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O FEITIÇO DE GREY / Janet Chapman
O FEITIÇO DE GREY / Janet Chapman

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

Série Pine Creek Highlander

Volume 1

O FEITIÇO DE GREY

 

Uma beleza com caráter, um audaz escocês e a tentação de uma carícia...

Depois de um acidente de avião, a brilhante cientista Grace Sutter se vê apanhada em uma gelada cúpula do Maine, isolada com o outro único passageiro sobrevivente: Greylen MacKeage, um atraente guerreiro medieval que atravessou o tempo em busca da mulher destinada a ser seu amor. Obrigados a enfrentar juntos uma paisagem áspera e glacial, nenhum dos dois espera a violenta paixão que explode entre eles.

Mas Grace não está acostumada que o coração mande em sua vida...

E Greylen só parece disposto a aceitar uma rendição em toda regra.

 

 

                   Terras Altas de Escócia, ano 1200 D.C.

O dia era realmente infernal para levar a cabo um feitiço. O sol se aproximava de seu pico, e a luz, implacável e cegadora, refletia-se na ressecada paisagem em forma de sufocantes ondas de calor.

De vez em quando uma árida brisa levantava algum redemoinho de pó, o único movimento que se apreciava no vale abaixo. Até os pássaros se negavam a afastar-se da sombra protetora que oferecia o sedento bosque de carvalhos.

Devagar, apoiando-se com força em seu velho bastão de cerejeira, Pendaär ia subindo laboriosamente para o topo do penhasco. Em silêncio, o velho mago se amaldiçoava por ter vestido com o traje cerimonioso completo, porque mais de uma vez a túnica enganchava a uma moita e a cada passo tinha que parar para soltá-la.

Pelos pregos de Cristo, como estava cansado!

Pendaär se deteve e se apoiou em uma rocha arredondada para recuperar o fôlego; enquanto separava da cara o comprido cabelo branco, já úmido de suor, olhou o caminho que tinha percorrido e ver se por acaso via algum rastro dos MacKeage.

Graças às estrelas, não demoraria para ir-se daquele lugar esquecido da mão de Deus.

Estava farto desta época áspera onde imperava a contínua luta pela sobrevivência; uma época cheia de guerras sem sentido entre homens arrogantes que combatiam pelo poder e a posição.

Sim, estava desejando descobrir as comodidades de um mundo muito mais moderno.

Puxou a túnica e sacudiu o pó de baixo, amaldiçoando uma vez mais os corpos celestes pela ocorrência de adotar um perfeito alinhamento em um dia tão horroroso.

Mas Greylen MacKeage, latifundiário de seu clã, estava a ponto de começar uma viagem da mais singular, e Pendaär estava decidido a ter um bom lugar na despedida.

Ansioso por ocupar seu lugar, o cansado mago deu por terminado seu recesso e continuou subindo a colina.

Ao chegar por fim ao topo se acomodou sobre um afloramento de granito, elevou a face para o sol e deixou que a cálida brisa lhe agitasse o cabelo e lhe refrescasse o pescoço.

Quando por fim pôde respirar sem ofegos, colocou o rugoso bastão de cerejeira no colo e começou a acariciar os nós da madeira; ao mesmo tempo foi repetindo devagar as palavras de seu feitiço, concentrando-se em recitá-las de forma correta.

Trinta e um anos de consciencioso trabalho iam culminar naquele dia. Trinta e um anos de velar e de preocupar-se pelo forte, e freqüentemente briguento, laird do clã MacKeage, ao fim dariam fruto.

O sol quase tinha chegado a seu pico, os corpos celestes se alinhavam...

E Greylen MacKeage chegava tarde.

Ao Pendaär não surpreendia; aquele menino já se atrasou suas boas duas semanas na hora de nascer... E agora corria o perigo de perder até o destino que as estrelas lhe tinham prometido trinta e dois anos antes, a noite em que foi concebido, é que Greylen MacKeage levava a semente do sucessor de Pendaär.

Entretanto, o casal de Greylen tinha que nascer na América do Norte de finais do Século XX. E a tarefa de reuni-los estava custando ao velho mago um sem-fim de ataques de frustração.

Certamente seria mais fácil se soubesse quem era a mulher... Porque esse era o problema. Os que mandam tinham um senso de humor cruel e, às vezes, até algo perverso; ao Pendaär não concederam saber a identidade das duas pessoas que engendrariam seu herdeiro, e sim só de uma, o homem ou a mulher. Escolheu o feitiço que mostrou Greylen MacKeage... E depois se passou os primeiros trinta e um anos da vida de Greylen tentando mantê-lo vivo.

Não foi fácil.

Os MacKeage eram um clã pequeno, mas poderoso, que parecia ter mais inimigos que quase todos os outros. Sempre estavam em guerra com uma ou outra tribo, e seu impetuoso e jovem laird insistia em acudir primeiro à batalha.

Mas naquele momento de quem Pendaär queria saber mais coisas era da mulher. Seria formosa? Seria inteligente? Teria o ânimo e a coragem precisos para estar à altura de um homem como Greylen MacKeage?

Certamente, em sua condição de metade do casal mágico, contaria com todo o necessário para dar a luz a um mago, não?

Essas preocupações o tinham deixado muitas noites sem dormir. Inclusive chegou a visitar uma vez as montanhas do noroeste do Maine, depois de adiantar-se oito séculos no tempo, com a esperança de reconhecer a aquela mulher.

Mas o feitiço que a protegia estava selado, e sua magia não podia abri-lo. Só a encontraria o homem destinado a possuí-la; a sua maneira e a seu modo, só Greylen MacKeage reclamaria à mulher que os antigos tinham eleito por companheira.

Quer dizer, se é que o laird apareceria de uma vez.

Quase uma hora mais tarde, Greylen e três de seus guerreiros dobraram a curva do caminho cheio de buracos e apareceram por fim. Eram toda uma visão. Cavalgavam em silêncio, em fila, montados sobre fortes cavalos de guerra que controlavam sem aparente esforço. Iam sujos e possivelmente um pouco cansados da comprida viagem, mas pareciam haver feito o trajeto sem contratempos.

Pendaär se levantou com esforço. Tinha chegado o momento. Então enrolou para trás as mangas da túnica, assinalou com seu bastão ao céu e fechou os olhos enquanto começava a murmurar o feitiço que convocaria os poderes da natureza.

De repente, um grito de combate atravessou o ar.

Ao ouvi-lo, Greylen MacKeage deteve seu cavalo e desembainhou a espada; uns guerreiros abandonavam o refúgio das árvores e aproximavam rapidamente. Caíram sobre Greylen e seu pequeno grupo de viajantes dispostos para a batalha: Levavam pinturas de guerra e avançaram com as espadas em alto.

Eram os MacBain, aqueles bastardos amantes das emboscadas.

Morgan, o irmão de Greylen, ficou a seu lado imediatamente, e os outros dois homens se apressaram a flanqueá-los para formar um imponente e poderoso muro. Greylen olhou primeiro a sua direita e depois a sua esquerda antes de voltar de novo a atenção para o inimigo; com um sorriso de espera, elevou a espada e respondeu à chamada de combate com outro grito. Logo, depois de esporear seus cavalos, os quatro guerreiros MacKeage atacaram os MacBain.

Sua risada não demorou para perder-se entre os sons da batalha.

Greylen não tinha procurado a briga, mas Por Deus que, se Michael MacBain queria morrer naquela jornada, não duvidaria em ajudar a que aquele malvado acabasse no inferno.

Quer dizer, se é que Ian não despachasse primeiro o bastardo. Embora já não estivesse na flor da idade, Ian MacKeage lutava como um possesso, e Greylen mal podia proteger as costas de seu velho amigo enquanto cobria a sua própria.

O aroma de suor de cavalo se unia ao do pó que levantava o combate; no fundo da garganta de Grei ardia um sabor a sangue, bílis e cólera.

Seu cavalo tropeçou ao sofrer a carga dos arreios de MacBain. Grei agachou a cabeça à direita, descreveu um arco com o braço e, com a espada de plano, golpeou Michael MacBain em plenas costas.

O golpe teria derrubado um homem de menor valia, mas MacBain se limitou a rir em voz alta e apartar seu cavalo.

Aquele combate era um exercício inútil, e os dois sabiam. Seis MacBain contra quatro MacKeage não era o que se diz uma proporção justa: faria falta outra meia dúzia de guerreiros MacBain para igualar a briga...

E Greylen voltou a perguntar-se o que pretendia Michael.

Procurava só diversão? Possivelmente despertar sua ira? Ou tinha cansado de esperar as represálias de Grei?

Sim. Michael levava os três últimos anos em perpétuo estado de alerta e se cansou; agora tentava forçar uma guerra que Greylen não tinha intenção de declarar. Nenhuma mulher, por muito inocente que fosse e por muito tempo que tivesse morta, era digna de que todo um clã se levantasse em armas contra outro. E, além disso, a Michael não fazia falta morrer naquele dia para sentir o fogo do inferno. Greylen apostava o braço com o que dirigia a espada que MacBain já conhecia muito bem o Hades.

Um resplandecente brilho de luz, lá no alto da colina, chamou a atenção de Greylen, que fez dar a volta em redondo a seu cavalo para vê-lo melhor. Uma figura solitária se elevava no penhasco; sua ampla túnica ondeava ao vento, que aumentava, e o emaranhado cabelo branco lhe ocultava a cara. Seus braços, estendidos em alto, recortavam-se em um céu cada vez mais escuro, e em uma mão tinha um pau que resplandecia como os carvões de um fogo que levasse muito tempo aceso.

Grei lançou uma rápida olhada atrás, para a batalha, e viu que Michael MacBain detinha seu cavalo de repente e olhava para o penhasco.

Mas antes de pensar no que via, tanto ele como MacBain voltaram a meter-se em um combate no que Grei já não tinha vontade de lutar.

Pendaär fechou os olhos e recitou em voz alta o feitiço de seus ancestrais. Um relâmpago chispou em torno dele e lhe levantou o cabelo do pescoço, enquanto o vento colava a túnica às pernas.

A luz brilhou atrás de seu corpo, e o velho mago cambaleou ao sentir o ataque.

Do vale, os sons da batalha chegaram com mais força.

Devagar, Pendaär abriu os olhos e deu um olhar assassino ao curtido bastão cheio de nós que tinha na mão. Não tinha ocorrido nada. Voltou a olhar para baixo; aqueles ingovernáveis MacBain seguiam atacando os MacKeage.

Então elevou o bastão outra vez com uma ordem para que as nuvens fervessem, os ventos uivassem e a chuva caísse a torrentes. Logo entrou bem em sua alma e convocou o poder dos antigos para acrescentar sua força a seus próprios mil e quatrocentos anos de feitiçaria. Greylen MacKeage não devia sair ferido naquela jornada; tinha que cumprir um destino muito mais nobre, que o levaria a realizar uma viagem que poucos homens tinham conhecido.

Com as pernas bem abertas e os pés plantados com firmeza no penhasco, Pendaär se preparou para sentir o familiar choque de energia que estava a ponto de liberar. Elevou a cabeça e os braços e falou mais devagar em sua língua de mago para efetuar o feitiço do tempo sobre a matéria. Uma vez mais, seu comprido cabelo branco se carregou de eletricidade, e cada músculo de seu corpo tremeu de poder...

E continuou sem acontecer nada.

Com um imenso rugido de frustração, Pendaär atirou a vara de cerejeira à rocha arredondada onde se sentou antes. O bastão ricocheteou e, de repente, alcançou-o um raio. Então se animou com um grito e ficou suspenso em alto por cima do vale, enquanto uns velozes arcos de energia saíam dele em todas as direções.

Uma escuridão se abateu sobre a terra. O chocar de aços, os gritos dos homens e o martelar dos gigantescos cascos de cavalo cederam diante do ensurdecedor estampido dos trovões.

De repente começou a chover muito, e a chuva torrencial fez crescer o caos. As árvores se dobraram até quebrar-se, as rochas se quebraram, e as pedras caíram soltas, dando tombos, do penhasco onde estava Pendaär.

O mago caiu com elas, rodando e dando cambalhotas, enredado na túnica, já empapada, enquanto se esforçava por procurar apoio no desprendimento de rochas.

Chuva, barro, pedras e arbustos caíram com estrépito pela ladeira do penhasco, arrastando consigo Pendaär.

Quando toda aquela confusão acabou por fim, o velho feiticeiro aterrissou com um golpe surdo e contundente, de barriga para cima em um atoleiro de barro. De novo brilhava um forte sol que caía a chumbo sobre sua face e o fazia entrecerrar os olhos.

Mas foi o silêncio o que ao fim o fez mover-se. Devagar, levantou-se e afastou o cabelo da face para olhar ao redor; depois de esfregar os olhos com os punhos, voltou a olhar... E depois afundou a cabeça entre as mãos com um grunhido de consternação.

O que tinha feito?

Sim, certamente Greylen MacKeage tinha empreendido a viagem naquele dia... Mas ao parecer não viajava sozinho, porque não se via nenhum MacKeage para continuar o combate, e tampouco a nenhum dos MacBain, amantes das emboscadas. Até os cavalos tinham desaparecido com a tormenta. Da batalha só ficava o barro pisoteado, a grama revolta e o fraco retumbar de um trovão longínquo.

Boquiaberto, Pendaär olhou o vale vazio.

Ele não se foi com eles.

Greylen MacKeage, seus homens e aqueles malditos MacBain tinham viajado no tempo sem ele. Pelos pregos de Cristo! Estavam no século XXI, sem guia nem objetivo... E enquanto isso, como uma verruga pega a um sapo, ele estava ali...

E além disso, não tinha nem ideia para onde teria fugido seu teimoso bastão.

Como pôde, ficou de pé e começou para buscá-lo com frenesi, correndo em círculos, ao tempo que retorcia as mãos e murmurava maldições.

Devia ir com os guerreiros; tinha que impedir que se matassem uns aos outros, ou que matassem a algum inocente habitante do século XXI que se topasse com eles por acaso.

Pendaär demorou meia hora em encontrar seu bastão. Estava muito rígido, caído em meio de um atoleiro de barro, e ainda vibrava, transmitindo uma sutil energia. O mago recolheu a túnica e se meteu no atoleiro, empunhou o bastão, que seguia emitindo um zumbido, e tentou arrancá-lo de um puxão do barro. Com um violento vaio, a vara de cerejeira se retorceu bruscamente; pelo visto, seguia zangada. Pendaär fez caso omisso de seu grunhido e puxou tão forte que caiu de costas e ficou escancarado no chão molhado. Depois abraçou o bastão contra seu peito e, em voz baixa, rezou pedindo paciência.

Empregou outros vinte minutos em acalmar à contrariada vara de cerejeira, passando as mãos com suavidade sobre os nós e sussurrando desculpas.

Pouco a pouco o bastão se tranqüilizou, e por fim Pendaär ficou de pé. Então rogou encarecidamente à vara de cerejeira que crescesse de novo e voltasse a atrair os poderes do universo até sua mão.

O bastão se alargou, esquentou-se e zumbiu, desta vez em tom colaborador.

Pendaär fechou os olhos e começou a recitar um novo feitiço enquanto descrevia um amplo arco com o bastão. De repente, a seus pés apareceu uma maleta, e, como por arte de magia, a túnica molhada e cheia de barro desapareceu de seu corpo.

O velho feiticeiro abriu os olhos, alisou a impecável batina negra de lã que agora levava posta e passou os dedos pelo branco imaculado que lhe rodeava a garganta.

Depois sorriu. Sim, isso estava melhor: de novo dominava sua magia.

Apressou-se a ajoelhar para abrir a maleta e confirmar que continha tudo o que necessitava para sua viagem. Jogou a um lado o rosário, a escova de dentes e um barbeador elétrico de cortar o cabelo que estava desejando provar, e mediu em busca dos maços de papel moeda que tinha pedido. Estavam justo debaixo de outra batina de lã, cinco pares de meias e um grosso jaquetão de tecido escocês a quadros vermelhos.

Tudo parecia em ordem.

Pendaär se endireitou, voltou a elevar seu bastão ao céu e recitou outra vez seu feitiço para mudar a matéria através do tempo. A escuridão voltou para o vale, e o relâmpago cruzou, brilhante, os céus. Agarrou sua maleta, fechou os olhos e encurvou os ombros para enfrentar-se ao caos que estava a ponto de envolvê-lo.

Então o rodeou um redemoinho de faíscas que giravam cada vez mais rápido: faíscas carregadas de eletricidade que faziam crepitar o ar com uma luz branca e cegadora. O velho mago jogou uma última olhada à paisagem do século XII antes que este desaparecesse, e sua risada ficou ressonando como um eco enquanto ele, entusiasmado, partia para uma extraordinária viagem. Seu objetivo: ajudar Greylen MacKeage a procurar à mulher que lhe tinha sido destinada.

 

                   Princípios de inverno, América do Norte, na atualidade.

A essas alturas, o que mantinha viva a Mary Sutter era a pura teimosia. Ainda tinha uma coisa que dizer, e se negava a render-se ao atrativo da morte até acabar de dar instruções a sua irmã Grace.

Sentada junto à cama do hospital, com os olhos inchados pelas lágrimas sem verter e o coração em carne viva, Grace observava como Mary lutava por falar. Na habitação já não se ouviam suaves assobios nem zumbidos amortecidos; todas as máquinas médicas que controlavam sua deterioração se desconectaram fazia justo uma hora. Em seu lugar, uma eloqüente quietude se posou no quarto. Grace se mantinha em dolorido silêncio; só desejava que sua irmã vivesse.

No dia anterior, ao meio-dia, tinha recebido a chamada de telefone que a avisou do acidente de carro. Para quando chegou ao hospital, o filho de Mary já tinha nascido; tinham-no tirado do ventre de sua mãe mediante cirurgia de urgência.

E antes das seis daquela mesma manhã os médicos lhe comunicaram que sua irmã estava morrendo.

Três anos mais nova que Grace, Mary sempre tinha sido a mais realista das duas, a que tinha os pés no chão... E, também, a mais mandona: já com cinco anos levava o lar dos Sutter ao impor sua vontade sobre seus amadurecidos pais, seu meio irmão, que ainda viviam em casa, e Grace.

Quando, nove anos antes, seus pais morreram em um acidente de navio, foi Mary, com apenas dezoito anos, quem se ocupou de organizar todo o funeral. Quando seus seis meio-irmãos chegaram à casa dos quatro pontos do globo, só tiveram que encarregar-se de levar os funerais de seu pai e sua madrasta. Foi uma cerimônia formosa, mas triste. Depois os seis irmãos voltaram para suas casas com suas famílias e a seus trabalhos; Grace retornou a Boston para acabar seu doutorado em Física Matemática, e Mary ficou em Pene Creek, no estado do Maine, reivindicando como seu o velho lar dos Sutter.

Por isso Grace se surpreendeu muito ao vê-la aparecer à porta de sua casa do Norfolk, na Virginia, quatro meses atrás; só algo muito poderoso arrancaria a sua irmã daqueles bosques que amava tanto... E Mary não teve mais que vê-la tirar a jaqueta para que ela o entendesse tudo: estava grávida. Mal começava a notar-se e imediatamente Grace teve claro que sua irmã não sabia como lutar com aquela situação.

Durante os últimos quatro meses tinham falado em várias ocasiões, às vezes de forma acalorada; mas, teimosa como era, Mary se negava a discutir o problema com Grace. Tinha ido até ali para ordenar suas ideias, reunir coragem e decidir o que ia fazer.

Sim, amava o pai da criança mais que a sua vida, mas não, não estava segura de poder casar-se com ele.

Grace quis saber se estava casado.

- Não.

Vivia na cidade, então? Teria que mudar-se Mary?

- Não.

Era um delinqüente sentenciado e confesso?

- Claro que não!

Por mais que tentasse, Grace não tinha conseguido que sua irmã lhe contasse o que a impedia de voltar para sua casa e fixar uma data para as bodas... Se possível, antes do parto.

Mary nem sequer lhe disse como se chamava aquele homem; só lhe contou que era escocês e que tinha chegado a Pene Creek justo no ano anterior. conheceram-se em um jantar da associação de granjeiros, e em três meses se apaixonaram loucamente.

Ela ficou grávida a primeira vez que fizeram o amor e logo, depois de outros quatro meses, de repente seu mundo se voltou pelo reverso. Uma noite, enquanto davam um tranqüilo passeio, o escocês lhe contou um conto fantástico, segundo Mary, e depois lhe pediu que se casasse com ele.

Dois dias mais tarde ela chegava na casa de Grace, na Virginia.

Durante os últimos quatro meses, em mais de uma ocasião Grace lhe tinha pedido que lhe dissesse o que lhe contou o escocês, mas sua irmã se limitava a ficar calada com ar melancólico. Até que, inesperadamente, no dia anterior lhe fez saber que voltaria a Pene Creek e lhe prometeu explicar-lhe tudo mais tarde. Não fazia nenhuma hora que partiu quando a chamaram por telefone. Mary nem sequer tinha saído da cidade quando um condutor bêbado se chocou contra seu carro e o mandou ao outro lado da pista de uma auto-estrada de seis pistas. A equipe de resgate demorou três horas para liberá-la do que ficou do veículo de aluguel.

E agora estava morrendo.

Enquanto isso, seu menino recém-nascido estava justo no final do corredor, surpreendentemente são tendo em conta que o tinham tirado do santuário do útero materno com um mês de antecipação.

Uma enfermeira entrou na habitação e comprovou o conta-gotas que estava conectado a Mary; logo, depois de dedicar a Grace um sorriso compassivo e lhe dizer em um sussurro que a avisasse se necessitasse de algo, saiu silenciosamente.

Grace se apressou a ir atrás dela.

- Minha irmã pode ver o filho? -Perguntou. - Pode pegá-lo nos braços?

A enfermeira demorou só um segundo em pensar no pedido; de repente seu rosto maternal se animou.

- Parece-me que posso arrumá-lo - disse, com um gesto de assentimento. - Sim, acredito que devemos pôr esse menino nos braços de sua mãe quanto antes.

Com suavidade, posou uma mão no ombro de Grace.

- Senhorita Sutter, lamento o que está ocorrendo, mas o acidente lhe provocou muitos danos a sua irmã, e a cesárea de urgência complicou as coisas. sofreu um grave rompimento do baço, e agora seus órgãos vão apagando-se um por um.

Simplesmente, não responde a nenhum tratamento. É assombroso que esteja consciente sequer.

Inclinou-se para diante e, em um sussurro, como se estivessem na igreja, acrescentou:

- Chamam-no "o menino do milagre", sabe? Não tem nem um arranhão em seu formoso corpinho... E nem sequer necessita incubadora, embora esteja metido em uma por precaução.

Grace correspondeu com um sorriso um pouco forçado.

- Por favor, traga-o para que Mary possa abraçá-lo - disse. - É importante que veja que está bem. Esteve perguntando por ele.

Dito isso, retornou ao quarto. Mary estava acordada. Seu fundo olhar azul a seguiu quando rodeou a cama e voltou a sentar-se a seu lado. Então, em um trabalhoso sussurro, disse:

- Quero que me faça uma promessa.

Com cuidado, Grace lhe agarrou a mão, enredada com os tubos do conta-gotas, e lhe apertou os dedos com suavidade.

- O que quiser. Diga-me.

Mary sorriu fracamente enquanto tentava lhe devolver o apertão.

- Agora sei que estou morrendo - disse. - Tinha oito anos a última vez que me prometeu algo sem saber primeiro de que se tratava.

Grace exagerou no gesto de revirar os olhos para que sua irmã não visse o muito que aquela palavra, "morrendo", tinha lhe ferido o coração. Não queria que morresse.

Só queria retroceder dois dias: até aqueles momentos em que discutiam como discutem as irmãs quando se gostam.

- E provavelmente me arrependa desta promessa igual então - disse com falsa jovialidade.

Os olhos da Mary se escureceram.

- Sim, provavelmente.

- Me conte.

- Quero que me prometa que levará meu bebê de volta para seu pai.

Grace ficou aniquilada. Esperava que Mary lhe pedisse que criasse seu filho, não que o desse de presente.

- Que o leve a seu pai? - Repetiu, meneando devagar a cabeça. - O mesmo homem que te fez fugir faz quatro meses?

Mary lhe apertou um pouco a mão.

- Ontem corria para voltar para ele - recordou.

- Para começar, não penso fazer nenhuma promessa até que me diga por que foi de pene Creek e o que te fez decidir a voltar - repôs Grace. - Me Diga o que te assustou tanto para partir.

Com o olhar perdido, Mary adotou um gesto inexpressivo, e por um momento Grace temeu que tivesse perdido o conhecimento. Respirava de forma breve e superficial, e pouco a pouco seu fôlego foi voltando-se cada vez mais fatigante. Tinha as pálpebras carregadas, as pupilas vidrosas e uma expressão distante. E quando Grace já começava a pensar que talvez nem sequer tivesse ouvido sua pergunta, Mary começou a falar em voz baixa.

- Tinha medo - disse. - Me deu um susto de morte ao me contar sua história.

- Que história? - Grace alargou de novo a mão para agarrar a sua. - O que te contou?

Uma faísca travessa animou de repente os olhos de Mary.

- Suba a cama - ordenou. - Quero ver que cara põe, irmã cientista, quando escutar o que me disse.

Grace pulsou um botão e observou como sua irmã se levantava. Mary só a chamava "cientista" quando queria convencê-la de alguma ideia estrambótica. Ela era a cientista astronáutica; Mary, a sonhadora.

De todos os modos, agarrou-se a aquela pequena faísca como a um salva-vidas.

- Muito bem. Solte - disse enquanto punha um travesseiro atrás da cabeça. - O que te contou esse machão para fazer que saísse correndo?

- Chama-se Michael.

- Nossa, por fim; Então tem um nome. Michael o que?

Mary não respondeu; estava concentrada tratando de reunir as palavras enquanto seu olhar se perdia por cima do ombro direito da Grace.

- Chegou a Pene Creek da Nova Escócia - disse - E antes vivia na Escócia.

Olhou a Grace. De repente em seus azuis olhos, dilatados pelos medicamentos, brilhou um brilho de inquietação.

- Disse-me que tinha nascido na Escócia... - Baixou a voz até convertê-la quase em um sussurro- no ano de 1171.

Grace se endireitou na poltrona e cravou o olhar em Mary. Convencida de ter ouvido mal, repôs, também em um sussurro:

- Como? Quando?

- Em 1171.

- Quer dizer em 1971, não?

Devagar, Mary meneou a cabeça.

- Não; no ano 1171. Faz oito séculos.

Grace sopesou aquela informação e tentou lhe dar um qualificativo; "incrível" era ficar curto... Mas depois, de repente, riu em voz baixa.

- Mary, fugia dele porque acredita na reencarnação? - Fez um gesto com a mão. - Caralho, a metade da população mundial acredita que viveu outras vidas no passado. Inclusive há religiões que se apóiam na reencarnação.

- Não - Insistiu Mary, meneando a cabeça - Michael não se referia a isso. Diz que passou os primeiros vinte e cinco anos de sua vida na Escócia do século XII, e os últimos quatro anos aqui, na América do Norte de nossos dias.

Que uma tormenta o fez viajar através do tempo.

Grace ficou sem palavras.

- Em realidade - Prosseguiu Mary - cinco membros de seu clã e seus cavalos de guerra também vieram com ele.

Ao ver a pena que refletiam os olhos de sua irmã, Grace inspirou profundamente.

- E onde estão esses homens agora? E seus... Seus... Cavalos?

- Morreram; morreram todos. Michael é o último de seu clã - As feições de Mary se relaxaram - Bom, agora existe seu filho.

Alargou a mão para agarrar a de Grace e a agarrou com surpreendente força.

- Por isso voltava ontem. Para Michael, a família é algo importante. Está sozinho neste mundo, salvo por nosso menino. Por isso tem que levar seu filho -deixou escapar um cansado fôlego e olhou a sua irmã com olhos tristes e resignados.

- Estou morrendo. Tem que fazê-lo por mim, Grace. E além disso tem que dizer ao Michael que o amo.

As lágrimas se derramaram por suas faces, e Grace baixou a vista para olhá-la através de suas próprias lágrimas.

- Mas você ouve o que está dizendo, Mary? Está me pedindo que leve seu filho a um louco. Se de verdade acreditar que viajou no tempo, é que está maluco... E quer que ele crie seu filho?

Mary soltou uma tremula respiração e voltou a fechar os olhos. Uma vez mais, o silêncio se pousou no quarto.

Mary lhe pedia que levasse a seu filho, a seu sobrinho, a um perturbado. Grace cobriu a face com as mãos. Como podia lhe pedir semelhante coisa?

E, por outro lado, como ia negar aquele desejo a sua irmã quando se estava morrendo?

Grace ouviu que a porta voltava a abrir-se com um sopro amortecido, e ao levantar a vista viu que alguém metia na habitação um Moisés de plástico transparente montado sobre rodas. No ar se agitavam uns bracinhos cobertos de algodão branco, com as mangas tão largas que não havia nem rastro das diminutas mãos que deviam aparecer pelos extremos.

Teve que secar as lágrimas ao ver que Mary havia tornado a despertar e se esforçava por distinguir ao menino.

- Ai, Meu Deus.... Olha-o, Gracie - Sussurrou Mary, alargando uma tremula mão para ele - É tão pequenino...

A enfermeira pôs o Moisés junto à cama.

Depois, com cuidado, colocou a Mary um travesseiro no colo para que descansasse nela o braço direito, que tinha engessado; a seguir tirou do Moisés o diminuto vulto que gritava e, com suavidade, acomodou-o no travesseiro.

Mary lhe sustentou a cabeça com doçura.

- Que rosado está... - disse. - E que precioso.

- Acredito que é hora de jantar - disse a enfermeira. - Se se sentir com ânimo, pode lhe dar um pouco de água açucarada.

- Ai, sim - disse Mary, puxando já da mantinha que cobria o menino.

A enfermeira o moveu até apoiá-lo no oco do braço quebrado e depois passou a Mary uma diminuta mamadeira cheia de um líquido transparente. Os tubos cravados na mão esquerda se enredavam com os pés de seu filho, que não deixava de espernear, e então a enfermeira rodeou a cama, passou a mamadeira a Grace, tirou com cuidado os tubos da mão de Mary e tampou a veia com uma atadura que tirou da bata.

- Bom, a verdade é que não necessita disto - disse, enquanto pendurava os tubos no conta-gotas.

Logo voltou a pegar a mamadeira de água açucarada e o meteu na nervosa boca do menino. Livre já, Mary tomou a mamadeira com iludida estupidez.

A enfermeira ficou olhando-a um momento para assegurar-se de que podia encarregar-se da tarefa, e logo se dirigiu a Grace.

- Vou deixá-las a sós com o menino - seus olhos tristes a traíram enquanto sorria a Mary e a seu filho. Voltou a olhar a Grace. - Não tem mais que me chamar se necessitarem algo; virei imediatamente.

O pânico imobilizou Grace. A enfermeira as deixava sozinhas? Nenhuma das duas sabia nada sobre recém-nascidos!

- Olhe, Gracie. Não é precioso? - Perguntou Mary nesse momento.

Ela se levantou e observou atentamente seu sobrinho. Precioso? Sem dúvida era o menino mais feio que tinha visto. Tinha as inchadas faces vermelhas devido ao esforço e os olhos enrugados; queixo e pescoço se fundiam em uma série de rugas sobre postas, e por debaixo de um gorro de ponto de viva cor azul saíam disparados uns punhados de cabelo rígido e escuro.

- É muito bonito - disse a Mary.

- Lhe tire o gorro - pediu sua irmã. - Quero ver seu cabelo.

Com suavidade, Grace tirou o gorro de seu sobrinho, embora imediatamente sentiu a tentação de colocar outra vez. Duas orelhas bastante grandes, perfeitamente formadas, apartaram-se de repente seus bons dois centímetros da cabeça e empurraram o cabelo, já liberado, até transformá-lo em uma massa de enlouquecidas pontas agudas. Parecia um duende.

- Não é precioso? - Repetiu Mary.

- É muito bonito - confirmou de novo Grace, tentando com todas suas forças ver seu sobrinho como o via sua irmã.

De menina, no lar dos Sutter, Mary era a amante dos animais, e não parava de levar a casa gatinhos maltrapilhos, pássaros e esquilos feridos e cães sarnentos. Não era de estranhar que seu filhinho lhe parecesse um tesouro.

E sim que o era. Feio mas um tesouro.

- Vamos despi-lo - disse Mary. - Me Ajude a lhe contar os dedos das mãos e dos pés.

Sobressaltada, Grace olhou a sua irmã.

- A contar, por quê? Acredita que lhe falta algum?

Mary soltou uma débil risada enquanto secava a boca a seu filho com a mantinha.

- Claro que não, mas é o que fazem todas as mulheres que acabam de ser mães.

Grace decidiu agradá-la. Com cautela, tentou desatar os cordões que havia aos pés do diminuto macacão de dormir; era uma tarefa difícil, porque o menino, contente já com a barriga cheia, não deixava de dar chutinhos enquanto fazia gigantescas bolas de saliva com os lábios franzidos.

Ao final, entre suas duas mãos boas e a tremula mão sã de Mary, liberaram-lhe as pernas. Grace levantou primeiro um pé e depois o outro e foi contando os dedos em voz alta.

Depois os contou outra vez.

Doze.

Seis em cada diminuto pé.

Mary soltou um débil grito de júbilo, ou, ao menos, isso pareceu. Grace ficou olhando-a aturdida.

- Uma herança de seu papai - disse Mary em um apagado sussurro. - Michael tem seis dedos em cada pé.

Grace quis perguntar se isso era para alegrar-se. Ser disforme era algo bom?

- Tire a camisa e a fralda - acrescentou Mary então. - Quero vê-lo nu.

A Grace deu medo. Que mais surpresas esconderia a roupa? Entretanto, fez o que sua irmã lhe pedia, embora temia romper ao diminuto menino com sua manipulação. Não sabia o que fazer. Caralho, se de pequena nem sequer brincava com bonecas...

Até fazer oito anos sempre ia de caminhadas e a pescar com seu pai, mas um dia um de seus irmãos maiores levou a casa uma biografia do Albert Einstein: foi o descobrimento do mundo da ciência.

Desde esse momento, já só houve para ela telescópios, livros científicos e quadros cheios de fórmulas matemáticas.

Tirou do menino a camisa e depois a fralda; ato seguido, afogou um grito e se apressou a tampá-lo outra vez.

Mary lhe tirou a fralda de todo.

- É uma puritana, Gracie - disse, enquanto tomava o traseiro de seu filho. - Em teoria, assim é como tem que ser. Já crescerá, e então ficará bem.

Com o dedo lhe desenhou o contorno da face. Logo, em um gesto possessivo, passou o dedo por todo o corpinho.

- Pega outra fralda antes que nos molhe - disse.

Grace se apressou a obedecer. Entre as duas, e com suas três mãos, por fim o trocaram e lhe puseram outra vez a camisa.

Enquanto atava de novo os cordões dos pés, Grace sentiu que lhe caía uma gota na mão. Parou e elevou a vista; Mary chorava em silêncio enquanto contemplava a seu filho. Agarrou os pés do menino para que não esperneassem e lhe fizesse mal e perguntou:

- O que acontece, Mary? Dói-te algo?

Sem afastar um segundo os olhos de seu pequeno, Mary meneou a cabeça devagar e voltou a lhe passar um dedo pela face. Logo, com uma voz que por instantes se fazia cada vez mais cansada e mais débil, sussurrou:

- Quero vê-lo crescer - olhou para Grace. - Quero estar a seu lado quando caia e se esfole os joelhos, quando apanhar sua primeira serpente, quando beijar a sua primeira namorada e quando lhe romperem o coração um dia sim e outro também...

Grace se estremeceu como se tivesse recebido um golpe. Então fechou os olhos para conter a dor que lhe brotava na garganta e se obrigou a não chorar.

Mary elevou a mão e passou um tremulo dedo pela face, como havia feito com seu filho.

- Então depende de você, Gracie. Tem que estar a seu lado por mim. Levará-o a seu pai e fica ao lado dos dois. Promete-me isso?

- Não é normal, Mary. Acredita que viajou através do tempo.

Mary voltou a olhar a seu filho.

- Talvez o tenha feito.

Grace quis gritar. Será que os medicamentos que levava no corpo estavam lhe nublando o entendimento? Encontrava-se tão cansada, tão debilitada mentalmente, que não se dava conta do que pedia?

- Mary - tomou pelo queixo para fazer que a olhasse. - As pessoas não viajam através do tempo.

- Me dá no mesmo que tenha vindo de Marte, Gracie; amo-o. E ele quererá a nosso filho mais que tudo. Necessitam-se, e eu necessito sua promessa de reuní-los.

Grace se separou da cama para olhar pela janela. Estava pouco disposta a fazer semelhante promessa. Não sabia nada sobre meninos pequenos, mas era inteligente e dispunha de uma boa situação financeira. Seria muito difícil criar a um menino?

Leria livros sobre o tema para lhe garantir uma boa vida, cheia de amor e de cuidados.

Não conhecia Michael, o escocês e, além disso, o que sabia dele não gostava nada.

Mas, por outro lado, ainda lhe custava mais negar a Mary seu desejo. Era a primeira vez que sua irmã lhe pedia algo, e se debatia entre seu amor por ela e a preocupação por seu sobrinho.

- Vêem conosco à cama, Gracie - disse Mary. - Como fazíamos antes.

Grace se voltou. Sua irmã tinha os olhos fechados e agarrava forte o menino contra seu peito; o pequeno dormiu. Então retornou à cama e se apressou a baixá-la; depois, sem hesitar, tirou os sapatos, abaixou o corrimão lateral e se deitou ao lado de sua irmã. Imediatamente, Mary se aconchegou junto a ela.

- Mmm. Que bom - murmurou sem abrir os olhos. - Quando foi a última vez que compartilhamos uma cama?

- No funeral de mamãe e papai. - Grace pôs uma mão no traseiro do menino, que sobressaía ao ar, e lhe acariciou as costas. - Não te parece que deveríamos lhe dar um nome?

- Não. Esse direito corresponde a Michael - respondeu Mary. - Até então chama-o só bebê.

- Bebê o que? Não me disse o sobrenome do pai.

- MacBain, Michael MacBain. Comprou a granja dos Bigelow, a granja da Árvore de Natal.

Aquilo pegou Grace de surpresa.

- E o que aconteceu com John e Ellen Bigelow?

- Seguem vivendo ali. Michael vive com eles - disse Mary.

Sua voz soava cada vez mais longínqua. Voltou-se para olhar Grace; as lágrimas vidravam seus olhos azuis, em tempos tão formosos e animados, e agora foscos. Fechou-os de novo e acrescentou:

- É um bom homem, Gracie. Forte como uma rocha.

"Salvo que acredita que tem oito séculos", pensou Grace. Moveu a mão do traseiro de seu sobrinho ao cabelo de sua irmã e o separou da testa. Então Mary voltou a face até apoiar-lhe na palma.

- Continuo esperando sua promessa - disse.

Grace inspirou fundo e por fim pronunciou as palavras que tinha evitado dizer de forma tão teimosa...E, acaso, também, tão egoísta.

- Prometo-lhe isso, Mary. Levarei seu filho a Michael MacBain.

Mary lhe beijou a palma da mão e suspirou profundamente. Depois se acomodou melhor e se aproximou mais ainda.

- E espalharão minhas cinzas na montanha TarStone... - Disse depois. Sua voz foi apagando-se até transformar-se em um sussurro. - Na manhã do solstício de verão.

- O solstício de verão. Prometo.

Grace rodeou com uma mão a cabeça de Mary e com a outra seguiu abraçando o bebê enquanto uma tranqüila e suave sensação de paz se instalava de novo na habitação. A seguir se colocou no oco do ombro de sua irmã e sentiu sob a face, úmida de lágrimas, como ia enfraquecendo o pulso de sua vida.

Duas horas depois, sem dor e sem luta, tudo tinha terminado. O coração de Mary, simplesmente, deixou de pulsar. No quarto só ficou um som: a suave e doce respiração de um bebê que dormia.

 

Se as mentiras fossem gotas de chuva, certamente Grace correria perigo de afogar-se. Levava quatro semanas dizendo tantas falsidades e evasivas que mal recordava a metade...

E as que se recordava ameaçavam revolvendo-se para lhe dar uma dentada no traseiro.

Fechou a última mala e passou o cadeado com um golpe seco. Logo foi procurar a bolsa de mão. Duas vezes teve que empurrar o Jonathan para passar, e duas vezes ele ignorou que não lhe interessava o que estava lhe dizendo.

Ou mas bem, lhe exigindo.

Jonathan Stanhope III era o proprietário e diretor geral do StarShip Spaceline, uma empresa de alta tecnologia decidida a converter em realidade, em um futuro muito próximo, as viagens espaciais para cidadãos particulares. Com quase trezentos empregados, StarShip se encontrava na vanguarda dos descobrimentos científicos. E, além disso, fazia dezoito meses que Jonathan era chefe de Grace.

Também era o homem com quem ela esperava casar-se.

Embora naquele momento o que desejava era que subisse a uma das lançadeiras ainda sem provar da companhia e lançasse a si mesmo ao espaço.

Ao Jonathan não o fazia nenhuma graça que partisse. Tinha cumprido com seu dever de chefe lhe dando quatro semanas para "superar" a morte de sua irmã, e não podia acreditar que tivesse a audácia de querer mais tempo ainda.

- Mas se trata do Maine, Grace - disse pela décima quarta vez, enquanto saía do quarto atrás dela e entrava na cozinha. - Lá encima até as linhas telefônicas são muito antigas para os enlaces de transmissão de dados... Está em meio de um nada.

Enquanto isso, ela ia abrindo portas de armários e tirando mamadeiras de leite esterilizadas e todo tipo de artigos para bebê.

- Então farei uma conexão por satélite - replicou.

Contou estoque para três dias e depois começou a colocar tudo na bolsa de mão. Depois foi a geladeira e pegou a ultima que tinha enganchado na porta. Fraldas... Ia necessitar outra bolsa só para as fraldas. Voltou a dirigir-se ao quarto.

Jonathan a seguiu, mas agora tomou pelo ombro, deteve-a de um puxão e lhe disse:

- Quer parar um momento? - Logo lhe deu a volta para pô-la de cara a ele.

Grace elevou a vista. Pelo geral, Jonathan tinha um rosto amável e atraente, mas naquele momento seu aspecto não era tão simpático. Estava zangado, zangado de verdade.

Tinha entreaberto seus inteligentes olhos cor avelã e apertava a mandíbula com tanta força que parecia que ia partir os dentes.

Grace olhou as mãos com que a agarrava, primeiro uma e depois a outra, e observou como brilhava seu Rolex sob o punho da camisa, perfeitamente engomada e abotoada com gêmeos.

- Esta me machucando - disse.

Sempre cavalheiresco, inclusive quando estava zangado, Jonathan a soltou imediatamente. Depois inspirou fundo e retrocedeu enquanto se passava a mão pelo impecável cabelo, loiro como o sol.

- Maldição, Grace, não pode ir em pior momento. Receberemos dados de Vainillo no fim de semana, como muito.

Essa era a autêntica preocupação de Jonathan; não estava de mau humor por perdê-la em um sentido romântico, mas sim porque possivelmente sua ausência afetaria o negócio. Fazia seis semanas tinham arrojado um módulo de satélite (foi ideia de Grace chamá-lo Vainillo, porque lhe recordava uma larga vagem de ervilhas com vários delicados ordenadores em seu interior), que por fim funcionava a pleno rendimento.

E ela era a única pessoa do StarShip Spaceline capaz de decifrar os dados que Vainillo enviava à terra de volta.

Era a corrida espacial outra vez, só que nesta ocasião não se tratava de russos contra norte-americanos; a nova corrida a realizavam empresas privadas que competiam pelo futuro mercado das viagens espaciais comerciais. StarShip Spaceline man tinha uma renhida batalha com outros dois programas privados, um europeu e outro japonês, e os três estavam a ponto de aperfeiçoar formas alternativas de propulsão.

O combustível sólido para foguetes, que empregava o programa espacial da Nasa, era pouco eficaz porque, em poucas palavras, pesava muito; com ele, a lançadeira necessitava um foguete várias vezes maior e mais pesado tão somente para sair da atmosfera terrestre. Em troca, outras formas alternativas, como a propulsão por íones, microondas ou antimateria, talvez convertessem a viagem espacial em uma aventura rentável e inclusive fizessem possível a colonização da Lua e de Marte.

Fundamentalmente, tudo se reduzia a física matemática.

E ali era onde entrava Grace, a perita em matemática do StarShip Spaceline. Ela devorava números e, em seu papel de técnico, encarregava-se das teorias: olhava um esquema e, mediante fórmulas matemáticas, dizia se era viável ou não.

Só nos dezoito meses que levava trabalhando para o StarShip tinha economizado milhões de dólares à empresa de Jonathan Stanhope ao refutar teorias antes que entrassem em marcha.

Justo naquele momento Vainillo estava em órbita ao redor da Terra, e existiam grandes esperança de que, graças aos dados que enviasse, StarShip acabasse ganhando a corrida para conseguir uma nova forma de combustível.

- Receberei os dados do Vainillo em Maine tão bem como aqui, Jonathan - o tranqüilizou. - Já tenho metidos na mala a conexão via satélite e o computador.

- Mas e seus outros projetos?

- Cari e Simón trabalharam neles sem problemas estas quatro semanas, não vejo por que não podem seguir fazendo-o. aproximou-se do armário e tirou outra bolsa para enchê-la de fraldas. Ao dar a volta, Jonathan lhe fechou o passo outra vez. Suas feições se adoçaram, e seus olhos voltavam a ser da inteligente cor avelã de que levava dezoito meses apaixonando-se.

- Grace, e o bebê... - disse ele em voz baixa.

- O que lhe passa?

- Estará contigo quando voltar?

Nossa, essa era a pergunta do milhão, não? Grace tentou recordar que meias verdades tinha contado a Jonathan, assim como as mentiras que lhes tinha contado aos assistentes sociais e até a seus próprios irmãos...

E as meias verdades que contou a Emma, a bondosa enfermeira do hospital, tão compassiva que tinha renunciado a suas férias para ajudá-la com aquele bebê de quatro semanas?

- Isso é o que vou descobrir em Maine - respondeu.

- O menino tem que estar com seu pai.

- Tem que estar com a pessoa que melhor se dele ocupe - replicou ela.

- O prometeu a sua irmã - recordou Jonathan. Voltou a segurá-la pelos ombros, embora desta vez com doçura; sua expressão, entretanto, não era doce.

- Não confronte a morte de Mary, Grace, porque enquanto siga te aferrando a ela não terá que cumprir sua promessa.

- Isso não é certo.

Ele subiu a mão, separou-lhe da face uma rebelde mecha de cabelo e o colocou por trás da orelha.

- Agora mesmo está em cima da mesa da cozinha. Colocou sua irmã em uma lata de bolachas Arejo e, além disso, fala com ela.

Grace se manteve firme. negou-se a deixar que visse sua dor.

- É minha irmã pequena, Jonathan. Quer que a meta em um armário? Ou possivelmente, simplesmente, deveria mandá-la por mensageiro a Pene Creek... A Mary adorava as bolachas Arejo. Não sei de um lugar melhor para que esteja até o solstício do verão, quando em teoria tenho que levá-la a montanha TarStone.

- Para o solstício do verão faltam quatro meses... - Disse ele. Outra vez parecia zangado. - A semana passada, quando pediu esta permissão, você disse que quatro meses era muito tempo. Já teve um mês, e agora mesmo não posso te conceder mais.

- Vou tomar outros quatro meses, Jonathan - repôs ela de forma direta, preparando-se para uma briga. - O devo a Mary e ao bebê.

- Tem que deixar que se vá, Grace - repetiu ele.

De repente a atraiu para si e a abraçou forte.

Grace suspirou em seu ombro. Gostava de estar nos braços do Jonathan... Quase sempre. Caralho, pelas poucas vezes que tinham saído, dava-lhe a impressão de que havia muito boas perspectivas para um possível futuro juntos.

Então, por que se sentia decepcionada? Talvez fosse por que o homem a quem tanto admirava, aquele homem absolutamente moderno e ambicioso, não tinha nem um átomo de sensibilidade no corpo?

Seriamente era tão egoísta como para não compreender por que tinha que cumprir as coisas que sua irmã lhe tinha pedido?

Jonathan seguiu falando por cima de sua cabeça.

- Tem que ir ao Maine, procurar o pai do bebê e seguir com sua vida. Sua irmã esteve a ponto de te colocar na tumba com ela - se tornou atrás para olhá-la. -Olhou-se no espelho ultimamente?

Pelo amor de Deus, leva postos umas calças de moletom e uma jaqueta... Os mesmos que levava ontem.

- São fáceis de lavar - disse Grace. Afastou-se bruscamente e começou a encher a bolsa de fraldas. - As babas e o leite não combinam bem com a seda.

- E isso é outra coisa - continuou ele a suas costas. - Você é uma cientista, não uma mãe: não tem nem ideia de como criar a um bebê. Diabos, se nem sequer se dá bem com os bonecos de pano. Este bebê tem um aspecto tão desalinhado como você.

Logo que ela se voltou para olhá-lo, tomou de novo pelos ombros e fez que deixasse cair a bolsa de fraldas no chão. Com expressão mais desesperada que zangada, sussurrou:

- Grace, não vá; agora não. Espera até que Vainillo aterrisse em agosto, e depois parte a Maine. Então será mais seguro.

- Mais seguro?

- Será melhor - se corrigiu ele. - Quando o módulo aterrisse e esteja de novo em nossas mãos, poderá ir.

- Então será dois meses muito tarde, Jonathan. Perderei o solstício. E, além disso, tenho que me encarregar da herança de Mary. Não posso deixar tudo pendente sem mais outros seis meses. As pessoas de Pene Creek se perguntarão o que lhe passou.

- Chama-os - apertou os ombros. - E chama ao pai do menino e lhe diga que deva recolher a seu filho. Isso seria o mais prático.

- Para você. Isso seria o mais prático para você - disse Grace zangada, ao tempo que se soltava dele e recolhia a bolsa de fraldas. Depois se endireitou e lhe deu uma olhada assassina.

- Não se anuncia a morte de uma pessoa por telefone e, por descontado, não se chama um homem para lhe dizer que a mulher que ama morreu e, ah, sim, por certo, olhe, que te deixou um filho.

Saiu do quarto, pois estava a ponto de romper a crista a seu chefe com a bolsa de fraldas. Entrava quase correndo no salão quando se deteve ao ver que Emma estava dando a mamadeira ao Bebê.

A enfermeira elevou o olhar e deu uma olhada feroz a um ponto situado atrás de Grace; esta soube que Jonathan estava atrás dela.

- Colocarei suas malas no carro - disse ele com os dentes apertados. - Ponham tudo o que queira levar junto à porta, e pegarei.

- Eu colocarei as coisas em meu carro - disse ela, ao tempo que se voltava a olhá-lo. - Emma vai levar-nos ao aeroporto.

Ele passou a mão pelo cabelo. O aborrecimento seguia cobrindo de severidade seus olhos.

- Parece-me que não tenho nem voz nem voto neste assunto - disse. - Sabe o muito que StarShip te necessita...

Apertou a mandíbula e a assinalou com o dedo.

- Espero que envie informes gerais sobre o Vainillo enquanto esteja fora... E mais vale que não sejam quatro meses - terminou com um grunhido.

Depois deu a volta, saiu em silêncio e se dirigiu a seu carro.

- Vamos, não tome a peito nada do que disse - comentou Emma, reconhecendo que tinha ouvido toda a briga. - Verá que vai bem com este menino, Grace. E quanto a sua irmã, eu sei o que é perder a um ser querido. Não se repõe em quatro semanas.

- Obrigado, Emma. Ah, importa-se que a tenha metido para nos levar ao aeroporto? Não suportaria a ideia de escutar outros vinte minutos de sermões de Jonathan.

- Não, céu, será um prazer. Tome, já está preparado para seu arroto - disse, levantando o Bebê para que Grace o pegasse.

Com cautela, tendo muito presente como lhe tinham ensinado que devia sustentar a cabeça, pegou o pequeno e o voltou para colocá-lo sobre o ombro. Depois lhe deu uns suaves e rítmicos tapinhas nas costas.

- Pensou em algum nome? - Perguntou Emma enquanto colocava a roupa de Bebê em outra bolsa.

- Pensei em centenas - Grace começou a passear ao mesmo tempo em que lhe dava tapinhas e o sacudia com suavidade acima e abaixo. Depois olhou a Emma com olhos esquivos. - Mas nenhum acaba de ficar bem.

Senhor, detestava mentir a aquela amável senhora... Mas não podia lhe dizer que não tinha direito a dar um nome ao Bebê, que esse era um direito de seu pai.

Ao pessoal do hospital e aos assistentes sociais havia dito que não sabia quem era o pai do Bebê. Era a mentira mais difícil que tinha contado jamais, mas também a mais oportuna...

Embora durante um tempo teve que brigar um pouco, pois o hospital não estava nada disposto a deixar partir o bebê sem pôr um nome na certidão de nascimento. No momento, de forma oficial e temporário, o conhecia como Bebê Sutter.

Com apenas um pouco de papelada, e sem que aquela situação sem nome gostasse mais que ao hospital, o tribunal lhe concedeu a custódia temporária do Bebê à espera de pedir a seus homólogos de Maine que investigassem o assunto.

Quando se inteirou, Grace chegou inclusive a inventar o conto de que Mary reconheceu ter acontecido uma noite isolada com um homem que estava de passagem por Pene Creek.

Foi assombroso que a lata de bolachas não estalasse por toda a cozinha depois daquela mentira inculpatoria, mas Grace não queria que ninguém investigasse nada.

Seus irmãos foram algo muito distinto. Quando os chamou para lhes contar a terrível noticia, todos prometeram reservar vôo para ir a seu lado, mas ela os convenceu de que não havia nada que fazer ali e lhes disse que, se queriam expressar seu amor pela Mary, deviam aparecer pela montanha TarStone no dia do solstício do verão.

Neste caso sua mentira foi por omissão; não lhes falou de Bebê.

Embora os queria muitíssimo a todos, Grace não quis que fossem assumir responsabilidades de uma situação da que não sabiam nada. E não é que ela soubesse muito mais... Mas como lhes explicar que sabia quem era o pai, mas que este acreditava ser um viajante do tempo? E como passar por cima desse pequeno detalhe sem ver primeiro Michael MacBain e decidir por si mesma se estava louco ou não?

Não, era melhor assim. Não queria, nem necessitava, que seis homens resolvidos danificassem a promessa que havia feito a sua irmã.

Aproximou-se da janela do salão e viu que o Mercedes do Jonathan deixava atrás o sinal de pare que havia no final da rua. Então afundou o nariz no cabelo do Menino e, durante um momento, aspirou seu agradável aroma a xampu e talco.

Acabava de ter sua primeira briga com Jonathan; um acontecimento esclarecedor. Se preocupava com sua empresa, o rápido cerco da competência e o rendimento do Vainillo. Bom, pois ela não podia fazer nada a respeito dos seus competidores, mas sim podia ocupar-se do Vainillo, inclusive de Maine. Quando Jonathan se desse conta de que não tinha perdido seus conhecimentos, e sim só sua presença física, tranqüilizaria-se.

Durante os próximos quatro meses faria um bom trabalho para o StarShip e talvez estabeleceria um precedente para desfrutar de umas férias anual em Maine.

Contudo, nos últimos tempos notava algo mais na voz e nos atos de Jonathan, algo que não encaixava; se tivesse que defini-lo, Grace o chamaria medo.

Ao fracassar em sua tentativa de convencê-la para que não partisse, deu-lhe a impressão de que estava assustado.

Dava-lhe medo que possivelmente não fosse retornar, ou só lhe preocupava o satélite?

Jonathan estava silencioso e retraído desde justo antes do lançamento de Vainillo, fazia seis semanas. Na época cancelou um encontro com ela no último minuto e depois se isolou no laboratório com o Vainillo durante quase quatro dias; ele mesmo ajustou a última perna do satélite e o selou para sua órbita de oito meses em torno da Terra.

Depois do lançamento agia de forma estranha com todos os do trabalho. As duas primeiras semanas que Vainillo esteve no alto, antes do acidente da Mary, passava-se o momento olhando por cima do ombro de Grace à bateria de ordenadores que era o centro de controle do pequeno satélite... Quer dizer, quando não estava encerrado com chave em seu escritório com as persianas fechadas.

Mais de uma vez, ao chegar ao trabalho, Grace se tinha dado conta de que Jonathan tinha passado a noite no escritório.

Além disso, tinha dobrado a segurança no laboratório e advertido a todo mundo que se mantivesse alerta diante da possibilidade de uma espionagem empresarial. Provavelmente, se a aquelas alturas não estava tão obcecada como ele, era só porque levava quatro semanas sumida em sua própria tristeza e entregue aos cuidados do Bebê.

E isso era outra coisa.

Jonathan não queria o Bebê. Confiava em que ela fizesse uma chamada Telefônica, o passasse a um desconhecido e depois seguisse com suas coisas como sempre.

Em uma das ocasiões em que tinham saído, surgiu o tema dos filhos, e Jonathan aludiu de passagem ao fato de que o filho de ambos, tendo-os a eles como pais, seria um superdotado.

Naquele momento, que Jonathan pensasse sequer em semelhantes coisas sobre seu futuro em comum a pôs muito contente; agora, entretanto, começava a perguntar-se se aquele homem sairia com ela por si mesmo ou por seus genes.

Talvez estivesse disposto a considerar, depois de planejá-lo muito, a possibilidade de ter um filho, mas certamente não queria responsabilidades com o filho de outro homem.

Algo mais em que pensar durante os quatro meses seguintes.

De repente, Emma irrompeu em seus pensamentos.

- Outra vez lhe vomitou em cima - disse. - Lhe cai por detrás do ombro.

Jogou uma toalha sobre o ombro de Grace e pegou o Bebê.

- Deve procurar lhe dar leves golpes mais suaves - fez sua crítica com um sorriso. - Dirija-o como dirige seu computador portátil: sustente-o bem, e não o sacuda muito.

Grace limpou a camiseta e se deixou cair em uma poltrona. Depois atirou a toalha apontando à cesta da roupa suja... E falhou.

- Nunca terei êxito como mãe, Emma; pelo visto, não o deixo tranqüilo.

Afastou o cabelo da face de um sopro e o colocou atrás da orelha.

- Tenho toda a confiança do mundo quando se trata de dividir átomos ou lançar foguetes no espaço - disse, e depois assinalou com um gesto ao Bebê . - Mas nem sequer sei vesti-lo sem que me sobrem botões do macacão de pano ao chegar no pescoço...

E a fita adesiva das fraldas me supera... Quando o pego cai o macacão e sai nu de tudo.

Rindo de boa vontade, Emma começou a trocar o Bebê para lhe pôr a roupa de viagem. Grace se levantou da poltrona e se aproximou para olhar por cima do ombro, fascinada por sua habilidade.

- Está segura de que não é muito pequeno para viajar? - Perguntou-lhe.

- Não; este menino é forte como um touro. E além disso o médico lhe deu permissão - elevou a vista para Grace. - Acredite, o doutor Brown não lhe teria deixado partir do hospital com ele se tivesse tido alguma dúvida.

Tome, embale-o para que durma, e eu acabarei de recolher suas coisas.

Foi para onde tinha deixado sua bolsa e tirou um livro.

- Onde está sua bolsa de mão? - Perguntou-Lhe. - Trouxe leitura para o vôo.

- O que é? - perguntou Grace.

- É um livro sobre bebês - Emma o levantou para que o visse. - Escrito por duas mulheres que sabem o que se faz; entre as duas têm oito filhos.

Colocou o livro na bolsa que estava junto à porta do salão.

- Despacha-me você com um manual de instruções? - Comentou Grace. A risada ficou entupida no nó que tinha na garganta.

Emma se endireitou e a olhou nos olhos.

- Haja seguindo seus instintos, Grace. Se acreditar que algo vai mal, leve o Bebê a um médico, mas, pelo geral, com o sentido comum lhe bastará para o dia a dia.

E em caso de dúvida, olhe este livro ou me ligue - tirou um pedaço de papel do bolso e o meteu na bolsa junto ao livro. - Estes são meus números, o de casa e o do trabalho. Me ligue.

Grace conteve as lágrimas que ameaçavam embaçar a vista. Embora fazia só quatro semanas que conhecia a Emma, aquela mulher era o mais parecido a uma mãe que tinha tido em mais de nove anos.

- Obrigado, Emma, por tudo... - Sussurrou com voz rouca.

A mulher baixou a cabeça para olhar seu relógio de pulso, mas a Grace deu tempo a ver o rubor que lhe subia ao rosto.

- Colocarei isto em seu carro e comprovarei o assento porta bebês - disse com voz velada enquanto agarrava a bolsa. - Vão perder o vôo se não nos pusermos em marcha.

Grace seguiu balançando o seu sobrinho; sentia a tentação de fechar os olhos e ficar adormecida com ele... Que fazia, levando-o em semelhante viagem a uma idade tão tenra? Três vôos, e cada avião menor que o anterior. Um reator da Virginia a

Boston; de Boston a Bangor, já em Maine, um turbo hélice, e para a última etapa, de Bangor a casa, um aviãozinho de seis assentos que o mais provável é que tivesse esquis em vez de rodas.

O que esperava encontrar em Pene Creek?

E, exatamente, quantas mentiras mais teria que contar antes que o fantasma da Mary se levantasse de suas cinzas para lhe dar uma dentada no traseiro?

 

Primeiro se fixou no bebê que levava atado ao peito; depois, em que ela não usava aliança.

O primeiro detalhe deveria haver feito desnecessário ao segundo, mas Greylen MacKeage não era dos que fogem das brigas nem dos bebês. Tampouco era propenso a questionar seu instinto... E menos se uma mulher lhe produzia uma reação tão forte.

Tinha arrepiado o cabelo da nuca no terminal do aeroporto de Bangor, quando a viu dirigir-se para onde ele estava com aspecto perdido, cansado e como se necessitasse ajuda desesperadamente.

Mas foi ver que se aproximava do piloto, que sustentava um pôster com a palavra "Sutter", quando seus sentidos acabaram de aguçar-se: iam compartilhar o avião até Pene Creek.

Era uma bênção para Grei. Precisava distrair-se com uma mulher formosa; assim não pensaria em que logo ia estar no céu, a quase mil metros de altura, sem nada mais entre o chão e ele. Não sabia o que era pior: se os quase mil metros aos que iria durante a seguinte etapa de seu trajeto, de Bangor até Pene Creek, ou os mais de nove mil aos que tinha pegado de Chicago até Bangor. O certo era que dava o mesmo: se caísse, o chão estaria igualmente duro desde qualquer das duas alturas.

