. Podiam vender-se peles. Por toda a parte havia depósitos estatais e para as aldeias mais isoladas havia mesmo pequenos aviões que faziam voos de ligação... Mas será isto vida?

            A Sibéria... a terra virgem, era ainda uma região cheia de segredos. Ainda carregada de lamentos dos desterrados, mesmo existindo, hoje em dia, milhares de voluntários que contribuíam para a construção desta imensidão de terra nova por eles conquistada.

            É muito bonita esta região, principalmente quando se está sentado dentro de um comboio aquecido a ver passar lá fora o frio e a solidão.

            Nesta região já não se podia contar mais com as distâncias. Diz-se que de Novo Sansky até Platschonovski são mais de quatrocentos quilómetros... até se diz que:

são três dias a andar de trenó...

            Oleg Tichonovitch levantou-se à terceira tentativa e encostou-se à porta meio desconjuntada.

            Sentou-se, com a cabeça pendurada, e veio a si muito lentamente. O seu pensamento mais imediato foi levantar-se de um pulo, mas o director do comboio, Vitali Diogenovitch, igualmente um homem robusto, deu-lhe um safanão no ombro.

            Isso fez com que o gigante despertasse de vez. Olhou para si próprio e compreendeu que estava algemado.

            Permaneceu sentado, no que revelou alguma esperteza, e limitou-se a vociferar. Os termos que ele empregava não eram apenas ordinários, eram tão obscenos que até mesmo Mulanov estava impressionado.

            - Com que então estamos na União Soviética... - gritava ele, por exemplo. - Quando nos mostramos interessados em gastar algum dinheiro com uma puta, prendem-nos! Somos derrubados como cães raivosos! - Puxava pelas algemas e aproximava-se de Wladlen que estava de pé, muito próximo de si. - Eu sou Oleg Tichonovitch Dagorski! Um operário especializado e qualificado! Ah!

            Tinha descoberto Milda, que continuava escondida atrás de Forster.

            - Lá está ela! Não sou suficientemente fino para ela? Só recebe dinheiro dos da primeira classe? De camaradas janotas, de fedelhos arrogantes?

            - Não devia ter dito isso, Oleg Tichonovitch! - Karsanov inclinou-se para a frente. - Isso soou como desprezo pelos membros da classe dos camponeses e trabalhadores do Estado!

            - Exijo - gritou Oleg fora de si - que todos aqui presentes me venham lamber o cu!

            - Pois aí está uma coisa que não faremos. - A voz de Karsanov manteve-se tão calma que só por si fez aplacar o colérico revisor. - Mas devemos cuidar de si, Oleg Tichonovitch! O camarada tem, por acaso, algum interesse especial por sapatos?

            - Genial! - balbuciou Mulanov. - Genial como o reconheceu, Pal Viktorovitch. Foi ele, claro! Só podia ter sido este patife.

            - E queria, por certo, pagar a Milda com um brinco!

- prosseguiu Wladlen Ifanovitch, entretanto.

            - O objecto roubado da pobre viúva do general...

            - Sapatos? Um brinco? - Oleg puxava pelas algemas. Novamente em vão, na sua segunda tentativa para se levantar do chão, porque Vitali lhe desferiu outro golpe no ombro. - Isto é um transporte especial só para doidos? Se me soltarem, camaradas, atiro-me do comboio! É preferível viver na taiga do que ir com vocês até Chabarovsk!

            - Apesar de tudo, ele não pode ser o ladrão - disse Mulanov depois de mirar os pés de Oleg. Eram, pelo menos, quatro números acima dos de Skarnejkin. - O indivíduo tem pés de elefante! Skarnejkin, pelo contrário, é um homem de estatura normal.

            - Pode ter querido trocá-los! Sapatos novos! E um brinco de brilhantes é um capital seguro! - Wladlen Ifanovitch estremeceu de excitação. - Quem assalta mulheres, também as persegue!

            Tratava-se de uma lógica muito sinuosa, mas neste contexto não era descabida.

            - Vamos levá-lo. Este Dagorski é que é o ladrão - disse logo Mulanov, sendo, imediatamente, seguido pelos veementes protestos de Oleg que impressionaram muito pouco. - Onde poderá uma pessoa esconder tais coisas? Os sapatos na bagagem; o brinco algures no corpo! Vamos, revistem-no! Levem-no para a área de serviço e dispam-no todo!

            - Uma ideia brilhante! - O director do comboio, Vitali, agarrou Oleg. - Fora daqui, seu bruto! E não ouses oferecer resistência! Somos três!

            Empurraram Oleg Tichonovitch para fora da carruagem e ele recomeçou a vociferar. Ainda se conseguia ouvir a sua voz retumbante ao longe:

            - Querem despir-me! Estão a desrespeitar um passageiro inocente! Tirem-me as algemas! É assim que tratam um camarada que comprou um bilhete válido até Chabarovsk...

            - Agora estamos de novo sozinhos - disse Karsanov satisfeito, e fechou a porta do compartimento. - Claro que este Oleg não é ladrão. Mas, de outra forma, não conseguia livrar-me dele nem do revisor. O assunto, agora, é só consigo, Werner Antonovitch e com esta mulherezinha. Tenho muitas perguntas a fazer.

 

 

            Foi novamente Kiaschka quem salvou Milda.

            Entre Forster e Karsanov tinha-se erguido uma espécie de muro.

            Sentaram-se um em frente ao outro, como antigamente nas trincheiras, prontos para se atacarem mutuamente, impiedosos até ao extermínio total.

            O que até aqui haviam sido apenas máscaras apresentadas, foram, de imediato, arrancadas. Não sabiam explicar como acontecera, mas a verdade é que passaram a odiar-se de repente.

            O facto de Pal Viktorovitch Karsanov viajar com uma pistola no bolso foi, para Forster, a última prova de que o russo não era a pessoa por quem queria fazer-se passar. Um honrado professor de agronomia anda por aí às voltas com uma arma de fogo?

            E a tranquilidade e certeza que ele usou ao fazer, em determinada altura, um comentário depreciativo sobre a sua utilização de golpes de judo...

            Foi um reparo feito a sangue-frio, que não se aprendia a trabalhar na terra nem com o novo método de cultivo de tomate no Cazaquistão.

            Kiaschka Ivanovna apareceu mesmo na altura certa:

precipitou-se para dentro do compartimento e apoderou-se de Milda como uma mãe que finalmente encontra um filho desaparecido.

            Então fitou Karsanov com provocação.

            Pal Viktorovitch fez uma careta do mais profundo nojo assim que sentiu o perfume de Kiaschka.

            A prostituta do transiberiano tinha os braços entrelaçados à volta de Milda como um polvo.

            - O que é que eu estou a ouvir? - perguntou ela com a sua voz marcadamente ordinária. - Protegeram a minha avezinha? E logo ela? É como se a Terra se voltasse de pernas para o ar e o Sol estivesse de cabeça para baixo!

            - Equívoco! - Karsanov espumava de raiva. O efeito da sua surpresa foi inútil, o início de um interrogatório falhara. - Intervim porque Werner Antonovitch estava em perigo. Para uma prostituta nem sequer pestanejo! Além do mais, desagrada-me que um alemão aplique golpes de judo num cidadão soviético!

            - Seja como for, tenho de lhe agradecer - disse Kiaschka.

            - Não é necessário. E se quiser fazer-me um grande favor, saia já deste compartimento!

            - Fica aqui! - balbuciou Milda entre soluços. - Fica aqui, peço-te! - Olhou para Forster e os seus grandes olhos estavam suplicantes de medo. - Porque não me deixam em paz? - gritou ela de súbito. - Porque me atormentam todos? Por que razão não posso viajar neste comboio como as outras pessoas? O que é que vocês todos querem de mim? Já não chega que me chame Milda Tichonovna Lipski? Devo pendurar a minha vida ao pescoço como um cartaz? Devo despir-me e mostrar-vos que sou uma rapariga igual a tantos milhões de outras? E nada mais? O que é que querem saber de mim, o quê e porquê? Deixem-me em paz... em paz... em paz...!

            Chorava, completamente destroçada, e Kiaschka apertou a cabeça de Milda, que tremia, de encontro ao seu peito enorme.

            Esta súbita explosão da rapariga soou como uma pancada para aquelas três pessoas; e todos prestaram atenção à sua reacção, já que os seus nervos se despedaçaram por completo.

            - Vocês ouviram! - disse Kiaschka baixinho e com uma voz totalmente diferente. Um tom de acusação maternal fez-se ouvir: - Mataram a sua alma...

            Karsanov comportou-se como dantes. Recostou-se e tamborilou com os dedos na pequena mesa de abrir, ao pé da janela.

            Os pacotes vazios de leite saltavam de um lado para o outro.

            - É assombroso - disse Karsanov. - Você colocou exactamente as perguntas que eu tinha prontas para lhe fazer. Se calhar não viaja como as outras pessoas neste comboio. Como pode afirmá-lo? Permite-se viajar através da Sibéria e não tem bilhete!

            - Ela tem bilhete, Pal Viktorovitch - gritou Forster irritado.

            - Tem agora, por seu intermédio! Mas quando embarcou?

            - Os bilhetes também se podem conseguir, trabalhando! - opinou Kiaschka.

            - Claro! É isso que você faz, não é? Em cada estação um cliente!

            - Ao menos ganho alguma coisa com isso! - Kiaschka riu-se para o enfurecido Karsanov. - Somos trabalhadoras como você, quer duvidar? E o nosso trabalho é fisicamente mais cansativo do que o seu. Afirmamos isso, aqui mesmo!

            - Pelo menos, sabemos que você se chama Lipski; já é um progresso! - prosseguiu Karsanov firmemente. Não vale a pena tentarem enganar-me! Milda Tichonovna não é nenhuma prostituta...

            - Ai isso é que sou! - Milda deu um passo. O medo impelia-a a considerar um negócio sobre o qual nem sequer havia pensado antes. - Quero despir-me e sentar-me ao colo destes dois senhores desconfiados!

            - Uma boa proposta! - Forster levantou-se e alcançou a sua mala. - É permitido fotografar escândalos?

            - Atreva-se! - gritou Karsanov e deu um salto.

            - Eu sei que é proibido fotografar assuntos militares na União Soviética. Você é algum alvo militar, Pal Viktorovitch? Você é algum segredo soviético?

            Karsanov ficou embaraçado. Rangeu os dentes e pensou numa resposta sensata.

            "Ele quis efectivamente preparar-me uma cilada", pensou, furioso. "Uma armadilha dos diabos! O que é que devo responder?"

            Para aumentar o embaraço, Forster acrescentou quase com prazer:

            -           Não acredito que toda a gente que anda armada esteja por dentro dos segredos militares...

            -           Ele anda armado? - surpreendeu-se Kiaschka, de imediato. - Ele tem mesmo uma arma com ele?

            -           No bolso das calças - disse Milda.

            -           E dispara contra o quê: grãozinhos de terra, senhor professor de agronomia? - gritou Kiaschka com um riso irónico.

            Era evidente: destruíram todo o plano de Karsanov por completo.

            O russo mirava Forster cheio de ódio e dava pancadas na mesinha de desarmar.

            -           Silêncio! - Deu um salto e com isto esticou os ombros um pouco para diante. - Abreviemos: diga-me de onde vem, Milda Tichonovna. É exigir muito?

            -           De Sverdlovsk! - respondeu Forster logo de seguida. - Eu vi-a embarcar.

            Milda e Kiaschka segredaram algo uma à outra; Milda abanou a cabeça algumas vezes, mas Kiaschka queria claramente

convencê-la de alguma coisa.

            -           Isso não é verdade! - replicou Karsanov.

            -           Você viu, Pal Viktorovitch? Estava na cama e ressonava como um porco!

            -           Eu não sou nenhum porco! - contrapôs Karsanov.

- Mas você estava acordado, não estava? Sentado à janela a observar a noite! A quem é que você quer convencer disso?

            -           A você e a toda a gente que estiver a ouvir. Sim, estava, de facto, à janela quando nos aproximámos de Sverdlovsk. Queria ver esta cidade, a região onde estão milhares de prisioneiros de guerra alemães...

            - O que está você a dizer, Werner Antonovitch? - A voz de Karsanov tornou-se perigosamente baixa, na expectativa. Esticou a cabeça como uma águia prestes a atacar. - Repita lá isso.

            - Como se você não tivesse ouvido muito bem! Eu ansiava por ver Sverdlovsk, porque é aí que o meu pai está sepultado. Há seis anos e meio! Primeiro foi condenado à morte, depois passou a prisão perpétua, depois reduziram a pena para quinze anos...

            - Um criminoso de guerra!

            - O seu crime foi, como comandante de uma divisão de aprovisionamento, ter mandado abastecer as tropas com mantimentos. O argumento do tribunal militar foi: o capitão Anton Forster contribuiu largamente, desta maneira, para o aniquilamento da União Soviética...

            - Uma sentença evidente! - rugiu Karsanov.

            - Por essa ordem de ideias, então, cada soldado é um criminoso!

            - Todos os soldados alemães, sim, sem sombra de dúvida! E é por isso que você estava à janela?

            - O meu pai regressou de Sverdlovsk como um destroço. Nunca mais recuperou. Contou-me que nesses seis anos e meio...

            - Sem números, Werner Antonovitch! Nada de mentiras extraordinárias! Ah, eu já conheço! Você pertence a uma geração maldita, instigadora de vinganças paternas! O chauvinismo contra uma União Soviética pacífica!

            - Quando o meu pai falava acerca da União Soviética, nunca mentia. Esta terra estava-lhe na alma. Ficou destroçado, mas, de qualquer modo, continuava a amá-la! Nem ele sabia explicar porquê. O que ele passou em Sverdlovsk até à morte não foi retirado dos seus sonhos. A cada minuto a sua vida tornava-se mais curta e ele agarrou-se a esses seis anos e meio... Isto não é uma razão suficientemente forte para ficar à janela à espera de avistar Sverdlovsk?

            - Tivemos para cima de dezassete milhões de mortos

- disse Karsanov em voz surda. - Nós, os Russos, não

poderíamos, de maneira nenhuma, dormir descansados com esse peso na consciência. Mas dormimos! É próprio do espírito alemão divulgar a inquietação.

            - Talvez isso se deva a que na União Soviética o holocausto acontece todos os dias, não lhe parece? Aqui contam-se as pessoas facilmente... numa outra dimensão!

            - Não deveria ter dito isso, Werner Antonovitch! - retorquiu Karsanov, respirando com dificuldade. - Isso praticamente revoga o seu estatuto como convidado da União Soviética. Escarnece, cospe e insulta a minha pátria! Holocausto? Mas nós somos canibais? Nenhum outro país aproveitou melhor a terra, depois da guerra, do que a União Soviética! As nossas escolas são exemplares; as construções industriais assemelham-se a uma explosão; temos os melhores médicos e cientistas. As nossas universidades são pioneiras nos campos da cibernética e da matemática! Somos o Estado mais independente do mundo, e fomos os primeiros do Universo! E então vem aí um insignificante engenheiro alemão a querer cuspir em nós! Tem de justificar-se, Werner Antonovitch!

            - Falei sobre a União Soviética em que o meu pai sofreu, Karsanov.

            - Ele veio como conquistador, como destruidor! E esse é também o seu espírito! - Os dedos de Karsanov impeliam-se como pontas de lanças contra Forster. - Temos uma paragem em Irkutsk. Vou tratar de que se registem as suas declarações! - Subitamente, Karsanov olhou estarrecido e a boca abriu-se-lhe de espanto: - Mas o que é isto? - tartamudeou, completamente desconcertado. - O que vem a ser esta loucura? Isto é inaudito!

            Kiaschka começou, com visível gozo, a despir-se. Já tinha tirado a blusa pela cabeça e os seus enormes seios estavam à vontade, apenas mal cobertos e seguros por um soutien demasiado pequeno.

            Milda imitou-a com alguma hesitação. Tinha desabotoado o casacão e deixou-o cair no chão, envergonhada. Por baixo, usava compridas meias de lá e umas calças grosseiras de pano cru. Apesar de as vestes serem feias, ela estava bonita... As suas pernas não deixavam, por isso, de ser esbeltas e as suas ancas estreitas e a simetria das formas do seu corpo não podiam ser ocultadas, nem por uma única vez, por aquelas peças de roupa abomináveis.

            - Calças para baixo, Milda, minha pombinha! - ordenou Kiaschka com um certo gozo. - Mostra aos camaradas o traseiro branco e delicado de uma donzela! Deve ser um deleite para os olhos; deve realmente ser o que parece! Esmaguemo-los com a nossa feminilidade!

            - Basta! - gritou Karsanov. - Isto é repugnante! Onde está o revisor? Mulanov tinha de estar aqui! Vou mandar prender as duas! Isto parece uma autêntica pocilga! Onde está Boris Federovitch?

            Karsanov queria passar por Forster e pelas raparigas para chegar ao corredor, mas Kiaschka segurou-o, encostou os seus seios aos ombros dele e, deste modo, fê-lo recuar.

            - Largue-me! - gritava Karsanov.

            - Se me agarrar, vou rejubilar, camarada! - disse Kiaschka. - Gritarei até que os passageiros dos outros compartimentos acorram para ver o que se passa! O que diria o camarada general se visse o camarada Karsanov a brincar com as suas mãos nos seios de Kiaschka Ivanovna...

            - Dou-te um estalo na cara! - vociferou Karsanov, quase perdendo as estribeiras.

            - Duas mulheres nuas no compartimento de Karsanov e em plena luz do dia! Espalhar-se-ia de Moscovo até Irkutsk - rejubilou Kiaschka.

            - Elas também podem puxar o sinal do alarme, Pal Viktorovitch - declarou Forster jovial, sentando-se. - Mas o que elas ainda podem fazer... Posso testemunhar que você prometeu dar cinquenta rublos a cada uma das raparigas, compreendeu bem? Cinquenta rublos para cada uma, isto claro, se elas se despirem à sua frente! Posso jurá-lo!

            - Ninguém vai acreditar nisso!

-           Nós também juramos! - disse Kiaschka sorridente.

-           Duas putas e um alemão! É a mistura certa!

            -           E você vai beber todo este cocktail maravilhoso até ao fim, Karsanov... - Forster olhou para Milda.

            Ela estava ali de pé, à porta, sem casaco, na sua ridícula roupa interior, pálida de vergonha, sem se atrever a imitar Kiaschka, que já tinha tirado o soutien.

            -           O que é que você pretende conseguir com isto? exclamou Karsanov e recuou um passo, afastando-se da exuberância de Kiaschka.

            A prostituta seguiu-o, de imediato, para se atirar a ele de novo e agarrá-lo ardentemente para o caso de entrar alguém no compartimento.

            -           Não vai conseguir nada com isto! Tenho tempo, muito tempo até Irkutsk! Estas mulheres não podem continuar nuas, aqui no compartimento, até lá...

            -           Não sabe do que somos capazes, camarada! - disse Kiaschka. - Você é um pobre homem, sem qualquer tipo de fantasias eróticas...

            -           Como quiser!

            A excitação de Karsanov abandonou-o de súbito. Parecia ter ficado entorpecido, algo de glacial emanava dele.

            Kiaschka notou logo a mudança e parou de desabotoar o seu casaco apertado. Farejou o perigo com o instinto de uma raposa, sempre alerta.

            Karsanov apenas meteu a mão no bolso do casaco e tirou uma carteira de couro.

            -           É preciso abreviar o espectáculo. - Virou-se um pouco na direcção de Forster: - O meu nome é Pal Viktorovitch Karsanov...

            -           Isso sei eu desde o início...

            Karsanov abriu a carteira.

            Kiaschka deixou cair os braços e Milda recuou e baixou-se como se lhe tivessem dado uma chicotada.

            -           Sabem o que significa este bilhete de identidade?

-           perguntou Karsanov em tom duro. Forster encolheu os ombros:

            -           Lamentavelmente, não.

            Karsanov segurou a carteira próximo dos olhos de Forster.

            - Então olhe bem para ela, Werner Antonovitch. Sou o coronel Karsanov da KGB.

            Os Serviços Secretos soviéticos!

            Forster sentiu um frio glacial percorrê-lo. Era como se o gelo siberiano penetrasse através das paredes da carruagem.

            Kiaschka Ivanovna foi a primeira a recuperar a fala. Levantou o casaco de Milda do chão e atirou-lho. Ela própria apanhou a blusa e entalou-a por baixo do ombro direito.

            - Não tenho medo dele! - disse, com a sua voz alta e ordinária. - O que é que nos pode fazer? Ele é competente para os idiotas dos políticos e não para prostitutas como nós! Pal Viktorovitch, porque não nos disse logo? Ter-me-ia poupado o trabalho de despir-me!

            Sentou-se no banco estofado e escarranchou as pernas como uma regateira que se tivesse sentado atrás de um cesto com couves. O seu peito volumoso levantava e baixava mais depressa do que antes... a única prova de que interiormente não estava tão calma como parecia, por fora...

            Karsanov voltou a meter a estreita carteira de couro, com o seu cartão de identidade, no bolso e sentou-se no seu lugar perto à janela.

            A sua cara séria de todos os dias, aquele aspecto de cidadão honrado e preocupado com a família transformou-se completamente.

            Quem olhasse agora para os seus olhos, recebia uma frieza - frieza de quem não permite nenhum contacto pessoal.

            - Aqui neste compartimento aconteceu algo de monstruoso! - declarou Karsanov, agora impiedosamente. - A União Soviética foi insultada, os nossos exércitos gloriosos foram injuriados. Acusaram-nos do assassínio de milhares de prisioneiros de guerra alemães; condenaram-nos como povo humanitário! Não é assim, Werner Antonovitch?

            - Não! - respondeu Forster igualmente em voz alta e dura.

            - Não? Eu tenho testemunhas!

            - Estávamos completamente ocupadas em tirar a roupa - replicou Kiaschka com um sorriso aberto. - Despir ê uma arte, principalmente connosco! O cliente também paga para isso...

            - Há meios de refrescar a vossa memória! - Karsanov comprazia-se, quase com alegria, no seu banco estofado de vermelho.

            Lá fora tinha começado a nevar, flocos grandes, tão juntos uns dos outros que produziam o efeito de uma cortina branca de croché.

            A floresta interminável por detrás erguia-se sobre colinas e afundava-se, confundia-se e dissolvia-se. Já não tinha forma, era apenas aquela cortina de neve flutuante.

            O transiberiano seguia agora um pouco mais devagar, os carris transformados em montes de neve, os quais tinham que ser afastados para o lado pela locomotiva.

            Parecia ser tudo como se dizia: que até mesmo o transiberiano, apesar das suas potentes locomotivas, eléctricas e a diesel, de vez em quando parava e tinha de ser puxado através da camada de neve completamente congelada.

            - E você continua a fazer ameaças - disse Forster com a voz alterada. - Afirmo aqui com toda a clareza:

sou um convidado neste país! Fui convidado pelo vosso Governo: viajo neste Expresso porque estou de posse de uma licença especial. Eu só quero, se me der a possibilidade, enviar uma reclamação para Moscovo. Quando chegar à Alemanha darei uma conferência de imprensa para relatar o tratamento de que fui alvo na União Soviética.

            - Já estava à espera disso. Exactamente disso! É mesmo o estilo dos revanchistas! Você julga que me intimida, Werner Antonovitch? - Karsanov estendeu a mão. - Dê-me outro cigarro desses da sua marca!

            - Cigarros do Ocidente em decadência? Um americano?

            Forster atirou com o maço inteiro para o colo de Karsanov. O russo tirou apressadamente um cigarro e acendeu-o com um fósforo.

            Perto da porta, Milda voltou a vestir o casacão. Tremia tanto que não conseguia abotoar os botões.

            Kiaschka ajudou-a e depois vestiu a sua própria blusa.

            - Conta-lhe quem tu és! - pediu-lhe ela, apesar de tudo. - Não tenhas medo, Mildenka. Ele não te come. Está apenas curioso em saber como uma rapariga tão nova e bonita se tornou numa prostituta. Um sentimento meramente paternal, nada mais! O interesse de um tio velho, que gosta, mas já não pode... Conta-lhe a tua vida para ele ficar satisfeito.

            - Ainda vão pagar caro por tanta tagarelice! - resmungou Karsanov, venenoso, e saboreando, entretanto, o

seu cigarro com visível prazer. - Vocês sabem que a

prostituição pública é proibida.

            - Prova-me isso, paizinho - respondeu Kiaschka indiferente. - Viajo como toda a gente aqui no comboio. Tenho bilhete. Posso

defender-me se os homens andam atrás de mim como os bodes atrás das cabras? Além do mais, isso agrada-me... A KGB também quer proibir o amor?

            - Por dinheiro, sim.

            - Eu não aceito dinheiro. - Kiaschka fez um sorriso largo e irónico. - É impossível encontrar no comboio um único homem que confesse que me pagou. Quem é que iria dizer tal coisa? Porventura diria o camarada secretário do partido, na carruagem três? Ou o presidente da Cooperativa Gorki, de Tiumen? Ou o capitão do Exército Vermelho, na carruagem sete? Ou...

            - Eles também? - perguntou Karsanov abalado. Com mil diabos, ela infecta o comboio todo! - Olhou pela janela e reflectiu sobre o que fazer.

            Uma coisa era certa: ninguém no transiberiano quereria ajudá-lo. Estava sozinho, um combatente solitário, por assim dizer. Nem uma única vez o pessoal trabalhador do comboio manifestou simpatia por ele, e muito menos quando soubessem que ele era coronel da KGB.

            Só poderia esperar uma reacção de medo, vigilância reforçada e a organização silenciosa de uma frente de defesa por parte de todos, desde a primeira até à última carruagem... Agora ajuda? Nunca!

            O próprio general senil, com os seus problemas com o tenor, mostrou-se cortês, embora reservado. Não deu a entender a Karsanov que poderia vir a ser seu aliado.

            Restava-lhe Irkutsk, o enorme entroncamento ferroviário no mar Baical.

            Na altura em que o comboio tivesse de mudar de linha e em que novas carruagens fossem atreladas à composição, então poderia telefonar imediatamente para o escritório local da KGB e demonstrar a sua autoridade.

            Milda Tichonovna tinha-se vestido e fitava Karsanov como se ele fosse um carrasco que já tivesse levantado o machado.

            Werner Forster atraiu-a a si: primeiro ela resistiu, mas depois aninhou-se nos seus braços como um pequeno gato molhado, que procura protecção e calor. Karsanov encarou aquele quadro de ternura como uma provocação. Fumou o cigarro americano, irritado e ficou com uma sede incontrolável.

            No entanto, o pacote de leite estava vazio; não tencionava pedir o conhaque a Forster, isso nunca! Também não queria chá da

garrafa-termo, a qual era enchida, todas as manhãs, para o alemão, por Fedja, na qual ele deitava algumas gotas de álcool.

            Ainda por cima - este chá matinal! Há três dias que a cozinha do comboio ficava em polvorosa porque a garrafa-termo do alemão não estava no programa, ainda mais durante o pequeno-almoço.

            Como de costume, tinha de se fazer uma nova encomenda ou um pedido extra como, porventura, se fazia quando se queria dois ovos semiquentes ou duas fatias de pão torrado - nem muito nem pouco torrado, antes sim de uma cor dourada: em primeiro lugar,. apoderava-se do cozinheiro um enorme desespero. Praguejava contra o estrangeiro degenerado e em seguida fazia algo tipicamente russo: esquecia-se, por completo, do pedido.

            Então, quando após duas horas de espera por parte do convidado, ele insistia no seu absurdo pedido, ele tinha que encontrar uma saída qualquer...

            Forster saiu-se bem ao dar-lhe, à socapa, cinco rublos de gorjeta, o que deixou Fedja à espera que ele lhe levasse a

garrafa-termo todas as manhãs, muito cedo, à porta da cozinha e quando Forster regressava ao vagão-restaurante havia uma garrafa, como que por acaso, em cima de uma mesinha. Ele levava-a consigo e ficava tudo por isso mesmo.

            Com este truque, Forster ultrapassou o general, o qual todas as manhãs bramava e ameaçava trazer para o comboio, em Irkutsk, um químico para finalmente examinar se lhe davam água de lavar pratos em vez de café.

            Karsanov pensou se deveria sair do compartimento para arranjar qualquer coisa para beber. Porém, sabia que se o fizesse, Kiaschka e Milda desapareceriam.

            Nesse momento, o clima dentro do compartimento era altamente explosivo e não diminuía de intensidade, pelo contrário, tornava-se mais pesado. Por outro lado, cresciam as pressões internas, cada vez mais fortes, dos seus companheiros de viagem.

            Agora o medo pairava no ar - um bom fundamento para uma conversa posterior.

            - Comecemos então! - disse Karsanov agreste. - De onde vem, Milda Tichonovna? Werner Antonovitch, não me interrompa outra vez, nem procure, através de uma observação, inocentar o relato de Milda. Posso muito bem distinguir sozinho o que é verdade ou mentira! Milda, por que razão tem tanto medo?

            - Ela é nova no ramo! - interveio Kiaschka, de imediato. - E logo com um coronel da KGB! Isso faz o coração descer às calças, camarada!

            - Desapareça! - gritou Karsanov e ficou vermelho de raiva. - Fora! Isto é uma ordem!

            Kiaschka levantou-se, piscou um olho a Milda e a Forster, e saiu do compartimento.

            Era evidente que foi logo prevenir Mulanov e calculou

que ele também iria ser alvo daquele interrogatório perigoso.

            Milda fitou Karsanov. A sua boca pequena e pintada estremecia, mas dos seus lábios não saiu uma palavra.

            - Você está a ver que ela está embaraçada - disse Forster em tom rude.

            - E deve estar mesmo! - Karsanov inclinou-se para a frente. O seu olhar penetrante entrou em Milda como uma lança. - De onde vem você?

            - De Perm, camarada coronel... - respondeu Milda numa voz que mal se percebia.

            - Ah! De Perm! E entrou furtivamente no transiberiano em Sverdlovsk! Como é que isso se ajusta? O comboio também parou em Perm!

            - Acontece que também embarcam alguns passageiros no rápido Hamburgo-Munique e moram em Bochum... - disse Forster em voz alta.

            - Deixe-se das suas comparações ocidentais, totalmente despropositadas! - berrou Karsanov irritado.

            - Fui com um homem de Perm até Sverdlovsk - respondeu Milda e a sua língua parecia ter ficado presa.

            A vergonha de ter de continuar a falar destas coisas em público era agora patente.

            -           Ah! - objectou Karsanov apenas. - Continue!

            -           Era um engenheiro de mineralogia. Tinha uma carrinha. Pernoitámos numa pequena estalagem em Sarancinskij. Ele... ele foi o meu primeiro cliente...

            Virou a cabeça, encostou o pequeno rosto no peito de Forster e começou a chorar alto, como uma criança.

            Forster acariciou-lhe os cabelos e beijou-lhe o pescoço, que tremia.

            -           Seu sádico! - disse ele, condoído. - Quer destruir-lhe completamente a alma? Parece impossível!

            -           Oh! Ainda agora comecei, Werner Antonovitch. Uma alma! Devo partir-me a rir? Desde quando uma puta tem alma? Nesse sítio, onde as outras pessoas podem ter algo semelhante a isso, nela só tilintam moedas! Milda Tichonovna, não se refugie nas lágrimas, isso não vai ajudá-la em nada! Passou a noite com um homem, muito bem! Então também tinha dinheiro! Por que razão, então, saltou para este comboio como passageira clandestina?

            -           Não tinha dinheiro! - gritou Milda encostada ao peito de Forster. - Ele enganou-me...

            - Enganou-a? Como assim?

            Milda voltou-se outra vez. As lágrimas tinham-lhe esborratado a maquilhagem, que Kiaschka retocara. Estava ali um pequeno e triste palhaço, abandonado pelo mundo, enjeitado e desamparado...

            - Quando acordei de manhã, a sua cama estava vazia, o carro havia desaparecido e não me tinha deixado dinheiro. Nem sei o seu nome completo. Ele dizia que se chamava Wadim. Apenas Wadim!

            -           Julgava que vocês só trabalhavam com pagamento antecipado! - comentou Karsanov, venenoso.

            - Ela é apenas uma principiante! - ripostou Forster desembaraçado. - Agora já sabe isso! Finalmente acredita nela?

