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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


O FIM DAS ERAS / Tim LaHaye
O FIM DAS ERAS / Tim LaHaye

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

O FIM DAS ERAS

 

            Rayford começou a descer pelo lado de trás de Petra, achando a descida ainda pior do que a subida. Ele permanecera com Chang e Naomi um pouco mais do que havia planejado e supôs, portanto, que Mac deveria estar à sua procura e George pensava que já tivesse chegado.

            Do lugar em que se encontrava, ele tinha uma boa visão do exército, a cerca de um quilômetro e meio de distância. Fez um gesto para pegar o celular e tranqüilizar Mac quando notou que algo estranho havia ocorrido. As linhas de frente estavam recuando outra vez, sinal de que George devia ter iniciado outra seqüência de disparos com as armas de ener­gia direcionada.

            Desta vez, porém, apesar do caos que se seguiu, o Exér­cito da Unidade não se acovardou. Rayford ouviu os estron­dos dos disparos em represália, como trovões anunciando uma forte tempestade que atingiria um círculo de centenas de quilômetros de diâmetro.

            Ele conhecia o suficiente sobre munições para saber que as forças de Carpathia estavam um tanto distanciadas para usar canhões de morteiros e atirar em ângulos altos. Calculou então que os tiros não alcançariam o perímetro de Petra. Estava enganado. É possível que os canhões deles fossem maiores do que os tradicionais de cano curto e sem estrias.

            As bombas ultrapassaram o perímetro e começaram a cair ao redor dele. Quando uma explodiu bem à sua frente, Rayford quase foi atirado para fora do veículo. Agarrado ao volante com a mão livre, ele viu seu telefone sair voando cerca de cem metros precipício abaixo.

            Seu veículo ficara agora fora de controle, fazendo com que Rayford se deslocasse do assento e ficasse suspenso no ar, apenas com as mãos na máquina. Quando voltou a sentar-se com toda força, a geringonça desgovernou-se e rolou de lado. Manter-se equilibrado era agora a única opção, mas logo esta possibilidade também deixou de existir.

            O veículo de tração nas quatro rodas bateu de novo nas pedras e ele foi atirado para fora. Enquanto rolava no terreno acidentado, viu o carro despencar, despedaçando-se contra as rochas que desciam até o vale.

            Rayford teve tempo para lembrar-se de que não devia tentar interromper sua queda. Protegeu as mãos e os braços e procurou relaxar o corpo, lutando com todas as forças contra o seu instinto natural de contrair os músculos. O declive era íngreme demais e sua velocidade muito grande para conseguir controlar-se. O melhor que podia esperar era uma aterrissagem suave.

            Uma explosão ensurdecedora fez-se ouvir a cerca de três metros à sua direita, obrigando-o a rolar de lado. Ao bater a têmpora numa pedra pontuda, Rayford ouviu um som de água corrente enquanto rolava em direção a um arbusto espinhoso. Por mais terríveis que fossem os espinhos, deviam ser mais macios do que a pedra contra a qual colidira.

            Conseguiu com esforço equilibrar o peso do corpo, quando caiu de costas nos espinhos. Foi então que compreendeu o que significava o som de água correndo. A cada batida acelerada do seu coração, o sangue que brotava da ferida na têmpora esguichava a uma distância de quase dois metros.

            Apertou a palma da mão com força contra a cabeça e sentiu o jato de sangue. Apertou mais uma vez para ver se o estancava. Rayford achava-se agora, porém, em perigo - perigo mortal. Ninguém sabia o seu paradeiro. Não tinha meios de comunicação nem de transporte. Não queria sequer examinar seus ferimentos, pois eram insignificantes em com­paração com o buraco na cabeça. Precisava obter ajuda - e depressa - ou morreria em questão de minutos.

            Os braços de Rayford apresentavam cortes profundos e ele sentiu dores lancinantes nos joelhos e em um dos tornozelos. Estendeu a mão para arregaçar a perna da calça e desejou não tê-lo feito. Havia um pedaço de pele dependurado em seu tor­nozelo e, aparentemente, uma parte do osso fora arrancada.

            Teria condições de andar? Deveria tentar? A distância era muito grande para rastejar. Aguardou que sua pulsação se acalmasse para readquirir o controle emocional. Devia estar a mais de um quilômetro e meio de Mac e seu pessoal e não podia vê-los. Não havia meios de voltar. Virou o corpo para ficar de cócoras, segurando o ferimento com uma das mãos para não sangrar até morrer.

            Rayford tentou ficar em pé. Conseguiu apoiar-se somente em uma das pernas, exatamente aquela cujo tornozelo em frangalhos. O osso da canela da outra estava provavelmente fraturado. Quis saltar, mas o declive era muito acentuado e teve de inclinar o corpo para a frente. Outra vez descon­trolado, Rayford tentava pular com uma perna só para não cair, mas ganhando velocidade a cada salto. O que quer que fizesse, não ousava tirar a mão da têmpora, cuidando para não ir de encontro a outra pedra ou coisa parecida.

            Senhor, este seria o momento mais apropriado para a tua volta.

            Chang sentiu que algo estava para acontecer. Ele tivera sucesso em interceptar os sinais dos satélites geo-sincrônicos que auxiliavam as comunicações entre os milhões das tropas, que agora estavam prestes a se movimentar. Os homens que ocupavam postos de comando precisavam ser informados.

            Ligou para George.

            - Aguarde um avanço das tropas daqui a 60 segundos.

            - Algumas bombas já caíram aqui - gritou George. - Você pensa que haverá mais?

            - Sim, haverá.

            - Rayford foi vê-lo?

            - Saiu há pouco tempo, está indo falar com Mac.

            - Obrigado. Ligue para Mac, por favor. Vou informar os outros.

            Chang ligou para Mac e deu-lhe as mesmas informações.

            - Olhe, - disse Mac, - não consigo falar com Sebastian e Ray ainda não chegou.

            - Ele está a caminho.

            Em seguida, Chang ligou para Buck.

            - Aguarde um avan...

            A ligação, porém, foi interrompida. Ele discou novamente. Nada.

            - Eles estão vindo! Estão vindo!

            Assim que seu celular soou, Buck ouviu um jovem rebelde gritando e avistou um objeto de fogo passando por cima do Museu Rockfeller e vindo em sua direção. Ao ver as tropas do Exército da Unidade movimentando-se para todos os lados, ele pegou o celular, segurando-o de encontro ao ouvido, no exato momento em que a bomba atingiu o muro bem à sua frente e espatifou-se no chão, do lado de fora.

            Buck reconheceu a voz de Chang pouco antes de a bomba abrir um rombo no muro. Pedras e estilhaços espirraram com forço por todo o seu lado direito, destruíram seu celular e derrubaram uma das Uzis. Ele sentiu que algo acontecera em seu quadril e no pescoço enquanto caía do lugar em que se achava.

            Um dos jovens perto dele foi atirado para o ar e estatelou-se no chão. O muro começou a desabar no momento em que Buck decidira subir novamente. Passou a mão no pescoço e sentiu uma golfada de sangue. Mesmo não sendo médico, ele sabia que algo havia cortado sua artéria carótida. O problema era grave.

            Enquanto o muro desmoronava, ele saltou com a cabeça erguida para manter-se na posição vertical, mas precisava manter uma das mãos no pescoço. A outra Uzi escorregou pelo seu braço esquerdo e quando ele quis fincá-la em algum lugar para servir de apoio, a arma caiu para o outro lado. Ele estava sem armas, sem forças para permanecer em pé e mortalmente ferido.

            E o inimigo se aproximava.

            Rayford conseguiu evitar a queda com a mão livre, sem atrever-se a tirar a outra da têmpora. Seu queixo sofrera o mesmo impacto que a parte inferior da palma da mão quando escorregou a um ângulo de cerca de 45o. Não havia mais condições de andar. Dali em diante, só conseguiria rastejar e tentar permanecer vivo.

            Os pés de Buck prenderam-se na fenda de uma rocha que se deslocara e a parte superior de seu corpo tombou para a frente. Ele ficou pendurado de cabeça para baixo no muro em ruínas acima da Cidade Velha. Seu quadril fraturado também sangrava e o sangue escorria até a sua cabeça.

            Mesmo dentro do centro de tecnologia de uma cidade feita de pedra, Chang sentia a vibração dos milhões de sol­dados avançando sobre Petra. Ele clicava aqui e ali, apertava botões e tentava ligar para outras pessoas. Por quanto tempo Deus permitiria que isto continuasse antes de enviar o Rei vencedor?

            Lutando para não ficar inconsciente, ele tentava mover-se cuidadosamente, com uma das mãos à sua frente, a outra ocupada. Cada centímetro fazia o ângulo parecer mais inclinado, o caminho mais instável. A cada batida do cora­ção, a cada golfada de sangue, a cada dor lancinante, ele se perguntava de que adiantava tudo aquilo. Qual a importância de permanecer vivo? Para quê? Para quem?

            Vem, Senhor Jesus.

            A tontura aumentava, a dor era insuportável. Aparente­mente, um dos pulmões estava perfurado. A respiração tornou-se ruidosa, agonizante, descompassada. O primeiro sinal do fim foram as batidas descontroladas de seu cora­ção. Rápidas, falhando, depois trêmulas. Perda exagerada de sangue. Pouca irrigação no cérebro. Insuficiência de oxigênio.

            A sonolência sobrepujou o medo. A inconsciência seria um grande alívio.

            E assim ele se deixou levar. O pulmão estava prestes a explodir. O coração bateu descompassado e parou. O sangue que pulsava tornou-se uma poça.

            Não via nada, mesmo estando de olhos arregalados. Senhor, por favor Ele ouviu o inimigo aproximando-se. Sentiu a aproximação. Mas, de repente, não ouviu mais nada. Sem sangue para correr nas veias, sem ar para respi­rar, ele perdeu as forças e morreu.

            "Logo em seguida à tribulação daqueles dias, o sol escu­recerá, a lua não dará a sua claridade, as estrelas cairão do firmamento, e os poderes dos céus serão abalados. Então, aparecerá no céu o sinal do Filho do Homem; todos os povos da terra se lamentarão e verão o Filho do Homem vindo sobre as nuvens do céu, com poder e muita glória."

            Mateus 24.29-30

 

            Mac McCullum esquadrinhou o perímetro de Petra com seus binóculos potentes. Rayford já devia ter chegado.

            O relógio de Mac mostrava 13 horas - uma da tarde, tempo de Carpathia. A temperatura devia estar acima de 38° C. O suor escorria dos cabelos vermelho-grisalhos que apareciam debaixo do boné, descendo para o pescoço e ensopando a camisa. Mac não conseguiu divisar nem uma sombra de vento e ficou imaginando como ficaria o seu rosto sardento e cur­tido, em alguns dias.

            Sem tirar os olhos das lentes, Mac pegou o celular e ligou para Chang Wong no Centro de Computação.

            - Onde está Ray?

            - Eu ia perguntar para você - respondeu Chang. - Ele saiu daqui há 45 minutos e ninguém mais o viu desde então.

            - Quais são as notícias de Buck? Mac notou a hesitação.

            - Nada de novo.

            - Desde quando?

            - Rayford falou com ele no fim da manhã.

            - E então?

            - Nada de importante.

            - O que você está dizendo, Chang?

            - Nada.

            - Percebi isso. O que aconteceu?

            - Nada que não seja resolvido em pouco...

            - Não preciso de rodeios, camarada. - Mac continuou examinando as vertentes rochosas, sentindo o pulso acelerar-se apesar de seus anos de experiência. - Se não me disser, vou ligar para ele.

            - Buck?

            - Quem mais?

            - Já tentei. Meu sensor mostra que seu telefone está inoperante.

            - Desligado?

            - Isto é improvável, Sr. McCullum.

            - Posso imaginar. Defeituoso? Danificado?

            - Espero que seja a primeira opção, senhor.

            - O Sistema de Posicionamento Global está ativo, pelo menos?

            - Não, senhor.

           

            Chaim Rosenzweig não dormira e depois de apenas duas refeições leves de maná, esperava sentir-se fatigado. Mas, isso não acontecera. De acordo com seus melhores cálculos, aquele era o dia. Sentiu a expectativa aumentar em sua cabeça e seu peito. Era como se sua mente disparasse, enquanto seu cora­ção ansiava pelo maior evento na história do cosmos.

            Os conselheiros sênior dele, meia-dúzia de anciãos, acha­vam-se ao seu lado num lugar escondido do complexo de Petra. Eleazar Tibério, um homem corpulento, comentou que os mais de um milhão de peregrinos sob a sua responsabili­dade estavam claramente tão inquietos quanto nós.

            - Não há nada que possamos dizer a eles?

            - Pensei numa atividade - disse Chaim. - Mas, o que quer que eu diga?

            - Sou mais novo do que o Sr., Rabino, mas...

            - Por favor - replicou Chaim, levantando a mão. - Reserve esse título para o Dr. Ben-Judá. Eu não passo de um estudante atirado nisto...

            - Não obstante - continuou Eleazar - sinto que a popu­lação está tão desejosa quanto eu de saber o momento exato da volta do Messias. Quero dizer, se for como o Sr. e o Dr. Ben-Judá ensinaram durante tanto tempo, sete anos desde a assinatura do acordo entre o anticristo e Israel, será então no minuto preciso? Lembro-me da assinatura ter sido cerca das quatro da tarde, hora de Israel, faz sete anos hoje.

            Chaim sorriu.

            - Não tenho idéia, mas sei disto: Deus conta o tempo a seu modo. Creio que o Messias vai voltar hoje? Sim. Ficarei aborrecido se não aparecer até amanhã? Não. Minha fé não ficará abalada. Eu o espero, porém, em breve.

            - E a atividade que mencionou?

            - Apenas algo para ocupar a mente do povo enquanto esperamos. Encontrei um videodisco de um sermão dramático de antes da entrada do século, feito por um pregador afro-americano, que se acha há muito tempo no céu. Proponho reunir o povo e mostrá-lo.

            - O Senhor pode chegar enquanto o sermão estiver sondo ouvido - disse um ancião.

            - Tanto melhor.

            - Há incrédulos entre nós - afirmou Eleazar.            

            Chaim meneou a cabeça.

            - Confesso que isso me intriga e perturba, mas cumpre também a profecia. Alguns que têm a segurança de Petra e até muitos que crêem que Jesus foi a pessoa mais influente que já viveu, ainda não colocaram nele a sua fé. Eles não o reconhecem como o Messias há muito esperado e não o aceitaram como seu Salvador. Este sermão é também evan­gelístico. É possível que muitos dos indecisos tomem posição antes da chegada do Messias.

            - Melhor do que esperar pelo evento em si - alguém comentou.

            - Reúna o povo para uma sessão às duas horas - disse Chaim, levantando-se. - Vamos encerrar com oração.

            - Peço desculpas, mas o senhor sente tanto a ausência do Dr. Ben-Judá como eu? - disse Eleazar.

            - Mais do que você pensa, Eleazar. Vamos orar por ele agora e vou telefonar para ele em poucos minutos. Gostaria de compartilhar com o povo suas saudações e ouvir o que está acontecendo em Jerusalém.

 

            A visão ampliada de Mac caiu sobre peças coloridas, metálicas, brilhando ao sol, talvez uns dois quilômetros de onde se achava. Oh, não!

            Um tanque de combustível vermelho e um pneu tinham toda aparência de fazer parte do veículo de Rayford. Mac tentou firmar as mãos enquanto ampliava o raio de visão do binóculo, procurando sinais do amigo. Ao que tudo indicava, o A TV poderia ter sido atingido por um míssil ou despedaçado ao cair de algum lugar. É possível que o fato de não haver sinais de Rayford por perto sejam boas notícias, pensou ele.

            Mac ligou outra vez para Chang.

            - Sinto incomodá-lo, mas o que o seu sensor diz sobre o celular de Rayford?

            - Estava com medo que perguntasse isso. Está também com defeito, mas o seu GPS continua vibrando. Minha tela mostra que se encontra no fundo de uma fenda, pouco mais de 24 metros abaixo do senhor.

            - Vou até lá.

            - Espere, Sr. McCullum.

            - O quê?

            - Tenho uma lente apontada naquela direção e não há espaço na abertura para uma pessoa.

            - Pode ver o celular?

            - Não, mas sei que está ali. Pode ser a única coisa naquele espaço. A fenda é estreita demais para qualquer outra coisa.

            - Você também viu o veículo dele?

            - Estou procurando.

            - Eu vi. Se esse celular está ao sul da minha posição, pro­cure a vinte graus para o leste.

            - Espere... estou vendo.

            - Mas nenhum sinal de Ray, Chang. Vou procurar.

            - Não poderia enviar outra pessoa?

            - Por quê? Estou perdendo tempo aqui. As tropas estão sob controle de Big Dog One.

            - Para falar francamente, preferia que fosse até Jerusalém.

            - Vai ou não contar o que está acontecendo?

            - Venha ver-me, Sr. McCullum. Eu estava honrando o segredo do capitão Steele, mas penso que o Sr. e o Dr. Rosenzweig deveriam saber.

            Mac chegou ao centro tecnológico, nas entranhas de Petra, poucos minutos depois das 13 horas. Chaim levantou-se para recebê-lo, enquanto Chang cumprimentou-o com um olhar, mas continuou imerso em suas numerosas telas.

            Chang final­mente afastou-se e os três sentaram-se bem afastados dos ouvidos dos demais, Mac notou, porém, que muitos técnicos lançavam com freqüência olhares furtivos na direção deles.

            - Não há maneira delicada de dizer isto - começou Chang.

            - O capitão Steele contou a Naomi e a mim esta manhã que o Sr. Williams o informara da morte do Dr. Ben-Judá durante um combate em Jerusalém.

            Mac sentiu o corpo enrijecer. Chaim enterrou o rosto nas mãos.

            - Espero que ele não tenha sofrido muito - disse o homem mais velho.

            - Com a perda do capitão Steele agora e...

            - O quê? Ele também? - perguntou Chaim. - E não con­sigo falar com Cameron no telefone...

            - Achei que vocês dois deviam saber. Sei que tudo isto pode estar sendo discutido a esta hora amanhã.

            - Talvez até pelas quatro desta tarde - disse Chaim.

            - A questão agora é o que dizer, o que fazer.

            - Não há nada que possamos fazer - interferiu Mac.

            - Pedi a Abdullah Smith que procurasse Ray. Chang acha que devo ir a Jerusalém.

            Chaim levantou os olhos, aparentemente surpreso.

            - Acho mesmo - disse Chang. - Pelo que sobrou do carro dele e do celular, é bem possível que tudo que o Sr. Smith vai achar são os restos do capitão Steele. Sinto ser tão direto.

            - Um vôo para Jerusalém agora? - perguntou Chaim.

            - Só para ver se Cameron...

            - Era o que gostaria se fosse eu - disse Mac. - Sei que ele pode estar morto e Jesus está vindo, mas com a morte de Tsion, quero muito tirar Buck de lá e trazê-lo para junto de nós.

            - Mesmo que seja por uma hora - disse Chaim, mais como uma afirmativa do que uma pergunta.

            - Como já disse, é o que desejo.

            - E o que diremos ao povo? - indagou Chaim.

 

            Minutos depois, Mac estava nos aposentos de Gustaf Zuckermandel. Ele contou seus planos ao jovem.

            - Esta é a parte difícil, Z, quero partir em dez minutos.

            - Pode dar-me vinte minutos?

            - Quinze.

            - Feito.

            - O que você tem em mãos, Z? - disse Mac, enquanto o falsificador abria uma gaveta de arquivo, manuseava várias pastas e abria uma sobre a mesa.

            - Sua nova identidade - disse ele, indo até um armário que abriu com um floreio.

            Havia ali duas dúzias de uni­formes negros do Exército da Unidade Um da Comunidade Global, desde capacetes coloridos que protegiam os olhos até botas que cobriam a barriga da perna.

            - Escolha um que sirva enquanto estou trabalhando nos seus documentos. Não esqueça as luvas. Ninguém está mais verificando marcas de lealdade, mas para não correr riscos...

            - Como consegue fazer isso, Z? - perguntou Mac, aproxi­mando-se das roupas que pareciam ser do seu tamanho.

            - Com muita ajuda. O pessoal de Sebastian matou alguns deles e tenho uma pequena equipe que recolhe as coisas que ficam - documentos, roupas e tudo mais.

            - Armas?

            - Claro.

            Quando Mac saiu com um uniforme perfeitamente ajustado, encontrou Zeke misturando uma espécie de caldo.

            - Está ótimo, Mac - disse ele - O problema é que você tem de ser negro.

            - E pode conseguir isso em poucos minutos?

            - Se concordar.

            - Claro que sim.

            Mac tirou o capacete, jaqueta, camisa e luvas. Zeke usou a mistura para fazer com que ficasse pardo-escuro desde os ombros até a linha dos cabelos.

            - Não tire o capacete, porque não tenho tempo de tornar o cabelo autêntico.

            - Certo.

            - Vamos ajeitar suas mãos, para uma necessidade.

            Zeke tingiu a pele de Mac desde a metade do antebraço até a ponta dos dedos.

            - Isto deve secar em dois minutos e meio. Depois uma foto instantânea e você está a caminho. Dê lembranças minhas a Buck e Tsion.

            Mac hesitou.

            - Não vou esquecer, Zeke, você é um gênio.

            O jovem resmungou.

            - Estou aqui para servir.

            Mac estava decolando quando conseguiu falar com Abdullah Smith pelo telefone.

            - Nada ainda, Mac. Ligo para você no momento em que descubra alguma coisa.

            Quando o avião se elevou, Mac viu multidões de todos os cantos de Petra caminhando em direção ao lugar central de encontro.

 

            Chaim alarmou-se com a disposição dos presentes. Era a maior multidão que ele já havia atraído em Petra e todos se mostravam ruidosos, claramente preocupados, impacientes.

            Ele ouviu risos nervosos, viu uma porção de gente se abra­çando. Quando uma ou duas pessoas olhavam para o céu, centenas e algumas vezes milhares faziam o mesmo.

            - Meus amados irmãos e irmãs no Messias - começou - assim como os que buscam e os indecisos entre nós, por favor, procurem acalmar-se por um momento. Sei que todos esperamos a volta iminente de nosso Senhor e Salvador e não posso pensar num privilégio maior do que vê-lo aparecer enquanto falamos. Mas...

            Aplausos clamorosos e vivas o interromperam.

            Chaim fez um gesto para que se sentassem.

            - Compartilho o seu entusiasmo! Embora saiba que não haverá nada mais em sua mente até que Ele venha, pensei que seria bom nos fixarmos especificamente na sua pessoa esta tarde. Sei que existem entre nós muitos que estão retardando a sua decisão sobre Cristo até que Ele apareça. Considerem este o meu último esforço para persuadi-los a não esperar. Não sabemos o que nos acontecerá naquele momento, se Deus permitirá que zombadores e escarnece-dores, assim como os que o rejeitaram até agora, mudem de idéia. Orem para que ele não endureça o seu coração devido à sua rebeldia e incredulidade. É certo que houve evidência mais do que suficiente para revelar a verdade do plano de Deus.

            - Enquanto vigiamos e esperamos, considerem os pensa­mentos de um grande pregador de décadas passadas. Seu nome era Dr. Sadraque Mesaque Lockridge e sua mensagem tem como título, "Meu Rei É...

            Chaim fez um sinal para que o disco começasse a tocar e ele foi projetado em duas paredes brancas de pedra lisa, bem altas, onde todos podiam enxergar. O sistema de som levou-o até a parte de trás das massas que se achavam sentadas.

            Lockridge provou ser animado e trovejante, inter­rompendo sua cadência de gritos e rosnados com sussurros e largos sorrisos. O disco o apanhou quase no fim do seu sermão e ele estava ganhando forças.

            - A Bíblia diz que o meu rei é um rei de sete facetas. É o rei dos judeus; portanto, um rei racial. É o rei de Israel; ou seja, um rei nacional. É o rei da justiça. O rei das eras. O rei do céu. O rei da glória. O rei dos reis. Além de ser um rei de sete aspectos, ele é o Senhor dos senhores. Esse é o meu rei. Quero agora perguntar, você o conhece?

            Centenas de milhares aplaudiram e muitos ficaram em pé, mas sentaram outra vez enquanto Lockridge continuava.

            - Davi disse: "Os céus proclamam a glória de Deus, e o firmamento anuncia as obras das suas mãos" (Sl 19.1). O meu rei é um rei soberano. Medida alguma pode definir seu amor ilimitado. Nem o mais poderoso telescópio construído pelo homem pode tornar visíveis as fronteiras infinitas de seu poder. Nenhuma barreira pode impedi-lo de derramar suas bênçãos.

            - Ele é sempre forte. Inteiramente sincero. Eternamente fiel. Imortalmente gracioso. Infinitamente poderoso. Impar­cialmente misericordioso. Você o conhece?

            Muitos gritaram que sim.

            - Ele é o maior fenômeno que já cruzou o horizonte deste mundo. É o Filho de Deus. O Salvador dos pecadores. O eixo da civilização. Ele permanece na solitude de Si mesmo. É autêntico e é único. Não tem paralelos nem precedentes.

            - É a idéia mais elevada na literatura. É a maior personalidade na filosofia. É o problema supremo na alta-crítica. É a doutrina fundamental da verdadeira teologia. É o milagre das eras. Sim, Ele é. É o superlativo de tudo que é bom que você escolha chamá-lo. É o único qualificado para

ser nossa todo-suficiência. Pergunto a mim mesmo se você o conhece hoje.

            Enquanto o pregador continuava, mais e mais ouvintes ficaram em pé, levantando as mãos, outros gritavam sua concordância e outros ainda acenavam com a cabeça.

            - Ele dá força aos fracos. Está à disposição dos que são tentados e provados. Tem compaixão e salva. Fortalece e sustenta. Guarda e guia. Cura os doentes. Purifica o leproso. Perdoa o pecador. Quita os devedores. Livra os cativos. Defende os fracos. Abençoa os jovens. Serve aos desventurados. Cuida dos idosos. Recompensa os diligentes. E confere beleza aos mansos. Será que você O conhece?

            - Este é o meu rei. Ele é a chave do conhecimento. A fonte da sabedoria. A porta do livramento. O caminho da paz. A estrada da justiça. A vereda da santidade. A porta da glória. Você O conhece?

            - Seu cargo é multiforme. Sua promessa é certa. Sua vida é incomparável. Sua bondade ilimitada. Sua misericórdia eterna. Seu amor nunca muda. Sua palavra é suficiente. Sua graça basta. Seu reino é de justiça. "Seu jugo é suave e seu fardo é leve" (Mt 11.30). Gostaria de poder descrevê-lo para você.

            Isto provocou um mar de riso e mais aplausos. O mesmo havia acontecido com sua audiência original, e Lockridge fizera uma pausa, permitindo que todos se acalmassem antes de continuar.

            - Ele é indescritível. É incompreensível. É invencível. É irresistível. Você não consegue tirá-lo da mente. Não pode tirá-lo da mão. Não pode sobreviver a Ele e não pode viver sem Ele. Os fariseus não O suportavam, mas descobriram que não podiam detê-lo. Pilatos não conseguiu encontrar qualquer falta nele. Herodes não pôde matá-lo. A morte não O deteve e o sepulcro não conseguiu segurá-lo. Esse é o meu rei!

            Todos estavam em pé agora, com as mãos levantadas, muitos aplaudindo, gritando, e alguns dançando.

            - E teu é o reino e o poder e a glória para sempre, sempre e sempre! Quanto tempo é isso? Sempre e sempre! Quando você terminar todos os sempre, então amém! Deus Todo-Poderoso! Amém!

 

            Quando Mac pôde ver os montes rochosos da Judéia, onde a fumaça que se elevava da cidade de Jerusalém subia ao sol da manhã, ele já começara a desesperar de encontrar Buck. Se o amigo estivesse bem, não teria pedido emprestado um celular para dar notícias? A última informação de Chang era que Buck havia contado a Rayford sobre a morte de Tsion na Cidade Velha.

            Embora os exércitos colossais do mundo - agora reunidos no Exército Unidade Mundial da Comunidade de Carpathia - se estendessem em multimilhões desde o norte de Jerusalém até Edom, ficava porém claro, olhando do ar, que a maior ofensiva do momento se concentrava na Cidade Velha.

            Mac procurou um lugar de pouso. Ele tinha de parecer um oficial da CG a serviço e ir a pé até a Cidade Velha como se soubesse o que estava fazendo. Na verdade, não tinha sequer idéia. A Cidade Velha só tinha 2,5 km2.

            Se encon­trasse Buck vivo, o que devia fazer? Prendê-lo e levá-lo à força ao helicóptero? Descobrir Buck morto ou vivo, decidiu Mac, seria como descobrir um pedaço de terra seca nos pân­tanos da Louisiana.

            O celular de Mac tocou e ele viu que era Chang.

            - Dê-me boas notícias.

            - Quais, por exemplo?

            - Tal como o telefone morto de Buck começando a tocar repentinamente para mostrar a sua posição.

            - Não consigo fazer isso. Mas tenho algo. Carpathia ficou furioso com a destruição de Nova Babilônia e está sendo pressionado por todo o mundo.

            - Pressionado?

            - Todos que dependiam de Nova Babilônia estão lamen­tando a perda. Venho recebendo relatos pela TV de toda parte onde os líderes, diplomatas, empresários (todos em que possa pensar), estão literalmente chorando, lançando acusações sobre o que aconteceu em Nova Babilônia e seus próprios interesses. Alguns estão cometendo suicídio na frente da câmera.

            - Não acredito que a CG esteja colocando essa matéria no ar.

            - Não, eles não, mas o seu criado aqui ainda tem seus métodos.

            - Parabéns, Chang, mas como isso me ajuda a encontrar Buck?

            - O senhor não vai encontrá-lo, McCullum.

            - O quê? Tem certeza disso?

            - Estou apenas afirmando o óbvio.

            - Você, homem de pequena fé.

            - Sinto muito. Calculei que desde que está aí em segredo, poderia querer saber onde está Carpathia.

            - Não me importa onde ele esteja, vim aqui para achar Buck.

            - Tudo bem, então.

            - Mas, apenas para rir, onde ele está? A última notícia que tive foi que se achava num alto-falante do lado de fora da Porta de Herodes. Foi para lá do seu bunker perto do Mar da Galiléia. A não ser que estivessem apenas transmitindo a sua voz.

            - Não, era ele mesmo. Mudou todo o seu comando para a Cidade Velha.

            - Impossível, estou olhando para ela neste momento e o lugar está formigando de...

            - Pensei isso também até que soube onde era. Subterrâneo.

            - Está querendo dizer...

            - Os Estábulos de Salomão.

            - Como posso chegar lá?

            - Siga alguém. Carpathia tem um regimento inteiro ali e coloquei o seu nome na lista.

            - Isso talvez fosse imprudente, Chang.

            - Por quê?

            - E se eu resolvesse não ir, descobrissem minha ausência e alguém me visse em outro lugar?

            - Essa possibilidade existe mesmo. Diga a eles que está a caminho.

            - E se não estiver? Quero dizer, eu gostaria de ser seus olhos e ouvidos aqui, Chang, mas a minha prioridade é Buck. O que quer que saibamos sobre Carpathia agora não vai adiantar praticamente nada. O que tiver de acontecer, acontecerá. Você pode me tirar dessa lista?

            - Não sem parecer suspeito. Sinto muito, Sr. McCullum. Pensei que estava agindo certo.

            - Não se preocupe. Nada disso terá importância amanhã, não é?

            Mac viu a CG em atividade e outros helicópteros descendo nas Tumbas dos Profetas, ao sul do monte das Oliveiras, a leste da Cidade Velha. Caravanas de jipes rece­biam rapidamente o pessoal que saía e os levava direto para o conflito.

            No momento em que Mac deixou seu aparelho, às 14h45m, um militar que dirigia o trânsito indicou-lhe um veí­culo blindado de transporte de pessoal. Mac fez continência e encaminhou-se para ele, juntando-se a uma dúzia de outros soldados de uniforme igual ao seu. Os homens simples­mente acenaram uns para os outros, taciturnos, e seguiram viagem em completo silêncio.

            O grupo seguiu na direção norte pela estrada de Jericó e virou em sentido oeste na frente do Museu Rockfeller, indo para a estrada Suleimon.

            - Vamos para a Porta de Herodes? - alguém perguntou.

            - Está aberta? - outro disse.

            - Porta de Damasco, - anunciou o motorista.

            Ao passarem pela Porta de Herodes, Mac juntou-se aos demais que olhavam pela janela do lado sul do veículo. De alguma forma, a resistência continuava a defender a porta.

            - Quem estiver a serviço do potentado - disse o motorista - siga-me até a entrada dos estábulos. Os outros vão para a área da Igreja da Flagelação. Quando tivermos pessoal sufi­ciente, atacaremos os rebeldes por trás e os expulsaremos da Porta de Herodes.

            Mac sentia-se cheio de orgulho pelo que Tsion e Buck haviam aparentemente realizado antes que o rabino fosse morto. Se tivessem estado na Porta de Herodes, eram respon­sáveis por ajudarem a defender essa posição apesar das incríveis desvantagens. E nenhum dos dois tinha treinamento de combate.

            Mac supôs que Buck concordaria com a idéia de Tsion não desejar que seu corpo fosse removido da Cidade Velha. Só esperava que Buck tivesse encontrado um lugar conveni­ente para o rabino. Os corpos que caíam numa batalha ativa costumavam ser pisoteados, ficando completamente irre­conhecíveis. Isso também não importaria amanhã, mas Mac sabia que ele e Buck estariam na mesma página.

            Mac sentiu-se lutando contra a angústia. Buck não os deixaria preocupados por tanto tempo. Ele certamente teria encontrado um meio de entrar em contato se estivesse vivo.

            Quando o veículo parou e o motorista deu a ordem, Mac e os soldados saíram e seguiram as instruções recebidas. Mac diminuiu os passos, distanciando-se do grupo e telefonou para Chang, dizendo baixinho: - Alguma notícia?

            - Nada.

            - Não vou ter sucesso, não é?

            - O que gostaria de ouvir, senhor?

            - Você sabe.

            - Já não consigo fingir, Sr. McCullum.

            - Aprecio isso. Eu talvez deva apenas seguir para a minha designação.

            - Para o complexo?

            - É. Sei que deveria ter minha cabeça examinada, mas gostaria de estar com o velho Nick quando Jesus chegar.

 

            Chang sentiu os dedos fortes de Naomi em cada lado do seu pescoço.

            - Você está tenso - disse ela.

            - Você não está?

            - Relaxe, amor. O Messias está vindo. Chang não conseguia afastar-se das telas.

            - Não gostaria de perder mais ninguém antes disso. Por mais que queira me convencer de que ficarão mortos só por pouco tempo, tudo parece tão sem sentido agora. Não quero que ninguém fique ferido, menos ainda que sofra e depois morra. A ida do Sr. McCullum foi idéia minha.

            - Mas ele com certeza aprovou imediatamente, não foi?

            - Eu sabia que sua reação seria essa. Gostaria de ter ido.

            - Você sabe que este lugar não funciona sem sua...

            - Não comece, Naomi.

            - Você sabe que é verdade.

            - A verdade é que o enviei para minha própria gratifica­ção, como um substituto meu. Ele não vai encontrar Buck e se encontrar, Buck estará morto. O que Mac fará então, depois? Se for descoberto, será história. E para quê? Poderia estar aqui esperando a volta com todos os demais.           

            Naomi puxou uma cadeira para perto de Chang e sentou-se.

            - O que você soube do Sr. Smith? Chang suspirou.

            - Isso também acabou sendo uma perda de tempo e de energia humana. Ou o capitão Steele foi eliminado por um míssil ou acabou enterrado na areia.

            - Poderia ter-se arrastado para um lugar seguro?

            - Não há segurança nesse sol, Naomi.

            - É isso que quero dizer. Quem sabe ele encontrou abrigo ou construiu algum refúgio contra o calor.

            Chang encolheu os ombros.

            - Pensar o melhor é a idéia, imagino. Mas, ele não pen­saria em deixar algum sinal para nós?

            - É possível que estivesse muito machucado, ou simples­mente não tinha recursos.

            - Poderia arranjar gravetos ou pedras, até um pedaço de tecido.

            - Se tivesse condições - disse Naomi.

            A campainha do telefone de Chang fez os dois pularem.

            - Sim, Sr. Smith?

            - Estou na pista dele. Pelo menos se movimentou por algum tempo.

            - O que encontrou?

            - Sangue, infelizmente.

 

            Mac nunca vira os muros antigos de Jerusalém em tal estado. Enquanto a Porta de Herodes (que alguns ainda chamavam de Porta das Flores) continuava de alguma forma sendo defendida pela resistência, pedaços dos dois lados dos muros haviam sido destruídos pelas explosões, sendo redu­zidos de sua altura normal de 18 metros para metade disso. Seria uma questão de tempo antes que o Exército da Unidade Mundial entrasse.

            Agora, entretanto, as forças invasoras pareciam estar concentradas em outra parte. Mac queria ser o último da fila quando a unidade em que estava passasse pela Porta de Damasco. Desse modo, ele poderia afastar-se a qualquer momento. Encontraria de algum modo a entrada para os estábulos subterrâneos, mas não antes de ter pelo menos ten­tado localizar Buck.

            Mac, já com mais de 60 anos, se mantinha em forma com uma corrida diária. Embora o uniforme tomado de emprés­timo parecesse feito sob medida para ele, as botas com certeza iam provocar bolhas. Enquanto se apressava, invi­sível num mar de saqueadores, pensou na ironia de levar um tiro dos franco-atiradores que não sabiam que ele estava do seu lado no conflito.

            Mac vira suficiente carnificina em sete anos para durar uma eternidade, mas nada poderia tê-lo endurecido contra as imagens que surgiam enquanto sua pequena unidade se encaminhava a passos curtos para a Cidade Velha. As estrei­tas ruas de pedras redondas que serpenteavam através dos mercados e casas abarrotadas estavam tão cheias de corpos mortos e mutilados que ele tinha de tomar cuidado para não pisar neles. Seus olhos se moviam rapidamente por todo lado, procurando Buck, orando para que ele ainda não fosse uma das baixas.

            As narinas de Mac foram assaltadas pelo cheiro de fumaça, suor, pólvora, carne queimada, estéreo e o odor doce e enjoativo dos carros de frutas e vegetais tombados nas ruas. Ele estremeceu ao ouvir dois tiros rápidos até que viu que partiram de um comandante do Exército da Unidade, aliviando um cavalo e uma mula de sua triste condição.

            Um alto-falante anunciou que as forças da Unidade haviam ocupado o bairro armênio ao sul, o bairro cristão a oeste, e grande parte do bairro judeu do lado de fora do monte do Templo. Os insurgentes ainda resistiam no monte do Templo a sudeste, e no bairro muçulmano a nordeste, desde a Porta de Herodes até o leste da Igreja da Flagelação. Mac ficou imaginando como Carpathia e seu pessoal tinham acesso aos estábulos de Salomão por baixo do monte do Templo.

            Ele orou para que Buck estivesse em algum lugar no bairro muçulmano ou no monte do Templo, sabendo que se o encontrasse em outra parte, estaria provavelmente morto.

            Se apenas ele pudesse "prender" Buck e convencê-lo a deixar-se arrastar para fora da Cidade Velha.

            Soldados de infantaria do Exército da Unidade enchiam a área leste da Igreja da Flagelação, evitando o outro lado, que estava sendo alvejado pelos rebeldes. Um comandante da CG gritou que os que estavam reunidos deviam ficar pron­tos para invadir os Tanques de Betesda, depois da próxima descarga da artilharia.

            - Os rebeldes aparentemente construíram ali um santuário provisório para um rabino morto. Vai ser fácil de encontrar. O corpo está escondido, mas eles o cercaram com pessoas e tabuletas de papelão pedindo que ninguém profane o seu lugar de repouso. Estamos a menos de cinco minutos do lan­çamento de um morteiro que irá destruir todo o local. Vamos bombardear o enclave de modo a não haver possibilidade de escaparem pela Porta do Leão a leste. Os sobreviventes serão empurrados para o norte, na direção da Porta de Herodes, e estaremos bem atrás deles. A porta que defenderam tão feroz­mente desde ontem vai agora se abrir por si mesma.

            O comandante deu ordens a várias tropas e pelotões, alguns para seguirem o bombardeio dos tanques e outros para atacarem os rebeldes em fuga enquanto corriam para a Porta de Herodes.

            Mac ficou quebrando a cabeça. Não havia mais escapatória. Estava completamente envolvido. Embora não fosse atirar contra os inimigos do Exército da Unidade, não poderia também se arriscar a ser visto atirando contra as forças da CG. Eram com certeza os restos de Tsion que os rebeldes procuravam insensatamente proteger e ele podia imaginar Buck participando disso. Buck teria tentado sepul­tar o corpo, mas compreenderia a futilidade e falta de bom senso em permanecer para guardá-lo.

            Haveria possibilidade de orar em meio àquele caos para que Mac pudesse levantar o visor e ser identificado como crente até por um dos rebeldes? Nem todos eram crentes, é claro. Ele podia ser visto por um e alvejado por outro. O que estava fazendo ali? Suas chances eram infinitamente meno­res do que sonhara e pioravam a cada segundo.

            - Vem, Senhor Jesus.

 

            Chang havia transmitido a apresentação de S.M. Lockridge para o mundo inteiro, tendo entrado no centro de trans­missões da Comunidade Global. A CG estava melhorando suas táticas para impedir essas invasões, mas o sermão fora suficientemente curto a ponto de ter terminado quando eles reagiram. Chang acompanhou também a reação à mensagem pelo povo reunido em Petra.

            Naomi disse:

            - Está na hora de sair à luz do sol para ver por si mesmo.

            - Estou praticamente encerrado aqui - respondeu ele.

            - Você não pode fazer mais nada agora, - replicou ela.

            - Não pretende estar aqui dentro quando Jesus chegar, não é? Ele olhou para o relógio.

            - Se os anciãos estiverem certos, temos mais algum tempo. Pode acreditar, estarei lá fora antes das quatro. Vou dizer-lhe o que é mais estranho em tudo isto: os relatórios de todo o globo que Carpathia não permite que sejam transmiti­dos.

            - Todo mundo se lamentando com a destruição de Babilônia?

            - Isso mesmo. Eles não sabem o que vai acontecer e não podem pensar em nada pior a esta altura.

            - Mas, olhe - disse ela, apontando para a tela que moni­torava a multidão em Petra. - Centenas, talvez milhares, estão se ajoelhando. Vamos ver se precisam de conselheiros ou...

            - Num minuto. Quero mostrar-lhe alguns destes... olhe.

            Pelo reflexo da tela, Chang a viu sair. As prioridades dela estavam certas, ele sabia, e levantou-se para segui-la. Em breve percebeu quando tempo ficara sentado num só lugar. Sentia dores dos pés à cabeça e esticou-se enquanto continuava a observar as telas.

            - Preciso falar com o Sr. Smith - gritou.

            - Ele sabe o seu telefone - Naomi respondeu.

            - Saio num minuto.

            - Não vou esperar.

            - Encontro você.

            - Espero que sim.

 

            Os lamentos dos poderosos se faziam ouvir em Nova York, Bruxelas, Londres, Buenos Aires, Golfo Pérsico, Tóquio, Beijing, Toronto, Moscou, Johanesburgo, Nova Délhi, Sidney, Paris e outras metrópoles.

            Ao darem início aos comentários que haviam preparado a respeito da dificul­dade de serem subitamente arrancados de Nova Babilônia, de perder contato pela internet com as fontes do comércio e liderança, cada um, fosse homem ou mulher, começou a chorar. Os ombros sacudiam, os lábios tremiam, as vozes ficavam embargadas. De todos os lados, chegavam imagens vividas dos gigantes do comércio se dissolvendo em soluços.

            - Tudo está perdido! - a mulher encarregada da Bolsa de Tóquio gemeu. - Se tivéssemos podido retomar nossas conexões em 14 horas, poderia ainda haver uma recupera­ção, mas toda a nossa economia está ligada à Nova Babilônia e ver as imagens da cidade completamente destruída, com a fumaça subindo pelo ar, foi apenas, apenas... indescritível!

            E ela desmoronou. Momentos depois, veio a notícia de que a mulher se suicidara, assim como muitos do gabinete do subpotentado daquele país.

            Um capitão da indústria européia anunciou que tinha milhares de navios no mar que estariam virtualmente mortos na água antes do próximo nascer do sol.

            Oficiais do Exército da Unidade dos Estados Unidos Norte-Americanos pediram demissão em massa - sabendo que enfrentariam a corte marcial e execução - por terem perdido todos os seus recursos e não conseguirem enviar reforços para Armagedom.

            - Esperem também até que os milhões de tropas já reuni­das lá saibam que não serão mais enviados alimentos, menos ainda qualquer salário...

            Enquanto incontáveis relatórios inundavam a sede de radiodifusão da CG, algum oficial oportunista continuava mandando as notícias para Carpathia e perguntando o que podia ser feito.

            Chang interceptou todas essas interações e divertiu-se com a raiva evidente de Carpathia.

            - Não me faça dizer isto outra vez - berrou ele. - Relatórios desse tipo não devem tornar-se públicos. Não devo ser mencionado exceto para dizer que esta perda apa­rentemente devastadora será corrigida pela nossa vitória no vale de Jezreel, em Edom, e especialmente em Jerusalém, onde estabelecerei o meu reino eterno como o único deus verdadeiro. As perdas financeiras e comerciais temporárias serão esquecidas uma vez que eu tenha introduzido a suprema Nova Ordem Mundial. Não haverá depois disso qualquer oposição por parte de homem ou espírito e este planeta se tornará um paraíso de fartura para todos.

            Chang apressou-se e se juntou a Naomi.

            - Algumas vezes penso que estou esperando o fim de tudo, só para conseguir um pouco de descanso.

            Naomi riu e imitou-o.

            - Que bom vê-lo, senhor. Posso voltar depois de uma soneca?

 

            - Vão agora, agora, agora! - o comandante do Exército da Unidade esbravejou, expulsando Mac e as outras tropas e seus pelotões da Igreja da Flagelação. - Vocês vão ficar expostos pouco tempo. Os morteiros serão lançados atrás de vocês e quando os rebeldes fizerem pontaria, serão atingidos. Vão! Vão! Vão!

            As tropas, a maioria com a metade da idade de Mac ou ainda mais jovem, estavam de olhos arregalados e com uma expressão de pânico, mas pareciam obter força e coragem uns dos outros.     

            Mac manobrou outra vez para ficar no fim do grupo enquanto corriam para os Tanques de Betesda.

            - Dez segundos! - veio a voz do alto-falante atrás deles, mas foi tarde demais.

            Os que corriam na frente, claramente aterroriza­dos por estarem ao alcance do fogo da resistência, diminuíram o passo e muitos pararam, agachando-se e fazendo pontaria.

            Isso levou os que estavam atrás a atropelá-los e muitos foram pisoteados. Mac ouviu blasfêmias e gritos pouco antes dos rebeldes abrirem fogo. As forças da unidade revidaram rapidamente, mas cada segundo sem o apoio dos tiros de morteiro os tornava mais vulneráveis.     Mac tinha a impressão de que os homens estavam prestes a voltar-se furiosos e atirarem em seus próprios superiores.

            Os morteiros foram então lançados. Em vista de tantos à frente de Mac terem caído, ele tinha uma visão clara dos surrados rebeldes, suas faces refletindo o terror de ver os morteiros encaminhando-se diretamente para as suas posições. Eles se encontravam ombro a ombro, sem uniforme, pálidos e desfigurados por terem sobrevivido mais do que a maioria dos seus companheiros tinha suportado.

            Haviam orgulhosamente defendido o seu território e desafiado a CG a vencê-los e apossar-se do seu santuário, mas num instante tudo teria terminado.

            Todos podiam ver isso chegando, acontecendo, e Mac lia tal coisa em seus olhos. Ninguém se mexeu. Não haveria fuga. Muitos aparentemente decidiram morrer lutando. Agar­raram com força suas Uzis, disparando sem parar mesmo quando o primeiro morteiro os atingiu e fez dezenas deles voarem em pedaços.

            O seguinte veio um segundo mais tarde e o lugar se tornou uma cratera, com centenas de mortos ou moribun­dos e três vezes o número deles correndo para a porta mais próxima. Como planejado, os que optaram pela Porta do Leão a leste foram rapidamente mortos ou enviados de volta a galope por outra rodada de morteiros.

            Agora, como pre­visto, as forças da resistência que restaram estavam fugindo para poupar a vida na direção da Porta de Herodes. Os remanescentes dos que guardavam a porta tinham ouvido as explosões e visto o banho de sangue, compreendendo claramente que seus compatriotas não tinham para onde ir, além de voltar às suas posições. Com os invasores nos calcanhares, o portão tinha de ser aberto ou todos seriam encostados ao muro e aniquilados.

            De sua posição vantajosa, Mac podia ver claramente o que esperava os rebeldes fugitivos do lado de fora da porta. Enquanto ele e os outros haviam entrado pela Porta de Damasco, o pessoal da Unidade se infiltrara às escondidas no lugar com o que pareciam ser metralhadoras Gatling colossais sobre carretas de munições. Segundo a aparência dos canos, Mac imaginou que as armas podiam acomodar balas.50.

            Os que estavam na dianteira do Exército da Unidade que avançava atiravam agora contra os rebeldes pelas costas e quantos maior o número dos que caíam, mais eles atiravam nos outros.

            Mac relanceou os olhos para trás. Era um dos últimos.

            - Senhor, perdoe-me, - sussurrou, girando a Uzi e fazendo cair pelo menos uma dúzia de CG pelas costas. Não sentiu remorso. Tudo é justo... Era apropriado, pensou, que o grupo do diabo estivesse todo vestido de preto. Viva pela espada, morra pela espada.

            O pessoal da Unidade na frente dele se dividiu como o Mar Vermelho quando seus companheiros fora dos muros abriram fogo com as grandes metralhadoras. Mac procurou também abrigo, observando horrorizado enquanto dúzias de rebeldes eram abatidos.

            Tudo pareceu acabar tão depressa como havia começado. Elementos da CG passeavam entre os corpos, atirando nos que pareciam estar ainda se movendo. Outros se espalharam e puseram a apossar-se de armas e quaisquer lembranças que encontrassem entre os corpos despedaçados. Esta era a chance de Mac.

            Ele começou a fingir que estava fazendo o mesmo que os homens da CG, mas teve mais cuidado. Usou sua arma ou sua bota para virar apenas os mortos ou agonizantes que tinham a estatura aproximada de Buck. Mac pegou ocasionalmente uma arma e saqueou um bolso ou dois, só para o caso de alguém estar olhando. Ele na verdade não queria mais encontrar Buck, a não ser que permanecesse ainda vivo no monte do Templo. Pelo que podia ver, não havia rebeldes sobreviventes no bairro muçulmano.

 

            Aquela era a batalha mais estranha em que George Sebastian tomara parte. Quase não se podia chamá-la de batalha. Eram só ele e seu grupo desorganizado de crentes sinceros, fervorosos, vigiando o perímetro de Petra com um punhado de armas bastante sofisticadas - algumas armas de energia direcionada que queimavam a pele dos soldados e cavalos a longa distância, e uns poucos rifles .50, de longo alcance - contra o maior exército da história da humanidade.

            O Exército da Unidade Mundial Um da Comunidade Global, liderado pelo próprio anticristo, enchia o horizonte, mesmo quando George recuou para as encostas e olhou através de seus potentes binóculos alimentados por energia solar.

            Centenas de milhares de tropas vestidas de negro, a cavalo, pareciam ondular sob os vapores tremulantes do deserto, os animais mordendo o freio e empinando, pare­cendo prontos a levar seus cavaleiros para um ataque contra os defensores em número desesperadamente menor.

            Sebastian, no entanto, quase não sentia medo. Ele não podia negar uma certa trepidação, observando os tanques e os veículos blindados, os soldados de infantaria, os com­batentes, os bombardeiros e os helicópteros que apoiavam a cavalaria até onde o olhar alcançava.    Não era exagero chamar o inimigo de mar de humanidade, e ele não podia lembrar de uma multidão tão maciça ter-se reunido em um único lugar antes. Vira em algumas ocasiões mais de um milhão de pessoas reunidas em Petra; mas, apesar de impres­sionante, aquele espetáculo não era nada comparado a este.

            As rajadas ocasionais das DEWs e Fifties de Sebastian haviam sido um estorvo para as forças da Unidade. Ele chegara até a causar várias dezenas de baixas, o que fez os estranhos ajudantes de Zuckermandel saírem correndo para buscar mais armas, IDs e uniformes completos. A proteção sobrenatural de Petra parecia continuar, mesmo fora dela. Sebastian não perdera uma tropa sequer.

            Todavia, ele sabia muito bem que se aquele grande exér­cito simplesmente avançasse sobre a sua posição, mesmo sem trocar um só tiro, sua inteira reserva de munição não provocaria uma única brecha nas forças alinhadas contra ele. O inimigo começara avançando muito devagar e não estava atirando nem lançando projéteis de qualquer tipo, o simples tamanho dessa força dirigindo-se para ele fazia tremer a terra e vacilar os passos.

            É claro que se preocupava com Rayford. Ele vira o homem sendo protegido como o resto deles, mísseis orientados por calor que pareciam voar diretamente através do avião sem tocar num só cabelo da cabeça de alguém. O que poderia tê-lo ferido agora e por quê?

            Alguns haviam especulado que as peças de seu veículo encontradas nas colinas poderiam ter evidenciado danos produzidos por uma bomba incendiaria. O último relatório de Abdullah Smith, porém, dizia que o estrago fora talvez resultante de perda de controle do veículo, que rolara e despencara, ficando em pedaços.

            E a trilha de sangue que só poderia ter sido de Rayford? Sebastian de modo algum queria duvidar de Deus, mas tinha de refletir. Teria um míssil que Deus fizera desviar-se de Rayford, ter ainda assim causado um acidente que o ferira mortalmente? De quem era a culpa disso? De Rayford? Do inimigo?

            Como é claro, a questão maior agora era qual seria o resultado daquele avanço dos invasores. Sebastian acredi­tava de todo coração que Petra era inexpugnável. O que ele estava então fazendo ali fora com seu grupo de rebeldes?

            Supostamente dando aos atrasados uma oportunidade para beneficiar-se da segurança do lugar. Antes de caírem sob a influência salvadora da cidade de pedra, Sebastian tentaria ao máximo preparar o caminho para eles. Todavia, nenhum viera e ele não viu ninguém a caminho.

            Com certeza em questão de horas - alguns diziam minu­tos - tudo perderia a razão de ser. Cristo ia surgir, venceria a batalha e Rayford, Buck e até Tsion - mortos, vivos, ou em estado intermediário - voltariam a reunir-se.

            Apesar disso, Sebastian não conseguia tirar Rayford da cabeça. Ele fora trei­nado para não deixar um companheiro no campo de batalha. Não fazia sentido Abdullah ter encontrado o rastro de sangue de um homem gravemente ferido e, portanto, movendo-se devagar, e, todavia, não conseguir encontrá-lo.

            Quanto ao que Sebastian havia descoberto, nenhum pes­soal do inimigo estava perseguindo Rayford. Ele não pode­ria ter sido capturado. Caso pior, mas mais provável: Ray cavara um abrigo contra o sol e morrera ali. Isso fazia dife­rença, desde que iria estar com Cristo - como o resto deles - quando tudo acabasse? É claro que fazia. Não se abandona um homem.

            Há quanto tempo ele contatara Abdullah? Olhou para o relógio. Há bem pouco tempo. Abdullah dissera que o faria saber na primeira oportunidade. Sebastian, porém, tinha de fazer algo, exceto ir em pessoa às colinas - claramente uma impossibilidade. Ele ligou para Chang.

            - Não, não soube nada até agora - informou o jovem.         

            - Gostaria muito que você estivesse aqui. Milhares estão aceitando Cristo em Petra.

            Isso era maravilhoso, mas Sebastian não conseguia exter­nar-se a respeito. Na verdade, sentia certo ressentimento e até repulsa por aqueles que haviam demorado tanto. Onde estavam quando todos os juízos foram enviados? Todos os milagres? Nenhum indivíduo sensato podia negar que durante os últimos sete anos, Deus e Satanás haviam estado em guerra.

            Essas pessoas estariam realmente hesitantes sobre o lado ao qual desejavam juntar-se? Qualquer dúvida sobre a realidade de Deus, sua misericórdia e seu juízo havia sido há muito apagada.

            - Está chegando uma ligação - disse Chang.

            - Para mim também - avisou Sebastian. - Falamos mais tarde.

            - Big Dog One, aqui Camel Jockey.

