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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


O FIEL JARDINEIRO / John Le Carré
O FIEL JARDINEIRO / John Le Carré

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

O FIEL JARDINEIRO

Primeira Parte

 

A notícia atingiu a Alta Comissão Britânica em Nairob, às nove e trinta numa manhã de segunda-feira. Sandy Woodrow recebeu-a corno um tiro, queixo rígido, peito para a frente, em cheio no seu dilacerado coração inglês. Estava de pé. De tudo isto só se lembrou depois, Estava de pé e o telefone interno começou a tocar. Ele estava esticado à procura de qualquer coisa, ouviu o apito e dobrou-se para baixo a fim de apanhar o auscultador de cima da secretária e dizer «Woodrow». Ou talvez, «fala Woodrow». E provavelmente disse o seu nome com aspereza, disso lembrava-se bem: o som da sua própria voz pareceu-lhe a voz de outra pessoa, como uma chicotada, «Fala Woodrow», o seu nome perfeitamente normal, mas sem o sobrenome familiar «Sandy»* e dito quase com ódio, porque a conferência ritual com o Alto Comissário estava marcada para começar dali a trinta minutos em ponto e Woodrow, como Chefe de Chancelaria tinha o papel de moderador num bando de prima-donas, todas com assuntos de especial interesse e cada uma das quais exigia a posse exclusiva do coração e do pensamento do Alto Comissário.

 

Isto é, mais outra segunda-feira de merda em fins de Janeiro, a época mais quente do ano em Nairobi, época de poeira, de cortes de água, erva queimada, olhos a arder e o calor a rebentar o pavimento das ruas; e os jacarandás à espera das longas chuvadas, como toda a gente.

 

Exactamente por que razão estava de pé é que foi um problema que ele nunca resolveu. Mais normal seria estar acaçapado atrás da secretária, manuseando as teclas do computador, revendo ansiosamente as instruções vindas de Londres e as informações vindas das vizinhas Missões Africanas. Em vez do que ’e encontrava de pé à frente da secretária, procedendo a um gesto vital que não conseguia identificar - tal corrio a endireitar a fotografia da sua mulher, AP”’le geralmente a pessoas de cabelos loiro-arruivados. (N. T)

 

Glória, e dois filhos pequenos, tirada talvez no último Verão durante a licença de férias no seu país. A Alta Comissão situava-se numa encosta e um aluimento constante era o suficiente para fazer inclinar as molduras durante un, fim-de-semana de desocupação.

 

Ou talvez tivesse estado a lançar spray insecticida contra qualquer insecto queniano a que nem os diplomatas são imunes. Tinha havido uns meses antes uma praga de «oftalmia de Nairobi», causada por mosquitos que, quando espalmados ou esfregados acidentalmente na cara, causavam bolhas à volta dos olhos que podiam levar à cegueira. Ele estaria de spray em riste, ouvira o tele~ fone, pousara a lata sobre a secretária e agarrara no telefone: isto também era provável, porque mais tarde aparecia vagamente na sua memória como que um slide a cores de uma lata vermelha de insecticida pousada na bandeja «out» sobre a secretária. Portanto: «Fala Woodrow» e o telefone encostado ao ouvido.

 

- Olá, Sandy, é o Míke Mildren. Bom dia. Está sozinho, por acaso? Sim, respondeu Woodrow, estava só. Porquê?

 

- Aconteceu uma coisa chata, Sandy. Por acaso, até estava a pensar em ir aí falar consigo.

 

- Isso não pode esperar até depois da reunião?

 

- Bem, acho que realmente, não... Não pode, não, - replicou Mildren ganhando coragem à medida que falava. - Trata-se de Tessa Quayle, Sandy. Surge subitamente outro Woodrow, de nervos eriçados. Tessa. - Que é que se passa com ela? - disse ele num tom deliberadamente indiferente, com o pensamento a correr em todas direcções. Oh Tessa. Oh meu Deus. Que é que terás feito desta vez?

 

- A polícia de Nairobi diz que foi morta, - disse Mildren como se fosse uma coisa normal.

 

- Que disparate - replicou Woodrow antes de ter tempo para pensar.

- Isso é ridículo. Onde? Quando?

 

- No lago Turkana. Margem leste. Este fim-de-semana. Estão a ser muito diplomáticos com os detalhes. No carro dela. Segundo eles, um lamentável acidente, - acrescentou, em tom de desculpa - tive a impressão de que não queriam ferir os nossos sentimentos.

 

- No carro de quem? - perguntou Woodrow descontrolado. Estava a lutar, rejeitando aquela ideia louca - quem, COMO, onde - esmagando todos os outros pensamentos e sentidos para baixo, para baixo, rejeitando furiosamente todas as memórias secretas que tinha dela para as substituir pela recordação de certa paisagem árida e lunar de Turkana que ele conhecera durante uma viagem de trabalho, seis meses atrás, na companhia incontestavelmente irrepreensível do adido militar. - Não saia daí, eu vou ter consigo. E não fale com mais ninguém, está a ouvir?

 

Maquinalmente, Woodrow pousou o telefone, rodeou a secretária, pegou no casaco pendurado nas costas da cadeira e vestiu-o manga após manga. Normalmente não teria posto o casaco para ir ao andar de cima. Os casacos náo eram obrigatórios nas reuniões de segunda-feira, quanto mais para ir fazer dois dedos de conversa ao gabinete do rechonchudo Míldren. Mas o profissionalismo de Woodrow estava a avisá-lo de que a coisa não ia ficar por ali. Enquanto subia a escada conseguiu, com um grande esforço de autocontrolo, Submeter-se ao seu princípio sagrado sempre que aparecia uma crise no horizonte e dizer para si próprio, tal como dissera a Mildren, que era tudo um disparate. Como confirmação, evocou o caso sensacionalista de uma rapariga inglesa que tinha sido cortada em pedaços no mato africano há dez anos atrás. Trata-se de um boato mórbido, é o que é de certeza. Uma imagem criada pela imaginação de um tarado qualquer. Algum polícia africano meio marado, largado no deserto, atestado de bangí, tentando fazer valer o salário miserável que há seis meses lhe deviam.

 

O edifício da Missão, recentemente reconstruído, era austero e bem desenhado. Woodrow gostava daquele estilo, talvez porque correspondesse formalmente ao seu próprio. Com uma estrutura nitidamente definida, com cantina, loja, bombas de combustíveis e corredores silenciosos e limpos, dava uma impressão de auto-suficiência e severidade. Woodrow possuía visivelmente as mesmas preciosas qualidades. Aos quarenta, tinha um casamento feliz com Glória - ou, se não o tinha, partia do princípio de que era o único a sabê-lo. Era Chefe da Chancelaria e era de apostar que, se jogasse bem o seu jogo, podia vir a ser Chefe de Missão no próximo posto modesto e daí avançar por postos menos modestos até à dignidade de «Sir», proposta a que ele próprio não atribuía qualquer importância, claro, mas seria agradável para Glória. Havia nele qualquer coisa de militar e na verdade era filho de militar. Nos seus dezassete anos ao serviço do Foreign Office de Sua Majestade tinha cravado o seu estandarte em meia dúzia de Missões Britânicas no ultramar. Mas o Quénia, perigoso, decadente, saqueado, falido e outrora Britânico, tinha-o motivado mais do que qualquer outro, embora não ousasse perguntar a si próprio ern que medida esse facto era devido a Tessa,

 

- Muito bem, - disse ele com alguma agressividade a Mildren, depois de fechar a porta e baixar o trinco.

 

Mildren exibia um eterno beicinho que lhe era próprio. Sentado à secretária fazia lembrar um menino gorducho e malcriado que não queria comer a sopa.

 

- Estava instalada no Oasis, - disse ele,

 

- Qual oásis? Seja mais preciso, se for capaz.

 

Mas »Idren, apesar da sua idade e categoria social, não era tão fácil de irritar como Woodrow fora levado a crer. Tinha um bloco com notas em estenografia e estava a consultá-lo antes de falar. Deve ser o que lhes ensinam agora, pensou Woodrow com desprezo. De outra forma, onde é que aquele arrivista de água doce arranjaria tempo para estudar estenografia?

 

- Existe uma pousada na margem leste do Lago Turkana, na ponta sul,

- anunciou Mildren, de olhos pregados ao bloco. - Chama-se «Oasis». A Tessa passou lá a noite e saiu na manhã seguinte num todo-o-terreno fornecido pelo dono da Pousada. Disse que queria ver o berço natal da civilização, uns trezentos quilómetros a norte: a Cova do Leakey. - Corrigindo: - o sítio das escavações de Richard Leakey, no Parque Nacional de Sibiloi.

 

- Sozinha?

 

- O Woligang forneceu-lhe um motorista. O cadáver está com o dela no todo-o-terreno.

 

- Quem é o Wolfgang?

 

- O dono da pousada. O apelido não sei. Toda a gente o trata por Wolfgang. Parece que é alemão. É uma figura conhecida. De acordo com a polícia, o motorista tinha sido brutalmente assassinado.

 

- Como?

 

- Decapitado. Paradeiro desconhecido,

 

- Quem? Não disse que estava no carro com ela?

- Falta a cabeça.

 

Eu é que tinha de adivinhar, não?

 

- Como é que eles dizem que a Tessa morreu?

- Um acidente. É só o que eles dizem.

 

- Foi roubada?

 

- A polícia diz que não.

 

A ausência de roubo, completada pela morte do motorista, punha a imaginação de Wloodrow a ferver. - Diga-me exactamente tudo o que sabe. Mildren descansou as enormes bochechas nas palmas das mãos enquanto consultava de novo o bloco estenografado. - «Às nove e vinte e nove uma brigada móvel vinda do Comando da Polícia pediu para falar ao Alto Comissário

- recitou ele. - Expliquei que Sua Excelência se deslocara até à cidade, em visita a vários ministérios e deveria regressar às dez da manhã, o mais tardar. Pela voz, pareceu-me um oficial muito eficiente. Deu o nome. Disse que a notícia tinha vindo de Lodwar.

 

Lodwar?! Mas isso é longe de Turkana!

 

É o posto de polícia mais próximo, - replicou Mildren. - Um todo-o-terreno, pertencente à Pousada Oasis, em Turkaria, tinha sido encontrado abandonado na margem direita do lago, perto de Allia Bay, a caminho das escavações Leakey- Os cadáveres tinham pelo menos trinta e seis horas. Uma mulher branca, morte inexplicada, um Africano sem cabeça, identificado mais tarde como sendo o motorista Noali, casado, quatro filhos. Uma bota safar, «Mefisto», tamanho sete. Um blusão de mato azul, tamanho extra-grande, manchado de sangue, encontrado no chão do carro. A mulher, de vinte e cinco a trinta anos, cabelo escuro, uma aliança de ouro no anelar da mão esquerda. Uma corrente de ouro no chão do carro.

 

- Esse seu colar... - lembrou-se Woodrow de ter dito em tom trocista, enquanto dançavam.

 

- A mínha avó deu-o à minha mãe no dia do casamento, - respondeu ela. Uso-o com tudo, mesmo quando não se vê.

 

- Na cama também?

- Depende.

 

- Quem é que os encontrou? - perguntou Woodrow.

 

- O Wolfgang. Mandou um rádio à polícia e informou o escritório que ele tem aqui em Nairobi, também via rádio. O Oasis não tem telefone.

 

- Se o motorista não tinha cabeça, como é que souberam que era ele?

 

- Era aleijado de um braço. Por isso é que tomou a profissão de motorista.

O Wolfgang assistiu à partida da Tessa com o Noah no sábado às cinco e meia, na companhia de Arnold Blulim. Foi a última vez que os viu com vida.

 

Continuava a guiar-se pelas suas notas ou pelo menos fingia. Tinha ainda a cara entre as mãos e parecia decidido a assim permanecer, como se depreendia da rigidez obstinada dos ombros.

 

- Diga lá outra vez, - ordenou Woodrow, após uma pausa.

 

- A Tessa estava acompanhada pelo Amold Blulim. Instalaram-se Juntos na Pousada Oasis, passaram lá a noite de sexta-feira e partiram na manhã seguinte, às cinco e meia, no jipe do Noali, - repetiu Mildren pacientemente. - 0 corpo de Blulim não estava no todo-o-terreno e não há nenhum vestígio dele. Pelo menos até agora. A polícia de Lodwar e a brigada móvel estão no terreno mas o comando da Polícia em Nairobi quer saber se pagamos ou não um helicóptero.

 

- Onde estão os corpos, neste momento? - perguntou Woodrow como bom filho de militar, seco e prático.

 

- Não se sabe. A Polícia queria que o Oasis ficasse com eles mas o Woffigang recusou. Disse que o pessoal sairia imediatamente porta fora e os clientes também. - Houve uma hesitação. - Ela registou-se na Pousada sob o nome de Tessa Abbott.

 

- Abbott?

 

- É o seu nome de solteira. «Tessa Abbott, com uma Caixa Postal em Nairobi.» É a nossa. Como não tínhamos nenhum Abbott, procurei-o no nosso computador e apareceu Quayle, Tessa, nome de solteira Abbott. Acho que é o nome que ela usa no seu trabalho de ajuda humanitária. - Mildren estudava a última página das suas notas. - Tentei alertar o Alto Comissario, mas ele anda a visitar os ministérios e estamos em hora de ponta, - disse ele. Com isto queria dizer: isto é o Nairobi moderno do Presidente Moi, em que numa chamada local pode passar-se meia hora a ouvir: Desculpe, todas as linhas estão ocupadas, volte a ligar porfavor, repetido vezes sem fim por uma simpática voz feminina de meia-idade.

 

Woodrow já tinha chegado à porta.

- E não contou a ninguém?

 

- Nem um pio.

 

- E a polícia contou?

 

- Eles dizem que não. Mas não põem as mãos no fogo pelo pessoal de Lodwar. Nem por eles próprios, creio eu.

 

- E quanto a si, Justin também não sabe de nada?

- Exacto.

 

- Onde está ele?

 

- Calculo que no seu gabinete.

- Não o deixe sair de lá.

 

- Ele hoje chegou cedo. É o costume, quando a Tessa viaja pelo mato. Acha que cancele a reunião?

 

- Espere.

 

Consciente agora - se é que alguma vez duvidara - de que estava a braços com um mega-escândalo, além de uma tragédia, Woodrow esgueirou-se por umas escadas das traseiras marcadas «Só para Pessoal Autorizado» e subiu uma passagem lúgubre que levava até uma porta de aço com uma campainha e um olho-de-boi. Uma câmara de televisão seguiu-o enquanto ele tocava a campainha. A porta foi aberta por uma ruiva magra que usava jeans e uma blusa solta às flores. Sheila, o número dois deles, que fala Swahili, pensou ele automaticamente.

 

- O Tim está? - perguntou.

 

Sheila premiu um besouro e falou para uma caixa. - É o Sandy e está com pressa.

 

- Só um minuto, - gritou uma voz de homem. Esperaram.

 

- A costa está completamente livre, agora - disse a mesma voz bem disposta enquanto se abria outra porta.

 

Sheila recuou e Woodrow seguiu-a para dentro da sala. Tim Donohue, Chefe do M15 local, um metro e noventa, estava de pé diante da sua secretária. Devia ter estado a arrumá-la, porque não havia um único papel à vista. Donoluie tinha ainda mais mau parecer do que o costume. Gloria, a mulher de Woodrow, dizia sempre que ele devia estar à morte. Faces encovadas e sem cor, bolsas de pele enrugada sob os olhos amarelados e descaídos. O bigode desgrenhado e puxado para baixo numa expressão cómica de desespero.

 

- Olá, Sandy. Que é que podemos fazer por si? - gritou ele, espreitando Woodrow por cima dos bifocais com o seu sorriso de caveira.

 

Este é perspicaz de mais, lembrou-se Woodrow. Faz um voo planado sobre o nosso território e intercepta os sinais ainda antes de serem executados.

 

- Tessa Quayle parece ter sido assassinada algures perto do Lago Turkana, - disse ele, com um desejo vingativo de chocar. - Há lá um sítio chamado Pousada Oasis. Preciso de falar pela rádio com o proprietário.

 

São treinados para isto, pensou. Regra número um: nunca demonstrar os seus sentimentos, se eles existirem. A cara sardenta de Sheila estava imóvel, pensativa. Tim Donohue mantinha o seu sorriso parvo - de qualquer modo aquele sorriso nunca tivera nenhum significado.

 

- O quê, caro amigo?! Repita lá isso.

 

- Assassinada. Método desconhecido ou a polícia não quer dizê-lo. O condutor do jipe onde ela ia ficou sem cabeça. A história é essa.

 

- Morta e roubada?

- Assassinada. Só.

 

- Perto do Lago Turkana?

- Sim.

 

- Que raio tinha ido ela lá fazer?

 

- Não faço ideia. Ao que dizem, ia visitar as escavações Leakey.

- O Justin já sabe?

 

- Ainda não.

 

- Estará envolvido alguém nosso conhecido?

- É uma das coisas que ando a investigar.

 

Donohue conduziu-o a uma cabine à prova de som que Woodrow nunca vira antes. Havia telefones de cores variadas com cavidades para introduzir richas de código. Uma máquina de fax pousada sobre uma coisa que parecia um barril de petróleo. Um aparelho de rádio formado por caixas de metal verde. Um livro de endereços escrito à mão pousado em cima. É então assim que os nossos espiões cochicham uns com os outros dentro das nossas embaixadas, pensou ele. Nas mais altas esferas ou no submundo do crime? Nunca o soubera. Donohue sentou-se em frente do rádio, procurou na lista de endereçoS, depois manuseou os controlos com os dedos brancos e tremelicantes enquanto entoava «ZN13 85, ZN13 85 chamando TKA 6N, como o herói num filme de guerra. «TKA 60, está-me a ouvir, por favor? Escuto. Oasis, está-me a ouvir, Oasis?»

 

Uma explosão de electricidade estática, seguida por uma voz autoritária: «Aqui Oasis. Ouço perfeitamente. Quem é você? Escuto» - com um sotaque germânico de baixa extracção.

 

- «Alô Oasis, aqui a Alta Comissão Britânica em Nairobi, vou-lhe passar Sandy Woodrow. Escuto».

 

Woodrow apoiou as mãos na secretária de Donohue, para se aproximar do microfone:

 

- Aqui Woodrow, Chefe de Chancelaria. Estou a falar com Wolfgang? Escuto.

 

- Chancelaria, como a do Hitler?

- Secção política. Escuto.

 

- Okay senhor Chanceler, eu sou o Wolfgang. Que deseja saber? Escuto.

- Quero que me dê, por favor, pelas suas próprias palavras a descrição da mulher que passou a noite no seu hotel sob o nome de Miss Tessa Abbott. É assim, não é? Foi o nome que ela escreveu? Escuto.

 

- Claro: Tessa.

 

- Como era ela, fisicamente? Escuto.

 

- Cabelo escuro, sem maquilhagem, alta, vinte e muitos e não era inglesa. Cá para mim, não era. Alemã do Sul, austríaca ou italiana. Eu sou hoteleiro, reparo nas pessoas. E ela era linda! Também sou homem. Aquele modo de andar, sexy como um animal... E o que ela trazia vestido... dava ideia que se podia tirar aquilo tudo só com um sopro, Parece-lhe a sua Abbott ou outra pessoa qualquer? Escuto.

 

A cabeça de Donohue estava a poucos centímetros da sua. Sheila estava de pé do outro lado. Todos três olhavam fixamente para o microfone.

 

- Sim. Parece ser Miss Abbott. Pode dizer-me por favor quando é que ela fez a reserva no seu hotel e como? Acho que o senhor tem um escritório em Nairobi. Escuto.

 

- Ela não fez reserva nenhuma.

- Como?

 

- O Dr. Bluhrn é que fez as reservas; duas pessoas, dois bangalôs perto da piscina, por uma noite, Só temos um bangalô livre, disse-lhe eu. Está bem, fico com esse. E era cá um tipo...! Uau! Toda a gente reparou neles, tanto os hóspedes como o pessoal. Uma mulher branca lindísSima, um médico africano lindíssimo. Um prazer para os olhos. Escuto.

 

- Quantos quartos tem cada bangalô? - perguntou Woodrow, na esperança vã de afastar o escândalo que se perfilava na sua frente.

 

- Um quarto de dormir com duas camas confortáveis, colchões de molas muito macios. Aqui toda a gente tem de assinar o registo. Nada de nomes falsos, digo-lhes eu sempre. Há gente que se perde e eu é que tenho de saber quem são. Esse é mesmo o nome dela, não é? Abbott? Escuto.

 

- É o nome de solteira. 0 número da posta restante que ela deu é o da Embaixada.

 

- E o marido onde está?

- Aqui em Nairobi.

 

- Oh c’os diabos!

 

- E então, quando é que Bluhm fez a reserva? Escuto.

 

- Quinta-feira. Na quinta-feira ao fim da tarde. Mandou-me um rádio de Loki a dizer que esperavam partir logo na madrugada de sexta. Loki quer dizer Lokichoggio, perto da fronteira norte, É a sede das agências de Auxílio Humanitário que operam no sul do Sudão. Escuto.

 

- Sei onde é. Disseram o que estavam lá a fazer?

 

- Assuntos lá do Auxílio. O Bluhm trabalha nesse negócio, não é? É a única razão de se estar em Loki. Disse que estava a trabalhar por conta de uma ínstituição médica belga. Escuto.

 

Então ele telefonou de Loki e saíram de Loki na sexta-feira de manhã cedo? Escuto,

 

- Disse que esperavam chegar ao lado oeste do lago por volta do meio-dia. Queriam que eu lhes arranjasse um barco para os trazer para a outra margem até ao Oasis. «Oiça lá», disse eu, «Lokichoggio a Turkana não é nenhum piquenique. Aconselho-os ajuntarem-se a uma caravana de mantimentos. As montanhas fervilham de bandidos, as tribos andam a roubar o gado umas às outras, o que é normal, só que há dez anos atrás só tinham lanças e agora não há quem não tenha uma AK 47.» Ele riu e respondeu que era capaz de se desenrascar sozinho. E assim foi. Cá chegaram sem problemas. Escuto.

 

- Então, eles chegaram e assinaram o registo. E depois? Escuto.

 

- O Bluhm diz então que precisam de um jipe e de um motorista para irem até às escavações Leakey no dia seguinte ao romper da aurora. Não me pergunte porque é que ele não falou nisso quando fez as reservas, nem eu lhe perguntei, Talvez fosse uma decisão de última hora, Talvez não quisessem falar dos seus planos pelo rádio. Eu cá respondi: «Okay, vocês estão cheios de sorte.

O Noah está livre,» o Bluhm ficou encantado, ela também. Vão para o jardim, tomam banho na piscina, sentam-se no bar os dois, jantam os dois, dizem boa-noite a toda a gente e recolhem ao bangalô. De manhã, partem juntos. Eu assisti. Querem saber o que eles comeram ao pequeno-almoço?

 

- Quem é que os viu partir, além de si? Escuto.

 

- Viu-os toda a gente que estava acordada. Levaram almoço, garrafas de água, gasolina de reserva, rações de emergência, caixa de prontos-socorros, produtos farmacêuticos. Os três sentados à frente como uma família feliz. Isto aqui é um oásis, percebe? Tenho vinte hóspedes, a maioria aínda está a dormir.

 

Tenho quarenta empregados, a maior parte já está levantada. Tenho uma centena de tipos que não fazem absoluta-mente nada para mim, a cirandar pelo meu parque de estacionamento vendendo peles de animais, bengalas e facas de mato. Toda a gente que assiste à partida do Blulim e da Abbott lhes acena adeus com a mão. Aceno eu, acenam os vendedores ambulantes, o Noah acena também em despedida, Bluhm e Abbott também. Não sorriem. Vão muito sérios. Como se tivessem um negócio importante a concluir, uma decisão de vida ou de morte, sei lá! O que quer o senhor que eu faça, senhor Chanceler? Que mate as testemunhas? Oiça, faça de conta que eu sou o Galileu. Meta-me na cadeia e eu juro que ela nunca pôs os pés no Oasis. Nunca por nunca ser. Escuto.

 

Por um momento Woodrow, paralisado, não teve mais perguntas a fazer ou talvez tivesse demasiadas. já estou na prisão, pensou ele. A minha sentença é perpétua e começou há cinco minutos. Passou a mão pelos olhos e quando a tirou viu Donohue e Sheila olharem-no com a mesma expressão totalmente vazia que tinham quando ele lhes dissera que ela tinha morrido.

 

- Quando é que percebeu pela primeira vez que qualquer coisa tinha corrido mal? Escuto, - e acrescentou, atrapalhadamente: - Oiça, o senhor vive aí todo o ano? ... ou há quanto tempo dirige essa agradável pousada? Escuto.

 

- O todo-o-terreno tem rádio. Quando vai levar os hóspedes a passear, o Noah deve chamar para cá a dizer que está tudo a correr bem. Ora o Noali não chamou. Bem sei que os rádios nem sempre funcionam. Que os motoristas se esquecem. E que as ligações são chatas de fazer: tem que se parar o carro, sair, tirar o material para fora, montar a antena... Ainda me está a ouvir? Escuto.

- Ouço-o perfeitamente. Escuto.

 

- Mas é que o Noah nunca se esquece. Por essas e por outras é que ele é o meu motorista. Ora ele não chamou. Nem à tarde nem à noite. E eu pensei: okay, devem ter acampado num sítio qualquer, deixaram o Noah beber demais ou coisa assim. À noite antes de fechar falei pela rádio com a guarda florestal mais perto das escavações Leakey. Nem sinal deles. No dia seguinte logo de manhã vou a Lodwar participar o acontecido. O jipe é meu? É sim senhor e o motorista também. Mas não tenho autorização para participar o desaparecimento pelo rádio, tenho de lá ir em pessoa. É um raio de uma viagem, mas é a lei. A polícia de Lodwar adora realmente ajudar os cidadãos em dificuldade.

O meu jipe desapareceu? Raio de chatice. Levava dois dos meus hóspedes e mais o meu motorista? Então porque é que não vou lá eu à procura? É domingo, hoje não se trabalha. Têm de ir à igreja. «Dê cá umas massas, arranje-nos um carro, talvez lhe possamos dar uma mão» - dizem eles. Voltei para casa e organizei um grupo de busca. Escuto.

 

- Consistindo em quê? - Woodrow começava a recuperar o passo.

 

- Dois grupos, com os meus empregados, dois jipes, água, combustível de reserva, mantimentos, material de prontos-socorros e whísky para o caso de ser preciso eu desinfectar alguma coisa. Escuto. - Ouviu-se na rádio uma interverição cruzada. Wolfgang mandou-a sair do ar, merda! Surpreendentemente, obedeceram. - Aqui está um calor dos diabos, senhor Chanceler. Temos 42 graus centígrados e além disso chacais e hienas como vocês têm ratos. Escuto.

 

Pausa, aparentemente esperando a resposta de Woodrow.

- Estou a ouvir, - disseWoodrow.

 

- O jipe está tombado de lado, não me pergunte porquê. Uma janela está aberta p’ra aí uns cinco centímetros. Alguém fechou as portas, trancou-as e levou a chave. O cheiro, só pela fresta da janela, é indescritível. Há arranhões de hienas por todos os lados e amolgadelas por onde elas tentaram entrar. A toda à volta, rastos profundos como se elas tivessem endoidecido. Uma boa hiena cheira sangue a dez quilómetros de distância. Se tivessem conseguido chegar aos corpos tinham-nos aberto duma dentada e chupado o tutano de dentro dos ossos. Mas não puderam. Alguém lhes fechou as portas e deixou uma fresta da janela aberta. Devem ter ficado loucas. O senhor também ficava, se fosse consigo. Escuto.

 

Woodrow esforçou-se por fazer uma pergunta:

 

- A polícia diz que o Noab foi decapitado. É verdade? Escuto.

 

- Claro que é verdade. Era um gajo porreiro. A família ficou de rastos. Há gente à procura da cabeça por tudo quanto é sítio. É que, se não se encontrar a cabeça, não lhe podem dar um enterro decente e o espírito dele vai voltar à terra para os atormentar. Escuto.

 

- E quanto a Miss Abbott? Escuto. - Uma visão obscena de Tessa sem cabeça.

- Não lhe disseram nada?

 

- Não. Escuto.

 

- Garganta aberta de lado a lado. Escuto.

 

Segunda visão, desta vez o punho do assassino a arrancar a corrente de ouro para dar lugar à faca. Wolfgang continuava a contar o resto.

 

- Primeiro, disse aos meus rapazes que deixassem as portas fechadas. Lá dentro não há ninguém vivo. Quem abrir as portas vai passar um mau bocado. Deixei um grupo para fazer uma fogueira e ficar de guarda e levei os outros comigo para o Oasis. Escuto.

 

- Uma pergunta... Escuto. - Woodrow tinha dificuldade em aguentar-se.

- Qual é a pergunta, senhor Chanceler? Continue por favor. Escuto.

 

- Quem abriu o jipe? Escuto.

 

- A polícia. Logo que a polícia chegou, os meus rapazes puseram-se a andar. Ninguém gosta da polícia. Ninguém gosta de ser preso. Pelo menos cá p’ra estes lados. A polícia de Lodwar foi quem chegou primeiro, agora cá está a brigada móvel, mais uns gajos da Gestapo pessoal do Moi. Os meus rapazes já fecharam a caixa registadora e esconderam as pratas, só que eu não tenho pratas. Escuto.

 

Mais uma pausa, enquanto Woodrow lutava por encontrar palavras.

 

- Bluhm levava algum casaco tipo sabariana quando começaram a viagem? Escuto.

 

- Claro. Um bastante usado, mais no género de um colete. Azul. Escuto.

- Acharam alguma faca no local do crime? Escuto.

 

- Não. E foi cá uma faca... só lhe digo! Uma cataria com uma lâmina Wilkinson. Atravessou o Noah como se fosse manteiga. Dum só golpe. E com ela foi o mesmo. Vinim... A roupa arrancada, nua em pelo. Cheia de nódoas negras. já lhe tinha dito? Escuto.

 

Não, não tinhas dito nada, respondeu Woodrow em silêncio. Omitiste completamente a nudez dela. E as nódoas negras também.

 

- Havia alguma cataria no todo-o-terreno quando eles partiram do seu hotel? Escuto.

 

- Nunca conheci um africano que não levasse uma cataria num safari, senhor Chanceler.

 

- Onde estão os corpos neste momento?

 

- O Noah, ou o que restava dele, foi entregue à tribo. Quanto a Miss Abbott, a polícia mandou-a buscar numa lancha. Tiveram de serrar o tecto do jipe. Serviram-se do nosso equipamento de cortar metal. Depois ataram-na ao convés. Não havia sítio para ela lá em baixo. Escuto.

 

- Porquê? - e arrependeu-se imediatamente de ter perguntado.

 

- Use a sua imaginação, senhor Chanceler. Sabe o que acontece aos cadáveres com um calor destes? Se quisessem levá-la de helicóptero, tinham de a cortar aos bocados, senão, não entrava na cabine.

 

Woodrow teve um momento de ausência mental e quando veio a si ouviu Wolfgang dizer que sim, já tinha conhecido Blulim antes. Woodrow depreendeu que fizera a pergunta, embora não se lembrasse de se ouvir a si próprio.

 

- Há uns nove meses. Servindo de guia a um grupo de figurões lá desse negócio da ajuda humanitária. Comida mundial, saúde mundial, despesas mundiais. Os sacarias gastaram uma porrada de massa e queriam recibos do dobro do dinheiro. Mandei-os levar no cu. O Blulim adorou. Escuto.

 

- Como é que ele lhe pareceu, desta vez? Escuto.

- Que é que isso quer dizer?

 

- Estava diferente, de alguma maneira? Excitado, ou estranho ou qualquer coisa?

 

- Que é que o senhor quer dizer com isso, senhor Chanceler?

 

- Quero dizer... acha possível que ele tivesse tomado alguma coisa? Que estivesse drogado, quero dizer... - estava cada vez mais atrapalhado - Bom, quero dizer... não sei... cocaína ou coisa assim? Escuto.

 

- Oh meu rico senhor - disseWolfgang e a chamada caiu.

 

Woodrow sentiu de novo o olhar penetrante de Donohue. Sheila desaparecera. Woodrow teve a impressão de que ela tinha ido fazer qualquer coisa de urgente. Mas o que seria? Porque é que a morte de Tessa exigia a acção urgente de espiões? Teve um calafrio e vontade de vestir um casaco de malha, embora sentisse o suor a escorrer por ele abaixo.

 

- Não quer mais nada de nós, caro amigo? - perguntou Donohue com uma estranha solicitude, continuando a olhá-lo de alto com o seu ar desgrenhado e doentio. - Talvez um copo de alguma coisa?

 

- Obrigado. Neste momento, não.

 

Elesjá sabiam, pensou Woodrow enfurecido, enquanto voltava para baixo. Sabiam que ela estava morta antes de eu saber. Mas isso é o que eles querem que a gente pense: nós os espiões sabemos sempre mais do que tu e antes do que tu.

 

- O Alto Comissário já chegou? - perguntou metendo a cabeça pela abertura da porta de Mildren.

 

- Está a chegar.

 

- Desconvoque a reunião.

 

Woodrow não se dirigiu directamente para o gabinete de justin. Foi ver Chita Pearson, a funcionária mais recente da Chancelaria, amiga e confidente de Tessa. Chita tinha olhos escuros, cabelo loiro, era anglo-indiana e usava na testa a marca da sua casta. Empregada em Nairobi, recordou Woodrow, mas deseja fazer carreira no Ministério. Uma ruga de desconfiança apareceu na testa dela quando o viu fechar a porta à chave atrás de si.

 

- Chita, aqui vai uma pergunta para si, pode ser? - Ela olhou-o nos olhos, à espera. - Bluhm. Doutor Arnold Blulim. Então?

 

Então o quê?

 

É um amigo seu? - Ela não respondeu. - Quer dizer, conhece-o, é seu amigo.

 

- É um contacto. - As funções de Chita incluíam contacto diário com as agências humanitárias.

 

- E é amigo de Tessa, obviamente. - Dos olhos escuros de Chita não houve comentário. - Conhece mais alguém da equipa dele?

 

- Falo com a Charlotte de vez em quando. É a secretária. Os outros só fazem trabalho de campo. Porquê? - Aquela cadência anglo-indiana na voz dela, que ele sempre achara tão sedutora... Mas nunca mais. Nunca mais com ninguém.

 

- Bluhm esteve em Lokichoggio na semana passada. Não estava só.

 

Outro aceno de cabeça, mais lento, e um baixar de olhos.

 

- Quero saber o que é que ele lá foi fazer. De Loki atravessou até o -turkanã. Preciso de saber se ele já voltou para Nairobi. Ou talvez tivesse regressado a Loki. Pode saber isso sem fazer muitas ondas?

 

- Duvido.

 

- Mas tente. - Ocorreu-lhe uma pergunta. Em todos os meses desde que connhecera Tessa, nunca pensara nisso senão agora. - Sabe se Blulun é casado?

- Eu diria que sim. Acontece, mais tarde ou mais cedo. Geralmente eles So casados, não são?

 

Eles, quem? Eles, os africanos? Ou eles, os amantes? Todos os amantes?

 

- Mas a mulher não vive cá? Ele não tem uma esposa em Nairobi. Ou pelo nenos, nunca se ouviu falar. De Bluhm, não.

 

- Porquê? - e de repente, muito baixo: - Aconteceu alguma coisa à Tessa?

- Pode ter acontecido. É o que estamos a averiguar.

 

Ao chegar à porta do escritório de Justin, Woodrow bateu e entrou sem esperar por resposta. Desta vez não fez girar a chave na fechadura mas, de mãos nos bolsos, encostou os largos ombros contra a porta, o que serviu o

seo propósito enquanto ali permaneceu.

 

As costas elegantes de Justin estavam viradas para ele. A sua cabeça bem tratada estava virada para a parede e ele estudava um gráfico, um entre os vários que forravam a sala, cada um com o seu cabeçalho de iniciais a preto e os seus deraus de várias cores subindo ou descendo. O gráfico a que ele prestava especial atenção intitulava-se lNFRA ESTRUTURAS RELATIVAS 2005-2010 e, tanto quanto Woodrow podia julgar do ponto onde se encontrava, prQdizer a prosperidade futura das nações africanas. No peitoril da janela à esquerda de Justin perfilava-se uma bicha de vasos de plantas que ele cultivava. Woodrow pôde identificar jasmim e balsamina, porque Justin tinha oferecido a Glória plantas dessas.

 

- Olá, Sandy - disse Justin prolongando o olá.

- Olá.

 

- Parece que não temos reunião esta manhã. Houve alguma trapalhada nesta casa?

 

Aquela famosa voz de oiro, pensou Woodrow, reparando em cada pormenor como se fosse a primeira vez. Tocada pelos anos mas de charme garantido, enqoanto o tom se sobrepusesse à substância. Para que estarei eu aqui a pensar mal de ti, quando estou prestes a mudar a tua vida para sempre? De agora até ao fim dos teus dias haverá sempre o antes e o depois deste momento e serão eras diferentes para ti como já o são para mim. Porque é que não tiras o raio do casaco? Deves ser actualmente o único neste Serviço que manda fazer no alfaiate os fatos tropicais. Depois lembrou-se que ele próprio também estava de casaco vestido.

 

- E vocês estão todos bem, ao menos? - perguntou Justin no seu amável tom arrastado. - A Glória não murchou ainda com este calor horrível? Os rapazes, ambos florescentes como de costume?

 

- Estamos óptimos. - Um silêncio, cuidadosamente elaborado por Woodrow. - E a Tessa, lá anda pelo mato, - sugeriu. Estava a dar-lhe, a ela, uma última oportunidade de aparecer a dizer que era tudo um terrível engano.

 

De repente, Justín tornou-se prolixo, o que lhe acontecia sempre que o nome de Tessa era proferido diante dele. - Sim, realmente! O trabalho dela na comissão de auxílio não tem parança nos dias que correm. - Estava abraçado a um volume das Nações Unidas de meio palmo de espessura. Curvando-se de novo, PousOU-O numa mesinha de apoio. - A este ritmo, ela terá salvo a África em peso antes de nos irmos embora.

 

- O que é que ela foi fazer ao mato, precisamente? - Woodrow agarrava-se à última palha. - Pensei que o trabalho dela era agora mais aqui em Nairobi. Nos bairros de lata. Em Kíbera, não é?

 

- O mais possível, - disse Justin com orgulho. - Dia e noite, pobre rapariga. Faz de tudo ao que me dizem, desde limpar o rabo aos bebés, até pôr a gente mais atrasada a par dos seus direitos civis. A maioria dos clientes são mulheres, claro, o que lhe agrada imenso. Embora não agrade tanto como isso aos homens lá da família delas. - O seu sorriso melancólico, que queria dizer se fosse só a eles... - Direitos de propriedade, divórcio, abuso físico, violação marital, excisão feminina, sexo seguro. O menu completo, todos os dias. Estás a ver porque é que os maridos ficam um bocado ressentidos, não estás? Eu ficava, se fosse um violador marital.

 

- Então é isso que ela anda a fazer lá no mato? - insistiu Woodrow.

 

- Oh, só Deus sabe... Deus e o Doutor Arnold, - lançou Justin num tom excessivamente casual - Arnold é o gula e o filósofo dela lá naquelas bandas. Então é esse o jogo dele, pensou Woodrow. A história que dá cobertura a todos três: Arnold Bluhm, médico, é o tutor moral dela, o seu cavaleiro negro e o seu protector na selva do auxílio humanitário. Tudo menos o amante tolerado. - Naquelas bandas, onde exactamente? - perguntou.

 

- Em Loíci. Lokichoggio. - Justin sentara-se na borda da secretária, talvez numa imitação inconsciente da postura descontraída de Woodrow contra a porta. - Aquela gente do Programa Alimentar Mundial tem lá um workshop sobre a consciência do sexo! Pode-se imaginar uma coisa dessas? Trazem de avião camponesas completamente ignorantes que apanham no Sul do Sudão, dão-lhes um curso-relâmpago sobre o John Stuart Mill e depois levam-nas outra vez de avião para a terra delas, já a par de tudo. Arnold e Tessa foram lá assistir a essa brincadeira. Cheios de sorte!

 

- Onde está ela agora?

 

Justín pareceu não gostar da pergunta. Talvez fosse nesse momento que se apercebeu que havia um propósito oculto na conversa de chacha de Woodrow. Ou então - pensou Woodrow - não lhe agradava sentir-se encurralado por uma pergunta acerca de Tessa a que ele próprio não estava seguro de saber responder.

- Deve vir a caminho de casa. Porquê?

 

- Com Arnold.

 

- Certamente. Ele não ia deixá-la por lá sozinha.

- Tem havido algum contacto da parte dela?

 

- Para mim? De Loki? Como é que ela fazia? Lá não há telefone.

 

- Pensei que ela pudesse ter usado um dos contactos pelo rádio da própria agência de auxílio. Não é o que as outras pessoas costumam fazer?

 

-A Tessa não é como as outras pessoas. - Replicou Justin, enrugando a testa levemente. - Tem princípios firmes. Não gosta de gastar o dinheiro dos donativos sem ser necessário. Que se passa, Sandy?

 

Justin, agora de sobrolho franzido, desencostou-se da secretária e veio postar-se a meio da sala com as mãos atrás das costas. E Woodrow, observando aquele rosto belo e inteligente e o cabelo que começava a ficar grisalho à luz do sol, lembrou-se do cabelo de Tessa, exactamente da mesma cor mas sem a idade, nem a moderação. Lembrou-se da primeira vez que os vira juntos, Tessa e Justin, os novos recém-chegados, um par de recém-casados ambos lindíssimos, convidados de honra do jantar de boas-vindas do Alto Comissário de Nairobi. E de como, ao avançar para os cumprimentos, ele imaginara para consigo que se tratava de pai e filha e que ele a ia pedir em casamento,

 

- Então quando foi a última vez que tiveste notícias dela? - perguntou.

- Na terça-feira quando os fui levar ao aeroporto. Que é isto, Sandy? Se o Arnold está com ela, ela deve estar bem, Ela faz o que lhe mandarem.

 

- Achas que ela pode ter ido até ao Lago Turka-na, ela e o Bluhm... o Arnold?

- Se lhes apeteceu e tinham transporte, porque não? A Tessa adora os lugares selvagens, tinha o Richard Leakey em grande conta, tanto como arqueólogo como um africano branco decente. O Leakey deve ter uma clínica para aqueles lados, não? Arnold se calhar tinha lá trabalho e levou-o com ele... Sandy, o que vem a ser isto? - repetiu indignado.

 

Ao desferir o golpe mortal, Woodrow não pôde deixar de observar o efeito das suas palavras na cara de Justin. Viu os últimos sinais da juventude passada de Justin retirarem-se como uma onda, como se ele fosse um ser marinho e o seu belo rosto fechou-se e endureceu, deixando só a aparência do coral,

 

- Temos estado a receber relatórios acerca de uma mulher branca e um motorísta negro encontrados na margem leste do Lago Turkana. Ambos mortos.

- Woodrow começou devagar, evitando deliberadamente a palavra «assassinados». - O carro e o motorista tinham sido alugados na Pousada Oasis. O proprietário da pousada pretende ter identificado a mulher como sendo Tessa.

 

diz que ela e Bluhm passaram a noite no Oasis antes de partirem para as escavações Leakey. Bluhm ainda não foi encontrado, Encontraram a corrente de ouro dela, a que ela usava sempre.

 

Como é que eu estou a par disto? Por que raio é que eu escolhi este momento para alardear o meu conhecimento íntimo acerca do colar dela?

 

Woodrow continuava a observar Justin. O cobarde que havia nele queria afastar o olhar, mas para um filho de militar seria o mesmo que condenar um homem à morte e não comparecer ao seu enforcamento. VIU os olhos de Justin dilatarem-se num desapontamento mortal, como se tivesse sido atingido pelas costas por amigo íntimo, depois apagarem-se quase totalmente, como se o mesmo amigo o tivesse posto knock-out. Viu aquela boca perfeitamente esculpída abrir-se num espasmo de dor física, depois fechar-se de novo numa linha de músculos comprimidos até à lividez.

 

- Obrigado por me teres dito, Sandy. Não deve ter sido agradável. O Porter sabe?

 

Porter era, estranhamente, o primeiro nome do Alto Comissário.

 

- O Mildren anda a ver se o encontra. Acharam uma bota Mephísto, tamanho sete. Diz-te alguma coisa?

 

Justin estava a ter dificuldades de coordenação. Tinha de esperar algum tempo antes que o som das palavras de Woodrow chegasse ao seu entendimento. Depois apressou-se a responder em frases curtas, saídas a custo. - Naquela loja em Piccadilly. Ela comprou lá três pares da última vez que fomos de licença. Nunca a tinha visto fazer uma extravagância daquelas. Como regra, não é esbanjadora. Nunca teve de se preocupar com dinheiro, por isso nem pensava nele. Por ela, só comprava roupa nas lojas do Exército de Salvação.

- Usava uma espécie de sahariana. Azul.

 

- Ah, ela detestava essa maldita coisa, - respondeu Justin, recuperando torrencialmente a faculdade da fala. - Costumava dizer que, se eu alguma vez a apanhasse a usar uma daquelas geringonças de caqui com algibeiras nas coxas, devia queimá-la ou dá-Ia ao Mustafa.

 

Mustafa era o seu criado de casa, Woodrow lembrava-se. - A policia falou em «azul».

 

- Ela detestava o azul - agora parecia prestes a perder a paciência - ela odiava absolutamente tudo o que era paramilitar. - já estava a usar os verbos no passado, notou Woodrow. -Teve em tempos uma sabariana verde, garanto, comprada no Farbelo-,Vs em Stariley Street. Fui eu que a levei, nem sei porquê. Provavelmente ela pediu-me. Detestava fazer compras. Vestíu-a e fez logo uma cena. - Olha para isto - disse ela, - Pareço o General Patton em travesti.

- Não, rapariga - disse eu - olha que não pareces o General Patton. Pareces uma mulher linda vestida com uma horrorosa sahariana verde caqui.

 

Começou a arrumar a secretária, com precisão e minúcía, preparando-se para a partida. Abrindo e fechando as gavetas, metendo as suas pastas de arquivo no cofre-forte e fechando-o. Alisava o cabelo de vez em quando distraidamente, um tique com que Woodrow sempre embirrara. Desligou cautelosamente o seu computador que detestava, com o indicador espetado como se tivesse medo que ele lhe mordesse. Dizia-se que pedira a Chita Pearson que lho ligasse todas as manhãs. Woodrow viu-o lançar à volta da sala um último olhar vazio. Fim da época. Fim da vida. É favor deixar este sítio arrumado e livre para o próximo ocupante. À porta Justin voltou-se e olhou para as plantas no peitoril da janela, hesitando talvez se havia de levá-las consigo ou pelo menos dar instruções para a sua conservação, mas não fez nem uma coisa nem outra.

 

Acompanhando Justin ao longo do corredor, Woodrow fez menção de lhe tocar no braço, mas uma espécie de repugnância prendeu-lhe a mão antes de fazer contacto. Não obstante, teve o cuidado de seguir ao lado dele suficientemente perto para o apoiar se ele caísse ou de algum modo tropeçasse, porque nesse momento Justin tinha o ar de um sonâmbulo bem vestido que tivesse abdicado do seu sentido de orientação. Caminhavam devagar e sem fazer barulho, mas Chita devia tê-los ouvido, porque à passagem deles abriu a porta do seu gabinete e acompanhou em bicos de pés Woodrow durante uns passos, sussurrando-lhe ao ouvido, tendo o cuidado de segurar com a mão o seu cabelo dourado para que não roçasse por ele.

 

- Ele desapareceu. Andam à procura dele por todo o lado.

 

Mas o ouvido de Justin era melhor do que eles julgavam. Ou talvez, naquele extremo de emoção, as suas percepções fossem anormalmente agudas.

 

- Suponho que estão preocupados com Arnold - disse ele a Chita no tom amável de um transeunte indicando uma direcção.

 

O Alto Comissário era um homem um tanto vago, superinteligente, eternamente em estudo de qualquer matéria. Tinha um filho banqueiro, uma filha pequena chamada Rosie, deficiente mental e uma mulher que era Juíza de Paz quando estava em Inglaterra. Adorava-os a todos igualmente e passava os fins-de-semana com Rosie amarrada ao seu peito por braçadeiras. O próprio Coleridge ficara como que abandonado nas margens da idade adulta, Usava uns suspensórios de rapazola com umas calças largueironas. O casaco correspondente estava pendurado atrás da porta num cabide com o seu nome: R Coleridge, Balliol. Estava postado no centro do seu enorme escritório, a guedelha inclinada raivosamente para Woodrow, que acabava de falar. Corriam-lhe lágrimas pela cara abaixo.

 

- Balliol: um dos colégios da Universidade de Oxford. (N, T)

 

- Porra!, - exclamou furioso, como se tivesse esperado muito tempo para se livrar da palavra.

 

- Também digo, - murmurou Woodrow.

 

- Pobre rapariga!... Que idade é que ela tinha? Era uma criança!

 

- Vinte e cinco. Pr’aí - Como é que eu sabia? - acrescentou vagamente.

- Não parecia ter mais de dezoito. E aquele desgraçado do Justin, mais as suas flores de estimação...

 

- Também digo, - repetiu Woodrow.

- A Ghita já sabe?

 

- Mais ou menos.

 

- Que raio vai ele fazer da vida dele? Nem sequer tem uma carreira que se veja. Estavam todos a contar mandá-lo embora no fim desta volta. Se não fosse a Tessa perder o bebé, coitada, ele tinha ido fora com o refugo. - Cansado de estar quieto, Coleridge avançou para outro lado da sala. - A Rosie pescou uma truta de um quilo no sábado passado. - Lançou ele em ar de desafio. - Que é que me diz a esta, hein?

 

Coleridge tinha aquele hábito de ganhar tempo com inesperadas digressões.

- Formidável! - disse Woodrow, como lhe cabia.

 

- A Tessa é que havia de ficar encantada. Sempre disse que a Rosie se safava muito bem. E a Rosie adorava-a.

 

- Via-se logo.

 

- Repare que não a quis comer. Tivemos que manter o bicho em respiração assistida durante o fim-de-semana e depois lá o enterrámos no jardim.

- Endireitou os ombros, sinal de que tinha voltado ao assunto em discussão.

- Há aqui uma história por trás disto, Sandy. A sacana duma história dos diabos.

- A quem o diz.

 

- Esse filho da puta do Pellegrin já anda a falar para aqui, a barregar que temos de limitar os estragos», - Sir Bernard Pellegrin era o mandarim dos Negócios Estrangeiros especialmente responsável por África e inimigo figadal de Coleridge. - Como raio é que havemos de limitar os estragos quando não sabemos quais são os sacanas dos estragos? Também lhe deve ter prejudicado a partida de ténis, aposto.

 

- Ela esteve com o Bluhm durante quatro dias e quatro noites antes de morrer, - disse Woodrow, após um relance para a porta para se certificar de que ainda estava fechada. - Talvez isso faça parte dos estragos. Estiveram em Lokh i e depois estiveram no Turkana. Partilharam um bangalô e só Deus sabe que mais. Foram vistos por uma catrefa de gente.

 

- Obrigado. Muito e muito obrigado. Era mesmo isso que eu precisava ouvir. - Enterrando as mãos nos bolsos das largas calças, Coleridge vagueou pela sala. - E onde raio é que está o sacana do Bluhm, já agora

 

- Dizem que andam à procura dele desesperadamente. A última vez que foi visto estava sentado no jipe ao lado de Tessa quando partiram para as escavações.

 

Coleridge foi lentamente até à sua cadeira e deixou-se cair nela com os braços abertos. - Então foi o mordomo. - disse ele. - Bluhm esqueceu a sua educação, deu em doido varrido, chacinou os outros dois, meteu a cabeça do Noah num saco como recordação, deitou o jipe de lado, fechou as portas à chave e largou a correr. Mete-se pelos olhos dentro, não é? Porra!

 

- Conhece-o tão bem como eu.

 

- Ah isso é que não conheço! Nem me chego a ele. Detesto ver estrelas de cinema nessa coisa da ajuda humanitária. Para onde raio é que ele foi? Onde está ele?

 

Várias imagens passaram pelo espírito de Woodrow. Bluhm, o Negro da Civilização Ocidental, o Apolo barbudo de Nairobi, o da malta dos cocktaíls, carismático, espirituoso, belo. Bluhm e Tessa lado a lado, cumprimentando os convidados enquanto Justin, o querido das velhas debutantes, ronrona, sorrindo e passando as bebidas. O Dr. Arnold Bluhm, em tempos herói da guerra na Argélia, discursando da tribuna da sala de conferências das Nações UnIdas acerca das prioridades médicas numa situação de calamidade. Bluhm, afundado numa cadeira acabada a festa, de ar perdido e vazio e com tudo o que nele havia de digno de conhecer-se escondido bem no fundo de si mesmo.

 

- Não fui capaz de os mandar embora, Sandy - continuava Coleridge no tom grave de quem foi interrogar a sua consciência e regressou tranquilizado.

- Não acho que esteja nas minhas atribuições arruinar a carreira de um tipo só porque a mulher gosta de dar umas cambalhotas. Estamos no novo milénio. As pessoas devem ter o direito de lixar as suas próprias vidas como lhes apetecer.

- Claro.

 

- Ela andava a fazer uma obra dos diabos pelos bairros de lata, mau grado o que se dizia dela lá no Clube Muthaiga. A gente do Moi talvez a olhasse de revés, mas não havia nenhum verdadeiro Africano que não a adorasse.

 

- Sem dúvida, - concordou Woodrow.

 

- É verdade que andava metida em tudo o que é a luta contra a discriminação sexista e essa treta toda. E tinha razão. Se entregassem a África nas mãos das mulheres, tudo poderia correr melhor.

 

Mildren entrou sem bater.

 

- Uma chamada do Protocolo, Sir. O corpo de Tessa acaba de chegar à morgue do hospital e eles pedem uma identificação de imediato. E todas as agências noticiosas exigem uma declaração.

 

- Como diabo é que a trouxeram tão depressa para Nairobi?

 

- De helicóptero. - respondeu Woodrow tentando afastar a imagem repelente, dada por Wolfgang, do corpo dela a ser serrado para caber no compartimento da carga.

 

- Não há declaração nenhuma até ela ser identificada. - Disse Coleridge secamente.

 

Woodrow e Justin foram juntos, baixando a cabeça, sentados no banco de ripas duma carrinha Volkswagen com janelas de vidros fumados que pertencia à Alta Comissão. Livingstone ia ao volante com Jackson, o seu volumoso guarda-costas Kikuyu, entalado ao seu lado no banco da frente para o caso de vir a ser necessário alguma persuasão musculada. A carrinha era um forno, apesar do ar condicionado ligado no máximo. O tráfego era demencial. Os minibus Matutus abarrotando de gente avançavam e buzinavam de todos os lados, exalando fumo e levantando poeira e cascalho. Livingstone conseguiu rodear uma pequena rotunda e parou junto a um portal de pedra onde se juntavam grupos de homens e mulheres balanceando e entoando cânticos. julgando tratar-se de uma manifestação, Woodrow soltou uma imprecação, mas logo percebeu que eram familiares dos mortos à espera que lhes entregassem os corpos. Ao longo do passeio havia carroças enferrujadas e carros enfeitados com fitas vermelhas.

 

- Não era preciso tu vires, Sandy, realmente - disse Justin.

 

- Claro que era preciso - rectificou nobremente o filho do militar.

 

Na soleira da porta esperavam-nos um magote de polícias e profissionais da saúde com fatos-macacos brancos manchados de salpicos. O seu desejo era só agradar. Um tal Inspector Muramba apresentou-se e, com um sorriso radioso apertou a mão aos dois distintos cavalheiros da Alta Comissão Britânica, Um asiático de fato preto apresentou-se como sendo o médico cirurgião Banda Singh ao serviço de Suas Excelências. Seguiram por um sujo corredor de betão atravancado por caixotes do lixo a deitar por fora, cujos tectos eram percorridos por tubos grossos. Os tubos levam a electricidade às câmaras frigoríficas, pensou Woodrow, mas os frigoríficos não funcionam porque houve um corte de electricidade e a morgue não dispõe de um gerador. O Dr. Banda ia à frente mas Woodrow poderia ter encontrado o caminho sozinho. Se voltar à direita, perco o cheiro, voltando à esquerda, regressa mais forte. O seu lado insensível tinha de novo tomado a chefia. O dever de um filho de militar é estar aqui, não é sentir. Dever. Porque será que ela me fazia sempre pensar no meu dever? Perguntava a si próprio se não haveria alguma superstição antiga acerca do que poderia acontecer aos aspirantes ao adultério quando observassem os cadáveres das mulheres que tinham cobiçado. O Dr. Banda levava-os agora por uma escada acima. Foram emergir num grande átrio sem ventilação onde o fedor da morte dominava tudo.

 

Em frente havia uma porta de ferro enferrujada onde Banda começou a martelar com os punhos imperiosamente, apoiando-se nos calcanhares e batendo depois quatro ou cinco vezes a intervalos regulares como se estivesse a transmitir um código. A porta abriu-se um pouco chiando para revelar as cabeças desnorteadas e apreensivas de três rapazes. À vista do cirurgião-chefe recuaram para o deixar esgueirar-se rapidamente; o resultado foi que Woodrow, largado de repente no meio do átrio nauseabundo, teve a sensação de estar a ser submetido à visão infernal do antigo dormitório do seu colégio interno, cedido aos mortos de todos os tempos do Auxílio Humanitário. Em cada cama estavam lado a lado dois cadáveres definhados. Entre eles havia mais cadáveres pelo chão, uns vestidos, outros nus, de costas ou de lado. Outros tinham encolhido os joelhos, numa tentativa inútil de se protegerem, queixos espetados em ar de protesto. Sobre eles, numa espécie de nevoeiro vacilante e lodoso, estavam as moscas, zumbindo numa nota só.