            - Muito estranho! Muito estranho, mesmo.

Karsanov voltou a olhar pela janela.

            Nesse momento, o comboio continuava a andar lentamente através da taiga, a tempestade de neve fustigava os vidros da janela como há pouco. Parecia que a cortina branca de croché se tinha tornado numa parede branca.

            Já não se via nada, apenas uma massa de neve, a qual era arremessada contra o comboio com uma força monstruosa.

            -           E depois, o que é que aconteceu?

            -           Fui com um camponês até Sverdlovsk. Aí, esperei até que chegasse o transiberiano. Contaram-me que aqui se pode ganhar muito dinheiro.

            -           E em Perm não havia trabalho? Nenhum trabalho razoável? O que é que você realmente aprendeu, Milda Tichonovna? Você não veio ao mundo como prostituta, pois não? Onde está o seu pai? O que faz a sua mãe? Não tem irmãos honrados?

            -           O meu pai morreu num acidente com uma grua.

A minha mãe ficou transtornada com isso e vive num lar em Perm. O meu irmão mais velho é mecânico. É casado, tem a sua própria família, um pequeno apartamento... estou completamente sozinha...

            - No nosso Estado ninguém está completamente só, se não quiser! Resumindo: você pertence a essa juventude que incentiva a que se faça sabotagem à nossa organização, enquanto a nossa valiosa mão-de-obra fica desfalcada. Juventude essa que não faz nada, segue os padrões do Ocidente e espera que os nossos activos e diligentes trabalhadores os alimentem. Parasitas é o que eles são! Ociosos e depravados, semelhantes aos esgotos das casas ou, como você, metida na cama com homens estranhos! Gostaria de apertar a mão a esse Wadim desconhecido que lhe levou o dinheiro.

            - Já terminou a sua ária? - perguntou Werner Forster em tom de provocação. Acendeu dois cigarros e meteu um entre os lábios finos de Milda.

            Ela tossiu à primeira baforada, dobrou-se para a frente e cuspiu o cigarro para o chão.

            - E o que é que descobriu, Pal Viktorovitch? Ficou mais esperto do que antes?

            - Certamente! - Karsanov exibia um renovado sorriso mal-humorado. - Agora sei que ela mente...

            O coronel lançou um daqueles olhares que fez gelar o corpo de Forster. Também ele sabia que Milda tinha mentido.

            Mesmo na altura certa apareceu Mulanov, o revisor. Kiaschka tinha-lhe contado tudo e havia-lhe suplicado que fosse ajudar Milda, na medida do possível.

            - Veja-se uma coisa destas, um coronel da KGB! - tinha comentado Mulanov com um olhar sombrio. - Então é um malandro. Por isso é que ele telefonava de noite para Moscovo e ninguém lhe podia levar a mal. Temos de ser prudentes, Kiaschka, muito prudentes! Ainda nos faltam seis dias para chegar a Víadivostoque! É uma situação crítica. Quando chegarmos a Irkutsk, temos de arranjar maneira de tirar Milda do comboio, antes que o camarada Karsanov nos crie dificuldades. Como é que se comporta o alemão?

            - Muito correcto, Boris Fedorovitch. Karsanov não lhe pode fazer mal porque Forster é um convidado de honra do Kremlin! Daqui a sete dias deixará a União Soviética e é melhor não fazer dele um mártir político. Pal Viktorovitch também sabe disso. Mas vai depenar a nossa avezinha, Milda.

            Kiaschka bebera um gole de chá da chávena de Mulanov e depois empoara o nariz.

            - O que é que ela te disse? Disse-te de onde vem?

            - Ela é de Asbest.

            - Mas disse a Karsanov que era de Perm!

            Então ambos consideraram tudo, pensativos, e chegaram à conclusão que era preciso fazer alguma coisa.

            Mulanov ponderou e suspirou.

            - Temos que distraí-lo - dissera.

            - Mas como é possível distrair um cão com um faro tão apurado como o de Karsanov, durante sete dias? É uma coisa impossível de realizar!

            - O que mais pode suceder num comboio? Já aconteceu um roubo... Mas com isso não se afligiu a KGB! Tivemos de tentar colocar no plano político o assunto dos sapatos desaparecidos de Skarnejkine e o brinco roubado. Fizemos de Oleg Tichonovitch Dagorski um sabotador!

            - Um plano horrível, Boris Fedorovitch - considerara Kiaschka.

            - Tens algum melhor na manga?

            De facto ela não tinha.

            E foi assim que Mulanov apareceu no compartimento e, aos olhos de Forster e Milda, era um anjo, que limpava a testa com ambas as mãos, utilizando gestos teatrais. Tinha empurrado o boné para a nuca.

            - As preocupações nunca mais acabam - comentou ele cheio de azedume. - Temos de mandar chamar a KGB para vir ao comboio em Irkutsk.

            Esta última frase fez efeito em Karsanov, como um veneno rápido e eficaz, e ele aproveitou a observação de Mulanov com voluptuosidade autêntica.

            - O que foi que disse, meu caro Boris Fedorovitch?

- inquiriu ele com uma amabilidade hipócrita. - Rápido! Não hesite, comunique-me as suas observações!

            - É o seguinte, camarada - começou o revisor, cerimonioso. - Levámos Oleg Tichonovitch para um interrogatório rigoroso, e o que é que conseguimos apurar? Nem calcula!

            - Quem é Oleg Tichonovitch? - perguntou Karsanov algo embaraçado.

            - Devia conhecê-lo melhor! Você derrubou-o com uma pistola, esse sabotador!

            - Quem é que falou com ele? - gritou Karsanov furioso.

            - Eu! Todos nós. O comboio inteiro! Este Dagorski é um sabotador!

            - Deixe-me em paz com o assunto desse touro! - berrou Karsanov. - Tenho aqui um problema completamente diferente!

            - Nunca ouvi dizer que na União Soviética deixassem passar em branco as acções de um sabotador! - declarou Mulanov quase ofendido. - Camarada, trata-se de um agitador que veio aterrorizar o melhor comboio da União Soviética! Tivemos de prendê-lo no vagão das bagagens! E o que fez este garanhão do Dagorski? Arrombou a pontapés a parede de madeira, jogou futebol com as bagagens e atirou com os sacos do correio à cabeça do camarada controlador da correspondência! Em resumo, agiu como um porco num chiqueiro. Só conseguimos prendê-lo de novo com a ajuda de quatro homens! Agora está lá a cuspir em toda a gente que se aproxima dele! - Mulanov não se preocupou com o facto de que Karsanov procurava, continuamente, interrompê-lo. - Você é um homem inteligente, camarada, um homem erudito! Um estudioso! É inclusive professor! Tem de informar Dagorski que é melhor para ele ficar quieto. Já estive com o camarada general, mas ele estava ocupado. Discutia com o tenor sobre Richard Wagner.

            Finalmente Karsanov conseguiu falar. Apontou com o braço esticado para Milda e gritou:

            - Também temos aqui um caso obscuro! Ela é uma mentirosa inveterada, revisor Mulanov!

            Boris Fedorovitch endireitou-se no seu lugar.

            - Camarada professor?

            Karsanov meteu a mão no bolso.

            "Agora", pensou Mulanov, "ele vai mostrar-me a sua identificação da KGB." E assim este primeiro "assalto" era um falhanço.

            Mas no pugilismo, meus amigos, há dez ou quinze assaltos e temos de lutar com todos os truques possíveis... até Víadivostoque...

            Karsanov puxou por uma estreita carteira de couro.

            - KGB! - exclamou Mulanov, com veneração. - Eu desconfiei, camarada coronel. Pela sua atitude, a maneira de falar... O que é que manda, camarada coronel?

            Karsanov, no entanto, não acrescentou mais nada, nem deu nenhuma ordem.

            O comboio deu um enorme solavanco e parou tão de repente que todos foram arremessados para a frente.

            A pasta de Karsanov tombou da bagageira, mesmo no seu pescoço. Ele caiu de joelhos, revirou os olhos e levantou-se a gemer...

            - Só faltava mais esta! - gritou Mulanov e levantou-se de um salto. - Estamos bloqueados! Bloqueados no meio de uma tempestade de neve! Quando é que isto aconteceu pela última vez? Há anos que não acontece, camarada coronel, há anos! Há mesmo muito tempo! Mas agora estamos aqui parados! É uma catástrofe, digo-vos eu, uma verdadeira catástrofe!

            Mulanov abriu com violência a porta e precipitou-se para o corredor.

            As pessoas acorriam, vindas dos diversos compartimentos, e obstruiam as passagens.

            - Nada de pânico, camaradas! - gritou Mulanov e corria ao longo das carruagens, a fim de alcançar o director do comboio. - Em breve vamos retomar o andamento! Voltem para os vossos lugares! Temos instruções específicas para casos extraordinários como este...

            Era, de facto, assim: o Expresso Transiberiano estava imóvel.

            Gigantescas montanhas de neve tinham coberto os carris, que ficaram imediatamente transformados em blocos de gelo. As máquinas de limpar a neve já não conseguiam avançar, pois as massas de gelo começaram a acumular-se dos lados.

            O perigo de que o comboio saltasse fora dos carris era demasiado grande e temia-se que pudesse ir de encontro à parede de neve com uma força brutal.

            Mais à frente estavam os dois maquinistas nas suas cabinas aquecidas, de braços cruzados.

            O director do comboio, Vitali Diogenovitsch, comunicou, através de um telefone sem fios, com a estação mais próxima.

            Era Irkutsk, a cento e setenta quilómetros, uma distância que se considera, na Sibéria, um passeio, mas que agora, no meio desta tremenda tempestade de neve, se tornava um lugar tão distante como uma estrela.

            - Vão mandar um comboio para evacuação - disse entretanto Vitali, enquanto esperava, com o auscultador no ouvido, pelos empregados com alguma competência.

            Todo o aparato dos serviços municipalizados tinha já começado a funcionar, uma maquinaria gigantesca com imensas rodas que tinham todas de voltar-se na mesma direcção... e aí residia a grande dificuldade!

            Havia um pequeno exército de funcionários competentes e um exército ainda maior de incompetentes e cada um dizia a sua coisa.

            O transiberiano está parado? Numa imensa e terrível tempestade de neve?

            Conferiam-se as estatísticas. Nos últimos vinte anos nunca tinha acontecido tal coisa.

            - Não se sabe - disse Vitali ao telefone, a um alto funcionário de Irkutsk.

            - Temos ainda um malandro no comboio, um tal Oleg Tichonovitch Dagorski. Também temos connosco um coronel da KGB, o digníssimo Pal Viktorovitch Karsanov. Acha que ele deve assumir as investigações?

            Pobre Dagorski!

            No entanto, não deixava de ser uma excelente ideia e Mulanov bateu no ombro de Vitali, em sinal de reconhecimento.

            - Por favor, chame o coronel ao telefone - pediu a voz lá longe, em Irkutsk. - Vamos tomar todas as providências para que o comboio possa prosseguir tão rápido quanto possível!

            Mulanov apressou-se a ir procurar Karsanov, o qual, de costas para Forster, se tinha ajoelhado no banco e tirado a camisa.

            A mala que tinha caído lá de cima batera-lhe com o fecho no pescoço e fizera-lhe uma ferida.

            Karsanov só reparou quando sentiu correr uma coisa quente pelo colarinho.

            Agora Forster e Milda estavam perto dele, limpando a ferida com um pouco de gaze, pincelando-a com tintura de iodo e aplicando, em seguida, uma ligadura.

            Karsanov encolheu-se, porque o contacto da tintura de iodo com a ferida ardia-lhe atrozmente. Cravou os dedos no banco.

            - Você viaja sempre com uma caixa de primeiros socorros? - perguntou ele e rangeu os dentes,

            - Em princípio, sim! Como vê, valeu a pena. Incline a cabeça mais para a frente, Pal Viktorovitch... Milda já está a terminar!

            - Desinfectaram a ferida?

            - Claro que sim! E ela fez isso muito habilmente. Vou pôr-lhe uma ligadura. - Forster riu em voz baixa. Não precisa de ter medo, Karsanov, porque eu não vou aproveitar para estrangulá-lo...

            - Eu defender-me-ia! - Karsanov ficou quieto, curvou mais a cabeça e sentiu os dedos frios de Milda no seu pescoço. "Ela não se livra assim", pensou ele. "Ela que não pense que ficou livre. Guarda um segredo dentro de si - e eu vou descobrir o que é!"

            - Você viaja com uma caixa de primeiros socorros! - disse ele outra vez, trocista. - O que é que traz lá dentro?

            - Tudo o que é preciso, até mesmo morfina e um pequeno frasco de éter. Além disso, também há comprimidos para a circulação, antibióticos, medicamentos contra a diarreia e a malária, convulsões e bronquite, febre e dores nervosas...

            - Que petulância! - Karsanov soprou pelo nariz. Você pensa que está num país onde ainda se curam as doenças com estrume, ou quê? A nossa medicina é a mais avançada do mundo! Mas não, você carrega consigo uma farmácia! Esta liberdade ocidental que vocês julgam que é a melhor do mundo!

            - O que é que você quer agora fazer contra a minha mala de medicamentos, Pal Viktorovitch?

            - Há aqui no comboio um pequeno posto clínico! Todos os revisores têm o curso de primeiros socorros! Os nossos funcionários também, hen? Eu não quis ofendê-lo e vou aceitar a sua oferta! Diga lá que não sou um homem delicado!

            Nesse momento, Mulanov entrou no compartimento. Vinha ofegante de ter corrido tão depressa.

            Lá fora a tempestade fustigava as paredes das carruagens. Uma luz pálida penetrava pela janela, uma luz que fazia imaginar como seria o mundo quando desabasse.

            -           Coronel Karsanov, chamam-no ao telefone! - anunciou Mulanov em sentido. Karsanov levantou a cabeça, mas Forster empurrou-a outra vez para baixo.

            -           Têm de esperar! - resmungou o coronel. - Quem é, afinal?

            -           São as autoridades de Irkutsk.

            -           Estou ferido, como pode ver! - Pôs a cabeça ligeiramente inclinada, mas não conseguia ver nem Forster nem Milda. - Isso ainda demora muito? Mulanov, ajude aí! Werner Antonovitch tem uma excelente caixa de primeiros socorros, embora não faça a menor ideia de como utilizar o seu conteúdo.

            -           Nem uma pequena ideia!

            Forster colocou então uma grossa tira de gaze sobre a ferida, que ainda tinha um pouco de sangue.

            - Só estudei dois semestres do curso de medicina, antes de seguir engenharia.

            - Mudança de profissão devido a incapacidade, não foi? - perguntou Karsanov, deliciado.

            - Não, o meu pai ficou inválido, não tínhamos mais dinheiro e eu precisava de escolher uma profissão prática, com a qual pudesse começar a ganhar dinheiro rapidamente.

            Forster começou a enrolar a ligadura e a ligar o pescoço de Karsanov.

            -           O meu pai ficou inválido em consequência das prisões russas...

            -           O meu foi morto em Orel! - gritou desta vez Karsanov, dominador.

            -           Sim, era a guerra, Pal Viktorovitch!

            -           Escute bem o seu discurso demagogo! Você ouviu, Mulanov; até mesmo a fazer um tratamento num ferido, vai destilando o seu veneno para dentro da ferida!

            -           O camarada de Irkutsk está à espera no telefone...

-           respondeu Mulanov obstinado. - Ele tem uma missão para si.

            -           Querem dar-me uma missão! - ganiu Karsanov. Só me podem pedir um favor! O meu escritório é exclusivamente em Moscovo!

            A ligadura estava, agora, a ser posta mais depressa. Depois de ter o pescoço ligado, Karsanov voltou a vestir a camisa, mas teve de deixar o colarinho aberto e renunciar à gravata.

            -           Obrigado, Werner Antonovitch - disse ele constrangido e deitou um olhar à caixa de primeiros socorros que estava aberta. - O comprimido para as dores vou buscar à farmácia do comboio. Também temos meios eficazes contra as dores, tal como você!

            Acenou a Mulanov e deixou o compartimento. Passou pelas pessoas que ainda estavam nos corredores a discutir o assunto acaloradamente.

            Ninguém sabia onde o comboio tinha parado, mas devia ser numa maldita região deserta; um local onde havia lobos com os olhos ramelosos de tanto chorarem...

            Werner Forster fechou a porta do compartimento, embrulhou a gaze ensanguentada num saco de papel e amarrotou-o.

            Milda rolhou o frasco de tintura de iodo e passou com as pontas dos dedos sobre uma garrafa castanha com um invólucro de tecido sintético.

            - Isto é éter... - murmurou ela.

            - Sim, é éter. - Forster pegou-lhe na mão fria e afastou-a dali.

            Depois fechou a tampa da caixa de primeiros socorros.

            Adivinhara o pensamento de Milda. O desespero é muitas vezes a mãe das fantasias mais cruéis.

            - Isso não é a solução para os teus problemas - disse ele categórico.

            - Ainda falta muito para chegarmos a Víadivostoque, Werner Antonovitch. - Milda dirigiu-se à janela.

            Já não se conseguia ver nada lá para fora, pois a neve tapava completamente os vidros.

            A tempestade uivava à volta do comboio como uma centena de sirenas, o vento ouvia-se em cada canto e em cada fresta. A tempestade gritava com a sua voz clara, entrando por cada frincha de ventilação dos vagões, pelos cabos de aço das rodas, enfim, por todo o lado que calhava, e a taiga respondia com o ribombar e o murmúrio dos seus milhões de copas de árvores.

            -           Agora seria possível... - disse Milda, encostando a testa ao vidro gelado, como se estivesse com saudades de alguma coisa.

            -O quê?

            -           O comboio está parado... eu podia sair!

            -           No meio desta tempestade de neve? Seria uma loucura!

            - Ninguém me veria; ninguém poderia seguir-me...

            - A tempestade destruir-te-ia, Milda!

            Forster atraiu-a a si e virou-a. Os seus bonitos olhos enormes pareciam vazios; o seu olhar estava tão distante como o seu pensamento e esse pensamento tinha um nome:

liberdade! Finalmente, a liberdade!

            Poder viver... algures... lá fora numa floresta desconhecida... só no meio dos animais... mas vivendo em liberdade...

            - Milda! - gritou Forster e abanou-a. - Milda, não durarias nem uma hora lá fora!

            - Aprendemos a viver com a neve e as tempestades, Werner Antonovitch. - Ela olhou-o a direito e regressou à realidade, mas ele afundou-se numa profunda tristeza. Fui criada numa cabana que estava sempre coberta de neve no Inverno e desde criança que tinha de afastar a neve com uma pá. Sei muito bem como se deve reagir face a uma tempestade de gelo...

            - Não vou deixar-te sair! - disse Forster, imediatamente.

            Um medo terrível apoderou-se dele, de repente. Temeu que o comboio ainda ficasse bloqueado durante a noite e que, a qualquer momento, durante essas horas de espera, Milda tivesse oportunidade de saltar lá para fora e desaparecer na imensidão da taiga.

            - Nem que seja preciso amarrar-te aqui!

            - Matar-me-ias, Werner Antonovitch - disse ela paralisada.

            - Não! A taiga é que te mataria!

            -           A taiga é minha amiga. É mais misericordiosa do que Karsanov!

            - Proteger-te-ei dele!

            -           Já não podes fazer isso. Julgas-te intocável só porque és um convidado do Governo. E isso que interessa a Karsanov? A KGB tem opiniões próprias e impõe-nas. Por toda a parte, onde eles quiserem, Werner Antonovitch! Por favor, deixa-me saltar do comboio! Não voltarei a ter outra oportunidade. Irei para bem longe.

            -           Não vais viver como um animal!

            Ele rodeou-a com ambos os braços e puxou-a para si. Sentiu o seu peito pequeno e duro através da camisa e o cabelo dela cheirava a feno.

            -           Chegaremos a VIadivostoque e aí procuraremos um navio japonês que te leve... também sem bilhete! E então serás livre e não precisarás mais de ter medo. E conhecerás uma vida onde não haverá Karsanovs e...

            - Mas que história tão bonita - comentou Milda suavemente.

            - É a verdade, Milda!

            - Mas não para mim. - Encostou a cabeça ao ombro dele e evitou continuar a olhá-lo. - E porquê tudo isso, Werner Antonovitch? Eu sou uma ratazana, sabias disso? Kyrill Michailovitch é que o disse. Apenas uma ratazana! Não conheces Kyrill Machailovitch e nem chegarás a conhecê-lo. Ele foi para longe. Mas, de alguma maneira, tinha sempre razão. Sou, de facto, apenas uma ratazana. Deixa-me ir para junto das outras ratazanas como eu, por favor...

            - Para mim, és a rapariga mais bonita que existe - disse Forster com voz rouca. O seu coração batia descompassado e respirar tornava-se uma tarefa árdua. - Milda... não deves saltar deste comboio e desaparecer para sempre! Não podes fazer isso. Eu amo-te...

            - Werner Antonovitch! - Ela levantou a cabeça. Isso ainda é pior do que todas as tempestades de neve...

            - Não disseste que cresceste no meio da tempestade e da neve? Eu também posso aprender.

            - Nunca, Werja, nunca...

            De repente, ela lançou os braços à volta do pescoço dele, levantou-se nas pontas dos pés e beijou-o.

            Foi um beijo desesperado, um grito com lábios frios que o fez transbordar... Foi um beijo com todo o fervor da sua alma dilacerada.

 

 

            Entretanto, Karsanov terminava a sua conversa telefónica com Irkutsk.

            Ainda devia haver alguém a quem Pal Viktorovitch tinha algo a dizer.

            - Comecemos então! - disse ele em primeiro lugar, e olhou para os revisores que estavam ao pé de si. - Mande chamar os homens mais fortes da segunda classe e reúna-os no vagão dos correios. Temos pás suficientes? Seria uma situação ridícula se o transiberiano fosse detido por uma simples tempestade de neve! Camaradas, isto agora é um trabalho patriótico! Voltamos a estar na frente de batalha!

            - Quero falar com luri - disse Mulanov a Vitali, o director do comboio, enquanto se dirigiam para a segunda classe a fim de convocar os homens mais robustos.

            luri era o maquinista-chefe e responsável por toda a viagem.

            - Talvez haja uma possibilidade de deixar de lado esse nojento Karsanov, quando nos pusermos em marcha. Isto é apenas uma questão de organização...

            Afinal, parece que havia no transiberiano mais doentes do que gente saudável. Era assustador observar a quantidade de doenças - a maioria delas invisíveis e ocultas - que seguia neste comboio.

            à medida que Mulanov, Vitali e Wladlen avançavam através das carruagens procurando os homens mais fortes para ir buscar as pás ao vagão das bagagens e remover o amontoado de neve, viam, estendidos nos bancos, centenas de inválidos. Desviavam os olhos e relatavam com voz rouca que o médico tinha observado que os trabalhos pesados lhes encurtava a vida.

            Apenas se apresentaram no vagão das bagagens aquele general meio senil, Karsanov, os funcionários do comboio, três engenheiros, dois comerciantes, o tenor e, naturalmente, Werner Forster.

            O tenor esclareceu logo prontamente que, apesar do vento frio, iria cantar umas ariazitas para animar a equipa de trabalho.

            - Camaradas! Encham-lhe a boca de neve! - gritou, de imediato, o general. - O que este individuo pretende é assassinar-me lentamente!

            Karsanov lançou um rápido olhar ao pequeno grupo de voluntários e sentiu vergonha - principalmente do alemão.

            - É tudo? - perguntou ele rouco de excitação interior. - Vinte homens no comboio inteiro?

            - E diz que os russos são um povo tão saudável! - opinou Forster suavemente.

            - Nós somos um povo saudável, Werner Antonovitch! - gritou Karsanov. O seu rosto tornou-se congestionado como um tomate. - Quero provar-lhe. Tenho plenos poderes em Irkutsk.

            - Isso é óptimo. - Forster acenou com a cabeça. Uma pessoa até pode fazer habilidades quando tem plenos poderes.

            - Avancemos!

            Karsanov fez sinal a Mulanov e ao director do comboio, Vitali Diogenovitch. Eles elevaram o olhar até ao tecto abaulado do vagão e pressentiram a chegada de complicações graves. Mas ainda desconheciam a vilania enérgica que emanava do sensato, bondoso e paternal Karsanov.

            Começou tudo logo na primeira carruagem da segunda classe. Aí acocoravam-se todos juntos, apertados uns contra os outros, camponeses e operários, trabalhadores e demais camaradas que atravessavam a Sibéria e se espalhavam como estrelas pelas diversas paragens desta gigantesca terra virgem.

            Cada um em seu lugar, no qual queria ficar até ao fim da sua vida - pioneiros de uma nova era!

            Principalmente livres!

            Livres como esta taiga, sem precisarem mais de se apertarem num apartamento de uma só divisão. Sem terem de viver aglomerados em blocos de apartamentos, nos quais tinham de compartilhar a casa de banho com dez famílias. Aí o condomínio distribuía senhas para os balneários, com as quais cada pessoa tinha o direito de chafurdar na banheira uma vez por semana. Meia hora, camarada e depois rua! Há mais pessoas à espera! O último inquilino ainda estava na fila, à espera, pouco depois da meia-noite... mas, ao menos, podia-se tomar banho!

            Quem tivesse dinheiro podia mesmo utilizar sais de banho perfumados! Não é um acto social, camaradas?

            Agora aglomeravam-se nos vagões do transiberiano rodeados de todos os odores que um ser humano é capaz de produzir. Qualquer excesso misturava-se com o cheiro dos cabazes que os camponeses traziam na bagagem.

            Quem é que já assistiu a uma viagem de camponeses siberianos? Aquilo é uma aventura, digo-vos eu!

            Nos cestos cacarejavam galinhas e grasnavam patos e cheirava a cebolas e pepinos azedos. Havia mesmo um porquinho muito satisfeito a grunhir dentro de um cesto e que de vez em quando molhava alguns dos camaradas que se sentavam por baixo dele.

            Karsanov abriu a porta do compartimento.

            Todos os rostos ficaram sombrios ao aperceberem-se do que ia acontecer.

            Pal Viktorovitch deitou um olhar muito rápido aos assentos e então abarcou com um gesto todos os homens.

            - Levantem-se e dirijam-se ao vagão das bagagens!

- ordenou ele. - Inclusive os doentes, que serão examinados. Temos quatro médicos no comboio!

            Era mentira, mas quem poderia prová-lo?

            Apesar disso, ninguém se mexeu no compartimento, apenas as mulheres começaram a choramingar deploravelmente, como se lhes quisessem levar os maridos para a forca.

            Lá fora, a tempestade de neve uivava e toda aquela massa branca acumulava-se, cada vez mais alto, nas paredes do comboio. Era praticamente inútil contrariar a neve com pás, no meio deste temporal, mas Irkutsk ordenara e nenhum russo se atreveria a desobedecer.

            - São todos inválidos? - berrou Karsanov, tremendo de raiva. - Camaradas, tenho um remédio infalível no bolso que cura num instante todos os achaques! Atenção!

            Meteu a mão no bolso do casaco, retirou o seu cartão da KGB e segurou-o bem alto.

            Falava-se tanto em curas milagrosas dos fenómenos sagrados de Lourdes ou de Fátima... mas tudo isso eram questões insignificantes face ao resultado que produzia esse cartão de identificação. Só de olhar para ele, qualquer russo adquiria outra vez, inesperadamente, todas as suas forças.

            Posto isto, todos os homens saltaram de imediato dos seus lugares, pouco importando se há pouco estavam próximos da morte, e arrastaram-se através do corredor até ao depósito das bagagens.

            Até mesmo os soluços das mulheres terminaram. Apenas olhavam estarrecidas para Karsanov com olhos esbugalhados e benzeram-se, com gestos rápidos, quando ele virou costas e se dirigiu ao compartimento seguinte.

            Daí para a frente, Karsanov não se deteve em mais pormenores. Mostrava o cartão da KGB e ordenava:

            - Já para o vagão das bagagens! - e não houve ninguém que o contrariasse.

            Só houve um camponês na carruagem três, compartimento cinco, que ficou sentado e sorriu para Karsanov.

            - Você é surdo? - vociferou Pal Viktorovitch. - É cego? Do que é que ainda está à espera?

            - Das minhas pernas, camarada - respondeu o camponês calmamente. Inclinou-se para a frente, subiu um pouco as calças e acenou com a cabeça. Debaixo da fazenda surgiram duas pernas de pau, as quais estavam quase naturalmente pregadas a um par de sapatos grosseiros.

- As verdadeiras ficaram em Wiasma, camarada. Estou à espera das próteses há trinta anos.

            Karsanov acenou com a cabeça e saiu rapidamente do compartimento.

            -           Este homem está dispensado - comunicou ele a Mulanov. - Depois ocupe-se dele. Trate de saber o seu nome, morada e qual o hospital mais competente para estes casos. Quero saber por que razão ele ainda não recebeu as próteses. Entendeu, Boris Fedorovitch?

            -           Não - respondeu Mulanov com delicadeza. Não podem ter sido extraviadas. Quem é que faz colecção de próteses?

            -           Você é um homem obstinadamente imbecil! - bufou Karsanov e continuou o seu caminho.

            O revisor encolheu os ombros e calou-se.

            "Ele não perde por esperar", pensou Mulanov, furioso. "O dia ainda não chegou ao fim! Ainda não começámos a cavar na neve! Vão morrer pessoas congeladas de frio, tenho a certeza..."

            Meia hora depois, ambos os vagões de bagagens e o do correio estavam cheios de homens. Pareciam sardinhas em lata, todos comprimidos uns contra os outros, aguardando novas ordens.

            O chefe do vagão do correio era um funcionário pequeno e gordo e chamava-se Lumeneff. Andava a correr de um lado para o outro, irritado, no corredor do vagão um, e estava à espera que Karsanov regressasse.

            -           Quem me garante que não me roubam nenhum pacote? - gritou Lumeneff de longe, quando avistou Karsanov. - E sentam-se nos sacos da correspondência, esmagam-me as cartas e como cheiram mal, camarada coronel! Recuso qualquer responsabilidade por esta remessa de correio! Só deveriam ter acesso ao vagão de correspondência os funcionários devidamente autorizados! Mas o que é que está a acontecer aqui? Sim, o que se passa aqui? Sentam-se pessoas estranhas, com os seus traseiros imundos, em cima de correspondência confidencial!

            Karsanov interrompeu-o com um movimento da mão e fé-lo calar-se. Com este gesto, conseguiu logo que todos os homens fizessem silêncio.

            Centenas de olhos miravam-no impacientes, mas também com um rancor dissimulado. Contudo, Pal Viktorovitch não se deixava impressionar.

            No vagão de bagagens número um, lá à frente, uma enorme cantoria passava através das portas abertas e por cima de todas as cabeças.

            O tenor! Estava, de novo, a cantar. Desta vez Devagar corria a neve...! Pelo meio, ouviam-se os bramidos do general, que empunhava um pau, ou qualquer coisa semelhante, para com ele matar o tenor à pancada...

            - Camaradas! - disse Karsanov quase solenemente.

- Temos de libertar o comboio! Como, é indiferente. Mas ele tem de prosseguir a viagem! Somos russos, este é um comboio russo, está em solo russo, e é neve russa que o detém. Isso é suficiente para qualquer russo com alma e coração! Espero que pensem na pátria ao retirarem cada pazada de neve! Apear!

            Era muito fácil de dizer, mas mais difícil de fazer. Mal se abriram as portas, a tempestade penetrou no vagão e atirou com uma nuvem de neve para cima de todos.

            Os primeiros homens saltaram lá para fora e ficaram logo mergulhados na espessa massa de neve.

            Os próximos estavam hesitantes, mas alguém lá atrás deu um empurrão; os homens lançaram-se na neve e curvaram-se. Cento e vinte e nove homens saíram do comboio desta maneira, mas caíam na neve, davam trambolhões uns por cima dos outros, debatiam-se, gritavam e vociferavam, praguejavam e pisavam os companheiros.

            Era o caos.

            Os primeiros feridos apresentavam-se com os narizes a sangrar e a pele gretada. Como o gelo trazia complicações demasiado grandes para uma ferida, voltaram a subir para o comboio e refugiaram-se nos compartimentos aquecidos.

            -           Um exército de piolhos é mais disciplinado! - berrava Karsanov. Viu Werner Forster, com um sorriso irónico, de pé perto da locomotiva com uma pá na mão.

