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O GENERAL DOURAKINE / Condessa de Ségur
O GENERAL DOURAKINE / Condessa de Ségur

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

O GENERAL DOURAKINE

 

           De Loumigny a Gromiline

O general Dourakine partira para a Rússia, acompanhado por Derigny, sua mulher e filhos, como vimos na Pousada do Anjo da Guarda.

Passados os primeiros momentos, em que o desgosto de se separarem de Elfy e Moutier lhes causara sincera tristeza, todos se sentiam en cantados com aquela viagem, até mesmo a Sr.a Derigny, que viajava com as crianças noutra carruagem.

Por seu lado, Dourakine, embora levasse saudades dos seus jovens amigos, a quem tão generosamente protegera, estava contentíssimo com a ideia de voltar à sua terra.

Já não era um prisioneiro, regressava à Rússia, sua querida Pátria, levava consigo uma família simpática que lhe devia a felicidade, que mais poderia desejar?

A sua alegria era tal, que chegava a divertir os pequenos.

Demoraram-se pouco em Paris; na Alemanha nem pararam; tiveram de ficar uma semana em Sampetersburgo, cujo aspecto majestoso, regular e severo não agradou a nenhum dos companheiros do velho general. Estiveram dois dias em Moscovo, que lhes despertou curiosidade e admiração. Gostariam até de se demorar mais nesta cidade, mas o general estava impaciente por chegar antes dos grandes frios a Gromiline, sua terra, que ficava perto de Smolensko. Como não havia caminho-de-ferro, viajaram todos na carruagem, cómoda e espaçosa, que Dourakine trouxera de Loumigny.

Derigny tivera o cuidado de encher a carruagem de provisões e garrafas de vinho de várias qualidades. Desta maneira, estava assegurado o bom humor do general.

Logo que o casal Derigny lhe via a testa enrugada, a boca contraída ou a cara mais vermelha, oferecia-lhe uma pequena refeição, enquanto não chegavam à estalagem mais próxima.

Esta inocente habilidade dava sempre resultado. Apesar disso, os acessos de cólera iam-se tornando mais frequentes; o general começava a aborrecer-se.

Tinham-se posto a caminho às seis horas da manhã; eram cinco da tarde e deviam jantar e dormir em Gjatsk, que ficava a meia distância de Gromiline, onde só chegariam no outro dia entre as sete e as oito horas da noite.

A Sra Derigny bem tentou distraí-lo, mas, desta vez, não o conseguiu. O marido fez reflexões agradáveis sobre a Rússia, mas o general continuou de má catadura.

Por fim, fechou os olhos e adormeceu, com grande satisfação de todos. As horas iam passando lentamente; o general continuava a dormir. A Sra Derigny, que ia sentada a seu lado, conservava-se imóvel, para o não acordar. Em frente deles iam Tiago e Paulo, que continuavam acordados e. muito aborrecidos. Paulo começou a bocejar ruidosamente; Tiago, por sua vez, tentava abafar os ah ah prolongados que o irmão soltava, pondo-lhe a mão em frente da boca. A Sr.a Derigny não pôde deixar de sorrir, mas recomendou-lhes, em voz baixa, que estivessem quietos e calados. Paulo quis falar o irmão não deixou por fim, as gargalhadas de Tiago e as próprias recomendações da Sr. a Derigny acabaram por acordar o general.

- Que vem a ser isto? - exclamou ele. Por que motivo não deixam este pequeno falar e mexer-se à vontade?

SR DERIGNY - O senhor General estava a dormir, tive receio de que o acordasse.

GENERAL - E se me acordasse, que mal tinha? Julgam que sou algum tigre, ou algum papão? Ainda que eu me torne mansinho como um cordeiro, hão-de estar sempre a tremer com medo de mim! Medo de quê? Sou algum monstro, algum diabo?

A Sra Derigny olhava, a sorrir, para o general, cujos olhos brilhavam de cólera mal contida.

SR DERIGNY - Meu bom General, é justo que o incomodemos o menos possível e que respeitemos o seu sono.

GENERAL - Deixemo-nos dessas coisas! Isso não me interessa. Dize-me tu, Tiago, porque impedias o teu irmão de falar?

TIAGO - Porque tinha medo de que o senhor General se zangasse. Paulo é pequeno e assusta-se quando o vê zangado. E como aqui, na carruagem, não tem onde se esconder nem pode fugir, tive pena dele.

Ao ouvir isto, o general fez-se vermelho; as veias incharam-lhe; os olhos pareciam soltar faíscas. A Sra Derigny esperava já uma explosão terrível, quando Paulo, que o olhava inquieto, lhe disse, juntando as mãos:

- Senhor General, não se faça assim tão encarnado, nem ponha lume nos olhos, que me assusta. Um homem colérico é muito perigoso: grita, bate, pragueja! Lembra-se de quando bateu ao Torchonet? Depois até teve vergonha. Quer que lhe dêem alguma coisa para o distrair? Uma fatia de presunto, ou um pastel, ou um cálice de vinho? O papá trouxe bastantes provisões.

À medida que Paulo falava, o general ia acalmando; acabou por sorrir e até rir com vontade. Sentou Paulo nos joelhos, beijou-o e afagou-lhe a cabeça.

- Pobre pequeno! Tens razão. Sim, meu amigo, é tal qual como tu dizes; não quero tornar a zangar-me dessa maneira!

- Como estou contente! - exclamou Paulo. - Isso que o senhor General diz é verdade? Nunca mais me fará ter medo de si? Poderemos rir, conversar, mexer as pernas?

GENERAL - Podes, sim, meu rapaz, à vontade. Mas quando me maçares muito, passarás para o banco do cocheiro, ao pé de teupaI.

PAULO - Obrigado, senhor General. Foi muito bom dizer-me isso. Nunca mais terei medo.