Quando a mulher se deteve e deixou com cuidado as bolsas que levava, o piloto perguntou impaciente:

- Você é Grace Sutter?

Ela assentiu com um gesto.

- É parente de Mary Sutter?

A mulher voltou a assentir.

Em silêncio, com a mesma impaciência que parecia ter o piloto por dar fim a aquele vôo, Grei dobrou o jornal que tinha estado lendo e observou com atenção Grace Sutter. Ele também conhecia Mary.

- Não se parece com sua irmã - Disse o piloto enquanto jogava uma cética olhada, como se não acreditasse.

Grei sim acreditou. Parecia um pouco mais velha que Mary, embora possivelmente só fosse pelo estado de esgotamento em que era evidente que se encontrava. Tinha o cabelo loiro, despenteado e de aspecto suave, mais longo, mais claro e um pouquinho mais alvoroçado que Mary, mas o corte angélico de seu rosto e a inclinação do queixo eram idênticos aos de sua irmã, embora também fosse mais baixa: pelo menos sete ou oito centímetros. E os olhos?

Bom, eram de um azul mais profundo e mais líquido, que ressaltava em uma cútis impecável da cor da neve recém caída. Mas se ficasse às duas irmãs juntas, até um cego veria a semelhança.

E esperava com toda sua alma que o piloto não fosse cego.

Grei conhecia Mary Sutter porque era sua vizinha. Era a proprietária de uma pequena granja de produtos ecológicos situada no lado ocidental de sua montanha... As mesmas que ele levava dois anos tentando comprar em vão.

Os MacKeage possuíam quase quatrocentos mil acres de magnífico bosque do Maine, e a terra de Sutter estava justo na esquina de uma parte muito boa.

Durante dois anos Mary lhe tinha vendido ovos, ervas e inclusive queijo de cabra, mas não tinha querido lhe vender seu lar.

Grei não tinha querido forçar as coisas. Em realidade, não necessitava os sessenta e um acres, só queria igualar a confins ocidental; mas, além de comida, só tinha conseguido da Mary a promessa de que, se alguma vez decidisse vender sua propriedade, a venderia a ele.

Desse modo, Grei se contentava mantendo uma relação de boa vizinhança. Quando teve que arrumar o telhado de Mary, enviou Morgan e Callum para que o fizessem... E não porque lhe pedisse ajuda, pois era uma mulher muito independente. Isso parecia bem a Grei até que um dia a surpreendeu em cima do telhado, a nove metros de altura, com o extremo de uma corda presa à cintura e o outro à chaminé. Nesse preciso instante decidiu que, em uma mulher, a independência resultava perigosa.

Cometeu o estúpido engano de dizer-lhe e Mary riu na cara, mas aceitou a ajuda que lhe oferecia. Mary Sutter talvez fosse independente, mas não era idiota; de alturas gostava tão pouco como a ele.

Em uma ocasião, Grei lhe pediu um encontro, igual a Morgan, Callum e inclusive Ian, embora este fosse muito mais velho que ela. Com amabilidade e elegância, disse a todos que não...

E logo todos tinham visto a aquela louca por todo o povoado com o bastardo do MacBain.

A ver agora.

- Eu conheço Mary - disse o piloto.

Deu uma olhada pelo terminal e deu uma olhada à parte de papel que tinha na mão junto com o pôster.

- Ela não está cotada na lista de passageiros - olhou a Grace Sutter. - Não está em sua casa, sabe? Leva uns cinco meses fora.

- Sei - disse Grace em voz baixa.

De repente, o bebê que ia bem aconchegado na mochila de seu peito se moveu, e o piloto deu um passo atrás; não tinha dado conta de que levava a um bebê.

Maldição... Pois sim que estava cego.

Grei tinha exposto muito a sério alugar um carro para percorrer os últimos cento e trinta e cinco quilômetros de viagem, mas a companhia de aluguel insistiu em que tinha que devolver o carro outra vez em Bangor: não tinham sucursais no meio dos bosques. Assim, ficou sem aquela opção. Tampouco era uma opção chamar um de seus homens para que fosse recolhê-lo; faltava muito pouco para a data em que tinham previsto inaugurar o complexo turístico, e tinham muito trabalho.

Naquele momento Grei se levantou, jogou a bolsa no ombro e se inclinou a recolher as duas bolsas que estavam aos pés de Grace. Surpreendeu-lhe o peso de uma delas, e se surpreendeu mais ainda quando ela arrebatou a mais leve.

Então elevou a cabeça... E por cima da cabecinha do bebê, encontrou-se olhando fixamente os profundos olhos azuis da mulher com quem queria casar-se.

Endireitou-se como se tivessem dado um murro. Que diabos era tudo aquilo? De repente lhe pareceu sentir que a pele ficava pequena; os joelhos ameaçaram fraquejar, e acreditou que ia ficar sem respiração.

Até a névoa que enchia sua cabeça passou apenas com a voz da mulher.

- Bem... Eu pegarei esta, obrigado - disse; depois se dirigiu ao piloto. - Tenho outras três malas e um assento de bebê esperando no mostrador de bagagens.

Grei deu a volta e, sem olhar para trás, saiu pela porta lateral do terminal. A fria e fina chuva de fevereiro o golpeou em pleno rosto. Então ficou ali, olhando ao céu, e deixou que a chuva levasse toda a névoa de seu cérebro.

Pois vá entender as reações... A dama era o suficientemente formosa para deixar sem respiração a qualquer homem, mas casamento?

Meneou a cabeça, zangado consigo mesmo. De acordo, ultimamente lhe tinha preocupado o tema do matrimônio, mas esperava que o noivado durasse mais de dois segundos.

Sua reação o tinha surpreendido, mas em realidade se tratou de uma reação natural de seu corpo.

Sim, era isso: uma mulher formosa se pôs diante de um homem que andava à caça; nada mais.

Fazia justo umas semanas que Grei tinha convocado uma reunião do clã para comentar essa mesma questão. Disse a seus homens que já era hora de que todos se casassem.

Tinham suas terras, o complexo turístico ia abrir no mês seguinte, e tinha chegado a hora de que pensassem no futuro.

Necessitavam filhos varões: muitos filhos com os que começar a construir de novo o clã MacKeage e lhe devolver a grandeza que tinha tido.

Mas seus homens não aceitaram a ideia. Seguiam tentando assimilar que já não desempenhavam a honorável profissão de guerreiros, mas sim se dedicavam ao comércio... Algo que não era honorável.

Dispunham-se a lhes vender e agradar esporte a umas hordas de turistas que viajariam das superlotadas cidades do sul para passar as férias na montanha.

E além disso tinham que tomar esposas? Por que iam querer aumentar seus problemas? Ter esposa supunha viver em uma casa independente, cortar o cabelo com regularidade e ir à igreja. E, antes de mais nada, casar-se também supunha ter que conviver com os modernos para procurar esposa. Nestes tempos, o noivado consistia em sair para ir a restaurantes, dançar e jantar: lugares onde um punhado de gente se sentava às escuras e ficava pasmada vendo ruidosas histórias que apareciam em uma tela.

Um noivado supunha, do mesmo modo, meter-se nas famílias das mulheres... E segundo os homens de Grei, quase todas as famílias nesse século eram muito raros.

A metade da gente deste mundo estava divorciada, e o resto andava pelo segundo, terceiro ou inclusive quarto matrimônio. Oito séculos antes, eles trocavam de cavalo com menos freqüência do que se trocava de cônjuge na atualidade.

Não; nenhum de seus homens tinha pressa por casar-se.

Mas Grei foi inflexível. Naquele momento tinham a base do poder financeiro e necessitavam filhos varões para assegurar sua continuidade. Os da seguinte geração seriam empresários: utilizariam a terra e a madeira, e o poder político que ambas as coisas suportavam. O futuro do clã MacKeage se apoiava nos filhos.

A chuva, fria e densa, começou a transformar-se em aguaceiro. Grei fechou mais a gola do casaco e começou a caminhar para o avião.

Era um DeHaviland "castor" de seis assentos. Já tinha andado em um assim: nove cilindros, todos expostos aos elementos, e o tubo do depósito de gasolina na cabine.

Não era uma imagem tranqüilizadora.

Maldição, detestava os aviões pequenos. Voar não era uma ação natural. Isso de que toneladas de aço se elevassem no ar graças a um palito sujeito ao focinho que dava voltas sem parar para remover o vento desafiava ao sentido comum.

E se detestava os aviões pequenos, ainda detestava mais os pilotos presumidos. Enquanto estavam esperando que chegasse Grace Sutter, o piloto, que se apresentou a si mesmo como Mark, dedicou-se a fanfarronear sobre as muitas vezes que tinha estado a ponto de estelar se quando era piloto de segunda, lá no Alaska. Gabou-se dizendo que não teria que preocupar-se por um pouquinho de chuva invernal; isso não era nada comparado com as tempestades de neve que ele tinha atravessado voando pela grandiosa e infinita terra da neve e o gelo.

A Grei não o tinha impressionado absolutamente.

Abriu a porta do DeHaviland e pôs sua bagagem e a pesada bolsa de Grace na parte de trás. Depois deu uma olhada ao estreito interior e lhe revolveu o estômago. Mark lhe tinha devotado um assento na parte dianteira, mas disse que não.

Iria na fila de trás, obrigado; assim seria impossível estar pendente dos indicadores do salpique se por acaso detectava algum sinal de problemas.

De repente ouviu nas suas costas a voz de Grace Sutter.

- Nossa, Mark, a chuva começa a congelar-se. Não se preocupa que se forme gelo?

Bom, parecia que a dama sabia algo de voar. Grei se sentiu mais animado.

- Não. - o piloto deu uma olhada que deixava claro que não lhe tinha gostado da pergunta. - Acima faz mais calor. O ar frio fica por debaixo dos trezentos metros.

- Mas a pista de aterrissagem que há perto de Pene Creek está a oitocentos - repôs ela. - E esse teto de trezentos metros provavelmente esteja a novecentos nas montanhas, de modo que na descida teremos que cruzar mais de seiscentos e cinqüenta metros de chuva gelada.

- Você é piloto? - Perguntou Mark em tom molesto.

- Não.

- Bom, senhora, pois eu sim. E, além disso, voei por este planeta com todo tipo de condições atmosféricas. O asseguro; não é arriscado voar. Comprovei o radar, e a chuva se detém trinta quilômetros de Pene Creek; não será um problema.

Inclinou a cabeça e trocou de postura para lhes comunicar que ia acabando a paciência.

- Levam vários dias anunciando que esta tormenta vai durar, assim ou vamos já, ou ficamos entupidos aqui. Você escolhe senhora.

Grei observou que Grace Sutter baixava o olhar até o pequeno que tinha adormecido contra seu peito.

Depois deu uma olhada em torno da pista de decolagem e levantou a mão para que a chuva gelada lhe caísse na palma; olhou como se fundia e depois olhou a Grei.

- Que assento quer? - Perguntou-lhe então. - Ou vai senta-se na frente, no assento do co-piloto?

- Irei no meio - disse ele. E não sabia o que lhe tinha impressionado tanto no terminal, mas já tinha passado, e deu obrigado por isso. Ainda desejava a aquela mulher uma barbaridade, mas sua mente voltava a estar no comando de seu corpo.

- Por que não se senta a meu lado e fazemos uma cama a seu bebê nos assentos de trás?

Ela abriu mais os olhos, e Grei não soube se era que acabava de assustá-la sem querer ou que lhe tinha provocado um comichão nos dedos dos pés. Esperava que fosse o segundo...

E, além disso, esperava que ficasse o tempo suficiente em Pene Creek para descobrir por que ia daqui para lá com um menino e sem marido.

- A menos que você deseje sentar-se na frente - acrescentou.

- Bem... Não. A fila do meio está bem.

Mark pareceu aliviado. Então abriu a porta de bagagens, que estava na parte de trás, e colocou as outras três malas e um assento porta bebês. Por sua parte, Grei alargou a mão para pegar a bolsa que Grace levava. Ela a apertou um instante contra seu lado e depois a soltou a contra gosto.

- Por favor, tome cuidado. Pode pô-la no chão junto a meu assento? - Disse.

- Vamos para cima, todo mundo - disse Mark, ao mesmo tempo que subia à parte dianteira do avião.

Grei ajudou Grace Sutter subir, depois tomou assento junto a ela e lhe passou a parte do cinto de segurança que tinha mais perto. Ela o fechou com um estalo sobre seu colo e por debaixo do bebê. Depois, com cuidado, tirou deste o gorrinho.

Imediatamente apareceu uma cabeça coberta de arrepiado cabelo escuro, entre o que se sobressaíam duas orelhas. Grei observou o pequeno dormindo enquanto Grace se inclinava e lhe dava um beijo na cabeça.

- É um menino ou uma menina? - Perguntou ele. O capengante som do motor que voltava para a vida o fez estremecer-se.

- Um menino.

- Quanto tempo tem?

- Quatro semanas.

O olhar de Grei se deslocou do menino à face da mulher. Quatro semanas? Sentia desejos por uma mulher que se podia dizer que acabava de dar a luz?

Observou com atenção seu rosto. Talvez estivesse cansada e um pouco murcha, mas Grace Sutter não parecia que acabasse de passar nove meses grávida. As mães recentes possuíam algo, uma presença especial, que não apreciava nela.

- É seu? - Perguntou sem pensar.

Ela se voltou e lhe dirigiu um olhar glacial.

- Perdoe. Foi uma grosseria por minha parte - se apressou a corrigir Grei. - É que está muito bonita para ter um filho de quatro semanas.

Viu que um rubor lhe cobria as faces. Estupendo. A ver se ia resultar que de verdade o cérebro não lhe controlava a boca naquele momento... Com um suspiro, acrescentou:

- Olhe, e se começarmos outra vez? Sou Greylen MacKeage - estendeu a mão. - E conheço sua irmã. Somos vizinhos.

- MacKeage - repetiu ela.

Cravou o olhar em sua mão como se temesse que fosse mordê-la, mas ao cabo de um instante aceitou sua oferta de paz e pôs sua pequena mão na dele. Com a mesma cautela, ele fechou os dedos sobre os seus e a estreitou.

Em seguida notou que um quente e inquietante formigamento lhe subia pelo braço.

- Sou Grace Sutter - disse ela, retirando a mão.

Grei reparou em que apertava a mão até convertê-la em um punho justo antes de meter-la sob a coxa.

- Mary me falou dos MacKeage - disse Grace então. - Não são vocês os donos da montanha TarStone?

- Exatamente.

- Estão construindo uma estação de esqui e um balneário de verão. - Suas palavras não eram uma pergunta, e sim a exposição de uns fatos. - Mary me disse que vão abrir logo.

- Mais ou menos dentro de um mês - explicou ele. Afinal não estavam começando tão mal.

Ela elevou a cara, sorridente.

- Talvez isso dê uma mão à economia de Pene Creek.

- Nem todos pensam que estejamos fazendo algo bom - reconheceu ele com um sorriso envergonhado. - As pessoas temem que o povoado perca sua identidade.

Ela ficou pensando.

- Pode ser - disse, enquanto com gesto ausente alisava com a mão o cabelo do pequeno. - Mas Pene Creek já sobreviveu ao auge e a posterior decadência da época da exploração florestal, assim acredito que sobreviverá a seu complexo turístico.

Aposto um centavo que os vizinhos serão os primeiros em pôr lojas e montar quiosques para vender xarope de arce, jérseis tecidos à mão e oferecer quartos com direito a café da manhã.

- É provável que dobre seu dinheiro - assentiu ele.

- Puseram-se todos o cinto de segurança aí atrás? - Perguntou Mark, ao tempo que levava o avião para a pista de decolagem.

Grei olhou a Grace.

- Quer deixar seu filho na mochila? Ou quer que coloque a cadeirinha na parte de trás?

Ela deu uns afetuosos tapinhas ao traseiro do pequeno.

- Não, mas obrigado. Agora está dormido; acredito que o deixarei tranqüilo.

Grei se voltou para sua janela para que Grace Sutter não lhe visse a cara quando o avião decolasse. Depois agarrou o assento com uma mão e o pomo da portinhola com a outra, fechou os olhos e começou sua acostumada litania de orações.

Eram as mesmas orações que empregava de noite, quando estava sozinho em sua cama e lhe parecia ter perdido o juízo. Embora despertasse dos pesadelos (nas que revivia o horror da terrível tormenta, o relâmpago e o pânico),

Grei seguia encontrando-se em uma terra nova e estranha onde havia máquinas metálicas que passavam voando a velocidades incríveis, a luz brotava nas habitações como por arte de magia e parecia haver hordas de gente por toda parte.

Ao princípio Grei, seus homens e os seis bastardos MacBain acreditaram de verdade que tinham morrido e estavam condenados no inferno. Depois de sobreviver à tormenta estiveram a ponto de que os matassem uns seres que tomaram por demônios voadores, mas agora sabiam que eram automóveis. Reconheceram as ovelhas e as vacas que havia nos pastos, mas não às pessoas que ia naqueles automóveis e que vestia de forma tão estranha.

Então viram ao longe a torre de uma grande igreja de pedra e decidiram esconder-se em um estábulo abandonado até que se fez de noite. Logo se dirigiram ali com a esperança de acolher-se na sagrada casa.

Em vez disso, encontraram ao pai Daar.

O velho sacerdote rezava no altar quando os dez entraram na igreja, com seus cavalos de guerra e tudo; já lhes dava igual o que Deus pensasse de semelhante ato.

Daar se voltou com tranqüilidade, deu-lhes a bem-vinda à casa de Deus e, com a mesma calma, escutou seu relato. Não caiu morto nem pôs-se a correr dando gritos... Algo que, do ponto de vista de Grei, era suspeito em si mesmo.

Disse-se que a mente daquele homem devia ser um prodígio de equilíbrio, embora a idade houvesse a tornado frágil, para agüentar com coragem a presença de dez guerreiros perigosamente assustados.

O padre se limitou a sorrir assentindo, enquanto aqueles homens se apressavam a lhe contar sua descabelada história.

Daar não só compreendia seu idioma, mas também o falava, e as arrumou para tranqüilizar seus temores, embora, como eles, não se explicava o ocorrido.

Durante os nove meses seguintes, com paciência e firmeza, o velho sacerdote lhes proporcionou as ferramentas que necessitavam para sobreviver no século XXI. Ensinou-lhes o idioma moderno, explicou-lhes todo o relativo ao dinheiro e ao comércio, e além disso, lhes deu aulas sobre como comportar-se e como usar os talheres na mesa. Implacável, fez que aprendessem a conduzir veículos e lhes mostrou os maravilhosos adiantamentos técnicos do século.

A contra gosto, embora rapidamente, os guerreiros se adaptaram ao novo mundo no que se encontravam.

Não foi fácil; em realidade, seguia sem sê-lo para nenhum deles. Eram guerreiros, e ainda lhes custava muito compreender um mundo cheio de gente tão diferentes, onde os conflitos resolviam nos tribunais de justiça e os matrimônios se acabavam sem mais, e logo às mulheres criavam a suas famílias sozinhas.

Quando ainda não se cumpriram seis meses de meticulosas lições, Daar começou a insistir em que seria prudente que se fossem da Escócia. Possivelmente lhes facilitasse a vida mudar-se a uma terra mais longínqua e menos povoada, como por exemplo os bosques no oriente dos Estados Unidos. Antes de convencer os de que deviam ir a América do Norte, Grei disse ao sacerdote que o levasse ao solar de seu antigo torreão; ali havia uma escola, e o sobrenome MacKeage se estendia pelos quatro pontos cardeais da Escócia atual.

Então Grei aceitou partir.

Quando chegou o momento de partir, Michael MacBain, que se tinha mantido a distância todo o possível, decidiu levar a si e a seus cinco homens a Nova Escócia.

Todos conservavam suas selas de montar, que agora se converteram em valiosas antiguidades; Daar tomou duas e, depois de vendê-las, ofereceu-lhes uns maços de papel moeda para pagar a viagem. Mas foram as espadas de Callum e Ian e a adaga de Grei, adornada com pedras preciosas, o que lhes proporcionou sua fortuna atual; uma fortuna que empregaram em financiar a compra de quatrocentos mil acres de terras madeireiras de Maine e em edificar sua casa, a que chamaram Gu Bràth, que em gaélico significa "Sempre".

Pelo visto, as armas do século XII eram uma raridade. Grei se perguntava se a alguém lhe teria ocorrido comprovar se o sangue com a que estavam manchadas era igual a antigamente.

Os homens se mantiveram firmes em uma decisão: Grei e Morgan não deviam vender suas espadas. Diziam que ao menos os mais jovens deviam estar armados se por acaso alguma vez se viam de repente lançados de novo através do tempo.

E essa era outra questão que naqueles quatro anos os tinha preocupado até atormentá-los a todos.

Já tinha ocorrido, assim voltaria a acontecer? Levantaria-os em velo aquele tremendo poder para arrojá-los e lhes fazer cruzar o tempo subitamente?

O velho sacerdote acreditava que não. Assegurou-lhes que as energias que governavam a natureza não eram tão caprichosas; se estavam ali, seria por algum motivo.

O difícil era dar com ele.

Grei abriu um olho e deu uma olhada à mulher que estava sentada a seu lado no pequeno avião. Oh sabia uma coisa com certeza: nunca contaria a ninguém sua viagem através do tempo, nem sequer à mulher com quem se casasse.

Todos tinham concordado manter em segredo seu passado. Os escoceses não demoraram para descobrir que as pessoas do século XXI não acreditava na magia, e aos que sim acreditavam freqüentemente tomava por raros... Ou por loucos. E o certo era que a Grei e a seus homens já os consideravam bastante raros por guardar muito as distâncias; não precisavam dar mais motivos às pessoas para que passassem em silencio por diante deles, cochichando com dissimulação.

Agora, entretanto, a preocupação mais premente de Grei era o antiquado avião DeHaviland no que viajava. Enquanto o artefato subia pelo ar com um assobio de protesto, uma vez que a cauda pareceu afundar-se quando a última roda abandonou o chão, esforçou-se para evitar que o estômago lhe caísse até as botas. Cento e trinta e cinco quilômetros em linha reta; quarenta e cinco minutos de terror... e depois, jurava, não voltaria a plantar seu traseiro em nenhum outro aeroplano.

De modo que era ali aonde terei que encontrar um exemplar de masculinidade perfeito: no coração dos bosques. Quando saiu de Maine, Grace era muito jovem para apreciar o que tinha justo diante de seu nariz. Neste momento decidiu que, se alguma vez ignorava o lado intelectual de seu cérebro e se deixasse levar por seus antigos instintos femininos, o tipo que ia sentado junto a ela seria exatamente a espécie de homem com quem gostaria de experimentar uma regressão.

Greylen MacKeage possuía uma tosca beleza, era misteriosamente fascinante e, além disso, muito corpulento. Devia medir quase dois metros, seus largos ombros ocupavam quase todo o espaço da cabine e dava a impressão de que poderia lhe espremer as mãos sem o menor esforço. Isso lhe ocorreu ao apresentar-se, e por isso vacilou no momento de lhe estreitar a mão; mas o certo era que a surpreendeu a suavidade do seu aperto.

E muito mais, o repentino roce de eletricidade que lhe subiu formigando pelo braço até o centro do peito. Em realidade, seguia sentindo por todo o corpo um formigamento de alerta feminino.

Greylen MacKeage era muito mais que um homem bonito. Nele havia algo que a incomodava, algo que Grace não sabia explicar pela singela razão de que nunca havia sentido nada semelhante. Era como se, de repente, seus hormônios adormecidos houvessem acordado depois de um comprido sono e agora dessem voltas por todo seu corpo como elétrons carregados de calor e em busca de ação. Começava a suspeitar (e a temer) que estava experimentando os primeiros despertar do desejo.

E isso não era bom.

Porque não era nem o momento nem o lugar. Não queria sentir-se atraída com tanta intensidade por alguém como Greylen MacKeage. Não tinha sentido. Aquele homem parecia um salto atrás a uma época muito menos civilizada: alguém que recorria aos instintos primitivos para sobreviver, que usava a força, não as palavras, para convencer, e que tombaria a todos quantos se atravessassem em seu caminho...

E, entretanto, agradava-lhe seu aroma, o poder que irradiava, seu firme olhar de um verde de folha perene. Gostaria de ter a um homem assim ao lado em um momento de crise. E em particular lhe agradava seu modo de comportar-se.

Sobre tudo quando estava morto de medo.

Agarrava-se ao assento com tanta força que lhe via o branco dos nódulos. Tinha os olhos bem fechados e muito apertados... Apostava o mesmo centavo que antes que ia rezando.

Ao Greylen MacKeage dava medo voar.

Grace se tornou para trás e fechou os olhos. A base de força de vontade obteve que seus hormônios se acalmassem e logo tratou de não pensar na desconfiança que lhe inspiravam as duvidosas condições de vôo daquele avião.

Voltava para casa pela primeira vez em nove anos; certamente, o de retornar só para os funerais estava se convertendo em uma mania. Agora se alegrava de ficar algum tempo: precisava descansar, conectar de novo com a terra, as árvores e o granito das montanhas. Tinha passado muito tempo olhando o espaço em vez do chão; tinha esquecido o rangido da neve sob os pés e o aroma de resina de pinheiro nas mãos.

E, além disso, tinha esquecido que ainda existiam homens como Grei MacKeage.

Foi isso o que encontrou Mary ao apaixonar-se por Michael MacBain? A emoção de estar perto de um homem tão viril? De sentir uma força que emanava dele em forma de fragrante calor?

Seria Michael MacBain um homem tão corpulento como Greylen MacKeage? Desejou Mary sentir como a rodeavam seus braços no mesmo instante de vê-lo?

Com os pés, Grace aproximou mais sua bolsa de mão ao assento. Senhor, quanto sentia falta da sua irmã! Havia muitos capítulos de sua vida que queria compartilhar com ela. Precisava ouvir suas respostas a tantas perguntas...

Perguntas sobre o amor, as relações ou o prazer que ela tinha encontrado ali, em seus bosques, à sombra da montanha TarStone.

Aos dezesseis anos, Grace tinha partido de Pene Creek para ir à universidade. Não se arrependia das decisões tomadas nos últimos quatorze anos, mas tinha acreditado que ia ter mais tempo para ficar em dia com sua irmã do que acontecia suas vidas.

Em teoria, Mary devia lhe ensinar o que não lhe ensinou a universidade: a sair com homens, a lhes romper o coração e a apaixonar-se.

Como tinham passado tantos anos sem que se desse conta? Tinha que ter tornado antes, tinha que haver-se tomado um descanso entre doutorados para passar algum tempo com a Mary...

Ao fim, o peso do esgotamento ganhou a batalha, e Grace ficou adormecida. Com os braços rodeava Bebê e, com as pernas, a bolsa que tinha a seus pés.

 

- Me dê o menino.

Sobressaltada, Grace despertou ao sentir que umas fortes mãos puxavam sua jaqueta.

- Vamos, Grace, me dê o menino já.

Era Greylen MacKeage, lhe dando puxões à mochila que tinha amarrada ao peito para tentar abrir o zíper e tirar Bebê. Instintivamente, ela se agarrou a seus pulsos para detê-lo, até que despertou o suficiente e se deu conta de que em sua voz havia urgência, não zanga. Então não parou para pensar no motivo, mas sim começou a ajudá-lo. Pouco a pouco, enquanto se esforçava por liberar Bebê, notou que o assobio do motor se tornou agudo e inseguro, como se o estivessem forçando.

O avião não deixava de vibrar, e Mark, o piloto, amaldiçoava em voz baixa enquanto tratava de controlá-lo. Grace viu que puxava da alavanca de comandos até quase meter-lhe no peito.

- Maldição, não sobe! - Gritou Mark. - Estamos descendo. Coloquem o cinto de segurança aí atrás!

Ao ouvi-lo, Grei virtualmente arrancou Bebê do peito de Grace; com gesto frenético, Grace tentou agarrá-lo de novo e lhe disse:

- Tem que estar atado em sua cadeirinha! - Voltou-se para procurá-la. - Se cairmos, aí estará mais seguro!

Em tom estranhamente tranqüilo, Grei replicou:

- Não - de um puxão colocou Grace outra vez no assento. - Fique com a bolsa no colo e meta a cara nela. Eu seguro seu filho.

Sob o olhar de Grace, abriu o zíper de sua grossa jaqueta de pele, colocou dentro Bebê e voltou a subir o zíper até tampar por completo a cabeça do pequeno. Depois alargou a mão e agarrou a bolsa, mas ao sentir sua dureza, voltou a deixá-la no chão.

Grace olhou o indicador do altímetro no painel.

- Tem que subir! - Disse ao Mark. - Temos que chegar até o ar mais quente e dar a volta!

- Que diabos acredita que tento fazer? - Gritou ele como resposta. - É inútil, há gelo nas asas e na hélice, e perdem propulsão! O peso nos leva para baixo!

De repente Grei puxou Grace; com um braço lhe rodeou as costas para pregá-la a ele, e com o outro lhe cobriu a cabeça. O Bebê não gostou da nova situação; ela o sentia lutar dentro da jaqueta de Grei, empurrar com os pés e o traseiro contra sua cara.

Sob a grossa pele da jaqueta soavam apagados gritos de indignação. Grace sentiu um calafrio na coluna vertebral.

Meu Deus, tinha matado seu sobrinho. Depois de que sobrevivesse a um acidente de automóvel e a uma operação cirúrgica para tirá-lo de sua mãe, agora o matava com sua estúpida decisão de voar em duvidosas condições atmosféricas...

Apertou bem os olhos e passou o braço por cima de Bebê para abraçar-se a Greylen MacKeage. Aquele homem era uma rocha; segurava os dois com um fortíssimo abraço, e Grace surpreendeu que nem sequer tremesse.

Em realidade, sentia sua firme vontade de mantê-los a salvo.

- Preparem-se! - Gritou Mark. - Vejo as montanhas!

Grace levantou a cabeça para olhar pela janela e viu também as escuras montanhas envoltas em chuva... Mas não debaixo deles, e sim ao lado. De repente a sirene que indicava a perda de sustentação avisou de que o avião já não voava.

O assobio do motor em apuros, o constante trombeteio da sirene e os afogados gritos de terror de Bebê se combinaram para produzir um estrépito ensurdecedor que pressagiava um iminente desastre.

- Corte o combustível! - Gritou a Mark. - Deixe que entre em perda nas copas das árvores!

- Ai, merda! - Foi toda a resposta que ouviu.

A roda da cauda cortou a parte alta de uma árvore, e o avião se sacudiu com violência. Grei voltou a segurar a cabeça de Grace contra seu peito, e desta vez não houve forma de escapar dele.

A asa direita golpeou outra árvore; a batida fez com que o avião se inclinasse tanto que Grace deu de cabeça com a portinhola do lado de Grei. Se não fosse pelos sólidos braços que a protegiam, teria perdido os sentidos.

O grito do menino atravessou o caos e se elevou sobre o chiado do metal que se chocava com as árvores. O avião cabeceou com força, primeiro a um lado e depois ao outro.

A bagagem se deslocou para frente do local de carga, e uma mala golpeou Grace no quadril direito. Uma janela se fez em pedacinhos, e os cristais saíram voando por todos os lados; várias lascas lhe cravaram na face e ela soltou um grito.

Grei a abraçou com mais força.

O ruído era ensurdecedor enquanto o bosque ia rasgando o aeroplano com precisão implacável e decidida. As rajadas da gelada tempestade de neve encheram o ar de vapores de gasolina.

De repente, umas fugazes faíscas de luz azul cruzaram o interior do avião, e um etéreo resplendor se projetou sobre o caos. Nesse momento se chocaram contra algo duro, e Grace teve a impressão de que o cinto de segurança a cortava pela metade.

Devagar, o avião deu uma volta de 180 graus e caiu com a cauda para frente e para bater por fim contra uma árvore que agüentou o impacto sem quebrar-se.

Logo, depois de hesitar uma fração de segundo, como se mantivesse em equilíbrio sobre um ponto de apoio fino como uma lâmina, começou uma lenta descida pelo tronco.

Embora estivesse preparada para o golpe definitivo, a Grace surpreendeu o impacto... Mas não tanto como o fato de que Greylen MacKeage ainda tivesse mais força a oferecer.

Os braços que a seguravam com tanta firmeza se esticaram agora com um vigor capaz de lhe esmagar as costelas.

Nem sequer a soltou quando, de repente, tudo parou. O vôo do inferno tinha acabado por fim.

Encontravam-se em uma posição meio erguida. O motor do DeHaviland estava ligado no co-piloto e emitia um irado sussurro, acrescentado pela tempestade de neve que entrava pelas janelas quebradas. Ao seu redor, no ar parecia vibrar um zumbido carregado com o inquietante matiz de uma persistente luz azul. O corpo do avião tinha as duas asas arrancadas. Do Mark e de seu assento, não havia nem rastro.

Até que o silêncio não impregnou em seu cérebro e a neve não lhe tocou a face, Grace não se deu conta de que continuava viva. Em troca, Bebê não; não chorava, e suas resistências tinham cessado.

Como pôde, Grace desabotoou o cinto de segurança e, ao soltar-se, foi cair sobre a parede do avião. Grei se liberou com mais cuidado e usou os braços para deter a queda.

- Ai, Meu Deus! Morreu! - Gemeu ela sem afastar a vista do vulto da jaqueta de Grei.

- Não! - respondeu-lhe ele, zangado. Abriu o zíper da jaqueta e o sobrinho de Grace caiu em suas mãos, ileso. Então sua voz soou muito mais tranqüila. - Só ficou sem respiração.

Viu-o levantar o menino e cobrir sua boca com a dele. Depois lhe insuflou diminutas e superficiais respirações, afastou-se e, com suavidade, moveu-o para um lado e para outro.

Depois de repetir o processo, o pôs nos joelhos e começou a lhe massagear o peito.

Horrorizada, Grace só podia olhá-lo.

De repente, o pequeno começou a arquejar. Agitou os braços e as pernas como os sinais de multiplicação de um moinho, e então soltou um berro que ressonou por todo o bosque.

Grace o agarrou nos braços e o apertou contra seu peito, enquanto as lágrimas lhe corriam pelas faces. Beijou-lhe cada centímetro da cabeça e da face, e fez caso omisso de suas indignadas resistências quando o pequeno lhe vomitou em cima.

Riu e o embalou mais forte.

- Obrigado - disse olhando para Grei por cima da cabecinha do pequeno. - Lhe salvou a vida... E me salvou também . Obrigado.

Grei não parecia nada satisfeito consigo mesmo; em realidade, por seu gesto parecia furioso. Ela o viu empurrar a lateral da fuselagem com surpreendente força, abrir uma brecha nela e cair no chão do bosque, coberto de neve.

Uma vez ali, levantou-se e foi dar uma olhada à parte dianteira do avião, onde devia ter estado o piloto. Devagar, olhou pelo lugar do acidente e depois, de repente, começou a afastar-se.

Com Bebê nos braços, Grace saiu como pôde pelo buraco e imediatamente teve que sentar-se. As pernas não respondiam. Como não se mantivesse em pé, sentou-se na neve, apoiada no avião, e puxou uma fita que ia presa à camiseta de Bebê; na ponta apareceu uma chupeta. O meteu na boca do pequeno, e este imediatamente deixou de chorar e empregou suas energias em chupar com esforço. Satisfeita ao ver que de verdade estava bem, tirou do bolso da jaqueta seu gorrinho e o pôs, com cuidado de lhe tampar as orelhas. depois tirou a jaqueta e a abriu sobre os dois como se fosse uma barraca de campanha para proteger-se da tempestade de neve.

Ao elevar a vista viu que Grei caminhava com passo pesado pela profunda neve, descrevendo círculos cada vez mais amplos em torno do avião.

- Que busca? - Perguntou. Sua voz ressonou pelo bosque.

- Ao piloto - disse ele sem olhá-la.

Parou, jogou uma olhada à zona e logo se dirigiu a sua direita. Depois rodeou um grande pinheiro e voltou a deter-se a uns seis metros de distância.

- Aqui está - disse; olhou para baixo, a algo que havia no chão.

- Está bem? - Quis saber Grace.

- Está morto - disse Grei com frieza. - Má sorte. Teria gostado de matá-lo eu mesmo.

- Como?

Ele não a olhou e seguiu com a vista cravada no chão.

- O bastardo já não é tão galo de briga agora, né? - Grunhiu.

- O pobre homem morreu, e você o insulta? - Perguntou Grace, incapaz de acreditar que alguém fosse tão insensível.

Grei voltou seu olhar feroz para ela.

- Não tinha nenhum direito de decolar com este tempo.

- Fazia seu trabalho. A você ninguém o atou para colocá-lo neste avião; lembro bem que subiu por seu próprio pé.

Ele deu a volta até ficar de cara a ela e cruzou os braços.

- Sim, bom, e você também.

- De modo que é minha culpa?

Grei ficou olhando-a durante um silencioso minuto. Depois soltou um forte bufo e esfregou a cara com as mãos:

- Maldição... Bem sabe Deus que não voltarei a me colocar mais em um de seus malditos aviões. Se o homem tivesse que voar, teria nascido com penas.

Em um de "seus" malditos aviões? De modo que me que jogava a culpa... Em tom ligeiro, Grace se atreveu a comentar:

- Até os pássaros sofrem acidentes...

Tentava dissipar seu aborrecimento, mas não funcionou. Grei mostrava de novo aquele olhar feroz, inclusive parecia mais furioso que antes. Baixou outra vez a vista até o piloto, deu um chute no tronco da árvore e logo retornou onde ela estava com passo pesado, pisando sobre seus mesmos rastros e evitando vários grandes ramos que tinham caído ao chão com o avião.

Grace se obrigou a não estremecer quando se ajoelhou diante dela. Não tinha muita experiência com homens zangados... Em particular, com desconhecidos zangados que admitiam querer matar às pessoas.

- Onde se feriu? - Perguntou ele. Seu tom lhe advertiu que respondesse a verdade.

- Não estou segura de ter me ferido - respondeu ela sem mentir. - Acredito que só tenho os joelhos débeis do... Bem... Aterrissagem.

Ele subiu a mão e afastou o cabelo da face. Desta vez não pôde evitar estremecer-se.

- Está sangrando - disse Grei ao mesmo tempo que lhe roçava a face com um dedo. Logo elevou a mão para que ela visse o sangue.

- Você também - repôs Grace, assinalando sua testa com um gesto da cabeça.

Sem deixar de olhá-la fixamente, Grei subiu o dedo com o sangue dela e, devagar, esfregou sua ferida. Depois elevou a mão entre os dois e esfregou os dedos para misturar seus sangues... E seguiu lhe cravando o olhar.

Por muito que o tentasse, Grace não podia afastar a vista. E naquele momento tampouco respirava muito bem. Ele voltou a lhe roçar a face com o dedo e uniu mais seus sangues. Naquele instante, algo... Uma sensação que ela não soube definir, talvez um pouco parecido a uma onda de energia, passou entre os dois.

O que estava fazendo? E por que, de repente, ela sentia que todo seu mundo, até fazia um instante feito pedaços, cheio de aflição e insegurança, acabava de deslocar-se outros noventa graus sobre seu eixo?

Grei lhe sustentou o queixo para que não apartasse a vista dele... Embora tivesse tido forças para fazê-lo.

- Grace, nunca lhe farei mal.

- O... sei - disse ela. De onde tirava a coragem para lhe mentir?

- Você me tem medo.

- Queria matar a um homem.

- Não o haveria feito - esboçou um meio sorriso. - Em qualquer caso, não com uma testemunha diante.

Ela tentou liberar o queixo, mas ele abriu mais os dedos e lhe voltou a cara para restabelecer o contato visual.

- Não lhe farei mal, Grace.

O que queria dela? Que lhe desse obrigado? Que lhe dissesse que acreditava?

- Eu tampouco lhe farei mal - disse ela.

Sua absurda promessa fez que ele levantasse a outra comissura da boca e lhe dedicasse um enigmático sorriso. Enquanto a soltava ao fim e ficava de pé, disse-lhe:

- Sim que o fará, Grace Sutter.

Ela voltou a colocar a jaqueta sobre a cabeça e o olhou enquanto ele ficava a uns três metros de distância, frente a ela e ao avião, contemplando o entorno.

Sim que era um homem raro. E, além disso, enorme: tinha umas pernas muito longas, mãos fortes (sabia por própria experiência) e os ombros mais largos que qualquer de seus irmãos. Agora que estava molhado, seu cabelo, muito comprido, era quase negro e lhe frisava sobre o pescoço da jaqueta. Mas antes, no terminal, tinha visto que era de uma formosa cor mogno escuro cruzado de nervuras mais claras, como se passasse muito tempo à intempérie sem chapéu.

Em sua barba de dois dias também se via algum rastro de vermelho.

Mas o que de verdade fazia pulsar um pouquinho mais rápido o coração de Grace eram seus olhos, de uma profunda cor verde, como o bosque, que denotavam inteligência e força de caráter. Aqueles olhos indicavam que Greylen MacKeage era um homem que vivia a vida segundo suas próprias condições e elaborava suas próprias regras à medida que avançava.

- Tento calcular onde estamos - Disse ele olhando pelo denso bosque de pinheiros.

Grace também olhou a seu redor e descobriu um paraíso que teria sido formoso em qualquer outra situação menos naquela. O bosque, envolto na tempestade de neve que lhe dava um ar como de outro mundo, supunha um verdadeiro problema para a sobrevivência. Uma capa de gelo, que não deixava de crescer, ia depositando-se sobre tudo quanto se via, curvando as velhas e majestosas árvores, enquanto a ligeira brisa os fazia ranger com rítmica suavidade.

Estava a ponto de anoitecer em um dia de fevereiro, no Maine, e isso significava que a pouca luz que ficava não demoraria para desvanecer-se, pois a névoa envolvia já as copas das árvores.

Grace não via muito além de cinqüenta metros em nenhuma direção, e o que via estava inclinado e bastante íngreme.

- Estamos na ladeira de uma montanha - disse sem convicção. De repente se sentou mais direita. - Ouça, tenho um computador e uma conexão via satélite. Com isso posso conseguir nossas coordenadas.

- Nossas o que? - Ele se voltou para olhá-la de frente.

- Posso fazer que o GPS leia nossa situação.

Ele a olhou sem entender. Então Grace deixou sua jaqueta no chão, colocou Bebê nela e o envolveu bem.

- Me ajude a procurar meu computador - disse. Já estava dando a volta para subir de novo no avião.

Grei tentou abrir a porta traseira, a do local de carga, mas a porta não cedeu. Então rodeou a fuselagem, calcando a neve enquanto avançava, e ao cabo de várias tentativas e uns quantos grunhidos, de um puxão, conseguiu abrir a porta do lado contrário. A bolsa de mão de Grace caiu sobre a neve.

Ele alargou a mão e voltou a colocá-la no avião.

- Por favor, tome cuidado com isso - disse.

- Que tome cuidado? - Ele a olhou com gesto incrédulo do outro extremo do cubículo. - Essa maldita coisa acaba de cair de mais de novecentos metros!

- Ali. Nessa outra bolsa é aonde esta o computador - Grace assinalou a mala metálica que agora estava encaixada na cabine, sobre o motor que seguia chiando.

Grei pegou a mala e a passou até o outro lado do avião. Ela a tirou o exterior e aplainou um lugar para colocá-la. Uma vez que esteve segura de que não corria perigo de inclinar-se, abriu-a.

Ele rodeou o avião e se agachou a seu lado.

- Fixou-se em que empacotamos nossas posses melhor que a nós mesmos? A nossa bagagem ficou melhor que nós.

Como Grace acreditou que não esperava resposta a seu comentário, seguiu em silencio com sua tarefa. Tirou a conexão via satélite, a deu e lhe ordenou:

- Tome, ponha isso longe do avião, num local mais limpo que encontre. Há quinze metros de cabo, assim procure um lugar onde as copas das árvores deixem um espaço aberto ao céu.

- Estraga-se com a chuva? - Perguntou ele enquanto procurava espaço para o aparelho.

- Não, essa parte é impermeável - disse ela. - Não, assim não. Está de barriga para baixo. Dê a volta.

Uma vez endireitado, Grei recuou e pegou Bebê, que começava a inquietar-se; abriu a jaqueta de Grace e deu uma olhada dentro.

- Tem fome - disse.

Ela elevou a vista para ele com a fronte franzida.

- Como sabe? Eu ainda não sei distinguir um pranto de outro.

Ele lançou um meio sorriso.

- Um irmão e duas irmãs menores - respondeu.

Grace agachou a cabeça e se voltou para procurar a bolsa onde ia o leite de Bebê. Grei foi mais rápido e começou a abri-la, mas ela a tirou.

- Não! Eu pego - disse . - Eu... Bem... Eu sei onde está tudo.

Ele não se expôs que foi uma reação exagerada; limitou-se a sentar-se na neve com Bebê. Grace procurou na bolsa e tirou uma das pequenas mamadeiras de leite, depois de testá-la passou a ele.

- Provavelmente esteja frio - disse. - Não lhe dará dor de barriga?

- Preocupa-me mais que lhe baixe a temperatura - respondeu ele. Tomou a mamadeira, o levou a face e assentiu. - Não, está bem. Ainda não se esfriou.

Aliviada, Grace retornou a sua tarefa de arrancar o computador e abrir seu programa do GPS; aquilo levou mais de cinco minutos. Talvez o leite ainda não estivesse frio, mas a seu computador sentava mal aquele clima.

Grei a olhou trabalhar enquanto Bebê tomava a mamadeira, satisfeito.

- O que é uma conexão via satélite? - Perguntou. - E o que é uma posição do GPS?

Grace se alegrou embora também se surpreendeu um pouco de que ao Greylen MacKeage não importasse reconhecer que ignorava algo.

- Há ao menos nove satélites em órbita ao redor da Terra, cuja única função é enviar sinais. Se uso três, posso localizar exatamente onde estamos - se voltou para olhá-lo. - O computador selecionará os satélites que estejam mais perto de nós, enfocará-os e formará uma triangulação entre eles e nós. Então lerá os dados e calculará nossa posição. Com os números que me dê, poderei nos localizar em um mapa.

Grei elevou os olhos ao nublado céu com expressão meditabunda.

- Há máquinas que viajam ao redor da Terra e mandam sinais? - Perguntou sem deixar de olhar acima.

- Hummm, dúzias de satélites, não só os do GPS. Há satélites de comunicação, meteorológicos e fotográficos, e mais coisas, como o telescópio Hubble e a estação espacial.

Devagar, ele voltou a baixar o olhar para ela.

- Ah, sim? - Murmurou. Entrecerrou um pouco os olhos. - Em que você trabalha, Grace, para levar computadores e conexões via satélite?

Ela desviou a vista e pulsou várias teclas do computador.

- Trabalho no StarShip Spaceline, uma companhia de viagens espaciais privadas - o olhou de novo, e acrescentou ficando à defensiva. - Sou engenheira astronáutica.

Ficou esperando... O que? Um olhar de incredulidade? De assombrado respeito? De horror possivelmente? ... O que obteve de Grei, entretanto, foi outro sorriso.

- Então tive sorte de cair com você - disse. - Atravessará sua conexão via satélite essas densas nuvens?

Grace voltou a centrar-se no computador, de modo que Grei não viu como a sobressaltava a calidez de seu sorriso. Mas será que aquele homem não o desconcertava nada?

Ali estava, em meio de um acidente de avião, na ladeira de uma montanha, dando a mamadeira a um bebê, com uma mulher que acabava de admitir que provavelmente fosse mais esperta que ele... E, além disso, sorria.

- Bom, e então? Pode? - Perguntou ele.

- Que se pode o que?

- Se seu computador pode ler os números através das nuvens.

- Sim, claro; ao menos, isso espero - disse ela. - Embora possivelmente muitas coisas interfiram na conexão: as montanhas, estas árvores... Ai, maldita seja!

Depois de apertar umas quantas teclas mais, na tela tinha aparecido inesperadamente um mapa do local norte ocidental do Maine... Mas nenhum pontinho mágico dizia onde estavam.

Ele se inclinou mais para olhar por cima de seu ombro.

- O que? - Perguntou.

- Não vai funcionar. Ou as montanhas tampam nossa trajetória, ou o bosque é muito denso aqui - se voltou a olhá-lo e acrescentou.

- E isso significa que o transmissor-localizador de emergência tampouco chega, porque funciona com o mesmo sistema. Se tivermos sorte, um avião estrangeiro recolherá o sinal: não deixam de controlar o canal em que emite o "T.L.E.".

Ele se aproximou mais e entreabriu os olhos para ver a tela.

- O que é um T.L.E?

- O transmissor-localizador de emergência que levam todos os aeroplanos. Se um cair, começa a mandar um sinal automaticamente para orientar ao grupo de resgate.

Grace voltou a subir no avião e procurou o T.L.E. por entre os restos; guardou sua suspeita de que Mark não fosse um piloto muito escrupuloso. A maioria dos pilotos de primeira mantinham seu equipamento impecável: sabiam que freqüentemente suas vidas dependiam disso. Mas aquele tipo era um cowboy: presumido e temerário por natureza... E não o tinha feito. Ao cabo de dez minutos encontrou o T.L.E., mas descobriu que não funcionava.

Quando o abriu, viu que uma fuga da bateria o havia corroído até deixá-lo imprestável.

Durante um instante, só um breve instante, a Grace passou pela cabeça que ela também queria matar o Mark. Ali, quebrado nas mãos, tinha a única esperança que ficava: um inútil elemento de magnífica tecnologia, quebrado por puro descuido.

Retrocedeu para sair do avião e atirou o T.L.E. no bosque tão longe como pôde. Logo secou as lágrimas que brotavam de seus olhos e olhou a Grei.

- Não serve - disse. - Está quebrado.

Grei se sentou de novo apoiando-se na fuselagem e se ocupou de Bebê. Grace limpou o computador com a manga, apagou-o e fechou a tampa.

- Sinto muito - disse. - Nada funciona. Inclusive estamos muito longe para receber um sinal de telefone móvel.

- Não é culpa sua - disse ele. Elevou a vista e sorriu de repente. - Assim acredito que tem sorte de ter caído comigo. Eu posso conseguir o que não faz a sua tecnologia, Grace. Posso fazer que saiamos daqui.

- Como diz? Não penso me mover desta montanha. Dizem que tem-se que ficar junto ao avião.

- Dizem? - Perguntou ele. Um brilho de humor iluminou seus escuros olhos de cor verde. - Os mesmos diziam que Bebê deveria estar em sua cadeirinha? Teria morrido por causa do impacto do acidente.

- Pois os que estudam estas coisas são peritos - replicou Grace, elevando o queixo. Negou-se a deixar que aquele sorriso a desarmasse.

Grei pôs no chão a mamadeira vazia e, com suavidade, colocou Bebê sobre o ombro, ao tempo que puxava do extremo de sua jaqueta para tampá-lo.

- Desta vez seus peritos se equivocam - com a mão assinalou o bosque. - Este é meu mundo, e aqui sou eu o perito. Farei que estejamos fora desta montanha e diante de um bom fogo quando chegar a manhã.

- Quem fala é seu ego masculino. Mais de uma vez um grupo de vítimas de um acidente aéreo foram encontrados mortos por atuar com semelhante excesso de confiança.

Ele se aproximou e se agachou diante dela.

- Grace, não estou alardeando. Se acreditasse que temos mais possibilidades ficando aqui, não nos moveríamos. - Falava muito a sério. - Mas me preocupa que esta tormenta piore. E quero que você e seu filho saiam desta montanha ainda esta noite.

- Mas se nem sequer sabe onde estamos.

- Saberei quando me orientar. Terei que deixá-la possivelmente durante uma hora, mas logo voltarei e os tirarei daqui.

- Não deveríamos nos separar.

Ele alargou a mão e lhe tocou a face.

- Confie em mim, Grace. Só será uma hora. E depois voltarei. Prometo.

Com aquela promessa ressonando na cabeça, Grei abriu caminho laboriosamente pela elevada ladeira do bosque, coberta de profunda neve. Agora sua habitual litania estava salpicada de maldições.

A quantas tormentas mais, a quantas provas de terror mais teria que sobreviver para compreender por que estava ali? Que espécie de poder adianta aos homens oito séculos no tempo e depois põe semelhantes obstáculos para comprovar seu valor?

Sentia falta de sua espada. Sua mão direita lhe parecia nua, perdida, sem a segurança de seu peso. Mas a espada estava ali, em casa, em seu quarto de Gu Bràth, inútil e fora de seu alcance.

Na semana anterior, em Chicago, tinha sentido falta dela com a mesma intensidade que agora. O congresso turístico foi ruidoso, concorrido e freqüentemente arrepiante. Viu muita gente com caras de diferentes cores, que falavam idiomas estranhos e vestiam roupas mais estranhas ainda; milhares, ou mas bem milhões de pessoas, todas apinhadas na cidade de Chicago, vivendo vidas inimagináveis. Sua viagem de negócios foi uma prova para ele, algo necessário para o êxito do complexo turístico dos MacKeage, mas mesmo assim desagradável. Grei tinha obtido seu objetivo de dar a conhecer ao mundo dos peritos do turismo a estação de esqui da montanha TarStone, mas tinha pago um preço por isso.

A viagem de aeroplano a Chicago quase o tinha destroçado.

E o trajeto de volta a casa tinha estado a ponto de matá-lo.

Deu a volta e começou a retroceder costa acima. Desta vez tomou uma direção mais para o norte. Devagar, foi relaxando-se. Ainda não sabia aonde ia, mas sentia, ou mais bem pressentia, que caminhava por terra conhecida. Ao menos naquelas montanhas sua força vital começava a recuperar o equilíbrio... Então soltou um bufo em voz baixa. Ele e seus homens levavam quatro anos esforçando-se por entender a viagem em que se viram embarcados, obrigados a abrir caminho naquela terra desconhecida.

Aprendendo a adaptar-se para não perecer.

O velho sacerdote, Daar, era seu único meio de sobrevivência, e aquele singelo detalhe preocupava a Grei mais do que estava disposto a reconhecer diante de ninguém. Porque no sacerdote havia algo raro, pouco natural.

Por exemplo, a venda de suas adagas e espadas por uma soma de dinheiro tão incrível. Grei tinha estudado o mercado, quando aprendeu como fazê-lo, e embora hoje em dia as apreciava como antiguidades, suas armas não valiam a fortuna que havia dito o sacerdote. Gu Bràth se adquiriu com um dinheiro que apareceu quase como por arte de magia.

E outra coisa. Por que não se surpreendeu mais o velho sacerdote ao ver que dez guerreiros perigosamente assustados invadiam sua igreja? Era como se Daar, ao igual ao dinheiro, tivesse aparecido por arte de magia, justo quando mais o necessitavam.

Aquilo preocupava a Grei mais do que estava disposto a reconhecer nem sequer diante de seus homens. Em mais de uma ocasião esteve tentado de enfrentar-se ao Daar, de lhe perguntar por que tinha acreditado na sua história com tanta facilidade e por que acessou a ajudá-los com tanto entusiasmo. Mas cada vez que pensava em abordar o tema, no final decidia não fazê-lo.

O ancião sacerdote lhe recordava muito ao homem, ou mago, ou o que diabos fosse, que tinha visto quatro anos atrás no alto do penhasco, justo antes que a grande tormenta se abatesse sobre eles. Daar levava mais curto o cabelo e a barba bem recortada, mas além da idade e a cor do cabelo, havia uma misteriosa semelhança que, no fundo, o fazia suspeitar. E suas suspeitas eram o bastante fortes para lhe fazer tornar-se atrás na hora de expor um enfrentamento com ele.

Se de verdade Daar era o mesmo homem que tinha visto fazia quatro anos, tinha que andar com pés de chumbo com ele. Porque a magia era algo com o que nem sequer um laird se atrevia a brincar, e não era conveniente zangar aos magos. assim, Grei não comunicou a ninguém seus pensamentos e se limitou a vigiar atentamente o sacerdote. Se o velho começasse a comportar-se de modo estranho, se alguma vez sua torcida e velha bengala começava a resplandecer...

Então procuraria algum modo de solucionar o problema.

No momento, desde aquele encontro estranhamente oportuno, quatro anos antes, o sacerdote não havia feito mais que mostrar-se serviçal. Graças ao Daar, agora Grei e seus homens eram membros ativos daquela comunidade, cidadãos nacionalizados que pagavam impostos, dedicavam-se ao comércio e votavam para escolher um governo que ainda não entendiam bem de todo. Sabiam ler, conduziam automóveis e funcionavam em sociedade sem chamar muito a atenção...

Em definitivo, estavam isolados do mundo, embora formavam parte dele.

Tinham jogado um manto de segurança em torno deles e caminhavam por uma corda bamba estendida entre o presente e seu passado de oito séculos.

E como nunca deixavam de ser conscientes daquela frágil fronteira temporária, todos levavam quatro anos alerta... Atentos às tormentas.

Diabos, quatro dos MacBain já tinham morrido em tormentas com aparelho elétrico, saindo a seu encontro, de forma estúpida (ou talvez desenquadrada), com a esperança de voltar para casa.

Grei não, nem tampouco nenhum de seus homens. Para bem ou para mau, tinham chegado ali e estavam decididos a reconstruir seu clã, se é que sobreviviam o tempo suficiente para engendrar filhos.

Coroou o topo da crista e se deteve a estudar a paisagem. As nuvens se abatiam baixas, coladas à cúpula, e avançavam rodando pelo bosque como a espessa fumaça de um incêndio. À escassa luz que ficava, uma chuva cristalizada em gelo cintilava e se agarrava a tudo, curvando os ramos com seu peso.

Grei baixou o zíper da jaqueta e deixou que lhe esfriasse o corpo. Pensou na nova prova que confrontava... E também na mulher que estava compartilhando-a com ele.

Grace Sutter. Tinha conservado uma tranqüilidade incrível apesar de todo o acontecido: o choque, a reanimação de seu filho, a morte do piloto e o encontrar-se desamparada nos bosques com um desconhecido... E, além disso, tinha depositado sua confiança nele quando sua tecnologia lhe tinha falhado.

Grei a admirava por isso... E isso não fazia mais que aumentar o desejo que sentia por ela.

Seria uma esposa estupenda para quem necessitasse uma mulher com valor, inteligência e resistência. Uma companheira forte, uma mulher digna de um guerreiro como ele. Seu filho demonstrava que era uma mulher fértil, e seu modo de agir diante do perigo refletia sua capacidade para tomar decisões rápidas quando era necessário.

Embora parecia que necessitava uma mão firme para guiá-la. Seu filho também era a prova de que Grace possivelmente fosse muito independente, pois voltava para o lar de sua infância com um menino... E só; quer dizer, sem o pai da criança.

Enquanto contemplava o que agora reconhecia como a colina de North Finger, decidiu que ele saberia dirigir Grace Sutter. Quando fosse sua mulher, procuraria que abandonasse sua tendência a perambular sem a proteção de seu casal.

Satisfeito da direção que seguiam suas ideias, e de sua decisão de que Grace e o menino passarão a formar parte de sua vida, empreendeu a viagem de volta e desceu a crista em direção ao avião. Já era hora de cumprir sua promessa: fazer que todos estivessem sem problema diante de um fogo quando chegasse a manhã.

Já tinham passados noventa e oito minutos desde que se separou do avião.

Naquele tempo Grace trocou Bebê, pôs-lhe duas camisetas e dois macacões de pano e voltou a acomodá-lo na mochila, sobre seu peito. Decidiu manter seu corpinho perto do seu em vez de envolvê-lo na jaqueta, porque lhe parecia que era muito pequeno para produzir suficiente calor corporal e manter-se quente; só pesava quatro quilos duzentos. Assim se vestiu com várias capas de roupa, pô-lo outra vez sobre seu peito e subiu o zíper até acima para lhe oferecer seu calor corporal.

Logo redistribuiu em uma bolsa as provisões que queria levar consigo.

Maldição, sim que confiava em Greylen MacKeage. Não se explicava por que, mas sabia que de algum modo cumpriria sua promessa de que aquela noite os tiraria ela e Bebê da montanha.

Fazia uns vinte minutos que a chuva gelada tinha começado a cair outra vez, e a luz do dia já se apagou.

Só ficava uma inquietante luz azul: um tenaz resplendor que parecia emanar dos restos do avião feito ondas concêntricas, cheias de borbulhante calidez.

Grace não sabia o que provocava aquele fenômeno, mas sua hipótese bem fundada foi que ao melhor o choque tinha alterado as energias da tormenta de gelo até encher a carregada atmosfera de íones de luz. Às vezes a mãe natureza era caprichosa.

Embora o ser humano vivesse sobre a Terra outro milhão de ano, Grace sabia que nunca chegaria a encontrar explicação a todos seus mistérios. E igualmente se alegrava da suave luz que agora reluzia em torno dela, alegrava-se dessa verdade.

Como cientista, não queria conquistar a natureza nem controlar suas leis; só desejava compreendê-la.

Aquela luz azul, que pareceu acentuar-se minutos depois da partida de Grei, só era um exemplo de por que se partiu de Pene Creek aos dezesseis anos para seguir uma carreira de ciências. Tantos mistérios, tantas coisas por descobrir, todas aquelas perguntas sem fim esperando a ser respondidas... A ciência era a paixão de sua vida, e assim que saísse daquela montanha, tinha a firme intenção de resolver por que agora estava sumida naquela luz azul...

E, além disso, descobriria por que lhe produzia tanto bem-estar, a sensação de que tudo ia se arrumar.

Ficou sentada dentro da fuselagem em um silêncio comtemplativo, abraçando Bebê, dormido contra seu peito, e dependente da volta de Grei.

Só ouvia os sons do bosque, um ranger de horripilantes gemidos: eram as árvores, protestando pelo peso da capa de gelo que não parava de crescer.

Examinou a escuridão em direção ao corpo de Mark. Estava estendido ali fora, ao frio, cobrindo-se de gelo...

Sentiu a tentação de aproximar-se e tampá-lo com algo, mas não teve suficiente coragem para fazê-lo, e essa lamentável realidade a incomodava.

Era uma covarde, não dava a um morto a dignidade que se merecia, não se desprendia de sua irmã e tampouco mantinha sua promessa de dar Bebê ao Michael MacBain...

Por muito que temia assumir a responsabilidade de Bebê, ainda lhe dava mais medo entregá-lo; era tudo que ficava de sua irmã e a única coisa autêntica que havia em sua vida.

Seu sonho de viajar pelo espaço não era mais que isso: um sonho. Em troca, Bebê era uma realidade. Criá-lo a converteria em alguém, e assim deixaria de ser só algo: um simples cérebro que ia daqui para lá em um corpo insignificante.