            Ao lado dele esperava também o tenor, com um grosso cachecol embrulhado à volta do pescoço.

            O general discutia com luri, o maquinista-chefe. Um caso idêntico tinha acontecido aquando do cerco a Leninegrado. Nessa altura tinham-se desobstruido as linhas férreas com lança-chamas. Porque não se traziam lança-chamas quando se viajava através da Sibéria? O general estava revoltado.

            Karsanov calcou um trilho através da neve, quase em pedra, até onde estava Forster.

            Era grotesco, pois dava saltos a cada passo e logo a seguir afundava-se numa montanha branca de gelo - mas conseguiu formar um carreiro.

            O tenor propôs, então, elevar o moral dos trabalhadores se entoassem em conjunto o coro dos escravos hebreus da ópera de Verdi Nabucco: "Amada Pátria, quando te voltaremos a ver..."

            -           Não arreganhe os dentes dessa maneira assim tão imbecil! - Karsanov descompôs o alemão sem-cerimónia.

- Qualquer pessoa, mesmo um russo, tem de aprender a viver uma situação de emergência!

            - Claro. - Forster encostou-se ao cabo da pá. - Há pouco esqueci-me de lhe perguntar uma coisa. Quando eu lhe estava a ligar o pescoço, apareceu Mulanov e chamou-o ao telefone. Ele tinha uma chamada para o coronel Jarsanov...

            - Sim, e depois? - ripostou Karsanov, reservado.

            - Como é que devo tratá-lo: Jarsanov ou Karsanov?

            - Continue a chamar-me Pal Viktorovitch, está sempre certo! - Karsanov voltou-se bruscamente. - Todos os homens para a locomotiva! - gritou ele sobre a multidão de homens.

            O vento varreu as suas palavras.

            A neve bateu-lhes como se tivessem levado uma chicotada.

            Num instante, os homens ficaram cobertos por uma camada branca, como uma crosta, e pareciam criaturas fantasmagóricas.

            à porta do vagão das bagagens número um estavam Vitali e Wladlen e atiravam lá para fora pás, traves e paus. Não faziam o mesmo efeito que os lança-chamas...

            Trabalharam quatro horas em seis grupos, porque de outra maneira não poderiam suportar aquele trabalho fatal.

            Passada meia hora, já o corpo estava como que congelado, a cara coberta por uma camada de gotas de suor congeladas, as roupas solidificadas e havia uma grande vontade de voltar a subir para o comboio aquecido.

            No vagão-restaurante fazia-se chá ininterruptamente. Fedja, o empregado de mesa, e os seus dois ajudantes distribuíam as bebidas fumegantes em copos de cartão ou em chávenas de plástico.

            Mas não ficava por aqui. Nos compartimentos distribuíam-se pilhas de garrafas de vodca aos árduos trabalhadores e o chá aromatizado com vodca contribuía bastante para que até os homens mais fracos conseguissem resistir mais um pouco.

            - Não julgue que a Rússia tem somente um povo de bébedos! - ofegou Karsanov perto de Werner Forster. Mas quando se atravessa a Sibéria, há que ter uma pequena provisão connosco, de certo modo como um medicamento!

            Apesar de muitos contratempos - por exemplo, Karsanov teve de voltar a percorrer o comboio, durante duas horas, com o seu cartão da KGB e correr de lá para fora com todos os homens que, entretanto, se tinham escondido -, o trabalho avançava a bom ritmo.

            Parecia difícil de acreditar: escavava-se mais depressa quando o vento trazia mais neve. Não se via nem ouvia nada do comboio para evacuação.

            - Vou cuspir na cara de alguém em Irkutsk! - gritou Karsanov após três horas de comando. - Promessas e mais promessas! E o que fazem eles na realidade? Descansam os seus próprios traseiros perto de fogões bem aquecidos! Vou apresentar uma queixa em Moscovo até que todos os responsáveis se mijem de medo pelas pernas abaixo!

            No quarto turno também trabalhavam Kiaschka e Milda Tichonovna. Escavavam como os homens, bem tapadas, com as pernas embrulhadas em grossas mantas e atadas com cordéis.

            Milda levantou os olhos para Werner Forster algumas vezes e sorriu para ele. Depois enterrava outra vez a pá no monte de neve e atirava os montes congelados para o lado.

            - Suponho que reviu a sua opinião sobre Milda, meu caro Pal Viktorovitch - disse Forster, assim que fizeram uma pausa e se aproximava o próximo turno.

            As pessoas que foram rendidas voltaram para o comboio e

atiraram-se como feras aos copos de chá fumegante.

            O ar tresandava a aguardente. Parecia que uma fábrica de vodca tinha explodido.

            - A que propósito? - inquiriu de imediato Karsanov, constrangido.

            - Ela escava como um homem, assim como Kiaschka. Já retiraram de seguida duas camadas de neve. As duas produzem mais do que os homens!

            - Eu não sou cego, Werner Antonovitch. É admirável, verdadeiramente admirável! De Kiaschka ainda podemos admitir... a gaja tem força! É francamente um exercício revigorante para a saúde. Mas e a sua Milda? Aquela frágil bonequinha? E a sua resistência, a tenacidade? Isso só vem aumentar o enigma que ela esconde. Não mostrava grande firmeza ao dizer que era uma prostituta em período de aprendizagem! É certo e sabido! Nada do que ela diz me convence. Quando se olha para ela, faz logo pensar que parece que nunca fez outra coisa na vida senão cavar...

            - Ela disse que foi criada perto da neve.

            -           Também eu! Como qualquer outro russo, exceptuando os do Sul. Werner Antonovitch, a sua Milda mentiu-nos aos dois. Quando o comboio retomar a marcha, prosseguirei o interrogatório.

            - O que é que você ganha com isso? - Forster encostou-se a uma parte da locomotiva já limpa de neve. Quero confessar-lhe uma coisa, Pal Viktorovitch. Eu amo Milda...

            - A coisa já vai assim tão adiantada?

            -           Houve uma explosão interior, Pal Viktorovitch. Nunca ouviu falar disso?

            -           Para mim isso não passa de um monte de disparates pegados! Que futuro tem esse amor? Ela é russa, você é alemão. Apenas alguns dias num comboio... muito bem! E depois? Milda não pode abandonar a União Soviética. Você, pelo contrário, vai ter de fazê-lo, porque o seu visto tem um prazo de validade. É muito pouco provável que obtenha autorização para cá voltar. Bem, é preciso enfrentar uma guerra de papelada burocrática, a embaixada vai ocupar-se deste caso e talvez Milda possa, eventualmente, ausentar-se por uns dias... mas é preciso tempo e paciência, Werner Antonovitch! E nesse meio-tempo você vai conhecer uma dúzia de outras raparigas bonitas e dormir com elas!

            -           Não creio. Não vou renunciar a Milda, Pal Viktorovitch!

            - Uma mulher da vida!

            - Vamos partir do pressuposto que ela não o seja...

            - Pior ainda! A União Soviética pode renunciar às prostitutas, mas não a uma boa trabalhadora! - Karsanov pegou no copo de chá que Mulanov lhe trouxe.

            O tenor, que estava no seu tempo de descanso, cantava no vagão cinco um excerto de Freischútz: "Através dos bosques, através dos prados...

            O general encontrava-se sentado ao pé de luri, na locomotiva, e discutia sobre a legitimidade do regulamento em transportar

lança-chamas nos comboios siberianos.

            -           Acho que ela é uma prisioneira em fuga - declarou de repente Karsanov.

            -           Impossível! Que crimes é que pode ter cometido uma rapariga como Milda?

            -           Vários! - respondeu Karsanov com grosseria. Uma cara de anjo, um corpo bonito, um par de mãos carinhosas, lábios que sabem beijar... são argumentos para a inocência? Pode ser culpada desde o homicídio até à sabotagem, Werner Antonovitch!

            -           Você está possesso, Pal Viktorovitch! - gritou Forster enfurecido. - As suas funções na KGB fazem-no ver crimes em todo o lado! Você é doente, camarada coronel, você é um hipocondríaco!

            -           Espere só! - disse Karsanov venenoso. - O tempo em que se jogava às escondidas já passou.

            -           O que é que queres fazer, Mildaschka? - perguntou Kiaschka, assim que tiveram um momento para descansar e beber o chá quente com vodca. - Queres ficar junto de Werner Forster! Ama-lo?

            - Sim.

            Milda disse aquilo tão fácil e naturalmente como é o acto de comer e beber.

            -           Ele tem de deixar a União Soviética em Víadivostoque. O que é que pretendes fazer então?

            -           Ainda não sei, Kiaschka.

            -           Ele quer casar contigo?

            -           Nunca falámos sobre esse assunto. Ao fim de tão poucos dias... - Milda sorriu tristemente. - Está tudo tão longe ainda, é tão inconcebível... uma pessoa perde-se nos seus pensamentos, tal como na extensa taiga.

            -           Talvez seja melhor pensares em ter um filho dele.

            Kiaschka sorvia o chá mas primeiro dava voltas com ele na boca antes de o engolir.

            -           Uma criança convence! Uma barriga grande até enternece os funcionários do Estado. Aí têm de te deixar partir com Werner Antonovitch...

            -           A mim nunca deixariam! Nunca, Kiaschka!

            -           E porquê?

            - Andam à minha procura...

            - Como se eu já não tivesse adivinhado! - Kiaschka deitou fora o copo de cartão. - E então imaginaste fugir, ir para a taiga, esconder-te na Sibéria. A região é tão infinita como o céu. Aí ninguém te procura. Nesse lugar és livre como uma doninha ou uma raposa... e quem é que encontras? Um coronel da KGB e um alemão que facilmente te devora o coração! Uma porcaria de vida, não é verdade, Milda Tichonovna?

            - Ainda falta muito para chegarmos a Víadivostoque...

            - Mais cinco dias. O que são cinco dias, Mildaschka? Em cinco dias, Karsanov acaba contigo, eu conheço os métodos da KGB! Um gancho de ferro onde nos podem pendurar tem mais coração do que esse Pal Viktorovitch. Nem mesmo Werner se põe contra ele. O que significa a coragem para a KGB? É uma migalha que sopramos de cima de uma mesa...

            Como já haviam retirado duas camadas de neve, ninguém se escandalizou quando voltaram para o comboio e subiram para uma carruagem.

            Fedja acolheu-as com sanduíches de carnes frias. Ele, os seus dois ajudantes e ambos os cozinheiros do transiberiano eram as pessoas mais invejadas do comboio: não precisavam de ir escavar a neve.

            - Não precisas de me contar o que fizeste, se não quiseres - disse Kiaschka mais tarde, quando se sentou com Milda no seu compartimento.

            Estavam sozinhas. Os homens encontravam-se a trabalhar lá fora e as mulheres observavam-os pela janela.

            - Agora não quero saber mais nada. Não tens dinheiro?

            - Não.

            - O que é que pretendes fazer na taiga sem dinheiro?

            - Vou trabalhar para um sítio qualquer. Só quero viver, mais nada.

            - Isso querias tu. Mas Werner Antonovitch entrou na tua vida. E agora? És capaz de deixá-lo?

            - Não, Kiaschka. - Milda inclinou a cabeça para trás e encostou-a ao banco. De repente começou a chorar, baixinho, quase sem se ouvir. Os seus lábios estremeciam e as lágrimas abriam caminho através do rosto salpicado de neve. - Agora amo-o mais do que a própria vida.

            - Este é o discurso idiota do costume! Tens de separar-te dele em Irkutsk e mais tarde em Tchita. Aí tens uma oportunidade de mergulhar de verdade na Sibéria. Uiva à lua, Mildaschka, morde a casca das árvores, grita o teu desgosto na taiga... apenas tens de separar-te de Werner Antonovitch e fugir para bem longe, tal como tinhas planeado. - Kiaschka inclinou-se para a frente e envolveu o rosto de Milda com ambas as mãos. - Eu quero ajudar-te, minha pequena - disse a ordinária Kiaschka, agora com a ternura de uma mãe.

            "Oh! Eu conheço estas dores da alma. Não sou feita de pedra e não existo apenas da barriga para baixo. Também tenho sentimentos e amores verdadeiros! Sem cobrar dinheiro por isso! Mas do que me serviu isso? Um ficou debaixo de um guindaste, o outro foi condenado e desterrado; diz-se que para Magadan. E só porque era um líder estudantil que cantava a liberdade e a dignidade humanas. Matei-me por duas vezes e foi assim que amei... e no que é que me tornei? A puta de serviço no transiberiano! Não é um bom exemplo nem um modelo a seguir, eu sei. Mas a vida tem de continuar de qualquer maneira, mesmo sem Werner Antonovitch!

            Encostou-se, escarranchou as pernas uma para cada lado e abriu o casaco. Entre as suas coxas estava pendurada, por uma tira de couro, uma bolsinha lisa.

            Pasmada, Milda olhou para Kiaschka.

            - Ficaste admirada com quê? - Kiaschka riu-se no seu modo grosseiro. - É o melhor esconderijo! Quem quiser meter-se comigo não pode fazê-lo às escondidas! Neste lugar é que eu ganho o meu dinheiro e aqui aguardam também os rublos até que eu os possa pôr no banco! Milda...

            Abriu a bolsinha, que estava cheia de moedas. Uma

pequena fortuna, conseguida honestamente com trabalho e que só Kiaschka podia conceber.

            - Quando me disseres: "Saio na próxima estação", dou-te como capital inicial quinhentos rublos. Sim, farei isso! Pensa nisso, Milda. Não é contra Werner Antonovitch que falo, é sim contra Karsanov. Ele é um demónio... eu tenho um faro especial para estas coisas...

 

            Ao fim de quatro horas e meia, a linha férrea estava desimpedida.

            luri, o maquinista-chefe, fez uma tentativa: deixou o comboio arrancar e dominou, com imenso barulho, aquele largo espaço gelado.

            As pessoas bateram palmas, agitaram os braços como se fazia com o lançamento de um barco à água, até se beijaram uns aos outros e - como ponto culminante - o general estendeu a mão ao tenor e disse, sorridente:

            - Espero sinceramente que a partir de hoje à noite você fique rouco!

            Karsanov circulava por ali e mostrava-se tão orgulhoso como se todo aquele trabalho tivesse sido feito só por si.

            - A organização é metade de uma vida! - disse ele a Forster. - às vezes é, mesmo, a vida inteira! Os meus parabéns, Werner Antonovitch. Você bateu-se com muita coragem! Não está cansado?

            - Você não sabe que eu ponho em prática a minha actividade como mineiro, todos os dias? Isso deixa-me sempre em forma.

            Werner Forster atirou a sua pá, através da porta, para o vagão das bagagens.

            Mulanov sentou-se, extenuado, num banquinho. Suava terrivelmente e estava no limite das suas forças. "Finalmente sou um funcionário e não um robô cavador. Chamo-me Mulanov e não Stachanov! A única coisa que temos em comum é a terminação do nome em nov!

            Mas eu pressenti isto, logo que embarquei em Moscovo. Esta viagem seria uma porcaria! Uma pessoa percebe logo isso ao fim de tantos anos de serviço. De qualquer modo, a carruagem transpirava o perigo de antemão... apenas se podia senti-lo pelo cheiro. E aqui havia um demónio, sim!"

            Por toda a parte, os homens regressavam ao comboio, subiam e eram acolhidos pelas mulheres como heróis.

            Os solteiros dirigiam-se ao vagão-restaurante e misturavam-se completamente com Fedj a e os seus homens. Não estava programada uma afluência tão grande - os cozinheiros sucumbiram.

            E quando o general enviou a mensagem que queria que lhe levassem ao compartimento um prato de escalopes, eles quase romperam a chorar.

            Mas o comboio continuou. Atravessou a tempestade de neve, afastou, por completo, os obstáculos e desafiou todos os poderes da natureza.

            Vitali telefonou para Irkutsk e comunicou a boa notícia da continuação da viagem. E veio a saber que já estava pronto a seguir um comboio alternativo.

            - Já não é preciso, camaradas! - ripostou Vitali, mordaz, ao aparelho. - Resolvemos tudo pelos nossos próprios meios! Até o próprio camarada general colaborou!

            Foi uma notícia que não produziu qualquer efeito de satisfação no competente pessoal de Irkutsk.

            O transiberiano levou dez horas para chegar... Por precaução, quatro altos funcionários de Irkutsk ficaram, por isso, de cama com febres altas e estavam, por conseguinte, incomunicáveis.

            Já o caso era diferente com Dementi Michailovitch Skarnejkin...

            Ainda nos lembramos - o fabricante de sabão, a quem tinham roubado os sapatos novos no comboio. O mesmo com cujos sabonetes Brejnev lavava as mãos! Pois bem, o tal Skarnejkin também tinha ajudado a escavar a neve enfiado num grande par de botas, as quais lhe tinham sido emprestadas por luri. Agora sentia comichão em dois dedos dos pés e Skarnejkin supunha, com razão, que estavam gelados.

            - Quem é que paga isto? - gritava ele para os revisores que se tinham deslocado ao seu compartimento. Estes observaram os pés de Skarnejkin, massajaram-lhe os dedos e também registaram que se tinha realmente verificado um enregelamento.

            - E quando eu tiver de amputar os dedos? Fizeram de mim um aleijado! Os caminhos-de-ferro soviéticos transformaram-me num inválido! Foi num dos vossos comboios que me roubaram os sapatos! Nos meus próprios sapatos, os meus dedos nunca ficariam congelados. Mas numas botas, dois números acima, ui! O vento soprava lá para dentro e cortava-me os dedos! Sou um desgraçado! Mas eu vou escrever a Brejnev! Mutilaram um homem vivo, estropiaram o camarada que fabrica os sabonetes que Brejnev...

            - Isto é um caso jurídico grave - disse mais tarde Vitali, o director do comboio, a Mulanov, o revisor. Deveriam tomar-se providências. Ainda temos Dagorski sob prisão. A ele é que devíamos pôr as culpas pelos dedos congelados...

            - Ele negaria tudo. - Mulanov abanou a cabeça.

            - Ele parece um brutamontes? Sim. Comporta-se como um touro selvagem? Sim. Perseguiu Milda através do comboio? Sim. E quem agrediu quatro homens antes de chegar a ser algemado? Dagorski! Quem é que cuspia na cara de quem tentava aproximar-se dele? Dagorski! Resumindo: não deu qualquer oportunidade a que o julgassem inocente! É simplesmente o indivíduo que é preciso condenar!

            Prosseguiram o caminho para ir falar com Dagorski e

participar-lhe o infeliz acidente com os dedos congelados de Skarnejkin. Mas Vitali e Mulanov sofreram um choque violento, no vagão de bagagens número dois, quando viram um banco de madeira caído.

            - Dagorski? - perguntou o revisor das bagagens pasmado quando os dois apareceram e perguntaram por Dagorski. Este revisor chamava-se Amorfskij e tinha mesmo cara disso. Sofria do estômago e bebia sempre chá de hortelã-pimenta.

            - Dagorski? Como assim, Dagorski? Ele foi ajudar a escavar a neve...

            - O que é que aconteceu com ele? - gritaram Vitali e Mulanov em uníssono. - Amorfskij, onde está esse patife agora?

            - Talvez no seu compartimento, talvez na locomotiva, talvez ande outra vez a correr atrás de um rabo de saias... eu sei lá! O coronel Karsanov ordenou: "Todos os homens lá para fora!" Não foi preciso mais nada! Devia contrariar a KGB? Estão doidos, camaradas! Vão ter com o coronel...

            Meia hora depois de vasculharem o comboio todo, sabia-se o seguinte: Oleg Tichonovitch Dagorski, aquele brutamontes, ficara para trás.

            Enquanto todos embarcavam e o comboio se pôs em movimento ele deitara-se na neve. Vira, com um riso malicioso, passar por si o transiberiano.

            Agora Dagorski estava livre e ninguém podia voltar a apanhá-lo; só por um mero acaso é que podia ir parar às mãos da milícia.

            Mas, em todo o caso, o revisor Mulanov, em posição de sentido, participou o acontecido ao coronel Karsanov.

            - Quem é que poderia pensar numa coisa destas? - lamentou-se ele ainda. - Ficar a criatura ali estendida na neve, na tempestade, na mais completa solidão. E ainda por cima sem haver provas de que ele é culpado!

            - E você acha que algum voluntário se iria dar como culpado pelo roubo de um par de sapatos? - Karsanov abanou a cabeça. - Ninguém é tão idiota.

            - Conhecemos todos os seus crimes, camarada? - perguntou Mulanov em tom dramático.

            - O brinco da viúva do general, Olga Federovna Platkina ainda faz parte das suspeitas que recaem sobre ele!

            - Também isso não é motivo para ter ficado na taiga!

            Karsanov olhou pela janela.

            Lá fora o mundo parecia ainda mergulhado em neve. O coronel encolheu os ombros, arrepiado. A noite avançava através da cortina acinzentada causada pela tempestade de neve. Dentro de meia hora já estaria escuro.

            O que faz uma pessoa sozinha na taiga numa noite assim?

            -           Ele teve com certeza medo - disse Forster, como se pudesse ler o pensamento de Karsanov. - Nada mais do que medo! Faz-se muita coisa absurda. Abandonam-se comboios... ou então salta-se para dentro deles...

            Karsanov voltou-se. Nesse momento ele não tinha um ar nada paternal.

            -           Estou demasiado cansado para continuar a discutir consigo - disse ele. - Dou-lhe uma trégua até amanhã.

Logo cedo retomarei o interrogatório rigoroso, e então...

-           Acenou a cabeça pensativo e olhou lá para fora, para o início do crepúsculo, para o desencadear da tempestade.

-           ...A sua doce Milda não imitou Dagorski.

            -           Isso não vai acontecer, Pal Viktorovitch. Não enquanto eu estiver aqui.

            -           Fico muitíssimo mais descansado. - Karsanov levantou-se.

            Mulanov começou a abrir os bancos para transformá-los em camas e a colocar a roupa de cama.

            -           É desagradável perder dois detidos. Considere, todavia, desde já Milda como presa...

 

            Uma hora mais tarde, Milda voltou para o compartimento. Já era de noite. O uivo da tempestade soava medonho através da janela.

            Karsanov, que já estava deitado na cama a ler, soergueu-se:

            -           Isto é o cúmulo! - rosnou ele. - Entra aqui com a maior naturalidade! Werner Antonovitch, por acaso está a pensar em dormir com ela mesmo debaixo dos meus olhos e dos meus ouvidos?

            -           Você é um porco, Karsanov! - replicou Forster tranquilo. - Volte a deitar-se. Se era disso que estava à espera, pode desiludir-se! Milda fica aqui, sim... mas como convidada!

            -           Debaixo do seu cobertor.

            -           Com o meu cobertor.

            - Veremos.

            - Não vai ver nada. Infelizmente...

            Milda sentou-se timidamente e olhou para o enraivecido Karsanov, que voltou a deitar-se de costas e prosseguiu a leitura do seu livro.

            - Onde devo ficar? - perguntou ela em voz baixa.

-           Não posso ficar com Kiaschka. Ela tem de fazer o seu trabalho, e eu não posso estar lá sentada junto dela...

            - Ouviste bem. Ficas aqui, nem que houvesse cem Karsanovs! - disse Forster em voz alta e em tom provocador. - Deita-te, Milda, e dorme...

            -E tu, Werner?

            - Hei-de arranjar um lugar.

            - Em cima! - bufou Karsanov.

            - Eu não estou cansada - disse Milda tristemente. Apesar disso, tremia em consequência deste dia difícil de esgotamento. - Posso muito bem ficar sentada...

            - Tu vais deitar-te!

            Forster empurrou-a pelos ombros para cima da cama, tapou-a e beijou-lhe os olhos fechados.

            Ela levantou a sua mão pequena, acariciou-lhe o pescoço ao de leve e sorriu debilmente. Depois estendeu-se e adormeceu quase de imediato.

            Werner Forster levantou-se e dirigiu-se à janela. Perto das pernas de Milda havia espaço suficiente para dormir no assento.

            Karsanov seguiu-lhe os movimentos pelo canto do olho.

            - Realmente! O amor é mesmo um acto celestial! - disse ele desdenhoso. - Werner Antonovitch, você tem a alma de um russo, mas em contrapartida a burrice de todos os alemães. Apague a luz. O livro é maçador e olhar para si durante muito tempo também é igualmente cansativo!

            Depois fez-se apenas uma ténue escuridão, já que no corredor luzia uma luz de presença que confundia todos os contornos.

            Forster esperou, como todas as noites, até que Karsanov começasse a ressonar, inclinou-se mais uma vez sobre Milda e beijou-lhe os lábios apertados.

            -           Vou tirar-te daqui! - disse ele baixinho e puxou-lhe o cobertor até ao queixo. - Juro-te que nunca amei nenhuma rapariga como te amo a ti!

            A meio da noite assustaram-se todos.

            Mulanov abriu a porta do compartimento e precipitou-se lá para dentro.

            Forster acendeu a luz, Karsanov assustou-se e bateu com a cabeça de encontro à parede. Muda encolheu-se como uma minhoca que se pisa.

            Mulanov estava pálido e tão fraco das pernas que teve de segurar-se à porta.

            - Acordem, camaradas! - balbuciou ele. - Por Santo Estêvão... acordem! Aconteceu uma coisa terrível! Assassinaram Kiaschka Ivanovna...

 

 

            "Sem palavras" é a expressão que se deve utilizar quando se quer mostrar que antes de enfrentar qualquer realidade, uma pessoa deve, em primeiro lugar, respirar fundo face a uma situação extraordinária.

            Há momentos na vida de uma pessoa em que as coisas acontecem mais depressa do que o cérebro consegue pensar - ou em que o destino nos ultrapassa.

            Neste caso, uma pessoa esforça-se para voltar à realidade - e era isso que Pal Viktorovitch tentava fazer naquele instante.

            O chamamento assustado de Mulanov tinha-o espantado, pois estava no mais profundo sono e foi arrancado de um sonho muito agradável. Ainda por cima bateu com a cabeça e sentiu mais dores na ferida do pescoço provocada pela queda da mala.

            Antes de se deitar, Forster ligou Karsanov mais uma vez e esfregou-o com uma pomada medicinal. Era uma pomada soviética do posto clínico do transiberiano que já estava a ficar um pouco amarelada, aparentemente devido ao pouco uso; e havia dúvidas que o efeito antibacteriano do seu preparado ainda fosse eficaz.

            Milda Tichonovna agarrou-se a Werner Forster com um grito agudo.

            Este também ficou tão perplexo com a notícia e não conseguiu fazer mais nada do que acariciar as costas de Milda. Isso provocava apenas o efeito de um calmante.

            Mulanov atirou-se para a cama de Forster, limpou a cara e tremeu violentamente.

            - Ainda ninguém sabe - gaguejou ele. - Apenas o camarada Ivan Ivanovitch Lakterian. Quis ir à casa de banho e estava no seu pleno direito, camaradas. Quando abriu a porta e pretendia baixar as calças... o que foi que ele viu estendido num canto? Um amontoado de carne e sangue: Kiaschka! Perdeu logo a vontade do que ia fazer, digo-vos eu! Puxou as calças para cima e veio ter comigo. Estava branco como a cal, o corpo tremia todo e balbuciava: "Camarada revisor, Kiaschka está deitada na casa de banho cinco. Acho que lhe aconteceu qualquer coisa. Vá lá ver com os seus próprios olhos!" Fui a correr... e realmente lá estava ela! Numa poça de sangue com os olhos esbugalhados. Camaradas, fiquei com o estômago e os intestinos embrulhados do susto. A primeira coisa que fiz, foi sentar-me na sanita...

            - Monstruoso. - Karsanov retomou a fala. Sentou-se na cama, com o seu pijama às riscas, e fazia esforços para se mostrar um homem à altura do seu cargo. - Afaste o indivíduo do cadáver! Já ligou, ao menos, para frkutsk?

            - Ainda não, camarada coronel! Vim logo a correr para aqui. O pânico que se vai estabelecer no comboio quando se souber que houve um assassínio! Primeiro um roubo e agora até mataram uma inofensiva prostituta! Que tempos nós vivemos! Mas eu disse logo à partida, tive um pressentimento: este comboio é diferente dos outros! Vamos ter aborrecimentos neste comboio! A minha impressão...

            - Não se lamente, seu desequilibrado! - vociferou Karsanov, e puxou as pernas para fora da cama.

            Via-se que não possuía umas pernas bonitas de se verem: tinha varizes e a barriga das pernas muito grossa era o que mais saltava à vista. Na praia de Sotchi, as raparigas bonitas nem sequer olhavam para ele. Talvez fosse por isso que sofria do fígado e era intratável...

            - Já examinou a morta?

            -           Examinar? Aquilo deu-me volta ao estômago!

- Mulanov encostou-se à parede, extenuado. - Sangue por todo o lado! No chão, nas paredes!

            - Você não foi soldado, homem? - gritou Karsanov.

            - Naturalmente, camarada coronel. Sargento na primeira frente de combate do exército branco...

            - E não pode ver sangue?

            - Já vi de mais, camarada...

            Era um argumento aceitável.

            Karsanov vestiu as calças por cima do pijama às riscas, abotoou o colarinho do casaco, o que o deixou um pouco mais apresentável para a sua função, e olhou na direcção de Werner Forster.

            - Lamento que logo você tenha presenciado tal coisa num comboio soviético - disse ele constrangido. - Os assassínios não acontecem normalmente no nosso expresso. De qualquer modo já tem que contar na Alemanha.

            - Assassínios há em toda a parte. - Forster beijou Milda nos lábios apertados e embrulhou-a no cobertor. Acontece que no meu país atiram os assassinados dos comboios; infelizmente já sucedeu algumas vezes.

            - Também vem? - Karsanov preparava-se para sair do compartimento.

            Mulanov procurou um cigarro e ficou agradecido quando Forster lhe atirou com o seu maço para o colo.

            Milda foi de gatas até ao canto extremo da cama e puxou o cobertor até ao queixo. Os seus olhos estavam esbugalhados de medo.

            -Kiaschka... - balbuciou ela. - Pobre Kiaschka. Que Deus tenha piedade dela...

            - Deixe-se dessas observações reaccionárias! - berrou Karsanov. - Deus não é para aqui chamado. Mas isto é um aviso para si, Milda Tichonovna! Assim terminou a sua... colega! Primeiro através da sarjeta e depois dentro da sarjeta... com a garganta aberta, rasgada!

            - Como é que você sabe que abriram a garganta de Kiaschka? - perguntou logo Forster.

            Karsanov olhou para ele perplexo.

            - Foi um modo de dizer, Werner Antonovitch. Revisor!

            - Camarada coronel? - Mulanov encolheu-se.

            - Comunique a Irkutsk! E também ao director do comboio sobre a casa de banho número cinco! Depois disso trate de bloquear o corredor da carruagem cinco! Nem uma palavra aos outros passageiros! O caso tem de ser tratado com o maior cuidado. Mesmo sendo burro, Bons Fedorovitch, numa coisa você tem razão: nada de pânico! Nada de ficar impressionado! Quando chegamos a Irkutsk?

            - Dentro de duas horas, camarada coronel.

            - É possível tirar o cadáver do comboio sem ser visto?

            - Não me parece! A menos que façamos um embrulho de Kiaschka e a façamos passar como correio para Irkutsk...

            - Só você é que podia ter tal ideia! - disse Karsanov azedo. - Que maravilhoso seria o mundo, se se exterminassem os estúpidos! Deixava de haver problemas com a alimentação! Vamos, Werner Antonovitch?

            - Estou pronto - respondeu Forster.

            - Não me deixem sozinha! - lamentou-se Milda. Tremia como se estivesse sentada num bloco de gelo. - Por favor, não me deixem sozinha! Tenho tanto medo...

            - Não vai acontecer-lhe nada! O assassino está agora mais ocupado em confundir as pistas. Você é muito pouco mteressante! - Karsanov arrancou o cigarro da boca de Mulanov e pisou-o.

            - Não esteja para aí como umas cuecas velhas! - gritou ele. - Até chegarmos a Irkutsk temos de fazer uma reconstituição de todos os factos que precederam a morte de Kiaschka! Talvez até consigamos chegar ao assassino...

            Saiu para o corredor, olhou para a esquerda e para a direita - mas as portas de todos os compartimentos estavam fechadas com as cortinas corridas. As pessoas dormiam.