GENERAL - Ora aqui está! Ficamos todos contentes. Agora, a única coisa que me aborrece, é irmos tão devagar. Hé! Derigny, faça andar esses izvochtchiks; vamos a passo de tartaruga.

DERIGNY - Já lhes disse isso mesmo, meu General mas não me compreendem.

GENERAL - Chame-lhes dourak, skarei (*). Derigny repetiu com toda a força as palavras russas que o general acabara de pronunciar; o cocheiro olhou para ele, surpreendido, levou a mão ao chapéu e chicoteou os cavalos, que partiram a galope.

 

(*) Imbecil, animal, mais depressa!

 

- Skarei Skarei - repetia Derigny, quando os cavalos abrandavam a corrida.

O general esfregava as mãos de contentamento. Com a boa disposição voltou-lhe o apetite, e Derigny passou a Tiago, pela janela descida, empadas, presunto, pernas de galinha, bolos, fruta, uma garrafa de vinho, enfim, uma abundante refeição.

- Obrigado, meu amigo - disse o general, recebendo os petiscos. - Não se esqueceu de nada! Este pequeno aperitivo já nos permite esperar pelo jantar.

Entretanto, Derigny de tal forma conseguiu animar o cocheiro, que chegaram a Gjatsk às sete horas. A estalagem era má canapés estreitos e duros a servir de camas; dois quartos para cinco pessoas; um jantar ordinário e, por única iluminação, velas de sebo.

O general andava de um lado para o outro, com as mãos atrás das costas. Soprava, furioso, e lançava em redor olhares terríveis. Derigny nem se atrevia a falar com receio de lhe provocar um ataque de fúria; mas, para ver se o distraía, começou a conversar com a mulher.

- O general não pode dormir num canapé

- dizia ela. - E se nós juntássemos dois para lhe arranjar um leito mais largo?

O general voltou-se, num acesso de cólera. Derigny, então, apressou-se a responder:

- Que loucura, Helena! O general, que é um valoroso militar, está habituado a dormir em camas muito mais estreitas e duras. O general tem idade e coragem para suportar ainda coisas piores.

O general mudou como por encanto. Tornou-se sorridente e bem disposto, concordando imediatamente.

- Tem razão, meu caro amigo! As mulheres não fazem ideia do que é a vida de um militar.

DERIGNY - E, principalmente, a sua, meu General. Mas Helena preocupa-se tanto com o seu conforto porque é muito sua amiga e tem pena de o ver mal instalado.

GENERAL - Não se atormente por minha causa, querida amiga. Fico muito bem assim. Optimamente! Derigny dormirá ao pé de mim, noutro canapé, e a senhora e os pequenos ficarão no quarto ao lado. Vamos jantar. Comeremos do que houver. Derigny, mande-me o meu criado.

Efectivamente, Stépane não tardou a aparecer. O general deu-lhe ordens em russo e recomendou-lhe que servisse Derigny, a mulher e os filhos, o melhor possível, adivinhando-lhes os desejos se necessário fosse. E acrescentou:

- Se lhes faltar alguma coisa por culpa tua, mandar-te-ei dar cinquenta chicotadas quando chegarmos a Gromiline.

- Está muito bem, excelência! - respondeu o criado.

Imediatamente, procurou cumprir as ordens que recebera e preparou de tal maneira a refeição e tudo quanto dizia respeito a Derigny e à família, que eles ficaram, afinal, mais comodamente instalados que o próprio general. Este deu-se por satisfeito com o modesto jantar e com a cama estreita e rija. Deitou-se vestido e dormiu, de um sono, até às sete da manhã seguinte.

Como sempre, Derigny foi o primeiro a levantar-se, fazendo pontualmente tudo o que lhe competia.

A primeira coisa que o general Lhe perguntou, logo que acabou de tomar o pequeno almoço, foi se Helena e os pequenos já estavam acordados.

DERIGNY - Estão prontos!

GENERAL - Vão todos tomar o pequeno almoço, e partiremos em seguida.

DERIGNY - Já comemos. Stépane serviu-nos ainda antes de o meu General acordar.

GENERAL - Ah ah ah As cinquenta chicotadas deram bom resultado, pelo que vejo!

DERIGNY - Quais chicotadas, meu General? Ninguém lhe bateu.

GENERAL - Bem sei, mas prometi-lhas eu, se ele não tratasse bem de vocês.

DERIGNY - Oh, meu General!

GENERAL - Sim, meu amigo; é assim que nós "ensinamos" os criados.

DERIGNY - Dá-me licença que lhe faça uma pergunta, meu General? São mais bem servidos assim?

GENERAL - Pelo contrário! Somos pessimamente servidos. Só conseguimos qualquer coisa à força de pancada.

DERIGNY - Se o meu General me permite falar-lhe com franqueza, vou dizer-lhe o que penso: eles são maus criados porque não se dedicam aos patrões, e não se dedicam porque são maltratados.

GENERAL - Ora! Ora! São uns brutos! não compreendem nada!

DERIGNY - Pelo menos compreendem as ameaças e os castigos que recebem.

GENERAL - O que os faz perceber é o medo.

DERIGNY - Pois eu tenho a certeza de que compreenderiam também as boas palavras e as boas maneiras, e acabariam por estimar os patrões como eu o estimo a si, meu General.

GENERAL - Não faça comparações, meu amigo. Há tanta diferença como entre o dia e a noite!

DERIGNY - Apenas aparentemente, porque no fundo não somos assim tão diferentes como o meu General imagina.

GENERAL - É possível. Falaremos nisso mais tarde. Agora o que interessa é partir depressa. Chame a Helena e os pequenos.

Encontrava-se tudo pronto. Estava um tempo esplêndido e a viagem prosseguiu o mais agradavelmente possível. Stépane foi à frente, para preparar tudo. O general ia bem disposto, mas adivinhava-se que qualquer coisa o preocupava.