Os homens fugiam de sua inteligência ou a utilizavam, mas nunca viam nada mais. Não viam seu sorriso, nem seu coração, nem seus sonhos e esperanças...

Nunca viam a ela.

Abraçou Bebê para aproximar-lhe mais ao corpo. Ele sim a veria: era sua tia, e isso era quão único ninguém, nem sequer o pai, poderia tirar de Grace.

Tinha a firme intenção de cumprir a promessa que havia feito a Mary e dizer ao Michael MacBain que tinha um filho. Pelo que não estava tão segura era de quando seria o momento oportuno. Falaria com MacBain de seu filho no dia seguinte, ou dentro de dez dias, ou possivelmente de dez anos... Tudo dependia da impressão que produzisse quando o conhecesse... E de seu próprio e duvidoso valor.

De repente, como se tivesse recebido um tiro, deu um salto ao ver aparecer o Grei diante dela. Com o crepitar do bosque não o tinha ouvido aproximar-se.

- Grace? - Disse ele, enquanto aparecia para olhar dentro do avião.

- Estou aqui. Orientou-se? - Perguntou ela.

Saiu como pôde, mas não era fácil. Com Bebê preso a seu peito e as pernas que seguiam sem lhe funcionar bem, teve que agarrar-se a Grei e deixar que ele a puxasse para a pôr de pé.

- Estamos na metade do caminho da colina de North Finger - disse ele.

- Essa colina sobe pelo lado norte da montanha TarStone - repôs ela, animando-se. - Só estamos a nove ou dez quilômetros de Pene Creek.

- Conhece esta terra? - Perguntou ele.

Grace não lhe via a cara muito bem, mas percebeu a surpresa em sua voz.

- cresci aqui - disse. - De pequena ia de excursão por toda esta parte com meu pai e meus irmãos.

- Mas bem são doze quilômetros - repôs ele. - E são quilômetros longos, elevados e difíceis. Há muita neve, e no bosque não deixam de cair ramos de árvores e pedaços de gelo do tamanho de meu punho.

- Quer dizer que não o conseguiremos?

Ele a tomou pelos ombros. Sem saber por que, de repente o resplendor azul se desvaneceu, e não via Grei o suficiente para julgar sua expressão, mas sentiu que estava tenso.

- Não, não digo isso, mas tenho uma ideia melhor. A uns seis quilômetros daqui há uma cabana onde vive um velho sacerdote chamado Daar. Vou levar ali a você e a seu filho, e depois seguirei até o Gu Bràth. Então voltarei com a máquina limpa neves e com meus homens.

- O que é Gu Bràth?

- É nossa casa. Está no lado ocidental de TarStone, só a umas centenas de metros do complexo turístico. E, me diga, agarra-se a minha jaqueta tão apaixonadamente porque se alegra de tocar, ou é que tem problemas para manter-se de pé?

A rápida mudança de tema fez que ela quase não entendesse sua pergunta.

- Eu... Bem... Ainda me tremem um pouco as pernas - reconheceu.

Não era tão idiota para ignorar o problema, e menos com a caminhada que ele estava planejando.

- Maldição. Mas pode caminhar?

- Caminhei um pouco perto do avião. Não estou ferida, acredito... Me parece que só estou dolorida.

Ficou calado tanto tempo que ela temeu que tivesse zangado outra vez. Mas se estava zangado, não lhe notou na voz quando voltou a falar.

- Você pode arrumar a...? Como se chama seu filho, Grace? Só a ouvi chamá-lo Bebê.

- Bem... Exato. Bebê. Ainda não me decidi por um nome.

- Mas diz que tem quatro semanas.

- Sim, mas um nome é uma coisa muito importante. Terá que viver com ele toda sua vida.

Custou-lhe trabalho ver que Grei meneava a cabeça.

- De acordo - disse ele com voz cordial. - Pode arrumar a mochila de Bebê para me pôr ele nos ombros?

- A mochila é adaptável. Por quê? - Perguntou-se até que tamanho se ajustaria.

- Porque eu o levarei, e ele estará mais cômodo e seguro na mochila.

- Posso levá-lo eu.

Ele meneou a cabeça de novo.

- Você só tem que preocupar-se por pôr um pé diante do outro e ir atrás de mim.

Então tocou a Grace menear a cabeça.

- Você não é o Super homem, sabe?

- Falta-me um fio.

- Certamente, por sua vaidade sim que poderia sê-lo - sussurrou ela.

- Grace.

- Sim?

- Está casada?

- Não.

- Bem - disse ele, justo antes de inclinar-se e beijá-la na boca.

A surpresa fez que ficasse quieta, sem mais, petrificada como uma tola. Não lhe devolveu o beijo; simplesmente, ficou imóvel como uma pedra, sentindo como a alagavam sua força e sua calidez.

Beijava de acordo com seu aspecto: impetuoso e bastante rude.

Não se atreveu a respirar. Seu instinto lhe dizia que correspondesse ao beijo daquele homem. Quando passou a língua pelos lábios, um calafrio de natureza elétrica lhe percorreu todo o corpo.

Por um instante a tormenta de gelo se afastou. O acidente do avião nunca tinha acontecido e ela não estava de pé, na ladeira de uma montanha, enfrentando-se a um destino incerto. Para Grace só existia a sensação de Greylen MacKeage, enquanto ele a rodeava com seus braços. Cheirava como o bosque, era firme como uma rocha e tinha um sabor quente, doce e muito masculino... Notou que seus sentidos giravam descrevendo círculos caóticos. Nada em sua limitada experiência com os homens a tinha preparado para o que sentia naquele momento. A paixão a arrastou, e então pôs as mãos nos ombros dele e o separou de um empurrão.

- P... Mas por que fez isso? - Perguntou, ao tempo que se agarrava à lateral do avião. Pareceu-lhe que seus joelhos estavam a ponto de dobrar-se.

- Porque quis.

Bom, era uma resposta muito própria de um tipo como Greylen MacKeage... Por outra parte, Grace teve que reconhecer que o contato de sua boca lhe tinha parecido delicioso.

- O que haveria feito se chegar a lhe dizer que estava casada?

Ele esboçou um meio sorriso satisfeito.

- A teria beijado do mesmo jeito. Todo homem que deixa a sua mulher meter-se em uma confusão assim não a merece... E, segundo meu modo de pensar, isso faz com que você esteja disponível - tomou o queixo na mão.

- Embora seja um ponto discutível, verdade, Grace? O pai de Bebê já é história.

- Por que está tão seguro?

- Porque as mulheres que têm maridos ou amantes não vão correndo a casa quatro semanas depois do parto.

Bom, essa questão sim que não a discutiria, a verdade. Não tinha marido nem amante... Embora, por outro lado, tampouco tinha dado a luz a Bebê.

- Já está pronta para partir? - Perguntou ele.

- Sim.

- Então vejamos se podemos mudar Bebê até meu peito sem despertá-lo.

A aquelas alturas, a Grace não tremiam só os joelhos, e sim todo o corpo, e não de frio. De calor, talvez. Sentia um tremendo calor... Produziriam calor os hormônios alvoroçados?

Com cuidado, soltou-se de onde estava agarrada e se abriu o zíper da jaqueta. Logo a tirou rapidamente e saboreou o ar limpo, frio e úmido que a golpeava. Então se voltou de costas para Grei.

- Tem que me desabotoar as fivelas dos ombros - disse. - Se não levasse Bebê, me poderia tirar isso pela cabeça, mas de toda forma teremos que ajustar as correias se for ser você quem leva a mochila.

Levantou um pouco Bebê para afrouxar a tensão sobre as fivelas.

- Pronto. Já o sustento. Pode me tirar a mochila.

Habilmente, Grei desabotoou as correias, separou Bebê do peito de Grace e o pôs contra o seu. Então ela se dirigiu a suas costas e descobriu dois problemas: um, estava muito escuro para ver o que fazia, e dois: embora visse, não chegava às fivelas. Aquele homem transbordava em muito sua estatura de um e sessenta.

- Bem... Poderia ajoelhar-se? - Perguntou.

Grei estirou a cabeça para olhá-la, e ela distinguiu a expressão de seu amplo sorriso.

- Perdoe - disse ele. - Estava distraído.

Agachou-se, embora sem ajoelhar-se, e ficou em cócoras.

- Está bem assim? - Perguntou.

- De joelhos estaria mais baixo.

- Vamos, lass... Quero dizer, moça, aprendi que é melhor que um homem não se ajoelhe diante de uma mulher no primeiro dia; isso não augura nada bom para seu futuro.

- Chamou-me lass. É você escocês? - Perguntou ela, alarmada.

Por seu leve sotaque tinha acreditado que talvez era irlandês. Seria parente de Michael MacBain?

- Escocês de nascimento e de estirpe - Reconheceu ele.

- Quanto tempo faz que vive na América do Norte?

- Ah, quase três anos.

- Mas seu sotaque é tão... Tão norte-americano.

- Porque agora sou norte-americano.

- Esforçou-se em trocar seu sotaque? Mas por quê? O que tem de mau ser escocês e ter sotaque escocês? - Perguntou ela enquanto se dedicava a prender as fivelas.

- Também aprendi a expressão: "Aonde for, faz o que vir." Agora vivo aqui e quero falar como um de vocês.

Grace riu enquanto lhe dava um tapinha nas costas para lhe comunicar que tinha terminado.

- Pois se quiser parecer de Maine, tem que esquecer-se um pouco de pronunciar as consonantes finais.

Ele se levantou e se voltou para olhá-la.

- Você não tem sotaque do Maine.

- Levo quatorze anos sem viver aqui; perdi-o na universidade.

Esteve tentada de perguntar se conhecia Michael MacBain, mas o pensou melhor. Não estava preparada para reconhecer que sabia da existência daquele homem, nem sequer diante de si mesma; ainda não.

Esperaria até estar de volta em sua velha casa, já recuperada daquela pequena aventura.

- Preparada para partir? - Perguntou ele.

- Sim. Deixe só que pegue a bolsa.

- Não é a que pesa, não?

- Não. Tornei a fazer a mala e não levo mais que a comida e as fraldas de Bebê, meu computador e uma ou duas coisas pessoais. O computador não pesa; o que pesava tanto era a conexão via satélite e o outro equipamento.

Colocou a mão no avião e tirou a bolsa. Quando ele tentou pegá-la, ela a apertou contra seu peito.

- Não... Posso levá-la. Não pesa muito, de verdade.

Ele abriu bem os pés e cruzou os braços.

- Quer me dizer o que leva nessa ditosa bolsa que seja tão importante como para que não a perca de vista? Desde que a conheci não fez mais que cuidá-la como um bêbado cuida de sua garrafa.

Grace apertou mais a bolsa e elevou o queixo, negando-se a ceder naquele ponto. Dava-lhe igual a aquele homem tivesse um aspecto tão impressionante, aterrador inclusive, e que parecesse capaz de deter um trem cargueiro. ia levar sua bolsa.

- Coisas pessoais - disse. - Coisas muito valiosas.

- Nada é o bastante valioso para arriscar o pescoço. Assim, me diga, o que há nessa bolsa, Grace? Milhares de dólares? Drogas ilegais?

- Não.

- Então o que?

- Minha irmã.

 

A única reação de Grei foi cravar a vista na tremula mulher que tinha diante. Acabava de dizer sua irmã?

- Mary? Sua irmã Mary Sutter? - Perguntou por fim em um sussurro entrecortado, esperando com toda sua alma ter ouvido mal.

Ela assentiu.

Ele a olhou em silêncio.

- Mary morreu? - Perguntou. Tinha compreendido por fim.

Grace Sutter voltou a assentir.

Grei recuou um passo e se escorou do lado do avião. Depois se inclinou até apoiar as mãos nos joelhos. Olhando ao chão, perguntou:

- Onde? - Elevou a vista para ela. Mal distinguia sua cara, absolutamente branca, na crescente escuridão. - Como?

- Um acidente de automóvel - disse Grace.

Ele baixou o olhar até a bolsa que ela apertava com dilaceradora intensidade.

- O que quer dizer com que Mary está aí?

Viu que ela voltava a subir o queixo.

- Fiz que a incinerassem para trazê-la para casa. Está dentro de uma lata, nesta bolsa.

Grei se endireitou e se esfregou várias vezes a face com as mãos tratando de apagar a imagem da Mary Sutter, tão feliz, animada e satisfeita com a vida, que agora não era mais que um punhado de cinza.

- Maldição... - olhou a Grace. - O sinto. Não sabia.

- Disse que conhecia a Mary?

- Sim. Comprávamos-lhes ovos e ervas. Era uma boa vizinha e uma boa pessoa.

- Sim que o era.

- Sinto muito - repetiu ele. Não lhe ocorria outra coisa que dizer. Aproximou-se e estendeu a mão. - deixe que eu leve a bolsa, Grace. Tomarei cuidado. Você preocupe-se tão somente de pôr um pé diante do outro. O caminho será duro.

Ela vacilou, mas ao fim lhe entregou a bolsa. Grei a agarrou com suavidade, incapaz de acreditar que fosse descer Mary Sutter por aquela montanha, tão perto da casa onde tinha vivido tão somente cinco curtos meses antes.

- Passou com você estes últimos meses? - Perguntou ele, sem iniciar a marcha ainda.

Queria comentar outro detalhe, mas não tinha pressa por tirar o tema. Agora não, e menos depois de saber que Grace estava de luto pela morte de sua irmã.

- Sim. Foi visitar-me.

- Me alegro de que estivessem algum tempo juntas.

- Eu também.

- Bem... Por acaso trocou os sapatos enquanto esperava que eu voltasse? - Perguntou ele, incluindo com habilidade sua pergunta na conversa.

- Os sapatos? Não. Por quê?

- Leva sapatos de lona, Grace. Não tem botas?

- Não - ela baixou a cabeça. - Se lhe disser a verdade, esqueci por completo que aqui era pleno inverno. Nem sequer me lembrei das botas.

Maldição, pensou ele. Bom, olhe por outro lado, estava a ponto de averiguar o quanto era valente ou quão apreensiva Grace Sutter era de verdade.

- Então, quero que ponha as botas de Mark, Grace.

- Como? - Perguntou ela quase sem respirar, ao mesmo tempo que se voltava para olhar o pinheiro junto ao qual jazia o piloto morto.

- Falo da diferença entre conseguir descer esta montanha ou não poder nem caminhar sequer porque molhou e congelou seus pés. Fará-o, Grace? Se as trago, as porá?

Ela se deu a volta de novo para olhá-lo. Grei viu o branco que rodeava por completo suas formosas pupilas azuis e lamentou ter que fazê-la passar por aquilo... Mas não havia outro remédio.

De repente Grace se endireitou e com voz crispada disse:

- Pô-las-ei.

Depois de soltar um suspiro de alívio, Grei lhe passou de novo a bolsa e se aproximou do pinheiro. Tomando cuidado com Bebê, e agradecido à maravilhosa mochila que tão bem o segurava, agachou-se e se apressou a tirar as botas de Mark. Depois as levantou e as mediu com a mão. Por sorte, o piloto era um daqueles franceses pequenos e enxutos que povoavam os bosques do local e não calçava um quarenta e seis.

Talvez as botas fossem um pouco grandes para Grace, mas com outro par de meias lhe manteriam os pés secos e permitiriam caminhar bastante bem.

Teria dado um olho da cara por poder acender um fogo para secá-la de todo antes de iniciar o caminho, mas não havia nenhuma lasca visível: até o último pedaço de madeira boa para queimar estava enterrado em baixo de quase um metro de neve ou coberto de gelo. Diabos, nem sequer podia lhe oferecer a segurança de uma lanterna.

Ele não necessitava luz para chegar até o pé da montanha; tinha uma magnífica visão noturna, e, além disso, seu corpo produzia calor mais que suficiente para si mesmo e para Bebê. Mas Grace o preocupava muito.

Devia pesar uns cinqüenta e cinco quilos, e não tinha nem sua força nem sua resistência física. E, para o cúmulo, só fazia quatro semanas que tinha dado a luz. Possivelmente a caminhada montanha abaixo fosse muito para ela.

Entretanto, tinha coragem, isso sim reconhecia. Estava orgulhoso da calma com que se tomava todo aquilo. Poucas mulheres estariam tão tranqüilas, teriam ânimo de colaborar e, muito menos, mostrariam-se simpáticas depois de ter se estrelado na ladeira de uma montanha com um avião. E ela, que por méritos próprios era capaz de tomar decisões sobre sua sobrevivência, estava depositando sua confiança nele.

Isso era o que mais impressionava.

Com sua faca cortou o cinturão que mantinha Mark no assento. Depois lhe tirou depressa a jaqueta e a comparou com a jaqueta que Grace levava posta. Não lhe representaria nenhuma vantagem, assim, com cuidado, usou-a para tampar Mark e resguardá-lo dos elementos. Seguia criticando duramente a aquele homem, mas, em consciência, não podia deixá-lo ali desprotegido. Então meneou a cabeça. Já começou; a bondade de Grace Sutter ia já infiltrando-se em sua condenada alma.

Retornou com as botas junto ao avião. Ela havia tornado a sentar-se no chão e já tinha tirado as sapatilhas. A seu lado tinha uma mala aberta, com seu conteúdo espalhado pela neve.

- encontrei meias secas - disse. - Há algo que você queira levar?

- Não.

Grei se agachou e lhe pôs ele mesmo as botas. Uma vez seguro de que não eram muito grandes, acabou de atar os cordões da última e agarrou as pernas, justo por debaixo dos joelhos.

- Que tal estão suas pernas? - perguntou, passando a mão por ambas as panturrilhas. - Doem?

- Não são as pernas - se apressou a dizer ela, ao mesmo tempo que tentava afastar-se discretamente. - É as costas. Deu-me um puxão, mas não é para tanto.

Agarrou-lhe os pulsos para deter seu exame.

- O diria se de verdade estivesse ferida. Deixaria que partisse sem mim.

- Isso mesmo pensei fazer - reconheceu ele.

- Então, por que não o faz?

Grei meneou a cabeça, embora soubesse que ela talvez não o visse.

- A preocupação me mataria. Prefiro ir devagar e ter a você e a seu filho justo a meu lado, onde possa cuidá-los. Aqui é impossível acender um fogo de sobrevivência, e ao melhor a vencia o frio antes de minha volta.

Grace ficou calada por tanto tempo que Grei temeu que estivesse pensando a sério aquela possibilidade. Por isso, quando ao fim se decidiu a falar, não lhe surpreendeu seu comentário.

- Poderia levar Bebê - disse. - Eu me poria toda a roupa que há em nossas malas. E a verdade é que não faz tanto frio. Quase não faz vento, e a temperatura só está um pouco a baixo de zero. Eu estaria bem.

Suas palavras acabaram em algo parecido a um chiado entrecortado.

- Respire mais devagar, Grace. - Grei lhe agarrou a parte de trás da cabeça e, com suavidade, empurrou-a para os joelhos. - Conte até dez entre respirações.

Ela se soltou, zangada, e lhe espetou:

- Não estou histérica; só sou razoável.

- Você Virá comigo. Agora me diga se ainda tem sangramentos - confiou em que a rápida mudança de tema a distrairá.

A sua pergunta só respondeu o silêncio.

- Tem-nas? - Repetiu.

- O que?

- Perdas de sangue, pelo parto.

Durante um instante não obteve resposta. Ao fim Grace sussurrou:

- Insinua que minha histeria tem que ver com minha condição de mulher?

Grei beliscou a ponta do nariz para que não lhe visse o sorriso.

- Grace, se tiver que sabê-lo, é só pela caminhada que estamos a ponto de empreender. De modo que o perguntarei outra vez. Está sangrando?

- Não! - Gritou ela ao cabo de vários segundos de silêncio.

Bom, ao menos Grei tinha conseguido duas coisas: a fazer esquecer por completo os reparos que sentia por ir com ele... E envergonhá-la até deixá-la muda. Seu sorriso se ampliou ainda mais. Provavelmente, tinha-a irritado tanto que agora quereria descer a montanha sozinha. Então se levantou, baixou a mão e puxou ela até levantá-la a seu lado.

- Vamos, já nos atrasamos bastante - disse. - Vê o bastante para me seguir?

- Sim.

Ele titubeou.

- Tente pisar em meus rastros, e se cansar, diga-me que avançaremos com calma.

Ela ficou a andar sem esperá-lo. Grei colocou no ombro a bolsa que continha a sua irmã e correu para alcançá-la. Logo passou na frente, rindo em silencio.

Sim, Grace Sutter o conseguiria.

Quando lhe pediu que parasse, levavam caminhando quase uma hora. Grei procurou um lugar sob uma copada pícea, a única espécie de árvore que parecia capear aquela tormenta de neve sem problema.

Agora os protegeria da chuva, já torrencial, que só se congelava ao dar com algo frio. Ele tinha o cabelo empapado, e a água lhe corria pelo pescoço da jaqueta.

Bebê estava dormindo. Em realidade, Grei agradecia que o pirralho fosse tão pequeno. Bastava só comer e dormir, não pesava quase nada, e estando seco e quentinho, não era consciente do perigo no qual se encontrava.

Foi ao lugar onde Grace se deixou cair como uma pedra e se sentou a seu lado.

- Como você está? - Perguntou.

- Bem. Até me entraram calor nos músculos. Mas estou completamente suada.

Isso não era bom: a roupa molhada roubava o calor do corpo.

- Abra o zíper da jaqueta - disse ele. - Talvez devesse tirar umas quantas capas de roupa.

- Tenho sede.

Ele pensou.

- Tome um pouco de neve para chupar a água, mas cuspa-a; não a retenha até que se derreta toda.

- Por que não?

- Gastará muito calor corporal em derreter a neve. Limite-se a chupar a água que solte diretamente e cuspa o resto.

- Como sabe todas estas coisas?

Ele sorriu na escuridão.

- Sou das Terras Altas - disse. - Os truques de sobrevivência invernal se aprendem desde o berço.

- Por que veio a América do Norte? E por que a Maine?

O que ia contar?... Não muito, certamente.

Deu de ombros.

- Pareceu-me uma boa ideia. Nós quatro queríamos construir uma nova vida sozinhos, e Maine, embora um pouco mais arborizado que as Terras Altas, pareceu-nos um lugar tão bom como qualquer outro.

Não podia lhe contar que Daar, o velho sacerdote, tinha-os convencido de que naquelas montanhas estava seu destino.

Má sorte que Daar também tivesse salvado a vida dos MacBain... Embora todos tinham morrido por sua incapacidade para adaptar-se. Todos menos Michael MacBain. E o bastardo, ao ver-se de repente só neste mundo estranho, seguiu-os até Maine.

Grei teve que recorrer a todo seu poder como laird de seu minguado clã para evitar que seus homens mandassem Michael MacBain ao inferno com os outros.

- Já estou preparada. Quanto acredita que percorremos? - Perguntou Grace.

- Mais ou menos quilômetro e meio - disse ele com sinceridade, agradecido porque não seguisse sua anterior linha de interrogatório.

- Quilômetro e meio!

- A capa de gelo que cobre a neve está aumentando, e mal poderá caminhar sobre ela. Claro que, por outro lado, então existirá o risco de que se escorregue e caia.

- Não vamos conseguir, não é?

- Claro que o faremos - disse. - Asseguro que estará diante de um fogo quando amanhecer.

Três horas depois Grei teve claro que, pela primeira vez em sua vida, ia romper uma promessa feita com sinceridade.

Ela já não podia caminhar mais. A capa de gelo era agora mais grossa e suportava seu peso, embora, como temia, em mais de uma ocasião Grace tinha caído por uma raiz suspensa ou tinha tropeçado em uma rocha coberta de neve.

Mas desta vez Grei viu que a queda tinha acabado com sua resistência.

Ajudou-a a levantar-se e afastou o cabelo da face. Ao retirar a mão a notou úmida, e soube que não era de chuva. Grace estava chorando, em silêncio, sem dizer nenhuma palavra.

Tinha que deixá-la ali, e isso ia contra todos seus instintos. A temperatura ainda descia abaixo de zero grau, mas Grace estava ensopada até os ossos e, além disso, não suava nem tiritava; seu corpo, esgotado, já não produzia calor.

- Sente-se e descanse - disse, enquanto a ajudava a meter-se sob o dossel da gigantesca pícea.

Depois foi daqui para lá, medindo a casca de gelo com o pé, até encontrar um lugar onde o pé a atravessou e ele se afundou até a coxa. Então recuou e, com cuidado, tirou Bebê de seu ninho.

- Está dormindo. Acredito que deveria lhe dar a mamadeira. Pode fazê-lo? - perguntou.

- Sim - respondeu ela. Mal ouviu sua voz.

Pôs Bebê nos braços e tirou uma das mamadeiras que tinha colocado na parte de baixo da mochila para mantê-la quente.

- Quando você acabar, trocarei-lhe a fralda. É importante mantê-lo seco.

Não respondeu. Estava muito ocupada concentrando-se em sua tarefa. Grei a olhou durante um momento. Logo voltou para o buraco que havia feito no gelo e começou a cavar. Cavou a neve seca que tinha ficado enterrado sob o gelo e formou uma cova bastante grande para uma pessoa. Depois rompeu vários ramos de pinheiro e de pícea, sacudiu-lhes a neve e as pôs no chão do oco.

Satisfeito de seu trabalho, retornou junto a Grace. O menino se agitava, inquieto, em seus braços. Grei o agarrou, o pôs no ombro, e o bebê soltou um arroto que teria orgulhado a um bêbado.

Então tirou a jaqueta, pô-la no chão e rapidamente lhe trocou a fralda. A seguir envolveu Bebê na jaqueta para protegê-lo dos elementos e se voltou para Grace.

- Como está? - Perguntou.

- Bem.

- Grace - disse em tom tranqüilo enquanto lhe tirava a jaqueta. - Acredito que é hora de que troque de roupa.

- Não trouxe nada - disse ela, tentando cobrir-se mais com a jaqueta.

Ele a arrancou à força.

- Vou lhe dar minha camiseta e meu pulôver.

Viu que ela abria mais os olhos, com gesto de alarme.

- Com que ficará você?

- Minha jaqueta é impermeável, mas sua jaqueta não. Levarei a mochila de Bebê sobre o peito nu, e a jaqueta tampará aos dois.

- Mas se só levo seu pulôver, se molhará em seguida.

Bom, ao menos parte do cérebro seguia funcionando... Isso lhe deu esperanças.

- Não, Grace - disse. - Porque vou colocá-la em uma cova impermeável. Mas não posso colocá-la lá molhada. Me ajude a lhe tirar a blusa.

Ela se limitou a olhá-lo piscando; não compreendia seu plano. Diabos, provavelmente nem sequer se daria conta de que ia deixá-la até que partisse...

Grei esperava que então Grace não se deixasse levar pelo pânico e tentasse segui-lo: ia ter que atar bem a cova, uma vez que a colocasse dentro.

Não gostava da ideia de enterrá-la nesse buraco, mas não lhe ocorria outra coisa. Tinha que mantê-la viva o tempo suficiente para conseguir ajuda.

Soltou a mochila de Bebê pelos ombros e depois tirou ao mesmo tempo o pulôver e a camiseta. Depois agarrou as molhadas camisetas de Grace por baixo e as tirou depressa pela cabeça.

A pele que havia debaixo delas brilhou, branca como as açucenas, em contraste com a escuridão.

- O sutiã também, Grace... - Disse, lhe rodeando o torso com a mão para desabotoar a presilha.

Não o encontrou, mas viu que ela levava as mãos à parte dianteira do seio. Então lhe afastou os frios e trêmulos dedos e esteve ao menos um minuto tentando desabotoar as complicadas presilhas; ao fim reconheceu sua derrota e rasgou o delicado tecido.

Sua pele estava fria ao tato. Ao dar-se conta de que estavam ali os dois, nus de cintura para acima, Grei se apressou a agarrá-la e a cobriu com um abraço para lhe transmitir parte de seu calor. Imediatamente, Grace se aconchegou contra ele, que fechou os olhos com um grunhido ao sentir quão fria estava. Depois colocou a cabeça dela sob seu queixo e a abraçou com força.

- Meu Deus, que quente está - murmurou ela.

Ele não respondeu; assustava-o muitíssimo. O lógico teria sido que lhe desse uma bofetada por aquele contato tão íntimo... Mas, pouco a pouco, o congelamento ia apoderando-se de seu corpo.

Grace ia apagando-se, e ele não podia fazer nada para evitá-lo...

Só abandoná-la.

- OH, diabos! - Grunhiu.

Então voltou a puxar a cabeça de Grace, baixou a boca até dar com seus lábios e a beijou com uma intensidade que lhe esquentou o sangue quase até fazê-lo ferver. Ao mesmo tempo, tirou uma mão de suas costas e a levou até seus seios, os cobriu por completo e lhe transmitiu seu calor à força de vontade.

Ela abriu a boca e aceitou seu ataque. Emitiu um som que parecia ser mais um produto do desespero do que da luxúria, e começou a retorcer-se até ficar escarranchada sobre seu colo. Depois lhe rodeou a cintura com as pernas e o pescoço com os braços, e puxou ele mais ainda, como se desejasse meter-se sob sua pele.

Grei se envergonhou de si mesmo. Grace Sutter agia por instinto; necessitava aquele contato com urgência, queria absorver seu calor, sua energia vital... Mas ele não podia deixar de beijá-la.

Parecia um cubo de gelo e tinha sabor de luz do sol. Desejava-a. Desejava que vivesse.

E queria descer daquela montanha para convertê-la em sua mulher.

Teve que obrigar-se a afastar a boca, mas seguia sem poder deixá-la. Então a cobriu de beijos: os olhos, as faces cobertas de lágrimas, o nariz, o queixo, a garganta...

Baixou mais os lábios, até os seios, e os beijou quando ela arqueou as costas para intensificar o contato de sua boca.

Ele tremia preso do desejo.

Ela tremia diante da necessidade de obter seu calor.

Com muita inapetência e bastante força de vontade, Grei se endireitou e voltou a estreitar Grace, a envolvê-la em seus braços rodeando-a por completo. Em silêncio, abraçou-a todo o tempo que pôde, enquanto sentia que lentamente, o frio ia colocando através da pele nua. Por fim, com suavidade, afastou-a. Depois de lhe dar um rápido beijo na testa, passou primeiro pela cabeça sua camiseta e logo seu pulôver. Depois os baixou até as molhadas calças.

- Grace...

Sua voz soou crispada inclusive a ele mesmo, e isso o irritou. Queria lhe dar impressão de segurança.

Ela elevou a vista. Seus grandes olhos azuis eram dois desolados círculos de desconsolo.

- Tenho que deixá-la - disse. - Não demorarei muito; só umas horas.

- Vai deixar Bebê? - Ela se agarrou a seus braços, e de repente o desconsolo se transformou em puro desespero. - Por favor, leve-o.

- Farei-o - acariciou o cabelo molhado. - Ele não me entorpecerá a viagem. Porei-o a salvo e depois virei buscá-la.

Aquilo pareceu acalmá-la. Acomodou-se de novo, logo se voltou e começou a procurar sua jaqueta. Ele a encontrou antes e a colocou longe dela.

- Não; está ensopada. Não fará mais que congelá-la mais rápido.

Ela se limitou a olhar onde estava a jaqueta. Então Grei a agarrou nos braços e a levou a cova que tinha escavado.

- Vou colocá-la aqui dentro, onde estará a resguardo do tempo - tomou-a pelo queixo e fez que o olhasse. - Quando você estiver dentro, fecharei a cova. Entende-o, Grace?

Notou na mão que o queixo se movia devagar, acima e abaixo. Então se inclinou para diante e a beijou nos lábios.

- É assim que eu gosto, lass. Grace dão-lhe medo os espaços pequenos?

Ela moveu a cabeça de lado a lado. Ele a beijou outra vez, primeiro em uma fria face e depois na outra.

- Bem. Então, vamos lá.

Colocou-a pelos pés no buraco.

- É muito pequeno. Não caibo.

- Sim que cabe. Faça um novelo, igual a seu pequenino quando estava dentro de você. Assim estará mais abrigada.

Ela apareceu a cabeça pelo buraco e o olhou.

- Eu não... Não sou valente - disse, como se confessasse seu maior pecado. - Sou covarde.

- Não é. A coragem não é mais que ter a possibilidade de escolher e, entretanto, fazer o que dá medo. Hoje mostrou mais coragem que nenhuma pessoa das que conheço, Grace Sutter. E seguirá lutando...

Por seu pequeno e porque me enfurecerei muitíssimo se não o fizer.

Inclinou-se até que seus narizes quase se tocaram.

- E acredite - disse em voz baixa. - Esta cova lhe parecerá o céu comparada com meu mau humor.

Esteve a ponto de cair quando ela o beijou. Grace inclinou a cabeça e, com seus frios e suaves lábios, roçou os dele... E o coração de Grei esteve a ponto de deixar de pulsar. Então a sustentou pela parte de trás da cabeça e fez mais intenso o beijo.

Ela abriu a boca, aceitou sua língua outra vez e a chupou brandamente com inocente ardor.

Nesta ocasião foi Grei quem quis meter-se na pele dela. Aquela mulher o torturava com seu desespero... E com sua incrível confiança. Estava beijando-o; não chorava nem protestava encolerizada para que a levasse com ele.

Nem sequer questionava sua decisão.

Limitava-se a beijá-lo, sem mais.

Voltou a puxar Grace até tirá-la do buraco, justo o suficiente para rodeá-la outra vez com seus braços. Então deslizou as mãos para cima, sob a camiseta e o pulôver que era dele, mas que agora levava ela.

Uma vez mais, cobriu-lhe os seios enquanto bebia seu gemido com a boca.

De repente uma grande parte de gelo lhe golpeou nas costas. Grei interrompeu o beijo e cravou os olhos em Grace; suas mãos ainda a sustentavam intimamente.

- Obrigado - sussurrou ela. Cobriu-lhe as mãos com as suas e as apertou contra seus seios.

- De nada - sussurrou ele também, lhe olhando a boca.

- Não... Não procure nenhum sentido no que acaba de ocorrer - disse ela. De repente se tornou atrás e se pareceu mais a si mesma. - Seus beijos só dão calor.

Grei lhe afastou as mãos dos seios e lhe alisou o pulôver.

- Posso ficar com a bolsa? - Perguntou Grace.

Ele necessitou um momento para recuperar-se e poder lhe responder. Meneou a cabeça. Ele ainda sentia os efeitos do beijo, e ela já voltava para a vida real.

- Sim - disse, embora, para si, encolheu-se diante da ideia de colocar também na cova a sua irmã morta. Ficou de pé e procurou a bolsa. Depois de tirar dela algumas coisas de Bebê, a levou e a pôs a seu lado .

- Grace, não quero que durma, entende? Tem que manter-se acordada até que eu retorne.

- Sei. Se não, possivelmente não desperte nunca.

Satisfeito de que compreendesse as conseqüências, alargou a mão e passou um dedo pelo rosto.

- Enquanto eu não esteja, Grace, quero que passe o tempo pensando em um nome para seu filho. Espero ouvir sua resposta quando voltar.

Não lhe disse nada. Estava muito atarefada rebuscando em sua condenada bolsa outra vez. Viu-a tirar uma fina caixa negra que reconheceu como o ordenador que tinha usado antes. Depois a abriu e apertou um botão: a máquina começou a cantarolar e a fazer ruídos raros, e, de repente, a pequena cova se alagou de luz.

Grace elevou o olhar para ele.

- Vou escrever uma carta. E assim tampouco estará escuro aqui dentro - disse. Alargou a mão e passou o dedo pela face. - Muito bem. Me tampe.

Ele viu que inspirava fundo.

- Estou preparada.

- Nunca diga que é covarde, Grace. Não volte a usar jamais essa palavra para referir-se a você - disse ele. Sentia um nó de angústia na garganta.

Maldição, desejou que tivesse esperado a que ele partisse para iluminar-se. Agora não se tiraria sua imagem da cabeça.

Via-a bem... E não era uma visão tranqüilizadora. Não ficava cor na cara: estava tão branca como a neve que a rodeava. Tinha o cabelo empapado e os olhos afundados. Quão único via com um pouco de cor eram seus lábios, e estavam azuis.

Pelo visto, seu ardor só tinha conseguido esquentá-la o suficiente para que tiritasse outra vez. Mas quanto duraria esse calor?

Grei se obrigou a afastar-se. Com o punho, começou a esculpir uma grande laje de casca de gelo e golpeou até que lhe puseram as mãos em carne viva; era o modo de descarregar sua frustração pelo que estava a ponto de fazer.

Logo agarrou a prancha e a levantou sobre Grace. Desta vez tocou a ele inspirar para acalmar-se. Estava agarrada ao computador como se fosse um salva-vidas, e a luz se refletia em suas pálidas feições.

- Vou voltar, Grace. Dentro de umas horas estarei tirando-a daqui.

- Sei.

Começou a pôr a laje em cima da entrada.

- Grei...

- Sim? - Disse ele, afastando a coberta de gelo.

- O calor não é o único motivo de que eu goste de seus beijos - reconheceu ela em voz baixa, sem olhá-lo.

- Sei - disse. - Gosta de beijar a um super-homem.

- Mmm - murmurou Grace, sem olhá-lo ainda. - Um pouco parecido.

- Amanhã, lass, quando estiver sentada diante da lareira bem quente de Gu Bràth, explicarei-lhe por que gosta tanto - sussurrou ele.

Pôs a laje de gelo sobre a entrada, colocou-a em seu lugar com uns tapinhas e a protegeu com mais neve.

Então fechou os olhos e começou o rosário de orações que estava acostumado a reservar para quando voava em avião. Já tinham funcionado uma vez aquele dia ao permitir sobreviver a uma queda em picado de novecentos metros; confiou em que funcionassem de novo para manter Grace a salvo.

Feito isso, apressou-se a retornar junto a Bebê. Voltou a colocar a mochila sobre o peito nu e depois abriu a jaqueta. Bebê, felizmente alheio a que estava em metade de uma perigosa marcha, dormia de novo. Grei o agarrou, beijou-lhe a pequena face, meteu-o em sua mochila e colocou a jaqueta outra vez. Logo agarrou a camisa e a jaqueta de Grace; pensando na volta, pendurou-as de um ramo incrustado no gelo, à altura dos olhos para assinalar o lugar.

Por último, voltou a dirigir-se para o pé da montanha. Desta vez, a julgar por seu ritmo, parecia como se uma matilha infernal fosse lhe pisando nos calcanhares.

Grace esperou até estar segura de que ele partiu para explodir em fortes e dilaceradores soluços. Tinha sobrevivido com Grei ao espantoso acidente, tinha discutido com ele e o tinha ajudado. Ele tinha escutado suas opiniões, tinha comentado com ela as opções que tinham e tinha concedido a dignidade de cair lutando. Nem sequer uma vez tentou ignorá-la para tomar o controle absoluto da situação.

E ela sabia muito bem que se tivesse discutido com ele a decisão de ficar ali, Grei teria morrido tentando levá-la consigo.

Aquele dia tinham forjado um vínculo que ela ignorava que pudesse existir entre duas pessoas. Juntos tinham lutado por sua sobrevivência, e estavam ganhando.

Agora estava ali, aconchegada dentro de uma cova de neve como um urso em hibernação, mas Grei voltaria a procurá-la. Sabia que o faria.

Claro que não era idiota. Também sabia que na viagem montanha abaixo poderiam acontecer mil coisas, e que não havia garantia nenhuma de que ele conseguisse voltar a tempo.

De modo que ia abrir seu programa de processador de textos para escrever seu testamento.

E, além disso, ia escrever uma carta a Michael MacBain.

Ela era a única pessoa do mundo que sabia quem era o pai de Bebê; não podia levar à tumba aquele segredo.

 

O velho mago abriu a porta e saiu ao alpendre da cabana. Sem importar o aguaceiro que lhe aguilhoava a cara, elevou a vista para onde estava o TarStone, escuro e paciente em sua indiferença. Não via mais à frente da clareira que rodeava sua casa, mas apesar de tudo sentia a sólida presença da montanha.

Também sabia que ali passava algo raro.

A tormenta tinha chegado com passo estranhamente silencioso, baixando com sigilo pela crista oriental como um animal de presa. A chuva começou no dia anterior pela manhã. Ao princípio, parecida com uma neblina que se agarrasse a tudo que tocava, como a geada; logo, depois do meio-dia, fez-se contínua e, implacável, encerrou ao mundo sob uma reluzente capa de gelo. Agora, já a altas horas da madrugada, a grossa capa de gelo o sepultava tudo e tinha mais de centímetro e meio de espessura.

Daar subiu até a recortada barba o pescoço de seu jaquetão de lã escocesa a quadros vermelhos. O abajur de querosene que tinha aceso no alpendre ao anoitecer, e que já tinha enchido três vezes, ia apagando-se de novo por falta de combustível.

Então elevou a mão, desprendeu-a do prego e a levou para dentro para preenchê-la. Sua sensação de urgência era mais forte que nunca.

Algo esta mal na montanha.

Não se tinha sacudido aquela sensação de crescente perigo desde que chegou a tormenta, e levava da noite anterior sem comer nem dormir. Em seu lugar, velava. Preenchia os abajures e andava de um lado a outro do alpendre até que o frio se filtrava em seus cansados e velhos ossos e o mandava de volta junto ao fogo. Já se cumpria a sétima hora de constante ritual.

Enquanto vertia o resto do querosene no abajur, mentalmente recordou que devia pedir a Grei que levasse um pouco mais.

Ainda ficavam velas, e a velha lareira feita de pedras de rio também dava um pouco de luz, mas gostava do resplendor dos abajures de querosene.

De repente, quando se dispunha a colocar de novo o tubo no abajur, ficou quieto um instante e retornou à porta principal. Agora a sensação de urgência era mais forte. O que quer que fosse que havia lá, na montanha, estava se aproximando.

Agarrou o abajur, tirou-o outra vez ao alpendre e voltou a pendurá-la no prego que sobressaía da lateral da cabana. Apoiado em sua forte e nodosa bengala, caminhou até a bordo do soalho, feita de sólidas pranchas, e olhou para o TarStone.

O cabelo lhe arrepiou na nuca. Algo preso de urgência, desespero e medo se movia para ele a um ritmo incansável, e a energia que o precedia era tão poderosa que fez retroceder ao ancião.

Aquilo ao fim irrompeu na clareira com o estrondo de uma bateria de canhões em pleno ataque. Sobre um crepitar de ramos retumbou a explosão de umas pegadas que rompiam com força a casca de gelo. E então, sem reduzir a marcha, Greylen MacKeage subiu de dois em dois os degraus do alpendre e passou a toda velocidade diante dele, sem vê-lo sequer.

Antes que o velho tivesse tempo de cruzar a porta, Grei entrou e tirou a toda pressa a jaqueta.

- Daar! - Gritou na vazia cabana.

- Estou aqui - disse o sacerdote em tom tranqüilo, ao mesmo tempo que entrava atrás dele ao calor do quarto. - O que aconteceu? O que necessita?

Grei deu a volta, e Daar retrocedeu um passo. Nos olhos do guerreiro havia algo inexplicável... E aterrador.

Abriu o zíper da mochila que tinha atada ao palpitante e suarento peito, e tirou um bebê que se retorcia e choramingava, pouco maior que um gatinho ou um filhote de coelho.

- Está ensopado - disse entre fatigados fôlegos. - Tem que secá-lo antes de que se esfrie.

- Que tenho que o que? - Perguntou Daar assustado, enquanto olhava ao pequenino que Grei tinha posto sobre a mesa. - Não sei nada de bebês.

O guerreiro fez caso omisso de suas razões e começou a despir o bebê.

- Então me dê uma toalha - ordenou. - E uma manta. Está ensopado de meu suor.

Daar se dirigiu depressa à zona que usava como cozinha, pois a cabana só tinha uma habitação, procurou uma toalha e uma manta, as levou a Grei e logo observou o que fazia.

- Quem é este menino? - Perguntou, ao ver que era um garotinho.

- É de Grace Sutter - Respondeu Grei sem deixar de limpar e secar o pequeno com rapidez e eficácia. Depois tirou uma fralda da mochila, mas se deu conta de que estava tão molhada como o pequeno.

Então a atirou ao chão e usou a toalha como uma fralda improvisada. Por último, elevou a vista para Daar. - Grace está lá no alto, na montanha, a uns cinco quilômetros daqui. Coloquei-a em uma cova de neve, mas também está molhada.

O desespero que Daar via em seus olhos resultava arrepiante.

- Não vai durar muito mais - prosseguiu Grei. - Assim vou deixar Bebê aqui e seguirei até o Gu Bràth para agarrar a máquina limpa neves.

- Não, até que não recupere o fôlego não vai a nenhum lugar - disse o velho enquanto se aproximava do balde que estava na bancada para encher um copo. - E além disso tem que recuperar a água que perdeu e comer um pouco de guisado; se não, nem sequer chegará até a ponte.

Pôs o copo de água na mesa, agora vazia. Grei ia de um lado a outro com o pequeno em braços. Tirou a mochila do peito, e o menino se aconchegava no espaço de seu queixo, chupando o punho.

- Não tenho tempo. Não entende? - disse, lhe lançando um olhar assassino. - Grace está morrendo!

- E se te passa algo antes de conseguir ajuda, que possibilidades terá então? - Repôs Daar, ao tempo que tirava uma cadeira e o guiava com as mãos até ele.

Não foi tarefa fácil. O zangado e desesperado guerreiro estava muito nervoso. Tinha os músculos das costas duras por causa da tensão que não queria liberar. Necessitava de toda sua energia, e não ia baixar a guarda até que salvasse Grace.

- Pegue a mamadeira da mochila - Ordenou.

Grei se sentou ao fim, mas com aspecto de estar preparado para voltar a levantar-se de um salto a qualquer momento. E isso foi o que fez, no mesmo instante em que Daar teve a mamadeira na mão.

- Tome. Sente-se e dê-lhe a mamadeira. - lhe passou o bebê. - Tomarei a água, mas não vou comer. Só me daria náuseas.

Daar não queria pegar o menino, mas não se sentia com ânimos de enfrentar o Greylen MacKeage... Se sentou e deixou que lhe colocasse o menino nos braços. Logo o guerreiro abriu a mamadeira, pô-lhe um bico e o passou.

- Não terá que esquentá-lo ou algo assim? - Perguntou o velho sacerdote enquanto sustentava com cuidado o bebê, que não deixava de protestar.

- Deve estar fervendo. Mantive-o quente com o calor de meu corpo - disse Grei.

Daar colocou o bico na diminuta boca e de repente sorriu ao ver que o menino chupava com entusiasmo e avidez. Satisfeito de poder encarregar-se da tarefa, elevou o olhar para Grei.

- O que aconteceu?

- Eu ia em um miserável avião que decidiu não voar mais, e nos estrelamos na colina de North Finger - bebeu de um gole todo o copo de água e foi a bancada enchê-lo outra vez. - Grace e o bebê vinham comigo. O piloto morreu.

Daar olhou pela janela que havia junto à porta em direção a TarStone.

- Você disse Grace Sutter? É a irmã de nossa Mary?

Outra onda de dor passou pela face de Grei quando olhou fixamente a Daar.

- Sim. É a irmã da Mary.

O sacerdote cravou o olhar no guerreiro com quem tinha feito amizade fazia quatro anos, quando ele e nove homens mais irromperam em sua igreja. Então estabeleceram um pacto de mútuo interesse: os homens o necessitavam para que os guiasse, e ele necessitava de Greylen MacKeage para que engendrasse a seu herdeiro.

Não obstante, Daar não tinha mencionado aquele pequeno detalhe ao guerreiro; era o bastante prudente como para não pôr em perigo seu próprio bem-estar. Quatro anos antes, o laird MacKeage se enfureceu perigosamente ao ver-se em uma situação que não controlava. De ter encontrado um branco para sua cólera... Bom, Daar estava seguro de que hoje ele não estaria ali. Aquele homem tinha um mau gênio que ninguém em seu são julgamento (embora fosse meio imortal) quereria ver dirigido contra ele.

O inquieto guerreiro bebeu de um gole outro copo de água enquanto o velho mago o observava. Aquela mulher, aquela Grace Sutter, significava algo para Grei.

De repente, animou-se. Ia conhecer por fim à mãe de seu herdeiro?

Então baixou a vista ao menino que tinha nos braços e franziu o cenho. O menino expõe um problema. Grei tinha viajado até tão longe para reclamar a uma mulher que, em teoria, ainda não devia ser mãe.

De repente o guerreiro se dirigiu para a porta.

- Já vou - disse. - Quando recolher Grace, trarei-a aqui para fazê-la recuperar o calor. Cuide do bebê e tenha um bom fogo aceso. E mantenha quente o guisado.

- Espera, esquece a jaqueta.

- Não a necessito, só me faz suar. Pus isso pelo menino, nada mais.

Daar ficou olhando.

- Está desfrutando com tudo isto - disse.

Grei o olhou zangado, como se considerasse a possibilidade de lançar-se sobre ele.

- Não! Minha mulher está morrendo na montanha!

Daar levantou a mão.

- Salvará-a. Mas retrocedeste a seus velhos modos de guerreiro: cruzamentos correndo, meio nu, um bosque gelado; esforça-te além dos limites razoáveis... Só te falta a pintura de guerra.

Grei cravou os olhos nele.

O velho o assinalou com um dedo vencido pela idade.

- Está mais animado do que estiveste em quatro anos.

De repente, o guerreiro soltou um palavrão em gaélico tão brutal que faria tremer a qualquer um.

Daar riu até que lhe saltaram as lágrimas.

- Vai ao inferno por amaldiçoar a um padre, MacKeage! - Gritou nas costas de Grei, que já se ia. - Vá salvar a sua mulher...! E traga-a de volta aqui para que eu a conheça!

Mas lhe falava com uma habitação vazia: Grei já tinha saído do alpendre e corria para Gu Bràth.

Daar secou os olhos e baixou o olhar ao pequeno, agora dormindo. Com suavidade, tirou-lhe da boca o bico que já não era necessário.

Era um menino muito bonito... E pequeno; pesava menos que sua bengala de cerejeira. O velho sacerdote sorriu diante do espetáculo que oferecia o menino. Grei tinha pego a toalha, que era muito grande, e a tinha posto em torno do traseiro do bebê e depois sobre seu peito, como se fosse um plaid, um tecido escocês. Só ficavam sem tampar os braços, as pernas e um ombro.

Foi então quando Daar descobriu outro fato perturbador que o preocupou muitíssimo.

O menino de Grace Sutter tinha doze dedos nos pés.

A visibilidade era tão ruim que estiveram a ponto de não ver Grace. Antes que a larva da máquina pisa neves se detivesse, Grei abriu a portinhola, saltou e correu para a gigantesca pícea. De um puxão, desprendeu a jaqueta e as camisetas, que estavam congeladas, enquanto olhava ao redor para orientar-se. A capa de gelo era bastante grossa e agüentava inclusive seu considerável peso. Nervoso, adiantou-se outros três metros para o norte.

Olhou para baixo e não viu mais que suave gelo branco.

Nesse momento Morgan apareceu atrás dele.

- Você disse que a deixou em uma cova de neve? - Perguntou. - Onde?

- Aqui - disse Grei, assinalando onde devia ter estado a entrada. - Justo neste ponto.

- Estava escuro - Recordou Callum, que tinha saído junto a eles com uma tocha na mão.

Grei se alegrou de que ao menos um deles pensasse com claridade. Tirou-lhe a tocha e começou a dar golpes no gelo com o passar do marcador. Continuava chovendo, mas agora que havia luz, viu que o marcador tinha quase seis metros de largura e que continuava por debaixo de toda uma saliência de pedra. Ordenou a seus homens que se calassem e escutou o golpear da tocha.

Nunca em sua vida tinha estado tão assustado como nesse momento. Nem sequer fazia quatro anos, quando a tormenta os fez atravessar o inferno. Então sua única ideia era sobreviver, mas se tivesse morrido, simplesmente tudo tivesse acabado.

Entretanto, desta vez temia pela vida de outra pessoa.

E aquele temor começava a transformar-se em pânico.

Ian se somou ao grupo. A dor nas pernas que lhe produzia a artrite o fazia mover-se com lentidão.

- Passaram horas. Essa lass talvez não esteja viva - sugeriu em voz baixa.

- Se souber o que lhe convém, mais vale que o esteja - disse Grei sem elevar a vista de sua tarefa.

Foi então quando o viu: um débil resplendor de luz azul, apenas visível, justo sob a superfície do gelo. Então atirou a tocha e se ajoelhou.

- Aqui! - Disse. - Comece a cavar, mas com os punhos, não com ferramentas.

Morgan e Callum se ajoelharam junto a ele e começaram a golpear a capa de gelo diretamente com suas calosas mãos. Ian recolheu a tocha e a usou para tirar os pedaços quebrados que iam sendo tirado.

Em menos de um minuto atravessaram a barreira com que tinha atado a Grace, e ao ver o que havia dentro, Grei fechou os olhos.

Estava morta.

Em sua face não ficava nem uma gota de cor, salvo pelos lábios azuis. Estava agarrada à lata que continha as cinzas da Mary, e quando tentou tirar-lhe não pôde: tinha os braços travados.

Grei voltou a sair do buraco. Então fechou os olhos, elevou a face para a incessante chuva e bramou com a cólera de um animal ferido.

Ian afastou Callum para aproximar-se à cova.

- Por Deus, isso despertou aos mortos - disse. - A moça se estremeceu. Asseguro-lhe isso; a lass acaba de mover-se.

Grei se encolheu como se tivesse recebido um murro. Imediatamente se meteu de novo na cova, tomou Grace pelos ombros e, com suavidade, tirou-a.

Antes que outros pudessem sair do meio, já a levava nos braços para a máquina pisa neves e ia dando ordens.

- Morgan, pega suas coisas da cova. Callum abre esta portinhola. Ian, arranca esta maldita coisa outra vez; não devia desligá-la.

- Não queria que houvesse ruído - Recordou o homem enquanto rodeava o veículo para subir ao assento do condutor.

Em prudente silêncio, Callum sustentou a portinhola para que entrasse Grei. Este não afrouxou o abraço com que sustentava à mulher, terrivelmente rígida, que ia feito uma bola como um menino ainda sem nascer. Embora Callum e Ian tinham vários anos mais que Grei, todos tinham crescido em uma época em que as palavras, as ordens e o mau gênio de um laird deviam tomar-se a sério.

E Grei se alegrou de que certos costumes antigos fossem difíceis de eliminar.

Sabia que estava sendo pouco razoável, mas não podia evitá-lo; a mulher que levava nos braços estava sem vida. A noite anterior lhe havia feito o presente de sua confiança, e ele tinha estado a ponto de rompê-lo.

Grei ocupou todo o assento traseiro, de modo que Morgan teve que viajar na zona de carga atrás, à intempérie e sob a chuva. O jovem guerreiro não se queixou. Limitou-se a lançar a bolsa de Grace dentro, junto a Grei, e a fechar de uma portada.

Ao fim de dois segundos deu um golpe no teto para lhe indicar ao Ian que iniciasse a marcha.

A grande e surpreendentemente ágil máquina pisa neves entrou em marcha com um rugido, logo deu a volta e começou sua cautelosa descida de volta pela montanha. A firme e segura larva seguiu o mesmo atalho que tinha utilizado para subir.

Ao avançar, os ramos golpeavam as janelas e o teto, e uma chuva de gelo e ramos rodavam e caía sobre o bosque, que protestava com energia. Esmagado contra o guichê traseiro, Morgan ia tampando a cabeça com os braços.

Grei não tinha nem ideia do que ocorria em torno dele. Nem sequer era consciente de que estavam movendo-se. Ia dependente de Grace. Tinha-lhe posto a mão sobre o coração e procurava um batimento.

Callum se voltou para olhá-lo.

- Meu Deus - disse. - Essa lass tem o cabelo completamente congelado.

Grei lhe tocou o cabelo; então lhe cobriu a cabeça com a mão e com os dedos rompeu o gelo, que caiu ao chão em partes como contas de cristal.

- Primeiro deveria lhe descongelar o cérebro - comentou Ian do assento do condutor, sem apartar os olhos do atalho. - A gente acredita que é o coração o que terá que esquentar primeiro, mas é o cérebro.

Grei queria lhe esquentar cada centímetro do corpo, tudo ao mesmo tempo. Com suavidade, tirou-lhe a lata dos braços e, com cuidado, meteu-a na bolsa que tinha aos pés.

Depois brigou com o botão e o zíper das calças de Grace, naquele instante ensopados e já congelados. Era difícil, porque seguia feito uma bola.

- Endireita-a - sugeriu Callum. - A entupiu assim?

- Se não fechar o bico, Callum, e não dá a volta, terá que viajar aí atrás com o Morgan - O ameaçou Grei.

Maldição; respirava, mas lhe custava muito. Sentia o batimento de seu coração, mas era tão fraco como seu fôlego.

- Olhe para frente - ordenou de novo a Callum.

Satisfeito ao ver que o obedecia, Grei tirou de Grace o pulôver, ainda seco, mas frio, depois cortou os cordões das botas de Mark para tirar-lhe e a seguir desceu o zíper das calças.

A operação de tirar foi tão difícil como despojar a uma serpente de sua pele.

O magnífico corpo de Grace estava frio como o gelo, e de um branco fantasmal.

- Me jogue as mantas que estão junto à calefação - disse a Callum, alargando a mão para pegá-las. - Sem olhar.

Depois de tirar a camisa de flanela que levava posta, tampou Grace com ela. Depois a abraçou contra seu peito, envolveu-se em uma manta e pôs a outra como uma barraca de campanha sobre a cabeça dela. Então começou a passar a mão por todo o corpo, com cuidado de não massageá-la forte para não machucar a delicada pele. Abriu as palmas das mãos sobre suas costas e a estreitou contra ele.

Fechou os olhos ao senti-la, gelada e indiferente, e de novo quis meter-se sob sua pele e usar a força de seu próprio coração, que pulsava frenético, para impulsionar seu sangue.

Em vez disso, beijou-a.

Deu uma rápida olhada para assegurar-se de que Callum seguia voltado para frente. Depois, com cuidado, afastou o cabelo da face de Grace e com os lábios lhe tocou a fria face. Voltou a passar as mãos pelas costas e apertou os seios dela contra seu peito enquanto seguia lhe beijando os olhos, o nariz, a testa... E, por fim, a boca.

Ela continuou sem reagir.

A Grei entraram vontades de gritar. Não sabia que mais fazer, além de abraçá-la forte e lhe dar seu calor, mas era como abraçar uma estátua de granito.

Percorreram os três quilômetros que havia até a cabana de Daar em silêncio. O zumbido do motor e o gelo que se fazia pedacinhos eram um aviso para tudo o que houvesse pelo caminho.

O velho sacerdote os ouviu aproximar-se e os esperou no alpendre, no mesmo lugar onde estava quando passaram antes, ao subir. Quando viu Grei com Grace nos braços, abriu-lhe a porta e o conduziu até dentro da cabana.

A onda de calor abrasador e seco esteve a ponto de esmagá-lo.

- Ponha sobre a cama - ordenou Daar.

Grei fez o que lhe dizia. Depois tirou as botas e o resto da roupa e se meteu na cama junto a Grace. O ancião sacerdote ficou do outro lado e o olhou com o cenho franzido.

- O que faz? - Perguntou.

- lhe dar calor - espetou Grei, zangado. - Preparou café?

Daar não se moveu. Limitou-se a elevar uma sobrancelha sem deixar de olhá-lo.

- Eu não sou um MacKeage - disse. - Então deixa de me grunhir.

Grei fechou os olhos e desejou ter paciência.

- Você É nosso sacerdote e está sob minha proteção, assim está sob minha autoridade.

O velho se afastou, murmurando entre dentes. Grei arrumou as mantas com as que tinha coberto Grace e também a tampou com as da cama.

Três horas mais tarde ele suava como um condenado, e a mulher que tinha ao lado, pouco a pouco, ia se aquecendo, mas ainda não se moveu, nem sequer tinha pestanejado.

Ai, que sermão ia jogar-lhe por ter ficado adormecida em vez de concentrar-se na tarefa que lhe impôs! Tinha que ter estado pensando em nomes para seu filho, não morrendo!

Grei deu uma olhada à parede da frente. Bebê dormia com um sono tão profundo como o de sua mãe, metido em uma caixa de madeira que o velho sacerdote lhe tinha acolchoado com roupa.

De vez em quando o ouvia suspirar e se perguntava com o que sonharia alguém tão pequeno.

Quando Daar retornou, sentou-se junto à cama com o rosário na mão e murmurando em voz baixa.

- Bom, que diabos está fazendo? - Perguntou Grei.

- Estou rezando, idiota pagão. É o que fazem os padres.

O som da porta da cabana ao abrir-se fez que Grei voltasse a cabeça. Seus três homens entravam, impregnados até os ossos e com aspecto de estarem cansados.

- Fomos ao lugar do acidente - disse Callum, meneando a cabeça. - Como me chamou Callum que não penso voltar a voar.

- Enterramos o piloto - acrescentou Ian. - O estúpido voava descalço.

Morgan ficou junto à cama e olhou com atenção a Grace.

- Parece que vai derretendo-se bem - disse com um amplo sorriso. Olhou para Grei. - E você também; está ensopado.

Depois desabotoou a jaqueta e a tirou.

- Faz um calor do demônio aqui dentro.

- Ao melhor um passeio até casa te refresca - disse Grei.

Com os olhos advertiu a seu irmão que se afastasse, mas Morgan se manteve firme, alargou mais seu amplo sorriso e voltou a olhar a Grace.

- É bonita - elevou uma sobrancelha olhando a Grei. - Necessita que te substitua um momento?

- Fora! - Disse com os dentes apertados.

Fez gesto de levantar-se e ir para Morgan, que, sem alterar-se deu a volta e se aproximou tranqüilamente do fogão para servir uma xícara de café.

- Não pudemos descer todas as coisas - disse Ian, que se acomodou em uma cadeira emitindo um cansado grunhido. Desabotoou a jaqueta e atirou seu empapado gorro sobre a mesa.

- Faremos outra viagem mais tarde, quando já nos tivermos levado a sua mulher desta montanha.

- Acredita que deveríamos levá-la a um hospital ou algo assim? - Perguntou Callum. - Não se acorda.

- O hospital está a sessenta quilômetros - respondeu Ian antes que Grei respondesse.

- Também está Doc Betters - sugeriu Morgan.

- Esse é médico de cavalos, idiota - disse Ian, revirando os olhos.

- Tem alguma ferida do acidente? - Perguntou o sacerdote sem deixar de rezar.

Grei meneou a cabeça.