            - Fale, Abdullah - respondeu Sebastian.

            - Techie, você também está aí?

            - Estou - disse Chang.

            - Localizei o capitão Steele.

 

            Enoque Dumas acordou logo após as 7h30. Seu colchão mofado, no porão de uma casa abandonada em Palos Hills, Illinois, estava quente onde dormira e frio nas outras partes. Não dormira muito tempo. Passara a noite toda dizendo a si mesmo que hoje era o dia.

            Não conseguia imaginar dormir depois das quatro horas da manhã, mas na verdade fora nessa hora que realmente caíra no sono. Oito da manhã, tempo da Central, marcava o horário em que sete anos antes fora assinada a aliança entre o anticristo e Israel, um acordo quebrado anos antes, mas assinalando os anos que antecede­riam ao Glorioso Aparecimento de Cristo.

            O Lugar, sua pequena igreja de 30 ou mais membros pobres do centro de Chicago, havia estranhamente flores­cido desde que foram espalhados para os subúrbios por causa da difícil situação da casa do Comando Tribulação que lhes oferecia segurança. Não tinham mais um lugar central de reunião.

            Embora sabendo que não deviam con­fiar nos recém-chegados, cada vez que se reuniam mais pessoas eram acrescentadas à igreja. Por reconhecerem o selo do crente na testa dos recém-vindos, Enoque sabia que não tinham sido infiltrados. O total era agora de quase cem membros.

            Embora alguns tivessem sido martirizados, uma surpreendente maioria não fora descoberta e capturada, apesar de se ocuparem todos os dias na busca de novos convertidos -"colocando mais afogados no bote salva-vidas", como Enoque o chamava.

            Ele às vezes pedia cautela aos novos crentes fervorosos e os advertia de que o inimigo estava constantemente alerta, pronto para devorá-los, transformando-os em estatísticas.

            Todavia, era com freqüência lembrado, no geral por alguém do seu próprio rebanho, de que não havia agora outra opção além de serem transparentes em seu testemunho.

            Seus períodos favoritos eram aqueles em que o salão era aberto e as pessoas que arriscavam suas vidas pelo fato de estarem reunidas, manifestavam a alegria do céu ao falar. Ele não conseguia, nem desejava, apagar de sua mente o testemunho de Carmela, uma corpulenta mulher latina, com cerca de 50 anos. Num parque abandonado, a 14 km a oeste da casa de Enoque, ela contara sua história, com lágrimas correndo por suas faces bondosas.

            - Eu era cega, mas agora vejo, é a única maneira como posso explicar isto - disse ela. - Era cega em relação a Deus, a Jesus, vendendo meu corpo para comprar drogas e comida. Deixei tudo e todos que haviam sido importantes para mim. Antes que percebesse, só me importava comigo mesma e com minha próxima dose. Tudo se resumia à sobrevivência, matar ou ser morto, fazer o que se tem de fazer.

            - Um dia, porém, um de vocês veio ver-me. Foi ela, bem ali. - Carmela apontara para uma mulher mais velha, uma afro-americana chamada Shaniqua. - Ela me deu uma das brochuras sobre as reuniões e disse: Alguém ama você.

            - Pensei: Alguém me ama? Diga-me alguma coisa que eu não saiba! Homens tentando me amar todos os dias. Eu sabia melhor. Ninguém me amava. De fato, eles me odia­vam. Usavam-me. Eu não significava mais para eles do que a sua próxima refeição ou sua próxima dose. O mesmo que significavam para mim. Ninguém me amou desde minha mãe, e ela morreu quando eu era pequena.

            - Eu sabia que o folheto devia ser sobre religião, mas o fato de ela dizer que alguém me amava e sua coragem de me dar o folheto quando sabia que era ilegal... essa foi a única coisa que me impediu de jogá-lo fora ou de amal­diçoá-la.

            - Eu o li naquela noite, e fiquei contente por haver ver­sículos bíblicos nele, porque não via uma Bíblia havia anos. O que me prendeu foi o fato de não ser complicado, mas fácil de entender. Dizia apenas que Deus me amava, Jesus morrera por mim, e Jesus estava voltando. Todas aquelas passagens das Escrituras pareceram verdadeiras para mim, sobre ser uma pecadora, separada de Deus e Jesus sendo o caminho de volta para Ele.

            - Antes de muito tempo, aquela era a única coisa que eu queria. Não sabia como seria a minha vida, como ia comer, nem nada. Mas sabia que queria Jesus. Da próxima vez em que vi Shaniqua, quase a ataquei, não foi, querida? Disse a ela que tinha de ensinar-me como fazer Jesus entrar em minha vida. Ela me disse que era simples. Tudo que precisava fazer era orar com sinceridade. Dizer a Deus que lamentava a confusão que fizera da minha vida e aceitar Jesus como meu Salvador. Não tem sido fácil; mas, sabe de uma coisa? Estou preparada para a volta de Jesus.

            Os crentes queriam estar juntos às oito horas naquela manhã e haviam escolhido o estacionamento de um antigo shopping center. Enoque avisara que uma reunião daquele tamanho à luz do dia poderia atrair a CG, e eles estariam procurando as marcas da lealdade.

            - Deixe que eles nos examinem quando Jesus aparecer - disse alguém e todos aplaudiram.

            Enquanto tomava banho e se vestia, Enoque percebeu que estava menos preocupado com a questão de interferência. A destruição de Nova Babilônia no espaço de uma hora havia abalado de tal forma a economia internacional que parecia que nada mais importava aos não-crentes. Os suicídios se multiplicavam e ele sentia um espírito anti-Carpathia entre os que eram antes leais.

            Os serviços sociais e comunitários já reduzidos pela perda da população dos últimos anos eram agora quase inexistentes. Corriam boatos de que até o pessoal de reforço da CG local ficaria incapacitado, sem combustível ou dinheiro para novas aquisições. Os salários já tinham sido congelados por dois anos e agora parecia claro para o povo que os funcionários públicos não receberiam pagamento até novas ordens.

            O setor privado - o que restava dele - achava-se também desorganizado. Os tentáculos de Carpathia haviam avançado tanto em cada área da vida e do comércio que a falência virtual do governo internacional iria certamente incapacitar todos em questão de dias.

            Enoque lera a respeito de grandes depressões e falência de bancos durante toda a história, mas nenhuma fora tão abrangente quanto esta. Assaltos, roubos, invasões - todos os atos de mau gosto que tinham sido o campo de ação do submundo - se haviam tornado agora parte da vida diária das pessoas.

            Cada um por si era a palavra de ordem e quaisquer vestígios de amabilidade, bom comportamento ou até legali­dade seriam em breve história. Enoque orou para que Jesus voltasse na hora marcada.

 

            Eram quase 16 horas, quatro da tarde em Jerusalém.

            Mac sentia-se pegajoso em seu uniforme do Exército da Unidade Mundial e teve de lutar contra a tentação de gritar sua ver­dadeira identidade e abrir fogo sem se preocupar com quem estivesse olhando. Ele podia acabar com mais algumas tropas de Carpathia, mas de que adiantava? Elas desapareceriam em breve, com toda certeza.

            A resistência, exceto por trás dos muros no monte do Templo, havia sido praticamente eliminada. As forças da Unidade se congratulavam enquanto vasculhavam entre os mortos rebeldes, recolhendo os despojos.

            Mac fingiu estar fazendo o mesmo num último esforço para encontrar Buck, embora ignorasse os olhos dos que pensavam ser seus com­patriotas. Nada iria dar-lhe maior alegria do que ver Buck em pé no monte do Templo quando chegasse o fim.

            Mac estava perto do muro meio desmoronado a oeste da Porta de Herodes quando um celular bateu no chão ao seu lado e ouviu alguém blasfemar acima dele. O aparelho pare­cia familiar, mas quando tentou pegá-lo ouviu alguém dizer:

            - Não perca tempo! Não sobrou nada!

            Mac levantou os olhos e pôde ver um jovem soldado da Unidade curvado sobre um rebelde caído.

            - Ótimas botas, e do meu tamanho. Ele deixou uma delas aqui no muro. - O soldado desamarrou a outra bota e estava arrancando-a do corpo quando ela soltou-se e escorregou das suas mãos, caindo na direção de Mac. Este a agarrou no ar e reconheceu como sendo de Buck.

            - Ei, você aí, jogue para mim, por favor! - disse o sol­dado, enquanto removia a outra bota de uma fenda onde Buck aparentemente a deixara ao lutar para livrar-se.

            Tremendo, Mac apertou os dedos ao redor da bota.

            - Que tal uma ajuda, companheiro? - disse o soldado, voltando-se brevemente para a bota que ainda estava presa.

            Mac deu um passo para obter um bom ângulo. No momento em que o jovem tirou a bota da fenda e voltou-se na direção dele, Mac lembrou de seus dias de esportista na juventude, atirando a bota em suas mãos com tanta força que o saqueador não teve tempo de reagir. A sola bateu na ponte de seu nariz e o derrubou do muro.

            Para não ter de encontrá-lo novamente face a face, Mac atravessou apressado a porta. Ele encontrou o jovem esparramado no chão, evidentemente morto. Entrou outra vez e descobriu orifícios e saliências suficientes para subir até onde Buck se achava. Queria fazer algo, fosse o que fosse, mas não conseguia pensar em nada. O que quer que fizesse, além de saquear o corpo, só iria denunciá-lo e de que isso serviria?

            Mac respirou fundo enquanto examinava os ferimentos de Buck. Ele estava deitado numa poça de sangue escuro e pegajoso que mal tivera tempo de escorrer pelo muro quando coagulara. Todo o seu lado direito fora dilacerado e ferimen­tos também desfiguravam seu quadril e pescoço.

            Um alto-falante pediu ajudantes para o potentado e Mac sabia que se não se apresentasse poderia ser identifi­cado como impostor. Enquanto se afastava com relutância de Buck, ele orou para que Rayford não tivesse o mesmo destino. Não seria justo se ninguém do Comando Tribulação original sobrevivesse para ver o Glorioso Aparecimento.

            Eram quatro horas da tarde.

 

            Apesar de seus graves ferimentos, Rayford conseguira rastejar durante vários metros até uma rocha saliente. Com a mão livre - embora machucada até ficar em carne viva - ele, de alguma forma, pudera remover terra suficiente detrás das pedras para esticar-se, fugindo do sol implacável e longe da vista de qualquer um.

            Havia esgotado toda a sua reserva de forças e teve de trocar a esperança de ser visto pelo seu próprio pessoal a fim de lutar contra a desidratação e perda de sangue o suficiente para sobreviver até o Glorioso Aparecimento. Posicionou-se cuidadosamente na sepultura rasa para que, no caso de ficar inconsciente, sua têmpora machucada permanecesse com­primida contra a mão. Cada vez que pensava ter conseguido estancar o fluxo de sangue o bastante para que deixasse de latejar, via que se enganara quando levantava a palma da mão sequer por um instante.

            Era um alívio estar fora do sol, mas o benefício da tem­peratura levemente mais baixa não durou depois da remoção da camada de terra. Dentro de meia hora a boca e a língua de Rayford estavam secas e ele sentiu os lábios inchando. Lutou contra o torpor, sabendo que a inconsciência era uma inimiga. Seus ferimentos doíam e ele se preocupou com a idéia de entrar em choque.

            O delírio veio a seguir e Rayford sonhou com pessoas enxergando o ATV e seguindo o rastro de sangue, só para encontrar seu corpo sem vida sendo bicado por urubus. Ele descobria às vezes ter voltado à consciência cantando, orando ou apenas balbuciando.

            Enquanto enrijecia e sua temperatura se elevava, começou a sentir a dor profunda de cada ferimento e orou para que Deus o levasse.

            Eu queria ver o Aparecimento deste lado do céu, mas que diferença faz? Alívio, por favor, alívio.

            Não tinha certeza, mas achava que não sangraria até morrer de qualquer ferimento além daquele da têmpora. Quando tudo parecia ter desaparecido, com exceção de seu último suspiro, Rayford considerou tirar a mão e deixar que o sangue também se fosse. Mas, não podia fazer isso.

            Perdeu rapidamente toda a noção do tempo e teve de lembrar-se de que seu relógio parecia estar em ordem, apesar de sua perda rápida da capacidade de enfocá-lo. Rayford ficou pasmo ao ver como passara pouco tempo desde que começara a cair. O sol ainda estava alto no céu.           

            Ele pensara que horas se passaram, mas foram apenas 50 minutos.

            Quando acordou gemendo, compreendeu que ador­mecera com presença de espírito suficiente para manter a têmpora tapada. Seu pescoço endurecera e sentiu que não conseguiria pôr-se em pé ou sequer rolar para uma posição em que pudesse ficar agachado, mesmo que sua vida dependesse disso. Se alguém não o encontrasse logo, sua vida dependeria de um novo movimento. Mas este não estava nas cartas.

            Horas pareciam ter decorrido e Rayford perdera as espe­ranças. Ouviu o Exército da Unidade avançando e ficou surpreso ao ver o sol ainda diretamente acima dele. Sabia que não mudaria de posição até o fim da tarde, mas não ficaria admirado se tivesse aberto os olhos ao anoitecer. Isso, porém, não estava reservado para ele.

            Ouviu a distância o ruído alto de uma possante moto, do tipo usado por Abdullah Smith. O jordaniano costumava rodar por Petra, cuidadoso em meio à multidão, e depois ia para as encostas desoladas, onde realmente deixava a máquina correr. Rayford só podia orar para que aquele som fosse Abdullah à sua procura.

            Tentou sentar-se, mas não conseguiu. Se tivesse de adivinhar, diria que Abdullah estava no ponto em que a ATV finalmente estacara. A distância entre esse local e o abrigo reduzido de Rayford era longa. Ele tentou manter-se consciente, a fim de poder gritar se o veí­culo se aproximasse, mas também sabia que o motor tinha de estar desligado para que o seu ocupante pudesse ouvi-lo.

            Rayford percebeu que a dor se espalhara para além dos lugares onde os ferimentos eram mais graves. Sua cabeça latejava. Seus olhos estavam supersensíveis à claridade e ele mal podia abri-los para olhar o relógio. Seu pescoço doía, seus ombros estavam tensos e doloridos, atiçadores quentes pareciam atravessar suas costelas.

            Sentia fome, náuseas, e alternava entre crises de calor demais e calafrios. Sentia cãi­bras nos músculos da perna e até nos dedos dos pés.

            Rayford passava agora por períodos de consciência e inconsciência, quando ouviu finalmente a moto que se aproximava lentamente. Tinha certeza de que não passava de imaginação.

            Quando o motor parou, Rayford tentou mover-se, gemer, fazer qualquer coisa para que Abdullah ou quem quer que fosse soubesse que estava ali.

            - Big Dog One, aqui Camel Jockey... E, Techie, você está aí?... Localizei o capitão Steele. Ou pelo menos penso que sim. O rastro acaba aqui e acho que não vou gostar do que me espera. Aguarde um pouco.

            A respiração de Rayford era tão leve que ele tinha certeza de que Abdullah não saberia que estava vivo. Não conseguia mover um músculo, menos ainda virar a cabeça, acenar ou sacudir um dedo.

            Ao ouvir os passos de Abdullah na areia, ele tentou abrir um olho. Nada funcionava. Abdullah estava realmente ali, ou aquilo era uma espécie de experiência de quase-morte?

            - Puxa, penso que ele se foi - disse Abdullah. - Quero dizer, está aqui, mas acho que não conseguiu.

            Rayford sentiu o dedo indicador de sua mão livre balançar, mas Abdullah não estava olhando para ele.

            - Oh! capitão Steele - disse o jordaniano enquanto rolava Rayford gentilmente de costas. Parecia tão triste que Rayford comoveu-se.

            Rayford mantinha a mão contra a têmpora, mas em vez de persuadir Abdullah de que estava vivo, isso deve tê-lo feito pensar que o rigor mortis já se instalara. E Rayford fez então a única coisa que conseguia fazer. Tirou a mão deva­gar da têmpora. O sangue já coagulara porém o suficiente, de modo a não espirrar da ferida.

            E Abdullah aparentemente não notara o movimento.

            Rayford sentiu a pressão aumentando na têmpora e quando Abdullah endireitou suas pernas, o ferimento abriu-se novamente.

            - Ora, ora! - disse Abdullah. - Homens mortos não san­gram. Você está aí, não está?

            Rayford colocou novamente a mão sobre a ferida e conseguiu murmurar:

            - Estou. Contente por vê-lo.

            - Não fale, capitão. Não quero perdê-lo antes do grande evento.

            - Pensei que este era o grande evento. Abdullah, entretanto, já estava de volta ao telefone.

            - Chang, ele está vivo. Preciso de ajuda aqui o mais depressa possível... Sim, Leah seria perfeito. Peça que traga tudo que puder carregar. Vou lançar um sinal em dez minutos.

 

            Mac acompanhou as tropas do Exército da Unidade no bairro muçulmano da Cidade Velha de Jerusalém e as seguiu até a entrada de um subterrâneo obscuro, mas muito bem guardado. Ninguém se aproximava dali sem as credenciais adequadas e Mac procurou manter a compostura enquanto duas sentinelas puseram sua fotografia ID perto de seu rosto para estudá-lo. Ele só podia esperar que as tinturas de Zeke não tivessem saído durante as escaramuças.

            Ele e os outros foram encaminhados para um caminho de terra, de pelo menos 10 metros de largura e ladeado por degraus estreitos de madeira que levavam para o interior do muro norte e ultrapassavam o monte do Templo. Continuaram a caminhar por baixo do único pedaço de Jerusalém ainda mantido pela resistência e que, como é natural, estava cercado pelo Exército da Unidade. Estariam os rebeldes ainda firmes, ou se encontravam virtualmente prisioneiros?

            Mac se preocupava com Rayford e desejou que tivesse uma oportunidade de ligar para Chang, Sebastian ou Abdullah. Ree Woo comandava um pelotão do lado oposto do contorno de Petra. Ele talvez tivesse visto Rayford, mas agora Mae tinha de. desligar seu telefone.

            A passagem para os estábulos de Salomão era tão mal iluminada que ele e os outros foram imediatamente forçados a levantar seus visores coloridos. O efeito, mesmo assim, era como entrar num teatro às escuras saindo do sol brilhante.

            Os soldados diminuíram o passo e começaram a andar com cuidado para não caírem escada abaixo. Mac agradeceu pelo fato da beirada de seu capacete descer até as sobrancelhas, impedindo que vissem que ele não tinha a marca da lealdade.

            Seu rosto e pescoço esfriaram depois que ficou longe do sol da tarde e ele sentiu-se inclinado a tirar as luvas. Ficou quase sufocado pelo cheiro desagradável de estrume e urina, que aumentou ao se aproximarem dos estábulos.

            Ao chegarem ao sudeste do monte do Templo, cerca de 12 metros abaixo do solo, avistaram os Estábulos de Salomão, uma série de colunas e arcos que haviam susten­tado antes a plataforma sudeste do pátio acima dela. Os corredores, formados por passagens cercadas de pilares, tinham pouco mais de 12 metros de largura, 54 metros de comprimento e quase 12 metros de altura. Pelo menos uma centena de homens não uniformizados parecia cuidar de mais de mil cavalos.

            O cheiro forte fez Mac voltar à sua infância e ficou imagi­nando como conseguira se acostumar a ele.

            - Atenção! - alguém gritou. - Silêncio para o seu poten­tado!

            Tudo e todos se detiveram e Mac pensou onde Nicolae poderia estar. Mac e outros uniformizados estavam com as costas comprimidas contra uma parede, em posição de aten­ção. Ele reconheceu a voz de Carpathia vinda de uma sala interior sustentada por pilares.

            - Senhores e senhoras, ficarão satisfeitos em saber que várias reformas foram realizadas no espaço de menos de três semanas. As facilidades sanitárias se equiparam às melhores, pelo menos para seres humanos, e, melhor ainda - segundo minhas instruções - elas descarregam no lendário Berço de Jesus.

            Só mesmo Carpathia para deixar Mac doente com suas primeiras palavras. Mac nunca ouvira falar do Berço de Jesus, pelo menos no contexto do monte do Templo. Outros também não tinham aparentemente ouvido, pois Leon Fortunato foi chamado para explicar.

            - Obrigado, Excelência. O Berço de Jesus pode ser aces­sado por uma escada em caracol do lado sudeste. Esta leva para uma câmara de aproximadamente 15 por 21 metros, onde no passado havia a basílica de Santa Maria e uma mes­quita. Na parede a oeste, podem ser também vistos vestígios de arte bizantina antiga.

            Caso desejem ver a câmara, não se esqueçam do seu uso corrente, que achamos mais apropriado para algo que leva o seu nome. Desejarão apertar o nariz e com certeza gostarão de voltar ao odor de simples cavalos.

            Suhail Akbar, chefe do Serviço de Segurança e Inteligên­cia de Carpathia, foi o próximo.

            - Estou acabando de chegar do monte Megido, -começou ele. - Tenho o prazer de informar que tudo e todos estão preparados para a nossa indiscutível vitória que acon­tecerá em breve. Apesar dos relatórios de discórdia devidos à destruição de Nova Babi...

            De repente um berro, quase um grito, mas Mac reconheceu claramente a voz de Carpathia. Ele blasfemou várias vezes.

            - Diga-me, Suhail! - esbravejou ele. - Diga-me que não vai violar minha ordem específica para nunca mais mencio­nar o nome de...

            - Mas, excelência, eu simplesmente queria...

            - Ousa interromper-me? Considera-se acima do castigo corporal?

            - Não, excelência, eu...

            Algo bateu na mesa.

            - Deveria mandar executá-lo neste instante! Deveria fazer isso eu mesmo!

            - Excelência, por favor! Eu estava dizendo que apesar do que ouvimos, a verdade é...

            - A verdade é que reconstruirei Nova Babilônia aqui mesmo em Jerusalém. A cidade será restaurada, com uma beleza e majestade mil vezes maior do que a primeira. Decretei que não haverá mais menção ao que aconteceu com ela.

            - Minhas humildes desculpas, potentado, eu...

            - Silêncio! Eu falei. Volte aos seus aposentos, Chefe Akbar. Seus serviços não serão mais necessários até nova ordem.

            O comandante encarregado da unidade de Mac adiantou-se rapidamente e conferenciou com um colega na entrada da sala de reuniões. Ele recuou quando seis guardas fizeram Suhail Akbar sair, pálido de susto.          

            O comandante apontou então para meia dúzia de homens uniformizados, inclusive Mac, e mandou que entrassem para substituir os que haviam saído.

 

            A lucidez de Rayford voltara um pouco depois de Abdullah ter feito com que bebesse um litro de água. Leah chegou num pequeno ATV com duas geladeiras cheias de suprimentos e jogou uma prancheta para Abdullah.

            - Quer fazer as honras, Sr.?

            - As honras?

            - Tomar notas.

            - Claro.

            Rayford a interrompeu.

            - Quais as notícias de Petra? Eles acham que Jesus está atrasado?

            - Fique quieto.

            - Vamos, Leah, preciso saber como todo mundo está reagindo.

            - Ninguém está fora de si - ela disse distraída, inventari­ando calmamente os ferimentos dele. - Chaim acalmou todo mundo.

            - Como? O que ele está dizendo?

            - Os caminhos de Deus não são os nossos. Ele segue o seu próprio calendário. Esse tipo de coisa.

            - Leah, você está gostando não está?

            - Do quê?

            - De me ter à sua mercê.

            - Não sei do que você está falando.

            - Sabe sim. Nós...

            - Sr. Smith - disse ela, - vou suturar o ferimento da cabeça. O queixo, braços, mão direita e joelhos podem esperar. A tíbia esquerda talvez esteja quebrada, mas não vou tentar nada até que tenhamos certeza. Preciso examinar o tornozelo direito e provavelmente suturá-lo também. Vai ser necessário arranjar um transporte para levá-lo de volta ao complexo, provavelmente dentro de meia hora.

            - Você está gostando disto, Leah! Tenho certeza.

            - Você está delirante.

            - Que tipo de viatura, Srta. Rose? - perguntou Abdullah.

            - Ele precisa ficar de bruços.

            Abdullah voltou ao telefone.

            - Você poderia ser um pouco mais rude comigo do que com outro paciente, só para descontar.

            Rayford estava brincando e tentando sorrir, mas Leah claramente não ia cair na armadilha.

            - Descontar em você? Qual o motivo?

            - Pela maneira como eu costumava falar com você.

            - Talvez me deva isso - replicou ela.

            - É possível, mas não estou em posição de exigir represália.

            - E eu tenho seus ferimentos em minhas mãos. Agora fique quieto e me deixe trabalhar.

           

            Mac fez o possível para não cair na risada quando viu Carpathia. Se estivesse usando um chapéu preto pareceria o Zorro. Uma camisa de colarinho com babados era a única peça branca em seu vestuário. Tudo o mais era preto, desde as botas até os joelhos, calças de couro, colete e casaco até as coxas, em forma de capa.

            Leon estava com suas roupas mais resplendentes, ber­rantes, inclusive um barrete vermelho com vários enfeites pendurados e uma túnica escarlate com gola dourada, ostentando apliques de todos os símbolos religiosos conhe­cidos, menos a cruz de Cristo e a Estrela de Davi. Um anel turquesa em seu dedo médio direito era tão largo que cobria os nós dos dedos adjacentes.

            Se apenas Deus tivesse programado o Glorioso Apareci­mento no dia das Bruxas...

            Carpathia estava na cabeceira de uma enorme mesa de madeira envernizada, ao redor da qual se assentavam-se Mac podia adivinhar pelos seus trajes nativos - os subpo­tentados de cada uma das dez regiões internacionais, seus séquitos, e os leais a Carpathia, sem o chefe Akbar, é claro. Mais de cinqüenta pessoas se reuniam ali.

            Viv Ivins, com seu jeito afetado, sentava-se seis cadeiras distante de Nicolae, à esquerda, com seu costume habitual azul-céu (e cabelo combinando). Ela parecia ainda mais pálida do que Mac se lembrava e ele julgou perceber um tremor nos dedos de Viv ao tomar notas.

            Os outros, apesar de suas posições de alta autoridade no gabinete de Carpathia e ao redor do mundo, pareciam igualmente constrangidos em sua presença. A explosão contra Suhail Akbar havia clara­mente abalado a todos.

            Mac se encontrava perto da entrada, fora um dos últi­mos a entrar e compreendeu que as seis sentinelas que ele e seu pelotão haviam substituído pertenciam a um contin­gente de outras cinqüenta, alinhadas contra a parede do grande salão. Por conhecer as exigências necessárias para poder entrar no subsolo, ele ficou imaginando contra quem estariam protegendo Carpathia. Será que ele temia seu próprio povo?

            Chang tinha voltado com Naomi para o centro tec­nológico.

            - O que vou fazer? - disse ele. - Não poderei dormir esta noite e estou acabado.

            - Você certamente não pensa que teremos de esperar mais um dia.

            - Não sei o que pensar.

            - Hoje é o dia, amor. Não há dúvida.

            - Espero que esteja certa. Estou disposto, mas sei que vou desmoronar em algum ponto. O Dr. Rosenzweig quer que o coloque na TV internacional pouco antes de escurecer. Você talvez tenha de me segurar.

            - Você vai conseguir. Sempre consegue.

 

            A parede às suas costas, feita de grandes placas de pedra, resfriou Mac através da jaqueta do seu uniforme. Ele queria desesperadamente ver as horas no relógio. Sabia que passava das quatro da tarde e acreditava que Jesus viria a qualquer segundo agora. Aquele era o último lugar em que desejava estar quando isso acontecesse, mas fazia parte do preço que pagara para encontrar Buck. Havia também a perspectiva de ver o olhar no rosto de Carpathia.

            Mac tentou parecer concentrado em sua tarefa servil - provendo segurança espetacular onde não havia necessi­dade dela - mas quando pensou no que queria estar real­mente fazendo, achou difícil manter o foco. Além de encon­trar-se em plena luz do dia na Cidade Santa quando Cristo, o Senhor, viesse, a segunda opção de Mac era abrir fogo contra Carpathia do lugar vantajoso em que estava. Estava consciente de que isso não poderia acontecer. O gesto não se adequaria a qualquer cenário profético, mas quão gratificante seria!

            Nenhum proveito resultaria dessa loucura, é claro. O homem já tinha sido assassinado uma vez e será que hoje era mesmo um homem? Os Drs. Ben-Judá e Rosenzweig haviam dito que o próprio Satanás habitava nele agora, um ser espiri­tual usando um corpo humano - não obstante morto.

            Além disso, Mac desejava simplesmente desfazer-se de um peso. A idéia de escorregar e sentar-se no chão, de colocar as mãos sob a cabeça... bem, isso era algo que só seria possível quando Jesus tomasse seu lugar de direito. Os amigos e companheiros de Mac falavam com freqüência sobre o tipo de mundo no qual em breve viveriam, mas ele guardou para si a idéia de que seu maior anseio era simples­mente descansar.

            Tinha certeza de que não era, porém, o único. Outros haviam feito insinuações. Todos se achavam tão ocupados, tão estressados, tão privados de sono, e tudo isso só pio­rara à medida que o Glorioso Aparecimento se aproximava. A idéia de viver num mundo de paz e segurança era tão atraente para Mac que ele mal ousava imaginá-la. Poder dormir sem metade de um olho ou ouvido figuradamente aberto para o perigo...seria mesmo o céu na terra.

            Estar reunido com os amigos e os entes queridos. Era quase demais pensar nessas coisas. Melhor de tudo, é claro, seria ver Jesus pessoalmente. Poderia tocá-lo, falar com Ele? Mac sentia-se tão novo como crente, tão limitado em seu conhecimento das coisas de Deus. Ele tinha a impressão de que estivera freqüentando o seminário, ensinado pelos líderes espirituais do Comando Tribulação, desde que Rayford o levara à fé. Havia, entretanto, muita coisa que desconhecia.

 

            Chang fora chamado para apresentar-se ao Dr. Rosenzweig e aos anciãos.

            - É claro que posso fazer isso, - disse ele, - mas a CG tem melhorado na questão de retomar o controle das ondas sonoras. Quanto mais curta a transmissão, mais provável que eu possa mantê-la sem interrupções.

            - Vou ser breve - afirmou Chaim.

            - E se...quero dizer, se...

            - Você está pensando no que acontecerá, esperando como eu, se o Messias chegar primeiro?

            - Ou na metade - disse Chang.

            - Olhe, eu penso que esse evento teria precedência, não acha?

            Chang sorriu enquanto os anciãos riam.

            - O rabino Rosenzweig está tentando - interferiu Eleazar Tibério - persuadir o restante da população judia, os que recu­saram a marca da besta, mas que ainda não aceitaram Jesus como Messias, a fazer exatamente isso. Ele e nós concorda­mos que essas pessoas talvez constituam um terço da popula­ção judia remanescente. Você sabe que são o povo escolhido de Deus, seus filhos desde o começo dos tempos. A Escritura inteira é a sua carta de amor para eles, seu plano para eles.

            - Compreender? - replicou Chang. - Não posso dizer que entendo, mas creio nisso.

            Chaim levantou-se.

            - Não devemos demorar. Como já disse tantas vezes, sabemos o dia - hoje - mas não sabemos a hora. Se pensás­semos o contrário, estaríamos errados, não é, Eleazar?

            O grandalhão sorriu.

            - Reconheço isso. Mas, não é também verdade que sabe­mos a seqüência de eventos, de modo que temos uma idéia do que vai seguir-se pelo que acontece primeiro?

            - É disso que estarei falando na transmissão, meus amigos.

 

            Antes de o anestésico fazer efeito em sua têmpora, Rayford lutou para não recuar diante da espetadela da agulha. Ficou surpreso ao ver que uma nova sensação de dor pudesse superar todas as outras e também se espantou com a delicadeza de Leah enquanto ela acomodava sua cabeça e garantia que a dor da picada em breve desapareceria.

            - Você está sendo muito melhor para mim do que mereço - disse ele, sabendo que devia parecer atordoado e esperando que ela compreendesse.

            - Quer parar com isso, capitão? Tenho trabalho a fazer e embora saiba que está procurando manter as coisas superfi­ciais, não quero me preocupar no caso de estar falando sério.

            Ele procurou a mão dela.

            - Espere um minuto, Leah, falo sério. Quando você veio trabalhar conosco sabe que implicamos um com o outro. Eu não estava acostumado com seu tipo de perguntas e senti-me provavelmente ameaçado por causa delas. Nunca corrigi isso, mas no que pude perceber, você nunca me cobrou.

            Ela comprimiu os lábios.

            - Não vou também fazer isso agora. Ouça, Ray, você está mais ferido do que pensa. Meu trabalho é estabilizá-lo, impe­dir que entre em choque. O fato de não ter ainda acontecido isso é um milagre. Entretanto, aparentemente precisa ouvir o que vou dizer-lhe. Falhei também por não ter clareado o ar entre nós. O fato é que com o tempo você conquistou a minha simpatia. Todos podiam ver como cuidava da gente, como era incansável, como punha tudo à frente de suas próprias necessidades.

            Rayford ficou embaraçado. Não pretendera ouvir isso, por mais agradável que fosse. Apertou, então, a mão dela.

            - Está bem, está bem. Somos novamente amigos.

            - Pense nas pessoas que vão estar no céu por sua causa - disse ela.

            - Tudo bem, então. Eu estava apenas tentando agradecer por você não ter complicado as coisas.         

            - Faça o favor de ficar quieto!

            - Obedeço, senhora.

 

            Mac notou que Viv Ivins levantou os olhos surpresa, mas depois se recuperou rapidamente. Carpathia indagara:

            - Os fotógrafos estão prontos, Sra. Ivins?

            - Sim, Excelência.      

            - Vou estar a cavalo - disse ele. - Todo o pessoal do Exército da Unidade da Comunidade Global nesta sala, além de seus superiores, também estará montado. Suas montarias vão ser arreadas enquanto falamos.

            Mac entrou em pânico. Há quanto tempo não montava? Seria como subir numa bicicleta? Será que se lembraria? Nunca cavalgara um animal do tamanho dos puros-sangues que vira nos estábulos. Todo cavalo obedecia à mão segura e confiante do cavaleiro. Ele tinha de saber que o cavaleiro estava no controle. Talvez Mac tivesse de fingir essa coragem.

            - Está olhando diretamente para mim, soldado? - pergun­tou Carpathia.

            - Não, Sr., - o jovem britânico ao lado de Mac respon­deu, com os olhos dardejando para todos os lados exceto na direção de Nicolae.

            - Estava sim! Seria melhor que admitisse e pedisse perdão.

            - Tem razão, Sr. Eu estava, lamento muito e ofereço minhas mais sinceras e abjetas desculpas.

            - Essa é a segunda vez em que se refere a mim como Sr.! Não recebeu instruções para não olhar diretamente para mim nem se referir à minha pessoa exceto como...

            - Sim, Excelência! Mil desculpas, Supremo Pot...

            - E agora ousa interromper-me?

            A voz do britânico tremeu e Mac achou que suas pernas estavam prestes a traí-lo.

            - Sinto muito - sussurrou o rapaz.

            - Não consigo ouvi-lo, soldado!

            - Lamento, Excelência. Perdoe-me.

            - Quem é seu oficial superior?

            - O Comandante Tenzin, Sr.- Excelência!

            Carpathia amaldiçoou o homem.

            - Comandante Tenzin!

            O comandante indiano adiantou-se, curvando-se.

            - Ao seu serviço, Excelência!

            - Comandante, o Sr. ensinou a seus homens quem sou?

            - Ensinei, senhor potentado.

            - A todos?

            - Sim, meu rei.

            - E sobre o privilégio de servir a deus na terra?

            - Absolutamente sim, divino.

            - Até a este homem? Seu nome, filho?

            - Ipswich, Excelência - disse ele, com lágrimas escor­rendo dos olhos.

            Mac queria matar Carpathia e temeu talvez pôr em prática essa idéia caso o potentado se aproximasse.

            - Comandante Tenzin, o que é isso em sua mão?

            - Um bastão de palha, Excelência. Estou ansioso pelo privilégio de cavalgar em sua companhia hoje.

            O bastão tinha 2,5cm de espessura e pareceu a Mac ter 1,20m de comprimento.

            - Se eu lhe dissesse que o Sr. Ipswich zombou do seu treinamento, poderia pensar num uso apropriado para o seu bastão, Comandante Tenzin?

            - Poderia, Sua Graça.

            Ipswich choramingava.

            - E me daria a honra de empregá-lo na minha presença, para meu entretenimento e educação de todos?

            Sem mais nada, Tenzin avançou empunhando o bastão. Antes que Ipswich pudesse recuar, o comandante fustigou-lhe o rosto com tamanha rapidez e força que feriu o nariz dele do lado esquerdo, rasgando os lábios, quebrando alguns dentes e cortando a pálpebra esquerda.

            Ipswich gritou, agarrando o rosto com as duas mãos e curvando-se até a cintura. Tenzin desceu o bastão sobre a parte de trás do pescoço, pouco acima da linha do cabelo, abrindo um corte que espirrou sangue no rosto e no peito de Mac. Este fez o impossível para não atacar o indiano.

            Quando o corpo de Ipswich dobrou-se para a frente, Tanzin bateu duas vezes nas costas dele em rápida sucessão e o segundo golpe rasgou as calças do uniforme. Isso o fez cair e enquanto tentava afastar-se, o comandante o seguiu, enchendo de golpes suas costas.

            Carpathia deliciou-se com a cena.

            - Quando ele não puder mais rastejar, Comandante Tanzin, acabe com a sua miséria!

            Outro soldado foi rapidamente chamado para substituir Ipswich. Pálido e trêmulo a princípio, ele tomou em instantes a posição rígida exigida.

            - Oh! - gemeu Carpathia, cruzando as mãos e olhando para o teto. - Que maneira de começar o dia! Leon...

            - Sim, meu santo?

            - Peça ao comandante Tanzin que faça uma visita ao chefe Akbar.

            - Certamente, senhor.

            - Mas, dê-lhe instruções para castigá-lo somente até o ponto de quase morte.

 

            Enoque Dumas guiou mais de cem seguidores de O Lugar pelo fundo do shopping center abandonado de Illinois. Pouco antes das oito da manhã, ele começara a ensinar, procurando transmitir ao seu pessoal e a outros interessados o que deve­ria preceder o Glorioso Aparecimento.

            Nenhuma das prelimi­nares celestiais tivera início e ele sentiu desapontamento, dúvida e medo por parte do seu pequeno grupo de crentes. Na maioria das vezes, porém, ele ficou olhando por sobre o ombro para a estrada principal.

            Embora houvesse poucos veículos de qualquer tipo em circulação, ele sabia que a CG local não fechara completa­mente as portas. Eles teriam de investigar uma assembléia daquele tamanho. A descoberta de um grupo assim, que não exibia a marca da lealdade a Carpathia, resultaria num banho de sangue.

            Não havia mais qualquer desculpa para não usar a marca, e o castigo era a execução imediata por qualquer meio. Até um civil tinha o direito de matar um insurgente. A única exigência requerida para livrar-se do crime de homicídio era arrastar a vítima a uma sede da CG local e provar que ele ou ela não exibiam marca visível, ou acenar para um Monitor de Moral que estivesse fazendo a ronda, ou a um Pacificador da CG, e fazê-lo confirmar o caso.

            De fato, havia boa recompensa para esses ofensores e os cidadãos leais ao potentado competiam entre si pelos prê­mios em dinheiro. Muitos ganhavam o sustento como vigi­lantes e alguns eram famosos pelo número impressionante de mortes atribuído a eles.

            Essa talvez fosse a razão para a geralmente corajosa congregação de Enoque estar disposta a segui-lo da luz do dia para a reclusão comparativa do outro lado do shopping vazio.

            - Se soubéssemos que Jesus chegaria antes da CG, poderíamos ficar onde estávamos. Mas eu, por exemplo, não gostaria de ter sobrevivido durante sete anos para morrer pouco antes da volta dele.

            O grupo entrou num pátio interno, onde era óbvio que todos se sentiam mais seguros. Mas tinham perguntas a fazer.

            - Quando Ele virá?

            - O que falta ainda nas profecias?

            - Você pensou que as "semanas" significavam "anos", ou o quê?

            - Será que estamos muito enganados?

            - Acho que não - disse Enoque. - Mas, não sei. Nunca fui um curioso ou teólogo. Não passo de um estudioso, igual a todos vocês. Venho lendo e estudando há alguns anos. Embora haja muitas diferenças de opinião e debates, até agora tudo, todos os elementos das profecias foram literalmente cumpridos, da maneira como se encontram escritos. Tenho de acreditar que hoje é o dia.

            - Olhem! - gritou uma mulher lá do fundo. Ela estava vendo uma TV minúscula. - Parece que alguém está contro­lando outra vez a transmissão da CG.

            Todo mundo a rodeou.

            - Aquele Miquéias - disse ela - que tomou conta das coisas em Petra, vai falar sobre o que acontece em seguida.

            Outros tiraram mini-TVs dos bolsos e bolsas.

            - Podemos ouvir, irmão Enoque? Ficará ofendido?

            - De modo algum - disse Enoque, resgatando a sua TV do bolso. - O que pode ser melhor do que isso? O Dr. Rosenzweig é o erudito dos eruditos.

            Todos juntaram suas pequeninas telas em um banco de concreto e aumentaram o som até que o volume combinado pudesse ser ouvido pelos presentes.

 

            Mac viu os olhos de Carpathia se estreitarem e temeu que alguém mais pudesse ser alvo de sua fúria. Sua atenção fora atraída para a entrada da sala.

            - O que foi? - perguntou Carpathia.

            Um subalterno respondeu:    

            - Com o perdão do potentado, mas, Excelência, o Sr. pediu para ter notícias.

            - O quê? O quê!

            - Os zelotes de Petra, os judaístas...

            - Sei quem está em Petra! O que aconteceu agora?

            - Eles conseguiram entrar novamente na televisão da CG.

            Carpathia enrubesceu e inclinou-se sobre a mesa, apoi­ando-se nas palmas das mãos. Os músculos de seu queixo retesaram-se.

            - Ligue o aparelho - disse com os dentes cerrados.

            Leon quase caiu, tentando puxar uma cadeira. Ele sentou-se pesadamente e fez pose, como se estivesse procurando debaixo do manto, e produziu um controle remoto a laser, que dirigiu para a parede atrás de Nicolae. Uma tela desceu e uma imagem tornou-se visível: Chaim Rosenzweig sen­tado num cenário simples, no interior de Petra. Tinha a Bíblia aberta à sua frente e um sorriso pastoral no rosto. Um cronômetro mostrava que começaria a falar em menos de um minuto.

            Carpathia olhou por cima do ombro para a tela e depois se voltou, batendo com os dois punhos na mesa.

            - Primeiro - gritou - confirme que Ipswich está morto! Depois, avise Tanzin que mudei de idéia sobre Akbar! Quero que ele também seja morto! Finalmente, entre em contato com a Segurança em Al Hillah. Informe-os da morte do seu chefe e diga que as próximas ordens serão dadas diretamente por mim.

            - Quero que a Segurança tome posse de nosso centro de transmissões a qualquer preço. Quero a gerência morta com tiros nos dois olhos, um administrador de cada vez, a partir do alto da cadeia de comando, um a cada 60 segundos, até que alguém retome o controle da transmissão. Compreen­dido?

            Ninguém se moveu ou falou.

            - Compreendido?

            - Sim, Excelência! - Leon disse, pegando o telefone.

            - Estou aqui - exclamou Viv Ivins, com o aparelho já no ouvido.

            - Será que ninguém entende? Ninguém reconhece este homem? Foi ele que me assassinou! Enquanto eu ressuscitei dos mortos e passei a reinar como seu senhor vivo, ele per­manece um espinho em meu caminho. Chega! Não depois de hoje! Um terço de todo o nosso exército irá invadir Petra esta noite e ele será o meu alvo pessoal!

 

            Com a hidratação iniciada por Leah, Rayford sentiu final­mente que talvez pudesse viver. Ele ainda tinha a impressão de ter sido atropelado por um tanque e que não poderia andar ou sair sozinho daquela encosta desolada. Suas facul­dades mentais estavam, porém, voltando e ele passou a crer que Leah e Abdullah poderiam de algum modo levá-lo de volta ao complexo.

            - Duas coisas, Srta. Rose - disse Abdullah.

            - Quais são?

            - De acordo com a Srta. Palemoon, temos um problema com a viatura.

            - Que problema? Há uma padiola na Cooperativa e uma mesa especial de transporte de doentes.

            - Ela verificou com a Sra. Woo e as duas acreditam que vai ser impossível transportá-las para este local.

            Leah sentou-se e Rayford viu que examinava os morros acima dela que levavam a Petra.

            - Talvez tenha razão. Qual é a segunda?

            - Ela diz que Miquéias está na televisão da CG e que talvez queiramos assistir.

            - Tem uma TV, Sr. Smith?

            - Claro.

            - O capitão está tão estável quanto possível e é possível que fiquemos aqui por algum tempo. Vamos dar uma olhada.

            Abdullah tirou uma pequena TV de uma sacola de couro pendurada em sua moto.

            - Quer ver isto, capitão? - perguntou Leah.

 

            Chang estava grudado em seu monitor, mas pediu a Naomi que reunisse o restante dos técnicos de plantão.

            - Vejam isto, pessoal - disse ele. - Olhem para o canto esquerdo no alto da tela.

            Assobios, tapinhas nas costas e regozijo se seguiram ao verem os números que passavam rapidamente, aumentando numa velocidade de dezenas de milhares por segundo, mas tendo já ultrapassado de muito a maior audiência de televisão na História. Nada do que Carpathia havia transmitido chegara perto desse número; de fato, os três recordes anteriores haviam sido alcançados por Tsion Ben-Judá.

            - Amados - Chaim começara - Falo com vocês esta noite provavelmente pela última vez antes do Glorioso Apareci­mento de nosso Senhor e Salvador, Jesus Cristo, o Messias. Ele pode muito bem vir durante esta mensagem e nada me daria maior prazer. Quando Ele vier, não haverá mais neces­sidade de lutarmos contra o anticristo e seu falso profeta. A obra terá sido feita por nós pelo Rei dos reis.

            - Em vista dele não ter vindo sete anos exatos, depois da assinatura da aliança entre o anticristo e Israel, muitos estão perturbados e confusos. Quero falar aqui a esses, embora tenha de ser breve, pois, como sabem, controlamos essas transmissões contra os desejos de nosso arquiinimigo, e tenham a certeza de que ele está fazendo todo o possível neste momento para impedir-nos.

            - Mais importante do que discutir a hora da volta do Messias, porém - e posso resumir isto numa sentença: creio que ele estará aqui antes da meia-noite, hora de Israel -quero falar sobre a condição espiritual de meus companheiros judeus ao redor do mundo. Se não tiverem ouvido antes, ouçam-me hoje. Esta é a sua última oportunidade, seu aviso final, meu apelo supremo para que reconheçam e aceitem Jesus como o Messias que há tanto tempo esperam.

            - Vocês ouviram muitas vezes as proclamações de meu querido amigo e colega, Dr. Tsion Ben-Judá, que descreveu as muitas profecias que irão cumprir-se em breve. Se elas não os persuadiram, ouçam-me agora e saibam que é provável que ainda hoje vejam sinais no céu anunciando o Glorioso Aparecimento de Jesus.

            - A Bíblia diz em Mateus 24.29,30 que:

            "Logo em seguida à tribulação daqueles dias, o sol escu­recerá, a lua não dará a sua claridade, as estrelas cairão do firmamento, e os poderes dos céus serão abalados. Então, aparecerá no céu o sinal do Filho do Homem; todos os povos da terra se lamentarão e verão o Filho do Homem vindo sobre as nuvens do céu, com poder e muita glória".

            - Este é o último dia da Tribulação profetizada há milhares de anos! Hoje é o sétimo aniversário da ímpia e rapidamente infringida aliança entre o anticristo e Israel. O que virá depois? O sol, onde quer que esteja no céu onde você se encontra, deixará de brilhar. Se a lua surgir onde você está, ela também escurecerá por ser simplesmente um reflexo do sol. Não temam. Não entrem em pânico. Confortem-se na verdade da Palavra de Deus e coloquem sua fé em Cristo, o Messias.

            - O que significa que os poderes dos céus serão abalados? Não sei, mas amados, mal posso esperar para descobrir! A Bíblia diz que Deus mostrará "prodígios em cima no céu e sinais embaixo na terra: sangue, fogo e vapor de fumaça. O sol se converterá em trevas, e a lua, em sangue, antes que venha o grande e glorioso Dia do Senhor" (At 2.19-20).

            - Espero um espetáculo como nunca vi antes, mas esta­rei seguro como Ele prometeu. Você vai estar seguro? Está pronto? Está preparado? Não demore nem um segundo a mais.

            - Qual é o sinal do Filho do Homem? Não sei; mas sei quem é o Filho do Homem: Jesus, o Messias. Será uma pomba poderosa, como aquela que desceu sobre Ele quando João Batista o batizou? Será na forma de um leão, pois foi também chamado de Leão de Judá? Será o seu sinal um cordeiro, por ser igualmente o Cordeiro de Deus? A cruz sobre a qual morreu? O túmulo aberto, no qual venceu a morte? Não sabemos, mas ficarei vigiando. E vocês?

            - Quem serão esses povos da terra que irão lamentar-se quando o virem chegar? Os que não estão prontos. Os que se demoraram em sua rebeldia, sua incredulidade, sua inércia.

            - Zacarias, o grande profeta judeu de tempos idos, anun­ciou isto há milhares de anos. Ele escreveu, citando o Messias:

            "E sobre a casa de Davi e sobre os habitantes de Jerusalém derramarei o espírito da graça e de súplicas; olharão para aquele a quem traspassaram; pranteá-lo-ão como quem pranteia por um unigênito e chorarão por ele como se chora amargamente pelo primogênito" (Zc 12.10).

            - Imaginem! Os historiadores nos contam que Zacarias escreveu essa profecia bem mais de quatrocentos anos antes do nascimento de Cristo e, todavia, ele cita o Senhor referindo-se a si mesmo como "aquele a quem traspassaram".

            - Zacarias continua:

            "Naquele dia, será grande o pranto em Jerusalém... A terra pranteará, cada família à parte; a família da casa de Davi à parte...Todas as mais famílias, cada família à parte, e suas mulheres à parte... Naquele dia, haverá uma fonte aberta para a casa de Davi e para os habitantes de Jerusalém, para remover o pecado e a impureza... Em toda a terra, diz o SENHOR, dois terços dela serão eliminados e perecerão; mas a terceira parte restará nela...Farei passar a terceira parte pelo fogo, e a purificarei como se purifica a prata, e a prova­rei como se prova o ouro; ela invocará o meu nome, e eu a ouvirei; direi: é meu povo, e ela dirá: O Senhor é meu Deus" (Zc 12. 10,12,14.13.1,8-9).

            - Pode haver qualquer dúvida, amigos, que Ele é quem a Bíblia diz que é? Se você continuar a rejeitá-Lo depois que o sol sumir, os céus forem abalados, e seu sinal aparecer, cer­tamente não terá esperança, não terá salvação. Não espere. Faça parte daquele terço a quem o Senhor Deus prometeu passar pelo fogo.

            - Pedro, um de nossos judeus do primeiro século, disse: "E acontecerá que todo aquele que invocar o nome do Senhor será salvo". Não posso escolher palavras mais apropriadas do que estas quando falo a companheiros judeus, dizendo, "Varões israelitas, atendei a estas palavras: Jesus, o Nazareno, varão aprovado por Deus diante de vós com milagres, prodí­gios e sinais, os quais o próprio Deus realizou por intermédio dele entre vós, como vós mesmos sabeis; sendo este entregue pelo determinado desígnio e presciência de Deus, vós o matastes, crucificando-o por mãos de iníquos; ao qual, porém, Deus ressuscitou, rompendo os grilhões da morte; porquanto não era possível fosse ele retido por ela. Porque a respeito dele diz Davi: Diante de mim via sempre o Senhor, porque está à minha direita, para que eu não seja abalado. Por isso, se alegrou o meu coração, e a minha língua exultou; além disto também a minha própria carne repousará em esperança, porque não deixarás a minha alma na morte, nem permitirás que o teu Santo veja corrupção. Fizeste-me conhecer os caminhos da vida, encher-me-ás de alegria na tua presença.

            Irmãos, seja-me permitido dizer-vos claramente a respeito do patriarca Davi que ele morreu e foi sepultado, e o seu túmulo permanece entre nós até hoje. Sendo, pois, profeta e sabendo que Deus lhe havia jurado que um dos seus descen­dentes se assentaria no seu trono, prevendo isto, referiu-se à ressurreição de Cristo, que nem foi deixado na morte, nem o seu corpo experimentou corrupção. A este Jesus Deus res­suscitou, do que todos nós somos testemunhas.

            Exaltado, pois, à destra de Deus, tendo recebido do Pai a promessa do Espírito Santo, derramou isto que vedes e ouvis. Porque Davi não subiu aos céus, mas ele mesmo declara: Disse o Senhor ao meu Senhor: Assenta-te à minha direita, até que eu ponha os teus inimigos por estrado dos teus pés.

            "Esteja absolutamente certa, pois, toda a casa de Israel de que a este Jesus, que vós crucificastes, Deus o fez Senhor e Cristo" (At 2.21-36).

            - Amados - prosseguiu Chaim - a Bíblia nos diz que ao ouvirem essas palavras, "compungiu-se-lhes o coração e perguntaram a Pedro e aos demais apóstolos: Que faremos, irmãos?"

            Vocês também estão fazendo esta mesma pergunta hoje? Digo-lhes como Pedro disse a eles: "Arrependei-vos, e cada um de vós seja batizado em nome de Jesus Cristo para remissão dos vossos pecados, e recebereis o dom do Espírito Santo. Pois para vós outros é a promessa, para vossos filhos e para todos os que ainda estão longe, isto é, para quantos o Senhor, nosso Deus, chamar" (At 2.38-39).

            - Oh!, filhos de Israel em todo o globo, estou sendo avisado de que nosso inimigo está prestes a recuperar o controle desta rede. Se ela for bloqueada, confiem em mim, vocês já sabem o suficiente para colocar a sua fé em Cristo como o Messias.

            - Visto que não sei quando este sinal vai desaparecer, quero terminar lendo para vocês uma das mais valiosas e poderosas profecias sobre o Messias que já foi escrita. Se minha voz for silenciada, vocês podem lê-la em Isaías 53. Lembrem-se, isto foi escrito há mais de setecentos anos antes do nascimento de Cristo.

            "Quem creu em nossa pregação? E a quem foi revelado o braço do SENHOR? Porque foi subindo como renovo perante ele e como raiz de uma terra seca; não tinha aparência nem formosura; olhamo-lo, mas nenhuma beleza havia que nos agradasse. Era desprezado e o mais rejeitado entre os homens; homem de dores e que sabe o que é padecer; e, como um de quem os homens escondem o rosto, era desprezado, e dele não fizemos caso. Certamente, ele tomou sobre si as nossas enfermidades e as nossas dores levou sobre si; e nós o reputávamos por aflito, ferido de Deus e oprimido. Mas ele foi traspassado pelas nossas transgressões e moído pelas nossas iniqüidades; o castigo que nos traz a paz estava sobre ele, e pelas suas pisaduras fomos sarados. Todos nós andávamos desgarrados como ovelhas; cada um se desviava pelo caminho, mas o SENHOR fez cair sobre ele a iniqüidade de nós todos. Ele foi oprimido( e humilhado, mas não abriu a boca; como cordeiro foi levado ao matadouro; e, como ovelha muda perante os seus tosquiadores, ele não abriu a boca. Por juízo opressor foi arrebatado, e de sua linhagem, quem dela cogitou? Porquanto foi cortado da terra dos viventes; por causa da transgressão do meu povo, foi ele ferido. Designaram-lhe a sepultura com os perversos, mas com o rico esteve na sua morte, posto que nunca fez injustiça, nem dolo algum se achou em sua boca. Todavia, ao SENHOR agradou moê-lo, fazendo-o enfermar; quando der ele a sua alma como oferta pelo pecado, verá a sua posteridade e prolongará os seus dias; e a vontade do SENHOR prosperará nas suas mãos. Ele verá o fruto do penoso trabalho de sua alma e ficará satisfeito; o meu Servo, o Justo, com o seu conhecimento, justificará a muitos, porque as iniqüidades deles levará sobre si. Por isso, eu lhe darei muitos como a sua parte, e com os poderosos repartirá ele o despojo, porquanto derramou a sua alma na morte; foi contado com os transgressores; contudo, levou sobre si o pecado de muitos e pelos transgressores intercedeu" (Is 53.1-12).