 

E no centro do dormitório, arrumado na passagem entre as duas filas de camas, estava a tábua de passar da senhora governanta, sobre rodas. E sobre a tábua de passar um icebergue formado por um lençol revolto de onde saíam dois pés monstruosos e serni-humanos que fizeram Woodrow pensar nos chinelos com pés de pato que ele e Glória tinham oferecido ao filho, Harry, no passado Natal. Uma mão estendida tinha conseguido ardilosamente ficar fora do lençol. Os dedos estavam cobertos de sangue negro, mais espesso nos nós. As pontas eram de um azul de água-marinha. Use a sua imaginação, senhor Chanceler Faz alguma ideia do que acontece aos cadáveres com um calor destes?

 

- O senhor Justin Quayle, por favor - clamou o Dr. Banda Singh com a voz estentória de um mordomo anunciando os recém-chegados a uma recepção real.

- Eu vou consigo, - murmurou Woodrow e, lado a lado com justin, avançou corajosamente a tempo de ver o Dr. Banda levantar para trás o lençol e revelar a cabeça de Tessa, uma caricatura grosseira amarrada do queixo ao topo do crânio por uma tira de pano imundo que tinha coberto o Pescoço onde em tempos estivera a corrente de ouro. Como um afogado que volta à superfície pela última vez, Woodrow ansiosamente abarcou o restante: o cabelo negro dela colado ao crânio pelo pente de um cangalheiro qualquer. As bochechas inchadas como as de um querubím soprando o vento. Os olhos fechados, as sobrancelhas erguídas e a boca aberta numa expressão flácida de espanto, cheia de sangue negro como se lhe tivessem arrancado os dentes todos de uma vez. Oh! é que ela sopra com a boca arrendondada de estupefacção, enquanto a matam. Mas a quem se dirige ela? Quem viram os seus olhos, por trás daquelas pálpebras esticadas e brancas?

 

- Conhece esta senhora, Sir? - pergunta delicadamente a Justin o Inspector Muramba.

 

- Conheço. Conheço, sim, obrigado - respondeu Justin pesando cada palavra antes de a pronunciar. - É a minha mulher, Tessa. Temos de marcar o funeral quanto antes, Sandy. Ela gostaria que fosse aqui em África. É filha única. É órfa e sem parentes. Não há ninguém, excepto eu, a ser consultado. bom que seja o mais breve possível.

 

- Sim, suponho que isso agora só depende da polícia - disse Woodrow em tom brusco e só teve tempo de se afastar até uma bacia rachada onde vomitou as tripas, enquanto Justin, sempre cortês, o segurava com um braço pelos ombros, murmurando condolências.

 

No santuário atapetado do Gabinete Particular, Mildren vagarosamente está lendo alto para o rapaz de voz neutra que estava no outro lado da linha:

 

«A Alta Comissão tem o desgosto de participar o assassinato de Mrs. Tessa Quayle, esposa de Justin Quayle, Primeiro Secretário da Embaixada. A morte deu-se nas margens do Lago Turkana, perto de Allia Bay. O seu motorista, Sr. Noab Katanga, foi também morto. Mrs. Quayle será recordada não só pelo seu empenho na causa dos direitos das mulheres africanas, como também pela sua beleza e juventude. Desejamos exprimir os nossos mais sentidos pêsames ao marido de Mrs. Quayle, Justin, e aos seus numerosos amigos. A bandeira da Alta Comissão será colocada a meia-haste até nova ordem. Um registo de condolências estará à disposição no átrio do edifício da Alta Comissão.»

 

- Quando é que pode enviar isto?

- Acabo de o fazer, - disse o rapaz.

 

 

Os Woodrow viviam nos arredores, numa casa em pedra estilo Tudor, com janelas de vídrinhos em caixilhos de chumbo, que fazia parte de uma colónia de moradias no meio de um grande jardim à inglesa em Muthaiga, a zona fina da periferia, a dois passos do Muthaiga Clube, da Residência do Alto Comissário Britânico e das amplas residências de embaixadores de países de que nunca ninguém ouvira falar antes de passar pelas avenidas altamente guardadas e ver as chapas inscritas com os seus nomes, entre placas em Swahili avisando contra cães perigosos. Em sequência do ataque bombista contra a Embaixada Americana em Nairobi, o Foreign Office mandara colocar nas residências de todo o pessoal, da categoria de Woodrow para cima, portões de ferro à prova de choque, que eram conscienciosamente guardados noite e dia por turnos de exuberantes Baluhyas e seus numerosos amigos e parentes. A toda a volta do jardim os mesmos espíritos iluminados tinham instalado uma rede electrificada coroada por rolos de arame farpado e luzes contra intrusos acesas toda a noite. Em Muthaiga existe toda uma hierarquia social em matéria de segurança, como em muitas outras matérias. As casas mais humildes têm direito a cacos de vidro nos muros de pedra, as classes médias a arame farpado. Mas para os aristocratas da diplomacia nunca nada menos do que portões de ferro, gradeamentos electrificados, alarmes nas janelas e luzes contra os intrusos, poderia bastar à sua segurança.

 

A casa dos Woodrow tinha três andares. Os dois andares superiores constituíam aquilo que as companhias de seguros apelidam de abrigo de segurança: era protegido por uma porta de aço desmontável no primeiro patamar de que só o casal Woodrow possuía a chave. E na suite dos hóspedes do rés-do-chão, a que os Woodrow chamavam o andar de baixo por causa da inclinação do terreno, havia uma rede do lado do jardim para proteger os Woodrow dos criados. Nesse andar de baixo as duas salas, severas e pintadas de branco com janelas de grades e redes de aço, tinham indubitavelmente um ar de prisão. Mas, antecipando a chegada do seu hóspede, Glória tinha-as enchido de rosas do jardim, tinha trazido um candeeiro de leitura do quarto de vestir de Sandy e os aparelhos de rádio e televisão do pessoal, porque até lhes fazia bem passar sem essas coisas, para variar. Não era propriamente um hotel de cinco estrelas, - como ela confiou a Elena, a sua amiga do peito, uma inglesa com um marido de boa boca, um grego funcionário das Nações Unidas,

- mas pelo menos o pobre homem teria um espaço só para ele, que era uma coisa indispensável quando se perde alguém, como acontecera exactamente com a própria Glória quando a mamã morreu, mas tambémi é verdade que a Tessa e o Justin formavam... bom, a verdade é que tinham tido um casamento muito pouco convencional, que era o menos que se podia dizer, embora Glória falando por si nunca tivesse duvidado de que houvesse um verdadeiro afecto entre eles, pelo menos do lado de Justin, porque do lado de Tessa... francamente, querida eu, só Deus sabe, porque agorajamais alguém saberá.

 

Ao que Elena, com divórcios múltiplos e muita experiência da vida, o que não era de todo o caso de Gloria, respondeu: - Bom, não apostes a tua virtude, filha, que às vezes os viúvos de fresco são grandes galifões.

 

Gloria Woodrow era uma daquelas típicas esposas de funcionários do Foreign Office decididas a ver só o lado bom das coisas. Quando não havia nenhum lado bom à vista, ela soltava uma sólida gargalhada e dizia: - Bom, é para isso que cá estamos! - o que funcionava como um toque de clarim que fazia toda a gente cerrar fileiras e suportar os maus bocados da vida sem se queixar. Era a mais leal das antigas alunas dos colégios que tinham feito dela o que ela era e mandava-lhes regularmente boletins acerca do seu progresso na vida, tal como devorava avidamente qualquer notícia acerca das suas contemporâneas. Todos os anos, no Dia da Festa do Colégio, mandava-lhes um telegrama espirituoso de parabéns ou, nos dias de hoje, um e-mail cheio de graça, geralmente em verso porque não queria que eles se esquecessem que ela chegara a ganhar o prêmio de poesia da escola. Era atraente, de uma forma discreta e sem rodeios, e famosa pela sua tagarelice especialmente quando não havia nada para dizer. E tinha aquele modo de andar titubeante, extraordinariamente feio, que é apanágio das mulheres inglesas da família real.

 

Contudo, Glória Woodrow não era estúpida de nascença. Dezoito anos atrás, na Universidade de Edimburgo, fora considerada uma das melhores cabeças do seu ano e dizia-se que, se não se tivesse embeiçado tanto por’Woodrow, poderia ter alcançado óptimas classificações em Política e Filosofia. Mas, com a passagem dos anos, o casamento, a waternidade e as inconstâncias da vida diplomática tinham-se substituído a quaisquer ambições que ela tivesse tido. Por vezes, para desgosto secreto de Woodrow, ela parecia ter deliberadamente apagado o intelecto para melhor interpretar o seu papel de esposa. Mas também lhe estava grato por esse sacrifício e pelo facto abençoado de ter deixado de ler nele os seus mais íntimos pensamentos, continuando a moldar-se flexivelmente para servir as suas aspirações. - Quando eu quiser ter vida própria, aviso-te - dizia ela quando ele, levado por um dos seus acessos de culpa ou de tédio, a incitava a seguir os estudos, estudar Direito, estudar Medicina - ou pelo menos estudar qualquer coisa, por amor de Deus! - Se não gostas de mim tal como sou, então isso já é diferente, - respondia ela, deslocando habilmente a crítica do particular para o geral. - Não é nada disso, eu gosto de ti, adoro-te tal como és! - protestava ele, abraçando-a. E acreditava no que dizia. Mais ou menos.

 

Justin tornou-se o prisioneiro secreto do andar de baixo ao fim da tarde daquela segunda-feira negra em que recebera a notícia da morte de Tessa, à hora em que, em frente das residências dos embaixadores, as limusines começavam a morder o freio e a raspar o solo por trás dos portões de ferro, antes de formarem procissão até ao bebedouro comum, misticamente escolhido para essa noite. O que é hoje? O Dia de Lumumba? Dia de Merdeka? Dia da Tomada da Bastilha? Não interessa; a bandeira nacional estará hasteada no jardim, a rega automática desligada, a passadeira encarnada estendida, os criados pretos de luvas brancas atentos e solícitos, tal como acontecia nos tempos coloniais, que agora todos repudiamos friamente. E a música patriótica apropriada estará saindo da tenda armada no jardim.

 

Woodrow foi com Justin na carrinha preta Volkswagen. Da morgue, Woodrow escoltara-o até à esquadra da polícia e vira-o redigir, na sua letra imaculada de acadêmico, uma declaração em que identificava o cadáver da mulher. Woodrow telefonara da esquadra para casa, a informar Glória de que, se o trânsito o permitisse, devia chegar dentro de quinze minutos com o seu hóspede especial - ele vai manter a cabeça baixa, querida, e temos de ter a certeza de que não será reconhecido - o que não impediu Glória de telefonar logo a Elena, marcando o número repetidas vezes até a ter em linha, a fim de discutir o menu do jantar - o Justin, coitadinho, adora peixe ou detesta? já não se lembrava, mas tinha a sensação de que era uma coisa ou outra - e meu Deus, El, de que diabo é que eu hei-de conversar com ele quando o Sandy for trabalhar e eu ficar sozinha com o pobre homem durante horas e horas? Quer dizer, todos os assuntos de interesse estão praticamente fora de questão!

 

- Hásde te lembrar de alguma coisa, querida, não te aflijas, - assegurou-lhe Elena amavelmente, com secreta ironia.

 

Mas Glória ainda teve tempo para pôr Elena a par das chamadas absolutamente inoportunas que tinha recebido da parte da imprensa e outras que ela se recusara a atender, preferindo mandar Juma - o nosso criado Wakamba - dizer que o senhor ou a senhora Woodrow não estão neste momento disponíveis para atender o telefone - embora tivesse havido um rapaz do «Telegraph» com modos óptimos com quem ela teria adorado falar, mas Sandy disse logo que não, sob pena de morte.

 

- Talvez ele te escreva, querida, - disse Elena para a consolar.

 

A carrinha Volkswagen com vidros fumados parou à entrada, Woodrow saiu rapidamente para ver se havia jornalistas e imediatamente a seguir Glória teve o privilégio de ver pela primeira vez Justin viúvo, o homem que perdera a mulher e o filho recém-nascido no espaço de seis meses, Justin o marido enganado que deixara de o ser para sempre, Justin com o seu fato tropical feito por medida e o olhar doce que lhe era habitual, o fugitivo secreto que ela ia esconder no andar de baixo da sua casa, Justin tirando o panamá e saltando da carrinha pela porta do fundo, mantendo-se de costas para o público agradecendo a todos, - isto é, Livingstone o motorista, Jackson o guarda e Juma que andava por ali dum lado para o outro sem fazer nada como de costume - com um aceno distraído da sua bela cabeça morena à medida que ia deslizando com o seu porte elegante até à porta de entrada. Ela viu primeiro o rosto dele na sombra, depois à luz breve do pôr-do-sol. Avançou para ela e disse: - Boa tarde, Gloria, é muita bondade tua acolheres-me em tua casa - numa voz controlada com tanta coragem’que ela teve vontade de chorar, e foi o que fez mais tarde.

 

- É um alívio para nós, podermos fazer seja o quefor por ti neste momento, meu querido Justin, - murmurou ela beijando-o com cautelosa ternura.

 

- E não há notícias de Arnold, suponho? Não falou ninguém enquanto vínhamos a caminho?

 

- Lamento imenso, querido, mas nem pio, Estamos todos ansiosos. - Como ele se aguenta, pensou ela. Um verdadeiro herói.

 

Algures em segundo plano Woodrow avisava-a num sussurro consternado de que precisava de voltar mais uma hora ao escritório, meu amor, eu depois telefono, mas ela mal lhe deu atenção. Como se ele tivesse perdido alguém ... !, pensou, sarcástica. Ouviu com indiferença bater as portas do carro e afastar-se o grande Volkswagen. Os seus olhos estavam pregados em Justin, seu pupilo e seu herói trágico. Justin, pensou ela, era vítima desta tragédia tanto quanto Tessa, porque Tessa tinha morrido enquanto Justin fora condenado a carregar com aquele desgosto até à morte. Um desgosto que já lhe acinzentara as faces e lhe modificara o andar e a maneira de olhar para as coisas no seu caminho.

 

Os canteiros de ervas aromáticas, de que Glória tanto gostava e que tinham sido plantadas sob as indicações dele, passaram por ele sem que lhes lançasse sequer um olhar. O mesmo aconteceu com o «rhlus» e os dois arbustos «malus» que ele tão amavelmente se recusara a deixá-la pagar. Porque isso é que era uma das coisas maravilhosas de Justin a que Glória nofundo nem sequer se habituara - este foi um dos assuntos da longa conversa telefónica com Elena naquela mesma noite - que ele era um especialista tremendo em tudo o que era plantas e flores e jardins. E, quer dizer, de onde é que lhe viria aquilo, EI? Da mãe, provavelmente. Ela não era em parte uma Duciley? Pois todos os Ducileys eram jardineiros natos, há séculos e séculos. Porque isto trata-se da botânica clássica inglesa, É ou não é daquelas coisas que a gente lê nos jornais de domingo.

 

Fazendo o seu bem-amado hóspede subir os degraus até à porta da entrada, atravessar o átrio e descer as escadas de serviço até ao andar de baixo, Glória fez-lhe a visita guiada da cela de prisão que iria ser o seu lar durante o tempo da sentença: o armário em contraplacado empenado, para pendurar os teus fatos, Justin, - por que diabo é que ela nunca se lembrara de dar mais cinquenta xelins ao Ebediali e de o mandar pintar aquilo? - a cómoda carunchosa, para as tuas camisas e as tuas meias - porque é que nunca pensara em forrar as gavetas?

 

Mas, como de costume, era Justin que pedia desculpa: - Receio não ter muita roupa para lá meter, Glória. Tenho a casa cercada de caçadores de notícias e o Mustafa deve ter desligado o telefone. Sandy fez o favor de dizer que me emprestava o que fosse preciso até ser possível tentar trazer de lá qualquer coisa às escondidas.

 

- Oh, Justin, desculpa a minha estupidez - exclamou Gloria corando. Mas depois, porque não quisesse ou não soubesse como sair e deixá-lo só, insistiu em mostrar-lhe o velho e horroroso frigorífico atafulhado de garrafas de água e de sumos de fruta - porque é que não mandara substituir a borracha podre da porta? - e o gelo é aqui, Justin, é só pô-lo debaixo da torneira para o soltar - e a chaleira eléctrica de plástico que ela sempre detestara e o pote de louça rachado «recordação de lIfracombe» com uma abelha, com saquinhos de chá Tetley, e a lata de Huntley & Palmers toda amolgada, com biscoitos para o caso de ele querer comer uma coisinha antes de ir para a cama, porque o Sandy é o que faz todas as noites, apesar de o médico o ter mandado perder uns quilitos. E finalmente - graças a Deus tinha feito qualquer coisa de jeito a jarra espectacular com bocas-de-leão de todas as cores que ela própria semeara e cultivara segundo as instruções dele.

 

- Bom, agora vou deixar-te em paz, - disse ela, mas ao chegar à porta lembrou-se envergonhada que ainda faltava exprimir a sua comiseração: - Meu querido Justin, - começou ela.

 

- Obrigado, Glória, mas realmente não é preciso, - cortou ele com uma firrneza surpreendente.

 

Privada do seu momento de ternura, Glória esforçou-se por voltar ao tom das coisas práticas: - Sim... bom, então sobes lá acima sempre que te apetecer, prometes, meu querido? jantar às oito. Teoricamente, claro. Uma bebidazinha antes, se quiseres. Faz exactamente o que te apetecer. Ou nada, se preferires. Só Deus sabe a que horas o Sandy volta para casa...

 

Glória subiu, aliviada, até ao quarto, tomou banho, vestiu-se e pintou-se e depois foi ver os rapazes que estavam a fazer os trabalhos de casa. Subjugados pela presença da morte, os miúdos trabalhavam afanosamente, ou pelo menos fingiam.

 

- Ele está com uma cara muito triste? - perguntou Harry, o mais novo.

- Vocês vão estar com ele amanhã. Quero que sejam muito educados e que façam um ar sério. A Matilda está a fazer os vossos hamburgers. jantam no quarto dos brinquedos e não na cozinha, entendido? - Saiu-lhe boca fora um postscripto, antes de ter tempo para pensar: - Ele é um senhor muito corajoso e muito bom e vocês devem tratá-lo com o maior respeito.

 

Quando desceu até à sala teve a surpresa de encontrar Justin que já lá estava. Ele aceitou um whisky com soda bem servido e ela instalou-se com um copo de vinho branco, na poltrona, que por acaso era a de Sandy, mas ela não estava a pensar em Sandy. Durante uns minutos - ela não fazia ideia de quantos, na realidade - nenhum deles falou mas aquele silêncio tornou-se para Glória um elo cada vez mais forte. Justin ia bebendo devagar mas, para alívio dela, não mostrou seguir o hábito profundamente irritante de Sandy de fechar os olhos e espremer a boca, como se o whisky lhe tivesse sido dado a provar. Copo na mão, Justin foi até à janela da varanda e olhou o jardim inundado de luz - vinte lâmpadas de 150 watts ligados ao gerador da casa iluminavam-lhe metade da cara.

 

- Talvez seja isso que as pessoas acham - disse ele subitamente como se continuasse um diálogo que não tinha existido.

 

- Como, querido? - perguntou Gloria, não tendo a certeza de que a conversa fosse com ela, mas percebendo que ele precisava nitidamente de falar com alguém.

 

- Que somos amados por sermos alguém que realmente não somos. Que somos uma espécie de fraude. Ladrões de amor.

 

Gloria não tinha a ideia de que fosse isso que toda a gente pensava, mas não duvidava de que não deviam pensar. - É claro que não és nenhuma fraude, Justin, - disse ela com energia, - és uma das pessoas mais verdadeiras que conheço, sempre foste. A Tessa adorava-te e não fazia nada de mais, Era uma rapariga cheia de sorte, podes crer. - Quanto a ladrões de amor, pensou ela, não haveria dúvidas para ninguém sobre quem roubava o amor de quem, naquele casal!

 

Justín não reagiu a esta declaração tão convicta, ou pelo menos ela não se apercebeu de qualquer reacção, e por momentos tudo o que ela ouviu foi uma reacção em cadeia de cães a ladrar - começou um, depois todos responderam ao longo de toda aquela alameda privilegiada de Muthaiga.

 

- Sempre foste óptimo para ela, Justin, tu bem sabes. Não deves andar a castigar-te por crimes que não cometeste. Há muita gente que o faz, quando perde um ser amado e isso é uma injustiça para consigo próprio. Não podemos tratar os outros como se eles fossem morrer no momento seguinte, ou então nunca se chegava a parte nenhuma. Não achas que tenho razão? Tu sempre foste leal para com ela. Sempre. - assegurou ela, sugerindo implicitamente

que o mesmo se não pudesse talvez dizer de Tessa. E ele não foi insensível à sugestão, de certeza: Gloria iria jurar que ele se preparava para falar naquele desgraçado Arnold Bulim quando, para sua extrema irritação, ouviu o barulho da chave do marido na porta e percebeu que se acabara o encanto.

 

- Justin, meu pobre amigo, como vai isso? - gritou Woodrow servindo-se parcamente, o que não era costume, de vinho branco antes de se deixar cair pesadamente no sofá. - Não há notícias, lamento dizê-lo. Nem boas nem más. Não há pistas, não há suspeitos, pelo menos por enquanto. Não há sinal do Arnold. Os belgas emprestam um helicóptero e Londres vai mandar outro. Dinheiro, dinheiro, dinheiro, é a nossa maldição. Mas também, porque não, ele é cidadão belga. Que bonita que tu estás, querida. Que há para jantar?

 

Tem estado a beber, pensou Glória com asco. Finge estar a trabalhar até tarde e ali fica no escritório a beber, enquanto eu obrigo os rapazes a fazer os trabalhos de casa. Sentiu um movimento perto da janela e viu desolada que Justin se preparava para se retirar - assustado sem dúvida pela insensibilidade pé-de-boi do seu marido.

 

- Então não comes? - protestou Woodrow. - Tens de manter as forças, rapaz, não vês?

 

- É muito simpático da tua parte, mas receio não ter apetite. Glória, obrigado mais uma vez. Boa noite, Sandy.

 

- O Pellegrin mandou de Londres fortes mensagens de apoio. O Foreigner Office inteiro ficou abalado com o desgosto. Ele próprio diz que não quer intrometer-se pessoalmente.

 

- O Bernard sempre foi uma pessoa cheia de tacto.

 

Glória viu a porta fechar-se, ouviu-o descer a escada de cimento, viu o copo vazio pousado na mesa de bambu ao lado daJanela e, por um momento de terror, convenceu-se de que nunca mais o voltava a ver.

 

woodrow engoliu o jantar atrapalhadamente, sem o saborear como costumava. Glória, que tal como Justin não tinha apetite, observava-o. juma, o criado, andava em bicos de pés entre um e outro e observava-os também.

 

- Como vai aquilo? - murmurou Woodrow em tom conspiratório, baixando a voz e apontando para o chão para que ela fizesse o mesmo.

 

- Tem estado bem - respondeu Glória imitando-o. - Apesar de tudo. Que estarás tu a fazer aí em baixo? pensava ela. Estarás deitado na cama, flagelando-te em silêncio? Ou a olhar o jardim por trás das barras de ferro, falando com o fantasma dela?

 

- Surgiu alguma coisa de significativo? - Perguntou Woodrow tropeçando na palavra «significativo,», mas tentando sempre falar por alusões, por causa de Juma.

 

- De que género?

 

- Daquele amor-perfeito, - respondeu ele e, com uma careta cheia de intenção, apontou para as begónias dela e, só com a boca, pronunciou «Bluhm ... ”, o que fez Juma sair a toda a pressa para ir buscar um jarro com água.

 

Glória ficou acordada durante horas ao lado do marido que ressonava; por fim, imaginando ouvir barulho em baixo, esgueirou-se até ao patamar e espreitou pela janela. O corte de energia terminara e um reflexo alaranjado subia da cidade até às estrelas. Mas o jardim iluminado não abrigava Tessa, nem sequer Justin. Voltou para o quarto e deu com Harry atravessado na cama deles em diagonal, dormindo com o polegar na boca e um braço estendido sobre o peito do pai.

 

A família levantou-se cedo, como de costume, mas Justin já estava à espera, com o seu fato amarrotado. Ela achou-o afogueado, um pouco desorientado, demasiada cor à volta dos olhos castanhos. Os rapazes apertaram-lhe a mão, gravemente como lhes tinham mandado e Justin correspondeu ao cumprimento meticulosamente.

 

- Olá, Sandy, bom dia, - disse ele logo que Woodrow apareceu. - Gostava de te dar uma palavra, se pode ser.

 

Os dois homens retiraram-se para a saleta.

 

É a respeito da minha casa, - começou Justin logo que ficaram sós. Aqui ou em Londres, meu velho? - respondeu Woodrow esforçando-se inutilmente por se mostrar prazenteiro. E Glória, que estava à escuta pelo Postigo de serviço da cozinha, teve vontade de o matar.

 

- Aqui em Naírobi. Os papéis pessoais dela, cartas de advogados, os documentos que dizem respeito aos seus bens de família. Documentos que eram Preciosos para ambos nós. Não posso deixar a sua correspondência pessoal à solta, para a polícia do Quénia a saquear à vontade.

 

- Então qual é a solução, meu velho?

 

- Tenho de passar por lá o mais depressa possível.

 

Que firmeza! pensou Glória com admiração. Tão enérgico, apesar de tudo!

- Isso é impossível, meu caro. Aqueles primitivos comiam-te vivo.

 

- Não acho, para dizer a verdade. O mais que podem fazer é tentar fotografar-me, suponho. Gritar coisas. Se eu não responder, não há mais nada que eles possam fazer. É tentar apanhá-los enquanto eles estão a fazer a barba.

 

Glória conhecia as fraquezas do marido de trás para diante. Daqui a um instante está a falar para o Bernard Pellegrin, em Londres. É o que ele costuma fazer, sempre que precisa de passar por cima do Porter Coleridge e ter a resposta que quer ouvir.

 

- Olha meu velho, vamos fazer uma coisa. Porque é que não me escreves uma lista do que precisas e eu passo-a ao Mustafa duma maneira ou doutra e mando-o trazer cá as coisas?

 

Típico, pensou Glória furiosa. Marcarpasso, ganhar tempo, procurar a maneira mais fácil de se safar. Sempre.

 

- O Mustafa não pode ter uma ideia do que há-de escolher, - ouviu ela Justin dizer, tão firme como antes. - Uma lista não lhe servia de nada. Mesmo uma lista das compras já é demais para ele. Eu devo-lhe isto a ela, Sandy. É uma dívida de honra que eu tenho de me encarregar, quer tu venhas comigo ou não. A classe vem sempre ao de cima!

 

Glória aplaudiu em silêncio do seu posto de escuta. Bem jogado! Mas nessa altura, embora o seu espírito se estivesse abrindo em várias direcções inesperadas, não lhe ocorreu que o marido pudesse ter as suas próprias razões para querer visitar a casa de Tessa.

 

A imprensa não estava a fazer a barba, Justin enganara-se. Ou então, estavam a barbear-se nas cercaduras de relva do lado de fora da casa de Justin, onde tinham acampado toda a noite em carros de aluguer, deitando o lixo para os maciços de hortênsias. Um par de vendedores ambulantes negros, de calças às riscas e chapéus altos à Tio Sam tinham aberto uma tenda para o chá. Outros assavam maçarocas sobre brasas. Junto de um carro-patrulha muito velho juntavam-se alguns polícias enxovalhados bocejando e fumando cigarros.

O chefe, um homem espantosamente gordo com um cinto de polimento castanho e um Rolex de ouro, achava-se escarrapachado dentro do carro no lugar do condutor, de olhos fechados. Eram sete e meia da manhã. A cidade estava oculta por nuvens baixas. Grandes pássaros negros trocavam de lugar nos fios telefónicos à espera do momento de fazer um voo picado em direcção ao que houvesse para comer.

 

- Segue em frente e depois pára. - Ordenou Woodrow em tom marcial do banco de trás da carrinha.

 

As posições eram as mesmas do dia anterior: Livingstone e Jackson à frente, Woodrow e Justin encolhidos no banco de trás. 0 Volkswagen preto tinha uma matrícula CD, mas o mesmo se passava com metade dos veículos em Muthaíga. Um olhar bem informado poderia ter reconhecido o prefixo britânico no número da matrícula, mas nenhum olhar desses estava presente e ninguém se interessou especialmente ao ver Livingstone passar sem pressa diante do portão e começar a subir uma pequena encosta, Depois parou e puxou o travão de mão,

 

- Jackson, sai da carrinha e desce devagar a encosta até ao portão da casa do Sr. Quayll. Como se chama o teu guarda-portão? - perguntou a Justin.

 

- Omari, - respondeu Justin.

 

- Diz a Omari que, quando vir aproximar-se a carrinha, deve abrir o portão no último momento e fechá-lo logo que a carrinha tenha entrado. Fica com ele para termos a certeza de que ele não se atrapalha, Vai lá.

 

Encantado com o seu papel, Jackson desceu da carrinha, espreguiçou-se, interessou-se pela fivela do cinto e finalmente dirigiu-se encosta abaixo até ao portão de Justin onde, sob os olhares da polícia e dos jornalistas, tomou lugar ao lado de Omari.

 

- Muito bem, agora recua, - ordenou Woodrow a Livingstone. - Muito devagar. Não tenhas pressa.

 

Livingstone libertou o travão de mão e, com o motor sempre ligado, deixou a carrinha descair lentamente pela encosta abaixo e descrever uma curva até a traseira da carrinha estar encaixada na abertura da entrada de veículos à porta de Justin. Está a fazer uma inversão de marcha, devem ter pensado os circunstantes. Mas, se o pensaram, não foi por muito tempo, porque no momento seguinte Livingstone carregara no acelerador e lá foi em marcha atrás direito ao portão, obrigando os jornalistas atónitos a saltar para a esquerda e para a direita. As portas de ferro abriram-se como se tivessem asas, puxadas dum lado por Omari e do outro por Jackson, A carrinha passou e as portas fecharam-se de novo com estrondo. Do lado de dentro, Jackson saltou de novo para dentro da carrinha, enquanto Livingstone, sem parar, continuava até ao pátio e galgava os dois degraus até ficar a poucos centímetros da porta da casa, que Mustafa, o criado de Justin, com notável previsão, abriu do lado de dentro, enquanto Woodrow empurrava Justin à sua frente, saltando depois para dentro do átrio e fechando a porta atrás de si.

 

A casa estava às escuras. Por respeito para com Tessa ou medo dos jornalistas, os criados tinham corrido o reposteiros. Os três homens pararam no átrio, Justin, Woodrow e Mustafa. Mustafa chorava em silêncio. Woodrow conseguiu entrever a sua cara amarfanhada, uma careta de dentes brancos, as lágrimas correndo largamente pela cara, quase até debaixo das orelhas. Justin agarrava-o pelos ombros e consolava-o. Woodrow ficou sobressaltado, e depois ofendido, por aquela demonstração de afecto da parte de justin, tão pouco britânica. Justin apertou Mustafa contra si até as maxilas cerradas do criado descansarem no seu ombro. Embaraçado, Woodrow desviou os olhos. Ao fundo outras sombras tinham aparecido, vindas da área da criadagem: o rapazinho do Uganda, um shamba, que só tinha um braço e era clandestino, que ajudava Justin no jardim e cujo nome Woodrow nunca conseguira reter na memória, e a refugiada clandestina do Sul do Sudão que se chamava Esmeralda e estava sempre a arranjar sarilhos por causa dos homens. Tessa era tão sensível às histórias de amor como adversa aos interditos e regulações locais. As vezes a casa dela parecia um albergue pan-africano para deficientes e desvalidos. Woodrow censurava várias vezes Justin a esse respeito, mas só encontrara uma parede inamovível. Esmeralda era a única que não chorava. Tinha aquele ar de pedra que os brancos tomam por grosseria e indiferença. Mas Woodrow sabia que não era uma coisa nem outra. Era o reconhecimento de uma situação já vivida. Queria dizer: isto é a vida real. Isto é a dor, o ódio, as pessoas cortadas às postas. Isto é a vida de todos os dias, a vida que nós conhecemos desde que nascemos e vocês, os Wazungu, não conhecem.

 

Afastando Mustafa suavemente, Justín recebeu Esmeralda num aperto de mão duplo, durante o qual ela encostou um lado da cabeça entrançada contra a testa dele. Woodrow teve a sensação de estar a ser admitido num círculo de afecto com que ele nunca sonhara. Seria possível alguma vez Juma chorar assim se cortassem o pescoço a Glória? Chorava uma ova! Ou Ebediah? Ou a criada nova de Glória, que nem sei como se chama? Justin apertou contra si o jovem do Uganda, acariciou-lhe a cara, depois voltou as costas a todos e agarrou firmemente com a mão direita o corrimão da escada. Revelando de súbito o velho que em breve seria, começou a subir escada acima, degrau a degrau. Woodrow viu-o chegar à sombra do patamar e desaparecer dentro do quarto em que Woodrow nunca entrara, embora tivesse desejado fazê-lo furtivamente em inúmeras ocasiões.

 

Uma vez sozinho, Woodrow hesitou, sentindo-se ameaçado, o que lhe acontecia sempre que entrava em casa dela: como um rapaz do campo acabado de chegar à cidade. Se isto é um cocktail, porque é que eu não conheço estas pessoas? Que causa é que nos vão pedir para apoiarmos esta noite? Em que sala estará ela? Onde está Bluhm? A seu lado, provavelmente. Ou na cozinha, fazendo rir os criados até ao paroxismo. Lembrando-se do que o levava ali, Woodrow percorreu cautelosamente a penumbra do corredor até à porta da sala de estar. Não estava fechada à chave. Lâminas do sol da manhã esgueiravam-se através das cortinas, iluminando escudos e máscaras e frágeis tapeçarias feitas à mão por paraplégicos, com que Tessa conseguira dar vida ao consternante mobiliário oficial. Como conseguira ela tornar tudo tão bonito com aquela sucata? A lareira de tijolo é igual à nossa, encaixada em traves de ferro a fingir madeira de carvalho como na velha Inglaterra. Era tudo igual ao que nós tínhamos, em mais pequeno porque os Quayll não tinham filhos e eram de um grau inferior. Então porque é que a casa de Tessa parecia sempre ser autêntica e a nossa uma espécie de irmã feia e sem imaginação?

 

Parou no centro da sala, travado pelo poder da memória. Aqui foi onde eu estive a ralhar com ela, a filha de uma condessa, ao lado desta mesinha de embutidos de que a mãe gostava tanto, disse ela, enquanto eu me agarrava às costas desta frágil cadeira de pau-cetim, pontificando como um pai vitoriano. Tessa estava ali de pé em frente da janela e a luz do sol atravessava-lhe o vestido de algodão. Saberia ela que eu estava a falar com uma silhueta nua? Que só olhar para ela era materializar o meu sonho acerca dela, a minha rapariga na praia, a minha desconhecida num comboio?

 

- Pensei que o melhor que eu tinha a fazer era passar por cá, - começa ele com severidade.

 

- E porque havia de pensar uma coisa dessas, Sandy? - pergunta ela.

 

São onze da manhã. A reunião da chancelaria já terminou, Justin foi despachado com limpeza para kampala, para assistir a um desses encontros inúteis de três dias sobre Auxílio & Eficiência. Eu vim aqui para tratar dum assunto oficial mas deixei o carro numa rua lateral como um amante culpado de visita à jovem e bela esposa de um colega. E meu Deus, como ela é bonita! Meu Deus, como é jovem! A juventude daqueles seios altos e pequenos que não oscilam nunca... Como é que o Justin é capaz de a deixar sair da sua vista? A juventude daqueles olhos cinzentos, alargados pela indignação, daquele sorriso demasiado sagaz para a idade. Woodrow não pode ver o sorriso porque ela está em contra-luz. Mas pode ouvi-lo na voz dela. Uma voz trocista, astuciosa, cheia de classe. Ele é capaz de a reviver na memória em qualquer altura. Como pode reviver a linha da cintura e das coxas na silhueta nua dela, a fluidez do seu andar de fazer perder a cabeça, não admira que ela e Justin se tenham apaixonado um pelo outro - pertencem à mesma coudelaria de puro-sangues, com dez anos de diferença.

 

- Francamente, Tess, isto não pode continuar,

- Não me chame Tess.

 

- Porque não?

 

- Esse nome está reservado.

 

Para quem?, gostava ele de saber. Bluhm, ou outro qualquer dos seus amantes? Quayll nunca lhe chamava Tess. Nem Ghita, tanto quanto ele sabia.

- Não pode andar por aí a exprimir-se com tanta liberdade. Refiro-me às suas opiniões.

 

E depois a passagem que ele preparara de antemão, em que a advertia do seu dever como esposa responsável de um diplomata em exercício. Mas não conseguiu chegar ao fim. A palavra dever fê-la saltar.

 

- Sandy, o meu dever é para com a África. Qual é o seu?

 

Fica surpreendido por ter de responder a tal pergunta. - Para com o meu país, perdoe-me o tom pretensioso. Tal como Justin. Para com o Serviço e o meu Chefe de Missão. Chega-lhe a resposta?

 

- Bem sabe que não. Nem por sombras. Está a quilómetros de distância.

- Como é que hei-de saber uma coisa dessas?

 

- Julguei que tinha passado por cá para me falar dos documentos alarmantes que eu lhe confiei.

 

- Não, Tessa, nada disso. Vim cá para lhe pedir que pare de se exprimir dessa maneira acerca das malfeitorias do governo de Moi, perante todo o bicho-careta que passa por Nairobi. Vim aqui para lhe dizer que seja dos nossos para variar, em vez de... olhe, acabe a frase como entender, - disse ele secamente.

 

Teria eu falado com ela daquela maneira se soubesse que ela estava grávida? Provavelmente, não com tanta franqueza. Mas teria falado à mesma. Terei adivinhado que ela estava grávida, enquanto tentava não reparar na sua silhueta nua? Não, estava a desejá-la a um ponto quase insuportável, como ela podia verificar pela minha voz alterada e os meus movimentos rígidos.

 

- Então não os leu, - disse ela agarrando-se teimosamente ao assunto dos documentos. - Vai-me dizer daqui a nada que não teve tempo.

 

- Claro que li.

 

- E qual é a sua opinião depois de os ter lido, Sandy?

 

- Não me dizem nada que eu não saiba e não há nada que eu possa fazer.

- Ali sim, Sandy? essa atitude é muito negativa. Pior. é pusilânime. Não pode fazer nada porquê?

 

E Woodrow, odiando o som das próprias palavras: - Porque somos diplomatas e não polícias, Tessa. Está a dizer que o governo Moi é totalmente corrupto. Nunca o pus em dúvida. A população está a morrer com Sida, o país está na bancarrota, não há um único aspecto, do turismo à vida selvagem, à educação, aos transportes, à assistência, às comunicações, que não esteja a cair aos bocados devido à fraude, incompetência e negligência. Muito bem observado! Os ministros e os funcionários estão a desviar camiões cheios de comida e produtos farmacêuticos destinados aos refugiados que morrem de fome, por vezes com a conivência dos próprios funcionários das agências de auxílio, diz você. Claro que estão! Os gastos na saúde deste país resumem-se a cinco dólares por cabeça e por ano e isso é antes que toda a gente, desde cima até abaixo da hierarquia, tenha tirado o seu quinhão. já é rotina da polícia maltratar quem seja tão tanso que queira trazer esses assuntos à atenção do público. É outra verdade. A Tessa estudou os métodos deles. Diz que usam a tortura da água; ensopam as pessoas antes de as espancar, o que reduz as marcas visíveis. Tem razão. É o que eles fazem. Nisso não são selectivos. E nós não protestamos. Também alugam as armas a certos gangs de assassinos seus amigos, que têm de as devolver antes do nascer do sol, senão perdem o depósito. A Alta Comissão partilha da sua repulsa mas continuamos a não protestar. E porque não? Porque estamos aqui, graças a Deus, a representar o nosso país e não o deles. Temos trinta e cinco mil cidadãos britânicos no Quénia, cuja sobrevivência precária depende de um capricho do Presidente Moi. A Alta Comissão não tem por objectivo tornar-lhes a vida ainda mais difícil do que já é.

 

- E tem os interesses dos negociantes britânicos a defender, - lembra ela com ironia.

 

- Isso não é nenhum pecado, Tessa - riposta ele, tentando arrancar o olhar da sombra dos seios dela através daquele sopro de vestido. - O comércio não é pecado. Os negócios com países em vias de desenvolvimento não são pecado. Em boa verdade, o comércio até ajuda o desenvolvimento. Torna possíveis as reformas, o gênero de reformas que todos desejamos. Ajuda a trazê-los para o mundo moderno. Dá-nos a nós a possibilidade de os ajudar a eles. Como é que podemos ajudar um país pobre se nós próprios não formos ricos?

 

- Isso é conversa da merda.

- Perdão?

 

Ela cortou imediatamente: - Então é: «ArquiVar e passar adiante.» É isso? «Não tomar medidas, de momento. Assinado: Sandy.» óptimo! A mãe de todas as democracias revela-se mais uma vez como uma hipócrita mentirosa, que prega liberdade e direitos humanos para todos, menos quando isso a impede de ganhar uns cobres.

 

- Isso é de uma grande injustiça! Eu não discuto que a rapaziada do Moi é um bando de criminosos e o velho ainda cá está para ficar. Mas há boas esperanças de futuro. Uma palavrinha dita ao ouvido certo, a cessação colectiva da prestação de auxílio da parte dos países doadores, a diplomacia silenciosa... Tudo isso está a ter o seu efeito. E Richard Leakey vai ser chamado ao Governo para pôr fim à corrupção e assegurar aos doadores que podem recomeçar o seu auxílio com a certeza que não vai servir para financiar as negociatas do Moi. - Dá-se conta que está a falar como urti folheto oficial. 0 pior é que ela também deu conta, o que demonstra com um bocejo monumental.

- 0 Quénia pode não ter um grande presente mas tem certamente um grande futuro, - termina ele corajosamente. Espera por um sinal recíproco dela que indique que ambos entraram numa espécie de tréguas, embora não destituída de espinhos.

 

Mas Tessa não é uma conciliadora - lembra-se ele, tarde demais, como o não é também Ghita, a sua amiga de peito. São ambas suficientemente jovens para julgar que existem verdades simples. - 0 documento que eu lhe dei indica nomes, datas e contas bancárias - insiste ela sem dó nem piedade. - Há ministros identificados pelos nomes e incriminados. Será isso também uma palavrinha no ouvido certo? Ou não está lá ninguém para escutar?

 

- Tessa...

 

Ela está a afastar-se dele, quando ele veio ali para se aproximar dela.

- Sandy?

 

- Eu percebo o seu ponto de vista. E dou-lhe toda a atenção. Mas por amor de Deus - regresse à terra! - está por acaso a sugerir que o Governo de Sua Majestade na pessoa de Bernard Pellegrin dirija uma caça as bruxas contra ministros devidamente acreditados do Governo do Quénia?! Quer dizer... meu Deus, não é como se nós britânicos estivéssemos sempre acima da corrupção. Imagine o que a Alta Comissão do Quénia em Londres nos vinha dizer para varrermos também diante da nossa porta?

 

- Isso é tudo uma treta e você bem o sabe! - corta Tessa, de olhos fuzilantes.

 

Woodrow não contara com Mustafa, que entra silenciosamente no alpendre. Com grande precisão começa por colocar uma mesinha a meio caminho entre os dois, depois um tabuleiro de prata com uma cafeteira de prata e o cestinho de prata da falecida mãe de Tessa cheio de bolachas de manteiga. A interrupção estimula evidentemente o sentido teatral sempre presente em Tessa que se ajoelha muito direita atrás da mesinha, de ombros para trás, o vestido esticado sobre os seios e vai pontuando o seu discurso com perguntas mordazes sobre as preferências dele,

 

- É simples, Sandy, ou com uma gota de leite - não me recordo? - pergunta com exagerada cortesia. Esta é maneira farisaica como nós vivemos - é o que ela quer dizer - um continente inteiro está a morrer à nossa porta e aqui estamos nós a tomar café numa bandeja deprata enquanto nesta rua mais abaixo há crianças a passar fome, doentes a morrer epolíticos corruptos a arruinar a nação quefoi levada ao engano e os elegeu. - Uma caça às bruxas - já que fala nisso

- seria uma excelente maneira de começar. É nomeá-las, envergonhá-las, cortar-lhes as cabeças e espetá-las às portas da cidade, é a minha receita. O pior é que isso não resulta. Todos os anos a mesma Lista da Vergonha é publicada nos jornais de Nairobi e são sempre nos mesmos políticos quenianos que nela figuram. Ninguém é despedido, ninguém é levado a tribunal. - Entrega-lhe uma chávena, rodando sobre os joelhos. - Mas isso não o incomoda, pois não? Você é um homem do statu quo. Essa é a decisão que tomou. Ninguém lha impôs. Foi você que a escolheu. Você, Sandy. Um dia olhou para o espelho e pensou: - Olá! de hoje em diante vou tratar o mundo tal e qual como ele é. Vou obter as melhores vantagens que puder para a Inglaterra e vou chamar a isso o meu dever. Não interessa se esse dever é o que assegura a sobrevivência de um dos governos mais asquerosos do mundo. Seja como for, é o que eu vou fazer. - Tessa oferece açúcar, que ele recusa em silêncio. - É por isso que não podemos estar de acordo, não acha? Eu quero denunciar esse estado de coisas. Você quer que eu enterre a cabeça onde você enterrou a sua. 0 que para uma mulher é um dever, para um homem é mais uma ocasião de fugir às responsabilidades. É o costume.

 

- E Justin? - Woodrow joga a sua última e inútil cartada. - Qual é o papel dele no meio de tudo isto, não me dirá?

 

Sentindo a ratoeira, ela fica rígida. - 0 justin é o justin, - responde cautelosamente. - Ele fez a sua escolha, como eu fiz a minha.

 

- E o Bluhm é o Bluhm, suponho, - comenta Woodrow com sarcasmo, levado pelo ciúme e a cólera a mencionar o nome que ele jurara a si próprio nunca pronunciar em circunstância alguma. E, aparentemente, ela jurara não o ouvir. Com um autocontrolo doloroso cerra a boca, à espera que ele se enterre ainda mais. 0 que ele não deixa de fazer. Em grande. - Não acha que anda a prejudicar a carreira do seu marido, por exemplo? - pergunta ele desdenhosamente.

 

- Foi para isso que veio ver-me?

- Basicamente, foi.

 

- Julguei que tinha vindo cá para me salvar de mim mesma. Mas afinal parece que veio para salvar o Justin. Vejo que é amigo do seu amigo.

 

- Sempre imaginei que os interesses dele e os seus eram idênticos. Invadida pela cólera, ela solta uma risada tensa e sem humor. Mas, ao contrário de Woodrow, não perde o domínio de si mesma. - Meu Deus, Sandy, você deve ser a única pessoa em Nairobi que imagina uma coisa dessas! - Levanta-se.

0 jogo terminou. - Agora acho que é melhor ir-se embora. As pessoas podem começar a falar de nós. Fique descansado, que eu não lhe mando mais documentos. Não posso permitir que você gaste mais a retalhadora de papel do Alto Comissário, não acha? Ainda podia vir a perder pontos para a sua promoção.

 

ReviVendo aquela cena, como o vinha fazendo repetidamente durante os doze meses desde que ela tivera lugar, sentindo de novo aquela humilhação e a frustração e o olhar de desprezo dela nas suas costas enquanto ele se retirava, Woodrow abriu sub-repticiamente uma estreita gaveta na mesínha de embutidos de que a mãe dela tanto gostara e varreu com a mão o interior para agarrar tudo o que lá estivesse, Eu estava bêbado, estava louco, dizia a si próprio tentando justificar aquele acto. Tive ânsia de fazer qualquer coisa de temerário. Estava a tentar fazer desabar o tecto por cima da cabeça para poder ver o céu limpo.

 

Uma folha de papel - era tudo o que ele pedia abrindo e fechando gavetas, passando os olhos e as mãos por prateleiras - uma simples folha de papel de carta azul do Serviço de Sua Majestade escrito só dum lado por mim, dizendo aquilo que não se pode dizer por palavras mas que por uma vez não pode dar lugar a equívocos, não a dizer Se por um lado é assim, por outro não possofazer nada acerca do assunto - e assinado, não S. ou S.W, mas Sandy numa letra legível e até o nome Woodrow em maiúsculas, para mostrar ao mundo inteiro e a Tessa Quayll que, durante cinco minutos de delírio, de volta ao seu escritório nessa mesma tarde, com a silhueta dela nua ainda na memória e um enorme copo de whisky ao lado, um certo apaixonado transido de timidez, um tal SandyWoodrow, Chefe de Chancelaria na Alta Comissão Britânica em Nairobi, cometera um acto de loucura deliberado, calculado, único, pondo em risco carreira, mulher e filhos, num esforço inútil para pôr de acordo a sua vida e os seus sentimentos.

 

E, tendo escrito o que escreveu, meteu a dita carta num envelope de Sua Majestade e selou o dito envelope com uma língua a cheirar a whisky. Tendo nele escrito cuidadosamente a morada - e ignorando todas as vozes interiores do senso comum que lhe suplicavam que esperasse uma hora, um dia, outra encarnação, que bebesse outro scotch, metesse férias ou pelo menos mandasse a carta amanhã de- manhã depois de ter dormido sobre o assunto - levou-a em triunfo até ao gabinete do correio da Alta Comissão onde um empregado local de raça Kkuyu. chamado Jorno, em honra do grande Kenyatta, sem inquirir porque é que um Chefe de Chancelaria havia de enviar por mão própria uma carta marcada PESSOAL à silhueta nua da inda rapariga que era esposa de um colega e subordinado, a meteu num saco marcado LOCAL e NÃO-SECRETO, entoando obsequiosamente «Bo’noite, Sr. Woodrow, Sir!» na direcção das costas que se afastavam,

 

Cartões de Natal antigos.

 

Convites antigos marcados com uma cruz pela mão de Tessa significando «não». Outros, mais enfaticamente, marcados «nunca».

 

Um cartão a desejar «melhoras» com aves indianas, de Ghita Pearson.

 

Um bocado de fita, uma rolha de garrafa de vinho, uns tantos cartões de visita de diplomatas presos por uma mola de metal.

 

Mas nenhuma folha azul de papel de carta de Sua Majestade acabando num gatafunho triunfante: «Amo-a, amo-a e amo-a, Sandy.»

 

Woodrow deslizou rapidamente entre as últimas prateleiras, folheando livros ao acaso, abrindo caixinhas, aceitando a derrota. Domína-te, homem, ordenou, tentando transformar em boas as más notícias. Pronto: não há carta. E porque é que havia de haver? Tèssaf Ao fim de doze meses Provavelmente atirou-a para o cesto dos papéis no dia em que a recebeu. Uma mulher daquelas, provocante, um marido que é um banana, devem tentar engatá-la duas vezes por mês. Três vezes! Todas as semanas! Todos os dias! Estava a suar. Em África o suor brotava dele como uma chuva oleosa e depois secava. Ficou de pé, deixando cair a torrente, à escuta.

 

Que estará o raio do homem a fazer lá em cima? Devagar, para trás e para a frente? Papéis pessoais, dissera ele, Cartas de advogados. Que papéis guardaria ela lá em cima, demasiado pessoais para o andar de baixo? 0 telefone da sala estava a tocar. Estivera a tocar ininterruptamente desde que tinham entrado em casa, mas ele só agora dera por isso. jornalistas? Amantes? Quero lá saber. Deixá-lo tocar. Estava a tentar reconstituír a planta do andar superior da sua casa e aplicá-la a esta. Justin encontrava-se precisamente por Cima dele, à esquerda de quem sobe a escada. Havia um quarto de vestir, a casa de banho e depois o quarto de cama principal. Woodrow lembrou-se de ouvir Tessa dizer que convertera o quarto de vestir num escritório para ela: Não são só os homens que têm gabinetes, Sandy. Nós, as raparigas, também temos. - Dissera ela provocatoriamente como se estivesse a referir-se às partes do corpo. Em cima o ritmo mudara, Agora estás a escolher coisas a toda a volta do quarto. Que coisas? Documentos que são preciosos para ambos nós. E talvez para mim também, pensou Woodrow, lembrando-se da sua imprudência com um engulho no estômago,

 

Descobrindo que se encontrava quase à janela que dava para o jardim das traseiras, afastou a cortina e viu maciços de arbustos em flor, o orgulho de Justin nos dias de «casa aberta» para os funcionários subalternos, em que servia morangos, natas e vinho branco fresco e os levava a visitar o seu Eliseu. «Um dia de jardinagem no Quénia vale dez dias em Inglaterra,,, costumava dizer durante as suas peregrinações por todo o jardim da Chancelaria oferecendo flores a rapazes e raparigas. Era o único assunto, vendo bem, acerca do qual alguém o ouvira gabar-se. Woodrow espreitou de lado, ao longo da colina. A casa dos Quayle ficava a pouca distância da sua. Dado o perfil da colina, de noite podiam ver-se as luzes uma da outra. 0 seu olhar procurou a janela de onde tantas vezes ele se sentira compelido a olhar nesta direcção, De súbito, sentiu-se mais perto de chorar do que nunca sentira. 0 cabelo dela tocava-lhe o rosto. Era como se nadasse nos olhos dela, se sentisse o seu perfume e o doce aroma de erva morna que dela emanava quando dançavam juntos naquele Natal no Clube Muthaiga e por mero acidente o cabelo dela roçara o seu nariz. É das cortinas, percebeu, enquanto acabava de engolir as lágrimas. As cortinas mantiveram o perfume de Tessa e eu estou precisamente encostado a elas. Num impulso, agarrou-as em ambas as mãos, para nelas mergulhar o rosto.

 

- Obrigado, Sandy. Desculpa ter-te feito esperar.

 

Voltou-se de um salto afastando de si as cortinas. Justin aparecera à porta, com um ar tão perturbado como Woodrow sentia ser o seu e trazendo uma pasta «de ministro» em cabedal amarelo do feitio duma salsicha dupla, completamente cheia e muito coçada, com fechos de latão, cantos de latão e fechaduras de latão de ambos os lados.

 

- Então, tudo bem, meu caro? Saldada a dívida de honra? -, perguntou Woodrow entalado mas, como bom diplomata, recuperando o seu charme imediatamente. - óptimo! Ora bem. Encontraste tudo o que querias? É isso tudo? -Acho que sim. Sim, até certo ponto.

 

- Não pareces muito seguro.

 

- Não? É sem querer. Isto era do pai dela, - explicou indicando a pasta.

- Mais parece duma parteira, - disse Woodrow, muito camarada.

 

Fez um gesto para ajudar, mas Justin preferiu ser ele a levar o seu tesouro. Woodrow subiu para a carrinha, Justin seguiu-o e sentou-se com uma mão a volta das velhas asas de cabedal. Vindas de fora, ouviram-se as provocações dos repórteres:

 

- Sr. Quayle, acha que foi o Bluhm que a naifou?

 

- Ei. Justín, o meu jornal oferece uma pipa de massa...

 

Vindo da casa, por entre os toques do telefone, Woodrow julgou ouvir um choro de criança e apercebeu-se de que era Mustafa.

 

 

 

A princípio, a cobertura dada pela imprensa à morte de Tessa não fora nem por sombras tão calamitosa como Woodrow e o Alto Comissário tinham receado. Aqueles palermas que têm tanto jeito para inventar qualquer coisa onde não há nada, como observou Coleridge, parecem também capazes de não encontrar nada onde há qualquer coisa. E foi 0 que aconteceu, para começar. «Assassinos do Mato Degolam Esposa de Diplomata Britânico», era o primeiro título das reportagens; e esta categórica manchete, escrita a toda a largura das folhas dos jornais e de cima abaixo nos tabelóides era o que melhor se adaptava a um público esclarecido. Teciam-se considerações acerca dos riscos crescentes que corriam os agentes do Auxílio e Cooperação em todo o mundo, havia editoriais acerbos sobre a incapacidade das Nações Unidas de proteger os seus próprios colaboradores e a dificuldade cada vez maior em encontrar gente suficientemente corajosa para se alistar no serviço humanitário. Falava-se muito de tribos sornali. procurando gente que pudessem devorar, de feitiçaria, de assassinatos rituais e o horripilante tráfico de peles humanas. Dava-se um significado especial à presença de gangs nómadas de imigrantes ilegais vindos do Sudão, da Somália e da Etiópia. Mas nem uma palavra acerca do facto irrefutável que Tessa e Bluhm, à vista de hóspedes e empregados, tinham partilhado um bangalô na noite anterior ao crime. Blulim aparecia como um «funcionário humanitário belga» - certo - um «conselheiro médico das Nações Unidas» - errado - um «especialista em doenças tropicais» - errado - e receava-se que tivesse sido raptado pelos assassinos, a fim de ser morto ou trocado por dinheiro.

 

A ligação entre o experiente Dr. Arnold Bluhm e a sua Jovem e bela protegida era considerada como empenho humanitário e mais nada. Noah só foi mencionado nas primeiras notícias e depois morreu uma segunda vez. 0 sangue dos negros, como qualquer aprendiz de jornalista sabe, não constitui notícia, mas uma decapitação merece ser mencionada. Os projectores incidiam sem dó nem piedade sobre Tessa, a Rapariga da Alta Sociedade Formada em Direito pelas Mais Prestigiosas Instituições, a Princesa Diana dos Pobres de África, a Madre Teresa dos Bairros de Lata de Nairobi, e o Anjo do Foreigri Office de Coração Generoso. Um editorial do Guardian centrava-se no facto da Mulher Diplomata do Milénio [sic] ter encontrado a morte no próprio Berço da Humanidade, as escavações Leakey e tirava daí a conclusão inquietante de que, embora as atitudes raciais tenham mudado, não podemos perscrutar os poços de selvajaria que se encontram nas mais fundas trevas do coração de cada homem. A peça perdeu algum do seu impacto quando um redactor menos familiarizado com o continente africano situou a morte de Tessa nas margens do Lago Tanganika, em vez de Turkana.