- Nada grave que eu saiba. Dizia que só estava machucada e caminhou ao menos três horas até que caiu e não pôde seguir.

- Talvez tenha machucado a cabeça - sugeriu Callum. Aproximou-se da cama para examiná-la ele mesmo e, de repente, sorriu. - Morgan tem razão; sim que é uma lass bonita.

Olhou para Grei.

- Age de um modo muito possessivo. Pretende ficar a....

Grei baixou o olhar para a mulher que tinha em seus braços, e em voz baixa, como se falasse com ela, disse:

- Ao melhor. - Olhou a Callum outra vez - Segue chovendo?

- Sim. E não parece que vá amainar.

Da bancada onde estava apoiado, tomando café a goles, Morgan interveio:

- O homem do tempo diz que talvez dure dias. Umas circunstâncias estranhas apanharam muito ar frio perto do chão e ar quente por cima.

- Para as árvores esta tormenta está sendo fatal - disse Ian. - Os abedules já se dobram sob o peso do gelo e os ramos mais fracos estão partindo-se.

- Assim é como a natureza se desfaz do podre e o fraco - disse Callum. - Também tínhamos tormentas de gelo nas Terras Altas.

- As árvores se rompem e voltam a crescer - resmungou Ian. Levantou-se lentamente da cadeira e se serviu de uma xícara de café. - Mas nosso teleférico não voltará a crescer se quebrar. Este gelo está lhe acrescentando muito peso.

Com cuidado de manter tampada a Grace, Grei se incorporou na cama e se recostou na cabeceira, mantendo-a encaixada contra o flanco em atitude protetora. Na cabana o ar seguia sendo quente, mas agora, com o peito livre das sufocantes mantas, resultava-lhe muitíssimo mais fácil respirar.

- O remonte e os cabos são feitos de aço - disse a Ian para descartar sua preocupação. - São muito mais fortes que qualquer árvore; não se romperão.

- Sigo dizendo que devemos nos fazer lenhadores em lugar de nos dedicarmos a esta descabelada ideia de atender a uma turma de turistas consentidos que não têm nada melhor que fazer que vir a montanha - grunhiu Ian.

- Votamos - disse Grei pela centésima vez; já ia cansando-se das negras profecias de Ian.

Contudo, em geral, ele e os outros perdoavam ao velho guerreiro aquele defeito. Não devia ser fácil, à idade de cinqüenta e oito anos, ver-se desarraigado de repente da família como tinha acontecido com ele.

Era o único que tinha perdido uma esposa, duas filhas e dois formosos filhos quatro anos antes. Callum era viúvo, Morgan ainda não tinha decidido jogar raízes, e até o Grei tampouco tinha nenhuma pressa por procurar esposa.

Com uma prometida infiel tinha tido suficiente.

Entretanto, o certo era que a visão pessimista de Ian ia perdendo força. Além disso, se tivessem se convertido em lenhadores, como sugeria com freqüência, certamente estaria preocupado pelos incêndios florestais.

De repente Daar rompeu o silêncio.

- Talvez queira me agradecer, Grei - disse. - Minhas orações sortiram efeito: sua mulher está acordada.

Grace sonhava que estava na sauna de seu ginásio... Só que algo ia mal. Devia ter adormecido e cozer-se, porque tinha tanto calor que não podia mover nem um músculo.

De repente uma voz profunda e severa sussurrou:

- Abra os olhos, Grace.

Havia um homem na sauna? Mais por curiosidade que por obediência, abriu os olhos devagar para ver quem se atreveu a entrar na sauna enquanto ela estava dentro. Ia pô-lo no lugar por entremeter-se em sua intimidade.

Em vez disso, deu um grito.

Quatro gigantes a olhavam fixamente do alto.

- Calma, Grace. Já está a salvo - disse a mesma voz.

A salvo? Havia homens com ela, na sauna! Sem deixar de vigiá-los com a extremidade do olho, voltou-se para onde soava a voz... E de repente dedicou toda sua atenção a quem se inclinava sobre ela. Era Greylen MacKeage, o homem do avião.

E parecia estar igualmente acalorado como ela. Seu largo peito, nu e peludo, brilhava por causa do suor.

- Como entrou aqui? Esta é a sauna de mulheres.

- A sauna? - Repetiu ele com expressão de desconcerto.

- Eu disse que devíamos lhe esquentar primeiro o cérebro - disse outra voz. - Agora ficou louca.

Franzindo o cenho, Grace se voltou para ver quem tinha falado.

- Você trabalha aqui? - Perguntou, tratando de parecer autoritária.

Oxalá o assustasse só a metade do que todos estavam assustando a ela... Embora, certamente, vá se não ia sair da dificuldade com fanfarronadas.

- Grace, você não está em uma sauna - disse Grei a seu lado.

Ela o olhou.

- Faz calor.

- Está na cabana que lhe falei. Recorda o acidente de avião?

Pensou um instante. Sim, recordava o acidente de avião... E também a cova de neve. Deu um grito afogado e olhou nos olhos de Grei.

- Esperei-o - disse. - Mas você não veio.

- Sim que fui... Ficou adormecida, Grace.

- Não.

- Tinha os olhos fechados quando a encontramos, lass. Achávamos que estava morta.

Grace se voltou para dar um olhar assassino ao homem que falava. Era o mesmo que havia dito que ficou louca. Apesar de seu rosto feroz, sorria enquanto assentia com a cabeça e a olhava.

- Então, se não estava morta, devia estar dormindo - acrescentou.

Grei voltou a reclamar sua atenção.

- Em teoria, tinha que estar pensando em um nome para Bebê - disse.

- Vou chamá-lo de Bebê - disse ela, elevando o queixo.

Por Deus, pois sim que se tomou tempo para voltar a procurá-la...

Ah, já se recordava de tudo! O frio. A escuridão quando se esgotou a bateria de seu computador... E a terrível sensação de solidão.

Olhou os quatro homens que, de forma um tanto grosseira, não lhe tiravam olho de cima.

- Quem é esta gente? - Sussurrou a Grei.

- O velho do cabelo branco revolto e o rosário é o pai Daar. Esta é sua cabana - respondeu ele.

Assinalou com a cabeça a um homem que parecia mais velho que Matusalém, salvo pelos olhos. O pai Daar tinha os olhos azuis mais brilhantes e claros que Grace já tinha visto. O homem lhe dirigiu um sorriso.

- E este é Callum - prosseguiu Grei, assinalando ao que estava junto ao Daar.

Grace o olhou. Por trás de uma barba cerrada, Callum sorriu, e seus olhos, entre verdes e cor avelã, acompanharam seu sorriso. Seu escuro e descabelado cabelo castanho-avermelhado estava molhado e lhe gotejava sobre os ombros.

Parecia ter uns quarenta e tantos anos e, como todos, media quase dois metros de altura.

- E Morgan - prosseguiu Grei.

Grace dirigiu sua atenção a Morgan. Era jovem e imberbe, e tinha o molhado cabelo loiro-avermelhado de ponta, como se tivesse passado uma mão por ele. Lançou-lhe um meio sorriso e lhe piscou um olho.

Ela se apressou a olhar ao seguinte.

- E aquele é Ian - rematou Grei.

Ian era quem havia dito que ficou adormecida. Seu cabelo era de um vermelho mais vivo que o de outros, embora perto das orelhas começavam a aparecer uns reflexos cinzas.

Também tinha barba, salpicada de branco, que necessitava desesperadamente um barbeador elétrico. Já não sorria, olhava-a como se fosse um inseto posto sob um microscópio... De modo que Grace lhe sorriu.

Conhecia-os todos; ao menos, de ouvidos. Mary tinha falado dos MacKeage e do pai Daar, cinco homens que se mudaram ali fazia pouco mais de três anos. Então foi quando compraram a montanha TarStone, assim como a maior parte da terra mastreada que havia a muitos quilômetros ao redor. Sua irmã lhe contou que, em geral, guardavam as distâncias, e ninguém do povoado tinha descoberto muito sobre eles.

Grace lhes dirigiu um olhar impassível. Não pareciam parentes, embora quatro tinham o mesmo sobrenome, exceto o mais jovem, Morgan. Nele havia algo familiar. Possivelmente o modo de mover-se; um gesto, uma expressão... A forma em que elevava sua risonha comissura da boca... Em realidade, recordava a Grei. Sim, Morgan tinha seus mesmos olhos escuros e penetrantes, da cor da folha perene.

Voltou a cabeça para ver o pai Daar. Sua irmã também lhe tinha falado daquele sacerdote que vivia como um ermitão na metade da ladeira da montanha. Disse-lhe que era muito velho e que lhe preocupava que um homem tão velho vivesse sozinho.

Embora todos fossem desconhecidos, e alguns, inclusive maiores que seus meio-irmãos, pareciam inofensivos e sinceramente preocupados com ela. Grace voltou a relaxar-se na brandura da cama...

E então descobriu um fato bastante alarmante, dada a companhia em que se encontrava.

- Estou nua - disse em tom acusador, ao mesmo tempo que se voltava para lançar um olhar de ódio a Grei. - Por que estou nua?

- Vale a pena morrer por pudor? - Perguntou ele.

Ela fechou os olhos. A essas alturas devia parecer uma lagosta, e se perguntou se avermelharia ainda mais. Também se perguntou se, depois de tudo, não morreria, mas de vergonha, não de frio.

E nesse momento o homem chamado Ian perguntou:

- Não pergunta por seu filho?

- Ai, Meu Deus! Bebê! Me tinha esquecido por completo. Onde está?

De repente se sentiu desesperada e alongou o pescoço para olhar pela habitação.

- Está aqui - disse o pai Daar, fazendo-se a um lado para que o visse. - Está dormindo e está bem.

Grace fechou os olhos e deu graças a Deus por aquele milagre... E também lhe pediu que a tirasse da confusão que acabava de organizar. Todos aqueles homens pensariam que era uma mãe indigna por esquecer a seu filho.

Bom, e o era, porque o primeiro que tinha que ter feito ao despertar era perguntar por Bebê. Em troca, estava muito concentrada pensando que estava nua, metida na cama com um homem, com os hormônios alvoroçados e à vista de um público, entre os quais se encontrava nada menos que um padre.

Então se pôs a chorar. Enormes e dilaceradores soluços sacudiram seu corpo com dolorosas conseqüências, porque tudo lhe doía uma barbaridade... Embora isso não era nada comparado com a dor que sentia no coração.

Tinha esquecido de Bebê.

- Vá, olhe o que fez, Ian - disse Callum em tom acusador. - Fez chorar a lass.

- Grace, o pequeno está bem - disse Grei, ao mesmo tempo que afastava o cabelo da face.

Ela nem sequer pôde olhá-lo; não podia olhar a nenhum deles. Era escória, nada mais que escória... Não merecia a aquele bebê.

- Sim que o merece - disse Grei; sua voz soou áspera. - Qualquer um que acontecesse o que aconteceu com você nestas últimas horas estaria desorientado. E, além disso, só recentemente que foi mãe.

Devia ter pensado em voz alta, e Grei a brigava por seus pensamentos. Tentou dar a volta para afundar a cara no travesseiro e choramingar em privado, mas não pôde voltar-se: seus músculos se negavam a obedecê-la. Ao menos sua tentativa a informou de uma coisa: Greylen MacKeage estava tão nu quanto ela.

- Poderia... Poderia deixar a cama para mim? - Pediu com acanhamento. Confiou em que seu medo não lhe notasse na voz. - Eu... Bem, estaria mais cômoda.

Ele riu a gargalhadas, e sua risada fez que a cama se agitasse. Grace afogou um gemido; até aquele movimento fazia mal.

- Farei-o assim que me diga onde lhe dói.

- O direi quando sair da cama - respondeu ela, com os olhos ainda fechados pelo martelar que sentia na cabeça.

Só obteve o silêncio por resposta. Ao cabo de um instante sentiu que o colchão se afundava e o ouviu levantar-se trabalhosamente, e depois afastar-se da cama.

Grace soltou um suspiro que não sabia que estava contendo e, de repente, a dor de cabeça se aliviou.

- Huy, huy... Já começa... - Disse Ian. - O MacKeage já recua para não discutir com ela.

Grace ouviu um ruído na parede em frente. Soou um plaf, seguido de uma simpática risada.

Com cautela, e com muita dor, subiu as mantas até o pescoço e se concentrou em cada centímetro de seu corpo para avaliar exatamente onde lhe doía. Não demorou para chegar à conclusão de que tinha dolorido todo o corpo.

Descobriu que os músculos das pernas e das costas estavam livres e estavam com cãibras, enquanto que nas pontas dos dedos dos pés e das mãos sentia um formigamento tão forte como se lhe estivessem cravando agulhas.

Tinha estado a ponto de congelar-se. De não ter sido pela proteção da cova que lhe fez Grei e pelas botas impermeáveis do piloto, provavelmente a estas alturas teriam que lhe cortar os dedos dos pés.

O calor da bateria do computador lhe tinha mantido as mãos mornas, mas se Grei não tivesse chegado quando o fez, já estaria morta.

Tinha-lhe salvado a vida... E também tinha salvado a Bebê.

Como ia saldar essa dívida?

O pai Daar se inclinou para a cama.

- Tem fome? - Perguntou em um sussurro. - Preparei um guisado.

- Não, obrigado, padre. Só tenho sono.

- Se eu fosse você, não voltaria a dormir - disse ele em tom conspirador. - Grei pode cair doente de preocupação. Esta manhã já lhe tirou dez anos de sua pagã vida com o susto.

Grace dedicou ao sacerdote um grande sorriso.

- Se for um pagão, padre, redimiu-se; porque nos salvou a vida a mim e Bebê.

Daar lhe sorriu com cordialidade.

- Não deve duvidar nem um momento de que o conseguiria, garota. Greylen MacKeage é um homem que consegue tudo o que se mete na cabeça. Nunca correu autêntico perigo.

Nesse momento, por cima dela, Grei disse:

- Sigo esperando sua resposta.

Grace voltou a cabeça e elevou a vista para ele.

- Não tenho nada quebrado nem congelado. É que tenho tão doloridos os músculos e tenho tantas câimbras que não quero nem me mover.

Ele pareceu pensar enquanto a olhava fixamente, avaliando-a com seus olhos verdes. Por fim, assentiu.

- Então durma, se for o que necessita - disse em tom arrogante. - Quando despertar, comerá, e depois desceremos da montanha.

- Onde está minha bolsa? - Perguntou ela. - Segue na cova?

Ele se aproximou da mesa e a levou.

- Tome. Quer a lata?

- Sim, por favor - respondeu. - Obrigado.

Grei tirou a lata da bolsa e a meteu sob as mantas, a seu lado.

- Obrigado - repetiu Grace.

- Já tem fome, lass? - Perguntou Callum sem tirar o olho do vulto onde estava a lata. - Não são bolachas o que deveria comer; necessita comida de verdade.

Antes que ela tivesse tempo de responder, Grei a olhou e disse:

- Nessa lata não há bolachas; dentro está Mary Sutter.

E nesse instante um silêncio ensurdecedor se apropriou da cabana.

 

Embora já estivessem todos a salvo, Greylen MacKeage, incansável, seguia à frente daquela aventura. Da cama, Grace se limitou a olhar, impotente, ao homem que dava ordens como um general. Ao cabo de dez minutos, na diminuta cabana não ficou nem um escocês, salvo Grei.

Até o velho sacerdote partiu. Grace não percebeu por que o mandassem para fora com aquele tempo, mas Grei tinha muito claro o plano para escutar sua opinião. Daar devia acompanhar o traslado do corpo do piloto montanha abaixo e permanecer com ele enquanto Callum e Morgan iam ao povoado, avisavam às autoridades e as levavam ao lugar do acidente. Depois Ian retornaria com a máquina pisa neves para levar Grace e a Bebê a Gu Bràth.

Ela decidiu ter paciência e esperar até que Grei lhe dedicasse toda sua atenção; então lhe explicaria seu próprio plano.

Só que não era tão simples. Era difícil transmitir autoridade quando se está tombada, nua, na cama, com as mantas subidas até o queixo...

E mais ainda, se o homem a quem se trata de impressionar está, a sua vez, impressionantemente nu da cintura para acima.

- Tem alguma roupa que eu possa pôr? - Perguntou a Grei.

Do fogão de lenha, ele deu a volta para olhá-la. Na mão tinha uma fumegante terrina de guisado e lhe dirigia um sorriso.

- O que tem de errado a que leva posta? - Perguntou a sua vez.

Aproximou-se dela, e Grace prendeu as mantas ao pescoço.

- Não levo nada.

Grei se sentou na cama, a seu lado. Ao sentir o calor de sua coxa, de repente Grace notou uma nova série de agulhas que lhe cravavam no corpo e não demorou para começar a acalorar-se muito.

- Não necessita roupa. Necessita comida e descanso, por esta ordem.

- Tenho que me levantar - replicou ela. - Tenho que pôr em movimento os músculos outra vez para levar Bebê para casa.

Antes que terminasse a frase, ele já estava meneando a cabeça.

- Acaba de sobreviver a uma terrível experiência e ainda está muito fraca para cuidar de si mesma - levantou a colher da terrina e a aproximou dos lábios. - Coma, descanse e me deixe cuidar disso tudo . Dentro de um ou dois dias a levarei para casa.

Grace se negou a abrir a boca. Não deu uma olhada assassino a Grei nem lhe fez uma careta, mas sim se limitou a cravar os olhos nele com a paciência de uma mulher decidida a recuperar o controle de sua vida. Não estava zangada; ainda não.

Compreendia que era difícil renunciar à autoridade concedida por outra pessoa.

Devagar, Grei voltou a pôr a colher na terrina e a olhou com gesto de interrogação, elevando uma sobrancelha.

- O que aconteceu com a nossa associação?

- Vou dissolvê-la - respondeu ela, tirando a dureza de suas palavras com um sorriso. - Lhe devo a vida, Greylen MacKeage, mas quero que me devolva ela. Não tem que seguir ocupando-se de mim.

Deu a impressão de que ele queria protestar, mas em seguida pareceu pensar melhor. Levantou-se, deixou o guisado em cima da mesa, agarrou sua camisa do chão e, rapidamente, a pôs.

Depois pegou um fardo de roupa que havia junto à porta e o pôs na cama, junto a ela.

- Me ocorreu pegá-la esta manhã quando fui a Gu Bràth, justo antes de voltar por você. Ficarão muito grandes, mas estará abrigada - alongou a mão, tomou pelo queixo e lhe levantou a cara.

- Se vestir sozinha sem desmaiar e me demonstrar que pode cuidar de seu filho, ao melhor penso o de levá-la para casa.

Dito isto, girou sobre os calcanhares, pegou a jaqueta e saiu ao alpendre.

A porta se fechou com suavidade atrás dele, e Grace ficou olhando-a. Piscou. Tinha sido muito fácil. Então olhou o fardo de roupa e, imediatamente, sentiu-se mau.

Só um homem afetuoso pensaria em pegar um pouco de roupa para que a pusesse enquanto tratava de lhe salvar a vida... E ela o agradecia ferindo seus sentimentos.

Bebê se removeu na caixa, e Grace se apressou a soltar a roupa. Embora lhe pesassem os braços e seus músculos protestassem, obrigou-se a incorporar-se e colocar a camisa de flanela que Grei lhe tinha dado. Teve que dobrar as mangas várias vezes só para que aparecessem as mãos. Depois pegou as grandes meias de lã e as deslizou nos pés. Depois de jogar as pernas pelo lado da cama, meteu-se nas suaves calças de moletom e se levantou para subir os até a cintura, mas, em vez disso, esteve a ponto de cair.

A testa começou a dar ferroadas e os joelhos ameaçaram dobrar-se, e em seguida se sentou e se agarrou a cabeça para que a habitação deixasse de dar voltas.

Bom, aquilo não funcionava. Tinha que mover-se mais devagar.

Ia pela terceira tentativa de permanecer de pé sem vomitar quando a porta da cabana se abriu e entrou Grei com uma braçada de lenha. Devagar, arrastando os pés, Grace foi para Bebê. Teve o bom senso de não pegá-lo, mas pensou que possivelmente se lhe esfregasse as costas, ficaria adormecido. Desse modo, além disso, daria-lhe mais tempo ao cérebro para que controlasse seus músculos. Seguia sentindo ferroadas na cabeça, mas ao menos a habitação tinha deixado de girar.

- De verdade é tão teimosa, lass, ou é que o frio lhe afetou ao cérebro? - Perguntou Grei justo atrás dela.

Grace girou em redondo, e teria caído se ele não tivesse chegado a agarrá-la. bamboleou-se, chocou-se contra ele, agarrou-se a sua jaqueta e elevou a vista até uns acerados olhos verdes. Mas a reprimenda que preparava se transformou em um grito de sobressalto quando ele a levantou nos braços e a levou a mesa. Depois de sentá-la em uma cadeira e lhe pôr diante a terrina de guisado, tirou a jaqueta e voltou até onde estava Bebê.

Grace cravou os olhos em seu almoço. Aquilo não ia bem. O vínculo que tinham estabelecido a noite anterior, na montanha, ia desvanecendo-se; por ambas as partes, a teimosia substituía à colaboração.

Ao elevar o olhar viu que Grei sustentava no braço um já espevitado Bebê enquanto mexia na bolsa procurando outra mamadeira. Então tomou uma colherada do guisado e quase gemeu ao senti-lo deslizar-se por sua garganta; acabava de dar-se conta da fome que tinha. Grei se instalou do outro lado da mesa, frente a ela, com Bebê, que também comia sem problemas, e Grace se disse que tinha chegado o momento de abordar o problema com outro enfoque.

- Coloque-se em meu lugar - sugeriu a Grei, que elevou a vista e a olhou com expressão de curiosidade. - Não estaria você agora mesmo tratando de me convencer de que estava recuperado e que podia retomar o controle de sua vida?

Ele meneou a cabeça.

- Não é o mesmo, Grace. Você é uma mulher.

Ela baixou o olhar para si mesmo com fingida surpresa.

- Ah, é? - Alisou o peitilho da camisa. - Nota-se... E o que tem que ver ser uma mulher desejando ter o controle de sua vida?

Ele colocou Bebê sobre o ombro e começou a lhe esfregar as costas enquanto meneava a cabeça olhando-a outra vez.

- É um fato da natureza; simplesmente, as mulheres são mais fracas... Fisicamente, quero dizer - Se apressou a acrescentar quando ela abriu a boca para protestar.

Grace fechou a boca de repente, recostou-se na cadeira e cruzou os braços. Não sabia se era porque já tinha a pança cheia ou pela cólera que crescia em seu interior, mas de repente se sentia muito mais forte.

- Por isso nossas posições são as que são - Prosseguiu ele - Eu tive a resistência precisa para que saíssemos da montanha.

Inclinou-se para frente ao mesmo tempo que franzia o cenho; seus olhos estavam obscurecendo-se.

- E ainda fica força suficiente para colocá-la no pisa neves, levá-la a Gu Bràth e encerrá-la ali até que possa cuidar de si mesma e de seu filho - rematou tranqüilamente com um sussurro.

Grace ficou de pé, não sabia se era para demonstrar-se que podia fazê-lo ou para afastar-se de sua velada ameaça.

- Você tem umas ideias muito antiquadas! - Balbuciou, negando-se a deixar-se intimidar. - Os problemas não se resolvem a base de força bruta.

Ele se reclinou em sua cadeira, esfregou as costas de Bebê outra vez e deu de ombros.

- A mim está acostumado a funcionar - Disse em voz baixa.

Grace pegou a terrina vazia e o levou a bancada, situada na parede da frente da cabana. Admirou-se por quão bem seus músculos já funcionavam; nada como um pouco de indignação para fazer circular o sangue.

O certo era que não deveria se surpreender a atitude daquele homem. Nada mais sentar-se no avião junto a Greylen MacKeage, havia-se dito que aquele tipo era um retrocesso na cadeia evolutiva humana.

O que foi que pensou? Que dava a impressão de que se regia por suas próprias regras e arrumava os problemas a golpes se não podia solucionar os de outra maneira?

Sim. Aquele era o homem a quem lhe devia a vida.

De repente os braços de Grei a rodearam com suavidade e voltaram a atraí-la contra seu quente e firme peito. Grace deu a volta dentro de seu abraço, jogou uma olhada a Bebê, que dormia em sua caixa de novo, e fechou os olhos, ao mesmo tempo que lhe punha as mãos no peito em uma tentativa por mantê-lo a distância.

Ou bem tentava manter afastado seus próprios desejos?

Sabia o que Grei estava fazendo, e não gostava. Como sua ameaça não sortia efeito, tentava abrandá-la com beijos.

Justo por isso não ia com ele a sua casa.

Nesse momento, estava emocionalmente muito alterada. Não se encontrava em condições de passar a noite na cama de Greylen MacKeage. E se fosse a Gu Bràth, acabaria exatamente ali.

Elevou a face e lhe sorriu.

- Não posso começar uma relação com você agora, Grei.

Ele a abraçou com mais força, baixou a cabeça e lhe deu um apaixonado beijo nos lábios. A cabana começou a dar voltas de novo; desta vez não era sua cabeça, e sim seu coração... E lhe faltou pouco para ficar nas pontas dos pés e lhe devolver o beijo.

A língua de Grei procurou a sua fazendo-a estremecer... Como tinha acontecido lá encima na montanha, no dia anterior. O corpo de Grace desejava responder, notava como a paixão irradiava desde sua alma até seus sentidos. Então o agarrou pelos ombros e tentou afastá-lo. Foi como tentar afastar uma montanha. De repente Grace se viu flutuando no ar, e só ao sentir uma superfície dura contra o traseiro se deu conta de que Grei a tinha posto sobre a bancada.

Abriu-lhe os joelhos com as pernas e se aproximou dela.

- É muito tarde - disse olhando-a nos olhos. Ela viu que os dele eram da cor da pícea invernal. - Isto já começou, e não podemos voltar atrás. Esqueça-se do que lhe diz a mente e escute o que está lhe dizendo seu corpo.

Grace cravou o olhar em seus insondáveis olhos de um verde profundo e demorou um momento em recordar que devia combater sua atração para Grei, não alimentá-la.

- Mas não posso. Tenho... Assuntos que preciso resolver.

Ele elevou a sobrancelha direita.

- O pai de Bebê?

Começou a sentir ferroadas na testa de novo.

- Sim, o pai de Bebê - admitiu.

Era certo, só que não do modo que pensava Grei.

- Ama-o?

- Não.

Isso também era certo.

- Está fugindo dele? Você está em perigo?

- Não.

Sobre sua face, ele soltou um suspiro que lhe agitou o cabelo.

- Então, qual é o problema? - Perguntou. Era evidente que sua paciência se esgotava.

- O problema é que tenho um menino de quatro semanas. Além disso, acabo de perder a minha irmã e volto para casa pela primeira vez em nove anos. Necessito tempo para voltar a ordenar minha vida.

- Eu a ajudarei.

- Não, só complicará as coisas. Tenho que tomar decisões sobre Bebê, meu trabalho e o pai de Bebê.

Ele voltou a beijá-la, provavelmente porque lhe dava igual o que lhe dizia.

E lhe devolveu o beijo, provavelmente porque era mais fácil que discutir com ele.

Chegou para frente na bancada e se apertou contra Grei como um gato que se aconchega em uma estufa. Devagar, ele baixou a boca por seu pescoço, deixando nele um rastro de beijos. Grace se arqueou contra o escocês, rodeou-lhe a cintura com as pernas, e gemeu ao senti-lo empurrar de forma tão íntima contra ela.

Nesse instante se perguntou como era que não se incendiavam os dois, assim, sem mais.

Como algo tão pouco adequado era tão maravilhoso? Grace experimentou o irresistível desejo de despir-se e despi-lo a ele e esfregar-se por todo seu corpo. Agarrou-lhe o cabelo e, de um puxão, voltou a pôr sua boca sobre a dele.

Logo colocou a língua entre seus lábios e voltou a saboreá-lo. Então decidiu começar com a camisa dele. Alargou a mão para os botões e fez saltar os dois de cima em um esforço por sentir sua pele sob os dedos.

No momento do contato, ela sim que se acendeu. O ar que os rodeava explodiu em um brilho de luz branca, o tempo ficou detido e o coração lhe palpitou com uma emoção que não tinha experimentado nunca...

E justo nesse instante Ian franqueou a porta da cabana, deslizando-se com todo o ruído e a solenidade de um alce que levasse patins de gelo.

Foi então quando Grace escapou, com o corpo em chamas, sua resolução feita migalhas... E justo a um segundo de que a boca de Grei a fizesse trocar de opinião.

Embora tinha ganho vários assaltos, e, provavelmente, a batalha por falta de comparecimento do contrário, Grace seguia experimentando a sensação de que ia perder a guerra.

Com Bebê nos braços, entrou no salão da casa em que tinha crescido e pôs o termostato em vinte e três graus e meio. Enquanto voltava para a cozinha, perguntou-se como se colocou em uma guerra, para começar.

Durante todo o caminho da descida da montanha TarStone, Grei não tinha deixado de insistir em que fossem a Gu Bràth pelo menos a passar a noite para que ele os cuidasse. Mas ela se manteve inflexível.

E ele não sabia perder com elegância... Ao menos, a julgar pelo último beijo de despedida. Grace levou o dedo aos lábios e sorriu.

Ainda lhe formigava a boca com a sensação de ter sido completamente possuída; em realidade, formigavam-lhe até os dedos dos pés.

Aquilo tinha que terminar. Tinha que tirar de Grei o costume de tomá-la sem mais entre seus braços cada vez que gostava e beijá-la até lhe fazer perder o sentido. Não era o momento adequado, Greylen MacKeage não era o homem adequado...

E, além disso, não sabia quanto mais tempo ia poder resistir.

E tinha que fazê-lo, tanto por Bebê como por ela mesma.

Só eram as circunstâncias, nada mais. Encontrou-se nos braços de um anjo da guarda que beijava como o diabo. Só era um capricho. Um homem forte e varonil, com olhos da cor da pícea no inverno e o corpo do Super homem...

A ideia romântica de ver-se nos braços de um herói, arrebatada a um mundo de fantasia...

Estava segura de que havia uma explicação científica para o que tinha sentido na montanha TarStone e para os efeitos persistentes que ainda experimentava.

Senhor, se só recordando seu contato lhe afrouxavam os joelhos e o coração lhe pulsava desbocado...

Aquilo tinha que acabar. Amanhã. Daria voltas a aquele fenômeno amanhã, quando estivesse descansada e tivesse recuperado o governo de suas faculdades.

Grace deixou Bebê na macia poltrona da cozinha e lhe pôs diante uma almofada para que não rodasse dormindo. Depois tirou a jaqueta e, pela janela, viu como partia a máquina pisa neves.

Lá encima, na montanha, tinha dado sua confiança a Grei porque naquele momento era o mais prudente. De ter sido uma pessoa menos capaz, ou inclusive menos arrogante com aquilo de que era Super homem, teria procurado outro meio de sobrevivência.

Agora que estava em casa, em um entorno quente, seguro e nada hostil, lhe ocorria umas centenas de coisas que poderiam ter feito, em vez de tentar descer a montanha caminhando.

Mas isso tinha passado à história.

Agora era preciso seguir adiante. Necessitava um banho, e Bebê também. Logo teria que ver se a velha caminhonete de Mary, estacionada na garagem, funcionaria. Tinha que ir ao povoado a comprar leite, mais fraldas e comida para ela.

Recolheu a bolsa que Grei tinha posto no chão, junto à porta, e a levou a mesa. Tirou o computador e o conectou na tomada que havia sobre a bancada para recarregar a bateria. Confiou em que o frio e a chuva gelada não o tivessem quebrado, porque todo seu trabalho estava naquela máquina, e seus discos de segurança continuavam lá na montanha. E confiou em que os discos sobrevivessem também até que os MacKeage fossem buscá-los.

Estavam na mala da conexão via satélite, metidos em um estojo impermeável, de modo que deviam estar bem.

Logo tirou a lata de bolachas. Pô-la no meio da mesa e sorriu a sua irmã.

- Juro-te que quando Grei lhes contou que estava dentro da lata se teria podido ouvir cair um alfinete naquela cabana, Mary - disse. - Ian quase caiu da cadeira. Não fazia mais que olhar a cama como se fosse saltar para lhe dar uma dentada.

Deu a volta à lata até ficar de frente a ela.

- Disseram que lamentavam que tivesse morrido e que lhe sentiriam falta. Dava-lhes as obrigado em nome dos dois e os disse o muito que agradeceu que lhe ajudassem com o telhado.

Enquanto seguia falando derrubou o conteúdo da bolsa na mesa.

- Eu gosto de seus vizinhos. Em particular, Ian. É um amargurado que de tão resmungão até resulta íntimo.

Sentou-se dando um gemido enquanto se sustentava as doloridas costas.

- Todos são um pouco raros, não te parece? E apenas os entendo com esse sotaque que têm. Salvo Grei. A verdade é que não diria que é escocês - inclinou a cabeça. - E isso é o mais raro. Por que ia alguém a trocar seu sotaque de propósito?

Fechou os olhos e apoiou a cabeça na mesa. Se não se levantava e se metia na ducha, ela e Bebê dormiriam na cozinha.

De repente moveu as aletas do nariz. As sutis fragrâncias familiares, a lavanda e especiarias, que flutuavam a seu redor, tinham despertado alguma lembrança infantil que levava muito tempo em letargia. Então elevou a cabeça e, devagar, jogou uma olhada à silenciosa cozinha.

Sua casa... Cheirava a sua casa: anos de cozinha de sua mãe, as ervas de sua irmã secando-se em ralos pendurados do teto, o persistente aroma de inumeráveis invernos de queimar lenha... Todos esses aromas, junto à mesa cheia de marcas, o grande relógio de pé que esperava em silencio no canto a que lhe dessem corda, o enorme fogão de gás que tinha alimentado a uma família de dez pessoas... Tudo aquilo a convertia na querida cozinha em que tinha crescido.

Sua casa... Se ajustava a seu ser como um grande pulôver tecido com uma lã feita de cálida segurança.

E estava tão calada, tão vazia... Só as lembranças oscilavam como a chama das velas e iluminavam instantes individuais no tempo. Timmy sustentando nos braços a uma Mary de seis semanas enquanto, com cuidado, dava-lhe a mamadeira; Brian convencendo a sua mãe de que necessitava seu carro para um encontro especial; Paul e David brigando no chão até acabar quebrando o vidro do aparador... E papai, com ela nos joelhos, lhe dando plátano com açúcar como prêmio por haver-se comido a couve.

Sua casa... Tinha esperado muito para voltar, e todos partiram. Até as lembranças, os aromas e os sons começavam a desvanecer-se, a converter-se em fantasmas de uma vida passada que já nunca voltaria a visitar.

Grace apoiou a cabeça nos braços e fechou os olhos para que não saíssem as lágrimas. Sentia falta da sua família: o amor incondicional de seus pais, a força de seus irmãos e aquele sensato domínio da vida que possuía Mary. Todos eles eram a base de sua existência atual.

E agora estavam fora de seu alcance. Todos, exceto Bebê.

Tinha levado o filho de sua irmã até aquela casa maravilhosa, às vezes mágica e sempre protetora. Viveria ali com ele e o veria crescer e crescer, nutrindo-se das raízes que sua família tinha deixado naquelas montanhas cobertas de bosques.

Talvez fosse assim de singelo: fugiria de sua vida da Virginia e se dedicaria a Bebê, sem perguntas nem remorsos. Já o amava mais que a sua própria vida.

E já começava a querer romper a promessa que havia feito a Mary.

A ducha contribuiu muitíssimo a reanimar Grace, a centrar outra vez suas ideias e a acalmar seus machucados e doloridos músculos. A Bebê também gostou do banho. Foi divertido banhá-lo em um lavabo meio encher de água temperada, e Grace se alegrou de que lhe tivesse curado por fim o umbiguinho; sempre tinha tido medo de lhe fazer mal. A casa se esquentou estupendamente, e o deixou chapinhar na água até que se cansou.

Por fim ia pegando o jeito da maternidade. Agora que estava sozinha e unicamente contava consigo mesma, era justo como dizia Emma: seus instintos entravam em marcha e lhe davam confiança. Isso era tudo o que necessitava: tempo a sós com Bebê para encontrar sua própria maneira de dirigi-lo.

Embora esperasse que o livro que tinha dado Emma não se perderá na montanha; ainda não estava preparada de tudo para ir livre.

- Só fica outra mamadeira - disse a Bebê enquanto dava de comer. Olhou pela janela e suspirou. - Detesto voltar a sair com este tempo, mas me parece que não temos mais remédio.

A constante chuva se empenhava em não parar; as janelas do lado norte da cozinha estavam cobertas de gelo, que não deixava ver o exterior. Deu toda a mamadeira a Bebê e o fez arrotar com a habilidade de uma mãe de nove filhos. Logo voltou a colocá-lo em sua macia poltrona enquanto tratava de pensar o que lhe poria para sair.

Encontrou a mochila porta bebês na mesa, com as demais coisas da bolsa. Continuava úmida. A aproximou da face e inspirou fundo; era o aroma familiar de Grei quando a abraçou sob a pícea, do pulôver que lhe pôs justo antes de colocá-la na cova, da cama que compartilhou com ele na cabana de Daar, e da camisa de flanela que levava posta aquela manhã e que agora, bem dobrada, estava sobre o travesseiro do dormitório do piso de cima.

Era um aroma que afetava a seus sentidos; em silêncio, falava-lhe de amizade, segurança, confiança e inclusive aventura.

Ia ficar com aquela camisa. Lavou o corpo e tinha que lavar a mochila, mas a camisa de Grei não ia lavá-la, e tampouco ia devolver se era de um bonito tecido escocês de quadros cinzas, vermelhos e verde escuro com raias azul lavanda. Nunca tinha visto aquela combinação de cores, mas a atraiu imediatamente, no mesmo instante em que a pôs. Sim, ia ficar e se pedisse que a devolvesse, diria que não a encontrava.

Ia ao inferno por todas as mentiras que estava contando ultimamente... Embora pelo menos ali, em Pene Creek, não teria que dizer mais; depois de tudo, só importava uma: que Bebê era dela.

Lavou a mochila na pia e a pôs a secar perto do ralo de ventilação do forno. Depois envolveu a Bebê em uma das velhas camisetas de Mary, com uma capa de travesseiros de flanela como manta, e foi com ele à garagem encostada à casa.

Então descobriu outro problema: a cadeira de bebês de Bebê continuava no alto da colina de North Finger. Olhou pelo heterogêneo sortido de cacarecos que havia na velha garagem até dar com uma caixa de maçãs grande o suficiente para que coubesse o pequeno de quatro semanas de idade. Colocou a Bebê dentro, depois o pôs no assento do passageiro da caminhonete e o segurou com o cinto de segurança. É certo que não alcançava os níveis de qualidade homologados, mas para ela bastava.

Quando terminou de colocar os cintos de segurança para segurá-lo bem, Bebê não se movia nem um centímetro.

Seu resignado pequenino se limitou a observá-la enquanto isso. Ao acabar, Grace passou um dedo pela face, deu-lhe um beijo na testa e sussurrou. - Ai, céus, prometo-te que todo este caos se acabará agora que estamos em casa.

Só esta viaje à loja, e depois nós dois tomaremos um bom descanso.

Fechou com suavidade a portinhola e rodeou a caminhonete para abrir as duas enormes portas da garagem, primeiro uma e depois a outra. Então pensou em Michael MacBain e também na promessa que havia feito a Mary.

Disse que Michael estava completamente só e que era novo naquele lugar; algo que, segundo seu ponto de vista, convertia-o em algo assim como um exilado. Foi isso o que levou a Mary para ele?

Brigou consigo mesma por ser fantasiosa e subiu à caminhonete. Quão único tinha acontecido era que sua irmã tinha encontrado o homem que amava.

Grace estava segura de que Michael MacBain seria um homem agradável, normal e encantador, se não fosse por seu delírio de que tinha viajado através do tempo.

 

Era um bruto.

E estava ali, em sua cozinha.

Depois de lançar uma olhada ao relógio da parede do salão e ver que era quase meia-noite, Grace se apressou a centrar sua atenção de novo no homem que gotejava água como uma fonte sobre o chão. A suas costas, o tamborilar da chuva gelada sobre a porta quebrada contribuía a aumentar o aterrador aspecto do desconhecido. Tinha as mãos aos lados, fechadas em punhos, e sua silhueta, recortada na luz do alpendre, indicava não só que era muito corpulento, mas também estava furioso.

O desconhecido olhou ao redor da cozinha vazia e voltou a gritar:

- Mary! Maldita seja mulher, sai!

Grace teve que fazer provisão de sua coragem para, com um taco de beisebol na mão, sair de trás da porta do salão e ficar diante dele.

- Mary não está aqui - disse em voz baixa.

Aquele homem era um gigante. Seu cabelo negro estava ensopado e lhe caía até mais abaixo do pescoço da jaqueta, que tinha subido. Seus olhos, perigosamente entreabertos, eram de uma penetrante cor cinza escura, e sua cara aparecia sombreada por uma barba de dois dias. O desconhecido apertava furioso a boca. Ali, ancorado ao chão da cozinha como uma estátua de granito, tinha um aspecto impressionante. Predador e imóvel.

Grace elevou o taco de beisebol em atitude ameaçadora.

- Posso saber quem pergunta por ela? - Perguntou com voz tremente.

Sua pergunta o desarmou por um instante, mas não demorou para recuperar-se.

- Michael MacBain. E só vou perguntar uma vez mais: onde está Mary?

Ai, Deus... Grace não estava preparada para aquilo. Acreditou que teria mais tempo... Jogou uma rápida olhada à lata que estava sobre a mesa. O que ia dizer?

Em um sussurro, respondeu:

- Ela... Bem... Não está aqui, Michael. Eu sou sua irmã, Grace. - Se aproximou um passo ao mesmo tempo que baixava a arma. - Ela te falou de mim?

Ele não acreditou. Passou por diante dando grandes passos e entrou no salão. Ao não encontrar Mary ali, foi de uma habitação a outra, e inclusive subiu ao piso de cima.

Grace o deixou procurar. Embora se atrevesse a usá-lo contra ele, seu taco de beisebol não o deteria; aquele homem parecia tão sólido e indestrutível como uma montanha.

A segunda vez que atravessou o salão, Michael encontrou Bebê. Parou de repente e baixou a vista para o pequeno. Então a olhou e voltou a olhar a Bebê, com olhos entreaberto e atitude rígida.

Não havia escapatória. Grace não ia ter mais remédio que dizer a verdade.

- Sinto muito, Michael - suas palavras atraíram a atenção do homem outra vez. - Mary teve um acidente de automóvel faz seis semanas.

Mentiu sobre a data de sua morte porque não queria que Michael suspeitasse, nem remotamente, que o menino de quatro semanas fosse filho dele. Depois baixou o olhar ao chão, reuniu coragem e voltou a olhá-lo.

- Morreu. Sinto muito. Não se pôde fazer nada.

Ele se limitou a cravar os olhos nela. Sua face adquiriu uma palidez mortal enquanto a escutava em silêncio.

Grace entrou no salão.

- Mary vinha de volta - disse. - Voltava para você.

Ele olhou de novo a Bebê; com voz apagada perguntou:

- O menino?

- É... é meu.

Ficou tanto tempo calado que Grace temeu que não acreditasse. De repente Michael se separou do improvisado berço feito com a caixa de maçãs e, com longos passos , passou por diante dela para entrar outra vez na cozinha. Foi até a porta quebrada, fechou-a o melhor que pôde e depois, em silêncio, voltou a aproximar-se à mesa da cozinha e se sentou.

Dobrou-se pela cintura, com as mãos juntas caídas entre os joelhos e a vista cravada no chão, e permaneceu assim vários minutos.

Enquanto isso Grace apoiou o taco de beisebol na parede, e pôs água a ferver no fogão; a seguir desprendeu duas xícaras do armário e repartiu chocolate em pó nelas.

- Sofreu? - Perguntou ele; sua voz ressoou baixinho pela cozinha. - Morreu imediatamente ou a levaram viva a um hospital?

Grace se voltou para olhá-lo; aquela perigosa montanha de homem já não parecia tão perigosa. Ainda tinha as mãos entre os joelhos, mas continuava olhando fixamente o chão; de repente tinha perdido toda sua agressividade.

- Viveu um dia e meio - respondeu ela, sincera. - E esteve consciente. Falamos de muitas coisas, mas sobre tudo Mary me falou de você.

Aproximou-se dele e, com gesto indeciso e suave, pôs uma mão no ombro. Ele não se moveu e seguiu olhando a um ponto situado entre seus pés; entretanto, tinha tão duros os músculos que suas costas parecia de aço forjado.

- Pediu-me que te dissesse que te amava, Michael, e que confiava em que a perdoasse por escapar, para começar. Disse... Disse que só precisava estar um tempo só para pensar em seu pedido de casamento - rodeou até ficar diante e se ajoelhou, com a esperança de que ele a olhasse. - Me contou sua história, Michael, e disse que não se importava. Voltava para casa quando teve o acidente. Vinha para casar-se com você e para te amar durante o resto de sua vida.

De repente ele abriu mais os olhos. Estava muito pálido. Ficou direito para apoiar-se no respaldo da cadeira e afastar-se dela.

- Falou-te de mim? - Sussurrou.

- Em seu leito de morte, Michael - se apressou a tranqüilizá-lo. Ficou de pé e foi afastar a chaleira que já assobiava. - Não disse nada em todo o tempo que esteve comigo, mas quando ia morrer, quis que soubesse.

Pediu-me que viesse a te dizer que te amava e a... Te ajudar a passar este momento.

- Você disse que faz seis semanas. Por que demorou tanto?

Ela fez um gesto com a colher assinalando ao salão.

- Estava um pouco cansada com meu filho.

Ele seguiu seu olhar até o salão e depois voltou a olhá-la com olhos entrecerrados.

- Onde está seu homem? - Perguntou.

- Meu homem?

- O pai de seu filho.

- Ah. Eu... Não tenho homem.

Ele se levantou tão de improviso que Grace derramou água fervendo por toda a bancada. Depois entrou no salão e voltou com Bebê.

Grace esteve a ponto de cair de joelhos. Michael MacBain embalava a seu filho nos braços como se fosse a jóia mais valiosa da Terra.

- Parece que tem fome. Está mordendo o punho - disse. Olhou-a com expressão de estranheza. - Não o ouviu choramingar?

Com a palma da mão, Grace deu um golpezinho em um lado da cabeça como se algo a incomodasse, e se apressou a recorrer a uma evasiva.

- Parece que me taparam os ouvidos - disse. - Acredito que estou a ponto de me resfriar.

Voltou-se de novo para o armário e tirou uma mamadeira antes que ele visse a mentira em seus olhos. Mas quando deu a volta para pegar Bebê e lhe dar de comer, Michael estava sentado com ele no colo e a mão estendida à espera da mamadeira.

Maldição. Não queria que desse de comer a seu filho nem que o pegasse nos braços. Em particular, não queria que despisse Bebê e descobrisse que tinha doze dedos nos pés.

Aquele homem talvez parecesse um pouco primitivo, mas em seu rosto se via que era inteligente: imediatamente saberia que Bebê era dele.

Michael assinalou a cadeira de frente.

- Sente-se - disse. - Eu lhe darei de comer.

Olhou-a esperando a mamadeira, e ao ver que não se decidia, elevou uma comissura da boca, não sorrindo, e sim em gesto de compreensão.

- Sei que as mães de primeira viagem são protetoras, mas não tem nada que temer de mim, Grace - disse, empregando seu nome pela primeira vez. - Eu tive seis irmãos pequenos, entre meninos e meninas. Sei como dar a mamadeira a seu filho.

A contra gosto, ela o passou. Pensou que se montava uma cena ele suspeitaria. Então se sentou e se perguntou se aqueles seis irmãos e irmãs teriam morrido há oito séculos.

- Como se chama? - Perguntou ele, observando que Bebê se enganchava com avidez o bico.

- Bem... Por agora, Bebê. Ainda não pensei em um nome definitivo - disse ela.

Com cuidado, Grace afastou a lata de bolachas a um lado da mesa para que não ficasse entre eles. Depois a voltou até que a parte dianteira da lata ficasse de frente com Michael MacBain.

Tinha ocorrido a tola ideia de que a sua irmã gostaria de ver como seu amante dava a mamadeira ao filho de ambos.

Ele elevou a vista.

- Tem um mês e ainda não colocou seu nome? - Perguntou. Parecia horrorizado.

A Grace deu vontade de fechar os olhos e menear a cabeça só ao pensar em repetir a mesma mentira outra vez... Mas não fez nenhuma das duas coisas; simplesmente falou como se recitasse de cor:

- Um nome é uma coisa muito importante, e vai ter que viver com ele o resto de sua vida. Estou esperando a que me ocorra o nome perfeito.

- Por que leva o preço ainda na roupa? - Perguntou ele, enquanto levantava com os dedos a etiqueta da manga de Bebê.

Então sim que Grace fechou os olhos e, além disso, tampou a face com as mãos. Estava muito cansada. Ao voltar da loja se atirou no sofá e só tinha conseguido dormir quatro horas quando aquele homem irrompeu em sua casa.

Afastou o cabelo da cara e o olhou.

- Não tem nada mais que usar - explicou, cansada, armando-se de paciência. - Toda sua roupa, e a minha, estão lá encima, na colina de North Finger, cobrindo-se de gelo. Nosso avião caiu ali ontem.

Olhou o relógio da parede. Já era algo mais de meia-noite.

- Digamos anteontem já. Chegamos aqui esta mesma tarde... Ontem a tarde - Corrigiu. - Na loja só tinham dois trajezinhos que serviram, e ao vesti-lo não me fixei nas etiquetas.

Ele deixou de olhar para observar Bebê. Era evidente que estava surpreso.

- Sobreviveu a um acidente de avião? Sobreviveu os dois a um acidente de avião?

- Greylen MacKeage vinha conosco e nos salvou a vida.

A face de Michael se escureceu imediatamente.

- MacKeage estava com vocês?

Grace não soube interpretar aquela repentina mudança. Recordou que Mary havia dito que seus vizinhos e Michael não se podiam ver, mas diante da reação deste último, deu-se conta de que o relato da Mary foi otimista.

Nesse momento, Michael MacBain tinha o mesmo aspecto que Grei quando quis voltar a matar o piloto.

- Não estaríamos aqui nenhum dos dois se não fosse por ele - disse ela.

Elevou o queixo e o olhou nos olhos para que entendesse que defenderia Greylen MacKeage diante dele ou diante de qualquer pessoa. Se por acaso não tinha compreendido bem aquele pequeno detalhe, repetiu:

- Ele desceu Bebê da montanha e depois voltou por mim. Salvou-nos a vida.

Michael sorriu ao ver seu aborrecimento.

- Me alegro por vocês - disse. De repente ficou sério e inspirou fundo. - Me Fale mais de Mary. Onde está enterrada? E por que não a trouxe aqui para que descanse junto a seu pai e a sua mãe?

- Sim que a trouxe - disse Grace. - Só que não para enterrá-la. Mary quer que suas cinzas se espalhem pela montanha TarStone, mas não antes do solstício do verão.

Michael MacBain se sentou mais direito.

- Suas cinzas? A transformou em cinza?

Grace viu que o espanto começava a aparecer na expressão de Michael. Ia reagir igual aos MacKeage... Só que ele estava apaixonado pela Mary. O mais provável era que queria quebrar algo.

Deu uma olhada à parede onde se apoiava o taco de beisebol e respondeu:

- Sim.

- Onde está? - Perguntou ele, estirando o pescoço para olhar para o salão.

Grace ficou de pé, pegou Bebê dos braços de Michael e o apoiou no ombro.

- Terei que fazê-lo arrotar - disse a modo de explicação; depois, muito devagar, enquanto aparentava acalmar Bebê, foi avançando para a porta quebrada da cozinha e olhou pelo ainda intacto portal. - E Mary está...

Bom, está na mesa, junto a você, dentro da lata de bolachas.

Fechou os olhos e esperou a explosão de Michael.

Mas a explosão não chegou. Quão único soou na habitação foi o suave rangido que deu a casa, adaptando-se ao peso do gelo que aumentava sobre o telhado.

Grace abriu os olhos e viu que Michael MacBain pegava com cuidado a lata de bolachas e a abraçava. Um doloroso pesar modelou suas feições com tensos e severos talhos de desespero. Depois tentou abrir a tampa fazendo força, mas a tampa não se moveu.

- Selei-a com cola - disse ela em voz baixa.

Como se não a tivesse ouvido, Michael empurrou a tampa com o polegar e manteve a pressão até que ao fim cedeu. Então a tirou, afundou a mão dentro e tirou parte da cinza para deixá-la cair entre os dedos outra vez na lata.

Grace se secou as lágrimas que lhe corriam pelas faces. Aquele homem estava vendo todas suas esperanças e sonhos de futuro convertidos em cinzas.

Só ficava o menino que agora tinha ela nos braços... E no coração.

A angústia de Michael estava tão em carne viva, era tão desgarradoramente dolorosa, que Grace esteve a ponto de deixar escapar seu segredo justo ali e naquele preciso momento.

Ela tinha o poder de apagar parte daquela dor lhe dando a seu filho, com o que, além disso, cumpriria a promessa que havia feito a Mary.

Mas então a ela lhe romperia o coração pela segunda vez em um mês.

Discretamente, saiu da cozinha, entrou no dormitório do piso de baixo e, sem fazer ruído, fechou a porta. Depois deitou na cama com Bebê nos braços e deixou correr as lágrimas.

Que Michael MacBain se despedisse da Mary em paz; merecia-se aquele tempo.

Além disso, ela já não suportava a visão de sua tristeza.

 

Ao amanhecer Grace despertou sobressaltada por um tremendo alvoroço. Um cão latia no jardim perseguindo algo, que protestava ainda mais forte porque o perseguiam.Também se ouviam os gritos de um homem e, se não se equivocava, os balidos de uma cabra.

Levantou-se da cama e no lugar que ela ocupava colocou um travesseiro para que Bebê não caísse rodando. Depois colocou um par de sapatos da Mary que tinha encontrado no dia anterior e saiu para a cozinha.

Não teve que vestir-se; tinha dormido vestida.

Ao abrir a porta quebrada da cozinha, uma galinha passou batendo as asas por diante, presa do pânico, seguida por um cão negro enorme que se deslizava pelo gelo entre escorregões.

- Ben! Deixa esse pássaro e vêem aqui! - Voltou a gritar o homem, que, depois de fechar de uma pancada a portinhola traseira da caminhonete, dirigiu-se a do condutor, ainda aberta. - À caminhonete, Ben!

Grace se apressou a sair do alpendre em direção a ele, mas logo que seus pés se posaram no caminho molhado da entrada, esteve a ponto de cair.

- Espere! O que faz? - Gritou ao homem que naquele instante se metia na caminhonete.

Ele voltou a descer e ficou olhando-a em atitude defensiva. Ela chegou escorregando a sua altura e se deteve diante dele. Teve que agarrar-se ao pára-lama para não cair. Em seguida deu um passo atrás.

Aquele desconhecido cheirava a granja e, por seu aspecto, devia ter dormido no estábulo com os animais. Seu rosto curtido se rendia em um gesto de cólera, tão marcado que Grace não sabia se era porque a intempérie o tinha avermelhado ou porque uma vaca lhe tinha pisado em uma face. No lado direito da boca tinha um vulto, como se tivesse colocada uma bola.

- Devolvo-lhe seus condenados animais - Respondeu ele, ao tempo que cuspia no chão uma bola cor castanha de suco de tabaco.

Grace recuou outro passo.

Então ele elevou a mão, chata e calejada, e foi contando com seus sujos dedos.

- Três gatos, uma cabra e dezesseis galinhas. Duas morreram, e não penso as repor. São galinhas velhas e não põem suficientes ovos para compensar o gasto de ração.

- Mas por que os traz aqui?

- São da Mary - disse ele, conciso, justo antes de cuspir outra bola de suco de tabaco. - Ontem à noite vi a luz do alpendre acesa. Já está em casa, de modo que já pode cuidar deles outra vez.

Assinalou o estábulo que estava ao final do jardim.

- Essa maldita cabra é um perigo. Tem-me quebrado todas as cercas da casa... E além disso comeu meu melhor par de cueca longas - rematou.

Fez gestos ao enorme cão negro, que por fim obedeceu e se aproximou correndo para meter-se de um salto no assento dianteiro da caminhonete. Então o homem se sentou a seu lado e fechou a portinhola de um golpe.

- Espere! Mary não está aqui. E eu não tenho nem ideia de como cuidar destes animais.

Ele baixou o vidro e a olhou.

- Não tem mais que lhes dar comida e água. Já cuidam de si mesmos até que volte Mary - elevou a vista para o estábulo. - E não lhe dê as costas a essa cabra, ou o mais provável é que não possa sentar-se por uma semana. É mais malvada que Jezabel.

Dito isto, e antes que ela pudesse protestar, arrancou com a caminhonete e saiu a toda pelo caminho da entrada. O cascalho coberto de gelo fez o veículo deslizar em ziguezague, mas o homem não se deteve... Nem sequer quando, ao chegar à estrada principal, patinou na curva e bateu contra o montículo de neve em frente. Grace deu um pulo ao ouvir como davam voltas os pneus para agarrar-se.

De uma brusca virada, o homem voltou a situar sua caminhonete na estrada e acabou perdendo-se de vista com grande estrondo.

Ela ficou olhando fixamente o lugar por onde tinha desaparecido até que algo lhe bicou o pé. Ao baixar a vista se encontrou com uma roliça galinha de cor mogno, muito interessada em comer seu sapato.

Várias aves mais se apressaram a acompanhá-la e caíram sobre Grace como se de repente tivesse tocado o sino do jantar.

Ela recuou dizendo:

- Fora, fora, fora...

Devagar, dirigiu-se para o estábulo e, uma vez ali, agarrou as duas bolsas de comida para animais meio vazias que viu junto à porta. Tomou cuidado de não cair, não queria ser comida de aves.

Desenrolou a parte de cima das bolsas de papel e olhou os desenhos que havia nelas. Alguém tinha galinhas por todo o fronte, e a outra, um plácido rebanho de cabras pastando em um prado. Bom, a coisa era bastante fácil. Tirou um punhado de alimento de galinha e o espalhou pelo chão do estábulo; imediatamente o grupo de aves começou a entrar em turba e se apressou a engolir sua comida. Grace jogou uns quantos punhados mais, no caso de comerem tudo.

Do interior, ao resguardo da chuva, voltou a olhar para o caminho de entrada e ficou pasmada. Tudo que via estava coberto de gelo. As árvores se inclinavam sob seu peso, e algumas dobravam que tocavam o chão se gelaram pegas a ele. O bosque rangia a seu redor como se queixasse, e pelo ar, frio mas muito úmido, chegavam os ecos horripilantes e enfermos daquelas queixas. O céu, encapotado, tampava por completo as montanhas que rodeavam Pene Creek; em alguns lugares as nuvens estavam tão baixas que nem sequer se viam as copas das árvores mais altas. E quanto à casa, parecia coberta por uma pele cristalina.

Um imperioso e zangado balido lhe chegou de dentro do estábulo. Voltou-se e, depois da porta de madeira meio roída de uma cocheira, viu a cabeça de uma cabra, armada com dois chifres bicudos, que cravava seus enormes olhos negros nela.

De maneira que aquela era Jezabel... Agarrou a outra bolsa de alimento e a levou a rastros até o impaciente animal. Então verteu vários punhados em um balde que havia junto à porta da cocheira e abriu a porta para colocá-lo dentro... Mas antes de que corresse o fecho, o balde já voava pelos ares e Grace se encontrava sentada no chão. A cabra saltou por cima dela, passou quase lhe roçando a cabeça com seus afiados chifres e saiu correndo do estábulo sem lhe dar tempo sequer a gritar.

Maldição, não tinha nem ideia de como terei que dirigir os animais... Se levantou e sacudiu a roupa. Pois bem, que aquele estúpido inseto brincasse de correr sob a chuva se queria. Endireitou o balde e voltou a enchê-lo com mais comida. Depois baixou um fardo de palha do montão que havia na cocheira do lado e a estendeu pelo chão do estábulo, longe das galinhas.

Ao sair viu o interfone infantil em um suporte. Mary devia usá-lo para controlar aos animais durante a noite. Desligou o transmissor e o agarrou. O receptor devia estar em algum lugar da casa. Usaria-o para cuidar de Bebê. Poria o transmissor no quarto e levaria o receptor no cinturão sempre que tivesse que sair para ocupar-se daqueles malditos animais. E já que estava, teria que procurar algum livro que tratasse do cuidado dos animais domésticos.

Confiou em que Mary tivesse toda uma biblioteca sobre o tema.

Enquanto retornava depressa à casa para ver o menino, quase tropeçou com três gatos, que pareciam decididos a chegar dentro antes dela. Esperou que houvesse comida para gatos no armário da cozinha.

Quando entrou na habitação, viu que o bebê acabava de despertar.

- De maneira que aí está, céu - sussurrou. - Bem dormiu... - O pegou nos braços e riu. - Em realidade, é a primeira vez em muito tempo que desperta no mesmo lugar onde se deitou.

Beijou-lhe a morna face, estreitou-o contra ela e aspirou seu aroma único. Que precioso era. Agora teria um momento de tranqüilidade só para os dois; assim, pouco a pouco, chegariam a conhecer-se.

Seu prazer em um poço; a calma durou menos de uma hora.

Grace elevou a vista do livro sobre a cria de animais que estava lendo em voz alta a Bebê ao ouvir aproximar-se pelo caminho de entrada o som, já familiar, da máquina pisa neves.

Deixou o livro a um lado e, com cuidado, voltou a pegar Bebê nos braços enquanto ficava de pé.

Enquanto entrava na cozinha, ouviu apagar o motor e logo escutou vozes de homens. De repente, os murmúrios se transformaram em um grito de surpresa. Olhou pela única janela que não estava coberta de gelo bem a tempo de ver o Morgan correndo diante de Jezabel. Não precisava ser engenheiro astronáutico para saber o resultado: o homem perdeu a corrida.

Depois de soltar algo que soou a palavrão, só que em um idioma que não reconheceu, o jovem ficou sentado no cascalho gelado, gritando à cabra, que se retirava vitoriosa.

Carregado com as malas de Grace que tinham ficado no avião, Grei se limitou a passar por diante dele e a soltar uma risadinha. Subiu ao alpendre a grandes passos e de repente se deteve com a vista cravada na porta da cozinha.

Grace usou o pé para abrir a porta e o saudou com um sorriso.

- Ah, minhas malas... Trouxe minhas coisas.

- O que aconteceu à porta? - Perguntou ele. Seguia sem mover-se, olhando a madeira quebrada.