            Durante a transmissão, Chang havia colocado na tela um site, da web onde os que estavam tomando decisões para receber Cristo poderiam informar ao Dr. Rosenzweig em Petra. Mesmo antes de a CG retomar o controle da rede de televisão, o site ficara cheio com essas mensagens. Milhões ao redor do mundo, a maioria judeus, estavam reconhecendo Jesus como o Messias e depositando nele a sua fé para serem salvos.

 

            Mac ficava sempre comovido com as Escrituras e mais ainda agora ao ver Nicolae Carpathia, o anticristo, e seu falso profeta, Leon Fortunato, se retorcerem.

            - Gostaria de saber - disse Nicolae - quantos morreram em Al Hillah antes de conseguirmos tirar os piratas do ar. Quem era o que estava ali em pé e se encontra agora no controle?

            - Ouçam bem. Essas pessoas podem dizer o que quiserem, pregar o que desejarem, crer no que quiserem. Mas, se não receberam a minha marca, não juraram obediên­cia ao deus vivo deste mundo, vão certamente morrer. Este homem apela aos judeus, aos cães da sociedade, àqueles que declarei meus inimigos desde o início. Enquanto isso, eu os ceifei no mundo inteiro como uma colheita podre.

            - Embora o meu assassino esteja temporariamente livre, escondido como um covarde por trás de muros de pedra, meus exércitos estão dizimando seus infames irmãos e irmãs na sua suposta Cidade Santa. Depois de invadirmos Petra e destruirmos nossos inimigos ali, voltaremos para comple­tar a tomada de Jerusalém. A resistência acredita possuir a superfície acima de onde agora residimos, mas suas opções acabaram. Não têm para onde fugir, onde se esconder.

            - Que o Salvador deles apareça! Vou dar-lhe as boas-vindas. Eu o estraçalharei como a um cão e subirei ao trono que é meu de direito.

            As coxas de Mac estavam doloridas e tremiam de fadiga. A parede às suas costas perdera a frescura e ele não com­preendia a razão. O calor do seu corpo reduzira os efeitos subterrâneos? Não, algo estava acontecendo. A temperatura havia subido. Como? O que causara isso?

            Até mesmo Carpathia, que ficara imune à fome, ao cansaço e à sede depois da sua ressurreição, caso as informa­ções fossem confiáveis, notou isso. Ele ajeitou o colarinho.

            - O que aconteceu com o ar-condicionado?

            - Não é necessário, Excelência - disse Leon. - Estamos a 12 metros abaixo da su...

            - Sei onde estamos! Quero saber por que a temperatura subiu. Não está sentindo:

            - Claro que sim, exaltado. Mas, não há fonte de calor aqui. A temperatura esteve sempre constante...

            - Quer calar a boca? A temperatura subiu e nem mesmo o calor de nossos corpos juntos não poderia fazer tanta dife­rença.

            Será? - Mac se perguntou. Haveria a possibilidade deste ser um sinal da volta iminente? Jesus apareceria até mesmo ali, no covil do inimigo? - Senhor, venha!

            Quem sabe do lado de fora o sol teria escurecido.

 

            Rayford protegeu os olhos e olhou para o céu. Nem uma nuvem sequer. O sol havia finalmente progredido em seu percurso a ponto de a temperatura cair, talvez mais de dez graus, desde o seu rápido avanço ao meio-dia. Rayford aceitou agradecido o oferecimento do boné de Abdullah, que era um pouco pequeno, mas servia ao seu propósito.

            - Se não pudermos levá-lo para Petra - disse Leah - ao menos precisamos fazer com que fique sentado. Será que consegue?

            - Não tenho idéia. Mas, sei que você tem razão. Vou precisar de ajuda.

            - Vai sentir tontura - afirmou Leah, o que provou estar longe da verdade. Quando ela e Abdullah o fizeram sentar, o sangue correu tão depressa na cabeça de Rayford que ele pensou que ia perder os sentidos, não obstante estivesse seguro em sua cadeira na sepultura rasa que fabricara.

            - Nossa! - sussurrou Rayford.

            - Quando estiver melhor, diga-me onde dói mais - pediu Leah.

            - Já posso dizer. Primeiro o tornozelo, depois a canela, e por último a mão.

            - Vou medicá-lo nessa ordem, mas tudo será temporário e improvisado. Não é o que eu faria se estivesse num ambiente estéril.

            Enquanto Leah limpava e anestesiava o tornozelo, que tinha um corte profundo aberto e danos internos - ela disse -um cirurgião vai ter de trabalhar no osso antes de fechar isto, mas você não precisa de ar e areia no ferimento. - Ela cortou a pele danificada e morta que não podia ser recuperada e suturou o lugar de forma a poder ser facilmente reaberto.

            - Isto vai doer - disse, cortando as calças cáqui abaixo do joelho esquerdo e examinando a canela com as duas mãos.

            - Não há dúvida de que você tem uma fratura, mas este não é um osso fácil de colocar no lugar. Vou fazer uma tentativa, mas só depois de anestesiá-lo. Concorda?

            - Tenho escolha?

            - Não. É possível que você tenha de ser colocado em uma de nossas motocicletas e sem uma tala neste osso, vai desmaiar de dor.

            - E a dor que vou sentir com a sua tentativa?

            - Não faço promessas.

            Rayford já se ferira gravemente antes. Não podia, porém, lembrar-se de uma agonia como aquela. Leah falhou na primeira tentativa de acertar a tíbia, mas disse simplesmente:

            - Sinto muito, vou conseguir - e fez outra tentativa. Apesar de um chumaço de gaze para morder, Rayford temeu ter gritado alto a ponto de alertar o Exército da Unidade. Mesmo depois de o osso estar no lugar, a perna doía tanto que pulou e tremeu por mais de dez minutos enquanto ele lutava para não gemer.

            - Vou esperar um pouco antes de colocar a tala - expli­cou Leah.

            - Você é tão bondosa - disse ele e recebeu um sorriso como resposta.

            A tala, por felicidade, era de plástico inflável e uma vez no lugar estabilizou de tal maneira o osso que a dor começou finalmente a ceder. Leah ocupou-se em limpar e tratar os ferimentos na mão, na canela e nos dois braços e joelhos.

            - Vou parecer um espantalho. É melhor não deixar que Kenny me veja até que eu possa tirar alguns desses curativos.

 

            George Sebastian ficou aliviado ao saber que encontraram Rayford com vida, Pôs-se, no entanto, a imaginar quão grave era o estado dele. O próximo movimento que o Exército da Unidade ia fazer o deixava também apreensivo. Eles tinham avançado tão lentamente sobre a sua posição, fechando metade da distância entre eles, que a manobra levou horas.

            Agora estavam parados. Se fosse uma espécie de guerra psicológica, realmente funcionava. O pessoal de Sebastian se assustara.

            Era como se aquela tropa turbulenta, encabeçada por cen­tenas de milhares de cavaleiros montados, estivesse apenas esperando uma palavra do anticristo para abrir fogo ou atacar. O que incomodava Sebastian agora era a necessidade de girar a cabeça mais de 120 graus para poder avistar em toda a sua amplitude a força de combate que teria de enfrentar. Por mais alto que subisse, jamais aquilataria a sua profundidade, o fim do exército escondia literalmente o horizonte.

 

            Mac ficou tão espantado quanto Leon parecia estar, quando Carpathia disse:

            - Preciso de uma cadeira. Tragam uma cadeira!

            Nicolae poucas vezes se sentava nos últimos tempos. Era sabido que ele não se alimentava ou dormia havia três anos e meio, persuadindo os legalistas de que era o Deus vivo e verdadeiro, e confirmando para seus inimigos ser de fato o anticristo, habitado por Satanás. Sua ira era lendária. Mas, ninguém observara qualquer fraqueza ou fragilidade física nele.

            E agora precisava de uma cadeira?

            Leon Fortunato pulou da sua e colocou-a por trás do poten­tado que se sentou trêmulo. Nicolae abriu o colarinho e desabo-toou a camisa, abanando-se fracamente com uma das mãos.

            - Permita-me, Excelência - disse Fortunato. Ele ajoelhou-se, levantou a barra de seu ostentoso manto até a cintura e começou a abanar o potentado.

            Carpathia normalmente se cansaria em breve de tanta subserviência, mas parecia em pânico e grato. Quando Leon pediu a Viv Ivins que levasse um copo de água a Nicolae, seu gorro de cor berrante escorregou e caiu nas dobras de sua roupa. Ao sacudi-la, o tecido esticou e fez cair o gorro no colo de Carpathia.

            - Oh! - gritou Leon. - Oh, majestade! Perdoe-me! - Ele inclinou-se e tentou recuperar o gorro, conseguindo apenas fazê-lo cair no chão do outro lado. O impulso de Leon fê-lo tombar sobre o líder indisposto, sua enorme barriga no colo dele. Agarrou então o gorro com as duas mãos e enquanto voltava à posição normal, colocou-o de novo na cabeça, balbuciando todas as desculpas imagináveis.

            Mac tinha certeza de que Nicolae iria executar seu homem de confiança por tal quebra de etiqueta, mas ele mal pareceu ter notado. Carpathia estava em apuros. Viv Ivins colocou finalmente um copo d'água à sua frente, mas as mãos dele estavam agora inertes e sua fisionomia geralmente corada havia empalidecido.

            Leon agarrou a água e levou-a aos lábios de Carpathia, enquanto o gorro ameaçava cair novamente. Desta vez, Leon zangado, tentou ajeitá-lo e o gorro caiu no chão por trás deles. Carpathia quase não conseguia abrir a boca e a água escorreu pescoço abaixo.

            - Chamem os paramédicos - guinchou Leon. - Alguém, por favor! Depressa!

 

            O suor corria pelas costas de Mac. A temperatura continu­ava a subir, quase como se houvesse uma fogueira debaixo do monte do Templo. Visto que Carpathia estava tendo problemas, as sentinelas do Exército da Unidade saíram da posição de sentido e enxugaram a testa, ajeitaram a camisa e a jaqueta e trocaram olhares como se perguntassem o que estava acontecendo.

            Mac curvou-se, debruçando sobre a abertura em forma de arco ao ouvir gritos. O que quer que estivesse aconte­cendo já se espalhara. De repente, os estábulos viraram um caos. Cavalos sem arreios se livraram dos encarregados, relinchando, atropelando uns aos outros, numa deban­dada sem saída. Os tratadores tentaram jogar laços, mas eram levantados do chão quando os cavalos empinavam e jogados ao solo quando eles saíam correndo. Os cavalos colidiam com cavalos, lutando por espaço a fim de atraves­sar os arcos.

            Homens e mulheres foram pisoteados, alguns até a morte, mas quando um soldado míope disparou sua arma para o ar, a situação só piorou. Mais de mil puros-sangues estavam em pânico e aterrorizados. Seguindo seus instintos, eles tenta­ram fugir, esmagando tudo em seu caminho, inclusive uns aos outros.

            Mac viu quartos dianteiros de grandes eqüinos sendo rasgados, enquanto os animais eram esmagados contra as paredes de pedra. Ouviu o som de pernas sendo quebradas, viu cavalos beliscando e mordendo um ao outro e em breve era um salve-se quem puder!

            - Onde é o incêndio? - alguém gritou. Muitos devem ter ouvido apenas a palavra "fogo", pois ela foi repetida vez após vez, com os soldados berrando em todo o subsolo. Mac não viu chamas, não sentiu cheiro de fumaça. Mas ouviu, "Fogo! Fogo! e, como o restante das pessoas, seu instinto era dirigir-se para a superfície.

            Um comandante, porém, com o cano de uma submetralhadora nuclear o fez voltar à sala.

            - "Não há incêndio - ele anunciou. - Cada soldado nesta sala tem um dever: proteger o potentado. É isso que vamos fazer. Ninguém entra; ninguém sai."

            - Permissão para falar, comandante - veio de um canto.

            - Concedida.

            - O que está causando o calor?

            - Não tenho idéia, mas vamos deixar que todos se matem, procurando escapar de um incêndio que não existe. Vocês não vão correr mais do que um cavalo de mais de 100 kg que quer o seu espaço. Portanto, fiquem aqui e façam seu trabalho.

            - O que aconteceu com o potentado?

            - Como vou saber?

            - Os paramédicos vêm?

            - Não sei como vão chegar aqui. Mas, pode apostar que ninguém mais vai entrar. Se esta for uma conspiração contra Sua Excelência, termina aqui. Atenção agora! Armas prepara­das!

            Mac sempre detestara ficar em subsolos, mas até aquele momento, a incursão não provocara claustrofobia. O próprio tamanho da área permitira espaço para mover-se e respirar. Mas agora, fora do único aposento onde todos permaneciam imóveis, reinava o pandemônio.

            Não haveria possibilidade de fuga, de liberdade, nem luz do dia, ou ar, ou redução do calor, mesmo que disparasse sua arma e matasse todos ao seu redor e abrisse caminho para a superfície. O que estava acontecendo na rampa de terra e nas escadas de madeira tor­nava menores as tragédias em massa resultantes de incêndio em prédios lotados. Mesmo sem um incêndio real, aquilo ia ser catastrófico.

            Com a sua segurança fora de alcance e o dedo no gatilho, Mac lutou para manter a compostura, permanecendo na posição de sentido e olhando diretamente para Carpathia, com o suor correndo agora livremente por dentro do uniforme.

            Nicolae parecia debilitado. Seus cabelos antes abundan­tes davam agora a impressão de ser ralos. Seus olhos claros, esquadrinhadores, estavam injetados e sombrios. Tinha o rosto macilento e, embora não fizesse sentido, Mac parecia ver veiazinhas percorrendo o rosto do homem, emoldurando seus olhos cavos.

            Os dedos de Carpathia tinham afinado, sua pele era da consistência do papel, e seus ombros ossudos. Parecia que ele perdeu 25 kg em poucos minutos. Os lábios pálidos, azulados, estavam partidos e seus dentes e gengivas ficaram expostos... era exatamente a boca de um morto.

            - Deve beber, Excelência! - choramingou Fortunato.

            - Estou exausto - disse Carpathia, e embora Mac mal pudesse ouvi-lo, aquela com certeza não era a voz que ele aprendera a reconhecer. As palavras pareciam vazias, indis­tintas, como as de um eco, davam a impressão de que ele falava de uma masmorra distante.

            - Estou faminto - afirmou Carpathia. - Exausto. Morto.

            Não há dúvida de que esta última palavra era uma figura de retórica, mas para Mac ele parecia mesmo morto. No caso da pele piorar, poderia passar por um cadáver em decom­posição. Até suas orelhas tinham perdido a cor e pareciam translúcidas.

            No instante seguinte, Mac se viu de joelhos, protegendo os olhos da luz mais forte que já experimentara. Ela o fez lembrar de uma experiência científica no colegial, mais de 50 anos antes, quando com os colegas usava óculos de cores fortes enquanto acendia tiras de magnésio.

            Mac espiou e descobriu que não era o único soldado no chão. A maioria havia caído de bruços, com as armas fazendo ruído no piso. Qualquer que fosse a fonte que irra­diava do meio da mesa, ela iluminou o aposento como o sol do meio-dia.

            - Lindo! Lindo! - as pessoas sussurravam, entremeando com gritos de admiração associados à exibição de fogos de artifício. Todos os dignitários haviam afastado as cadeiras da mesa e coberto os olhos, espiando através dos dedos para olhar aquela aparição magnífica, o que quer que fosse.

            Mac voltou a ficar de cócoras e seus olhos foram se acostumando aos poucos à radiância inicialmente ofuscante. Enquanto permanecia ali, com as mãos novamente na arma, ficou claro porque tantos pensavam que aquela...aquela aparição era tão impressionante. Ela parecia pairar vários centímetros acima da mesa, diretamente no centro, de um branco brilhante tingido de ouro tão forte que não se podia tirar os olhos da mesma.

            Seu fulgor era tamanho que nenhum detalhe podia ser visto com nitidez, de baixo até em cima do que parecia uma forma humana tosca de 1,80m. Não havia meios de saber se ele -caso fosse um ser humano - usava sapatos, ou roupas, ou estava nu.

            Mac gradualmente percebeu que via diante de si as costas de um ser que encarava Carpathia e Fortunato. Cabelos louros flutuantes surgiram à vista, mas ao que tudo indi­cava o resto do corpo permaneceria um mistério para o olho humano. Aquele não era claramente o Glorioso Apareci­mento de Cristo, pois Mac sabia que Jesus devia voltar nas nuvens, acompanhado pelos seus fiéis.

            A cadeira de Viv Ivins estava vazia, mas Mac podia ouvi-la gemer de êxtase no chão.

            Leon também caíra, e com a cabeça enterrada nas mãos, balançava o corpo e chorava.

            Carpathia se curvara para a frente na cadeira emprestada, com o rosto na mesa, braços abertos, palmas das mãos para baixo e murmurava:

            - Oh!, meu senhor, meu deus, e meu rei - sua voz como a de um morto repetia isso vez após vez.

            Do lado de fora da sala, Mac ouviu os medonhos, os terríveis sons da morte. Pânico, gritos e guinchos, súplicas, ossos sendo esmagados, pulmões expelindo ar, cavalos bufando e gemendo ruidosamente como outras criaturas menores poderiam ter feito.

            Gritos penosos, solitários, podiam ser ouvidos de homens e mulheres adultos. - Salve-me! Oh, Deus, salve-me! Não quero morrer!

            Morreram, porém. Sem mesmo ter condições de assistir, ficou claro para Mac que a carnificina entre ele e a saída não se compararia a nada que já tivesse visto. Ouviram-se tiros e ele só podia imaginar que se tratava dos poucos solda­dos restantes acabando com a miséria dos cavalos ou de seus companheiros e tentando achar caminho entre os seus corpos mortos para alcançar a saída.

            Carpathia levantou uma mão patética, sua roupa de Zorro pendurada como se estivesse num cadáver.

            - Lúcifer - ele conseguiu dizer naquela voz rouca, estranha, parecendo olhar de soslaio para o ser. - Meu rei e senhor, por que me abandonaste? Não me entreguei inteiramente a ti, para servi-lo com todo o meu coração e meu ser?

            - Silêncio! - veio a resposta num tom de voz tão fantas­magórico, agudo e terrível que fez Mac recuar e ter vontade de cobrir os ouvidos.

            - Você me causa desgosto! Olhe só para você! Ousa sugerir que tem algo a oferecer a mim além do seu corpo patético? Está embriagado com um poder cuja fonte se acha muito além da sua! Não passa de um vaso, um instrumento, um pote de barro para os meus propósitos, todavia se pavoneia como se tivesse um átimo de valor!

            - Oh, meu rei! - gaguejou Carpathia. - Não! Eu...

            - Você nem sequer entende o significado da palavra silen­cio! Você não é nada! Nada! Não teve poder para ressuscitar dos mortos! Era uma carcaça, rígida e decadente. Olhe para você agora. Sem a minha graça, voltaria à terra, cinzas às cinzas, e pó ao pó.

            - Poupe-me, meu senhor! Eu te amo e desejo servir-te! Não farei nada para...

            - Oh, espírito da insignificância, simples partícula da minha imaginação. Vou tomar de empréstimo novamente seu esqueleto indigno. Deve saber, porém, e se não puder compreender, devo lembrá-lo de quem você é e quem não é. Você não é eu! Eu não sou você! Não passa de simples inventário, mercadorias e serviços. É uma peça de equipa­mento e nunca ouse imaginar outra coisa.

            - Eu nunca, divino! Nunca! Estou humildemente a seu serv...

            - Eu sou o senhor seu deus e não compartilharei a minha glória!

            - Absolutamente não - disse Carpathia, ofegante. - Ó rei do céu e da terra.

            - Não pense que foi por acidente que meu Adversário, em suas próprias palavras, reconheceu que minha origem é celestial e me chamou filho da alva! Você não sabe, como Ele sabe, que fui eu que enfraqueci as nações? (Is 14.12.)

            - Eu sei - soluçou Carpathia. - Eu sei!

            - Eu e não você, nem ninguém do mundo evoluído, sou aquele que subirá aos céus. Exaltarei o meu trono acima das estrelas de Deus; sentarei também no monte da congrega­ção, nas extremidades do norte; subirei acima das mais altas nuvens e serei semelhante ao Altíssimo.

            - Sim, precioso mestre. Sim!

            - Todavia, o meu Inimigo afirma que serei lançado ao inferno, às maiores profundezas do abismo.

            - Não, senhor, não!

            - Ele afirma que os que me virem irão fitar-me, dizendo:

            - Foi este o homem que fez a terra tremer, que sacudiu reinos, que tornou o mundo deserto e destruiu suas cidades, que não soltou seus prisioneiros?

            - Que nunca se diga isso, meu soberano!

            - Oh, sim, meu Inimigo zomba de mim! Ele declara que todos os reis das nações, todos eles, morrerão em glória, cada um em sua grandiosa sepultura, mas que eu - eu - serei lançado fora de meu túmulo como um ramo abominável, como as vestes dos que foram assassinados,

traspassados com uma espada, que atirados sobre as pedras do abismo, como um cadáver pisoteado. Serei sepultado como um soldado raso morto na batalha?

            - Nunca! - soluçou Carpathia. - Nunca! Não enquanto eu tiver fôlego!

            - Você é tão estúpido que não consegue compreender? Sou eu quem lhe dá fôlego!

            - Eu sei! Sim, eu sei!

            - Qual será, pois, a sua contribuição, escravo, quando o Inimigo quiser cumprir sua promessa de que não me será ofertado qualquer monumento, porque destruí minha nação Babilônia e matei meu povo? Ele me insulta, dizendo que meu filho não será meu sucessor como rei.

            - Oh!, permita que eu seja teu filho - proferiu Carpathia entre lágrimas. - E tu serás meu pai.

            - Mas, não! O Inimigo escarnece de mim. Ele diz: Matem os filhos deste pecador. Não permita que conquistem a terra, nem reconstruam as cidades do mundo. Eu, eu mesmo, subi contra ele, e Ele tem a audácia de chamar a Si mesmo de Senhor dos exércitos dos céus.

            - Mas, esse é o teu nome, ó estrela brilhante! Só teu!

            - Ele já destruiu a minha amada Babilônia, mas não se satisfará enquanto não a tornar numa "terra desolada de ouriços, cheia de pântanos e charcos". Ele promete "varrer a terra com a vassoura da destruição", este chamado Senhor dos exércitos dos céus.

            - Não permitiremos que isso aconteça, Sua Graça.

            - Ele jurou isso. Diz que é esse o seu propósito e plano. Decidiu destruir o exército assírio quando chegar a Israel e esmagá-lo com as suas montanhas, dizendo:

            - Meu povo não mais será escravo deles. Este é o meu plano para toda a terra - eu o cumprirei com o meu imenso poder que alcança todos os lugares ao redor do mundo.

            - O poder Dele não é nada comparado ao teu, rei con­quistador! Vamos provar isso ainda hoje, não é?

            - Nós? Nós?

            - Tu! Tu, ó exaltado!

            - Quem é você para falar? O que tem a oferecer-me quando o Inimigo, que chama a Si mesmo de Senhor, o Deus da Batalha, tiver falado - quem pode mudar os planos Dele? Quando Sua mão se move, quem pode detê-la? Quem a fará voltar atrás?

            - Tu podes, ó poderoso. Creio em ti.

            - Eu posso, e não se esqueça disso. Quem Ele pensa que investiu contra Israel e fez Davi realizar o censo de seu povo, quando Deus havia claramente proibido isso?

            - Ele sabe. Eu sei que Ele sabe!

            - É claro que Ele sabe! Fui eu que andei pela terra, rodeando e passeando por ela. Fui eu que provei e tentei Jó até quase o ponto dele abandonar e amaldiçoar o seu Deus. Quando o sumo sacerdote Josué apresentou-se diante do Anjo do Senhor, eu fiquei à direita dele para fazer-lhe oposição. Eu tentei o Filho do Inimigo no deserto.

            - E quase foi bem-sucedido.

            - O sucesso vai acontecer hoje.

            - Creio nisso, meu senhor.

            - Fui eu que levei o Filho do Inimigo à Cidade Santa e o deixei no pináculo do templo. Eu lhe disse, "Se és Filho de Deus, atira-te abaixo, porque está escrito: Aos seus anjos ordenará a teu respeito que te guardem". Mas, Ele não quis! Ele mesmo não acreditava nisso! Respondeu como um covarde com simples palavras. Tentou dizer-me, como se eu não soubesse, que "Também está escrito: Não tentarás o Senhor, teu Deus" (Mt 4.5-7). Ele não é, porém, o meu Senhor ou Deus!

            - Nem o meu, príncipe da potestade do ar.

            - Fui eu que o levei a um monte excepcionalmente alto e lhe mostrei todos os reinos do mundo e sua glória. Ofereci todos eles, se apenas se prostrasse e me adorasse. Mas Ele não quis.    

            - Ele era um bobo.

            - Eu também não me curvei diante Dele.

            - E jamais farás isso.

            - Jamais. Ele falou a verdade e estava certo quando chamou seu discípulo de Satanás. Eu controlei então Pedro por algum tempo. O Filho do Inimigo acusou-o com razão de não cuidar das coisas de Deus, mas das coisas dos homens.

            - Que possa ser sempre assim! - exclamou Carpathia embevecido.

            - O Filho sabia perfeitamente que quando os homens ouviam a Sua mensagem, eu chegava imediatamente e remo­via a palavra semeada em seus corações.

            - Esse foi sempre o seu ponto forte.

            - Fui eu que entrei em Judas, contado entre os discípulos do Filho. Fui eu que pedi novamente Pedro, a fim de peneirá-lo como trigo. Ele estava enfraquecido naquela noite.

            - Eu não serei fraco na sua hora de necessidade, mestre.

            - Não preciso de você! Não serei fraco! Você, triste ser, não é educável.

            - Perdoa-me, senhor.

            - Fui eu que enchi o coração de Ananias para que men­tisse e guardasse parte do preço da terra para si mesmo.

            - Uma obra-prima!

            - Silêncio! Começo a me cansar de você. Estou me pre­parando para a batalha com Aquele que chama a Si mesmo de Deus da paz e afirma que me esmagará sob os seus pés. Eu, que me aproveito quando os homens ignoram meus estratagemas. Sou o deus deste século, capaz de cegar a mente dos que não crêem - como eu não creio - no que meu Inimigo chama de luz do evangelho da glória de Cristo, que é a imagem de Deus. Eu sou mais do que a Sua imagem. Sou Seu superior e serei Seu conquistador. Fui astucioso o sufi­ciente para enganar Eva, a segunda criação Dele. Não serei capaz desta tarefa?

            - Tu és, e o universo cantará teus louvores e te chamará bendito.

            - Você acertou quando disse que sou o príncipe das Potestades do ar. Sou o espírito que opera agora nos filhos da desobediência contra o Inimigo. Opero entre eles para satisfazer sua cobiça carnal, os desejos da carne e da mente. Ninguém se oporá aos meus ardis. Eles não lutam contra carne e sangue, mas contra meus principados e poderes, contra os meus dominadores deste mundo, contra as forças espirituais nas regiões celestes.

            - Este és tu, ó bendito!

            - Tenho dardos ardentes que não podem ser apagados.

            - Amém e amém!

            - Prejudiquei até o servo favorito do Inimigo, Paulo, frus­trando várias vezes os seus planos. Quando Ele se ausentava de Seus seguidores, eu os tentava a afastar-se da fé. Era adversário deles e se referiam a mim como um leão que ruge, procurando a quem devorar.

            - Hoje será uma festa para ti.

            - O Inimigo que se chama Deus decretou que Seu Filho fosse manifestado, para que pudesse destruir minhas obras.

            - Blasfêmia!

            - Ele me chamou de grande dragão, de antiga serpente, de diabo e Satanás e reconheceu que sou eu quem engana o mundo inteiro. Errou, no entanto, quando me lançou na terra com meus anjos.

            - Cometeu um grave erro, senhor. Quão excelente é o teu nome em toda a terra! Que seja exaltado acima dos céus. Que a tua glória esteja acima de toda a terra. Tu, meu senhor, és exaltado acima de todas as nações e a tua glória acima dos céus. Quem é como tu que habitas no alto?

            - Vou precisar de você outra vez por breve tempo.  

            - Sou todo teu - respondeu Carpathia.

            Depois disso, a luz desapareceu e Nicolae levantou-se, com o queixo erguido, a arrogância restaurada. Recuperou as cores enquanto abotoava a camisa e arranjava as roupas. Era como se tivesse voltado à vida, sua voz era nítida e confi­ante.

            - Voltem aos seus lugares, senhoras e senhores, por favor. Sra. Ivins, por favor. Reverendo Fortunato. - Ele moveu deliberadamente a cadeira provida por Leon e segurou-a enquanto o homem santo se desembaraçava desajeitado de suas vestes e ficava em pé, depois sentou-se.

            - Subpotentados, generais, assistentes, senhores, por favor. Soldados voltem à posição de sentido.

            Ficou claro para Mac que a sala estava repleta de pessoas abaladas e em estado de choque. Todos os olhos brilhavam de medo. Seus corpos mostravam-se hesitantes e inseguros, cada um retornando ao seu lugar com medo e assombro.

            - O seu desconforto em breve cessará - afirmou Nicolae.

            - Quando todos estiverem em seus lugares, vou explicar o que acabou de acontecer e do que vão lembrar.

            Um dignitário asiático levantou a mão, com o rosto conster­nado.

            - Por favor, não façam perguntas no momento.

            Um africano ficou em pé, tendo a mão também levantada.

            - Por favor, atenda ao meu pedido, Sr... - disse Carpathia. - Vou ouvi-lo num momento, se me estender esta cortesia.

            O africano sentou-se, claramente perturbado. Os demais se entreolhavam, com os olhos apertados, meneando a cabeça.

            - Senhoras e senhores, soldados - Carpathia começou, mas foi interrompido por um homem na porta.

            - O que há?

            - Excelência, não conseguimos encontrar uma unidade de paramédicos para esta sala por causa da carnificina lá fora.

            - Obrigado, isso não é mais necessário.

            - Sua graça, também não conseguimos determinar a fonte do calor que causou a debandada.

            - Creio que essa questão é inútil agora, não é? Alguém está desconfortável?

            - Não por causa do calor - disse um australiano, - mas tenho algumas perguntas sérias sobre o que acabou de...

            - Vou pedir-lhe também, Sr., que espere para apresentar todas as perguntas e comentários mais tarde. Obrigado. E, Sr.? - acrescentou ele, dirigindo-se ao que estava junto à arcada. - Importa-se de permanecer enquanto ofereço uma explicação?

            O homem passou por Mac e ficou em pé atrás dos que se achavam sentados do outro lado da mesa, à frente de Carpathia.

            - Senhoras e senhores - Nicolae começou em seu tom mais suave e persuasivo, percorrendo a sala com os olhos e fitando breve mas diretamente todos.

            - Não se sintam obrigados a desviar os olhos desta vez. Quero fazer contato visual com todos. Vocês tiveram o privilégio de assistir a uma experiência única. Estiveram presentes quando deixei este corpo mortal e tomei minha forma divina. Dei-lhes todos os direitos e privilégios que acompanham sua posição como seguidores leais e os fortaleci para a batalha que será travada.

            - Quando deixarmos este lugar e subirmos para a nossa gloriosa vitória, vão ver que o inimigo conseguiu penetrar no terreno acima de nós, ou seja, nosso teto. Protegi divinamente a minha pessoa, assim como a de vocês, mas eles provocaram uma debandada que causou muitas baixas em nossas tropas e nossos animais; pelos quais, como sabem, temos tanto apreço quanto pelos nossos recursos humanos. Não se alarmem, porém, e não temam. Nossos recursos são ilimitados. Vou levá-los para fora e haverá montarias suficientes para todos. Agora, alguém quer fazer algum comentário ou pergunta?

            O asiático ficou em pé e curvou-se.

            - Eu só queria, Excelência, agradecer-lhe pelo privilégio estendido a mim e aos meus acompanhantes. Ter estado aqui para este momento grandioso e histórico irá tornar-se uma lembrança inesquecível, e somos imensamente gratos.

            - Obrigado. Às suas ordens, Sr.

            O africano levantou-se.

            - Quero repetir esse sentimento, sua santidade, em nome de minha equipe. O senhor é digno de ser louvado e ficamos na expectativa de participar da sua vitória final, depois da qual o mundo o verá por quem verdadeiramente é.

            Mac queria gritar um amém. Se fosse o único crente no aposento - e achava que sim - era também o único que não havia sido hipnotizado por Carpathia.

            A saída para a superfície foi surrealista. Os homens e as mulheres foram guiados e seguidos por contingentes de soldados, proporcionando a Mac uma visão perfeita de sua reação ao que acontecera a todos os demais. O lugar estava em piores condições do que qualquer área de guerra. Viam-se centenas de cavalos e ainda mais homens e mulheres mortos, em hediondo repouso, despedaçados, pisoteados, esmagados, dilacerados. O cheiro dos estábulos não era nada comparado ao das entranhas expostas dos seres humanos e dos animais.

            Todavia, os homens e mulheres que saíram do salão pisaram sobre os restos mortais como se estivessem passeando por uma campina.

            Ninguém fez cara feia, tapou o nariz ou comentou qualquer coisa. Era como se não vissem o massacre que encharcava seus sapatos e fazia o pó aderir ao sangue. Ao chegarem à superfície, bateram alegremente os pés e agra­deceram a ajuda dos soldados. Os ânimos mostravam-se fes­tivos enquanto grandes corcéis eram colocados em fila para eles e cada um foi ajudado a subir em sua sela.

            A caminho de Armagedom, eles sorriam, riam e conver­savam como se estivessem indo para as corridas. Mac notou pela primeira vez naquele dia que nuvens túrgidas e fofas tinham começado a salpicar o céu. O sol continuava visível, num tom alaranjado no horizonte. Tudo o que ele desejava era afastar-se sem ser notado, para estar com seus irmãos e irmãs em Cristo quando o fim chegasse.

 

            Rayford tinha dúvidas sobre os dois veículos. Havia espaço no carro de Abdullah para os dois, mas não muito. Era uma máquina fina, manhosa, violenta, construída para correr e não para conforto. A ATV de Leah era mais larga e forte, mas também mais lenta. Se não deixassem todo o suprimento dela para trás, não haveria espaço para duas pessoas.

            Como carona, Rayford precisava manter-se estável e a velocidade seria uma inimiga. Os ângulos, inclinações, aceleração, as voltas, saltos e sacudidas representariam ver­dadeira tortura.

            A alternativa não era aceitável. Ele não queria continuar naqueles montes rochosos e desertos. Quem poderia adivinhar o que o terremoto global faria naquele lugar? Ele não esperava morrer nele, mas também não pensara que seria atirado para fora de sua ATV.

            A sua ATV. Agora surgira uma solução. Não a dele, é claro. Ela ficara destruída. Mas, havia mais de onde viera. Chamaram Sebastian.

            - Camel Jockey Big Dog - disse Abdullah.

            - Aqui Dog, Jockey. Fale.

            - Você pode arranjar uma ATV para nós? Queremos transportar o capitão Steele até Petra.

            - Se eu puder dirigi-la.

            - Afirmativo, mas será que deve deixar suas tropas?

            - Estou brincando, Abdullah. Vou mandar Razor.

            - Sabe onde estamos?

            - Afirmativo. Chang localizou você para mim. Rayford vai conseguir?

            - Se sobreviver à viagem. Como o Sr. Razor dirige?

            - Penso que ele sabe quais são os riscos. O que você acha das nuvens?

            - As primeiras do dia, Big Dog. Acho que Alguém está vindo.

 

            - Tenho de sair daqui - disse Chang, esfregando os olhos.

            - Isso é tudo que preciso ouvir - replicou Naomi, levantando-o praticamente da cadeira.

            - Espere até que eu desligue - disse ele, resistindo.

            - Nada disso. Vamos embora. Ninguém sofrerá se você não desligar. O pôr-do-sol de hoje vai ser demais.

            - Sem nuvens? Como você sabe?

            - Vai ver. Tem estado tão ocupado que nem tem noção do que está acontecendo.

            Ao saírem, Chang ficou pasmo. Um sol enorme estava desaparecendo e havia de fato nuvens. Elas pareciam surgir do nada, um número cada vez maior a cada instante. Havia algo festivo nelas - animadas, macias, mas movendo-se rapidamente como se houvessem ventos fortes lá no alto na atmosfera. Antes de muito tempo estavam se juntando, formando pavilhões formados por sombras ao sul do sol, enquanto nuvens individuais continuavam a agrupar-se ao norte.

            Estas também em breve passaram a juntar-se. Chang e Naomi foram ao seu refúgio favorito num lugar alto, e deita­ram-se de costas, com as mãos sob a cabeça.

            - Nunca vi isso antes - afirmou Chang, apontando para cima. As nuvens pareciam estar se formando logo acima deles e não no horizonte, como de costume. Elas surgiram como formações compridas, estreitas, na estratosfera, pas­sando rapidamente a estratos-cúmulos.

            - Estou vendo formações altas, médias e baixas ao mesmo tempo - disse Chang.

            - São lindas.

            - Sim, agora. Espere até que comecem a aumentar verti­calmente, podendo alcançar alturas de mais de 4.300 metros e gerar uma energia incrível.

            - Como você sabe tanta coisa? Tudo que sei é sobre computadores.

            - Eu sei tudo - replicou Chang. Naomi o beliscou.

            - Cuidado! - disse ela, virando de lado e olhando para o rosto dele. - Você vai dormir.

            - Não é provável. Há muita coisa acontecendo lá no alto. Muita coisa a esperar.

 

            - Irmão Enoque - disse um hispânico - se você pode concentrar-se, nós também podemos.

            - Não entendo - disse Enoque, que olhou novamente através das árvores e janelas na extremidade do pátio do shopping, para certificar-se de que a CG não os descobrira.

            - Você parece perturbado, irmão. Quero dizer, todos estamos esperando pela mesma coisa. Desejamos estar pre­parados para estar aqui quando Jesus voltar. Enquanto isso, entretanto, queremos que nos ensine. Você repete que não é um estudioso, mas tem sido nosso pastor há anos. Isso está dando certo.

            - É verdade - interrompeu outro. - Acho que não compreendi muito bem tudo o que aconteceu e o que vai acontecer. Sei que em breve estaremos com Jesus - ou que Ele estará conosco - mas gostaria de participar de tudo com mais conhecimento. Você tem mais alguma coisa a dizer-nos?

            Enoque teve de sorrir.

            - Tenho - respondeu. - Pensei que não havia tempo para explicar e também que vocês não teriam paciência para ouvir.

            - Ajuda a passar o tempo. Mal posso esperar que Jesus chegue, mas o relógio anda devagar, estamos esperando algo acontecer.

            - Tem razão. Tenho minha Bíblia e minhas notas, se estiverem dispostos.

            - Estamos sim. Mas, pastor, o Sr. olhou para cima ultima­mente?

            Era quase meio-dia no Meio Oeste, e o sol brilhava no alto. Enoque protegeu os olhos.

            - Nuvens - disse ele.

            - Nuvens que não existiam uma hora atrás. Se não me engano, quando acordamos, o céu era todo azul.

            - Totalmente azul.

            - Não são nuvens ameaçadoras - afirmou Enoque. - Acho que não vai chover. Uma mulher sorriu.

            Eu gostaria de ver nuvens sobre as quais Jesus possa flutuar.

 

            Razor apareceu numa ATV de 750 cilindradas, sufici­entemente grande para acomodar também Rayford, se ele estivesse em perfeitas condições de saúde. Mas, ele não sentava havia muito tempo, muito menos tinha ficado em pé ou viajado num veículo sacolejante.

            - Você não trouxe nenhum alimento, não é? - perguntou Rayford.

            - Trouxe sim, Sr. - replicou Razor, com uma formalidade militar exagerada, da qual Rayford procurara livrá-lo.

            - A Srta. Leah não se importaria se eu morresse de fome.

            - A hidratação era o mais importante - disse ela. Eu também não esperava que você ficasse encalhado aqui tanto tempo.

            - Estou brincando, Leah. Você salvou minha vida. O que tem aí, Razor?

            - Uma barra energética, Sr.

            - Um daqueles negócios de isopor que têm gosto de papelão?

            - Exatamente.

            - Sabor?

            - Chocolate ondulado.

            Brincadeiras à parte, Rayford estava com fome. Ele abriu a embalagem e deu uma boa dentada.

            - Cuidado, caubói - Leah disse. - Seu sistema foi trauma­tizado.

            - Bem, isto deve ajudar - respondeu ele, seguindo entretanto as ordens e comendo mais devagar. Procurava ganhar tempo. Subir numa ATV seria uma empreitada difícil, mas essa talvez fosse a menor delas. O caminho de volta a Petra parecia um penhasco íngreme do seu ponto de obser­vação. - Teremos um lindo pôr-do-sol - comentou.

            - E provavelmente o último antes de Jesus voltar - respondeu Leah.

 

            Sebastian sentou-se sobre o motor de uma Hummer parada havia horas, mas que esfriara apenas o suficiente para permitir que se acomodasse ali. O Exército da Uni­dade parecia inquieto, caso essa característica pudesse ser aplicada a um ajuntamento tão extenso. Desde que haviam avançado 800 metros e parado, ficaram olhando ameaçadoramente para ele e suas tropas.

            George decidira não provocá-los com armas de energia direcionada ou fogo de .50. Talvez por isso, na última meia hora eles pareciam de alguma forma menos ameaçadores. Antes disso, as centenas de milhares de tropas montadas como que combinaram encará-lo com desprezo e ele agora ouvia suas selas rangedoras a distância. Tinham deixado de olhar para ele e começado a conversar entre si.

            Seria possível que os rumores tivessem chegado ao campo de batalha? Aqueles soldados sabiam que talvez não fossem substituídos por reforços ou que, mesmo que isso acontecesse, era improvável que fossem pagos a tempo, ou se seriam mesmo pagos? A comunicação informal era notavelmente exata, rápida e - se isto fosse verdade - teria ímpeto suficiente para chegar às areias desertas.

            Big Dog One poderia aproveitar-se desse lapso? Ele não sabia como. Uma saraivada de tiros ou raios DEW só con­seguiriam que o inimigo se reorganizasse. Por agora, em número desesperadamente menor como era o seu caso, Sebastian preferia que o adversário continuasse como estava. Se pudesse escolher, faria com que recuassem cerca de 2 quilômetros. Não podiam fazer isso, porém, mesmo que desejassem, embora recebessem ordens nesse sentido.

            Recuar a linha de frente significava recuar a retaguarda e coordenar essa posição levaria semanas. Aquela era uma força militar que só podia seguir numa direção, e Sebastian e sua diminuta força defensora estavam diretamente no caminho dela.

            Pegou o celular.

            - Chang, o que está fazendo agora?

            - Você não vai querer saber.

            - Claro que quero.

            - Estou deitado de costas, observando as nuvens.

            - Não está só, não é?

            - Claro que não.

            - Priscila e eu vamos estar separados quando Jesus voltar.

            - Quer que eu envie Priscila e Beth Ann para ficar com você?

            - Não é necessário. Marcamos um ponto de encontro para quando isto acabar.

            - Espero que o capitão Steele esteja disposto a observar tudo isto quando estiver aqui e quando chegar a hora.

            - Ele vai estar. Só espero que não chegue a hora antes de Razor levá-lo a Petra.

 

            - Como vocês sabem - disse Enoque ao seu pessoal - o tema de tudo que ensinei sobre o fim dos tempos tem sido a misericórdia de Deus. Para muitos de vocês, isto pareceu divergir do que foi profetizado e do que aconteceu. Mas, como já disse, tudo isto, os 21 juízos que vieram dos céus em três grupos de sete, foram as últimas tentativas desesperadas de Deus para chamar a atenção do homem. Não se enganem porém com isso; os últimos sete juízos em especial evidenciam também a Sua ira.

            - De fato, os anjos que executam esses juízos são descri­tos como esvaziando taças ou cálices, de modo que cada gota do juízo é derramada sobre os vários alvos da ira de Deus. Observe o foco desses juízos:

            - A primeira taça foi derramada sobre a terra na forma de úlceras malignas sobre os corpos dos portadores da marca da besta.

            - A segunda foi derramada no mar, transformando a água em sangue e matando todos os seres vivos que habitavam lá.

            - A terceira foi derramada nos rios e fontes, de modo que toda a água doce virou sangue. Vocês devem estar lembrados de que esta foi a reação inicial e parcial de Deus às orações dos mártires em Apocalipse 6.10 para que suas mortes fossem vingadas: "Clamaram em grande voz, dizendo: Até quando, ó Soberano Senhor, santo e verda­deiro, não julgas, nem vingas o nosso sangue dos que habi­tam sobre a terra?".

            - A quarta taça foi derramada sobre o sol e ele aumentou tanto de poder que o calor intenso queimou os homens com fogo. Como reagiram os que sobreviveram? Apocalipse 16.9 diz: "e blasfemaram o nome de Deus, que tem autoridade sobre estes flagelos, e nem se arrependeram para lhe darem glória".

            - A quinta taça foi derramada sobre o trono da besta. Quem sabe o que isso significa?

            - Nova Babilônia.

            - Isso mesmo. Sabemos que essa grande cidade foi mer­gulhada em trevas tão grandes que causaram dor física tão severa a ponto dos homens e mulheres morderem a língua. E, mais uma vez, qual foi a reação deles? "Blasfemaram contra o Deus do céu por causa das angústias e das úlceras que sofriam; e não se arrependeram de suas obras".

            - A sexta taça foi derramada sobre o grande rio, o Eufrates, e ele secou. Isso permitiu que os líderes do ori­ente levassem seus exércitos às montanhas de Israel para a batalha de Armagedom. Deus estava claramente atraindo o anticristo para a sua armadilha. Joel 3.9-17 profetiza isto e embora os estudiosos discordem sobre a data em que o livro de Joel foi escrito, é geralmente aceito que isso ocorreu oitocentos anos antes de Cristo.

            "Apressai-vos, e vinde, todos os povos em redor, e congregai-vos; para ali, ó SENHOR, faze descer os teus valentes. Levantem-se as nações e sigam para o vale de Josafá; porque ali me assentarei para julgar todas as nações em redor. Lançai a foice, porque está madura a seara; vinde, pisai, porque o lagar está cheio, os seus compartimentos transbor­dam, porquanto a sua malícia é grande" (Joel 3.11-13).

            "Multidões, multidões no vale da Decisão! Porque o Dia do SENHOR está perto, no vale da Decisão. O sol e a lua se escurecem, e as estrelas retiram o seu resplendor. O SENHOR brama de Sião e se fará ouvir de Jerusalém, e os céus e a terra tremerão; mas o SENHOR será o refúgio do seu povo e a fortaleza dos filhos de Israel. Sabereis, assim, que eu sou o SENHOR, vosso Deus, que habito em Sião, meu santo monte; e Jerusalém será santa; estranhos não passarão mais por ela" (Joel 3.14-17).

            Enoque continuou:

            - A sétima taça do juízo, aquela que ainda aguardamos, será derramada no ar, de modo que relâmpagos, trovões e outras calamidades celestiais anunciarão o maior terremoto da História. Ele será tão grande que fará Jerusalém dividir-se em três partes em preparação para as mudanças durante o reinado milenar de Cristo. O terremoto será também acom­panhado de pedras de granizo com cerca de 35 kg cada, que cairão sobre os homens.

            - Qual será a reação geral daqueles que Deus está tentando tocar e persuadir? Apocalipse 16.21 diz: "Por causa do flagelo da chuva de pedras, os homens blasfemaram de Deus, porquanto o seu flagelo era sobremodo grande".

            - É isso então que virá a seguir? - alguém perguntou.

            - Antes do Glorioso Aparecimento - respondeu Enoque.

            - Sim.

            - Você acredita nisso?

            - Sem qualquer dúvida.

            - O que estamos então fazendo aqui fora enquanto as nuvens se juntam?

            - Você não lembra que os crentes serão poupados durante todos esses juízos?

            - Acredito nisso.

            - Amém.

            - Louvado seja o Senhor!

            - Vem, Senhor Jesus!

            - Eu me apoio em outra coisa, amados - disse Enoque.

            - Uma das mais belas e tranqüilizadoras passagens das Escrituras é João 14.1-6, onde Jesus conforta seus discípulos. Creio que podemos aceitar essas promessas como dirigi­das a nós e sentir-nos confiantes, sabendo que foram feitas por Alguém em quem não há variação, nem sombra de mudança. Vou ler para vocês:

            "Não se turbe o vosso coração; credes em Deus, crede também em mim. Na casa de meu Pai há muitas moradas. Se assim não fora, eu vo-lo teria dito. Pois vou preparar-vos lugar. E, quando eu for e vos preparar lugar, voltarei e vos receberei para mim mesmo, para que, onde eu estou, estejais vós também. E vós sabeis o caminho para onde eu vou. Disse-lhe Tomé: Senhor, não sabemos para onde vais; como saber o caminho? Respondeu-lhe Jesus: Eu sou o caminho, e a verdade, e a vida; ninguém vem ao Pai senão por mim".

 

            Rayford notou uma pausa na atividade e supôs que era porque Razor e Leah precisavam da ajuda de Abdullah para colocá-lo na enorme ATV Abdullah se achava, porém, a quatro metros de distância na encosta rochosa falando ao telefone, de costas para eles. Quando pensavam que havia terminado, ligou para outra pessoa.

            A barra energética, por menos saborosa que fosse, teve o seu efeito desejado e Rayford ficou pronto para partir. Ele já se sentira melhor antes, mas apesar de seus numerosos ferimentos, tinha agora uma sensação renovada de propósito e dinamismo. Vamos, vamos! pensou ele, mas nada disse. Abdullah finalmente voltou.

            - Muitos estão preocupados com você, capitão - disse ele. - Ree Woo é um deles, mas especialmente o próprio Chaim. Ele está curioso sobre os seus planos.

            - Meus planos? Manter-me respirando. Sobreviver à viagem.

            - Ele quer saber se o receberia em seu alojamento ao chegar.

            - Claro que sim. Sabe o que ele quer?

            - Não vamos nos apressar - falou Leah. - Você brinca a respeito de sobreviver à viagem e, francamente, estou bas­tante preocupada com isso. Não tem idéia de como irá sentir-se ao chegar. Tem provavelmente uma costela quebrada, além de tudo o mais, quem sabe mais que uma. É quase impossível dizer sem uma radiografia ou MRI.

            - O que está dizendo, doutora?

            - Sou apenas uma enfermeira, mas transportá-lo como estamos planejando é praticamente a pior coisa para você no momento.

            - Praticamente?

            - Ficar aqui seria pior, mas pelo menos está estabilizado.

 

            Mac montou hesitante o cavalo maior, mais negro e mais forte que já vira. Fazia anos, mas ainda sabia o suficiente para colocar o pé esquerdo firmemente no estribo antes de levantar a perna direita e subir. Se alguém estivesse olhando, ele não se saíra tão mal.

            Infelizmente, se ocupara mais com montar do que com a Uzi que pendia do ombro e antes de firmar-se na sela, o cano da arma tocou na base do pescoço do cavalo de trás. O animal assustou-se e começou a agitar-se, deixando Mac em pânico. Isso fez sua montaria recuar. Mac puxou as rédeas com toda força, desesperado para manter-se na sela e não ser atirado de cabeça.

            Enquanto o cavalo relinchava alto e levantava-se nas patas traseiras, assustando outras montarias e cavaleiros, Mac escorregou da sela e os estribos afrouxaram. Ele empur­rou as pernas o mais que pôde, encostou o queixo no peito e segurou as rédeas com toda a força. Isso fez com que o focinho do cavalo abaixasse e quase atirou o cavaleiro para trás. Mac estava praticamente de ponta cabeça, empurrando o cavalo com todo o seu peso e já imaginava cair com o animal por cima dele.

            O cavalo equilibrou-se de alguma forma, com alguns passos das patas traseiras bem colocados, depois atirou Mac para a sela e para a frente, fazendo com que abraçasse seu pescoço. O animal sentia-se ainda inseguro debaixo dele e Mac sabia que fizera o oposto de mostrar-lhe quem estava no controle. Se uma mensagem fora enviada ao cavalo, o cavaleiro é quem estava mortalmente alarmado e pendurado nele com todas as forças.

            O "superior" de Mac não pareceu ter notado. Ele veio a meio-galope e indicou vários soldados, Mac inclusive, man­dando que se posicionassem longe dos flancos do cavalo de Carpathia. Como de hábito, o potentado cavalgava uma cria­tura monstruosa que envergonhava os demais. Seu cavalo era pelo menos dois palmos mais alto e 50 quilos mais pesado do que os outros. Havia uma mancha branca entre seus olhos e tinha as quatro patas brancas. Sua cauda pare­cia subir em linha reta antes de cair vistosamente em cas­cata. A crina era também mais longa e pesada. Mac ouvira falar do cão do céu. Aquele era o cavalo do inferno.

            O animal parecia ter até uma atitude. Bufava alto quando outro cavalo invadia o seu espaço e mordia e escoiceava para manter sua posição. Carpathia parecia ter sido criado ao redor de cavalos, controlando eficazmente a coisa com um toque leve e mãos, joelhos e pés resolutos. Ele andava na frente dos outros e virava o cavalo para observá-los.

            - Quero lembrar a todos vocês - ele disse - que esta­mos a poucos passos de um verdadeiro campo de batalha. A resistência está de posse do monte do Templo, acima de nós, e tem possibilidade de atirar do alto do muro. Fiquem vigilantes. Esta não vai ser uma entrevista para a imprensa nem um safári para turistas. Sinto informá-los de que acabei de saber de uma insurgência em nossas próprias fileiras, tanto no sul do Egito quanto abaixo dele e a noroeste. Ironi­camente, alguns que juraram lealdade agora se chamam de "Babilônia Revitalizada" e condescendem em confirmar sua independência. Essas rebeliões serão esmagadas de imediato. Enquanto falamos, partes de nossas forças extravagante­mente equipadas irão dirigir-se a essas localidades para aniquilar os insurgentes. Eles vão lamentar sua insolência enquanto tiverem fôlego e depois serão pisoteados e servirão de exemplo.

            - Enquanto isso, seguiremos figuradamente para Petra. Digo figuradamente porque não planejo perder as horas necessárias para cavalgar cerca de 96 km a cavalo. A mídia da Comunidade Mundial irá obter o que necessita no momento em que partirmos daqui, deixarmos o bairro muçulmano ocupado e avançarmos na direção sudeste através dos bairros judeu e armênio - os dois tomados facilmente pelas nossas forças - deixando a Cidade Velha pela Porta de Sião. Ali vocês irão transferir-se para veículos possantes capazes de cobrir a distância a uma velocidade de bem mais de 160 km/hora. Eu partirei um pouco mais tarde com meus generais e gabinete num avião que irá transpor­tar-nos e a nossos cavalos até a área um pouco antes da sua chegada.

            - Haverá montarias similares àquelas que estão agora esperando por vocês do lado de fora de Petra e terão o privilégio de ver-me liderando nossas tropas para a vitória sobre um dos únicos dois enclaves de oposição à Nova Ordem Mundial restantes. Sorriam para as câmeras!

            Mac finalmente sentiu que tinha o controle de sua mon­taria, mas não tinha intenção de seguir Carpathia em um dos poderosos veículos. Se qualquer parte do pequeno destacamento de segurança tivesse sido designado para outro lugar, Mac procuraria reunir-se a eles e depois fugir para o seu helicóptero. Ele não se importava em ver o que acontecia em Petra, embora tivesse aprendido que a peleja teria lugar a cerca de 30 km ao norte, em Buseirah, Jordânia - nome moderno da cidade de Bosra, antiga capital de Edom -quando o Messias fizesse o Exército da Unidade recuar na direção de Jerusalém.

 

            Além da tontura que sentiu ao ficar em pé pela primeira vez em muitas horas, Rayford percebeu também que depen­dia inteiramente do pequeno e vigoroso Abdullah Smith e do mais corpulento, forte e jovem Razor. Ao que parecia, Leah levara tudo, menos muletas. Ela fez o possível para ajudar, mas não tinha condições de apoiá-lo e se pôs a dirigir principalmente a caminhada, procurando manter isolados os ferimentos mais vulneráveis.

            Rayford não podia colocar peso sobre a canela quebrada, com ou sem tala. Pular estava fora de questão, e os dois homens tiveram de suportar todo o seu peso enquanto o moviam até a moto. Mesmo o pé bom ao tocar o solo enviava ocasionalmente ondas de dor por todo o resto do corpo. O anestésico em sua têmpora estava acabando e Leah decidira não acrescentar mais.