            Karsanov empurrou Mulanov pelas costas.

            -           Que horas sãO?

            - São precisamente três horas e dezanove minutos, camarada coronel.

            -Vamos...

            Andavam às apalpadelas através do corredor, porque a luz de presença iluminava muito mal. Chegaram à carruagem cinco e pararam à porta da casa de banho. Mulanov limpou o suor frio do rosto.

            - Fechei a porta à chave - disse ele.

            -           Pelo menos conseguiu raciocinar! - Karsanov apontou para a porta. - Abra-a!

            Mulanov tirou do bolso a chave de quatro entradas, com a qual se fecham e abrem todas as portas, e destrancou-a.

            Dentro da casa de banho cinco havia luz - via-se por debaixo da porta.

            -           Vou a correr buscar o director do comboio, Vitali Diogenovitch - tartamudeou Mulanov.

            Davam-lhe vómitos quando pensava naquilo que estava atrás daquela porta: Kiaschka era uma rapariga e jazia no chão, entalada entre a parede e o lavatório - e havia sangue por todo o lado!

            "Quem se admirava com aquilo?", pensou Mulanov fulminante. "Uma mulher tão vistosa e cheia como Kiaschka também devia ter mais sangue do que as outras pessoas..."

            -           Faça isso - ordenou Karsanov, como se estivesse a comandar um batalhão. - Temos de concluir isto aqui primeiro.

            O revisor foi a correr. E levava bastante velocidade, como se o próprio assassino, em pessoa, fosse a correr atrás dele.

            Karsanov empurrou a maçaneta da porta lentamente para baixo; e então olhou para Werner Forster.

            -           Agora não suje as calças! - disse ele, mas a sua voz tornou-se, de súbito, enferrujada.

            Até mesmo para um oficial da KGB um assassínio não era um divertimento - principalmente não para Karsanov!

            Não conseguia habituar-se a ver a morte. Acontecia, de vez em quando, sempre que se enforcava um preso numa cela da Cadeia de Lublianca... mas Karsanov sentia sempre uma sensação de peso no estômago quando, no exercício do seu dever, tinha de examinar o enforcado.

            - Há sempre um lado fraco em todas as profissões, camarada.

            - Uma vez, num dia cinzento, tive de ir buscar dezanove pessoas soterradas numa mina do vale do Ruhr informou Werner Forster.

            Depois pôs a mão sobre a de Karsanov e empurraram o puxador para baixo.

            A porta abriu-se. A primeira coisa que viram foi o sangue no chão de azulejos... depois olharam para Kiaschka. Tinha realmente um aspecto de fazer embrulhar os intestinos a uma pessoa.

            Karsanov engoliu em seco.

            -Atroz... - balbuciou ele, por fim.

            Vitali Diogenovitch vinha a correr pelo corredor. Como não estava de serviço, também trazia vestido um pijama às riscas. No entanto, não tinha nenhumas calças vestidas por cima do pijama, como Karsanov. Tinha também o cabelo todo despenteado. Contudo, para um homem que estava de folga, apresentava-se razoavelmente vestido.

            - Isto não é possível! - gaguejou ele também.

Não é possível! No meu comboio! Sou um desgraçado, um infeliz!

            Deitou um olho à casa de banho, mudou de cor, ficou esverdeado e cambaleou até à parede do corredor.

            Karsanov torceu a boca num sorriso amargo e irado. Também a ele o espectáculo tinha impressionado, sentia-se gelado dos pés à cabeça.

            Os mortos na guerra não pareciam tão terríveis - tinha, por vezes, que viver-se a seu lado e já não impressionavam tanto. Os mortos nas celas - pareciam, pelo menos, mais humanos. Contudo, o que ali jazia devia ter sido Kiaschka Ivanovna Pletjeva, e aquele quadro era superior às forças até de Karsanov.

            Tudo aquilo deve ter sido provocado pela fúria de um animal em forma de gente, ou então de um homem num êxtase sangrento que aplicara golpes sucessivos, alcançando assim a satisfação.

            - Não devemos tocar em nada até chegarem os peritos - disse Forster em voz rouca.

            - Claro que não! - Karsanov olhou para aquela massa humana sem vida, que fora em tempos a bonita Kiaschka. - Quem é que teria tido a coragem de fazer uma coisa destas?

            - Esta é uma pergunta frequente, Pal Viktorovitch.

            - Não tarda e você está a fazer alusões políticas!

            - Vocês, os Russos, com o vosso sentimentalismo! Por acaso dei a entender alguma coisa?

            - O seu tom de voz, Werner Antonovitch! Sempre acusador! - Karsanov olhou para trás, para o corredor.

            Mulanov estava de volta. Já se tinha acalmado um pouco, enquanto Vitali ainda precisou de mais algum tempo para conseguir encarar o espectáculo medonho daquela mulher esfaqueada.

            - Já informei Irkutsk - anunciou Mulanov.

            - O meu colega, Wladlen Ifanovitch, ainda está na cabina telefónica e mantém contacto com a milícia. Querem vir ao nosso encontro e entrar no comboio. Assim que o comboio entrar em Irkutsk e os passageiros desembarcarem, já não é possível haver qualquer tipo de controlo. E nesse caso, o assassino também pode escapar!

            - Muito esperto! - Karsanov tornou a deitar uma olhadela a Kiaschka. O assassino tinha-lhe rasgado o vestido até ao pescoço e desferido várias punhaladas.

            Era preciso investigar como é que aquilo tinha acontecido. Era preciso tentar reconstruir o caso até onde fosse possível. Em primeiro lugar, punha-se, logicamente, a hipótese de Kiaschka, no desempenho da sua profissão, ter recebido um cliente na casa de banho e dado de caras com um animal selvagem.

            Karsanov atirou com a porta e fez sinal ao director do comboio para que se aproximasse.

            - Tranque-a! E pinte um letreiro: "Fechada devido a trabalhos de reparação"!

            - Imediatamente, camarada coronel! - balbuciou Vitali, afastando-se da parede e desatando a correr.

            "Para bem longe daqui", pensava ele. "Kiaschka, a nossa querida pombinha, tão engraçada e tão companheira. Não era má, era uma pessoa sempre simpática, um raio de sol... se assim se poderia chamar... e agora estava para ali caída! Despedaçada! Aquilo não poderia ter acontecido antes ao nojento do Karsanov? O destino é injusto..."

            - Tenho uma ideia - disse entretanto Karsanov a Forster. - O assassino está no comboio e não pode sair. Se saltasse a esta velocidade partia o pescoço. A esta hora está tranquilamente deitado na sua cama, no seu compartimento, ao pé dos outros camaradas. Provavelmente está a beber um gole de chá, a ler um pouco ou então a conversar com alguém que também não consegue dormir. Talvez esteja a falar sobre o tempo ou sobre política! Ninguém se apercebe de que ele é um monstro! Ninguém? - Karsanov agitou a mão no ar. - Com tanto sangue que Kiaschka perdeu, o assassino também deve estar salpicado de sangue! Deve estar pegado às solas dos sapatos... Não viram que todo o chão da casa de banho estava vermelho? Isso vai denunciá-lo!

            - Quer ir de compartimento em compartimento revistar toda a gente? Nessa altura teremos o pânico que você quer evitar. - Forster abanou a cabeça. - Já vamos ter alvoroço que chegue em Irkutsk.

            - Vamos fazer de uma maneira mais discreta! - Karsanov certificou-se de que a porta da casa de banho estava realmente trancada. - Vamos andar de compartimento em compartimento e desculpamo-nos em cada um deles. Faremos como se estivéssemos à procura de alguém. Podemos dizer que um amigo nos prometeu jogar uma partida de xadrez e não apareceu.

            - às quatro da madrugada?

            - Um russo está sempre a jogar xadrez. Não lhe importa que horas são!

            - E o que é que espera encontrar, Pal Viktorovitch?

O assassino, com toda a certeza, já se lavou há muito tempo.

            - As solas dos sapatos ensanguentadas! Não pode tê-las lavado com muito pormenor! Grande parte do sangue fica entranhado entre a sola do sapato e o tacão. Isto faz parte de uma velha experiência!

            - Julga que o assassino é algum idiota?

            - Não! Acho que ele é um criminoso que age por impulso! E pessoas assim, normalmente, deixam escapar qualquer coisa. Quando despertam do seu êxtase, quando voltam ao normal, esquecem-se de algumas insignificâncias! É assim que se identificam os criminosos.

            - Mas você não é um criminalista, Pal Viktorovitch. Você é um entusiasta político.

            - Vai recomeçar? Estes Alemães! Não podem estar juntos, Russos e Alemães, sem começarem logo a discordar em questões políticas!

            Karsanov pôs-se em movimento.

            Vitali Diogenovitch vinha do compartimento dos revisores.

            Já tinha pintado a tabuleta e pregou-a na porta da casa de banho, com dois pregos. Depois disso martelou bem e o som das marteladas retumbou através do silêncio da noite, no transiberiano. "Fechada devido a trabalhos de reparação!"

            - Só imbecis! - exclamou Karsanov quase com tristeza. - Só imbecis é que pregam pregos numa porta, quando se pode colar o cartaz! Venha, Werner Antonovitch, já me estou a irritar!

            Voltaram para o compartimento e Mulanov seguiu-os como um cão fiel.

            Claro que as marteladas acordaram alguns passageiros, mas o revisor acalmou-os e esclareceu que a casa de banho número cinco estava a ser reparada: havia uma avaria qualquer no autoclismo. Seria devidamente arranjado em Irkutsk...

            Os passageiros ficaram satisfeitos com a explicação, fecharam as portas dos compartimentos e voltaram a adormecer.

            Milda ainda estava encolhida no seu canto, quando Forster e Karsanov entraram no compartimento.

            Mulanov ficou parado à porta, à laia de guarda de honra.

            - Ela... ela está mesmo morta? - balbuciou Milda. A sua voz estava fraquinha como a de uma ave.

            - Mais morta era impossível - respondeu Karsanov insensível e sarcástico. - Foi um trabalho metódico.

            - Tenha um pouco de consideração por Milda! - reprovou Forster.

            - Consideração! Uma pessoa foi chacinada, na verdadeira acepção da palavra, e ainda por cima tenho de ter tento na língua! Werner Antonovitch, alguém precisava mostrar a morte à sua Milda!

            Karsanov sentou-se pesadamente. A cama rangeu, como se fossem OS ossos de uma pessoa a estalar.

            Forster estremeceu. Os nervos! Um homem não tinha cabos de aço no corpo, ao invés dos nervos, com toda a certeza! Algures por ali haverá um limite...

            Também Karsanov parecia estar a atingir o seu limite. Olhou de soslaio, com inveja, para o alemão que acendia um cigarro.

            - Também quer um? - perguntou Forster.

            - Com prazer!

            - É de uma fábrica ocidental, em decadência!

            - Você é um sujeito antipático, Werner Antonovitsch! - Karsanov fumava apressada e profundamente, inalando com prazer aquele tabaco adocicado. - Quando é que partimos?

            - É consigo. Não me quero comprometer.

            - Podemos ter sorte.

            - O assassino vai defender-se.

            - Naturalmente!

            Karsanov ergueu-se, tirou a sua mala da bagageira e retirou de lá um objecto alongado. Parecia uma caneta de tinta permanente grossa, tinha até um aparo, e meteu-a no bolso do casaco. Era de um brilho cromado baço e tinha apenas a desvantagem de deformar o bolso onde era colocada.

            Forster observou Karsanov com interesse.

            - Mal posso acreditar - disse ele sarcástico - que o nosso assassino se vai render, quando você o salpicar de tinta.

            - Não faça tantas perguntas, Werner Antonovitch. - Karsanov meteu a pretensa caneta de tinta permanente no bolso exterior do peito do casaco. - A seu tempo será informado.

            Werner Forster olhou para aquele objecto cromado e tudo o que já tinha ouvido dizer dos agentes soviéticos, veio-lhe à memória. Passaram-lhe pela cabeça vários conceitos; imagens que ele tinha visto em jornais e revistas; a liquidação de incómodos exilados russos e polacos, croatas ou checos.

            Seria essa a invenção infernal dos serviços secretos, silenciosa, rápida e metódica para eliminar uma pessoa?

            E este Karsanov estava ali sentado tão quieto, com a "caneta de tinta permanente" no casaco... Era difícil de entender.

            - Já sei o que isso é - disse Forster paralisado. - Não é nenhuma caneta de tinta permanente, mas sim a famosa pistola de ácido cianídrico! Uma coisa diabólica...

            Karsanov não pareceu, de modo nenhum, aflito com isso. Apenas abanou a cabeça.

            - Com essas suas fantasias, você não devia ser engenheiro de minas, mas sim narrador de contos de fadas - disse ele calmamente. - Claro que é uma caneta de tinta permanente.

            - Pois sim! Além disso, há o entusiasmo pela invenção do ácido cianídrico. O aparo é ao mesmo tempo removível e recarregável. Já vi desenhos pormenorizados sobre isso.

            - Então vamos! - Karsanov pôs-se de pé. Terminou de fumar o cigarro e esmagou-o no cinzeiro da janela. - Quero, pelo menos, obter alguns resultados para poder enfiar debaixo do nariz dos colegas da milícia, quando eles embarcarem.

            Karsanov voltou a abrir a porta e Mulanov, que esperava no corredor, adoptou uma posição de sentido.

            - Está tudo calmo no comboio - informou ele.

            Lá fora, surgiam algumas aldeias por entre a escuridão salpicada de neve. A taiga animava-se, à medida que se aproximavam regiões mais povoadas.

            Irkutsk e o lago Baical faziam-se anunciar.

            Gigantescas pilhas de toros e tábuas interrompiam a monotonia. Apareciam as grandes serrações perto das linhas férreas, um pouco antes dos pontos de encontro dos desterrados que viviam aqui neste acampamento e que se estendiam pela floresta com machados e serras.

            A madeira e as peles eram a primeira riqueza da Sibéria até que se descobriu o petróleo, os minérios de ferro, o ouro, as minas de diamantes...

            E dominavam-se aqueles gigantescos dilúvios através de represas. Era produzida electricidade para milhões de pessoas... para o desenvolvimento da terra mais rica do mundo.

            - Dorme - disse Werner Forster a Milda. Deitou-a na cama como se faz a uma criança e voltou a tapá-la. - Agora precisas de dormir...

            - Como é que eu posso dormir, Wernuschka...

            Era a primeira vez que ela pronunciava o seu nome em russo, de uma forma tão carinhosa. Entrelaçou os braços à volta do pescoço dele e não o largou.

            - Ainda vamos ter muito por que passar, Mildaschka

-           disse ele, afectuoso, e beijou-lhe os olhos suavemente.

-           Este assassínio é apenas um adiamento. Karsanov não nos esqueceu. Depois de Irkutsk vai voltar a ocupar-se de nós.

            - E se eu me apear em Irkutsk?

            - Cada pessoa que sair será examinada pela milícia.

            - Saltei para o comboio, também posso descer da mesma maneira... - Ela agarrou-se a Werner. - Kiaschka ia proteger-me... quem vai fazê-lo agora?

            - Não estou cá eu?

            - Tu és alemão! O que é que podes fazer na União Soviética?

            - Veremos. Já tenho uns planos.

            Karsanov meteu a cabeça pela porta do compartimento.

            - Werner Antonovitch! - chamou ele. - Eu sei que as circunstâncias o preocupam por não haver sítio para a sua Milda dormir. Mas não precisa de desesperar por isso. A cama de Kiaschka agora está desocupada; Milda Tichonovna pode mudar-se!

            Forster libertou-se e saiu para o corredor.

            Mulanov sorriu ironicamente, de esguelha. Devia atirar-se com este Karsanov para fora do comboio, era o que queria dizer o seu olhar. "Camarada Forster, sou inteiramente da sua opinião... "

            - Você continua um porco, Pal Viktorovitch - disse Forster rude. - Lamento muito ter de dizer isto a um oficial da KGB. Sou uma pessoa pacífica, mas você torna-me difícil continuar assim! Admiro o seu país, tinha a mais elevada consideração pelo seu trabalho, fui acolhido em todo o lado como um amigo... até que você apareceu!

            - Você não me compreende! - Pal Viktorovitch Karsanov abotoou o botão do seu casaco. Por baixo vislumbravam-se as riscas do pijama. - Você é-me simpático, apesar de tudo! Mas detesto que me tomem por imbecil. Não suporto essa maldita presunção dos Alemães, essa mania da sabedoria e da superioridade que têm sobre os outros! Se corrigisse essa virtude, então eu beijava-o em ambas as faces.

            - Muitíssimo obrigado! Disso livramo-nos os dois.

            Forster fechou a porta atrás de si. Ainda conseguiu ver Milda, que se voltava para a parede. Naturalmente, sentia vontade de chorar...

            - Por onde começamos? - perguntou Forster, dominando-se a custo.

            - Naturalmente pela carruagem um.

            - Acha que o assassino se encontra entre as pessoas mais simples?

            - Não! Mas temos de proceder de uma maneira sistemática. Carruagem por carruagem.

            - Devíamos procurar na primeira classe, Pal Viktorovitch. Se foi um crime com estupro, então teremos de perguntar àqueles que podem pagar o preço de Kiaschka. Você sabe que ela não era barata! Os camponeses e trabalhadores precisam dos seus rublos e têm mais em que gastá-los do que entre as pernas de uma prostituta.

            - Talvez deva inspeccionar as botas do general, que lhe parece? - ponderou Karsanov. - Ou então as do tenor?

            - Porque não?

            Mulanov estava a ficar impaciente. Suspeitar de tão altas individualidades provocava-lhe arrepios nas costas.

            - Se eu pudesse dizer uma coisa... - objectou ele.

            - Não! - interveio Karsanov rude. - A ideia de Werner Antonovitch não tem lógica...

            - Pense em Oleg Tichonovitch Dagorski, aquele touro! Um homem simples, mas estava sempre disposto a pagar qualquer preço por uma horinha de exercício físico!

            - Bem pensado - condescendeu Karsanov.

            - Mas Dagorski já não está no comboio. Ah, quando eu penso nesta situação ridícula!

            - Talvez ainda esteja...? - Mulanov começou a tremer face a esta sua própria reflexão. - Se ele se vingou de Kiaschka por tudo o que lhe aconteceu no transiberiano...

            - Um pensamento grave! - Karsanov semicerrou os olhos. - Ele é bem capaz de uma monstruosidade destas! O que é que acha, Werner Antonovitch?

            Forster mordeu o lábio inferior. Achou que o que Mulanov dissera tinha alguma lógica. Por outro lado...

            - Ninguém é tão conhecido neste comboio como Dagorski - disse Forster por fim, pensativo. - E mais ninguém faria tal coisa! As suas probabilidades de descobri-lo neste comboio são praticamente nulas. Um gigante como ele não pode esconder-se com facilidade por aí em qualquer canto. Também não pode gozar com os passageiros inocentes. Não, Dagorski anda a percorrer a taiga, enterrado na neve! Então, o assassino está sentado algures num compartimento e tem um ar perfeitamente normal e discreto.

            - Que maçada! - Karsanov pegou, pouco depois, na sua grossa "caneta de tinta permanente". - Mantenhamo-nos sistemáticos! Vamos começar pela carruagem

            Forster fez questão de frisar logo que a busca carecia de objectividade.

            Na carruagem da segunda classe, onde as pessoas se amontoavam sentadas ou deitadas, até mesmo nas bagageiras, ressonando como bodes, era completamente impossível olhar para as solas dos sapatos fosse de quem fosse.

            Demais a mais, o pretexto de procurar um parceiro para jogar xadrez era bastante idiota, porque qual destes saloios iria jogar xadrez com um homem tão distinto como Karsanov?

            Portanto, contentaram-se em andar por ali a examinar as pessoas; olhavam precisamente para as solas dos sapatos, que estavam visíveis, das pessoas que dormiam e talvez, aqui ou ali, apenas com um olhar pudessem encontrar, com uma vaga suspeita, um determinado tipo de pessoas.

            - Grandes patifes! - opinou Karsanov ao inspeccionar a carruagem dois. - É assustadora a quantidade de caras torcidas que anda por aí à solta pelo mundo! Pelas caras podiam identificar-se pelo menos trinta assassinos, à vontade! Werner Antonovitch, já alguma vez viu tantas fisionomias sombrias, no meio de uma multidão, como neste comboio?

            - É assim em todo o lado, Pal Viktorovitch! Nem toda a gente pode ter uma beleza inocente. Quando você está deitado a ressonar (já me dei ao trabalho de o observar atentamente) também não é o que se possa chamar de um retrato de um deus!

            - Por que razão tem você que levar tudo para o campo pessoal?

            Karsanov interrompeu as buscas. Era um trabalho inútil, e ele odiava caminhar em vão.

            - Só o acaso poderá ajudar-nos. Que diabo, há aqui um assassino no comboio...

            - Sim, isso é quase certo.

            Voltaram para a carruagem deles. Forster estava preocupado com Milda, que ainda não tinha adormecido, tal o medo que a possuía.

            Pelo caminho, encontraram Vitali Diogenovitch, que continuava nas proximidades da casa de banho número cinco.

            De passagem, ainda deitaram um olhar à cabina telefónica, onde Wladlen Ifanovitch continuava a falar com Irkutsk.

            - Vem ai uma comissão a caminho - elucidou ele quando reconheceu Karsanov. - Os camaradas de Irkutsk estão muito nervosos.

            - Isso é de admirar? - Karsanov bateu com os punhos um no outro. - Primeiro o roubo, depois o assassínio... e tudo isto no Expresso Transiberiano, o orgulho da União Soviética! Em Moscovo também têm de saber disto...

            Mulanov suspirou profundamente. "Moscovo", pensou ele. Seria preciso enviar um monte de correspondência inútil: relatórios, protocolos, depoimentos. A burocracia soviética é célebre pela sua profundidade.

            - Devo transmitir mais alguma informação a Irkutsk, camarada coronel? - perguntou Wladlen Ifanovitch com o auscultador no ouvido.

            - Não! Informar o quê? - Karsanov fez sinal que não, de mau humor. - Não pode evitar que os passageiros que querem apear-se em Irkutsk saiam, nem detê-los por precaução. Seria uma falta de consideração pelas pessoas! Outra busca, nestas circunstâncias, não é realmente possível! Uma merda, camaradas!

            Fedja encontrava-se à porta do compartimento da carruagem número cinco, da primeira classe. Estava de pé, à espera havia muito tempo, sonolento e com olheiras, mas sempre aprumado no seu casaco branco.

            Segurava uma bandeja nas mãos, na qual havia algumas chávenas de chá fumegante. Além disso, havia também um prato com bolachas e fatias de queijo. Até ali não se soubera que o vagão-restaurante dispunha daquelas iguarias.

            - Fui eu que encomendei isto... - disse Mulanov, hesitante. - Pensei para comigo que uma refeição ligeira iria fazer bem aos senhores...

            - Até que enfim você teve uma ideia inteligente! - disse Karsanov sarcástico, mas ao mesmo tempo benevolente.

            Mulanov ficou radiante.

            Fedj a serviu o chá na mesinha articulada e ofereceu também uma chávena a Milda.

            Karsanov já petiscava um pouco de queijo.

            O general surgiu, de repente, vindo do compartimento vizinho. Também ele usava um pijama às riscas. Pelo menos à noite, a fraternidade nesta terra era perfeita.

            - Cheirou-me a chá! - disse ele. - É verdade? Tenho um olfacto muito apurado, sabem? Até já me custou algumas horas de sono. É realmente chá! E agora pergunto eu, qual é a razão da preferência de serviço para este compartimento? Um general também não tem sede?

            Fedj a olhou desamparado de Karsanov a Mulanov. Não tinha cabimento um simples empregado de mesa discutir com um general soviético.

            - Tem razão, camarada general - disse Karsanov, estendendo uma chávena ao general. Este sentou-se na cama de Forster, perto de Milda, facto que Karsanov registou, não sem troça.

            - Estamos numa situação difícil. Andamos à procura de um assassino...

            - Perfeito! - O general saboreou o chá quente com satisfação e depois serviu-se de algumas bolachas. - Como é o nome do jogo? Este não conheço. Eu jogo sempre com a minha mulher é ao "Passeio de Trenó em Sampetersburgo". Efectivamente, Sampetersburgo e não Leninegrado! Ao que parece, a revolução ainda não chegou às fábricas de brinquedos...

            "Um sujeito infantil", pensou Karsanov, e envergonhou-se perante Forster. Devia proibir-se que ele continuasse a usar uniforme. Um general!

            - O jogo chama-se "assassínio"! - disse ele em voz alta e de modo grosseiro.

            Milda estremeceu.

            Fedja saiu rapidamente do compartimento com a bandeja vazia. Era melhor evitar discussões quando uma pessoa era uma pobre de espírito. Quanto menos se faz, mais complicações surgem na vida quotidiana.

            - Assassínio? - O general cortou um pouco de queijo. - Excelente! Ainda posso entrar no jogo ou o número de jogadores é limitado?

            - É limitado, camarada general! - disse Karsanov com desprezo.

            - Avante! Podemos começar! Quais são as regras do jogo?

            - Pega-se numa prostituta do comboio, marca-se encontro com ela numa retrete e apunhala-se a mulher. Depois foge-se.

            - Devo dizer, camarada, que acho o jogo muito estúpido. - O general bebeu o seu chá até ao fim. - Além do mais é macabro! Devia ser proibido! Sem qualquer valor didáctico!

            - Estamos justamente à procura do assassino. – Karsanov recostou-se.

            O comboio começou a andar mais devagar. Apareciam grupos de casas construídas nas clareiras da taiga. Construções solitárias, nas quais viviam pessoas que só conseguiam suportar a solidão desta terra pelo amor que lhe tinham.

            -Samonagaisk... - sussurrou Mulanov. - É aqui que embarcam os camaradas da missão especial...

O expresso ofegou, as rodas rangeram ruidosamente.

            Surgiu uma estação. Estava bem iluminada e havia poucas pessoas à espera sob o telheiro. Numa outra via achava-se uma locomotiva e algumas carruagens.

            O general encostou a cara ao vidro frio da janela.

            -           Outra paragem imprevista? Porquê tão depressa?

            -           Samonagaisk! - Mulanov ergueu-se de um salto.

            O comboio travou suavemente e depois parou.

            Os menos dorminhocos aperceberam-se; e os que se deram conta, viraram-se para o outro lado e voltaram a dormir.

            "Esperemos que não seja preciso escavar outra vez", pensavam eles meio a dormir. "Esperemos que não seja preciso ir de novo lá para fora para aquele gelo arrepiante! Pagámos uma viagem de comboio e não trabalhos ferroviários... "

            -           Os novos jogadores! - anunciou Karsanov sarcástico e levantou-se prontamente. O seu escárnio era sincero.

-           Camarada general, agora vamos apanhar o assassino. - Saiu do compartimento apressadamente.

            O general olhou para ele assombrado. Depois voltou-se para Forster e o seu rosto ficou comprido como uma cabeça de cavalo.

            -           Um assassínio de verdade? - perguntou ele com voz duvidosa. - Aqui no comboio? Quem foi? Porventura o tenor?

            -           Não! - Milda Tichonovna escondeu, desesperadamente, o rosto entre as mãos. - Kiaschka Ivanovna...

            O general ficou literalmente sem fala.

 

 

            O director da comissão especial de Irkutsk era um homem alto, de olhar lúgubre, com um nariz comprido e vermelho por causa do frio. Usava um casaco de pele de urso lavável e chamava-se Stepan Petrovitch Plotkin.

            Karsanov cumprimentou-o cerimoniosamente, como competia a um oficial da KOB.

            O expresso retomou a sua marcha logo que Plotkin e os seus quatro assistentes embarcaram. Era impossível que o assassino tivesse saltado do comboio sem ser visto.

            -           Onde está a morta? - perguntou Plotkin sem rodeios. Havia pouco tempo, uma hora, e o comboio chegaria a Irkutsk.

            -           No lavabo número cinco - respondeu Mulanov rapidamente.

            -           Não tocaram em nada?

            -           Somos alguns principiantes, Stepan Petrovitch? - retorquiu Karsanov.

            -Vamos...

            Não continuaram. Do outro extremo do vagão aproximavam-se passos. Através do corredor, ressoava um barulho, altos gritos e uma grande correria. Karsanov agarrou na sua "caneta de tinta permanente".

            Plotkin empunhou imediatamente uma pistola.

            Os assistentes, por trás dele, formaram de imediato um muro impenetrável.

            O que quer que se aproximasse seria, à partida, bloqueado aqui.

            Corria através do corredor - quem mais poderia ser, num pijama às riscas? - o fabricante de sabonetes, Dementi Michailovitch Skarnejkin. Não estava sequer sonâmbulo, nem mesmo tinha ficado louco com o roubo dos seus sapatos... não, ele saltava ao longo da carruagem e dos corredores, fazendo um barulho infernal e gritava a todos os que se lhe atravessassem no caminho:

            -           Felicitem-me, meus amigos! Dêem-me um abraço! Já os tenho de volta! Já recuperei os meus lindos sapatos novos! De repente encontrei-os debaixo da minha cama, fiéis como um cachorrinho! Olhem para eles! Ei-los! Não são uns sapatos magníficos?

            Agitava os sapatos no ar com ambas as mãos. Segurou-os com a sola virada para cima, até mesmo debaixo do nariz de Karsanov e Plotkin, que olhavam para ele furiosos.

            Eram, de facto, sapatos novos que mal tinham sido usados, um trabalho digno de nota. No entanto, apresentavam umas horríveis manchas vermelhas - mesmo entre a sola e o tacão.

            Sangue...

            A agitação foi enorme. Não exactamente porque havia sangue pegado aos sapatos de Skarnejkin - isso ninguém via na fraca luz das lâmpadas de presença -, mas porque as pessoas tinham sido arrancadas de um sono profundo, estavam despenteadas e haviam batido algures com a cabeça.

            Era cá uma exigência! Uma pessoa estava ali, muito satisfeita na cama, numa viagem aborrecida através da taiga monótona e coberta de neve, e, de repente, alguém desatava aos gritos e a agitar um par de sapatos no ar.

            -           Diabos te levem! - berrou alguém num dos compartimentos.

            -           Come os sapatos, já que gostas tanto deles!

            E um outro camarada - ah, há pessoas tão brutais como um touro! - correu pelo corredor, deu um pontapé a Skarnejkin e depois desapareceu a correr.

            O desgraçado cambaleou, mas continuava a segurar os

seus lindos sapatos como um tocador de pratos numa orquestra, prestes a baterem um no outro. Por fim, admirou-se muito ao ver que, ao fundo do corredor, estava uma falange de homens com um olhar tenebroso e que inclusivamente lhe apontavam uma pistola.

            Skarnejkin emudeceu, escondeu os sapatos atrás das costas e empalideceu.

            -           Podem atirar sobre mim à vontade! - balbuciou ele. - Não volto a entregar os meus sapatos! O que se passa para ficarem assim tão furiosos? São uns sapatos normais. O que tem isso de tão extraordinário?

            -           O sangue! - disse Karsanov em tom duro.

            -           Camarada, mostre-me os seus sapatos outra vez.

            -           Só mesmo à força! - Skarnejkin estendeu as mãos.

- Antes que atirem em mim...

            -           Eu sou Stepan Petrovitch Plotkin, capitão da milícia - disse o director da comissão especial, e guardou a pistola.

            -           Um capitão, e quer roubar-me os sapatos! - gritou Skarnejkin desesperado. - Em que tempos vivemos, irmãos?

            Karsanov tirou-lhe os sapatos das mãos e mirou as solas. Depois estendeu-os a Plotkin.

            -           É sangue! - declarou ele em voz surda.

            -           E a análise comprovará como o sangue é de Kiaschka.

            -           Nesse caso, temos o assassino! - Plotkin examinou o pobre Skarnejkin com um olhar penetrante.

            -           Confirma que estes sapatos são seus?

            -           O que é isso de confirmar? Tenho muito orgulho neles!

            -           Uma besta de assassino! - disse Plotkin, abalado.

- E doido ainda por cima! Devia ser entregue a uma instituição...

            -           Gostaria de esclarecer um equívoco, camarada -

intrometeu-se Karsanov. - O industrial Dementi Michailovitch Skarnejkin é um homem honesto. Ele fabrica sabonetes...