Ela se afastou para deixá-lo entrar. Morgan passou atrás, esfregando o traseiro.

- Pois... Bem, a visita que tive ontem à noite a quebrou.

- Que visita? - Perguntou Grei zangado, ao mesmo tempo que deixava as malas no chão.

O que podia lhe dizer para não avivar a guerra que tinham os MacKeage declarada e Michael MacBain? Uma guerra que parecia vir de longe. Deu vontade de sacudir a cabeça diante aquela absurda situação. Eram como os Hatfield e os McCoy, duas famílias que se enfrentaram durante trinta anos no selvagem Oeste fazia mais de um século, e cujos membros seguiam reagindo com hostilidade ao escutar o sobrenome da família inimiga. Já o tinha visto a noite anterior, quando, de forma inocente, contou a Michael que Grei tinha salvado a vida a ela e a Bebê.

- Estou esperando - disse ele.

Sua atitude lhe indicou que esgotava a paciência.

Grace deixou Bebê na macia poltrona e voltou a protegê-lo com a almofada.

- Michael MacBain procurava a Mary - disse.

Certamente, ia ter que encontrar um berço mais decente... Antes que Bebê fizesse três anos.

- MacBain... - Grunhiu Morgan de trás de Grei. Voltou-se para examinar a porta. - Esse bastardo irrompeu em sua casa?

Grei seguia impassível, olhando-a.

- Você tem uma arma? - Perguntou.

- Uma arma? - Assustada, Grace o olhou e meneou a cabeça. - Não. E embora a tivesse, não a usaria. Não penso disparar em ninguém. Isso é uma barbaridade... E tampouco é legal.

- É, se usar em defesa própria - replicou ele.

- Para me defender de Michael? Só procurava a Mary.

- E como reagiu ao não encontrá-la? - Grei se aproximou um passo dela.

- Como você acha que reagiu? - Perguntou ela, aproximando-se dele por sua vez. Maldição, não gostava de sua atitude. Agia como se ela fosse idiota por não sentir medo de um homem aflito. - Estava destroçado - disse, e acrescentou.

- Obrigado por trazer minhas coisas.

Sua mudança de tema não o distraiu. Grei se aproximou dela ainda mais e a tomou pelos ombros com suas enormes e cálidas mãos.

- Não se aproxime dele, Grace. Michael MacBain só traz problemas.

Ela se afastou bruscamente. Só com que a tocasse sentia calafrios na coluna vertebral... E esses calafrios não tinham nada que ver com o medo.

Era desejo; puro e estúpido desejo.

Levava só vinte e quatro horas sem vê-lo, e ali estava, agindo como uma estúpida colegial encantada por aquele gigante... E o pior era que ela parecia ser quão única sofria pela separação.

Aproximou-se de suas malas enquanto se dizia mentalmente (e também dizia a seus hormônios) que já estava bem.

Tinha graça: Grei agindo como se fosse matar Michael MacBain, e ainda assim ela seguia fantasiando com que voltasse a tocá-la.

Morgan chegou antes às malas, levantou-as e as pôs em cima da mesa. Grace o agradeceu com um sorriso e abriu uma delas.

- Quando minha irmã morreu, voltava para casa para casar-se com Michael - disse a Grei, que agora tinha os braços cruzados e os olhos entreabertos. - Para mim isso o transforma quase em família.

Voltou a olhar a Morgan, para que soubesse que falava com ele também.

- Michael está sofrendo - disse. - E não penso ignorá-lo, nem a ele nem a sua dor, só porque vocês não gostam dele.

A julgar pela expressão de Grei, naquele preciso momento ela tampouco devia lhe gostar muito... De repente Grace cedeu a seus impulsos e riu em voz alta.

- Oxalá se visse a si mesmo. Parece um menino pequeno fazendo um bico porque sua mãe não quer levá-lo a sério. Esta longa disputa entre vocês e Michael é infantil.

- Você não tem nem ideia do que diz - Grei falou com os dentes apertados, e seus olhos verdes a atravessaram. - E, além disso, você não é minha mãe.

Ela elevou as mãos em um gesto de súplica.

- Muito bem, faça o que quiser. Mas não penso intervir nisto - se aproximou dele e o olhou nos olhos, lhe cravando um olhar tão feroz como o dele.

- Estou em dívida com você por ter me salvado a vida, mas no que respeita a seus problemas com o Michael penso permanecer neutra. Essas são minhas condições, é pegar ou largar.

Manteve o olhar tanto tempo que Grace temeu que acabava de perder a seu novo amigo... E não era isso o que queria, porque gostava de Greylen MacKeage. Droga, a quem queria enganar? Aquele homem a atraía muitíssimo, e lhe parecia que os dois compartilhavam uma conexão especial. Tinham passado toda uma aventura juntos, e juntos tinham superado as dificuldades.

Considerava sagrado o vínculo que se estabeleceu entre eles lá encima, na montanha, e lhe custava admitir que seus princípios fossem acabar com ele.

Mas assim ia ser. Se agora voltasse atrás, corria o perigo de perder algo mais que os princípios que sempre a guiavam na hora de tomar decisões fundamentais em sua vida.

Corria o perigo de perder o coração.

E isso era algo que não podia permitir-se. Estava ali para passar quatro meses, até o solstício do verão. Depois ela e Bebê voltariam para a Virginia e começariam uma nova vida juntos.

- Muito bem - disse ele ao fim. - Fale com MacBain. Mas deve tomar cuidado; não se pode confiar nele.

Grace quis lhe perguntar o que tinha ocorrido para que odiasse tanto Michael, mas guardou suas perguntas; de todos os modos, não acreditava que fosse contar, se o Michael não o tinha contado a Mary, e esse pequeno detalhe era muito revelador, em vista das outras coisas que lhe contou. Em qualquer caso, o que tivesse passado entre aqueles homens não devia ser muito agradável.

Enquanto voltava para a tarefa de ordenar suas coisas na mesa, Grei se aproximou de Bebê e o pegou.

- Não deveria incomodá-lo quando dorme - advertiu ela. - O pobrezinho precisa descansar.

Ele a olhou arqueando uma sobrancelha.

- Está descansando. Olhe, não despertou - disse.

Inclinou Bebê para que lhe visse a cara. O pequeno suspirou, dormindo, e se aconchegou em seu peito. Grace franziu o cenho.

- Gosta do batimento do coração. Os bebês o necessitam; assim sentem a proximidade de outra vida - disse ele sorrindo.

Ela se perguntou de onde teria tirado aquela informação. Havia-lhe dito que tinha irmãos pequenos, mas bastava isso para explicar a desenvoltura com a que pegava Bebê? Sabia que não estava casado, embora devia ter mais de trinta anos...

Possivelmente tivesse uma ex esposa e seis meninos por algum lugar.

Morgan voltou a entrar pela porta com duas bolsas de alimentos nas mãos.

- Trouxemos um pouco de comida - disse.

Ela nem sequer se deu conta de que havia saído.

- Obrigado - com um gesto indicou que as pusesse na bancada. - Mas não precisava; ontem saí a comprar algumas coisas.

- Quem saiu? - Disse Grei. - Com esta tormenta? Mas não se dá conta que conduzir nestas condições é perigoso?

Grace soltou no chão a mala que acabava de esvaziar.

- Não ia dar sopa de vento a Bebê - esclareceu. - E, além disso, minha caminhonete tem tração nas quatro rodas.

- O perigoso não é circular - disse Morgan, somando-se ao debate. - O que é impossível é parar.

- Isso já descobri - reconheceu ela. - Esta tarde porei as correntes na caminhonete.

- Sabe como se faz? - Perguntou Morgan. Parecia não só surpreso, mas também cético.

- Criei-me aqui - recordou ela. - Sei como confrontar o mau tempo.

Morgan olhou a Grei, e Grace viu que este fazia um gesto com a cabeça assinalando a garagem. Ela abriu o zíper da outra mala. Se sentiam melhor lhe pondo as correntes, não tinha intenção de queixar-se. Revisou as coisas que levava na segunda mala e foi acrescentando objetos ao montão de roupa estragadas. Suas blusas de seda não tinham suportado nada bem a chuva gelada. Ao fim encontrou o que estava procurando e ligou o interruptor de sua agenda eletrônica. Não aconteceu nada.

- Nossa, também se danificou.

- O que é? - Grei se aproximou dela com Bebê, aconchegado e feliz, em seus braços. - Outro computador?

- É minha agenda eletrônica. E ou as baterias estão frias, ou se danificou.

- Agenda eletrônica?

Grace a tirou de seu estojo de pele e abriu a parte de trás.

- É como um secretário pessoal eletrônico - explicou. - Contém minha agenda, minha lista de tarefas e todos meus contatos. Sem ela não sou ninguém.

- E não seria mais fácil guardar essa informação em um caderno? -Perguntou ele.

Inclinou-se sobre seu ombro enquanto ela trocava as pilhas. No dia anterior as tinha comprado em previsão daquela possibilidade ou de que ficassem sem luz elétrica.

Grace deu de ombros.

- Possivelmente, mas o papel também teria estragado - olhou o computador que estava carregando sobre a bancada, abriu-o e o ligou. - Bom, ao menos o computador funciona.

Necessitava uma xícara de chocolate. Pegou a chaleira, encheu-a de água e a pôs no fogão. Depois deu uns afetuosos tapinhas no computador.

- Tenho sorte de que o computador funcione e só estragou a bateria - disse. - Embora não podia ser de outra forma. Esgotei-a ao deixá-la acesa na cova de neve.

Os componentes eletrônicos não gostam do frio, nem tampouco molhar-se, mas o computador me ajudou a me manter viva.

Olhou a Grei.

- Abracei-o forte para usar seu calor.

Ele a olhou com uma expressão estranha.

- Quando a encontramos, tinha a lata de bolachas abraçada, Grace, não o computador.

Ela meneou a cabeça sem afastar a vista dele.

- Não, isso é impossível. Lembro bem que sentia um grande calor no peito e nas mãos, e só isso evitou que me congelassem os dedos. Teve que ser o computador. Não é possível que uma lata cheia de cinzas gere calor.

- Talvez fosse o espírito de sua irmã, que a protegia - sugeriu ele em voz baixa. - No mínimo Mary esteve com você naquela cova de outras formas, além de em suas cinzas. Você abraçava sua lata, Grace. Eu sei o que encontrei.

Então ela dirigiu a vista à mesa para olhar a Mary... Mas não estava ali.

Correu para a mesa, afastou o montão de roupa e depois tirou a mala. A mesa estava vazia. Olhou pela cozinha, mas não viu a lata; não havia nem rastro dela. Enquanto jogava uma olhada a bancada e aos suportes da cozinha, sussurrou para si:

- Ele a levou.

- Quem? - Perguntou Grei a suas costas. - O que está procurando?

Ela girou sobre seus talões.

- A Mary. Levou Mary.

- Quem levou a Mary? - Perguntou Morgan, que entrava na cozinha nesse momento.

Na mão tinha um martelo e vários pregos. Com um só golpe, colocou o marco da porta rota em seu lugar.

Grei respondeu pela Grace.

- MacBain pegou a lata que continha as cinzas de Mary - passou o menino a Grace e se dirigiu a Morgan. - Vamos.

Ela se apressou a pará-los.

- Esperem! Não vão a nenhum lugar - olhou Grei diretamente nos olhos. - Isso é entre ele e eu. Não quero que vão a sua casa e briguem.

- Tem a sua irmã, lass - disse Morgan horrorizado. - A roubou de sua própria casa!

Grace o olhou.

- Mas em realidade não roubou Mary; só é uma lata cheia de carvão, minerais e cinzas. Mary saiu de seu corpo justo no momento de morrer.

- Você leva dias cuidando dessas cinzas - recordou Grei. - Sei o que essa lata significa para você.

- Fui uma estúpida, nada mais. - Grace meneou a cabeça enquanto baixava a vista até Bebê e depois elevou o olhar de novo. - Não vale a pena montar uma cena por isso.

Michael não sabia que Mary tinha morrido; para ele é como se a tivesse perdido ontem à noite. Sei pelo que está passando, e entendo que precise ter suas cinzas durante um tempo.

- E seu plano para o solstício de verão? - Perguntou Grei.

- Se fará de toda forma; ele me devolverá a lata antes. Sei que o fará.

Nenhum dos dois quis acreditá-la... E pareceu que os decepcionava o não poder agir. Grace se apressou a passar outra vez o pequeno a Grei para impedir que fosse procurar Michael em um arranque.

- A água está fervendo. Senhores, querem chocolate?

- Não - Grei voltou a pôr Bebê na poltrona. - O gelo segue acumulando-se sobre nosso teleférico, e temos que vigiá-lo.

Voltou-se para olhá-la de frente.

- Não saia. Os caminhos são perigosos, e além disso, alguns estão bloqueados por árvores caídas.

A Grace não gostou que lhe desse ordens, mas se sentiu aliviada ao ver que deixava a um lado o tema de Michael e Mary.

- Pois vocês chegaram sem problemas aqui - recordou, molesta.

- Nós viajamos na pisa neves - a pegou pelo queixo e lhe elevou a face. - Nos chame se necessitar algo.

Grace lhe lançou um sorriso arrebatador e depois, com uma voz impregnada de doçura, disse:

- Farei.

- Por Deus, mulher! Você faz em pedacinhos minhas boas intenções - murmurou Grei.

Então tomou em seus braços e a beijou.

Quando a soltou, a cabeça de Grace dava voltas. Demorou um momento em pôr em ordem suas ideias e mal conseguiu chegar à porta antes de que ele subisse à máquina pisa neves.

- MacKeage!

Ele se deteve e se voltou a olhá-la.

- Quero sua promessa de que não se aproximará de Michael.

Viu que ele fechava a cara. Maldição, tinha pensado ir fazer lhe uma visita.

- Sua promessa, Grei. Ou não se incomode em voltar mais.

Não estava segura de que fosse fazer caso a suas palavras. O mais provável é que nem sequer lhe importasse... Então tocou os lábios. Possivelmente... possivelmente sim lhe importava.

Viu-o ficar quieto sob a chuva gelada, empapando-se, olhando-a fixamente... Por fim assentiu e montou na máquina, que entrou em marcha com estrépito e baixou grunhindo pelo caminho de entrada, deixando atrás de si um rastro de partes de gelo.

Grace fechou a porta com suavidade e se apoiou nela. Bom, aquilo dava o que pensar. Ao que parece, Greylen MacKeage queria voltar a vê-la.

 

Por um instante Grace deixou de dobrar a roupa de Bebê e subiu o volume do televisor. O noticiário recolhia cenas de devastação em quatro estados e na província de Quebec. Não dava crédito a seus olhos. Umas seqüências mostravam a queda de todo um corredor elétrico de alta tensão como se fosse uma fila de pedras de dominó. Quando os cabos do estendido elétrico não agüentaram mais e se romperam, o peso do gelo e a falta de apoio fez que as torres metálicas viessem abaixo.

As árvores, totalmente encobertas em uma pesada capa de gelo, quebravam-se e, ao cair, cortavam estradas, derrubavam cabos e esmagavam carros e edifícios. Logo tudo ficava coberto de branco, congelado, como se fossem estátuas de mármore.

Pareciam cenas da Antártida ou do topo do monte Washington.

E, além disso, a incessante chuva se congelava sobre tudo o que tocava. O homem do tempo dizia que pararia logo..., mas não se sabia quando. A mãe natureza se mostrava teimosa.

Centenas de milhares de pessoas estavam sem eletricidade e, segundo os prognósticos, essa quantidade aumentaria até converter-se em milhões. A parte norte de Nova a Inglaterra, o norte de Nova Iorque e Quebec se encontravam em estado de emergência.

Grace afastou a vista do televisor e olhou pelas janelas do salão. Levava quatro dias chovendo, e cada vez havia mais gelo. Não via nada pelas janelas que davam ao norte e ao oeste, e pelas do sul só via gelo.

Enquanto isso, a casa de sua infância seguia assentando-se; movia-se para agüentar o peso que já tinha em cima, de vez em quando e cada certo tempo dava um estalo.

Então Grace decidiu que já era hora de dar uma volta pelo sótão para comprovar os suportes do telhado. Foi dar uma olhada em Bebê e viu que repousava do seu almoço como um gato satisfeito; em realidade, os três gatos que tinha herdado de Mary dormiam também, feito um novelo diante da lareira, sonhando sonhos felinos. Sorriu diante do quadro, pegou o interfone infantil e o segurou à cintura das calças de moletom.

Depois de procurar uma lanterna na cozinha, subiu ao sótão. Ao abrir a porta a envolveu uns formados redemoinhos de ar frio, e grampeou o primeiro botão da camisa de flanela de Grei.

Aquela manhã a tinha tirado do esconderijo debaixo de seu travesseiro, e ao fazê-lo se sentiu como uma apaixonada colegial. Já sentia falta dele, embora tinha estado ali no dia anterior... E outra vez a tinha beijado até deixá-la sem sentido.

Voltaria hoje para ver como andavam ela e Bebê? E voltaria a beijá-la de novo?

Mas, bom, era preciso dominar-se; tinha que seguir repetindo seu mantra: "Homem errado, momento errado..." Não podia apaixonar-se por um homem enquanto tivesse no coração o filho de outro, e menos se os dois homens se odiavam.

Simplesmente, não havia forma de que ela, Bebê, Grei e Michael compartilhassem uma vida juntos. E se apaixonasse por Greylen MacKeage, não havia modo de evitá-lo. Além disso, depois do solstício de verão devia retornar a sua vida normal na Virginia.

Ligou a lanterna e fechou a porta do sótão atrás de si para que não escapasse o ar frio. Quando projetou a luz pela gelada estadia, surpreendeu-se ao ver a grande quantidade de trastes que havia ali dispersos depois de tantos anos: selas quebradas à espera de reparação, caixas de roupa, abajures, quadros, adornos de Natal e inclusive um antigo reprodutor de toca-fitas, de oito pistas, do tamanho de um sofá.

Mas o que de verdade lhe chamou a atenção foi o mobiliário infantil: um Moisés, um berço, um trocador e uma cômoda, tudo de carvalho e tudo coberto de anos de pó. Tinha dado com um filão: tudo que necessitava para Bebê estava ali em cima.

Provavelmente, também haveria parte de sua velha roupa, e da roupa de Mary, dentro de alguma caixa.

Antes de levar seu achado ao piso de baixo, decidiu comprovar o telhado. Dirigiu a lanterna a viga que percorria o sótão ao longo, e viu que, salvo pela acumulação de pó de cem anos, parecia tão firme e novo como o dia que o tinham colocado.

Depois baixou o raio de luz pelas vigas até onde terminavam nos beirais; também pareciam estar bem, e tão direitas como fortes.

De repente um grande estalo estremeceu toda a casa, com tanta força que os objetos do sótão tremeram e soaram a seu redor. Grace deu um pulo e se apressou a iluminar outra vez as vigas.

Tudo estava igual.

Então se deu conta de que o barulho era o gelo que havia sobre o telhado, não o telhado. E agora que o pensava, identificou o som; era o mesmo que fazia o lago Pene nas frias noites de inverno quando sua capa congelada se movia sob a crescente pressão, porque o gelo se dilatava e se contraía ao endurecer-se.

Soltou um suspiro de alívio. A casa estava suportando muito peso, mas não havia nenhum perigo de que se rompesse. Satisfeita de que o telhado não fosse cair sobre a cabeça, pegou o berço e o trocador e os desceu.

O resto baixaria quando Grei ou Morgan voltassem a fazer uma visita.

Levou o berço à cozinha e o limpou, depois o encerou com um pano seco, e quando esteve reluzente, levou-o ao salão e o pôs perto da lareira para que se esquentasse.

- Aí está, Bebê. Vai dormir em uma cama de verdade, para variar - disse ao pequeno.

Bebê estava sonhando. Fazia movimentos como se chupasse, com a boca pega ao punho e as longas pestanas apoiadas nas mornas e rosadas faces. Seu cabelo rebelde seguia sendo um desastre, mas ainda assim, com os dias, a Grace cada vez gostava mais dele.

Voltou a subir a manta até os ombros e olhou o relógio; meio-dia. Então ouviu que batiam na porta da cozinha. De repente, seu coração começou a pulsar com força diante da possibilidade de que Grei houvesse retornado. Correu à porta e a abriu; na soleira só havia duas faces que eram familiares, mas que não soube reconhecer imediatamente.

A mulher alargou a mão e a envolveu em um gigantesco abraço.

- Ai, Grace! - Disse. - Quanto o sentimos! Acabamos de nos inteirar da Mary.

O homem, com os braços carregados de pratos tampados com papel de alumínio, passou por diante delas e deixou seu carregamento na mesa da cozinha. A mulher não a soltou; limitou-se a seguir abraçando-a e a balançá-la com certa brutalidade.

- Eu disse ao Peter que não íamos deixar que uma pequena tormenta nos impedisse de vir - prosseguiu. - Estamos aqui para tudo o que necessite.

- Ah..., obrigado - Murmurou Grace contra um ombro molhado e coberto de lã.

Ao fim conseguiu soltar-se do abraço e cravou os olhos na mulher.

- Eu a conheço... - Disse.

A mulher riu.

- Claro que me conhece, Gracie. Sou Mavis. E ele é Peter. Somos os Potts. Eu era sua babá e da sua irmã quando mal começavam a andar.

- Ai, sim! - Disse Grace. Tomou pelas duas mãos e as apertou com afeto, envergonhada por não havê-los reconhecido imediatamente. - Fazia anos que não a via. Que alegria vê-los outra vez.

Mavis Potts lhe sorriu com expressão de pedir desculpas.

- Quando morreram seus pais, estávamos na Califórnia, visitando nosso filho, e não pudemos voltar a tempo para o funeral.

Abraçou-a de novo, desta vez mais rápido.

- Acabamos de nos inteirar da Mary, carinho. O que podemos fazer por você? Trouxe-te algo de comer - se aproximou da mesa e começou a desembrulhar os pratos. De repente pareceu dar-se conta de que aquela era muita comida.

- Provavelmente pensará que sou uma exagerada, céu, mas é que, quando me inteiro de más notícias, dá-me vontade de cozinhar...

- Como souberam da Mary? - Perguntou Grace, ao mesmo tempo que se dirigia para o Peter Potts e lhe dava um cordial abraço.

- Ellen Bigelow nos chamou esta manhã - disse o homem. - Nos disse que Michael esteve fora toda a noite e que esta manhã voltou para casa com a notícia.

Nesse momento interveio Mavis, com um enorme bolo de maçã, ainda fumegante, na mão.

- Está destroçado. Não está levando-o bem. Trancou-se em seu quarto, e Ellen diz que não comeu durante todo o dia - soltou um entristecido suspiro. - Iam casar se, sabe?

Voltou a pôr o bolo de maçã sobre a mesa, tirou uma cadeira e se sentou. Grace viu que os olhos da senhora Mavis começavam a umedecer-se.

- É que não posso acreditá-lo - disse Mavis, meneando a cabeça. - Mary morreu... Quando ocorreu?

Grace soltou um suspiro de cansaço, tirou outra cadeira e se sentou frente a ela. As mentiras estavam a ponto de começar outra vez.

- Faz seis semanas - respondeu. - Teve um acidente de carro.

- Tinha ido visitá-la, verdade? Onde? A Virginia, não?

- Sim. Foi porque eu o pedi. Estava grávida e desejava estar com ela.

Os olhos de Mavis se abriram até alcançar o tamanho de dois pratos de sobremesa.

- Grávida? - Gritou, lhe olhando o estômago.

Grace assentiu e com um gesto de cabeça assinalou ao salão.

- tive um filho faz quatro semanas - disse.

- Ai, pobrezinha - disse Mavis em tom de causar pena.

Levantou-se e tirou Grace da cadeira para abraçá-la outra vez.

- Perder a sua irmã agora... - Acrescentou, compadecida. - No que deveria ser o momento mais feliz de sua vida...

Grace lhe devolveu o abraço com os olhos cheios de lágrimas sem verter; alegrava-se de que a mulher tivesse passado a vê-la aquele dia, embora a fizesse chorar.

Ao fim Mavis a soltou e foi ao salão.

- Grace Sutter, tem este menino em uma caixa de maçãs! - Repreendeu-a, horrorizada. - Por que não está no berço?

Grace também entrou no salão; atrás, com passo lento, ia Peter.

- Acabo de descê-lo do sótão - disse. - Tinha esquecido por completo dele. Lá encima seguem estando o trocador e um pouco de roupa; descerei-os depois. Acabo de limpar o berço agora mesmo, mas não quis movê-lo para não despertá-lo.

- É um rapazinho? Como se chama? - Perguntou Mavis em tom muito baixo enquanto jogava uma olhada ao bebê dormindo.

Grace fechou os olhos, que lhe ardiam. Agradavam-lhe aquelas pessoas e detestava mentir.

- Por agora o chamo de Bebê - respondeu. - Ainda não me decidi por um nome, e entre o da Mary e todo o resto, quis esperar. Quero que seja o nome apropriado.

Grace abriu os olhos bem a tempo de ver que Mavis caía sobre ela de novo. Desta vez o abraço foi tão forte que soltou um chiado.

- Não importa, carinho. Não é obrigatório que tenha que lhe pôr um bom nome de primeira.

Voltou atrás e lhe sorriu.

- Acredito que é esperta ao querer pensar no nome. Eu, aos dois meses depois de pôr o nome a nosso primeiro filho, já estava me arrependendo. Preston Potts não encaixava ao menino - foi para a escada, sorrindo ainda.

- Ao final cresceu e ficou bem, mas não passou uma infância agradável. Os meninos não deixavam de chamá-lo Prissy Potts... E onde está seu marido, Grace? Estou desejando conhecê-lo.

- Não tenho marido - as palavras quase lhe entupiram na garganta.

Mavis se ruborizou.

- Ah. O..., né..., sinto - Agitou a mão no ar como se afugentasse o que havia dito antes. - Está tudo bem, carinho. Significa isso que o pai de Bebê já é história?

- Sim. Um pouco parecido - resmungou Grace, que se deu a volta para alisar as rugas da manta de Bebê. Depois voltou a olhar a Mavis e lançou um forçado sorriso. - Mas não me importa; meu filho e eu estaremos perfeitamente bem.

Mavis assentiu.

- Pois se você estiver bem, nós estamos bem também. Vamos, Peter, vamos descer essas coisas para Grace.

Esta correu atrás do Mavis, que estava surpreendentemente ágil para sua idade.

- Não é necessário, posso fazê-lo eu.

- Tolices. Acaba de ter um menino e não deveria andar levantando nada que pese mais que seu filho - disse Mavis, ao mesmo tempo que desaparecia escada acima.

Peter chegou ao pé da escada com um sorriso pormenorizado na cara e se deteve diante da Grace.

- Mais vale que não discuta com ela - disse. - E menos quando decide algo. Não se preocupe, não ficaremos muito. Temos que ir ver os Merrick e aos Colburn para nos assegurar de que estão suportando bem o temporal.

- Vocês sempre são bem-vindos aqui, Peter. - Não queria que me tomassem por uma ingrata.

Ele pôs uma mão envelhecida, mas ainda forte, sobre o ombro.

- Sei, carinho. Quando morreu minha mãe, agradecemos o interesse de nossos amigos, mas também agradecíamos passar algum tempo sós para assimilar nossa perda.

Estamos aqui se nos necessitar, mas iremos com cuidado de não nos intrometermos em sua vida.

- Obrigado - disse ela, lhe dando um grande abraço.

Mavis já voltava. Baixou a escada com uma caixa na mão, e Peter subiu a pegar o trocador e o levou a cozinha.

Os Potts não partiram até três abraços mais tarde. Foram-se tão rápido como tinham chegado, depois de insistir em que os chamasse se necessitasse de algo.

Enquanto limpava o trocador, Grace se deu conta do que havia dito Mavis: Michael estava em sua casa e se encerrou em seu quarto.

Ellen e John Bigelow se aproximavam dos oitenta, e era provável que estivessem preocupados com o novo proprietário de sua granja, que também era seu hóspede.

Também recordou então que Michael MacBain era parte do motivo pelo qual ela estava ali. Em teoria, não só tinha que conhecê-lo, mas também devia fazer por ele quão mesmo os Potts faziam por ela sem que ninguém o pedisse...

E, em vez disso, escondia-se em sua casa como uma covarde.

Dava-lhe medo que Michael estivesse muito perto de Bebê se por acaso lhe visse os doze dedos dos pés... Embora, em realidade, o que lhe dava mais medo era que Michael MacBain chegasse a cair bem.

Até a data, aquele era seu maior ato de covardia.

Já era hora de que ela e Bebê se aproximassem da granja da Árvore de Natal, a granja dos Bigelow. As arrumaria para tirar o Michael de seu quarto, e de sua profunda tristeza, embora só fosse durante um minuto.

Não ia isolar se do resto do mundo nem a encerrar-se com as cinzas de Mary.

Sem que lhe desse tempo para bater, a porta se abriu e Grace se encontrou com a Ellen Bigelow, que fazia gestos para que se resguardasse da chuva e entrasse na cozinha da velha casa, recentemente reformada.

- Caramba, Grace Sutter!, o que faz brincando de correr por aí com esta tormenta? - O sorriso de boas-vindas de Ellen desmentia sua bronca. - E com um menino nos braços, além disso.

- Ai, Ellen, mas que alegria vê-la! - Grace se inclinou por cima de Bebê e lhe deu um beijo na face. Não teve problemas para reconhecê-la. Tinha trabalhado para os Bigelow todas as temporadas natalinas até que se foi à universidade.

- Você está estupenda.

Com um gesto, a pequena e vivaz anciã lhe indicou que se sentasse em uma das cadeiras da cozinha enquanto ela punha a chaleira a esquentar.

- Não tão estupenda como antes - disse enquanto baixava duas xícaras do armário, e acrescentou piscando um olho. - Mas ainda vou dar trabalho uns quantos anos.

- Não envelheceu nem um dia desde a última vez que a vi - repôs Grace.

Tirou a jaqueta e a deixou sobre o respaldo da cadeira. Depois abriu o zíper da mochila, tirou Bebê e o pôs no colo.

Imediatamente, Ellen deixou o que estava fazendo e se aproximou para admirar o pequeno.

- Ellen, quero lhe apresentar a Bebê Sutter, meu filho - Grace colocou o pequeno traseiro sobre a mesa enquanto o segurava para que ficasse de frente a ela.

- Tem quatro semanas de idade, e desfruta você do privilégio de vê-lo acordado para variar, porque quase não faz mais que comer e dormir.

- Bebê Sutter? - Ellen elevou a sobrancelha esquerda e deu a Grace um tapinha no ombro. - Tem um problema com os nomes, não?

- Por fim alguém que o entende - disse Grace, agradecida. - Já lhe porei nome, quando encontrar um adequado.

- Posso pegá-lo? - Perguntou Ellen. - Faz séculos que não tenho nos braços nada tão pequeno.

Com cuidado, pegou Bebê quando Grace o passou. Em seguida começou a arrulhá-lo enquanto lhe acariciava o queixo. Depois olhou a Grace com uma triste saudade que se notava em cada ruga de sua cara.

- Tenho quatro netos, mas vivem a meio mundo de distância; a dois nem sequer os conheço.

Por isso os Bigelow lhe tinham vendido sua granja a um estranho... Tinham criado três filhos varões, mas dois tinham morrido, e o outro vivia no Havaí.

- Deveria comprar um computador, Ellen, e conectar-se a Internet, assim poderia enviar mensagens e ver fotografias de seus netos.

A mulher abriu muito os olhos e de repente pôs-se a rir.

- Imagine, eu uma avó de Internet... - Disse. - Não tenho nem ideia de computadores.

- Não é tão complicado como parece - a tranqüilizou Grace. - Vamos, em um dia a terei conectada e em uma hora lhe ensinarei tudo o que precisa saber sobre o correio eletrônico.

Ellen ficou a pensar e desceu o olhar para Bebê. Ao cabo de uns instantes voltou a olhar a Grace; em seus olhos havia um súbito e decidido brilho que alisava sua expressão.

- Pois talvez aceite seu oferecimento. Eu adoraria saber tudo sobre Internet. Hoje tudo é "não sei que ponto com" e "não sei quantos ponto com"... Iria a esses "pontos com" a comprar coisas?

- Claro. Trarão-lhe tudo o que queira a sua porta.

- Trato feito, então. Estive economizando um trocado para comprar algo especial e não me ocorre nada melhor que fazer com ele que me pôr em contato com meus netos e com o resto do mundo.

- Pois logo que passe a tormenta, conectarei a Internet com você e escolheremos o que necessita. Terá-o aqui dentro de uma semana, e eu lhe ensinarei a utilizá-lo.

- Obrigado - disse ela. - Quando aprender, ao melhor até ensinarei que o tente John.

Grace olhou a seu redor.

- Onde está John? E Michael? Segue em seu quarto?

Ellen meneou a cabeça e se sentou à mesa frente a ela, com Bebê ainda nos braços.

- Não. John conseguiu tirá-lo faz uma hora, graças a Deus - de novo sua expressão refletia tristeza. - Está sofrendo, o pobre... Meus mais sentidos pêsames, Grace.

- Obrigado. Vou sentir falta da Mary.

- Todos sentiremos falta dela. Este último ano foi como uma filha para mim. Mas agora entendo por que partiu de repente - desceu a vista a Bebê. - Foi estar contigo durante sua gravidez, não? Michael disse... Bom, contou-nos que não tem marido.

A Grace assombrou a mentalidade tão moderna que tinham as mulheres dali, de Pene Creek. Não a julgavam por apresentar-se com um filho e sem marido. Entretanto, compadeciam-na, e isso não gostava.

- Às vezes é melhor estar sem marido que viver toda a vida com seus enganos - disse a modo de explicação.

Ellen assentiu. A água começou a ferver, e Grace agradeceu a desculpa para levantar-se a preparar o chá.

- Aonde foram John e Michael? -perguntou.

- Estão lá encima, no campo dos doze acres, comprovando como estão as árvores novas que Michael plantou a primavera passada. Este gelo está fazendo estragos nelas. Se a coisa não piorar muito, as árvores de mais idade, já feitos, agüentarão; mas os jovens ainda não são muito fortes, e Michael talvez perca toda a colheita.

- O que farão para evitá-lo? Não é possível sacudir o gelo de cada árvore em uma extensão de doze acres.

- John diz que talvez montassem um sistema de braseiros para que a temperatura se mantenha justo por cima de zero graus ao redor das árvores. Como o que fazem com as laranjeiras na Florida quando têm uma geada.

Grace deixou que o chá repousasse e voltou a olhar a Ellen.

- Funcionará?

A mulher, preocupada, deu de ombros.

- Não sei. E John tampouco. Nem sequer sabemos se teremos tudo o necessário para tentá-lo.

Grace imaginou as jovens árvores e tentou pensar no que se poderia fazer para salvá-los. Certamente, tinha-se que fazer algo para que pudessem suportar a tormenta de gelo. Ela conhecia o campo dos doze acres.

Os ventos de poente sopravam tão forte ali que quase todos os invernos o limpavam de neve.

De repente teve uma ideia.

- Que altura têm as árvores, Ellen? Trinta centímetros? Sessenta centímetros?

- Mais ou menos quarenta e cinco centímetros, diria eu - disse, e entreabriu os olhos ao ver sua expressão iluminada. - Por quê?

- Em Vez de esquentar o ar para protegê-los, e se...?

Fortes passos soaram no alpendre. Abriu-se a porta e John Bigelow e Michael MacBain entraram na cozinha depois de sacudir bem os pés na catapora. Ao ver Grace, os dois se detiveram e a olharam fixamente. John sorriu; quanto ao Michael, primeiro lhe dirigiu um olhar surpreendido e depois franziu o cenho com gesto de culpa. Grace os saudou com um sorriso.

Nesse momento Ellen, contagiada em parte por sua ilusão, disse:

- John, Grace tem uma ideia para salvar as árvores.

Os olhares de John e de Michael foram de Ellen a Grace. Esta se ruborizou um pouco.

- Eu... É só uma ideia, e nem sequer estou segura de que funcione - Reconheceu.

- De que se trata? -John suspirou fundo e esfregou a testa. - A estas alturas, considerarei qualquer coisa.

- Bom - disse ela, dando forma ainda às ideias que lhe tinham ocorrido antes. - E se em vez de tentar derreter o gelo que cobre as árvores, enterra-as?

- Enterrá-las? - perguntou Michael. - Com o que?

- Com neve - disse ela concisamente. - Se cobríssemos as árvores jovens com neve, protegeríamos-as dos danos do gelo.

Michael se voltou para olhar pela janela. Quando olhou de novo a Grace, tinha o cenho franzido.

- Está chovendo, não nevando.

- Mas podemos fazer neve. Seria neve úmida, mas com estas temperaturas poderíamos fazê-la.

Michael a olhava como se fosse louca. John meneou a cabeça.

- Isso requer um equipamento especializado, Grace - disse. - E aqui por perto não há nada que lhe pareça.

- Sim tem - replicou ela. - Na montanha TarStone. Vi-o faz dois dias, quando descíamos na máquina pisa neves. Havia tubos e canhões suficientes para cobrir o campo dos doze acres.

De repente Michael soltou uma maldição que acendeu o ar da cozinha. Grace o olhou e viu que lhe congestionava a cara e que seus olhos se entreabriam até converter-se em apenas duas finas linhas.

- Utilizaremos os braseiros - disse com os dentes apertados, esticando tanto a mandíbula que Grace acreditou que corria o perigo de fazer-se dano. - Ninguém instalará esse equipamento da montanha TarStone em meus campos.

Grace cruzou os braços.

- E por que não?

- MacKeage não o consentiria, e se o fizesse, eu não o permitiria. Não quero lhe dever nada a esse bastardo.

Grace fez caso omisso do aborrecimento de Michael e se dirigiu ao John.

- Funcionaria? - Perguntou. - Se fabricarmos neve e tampamos as árvores, conseguiremos protegê-las?

John arranhou seu bigode de dois dias, salpicado de branco.

- É possível - disse assentindo. - A verdade é que poderia funcionar. A neve os sustentaria e evitaria que se quebrassem.

- Maldição. MacKeage não nos ajudará! - Disse Michael.

Com gestos rápidos, tirou a jaqueta e as botas. Depois, andando só com as meias, saiu da cozinha dando fortes pisões e desapareceu escada acima.

Os três adultos, e inclusive Bebê, deram um pulo ao sentir sobre suas cabeças uma forte portada; tão forte que estremeceram as janelas.

Grace olhou a Ellen.

- Pode ficar com Bebê umas horas? - Perguntou. - Quero ir a TarStone.

Até que não se encontrava na metade do caminho da estação de esqui, Grace não se deu conta de que acabava de deixar a um menino com doze dedos nos pés na mesma casa onde estava seu pai.

 

Grace entrou pelo caminho bem sinalizado que levava ao Complexo Turístico da Montanha TarStone e, depois de percorrer quilômetro e meio, deteve-se na esquina do espaçoso estacionamento.

Dois dias antes, quando empreendeu o caminho a casa, tinha-o vislumbrado, mas certamente não tinha podido admirar sua grandiosidade.

O complexo turístico era enorme. Justo à esquerda havia uma sólida construção de três andares de altura que, evidentemente, era o chalé para os esquiadores; suas janelas iam do chão ao teto de cada planta e davam a montanha.

Havia várias dependências mais e, à direita, um comprido hotel de dois andares. Tudo, até mesmo o abrigo do teleférico, estava construído com granito, pedra negra e grandes troncos lavrados à mão.

Se tivesse tido que descrevê-lo, Grace haveria dito que o chalé e o hotel pareciam um cruzamento entre um castelo escocês e um chalé suíço. Os telhados se sobressaíam como palheiros medievais e estavam cobertos de tabuletas de cedro, curadas à intempérie até adotar uma cor cinza natural. Os beirais se sobressaíam dos edifícios uns noventa centímetros e se curvavam em um elegante arco justo nos extremos, algo que ampliava mais a arquitetura da linha do telhado.

Os MacKeage não tinham regulado no vidro. Todas as habitações do hotel tinham janelões do chão até o teto, e à fachada se acrescentou uma grande marquise para que entrassem os carros, sustentada por enormes pilares que pareciam árvores inteiras.

Os alicerces e a parte mais baixa dos muros, tanto do chalé como do hotel, eram de pedra negra; em cima tinham fileiras de troncos horizontais grosseiramente lavrados.

Só a cornija estava pintada de uma intensa cor verde bosque, enquanto que os troncos se curtiram ao ar de forma natural.

O conjunto era precioso: como um cenário de conto de fadas. E cada centímetro quadrado estava coberto de gelo, algo que aumentava sua aura mágica.

Grace ficou admirada. Estava claro que quando os MacKeage faziam uma coisa, faziam-na bem.

Entretanto, não viu a casa onde viviam, a que Grei chamava Gu Bràth. Recordava que disse que estava a uns cem metros de distância. Provavelmente estaria um pouco metida na montanha, subindo pela parte de trás, para o bosque.

Olhou a seu redor procurando um caminho de saída do estacionamento, mas não viu nenhum. O que viu foi uma luz no abrigo do teleférico. Então se dirigiu para ali, deteve-se e apagou o motor da caminhonete.

Morgan apareceu a cabeça pela porta do abrigo quando Grace desceu da caminhonete e a viu chegar até ele tratando de manter o equilíbrio sobre o gelo.

Quando entrou dando tombos, Morgan manteve a porta aberta e a agarrou pelo braço.

- Vá com calma, lass, ou quebrará seu bonito pescoço - disse.

- Obrigado. Tenho que procurar as velhas raquetes de gelo de meu pai.

Nesse momento se ouviu a voz de Grei.

- Grace? - Disse em tom de surpresa.

Ela elevou o olhar e o viu aproximar-se sorrindo; tinha o cabelo empapado, e das pontas lhe penduravam pequenos pedaços de gelo.

- Não teve bastante com o mau tempo de duas noites atrás? - Perguntou-lhe, ao mesmo tempo que, em um gesto instintivo, alongava a mão e lhe sacudia do ombro parte do gelo a meio derreter.

- O que está fazendo aqui? - Grei apareceu pela porta e olhou a caminhonete; em seguida a pegou pelos ombros. - Onde está Bebê? Vai tudo bem? Está doente?

- Não, não está doente - se apressou a responder Grace. - Está bem. Deixei-o com Ellen Bigelow.

De repente Grei ficou rígido. Deu um passo atrás para apartar-se e deixou cair os braços aos flancos.

- Por quê? - Perguntou secamente.

Ela deu de ombros.

- Pareceu-me boa ideia.

A expressão de Grei lhe indicou que não gostava de sua resposta. Grace limpou a chuva que gotejava do cabelo e suspirou.

O que acontecia com aquele homem para que seu humor desse inclinações bruscas como um lençol açoitado pelo vento na corda de estender?

- Olhe, deixei-o ali para comprovar como iam vocês. Queria ver se seu teleférico estava agüentando o peso do gelo. Ao partir ontem, disseram que lhes preocupava.

- Está aqui para comprovar como vamos? - Perguntou Morgan. Deu a impressão de não dar crédito ao que ouvia. - O entendeu ao contrário lass. Em teoria, somos nós os que cuidamos de você.

Grace não pôde evitar de sorrir diante do absurdo de semelhante ideia.

- Não sou eu quem tem um teleférico em perigo. Vivo em uma sólida casa antiga que seguirá de pé muito depois de que tenhamos morrido - olhou para a parte do abrigo aberta a montanha, aos curvados cabos que pareciam estar no limite de sua resistência, e fez um movimento de cabeça em direção ao remonte. - Isso não tem boa pinta.

- E o que sabe você sobre se tiver boa ou má pinta?

Quem perguntava era Ian. Naquele momento saía de trás de uma cabine enrolando uns róis de papel.

Grace se deu a volta para ficar frente a ele. O cepticismo daquele homem não lhe resultava insultante; estava acostumada a tropeçar com esse tipo de comentários.

- Sei que, se romperem os cabos, os braços de todas as torres se romperão como fósforos, por não falar das imperfeições que causarão tanto a este abrigo como ao da cúpula.

As duas últimas torres provavelmente já não possam salvar-se, se é que não se arrancam junto...

Não contente com isso, acrescentou:

- E, além disso, todas as cabines que tenham lá fora também ficarão destroçadas.

Uma expressão de alarme dilatou os olhos de Ian enquanto olhava à parte alta da montanha, onde as torres desapareciam da vista por causa da cortina de chuva. Depois voltou a olhar Grace com o rosto escurecido pela desconfiança.

- Você é uma mulher - disse franzindo o cenho.

- Obrigado por se dar conta - respondeu ela com ironia. Com um gesto assinalou o cilindro de papéis que ele levava na mão. - São os esquemas do remonte?

Em silêncio, Ian olhou a Grei como se lhe pedisse ajuda para sair do apuro em que se colocou sozinho.

Sorrindo, Grei se aproximou e lhe tirou os papéis.

- Tem razão, Ian - disse. - É uma mulher, e além disso, muitíssimo mais esperta que você. Procure não esquecê-lo, de acordo?

O homem já estava ruborizado até a raiz de seu grisalho cabelo vermelho. Olhou-a com a extremidade do olho e logo assentiu levemente.

- Perdoe - murmurou. - Meu comentário esteve desconjurado.

Grace aceitou sua desculpa com um gesto da mão.

- Não importa. Passa-me a todo o momento.

- Sim? Quem lhe diz essas coisas? - Quis saber Ian, que de repente parecia disposto a sair correndo a defendê-la.

- Quase todos os homens - respondeu ela com sinceridade, ao mesmo tempo que se aproximava de Grei e lhe tirava os desenhos das mãos. - Mas essa é a parte divertida. Eu sempre rio por último.

Ian assentiu.

- Bem - disse. - Bom, lass, acredita que sabe ler esses detestáveis papéis? Eu o tentei, mas não encontro nem pés nem cabeça.

Grace levou os papéis (que davam a impressão de haver-se enrolado e espremido várias vezes ultimamente) a um banco de trabalho situado sob uma luz e, uma vez ali, estendeu-os para vê-los.

- As características técnicas do teleférico - disse a Ian e a Grei, apartando-se para que Morgan olhasse também. - Proporcionam as cargas de tensão a cada centímetro quadrado.

- Onde diz isso? - Ian a empurrou para ver melhor. - E que diabos são todos esses números escritos por toda essa maldita coisa?

- São cargas de peso. Aqui, por exemplo. Aqui diz que esta viga em concreto resiste uma pressão de quinhentos quilos.

- Quinhentos quilos? - Perguntou Ian. - Diabos, se meu cavalo pesa mais... Está você dizendo que esta parte de aço nem sequer agüentaria meu cavalo?

Grace sorriu diante de sua analogia e lhe explicou:

- Só não. Mas se situa em uma estrutura bem calculada, esse peso se multiplicará várias vezes. Como aqui - assinalou o desenho de uma destas torres, está desenhada para suportar o peso de um cabo cheio de cabines, embora falte a torre superior ou a inferior, ou embora a uma delas parta um braço. Não têm que preocupar-se pelas torres. Vejo que por seu desenho, não se romperão. O que talvez provoque mais danos seja o cabo.

Ian elevou a vista dos papéis e a olhou com os olhos entreabertos.

- Como sabe tudo isso? - Perguntou.

- É meu trabalho. Elaboro equações matemáticas para demonstrar se algo como este sistema do teleférico funcionará ou não. É física elementar.

- Está dizendo que lendo isto nos dirá o peso que agüenta o cabo? Porque se descobrimos quanto pesa o gelo, poderíamos dizer se romperá.

Ian tinha terminado a pergunta com uma teoria própria, e com um sorriso Grace lhe fez ver que gostava de sua lógica.

- Exato. Mas eu já sei quanto pesa o gelo.

- Que sabe? Como sabe semelhante coisa? - Perguntou ele.

- Quando se lança um foguete no espaço, às vezes se forma gelo em cima ao atravessar a atmosfera. Qualquer estudante de terceiro curso de física sabe calcular a propulsão que se perde devido ao peso do gelo e o que faz falta para tirar.

Ian elevou uma sobrancelha e olhou a Grei.

- Está zombando de mim, não é? - Perguntou. - Esta mulher que tirou da montanha tem um tolo senso de humor. Ninguém tem tanto conhecimento nos miolos.

Grei se limitou a menear a cabeça enquanto baixava a vista para olhá-la; seus olhos verdes brilhavam na tênue luz do abrigo. Certamente quando não a olhava com o cenho franzido, era um homem muito atraente, pensou Grace.

Sem afastar a vista dela, Grei disse a Ian:

- Não tem senso de humor. E voar lhe parece uma coisa estupenda.

- Quanto teria demorado para vir de Bangor a TarStone de carro no outro dia? - Perguntou-lhe Grace, correspondendo a seu pícaro olhar com outro. - Noventa minutos? Duas horas?

- Duas.

- Pois, graças ao avião, fez em menos de quarenta minutos.

Aquele comentário fez que trocasse a expressão de seu interlocutor. De repente, Grei entrecerrou os olhos até reduzi-los a duas raias.

- Aterrissamos a quinze quilômetros de nosso destino e trezentos metros mais alto, mulher! E, ao final, demorei a metade do dia e toda a noite em chegar em casa!

Grace alongou a mão para lhe dar um golpezinho no peito e lhe dedicou um enorme sorriso.

- Detalhes, MacKeage, detalhe sem importância... Não está acostumado haver tantos contratempos.

Por um momento deu a impressão de que Grei sentia vontades de estrangulá-la, mas ela o ignorou. De maneira que não tinha senso de humor, né?

- Que grossura tem o gelo agora? -perguntou a Ian, voltando a centrar sua atenção nos papéis.

Ele levantou seu roliço e calejado mindinho.

- Esta grossura - disse. - E não pára de crescer.

- Seu dedo?

- Não, lass! - Disse ele com um mortificado gemido. - O gelo!

- Agora mesmo estávamos decidindo pôr em marcha o teleférico - interveio Morgan.

Grace se voltou para o homem mais jovem, que até então tinha estado calado.

- Não o façam - disse e acrescentou olhando a Grei. - Acrescentaria muita tensão ao sistema.

- Pensávamos quebrar o gelo para que se desprenda - acrescentou Ian. - Para tirar o peso.

- É muito tarde; teriam que tê-lo feito há dois dias - repôs ela.

- Muito tarde? Quer dizer que teremos que ficar aqui, sem mais, vendo como o teleférico vem abaixo? - Perguntou Morgan.

Grace meneou a cabeça.

- Talvez não. Nestas construções sempre se tem em conta uma grande margem de segurança; talvez agüente até que pare a chuva.

- Se é que para... - Murmurou Ian. Separou-se do banco e olhou fixamente para fora, ao remonte. Logo voltou a cabeça e olhou a Grace por cima do ombro com as sobrancelhas franzidas. - Não há nada que possamos fazer?

Ela ficou pensativa. Sim que o havia. Tinha ocorrido uma ideia, mas poderia sair o tiro pela culatra... E além disso podia chegar a ter conseqüências desastrosas. Se saísse bem, o gelo se derreteria e cairia do cabo como no degelo primaveril, mas se saísse errado, o teleférico de TarStone se faria em pedacinhos como se fosse de vidro e, provavelmente, arrastaria-os com ele.

- Meu deus! - Exclamou Ian. - Juro que vejo como lhe trabalha o cérebro.

Retrocedeu até ela e a olhou nos olhos, malicioso. Depois moveu uma mão diante de sua face e perguntou:

- O que passa aí dentro, lass? Tem uma ideia?

Um por um, Grace olhou aos três homens. Talvez tivesse uma ideia..., ou talvez tivesse também uma moeda de troca muito poderosa para salvar, do mesmo modo, a granja da Árvore de Natal dos Bigelow.

Com cautela, sem decidir-se ainda sobre como queria enfocar o tema, disse:

- Isso depende...

- Do que? - Perguntou Morgan, ao mesmo tempo que ficava junto ao Ian para olhá-la também.

Grace precisava conseguir um pouco de tempo. Não podia lhes pedir que lhe deixassem seus canhões de neve artificial sem cumprir sua promessa de salvar o remonte. E para falar a verdade, preferia fazer seu oferecimento a Grei, a sós; assim aumentariam suas possibilidades de êxito. Era muito mais fácil fazer trocar de opinião a uma pessoa só que convencer a uma frente unida de que deviam ajudar a Michael MacBain, porque isso era o decoroso e o apropriado entre bons vizinhos.

Os outros homens pareciam respeitar a opinião de Grei, e isso o convertia na pessoa com quem tinha que falar.

E tinha que falar com ele sozinho.

Ian estava movendo a mão diante de sua face outra vez.

- Terá cãibras nos miolos, lass? - Perguntou. - Os fez trabalhar muito?

Grace piscou, depois lhe dirigiu um sorriso.

- Não. Mas antes que tenham ilusões, preciso ver a parte de cima do remonte - olhou a Grei. - Quer subir lá na máquina pisa neves?

Ele, que tinha permanecido estranhamente calado salvo para lhe dizer que não tinha senso de humor, de repente esboçou um irônico sorriso e repetiu a pergunta que lhe havia feito antes.

- De verdade quer voltar a subir a essa montanha? Não teve suficiente com o mau momento que passou o outro dia por causa da tormenta?

Sem desviar o olhar, Grace estendeu a mão.

- Onde está seu telefone? - Disse. - Vou chamar para perguntar a Ellen se pode cuidar de Bebê umas quantas horas mais.

- Lá na parede - disse Morgan.

Perdida na profundidade dos insondáveis olhos verdes de Grei, Grace demorou um momento em dar-se conta de que alguém tinha falado. Então se obrigou a romper o contato ocular e olhou aonde assinalava Morgan.

Ali estava o telefone, justo ao lado da porta. Fez que suas pernas se movessem e lhes ordenou que a levassem até lá. Foi uma tarefa quase impossível; sentia que lhe fraquejavam os joelhos, e o coração lhe palpitava de forma irregular.

Não era justo que Grei fosse tão bonito nem que deixar de vê-lo vinte e quatro horas a afetasse daquele modo.

Enquanto se aproximava do telefone, o silêncio e a sensação de que uns olhos lhe transpassavam as costas a seguiram até o outro lado da habitação.

Antes de chegar onde estava o aparelho, ouviu que Grei dava ordens.

- Morgan, vá à casa e diga a Callum que prepare um recipiente térmico de chocolate quente. Ian, esquenta o pisa neves.

- Vou com vocês - disse Ian, dirigindo-se à porta.

- Não - a voz de Grei soou como se seguisse olhando-a a ela, não ao homem com quem falava. - Grace e eu iremos sozinhos.

Ela soltou um suspiro que estava contendo sem sabê-lo e agarrou o telefone; só então se deu conta de que não sabia o número de Ellen Bigelow.

De repente, justo a suas costas, Grei disse:

- A agendinha de telefones está aí debaixo.

Soube que não tinha mais que balançar-se para trás sobre os calcanhares para apoiar-se nele, e de repente a assaltaram dúvidas sobre seu plano de subir a montanha TarStone com o Greylen MacKeage. Intuía que aquilo ia ser ou o mais prometedor ou o mais estúpido que havia feito jamais.

Não precisava ser engenheiro astronáutico para saber que a energia que enchia o abrigo naquele momento não tinha nada que ver com a simples amizade. Seu instinto feminino quase lhe gritava que, se não saía correndo pela porta e se refugiava na segurança de sua casa, o que ia fazer teria conseqüências muito diferentes às que esperava.

De trás lhe chegou a voz profunda de Grei.

- Mudou de opinião?

Ela cravou o olhar no auricular do telefone que tinha na mão.

- Não - fechou os olhos e sentiu que a calidez de Grei lhe envolvia os sentidos até alcançar suas faces e fazê-la ruborizar-se.

- Bem - disse ele em voz baixa. Seu fôlego lhe roçou brandamente a orelha direita. - Não o lamentará.

Já estava lamentando-o.

Grace cravou o olhar em um ponto situado além dos hipnóticos limpadores de pára-brisas. Em realidade, não via a pista de esqui que passava devagar sob a lamina da máquina pisa neves. Sua imaginação se concentrava no homem que, sentado junto a ela, em silêncio, conduzia com segurança pelos tortuosos caminhos ascendentes e a aproximava cada vez mais a...

- Recorda a promessa que lhe fiz lá na montanha faz três dias, Grace? -Perguntou Grei. Sua voz era suave, mas chegou até ela por cima do zumbido do motor. - Justo depois de encontrar ao piloto, quando você se assustou comigo?

- Disse que nunca me faria mal - respondeu ela voltando a cabeça para olhá-lo.

Ele assentiu, com a atenção ainda centrada no volante.

- Exato. Mas segue sem me acreditar, verdade?

Ela deu a volta rapidamente no assento para olhá-lo.

- Depende. Então não o conhecia e reconheço que me deu medo. Estava sozinha, com um homem disposto a empreendê-la a golpes com qualquer... - sorriu quando ele a olhou com a extremidade do olho.

- Mas agora que o conheço, sei que nunca me faria mal fisicamente.

- Ah... - Grei assentiu outra vez com a cabeça enquanto observava o caminho que tinham adiante. - Então, por que segue protegendo-se de mim? Teme possivelmente que faça mal a seu coração?

- Essa ideia me ocorreu - admitiu ela.

- Pois isso me indica que você também sente a atração que há entre nós - voltou a cabeça e lhe dedicou todo seu interesse.

- E que o que lhe dá medo de verdade é o que nos está ocorrendo, porque não quer sentir-se atraída por alguém como eu, verdade, Grace?

- Alguém como você? - Perguntou ela, surpreendida.

Não só a surpreendeu que lesse tão bem seus sentimentos, mas também pudesse acreditar que ela o considerava, de algum modo, uma pessoa inadequada para ela.

Ele pareceu refletir sobre sua pergunta enquanto olhava o caminho outra vez e levava o veículo por um lance cheio de buracos e pela subida final para a cúpula. Grace só distinguia a forma do refúgio, lá diante.

Ao fim, respondeu.

- Alguém primitivo; acredito que poderíamos dizê-lo assim, a falta de uma palavra melhor - voltou a olhá-la. Seus olhos verdes eram impenetráveis . - Você trabalha com homens modernos e civilizados cujas mentes estudam o espaço e vêem o futuro, não?

Esse é o mundo no que viveu desde que saiu de Pene Creek. Os homens que conhece vestem trajes e jantam em restaurantes onde se servem garrafas de vinho que valem mil dólares.

- O que pretende dizer? - Perguntou ela, ficando à defensiva. Por suas palavras, parecia que seu mundo só fosse um simulacro da vida, não a vida de verdade.

- Você se arruma para sair com estes homens - continuou ele ignorando sua pergunta. - Provavelmente coloca um vestido de seda, pérolas e uns prudentes saltos de cinco centímetros. E ao final da noite, eles a acompanham até sua porta e lhe dão um muito civilizado beijo de despedida - lançou uma olhada e logo voltou a olhar ao caminho. - No dia seguinte lhe mandam flores, verdade, Grace? E lhe pedem para sair outra vez na semana seguinte.

- O que pretende dizer? - Repetiu ela com os dentes apertados.

- Menos o pai de Bebê - disse ele. Olhou-a de novo, e desta vez seus olhos eram dois nítidos lagos de luz opaca. - Ele derrubou suas defesas e se meteu em sua cama... E depois a deixou com um filho para que o criasse sozinha.

Me diga, tem intenção de lhe mandar um cheque por correio todos os meses para compensar sua covardia?

- Já chega - disse ela.

Deu a volta outra vez no assento para olhar adiante e cruzou os braços. Ai, sim que tinha cometido um engano indo sozinha com ele ali acima.

Realmente era um homem primitivo.

- Isso não é seu assunto - acrescentou. - Maldição, não é assunto dele quem seja o pai de Bebê e onde esteja.

A máquina pisa neves parou de forma tão brusca que Grace teve que apoiar as mãos no painel. Então, sem deter-se a ver onde estavam, abriu a porta e saiu de um salto.

Depois, com passo pesado, começou a caminhar sobre a neve sólida, fincando os pés nela até rompê-la.

Maldito fosse Grei... Era um imbecil. E pensar que acreditava que gostava...!

De repente, sem saber como, ele estava justo a seu lado, caminhando sobre a casca de neve e empregando uma décima parte da energia que gastava ela. deteve-se e o olhou, fazendo viseira com a mão para proteger seus olhos da chuva e poder lhe lançar um olhar assassino.

- Vou salvar seu teleférico, MacKeage, mas só com uma condição.

- Qual? - Seu tom tranqüilo contrastava com a cólera dela, o que a enfureceu ainda mais.

- Que me empreste seus canhões de neve artificial e me ajude a pô-los esta noite na granja da Árvore de Natal dos Bigelow.

A cara de Grei perdeu sua insultante tranqüilidade tão de repente que Grace deu um passo atrás.

- Não o verão seus olhos, senhora. Por mim, as árvores de MacBain podem apodrecer-se.

- Muito bem. Pois então, que lhe ocorra o mesmo a seu ditoso teleférico - replicou ela ao mesmo tempo que dava a volta e se afastava.

Começou a caminhar de volta pelo atalho de esqui, só que desta vez sem atravessar a capa de neve sólida e com cuidado de ver onde punha os pés. Encontrou as rodagens que havia feito o pisa neves e começou às seguir...

Até que de repente sentiu que a agarravam por trás e lhe davam a volta com tanta brutalidade que deu um grito.

- Não pode descer esta montanha andando! - Disse ele, atravessando-a com um olhar feroz.

- Estou bem! Não acabo de cair de novecentos metros como a última vez, MacKeage!

Embora, certamente, seu coração parecia que sim e que além disso se tinha quebrado ao estelar-se. Sentia-se tão decepcionada que tinha vontade de tornar a chorar. Por que aquele homem tão bonito, tão forte e tão competente era tão estúpido?

E o pior de tudo, por que gostava tanto?

Isso era o mais penoso. Como Grei não via além de seu ódio pelo Michael MacBain, não via quanto a feria aquilo, nem imaginava por que.

O homem com quem três dias antes tinha formado um extraordinário vínculo na montanha detestava ao pai de seu sobrinho... Ele não sabia, mas ela e Bebê iam supor uma conexão entre ele e Michael, se é que Grace se permitia ter aquela relação.

Era o bastante inteligente para dar-se conta de que já se implicou muito com ele emocionalmente. A coisa começou quando pôs a salvo a Bebê e logo retornou por ela. E esta mesma tarde, no abrigo do remonte, Grace havia sentido que a força de seu vínculo a envolvia com uma deliciosa calidez ao sentir que estava compartilhando algo especial com um homem especial.

Mas agora uma desalmada capa de gelo ia asfixiando esse vínculo, igual a estava sepultando nesse mesmo instante as árvores que tinha a seu redor.