            Subir na ATV era uma operação delicada. Leah enrolou uma toalha e a colocou sob o joelho da perna quebrada na tentativa de impedir que o pé dele tocasse o veículo. Isso fez com que ele só pudesse manter o equilíbrio por meio do pé e da perna boa, enquanto os braços doloridos se apertavam ao redor da cintura de Razor. Rayford tinha horror do que sabia que o esperava. Em algum ponto, seu peso mudaria para o lado da tíbia quebrada e ele teria de lutar com Razor do outro lado ou firmar aquele pé para não sair voando da ATV.

            Uma vez que se posicionou, Leah insistiu que ele ficasse sentado por algum tempo para orientar-se.

            - Você está bem? - ela perguntou.

            - Acho que sim - ele respondeu exausto.

            Fechou os olhos e girou o pescoço, ouvindo-o estalar. A seguir, lançou um olhar furtivo para o céu. Nuvens cobriam agora metade do pavilhão visível e começavam a surgir em cores varia­das. Metade do sol já desaparecera no horizonte, grande e achatado, na sua cor laranja mais carregada, pintando as nuvens de rosa, vermelho e amarelo. Se não estivesse temendo pela vida, Rayford teria pensado que aquele era um dos céus mais bonitos que já vira. Leah tinha instruções finais para Razor.

            - Eu vou na frente. O Sr. Smith segue você, no caso de termos um problema e precisarmos levantar novamente o capitão Steele. Minha máquina carrega também muito peso, portanto, se eu puder atravessar um certo terreno, você também poderá. Vou procurar evitar sulcos, choques e até pequenas pedras, mas é claro que não será possível evitar tudo. Tente subir ladeiras o mais devagar possível, mas necessitará de potência e velocidade. Rayford, você tem de ficar agarrado e cerrar os dentes. Os primeiros 50 metros estão em ordem, portanto, vou tentar vigiar vocês para ter certeza de que os dois estão bem.

            Rayford sempre se considerara um homem de verdade. Com seu corpo musculoso, ele praticara esportes mesmo com dores de todo tipo. Desde o Arrebatamento, suportara sua cota de lesões graves. Sentado ali, com as mãos agarradas ao cinto de Razor, sentia entretanto vontade de gritar como uma criança. Tudo nele doía. Era como se a dor tivesse vida e mente próprias, ameaçando matá-lo. Ela entrara, na maior parte, na têmpora e na canela, vibrando, latejando, aguilhoando.

            Quando Razor deu partida ao motor, o som atravessou o corpo de Rayford e deixou-o tonto. Razor provavelmente saberia se ele desmaiasse, só pela força com que o segurava. Sua decisão era, porém, agüentar firme.

            Leah partiu vagarosamente, o par de geladeiras pendura­das de cada lado da ATV como dois alforjes mal combinados.

            Razor virou a cabeça:

            - Basta dizer e eu paro.

            - Vá - Rayford sussurrou e a viatura começou a rolar. - Senhor, tem misericórdia.

            - Tudo bem? - indagou Razor.

            - Não pergunte, filho. Eu aviso se precisar. Continue andando.

 

            Sebastian ficou surpreso com a grandiosidade do sol do fim da tarde, lançando seus raios sobre o inimigo vestido de preto. Quem pensaria que aquela massa maligna de humani­dade poderia ser vista sob uma luz atraente? Otto Weser, o alemão que mantivera um pequeno grupo de crentes em Nova Babilônia até quase o fim, se juntara a ele.

            - Você chegou a sonhar com este privilégio, Otto?

            - Privilégio? Esta é a minha definição do tremendo e ter­rível dia do Senhor.

            - Estar aqui, enfrentando o exército do anticristo, no último dia da terra como a conhecemos...

            - Eu preferia ter aceito a verdade quando me foi oferecida e já estar no céu, se você quer que eu seja completamente sincero.

            - Claro que sim - disse Sebastian - mas, já que perdemos essa oportunidade, não há outro lugar em que eu gostaria de estar agora. Só queria que minha mulher e filha estivessem comigo.

            - Você não ia querer as duas aqui - respondeu Otto, de maneira tão incisiva que Sebastian não conseguiu replicar.

            - Você não se importa com um inimigo próximo o bas­tante para quase encostar o nariz no nosso?

            Sebastian balançou a cabeça.

            - Se eles quisessem matar-nos, e Deus permitisse, já teria acontecido há muito tempo. Estive em aeronaves que mísseis certamente poderiam ter atingido. Sinto-me invulnerável aqui. Não posso vencer esse exército, sei disso, não com minhas próprias forças. Mas, o Dr. Ben-Judá, o Dr. Rosenzweig, e outros professores me convenceram de que toda esta força de combate acabará como os midianitas diante de Gideão, recuará e fugirá quando terminar esta noite. Mal posso esperar por isso.

            - É um pouco difícil de acreditar, não é? Quero dizer, olhando para a imensidão deles.

            Sebastian voltou-se e estudou o homem mais velho à luz do crepúsculo.

            - Deus mudou um dia sem nuvens em outro cheio delas há pouco. Você viu quando toda a cidade de Nova Babilônia foi destruída no espaço de 60 minutos. E ainda diz que algo é difícil de acreditar?

 

            Rayford detestava mais que tudo quando Leah tinha de parar e Razor via-se obrigado a fazer o mesmo. Não havia maneira suave de deter-se, não naquelas ladeiras. Razor era às vezes forçado a parar sem ter encontrado um lugar plano. Ray ficava ali pendurado com força para não escorregar pela traseira da ATV.

            - É agora que a subida piora - Leah disse.   

            E o pior continua - pensou Rayford. - Como você chama o que estivemos fazendo até agora? - perguntou.

            - Fácil, fácil - ela disse. - Daqui para a frente, não podemos parar. Só diminuir um pouco a marcha. Temos de subir ladeiras íngremes e precisamos ficar em movimento. Você tem de agüentar. Vamos.

            Ela saiu mais depressa do que Rayford considerara possível ou prudente. Embora Razor reduzisse um tanto a sua veloci­dade a princípio, em breve aumentou-a a fim de possibilitar a subida. Algumas curvas agudas fizeram Rayford gritar, mas quando Razor diminuiu a marcha, Rayford tranqüilizou-o, dizendo que estava bem.

            Em pouco tempo chegaram à encosta mais íngreme e Rayford sentiu como se estivesse pendurado de cabeça para baixo. Ele observou a área ao seu redor e viu que se não agar­rasse a Razor estaria em sérios apuros. O tombo seria mais violento do que antes. A moto de Abdullah gemia ao lado deles e o amigo fez um V da vitória para os dois. Rayford sacudiu a cabeça. Tudo que ele queria era ceder à tentação de levantar uma das mãos e devolver o gesto, embora isso significasse que seria então um homem morto.

            Ele descansou a testa no meio das costas de Razor.

            Onde esses garotos conseguem músculos de aço hoje? Mesmo no vigor de seus anos, Rayford nunca fora como aquele espécime.

            O sol desaparecia rapidamente e os faróis automáticos dos três veículos se acenderam ao mesmo tempo. Eles rodearam finalmente uma curva que os colocou num caminho normal e Rayford compreendeu que o resto da viagem seria relativa­mente confortável.

            Ele não estava, porém, preparado para a recepção que teve. Dezenas de milhares de residentes estavam do lado de fora colhendo o maná da noite e observando o céu. Notí­cias deveriam ter sido espalhadas por toda parte sobre os problemas dele, porque todos pareciam saber que o desfile improvisado de veículos era o seu transporte para casa.

            As pessoas acenavam, gritavam, assobiavam e levan­tavam as mãos. Ele não podia senão menear a cabeça em resposta. Enquanto isso, Abdullah acenava como se o desfile fosse seu.

            Rayford só podia imaginar a acolhida que Jesus teria.

 

            O sol mergulhara abaixo do horizonte, deixando uma lua brilhante e quase cheia para iluminar o céu praticamente preto, salpicado de nuvens. As cores das nuvens pareciam mudar a cada instante, as nuanças pastel dando lugar a tons azuis profundos, avermelhados, lavanda e traços de laranja escuro que iam rapidamente se desvanecendo.

            Abdullah, Razor e Leah levaram Rayford para os seus aposentos. Ele insistiu em esperar numa cadeira desconfor­tável, enquanto mudavam a cama de frente para a janela aberta. Naquela posição, deitado de costas, ele poderia apreciar o lindo céu noturno por inteiro. Algo estava para acontecer e, o que é natural, ele sabia o que era.

            Razor parecia ansioso para voltar ao seu posto, e foi logo embora. Leah disse que ele ficaria por perto na enfermaria e que ela ou Hannah estariam à disposição de Rayford, bastava chamar.

            Abdullah disse estar preocupado com Mac, depois fez um jeito de quem não devia ter aberto a boca.

            - Onde está Mac, Abdullah? - indagou Rayford.

            Abdullah contou.

            - Se aconteceu algo a Buck, não quero que Kenny saiba. Não quero também que ele me veja assim. Você pode confir­mar se Kenny ainda está com Priscilla Sebastian?

            Abdullah pegou o telefone, informou Priscilla sobre Rayford e acenou para ele.

            - Kenny está se preparando para dormir.

            - Essa vai ser uma boa lembrança para ele contar aos netos. Dormi durante o Glorioso Aparecimento.

            Rayford gostou de ter saído do veículo de tração nas quatro rodas e acomodar-se em sua cama, mas só teve idéia de como o dia o esgotara quando finalmente deitou-se.

            - É possível que até eu pegue no sono enquanto isso - ele disse. - Quer fazer-me companhia, Abdullah? Impedir que eu durma?

            O jordaniano parecia sem jeito. Ele não gostava de con­fronto, mas era óbvio que não queria obedecer ao pedido de Rayford.

            - Tudo bem, homem - tranqüilizou-o Rayford. - Você tem coisas a fazer, lugares para ir.

            - Não é isso, capitão. Mas, o Dr. Rosenzweig vai chegar logo.

            -Tem razão!

            - Para falar a verdade, eu gostaria de estar no ar quando todas essas coisas acontecerem. Caso não se importe.

            - Está brincando? Você sabe que eu também gostaria de estar lá, se pudesse. Vá em frente, companheiro. Vou ficar bem.

            - Não vou deixá-lo sozinho. Posso esperar até que o Dr. Rosenzweig chegue.

            Rayford colocou as mãos cuidadosamente por baixo da cabeça e dobrou em dois o travesseiro para ficar um pouco mais alto. De seu lugar, ele tinha uma boa visão do céu, com a lua à esquerda e o resto de seu campo visual cheio de nuvens pesadas, coloridas, em movimento.

            Quanto mais o céu escurecia, mais a lua parecia brilhar, mais parecia as nuvens se adensarem e as estrelas ficarem mais luminosas. Como era de costume, quando seus olhos se habituaram ao céu noturno, uma camada maior de estrelas surgiu. Enquanto as estudava, elas desapareceram e ele teve de pro­curar outras por entre as nuvens.

            Chaim chegou com um pequeno séquito e Rayford sur­preendeu-se ao vê-lo dispensar todos.

            - Eu chamo vocês se precisar - disse.

            Quando Abdullah Smith saiu, Rayford extraiu dele a promessa de que entraria em contato, se tivesse alguma informação de Mac ou Buck.

            - Tem certeza de que quer saber? - perguntou Abdullah.

            - Claro que sim. Não me proteja. Mesmo que seja o pior, vamos reunir-nos em breve com eles.

            Chaim sentou-se numa cadeira inclinada perto da cama de Rayford e recostou-se.

            - Magnífico - disse. - Como um assento na primeira fila para a eternidade.

            Chaim não costumava fazer rodeios. Embora já tivesse agora mais de 70 anos, era um homem brilhante, com uma energia aparentemente inesgotável, e todos sabiam que ele não perdia tempo. Todavia, estava ali sentado, estudando os céus de Israel, sem ter evidentemente o que dizer.

            - Algo em mente, doutor? Ou seja, mais de um milhão de pessoas aqui dariam tudo para passar esta noite em sua companhia. A que devo o prazer?

 

            As câmeras noticiosas da mídia da Comunidade Mundial estavam enfocadas na cavalaria de Carpathia que surgiu da Porta do Monturo. Mac sentiu-se aliviado ao descobrir que não era o único membro que estava se acostumando à sua montaria. Um igual número de homens e mulheres, a maioria representando outros subpotentados, reagiu mais emocionalmente aos seus cavalos do que deveria e acabou girando com eles em círculos ou quase sendo atirados para fora da sela.

            A princípio, todos riram, mas em breve tornou-se óbvio que Carpathia não estava mais achando divertido. Ele despediu a imprensa e insistiu com os generais para que fizessem o seu pessoal entrar nos vários meios de transporte para Petra.

            Mac ficou esperando uma oportunidade, mas decepcio­nou-se quando seu comandante o escolheu para acompanhar o avião cargueiro de Carpathia, grande o suficiente para levar vários cavalos e veículos. Se os encarregados soubessem que Mac fora anteriormente o principal piloto de Nicolae...

            Mac se orgulhara antes de sua calma numa crise, espe­cialmente quando estava escondido. Mas, ao desmontar e entregar o cavalo a um jovem moreno, vestindo uma camiseta espalhafatosa, que o levaria até o avião, ele não pôde pensar em nada mais criativo do que simplesmente livrar-se do apuro.

            - Olhe, tenho um problema, meu caro - disse.

            - Sim? E qual é, companheiro? - indagou o jovem, com sotaque da Nova Zelândia.

            - Entrei no grupo errado. Será tarde demais para juntar-me aos outros?

            - Quer dizer, aqueles carregados pelas Hummers e outros veículos?

            - Exato.

            - Não sei, mas é melhor tentar. Se subir neste avião sem ter sido indicado, vai haver morte. Na verdade, não tenho espaço para nenhum cavalo extra.

            Mac pegou o cavalo de volta, montou, e quando alguém gritou seu nome, perguntando o que pensava estar fazendo, ele berrou:

            - Seguindo ordens! Indo para onde me mandaram! - Olhou por sobre o ombro para ver se a voz não era a de seu comandante. Mas o homem estava ocupado com outras coisas, o que confortou Mac. Ele não queria problemas com ninguém da CG agora, tão perto da volta de Jesus. Tudo que não precisava era ser preso ou baleado pouco antes do fim.

            O animal debaixo dele parecia estar correspondendo aos propósitos de Mac, que agora sabia a sua direção e queria chegar depressa. A primeira coisa que desejava, uma vez fora da vista de qualquer outra pessoa, era transmitir as notícias sobre Buck e sobre os planos de Carpathia e ver se havia alguma novidade a respeito de Rayford. Depois, queria entrar em seu helicóptero e tirar aquele uniforme infernal do Exército da Unidade. Suas roupas simples e folgadas nunca pareceram tão convidativas.

 

            Sebastian sentiu a fadiga, não do tédio, mas da inatividade. A tensão e a expectativa o levariam até a meia-noite ou até a madrugada, se necessário. Ele esperava que não che­gasse a tanto.

            Sentia-se agradecido pela Cooperativa Internacional e pelo trabalho que Lionel Whalum estivera fazendo nela desde a morte de Chloe Steele Williams. Por trás de Sebastian havia três holofotes imensos, equipamento que só a Cooperativa poderia ter localizado e transportado. Sem as luzes, os olhos de Sebastian poderiam enganá-lo.

            Só com a iluminação da lua, ele poderia ter imaginado que o Exército da Unidade estava novamente avançando. Sentia o ruído surdo e prolongado, a vibração, sabia que algo estava acontecendo, mas tudo que precisava era ligar os interruptores, dirigir aqueles raios gigantescos na direção do inimigo e determinar que se acha­vam apenas mantendo sua posição a 800 metros de distân­cia.

            A ATV de Razor veio derrapando por trás dele numa nuvem de poeira. Razor aproximou-se com uma continência e ficou em posição de sentido.

            - Você tem mesmo de acabar com isso, garoto - disse Sebastian. - Sou tão militar quanto os outros, mas o que vou fazer com você? Enviá-lo à corte marcial e colocá-lo na prisão pelo quê - uma ou duas horas?

            - Sinto muito, Sr. - disse Razor, fazendo um relato com­pleto sobre o que chamava de destacamento do seu capitão Steele.

            - Estou contente porque era só você fazendo o solo estrondar. Até pensei que era o inimigo se movendo outra vez.

            - Eles estão, Sr.

            - Estão?

            - Sim, Sr. De cima das encostas, pude vê-los avançando. Não é possível ver deste nível, mas se movimentaram bem, Sr. Sebastian despachou Otto Weser para ligar os holofotes. - Eu confiaria nos meus óculos de visão noturna, mas não quero que os rapazes da Unidade vejam o que temos. De qualquer modo, os cavalos deles podem não estar acostuma­dos a isto.

            - Em posição, Big Dog One - Otto chamou.

            - Acenda! - mandou Sebastian, e os raios iluminaram a areia do deserto. - Misericórdia.

            O inimigo avançara pelo menos 800 metros no escuro e a linha de frente de suas tropas montadas aparentemente infinitas se postava agora em silêncio a cerca de dez metros de distância. Estava claro que apenas aguardava ordens para atacar.

            - Nós devíamos atacá-los, Sr. - disse Razor.

            - O quê?

            - Nós devíamos...

            - Ouvi você, Razor. Só não posso acreditar no que disse. Em qualquer outra situação, isso seria brilhante. Nunca lhes passaria pela cabeça que poderíamos fazer esse movimento, mas...

            - Mas?

            - Mas duas coisas: Primeira, se tudo que lançássemos sobre eles atingisse o alvo, causaríamos uma pequena debandada, mataríamos alguns soldados e cavalos e depois seríamos massacrados. Segunda, somos invulneráveis onde estamos, ao que sei. Isso talvez não aconteça lá fora.

            - Há outra coisa - afirmou Razor.

            - Fale.

            - Esta batalha já foi ganha sem levantarmos um dedo.

            - Isso é verdade, tem razão.

            O celular de Sebastian tocou. Era Mac. George disse:

            - Rayford está de volta em seus aposentos com Chaim e aparentemente vai curar-se. E Buck? ...Lamento ouvir isso. Você falou com Chang?... Provavelmente está monitorando o mundo. Vamos espalhar a notícia.

 

            - Sinto que somos bem parecidos, capitão Steele - disse Chaim.

            Isso fez Rayford tirar os olhos da janela por um instante.

            Não podia imaginar alguém mais diferente do que ele e Chaim. Eram judeu e gentio, velho e não tão velho, meio-oeste e americano, botânico e aviador, líder de um milhão de pessoas e líder de um pequeno grupo.

            - Sinto - continuou Chaim - que apesar de nossas diferen­ças culturais e profissionais, somos homens normais lançados em decisões e papéis que não procuramos voluntariamente. Estou certo?

            - Penso que sim.

            - Pode ser ainda mais surpreendente o fato de que eu creia no Messias há mais tempo do que você. Todavia, nós dois seguimos pelo caminho mais longo para chegar aqui, não é?

            - É isso.

            - Como você sabe, na minha posição atual, tenho mais companhia - mais amigos, associados, anciãos e conselhei­ros - do que alguém jamais teria necessidade. É claro que não tive falta de opção sobre com quem passar esta noite. Para ser franco, se pudesse escolher em todo o universo, teria escolhido seu genro. Isso vem de longe. Eu o conheci antes de ele ser crente e ele me conheceu tanto tempo antes de minha conversão que ouso dizer que ainda acha difícil lembrar. Minha esperança é que se Cameron voltar esta noite, ele se juntará a nós e se sentirá bem-vindo.

 

            Chang estava de fato monitorando o mundo. Ele parecia revigorado. Sabia que devia estar na cama, mas quem podia dormir numa hora como aquela? Ficou sentado diante do computador, vendo os relatórios que chegavam do mundo inteiro sobre pessoas, especialmente judeus, aceitando Jesus Cristo como seu Messias.

            Dezenas de milhares a cada poucos minutos eram acrescentados aos milhões já existentes e Chang sentia que iria continuar até o Glorioso Aparecimento. Haveria sinais nos céus antes disso e mais aceitariam Cristo como profetizado.

 

            Rayford e Chaim ouviram as notícia sobre Buck alguns minutos depois. Rayford não sabia o que sentir. Ele tinha certeza de que Buck estava bem, melhor do que nunca antes, e que o veria em breve.

            Odiava, porém, a idéia de que o jovem, o pai do seu neto e marido de sua filha, sofrera tanto. Rayford perdera muitos amigos e entes queridos, nenhum tão próximo quanto sua filha e agora seu genro. No passado, entretanto, ele conseguira aceitar de alguma forma as perdas, convencer a si mesmo que era o preço da guerra, o resultado inevitável do que tinham sido chamados a fazer. Não era assim tão fácil agora, não quando as coisas atingiam em cheio.

            Telefonou para Mac.

 

            As nuvens se abriram e a lua brilhou radiante até o mar Morto, diretamente abaixo de Mac.

            - Não vou mentir para você, Ray. Parece mesmo que Buck teve um fim difícil. Ele estava, porém, fazendo o que queria. Trabalhou para isso, treinou para isso e se está lembrado das primeiras notícias que recebemos, ele e Tsion cumpriram a missão que esperavam cumprir.

            - Como está a resistência?

            - Quase extinta. A Unidade os empurrou para o monte do Templo e está claro que a CG mal arranhou a superfície de seus recursos até agora. Eles poderiam tomar a cidade inteira na hora que quisessem.

            - Você está voltando, não é?

            - Não diretamente - respondeu Mac. - Quero ver do ar o que acontece na região de Petra. Depois, pretendo ir a Buseirah e ver como as coisas vão por lá.

            - Você sabe que eu daria tudo para estar com você.

            - Puxa! Viu isso, Ray?

            - Vi. Vou desligar. Está na hora de assistir ao show.

 

            Uma nuvem cobrira agora a lua. Ela estava antes brilhante e quase cheia, iluminando as nuvens dançarinas. De repente, parecera desaparecer, como se alguém tivesse desligado uma lâmpada. Rayford sabia que a lua apenas refletia o sol, então fora o sol - bem abaixo do horizonte agora - que perdera a sua luz. O céu ficara preto como tinta.

            Rayford pediu a Chaim que apagasse todas as lâmpadas.

            - Não vamos ver nada, capitão - disse ele. - Não obstante, será melhor para enxergar o que está vindo.

            Quando as luzes se apagaram, Rayford só podia saber que Chaim estava à janela pelo som de sua voz.

            - Você já viu um negrume tão grande? - perguntou.

            - Vi muitos prodígios nos últimos sete anos - respondeu Chaim. - Não consigo enxergar nada. Mas, a simples expec­tativa que provoca faz com que eu estremeça da cabeça aos pés.

            Relâmpagos cruzaram os céus e Rayford ficou espantado ao ver as nuvens de relance outra vez. - Acho que vi uma estrela cadente - disse - gosto delas.

            - Isso foi mais do que uma estrela cadente - afirmou Chaim, - a qual, você sabe, não é na verdade uma estrela. O que você viu foi talvez um meteoro. Em breve, as estrelas e os meteoros cairão, mas você só irá ouvi-los. Isaías profetizou que as estrelas dos céus e suas constelações deixariam de brilhar. O sol escureceria e a lua não daria a sua luz.

            - Deus está dizendo:

            "Castigarei o mundo por causa da sua maldade e os per­versos, por causa da sua iniqüidade; farei cessar a arrogância dos atrevidos e abaterei a soberba dos violentos. Portanto, farei estremecer os céus; e a terra será sacudida do seu lugar, por causa da ira do SENHOR dos Exércitos e por causa do dia do seu ardente furor...Cada um fugirá para a sua terra. Quem for achado será traspassado; e aquele que for apan­hado cairá à espada" (Is 13.11-15).

            Rayford sacudiu a cabeça.

            - Há outra diferença entre nós, Chaim. Eu nunca con­segui guardar coisas assim na memória.

            - O que mais tenho a fazer, Rayford? Como já disse, fui jogado nesta posição e o professor tornou-se aluno. Meu ex-protegido, Dr. Ben-Judá, não permitiu que eu desse pouco tempo às Escrituras. Ele me discipulou, incentivou e firmou nelas. Acima de tudo, Deus me deu amor pela Sua Palavra. Não há nada que eu queira mais agora do que estudá-la sempre e guardar o quanto puder em minha memória.

 

            O grupo de Enoque colocou-se em de pé e gritou quando o sol do começo da tarde desapareceu do céu dos subúrbios de Chicago. Embora ele soubesse o que estava para vir, o próprio Enoque ficou assustado quando a luz do dia transformou-se em noite fechada e a temperatura baixou imediatamente.

            Ele ouviu uma espécie de rugido, de assobio, e pensou nas palavras que as pessoas costumavam usar ao descrever um tornado:

            - Parecia um trem de carga. - O barulho agora era o de um avião prestes a cair. Eles se achavam próximos o bastante do aeroporto para que pudesse ser uma aeronave, mas Enoque não se lembrava de ter ouvido um jato.

            Algo estava chegando cada vez mais perto.

            - Não tenham medo! - disse Enoque, mas ele não con­seguia esconder o temor em sua própria voz. - Isto foi profetizado. Acabamos de falar a respeito. Tudo faz parte do plano de Deus.

            Mas, o que quer que estivesse caindo estatelou-se final­mente na estrada principal do outro lado do shopping e não houve meios de impedir que as pessoas saíssem correndo para olhar. Enoque seguiu-as, grato pelas lâmpadas da rua sensíveis à luz que começaram a acender-se por toda parte. Um meteoro de cerca de 90 cm de diâmetro abrira um buraco de seis metros na estrada.

            E ali vinha outro.

            As pessoas gritaram e se dispersaram, mas Enoque ficou firme.

            - Creio que estamos protegidos! - exclamou. - Nenhum dos juízos do céu feriu o povo de Deus! Nós temos a sua marca, o seu selo! Ele vai proteger-nos!

            O seu grupo de crentes, porém, fugira. Enoque sorriu. Ele os repreenderia amanhã quando todos estivessem sãos e salvos. Como parecia estranho andar na escuridão da meia-noite no início da tarde. O meteorito seguinte, que Enoque calculou ser o dobro de tamanho do primeiro, esmagou uma das antigas lojas do shopping deserto, provocando uma explosão tão grande que ele tapou os ouvidos. Embora acreditasse realmente que não seria atingido, percebeu que se esquivava e tinha a impressão que escombros estavam prestes a cair em sua cabeça.

            Enoque voltou correndo ao lugar da reunião com o pes­soal, mas estava agora sozinho. Sentou-se num banco de concreto e ficou assistindo ao espetáculo. Na maior parte do tempo, apenas ouviu. Se fosse um homem das cavernas, teria acreditado que o céu estava caindo e que as estrelas iriam eventualmente colidir com a terra.

 

            O número de relatórios sobre o povo judeu aceitando o Messias cresceu dramaticamente na meia hora seguinte. Chang chamou Naomi para o seu lado e sentou-se com o braço na cintura dela, enquanto a moça ficava em pé. Eles não sabiam o que era mais interessante - os milhares de cenas enviadas de todo o mundo em trevas, ou o medidor veloz evidenciando o cumprimento da profecia de que um terço do remanescente judeu passaria no final a crer em Jesus como seu Messias.

            Chang só podia pensar nas cenas horrendas que moni­torara quando Carpathia estava no apogeu da sua fúria assassina contra os judeus. Ele os perseguira, colocara em campos de morte, matara de fome, torturara, espancara, humilhara por meio de guerra psicológica e muito mais. O fato de alguém sobreviver foi um milagre e terem se tornado cristãos mais ainda.

            - Isto é bem diferente da última vez que Jesus veio - comen­tou Naomi. - Além do mais, não estávamos prontos, tudo aconteceu num piscar de olhos. Ao que parece, desta vez será o máximo, Deus não vai esquecer de nada que valha a pena.

 

            Mac teve a mais estranha das sensações. É claro que fora treinado para voar com instrumentos; mas, mesmo assim, ficou desconcertado por não ver nada acima de si. E a única luz no solo era produzida pelo homem.

            Aos poucos, foi percebendo luzes em barcos, em outros aviões, faróis de automóveis, caminhões e veículos militares. Ouviu o ruído dos meteoritos caindo, mais alto do que o geralmente ensurdecedor barulho das hélices e até ouviu as explosões quando atingiram a terra. Isso era novidade. Mac nunca tinha escutado nada dentro da cabina do helicóptero, espe­cialmente com os fones de ouvido ligados.

            Agora, mesmo acima da cacofonia dos aviadores da CG exigindo saber o que acontecia, a terra ressoava com a ira de Deus, com a queda literal dos céus.

            Um meteoro de pelo menos três metros de diâmetro caiu a cerca de 38 metros do helicóptero de Mac. Suas luzes o iluminaram e ele o seguiu até bater num edifício, enviando um chuveiro de fogo e fagulhas para o ar. Não tinha idéia do que era o prédio, mas isso o fez pensar.

            Estaria ele protegido daqueles monstros de pedra ou metal que caíam livremente? Até um bem pequeno destruiria o helicóptero e muitos agora começavam a cair à sua volta. As pessoas no solo, especialmente as tropas do Exército da Unidade deveriam estar aterrorizadas. Mac ficou imaginando quantas desejariam poder mudar agora suas marcas de lealdade.

            Ele tinha praticamente certeza de que seria protegido, como os crentes haviam sido desde que os juízos começaram sete anos antes. Praticamente certo não era, porém, o suficiente para Mac continuar com o seu plano. Seguiu então para Petra, sabendo que o espaço aéreo era seguro. Podia ter sido morto ali muitas vezes, mas fora sempre milagrosamente poupado.

 

            Rayford estava passando por um período único em sua vida. As notícias sobre Buck o atingiram, é claro, e apesar o que sabia sobre o futuro, isso o fizera sofrer como sofrera com a perda de Chloe. Mas, ficar ali deitado observando os céus serem abalados conforme as profecias feitas há milhares de anos...

            Ter também seu velho amigo, Chaim Rosenzweig, que Deus escolhera para ser um moderno Moisés, ao seu lado, citando essas profecias de memória, isso quase o fazia esquecer sua tristeza e seus ferimentos.

            "Vi descer do céu outro anjo" - disse Chaim - "que tinha grande autoridade, e a terra se iluminou com a sua glória. Então, exclamou com potente voz, dizendo: Caiu! Caiu a grande Babilônia e se tornou morada de demônios, covil de toda espécie de espírito imundo e esconderijo de todo gênero de ave imunda e detestável, pois todas as nações têm bebido do vinho do furor da sua prostituição. Com ela se prosti­tuíram os reis da terra. Também os mercadores da terra se enriqueceram à custa da sua luxúria" (Ap 18.1-3).

            - Foi isso que enraiveceu tanto Carpathia hoje, Rayford. Uma coisa foi perder a sua amada cidade e ver o resto dos reis da terra e os poderosos mercadores chorando lágrimas de crocodilo por causa dela. Mas, insistir nisso, fazer um anjo pronunciar juízo, saber que foi o cumprimento de uma antiga profecia de seu arquiinimigo... não é de admirar que esteja agitado agora. Ele tem um plano, um esquema que julga ser perfeitamente seguro, embora não seja bobo e tenha lido o Livro. Mas, vai fracassar e nós seremos testemunhas disso.

            - Gostaria tanto de estar lá fora - disse Rayford. - Por que isto teve de acontecer exatamente hoje?

            Ele não podia ver Chaim, mas ouviu o sorriso em sua voz.

            - O líder do Comando Tribulação não vai duvidar de Deus agora, não é? Exatamente você. Você foi libertado pela sua mão tantas vezes quanto eu. Andou através do fogo como Sadraque, Mesaque e Abedenego quando a CG lançou suas bombas em Pedra, e vai choramingar por ter de brincar dentro de casa num dia chuvoso? Rayford teve de rir.

            - Ouça estas palavras do profeta Joel - disse Chaim. "Mostrarei prodígios no céu e na terra: sangue, fogo e colunas de fumaça. O sol se converterá em trevas, e a lua, em sangue, antes que venha o grande e terrível Dia do SENHOR" (JI 2.30-31).

            - Eu vi isso - exclamou Rayford. - Quando a lua virou sangue. Foi pouco depois que perdi Amanda.

            - Eu sei - disse Chaim depois de uma pausa. - Todos per­demos muito. Todavia, tudo será restaurado. Esta é a melhor parte, lemos também em Joel:

            "E acontecerá que todo aquele que invocar o nome do SENHOR será salvo; porque, no monte Sião e em Jerusalém, estarão os que forem salvos, como o SENHOR prometeu; e, entre os sobreviventes, aqueles que o SENHOR chamar. Eis que, naqueles dias e naquele tempo, em que mudarei a sorte de Judá e de Jerusalém, congregarei todas as nações e as farei descer ao vale de Josafá; e ali entrarei em juízo contra elas por causa do meu povo e da minha herança, Israel, a quem elas espalharam por entre os povos" (Joel 2.32;3.1,2).

            Rayford só conseguiu resmungar. As Escrituras tinham às vezes esse efeito sobre o capitão. Não havia mais nada a dizer. Pelo menos no que se referia a ele.

            - Nós somos esses cativos - disse Chaim. - Meus irmãos e irmãs, os filhos de Israel.

            - Gostaria de ser também - replicou Rayford.

            - Você é, por adoção, é claro. Os crentes gentios são filhos e filhas adotivos do Senhor.

            - Mas, vocês todos são o seu povo escolhido.

            - Não que sejamos dignos. Talvez seja por isso que sempre se referem a nós como filhos de Israel.

            - O que é essa referência ao vale de Josafá?

            - É ali que vai ter lugar o juízo, num vale criado pela divisão do monte das Oliveiras quando Jesus colocar o pé nele. O próprio Jesus irá julgar todos os homens e a profe­cia afirma que será nesse local. A Bíblia diz que Ele é mais do que apenas o Rei que está voltando e o Guerreiro vito­rioso. Ela também o chama de Juiz. Lemos no Evangelho de Marcos:

            "Então, verão o Filho do homem vir nas nuvens, com grande poder e glória" (Mc 13.26). E em Apocalipse 19.11: "Vi o céu aberto, e eis um cavalo branco. O seu cava­leiro se chama Fiel e Verdadeiro e julga e peleja com justiça"

            Sebastian ficou ao lado da sua Hummer com Otto e Razor, apertando os olhos para ver melhor. Meteoros caíam sobre o inimigo e o som dos soldados e cavalos em pânico chegava até ele. Seria possível que centenas de milhares de animais iriam debandar? E o que isso implicaria para os planos que o Exército da Unidade tinha em relação a Petra?

            Veículos foram esmagados, explodindo em chamas e oferecendo a única luz que podia dar a ele uma idéia de até que ponto as linhas de frente haviam recuado. Parecia que continuavam virtualmente em cima dele, mas Sebastian pre­cisava ter certeza.

 

            - Como vamos saber a hora exata? - perguntou Rayford. -Sabemos o que vem em seguida, mas o problema é quando?

            - Nunca podemos ter certeza - respondeu Chaim. - Eu fui um dos que pensaram que o Glorioso Aparecimento seria exatamente sete anos depois da assinatura da aliança entre o anticristo e Israel, mas estávamos claramente errados a respeito. Sabemos que o sinal da sua vinda irá seguir-se aos fenômenos nos céus, mas nada nos diz se vai ou não acon­tecer imediatamente. Deus tem o seu próprio horário.

            - Mil anos são como um dia e tudo o mais - disse Rayford.

            - E vice-versa.

            O estrondo dos meteoritos sacudiu o pequeno abrigo de Rayford, e à medida que aumentavam de freqüência, sua cama se movia. Ele sentia cada ferimento. O anestésico na têmpora havia muito evaporara e a dor era penetrante. A canela também o incomodava, embora a considerasse o menor de seus males. Cada arranhão e corte estava sensível e o tornozelo dolorido, que fizera inchar o pé, tornava seus músculos tensos. Sentia isso nas duas pernas, e a sensação subia até o quadril.

            Rayford ajeitou o travesseiro e pousou nele a cabeça, esticando-se. Não tinha idéia do que o mantinha acordado. Mas, de outro lado, é claro que sabia.

 

            Mac voou sobre Buseirah, onde viu umas poucas luzes espalhadas pelo chão e em breve aproximou-se de Petra. Comunicou-se com Chang para avisar que logo estaria descendo. A última coisa que desejava era ser confundido com uma aeronave inimiga e ser alvejado por Big Dog One e pelo seu próprio pessoal. Deus o protegeria até mesmo deles?

            - Ei! - gritou Mac ao telefone. - O que é isso? O que Sebastian está fazendo?

            - Usando suas grandes tochas para iluminar o céu -respondeu Chang. - Ele quer saber até que ponto os meteoritos prejudicaram o Exército da Unidade.

            - Parece que ele está mais fascinado pelas nuvens.

            - Eu também.

            - Estou ouvindo, Chang. O mesmo acontece comigo. Se você entrar em contato com Sebastian, diga a ele para deixar essas belezinhas apontando diretamente para cima.

 

            Sebastian não teria sonhado fazer outra coisa. Os holo­fotes também fizeram o inimigo levantar os olhos. Nuvens cobriam todo o céu, borbulhando e se agitando, juntando-se para formar um teto diferente de tudo que alguém já vira.

            Bem distante, Sebastian ouviu o ruído surdo de longas explosões e deduziu finalmente que se tratava de uma trovoada. Isso significava que raios estavam caindo em outra parte? Ou apenas riscavam os céus por entre as nuvens?

            - Apaguem as luzes por um minuto - pediu ele pelo rádio, eliminando a possibilidade de elas impedirem que visse os relâmpagos. Tinha razão, acima das nuvens - quem saberia a espessura delas? - jatos de luz pequeninos e pulsantes pareciam estar tentando espiar por entre elas. De repente, a luz artificial perdeu seu atrativo. Se uma tem­pestade estivesse a caminho, Sebastian queria vê-la em toda a sua glória natural.

 

            Mac aterrissou e correu para os aposentos de Rayford, surpreso por encontrá-los escuros como a meia-noite. Ele pensou em reabastecer e sair outra vez. Sem levar em conta a vista de que Rayford dispunha, se estivesse mesmo ali, nada poderia comparar-se com a idéia de observar do alto quando o anticristo recebesse o que merecia.

            Ele bateu de leve.

            - Alguém aqui?

            - Mac! - era Rayford, e Chaim o cumprimentou quando a porta se abriu.

            Depois dos abraços no escuro e uma rápida recapitulação do dia dos dois homens, Rayford disse a Mac que havia uma cadeira no outro quarto. Às apalpadelas, Mac voltou ruidosa­mente com ela e sentou-se na frente da janela.

            - Lindo espetáculo. Mas você devia vê-lo de um helicóptero.

            - Está partindo o meu coração - falou Rayford.

            - Lamento.

            - Não, quero cada detalhe. Você vai embora?

            - Estou pensando nisso, parceiro. Parece arriscado.

            - Pensei que fosse jogar fora a prudência a esta altura.

            - Quero estar vivo quando acontecer, Ray. Isso é tudo.

            - Aposto que o velho Chaim estaria inclinado a ir com você, uma vez que o sinal apareça no céu.

            - Nada disso, cavalheiros - Chaim esboçou um risinho.

            - Meu lugar é aqui, quero que todo o remanescente suba aos lugares altos para observar a volta. Devemos ficar juntos, cantando, orando, prontos para adorá-lo em espírito e em verdade e, melhor do que tudo, em pessoa.

            - Eu quero pelo menos estar lá - Rayford disse. - Mac, você pode arranjar isso?

            - A não ser que me convença a voar de novo, claro. - Os três homens pularam quando um relâmpago caiu no solo, seguido imediatamente por um forte trovão. Parecia vir de menos de 800 metros de distância. Sacudiu o abrigo e ecoou meio minuto entre as montanhas e montes das cercanias.

            - Aqui vamos nós - exclamou Chaim. - Fiquem com os olhos fixos no céu.

            - Nem precisa dizer - replicou Mac.

 

            - Será que vai chover? - perguntou Sebastian. - Parece sim, mas eu não contava com isso.

            - Acho que não - disse Otto. - Não me lembro de ter aprendido em qualquer das aulas sobre essa possibilidade, mas isso pode referir-se mais ao meu período de atenção do que às profecias.

            - Não quero meu pessoal aqui numa chuvarada - excla­mou Sebastian. - Especialmente se tivermos escolha.

            - Que escolha?

            - Você me pegou. Não temos veículos suficientes e nin­guém quer voltar a Petra quando tudo cair por terra.

            - Fale por si mesmo, Big Dog - Otto disse. - Gosto de conforto. Isto é, quero ver o que há para ser visto, mas não tenho nada contra um agasalho e um guarda-chuva.

            Sebastian inclinou a cabeça para trás e riu.

            - Aqui estou eu, Senhor - zombou ele num sotaque alemão arrevesado. - Dê-me galochas!

            As palavras dele fizeram até Razor sorrir, mas logo se recuperou.

            - Peço perdão, Srs. - disse. E em breve os três gargalha­vam.

 

            Depois de deixar os aposentos de Rayford, Abdullah subira num jatinho com uma capota grande transparente sobre a cabina do piloto, que lhe dava uma visão panorâmica. Ele sobrevoou as massas reunidas perto de Petra, depois dirigiu-se para o norte, até Jerusalém, estarrecido com a imensidão do Exército da Unidade. Ele sabia. Tinha ouvido. Fora ensinado. Mas, quase perdeu o fôlego com o que via.

            Como avançara em poucos anos! Tomara o hábito de não demonstrar em público as suas emoções. Era a sua cultura, a maneira como fora criado. Ele se divertira, principalmente com Mac, e tinha sido provocado à ira - também por Mac. Voar, porém, acima dos elementos que constituíam o capí­tulo final da História e compreender como teria sido fácil perder tudo aquilo, fez com que Abdullah não conseguisse conter as lágrimas.

            Ele fora criado numa religião bem diferente, e con­verter-se a Cristo significava voltar as costas à sua família e também aparentemente ao seu país. Todavia, a verdade pesou sobre ele. Sua decisão por Jesus foi um enorme salto de fé. Todavia, desde o início, a verdade com um V maiús­culo se tornara clara. Afinal de contas, ele sempre fora um estudioso.

            Abdullah achara graça porque seus amigos, especialmente os americanos, pareciam pensar que ele era intelectualmente limitado por causa do seu inglês imperfeito. Algo em sua pronúncia, em seu sotaque jordaniano, fazia com que pare­cesse uma criança para os americanos. Podia perceber isso na maneira que o olhavam, e reagiam a ele. Algumas vezes, até admitia que se comportava assim. Era possível conseguir mais informações, parecendo jovem e inocente.

            Ele era tudo, menos isso. Abdullah passara por um treinamento militar rigoroso, recebendo certificado para pilotar jatos de quase todos os tipos. Seus amigos real­mente pensavam que todos os jordanianos eram tão infantis e ignorantes a ponto de confiar a um jovem de capacidades mentais limitadas a direção de bombardeiros que custavam dezenas de milhares de dinares? Isso era ridículo. Ele fora um piloto famoso e eventualmente um instrutor.

            Abdullah imaginava o que Rayford e os outros pensavam de seu estudo aprofundado da profecia com Tsion Ben-Judá e Chaim Rosenzweigh. Ao contrário dos demais, ele ficava quieto na maior parte do tempo e não fazia muitas pergun­tas.

            Mas, agora, fazia uso da mesma massa cinzenta que lhe permitira compreender as inúmeras especificações técnicas que o tornaram um piloto perfeito das modernas e sofistica­das aeronaves.

            É bem provável que por serem indivíduos humildes do meio-oeste, nem o Dr. Ben-Judá nem o Dr. Rosenzweig se mostraram surpresos com as propensões intelectuais de Abdullah, evidenciadas nas conversas e e-mails particulares. Embora o ensino pudesse ser altamente teológico e profundo, as partes mais persuasivas de todas eram os cumprimentos quase diários das profecias.

            Abdullah não duvidava de que as Escrituras antigas fossem autênticas, escritas milhares de anos antes do nasci­mento de Cristo.

            Centenas e centenas de profecias haviam sido cumpridas, muitas diante dos seus olhos. Apesar de sua tristeza com a perda da família, do medo constante de ser descoberto sem a marca de Carpathia e até do seu ressen­timento pelos amigos pensarem que não era tão inteligente quanto eles, a fé incipiente de Abdullah se tornara mais sólida a cada dia.

            Ele sabia que Mac, Rayford, Buck e os outros o amavam sinceramente. Quem sabe poderia educá-los no capítulo seguinte do desdobrar da História e eles então veriam que não havia razão para serem condescendentes com ele, embora sem dúvida nem sequer percebessem que estavam fazendo isso.

            Os relâmpagos haviam aumentado e fascinavam Abdullah, lançando uma luz misteriosa, intermitente, sobre as tropas. Iluminavam também as nuvens, que de outra forma não poderia ver devido à ausência da lua e das estrelas. Oh, que cena gloriosa, amedrontadora!

            Abdullah orou, agradecendo a Deus por tê-lo deixado progredir tanto, por permitir a entrada de um candidato tão improvável em seu Reino, por protegê-lo até mesmo agora do poder assassino do inimigo.

            Ao sobrevoar Jerusalém, Abdullah notou pequenos focos de incêndio espalhados pela cidade, muitos no monte do Templo. Os relâmpagos revelaram tropas da Unidade cer­cando essa área, que ele sabia agora ser a última fortaleza da obstinada resistência. Teve de sorrir.

            Se eles apenas pudes­sem ver o apuro em que estavam do seu ponto vantajoso. Era como se um periquito pensasse em tomar à força sua própria gaiola. Mesmo assim, ele os admirava. Estava do lado deles. Eram o povo escolhido de Deus e no final Jesus Cristo lhes daria a vitória.

            Jerusalém ia realmente cair, Abdullah sabia disso. Mas, em vista de todas as outras profecias que estudara terem sido cumpridas como anunciadas, ele também não duvidava de que Jesus iria endireitar as coisas. Com um tanque de com­bustível cheio e um espetáculo de relâmpagos para iluminar o campo de jogos, sentiu que estava no lugar certo para assistir à maior exibição na face da terra.

            Com uma inclinação abrupta à esquerda, e sobrevoando os milhões de tropas no grande vale de Megido, Abdullah virou sua aeronave estridente de volta para o sul. O passo seguinte na agenda era a ida de Carpathia a Edom para liderar um terço de suas forças contra Petra. Os holofotes do Exército da Unidade cruzavam o céu e ocasionalmente se fixavam no avião de Abdullah. Ele mostrou-se porém destemido.

            - Lancem os seus mísseis terra-ar - sussurrou. - Eles vão saltar deste avião como petecas.

 

            Rayford estava mudo. Ele nunca fora considerado espe­cialmente quieto, mas em meio àquele trio, poderia ter sido um rato de igreja. Chaim sempre gostara de falar de tudo - cada verdade, idéia ou conceito. Ele era assim. E Mac era a sua contraparte texana, talvez não tão articulado e intelec­tual, mas sempre pronto a oferecer uma opinião simples a respeito de tudo.

            Agora, porém, havia um ar de mistério. Os três se man­tinham em silêncio.

            Os relâmpagos se tornaram quase constantes; riscas longas, espessas de ouro eram lançadas de nuvem para nuvem, da nuvem para o solo e, Rayford sabia - embora não sendo detectadas pelo olho humano - muitas vezes do solo para a nuvem.

            O comprimento e a severidade dos raios variavam, mas eles corriam pelos céus com tamanha velocidade e abundância que o ar crepitava e estalava. Boom! Boom! Boom! faziam-se ouvir os ribombos ensurdecedores do trovão que sacudia as paredes dos aposentos frágeis de Rayford.

            Os clarões iluminavam as nuvens. Rayford não podia imaginá-los maiores ou mais ativos. Todavia, foi o que aconteceu. Pareciam ter agora quilômetros de largura e profundidade, cinzentos e pretos, prenhes de umidade, como se prestes a explodir. Eles encobriam tudo lá em cima.

            Não fosse pela sua fé, aquela teria sido uma cena terrível. De fato, o poder e a ira do Deus do universo estavam sendo desencadeados e os que não confiassem em seu amor teriam de ficar em pânico.

            - Surpreendente - sussurrou Rayford, mas os outros dois homens, cujas silhuetas se deixavam ver nos clarões constantes, nem se moveram nem responderam. Sua síntese pouco convincente deve tê-los atingido tão debilmente como o atingira.

 

            Sebastian usou os óculos de visão noturna para examinar o céu, lembrando a si mesmo que devia respirar. Ele sentiu Otto pressionando de um lado e Razor do outro, e por mais estranho que pudesse parecer em qualquer outra circunstân­cia, isso o fez lembrar de sua infância quando ele e seu irmão mais moço, deitados na cama, se abraçavam medrosos ao observar uma tempestade, um temporal mil vezes menor do que aquele.

            No momento em que Sebastian pensou que o céu não podia mais conter-se, os relâmpagos pareceram aumentar a toda velocidade. Centenas, milhares de raios caíam no solo do deserto a cada segundo, os rugidos ensurdecedores dos trovões seguiam-se uns aos outros numa invasão tão esmagadora que ele foi forçado a deixar os óculos ficarem pendurados em seu pescoço, enquanto cobria os ouvidos com as mãos.

            O céu de leste a oeste, de norte a sul, estava em chamas, tiras de luz ofuscante explodiam em todas as direções. O solo se erguia e ondulava e Sebastian tinha certeza de que aquela devia ser uma combinação dos relâm­pagos, dos trovões e do temor incomensurável das forças montadas do anticristo.

            Ele mandou Otto verificar as tropas de Ree Woo do outro lado de Petra e Razor para observar as suas deste lado.

 

            Enoque estava sentado em Illinois, com sua Bíblia debaixo do braço, procurando protegê-la caso chovesse. Mas, quando os relâmpagos pareceram perder todo o senso de proporção, tudo o que pôde fazer foi levantar-se, colocar a Bíblia na cabeça com as duas mãos e oferecê-la a Deus em forma de adoração. Que espetáculo! A ira temível e terrível do Senhor em exibição para o mundo inteiro!

            Enoque pensou nas Escrituras do Antigo Testamento que havia marcado e sentou-se rapidamente de novo, folheando as páginas e lendo as mesmas sob a luz quase constante da extravagância elétrica, gritando-as para os céus.

            "Vai, entra nas rochas e esconde-te no pó, ante o terror do SENHOR e a glória da sua majestade. Os olhos altivos dos homens serão abatidos, e a sua altivez será humilhada; só o SENHOR será exaltado naquele dia. Porque o Dia do SENHOR dos Exércitos será contra todo soberbo e altivo e contra todo aquele que se exalta, para que seja abatido.... Então, os homens se meterão nas cavernas das rochas e nos buracos da terra, ante o terror do SENHOR e a glória da sua majestade, quando ele se levantar para espantar a terra" (Is 2.10,17,19).

            Encontrando as advertências proféticas nos livros de Oséias e Joel, Enoque leu sobre os inimigos do Senhor: "E aos montes se dirá: Cobri-nos! E aos outeiros: Caí sobre nós" (Os 2.10).

            "O SENHOR levanta a voz diante do seu exército; porque muitíssimo grande é o seu arraial; porque é poderoso quem executa as suas ordens; sim, grande é o dia do SENHOR e mui terrível! Quem o poderá suportar?" (JI 2.11).

            Posso suportá-lo, pensou Enoque, assim como qualquer um que enxerga além da sua ira e confia na misericórdia de Deus.

            Ele leu em Joel 2.12: "Ainda assim, agora mesmo, diz o SENHOR: Convertei-vos a mim de todo o vosso coração; e isso com jejuns, com choro e com pranto".

            Indo para Naum 1.6, Enoque leu: "Quem pode suportar a sua indignação? E quem subsistirá diante do furor da sua ira? A sua cólera se derrama como fogo, e as rochas são por ele demolidas".

            Os versículos seguintes ofereciam esperança e outro aviso terrível: "O SENHOR é bom, é fortaleza no dia da angústia e conhece os que nele se refugiam. Mas, com inundação trans­bordante acabará duma vez com o lugar desta cidade; com trevas, perseguirá o SENHOR os seus inimigos" (Na 1.7-8).

            Próximo ao final do Antigo Testamento, Enoque chegou a Sofonias e leu o capítulo 1, versículos 14-17:

            "Está perto o grande Dia do SENHOR; está perto e muito se apressa. Atenção! O Dia do SENHOR é amargo, e nele clama até o homem poderoso. Aquele dia é dia de indignação, dia de angústia e dia de alvoroço e desolação, dia de escuridade e negrume, dia de nuvens e densas trevas, dia de trombeta e de rebate contra as cidades fortes e contra as torres altas. Trarei angústia sobre os homens, e eles andarão como cegos, porque pecaram contra o SENHOR; e o sangue deles se der­ramará como pó, e a sua carne será atirada como esterco."

 

            - Além de qualquer compreensão - pensou Chang, - a Rede de Notícias da Comunidade Global ignorou o espetá­culo da natureza. Ele sabia por piratear as notícias de todo o globo que os raios constantes eram um fenômeno universal. Do Sri Lanka chegaram imagens de uma área metropolitana em chamas, a cidade tendo sido incendiada por milhares de raios. As pessoas se amotinaram, pisoteando umas às outras, gritando, pedindo misericórdia.

            Um câmera da CGNN, ou seu corajoso produtor, transmi­tiu imagens de uma pequeno grupo de judeus Carpathianos ajoelhados em meio aos relâmpagos, debaixo de uma antiga bandeira israelita, uma Estrela de Davi e um cruz tosca. Eles zombavam do deus deste mundo, mostrando ousadamente ao supremo potentado nunca ter recebido a marca de lealdade, e que haviam agora tomado posição ao lado do Messias.

            Da América do Sul, foram recebidas notícias semelhantes. Não importava de onde chegasse a notícia, ela vinha como sendo da meia-noite. A única luz era a dos relâmpagos e de fontes artificiais. Os cidadãos estavam histéricos. Muitos com a marca de Carpathia gritavam obscenidades contra ele pelas câmeras e exigiam saber onde estava e o que ia fazer a respeito. Chang perguntou a uma colaboradora hispânica o que os sul-americanos estavam gritando.

            - Estão dizendo - respondeu ela - que esta é provavel­mente uma ofensiva dirigida pelo próprio Deus e o que o potentado tem então a dizer? Quem vai ganhar? Eles querem saber quem vai ser o vencedor!

            Até os produtores, que trabalhavam diretamente para a CG, enviaram mensagens iradas para saber porque a CGNN estava ignorando suas imagens. - O quê - perguntaram - era mais importante do que um abalo cósmico como aquele, que mostrava o pânico e a devastação global? Pessoas estavam sendo mortas, cometendo suicídio, saqueando, promovendo desordens. Todavia, a CGNN transmitia uma cobertura con­tínua do esforço de guerra.

            - As tropas do Exército da Unidade enviadas ao Egito já estão voltando ao vale de Megido - entoou uma âncora, mostrando cenas de vitória esmagadora para a CG.

            - Relatórios vindos do norte confirmam isso e os generais da Unidade declaram que farão seus pelotões voltarem a Israel com tempo suficiente para o cerco de Jerusalém.

            Uma entrevista com Carpathia mostrou a estupidez da chamada cobertura objetiva. O potentado apareceu montado em seu enorme cavalo, do lado de fora do avião cargueiro que o levara e a seus generais a Ash Shawbak, cerca de metade da distância entre Petra e Buseirah. Isso colocava Carpathia e seu pessoal cerca de 16 km a leste da extremidade do maciço Exército da Unidade que se estendia até a fronteira de Petra.

            - Estou satisfeito com as notícias do sul e do nordeste - disse ele. - E estamos agora prontos para embarcar em uma de nossas iniciativas mais estratégicas. Um terço de toda as forças armadas avançará sobre a fortaleza rebelde escondida em Petra. A Inteligência nos informou que uma unidade defensora irrisória rodeou a cidade, mas o número deles é muito menor e já ofereceram rendição.

            Carpathia foi interrompido por ruídos quase contínuos de trovão, que ele e o repórter pareciam ignorar.

            - Esse enclave já não foi atacado duas vezes antes, Excelência?

            - Atacado não seria o termo adequado - disse Carpathia, fazendo Chang rir alto.

            Na primeira tentativa falha, a CG levou um grande número de tropas e armas, só para vê-las miraculosamente engolidas pela terra. A segunda foi um bombardeio duplo que produziu uma fonte de água que fornece sustento para o povo até hoje e que também resultou na proteção sobrenatural do remanescente judeu e de alguns do Comando Tribulação, livrando-os da tempestade de fogo que se seguiu.

            - De fato - Carpathia continuou - fizemos propostas de paz para a liderança, oferecendo anistia para quem quer que deixasse voluntariamente a fortaleza e aceitasse a marca de lealdade. Soubemos que um grande número deles quis aderir, mas foram mortos pelos líderes. Muitos irão lembrar que esta mesma liderança me assassinou, dando-me com isso a oportunidade de provar minha divindade ao ressusci­tar dentre os mortos.