            -           Com os quais o próprio Brejnev se lava! - gritou Skarnejkin entretanto. - O que é que quer exactamente de mim e dos meus sapatos?

            -           Apenas algumas perguntas!

            Karsanov ainda deitou um olhar às manchas de sangue e pensou, arrepiado, em Kiaschka, atrozmente chacinada na casa de banho número cinco.

            -           Onde estavam os seus sapatos?

            -           Debaixo da minha cama! Como por magia! Deitei-me à noite, descalcei os sapatos emprestados, de resto, a coisa mais horrível que se pode imaginar. Até podia nadar neles de tão grandes que eram! Ainda li um pouco e depois adormeci. Até agora! Então acordei, porque me parecia que a bexiga me ia rebentar. Toquei, por acaso, debaixo da cama... e o que é que lá estava? Os meus sapatos que tinham sido roubados! Camaradas, quase tive um ataque cardíaco de tanta alegria!

            -           E os sapatos emprestados? - perguntou Plotkin, como se já soubesse.

            -           Ainda lá estão... atirados para debaixo da cama. O que é

que quer dizer? O ladrão deve ter tido compaixão! No fundo da sua alma é capaz de haver um homem sensível. Talvez seja a necessidade que o impele a roubar, quem sabe?

            Karsanov e Plotldn olharam-se rapidamente. Uma alma sensível!

            -           Os sapatos estão confiscados! - esclareceu Plotkin oficialmente. Os olhos de Skarnejkin quase lhe saltaram das órbitas.

            -           O quê? - balbuciou ele. - Confiscados? Primeiro roubados e depois confiscados pelo Estado? Porquê? Qual é, pois, a diferença? Protesto.

            -           Pode fazê-lo, por escrito, em triplicado, ao Ministério Público de Irkutsk! - Plotkin examinou meticulosamente as solas.

            O assassino tentara limpar o sangue, mas não havia tido tempo suficiente para lavar os sapatos por completo. Então tinha-os levado a Skarnejkin, na esperança de que ninguém o controlasse.

            O que teria interrompido a limpeza dos sapatos do assassino?

            -           Em breve terá os sapatos de volta, camarada!

            -           Quando? - gritou Skarnejkin. - Quando eu tiver netos, nessa altura trará...

            -           Assim que tivermos o assassino.

            -           Que assassino? - Dementi Michailovitch passou, deste modo, com ambas as mãos pelos cabelos já revoltos.

            - Aquele que levou os sapatos! Alguém cometeu um homicídio, com os seus sapatos calçados, camarada, há duas ou três horas! - Plotkin não deveria ter dito aquilo, pelo menos não tão directamente, talvez devesse ter sido um pouco mais discreto.

            Skarnejkin começou a soluçar, meteu-se no primeiro compartimento que encontrou, sentou-se ao colo de um homem que dormia no banco e começou então a tremer. O homem grunhiu e continuou a dormir.

            -           Um cão de sangue frio, este assassino! - disse Plotkin e entalou os sapatos debaixo do braço esquerdo.

- Agora mostre-me a vítima, camarada coronel!

            à porta da casa de banho número cinco Vitali Diogenovitch continuava de sentinela.

            Mulanov acenou-lhe pelas costas de Plotkin e fez-lhe alguns sinais. Vitali compreendeu imediatamente. Pôs-se em sentido diante de Plotkin e fez o relatório dos acontecimentos.

            - Nada de especial a assinalar! No comboio ainda ninguém sabe do assassínio.

            -           Menos um par de camaradas que sabem calar-se - lembrou Karsanov. - Boris Fedorovitch, abra a porta. - Mulanov pegou na chave de quatro entradas e abriu a porta da casa de banho. Depois desviou-se para o lado. Não queria voltar a ver Kiaschka naquele estado.

            Karsanov empurrou a porta.

            Kiaschka Ivanovna estava noutra posição. Com a travagem a fundo do comboio, tinha ficado virada de lado. Agora era possível ver-lhe a cara e, além do medo, tinha uma expressão de espanto.

            Plotkin debruçou-se sobre ela, sem pisar o lavabo.

            -           Um golpe na garganta - disse ele, prosaico. - Foi morte imediata. Os outros golpes no peito e no ventre foram de menor importância.

            -           Uma besta com sede de sangue! - declarou Karsanov rouco. - Sem sombra de dúvida foi um crime sexual!

            -           Isso vai ser revelado na autópsia. - Plotkin recuou.

            Os seus assistentes começaram a fazer o trabalho de rotina, como é habitual em todo o mundo em qualquer equipa especializada em homicídios: fotografaram a morta, detectaram pegadas, procuraram pormenores ou particularidades...

            Plotkin encostou-se à parede na parte de fora do recinto e puxou de um cigarro. Karsanov recusou. Depois de ter fumado os decadentes cigarros ocidentais de Forster, não queria fumar aquela erva corrosiva.

            -           Com que então Kiaschka Ivanovna era uma puta?

- perguntou Plotkin.

            -           É uma maneira um pouco rude de pôr o problema.

- Mulanov intrometeu-se. Achava Kiaschka culpada, mas queria amenizar um pouco a sua reputação: - Era uma pessoa alegre que contagiava com a sua boa disposição. Estava sempre pronta para a brincadeira.

            - É uma maneira de colocar a questão - declarou Karsanov com ironia. - Distraía-se bastante e ganhava razoavelmente bem com isso...

            Plotkin abanou a cabeça e expeliu o fumo do seu cigarro pelas narinas. Nunca se tinha pensado numa coisa daquelas...

            -           Ela possuía então muito dinheiro? - perguntou ele.

            -           Devia ter entre seiscentos e setecentos rublos. - Mulanov lembrou-se. Como tinha sido o dia de ontem?

            Kiaschka tinha contado o dinheiro no seu compartimento de revisor: moedas grandes e pequenas e notas. Vitali Diogenovitch ainda tinha ajudado a pôr as moedas em montinhos; e Fedja contou uma anedota que ouvira de um passageiro.

            Foi um convívio animado, porque Fedj a levara um pouco de vodca da cozinha do vagão-restaurante.

            Algumas horas mais tarde apareceu o assassino e Kiaschka estava morta.

            -           Onde é que ela guardou o dinheiro? - Plotkin olhou para a mão ensanguentada de Kiaschka. Era a única mão que ele podia ver do lugar onde estava. - Numa mala, numa bolsa?

            - Muito melhor, camaradas! - Mulanov sorriu embaraçado. - "Aqui não chegam sem o meu consentimento." Era o que Kiaschka sempre dizia, com toda a certeza! Ela trazia o dinheiro numa bolsa de couro, entre as pernas...

            -           Foi uma boa informação, Bons Fedorovitch! - disse Karsanov, respirando com dificuldade.

            Foi, outra vez, com Plotkin até à casa de banho e olhou lá para dentro. A parte de baixo do corpo de Kiaschka estava nua. O vestido estava puxado para cima, até ao pescoço... mas no lugar onde deveria estar a bolsa de couro, não havia nada.

            - Ainda é preciso fotografar? - perguntou Plotkin aos seus homens.

            Eles disseram que não.

            - Então podem sair!

            Karsanov cerrou os dentes.

            Os assistentes não trataram o corpo de Kiaschka com delicadeza. Viraram-na de barriga para baixo e atiraram-na contra o lavatório da casa de banho.

            Plotkin acenou com a cabeça satisfeito. Debaixo do corpo estava um cinto de couro no qual a bolsa do dinheiro era, aparentemente, pendurada, mas estava cortada.

            -           Um homicídio por roubo! - disse Plotkin a Karsanov. - Um motivo muito simples!

            -           E as várias facadas que indicam muita raiva?

            Karsanov saiu rapidamente para o corredor, para não ter de olhar para Kiaschka mais tempo.

            - Esse é o segundo acto da tragédia, camarada coronel. Kiaschka foi assassinada por causa do dinheiro... e quando o assassino viu que ela estava morta, continuou a apunhalá-la às cegas.

            -           à primeira vista não, mas à segunda! O assassino não é mesmo um assassino, ou melhor: nunca tinha matado ninguém. Foi a primeira vez. E quando viu o que tinha feito, esse crime dominou-o e o horror apoderou-se dele enquanto continuava a apunhalar.

            -           Um demente, portanto!

            -           Não! Alguém que teve medo até de si próprio. Alguém que descobriu o animal selvagem que tem em si e não consegue contentar-se. - Plotkin pisou o cigarro.

            Nesse momento, o coronel Karsanov sentiu uma grande veneração por aquele homem. "É um bom psicólogo", pensou ele. "As coisas podem ter sido assim - mas também podem ter sido de outra maneira! Não bastava a ciência para conhecer um homem."

            -           Vamos percorrer o comboio e tomar nota de toda a gente que estiver impaciente. Não exteriormente... O desassossego encontra-se apenas nos olhos! - esclareceu Plotkin. - Uma pessoa que quer dinheiro e cora contra a sua vontade!

            -           E como é que ele ia saber que Kiaschka escondia o seu dinheiro entre as pernas? - perguntou Mulanov.

            Era admirável: o modesto, calado e fiel funcionário Mulanov derrotou um velho criminalista como Plotkin com as melhores reflexões da sua cabeça!

            O director da comissão especial de Irkutsk coçou a cabeça e abanou-a várias vezes.

            -           É isso! Como? Há duas possibilidades: o assassino viu a bolsa quando... tratava de negócios com Kiaschka... ou então ouviu falar disso no pequeno círculo de conhecimentos da morta. Quem é que tinha conhecimento da bolsa de cabedal?

            Mulanov ficou calado. A situação estava a ficar praticamente sem saída.

            -           Uma mão cheia - respondeu ele hesitante. - Eu, Vitali Diogenovitch, Wladlen Ifanovitch, Milda Tichonovna e Werner Antonovitch Forster...

            -           Quem é esse? - perguntou Plotkin em voz alta.

            -           Um alemão. Engenheiro de minas e convidado do Governo. Eu responsabilizo-me por ele! - Karsanov disse isto e abanou a cabeça.

Mulanov olhou para ele pasmado. "Responsabilizava-se por ele", pensou, e no compartimento quase que lhe parte a cabeça.

            - O seu álibi é tão sólido como as fronteiras da União Soviética - acrescentou Karsanov.

            -           Então aqui há coisa! - replicou Plotkin lacónico.

-           Há qualquer coisa que não bate certo! Cinco pessoas sabiam, seguramente, que Kiaschka escondia o seu dinheiro muito... teimosamente. Podemos reunir este grupo. - Olhou para Mulanov e Vitali. Wladlen já ele tinha conhecido quando embarcou. - E quem é essa Milda Tichonovna?

            - É uma da nova geração! - Karsanov fez um sinal negativo. - Ela estava comigo e com Werner Antonovitch no compartimento e... ainda lá deve estar.

-Uma... - Plotkin não pronunciou a palavra.

- A noite inteira no compartimento! E você não se importou? - Karsanov ficou vermelho como um tomate.

            -           Camarada, eu entendi isso como uma pequena brincadeira de homens - disse ele cerimonioso. - Apesar de não termos motivo para estar com essas brincadeiras. Contudo, Werner Antonovitch é um homem honrado!

            Foi nesse momento que Mulanov duvidou de que as pessoas só tivessem um cérebro na cabeça. Karsanov devia ter dois e comandava-os de cá para lá sempre que era preciso.

            Pela segunda vez, ele defendeu o alemão... quem diria?

 

            Karsanov pressentiu que as buscas não dariam em nada.

            Irkutsk estava cada vez mais perto, a taiga tornava-se mais iluminada, surgiam casas para as quais a floresta era um jardim ameaçador.

            Depois atravessaram-se extensos campos, regiões industriais que produziam o efeito de feios borrões na paisagem.

            O assassino podia apear-se livremente em Irkutsk. Não se podiam deter, com facilidade e por precaução, quarenta ou cinquenta pessoas, se bem que isso não fosse um problema.

            Mas os tempos modificaram-se - os soviéticos já não eram tão anónimos como antigamente; tinham adquirido personalidade própria...

            Era impensável dizer a um inocente: "Estás preso! És um assassino!" E ainda por cima sem provas...

            O Partido estava cheio de protestos de funcionários. Ser funcionário público na União Soviética era ainda uma coisa entre a honra e a pancada...

            Plotkin e os seus assistentes passaram o comboio a pente fino até Irkutsk. Carruagem por carruagem.

            Ele interrogou o próprio tenor, o qual confessou, com exactidão, que já tinha matado duas mil seiscentas e trinta e quatro vezes. Na maior parte das vezes com uma espada - em cena!

            O general riu-se tanto que até lhe correram lágrimas pelas faces.

            Plotkin sentiu-se profundamente ofendido e descompôs o tenor. Estava a investigar um crime e não num ensaio de uma ópera cómica.

            Então abriu a porta do compartimento vizinho com violência. Milda Tichonovna estava a dormir. Werner Forster encontrava-se sentado à janela e agarrou espontaneamente no seu passaporte alemão e no ofício do Ministério de Moscovo.

            Karsanov surgiu ao lado de Plotkin e sentou-se na sua cama desmanchada.

            - Este é Werner Antonovitch - disse ele em voz baixa para não acordar Milda.

            Estupefacto, Forster voltou a guardar os papéis, porque Plotkin, generosamente, lhe fez um sinal negativo com a cabeça.

            - Já lhe tinha dito que somos amigos, camarada - disse Karsanov.

            - E esta é Milda? - perguntou Plotkin.

            Karsanov agitou as duas mãos no ar.

            - Baixe a voz, Stepan Petrovitch! Ela está a dormir...

            - Estou a ver! Mas preciso dela acordada!

            - Porquê?

            - Talvez me possa contar qualquer coisa sobre Kiaschka.

            - Claro! Mas assim não apanhará o assassino! Quer levantar o véu sobre a carreira de prostituta de Kiaschka? O assassino não está em Sverdlovsk nem em Víadivostoque. Está aqui no comboio! E Milda permaneceu aqui no compartimento desde que começou a escurecer. Não é verdade, Werner Antonovitch?

            - O camarada coronel tem razão. - Forster olhava para Karsanov, abismado. - Todos nós nos assustámos com a notícia que Mulanov nos trouxe!

            Milda mexeu-se, suspirou sibilante a dormir e encostou a cabeça no colo de Forster. Um bichinho que procurava protecção e calor.

            Karsanov colocou o dedo indicador nos lábios.

            - Stepan Petrovitch, por favor, fale um pouco mais baixo!

            Plotkin voltou a coçar a cabeça. "Que fazer?", interrogava-se. "Karsanov é coronel da KGB! Não posso descompô-lo. Mas o que é que ele julga? Quem é que dirige aqui as investigações? Quem é que decide quem deve falar? Quando eu quiser interrogar esta prostitutazinha, vou fazê-lo!"

            Claro que para poder alcançar a paz universal teria de desistir dessa ideia! Só levaria a uma discussão interminável.

            "Mas vou queixar-me! Estou aqui a cumprir o meu dever na posição de capitão da milícia!"

            - Onde é que ela guarda o dinheiro? - perguntou Plotkin, venenoso, e apontou para a rapariga adormecida.

            A pergunta surpreendeu Karsanov de tal maneira que ele não soube o que responder.

            -           Entre os seios! - respondeu Forster calmamente.

-           Um lugar seguro... e eu asseguro-me disso com as minhas mãos!

            Plotkin abandonou o compartimento com um ruído que mais parecia um grunhido e fechou a porta.

            Karsanov descalçou os sapatos e deitou-se na cama.

            - Era mesmo Kiaschka? - perguntou Forster baixinho.

            -Sim... - respondeu Karsanov lacónico.

            - Porque é que você fez isso?

            Karsanov estremeceu violentamente, como se tivesse sido picado por uma tarântula. Estava perfeitamente escandalizado.

            -           Você perdeu o juízo? - berrou ele.

            -           Pal Viktorovitch, não me refiro a Kiaschka! O que eu queria dizer é por que razão fingiu à minha frente e de Milda?

            Karsanov deixou-se cair outra vez na almofada.

            - Tem um cigarro que me dê? - perguntou ele apenas.

            -           Claro!

            Forster foi buscar um maço ao bolso do casaco, cautelosamente, para não acordar Milda, e atirou-o ao coronel.

            Seguiu-se depois o isqueiro.

            Karsanov acendeu um cigarro vagarosamente e fumou em silêncio durante um momento.

            - Chamou-me seu amigo! - exclamou Forster, passado um bocado.

            -           Foi apenas uma maneira de falar.

            -           Defendeu o sono de Milda como um pai. Estou estupefacto,

Pal Viktorovitch!

            -           Não é nenhum mistério - disse Karsanov tranquilamente. Seguia com a vista as pequenas nuvens de fumo.

-           Quis evitar que Plotkin apanhasse Milda no comboio em Irkutsk. A sua desconhecida de Sverdlovsk é caso meu! E assim poupei-me!

            Era muito fácil de dizer, mas Forster sabia a gravidade da situação que estava por trás disso tudo. Karsanov continuava o mesmo - só podia modificar-se como um camaleão muda de cor...

            - Por um largo momento, senti simpatia por si, Karsanov - disse Forster, agora mordaz. - Por favor, queira desculpar o meu deslize! Você continua um nojo!

            As frentes estavam definidas.

            Através da janela surgiam os primeiros subúrbios de Irkutsk.

 

 

            Era a primeira vez, nestes anos todos, desde que o Expresso Transiberiano parava em Irkutsk, que a estação estava cheia de milicianos que a bloqueavam por completo.

            Apenas poucas pessoas deram por isso. Devido ao grande atraso do comboio, já era de manhã, hora em que todos ainda dormiam.

            Os comboios de mercadorias chegaram em duas horas; a vida nesta cidade gigantesca, à beira do Angara, ainda não tinha começado.

            Ali só estavam dois passageiros que queriam embarcar no Expresso. Gelados, tinham esperado horas a fio por causa do atraso e foram surpreendidos por aquele súbito bloqueio. Não havia respostas para as perguntas que se faziam a razão de estar ali a milícia.

            Corria, então, o boato de que ia descer um camarada importante de Moscovo, mas era pouco credível, porque os membros do Governo utilizavam aviões do Estado.

            Portanto, só restava esperar, batia-se com os pés para aquecer e aguardava-se atrás dos milicianos. Dentro de poucos minutos saber-se-ia o que significava tudo aquilo...

            Era um equívoco.

            O transiberiano parou, as portas abriram-se, os revisores saltaram para a gare, seguiram-se quatro homens que pareciam, de alguma maneira, soldados, apesar das suas roupas civis. E finalmente apareceu um camarada que assumiu logo o comando, a vociferar por entre aquele cenário:

            - Todos os passageiros para Irkutsk reúnam-se em frente ao comboio!

            E ali ficaram todos com malas e pacotes, maletas e sacos, com as golas dos casacos levantadas. A maior parte deles estava quase a dormir em pé, dócil como uma manada de gado que tivesse sido reunida.

            E tal como numa contagem de cabeças, iam a trote isoladamente, através da passagem estreita deixada pela milícia. Atrás de uma mesa estava Plotkin, que examinava meticulosamente cada um deles.

            O controlo dos bilhetes de identidade era o mais inofensivo. Causava grandes aborrecimentos, já que os quatro assistentes revistavam cada passageiro, revolviam cada volume de bagagem e todos os que tivessem mais de setecentos rublos no bolso eram levados pelos soldados da milícia.

            Plotkin não tinha dúvidas de que só podiam ser tomadas medidas superficiais, já que as despesas eram maiores do que a necessidade. Contudo, devia ser feita alguma coisa, era o essencial! Não se podia deixar andar um assassino à solta por aí, sem demonstrar, pelo menos, que se estava no seu encalço.

            Plotkin mirava, carrancudo, cada um dos passageiros que por ele passava, em passo de marcha.

            Caras vulgares, camaradas inofensivos, cansados da viagem e nada mais os abalava, desde que Karsanov os tinha obrigado a sair do quente dos seus compartimentos para ir escavar neve no meio da taiga, sob um frio enregelador.

            Ficavam parados em frente da mesa de controlo, de braços levantados, deixando que os apalpassem. Alguns protestavam sem resultado e sentiam-se dominados pela fadiga...

            Plotkin tentava acalmá-los, interiormente dava-lhes razão, e ficou satisfeito quando a parada dispersou.

            "O assassino ainda está no comboio", pensou ele. "Naturalmente, não se pode notar numa pessoa se ela matou outra. Deve haver homens de bem que desfazem as suas mulheres em ácido sulfúrico, como o tal Alanajew, e por quem todos são capazes de responder pela sua integridade... Mas estes passageiros são tão inocentes como o conteúdo da sua bagagem."

            Plotkin abandonou a sua mesa e voltou para o comboio.

            Karsanov e Forster encontravam-se em frente à porta da casa de banho cinco, onde estava pregada a tabuleta: "Fechada devido a trabalhos de reparação!"

            Mulanov, na plataforma, segurava a porta aberta. Esperava-se pela ambulância e pelo caixão de zinco, no qual Kiaschka seria transportada.

            Talvez se se dirigisse o comboio para outra via, o caso pudesse passar mais despercebido.

            A respeito de um crime não se podia prever nada...

            Os passageiros que estavam na estação de Irkutsk não tinham dúvidas de que a milícia procurava estupefacientes.

            Essa epidemia maldita tinha-se infiltrado na União Soviética vinda do Ocidente. Cada vez mais jovens eram detidos, faziam-se buscas em arrecadações nas quais eles se encontravam e se injectavam com esse veneno.

            Plotkin subiu para o comboio. A sua cara exprimia resignação.

            - Todos uns cordeirinhos brancos, não é verdade? - perguntou Karsanov. Tinha-se vestido entretando e já não se via nenhum pijama às riscas por baixo do casaco.

            Plotkin ofegava acentuadamente.

            - Estava à espera de outra coisa?

            - De que maneira é que vão levar Kiaschka? - perguntou Forster.

            Plotkin olhou para a porta da casa de banho e então abanou a cabeça.

            - De maneira nenhuma.

            - Stepan Petrovitch, quer isso dizer que... - concluiu Karsanov.

            Plotkin acenou com a cabeça várias vezes.

            - Sim, é isso mesmo! Kiaschka fica no comboio!

            -           Até VIadivostoque? - tartamudeou Karsanov, embaraçado. - Isso é monstruoso! Quem é que deu uma ordem dessas? Onde já se viu uma coisa destas? Deixar um cadáver ali estendido, dias a fio, debaixo dos olhos da polícia! Numa retrete! Camarada Plotkin, isso contradiz todas as normas! É desumano... para com a morta e também para connosco!

            -           Eu sei! Também é um caso excepcional. - Plotkin fechou a porta da carruagem.

            O cordão da milícia deixava agora passar os passageiros que iam subir para o comboio. O revisor afastou-os da carruagem onde estava o corpo de Kiaschka.

            -           O assassino ainda está no comboio, com isso estamos todos de acordo, não é?

            -           Sim! - respondeu Forster. - Mas não me parece que volte ao sítio onde está Kiaschka para lhe levar flores.

            -           Ele está à espera de uma coisa. Aguarda que nós façamos descer o corpo! Está sentado à janela à espera de ver o caixão. Depois, quando vir o corpo a ser levado, vai sentir-se livre da sua monstruosa aflição interior!

            - Pobrezinho, no fundo, deve estar a sofrer muito! - disse Karsanov, trocista.

            - Mas o corpo de Kiaschka não abandonará o comboio! - continuou Plotkin, elevando a voz. - O transiberiano vai prosseguir viagem! O que é que fará o assassino? Vai ficar desesperado! "Porque não levaram o corpo de Kiaschka?", perguntar-se-á ele sem cessar. "Que se passa no lavabo número cinco? Não se pode deixar lá um cadáver estendido!" Camaradas, o pânico vai devorá-lo! E piorará com o passar das horas, até se denunciar! Ele não é, de maneira nenhuma, um assassino experiente, não esqueçam. Está desesperado com o crime que cometeu! Aguardemos... o tempo trabalha a nosso favor.

            Lá fora a milícia dispersava. O comboio deu um solavanco - a locomotiva foi trocada.

            No vagão-restaurante circulava um carrinho eléctrico e Fedja carregava caixas e caixotes. O carregamento estava completo.

            Na casa de banho número cinco, um dos assistentes estilhaçou o vidro. O frio enregelador entrou de rompante naquele pequeno espaço. Mulanov tinha desligado o aquecimento com uma chave especial.

            Dali por uma hora, Kiaschka estaria completamente congelada, como se fosse um bloco de gelo. Não havia problema nenhum em levá-la até Víadivostoque. Não havia melhor conservador para o frio do que o gelo siberiano.

            -           Também vem connosco, Stepan Petrovitch? - perguntou Karsanov, logo que se trancou, de novo, a porta da casa de banho.

            -           Naturalmente! - Plotkin voltou a coçar a cabeça. Os seus quatro assistentes deixaram o comboio. - Alojei-me na cabina telefónica. Os passageiros não conseguem vê-la e eu também não quero ser visto. Quando quisermos contactar um com o outro, Pal Viktorovitch, terá de vir ter comigo. O assassino deve acreditar que está sozinho com o seu cadáver...

            -           O que é que você acha? - perguntou Karsanov mais tarde, enquanto o transiberiano deixava a gigantesca estação de Irkutsk. Estava na janela do corredor com Forster e contemplava aquela bonita e grande cidade.

            Irkutsk, o coração da Sibéria!

            Irkutsk, o orgulho de gerações de pioneiros!

            A noite ainda se estendia sobre as casas à beira-mar, embora o fascínio fosse idêntico ao do sol quando iluminava a cidade.

            "Também isto é a Sibéria", pensou Werner Forster. "O que é que nós na Alemanha sabemos sobre o assunto, sobre o que aqui se passa? Taiga... isso para nós significa o fim do mundo."

            A realidade era bem diferente: era ali que começava o mundo! Um novo mundo, pleno de incalculáveis tesouros e riquezas do solo.

            Poucas pessoas no Ocidente compreendiam que era ali que nascia a imortalidade da Rússia.

            -           O que é que quer dizer? - inquiriu, Forster, arrancado aos seus pensamentos pela pergunta de Karsanov.

            -           Que continuemos a viagem com o corpo de Kiaschka...

            -           Uma sensação esquisita! Mas se nós a sentimos, como se sentirá o assassino? Neste ponto tenho de concordar com Plotkin. Para uma comissão de homicídio alemá, tudo isso seria certamente impensável. Um cadáver abandonado no chão...

            -           Não esperava eu outra coisa! - observou Karsanov venenoso. - - Tinha de ser! Isto só é possível na União Soviética... O estafado, maldito e demagogo pregão do Ocidente!

            -           Meu Deus, não recomece, Karsanov! - Forster virou a cabeça, Irkutsk tinha ficado para trás, iam agora na direcção do lago Baical. - Eu sei que você é um patriota; e felicito-o por isso. Pelo que eu vi do seu país até agora... e relativamente ao seu tamanho, não é mais do que um grão de areia... é fácil de perceber a razão que leva um russo a chamar "mãezinha" à sua pátria e a amá-la ardentemente. Vamos encerrar este assunto, Pal Viktorovitch!

            Voltaram à pressa para o compartimento.

            Milda continuava a dormir; não tinha dado pela paragem em Irkutsk, pela investigação nem pela partida; uma prova de como era profundo o seu esgotamento.

            Forster debruçou-se sobre ela e deu-lhe um beijo cauteloso nos lábios cerrados.

            Karsanov sentou-se na cama.

            -           Pode dizer-se que você a ama realmente... - observou ele baixinho.

            - Só agora é que percebeu, Karsanov?

            Forster acocorou-se junto à esquina da cama. Era um espaço muito estreito e para poder sentar-se convenientemente tinha de empurrar Milda para a frente. E assim ia acordá-la...

            Karsanov bateu na sua cama.

            -           Venha para aqui, Werner Antonovitch. Sente-se ao meu lado. Nesse canto tão duro, vai ficar com calos no traseiro.

            Werner Forster saltou para a outra cama.

            Fedja vinha pelo corredor. Tinha levado mais um chá ao general. Karsanov fez-lhe sinal.

            - Traga um pacote de leite para mim! E para si, Werner Antonovitch?

            - Quero um conhaque duplo! São só uns minutos, camaradas.

            Fedja entalou a bandeja debaixo do braço. Estava pálido e amarrotado. Há vinte horas que se encontrava a pé... exactamente quando se preparava para ir deitar-se e dormir uma soneca, Mulanov descobriu Kiaschka morta e teve de continuar ao serviço.

            - O leite ainda tem de descongelar. Recebemos novos pacotes em Irkutsk.

            -           Despache-se, Fedja! - Karsanov esticou as pernas.

-           Tenho uma sede que estou capaz de lamber os vidros da janela.

            Fedja fechou a porta do compartimento e regressou à pressa ao vagão-restaurante.

            - Tem de me esclarecer umas coisas, Werner Antonovitch - disse Karsanov passado um bocado.

            Estavam ambos a olhar pela janela. O lago Baical começava a aparecer - uma mancha negra e gigantesca. A alvorada principiava; parecia que ia estar um dia sombrio.

            Podia ser que de manhã voltasse a nevar. O céu erguia-se sobre a terra e o lago, como um saco carregado.

            -           Você ama Milda Tichonovna. Gostos não se discutem; para mim, Milda é demasiado nova e talvez magra de mais.

            -           Não é você que tem de amá-la, Pal Viktorovitch!

            -           Deixa-me terminar. A reflexão mais importante é esta: como pode um homem culto, um académico como você, apaixonar-se por uma prostituta? É isso que não me entra na cabeça.

            Forster deitou um olhar a Milda. "Cuidado", pensou ele. "Karsanov é um cão refinado. Aproxima-se de mim cuidadosamente com uma lógica muito difícil de refutar.

            A uma prostituta de comboio, como Milda deveria parecer, paga-se e o assunto fica por ali. Compra-se uma, tal como Karsanov, precisamente, mandou vir um pacote de leite ou tal como eu encomendei um conhaque. Mas amor?"

            - Você soube, por Kiaschka, que esta era a primeira viagem de Milda - disse Forster e reflectiu sobre cada uma das suas palavras com rigor. - Ela não é uma profissional como Kiaschka.

            - E você tem o dever moral, uma vez que a descobriu, de reconduzir Milda à vida civil? Um ímpeto missionário, eu diria...

            - Não é só isso, Karsanov!

            - Porque é que você insiste em me tomar por um velho gagá? Eu sei que você pode muito bem amá-la sem preconceitos morais, porque ela não é prostituta! Eu tenho observado a rapariga... até uma principiante nesta profissão comporta-se de maneira diferente, mesmo à minha frente. Werner Antonovitch, você sabe mais alguma coisa!

            -           Eu só sei que a amo exactamente como ela é.

            -           Um amor que só chega até Víadivostoque... - Karsanov levantou as duas mãos quando Forster quis responder. - Um momento! Não me venha dizer que quer mesmo casar com Milda! Que quer desencadear a guerra de papelada que é necessária para esse efeito. Uma rapariga que você só conhece há alguns dias e de quem você, segundo diz, não sabe nada! Embarca em Sverdlovsk, sem bilhete! Werner Antonovitch, por trás disso tudo ainda se esconde um mistério!

            - Milda já lhe contou tudo.

            - O caso com o automobilista que lhe destroçou o coração e fugiu, deixando o pobre passarinho sozinho ao frio do Inverno? É nisso que eu devo acreditar? Quando Milda contou essa história, eu estava, de resto, a observá-lo! Você aceitou aquele relato como se se tratasse do boletim meteorológico. Você estava demasiado desinteressado, Werner Antonovitch! Tratando-se de uma traição...

            Werner Forster recostou-se.

            Agora percebia perfeitamente como a tenaz de Karsanov se fechava sobre si. A tenaz das combinações e das conclusões...

            De manhã, quando Milda acordasse, Karsanov prosseguiria com o seu interrogatório brutal e cansativo.

            A morte de Kiaschka fora apenas um adiamento. Agora ninguém impediria Karsanov de destruir a pequena couraça de desculpas e mentiras que Milda desajeitadamente erguera à sua volta.

            "Tenho de tratar disto", pensou Forster. "Tenho de fazer imediatamente alguma coisa... Mas o quê? Meu Deus do Céu, o quê?"