 

Havia fotografias dela em abundância. Tessa, bebé sorridente ao colo do juiz seu pai, nos tempos em que Sua Excelência era um humilde advogado tratando de viver só com meio milhão de libras por ano. Tessa aos dez, de tranças e calças de montar, no seu colégio de menina rica, com um pónei ternurento ao fundo. (Agradou saber-se que, embora a mãe fosse uma condessa italiana, os pais tinham, sensatamente, optado por uma educação britânica para a filha.) Tessa adolescente, a Menina-de-Oiro de biquini, com o seu pescoço ainda incólume artisticamente sublinhado pela pincelada de luz do editor fotográfico. Tessa picante, com o seu barrete de formatura à banda, toga académica e minissaia. Tessa com o traje ridículo dos advogados britânicos, seguindo os passos do pai. Tessa no dia do casamento, ao lado de Justin, antigo estudante de Eton já com o seu velho sorriso de Eton.

 

Para com Justin, a imprensa demonstrara uma moderação pouco habitual, em parte porque não convinha que alguma coisa ensombrasse a imagem cintilante da heroína do momento e em parte porque havia muito pouco a dizer sobre ele. Justin era «um dos funcionários de estatuto intermédio do Foreign Office», entenda-se «manga de alpaca», que antes de casar ajudara a manter alta a bandeira britânica em alguns dos lugares mais adversos do planeta, entre eles Aden e Beirute. Os colegas referiam-se benevolamente à sua calma em momentos de crise. Em Nairobi tinha chefiado um «forum internacional de alta tecnologia» sobre o auxílio humanitário. Ninguém usara as palavras «modesto» ou «apagado». Mas, ironicamente, havia montes de fotografias dele tanto antes como depois do casamento. Uma foto caseira mostrava um rapaz sério e introvertido que uma intuição futurologista poderia ver marcado como viúvo precoce. Tinha sido recortada de uma fotografia dos grupos de râguebi de Eton, confessou ele à sua anfitriã, após

alguma pressão.

 

- Não sabia que tinhas jogado râguebi, Justin! Que coragem! - bradou Glória, que se encarregara, todas as manhãs depois do pequeno-almoço, de lhe levar as notas de pêsames e os recortes de jornal que a Alta Comissão fizera seguir lá para casa.

 

- Não foi coragem nenhuma, - retorquiu ele numa daquelas manifesrações de mau gênio que ela tanto apreciava. - Fui recrutado à força por um brutamontes de um prefeito que achava que não éramos homens enquanto não fôssemos cosidos a pontapés. 0 colégio não tinha nada que fornecer à imprensa essa fotografia! - e, acalmando: - Estou-te muito grato, Glória.

 

Estava mesmo, por tudo e por nada, conforme ela relatou a Elena: pelas bebidas e refeições e pela sua cela de prisão; pelos passeios juntos no jardim e pequenas conferências sobre como transplantar dos vasos para os canteiros

- elogiou especialmente o alisso, branco e roxo, que após um grande esforço de persuasão, ela resolvera finalmente plantar por baixo do bômbax - pela ajuda que ela lhe prestava a resolver detalhes do funeral que se aproximava, inclusive indo com Jackson inspeccionar a casa funerária e o local da sepultura, visto Justin por ordem de Londres ser obrigado a ficar em casa até que o alvoroço acalmasse. Uma carta por fax do Foreign. Office a este respeito, endereçada para Justin, enviada à Alta Comissão e assinada «Alison Landsbury Chefe do Pessoal», produzira sobre Glória um violento efeito. Tempos depois, ela ainda não conseguia lembrar-se de outra ocasião em que tivesse estado tão perto de perder a cabeça.

 

- Justin, estás a ser tratado de uma forma ultrajante! ” entregar as chaves de sua casa até que sejam tomadas pelas Autoridades as medidas apropriadas,» minha Nossa Senhora, quais Autoridades?! As autoridades do Quénia?! Ou desses pés-chatos da Scotland Yard que ainda não se deram ao trabalho de te contactar?

 

- Mas Glória, eu já estive lá em casa, - disse Justin, insistindo no esforço de a acalmar. - Para quê travar uma batalha que já está ganha? Quando é que temos de estar no cemitério?

 

- Às duas e meia. Mas temos de passar pela Casa Funerária Lee às duas. Amanhã manda-se o anúncio para os jornais.

 

- E ela fica ao lado de Garth.--- - era o filho morto, a quem tinham dado o nome do juiz, pai de Tessa.

 

- 0 mais próximo possível, meu querido. Debaixo de um jacarandá. Com um rapazinho africano.

 

- Não sei como te agradecer, - disse ele pela milésima vez e, sem mais conversa, retirou-se para o andar de baixo com a sua mala de papéis.

 

A pasta era a sua consolação. Por duas vezes Glória entrevira-o, pelas grades da janela que dava para o jardim, sentado na cama, imóvel, a cabeça entre as mãos, olhando fixamente para a pasta aos seus pés. Ela estava secretamente convencida - convicção que partilhara com Elena - que a pasta continha as cartas de amor de Bluhm. Ele salvara-as de olhares intrometidos - não graças a Sandy - e estava à espera de ter forças para decidir se havia de as queimar ou de as ler. Elena concordava, embora achasse que Tessa era uma doidivanas estúpida por tê-las guardado. - «Lê-las e queimá-las» é o meu lema, querída.

- Notando a relutância de Justin em afastar-se do quarto com medo de deixar a pasta sem guarda, Glória sugeriu que ele a pusesse na reserva dos vinhos, que tinha como porta um gradeamento de ferro que tornava ainda mais sinistro o ambiente de prisão do andar de baixo.

 

- E tu é que vais guardar a chave, Justín - e entregou-lha num gesto cheio de grandeza de alma. - Aqui está. Quando Sandy quiser uma garrafa, vai ter de te pedir a chave. Talvez assim beba menos.

 

Gradualmente, à medida que o tempo passava, Woodrow e Coleridge quase se persuadiram que o dique se mantivera solidamente intacto. Ou Wolfgang impusera silêncio aos seus empregados e aos seus hóspedes, ou a imprensa estava tão obcecada com o local do crime que ninguém ainda se lembrara de ir inspeccionar o Oasis, diziam um para o outro. Coleri’dge dirigiu-se pessoalmente a uma reunião dos membros mais antigos do Clube Muthaiga para lhes suplicar, em nome da solidariedade Anglo-Queniana, que remassem contra a maré dos mexericos. Woodrow proferiu uma homilia idêntica perante o pessoal da Alta Comissão. Seja qual for a nossa opinião pessoal, não devemos fazer nada que possa atear as chamas, insistiu ele, e estas sábias palavras, ditas com sinceridade, tiveram o seu efeito.

 

Mas era tudo uma ilusão, tal como Woodrow no fundo do seu coração de homem razoável tinha sabido desde o princípio. Na altura em que a imprensa parecia ter gasto todo o fôlego, um jornal diário belga publicou na primeira página um artigo em que acusava Tessa e Bluhm de uma «ligação apaixonada» e a fotocópia de uma página do livro de registos da Pousada Oasis, bem como declarações de testemunhas oculares sobre o par enamorado jantando em tête-à-tête na véspera da morte de Tessa. Os jornais de domingo tiveram um dia de actividade frenética; de um dia para o outro Bluhm tornou-se para os jornalistas numa figura a abater, com ordem de fogo à vontade. Até então tinha sido o Dr. Arnold Bluhm, o congolês que era filho adoptivo de um abastado casal de belgas de uma companhia mineira, educado em Kinshasa, em Bruxelas e na Sorbonne, médico monacal, residente das zonas de guerra, desinteressado curandeiro da Argélia. Dali para diante passou a ser Bluhm o sedutor, Bluhm o adúltero, Bluhm o tarado. Um artigo de três páginas acerca de médicos assassinos de todos os tempos era seguído de retratos idênticos de Bluhm e O.J. Simpson com o cabeçalho sugestivo «Qual dos Gémeos é o Doutor?». para certo género de leitor de jornais, Bluhm era o arquétipo do preto assassino, Tinha seduzido a mulher de um branco, tinha-lhe cortado as goelas, decapitado o motorista e fugido para o mato ou para fazer lá o que fazem estes pretos de aviário quando ouvem chamar a voz da Natureza. Para tornarem a comparação mais impressionante, tinham apagado a barba de Bluhm.

 

Glória passara o dia a esconder as coisas piores da vista de Justin, receando que ele ficasse excessivamente perturbado. Mas ele insistiu em ver tudo, mesmo os detalhes mais sórdidos, de modo que ao rim da tarde e antes que Woodrow regressasse a casa, ela levou-lhe um whisky e relutantemente entregou-lhe o espalhafatoso monte de jornais. Ao entrar no recinto da prisão, teve a desagradável surpresa de encontrar o seu filho Harry sentado em frente de justin a uma mesa de pinho desengonçada, ambos concentrados num jogo de xadrez. Sentiu-se envolvida numa onda de ciúme.

 

- Oh filho, mas que falta de consideração, estares a maçar o senhor Quayle, coitado, com uma partida de xadrez numa a altura em que...

 

Mas Justin interrompeu-a antes que ela acabasse a frase:

 

- 0 teu filho é astuto que nem uma serpente, Glória, - declarou ele. -

0 Sandy vai ter que ter cuidado, acredita. - Tirando-lhe os jornais da mão, sentou-se languidamente na cama e começou a percorrê-los. - 0 Arnold está perfeitamente ao corrente dos nossos preconceitos, sabes... - continuou ele, no mesmo tom distante. - Se está vivo, nada disto será surpresa para ele. Se não, também não se vai ralar, pois não?

 

Mas a imprensa tinha reservado um golpe muito mais fatal que nem Glória nos seus momentos de maior pessimismo poderia ter previsto.

 

Entre a dúzia de boletins noticiosos vadios que o Alto Comissariado recebia - prospectos locais coloridos, publicados anonimamente e impressos à balda - havia um em particular que dera provas de uma capacidade de sobrevivência invulgar. Chamava-se, simplesmente, ÁFRICA CORRUPTA, e a sua política, se esse termo se podia aplicar aos impulsos turbulentos que pareciam governá-la, era remexer na lama sem atender a raça, cor, verdade ou consequências. Se gostava de expor actos de alegado roubo perpetrados por ministros e burocratas da administração Moi, estava igualmente à vontade para pôr a nu o «estilo de vida de nababo dos burocratas corruptos do auxílio humanitário».

 

Mas o boletim em questão - desde sempre intitulado Questão 64 - não se dedicava a nenhum desses assuntos. Estava impresso em ambos os lados de uma folha única de papel rosa shocking de um metro quadrado. Várias vezes dobrado, cabia perfeitamente num bolso de casaco. Uma larga tarja preta a toda a volta significava que os editores anónimos estavam de luto. 0 título consistia numa única palavra em letras negras de dez centímetros de altura: TESSA, e o exemplar de Woodrow foi-lhe entregue na tarde de sábado por nem mais nem menos do que Tim Donohue em pessoa, com o seu ar macilento, o seu cabelo eriçado, os seus óculos, o seu bigode, o seu metro e noventa. A campainha da porta tocou quando Woodrow estava no jardim num críquete de brincadeira com os rapazes. Glória, que normalmente gostava de ser a guarda-meta, estava no quarto a voltas com uma dor de cabeça; Justin enfiado na sua cela com as cortinas corridas. Woodrow atravessou a casa e, suspeitando de alguma manha de jornalista, espreitou pelo olho-de-boi. Lá estava Done,hue na soleira da porta com um sorriso comprometido na sua longa cara triste, abanando o que parecia ser um guardanapo cor-de-rosa para trás e para a frente.

 

- Estou verdadeiramente desolado por ter de o chatear, meu caro, sobretudo no Sábado Santo e essas coisas todas... Mas a bronca tinha que se dar.

 

Sem disfarçar a sua contrariedade Woodrow conduziu-o à sala. Que raio andaria agora o sacana do tipo a fazer? Por falar nisso, que andaria ele a fazer sempre? Woodrow sempre detestara os Amigalhaços, como lá no Ministério chamavam aos espiões. Donohue não era insinuante, não tinha, que se soubesse, conhecimentos linguísticos especiais, não fazia charme a ninguem. Para todos os efeitos parecia estar fora do prazo de utilidade. As suas horas de sol pareciam ser gastas no campo de golfe do Clube Muthaiga com os membros mais encorpados da comunidade dos negócios de Naírobi, as noites a jogar brídege. E contudo estava na maior, alugara uma mansão com quatro criados e tinha por mulher uma antiga beleza chamada Maud que tinha um ar tão doentio como ele. Seria Nairobi uma sinecura, uma recompensa ao fim de uma carreira distinta? Woodrow já ouvira dizer que os Amigalhaços faziam coisas dessas. Na opinião de Woodrow, Donuhue era mais um peso morto numa profissão por definição parasítica e fora de moda.

 

- Um dos meus rapazes andava por acaso a passear pela praça do mercado,

- explicou Donohue - Viu uns tipos a distribuir papéis com ar furtivo e resolveu que era melhor ficar com um.

 

A primeira página consistia em três elogios fúnebres de Tessa pretendendo ser escritos por três negras diferentes, todas amigas da morta. 0 estilo era afro-Inglês vernáculo: um pouco de sermão religioso, um pouco de agitação popular, tudo banhado num sentinientalismo desarmante. Cada uma das autoras proclamava, do seu ponto de vista pessoal, que Tessa tinha sido única. Com o seu dinheiro, família, educação e beleza, podia ter ficado lá no seu poleiro, em bailes e festas com os grandes defensores da supremacia branca. Mas em vez disso, ela era o contrário de tudo o que eles representavam. Tessa vivia em revolta contra a sua classe, a sua raça e tudo aquilo que ela achava que lhe prendia os movimentos, quer fosse a cor da sua pele, os preconceitos dos seus pares ou os limites de um casamento convencional adentro do Foreign Office.

 

- Como é que Justin se está a aguentar? - perguntou Donohue, enquanto Woodrow lia o folheto.

 

- Bem, muito obrigado, dadas as circunstâncias.

 

- Ouvi dizer que ele tinha ido a casa um dia destes.

- Quer-me deixar ler isto, ou não quer?

 

- Belo jogo de pés o seu; devo dizer, meu velho, para escapar àqueles vermes que estavam à porta. Devia juntar-se à nossa equipa. Ele está por aí?

 

- Está, mas não recebe ninguém.

 

Se a África era o país de adopção de Tessa, continuava o folheto, as mulheres africanas eram a sua religião.

 

Tessa lutava por nós em todos os campos, fossem quais fossem os tabus. Lutava durante as festas elegantes em que se bebia champanhe, durante os jantares finos e durante qualquer outra recepção para que tivessem a coragem de a convidar, e a sua mensagem era sempre a mesma. Só a emancipação das mulheres africanas poderia salvar-nos das asneiras e da corrupção dos nossos homens. E quando Tessa soube que estava grávida, insistiu em dar à luz o seu Filho africano entre as mulheres africanas que ela amava.

 

Oh meu Deus, - exclamou Woodrow num sopro.

 

É um bocado o que eu achei, também, - concordou Donohue.

 

0 último parágrafo aparecia em maiúsculas. Mecanicamente, Woodrow leu até ao fim:

 

ADEUS MÃE TESSA, NOS SOMOS OS FILHOS DA TUA CORAGEM. OBRIGADO, mÃE TESSA, OBRIGADO PELA TUA VIDA. ARNOLD BLUHM PODE ESTAR VIVO, MAS TU MORRESTE DE CERTEZA. QUANDO A RAINHA DE INGLATERRA CONCEDER CONDECORAÇõES PóSTUMAS, EM VEZ DE ELEVAR MR. PORTER COLERIDGE ao NíVEL DE PAR DO REINO PELOS SEUS SERVIÇOS À COMPLACÊNCIA BRITÂNICA, ESPEREMOS QUE ELA TE CONCEDA A VICTORIA CROSS A TI, MÃE TESSA, NOSSA AMIGA, PELA TUA INDOMITÁVEL. CORAGEM PERANTE A INTOLERÂNCIA PÓS-COLONIAL.

 

- A propósito, o melhor está do outro lado, - disse Donohue. Woodrow virou o papel.

 

0 BEBÉ AFRICANO DE MÃE TESSA

 

Tessa Quayle nunca hesitou em pÔr o seu corpo e a sua vida ao serviço das suas convicções. Esperava que outros fizessem o mesmo. Quando Tessa recolheu ao

 

Hospital Uhuru, em Nairobi, o Dr. Arnold Bluhum, seu amigo íntimo, foi vê-la todos os dias e, segundo informações, a maior parte das noites, chegando a levar consigo uma cama de campanha para poder dormir ao seu lado na enfermaria.

 

Woodrow dobrou o panfleto e meteu-o na algibeira. - Acho que vou levar isto ao Porter, se não vê inconveniente. Posso ficar com isto, suponho?

 

- É todo seu, meu caro. Com os cumprimentos da Firma.

 

Woodrow dirigiu-se até à porta, mas Donohue não mostrou sinais de segui-lo.

 

- Não vem? - perguntou Woodrow.

 

- Acho que me vou demorar por aqui, se não se importa. Dizer as palavras que se impõem ao Justin, coitado do tipo. Onde está ele? Lá em cima?

 

- Julguei que tínhamos combinado que você não ia fazer isso.

 

- Ah sim, meu caro? Não há problema. Fica para outra vez. Isto é a sua casa, ele é o seu hóspede. Não tem por aí o Bluhm escondido nalgum sítio, pois não?

 

- Não seja ridículo.

 

Impávido, Donohue aproximou-se de Woodrow e fez uma vénia dobrando os joelhos, em ar de brincadeira. - Não quer uma boleia? Só até à esquina. Evita-lhe tirar o carro para fora. E está demasiado calor para ir a pé.

 

Um pouco por temer que Donohue voltasse atrás para outra tentativa de falar com Justin, Woodrow aceitou a boleia deixando o seu carro no alto da colina. Porter e Veronica Coleridge estavam no jardim a apanhar sol. Ao fundo ficava a mansão estilo Surrey de imitação, à frente deles os relvados impecáveis e os canteiros impecáveis próprios do jardim de um rico corretor da Bolsa. Coleridge ocupava o banco de baloiço e lia papéis de uma pasta de documentos oficiais. A sua esposa, a loira Veronica, de saia azul bebé e chapéu de palha de abas caídas, estava estendida sobre a relva ao lado de um parque de criança acolchoado. Lá dentro, a filha de ambos, Rosie, rebolava de costas de um lado para o outro, admirando a ramaria de um carvalho através dos dedinhos, ao som duma canção que a mãe lhe cantarolava. Woodrow entregou o panfleto a Coleridge e esperou pelas exclamações. Não houve nenhuma.

 

- Quem é que lê esta merda?

 

- Todos os merdosos de cidade, acho eu - disse Woodrow sem expressão.

 

- Para onde irão a seguir?

 

- Para o hospital, - respondeu, com o coração apertado.

 

Enterrado numa cadeira de braços de veludo côtelé no escritório de Colerídge, ouvindo-o trocar frases cautelosas com o seu detestado superior em Londres pelo telemóvel que Coleridge guardava à chave dentro da gaveta, Woodrow, numa espécie de sonho que havia de se repetir até à hora da sua morte, viu o seu corpo de homem branco, percorrer, em grandes passadas e a uma velocidade colonial, os átrios imensos e apinhados de gente do Hospital Uhuru, parando só para perguntar a quem estivesse de bata o caminho para as escadas, qual o andar, a enfermaria, o doente.

 

- Aquele palerma do Pellegrin diz para enfiarmos tudo debaixo do tapete,

- anunciou Peter Coleridge desligando o telefone com raiva. - Enfiar tudo para bem longe e o mais depressa possivel. 0 tapete mais espesso que pudermos encontrar. É típico!

 

Pela janela do escritório Woodrow viu Veronica levantar Rosie do parque e levá-la para casa. -Julguei que era isso mesmo que ja estávamos a fazer - objectou ainda perdido no seu sonho.

 

- 0 que a Tessa fazia nos tempos livres era com ela. 0 que inclui andar metida com o Bluhm e com quaisquer outras nobres causas. Não oficialmente (e só se nos perguntarem), nós respeitávamos as suas cruzadas mas considerávamo-las mal informadas e fantasistas. Além disso não fazemos comentários sobre declarações irresponsáveis apresentadas pela imprensa mais sórdida. - Pausa, enquanto lutava contra a sua repugnância consigo mesmo. - E temos de fazer constar que ela estava doida.

 

- Mas por que raio temos de fazer uma coisa dessas? - disse Woodrow acordando subitamente.

 

- Porquê, não é da nossa conta. Andava desequilibrada desde a morte do bebé e já era instável antes. Consultou um espreme-miolos em Londres, o que é bom para nós... Isto mete nojo! Detesto isto! Quando é o funeral?

 

- 0 meio da semana que vem, é o mais cedo possível.

- Não pode ser antes?

 

- Não.

 

- Porquê?

 

- Porque estamos à espera da autópsia e os funerais são marcados com antecedência.

 

- Vai um sherry?

 

- Não, obrigado. Acho que vou voltar para casa.

 

- 0 Ministério quer um discurso do tipo «longo-sofrimento». Ela era a nossa cruz e nós aguentámo-la corajosamente. Pode fazê-lo?

 

- Não, acho que não sou capaz.

 

- Eu também não. Tudo isto me mete asco!

 

A palavra escapara-lhe tão depressa, com uma convicção tão subversiva, que Woodrow começou por duvidar ter ouvido bem.

 

- Aquela merda do Pellegrin diz que o caso é um «chicote de três caudas»*

- continuou Coleridge num tom de indignado desprezo. - Ninguém pode duvidar, ninguém pode abster-se. Você aceita uma coisa destas?!

 

- Suponho que sim.

 

- Parabéns. Eu não sei se serei capaz. Qualquer declaração que ela tenha feito para o exterior, ela e Bluhm, juntos ou separadamente, seja a queinfor, incluindo você e eu; qualquer obsessão que ela tenha tido acerca de qualquer assunto: animal, vegetal, político... oufarmacêutico... - Longa pausa insuportável durante a qual o olhar de Coleridge se pousou sobre ele com o fervor de um herético tentando arrastá-lo consigo na traição - estão fora do nosso alvedrio e nós não sabemos absolutamente nada do assunto e queremos que se foda. Fiz-me entender ou quer que eu o escreva na parede com tinta invisível? Fez-se entender perfeitamente.

 

É que o Pellegrin insistiu em fazer-se entender por mmim sem sombra de dúvida. Dúvidas é coisa que ele não tem.

 

- Claro. Nem outra coisa seria de esperar.

 

- Temos alguma cópia desses documentos que ela nunca lhe entregou? Que nós nunca vimos, nem tocámos, nem de qualquer maneira possa ter conspurcado as nossas consciências puras como um lírio?

 

- Tudo quanto ela nos deu foi entregue ao Pellegrin.

 

- Que espertos que nós fomos. E você, Sandy, anda bem disposto? De rabo alçado e tudo isso, apesar de os tempos estarem difíceis e de você ter o marido dela a viver em sua casa?

 

- Acho que sim. E você? - perguntou Woodrow, que nos últimos tempos, e encorajado por Glória, tinha presenciado com bons olhos o alargamento do fosso entre Coleridge e Londres e meditado sobre a melhor maneira de explorar o caso.

 

- Eu não tenho muita certeza de andar tão bem disposto como isso, - respondeu Coleridge com uma franqueza que jamais demonstrara a Woodrow no passado. - Não tenho nada a certeza. Para dizer a verdade, agora que penso nisso, estou mesmo muito incerto de poder seguir qualquer dessas directrizes.

 

Em inglês no texto: «three-line whip». «Whip» (chicote), na linguagem do Parlamento inglês, é a lista dos assuntos a serem votados, enviada todas as semanas a cada um dos membros de um Partido. Cada tema é sublinhado conforme a sua importância: uma linha indica que não é esperada grande contestação, duas linhas que o assunto é bastante importante, três linhas que é muito importante e recomenda que todos os membros devem estar presentes e votar segundo a linha do Partido. (N. T)

 

Não posso mesmo. Recuso-mi. Por isso: merda para esse sacana desse filho da puta desse Bernard Pellegrin mais todas as suas obras. Merda e remerda. Além de que joga ténis pessimamente. Tenho de lho dizer o mais depressa possível.

 

Em qualquer outra ocasião Woodrow teria recebido com prazer uma prova tão evidente do cisma e feito o possível por alimentá-lo, mas as suas recordações do hospital andavam a atormentá-lo com uma nitidez a que ele não podia escapar e enchiam-no de hostilidade para com um mundo que o mantinha prisioneiro contra vontade. O caminho da residência do Alto Comissário até à sua própria não levou mais de dez minutos. Durante todo o trajecto foi um alvo móvel para cães que ladravam, crianças que corriam atrás dele a pedir «cinco xelins, cinco xelins» e motoristas bem intencionados que diminuíam de velocidade para lhe oferecer boleia. Mas quando chegou à porta tinha reviVido as horas mais desagradáveis da sua vida.

 

Existem seis camas na enfermaria do Hospital Uhuru, três de cada lado. Não têm lençóis nem almofadas. 0 chão é de cimento. Há uma clarabóia mas está fechada. Estamos no Inverno mas nem uma brisa passa pela sala e o cheiro a fezes e a desinfectante é tão violento que Woodrow tem a sensação de o estar não só a inalar como a ingerir. Tessa está deitada na cama do meio da parede da esquerda, dando de mamar a um bebé. Deliberadamente, ele olha em volta antes de a olhar a ela. De um lado e doutro dela as camas estão vazias, só com velhos resguardos de borracha, abotoados aos colchões. Na parede da direita, na cama em frente, uma rapariga muito nova toda encolhida, com a cara sobre o colchão sem almofada, um braço nu pendente. Ao seu lado um adolescente acocorado com o olhar suplicante fixo na cara dela, que ele abana com um bocado de cartão. A seguir, uma mulher de cabelo branco com ar de grande dignidade, de óculos de tartaruga, está sentada muito direita e lê uma Bíblia das Missões. Traz uma «kanga» de algodão, do tipo que os turistas compram, à laia de manta. Mais além, uma mulher com auscultadores franze o sobrolho para o que está a ouvir; tem um rosto esculpido pela dor e um ar profundamente devoto. Tudo isto Woodrow absorve de relance, como um espião, enquanto pelo canto do olho observa Tessa, perguntando a si próprio se ela já o viu.

 

Mas Bluhm viu-o. Bluhm levantou a cabeça logo que Woodrow entrou, pouco à vontade, na sala. Bluhm levantou-se do seu lugar à cabeceira de Tessa, depois curvou-se para lhe sussurrar qualquer coisa ao ouvido antes de vir em silêncio ao seu encontro para lhe pegar na mão murmurando - Seja bem-vindo,

 

- de homem para homem. Bem-vindo a quê, precisamente? A Tessa, da parte do seu amante? A este poço infernal empestado de sofrimento letárgico? Mas a resposta de Woodrow não passou de um «Prazer em vê-lo, Arnold» reverente, enquanto Blul---im se esgueirava discretamente para o corredor.

 

Quando dão de mamar aos filhos, segundo a limitada experiência de Woodrow, as mulheres inglesas costumam exercer um autocomedimento. Como Glória fizera, de certeza. Abrem a camisa à frente como os homens, mas usam as suas artes para esconder o que está lá por trás. Mas naquele calor sufocante de África, Tessa não sente necessidade de ser pudica. Está nua até à cintura, tem pelas costas uma «kanga» como a da velha negra e oferece à criança o seio esquerdo, com o seio direito livre, à espera. Tem um torso delgado e translúcido. Os seios, mesmo depois da gravidez, são tão leves e perfeitos como ele tantas vezes imaginou. A criança é negra, dum negro-azul contra a brancura marmórea da pele dela. Uma minúscula mãozinha negra descobriu o seio que a amamenta e amassa-o com uma sabedoria misteriosa, contemplada por Tessa. Por fim Tessa levanta devagar os grandes olhos cinzentos e fita Woodrow. Ele procura palavras que não encontra. Apoiando a mão esquerda na cabeceira da cama, inclina-se sobre ela e o bebé e beija-a na testa. Ao fazer aquele movimento, vê com surpresa um bloco de notas no lado da cama onde Bluhm estivera sentado. Está equilibrado precariamente sobre uma mesinha pequena, junto com um copo de água que não parece muito fresca e duas esferográficas. 0 bloco está aberto e ela esteve a escrever nele, numa letra vaga e estiraçada, em que ele reconhece mal a letra elegante e bem alinhada que ele associa à figura de Tessa. Senta-se de lado sobre a cama enquanto pensa no que há-de dizer. Mas é Tessa quem fala primeiro. Após o estrangulamento da dor, a voz sai-lhe drogada e fraca mas estranhamente composta e alcançando o tom trocista que ela sempre lhe reservou:

 

- Chama-se Baraka, - diz ela. - Quer dizer «bênção», como sabe.

- É um bonito nome.

 

- 0 bebé não é meu. - Woodrow não diz nada. - A mãe não pode amamentá-lo, - explica Tessa, numa voz lenta e sonhadora.

 

- 0 bebé tem muita sorte em tê-la a si - diz Woodrow galantemente.

- Como está, Tessa? Tenho estado tão preocupado que não pode imaginar. E tenho tanta pena... Quem é que está a tomar conta de si, além do Justin? A Ghita e quem mais?

 

- 0 Arnold.

 

- Quero dizer, além do Arnold, obviamente.

 

- Você disse-me uma vez que eu cultivo as coincidências, - diz ela, ignorando a pergunta dele. - Colocando-me na linha da frente, faço com que as coisas aconteçam.

 

- Dísse-lho com toda a minha admiração.

- Ainda me admira?

 

- Claro.

 

- Ela esta a morrer, - diz Tessa, tirando os olhos dele e olhando para o fundo do quarto. - Falo da mãe do bebé, Wanza. - Está a olhar para a mulher do braço pendurado e o rapaz silencioso acocorado no chão ao lado dela.

- Vá lá, Sandy. Não pergunta «de quê»?

 

- De quê? - pergunta ele, obedientemente.

 

- Da vida. Daquilo que, como nos dizem os Budistas, é a primeira causa da morte. Sobrepopulação. Subnutrição. Condições de vida miseráveis. - Está a falar para a criança. - E ganância. Neste caso, homens gananciosos. Só por milagre não te mataram também. Mas não mataram, pois não? Nos primeiros dias vinham vê-la duas vezes por dia. Estavam aterrados.

 

- Quem?

 

- As coincidências. A gente gananciosa. De belas batas brancas. Observavam-na, esPicaçavam-na um pouco, liam os números, falavam com as enfermeiras. Agora deixaram de aparecer. - A criança está a magoá-la. Tessa ajusta-a com ternura e retoma a conversa. - Para Cristo, era muito fácil. Podia sentar-se à cabeceira dos moribundos, dizer as palavras mágicas, as pessoas ficavam boas e toda a gente aplaudia. As coincidências não podem fazer o mesmo. É por isso que se foram embora. Mataram-na e agora não conhecem as palavras mágicas.

- Coitados. - disse Woodrow para entrar no jogo dela.

 

- Não! - Volta a cabeça com um estremecimento e indica o fundo da sala.

- Coitados daqueles, Wanza e o pobre rapaz ali no chão, Koko, o irmão dela. Andou oitenta quilómetros a pé desde a aldeia onde vive para te sacudir das moscas, não foi? - diz ela ao bebé e, deitando-o sobre o ombro, dá-lhe pancadinhas nas costas até ele arrotar. Depois levanta com a palma da mão o outro seio e dá-lho a mamar.

 

- Escute, Tessa. - Woodrow vê-a medi-lo com os olhos. Ela conhece aquele tom de voz. Conhece todos os seus tons de voz. Woodrow vê a sombra da suspeita passar pela cara dela e parar. Ela mandou-me chamar porque precisava de mim, mas agora lembrou-se de quem eu sou. - Tessa, escute por favor. Ninguém está a morrer. Ninguém matou ninguém. A Tessa está febril, está a imaginar coisas. Está terrivelmente cansada. Deixe passar um tempo. Descanse, por favor. Vá lá... por favor!

 

Ela volta a olhar para a criança, afaga a pequena bochecha com a ponta do dedo: - És a coisa mais bonita em que eu jamais toquei na vida - murmura ela. - Nunca te esqueças disso.

 

- Não esquece de certeza, - diz Woodrow com entusiasmo, e a voz dele recorda a Tessa a sua presença.

 

- Como vai a estufa? - era como ela chamava à Alta Comissão.

- De vento em popa.

 

- Vocês bem podiam todos fazer as malas e ir embora amanhã. Não faria a mínima diferença. - disse ela num tom vago.

 

- É o que me está sempre a dizer.

 

- A África está aqui. Vocês estão noutro sítio.

 

- Havemos de discutir isso quando estiver mais forte, - sugere Woodrow no seu tom mais conciliador.

 

- Acha que podemos?

- Claro.

 

- E você ouve-me?

- Como um falcão.

 

- E então vamos contar-lhe tudo acerca das coincidências gananciosas de bata branca. E vai acreditar em nós. Combinado?

 

- Nós, quem?

- Arnold.

 

À menção de Bluhm, Woodrow sentiu-se voltar à terra. - Farei o que puder dentro das circunstâncias. Seja do que for que se trate. Dentro do razoável. Prometo. Agora tente descansar. Por favor...

 

Ela reflecte no que ouviu. - Ele promete fazer o que puder dadas as circunstâncias, - explica ela ao bebé. - E dentro do razoável. Bom, é de homem... Como está a Glória?

 

- Extremamente preocupada. Manda saudades.

 

Tessa solta um suspiro lento de exaustão e, com o bebé sempre ao peito, afunda-se nas almofadas e fecha os olhos. - Então vá para casa ter com ela. E não me escreva mais cartas - diz ela. - E não chateie a Ghita. Ela também não vai na conversa.

 

Ele levanta-se e sai, esperando por qualquer razão ver Bluhm à porta, na posição que mais detesta: encostado calmamente à ombreira da porta, as mãos entaladas à cowboy no cinto artisticamente trabalhado, exibindo o seu sorriso de dentes brancos dentro da pretensiosa barba negra. Mas à porta não está ninguém, o corredor escuro e sem janelas parece um abrigo antiaéreo, iluminado por uma fila de lâmpadas de fraca potência. Enquanto abre caminho por entre as macas de rodas empenadas carregadas de corpos deitados, com o cheiro do sangue e dos excrementos misturado com o cheiro adocicado a cavalo que é o de África, Woodrow pensa se não fará esta miséria parte do que torna Tessa tão atraente: passei a vida a fugir à realidade, mas por causa de Tessa é esta realidade que me atrai.

 

Chega a uma intersecção de corredores apinhada de gente e vê Bluhm travando uma conversa acesa com outro homem, Ouve primeiro a voz de Bluhm - embora não entenda as palavras - estridente e acusatória, ecoando nas traves de metal. A seguir o outro homem responde. Há pessoas que, vistas uma vez, nos ficam para sempre na memória. Para Woodrow, esta é uma delas. 0 homem é entroncado e barrigudo, com um rosto carnudo e luzidio que apresenta uma expressão de abjecto desespero. 0 cabelo, de um amarelo alaranjado, alastra

parcamente pela careca escaldada pelo sol. Tem uma boquinha apertada em cu de galinha, com que nega e suplica. Os olhos, arregalados de mágoa, exprimem um horror que ambos os homens parecem partilhar. As mãos sardentas são muito fortes, a camisa de caqui manchada de ondas de suor que alastraram à volta do colarinho. 0 resto está escondido sob uma vasta bata branca de médico.

 

E então vamos contar-lhe tudo acerca das coincidências gananciosas de bata branca.

 

Woodrow avança furtivamente. Está quase em cima deles, mas nem voltam a cabeça. Estão demasiado concentrados a discutir. Ele passa sem ser notado, as vozes levantadas perdem-se no barulho em redor.

 

0 carro de Donohue estava de novo na entrada para a casa. Woodrow sentiu-se doente de raiva. Subiu até ao quarto numa fúria, passou-se pelo chuveiro, enfiou uma camisa lavada e continuou a sentir-se furioso. A casa estava inusitadamente calma para um sábado e quando olhou pela janela da casa de banho percebeu porquê. Donohue, Justin, Glória e os rapazes estavam no jardim sentados à mesa a jogar ao Monopólio. Woodrow detestava tudo quanto fosse jogo de tabuleiro, mas pelo Monopólio sentia um ódio despropositado, análogo ao seu ódio pelos Amigalhaços e por todos os outros membros dessa dilatada corporação que eram os Serviços Secretos da Grã-Bretanha. Que diabo quer ele dizer com isto de aparecer aqui dez minutos depois de eu lhe ter dito para se manter à distância, foda-se! E que estranho marido é aquele que se instala alegremente a jogar Monopólio poucos dias após a mulher ter sido morta à facada? Woodrow e Glória costumavam dizer, citando um provérbio chinês, que os hóspedes em casa eram como o peixe: ao fim de três dias começavam a cheirar mal. Mas Justin estava a tornar-se cada vez mais bem cheiroso para Glória em cada dia que passava.

 

Woodrow desceu, foi até à cozinha e olhou pela janela. Não havia criados, claro, ao sábado à tarde. É muito mais agradável sermos só nós, querido. Só que isto não é nós é vocês. E tu pareces muito mais feliz com dois cavalheiros de meia-idade a babarem-se por ti, do que pareces quando estás só comigo.

 

À mesa de jogo, Justin tinha aterrado em rua alheia e estava a pagar um ror de massa de aluguer, enquanto Glória e os rapazes guinchavam de prazer e Donohue declarava que já não era sem tempo. Justin trazia o seu chapéu de palha idiota que, como tudo o que ele usava, lhe ficava perfeitamente. Woodrow encheu a chaleira e pô-la ao lume. Vou levar-lhes chá, para saberem que regressei a casa - isto é, partindo do princípio que não estão tão absortos uns com os outros que nem sequer reparem. Mudando de ideias, dirigiu-se energicamente para o jardim e marchou a passo estugado até à mesa.

 

- Justin, desculpa interromper. Podes dar-me uma palavrinha? - E para os outros - a minha família está a olhar para mim como se eu tivesse acabado de violar a criada de fora: - Não venho acabar com nada, malta. É só um minuto. Quem é que está a ganhar?

 

- Ninguém, - disse Glória secamente, enquanto Donohue, em segundo plano, sorria com o seu bigode desgrenhado.

 

Os dois homens estavam na cela de Justin. Se o jardim não estivesse ocupado, Justin tinha preferido o jardim. Assim, ficaram de pé um em frente do outro no quarto acanhado, com a maleta de Tessa - Ou por outra, a pasta do pai de Tessa pousada atrás da grade. A minha adega. Com a chave dele. A pasta do ilustrepai dela. Mas quando começou a falar, ficou alarmado ao ver transformar-se tudo o que o rodeava. Em vez da cama de ferro, viu a mesa de embutidos que a mãe dela adorava. E por trás, a lareira de tijolo com cartões de convite em cima. E ao fundo do quarto, onde as falsas traves pareciam convergir, a silhueta nua de Tessa em frente da porta envidraçada. Fez um esforço para voltar ao tempo presente e a ilusão dissipou-se.

 

- Justin.

 

- Diz, Sandy.

 

Mas pela segunda vez, no espaço de poucos minutos, afastou-se da confrontação que planeara. - Um dos jornais locais está a publicar uma espécie de líber amicorum acerca da Tessa.

 

É simpático da parte deles.

 

Traz uma série de coisas acerca do Blul---im que não dão margem a dúvidas. Sugere que foi ele próprio que assistiu ao parto. E dá a entender, sem grande hesitação, que o bebé também devia ser dele. Lamento muito.

 

- Referes-te ao Garth?

- Exacto.

 

A voz de Justin estava tensa e, aos ouvidos de Woodrow, tão perto do abismo como a sua. - Bom, essa é uma conjectura em que muita gente tem Vindo a apostar de tempos a tempos nos últimos meses, Sandy, e no clima actual sem dúvida vai surgir mais vezes.

 

Embora Woodrow lhe tivesse dado uma oportunidade, Justin não sugerira sequer que a conjectura estivesse errada. Isto impeliu Woodrow a aplicar ainda mais pressão. Era como se o guiasse uma sensação interior de culpa.

 

- Sugerem também que Bluhm chegou ao ponto de levar uma cama de campanha para a enfermaria para dormir junto dela.

 

- E partilhámo-la.

- Perdão?

 

- Às vezes o Arnold dormia lá, outras vezes dormia eu. Fazíamos turnos, segundo o trabalho que tínhamos.

 

- Então não te importas?

- Com o quê?

 

- Que se ande a dizer estas coisas sobre eles, - que ele lhe prestava tantas atenções - com o teu consentimento, ao que parece - enquanto aqui em Nairobi ela se comportava como tua mulher.

 

- Se comportava?! Ela era minha mulher, raios te partam!

 

Woodrow não contara com a ira de justin, como também não contara com a de Coleridge. Tinha estado demasiado absorto na sua própria ira. Não elevara o tom de voz e na cozinha com Coleridge conseguira aliviar a tensão com um encolher de ombros. Mas a explosão de Justin caiu-lhe em cima como um raio e assustou-o. Esperara que Justin se mostrasse contrito e - porque não dízê-lo? - humilhado; não esperara aquela resistência armada.

 

- Que é que estás a perguntar-me, precisamente? - inquiriu Justin. - Parece-me que não estou a perceber.

 

- Eu preciso de saber, Justin. Só isso.

 

- Saber o quê? Se eu controlava a minha mulher?

 

Woodrow estava a suplicar e a fazer marcha atrás ao mesmo tempo. - Ouve, Justin... quer dizer, tenta ver as coisas do meu ponto de vista... só por um momento, está bem? A imprensa mundial vai Pegar nisto. Tenho o direito de saber.

 

- Saber o quê?

 

- Em que mais é que a Tessa e o Bluhm andavam metidos, que vai estar na primeira página dos jornais de amanhã... amanhã e durante as próximas seis semanas - terminou, cheio de pena de si próprio.

 

- Como, por exemplo?

 

- Bluhm era o guru dela. Era isso, não é verdade? Além do resto.

- E então?

 

- Então, defendiam as mesmas causas. Farejavam pistas, descobriam abusos. Direitos humanos e coisas assim. 0 Bluhm faz o papel de cão de guarda, é ou não é? Pelo menos, os funcionários dele não fazem outra coisa. E por isso a Tessa, - estava a perder o fio à meada e Justin observava-o - a Tessa ajudava-o. É perfeitamente natural, naquelas circunstâncias. E os seus conhecimentos como advogada podiam ser úteis.

 

- Importas-te de me dizer onde é que queres chegar?

 

- Os papéis dela. Só isso. Os documentos na sua posse. Aqueles que tu foste buscar. Que fomos buscar juntos.

 

- E então, que têm?

 

Woodrow tentou recompor-se: Sou teu superior, pelo amor de Deus, não estou a pedir nenhum favor. Vamos pôr-nos cada um no seu lugar, está bem?

- É que preciso de ter a tua garantia de que- quaisquer documentos que

 

ela tenha reunido a favor lá das causas dela... na sua qualidade de tua mulher, aqui, gozando de estatuto diplomático... ao abrigo do Governo de Sua Majestade... serão entregues ao Foreign Office. Foi nessa base que eu te levei a tua casa na terça-feira passada. De outro modo, não teríamos ido.

 

Justín mantivera-se imóvel. Não mexera um dedo nem pestanejara ao ouvir Woodrow referir aquela reflexão tardia que nada tinha a ver com a verdade.

- Quanto à outra garantia que eu te peço, acho que é evidente... - continuou Woodrow.

 

- Que outra garantia?

 

- A tua completa discrição a respeito do assunto. seja o que for que tu saibas acerca das actividades dela... actos de agitação, aquele trabalho por assim dizer de ajuda humanitária, que saiu fora de controlo.

 

- Controlo de quem?

 

- Só quero dizer, seja como for que ela tenha penetrado em território oficial, tu estás tão sujeito às regras da confidencialidade como qualquer de nós. Desculpa, mas isto é uma ordem que vem de cima. - Estava a tentar levar o caso para a brincadeira mas nenhum dos dois sorria. - É uma ordem do Pellegrin.

 

E você, Sandy, anda bem disposto? Apesar de os tempos estarem difíceis e de você ter o marido dela a viver em sua casa?

 

Por fim Justin falou. - Obrigado, Sandy. Aprecio tudo o que fizeste por mim. Agradeço-te teres-me deixado visitar a minha própria casa. Mas agora tenho de ir receber rendas em Piccadilly, onde parece que possuo um hotel de três estrelas.

 

E dito isto, para espanto de Woodrow, voltou para o jardim e, sentando-se no seu lugar ao lado de Donohue, retomou a partida de Monopólio onde a tinha deixado.

 

 

Os polícias ingleses tinham sido amorosos, dissera Glória e, se Woodrow não concordava com ela, não o demonstrou. 0 próprio Porter Coleridge, embora parcimonioso ao descrever o seu encontro com eles, declarou-os «surpreendentemente civilizados, considerando que eram uns cabrões». Mas o aspecto mais simpático, como comunicou Glória a Elena pelo telefone do seu quarto, depois de os ter conduzido à sala, no início do segundo dia de interrogatório de Justin - a coisa mais simpática, EI, juro, é que se sentia realmente que estavam ali para ajudar, e não para carregar mais dor e mais vergonha sobre os ombros do Justin, coitado. 0 mais novo, Rob, era um pêssego - o rapaz não deve ter mais de vinte e cinco anos, EI, p’raí! «Rapaz» enfim, homem! Parecia um actor, daqueles muito sóbrios, só queria que o visses a imitar os polícias de Nairobi com quem eles têm de trabalhar! E a Lesley, que é uma mulher, querida, imagina!, o que tomou toda a gente de surpresa e mostra como nós sabemos pouco da verdadeira Inglaterra de hoje em dia; a roupa, não propriamente da última estação, mas tirando isso, francamente, ninguém diria que ela não teve o nosso género de educação. Não pela maneira de falar, claro, porque já ninguém se atreve a falar da maneira como nós fomos educadas. Mas completamente à-vontade no salão, muito descontraída e senhora de si, e até simpática, com um sorriso agradável e alguns cabelos brancos que ela não pinta, aliás com muito bom senso; e tem aquilo que o Sandy chama «uma calma porreira», de modo que uma pessoa não tem de estar sempre a pensar no que ela há-de dizer quando eles encostam à box para deiXar o pobre do Justin respirar um pouco. 0 problema é que eu não fazia a mais pequena ideia do que se estava a passar entre eles, porque não podia ficar todo o dia na cozinha com o ouvido encostado ao postigo de serviço, ainda para mais com os criados a ver, não te parece, EI?

 

Mas se o teor das discussões entre Justin e os dois polícias escapava.a Glória, pior acontecia com as conversas entre eles e o marido, pela boa razão de que ele lhe ocultara o simples facto de elas terem lugar.

 

A troca de palavras de abertura entre Woodrow e os dois agentes foi um exemplo de boa educação. Os agentes disseram que compreendiam a delicadeza da missão de que estavam incumbidos, que não deviam nem queriam levantar o véu sobre a comunidade branca de Nairobi, etc., etc. Por seu lado Woodrow assegurou a cooperação de todo o seu pessoal e a disponibilidade dos serviços correspondentes, ámen. Os agentes prometeram manter Woodrow a par das investigações, na medida em que isso fosse compatível com as instruções recebidas dos seus chefes. Woodrow fez notar, prazenteiro, que estavam todos ao serviço da mesma Rainha; e sendo assim, porque não tratarem-se pelo nome próprio, Rob?

 

- Ora então quais são as atribuições profissionais de Justin aqui na Alta Comissão, Sr. Woodrow? - perguntou o jovem Rob delicadamente, como se não tivesse ouvido aquele apelo a uma maior intimidade.

 

Rob era um típico corredor de fundo londrino, todo ele ouvidos, joelhos, cotovelos e força de carácter. Lesley, que bem poderia ser a sua irmã mais velha e mais esperta, trazia um saco que Woodrow imaginou, com um sorriso divertido, conter os objectos necessários a Rob na pista de corrida - tintura de iodo, pastilhas de sal, atacadores de reserva para os sapatos - mas que na verdade, tanto quanto pôde verificar, não continham mais do que um gravador, cassetes e uma colecção colorida de blocos para notas e para estenografia.

 

Woodrow pareceu meditar na resposta, assumindo o judicioso franzir de sobrancelhas que indicavam o profissional. - Bom, para começar é o nosso Antigo Etoniano de estimaçãol - disse ele e todos apreciaram aquela boa piada.

- Basicamente, Rob, é o representante britânico no Comité para a Eficiência dos Donativos na África Oriental, também conhecido pelo acrónimo CEDAO, - e continuou, usando a clareza indicada para a inteligência limitada de Rob.

- 0 «E» queria dizer, na origem, Eficácia mas, como era uma palavra pouco familiar para a maioria da gente daqui, optámos por uma palavra mais simples.

- E o que faz esse Comité?

 

- 0 CEDAO é uma organização de consulta relativamente recente, Rob, baseada aqui em Nairobi. Compreende representantes de todos os países que fornecem ajuda, socorro e auxílio à África Oriental, seja de que forma for. Os seus membros são provenientes das Embaixadas e Altas Comissões de cada país-doador; o Comité reune uma vez por semana e emite um relatório de quinze em quinze dias.

 

- Para quem? - disse Rob, escrevendo.

 

- Para todos os países membros, obviamente.

- E acerca de quê?

 

- Como o título dá a entender, - disse Woodrow pacientemente, levando em conta a falta de subtileza do rapaz - promove a eficácia ou eficiênciaa no campo do Auxílio Humanitário. Nesse campo, a eficiência é   o primeiro objectivo. A caridade é um dado adquirido, - acrescentou, com um sorriso desarmante que dava a entender como todos éramos caritativos. - 0 CEDAO ocupa-se especialmente da espinhosa questão de saber qual a percentagem de cada dólar de cada um dos países doadores que chega realmente ao seu destino e quantas duplicações ruinosas, esbanjamento e espírito de competição negativo existem entre as agências que se encontram em campo. 0 que tem a ver, como todos temos, aliás, com os três Rs do Auxílio Humanitário: Reduplicação, Rivalidade e Racionalização. 0 CEDAO equilibra as despesas gerais com a produtividade e - com o sorriso benevolente de quem outorga sabedoria - faz recomendações ou sugestões, dado que (ao contrário de vocês) não tem poderes executivos, nem o poder de fazer cumprir o que quer que seja,

- Um gracioso inclinar de cabeça anunciava uma pequena confidência: - Não tenho a certeza de que tivesse sido a ideia melhor do mundo, aqui entre nós, Mas foi uma ideia que nasceu na cabeça do nosso querido Ministro dos Negócios Estrangeiros, ia ao encontro de pedidos de maior transparência, de uma política externa mais ética e de outras panaceias duvidosas dos dias de hoje e por isso demos-lhe um forte empurrão. Há quem diga que era a ONU que devia tratar dessa incumbência. Outros dizem que a ONU já o faz. E até há outros que dizem que a ONU faz parte do problema. Escolha a sua versão.

- Um encolher de ombros depreciativo convidava-os a seguir o conselho.

 

- Qual problema? - perguntou Rob.

 

- 0 CEDAO não está autorizado a fazer investigações no terreno. Mas a corrupção é o factor maior com que tem de se contar, quando se começa a comparar o que se gastou com o que se conseguiu realizar. Não deve ser confundida com o desperdício natural e a incompetência, mas é um mal afim.

- Procurou uma analogia terra a terra. - Vejamos, por exemplo, a velha rede de distribuição de água britânica, construída em 1890, mais coisa menos coisa. A água sai do reservatório. Parte dela, com um bocado de sorte, chega até à nossa torneira. Mas pelo caminho passa por vários canos cheios de buracos. Ora, quando essa água é oferecida graças ao bom coração do contribuinte, não se pode deixá-la perder-se no solo, não é verdade? Sobretudo quando se depende do eleitor inconstante para se manter o emprego.

 

- Esse comité, com que espécie de pessoas contacta?

 

- Diplomatas de carreira. Aqui em Nairobi são escolhidos entre a comunidade internacional. Sobretudo, de conselheiros de embaixada para cima. Há um ou outro Primeiro Secretário, mas são raros. - Pareceu achar que isto precisava de mais explicações. - 0 CEDAO, na minha opinião, tem de ser prestigiado. A cabeça bem alta, lá nas nuvens. Se se deixasse arrastar até ao nível do trabalho de campo, acabaria por ser uma espécie de super Organização Não Governamental - aquilo a que você, Rob, chama ONG, - e padecer dos mesmos males. É uma opinião de que não abdico. Está bem que aqui em Nairobi o CEDAO esteja atento ao que se passa. É óbvio. Mas continua a não passar de um grupo de estudo e deve preservar um ponto de vista desapaixonado. É absolutamente vital que continue a ser - se me permite uma expressão que eu próprio inventei - uma zona liberta de emoções. E Justin é o secretário do comité. Por nenhuma razão em especial, é por turnos. Ele reune as minutas, coleciona as investigações e redige os relatórios quinzenais.

 

- Tessa não era uma zona liberta de emoções - objectou Rob depois de pensar um momento. - Tessa era emoção da cabeça aos pés, pelo que temos ouvido.

 

- Desconfio que tem andado a ler demasiados jornais, Rob.

 

- Nada disso. Tenho andado a ler os relatórios de campo dela. Andava ali metida de mangas arregaçadas. Merda até aos cotovelos, quer de dia quer de noite.

 

- Isso é sem dúvida necessário. E muito louvável. Mas não conduz a uma verdadeira objectividade, que é a primeira responsabilidade de um comité como organismo de consulta internacional, - disse Woodrow com bonomia, ignorando aquela incursão por uma linguagem desbocada, como costumava fazer em relação ao seu Alto Comissário - a um nível inteiramente diferente, claro.

 

- Então os Quay1e não seguiam o mesmo caminho, - concluiu Rob, recostando-se na cadeira e dando pancadinhas nos dentes com o lápis. - Ele era objectivo, ela era apaixonada. Ele seguia a via segura do centro, ela investigava as margens perigosas. Agora estou a perceber. Aliás, acho que já tinha percebido. Mas então qual é o papel do Bluhm em tudo isso?

 

- Em que sentido?

 

- Bluhm! Arnold Bluhm. 0 médico. Qual é o lugar dele no esquema de vida da Tessa e do seu?

 

Woodrow fez um pequeno sorriso, perdoando aquela embaraçosa formulação. 0 meu estilo de vida? Que é que a minha vida tem a ver com a dela?

- Temos aqui uma grande variedade de organizações financiadas por donativos, como sabe com certeza. Todas sustentadas por diferentes países e fundadas por todo o gênero de grupos de caridade e outros. 0 nosso bravo presidente Moi detesta-os a todos en bloco.

 

- Porquê?

 

- Porque fazem o que o governo do Quénia devia fazer se estivesse a fazer o que devia. Além disso conseguem fintar os sistemas montados de corrupção.

 

A organização do Bluhm é modesta, é belga, de fundos privados e médica. É tudo o que eu lhe posso dizer, - acrescentou, com uma sinceridade que os convidava a partilhar com ele a sua ignorância acerca do caso.

 

Mas eles não pareciam fáceis de convencer.

 

- É uma brigada de cães de guarda, - informou Rob sem rodeios. - Os médicos de lá dão uma volta por todas as outras ONGs, visitam clínicas, verificam diagnósticos e corrígem-nos. Por exemplo: «isto talvez não seja malária, doutor, talvez seja cancro do fígado.» E depois verificam o tratamento. Também trabalham em epidemiologia. E quanto ao Leakey?

 

- 0 Leakey, como?

 

- O Bluhm e Tessa dirigiam-se às escavações dele, não é verdade?

- Ao que parece,

 

- Quem é ele, exactamente? 0 Leakey? 0 que é que o faz correr?

 

- Está a caminho de se tornar numa lenda da África branca. É um antropólogo e arqueólogo que começou por trabalhar com os pais nas margens orientais do Turcana, à procura das origens do Homem. Quando eles morreram, ele continuou a obra deles, Foi director do Museu Nacional aqui em Nairobi e mais tarde encarregou-se da Vida Selvagem e da sua conservação.

- Mas depois demitiu-se.

 

- Ou foi empurrado. É uma história complicada.

 

- Além de que é uma espinha na garganta do Moi, não?

 

- Opôs-se ao Moi politicamente e foi barbaramente espancado. Está agora a passar por uma espécie de ressurreição, como azorrague da corrupção queniana. 0 Fundo Monetário Internacional e o Banco Mundial estão praticamente a exigir a presença dele no Governo.

 

Rob recostou-se e deu lugar a Lesley; tornou-se claro que a distinção que ele aplicara aos Quayle definia também os diferentes estilos dos dois agentes. Rob falava aos solavancos, com a falta de subtileza de um homem que tenta dominar as suas emoções. Lesley era um modelo de impassibilidade.

 

- Então que espécie de pessoa é este justin? - perguntou ela pensativa, observando-o como se ele fosse uma personagem distante da história. - _fora do seu local de trabalho e lá no comité dele? Quais são os seus interesses, os seus apetites, qual é o seu estilo de vida, quem é ele?

 

- Oh meu Deus, quem somos nós, todos nós? - declamou Woodrow, teatral, perante o que fez Rob tamborilar de novo o lápis contra os dentes, Lesley fez um sorriso cheio de paciência e Woodrow, com uma relutância encantadora, recitou a lista dos fracos atributos de Justin: jardineiro amador entusiástico (embora, pensando bem, não tão entusiástico desde a morte de Tessa), do que ele mais gosta é de passar as tardes de sábado a sachar os canteiros. Um verdadeiro gentleman em toda a acepção da palavra, um ex-aluno de Eton da melhor espécie, de uma extrema cortesia no tratamento com todo o pessoal local, claro, o género de homem em quem se pode confiar para dançar com todas as raparigas que não arranjam par no baile anual do Alto Comissário; uma espécie de solteirão, de certo modo (embora Woodrow não soubesse de momento explicar em quê), não jogava golfe nem ténis que ele soubesse, não era caçador nem pescador, não era de todo um homem de ar livre, exceptuando a jardinagem. E era, claro, um diplomata profissional de primeira classe, com todas as qualidades básicas: montes de experiência no terreno, duas ou três línguas estrangeiras, absolutamente digno de confiança e totalmente leal às directivas do Governo. Mas... e aqui há um detalhe cruel, Rob... prejudicado, sem culpa nenhuma, na corrida às promoções.