            - Desta vez não haverá negociações. Os leais à Nova Ordem Mundial foram assassinados ou escaparam, a inteligência nos informou que Petra é habitada agora apenas por rebeldes à nossa causa, assassinos e blasfemadores que desprezaram quaisquer tentativas de entendimento com eles.

            As câmeras enfocaram o potentado no momento em que lhe entregavam uma enorme espada de prata marchetada de ouro e com um cabo excessivamente enfeitado. Ele a prendeu ao redor da cintura; depois, com um gesto teatral, desembainhou-a, produzindo um som longo, lento e metálico e apontando-a em direção ao céu.

 

            Chang não pôde deixar de orar em silêncio para que pelo menos um dos raios caísse sobre aquela ponta e assasse o inimigo onde se encontrava.

            Carpathia continuou - Nosso plano é, portanto, aniquilação. Vou dirigir pessoalmente este esforço, com a ajuda de meus generais. Vamos juntar as tropas tão logo cheguemos e o cerco deverá levar somente alguns minutos.

            Enquanto Carpathia puxava as rédeas e virava a montaria para o leste, partindo a galope, o repórter gritou para ele:

            - Tudo de bom, meu santo! E que possa abençoar a si mesmo e trazer honra ao seu nome depois desta peleja!

            Chang ligou para Mac e informou-o sobre o lunático empreendimento.

            - Vocês devem assistir isto - ele disse.

            - As coisas estão chegando ao apogeu.

 

            Abdullah ouvira a transmissão pelo rádio e voou sobre Ash Shawbak. Os aviões de Carpathia e outros equipamen­tos estavam visíveis, mas Abdullah voava muito alto para enxergar os indivíduos ou os cavalos. Podia ver, no entanto, o Exército da Unidade a oeste e sabia que Nicolae em breve os alcançaria.

            Os relâmpagos mostraram um exército em desordem. Os cavalos, como é natural, ficaram assustados com o espetáculo de luzes e trovões, e pareceu a Abdullah que os cavaleiros estavam lutando para impedir que suas montarias fugissem para os montes. O que Carpathia pensava que poderia fazer com aquela confusão era um mistério.

            De repente, num fechar de olhos, a tempestade cessou.

            O céu continuava preto, da cor de carvão como antes. Os holofotes da Unidade pareciam patéticos, perscrutando debilmente o negrume sinistro. Eles chegavam até às nuvens espessas, fumegantes, que pairavam ameaçadoras sobre toda a terra.

            O cessar dos trovões fez com que o silêncio relativo da cabina parecesse fantasmagórico. Abdullah ficou olhando para todo lado, para ver o que vinha em seguida. Quanto mais olhava, mais se perguntava quanto tempo o Senhor demoraria. Aqueles cavalos agora já podiam ser controla­dos. Carpathia iria com certeza acreditar que a vitória estava próxima.

 

            Rayford pediu a Mac que pegasse seu rádio no quarto ao lado. Mac o levou para ele, abrindo caminho às apalpadelas na escuridão.

            - Você podia acender uma lâmpada - disse Rayford, ner­voso com o silêncio assustador.

            - Oh! por favor, não faça isso - interrompeu Chaim. - Esta escuridão vem do Senhor. Não está sentindo?

            - Sinto sim - replicou Rayford. - Cada parte de mim quer estar lá fora envolvido nela. Daria qualquer coisa para ficar ao lado de Carpathia agora. Como queria ver o olhar em seu rosto quando for perseguido de volta a Buseirah e depois até Jerusalém!

            - Como ia enxergar qualquer coisa? - perguntou Mac. Chaim disse:

            - Esta é apenas uma preliminar. Em algum ponto a escuridão se transformará em luz. Carpathia fugirá do Filho do Homem, que será a única fonte de luz. Quem estiver perto de Nicolae sem dúvida o verá e concordo com Rayford, também desejaria assistir esse acontecimento. Mas ficarei aqui, vigiando, adorando e cantando. Depois, todos seguiremos pelo caminho que nos trouxe. Atravessaremos a grande expansão e nos reuniremos ao Messias quando Ele triunfar em Jerusalém e depois subir ao monte das Oliveiras, no qual foi transfigurado há tanto tempo.           

            - Tenho de estar nessa viagem - exclamou Rayford.

            - Não na sua condição - replicou Mac. Rayford sacudiu a cabeça no escuro:

            - Aqui vai ficar solitário demais.

 

            O silêncio súbito e a escuridão abjeta fizeram Enoque temer novamente a chuva e isso o levou a procurar seu carro. Seus ouvidos ainda zumbiam com os sons dissonantes da última hora e enquanto caminhava aos tropeções, tateando o caminho com os pés, ele finalmente conseguiu ver o brilho fraco de algumas lâmpadas da rua. Voltou então para casa, planejando tirar uma cadeira-preguiçosa do porão e assistir ao resto do show sentado no quintal.

            Enoque precisava, de alguma forma, ir para a Terra Santa o mais depressa possível depois da volta de Jesus. Tinha certeza de que veria isso no céu - a volta e tudo o mais - mas Jesus iria aparentemente confinar-se outra vez em um corpo humano e os crentes do mundo inteiro desejariam vê-lo. O seu governo se iniciaria em Jerusalém e as peregrina­ções começariam imediatamente. Enoque e os membros de O Lugar teriam de reunir dinheiro para financiar essa viagem.

 

            Sebastian estava pensando no que fazer. Seus óculos de visão noturna mostraram ser totalmente inúteis naquele tipo de escuridão. Isto significava que ela era sobrenatu­ral, porque ele os usara com sucesso no subsolo onde não havia fonte luminosa. As nuvens estavam absolutamente invisíveis agora e só a luz dos veículos do Exército da Uni­dade fornecia ocasionalmente um indício visual.

            Como deveria agir se as forças da Comunidade Mundial atacassem antes da volta de Jesus? Sebastian sabia que ele e seu pessoal, assim como todo o remanescente em Petra, deveria ser libertado no final, segundo as profecias. Mas, e enquanto isso? Devia lutar? Revidar? Atirar? Sabia que tinha condições de produzir alguns danos porque já fizera isso antes ajudado por suas forças. E os seus colabora­dores? Seriam feridos ou mortos quando fossem alveja­dos?

            Ele era um militar, mas tratava-se de uma decisão tanto teológica quanto tática. Sebastian podia consultar o Dr. Rosenzweigh, mas o velho senhor já tinha muita coisa em que pensar. O campo de ação dele era o remanescente. O de Sebastian, a defesa do complexo. Poderia ser estrategi­camente eficaz permitir que o Exército da Unidade domi­nasse a sua posição, sabendo que estavam avançando para uma armadilha de proporções cósmicas?

            Ele não tivera esse tipo de treinamento, no entanto, não havia praticamente possibilidade de escolha. É claro que poderia enganá-los, atrasá-los mediante golpes cirurgicamente aplicados com suas armas nucleares direcionadas e rifles .50. Mas, ninguém poderia dizer-lhe se isso ia adiantar, ou por quanto tempo deveria mantê-los a distância.

            Não havia dúvidas de que não seria possível deter por muito tempo uma força daquele tamanho. Dez minutos? Vinte? Não mais do que isso, com certeza. Poderia causar-lhes algum dano, mas uma vez que o Senhor chegasse, os esforços insignificantes de Sebastian seriam inexpressivos. A pergunta era: seriam eles inexpressivos de qualquer forma?

           

            Depois de duas horas da escuridão absolutamente silen­ciosa que cobria a face da terra, Rayford sentiu a inquietude de Chaim.

            - Será melhor que eu vá ver os anciãos - disse o homem mais velho. - Isto não pode continuar muito tempo e uma vez que apareça o sinal do Filho do Homem, quem sabe quanto vai demorar o evento em si?

            - Tem razão, quem sabe? - exclamou Mac. - Quando isso acontecer, vou voltar lá para fora. Você não se importa, não é, Rayford?

            - Claro que me importo, mas não vou privá-lo disso. Posso lidar com a solidão. A inveja é que vai ser difícil.

            - Você vai me perdoar - Mac disse.

            - Vou.

            - Quer que eu mande Leah, ou Hannah, ou alguém para fazer-lhe companhia?

            Rayford refletiu um pouco.

            - Acho que não. Outra pessoa aqui poderia ser uma distração.

            - Já estou indo - Chaim disse. - Esta vai ser uma lem­brança maravilhosa.

            - Faça como quiser, doutor, - Mac respondeu. - Eu pode­ria levá-lo para um passeio inesquecível, como sabe.

            - Eu sei e agradeço, mas até que o Messias venha, tenho responsabilidades.

            Rayford ouviu quando ele se aproximava no escuro e pro­curou sua mão. Chaim tomou a mão de Rayford nas suas.

            - Sr. McCullum - disse Chaim - junte-se a nós, por favor. Mac chegou perto e Rayford sentiu uma mão em seu ombro e supôs que a outra estava no de Chaim.

            - Apocalipse 1.3 diz: "Bem-aventurados aqueles que lêem e aqueles que ouvem as palavras da profecia e guardam as cousas nela escritas, pois o tempo está próximo". Amém.

            Rayford e Mac repetiram o amém.

            - Vou orar por nós - Chaim disse.

            Nesse momento, os olhos de Rayford se abriram, primeiro por causa do som e depois da luz de algo novo no céu. Rayford só podia com­parar o som a uma linha de alta-tensão inoperante que antes estivesse saltando e vibrando.

            - Ó, Deus!, Ó, Deus! - orou Chaim, enquanto também se virava para olhar. Rayford só conseguiu arregalar os olhos.

            Ele sentou-se com esforço e inclinou-se para a frente, espiando o que pareciam ser relâmpagos, mas comple­tamente diferentes de qualquer um que já tivesse visto. Espessa, cheia de recortes e trepidante, uma linha amarela vertical se estendia cerca de 30 metros acima do horizonte, naquilo que ele calculava ocupar pelo menos 16 km no céu.

            A dois terços de distância, ela era cruzada por uma linha horizontal da mesma espessura e com metade do com­primento.

            Rayford não conseguia falar. Tinha até dificuldade para respirar. Ali estava claramente a cruz de Cristo, gravada nos céus por relâmpagos que se prolongavam, estalando com incontrolável energia, porém sem causar danos.

            Seus olhos se entrefecharam por causa do brilho, mas ele não conseguia desviá-los. Sentia-se cheio de reverência, de admiração, do amor do próprio Deus. Aquele era o sinal do Filho do Homem, estava ali à vista de todos. Era também pessoal, queimando em seu coração.

            A radiância esplendorosa iluminou o quarto. Chaim afas­tou-se finalmente, sem dizer uma só palavra.

            Rayford lançou um olhar para Mac e quase caiu da cama. Mac era negro! E parecia estar tentando dizer alguma coisa.

            - Olhe - foi tudo o que conseguiu balbuciar. Depois, apa­rentemente notando a reação de Rayford, ele disse: - Sou eu, Ray. Isto é obra de Zeke.

            - Mac, algo aconteceu comigo.

            - Comigo também, companheiro. Está claro como o dia.

            - Não, algo aconteceu.

            - O que quer dizer?

            Rayford saiu rapidamente do leito e foi para perto de Mac na janela.

            - Estou em pé - ele disse.

            Mac virou-se.

            - Não se afobe, Ray. Vamos dar um passo de cada vez.

            - Estou ótimo - respondeu Rayford.

            - Quer dizer que...?

            - É o que estou dizendo, Mac. Nem dor. Nem ferimentos. Olhe para mim.

            Rayford retirou as bandagens. Até o buraco em sua têmpora se fechara, embora em volta da sutura, onde Leah raspara, o cabelo ainda não tivesse crescido. Ele inclinou-se e puxou a faixa do tornozelo. Nem mesmo uma cicatriz. Pôs-se então a pular alegremente, e depois afrouxou a tala plástica da canela, removendo-a.

            - Quer dizer...?

            Rayford gritou alto.

            - Estou dizendo. Vamos sair daqui, Mac. Vamos voar.

            - Olhe, não sei se isso vai dar certo, Ray.

            - Fique então sentado vigiando, homem, porque eu estou indo!

 

            Enoque estava confortavelmente acomodado em sua espreguiçadeira no quintal quando o sinal apareceu. Ele explodiu em lágrimas e levantou os braços.

            - Louvado seja Deus, louvado seja Deus! - disse e começou a cantar cada hino de adoração que conhecia. A cruz que se estendia de céu a céu erguia-se altaneira, como o compositor de hinos escrevera: "sobre os destroços do tempo". Algo sobre a esmagadora majestade daquela cruz simplesmente comunicava vitória.

            Por quanto tempo orara e carregara um fardo pelas pes­soas do centro decadente da cidade, às quais Deus o enviara a ministrar? E por quanto tempo pregara, ensinara e adver­tira sobre este exato dia, este exato evento? Ele não tinha idéia de qual seria a forma usada, mas isto era perfeito.

            - Na cruz de Cristo me glorio, sim na cruz, sempre me glorio - disse com a voz embargada.

            Enoque levantou-se da frágil cadeira e ajoelhou-se, inclinando-se diante de Deus. Embora abaixasse a cabeça e fechasse os olhos, a imagem da cruz no céu continuava com ele, como se gravada do lado de dentro de suas pálpebras.

 

            No momento em que Chang viu a cruz em cada tela dos monitores à sua frente, chamou Naomi e ela veio depressa. De mãos dadas, eles correram para o seu lugar favorito lá fora. Não disseram nada. Não havia palavras para aquilo. Deitaram-se de costas e ficaram olhando extasiados.

 

            - Obrigado! Obrigado, Senhor Deus! - exultou Abdullah.

            Quando o sinal apareceu, ele havia apontado o jato direta­mente para a cruz e acelerado com toda força. Estaria ela ali, à sua frente, como os objetos tridimensionais pareciam estar quando ele era criança? Era como se pudesse estender a mão e tocá-la; mas embora o avião atingisse o máximo de velo­cidade em segundos, ele não conseguia chegar mais perto da cruz. Seus braços horizontais, como os do próprio Jesus, pareciam acolher o mundo inteiro em seu abraço.

            O único evento que faltava era a vinda do Senhor e Abdullah mal conseguia esperar.

 

            Durante duas horas, Sebastian não atinara com o que o inimigo estava esperando e talvez o inimigo também não soubesse. Mas, o sinal tornou-se um gatilho improvisado e, de repente, os cavalos brincalhões do Exército da Unidade começaram a se mover. Os cavaleiros, agora claramente visíveis por causa da cruz tremulando no céu, insistiram com suas montarias para que galopassem.

            E ali vinham eles.

            - Big Dog One para todas as unidades. Sebastian falou pelo rádio:

            - Não atirem. Esperem minhas ordens. Protestos de todos os lados se fizeram ouvir.

            - Esperem, esperem, esperem - ele disse, embora os chefes dos pelotões em todo o complexo tivessem informado que o inimigo estava apenas a poucos metros de distância.

            - Ficou louco? - Otto estrilou a 400 metros à esquerda de Sebastian.

            - Ree Woo para Big Dog: Está na hora, Sr.

            - Espere.

            - Permissão para falar, Sr. - chegou uma transmissão urgente de Razor.

            - Negada. Siga as ordens.

            A linha de frente do Exército da Unidade fechou a brecha em segundos.

            Sebastian ficou firme, enfrentando os cava­leiros com rifles apontados para ele e outros com espadas desembainhadas. Sabia que estava tão visível para todos aqueles soldados quanto eles para ele, pois a área de Petra tornou-se repentinamente tão clara quanto o dia. Só o céu por trás da rude cruz continuava preto e coberto de nuvens.

            O Exército da Unidade abriu fogo e Sebastian estremeceu, mas não se afastou nem procurou abrigo. Duzentos homens de suas tropas se achavam entre o exército e a encosta íngreme que levava quase diretamente para a cidade rosa-avermelhada de Petra e todos foram alvejados. Não era fácil atirar de um cavalo a galope, mas algumas das balas deveriam ter certamente encontrado seus alvos.

            Os sons de estilhaços de metralhadora ricocheteando nas pedras encheu o ar e o olhar no rosto dos cavaleiros não tinha preço. Espadachins se escondiam por trás dos atiradores montados e um deles, claramente perturbado, mas decidido, dirigiu-se diretamente para Sebastian. George levantou a mão e mexeu os dedos como se cumprimentando - ou se despedindo - e o soldado que brandia a espada levantou-a em arco enquanto passava. Era como se a lâmina tivesse atravessado a cintura de Sebastian.

            Sebastian estava agora à deriva no meio do Exército da Unidade, e cavaleiro após cavaleiro ia em sua direção - alguns atirando, outros brandindo as espadas. Nenhum sequer o tocou. Um deles parou e fez menção de voltar até ele, mas foi esmagado por uma leva de seus próprios com­panheiros que não tinham como recuar.

            George voltou-se e ficou observando o ataque contra a encosta que levava para a cidade de Petra. O exército havia aparentemente subestimado a habilidade dos cavaleiros para manter-se na sela enquanto os cavalos subiam o terreno íngreme e tudo parou de repente. Os que estavam na planície lá em baixo continuaram subindo e isso provocou um con­gestionamento de proporções bíblicas. Os soldados gritavam uns com os outros. Os comandantes berravam ordens que não podiam ser seguidas.

            Enquanto isso, Sebastian e o seu pessoal caminhavam alegremente em meio ao inimigo, ilesos.

 

            Chang ignorou ao máximo o toque do telefone. Ele pensara em desligá-lo, decidindo que o seu trabalho havia finalmente terminado, mas o senso de dever prevaleceu. Conseguiu deixar por um momento o sinal magnético no céu, esboçou um sorriso de desculpas a Naomi e atendeu.

            Era o seu assistente.

            - Vai querer ver isto - ele disse.

            - Já estou vendo o que quero ver - respondeu Chang.

            - Mas está ainda interessado na questão judia, certo?

            - Questão judia?

            - É aquilo que o Dr. Rosenzweig chamou de "volta mun­dial para o Messias"?

            - É claro, mas isso vem continuando desde a transmissão de Chaim.

            - E aumentou com a tempestade de relâmpagos.

            - Exatamente. Então, o que há de novo?

            - Você precisa vir até aqui. Maciça não é bem a palavra para descrever o que está ocorrendo. Deveria haver milhões de indecisos, mas não há mais. Todos estão aceitando o Senhor e parece que cada um resolveu nos informar sobre isso.

 

            Rayford nunca havia pensado no que a pessoa deveria vestir para encontrar-se com Jesus. Ele examinou o armário, encontrando - como fora também profetizado - um uni­forme, meias e botas com três anos e meio de idade, mas tão bons quanto novos. Vestiu-se em segundos.

            - Está pensando o mesmo que eu, Rayford?

            - O quê?

            - Que não devemos fugir daqui se nos acharmos sufi­cientemente saudáveis para lutar. Há uma batalha a ser travada e nós dois deveríamos estar nela.

            - Não faça isso comigo agora, Mac.

            - Não quero ficar aqui mais do que você, Ray. Mas, Sebastian, Razor e Otto estão tentando defender a cidade.

            - Oh! Abdullah se foi. - Rayford sentiu-se transportado à infância quando tinha de defender seu caso diante dos pais. - Como ele pôde fazer isso?

            - Abdullah vai responder à sua própria consciência.

            - E eu vou responder à sua?

            - Só quero fazer o que é certo, Ray.

            - Vai ficar de qualquer jeito?

            - Vou. É assim que eu sou.

            - Você achou de bancar o pai para mim de repente.

            - Faça o que tiver de fazer, Ray. Eu compreendo.

            - Não vou voar sem você, Mac. Você pensa realmente que Deus me curou para que eu pudesse ajudar numa batalha que Ele já prometeu ganhar?

            Mac sacudiu a cabeça.

            - Eu não disse que fazia sentido. Apenas falei o que pensava.

            - Vou ligar para Sebastian.

 

            - Aqui Big Dog One! - gritou Sebastian. — Fale comigo!

            Ao ouvir a pergunta de Rayford, ele riu muito.

            - Você e Mac subam neste minuto e se não fizer isso, vou até aí e atiro pessoalmente em você.

            Ele contou a Rayford onde estava e o que acontecia.

            - Você vai então acreditar que quando o sinal apareceu, Deus me curou?

            - Eu acreditaria em qualquer coisa neste momento, companheiro. Se não tivesse de deixar o meu pessoal, eu iria com você. Lembre-se então de cada detalhe, entendeu?

 

            Chang já ouvira de Naomi - cujo amor por ele o fazia duvidar da objetividade dela - e da liderança, que havia desempenhado uma função crucial não apenas para o Comando Tribulação, mas também para todo o rema­nescente em Petra. Alegrou-se com isso e embora ficasse aliviado por estar livre da pressão diária de viver como uma toupeira no covil do anticristo em Nova Babilônia, ele descobrira em Petra um raro desafio.

            Naomi tinha sido o ponto brilhante, é claro. Mas o seu trabalho, algumas vezes de 14 a 16 horas por dia, podia ser tanto desgastante quanto estimulante. Ele o motivou por ser uma espécie de prodígio em assuntos técnicos - não podia negar isso. Os associados lhe diziam que essa não era a expressão completa da verdade, e alguns até afirmavam que era o maior especialista em computadores do mundo, apesar da sua juventude.

            Tudo parecia ótimo, mas quando examinou a si mesmo e tentou decidir o que o perturbava em relação ao seu tra­balho atual, percebeu tratar-se do adágio do velho corretor imobiliário: localização, localização, localização.

            Os computadores faziam havia muito tempo parte da sua vida, mas era preciso guardá-los dentro de casa, ao abrigo das intempéries. Chang tinha a impressão de que continuava sendo uma toupeira, vivendo a maior parte do tempo no sub­solo - ou pelo menos portas adentro. Suas escapadas eram sempre nos intervalos ou no fim do dia, quando tirava um momento ou dois com Naomi, como acabara de fazer.

            Ali estava ele agora, pouco antes do Glorioso Apare­cimento de Cristo, sentado diante de uma série de telas, controlando o mundo inteiro. Era com certeza um privilé­gio. Quem mais estaria fazendo isso, ou saberia como? Ele admitia que contribuíra bastante, com a sua habilidade de interferir nas transmissões do inimigo, tanto no computador quanto na televisão.

            Embora preferisse estar com a outra parte do grupo, dirigindo lá fora e sendo dirigido para vários lugares altos, Chang sabia que era ali que ficaria sentado até o final do mundo.

            Podia chorar e gemer ou fazer o seu trabalho, e trabalhar era o que faria. Haveria tempo para ocupar a linha de frente, com capacidade para absorver cada detalhe do Reino milenar. Por agora, porém, iria monitorar e coordenar as atividades de seus compatriotas. Eles precisavam manter contato entre si.

            Sebastian estava no meio da tentativa de invasão do Exér­cito da Unidade, assim como Razor, Otto e Ree.

            Abdullah se encontrava num jato, quem sabia onde?

            Chaim trabalhava com os anciãos para coordenar o povo.

            A última informação que Chang recebera era que Rayford fora curado e que ele e Mac estavam procurando veículos de tração nas quatro rodas para poderem juntar-se aos com­batentes.

            Lionel se encontrava na mesma situação de Chang, preso a uma mesa, ainda controlando de Petra a ampla rede da Cooperativa Internacional com a ajuda de Ming Woo.

            Leah e Hannah cuidavam da enfermaria, um termo elegante para uma facilidade médica tão grande quanto a maioria dos hospitais.

            Chang tinha mais responsabilidades do que achava que devia, mas com a liderança desviada para outros pontos, era obrigado a tomar algumas decisões executivas. Abdullah ligara, pedindo permissão para juntar-se às massas em Petra.

            - Soube que a resistência ao Exército da Unidade em Petra já foi dominada - ele disse. - Eles ainda estão, porém, seguros e protegidos e sabemos que ajuda extra não é necessária ali.

            Chang não podia culpar Abdullah por perguntar. Era exatamente o que ele gostaria de fazer e onde queria estar - um acampante em lugar de um conselheiro, por falta de uma descrição melhor.

            - Venha então - disse-lhe Chang.

            Explicou também porque Abdullah estava tendo problemas em alcançar Rayford e Mac, mas um minuto depois tudo isso também mudou.

            - Chang - falou Rayford - Sebastian não precisa de nós e não pode usar-nos. Dei instruções a ele para trazer suas tropas e juntar-se aos remanescentes. O trabalho deles está terminado.

            - Mas, eles não terão de atravessar o Exército da Unidade para chegar aqui agora?

            - Já estão no meio dele e o inimigo não tem poder sobre eles. Uma vez que Chaim e os anciãos organizarem as coisas por aqui, a população vai poder olhar de cima para a planície em volta da cidade. Todos terão uma vista perfeita do céu e da terra.

            - E você e Mac?

            - Mac vai pegar o helicóptero e eu preciso de um ATV.

            - Tem certeza de que quer entrar de novo num desses veículos?

            - O que importa, Chang? Preciso montar outra vez no cavalo, como se diz.

            Chang verificou seus registros e disse a Rayford onde Lionel Whalum mantinha as melhores unidades, "tanque cheio, preparados e prontos para partir". E para onde você vai, ou será mesmo que quero saber?

            - Vou para onde Mac me mandar. Ele vai ficar sobrevoando o Exército da Unidade, tentando achar o líder. Eu quero estar por perto para ver e ouvir Carpathia que deve estar em algum ponto atrás da horda que passou por Sebastian e está a caminho da nossa fronteira oeste.

            Chang informou Rayford sobre o que todos os outros estavam fazendo, inclusive Abdullah.

            - E você sabe onde vou estar.

            - Não poderíamos sobreviver sem você, Chang.

            - Claro, claro.

           

            Enoque pegou o telefone, sacudindo a cabeça. Ele não podia culpar seu pequeno rebanho por fugir. Também tivera medo, mas não havia para onde escapar e nada a temer. Isso era fácil de dizer, mas bem diferente quando os poderes do céu haviam sido abalados. Não parecia certo ficar separado do seu povo, justamente agora.

            Como parecia surrealista ficar deitado numa espreguiçadeira em um quintal suburbano, tentando alcançar os paroquianos por telefone enquanto uma cruz iluminada, com quilômetros de altura e largura, se estendia no céu. Ele finalmente conseguiu entrar em contato com Florence, uma mulher negra, de meia-idade, que parecia ser a mais influente da congregação.

            - Florence, onde está todo mundo?

            - Metade está bem aqui, pastor. Um pouco constrangida, mas eles estão bem.

            - E onde é aqui?

            - Cerca de três quarteirões do Sr., acho. Voltamos ao shopping, mas como não vimos o seu carro, calculamos então que estaria em casa.

            - Estou em casa. Por que vocês não vêm para cá e ficam comigo até Jesus voltar?

            - O Sr. nos disse para nunca informar o seu esconderijo. Como vamos caber todos em seu porão?

            Enoque contou a ela onde se encontrava.

            - É claro que não queremos chamar a atenção dos vizinhos ou da CG, mas você não acha que eles estão mais preocupa­dos com o céu neste momento?

            - Espere por nós, estamos indo. Só alguns têm carros e vamos deixá-los aqui.

 

            Mac ficou conversando com Lionel Whalum, enquanto reabastecia o helicóptero.

            - Não saí o dia todo - Lionel disse, com as mãos na cin­tura, estudando a cruz no céu. - Exceto para dar um ATV ao capitão Steele, é claro.

            - Não saiu nem para ver a tempestade de raios? Foi magnífica.

            - Ouvi falar. Vi no monitor. Para dizer a verdade, Mac, eu tinha a impressão de que o trabalho da Cooperativa já não era mais necessário, mas nunca estivemos tão ocupados.

            Chaim sentia terrivelmente a falta de Tsion. O homem mais jovem impunha respeito, talvez por ser um rabino, talvez por simplesmente manifestar um andar com Deus novo para Chaim. Não se tratava de ele não conseguir obter a aten­ção dos anciãos. Era apenas porque tinha de levantar a mão e pedir a palavra. Tsion nunca precisava fazer isso. Só o fato de inclinar-se para a frente, tomar fôlego ou abrir a boca, parecia atrair todos os olhos para ele e aquietar os ouvintes.

            Eleazar Tibério, que não era muito mais velho que Tsion, embora muito maior e mais rotundo, se tornara um excelente aliado. Vinte anos mais moço que Chaim, sua voz grave e o tom grisalho que estava invadindo seu cabelo negro e ralo, assim como sua barba, lhe emprestavam um ar de autori­dade. Mostrava-se também respeitoso em relação à liderança de Chaim, pedindo ordem com freqüência e até exigindo que seus colegas ouvissem o Dr. Rosenzweig.

            Isso era crucial agora, o momento em que os líderes estavam prestes a dividir-se e coordenar os vários chefes de grupo para todos os cidadãos de Petra em suas respectivas áreas.

            - É preciso ordem - recomendou Chaim. - Devemos manter as pessoas em movimento e sob controle. Vejam este quadro, Srs. Notem para onde os grupos devem ir. Por favor! Cada um de vocês é responsável pelos subpastores que terão sob seus cuidados um total de cem mil homens, mulheres e crianças.

            Chaim parou, olhando para baixo. Ele temia que os anciãos não estivessem atentos. Era compreensível que desejassem sair novamente para não perder o Glorioso Aparecimento. Esse era exatamente o centro de tudo. Ele não queria que ninguém perdesse o espetáculo. Olhou então para Eleazar que usou a voz para resolver a questão.

            - Senhores, se não olharem a lista, não saberão dizer aos seus chefes de grupo para onde ir! O grupo número um, como podem ver, vai seguir o caminho do sul para os lugares altos na fronteira oeste. Nossos engenheiros determinaram que há espaço suficiente para todos, se houver colaboração. Os primeiros 40 grupos de mil pessoas cada podem mover-se até cerca de três metros da beirada, mas todos devem estar dispostos a sentar-se uma vez chegados lá. É da maior importância que os 60 grupos seguintes não façam pressão, caso contrário poderíamos perder dezenas de milhares encosta abaixo. Compreendido?

            Chaim gostou de ver Abdullah chegar correndo. Enquanto Eleazar continuava falando as instruções para os outros anciãos, ele puxou o jordaniano de lado e abraçou-o.

            - Como vai o meu aluno predileto?

            Abdullah contou-lhe onde estivera e o que vira.

            - Como sabe, doutor, não sou um homem que exterioriza as suas emoções, mas não me importo de dizer-lhe que me comovi até às lágrimas com o que o Senhor mostrou-me. Foi um enorme privilégio.

            - Não posso imaginá-lo querendo sair do céu.

            - Tive um desejo muito forte de estar com o Sr. e com o nosso pessoal para esperar os próximos acontecimentos. Tenho um pressentimento de que isso pode acontecer a qualquer segundo, mesmo antes de todos se reunirem.

            - Tememos a mesma coisa - afirmou Chaim. - O Exército da Unidade está às portas e a única razão para o nosso povo ter coragem de olhar para o cano das armas deles é que os vimos engolidos pela terra da primeira vez em que ousaram aproximar-se e dançamos no fogo que nos enviaram da segunda vez.

 

            Rayford ficou satisfeito ao subir na monstruosa ATV. Qualquer medo de que fosse apenas uma tentativa desapare­ceu ao realizar um giro por Petra, inclinando-se de um e de outro lado enquanto acelerava gradualmente e fazia voltas à direita e à esquerda, às vezes em alta velocidade. Ele não queria ser descuidado. Usaria os faróis, mesmo com a ilumi­nação que vinha de cima e manteria os olhos no chão para evitar sulcos e pedras.

            O som alto e a estática no céu tanto o estimulavam quanto o deixavam nervoso, porque embora soubesse tratar-se de algo extraordinário, também acreditava que Jesus poderia aparecer a qualquer momento. A única coisa melhor do que estar aqui quando isso acontecesse era ficar perto de Carpathia para ver a sua reação. Rayford, na verdade, supunha que ficaria tão surpreso com o evento a ponto de nem mais se importar com Carpathia.

            Depois de fazer um sinal de tudo em ordem para Lionel Whalum, ele apontou o veículo para a ladeira íngreme que levava ao terreno plano. Sua idéia era acelerar enquanto se sentisse no controle e ao primeiro sinal de que a moto pare­cesse estar ficando caprichosa, ele usaria o breque.

 

            Mac subiu verticalmente algumas centenas de metros, antes de afastar o helicóptero do espaço aéreo de Petra e pairar diretamente sobre as forças do Exército da Unidade. Precisava ficar vigilante quanto aos aviões deles, mas ao que tudo indicava, ninguém lá embaixo lhe dera qualquer atenção.

            Ele sabia que Carpathia e seu pessoal haviam chegado do leste e, portanto, voou até a extremidade oriental do enorme exército. Ali, talvez a 400 metros das tropas montadas, havia um acampamento de veículos, cavalos e o que parecia serem cadeiras confortáveis. Dignitários assistiam sentados as notícias pela televisão. Ele gostaria de ter estado lá quando a cruz apareceu, pois imaginava que ela deveria ter desviado imediatamente a atenção deles da TV.

            Todos pareciam ter agora se acostumado com o funesto sinal, e estavam aparentemente tentando acompanhar os feitos de seu líder. Esperassem eles até ver o que viria em seguida no céu!

            Enquanto isso, Mac ficou pensando como localizar Nicolae Carpathia no mar escuro lá embaixo.

 

            Leah Rose pensava que nada mais a impressionaria. Ela estivera com Rayford por ocasião do julgamento dos 200 mil cavaleiros demoníacos que haviam invadido a terra e aniqui­lado um terço da população remanescente. Vira e suportara também, em primeira mão, todos os julgamentos que se seguiram.

            Leah e Hannah Palemoon, a jovem enfermeira que se tornara sua amiga de confiança, foram as primeiras a sair correndo da enfermaria quando foram avisadas de que o sinal do Filho do Homem surgira. Aquela não era a primeira vez em que se aventuravam lá fora naquela noite. Haviam apreciado também o show de relâmpagos.

            As duas tinham estado falando da sua culpa por ter deixado Lionel Whalum lidar sozinho com a Cooperativa. É claro que ele tinha ajuda, mas elas haviam sido suas assistentes durante meses e só havia pouco tempo tinham voltado aos seus deveres de enfermeira devido a várias indisposições, ferimentos e doenças em toda a Petra. Esses males só ocorriam entre os espiritualmente indecisos e Leah pensava que deveria ser uma lição para todos.

            Se havia uma coisa que entendera desde a sua fuga da Comunidade Mundial, era que as pessoas aprendiam devagar. Ela fora ensinada e ouvira repetidamente que a humanidade ficaria cega aos atos de Deus: que veria suas obras poderosas e mesmo assim O rejeitariam e seguiriam seu próprio caminho.

            Não se tratava mais de uma questão de incredulidade. Isso ficara claro. Ninguém de bom senso poderia ver tudo o que ocorrera nos últimos sete anos, a partir do Arrebatamento, e mesmo assim afirmar não saber que esta era a batalha final entre o bem e o mal, entre o céu e o inferno, entre Deus e o diabo.

            Se não fosse a incredulidade, como acontecera com Leah no mundo pré-Arrebatamento, o que seria? As pessoas estariam insanas? Não, decidiu, eram auto-suficientes, nar­cisistas, vãs, orgulhosas. Em uma palavra, eram perversas. Viram os atos de Deus e deram as costas para Ele, preferindo os prazeres do pecado à eternidade com Cristo.

            Nesse meio tempo, Deus endurecera muitos corações. Quando esses incrédulos mudassem de idéia - ou tentassem fazê-lo - não seriam sequer capazes de se arrepender e se voltar para Deus. Isso parecera injusto para Leah no início, mas com o passar dos anos e o prosseguimento dos juízos, ela começou a ver a lógica de tudo.

            Deus sabia que os peca­dores se cansariam eventualmente de sua pobreza espiritual, mas a paciência Dele tinha um limite. Era preciso pôr um basta. As pessoas haviam recebido informação mais do que suficiente para tomar uma decisão razoável e o triste é que fizeram a escolha errada, vez após vez.

            Hoje era realmente o fim. Não havia dúvidas de que a misericórdia de Deus continuava estendida para o seu povo escolhido. Por meio de seus servos, pessoas como Tsion e Chaim e as 144.000 testemunhas, o Senhor ainda pedia aos incrédulos no remanescente final que se aproximassem Dele.

            Conforme ouvido das fontes de Chang, milhões estavam fazendo justamente isso.

            Leah ficou, porém, impressionada ao ver que ela não era afinal de contas incapaz de comover-se. Quando voltou finalmente com Hannah à enfermaria, espantou-se ao verifi­car que todos haviam sido curados. Todos. Ninguém estava doente, ferido ou aleijado. Todos se encontravam em pé, cumprimentando uns aos outros, vestindo-se e indo embora sem sequer ter tido alta.

            Melhor que tudo, muitos dos antes indecisos estavam ajoelhados, clamando a Deus que os salvasse. E ao redor dessas pessoas, havia voluntários remanescentes, aconselhando-as, orando com elas.

            - Perdemos o emprego, Hannah - Leah disse.

            Ela ligou para Rayford e descobriu que ele também já estava em pé, vestido e procurando ação.

 

            Quando chegou mais perto do Exército da Unidade que avançava lentamente, Rayford apertou os três breques da ATV- os do guidão e o que ficava debaixo do pé direito. Ele estivera circulando alegremente pela encosta do monte rochoso, ouvindo o avanço do exército. Mas, quando passou por uma vegetação rasteira e compreendeu que os soldados podiam vê-lo, controlou seu ímpeto.

            Muitos dos soldados estavam a pé, procurando sem sucesso fazer os cavalos subirem. Os que continuavam montados se esforçavam para que os animais seguissem na direção certa. A terra estava solta, a escalada era difícil. Eles não tinham um ar de felicidade no rosto, mas pareceram realmente intrigados por ter um alvo.

            - Identifique-se - vociferou um deles, apertando as rédeas do cavalo e parando a cerca de três metros de Rayford.

            - Cidadão de Petra - respondeu ele, com a voz não tão confiante quando esperava.

            - Você é agora prisioneiro de guerra.

            - Estão fazendo prisioneiros? Há mais de um milhão de nós.

            - Só você. Pode ser útil para nós. Precisamos saber onde todos estão, a melhor maneira de entrar, tudo isso.

            - E depois, posso ir embora?

            - Não banque o esperto.

            - Quanto ao lugar onde quase todos estão, encontram-se lá dentro. Mas você já sabia disso. A melhor maneira de entrar é do outro lado, mas é claro que não terá permissão. Estou, porém, curioso. Por que você não tomou um dos guardas da cidade como refém e perguntou isso a ele?

            - Massacramos todos.

            - Verdade? - Rayford pegou seu walkie-talkie do cinto e apertou o botão. - Big Dog One, aqui o seu capitão. Câmbio.

            - Oi, Rayford.

            - Como tudo vai indo? Não houve baixas?

            - Nenhuma.

            - Então, se eu quisesse provocar o Exército da Unidade, posso confiar que...

            - Onde você está, homem?

            - Cerca de 1,5 km da fronteira ocidental.

            - Estou a 800 metros abaixo de você e subindo.

            - No meio do inimigo, Big Dog?

            - Exatamente. Os tiros deles não valem aqui. Nem as espadas.

            - Matem-no - disse o soldado, e meia dúzia de armas abriram fogo.

            Exceto por um zumbido nos ouvidos, Rayford não sofreu nada.

            - Talvez vocês possam me dizer uma coisa - exclamou ele.

            - Estou procurando o seu líder, o grande homem, o chefão. Onde está Carpathia?

            Os soldados, porém, haviam empalidecido. Era como se estivessem imaginando se valia a pena. Como não podiam matar os rebeldes, qual a lógica de invadir a fortaleza deles? E para que aqueles rebeldes precisavam na verdade de uma fortaleza?

            - Tudo bem - Rayford disse. - Tenho as minhas fontes. -Com licença - disse ele enquanto se afastava na ATV. Alguns soldados atiraram contra ele e outros jogaram as espadas, mas em breve os comandantes começaram a instruir seu pes­soal a poupar munição para o cerco da cidadela de pedra.

 

            Encontrar Carpathia não foi tão difícil quanto Mac temia. Em meio à massa pulsante de humanidade que avançava aos poucos pela planície em direção ao caos no monte, havia um círculo de luzes apontando para um homem montado num ginete preto maior do que o normal. Só Carpathia precisava de luzes brilhando sobre ele, para que a audiência da tele­visão mundial pudesse vê-lo em ação.

            Enquanto Mac observava do helicóptero, Nicolae passou bastante tempo segurando a espada no alto e parecendo gritar ordens. A seguir, embainhava a espada e discutia irado com os que o rodeavam, provavelmente seus generais. Seu desa­grado com a lentidão era claro, mas ao remover a espada novamente da bainha, apresentava uma expressão decidida.

            Mac ligou para Rayford e deu-lhe as coordenadas de onde poderia encontrar o potentado.

            - Obrigado, Mac. Espero encontrar primeiro Sebastian e parte do seu pessoal.

            Enquanto atravessava o Exército da Unidade, Rayford encontrou mais e mais soldados que deveriam ter aprendido a futilidade de tentar atacar o inimigo fora de Petra. Olhavam para ele, levantavam as armas e depois prosseguiam exaus­tos.

            Em breve houve, porém, um novo desenvolvimento. Ordens foram dadas pelos comandantes de que todo o pes­soal no monte deveria dar meia-volta e desobstruir a área. Alguns resmungaram, mas a maioria pareceu aliviada. - Bem na hora - Rayford ouviu um deles dizer.

            À medida que os milhares de cavalos e cavaleiros desim­pediam a área, o restante do Exército da Unidade parou ao pé do monte. Uma clareira de cerca de 150 metros foi aberta no meio deles e Mac disse a Rayford que aquele era o caminho que Carpathia e seu pessoal iriam usar.

            - Parece que estão planejando dirigir pessoalmente esta operação - afirmou Mac - e isso vai acontecer no momento em que ele tome seu lugar à frente da tropa.

            - Os cavalos deles não terão mais facilidade do que os outros nesta ladeira - disse Rayford.

            - Eles vão dispensar os cavalos, penso eu. O próprio Nick está no grande Humvee, mas eles possuem também Hummers menores, SUVs e transportes blindados de pessoal. Uh-oh, há mais uma coisa. Lançadores de granadas e mísseis estão chegando.

            - O que quer dizer esse uh-oh? Por que esses equipamen­tos produziriam melhores resultados aqui do que as bombas?

            - Bom ponto. Só estou dizendo...

            Rayford encontrou uma Hummer levando Sebastian, Weser e Razor. Ela não teve dificuldade em subir, especial­mente agora que o Exército da Unidade abandonara a área. Rayford parou ao lado do motorista e desligou o motor.

            Sebastian abaixou o vidro.

            - Que tal esta confusão? - perguntou.

            - Você sabe que está mostrando ao inimigo como lidar com o terreno.

            - Será então culpa minha se alcançarem o topo e mata­rem todo mundo, provando que todas as profecias estavam erradas?

            - Vou responsabilizá-lo - disse Rayford. - Quer divertir-se um pouco? Siga-me. Vou instalar-me por trás do centro de comando móvel de Carpathia e acompanhá-los.

            Sebastian suspirou.

            - Estou propenso. Dê uma ordem e então não terei escolha.

            - Qual a sua melhor avaliação do que deveria estar fazendo, George?

            Sebastian olhou para Weser e Razor e depois novamente para Rayford.

            - O que estou fazendo agora. Quero levar todo o meu pessoal lá para cima e para dentro, para que tenham a melhor visão do que vem em seguida. Não posso abandoná-los neste momento.

            - É isso então que deve fazer. - Rayford bateu na tampa da Hummer. - Continue.

 

            Abdullah voltara à sua moto, seguindo barulhentamente seu caminho entre dezenas de milhares de pessoas. Ele supervisionou e aconselhou anciãos enquanto estes dirigiam os subpastores e chefes de grupo para levar milhões de pes­soas aos seus lugares. A tarefa era lenta, mas estava tendo êxito.

            Abdullah havia examinado uma área a nordeste e decidiu que Chaim e os anciãos deviam ficar ali quando todos os demais estivessem em seus lugares. Pelo menos 80% da população poderia ver Chaim dali. No caso de ele ter algu­mas últimas palavras para os cidadãos, havia acesso ao sistema de alto-falantes público.

            - Mas, espero que toda a atenção esteja no céu a essa altura - ele disse.

 

            Chaim não podia esconder de Eleazar sua apreensão.

            - O que foi? - perguntou o ancião mais jovem.

            - Falta de fé - respondeu Chaim.

            - Claro que não. Não você. O Senhor nos trouxe até muito longe, mostrou-nos coisas demais. Pode haver alguma dúvida de que Ele vai aparecer e resgatar-nos na hora mar­cada?

            - Mas, qual é essa hora, irmão? O pessoal de Chang avisou que o Exército da Unidade desobstruiu a encosta ocidental para uma armada cujo comandante será o próprio Carpathia.

            - Tanto mais razão para crer que o Messias virá em breve. Ele não vai nos enganar, não quebrará as suas promessas. O anticristo não pode prevalecer e quanto mais perto chegar, tanto mais cedo seremos libertados.

            - Creio nisso, Eleazar.

            - É claro que sim. O que o atormenta então?

            - Coisas que não foram ditas,

            - Pelo Sr.? - disse o ancião Tibério com uma piscadela.

            - É difícil imaginar isso.

            - Eu queria explicar as figuras do Glorioso Aparecimento. Tsion e eu passamos tanto tempo insistindo numa aborda­gem literal das Escrituras que temo ter negligenciado parte das referências claramente simbólicas nas passagens do Glorioso Aparecimento.

            - É possível que ainda haja tempo - disse Eleazar - mas, por que não discutimos isso lá fora? O Messias pode chegar antes que o Sr. fale!

            - Devo preparar notas.

            - Quer ficar aqui escrevendo quando acontecer? Leve consigo sua caneta e papel, Chaim, mas vamos, por favor.

 

            Enoque escondera o carro durante meses a alguns quar­teirões da casa onde ocupava o porão. Ele nunca ligava as luzes de cima e as janelas do porão estavam fechadas com tábuas. Os vizinhos de Palos Hills nunca o viam à luz do dia porque seria incapaz de esconder o fato de não usar a marca de lealdade do potentado. Costumava esgueirar-se para dentro e para fora da casa aparentemente abandonada nas horas tranqüilas da manhã.

            Agora, porém, estava ali no quintal murado, ouvindo os vizinhos interrogando-se entre si, discutindo os fenôme­nos astronômicos em tons assustados. O que pensariam de estranhos invadindo, reunindo-se em seu quintal? Teriam o trabalho de verificar e ver que ele e seus amigos eram renegados, fugitivos, fora-da-lei? Haveria tempo para que os vizinhos os matassem?

            Desde que os vizinhos tiveram de supor que sua casa era desabitada, nada despertaria suspeitas no escuro. Por que teriam de supor alguma coisa sobre ele ou seu povo?

            Ah!, pensou, isso é ingênuo. O que estaríamos fazendo todos juntos aqui?

 

            Mac tinha uma visão clara da última manobra do Exér­cito da Unidade e teve de admirar a estratégia da liderança. Alguém sabia como resolver um problema. Quer fosse Carpathia ou um de seus asseclas, o plano estava dando certo. Os milhares da linha de frente que haviam começado a invadir a encosta ocidental acharam a subida impossível e haviam seguido para o sul, depois para o oeste e finalmente de volta ao nordeste, começando a se reintegrar nas fileiras.

            Enquanto isso, um corredor de 400 metros de comprimento e 15 metros de largura se abrira diante da unidade privada de Carpathia - tendo também 45 metros por trás dele. Carpathia e seu pessoal estavam sendo transferidos para um trans­porte móvel. Um comboio de dez veículos foi manobrado em posição, seguido por dois outros de armamentos pesados. Se Mac tivesse de adivinhar, ele diria que Carpathia chefiaria o ataque, com as munições logo atrás dele e o restante do exér­cito - com exceção dos cavaleiros - fecharia a retaguarda.

            De onde Mac se achava, era óbvio que sob outras cir­cunstâncias Petra não resistiria. Estavam desarmados e em número três ou quatro vezes menor em relação a apenas um terço do total das forças de Carpathia. Os veículos do Exér­cito da Unidade teriam condição de atravessar facilmente o terreno e a linha de frente desta nova unidade poderia estar do outro lado dos muros de Petra em menos de meia hora.

Mac ligou para Chang.

            - Você ainda consegue interferir nas comunicações de Carpathia?

            - Quase. Posso entrar em contato com todos menos com ele, mas tenho um decodificador rápido em operação e acho que não vai demorar.

            - Mande para mim, logo que possível, está bem?

            - Vou mandar. Rayford também quer.

            - Certo.

 

            Rayford aguardou na base do monte, diante do Exército da unidade cerca de dez graus ao sul da abertura deixada para a unidade de Carpathia. Rayford foi virtualmente ignorado porque o restante das tropas notara rapidamente a presença do VIP em seu meio. Todos os olhos se fixaram em Nicolae.

            O plano de Rayford era acompanhar Carpathia quando ele passasse, esperando não atrair atenção. Isso seria absoluta loucura, com exceção do que já sucedera. O Exército da Uni­dade parecia ter finalmente admitido não possuir poder sobre a cidadela apesar da diminuta defesa. Por que eles pensa­vam ter uma oração dentro da própria Petra, apesar de sua história infrutífera contra o povo de Deus, era um mistério. O ego de Carpathia não conhecia limites.

 

            Os receios de Enoque provaram ser infundados. O seu pessoal foi suficientemente astuto para surgir sem ruído em grupos de dois ou três, e encontrar o caminho para o quin­tal sem atrair atenção. Os vizinhos acabaram indo para as suas casas e Enoque permaneceu no quintal com mais de 40 dos cem membros que se haviam juntado a ele no shopping naquela manhã.

            Ficaram em volta da cadeira dele e sentaram na grama. Ninguém parecia cansar-se de observar a cruz que adornava o horizonte.

            - Vem, Senhor Jesus - vários deles sussurraram e outros repetiram: - Vem, Senhor. Vem depressa.

            - Tudo que vai acontecer será ali, certo, pastor? - disse um jovem.

            -Ali?

            - Na Terra Santa. O Sr. disse que Jesus lutaria primeiro pelos judeus de Petra e depois salvaria Jerusalém. Como vamos saber que Ele veio?

            - Olhe - sussurrou Enoque - a Bíblia diz que o mundo inteiro saberá quando Ele vier. Apocalipse 1.6 diz: "Eis que vem com as nuvens, e todo olho o verá, até quantos o traspassaram".

            - Como Ele vai fazer isso? A Terra Santa fica do outro lado do mundo.

            - Você não acha que eles estão vendo o que nós vemos agora?

            - Penso que sim, mas quando a lua aparece, as pessoas daquele lado enxergam o outro lado, não é?

            - Podem estar vendo o outro lado desta cruz. Não temos idéia do seu tamanho.

            - Ou se há mais de uma - comentou alguém.

            - O que disse? - perguntou Enoque.

            - Deus pode fazer o que quiser, não é?

           - É.

            - Ele poderia colocar dez cruzes no céu para ter certeza de que todos veriam uma.

            - Mas, só há um Jesus.

            - Sei disso. Ele, porém, pode aparecer onde quiser, ao mesmo tempo. Foi um só homem, mas morreu por todos, pode então aparecer para todos.

            - Agora você tem razão - disse Enoque.

            - Será que Ele vai matar uma porção de gente aqui, como fez lá?

            - Temo que sim. Se estiverem trabalhando para o anti­cristo, estarão em sérias dificuldades.

 

            - Rayford, você devia ver isto de onde estou - Mac disse.

            - Acho que gosto do lugar em que me acho - respondeu Rayford.

            - É lindo. A cidade de pedras vermelhas está iluminada pela cruz lá do alto e sinto como se estivesse num daqueles dirigíveis que costumavam pairar sobre os estádios de fute­bol à noite. Quase todos já se instalaram no alto de Petra. O pessoal da frente está sentado, para que os que estão em pé atrás deles possam ver. A maioria poderá enxergar o Exército da Unidade atacando e o Senhor voltando. Espero que Ele chegue logo.

            - Imagino que chegará na hora certa, não acha?

            - Acho. Posso ver Chaim e os anciãos se encaminhando para um lugar onde quase todos possam vê-los. Fico imagi­nando se alguém está morrendo de medo lá na beirada.

            - Eu estaria e já sobrevivi a muita coisa.

            - Eu também, Ray. Penso que faz parte da natureza humana sentir que está desafiando demais o destino. Olhe, parece que Chaim está falando com eles. Vou ver se Chang pode entrar em contato conosco - oh! ele está bem à frente de nós. Ei-lo aqui. Falo com você mais tarde.

 

            - ...e irmãs no Messias - Chaim estava dizendo. - Reunimo-nos neste lugar histórico, nesta santa cidade de refúgio provida pelo Senhor Deus. Encontramo-nos no precipício de todos os tempos com a sombra da História por trás de nós e a eternidade à nossa frente, colocando toda nossa fé e confiança na rocha sólida da bondade, força e majestade de nosso Salvador.

            - Possa o Senhor aparecer enquanto falo. Oh, a glória desse momento! Aqui estamos, fitando os céus onde o sinal prometido pelo Filho do Homem brilha diante de nós, trovejando através das eras a verdade de que a sua morte na cruz nos purifica de todo pecado.

            - Nos próximos minutos, vocês talvez vejam o inimigo de Deus avançando para esta cidade fortificada. Digo-lhes com toda a confiança que o Pai colocou em minha alma, não temam, pois a sua salvação está perto.

            - Muitos perguntaram o que vai acontecer quando o anticristo vier contra o povo escolhido de Deus e o Filho interferir. A Bíblia diz que ele irá matar nosso inimigo com uma arma que sai de sua boca. Apocalipse 1.16 a chama de "espada de dois gumes". Apocalipse 2.16 menciona que Ele diz "Venho a ti sem demora e contra eles pelejarei com a espada da minha boca". Apocalipse 19.15 afirma que "Sai de sua boca uma espada afiada, para com ela ferir as nações". E Apocalipse 19.21 ensina que os inimigos "foram mortos com a espada que saía da boca daquele que estava montado no cavalo".

            - Quero agora esclarecer. Não creio que o Filho de Deus vá sentar-se em seu cavalo nas nuvens com uma espada gigantesca saindo de sua boca. Ele não vai sacudir a cabeça e matar os milhares de tropas de Armagedom com ela. Esta é claramente uma referência simbólica, e se você estuda a Bíblia, sabe o que significa uma espada aguda de dois gumes.

            - Hebreus 4.12 diz que a Palavra de Deus "é viva, e eficaz, e mais cortante do que qualquer espada de dois gumes, e penetra até ao ponto de dividir alma e espírito, juntas e medulas, e é apta para discernir os pensamentos e propósitos do coração".

            Qual vai ser a arma que o Senhor e Messias usará para vencer a batalha e matar o inimigo? A própria Palavra de Deus! Embora a referência à espada possa ser simbólica, acredito que a descrição do resultado é literal. A Palavra de Deus é aguda e poderosa o suficiente para aniquilar o inimigo, destruindo-o por completo.

 

            Rayford sentiu a vibração da expectativa. Ele voltou-se para olhar Petra quando os vivas e aplausos abafaram a voz de Chaim, que aparentemente tinha terminado. A emoção sufocou Rayford enquanto apreciava a cena. Em redor do topo da cidade fortificada, encontrava-se o remanescente do povo de Deus, lentamente virando-se de costas para Chaim, a fim de olhar para o céu e depois para o inimigo abaixo deles.

            Daquela distância não passavam de manchas, mas havia tantos que Rayford podia ver que estavam levantando as mãos e apertando-as. Ouviu suas vozes cantando em con­junto as melodias de hinos, fracas a princípio, mas crescendo depois em volume. Primeiro cantaram: "Canto o Grande Poder de Deus", e momentos depois: "Castelo Forte é o nosso Deus".

            Quando iniciaram o "Aleluia", Rayford desejou ficar em pé e acompanhá-los. Quando as verdades ecoaram pela encosta da montanha -"Glória Pra Sempre" - ele comoveu-se até o fundo de sua alma.

            Naquele momento, Chang aparentemente decifrou o código da audiotransmissão do potentado e ela surgiu estalando no fone de ouvido da orelha esquerda de Rayford. Ele estava então ouvindo ao mesmo tempo os magníficos aleluias em um ouvido e o anticristo no outro.

            Nicolae não estava feliz.