            No momento certo surgiu o empregado de mesa, Fedja.

            Trazia o leite de Karsanov, um pacote de meio litro, que ainda rangia, porque o leite ainda não descongelara por completo.

            Karsanov não se queixou, para ele estava bem assim. No compartimento e no comboio, em geral, estava muito calor e até sabia bem uma coisa fresca.

            - É nas coisas pequenas - disse ele magnânimo, voltando-se para o alemão - que se pode alcançar a perfeição. Com certeza também na sua terra, Werner Antonovitch! Umas vezes o aquecimento funciona como se nós fôssemos pães prontos a cozer, outras vezes não funciona e então ficamos congelados. A maldade da tecnologia!

            Karsanov observava a maneira como Fedja colocava aquele conhaque magnífico e dourado sobre a mesinha.

            -           Como é que você pode beber isso? Isso refresca? - perguntou ele a Forster, abanando a cabeça.

            -           A mim refresca!

            Werner Forster pegou no copo e agitou o conhaque.

O forte aroma propagou-se pelo compartimento superaquecido.     O empregado de mesa ficou à porta e vacilou ligeiramente. Os seus olhos estavam vermelhos de cansaço, como os de um coelho branco. A pele também estava lívida.

            -           Devia ir deitar-se, Fedja - disse Karsanov. - Se continuar assim, vai servir aos passageiros água de lavar pratos e entorna-lhes a sopa em cima...

            Fedja acenou com a cabeça em silêncio; quis, aparentemente, dizer qualquer coisa, mastigou as palavras e acabou por desistir. Sumiu no corredor como uma grande e árida sombra.

            Lá fora, a manhã começava a nascer. Nesse momento, o transiberiano percorria o lago Baical, o qual - até onde Forster podia ver - estava gelado. A próxima estação seria Ulan-Ude, a capital da República Popular dos Buriatos.

            A fronteira com a Mongólia era próxima - podia ver-se na confluência dos Buriatos com os Auls, as aldeias de pastores, através das quais o comboio passava.

            "Foi com isto que eu sempre sonhei desde criança", pensou Forster, e bebeu um gole de conhaque. "A Sibéria, a Mongólia, a China! Os segredos nunca revelados da ásia.

            E o que aconteceu aos meus sonhos?

            Estou aqui sentado, com um coronel dos serviços secretos, num compartimento de comboio superaquecido, e brigo com ele por causa de uma rapariga russa, que só conheço há algumas horas e de quem eu já não consigo separar-me...

            A vida não tem algo de louco?"

            - Uma proposta, Pal Viktorovitch - disse Forster e recostou-se.

            Karsanov acenou com a cabeça e sugava, com uma palhinha, o leite gelado do pacote.

            - Primeiro deixe-nos tomar o pequeno-almoço!

            - Não entendo, Werner Antonovitch.

            -           Interrogue Milda depois de tomar o café.

            -           Isto é algum truque seu? - Karsanov acabou de beber o pacote de leite. - Não sei mesmo porque é que tenho sempre de abrir excepções consigo! Palpita-me que aqui há qualquer coisa errada... Sabe como é que eu resolvia o assunto lá em Moscovo?

Não é preciso muita imaginação para adivinhar. É como vê! E como é que eu procedo consigo? Como um bisavô desdentado! E no fundo porquê?

            -           Talvez porque realmente simpatizamos um com o outro e não queremos admiti-lo. Quando o meu pai regressou das prisões soviéticas...

            -           Isso já você descreveu com todos os pormenores, Werner Antonovitch! Já sei o que o seu pai disse! Esta geração não aprendeu nada com isso! O inimigo continua a vir do Leste! Esta geração mete nojo!

            -           O meu pai dizia outra coisa completamente diferente. A Rússia não o largou até ao fim, e comigo não é diferente.

            -           Werner Antonovitch, por favor, esse disco sentimental não! Não quero ouvi-lo mais. Milda é um caso político, é o meu vaticínio antes de voltar a ouvi-la no interrogatório.

            Ele estremeceu e também Forster se assustou por um momento. No corredor rejubilava uma voz - o tenor!

            Saudava o novo dia. Luminosa manhã... uma ária dos Mestres Cantores.

            O general precipitou-se para fora do compartimento vizinho, como se perseguisse um lobo. Por cima das calças do pijama às riscas, usava o casaco da farda.

            -           Por que razão se matam as pessoas erradas? - berrava ele com o Preislied de Wagner. - Seu sádico! Porque não fuzilá-lo?

            O tenor prosseguia pelo corredor a cantar e desapareceu na casa de banho.

            Todo o vagão estava acordado.

            Milda também levantou a cabeça, ainda tonta de sono.

            - Tomamos o pequeno-almoço primeiro? - perguntou Forster outra vez.

            -           Por mim... - Karsanov acedeu. - Dedico esta hora a uma aproximação cordial da nossa parte. Em todo o caso, voltaremos à política mais tarde!

            Mulanov vinha pelo corredor para a sua visita matinal.

            Acalmou o general e prometeu ter com o tenor uma conversa severa e oficial e entrou depois no seu compartimento favorito.

            - Uma manhã desagradável - informou ele. O camarada Skarnejkin causou dificuldades. Está outra vez sem sapatos! Mal o acompanharam de volta, a milícia confiscou-lhe os sapatos e ficou com eles em Irkutsk. Exigiu que eu fizesse uma ligação para o Ministério da Economia em Moscovo. Era com o seu sabonete que se lavava...

            - Brejnev lavava não só as mãos, como provavelmente também... - interrompeu Karsanov, zangado.

            - Eu não me permiti até pensar noutra coisa, camarada coronel! - Mulanov sentou-se na cama perto de Milda; esta escorregou um pouco de encontro à parede. - O que é que eu devo fazer?

            - Pergunte a esse Plotkin que confiscou os sapatos.

            - Não é possível! Ele não está oficialmente no comboio... - Mulanov esfregou as mãos embaraçado. - O senhor não poderia decidir?

            - Eu? Você está doido, Boris Fedorovitch? Eu sou um passageiro... como todos os outros! Também não estou aqui oficialmente! Isto não é uma viagem oficial, mas sim uma viagem civil. Peço-lhe que guarde um pouco de discrição.

            - Disse bem, Pal Viktorovitch. - Forster sorriu para Karsanov. - Se eu compreendi bem, nesta viagem você é um homem comum e não um oficial da KGB.

            -           Eu estou sempre de serviço! - gritou-lhe logo Karsanov.

            - Nesse caso, peço-lhe que trate do caso do camarada Skarnejkin, camarada coronel - aproveitou logo para dizer Mulanov. O assunto dos sapatos tinha mesmo que se lhe dissesse. Skarnejkin não tinha realmente pensado em queixar-se. Havia-se resignado, voltou a sentar-se no seu lugar e usava os sapatos emprestados, que lhe estavam muito largos. Ainda tinha filosofado e pensado sobre o seu destino monstruoso.

            Mulanov sentou-se ao pé dele, observou os sapatos velhos, cheio de compaixão e começou:

            -           Não é preciso deixar-se levar por este tipo de atitudes, camarada! Quem é o senhor afinal? E onde é que nós vivemos? O senhor é um respeitável camarada do Partido, com cujo sabão, precisamente... Pois é, e nós vivemos num Estado em que a justiça está pintada nas paredes das casas. Mas o que é que lhe fizeram? Roubaram-lhe os sapatos por duas vezes! Da última vez foi mesmo oficialmente! Vou dar aos funcionários...

            Dementi Michailovitch Skarnejkin ouviu este discurso com uma inquietação crescente.

            -           Você é um verdadeiro amigo - disse ele a Mulanov, comovido, quando este se calou.

            Não podia supor que o revisor lhe tirava aquele espinho cravado na alma, apenas para salvar Milda de Karsanov por algumas horas. A manhã seria péssima para ela, Milanov assim o achava. E já não tinha Kiaschka, que sempre arranjava remédio para tudo...

            Como ela o tinha conseguido durante dois dias! Colocara-se à frente de Karsanov e começara a despir-se. Foi um êxito! Grande Kiaschka!

            Com ela uma pessoa podia sentir-se segura como se estivesse protegida por um rochedo. Agora estava ali estendida na casa de banho número cinco, debaixo da janela partida, congelada e apunhalada na garganta.

            -           O que é que eu devo fazer? - perguntou Skarnejkin excitado. - Os meus sapatos ficaram em Irkutsk! Devo exigir que mos enviem, por avião, até Tchita, e mos devolvam lá?

            - Tchita é muito perto, não vai conseguir! - respondeu Mulanov.

            Era uma ideia maravilhosa e muito louca: remeterem os sapatos por avião! Isso podia manter Karsanov ocupado e desconcertá-lo-ia.

            - Mas podia exigir isso em Chabarovsk! Podia reclamar que queria que lhe enviassem os sapatos, por avião, até Chabarovsk. A sua ideia é digna de um cidadão livre, Dementi Michailovitch...

            Skarnejkin ficou excitadíssimo. Deu um salto e proferiu um discurso sobre a Humanidade, no seu grande compartimento.

            Recebeu aplausos e aclamações. Isso ainda o levou mais ao rubro. De agora em diante andaria em peúgas. Aqueles sapatos emprestados, perfeitamente desumanos, tratá-los-ia com desdém. Foi isso que ele anunciou e agora dirigia-se à cabina telefónica.

            Bateu durante tanto tempo, até que Wladlen Ifanovitch veio ver o que se passava e fechava rapidamente a porta atrás de si. Ainda se conseguiu ver o capitão Plotkin.

            -           Está doente? - berrou ele com a sua voz sonora.

            Skarnejkin acenou com a cabeça.

            - Está admirado com o quê? Por eu andar em peúgas na Sibéria! Nunca aconteceu, pois não? Uma pessoa pode mesmo adoecer até à medula! Mas eu ainda não estou doente... Exijo ter uma conversa rápida com o chefe do Ministério Público de Irkutsk! Quero que os meus sapatos sejam enviados de avião para Chabarovsk...

            Wladlen voltou rapidamente para a cabina telefónica e encostou-se à porta.

            - Ouviu isto? - perguntou ele baixinho a Plotkin, que estava deitado no assento com uma manta de lã a cobri-lo.

            - Naturalmente! - Plotkin coçou os pêlos do peito em vez de coçar a cabeça. - Mande-o dar uma volta!

            -           Isso é infringir o regulamento dos transportes. O camarada Skarnejkin tem um bilhete perfeitamente legítimo.

            Do lado de fora, Skarnejkin tinha ficado furioso, batia violentamente na porta e berrava palavras que não eram muito próprias para um industrial de sabões.

            -           Ele não deve ver-me aqui - ordenou Plotkin. - Iria logo espalhar por aí e o assassino ficaria de sobreaviso. Destruiria todo o nosso plano. Veja se o acalma! Isso era muito fácil de dizer.

            Wladlen esgueirou-se outra vez para o corredor e empurrou Skarnejkin de encontro à parede. Foi um erro, porque Dementi Michailovitch soltou um berro horripilante.

            -           Ah! Estão a agarrar-me! - guinchava ele. - Um funcionário ferroviário soviético molesta um passageiro inocente! Socorro! Socorro! Que vulgaridade!

            Os gritos de Skarnejkin, ouviam-se ao longe, ao mesmo tempo que Mulanov pedia, hipocritamente, ajuda a Karsanov.

            Karsanov perdeu o controlo quando também apareceu o director do comboio, Vitali Diogenovitch, para ajudar Mulanov a prender aquele Skarnejkin, causador de tamanho distúrbio - Skarnejkin chegou mesmo a arrancar, entretanto, dois botões do casaco do uniforme de Wladlen.

            -           Quero ordem aqui! - gritou Karsanov e deu um salto. O sorriso irónico que Forster reprimiu, provocou-o ainda mais. - É de mais! Para o diabo consigo, Werner Antonovitch e mais a sua pretensa puta Milda Tichonovna! Considere um privilégio se eu o deixar ficar no comboio quando chegarmos a Tchita...

Saiu a correr e Vitali, que lhe deu passagem, foi atrás. Nessa altura, toda a gente saía a correr do vagão-restaurante ou então amontoava-se no corredor a discutir. Hoje punha-se a questão se era normal haver tantos lutadores no Expresso Transiberiano ou se se tinha aberto uma desagradável excepção neste comboio.

            - Eh! Onde se meteu Kiaschka? - gritou um homem. Era um individuo gordo com o rosto vermelho e estava assim porque tinha vontade de pagar a Kiaschka e podia fazê-lo. - Quem é que a comprou por vinte e quatro horas? Isso são atitudes capitalistas!

            -           Kiaschka ficou em Irkutsk - disse Vitali, com grande presença de espírito.

            Era a primeira vez que alguém dava por falta de Kiaschka.

            - Porque é que pergunta? - continuou Vitali. - Escreva um cartão a Kiaschka para a posta-restante número um de Moscovo.

            -           óptimo! - elogiou Karsanov, e bateu nas costas de Vitali. - Foi uma reacção rápida!

            Ao longe ouviam Skarnejkin aos berros. Apressaram o passo.

            Mulanov aceitou, entretanto, a oferta de Forster para beber o resto do conhaque. De que outra maneira é que um pobre revisor podia permitir-se uma tal extravagância? Uma água ordinária de vez em quando ou uma cerveja azeda... mas conhaque era, para Mulanov, uma coisa que se via só através do vidro da montra de uma loja.

            - Não se pode distrai-lo por muito mais tempo - disse Mulanov com legitima preocupação. Pousou a mão no joelho coberto de Milda e olhou para ela como um verdadeiro pai. - Filhinha, não escondas mais nada de nós: Pal Viktorovich pode ser perigoso para ti?

            - Sim, pode. - Encostou a cabeça à parede e mirou

o tecto abaulado da carruagem. - Quero descer em Ulan-Ude.

            -           Isso vai chamar a atenção de Karsanov e ele apanha-te.

            - Então atiro-me do comboio! - Disse isto muito calmamente, como se fosse uma insignificância. Contudo, Forster e Mulanov sabiam que ela falava a sério.

            - Se alguém tem de se atirar do comboio, esse alguém é Karsanov! - disse Forster duro.

            O revisor Mulanov agitava, horrorizado, ambas as mãos.

            -           Já me chega um assassínio! - declarou ele. - Este comboio deve estar possuído pelo demónio! Quantas vezes eu já fiz este trajecto, para cima e para baixo, e nunca aconteceu nada! Era tudo pacífico, até mesmo aborrecido! Havia sempre gente normal! Mas este comboio? Só anormalidades! Um comboio inteiro cheio de monstros! Werner Antonovitch, para dizer a verdade, quero alertá-lo para uma coisa: o senhor referiu-se a um oficial soviético com intenções criminosas! Como revisor, era, portanto, meu dever...

            -           Mas também é seu dever proteger uma rapariga como Milda!

            -           E que mais é que eu tenho feito durante os últimos três dias? Mas agora a situação parece ter-se agravado. Milda, filhinha... diz qualquer coisa! Conta-nos o que se passa contigo! Só se soubermos a verdade é que podemos ajudar-te! Eu sou teu amigo... e o alemão está mesmo apaixonado por ti...

            Milda baixou a cabeça. Os seus grandes olhos, que lhe dominavam o rosto, escureceram.

            Olhou para Werner Forster... com um olhar envergonhado, agradecido e profundo na sua resposta:

            - Eu também te amo. Mas tudo isto é tão desprovido de sentido...

            Forster inclinou-se para a frente e pegou-lhe nas mãos frágéis. Tal como Karsanov tinha afirmado, não eram mãos de uma prostituta, macias e tratadas. Eram mãos calejadas, mãos de camponesa; mãos pequenas e pálidas, obrigadas a fazer trabalhos de homem.

            O rosto de Milda estremeceu.

            Quis retirar as suas mãos das de Forster com um puxão, mas ele manteve-as seguras com punho de ferro.

            -           Karsanov não vai prender-te... - disse ele, convicto. Não soube explicar onde foi buscar tanta convicção.

- Tira essa couraça! Quem és tu, rapariga desconhecida? Milda, a desconhecida de Sverdlovsk?

            Ela respirou fundo e a sua voz ficou, de súbito, tão clara que soou completamente estranha, esquisita e vigorosa.

            -           Matei um homem - disse Milda Tichonovna. - Rachei-lhe o crânio com um machado. Ele mereceu-o...

 

 

            Kargopov, na Ucrânia.

            Quem conhece Kargopov? Ninguém! Mas conhecem os seus sacos brancos de farinha, com o letreiro "Cooperativa Maxim Gorki", e conhecem os cartuchos às riscas vermelhas com sêmola, cevadinha e flocos de aveia.

            Estão nas prateleiras de todas as lojas e milhões de donas de casa pegam-lhes e elogiam a sua qualidade.

            E os pepinos! Não se deve esquecê-los. Pepinos grandes, suculentos, carnudos, e não aquelas coisas côncavas e disformes que tantas vezes vemos quando compramos pepinos. E o óleo de girassol em latas redondas, dourado como uma tarde de Verão... tudo isto é Kargopov!

            Milda Tichonovna era uma rapariga inocente, honesta e recatada quando foi com o seu pai, Tichon Ivanovitch Lipski, para a Cooperativa Maxim Gorki e foi apresentada ao brigadeiro do segundo pelotão Kyrill Michailovitch Kuran, um homem gordo, sempre alegre e sempre a praguejar.

            O velho Lipski era capataz das brigadas de tractores, um homem respeitado e indicado como o "trabalhador do ano" da Kargapov, uma personalidade que toda a gente conhecia.

            - Claro que ela pode trabalhar connosco! - disse Kyrill, e examinou Milda como se examina um vitelo. Um pouco magra, meu caro Tichon Ivanovitch. Não lhe dás comida suficiente. O que é que fazes ao dinheiro? Esconde-lo debaixo do colchão, ou quê? És um mau pai, meu caro!

            As pessoas riram-se. Já sabiam o que Kuran queria dizer, já que ele era um homem alegre, mas também grosseiro.

            - Ela é a minha mais nova - disse Lipski.

            -           Uma gazela assustada, camarada. Muito diferente dos irmãos. O irmão, por exemplo, derruba um boi com o punho. E a irmã já tem umas mamas de ama-de-leite, ah, ah!

            Ele criava um bom ambiente na cooperativa, era preciso reconhecer. Era bom trabalhar quando todos se compreendiam.

            E assim, por enquanto, Milda foi para a cozinha. Descascou batatas, lavou legumes, arranjou repolhos, salgou pepinos, cozinhou beterrabas e lavou as saladas.

            Todos simpatizavam com ela e era considerada como uma irmã.

            Alimentavam-na bem e engordavam-na como a um ganso e Milda começou a ficar um pouco mais cheia. Reconheciam que ela já era uma mulher e não uma jovem magricela com roupas de mulher.

            E passado um ano, já tinha uns bonitos seios redondos como maçãs, pernas bem torneadas e esbeltas, o seu cabelo brilhava como seda, as suas ancas tinham umas formas que os homens olhavam com prazer, em resumo: Milda tinha-se tornado numa beleza.

            - A minha obra! - dizia o gordo brigadeiro Kuran sem cessar, quando via Milda no pátio, pela janela do seu escritório. - Se ela continua assim, todos os galos vão correr atrás dela!

            Nessa altura, Milda conheceu o serralheiro Luka. Precisamente como se conhece um rapaz... Na cooperativa, na Stolovaja, o grande espaço de convívio organizou um baile... Foi um acontecimento alegre. Os homens comportavam-se como gaviões e as mulheres riam-se à socapa como as rolas. Luka foi buscar Milda para dançar, não sem antes ter - bem-educado - pedido licença ao velho Lipski...

            Após uma dança, vieram três, depois quatro, depois seis e Milda parecia enfeitiçada, com a sua carinha vermelha, a boca sorridente e os olhos brilhantes.

            Uma beleza, digo-vos eu, uma verdadeira beleza! Kargopov podia sentir-se orgulhosa, tal como se sentia da sua farinha e do seu óleo de girassol.

            Só uma coisa incomodava.

            E era precisamente o gordo brigadeiro Kuran.

            Há algum tempo que se falava dele... às escondidas, já se vê, porque Kuran era um homem poderoso.

            Dirigia a cooperativa de uma maneira prática. O director estava mais vezes em Kiev do que em Kargopov. Uma vez que lá esteve em serviço tratou de dizer diante de todos, depois de Kuran o ter informado:

            - Muito bem, meu caro Kyrill Michailovitch! Continue assim, meu caro Kyrill Michailovitch! - Depois despediu-se outra vez.

            Quem quisesse levar uma vida agradável em Kargopov, tinha de ser amigo de Kuran.

            Como já se disse, falava-se dele às escondidas. Quanto mais gordo ele se tornava, mais corria atrás das raparigas.

            Andava pelos quartos a grunhir como um javali, detinha-se sempre muito tempo nas lavandarias onde as mulheres, com o calor, apenas vestiam uma camisa através da qual quase se podia ver o peito à vontade; ou então andava pelos campos onde havia plantações experimentais e onde as mulheres, isoladamente, implantavam estacas. Era um trabalho manual em que era preciso andar curvado e Kuran deleitava-se com isso, olhar por baixo das saias das mulheres.

            Como hei-de dizer... Kyrill era um grande porco!

            E assim, naturalmente, tal como o vento sopra em Abril, Kuran também se interessava por Milda Tichonovna. A sua amizade inocente com Luka desagradava-lhe muito.

            Sem rodeios, transferiu o rapaz da serralharia para um posto exterior, onde ele tinha de permanecer até ao início do Inverno.

            E assim, Milda foi promovida; Kuran fé-la administradora do armazém dos utensílios de jardinagem. Era um lugar tranquilo, porque as únicas equipas de trabalho cuidavam elas próprias das ferramentas e apenas iam ao armazém quando alguma coisa se quebrava. E então, Milda trocava a ferramenta.

            Milda Tichonovna tinha muito tempo; catalogava os artigos, escrevia listas suplementares e aborrecia-se. Recebeu algumas vezes correspondência de Luka, mas também isso terminou...

            As cartas de Luka perdiam-se num longo trajecto. Um caso enigmático, meus amigos, do qual só Kuran podia dar informações...

            Mas também ninguém perguntava.

            Para dizer a verdade, começou tudo por ser muito inocente, tal como Kyrill Michailovitch fazia com as outras mulheres.

            Foi ao armazém, conversou com Milda, contemplou os seus seios pequenos sob o vestido de algodão liso e justo, passou-lhe a mão pelos cabelos com um gesto paternal e depois deixou que a sua mão escorregasse e pousasse no peito de Milda.

            Ela recuou um passo, cruzou os braços sobre o peito e disse:

            - O senhor tem uma mão muito inquieta, camarada Kuran...

            Kuran riu-se crítico. A sua cara redonda tremia e a barriga saltava.

            - Como é que posso estar quieto com uma mulher como tu, há? - Riu-se. - Pareces tão sadia! Tão bonita! Nunca desejaste, minha pombinha?

            - Não! - respondeu Milda assombrada. - Porquê?

            - Porquê? Porquê? Um homem não tem o direito de sonhar com isso, pelo menos uma vez? Não tem o direito de desejar um beijo? Não sabes como é, quando... Pois bem. Mildaschka, há a possibilidade de te tornares capataz na horta. Só precisas de ser uma rapariga um pouco mais amável...

            Dirigiu-se ao posto de distribuição, não se conteve e comprimiu Milda de encontro à prateleira e assim ela não podia esquivar-se, porque Kuran era um bruto de ossos e carne. Ela empurrou-o com os punhos de encontro ao seu peito e gritou com ele. O seu rosto bonito e frágil ficou, de repente, anguloso e a cólera fê-la parecer mais velha.

            - Largue-me, Kyrill Michailovitch! Não sou como as outras mulheres! Ficaria interessado se eu fosse cega? Não me agarre!

            Era impossível ir contra a força de Kuran. Ele teve um riso áspero, afastou os punhos de Milda, agarrou-lhe nos seios, puxou a rapariga para si e beijou-a. Beijou Milda selvaticamente onde calhava e então ela deu-lhe uma cabeçada.

            Nesse instante, ele largou-a e deu-lhe uma sonora bofetada. Ela caiu de joelhos e ele voltou a levantá-la e meteu-lhe as mãos por baixo da saia.

            Milda cuspiu-lhe no meio da cara gorda e corada; em seguida, deu-lhe uma canelada e conseguiu alcançar a porta quando Kuran, com o rosto desfigurado pela dor e respirando com dificuldade, se apoiou no balcão.

            - Vou contar tudo! - Milda rangeu os dentes e tinha a voz rouca de raiva. - Vou contar a toda a gente! Vou apregoar por toda a Stolovaja...

            - Faz isso, sua burra! - Kuran limpou a testa. - O teu paizinho trabalha aqui... e zás, é posto na rua! O teu irmão trabalha aqui... de manhã está a comer terra! A vossa casa não está arrendada? Alugada pela cooperativa? Carregam a vossa carroça e ponho-vos fora de Kargopov! E tudo, porque uma idiota como tu não quer levantar as saias! E assim dá cabo da família inteira! Pode vir a ser capataz da horta! O melhor lugar em toda a cooperativa! Vão rir-se de ti, todos eles, na Stolovaja! É só ires dizer alguma coisa...

            Na manhã seguinte, o velho Lipski foi ter com Kuran. Estava muito sério, mirou o brigadeiro em silêncio durante um bocado e o nariz tremia-lhe.

            Kuran abanou a cabeça negativamente.

            - Não abras o bico, Tichon Ivanovitch! Ou queres que aconteça alguma coisa à tua filha! - começou por dizer Kuran.

            - És um porco, Kyrill Michailovitch! - disse Lipski sombrio. - Ela só me contou a mim, mais ninguém sabe, só tu e eu... e eu aviso-te!

            - Avisas-me! Aba! - Kuran riu-se odiosamente. - Dou-te um pontapé no cu, como a um burro aleijado.

            - Eu sou membro do Partido, não te esqueças disso.

            - E eu sou o presidente deste distrito, não te esqueças também disso! A propósito, Tichon Ivanovitch, tu és um monte de esterco, mais nada!

            - Deixa Milda em paz, digo-te eu! - Lipski inclinou-se sobre a mesa. - Faz o que quiseres connosco. Haverá uma luta que chegará até ao Supremo Tribunal de Kiev! à fome não vamos morrer... mas podes esconder-te de Ivan, o meu filho! Ele parte-te os ossos de um só golpe!

            - Isso é uma ameaça! - disse Kuran friamente. - Atreves-te a ameaçar-me! Rua, seu monte de esterco! Ainda vais ter notícias minhas!

            Durante três dias tudo ficou calmo e esperava-se que Kuran tivesse engolido o incidente, a fim de não causar escândalo.

Ele voltou a beliscar a lavadeira no traseiro e fechou-se no seu escritório com a rija Eftimia, uma jovem viúva. Até se ouvia cá de fora como os móveis abanavam...

            E ficaram todos admirados quando Milda saiu do armazém e foi transferida para o sector três.

            É preciso que se saiba o que isso era. O sector três era o pior lugar de toda a cooperativa. Não em categoria, mas por causa do trabalho.

Era a secção de cultivo da terra, como se chamava.

            Lá estavam, quer com sol abrasador, quer com chuva torrencial, e tinham de lavrar aqueles campos gigantescos. O tempo não era impedimento para trabalhar neste sector; e quando o solo estava muito mole, devido à chuva, e os tractores se afundavam, era preciso afastarem-se do sector e desbravar a floresta. Eram os trabalhadores mais bem pagos de toda a cooperativa, os rapazes mais fortes... e Milda era a única mulher entre estes homens.

            Ela cerrou os dentes, sentou-se no tractor, ficou atrás da serra mecânica, descarnou as árvores abatidas. As suas mãos frágeis gretaram, tornaram-se ásperas e calosas... mas ela recusava qualquer ajuda.

            - É muito simpático da vossa parte, mas não me façam nenhum favor. Quero mostrá-lo a Kuran, esse saco de gordura! - disse ela aos rapagões, que sempre lhe davam os trabalhos mais leves da colónia.

            Oh, ela era resistente, tal como o podia ser também a gata mais bonita, quando era preciso.

            Kuran foi, de carro, algumas vezes ao sector três, ficou calado a observar Milda Tichonovna a trabalhar e berrava com todos aqueles que tentavam agradar a Milda ou que o insultavam.

            Claro que choveram reclamações junto dos responsáveis soviéticos, reclamações anónimas, mas algumas também assinadas.

            A família Lipski escreveu para Kiev, para o mais alto administrador da cooperativa... mas nunca obteve resposta...

            O velho Lipski perdeu o seu posto de capataz do sector dos tractores e foi para o serviço de estrebarias.

            Aí cruzava muitas vezes com Kuran, o qual passava com um lenço branco sobre qualquer uma das vigas, que naturalmente estavam cheias de pó, e gritava para Lipski:

            - Um mandrião! Um carneiro cego! Para que te paga o povo? Para te deitares na palha? O gado vai-se degenerando, o estábulo está a ficar cheio de musgo e um calão destes ainda quer ser pago por isto!

            Tichon Ivanovitch Lipski foi pessoalmente à cidade, mas em Kiev ninguém tinha tempo para ele. Já se sabia como era... era preciso falar com o funcionário competente, mas esse funcionário não está disponível nos próximos dois meses e não podia recebê-lo. Ou então o funcionário competente não é afinal competente e também não sabe quem é competente...

            É igual em toda a parte, camaradas!

            Lipski andou um dia inteiro a correr as repartições e já lhe ardiam as solas dos pés; já tinha contado dezanove vezes, a vários funcionários, a história da sua filha Milda. Essa mesma história da perseguição que o gordo Kuran fazia a Milda e por isso os tiranizava...

            Todos os que o ouviam, davam-lhe razão. Claro, Kyrill Michailovitch era um grande porco... e depois remetiam-no para o departamento ao lado.

            Escada acima, escada abaixo, através dos compridos corredores...

            Quando, à noite, Lipski se encontrou outra vez na rua, porque as repartições haviam fechado, relatara muita coisa, tinha os pés esfolados de tanto andar, mas não conseguira nada.

            No entanto, alguma coisa de bom deve ter ficado disso tudo: dois dias depois, Kuran mandou chamar o velho Lipski. Atirou-lhe com os papéis da repartição à cara e gritou-lhe irónico:

            - Com que então foste a Kiev fazer queixa! Este Lipski é um amor! Agora dou-te a oportunidade de viveres mais tranquilo! Fora daqui! E poupa-te de fazer outra viagem a Kiev... A demissão já vem assinada pela central...

            E assim veio o Outono, a época das chuvas e o trabalho no sector três tornou-se um inferno.

            Apenas reluzia um único rasgo de esperança: Luka vinha fazer uma visita aos domingos.

            à noite ele ia dançar com Milda, sob os olhares do gordo Kuran, que rangia os dentes de raiva. Luka beijava-a mesmo na altura em que rodopiavam em frente de Kuran e depois acompanhava-a a casa.

            - Tenho uma tia em Kiev - disse Luka. - Vou escrever-lhe. Há muitas fábricas em Kiev que procuram raparigas jovens. É trabalho leve em comparação com essa escravidão no vosso sector! Em breve essa tortura vai terminar, Milda!

            Beijaram-se outra vez. Foi o primeiro beijo que Milda sentiu pelo corpo todo até às pontas dos pés. Uma sensação maravilhosa que ela saboreou com os olhos fechados.

            Nessa mesma noite, Kyrill Michailovitch foi atacado de surpresa na sua própria cama. De repente, partiu-se um vidro, um vulto escuro saltou para dentro do quarto e antes que Kuran pudesse saltar da cama, levou logo o primeiro golpe poderoso directamente no queixo gordo.

            O desconhecido devia ser um rapagão robusto, pois cada golpe desferido sacudia Kuran até aos ossos. Ele cambaleou de parede a parede, tentou oferecer uma fraca resistência e escorregou, por fim, do guarda-fato para o chão.

            Contudo, Kuran ainda não perdera os sentidos, como pensou o agressor, e então o gordo brigadeiro reconheceu, à pálida luz da noite, a figura indistinta embora inconfundível do homem que o tinha derrotado: Luka!