- Grace... - Disse ele sacudindo-a um pouco.

- Já não gosto de você, Grei. Não posso...

- Mas você gostará, e me fale de você, maldita seja - grunhiu ele.

Envolveu-a em um feroz abraço que a deixou sem fôlego. E antes que o recuperasse, beijou-a apaixonadamente na boca.

A cabeça lhe dava voltas, presa de emoções contraditórias. Estar em seus braços, sentir seus lábios, lhe saboreá-lo parecia maravilhoso, sem importar quão mau estivesse. Era a energia, a paixão da vida, o espírito mesmo de sua existência, que tinha estado procurando sem nem sequer dar-se conta. Enquanto, implacável, ele despertava suas emoções, Grace decidiu que aquilo era autêntico; autêntico de verdade. Estava nos braços do homem a quem queria pertencer o resto de sua vida.

A paixão aumentava em seu interior. Desejava ao Greylen MacKeage do preciso instante em que o conheceu. Apaixonou-se por ele e por isso confiou nele o suficiente para deixar que a encerrasse naquela cova de gelo.

- Amo-te... -Suspirou em sua boca. - Te amo...

Nesse momento, Grace sentiu que o eixo de seu mundo se inclinava e que estava sendo transportada montanha acima, em meio da tempestade de neve. De repente, diante dela apareceu o refúgio.

Com Grace nos braços, Grei se voltou e puxou o trinco, mas ao ver que não conseguia abrir a porta, deu-lhe um chute. Entrou no refúgio com Grace nos braços, mas de repente se deteve e olhou ao redor com o cenho franzido, enquanto a deixava no chão, de pé em meio da enorme sala. Depois foi até a lareira de granito e com um fósforo acendeu as lascas e as lenhas que já estavam preparados.

Depois deu uma volta pela habitação, tirou as almofadas de várias poltronas e os lançou ao chão diante da lareira.

Voltou-se um momento a olhá-la, para comprovar que seguia ali, e depois, de uma prateleira que havia perto da lareira, tirou uma manta e a jogou sobre as almofadas.

Grace tirou a jaqueta, e em silêncio, embora tremente, aproximou-se e começou a dispor as almofadas em forma de cama.

Sem medos. Sem dúvidas. Era evidente que Grei queria que aquilo passasse, mas Grace também o desejava.

Soube que era inevitável no mesmo momento em que o sentiu a suas costas no abrigo do remonte, esperando a que fizesse a chamada que lhes proporcionaria aquele instante a sós, juntos.

Sentou-se no meio da cama improvisada e observou como Grei encaixava forte a porta quebrada para que não entrasse o frio. De repente um estalo da seiva fez saltar as lascas secas na lareira, e Grace deu um pulo.

Não sabia o que estava fazendo; não sabia... E Grei não tinha nem a mais remota ideia de que tipo de relações tinha tido até então com os homens.

Grace só sabia uma coisa: Greylen MacKeage estava a ponto de descobrir que era impossível que ela fosse a mãe de Bebê.

 

Grace estava sentada em meio do acolhedor ninho de almofadas que tinha preparado, com a face branca como o papel. Tinha os azuis olhos abertos como pratos, e parecia que o simples roce de uma pluma faria em pedacinhos sua serenidade.

Se ele fosse um cavalheiro, sentaria-se a seu lado e falaria com ela um pouco para aplacar seus temores e lhe dar tempo a assimilar o que estava a ponto de acontecer. Sim; se ele fosse um pouco civilizado, explicaria-lhe, que uma vez fizessem o amor já não haveria volta atrás. Que ela seria dele, e ninguém, nem mesmo Deus, trocaria essa realidade.

Em silêncio, Grei tirou a jaqueta enquanto se aproximava dela. Despiria Grace com o mesmo cuidado que se fosse uma rainha, e depois lhe faria amor até que compreendesse o que ele não sabia expressar com palavras.

E depois voltaria a lhe fazer amor.

Tomou assento nas almofadas junto a Grace, sem dar-se conta de que ela se estremecia. Depois rodeou os rígidos ombros com um braço e lhe colocou a outra mão sob o queixo para levantar sua boca para a dele.

Grace era quente e suave, e tinha sabor de cacau que tinha bebido do recipiente térmico antes que se montassem na pisa neves. Achou graça que o tirasse de um gole como se fosse uísque escocês, como se a bebida quente fosse a lhe acalmar os nervos; mas não a ajudou então e não ia ajudá-la agora, a julgar por como tremia. Grei se recostou nas almofadas e se voltou para acomodá-la debaixo dele.

Meu Deus, era preciosa, tão cálida, tão vibrante... E estava cheia de uma paixão que ele sabia que se agitava justo debaixo de sua pele. Beijou-a sem parar enquanto puxava a camisa e a subia até o peito.

Agora lhe agarrava o cabelo e por fim lhe devolvia os beijos. Grei procurou o fechamento do sutiã na parte dianteira e o desabotoou. Depois o tirou e lhe cobriu um seio com uma mão.

Ela soltou um gemido e se arqueou contra sua palma. O mamilo se endureceu quando ele o acariciou com suavidade, e Grace se retorceu até que seus quadris ficaram justo sob a ereção de Grei. Então lhe soltou o cabelo e começou a acariciar os ombros e a deslizar os dedos por seus braços, enquanto que sentia que uma onda de energia atravessava seu corpo. Ela afastou a boca e começou a lhe beijar a mandíbula enquanto puxava sua camisa, tentando tirá-la das calças.

Lhe afastou o cabelo do rosto e beijou as faces, o nariz, os olhos fechados...

Grace não teve muita sorte na hora de despi-lo, provavelmente porque a aba da camisa se enganchava no vulto que havia dentro das calças. Então Grei se separou dela e, rapidamente, tirou o pulôver e a camisa, para voltar em seguida para tomá-la em seus braços e continuar beijando-a. Imediatamente lhe pôs as mãos no peito e gemeu em seu pescoço.

- Grei - disse em um excitado e entrecortado sussurro. - Tire as calças.

Ele se tornou para trás e a olhou. Não podia falar, embora quisesse. Aquela mulher maravilhosa o desejava com uma força quase entristecedora. Já não estava pálida, ao contrário; agora um rubor cobria seu rosto até a raiz do cabelo.

Tinha os olhos abertos, cravados nele com tal intensidade que Grei teve que fechar os seus e respirar fundo para resistir a tentação de despir aos dois a toda pressa e penetrá-la.

Assim, no momento, deixou as calças postas. Em vez de tirar-las desabotoou o cinturão de Grace enquanto acariciava a sensível pele do ventre e lutava contra sua própria urgência; ela continuou passando as mãos pelo pêlo do peito e, de repente, tirou a língua como uma flecha e lhe lambeu um mamilo.

O grunhido de Grei ricocheteou no alto teto. Presa de uma grande excitação, era difícil controlar-se. Apertou a mandíbula enquanto notava como começava a suar.

Com tenaz decisão, e umas quantas orações solicitando controle, Grei lhe baixou as calças até as botas. O rubor cobria toda a pele de Grace, e seu formoso corpo surgiu devagar diante dele, resplandecente de vida sob o brilho da luz.

Era perfeita. Seus dedos desfrutaram da sedosidade de sua pele enquanto ela continuava explorando seu torso nu até que finalmente puxou ele e o atraiu ainda mais para si.

Grei tratou de lhe desatar as botas molhadas, mas ao ver que não podia, lançou uma maldição e, de um violento puxão, as tirou por fim. Depois as atirou e as ouviu aterrissar ao outro lado do quarto.

Em seguida tirou rapidamente as calças, e imediatamente ela o rodeou com uma sedosa perna.

Aquele simples movimento foi a perdição de Grei. Desabotoou as calças e as desceu até os joelhos; depois se situou entre suas coxas e se manteve sobre ela.

- Grace... Me Olhe, lass.

Ela obedeceu, e Grei ficou aniquilado pelo fogo que viu em seus olhos.

- Por favor... - Disse ela com tremula urgência, elevando os quadris enquanto lhe rodeava a cintura com as pernas. - Por favor, Grei... Te desejo...

Ele se inclinou e tomou um mamilo na boca. Grace se arqueou contra ele ao tempo que lançava um grito de prazer. Presa da excitação, Grei lhe acariciou entre as úmidas dobras de seu sexo, preparando-a para recebê-lo.

Levava mais de oito séculos esperando fazer sua a Grace, a única mulher do mundo destinada a ele.

Agora, com suavidade, empurrou contra o úmido e quente núcleo de sua feminilidade e ela mal opôs resistência quando ele finalmente a penetrou.

Até que, de repente, chegou a seu hímen.

- Grace...

Sua voz era um sussurro enquanto se esforçava por manter-se quieto. Não era tarefa fácil. Grace Sutter era virgem, e seu instinto, seu ser mais primitivo pedia a gritos que a fizesse sua nesse instante.

- Não pare... - Grace se deslizou mais abaixo e elevou mais os quadris enquanto lhe cravava as unhas na pele. - Grei, quero sentir você inteiro dentro de mim.

Com o olhar cravado nos olhos dela, Grei empurrou com força e rompeu a barreira virginal enquanto afogava o grito de Grace em sua boca. Não se deteve até estar profunda e completamente dentro. Só então lhe deu a oportunidade de acomodar-se a ele.

Esperou a que ela se movesse primeiro...

E logo Grei começou a mover-se com um ritmo suave que só serviu para aumentar seu próprio desejo, enquanto se afundava mais e mais em sua acolhedora suavidade. Pouco a pouco, o refúgio se encheu de luz, uma luz que o cegou e o impedia de ver o que havia a seu redor. O tempo se deteve um instante, e em torno deles brotaram faíscas de energia. Grei sentiu que a emoção o invadia feito ondas enquanto ambos se balançavam e acendiam um fogo que lhe tocava o centro da alma.

E a força de seu prazer o fez jogar atrás a cabeça quando, por fim, liberou sua semente dentro dela.

Relaxou-se com um suspiro e agradeceu que seu cérebro seguisse funcionando o suficientemente bem para lhe recordar que não a esmagasse de todo.

Depois de dar um suave beijo na testa, devagar, separou-se do cômodo ninho de almofadas até rodar sobre a fria e dura superfície do chão de concreto.

Fechou os olhos enquanto recuperava o fôlego e cobriu os olhos com um braço para protegê-los da luz da lareira; o frio chão lhe refrescava o corpo, tremulo e esquentado.

Agora Grace Sutter era dele.

E Bebê, o tinha sabor de ciência certa, não era dela.

Grace estava um pouco decepcionada, possivelmente, ao ver que o que começou tão bem tinha acabado tão dolorosamente... Mas não se arrependia.

Sempre tinha imaginado que a primeira vez tanto ela como seu casal desfrutariam do encontro, que seria uma experiência romântica e mágica. Agora, entretanto, só estava dolorida... E muito preocupada com o estranho silêncio de Grei.

Estava jogado junto a ela, respirando forte, com os olhos fechados e um braço posto sobre a face. O gesto de sua mandíbula tampouco augurava nada bom, tinha-a tão apertada que marcavam os tendões no pescoço.

Uma corrente de ar que penetrava por debaixo do terraço do refúgio fez que Grace fosse cada vez mais consciente de sua nudez. Tratando de não fazer ruído, puxou sua jaqueta, que tinha debaixo, e se tampou do queixo até as coxas. Logo ficou tombada de barriga para cima sobre a manta, imóvel, olhando o complicado jogo de luz que se refletia nas vigas de troncos, dois pisos por cima deles.

Em que diabos estaria pensando?

Ela deu uma olhada furtiva e em seguida se apressou a olhar outra vez ao teto. Grei não se moveu: seguia com as calças baixadas até os tornozelos e as botas postas, e sua pele brilhava de suor.

Naquela fração de segundo também tinha notado que tinha um borrão de seu próprio sangue na coxa.

Grace avaliou a situação.

Doía-lhe uma barbaridade entre as pernas; isso de manter tantos anos intacto o hímen. Já sabia o pouco natural que era ter trinta anos e ser virgem ainda.

E depois estava o problema daquele homem calado que estava a seu lado. Como levantar-se com elegância, vestir-se e voltar a descer aquela montanha sem fazer um ridículo espantoso?

Não tinha experiência, não sabia o que vinha depois das relações sexuais. Não conhecia o protocolo.

Grei devia sabê-lo, porque ele não era virgem. Caralho, provavelmente se teria encontrado naquela situação centenas de vezes; milhares talvez.

Aquela ideia a tirou de gonzo. Por que seguia jogado ali como uma montanha de granito meio nua? E no que estava pensando?

- Faz três dias salvei o filho de MacBain, não é? - Disse ele de repente, sem mover-se, com o braço ainda tampando a cara e com o corpo ainda rígido.

- Sim. E a verdade é que o salvou três vezes. - Grace parecia lhe falar com o teto que tinham em cima.

- Uma vez quando o protegeu dentro de sua jaqueta no momento em que o avião estava caindo, outra quando fez o boca a boca e voltou a lhe insuflar vida, e uma vez mais ao descer da montanha.

- Maldição...

- Então não o amaldiçoava - se voltou para olhá-lo. - Nem sequer pensou em sua linhagem. Simplesmente, viu um bebê inocente que necessitava sua força para viver.

- Maldição...

Grace se levantou por fim, com a jaqueta posta por diante, e alongou a mão para recolher sua roupa do chão. Depois ficou atrás de um dos sofás e começou a vestir-se, olhando a Grei com a extremidade do olho. Ainda não tinha se movido.

- Continua sendo esse mesmo menino inocente - prosseguiu, rompendo o silêncio. - E também é meu sobrinho. Protegerei-o com meu último fôlego.

Então Grei ficou de pé, com um movimento tão brusco que Grace esteve a ponto de tropeçar ao tentar subir as calças e retroceder um passo ao mesmo tempo. Ele subiu as calças, mas se deteve ao ver o sangue em sua coxa.

Grace colocou o pulôver pela cabeça e escondeu seu rubor nas dobras do pescoço voltado.

Sem afastar a vista dela, ele terminou de subir as calças e atou o cinturão. Seu verde olhar a perfurou até a alma.

- Agora me pertence, Grace Sutter. Deve-me lealdade! - Disse com ferocidade.

Ela ficou petrificada. Desviou o olhar e puxou o pulôver para terminar de passá-lo pela cabeça. Meu Deus! Era ainda mais primitivo do que tinha imaginado. De repente agia como se fosse seu dono.

- Mas o que diz? - Agitou as meias no ar enquanto procurava suas botas. - As mulheres já não pertencem aos homens; esse costume acabou faz centenas de anos.

Assinalou-o com as meias.

- Eu sou minha única proprietária, Greylen MacKeage. E só devo lealdade a meu sobrinho e a minha irmã morta.

Ele agarrou a camisa e a pôs; pelo visto, seu comentário não o desalentava nem muitíssimo menos.

- Por que era virgem ainda? - Perguntou.

Grace deixou de procurar as botas e o olhou. Então sentiu que o rubor subia às faces outra vez. Maldição...

- Estava me reservando para o casamento - respondeu elevando o queixo.

De repente, ele esboçou um meio sorriso e lhe devolveu suas mesmas palavras.

- Mas o que diz? Não te parece que isso está um pouco antiquado? Sobre tudo, para uma lass tão moderna como você se considera - disse.

- Não. Uma mulher que se mantém intacta até casar-se é um conceito muito à última e muito moderno.

Ele baixou o olhar até as almofadas que estavam no chão e depois a olhou de novo.

- Então suponho que isto significa que sou o homem com quem pretende se casar.

Sua voz lhe fez sentir um formigamento e notou que lhe punha um arrepio.

- O casamento significaria que um de nós teria que se mudar, e duvido que você durasse um mês na Virginia - disse.

Foi a uma cadeira para colocar as meias, procurando manter o sofá entre os dois.

- A pergunta é Grace, quanto tempo durará você aqui?

Ela elevou o olhar, sobressaltada.

- Minha vida está na Virginia. Ali tenho trabalho que fazer.

Ele cravou o olhar nela outro comprido minuto. Depois se voltou e foi até a parede em frente. Recolheu as botas de Grace, as levou e as estendeu para que as pegasse.

Ela não pôde mover-se; de novo a tinha cravada no lugar com seu olhar.

- Você não vai retornar a Virginia. No momento em que decidiu voltar para trazer Bebê para cá, também tomou a decisão de que ficaria com ele.

Como sabia semelhante coisa? Ela nem sequer tinha tomado nenhuma decisão a respeito ainda... Tomou quatro meses de licença para pôr em ordem seus sentimentos. E agora estava dizendo quais eram seus sentimentos exatamente?

Agarrou as botas, as pôs e se levantou.

- Já estou pronta para ir para casa - disse, ao mesmo tempo que ia para a porta.

Ele se aproximou da lareira e pinçou no fogo com o atiçador até deixá-lo bem amontoado. Depois se dirigiu à porta, puxou forte e a abriu. Era pouco depois de meio-dia.

Grace saiu à luz e inclinou a cabeça para trás para que a chuva escorregasse pela face. Grei ficou junto a ela e olhou a fria paisagem que corria brandamente ao redor deles.

- Dou-te permissão para que peça a meus homens que usem nosso equipamento na granja da Árvore de Natal - disse. - Mas vou permiti-lo só por Bebê, não por MacBain.

Com o tempo, a granja pertencerá a seu sobrinho, se é que alguma vez conta a MacBain que Bebê é seu filho.

Tomou pelos ombros e a fez voltar-se para que o olhasse.

- Embora me dá a sensação de que não o fará até que o menino esteja a ponto de fazer vinte anos ou assim. Já me parece bem; estou disposto a criá-lo como se fosse meu.

Dava como certo, é obvio, que ela ia casar se com ele... E que viveriam felizes comendo perdizes, como uma família, enquanto Bebê acreditava que ela era sua mãe e Grei seu pai.

E Michael MacBain nunca saberia a verdade.

Bom, isso era muito mais do que lhe tinha devotado Jonathan Stanhope. Queria que deixasse a Bebê no colo de seu pai e voltasse correndo a Virginia.

Isso sim: depois, talvez, daria a luz a seu filho, depois de planejá-lo tudo cuidadosamente antes, e o ajudaria a ganhar sua corrida espacial.

- Fiz uma promessa a minha irmã em seu leito de morte - disse ao homem que tinha diante. - Ela quer que Bebê esteja com seu pai.

- Então fez uma promessa que não pensava cumprir, Grace; do contrário, MacBain já teria a seu filho agora.

- E é possível que ainda o tenha. Ainda não me decidi. Os desejos de Mary são mais importantes que meu egoísmo.

Grei meneou a cabeça.

- Não se pode ter um menino por um tempo e depois abandoná-lo. É impossível. Você já o quer como a um filho.

- Às vezes o amor é doloroso - repôs ela.

Sabia por experiência própria quão certas eram suas palavras. Naquele momento sentia o coração tão ferido que não estava segura de que jamais fosse recuperar de tudo. Como amava a um homem que lhe pedia que guardasse um segredo que afetava a tantas pessoas? O que pensaria Bebê deles dois quando, chegada a idade, dissessem que tinha vivido uma mentira? Como lhe explicariam que seu verdadeiro pai vivia a só quilômetro e meio, e que levava ali toda sua vida?

Como roubar de um menino sua verdadeira linhagem e o direito de saber quem é em realidade?

- Se quiser, justifica seus atos pensando que o faz por Bebê - disse a Grei. - Eu direi que salvo seu teleférico porque minha consciência não me permite me desentender de um vizinho em apuros... E deixemos-o assim.

- É difícil tratar com uma mulher como você, Grace Sutter. É muito independente para meu gosto.

Ela sorriu com tristeza e deu de ombros; aquele gesto a liberou de seu contato.

- Nisso era no que Mary e eu nos parecíamos mais. Bem-vindo à família Sutter, senhor MacKeage.

Daar deteve um momento seu incessante passear de um lado a outro do alpendre e elevou o olhar para a montanha. As nuvens se levantaram o bastante para ver a cúpula.

Voltava a sentir aquela energia; só que desta vez não era ameaçadora: o ar que envolvia o monte TarStone estava carregado com a luz branca da vida.

Isso era bom. Duas horas antes tinha ouvido a máquina pisa neves subir a montanha com dificuldade por um longínquo atalho, e foi então quando a primeira onda de energia abordou seus sentidos.

Ao cabo de uns minutos de subir a máquina, uma auréola de luz branquíssima tinha rodeado a cúpula, e não necessitou uma bola de cristal para saber que Greylen e Grace estavam lá encima.

Esfregou as mãos com regozijo e riu a gargalhadas. Já ia sendo hora de que aqueles dois teimosos metessem mãos à obra e fecundassem um menino.

Talvez restassem um ou dois séculos em seus velhos e cansados ossos, e isso mal era tempo suficiente para preparar a um novo mago como era devido.

Com os dedos começou a contar nove meses desde aquele instante... E seu júbilo desapareceu. Em 1 de dezembro... Perto do solstício de inverno, mas não o suficiente... De repente, voltou a sorrir. No passado,

MacKeage tinha atrasado no momento de nascer e se ficou no útero de sua mãe duas semanas mais; provavelmente, a pessoa concebida aquele dia desejasse fazer o mesmo.

Sim, o bebê MacKeage nasceria durante o solstício de inverno, e seu nascimento marcaria o início da tranqüila mudança de poder. Os humanos se equivocavam ao pensar que o inverno se associava com homens e o verão com mulheres; a força e a paciente energia da vida estavam no solstício de inverno.

Ao longo dos oito anos seguintes, as sete garotas MacKeage nasceriam naquele mesmo dia.

E a sétima se chamaria Winter.

Era a ela a quem Daar queria dar de presente a nova bengala de cerejeira que estava esculpindo.

Fechou o jaquetão e agarrou sua maleta de roupa. Depois saiu do alpendre e usou sua bengala para apoiar-se enquanto caminhava sobre a gelada capa de neve para o atalho de esqui. Sua ideia era descer a montanha com o guerreiro e sua mulher.

Já era hora de que passasse alguns dias mais perto da civilização, conhecendo Grace Sutter.

 

A máquina pisa neves parou diante de algo que a Grace pareceu um castelo.

Construído tudo de pedra, tinha quatro andares de altura e era o edifício mais sombrio e mais feio que tinha visto. O recinto devia ter mais de quatro acres. Em cada esquina havia uma torre: quatro redondos torreões, com umas frestas por janelas que subiam em procissão diagonal como se seguissem a ascensão de uma escada. Os muros eram de blocos de granito pintalgado de negro e cinza, mas sobre a entrada e ainda por cima de cada janela havia um arco de pedra muito negro, mas um pouco menos tosca que a dos muros.

O arquiteto que contrataram os MacKeage devia acreditar que estava sonhando quando permitiram desenhar semelhante castelo, tão enorme... E, além disso, um castelo em nossos dias... Também devia estar bêbado quando o desenhou.

Inclusive tinha um fosso; bom, uma espécie de fosso. Um arroio enfurecido e espumante rodeava, bramando, a base da fachada do castelo, e Grace cravou o olhar na ponte que o cruzava.

Então aquilo era Gu Bràth.

Perguntou se Grei acreditava de verdade que ia casar se com ele e viver ali. Pois vá voltando para uma vida tranqüila... Se apaixonou por um homem que vivia em um castelo, pelo amor de Deus!

Ian saiu da porta principal e cruzou a toda pressa a ponte para ajudar ao pai Daar a sair da máquina pisa neves. Depois passou o ancião sacerdote a Callum, que o tinha seguido até o exterior, e foi pela Grace.

- E bem? Encontrou lá encima o que necessitava? - Perguntou.

Ela o olhou sem compreender. Não; acima tinha encontrado tristeza, algo que não necessitava absolutamente... De repente se ruborizou ao entender a que se referia; nem sequer tinha visto o abrigo do teleférico na cúpula.

- Bem, eu...

Lançou um olhar a Grei, que se tinha aproximado, e foi ele quem respondeu ao Ian.

- Vai arrumar o remonte - disse. Puxou-a pelo braço e a guiou para seu lar. - Uma vez que façamos uma pequena tarefa primeiro, salvará a nosso maldito teleférico.

Grace deixou que a conduzisse sem protestar; para falar a verdade, precisou apoiar-se nele para cruzar a estreita ponte, alto e de aspecto escorregadio, que passava por cima do turbulento arroio.

Mal espiou o interior do castelo, adiantou-se. Esperava-se o pior, algo que fizesse jogo com a parte de fora -um interior úmido, escuro e arrepiante, por isso ficou pasmada diante do que encontrou dentro.

Era esplêndido. Realmente, magnífico. O vestíbulo, maior que toda sua casa, ocupava a altura dos quatro andares e rematava em um teto com vigas de carvalho. Na parede da direita havia uma escada tão larga como um trem, que se curvava ao subir para converter-se em um balcão aberto, com um corrimão feito de madeira esculpida à mão. Grace se aproximou até o centro da habitação e deu uma volta completa, tentando abranger tudo.

Havia tanta luz ali dentro que lhe doíam os olhos. Até no último rincão brilhavam as luzes: dezenas de lâmpadas se refletiam na pedra negra, que reluzia como as teclas de ébano de um piano. Em seguida identificou a pedra: era da montanha.

TarStone, "a pedra de alcatrão", recebia seu nome pelas nervuras de rocha negra que atravessavam o granito como se fossem rios. Naquele vestíbulo, a rocha se poliu para que refletisse a luz em lugar de absorvê-la.

O efeito era tão mágico que a deixou tonta.

Fechou os olhos e baixou a cabeça para centrar-se; ao abri-los de novo viu cinco homens que a observavam com um amplo sorriso.

- Não é você a primeira que tem essa reação - disse Morgan. - Impressionante, não é?

- É precioso. Nunca teria imaginado algo assim depois de ver o de fo...

Fechou a boca de repente antes de dizer algo descortês e se apressou a cruzar o arco que havia frente à entrada. Encontrou-se em um salão muito amplo, mobiliado com muito prazer. Em uma esquina havia um televisor de tela grande de frente a ela, três sofás de pele, enquanto que na outra esquina se via uma mesa de escritório com um computador.

Suspirou aliviada. Pela cabeça tinha passado em alguma ocasião imagens de Greylen MacKeage aproximando-se e lhe dizendo: "Ah, por certo, viajei no tempo com MacBain".

E é que, certamente, Grei parecia muito medieval às vezes, com suas ideias de que as mulheres eram mais frágeis e de que lhe pertencia agora, e com sua atitude geral de macho dominante.

E, além disso, vivia em um castelo.

- Bom - disse aos homens que a olhavam. - Na verdade, têm uma casa muito bonita.

Como seguiam olhando-a, Grace suplicou a Grei com os olhos que fizesse algo. Com um lacônico sorriso que contradizia seu gesto severo, deu um passo adiante e ficou junto a ela.

- Pai Daar - disse. - Por que não toma assento?

A verdade era que o ancião sacerdote não tinha esperado seu convite, pois já se dirigia para uma grande poltrona que estava junto à lareira, no centro da parede de frente. No caminho desligou o televisor, negando com a cabeça e murmurando baixo.

Ao vê-lo acomodado, Grei se voltou para os outros. Nesse instante Grace pensou em pôr-se a correr em direção à porta antes que começassem os foguetes, mas recordou a ponte.

Então, muito devagar, voltou-se para aproximar-se de pai Daar, mas Grei a deteve, tomando a da mão, e puxou ela até colocá-la a seu lado.

Fazendo caso omisso das unhas que lhe cravava na palma, disse:

- Grace quer nos pedir um favor antes de tirar o gelo do remonte e das cabines.

- De que se trata, lass? -Perguntou Ian, que a olhava com os olhos entreabertos. - Não nos levará muito tempo, não? Parece que se acalmou um pouco a tormenta, mas não demora para começar a chover outra vez.

Grace olhou fixamente os três homens que a observavam com atenção e fincou mais as unhas na mão que lhe capturava a sua.

Grei suspirou, resignado, e respondeu por ela:

- Temos que pôr os canhões de neve artificial na granja da Árvore de Natal dos Bigelow.

Os foguetes começaram justo à hora prevista, e foram tão estrondosos como ela esperava... E muito mais cheios de colorido. Ian era o pior do grupo; ficou tão vermelho como seu cabelo e agitou o punho no ar.

- Esse bastardo não vai receber nenhuma ajuda de nós! - Gritou, jogando um olhar assassino a Grace.

- Não fala a sério, verdade? - Com os punhos apertados aos flancos, Callum deu um passo adiante.

Morgan ficou boquiaberto, com o olhar cravado nela e depois cuspiu no chão.

- Se apodrecerá no inferno antes que nós o ajudemos! - Disse com o rosto crispado pela ira.

O estalo de ódio fez com que Grace retrocedesse um passo. Grei permaneceu tranqüilo, a seu lado, observando aquele temporal. Ela o olhou e se perguntou no que pensava. Não lhe davam medo os três homens que seguiam vociferando, destrambelhando e chamuscando o ar com seus palavrões; sabia que Grei jamais deixaria que lhe fizessem mal.

- Grei! Que bicho te mordeu? - Exclamou Ian, furioso, ao mesmo tempo que assinalava ao Grace com um dedo - É ela, não? Abrandou-te até o ponto de que está disposto a ajudar a um inimigo!

Então, com expressão ainda tranqüila e sem elevar a voz, Grei disse:

- Já chega.

De repente a litania de palavrões se deteve, embora, entretanto, a cólera seguia brotando dos três em gélidas ondas. Um silêncio mais ensurdecedor que a tormenta que o tinha precedido caiu como chumbo sobre a habitação.

- Esse é o trato. Se querem salvar nosso teleférico, temos que deixar nosso equipamento com MacBain. Só então Grace tirará o gelo do cabo... Ou isso, ou esta condenada tormenta acabará não só com o negócio do MacBain, mas também com o nosso.

Qual das duas possibilidades querem?

Incrédulo, Ian meneou a cabeça.

- Isso é chantagem, isso é o que é! - Olhou a Grace com aversão. - Como sabemos que pode fazer o que diz?

- Pode - disse Grei de forma direta.

- Compreende sequer o que nos pede? - Perguntou Callum a Grace.

- Pois não, a verdade é que não - respondeu ela, elevando o queixo enquanto tentava aproximar-se mais a eles. Grei a freou e a manteve junto a ele. - Por que não me explica isso?

Claramente surpreso porque respondesse a uma pergunta retórica, Callum olhou a Grei. O mesmo fez Grace, e viu que este assentia com um brusco movimento de cabeça.

- Michael MacBain - disse Callum, e deu a impressão de que só ao dizer aquele nome lhe doía. - Se enrabichou da prometida de um MacKeage e a enrolou para levá-la para cama.

Maura só era uma lass ingênua por então, e lhe ocorreu a ideia romântica de que eram dois amantes desventurados. Deitou-se com o MacBain e não demorou para descobrir que estava grávida.

Cada linha de seu severo rosto expressava o desagrado que lhe produzia explicar aquele relato.

- Quem é Maura?

- Era a filha de Ian.

- Era? - Perguntou Grace, lançando um olhar ao mais velho dos quatro homens.

Callum voltou a chamar sua atenção ao acrescentar:

- Matou-se ao dar-se conta de que tinha desonrado a sua família e de que o bastardo do MacBain não queria casar-se com ela.

Por um instante Grace olhou outra vez ao Ian; estava imóvel como uma pedra, com uma expressão dura no rosto, e seus olhos, de um verde apagado, estavam empanados de dor. Então voltou a olhar ao Callum.

- Se Michael amava Maura, por que não quis casar-se com ela? - Perguntou-lhe.

Foi Morgan quem soltou um bufo.

- Você é tão ingênua como era Maura. MacBain não a amava; só queria pô-la a perder para que o MacKeage com o que estava prometida não se pudesse casar com ela.

- Quem era "esse MacKeage" de que falam? - Perguntou Grace. - E onde está agora?

Embora com gesto zangado, Morgan a olhou esboçando um desagradável meio sorriso de satisfação enquanto assinalava a Grei com a cabeça.

- Está a seu lado - disse. - Segurando sua mão.

Grace soltou a mão como se a queimasse. Voltou-se e elevou o olhar para Grei.

- Estava prometido com a Maura? Com a filha de Ian? - Olhou-o tratando de calcular sua idade. - Quantos anos tinha?

- Minha garota tinha então dezesseis anos - interveio Ian. - Ia casar se o dia que cumprisse os dezessete... Mas não chegou a esse dia.

Grace fechou os olhos e tampou a face com as mãos. Não era de estranhar que aqueles homens quisessem a pele do Michael, quer dizer, se era certo, como diziam, que tinha rejeitado a Maura ao descobrir que estava grávida.

Uma ideia cruzou por sua mente e se voltou para Grei.

- Quantos anos você tinha?

Ele a olhou por fim; a diferença dos de Ian, em seus olhos não se refletia nenhuma emoção.

- Tinha vinte e oito.

Em silêncio, Grace saiu da sala. Não tinha nada que dizer a nenhum daqueles homens, absolutamente nada. Atravessou o vestíbulo e, ao abrir a porta principal, encontrou-se com a perigosa ponte.

Agarrou-se a ambos os corrimões, fechou os olhos e o cruzou.

Maldito Grei... Tinha estado prometido com uma menina!

Malditos fossem todos eles. Eram todos tão...Tão... Homens, incluído Michael MacBain! Por ela, já podiam se odiar e se matarem. Iria a casa dos Bigelow pegar Bebê e depois retornaria a sua casa, fecharia a porta com chave e não deixaria que nenhum deles voltasse a entrar em sua propriedade.

E assim que passasse a tormenta de gelo, meteria-se na velha e desmantelada caminhonete da Mary e iria com Bebê outra vez para Virginia.

Callum ficou olhando a porta que Grace tinha fechado ao sair e que ainda vibrava do golpe.

- Não vai atrás dela? - Perguntou.

- E trazê-la de novo para que enfrente a sua cólera? - Perguntou Grei aos três . - Para que a arreganhem mais por ser uma mulher com coração de mulher, que só deseja ajudar a todos seus vizinhos?

Voltou-se para o silencioso sacerdote que seguia sentado junto a lareira.

- O que opina, ancião? Deveria ir atrás dela?

Daar meneou a cabeça. Parecia estar cansado da batalha que acabava de presenciar.

- Não, se não estar preparado para te desfazer do ódio que sente pelo MacBain - disse. - Essa garota quer cumprir a promessa que fez a sua irmã, e sua história há fez que se dê conta por fim de que não pode ser leal a você sem ser desleal a Mary.

Grei ficou olhando um minuto e depois se voltou para seus homens. Como expressar com palavras algo do que nem ele mesmo estava seguro? Como lhe dizer a um pai que todos eram culpados da morte de Maura?

Não só MacBain, mas também Grei, ou mesmo Ian, e até a própria sociedade em que viviam então.

Decidiu começar escolhendo com cuidado as palavras, mas as respaldando com o poderio de seu título.

- Sua filha não tinha nenhum desejo de casar-se com seu laird, Ian. Eu era doze anos mais velho que ela e a intimidava muitíssimo. Maura estava apaixonada pelo MacBain do festival do verão do ano anterior.

- Isso não é certo! - Afirmou Ian. - Eu teria me informado de algo assim!

De repente parecia um homem desesperado. Grei o olhou meneando a cabeça e em tom amável disse:

- Dava-lhe muito medo contar isso a você ou a sua mãe porque não queria lhes decepcionar. Sabia o quanto estavam orgulhosos de que se escolhesse a sua filha para casar-se com seu laird.

- Isso segue sem justificar o que fez MacBain: ir a minhas costas, como um chacal, a ver a Maura sem permissão de seu pai... - Repôs Ian com expressão dolorida. - Ela se matou porque estava grávida, e ele a jogou como se fosse lixo.

- Ele fez isso? - Perguntou Grei. - Temos de saber com certeza, ou durante todos estes anos tem sido uma oportuna desculpa para justificar nossa própria arrogância e nosso descuido? Não tivemos a culpa todos, como homens, por não perguntar as nossas filhas o que era o que queriam? Quantos matrimônios se arrumavam por então sem seu consentimento?

- Maldição, assim era como se fazia então! - Disse Callum. - Era nosso dever as guiar e protegê-las da brandura de seus próprios corações.

- Por quê? - Perguntou Grei aos três. - Quando vêem mulheres como Mary e Grace Sutter, consideram-nas inferiores? Acham que são incapazes de pensar por si mesmas?

Imaginam a algum homem hoje em dia lhe arrumando um matrimônio a alguma das duas no que elas não tivessem nem voz nem voto?

- Certamente que não - disse Callum franzindo o cenho. - Mas isso é diferente; isso é agora. Faz oito séculos era muito diferente.

- Acaso nossas mães, esposas e filhas eram menos inteligentes que Mary e Grace Sutter? Menos capazes? Menos fortes? - Perguntou Grei.

- Maldição! MacBain desonrou a minha pequena, e agora está morta! - Gritou Ian com voz rouca, ao mesmo tempo que secava os olhos com as palmas das mãos.

Não gostava do que estava ouvindo, e a Grei doía muito ver o velho guerreiro em semelhante estado, mas aquilo deveria haver-lhe dito fazia muitos anos.

Agora que entendia as coisas de modo diferente, desejava poder voltar atrás: o clã MacKeage seria o mais poderoso de todas as Terras Altas porque contaria com o sólido respaldo de centenas de mulheres, fortes e inteligentes.

Ian elevou a vista, o deu uma olhada feroz e o assinalou com o dedo.

- Abstive-me de matar MacBain eu mesmo porque era seu dever fazê-lo - disse. Era evidente que ainda não estava disposto a desfazer-se de suas antigas crenças. - Um dever que se negou a cumprir.

- Ian tem razão - interveio Callum. - Dá no mesmo quem tenha a culpa: MacBain segue sendo o primeiro responsável pela morte de Maura. Foi levar sua semente no ventre pelo que ela caminhou sobre o gelo quebrado de Louve Firth.

E agora nos pede que o ajudemos...

- Não lhes peço isso - disse em voz baixa. - Lhes digo que esta noite eu vou instalar esse equipamento em sua granja; vocês escolhem se me ajudam ou não.

- Não diz a sério que vai fazê-lo? - Disse Morgan.

Grei olhou em torno da sala.

- Não vejo ninguém com autoridade para me deter. Sigo sendo o laird do que fica deste clã, e minha palavra segue tendo o mesmo valor que antes.

- Mas isso que nos pede está errado. Nenhum guerreiro que se aprecie ajuda seu inimigo - insistiu Ian.

- Não, são vocês quem se equivocam. Querem seguir uma guerra que leva oito séculos morta, embora nada disso importa mais. Agora vivemos aqui, nós quatro e MacBain. Vivemos em um mundo onde os conflitos os arrumam os tribunais e a lei. Devemos nos adaptar a esta mudança de circunstâncias e viver como os norte-americanos, já que o somos. E isso significa ajudar a um vizinho se pudermos, sem importar quem seja.

- É Grace Sutter quem te coloca essas ideias na cabeça! - Queixou-se Ian, negando-se ainda a esquecer sua cólera. - Você a deseja, e ela conseguiu que esteja feito uma confusão!

Grei meneou a cabeça sem deixar de olhar a seu desanimado guerreiro.

- Levamos três anos vivendo nesta casa, não se perguntou alguma vez por que não tomei represálias contra MacBain?

- Acreditei que esperava para encontrar uma vingança melhor que matá-lo - respondeu Ian. - Acreditei que esperava a que se casasse.

Grei recuou um passo, horrorizado diante do insulto que acabava de lhe infligir.

- Pensava que ia usar a uma mulher para me vingar? - Sussurrou indignado. - A alguma inocente como Mary Sutter, possivelmente? Acaso acreditava que podia fazer algo assim para ajustar contas com MacBain, que era capaz de tomar a Mary pela força?

Ou acreditava que devi havê-la matado com minhas próprias mãos para arrebatar-lhe de MacBain?

Pronunciou as últimas palavras com voz tão áspera que Ian se estremeceu.

- Maldição, Grei! - Interveio Callum. - Nenhum de nós teria permitido que Mary sofresse nenhum dano!

Grei olhou a seus homens um a um, deixando que vissem seu aborrecimento.

- Faz quatro anos nenhum de vocês teria perdido um minuto em pensar nessa mulher, fosse quem fosse. Assim me digam, o que mudou?

- Maldito seja o diabo, mudamos nós! - Gritou Ian. - Nos abrandamos como as papa de aveia!

- Não - disse Grei em voz baixa. - Não nos abrandamos; nos têm aberto os olhos. Em oito séculos a sociedade trocou, e se agora não adaptamos a ela, pereceremos.

- Já nos adaptamos - disse Morgan. - Pelo amor de Deus, Grei, voamos em avião, conduzimos automóveis e vamos dirigir uma estação de esqui.

Grei meneou a cabeça.

- Não se trata de algo tão singelo como adotar as coisas materiais. É aqui - disse, golpeando o peito. - Onde temos que mudar. E eu pretendo começar esta noite, por Grace.

Imóveis, os três homens se limitaram a cravar os olhos nele sem dar crédito ao que ouviam.

- Vai ajudar MacBain - insistiu Ian. - Esquece que roubou a sua mulher e foi a causa de sua morte.

- Não o esqueci - resmungou Grei, que estava começando a perder a paciência. - Mas Michael MacBain não tem nada que ver com isto.

Passou as mãos pela face com a esperança de eliminar a frustração que sentia por causa da atitude dos membros de seu clã... E da sua própria. Ele não se abrandou; simplesmente, estava olhando as coisas através dos olhos de Grace, só por uma vez.

- Detesto a esse bastardo tanto como qualquer de vocês - assegurou. - Mas estão dispostos a deixar que esse ódio impeça que se salve nosso teleférico?

- Mas se você mesmo disse, homem - disse Ian. - Grace não deixará que isso ocorra. Seu coração é muito mole. Ajudará-nos.

- E em que posição ficaremos diante dela quando a tormenta passe e o futuro de MacBain esteja arruinado e o nosso não? - Perguntou Grei.

Os três homens olharam ao chão com os cenhos franzidos enquanto imaginavam aquele problema.

- Lhe acontecerá quando se dê conta de quão bastardo é MacBain em realidade - disse Callum. - Ao final pensará como nós. Porque se não, se está decidida a ser amável com nossos inimigos, seriamente quer a essa mulher?

- É minha - disse Grei com um grunhido na voz. - Já sabe.

Dito isto, afastou-se. Já estava farto da companhia de seus homens.

Subiu a sua habitação com passos cansados; seus homens poderiam dar lições de teimosia a Grace. Tinham tido que acontecer muitas coisas durante aqueles últimos quatro anos, e Grei admirava sua resistência e seu espírito de sobrevivência, mas ainda ficavam algumas mudanças para fazer. E a ele também.

Despiu-se devagar, pensando em Grace e em sua expressão horrorizada ao inteirar-se de que planejava casar-se com uma garota quase doze anos mais nova que ele.

Ou possivelmente fosse que, simplesmente, aquele tira e afrouxa entre ele e MacBain, com ela e Bebê no meio, era muito. Não sabia o que lhe tinha passado pela cabeça, mas teria que arrumá-lo de algum modo... E logo.

Já nu, entrou no banheiro e abriu o grifo da ducha. Deteve-se ao ver-se no espelho porque algo atraiu seu olhar: o sangue que lhe manchava a coxa.

O sangue de Grace. O dom de sua virgindade, que estava guardando para seu marido, mas que tinha dado a ele.

Por quê? Por que lhe pediu que lhe fizesse o amor?

Do mesmo instante em que a viu no aeroporto, soube que possuiria Grace Sutter, mas naquele momento não se deu conta exatamente do que significava possuí-la. Acreditou que era só desejo, mas não o era, e nunca o tinha sido.

Pensou que, ao menos, tratava com uma mulher com experiência, mas Grace era virgem... E, além disso, sempre acreditou que se casaria para voltar a construir seu clã sem comprometer seu coração. Agora sabia que isso era impossível.

Aquele dia, na montanha TarStone, tinha acontecido algo mais que um simples ato sexual. Era algo... uma sensação. Ao possuir a Grace experimentou algo estranho.

A habitação se encheu de uma claridade tão intensa que até o ar do refúgio se tornou branco, como a neve invernal recém caída brilhando a plena luz do sol.

A viagem dos MacKeage estava ligado de algum modo a Grace Sutter.

Grei havia sentido sua força depois do acidente de avião, quando ela lutava junto a ele para sobreviver. Sentiu-a quando estava sob a chuva gelada, diante da porta de sua cozinha, e ela ficou ali lhe dizendo que não voltasse se fosse procurar ao

Michael MacBain. E aquela mesma tarde, no refúgio, a sensação de que estava no certo tinha sido quase entristecedora.

Um redemoinho de vapor de água encheu o banheiro, e empanou a imagem de Grei no espelho. Então entrou na ducha e deixou que a água quente corresse pela cabeça, a face e o corpo.

Lamentava lavar a essência da Grace, mas tinha que trocar-se para a noite de trabalho que o esperava. Possivelmente se visse sozinho colocando os canhões no campo junto a MacBain, mas Por Deus que tinha intenção de salvar as árvores daquele homem.

Logo tiraria o gelo de seu maldito teleférico.

E depois poria mãos à obra e explicaria a Grace Sutter que não ia voltar nunca mais a Virginia.

 

Com os olhos ardendo, cheios de lágrimas por causa do aborrecimento, Grace calculou muito mal a curva da estrada e se chocou com um montículo de neve. A força do impacto a jogou para diante, e o puxão do cinto de segurança lhe arrancou um grito involuntário dos pulmões. Partes de gelo tão grandes como pratos de sobremesa saltaram pelos ares e caíram com estrépito sobre o capô e o pára-brisa da caminhonete.

Uma teia de fendas se estendeu pelo vidro e, instintivamente, Grace elevou os braços para tampar a face.

Os pneus traseiros seguiram dando voltas sobre a escorregadia estrada, com o que no final todo o veículo acabou encravado no montículo de neve. Devagar, Grace baixou os braços e alargou uma tremente mão para apagar o motor.

A velha caminhonete ficou calada; só um irado sussurro de vapor saía do esquentado motor, agora cheio de neve.

Tremendo, Grace afastou o cabelo da face e respirou fundo para tranqüilizar-se enquanto avaliava os danos. Não parecia que tivesse passado nada: não sangrava por nenhum lugar, nem sentia nada quebrado.

À caminhonete não tinha ido igualmente bem: estava encaixada no montículo de neve até além da portinhola e tinha o focinho levantado no ar e coberto de partes de gelo.

Bom, ainda lhe funcionava o corpo. Funcionaria a caminhonete?

Apertou os pedais do freio e a embreagem, reacendeu o motor e lutou com a alavanca de mudanças para colocar a marcha atrás. Os pneus traseiros giraram, a caminhonete deu um puxão sem se mover do lugar e logo se agitou de lado, em vez de mover-se para frente. Grace pisou a fundo a embreagem, pôs a primeira e afundou o pé no acelerador. O motor deu uma acelerada, os pneus giraram e a caminhonete adiantou vários centímetros em uma sacudida. Depois de repetir o procedimento, desta vez para trás, só sentiu que o veículo se metia mais na neve; um segundo depois, entre ruídos bruscos, o motor se impregnou com um estalo continuado.

Grace deu um tapa no volante ao mesmo tempo que soltava um palavrão de aborrecimento. Logo afundou o rosto nas mãos e rompeu a chorar. Maldição...!

Deveria ter ficado na cama aquela manhã vendo como dormia Bebê. Por Deus, quem tinha mandado meter-se a ajudar aos vizinhos? Quão único tinha conseguido com seus esforços era entristecer-se.

Michael MacBain estava furioso com ela por lhe haver sugerido sequer que os MacKeage o ajudassem a salvar suas árvores. Morgan, Callum e Ian estavam ainda mais zangados pelo mesmo motivo... E Grei?

Bom, no que devia ter sido o dia mais estupendo de sua vida, o dia em que por fim tinha decidido fazer amor com um homem, tinha montado uma confusão colossal com todo aquele assunto.

Grei também estava furioso com ela, e a Grace preocupava que seu aborrecimento se devesse a que, bobamente, antes que fizessem o amor tinha dado um ultimato para que ajudasse o Michael.

Até lhe parecia ter dado a impressão de ser uma mulher disposta a negociar com seu corpo.

Diabos, que confusão tinha montado aquele dia com suas intenções arrogantes e suas ações imprudentes... Todos os malditos homens que conhecia estavam furiosos com ela.

Menos Bebê.

Com gesto de aborrecimento, secou as lágrimas, desabotoou o cinto de segurança e se dispôs a sair da caminhonete. Mas a porta não cedeu.

Olhou pela janela e comprovou que o montículo de neve a tinha apanhado dentro, de modo que baixou o vidro e saiu engatinhando da caminhonete.

Uma vez fora, inclinou-se e olhou sob o pára-choque. Ali estava a armação da caminhonete, encarapitado sobre o montículo de neve, com as rodas dianteiras penduradas no ar e as traseiras enterradas no buraco que haviam feito os pneus ao girar no gelo.

Endireitou-se e olhou a esquerda e direita. Acabava de entrar no caminho que ia à granja da Árvore de Natal, embora seguia estando mais perto da estação de esqui que da casa dos Bigelow. Mas estava disposta a voltar a pé até o complexo turístico a pedir ajuda aos MacKeage? Soltou um bufido. Não, e menos depois de sair como um furacão e dar uma portada à cólera coletiva daqueles homens. Assim, girou sobre seus calcanhares e começou a caminhar para a granja dos Bigelow.

Caiu duas vezes e esteve a ponto de sofrer uma distensão nas costas enquanto avançava por aquela escorregadia estrada. Demorou quase uma hora em percorrer uns três quilômetros, e durante todo esse tempo não fez mais que perguntar-se o que faria para recuperar o controle de sua vida. Como tinha acontecido? Em só quatro dias, tinha passado de ser uma cientista inteligente, entregue a seu trabalho e com um futuro prometedor, a converter-se em uma tola, doente de amor.

Ao entrar no jardim dos Bigelow, Grace viu a resposta a sua pergunta.

Deteve-se no meio do caminho de entrada e dali observou Michael MacBain. Estava cortando lenha como se todos os demônios do inferno houvessem possuído seu corpo. Michael, Bebê e Mary.

Lhe caiu o coração aos pés. Feito ondas quase evidentes, sentiu como chegavam a dor de Michael, sua cólera e sua mais que evidente tristeza. Ela tinha perdido a sua irmã, mas lhe tinha dado um sobrinho a quem amar. Ao Michael só ficava a desolação.

De repente ele se voltou e a viu. O machado pendurava a seu lado; sua grande mão a tinha agarrado sem tensão. Grace avançou mais.

Michael se aproximou para recebê-la e, de uma olhada, examinou-lhe o corpo com expressão preocupada.

- Onde está sua caminhonete? - Deu uma olhada atrás dela como se esperasse que o veículo fosse seguindo-a. Depois alargou a mão e a agarrou pelo braço. - Teve um acidente? Está ferida?

Grace deu de ombros.

- Acabo de sair da estrada. A caminhonete patinou no gelo - disse, e sorriu para tranqüilizá-lo e lhe indicar que não lhe aconteceu nada. - Ficou incrustada em um montículo de neve. Necessito ajuda para tirá-la.

Michael deixou cair o machado ao chão e lhe pôs ambas as mãos nos ombros para revisá-la com mais detalhe, como se não acreditasse que estava bem. Depois deu a volta, pegou-a pela mão e começou a levá-la para a casa.

Antes que ela pudesse protestar disse:

- Entra para se esquentar. Me diga onde está a caminhonete e eu a trarei.

Grace plantou os pés para fazer que se detivessem, mas ainda se deslizou uns três metros sobre o gelo antes que Michael se desse conta de que não o seguia mansamente. Então se voltou e a olhou com o cenho franzido.

Ela sorriu.

- Quero ir com você - disse. - Precisará duas pessoas, e não quero que John saiba do acidente. Sentiria-se obrigado a ajudar, e possivelmente caísse e rompesse um quadril ou algo assim.

- Não farei mais que jogar atrás a caminhonete - repôs Michael.

Puxou lhe a manga para insistir a ir para a casa, mas Grace soltou o braço de seu puxão e meneou a cabeça.

- Não. Quero ir com você.

Michael deu uma olhada assassino antes de soltar um resignado suspiro.

- Muito bem. Mas vai ficar sentada, sem estorvar - disse, ao mesmo tempo que a levava para a garagem onde estava estacionado sua caminhonete.

Embora sua concessão podia ter sido mais cortês, Grace optou por acreditar que suas palavras nasciam de que se preocupava com seu bem-estar, não de uma atitude condescendente.

Limitou-se a agradecer em silêncio porque não houvesse se posto teimoso, e por poder ir com ele.

Agora teria oportunidade de conhecer o homem que amava sua irmã.

Subiu ao assento do co-piloto da flamejante caminhonete, cruzou as mãos no colo e pensou em como tiraria o tema de uma viagem pelo tempo com uma pessoa que afirmava conhecer de primeira mão aquele fenômeno.

- Esteve chorando - disse Michael logo que se sentou atrás do volante.

- Não é pelo acidente - assegurou Grace enquanto saíam com marcha atrás da garagem.

Ele deteve o veículo e a olhou.

- MacKeage te fez chorar?

Esta vez lhe sorriu com tristeza.

- Não. Sou eu que... afastou o cabelo da face e o colocou detrás da orelha.

- Estou cansada, acredito. Ocorreram muitas coisas a semana passada... As últimas seis semanas quero dizer - se corrigiu baixinho.

- Ouvi dizer que durante algum tempo, depois de ser mãe, às vezes as mulheres choram por tudo - disse ele com delicadeza, enquanto tirava por fim a caminhonete do caminho de entrada.

- Sim. Eu também o ouvi. Michael, por que disse a minha irmã que tinha viajado através do tempo? - Perguntou Grace. A verdade era que estava muito cansada para andar com rodeios.

Ele guardou silêncio. Então ela se voltou em seu assento para olhar de frente ao homem que contradizia daquele modo sua ideia da prudência.

Michael atuava com mais normalidade que a maioria dos homens que conhecia e, entretanto, não se apressava a desmentir sua acusação.

Examinou atentamente seu perfil. Era um homem grande, bonito, de feições varonis e de aspecto tão firme como as montanhas que rodeavam Pene Creek. Sua tez, curtida pela intempérie, tinha empalidecido de repente, salvo pelo emplastro vermelho da única maçã do rosto que via. Ainda conservava gotas de suor perto do nascimento do cabelo, fruto de sua maneira obsessiva de cortar lenha. Tinha a mandíbula apertada e agarrava tão forte o volante que seus nódulos estavam brancos de tensão.

- Quero que me fale, Michael. Quero compreender.

Ele a olhou. Seus olhos eram dois redemoinhos formando lagos de um cinza profundo e líquido.

- Por quê? Para que? - Perguntou em voz baixa. - Mary morreu, lass. Já não importa. Nada importa.

- Isso não é certo, Michael - sussurrou Grace. - Você é o homem que minha irmã amava. Embora não chegassem a se casar, você e eu somos parentes de alguma forma. E o último desejo de Mary foi que nos fizéssemos amigos.

Ele voltou a olhar para a estrada, de novo em silêncio. Grace decidiu abordar o tema de forma mais direta.

- Mary me disse que não viajou no tempo sozinho. Que alguns de vocês... Dos membros de seu clã vieram contigo. É certo?

A face de Michael se escureceu, e assentiu bruscamente. Bom, não estava falando mas, ao menos, respondia.

- Onde estão agora?

- Mortos.

- Como... Como morreram?

- Em tempestades com aparelho elétrico, sobre tudo.

- Foi assim como chegaram aqui? Em uma tempestade?

Ele voltou a assentir e depois parou a caminhonete. Antes que Grace se desse conta de que tinham chegado onde estava sua caminhonete, Michael tinha saído e se dirigia para ela.

Grace saiu e o seguiu. Ao Michael terei que tirar as palavras com saca-rolha... O alcançou justo quando ele se ajoelhava para olhar a parte de baixo da caminhonete.

Ajoelhou-se também, mas em vez de olhar o veículo, olhou a ele.

- Isso foi o que matou seus amigos? - Perguntou. - A tempestade que lhes trouxe aqui?

Ele se limitou a voltar a cabeça para olhá-la e a cravar os olhos nela um longo minuto. Depois ficou de pé, agarrou-a pelos ombros e a levantou até que ficou diante dele.

E menos mal que seguiu agarrando-a, porque seu olhar feroz a teria atirado ao chão.

- Falaremos disto agora, Grace, com a condição de que não volte a tocar neste assunto novamente - apertou os ombros. - E te peço que prometa que não contará a ninguém mais esta história.

Ela só pôde assentir em silêncio. Então Michael a soltou, deu um profundo suspiro e passou uma mão pelo úmido cabelo castanho escuro.

Depois se afastou vários passos, girou sobre seus calcanhares e voltou até parar a pouco mais de um metro de distância.

- Faz quatro anos meus homens e eu estávamos no meio de uma batalha quando de repente se formou uma grande tempestade sobre nossas cabeças - disse em voz baixa, sem olhá-la, com a vista fixa nos bosques. Estava claro que estava voltando a ver a cena em sua imaginação. - Então elevei o olhar e vi um homem de pé no penhasco. Tinha na mão um bastão tão grosso como meu braço e mais alto que eu e que resplandecia como um raio.

Olhou para Grace. As pupilas de seus grandes olhos se diminuíram até transformar-se em duas cabeças de alfinete, e o suor voltava a brotar de sua testa.

- De repente o homem atirou o pau, que ricocheteou em uma rocha e depois começou a flutuar sobre o vale que estávamos. Então, de repente, uma grande chuva caiu dos céus, e a seguir começou a relampejar, embora os relâmpagos não saíam das nuvens mas sim daquele pau... - Michael a olhou, mas de novo tinha o olhar perdido. Devagar, meneou a cabeça. - A Deus ponho por testemunha que não sei contar o que ocorreu depois. Uma luz brilhante e cegadora, consumiu-nos.

Ouvi os gritos de meus homens por cima do rugir do vento, e meu cavalo se encabritou, apavorado, e me derrubou, mas meu corpo não chegou ao chão. Foi como se o vento me levasse e me elevasse para o céu.

- Um tornado, Michael? - Sussurrou Grace. Sua voz fez que ele se fixasse nela. - Te pegou um tornado?

Ele meneou lentamente a cabeça.

- Não, lass. Aquela tempestade não era natural. Os tornados são escuros e vão carregados de refugos. Eu me vi no meio de uma luz branca e cegadora. E uma vez que estive no alto, não havia vento, não havia som...

Era como se... Senti que... Deixou de falar e olhou ao chão, sem deixar de menear a cabeça, devagar, a um lado e a outro.

- Como se o que, Michael? O que sentiu?

Ele voltou a olhá-la.

- Como se deixasse de existir. Durante um momento o tempo parou e eu não era eu - elevou as mãos e as olhou. - Não tinha corpo. Lembro que pensei: "Estou aqui", mas não tinha forma de demonstrá-lo. Era só eu, minha mente, e aquela maldita luz.

Grace tratou de não franzir o cenho enquanto pensava com frenesi, tentando entender o ocorrido. Teria caído um raio em Michael? Teria passado por uma experiência próxima à morte?

- O que aconteceu depois? - Perguntou. - É evidente que agora mesmo está aqui. Como chegou?

- Simplesmente, voltei a existir. A luz desapareceu tão de repente como tinha aparecido, e me encontrei estendido no chão, junto com outros nove homens e nossos cavalos.

- Nove homens? Mas Mary disse que só havia cinco homens com você.

Michael desviou o olhar.

- A tempestade pegou outros conosco.

- Outros? Os homens com os que combatia quando se desatou a tempestade? Onde estão agora?

Nos olhos de Michael voltava a brilhar aquele olhar feroz quando os cravou diretamente nela.

- Oxalá estejam apodrecendo no inferno - resmungou.

De repente girou sobre seus calcanhares e se dirigiu de novo para sua própria caminhonete.

Grace tentou ir atrás dele, mas teve que agarrar-se à porta traseira de sua caminhonete para não cair. Tinha começado a chover outra vez, e a chuva fazia o gelo tão escorregadio como o teflón lubrificado de manteiga.

Michael retornou com um gancho de reboque, que acoplou à bola do pára-choque traseiro.

- Traz minha caminhonete aqui e ponha a com a parte de trás da sua - ordenou.

Ela tirou o gancho do pára-choque e o atirou ao chão.

- Depois que tenhamos terminado nossa conversa - disse. - Prometi não voltar a falar disto, assim, como me chamo Grace, vamos falar agora. Onde despertou depois da tormenta?

Com os olhos entreabertos pela chuva, ele a olhou fixamente, soltando fumaça em silêncio. A Grace dava igual a se afogassem os dois sob a chuva, não pensava mover-se até que não contasse toda a história.

- Experimentaram esses outros homens o mesmo que você? - Perguntou. - Viram também essa luz brilhante?

- Sim.

- E todos estavam vivos? Incluídos os cavalos?

- Sim.

- Faz oito séculos quando se desencadeou a tempestade, estavam na Escócia. Mas onde despertaram?

- Na Escócia. No mesmo vale... Mas tudo era diferente.

- Diferente de que maneira?

- Havia edifícios que não havia antes. E estradas cobertas de negro alcatrão endurecido. E automóveis e grandes caminhões... Quase nos matam aqueles demônios voadores.

Então tocou a Grace menear a cabeça... E parecia que não podia parar. A história de Michael era desatinada. Só tinha sentido se acreditasse nas viagens através do tempo.

- Recorda como estava vestido quando despertou depois dessa tempestade? Que aspecto tinha?

- Levava a mesma roupa que o dia da batalha: meu plaid ou manta de caça, que é uma versão mais escura, mais apagada do tartán, o tecido de quadros dos MacBain.

- Algo mais? Levava calças com zíper, expulsa com fivela, um pulôver de ponto? Ou talvez um relógio de pulso?

Ele franziu o cenho diante de sua pergunta.

- Levava perneiras, uma camisa e meu sporran, minha bolsa. Não sabíamos nada de relógios de pulso por então.

- Tinha botões a camisa?

- Não, metia-se pela cabeça e se atava no pescoço - respondeu ele com o cenho franzido. Grace suspirou.

- Todos vestiam igual, suponho.

- Não - voltou a dizer Michael. De repente esboçou um meio sorriso. - Dois de meus homens estavam nus.

- Nus?

- Não era raro que os guerreiros lutassem nus - explicou ele. - Assim se evitava que o inimigo se agarrasse à roupa.

Grace fechou a boca de repente. Guerreiros? Guerreiros que combatiam no meio de uma tempestade e que depois despertaram na época moderna?