            - Vamos avançar! Os loucos estão cantando! - Ele blas­femou várias vezes. - Cantam em face da própria morte!

            A caravana começou a mover-se, a cruz acima dela fazia saltar ondas de luz da poeira levantada pelos carros.

            - Desloquem-se ao ponto mais alto e mais próximo - ordenou Nicolae - com as munições por trás onde o ângulo é ideal. Vou ficar em pé no teto do veículo para que todos possam ver-me: minhas tropas serão inspiradas e o inimigo conhecerá o autor da sua ruína.

            À menção do destino de Carpathia, Rayford olhou nova­mente para a encosta onde centenas de milhares se balança­vam ritmadamente e cantavam, olhando para baixo. A imensa cruz brilhava sobre todo o monte, como se indicando ao inimigo justamente o lugar em que Deus desejava que ficasse.

            Rayford imaginou se alguém em Petra tinha ainda dúvi­das. Ficou satisfeito em pensar que ele mesmo não tinha nenhuma. Caminhara muito. Seu orgulho e preguiça custa­ram a vida de sua esposa e filho no Arrebatamento. Ele se sentira responsável pelo fato de sua filha ter compartilhado sua visão errada sobre o povo da fé e seguido seu exemplo, ignorando a Deus.

            Embora fosse imensamente grato pela sua salvação e a de Chloe, saber que ela e o marido foram martirizados era simplesmente o ponto crucial da tragédia resultante de ele ter deixado de lado a verdade no princípio. Tantos amigos e entes queridos haviam sofrido nos últimos sete anos. Novos amigos, velhos amigos, uma nova esposa, mentores espiri­tuais, compatriotas queridos haviam sido feridos, mortos, torturados pela sua fé.

            Deus, porém, se mostrara fiel à sua Palavra. Cada profecia fora cumprida. Embora alguns ainda perguntassem a razão da demora do Senhor e se havia qualquer sentido ou lógica em permitir que o anticristo chegasse às fronteiras da cidade de refúgio, Rayford simplesmente confiava. Deus tinha os seus planos, seus caminhos, sua estratégia. Só quando deixara de duvidar de Deus, é que Rayford conseguira compreender os caminhos confusos e algumas vezes inescrutáveis dele - que as Escrituras diziam não serem "os nossos caminhos".

            Algumas coisas continuavam sem sentido e muitas outras não ficariam claras, ele sabia, até que visse Jesus face a face.

            O desfile do mal passou a poucos metros de Rayford. Ele ligou o motor da ATV e se juntou a eles, dois veículos atrás do de Carpathia, mas à frente dos ruidosos transportes de armas. Um general tentou afastá-lo, Rayford sorriu e acenou de volta. O general pegou a arma de um ajudante e fez mira pela janela. Rayford piscou para ele e o homem abriu fogo.

            O general empalideceu ao ver os projéteis disparados a queima-roupa como que atravessarem Rayford.

            - Nada de tiros! - gritou Carpathia. - Ignorem qualquer inimigo fora dos muros da cidade!

 

            Abdullah estudou sua cópia da lista de localização e escolheu vagarosamente o caminho pelas passagens estreitas e movimentadas, até encontrar o local em que a mulher de Sebastian, Priscilla, deveria estar com a filha, Beth Ann, e o neto de Rayford, Kenny Bruce. Uma vez ali, teve de pergun­tar a várias pessoas, mas finalmente encontrou-os.

            Beth Ann estava perto de Priscilla, segurando a mão dela e com o braço livre Priscilla segurava Kenny adormecido em seu ombro.

            - Deixe que eu o levo - disse Abdullah.

            - Oh! obrigada, Sr. Smith. Ele está ficando tão pesado.

            - Venha cá, meninão - disse Abdullah, tomando-o nos braços. Ele colocou gentilmente a cabeça de Kenny em seu ombro e começou a embalá-lo, mas quando Abdullah tentou acompanhar baixinho os cânticos, o menino acordou.

            - Tio Abdullah - ele disse.

            - Oi, Kenny.

            - Jesus está vindo - falou o menino.

            - Tem razão, companheiro. Ele vem mesmo.

 

            Finalmente, não havia mais nada que Chang pudesse fazer. Ele e Zeke estavam aparentemente na mesma situa­ção. Talvez eles tivessem de encontrar uma nova profissão ou ficar desempregados durante os próximos mil anos do reinado de Jesus na terra.

            Chang sabia onde todos estavam, conhecia a localização de cada um.

            Abdullah voltara ao rebanho.

            Chaim e os anciãos se achavam com o povo, esperando e vigiando.

            Hannah e Leah haviam fechado a enfermaria e estavam lá fora, assim como Lionel e Ming - a Cooperativa finalmente às escuras.

            Mac estava no ar e Rayford no chão. Sebastian, Otto, Razor e Ree deveriam entrar em Petra naquele exato momento, juntando-se ao seu povo e para insistir com o res­tante dos soldados rebeldes para fazerem o mesmo.

            Chang retransmitiu para Mac e Rayford as notícias do inimigo, usando um fone de ouvido para manter-se informado.

            Em seguida, inclinou-se para trás na cadeira e suspirou, depois levantou-se depressa. Estava na hora de encontrar Naomi e ir com ela para fora, onde era o lugar deles.

            - Vai tirar o resto do dia de folga? - ela disse, dando a mão para ele ao se encontrarem.

            - O resto de minha vida - respondeu Chang.

 

            Mac ficou observando o veículo de Sebastian e as cente­nas de rebeldes remanescentes que o seguiam até Petra.

            - Parece que estão todos a salvo, Ray - informou ele. - Todo mundo está em casa agora, menos você e eu.

            - Gostaria de estar com Kenny neste momento - disse Rayford. - Priss disse que ele perguntou pelo pai e tudo que ela pôde pensar em dizer é que o veriam amanhã.

            - Boa idéia. Olhe, Ray, o velho Nick não deixou nada ao acaso.

            - Por quê?

            - Ele fez com que o resto das tropas se espalhasse para rodear a cidade.

            - Não ouvi essa ordem, Mac.

            - Deve ser alguma coisa que ele decidiu antes que pudés­semos escutá-lo.

            - As tropas montadas devem estar atrapalhando. Sem mencionar todas as crateras de meteoros.

            - Algumas das trilhas deste lado são viáveis. Lembre-se de que eles usavam jumentos para levar os turistas.

            - Reúnam os aviões - Rayford ouviu a voz de Carpathia.

            - O que ele está fazendo, Mac?

            - Vou verificar, mas parece que está reunindo tudo que tem nesta região.

            - Um terço do total, como a Bíblia diz.

            - Ele não pode livrar-se das profecias, não é, Ray?

            Enquanto Rayford seguia para Petra, acompanhando a procissão maligna, ouviu o zumbido de jatos.

            - Bombardeiros?

            - Não - Mac disse. - São aviões de combate, mas não bombardeiros. Acho que sabem que não adianta. Terão de aprender da maneira mais difícil que as armas também não funcionam aqui.

            Quando o Humvee de Carpathia chegou ao último trecho íngreme, estava quase apontando para o céu.

            - Encontre um lugar - disse ele ao motorista - onde eu possa ficar em pé no teto e ver todas as minhas tropas deste lado e também observar o inimigo.

            - Creio que estamos quase lá, Excelência.

            Rayford deixou a formação e andou cerca de 18 metros até que pudesse enxergar bem os arredores. Desligou então o motor e passou a perna esquerda pelo assento, usando a ATV como banco.

            - Ataque, seu covarde - sussurrou ele, esperando que isso trouxesse Jesus do céu. Sim, eu sei, ele vai chegar no tempo dele.

            - Que tal aqui, Sua Alteza?

            Rayford ouviu o rangido do couro da roupa de Carpathia, enquanto ele se movia de um lado para outro.

            - Perfeito.

            Um soldado abriu a porta do carro de Carpathia e os generais também abriram simultaneamente as portas dos carros deles, saindo dos veículos. Um general segurou a porta para Carpathia e ofereceu-lhe a mão, a fim de ajudar o potentado a subir na capota. Nicolae, porém, ignorou-o. Saltou para a frente do carro e alcançou o teto. O veículo se achava num ângulo tal que ele começou a escorregar. Equili­brou-se, porém, tirou ruidosamente a espada e levantou-a acima da cabeça.

            - Luzes!

            O farol de um jipe iluminou-o com um jato de luz forte e ostentoso, lançando uma sombra de três metros sobre as rochas atrás dele.

            - Leais soldados do Exército da Unidade da Comunidade Mundial, observem seu comandante-em-chefe!

            Os cânticos no interior de Petra cessaram e o povo se pôs a olhar para ele.

            - Vocês têm o privilégio de fazer parte da maior força militar já reunida na face da terra! Serão enaltecidos eterna­mente pela vitória que estamos prestes a obter. O plano é perfeitamente seguro, nossos recursos ilimitados, seu líder é divino. Uma vez que esmaguemos a resistência aqui, vocês ocuparão a cidade e tirarão proveito dos despojos enquanto vou sitiar Jerusalém.

            - Se realmente houver um Deus de Abraão, Isaque e Jacó, e se ele tem verdadeiramente um Filho digno de enfrentar-me em combate, também o destruirei! Quando me informa­rem de que todos os elementos estão em seu lugar, prepa­rem-se para avançar sobre Petra quando receberem minhas ordens. Não deixem viver homem, mulher ou criança. A vitória é minha, diz seu senhor vivo e rei ressurreto!

            Da parte de trás do veículo de Carpathia surgiu Leon Fortunato aos tropeções, ainda em sua ridícula vestimenta. Ele falhou na primeira vez em que tentou subir na capota e depois, levantando finalmente as vestes, conseguiu subir. Quando pisou desajeitadamente no limpador de pára-brisa, pisou também na barra de seu manto e teve de recuar, fazendo nova tentativa.

            Ao chegar depois de muito esforço ao teto, Leon tirou do manto um pequeno frasco e começou a aspergir o seu con­teúdo em volta.

            - Louvado seja o senhor ressurreto - entoou ele, e pôs-se a cantar. - Ave Carpathia, nosso senhor e rei ressurreto.

            - Leon, o que você está fazendo? - perguntou Carpathia.

            - Dirigindo a assembléia em adoração, Alteza.

            - Isto é uma batalha, homem! Que desperdício de água santa!

            Leon inclinou-se e pediu desculpas, desceu então ruidosa­mente da capota e escorregou para o chão.

            - Oh! - disse ele - quase esqueci. Deveria dizer-lhe que todos estão em suas posições e preparados.

            - Entre no carro, Leon.

            - Com sua permissão, Excelência.

            No momento em que a porta de Leon fechou-se, Carpathia bateu duas vezes com violência no teto. Nada aconteceu. Ele bateu mais duas vezes. Ainda nada.

            - Vamos! - gritou ele. - Vamos!

            - Quer que dirija com o Sr. aí em cima, potentado? - per­guntou o motorista. - Pensei que devia ficar...

            - Ande! Agora!

            O homem acelerou o carro e enquanto subia virtual­mente o muro, Carpathia teve de esforçar-se ao máximo para manter o equilíbrio.       

            - Ataquem - berrou ele. - Ataquem! Ataquem! Ataquem!

            Rayford viu o veículo de Carpathia saltar e os aviões darem início ao tiroteio. Tanto quanto Rayford pôde ver, o Exército da Unidade avançava, enquanto o remanescente, espiando por sobre o muro, permanecia em silêncio, de mãos dadas.

            O som do cerco era ensurdecedor. Jatos, jipes, carros, caminhões, motos, transportes, armamentos, munições, disparos de rifles, tiros de metralhadoras, canhões, grana­das, foguetes - tudo o que se possa pensar. Mas, quando a cruz panorâmica desapareceu do céu, o mundo ficou nova­mente às escuras. Isso lembrou Rayford do que ouvira sobre a escuridão que descera sobre a Nova Babilônia. O único som era o barulho de armas que não atiravam. Nada produ­zia luz. Nem faróis. Fósforos ou isqueiros não acendiam.

            - Luz! - guinchou Carpathia. Mas a negritude cobria tudo. - Fogo! - gritou furioso. Nada ainda. - Peguem os infiéis com a mão!

            Os soldados, entretanto, não viam nada e não podiam saber se a sua vítima era amigo ou inimigo. Os estalidos diminuíram e depois cessaram. Tudo que Rayford ouvia eram gritos frustrados e o relinchar de milhares de cavalos aguardando lá embaixo.

            De repente, como se Deus tivesse ligado um interruptor no céu - a luz.

            Aquela não era, porém, a palavra certa para o que se via. Não era uma luz do alto que lançasse sombras. Era um brilho que invadia cada brecha e fenda. Rayford teve de pro­teger os olhos, mas não adiantou, a luz vinha de toda parte.

            Ela expôs o caos que reinava no Exército da Unidade. Nas planícies, os cavalos empinavam e recuavam, relinchando e derrubando os cavaleiros. Nas encostas que levavam a Petra, os soldados examinavam armas que não funcionavam. Na orla da cidade, Carpathia apareceu em cima de seu veículo particular, com a espada na cintura, observado pelos santos que se achavam lado a lado.

            - Vocês podem vê-los agora! Avancem! Ataquem! Matem-nos!

            Enquanto seus soldados petrificados, letárgicos, voltaram-se lentamente para o trabalho a fazer, a cobertura de nuvens multicolorida e brilhante enrolou-se como um pergaminho, de horizonte a horizonte. Rayford viu-se ajoelhado no chão, com as mãos e a cabeça levantadas.

            O céu se abriu e ali, num cavalo branco, apareceu Jesus, o Cristo, o Filho do Deus vivo!

            Rayford não sabia explicar como podia ver seu Salvador tão claramente. Era como se estivesse a centímetros dele e tinha certeza de que essa deveria ser a experiência de todos em toda parte.                    

            Os olhos de Jesus brilhavam de convicção como uma chama de fogo, e ele ergueu a cabeça majestosa. Um manto o cobria até os pés, de um branco tão brilhante que parecia incandescente, e havia algo escrito nele, numa linguagem completamente desconhecida para Rayford. No manto, à altura da coxa, um nome estava inscrito: REI DOS REIS E SENHOR DOS SENHORES. No peito, uma faixa de ouro. A sua cabeça e os cabelos eram brancos como a alva lã, bran­cos como a neve. Os seus pés eram semelhantes ao bronze polido, como que refinados numa fornalha.

            Jesus tinha nas mãos sete estrelas, e seu semblante era como o sol brilhando em toda a sua força.

            Os exércitos celestiais, vestidos de linho finíssimo, branco e puro, o seguiam, montados sobre cavalos também brancos.

            Um anjo apareceu na luz e gritou com grande voz, dizendo a todas as aves que voam pelo meio do céu: "Vinde, reuni-vos para a grande ceia de Deus, para que comais carnes de reis, carnes de comandantes, carnes de poderosos, carnes de cavalos e seus cavaleiros, carnes de todos, quer livres, quer escravos, tanto pequenos como grandes" (Ap 19.17-18).

            "Eu sou o Alfa e o Ômega," disse Jesus, "o Princípio e o Fim. Eu, a quem tem sede, darei de graça da fonte da água da vida" (Ap 21.6).

            Quando Rayford ouviu pela primeira vez a voz de Jesus, compreendeu o que João quis dizer em Apocalipse, quando a comparou à voz de uma trombeta e ao som de muitas águas. A voz o traspassou, chegando ao seu coração. Era como se não estivesse ouvindo com os ouvidos, mas ela se tornara viva dentro dele e se comunicava com a sua própria alma. Rayford tinha certeza de que todo crente na terra ouvira Jesus da mesma maneira, bem no fundo do seu ser.

            Este era Aquele que é, que era e que finalmente viera: "a testemunha fiel, o primogênito dentre os mortos e o Rei sobre os reis da terra. Este era ele, aquele que nos amou e nos lavou de nossos pecados em seu sangue, e nos constituiu reis e sacerdotes de seu Deus e Pai, a ele a glória e o domínio para sempre".

            Depois dessas primeiras palavras, dezenas de milhares de soldados do Exército da Unidade caíram mortos, simples­mente fulminados no lugar onde estavam, com os corpos rasgados e o sangue empoçado à sua volta. "Sou aquele que vive, estive morto, mais eis que estou vivo pelos séculos dos séculos e tenho as chaves da morte e do inferno" (Ap 1.18).

            Ao ouvir isso, Carpathia desceu às pressas de seu poleiro e escorregou pela janela do passageiro.

            - Recuem! Recuem! Recuem! - gritou ele, mas o motorista devia estar morto. - Leon, dirija! Ande com esta carcaça! - A porta do motorista abriu-se, e um corpo voou para fora. Em breve, o veículo estava descendo o monte aos solavancos na direção do deserto.

            "Eu sou o Filho do Homem, o Filho de Deus, o Amém, a Testemunha Fiel e Verdadeira, o Princípio da Criação de Deus. Sou o Leão da tribo de Judá, a Raiz de Davi, Aquele que prevaleceu para abrir o livro e desatar seus sete selos."

            A cada palavra, mais e mais inimigos de Deus caíam mortos, despedaçados. Os cavalos assustavam-se e dispara­vam. Os que ainda estavam vivos gritavam aterrorizados e corriam como loucos - alguns escapando por algum tempo, outros caindo ao ouvir as palavras do Senhor e Cristo.

            "Sou o Cordeiro que foi morto, mas vive. Sou o Pastor que guia suas ovelhas às fontes de água viva. Sou o Deus que enxugará toda lágrima de seus olhos. Sou a sua Salvação e Força. Sou o Cristo que veio para julgar o acusador dos irmãos, que os acusou diante do nosso Deus dia e noite, aquele que foi expulso."

            As carcaças do Exército da Unidade se estendiam por quilômetros. Os sobreviventes, alucinados, apavorados, cor­riam, tropeçavam nelas e passavam sobre elas, procurando escapar com vida.

"Eu sou a Palavra de Deus. Sou Jesus. Sou a Raiz e a Geração de Davi, a brilhante Estrela da manhã."

 

            Era difícil ajoelhar-se e olhar para cima, mas de alguma forma Enoque achou um jeito. Todos os seus paroquianos fizeram o mesmo. Ele não conseguia expressar seus sen­timentos, nem mesmo na quietude de seu coração e sua mente. Ver Jesus, em suas alvas vestes, montado em um cavalo branco, e falando com autoridade celestial, sabendo que ele estava ao mesmo tempo destruindo o inimigo na Terra Santa... era demais para entender.

            Enoque acreditava que Jesus amava sua alma, e vê-lo voltando nas nuvens, sabendo que estava ali para estabelecer o seu Reino de mil anos, era algo que o completava, embora não soubesse bem como. O salmista dissera que assim como a corça suspira pelas correntes das águas, a alma suspira também por Deus. Enoque sabia que sua busca terminara. O seu Salvador chegara.

            Ele só tinha uma lembrança de que os vizinhos haviam saído correndo de suas casas, cheios de terror, gritando e chamando uns aos outros. A luz os cegava e eles se agitavam para todos os lados, alguns pulavam nos carros e saíam em disparada rua abaixo. Enoque sabia que as notícias no dia seguinte - se houvesse notícias - informariam que milhares redenção, salvação. Mas, exceto para aquele agora reduzido remanescente de Israel que estava vendo pela primeira vez Aquele a quem traspassaram, era tarde demais.

            "Eu sou a videira, vós, os ramos. Quem permanece em mim, e eu, nele, esse dá muito fruto; porque sem mim nada podeis fazer. Se alguém não permanecer em mim, será lançado fora, à semelhança do ramo, e secará; e o apanham, lançam no fogo e o queimam" (Jo 15.5-6).

            "Sou o Apóstolo e o Sumo Sacerdote da sua confissão, Deus manifestado na carne, justificado em Espírito, contem­plado por anjos, pregado entre os gentios, crido no mundo, recebido na glória" (l Tm 3.16).

            "Sou o Filho a quem Deus constituiu herdeiro de todas as cousas, pelo qual também fez o universo. Ele, que é o resplendor da glória e a expressão exata do seu Ser, sustentando todas as cousas pela palavra do seu poder, depois de ter feito a purificação dos pecados, assentou-se à direita da Majestade, nas alturas, tendo-se tornado tão superior aos anjos quanto herdou mais excelente nome do que eles" (Hb 1.2-4).

            Rayford viu soldados se matando ao avistar os com­panheiros mortos. Outros pareciam personagens de histórias em quadrinhos correndo, usando o que pudes­sem encontrar para cavar buracos e enterrar-se, tentando esconder-se da luz penetrante e das palavras de condena­ção de Cristo.

            Carpathia estava falando pelo rádio com os seus generais e comandantes no meio do seu exército, que ainda se esten­dia quilômetros de Petra para o norte. - Reforços! Reforços! Não poupem despesas ou equipamentos! Encontrem-se conosco em Buseirah!

            A Humvee real, com o onipresente Leon no volante, ultrapassou de muito a ATV de Rayford até que encontrou o restante do exército tentando fugir a cavalo e a pé. Cerca de metade da caravana original seguiu a Humvee, que deixara do lado de fora de Petra os transportes de munições inoperantes.

            Rayford correu atrás do potentado que fugia, e de seu séquito em pânico, voltando-se para ver o que estava aconte­cendo com o resto do Exército da Unidade que estivera rode­ando Petra. Tudo o que pôde enxergar durante quilômetros foram crateras; veículos virados; nuvens de pó; soldados e cavalos mortos e agonizantes; seres humanos andando entor­pecidos, correndo, tropeçando.

            Acima deles, grandes nuvens de aves famintas saciavam-se com a carne de homens e ani­mais. De maneira estranha, porém, os bandos fervilhantes que teriam de outro modo escondido o sol não lançavam qualquer sombra no chão. A luz de Cristo penetrava em tudo.

            - Como vão as coisas aí em cima, Mac?

            - Oh, Ray! Posso ouvir cada palavra. É como se Deus estivesse na cabina comigo, olhando diretamente em meus olhos.

            - Entendo.

            Ouça, vou para Buseirah, porque o que sobrou das linhas de frente segue para lá. Daqui do alto, parece que os maiores danos e mortes aconteceram a cerca de oito quilômetros de Petra. O restante da terça parte está se encaminhando para Buseirah, e mais ao norte, os outros dois terços estão bas­tante intactos e procurando se reagrupar.

 

            Uma das mulheres disse a Enoque, sem tirar os olhos do céu: Parece que Jesus está olhando diretamente para mim.

            - Eu também acho - disse outra, e mais outra.

            - Tenham comunhão com o seu Salvador - disse Enoque baixinho, sem querer interferir enquanto Jesus falava. Não deveria surpreender, decidiu, que Cristo tornasse sobrenatu­ralmente pessoal para cada crente a verdade da sua vinda, como se tivesse voltado individualmente para cada um deles. Enoque ouvira certa vez um santo idoso dizer - Ele amou cada um de nós, como se só houvesse um de nós para amar.

            Jesus disse:

            "Olhai para mim, o Autor e Consumador da Fé, que em troca da alegria que me estava proposta, suportei a cruz, não fazendo caso da ignomínia, e estou assentado à destra do trono de Deus".

            "Deus agora notifica aos homens que todos, em toda parte, se arrependam; porquanto estabeleceu um dia em que há de julgar o mundo com justiça, por meio de mim, o homem que destinou e acreditou diante de todos, ressuscitando-o dentre os mortos"

            "Sou Jesus Cristo, o justo, vosso advogado junto ao Pai. Fui feito propiciação pelos vossos pecados, e não só pelos vossos, mas também pelos do mundo inteiro. Sou o príncipe da vida, a quem Deus ressuscitou dos mortos. Sou o Verbo que se tornou carne e habitou entre vós e contemplastes a minha glória, glória como do primogênito do Pai, cheio de graça e verdade".

            "Eu, subsistindo em forma de Deus, não julguei como usurpação o ser igual a Deus; antes, a mim mesmo me esvaziei, assumindo a forma de servo, tornando-me em semelhança de homens; e, reconhecido em figura humana, a mim mesmo me humilhei, tornando-me obediente até à morte e morte de cruz" (Fp 2.6-8).

            "Pelo que também, Enoque, Deus me exaltou sobrema­neira e me deu o nome que está acima de todo nome, para que ao nome de Jesus se dobre todo joelho, nos céus, na terra e debaixo da terra, e toda língua confesse que Jesus Cristo é Senhor, para glória de Deus Pai" (Fp 2.9-11).

Enoque perdeu a respiração. Sentado ali, na radiância da glória de Deus, seu Salvador Jesus falara diretamente com ele, pelo seu nome.

            - Ouviram isso? - disse, e as pessoas ao seu lado que se dissolveram em lágrimas.

            - Ele pronunciou o meu nome.

            - Ele falou o meu nome - afirmou um jovem.

            - Ele me chamou pelo nome - repetiu uma mulher.

            - O meu também.

            - E o meu também.

 

            Rayford ficou sentado em meio à carnificina que rodeava Petra, seu coração quase explodindo com o amor e adora­ção que sentia por Jesus estar voltando diretamente para ele entre as nuvens.

            Cristo o chamara pelo nome, e enquanto olhava para ele, Rayford sentia que era verdade que cada cabelo de sua cabeça estava contado, que Jesus sabia tudo que havia para saber a respeito dele. Era como se tivesse voltado só para Rayford.

            - Ray, é Mac.

            - O que há, Mac?

            - Você não vai acreditar nisto, mas...

            - Eu sei.

            - Você também?

            - Acho que todo mundo, Mac.

            - Incrível.

            Mesmo sabendo que o fenômeno ocorrera também com outros, Rayford ansiava por ouvir o seu nome pronunciado novamente por Jesus. Ele o fez com tamanho amor, compaixão e conhecimento, que era como se ninguém jamais o tivesse dito antes ou o faria depois.

            "Rayford" - ali estava Jesus dizendo outra vez - "Você conhece a minha graça, que, embora sendo rico, me fiz pobre, para que, pela minha pobreza você se tornasse rico" (2 Co 8.9).

            - Eu sei, Senhor - disse Rayford, com os olhos marejados.

            - Eu sei.

            "Libertei-o do império das trevas e o transportei para o reino do Filho do amor de Deus, no qual tem a redenção, a remissão de pecados. Sou a imagem do Deus invisível, o primogênito de toda a criação; pois, em mim, foram criadas todas as cousas, nos céus e sobre a terra, as visíveis e as invisíveis, sejam tronos, sejam soberanias, quer principados, quer Potestades. Tudo foi criado por meio de mim e para mim. Sou antes de todas as cousas. Em mim tudo subsiste.

            Sou a cabeça do corpo, da Igreja. Sou o princípio, o pri­mogênito de entre os mortos, para em todas as cousas ter a primazia, porque aprouve a Deus que em mim residisse toda a plenitude e que, havendo feito a paz pelo sangue da minha cruz, por meu intermédio reconciliasse consigo mesmo todas as cousas, quer sobre a terra, quer nos céus" (Cl 1.13-20).

            Rayford caiu novamente no chão, levantando os braços:

            - Meu Senhor e meu Deus, sou tão indigno.

            "E você, Rayford, que outrora era estranho e inimigo no entendimento pelas suas obras malignas, agora, porém, o reconciliei no corpo da minha carne, mediante a morte, para apresentá-lo perante Deus santo, inculpável e irrepreensível" (v.22).

            - Indigno! Indigno! - gritou Rayford.

            "Justificado pela fé" - disse Jesus, "justificado".

 

            Pareceu a Abdullah que todos em Petra estavam prostra­dos; mas, ainda assim de alguma forma eram capazes de ver Cristo. Quando o Salvador chamou Abdullah pelo nome, ele pôde perceber pela reação ao seu redor que Jesus chamara também a cada um pelo nome. Melhor ainda, Jesus falara com Abdullah em árabe, sua língua nativa.

            Kenny exclamou:

            - Ele me conhece !

            E Beth Ann abraçou o pescoço de George e gritou em voz estridente:

            - Ele disse o meu nome!

            A partir daquele momento, Abdullah ouviu todos conver­sando com Jesus, como se ele estivesse falando a sós com cada um.

 

            Mac olhou para Bozra lá embaixo, a moderna cidade jordaniana de Buseirah, que fica a 48 km a sudeste do mar Morto e cerca de 32 km ao norte de Petra. Ele disse a Rayford:

            - É um povoado remoto nas montanhas e o acesso vai ser difícil.

            - Especialmente se Deus não quiser que o Exército da Unidade chegue lá em segurança.

            - E ele não quer.

            - Mac, Chaim não disse que o remanescente vai com Jesus para Jerusalém?

            - Creio que sim.

            - Como vamos fazer para um milhão de pessoas percorrer 90 km em um dia? Não temos veículos ou aviões suficientes.

            - Acho que esse problema não é nosso, Ray.

            - Mas, a pergunta permanece.

            - Levante os olhos, irmão. Levante os olhos. Você não vai tentar perseguir Carpathia até Jerusalém nesse carrinho, vai?

            - Estive pensando nisso, Mac.

            - Falei com Chang e Lionel. Não quero ficar tão longe assim da ação. O que você diz de voltarmos a Petra e arran­jarmos um Hummer para nós?

            - Temos de correr, então. Não quero perder os acontecimen­tos em Bozra.

            - Você dirige, Ray.

            - Não, quem dirige é você.

            - Vamos falar com Abdullah. Ele gosta de dirigir. Além disso, acho que vai ficar contente de nos acompanhar.

            Quando Rayford voltou para Petra, Mac já havia aterris­sado o helicóptero e encontrado Abdullah. Os três se abra­çaram.

            - O que você diria quando alguém fala o que é óbvio? - perguntou Abdullah.

            - Eu diria que era declarar o óbvio - respondeu Mac. - E isso é geralmente feito por um jordaniano. Você está prestes a declarar o óbvio, Abdullah?

            - Estou, Sr.

            - Diga então.

            - Este é o maior dia da minha vida. E o de vocês?

 

            Chaim estava quase esmagado pelas pessoas que o enchiam de perguntas. Queria dar-lhes toda a sua atenção, mas como fazer isso com o seu Salvador nas nuvens?

            As pessoas estavam também preocupadas com Jesus, é claro, mas até que pudessem falar com ele, face a face, pediam respostas a Chaim enquanto olhavam para o céu.

            - Por que os santos atrás dele usam branco? Para indicar sua pureza?

            - Creio que sim - respondeu Chaim. - E também porque não vão estar realmente envolvidos na guerra. Jesus fará tudo sozinho e as batalhas - mais três depois desta - não serão na verdade batalhas, mas golpes mortais unilaterais.

 

            Rayford ansiava ver Kenny. Não queria, porém, pertur­bar o menino por deixá-lo logo em seguida.

            Queria também conversar com Priscilla Sebastian sobre como ela planejava cuidar das crianças, a filha dela e o neto dele, para que não vissem o horror fora dos muros. Abdullah garantiu que Kenny estava bem até então - tão enamorado de Jesus quanto todos eles - e que Priscilla tinha de fato um plano.

            O milhão ou mais de pessoas em Petra praticamente perdera a sua formação original e andava por toda parte, a maioria com a cabeça levantada para o céu, embora de alguma forma se encaminhando intuitivamente para as saídas. Elas sabiam que Jesus iria libertá-las, não só do ataque do anticristo, mas que estariam também livres para regressar à terra natal, sua cidade, Jerusalém, a Cidade de Deus.

 

            - Estamos livres? - alguém perguntou a Enoque.

            - Penso que sim - ele disse. - O Senhor de modo algum permitirá que as forças do anticristo nos matem por não ter a marca da lealdade, agora que ele está aqui e vai governar as nações. Até mesmo a nossa.

            - Como Deus fará isso lá de cima?

            - Não tenho idéia. Mas, depois de hoje, vou simples­mente crer nisso. Você não vai?

            - O reinado de Jesus sobre as nações está na Bíblia?

            - Está. Apocalipse 12.5 diz: "Nasceu-lhe, pois, um filho varão, que há de reger todas as nações com cetro de ferro. E o seu filho foi arrebatado para Deus até ao seu trono". Esse é Jesus e ele está aqui agora. Esse cetro de ferro indica que ele não vai aceitar nada errado de ninguém, não é?

            - Ouvi isso.

            - Penso então que estamos livres para nos movimentar sem medo - disse Enoque.

            - Vou ficar com medo por algum tempo, mas isso me parece realmente bom.

 

            O único lado negativo de Abdullah dirigir o Hummer era que Rayford teria de negociar com Mac o privilégio de viajar de repente. Isso o fez lembrar dos dias de faculdade, quando seus colegas competiam para ocupar o assento favorito, às vezes 24 horas antes de uma viagem.   Lembrou-se igual­mente de como estava longe de ser cristão naquela época. Se alguém tivesse predito onde ele estaria trinta anos mais tarde, e pintado esta cena, Rayford teria com certeza rido com desdém.

            O Hummer apertado e compacto abriu caminho para fora da cidade sob o controle cuidadoso de Abdullah. Dezenas de milhares de peregrinos enchiam as ruas e as escadas de pedra, andando de braços dados, de mãos dadas, cantando, orando, louvando a Deus, e olhando Jesus no céu.

            - O êxodo deve ter sido assim - comentou Abdullah. Mac riu alto.

            - Você sabe - acrescentou Abdullah. - O original. Os filhos de Israel saindo do Egito.

            - Sei o que é o êxodo, Abdullah! - Mac disse. - Você acha que aquele povo estava feliz então?

            - Bem, não, acho que não. E eles teriam filhos com mais de sete anos, não é?

            Ao saírem finalmente de Petra, Rayford ficou impres­sionado ao ver como Abdullah conseguia encontrar trechos onde correr a mais de 90 km por hora. Na maior parte do tempo, ele tinha de precaver-se contra as pedras, sulcos e crateras dos meteoritos e desviar-se também lentamente dos cadáveres de cavalos e soldados.

            Abdullah era claramente um homem com um objetivo em vista, desejando chegar a Bozra logo depois de Carpathia. Rayford vira também onde o comboio do potentado encalhara, e achava que Abdullah até podia alcançar a cidade primeiro do que ele.

            Cerca de 60 km de Petra, voando adiante de uma enorme nuvem de poeira, os três abaixaram as janelas e olharam para as nuvens quando Jesus começou novamente a falar.

            "Reunirei certamente todos vocês, ó Jacó, reunirei todo o remanescente de Israel; irei colocá-los como ovelhas no redil, como um rebanho em sua pastagem; o ruído será grande por tratar-se de tanta gente".

            "Eu sou aquele que abre e vocês me verão. Vão deixar a cidade de refúgio, passarão pela porta e sairão por ela. Eu, seu Rei, passarei antes de vocês. Eu, o Senhor, estarei à sua frente". [Tradução Livre]

            - Ele vai levar o povo a Bozra - Abdullah disse.

            - Dizendo o óbvio novamente, Abdullah - comentou Mac. Dentro de poucos minutos, no entanto, Rayford e os outros compreenderam o plano de Jesus.

            - Vejam o que está atrás de nós - disse Abdullah. Eles se encontravam num trecho especialmente lento, procurando caminho entre vários obstáculos, embora uma grande nuvem de poeira ainda os acompanhasse.

            - O que é isso? - Mac perguntou.

            - Não tenho idéia - replicou Rayford, estudando a situa­ção e ficando alarmado. Algo se aproximava. Era enorme e assustador.

            Alguns segundos mais tarde, Abdullah encontrou um trecho melhor e acelerou. Em breve, corriam a mais de 100 km por hora. A grande bola de pó mesmo assim os apanhou e os três fecharam depressa as janelas. O chão tremeu e o vento sacudiu o Hummer.           

            - São pessoas! - gritou Rayford por cima do alarido. - É o remanescente!

            - Estão seguindo o Senhor! - disse Mac. - Estão correndo mais depressa do que o nosso carro!

            - Vejam! Estão todos sorrindo, rindo, cantando! Até as criancinhas!

            - Não tínhamos necessidade do carro! - disse Abdullah.

            - Você está afirmando o óbvio! - gritou Mac, rindo.

 

            Fora Hannah Palemoon quem sugerira que o Comando Tribulação se esforçasse para permanecer junto na viagem a Bozra. Ela temia que a saída de Petra e a reunião com tantos entes queridos pudessem fazer com que nunca mais se juntassem da mesma maneira. Ninguém sabia quanto tempo a jornada iria durar e ela previa a possibilidade de um dia muito longo. Ao seu redor, todos faziam perguntas sobre como chegar a Jerusalém, já que Bozra estava bem distante - na verdade longe demais para ir até lá a pé.

            Ela não se importava. O começo foi divertido e todos se sentiam imensamente abençoados e cheios de gratidão, olhando para Jesus e recebendo seu olhar de volta, diretamente para cada um. Leah estava lá e os Sebastian com sua filha e Kenny. Por se acharem no meio do imenso ajuntamento, as cri­anças foram poupadas da cena trágica que restara no deserto. E elas, de todo jeito, pareciam preocupadas com Jesus. Razor, Lionel, Chang e Naomi, Zeke e os Woo estavam todos ali.

            Hannah não sabia quem tivera primeiro a idéia de caminhar mais depressa, mas repentinamente um grupo rindo e sorrindo os empurrava. Eles andaram o mais depressa possível, depois começaram a correr devagar, em seguida compassado e por fim se puseram a correr a toda velocidade. Hannah sentia-se leve como o ar e embora não estivesse real­mente acima do chão, a sensação era essa. Cada passo a fazia avançar mais e mais e em breve corria como nunca antes.

            Para sua surpresa, não se sentia ofegante. Sua força e resistência permaneciam e, portanto, aparentemente, as dos jovens e dos mais velhos. À sua frente, George Sebastian corria mais depressa do que ela, mesmo carregando Beth Ann! Priscilla o acompanhava com Kenny no colo.

            Quando o grupo alcançou e ultrapassou um Hummer veloz, Hannah soube que estavam correndo a velocidades sobrenaturais, sobre-humanas. As crianças também queriam ser colocadas no chão para poderem correr. Ela passou pelos Sebastians enquanto eles diminuíam o passo para abaixar as crianças, mas dentro de minutos eles a ultrapassaram outra vez; as crianças correndo tão depressa quanto os adultos.

 

            Meia hora depois, toda aquela multidão passava pelo Hummer e se aproximava de Bozra. Quando Abdullah parou perto de uma entrada estreita para o povoado na montanha, as tropas do Exército da Unidade haviam começado a entrar. Tinham aparência de derrotados antes da batalha começar.

            O que restara de seus veículos e armamentos era paté­tico, mas Rayford ficou surpreso ao ver quantos soldados permaneciam vivos. Vários milhares de cavalos também sobreviveram. Ele teve de se perguntar se alguns, que faziam parte do terço original da força militar de Carpathia, per­maneceriam para juntar-se aos outros no norte.

            Como era estranho ver todo o remanescente novamente reunido enquanto Abdullah dirigia na fímbria da grande multidão. O Senhor e seu exército vestido de branco pairava sobre eles e, apesar da viagem, todos pareciam vigorosos e limpos, nada desgastados. Ninguém sequer ofegava. Isso era bom, pensou Rayford, porque tinham ainda outra jornada à sua frente, duas vezes mais longa.

            - Onde será que o velho Nick se encontra a esta hora? - perguntou Mac. - Não ouvimos notícias dele há algum tempo, não é?

            - Se fosse ele - disse Abdullah - eu deixaria esta batalha para outra pessoa.

            Rayford dirigiu Abdullah para um lugar alto a nordeste da cidade.

            Eles podiam ver dali o remanescente e as planí­cies lá embaixo, onde várias centenas de milhares de tropas se achavam enfileiradas e aparentemente prontas para um novo ataque. Rayford estudou o horizonte com os binóculos e em breve ouviu transmissões pelo rádio dos generais de Carpathia.

            - Aguardando suas ordens, Excelência. - A voz parecia cansada, derrotada.

            Ouviu-se um pigarrear.

            - E os pelotões do sul? - A voz era de Carpathia.

            - Estão preparados, supremo potentado. - Rayford perce­beu uma ponta de sarcasmo.

            - Prontos, santidade. Podemos saber a sua posição?

            - Qual é a razão?

            - Para evitarmos o perigo de fogo amigo, grandioso senhor.

            - Basta dizer que eu e meu gabinete estamos a noroeste de você.

            Só isso com respeito à visibilidade e inspiração. Nicolae aparentemente sabia como estivera prestes a tornar-se ali­mento para as aves em Petra.

            - Logo atrás de vocês, garotos! - parecia ser o seu slogan para aquela escaramuça. Ela provaria ser, porém, mais do que uma simples escaramuça.

            - Parece que toda a população de Petra se acha aqui - uma transmissão geral.

            - Se estiver se dirigindo a mim - exclamou Carpathia - deve tomar cuidado para usar a permissão adequada.

            - Estou falando com os que são essenciais para esta operação, Sr.

            - Seu comandante-em-chefe é crucial, general, e você faria bem em lembr...

            - Vou lembrar-me disso quando a luta começar, você está se escondendo a noroeste, longe da ação.

            - Identifique-se, infiel!

            - Linha de frente, Sr., o que é mais do que posso dizer do comandante-em-chefe.

            - Dissensão entre as fileiras! - exultou Mac. - O que poderia ser melhor que isso?

            - Seria melhor avançarmos, Excelência - outro general interrompeu. - Não seremos favorecidos se deixarmos que o inimigo nos observe.

            - Eles estão desarmados! - disse Carpathia. - Este vai ser um passeio pelo parque!

            - Eles estavam desarmados em Petra, comandante - disse o primeiro general. - Já esqueceu que o comandante-em-chefe deles está acima de nós? E já se perguntou como conseguiram trazer todos para cá tão depressa?

            - Ataque! - berrou Carpathia.

            O que restava do terço sulino do Exército da Unidade começou a avançar lentamente em direção a Bozra.

            A operação parecia para Rayford uma missão suicida. No momento em que as forças da Comunidade Mundial avista­ram o remanescente de Israel, os soldados pareceram lançar até os últimos projéteis de seu arsenal. Ele não podia imagi­nar uma fuzilaria mais ensurdecedora. Todavia, as balas, mísseis, foguetes e morteiros caíram sem atingir ninguém na massa de povo. Milhões e milhões de tiros continuaram a ser despejados por canos de todos os tamanhos enquanto o exército avançava devagar.

            Apesar do alarido, as palavras do Senhor continuavam sendo, porém, ouvidas claramente.

            "Chegai-vos, nações, para ouvir, e vós, povos, escutai; ouça a terra e a sua plenitude, o mundo e tudo quanto produz. Porque a indignação do Senhor está contra todas as nações, e o seu furor, contra todo o exército delas; ele as des­tinou para a destruição e as entregou à matança" (Is 34.1-2).

            Rayford observou através dos binóculos enquanto mili­tares, homens e mulheres, assim como cavalos pareciam explodir onde estavam. Era como se as próprias palavras do Senhor tivessem aquecido sobremaneira o sangue deles, fazendo com que fervesse em suas veias e sua pele.

            "Os seus mortos serão lançados fora, dos seus cadá­veres subirá o mau cheiro, e do sangue deles os montes se inundarão. Todo o exército dos céus se dissolverá, e os céus se enrolarão como um pergaminho; todo o seu exército cairá, como cai a folha da vide e a folha da figueira" (v. 3-4).

            Dezenas de milhares de soldados da infantaria deixaram cair suas armas, agarraram a cabeça ou o peito, caíram de joelhos e se retorceram enquanto eram invisivelmente cor­tados em pedaços. Suas entranhas saltaram para o chão do deserto e enquanto os que estavam por perto se viravam para fugir, eles também eram mortos, o seu sangue empoçava e subia no brilho implacável da glória de Cristo.

            "Porque a minha espada se embriagou nos céus; eis que, para exercer juízo, desce sobre Edom e sobre o povo que destinei para a destruição...Porque o Senhor tem sacrifício em Bozra e grande matança na terra de Edom. A sua terra se embriagara de sangue, e o seu pó se tornará fértil com a gordura" (v. 5-7).

            Era como se o exército do anticristo se transformasse nos animais para o sacrifício da matança do Senhor.

            Carpathia gritou:

            - Tragam um avião, um helicóptero, um jato - qualquer coisa! Levem-me para o norte! Agora! Já!

            E Jesus disse: "Porque hoje será o dia da vingança do Senhor, ano de retribuições pela causa de Sião" (v. 8).

            - De onde virá o transporte de Carpathia? - indagou Rayford.

            - Ash Shawbak - disse Abdullah.

            - É isso mesmo, Abdullah - afirmou Mac. - É a sua cidade natal?

            - Não. É Amã, você sabe disso.

            - Claro. Não foi em Ash Shawbak que os dignitários estavam em seu safári executivo, tomando estimulantes e presumindo que iam assistir Nicolae trazer a vitória para casa?

            - Esse é o lugar - disse Abdullah. - Gostaria de ver a cara deles agora.

            - Olhem! - exclamou Rayford, acenando para o céu na direção sudeste. Um helicóptero a jato voava sobre o exército dizimado a noroeste com um ruído estridente.

            Rayford levantou novamente o binóculo e estudou a área.

            - Lá estão eles. Olhem só aquele velho e enorme Humvee ali sozinho. Parece que Carpathia não vai sequer arriscar sair até que seja absolutamente obrigado.

            - Seu exército desapareceu - disse Mac. - Pelo menos esta parte dele. Não se ouve sons de tiro em parte alguma.

            Tudo ficara mortalmente silencioso. Enquanto Rayford observava, o helicóptero desceu a vários metros da posição de Carpathia. Só ele e Leon desembarcaram do Hummer. Leon segurou a barra do manto na cintura e correu tão depressa quanto lhe era possível.

            A grande bainha da espada de Nicolae pareceu atrapalhá-lo ao sair, e ele levou alguns minutos para livrar-se dela. Correu depois para o helicóptero, passando por Leon e empurrando-o com o cotovelo para ser o primeiro a entrar. Tão logo Leon subiu a bordo, com a ajuda de mãos prestativas, o aparelho levantou vôo e foi para o norte.

            Rayford virou os binóculos de um lado para outro e não viu qualquer movimento entre os destroços do Exército da Unidade. Havia corpos espalhados numa extensão de quilômetros e o chão do deserto encharcara-se de sangue.

            - Ei, vejam isto - chamou Rayford, abrindo a porta de seu lado e saindo.

            Mac e Abdullah o seguiram, subindo no teto do Hummer, observando enquanto Jesus descia do céu. Seu cavalo tocou graciosamente o solo nas planícies a oeste de Bozra e enquanto todo o remanescente judeu observava do monte, Jesus desceu do animal. O exército do céu per­maneceu cerca de três metros acima dele, acompanhando-o, enquanto ele andava pelo campo de batalha e a orla de seu manto se tornava carmesim ao tocar o sangue do inimigo.

            Os santos acima dele começaram uma recitação responsiva, fazendo perguntas em uníssono, às quais ele respondia para que todos na terra ouvissem. "Quem é este - começaram eles - que vem de Edom, de Bozra, com vestes de vivas cores, que é glorioso em sua vestidura, que marcha na plenitude da sua força?".

            E o Senhor disse: "Sou eu que falo em justiça, poderoso para salvar.         Por que está vermelho o traje, e as tuas vestes, como as daquele que pisa uvas no lagar?.

 

            O lagar, eu o pisei sozinho, e dos povos nenhum homem se achava comigo; pisei as uvas na minha ira; no meu furor, as esmaguei, e o seu sangue me salpicou as vestes e me manchou o traje todo.

            Porque o dia da vingança me estava no coração, e o ano dos meus redimidos é chegado.

            Olhe, e não havia quem me ajudasse, e admirei-me de não haver quem me sustivesse; pelo que o meu próprio braço me trouxe a salvação, e o meu furor me susteve.

            Na minha ira, pisei os povos, no meu furor, embriaguei-os, derramando por terra o seu sangue".

            Os incontáveis milhares a cavalo, acima dele nos céus, o louvaram em uníssono:

            "Celebraremos as benignidades do Senhor e os seus atos gloriosos, segundo tudo o que o Senhor nos concedeu e segunda a grande bondade para com a casa de Israel, bon­dade que usou para com eles, segundo as suas misericórdias e segundo a multidão das suas benignidades."

            E Jesus disse: "Certamente, eles são meu povo, filhos que não mentirão; e me tornei seu Salvador" (Is 63.1-8).

            Depois disso, ele voltou-se para a multidão que espiava de Bozra.

            "Quando, porém, virdes Jerusalém sitiada de exér­citos, sabei que está próxima a sua devastação. Então, os que estiverem na Judéia, fujam para os montes; os que se encon­trem dentro da cidade, retirem-se; e os que estiverem nos campos, não entrem nela. Porque estes dias são de vingança, para se cumprir tudo o que está escrito...Ora, ao começa­rem estas cousas a suceder, exultai e erguei a vossa cabeça; porque a vossa redenção se aproxima" (Lc 20.20-22, 28).

 

            - O que você acha que está acontecendo neste momento, irmão Enoque?

            Enoque não tinha certeza, mas fazia uma idéia. Em Illinois, como sabia que estava ocorrendo em toda parte, sem levar em conta a hora, o dia brilhava como se fosse meio-dia, sem uma sombra sequer. A glória do Senhor era a luz do mundo. Mas, Jesus não estava mais visível no céu.

            - Vamos vê-lo outra vez? Ou teremos de ir lá para isso?

            - Creio que iremos vê-lo de novo - disse Enoque. - Ainda hoje. Ele está provavelmente travando uma das batalhas que precedem a queda de Jerusalém e libertando os judeus dali. Mas, as profecias dizem que quando livrar Jerusalém e subir ao monte das Oliveiras, todo olho o verá. Isso evidentemente nos inclui.

            - Em breve, talvez amanhã, teremos de ir para lá, não é?

            - Eu gostaria - respondeu Enoque. - Não vai ser, porém, barato.

            - Vamos pensar deste jeito: temos mil anos para levantar o dinheiro.

            - Não quero esperar tanto assim.

            - Nem eu. Que tal um lava-rápido?

 

            - Siga para o oeste do mar Morto e para o sul de Jerusalém - Rayford instruiu Abdullah. Ele sentou-se no banco de trás do Hummer, deixando Mac no da frente.

            - Carpathia parece descontente, Mac. Você estava ouvindo?

            - Sim. Acho que ele esperava que os dois terços nortistas de seu exército estivessem prontos. Parece que eles preferi­ram fugir.

            - Ele podia perder um grupo deles e ainda ficar com uma porção. Está tentando organizá-los para aniquilar os judeus de Jerusalém.

            - Jesus não vai deixar que cheguem assim tão longe, não é?

            - Na verdade, vai - respondeu Rayford. - Pelo menos uma porção deles, embora muitos soldados vão morrer entre aqui e o monte Megido. Caso tenha lido direito, e Tsion e Chaim tinham razão, é o que vai acontecer em seguida.

            Enquanto viajavam, eles seguiram Jesus que cavalgava agora no chão, com o seu exército acima e atrás dele, e o remanescente judeu correndo em massa pelo caminho. Eles cobriram novamente mais de 110 km por hora, e Jesus continuou falando durante todo o trajeto, como se fosse indi­vidualmente a cada um.

            "Eu sou o Rei que vem em o nome do Senhor", disse ele. "Sou o Mediador da nova aliança. Sou aquele que carregou os seus pecados em meu próprio corpo na cruz, para que vocês, tendo morrido para os pecados, possam viver para a justiça - por cujas pisaduras foram sarados".

            "Eu sou o Pão de Deus que desceu dos céus e dá vida ao mundo. Portanto, celebrem a festa, não com o velho fer­mento, nem com o fermento da malícia e da perversidade, mas com o pão sem fermento da sinceridade e da verdade".

            "Em mim foram criadas todas as cousas, nos céus e sobre a terra, as visíveis e as invisíveis, sejam tronos, sejam soberanias, quer principados, quer Potestades. Tudo foi criado por meio de mim e para mim" (Cl 1.16).

            "Vim para fazer a vontade de Deus. Vim ao mundo para salvar pecadores, não para ser servido, mas para servir e dar a minha vida em resgate por muitos" (Mt 20.28).

            Rayford aprendera nos últimos sete anos que a Palavra de Deus era viva e eficaz, e mais cortante do que qualquer espada de dois gumes. Aprendera também que a Palavra nunca voltaria vazia. Agora, como se estivesse sendo quei­mada em seu coração e sua alma pelo seu Redentor, ele se sentiu cheio e transbordante, pronto para explodir.

            Que privilégio ouvir o Verbo pelo próprio Verbo! Ele e seus amigos rodaram pela terra devastada, ouvindo o que todos os demais no mundo estavam ouvindo e, todavia, Rayford tinha a certeza de que cada um tomava aquelas palavras como para si mesmo. Ele certamente o fazia. E quase no momento em que esquecia essa verdade, Jesus se referiu a ele pelo nome.

            "Rayford, nasci para isto e por esta causa vim ao mundo, para dar testemunho da verdade. Quem for da verdade ouve a minha voz. Não posso fazer nada por mim mesmo, mas aquilo que o Pai faz isso faço. Sou a pedra que os construtores rejeitaram, todavia me tornei a pedra angular, tendo sido construída sobre o fundamento dos apóstolos e profetas."

            - Senhor, eu te adoro - sussurrou Rayford, ouvindo que Mac também orava. Abdullah continuou dirigindo com lágri­mas escorrendo pelo rosto.

 

            Rayford teve de sorrir. Ali estavam realmente os flancos sulinos dos dois terços restantes do Exército da Unidade da Comunidade Mundial do Anticristo, mas eles pareciam pouco mais organizados e prontos para lutar do que os cadáveres deixados em Edom. Essa talvez fosse a razão de Carpathia não estar à vista e, pelas transmissões que ouviam, ele estava indo mais para o norte, para o centro de suas forças em Megido.

            Tanto Tsion Ben-Judá quanto Chaim Rosenzweig haviam dito a Rayford durante anos que de todas as passagens pro­féticas das Escrituras, as quatro batalhas finais entre Jesus e os exércitos de Armagedom eram as mais difíceis de com­preender e colocar em seqüência.

            - O melhor para nós é seguir Jesus - Rayford disse.

            - Esse é que foi um sermão na acepção da palavra - afir­mou Mac.

            - Essas batalhas vão acontecer onde já foi determinado e a única coisa da qual estou certo é de quem vai ganhar.

            - Olhe, tenho um pouco mais certeza do que isso - disse Abdullah.

            Rayford viu Mac olhar surpreso para Abdullah.

            - Não diga, Abdullah. Vamos, conte.

            - Estive estudando.

            - Estudando o quê?

            - Geografia na maior parte. Por minha conta.

            - Isso pode ser perigoso.

            - Achei bastante informativo.

            - E eu gostaria de ouvir, Abdullah - Rayford disse.

            Mac sacudiu a cabeça e acomodou-se.

            - Rapazes, aqui vamos nós.

            - Fiquei curioso, querendo saber porque toda a história apontava para Armagedom no final. Ou seja, o que é Armagedom? É um lugar com muitos nomes e também com uma grande extensão.

            - Você deveria ser professor, Abdullah - interpôs Mac.

            - Vocês dois são pilotos e viram muitas vezes as cadeias de montanhas que ladeiam a Palestina.

            - Claro, perto da costa do Mediterrâneo.

            - Conhecem a fenda onde todas as montanhas descem de repente a altitudes de cerca de 90 metros ou menos?

            - Lá em cima, onde as terras altas se separam dos montes ao norte da Galiléia?

            - Exatamente. É o vale de Jezreel.

            - Eu sempre pensei que ali fosse a planície de Esdraelom - disse Mac - ou seja qual for o nome que lhe dêem.

            - Muito bem, Mac - disse Abdullah. - Ponto para você. Jezreel é o nome hebraico. Esdraelom é o grego.           

            - Puxa, estou vendo que você andou mesmo estudando.

            - Há mais ainda. Alguns o chamam de planície de Megido, por causa da cidade que fica imediatamente a oeste dele. E é então que obtemos a palavra Armagedom.

            - O quê? - Mac disse. - Você me deixou confuso, professor.

            - Armagedom vem do hebraico Har Megiddo, que sig­nifica monte Megido.

            - Você fez mesmo a lição de casa, garoto.

            - Os especialistas dizem que em Megido houve mais guerras do que em outro lugar do mundo por ser tão estrate­gicamente localizado. Treze batalhas até o final do primeiro século. Alguns dizem que Megido foi construída 25 vezes e destruída 25 vezes.

            - A cidade natal de Jesus não fica para aqueles lados? Nazaré?

            - Ao norte do vale - disse Abdullah. - Imagine como será para ele lutar com um exército inteiro assim tão perto de casa.