Como tinha bom coração, apesar do seu génio terrível, as palavras de Derigny haviam-no impressionado e, por mais que quisesse, não podia deixar de pensar nelas. Decidiu voltar a falar sobre o assunto logo que chegassem a Gromiline. Entretanto, para não perder a boa disposição, comeu uma asa de galinha e bebeu meia garrafa de Bordéus.

 

             A chegada a Gromiline

Depois de um dia fatigante e aborrecido, chegaram a Gromiline, eram sete horas da noite.

Apareceram logo muitos homens de grandes barbas, que se precipitaram para a carruagem e ajudaram o general a descer; beijaram-lhe as mãos, chamando-Lhe Batiouchka (pai); aproximaram-se também muitas mulheres e crianças, soltando exclamações de respeito e alegria. O general agradeceu-Lhes, saudando-as com a mão e sorrindo-lhes.

Helena Derigny e os pequenos seguiram-no de perto. Quando Derigny quis tirar da carruagem a bagagem do general, não lho permitiram, e logo se estenderam muitas mãos para fazerem esse trabalho. Derigny não os contrariou, e foi juntar-se ao pequeno grupo que caminhava por entre mulheres e crianças, que repetiam em voz baixa: - Frantsousse (franceses) - examinando com curiosidade a família Derigny.

O general disse-lhes algumas palavras, e logo duas mulheres correram ao longo de um corredor para onde davam os quartos de dormir; outras duas dirigiram-se para a cozinha e para a copa.

- Meu amigo - disse o general a Derigny -, acompanhe a sua mulher e os seus filhos aos quartos que lhes mandei preparar; lá lhes levarão a ceia. Logo que estejam completamente instalados, diga que o acompanhem aos meus aposentos, para combinarmos o que devemos fazer amanhã e nos dias seguintes.

- Às suas ordens, meu General - respondeu Derigny.

As crianças que, à chegada, estavam meio adormecidas, despertaram ao ouvir tanto ruído e ao ver aquelas caras e aqueles trajos, que nunca tinham visto.

- É esquisito que todos os homens, aqui, sejam porta-machados! - disse Paulo.

TIAGO - Não são porta-machados, são os criados do general.

PAULO - Mas porque andam eles de roupão?

TIAGO - É a sua maneira de vestir. Não viste os camponeses que encontrámos no caminho? Todos usavam roupão azul, com cintos vermelhos. É bem mais bonito do que as camisas que se usam em França.

Quando chegaram aos quartos que Vassili, o intendente, lhes arranjara o melhor que pudera, os pequenos ficaram encantados. Apenas estranharam que, em vez de leitos, tivessem sofás.

- Onde nos havemos de deitar? - perguntaram eles ao pai.

DERIGNY - Transformaremos os sofás em camas. Devemos habituar-nos a contentar-nos com o que temos.

Derigny e Helena começaram imediatamente a pôr as coisas em ordem e, dentro de poucos minutos, estava tudo pronto para se deitarem. Os pequenos não se fizeram rogados, porque estavam a cair de sono.

Derigny, antes de se deitar, procurou ainda o general, como ele lhe recomendara, mas esteve quase a perder-se, tantos eram os corredores e quartos por onde passou. Por fim, lá conseguiu chegar aos aposentos do general, que passeava de um lado para outro, no seu grande quarto de dormir, com todo o ar de quem está muito zangado. Quando viu aparecer Derigny, deteve-se e exclamou, cruzando os braços:

- Estou furioso e arrependido de ter vindo para aqui. Toda a gente não percebe nada do que eu quero. Precipitam-se, como loucos ou imbecis, para executar as minhas ordens, mas, afinal, não compreendem nada do que desejo! Não encontro nada do que me é preciso. A Pousada do Anjo da Guarda era cem vezes mais confortável. No entanto, eu tenho seiscentos mil rublos de rendimento. Para que me serve todo este dinheiro?

DERIGNY - Mas, meu General, quando se regressa, depois de uma longa ausência, sucede sempre assim. Nós arranjaremos tudo. Dentro de poucos dias estará instalado como um príncipe.

GENERAL - Só se você e a sua mulher se encarregarem disso, porque, com esta gentinha, não conseguiremos nada.

DERIGNY - Estão tão contentes por o tornarem a ver, meu general! Naturalmente só há pouco tempo é que tiveram conhecimento do seu regresso.

GENERAL - Pois é claro! Eu não avisei ninguém. Mandei apenas o Stépane à frente.

DERIGNY - Nesse caso, meu general, eles não são culpados! Não tiveram tempo de preparar as coisas.

GENERAL - Nem ao menos a minha ceia. Há-de concordar que é forte!

DERIGNY - Se demora um bocado é, com certeza, para que fique mais bem cozinhada.

GENERAL (sorrindo) - Você tem resposta para tudo. E eu agradeço-lhe, meu amigo, porque, afinal, fez-me acalmar. E como estão vocês instalados?

DERIGNY - Muito bem, meu General. Não nos falta coisa alguma.

- Sua Excelência está servida - disse Vassili, abrindo as portas de par em par.

O general dirigiu-se imediatamente à sala de jantar, acompanhado por Derigny que o serviu à mesa, com a maior solicitude. Em volta havia cinco ou seis criados para ajudar no que fosse preciso.

GENERAL - Ah, ah! ah Repare, Derigny, no espanto destes homens, só porque você me serve o vinho!

DERIGNY - Porquê? É naturalíssimo que eu lhe evite a maçada de pegar na garrafa e encher o copo.

GENERAL - Eles consideram isso como uma familiaridade chocante, e admiraram a minha bondade por lhe permitir, a si, que o faça.

A ceia durou bastante tempo, porque o general tinha, como sempre, bom apetite. Serviram-Lhe uma dúzia de pratos. O general reatava as suas relações com a cozinha russa e parecia satisfeito.