 

- E não frequenta companhias duvidosas, nem nada? - perguntou Lesley consultando o livrinho e notas. - Não andará por aí aos pulos e aos saltos em clubes de má nota, enquanto a Tessa está fora em viagens de trabalho? - Só a pergunta dava vontade de rir. - Não seria o gênero dele, pois não?

 

- Clubes? 0 Justin?! Que ideia extraordinária! Só se fosse o «Annabel’s», talvez, em Londres, há vinte e cinco anos. Onde foi buscar essa ideia? - exclamou Woodrow com uma sentida gargalhada, o que há dias lhe não acontecia.

 

Rob apressou-se a esclarecê-lo. - 0 nosso Chefe, o Sr. Griciley, esteve uns tempos em Nairobi em trabalho, diz que os clubes nocturnos são os lugares indicados para alugar um assassino, se se estiver para aí virado. Há um em ffiver Road, a um quarteirão do New Stariley, o que é prático para quem lá estiver hospedado. Por quinhentos dólares americanos limpam o sebo a quem a gente quiser. Metade logo ali, a outra metade depois de feito o trabalho. Até por menos, em certos clubes, segundo ele conta, mas então não se garante a qualidade.

 

- 0 Justin amava, de facto, Tessa? - perguntou Lesley, ainda Woodrow não parara de sorrir.

 

No estado de espírito de descontracção que se estabelecera entre eles, Woodrow lançou os braços ao céu com uma invectiva: - Oh meu Deus! No mundo em que vivemos quem ama quem e porquê? - E, como Lesley o não desembaraçasse imediatamente da pergunta: - Ela era linda! Inteligente! jovem! Ele tinha quarenta e cinco anos quando se conheceram. Menopáusico, prestes a ser atingido pelas injúrias do tempo, solitário, apaixonado, desejoso de assentar... Amar? 0 termo é seu, não meu.

 

Mas se isto era um convite para que Lesley contribuísse com as suas opiniões, ela não o fez. Tal como Rob, ao seu lado, parecia mais interessada na súbita transfiguração das feições de Woodrow: o esticar da pele sobre os malares, as manchas ténues que lhe tinham aparecido no pescoço, o minúsculo franzido involuntário da maxila inferior.

 

- E o Justin não andava irritado com ela... por causa do trabalho dela, por exemplo? - sugeriu Rob.

 

- Porque é que havia de andar?

 

- Não lhe subia a mostarda ao nariz quando ela clamava que certas companhias ocidentais, incluindo britânicas, andavam a estripar os africanos - cobrando-lhes a mais por serviços técnicos, despejando sobre eles medicamentos fora de prazo a preços excessivos? Usando os negros como cobaias humanas para experimentar novas drogas, o que é muitas vezes referido mas nunca provado, por assim dizer?

 

- Tenho a certeza de que o Justin tinha muito orgulho no trabalho da mulher. Muitas das nossas esposas tem tendência a deixar correr. 0 empenho da Tessa era uma forma de equilibrar a balança.

 

- Então, ele não estava zangado com ela? - insistiu Rob.

 

- 0 Justin pura e simplesmente não é dado a zangas. Pelo menos no sentido normal. Quando muito, talvez se sentisse embaraçado.

 

- E vocês? Quer dizer, vocês aqui na Alta Comissão, sentiam-se embaraçados?

- Essa agora, porquê?

 

- Pelo trabalho dela no Auxílio Humanitário, Pelos interesses especiais dela. Havia algum conflito entre os interesses dela e os interesses de Sua Majestade? Woodrow compôs a sua expressão de perplexidade mais desarmante.

 

- 0 Governo de Sua Majestade nunca poderia sentir-se embaraçado por actos de humanidade, Rob. Devia saber isso.

 

- Estamos a aprender, Sr. Woodrow - interveio Lesley calmamente. - Somos novos na casa. - E depois de o olhar nos olhos sem deixar de sorrir amavelmente, meteu os blocos e o gravador na bolsa e, sob o pretexto de afazeres na cidade, propôs que recomeçassem aquela conversa amanhã à mesma hora.

 

- Sabe se a Tessa confiava especialmente em alguém - perguntou Lesley em ar de «a propósito», enquanto os três se dirigiam em bloco para a porta.

- Além do Bluhm, quer dizer?

 

- Referia-me a alguma amiga...

 

Woodrow consultou ostensivamente a memória: - Mmm, não... Não, acho que não. Não me lembro de ninguém. Mas também não me parece que eu estivesse a par dessas coisas, não acha?

 

- Estaria, se se tratasse de alguém do seu pessoal. Como a Ghita Pearson, por exemplo, - disse Lesley, só querendo ajudar.

 

- A Ghita? Ah, sim, claro, a Ghita, obviamente. E então, estão a tratar bem de vocês? Têm transporte e tudo? óptimo.

 

Passou um dia inteiro e uma noite inteira antes que eles voltassem a aparecer.

 

Desta vez foi Lesley e não Rob quem abriu as hostilidades e fê-lo com uma frescura que sugeria que novos acontecimentos se tinham passado desde o último encontro. - A Tessa tinha tido relações sexuais recentemente, anunciou ela no tom alegre de quem principia o seu dia de trabalho, enquanto tirava para fora os seus pertences como se fossem provas a exibir em tribunal: lápis, blocos, gravador, uma borracha. - Suspeitamos que haja violação. Isto não é para ser tornado público, mas desconfio que toda a gente vai lê-lo amanhã na primeira página dos jornais. Trata-se de um esfregaço vaginal que eles tiraram e observaram ao microscópio para ver se o esperma estava vivo ou morto. Estava morto, mas eles acham que pode ser esperma de mais do que uma pessoa. Talvez um cocktaí1 inteiro. Nós pensamos que eles não estão apetrechados para saber.

 

Woodrow deixou cair a cabeça entre as mãos.

 

- Temos de esperar que os nossos especialistas se pronunciem antes de saber ao certo, - disse Lesley observando-o.

 

Rob, tal como no dia anterior, batucava despreocupadamente o lápis contra os seus grandes dentes.

 

- E o sangue no casaco de Bluhm era da Tessa, - continuou Lesley no mesmo tom de grande franqueza. - Mas isto é só provisório, repare. Eles aqui só fazem os exames básicos, do tipo de sangue. Qualquer outra coisa tem de ser feita em Inglaterra.

 

Woodrow levantara-se, coisa que ele fazia muitas vezes em encontros informais para pôr toda a gente à vontade. Passeando languidamente até à janela, tomou posição e fingiu contemplar a horrorosa linha do horizonte da cidade. Viam-se riscos de trovoada ao longe e aquele cheiro indefinível a tensão que precede as mágicas chuvadas africanas. A sua atitude, por contraste, era de calma absoluta. Ninguém podia ver as duas ou três gotas de suor escaldante que lhe tinham saído das axilas e rastejavam agora pelas costelas abaixo como insectos gordos.

 

- 0 Quayle já sabe disso? - perguntou; e estranhou, como talvez eles estranhassem, que o viúvo de uma mulher violada se tivesse tornado subitamente um «Quayle» em vez de um «Justin».

 

- Achámos preferível que fosse um amigo a avisá-lo - respondeu Lesley.

- 0 senhor, - sugeriu Rob.

 

- Claro.

 

- Além de que é, no fundo, possível, como disse aqui a Lesley, que ela e Arnold tenham dado uma rapidinha antes de se meterem ao caminho. Isso é consigo.

 

Que mais terei de aguentar? pensou ele. Que mais terá de acontecer, para eu abrir esta janela e saltar? Talvez fosse isto que eu esperava dela: que me transportasse para lá dos limites das minhas forças.

 

- É que nós realmente gostamos do Bluhm, - soltou Lesley com uma simpatia exasperante, como se quisesse que Woodrow também gostasse de Bluhm.

 

- Agora o que temos é de procurar o outro Bluhm, a besta em forma humana. Estamos habituados a ver as pessoas mais pacíficas fazer as coisas mais terríveis, se forem levadas a isso. Mas quem é que o terá levado a isso - se é esse o caso? Ninguém, a não ser ela própria.

 

Aqui Lesley parou, à espera de um comentário de Woodrow, mas ele estava a exercer o seu direito a permanecer calado.

 

- 0 Bluhm está o mais perto que é possível do homem bom, - insistiu ela como se «homem bom» fosse um estado definido, como «homo sapiens». - Fez uma série de coisas realmente boas, muito boas. Não para se exibir, mas porque as queria fazer. Salvou vidas, arriscou a própria pele, trabalhou de borla em sítios horrorosos, escondeu gente em casa... Então, não concorda, sir...?

 

Estaria ela a provocá-lo? Ou simplesmente à procura de um esclarecimento de um observador experiente da relação Tessa-Bluhm?

 

- Não há dúvida que ele tem um currículo excelente, - concedeu Woodrow. Rob fungou de impaciência e fez com os ombros um desconcertante trejeito. - Deixe lá o currículo. Pessoalmente, gosta dele, sim ou não? É tão simples como isso. - E atirou-se para trás na cadeira.

 

- Meu Deus, - disse Woodrow por sobre o ombro, tentando não exagerar, mas deixando transparecer certo grau de exasperação. - Ontem tratava-se de definir amar, hoje é gostar. Que cuidadosos são os jovens britânicos hoje em dia com as suas definições...

 

- Estamos só a perguntar-lhe a sua opinião, Sír.

 

Talvez fosse o «sir» que fez a diferença. Durante o primeiro encontro, fora «Sr. Woodrow» ou, tendo ganho confiança, «Sandy». Agora era «sir», para advertir Woodrow que aqueles agentes de polícia subalternos não eram seus colegas, nem seus amigos, mas dois intrusos de uma classe inferior que andavam a meter o nariz no clube selecto que lhe dera posição social e protecção durante os últimos dezassete anos. Pôs as mãos atrás das costas, endireitou os ombros e fez meia volta até ficar de frente aos seus inquiridores.

 

- 0 Arnold Bluhm é muito persuasivo, - declarou, passeando ao longo da sala e fazendo-lhes uma conferência. - Tem óptimo aspecto, tem charme, de certo modo, tem graça, para quem gosta daquele gênero de humor. Uma espécie de aura - talvez seja daquela barbicha bem cuidada. Para as pessoas mais impressionáveis, é um herói popular africano. - E voltou-lhes as costas, como se esperasse que eles arrumassem as suas coisas e se fossem embora.

 

- E para os menos impressionáveis? - perguntou Lesley, aproveitando as costas voltadas dele para o observar detalhadamente: as mãos reconfortando-se uma à outra, o joelho levantado em autodefesa.

 

- Ah, estamos decerto em minoria - replicou Woodrow com subtileza.

 

- Mas suponho que seria preocupante para si - e até vexatório, na sua situação de responsabilidade como Chefe de Chancelaria - ver tudo isto a acontecer debaixo do seu nariz, sabendo que não há nada que possa fazer para evitar. Quer dizer, não pode chegar ao pé do Justin, pois não?, e dizer: «Está a ver aquele negro de barba ali ao fundo? anda metido com a sua mulher,» pois não? Ou pode?

 

- Se algum escândalo ameaçar arrastar para a lama o bom nome da Missão, tenho o poder - e até a obrigação - de me interpor.

 

- E foi o que fez? - perguntou Lesley.

- De certa maneira, foi.

 

- junto do justin? Ou da Tessa directamente?

 

- 0 problema, obviamente, é que as relações dela com o Bluhm tinham cobertura, por assim dizer, - respondeu Woodrow tentando iludir a pergunta.

- 0 homem é um médico de prestígio. É bem-visto na comunidade do Auxílio Humanitário. Tessa era uma voluntária dedicada. à primeira vista era tudo perfeitamente insuspeito. Não se pode avançar por aí e acusá-los de adultério sem a mínima prova. 0 mais que pode dizer é: olhem lá, isso não tem bom aspecto, por favor sejam mais discretos.

 

- E a quem é que o senhor disse isso? - perguntou Lesley, anotando rapidamente no bloco.

 

- Não é tão simples como isso. Houve mais do que um episódio... houve um diálogo.

 

Lesley inclinou-se para a frente, verificando que a fita estava a girar no gravador. - Entre si e a Tessa?

 

- A Tessa era uma máquina de fabrico superior a quem faltavam metade das engrenagens. Antes de perder o bebé, era um bocado selvagem, reconheço-o.

- Prestes a tornar absoluta a sua traição a Tessa, Woodrow lembrou-se de Porter Coleridge no seu escritório a citar, furioso, as instruções de Pellegrin.

- Mas depois...! - e é com enorme desgosto que o digo - para muitos de nós ela estava completamente desequilibrada.

 

- Era ninfomaníaca? - perguntou Rob.

 

- Acho que não me compete responder a essa pergunta - respondeu Woodrow em tom gélido.

 

- Digamos que era uma namoradeira escandalosa, - sugeriu Lesley. - Com toda a gente.

 

- Se quiser - o desapego de Woodrow era total - mas é difícil dizer, não é? Uma mulher lindíssima, a mais bonita onde quer que aparecesse, um marido mais velho... estará a dar sorte? ou apenas a ser ela própria, a divertir-se? Se uma mulher usa decotes e dá um ar da sua graça, as pessoas dizem que é leviana.

 

Se não, dizem que é uma chata. A comunidade branca de Nairobi é assim. Talvez seja assim em todo o lado. Não sou especialista no assunto.

 

- Ela fez-lhe namoro, a si? - perguntou Rob, após outro irritante batuque com o lápis nos dentes.

 

- já lhe disse: era impossível dizer se ela estava a fazer-se ao piso ou simplesmente a dar largas à sua boa disposição, - disse Woodrow, fazendo uso do seu tom mais mundano.

 

- E... por acaso o senhor não retribuiu, em certa medida? - inquiriu Rob.

- Não faça essa cara, Sr. Woodrow. Tem quarenta e tal anos, e menopausico, prestes a ser atingido pelas injúrias do tempo, tal como Justin. Ela excitava-o, claro, porque não? Até me excitaria a mim, se calhar.

 

A recuperação de Woodrow foi tão rápida que aconteceu ainda antes de que ele tivesse dado conta. - Oh, meu caro amigo... Não pensava noutra coisa! Era Tessa, Tessa, dia e noite. Andava obcecado por ela. Pergunte a quem quiser.

- Foi o que nós fizemos, - disse Rob.

 

Na manhã seguinte, o assediado Woodrow achou que os seus inquisidores exibiam uma pressa de se atirar a ele que tocava as raias da indecência. Rob colocou o gravador em cima da mesa, enquanto Lesley abria um grande caderno de capa encarnada numa página dupla marcada por um elástico e começava o interrogatório.

 

- Temos razões para crer que visitou Tessa no hospital de Naírobi pouco depois de ela ter perdido o bebé, sir, é verdade?

 

0 mundo de Woodrow estremeceu. Quem raio é que lhes teria contado aquilo? Justin? Não pode ter sido, eles ainda não falaram com ele, senão eu teria sabido.

 

- Parem com isso tudo - ordenou ele bruscamente.

 

Lesley levantou a cabeça. Rob desdobrou-se completamente, estendeu uma comprida mão como se quisesse alisar a cara com a palma e encostou-a a um lado do nariz; depois estudou Woodrow por sobre as pontas dos dedos.

 

Vai ser esse esta manhã o nosso assunto de conversa? - inquiriu Woodrow. É um deles, - confessou Lesley.

 

Então pode fazer o favor de me explicar - dado que o tempo escasseia para todos nós - que diabo é que a minha visita a Tessa no hospital tem a ver com a caça a quem a assassinou - e que, segundo creio, é o objectivo da vossa presença aqui?

 

- Andamos à procura de um motivo, - disse Lesley.

- Disse-me que já tinham o motivo: a violação.

 

- A violação não serve. Não serve como motivo, claro. A violação foi um resultado à parte. Talvez uma falsa pista, para nos fazer pensar numa morte casual e não premeditada.

 

- Assassínio premeditado, - explicou Rob, com os seus grandes olhos castanhos fixos em Woodrow num olhar melancólico. - Aquilo a que nós chamamos um trabalho corporativo.

 

Por um instante, breve mas terrível, Woodrow deixou pura e simplesmente de pensar. Depois pensou em corporativo. Porque teria ele dito corporativo? Corporativo, como se fosse realizado por uma corporação? Impossível! Uma

 

associação demasiado forçada para atravessar o pensamento de um diplomata conceituado!

 

Logo a seguir o seu espírito tornou-se um ecrã branco. Nenhuma palavra, nem a mais banal e sem sentido, veio em seu auxílio. Via-se a si próprio como uma espécie de computador, procurando, juntando e logo rejeitando uma série de ligações fortemente codificadas que lhe chegavam duma área vedada do cérebro.

 

Corporativo, não. Fora um acaso. Não planeado. Um festival de sangue, no estilo africano.

 

- Então o que é que o levou ao hospital? - ouviu ele Lesley perguntar, quando recuperou a banda sonora. - Porque é que foi visitar Tessa ao hospital quando o bebé dela morreu?

 

- Porque ela me pediu. Mandou-me recado pelo marido. Na minha qualidade de superior do Justin.

 

- Mais alguém foi convidado?

- Que eu saiba não.

 

- Talvez a Ghita.

 

- Refere-se à Ghita Pearson?

- Conhece outra?

 

- A Ghita Pearson não estava presente.

 

- Então era só o senhor e Tessa, - notou Lesley em voz alta, enquanto escrevia no seu bloco. - 0 que é que tinha a ver o facto de ser o superior dele?

- Estava preocupada com o estado de justin e queria assegurar-se de que

 

tudo ia bem da parte dele, - replicou Woodrow num tom deliberadamente espaçado para não reagir ao ritmo acelerado das perguntas dela. - Eu tinha tentado convencer o Justin a pedir uma baixa, mas ele preferiu manter-se no seu posto. Aproximava-se a conferência anual dos ministros do CEDAO e ele estava determinado a preparar tudo. Expliquei isso à Tessa e prometi não o perder de vista.

 

- Ela tinha o computador portátil com ela? - interrompeu Rob.

- Desculpe, não percebi.

 

- Qual é a dificuldade? Ela tinha o coMputador ao pé dela, ao lado, numa mesa, debaixo da cama, dentro da cama? 0 computador. Tessa adorava o computador. Mandava e-mails a toda a gente. Ao Bluhm. À Guita. A um miúdo deficiente em Itália por quem se interessava, a um antigo namorado em Londres. Estava todo o tempo a mandar e-mails ao mundo inteiro. Tinha o computador ou não?

 

- Agradeço-lhe ter sido tão explícito. Não, não vi nenhum computador.

- E um bloco de notas?

 

Hesitação, enquanto revolvia a memória e compunha a mentira - Que eu tenha visto, não.

 

- E que não tenha visto?

 

Woodrow não se dignou responder. Rob inclinou-se para trás e observou o tecto, com o ar de quem tem todo o tempo para perder.

 

- E então como estava ela, pessoalmente? - perguntou.

 

- Ninguém está na sua melhor forma, depois de ter dado à luz um nado-morto,

 

- Como estava então?

 

- Fraca. Atordoada. Deprimida.

 

- E foi só disso que falaram. Do Justin, o marido adorado.

- Tanto quanto eu me lembro, foi.

 

- Quanto tempo esteve com ela?

 

- Não cronometrei a minha visita, mas suponho que na ordem dos vinte minutos, Não a queria fatigar, como é óbvio.

 

- Com que então falaram do Justin durante vinte minutos. Se ele comia a sopa toda e coisas assim?

 

- Foi uma conversa intermitente, - replicou Woodrow corando. - Quando uma mulher está febril e exausta e perdeu um bebé, não é fácil ter-se uma conversa muito lúcida.

 

- Estava mais alguém presente?

- já lhe disse que fui lá sozinho.

 

- Não foi isso que eu lhe perguntei. Perguntei se estava mais alguém presente.

 

- Tal como...?

 

- Tal como quem quer que fosse que estivesse presente. Uma enfermeira, um médico, Outra visita, um visitante. Uma amiga. Um amigo. Um amigo africano. Como o Dr. Arnold Bluhm, por exemplo. Para que é que me obriga a arrancar-lhe as palavras da boca, sir?

 

Como prova da sua irritação, Rob esticOU-se COMO Um lançador de dardo, lançando primeiro uma mão no ar logo voltando a entrelaçar as longas pernas. Entretanto Woodrow voltava ostensivamente a consultar a memória juntando as sobrancelhas numa expressão comicamente pesarosa.

 

- Agora que fala nisso, Rob, acho que tem razão. Que esperto que você é.

0 Bluhm estava lá quando eu cheguei. Cumprimentámo-nos e ele foi-se embora. Imagino que devemos ter coincidido por uns vinte segundos. Vinte e cinco, por ser para si.

 

Mas o ar descuidado de Woodrow fora conseguido a custo. Quem diabo lhe teria dito que Bluhm estava à cabeceira dela? E a sua apreensão ia ainda mais longe. Chegava às fendas mais profundas do seu subconsciente, tocando de novo naquela cadeia de causalidade que ele se recusava a reconhecer e que Porter Coleridge furioso lhe ordenara que esquecesse.

 

- Então que é que o Bluhm lá estaria a fazer, na sua opinião, sir?

 

- Ele não deu explicações e ela também não. Ele é médico, não é verdade? Além do resto.

 

- Que estava Tessa a fazer?

 

- Estava deitada na cama. Que é que esperava que ela estivesse a fazer?

- retorquiu Woodrow perdendo a cabeça por momentos. - A jogar à pulga? Rob estendeu as pernas à sua frente e admirou os pés enormes estendidos como se estivesse a apanhar sol. - Eu cá não sei, - disse. - Que é que nós esperávamos que ela estivesse a fazer, Les? - perguntou à colega. - A jogar à pulga, não certamente. Ali está ela deitada na cama. A fazer o quê? perguntamos nós.

 

- A amamentar um bebé preto, acho eu - disse Lesley. - Enquanto a mãe dele morria.

 

Por um instante, os únicos sons na sala foram os de passos no corredor e automóveis digladiando-se na cidade, do outro lado do vale. Rob estendeu um braço desengonçado e desligou o gravador.

 

- Como já disse, sir, temos todos mais que fazer - disse ele cortêsmente.

- Por isso tenha a bondade de não nos fazer perder mais a porra do pouco tempo que temos a fugir às perguntas e a tratar-nos abaixo de merda. - Voltou a ligar o gravador. - Tenha a bondade de nos contar pelas suas palavras, Sr. Woodrow, tudo o que sabe acerca da negra moribunda na enfermaria e do bebé dela, Sir,

- disse ele. - Por favor. E de que morreu ela e quem estava a tentar tratá-la e mais tudo aquilo que se lembrar a esse respeito.

 

Encurralado e furioso no seu isolamento, Woodrow agarrou-se instintivamente à protecção do seu Chefe de Missão, mas logo se recordou que Coleridge andava a fazer-se difícil. Na noite passada, quando Woodrow tentara entrar em contacto com ele para uma conversa a sós, Mildren avisara-o de que o patrão se encontrava enclausurado com o Embaixador dos Estados Unidos e só poderia ser contactado em caso de emergência. E esta manhã Coleridge por várias vezes fora referido como estando «a tratar dos assuntos correntes a partir da Residência».

 

 

Woodrow não se deixava facilmente desarmar. Na sua carreira diplomática já tinha sido obrigado a enfrentar um certo número de situações humilhantes e aprendera por experiência que o melhor caminho era recusar-se a reconhecer que alguma coisa corria mal. Aplicou agora esta lição elaborando, em frases breves, uma explicação minimalista da cena passada na enfermaria. Sim, concordou ele, um pouco surpreendido por os ver tão interessados nos mínimos detalhes da permanência de Tessa no hospital, lembrava-se vagamente que outra parturiente, companheira de Tessa, estava inanimada ou em coma. E, como não podia dar de mamar ao seu próprio filho, Tessa tornara-se ama de leite do outro bebé. A desgraça de Tessa fora a salvação da criança.

 

- Essa doente tinha nome? - perguntou Lesley.

- Que eu me lembre, não.

 

- Estava alguém com ela, parente ou amigo?

 

- Havia o irmão. Um adolescente vindo da mesma aldeia. Foi o que Tessa contou, mas, dado o estado dela, não acho que fosse uma testemunha fiável.

- Sabe o nome do irmão?

 

- Não.

 

- E o nome da aldeia?

- Também não.

 

- A Tessa disse-lhe de que doença sofria essa mulher?

- Muito do que ela disse era incoerente.

 

- Quer dizer que algumas coisas eram coerentes -, fez notar Rob. Desprendia-se dele uma paciência quase sobrenatural. 0 seu corpo desengonçado achara uma posição confortável. De súbito, parecia ter o dia inteiro à sua frente. - Nos seus momentos de coerência, o que lhe disse Tessa acerca da mulher em frente, do outro lado da enfermaria, Sr. Woodrow?

 

- Que a mulher estava a morrer. Que a doença, de que não disse o nome, derivava das condições sociais em que vivia.

 

- Sida?

 

- Não foi o que ela disse.

- Então é diferente.

 

- Parece que sim.

 

- Estava alguém a tratar a mulher dessa doença sem nome?

- Provavelmente. Senão, porque havia de estar no hospital?

- Seria um tal Lorbeer?

 

- Quem?

 

- Lorbeer, - explicou Rob - Lor, como «o pequeno Lor» e beer, como a cerveja Heineken. Um holandês meio arraçado, ruivo ou loiro, nos seus cinquenta e tal, gordo.

 

- Nunca ouvi falar, - replicou Woodrow com uma expressão de total franqueza, sentindo as tripas às voltas.

 

- Viu alguém tratar dela?

- Não.

 

- Sabe como é que ela estava a ser tratada? 0 que estavam a usar?

- Não.

 

- Nunca viu ninguém dar-lhe um comprimido ou uma injecção de qualquer coisa?

 

- já lhe disse: durante a minha presença, não apareceu ninguém do hospital Na fase pachorrenta que recentemente assumira, Rob deu-se ao luxo de meditar naquela resposta e no curso a seguir. - E sem ser do hospital?

 

- Não na minha presença.

- E fora dela?

 

- Como é que quer que eu saiba?

 

- Pela Tessa. Pelo que a Tessa lhe contou enquanto estava coerente, - explicou Rob com um sorriso tão largo que o seu bom humor se tornou um elemento perturbador, como se fosse o precursor de uma piada de que ambos iam desfrutar brevemente. - A doente que estava na enfermaria de Tessa e cujo bebé a própria Tessa estava a amamentar... estava ou não, segundo Tessa, a receber cuidados médicos fosse de quem fosse? - perguntou ele pacientemente, compondo as frases para que seguissem uma determinada regra de jogo. - A doente estava ou não a ser visitada, ou examinada, ou observada, ou tratada por alguém, homem ou mulher, branco ou preto, fossem médicos, enfermeiros, não-médicos, gente de fora, gente de dentro, pessoal de limpeza do hospital, visitantes ou simples pessoas? - E encostou-se para trás: ora toma lá esta para te entreteres.

 

Woodrow estava a medir o tamanho do sarilho em que estava metido. Que mais saberiam eles, que não queriam revelar? 0 nome Lorbeer soara na sua cabeça como um dobre a finados. Que outros nomes teriam para lhe atirar à cara? Quanto mais tempo poderia negar e manter-se à tona de água? 0 que lhes teria contado Coleridge? Porque não vinha ele em seu socorro, porque lhe recusava a sua conivência? Estaria ele a confessar tudo, nas costas de Woodrow?

 

- Contou uma história qualquer sobre a mulher a ser visitada por homens de batas brancas, - respondeu desdenhosamente. - Parti do princípio que tinha sido um sonho. Ou que estava a sonhar quando mo contou. Não lhe dei crédito algum. - E vocês deviam fazer o mesmo, sugeria Woodrow em silêncio.

 

- Porque é que as batas brancas a vinham ver? Segundo a história de Tessa. Naquilo a que o senhor chama o sonho dela.    

 

- Porque as batas brancas tinham morto a mulher. A certa altura, ela chamou-lhes coincidências. - Decidira dizer a verdade, levando-a para o ridículo.

- Lembro-me de que ela chamou-lhes também «gananciosos». Queriam curá-la, mas não sabiam como... Era uma história completamente disparatada.

 

- Curá-la como?

 

- Isso não foi revelado.

 

- E então mataram-na, como?

 

- Também não foi mais clara nesse pormenor.

- Ela tinha escrito tudo isso?

 

- Essa história? Como?

 

- Tinha tomado notas? Leu-lhe algumas notas?

 

- já lhe disse: tanto quanto sei não havia nenhum caderno de apontamentos.

 

Rob pôs a cabeça de lado a fim de observar Woodrow de outro ângulo, talvez mais revelador. - 0 Arnold Bluhm não acha que a história seja completamente disparatada. 0 Arnold Bluhm acha que ela tinha acertado completamente no alvo em tudo o que disse. Não é verdade, Les?

 

Woodrow sentiu que o sangue se lhe esvaíra da cara. Mas mesmo depois do choque daquelas palavras, manteve-se firme sob o fogo, tal como qualquer diplomata experiente que se vê obrigado a manter as aparências. E conseguiu achar a voz e a indignação: - Perdão. Está a dizer que encontraram o Bluhm? Isso é absolutamente chocante!

 

- Está a dizer que não queria que o encontrássemos? - perguntou Rob, intrigado.

 

- Nada disso. Quero dizer que vocês só aqui estão com o nosso acordo e, se encontraram o Bluhm ou falaram com ele, têm a estrita obrigação de o participar à Alta Comissão.

 

Mas Rob já estava a abanar a cabeça. - Não o encontrámos de forma nenhuma, sir. Isso é que era bom! Mas encontrámos documentos dele. Fragmentos disto e daquilo, por assim dizer, espalhados no apartamento. Nada de sensacional, infelizmente. Notas acerca de alguns casos, que eu suponho serem de interesse para alguém. Cópias de cartas iradas que o doutor mandou a uma ou outra firma, laboratórios, hospitais universitários em todo o mundo. E é tudo, mais ou menos, não é verdade, Les?

 

- «Espalhados no apartamento» é um modo de dizer, - corrigiu Lesley.

- Eu diria «escondidos». Havia um molho de papéis colado na parte de trás de uma moldura, outro por baixo da banheira. Levou-nos todo o dia. Bom, quase todo o dia. - Lambeu um dedo e passou uma página do seu bloco de apontamentos.

 

- 0 facto é que alguém já tinha passado por lá, embora se tivessem esquecido de revistar o carro dele - lembrou Rob.

 

- Parecia mais uma instalação feita com lixo do que um apartamento, quando eles saíram de lá - concordou Lesley. - Mas sem arte nenhuma. Foi só escavacar e agarrar no que puderam. Repare que em Londres também nos aparece disso hoje em dia. Quando vem a notícia nos jornais de que alguém foi dado como desaparecido ou morto, lá vêm os meliantes logo de manhã cedo, a servirem-se. 0 nosso pessoal de prevenção criminal anda bastante chateado com o assunto. Importa-se que lhe saquemos mais uns nomes, Sr. Woodrow? - perguntou ela, levantando os olhos cinzentos e mantendo-os firmemente nos dele.

 

- Estejam à vontade, - disse Woodrow, como se não fosse esse o caso.

 

- «Kovacs»: húngara ao que parece, sexo feminino, nova. Cabelo asa de corvo, pernas compridas (está a dar-nos as medidas dela, não tarda), primeiro nome desconhecido, pesquisadora científica.

 

- Dela o senhor lembrava-se de certeza, - disse Rob.

- Desculpe, não me lembro.

 

- «Erririch»: médica, pesquisadora científica, formada em S. Petersburgo, seguiu um curso alemão em Leipzig, fez trabalho de pesquisa em Gdansk. Não temos dados físicos. Este nome, para si...?

 

- Nunca ouvi falar dessa pessoa. Ninguém correspondendo a esses dados, ninguém desse nome, ninguém dessa origem e com essas qualificações.

 

- Chiça! Não há dúvida de que nunca ouviu falar dela, pois não?

 

- E o nosso amigo Lorbeer - interrompeu Lesley, pedindo desculpa com um sorriso. - Primeiro nome desconhecido, origem desconhecida, provavelmente meio holandês ou boer, títulos e qualificações outro mistério. Estas informações vem-nos das notas de Bluhm, esse é que é o problema, estamos à mercê dele, por assim dizer. Tem os três nomes ligados numa espécie de gráfico, com indicações escritas em letra minúscula dentro de um balão. Lorbeer e as duas médicas. Lorbeer, Erririch, Kovacs. Impressionante. Pensámos em trazer-lhe uma cópia, mas neste momento não estamos com muita vontade de usar fotocopiadoras. Sabe como é a polícia local. E quanto às lojas de fotocópia, bom, não são capazes nem de copiar o Padre-Nosso, não é, Rob?

 

- Use a nossa, disse Woodrow depressa demais.

 

Seguiu-se um silêncio de ruminação que, para Woodrow, foi como uma surdez total, durante a qual não passaram carros, não cantaram os pássaros e ninguém passou pelo corredor do outro lado da porta. 0 silêncio foi quebrado por Lesley que descrevia obstinadamente Lorbeer como sendo o homem que eles mais gostariam de interrogar.

 

- 0 Lorbeer é como uma rolha de cortiça. Julga-se que estará metido no negócio farmacêutico. julga-se que terá entrado e saído várias vezes em Nairob durante o ano passado, mas as autoridades do Quénia não lhe conseguem seguir a pista, por estranho que pareça. Julga-se que terá passado pela enfermaria de Tessa durante a permanência dela no hospital Uhuru. Outra indicação que temos é a palavra taurino* dentro de um balão. Pensei que se referisse a qualquer coisa na Bolsa. Tem a certeza de que nunca se cruzou com um ruivo ligado à medicina, talvez mesmo médico, de aparência taurina? Talvez nas suas viagens?

 

- Nunca ouvi falar dele, nem de ninguém como ele.

 

- Temos ouvido muito essa frase, ultimamente, - comentou Rob de entre bastidores.

 

- A Tessa conhecia-o. E o Bluhm também, - disse Lesley.

- Isso não quer dizer que eu o conhecesse.

 

- E o que é a «peste branca» em língua corrente? - perguntou Rob.

- Não faço a mínima ideia.

 

Como no dia anterior, saíram deixando no ar um ponto de interrogação que ia aumentando de tamanho.

 

Logo que se viu livre deles, Woodrow pegou no telefone que comunicava directamente com Coleridge e, com alívio, obteve-o logo do outro lado.

 

- Tem um minuto?

- Acho que sim.

 

Bullish, como um touro, também é aplicado em linguagem de Bolsa a um método de especulação com a compra de valores que se espera venham a subir. (N. T.)

 

Foi encontrá-lo sentado à secretária, amparando a testa com a mão. Trazia uns suspensórios amarelos com cavalos. A sua expressão era beligerante mas cautelosa.

 

- Preciso de ter a certeza de que Londres nos apoia neste assunto, - começou Woodrow, sem se sentar.

 

- Nós quem, exactamente?

- A si e a mim.

 

- E por «Londres» refere-se ao Pellegrin, suponho.

- Porquê? Houve alguma mudança?

 

- Que eu saiba, não.

- E vai haver?

 

- Que eu saiba, não.

 

- Bom, vamos pôr as coisas assim: o Pellegrin tem as costas quentes?

- 0 Pellegrin tem sempre as costas quentes.

 

- E nós? É para continuarmos com isto ou não?

 

- Continuar com as mentiras, quer você dizer? Claro que continuamos.

- Então porque é que não nos pomos de acordo com... o que havemos de dizer?

 

- Boa pergunta. Não sei. Se eu fosse religioso, ia aí a qualquer sítio e rezava. Mas a porra é que não é tão fácil como isso. A rapariga está morta. É um lado da questão. E nós estamos vivos. É outro lado.

 

- E então? Disse-lhes a verdade?

 

- Não! Não, Deus do céu, não. Isto é uma memória que é uma peneira... Imensa pena.

 

- E vai contar a verdade?

 

- A eles? Não, não. Nunca. Esses merdas...

 

- Então porque é que não nos pomos de acordo quanto às nossas histórias?

- É isso mesmo. Porque não? Realmente, porque não? Você pôs o dedo na ferida, Sandy. Que é que nos impede...?

 

- É a respeito da sua visita ao hospital Uhuru, sír, - começou Lesley sem perder tempo.

 

- Julguei que isso já tinha ficado tratado na nossa última sessão.

 

- A sua outra visita. A segunda. Um pouco mais tarde. A continuação.

- Continuação? Continuação de quê?

 

- Da promessa que lhe tinha feito, aparentemente.

- De que é que está a falar? Eu não percebo.

 

Mas Rob percebia muito bem e disse-o. - A mim, parece-me perfeitamente claro, sír. Teve ou não um segundo encontro com Tessa no hospital?

 

Como seja... quatro semanas depois de ela ter tido alta, por exemplo? Como seja... encontrar-se com ela na antecâmara da clínica pós-parto onde ela tinha uma consulta marcada? Porque é isso que dizem as notas do Arnold e até hoje ele nunca se enganou, pelo menos tanto quanto a gente ignorante como nós pode entender.

 

Com que então Arnold, notou Woodrow. Já não é Bluhm.

 

0 filho de militar debate-se consigo próprio, friamente consciente de que na crise reside a sua musa inspiradora, enquanto que na sua memória continua a seguir a cena do hospital como se ela se tivesse passado com outra pessoa: Tessa leva um saco de tapeçaria com pegas de bambu. É a primeira vez que ele o vê, mas daqui em diante e no pouco tempo que lhe resta de vida, o saco faz parte da imagem dura que ela faz de si própria, jazendo no hospital, com o seu bebé na morgue e uma moribunda na cama em frente e o bebé dessa moribunda mamando ao seu peito. Dá bem com a cara sem pintura e o cabelo mais curto e o olhar severo, que lhe faz lembrar o olhar de descrença com que Lesley o olha neste momento, enquanto espera a versão corrigida dos acontecimentos. A luz, como em todo o hospital, é traiçoeira. Grandes flechas de sol cortam obliquamente a semiescuridão do interior. Pequenas aves esvoaçam entre as traves. Tessa está de pé, com as costas para uma parede curva, ao lado de uma cafeteria malcheirosa com cadeiras cor de laranja. Entre os raios de sol perpassa uma multidão, mas ele vê-a imediatamente. Ela segura o saco de tapeçaria em ambas as mãos contra o baixo-ventre e faz-lhe lembrar as pegas à espera em pé nos vãos de porta que lhe faziam medo quando ele era novo. A parede fica na sombra porque o sol não chega aos cantos da sala e foi talvez por isso que Tessa escolheu aquele lugar.

 

- Prometeu que me ouvia, quando eu estivesse melhor, - lembra-lhe ela numa voz baixa e rouca que ele mal reconhece.

 

É a primeira vez que se falam desde a visita dele ao hospital. Ele vê a boca dela, tão frágil sem o traço disciplinador do bâton. Vê a paixão nos olhos cinzentos e a paixão assusta-o, como sempre assustou, incluindo a sua própria.

 

- 0 encontro a que se refere não foi um encontro social, - disse ele a Rob, evitando o olhar prescrutador de Lesley. - Foi profissional. Tessa declarou ter dado com uns documentos que, se fossem verdadeiros, seriam politicamente delicados. Marcou-me encontro na clínica para mos entregar.

 

- Dado, como? - perguntou Rob.

 

- Ela tinha conhecimentos no exterior. É tudo quanto sei. Amigos nas agências do Auxílio Humanitário.

 

- Tais como Bluhm?

 

- Entre outros. Devo dizer que não era a primeira vez que ela entrava em contacto com a Alta Comissão a fim de relatar escândalos ao mais alto nível. Tornara-se um hábito.

 

- Por «Alta Comissão» quer dizer o senhor?

 

- Se se refere à minha qualidade de Chefe de Chancelaria, quero, sim.

- Porque é que ela os não confiava ao Justin para lhos entregar?

 

- 0 Justin devia ficar fora desse problema. Era uma decisão dela, provavelmente dele também. - Estaria a dar demasiadas explicações, o que constituiria outro perigo? - Mergulhou de cabeça: - Eu respeitei essa atitude dela. Para ser franco, eu encorajava qualquer manifestação de escrúpulos da parte dela.

 

- Por que é que ela não os entregou à Ghita?

 

- A Ghita é jovem, nova no lugar e funcionária local. Não era indicada para servir de mensageira.

 

- Então encontraram-se. - Retomou Lesley. - No hospital. Na sala de espera da clínica pós-parto. Não pensaram que iam dar nas vistas, dois brancos entre todos aqueles negros?

 

já lá estiveste, pensou, com outro abalo próximo do pânico. Visitaste o hospital. - Não eram os negros que ela receava. Eram os brancos. Ninguém lhe tirava essa ideia da cabeça. Quando estava entre negros sentía-se em segurança.

- Ela disse isso?

 

- Fui eu que deduzi.

- Deduziu de quê?

 

- Da atitude dela durante estes últimos meses. Depois do bebé. Para comigo, para com a comunidade branca. Para com Bluhm. Tudo o que o Bluhm fizesse estava bem feito. Era negro, era belo e era médico. E a própria Ghita. é meio indiana... - sentia-se um pouco descontrolado.

 

- Como é que ela marcou o encontro? - perguntou Rob.

 

- Mandou um bilhete a minha casa, pelo criado dela, Mustafa.

- A sua mulher soube que se ia encontrar com Tessa?

 

- Mustafa deu o bilhete ao meu criado que mo entregou a mim.

- E o senhor não disse à sua mulher ... ?

 

- Considerei que o encontro era confidencial.

- Porque é que ela não lhe telefonou?

 

- A minha mulher?

- A Tessa.

 

- Não confiava nos telefones dos diplomatas. E com razão. Nenhum de nós confia.

 

- Porque é que ela se não limitou simplesmente a mandar os documentos pelo Mustafa?

 

- Havia compromissos que ela desejava obter de mim. Garantias.

 

- Porque é que ela não trouxe os documentos para aqui? - de novo Rob, insistindo, pressionando.

 

- Pelo motivo que já lhe dei. Ela tinha chegado a um ponto em que já não confiava na Alta Comissão, não queria ser vista a entrar ou a sair da Alta Comissão. Vocês falam como se houvesse lógica nos actos dela. É difícil encontrar alguma lógica nos últimos meses de vida da Tessa.

 

- E porque não Coleridge? Porque é que tinha de ser o senhor, sempre?

0 senhor à cabeceira dela, o senhor na clínica... Ela não conhecia cá mais ninguém?

 

Por um instante perigoso, Woodrow sentiu-se do lado dos inquisidores. Com efeito, porquê eu? - perguntou ele a Tessa num assomo de raiva e auto-comiseração. Porque a tua maldita vaidade não queria largar-me da mão. Porque te agradava ouvir-me prometer-te a própria alma, quando ambos sabíamos que, quando chegasse a altura, eu não a entregaria nem tu a aceitarias, Porque lutar comigo era lutar corpo a corpo com as fraquezas britânicas que tu odiavas apaixonadamente. Porque para ti eu era uma espécie de arquétipo, «tudo ritual e nenhuma fé», nas tuas próprias palavras. Estamos de pé face a face e a um palmo de distância um do outro e eu admiro-me de sermos da mesma altura, até que descubro que há um degrau que se eleva a toda a volta na base da parede curva e que, tal como outras mulheres ali presentes, subiste para cima dele, esperando ser avistada pelo teu homem. Os nossos rostos estão ao mesmo nível e, apesar da tua austeridade recentemente adquirida, é outra vez Natal e eu danço contigo, cheirando a doce relva morna no teu cabelo.

 

- Então ela deu-lhe um molho de papéis, - dizia Rob entretanto. - De que tratavam?

 

Estou a receber o envelope que tu me dás e a sentir o contacto desnorteante dos teus dedos quando mo entregas. Estás deliberadamente a reacender a chama, tu bem o sabes e não podes parar, estás a levar-me de novo até ao abismo, sabendo perfeitamente que nunca me acompanharás. Não trago casaco. Tu olhas-me enquanto eu desaperto os botões da camisa, faço deslizar o envelope contra a pele e empurro-o para baixo até que a aresta inferior fique segura entre o cós das calças e a minha anca. Olhas-me ainda enquanto eu abotoo a camisa, e eu tenho as mesmas vergonhosas sensações que teria se tivesse feito amor contigo. Como verdadeiro diplomata ofereço-te tomar um café na cafetaria, Tu recusas. Ficamos face a face como dois dançarinos, à espera de que a música justifique a nossa proximidade.

 

- 0 Rob está a perguntar de que tratavam os documentos - disse Lesley, chamando Woodrow de novo ao campo da realidade.

 

- Pretendiam relatar um escândalo de grande vulto.

- Aqui no Quéniaa?

 

- A correspondência em questão era confidencial.

 

- Quem é que lhe atribuiu essa classificação? A Tessa?

 

- Não seja pateta! Como é que ela podia atribuir alguma classificação? - disse Woodrow irritado e imediatamente se arrependeu do calor que demonstrara.

 

Tem de obrigá-los a agir, Sandy - é o que me pedes com insistência. Estás pálida de sofrimento e coragem. A tua propensão melodramática não desapareceu ao contacto de uma tragédia real. Os teus olhos brilham com as lágrimas que, desde a morte do bebé estão sempre à beira das pálpebras. A tua voz insiste, mas também afaga, como sempre fez. Precisamos de um paladino, Sandy. Alguém de fora. Alguém de oficial e respeitável. Prometa-me. Se eu posso confiar em si, você também pode confiar em mim.

 

E então eu disse-o. Como tu, sou arrebatado pelo poder do momento. Confio. Confio em Deus. No amor. Em Tessa. Quando estamos juntos no palco, eu confio. Entrego-me completamente, que é o que eu faço quando estou perto de ti e é também o que tu queres que eu faça, porque és viciada em relações impossíveis e cenas de teatro. Prometo, digo eu e tu obrigas-me a repetir. Prometo, prometo. Amo-te eprometo. E isso é a deixa para me beijares na boca que fez a terrível promessa: um beijo para me silenciar e fechar o contrato; um abraço rápido para me manietares e deiXares-me cheirar-te o cabelo.

 

- 0 documento foi enviado pelo correio diplomático para o respectivo subsecretário em Londres, - explícava Woodrow a Rob. - Onde foi classificado como confidencial.

 

- Porquê?

 

- Por causa das graves alegações que continha.

- Contra quem?

 

- Desculpe: tenho de passar.

 

- Uma companhia? Um indivíduo?

- Passo.

 

- Quantas folhas tinha o documento, mais ou menos?

 

- Umas quinze. Vinte. Havia também uma espécie de anexo.

- Fotografias, ilustrações, alguma prova palpável?

 

- Passo.

 

- Gravações? Fitas, discos - confissões gravadas, declarações passadas ao papel?

 

- Passo.

 

- A que subsecretário os enviou?

- Sir Bernard Pellegrin.

 

- Ficou com uma cópia?

 

- A política da casa recomenda que se, guarde aqui o menor volume possível de material delicado.

 

- Ficou com uma cópia ou não?

- Não.

 

- Os documentos eram escritos à máquina?

- Por quem?

 

- Eram escritos à máquina ou à mão? À máquina.

 

De que tipo?

 

Não sou especialista em máquinas de escrever.

 

Electrónico? Ou um processador? Computador? Lembra-se do gênero de letra? Que fonte?

 

Woodrow sacudiu os ombros com uma irritação que estava perto da violência.

 

- Não era itálico, por exemplo? - insistiu Rob.

- Não.

 

- Ou aquele artístico, a imitar a escrita à mão que se usa às vezes?

- Era o tipo romano perfeitamente vulgar.

 

- Electrónico. -sim.

 

- Então sempre se lembra. 0 anexo, era escrito à máquina?

- Provavelmente.

 

- Mesmo tipo?

- Provavelmente.

 

- Eram então quinze a vinte páginas, mais coisa menos coisa, de um texto escrito em tipo romano electrónico perfeitamente normal. Muito obrigado. Teve notícias de Londres, como resposta?

 

- Passado algum tempo.

- Do Pellegrin?

 

- Pode ter vindo da parte de Sir John Pellegrin ou pode ter vindo de um dos seus subordinados.

 

- E que dizia?

 

- Não era necessário tomar medidas.

 

- Davam alguma razão? - Sempre Rob, atirando as suas perguntas como murros.

 

- Os supostos testemunhos dados no documento eram tendenciosos. Qualquer inquérito feito à luz de tal documento não levaria a nada e prejudicaria as nossas relações com o país anfitrião.

 

- Comunicou a Tessa que era essa a resposta: não tomar medidas?

- Não por essas palavras.

 

- Então o que é que lhe disse? - perguntou Lesley.

 

Teria sido a nova política de total franqueza que fez Woodrow responder como respondeu, ou o intuito de confesar tudo, próprio de um fraco? - Disse-lhe o que julguei ser aceitável para ela, dadas as condições, dada a perda que ela tinha sofrido e a importância que dava aos documentos.

 

Lesley desligara o gravador e estava a guardar os seus cadernos de notas,

- E que mentira seria aceitável para ela, sir? Na sua opinião? - perguntou ela.

 

- Que Londres tomara conta do caso. Que estavam a ser tomadas medidas. Por um momento abençoado, Woodrow julgou que a entrevista terminara. Mas Rob ainda lá estava, arrastando os pés.

 

- Mais uma coisa, se não se importa, Sr. Woodrow, BelI, Barker & Benjamin. Conhecidos pelas «Três Abelhas»*.

 

A postura de Woodrow não se alterou um centímetro.

 

- Cartazes por toda a cidade. «Três Abelhas Trabalhadoras em áfrica», «Zumbimos por ti, Doçura!», «I V BBB». A sede é nesta rua, ali mais acima. Um edifício de vidro enorme, novo, faz lembrar um Dalek.

 

- E que tem?

 

- Estivemos a compor o perfil dessa companhia ontem à noite, não foi, Les? É espantoso, não faz ideia. Têm uma participação em cada companhia que faz dinheiro em África, mas são mais britânicos do que a conta. Hotéis, agências de viagens, jornais, companhias de seguros, bancos, exploração de ouro, carvão e cobre, importação de automóveis, barcos e camiões e por aí, fora. Mais uma cadeia de fármacos: «As 3 Abelhas zumbem pela sua saúde.» Este último vimo-lo no caminho para cá esta manhã, não foi, Les?

 

- Lá em baixo na estrada, - confirmou Lesley.

 

- E são unha com carne com a malta do Moi, segundo consta. Têm jactos particulares, mulheres até dizer chega...

 

- Suponho que esta conversa nos leve a algum sítio. ..?

 

- Nem por isso. Só queria ver a sua cara ao ouvir falar deles. Pronto, já está. Obrigado pela sua paciência.

 

Lesley continuava ocupada com a sua mala. Pela pouca atenção que pareela ter prestado a toda esta conversa, podia nem sequer ter ouvido nada.

 

- As pessoas como o senhor deviam ir presas, senhor Woodrow, - disse ela para consigo, abanando a cabeça cheia de bom senso. - Julga que está a resolver os problemas do mundo, mas no fundo o senhor é que é o problema.

 

- 0 que ela está a dizer é que o senhor é um mentiroso da merda, - explicou Rob.

 

Desta vez Woodrow não os acompanhou até à porta. Ficou no seu posto atrás da secretária, ouvindo os passos dos seus visitantes que se afastavam; depois falou para a recepção e pediu, no tom mais natural, que o avisassem

 

Em inglês, a letra B e a palavra «bec» (abelha) são homófonas, donde o aproveitamento do insecto para o logotipo e a publicidade da firma. (N. T)

Dalcks: robots extremamente móveis e agressivos que figuram numa popular série de televisão para crianças. (N. T.)

 

logo que eles tivessem saído do edifício. Quando os soube afastados, dirigiu-se rapidamente ao escritório de Coleridge. Este, como Woodrow sabia perfeitamente, não estava no gabinete, mas sim em conferência com o Ministro dos Negócios Estrangeiros do Quénia. Mildren estava a falar pelo telefone interno, com um ar desagradavelmente descontraído.

 

- Isto é urgente, - disse Woodrow para rebater o que quer que fosse que Mildren pensasse que ele estava a fazer.

 

Sentado à secretária de Coleridge, Woodrow viu Mildren extrair um losango branco do cofre privado do Alto Comissário e inseri-lo oficiosamente no telefone digital.

 

- Então o que é que quer? - perguntou Mildren com a insolência própria dos secretários particulares da gente importante, sobretudo quando provém das classes inferiores.

 

- Lá para fora, - disse Woodrow.

 

E logo que ficou só, ligou o número do telefone directo de Sir Bernard Pellegrin.

 

Estavam sentados na varanda, como colegas que eram, gozando um copo antes de ir para a cama sob o clarão ofuscante da iluminação contra os intrusos. Gloria retirara-se para a sala.

 

- Não há um modo agradável de dizer isto, Justin - começou Woodrow.

- Por isso tenho mesmo de o dizer. Há uma forte probabilidade de ela ter sido violada. Tenho muita, muita pena. Por ela e por ti,

 

E Woodrow também tinha pena, devia ter. Por vezes não é preciso sentir uma coisa para se saber que se sente. Por vezes os nossos sentidos estão tão amarfanhados que mais uma notícia de estarrecer não passa de mais um detalhe chato para digerir.

 

- Ainda não houve autópsia, claro, e por isso é prematuro e não-oficial,

- continuou Woodrow, evitando olhar para Justin. - Mas eles parecem não ter dúvidas. - Sentiu a necessidade de fornecer uma consolação prática. - A polícia acha que isto põe os pontos nos ii, têm finalmente um motivo. Ajuda-os a desenvolver as averiguações, embora não tenham nenhum suspeito por enquanto.

 

Justin estava sentado como se estivesse em sentido, segurando o copo de brande na sua frente com ambas as mãos, como se o tivesse acabado de receber em prêmio.

 

- Só uma probabilidade? - objectou por fim. - Que estranho. Como é que isso pode ser?

 

Woodrow não imaginara poder ser mais uma vez sujeito a interrogatório, mas de um certo modo monstruoso, ficou contente. Estava possuído por um demónio.

 

- Bom, é óbvio que não podem deixar de considerar se não teria havido consenso. É a rotina.

 

- Consenso entre quem? - perguntou Justin, intrigado.

 

- Bom, com quem quer que seja de quem eles possam suspeitar. Não podemos fazer esse trabalho por eles, não é verdade?

 

- Pois não, não podemos. Coitado de ti, Sandy. Parece que ficaram para ti as tarefas mais odiosas. E agora, parece-me que devíamos ir ter com a Glória. Fez ela muito bem em nos deixar aqui sós. Estar sentada cá fora de noite, na companhia de todos os insectos africanos, deve ser mais do que a pele clara de uma inglesa pode suportar. - Dominado por uma súbita aversão à proximidade de Woodrow, Justin levantou-se e abriu a porta envidraçada. - Minha querida Glória, deixámo-la aqui abandonada.

 

 

Justin Quayle enterrou a sua mulher mil vezes assassinada num lindíssimo cemitério africano chamado Langata, debaixo de um jacarandá, entre o seu filho nado-morto Garth e um rapazinho de cinco anos da tribo Kikuyu que era guardado por um anjo ajoelhado de gesso carregando um escudo que declarava que ele se juntara aos santos, Por trás dela estava Horatio John Williams, do Dorset, na companhia de Deus, e aos pés Miranda K. Soper, eternamente amada. Mas Garth e o rapazinho africano que se chamava Gitau Karanja, eram os seus companheiros mais próximos e Tessa ficara ombro a ombro com eles, como Justin queria, e Glória, graças a uma judiciosa distribuição da generosidade de Justin, conseguira obter para ele. Durante a cerimónia, Justin mantivera-se isolado de toda a gente, com a sepultura de Tessa à sua esquerda e Garth à sua direita e dois passos largos à frente de Woodrow e Glória, que até aí tinham pairado com ar protector de um lado e doutro, em parte para o reconfortarem, em parte para o protegerem das atenções da imprensa. Esta, jamais esquecendo o seu dever para com o público, mostrava-se impiedosa na sua determinação em obter fotos e prosa acerca do corneado diplomata britânico e pai putativo, cuja mulher branca fora chacinada - citando os jornais mais ousados -, tivera um filho do seu amante negro e jazia agora num campo estrangeiro que para ela passaria a ser o seu país natal - citando pelo menos três jornais do mesmo dia.

 

Além dos Woodrow, e afastada deles, estava Ghita Pearson de sari, cabeça levantada e mãos postas na eterna atitude do luto, e ao lado Porter Coleridge, mortalmente pálido e sua mulher Veronica; aos olhos de Woodrow era como se estivessem a derramar sobre Tessa a protecção que reservavam para a sua filha Rosie, hoje ausente.

 

0 cemitério de Langata fica num planalto luxuriante de erva alta e terra encarnada, árvores ornamentais em flor, tão fúnebres como alegres, a três quilómetros do centro da cidade e a poucos passos de Kibera, um dos maiores bairros miseráveis de Nairobí, que formava uma enorme mancha castanha de casas de lata a deitar fumo, envoltas numa nuvem doentia de poeira africana, encafuadas no vale do rio Nairobi sem uma mão-travessa de espaço entre si. A população de K-ibera atinge o meio milhão e está a crescer, e o vale é rico em depósitos de lixo, sacos de plástico, farrapos coloridos de roupas velhas, cascas de banana e laranja, sabugos de milho e tudo o mais que a cidade quer deitar fora. Do outro lado da estrada que vai até ao cemitério estão os modernos escritórios da Junta do Turismo do Quénia e a entrada do Parque Venatório de Nairobi e mais ao longe os edifícios em ruínas do aeroporto de Wilson, o mais antigo do Quénia.