            O agressor voltou a saltar pela janela e desapareceu. Kuran não o denunciou. Procedeu como se nada tivesse acontecido. Mas depois aconteceu uma desgraça horrível no posto exterior: uma corrente de aço, com a qual se arrancavam da terra as raízes das árvores, partiu-se e ao cair atingiu Luka, que estava perto da raiz a dar instruções ao condutor do tractor, e arrancou-lhe a cabeça.

            Um acidente, sem dúvida.

            As correntes podem partir-se. Material muito gasto como se dizia! Toda a cooperativa ficou de luto. Luka teve um grande funeral com música, bandeiras, muitas coroas de flores, lindos discursos e glórias póstumas. Até veio um funcionário da central em Kiev.

            A corrente partida desapareceu, entretanto, antes que alguém começasse a procurá-la. O material usado nunca mostra os seus defeitos...

            Uma semana depois da morte de Luka, Kuran aceitou receber Milda numa atitude generosa.

            - O que é que se passa, Mildaschka? - perguntou ele amigavelmente. - Há alguém que possa ocupar o lugar de Luka?

            - Não! Você é um nojo, camarada! - respondeu Milda.

            Foi uma conversa curta e precisa.

            Sim, e depois chegou o dia em que a vida de Milda mudou para sempre.

            Chovia torrencialmente e o sector três teve direito a uma folga, porque não se podia mais trabalhar na floresta. Então aproveitou-se para se limparem os utensílios e os veículos e Milda foi mandada ao armazém para ir buscar algumas doses de óleo lubrificante.

            Um dia triste, como se dizia: um dia em que o céu desabava sobre a terra.

            Milda Tichonovna saltou do seu pequeno carro, lançou um cobertor sobre a cabeça e correu às cegas, através da chuva ruidosa, em direcção do telheiro do armazém.

            Não deveria ter feito isto.

            Mal conseguia abrigar-se da chuva. De repente, alguém surgiu por trás e enfiou um grande saco sobre a cabeça de Milda, abafando assim os seus gritos e enfraquecendo-lhe a resistência.

            Ela foi levantada, levada dali, caiu em cima de uma coisa mole e gritou - chorou as suas mágoas, abafadas pelo saco que lhe tapava a cabeça. Depois arrancaram-lhe as calças de trabalho do corpo e uma barriga pesada como uma rocha caiu-lhe em cima.

            O que se seguiu fê-la sofrer em silêncio. Ela mordeu a serapilheira com a dor, mas manteve-se consciente.

            Os seus pensamentos eram tão terrivelmente claros que ela guardou todos os pormenores de tudo o que lhe aconteceu.

            Assim que tudo passou, ela levou uma pancada na cabeça e perdeu os sentidos.

            Não contou a ninguém o acontecido, nem sequer ao pai. O que ela só podia provar é que lhe tinham enfiado um saco na cabeça. Kuran arranjaria testemunhas em como a essa hora estava bem longe do armazém de material.

            No dia seguinte, deram por falta de Milda no sector três.

            Ela ficou no armazém principal da cooperativa, foi para o posto de entrega de ferramentas, no qual já trabalhava uma mulher não tão jovem nem bonita como Milda, mas mais experiente e acima de tudo solícita. Entregou-lhe um machado de cabo curto, e Milda assinou o recibo com o seu nome completo e entalou o machado debaixo do braço.

            Então atravessou, muito silenciosamente, a grande praça central da cooperativa, entrou no escritório da administração e bateu à porta do gabinete de Kyrill Michailovitch Kuran.

            Milda Tichonovna estava embriagada de ódio, quando ele gritou:

            - Entre!

            Estava sentado, exibindo a sua gordura, com as pernas esticadas por baixo da secretária e... comia. Na melhor das boas vontades, podia chamar-se "comer" ao que ele estava a fazer.

            Estava mergulhado numa montanha de comida e molho de carne que tinha erguido à sua frente - enquanto sonhava com a sobremesa - bolos e frutas cristalizadas. Era a maneira como ele tragava tudo, a grunhir e a mascar como se fosse um porco sentado junto do comedouro a chafurdar com o focinho na papa.

            - Aha! - disse ele quando reconheceu Milda, que tirou o lenço da cabeça e o sacudiu. Continuava a chover, não tão violentamente como no dia anterior. Era, contudo, uma chuva que encharcava a terra incessantemente, tornava os caminhos intransitáveis e o trabalho na cooperativa um autêntico martírio.

            O Inverno já se adivinhava.

            Com a chuva, assobiava também um vento frio. Era um tipo diferente de frio daqueles dos dias frescos de Outono... era o bafo gelado que exalava de um gigantesco frigorífico: da Sibéria...

            -           Quem está aí, quem está aí? - disse Kuran bem-disposto, e continuou a mascar. - Tão pálida, minha avezinha? Devias comer mais beterraba, dá mais sangue às veias...

            - Tem razão, Kyrill Michailovitch - respondeu Milda calmamente. - O sangue faz-me falta. Muito sangue!

            Aproximou-se da mesa e ficou a pouca distância do ruminante Kuran, que parecia continuar a grunhir.

            Este meteu um bocado de comida na boca, mastigou ruidosamente, deslizou um olhar pelo corpo de Milda e lembrou-se, aparentemente com agrado, de como eles tinham estado deitados - o saco enfiado na cabeça, o vestido levantado até ao pescoço, uma rapariga frágil mas bem torneada que se saboreou como um cálice de licor doce de Cazã.

            - A cozinha vai fornecer-te natas durante uma semana inteira - declarou Kuran generoso. - Diz que foi ordem minha. A confirmação por escrito irá logo a seguir. - Ele apontou para o monte de bolos e de frutas cristalizadas. - Gostas, Mildaschka?

            - Obrigada, Kyrill Michailovitch.

            Ela fixou o seu grande crânio redondo, um ponto mesmo no meio da cabeça e deixou escorregar o machado debaixo do braço de modo a conseguir agarrar o cabo.

            Kuran estava ocupado com o seu molho de carne. Verteu-o num prato fundo e pegou na colher.

            Milda agarrou no machado com ambas as mãos e levantou-o com uma rotação dos quadris sobre a sua cabeça, como se fizesse lançamento do disco, e então deixou-o cair sobre o crânio de Kuran.

            Tal como se estivesse a rachar lenha, não podia ser outra coisa. A gorda cabeça de Kuran abriu-se ao meio. O sangue e os miolos jorraram como pedaços de madeira que se racham; o corpo pesado caiu para a frente como um saco e resvalou então para o lado na cadeira.

            As pernas enfiadas nas botas engraxadas estremeceram ainda durante um bocado e depois ficaram quietas.

            Só o sangue continuava a jorrar do crânio de Kuran. Era um ruído que Milda nunca mais esqueceria.

            Ficou a olhar para o morto durante um grande bocado, depois colocou o machado ao lado do crânio rachado e saiu do edifício da administração da cooperativa do mesmo modo silencioso como tinha entrado.

            Sentou-se na cantina, mandou vir um chá com mel e esperou.

            Não demorou muito tempo.

            Havia sempre qualquer coisa que precisavam perguntar ao camarada Kuran, mesmo sabendo que a esta hora ele estava a comer e não queria ser incomodado.

            Quem descobriu o morto naquele cenário desagradável foi o segundo-escriturário Nikita, que se benzeu às escondidas e depois deu o alarme.

            Milda permaneceu sentada na cantina. "Para quê fugir?", pensou ela. Fugir para onde? Em breve saberiam quem tinha levado o machado do armazém.

            "E se eu me esconder", continuou Milda a pensar, "vão interrogar o meu pai, a minha mãe e o meu irmão e também não vão deixar a minha irmã em paz e suspeitariam que me tinham levado embora. Isso só iria trazer dificuldades.

            Eu fiz isso, rachei a cabeça a um porco em forma de gente e não me arrependo. Para quê ser cobarde agora e esconder-me?"

            Quando tudo na União Soviética ia de mal a pior e ninguém se incomodava com o que devia, porque as pessoas eram realmente indolentes e todos dependentes dos planos anuais que faziam - houve uma coisa que funcionou rapidamente: a milícia chegou à cooperativa num curtíssimo espaço de tempo.

            As pessoas aglomeravam-se à porta da administração e discutiam.

            Pelo menos concordavam que devia ser erigido um monumento ao assassino ainda desconhecido em Kargopov - maior e mais bonito do que o de Lenine, aquele com o punho erguido, que estava na praça do mercado e devia ser feito um discurso.

            Não tinha a menor importância que a milícia tivesse outra opinião... Kuran tinha sido um canalha infernal, um demónio em vida, um garanhão pronto a perseguir todas as mulheres bonitas, que já tinha despertado em muitos maridos o desejo de matá-lo. Mas nenhum o tinha feito... até hoje!

            - Camarada, onde estás? Deixa-me abraçar-te! És o nosso irmãozinho.

            Passaram-se duas horas até que a milícia registasse tudo. Fotografaram o crânio rachado de Kuran, descobriram uma série de impressões digitais no cabo do machado; havia terra e lama deixadas pelas solas de umas botas e não havia, de certeza, nada pegado às solas limpas de Kuran; e principalmente miraram, pensativos, um lenço de cabeça perto do prato do molho de carne que estava sobre a mesa.

            - Não tem importância para o caso - esclareceu o camarada Lobnovitz, o substituto de Kuran e um bom homem, com quem podiam desabafar os que diziam mal de Kuran pelas costas. - As mulheres faziam parte da vida dele, tal como arrotar depois das refeições! Reparem no golpe, camaradas! Isto é obra de um homem forte como um touro. Temos de passar a pente fino todos os maridos traídos que pesem mais de noventa quilos... comecemos pelos ferreiros...

            A milícia começou por onde quis. E foi naturalmente pelo armazém de ferramentas que conduziu directamente a Milda.

            Quando a milícia entrou na cantina, curiosa por saber quem seria a mulher com tal força, Milda ergueu-se na sua fragilidade juvenil e disse em voz alta:

            -           Sim, fui eu!

            Acreditaram logo nela quando compararam as suas impressões digitais com as do cabo do machado.

            - Com estes bracinhos? - perguntou o comissário, e abanou a cabeça. - Rachou um crânio ao meio? Milda Tichonovna, com esses músculos tão pequenos não levanta nem um repolho!

            - Desferi o golpe com todo o meu corpo - disse ela sem indícios de agitação.

            - O corpo de uma pequena andorinha...

            - Dê-me o machado e eu mostro-lhe...

            O comissário hesitou, examinou Milda outra vez e então acedeu com um aceno de cabeça.

            Estenderam o machado a Milda e conduziram-na a uma pequena mesa pouco segura.

            - Tem de destruí-la... - declarou o comissário. - Faça favor!

            Milda Tichonovna olhou para a mesa. Depois ergueu os braços com o machado... mas quando os ergueu por cima da cabeça, de repente algo se despedaçou em Milda.

            O machado caiu-lhe da mão, estatelou-se no soalho... Milda vacilou, vergou os joelhos e rolou aos pés do comissário. Foi como se tivesse quebrado a espinha dorsal com o peso do machado.

            - Levem-na lá para fora com cuidado... - disse o comissário muito sério. - Com muito cuidado. E levem-na para Kiev. Temos de defender a lei e não a alma destruida de uma jovem mulher...

 

            A audiência do processo teve lugar em Kiev. Todos os que tiveram uma folga na Cooperativa Maxim Gorki estavam lá atrás sentados nos bancos. Meia Kargapov tinha vindo à cidade, em parte em carroças abertas de camponeses.

            O velho Jefim Timofejevitch, de quem se afirmava que tinha combatido na guerra entre a Rússia e o Japão - o que era um enorme exagero, ao qual ele não se opunha - entrou mesmo em Kiev com dois bois atrelados a uma carroça de estrume.

            Eram três dias de caminho desde Kargopov e contou a todos, de cada vez que parava, a tragédia da bela Milda Tichonovna Lipski. Entre Kargopov e Kiev já toda a gente sabia o que acontecera e todos tinham pena de Milda.

            A audiência foi breve.

            Milda confessou tudo, a mãe chorava alto, seu pai praguejava em voz alta e gritava na sala que Kuran tinha sido um fornicador, mas o tribunal não aceitou o seu testemunho.

            Onde iríamos parar se rachássemos o crânio a todos os homens que perseguem todos os rabos de saias que encontram? Não tardaria e a raça masculina seria exterminada...

            Por entre os gemidos do povo de Kargopov, o tribunal condenou Milda Tichonovna a dez anos de trabalhos forçados. Até foi uma sentença benévola... os antecedentes de Kuran foram, de facto, uma atenuante que ficou registada.

            Mas dez anos na Sibéria... Camaradas, não voltaríamos a ver Milda. Troncos de homens jaziam numa cova do campo de trabalho, como é que um cisnezinho como Milda ia aguentar?

            O velho Jefim Timofejevitch cuspiu na sala e aproximou-se do juiz perfeitamente desconcertado. Um cheiro ainda pior que estrume exalava dele, mas nem por isso abalou ninguém...

            O ancião baixou as calças, mostrou o seu traseiro cheio de rugas ao Supremo Tribunal e soprou o desafio conhecido. Não se podia acusá-lo de desrespeito ao tribunal... Jefim exteriormente mostrava-se muito respeitador.

            A milícia já havia informado o tribunal durante o julgamento que tinha havido distúrbios com a multidão na rua. Nas escadas do venerável edifício parou uma carroça de estrume puxada por dois bois meio cegos...

 

            Milda viu a família mais uma vez. A partida para a Sibéria - onde não conhecia ninguém e não lhe sabiam dar informações - tinham de assistir à despedida da condenada.

            Sentaram-se em frente uns dos outros numa sala pequena, separados por uma grande mesa... num dos lados sentava-se Milda com o guarda, do outro lado o pai Lipski, a mãe, a irmã e o irmão.

            Por toda a sala amontoavam-se caixotes e sacos.

            Eram prendas, presentes de todos em Kargopov para levar na viagem para uma terra desconhecida.

            Era claro que Milda não podia levar nada daquilo consigo, mas também é importante mostrar que provas de amor podem acompanhar uma pessoa pelo caminho...

            - Estou muito orgulhoso de ti! - disse Tichon Ivanovitch. - Deus te acompanhe, minha querida filha. Os anos passam depressa. Ficamos à tua espera!

            E a mãe disse com a voz surpreendentemente mais firme:

            - Todo o país fala de ti. Gostaria de abraçar-te, mas não devo.

            - Eu faço de conta que não vejo... - disse o guarda e virou-se de costas.

            Eles abraçaram-se e beijaram-se, o irmão enfiou entre os seios de Milda um pequeno mapa da Sibéria, todo dobrado, e a irmã passou-lhe, a seguir, uma navalha fechada.

            - Nós esperamos! - disse então a família em coro. Era o sinal para o guarda se voltar outra vez. Os parentes sentaram-se de novo, decentemente, atrás da mesa.

            Um mapa e uma navalha... deviam ser suficientes para dominar a Sibéria! A fé da Rússia é muito grande numa força singular.

            Iriam levá-la muito cedo, numa manhã de nevoeiro: nove mulheres e dezasseis homens. Cinco carros celulares conduziram-nos até à estação de mercadorias de Kiev, onde os vagões fechados aguardavam. Eram vagões de gado adaptados com tarimbas e um fogão de ferro ao meio.

            Até agora eram cinco vagões que tinham sido trazidos de outras regiões e que ali foram concentrados. Para a Sibéria ainda havia mais... um enorme comboio, que deveria desaparecer na imensidão da taiga...

            Os soldados de escolta tratavam as mulheres com delicadeza, aos homens empurravam-nos para a frente como rebanhos de carneiros.

            Nem todos eram assassinos, ladrões, salteadores ou impostores; havia também três professores, dois escritores, um jornalista, um actor e um director de fábrica.

            E entre as reclusas, no vagão de Milda, também havia uma médica, uma senhora já de idade, que falava pouco sobre si. A maior parte das vezes sentava-se no catre e fixava um ponto distante, completamente alheada.

            Quando uma das mulheres se descontrolava e começava a gritar com medo desta gigantesca e desconhecida Sibéria, encontrava facilmente palavras de conforto.

            -           Quem é que matou, camarada? - perguntou Milda à reservada médica, ao longo do caminho através dos montes Urales.

            Era uma pergunta tão ingénua que levantou, pela primeira vez, uma ponta do véu que escondia os seus segredos.

            As outras, criminosas de uma maneira geral, arregalaram os olhos avidamente.

            - Eu matei alguns mentirosos - disse a médica. - Estive um ano em Hamburgo e contei em Kiev como eram as coisas na Alemanha. - A médica encolheu os ombros. - Só devia ter aprendido como se ama o socialismo...

            Uma política!

            As outras mulheres afastaram-se da médica. A partir desse momento, ela ficou completamente sozinha. Só Milda se sentava mais vezes ao pé dela e contava coisas de Kargopov, dos extensos campos e do idoso Jefim Timofejevitch, que tinha mostrado o traseiro nu ao tribunal.

            O comboio percorria a região dos Urales. Em Sverdlovsk vieram buscar do vagão a médica, duas ladras e Milda Tichonovna e levaram-nas para um transporte fechado.

            Fim da linha! Já em Sverdlovsk? Ficaria num canto da Sibéria? Mandá-la-iam para Karaganda ou para mais longe, para Magadan? Iriam descarregá-las algures na taiga infinita, num acampamento, que só tinha um nome na lista dos serviços públicos?

            -           O Inferno pode estar em toda a parte... - disse a médica quando a descarregavam. Estavam muito longe da cidade, foram para um acampamento onde começava a floresta.

            Uma serração fazia ruído dia e noite. Inúmeros troncos e tábuas serradas estavam empilhados e o cheiro áspero de madeira nova disfarçava qualquer outro odor.

            -           Uma serração de madeira! - A médica olhou em volta.

            O oficial da escolta entregou os papéis do transporte.

As mulheres ficaram sozinhas no pátio da administração, apertadas todas umas contra as outras como vacas numa tempestade. Quatro vultos indistintos com casacos pespontados, calças de algodão e resistentes botas de camponês escondiam a cabeça sob os lenços...

            -           Sabes o que isto significa, Milda?

            -           Não. Mas já trabalhei na floresta, na cooperativa. Não me importa...

            -           Vão enfiar-me, de certeza, no sector hospitalar - disse a médica. - Diz-te doente por uns dias, vem ter comigo... e eu vejo como te posso levar para lá nas primeiras semanas.

            As serras chiavam através da madeira, as grades separavam-nas.

            à esquerda ficava o acampamento dos homens, à direita as barracas das mulheres separadas por divisórias altas.

            Pelotão de fuzilamento não havia, nem redes com corrente de alta tensão, apenas algumas torres de vigia com projectores e metralhadoras e isto apenas no acampamento dos homens.

            -           Do meu acampamento ninguém foge! - disse o comandante meia hora mais tarde.

            Os novos presos desfilaram à sua frente.

            -           Vejo em vocês só gente trapalhona que precisa de ajuda para se reerguer. Vão ser tratados decentemente se se comportarem de maneira honesta. Somos uma comunidade de trabalho e todos dependem uns dos outros. Quem entender isto, será aqui tratado como gente...

            - Soa bem - disse mais tarde a médica. Estava no lavabo, tinha tomado um duche e agora esperava pelo banho de vapor e pela desparasitação obrigatória. Os seus corpos nus já brilhavam com o suor, estava calor neste compartimento.

            Também as trabalhadoras do lavabo eram igualmente reclusas, usavam apenas uma blusa curta, cinzenta, sobre a pele despida.

            -           Aguardemos - prosseguiu a médica. - Nós, os Russos, sempre fomos grandes teóricos! - Era evidente a razão de a terem enviado para um acampamento como este, evidenciando tais opiniões...

 

            O mundo é, no fundo, igual em toda a parte onde há homens e onde, de repente, surge uma mulher bonita. A natureza organizou tudo de tal maneira que não se pode fazer nada contra isso!

            Assim que Milda se apresentou ao responsável do seu posto e assumiu as suas funções no sector onde se descascavam batatas, reparou que as coisas não eram assim tão diferentes da Cooperativa Maxim Gorki em Kargopov.

            O responsável do sector exibiu uns olhos redondos de boi, contemplou Milda com os lábios apertados, dando estalidos com a língua, e disse:

            -           Chamo-me Avraam Iljajevitch; só uma pergunta primeiro: queres passar dez anos a descascar batatas?

            -           Quero - respondeu Milda. Já conhecia aquele olhar!

            Não tinha medo. Também Avraam tinha uma cabeça franzina, pensou ela, tão prosaica como qualquer um que separa e classifica os ovos e exclui os que têm casca fina.

            "Lê o meu relatório disciplinar, camarada! Não cometas o mesmo erro que Kyrill Michailovitch. O meu corpo não é recinto para festas populares... para mim é sagrado, precisamente agora que Kuran o profanou. "

            - Então estamos perfeitamente entendidos - disse Avraam Iljajevitch. - Dentro de um ano os teus dedos já se transformaram em batatas e tu descasca-los...

            - São os meus dedos, Avraam Iljajevitch - respondeu Milda calmamente. - Eu preocupo-me com eles.

            E assim que terminou a conversa Milda recebeu o seu banquinho, um enorme balde de zinco cheio de água, sentou-se perto de um monte de batatas fétidas e começou a descascá-las.

            No acampamento havia mil duzentos e setenta e quatro reclusos... em dez anos comeriam uma montanha de batatas. Não eram dados muito exactos...

            Avraam Iljajevitch era mais esperto do que Kuran. Não atacava -espiava a fortaleza como uma raposa ronda um galinheiro. De vez em quando aparecia perto das descascadoras de batatas - coisa que raramente fazia antes -, encostava-se à parede silencioso e ficava a olhar.

            Era um homem feio, tinha talvez quarenta anos, com cabelo crespo e preto, quase de certeza da Geórgia ou da Crimeia. Tinha uma cara franca e olhos quase divertidos.

            Logo no primeiro dia, as mulheres contaram a Milda que a sua mulher havia morrido com uma febre pós-parto e pouco tempo depois também a criança tinha tido uma pneumonia. Não voltou a casar e nem constava que ele levasse reclusas para a cama, porque não tinha nenhuma preferida... Era tão correcto como o comandante, a quem elas amavam às escondidas.

            Com a chegada de Milda tudo mudou.

            Devia ter qualquer coisa em si que deixava os homens loucos, como ursos que farejavam o mel.

            Ela própria não entendia. Olhava-se no espelho da casa de banho da comunidade ou nos azulejos brilhantes do lavabo, que frequentava uma vez por semana para tomar um banho quente. O cheiro a batatas, principalmente quando estavam podres, era semelhante a aguardente barata, entranhava-se nos poros e só saía com o vapor do banho.

            "Tenho um corpo bonito", pensou Milda então, meio a brincar. "Quem é que pode não reparar?"

            No entanto, havia outras mulheres que também tinham corpo bonito, como por exemplo Jelisaveta ou a atrevida Anja... mas a estas Avraam Iljajevitch não cobiçava com os olhos. Mirava-as como se faz às galinhas cacarejantes. "Porquê eu? Sempre eu?"

            Vestiu-se com as coisas mais velhas que tinha, calçou as botas resistentes que não deixavam ver as pernas bem feitas, usava uma blusa de linho suja e uma saia demasiado larga, a qual ainda estava presa com um cordel à cintura... um aspecto que, deveras, não atraía!

            Porém, Avraam andava ali à volta, cobiçava-a com os olhos, suspirava em segredo, sorria-lhe ironicamente quando os seus olhares se cruzavam e tinha mais tempo para ir à cozinha do que antigamente.

            Ela não comentou o assunto com a sua nova amiga, a médica.

            Visitou-a algumas vezes no sector hospitalar, mas Milda

recusou-se a deixar-se examinar.

            - Tiveste sorte, Milda - disse a médica. - As outras duas mulheres trabalham na serração como os homens. Mas sabem o que fazem! Uma vem amanhã para a enfermaria, já tem gonorreia. Ainda estou à espera da outra, mas ainda não veio...

            Era um sábado e, para dizer a verdade, não aconteceu nada.

            Milda tomou o banho de vapor, a sua pele ficou livre do cheiro fermentado das batatas. Sentia-se esplêndida, como que livre, e sentou-se no vestíbulo do lavabo, à espera da roupa que também tinha deixado pendurada ao vapor.

            Então apareceu Avraam Iljajevitch. Entrou facilmente no lavabo feminino, olhou para Milda, que estava nua, fez sinal à responsável pelo lavabo que ralhava e berrava e voltou a sair.

            É certo que não sucedeu nada. No entanto, este acontecimento despertou em Milda uma espécie de pânico.

            Correu para a sua amiga, na enfermaria, contou-lhe tudo e disse com respiração ofegante:

            - É preciso fazer alguma coisa! Sei que também o matarei se me agarrar. É um homem simpático, tem olhos amáveis, talvez ele até me ame...

            -           Ele ama-te com toda a certeza - afirmou a médica.

            -           Mas eu vou matá-lo! Não quero voltar a ser violada, quero ser eu a entregar-me! Compreendes?

            -           Com certeza. É uma grande diferença!

            A médica olhou pela janela. Estava um claro dia de Inverno, com um sol brilhante, mas muito frio. A neve cintilava num tom azulado.

            Avraam Iljajevitch passeava no grande espaço entre a administração e a enfermaria. Usava uma grossa pele de urso com uma gola de raposa prateada. Estava, por assim dizer, muito elegante.

            Da serração vinha o barulho estridente das serras e das grades... aqui não havia sábados nem domingos. A União Soviética precisava de madeira.

            -           O que é que fazemos? - perguntou a médica pensativa. - Milda, o que é que vamos fazer contigo?

            -           Não sei. - Milda pôs as mãos no colo, que tanto protegia, e olhou para a sua amiga..- Estou aqui para que me digas.

            Todo o problema era muito fácil de resolver, as dificuldades começariam logo que deixasse o acampamento. Portanto, só havia uma maneira de escapar ao amor de Avraam: a fuga!

            -           Eles estão à minha espera, disseram-me à despedida; tenho de me esconder algures em Kargopov...

            Milda Tichonovna observou Avraam, como ele andava na neve de cá para lá, impaciente. Estava preocupado. Por que razão é que Milda estava na enfermaria? Não se sentiria bem? Certamente iria perguntar ao médico mais tarde.

            -           E aí era o primeiro sítio onde iriam procurar. Não, tens de esconder-te, Milda, onde ninguém te conheça! Talvez durante um ano... depois tudo será esquecido.

            -           Mas haverá homens por toda a parte a perseguir-me...

            - É um risco que tens de correr. Quem sabe não encontres um que ames... e então terás uma nova pátria!

            -Talvez... - Ela voltou-se para a janela. - Temos de aguardar.

            Três dias depois - Avraam tinha-se acalmado, Milda não estava doente - três camionetas de recolha de lixo trabalhavam no acampamento e dirigiam-se para um lugar de combustão de lixo.

            Debaixo de uma pilha de roupa velha e rasgada que já não se podia remendar, encontrava-se Milda, rodeada de mau cheiro e lixo, que se deixou transportar para fora do acampamento.

            Os postos de vigia controlavam apenas a papelada de viagem, olharam para a carga imunda e acenaram: podem passar!

            Era de noite, a última chamada já tinha passado, a contagem dos presos, a participação aos responsáveis.

tudo completo!

            Uma noite como tantas outras na serração Iii perto de Sverdlovsk.

            A meio do caminho, próximo de uma colónia, que parecia adormecida, Milda saiu de baixo da pilha de roupa e saltou.

            Caiu na neve, rastejou alguns metros na rua, depois levantou-se, sacudiu a neve das suas roupas grossas e dirigiu-se à cidade.

            Assim que chegou à primeira rua e se misturou com as pessoas, tornou-se uma rapariga como tantas outras nesta cidade. Quem é que podia adivinhar que ela vinha de um campo de trabalhos forçados?

            Foi para a grande estação ferroviária, consultou no painel as partidas dos comboios e depois esperou, na enorme gare, pela chegada do Expresso Transiberiano.

            Para começar, ia na direcção oposta a Kargopov - tal como a médica tinha dito. Ninguém iria imaginar que tinha fugido para a Sibéria. Iriam vasculhar todos os caminhos até Kargopov... por enquanto estava segura na Sibéria. Veria que aquela era uma terra de amor. Ninguém julga isso se não a conhecer.

            Teve de esperar durante muito tempo, mas quando o comboio entrou finalmente na estação, perdeu a coragem.

            Escondeu-se na gare, por detrás de um quiosque, e mirou as compridas e luxuosas carruagens.

            Observou como Mulanov e Vitali falavam com o chefe da estação e viu uma mulher exuberante, ordinária e pintada, apear-se e andar de um lado para o outro. Estava a fumar um cigarro e deu uma resposta obscena quando o chefe da estação lhe gritou qualquer coisa.

            A quatro metros de Milda estava uma porta aberta. Só a quatro metros... três grandes saltos! Deveria arriscar? Onde é que iria voltar a descer? Um comboio também é um perigo rolante para uma presa em fuga.

-           Embarcar e fechar as portas!

            A mulher exuberante subiu para a carruagem e o revisor percorreu todo o comboio. A gare estava vazia.... e em frente apenas a quatro metros de distância estava a porta aberta.

            Milda saiu da sombra do quiosque... Olhou para a porta, baixou-se e desatou a correr.

            Nesse momento reparou num vulto, de certo modo escondido, na janela escura.

Lá estava um homem a olhar para ela. Tarde de mais!

            Já não havia retrocesso. Com a coragem do desespero, Milda Tichonovna precipitou-se para dentro da porta aberta, trepou os degraus e quase caiu na carruagem.

            Dois segundos depois, Mulanov correu a porta pelo lado de fora. Esta deu um estalido na fechadura, a tranca de segurança deu um solavanco para cima. Era o barulho da porta de uma cela a fechar-se.

            Prisioneira num comboio! Com a Sibéria infinita à sua frente!

            As rodas começaram a movimentar-se, uma vibração percorreu o comboio, que, com um chiar suave, se pôs em andamento.

            Nos primeiros minutos, Milda escondeu-se na casa de banho do vestíbulo. Sentou-se na bacia, apertou o rosto nas mãos e começou a chorar como uma criancinha...

 

 

            -           Agora já sabemos - disse Mulanov, passado um bocado daquele silêncio.

            Milda Tichonovna tinha encostado a cabeça ao peito de Forster e ele acariciava-lhe as costas e soube naquele instante que nunca mais a abandonaria.

            -           Se contarem isto a Karsanov, ele puxa o freio de alarme e leva-a para a esquadra de polícia mais próxima. Tem alguma ideia, Werner Antonovitch?

            Forster não tinha ideia nenhuma.

            Enquanto Milda contava a sua história, haviam passado Ulan-Ude, tinham parado durante um momento e já iam a caminho de Tchita.

            Karsanov parecia estar ainda ocupado com o transtornado Skarnejkin e não tinha levado a cabo a ameaça de atirá-lo do comboio em Ulan-Ude.

            -           Desembaraçar-se de mim como de um bastardo? - tinha ele berrado. - Eu, um cidadão deste país, membro do Partido e proprietário de um bilhete legítimo? É este o tratamento que se dispensa a um homem que só quer justiça? O Estado confiscou os meus sapatos novos... eu exijo que o Estado me envie os sapatos de avião para Tchita ou para Chabarovsk!

            Era uma gritaria! Dentro da cabina telefónica estava sentado o capitão Plotkin, não queria ser visto e por isso também não podia intervir para clarificar as coisas... Lá fora Karsanov vociferava, ameaçava, praguejava e não tinha qualquer possibilidade de chamar à razão um javali ferido e furioso como Skarnejkin.

            Até mesmo quando Karsanov mostrou o seu cartão da KGB, presenciou um autêntico milagre russo: Dementi Michailovitch Skarnejkin cuspiu no cartão e explicou que queria efectivamente ser preso! Num tribunal, perante centenas de jornalistas de todo o mundo, ele descreveria o seu comportamento vergonhoso!

            - Temos de chegar a Víadivostoque - disse Werner Forster. - É o único objectivo, Mulanov. Até chegarmos a Víadivostoque temos de impedir que Karsanov venha a saber da história de Milda.