Enquanto Derigny se conservava junto do general, Helena, depois de deitar os pequenos, examinou o mobiliário e ficou desolada ao verificar que lhe faltavam coisas indispensáveis: uma bacia para lavar as mãos e a cara, um jarro, um copo. Apenas havia, a um canto, um velho balde. Desolada, sentou-se numa cadeira e teve saudades da Pousada do Anjo da Guarda, mobilada com tanto conforto e sempre tão asseada. Pensou em sua irmã Elfy, em Moutier, no bom pároco, no seu país, enfim. Calculou as privações que iriam passar ali, e sentiu-se desanimada.

Quando Derigny voltou, depois de o general já estar deitado, encontrou Helena a chorar. Ao saber a causa do seu desgosto, consolou-a, encorajou-a; prometeu-lhe que, no dia seguinte, teria as coisas mais urgentes e, dentro de pouco tempo, não haveria razão para sentir saudades da Pousada do Anjo da Guarda.

Além disso, testemunhou-lhe tanta gratidão pelo carinho com que ela tratava as crianças, mostrou-se tão alegre, tão confiante no futuro, que ela acabou por ficar bem disposta e cheia de coragem.

Como estavam todos satisfeitos, dormiram até tarde, na manhã seguinte, excepto Derigny que conservava os seus hábitos militares e se apresentou à hora costumada junto do general, que se mostrou satisfeitíssimo com aquela pon tualidade.

- Logo que eu tenha comido o pequeno almoço, vou mostrar-lhe o palácio, o parque, a aldeia, a floresta, tudo! - disse ele.

DERIGNY - Agradeço-lhe muito, meu General, porque desejo imenso conhecer Gromiline, que me parece uma esplêndida propriedade.

GENERAL (com ar despreocupado) - Não é má: vinte mil hectares de floresta, dez mil de terra cultivável, vinte mil de pastagens. Sim, é uma bela terra; quatro mil camponeses, duzentos cavalos, trezentas vacas, vinte mil carneiros e uma quantidade de outros animais. Sim, não émá...

Derigny ouviu-o, sorrindo.

GENERAL - De que se ri você? Julga que minto ou exagero?

DERIGNY - Oh, meu General! De forma alguma. Eu sorria, ao ouvi-lo falar das suas riquezas com o ar mais despreocupado deste mundo.

GENERAL - Então como queria que eu falasse? Queria que me pusesse a rir como um doido, e desse cambalhotas como os seus filhos, ou então que me fingisse pobre?

DERIGNY - De forma alguma. O meu General fez como devia; eu é que fui parvo por ter sorrido.

GENERAL - Olhem que ideia! Você não é parvo, e sabe isso muito bem. Fala assim só para me acalmar os nervos, como se acalma um louco furioso ou uma criança amimada. Pois saiba que eu não sou louco nem criança. Tenho sessenta e três anos e não gosto que me lisonjeiem. Sou um parvo, sou eu que o digo, e proíbo-o, a si, de me contradizer; mais ainda, ordeno-lhe que me acredite. Você é um homem de espírito, de coração e dedicação. E continuo a ordenar-lhe que me acredite e que não me tome por um imbecil que não sabe julgar os outros e julgar-se a si próprio.

- Meu General - disse Derigny, com voz comovida -, se não lhe digo todo o reconhecimento e a respeitosa afeição que tenho por si, é porque sei muito bem como o meu General detesta os agradecimentos e as expansões.

GENERAL - Sim, sim, meu amigo, eu sei. Ordene que me sirvam aqui mesmo o pequeno almoço, e vá também comer alguma coisa.

Derigny cumpriu as ordens recebidas, e entrando no seu quarto e encontrando a mulher e os filhos ainda a dormir profundamente, voltou para junto do general, para que ele não se aborrecesse por estar só.

 

           Derigny marceneiro e decorador

Quando Helena acordou, ainda os pequenos dormiam. Como o marido já se havia levantado e estava junto do general, teve de se desembaraçar sozinha, utilizando o velho balde à falta de outros objectos de toilette.

Animava-a a confiança em Derigny, que ela sabia inteligente e cheio de boa vontade.

Efectivamente, quando ele regressou do passeio que dera com o general, trouxe à mulher uma quantidade de coisas necessárias.

- Como conseguiste arranjar tudo isto? perguntou Helena, maravilhada.

DERIGNY - Fiz tantos sinais, que acabaram por me compreender. São inteligentes e parecem bons.

Os pequenos, ao acordarem, encontraram o almoço pronto, o que lhes agradou imenso, pois estavam cheios de apetite.

Assim passaram algumas semanas; Tiago e Paulo começaram a aprender o russo com bastante facilidade; os filhos dos criados seguiam-nos para toda a parte, cheios de curiosidade. Um dia, os dois irmãos apareceram vestidos à maneira russa; foi uma alegria para os outros petizes, que chamaram aqueles que não estavam presentes, para virem admirá-los: Mishka, Vaska, Pétroùska, Annoushka, Stépane, Mashinèka, Sónushka, Càtineka, Anìcia (*). Acorreram todos e rodearam Paulo e Tiago com grandes manifestações de entusiasmo. Foi enorme a surpresa de Paulo, ao ver as crianças russas virem, uma a uma, beijar-lhes a mão. Os dois irmãos franceses, protegidos e estimados pelo general, eram considerados por aquela pobre gente muito superiores a eles, e sentiam-se reconhecidos pelo facto de os verem vestidos com o traje nacional russo.

(*) Diminutivos de Miguel, Basílio, Pedro, André, Estêvão, Maria, Sofia e Inês. Os acentos indicam que essa sílaba se pronuncia com força.

PAULO - Porque nos beijam eles a mão?

TIAGO - Para nos agradecerem o termo-nos vestido como eles. Julgam que também queremos ser russos.

PAULO (vivamente) - Mas eu não quero ser russo! Quero ser francês como o papá, a mamã, a tia Elfy e o nosso amigo Moutier.

TIAGO - Podes estar tranquilo Lá por estarmos vestidos como os russos não deixamos de ser franceses.