Não tinha sentido. Nada daquilo tinha sentido.

O triste era uma coisa: estava claro que Michael acreditava de boa fé que aquilo lhe tinha ocorrido em realidade.

- Em que ano nasceu? - Perguntou-lhe.

- Era o ano 1171, segundo o calendário que se usa hoje.

Meu Deus, seu delírio tinha bases reais: Michael incluso sabia que o calendário atual não era o que se empregava oito séculos antes.

Mas o que acreditava era impossível.

E isso queria dizer que Michael não estava em seu juízo perfeito absolutamente.

Não podia lhe dar Bebê, a seu precioso e inocente sobrinho. Quem sabia aonde o levariam seus delírios? A procurar outra tempestade para voltar para casa... com Bebê?

Nesse instante Michael tomou pelos ombros e fez que o olhasse enquanto lhe examinava os olhos.

- Você me disse a verdade, Grace? - Perguntou. - de verdade Mary voltava para que nos casássemos?

De repente as lágrimas de Grace se misturaram com a chuva que lhe banhava a face. Mal conseguiu que as palavras atravessassem o nó de sua garganta.

- Sim, Michael. Voltava para casa para casar-se com você - disse com voz rouca.

De repente ele a surpreendeu abraçando-a. Afundou a face na abertura da jaqueta de Michael, e ao sentir o martelar de seu coração sob a face, explodiu em incontroláveis soluços.

Os braços que a sustentavam a estreitaram com mais força.

- Lamento que tenha perdido a sua irmã - sussurrou ele contra seu cabelo.

O calor de seu fôlego fez sentir confusas emoções no entristecido coração. Então Grace rodeou sua cintura com os braços e se agarrou a ele.

- Eu lamento por nós dois, Michael. Não tem nem ideia de quanto o sinto - sussurrou. - O sinto muito, muitíssimo.

Deus talvez considerasse uma minúcia os dois milagres que tinha concedido aquele dia, mas para Grace parecera maravilhoso. O primeiro foi que as meias que Bebê tinha levado a casa de Ellen Bigelow eram as mesmas que tinha nos pés naquele instante; Ellen não os tinha trocado e não tinha descoberto os doze dedinhos. O segundo milagre foi o sorriso que Bebê lhe dedicou quando voltou a recolhê-lo; não só a reconheceu, mas também se alegrou de vê-la.

Grace se distraiu de sua lenta e cuidadosa condução pela gelada estrada justo o suficiente para dar uma olhada a Bebê. Estava acordado e muito atarefado agitando os braços como louco diante da face e fazendo bolas de saliva com a boca.

E sorria outra vez.

A ela levantou a moral no mesmo momento de pegá-lo nos braços depois de retornar da casa dos Bigelow com sua resgatada caminhonete.

Beijou-o por toda a face, e de repente ficou aturdida e sem fala quando ele elevou para ela seus olhos cinza azulados, muito abertos, e sorriu.

- Vamos para casa para ficar ali - disse. Alargou a mão e tampou outra vez a orelha com a parte esquerda do gorro. - Se acabou isto de ir correndo daqui para lá com este tempo a casa de algum vizinho.

Vou terminar esse livro que comecei a ler esta manhã para você, e depois procuraremos outro bom para seguir lendo.

Sorriu com tristeza olhando à estrada que tinha diante.

- Agora estamos você e eu, Bebê. Só nós dois. Concederei-te outro mês para que cresça e para que passemos tempo juntos, e depois vou levar te para casa, a Virginia, olhou Bebê para assegurar-se de que a escutava e voltou a dedicar sua atenção à estrada. - Não necessitamos de ninguém, em particular a nenhum homem. Não necessitamos nem de Grei, nem de Michael, nem sequer de Jonathan.

Com cuidado, Grace reduziu a velocidade da caminhonete para girar e meter-se pelo caminho de entrada de sua casa. Da viagem de ida recordava que havia um grande ramo caído que quase o bloqueava.

- E quero te assegurar algo, céu: algum dia será um marido perfeito para alguma mulher, e terá que me agradecer isso.

Deixou de falar ao se dar conta de que o ramo já não estava no caminho; alguém o tinha talhado em várias partes e depois os tinha amontoado ao lado do caminho de entrada, em uma pequena e ordenada pilha.

Grace se recordou da visita que Mavis e Peter haviam feito no dia anterior e não se perguntou quem teria encarregado daquela tarefa. Provavelmente haveria mais comida dentro do frigorífico, e seus animais também estariam cuidados.

O mesmo ocorreu nove anos antes, nos dias que seguiram ao acidente de seus pais. À casa chegou comida suficiente para alimentar a oito afligidos filhos que, se não, talvez não teriam comido.

De repente Grace pisou no freio um pouco mais forte do que pretendia. Seus agora úmidos e empanados olhos tinham descoberto um carro estacionado perto do alpendre traseiro que lhe impedia de entrar na garagem.

Secou as lágrimas que corriam pelas faces e desligou o motor. O som da neve se chocando com o pára-brisa ressoou pela cabine da caminhonete enquanto ela, consternada, olhava as escuras janelas de sua casa. Recordava bem que tinha deixado as luzes acesas. Devia ter cortado a eletricidade. Ellen havia dito que a luz levava toda a tarde piscando; ao final as linhas deviam ter acabado perdendo seu valoroso combate contra o gelo.

O mais provável era que a luz demorasse dias, se não semanas, em voltar, porque Pene Creek não ocupava um lugar preferencial na lista de prioridades da companhia elétrica. O povo não tinha nem hospitais, nem residências de anciões, nem sequer algo que pudesse considerar um autêntico parque de bombeiros. Quão único tinham eram duas lojas, um posto de gasolina, uma igreja e um salão de reuniões da associação dos granjeiros.

Grace soltou do Bebê do assento, felizmente alheio a sua situação.

- Meu Deus do céu, persegue-te uma sorte muito mau desde que nasceu, e nem sequer sabe... Outra vez nos tocará dormir no salão, perto do fogo, e tomar leite morno e nos banhar com panos uns quantos dias mais.

A julgar pelo sorriso que lhe dedicou, aquele panorama parecia lhe importar um nada. Estava orgulhoso de seu novo truquinho e da reação que conseguia com ele, e não se cansava de fazê-lo.

Ela beijou sua face para recompensá-lo por ser um pequeno tão sofrido e tão forte e o colocou dentro da jaqueta para percorrer o caminho até a casa.

Entrou pelas portas da garagem que tinha deixado abertas ao partir, mas se deteve antes de entrar na casa. Junto à entrada havia uma pilha de lenha, quase meia carga, colocada com esmero. Elevou uma oração de graças a amável pessoa que o tinha feito, quem quer que fosse; agora necessitava a lenha mais que nunca.

A casa estava extraordinariamente silenciosa sem o som do frigorífico ou do forno funcionando. Não havia nem rastro do proprietário do carro estacionado fora; seguro que estava no estábulo de acima, atendendo aos animais.

Grace confiou em que soubesse dirigir às cabras.

Atravessou direto a cozinha até chegar ao quarto do piso debaixo. Sem soltar Bebê, agarrou o berço e o levou arrastando ao salão. Depois meteu nele Bebê, pôs-lhe a chupeta, tirou-se a jaqueta e a deixou no sofá.

Estava de joelhos acendendo o fogo na lareira quando ouviu pisadas que desciam as escadas. Deu a volta justo quando Jonathan dava o último passo para entrar no salão.

- Grace!

- Jonathan! - Apressou-se a levantar . - O que faz aqui? Tinha que estar na Virginia, seguindo a marcha do Vainillo.

- E estava, mas é que se danificou uma coisa. Agarrei o primeiro vôo que saía para cá, mas só pude chegar a Boston - meneou a cabeça indignado. - Demorei toda a noite e quase todo o dia em chegar de Boston aqui.

Não havia vôos a Bangor, de modo que aluguei um carro. Quase me Mato tentando não sair dessas estradas congeladas.

- Mas por quê?

Ele se aproximou e tomou pelos ombros, como se a preparasse para algo desagradável.

- É Vainillo, Grace. Algo está errado.

- O que lhe passa?

- Não sei - disse ele, enquanto lhe apertava os ombros. - Por isso estou aqui. Os dados que manda estão cifrados, e nossos computadores não podem solucioná-lo.

Ela ficou olhando-o boquiaberta.

- Isso é impossível. Fiz várias provas com esse programa antes que Vainillo subisse, e tudo funcionava bem.

Jonathan a soltou e começou a caminhar de um lado a outro da sala. Passou uma mão pelo cabelo antes de voltar junto a ela.

- Sei. Foi uma coisa muito rara. Descobrimos o problema faz dois dias, e passei horas tratando de resolvê-lo eu mesmo - a olhou com expressão desesperada. - É a única possibilidade que temos, Grace.

Você desenhou esse programa e é a única que pode decifrar os dados.

- Mas não tinha por que vir, Jonathan. Posso me conectar com Vainillo e arrumar daqui essa pequena falha, e depois você começa a descarregar o computador lá no laboratório. Tenho o programa no portátil.

- Grace, há uma coisa que não sabe sobre Vainillo - disse ele.

De repente voltou a passear pela sala, até que se deteve e ficou de cara à janela com as mãos metidas nos bolsos. Ainda estava voltado de costas quando por fim falou.

- Recorda faz seis meses, quando Collins tirou seu dinheiro de nosso projeto? - Perguntou em voz baixa.

- Recordo. Mas disse que tinha encontrado um novo capitalista.

Jonathan se voltou para ela embora mantivesse a distância que os separava.

- Assim foi. Mas o dinheiro novo chegou com uma condição.

- Que espécie de condição? - Ela se abraçou para combater o súbito frio da silenciosa casa.

- Um transmissor, Grace. Teria que colocá-lo dentro de Vainillo antes que subisse.

A ela arrepiou o pêlo da nuca. Sentiu que algo lhe revolvia na boca do estômago.

- Para transmitir o que, Jonathan? - Sussurrou.

- Nossos dados - disse ele concisamente.

Tirou as mãos dos bolsos e se dirigiu para ela. Grace recuou um passo. Ele se deteve.

- A concorrência me deu oitenta milhões de dólares pelos dados, Grace. E agora não podem tirar esses dados.

- Vendeu StarShip Spaceline? A quem?

- Ao AeroSaqii. Mas não vendi StarShip; de fato, mantive-a viva - meneou a cabeça. - Sem o dinheiro de Collins, o teria perdido tudo ao cabo de doze meses.

- Vai perdê-lo de toda forma - espetou Grace, zangada. Teve a sensação de que um milhão de abelhas enfurecidas revoavam em seu estômago. - Eles ganharão a corrida, e ficaremos sem nada.

Ele se aproximou com a mão estendida em um gesto suplicante.

- Continuamos tendo as lançadeiras, Grace, concentraremo-nos nelas. Assinaremos um contrato com o AeroSaqii para que se comprometa para que nós as construamos.

O aborrecimento a tinha deixado sem palavras. Então deu as costas a Jonathan e se dedicou de novo a acender o fogo na lareira. O experimento da propulsão por íones era dela.

Ela o tinha desenhado, tinha sentado as bases e ocupou-se pessoalmente de colocar o processador no Vainillo.

E Jonathan o tinha vendido sem dizer-lhe.

- Isso segue sem explicar por que teve que vir - disse, ainda de costas à sala. - Eu teria decifrado os dados e te teria enviado os resultados.

- Há uma coisa mais, Grace - disse Jonathan atrás dela. Agarrou-a pelos ombros, levantou-a e lhe deu a volta para que o olhasse. - Tenho motivos para acreditar que meu acordo com o AeroSaqii não é exatamente...

Bom, pelo visto neste acordo há mais coisas em jogo do que eu pensava.

- O que quer dizer?

Ele meneou a cabeça.

- Quando aperfeiçoarem nosso experimento, os do AeroSaqii pensam vendê-lo a um consórcio privado que quer convertê-lo em uma arma, em vez de um agente propulsor.

Grace ficou gelada.

- Como sabe? - sussurrou.

- Faz vários meses que tenho uma toupeira infiltrada no AeroSaqii. Contou-me que quando a transmissão chegou com problemas, os do AeroSaqii se zangaram muitíssimo. A reação lhe pareceu muito desproporcionada ao Paul, minha toupeira, que começou a investigar mais a respeito. Conforme parece, vários dos cientistas do AeroSaqii não eram cientistas de verdade, mas sim pertenciam a esse consórcio privado que quer comprar Vainillo.

- Uma arma? - Sussurrou Grace, ao mesmo tempo que recuava para afastar-se de Jonathan. - Pensam usar meu experimento para construir uma arma?

Ele a agarrou mais forte.

- De proporções gigantescas - confirmou. - Imagina o que faria uma arma apoiada em íones? Comparado com ela, uma explosão nuclear pareceria o estalo de um petardo.

- Jonathan - encolerizada e quase sem respirar, Grace inverteu os papéis e o agarrou pelos braços. - Temos que impedi-lo. Tem que devolver o dinheiro ao AeroSaqii, e temos que evitar que chegue a transmissão que estão recebendo, codificada ou não.

E temos que fazê-lo já, antes que dêem com o modo de decifrá-la.

- Tentei raciocinar com eles. Eu disse que o acordo está cancelado, mas não há forma de convencê-los. É muito tarde. E agora temo que tenham enviado a alguém aqui para assegurar-se de que conseguem aquilo pelo que pagaram.

Grace se afastou bruscamente dele e foi ao outro lado da sala, assustada pelo que estava insinuando. Abraçando-se de repente, sentiu que fazia muito frio na sala - deu a volta e olhou ao Jonathan.

- O que quer dizer com isso de que se assegurarão de conseguir aquilo pelo que pagaram?

- Pois é isso, Grace. Segundo Paul, enviaram uns homens para te levar a seu laboratório com o fim de que arrume a transmissão e processe os dados.

- Isso é um seqüestro, Jonathan.

Ele assentiu.

- Sim. Mas para esses diabos que os do AeroSaqii escolheram como companheiros de cama, não importam. E por isso tem que voltar comigo hoje, antes que cheguem. Na Virginia contamos com segurança para te proteger.

Ela se abraçou outra vez e olhou o berço onde estava Bebê.

- Eu... eu não posso partir assim, sem mais, Jonathan - disse em voz baixa. - Ainda não resolvi o que vim fazer aqui.

Bebê começou a agitar-se, e Jonathan voltou a cabeça de repente, surpreso. Então a olhou e franziu o cenho.

- Ainda tem a esse pirralho?

- Sim. E se chama Bebê.

Ele soltou um bufido.

- Isso tampouco é um nome. Por que não o deu a seu pai?

- Ainda não decidi se o merece - disse.

Pegou nos braços Bebê e voltou a lhe pôr a chupeta. Logo se dirigiu à cozinha.

Jonathan foi atrás.

- Quem é, Grace? Conheceu-o, pelo menos?

- Não vou dizer isso - Colocou a mão no armário e tirou uma mamadeira. Ao voltar-se, descobriu que Jonathan não tinha gostado de sua resposta. Parecia totalmente surpreso pela falta de confiança de Grace nele.

De repente, entreabriu os olhos.

- Não tem intenção de entregá-lo, não é? Maldição, Grace, não está em situação de criar sozinha um pirralho. Você é uma cientista, não uma mulher que passa os dias trocando fraldas e limpando babas de pirralho.

- Posso fazer as duas coisas.

- Não, não pode. Seu trabalho é muito exigente.

- Não, Jonathan, seu trabalho sim que é exigente. Inteirei-me que na Califórnia há uma empresa de materiais semicondutores que busca uma pessoa com minha formação, e ali deixam que as mães levem a seus bebês ao trabalho.

Ele fechou a boca tão forte que Grace ouviu como o se chocaram seus dentes. Nem sequer tinha exposto a ideia de que ela pudesse deixar StarShip Spaceline.

Grace voltou a sentar-se junto ao fogo, no salão, e deu a mamadeira a Bebê, enquanto Jonathan ficou na cozinha. Ela sabia que o havia feito calar, mas que não estava derrotado. Jonathan não era um homem fácil de vencer; nenhum menino de cinco semanas, empregada teimosa nem competidor irado ia impedir que sua empresa mandasse a cidadãos particulares ao espaço.

Jonathan Stanhope era um sobrevivente: Limitaria-se a trocar de rumo para conseguir o que desejava.

Enquanto dava de comer a Bebê, Grace voltou a pensar na alarmante confissão que acabava de fazer e no problema que aquilo lhe criava. Meneou a cabeça; era incapaz de acreditar que naquele momento houvesse uns homens que se dirigissem para ali com intenção de seqüestrá-la.

Seu primeiro impulso não tinha sido pôr-se a correr de volta a Virginia como queria Jonathan, e sim pôr-se a correr ao Gu Bràth procurando a segurança e os fortes braços de Grei.

Seria bem recebida em Gu Bràth depois da memorável cena do salão? Estava segura de que não lhe daria as costas se sabia que estava metida em uma confusão, mas o que fariam Callum, Ian e Morgan?

E o que passava com o Michael? Podia, em consciência, pedir ajuda a um homem ao que agora tinha a plena intenção de enganar?

Mas, por outra parte, podia sair fugindo de seus problemas, sem mais, e deixar sem cumprir a promessa que havia feito a Mary, escondendo-se no laboratório de Jonathan?

Todas suas perguntas tinham uma só resposta: "Não." E, por fim, a mente científica de Grace entrou em marcha. Começaria com o Vainillo e a ameaça do AeroSaqii. Dispunha de um computador, uma conexão via satélite e a capacidade de fazer que seu problema com o Jonathan desaparecesse sem mais. Depois trataria com os MacKeage; arrumaria o teleférico sem exigir que ajudassem o Michael...

E depois salvaria a colheita de Michael, embora tivesse que sacudir o gelo de cada uma das malditas árvores que havia em seu campo de doze acres.

Depois sentaria Greylen MacKeage e teria um pequeno bate-papo com ele sobre o que significava o compromisso, a confiança mútua e as obrigações de boa vizinhança...

E, além disso, explicaria exatamente como ia continuar aquilo, aquilo que ambos tinham começado.

Voltou a meter Bebê em seu berço, que estava dormido e com a pança cheia, e em seguida se dirigiu à cozinha a resolver o problema número um. Fez caso omisso de Jonathan, que estava junto à parede, falando por telefone em voz baixa, e pegou o computador da bancada. Pôs-o na mesa da cozinha e o ligou. Enquanto inicializava, foi a seu quarto a procurar a mala que continha a conexão via satélite e saiu ao alpendre.

- O que faz? - Perguntou Jonathan da porta, olhando-a.

- Quero ver por mim mesma o que acontece com a transmissão de Vainillo.

Grace subiu a um banco e pendurou a antena de um gancho que se sobressaía do congelado beiral. Convencida de que desta vez sim funcionaria, posto que não havia montanhas nem árvores que tampassem o sinal, baixou esfregando as mãos frias.

- Talvez faça desaparecer todo este problema de uma vez - disse ao Jonathan, lhe jogando um olhar assassino. - Vou derrubar os dados. Em vez de decifrar a transmissão, vou apagar todo o experimento. E você pode se pôr em contato com o AeroSaqii e lhes dizer que retirem a seus homens.

Assinalou-o com o dedo.

- Depois volta para a Virginia, sozinho, a construir suas malditas lançadeiras.

Passou rapidamente por diante dele e entrou na cozinha.

- Grace - disse ele, seguindo-a até a mesa. - Eu não sabia o que planejavam. Fiz o necessário para que sobrevivêssemos.

Ela se sentou diante do computador e com um clique abriu o programa que necessitava para receber os dados de Vainillo. Depois conectou a antena da conexão à parte de trás do portátil.

Jonathan se inclinou por cima de seu ombro para olhar e continuou tentando convencê-la de que compreendesse seus atos.

- Sei o que pensa deste satélite, Grace - disse com voz suave e suplicante. - E sei que não tinha direito de vender seu experimento sem dizer-lhe isso, mas tem que entender minha posição. Sem a ajuda do AeroSaqíi, não teríamos lançado Vainillo.

Grace apertou várias teclas e pôs em marcha o programa. Depois esperou a que começassem a descarregar os dados. Então elevou a vista e deu uma olhada feroz outra vez.

- Poderia ter me dito isso Jonathan - disse. - E, certamente, pôde estudar melhor o acordo antes. Mas o que não compreendo é que, se de verdade acreditava que tudo era limpo, de onde vinha o segredo?

Poderia ter me falado de seus problemas financeiros. O teria entendido.

Ele apertou seu ombro.

- Teria feito, Grace? Entende-o agora?

- Entendo que dois negócios se fundam - se voltou e elevou o olhar. - Mas não entendo o segredo. Por que não anunciar, sem mais, sua associação com o AeroSaqii?

Jonathan suspirou por cima de sua cabeça e deixou cair a mão enquanto se endireitava. Então foi ao outro lado da mesa e se sentou com as mãos juntas. Cravou a vista nela e, com voz cansada e um pouco vencida, explicou:

- É um problema empresarial, Grace. StarShip é uma empresa cotada em bolsa; AeroSaqii não, e tampouco o é nosso competidor europeu. Se eu anunciasse ao mundo que tinha problemas, talvez se tivesse produzido uma compra hostil procedente da Europa.

Nos teriam tragado e não teríamos sobrevivido.

- AeroSaqii não queria fundir-se?

Jonathan meneou a cabeça.

- Não. Só queriam o experimento, e só me ofereceram a promessa de contratar comigo as lançadeiras - sorriu com tristeza. - Era o menor de dois maus, e a única opção que tinha se quisesse manter a empresa na flutuação.

- Isso continua sem explicação por que não confiou em mim. Acreditava... Acreditava que havia algo entre nós.

- E havia... Há, Grace - sussurrou ele. Alargou a mão para agarrar a dela. - Mas me assustei. Temi que fosse. E sem você não tinha nada que vender.

Ela retirou a mão e a pôs no colo, convertida em um punho.

- A confiança significa arriscar-se, Jonathan, e eu confiava em você - fez um gesto de aborrecimento com a mão no ar. - E o que ganho em troca é que agora uns homens tratam de me seqüestrar.

- Eu o arrumarei, Grace. Volta comigo para a Virginia e eu te manterei a salvo.

- Não, eu arrumarei - espetou ela, zangada, voltando a olhar a tela. - E você irá a Virginia sozinho.

Jonathan se levantou e abriu a boca para protestar, mas a fechou de repente quando Grace soltou um grito afogado ao ver o que havia na tela de seu computador. Então ele rodeou a mesa e olhou de novo por cima de seu ombro.

- É isso - disse. - Essa é a confusão que nos chega ao laboratório.

Grace bateu em várias teclas do portátil, mas só viu uma confusão de códigos que passavam em sucessão durante seis linhas, mais ou menos, interrompidas de repente por dez linhas de sinais incompreensíveis. Em um instante se viu apanhada em um mundo familiar, e muito cômodo, feito de física matemática, números infinitos, probabilidades e possibilidades inimagináveis. E pouco a pouco, sigilosamente, todo o resto - Jonathan, sua casa, a tormenta de gelo e até seu próprio corpo

- Foi deixando de existir, enquanto ela cravava a vista na tela do computador e estudava o futuro.

 

Ao fim de três horas, Grace se rendeu. Zangada, desligou o computador, ficou de pé e estirou as costas para relaxar. De repente deu um pulo ao ouvir a voz do Jonathan.

- Solucionou algo? - Perguntou enquanto entrava do salão. Mas franziu o cenho ao ver o computador fechado.

- Não. Está esgotando a bateria, assim desliguei o computador, mas embora tivéssemos eletricidade, não poderia arrumá-lo. - Olhou pela janela. A chuva glacial se negava a partir. - E nem sequer posso recarregar a bateria.

- Não tem uma de reserva?

- Não. Estragou na montanha - se voltou e olhou o computador com o cenho franzido. - E me parece que, como conseqüência disso, danificou-se o programa. Tem falhas técnicas que não têm nada que ver com as transmissões do Vainillo.

Por cima do ombro, deu uma olhada ao Jonathan.

- Trouxe seu computador?

- Sim, mas não tenho instalado o seu programa.

- Tenho cópias de segurança - foi para a porta da cozinha para pegar a mala da conexão via satélite. - Continua dormindo Bebê?

- Sim - disse ele, ao mesmo tempo que voltava para o salão.

Grace pôs a mala sobre a bancada, abriu-a e começou a revolver em busca do estojo das cópias de segurança. Enquanto isso Jonathan retornou à cozinha, pôs seu computador na mesa, junto ao dela, e o ligou. Grace seguiu procurando seus discos, mas não estavam na mala, de modo que foi ao quarto e examinou atentamente a bagagem vazia que Grei e Morgan tinham descido da montanha. Comprovou todos os bolsos e cantos das malas, e depois se endireitou e ficou olhando ao vazio enquanto pensava.

Nesse momento Jonathan apareceu na porta do quarto.

- O que? Tem os discos? - Perguntou.

Grace meneou a cabeça.

- Não. Devem ter extraviado na montanha - disse, mais para si mesma que para ele.

Jonathan entrou no quarto.

- O que quer dizer com isso de "na montanha"?

Ela elevou a vista.

- Meu avião caiu, e o piloto morreu. Bebê, eu e um vizinho que viajava conosco conseguimos sobreviver, mas está claro que parte de minhas coisas segue lá encima.

Ao ouvi-la, Jonathan abriu muito os olhos e a agarrou pelos ombros.

- Teve um acidente de avião? Faz só uns dias?

- Sim, mas, milagrosamente, nem Bebê nem eu saímos feridos.

De repente se encontrou metida em um abraço triturador.

- Meu Deus, Grace, por que não me chamou para me contar isso.

- Me esqueci - disse ela em seu ombro.

Tornou-se para trás e sorriu ao ver sua expressão afligida.

- Te teria chamado hoje, Jonathan - se apressou a assegurar. - Mas apareceu tão rápido que não tive nem tempo.

- Poderia ter te perdido - sussurrou ele. De novo puxou ela e a abraçou com força.

Exatamente igual a havia feito Michael só umas horas antes... Mas frente ao corpo do Michael, que tinha resultado quente, desesperado e cheio de emoção, o abraço de Jonathan não despertava nada em seu interior.

- A mim ou a meu cérebro? - Perguntou.

Com um gesto brusco, ele a afastou franzindo o cenho.

- Como? - Replicou, zangado.

Grace suspirou e meneou a cabeça.

- Sejamos sinceros, Jonathan: nós dois respeitamos nossos respectivos talentos, e além disso há uma amizade entre nós, mas nunca houve romantismo.

- Talvez houvesse - resmungou ele em atitude defensiva. - Se viesse para casa, na Virginia, e nos déssemos uma oportunidade.

- Estou em casa, Jonathan - disse ela com suavidade. - E... E acredito que desta vez vou ficar.

Ele alargou o braço para voltar a puxar ela e abraçá-la, mas Grace esquivou e saiu do quarto.

Jonathan foi atrás dela.

- Não diz a sério o de abandonar tudo - disse em tom de súplica. - Grace, precisamente estamos a ponto de obter um importante avanço graças ao qual em menos de dez anos as pessoas viverão na Lua.

Ela desligou o computador de seu chefe e voltou a colocá-lo em sua maleta.

- Não - elevou o olhar. - Porque logo que reinicie meu computador, vou derrubar o experimento, e então voltará a estar na casinha número um. Além disso, não tenho intenção de continuar este trabalho, e menos se for usá-lo como arma.

- Maldição, Grace, não diz a sério de se desfazer sem mais do trabalho de sua vida - fez um gesto de aborrecimento com a mão no ar. - Não esperará que a ciência pegue um freio só porque você tenha sua ética.

Se todos os cientistas fizessem isso, seguiríamos vivendo nas cavernas... Não se pode deter o progresso.

- Não - conveio ela, assentindo. - Mas isto sim posso detê-lo. Não me emprestarei a construir uma arma de destruição em massa.

Com gesto frustrado, Jonathan passou uma mão pelo cabelo enquanto a olhava fixamente durante vários segundos. Depois soltou um cansado suspiro.

- Não, se não poder decifrar o sinal do Vainillo - disse em tom de derrota. Aproximou-se da única janela limpa da sala e olhou para a montanha TarStone. - Conhece estas montanhas, Grace. Pode encontrar o lugar onde caiu?

E se for assim, há alguma possibilidade de que seus discos não se danificaram se estiverem ali acima?

- Sim, posso encontrar o lugar onde nós caímos. E sim, os discos não devem ter sofrido nenhum dano; estão em um estojo impermeável. Mas se demoraria uma eternidade em chegar até o lugar do acidente, Jonathan.

Faz mau tempo e o terreno é muito acidentado.

Ele se voltou para ela.

- Tem este povoado algum equipamento que possamos usar? Moto de neves, possivelmente? Algo que possa viajar nestas condições?

Imediatamente Grace recordou a máquina pisa neves de Grei, mas nem sequer quis pensar em lhe pedir ajuda, e menos ainda depois das cenas que acabava de protagonizar, primeiro no Gu Bràth e depois em casa dos Bigelow.

A Ellen até lhe tinham saltado as lágrimas quando Grace contou que não tinha conseguido ajuda para as árvores.

- E bem? - Perguntou Jonathan, voltando a dirigir-se para ela.

- Não me ocorre nada. Imagino que quase todos têm moto de neves, mas se foi a luz - com um gesto assinalou a obscurecida e silenciosa sala que os rodeava. - E não quererão ir às montanhas.

Têm que ficar perto de casa para cuidar de seus fogos, seus vizinhos e suas propriedades.

Ele lhe dirigiu um breve sorriso.

- Nem sequer por vinte mil dólares? Não acredita que a alguém deste povoado pobre veria bem esse dinheiro?

Ela reagiu cravando os olhos no Jonathan.

- Com vinte mil dólares comprariam várias motos de neve - disse por fim. - Por que não o faz?

- Não temos tempo, não entende? Todo nosso futuro está lá encima, nessa montanha.

- Onde terá que ficar até que passe esta tormenta.

- Mas necessitamos esses discos já. É provável que os homens do AeroSaqii já estejam aqui, em Pene Creek.

- Lamento tanto como você que a transmissão não se descarregue bem. Mas esses homens vão ter que enfrentar às mesmas condições atmosféricas que nós. E, além disso, duvido que estejam aqui. Ellen Bigelow me disse que é provável que não demorem para fechar a estrada principal que vem de Greenville, e esse é o único caminho para chegar a Pene Creek. Caiu várias árvores e atiraram quilômetros de cabos de alta tensão; isso nos dá um pouco de tempo.

De pura frustração, Jonathan deu um tapa na mesa. Depois pegou sua maleta e se foi ao salão soltando fumaça.

Grace deu a mamadeira a Bebê, fez o arrotar, trocou-o e voltou a pô-lo a dormir em seu berço, junto ao fogo. Antes que tocasse sequer o colchão estava profundamente adormecido de esgotamento.

Ellen e John deviam ter passado todo o momento brincando com ele.

Depois de assegurar-se de que Bebê estava bem coberto, Grace começou a preparar a casa para o longo assedio invernal que se esperava. Enquanto isso, sentado na macia poltrona do salão, Jonathan se dedicava a falar por telefone, que de algum modo tinha conseguido livrar-se das iras do gelo, e a trabalhar em seu computador.

Grace se alegrou de que estivesse ocupado e não a incomodasse. Verteu em várias jarras a água que estava no depósito e as pôs na bancada; reservaria-as para beber.

Depois cortou pedaços de gelo do beiral, encheu várias panelas e as pôs ao fogo para que se fundissem.

A seguir resgatou os abajures de querosene que estavam ali desde antes que ela nascesse, e justo enquanto as punha sobre o aparador encontrou a Mary.

A lata de bolachas Arejo estava no centro do aparador. Grace a pegou. Tinha duas pequenas amolgaduras na parte dianteira. Devagar, passou os dedos por elas.

Estavam situadas no lugar exato onde dois grandes e fortes polegares tinham apertado a lata, cheios de pesar.

Depois de segui-la até a casa dos Bigelow em sua caminhonete, Michael deve ter saído um momento a devolver a Mary. Tinha saído da casa enquanto Grace tomava um rápido almoço com o Ellen e John antes de retornar com Bebê.

Grace estreitou a lata contra seu peito, contente de ter a sua irmã de volta e sentindo uma enorme tristeza por Michael. Devia ser muito duro passar aqueles cinco meses pensando em onde estaria Mary, perguntando-se se retornaria...

E as últimas vinte e quatro horas, assimilando o fato de que não voltaria a vê-la mais, tinham sido certamente piores.

Secou as lágrimas que não deixavam de cair de seus olhos. Ultimamente parecia que chorava por tudo.

- Ai, Mary, o que tenho que fazer? - Perguntou. - Quero a Bebê. Não posso dá-lo assim, sem mais.

Não obteve resposta... E tampouco sentiu saudades a repentina sensação de calor que sentia em seu peito. Limitou-se a abraçar mais forte a lata contra seu dolorido coração.

Jonathan entrou na cozinha.

- O fogo está se apagando - disse. Parou de repente, e um gesto de irritação endureceu suas feições. Com a cabeça, assinalou a lata que Grace segurava e se aproximou um passo. - Segue falando com ela, conforme vejo. Está chorando?

Ela voltou a pôr a lata sobre a mesa e secou as lágrimas com as palmas das mãos.

- Faço-o às vezes, Jonathan. A gente se aflige quando perde a alguém a quem ama.

A cara de seu chefe se ruborizou até adotar uma cor vermelha mate. Pareceu ficar sem palavras e saiu da cozinha, mas depois deu a volta.

- O fogo está se apagando, e não vejo mais lenha na caixa. Tem mais?

- Está na garagem, justo ao lado da porta.

Ele ficou quieto, olhando-a, até que se deu conta de que não tinha intenção de mover-se.

- Tenho que trazê-la? - Perguntou.

- Talvez queira encher a caixa da lenha - respondeu Grace, ao mesmo tempo que voltava para suas tarefas. - Arde melhor quando está quente.

Dito isto, começou a arrumar o frigorífico para abrir espaço. Uma panela cheia de pedaços de gelo manteria fria toda a comida, que se tinha multiplicado por arte de magia enquanto estava fora.

A moderna máquina ia ser degradada à categoria de antiquada geladeira.

Enquanto seguia organizando as coisas, pensou na promessa que havia feito a Mary, na extraordinária história de Michael, no oferecimento de Grei de criar a Bebê... E no passo gigantesco que tinha dado aquela tarde no refúgio.

Não sabia se era um passo para trás ou para frente, mas certamente tinha trocado o rumo de sua vida.

Embora naquele momento estivesse furiosa com Grei, não importava; no fundo sabia que nunca deixaria Greylen MacKeage. E menos depois do ocorrido aquela tarde na cúpula da montanha TarStone. Agora Pene Creek era seu lar.

Além disso, encontrava-se no meio de dois homens que se enfrentavam, ou de três, se contasse o Jonathan, que seguia atirando dela com todas suas forças para fazê-la retornar a Virginia.

Ao ajoelhar-se para mover a comida da prateleira mais baixa do frigorífico, sentiu uma pontada entre as pernas. Seguia estando dolorida por suas relações sexuais, mas era uma dor quente e grata.

Recordou-lhe o tempo que ela e Grei tinham passado juntos...

Só uma coisa a preocupava: não tinham usado proteção. Uma garota de dezesseis anos já levava um preservativo na bolsa, mas Grace nem sequer tinha comprado nunca um. Não tinha tido por que fazê-lo, pois tinha estado esperando o momento do matrimônio.

Então, por que havia feito amor com Grei?

Não teve problema para dar com a resposta. Não era que se reservasse para o matrimônio: estava esperando a conhecer um homem a quem amar durante o resto de sua vida... E por fim o tinha conhecido.

Bom, se é que alguma vez saía da cova, ou do castelo, o tempo suficiente para ver o assunto de seu ponto de vista.

Porque não podia comprometer-se com um homem que lhe tinha sugerido que vivesse uma mentira durante os vinte anos seguintes. Ao fazê-lo, Grei a tinha decepcionado muito.

Curiosamente, Grace não tinha em conta que ela também tinha dado voltas a aquela possibilidade.

Claro que, para ser justa com seus princípios, terá que acrescentar que, embora não teria ganho nada fugir com Bebê sem mais, e não voltar a ver nenhum daqueles três homens, no fundo, seguia tendo a intenção de cumprir a promessa feita a Mary.

Mas que confusão; se o fazia, mau, e se não o fazia, também... Como se sentiria se, suponhamos, ao cabo de três anos Michael MacBain se casava e começava uma nova vida? E se tinha um filho? Em que situação ficava então Bebê?

Como se aproximar de Michael ao cabo de dez ou quinze anos para lhe dizer: "Ah, por certo, quero te apresentar a seu filho"?

Claro que como poderia entregar a Bebê agora, depois do que tinha contado de sua viagem através do tempo? De toda forma, Grace começava a suspeitar que teria que culpar a um raio que à loucura, pois, salvo pela pequena guerra que mantinha com os MacKeage, Michael parecia perfeitamente normal em todos os sentidos.

Deixou o que estava fazendo e cravou o olhar no interior do frigorífico.

Mas havia algo mais. Havia algo que a preocupava, um pouco relacionado com a história que Callum tinha contado sobre a Maura.

Então se sentou no chão, com um grande prato de biscoitos de chocolate e nozes no colo. Isso era: aquela história. Grei esteve prometido com a Maura quando só tinha vinte e oito anos; isso devia ser pelo menos há seis ou sete anos...

E Michael afirmava que só levava quatro anos vivendo na época presente.

O que significava que os MacKeage conheciam o Michael desde antes da suposta viagem.

Mas como, a sua vez, queria dizer que eles tinham a chave de todo aquele problema: eles lhe falariam do passado de Michael e saberiam se estava cordato ou não. Se sete anos antes Michael estava bem, os MacKeage o diriam.

Queria sabê-lo de verdade? Se havia uma explicação lógica de por que Michael acreditava ter viajado através do tempo, bem porque teve uma experiência próxima à morte ou algo parecido, de verdade queria saber que estava cordato?

Porque então teria que cumprir a promessa que havia feito a Mary.

Teria que lhe entregar Bebê.

Grace destampou os biscoitos e meteu um na boca. De repente seus ditosos princípios voltavam a inquietá-la. Teria que perguntar aos MacKeage... Ou ao sacerdote. O pai Daar não se atreveria a mentir em algo tão importante. Além disso, como era sacerdote, se lhe contasse que Menino era filho de Michael MacBain, teria que guardar seu segredo, não? E se ao final resultava que não tinha havido nenhuma terrível tempestade, o pai Daar não poderia trair sua confiança.

Meteu o segundo biscoito na boca e agarrou outro mais antes de ficar de pé e deixar o prato na mesa. Então, estava decidido: falaria com o sacerdote na primeira ocasião que tivesse de estar a sós com ele.

- Grace... - Disse Jonathan, ao mesmo tempo que atravessava a soleira com uma braçada de lenha.

- O que? - Perguntou ela com a boca cheia.

Ele a olhou com o cenho franzido. Grace se limpou a boca, deu-se conta de que estava coberta de migalhas e se limpou também o peitilho da camiseta.

- O que? - Repetiu.

- Vem alguém - foi à porta do alpendre olhar. - Se vêem umas luzes aproximando-se pelo caminho de entrada.

Ela olhou pela janela que havia sobre a pia e suspirou. Falando do rei de Roma...

A máquina pisa neves grunhia enquanto abria caminho devagar pelo gelo e o espalhava como se fosse queijo parmesão. Parou justo atrás da caminhonete, e dela saíram Grei e Morgan.

A surpresa fez que Jonathan abrisse mais os olhos.

- Vá, isso é um pisa neves! Levará-nos sem problema até as montanhas.

- Bom, Jonathan... - Disse ela, aproximando-se.

Não pôde terminar a frase, porque, sem soltar sequer a lenha, seu chefe já tinha saído fora e estava de pé no alpendre. E antes que ela pudesse o advertir que nem o tentasse, já tinha estendido a mão para apresentar-se.

- Jonathan Stanhope - disse. - É seu esse pisa neves?

- Sim - respondeu Grei. Olhou primeiro a mão estendida de Jonathan e depois examinou Grace.

Ela decidiu empregar seu próprio truque e tentou olhá-lo com gesto impenetrável. Ele se limitou a elevar uma sobrancelha, tomar a mão do Jonathan e estreitar-lhe.

- Greylen MacKeage - disse.

- MacKeage - Jonathan mudou a lenha nos braços. - Quero alugar seu pisa neves para um trabalho. Lhe pagarei por levá-lo, claro.

- Meu pisa neves não está em aluguel. E eu tampouco - disse Grei, rejeitando a petição.

Passou por diante de Jonathan e entrou na casa. Grace se apartou para que não a atropelasse e voltou a mover-se quando Morgan foi atrás dele. Então olhou para fora, ao alpendre, e viu o Jonathan de pé, imóvel, aniquilado.

Grace teve que afastar-se de novo quando, de repente, Jonathan deixou cair a lenha e passou correndo ao seu lado para seguir a Grei.

- Parece-me que não o entendeu - disse. - Estou disposto a lhe pagar o que queira. Necessito essa máquina.

- Quem demônios é você? - Perguntou Grei.

Jonathan interrompeu sua oferta e se endireitou.

- Sou Jonathan Stanhope - repetiu. Com um movimento de cabeça assinalou a Grace. - Sou seu chefe.

Grei a olhou... Grace amaldiçoou em silêncio. Já estava outra vez com aquele truque dos olhos; por mais que o tentasse, ela nunca sabia o que estava pensando.

Com um fósforo, Morgan acendeu o abajur de querosene que estava sobre a mesa, e uma suave luz amarela inundou a habitação.

Depois roubou um biscoito do prato, apoiou-se na mesa, cruzou as pernas à altura dos tornozelos e, enquanto mastigava, cravou o olhar em Jonathan.

- Darei-lhe vinte mil dólares por usar essa máquina durante um dia; isso lhe devolverá ao bolso um bom beliscão - disse o chefe de Grace.

Deu vontade de menear a cabeça, consternada. Jonathan não tinha nem ideia do que estava fazendo.

Grei nem sequer o olhou; limitou-se a seguir olhando-a fixamente.

- Trinta mil - disse Jonathan então.

- Não se aluga - repetiu Grei, ainda sem olhá-lo. - Prepara um pouco de bagagem, Grace, vêem comigo a Gu Bràth até que volte a luz.

- Não pode ir - disse Jonathan, colocando-se entre os dois, de modo que Grei tivesse que olhá-lo. - Preciso de Grace por questões de trabalho - fez um gesto com a mão para abranger a casa. - E, além disso, parece muito cômoda aqui.

Grei lhe fez caso por fim.

- Que trabalho é esse? - Perguntou.

Jonathan endireitou os ombros. Grace não lhe via o rosto porque dava as costas, mas estava segura de que tentava usar seu irresistível sorriso com Grei; seu sorriso "de homem de negócios a homem de negócios". Então lançou um furtivo olhar a Morgan, que estava comendo outro biscoito com expressão divertida. Ele deixou de mastigar, olhou-a e lhe piscou um olho.

Grace piscou. Mas não tinha que estar furioso com ela?

Enquanto isso, Jonathan seguia falando com Grei.

- Pelo visto, Grace teve um acidente de avião faz uns dias lá encima, nas montanhas, onde ficou um importante material. Preciso recuperá-lo o quanto antes possível. Darei-lhe quarenta mil dólares por me ajudar a encontrá-lo.

Morgan franziu o cenho.

- Recolhemos tudo o que vimos, lass - disse com a boca cheia. - O que falta?

- Um estojo negro que contém discos de computador - respondeu ela. - Recordo que tirei um disco em branco para colocá-lo em minha bolsa, mas deveria ter deixado o estojo na neve em vez de colocá-lo outra vez na mala.

Talvez escorregou para debaixo da fuselagem.

Com todo o aspecto de pouco se importar com os discos, Grei deu a volta e entrou no salão. Pasmado uma vez mais, Jonathan se voltou para olhar a Grace, que deu de ombros. Morgan pegou outro biscoito e foi atrás de Grei.

- Maldição, Grace, faz algo! - Disse Jonathan, indignado. - Necessitamos esse pisa neves.

Grei voltou do salão com Bebê nos braços; Morgan levava o berço. Nesse momento Grace rodeou Jonathan para detê-los. Ficou nas pontas dos pés e agarrou a Grei pelo braço.

- Não penso ir ao Gu Bràth - disse em um sussurro. - Não quero.

Justo a suas costas, Morgan disse:

- Ah, lass, sentimos havê-la assustado antes. Desta vez prometemos ser corteses.

- Não pode ficar aqui - disse Grei.

Alargou a mão e passou um dedo pela face. Um gesto intimamente familiar para ela, embora muito possessivo visto de fora... E dedicado a Jonathan, supôs Grace.

- Sem eletricidade que faça funcionar a bomba do poço, não tem água - acrescentou. Em seus olhos havia um brilho de intensa seriedade. - E a lareira não é tão grande para esquentar toda a planta baixa.

- Vocês tampouco têm água.

- Sim. Temos geradores suficientes para fazer funcionar todo o complexo turístico se for preciso - repôs ele. Acomodou Bebê em seus braços e colocou a cabeça do bebê dormido sob seu queixo. - E você tem um teleférico que salvar.

Ela soltou seu braço, foi até a pia e se voltou para olhá-lo de frente. Como se chamava Grace que neste assunto se manteria firme.

- Não. Não a menos que ponham seus canhões de neve artificial nas terras de Michael.

- Instalaremos os canhões em suas malditas terras - disse ele.

Ela lançou um olhar a Morgan e depois voltou a olhar a Grei.

- Quem o fará?

- Farei eu mesmo, se fizer falta - respondeu ele. - Tem suficiente com o que tem posto, ou quer levar algo mais?

- Mas...

- Acredite, lass - interveio Morgan. - Você vai a Gu Bràth, de modo que será muito mais fácil se nos acompanhar tranqüilamente.

- Vamos, espere um momento - disse Jonathan de repente. - Você não pode obrigar a Grace a sair de sua casa.

Com um olhar, Grei indicou às claras que tentasse detê-lo se queria. Jonathan, homem inteligente, voltou-se para Grace em busca de ajuda.

- Meu chefe vem comigo - disse ela.

Deu-se por vencida. Além disso, o pai Daar estava em Gu Bràth, e queria falar com ele.

- Ele ficará no hotel do complexo - disse Grei.

- Tenho que estar com a Grace - disse Jonathan bobamente, forçando as coisas. - Se vocês tiverem eletricidade, usaremos nossos computadores. Mas temos que encontrar esses discos antes que se danifiquem.

- Trarei os malditos discos - repôs Grei. - Logo que possa.

- Mas não posso esperar. Talvez tenham chegado aqui outras pessoas que tratam de nos roubar isso. Temos que ir buscá-los já.

Grace ficou tensa. Viu que de repente Grei entrecerrava os olhos até convertê-los em afiadas lascas de gelo verde.

- Está dizendo que há homens por aqui que querem machucar Grace? - Perguntou com voz sussurrante.

Deu a impressão de que Jonathan também entendia a ameaça que havia em seus olhos. Vacilante, assentiu e respondeu:

- Há um problema com o satélite que mandamos ao espaço, e só Grace sabe recuperar os dados sem destruí-los.

- Então os discos não servirão a esses homens.

Grace viu que Jonathan engolia em seco, pelo visto para que o coração voltasse a descer no peito. Ao ver Grei tão quieto e ouvir a dureza de sua voz, ela também começava a alarmar-se um pouco.

- Eles... querem os discos, mas também querem Grace - sussurrou Jonathan.

Engoliu seco outra vez e imediatamente deu um rápido passo atrás para apartar-se do olhar que apareceu nos olhos de Grei.

Este olhou então a Grace, que o máximo que conseguiu foi não recuar; claro que justo atrás dela estava a bancada. Em sua vida nunca tinha visto uma expressão tão feroz e temível.

Nesse momento teve clara uma coisa: a acalorada cena de Gu Bràth não tinha sido nada em comparação com o que agora intuía que Greylen MacKeage era capaz de fazer; nem sequer sua irada reação depois do acidente era equiparável a aquela cólera mortal.

Sentia-a irradiar de cada poro de seu corpo, e enchia a habitação de uma tensão tão grande que até o ar parecia tomar lugar.

E então Grace se lembrou de respirar.

- Faz a mala - soltou bruscamente Grei. - Dentro de cinco minutos te meto no pisa neves.

Bebê se removeu em seus braços, e ele desceu a vista para o pequeno. Fascinada, Grace viu como se obrigava a recuperar o controle. Quando a olhou de novo, seus olhos seguiam sendo duros como uma pedra e sua tez se apagou só um pouco, mas, ao falar, sua voz estava contida.

- São importantes para você esses dados? - Perguntou. De novo lhe passou um dedo pela face em gesto possessivo.

Ela assentiu.

- Podem afetar ao futuro da humanidade. Esses dados possivelmente suponham levar às pessoas a viver na Lua ou a Marte.

Não se atrevia de tudo a mencionar a possibilidade de que fossem empregá-los como arma e decidiu não dizê-lo; Grei já estava bastante furioso.

- De verdade, lass? - Perguntou Morgan. - Acredita que os homens talvez viajem à Lua?

- E as mulheres também - respondeu ela, só para irritá-lo.

Ele avermelhou de vergonha.

- Isso queria dizer.

- Sei - Grace deu um tapinha no braço no caminho para seu quarto. - Demorarei só um minuto. Preciso recolher umas coisas.

Passou o olhar pela cozinha.

- Quer pôr Mary no berço de Bebê, Morgan? - Perguntou.

Voltou a desfrutar, primeiro por causa de sua surpresa ao ver a lata, e depois por sua evidente reticência a tocá-la.

Ao final, com cautela, o pobre pegou Mary e a meteu no berço com cuidado... Então foi o berço o que não quis pegar.

Grace deu uma olhada à silenciosa casa.

- Dói-me deixar este lugar desatendido durante a tempestade.

- Cuidaremos dele por você - assegurou Grei. De novo sua voz soava quase normal, mas seu sorriso era tenso.

- Ai, os animais! ... Não posso deixá-los.

- Deixe aqui essa maldita cabra - disse Morgan, esfregando o traseiro.

- Mandarei Callum para que venha buscá-los - disse Grei. - Os meteremos em nosso estábulo, com os cavalos.

- Têm cavalos? - Disse Grace, subitamente interessada. Recordava que Ian havia dito que seu cavalo pesava mais de quinhentos quilos. Deviam ser animais de trabalho. - Para fazer excursões em trenó?

Com a cara avermelhada de novo, Morgan quase gritou:

- Não são cavalos de trabalho! O que acontece com vocês daqui? Acreditam que só porque são grandes já devem puxar as coisas?

- Bom, e para que se ter cavalos em uma estação de esqui? -Perguntou ela, surpreendida por sua reação.

- São animais nobres e agora são mascotes! - Respondeu ele, e ato seguido pegou o berço e saiu pela porta.

Morgan era como o tempo de Maine: trocava a cada cinco minutos. Tão logo implicava como lhe piscava um olho... E ainda não sabia qual das duas coisas a divertia mais.

Grace soltou uma risadinha em voz alta enquanto entrava em seu quarto, mas ficou séria no mesmo instante em que esteve fora da vista dos homens.

Caramba! Ainda lhe tremiam as pernas pela exibição possessiva de macho dominante de Grei. E o triste era que Jonathan não parecia dar-se conta do perto que tinha estado de que o esmagassem.

Era como se a sofisticada civilização onde tinha vivido toda a vida tivesse acabado com todos seus instintos.

Em algum momento, a sociedade tinha domado os traços masculinos de Jonathan, se é que não os tinha reprimido de todo.

Como se não fossem ser tão diferentes dois homens, Jonathan e Grei, que tinham mais ou menos a mesma idade e viviam no mesmo planeta? Jonathan só se preocupou por sua segurança...

Mas Grei se tornou mortalmente perigoso diante da ideia de que uns homens queriam seqüestrá-la.

Por isso seu instinto indicava a Grace que, naquele preciso momento, Gu Bràth era uma opção muito melhor que Virginia. Se fosse preciso, Grei os protegeria a ela e a Bebê com sua vida.

E que mulher não desejaria essa espécie de entrega por parte do homem que amava?

De fato, assim deveriam ser as coisas quando duas pessoas queriam passar o resto de suas vidas juntas.

 

Daar deteve um momento seu passeio de um lado a outro pela torre norte do Gu Bràth para olhar para a montanha TarStone, que se elevava depois das baixas nuvens carregadas de água. Não demoraria para chover de novo; podia cheirar a chuva impregnando o ar. Parecia que aquela tempestade ainda não tinha acabado de causar estragos.

Outra vez estava atento, tratando de interpretar as ondas de energia que chegavam da montanha aquela noite; primeiro como uma força branca e poderosa, depois com uma agressividade negra e ameaçadora. Não entendia o que queria dizer.

Só sabia que as duas almas que agora se amavam, discutiam, mas, cautelosamente, caminhavam uma para a outra, estavam interpondo-se no caminho daquilo que andava zumbindo pelo bosque.

Daar suspirou e retornou a seu passeio. O tamborilar de sua bengala se somou aos sons de um bosque arrasado pelo peso do crescente gelo. Desde que conheceu Grace estava revirando seus cansados e velhos miolos tratando de descobrir quem tinha sido seu guardião durante os primeiros trinta anos de sua vida. Agora essa tarefa a assumiria Grei, mas alguém se encarregou dela antes.

Daar suspeitava que tinha sido Mary, e também que, embora agora estava morta, ainda não tinha cedido sua responsabilidade a Grei.

Contudo, este já se elegeu guardião de Grace. Depois de deixá-la em Gu Bràth, junto a Bebê e a aquele tipo, Stanhope, e justo antes de sair em direção à granja da Árvore de Natal de MacBain, o guerreiro levou à parte o padre e, tranqüilamente, mas com firmeza, tinha-o advertido de que não se aproximasse de Grace Sutter. A Daar o divertiu sua advertência. Confirmava o que sempre tinha suspeitado: que Greylen MacKeage era consciente de que o sacerdote a quem levava mantendo os últimos quatro anos era também o responsável pela tempestade que o havia feito avançar no tempo.

Bom, a inteligência de Grei nunca se pôs em dúvida... Mas agora que o guerreiro se sentia protetor da Grace, seria-lhe quase impossível ganhar sua confiança.

E não é que Grei se confiou alguma vez dele, pensou Daar, ao tempo que suspirava preso da autocompaixão. Acaso não era esse precisamente o motivo pelo que vivia em uma cabana a três quilômetros de distância, em vez de Gu Bràth?

O guerreiro desejava mantê-lo perto para vigiá-lo, mas não tinha intenção de compartilhar o teto com quem suspeitava que tinha provocado um transtorno tão grande no mundo natural.

Daar sabia que MacBain também receava ele, por isso o jovem guerreiro tinha levado a seus homens a Nova Escócia só nove meses depois de chegar ao século XXI. Mas ao morrer todos, MacBain se viu atraído para Pene Creek. Embora não visitava seu antigo sacerdote e mentor, e se limitava a saudá-lo com uma inclinação de cabeça quando se encontravam no povoado, ao menos Michael tentava franquear a precária linha que separava os dois mundos, tão diferentes, que compunham sua vida.

Em realidade, Daar estava orgulhoso de MacBain e ficou muito contente quando travou amizade com a Mary Sutter... Do mesmo modo, sentiu uma enorme decepção ao inteirar-se de que ela tinha morrido. Não entendia por que tinha ocorrido.

Por que teve que morrer Mary em uma época tão difícil da vida de Grace?

Seria possivelmente que Mary Sutter não fosse uma feiticeira, mas sim, simplesmente, possuía alma de guardiã?

Não era raro que os anjos baixassem ao mundo durante um breve tempo para cuidar de alguém que tinham a seu cargo e que logo, de repente, desaparecessem de forma tão misteriosa como tinham chegado.

Mas, pelo visto, tampouco Grace estava disposta a deixar partir de todo o espírito de sua irmã. Afligida, agarrava-se às cinzas da Mary, que tinha metido em uma lata de bolachas Arejo, e a levava consigo a toda parte.

Justo aquela tarde a tinha visto colocar a Mary no suporte da lareira do salão de baixo.

Já era hora de ter um pequeno bate-papo com Grace Sutter.

Mais preocupado pelo perigo que nublava o ar aquela noite que pela advertência de Grei de que não se aproximasse dela, Daar se voltou para as escadas que desciam da torre norte e, depois de dar uma última olhada ao céu tormentoso e instável, dirigiu-se ao quente fogo que ardia no piso de baixo. Estava seguro de que o guerreiro faria frente ao desafio que o tormentoso céu pressagiava, fosse qual fosse; não em vão Daar tinha procurado por todo o suceder do tempo até encontrar o casal adequado para a mulher que teria sete filhas.

Ao dia seguinte Greylen MacKeage se encontraria cara a cara com seu destino... E então teria que demonstrar que era digno dele.

Grace não tinha tido êxito em seu plano de falar com o pai Daar. Tentou conversar com ele em duas ocasiões, mas nas duas lhe disse que não tinha tempo, já que estava no meio de uma novena.

Foi ao dicionário a procurar a palavra e só encontrou que uma novena durava nada menos que nove dias.

Isso a deixava com Bebê e os MacKeage... E com Jonathan. Ah, e com aquele maldito teleférico; ainda não estava segura de que não ia fazê-lo saltar pelos ares.

Naquele momento nenhum deles estava ali, salvo Bebê, ocupado em dormir o sono dos inocentes. Grei e Morgan estavam na granja da Árvore de Natal, colocando os canhões no campo de Michael MacBain à espera de que aquela noite a temperatura baixasse o suficiente para fazer neve. Callum tinha voltado para sua casa para recolher as galinhas, a cabra e os gatos. Lhe desejou sorte quando se foi, e ele percorreu toda a distância que o separava de sua caminhonete com o cenho franzido.

Quanto a Ian, refugiou-se no abrigo do teleférico; pelo visto não estava disposto a permanecer sob o mesmo teto que ela.

Tanto Ian como Callum se negaram a ajudar a Grei a salvar as árvores de Michael, e Grace suspeitava que Morgan o tinha acompanhado porque se preocupava que nem sequer sua amarga resolução fosse suficiente para realizar a tarefa.

Tinha provocado um tremendo desgosto no lar dos MacKeage ao exigir que ajudassem ao Michael se queriam que ela os ajudasse. Três horas antes, quando ela e Bebê entraram, Ian a olhou com desaprovação e ignorou ao Jonathan por completo.

Com o Ian carrancudo no abrigo do teleférico, não podia trabalhar no remonte até que Grei não retornasse. Nem por todo o ouro do mundo ia enfrentar só a aquele ancião zangado.

Jonathan estava no salão, de novo em frente ao computador; provavelmente tentava calcular quanto custaria aquele pequeno desastre se não recuperassem com êxito os dados do Vainillo. Para Grace, nesse instante, aquela era a menor de suas preocupações, e sua falta de emoção por algo no que tinha trabalhado tanto a surpreendia. Vários dos terminais de dados que levava Vainillo eram deles; supunham sua oportunidade de demonstrar o que levava dizendo desde o começo: que a propulsão por íones era viável e, além disso, a um custo sensato.

Mas, sem saber por que, já lhe dava igual se houvesse ou não colônias em Marte naquela década. Em algum momento das últimas semanas tinha deixado de olhar para fora, para o espaço, e havia tornado sua atenção ao que tinha descoberto que era o autêntico desafio: viver, amar e estar satisfeita ali, na Terra.

E depois estava Grei. Ele tinha ensinado que havia algo muito mais importante que viver na vanguarda da exploração e a tecnologia, entre homens de mentalidade moderna. A fez dar-se conta de que, por muito que tivesse evoluído a sociedade, a humanidade seguia necessitando os antigos valores para sobreviver. Homens e mulheres ainda precisavam ter fortes laços de dependência mútua. O compromisso, os vínculos e a confiança no outro seguiam importando mais que a mera coexistência.

Grace sempre soube que era assim, mas o tinha esquecido em algum momento dos últimos quatorze anos, ao viver com gente que só olhava acima e para fora, e não dentro de si.

Nesse instante Jonathan entrou na grande habitação do Gu Bràth.

- Acredita que MacKeage fará o que disse? Que nos levará ao lugar do acidente amanhã? - Olhou seu relógio de pulso e franziu o cenho. - Quero dizer hoje. Maldição, é mais de meia-noite. Já desperdiçamos trinta e seis horas.

- Fará - assegurou ela.

Ele se aproximou da lareira e estendeu as mãos para o calor do fogo enquanto jogava uma olhada à habitação.

- Nossa, que casa que tem - voltou a olhar. - Acredito que minha última oferta de quarenta mil dólares foi um insulto. Onde terá ganho tanto dinheiro? Nunca ouvi mencionar o nome de MacKeage no mundo empresarial...

Estou seguro de que não ganhou toda esta massa vivendo em Pene Creek.

Grace deu de ombros e fechou o velho livro que tinha estado folheando. Não tinha podido lê-lo; estava escrito em um idioma que não identificava.

- Não parece muito preocupada com nosso satélite - comentou ele enquanto se sentava em uma poltrona em frente a ela. Depois se inclinou para diante com os cotovelos apoiados nos joelhos e a olhou fixamente. - Que demônios te passa?

A Grace Sutter que eu conhecia agora estaria esmurrando as teclas do computador, não lendo um manual antigo.

- Por que o fazemos, Jonathan? Por que temos tanto empenho em viajar pelo espaço? Nem sequer acabamos de explorar a Terra... Por que não nos concentramos nisso?

Sua pergunta pareceu surpreendê-lo.

- Porque ali está o futuro. Dentro de cem anos a Terra será um ermo. Se não viajarmos ao espaço para explorar mundos novos, não sobreviveremos.

- Mas não se converterá em um ermo se pusermos todas nossas energias em salvá-la.

Ele se reclinou na poltrona e rejeitou a ideia com um gesto da mão.

- Isso são bobagens ecologistas - disse em tom de mofa. - E, além disso, não dão dinheiro. Os lucros estão no espaço, porque aí é aonde quer ir as pessoas.

Inclinou-se para frente outra vez.

- E ali é aonde você e eu os levaremos, Grace. Não fique tão transcendental comigo só porque esteja visitando seu lar da infância.

Ajoelhou-se diante dela e agarrou os braços da poltrona.

- Só sente o mesmo todos os cientistas quando estão ao bordo de um novo descobrimento que talvez troque o futuro do mundo. Se preocupam as conseqüências - Afastou uma mecha de cabelo e o colocou atrás da orelha.