 

Para os Woodrow e para muitos dos presentes havia qualquer coisa de sinistro, tanto como de heróico, na solidão de Justin no momento final do enterro. Parecia estar a despedir-se não só de Tessa mas também da sua carreira, de Nairobi, do seu filho nado-morto e de toda a sua vida até então. A sua perigosa proximidade da cova acentuava este sentimento. Pairava no ar a sugestão fortíssima de que uma grande parte do Justin que eles conheciam, e talvez todo ele, ia partir para o além juntamente com Tessa. Uma só pessoa parecia merecer a sua atenção, notou Woodrow. E não era o padre, nem era a figura de Ghita Pearson, como uma sentinela, não era o seu Chefe de Missão Porter Coleridge, taciturno e lívido, nem os jornalistas que se empurravam uns aos outros pelo melhor ângulo para as fotografias, nem as esposas inglesas de cara fechada num desgosto feito de empatia pelo fim cruel de uma colega que podia ser também o delas, nem a dúzia de polícias negros barrigudos que alargavam os cinturões com os polegares.

 

Era Kioko. Era o rapaz que estivera sentado no chão na enfermaria de Tessa, vendo morrer a irmã, que viera a pé da sua aldeia durante dez horas para estar com ela até ao fim e outras dez hoje para estar com Tessa. Justin e Kioko olharam um para o outro simultaneamente e mantiveram o olhar um do outro numa atitude cúmplice. Woodrow notou que Kioko era o mais jovem dos presentes. Sensível à sua tradição tribal, Justín pedira que as crianças inglesas não assistissem ao funeral.

 

Pilares brancos marcavam a entrada do portão do cemitério onde o cortejo de Tessa estava a chegar. Cactos gigantes, trilhos de lama vermelha e discretos vendedores de bananas e gelados ladeavam o caminho até à cova. 0 padre era negro, velho e grisalho. Woodrow lembrava-se de o ter cumprimentado numa das festas de Tessa. Mas o amor do padre por Tessa era tão efusivo, a sua crença numa vida melhor tão fervorosa e o barulho do tráfego na estrada e no ar tão persistente (para já não mencionar a proximidade de outros funerais e o clangor dos cânticos vindos dos camiões dos acompanhantes e os oradores que competiam uns com os outros nas suas arengas através de megafones, os grupos de família e amigos que vinham fazer piqueniques na relva à volta dos entes queridos), que ninguém estranhava que só algumas palavras de ouro do santo homem chegassem até aos ouvidos da assistência. E Justin, se ouviu alguma coisa, não o deu a entender. janota como sempre no fato escuro de jaquetão que envergara para o funeral, mantinha os olhos fixos em Kioko que, como Justin, tinha escolhido o seu posto afastado das outras pessoas e parecia como que suspenso no ar, porque os seus pés magros mal tocavam o chão e os seus braços pendiam dos lados como os dum boneco de trapos e a sua longa cabeça irregular esticava-se de lado como a duma cegonha, numa postura de permanente interrogação.

 

A viagem final de Tessa não tinha sido tranquila, mas nem Woodrow nem Glória teriam desejado que o fosse. Ambos acharam tacitamente que o seu último acto deveria conter aquele elemento de imprevisto que caracterizara a vida dela. 0 casal’Woodrow levantara-se cedo, embora não houvesse razão para o fazer, só que a meio da noite Glória se dera conta que não tinha nenhum chapéu escuro. Ao nascer do sol, um telefonema revelara que Elena tinha dois, mas eram ambos um pouco anos vinte, gênero barrete de aviador, importas-te, Glória? Um Mercedes oficial fora então destacado da casa do grego seu marido, transportando um chapéu preto num saco de plástico do Harrod’s. Gloria devolveu-o, preferindo um chaile de renda preto que era de sua mãe: ia usá-lo como se fosse uma mantilla. Ao fim e ao cabo, Tessa era meio italiana, explicou ela.

 

- Espanhola, querida. - respondeu Elena.

 

- Disparate, - ripostou Glória - a mãe dela era uma condessa italiana, vinha no Telegraph.

 

- A mantilla, querida - corrigiu Elena, pacientemente. - As mantillas são espanholas e não italianas, percebes?

 

- Bom, mas a mãe dela era italiana dos quatro costados, - disse Glória irritada, mas voltou a telefonar cinco minutos depois a pedir desculpa, mas fora por causa do stresse.

 

Por essa altura os rapazes Woodrow já tinham sido despachados para o colégio e o próprio Woodrow já fora para a Alta Comissão e Justin andava dum lado para o outro na sala de jantar de fato e gravata, pedindo para lhe trazerem flores. Não flores do jardim de Glória, mas do seu próprio jardim. Queria as frésias amarelas perfumadas que ele criava para Tessa durante todo o ano, disse ele, e que ele tinha sempre na sala à espera dela quando ela regressava das suas excursões de trabalho. Queria pelo menos duas dúzias para o caixão. As deliberações de Glória sobre o modo mais prático de as obter foram interrompidas por um telefonema algo confuso de um jornal de Nairobi anunciando que o cadáver de Bluhm fora encontrado no leito seco de um rio a cinquenta milhas a leste do lago Turkana e queria saber se alguém tinha alguma coisa a dizer? Glória berrou: «não fazemos comentários» para o telefone e desligou-o com estrondo, Mas ficou abalada e sem saber se havia ou não de dar a notícia a Justin imediatamente, ou esperar até ter acabado o funeral. Por isso, ficou extremamente aliviada ao receber um telefonema de Mildren, ainda não eram passados cinco minutos, a dizer que Woodrow estava em conferência mas que os boatos acerca do cadáver de Bluhm eram puro disparate: o corpo, pelo qual uma tribo de bandidos somalis pedia dez mil dólares, tinha pelo menos cem anos e mais provavelmente mil; seria possível dar uma palavrinha ao Justin?

 

Glória levou Justín até ao telefone e depois ficou oficiosamente ao seu lado, ouvindo-o dizer: «sim... pode ser... é muito amável, vou fazer o possível para estar preparado.» Mas a que propósito Míldren estava a ser amável e para que é que Justin se deveria preparar é que não ficou claro. E: ”não, obrigado”, disse Justin a Mildren com firmeza, fazendo avolumar-se o mistério, não queria que o fossem buscar à chegada, preferia ser ele próprio a tratar do assunto. Após o que desligou e pediu, com alguma aspereza (considerando tudo o que ela fizera por ele), que o deixassem só na casa de jantar, a fim de fazer uma chamada paga no destinatário para o seu advogado em Londres, coisa que ele já tinha feito por duas vezes nos últimos dias, também sem admitír a presença de Glória. Mostrando discrição, ela então retírou-se para a cozinha a fim de escutar pelo postigo de serviço,.. para deparar com Mustafa, abatido pelo desgosto, que se apresentava, sem ter sido chamado, à porta das traseiras com um cesto cheio de frésias amarelas que, de sua própria iniciativa, colhera no jardim de Justin. Armada deste pretexto., Glória marchou até à sala de jantar, esperando ao menos ouvir o fim da conversa telefónica, mas Justin estava a desligar quando ela entrou.

 

De repente, sem que ela desse pela passagem do tempo, tudo estava atrasado. Glória acabara de vestir-se mas ainda não tinha tocado sequer na cara, ninguém comera fosse o que fosse e já passava da hora do almoço, Woodrow estava à espera lá fora com a Volkswagen, Justin estava na entrada com as frésias na mão (agora atadas num ramo), Juma propunha a toda a gente uma travessa com sanduíches de queijo e Glória tentava decidir se havia de atar a mantílla debaixo do queixo ou de lançar as pontas por cima do ombro, como fazia a sua mãe.

 

Sentada no banco traseiro da carrinha entre Justin e Woodrow, Glória concordara finalmente com o que Elena lhe andava a dizer há dias: que estava loucamente apaixonada por Justin, coisa que não lhe acontecia há muitos anos, e era absolutamente uma tortura pensar que ele Ia partir muito em breve. Por outro lado, como Elena lhe fizera notar, a sua partida dar-lhe-ia pelo menos a oportunidade de cair em si e retomar os costumados deveres maritais, E, se se desse o caso que a ausência exacerbasse a paixão, bom, como Elena sugerira audaciosamente, Glória podia sempre tomar alguma medida acerca do caso, em Londres.

 

A viagem de carro através da cidade pareceu a Glória ainda mais desconfortável e cheia de solavancos do que o costume e estava demasiado consciente do calor da coxa de Justin contra a sua para manter a serenidade. Quando o Volkswagen chegou finalmente à casa mortuária, Glória tinha um nó na garganta, o seu lenço era uma bola húmida na palma da mão e já não sabia se chorava por Tessa ou por Justin. As portas do fundo foram abertas de fora e justin e Woodrow saltaram para baixo, deixando-a sozinha no banco traseiro, com Livingstone lá à frente. Não havia jornalistas, verificou ela com alívio, lutando para retomar a compostura, Ou não havia por enquanto. Glória observou os seus dois homens pelo pára-brisas, vendo-os subir os degraus da porta de um edifício de granito de um só piso, com um beiral estilo Tudor. Justin, com o seu fato por medida e a sua uba impecável preta e cinza que nunca ninguém via ele escovar ou pentear, segurando frésias amarelas... e aquele passo de oficial de cavalaria que ele tinha e, tanto quanto ela sabia, era característico de todos os Dudleys, avançando o ombro direito... Porque é que Justin parecia sempre indicar o caminho e Sandy segui-lo? E porque é que Sandy tinha um ar tão sério nestes últimos tempos, como um mordomo?, lamentou ela. E está a precisar de comprar um fato novo; aquela coisa de sarja dá-lhe um ar de detective privado.

 

Os dois homens desapareceram no átrio de entrada. - Há papéis para assinar, querida, - dissera Sandy em tom superior, - Autorizações de transferência do corpo e coisas assim. - Porque é que ele me trata de repente como se eu fosse a Querida Mulherzinha? Já se esqueceu de que fui eu que tratei do maldito funeral? Um cacho de gatos pingados vestidos de preto esperava junto da porta lateral da casa mortuáría. Ouviu-se abrir as portas, um carro fúnebre fez marcha atrás até elas, com as palavras 0 Fúnebre escusadamente pintadas a branco em letras de trinta centímetros. Glória teve um relance de madeira envernizada cor de mel e de frésías amarelas, quando o caixão deslizou entre duas tábuas pretas para o interior do carro. «Devem ter prendido o ramo ao caixão com fita-cola; de outro modo, como é que se segurava sem escorregar da tampa?

0 Justin pensou em tudo.» 0 carro começou a sair, com os gatos-pingados a bordo. Glória fungou, depois assoou o nariz.

 

- Isto foi muito mau, minha senhora, - lamentou Livingstone lá da frente

- É mesmo muito, muito mau...

 

- Pois é, Livingstone, - disse Glória grata pela formalidade da observação do homem. «Estás a ser observada, rapariga,» disse ela a si própria com firmeza. «É tempo de levantar a cabeça e dar o exemplo.» As portas do fundo abriram-se com estrondo.

 

- Está tudo bem, menina? - perguntou Woodrow alegremente, deixando-se cair sentado ao lado dela. - Foram estupendos, não foram, Justin? Muito simpáticos, muito profissionais.

 

- Não te atrevas a chamar-me menina, - disse-lhe ela furiosa. Mas em silêncio.

 

Ao entrar na igreja de Santo André, Woodrow passou em revista a congregação. Num relance, localizou o pálido casal Coleridge e por trás deles Donohue e a mulher, a estranha Maud que parecia uma ex-corísta de sucesso caída em desgraça e a seguir Mildren, aliás Mildred, e uma loira anoréxica que, segundo constava, partilhava o seu apartamento. 0 Grupo da Pesada do Clube Muthaiga (como Ibes chamava Tessa), formava um pelotão militar. Na outra nave lateral, notou um contingente do Programa Alimentar Mundial e outro que consistia exclusivamente de mulheres africanas, umas de chapéu, outras dejeans, mas todas com a aura determinadamente combativa característica dos amigos radicais de Tessa, Por trás delas, um grupo de rapazes e raparigas de ar gaulês, vagamente perdido e vagamente arrogante, as mulheres de cabeça coberta, os rapazes de camisas abertas e artísticas barbas de três dias. Woodrow, intrigado, acabou por concluir que deviam ser membros da organização belga a que Bluhm também pertencia. Devem estar a perguntar se não vão ter de voltar aqui na semana que vem por causa do Arnold, pensou ele brutalmente. Seguiam-se os criados ilegais dos Quaye., Mustafa o criado-grave, Esmeralda a Sudanesa do Sul e o Ugandês sem um braço, de nome desconhecido. E na primeira fila, agigantando-se ao lado do marido, um Grego furtivo e pequenino, estava a Querida Elena em pessoa, muito acolchoada e de cabelo cor de cenoura, a «bete noire» de Woodrow, ornamentada com a bijuteria fúnebre em azeviche que pertencera à avó.

 

- Olha, querida, levo os azeviches ou achas que é demais? - perguntara ela a Glória logo às oito da manhã. Com alguma maldade, Glória aconselhara audácia:

 

- Noutra pessoa qualquer, El, francamente, poderia ser um bocadinho demais. Mas com as tuas cores, querida--- avança!

 

E não havia polícias, notou ele com agrado, nem quenianos nem britânicos. Seria o resultado das poções mágicas de Bernard Pellegrin? Adivinhe quem puder.

 

Lançou outro olhar a Coleridge, tão macilento, tão martirizado. Lembrou-se da estranha conversa que tinham tido na Residência no sábado passado e classificou-o como pedante e indeciso. 0 seu olhar voltou ao caixão de Tessa, solenemente exibido em frente do altar, com as frésias amarelas de Justin em cima. Os olhos encheram-se-lhe de lágrimas, prontamente recambiadas para donde tinham víndo, 0 órgão tocava o Nunc Dimittis e Glória cantava energicamente, com todas as palavras na ponta da língua. É como o hino da tarde no colégio interno dela, pensou Woodrow. Ou no meu. Odiava por igual ambas as instituições. Sandy e Glória, nascidos para o cativeiro. A diferença é que eu sei-o, e ela não. Senhor, deixa agora o Teu servo partir em paz. Por vezes, tomara eu fazer o mesmo. Partir para não voltar. Mas onde estaria a paz?

0 seu olhar descansou de novo sobre o caixão. Eu amava-te. Eu era aquele maníaco do controle que não conseguia controlar-se a si mesmo, como tiveste a bondade de me dizer. Ora bem, vê agora o que te aconteceu. E vê porque é que te aconteceu.

 

E já agora: nunca ouvi falar do Lorbeer. Não conheço nenhuma beleza húngara de pernas compridas chamada Kovacs. Recuso-me a ouvir mais teorias não formuladas e sem provas que ressoam como sinos na minha cabeça, Estou totalmente desinteressado dos ombros de seda morena da espectral Chita Pearson e o seu sari. Só sei uma coisa: depois de ti, nunca ninguém saberá que existe uma criança assustada dentro deste corpo de militar.

 

Para se distrair, Woodrow dedicou-se ao estudo aturado das janelas da igreja, Santos machos, brancos todos eles, nenhum Bluhm. A recordação de Tessa atinge-o como uma bala. Um vitral celebrando um lindo rapazínho branco de fato à maruja simbolicamente rodeado de feras em adoração. Uma boa hiena é capaz de cheirar sangue a dez quilómetros de distância. Sob a ameaça das lágrimas, Woodrow força a sua atenção sobre o bom Santo André, que é a cara chapada do velho Macpherson, o guia, daquela vez em que levámos os rapazes de carro até ao lago Awe para a pesca do salmão. Aquele olhinho feroz de escocês, a barba de escocês, cor de ferrugem, Que pensarão eles de nós? matutou, transferindo o olhar embaciado para os rostos negros na multidão. Que imaginávamos nós que estávamos cá a fazer, naqueles tempos, impingindo o nosso Deus britânico e branco e o nosso Santo escocês e branco, enquanto nos servíamos do país como de um campo de recreio para aventureiros das classes altas sem lugar onde caírem mortos?

 

- Pessoalmente, estou a tentar fazer uma reparação, - dizes tu quando eu, coqueteando, te faço esta mesma pergunta na pista de dança do Muthaiga Clube. Mas tu nunca respondes a uma pergunta sem lhe dares a volta e a transformares em provas contra mim. - E você que faz aqui, Sr. Woodrow? - perguntas tu. A orquestra é barulhenta e temos de danar muito juntos para nos ouvirmos um ao outro, Sim, são os meus seios, dizem os teus olhos quando eu me atrevo a olhar para baixo. Sim, são as minhas ancas ondulando enquanto você me agarra pela cintura, Também pode olhar para elas, regale os seus olhos. É o que faz a maior parte dos homens, não tente ser uma excepção.

 

- Acho que o que eu estou a fazer, realmente, é a ajudar os quenianos a administrar as coisas que lhes demos, - agito eu, bombástico, por cima da música e sinto o teu corpo ficar rígido e afastar-se ainda antes que eu acabe a frase.

 

- Nós não lhes demos a ponta dum corno! Eles é que tomaram as coisas! E à força das armas! Nós não lhes demos nada! Nada!

 

Subitamente, Woodrow girou sobre si próprio, no que foi imitado por Glória, a seu lado, e pelos Coleridge, do outro lado da nave. Lá fora ouvira-se um grito, seguido pelo barulho de qualquer coisa de grande a partir-se, e de vidros. Pela porta aberta Woodrow viu dois sacristães vestidos de preto, aterrados, fechando o portão do adro da igreja, enquanto os polícias de capacete formavam um cordão ao longo do gradeamento brandindo com ambas as mãos bastões antimotim com pontas de metal, como jogadores de basebol preparando-se para a tacada. Nas ruas onde se juntavam os estudantes ardia uma árvore sob a qual jaziam de barriga para cima dois ou três carros, cujos ocupantes pareciam demasiado aterrorizados para saírem ca para fora. Ao ritmo dos gritos de encorajamento da multidão, uma reluzente limusína preta, uma Volvo como a de Woodrow, elevava-se oscilando no ar, alçada por um enxame de rapazes e raparigas. Ergueu-se, balançou e vírou-se primeiro de lado e depois de costas, antes de cair morta, com um estrondo enorme, ao lado dos seus companheiros. A polícia carregou. Acontecera aquilo de que eles estavam à espera, fosse lá o que fosse. Num momento estavam parados, no momento seguinte estavam a abrir um caminho cor de sangue através da multidão que fugia, parando só para multiplicar os golpes sobre os que tinham conseguido derrubar. Uma carrinha blindada parou ao lado e meia dúzia de corpos ensanguentados foram atirados lá para dentro.

 

A Universidade é um verdadeiro barril de pólvora, meu velho -, dissera Donobue quando Woodrow o consultara acerca dos possíveis pontos de risco. Cortaram totalmente as bolsas, o pessoal não é pago, as admissões são reservadas para os ricos e estúpidos, camaratas e salas de aula estão a abarrotar, as retretes todas entupidas, roubaram as portas todas, há consideráveis riscos de incêndio e nos corredores cozinha-se em cima de brasas. Não há energia, nem i               luz eléctrica para estudar, nem livros por onde estudar. Os alunos mais pobres foram para a rua porque o Governo está a privatizar o sistema de educação superior sem perguntar nada a ninguém, a educação é estritamente para os ricos e além disso os resultados dos exames são fraudulentos e o Governo tenta forçar os alunos a ir estudar para o estrangeiro. Ontem a polícia matou dois ou três estudantes e os colegas, por uma razão desconhecida, não ficaram nada satisfeitos. Mais alguma pergunta?

 

A porta da igreja abriu-se e o órgão fez-se ouvir de novo. Os assuntos de Deus podiam recomeçar,

 

No cemitério o calor era agressivo como um caso pessoal. 0 velho padre hirsuto calara-se, mas o clamor não dimínuíra e o sol malhava em tudo como um mangual. De um lado de Woodrow, um megaleitor de cassetes com altifalante tocava uma versão rock do Avé Maria a plenos pulmões para um grupo de freiras negras de hábitos cinzenros. Do outro um grupo de futebolistas de blazer formara-se junto a uma barraca de pim-~pam-pum em que os alvos eram latas de cerveja vazias e um solista cantava uma canção de adeus a um camarada. E no aeroporto de Wilson devia haver um festival aeronáutico, porque com vinte segundos de intervalo pequenos aviões de cores brilhantes zumbiam por cima da multidão. 0 velho padre baixou o livro de orações. Os carregadores aproximaram-se do caixão e cada um pegou numa borda do tecido. Justin, sempre sozinho, pareceu vacilar. Woodrow deu um passo em frente para o segurar mas Glória agarrou-o com uma garra enluvada.

 

- Ele quere-a sópara ele, idiota, - ciciou ela entre lágrimas.

 

A imprensa não mostrou o mesmo tacto. Aquela era a foto de que eles estavam à espera: carregadores negros baixam à terra africana uma mulher branca, chorada pelo marido que ela enganava. Um homem marcado das bexigas, com o cabelo cortado rente e várias câmaras saltando-lhe contra a barriga, ofereceu a Justin uma colher de trolha cheia de terra, à espera de obter um instantâneo do viúvo lançando-a sobre o caixão. Justin afastou-a com a mão. Ao fazê-lo, o seu olhar incidiu sobre dois homens esfarrapados que arrastavam um barril de madeira sobre um pneu vazio até à beira da cova. Escorria cimento liquido das bordas do barril.

 

- Por favor, o que é que estão a fazer? - perguntou-lhes ele tão alto que toda a gente se virou na sua direcção. - Pode alguém por favor perguntar àqueles senhores o que querem fazer com o cimento? Sandy, preciso de um intérprete, por favor.

 

Desobedecendo a Glória, Woodrow, o filho do general, dirigiu-se rapidamente até Justin. Sheila, a magrizela do departamento de Tim Donohue, falou com os homens e depois com Justin.

 

- Dizem que fazem sempre o mesmo quando é para pessoas ricas, Justin - disse Sheila.

 

- Fazem o quê, exactamente? Não percebo. Explique, por favor.

 

- 0 cimento. É para afastar os intrusos. Os ladrões. A gente rica é enterrada com alianças de ouro e roupas boas. Nós os Wazungu somos o alvo preferido. Dizem que o cimento é como um seguro.

 

- Quem os mandou fazer isso?

 

- Ninguém. São cinco mil xelins.

 

- Têm de sair. Mande-os embora, diga-lhes, por favor, Sheila. Não quero os serviços deles e não lhes vou dar dinheiro. Eles que levem o barril e vão-se embora. - Mas depois, talvez por não confiar nela para lhes dar o recado com o Vigor suficiente, Justin dirígiu-se a eles, levantou um braço como Moisés apontando o horizonte por cima da cabeça dos presentes: - Vão-se embora por favor, - ordenou: - Saiam imediatamente. Muito obrigado.

 

A multidão dividiu-se para abrir caminho ao longo da linha indicada pelo braço estendido. Os homens com o barril fugiram precipitadamente pelo caminho abaixo. Justin seguiu-os com os olhos até eles desaparecerem. No calor que vibrava os homens pareceram correr a direito até ao céu vazio. Justin deu meia volta, rígido como um soldado de chumbo e dirigiu-se ao grupo da imprensa.

 

- Agora gostava que se fossem todos embora, por favor, - disse ele no silêncio que se formara de repente no meio da barulheira, - Foram muito amáveis. Estou muito agradecido. Adeus.

 

Calmamente e para pasmo dos circunstantes, os repórteres guardaram as máquinas e os livros de notas e murmurando coisas como: «Até breve, Justin», abandonaram o cemitério. Justin regressou ao seu lugar solitário à cabeceira de Tessa. Ao mesmo tempo, um grupo de mulheres africanas avançou e dispôs-se em ferradura à volta dos pés da sepultura. Todas usavam o mesmo uniforme: um vestidinho leve e com folhos, às flores azuis e um lenço do mesmo tecido na cabeça. Cada uma sozinha podia parecer perdida, mas em conjunto pareciam unídas. Começaram a cantar, primeiro baixinho. Ninguém as guiava, não havia instrumentos, quase todas choravam, mas não deixavam o choro afectar-lhes a voz. Cantavam em coro, alternadamente em Swahili e em Inglês, Woodrow tentou perceber as outras palavras. Kwa heri, Tessa... Amiga Tessa, adeus... Vieste até nós, Mama Tessa, Mamãzinha, deste-nos o teu coração... Kwa heri, Tessa, adeus...

 

- Donde diabo surgiam elas? - perguntou ele a Glória pelo canto da boca.

- Lá de baixo, - murmurou Glória, indicando com a cabeça o bairro de lata.

 

0 canto subiu quando o caixão desceu à cova. Justin viu-o a descer, estremeceu quando ele bateu no chão e de novo quando a primeira pazada de terra caiu sobre a tampa e a segunda sobre as frésias, sujando as pétalas. Um grito terrível soou, tão breve como o guincho de uma dobradiça ferrujenta quando uma porta é aberta para trás, mas que demorou o tempo suficiente para Woodrow ver Ghita Pearson cair de joelhos em câmara lenta, rolar sobre uma anca bem torneada escondendo a cara entre as mãos; depois, surpreendentemente, levantar-se de novo apoiada no braço de Veronica Coleridge e retomar o seu posto no funeral.

 

Teria Justin dito alguma coisa a Kioko? Ou teria Kioko agido por sua conta? Leve como uma sombra aproximou-se de Justin e, num gesto desassombrado de afecto, agarrou-lhe na mão. Através de nova crise de choro, Glória viu as mãos dadas moverem-se até acharem uma posição confortável para ambas. Assim unidos, o marido enlutado e o irmão enlutado viram o caixão de Tessa desaparecer debaixo da terra.

 

Justin deixou Nairobi nessa mesma noite. Woodrow, para eterno desgosto de Glória, não a tinha avisado. A mesa do Jantar estava posta para três, a própria Gloria tinha tirado a rolha à garrafa de clarete e posto um pato a assar no forno à laia de consolação. Ouviu passos no átrio e presumiu, com prazer, que Justin decidira tomar um copo antes de jantar, só nós os dois, enquanto o Sandy lá em cima lê uma história aos rapazes antes de adormecerem. E de repente lá estava a velha pasta de ministro, acompanhada por uma mala cinzenta que Mustafa trouxera para ele, ambas pousadas no átrio com as respectivas etiquetas e Justin ao lado com o impermeável no braço e um saco de viagem ao ombro, pronto para lhe devolver a chave da cave,

 

- Justin, não me diga que se vai embora!

 

- Foram todos tão bons para mim, Glória. Nunca saberei como agradecer.

- Desculpa lá isto, querida, - disse Woodroow bem disposto, descendo os degraus dois a dois. - É uma saída um tanto de capa e espada, mas foi para evitar a tagarelice dos criados. É a única maneira.

 

Nesse momento houve um toque ligeiro na campainha da porta: era Livingstone, o motorista, com um Peugeot vermelho que pedira emprestado a um amigo para evitar usar placas diplomáticas no aeroporto. E, encolhido no lugar do morto, estava Mustafa, olhando em frente, iracundo, como a efígie de si próprio.

 

- Mas nós temos que ir consigo, Justin! Queremos despedir-nos de si! Insisto! Quero oferecer-lhe uma das minhas aguarelas! 0 que é que vai acontecer quando lá chegar? - gritou Glória infelicíssima. - Não podemos deiXá-lo desaparecer assim no escuro... querido....

 

0 querido era tecnicamente dirigido a Woodrow, mas podia ser dirigido a justin e ao pronunciá-lo ela desfez-se em lágrimas sem poder controlar-se, as últimas de um longo dia cheio de pranto. Soluçando miseravelmente, abraçou justin contra si, batendo-lhe -nas costas com os punhos, rolando a cara no peito dele e murmurando: «Oh, por favor, não vá, oh por favor, oh justin», e outras exortações indecífráveis até que, enchendo-se de coragem, libertou-se dele, afastou o marido do seu caminho e subiu as escadas a correr, entrando no quarto e fechando a porta com estrondo.

 

- Está esgotada de nervos, coitada, - explicou Woodrow, sorrindo.

 

- Estamos todos, - disse Justin, apertando a mão estendida de Woodrow.

- Mais uma vez, obrigado, Sandy.

 

- Vamos manter-nos em contacto.

- Claro.

 

- E tens a certeza de que não queres ninguém à tua espera, lá do outro lado? Estão todos ansiosos por fazer o necessário.

 

- A certeza absoluta, obrigado, Os advogados da Tessa estão a preparar tudo para a minha chegada,

 

E no momento seguinte, justin descia os degraus até ao carro vermelho, com Mustafa de um lado com a pasta dos documentos e Livingstone do outro, levando a mala cinzenta.

 

- Deixei envelopes para todos vocês, ao cuidado do Sr. Woodrow, - disse justin a Mustafa, quando se puseram a caminho. - Isto é Para ser entregue expressamente a Ghíta Pearson. E faço questão: em privado.

 

- Nós sabemos que há-de ser sempre um homem bom, Mzee -, disse Mustafa em tom profético, enfiando o envelope nas profundezas do seu casaco de algodão. Mas na sua voz não havia perdão por ele deixar a África.

 

0 aeroporto, apesar de uma operação plástica recente, estava num caos. Grupos exaustos de turistas escaldados do sol formavam bichas infindáveis, altercavam com os guias e carregavam febrilmente gigantescas mochilas até às máquinas de Raios x. Os funcionários encarregados do check-ín ficavam desnorteados perante cada bilhete, e murmuravam interminavelmente ao telefone. Anúncios incompreensíveis espalhavam o pânico através dos altifalantes, enquanto polícias e carregadores contemplavam calmamente os acontecimentos. Mas Woodrow encarregara-se de tudo. Mal Justin tinha saído do carro, já um representante da British Airways o levara para um pequeno gabinete, a salvo dos olhares do público.

 

- Gostaria que os meus amigos viessem comigo, se possível - disse justin,

- Não há problema.

 

Com Livingstone e Mustafa pairando por perto, foi provido de um passe em nome de Mr. Alfred Brown. Ficou a olhar, passivo, enquanto a sua mala cinzenta era etiquetada com o mesmo nome.

 

- Esta levo-a na cabine comigo - anunciou, sem dar lugar a contestação.

0 representante da B. A., um rapaz loiro neozelandês, fingiu sopesar a enorme pasta e exalou um gemido exagerado de esforço. - As pratas da família, não, sír?

 

- As do meu anfitrião, - disse Justin para entrar na brincadeira, mas pela sua cara percebia-se que o assunto não era negociável.

 

- Se o senhor pode com ela, Sir, é porque nós também podemos - disse o representante passando-lhe a pasta para a mão. - Desejo-lhe uma viagem agradável, Sr. Brown. Vamos levá-lo pela porta das chegadas, se não se importa.

- É muito amável.

 

Voltando-se para os últimos adeuses, Justin agarrou nos punhos enormes de Livingstone com ambas as mãos. Mas o momento era demais para Mustafa. Silencioso como sempre, tinha desaparecido. Com a pasta firmemente segura na mão, Justin entrou no átrio das chegadas na peugada do seu guia, para se encontrar olhando fixamente para uma mulher gigantesca e rechonchuda de raça indefinida que lhe sorria do alto da parede. Tinha seis metros de altura e metro e meio de largura na sua dimensão mais larga e era o único cartaz publicitário que havia no átrio. Trazia um uniforme de enfermeira e tinha três abelhas douradas em cada ombro. Outras três estavam colocadas proeminentemente na algíbeira do peito da sua blusa branca. Estava a oferecer uma bandeja de iguarias farmacêuticas a uma família vagamente multiracial constituída por várias crianças e os seus pais. A bandeja continha qualquer coisa para cada um: garrafas de remédio de um castanho dourado que mais parecia whisky para o papá, pílulas cobertas de chocolate óptimas para mastigar para os filhinhos, e para a mamã produtos de beleza decorados com deusas nuas oferecendo-se ao sol. Um brazão no topo e outro em baixo do cartaz, e letras de um violento roxo-acastanhado proclamavam a toda a humanidade a feliz mensagem:

 

Três Abelhas

 

AO SERVIÇO DA SAÚDE EM ÁFRICA!

 

0 cartaz assombrou-o.

 

Exactamente como assombrara Tessa.

 

Olhando rigidamente para cima, Justin escuta os alegres protestos de Tessa, à sua direita. Atordoados pela viagem, carregados de bagagens de mão do últímo minuto, os dois acabaram, minutos antes, de chegar aqui vindos de Londres. Nenhum deles jamais pôs o pé no continente africano. Fspera-os o Quénia - e a África inteira. Mas é este cartaz o que mais chama a atenção excitada de Tessa.

 

- justin, olha! Não estás a olhar.

- 0 que é? Claro que estou.

 

- Anexaram as nossas abelhas! Há por aí alguém que julga que é o Napoleão! É preciso uma lata... ! É um escândalo. Vais ter de fazer qualquer coisa.

 

E era mesmo um escândalo. Um escândalo hilariante. As três abelhas de Napoleão, símbolos da sua glória, preciosos emblemas da ilha de Elba que Tessa adorava e onde o grande homem suportara o seu primeiro exílio, tinham sido desavergonhadamente deportadas para o Quénia e vendidas para a escravatura comercial. Meditando agora no mesmo cartaz, Justin sentiu-se subjugado pela obscenidade das coincidências da vida.

 

 

Desconfortavelmente empoleirado num assento empinado na frente do avião, com a pasta dos documentos fechada no compartimento por cima da sua cabeça, Justin Quayle olhava fixamente, para além do seu reflexo na vigia, para o negrume do espaço. Estava livre. Nem perdoado, nem reconciliado, nem reconfortado, nem resignado. Nem livre dos pesadelos que lhe lembravam que ela estava morta, só para acordar descobrindo que era verdade. Nem livre do sentimento de culpa do sobrevivente. Nem livre do tormento de pensar em Arnold. Mas livre para finalmente fazer o seu luto à sua maneira. Livre da sua terrível prisão. Dos carcereiros que tinha acabado por detestar. De andar às voltas no seu quarto como um prisioneiro, meio enlouquecido pelo atordoamento do seu espírito e pela sordidez dos seus aposentos. Livre do seu próprio silêncio, de ficar sentado na beira da cama perguntando porquê? dia após dia. Livre dos momentos de vergonha em que estava tão cansado, tão deprimido e tão vazio que quase se convencia a não se ralar mais, aquele casamento de todo o modo fora uma loucura e, se tinha acabado, tanto melhor. E se o desgosto era uma espécie de ociosidade, como lera algures, livre também daquela ociosidade que não pensava em mais nada do que no seu desgosto.

 

Livre também dos interrogatórios da polícia, em que um Justin que ele não reconhecia caminhava até ao centro do palco e, numa série de frases imaculadamente esculpidas, depositava o seu fardo aos pés dos seus espantados interrogadores - ou pelo menos a parte do seu fardo que o instinto lhe dizia que não era imprudente revelar. Começaram por acusá-lo de homicídio.

 

- Temos aqui uma sequência de acontecimentos pendendo sobre a nossa cabeça, justin -, explica Lesley em tom de desculpa - e vamos ter de lha comunicar imediatamente para que tenha conhecimento dela, embora saibamos que isso é doloroso. Chama-se um triângulo amoroso, em que o senhor é o marido ciumento que organizou um contrato de assassínio numa altura em que a sua mulher e o amante estivessem tão longe de si quanto possível, o que é sempre bom para o álibi. Mandou-os matar a ambos, o que era necessário para a sua vingança, Mandou que tirassem o corpo de Arnold Bluhm do jipe e que o fizessem desaparecer, para que pensássemos que Arnold Bluhm era o criminoso, e não o senhor. 0 Lago Turkana está cheio de crocodilos, por isso fazer desaparecer o cadáver não era problema. Além de que, feitas as contas, há uma herança avultada que irá ter às suas mãos: temos aqui um duplo motivo.

 

Percebe que estão a observá-lo, à cata de sinais de culpa ou inocência ou indignação ou desespero - de qualquer coisa, seja o que for - mas observam-no em vão porque, ao contrário de Woodrow, Justin começa por não ter reacção absolutamente nenhuma. Está sentado na cadeira de Woodrow (imitação de arte africana), pensativo, distante, com a sua aparência impecável, as pontas dos dedos colocadas sobre a mesa como se tivesse acabado de tocar um acorde e estivesse a ouvi-lo apagar-se. Lesley está a acusá-lo de homicídio, mas tudo o que obtém é uma pequenína ruga que o liga ao seu mundo interior.

 

- Eu tinha concluído, do pouco que Woodrow teve a bondade de me contar acerca do progresso do vosso inquérito, - objecta Justin, mais no tom de censura de um académico do que o dum marido desgostoso - que a vossa teoria dominante era que se tratava de um crime ocasional, não de um assassinato planeado.

 

- 0 Woodrow tem a cabeça cheia de merda, - diz Rob em voz baixa, por deferência para com a dona da casa.

 

0 gravador ainda não está sobre a mesa. Os cadernos de notas furta-cores dormem ainda no fundo da mala tão prática de Lesley. Não há nada que pressione ou formalize o encontro. Glória trouxe um tabuleiro com chá e, após uma longa dissertação acerca do recente falecimento do seu bull-terrier, acabou por sair relutantemente.

 

- Encontrámos sinais de um segundo veículo estacionado a sete quilómetros da cena do crime, - explica Lesley. - Estava deitado numa ravina, a sudoeste do sítio onde Tessa foi assassinada. Encontrámos uma poça de óleo e os restos de uma fogueira.   Justin pestaneja, como se a luz do dia fosse forte demais, depois acena cortêsmente com a cabeça para indicar que continua escutando.

- Além disso, garrafas de cerveja vazias enterradas recentemente, bem como pontas de cigarro, - continua ela, como se deixasse tudo aquilo à porta de Justin. - Quando o jipe de Tessa passou, o carro misterioso saiu para a estrada e seguiu-os. Depois parou ao lado. Um dos pneus dianteiros do jipe tinha sido desfeito por um tiro de caçadeira. Isso para nós não parece ser um crime ocasional,

 

- É mais um assassinato corporativo, como nós lhe chamamos, - explica Rob. - Planeado e executado por profissionais pagos por pessoa ou pessoas desconhecidas. Quem os mandou conhecia perfeitamente os planos de Tessa.

- E a violação? - pergunta Justin com fingida calma, os olhos fixos nas mãos cruzadas.

 

- Cosmética ou incidental, - responde Rob imediatamente. - Os criminosos perderam a cabeça ou então tinham um fim em vista.

 

- 0 que nos leva de novo ao motivo, Justin - diz Lesley.

 

- Que é o seu, - diz Rob. - A não ser que tenha outra ideia.

 

As caras deles incidem sobre a de Justin como se fossem câmaras, uma de cada lado, mas Justin permanece tão insensível ao duplo exame como à insinuação. No seu isolamento interior, talvez não dê conta nem de um nem de outra. Lesley baixa a mão até à mala a fim de localizar o gravador, mas muda de ideias. A mão é apanhada em flagrante, enquanto o resto do seu corpo fica voltado para Justin, para aquele homem de frases impecavelmente construídas, aquele comité de uma pessoa só.

 

- Mas eu não conheço nenhum assassino, está a ver? - objecta ele, apontando o erro da teoria deles, enquanto tenta ver mais além com um olhar vazio. - Não contratei ninguém, não dei instruções a ninguém, lamento. Não tive absolutamente nada a ver com o assassinato da minha mulher. Não, no sentido que os senhores lhe estão a dar. Não o desejei, nem o planeei. - A voz falta-lhe e tem um estrangulamento embaraçoso. - Lamento esse crime mais do que tudo o que possa dizer.

 

Isto foi dito com tanta firmeza que por um instante os polícias parecem não saber como prosseguir e preferem examinar as aguarelas de Singapura pintadas por Glória que estão penduradas numa fila por cima da lareira de tijolos, cada uma marcada «190 LIBRAS SEM DESCONTO PARA NINGUÉM!», cada uma com o mesmo céu lavado, uma palmeira e um bando de pássaros, o nome dela em letras garrafais e a data, para benefício dos coleccionadores.

 

Até que Rob, que tem a lata própria da idade, embora lhe falte confiança em si próprio, espeta a cabeça bicuda e lança: - Então não se importava que a sua mulher e o Bluhm dormissem juntos, pelos vistos? Para muitos maridos, uma coisa dessas era de enfurecer. - Depois fecha a boca, à espera de que Justin faça aquilo que a moral de Rob lhe indica que é próprio um marido enganado fazer naquelas circunstâncias: chorar, corar, enraivecer-se contra a sua própria má sorte e a perfídia dos seus amigos. Se é esse o caso, Justin desilude-o completamente,

 

- 0 caso não é esse, - responde ele, com tanta energia que se surpreende a si próprio e endireita-se na cadeira, olhando à volta para ver quem é que falou indevidamente e para o repreender. - Pode ser esse o caso para os jornais. Pode ser o caso para vocês. Mas nunca foi esse o caso para mim, nem agora.

 

- Então qual é o caso? - pergunta Rob.

- Faltei-lhe com o meu apoio.

 

- Como? Não chegava para ela? - fungadela de sarcasmo machista - na cama, quer o senhor dizer?

 

Justin está a abanar a cabeça. - Não me quis comprometer. - A sua voz desceu a um murmúrio. - Deixei-a ir sozinha para a batalha. Desliguei-me dela. Fiz com ela um contrato imoral. Não o devia ter permitido. E ela também não.

 

- De que é que se tratava, então? - 0 tom de Lesley é macio como o leite, após a rudeza deliberada de Rob.

 

- Ela seguia a sua consciência, eu fechei-me no meu trabalho. Foi uma separação imoral. Nunca devia ter acontecido. Foi como mandá-la para a igreja, para rezar por nós os dois. Foi como desenhar um traço a giz pelo meio do nosso casamento e dizer: «encontramo-nos na cama.»

 

Imperturbável, apesar da franqueza daquele grito de alma e dos dias e noites de auto-recriminação que ele revela, Rob prepara-se para atacar de novo.

0 seu rosto lúgubre mantém o esgar sarcástico, com a boca aberta e redonda como a boca de um arcabuz. Mas hoje Lesley é mais rápida do que Rob. Nela, a mulher está atenta e escuta sons que o ouvido agressivamente macho de Rob não pode apanhar. Rob volta-se para ela, pedindo licença para provocar Justin com perguntas sobre Arnold Bluhm talvez, ou com outro tema revelador que o traga para mais perto do crime. Mas Lesley abana a cabeça e, afastando a mão das proximidades da sua mala, dá palmadinhas no ar sub-repticiamente como quem diz «devagar, devagar».

 

- Então como é que se conheceram? - pergunta ela, como se perguntasse a uma pessoa recém-chegada como fora a viagem.

 

E com isto é que Lesley se mostra verdadeiramente genial: oferece a Justin um ouvido de mulher e a compreensão de um estranho; a oportunidade de fazer uma pausa, tirando-o do actual campo de batalha e levando-o para os prados amenos do seu passado. E Justin reage ao apelo. Relaxa os ombros, semicerra os olhos e, num tom de reminiscência distante e profundamente pessoal, conta como foi, exactamente como o contara a si próprio cem vezes em outras tantas horas.

 

- E na sua opinião, Sr. Quayle, quando é que um Estado não é um Estado?

- perguntara Tessa suavemente, num preguiçoso meio-dia de Cambridge, quatro anos atrás, numa sala de conferências instalada num antigo sótão, com raios de sol carregados de pó atravessando a clarabóia em diagonal. São as primeiras palavras que ela lhe dirige e desencadeiam uma explosão de gargalhadas na lânguida assistência de cinquenta jovens advogados colegas de Tessa que, como ela, se tinham inscrito num curso de Verão de duas semanas sobre A Lei e a Sociedade Administrada. Justin repete agora essas palavras. Como se achou sozinho sobre aquela plataforma, com um fato de três peças em flanela cinzenta do Hayward, segurando um atril com as duas mãos, é a história da sua vida, explica ele para as profundezas em falso Tudor da sala de jantar dos Woodrow. - 0 Quayle encarrega-se disso! - gritara um qualquer acólito do gabinete particular do subsecretário permanente, na noite anterior já bastante tarde, menos de onze horas antes da hora marcada para a conferência. - Chainem-me o Qtiayle! - querendo dizer: Quayle, o solteirão profissional, o prestável Quayle, o encanto das debutantes sediças, o último de uma espécie em vias de extinção, acabado de chegar daquela horrorosa Bósnia e destinado a partir para África mas ainda cá, graças a Deus, Quayle o bomem sobressalente, óptimo para conhecer quando queremos dar um jantar e falta um homem, perfeito no trato, provavelmente gay - só que não era, como algumas das esposas mais apresentáveis podiam testemunhar, embora não o contassem a toda a gente.

 

- Justin? Daqui é o Haggarty. Estavas uns anos à minha frente no colégio. Ouve uma coisa, o Subsecretário Permanente tem marcado fazer uma conferência amanhã a um grupo de jovens advogados, mas não pode porque tem de apanhar um avião para Washington dentro de uma hora...

 

E o bom do Justin logo a comprometer-se- - Bom, se realmente já está escrita, acho que... se é só uma questão de ler...

 

E Haggarty cortando logo: - Vou mandar o carro mais o motorista, para estarem à tua porta às nove em ponto, nem um minuto mais tarde. A conferência é uma merda, foi ele próprio que a escreveu, podes passar uma vista de olhos no caminho para lá. Obrigado, Justin, és um gajo porreiro.

 

E aqui estava ele, um gajo porreiro colega de Eton, tendo-se desincumbido da conferência mais chata que jamais lera na sua vida, prosa condescendente, opada e verbosa como o seu autor, que a esta hora provavelmente estava descansando no regaço do maior luxo subsecretaría1 de Washington D.C. Nunca lhe ocorrera que ia ter de responder a perguntas do auditório, mas quando Tessa pipilou a dela, não lhe passou pela cabeça não a aceitar. Ela estava sentada no centro geométrico da sala, como lhe competia. Quando a localizou, Justin teve a ideia louca que os colegas tinham deliberadamente deixado um espaço à volta dela, em homenagem à sua beleza. A gola alta da blusa branca por baixo da toga chegava-lhe ao pescoço, como a uma casta menina do coro.

0 seu aspecto etério, pálido como o dum espectro, fazia pensar numa criança abandonada. Dava vontade de a enrolar num cobertor para a manter protegida. Os raios de sol da clarabóia brilhavam tanto sobre o seu cabelo escuro que ao princípio Justin não conseguiu distinguir a cara, 0 mais que obteve foi uma testa larga e pálida, um par de grandes olhos solenes muito afastados e o queixo determinado de uma lutadora. Mas o queixo só apareceu mais tarde. Por enquanto, era um anjo. 0 que ele não sabia, mas não tardou em descobrir é que ela era um anjo com um cacete.

 

- Bom, acho que a resposta à sua pergunta, - comeÇou Justin - e por favor corrija-me se a sua opinião é diferente -, atenuando a diferença de idades, a diferença de sexos e introduzindo um ambiente igualitário -é que um Estado deixa de ser um Estado quando deixa de cumprir as suas responsabilidades básicas. Seria esta a sua Opinião, basicamente?

 

-As responsabilidades básicas consistindo em quê? - atirou o anjo-órfão.

- Bom... - repetiu Justin, pouco certo do que aquilo iria dar e socorrendo-se por isso daqueles sinais de distanciamento sexual com que supunha proteger-se a si próprio, se não até obter uma imunidade total. - Bom - gesto atrapalhado com a mão, seguido da subida de um dedo etoniano pela patilha que começa a branquear, mão de novo para baixo, - o que eu posso sugeri-lhes, hoje em dia, muito por alto, as qualificações necessárias para ser um Estado civilizado resumem-se a... o sufrágio universal, a... protecção da vida e da propriedade privada; a... justiça, saúde e educação para todos, pelo menos até um certo grau... depois a manutenção de infra-estruturas administrativas sólidas... e estradas, transportes, esgotos, ercetera... e... que mais e que há?... ah, sim, a aplicação equitativa de impostos. Se um Estado não conseguir cumprir pelo menos uma parte do que foi mencionado... então temos mesmo de dizer que o contrato entre o Estado e o cidadão começa a parecer bastantepericlitante... E se falar em todos os aspectos, considera-se que é um Estadofalhado’ como se diz hoje em dia. Um des-Estado. - Graça. - Um ex-Estado. - Outra graça, mas ainda ninguém riu. -Acha que respondi à sua pergunta?

 

Justin esperava que o anjo precisasse de um momento de reflexão sobre esta profunda questão e por isso ficou irritado quando ela, quase sem lhe dar tempo para acabar de falar, atacou de novo:

 

- Então é capaz de imaginar uma situação em que o senhor pessoalmente se sentisse obrigado a minar o Estado?

 

- Eu, pessoalmente? No nosso país? Oh meu Deus, claro que não, - replicou Justin, devidamente chocado. - Sobretudo agora que acabo de regressar.

- Riso desdenhoso da audiência, que estava firmemente do lado de Tessa.

 

- Em nenhuma circunstância?

 

- Nenhuma que eu possa imaginar, não.

- E os outros países?

 

- Bom, não sou um cidadão de outro país, não é verdade? - 0 riso começou a deslocar-se para o seu lado. - Acredite, já não é mau poder responder por um país. - Saudado por mais gargalhadas, sente-se encorajado. - Quer dizer, por mais do que um, acho que é simplesmente...

 

Ilesitou, procurando uma adjectivo mas ela surpreendeu-o com um murro: uma saraivada de murros, de facto, zás-trás-pás, à cara e ao corpo.

 

- Por que é que tem de ser cidadão de um país para fazer sobre ele um juizo de valor? 0 senhor negoceia com outros países, não é verdade? Faz acordos com eles. Legitimiza-os através de sociedades comerciais. Pretende dizer-nos que existe uma norma ética para o seu país e outra para o resto do mundo? 0 que é que nos está o senhor a dizer pessoalmente?

 

Justin começou por ficar atrapalhado, depois irritado. Lembrou-se, tarde demais, que ainda estava muito cansado após a sua recente temporada naquela horrorosa Bósnia e, teoricamente, em recuperação. Estava a preparar-se para uma colocação em África (como de costume, outra tarefa horripilante, calculava ele). Não tinha voltado à terra-mãe para fazer de pau-mandado de um subsecretário volátil e muito menos para ler em público uma conferência que era uma porcaria. E diabos o levassem se o Eternamente Prestávet Justin se ia deixar amarrar ao pelourínho, para servir de alvo a uma megera linda de morrer que resolvera torná-lo uma espécie de arquétipo do bandalho odioso. Havia gargalhadas no ar mas estavam no fio da navalha, prontas a cair para um lado ou para o outro. Muito bem: se ela estava a representar para a plateia, o mesmo podia ele fazer. Teatralmente como se impunha, levantou as sobrancelhas bem desenhadas e manteve-as no alto. Deu um passo em frente e estendeu ambas as mãos com as palmas para cima, pedindo protecção.

 

- Oh minha senhora - começou ele, com o riso já a pender a seu favor, -parece-me, minha senhora... receio mesmo muito... de que esteja a atrair-me para uma discussão acerca da minha moral

 

Ao que o auditório respondeu com uma verdadeira torrente de aplausos

- toda a gente, menos Tessa. 0 sol que brilhara sobre ela desviara-se e ele agora pôde ver o belo rosto magoado e fugidio. E de repente ficou a conhecê-la perfeitamente - naquele instante melhor do que se conhecia a si próprio. Compreendeu o fardo que era a beleza e a maldição de se ser sempre um acontecimento em si e apercebeu-se de que ganhara uma vitória que não desejara. Conhecia a sua própria insegurança e reconheceu o seu efeito nela. Em razão da sua beleza, ela sentia que tinha a obrigação de ser escutada. Tinha lançado um desafio que correra mal para ela e agora não sabia como regressar à base, se é que havia uma base. Lembrou-se das idiotices que tinha estado a ler e das respostas fúteis que tinha estado a dar e pensou: ela tem toda a razão e eu sou um javardo, pior: sou um espertalhão muito vivido do Foreígn Office que conseguiu fazer virar todo um auditório contra uma rapariga lindíssima que só estava a fazer o que lhe está na massa do sangue, E tendo-a posto knock-out, apressou-se a ajudá-la a levantar-se.

 

- Por outro lado, se quisermosfalar a sério por um momento - anunciou ele num tom bastante mais severo, que atravessou a sala na direcção dela e fez baixar as gargalhadas obedientemente - a verdade é que você pôs o dedo precisamente na questão a que nenhum de nós, literalmente, na comunidade internacional, sabe responder. Quem são os bons da fita? 0 que é uma política exterior ética? Muito bem. Vamos partir do princípio de que o que reúne o consenso das nações hoje em dia é uma noção de liberalismo humanista. Mas o que nos divide é precisamente a questão que pôs: quando é que um Estado supostamente humanista se torna inaceitavelmente repressivo? Que é que acontece quando ele ameaça os nossos interesses nacionais? Quem é o humanista então? Ou por outras palavras, quando é que devemos tocar a campainha de alarme para as Nações Unidas - esperando que elas apareçam, o que nem sempre é o caso? Olhem para a Tchechénia, olhem para a BirmÍnia, olhem para a Indonésia. Olhem para três quartos dos países chamados em desenvolvimento...

 

E por aí fora. Poeira metafísica do pior, como ele seria o primeiro a admitir, mas que a tirou a ela da berlinda. Desenvolveu-se uma espécie de debate, formaram-se facções e zurziram-se os pontos mais indefensáveis. 0 encontro alastrou para lá da hora marcada e foi por isso classificado como um triunfo.

 

- Gostava que você me levasse a dar uma volta, - disse-lhe Tessa logo que o encontro acabou. - Pode contar-me coisas da Bósnia, - acrescentou, à laia de pretexto.

 

0 passeio foi nos jardins de Clare College e, em vez de lhe contar coisas acerca daquela horrorosa Bósnia, Justin disse-lhe o nome de todas as plantas, nome próprio e apelido, e o que faziam para ganhar a vida. Ela passou o braço pelo dele e escutou em silêncio, só cortado por um ou outro «não me diga ... !” ou «mas como é que conseguem fazer isso?». Isto teve o efeito de o manter a falar, pelo que ao princípio ele ficou grato porque conversar era a sua maneira de colocar divisórias entre ele e os outros - mas o facto é que, com Tessa pelo braço achou-se a pensar sobretudo na fragilidade dos tornozelos dela dentro das pesadas botas que eram moda, à medida que ela os ia movendo um após outro ao longo do carreiro estreito por onde seguiam. Ficou convencido de que se ela caísse com aquelas botas iria partir os ossos. E como ela oscilava ao seu lado, tão levemente que mais parecia estarem a ser levados pelo vento. Depois foram fazer um almoço tardio num restaurante italiano e os criados namoraram com ela, o que chateou Justin até saber que a própria Tessa era meio italiana e sendo assim, por qualquer razão, o caso não tinha importância e até deu a Justin uma oportunidade de exibir os seus conhecimentos de italiano, de que se orgulhava. Mas logo depois viu-a ficar grave, pensativa, as mãos pouco firmes como se o garfo e a faca fossem pesados demais para ela, tal como as botas no jardim.

 

- Você protegeu-me, - explicou ela, ainda em italiano, com a cabeça baixa escondida pelo cabelo. - Vai proteger-me sempre, não é verdade?

 

E justin, muito bem educado, disse logo: claro, se ela precisasse dele, protegia-a, claro. Ou faria o possível, melhor dizendo. Tanto quanto ele jamais recordou, foram essas as únicas palavras que travaram durante o almoço, embora mais tarde ela lhe tivesse jurado, para seu espanto, que ele falara brilhantemente da ameaça de um futuro conflito no Líbano, país em que ele não pensava há anos, e acerca da demonização do Islão feita pelos media ocidentais e da posição ridícula dos liberais do ocidente que aliavam uma total ignorância à mais pura intolerância; ela ficou muito impressionada pelos sentimentos pessoais que ele trouxe para a discussão, o que de novo espantou Justin que até ali pensara ter uma opinião dividida e pouco convicta acerca do assunto.

 

Mas qualquer coisa estava a acontecer a Justin que, para sua excitação e alarme, ele se achou incapaz de controlar. Tinha sido levado, completamente por acaso, para dentro de uma peça de teatro e ficara prisioneiro. Estava num outro elemento, vivia a personagem e o papel que tantas vezes queria viver na vida real e nunca conseguira. É verdade que já por uma ou duas vezes sentira estar no limiar de uma sensação semelhante, mas nunca com tanto abandono, com uma confiança tão inebriante. E tudo isto enquanto o mulherengo experiente que havia nele lhe mandava terríveis sinais do grau mais enfático: desiste, esta só traz trabalhos, é nova demais para ti, autêntica demais, intensa demais, não conhece as regras do jogo,

 

Não fez diferença. Depois do almoço, ainda com o sol a brilhar, foram para o rio e ele demonstrou-lhe tudo o que se espera que um bom amante demonstre à sua namorada remando no rio Cam, a saber, como era hábil e sofisticado e como estava à vontade, de colete, balouçando na proa periclitante de um bote, manejando a vara e mantendo uma conversa espirituosa e bilingue. 0 que foi o que ele fez, conforme ela lhe jurou pela segunda vez, embora tudo o que recordava mais tarde era o seu longo corpo de criança abandonada, com a sua blusa branca e a saia preta de amazona com uma racha e os seus olhos graves olhando-o com uma espécie de identificação que ele não podia retribuir porque nunca na vida estivera possuído por uma atracção tão forte ou estado tão indefeso contra ela. Tessa perguntou-lhe onde tinha ele aprendido tanta coisa sobre jardinagem e ele respondeu: - Com os nossos jardineiros. - Ela perguntou-lhe quem eram os pais e ele teve de admitir - com relutância, certo de que iria ofender os princípios igualitários de Tessa - que era bem nascido e de uma família abastada e que os jardineiros eram pagos pelo pai, que também pagara uma longa sucessão de amas e colégios internos e universidades e férias no estrangeiro e mais tudo o que era necessário para lhe tornar fácil o caminho até à «firma da família», que era como o pai chamava ao Ministério dos Negócios Estrangeiros.