PAULO - Nesse caso, está muito bem. Se não fosse assim, ia já vestir o fato que trouxe

de França.

Enquanto eles conversavam, deu-se no pátio uma grande agitação: acabava de chegar um correio a cavalo. Os criados rodearam-no logo, as crianças corriam de um lado para o outro, cheias de curiosidade. Tiago e Paulo foram também ver do que se tratava e compreenderam que aquele homem vinha anunciar a visita da Sra Papofski, sobrinha do general Dourakine que devia chegar uma hora depois.

Esta notícia pareceu contrariar bastante o general, que mandou chamar logo Derigny.

- Meu amigo: tem de ir, com Vassili, preparar quartos para toda essa gente. Oito crianças! Se já alguém viu uma coisa assim! Aparecer de surpresa, com uma tropa destas! Que quererá ela que eu lhe faça! Vão partir tudo, sujar tudo! Diabos os levem! Estava aqui tão tranquilo, consigo, com sua mulher e os pequenos, e vem agora esta invasão de selvagens perturbar a minha vida! Mas não tenho outro remédio senão recebê-los. Vá, meu amigo, e prepare tudo o mais depressa que puder.

DERIGNY - O meu General não quererá indicar-me os quartos que lhes devo destinar?

GENERAL - Isso é indiferente! Escolha os que quiser. Olhe, abra a primeira porta que encontrar.

DERIGNY - Perdão, meu General, mas esta senhora é sua sobrinha e tem direito à minha maior consideração. Ficarei desolado se não lhe preparar os melhores aposentos. Ora eu não conheço ainda o palácio todo.

GENERAL - Visto que assim o quer, irei consigo. Vá andando à frente, para abrir as portas!

Vassili, muito admirado com a condescendência do general, acompanhou-os. Chegaram em frente de uma porta de dois batentes, que era logo a primeira do corredor que dava para a sala de jantar.

GENERAL - Aqui está um quarto; tanto faz este como outro. Pode abrir, Derigny. Deve haver mais três ou quatro quartos a seguir, todos com a porta para o corredor.

Derigny abriu, apesar da viva oposição de Vassili a quem o patrão ordenou energicamente que estivesse calado. O general entrou, deu alguns passos, olhou em volta, com um olhar brilhante de cólera, e perguntou a Vassili:

- Não querias que eu entrasse, gatuno, para que não visse que tu e a tua família sois uns ladrões! Onde estão os móveis deste quarto? Onde estão os reposteiros e os cortinados? Porque estão as paredes cheias de nódoas, como se aqui se houvesse alojado um regimento de cossacos? Porque estão os sobrados esburacados?

VASSILI - V. Exa bem sabe. o frio. a humidade. o sol.

GENERAL -. levam os móveis, arrancam os reposteiros, sujam as paredes, arrancam bocados ao sobrado? Ah, maroto! Tu estás a troçar de mim! Julgas que eu sou parvo? Espera aí; vou fazer-te compreender que sou mais esperto do que tu imaginas. Derigny - continuou o general, voltando-se para ele -, vá dizer que dêem cem chicotadas neste patife, que se atreveu a roubar-me os móveis e habitar os meus quartos com a sua quadrilha de criados- ladrões, e que ainda por cima se atreve a mentir com o maior descaramento.

DERIGNY - Perdão, meu General, mas não posso obedecer-lhe imediatamente, porque precisamos de Vassili para nos ajudar a preparar os quartos. A Sra Papofski deve estar a chegar.

GENERAL - Tem razão, meu amigo; mas, logo que tudo esteja pronto, leve-o ao intendente e recomende-lhe que lhe dêem cem chicotadas valentes.

- Está muito bem, meu General - respondeu Derigny, resolvido a não dizer nada e a conseguir que a sentença fosse revogada.

Continuaram a percorrer os quartos, que encontraram na mesma, sujos e desguarnecidos de móveis. Derigny teve dificuldade em acalmar o furor do general, prometendo-lhe remediar tudo, o melhor possível.

- Só lhe peço que me mande pessoal para me ajudar, meu General - disse ele. - Dentro de meia hora estará tudo arranjado.

O general voltou-se para Vassili e ordenou:

- Vai buscar todos os criados e que executem as ordens de Derigny. Quanto a ti, vai esperando, que não perdes com a demora, meu ladrão! Derigny se encarregará de te mandar dar as cem chicotadas.

Vassili, pálido como um defunto, e tremendo como varas verdes, correu a executar as ordens recebidas. Pouco depois voltou, acompanhado por vinte e dois homens. Derigny, que se fazia compreender razoavelmente em russo, começou por tranquilizar Vassili quanto ao castigo prometido. Por seu lado, Vassili jurou que fora o intendente quem se instalara naqueles belos quartos, levando, além disso, os móveis para mobilar a sua casa de habitação.

- Quanto a mim, senhor, juro-lhe que só fiquei com os móveis velhos, que o intendente não quis. Pergunte-lhe, mesmo a ele, se isto não é verdade!

DERIGNY - Está bem, está bem! Isso não é comigo. Farei o possível para que o general lhe perdoe. Quanto ao resto, arranje-se como quiser, lá com o intendente.

Começaram a transportar os poucos móveis que acharam; em menos de meia hora tudo se encontrava transformado: as janelas tinham cortinas, as camas estavam feitas, os lavatórios completos e tudo nos seus lugares. Havia um quarto para a Sra Papofski e dois para as crianças e as respectivas criadas. Os minutos iam passando e a Sr á Papofski não havia maneira de chegar. O general ia e vinha, admirando a actividade e inteligência de Derigny e de sua mulher, que haviam conseguido dar aos quartos um aspecto confortável e limpo. Tiago e Paulo ajudavam-nos alegremente. Ao ver as colchas, travesseiros, almofadas e um belo leito de madeira, largo e cómodo, o general não compreendia como tudo aquilo tinha aparecido e perguntava:

- Que é isto? Onde estava isto? Quem fez isto?