- Mas não se preocupe: o que fazemos está bem. As gerações futuras nos darão obrigado como agora os damos ao Galileu, Newton, Einstein e os irmãos Wright.

Tomou sua face na mão e elevou-a para a sua.

- Você é um deles, Grace - sussurrou, e depois a beijou.

Não lhe devolveu o beijo; não pôde. Não cheirava bem e tinha sabor de café amargo.

Não lhe formigaram os dedos dos pés, e tampouco ficou sem respiração.

Não era o mesmo... Caralho, nem de longe!

- Se eu fosse você, jovenzinha, não faria isso - disse de repente o pai Daar da porta do salão.

Grace se tornou atrás e ficou como um tomate. Estupendo, acabavam de pegá-la beijando, e quem a tinha surpreso era, para cúmulo, um sacerdote chapado à antiga.

Jonathan se levantou e se voltou para olhar ao Daar.

- Não aconteceu nada, padre - disse. - Grace e eu... Bom, temos uma longa história juntos.

- Pois não terão futuro se MacKeage der conta disto - repôs Daar.

Entrou na sala e se acomodou no assento de Jonathan. Ignorava-o, mais ou menos do mesmo modo que Grei o tinha ignorado em casa de Grace aquela mesma tarde, e, como então, Jonathan não parecia dar-se conta do insulto, nem sequer da ameaça a que o sacerdote fazia alusão. Limitou-se a sair da sala para voltar com seu computador.

Ao ver o livro que Grace tinha no colo, Daar a olhou elevando uma sobrancelha.

- Esteve lendo um pouco?

Ela deixou o livro no chão, junto à poltrona.

- Não. Acreditei que talvez fosse escocês e estava procurando o significado de Gu Bràth.

- É gaélico, filha - com um amplo sorriso, o sacerdote se reclinou na poltrona. - Gu Bràth significa "para sempre"; por toda a eternidade. - Inclinou-se agora para frente e, com uma cintilação de seus olhos azuis, claros como o cristal, acrescentou.

- Ou até o dia do Julgamento Final. É difícil concretizar exatamente com o velho idioma gaélico - voltou a reclinar-se. - As palavras têm muitos sentidos.

- O que significam essas palavras para Grei e os outros?

Ele voltou a olhar o fogo e observou as chamas com gesto ausente.

- O MacKeage deu a este lugar o nome de Gu Bràth e disse que agora esta montanha era seu lar, para sempre, e que nada, salvo o mesmo Deus, voltaria a desarraigá-los outra vez.

Grace se perguntou o que teria ocorrido lá na Escócia para que os quatro homens se vissem obrigados a construir uma nova vida em outra terra.

Pensou que devia ser uma experiência dolorosa para que o sacerdote falasse de "desarraigar" e Grei declarasse diante Deus que não voltaria a passar por nada semelhante.

Chamou a atenção de pai Daar outra vez ao perguntar:

- Por que se referem a ele como "o MacKeage"? O que significa isso?

- Ao laird de um clã sempre se chama pelo sobrenome do clã. O laird dos Campbell seria "o Campbell" - respondeu ele a modo de exemplo.

- Grei é um laird? Um de verdade?

Daar colocou a bengala nos joelhos e acariciou a madeira.

- É um título antigo, já não se usa muito hoje em dia. Mas o título existe ainda.

Grace estava fascinada. Então por isso Morgan, Ian e Callum acatavam o que dizia Grei, embora Ian e Callum fossem mais velhos que ele... Acreditava que já ninguém tomava em conta a fila social, ao menos não do modo em que os três pareciam fazê-lo.

Queria lhe fazer mais pergunta sobre o tema, mas de repente o sacerdote assinalou com um gesto de cabeça a lata de bolachas que estava sobre o suporte da lareira e depois, em tom suave, disse:

- Ela não está aí dentro, sabe? Está aqui - depois de assinalar a ela, deu um golpezinho no peito e fez um gesto com a mão no ar. - Mary já entrou nas energias de nossas forças vitais e forma parte das pessoas cujas vidas afetou.

- Sei - admitiu Grace com ar bastante tímido. Sentia-se um pouco idiota por levar as cinzas de sua irmã a toda parte. - Mas não fica nada mais dela. E dentro de uns quatro meses, nem sequer terei isso.

- Ah, o solstício do verão... - Disse ele, assentindo. - Seus aniversários.

- Como sabe?

- Mary subia a ver-me na montanha ao menos uma vez por semana. Contou-me que as duas tinham o mesmo aniversário: o solstício do verão.

Grace sentiu que lhe enterneciam as vísceras e sorriu.

- Não todos os anos caem no mesmo dia, sabe? Mary nasceu em vinte de junho, e eu o vinte e um, mas como ambos os dias eram o solstício do verão, mamãe decidiu que, em vez de nossos aniversários, devíamos celebrar esse acontecimento.

- Mary me contou que as duas nasceram no momento exato do solstício - disse Daar. - É certo ou estava brincando com um velho? Tinha essa espécie de senso de humor.

- Não mentia. É muito curioso, todos meus meio-irmãos nasceram no mesmo dia também. Mamãe sempre montava uma festa enorme, e inclusive depois de que partissem de casa, meus irmãos sempre voltavam para os aniversários, o solstício do verão.

Que probabilidades tem que isso passe em uma mesma família?

- Considera-o uma simples casualidade? Não acredita que seja algo um pouco mais mágico, possivelmente? - Perguntou ele.

Seus claros e firmes olhos azuis a observaram com uma intensidade que se voltou inquietante, e Grace riu para romper a tensão que sentiu de repente.

- Claro que não, padre. A magia não existe.

Ele pareceu ficar horrorizado.

- Não acredita na magia, jovenzinha?

- Sou cientista. Só acredito no que se apóia nos fatos.

- Então me explique isso de oito filhos do mesmo pai, todos nascidos no dia do mesmo acontecimento celeste - pediu com doçura.

- É um simples fenômeno matemático. Não se diferencia de outros casos, como as probabilidades de que um cometa se choque com a Terra ou de que um tornado coloque uma parte de feno no tronco de uma árvore.

A probabilidade não é muito alta mas, mesmo assim, acontece de vez em quando.

- De modo que a matemática explica o que não explica a magia.

- Sim. Estou segura de que não somos a primeira família onde todos os filhos nasceram na mesma data - disse ela. - Ao menos se considerar o número de nascimentos do início da humanidade.

O sacerdote se voltou e olhou o fogo com o cenho franzido. Grace confiou em não havê-lo insultado. Estava desfrutando daquela conversa filosófica.

Então decidiu seguir com isso para, possivelmente, introduzir o tema do Michael.

- Você acredita nas viagens através do tempo, padre? - Perguntou.

Ele se voltou e a olhou com os olhos entrecerrados.

- Duvido que você acredita neles. Estou no certo?

- Em teoria, é possível, como Einstein possivelmente já nos tenha demonstrado... Mas ninguém sabe, assim que minha resposta é não, não acredito nas viagens através do tempo.

- Então, por que me faz essa pergunta?

- Porque você e eu conhecemos uma pessoa que diz que viajou oito séculos do passado. E não deixo de me perguntar se estará louco ou se existe uma boa explicação para sua... Confusão.

Enquanto falava, os olhos do ancião sacerdote foram abrindo-se muito, e sua tez se voltou cada vez mais pálida.

- Quem te contou isso? - Perguntou em uma voz tão baixa que era quase um sussurro. - Quem diz que viajou através do tempo?

- Michael MacBain - respondeu ela, sussurrando também e inclinando-se mais para frente para que só ele a ouvisse. - Disse a Mary que tinha nascido no ano 1171.

Imediatamente viu que o sacerdote realizava uma inspiração funda, quase dolorosa, enquanto se reclinava de novo em sua poltrona e fechava os olhos.

Esperou uns minutos a que lhe respondesse, mas ele se limitou a ficar ali sentado, com os olhos fechados, enquanto acariciava os brilhantes nós de sua bengala.

Então Grace decidiu abordar o tema com outro enfoque.

- Sabe guardar um segredo, padre? - Perguntou, voltando a inclinar-se para frente. - Bebê não é meu filho, é filho de Mary... E do Michael.

Ele abriu os olhos de repente e a olhou. Pelo subitamente encantado que parecia estar com ela, haveria dito que acabava de lhe preparar um bolo.

- O menino não é seu?

- Não - confirmou Grace, assentindo. - Mas não estou segura de se devo dizer a Michael que tem um filho. Não sei se está cordato ou não.

- Claro que está cordato, filha. Sua irmã o amava, não? Tem a cabeça tão no seu lugar como você e como eu.

- Mas acredita que viajou através do tempo.

Uma sombra de pesar atravessou a expressão do ancião sacerdote. Então abriu a boca, mas, de repente, fechou-a e lhe deu uma olhada feroz. Grace ia sentindo-se um pouco frustrada.

- E bem? Conhecia você Michael faz sete anos? - Perguntou por fim. - Quando ocorreu o episódio da Maura?

- Por quê? - Perguntou ele por sua vez, como se ficasse na defensiva.

Deu vontade de estrangulá-lo. Será que não estava escutando-a?

Armou-se de paciência e disse:

- Porque se conheceu o Michael há tanto tempo, poderá me dizer se lhe ocorreu algo que explique por que acredita no que acredita.

Subitamente, Daar ficou de pé.

- Tenho que terminar minha novena - disse.

Grace se levantou também.

- Por que não quer me dizer isso?

- Sou sacerdote - disse ele, enquanto fugia dela. Então se deteve e olhou para trás. - Tenho feito voto de não repetir o que ouço. Se quer saber algo sobre o MacBain, mais vale que pergunte ao MacKeage, ele não está sujeito a essa restrição.

Dito isso, o pai Daar partiu tão em silêncio como tinha chegado, enquanto o tapete amortecia o tamborilar de sua bengala.

Grace ficou olhando a porta; bom, pois sim que tinha sido proveitoso o bate-papo... Estava tão perto de encontrar as respostas que necessitava sobre Michael como ao chegar a Pene Creek.

Não queria perguntar a Grei nem tampouco a outros, mas o que outra opção havia? Tinha que justificar seus atos se pretendia ficar com Bebê.

Aproximou-se de seu berço e o olhou. Estava dormido.

O que ia fazer?

Grei ajudou à última das senhoras mais velhas a sair da máquina pisa neves e a segurou pelo braço enquanto entravam no hotel do complexo turístico. Aquilo supunha que dezesseis das vinte habitações acabadas já estavam cheias.

E agora que se estendeu a notícia, os do povoado não deixavam de chegar.

Tinha sido ideia de Morgan que oferecessem seu hotel a todos os que necessitassem um lugar quente e cômodo onde refugiar-se até que se acabasse a tempestade, já que não tinham eletricidade.

Morgan entrou na casa dos Bigelow a beber água e ali descobriu a uma anciã Ellen Bigelow, vestida com várias capas de roupa, enchendo panelas de gelo para que se derretesse na estufa de lenha do salão. Então foi a Grei com sua ideia: acender o gerador do hotel para que as pessoas mais velhas do povoado e as mulheres com filhos pequenos estivessem mais cômodos no Complexo Turístico da Montanha TarStone.

A ideia era boa, mas não foi tão fácil colocá-la em prática. As pessoas de Pene Creek era teimosa, em particular os de mais idade, e não queriam deixar suas casas. Grei teve que esforçar-se para convencer a John e Ellen Bigelow de que ir ao hotel era o mais prático... E, pelo visto, só fazia falta que alguém desse o primeiro passo. Quando os Bigelow acreditaram que era uma decisão acertada, outros se apressaram a seguir seu exemplo.

Necessitaram das duas máquinas pisa neves para transportar a todo mundo. logo que Grei ou Morgan levavam a alguém ao hotel, a outro lhe ocorria alguém mais a quem era preciso resgatar, de modo que Callum, Morgan e Grei passaram toda a tarde e parte da noite transportando a mulheres, meninos e anciões ao hotel.

A tempestade tinha piorado, e agora caía neve a razão de dois centímetros e meio por hora. Se continuasse assim, não seriam necessários os canhões de neve artificial para tampar as árvores de MacBain.

Embora a Grei dava igual o homem ao que ajudaram aquela noite, teve que reconhecer sua admiração pelo plano, engenhoso e simples de uma vez, que Grace tinha ideado para salvar MacBain da ruína. Em vez de tentar combater à mãe natureza, usavam a neve para enterrar as jovens árvores e protegê-las... E estava funcionando uma maravilha.

Embora mais ainda se surpreendeu que Morgan e, ao final, também Callum o ajudassem. Não criticou Ian por não dar seu braço a torcer. Se pudesse escolher, ele tampouco teria movido um dedo pelo MacBain.

Mas Grei não queria ver o MacBain arruinado quando a tempestade acabasse e ter que enfrentar-se com a Grace Sutter por isso.

Ceder a seu ultimato talvez não fosse a forma mais prudente de começar uma relação, pois Grace podia pensar que tinha muito poder sobre ele... Mas isso era melhor que não ter nenhum tipo de relação absolutamente.

E, além disso, do esforço dos MacKeage também estava saindo algo bom: as pessoas do povoado respondiam a seus oferecimentos de ajuda. Durante aqueles quatro anos, eles e o padre tinham mantido as distâncias; isolaram-se do resto do mundo e se respaldaram no refúgio de seu bosque montanhoso enquanto assimilavam a nova vida a que se viram jogados com tanta violência.

Pois bem, aquele isolamento já acabou... E, além disso, parecia que ganharam as simpatias de toda a comunidade. Provavelmente, o fato de ter de repente a meio povoado vivendo em seu complexo turístico era o melhor exemplo do longe que tinham chegado Grei e seus homens. A comunidade seguia sendo o melhor meio de sobrevivência.

Tinham esquecido aquela verdade... Até aquele dia.

Ao cabo de uma hora de começar a instalar seu equipamento na granja da Árvore de Natal, espalhou-se a notícia. Em seguida oito homens foram a trabalhar com eles, e dessa forma terminaram na metade do tempo.

Tudo sem a ajuda do bastardo do MacBain, que tinha desaparecido antes que chegassem Grei e Morgan. Segundo John Bigelow, sempre que ficava melancólico e queria estar sozinho, tinha o costume de partir às montanhas.

John acreditava que certamente tentava aceitar a morte da Mary.

A Grei deu igual, embora pareceu irônico que estivessem tratando de salvar o futuro de MacBain, e ele não estivesse ali. Mas ao cabo de um momento tirou o chapéu elevando a vista para as montanhas e perguntando-se como se sentiria ele, como reagiria se ocorresse algo a Grace. O mais provável é que também se fosse ao monte... Só que não estava seguro de que fosse retornar se ela não estivesse ali esperando-o.

- Nunca imaginei que veria o interior deste lugar - disse a mulher a que ajudava enquanto, boquiaberta, olhava o vestíbulo de dois andares de altura. - E agora estou aqui.

- Pensamos em fazer uma jornada de portas abertas para as pessoas de Pene Creek - mentiu Grei. Acabava de decidir que transformaria sua mentira em realidade.

- Uma festa de verdade, com baile? - Perguntou a mulher, elevando seus faiscantes e animados olhos castanhos para ele.

- E com passeios no teleférico até a cúpula - acrescentou Grei, sorrindo. Confiou em que ainda houvesse um remonte de cabines para quando chegasse a primavera.

A mulher se deteve e agarrou o peito dando um grito afogado, um gesto que esteve a ponto de fazê-la cair, enquanto abria desmesuradamente os olhos.

- Sempre quis montar em um desses remonte. Mas eu não esquio - esclareceu a anciã de mais de oitenta anos. - Você vai fazê-lo funcionar no verão?

- Sim. De cima se vê todo o lago Pene - respondeu Grei. - E haverá um restaurante na cúpula.

- Como subirá você a comida até lá encima? - Quis saber ela, ao mesmo tempo que o olhava entre atenta e receosa.

- Usaremos a máquina pisa neves em que acaba você de ir.

- Ah, claro! ... Obrigado, jovem - deu um tapinha no braço. - Por ali vejo a Mavis. Vou dizer lhe que cheguei. O mais seguro é que esteja preocupadíssima por mim.

Tentou endireitar o corpo, vencido pela idade, enquanto se alisava a parte dianteira do casaco.

- Mavis acredita que terá que me cuidar como a uma menina só porque sou velha - disse a Grei em tom conspirador. - Não é assim, mas não tenho coragem para dizer-lhe, precisa ser útil.

"E você necessita que a cuidem", disse Grei. Ele nem sequer sabia seu nome, mas sim que sabia de orgulho e independência.

Estava apaixonado por uma mulher que tinha montões das duas coisas.

Ficou olhando enquanto a senhora anciã se dirigia para a mulher que devia ser Mavis, e sorriu quando, imediatamente, viu que Mavis a recebia com um caloroso abraço.

Depois voltou a sair sob a nevasca. Subiu o pescoço do capote e deixou que seus cansados pés o levassem pelo atalho que ia a Gu Bràth. Quase tinha terminado. Só ficava uma coisa por fazer antes de deixar cair na cama: assegurar-se de contar ao menos com uma cabine para a primavera.

Entrou sem fazer ruído e se deteve na porta que dava ao salão. Dali observou Grace e a Bebê dormido juntos, na poltrona, junto ao fogo. Bebê estava aconchegado sob o queixo dela, e Grace o tinha abraçado, bem seguro.

No chão, junto à poltrona, havia uma mamadeira vazia e uma fralda descartável, enrolada ao lado.

Grei inalou profundamente. Isso era o que desejava: voltar para casa para encontrar a uma mulher e a um filho, e saber que eles o necessitavam.

Não estava seguro de quando se apaixonou pelos dois. Talvez tinha ocorrido na montanha, durante a desesperada descida para um lugar seguro, ou quando deu calor ao Grace com seu corpo; possivelmente seu coração se esquentou com ela então.

Mas de ter que escolher um instante, acreditava que foi quando estavam diante da porta do refúgio: quando Grace negociou a salvação de seu remonte em troca de que ele ajudasse a salvar a colheita de seu inimigo com seus canhões de neve.

Foi então quando soube que tinha encontrado à mulher de sua vida. Ele a havia feito zangar, e lhe deu um ultimato. Grei sabia que ela tivesse querido lhe pedir de outra forma que ajudasse a MacBain, mas quando Grace Sutter se enfurecia e sabia que contava com o poder da razão, teria que tê-la em conta.

Sim, foi então: quando estava frente a ele, enquanto a chuva fazia que seu comprido e encaracolado cabelo açoitasse a face, e todo o ardor da ira dirigia suas palavras. Então foi quando sentiu o baque no peito.

E então decidiu que não ia deixá-la descer daquela montanha sem fazê-la sua antes. Descobrir que era seu primeiro homem não fez mais que fortalecer o vínculo que já estava selado.

No que a ele se referia, o matrimônio era só uma questão de detalhes legais. Grace era dele, e embora ela provavelmente não se dava conta ainda, ele era seu para o resto de suas vidas.

E esperava que Bebê o fosse também.

Apaixonou-se pelo menino muito antes de conhecer sua linhagem. E não é que isso lhe importasse. Na confiança, inocente e incondicional, com que se entregou havia algo que o enterneceu profundamente.

Não queria que Grace desse o pequeno ao MacBain.

E isso o torturava. Não imaginava ter engendrado um filho e não saber sequer que existia. Quem se atrevesse a lhe ocultar semelhante segredo passaria muito mal...

E, entretanto, ele estava disposto a cometer esse mesmo pecado contra Michael MacBain, se assim evitava que a Grace rompesse o coração.

Só o tempo o diria. Era decisão de Grace, não dele nem de ninguém mais. Não seria fácil. Por uma parte, estava a promessa feita a sua irmã e, por outra, seu próprio desejo de ficar com o pequeno.

Por fim Grei entrou no salão e, com suavidade, com cuidado de não despertar a nenhum dos dois, pegou Bebê dos braços de Grace e o meteu em seu berço. Crescia como uma semente em terra fértil: parecia ter ganho mais meio quilo aquela semana.

Suas faces de bebê estavam mais cheias, tinha as feições menos enrugadas e inclusive aquele desastre de cabelo parecia mais longo.

Grei o tampou com uma manta e sorriu ao ver os gestos de sucção que fazia em sonhos. Um começo tão cheio de incidentes em uma vida tão curta... E, entretanto, Bebê crescia. Decidiu que era um milagre e deu obrigado por que fosse tão pequeno.

Se tivesse sido maior, possivelmente não lhe teria ido tão bem, com tudo o que tinha passado. Inclinou-se, deu-lhe um beijo ao relaxado e diminuto punho que descansava sobre a manta e, devagar, endireitou-se.

Queria uma dúzia mais como ele. Filhos fortes e sãos que pusessem as bases do futuro.

Por certo, a mulher que lhe daria esse futuro necessitava descanso com urgência.

Grei comprovou o interfone que estava na mesa, junto ao berço, e pegou o pequeno receptor. Grace lhe tinha explicado que com ele ouviriam o menino de outro quarto. Meteu a caixinha no cinturão, Depois se voltou e, com cuidado, pegou Grace nos braços e a abraçou contra seu peito. Instintivamente, ela acomodou a cabeça no espaço de seu pescoço, e ele sentiu um estremecimento de calor ao notar seu fôlego na pele.

Ao diabo o teleférico, decidiu. Se tinha esperado até então, poderia esperar até o amanhecer. Ia levar sua mulher ao piso de cima e a deitar-se junto a ela enquanto os dois recuperavam o sono atrasado.

Cruzou o vestíbulo com Grace nos braços e começou a subir a escada, sorrindo ao pensar em sua reação quando ao despertar encontrasse na cama com ele.

- Partimo-nos já? - Perguntou Jonathan Stanhope do vestíbulo de baixo.

Por seu aspecto, acabava de despertar. Bocejou e passou uma mão pelo cabelo; na outra levava um mapa.

Grei se deteve e se voltou.

- Não - disse em voz baixa, para não incomodar Grace. - Sairemos ao meio-dia.

Naquele instante Jonathan despertou de todo. Correu até o primeiro degrau e agarrou o poste da escada.

- Mas então será muito tarde! - Disse. Cravou o olhar na mulher que ia nos braços de Grei, e a surpresa o fez abrir mais os olhos. - Aonde vai com Grace?

- À cama - respondeu Grei, ao mesmo tempo que dava a volta e seguia subindo a escada.

- Com Grace! - Gritou Jonathan.

Grei sentiu que a cálida e flexível mulher que levava nos braços se movia. Então se deteve de novo e se voltou para olhar Jonathan.

- Está começando a me chatear, Stanhope - grunhiu. - Vamos, saia agora mesmo de minha casa!

 

Grace não sabia o que pensar. Seu desconcerto nascia de que, ao despertar, encontrou-se na cama com um homem a seu lado; ou, melhor dizendo, com um homem escancarado em cima.

Não podia mover-se. Grei tinha jogado uma perna sobre as coxas e um braço sobre o peito, e a tinha apanhada como se temesse que fosse desaparecer enquanto ele dormisse. De modo que, tombada ali, satisfeita e sem pressa por mover-se, examinou com atenção o quarto.

Voltava a estar em um castelo... E o mais moderno da habitação era ela. O teto tinha pelo menos três metros e meio de altura, e era de madeira obscurecida. Duas das paredes eram de pedra negra, como as de baixo, polida e brilhante, e as outras duas estavam cobertas de painéis de carvalho cor mel, mas por nenhuma parte se via um artefato elétrico ou uma tomada.

Havia, isso sim, castiçais de parede com velas, e ao lado da cama, sobre uma mesa, um grande candelabro com velas a meio consumidas e uma caixa de fósforos.

Na parede em frente havia uma gigantesca lareira flanqueada por estreitas janelas, tão altas que não poderia aparecer por elas nem que ficasse nas pontas dos pés.

A cama onde se encontrava era do tamanho da cozinha de sua casa e estava a quase um metro do chão.

Aquilo era o mais normal que abrangia sua vista... Porque o resto do quarto parecia tirado de um livro ilustrado sobre castelos medievais. Um tecido longo e estreito cobria o suporte da lareira; era das mesmas cores que a camisa que tinha roubado de Grei. No canto do quarto, sobre uma armação de madeira, havia uma sela de montar de estranho aspecto, com uma grossa brida de couro que pendurava pela parte dianteira.

E, além disso, sobre os braços de uma poltrona havia uma espada, como se alguém a tivesse deixado ali sem mais, depois de matar um dragão.

Uma espada... Grace não sabia muito de antiguidades, mas estava segura de que essa espada valia uma fortuna. Parecia igualmente alta como ela e, provavelmente, também pesava o mesmo. A folha não estava lustrada como um espelho, como outras que tinha visto em algum museu, mas sim mostrava a pátina do tempo e o uso. O punho não tinha adornos; por seu aspecto gasto e cômodo, parecia desenhada para ajustar-se bem a uma mão grande e masculina. Estava claro que se tratava de uma arma em uso, não de um adorno de ornamento.

Uma espada, uma sela de montar antiga, velas... E um castelo.

Com o olhar fixo na lareira, Grace franziu o cenho. Por um lado, tentou assimilar o que via, mas também recordou a história de Michael sobre sua suposta viagem através do tempo. Ele disse que na tempestade ficaram apanhados dez homens: seis MacBain e outros quatro, de quem se negou a falar e aos que nem muito menos nomeou.

Uma batalha... Inimigos... E sete anos de ódio.

Não, não era possível. Nenhum só dos MacKeage tinha dado o mais leve indício de sofrer delírios.

Eram escoceses, assim por que não iam querer viver em um castelo? O mais provável é que lhes recordasse sua terra natal; depois de tudo, os castelos eram parte de sua cultura.

E além disso, se Grei e os outros fossem os inimigos com os que Michael estava brigando durante aquela tormenta, como é que ele se mudou para ali fazia só um ano?

Claro que foram os mesmos MacKeage os que lhe falaram da Maura. Sete anos atrás. Antes do... Contratempo do Michael.

Grace voltou a cabeça e olhou ao homem que estava junto a ela; tinha os olhos abertos e estava olhando-a.

- Vive em um castelo, Greylen MacKeage.

- Sim.

- Por quê?

- Eu gosto dos castelos.

Grace esperou a que lhe desse mais detalhes, mas pelo visto não tinha nada mais a dizer sobre o tema. Então se moveu um pouco para ver se a ia deixar levantar-se; mas não...

- Este é seu quarto - disse sem convicção.

- Sim.

- E estou em sua cama.

- Como admiro sua inteligência - disse ele com ironia. As comissuras de seus olhos se renderam de regozijo.

Maldição; pelo visto ela não tinha força de vontade para mover-se.

- Como cheguei a sua cama?

- Trouxe-te eu.

- Por quê?

- Porque este é seu lugar.

Grace teve que afastar a vista para recordar-se de respirar e cravou o olhar no teto.

"Não usa camisa", quis dizer, ao mesmo tempo que se levava a mão livre até o botão superior da blusa; pelo menos, ela sim que seguia vestida. Por que a decepcionava isso?

- Tinha calor.

Grace também começava a sentir calor. Por que estava jogado ali, sem mais, olhando-a? Não o fazia falta olhá-lo para saber que aqueles olhos verdes a observavam com a intensidade e a paciência de um gato que se prepara para saltar.

Ao melhor ela devia adiantar-se no salto.

De repente, de um pulo, Grace saiu de baixo de sua perna e rodou até ficar em cima, com as mãos apoiadas em seu peito e sentada escarranchada sobre sua cintura. Aquilo o surpreendeu.

- Quero apresentar uma queixa sobre seu complexo turístico - disse Grace. De um golpe lhe afastou as mãos quando ele tentou lhe agarrar os quadris. - Ao que parece, suas hóspedes se deitam em um lugar e despertam em outro.

Costuma colocar as mulheres em sua cama, senhor MacKeage?

Grei se deu conta de que, se não deixasse de tentar agarrá-la, ela teria que seguir lhe dando tapas, de modo que cedeu. Cruzou as mãos atrás da cabeça e deu de ombros.

- Em geral não - respondeu. - Só às bonitas.

Grace lhe fincou os dedos no peito nu, decidida a não deixar-se influir por seu completo... Nem por aquele brilho de desejo que brilhava em seus olhos.

Tampouco quis que a distraísse o crescente indício de excitação que sentia sob seu corpo.

Maldição. Sabia que se ia a Gu Bràth acabaria em sua cama, mas isso não significava que tivesse que cair a seus pés como uma colegial doente de amor.

Mas sim que caiu. Grei se moveu tão rápido que só lhe deu tempo de gritar antes de encontrar-se de barriga para cima de novo, outra vez segura por um corpo meio nu, de aço forjado. E aqueles olhos nos que já ia perdendo-se?

Agora eram da cor da pícea, com uma nervura de fogo, e a olhavam cheios de intenção.

Grei afastou o cabelo da face e lhe sorriu com a complacência de um gato caçador que acaba de apanhar seu jantar.

- Pode dar por apresentada sua queixa, lass. E agora vou apresentar te uma eu: está demorando muito em me beijar.

- Não tenho por costume recompensar a arrogância.

Ele se tornou para trás.

- Arrogância? É arrogância te dar uma cômoda cama onde dormir?

- É arrogância que seja sua cama - replicou ela. - E que esteja comigo.

Grei baixou a boca até deixá-la a pouco centímetros da dela. Sorriu e sussurrou:

- Ah, lass. Isso não é arrogância, é a consciência de que nos pertencemos.

Então baixou a cabeça e a beijou nos lábios.

Grace deixou de bravatas e lhe devolveu o beijo, ao tempo que tomava sua face entre as mãos e estendia os dedos por seu sedoso e ondulado cabelo castanho avermelhado. Gostou do comichão que sentiu nas pontas dos dedos; tinha um cabelo tão suave...

E um corpo duro como o aço quente e rígido. Grace notou que em seu interior ia crescendo a tensão que provocavam suas carícias. Uma tensão que começava a despertar um eco em seu próprio corpo.

- Deveríamos... Deveríamos parar - sussurrou, em aberta contradição com seus atos, pois estava deslizando a boca por sua mandíbula e o abraçava com força.

- Nada Disso - disse ele com os dentes apertados.

Voltou a atrair os lábios dela para os seus, e Grace esteve a ponto de tornar a rir diante a forma nada sutil de seu desejo. Amar Greylen MacKeage era algo muito natural, quente e divertido... E, além disso, do mais apaixonante.

Grace abriu a boca e, com entusiasmo, tomou dentro sua língua. Seus sentidos vacilaram quando lhe chegou seu aroma: cheirava a natureza, a chuva e a si mesmo. O peito de Grei emanava calor, e seus seios morriam de vontades de tocá-lo, nus.

Queria sentir o pêlo de seu torso fazendo cócegas na pele.

- Vamos fazer amor outra vez - disse. Afastou-se e elevou a vista. Não era uma pergunta.

Ele assentiu com um breve gesto.

Era incrivelmente bonito. Seus olhos ardiam com o fogo da paixão, e seus largos ombros e seu maravilhoso peito irradiavam uma força surpreendente. Grace estremeceu. Voltava a desejá-lo com uma intensidade que a consumia.

E ele também a desejava. Notava seu desejo sobre ela, pulsando no mesmo centro de sua feminilidade.

Moveu-se para sentir melhor seu impulso, ao mesmo tempo que começava a desabotoar a blusa sem afastar o olhar de seus olhos, com todo o corpo tremendo de urgência.

Depois que abriu a blusa e se desabotoou o sutiã, Grei desceu sobre ela até lhe tocar o peito com o seu.

Ela gemeu de prazer.

Ele grunhiu triunfalmente.

Quando voltou a beijá-la, Grace se agarrou a ele e abriu a boca sob a sua ao tempo que lhe rodeava a cintura com as pernas e elevava os quadris contra sua ereção. O grunhido se fez mais profundo, mais insistente e arrogante.

Sem soltá-la, Grei se voltou para ficar de barriga para cima, e Grace se encontrou de novo sentada escarranchada sobre seus quadris.

Desta vez não lhe afastou as mãos quando ele se apoderou de seus seios e fez que a percorresse um relâmpago de calor sensual.

De repente, então, Callum irrompeu no quarto. Morgan ia um passo mais atrás.

- Se não querem que manchem de sangue os tapetes - disse Callum. - Mais vale que desçam a encerrar ao Stanhope.

- Maldição! Querem sair daqui! - Gritou Grei. A força de sua voz sacudiu Grace como um terremoto.

Callum se deteve de repente, e Morgan se chocou contra suas costas. Os dois ficaram tão vermelhos como seu cabelo e se apressaram a dar a volta até ficar de cara com a lareira... Mas não partiram.

Certamente Grace sim que quis partir. Teria querido filtrar-se por uma fenda do chão. Não necessitava um espelho para saber que tinha as faces como tomates. A toda pressa, voltou a abotoar a blusa e tentou afastar com suavidade de Grei.

Ele segurou seus quadris e a segurou.

Ela lhe dirigiu um olhar assassino.

Ele lhe dedicou um amplo sorriso.

- Perdoa, Grei - disse Callum, que seguia olhando a lareira. - Mas Ian ameaça atirar Stanhope pela torre norte. Pegou-o tentando roubar um dos pisa neves.

- Fora! - Repetiu Grei, com menos volume desta vez.

Callum e Morgan se dirigiram para a porta. O mais jovem lançou a Grace um rápido olhar por cima do ombro e lhe piscou um olho. Ao voltar-se de novo, esteve a ponto de tropeçar com pai Daar, que entrava nesse momento no quarto.

Grace fechou os olhos e deu um gemido enquanto se lançava para frente e afundava a face no peito de Grei. Sentiu que o suspiro dele a levantava trinta centímetros para o teto e lhe alvoroçava o cabelo.

Grei só se moveu ao ouvir que Jonathan também entrava no quarto, chamando-a. Então afastou Grace de cima dele, ficou de pé e deixou que ela rodasse pela cama até o outro lado, até que ao final, presa do desconcerto, caiu ao chão.

- Maldição! Será que um homem não pode ter intimidade em sua própria casa? -Gritou Grei.

Jonathan soltou um grito afogado:

- Grace!

Cravou os olhos nela enquanto uma expressão horrorizada lhe deformava a face. De repente lhe escureceram as feições e seus olhos se voltaram severos.

- O que está fazendo? - Perguntou em um tom que indicava que já sabia e não gostava absolutamente.

- Tudo o que ficar dentro deste quarto dentro de dois segundos está morto - disse Grei, enquanto jogava um olhar feroz ao sacerdote. - E isso também vale para você, ancião.

Grace tratou de engatinhar sob a cama e desaparecer dali. Primeiro o pai Daar a pegava beijando Jonathan, e agora a encontrava na cama com Grei... Ia mandar que estivesse de joelhos nove dias seguidos em um canto.

Pelo visto, Callum e Morgan davam crédito à ameaça de Grei. Agarraram ao ancião sacerdote pelos braços e o tiraram quase voando do quarto. Quanto ao Jonathan, que seguia de pé ao outro lado da cama, olhando fixamente a Grace, não se moveu; era como se não assimilasse o que tinha descoberto.

Ela observou que Grei se dirigia a grandes passos até a poltrona que estava junto à lareira para pegar a espada. Nesse instante, esquecendo-se de seu apuro, saltou da enorme cama, atravessou-a correndo e empurrou Jonathan com todas suas forças.

- Saia! - Disse, já no chão, mas sem deixar de empurrá-lo. - Se quer salvar Vainillo, saia agora mesmo!

O nome de seu amado satélite impulsionou a Jonathan a agir. Deu a volta e foi para a porta, mas no meio do caminho parou e olhou primeiro a Grace e depois a aquele homem meio nu que tinha uma espada na mão e que parecia saber muito bem como usá-la.

Observou com atenção a espada enquanto encolhia os ombros para arrumar bem a camisa e alisar o peitilho com uma mão tremula.

- Eu... Bem... Esperarei lá em baixo - disse.

Grei avançou para ele, e Jonathan girou sobre seus calcanhares e saiu correndo. Grace o ouviu se chocar contra a parede do fundo do corredor e depois baixar aos trombos a escada...

E estremeceu quando Grei fechou de uma portada, com tanta força que as janelas vibraram.

Quando deu a volta e ficou frente a ela, só pôde olhá-lo boquiaberta. Parecia um caudilho medieval tirado do mesmo livro de ilustrações que seu castelo. Estava admiravelmente nu da cintura para cima, e em seus largos ombros e seus musculosos braços se agitava a mesma tensão que crispava os planos de seu cinzelado rosto. Estava descalço, com as pernas separadas e agarrava a espada com a segurança de quem se sente cômodo dirigindo-a.

O certo era que só substituindo suas calças por um plaid como o tecido que pendurava da lareira e pôr um sporran ou bolsa como a que tinha mencionado Michael, Grei pareceria um guerreiro escocês preparado para a batalha.

Grace recuou um passo, e ele avançou. Ela deu a volta, saltou à cama e não voltou a olhá-lo até chegar ao centro. Ele não deteve seu avanço até que suas coxas tocaram as mantas.

- Abotoou errado a blusa - disse. Sua voz suave contrastava radicalmente com sua atitude.

- Não... Não me deixarei enganar com esse truque, MacKeage. Assim que baixe a vista, jogará-se sobre mim.

Ele esboçou um meio sorriso.

- Não me tem medo, não é, Grace?

- N... Não.

- Então, me diga, qual é o problema?

- Você. Teria que se vê - respondeu ela, assinalando-o com a mão. - Parece um... um...

- Um quê?

- Um guerreiro.

Ele inchou seu largo peito e passou uma mão por ele para alisar uma camisa que não levava posta.

- Você acha? - Perguntou. - E você gosta?

- O que eu gosto? - Sussurrou ela. Será que tirava o sarro? Então decidiu esclarecer as coisas, mais para ver sua reação que para insultá-lo. - Parece um guerreiro antigo.

Ele não se alterou.

- Tenho trinta e cinco anos; isso não é ser velho.

Estava brincando com ela como um gato brinca com um camundongo justo antes de comê-lo devagar, Grace se dirigiu mais para o outro lado da cama e mordeu o lábio para evitar que tremesse.

Pensou que naquele momento era ela quem parecia ter viajado oito séculos no tempo... Para trás.

Não podia tirar da cabeça a história do Michael. De repente, notou que lhe revolvia o estômago e que se sentia tão aturdida como Alice no País das Maravilhas.

- De onde... De onde tirou essa espada? - Perguntou, sem deixar de recuar pouco a pouco para o lado contrário da cama.

De repente os pés se enredaram nas mantas, e perdeu o equilíbrio. Antes de cair, Grei já estava em cima dela, cobrindo-a com seu corpo. Agora Grace tinha a espada junto à cabeça.

Ele continuou a conversa como se nada tivesse acontecido.

- Leva gerações em minha família - respondeu. - Quer que ponha bem a blusa?

Ela o olhou piscando.

- N... Não - disse em um sussurro, incapaz de afastar a vista de seus regozijados olhos.

Estava rindo dela, desfrutando de sua desorientação... E ela não sabia o que a desconcertava mais, se o que via ou o que sentia. Grei agia como se tivesse voltado para uma época de um passado muito remoto...

E, entretanto, Grace adorava a sensação de seu corpo sobre o dela.

Parecia algo natural, que estava bem... E do mais difícil de entender.

Ele jogou seu cabelo para trás e lhe deu um beijo na testa.

- Se não se levantar agora, vou terminar o que começamos - disse, ignorando o fato de que teria que mover-se primeiro, posto que estava em cima.

E não é que Grace queria mover-se. Queria perder-se com aquele homem até que todos seus problemas deixassem de existir e o ancião sacerdote morresse de velho para não ter que olhar a sua face nunca mais.

Queria ficar na cama com o Greylen MacKeage até que a chuva deixasse de cair, se derretesse o gelo e Jonathan Stanhope partisse para sua casa.

Também queria lhe fazer uma pergunta muito importante.

Mas o caso é que não tinha ânimo nem coragem para confrontar sua resposta... Se respondia que sim... Que ele era um dos que tinham vindo na tempestade de Michael, fazia quatro anos.

De repente Grei suspirou e apoiou a testa na dela.

- E agora o que aconteceu, lass? Dá a impressão de que acaba de cair sobre os ombros todo o peso do mundo. Está nervosa?

Grace se apressou a aproveitar a desculpa e mentiu descaradamente.

- Sim. O pai Daar vai me por nove dias de joelhos em um canto.

- Não - resmungou ele afogando uma risadinha. - Tenho certa influência sobre esse velho padre e não deixarei que ponha uma penitência de nove dias.

Tornou-se para trás e lhe mostrou um aberto sorriso.

- Com dois dias bastará para te fazer trocar de comportamento.

- Trocar de comportamento?

- Sim - Grei assentiu com a cabeça, e seus olhos cintilaram, peraltas. - É uma mulher valente, Grace Sutter, e me parece que necessita que a domem.

- Que me dome um sacerdote?

- Não - sussurrou ele. Depois baixou a cabeça e, em um suspiro, enquanto beijava seus lábios, acrescentou colado a sua boca. - Eu, lass.

Então, pouco a pouco, tranqüilamente, a enchente de paixão renasceu. Grei foi lhe beijando devagar a garganta, e Grace jogou para trás a cabeça para desfrutar mais daqueles beijos.

Um a um, lhe desabotoou os botões da blusa e depois, sem pressa, abriu-a.

A calidez de seu fôlego acariciou a pele nua e logo notou o calor de sua boca. Grace tomou sua cabeça entre as mãos e orientou sua exploração, gemendo quando encontrava o lugar justo e queixando quando se ia em busca de outro destino.

- Sua pele é como creme - disse ele enquanto a lambia com deleite. - Tão suave... Tão flexível...

Continuou falando enquanto a saboreava ao mesmo tempo que baixava devagar de seu seio até seu ventre.

- E tão receptiva...

Culminou mordiscando-a levemente onde acabava a pele e começavam as calças.

Com a cabeça arremessada para trás, Grace gemeu de prazer e sentiu que lhe desabotoava as calças justa antes que sua boca prosseguisse seu percurso.

Ele se moveu e notou que lhe tirava as calças, deslizando-as pelas pernas, até que as ouviu cair ao chão.

Uns dedos quentes como beijos de fada subiram devagar por suas coxas e foram posar no muito suave pêlo que crescia no meio das pernas.

Grace se incorporou e alargou as mãos para tomar sua face; Grei voltou junto a ela e lhe selou os lábios com um ardente beijo.

Entretanto, sua mão ficou atrás... e seguiu excitando-a com carícias incrivelmente suaves, mas enlouquecedoras.

Grace tentou lhe baixar as calças e levantar os quadris, mas Grei não queria que o distraíssem nem que colocassem pressa. Em realidade, foi como se o tempo se detivera para os dois.

O mundo se afastou; as cores perderam intensidade e se fundiram em um único resplendor, de um branco radiante.

Ela só estava dependente de Grei. A expressão de seus olhos cheios de paixão ficou para sempre gravada a fogo em seu cérebro. Até com os olhos fechados, via-o perfeitamente, sentia o que estava lhe fazendo e rezava para que não parasse.

Sua boca começou o trajeto de descida pelo corpo da Grace, que, indefesa e ávida, só adivinhava onde ia tocar a seguir.

E então se produziu aquele beijo, quente, úmido e íntimo. Grace se sacudiu contra ele, e ele sustentou os quadris e utilizou a língua para levá-la além do limite.

Ela se esticou e subiu em vertiginosa espiral, gemendo em voz alta... E logo Grei estava ali, lhe beijando a face, o pescoço e, por fim, voltando a lhe beijar a boca. Suas mãos tomaram seus seios, e seus polegares passaram com suavidade pelos sensíveis mamilos. Depois entrou nela devagar, contendo-se e depois empurrando só um pouco mais fundo, imprimindo a seus movimentos um ritmo lento que a fez subir em espiral outra vez.

Sua língua fez amor a sua boca, e Grace só pôde agarrar-se a ele enquanto umas brilhantes chamas explodiam em sua cabeça. Então alargou as mãos, agarrou-lhe os quadris e puxou ele para que sua penetração fosse ainda mais profunda.

O duro e esquentado corpo de Grei chocava uma e outra vez contra ela, e Grace se deleitou na energia daquela reação diante seu próprio prazer.

De repente ele se elevou, afundou-se profundamente em seu interior, jogou para trás a cabeça e soltou um grunhido que ressonou ao ricochetear no alto teto.

Grace acariciou os braços e os ombros, e passou as mãos pelo peito.

E quando ele desceu de novo sobre ela, apoiou nos cotovelos e a beijou, enquanto passava os dedos pelo úmido cabelo e saboreava o gosto da persistente paixão que tinham compartilhado.

Grei se moveu para tombar a seu lado.

- Estou pensando que talvez convença o Daar para que te imponha só um dia - sussurrou com um sorriso preguiçoso. - E se esta noite te encontrar em minha cama, ao melhor inclusive o convenço para que me deixe impor eu a penitência.

Grace estava muito esgotada para responder; gostava de mais aconchegar-se contra ele e dormir. Por isso bocejou, bastante forte por certo, enlaçou-lhe a cintura com um braço e apoiou a cabeça em seu ombro.

Mas então ele deu de ombros, e o gesto fez migalhas em sua satisfação.

- Ouça, tem um remonte que arrumar - recordou. - E um chefe de quem se desfazer.

Grace levantou a cabeça e tentou reunir energia suficiente para lhe dirigir um olhar assassino.

- Os dois agüentaram todo este tempo; podem agüentar uns minutos mais. Ou não sabia que, tanto como as preliminares, uma mulher necessita um momento de mimos depois?

- Um momento de mimos?

Grei se engasgou com uma risadinha, voltou a relaxar e a estreitou contra ele.

Nesse momento o som de um menino inquieto surgiu do interfone que estava junto à cama. Grace deu um gemido e tratou de incorporar-se.

- Tenho que ir vê-lo - disse, mas Grei não quis soltá-la, e se limitou a inclinar a cabeça para os sons com que Bebê reclamava atenção.

- Espera - disse. - Alguém o pegará.

Foi Ian a quem ouviram entrar na sala. Dirigia-se ao pequeno com uma voz apenas reconhecível de tão suave.

- Oi, pequenino! - Disse. - Se sente abandonado? Vêem com seu novo tio.

Grace escutou o rangido que indicava que tiravam o menino do berço.

- Puxa - disse Ian. - Vêem comigo. Eu te encherei a pancinha. E, de passagem, trocarei-te essa incômoda fralda.

Grace voltou um olhar horrorizado a Grei: acabava de ocorrer uma ideia. O que pensaria Ian de Bebê se soubesse quem era seu pai?

Como se lesse a mente, Grei meneou a cabeça devagar.

- Não saberá, Grace. A menos que você o diga, não saberá.

- O que... O que faria?

- A Bebê? - Grei se surpreendeu. - Nada. Ian não é um homem cruel. Mas preferiria que não tivesse essa espécie de arma contra MacBain.

- Como a tem você? Foi a filha de Ian a que morreu, sua... Sua prometida - repôs ela, a ponto de engasgar-se com a palavra.

Noiva menor de idade seria mais apropriado... Elevou o queixo em gesto de desafio ao ver que lhe lançava um olhar penetrante.

- Ai, Grace! Vai me fazer pagar esse suposto pecado muito tempo, verdade?

Ela se moveu um pouco para ver se a deixava levantar-se e, surpreendentemente, o fez.

Grei não levou sua espada ao levantar-se da cama. Em seguida Grace se incorporou, puxou o lençol para envolver-se nele como se fosse um manto e depois pegou a espada. Não pôde levantá-la, de modo que a arrastou.

E, justo como pensava, ao apoiar a ponta no chão viu que as mãos ficavam à altura do queixo. A espada media o mesmo que ela.

- Bom, não tem que preocupar-se nunca de que vá usar esta arma contra você - disse Grace, enquanto tentava levantá-la com as duas mãos.

- É um consolo - reconheceu ele.

A pegou justo quando ela estava a ponto de deixar cair nos dedos dos pés. Então a sopesou com a mão direita e, sem o menor esforço, levantou-a. Depois saudou Grace levando-a a testa e inclinando-se.

- Outra vez tem sotaque - disse ela.

Grei colocou a espada sobre os braços da poltrona.

- Acredito que é porque estou cômodo com você - deu de ombros. - Não preciso vigiar minhas palavras.

A ela lhe afrouxaram os joelhos. Aquele homem não podia lhe haver dito nada que a enternecesse mais.

Estava cômodo com ela... Se está cômodo com umas sapatilhas abrigadas em uma fria noite de inverno, com uma xícara de chocolate quente diante do fogo da lareira, vadiando no domingo na cama todo o dia, lendo os jornais... Gostou da ideia de viver sua vida junto a Grei. E, se passasse por cima o fato de que não tinha eletricidade no quarto e de que agia mais como um guerreiro medieval que como o dono de um complexo turístico, ao melhor também gostaria de passar o resto de seus dias ali, emGu Bràth.

Grace estava sentada ao extremo de uma grande mesa com comida suficiente para dez homens, embora naquele preciso instante só comiam cinco. Sua boa sorte havia feito que o pai Daar estivesse não sabia onde.

Confiou em que só fosse o segundo dia de sua novena. Seguia envergonhada pelo fato de que a tivesse descoberto na cama com Grei, e não tinha pressa por ver-se frente ao clérigo.

Jonathan também brilhava por sua ausência, e Grace pensou que por fim teria entrado em razão e teria decidido deixar de dar testadas contra o muro que representavam os quatro MacKeage.

Ou isso, ou se tinha ido caminhando às montanhas, sozinho, a procurar os discos.

Entretanto, Bebê sim que estava ali. Naquele instante realizava sua segunda excursão em torno da mesa. E passava de um a outro, e a todos os divertia com seu novo truque. Montou-se quase um concurso para ver quem o fazia sorrir mais, e por agora ia ganhando Ian. Ao velho e amargurado resmungão não se importava fazer um ridículo tremendo: esfregava o queixo de Bebê com a barba e fazia graciosos sons de arrulho.

Ao pegar o pequeno, cada um deu sua opinião sobre que nome devia lhe pôr. Todos os MacKeage a tinham exortado e haviam dito que era um escândalo deixar que o pequeno passasse tanto tempo sem um nome adequado.

Callum quis chamá-lo Duncan; parecia-lhe um nome nobre e forte para um moço tão cordial. Por sua parte, Morgan pensava que Douglas era melhor; ao princípio o chamariam Dougie. Quanto ao Ian, acreditava que devia chamá-lo Malcolm.

E Grei? Bom, depois de sorrir a Grace com descaramento, disse-lhe que acreditava que Satchel ia muito bem ao guri.

Aquele jovenzinho lhe recordou que o desejo da Mary era que fosse Michael quem lhe pusesse o nome a seu filho. Entretanto, ainda não sabia se aquele homem estava cordato ou não.

E, além disso, estava sentada a uma mesa com as únicas pessoas a quem podia perguntar a respeito.

Contudo, não gostava de tirar a luz o tema. Doía-lhe a cabeça de não dormir o suficiente, e não tinha vontade de que começasse outra vez o vozerio.

Embora o certo era que todos pareciam muito cansados. Quem sabia, ao melhor nem sequer tinham ânimos para montar um número... E, além disso, tinham a pança cheia.

Sua experiência com seus seis meio-irmãos fez que recordasse que, em geral, um homem com a pança cheia era mais agradável e transigente e, também, estava menos inclinado a discutir.

Alargou a mão para pegar Bebê e o sentou no colo.

- Estava pensando - começou. - Se vocês, cavalheiros, responderiam uma pergunta que leva algum tempo me preocupando.

- E qual é, lass? - Perguntou Callum, e ato seguido meteu na boca o garfo carregado de ovos mexidos.

- Possivelmente poderiam deixar a um lado seus prejuízos um momento porque necessito sua opinião sincera e imparcial - recalcou esta última palavra no caso de dúvida.

- Me preocupa que Michael MacBain não esteja de todo..., bom, que não esteja de todo bom da cabeça.

Agachou a cabeça, disposta a aguentar outro temporal de gritos por mencionar ao Michael... Mas o temporal não chegou. Isso sim, várias sobrancelhas se elevaram em sinal de surpresa, e depois todos, incluído Grei, olharam-na com o cenho franzido.

- O que quer dizer com isso de que não esteja de todo bom da cabeça? - Perguntou Ian, curioso apesar de sua borrascosa expressão.

- Já sabe, que não esteja em seus cabais, que seja propenso a sofrer delírios. Sabem se alguma vez teve um acidente? Ou se tiver sido apanhado em uma tempestade? Aconteceu algo a Michael faz quatro anos para que acredite que viajou através do tempo?

Nesse instante todas as mãos deixaram cair os garfos, e todos os garfos caíram na mesa, com o que se produziu um grande estrépito. Mas ato seguido a sala ficou em silêncio. De repente todos os rostos que a olhavam ficaram pálidos.

Grace começou a temer o pior. O pai Daar lhe havia dito que não podia responder a suas perguntas por que sua posição o impedia de dizer o que sabia... E agora todos os MacKeage pareciam os mais culpados.

Assinalou-os com o garfo e, em tom acusador, disse:

- Vocês deram uma surra nele, não é? Faz quatro anos brigaram e o deixaram em coma.

- Mas o que está dizendo, mulher? - Perguntou Callum com a voz rouca de incredulidade. - Está nos acusando de agredir MacBain?

- Bom, faz quatro anos aconteceu algo. Michael contou a Mary, e depois a mim, que tinha chegado aqui do passado, que ele tinha nascido faz oito séculos.

Que estava no meio de uma batalha quando se desencadeou uma terrível tempestade e uma luz radiante o consumiu e despertou na época moderna.

- Ele disse isso? - Sussurrou Morgan. Sua face tinha adquirido um tom levemente verde. - A Mary? E a você?

Por que agiam todos como se acabasse de lhes dizer que tinham fantasmas posados nos ombros?

Grace passeou o olhar por toda a mesa e viu que Grei estava sentado, imóvel como uma rocha, com as feições gastas e uma expressão impenetrável em seus olhos verdes.

Ela baixou o olhar, pegou a chupeta e o meteu na boca de Bebê. Estupendo, outro beco sem saída. Já só ficava falar com o próprio Michael MacBain. Ia ter que vê-lo de novo e não ceder até entender o que tinha acontecido.

- Não o fará - disse Grei da cabeceira da mesa. - Nem te ocorra se aproximar dele.

Grace não se deu conta de que tinha expressado sua resolução em voz alta. Então elevou a vista e se assegurou de que Grei lesse em seus olhos tudo o que estava pensando.

- Quero saber a verdade.

Callum, Morgan e Ian se voltaram para olhar a Grei.

- Isso tem pouca importância - disse ele. - A imprudência de MacBain não é a questão.

- Me diga, lass - interveio Ian, voltando-se para olhá-la. - Por isso foi Mary a Virginia?

- Sim.

- Mas pensava voltar aqui?

- Sim.

- E não responde isso a sua pergunta? Sua irmã devia acreditar que ele tinha a cabeça em seu lugar. Além disso, posso perguntar que diferença faz? Mary morreu, lass - prosseguiu Ian. Sua voz se tornou suave, e seu olhar era mais doce. - Se acabou.

- Mas a mim ainda importa - alegou ela. - Quero saber a verdade. Mary o amava, e eu quero entender por que lhe contou semelhante história.

Nesse momento Grei se levantou e se dirigiu para o extremo da mesa onde estava ela.

- Está tão cordato como nós - disse.

Pegou Bebê e o acomodou no peito. Depois alargou a mão, tomou o queixo com os dedos e a obrigou a olhá-lo nos olhos.

- Lamento que isto lhe ponha mais difícil, Grace, mas não vamos mentir. Michael MacBain não está mais louco do que o estou eu.

 

Grei, Jonathan e os MacKeage estavam no abrigo do teleférico esperando que Grace realizasse sua magia sobre o grosso cabo, carregado de gelo, que sustentava as cabines. A Grei parecia que o cabo estava a ponto de quebrar-se de um momento a outro.

Ao lado de Grace, Jonathan falava com ela de cargas, correntes elétricas, volts e curto-circuito de resistência zero, enquanto meneava a cabeça sem parar e dizia que a ideia não parecia viável.

Grace, por sua parte, assentia com a cabeça e dizia que funcionaria; suas formosas feições mostravam uma expressão decidida.

Ian tinha se colocado entre Grace e Jonathan, e movia a cabeça daqui para lá como se fosse um balanço. Arranhava a barba e franzia o cenho cada vez que Jonathan dizia que não, e imitava o gesto de Grace quando ela dizia que sim.

Durante todo esse tempo, Callum colocou gasolina nas duas máquinas pisa neves e se ocupou também de que não lhes faltasse combustível aos geradores. Morgan tinha levado Bebê ao hotel para que o cuidasse Ellen Bigelow...

Bom, Ellen e a metade do povoado de Pene Creek que estava ali. O pirralho ia voltar mimadíssimo e, provavelmente, esgotado de tanto seduzir com seus sorrisos.

Grei se dava conta de que tinha esquivado o golpe por um fio no refeitório. Não podia acreditar que MacBain tivesse cometido a estupidez de contar a Mary Sutter o ocorrido fazia quatro anos.

E depois o imbecil tinha repetido a história a Grace...

Ele tinha decidido que levaria a tumba seu segredo, e agora via confirmada sua decisão depois das reações de Mary e de Grace. Horrorizada, Mary tinha fugido junto a sua irmã, e Grace qualificava de louco o Michael MacBain.

O que outra conclusão podia tirar alguém de uma história tão extravagante? De fato, se ele mesmo não a tivesse vivido, reagiria igual às irmãs Sutter.

Nesse instante ouviu que Grace se dirigia a Ian.

- Não sou nem eletricista nem técnico em instalação e manutenção de cabos elétricos - disse. - Só faço conjeturas.

Se provocarmos um curto-circuito de baixa resistência nesse cabo do remonte e depois colocamos suficientes correntes elétricas, o gelo deverá derreter-se.

- Ou? - Perguntou Ian, olhando-a com dissimulação.

Grace deu de ombros, elevou as mãos e as deixou cair outra vez aos flancos.

- Ou talvez o cabo exploda - lançou um olhar a Grei e depois voltou de novo para o Ian. - Não sei.

- Como provocamos o curto-circuito? - Perguntou Ian.

- Um soldador por arco nos serviria, mas não sei se o que vocês têm será o bastante potente. Há quase três quilômetros de cabo e é grosso, talvez demoraremos dias em acumular a quantidade de energia da que falamos.

- Nosso gerador é potente - propôs Ian. - Serviria?

- Serviria - disse Grace com as sobrancelhas franzidas outra vez. - É portátil?

- Não. Está sempre conectado no abrigo. Ali - disse Ian, assinalando para o hotel.

- Mas até aqui chegam cabos que vêm dele - Grace olhou a lâmpada que brilhava sobre suas cabeças e voltou a franzir o cenho. - O transformaríamos a duzentos e vinte volts, embora isso cria outro problema.

A julgar pelo suspiro que percorreu todo o edifício, Ian já estava mais que farto de problemas.

- E qual seria, lass? - Perguntou, cansado.

- Talvez incendiássemos o abrigo.

O velho guerreiro arrancou o gorro e o atirou ao chão.

- Pelos pregos de Cristo! E talvez também arda tudo se romper o cabo! - Gritou, frustrado. - Deixe já de falar do assunto e faça o que tenha que fazer, lass.

Era evidente que a possibilidade de mandar ao diabo o negócio dos MacKeage de uma explosão freava Grace. Então Grei se aproximou dela por trás, agarrou-a pelos ombros e lhe sussurrou ao ouvido:

- Se não funcionar, não importa, Grace. Está a ponto de desabar sozinho.

Ela se apoiou em seu peito e o olhou nos olhos.

- Mas eu te fiz uma promessa.

- Não, só me disse que tentaria, e isso é tudo o que te peço agora.

- Talvez exploda também o gerador, e se houver um incêndio, pode afetar na metade do hotel.

Tinha uma expressão tão preocupada que a Grei deu vontade de beijá-la. Não se dava conta de que nada daquilo importava?

- São coisas, Grace, nada mais. Asseguraremo-nos de que ninguém possa sofrer dano algum, e o resto, já se verá.

- Perderemos todo o dia e a metade da noite em preparar tudo - disse Jonathan. - O que acontece com meus discos?

- Callum o levará às montanhas no pisa neves - disse Grei. - Ele sabe onde aconteceu o acidente.

Jonathan se voltou para Grace. Pelo visto tinha aprendido que era mais fácil tratar com ela.

- Terá que voltar comigo para a Virginia assim que pegue os discos - disse. - É o único lugar onde posso te manter a salvo.

Com as mãos ainda sólida e firmemente colocadas sobre os ombros de Grace, Grei esperou que ela decidisse o que lhe importava mais: se ele ou um satélite que continha a chave da futura exploração espacial.

O que lhe pedia era injusto, mas também importante. Segundo o que escolhesse, saberia se seu coração se encontrava em algum lugar fora do mundo... Ou com ele.

- Não vou voltar para a Virginia, Jonathan - disse Grace. - E neste preciso instante para mim não há lugar mais seguro que Gu Bràth.

Callum recolherá os discos, eu trabalharei com Vainillo daqui e depois você mesmo pode entregá-lo nas mãos de AeroSaqii.

Ian soltou um grito de alívio, deu palmadas e esfregou as mãos.

- Assim que se fala, lass!

Jonathan a olhou fixamente.

- Grace... - começou, mas logo lançou um rápido olhar por cima de seu ombro a Grei. - Maldição, MacKeage, se esse condenado teleférico se faz pedacinhos, eu o reconstruirei. O projeto de Grace vale milhões de dólares.

Grei só ouviu a metade do que lhe dizia; ainda experimentava o alívio que tinha sentido ao saber que Grace escolhia a ele, antes que ao trabalho de sua vida... Então lhe deu a volta e a abraçou tão forte que a fez gritar.

E justo naquele instante chegou o remorso.

Mas o que estava fazendo?

Isso era justo o que teria ocorrido oito séculos antes: a mulher que tivesse eleito por companheira reprimiria seus sonhos, seus desejos, e suas esperanças... Por ele.

Envergonhou-se de si mesmo ao pensar no aceso sermão que tinha jogado a seus homens no dia anterior. Estava sendo muito egoísta ao exigir que seus desejos tivessem prioridade sobre os dela.

Tornou-se atrás para lhe ver a cara e disse:

- Grace, eu...

De repente Morgan irrompeu no abrigo, tão rápido que esteve a ponto de cair no rastro de gelo fundido.

- O local da associação de granjeiros se incendiou - disse, sem fôlego. - E necessitam que todos os homens ajudem a apagar o fogo antes de que se propague à loja do Hellman.

Grei soltou Grace e começou a dar ordens.

- Morgan, diga a Callum que enganch