 

Mas, com grande alívio dele, ela pareceu achar tudo isto uma descrição perfeitamente razoável das suas origens e forneceu em troca algumas confidências acerca de si própria. Confessou que também nascera no mundo dos privilegiados. Mas ambos os pais tinham morrido nos últimos nove meses, ambos de cancro. - E cá estou eu, - declarou ela com fingida frivolidade - órfãa e pronta para ser adoptada. Depois disto ficaram calados por uns momentos, afastados mas em perfeita comunhão.

 

- Tinha-me esquecido do carro, - disse ele a certa altura, como se de algum modo isso pusesse fim a quaisquer projectos.

 

- Onde é que o estacionou?

 

- Não fui eu. Trouxe um motorista. É um carro oficial.

- Não pode telefonar para ele?

 

Miraculosamente, ela tinha um telemóvel na carteira e ele o número do motorista na algibeíra. Assim, ele amarrou o barco na margem e, sentado ao lado dela, telefonou ao motorista para que regressasse sozinho a Londres, o que foi como se deitasse a bússola pela borda fora, um acto de auto-abandono numa ilha deserta cujo significado foi entendido por ambos. E depois do rio ela levou-o para os seus aposentos onde fizeram amor. E por que razão o teria feito, quem é que ela pensou que ele era quando o fez, quem eram ambos depois daquele Fim-de-semana... tais mistérios, como ela disse cobrindo-o de beijos na estação de comboio, seriam descobertos com o tempo e a prática.

0 facto é que ela amava-o, disse ela, e tudo o resto ficaria certo quando casassem. E Justín, na loucura que se apoderara dele, fez declarações igualmente irreflectidas, repetiu-as e amplificou-as, tudo na vaga de loucura que o transportava consigo. E ele deixou-se levar alegremente, embora, no mais recôndito da consciência, soubesse que cada hipérbole teria o seu preço um dia mais tarde.

 

Ela não negou que queria um amante mais velho. Como muitas raparigas bonitas que ele conhecera, ela estava farta dos rapazes da idade dela. Numa linguagem que ele secretamente ouviu com repulsa, ela descreveu-se a si própria como uma vadia, uma pega de bom coração, uma espécie de diabinho, mas estava demasiado apaixonado para a contradizer. Tais expressões, como ele soube mais tarde, provinham do pai que ele por isso detestou imediatamente, embora tivesse o cuidado de o esconder, visto ela falar dele como de um santo. A sua necessidade do amor de Justin, explicou ela, era como uma fome insaciável e Justin não pôde senão jurar que o mesmo sem dúvida se passava com ele. E por essa altura, ele acreditava que era verdade.

 

0 seu primeiro instinto, quarenta e oito horas depois de regressar a Londres, foi de fugir. Tinha sido apanhado por um tornado, mas os tornados, como ele sabia por experiência própria, causavam grandes estragos, alguns deles colaterais, e seguiam caminho. A sua colocação num buraco infernal em África, ainda pendente, começou subitamente a parecer-lhe convidativo. As suas juras de amor alarmavam-no, quanto mais ele as ensaiava: isto não é verdade, isto sou eu na peça errada, Tinha tido uma série de casos amorosos e esperava ter mais alguns - mas só nos termos mais contidos e premeditados, com mulheres tão pouco inclinadas como ele a trocar o senso comum pela paixão. Mas ainda pior: receava a fé dela porque, como pessimista acabado, sabia não ter nenhuma. Não tinha fé na natureza humana, nem em Deus, nem no futuro e certamente nenhuma fé no poder universal do amor. Os homens eram vis e sê-lo-iam para todo o sempre. 0 mundo continha um pequeno número de pessoas razoáveis, de que Justin fazia parte. A sua missão, dum ponto de vista linear, consistia em desviar a raça humana dos seus piores excessos - com uma cláusula: quando duas facções estavam determinadas a fazer-se mutuamente em pedaços, não havia muita coisa que uma pessoa razoável pudesse fazer, por mais enérgicas que fossem as suas tentativas de pôr um travão à crueldade. Ao fim e ao cabo, dizia a si próprio aquele arrogante mestre em idealismo, nos tempos que correm todos os homens são Átilas e a onda está a crescer cada vez mais depressa. Assim, era uma dupla infelicidade que Justin, que considerava qualquer forma de idealismo com o mais puro cepticismo, se tivesse deixado envolver com uma mulher que, apesar de se revelar deliciosamente desinibida em muitos aspectos, era incapaz de atravessar uma rua sem primeiro tomar uma atitude moral. A fuga era o único recurso sensato.

 

Mas à medida que as semanas passavam e ele avançava no que era suposto ser um delicado processo de rompimento, a maravilha do que lhe tinha acontecido ganhava terreno. Os jantarinhos íntimos planeados para fazerem parte duma cena de despedida tornavam-se festivais de magia, seguidos de prazeres sexuais ainda mais embriagadores. Começou a sentir vergonha da sua secreta abjuração. 0 idealismo amalucado de Tessa divertia-o, em vez de o afastar e, de uma forma tranquila, contagiava-o. Alguém devia sentir estas coisas e falar delas. Até agora sempre considerara as convicções fortes como as inimigas naturais da diplomacia: deviam ser ignoradas, tratadas com indulgência ou, como qualquer forma perigosa de energia, desviadas para canais inofensivos. Mas agora, para sua surpresa, via-as como símbolos de coragem e Tessa como o seu porta-estandarte.

 

E com esta revelação chegou uma nova percepção de si próprio. Ele já não era o encanto das debutantes, o solteirão esquivo que evitara até então as amarras do matrimónio. Era o marido divertido, a figura paterna para uma rapariga bonita que ele amava, satisfazendo-lhe todos os caprichos, como se costuma dizer, deixando-a fazer tudo o que lhe passava pela cabeça. Mas era também o seu protector, a sua rocha firme, a mão onde ela se apoiava, o seu jardineiro de chapéu de palha que a adorava. Abandonando o seu plano de fuga, Justín mudou de rumo decididamente em direcção a ela e desta vez - como fez notar aos agentes da polícia - nunca se arrependeu e nunca olhou para trás.

 

- Nem mesmo quando ela tomava atitudes embaraçosas para si? - pergunta Lesley que, juntamente com Rob, escutara Justin num silêncio respeitoso, secretamente pasmada pela sua franqueza.

 

- já lhe expliquei. Houve assuntos em que nos mantivemos separados. Eu fiquei à espera. Ou de que ela optasse por alguma moderação ou de que o Foreign Office nos distribuísse a ambos papéis em que não ficássemos incompatibilizados um com o outro. 0 status das esposas do Foreigri Office é extremamente variável. Não podem ganhar salários nos países onde os maridos estão colocados. Têm de partir quando os maridos partem. Num momento, têm ao seu dispor a sua liberdade a toda a hora. No momento seguinte, espera-se delas o comportamento de uma gueixa diplomática.

 

- Essas expressões são da Tessa? - pergunta Lesley sorrindo.

 

- A Tessa nunca ficou à espera de que lhe dessem liberdade. Tomou-a sempre.

 

- E o Bluhm, não foi embaraçoso para si? - prgunta Rob rudemente.

 

- Pense o que pensar, Arnold Bluhm não era amante dela. Outra coisa os unia. Tessa fazia grande segredo da sua honestidade. Adorava chocar as pessoas. Isto é demais para Rob. - Quatro noites numa roda viva, Justin? - objecta ele. - Partilhando a mesma cabine no Lago Turkana? Uma mulher como ela? Falando a sério, está a pedir-nos para acreditar que eles não deram uma pinocada?

 

- Acredite no que quiser, - replica Justin, imperturbável. - Eu não tenho a mais pequena dúvida.

 

- Porquê?

 

- Porque ela mo disse.

 

Contra isto não havia resposta. Mas Justin queria dizer mais uma coisa e pouco a pouco, ajudado pelos encorajamentos de Lesley, acabou por confessar.

- Ela tinha-se casado com a convenção em pessoa, - começou ele, constrangido. - Eu próprio. Não com um benemérito idealista. Comigo. Vocês não devem olhar para ela como qualquer coisa de exótico. Eu nunca duvidei (nem ela, logo que chegámos cá), que ela nunca seria mais uma daquelas gueíxas diplomáticas de que troçava. Mas, à sua maneira, traçara um limite.

- Consciente das expressões incrédulas dos polícias, continuou: - Com a morte dos pais, ela ficou num grande susto. Agora, comigo para a estabilizar, ela queria desligar-se de uma exagerada liberdade. Era o preço que ela estava disposta a pagar para deixar de ser uma órfã.

 

- Mas então o que a fez mudar de ideias? - perguntou Lesley.

 

- Fomos nós, - retorquiu Justín com veemência. Referia-se a nós, os outros. Nós, os que lhe sobrevivemos. Nós, os culpados. - Com a nossa complacência, - disse ele, baixando a voz. - Com tudo isto. - E aqui teve um gesto que abarcava não só a sala de jantar e as hediondas aguarelas de Glória alinhadas por cima da lareira, como a casa toda à volta e os seus ocupantes e por conclusão todas as outras casas da rua. - Nós, que somos pagos para ver o que se passa e preferimos não ver. Nós que passamos pela vida de olhos baixos.

 

- São palavras dela?

 

- São palavras minhas. Era assim que ela nos via. Nasceu rica, mas isso nunca a impressionou. 0 dinheiro não a interessava, Precisava de muito menos do que a gente das classes em ascensão. Mas sabia que não tinha desculpa para ficar indiferente ao que via e ouvia. Sabia que estava em dívida.

 

Sobre esta nota Lesley põe fim à sessão até amanhã à mesma hora, Justin, se lhe convém? Convém.

 

A British Airways parecia ter chegado à mesma conclusão, porque começaram a baixar as luzes na cabine da primeira classe e a tomar nota dos últimos pedidos de bebidas para aquela noite.

 

 

Rob espreguiça-se enquanto Lesley tira de novo para fora os seus brinquedos: os blocos de cor, lápis, o pequeno gravador que ontem não foi usado, a borracha. Justin está lívido como um prisioneiro e tem uma tela de rugas finas como cabelos à roda dos olhos, que é como ele acorda agora todas as manhãs. Qualquer médico lhe receitaria ar livre.

 

- Disse que não tinha nada a ver com a morte da sua mulher, no sentido que nós lhe dávamos, Justin - recorda Lesley. - Que outro sentido haverá, se posso perguntar? - E tem de inclinar-se para ouvir a resposta.

 

- Devia ter ido com ela.

- A Lokichoggio?

 

Ele abanou a cabeça.

- Ao lago Turkana?

- Fosse aonde fosse.

 

- Foi o que ela lhe disse?

 

- Não. Ela nunca me censurou. Nunca dizíamos um ao outro o que devíamos fazer. Tivemos uma discussão e tinha a ver com o método, não com a substância. Arnold nunca foi obstáculo.

 

- E a discussão, sobre o que foi, exactamente? - pergunta Rob, teimosamente agarrado à sua maneira literal de ver as coisas.

 

- Depois da morte do bebé, supliquei a Tessa que me deixasse levá-la para Inglaterra ou para Itália. Levava-a aonde ela quisesse. Mas ela, nem pensar. Tinha uma missão, graças a Deus, uma razão para sobreviver e era aqui em Nairobi. Tinha tido conhecimento de uma grande injustiça social, de um grande crime: ela chamava-lhe assim. Foi tudo quanto me foi dado conhecer. Na minha profissão, a ignorância cultivada é uma forma de arte. - Justin vai à janela e olha sem ver. - já viram como as pessoas vivem ali nos bairros de lata?

 

Lesley abana a cabeça.

- Ela levou-me lá, uma vez. Num momento de fraqueza, como ela disse mais tarde. Queria que eu passasse revista ao seu local de trabalho. Ghita Pearson veio connosco. Ghita e Tessa eram muito íntimas. As afinidades entre elas eram enormes. As mães de ambas tinham sido médicas, os pais advogados ambas tinham sido criadas na religião católica. Visitámos um centro de saúde.         quatro paredes de cimento, um telhado de zinco e um milhar de pessoas à porta, à espera. - Por um momento, Justin esquece-se de onde está. - 0 estudo da pobreza àquela escala é uma disciplina só por si. Não se pode aprender, numa só tarde. Contudo, depois daquilo, nunca mais pude passar pela Stariley           Strect sem... - fez uma pausa - sem tornar a ver a outra imagem no meu             espírito.

- Depois dos polidos subterfúgios de Woodrow, as palavras de Justin,               soam como palavras do evangelho. - A grande injustiça, o grande crime... era         o que a mantinha viva. 0 nosso bebé tinha morrido há cinco semanas.            Sozinha em casa, Tessa passava o tempo imóvel, a olhar para a parede. Mustafa telefonava-me para a Alta Comissão. «Vem para casa, Mzee, ela está mal, está mal.           Mas não era a minha presença que a fazia reviver. Era Arnold. E Arnold              sabia. Arnold partilhava de um segredo com ela. Bastava-lhe uvir o carro dele         chegar e ficava outra mulher. «Então, que soubeste? Que novidades há?» Referia-se às notícias. Há informação. Ao progresso do caso. Quando ele se ia embora, ela metia-se no seu gabinete de trabalho e trabalhava toda a noite.

 

- No computador?

 

Justin faz uma pausa de precaução, depois continua. -Tinha docomentos, tinha o computador, tinha o telefone, que era usado com a maior circunspecção. E tinha Arnold, sempre que ele tinha um momento livre.

 

- E o senhor não se ralava? - escarnece Rob, num esforço pouco inspirado para voltar ao seu tom grosseiro. - A sua mulher com a cabeça na lua, à espera que apareça o Dr. Maravilhas?

 

- Tessa estava inconsolável. Pela parte que me toca, se ela precisasse       de cem Bluhms podia tê-los até onde quisesse.

 

- E o senhor não sabia nada desse tal grande crime? - retornou Lesley, sem se deixar demover. - Nada. De que se tratava, quem eram as vítimmas, quem eram os intérpretes principais... Eles não lhe contaram nada? Dum lado Blum e Tessa, do outro o senhor para ali abandonado.

 

- Eu dei-lhes todo o espaço necessário, - confirmou Justin, obstinadamente.

 

- Só não percebo como é que vocês podiam sobreviver, - insiste Lesley, pousando o bloco e abrindo as mãos. - Àparte, mas juntos, como 0 senhor descreve, é como... se não se falassem, pior ainda.

 

- Nós não sobrevivemos, - recordalhe Justin com simplicidade, - Tessa morreu.

 

Aqui poderiam pensar que o tempo das confidências tinha chegado ao fim e se seguiria um período de acanhamento OU embaraço, ou até de retratação. Mas Justin ainda agora começou. Endireita-se como um homem que sobe a parada. Pousa as mãos sobre as coxas e elas ali ficam até nova ordem. A sua voz retoma volume, trazida à superfície por uma força interior, para o ar requintado da sala de jantar dos Woodrow, ainda cheirando ao molho da noite anterior.

 

- Era tão impetuosa - declara ele com orgulho, recitando de novo partes dos discursos que fizera para si próprio durante horas a fio. - Adorei essa faceta dela desde o princípio. Queria tanto ter um filho nosso imediatamente! A morte dos pais tinha de ser compensada o mais depressa possível! Para quê esperar até estarmos casados? Eu é que a retive. Não o devia ter feito. Falei-lhe nas convenções... só Deus sabe porquê. «Muíto bem», disse ela «se temos de casar para ter um bebé, vamos casar já!» Por isso fomos para Itália e casámos imediatamente, para grande gozo dos meus colegas. - Justin sorri, divertido. - «O Quayle endoideceu. 0 velhote casou com a filha. A Tessa já acabou o liceu?» Quando ficou grávida, ao fim de três anos de tentativas, até chorou. E eu também.

 

Justin pára, mas ninguém interrompe o seu curso.

 

- Com a gravidez, ela mudou. Mas Para melhor. Tessa cresceu com a maternidade. Por fora manteve-se alegre e descuidada. Mas por dentro formou-se nela um sentido profundo da responsabilidade. 0 trabalho dela na ajuda humanitária tomou um novo sentido. Disseram-me que não é novidade isso acontecer. 0 que até ali fora importante tornou-se agora uma vocação, praticamente um destino. Estava grávida de sete meses e continuava a tratar dos doentes e dos moribundos e depois voltava para casa e ia a um estúpido jantar diplomático, Quanto mais o bebé se aproximava, mais decidida ela estava em fazer um mundo melhor para ele. E não só para o nosso filho: para todas as crianças. Por essa altura já tinha decidido ter o bebé num hospital africano. Se eu a tivesse obrigado a ir para uma clínica privada, ela teria ido, mas eu tê-la-ia traído.

 

- Como? - murmura Lesley.

 

- A Tessa fazia uma diferença entre a dor observada e a dor partilhada. A dor observada é a dor jornalística. Dor diplomática. Dor televisíva, que acaba assim que se desliga o aparelho. As pessoas que vêem sofrer e não fazem nada para ela não eram muito melhores do que as que infligem essa dor. Eram os maus samaritanos.

 

- Mas ela estava a fazer qualquer coisa contra isso - objecta Lesley.

 

- Daí o hospital africano. Em momentos de exagero até falava em ter a criança no bairro de lata de Kibera. Felizmente, Arnold e GhIta em conjunto conseguiram restaurar o seu sentido das proporções. Arnold possui a autoridade de conhecer o sofrimento. Não só tratou vítimas da tortura na Argélia como também foi ele próprio torturado. Ganhou um passe para o mundo dos míseros da terra. Eu não.

 

Rob agarra a oportunidade, como se a questão não tivesse surgido já uma dúzia de vezes: - É um bocado difícil ver qual era o seu papel no meio disso tudo, não é Uma espécie de pneu sobressalente, lá em cima das nuvens, com a sua dor diplomática e os seus comités ao mais alto nível, não era?

 

Mas a paciência de Justin não tem limites. Por vezes a sua boa educação impede-o de discordar. - Ela tinha-me dispensado do serviço activo, como ela dizia - concorda ele, baixando a voz envergonhado. - Inventava pretextos capciosos para me pôr à vontade. Dizia que o mundo precisava de nós dois: eu por dentro do Sistema, a empurrar; ela, fora dele, no terreno, a puxar. - Eu sou a que acredita num Estado moral, - dizia ela. - Se vocês não fizerem o vosso trabalho, que esperança haverá para nós? - Era um sofisma e ambos o sabíamos. 0 Sistema não precisava do meu trabalho, E eu também não. Qual era a ideia? Eu continuava a escrever relatórios que ninguém lia e a fazer sugestões que nunca eram aceites. Tessa não sabia o que era a mentira. Excepto no meu caso. Por mim, ela mentia a si própria completamente.

 

- Ela teve alguma vez medo? - pergunta Lesley baixinho, para não perturbar a atmosfera de confissão.

 

Justin reflecte, depois tem um ligeiro sorriso de recordação. - Gabou-se uma vez à embaixatriz dos Estados Unidos de «medo» ser o único palavrão de quatro letras cujo significado desconhecia. Sua Excelência não achou graça.

 

Lesley sorri também, mas é um sorriso breve. - E aquela decisão de ter o bebé num hospital africano, - pergunta, sem levantar os olhos do seu bloco.

- Pode dizer-nos quando e como foi tomada, por favor?

 

- Havia uma mulher de uma das aldeias miseráveis lá para o norte que Tessa costumava visitar. Chamava-se Wanza, apelido desconhecido. Wanza sofria de uma doença misteriosa, não se sabe de que género. Tinha sido escolhida para receber um tratamento especial. Por coincidência encontraram-se as duas na mesma enfermaria do Hospital Uhuru e Tessa travou-se de amizade com ela.

 

Será que eles distinguem o tom cauteloso que acaba de aparecer na sua voz? Justin ouve-o claramente.

 

- Sabe qual era a doença?

 

- Muito vagamente. Só que estava mal e podia ficar em risco de vida.

 

- Teria Sida?

 

- Se a doença dela era relacionada com a Sida, não faço ideia. A minha impressão é que se tratava de uma coisa diferente.

 

- Isso não é muito vulgar, pois não, uma negra dos bairros de lata ir para um hospital para ter um bebé?

 

- Estava sob observação.

 

- Observação da parte de quem?

 

Pela segunda vez, Justin exerce censura sobre si próprio. A mentira não é coisa que pratique naturalmente. - Suponho que de um centro de saúde lá da aldeia. Era só um grupo de palhotas. Como vê, é tudo muito vago para mim. Ainda agora me espanto como é que eu conseguia não estar a par das coisas.

- E Wanza morreu, não foi?

 

- Morreu na última noite da permanência de Tessa no hospital, - replica Justin, contente por poder abandonar a sua reserva a fim de reconstituir os acontecimentos para os dois agentes. - Eu tinha estado na enfermaria nessa noite, mas Tessa insistiu em que eu fosse para casa dormir um pouco. Disse o mesmo a Arnold e a Ghita. Nós fazíamos turnos à cabeceira dela. Arnold tinha trazido uma cama de campanha. Âs quatro da manhã, Tessa telefonou-me. Não havia telefone na enfermaria, por isso usou o telemóvel da enfermeira-chefe. Estava muito perturbada. Histérica seria a palavra certa, mas Tessa, quando fica histérica, não levanta a voz. Wanza desaparecera. 0 bebé também. Ela acordara e vira a cama de Wanza vazia e o berço do bebé desaparecido. Meti-me no carro e fui até ao hospital. Arnold e Ghita chegaram ao mesmo tempo. Tessa estava inconsolável. Era como se tivesse perdido um segundo filho no espaço de poucos dias. Nós três conseguimos convencê-la a ir convalescer para casa. Com Wanza morta e o bebé desaparecido, deixou de sentir a obrigação de ali ficar.

 

- A Tessa chegou a ver o corpo?

 

- Pediu para vê-lo, mas disseram-lhe que não seria conveniente. Wanza estava morta e o bebé fora levado para a aldeia pelo irmão dela. Do ponto de vista do hospital, era um caso arrumado. Os hospitais não gostam de se preocupar com os mortos, - acrescenta, lembrando-se da sua experiência com o seu filho Garth.

 

- E Arnold chegou a ver o corpo?

 

- Era tarde demais. Tinha sido mandado para a morgue e já estava perdido. Lesley fez uma careta de genuíno espanto; do outro lado de Justin, Rob inclina-se rapidamente para a frente, agarra no gravador e assegura-se de que a fita está a correr na pequena janela.

 

- Perdido?! Como é que se pode perder um corpo? - exclama ele.

 

- Pelo contrário, ao que me dizem, em Nairobí isso acontece todo o tempo.

 

- E a certidão de óbito?

 

- Só posso falar pelo que me disseram Arnold e Tessa. Não sei nada de uma certidão de óbito. Nunca se falou nisso.

 

- E não houve autópsia? - retoma Lesley.

- Que eu saiba, não.

 

- Wanza recebeu alguma visita no hospital?

 

Justin medita um pouco mas obviamente não vê razão para não responder.

- 0 irmão, Kioko. Dormia no chão ao lado dela, sempre que não estava a enxotar-lhe as moscas da cara. E ghita Pearson fazia sempre questão de se sentar um pouco junto dela quando ia visitar Tessa.

 

- Mais alguém?

 

- Um médico branco, penso eu. Não tenho a certeza.

- De que ele era branco?

 

- De que era médico. Um branco de bata branca e estetoscópio.

- Sozinho?

 

De novo uma reserva passou como uma sombra na sua voz. - Estava acompanhado por um grupo de estudantes. Tomei-os por isso. Eram novos e usavam batas brancas.

 

Com três abelhas douradas bordadas na algibeira, podia ele ter acrescentado, mas decidiu ficar calado.

 

- Porque é que diz que eram estudantes? A Tessa disse que eram estudantes?

 

- Não.

 

- E Arnold?

 

- Arnold não fez nenhum comentário sobre eles na minha presença. É pura suposição da minha parte. Eram jovens.

 

- E o chefe? 0 médico, se era esse o caso? Arnold disse alguma coisa acerca dele?

 

- A mim, não. Se tinha alguma coisa a dizer, disse-o ao próprio homem - o tal homem do estetoscópio.

 

- Na sua presença?

 

- Mas não ao alcance dos meus ouvidos. (Ou quase que não.)

 

Tanto Robin como Lesley estão inclinados para a frente para não perderem uma palavra. - Descreva-o.

 

Justin já está a descrevê-lo. Por um breve instante, juntou-se à equipa dos polícias, Mas a reserva não o abandonou. Cautela e circunspecção é o que se lê nos seus olhos cansados, - Arnold puxou o homem para o lado por um braço. 0 tal homem do estetoscópio. Falaram um com o outro como fazem os médicos. Em voz baixa.

 

- Em inglês?

 

- Creio que sim, Quando Arnold fala em francês ou swahíli tem uma linguagem corporal diferente. (E quando fala inglês é num tom um pouco mais agudo, podia ele ter dito.)

 

- Descreva-o... ao tal gajo do estetoscópio. - ordena Rob.

 

- Era volumoso, Um homem alto. Gordo. Desleixado. Parece que me lembro de uns sapatos de camurça. Lembro-me de Pensar que era estranho um médico usar sapatos de camurça, não sei porquê. Mas a memória dos sapatos de camurça cá ficou. A bata estava suja, não sei especialmente de quê. Sapatos de camurça, bata suja, cara vermelhusca. Um homem ligado ao mundo do espectáculo, de certo modo. Se não fosse pela bata, parecia um empresário de variedades. - E três abelhas douradas, sujas mas inconfundíveis, bordadas na algibeira, precisamente como a enfermeira do cartaz no aeroporto, pensou ele.

- Parecia envergonhado - acrescentou, com surpresa para si próprio.

 

- De quê?

 

- Da sua presença ali. Do que estava a fazer.

- Porque diz isso?

 

- Evitava olhar para Tessa. Para nós também. Olhava fosse para onde fosse, mas nunca para nós.

 

- Cor de cabelo?

 

- Loiro. Loiro-arruivado. Tinha cara de alcoólico. 0 cabelo avermelhado ainda o punha mais em evidência. Sabe quem é? A Tessa estava muito curiosa acerca dele.

 

- Barba? Bigode?

 

- Cara rapada. Não. Não era bem, Tinha barba por fazer de um dia pelo menos. Com um tom acobreado. Ela perguntou-lhe o nome várias vezes, mas ele recusou-se a dizê-lo.

 

Rob entra de novo, com mão pesada. - Que gênero de conversa lhe pareceu ser - insiste ele. - Era uma discussão? Uma conversa amigável? Estavam a combinar almoçar juntos? Que é que se estava a passar?

 

De novo a precaução. (Não ouvi nada, só vi.) - Arnold parecia estar a protestar, ou a censurar. 0 médico negava tudo. Tive a impressão... - pára, tomando tempo para escolher as palavras. Não confies em ninguém, dissera Tessa. Ninguém a não ser Ghita e Arnold. Promete-me. Prometo. - A minha impressão é que não era a primeira vez que havia desacordo entre eles. 0 que eu testemunhei foi parte de uma discussão contínua. Foi o que eu pensei depois, pelo menos. Que tinha assistido a um recomeço de hostilidades entre adversários.

 

- Pensou bastante no caso, então.

 

- Pensei. Sim, Pensei bastante - concorda justin hesitante. - A minha outra impressão foi que o inglês não era a língua-mãe do homem da bata.

 

- Mas não discutiu nada disso com Arnold ou com Tessa?

 

- Quando o homem se foi embora, Arnold voltou para a cabeceira de Tessa, tomou-lhe o pulso e falou-lhe ao ouvido.

 

- Claro que também não ouviu nada.

 

- Não, porque a conversa não era comigo. - Fraco argumento, pensa Justin. Tens de arranjar melhor. - Era um papel que eu estava habituado a assumir, - explica ele, desviando o olhar. - Ficar fora do círculo deles.

 

- Como é que Wanza estava a ser medicada? - pergunta Lesley.

- Não faço ideia.

 

Fazia com certeza uma ideia. Veneno. Tinha ido buscar Tessa ao hospital e estava dois degraus abaixo dela na escada que subia até ao quarto, com o saco dela numa mão e a mala com as fraldas e as primeiras roupas para o bebé na outra, mas vigiava-a como um lince porque, sendo Tessa como era, sentia-se obrigada a subir a escada sozinha. Logo que ela começou a oscilar, ele largou as malas e agarrou-a antes de ela se ir abaixo das pernas; sentiu a leveza assustadora do corpo dela e o tremor e o desespero quando ela começou numa lamentação, não acerca da morte de Garth, mas acerca da morte de Wanza. Mataram-na.’, balbuciou ela mesmo na cara dele, porque ele continuava a segurá-la junto ao peito. Aqueles sacanas mataram a Wanza, justin! Mataram-na com o veneno deles! Quem, meu amor? perguntou ele, afastando-lhe da cara o cabelo colado pelo suor. Quem é que a matou? Diz-me. Com o braço à volta das costas emagrecidas de Tessa, Justin fê-la subir a escada. Quais sacanas? Diz-me quem são os sacanas. Aqueles sacanas das Três Abelhas. Aqueles cabrões daquelesfalsos médicos. Aqueles que não queriam olharpara nós! Que género de médicos são eles?, disse, tomando-a nos braços e deitando-a na cama para não lhe dar a mais pequena hipótese de cair. Têm nome, esses médicos? Diz-me.

 

Regressando do seu mundo interior, ouve Lesley fazer a mesma pergunta ao contrário: - 0 nome Lorbeer diz-lhe alguma coisa, Justin?

 

Na dúvida, mentir, jurou ele a si próprio. No inferno, mentir. Se não confio em ninguém - nem em mim próprio - se só devo lealdade aos que morreram, mentir.

 

- Receio que não, - responde.

 

- Nunca o ouviu em parte nenhuma... ao telefone? Fragmentos de conversa entre Arnold e Tessa? Lorbeer, alemão, holandês, talvez suíço?

 

- Lorbeer não me diz nada, de todo.

 

- E Kovacs... uma húngara? Cabelo escuro, parece que é muito bonita ... ?

- Qual é o nome próprio? - 0 que quer dizer «não» e desta vez é verdade.

- Ninguém tem nome próprio - diz Lesley, em tom de desespero - Enrich, outra mulher mas loira... Não? - Atira o lápis para cima da mesa, vencida.

 

- Corre que então a Wanza morre - diz ela. - É oficial. É assassinada por um homem que não quer olhar para as pessoas. E hoje, seis meses depois, ainda não se sabe de quê. Morreu e pronto.

 

- Nunca mo disseram. Se Tessa ou Arnold sabiam a causa da morte, eu não sabia.

 

Rob e Lesley deixam-se cair nas cadeiras como dois atletas que combinaram fazer uma pausa. Encostando-se para trás, espreguiçando-se largamente, Rob solta um suspiro teatral, enquanto Lesley se deixa ficar inclinada para a frente, com o queixo nas mãos e uma expressão melancólica no rosto inteligente.

 

- Isto não é invenção sua, pois não? - pergunta ela por entre os nós dos dedos. - Toda essa cena da moribunda chamada Wanza, do bebé dela, do pretenso médico envergonhado, dos pretensos estudantes de bata branca? Isso não será tudo mentira de uma ponta à outra, por exemplo?

 

- Isso é uma ideia completamente ridícula! Por que raio é que eu havia de perder o seu tempo e o meu a inventar uma história destas?

 

- No hospital Uhuru não há o mais pequeno registo de uma mulher chamada Wanza. - explica Rob, igualmente desanimado, da sua posição, quase horizontal. - A Tessa esteve lá, tal como Garth, coitadinho. Mas Wanza não. Nunca lá esteve, nunca foi admitida, nunca foi tratada por um médico, pretenso ou não, ninguém a observou, nada lhe foi receitado. 0 bebé dela nunca nasceu, o corpo dela nunca desapareceu porque nunca existiu. Aqui a nossa amiga Les tentou falar com as enfermeiras, mas ninguém sabe nada, pois não, Les?

 

- Alguém lhes deu uma palavrinha antes de mim, - explica Lesley.

 

Ao ouvir uma voz de homem atrás de si, Justin volta-se. Mas era só o comissário de bordo para saber se estava confortável. Quer ajuda com os controlos do assento, senhor Brown? Obrigado, o senhor Brown prefere sentar-se direito. Ou o vídeo? Obrigado, não é preciso. Talvez queira que eu corra a cortina da vigia? Não, obrigado - enfaticamente - Justin preferia ter a janela aberta sobre o cosmos. E uma mantazinha para os joelhos, sr. Brown? Devido a uma boa educação incurável, Justin aceitou a mantazinha e virou os olhos para o negrume da janela a tempo de ver Glória entrar na sala sem bater à porta com uma bandeja cheia de sanduíches de pâté. Ao colocá-la sobre a mesa, espreita para ver o que Lesley escreveu no seu bloco: em vão, porque Lesley agilmente já virou para uma página em branco.

 

- Não vão cansar mais o meu pobre hóspede, pois não, meus queridos? Ele já tem muito em que pensar, não é, Justin?

 

Um beijo na cara para Justin e uma saída de comédia ligeira para todos; símultaneamente os três levantam-se de um salto e abrem a porta para Glória que parte levando a bandeja do chá já servido.

 

Por algum tempo depois da intrusão de Glória a conversa fica fragmentada. Todos mastigam as sanduíches, Lesley enceta um caderno novo, azul, enquanto Rob, de boca cheia, dispara uma série de perguntas à primeira vista sem relação umas com as outras.

 

- Conhece alguém que fume cigarros Sportsman sem parar? - num tom que sugere que fumar Sportsman é um crime sem perdão.

 

- Não, que eu me lembre, não. Não gostávamos do fumo dos cigarros, nem um nem outro.

 

- Refiro-me a fumar em geral, não só em sua casa.

- Mesmo assim, não.

 

- Conhece alguém que seja dono de uma carrinha-safari verde. Em boas condições, com matrícula do Quénia?

 

- 0 Alto Comissário gaba-se de ter um jipão blindado, mas não sei se é isso a que se refere.

 

- Conhece alguns gajos de quarenta e tal anos, tipo militar bem constituído, bronzeados do sol, sapatos muito engraxados?

 

- Ninguém que me lembre, na verdade não. - Confessa Justin sorrindo aliviado por se ver longe da zona minada.

 

- já ouviu falar de um sítio chamado Marsabit?

- Acho que sim. Sim, Marsabit, claro, Porquê?

 

- Ah? Bom, óptimo. Nós também ouvimos falar. Onde é?

- À beira do deserto de Chalbi.

 

- A leste do lago Turkana, então?

 

- Tanto quanto me lembro, sim. É um centro administrativo qualquer. Um ponto de encontro para os viajantes de toda a região do norte.

 

- já lá esteve?

 

- Não, infelizmente.

 

- Conhece alguém que tenha lá estado?

- Não, acho que não.

 

- Tem alguma ideia das instalações que possa haver em Marsabit para viajantes fatigados?

 

- Suponho que há lá onde ficar. Há um posto de polícia. É uma reserva nacional.

 

- Mas nunca lá esteve. - Justin nunca lá esteve. - Nem mandou lá ninguém? Duas pessoas por exemplo? - Justin não mandou. - Então, como é que conhece o sítio tão bem? 0 senhor será vidente?

 

- Quando sou colocado num país, faço o possível por estudar os mapas.

- Ouvimos dizer que uma carrinha-safari verde esteve em Marsabit duas noites antes do crime, Justin, - explica Lesley quando o ritual de agressão chegou ao fim. - Com dois homens. Pareciam ser caçadores brancos. Boa forma física, mais ou menos da sua idade, equipamento caqui, sapatos reluzentes, como disse o Rob. Não falaram com ninguém a não ser um com o outro. Não namoraram com um rancho de raparigas suecas que estavam no bar. Fizeram compras no armazém. Combustível, cigarros, água, cerveja, rações. Os cigarros eram Sportsman, a cerveja Whitecap em garrafa de vidro. A Whitecap só se vende em garrafa. Partiram na manhã seguinte, na direcção oeste, pelo deserto. Se não pararam podem ter chegado às margens do Turkana no dia seguinte ao fim da tarde. Até podem ter chegado a Allia Bay. As garrafas vazias de cerveja que encontrámos perto da cena do crime eram de Whitecap. As beatas eram de Sportsman.

 

- Será ingénuo da minha parte perguntar se o hotel em Marsabit não tem um registo de chegadas?

 

- Falta a página, - declara Rob triunfante, metendo-se na conversa. - Rasgou-se por acaso. Além de que o pessoal do hotel não se lembra deles de todo. Estão tão aterrorizados que nem se lembram dos seus próprios nomes. É de supor que alguém lhes tenha dado uma palavrinha, também. As mesmas pessoas que tiveram uma palavrinha com o pessoal do hospital.

 

Isto foi o canto do cisne de Rob, no que toca ao seu papel como carrasco de Justin, uma evidência que ele próprio reconhece, franzindo o sobrolho, puxando pela orelha e parecendo prestes a pedir desculpa, mas entretanto Justin começou a animar-se. Os seus olhos passam sem descanso de Rob a Lesley e vice-versa. Está à espera da próxima pergunta e, como ela não chega, decide perguntar também...

 

- E a conservatória do registo automóvel?

 

A ideia suscitou um riso cavo da parte dos polícias.

- No Quénia?

 

- Então as companhias de seguros. Os importadores de automóveis, os stands? Não pode haver assim tantas carrinhas-safari no Quénia. Procurando bem encontra-se de certeza.

 

- A judiciária do Quénia está a trabalhar no caso - diz Rob. - No próximo milénio, se nos portarmos muito bem, talvez eles forneçam uma resposta. Os importadores também não têm sido muito eficazes, com toda a franqueza

- continua ele com um olhar de gozo para Lesley. - É uma firma pequena chamada, BelI, Barker & Benjamin, também conhecida por As Três Abelhas

- já ouviu falar? Presidente vitalício, um tal Sir Kenneth K. Curtiss, golpista e vígaro, Kenny K. para os amigos.

 

- Em África toda a gente ouviu falar das Três Abelhas, - diz Justin, pondo-se rapidamente em guarda. (Na dúvida, mentir.) - E de Sir Kenneth, claro. É uma personagem.

 

- Amado?

 

- Admirado, é a palavra. É dono de uma das equipas de futebol mais populares do Quénia. E usa um boné de basebol de trás para diante, - acrescenta, com um esgar de repugnância que os faz rir.

 

- As Três Abelhas mostraram aquilo a que eu chamo muíta disponibilidade e nenhuma eficiência, - continua Rob. - Muito prestimosos e préstimo, nenhum: «Não há problema, senhor agente! À hora do almoço já cá tem tudo, senhor agente!» Mas depois, passam oito dias sobre a hora do almoço - e nada!

 

- Lamento dizer que é assim que funciona muita gente para estes lados

- comenta Justin com um sorriso cansado. - Já experimentou as companhias de seguros automóveis?

 

- As Três Abelhas também fazem seguro automóvel. Nem outra coisa era de esperar, não é? 0 seguro contra terceiros é de borla quando se compra um carro deles. Mas aí também não tivemos sorte nenhuma. Pelo menos, quanto a carrinhas-safari verdes em boas condições.

 

- Estou a ver, - disse Justin em voz sumida.

 

- A Tessa nunca os considerou alvos a abater, pois não? - pergunta Rob no seu tom mais descuidado... - As «Três Abelhas ... ?” Esse Kenny K. parece andar muito próximo do trono de Moi, que tantas vezes a fazia perder as estribeiras. Terá sido o caso?

 

- Suponho que sim, - diz justin com não menos indiferença. - Uma vez por outra. Deve ter acontecido.

 

- Isso pode explicar porque é que não temos tido toda a colaboração que desejávamos da nobre casa das Três Abelhas acerca do veículo misterioso e mais uma ou duas coisas indirectamente interligadas. Mas é que eles são o máximo noutros campos também, não são? Tudo, desde xarope para a tosse até jets para os executivos, foi o que eles disseram, não foi, Lis?

 

justin sorri com um sorriso distante mas não pega no tema da conversa nem sequer (apesar de tentado) com uma referência irónica à glória roubada a Napoleão, ou a coincidência absurda da ligação de Tessa com a ilha de Elba. E não faz sequer menção à noite em que a trouxe para casa vinda do hospital e àqueles sacanas das Três Abelhas que assassinaram Wanza com o seu veneno.

 

- Mas não estavam na lista negra de Tessa, pelo que me diz, - continua Rob. - Isso é na verdade surpreendente, considerando o que dizem deles os seus muitos detractores. «O punho de ferro na luva de ferro» é como um membro do Parlamento os descreveu recentemente em Westminster, se a memória me não falha, a propósito de um escândalo já esquecido. Esse deputado é que não deve estar à espera de ganhar um safari de borla nos tempos mais próximos, não é, Les? - Les murmurou «nem pensar». - Kenny K. e as suas Três Abelhas... Parece um grupo mck. Mas Tessa não lançou um dos seus fatwas contra eles, pois não, tanto quanto sabe?

 

- Que eu saiba, não - disse Justin sorrindo à palavra «fatwa».

 

Rob não larga o assunto. - Baseada... quem sabe... nalguma má experiência que ela e Arnold tenham tido lá no trabalho de campo deles, por exemplo... malversação ou negligência no exercício da medicina, de uma forma ou de outra... no campo farmacêutico, talvez? Ela interessava-se muito pelo aspecto médico das Coisas, não era? E o Kenny K. também se interessa, quando não está a jogar golfe com a rapaziada do Mo], ou a zumbir dum lado Para o outro no seu «Gulfstream» privado, à procura de mais companhias para comprar.

 

- Ah, sim..«? - diz Justin, mas com um ar tão distante, para não dizer desinteressado, que não deixa lugar a mais nenhuma esperança de esclarecimento.

 

- Então, se eu lhe dissesse que tanto Tessa como Arnold tiveram nas últimas semanas repetidos contactos com numerosos departamentos da longínqua Casa-Mãe das Três Abelhas - escreveram cartas, fizeram telefonemas, tentaram marcar encontros e receberam tampas sistematicamente - diria ainda que não tinha o mínimo conhecimento do caso? É uma pergunta.

 

- Isso é exacto, infelizmente.

 

- Tessa escreve uma série de cartas furiosas dírigidas a Kenny K., pessoalmente. São registadas ou entregues em mão. Telefona três vezes por dia à secretária dele e bombardeia-o com e-mails. Faz-lhe esperas à porta do rancho que ele tem no Lago Naívasha e do célebre escritório novo, mas ele é avisado pelos seus capangas e entra pela porta das traseiras, para gáudio do seu pessoal. Tudo isto seria novidade para si, assim Deus o ajude?

 

- Com ou sem ajuda de Deus, é novidade para mim.

- Não parece muito surpreendido,

 

- Ah não? É estranho. Eu sinto-me atónito. Talvez não esteja a trair, como devia, as minhas emoções, - riposta Justín com uma tal mistura de irritação e distância que os agentes, apanhados de surpresa, levantam a cabeça para ele, quase em continência.

 

Mas Justín não está interessado nas reacções deles. As suas fintas têm uma origem radicalmente diferente das de Woodrow. Enquanto Woodrow fazia todos os esforços para esquecer, Justin é assaltado de todos os lados pela memória recorrente de partes de conversas entre Bluhm e Tessa que, por escrúpulo, se tinha obrigado a não ouvir, mas que agora a corrente traz até ele: a exasperação dela, que tomava a forma de silêncio sempre que o omnipresente nome de Kenny K. era pronunciado na sua presença. Por exemplo, a sua entrada íminente na Câmara dos Lordes, que no Clube Muthaiga era tida como certa. por exemplo, o boato persistente de uma fusão gigante entre as Três Abelhas e uma multinacional ainda maior. Lembra-se do implacável boicote que ela fazia a todos os produtos das Três Abelhas - a que ela chamava ironicamente a sua cruzada antinapoleónica, - que ia dos alimentos e detergentes, que o exército doméstico de desprotegidos de Tessa estava proibido de comprar sob pena de morte, até aos postos de gasolina, cafetarias à beira da estrada, baterias e óleos para o carro de que Justin não podia servir-se quando viajavam juntos - até à ladainha de pragas que ela soltava sempre que um cartaz das Três Abelhas com o emblema roubado a Napoleão lhes sorria cinicamente de Um tapume.

 

- Ouvimos falar muito em radical, Justin, - anuncia Lesley, emergindo das suas notas para mergulhar mais uma vez nos pensamentos dele. - Seria Tessa uma radical? Pelas minhas contas, radical quer dizer militante, gênero «se não gostas, põe uma bomba», A Tessa não estava para aí virada, pois não? Nem o Arnold. Ou estavam?

 

A resposta de Justin tinha o ar cansado da resposta muitas vezes ensaiada para um Chefe de Departamento pedante.

 

- Tessa acreditava que a procura irresponsável do lucro pelas empresas está a destruir o globo e especialmente os países em desenvolvimento. Sob pretexto de investir, o mundo capitalista está a arruinar o ambiente natural e a favorecer a criação de cleptocracias. Era essa a sua convicção. Nos nossos dias não se pode dizer que ela seja radical. já ouvi essa teoria amplamente esboçada nos corredores da comunidade internacional. Até no próprio Comité,

 

Pára de novo, recordando a visão pouco agradável do obeso Kenny K. a sair de carrinho do primeiro chá do Clube Muthaiga na companhia de Tim Donohue, o nosso chefe-espião serôdio.

 

- Segundo o mesmo argumento, o auxílio ao Terceiro Mundo é exploração com um nome diferente, - continua. - Quem beneficia são os países que entram com o dinheiro a juros, os políticos africanos, os funcionários que arrecadam subornos gigantescos e os empresários e vendedores de armamento ocidentais que saem daqui com lucros gigantescos. As vítimas são o homem da rua, o desenraizado, o pobre e o muito pobre. E as crianças que não terão futuro - termina ele, citando Tessa e pensando em Garth.

 

- E o senhor acredita nisso? - pergunta Lesley.

 

- Para mim é tarde demais para acreditar seja no que for, - responde Justin mansamente e há um momento de silêncio até que ele acrescenta no mesmo tom: - Tessa era uma pessoa rara: uma advogada que acreditava na justiça.

 

- Porque é que eles se dirigiam ao acampamento Leakey? - pergunta Lesley, após ter digerido em silêncio aquela declaração.

 

- Talvez Arnold tivesse lá qualquer coisa a tratar para a sua ONG. Leakey não é pessoa para não se ralar com o bem-estar dos nativos africanos.

 

- Talvez - concorda Lesley escrevendo num caderninho verde. - Ela conhecia-o?

 

- Acho que não.

- E Arnold?

 

- Não faço ideia. Talvez seja bom perguntar ao senhor Leakey.

 

- 0 senhor Leakey nunca tinha ouvido falar de qualquer deles antes de ligar o seu aparelho de televisão na semana passada, - responde Lesley, bastante desanimada. - 0 senhor Leakey passa a maior parte do seu tempo em Nairobi, nos dias que correm, tentando ser a imagem da inocência do senhor Mo] e exercendo um grande esforço para conseguir transmitir essa mensagem.

 

Rob lança um olhar para Lesley pedindo a sua aprovação e recebendo uma discreta aquiescência. Inclina-se para a frente e dá um empurrão agressivo ao gravador na direcção de Justin: fale aí para dentro.

 

- 0 que é a praga branca, na nossa terra? - pergunta ele, implicando, com o seu tom agressivo, que é Justin pessoalmente o culpado da sua disseminação.

- A praga branca - repete, dada a hesitação de justin. - 0 que é? Vá lá?

 

Pelo rosto de Justin espalhou-se de novo uma imobilidade estóica. A sua voz recolhe à sua concha oficial. Novos caminhos de ligação estão a abrir-se à sua frente, mas são os caminhos de Tessa e ele quer percorrê-los sozinho.

 

- A «praga branca» era, em tempos, o nome popular para a tuberculose,

- recita ele. - 0 avô de Tessa morreu dessa doença. Em criança, assistiu à morte dele. Tessa tinha um livro com esse título. - Mas não acrescentou que o livro estava à cabeceira dela, antes de ele o ter metido na pasta.

 

Agora era a vez de Lesley se mostrar cautelosa: - Ela tinha algum interesse especial pela doença, por essa razão?

 

- Especial, não sei. Como acaba de dizer, o trabalho dela nos bairros de lata fazia-a interessar-se por um certo tipo de assuntos médicos. A tuberculose era um deles.

 

- Mas se o próprio avô morreu disso, Justin...

 

- Tessa detestava o sentimentalismo que a literatura liga à tuberculose

- continua Justin com severidade, por cima da fala dela. - Kcats, Stevenson, Coleridge, Thomas Mann - ela costumava dizer que as pessoas que acham a tuberculose romântica haviam de ter estado sentadas à cabeceira do avô dela.

 

Rob consulta Lesley com o olhar e de novo recebe um assentimento mudo. Então surpreendê-lo-ia saber que, no decurso de uma busca não-autorizada

 

ao apartamento de Arnold Bluhm, encontrámos a cópia de uma antiga carta que ele mandara ao chefe de marketíng das Três Abelhas, avisando-o, dos efeitos secundários de uma nova droga-relâmpago antituberculose que as Três Abelhas andam a comercializar?

 

Justin não tem um segundo de hesitação. A linha perigosa que tomou o interrogatório reactivou os seus dotes diplomáticos. - Porque é que havia de me surpreender? A ONG a que Bluhm está ligado interessa-se especialmente pelos fármacos usados em África. Os fármacos são um escândalo em África. Se alguma coisa há que ponha em evídência a indiferença ocidental pelo sofrimento em África, é a falta escandalosa de medicamentos adequados e os preços vergonhosamente altos que as firmas farmacêuticas têm exigido nos últimos trinta anos. - Citava Tessa sem a mencionar. - Tenho a certeza de que Bluhm escreveu dúzias de cartas dessas.

 

- Esta carta estava escondida àparte. - diz Rob. - Enrolada em dados técnicos que nós não entendemos.

 

- Bom, esperamos que o próprio Arnold possa ajudar a decifrar tudo isso quando regressar, - diz Justin muito formal, sem esconder a desaprovação pela ideia que os polícias tinham estado a meter o nariz nos objectos pessoais de Bluhm e a ler a sua correspondência sem o seu conhecimento.

 

Lesley toma de novo a chefia: - A Tessa tinha um computador portátil, não tinha?

 

- Claro que tinha.

- De que marca?

 

- 0 nome não sei. Era pequeno, cinzento e japonês, é tudo o que posso dizer-lhe.

 

É uma completa mentira. Eles sabem-no e ele também. A julgar pelas caras deles, sentem como que uma perda, uma relação de amizade que foi traída. Mas da parte de Justin, não. Justin só experimenta um desejo teimoso de recusa, escondida com arte diplomática. Esta é a batalha para que ele se preparou dias e noites a fio, embora rezando para que nunca acontecesse.

 

- Ela tinha-o no escritório, não é assim? Onde tinha o seu painel de parede para recados e notas, os papéis e o material de pesquisa?

 

- Quando não o levava consigo, claro.

 

- E usava-o para escrever as suas cartas e documentos?

- Suponho que sim.

 

- E os e-mails?

 

- Frequentemente.

 

- E imprimia a partir dele?

 

- Por vezes.

 

- Ela escreveu um longo documento há uns cinco ou seis meses atrás - à volta de dezoito páginas, incluindo carta e anexo. Era uma espécie de protesto contra a prática errada da medicina, quer médica quer farmacêutica, pensamos nós. A história de um caso que descrevia qualquer coisa de muito grave a acontecer aqui no Quénia. Ela mostrou-lho?

 

- Não.

 

- E o senhor não o leu... para si mesmo, sem o conhecimento dela?

- Não,

 

- Então não sabe nada desse caso, é o que está a dizer?

 

É sim, lamento. - A frase é acompanhada por um sorríso pesaroso. Ora nós temos estado a pensar se isto não teve qualquer coisa a ver com o tal grande crime que ela achava ter descoberto.

 

- Estou a ver.

 

- E se as Três Abelhas -não terão qualquer coisa a ver com o tal grande crime.

 

É sempre possível.

 

Mas ela não lhe mostrou nada? - insiste Lesley.

 

Como já lhe disse várias vezes, Lesley: não. - Quase acrescenta, «minha cara senhora».

 

- Acha que as Três Abelhas podem estar implicadas, de alguma maneira?

- Não faço a mais pequena ideia, infelizmente.

 

Mas tem todas as ideias. Este foi o tempo terrível. 0 tempo terrível em que ele receou tê-la perdido; quando aquele rosto jovem se foi tornando cada dia mais duro e aqueles olhos jovens adquiriram um brilho fanático; quando ela se sentava, noite após noite diante do computador no pequeno gabinete, rodeada de montes de papéis marcados de referências cruzadas como um memorial de advogado; o tempo em que ela comia sem reparar no que comia e corria de novo para o trabalho sem sequer dizer até logo; o tempo em que tímidos camponeses de aldeias recônditas vinham silenciosamente pela porta das traseiras para falar com ela e sentavam-se com ela na varanda comendo o que Mustafa lhes trazia.

 

- Mas então ela nunca sequer discutiu esse documento consigo? - disse Lesley, fazendo-se incrédula.

 

- Nunca, receio bem.

 

- Nem na sua presença... talvez com Ainold ou com Ghita?

 

- Nos últimos meses, Tessa e Arnold mantinham Ghita à distância, para seu próprio bem, pelo que percebi. Quanto a mim, sempre tive a sensação de que não confiavam em mim. Achavam que, se fosse apanhado num conflito de interesses, eu procuraria manter a minha lealdade para com a Coroa.

 

- E manteria?

 

Nunca por nunca ser pensava ele. Mas a sua resposta reflecte a ambivalência que esperam dele. - Não estando a par do documento a que se refere, receio não poder responder a essa pergunta.

 

- Mas o documento teria sido impresso a partir do computador portátil dela, não é verdade? Essa coisa de dezoito páginas... mesmo se ela não lho mostrou.

 

- Possivelmente. Ou do computador de Bluhm. Ou de uma pessoa amiga.

- E onde está agora... o computador? Neste momento?

 

Ficou impassível.

 

Woodrow podia aprender com ele.

 

Nem expressão corporal, nem tremor na voz ou pausa exageradamente longa para retomar o controlo.

 

- Procurei em vão o computador na lista das coisas dela que a polícia do Quénia me apresentou mas, como um certo número de outros objectos, não estava lá.

 

- Em Loki ninguém a viu com um computador, - diz Lesley.

- Mas também que eu saiba ninguém lhe revistou a bagagem.

 

- No Oasis não havia bagagem nenhuma. Ela levava alguma mala quando a deixou no aeroporto?

 

- Levava a mochila que costumava... levar nos trabalhos de campo. Isso também desapareceu, Levava também uma maleta de fim-de-semana onde ela podia ter metido o computador. Era o que ela fazia às vezes. No Quénia as mulheres sozinhas são aconselhadas a não exibir material electrónico valioso nos lugares públicos.

 

- Mas a verdade é que ela não estava sozinha, pois não? - recorda Rob. Segue-se um longo silêncio. Tão longo que se torna um caso de suspense decidir quem é que o vai quebrar.

 

- Justin - diz Lesley por fim. - Quando foi a sua casa com Woodrow na terça-feira de manhã, o que é que trouxe de lá?

 

Justin simula compor mentalmente uma lista. - Olhi   ... papéis de família... correspondência privada a respeito da herança de Tessa ... umas camisas, meias, um fato escuro para o funeral... alguns objectos de valor sentimental, umas gravatas...

 

- Mais nada?

 

- Não, que me venha imediatamente ao espírito, nada,

- E que não venha? - pergunta Rob.

 

Justin faz um sorriso cansado mas não responde.

 

- Nós falámos com o Mustafa, - diz Lesley. - Perguntámos-lhe: Mustafa, onde está o computador portátil de Miss Tessa? Ele deu respostas contraditórias. Disse que ela o tinha levado. Minutos depois, que não tinha. Mais adiante, que os jornalistas o tinham roubado. A única pessoa que não lhe tinha tocado era o senhor, Justin. Achámos provável que ele estivesse a servir-lhe de capote, embora sem grande eficácia.

 

- Acho que é isso que se obtém quando se intimida o pessoal doméstico.

- Nós não o intimidámos, - responde Lesley, finalmente zangada. - Fomos até extremamente simpáticos. Perguntámos-lhe pelo painel das notas e recados. Porque é que estava cheio de pioneses e buracos de pioneses e não tinha a mais pequena nota? Ele respondeu que tinha limpo tudo. Limpou tudo sozinho sem a ajuda de ninguém. Não sabe ler inglês, não está autorizado a mexer nas coisas dela nem em nada do escritório, mas limpou o painel. Que é que fez aos recados? Queimou-os, disse ele. Quem o mandou queimá-los? Ninguém. Quem o mandou limpar o painel? Ninguém. E sobretudo, não foi Mr. Justin. Nós pensamos que ele lhe estava a dar cobertura, embora sem grande jeito. Nós pensamos que foi o senhor que tirou os recados e não o Mustafa. E pensamos que ele lhe está a dar cobertura acerca do computador, também.

 

Justin refugiou-se de novo naquele estado de à-vontade artificial que é ao mesmo tempo a virtude e o defeito da sua profissão. - Acho que desta vez não está a tomar em conta as diferenças culturais, Lesley. A explicação mais verosímil é que Tessa levou o computador com ela para Turkana.

 

- E levou também os papéis que estavam afixados? Nao me parece, Justin. E o senhor levou alguma disquete do computador, quando lá foi a casa?

 

Por um momento (mas só aqui), Justin baixou a guarda. Por um lado, está empenhado em negar tudo afavelmente, mas por dentro está tão ansioso como os seus interrogadores por obter respostas.

 

- Não, mas confesso que andei à procura. Muita da correspondência jurídica dela estava no computador. Ela tinha por hábito mandar e-mails ao seu advogado acerca de vários assuntos.

 

- E não encontrou as disquetes.