CRIADO - Foram os franceses, Excelência. Tudo isto estava no quarto deles.

GENERAL - Oiça cá, Derigny, foi você quem fez este leito? Foi a sua mulher quem fez toda esta roupa de cama à moda francesa? Mas é esplêndido! Vou ter inveja da minha sobrinha. Fica muito mais bem instalada do que eu!

DERIGNY - Se o meu General deseja um leito igual a este, eu e minha mulher temos muito gosto em lhe arranjar um. E como é para o meu General, ainda o faremos melhor e mais bonito.

GENERAL - Aceito, meu amigo, aceito com prazer. Fornecer-lhe-ão tudo de que precisar e terá as pessoas que quiser para o ajudar. Mas. que terá sucedido a minha sobrinha? Já devia ter chegado. - E, dirigindo-se a um criado, o general ordenou: - Nikita, manda montar a cavalo um postilhão, para ir ao encontro da minha sobrinha, saber o que sucedeu.

Nikita partiu como um relâmpago. O general continuou a sua inspecção, cada vez mais satisfeito e admirado com as invenções de Derigny, que desguarnecera o seu próprio quarto para mobilar e decorar o da Sr. a Papofski.

 

           A Senhora Papofski e os seus filhos

Quando o general terminou a revista minuciosa que estava passando aos aposentos destinados aos seus hóspedes, ouviram-se gritos e ralhos no pátio.

GENERAL - Que sucedeu? Derigny, você, que pode correr, vá ver do que se trata. Com certeza que aconteceu alguma coisa à minha sobrinha, ou aos pequenos. Eu vou mais devagar.

Derigny partiu. Os criados russos já tinham desaparecido; ouviam-se os seus gritos juntarem-se aos dos colegas. O general apressou o passo quanto pôde, mas o palácio era grande e a distância a percorrer longa. Ninguém regressava, e o general começava a irritar-se e a respirar com dificuldade, quando Derigny apareceu.

- Não se assuste, meu General; não é nada de grave. Foi a carruagem da Sr á Papofski que chegou, puxada por seis cavalos, a galope, mas sem trazer ninguém dentro.

GENERAL - E parece-Lhe que isso não é grave? Que mais queria? Morreram todos, com certeza.

DERIGNY - Perdão, meu General; a carruagem não vem partida; coisa alguma indica um acidente. O postilhão está convencido de que desceram todos em qualquer parte, e os cavalos partiram antes que os pudessem segurar.

GENERAL - O postilhão é um imbecil. Mande-o vir aqui, para eu lhe falar.

Enquanto o general continuava a dirigir-se para o pátio da entrada, Derigny foi buscar o postilhão. Todo o pessoal estava reunido junto da carruagem e ninguém respondeu ao chamamento de Derigny, que teve dificuldade em chegar junto da portinhola aberta, ao pé da qual estava o homem que procurava. Com grande surpresa viu que, afinal, a carruagem não estava vazia. Lá dentro havia uma criança de três ou quatro anos, dormindo profundamente sobre um dos assentos. Derigny voltou imediatamente para junto do general, a dar-lhe conta do que se passava.

- Que o Diabo me leve se eu compreendo alguma coisa disto! - exclamou o general.

Desceu, aproximou-se da carruagem, falou ao postilhão, afastou os criados à bengalada - não com muita força, diga-se a verdade, apenas o suficiente para os manter à distância. A miudagem, essa então tratou de fugir para longe.

GENERAL - É verdade! Aqui está um petiz dormindo tranquilamente! Começo a crer que o postilhão acertou. Deixaram o pequenito na carruagem porque estava a dormir. A minha sobrinha deve estar na estrada com os outros filhos e as criadas.

Sem perder tempo, o general ordenou que atrelassem os melhores cavalos à sua grande carruagem, visto aqueles estarem estafados, e que partissem imediatamente ao encontro da Sra Papofski. Tranquilizado já, quanto à sobrinha, começou a rir às gargalhadas, pensando na figura que ela devia fazer, a pé, ao longo da estrada, com sete crianças e a criadagem.

-Gostava de presenciar aquele espectáculo - exclamava ele. - Que bela história A carruagem a desaparecer e eles todos a gritar! A minha sobrinha deve estar furiosa. Conheço-a muito bem e estou a vê-la a puxar pelos filhos, a ralhar às criadas.

No momento em que a carruagem ia partir, ouviram-se novos gritos.

- Que vem a ser isto - perguntou o general, com impaciência. - Não oiço senão gritar!

O intendente, de vara na mão, preparava-se para pôr os criados dali para fora, quando um novo incidente veio explicar a gritaria que tanto irritara o general. Numa curva da estrada apareceu uma grande carroça, tão cheia de gente, que os cavalos mal podiam avançar. Dentro, no banco do cocheiro, nos estribos, havia homens, mulheres, crianças. O general olhava espantado, adivinhando que a carroça transportava, além da bagagem, todos os viajantes da carruagem.

GENERAL - Que entrada triunfal! Vêm todos empilhados na carroça da bagagem e dos criados. Ah ah ah Os cavalos estão quase a rebentar! E a cabeça da minha sobrinha a espreitar no meio de tudo aquilo! Como ela grita! Está furiosa! Fula!

O general esfregava as mãos, de contentamento, e ria a mais não poder ser. Deixou-se ficar no patamar, para ver esvaziar-se aquela Arca de Noé. A princípio, a Sra Papofski não viu o tio. Atirava para a direita e para a esquerda tudo quanto lhe servia de obstáculo, até que conseguiu descer da carroça com a ajuda do postilhão, que viera anunciar a sua chegada.

Logo que se viu no chão, deu duas tremendas bofetadas no desgraçado, exclamando:

- Parvo! Animal! Eu te ensinarei a não me abandonares assim, correndo como um doido, sem olhar para trás! Hei-de pedir ao meu tio que te mande dar cem chibatadas.