            Como indicação da incerteza das forças do Exército da Unidade, o Hummer deles foi praticamente ignorado. O exér­cito, como todos os demais, parecia ter os olhos pregados em Jesus, observando-o cuidadosamente com os seus santos. Da maneira como as notícias viajavam nos campos de batalha, aquelas tropas sem dúvida já sabiam da carnificina em Edom.

            Rayford avisou Abdullah para ficar longe do exército.

            Embora permanecesse confiante na invulnerabilidade deles, não haveria proveito em servirem de alvo para o fogo inimigo.

            - Vou provavelmente arrepender-me de perguntar isto, Abdullah - disse Mac - mas o que você aprendeu sobre Megido e tudo isso, além dos nomes? Quero dizer, o que é tão estratégico a respeito?

            Rayford achou interessante a maneira como Abdullah reagiu à pergunta. Mac deveria estar ainda mais surpreso do que Ray. Não era freqüente Abdullah ficar em posição de ensinar a seus superiores. Mas, ele parecia ter assimilado bem os fatos.

            - É o palco perfeito para a história. O monte Megido não é realmente muito maior que uma colina. Durante séculos, foi o lugar de onde a passagem estratégica era guardada - a estrada internacional que ia do leste até o Egito.

            - Nos últimos meses, os exércitos inimigos foram se reunindo em um único, como sabem. Os que vieram do ocidente, do império romano renascido, desembarcaram em Haifa e seguiram diretamente para o vale do Megido.

            - Os exércitos do oriente atravessaram o leito seco do rio Eufrates e também se encaminharam para o mesmo lugar. Os exércitos do norte passaram pelo monte Hermom e desce­ram para a terra de Israel, terminando no vale de Jezreel, no monte Megido.

            - Faz sentido - disse Mac. - Garoto, você errou de profissão.

 

            Chaim não conseguiu deixar de sorrir. Tsion Ben-Judá, primeiro seu protegido e eventualmente seu mentor, lhe dis­sera certa vez que a profecia era a história escrita antecipa­damente. Ali estava ele, aos 70 anos, vivendo essa história.

            O maná não caíra mais desde que Jesus aparecera nas nuvens. Embora Chaim soubesse que eventualmente ele e todos os outros mortais teriam de comer, estava certo de que ninguém passava fome, como ele também não passava. O Pão da Vida chegara.

            Era como se os seus 50 anos tivessem evaporado. Chaim sabia que não mudara de aparência, mas não sentia fadiga nem dores. Não tinha doenças graves a serem tratadas, mas se Rayford fora curado apesar de seus ferimentos e a enfermaria fora fechada num instante, a idéia de que Chaim tivesse sido libertado da devastação da idade fazia sentido.

            Ficou bastante impressionado por ter sido capaz de sair de Petra e seguir para Bozra sem ajuda. Quando começou, porém, a andar mais depressa, a correr e finalmente a quase voar sobre o caminho, Chaim soube que não se tratava de uma façanha pessoal. Ele não se cansara nem tivera dor nas articulações. Não fosse a sua concentração em seu Salvador, poderia sentir-se até inclinado a compartilhar de seu jogo favorito: futebol. Imagine, pensou, um velho como eu cor­rendo com as crianças.

            À medida que o remanescente de Petra seguiu o Senhor e seu exército para Jerusalém, Chaim sentiu-se cheio de orgulho e gratidão. Embora tivesse tido centenas de milhares sob a sua autoridade e cuidado nos últimos três anos e meio, muitos dos quais sequer encontrara e muito menos conhecera, ele sentia amor e responsabilidade por essas pessoas. Deus tinha sido fiel, alimentando-as, providenciando água para elas, protegendo-as.

            O que viria agora? Deveriam ir com Jesus para a batalha de Armagedom, ou seriam enviados a Jerusalém? A informa­ção recebida da Cidade Santa era que o Exército da Unidade estava apenas brincando com o que sobrara da resistência, e quando desejasse e estivesse pronto, invadiria a Cidade Velha e completaria a queda de Jerusalém.

            Chaim sabia que isso fora profetizado e iria acontecer, mesmo com Jesus em cena. Mas, ele vingaria rapidamente a perda e a reverteria. E muitos outros judeus remanescentes entrariam no reino.

            O que mais emocionava Chaim eram as falas de Jesus. Como ele se dirigia ao mundo inteiro, mas tornava suas palavras tão pessoais, constituía um mistério. Isso satisfa­zia de alguma forma a ânsia de Chaim por uma audiência pessoal com o seu Senhor. Apesar de saber que todos

estavam ouvindo a mesma coisa, para Chaim era como se Jesus estivesse dizendo a cada vez: - Chaim, venha aqui. Quero contar-lhe algo. - Como é claro, Chaim ouviu as palavras dele em hebraico.

 

            Uma coisa era ter voado sobre o Exército da Unidade e visto o mesmo em massa. Outra muito diferente era rodar nas extremidades dele, aparentemente nunca chegando ao fim. Rayford impressionou-se com o enorme empreendi­mento de equipar tamanha força de combate.

            Milhões de uniformes, armas, munições, veículos e várias peças de equipamento faziam toda a operação parecer perfeitamente suprida para a sua tarefa. Em termos humanos, eles não podiam perder. Teriam condições de esmagar qualquer inimigo mortal no planeta.

            Seria, entretanto, necessário que enfrentassem um Homem, o Filho do Deus vivo. E foram derrotados antes de começar.

            O remanescente que acompanhava Jesus no chão e os exércitos celestiais começaram a cantar louvores enquanto corriam. Calaram-se, porém, rapidamente quando Jesus respondeu.

            "Fui coroado de glória e honra pelo sofrimento da morte, para que, pela graça de Deus, pudesse provar a morte por todos. Fui o Libertador que saiu de Sião e repeli a impiedade de Jacó. Fui a semente de Davi, ressuscitado dos mortos, Mediador da nova aliança. Sofri de uma vez por todas pelos pecados, o justo pelos injustos, para que pudesse levá-los a Deus, sendo morto na carne, mas revivido pelo Espírito".

            Não havia sequer um combate sendo travado naquele momento, mas, de maneira incrível, milhares de soldados do Exército da Unidade foram mortos simplesmente pelas palavras do Senhor, enquanto ele passava. Eles não estavam lutando, nem ameaçando, avançando ou sequer se movendo. Haviam, porém, tomado a sua decisão. Tinham empenhado a sua lealdade ao deus deste mundo, aceito deliberadamente a marca do anticristo e dobrado o joelho diante dele. Não restava mais para eles qualquer recurso.

            Rayford emocionou-se com as poderosas palavras do Mestre e ficou horrorizado com a carnificina resultante. Seu coração estava cheio, mas achou difícil desviar os olhos do sangue derramado pelo chão. Oh, o que aquilo pressagiava para o exército como um todo quando a batalha realmente começasse!

            De que forma os homens e mulheres sobreviventes podiam ver seus companheiros sofrerem morte tão hor­rível - simplesmente por meio das palavras pronunciadas do céu - e ainda se disporem a continuar combatendo, estava além da compreensão de Rayford.

            "Meus inimigos se tornaram o estrado de meus pés", disse Jesus. "Não com o sangue de bodes e de bezerros, mas com o meu próprio sangue entrei no Lugar Mais Santo a favor de todos, tendo obtido redenção eterna. Sou o Filho de Deus que veio para dar-lhes entendimento, a fim de que possam conhecer o Deus verdadeiro".

            "Sou o pão da vida que desceu do céu. Quem comer deste pão viverá para sempre; o pão que ofereci é a minha carne, dada para que o mundo viva. Sou o Verbo que se fez carne e habitou entre vocês, e contemplaram a minha glória, a glória de quem foi concebido pelo Pai, cheio de graça e verdade. Em mim habita corporalmente a plenitude da divindade".

            "Rayford, tome sobre si o meu jugo e aprenda de mim, pois sou manso e humilde de coração, e encontrará descanso para a sua alma. Porque o meu jugo é suave e o meu fardo é leve." [Tradução livre]

            Cada vez que Jesus falava o seu nome, Rayford se como­via novamente. Ele olhou de relance para os amigos e viu que o Senhor se comunicara com eles da mesma forma. Mac enterrou o rosto nas mãos, sussurrando:

            - Obrigado, Jesus. - Abdullah aparentemente desejava encostar o carro e simplesmente adorar a Deus.

 

            Sebastian, que estava correndo com a mão de Kenny nas suas, sentiu um puxão. Abaixou-se para ouvir e Kenny disse:

            - Jesus está falando comigo.

            - Eu sei! - respondeu Sebastian. - Não é maravilhoso?

 

            - Precisamos de um prédio adequado - irmão Enoque.

            - Ótima idéia - disse Enoque. - Quem pode impedir-nos agora?

            - Será possível que tudo que tenhamos a fazer é descobrir o que está à venda ou para alugar e fazer negócio?

            - Por que não?

            - Poderemos colocar uma cruz nele e chamá-lo pelo nome?

            - Se Jesus fala conosco pelo nome, não vejo razão para não fazer isso. Quem fosse contra receberia o mesmo trata­mento que seus inimigos estão tendo no mundo inteiro.

            - Vamos então agir. Igrejas vão estar surgindo em todo canto.

 

            Nas duas horas seguintes, a cena mudou de maneira notável. Quanto mais Rayford, Mac e Abdullah viajavam na direção norte, tanto mais evidente ficava que o Exército da Uni­dade se entrincheirara e estava pronto para a batalha das eras.

            Eles deveriam saber o que as outras unidades haviam sofrido; mas, ou as transmissões de encorajamento e desafio de Carpathia tinham tido sucesso em animá-los, ou sentiram-se estimulados ao saber que suas forças possuíam o dobro do tamanho da força de seus companheiros derrotados. Mesmo com um terço do exército reduzido a nada, o restante repre­sentava o maior poder militar já reunido em um só local.

            Eles talvez não tivessem entendido ou compreendido completamente o que acontecera. Podiam ver Jesus e seu exército e na essência de seu ser deviam ter-se sentido desalentados ao ver que um inimigo a cavalo e aparente­mente desarmado - embora com a habilidade de desafiar a gravidade e mover-se a uma velocidade incrível - pudesse competir com um adversário formidável como eles.

            Rayford viu, porém, organização, poder, determinação. Não ia haver absolutamente uma rendição. Todavia, nada nas Escrituras indicava que o resultado seria de modo algum diferente daquele que eles tinham assistido em Edom.

 

            Chang ficou intrigado ao ver que o caminho que tomaram da terra de Edom para Megido passava a uma boa distân­cia de Jerusalém, na direção oeste. Era como se o Senhor soubesse que o remanescente ficaria muito curioso com respeito à sua terra natal. Ele talvez queria que vissem o que ocorrera em Megido.

            Era estranho, disse Chang a Naomi, ouvir Jesus falando do céu e o anticristo em seu fone de ouvido. Sentia às vezes necessidade de simplesmente removê-lo. Quando Jesus o chamou pelo seu nome em chinês, Chang sentiu arrepios percorrer-lhe o corpo. Na vez de Naomi, ele observou os olhos dela se arregalarem admirados e ela ficou sem fala por vários minutos.

            Era possível que chegasse o dia em que eles pudessem falar sobre como aquele fora para eles um momento de grande intimidade, mas evitaram o assunto. Para Chang, fora pessoal demais e ele supôs que o mesmo ocorresse com ela.

            Curiosa também era a luz sem sombras que continuaria a existir enquanto Jesus estivesse no meio deles. Chang viu-se propenso a fazer sombras com as mãos. Uma fonte de luz onipresente era algo que a ciência jamais conseguira. Os homens que amavam mais as trevas do que a luz não iriam sentir-se felizes no reino milenar.

            O brilho penetrante da pureza de Cristo tornaria fácil governar as nações com cetro de ferro. Para os crentes que o amavam e amavam a ver­dade, seu governo seria uma esplêndida mudança em relação aos sete últimos anos e, de fato, os milênios antes deles. Mas, para as pessoas interessadas apenas em tirar proveito da situação, ainda rejeitando a Deus, o reinado de Jesus seria certamente bastante desconfortável.

            Chang gostava de conversar com Naomi, mesmo correndo a velocidades sobre-humanas. Eles não tinham de gritar, não estavam ofegantes, e quando Jesus não estava falando, eram eles que falavam. Na maior parte das vezes, conversavam como seria casar-se e criar filhos numa época como aquela. Quem realizaria a cerimônia e será que o próprio Jesus compareceria?

            Chang sentia alegria quando Jesus se punha a falar. O remanescente inteiro caía em silêncio, ouvindo, adorando ao seu Salvador.

            "Sou aquele a quem Deus exaltou com sua destra a Príncipe e Salvador, a fim de conceder a Israel o arrependi­mento e a remissão de pecados" (At 5.31).

            "Eu lhe dou a vida eterna, Chang; você jamais perecerá e ninguém o arrebatará da minha mão. Meu Pai, que deu você a mim, é maior do que tudo; e da mão do Pai ninguém pode arrebatar. Eu e o Pai somos um" (Jo 10.28).

            - Obrigado, Senhor - disse Chang.

            Mas, Jesus ainda não havia terminado.

            "Dou a você a minha paz; não a dou como a dá o mundo. Não se turbe o vosso coração, nem se atemorize" (Jo 14.27).

            Chang não podia sequer conceber a idéia de ficar nova­mente com medo.

 

            Mac queria ir para Jerusalém a pé.

            - Tem certeza? - Rayford perguntou.

            - A não ser que você não permita.

            - Não vejo motivos. O que pretende?

            - Quero saber em primeira mão o que está acontecendo por lá. Vou ficar em contato pelo rádio e pelo telefone. Pelo que pude ver, não vou perder nada que o Senhor vai falar.

            - Você sabe o que vai acontecer, Mac. Jerusalém vai cair, mas Jesus irá resgatar o dia.

            - E por que não posso querer um lugar na primeira fila para assistir tudo?

            - Voltaremos a tempo para isso.

            - Quando você chegar, eu o terei mantido atualizado sobre os detalhes.

            - Faça o que quiser.  

            - Obrigado. - Mac saiu do Hummer, dirigindo-se para Jerusalém.

            - O que o Exército da Unidade pode fazer com ele se o apanharem? - indagou Abdullah.

            Rayford sacudiu a cabeça. - Gostaria de pensar que não teriam poder sobre ele.

            - Não sabemos com certeza.

            - É verdade, não sabemos. Mas ele sabe cuidar de si mesmo.

            - Está desarmado, capitão.

            - De certa maneira.

            Quando Rayford e Abdullah chegaram finalmente ao vale de Megido, o Senhor e seus exércitos pareciam ter deixado o remanescente de Israel na metade do caminho entre o vale e Jerusalém. Rayford só podia supor que o plano de Jesus era manter o remanescente em sua companhia até a conquista de Jerusalém e o que viesse em seguida; mas, por alguma razão, não queria que testemunhasse o que aconteceria ali.   

            Mac informou que um contingente colossal do Exército da Unidade cercava Jerusalém inteira e parecia estar simples­mente aguardando ordens.

            - Há muita inquietação no exército daqui - disse ele. - Reclamações. Fome. Boatos de falta de pagamento e nada de reforços. Muitos rumores sobre o que aconteceu no sul.

            - Interessante - disse Rayford. - Não há divisão entre as forças daí e daqui. O imenso exército está virtualmente contíguo desde o oeste do mar Morto até o vale de Megido; portanto, é possível que alguns dos que você está vendo sejam enviados para a ação deste lado e vice-versa.

            - É uma extensão enorme, Ray. Você está dizendo que este exército continua tão grande quanto era no começo?

            - Exceto pelas baixas acontecidas antes em Edom. Mac assobiou.

            - Como vai o meu homem, Abdullah?

            - Calado como sempre. Ele gosta de ouvir a voz de Jesus.

            - Não é o que todos gostamos? Diga a ele que mandei um "oi".

 

            George Sebastian misturou-se com o contingente do Comando Tribulação no lugar de descanso ao norte de Jerusalém. Não conseguiu deixar de pensar quanto avançara desde a sua fuga da Grécia onde quase perdera a vida e teve de matar para permanecer vivo.

            - De outro modo - disse ele a Priscilla - eu estaria acenando para você do outro lado dos céus.

            - Nós não sabíamos mesmo no que estávamos nos envol­vendo, não é? - disse ela.

            - De jeito nenhum.

            - Nossos dias de soldados acabaram, certo? - interferiu Razor.

            Sebastian suspirou:

            - Espero que sim.

            - Cansado? - perguntou Razor.

            - Na verdade não, embora devesse estar. Em pé o dia e a noite inteiros e agora com esta luz, não tenho idéia de que horas são. E toda essa viagem? A corrida? Deveria sentir-me capaz de dormir durante um mês, mas estou com a corda toda. Gostaria de ver o que está acontecendo ao norte.

            - Eu também - concordou Razor. - Ainda vejo e ouço Jesus. Não compreendo porque sua voz não soa mais dis­tante. O som continua o mesmo para mim.

            Priscilla interrompeu:

            - Acho que é porque nós o ouvimos no coração e não com os ouvidos.

            Razor encolheu os ombros.

            - Pode ser. Caso contrário, como cada um poderia ouvir o seu próprio nome?

            Todos silenciaram quando o Senhor falou outra vez.

            "Ninguém jamais viu a Deus; eu, o Deus unigênito, que vim do seio do Pai, é quem o revelou. Sou chamado Filho do Altíssimo e hoje o Senhor Deus me dará o trono de Davi, meu pai" (Jo 1.18; Lc 1.32).

            De repente, outra voz ecoou do céu e Sebastian soube imediatamente que era o próprio Deus. "Eis meu Servo a quem escolhi. Meu Filho amado em quem me comprazo! Coloquei sobre ele o meu Espírito e ele vai declarar justiça." [Tradução livre]

            Em seguida, veio a voz de Jesus: "A lei foi dada por inter­médio de Moisés; a graça e a verdade vieram por meio de mim. Agora, George, possa o Deus da paz que me fez ressur­gir dos mortos e me tornou o grande Pastor das ovelhas, pelo sangue da aliança eterna, tornar você completo em toda boa obra para cumprir a sua vontade, operando em você o que é agradável aos seus olhos. Amém." [Tradução livre]

            Depois do amém, todo o remanescente caiu de joelhos, orando e agradecendo a Deus. Sebastian sabia que cada um ouvira novamente o seu próprio nome na bênção pronunciada por Jesus; todavia, isso não tornou o episódio menos pessoal.

 

            Rayford subiu outra vez no Hummer com Abdullah. Eles olharam para a multidão de inimigos, à medida que milhares praticamente explodiam ao ouvir as palavras de Jesus e mor­riam antes de chegar ao solo. A batalha de Armagedom nem sequer começara. Rayford ouviu Nicolae Carpathia procu­rando encorajar e reunir as tropas.

            Ele vociferou instruções aos generais e comandantes. - Este é o nosso verdadeiro inimigo - disse. - Vençam-no e a vitória é nossa. Jerusalém não será obstáculo.

            Como ele conseguira reunir tantos milhares de tropas num só lugar e se encaminhando na mesma direção era difícil para Rayford compreender, mas de alguma forma Nicolae fizera isso. De algum modo ele orquestrara um exér­cito em meia-lua, cobrindo centenas de quilômetros quadra­dos, todos de frente para Jesus no céu.

            Iria fazê-los atirar sobre o Rei dos reis? Como determi­naria a distância onde Jesus se encontrava? Se os exércitos de Carpathia não conseguiram aniquilar simples mortais, o que ele esperava naquelas circunstâncias?

            Antes que uma ordem pudesse ser dada ou um tiro lan­çado, Jesus falou. Embora durasse apenas alguns minutos, a devastação foi enorme.

            "Provai os espíritos se procedem de Deus", disse, "porque muitos falsos profetas têm saído pelo mundo fora. Nisto reconheceis o Espírito de Deus: todo espírito que confessa que Jesus Cristo veio em carne é de Deus; e todo espírito que não confessa a Jesus não procede de Deus; pelo contrário, este é o espírito do anticristo" (1 Jo 4.1-3).

            Rayford ouviu Carpathia furioso, amaldiçoando.

            E Jesus disse: "Um rei poderoso levantou-se e reinará com grande domínio e fará o que lhe aprouver. Mas, no auge, o seu reino será quebrado e repartido para os quatro ventos do céu; mas não para a sua posteridade, nem tam­pouco segundo o poder com que reinou, porque o seu reino será arrancado e passará a outros fora de seus descendentes" (Dn 11.3-4).

            "Este é o tempo determinado. O rei deste mundo fez segundo a sua vontade: se levantou e se engrandeceu sobre todo deus, contra o Deus dos deuses disse cousas incríveis e prosperou até agora. Mas, o que está determinado será feito" (Dn 11.36).

            O grande exército estava em pandemônio, dezenas de milhares gritando juntos em terror e sofrimento, morrendo ao ar livre. O sangue jorrava deles em grandes ondas, juntando-se para formar um rio que logo se transformou em pântano.

            "Não teve respeito aos deuses de seus pais, nem a qualquer deus, porque sobre tudo se engrandeceu. Mas, em lugar dos deuses, honrou o deus das fortalezas; a um deus que seus pais não conheceram, honrou com ouro, com prata, com pedras preciosas e cousas agradáveis. E aos que o reconhe­cerem, lhes repartirá a terra por prêmio" (Dn 11.37-39).

            "No tempo do fim, o rei do Sul lutará com ele, e o rei do Norte arremeterá contra ele com carros, cavaleiros e com muitos navios, e entrará nas suas terras, e as inundará, e passará. Entrará também na terra gloriosa, e muitos sucumbirão, mas do seu poder escaparão estes: Edom, e Moabe, e as primícias dos filhos de Amom" (Dn 11.40,41).

            Rayford olhou para Abdullah:

            - O seu estudo de geografia ensinou onde essas nações estavam? Quero dizer, sei que Edom se achava no lugar de Petra.

            - Moabe fica ao norte dali, no Jordão, e Amom ainda mais ao norte.

            Jesus continuou:

            "Estendeu a mão também contra as terras, e a terra do Egito não escapou. Apoderou-se dos tesouros de ouro e de prata e de todas as cousas preciosas do Egito; os líbios e os etíopes o seguiram. Mas, pelos rumores do Oriente e do Norte, foi perturbado e saiu com grande furor, para destruir e exterminar a muitos. Armou as suas tendas palacianas entre os mares contra o glorioso monte santo..." (Dn 11.42-45).

            - Ele quer dizer Jerusalém - afirmou Abdullah.

            - "...mas chegará ao seu fim, e não haverá quem o socorra" (v.45).

            Pareceu a Rayford que todo o Exército da Unidade em seu campo de visão estava morto ou agonizante, enquanto isso o sangue continuava a aumentar. Milhões de aves se encaminharam para a área e se banqueteavam com os restos.

            Carpathia berrou frenético:

            - Este não será o meu fim. Renderei sua amada cidade e a destruirei com ele! Leon, tire-me daqui!

 

            - Abdullah - Rayford disse, vamos seguir Carpathia e Fortunato.

            - Fala sério, capitão?

            - Eles nem vão notar.

            - Uma coisa que não entendo, capitão, é por que Jesus não os prende? Ele extermina quase todo o exército com a palavra da sua boca e, no entanto, permite que esses dois fiquem livres. Sei que não vai matá-los, mas parece estar brincando com eles.

            - Não sou teólogo - respondeu Rayford - mas, como sabe, Deus tem o seu próprio calendário. Tudo isto foi pro­fetizado e escrito. Vai acontecer na hora exata.

            Abdullah apontou o Hummer na direção do vale e do Humvee maior de Carpathia. Pela primeira vez depois da aparição de Jesus, o céu começou a escurecer.

            Nuvens escuras, ameaçadoras, se formaram no horizonte e rapidamente subiram, enchendo os céus, exceto onde o Senhor e se exército pairavam.

            - Está sentindo isso? - Mac falou pelo rádio. - A tempera­tura deve ter descido cerca de dez graus no último minuto!

            - Alguma coisa vai acontecer - Rayford comentou.

            - Você entendeu agora o óbvio. Estou procurando abrigo, Rayford.

            - Fique em contato.

            - Não se preocupe.

            Rayford e Abdullah fecharam as janelas.

            - Não quer que eu perca o Leon? - perguntou Abdullah, apontando bem além da área de extermínio para onde o Humvee estava ganhando velocidade, aparentemente procurando descobrir um caminho para Jerusalém através do massacre.

            - Só fique de olho nele - Rayford disse. - Vão ter dificul­dades para seguir nessa direção. Ei, ligue o aquecedor!

            Abdullah parou do outro lado de um barranco que sepa­rava as terras altas do vale onde jaziam milhares de corpos. Embora o sangue tivesse cessado de correr, ele parecia esvair-se dos corpos e encher rapidamente as partes mais baixas.

            Gelo apareceu no pára-brisas.

            - Esta é a primeira vez que vejo isto nesta parte do mundo - disse Abdullah. - Já vi na América, mas não aqui.

            Ligou os limpadores, mas eles simplesmente espalharam o gelo e impediram a visão.

            Rayford mexeu nos controles até que conseguiu fazer com que o aquecedor e o desembaçador funcionassem, desobstruindo depressa a janela. Sentia muito frio, apesar do aquecedor ligado. E o céu ficou cada vez mais escuro. De modo estranho, sombras ainda não apareciam no chão. A luz de Cristo continuava a invadir tudo, exceto pela negritude do céu que o cercava e os seus seguidores a cavalo.

            De repente, uma voz veio do céu, alta e autoritária, mas não era a de Jesus. "Está consumado!"

            Relâmpagos explodiram das nuvens, seguidos por fortes trovões. A seguir, veio o granizo - se é que se podia chamar assim. Não se tratava apenas de lascas de gelo - não eram do tamanho de uma bola de golfe ou de softball.

            O primeiro pedaço visto por Rayford parecia do tamanho de uma mesa de jantar, com 15 centímetros de espessura. Ele caiu a cerca de seis metros abaixo do Hummer e se enterrou alguns centí­metros no chão. O choque parecia o de uma bomba.

            Os poucos soldados remanescentes do Exército da Unidade comportavam-se como loucos, arrancando os cabelos, alguns se matando, outros pedindo aos companheiros que os matas­sem. Outro pedaço bateu num lançador de granadas e o acha­tou. Em breve, blocos de 45 kg aproximadamente começaram a atingir todo o terreno, esmagando corpos, destruindo caminhões, carros e jipes.

            O Humvee real, com Leon dirigindo erraticamente, escapou por pouco de três pedaços, um dos quais apanhou a cabeça de um ajudante que corria e o esmagou no chão. As gigantescas pedras de granizo começaram em breve a cair continuamente e não havia possibilidade de fuga. Era como se Deus estivesse enterrando o campo de batalha sangrento numa camada espessa de gelo.

            - Este granizo está também caindo em Jerusalém? - Rayford perguntou a Mac pelo rádio.

            - Não. Granizo nenhum. O céu parece estar ameaçando chuva ou neve, mas até agora só estamos sentindo frio.

            Os sobreviventes permaneciam apenas em lugares espalhados, mas em vez de procurar abrigo, proteger as cabeças ou até cair de joelhos e pedir misericórdia, eles levantavam o rosto para o céu, gritando, aparentemente protestando contra Deus, fazendo gestos obscenos para Jesus e seu exército. Em pouco tempo, foram esmagados debaixo das monstruosas pedras de granizo.

            A temperatura voltou ao normal tão depressa quanto descera e as nuvens desapareceram. Toda a criação parecia novamente brilhante como o dia e embora o sol não tivesse aparecido desde a chegada de Jesus, o deserto logo ficou novamente agradável. Rayford desligou o aquecedor e abriu os vidros. Ele e Abdullah voltaram a seguir Leon e Nicolae.

            O gelo começou a derreter depressa e a água se misturou com a torrente de sangue.

            - Pare aqui - Rayford disse, enquanto observavam a mis­tura de sangue e água subir acima dos pneus do Humvee do potentado. O veículo logo encalhou no lodo marrom tingido de vermelho. Rayford ouviu Carpathia esbravejando com Leon para tirá-los daquela imundície e continuar para Jerusalém. Todas as possibilidades de fuga foram, porém, bloqueadas pelo lodo que se avolumava. Quando chegou ao meio da porta do veículo, Carpathia ordenou que Leon saísse para empurrar, enquanto ele subia para o assento do motorista.

            - Mas, Excelência, vou me afogar!    

            - Isso não vai acontecer. Quer que o seu rei saia?

            - Não, meu senhor, claro que não. Mas eu-eu, ah... Leon abriu a porta e o líquido invadiu o veículo.

            - Vamos, homem! - gritou Nicolae. - Feche a porta!

            Leon pisou hesitante no líquido, que chegava à sua cin­tura e fazia seu manto inchar como um balão. Ele deixara sensatamente o barrete no Humvee.

            - Está gelado! - esganiçou.

            - Minhas pernas estão adormecendo.

            - É claro que está gelado! Há gelo aí! Comece a empurrar!

            - Está cheirando mal!

            - Empurre!

            Levou algum tempo para Leon chegar à parte de trás do veículo e o chão debaixo da superfície era claramente aciden­tado. Ele quase mergulhou certa vez e teve de agarrar-se ao pára-choque para manter-se em pé. Seu manto era uma sujeira só, tinha as mãos e o rosto pálidos, o cabelo desgrenhado. Rayford podia ver que estava tiritando de frio.

            Quando Leon chegou à parte de trás do Humvee, Carpathia aparentemente pisou fundo no acelerador, mas tudo que con­seguiu foi levantar uma coluna de líquido e vapor que cobriu Leon. O Humvee ficou imóvel.

            - Tente sacudi-lo! - gritou Leon.

            - É para isso que você está aí! Agarre o pára-choque e levante!

            - Levantar um Humvee?

            - Sacuda!

            Eles finalmente coordenaram os movimentos de Leon, levantando e empurrando, e os de Carpathia, ligando e des­ligando o motor, e aquela coisa enorme começou a balançar. Quando finalmente moveu-se, Leon perdeu o equilíbrio e caiu de bruços, mergulhando de todo. Ele levantou-se gague­jando e procurando enxugar o rosto.

            Nicolae levou o veículo a um terreno um pouco mais alto e Leon correu para o lugar do passageiro. Ao abrir, porém, a porta, Carpathia já estava ali.

            - Eu não vou dirigir, Leon! O que isso iria parecer?

            Leon arrastou-se pela frente do carro e puxou a porta.

            Pouco antes de subir, ele despiu o manto sujo pela cabeça e o abandonou no rio de sangue que crescia. Subiu com dificuldade no carro em suas roupas de baixo, garantindo a Nicolae que tinha outra muda no banco de trás.

            - Coloque-as então, imediatamente!

            O Humvee sacudiu e balançou enquanto Leon pegava roupas secas e se trocava no carro. Decidindo aparentemente que seu gorro adornado não iria adequar-se ao seu novo traje, ele o jogou pela janela e dirigia devagar, procurando um lugar ainda mais alto. O sangue já subira até mais de um metro.

 

            Quando o céu clareou e a temperatura subiu, Mac esfregou os braços nus e saiu de um abrigo leve sob árvores esparsas não muito longe do monte do Templo. Embora não estivesse com o uniforme do Exército da Unidade, ele não devia estar parecendo também um rebelde, pois foi virtualmente igno­rado.

            Muitos dos cidadãos normais, não-combatentes, estavam andando entre os milhares de soldados, que passavam a maior parte do tempo sentados.

            Alguns pelotões recebiam ordens para ir daqui para ali, aparentemente de acordo com os caprichos de um general ou comandante, mas todo o combate cessara. As forças da Comunidade Mundial haviam ocupado Jerusalém inteira, exceto o monte do Templo, e cercavam este local. Um general com um alto-falante portátil, ocasionalmente tentava persuadir o pequeno grupo de rebeldes a se render e evitar o derramamento de sangue.

            Mac achou engraçado que o general pensasse que os rebeldes não tinham acesso a informações de fora. Por ter falado com eles, Mac sabia que possuíam rádios e até algu­mas televisões. Tinham conhecimento do que acontecera em Petra e Bozra e em breve naturalmente saberiam até mesmo o resultado da batalha de Armagedom.

            Mac achava estranho que os soldados pudessem ficar à toa, fumando e jogando cartas, olhando só ocasionalmente para o céu para ver o que Jesus estava fazendo. Aquilo talvez fizesse parte do endurecimento dos corações; mas, Mac pensou que ele, na mesma situação, reconheceria que o seu fim estava próximo.

            O inimigo deles era claramente sobrenatural e não fora detido nem pela arma mais poderosa da História. A guerra estava praticamente terminada.

            Todavia, Nicolae Carpathia, o grande enganador, apesar de não ter vencido sequer uma escaramuça desde o apareci­mento de Cristo, havia de alguma forma convencido as tropas de que Jerusalém era a chave. Se pudessem tomar a Cidade Santa, ele retornaria ao seu trono de direito, o Filho de Deus seria derrotado, e tudo voltaria a ficar certo no mundo.

            A única coisa que esse argumento tinha a seu favor era a situação atual de Jerusalém. A idéia dos rebeldes resistirem enquanto cercados e em número tão insignificante com rela­ção ao inimigo era risível e patética. Exceto que, como Mac sabia, eles estavam do lado certo.

 

            Rayford pensara que não conseguiria mais ficar chocado. O que ele poderia ver que fosse mais surrealista do que as últimas horas? Todavia, enquanto Abdullah mantinha uma distância cuidadosa e vigilante do Humvee de Carpathia, tudo o que Rayford podia fazer era observar as conseqüên­cias da chamada última batalha.

            É claro que não houvera realmente um combate. O Exército da Unidade erguera os sabres, carregara as armas e fizera bastante alarido. Jesus, entretanto, aniquilou a todos com simples palavras.

            É claro que aquelas palavras tinham sido as palavras de Deus e o efeito era esmagador. Quilômetro após quilômetro, Abdullah dirigiu ao lado de um rio de sangue de vários quilô­metros de largura e agora com cerca de 1,5 metro de profun­didade. Toda a força militar de Carpathia, de vários milhões de tropas, fora reduzida a talvez um milhão. Esse era um número ainda grande e do ponto de vista humano os rebel­des jamais poderiam igualá-lo. Mas, a devastação do Exército da Unidade num período tão curto deveria ter deixado claro a Carpathia que seus dias estavam contados.

            Ao contrário, ao ouvi-lo falar animadamente com Leon no carro e às tropas remanescentes pelo rádio, o que acontecera servira apenas como simples motivação.

            - Nosso alvo permanece - disse Carpathia - e nossa tarefa é clara. Tomar a cidade do Pai, aniquilar o povo escolhido e matar o Filho. Este foi o nosso desígnio desde o princípio. Nós o atraímos e em breve faremos com que esteja onde o queremos. Permaneçam leais, permaneçam sinceros, permaneçam vigilantes e serão recompensados.

            Enquanto isso, Jesus se voltara para os remanescentes e falou diretamente com eles. Rayford e Abdullah ficaram ouvindo.

            "Filhinhos, vós sois de Deus e tendes vencido o anti­cristo, porque maior é aquele que está em vós do que aquele que está no mundo. Ele procede do mundo; por essa razão, fala da parte do mundo, e o mundo os ouve. Nós somos de - Deus; aquele que conhece a Deus me ouve; aquele que não é da parte de Deus não me ouve. Nisto vocês reconhecem o espírito da verdade e o espírito do erro" (1 Jo 4.6).

            "Amados, amem-se uns aos outros, porque o amor pro­cede de Deus; e todo aquele que ama é nascido de Deus e conhece a Deus. Aquele que não ama não conhece a Deus, pois Deus é amor. Nisto se manifestou o amor de Deus em vocês: em haver Deus enviado o seu Filho unigênito ao mundo, para viverem por meio dele. Nisto consiste o amor: não em que tenham amado a Deus, mas em que ele amou vocês e me enviou como propiciação por seus pecados".

            "Rayford, se Deus de tal maneira o amou, você deve também amar aos outros" (1 Jo 4.7-11).

            Rayford era sempre atingido ao ouvir seu nome, como sabia que Abdullah e todos os outros deviam ser. A seguir, Jesus passou da exortação pessoal para uma explicação clara do que acabara de acontecer.

            "Então, os ajuntaram no lugar que em hebraico se chama Armagedom... derramou o sétimo anjo a sua taça pelo ar, e saiu grande voz do santuário, do lado do trono, dizendo: Feito está! E sobrevieram relâmpagos, vozes e trovões, e ocorreu grande terremoto, como nunca houve igual desde que há gente sobre a terra; tal foi o terremoto, forte e grande... também desabou do céu sobre os homens grande saraivada, com pedras que pesavam cerca de um talento; e, por causa do flagelo da chuva de pedras, os homens blasfemaram de Deus, porquanto o seu flagelo era sobremodo grande".

            "Um anjo saiu do santuário, gritando em grande voz para aquele que se achava sentado sobre a nuvem: Toma a tua foice e ceifa, pois chegou a hora de ceifar, visto que a seara da terra já amadureceu. E aquele que estava sentado sobre a nuvem passou a sua foice sobre a terra, e a terra foi ceifada".

            "Então saiu do santuário, que se encontra no céu, outro anjo, tendo ele mesmo também uma foice afiada".

            "Saiu ainda do altar outro anjo, aquele que tem auto­ridade sobre o fogo, e falou em grande voz ao que tinha a foice afiada, dizendo: Toma a tua foice afiada e ajunta os cachos da videira da terra, porquanto as suas uvas estão amadurecidas. Então o anjo passou a sua foice na terra, e vindimou a videira da terra, e lançou-a no grande lagar da cólera de Deus. E o lagar foi pisado fora da cidade, e correu sangue do lagar até aos freios dos cavalos, numa extensão de mil e seiscentos estádios" (Ap 14.14-20).

 

            O remanescente, cheio da glória de Deus, se voltara na direção de Jerusalém. Chaim acreditava que o Senhor os protegeria; mas, estranhamente, Jesus avançava agora com o seu exército. Embora os filhos de Israel parecessem estar novamente andando depressa de maneira sobrenatural, eles ficaram para trás e logo o perderam de vista.

            Chaim viu pessoas se entreolhando preocupadas e queria animá-las. Mas, seu lugar como líder e porta-voz fora tomado e ele não sentia qualquer impulso de reafirmar sua posição. Seu trabalho terminara e Chaim sentiu que agora não passava de uma parte do remanescente.            Eles iriam para onde Deus os enviasse e confiariam no Senhor como sua retaguarda

 

            Mac ficou surpreso ao descobrir que as ondas sonoras - e ele supunha que a televisão também - continuavam contro­ladas pela Comunidade Mundial. Ele sabia que isso não ia durar muito. Enquanto atravessava Jerusalém, procurando dar a Rayford e Abdullah uma idéia do que iriam encontrar quando chegassem, ouviu os repórteres da CG e os âncoras inserindo notícias sobre Nicolae Carpathia em tudo.

            Não havia naturalmente menção do que poderia ser pelo menos descrito como uma aparição no céu - um estratagema do inimigo para assustar todo mundo. Seria o mesmo que mencionar o elefante proverbial na loja de porcelanas. Mac tinha certeza de que todos na terra sabiam quem estava nas nuvens. A questão era o que Jesus faria e quando.

            Jerusalém estava repleta de cadeias improvisadas e celas especiais onde os rebeldes capturados eram torturados e pas­savam fome. O pessoal da CG noticiava isso com aparente prazer, como evidência de que a vitória se aproximava. Um comentarista disse que os rebeldes que julgavam estar de posse da área do monte do Templo encontravam-se na verdade numa prisão maior de sua própria fabricação, pois não tinham condições de oferecer resistência ao Exército da Unidade nem para onde fugir.

            Ficou aparente para Mac que rumores corriam pela cidade de que o potentado se achava a caminho. O lugar virou um centro de atividade.

            Os jogos de cartas foram suspen­sos. Ficar sentado à toa pertencia ao passado. Os pelotões estavam em estado de atenção, as ruas vigiadas e o caminho para as linhas de frente desimpedidos. A cada poucos minutos, as notícias traziam uma informação nova do comandante-em-chefe.

            - À medida que nos aproximamos do que muitos chama­ram de Cidade Eterna, - disse Carpathia - tenho prazer em anunciar que depois da nossa vitória aqui, esta irá tornar-se a nova sede da Comunidade Mundial. Meu palácio será reconstruído sobre as ruínas do templo, cuja destruição está em nossos planos.

            - Por mais bela que a Nova Babilônia pudesse ser, meu objetivo sempre foi transferir a sede do governo, comércio e religião para esta cidade, que significou tanto para muitos durante longo tempo. Portanto, leais cidadãos da Nova Ordem Mundial, confio em que vão assistir com grande satisfa­ção nossa conquista deste lugar, enquanto desarraigamos e destruímos o último bolsão de resistência e tornamos fraco Aquele a quem o inimigo reverencia como o motivo de nunca poderem unir-se à nossa nobre causa.

            - Este que esvoaça pelo ar, citando textos de fábulas antigas e forçando os bajuladores a correrem insensata­mente ao seu lado, adorando-o, irá em breve deparar-se com o seu fim. Ele não é páreo para o senhor ressurreto deste mundo e para o exército que terá de enfrentar. Não me preocupo em tornar público o nosso plano, pois já teve êxito. Esta cidade e esses indivíduos desprezíveis têm sido há muito seus escolhidos, portanto o forçamos a manifestar-se, a revelar-se, a tentar inutilmente defendê-los ou ser desmas­carado como a fraude e o covarde que é. Ou ele tenta res­gatá-los, ou eles verão quem realmente é e o rejeitarão como impostor. Ou irá ainda insensatamente atacar meus homens e a mim, ficando então provado de uma vez por todas e para todos quem é o mais forte.

            - Embora não espere que esta seja uma campanha prolongada, por ser a última batalha que pretendo travar, estou empregando todos os nossos recursos. Cada homem e mulher sob o meu comando e todo armamento e munição ao nosso dispor serão empregados para tornar esta a vitória militar mais retumbante e convincente da História.

            - Minha promessa a vocês, leais cidadãos da Comunidade Mundial, é que no final desta batalha, nenhum oponente da minha liderança e regime ficará em pé, nenhum permanecerá vivo. Os únicos seres vivos no planeta Terra serão os cidadãos confiáveis, amantes da paz, da harmonia e da tranqüilidade, que ofereço com amor por todos do mais profundo do meu ser.

            - Estou a apenas 1,5 km a oeste de Jerusalém enquanto falamos e vou dispensar meu gabinete e generais para que possam cuidar deste conflito sob o meu comando. O altís­simo reverendo do Carpathianismo, Leon Fortunato, servirá como meu motorista para a minha entrada triunfal. Os cidadãos já estão ao longo da estrada para me cumprimenta­rem e eu agradeço a vocês o seu apoio.

            Mac apressou-se para encontrar um local onde pudesse ver o Humvee e o desfile de veículos militares que o seguiam. Ele postou-se num lugar alto do lado oeste, onde podia ver o exército que se estendia em fileiras que alcança­vam o horizonte. À medida que a procissão se aproximava da cidade, ele podia ouvir tambores e trombetas e, se não estava enganado, até daquela distância o Humvee real dava má impressão. Rayford contara que estivera chapinhando pelo sangue no vale de Megido, mas aparentemente ninguém lembrara o potentado de mandar lavá-lo.

            Quando se aproximou, as suspeitas de Mac se confir­maram. O carro estava salpicado de lama e sangue até as janelas. Todavia, Nicolae tinha razão, civis se alinhavam dos dois lados da estrada, aplaudindo, acenando, batendo palmas, saudando e atirando flores. Carpathia abriu o teto em forma de lua, ficou em pé no banco da frente e apareceu ao ar livre, acenando com as duas mãos e soprando beijos.

            Aproveita enquanto dura, companheiro.

 

            - Mac, você está nos vendo? - Rayford ligou através da freqüência de segurança.

            - Não. Onde você está?

            - Terceira fila, atrás do Humvee.

            - Ninguém se importa?

            - Parece até que eles não nos enxergam.

            - Qual é o plano?

            - Quando o Humvee chegar à estrada de Jaffa, ele vai até a Porta de Jaffa, com um terço da força de combate. Os outros dois terços irão dividir-se em direção ao norte e ao sul, cercando a Cidade Velha. Uma vez que todos estejam em seus postos, Carpathia vai comandar o ataque pelos bair­ros armênio e judeu ocupados até o monte do Templo. Eles pretendem derrubar o muro oeste e dominar os rebeldes.

            - Planejam.

            - Exatamente

 

            Mac finalmente avistou o Hummer de Rayford e Abdullah e ficou impressionado ao ver como parecia fazer parte da procissão. À medida que a cavalgada chegava à estrada de Jaffa, Mac começou a andar para lá, esperando encontrar-se com os amigos quando eles se afastassem do grupo.

            O número de pessoas que aplaudiam cresceu quando os carros chegaram à Cidade Velha e, enquanto diminuíam a marcha, a banda os alcançou com sua música estridente e os tambores tocando.

            Mac lembrou-se das paradas do Dia de Comemoração aos soldados norte-americanos mortos em combate, quando seu pai o colocava nos ombros e ele ficava emocionado com o rat-a-tat-tat dos grandes tambores e dos saxofones. Naquela época, como é evidente, ele nunca tinha ouvido o clamor "ave Carpathia".

            A música levara a multidão a um extremo de empolgação e o exército que surgiu em seguida era sem dúvida diferente de qualquer um que os legalistas ou rebeldes já tivessem tido oportunidade de ver. Não haveria espaço na Cidade Velha para uma fração daquela força. Mac se perguntou como Carpathia e o restante das tropas iriam atravessar as ruas estreitas pavimentadas de pedras.

 

            - Estive pensando na mesma coisa, Mac - Rayford comentou. - Está parecendo uma festa, não é?

            - Ridículo!

            - Para ser sincero, estou gostando, quanto mais alto melhor.

            - Não entendi.

            - Quanto mais pompa e formalidade, tanto maior a humilhação posteriormente.

            - É verdade.

            - Você já nos achou, Mac?

            - Estou indo em sua direção. Quando vai deixá-los?

            - Não vamos.

            - Não vão? O quê? Pretende participar da parada na Cidade Velha com Carpathia?

            - Por que não? Veja se entra também.         

            - Improvável.

            - Tente.

 

            Mac chegou até a parada e ficou imaginando qual a finali­dade de todas aquelas tropas extras. O mesmo contingente de soldados que estivera ali quando encontrara Buck era mais do que suficiente para cumprir a tarefa do ponto de vista humano. Se não pudessem fazê-lo, o restante não seria útil.

            Fortunato pilotou o grande Humvee pela Porta de Jaffa e quase imediatamente a loucura do plano deles ficou clara. Não havia simplesmente espaço para as tropas irem até o muro ocidental do monte do Templo.

            Pelo fone de ouvido, Mac ouviu Nicolae tentando alistar engenheiros para irem buscar o equipamento pesado e derrubarem prédios e muros durante o percurso. Quando lhe disseram que isso levaria horas, ele explodiu, blasfemando e exigindo saber quem dis­sera que sua parada pela Cidade Velha tinha sido uma idéia luminosa.

            - Deixem os carros onde estão! - anunciou ele. - Vou comandar o resto do ataque a cavalo.

            Mac estava perto o suficiente para ver Carpathia olhar de soslaio para o céu. Jesus não estava lá naquele momento nem o seu exército celestial. Mac achou que isso fez Carpathia ficar mais nervoso do que se ele estivesse ali.

            Os assistentes atenderam imediatamente Carpathia quando ele saiu do Humvee. Ele endireitou as roupas de couro, que pareciam em ordem, desde que não deixara o veículo durante o fracasso em Armagedom. Nicolae também recolocou sua espada extravagante.

            Quando Fortunato desceu do carro, porém, ele vestia trajes civis que faziam parecer que estava a caminho do trabalho num clube comunitário local.

            - Consigam um uniforme apropriado para o reverendo e algo para limpar seu rosto e cabelo - ordenou Carpathia.

            Alguém saiu correndo e voltou às pressas.

            - As maiores que temos - disse o homem, entregando as roupas dobradas e uma toalha úmida para Fortunato, que lhe deu um olhar que abriria um buraco no asfalto.

            - Sinto muito - sussurrou o homem.- É o maior que temos.

            - O Sr. pode trocar-se na catedral - alguém disse a Leon e ele saiu às pressas com dois ajudantes. Enquanto isso, mais generais, curiosos e bajuladores cercaram Carpathia, que pediu que abrissem espaço para os fotógrafos e equipes de câmeras da TV.

            Quando Leon voltou no uniforme do Exército da Unidade, muito curto e justo, parecia o sargento Garcia* tentando usar as roupas do Zorro. Ele procurara dar um aspecto religioso ao traje, colocando em volta do pescoço uma grossa corrente de ouro com o número 216 pendurado nela.

            Mac fez o máximo para não rir. Ele acompanhou o passo de Rayford e Abdullah quando eles se aproximaram depois de deixar seu veículo. Os três haviam começado a atrair alguns olhares, mas felizmente não da parte de ninguém que se preocupasse o suficiente para fazer perguntas. A aba do boné deles estava abaixada sobre a testa; mas, sem uni­formes apropriados, não seriam tomados por membros do Exército da Unidade.

            - É melhor nos separarmos, não é capitão? - perguntou Mac.

            - Acho que sim. Abdullah, você vai para o norte. Mac, para o sul. Eu me encontro com vocês do lado de fora do muro ocidental na Porta Dourada quando tudo isto acabar.

 

            Chaim sentiu um prurido de antecipação quando o remanescente chegou a um lugar elevado na encosta oci­dental acima de Jerusalém. Parecia ainda desconcertante não ver Jesus no alto, mas ele sabia que o Senhor só faria o que era certo. O anticristo estivera se gabando de atrair o Filho de Deus para a sua armadilha, quando estava claro para Chaim que o oposto acontecera. Carpathia tinha de ler a Bíblia. Tinha de saber que tudo aquilo fora profetizado.

            Precisava até mesmo conhecer o resultado previsto. Toda­via, temerariamente fora ao ponto exato em que deveria estar e apesar da execução em massa de suas tropas em três confrontos, ele ainda tinha a arrogância de acreditar que prevaleceria.

            Aquele era um espetáculo que valia a pena assistir e Chaim queria dizer isto aos que estavam ali reunidos. Não tinha meios de falar com todos a um só tempo; e ao olhar para os que o rodeavam, soube que não havia nada que precisassem ouvir. Como ele, todos estavam observando em grande expectativa. Vem, rei Jesus!

            Rayford estava suficientemente perto de Nicolae para ouvi-lo perguntar a uma generala:

            - Qual a sua força eqüestre?

            Ela verificou pelo rádio e respondeu:

            - Excelência, entre mais de um milhão de soldados, pouco mais de um décimo está a cavalo.

            - Peça tantas montarias quantas forem necessárias para que a primeira leva chegue até o muro ocidental, e dê ordens que sejam escolhidos para mim e o reverendo Fortunato cavalos adequados.

            Dentro de minutos, vários milhares de cavalos lotavam as ruas e os soldados do Exército da Unidade já subiam neles. Um ginete alto e bonito, quase idêntico ao que Carpathia montara fora da cidade em direção a Bozra, foi entregue para seu uso. As câmeras clicaram fotos e equipes de TV o rodearam quando ele montou, levantando a espada.

            Carpathia girou a espada acima da cabeça, animando as tropas que responderam com um whoop em crescendo, como um time de futebol prestes a sair do vestiário.

            Fortunato subiu com dificuldade num cavalo preto menor e se acomodou nele.

            - Sigam-me até o muro ocidental, gritou Carpathia, e abram caminho para o aríete e os lançadores de mísseis! Quando eu der ordem, abram fogo!

            Como já conhecia a Cidade Velha, Rayford seguiu por ruas laterais, encaminhando-se para o muro ocidental.

 

            Mac já se encontrava na extremidade sul da Cidade Velha, a alguns passos ao norte da Porta do Monturo. Abdullah entrou em contato com ele pelo rádio e disse ter encontrado um abrigo perto da Fortaleza Antônia, onde acreditava estar a salvo e invisível, com uma boa visão dos invasores que se aproximavam.

            - Estou também numa altura suficiente para ver as forças militares ao redor, Mac - disse ele. - Eles rodearam a Cidade Velha inteira, e estão aos milhares. Posso entender porque estão tão confiantes na vitória, tendo cortado todas as vias de fuga.

 

            Rayford parou cerca de 90 metros antes do muro ociden­tal, num lugar em que havia um pouco de vegetação para se esconder. Pensou ter visto Mac, mas não tinha certeza. Quase todos dentro da Cidade Velha, com exceção da imprensa, faziam parte da força atacante.

            Civis ocasionais subiam em cima de qualquer coisa disponível, aplaudindo e gritando palavras de ânimo à medida que Carpathia avançava, valente e orgulhoso em seu enorme cavalo, com a espada apontando para o céu, microfone no ouvido e na frente da boca para que todo o exército pudesse escutar suas ordens.

            - Para a glória do seu mestre ressurreto e senhor da terra! - exclamou ele, forçando o cavalo a galopar, fazendo ruído sobre o chão de pedras redondas. O cavalo de Fortunato dava passinhos curtos atrás dele, o que para Leon parecia bastante rápido.

            A banda seguia bem atrás das tropas montadas e da infan­taria, tocando alto uma melodia animada. Quando Carpathia se aproximou do muro, virou para o sul e Fortunato o acom­panhou.

            - Cavaleiros, abram espaço para os armamentos! - berrou Carpathia. - Ataquem! Entrem pelo muro! Tomem o monte do Templo! Destruam os rebeldes!

            Quando os cavaleiros chicotearam suas montarias, elas, porém não obedeceram. Os cavalos dispararam como se estivessem cegos - relinchando, empinando, pulando, escoiceando, dando encontrões uns nos outros, correndo impetuosa­mente na direção do muro, atirando os cavaleiros ao chão.

            - Abram caminho! - berrou Carpathia. - Abram caminho!

            Os cavaleiros que não tinham caído pularam dos cavalos e tentaram controlá-los com as rédeas, mas enquanto luta­vam para dominá-los, a carne deles dissolveu-se, os olhos derreteram e os dedos se desintegraram. Rayford viu os soldados ficarem em pé brevemente como esqueletos em uniformes agora muito largos, depois caíram em montes de ossos enquanto os cavalos cegos continuavam com seus acessos de fúria, completamente enlouquecidos.

            Segundos mais tarde, a mesma praga afligiu os cavalos, sua carne, olhos e línguas derreteram, deixando esquele­tos grotescos em pé, antes que eles também tombassem no pavimento.

            - Reforços! - Carpathia ordenou. - Avancem! Avancem! Fogo! Ataquem!

            Cada cavalo e cavaleiro que avançava, sofria o mesmo destino. Primeiro a cegueira e loucura por parte dos cavalos, depois os corpos dos soldados derretendo e se dissolvendo. A seguir, a queda e o amontoado de ossos.

            Rayford ficou estupefato, notando que os cavalos de Carpathia e de Fortunato não haviam sido ainda afetados. Leon escorregou da montaria, rolou até ficar ajoelhado e enterrou o rosto nas mãos.

            - Levante-se, Leon! Levante-se! Não estamos vencidos! Temos mais um milhão de soldados e vamos prevalecer!

            Mas Leon ficou onde estava, choramingando e se lamen­tando.

            Claramente desgostoso, Nicolae fez o cavalo voltar até a metade do muro e procurou reforços para além dos ossos de suas tropas dizimadas. Ele levantou a espada e amaldiçoou a Deus; mas, de repente, sua atenção foi atraída diretamente para o alto.

            Rayford seguiu o olhar dele e viu, claramente como o dia, o templo de Deus aberto no céu e a arca da aliança. Relâmpa­gos brilharam, trovões rugiram e a terra começou a tremer.

            O cavalo de Carpathia empinou e Nicolae esforçou-se para controlá-lo. O cavalo de Fortunato fugiu apressado sem ele.

            A terra gemeu e dobrou-se, e a cidade de Jerusalém partiu-se em três, enquanto grandes fendas engoliam os seguidores leais a Carpathia e os soldados. Prédios e muros foram deixados intactos, exceto que Abdullah informou ter visto a Porta Leste que fora cimentada - fechada há séculos - abrir-se inteira com o movimento da terra.

            Rayford colocou a palma da mão sobre o fone de ouvido e conectou a outra orelha para ouvir as notícias que chegavam do mundo inteiro. O terremoto era global. Ilhas desaparece­ram. Montanhas foram niveladas. Toda a face do planeta fora aterrada, exceto a cidade de Jerusalém.

            O Senhor Jesus apareceu então de súbito nas nuvens outra vez e o mundo inteiro o viu. Ele falou em alta voz, dizendo:

            "Falai ao coração de Jerusalém, bradai-lhe que já é findo o tempo da sua milícia, que a sua iniqüidade está perdoada e que já recebeu em dobro das mãos do Senhor por todos os seus pecados" (Is 40.2).