            -           Mas como? Como, Werner Antonovitch? - Mulanov esfregou as maos. - Oh, se Kiaschka ainda fosse viva! Haveria de ter alguma ideia! Eu posso esconder Milda no comboio, mas tem ideia do que Karsanov poderá fazer? Até Víadivostoque já ele terá examinado cada canto do comboio! Só há um lugar seguro... a casa de banho onde está Kiaschka.

            - Não! - gritou Milda desesperada. - Não! Não!

            Ela quase se arrastou até Forster - ficou, de repente, tão pequena como uma criança.

            - Uma proposta idiota, Boris Fedorovitch - disse Forster, zangado, para o revisor. - Você quer arrasar completamente os nervos de Milda?

            -           Então proponha outra coisa. Mas tem de ser depressa! Karsanov pode voltar a qualquer momento. Os nervos de Skarnejkin também estão destroçados. Só é preciso que alguém tenha a ideia de lhe dar uma bofetada e então termina tudo!

            -           E então fica apenas o ataque directo de Karsanov!

- Forster disse isso em tom muito duro. - Mulanov, não fique aí de olhos esgazeados. Olhe para Mildaschka. Como russo, você sabe muito bem o que uma pessoa tem de passar quando foge de um campo de trabalho e é apanhada novamente. Acha que Milda deve passar por isso?

 

            Há um ditado que diz: "A mão do destino agarra-nos!" óptimo para quem acredita nisto... Pode esperar sempre e em qualquer lugar por esta intervenção e é raramente enganado, porque o destino só mostra as suas mãos providenciais uma vez...

            Não vale a pena lutar contra isso, porque também aqui, no Expresso Transiberiano, o destino tem um bilhete e senta-se invisível no compartimento... Inesperadamente surgiu um enorme ruído vindo do vagão-restaurante, ouviram-se vozes irritadas e então alguém soltou um grito sonoro. Soou tão horripilante como se estivesse a ser arrancada a pele dessa pessoa; depois ressoaram pancadas fortes.

            Mulanov deu um salto e revolveu os cabelos.

            - O que é isto? - gritou ele. - Será que o pequeno-almoço está assim tão mau para as pessoas baterem em Fedja e destruírem o vagão restaurante? Mas que espécie de pessoas é que viaja hoje em dia neste comboio?

            O revisor precipitou-se para o corredor, mas regressou logo a seguir e fez sinais a Forster.

            -           É mesmo Fedja! - gritou ele então. - Coitado! Ataram-lhe os braços atrás das costas e arrastaram-no! E tudo isto porque se calhar o pequeno-almoço estava mal confeccionado!

            - Fica aqui sentada e calada, Milda! - disse Forster e levantou-se. Olhou-a e os olhos dela mostravam-se diferentes do que estavam antes de ter contado aquela história.

            Havia algo de familiar naquele olhar, a despeito de todo o medo, havia um vislumbre de solidariedade. Ele envolveu afectuosamente o seu rosto magro e beijou-lhe os lábios frios.

            E estes lábios agora abriram-se, corresponderam ao beijo, os seus braços ergueram-se e rodearam-lhe o pescoço. Ela ajoelhou-se na cama e pendurou-se nele; e quando ele quis retomar o fôlego, comprimiu ainda mais a sua cabeça contra ele e não lhe largou os lábios.

            Milda só se deixou cair para trás, sobre a manta amarrotada, quando Mulanov entrou no compartimento e gritou:

-           Quase assassinaram Fedja!

            - Amo-te, Werner - disse ela baixinho. - Amo-te! Amo-te! E não sei porquê...

            Arrastaram o pobre e infeliz Fedj a pelo corredor. Três homens agarravam-no e, atrás deles, vinha o cozinheiro com uma trouxa de roupa toda amarrotada.

            Mulanov gritava a plenos pulmões:

            -           Larguem o empregado de mesa, camaradas! Mas que comportamento é este? Kusma Matvejevitch, você também está metido nisto?

            Kusma era o cozinheiro do vagão-restaurante. Os passageiros aglomeravam-se vindos dos compartimentos, o general apareceu - muito imponente - no seu uniforme. Perto dele estava o tenor, que regressava ao compartimento e estava a pensar se viria a propósito começar a cantar uma ária apropriada à sua voz.

            Fedja estava com um ar terrível. Tinham-lhe dado murros nos olhos, que estavam inchados; ele defendia-se desesperadamente, mordia-lhes e guinchava como um papagaio...

            - Saia do caminho, Mulanov! - gritava Kusma, o cozinheiro, por cima da cabeça dos outros, agitando a trouxa de roupa.

            -           Encontrei isto debaixo da cama de Fedja! Umas calças cheias de sangue... e a bolsa de cabedal de Kiaschka com o dinheiro!

            Daí resultou um monstruoso alvoroço.

            Os passageiros que estavam no corredor agrediram Fedja sem hesitação, sem perguntar sequer se se trataria de um engano.

            O general estava aprumado como numa parada, à porta do seu compartimento, e gritava em voz rouca:

- Fuzilem-no! Fuzilem-no imediatamente!

            Finalmente, o tenor encontrou a ária que procurava e começou a cantar a plenos pulmões: "Meu Deus, está tão escuro aqui... " do Fidélio.

            Como se costuma dizer - a indignação que crescia sobre Fedja era uma chusma borbulhante.

            - Ouçam-me! gritava o desgraçado sem parar.

            Ele mal conseguia ver, porque os seus carrascos lhe batiam nos olhos já inchados e davam-lhe tantas bofetadas que a sua cara pálida não podia estar mais vermelha.

            - Não é nada disso! Estou a ser vítima de um atentado! Quem me ajuda? Eu quero explicar tudo.

            Mas ali não havia ninguém interessado em ouvir explicações.

            Continuavam a arrastar Fedja, até que o grupo de Mulanov os fez parar. Estava parado no corredor, firme como um rochedo.

            -           Porque é que ninguém o ouve? - gritou o revisor.

-           E logo Fedja! Quando corta um dedo, desmaia logo! Deixem-no falar, camaradas!

            -           Não há mais nada para dizer, Bons Fedorovitch! gritou o cozinheiro Kusma.

            Desembrulhou a trouxa de roupa e tirou umas calças que agitou no ar.

            Toda a gente viu, inclusive Mulanov, que eram sem dúvida nenhuma as calças de Fedja. Umas calças com um rabo tão estreitinho que só lá cabia Fedja.

            -           Isto é uma prova, ou não é? Todas salpicadas de sangue, de cima abaixo! E debaixo das calças estava a bolsa de cabedal de Kiaschka com todo o dinheiro!

            - Fuzilem-no! - ordenava o general. - Encostem-no à parede!

            Mulanov começou a sentir a cabeça a ferver. Pôs-se diante de Fedja, levantou-lhe a cabeça baixa com ambas as mãos e olhou dentro dos seus olhos inchados.

            - Foste tu, meu filho? - perguntou ele muito calmamente.

            Fedja tentou abrir mais os olhos. A sua boca abriu-se em seco como um peixe, mas não saiu qualquer som, nem nenhuma palavra sensata...

            Passado algum tempo, em que todos estiveram calados, só se ouvia uma respiração surda...

            -           Claro que foi! - berrou Kusma Matvejevitch. - Ele está condenado! Perguntei-lhe logo, assim que encontrei as calças debaixo da cama. Por um mero acaso, camaradas! Caiu-me uma moeda da mão, rolou para debaixo da cama e eu pus-me de gatas no chão para procurá-la. E o que é que eu encontrei quando peguei na moeda? Quase apanhei um choque. "Kusma, fica quieto", pensei, "muito quieto, ou não sobrevives!" E assim deitado, percebi que era sangue! Fiquei paralisado, camaradas, calculem. Paralisado! E então perguntei a este carneiro ordinário e estendi-lhe as calças... Ficou branco como cera e respondeu-me: "Lambe-me o cu, meu querido amigo!" Foi o que me disse o indivíduo! Não é isso uma confissão? Uma pessoa inocente reage assim?

            Também Mulanov teve de reconhecer que aquilo era estranho. Deixou o caminho livre e então continuaram a arrastar Fedja aos gritos. Dois homens já tinham ido a correr para dar o alarme e chamar o director do comboio, Vitali Diogenovitch.

            Tudo aquilo incomodou Karsanov na sua batalha desesperada com Skarnejkin, enquanto ele berrava contra a porta da cabina telefónica:

            - Encontrámos o assassino! Encontrámo-lo!

            O capitão Plotkin saiu da cabina telefónica disparado como uma bala, de tal maneira que a porta bateu de encontro à cabeça de Skarnejkin... foi uma pancada violenta e o industrial de sabões revirou os olhos e caiu no chão.

            - Obrigado! - disse Karsanov com a voz a tremer de raiva. - Foi um mero acidente! Não nos podem responsabilizar.

            Só então Karsanov percebeu o que é que Vitali gritava, deu meia volta e chocou com Plotkin, que vinha a correr pelo corredor.

            O capitão de Irkutsk empurrava para o lado todos os passageiros que lhe obstruíam o caminho e gritava:

            - Abram caminho! Abram caminho! Polícia!

            A reacção foi monstruosa, já que Fedja reconheceu não só a voz de Plotkin, como também o seu vulto, que, aos seus olhos esmurrados, parecia vir envolto em nevoeiro.

            Caiu de joelhos, começou a chorar em voz alta e a tremer como se estivesse nu, exposto ao frio da Sibéria.

            - Ele confessa! - vociferou Kusma, o cozinheiro, e voltou a agitar as calças no ar. - Camarada capitão, como é que chegou tão depressa? Ah, isto na milícia é que é organização! Mal achámos o assassino, e a milícia já está no seu posto!

            - Pelo menos até Tchita Karsanov está ocupado - disse Mulanov cansado, quando aquela multidão furiosa passou por ele com Fedja.

            - Tchita está próxima. E depois como é? - perguntou Werner Forster. - Toda a longa viagem por Amur e Ussuri? Quem é que o detém?

            - Não temos dois assassinos no comboio - declarou Mulanov abalado. - Se se passasse tudo outra vez neste comboio do diabo! Acho que desde que o transiberiano faz este trajecto, nunca aconteceu tal coisa. Desculpem-me, tenho de continuar! O dever chama-me!

            Werner Forster seguiu o revisor que corria à sua frente. Mas antes deitou mais um olhar ao seu compartimento.

            Milda estava sentada à janela e olhava lá para fora. O alvoroço à volta de Fedja fora certamente uma óptima oportunidade. Quando o assassino fosse entregue à milícia em Tchita, Karsanov também lá estaria. Aí não pensaria em Milda...

            Forster apercebeu-se de que era preciso achar um outro caminho para a liberdade.

            Depois correu atrás de Mulanov.

            O interrogatório teve lugar no compartimento do revisor.

            O capitão Plotkin estava em frente ao sucumbido Fedja. Tinham atirado com o empregado de mesa para cima do banco.

            Zangado, Karsanov mirou Forster: não lhe agradava nada que um estrangeiro participasse naquele espectáculo.

            Mulanov tinha trancado a porta. Do lado de fora ouvia-se a ondulação das vozes, que embatiam na parede da carruagem.

            Plotkin não tinha nada contra o facto de o alemão estar dentro do compartimento, uma vez que ele havia sido um dos últimos a falar com Kiaschka.

            - Estas calças são suas, Fedja? - perguntou Plotkin e segurou no ar a prova ensanguentada.

            Fedja choramingava e dobrava-se como uma minhoca pequena e ficou calado.

            - Isto é a bolsa de dinheiro de Kiaschka Ivanovna? -   O capitão segurou no ar a bolsa de cabedal com as notas dobradas e as moedas.

            Fedja continuou a gemer e voltou a ficar calado.

            - Não estamos a fazer progressos! - observou Karsanov. - Até agora a sua busca psicológica do assassino foi uma brincadeira privada, Stepan Petrovitch. Se o cozinheiro não tivesse perdido dinheiro, nem tivesse rolado para debaixo da cama, você ter-se-ia apeado em Víadivostoque e Fedja rir-se-ia de alegria.

            - Tenho de contestá-lo! - O capitão Plotkin estava visivelmente ofendido. - Ainda temos três dias e três noites à nossa frente, Pal Viktorovitch! Entretanto, Fedja já se descontrolou, um carácter tão mole como ele! De cada vez que passava pela porta fechada da casa de banho número cinco, devia dizer para si: "Kiaschka está lá dentro!" Por que razão ainda lá estaria? Por que continuaria ela a viagem? Como é que eles se ocupariam dela? E então ele mergulharia num pânico íntimo que logo o levaria ao colapso total!

            - O seu pânico interior complica-me, aos poucos, com os nervos! - Karsanov revelou uma brutalidade notável.

            Sobrepunha-se agora em Karsanov o coronel Jarsanov da KGB, apesar de ninguém saber se este era, de facto, o seu verdadeiro nome.

            - Eu já lhe mostro como é que se faz! - Agarrou Fedj a com brutalidade pelos cabelos e puxou-lhe a cabeça destroçada e inchada para cima. - Meu rapaz, agora é connosco. KGB!

            Só aquela palavra produziu em Fedj a o efeito de um raio.

            Nisso não era diferente dos demais russos; já o tinham visto em Mulanov. Ter a ver com a KGB... é a mesma coisa que o próprio Satanás passar com os dedos em brasa sobre a nossa cabeça. Quando um russo ouve estas três letras, lembra-se de todas as longas e esquecidas orações e reza-as às escondidas.

            Levante-se! - gritou Karsanov friamente.

            Ergueu o empregado de mesa do banco pelos cabelos. Forster admirou-se com esta força repentina do seu companheiro de compartimento, o mesmo que tinha um ar satisfeito e paternal...

            Fedja estava agora de pé. Vacilou ligeiramente e Mulanov amparou-o pelas costas.

            - Vista as calças! - ordenou Karsanov.

            Um soluço percorreu Fedja.

            - Não! - balbuciou ele. - Não, camaradas, não! Isso não! Imploro-lhe...

            De repente começou a chorar. Grossas lágrimas brotavam dos seus olhos destroçados e corriam pela cara ossuda.

            - Dispam-no! - prosseguiu Karsanov impassível.

            Vitali Diogenovitch e Wladlen Ifanovitch seguraram Fedja e Mulanov despiu-lhe as calças do uniforme; e quando Fedja ficou ali em cuecas, desatou aos gritos de novo.

            Isso não o ajudou em nada. Com autoridade e algumas pancadas na cara, Mulanov vestiu-lhe as calças ensanguentadas e abotoou-as.

            - Servem! - exclamou Karsanov satisfeito. - As calças são dele. - Entre pernas e nos botões das calças espalhava-se agora uma mancha húmida. Pouco depois, começou a pingar das pernas das calças para o chão.

            - Ele está a mijar-se de medo! - notou Plotkin com desprezo na voz.

            - Isso é bom! - Karsanov sentou-se no lugar perto da janela, no compartimento, e limpou o suor da testa. Isso elimina a alegria da confissão. O que tem você a dizer, Fedja?

            O empregado de mesa acenou com a cabeça, a sua choradeira terminou e afundou-se outra vez no banco defronte de si.

            Quando tocou nas calças, encolheu-se e escondeu rapidamente as mãos molhadas atrás das costas.

            O capitão Plotkin teve de admitir, contrariado, que o tratamento psicológico de Karsanov era suspeito, mas mais eficaz do que o seu. "É KGB", pensou ele. "Claro! São estes camaradas impassíveis que compreendem os pontos fracos das pessoas... "

            - Então foi você? - perguntou Karsanov, agora bastante amigável. Fez sinal a Werner Forster, que estava lá ao fundo perto da porta. - Por acaso não tem consigo os seus cigarros nojentos e adocicados, Werner Antonovitch?

            -           Sempre!

            Forster atirou o maço a Karsanov. Este tirou um cigarro, enfiou-o entre os lábios abertos de Fedja e acendeu-o.

            O empregado de mesa deu algumas fumaças profundas e depois o cigarro caiu-lhe da boca.

            Mulanov apanhou-o habilmente.

            -           Ainda pega fogo ao comboio! - disse ele em voz alta. - Fedja, meu rapaz, já não faz sentido negares por mais tempo. Estás condenado. Como é que foste capaz de fazer uma coisa daquelas! Não foi uma mosca que mataste, nem enxotaste...

            - Eu não queria... - confessou Fedja numa voz quase imperceptível. - Camaradas, eu não queria mesmo... Aconteceu muito facilmente. Também não sei como...

            Plotkin endireitou-se orgulhoso. A sua teoria! Assassino contra a sua vontade! O criminoso que se horroriza com o seu feito...

            Karsanov lançou ao capitão um olhar irado.

            - Não se iluda, Stepan Petrovitch! Um assassínio é sempre um assassínio! - Inclinou-se sobre o empregado de mesa. - Como é que foi? Abre a boca ou levamos-te para junto de Kiaschka e sentamos-te em cima dela...

            Fedja abriu os lábios. O seu corpo seco estremeceu outra vez. No compartimento superaquecido havia um cheiro insuportável, repugnante e forte, a urina.

            -           O cigarro... - balbuciou ele.

Mulanov voltou a meter-lho na boca.

            O empregado de mesa puxou umas fumaças profundas e depois cuspiu-o da sua boca.

            Karsanov acenou a cabeça, satisfeito. Atravessara a ombreira da porta... um homem conformava-se com o seu destino.

            Não havia realmente muito que contar.

            Naquela noite, no compartimento do revisor, depois de se contar o dinheiro de Kiaschka e de Fedja ter ajudado a pôr as moedas em pequenos montinhos, este regressou ao vagão-restaurante.

            Ainda atendeu a um pedido tardio de um passageiro com sede. Percorreu o corredor com uma bandeja com água mineral e uma caixa de bolachas e depois fechou o vagão-restaurante.

            Kusma Matvejevitch, o cozinheiro, já estava deitado e ressonava formidavelmente, de tal maneira que Fedja não conseguiu suportar. Mas tinha de partilhar o compartimento com Kusma e geralmente dormia pouco... só conseguia dormir bem quando estava em Víadivostoque nos seus dias de folga.

            Fedja mudou então de roupa e decidiu passar pelo compartimento de Mulanov para cavaquear um pouco com ele e os outros revisores. Talvez até encontrasse Kiaschka na sua ronda aos clientes - isso era para ele um acontecimento especial.

            Ele assistiu, escondido, algumas vezes enquanto ela exercia a sua actividade, e essa espreitadela de uma situação íntima sempre o excitou muito. E também por isso desejava chegar a Víadivostoque...

            Aí havia as vielas do porto, onde se podiam encontrar prostitutas mais baratas... a uma como Kiaschka não podia chegar um simples empregado de mesa como Fedja.

            Contudo, espreitar no transiberiano era uma arte divertida e completamente de graça! Mesmo quando Kiaschka se apercebia, não ficava zangada. Era como observar um ferreiro a martelar o ferro sem que ele também se importasse com isso.

            Mulanov e Vitali já estavam a dormir quando Fedja espreitou para dentro do compartimento dos revisores. Wladlen, ao que parece, estava no compartimento das bagagens e jogava às cartas com o revisor do correio, Lumeneff, e o revisor das bagagens, Amorfskij.

            "Agora vou deitar-me", pensou Fedja. "Vou beber rápida e dissimuladamente três vodcas: só assim é possível suportar as ressonadelas de Kusma. Apenas duas ou três horas de sono devem ser suficientes... "

            Então voltou para trás às apalpadelas e ainda esperou ouvir distintamente o trabalho de Kiaschka nalgum compartimento... Mas escutou em vão às portas fechadas e trancadas.

            Pouco depois, viu a própria Kiaschka à porta da casa de banho número cinco. Estava de mau humor e usava um vestido através do qual o seu seio enorme quase saía. Desceu o corredor e sorriu para Fedja com cara de poucos amigos.

            - Uma noite que é uma porcaria, Fedja - disse ela. Não há nada para fazer. Dormem todos que nem pedras! Se lhes dou um safanão, resmungam: "Hoje não! Ainda sinto nos ossos O efeito de escavar a neve!", ou então começam a regatear como um cliente antigo! Ainda não ganhei nem um rublo até agora! Este Karsanov, com o seu comando das operações na neve, castrou os meus clientes...

            Encostaram-se à parede do corredor, fumaram um dos cigarros de Kiaschka e olharam para a taiga asfixiante e mergulhada em neve e gelo, que passava a correr.

            - Tens alguma rapariga, Fedja? - perguntou Kiaschka de repente.

            - De vez em quando... - respondeu ele. - Nenhuma firme.

            -           E porque não?

            -           Com o meu emprego? Sempre dentro dos comboios! Nenhuma rapariga quer esperar para sempre, nem deixar-se enganar, por isso eu arranjo uma, precisamente, de tempos a tempos!

            Ele fez um sorriso aberto. O seu rosto ossudo nem por isso ficou mais bonito, mas adquiriu uma expressão de travessura arrapazada.

            -           Se ao menos eu pudesse permitir-me... uma mulher como tu, Kiaschka...

            Ficaram outra vez calados a olhar para a taiga e ambos pensavam na mesma coisa: uma noite aborrecida! Desconsolada como a paisagem...

            Uma pessoa só podia deitar-se e dormir. Já não havia mais clientes... nem para o vagão-restaurante, nem para uma prostituta.

            -           Então quanto é que ganhas, Fedja? - perguntou Kiaschka acidentalmente.

            -           Cento e cinco rublos. Mas para o ano que vem, quando for promovido a chefe de mesa, o meu ordenado sobe para duzentos rublos.

            - É uma boa maquia, cento e cinco... mas não é uma quantia certa - disse Kiaschka e virou-se para ele. O seu peito volumoso, sob o vestido fino, encostou-se ao rapaz.

- Deves investir os cinco rublos.

            Fedja não era nenhum imbecil, mesmo quando Kusma o chamava assim às vezes. Compreendeu imediatamente, olhou para o peito de Kiaschka e engoliu algumas vezes, porque a sua garganta ficou seca, de repente, como um deserto.

            -           Cinco rublos? - perguntou ele rouco. - Realmente só cinco rublos?

            -Sim...

            -           Porquê?

            - Não é porque te chamas Fedja! Uma noite sem ganhar nada é contra os meus princípios! E quando são só cinco rublos... O que falta, faz parte de uma dádiva para os menos privilegiados! É uma boa acção social! Por cinco rublos não há, certamente, fogo-de-artifício, mas apenas um foguete.

            Fedja acenou com a cabeça em silêncio. O coração batia-lhe de encontro às costelas, o sangue pulsava nas frontes e ardia em brasa na cabeça e corriam-lhe arrepios frios pelo corpo todo.

            Kiaschka! Fedja Alexejevitch Semlakov ia amar uma Kiaschka!

            O pequeno e insignificante Fedja, de quem ainda não se sabia o nome completo até agora... Cinco rublos por esta mulher, em cujos seios outros homens mais ricos depositavam montes de moedas!

            E ele, Fedja, um rapaz que apenas olhava às escondidas, podia agora...

            - Não estejas aí a olhar especado que nem um boi!

- disse Kiaschka, e dirigiu-se à casa de banho número cinco, abriu a porta e fez um sinal.

            De repente, assumiu um ar tão ordinário, tão abjecto e nojento, tão diabolicamente comercial que Fedja susteve a respiração.

            Acenou com a cabeça em silêncio, mal sabendo como mexer as pernas, e olhou para Kiaschka com olhos de peixe....

            O vestido apertado e fino, o peito volumoso, as coxas firmes, o baixo-ventre, que se comprimia contra o tecido do vestido, formando um triângulo, o desenho dos quadris... tudo isto o impelia como um punho directamente no estômago e provocava-lhe vómitos até à garganta.

            "Eu posso ter Kiaschka... por cinco rublos... Fedja, seu felizardo, porque é que queres entregar-te precisamente agora?"

            - Não vais comer nada! - disse Kiaschka e empurrou Fedj a com um safanão naquele recinto tão apertado. Atirou com a porta e trancou-a. Ocupado! Então levantou o vestido...

            Fedj a não teve mais consciencia do que se passou dentro da casa de banho número cinco. Não tinha qualquer ideia premeditada ao trazer uma navalha no bolso. Só sabia o seguinte: não precisava de pagar os cinco rublos, porque já não iria usufruir da compensação de Kiaschka.

            Quando despertou daquela espécie de transe, Kiaschka jazia aos seus pés com um golpe na garganta, o sangue jorrando ao ritmo da pulsação. O vestido estava levantado até ao peito e entre as pernas de Kiaschka estava pendurado um cinto de cabedal com uma bolsa, contendo dinheiro.

            Era um espectáculo tão vergonhoso e indescritível que ele rangeu os dentes, continuou a apunhalar sem cessar a prostituta, até à quinta facada, com um desespero selvagem sobre si mesmo, sobre o honesto empregado de mesa, Fedja, que foi capaz de matar com as suas próprias mãos. Ele, o amável e acanhado Fedja Alexejevitch Semlakov, tão insignificante neste mundo que ninguém sequer sabia o seu nome completo.

 

 

            - Mais um cigarro... - pediu Fedja baixinho. - Por favor, mais um cigarro...

- Será que posso? - perguntou Karsanov e levantou o maço.

            Forster acedeu com a cabeça. O relato de Fedja lembrou-lhe o destino de Milda, mesmo sendo completamente diferente.

            -           Claro! - disse ele.

            Deram o cigarro a Fedj a e enfiaram-no entre os lábios. Ele já não aguentava mais, as suas mãos tremiam violentamente.

-           Ainda há aqui uns pontos obscuros por esclarecer - disse Plotkin, após ter deixado Fedja fumar meio cigarro. - Esqueceu-se de qualquer coisa.

            - Não! - Fedja abanou a cabeça. - De certeza que não!

            -           Os sapatos! - Karsanov roubou facilmente o pensamento a Plotkin. - Você usava os sapatos de Skarnejkin, o industrial de sabonetes, por altura do crime! Como não teve tempo de lavar completamente o sangue das solas dos sapatos, voltou a metê-los debaixo da cama de Skarnejkin.

            - É verdade - disse Fedj a simplesmente.

            Após o seu longo relato, sentiu invadir-lhe no corpo uma paz interior, como só têm as pessoas que estão totalmente resignadas.

            Exteriormente, ele ainda tremia, mas por dentro já tinha alcançado um estado de perfeita indiferença - principalmente da própria vida.

            -           Com que então roubou os sapatos do camarada Skarnejkin? - perguntou Karsanov em voz alta.

            -           Efectivamente.

            - E o brinco da viúva do general, Olga Federovna Platkina?

            - Também...

            -           E porquê só um brinco?

            -           Ela estava deitada sobre a outra orelha a dormir.

            -           Parece evidente! - Karsanov levantou-se e fez um sinal a Plotkin. Tinha feito o seu trabalho; o que agora se seguia era rotina. O protocolo por escrito...

            Em Tchita tratariam de Fedj a e finalmente também descarregariam Kiaschka e dar-lhe-iam um enterro condigno. Por enquanto, ela era um autêntico bloco de gelo.

            - Um sonso, este Fedja Alexejevitch Semlakov! Vejam lá que agora até tem nome! Com apelido e tudo! E o roubo não o incomoda, pois não?

            Então o empregado de mesa disse uma coisa que apanhou Karsanov de surpresa.

            - Não, camarada coronel. Com um salário de cento e cinco rublos, uma pessoa é obrigada a roubar. Um homem trabalha sem condições e como resultado disso, fica apenas uma pergunta: Porquê? Por que razão é a União Soviética assim?

            -           Um filósofo do povo! - disse Forster quando Karsanov se aproximou dele. - Agora até mesmo Fedja é um caso para a KGB!

            - Aquilo foi música para os seus ouvidos decadentes, não é verdade? - rosnou Karsanov. - Infelizmente não posso mostrar-lhe nenhuma estatística, porque não as carrego comigo. Mas posso demonstrar-lhe que a União Soviética está na cauda de todos os países em criminalidade! E temos muito orgulho disso!

            Até Tchita, Karsanov esteve realmente ocupado, como previra Mulanov. Milda Tichonovna não lhe fugiu.

            Já não se preocupava com ela, pelo contrário, estava sentado perto de Plotkin e jogava xadrez com ele de uma maneira perfeitamente indiferente.

            Encarceraram Fedj a numa outra casa de banho, o único lugar onde ele estava seguro e que se podia dispensar.

            No entanto, os passageiros das respectivas carruagens tinham outra opinião. A casa de banho número cinco estava a ser reparada - e agora também estava encerrada a número dois.

            Deu-se origem a congestionamentos, discussões e protestos.

            Perto de Tchita, a situação estava tão séria que cada carruagem defendia a sua casa de banho como uma fortaleza. Até se colocaram sentinelas e quem viesse de outras carruagens era anunciado para que não tivesse de ser necessário apresentar um relatório.

            Aconteceu até que um "estranho" da carruagem seis leu confortavelmente a Pravda e ocupou a casa de banho durante meia hora. Todos os defensores da porta batiam, mas de nada adiantou. Quando, finalmente, o camarada saiu, quase o lincharam.

            - Desmoronou-se a ordem! - lastimou-se Mulanov à noite.

            Entretanto, Forster já tinha voltado há muito tempo para o seu compartimento e contado tudo a Milda.

            Ela veio a saber, desconcertada, da confissão de Fedja e depois disso chegou a altura em que puderam demoradamente sentar-se sozinhos e beijar-se. Não tinham nada para dizer um ao outro, porque tudo o que havia para dizer estava escrito nos seus olhos, nos seus lábios e nas suas mãos.

            - Cinquenta e cinco anos de revolução cultural estão condenados, quando se fecham duas casas de banho! - gemeu Mulanov, e deixou-se cair no banco em frente a Milda e Forster. - Comportam-se como criminosos! Só vendo, Werner Antonovitch: os sentinelas das casas de banho seleccionam os recém-chegados pelo grau de urgência! E depois ficam à porta, de relógio na mão. É proibido trancar a porta por dentro! Quem demorar mais de cinco minutos... fora com ele! Já se construíram escalas matemáticas programadas! Temos de tudo no comboio! Quem se sentar mais tempo... - Mulanov passou a mão pela cara e calou-se por um momento. - Digo-lhe, Werner Antonovitch, que torturaram um professor que sofre de prisão de ventre! O desgraçado mendigou e implorou... Sem perdão! Cinco minutos, depois acabou-se! Onde está a nossa ordem revolucionária?

            -           E Karsanov? Onde é que ele está? Isto é novamente um caso para ele!

            -           Está a jogar xadrez com o capitão Plotkin. - Mulanov acenou com a cabeça. - Dê-se por muito feliz por ele não estar a pensar em si. Já estamos a chegar a Tchita! O senhor não joga xadrez?

            - Não...

            -           Um grande erro. Assim como é preciso uma pessoa vacinar-se contra a febre tifóide, varíola, febre-amarela ou contra a cólera quando se viaja para outros países, também é preciso aprender a jogar xadrez quando se visita a União Soviética. Arranjava milhares de amigos, Werner Antonovitch! Karsanov é louco por xadrez, como já tive ocasião de observar ao vê-lo jogar com Plotkin.

            -           E você, Boris Fedorovitch?

            Mulanov fez um sorriso aberto:

            -           Já sabia jogar xadrez mesmo antes de saber escrever. Sou campeão distrital de Jaranskoje.

            Um pensamento louco passou pela cabeça de Forster. Mas nada pode ser suficientemente doido quando se quer salvar Milda.

            Ele inclinou-se para a frente e pousou as mãos nos joelhos de Mulanov.

            -           Boris Fedorovitch, ensine-me a jogar xadrez...

            Estarrecido, Mulanov olhou para Forster quando ele lhe fez aquela proposta insensata.

            -           Aqui? Agora?

            -           Sim, eu não sou burro. Quem sabe se não aprendo muito depressa...

            -           Um jogador de xadrez vai aprendendo ao longo da sua vida.

            -           Bastam-me as noções básicas. Não quero parecer um completo idiota quando desafiar Karsanov para um duelo.

            -           Quer? O senhor? - Mulanov olhou para Milda horrorizado. - Ouviste, minha pombinha? Ele quer desafiar um dos jogadores mais experientes! E porque não o próprio Spasski, hen? Werner Antonovitch, pode ser tão inteligente como uma academia inteira... mas não vai conseguir nunca, em algumas horas, aprender a arte do jogo do xadrez.

            -           Tentemos, Mulanov. Conhece a história do afogado que se agarra a uma palhinha. O xadrez é a minha palhinha.

            Era realm