 

- Estavam sempre em cima da secretária, - proclama Justin, desejoso agora de partilhar a sua dúvida. - Numa caixa muito bonita de laca preta que o próprio advogado lhe ofereceu pelo Natal - eles são primos e amigos de infância. A caixa tem uns caracteres chineses e Tessa pediu a um colega chinês do auxílio humanitário para lhos traduzir. Ficou encantada quando descobriu que era uma tirada contra os odiosos ocidentais. Não posso deixar de pensar que deve ter levado o mesmo destino do computador. Talvez ela também tenha levado os discos para Loki.

 

- Para quê? - pergunta Lesley, céptica.

 

- Não sou muito forte em tecnologia informática. Devia ser, mas não sou.

0 inventário da polícia também não falava em disquetes, - diz ele e fica à espera que o iluminem.

 

Rob reflecte. - Seja o que for que estivesse nos discos, o mais provável é que também estivesse no computador, - decide ele. - A não ser que tenha passado tudo para uma disquete e tenha apagado depois o disco duro. Mas porque é que alguém havia de fazer uma coisa dessas?

 

- A Tessa tinha desenvolvido ultimamente um forte sentido da segurança, como já disse.

 

Outro silêncio rumínativo, acompanhado por justin.

 

- Mas então onde está a papelada dela neste momento? - pergunta Rob mal disposto.

 

- A caminho de Londres.

- Pela mala diplomática?

 

- Por qualquer meio à minha escolha. 0 Foreign Office tem colaborado totalmente.

 

Talvez seja o eco das respostas evasivas de Woodrow que provoca em Lesley, sentada na borda da sua cadeira, um desabafo de exasperação genuína.

 

- Justin...

 

- Sim, Lesley ... ?

 

- A Tessa andava a fazer uma investigação. É ou não verdade? Deixe lá os discos, deixe lá o computador. Onde é que estão os papéis - todos os papéis dela -fisicamente, nestepreciso momento? - pergunta ela. E onde estão os recados que estavam pregados naquele painel?

 

Remetendo-se de novo ao seu disfarce, justin dedica-lhe um sobrolho franzido mas tolerante que implica que, apesar de ela estar a exagerar, ele dará o seu melhor para lhe fazer a vontade. - Sem dúvida, com a minha bagagem. Se me perguntar em que mala precisamente, aí é que me verá um pouco atrapalhado.

 

Lesley espera que a sua respiração volte à normalidade. - Peço-lhe que tenha a bondade de abrir as suas malas, por favor. Peço-lhe que nos acompanhe lá abaixo imediatamente e que nos mostre tudo o que tirou de sua casa na terça de manhã.

 

Levanta-se. Rob também e vai postar-se à porta, pronto para tudo. Só Justin fica sentado. - Tenho muita pena, mas isso não é possível - diz ele.

 

- Porquê? - protesta Lesley.

 

- Pela simples razão que fui eu que tirei esses documentos. São pessoais e privados. Não faço intenção de os submeter ao seu escrutínio, ou a apreciação seja de quem for, até eu ter ocasião de os ler eu próprio.

 

Lesley cora. - Se estivéssemos em Inglaterra, justin, espetava-lhe com uma intimação tão depressa que o senhor até andava de roda.

 

- Mas, infelizmente, não estamos em Inglaterra. Não tem mandado nem poderes locais, que eu saiba.

 

Lesley continua: - Se estivéssemos em Inglaterra, eu arranjava um mandado para uma busca exaustiva a esta casa. E levava todos os objectos, papéis e discos que o senhor tirou do escritório de Tessa. Além do computador. Havia de passar tudo a pente fino.

 

- Mas você já fez uma busca na minha casa, Lesley - protesta Justin, calmamente sentado na sua cadeira. - Duvido que Woodrow consentisse em que vocês fizessem uma busca em casa dele, não acha? E não vou com certeza dar-lhes licença para me fazer a mim o que vocês fizeram ao Arnold sem seu consentimento.

 

Lesley está carrancuda e corada, como uma mulher ofendida. Rob, muito pálido, contempla os punhos fechados.

 

- Amanhã veremos, - ameaça Lesley quando saem.

 

Mas amanhã nunca chega, apesar das suas palavras iradas. Durante toda a noite e parte da manhã, Justin fica sentado na borda da cama, à espera que Rob e Lesley voltem, como anunciaram, armados de mandados de busca e intimações e um bando de polícias quenianos para fazerem por eles o seu trabalho sujo. Debate exaustivamente opiniões e esconderijos, como vem fazendo há dias. Como um prisioneiro de guerra, contempla sobrados, tectos e paredes: onde? Planeia pedir auxílio a Glória, depois desiste. Faz outros planos que envolvem Mustafa e o criadito de Glória. E ainda outros que envolvem GhIta. Mas a única notícia que chega dos seus inquiridores é um telefonema de Mildren a dizer que a presença dos dois agentes foi requerida para outro lugar e que não, não há notícias de Arnold. E quando chega o dia do funeral, os agentes continuam requisitados para outra missão; pelo menos assim parece a Justin quando, de vez em quando, observa os presentes e conta os amigos ausentes.

 

0 avião entrara numa zona de eterno alvorecer. Para lá da janela da sua cabine, ondas e mais ondas de um mar congelado rolavam até um infinito incolor. A toda a volta, os passageiros envoltos em nuvens brancas como sudários jaziam nas posições espectrais dos mortos. Uma mulher tinha um braço por cima da cabeça, como se tivesse sido abatida enquanto acenava para alguém. Um homem tinha a boca aberta num grito silencioso e a sua mão de cadáver pousada sobre o coração. Muito direito e muito só, Justin voltou a olhar pela janela. 0 seu rosto flutuava no vidro ao lado do de Tessa, como máscaras de gente que em tempos conhecera.

 

 

- É simplesmente horroroso! - gritou um homem meio-careca num volumoso sobretudo, separando Justin do seu carrinho de bagagens e cegando-o com um abraço de urso, - É absolutamente vergonhoso, liXadamente injusto e simplesmente horroroso. Primeiro, o Garth, agora Tessa.

 

- Obrigado, Ham, - disse Justin, devolvendo o abraço o melhor que podia, visto ter os braços estreitamente amarrados ao corpo. - E muito obrigado por apareceres a esta hora diabólica. Deixa que eu levo isso, obrigado. Leva a mala, se quiseres.

 

- Gostava que me tivesses deixado ir ao enterro! Que horror, Justin!

 

- Era melhor ficares aqui a defender o forte, - disse Justin com delicadeza.

- 0 teu fato é suficientemente quente? Um tempo de merda, depois do sol de África, não é?

 

Arthur Luigi Hammond era o único sócio da firma de advogados de Hammond Manzini, de Londres e Turim. 0 pai de Ham pintara a manta com o pai de Tessa na Faculdade de Direito de Oxford e depois na de Milão. Numa única cerimónia realizada numa enorme igreja em Turim, tinham ambos desposado duas irmãs da aristocracia italiana, famosas pela sua beleza. Quando uma delas deu à luz Tessa, a outra deu à luz Ham. À medida que as crianças cresciam, passavam férias juntas em Elba, esquiavam juntas em Cortina d’Ampezzo e, como se fossem verdadeiros irmãos formaram-se juntos, Ham com um nível três tirado a ferros e a glória de pertencer à equipa representante da Casa em râguebi e Tessa com um Primeiro Nível. Desde a morte dos pais de Tessa, Ham desempenhara o papel de velho tio, administrando com zelo a fortuna da família, fazendo em nome de Tessa investimentos excessivamente prudentes e, com toda a autoridade da sua calvície prematura, moderando os generosos instintos da prima e esquecendo-se de apresentar contas dos seus honorários. Era grande, rosado e prazenteiro, com olhos risonhos e bochechas movediças que se franziam facilmente à mínima brisa interior. Quando Ham está a jogar gin-rummy, dizia Tessa, podemos saber antes dele o jogo que ele tem, só pela largura do sorriso com que apanha as Cartas.

 

- Deita isso lá para trás, - gritou Ham enquanto se enfiavam dentro do carro minúsculo. - Ou põe no chão. Que é que levas aí? Heroína?

 

- Cocaína, - respondeu Justin, espreitando discretamente as Filas de carros estacionados. Na emigração, à chegada, duas mulheres-polícia tinham-no feito passar com um aceno de cabeça de uma indiferença suspeita. No átrio das bagagens, dois homens de cara fechada e fato completo tinham olhado para toda a gente menos para Justin. Três carros atrás de Ham, um homem e uma mulher num Ford saloon beige estudavam um mapa virados um para o outro. Num país civilizado nunca se sabe, meus senhores, costumava dizer o instrutor muito sabido do curso de segurança. A coisa mais prática a fazer é partir do princípio que estão a ser seguidos durante todo o tempo.

 

- Estamos prontos? - perguntou Ham timidamente, apertando o cinto de segurança.

 

A Inglaterra era uma beleza. Os raios baixos do sol da manhã douravam a terra arada do Sussex. Ham guiava como sempre, a cem quilómetros à hora quando o limite era de cento e vinte, dez metros atrás dos arrotos do tubo de escape do camião mais próximo.

 

- A Meg manda saudades, - anunciou ele, referindo-se à sua mulher, grávida em último grau. - Passou a semana inteira a chorar pelos cantos. E eu também. Airida agora, se não tiver muito cuidado...

 

- Lamento, muito, Ham - disse Justin, aceitando com simplicidade o facto de Ham ser uma daquelas pessoas que procuram consolação junto de quem tem mais razões do que elas para se sentir infeliz.

 

- Só queria que descobrissem o cabrão, - soltou Ham uns minutos mais tarde. - E quando o tiverem enforcado, podem atirar esses sacanas desses jornalistas para o Tamisa, que é para saberem. A Meg foi cumprir pena para casa da cabrona da mãe, - acrescentou. - É da maneira que o puto salta cá para fora mais depressa,

 

Seguiram de novo em silêncio, Ham protestando contra os arrotos do camião à sua frente, Justin olhando perplexo para o país estrangeiro de que fora representante metade da sua vida. 0 Ford bege tinha-os ultrapassado, para ser substituído por um motociclista atarracado vestido de cabedal preto. Num país civilizado, nunca se pode saber.

 

- A propósito, estás rico. - Declarou Ham quando o campo aberto deu lugar aos subúrbios. - Não que fosses precisamente pobre até agora, mas agora estás podre de rico. A herança do pai dela, da mãe, o trust, a traquitana toda.

 

Além disso és o único administrador das obras de caridade dela. Ela disse que tu sabias o que havias de fazer.

 

- Quando é que isso foi?

 

- Um mês antes de perder o bebé. Queria que tudo ficasse em ordem para o caso de ela se apagar. Então, que diabo havia eu de fazer, pelo amor de Deus?

- perguntou, tomando o silêncio de Justin por uma censura. - Ela era minha cliente, Justin. Eu era o advogado dela. Tentar dissuadi-la? Telefonar-te?

 

Com os olhos no retrovisor, Justin produziu os sons que se impunham para descanso de Ham.

 

- E Bluhm era o outro executor testamentário, rai’s o partam. Foi mas foi um carrasco.

 

As abençoadas instalações dos Srs, Hammond Manzini estavam situadas num beco gradeado chamado Ely Place e ocupavam os bolorentos andares superiores com paredes apaineladas representando as figuras em vias de desintegração de mortos ilustres. Dentro de duas horas funcionários bilingues estariam a murmurar coisas para dentro de telefones imundos, enquanto as secretárias de Ham, verdadeiras ladies de twin set * se debatiam taco a taco com a tecnologia mais moderna. Mas às sete da manhã, Ely Place estava deserta, tirando uma dúzia de carros estacionados ao longo do passeio e uma lamparina amarela que ardia na Capela de St. Etheldreda, Vergados ao peso da bagagem de Justin, os dois homens treparam ruidosamente quatro lanços de degraus oscilantes até ao escritório de Ham e depois mais um quinto até ao seu pequeno apartamento no sótão, despojado como a cela dum monge. Na minúscula sala de estar, de jantar e kitchenette estava pendurada uma foto de Ham, muito mais magro, metendo um golo, para júbilo de uma multidão dejovens universitários. No pequeno quarto de dormir onde Justin iria mudar de roupa, Ham e Meg cortavam um bolo de noiva de três andares ao som de fanfarras de charameleiros italianos de collants. E na minúscula casa de banho onde tomou banho de chuveiro, estava pendurado um primitivo a óleo vindo do solar ancestral de Ham no gélido Northumberiand, cujos custos de manutenção explicavam o eterno estado de penúria de Ham.

 

- A maldita ventania levou o telhado da ala norte, - gritou ele, orgulhoso, da cozinha do outro lado da parede, onde se ouvia a partir ovos e a bater com as panelas. - Chaminés, telhas, o catavento, o relógio, tudo em pantanas. A Meg tinha ido visitar a Rosanne, graças a Deus. Se estivesse no jardim de trás, tinha levado com a torre do sino no toutiço, coitada.

 

Conjunto de malha composto de uma camisola de manga curta e cardigan do mesmo material, indumentária típica de mulheres trabalhadoras nas firmas respeitáveis de Londres. (N. T)

 

Justin abriu a torneira de água quente e escaldou a mão. - Deve ter sido um susto... - disse, acrescentando água fria.

 

- Ela mandou-me um livrinho extraordinário pelo Natal. - Gritou Ham, ao som do toucínho a rechinar. - Não a Meg. A Tess. Não to mostrou de todo?

0 livrinho que ela me mandou? Pelo Natal?

 

- Não, Ham, acho que não, - na ausência de champô, Justin esfregou o sabonete na cabeça.

 

- Um tipo indiano, um místico. Rahmi Não-Sei-Quantos. Diz-te alguma coisa? Eu já te digo o resto do nome.

 

- Não. Nada.

 

- Aquela história sobre o dever de nos amarmos uns aos outros desinteressadamente. Pareceu-me uma coisa forte demais.

 

Cego com a espuma do sabonete, Justin emitiu um grunhido de simpatia.

- Liberdade, Amor e Acção, é esse o título. Que raio esperava ela que eu fizesse com liberdade, amor e acção? Sou um homem casado, por amor de Deus! Estamos à espera de um bebé. E além disso sou católico. Tess também era católica antes de desistir. Malandra.

 

- Acho que ela queria agradecer-te todo aquele trabalhínho que fizeste para ela, - sugeriu Justin, aproveitando a ocasião, mas tendo o cuidado de manter o tom natural da conversa.

 

Interrupção momentânea na comunicação com o outro lado da parede. Mais ruido de fritura, seguido de pragas heréticas e cheiro a queimado.

 

- De que trabalhínho estás a falar? - berrou Ham com suspeita na voz.

- Pensei que era suposto não saberes nada sobre quaisquer trabalhinhos. Era um segredo absoluto, segundo Tess, «Para ficar estritamente fora do alcance de todos os Justins». Sob pena de morte. Pô-lo em todos os e-mails que mandou.

 

Justin encontrara uma toalha mas quando a esfregou nos olhos, eles ficaram a arder mais. - Eu não sabía rigorosamente nada, Ham. Adivinhei, por assim dizer. - Explicou ele através da parede com a mesma naturalidade. - 0 que é que ela queria que tu fizesses? Pôr uma bomba no Parlamento? Envenenar os reservatórios de água? - Nenhuma resposta. Ham está absorvido Pelos seus cozinhados. Justin procura às apalpadelas uma camisa lavada. - Não me digas que ela queria que tu distribuísses panfletos subversivos sobre a dívida do Terceiro Mundo, - disse ele.

 

- Queria a merda dos registos das companhias. - Justin ouviu-o dizer sobre mais barulho de frigideiras. - Dois ovos ou um? São das nossas galinhas!

 

- Um está óptimo, obrigado. Que registos eram esses?

 

- Ela queria saber tudo. Sempre que pensava que eu estava a ficar gordo e confortável, pumba! aí vinha um e-mail a respeito dos registos das companhias. - Mais barulho das frigideiras conduziu a conversa de Ham para outras direcções. - Sabes que no outro dia fiz batota ao ténis? Em Turim. Sim senhor. Calhou-me fazer par com uma miúda completamente destravada numa competição a feijões. Ela mentiu como um cigano durante todo o jogo. Cada vez que a bola batia junto à linha, ela gritava «out!». Podia ser um palmo dentro, não fazia a mínima diferença. Out! «Sou italiana», disse ela, «estou autorizada a fazer batota». «Uma gaita é que você é italiana», disse eu. «É inglesa até aos testículos, como eu.» Só Deus sabe o que teria acontecido se tivéssemos ganho. Teria que devolver a taça, penso eu, Não, não podia, se não ela cortava-me as goelas. Oh diabo! Desculpa!

 

Justin entrou na sala e tomou lugar perante um magma gordurento de toucínho, ovo, salsichas, pão frito e tomate. Ham estava em pé, uma mão a tapar a boca, siderado pela infelicidade da sua metáfora

 

- Que espécie de companhias, Ham? Não faças essa cara que me tiras o apetite.

 

- Propriedade industrial, - disse Ham, sempre com a mão na boca, sentando-se do outro lado da mesinha. - Quem era o proprietário de duas companhias de merda da Ilha de Man. Mais alguém lhe chamava Tess, que tu saibas? - perguntou ele, ainda perturbado. - Além de mim?

 

- Não que eu tivesse ouvido. Nem ela, de certeza. Tess era teu copyright exclusivo.

 

- Eu amava-a perdidamente, sabes.

 

- E ela a ti. Que espécie de companhias?

 

- Propriedade industrial. Nunca houve nada entre nós, hein? Estávamos demasiado próximos.

 

- E no caso de pensares nisso, também foi a mesma coisa com Bluhm.

- Isso é oficial?

 

- E ele também não a matou. Tal como tu, ou eu.

- De certeza?

 

- Absoluta.

 

Ham sorriu. - A minha Meg não está muito convencida. Não conheceu Tess como eu a conheci, percebes? Éramos uma coisa especial. Irrepetível. «Tess tem amigos.» - Disse-lhe eu. - «Amigos do peito. 0 sexo não entra nisso.» Vou-lhe dizer o que tu me disseste, se não te importas. Vai animá-la. Aquela merda toda nos jornais... Apanhei com ela em cima, por assim dizer.

 

- E então onde é que essas companhias estavam registadas? Que nomes tinham? Lembras-te?

 

- Claro que me lembro. Não me podia esquecer disso com a velha Tess a chatear-me dia sim dia não.

 

Ham servia o chá, segurando o bule com ambas as mãos, uma no bojo e outra para não deixar cair a tampa, enquanto resmungava. Completada a operação, sentou-se para trás, continuando a segurar o bule, depois baixou a cabeça, como se quisesse investir.

 

- Muito bem - disse ele com agressividade. - Diz-me o nome do grupo de executivos mais secreto, dúplice, abjecto, hipócrita que jamais tive o duvidoso prazer de encontrar.

 

- Indústria do armamento? - sugeriu Justin, com falsa ingenuidade.

 

- As farmacêuticas. Mete o armamento num chinelo. Lembro-me agora. já sabia que isso ia acontecer: Lorpliarma e Pharmabcer?

 

- Como?

 

- Veio essa história numa revista médica. A Lorpliarma criou a molécula e a Pharmabeer detem a patente do processo. Sabia que me ia lembrar. Onde é que os tipos vão buscar estes nomes é que não faço ideia.

 

- Processo para fabricar o quê?

 

- A molécula, palerma, o que é que havia de ser?

- Que molécula?

 

- Sei lá. É como em Direito, mas pior. Palavras que eu nunca tinha ouvido e espero não voltar a ouvir. Feitas para reduzir os leigos ao silêncio. Para os manter no seu lugar.

 

Depois do pequeno-almoço desceram um andar juntos e puseram a pasta de ministro na casa-forte de Ham ao lado da porta do seu escritório. De lábios apertados a sugerir discrição, olhos virados para o céu, Ham girou os botões do segredo e abriu para trás a porta blindada para que Justin entrasse sozinho na casa-forte. Depois pôs-se à espreita enquanto Justin pousava a pasta no chão, junto a umas veneráveis caixas de cabedal com a morada da firma de Turim gravadas na tampa.

 

- E isto foi apenas o princípio, já ficas a saber, - avisou Ham sombriamente, fingindo indignação. - Uma volta à pista antes da partida. Depois quis os nomes dos directores de todas as companhias dos Srs. Karel Vita Hudson de Vancouver, Seattie, Basileia e de todas as cidades possíveis, desde Oshkosh até East Pinner. E «Qual é o ponto da situação no que toca ao iminente colapso da nobre e velha Casa de Ball, Birmingliam e Blá-blá-blá Limited, ou lá como é, também conhecida pelas Três Abelhas, Presidente Perpétuo e Senhor do Universo um tal Kenneth K. Curtiss, Sir?» E ela não tinha mais perguntas, queres tu saber? Ai tinha, tinha. Disse-lhe para procurar na Internet mas ela respondeu que metade do material que lhe interessava era visado pela censura, ou lá o que é que eles fazem quando não querem que o Sr. Público lhes espreite por cima do ombro. E eu disse-lhe: «Tessa, minha querida, por amor de Deus, isso é coisa para me levar semanas. Meses, menina.» Ligou ela alguma coisa? Uma ova. Ela era assim. E eu teria saltado de um balão sem pára-quedas se ela me pedisse.

 

- E o resultado de tudo isso?

 

Ham já estava a sorrir, de orgulho inocente. - KVH de Vancouver e Basileia possuem cinquenta e um por cento das duvidosas companhias biotecnológicas da Ilha de Man, Por-não-sei-quantos de Pharma-qualquer-coisa. As Três Abelhas, de Nairobi, tem os direitos exclusivos de importação e exportação da dita molécula mais todos os seus derivados para o conjunto do continente africano.

 

- Ham, és incrível!

 

- Lorpliarma e Pharmabeer são ambas propriedade da mesma quadrilha de três. Ou eram até que a quadrilha vendeu os seus cinquenta e um por cento. Um gajo, duas gajas. 0 gajo chama-se Lorbeer. Lor mais Beer que correspondem a Lorpharma e Pharrnabeer. As gajas são ambas médicas. As moradas são a cargo de um anãozinho suíço que vive numa caixa postal no Liechtenstein.

- Nomes.

 

- Lara qualquer-coisa. Tenho isso nas notas. Lara Erririch. Lembrei-me agora.

- E a outra?

 

- Esqueci-me. Não! Kovacs. Sem primeiro nome. Foi por Lara que me apaixonei. A minha canção favorita. Do dr. JiVago. E da Tessa também, nesses tempos. Merda - uma pausa forçada enquanto Ham se assoava e Justin esperava.

 

- Então que fizeste com essas pepitas de informação quando lhes puseste as mãos em cima? - perguntou Justin com ternura.

 

- Li-lhe tudo aquilo pelo telefone para Nairobi. Ela ficou desvairada. Chamou-me o seu herói... - parou, alarmado pela expressão de Justin - não o teu telefone, parvo. Uma amiga qualquer, fora de Nairobi. «Telefona de uma cabine, Ham, e para o seguinte número. Tens com que escrever?» Uma profissional lixada, Muito cuidadosa com os telefones. Mesmo um tanto paranóica na minha opinião. Embora alguns paranoicos tenham inimigos verdadeiros, não é?

 

- Tessa tinha, - concordou Justin e Ham deitou-lhe um olhar esquisito que foi ficando cada vez mais esquisito.

 

- Tu não acreditas que foi isso que aconteceu, pois não? - pergunta Ham.

- 0 quê, exactamente?

 

- Que Tessa foi vítima dos tipos das farmacêuticas.

- É concebível.

 

- Mas ouve lá, porra, não é possível que eles lhe tenham calado a boca, pois não? Quer dizer, eu bem sei que eles não são meninos do coro...

 

- Tenho a certeza que eles são todos uns filantropos, Ham. Todos, até ao último milionário.

 

Seguiu-se um longo silêncio, quebrado por Ham.

 

- Minha mãe! Oli meu Deus. Discretamente silenciada, foi isso?

- Exactamente.

 

- Fui eu que a pus na merda ao fazer aquele telefonema.

 

- Não, Ham. Tu tiveste um trabalho dos diabos por ela e ela adorava-te.

- Pois sim. Que merda! Há alguma coisa que eu possa fazer?

 

- Há. Arranja-me uma caixa. Uma de cartão forte serve. Arranjas? Satisfeito por ter uma tarefa para fazer, Ham saiu e, depois de muitas pragas, voltou com um tabuleiro de plástico. Agachando-se ao pé da sua pasta, Justin abriu os fechos e, ocultando o recheio com o próprio corpo, transferiu o seu conteúdo para o tabuleiro.

 

- Agora, se fazes favor, um maço dos papéis mais inúteis que tiveres sobre as propriedades dos Manzini. Papéis que se guardam mas que nunca são necessários. Suficientes para encher esta pasta.

 

Ham também encontrou papéis desses, tão velhos e gastos como Justin parecia querer. E ajudou-o a encher com eles a pasta vazia. Depois viu-o fechá-la e fechar os cadeados. E da janela do escritório viu Justin descer o beco, de pasta na mão e fazer sinal a um táxi. Quando Justin desapareceu da vista, Ham sussurrou «Minha Santa Mãe» numa invocação honesta da Virgem Maria.

 

- Bom día, Sr. Quayle, sír. Posso ficar com a sua pasta, sír? Vou ter que a passar aos Raios x, se não se importa. São os novos regulamentos. Não era assim no seu tempo, pois não? Nem no tempo do seu pai. Obrigado, sir. E aqui está a sua ficha, tudo em ordem de batalha, como eles dizem. - Abaixou o tom da voz. - Lamento muito, sir. Tivemos todos um grande desgosto.

 

- Bom dia, sír! É bom tê-lo outra vez connosco. - Outra baixa de tom.

- As mais sentidas condolências, sir. E também da minha mulher.

 

- Os nossos mais sentidos pêsames, Sr. Quayle, - outra voz lançando uns vapores de cerveja no ouvido de Justin. - Miss Landsbury pede-lhe o favor de subir, sir. Bem-vindo a casa.

 

Mas o Foreigri Office já não era a sua casa. Do seu vestíbulo gigantesco, construído para infundir terror no coração dos príncipes indianos, já só exibia uma insolente impotência. Os retratos dos desdenhosos corsários em peruca já não lhe dirigiam o sorriso do costume.

 

- Justin. Sou a Alíson. Ainda não nos conhecemos. Que terrível maneira de travarmos conhecimento. Como está? - disse Alison Landsbury aparecendo em pose na moldura da sua imponente porta de seis metros de altura e segurando-lhe a mão direita com as suas duas mãos. - Temos tanta, tanta pena, Justin. Estamos absolutamente horrorizados. E você é tão corajoso. Vir cá a casa tão cedo. Estará realmente capaz de uma conversa sensata? Não percebo como é que consegue.

 

- Estava a pensar se haveria algumas notícias do Arnold.

 

- Arnold...? Ah, o misterioso dr. Bluhm. Nem um murmúrio, receio eu. Devemos preparar-nos para o pior, - disse ela sem revelar o que poderia ser esse pior. - Em todo o caso, ele não é cidadão britânico, pois não? - e jovial:

- Devemos deixar os belgas ocuparem-se dos seus próprios assuntos.

 

A sua sala tinha a altura de dois andares, com frisos dourados e radiadores pretos do tempo da guerra, além de uma galeria debruçada sobre uns jardins muito privados. Havia duas poltronas e Alison Lancisbury deixava sempre o seu casaco de malha nas costas de uma delas para que ninguém lá se sentasse por engano. Havia café num termo para que a conversa não fosse interrompida. Havia uma atmosfera misteriosamente espessa com a ausência de corpos de pessoas que ali tinham estado recentemente. Ministra em Bruxelas durante quatro anos, Conselheira para a Defesa em Washington durante três, rememorou Justin, recordando o Anuário do Ministério. Mais três anos em Londres ligada à Comissão Conjunta de Informações. Nomeada Director do Pessoal há seis meses. Só comunicámos por duas vezes; uma carta sugerindo que eu pusesse rédea curta à minha mulher - ignorada. Um fax proibindo-me de visitar a minha própria casa - tarde de mais. Pensou em como seria a casa de Alison e decidiu atribuir-lhe um apartamento numa mansão em tijolo por trás do Harrod’s perto do seu clube de bridge, para os fins-de-semana. Era ginasticada, tinha cinquenta e seis anos e vestia de preto em homenagem a Tessa. Trazia um anel de sinete de homem no dedo médio da mão esquerda. Justin calculou que tivesse sido do pai. Uma fotografia na parede mostrava-a ao volante de um automóvel em Moor Park. Outra - um tanto imprudente, na opinião de Justin - mostrava-a a apertar a mão a HeIrmit KoIal. Em breve seria doutora honoris causa da sua universidade e feita Dame Alison, pensou ele.

 

- Estive a manhã inteira a pensar em todas as coisas que não devo dizer-lhe, - começou ela, projectando a voz para o fundo da sala, em benefício de quem, eventualmente, chegasse tarde. - E em todas as coisas em que, por enquanto, podemos não concordar. Não lhe vou perguntar como é que vê o seu futuro. Ou dizer-lhe como é que nós o vemos. Estamos todos demasiado perturbados - concluiu ela com evidente satisfação pedagógica. - A propósito, eu sou pão-pão, queíjo-queijo. Não espere de mim nenhuma surpresa. 0 que vê é o que eu sou.

 

Colocara na mesa à sua frente um computador portátil que podia ser o de Tessa. Enquanto falava, tocava no ecrã com um ponteirinho cinzento, com UM gancho na ponta, como uma agulha de croché. - Mas há algumas coisas que eu tenho de lhe dizer e vou já tratar disso. - Toque no ecrã - Ah, baixa indeterminada por doença é a primeira coisa. Indeterminada, porque obviamente está dependente dos relatórios médicos. Doença porque você está em pleno trauma, quer saiba, quer não. - Toque. - Nós agora fazemos um acompanhamento psicológico e com a experiência que temos tido estamos a fazê-lo muito bem. - Um sorriso melancólico e um novo toque. - Dra. Shand. Lá fora a Emily dá-lhe as coordenadas da Dra. Shand. Tem consulta marcada, provisoriamente, para amanhã às onze, mas se for preciso, muda-se. Harley Street*, evidentemente. Importa-se que seja uma mulher?

 

- De modo nenhum, - respondeu Justin com amabilidade.

- Onde está instalado?

 

- Na nossa casa. Em minha casa. Em Chelsea. Ficarei lá. Ela franziu a testa: - Mas não é a casa de família?

 

- Da família de Tessa.

 

- Ah. Mas o seu pai tinha uma casa em Lord North Street. Muito bonita, segundo me lembro.

 

- Vendeu-a antes de morrer.

- E pensa viver em Chelsea?

- Por agora.

 

- Então faça o favor de dar a Emily as coordenadas dessa casa.

 

Voltou de novo ao ecrã. Estaria a ver nele alguma coisa ou a esconder-se nele?

- A Dra. Sand não é só uma consulta. É um curso. Acompanha pessoas, acompanha grupos. E encoraja a interacção entre doentes com problemas idênticos. Quando a segurança o permite, obviamente. - Toque. - E se quiser um padre, em vez, ou além, do médico, nós temos representantes de todas as denominações religiosas que estão devidamente autorizados por nós. É só pedir. Aqui a nossa orientação é dar uma chance seja ao quefor, desde que não haja problemas de segurança. Se a Dra. Shand não lhe convier, volte cá que procuraremos outra pessoa.

 

Talvez façam também acupunctura, pensou Justin. Mas com outra parte qualquer da sua cabeça estava a pensar por que razão ela lhe oferecia confessores «devidamente autorizados» pela segurança quando ele não tinha quaisquer segredos para confessar.

 

- Ah. Gostaria de ter um abrígo, Justin? - Toque.

- Desculpe?

 

- Um lugar de repouso. - Pôs ênfase na palavra repouso evocando um jardim de Inverno. - Um sítio afastado de tudo isto, até que acabe toda esta gritaria. Onde pode ficar em total anonimato, recuperar o seu equilíbrio, dar

 

* Raa no centro de Londres famosa pela concentração de consultórios dos grandes barões da Medicina. (N. T.)

 

grandes passeios pelos campos, aparecer de vez em quando em Londres para nos ver quando precisar ou vice-versa e, pumba, regresso à calma. Isto é uma oferta. Não totalmente de graça, no seu caso, mas fortemente subsidiada pelo Governo de Sua Majestade. Quer discutir o caso com a Dra. Shand, antes de decidir?

 

- Se acha melhor.

 

- Acho, acho. - Toque. - Você passou por uma horrorosa humilhação em público. Como é que isso o afectou, na sua opinião?

 

- Receio que não tenha estado muito exposto ao público. A senhora mandou-me ficar escondido, lembra-se?

 

- De qualquer maneira passou por isso. Ninguém gosta de ser descrito como um marido enganado, ninguém gosta de ver a sua sexualidade revolvida pela imprensa. E apesar disso, não nos tem ódio. Não se sente zangado, ou ressentido ou diminuido. Não está desejoso de vingança. É um sobrevivente. Claro que é. Vê-se que é da velha guarda cá da Casa.

 

Não sabendo se aquilo era uma pergunta, uma queixa ou meramente uma definição, Justin deixou passar, fixando a sua atenção numa desventurada begónia cor de pêssego num vaso excessivamente perto do radiador do tempo da guerra.

 

- Creio que tenho aqui uma nota da gente dos pagamentos. Quer rudo isto agora ou é demais? - Mas deu-lhe um envelope de qualquer maneira, - Claro que continua com o ordenado por inteiro. 0 subsídio de casamento é que receio que tenha sido descontinuado, com efeito a partir do dia em que deixou de ser casado. São maçadas que uma pessoa tem de aceitar e a minha experiência diz-me que é melhor resolvê-las quanto antes. 0 habitual subsídio de regresso a Londres está pendente da decisão sobre o seu próximo destino, mas sempre com o estatuto de não-casado. Então, Justin, acha isto suficiente?

- Suficiente dinheiro?

 

- Informações suficientes para poder funcionar por enquanto,

- Porquê? Vai haver mais?

 

Ela pousou a sua batuta e olhou-o bem de frente. Uns anos antes Justin tinha cometido a temeridade de apresentar queixa a uma grande loja de Picadilly e tinha recebido o mesmo olhar frígido por parte do gerente.

 

- Não já, Justin. Não as prevemos. Mas vivemos sempre na expectativa.

0 Bluhm não apareceu e os tablóides não se cansarão enquanto esta história não for resolvida, de uma maneira ou de outra. Vai ter um almoço com Pellegrin.

- Vou.

 

- Ele é óptimo. Você foi firme, Justin, mostrou boa disposição quando foi sujeito a uma grande pressão e isso foi devidamente notado. Você sofreu um assédio terrível. Não só depois da morte de Tessa mas também antes. Devíamos ter sido mais firmes e tê-los mandado regressar enquanto ainda era tempo. Erros provocados pela tolerância parecem, retrospectivamente, a solução mais fácil, receio muito - toque e exame do ecrã com crescente desaprovação. - Não deu nenhuma entrevista à imprensa, pois não? Não falou COM ninguém, seja off-record ou não.

 

- Só com a polícia.

 

Ela deixou passar. - E continuará a não falar, evidentemente. Nem sequer dirá «não comento», No seu estado, tem todo o direito de lhes desligar o telefone na cara.

 

- Sim, não me vai custar nada.

 

Toque. Pausa. Estudo do ecrã, outra vez. Regresso ao ecrã. - E não tem nenhuns papéis ou materiais que nos pertençam? Que sejam, como direi, nossa propriedade intelectual? já lhe perguntaram isso, mas tenho que perguntar de novo para o caso de algum ter aparecido ou vir a aparecer. Apareceu?

 

- De Tessa?

 

- Refiro-me às suas actividades extra-conjugais. - Tomou o seu tempo antes de definir o que poderia ser. E enquanto ela se calava, Justin percebeu, talvez um pouco tarde, que Tessa era uma espécie de monstruoso insulto para ela, uma vergonha para colégios que frequentara e para a sua classe e sexo e pátria e para o Ministério que ela conspurcara e que, por extensão, Justin era o cavalo de Tróia que a tinha feito entrar na cidadela. - Estou a pensar em quaisquer papéis que ela tenha conseguido de forma legítima ou não, no decurso das suas investigações ou lá como que ela lhes chamava, - acrescentou, visivelmente agastada.

 

- Nem sequer sei o que é que devo procurar, - queixou-se Justin.

 

- Nem nós. E, na verdade, é muito difícil para nós compreender como é que ela chegou àquela posição. - De repente, a fúria que tinha estado a borbulhar, abriu caminho para o exterior. Não era isso que ela queria, Justin tinha a certeza disso: tinha feito grandes esforços para se dominar. Mas tinha obviamente acabado por perder o controlo. - É realmente extraordinário, dado o que entretanto veio à luz, que Tessa tenha sido autorizada a transformar-se naquela personagem. Porter tem sido um excelente Chefe de Missão, à sua maneira, mas não posso deixar de sentir que lhe cabem grandes culpas em tudo isto.

 

- Em quê, exactamente?

 

0 súbito silêncio dela tomou-o de surpresa. Foi como se ela tivesse chocado com a barreira de fim-da-linha. Estava completamente imóvel, com os olhos fixos no ecrã. Tinha o ponteiro na mão mas não fez qualquer movimento. Acabou por pousá-lo lentamente na mesa como o soldado que pousa a sua espingarda por terra uma vez terminada uma cerimônia fúnebre.

 

- Pois... é verdade... Porter, - concedeu ela. Mas ele não disse nada que lhe servisse a ela para concretizar.

 

- 0 que é que é feito dele?

 

- Eu acho absolutamente maravilhosa a maneira como os Porters sacrificaram tudo por aquela pobre criança.

 

- Eu também. Mas o que é que eles sacrificaram. agora?

 

Ela parecia partilhar o seu espanto. Parecia precisar dele como aliado, nem que fosse só para denegrir Porter Coleridge. - É terrivelmente difícil, nesta profissão, saber onde se devem pôr os pés. Queremos tratar as pessoas como indivíduos, esperamos ser capazes de ajustar as circunstâncias de cada pessoa ao quadro do conjunto. - Mas se Justin pensou que ela estava a refrear o seu ataque a Porter, estava completamente enganado. Estava simplesmente a carregar a arma. - Mas Porter, temos que enfrentar esse facto, estava no terreno e nós não. Não podemos actuar se nos deixam às escuras. Não vale de nada pedir-nos para apanhar os cacos postfacto se não fomos informados a priori. Não é verdade?

 

- Suponho que sim.

 

- E se Porter estava muito assoberbado, muito manietado por aqueles medonhos problemas familiares (ninguém. o nega) para ver o que se estava a passar debaixo do seu nariz (o caso Bluhm, nomeadamente, lamento dizê-lo) ele tinha um imediato de primeiríssima ordem em Sandy, ao seu lado, constantemente, para lhe assinalar a situação, para a escrever em letras de meio metro de altura. 0 que Sandy fez. Ad nauseam, segundo sei. Mas sem qualquer efeito. 0 que eu quero dizer é que é perfeitamente claro que a pobre criança, obviamente (Rosie ou lá como ela se chama) reclama toda a sua atenção fora das horas de trabalho. 0 que não é, necessariamente, a situação que se espera dum Alto Comissário. Não acha?

 

Justin fez uma expressão triste, manifestando a sua simpatia com o dilema dela.

 

- Eu não estou a coscuvilhar, Justin, estou só a perguntar-lhe. Como é que é possível, como é quefoi possível (esqueçamos Porter por um momento) que a sua mulher se tenha envolvido numa série de actividades das quais, segundo me diz, você nada sabia? Pois sim, ela era uma mulher moderna. Ainda bem para ela. Ela conduzia a sua vida, tinha as suas próprias relações. - Silêncio intencional. - Não estou a sugerir que você talvez devesse ter-lhe imposto limites, isso seria sexista. Estou só a perguntar-lhe como, na realidade, você andava tão totalmente ignorante das suas actividades, das suas investigações, da sua, como é que heí-de dizer?, da sua militância, no fundo.

 

- Nós tínhamos um acordo, - disse Justin.

 

- Claro que tinham. Mas na mesma casa, Justin! Está realmente a dizer-me que ela não lhe disse nada, não lhe mostrou nada, não partilhou nada? Acho isso horrivelmente difícil de acreditar,

 

- Também eu, - concordou Justin, - Mas é o que acontece quando se enterra a cabeça na areia.

 

Toque. - Nunca utilizou o computador dela?

- Como?

 

- A minha pergunta é perfeitamente clara. Alguma vez usou, ou teve acesso, ao computador portátil de Tessa? Talvez você não saiba, mas ela enviou alguns documentos bastante melindrosos para o Ministério, e não só. Levantando alegações graves contra certas pessoas. Acusando-as de coisas terríveis. Causando problemas potencialmente muito lesivos.

 

- Potencialmente lesivos contra quem, Alison? - perguntou Justin, à pesca de quaisquer farrapos de informação que ela quisesse outorgar-lhe.

 

- Não interessa quem, Justin. Trata-se de saber se tem ou não na sua posse o computador de Tessa e, se não, onde está ele, fisicamente neste momento e o que contém?

 

- Nunca o partilhámos, se é essa a resposta à sua primeira pergunta. Era dela e só dela. Eu nem saberia sequer entrar lá dentro.

 

- Não se rale com entrar lá dentro. Você tem-o na sua posse e isso é o principal. A Scotland Yard perguntou-lhe por ele mas o Justin, dando mostras de muito bom senso e lealdade, concluiu que estava melhor nas mãos do Foreign Office do que nas deles, Estamos-lhe muito gratos. Tomámos nota.

 

Era uma declaração, uma questão binária. Faça uma cruz no quadrado A para Sim, está nas minhas mãos, no quadrado B para Não, não o tenho. Era uma ordem e um desafio, E, a julgar pelo seu olhar, gélido como cristal, uma ameaça.

 

- E os discos, naturalmente. - acrescentou ela enquanto esperava. - Ela era uma mulher prática, o que torna tudo isto muito mais estranho, era advogada. Teria feito de certeza cópias do que achasse importante. Nestas circunstâncias esses discos constituem também uma quebra de segurança e desejamos que no-los entregue também, se faz favor.

 

- Não há discos nenhuns. Não havia.

 

- Claro que havia. Como é que ela poderia usar um computador sem guardar discos?

 

Procurei por todo o lado. Não havia nada. Isso é muito estranho.

 

É, não é?

 

Então eu acho que o melhor que tem a fazer, Justin, pensando bem, é trazer aqui para o Ministério tudo o que tem, assim que desfizer as malas e deíxar-nos tratar de tudo a partir de aí. Para lhe poupar sofrimento e responsabilidade. Fazemos um acordo. Tudo o que não for relevante para as nossas preocupações é exclusivamente seu. Tiraremos uma cópia e ninguém aqui o lerá ou avaliará ou o fixará na memória, seja de que maneira for. Quer que mandemos agora alguém consigo? Isso ser-lhe-á útil? Que acha?

 

- Não tenho a certeza.

 

- Não tem a certeza de querer a ajuda de uma outra pessoa? Devia ter. Um colega simpático, do mesmo escalão? Alguém em quem possa confiar totalmente? já tem a certeza?

 

- 0 computador da Tessa, percebe? Comprou-o ela, usou-o ela.

- E então?

 

- Então acho que não me devia pedir tal coisa. Entregar-lhe algo que é propriedade dela para ser investigado, só porque ela morreu. - Sentindo-se sonolento, fechou os olhos por um momento e abanou a cabeça para se espevitar. - De qualquer maneira, a questão nem se põe, não é verdade?

 

- Essa agora! Porquê?

 

- Porque eu não tenho esse computador. - Justin levantou-se, apanhando-se de surpresa a si próprio, precisando de se mexer e de apanhar ar. - A polícia queniana se calhar roubou-o. Roubam a maior parte das coisas. Muito obrigado, Alison. Foi extremamente amável.

 

Recuperar a pasta que deixara ao chefe dos porteiros demorou num pouco mais do que seria natural.

 

- Desculpe ter vindo tão cedo, - disse Justin, enquanto esperava.

 

- Não veio cedo, de maneira nenhuma, sir, - respondeu o chefe dos porteiros e corou.

 

-Justin, meu caro!

 

Justin começara a dizer o seu nome ao porteiro do Clube, mas Pellegrin precedera-o, descendo as escadas a correr para o reclamar, com o seu sorriso de boa pessoa e gritando: - Esse é todo meu, Jimmy, enfia a pasta dele aí no teu cacifo e dá-mo cá. - Antes de agarrar na mão de Justin e deitando-lhe o outro braço pelos ombros, num poderoso grito de amizade e comiseração muito pouco britânico.

 

- Sentes-te com forças de gramar isto? - perguntou confiante, assegurando-se primeiro de que não estavam a ser ouvidos por ninguém. - Se preferes, podemos dar uma volta pelo parque. Ou deixar para outro dia. Como quiseres,

- Estou óptimo, Bernard, Estou mesmo.

 

- 0 Monstro da Landsbury não te deu cabo da cabeça?

- Nem por sombras.

 

- Reservei mesa na sala de jantar. Há um bar para almoços mas é um come-no-colo e há sempre uma data de reformados do Foreign Office a choorar recordàções do Canal do Suez. Precisas de mijar?

 

A sala de jantar era uma espécie de catafalco num plano elevado, com anjinhos pintados em pose no tecto azul-celeste. 0 local de culto escolhido por Pellegrin era um canto protegido por uma coluna de granito polido e uma palmeira-anã muito desconsolada. A toda a volta sentavam-se membros da irmandade intemporal da Função Pública, de fatos cinzentos de fibra e cortes de cabelo regulamentares. Este era o meu mundo, explicara ele a Tessa. Quando casei contigo, ainda era um deles,

 

- Vamos despachar o trabalho mais chato primeiro - propôs Pellegrin, autoritário, quando um criado indiano de smokíng lilás lhes veio distribuir menus do feitio de raquetes de pinguepongue. E este foi um gesto cheio de tacto, típico de Pellegrin e da sua imagem de gajo, porreiro, porque enquanto estudavam os menus iam-se adaptando um ao outro e evitando o contacto visual. - 0 voo? Suportável?

 

- Bastante, obrigado. Subiram-me de classe.

 

- Era uma rapariga maravilhosa, maravilhosa, maravilhosa, Justin. - Murmurou Pellegrin por cima do parapeito da sua raquete de pinguepongue. - E não há mais nada a dizer.

 

- Obrigado, Bernard.

 

- Uma grande alma e uma grande coragem. 0 resto que se lixe. Carne ou peixe... não é segunda-feira... que é que tu comias lá?

 

Jusrin conhecera Bernard Pellegrín intermitentemente ao longo de toda a sua carreira. Seguira Bernard para Ottawa e tinham coincidido por pouco tempo em Beirute. Em Londres tinham seguido o mesmo curso de acompanhamento de reféns e partilhado ensinamentos preciosos tais como a melhor forma de determinar se se está ou não a ser seguido por um bando de jagunços armados até aos dentes e sem nenhum amor à vida; como preservar a nossa dignidade quando nos vendam os olhos e nos atam de pés e mãos com adesivo e nos atiram para a bagageira de um Mercedes; e a melhor maneira de saltar de uma janela alta quando não se podem usar as escadas, partindo do princípio que temos os pés livres.

 

- Os jornalistas são todos uma merda, - declarou Pellegrin convicto, com o nariz ainda atrás do seu menu. - Sabes o que é que eu ainda hei-de fazer um dia? Plantar-me à porta dos sacanas. Fazer o que eles nos fazem a nós, mas a dobrar. Contratar uma chusma de malta para fazer um piquete à roda do editor do Grauniad e do Screws of the W’orld * quando eles estão na boa-vai-ela com as amásias. Fotografar os filhos quando vão para a escola. Perguntar às mulheres como são os maridos na cama, Mostrar a esses cabrões como é, quando se está do lado dos assediados. Nunca te apeteceu varrê-los todos à metralhadora?

- No fundo, não.

 

- Eu também não. Não passam de um bando de analfabetos hipócritas. o filete de arenque não é mau. A enguia fumada faz-me gases. 0 linguado meunière é bom, se gostas de linguado. Se não gostas, grelhado é melhor, Estava a escrever num bloco que tinha «Sir Bernard P.» impresso em maiúsculas electrónicas no alto e a lista dos pratos à esquerda, com quadrados em branco para assinalar à direita e em baixo o espaço para a assinatura do membro do Clube.

 

- 0 linguado parece-me bom.

 

Pellegrin não escuta, recorda Justin. Foi isso que lhe fez ganhar a reputação de ser um excelente negociador,

 

- Grelhado?

- Meunière.

 

- A Landsbury estava em forma?

- Em ordem de combate.

 

- Ela não te disse que era pão-pão, queijo-queijo?

- Receio que sim.

 

- Devia ter mais cuidado com essa deixa. Falou-te no teu futuro?

- Estou em trauma e em baixa ilimitada por doença.

 

- 0 camarão, não é verdade?

 

- Acho que preferia o abacate, por favor - disse Justin e viu Pellegrin marcar dois cocktails de camarão.

 

- Hoje em dia o Foreign Office desaprova formalmente que se beba álcool ao almoço, aí está uma coisa que te vai agradar, - disse Pellegrin com um largo sorriso que surpreendeu Justin. E, para o caso de a primeira demão não ter pegado, um segundo sorriso, Justin lembrou-se de que os duplos sorrisos de Pellegrin eram sempre iguais: mesma largura, mesma duração, mesmo grau de calor espontâneo. - Mas tu és um caso especial e é meu penoso dever fazer-te companhia. Eles aqui têm um sub-Mersault razoável. Estás pronto para a tua meia garrafa? - A esferográfica de prata marcou o quadrado adequado. - A propósito, já foste libertado pela Secção das Informações Confidenciais. Livre como um passarinho. Parabéns. - Destacou a folha do bloco e pôs-lhe o saleiro em cima para evitar que voasse com o vento.

 

Libertado de quê?

 

Da suspeita de assassinato, o que havia de ser? Não mataste a Tessa nem o motorista, não contrataste assassinos num antro de vício e não tens o Bluhm no teu sótão pendurado pelos colhões. Podes abandonar o tribunal sem uma mancha nas armas do teu brasão. Uma gentileza da polícia. - A folha com o pedido desaparecera de baixo do saleiro. Provavelmente levado pelo criado, mas justin, no seu estado exterior a si próprio, não dera pela manobra. - A propósito, que gênero de jardinagem fazias lá em baixo? Prometi à Celly que te perguntava. - Celly era o diminuitivo de Céline, a temível esposa de Pellegrin.

- Plantas exóticas? Cactos? Não é o meu gênero, se queres que te diga.

 

- De tudo um pouco, por assim dizer. - Ouviu Justin sair da sua própria boca. - 0 clima do Quénia é extraordinariamente benigno, Mas eu não sabia que havia uma nódoa no meu brasão, Bernard. Havia uma teoria, acho eu. Mas era só uma hipótese remota.

 

- Eles tinham todo o gênero de teorias, benza-os Deus. Teorias muito acima da sua categoria social, com toda a franqueza. Tens de vir à nossa casa em Dorchester um dia destes. Vou falar à Celly. Fica uma semana. Jogas ténis?

- Não, lamento.

 

-Tinham teorias para todos OS gostos, - murmurava Pellegrín sub-repticiamente. - Coitaditos. Pellegrin fala de Rob e Lesley como a Landsbury falou de Porter Coleridge. - Aquele monte de merda do Tom Qualquer Coisa estava prestes a obter Belgrado - dizia Pellegrin - sobretudo porque o Secretário de Estado não aguentava mais ver aquela cara de cu em Londres, e quem aguentaria? Dick NãoSeiQuantos ia receber o título de Sir nas próximas nomeações e com um bocado de sorte levava um pontapé pela escada acima até ao Tesouro (e que Deus proteja a economia nacional!) mas claro que o Dick anda a lamber o cu dos Novos Trabalhistas. 0 Foreign Office continuava a encher-se daqueles arrivistas vindos de universidades recentes, com sotaques popularunchos e camisolas de artesanato, de que justin devia certamente lembrar-se dos tempos anteriores a África; dentro de dez anos não haverá por cá ninguém da Gente-como-Nós. - 0 criado trouxe dois cocktails de camarão. Justin viu-os chegar em câmara lenta.

 

- Mas a verdade é que eram novos, não eram.--- - disse Pellegrin com indulgência, retomando o seu tom de requiem.

 

- Os que entram de novo? Claro.

 

- Não, os teus inspectorzecos de Nairobi. Jovens e ambiciosos graças a Deus. Como nós fomos em tempos.

 

- Eu achei-os bastante espertos.

 

Pellegrin franziu o sobrolho, mastigando. - Um tal David Quayle é parente teu?

 

É meu sobrinho.

 

Entrou para a Casa a semana passada. Só tem vinte e um anos, mas se não for assim a City caça-os. Um afilhado meu entrou para o Barclay’s na semana passada com quarenta e cinco mil por ano mais ajudas de custo. Bronco como uma porta e sem experiência nenhuma.

 

- Oprimo para o David. Não sabia...

 

- Que estranha escolha o Cridley fez, mandar assim uma mulher para África. 0 Frank trabalha com os diplomatas e conhece o terreno. Quem é que vai levar a sério uma mulher-polícia por aquelas bandas? A rapaziada do Moi é que não, com certeza.

 

- Gridley, - repetiu Justin, voltando à terra. - Não me digas que é o Frank Arthur Gridley? Aquele tipo que era responsável pela segurança diplomática?

- Esse todo, Deus nos ajude,

 

- Mas esse é um pateta alegre. Lidámos com ele quando eu estava na Secção do Protocolo! - Justin ouviu a sua voz erguer-se acima do nível de decibéis aprovado pelo Clube e apressou-se a baíxá-la.

 

- Do pescoço para cima não funciona - concordou Pellegrin alegremente.

- Então por que raio é que é ele que anda a investigar a morte de Tessa? -Transferido para os Crimes Graves. Especializado em Casos no Ultramar.

 

Sabes como são os polícias. - Disse Pellegrin atafulhando a boca de camarões e pão com manteiga.

 

- Sei como é o Cridley.

 

Sem parar de mastigar, Pellegrin deslizou para o linguajar telegráfico dos ultraconservadores. - Dois jovens inspectores, um deles uma mulher, o outro acha que é o Robin dos Bosques. Caso altamente mediático, os olhos do mundo estão neles. Começam a ver os nomes escritos em letras luminosas.

- Ajustou o guardanapo ao pescoço. - E então cozinham teorias. Nada como uma boa teoria para impressionar um superior semianalfabeto. - Bebeu, depois martelou a boca com um canto do guardanapo. - Assassinos a soldo, governos africanos Corruptos, empresas multinacionais: fabuloso! Com um bocado de sorte, até arranjam um papel e entram na fita.

 

- Que multinacional teriam na ideia? - perguntou Justin, conseguindo disfarçar a repugnância causada pela ideia da morte de Tessa servir para um filme. Pellegrin olhou para ele, hesitou um momento, sorriu e depois sorriu de novo. - É um modo de falar, - explicou, pondo fim ao assunto. - Não é para ser tomado à letra. Esses jovens inspectores enganaram-se na pista desde o primeiro dia. - Acrescentou, mudando de conversa enquanto o criado lhes enchia os copos. - Realmente deplorável, pá. Isto não é contigo, Mathew - isto para o criado, num espírito de companheirismo para com as minorias étnicas. - Bem se vê que ele não é membro deste clube, folgo em dizê-lo. - 0 criado retirou-se.

- Imagina que o tipo tentou atribuir o crime ao Sandy durante cinco minutos pelo menos. Tinha uma teoria idiota segundo a qual ele estava apaixonado por ela e os tinha mandado matar a ambos por ciúmes. Como não tiraram resultado dessa, apontaram à outra da conspiração. É a coisa mais fácil deste mundo. Escolhem-se uns tantos factos, atamancam-se todos juntos, ouvem-se as opiniões de um par de alarmistas e descontentes com uma pedra no sapato, juntam-se um ou dois nomes conhecidos e pode-se sacar qualquer história mirabolante que se queira, Foi o que a Tessa fez, se me permites dizê-lo. Bom, mas tu sabes isso melhor que ninguém.

 

Justin abanou a cabeça obstinadamente. Eu não estou a ouvir Isto. Estou no avião e isto é um sonho. - Não sei a que te referes, desculpa.

 

Os olhos de Pellegrin eram minúsculos. Justin nunca reparara nisso antes. Ou então talvez fossem de tamanho normal, mas tinham a arte de diminuir sob o fogo do inimigo, sendo o inimigo, tanto quanto Justin podia determinar, quem quer que tentasse responsabilizá-lo pelo que acabara de dizer ou levasse a conversa para um terreno que não fosse escolhido por ele.

 

- 0 linguado estava bom? Devias ter pedido o meunère. Não é tão seco.

0 linguado estava maravilhoso, disse Justin, coibindo-se de acrescentar que linguado meunière era o que ele acabara por pedir. E o sub-Mersault também era maravilhoso. Maravilhoso, tal como uma rapariga maravilhosa.

 

- Ela não te mostrou nada. Era a grande tese dela. Ou a deles, se me permites dízê-lo. É essa a tua história e agarras-te a ela. Não é verdade?

 

- Mas uma tese acerca de quê? A polícia fez-me a mesma pergunta. E a Alíson Landsbury também, duma forma indirecta. Qual tese? - Estava a fazer-se ingénuo e quase a acreditar. Andava de novo à caça, mas disfarçadamente.

 

- Não ta mostrou a ti, mas mostrou ao Sandy, - disse Pellegrin, engolindo a informação com um grande gole de vinho. - É o que tu queres que acredite? Justin endireitou-se bruscamente na cadeira. - 0 quê?

 

-Absolutamente. Teve encontros secretos e tudo. Desculpa lá, julgava que sabias.

 

Mas estás aliviado por eu não saber, pensou Justin, ainda a olhar para Pellegrin, desnorteado. - E o que fez o Sandy? - perguntou.