POSTILHÃO - Perdoai-me, Maria Pétrovna: eu parti, a correr, para cumprir as vossas ordens, que eram "correr sem parar, tão depressa quanto o cavalo pudesse aguentar".

SRa PAPOFSKI - Cala-te, insolente, imbecil! Verás! O meu tio vai fazer-te em postas.

GENERAL (rindo) - Nada disso! Estás enganada, minha sobrinha! Não farei coisa alguma, pois compreendo perfeitamente como as coisas se passaram. Não, não é bem assim; ordeno que levem o postilhão à cozinha e Lhe dêem um bom jantar, kvas (*) e cerveja.

SRa PAPOFSKI (embaraçada) - Ah! O tio estava aí? Não o tinha visto! Estou tão contente, tão feliz por tornar a vê-lo, que nem sei o que digo! Contrariava-me tanto chegar atrasada! Tinha tanto desejo de o abraçar!

Ao dizer isto, a Sr á Papofski lançou-se nos braços do general, que a recebeu friamente e mal lhe retribuiu os numerosos beijos que ela Lhe dava na fronte, nas faces, nas orelhas, no pescoço, onde calhava.

 

(*) Bebida russa, semelhante à sidra

 

SRa PAPOFSKI - Venham, meus filhos, venham beijar a mão do vosso tio, o vosso bom tio, que é tão bom, tão corajoso, tão querido de todos nós!

E, pegando na mão dos filhos, um a um, encaminhava-os para o general, de quem eles se aproximavam com pavor. O mais novito, que acabava de acordar, principiou a gritar e a espernear com toda a força, gritando:

- Não quero! Ele vai bater-me, não quero beijá-lo!

A mãe chegou ao pé da criança, deu-lhe um beliscão no braço, ao mesmo tempo que lhe dizia, em voz baixa, junto da orelha:

- Se não dás um beijo ao tio, chicoteio-te até te desfazer.

O pobre Ivane reprimiu os soluços e estendeu ao general as faces banhadas de lágrimas. O tio pegou-lhe ao colo, beijou-o e disse-lhe, sorrindo:

- Não, meu filho, não te baterei. Quem te disse isso?

IVANE - Foi a mamã e Sonushka. É verdade que não me dará chicotadas?

GENERAL - Não, meu amiguinho; pelo contrário, dar-te-ei mimo.

IVANE - E não deixa a mamã bater-me?

GENERAL - Podes estar sossegado. O general pôs o pequenito no chão, afastou as outras crianças que se lhe penduravam nos braços, nas pernas, e saltavam à sua volta, para o abraçar. Depois, oferecendo o braço à sobrinha, disse:

- Vem, Maria Pétrovna; o teu quarto foi arranjado à francesa, pelo meu bravo Derigny, que está aqui - acrescentou ele, apresentando-o à Sra Papofski. - Sua mulher e seus filhos também o ajudaram. Têm belas ideias e são habilidosos, como todos os franceses. É uma boa e honesta família, a quem eu espero que tratarás com bondade.

SRa PAPOFSKI - Com certeza! Basta o tio gostar tanto deles, para eu os estimar também - e, voltando-se para Derigny, cumprimentou-o com um sorriso forçado e um olhar desconfiado: - Muito prazer em conhecê-lo, Derigny! Seremos bons amigos, não é verdade?

Derigny saudou-a respeitosamente, sem lhe responder.

SRa PAPOFSKI (com modo desagradável)Venham, meus filhos, não façam esperar o tio. Tu, Sonushka, vai ao lado do tio para o amparar.

GENERAL - Muito obrigado! Eu ando bem sozinho; ainda não estou na segunda infância. Derigny não costuma pôr-me cueiros nem touquinha.

SRa PAPOFSKI - Que engraçado que o tio é! Que espírito!

GENERAL - Realmente? O que eu digo tem graça? Não sabia que era assim tão espirituoso.

SRa PAPOFSKI (beijando-o) - Ah! meu tio, que modéstia! Não sabe a metade, um quarto das suas próprias virtudes e qualidades.

GENERAL (friamente) - É natural, porque não me conheço bem. Mas deixemo-nos de disparates. Explica-me como deixaram fugir a carruagem e por que razão se meteram todos na carroça, como uma companhia de saltimbancos.

Os olhos da Sr á Papofski brilharam de raiva, mas conteve-se e respondeu, a rir:

- Não é verdade que fizemos uma figura ridícula? O tio, com certeza, fartou-se de rir ao ver-nos chegar assim?

GENERAL - Ah ah ah Não há dúvida, ri com gosto e continuarei a rir Principalmente da tua cólera contra o pobre postilhão. A cara de espanto com que ele recebeu as bofetadas que lhe deste! Foram dadas com "mão de mestre". Vê-se bem que estás habituada.

SRa PAPOFSKI - Que quer, meu tio, não há outro remédio: oito crianças, uma multidão de criadas e criados! Que há-de fazer uma pobre mulher como eu, a quem o marido abandonou, deixando-a sem protecção, sem fortuna? Sou muito feliz em tê-lo a si, meu tio, pois certamente vai ajudar-me a sair de embaraços.

GENERAL (com frieza) - Afinal, não respondeste à minha pergunta. Porque chegou a carruagem primeiro que tu e os pequenos?

SRa PAPOFSKI - Perdão, meu bom tio. sinto-me tão feliz por vê-lo e ouvi-lo, que esqueço tudo o mais. Nós tínhamos descido para desentorpecermos as pernas e andar um bocado. Ordenei ao cocheiro e ao postilhão que se apeassem também. O meu segundo filho, o Yégor, lembrou-se, então, de apanhar um ramo de árvore na floresta e bater com ele nos cavalos. É claro que os animais partiram à desfilada. Mandei o cocheiro e o postilhão correr quanto pudessem, mas não conseguiram alcançar os malditos cavalos. Castiguei o Yégor e su bimos todos para a carroça da bagagem e dos criados, que nunca mais avançava, porque os cavalos mal podiam com tanta carga. Mandei os criados empurrar; mas aqueles estúpidos, dez minutos depois, estavam cansados e caíam na estrada. Creio mesmo que um ficou estendido não sei onde. Chegará mais tarde.