            "Todo vale será aterrado, e nivelados todos os montes e outeiros; o que era tortuoso será retificado, e os lugares esca­brosos, aplanados. A glória do Senhor se manifestará, e toda a carne a verá, pois eu o disse" (Is 40.4).

            "Eis que vem o Dia do Senhor, em que os teus despo­jos se repartirão no meio de ti. Porque eu ajuntei todas as nações para a peleja contra Jerusalém... mas o restante do povo não foi expulso da cidade. Eu saí e pelejei contra essas nações, como no dia da batalha" (Zc 14.1-3).

            "Esta foi a praga com que feri a todos os povos que guer­rearam contra Jerusalém: a sua carne se apodrecerá, estando eles de pé, apodrecer-se-lhes-ão os olhos nas suas órbitas, e lhes apodrecerá a língua na boca. Também enviei grande confusão entre eles. Como esta praga, assim será a praga dos cavalos" (Zc 14.12,13,15).

            "Eis que fiz de Jerusalém um cálice de tontear para todos os povos em redor e também para Judá, durante o sítio contra Jerusalém. Fiz de Jerusalém uma pedra pesada para todos os povos; todos que a erguerem se ferirão gravemente; e contra ela, se ajuntarão todas as nações da terra".

            "Feri de espanto a todos os cavalos e de loucura os que os montam; sobre a casa de Judá abrirei os olhos e ferirei de cegueira a todos os cavalos dos povos".

            "O Senhor protegeu os habitantes de Jerusalém; e o mais fraco dentre eles é como Davi, e a casa de Davi será como Deus, como o Anjo do Senhor diante deles. Destruí todas as nações que vieram contra Jerusalém" (Zc 12.2,3,8).

            "Por isso, a maldição consumiu a terra, e os que habitam nela se tornaram culpados; por isso, foram queimados os moradores da terra, e poucos homens restarão.

            Porque será na terra, no meio destes povos, como o varejar da oliveira e como o rebuscar, quando está acabada a vindima" (Is 24.6,13).

"Os filhos de Israel invocaram o meu nome e eu lhes respondi. Eu disse, 'Este é o meu povo'; e cada um disse, 'O Senhor é o meu Deus'". [Última sentença: tradução livre (N.T.) ]

 

            Embora o Senhor não tivesse falado audivelmente ao remanescente, Chaim sentiu como se ele e os outros estives­sem sendo inexoravelmente atraídos para o lado leste da Cidade Velha. Enquanto os mais de um milhão de pessoas passavam lentamente pelos mortos e agonizantes, uma fração das forças do anticristo permanecia viva. Eles envida­ram esforços e foram tropeçando na direção de um abrigo, também aparentemente atraídos para o leste.

            O Senhor manteve-se sentado triunfante sobre o seu cavalo branco nas nuvens, com seu exército atrás dele, contemplando a vitória unilateral sobre as forças que haviam atacado Jerusalém.

 

            Mac encontrou Rayford, e eles foram procurar Abdullah. Sabiam que ele estava bem porque o contataram pelo rádio. Ele também se dirigia para o leste da cidade.

            - Você devia ter visto Nicolae e Leon - disse Rayford.

            - Eu os vi rapidamente - respondeu Mac - quando Leon caiu do cavalo.

            - Nicolae saiu galopando há pouco tempo, voltando pelo caminho em que viera. Leon estava correndo atrás dele, suplicando para deixar que fosse com ele, mas Carpathia o ignorou.

            - Que figuras!

            A terra ainda tremia e se movia depois dos choques e Rayford tentou imaginar sua aparência do espaço exterior. Não havia mais ilhas. Nem montanhas. Virtualmente plana com colinas onduladas e aprazíveis. Toda Israel, exceto Jerusalém, fora aplanada.

            Eles encontraram Abdullah, que a princípio olhou para além deles, depois sorriu e balançou a cabeça.

            - Eu estava esperando dois homens brancos, Mac.

           

            Hannah Palemoon alcançou Chaim, que estava cer­cado por pessoas fazendo perguntas. Esperou até que ele a reconhecesse e depois disse:

            - Quanto tempo vai levar até encontrarmos os entes que­ridos que foram para o céu antes de nós?

            - Muito em breve, espero - replicou Chaim.

            - Há muitos que eu também desejo ver, mas primeiro quero ver Jesus face a face.

            - O que vem depois?

            - Oh!, penso que você sabe. O Senhor porá de novo o pé na terra, pela segunda vez depois da sua ascensão. Como sabe, ele veio nas nuvens para o Arrebatamento e desta vez andou brevemente no chão quando manchou seu manto no sangue em Bozra.

            - O inimigo desapareceu completamente?

            - logo, logo isso acontecerá.

 

            Illinois, plana como já era, não foi muito afetada pelo terremoto, embora Enoque estivesse certo de que ninguém duvidava do que ocorrera. O ruído surdo e prolongado da terra continuava e ele viu os seguidores de Carpathia gri­tando por suas vidas.

            Depois que o seu pessoal voltara para suas casas, Enoque começou a levar a mobília para a parte de cima, antecipando uma vida em que pudesse olhar pela janela sem se impor­tar com quem pudesse vê-lo. Algum tempo antes do terre­moto, um dos poucos carros de patrulha dos Pacificadores da Comunidade Mundial que ele vira em semanas recentes desceu velozmente a rua. No momento em que fez a curva na frente de sua casa, mudou subitamente de direção e bateu num hidrante de incêndio.

            Os vizinhos correram para o carro, mal acreditando em seus olhos quando só encontraram esqueletos e roupas no banco dianteiro. Os inimigos declarados de Deus estavam sendo dizimados ao redor do mundo.

            Enoque tentou telefonar para os seus paroquianos, con­seguindo falar com alguns e perdendo as chamadas feitas enquanto telefonava. Ninguém ficara ferido, embora algu­mas das casas tivessem sido danificadas. Alguns estavam traumatizados, contando ter visto funcionários do governo se desintegrando diante de seus olhos.

            Todos queriam falar sobre a nova igreja, onde iria ser e quando poderiam mudar-se para ela. Muitos também mencionaram sua peregrinação ao Oriente Médio.

            - Não sei quando será - disse uma mulher a Enoque -, mas irei de qualquer jeito.

            Enoque lembrou a todos que em algum momento depois do terremoto, Jesus desceria no monte das Oliveiras, a leste de Jerusalém, e o mundo inteiro o veria.

            - Fiquem olhando para o céu.

 

            - Você está ainda querendo ensinar, Abdullah? - indagou Mac.

            - Isso depende de ter estudado o que você quer saber.

            - O monte das Oliveiras, é claro.

            - Estudei isso muito bem. Você pode vê-lo daqui. Fica a apenas 800 metros do muro ocidental da Cidade Velha. É mais um monte do que uma montanha, como você pode ver. Um dos sermões mais famosos de Jesus foi pregado ali. Na sua entrada triunfal, ele veio do monte das Oliveiras. Voltou para lá todas as noites da última semana antes da crucifi­cação, orando com freqüência no Jardim de Getsêmani. A ascensão também aconteceu ali mais tarde.

            - Faz então sentido de que é ali que ele deseja descer agora.

            - Com certeza faz para mim - disse Abdullah.

 

            George Sebastian nunca vira nada assim. Ele avisou Priscilla que iria alcançá-la e às crianças, assim como o resto do Comando Tribulação que viajava com o remanescente. Atrasou-se, entretanto, e em vez de seguir o remanescente pela cidade devastada, decidiu cortar caminho indo direta­mente para o monte das Oliveiras.

            Por ter seguido a carreira militar, Sebastian já vira despo­jos de guerra antes em muitos campos de batalha ao redor do mundo. Não podia lembrar-se, porém, de uma cidade bonita e extraordinária como aquela ter sido tão destruída. O mais interessante é que era quase impossível determinar de quem fora a vitória.

            Sebastian recebera informações sobre o conflito desde o início e sabia por meio de Buck e depois de Mac como a cidade tinha sido completamente dominada pelo Exército da Unidade Mundial. Metade dos habitantes fora morta ou cap­turada. Muitos continuavam presos, haviam sido torturados e passavam fome.

            Agora, porém, enquanto percorria a passos lentos as ruas estreitas, George viu alguns soldados da Unidade sobreviventes dividindo com toda calma os despojos, enquanto outros se reagrupavam para um ataque aos rebeldes que tentassem fugir do monte do Templo. Notou também pilhas de roupas e ossos onde o Senhor decompusera os corpos dos seus inimigos.

            As coisas não tinham, então, terminado. Jerusalém, a preciosa Cidade de Deus, fora profanada a ponto de achar-se em ruínas. Era um milagre que Deus não a tivesse aplanado com as montanhas e ilhas do mundo.

            Sebastian esquadrinhou toda a área enquanto caminhava, seguindo para o norte para a Porta de Herodes, onde sabia que Buck fora morto. Ele subiu no muro e olhou para o que restava de Jerusalém. Talvez cem mil homens das tropas de Carpathia ainda restassem. Os rebeldes continuavam defen­dendo o monte do Templo, guardando a Porta Leste recém-aberta em vez de tentar fugir por ela.

            Ele pôde ver o vasto remanescente caminhando lentamente para o muro do sul e passando por ele, dirigindo-se para o monte das Oliveiras; e pensou que seria melhor apressar-se ou se arriscaria a deixar a mulher sozinha com a responsabilidade de duas crianças. É claro que outros ajudariam, mas isso não justificava abandoná-la.

            Pouco antes de Sebastian descer do muro, ele viu uma agitação fora da Porta Nova, a noroeste da Cidade Velha. Parecia que a imprensa rodeara Nicolae e Leon e o que restara do gabinete do potentado, seus conselheiros e generais. Sebastian sacudiu a cabeça. Ele sabia o que estava para acontecer e Carpathia também sabia com toda certeza. Por que ele não estava correndo para salvar a vida?

            Alguns homens nunca sabem quando estão derrotados, nunca sabem quando admitir isso e afastar-se. Nicolae Carpathia, provando - como se isso fosse necessário - que ele era de fato o anticristo, era o exemplo típico desse tipo de homem. Num caso clássico de negativa cósmica, seu orgulho ainda o convencia de que não poderia perder no final.

            Ali estava ele, apontando, persuadindo, tramando, gri­tando ordens, falando à imprensa. Sebastian ligou o rádio e, como esperava, sua alteza continuava tentando convencer os cidadãos de seu eventual triunfo.

            - Esta cidade se tornará o meu trono - disse Carpathia. - O templo será arrasado e substituído pelo meu palácio, a estrutura mais magnífica já . Capturamos aqui metade do inimigo e iremos acabar com a outra metade na hora devida.

            - O estágio final da nossa conquista está quase pronto para ser executado e em breve nos livraremos desta amolação lá de cima.

 

            Rayford, Mac e Abdullah estavam também ouvindo enquanto observavam o povo, a maior parte o remanescente, se dirigindo ao monte das Oliveiras. É claro que os filhos de Deus sabiam o que deveria acontecer e portanto mantiveram distância. Ninguém tinha idéia da hora em que o Senhor viria, mas ele permanecia ali, pairando sobre eles com seus cavaleiros. E em breve ele falou novamente palavras de con­solo aos que eram seus.

            "Da mesma forma que me receberam como Senhor, andem em mim, arraigados e edificados em mim, estabeleci­dos na fé, como foram ensinados, abundando em ações de graças. Vocês são aperfeiçoados em mim, o cabeça de todo Principado e potestade."

            "O teu trono, ó Deus, é para todo o sempre. Cetro de eqüidade é o cetro do seu reino. Amaste a justiça e odiaste a iniqüidade; por isso, Deus, o teu Deus, te ungiu com o óleo de alegria como a nenhum dos teus companheiros".          

            "No princípio, Senhor, lançaste os fundamentos da terra, e os céus são obra das tuas mãos; eles perecerão; tu, porém, permaneces; sim, todos eles envelhecerão qual vestido; também, qual manto os enrolarás, e como vestidos serão igualmente mudados; tu, porém, és o mesmo, e os teus anos jamais terão fim" (Hb 1.8-12) [Tradução Livre]

            "Eu, Aquele de quem essas coisas foram ditas pelo próprio Deus, asseguro-lhes, meus filhos, que jamais os deixarei ou abandonarei. Podem então dizer ousadamente: 'O Senhor é o meu socorro, não temerei. O que pode fazer-me o homem?' Eu, o Senhor Jesus Cristo, sou o mesmo ontem, hoje e para sempre. Portanto, santos irmãos e irmãs, participantes do chamado celestial, considerem-me o Apóstolo e Sumo Sacerdote da sua confissão".

            "Fui fiel a Deus que me enviou, como Moisés foi também fiel. Fui contado como mais digno do que Moisés, da mesma maneira que Deus, que construiu a casa, tem mais honra do que a casa. Pois toda casa é construída por alguém, mas quem constrói todas as coisas é Deus".

            "Deus me estabeleceu como Sumo Sacerdote para vocês - santo, puro, separado dos pecadores e mais alto do que os céus. Não preciso oferecer, como os sacerdotes humanos, sacrifícios diários, primeiro pelos meus pecados e depois pelos do povo, pois fiz isto de uma vez por todas quando ofereci a mim mesmo". [Tradução Livre]

            Apesar de todos os comentários magnânimos de Jesus a respeito de si mesmo, Rayford impressionou-se com sua maneira humilde e compassiva. Estava simplesmente falando a verdade, lembrando seus filhos dos privilégios que tinham nele. A verdade da Palavra de Deus, vinda do Verbo Vivo, levou Rayford a ajoelhar-se novamente, com seus amigos e todo o remanescente judeu.

            Quando Rayford se ajoelhou, com o rosto nas mãos, Jesus continuou a falar diretamente ao seu coração.

            "Deus quis dar a conhecer qual seja a riqueza da glória deste mistério, isto é, Cristo em você, Rayford, a esperança da glória. Eu sou a esperança de Israel, a trombeta da salva­ção na casa de Davi, servo de Deus. Eu lhe garanto, antes de Abraão ter sido criado, EU SOU". [A primeira sentença foi extraída de Cl 1.27, a seguinte é tradução livre (N.T).]

            Jesus silenciou. Rayford ouviu do lado oeste o som da banda do Exército da Unidade da Comunidade Mundial em marcha. Sua débil interpretação da música "Ave Carpathia" parecia discordante à distância e, como é claro, empalidecia em comparação com as orações murmuradas pelo milhão de joelhos diante do Senhor no céu.

            O solo estremeceu quando o que restava dos armamen­tos da CG foi colocado em posição. Rayford achava patético e ridículo o fato de Carpathia não ter aprendido nada nas horas anteriores. Não haveria contenda com aquela força do céu. Nenhum dano seria causado a Jesus ou ao seu povo com armas de guerra.

            Todavia, ali estava Carpathia chegando a galope, as roupas de couro estalando na sela, a espada levantada, e o deplorável Falso Profeta sacolejando desajeitado atrás dele, agarrado às rédeas do cavalo com todas as forças. O rema­nescente ficou imóvel, não desejando perder nada. Rayford olhou para a face de seu Senhor e lembrou-se outra vez da descrição bíblica do homem no cavalo branco com olhos como de fogo.

            A convicção que brilhava nos olhos de Jesus era de alguém que finalmente já suportara o suficiente. Seu inimigo estava exatamente onde desejava que estivesse, totalmente atraído pela armadilha preparada desde antes da fundação do mundo. O cumprimento das profecias seculares se achava prestes a ter lugar, apesar do inimigo tê-las lido, conhecê-las e ter visto todas serem realizadas exatamente como planejadas.

            Em toda a sua glória mórbida, de imitação, a quintes­sência do orgulho e do ego, habitado pelo próprio Satanás, Carpathia surgiu galopando, brandindo a espada acima da cabeça em todas as direções, enquanto Fortunato usava uma das mãos para tentar uma espécie de gesto estranho de adoração e a outra para manter o controle do cavalo e a si mesmo na sela.

            A banda, que abria a marcha, tocava cada vez mais alto e, na hora combinada, dividiu-se para a direita e a esquerda, a fim de dar passagem aos soldados montados, depois aos de infantaria e finalmente aos pelotões de munição e armamen­tos em seus veículos para entrarem lentamente em posição.

            Com o remanescente apenas a poucas centenas de metros a leste, a cidade de Jerusalém sitiada a um quilômetro a oeste, e os exércitos celestiais pairando diretamente acima, Jesus tocou seu magnífico corcel branco e desceu no alto do monte das Oliveiras.

            Quando ele desmontou, Carpathia berrou sua última ordem:

            - Ataquem! - As cem mil tropas obedeceram às ordens, cavaleiros em pleno galope atirando, soldados a pé correndo e atirando, armamentos pesados rodando e atirando. Jesus disse então naquela voz como de trombeta e o som de águas correntes: "EU SOU QUEM SOU".

            Nesse momento, o monte das Oliveiras partiu-se em dois de leste a oeste, o lugar onde Jesus estava moveu-se para o norte, e o lugar onde o Exército da Unidade se encontrava movendo-se para o sul, deixando um grande vale.

            Todos os tiros, correrias, galopes e veículos rodando se detiveram. Os soldados gritaram e caíram, seus corpos se abrindo da cabeça aos pés a cada palavra do Senhor, enquanto ele falava aos cativos em Jerusalém. "Fugireis pelo vale dos meus montes, porque o vale dos montes chegará até Azal; sim, fugireis como fugistes do terremoto nos dias de Uzias, rei de Judá; então, virá o Senhor, meu Deus, e todos os santos, com ele" (Zc 4.5).

            Com gritos e cânticos, era como se Jerusalém explodisse; os cativos presos em Jerusalém correram para o grande vale entre os dois lados do monte das Oliveiras. Enquanto a terra continuava a roncar e mover-se, Rayford assistiu reverente e a cidade inteira de Jerusalém levantou-se do chão cerca de 100 metros e ficou como uma jóia colocada acima de toda a terra nas cercanias que foram niveladas pelo terremoto mundial.

 

            Mac levantou-se e agarrou Rayford.

            - Está vendo os dois? - disse ele, apontando. - Nicolae e Leon fugindo para se protegerem? Olhe só aquela luz esférica balançando na frente deles! Lembra-se do que eu contei sobre Lúcifer aparecendo nos Estábulos de Salomão? A luz deve ser ele e está abandonando o velho Nick de novo!

            Mac, Abdullah e Rayford ficaram ali, com os braços ao redor dos ombros de cada um, observando a cena espetacular.

            Os rebeldes do monte do Templo e os cativos fugiram por um novo vale, perseguidos pelos últimos e débeis vestígios do Exército da Unidade. Mas quando Jesus falou, os per­seguidores morreram ao ouvir suas palavras.

            "Águas vivas correrão de Jerusalém, metade delas para o mar oriental, e a outra metade, até ao mar ocidental; no verão e no inverno, sucederá isto".     

            "E eu, o Senhor serei Rei sobre toda a terra, Hoje o Senhor é um e um só o seu nome. Toda a terra se tornou como a planície de Geba a Rimom, ao sul de Jerusalém; esta será exaltada e habitada no seu lugar, desde a Porta de Benjamim até ao lugar da primeira porta, até à Porta da Esquina e desde a Torre de Hananeel até aos lagares do rei. Vocês habitarão nela, e já não haverá maldição, e Jerusalém habitará segura" (Zc 14.8-11).

            Depois disso, Jesus montou em seu cavalo e começou a sua entrada triunfal final a caminho de Jerusalém. Durante sua primeira visita à terra, ele entrara na cidade montado em um jumentinho, acolhido por alguns, mas rejeitado por quase todos. Agora, cavalgava no corcel branco majestoso e a cada palavra que saía de sua boca, o restante dos inimigos de Deus - exceto por Satanás, o anticristo e o Falso Profeta - foi totalmente destruído onde se achava.

            "Este é o dia da vingança, porque todas as coisas escritas foram cumpridas. A arrogância do homem será abatida e a sua insolência será humilhada; só o Senhor será exaltado hoje."

            Vozes altas vindas do céu disseram: "Os reinos deste mundo se tornaram reinos do Senhor e do seu Cristo, e ele reinará para todo o sempre!"

            "Nós te damos graças, ó Senhor Deus Todo-poderoso, Aquele que é que era e que virá, porque tomaste o teu grande poder e reinaste. As nações se indignaram e a tua ira veio, e a hora dos mortos, para que sejam julgados, e para que tu recompenses os teus servos os profetas e os santos, e os que temem o teu nome, pequenos e grandes, e destruirás os que destroem a terra." [Tradução Livre]

            O remanescente seguiu Jesus, levantando as mãos, cantando hosana, e dando louvores a ele. Todos silenciaram quando Jesus falou de novo.

            "É justo que Deus envie tribulação aos que perseguem vocês, e que dê descanso a vocês que são perseguidos. Tomei vingança sobre os que não conhecem a Deus e os que não obedecem ao meu evangelho. Eles serão punidos com a separação eterna da presença do Senhor e da glória do seu poder. Vim para ser glorificado nos meus santos e para ser admirado entre todos os que crêem." [Tradução Livre]

 

            Ajoelhado em seu jardim nos subúrbios de Chicago, Enoque chorou ao ouvir as palavras gloriosas e triunfantes de Jesus. Chorou também por desejar intensamente ir a Jerusalém. Ele havia estudado essas passagens bíblicas durante anos e sabia o que estava acontecendo. Mal podia esperar pelo dia da viagem, para reunir-se com seus amigos do Comando Tribulação e ouvir cada detalhe do grande dia do Deus Altíssimo.

            Mais do que tudo, porém, ele queria ver Jesus.

            A cada momento, tornava-se mais difícil para Rayford assimilar a magnitude dos eventos sobrenaturais. Sobrecarga sensorial não era de modo algum o que sentia. Ele nunca antes tivera de beliscar-se para determinar se estava ou não sonhando. Tudo era tão real, tão maciço, que até o que poderia ter considerado milagres menores se nivelaram com os terremotos mundiais e locais em importância. Por exem­plo, o fato de ainda não sentir-se fatigado apesar de não ter tido descanso - muito menos sono - há mais tempo do que podia se lembrar.

            Quando ele, Mac e Abdullah estacionaram o Hummer do lado de fora da Cidade Velha e seguiram a vasta procissão pela Porta Oriental recém-aberta, um novo fenômeno o aguardava. Uma coisa era seguir o Senhor, o Rei dos reis, em sua última entrada triunfal na Cidade de Davi, mas ver o que viu ali comparado com o que esperava encontrar...

            Jerusalém, especialmente a Cidade Velha, devia estar cheia com o sangue dos mortos. Centenas de milhares haviam mor­rido ali, a maioria de maneira grotesca. Deveria haver mau cheiro, sangue e carne, sem mencionar os restos dos esquele­tos dos soldados e cavalos do Exército da Unidade.

            O terremoto que dividira em dois o monte das Oliveiras e elevara a Cidade Eterna a cerca de 2.400 metros havia porém realizado uma operação de limpeza macabra. Jesus guiou a multidão alegre para dentro e ao redor dos limites internos da Cidade Velha, estendendo por vários quilômetros o desfile de pessoas cantando, dançando, salmodiando, abraçando, louvando, adorando, celebrando.

            De modo estranho, os muros haviam sido nivelados, todos eles. Não se viam mais as cicatrizes da batalha, arestas provocadas por bombas e aríetes, nem elevações irregulares. No lugar dos muros, encontravam-se montículos de pedras delicadas, moídas.

            Até o Muro das Lamentações desaparecera e Rayford sentiu no fundo do coração que Jesus o substituíra pela sua Pessoa. Quando o início da procissão pôde ser avistado do Muro Ocidental, Jesus começou a falar. Embora enquanto estava montado, ele parecesse apenas um pouco mais alto do que as pessoas na fila e estivesse de costas para elas, Rayford sabia que todos podiam ouvi-lo tão claramente quanto ele mesmo o fazia.    

            "Só há um Deus e um Mediador entre Deus e os homens, eu, o Homem Cristo Jesus. Dei a mim mesmo como resgate por todos."

            Onde se encontrava o resíduo da guerra? Rayford só podia conjeturar. Era como se a cidade tivesse sido sacudida e inclinada de um lado e de outro. Enquanto os prédios e marcos permaneciam, os escombros dos muros haviam apa­rentemente varrido as ruas e empurrado a evidência repul­siva - toda ela -para dentro de fendas agora cobertas pelo resto da eternidade. A Cidade de Deus estava novamente imaculada e o povo parecia espantado com isso.

            Quando o Senhor entrou cidade adentro a cavalo, a fim de permitir que todos os seguidores também entrassem, ele circulou de modo que a multidão formou um grande círculo, milhares de pessoas. Por trás de todos, quase como uma reflexão tardia, estavam os exércitos dos céus, também ainda montados.

            O remanescente os ignorou, como se temporariamente não tivesse consciência deles. Rayford os viu com toda clareza e sabia que todos os demais também os viam. Ele tinha no fundo da mente a perspectiva - esperava que não demorasse - de reunião com os entes queridos. Mas, o fato de Jesus estar no meio deles, fazia todos pensarem apenas nele. Tudo o mais, agradável ou não, perdera a importância.

            Quando todos finalmente pararam e se ajeitaram em seus lugares, Jesus desmontou e estendeu os braços. "Ó Jerusalém, Jerusalém" gritou ele, "que matas os profetas e apedrejas os que te foram enviados! Quantas vezes quis eu reunir os teus filhos, como a galinha ajunta os seus pintinhos debaixo das asas, e vós não o quisestes! Eis que a vossa casa vos ficará desolada. Declaro-vos, pois, que, desde agora, já não me vereis, até que venhais a dizer: Bendito o que vem em nome do Senhor" (Mt 23.37-39).

            Jesus olhou para o remanescente e Rayford soube intuitivamente que todos tinham o mesmo sentimento que ele, que o Senhor olhava diretamente em seus olhos. Rayford não conseguiu conter-se. Ele respirou fundo e gritou com todas as forças, "Bendito o que vem em nome do Senhor!" E cada alma presente gritou a mesma coisa, provocando o mais beatífico sorriso no rosto de Jesus.

 

            Ming Toy Woo, em pé e de mãos dadas com seu novo marido, Ree, assistiu a tudo aquilo com um nó na garganta, com o coração a ponto de explodir. Ela ouviu cada palavra em sua língua nativa e teve de lembrar-se de que Jesus estava fazendo aquilo para cada pessoa em seu próprio idioma. Embora ela e Ree estivessem no meio da multidão e todos se achassem em pé, Ming podia ver claramente Jesus sem ter de ficar na ponta dos pés ou se inclinar entre os corpos.

            De repente, por trás de Jesus estavam cinco seres celes­tiais, três dos quais ela reconheceu: Cristóvão, o anjo com o evangelho eterno; Calebe e Naum. Esses eram os três anjos de misericórdia que a tinham livrado da morte certa quando trabalhava secretamente para a Comunidade Mundial. Eram também os que lhe disseram que não morreria antes do Glo­rioso Aparecimento de Cristo.

            Os outros dois anjos foram rapidamente identificados quando Jesus entregou as rédeas do cavalo para um deles, dizendo simplesmente: "Gabriel". O outro colocou um banco de pedra no lugar e ao sentar-se, Jesus disse:

            - Obrigado Miguel.

            A seguir, o Filho de Deus, Criador do céu e da terra, Salvador da humanidade, olhou diretamente nos olhos de Ming e disse em chinês:

            - Venha a mim, minha filha.

            Ming olhou como se paralisada. Quando conseguiu mover-se, tocou o peito e perguntou: -Eu?

            Jesus pareceu olhar dentro da alma dela, concentrando-se apenas nela.

            - Sim, minha querida. Venha a mim, Ming.

            Ela quis correr, empurrar os outros, saltar nos braços dele. Mas, tudo que pôde fazer foi colocar um pé na frente do outro. Largou da mão de Ree e começou lentamente a mover-se, compreendendo que todo o grupo, mais de um milhão agora, se movimentava na direção de Jesus como se fosse uma única pessoa.

 

            Estava claro como água e não havia erro. Jesus tinha olhado para Rayford, no fundo da multidão, e o escolhera. Ele o chamara pelo nome e lhe dissera: - Venha a mim, meu filho.

            Rayford desviou os olhos e olhou à sua direita e à sua esquerda. Abdullah e Mac pareciam ambos chocados, também olhando para Jesus e perguntando, com um gesto ou palavra - Abdullah em árabe - se falava com eles.

            Mas estavam errados, Rayford sabia. Ele está falando comigo. Rayford apontou para si mesmo com as duas mãos e levantou as sobrancelhas. E Jesus fez um sinal com a cabeça. Ele começou a mover-se na direção do seu Salvador. Como isso poderia ser? Como Jesus podia dar audiências indi­viduais diante de uma multidão daquele tamanho? Quanto tempo poderia dar a cada pessoa? Aquilo levaria meses. E como fora possível Rayford ter sido escolhido primeiro?

            Enquanto andava com as pernas duras na direção de Jesus, a mente de Rayford girava. Quais eram as probabili­dades? Como poderia quantificar o privilégio de olhar nos olhos do Deus eterno do universo? Ele começou a apressar-se e Jesus disse:

            - Venha a mim, Rayford, e eu lhe darei descanso.

            Embora seus olhos estivessem em Jesus e seu corpo se movesse para a frente, Rayford tomou repentinamente consciência de tudo. Ele fazia parte de uma multidão de mais de um milhão de pessoas. Cinco anjos estavam de sentinela por trás do Mestre. Os amigos e a família de Rayford o veriam. O que ele fizera para merecer tal privilégio? Descanso - sim, pela primeira vez ele sentiu essa premência. A fadiga das últimas horas tomou conta dele e sentiu que poderia dormir no momento em que tivesse uma oportunidade.

            Ao aproximar-se de Jesus e ver seu sorriso de boas-vindas, teve a sensação de que o Senhor estava tão contente por vê-lo como ele por ver o Senhor. Sentiu-se também vencido pela vergonha do seu pecado. Indigno. Muito indigno. Arrastou os passos, temendo desfalecer em desgraça e humilhação.

            - Não, não - disse Jesus, ainda sorrindo e inclinando-se para ele com as mãos marcadas por cicatrizes. Ao ver isso, Rayford quase desabou. Teve de esforçar-se para continuar andando, embora tivesse perdido controle da sua coordena­ção e temesse tropeçar e cair no colo de Jesus.

            Ele caiu de joelhos aos pés de Jesus, soluçando, lembrado de cada pecado e falta de sua vida. Mãos amorosas o levan­taram e ele foi aconchegado ao peito de Jesus.

            - Rayford, Rayford, como esperei este dia.

            Rayford não conseguiu falar.

            - Sabia o seu nome desde antes da fundação do mundo. Preparei um lugar para você e se não fosse assim, eu lhe teria dito.

            - Mas, Senhor, eu...eu...

            Jesus pegou nos ombros de Rayford e empurrando-o gen­tilmente para trás, tomou o rosto dele em suas mãos. Olhou em seus olhos a centímetros de distância e Rayford mal conseguiu suportar aquele olhar esquadrinhador.

            - Eu estava lá quando você nasceu. Estava lá quando pensou que sua mãe o havia abandonado. Estava lá quando você concluiu que eu não fazia sentido.

            - Sinto tanto, eu...

            - Estava lá quando você quase casou com a mulher errada. Quando seus filhos nasceram. Quando sua esposa me escolheu e você não a acompanhou.

            - Eu...

            - Estava lá quando quase quebrou os seus votos. Quando quase morreu antes de conhecer-me. Estava lá quando foi deixado para trás. E estava à sua espera quando finalmente veio a mim.

            - Oh, Senhor, obrigado. Estou tão...

            - Eu o amei com amor eterno. Sou aquele que ama a sua alma. Você foi feito para estar comigo na eternidade e agora vai estar.

            Rayford tinha tantas perguntas, tantas coisas que queria dizer. Mas, não pôde. Ao olhar para o rosto de Jesus, sentiu-se transportado à sua infância e sentiu que poderia ficar ali ajoelhado, como uma criança, deixando que o Salvador o amasse e consolasse para sempre.

            Jesus colocou uma das mãos no ombro de Rayford e a outra sobre a sua cabeça. "Oro diante do Pai, de quem toma o nome toda família, tanto no céu como sobre a terra, para que, segundo a riqueza da sua glória, vos conceda que sejais fortalecidos com poder, mediante o seu Espírito no homem interior; e, assim, habite Cristo no vosso coração, pela fé, estando vós arraigados e alicerçados em amor, a fim de poderdes compreender, com todos os santos, qual é a largura, e o comprimento, e a altura, e a profundidade e conhecer o amor de Cristo, que excede todo entendimento, para que sejais tomados de toda a plenitude de Deus.

            "Ora, àquele que é poderoso para fazer infinitamente mais do que tudo quanto pedimos ou pensamos, conforme o seu poder que opera em nós, a ele seja a glória, na Igreja e em Cristo Jesus, por todas as gerações, para todo o sempre. Amém" (Ef 3.14-21).

            Enquanto Rayford voltava ao seu lugar entre a multidão, como que flutuando no ar, algo lá no fundo dele compreendia que por mais pessoal que aquilo tivesse sido, Jesus estava concedendo o mesmo amor e atenção a todos os presen­tes. Ele percebeu subitamente que Mac e Abdullah também retornavam, com lágrimas correndo pelo rosto e a linguagem corporal evidenciando que eles haviam igualmente estado com o Mestre. Os três se abraçaram, adorando abertamente.

            Ao olhar à sua volta, Rayford viu em cada face que cada pessoa havia encontrado Jesus pessoalmente.

 

            O Salvador viera a Enoque enquanto este dormia. O encontro foi, porém, tão real e profundo que o jovem não duvidou nem por um minuto. Quando terminou, ele se viu ajoelhado no chão, sentindo como se Jesus estivesse bem ali em seu quarto. Fora lembrado de ocasiões significativas em sua vida, de sua jornada, primeiro desviando-se da fé verda­deira e depois voltando a ela. Enoque pôde ver novamente a mão de Deus em toda a sua vida e ficou sabendo que Jesus o conhecera pelo nome antes da fundação do mundo...

            Seu telefone tocava e quando Enoque atendeu ao primeiro chamado, o aparelho confirmou que muitos outros se seguiriam. Uma hora depois, ele recebera telefonemas de quase todos da congregação.

            - Eu ainda quero ir para lá - foi um tema comum -, mas se Jesus vier aqui desse modo, talvez não haja essa neces­sidade.

 

            Jesus ficou em pé e abriu os braços. Rayford compreen­deu que a experiência de observá-lo e ouvi-lo era mais pessoal do que nunca, apesar de toda aquela multidão estar fazendo o mesmo.

            "Rogo-vos, pois, que andeis de modo digno da vocação a que fostes chamados, com toda a humildade e mansidão, com longanimidade, suportando-vos uns aos outros em amor, esforçando-vos diligentemente por preservar a unidade do Espírito no vínculo da paz" (Ef 4.1-3).

            "Nunca mais coloquem a sua fé nos homens, que não podem ajudar. O espírito do homem morre, ele volta à terra; nesse mesmo dia seus planos perecem. Felizes são vocês que têm o Deus de Jacó para ajudá-los, cuja esperança está no Senhor seu Deus, que fez os céus e a terra, os mares e tudo que neles há; que sustenta a verdade para sempre, que executa justiça aos oprimidos, que dá de comer aos famintos. O Senhor liberta os cativos".

            "O Senhor abre os olhos aos cegos; levanta aos quebran­tados; ama os justos. O Senhor cuida dos estrangeiros; dá alívio aos órfãos e às viúvas; mas transtorna o caminho dos perversos".

            "O Senhor reinará para sempre - o teu Deus, ó Sião, para todas as gerações. Louvem o Senhor!" [Tradução Livre]

            Foi o que Rayford e todos os demais fizeram.

            Pela primeira vez desde o Aparecimento, Rayford viu Jesus falando, mas não conseguiu ouvi-lo. Ele conferenciava com os seres angélicos às suas costas e isto atraiu natural­mente a atenção de toda a multidão, que se mostrava tão curiosa como quando podia ouvir suas palavras.

            Aquele que fora chamado de Gabriel avançou: "Remanes­cente de Israel!" - começou ele, com uma voz clara como cristal e ouvida por todos.        "E santos da Tribulação! Vejo em verdade que Deus é imparcial.

            "Mas, em cada nação, quem quer que temer ao Senhor e usar de justiça é aceito por ele".

            "A palavra que Deus enviou aos filhos de Israel, pregando paz por intermédio de Jesus Cristo - ele é o Senhor de todos - essa palavra que conheceis, a qual foi proclamada em toda a Judéia e começou na Galiléia depois do batismo pregado por João: como Deus ungiu Jesus de Nazaré com o Espírito Santo e com poder, quem andou fazendo o bem e curando a todos os oprimidos pelo diabo, porque Deus estava com ele"           

            "Somos testemunhas de todas as coisas feitas por ele - a quem mataram e penduraram numa cruz - tanto na terra dos judeus quanto em Jerusalém".

            "Deus o ressuscitou no terceiro dia e manifestou-o aber­tamente, não a todo o povo, mas a testemunhas escolhidas, até àqueles que comeram e beberam com ele depois da sua ressurreição".

            "Ele ordenou que alguns pregassem ao povo e testemunhas­sem que fora ordenado por Deus como Juiz de vivos e mortos".

            "A respeito dele todos os profetas testemunham que, por meio do seu nome, quem crer nele receberá remissão de pecados. Amém." [Tradução Livre]

            Os presentes repetiram o amém em uníssono. E Jesus mais uma vez lhes falou:

            "Portanto, orareis assim: Pai nosso que estás nos céus, Santificado seja o teu nome; venha o teu reino, faça-se a tua vontade, assim na terra como no céu; o pão nosso de cada dia dá-nos hoje; e perdoa-nos as nossas dívidas, assim como nós temos perdoado aos nossos devedores; e não nos deixes cair em tentação; mas livra-nos do mal, pois teu é o reino, o poder e a glória para sempre. Amém" (Mt 6.9-13).

            Depois de orar com ele em uníssono, eles abriram os olhos e Rayford notou que apenas quatro anjos se achavam agora atrás de Jesus. Miguel partira.

            E Jesus disse, "Não estou só, porque o Pai está comigo. Estas cousas vos tenho dito para que tenhais paz em mim. No mundo, passais por aflições; mas tende bom ânimo; eu venci o mundo" {Jo 16.33).

            Jesus levantou os olhos para o céu e disse: "Pai, glorifica a teu Filho, para que o Filho te glorifique a ti, assim como lhe conferiste autoridade sobre toda a carne, a fim de que ele conceda a vida eterna a todos os que lhe deste. E a vida eterna é esta: que te conheçam a ti, o único Deus verdadeiro, e a Jesus Cristo, a quem enviaste. Eu te glorifiquei na terra, consumando a obra que me confiaste para fazer; e, agora, glorifica-me, ó Pai, contigo mesmo, com a glória que eu tive junto de ti, antes que houvesse mundo".

            "É por eles que eu rogo; não rogo pelo mundo, mas por aqueles que me deste, porque são teus; ora, todas as minhas cousas são tuas e as tuas cousas são minhas; e, neles, eu sou glorificado...e nenhum deles se perdeu, exceto o filho da perdição, para que se cumprisse a Escritura. Não peço que os tires do mundo, e sim que os guardes do mal".

            "Santifica-os na verdade; a tua palavra é a verdade".

            "Pai justo, o mundo não te conheceu; eu, porém, te conheci, e também estes compreenderam que tu me enviaste. Eu lhes fiz conhecer o teu nome e ainda o farei conhecer, a fim de que o amor com que me amaste esteja neles, e eu neles esteja" (Jo 17.1-5,9-12,15,17,25-26).

            Gabriel adiantou-se novamente. "O Senhor é fiel, ele irá guardá-los do maligno."

 

            Com a menção do maligno, Mac viu agitação no povo longe de Jesus e dos seres angélicos. Pessoas estavam se movendo e murmurando, abrindo caminho para o arcanjo Miguel. Nicolae Carpathia achava-se com ele, em suas roupas de couro agora desarranjadas, sem a espada; Leon Fortunato abatido e exausto em um de seus mantos mais simples e sem o adorno na cabeça; e os três lívidos robôs, sósias de Carpathia, que Mac e os outros tinham visto na câmara oculta quando Carpathia e Fortunato os apresentaram aos dez reis do mundo.

            Aqueles eram Astarote, Baal e Lagarta, as três criaturas demoníacas com aparência de sapos e que haviam sido enviadas para enganar as nações, persuadindo-as a reunir-se em Megido para lutar contra o Filho de Deus.

            Eram seres hediondos, cor de giz, que haviam tomado forma humana e usavam ternos pretos idênticos. Pareciam derrotados, curvados, como se mutilados pelo seu próprio mal. Ficaram juntos, mas longe de Carpathia e Fortunato. Nicolae e Leon também pareciam não querer nada um com o outro.

            Miguel levou os cinco diante de Jesus e Mac ficou impressionado com a fisionomia dele. Percebeu ira justa, é claro, mas também desapontamento e até tristeza. Não havia satisfação maligna.

            O trio patético ajoelhou-se na frente de Jesus, choramin­gando em tons esganiçados, irritantes. Carpathia voltou as costas a Jesus e olhou para o remanescente, com as mãos nos quadris, provocante e entediado. Leon torcia as mãos e ocasionalmente tocava seu colar espalhafatoso de ouro puro. Ele olhava de soslaio para Jesus, parecendo culpado e cheio de medo, espreitando constantemente Carpathia como se à espera de ordens.

            Gabriel adiantou-se, ficando entre Jesus e os três, cur­vando-se para olhá-los no rosto e disse em alta voz: "Em cumprimento das profecias bíblicas escritas há séculos, vocês se ajoelham hoje diante de Jesus Cristo, o Filho do Deus vivo, quem, subsistindo em forma de Deus, não julgou como usurpação o ser igual a Deus; antes, a si mesmo se esvaziou, assumindo a forma de servo, tornando-se em semelhança de homens; e, reconhecido em figura humana, a si mesmo se humilhou, tornando-se obediente até à morte e morte de cruz".

            - Sim! - os seres guincharam, silvando. - Sim! Sabemos! Sabemos! - E se inclinaram ainda mais, prostrando seus corpos deformados.

            Gabriel continuou: "Pelo que também Deus o exaltou sobremaneira e lhe deu o nome que está acima de todo nome, para que ao nome de Jesus se dobre todo joelho, nos céus, na terra e debaixo da terra, e toda língua confesse que Jesus Cristo é Senhor, para glória de Deus Pai" (Ef 26-11).

            - Jesus Cristo é Senhor!, disseram eles em voz estridente e Gabriel voltou a colocar-se atrás de Jesus. - Jesus Cristo é Senhor! É verdade! Verdade! Reconhecemos isso! Nós o reconhecemos!

            Jesus inclinou-se e colocou os cotovelos nos joelhos. Os três mantiveram o rosto abaixado, sem fitá-lo. "Tão certo como eu vivo, diz o Senhor Deus, não tenho prazer na morte do perverso, mas em que o perverso se converta do seu caminho e viva" (Ez 33.11).              

            - Nós nos arrependemos! Vamos nos converter! Vamos nos converter! Nós te adoramos, Ó Jesus, Filho de Deus. Tu és Senhor!  

            - Para vocês é tarde demais - disse Jesus, e Mac sentiu novamente a tristeza em seu tom. - Vocês eram antes seres angélicos, no céu com Deus. Todavia, foram expulsos por causa das suas decisões arrogantes. Em vez de resistir ao maligno, escolheram servi-lo.

            - Estávamos errados! Errados! Reconhecemos a ti como Senhor!  

            - Como meu Pai, com quem sou um, não tenho prazer na morte do perverso, mas isto é justiça e esta é a sua sentença.

            Enquanto os três guinchavam, seus corpos reptilianos rasgaram as roupas e explodiram, deixando uma mistura de sangue, escamas e pele que em breve pegou fogo e foi levada pelo vento.

            Leon caiu no chão com tamanha força que suas palmas fizeram ruído e sua testa estalou. Ele arrancou o colar e lançou-o longe. Enquanto Jesus olhava atentamente, Leon - levantou-se e despiu o manto, deixando-o cair e tirando os sapatos. A seguir deitou-se de bruços, vestido apenas com calças simples, camisa e meias, sua grande barriga apertada contra o pavimento.

            - Oh, meu Senhor e meu Deus! - gemeu, soluçando forte­mente. - Tenho sido tão cego, tão perverso!

            - Você sabe quem eu sou? - perguntou Jesus. - Quem realmente sou?

            - Sim! Sim! Eu sempre soube, Senhor! Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo!

            Jesus ficou em pé.

            - Você blasfema, citando meu servo Simão, a quem abençoei, pois não foi carne e sangue que revelou isso a ele, mas meu Pai que está no céu.

            - Não, Senhor! Teu Pai me revelou isso também!    

            - Em verdade digo a você, ai de ti por não ter feito essa descoberta enquanto havia tempo. Pelo contrário, você rejeitou a mim e ao plano de meu Pai para o mundo. Você opôs sua vontade à minha e tornou-se o Falso Profeta, cometendo o maior pecado conhecido sob o céu: rejeitar-me como o único caminho para Deus Pai e passando sete anos enganando o povo.

            - Jesus é Senhor! Jesus é Senhor! Não me mate! Eu suplico! Por favor!

            - A morte é um privilégio grande demais para você. Quantas almas estão separadas de mim para sempre por sua causa e das palavras que pronunciou?

            - Sinto muito! Perdoe-me! Renuncio a todas as obras de Satanás e do anticristo! Prometo lealdade a ti!

            - Você está condenado à eternidade no lago de fogo.

            - Oh, Deus, não! Gabriel disse:

            - Silêncio!

            Leon rolou e depois rastejou para longe, onde se deitou em posição fetal, soluçando.

            Jesus sentou-se novamente e Nicolae Carpathia, que continuava de frente para a multidão reunida, encolheu os ombros e afundou ainda mais as mãos nos bolsos. Suas sobrancelhas estavam levantadas e tinha um sorriso malicioso na face. Mac ficou imaginando o que aconteceria em seguida, Até mesmo Carpathia tinha de curvar-se e confessar que Jesus era Senhor, mas ele não aparentava medo e certamente nenhuma humildade.

            Miguel avançou para um lado dele, Gabriel para o outro. Miguel agarrou um cotovelo e o fez dar meia-volta enquanto Gabriel gritava:

            - Ajoelhe-se diante do seu Senhor!

            Carpathia soltou-se de Miguel e ficou novamente com as mãos nos quadris. Jesus disse:

            - Lúcifer, deixe este homem!

            Depois disso, Carpathia pareceu encolher. Tinha outra vez a aparência que Mac vira no subsolo do monte do Templo, nos Estábulos de Salomão. Suas roupas de couro estavam agora largas demais e pendiam dele como mantos flácidos. Suas mãos e dedos se tornaram ossudos. Seu pescoço parecia nadar num colarinho demasiado grande.

            O cabelo de Nicolae era ralo e quase sem cor, veias escuras surgiram na pele exposta. Estava pálido e descorado, como se a sua pele pudesse facilmente descolar-se. Mac pensou que aquela seria a aparência do corpo de Carpathia se estivesse se deteriorando no túmulo desde seu assassinato três anos e meio antes.

            Nicolae tremia e estremecia apesar do calor, e deva­gar, como que penosamente, colocou a capa ao redor dos ombros, cobrindo-se e parecendo esconder-se dentro dela como se fosse um casulo.

            - Ajoelhe-se! - gritou Gabriel, e ele e Miguel voltaram à sua posição atrás de Jesus.

            Nicolae fez que sim com a cabeça e deliberadamente abaixou-se, como um velho, apoiando-se num dos joelhos. Era como se o pavimento fosse duro demais para ele e seu outro joelho desceu em seguida, com as mãos apoiando para impedir que caísse com o rosto no chão. Ficou então ali, mãos e joelhos no chão, fraco e patético, com a capa pendu­rada frouxamente nos ombros ossudos.

            Mac teve de contrastar a justiça de Cristo com a sua própria humanidade. Se estivesse no lugar de Jesus naquele momento, teria sido incapaz de não se alegrar com o triunfo. Mac teria dito:

            - Você não parece mais um homem poderoso, não é? Onde está sua espada? E o exército? O gabinete e os subpo­tentados? Você não passa agora do supremo impotentado, verdade?

            Não se tratava, porém de vitória, mas de justiça. Jesus disse:

            - Você se tornou um instrumento disposto do próprio diabo.

            Nicolae não protestou, não suplicou. Apenas abaixou ainda mais a cabeça, concordando.

            - Você foi um rebelde contra as coisas de Deus e do seu reino. Causou mais sofrimento do que qualquer pessoa na história do mundo. Deus concedeu a você dons de inteligên­cia, beleza, sabedoria e personalidade e teve oportunidade para usar essas coisas em face dos acontecimentos mais importantes nos anais da criação.

            - Todavia, empregou cada dom em proveito pessoal. Levou milhões a adorarem a você e a seu pai, Satanás, Foi o destruidor astucioso de meus seguidores e fez mais para amaldiçoar as almas dos homens e mulheres do que qualquer outro em sua época

            - Seus planos e seu sistema finalmente falharam. E agora, quem você diz que eu sou?

            A pausa foi interminável, o silêncio mortal. Numa voz humilde e fraca, Nicolae finalmente murmurou:

            - Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo, que morreu pelos pecados do mundo e ressuscitou no terceiro dia como predito nas Escrituras.

            Jesus fez um gesto quando ele falou e Mac teve a impressão de que ele queria que Nicolae o fitasse. Mas, ele não fez isso.

            - E o que isso diz sobre você e sua vida? Carpathia afundou-se ainda mais do que Mac achava possível.

            - Confesso - disse ele - que minha vida foi desperdiçada. Indigna. Um erro. Rebelei-me contra o Deus do universo, que agora sei que me amava.

            Jesus sacudiu a cabeça e Mac viu uma grande tristeza em seu rosto.

            - Você é responsável pelo destino de bilhões. Você e o seu Falso Profeta, com quem derramou o sangue de inocen­tes - meus seguidores, os profetas e meus servos que criam em mim - serão lançados vivos no lago de fogo.

            Os arcanjos Miguel e Gabriel deram um passo à frente, Miguel para puxar do chão o Falso Profeta e pôr de pé o anticristo. Ele se postou diante de Jesus como que aguar­dando instruções enquanto o abatido Nicolae Carpathia se achava curvado, de cabeça baixa parecendo um velho. Leon Fortunato estava em desordem. Tinha o cabelo desarranjado, ú rosto vermelho e manchado de lágrimas, as mãos apertadas com força à sua frente.

            Gabriel disse à multidão, "E vi a besta e os reis da terra, com os seus exércitos, congregados para pelejarem contra aquele que estava montado no cavalo e contra o seu exér­cito. Mas a besta foi aprisionada, e com ela o falso profeta que, com os sinais feitos diante dela, seduziu aqueles que receberam a marca da besta e eram os adoradores da sua imagem. Os dois foram lançados vivos dentro do lago do fogo que arde com enxofre" (Ap 19.19-20).

            Gabriel afastou-se e no lugar em que estivera, um buraco de cerca de um metro abriu-se no chão e um cheiro fétido, sulfúrico fez-se sentir, obrigando Mac e todos da cidade a taparem o nariz. Surgiu então uma chama azul sibilante que, brotando do buraco, subiu a uma altura de seis metros, a qual Mac só pôde comparar a uma tocha de acetileno monstruosa. Isto acrescentou o cheiro de éter à mistura e Mac viu as linhas de frente da multidão recuarem.

            Mesmo distante da ação, Mac sentiu o calor tremendo emitido pela coluna furiosa de fogo. Jesus e os cinco seres angélicos estavam aparentemente imunes ao cheiro e ao calor, mas tanto Carpathia quanto Fortunato tentaram se afastar. Miguel segurou os dois com firmeza, ainda olhando para Jesus.

            O Senhor acenou tristemente e, sem hesitação, Miguel fez os dois andarem até a beirada do buraco. Fortunato gritou como uma criança e lutou para escapar; mas, com um braço poderoso, Miguel o empurrou para dentro. Seus lamentos se intensificaram e depois emudeceram enquanto caía.

            Carpathia não lutou. Apenas cobriu o rosto com os braços enquanto caía e depois seus berros ecoaram por toda Jerusalém até que estivesse bem longe. O buraco fechou tão rapidamente como se abrira e a besta e o falso profeta desapareceram.

 

            Rayford estava praticamente cambaleando e só podia imaginar o que o resto do povo deveria ter pensado. Ele sabia que aquelas coisas deviam acontecer e também o que viria em seguida, mas nunca imaginou ser uma testemunha ocular dessas ocorrências. Acreditava que George e Priscilla Sebastian tinham meios de cobrir os olhos das crianças das cenas mais repulsivas, mas também contava com o poder sobrenatural de Jesus para proteger Kenny daquelas imagens.

            Ele queria muito ver Irene, Raymie, Chloe e Buck, assim como Amanda. De alguma forma, compreendia que o emba­raço das duas esposas se encontrarem no mundo natural não seria um problema no novo mundo. Todo o foco da atenção deles estaria em Cristo e o que ele realizara em suas vidas.

            Isso, porém, aconteceria na hora devida. Gabriel, o arcanjo porta-voz, apareceu preparado para falar de novo. No momento em que ele começou, Rayford sentiu que aquele era o plano do Senhor, a fim de acalmar a mente de seu povo depois do que havia presenciado.

            "Jesus é a verdadeira Luz", começou Gabriel "que, vinda ao mundo, ilumina a todo homem".

            "Ele estava no mundo, o mundo foi feito por intermédio dele, mas o mundo não o conheceu... Mas, a todos quantos o receberam, deu-lhes o poder de serem feitos filhos de Deus, a saber, aos que crêem no seu nome; os quais não nasceram do sangue, nem da vontade da carne, nem da vontade do homem, mas de Deus".

            "E o Verbo se fez carne e habitou entre nós, cheio de graça e de verdade, e vimos a sua glória, glória como do unigênito do Pai" (Jo 1.1-14).

            - Amém! - gritou o povo e muitos pareciam consolados.

            Nenhum alimento, nenhum descanso e agora lugar algum para sentar a não ser no pavimento - desde que ninguém se importasse de perder parte da ação. É claro que Rayford se importava. Todavia, mais uma vez, ele não sentiu fome, nem sequer a fadiga que o vencera no caminho para ver Jesus. Ficar em pé também não incomodava.

            Jesus conversou outra vez com os seres celestiais e Miguel desapareceu. O grande evento aconteceria depressa assim, tão perto dos primeiros julgamentos? Rayford não sabia, mas era certamente algo que ele não queria perder.

            Gabriel falou mais uma vez: "Mas, agora, em Cristo Jesus, vocês, que antes estavam longe, foram aproximados pelo sangue de Cristo. Porque ele é a sua paz. E, vindo, evangelizou paz a vocês que estavam longe e paz também aos que estavam perto; porque, por ele, ambos temos acesso ao Pai em um Espírito. Assim, vocês já não são estrangeiros e peregrinos, mas concidadãos dos santos, e são da famí­lia de Deus, edificados sobre o fundamento dos apóstolos e profetas, sendo ele mesmo Cristo Jesus, a pedra angular; no qual todo o edifício, bem ajustado, cresce para santuário dedicado ao Senhor, no qual também vocês juntamente estão sendo edificados para habitação de Deus no Espírito".

            "Portanto, os que foram ressuscitados juntamente com Cristo, busquem as cousas lá do alto, onde Cristo vive, assen­tado à direita de Deus. Pensem nas cousas lá do alto, não nas que são aqui da terra; porque vocês morreram, e a sua vida está oculta juntamente com Cristo, em Deus. Quando Cristo, que é a nossa vida, se manifestar, então, vocês também serão manifestados com ele, em glória." (Cl 3.1-4).

            "Por isso, amados, sede sóbrios e vigilantes. O diabo, seu adversário, anda em derredor, como leão que ruge procu­rando alguém para devorar; resisti-lhe firmes na fé, certos de que sofrimentos iguais aos seus estão-se cumprindo na vossa irmandade espalhada pelo mundo. O Deus de toda a graça, que em Cristo os chamou à sua eterna glória, depois de terem sofrido por um pouco, ele mesmo irá aperfeiçoar, firmar, fortificar e fundamentar vocês. A ele seja o domínio, pelos séculos dos séculos. Amém" (1 Pe 5.8-11).

            - Amém! - gritou a multidão, que adorava e cantava espontaneamente. Gabriel concluiu:

            "Então vi descer do céu um anjo; tinha na mão a chave do abismo e uma grande corrente."