 

- Mostrou tudo ao Porter. 0 Porter foi empatando. 0 Porter toma decisões uma vez por ano com muita água. 0 Sandy mandou-me o documento. Marcado «confidencial» e em co-autoria não do Sandy, mas de Tessa e Blunm. A propósito estes heróis humanitários causam-me náuseas, se te apetece desabafar. Burocratas internacionais que passam a vida em piqueniques para ursinhos de peluche. Isto é um àparte. Desculpa.

 

- Mas tu o que é que fizeste? Por amor de Deus, Bernard!

 

Sou o Viúvo enganado mo fim da picada. Sou a vítima inocente, não tão inocente como isso, Sou o marido indignado, retirado da circulação pela minha esposa transviada mais o seu amante. - Será que haverá finalmente alguém para me dizer o que se passa? - continuou, no mesmo tom queixoso. - Vivi em casa do Sandy a contragosto por uma eternidade. Ele nunca me disse uma palavra acerca de encontros secretos com Tessa ou com Arnold ou fosse com quem fosse. Mas que tese? Uma tese a propósito do quê? - Continuava a tactear.

 

Pellegrin fez o seu sorriso. Uma vez. Duas vezes. - Então é novidade para ti? Ainda bem.

 

- Sim, é novidade. Estou completamente no escuro.

 

- Uma rapariga daquelas, com metade da tua idade, aos saltos e aos pulos por tudo o que era sítio, nunca te veio à ideia perguntar-lhe que raio andava ela a fazer?

 

Pellegrin. está irritado, notou Justin. Tal como a Landsbury. Tal como eu. Estamos todos zangados e escondemo-lo cuidadosamente.

 

- Não, não me lembrei, E ela não tinha metade da minha idade.

 

- Nunca leste o diário dela, nunca pegaste na extensão do telefone por-engano-de-propósito? Nunca lhe leste o correio nem espreitaste para o computador? Nada?

 

- Nada disso.

 

Pellegrin pensava alto, sem tirar os olhos de justin. - Então não passou nada por ti. Não viste, não ouviste, não falaste. Espantoso. - Disse ele, contendo a custo o seu sarcasmo.

 

- Ela era advogada, Bernard. Não era nenhuma criança. Era uma advogada perfeitamente competente e muito esperta. Esqueces-te disso,

 

- Ai esqueço? Não tenho a certeza. - Pôs os óculos de ver ao perto a fim de tirar a espinha do linguado. Quando o conseguiu, ergueu-a com o garfo e a faca, olhando em volta desamparadamente, à espera que um criado lhe trouxesse um prato para a pousar. - Só desejo que ela se tenha limitado a apresentar as suas conclusões ao Sandy Woodrow. Já sabemos que andou a incomodar a figura principal.

 

- Qual figura principal? Referes-te a tí?

 

- Ao Curtiss. Kenny K. em pessoa. 0 Homem. - Apareceu um prato, onde Pellegrin depositou a espinha. - Só me admira que ela não se tenha atirado para baixo dos seus cavalos de corrida. Que não tenha ido contar tudo a Bruxelas. Ás Nações Unidas. À televisão. Uma mulher como ela, com a missão de salvar o mundo, vai até onde for preciso e manda ao diabo as consequências.

 

- Isso não é verdade, - disse Justin, debatendo-se entre o assombro e uma raiva crescente.

 

- Como assim?

 

- A Tessa teve todo o cuidado em proteger-me. A mim e ao seu país.

 

- Revolvendo a lama? Exagerando o caso para além dos limites? Importunando o patrão do seu maridinho? Invadindo os escritórios de executivos cheios de trabalho, de braço dado com Bluhm...? Não é bem a minha noção de proteger o seu homem. Se queres saber a minha opinião, parece-me o caminho mais rápido para destruir completamente todas as chances do pobre diabo.

 

Não que as tuas chances ainda fossem grande coisa por essa altura, para falar com franqueza. - Um golo de água com picos. - Ah, já percebi. Já estou a ver o que aconteceu. - Duplo sorriso. - Tu realmente não estás ao corrente dos antecedentes. É a tua versão.

 

- Claro que é. Estou completamente perplexo. A polícia pergunta-me, a Alison pergunta-me, tu perguntas-me se eu estava realmente a leste da realidade. A resposta é: claro que estava e ainda estou.

 

Pellegrin já estava a sacudir a cabeça, incrédulo e divertido. - Oh meu caro. Então o que é isso? Ouve lá. Eu não fico muito impressionado. A Alison também não, Eles foram ter contigo. Ambos. Tessa e Arnold de mãos dadas. «Ajuda-nos, Justin. Encontrámos a arma do crime ainda a fumegar. Uma empresa antiga e respeitável, baseada em Inglaterra, anda a envenenar quenianos inocentes, usando-os como cobaias, Deus sabe de quê. Há aldeias inteiras de cadáveres e aqui está a prova. Lê.» Não foi?

 

- Não fizeram nada disso.

 

- 0 mal ainda não está feito. Ninguém está a tentar culpar-te de nada. Está tudo aberto de par em par. É tudo boa gente. Somos todos teus amigos.

- Já reparei.

 

- Tu ouviste o que eles tinham a dizer. És um tipo porreiro. Leste o argumento apocalíptico que eles tinham escrito em dezoito páginas e disseste-lhes que estavam completamente chanfrados da cabeça. Que se queriam lixar as relações anglo-quenianas para os próximos vinte anos tinham encontrado a fórmula ideal. Foste esperto. Se a Celly me tivesse pregado uma dessas, eu tinha-lhe dado um bom pontapé no cu. E, tal como tu, tinha fingido que a conversa não teve lugar, como realmente não teve. Certo? Nós vamos esquecer tudo, isto tão depressa como tu. Não fica nada na tua ficha e nada no livrinho preto da Alison. Combinado?

 

- Eles não vieram ter comigo, Bernard. Ninguém me impingiu nenhuma história, ninguém me mostrou nenhum argumento apocalíptico, como tu lhe chamas. Nem Tessa, nem Bluhm, nem ninguém. Para mim, é um mistério total.

 

- Uma rapariga chamada Ghíta Pearson, quem é?

 

- Uma funcionária subalterna da Chancelaria. Anglo-indiana. Muito esperta e funcionária local. A mãe dela é médica. Porquê?

 

- E além disso?

 

- Amiga de Tessa. E minha.

- Pode ter lido o documento?

- Tenho a certeza que não.

 

- Porquê?

 

- A Tessa não lho teria mostrado.

- Mostrou-o ao Sandy Woodrow,

 

- Ghita é uma mulher frágil. Está a tentar fazer carreira entre nós. A Tessa não ia colocá-la numa posição falsa.

 

Pellegrin quis por mais sal, que distribuiu pondo um montinho na palma da mão esquerda, tirando pitadas entre o indicador e o polegar da mão direita e depois acabando por esfregar as duas mãos uma na outra.

 

- Seja como for, estás fora de causa, - anunciou ele a Justin, como se fosse um prémio de consolação. - Não vamos ser obrigados a ir para as portas da prisão e a passar-te baguettes aufromage através das grades.

 

- já me disseste. Ainda bem.

 

- Essa é a boa notícia. A má é... o teu amigo Arnold. Teu amigo e da Tessa.

 

- já o encontraram?

 

Pellegrin abandonou a cabeça com ar sombrio. - Os tambores ja soaram por ele, mas não foi encontrado. Ainda têm esperança.

 

- Os tambores soaram porquê? Que é que isso quer dizer?

 

- Isso são águas passadas, meu caro. Difíceis de navegar, sobretudo no teu estado de saúde. Oxalá pudéssemos ter esta conversa daqui a umas semanas, quando estivesses mais refeito, mas não podemos. As investigações de um crime não dão aso, infelizmente, a nenhuma consideração pelas pessoas. Seguem o seu caminho à sua maneira. Bluhm era teu amigo, Tessa a tua mulher. Não é fácil para nenhum de nós ter de te dizer que o teu amigo matou a tua mulher,

 

Justin olhou para Pellegrin com um espanto sincero mas Pellegrin estava demasiado ocupado com o seu peixe para reparar. - Mas então as provas legais?

- ouviu-se ele perguntar, de um longínquo planeta gelado. - 0 jipe verde? As garrafas de cerveja e as beatas? Os dois homens que foram vistos em Marsabit? Não sei... as Três Abelhas, todas aquelas perguntas que a Scotland Yard me esteve a fazer?

 

Pellegrin sorria o primeiro dos seus pares sorrisos antes de Justín ter acabado de falar. - Há novas provas, pá. Conclusivas, ao que parece. - Meteu na boca outro pedaço de pão. - A polícia encontrou as roupas. As roupas de Bluhm. Enterradas na margem do lago. Menos o casaco. Esse deiXara-o ele no jipe para disfarçar. Camisa, calças, cuecas, meias, sapatos. Sabe o que encontraram na algibeira das calças? As chaves do jipe. As que usou para fechar as portas do jipe. Traz um novo significado ao que os americanos chamam «encerramento do caso» hoje em dia. É uma coisa muito comum nos crimes passionais, ao que me dizem. Mata-se alguém, fecha-se a porta à chave e também o pensamento, Como se nada tivesse acontecido. A memória fica apagada. É clássico,

 

Desconcentrado pela expressão incrédula de Justin, Pellegrín parou e após um instante, concluiu:

 

- Eu sou pela teoria de Oswald, Justin. Lee Harvey Oswald assassinou John F. Kenedy. Ninguém o ajudou. Arnold Bluhm perdeu o juízo e matou Tessa. 0 motorista protestou e Bluhm matou-o também. Depois deitou a cabeça dele ao mato para dar de comer aos chacais. E pronto. Chega uma altura, ficamos reduzidos à explicação mais óbvia. Pudim de caramelo ou crumble de maçã? - Fez sinal ao criado para trazer café. - Posso dar-te um conselho de amigo?

 

- Por favor.

 

- Estás de baixa por doença. Estás pior que estragado. Mas tu és da velha-guarda, conheces as regras e continuas a ser um dos de África. E estás sob a minha asa. - E antes que Justin tomasse aquela frase por uma definição romântica do seu «status»: - Há por aí muita coisa boa para quem souber governar-se. E muitos sítios onde eu não queria ser apanhado nem morto. E se estás a guardar alguma informação confidenciall por assim dizer, na tua cabeça ou seja onde for, lembra-te que ela nos pertence a nós e não a ti. 0 mundo hoje em dia é muito mais duro do que aquele em que fomos criados. Há por aí muita gente perigosa, capaz de tudo e com muito a perder. Alguns não são bons de assoar.

 

Como aprendemos à nossa custa, pensou Justin do fundo da sua cápsula de vidro. Levantou-se da mesa como se levitasse e ficou admirado ao ver a sua imagem num grande número de espelhos ao mesmo tempo. Viu-se de todos ângulos, em todas as épocas da sua vida. Justin como criança perdida no meio de casas enormes, com as cozinheiras e os jardineiros por amigos. Justin como estrela do râguebi na escola, Justin como solteirão profissional, enganando a solidão com a quantidade. Justin como esperançoso funcionário do Foreign Office sem ilusões próprias, fotografado ao lado da sua amiga palmeira. Justín como viúvo recente e pai do seu único filho, também morto.

 

- Tens sido um bom amigo, Bernard. Obrigado.

 

Obrigado pela lição de mestre em Sofística, era o fundo do seu pensamento. Obrigado por propor um filme inspirado no assassinato da minha mulher e pisar com botas cardadas todos os pontos sensíveis que ainda me restavam. Obrigado pelo argumento apocalíptico de dezoito páginas e pelo último encontro secreto dela com Woodrow e as outras contribuições encantadoras para o meu espólio de recordações. E obrigado pelo último aviso tão sereno, emitido com um brilho de aço nos teus olhos. Porque, se olhar mais de perto, encontro o mesmo brilho nos meus.

 

- Estás pálido, pá. - Disse Pellegrin acusadoramente. - Alguma coisa ... ?

 

- Estou óptimo. E ainda melhor por ter falado contigo, Bernard.

 

- Vê se dormes. Andas a queimar as últimas reservas. E temos de combinar aquele fim-de-semana. Traz um amigo. Alguém para jogar conosco.

 

- Arnold Bluhm nunca fez mal a ninguém, - disse Justin articulando bem, enquanto Pellegrin o ajudava a vestir o impermeável e lhe entregava a pasta. Mas se aquilo foi dito para ser ouvido ou para responder às mil vozes que gritavam na sua cabeça, não tinha uma certeza absoluta.

 

 

Era a casa que ele odiava de memória sempre que estava longe dela: grande, desgrenhada e predominantemente familiar, no número quatro, paralelo aos baldios de Chelsea, com um jardim na frente que era deixado à solta por mais carinho que Justin lhe dedicasse, sempre que tirava uma pequena licença. E os restos da casa na árvore de Tessa, carcomidos pelo tempo, mantinham-se ainda, como uma jangada, presos ao carvalho morto que ela jamais permitira abater. E os balões rotos de uma época longínqua e o papagaio de papel, esfrangalhado entre os ramos quebradiços da árvore seca. E o portão ferrugento que ele empurrava, fazendo-o deslizar sobre as folhas mortas, assustava o gato do vizinho que arregalava os olhos e se esquivava logo por entre os arbustos. E as cerejeiras de ar mal disposto com as quais achava que ia ter de se preocupar porque tinham ganho doença.

 

Era a casa que o apavorara o dia inteiro e toda a semana passada enquanto cumpria pena em casa de Glória, e todo o passeio pelas ruas da zona oeste numa tarde deserta, sombria e invernosa de Londres, enquanto o seu espírito buscava o caminho no labirinto de monstruosidades que lhe iam na cabeça e a pasta lhe batia na perna. Era a casa que representava a parte dela que ele nunca partilhara e jamais partilharia.

 

Um vento penetrante abanava os toldos da mercearia do outro lado da rua, varrendo folhas e clientes tardios pela calçada fora. Mas apesar do seu fato ligeiro, Justin não tomava consciência do frio, tal era o peso que levava dentro do corpo. Os seus passos sobre os degraus de tijolo até à porta da entrada produziam um tinido enquanto subia a escada pesadamente. Ao chegar ao cimo voltou-se e lançou um demorado olhar para trás, sem saber bem porquê. Um sem abrigo deitara-se, enrolado numa trouxa, por baixo de uma caixa automática do National Westminster. Um homem e uma mulher discutiam num carro estacionado em transgressão. Um outro homem magro de chapéu de feltro e impermeável baixava a cabeça para o seu telemóvel. Num país civilizado nunca se sabe. A bandeira de ventilação sobre a porta da frente estava iluminada por dentro. Não desejando surpreender alguém, tocou a campainha e ouviu o seu som familiar e enferrujado soar no patamar do primeiro andar, como que saído da sereia de um navio. Quem estará em casa? indagou, aguardando passos. Aziz, o pintor marroquino mais o seu namnorado Raoul? Petronilla, a rapariga nigeriana à procura de Deus, mais o seu padre guatemalteco cinquentão? Ou o alto Gazon, o médico francês cadavérico, fumador em cadeia, que trabalhara com Arnold na Argélia e tinha o mesmo sorriso arrependido e o mesmo modo de se deter a meio das frases, semicerrando os olhos num esforço de memória, à espera que o seu cérebro se recompusesse, Deus sabe de que pesadelos, antes de voltar a achar o fio à meada?

 

Não ouvindo reacções ou trepidação de passos, deu a volta à chave e entrou para o vestíbulo, esperando cheiros a comida africana, alaridos de reggae vindos da telefonia e o som estridente da animada conversa na cozinha à volta do café,

 

- Está aí alguém? - chamou. - Sou eu, Justin.

 

Nem brados de resposta, nem batuques de música, nem cheiros a cozinha ou vozes. Nem um ruído que fosse, além do trânsito lá fora na rua e o eco da sua própria voz subindo pelo vão da escada. Tudo o que viu foi a cabeça de Tessa cortada pelo pescoço, recortada de um jornal e colada num cartão, que olhava para ele por entre um conjunto de frascos de compota cheios de flores. E entre os frascos, uma folha dobrada, arrancada de um caderno de papel grosso, talvez do bloco de desenho de Aziz, com mensagens de pesar manuscritas, palavras de simpatia e de despedida da parte dos inquilinos desaparecidos de Tessa: Justin, sentimos que não podemosficar, datado de segunda-feira passada.

 

Dobrou o papel e deixou-o de novo, entre as flores. Concentrou-se, de olhos mortos focados no infinito enquanto pestanejava para afastar as lágrimas. Largou a pasta no chão do vestíbulo e dirigiu-se para a cozinha, tacteando a parede. Abriu a porta do frigorífico. Estava vazio à excepção de um frasco que continha um remédio com um nome desconhecido de mulher no rótulo. Annee qualquer coisa. Deve ser das do Gazon. Seguiu às apalpadelas pelo corredor até à sala de jantar e acendeu as luzes,

 

Eis a sala de jantar do pai dela, horrenda, mobilada num estilo pseudo Tudor. Seis cadeiras ornamentadas, de crista, próprias para megalómanos, dispostas de cada lado. E duas cabeceiras com entalhes exagerados, destinadas ao casal real. 0 pai sabia que era horrorosa mas adorava-a, portanto eu adoro-a também, dizia-lhe ela. Bem, eu não a adoro, pensava ele, mas Deus me livre de o admitir. Nos seus primeiros meses juntos Tessa não falava de mais nada que não fosse o pai e a mãe, até que sob a orientação astuta de Justin, começou a exorcizar os seus fantasmas e enchendo a casa de gente da sua idade, daqueles quanto mais loucos mais divertidos: trotskistas de Eton, prelados polacos bêbados, místicos orientais, e metade dos chupistas de todo o mundo ocidental. Mas logo que descobrira a África, o seu alvo fixou-se e o número quatro tornou-se então um abrigo para cooperantes introvertidos e activistas de origem duvidosa. Continuando a varrer o olhar pela sala, Justin fixou desaprovadoramente um monte de fuligem à roda da lareira de mármore cobrindo o cão da chaminé e o guarda-fogo. Gralhas, pensou. Deixou de novo o olhar vogar pela sala até se reter mais uma vez na fuligem. Deixou também que o seu pensamento pousasse nela. E assim ficou enquanto debatia consigo próprio. Ou com Tessa, o que era quase o mesmo.

 

Mas quaís gralhas?

* gralhas quando?

 

* mensagem do vestíbulo tem a data de segunda-feira.

 

Ma Gates vem às quartas - Ma Gates é a Mrs. Dora Gates, a velha ama de Tessa, sempre chamada simplesmente Ma.

 

E se Ma Gates está adoentada, é a sua filha Paule que vem.

 

E se Paulíne não pode vir, há ainda uma irmã, a provocante Debbie.

 

E era impossível que qualquer dessas mulheres ignorasse uma marca de fuligem tão visível.

 

Portanto as gralhas tinham atacado depois de quarta-feira e antes desta noite. Ora, se a casa vagou na segunda - a julgar pela mensagem - e Ma Gates a limpou na quarta - porque estaria ali uma pegada firme, de aspecto masculino e relevo forte, possivelmente uma bota de montanhísmo, marcada na fuligem?

 

0 telefone descansava sobre o aparador, ao lado de um livro de endereços.

0 número de Ma Gates estava rabiscado a lápis vermelho no interior da capa pela mão de Tessa. Marcou-o e veio Pauline que logo se desfez em lágrimas e lhe passou a mãe.

 

- Lamento muito, muito mesmo, querido - disse Ma Cates, com voz pausada e em tom bem claro. - Mais do que o senhor ou eu possamos imaginar, Mr. Justin. Ou do que jamais serei capaz de dizer.

 

0 interrogatório à senhora começou: longo e suave como tinha de ser, com muito mais para ouvir do que para perguntar. Sim, Ma Gates viera como de costume na quarta-feira, das nove às doze. Miss Tessa havia de gostar... Fora uma oportunidade de estar completamente só com Miss Tessa fez a limpeza como sempre fazia, nada fora negligenciado ou esquecido... E até chorou e rezou... E se ele estivesse de acordo, ela gostaria de por favor de continuar a vir tal como antes às quartas-feiras, como quando Miss Tessa ainda estava viva, não era pelo dinheiro, era pela memória...

 

Fuligem? Certamente que não. Não havia na quarta-feira qualquer fuligem no chão na sala de jantar ou ela tê-la-ia visto de imediato, e tê-la-ia varrido antes que fosse pisada. A fuligem de Londres é tão sebosa! Com lareiras tão grandes ela tinha sempre um olho posto na fuligem! E não, Mr. Justin, o limpa-chaminés de certeza que não tinha uma chave.

 

E Mr. Justin já sabia se eles tinham encontrado o Dr. Arnold? Porque entre todos os cavalheiros que habitaram a casa, o Dr. Arnold foi aquele que lhe mereceu mais cuidados, e o que quer que o senhor tenha lido nos jornais, eles só estão a inventar...

 

- A senhora é muito gentil, Mrs. Gates.

 

Ao ligar o candeeiro na sala de jantar, permitiu-se dar um relance às coisas que para sempre seriam um sinal de Tessa: as medalhas das vitórias da sua infância na equitação; Tessa após a sua primeira comunhão; o seu retrato de casamento nos degraus da igreja minúscula de Sant’António, em Elba. Mas era na lareira que ele pensava sobretudo. 0 chão era de ardósia, a grelha era um dispositivo baixo victoriano, uma mistura de latão e aço, com garras de latão para segurar os ferros. Soleira e grade estavam cobertas de fuligem, A mesma fuligem estava disposta em linhas pretas nos intervalos das pinças e do atiçador de brasas.

 

Aqui temos então um grande mistério da natureza, disse ele a Tessa: duas colónias distintas de gralhas escolhem o mesmo momento para atirar fuligem por duas chaminés abaixo, sem ligação entre si. Que fazemos com isto? Tu, uma advogada e eu, uma espécie protegida?

 

Mas na sala de jantar, nem uma pegada. Quem quer que se tenha aproximado da lareira da sala de jantar, deixara amavelmente uma pegada. Quem quer que se tenha aproximado da lareira da sala de estar - quer fosse o mesmo homem ou outro - nada deixara.

 

No entanto, porque revistaria alguém uma lareira, quanto mais duas? Verdade é que as lareiras antigas possuem tradicionalmente esconderijos, para cartas de amor, testamentos, diários vergonhosos e moedas de ouro. Verdade é também, de acordo com a lenda, que as chaminés eram habitadas por espíritos. Verdade ainda que o vento se servia das chaminés para contar histórias, muitas delas secretas. E um vento frio soprava esta noite, estalando pelas persianas e sibilando pelas fechaduras. Mas porquê revistar estas lareiras? As nossas lareiras? Porquê o número quatro? A não ser naturalmente que as chaminés fossem parte de uma revista mais generalizada à casa inteira - actos secundários, por assim dizer, da investida principal.

 

A meio do patamar parou para meter o nariz no depósito de remédios de Tessa, um armário italiano de especiarias, Sem grande valor, que estava aparafusado num ângulo do vão de escada e assinalado com uma cruz verde, pintada a stencil pela mão dela. Não era por acaso que fora filha de um médico. A porta do armário estava ligeiramente aberta. Ele acabou de a abrir por completo.

 

Tinha sido saqueado. Latas de pensos abertas, gaze e pacotes de ácido bóríco estavam espalhados numa desordem irritada. Ia já fechar a porta quando o telefone do patamar tocou estridente a seu lado.

 

Se for para ti, disse a Tessa, terei de dizer que morreste. Se for para mim, terei de ouvir as condolências. Ou será a pão-pão, queijo-queijo a perguntar se tenho tudo o que preciso para me manter confortavelmente instalado no meu trauma. Ou será alguém que teve de esperar até a linha ficar desimpedida, depois da minha conversa quílométrica com Ma Gates?

 

Levantou o auscultador e ouviu uma mulher muito ocupada. Vozes metálicas ecoavam atrás dela, soavam passos. Uma mulher ocupada num local cheio de gente e com um chão de pedra. Uma voz de mulher bem-humorada, num cockney* vertiginoso como o de uma jovem vendedora ambulante.

 

- Bem! Posso falar com Mr. Justin Quayle, por favor, se ele estiver em casa?

- arrematou com cerimônia, como se estivesse a ensaiar um truque de cartas.

- Ele está, querido, estou a ouvir - disse para o lado.

 

- Fala Quayle.

 

- Queres falar com ele pessoalmente, querido? - 0 querido não queria.

- É do florista JefIreys, Mr. Quayle, da Kings Road. Temos aqui um lindo ramo de flores de não posso dizer quem para lhe ser entregue pessoalmente e sem falta esta noite, se estiver em casa, tão cedo quanto possível, e não devo dizer de quem é - não é - querido? - É evidente que era. - Que tal seria se eu mandasse o rapaz agora aí, é a questão, Mr. Quayle? Ele está aí em dois minutos, não é, Kevin? Até em um, se o Sr. lhe oferecer uma bebida.

 

Então mande-o lá, disse Justin desorientado.

 

Estava em frente do quarto de Arnold, assim chamado porque quando Arnold ficava lá em casa nunca falhava a oportunidade de deixar uma melancólica pretensão de permanência - um par de sapatos, uma máquina de barbear, um despertador, um monte de papéis sobre a insuficiência abismal de apoio médico que estava a ser dado ao Terceiro Mundo. A imagem do casaco de malha de pêlo de camelo de Arnold, atirado sobre as costas da sua cadeira, fez com que Justin se detivesse por um pouco, e esteve quase para chamar pelo nome de Arnold ao aproximar-se da escrivaninha.

 

Cockney: sotaque popular típico de Londres. (N. T.)

 

Fora assaltada.

As gavetas encontravam-se abertas à força, os papéis e os adereços de escritório tinham sido tirado para fora e tornados a meter sem o menor cuidado.

0 besouro soou. Correu escada abaixo, apoiando-se ao chegar à porta da frente. Kevin, o rapaz das flores, era baixo e de bochechas vermelhas, um rapaz das flores bem ao jeito de Dickens, de aspecto fresco e brilhante no frio do Inverno. Os íris e os lírios que tinha nos braços eram tão grandes como ele. Um envelope branco estava atado ao arame que unia o ramo. Numa busca atrapalhada, no meio de um punhado de xelins quenianos, Justin encontrou duas libras inglesas, deu-as ao rapaz e fechou-lhe a porta na cara. Abriu o envelope e retirou um cartão branco embrulhado em papel grosso para que a escrita não transparecesse através do envelope. A mensagem fora impressa electronicamente.

 

justin. Saia de sua casa às sete e meia desta noite. Traga uma pasta cheia de jornais, Vá até ao cinema Cineflex da Kings Road. Compre um bilhete para a Sala Dois e veja o filme até às nove horas. Saia com a pasta pela porta do lado (a ocidente). Procure uma carrinha azul estacionada perto da saída. Reconhecerá o condutor. Queime isto.

 

Sem assinatura. Examinou o envelope, farejou-o, farejou o cartão, mas não cheirava a nada, não sabia a que deveria cheirar. Levou o cartão e o envelope para a cozinha, chegou-lhes um fósforo e, seguindo as melhores tradições do curso de segurança do Serviço dos Negócios Estrangeiros, pô-los no lava-louças para arderem. Quando acabaram de arder, esmigalhou a cinza e depositou os fragmentos na conduta de lixo que accionou durante mais tempo que o necessário, Iniciou a subida dos degraus, dois a dois até chegar ao cimo da casa. Não era a pressa que o dominava, mas a determinação: não penses, age. Tinha diante uma porta fechada da dependência que dava para o telhado, Já tinha na mão uma chave. A sua expressão era resoluta, mas apreensiva. Era um homem desesperado, tomando coragem antes do salto. Afastou a porta para trás e entrou a passadas largas no sótão minúsculo que levava a uma fila de quartinhos separados por vasos de chaminé com vestígios de fezes de gralhas e bocados lisos de telhado bons para cultivar vasos de plantas e fazer amor. Irrompeu por ali de olhos franzidos para fazer frente ao foco de luz intensa que era a sua memória. Não havia objecto, imagem, cadeira ou recanto a que Tessa não desse vida, habitasse nele e falasse nele. A escrivaninha imponente que fora do pai dela e passara para ele no dia do casamento encontrava-se na sua habitual alcova. Levantou o tampo para trás, Eu não dizia? Saqueada.

 

Abriu o roupeiro dela e viu os seus casacos e vestidos de Inverno caídos dos cabides e deixados a agonizar com os bolsos virados do avesso. Francamente, querido, podias tê-los pendurado. Sabes muito bem que ospendurei, mas alguém os deitou abaixo. Sondando por debaixo deles, desenterrou a velha pasta com pautas de música de Tessa, que era o que havia de mais parecido com uma pasta normal.

 

- Vamos a isto juntos - disse ele a Tessa, agora em voz alta.

 

Antes de sair, parou para espreitar pela porta aberta do quarto. Ela saíra do quarto de banho e estava de pé, nua, em frente do espelho, de cabeça inclinada, passando o pente pelo cabelo molhado. Um pé descalço estava virado para fora em posição de ballet, a sua posição habitual sempre que estava nua. Uma mão erguia-se até à cabeça. Ao vê-la, ele sentiu a mesma separação mexprimível que sempre sentia entre eles quando ela ainda era viva. És perfeita demais, jovem demais, disse-lhe. Devia ter-te deixado à solta. Não digas asneiras, retorquia ela docemente, e ele logo se sentia muito melhor.

 

Descendo para a cozinha do rés-do-chão encontrou uma pilha de velhos múmeros do Kenyan Standard, Africa Confidentia4 The Spectator e do Private Eye. Encafuou-os na pasta de música, voltou ao vestíbulo, deu uma última olhadela ao santuário improvisado e à outra pasta. Vou deixá-la onde eles a possam encontrar no caso de não estarem satisfeitos com o trabalho desta manhã no escritório, explicou-lhe, e saiu para a escuridão gelada. 0 percurso até ao cinema levou-lhe dez minutos. A Sala Dois estava vazia a três quartos. Não prestou qualquer atenção ao filme. Teve de se escapulir por duas vezes até ao lavabo dos homens, de pasta na mão, para consultar o relógio de pulso sem ser observado. Às cinco para as nove saiu pela saída ocidental e deu consigo numa rua lateral, com um frio de cortar à faca. A carrinha azul ali estacionada parecia olhar para ele e, por um momento absurdo, Justin imaginou que via o safari verde de Marsabit. Os faróis dianteiros piscaram, Uma silhueta angulosa com boné de marinheiro ocupava o lugar do condutor.

 

- Pela porta de trás, - mandou Rob.

 

Justin dirigiu-se para a traseira da carrinha e viu a porta aberta e o braço estendido de Lesley para receber a pasta. Ao aterrar num assento de madeira numa escuridão como breu, ele estava de novo em Muthaiga, no assento de tabuinhas duma carrinha Volkswagen, com Livingstone ao volante e Woodrow sentado na sua frente a dar ordens.

 

- Estamos a segui-lo, Justin, - explicou Lesley. A sua voz no escuro soava num tom urgente e ao mesmo tempo misteriosamente desanimado. Era como se também ela tivesse sofrido uma grande perda. - A equipa de vigilância seguiu-o até ao cinema e nós fazemos parte dela. Agora estamos a cobrir a saída lateral para o caso de você sair por aí. Há sempre a hipótese de a presa se aborrecer e sair mais cedo. Ainda agora foi o que aconteceu. Daqui a cinco minutos, é o que vamos pôr no relatório para o controlador da missão. Que direcção quer seguir?

 

- Leste.

 

- Então chame um táxi e siga para leste. Comunicaremos o número do seu táxi. Não o seguiremos porque nos reconheceria. Há um segundo carro de vigilância à sua espera em frente ao cinema e um sobressalente, de aviso, na Kitig’s Road, para as contingências. Se decidir ir a pé ou apanhar o metro, eles enviam dois peões atrás de si. Se apanhar um autocarro, ficar-lhe-ão gratos porque nada é mais fácil que ficar retido atrás de um autocarro londrino. Se for a uma cabina telefónica fazer uma chamada, eles escutam-no. Têm autorização do Serviço Central que funciona de onde quer que você telefone.

- Porquê? perguntou Justin.

 

Os seus olhos começavam a habituar-se ao escuro. Rob reclinara o corpo comprido ao longo das costas do banco para participar na conversa. 0 seu modo era tão infeliz como o de Lesley, mas mais hostil.

 

- Porque você nos lixou - disse.

 

Lesley retirava os jornais da pasta de Tessa para os encafuar num saco de plástico, Tinha aos pés um maço de envelopes largos, talvez uma dúzia. Começou a introduzi-los na Pasta.

 

- Não compreendo - disse Justin.

 

- Tente - aconselhou Rob. - Nós só cumprimos ordens não é? Dizemos a Mr. GridIey o que você anda a fazer. Alguém lá de cima diz porquê mas a nós ninguém diz nada. Somos só a criadagem.

 

- Quem revistou a minha casa?

 

- A de Nairobí ou a de Chelsea? - contrapôs Rob com sarcasmo.

- A de Chelsea.

 

- Não nos pergunte. A equipa esteve lá de plantão durante quatro horas enquanto alguém a revistou. É tudo o que sabemos. 0 Gridley mandou um guarda uniformizado para a frente da porta, caso alguém quisesse entrar ou sair. Se alguém o fizesse, a sua tarefa era dizer-lhes que os nossos agentes estão a investigar um assalto ao edifício, portanto pírem-se. Se era de facto um guarda, o que eu duvido, - acrescentou Rob fechando a boca bruscamente.

 

- Rob e eu estamos fora do caso, - disse Lesley. - 0 GridIey punha-nos a passar multas nas Ilhas Orkney se pudesse, só que não se atreve.

 

- Estamos fora de tudo, - concluiu Rob. - Somos uns mortos vivos. Graças a si.

 

- Ele quer-nos onde nos possa ver, - disse Lesley,

 

- Dentro de uma tenda, a mijar para fora, - disse Rob.

 

- Enviou dois novos agentes para Nairobi para auxiliar e aconselhar a polícia local na busca de Bluhm e mais nada. - disse Lesley. - Nada de olhadelas debaixo das pedras, nada de divergências. Ponto final.

 

- «Acabaram-se os dois de Marsabit, acabou-se o luto por putas moribundas e médicos fantasmas.» - disse Rob. - São as palavras adoráveis saídas da boca de GridIey. E os nossos substitutos não estão autorizados a falar connosco, caso apanhem a nossa doença. São um par de atrasados mentais com um ano de vida, tal e qual como o Gridley.

 

- Trata-se de uma situação de alta segurança e você faz parte dela, - disse Lesley, apertando o fecho da pasta e abraçando-a contra o colo. - Que parte, é que ninguém sabe. 0 GridIey quer a história da sua vida. Com quem se encontra, onde, quem vem a sua casa, a quem telefona, o que Come, com quem. E isto diariamente. Que você é uma figura essencial numa operação ultra-secreta é tudo o que estamos autorizados a saber. Temos de fazer o que nos dizem e meter-nos no que nos diz respeito.

 

- Ainda não tínhamos regressado há dez minutos à Scotland Yard e ele já gritava pelas agendas, gravações e documentos que queria ver na sua secretária já! - disse Rob. - Então demos-lhos. 0 conjunto original, completo e sem cortes. Depois de termos feito cópias, é evidente.

 

- A gloriosa companhia das Três Abelhas não deve ser mencionada nunca mais e isto é uma ordem - disse Lesley. - Nem o seus produtos, nem as suas operações ou o seu pessoal. Nada deve fazer balançar o barco. Ámen.

 

- Qual barco?

 

- Uma data de barcos, - atirou Rob. - É só escolher. 0 Curtis é intocáveL Está em vias de intermediar um negócio de um montão de armas britânicas para a Somália. 0 embargo é uma chatice, mas ele arranjou formas de o contornar. É um percursor na corrida para fornecer um moderníssimo sistema no género «África Oriental Telecom», utilizando a alta tecnologia britânica.

 

- E eu estou no meio de tudo isso?

 

-Você atravessou-se no meio, - retorquiu Rob maldosamente. - Se tivéssemos sido capazes de passar por cima de si, tínhamo-los a todos no papo. Agora estamos na rua, de volta ao primeiro dia das nossas carreiras.

 

- Eles julgam que você sabe o que a Tessa sabia, - explicou Lesley. - Isso pode ser prejudicial à sua saúde.

 

- Eles? Quem são eles?

 

Mas a cólera de Rob não acabara. - Tratava-se de uma armadilha desde o primeiro dia e você fazia parte dela. A polícia de cá fez pouco de nós e os sacanas das Três Abelhas também. 0 seu amigo e colega Mr. Woodrow mentiu-nos de todas as formas e feitios e você também. Você era a nossa única esperança e deu-nos um pontapé no cu.

 

-Temos uma pergunta para si, Justin, - disse Lesley, num tom não menos amargo. - Deve-nos uma resposta frontal. Tem algum sítio para onde ir? Um lugar seguro onde se possa sentar a ler o jornal? No estrangeiro ainda seria o melhor.

 

Justin escarneceu: - Que tal se for para casa em Chelsea e apagar a luz do meu quarto? Vocês vão ficar lá em frente da minha casa?

 

- A equipa de plantão vê-o em casa, vê-o na cama. Os espias passam umas horas pelas brasas, mas os escutas permanecem ligados ao seu telefone. Os espias regressam de manhã bem cedo para assistir ao seu acordar. A melhor altura é entre a uma e as quatro da manhã.

 

- Bem, eu tenho um sítio para onde ir, - disse Justin após um momento de reflexão.

 

- Fantástico, - disse Rob. - Nós não temos.

 

- Se é no estrangeiro, viaje por terra e mar, - disse Lesley. - Quando lá chegar corte todas as ligações. Apanhe de preferência autocarros de província, comboios locais. Vista-se sem dar nas vistas. Faça a barba diariamente, não olhe fixamente para as pessoas. Não alugue carros, nem apanhe aviões para nenhum lugar, nem sequer em voos domésticos. Dizem que é rico.

 

- E sou.

 

- Então abasteça-se com uma pipa de massa. Não utilize cartões de crédito ou traveller cheques, nem toque num telemóvel. Não faça chamadas à cobrança do destinatário nem pronuncie o seu nome numa linha aberta ou os computadores entrarão no circuito. Aqui o Rob arranjou-lhe um passaporte e um cartão de jornalista do Telegraph, da Grã-Bretanha. Ele não conseguia uma fotografia sua até que ligou para o Foreign Office a dizer que precisava de uma para os ficheiros. 0 Rob tem amigos em departamentos aos quais não estamos autorizados a ter acesso, não é, Rob? - Não houve resposta. - Não estão perfeitos porque os amigos do Rob não tiveram mais tempo, não foi, Rob? Portanto não os use à entrada ou saída de Inglaterra. Entendido?

 

- Está bem. - disse Justin.

 

- Você é Peter Paul Atkinson, jornalista e repórter. E nunca, haja o que houver, nunca traga dois passaportes ao mesmo tempo.

 

- Mas porque fazem isto? - perguntou Justin.

 

- Não tem nada com isso. - Ripostou Rob furioso do meio da escuridão.

- Tínhamos um trabalho a fazer, é tudo. Não gostámos que no-lo tirassem. Portanto passámo-lo para si. Quando eles nos puserem na rua, talvez você nos deixe lavar de vez em quando o seu Rolls-Royce.

 

- Talvez estejamos a fazer isto pela Tessa, - disse Lesley, depositando a pasta nos braços dele. - Siga o seu caminho, Justin. Não confiou em nós e talvez tivesse razão. Mas se confiasse, talvez tivéssemos chegado lá. Seja onde seja esse lá. - Abrira a porta da carrinha, - Tenha cuidado consigo. Eles matam. Mas o senhor já deu por isso.

 

Começou a descer a rua e ouviu Rob a falar ao microfone. A Candy está a sair do cinema. Repito. A Candy está a sair do cinema com a sua mala de mão.

 

A porta da carrinha bateu ao fechar-se atrás dele. Caso encerrado, pensou. Continuou a andar em frente por um bom bocado. A Candy vai apanhar um táxi, e é um homem.

 

Justin estava de pé junto ao parapeito da janela de guilhotina do escritório de Ham, escutando as pancadas das dez horas por sobre o rosnar nocturno da cidade. Estava a olhar para a rua em baixo, mas mantendo-se um pouco recolhido, num ponto do qual era suficientemente fácil de ver, e era difícil de ser visto. Uma luz pálida de candeeiro iluminava a escrivaninha de Ham. Ham descansava a um canto, numa poltrona, coçada pelo serviço prestado a gerações de clientes insatisfeitos. Lá fora, uma névoa gelada que se levantara do rio, congelava o gradeamento à volta da minúscula capela de Saint Etheldreda, cenário de muitas discussões inconclusívas de Tessa com o Criador. Uma tabuleta verde iluminada informava os transeuntes que a capela tinha sido restaurada para a Verdadeira Fé pelos Padres Rosminianos. Confissões, Acções de Graças e Casamentos Mediante Marcação. Um pequeno grupo de devotos tardios subia e descia os degraus da cripta. Nenhum deles era Tessa. No chão do escritório, empilhados na bandeja de plástico de Ham, descansavam os documentos da pasta, Na escrivaninha estava a pasta de música e ao lado, em ficheiros assinalados com o nome da sua firma, um conjunto zeloso de cópias impressas, telefaxes, fotocópias, anotações de telefonemas, postais e cartas que Ham acumulara ao longo da sua correspondência com Tessa durante o último ano.

 

- Receio bem que haja aqui uma grande faralhada, - confessou desajeitadamente. - Não consigo encontrar a última série de e-maíls dela.

 

- Não os encontras?!

 

- Nem os dela nem os de ninguém. 0 computador tem um vírus. Essa porra engoliu a caixa de correio e metade do disco duro. Os engenheiros ainda estão a trabalhar nisso, Quando eles os recuperarem, dou-tos logo.

 

Tinham falado de Tessa, de Meg, depois de críquete, que o grande coração de Ham também albergava. Justin não era um fanático de críquete, mas deu o seu melhor para parecer entusiasmado. Um cartaz de Florença meio sujomanchado escondia-se na penumbra.

 

- Ainda tens aquele correio de confiança de Turim-e-volta todas as semanas, Ham? - perguntou Justin.

 

- Absolutamente, meu velho. Foi engolido por uma grande empresa, é claro. Quem o não é? Mas é a mesma gente, só que a merda é maior.

 

- E ainda usas aquelas caixas de chapéus bonitas, em cabedal, com o nome da firma, que eu vi no teu cofre esta manhã?

 

- Isso será a coisa a desaparecer se depender de mim.

 

Justin inclinou-se para baixo, para a rua vagamente alumiada. Eles ainda lá estão: uma mulher graDdalhona num sobretudo volumoso e um homem macilento de chapéu de feltro amarrotado e pernas tortas como um Jóquei a pé e um blusão de esqui com a gola subida até ao nariz. Tinham estado a olhar para a tabuleta da Saint Etheldreda durante os últimos dez minutos, quando tudo o que ela dizia numa noite gelada de Fevereiro podia ser assimilado em dez segundos. Por vezes, numa sociedade civilizada, sabe-se mesmo.

 

- Diz-me Ham.

 

- 0 que quiseres, meu velho.

 

- A Tessa tinha algum dinheiro à ordem depositado lá na Itália?

- Montes. Queres ver os extractos de conta?

 

- Nem por isso. Mas agora é meu?

 

- Sempre foi. Contas comuns, lembras-te? «O que é meu, é dele.» Tentei tirar-lhe daí a ideia. Ela disse-me que fosse passear. Típico.

 

- Então o teu amigo em Turim podia enviar-me algum, não podia? Para um banco qualquer. Para onde eu estivesse no estrangeiro, por exemplo.

 

- Sem qualquer problema.

 

- Ou para alguém que eu nomeasse, até. Desde que esse alguém apresentasse o seu passaporte.

 

- É todo teu, meu velho. Podes fazer o que quiseres. Goza-o, que é o mais importante.

 

0 jóquei a pé virara as costas à tabuleta e simulava agora estudar as estrelas, 0 sobretudo volumoso olhava para o relógio. Justin recordou uma vez mais o chato do seu instrutor do curso de segurança. Os vigias são como os actores. Para eles, o mais difícil defazer é nãofazer nada.

 

-Tenho um amigo, Ham. Nunca te falei nele. Chama-se Peter Paul Atkinson. Tem toda a minha confiança.

 

- É advogado?

 

- Claro que não. 0 advogado és tu. Este é correspondente do Daily Telegraph. Um velho amigo do liceu. Quero que ele tenha todos os poderes sobre os meus assuntos como se fosse um procurador. Se tu ou a tua gente em Turim alguma vez receberem instruções dele, gostaria que as seguissem exactamente como se fossem minhas.

 

Ham aclarou a garganta e coçou a ponta do nariz. - Não pode ser feito só assim, meu velho. Não posso simplesmente acenar com uma varinha mágica. Tenho de ter a assinatura e coisas assim. Uma autorização formal da tua parte. E com testemunhas, provavelmente,

 

Justin atravessou a sala até onde Ham estava sentado, e deu-lhe o passaporte de Atkinson para consulta.

 

- Talvez possas copiar daí os dados, - sugeriu.

 

Ham virou a primeira página para ver a fotografia no reverso e, sem qualquer mutação perceptível na sua expressão inicial, comparou-a com as feições de Justin. Passou uma segunda vista de olhos e leu os dados pessoais. Virou lentamente as páginas cheias de carimbos.

 

- Tem feito uma quantidade de viagens, o teu camarada, - comentou fleumático.

 

- E vai fazer mais, acho eu.

 

- Vou precisar de uma assinatura. Não me posso mexer sem uma assinatura.

- Dá-me um momento e terás uma.

 

Ham levantou-se, restituindo o passaporte a justin, e foi deliberadamente até à sua escrivaninha. Abriu uma gaveta e retirou uns formulários de aspecto oficial e umas folhas de papel branco. justin colocou o passaporte aberto debaixo do foco de luz e, com Ham examinando oficiosamente por cima do seu ombro, experimentou umas variantes antes de assinar uma procuração sobre os seus assuntos em favor de um tal Peter Paul Atkinson, ao cuidado dos Srs. Hammond Manzíni de Londres e Turim.

 

- Vou mandá-la reconhecer, - disse Ham. - Por mim próprio.

- Falta uma coisa, se não te importas.

 

-Ai meu Deus.

 

Hei-de precisar de te escrever.

 

À vontade, meu velho. Será um prazer manter o contacto.

 

Mas não para aqui. E para Inglaterra nem pensar. Nem tão-pouco para o teu escritório em Turim, desculpa lá. Se bem me lembro tens uma data de tias italianas. Será que uma delas pode receber o teu correio e guardá-lo em segurança até que voltes a passar por lá?

 

-Tenho lá um velho dragão a viver em Milão, - disse Ham com um arrepio.

- Um velho dragão em Milão vem mesmo a calhar. Podes dar-me a morada?

 

Era meia-noite em Chelsea. Vestido de blazer e calças de flanela cinzenta, justin, consciencioso funcionário de secretaria, estava sentado à horrenda mesa de jantar, sob um candeeiro do tempo do rei Artur e escrevia. De caneta de tinta permanente, em papel de carta número quarto. Tinha ensaiado diversos rascunhos antes de se dar por satisfeito, mas o seu estilo e caligrafia não lhe pareciam familiares.

 

Cara Alison,

Estou-lhe grato pelas suas ponderadas sugestões feitas durante o nosso encontro desta manhã. 0 Serviço sempre tem mostrado a sua componente humana nos momentos mais críticos, e hoje não houve excepção. Dei a devida importância ao que me propõe, efalei detalhadamente com os advogados de Tessa. Parece que os meus assuntos têm sido muito negligenciados nos últimos meses, e é necessária a minha imediata intervenção. Há problemas domésticos e de impostos a resolver, não mencionando o destino a dar às propriedades aqui e no estrangeiro. Decidipor conseguinte que tenho de tratar destes negócios em primeiro lugar e até suspeito que ainda hei-de dar esta tarefa por bem-vinda.

Espero portanto que tenha paciência comigo por mais uma ou duas semanas antes que eu lhe dê uma resposta às suas propostas. Quanto à baixa por doença, acho que não devo abusar desnecessariamente da benevolência do Serviço. Não gozei de nenhuma licença este ano e creio que tenho direito a cinco semanas de férias, acrescidas da minha deslocação anual normal. Prefiro pedir o que me é devido, antes de apelar à sua tolerância. Com os meus renovados agradecimentos.

Eis uma explicação desonesta e hipócrita que lhe há-de agradar, concluiu com satisfação. Justin, funcionário público impecável, inquieta-se com o facto de ser ou não adequado gozar baixa por doença enquanto trata dos assuntos da esposa assassinada. Voltou ao vestíbulo e deu mais uma olhadela à pasta deixada no chão, debaixo da consola com tampo de mármore. Um fecho fora forçado e estava fora de combate. Do outro, nem rasto. 0 conteúdo fora tornado a meter ao acaso. És tão mau pensou com desprezo. Depois pensou: a não ser que estejas a tentar assustar-me, nesse caso és mesmo bom. Apalpou os bolsos do casaco. 0 meu passaporte, genuíno, para ser utilizado ao sair ou entrar na Grã-Bretanha. Dinheiro. Nada de cartões de crédito. Com um ar de firme convicção, deitou mãos à obra, escolhendo a intensidade das luzes da casa que melhor sugeriam o descanso nocturno.

 

 

0 monte recortava-se a negro contra o céu que escurecia. E o céu era uma barafunda de nuvens, impelidas em correria pelos perversos ventos insulares e pela chuva de Fevereiro. A estrada, sinuosa como uma cobra, estava juncada de seixos que rolavam da encosta ensopada de chuva misturados com uma lama avermelhada. Por vezes corria sob um túnel de ramadas de pinheiros; outras, parecia prestes a precipitar-se numa queda livre de trezentos metros, no Mediterrâneo que fumegava neblina. Ao desfazer uma curva, Justin via o mar erguer-se inexplicavelmente à sua frente como uma muralha; na curva seguinte, via-o de novo recolhido no fundo do abismo. Mas por muitas que fossem as curvas, a chuva vinha sempre bater de frente no vidro, e ele sentia o jipe estremecer debaixo de si como um cavalo velho, já incapaz de grandes esforços. E o antigo castro do Monte Capanne sempre a espiá-lo, ora do alto do monte, ora agachando-se sobre o seu ombro direito, empoleirado numa fraga inesperada, a impelí-lo para a frente, a enganá-lo como um farol traiçoeiro,

 

- Onde raio será? Ia jurar que é aqui para a esquerda -, lamuriou ele em voz alta, em parte para sí próprio e em parte para Tessa. Ao chegar a uma crista, parou na berma, irritado, e levou as pontas dos dedos à sobrancelha, procurando orientar-se, já começava a adoptar os exageros gestuais próprios da solidão. Em baixo, cintilavam as luzes de Portoferraio. Em frente, do lado de lá do mar, piscavam as de Piombino no continente. à esquerda e à direita, um trilho de madeireiros abria uma brecha na floresta. «Foi aqui que os teus assassinos te esperaram no seu safari verde» -, explicou-lhe ele mentalmente. «Foi aqui que eles fumaram os seus repugnantes Sportsmans e beberam as suas garrafas de Whitecap enquanto tu e Arnold não apareciam.» Barbeara-se, penteara-se e vestira uma camisa limpa, de sarja azul. Sentia calor na cara e latejavam-lhe as têmporas. Decidiu-se pela esquerda. 0 jipe trotou num enrugado tapete de galhos e agulhas de pinheíro. As árvores começaram a rarear, o céu clareou e voltou a ser dia. Mais abaixo, junto de uma clareira, via-se um cacho de velhas casas rústicas. Nunca as hei-de vender, nunca as heí-de alugar, - disseste-me tu da primeira vez que aqui me trouxeste. - Hei-de cedê-las a pessoas que o mereçam, e mais tarde viremos aqui morrer.

 

Arrumado o carro, Justin calcorreou na erva húmida até à casa mais próxima, baixa e muito asseada, com as paredes caiadas de fresco e velhas telhas rosadas. As janelas de baixo tinham luz. Bateu na porta com o punho. Um calmo penacho de fumo de lenha subia na vertical à luz da tardinha, abrigado pelo arvoredo circundante, para logo ser varrido mais acima pelo vento. Umas bulhentas aves pretas volteavam em quezília. Uma camponesa de garrido lenço na cabeça veio abrir a porta, soltou um grito dolorido, baixou a cabeça e murmurou qualquer coisa numa língua que Justin já sabia não poder compreender. Ainda de cabeça baixa, e afastando o corpo para o lado, a mulher pegou na mão de Justín com ambas as suas, apertou-a a uma face e depois à outra e beijou-lha devotamente no polegar.

 

- Onde está o Guido? - indagou ele em italiano, entrando na casa atrás dela.

 

A mulher abriu uma porta interior e mostrou. Guido estava sentado a uma mesa comprida, sob uma cruz de madeira. Um velhinho de doze anos, corcovado e sem fôlego, de rosto lívido, ossos à flor da pele e olhar vago, As suas mãos escanzeladas estavam pousadas no tampo da mesa, mas nada seguravam, pelo que dificilmente se poderia imaginar o que teria ele estado anteriormente a fazer, sozinho num quarto escuro e de tecto baixo, com vigas a todo o comprimento, sem ler, brincar ou olhar para alguma coisa. Com a cabeça esguia inclinada para o lado e a boca aberta, Guido olhou para Justin que entrava. Depois levantou-se, cambaleou na sua direcção apoiado na mesa e, abrindo os braços, tentou uma espécie de salto de caranguejo. Mas calculara mal o salto, e os braços caíram-lhe ao lado do corpo enquanto Justin o segurava de pé.

 

- Queria morrer como o pai, e como a Signora - lamentou a mãe. - Só me diz que as pessoas boas estão todas no céu e que as pessoas más continuam vivas. Eu sou uma pessoa má, Signor Justin? 0 senhor é uma pessoa má? Então a Signora trouxe-nos da Albânia, pagou-lhe o tratamento em Milão e pôs-nos nesta casa para que tivéssemos, afinal, de morrer de desgosto por ela? - Guido escondera o rosto encovado entre as mãos. - Primeiro, desmaia; depois, vai para a cama e dorme. Não come, não toma o remédio e recusa-se a ir à escola. Esta manhã logo que ele se levantou para se lavar, fechei-lhe o quarto e escondi a chave,

 

- Pois olha que é um bom remédio - disse Justin em voz baixa, com os olhos pregados em Guído,

 

A mulher abanou a cabeça, foi para a cozinha, fez tinir caçarolas e pôs ao lume uma chaleira. Justin reconduziu Guido para junto da mesa e sentou-se a seu lado.

 

- Estás a ouvir-me, Guido? - disse ele em italiano. Cuido fechou os olhos.

 

-Tudo continuará como dantes - prosseguiu Justin com firmeza. - As tuas propinas, o médico, o hospital, o remédio, tudo quanto for preciso para que recuperes a saúde. A mensalidade, a comida e as propinas de Universidade, quando para lá fores. Vamos fazer tudo o que ela planeou a teu respeito, exactamente como ela planeou. Não podemos fazer menos do que o que ela queria, pois não?

 

De olhos baixos, Guido reflectiu e abanou relutantemente a cabeça: não, não podemos fazer menos.

 

- Ainda jogas xadrez? Vamos a um jogo?

 

Novo abanar de cabeça, mas agora muito sério: jogar xadrez seria faltar ao respeito pela memória da Signora Tessa.

 

Justin pegou na mão de Cuido e abanou-a delicadamente, esperando ver luzir um sorriso. - Então, que fazes tu quando não estás a morrer? - indagou em inglês. -já leste os livros todos que te mandámos? Pensei que já devias ser um perito em Sherlock Holmes.

 

- 0 Sr. Holmes é um grande investigador. - Respondeu Guido, também em inglês, mas sem sorrir.

 

- E que é do computador que a Signora te deu? - indagou Justin, voltando ao italiano. - Ela considerava-te uma grande estrela. Um gênio, dizia-me. Vocês trocavam mensagens electrónicas com tal entusiasmo que até me faziam ciúmes, Não me digas que puseste de lado o computador, Guido!

 

Isto causou uma exclamação na cozinha: - Claro que pôs! Pôs tudo de lado! Quatro milhões de liras que ela pagou por aquilo! Passava o dia sentado ao computador, tac, tac, tac! Tac, tac, tac! «Ainda ficas cego por causa disso»

- dizia eu. «Faz-te mal tanta concentração.» E agora, nada. Até o computador tem de morrer!

 

Ainda a segurar a mão de Guido, Justin fitou-os nos olhos: - É verdade? Era.

 

- Mas isso é horrÍvel, Guido. É um grande desperdício de talento - lamentou Justin enquanto o sorriso de Guido começava a despontar. - 0 gênero humano está muito precisado de bons cérebros como o teu, estás a ouvir?

 

É possível.

 

Então, lembras-te do computador da Signora Tessa, daquele com que ela te ensinou?

 

Guido, é claro, lembrava-se - e com ares de grande superioridade, para não dizer de presunção.

 

- Pois olha, não é tão bom como o teu. 0 teu é uns anos mais novo, e mais esperto, não é?

 

Sim, sim, muito mais. E o sorriso abriu-se mais um pouco.

 

- Bem, Guido, eu sou um ignorante, ao contrário de ti, e nem com o computador dela sou capaz de trabalhar bem. Mas tenho um problema: a Signora Tessa deixou dentro dele uma porção de mensagens; algumas delas eram para mim e estou com um medo terrível de perdê-las. Acho que ela gostaria de que fosses tu a ajudar-me a não as perder. Está bem? Ela gostava muito de ter um filho como tu e eu também. De modo que a questão é a seguinte: queres ir lá a casa para me ajudar a ler o que está no portátil?

 

- Tem a impressora? Tenho.

 

- E o leitor de discos? Também.

- E os discos compactos? E o modem?

 

- E o manual, os transformadores, os cabos e um adaptador. Mas sou um palerma, sou capaz de fazer qualquer asneira e estragar tudo.