Ao ouvir isto, o general, voltando-se para os criados, ordenou que fossem imediatamente, com uma charrette, à procura do desgraçado.

SRa PAPOFSKI - Ah, meu querido tio! Como é bom! Mais do que bom, admirável!

GENERAL (deixando o braço da sobrinha)

- Basta, Maria Pétrovna; não gosto dos aduladores e detesto as lisonjas. Aqui tens o teu quarto.

A Sra Papofski corou; ao entrar, encontrou-se em frente da Sra Derigny e dos filhos, que acabavam de arrumar e embelezar o quarto. Helena cumprimentou a recém-chegada; Tiago e Paulo fizeram uma reverência. A Sra Papofski olhou para eles com altivez, fez uma ligeira inclinação de cabeça e passou. O general, descontente com a atitude da sobrinha, voltou-lhe as costas, sem pronunciar uma palavra, fez sinal a Helena e aos pequenos para que o acompanhassem, e saiu, fechando a porta. Encontrou no corredor os oito filhos da Sr á Papofski, encostados à parede.

GENERAL - Que fazem os meninos aqui?

SONUSHKA - Estamos à espera de que a mamã nos deixe entrar.

GENERAL - O quê? São parvos? Então não podem entrar sem licença?

MITINEKA - Não, meu tio! A mamã ficaria furiosa.

GENERAL - E que faz ela quando se zanga?

YÉGOR - Bate-nos e puxa-nos os cabelos. GENERAL - Esperem aí; vou já fazê-los entrar. Venham atrás de mim e não tenham medo. Tiago, Paulo! Façam de guarda avançada, e depois ajudem estas crianças a instalar-se nos seus quartos.

O general dirigiu-se à porta que dava para os quartos dos pequenos e mandou-os entrar. Depois abriu a porta que comunicava com o quarto da sobrinha e disse em voz muito alta:

-Minha sobrinha: trouxe os pequenos para o quarto; vou mandar chamar as criadas e fecho esta porta, para que só possas vir aqui passando pelo corredor.

SRa PAPOFSKI - Não, não, meu tio. Deixe a porta aberta! Preciso de entrar quando ouvir ruído, para os corrigir. Imagine o que sofro, uma pobre mulher sem amparo, sem fortuna. Não tenho mais ninguém para os educar.

GENERAL - Tenho muita pena, mas será como eu disse. De contrário, não te ajudarei em coisa alguma. E se durante a tua estada aqui, eu souber que maltratas os teus filhos ou as tuas criadas, provar-te-ei o meu desagrado. no meu testamento.

SRa PAPOFSKI - Faça como quiser, meu bom tio. tenha a certeza de que.

Tre-tre-tre, a chave deu a volta na fechadura. A porta ficou fechada. A Sra Papofski sentiu o coração cheio de fel, mas pensou nos seiscentos mil rublos de rendimento do tio, na sua generosidade que todos conheciam, na sua idade avançada, nos ferimentos que ele tinha recebido. Estes pensamentos acalmaram-se e restituíram-lhe o bom humor. Dispôs-se a fazer a sua "toilette", e como o tio somente lhe proíbira que batesse, achou que podia arreliar, à vontade, as duas criadas que estavam naquele momento junto dela. A verdade, porém, é que as pobres criaturas, embora ela lhes falasse com mau modo e achasse defeitos em tudo quanto faziam, sentiam-se felizes e surpreendidas por não apanharem os costumados sopapos e beliscões.

 

           Primeira disputa

Os pequenos Papofski olhavam, surpreendidos, para Tiago e Paulo. Nem um nem outro lhes beijavam as mãos, nem lhes faziam as habituais reverências até ao chão. Conservavam-se direitos e despreocupados, sorrindo, para eles.

MITINEKA - Quem são estes dois rapazes que não dizem nada, meu tio?

GENERAL - São dois franceses, duas excelentes crianças. O mais velho chama-se Tiago e o outro Paulo.

SONUSHKA - Porque é que eles nos não beijam as mãos?

GENERAL - Porque vocês são uns garotos e eles só beijam a mão aos pais.

TIAGO - E a sua, senhor General.

- Eles falam francês! Sabem francês! gritaram Sonushka, Mitineka e mais dois ou três irmãos.

GENERAL - Pois com certeza! E falam melhor do que vocês ou do que eu próprio.

PAVLOUSKA - Eu posso brincar com eles? GENERAL - À tua vontade. Mas eu não quero que os atormentem. Vamos, tenham juízo! Aqui estão as criadas e as malas. Eu, agora, vou-me embora. E preciso que estejam prontos para o jantar daqui a uma hora.

O general saiu, depois de lhes ter acariciado as faces, recomendando às criadas que conduzissem as crianças à sala de jantar, à hora marcada.

- Brinquemos! - disse Mitineka. SONUSHKA - A que havemos de brincar? MITINEKA - Ao cavalo. Vai-nos buscar uma corda, Tiago.

TIAGO - Para quê? Querem uma corda grande ou pequena? Fina ou grossa?

MITINEKA - Muito grande e muito grossa. Despacha-te, vai depressa.

Tiago foi buscar a corda, mas não correu, como a pequena queria. Desagradava-lhe o tom imperioso de Mitineka, mas, como se tratava dos sobrinhos do general, achou que devia obedecer sem protestar.

Enquanto ele procurava a corda, Yégor, que tinha oito anos, aproximou-se de Paulo e disse-lhe:

- Põe-te de gatas para eu montar. Serás o meu cavalo.

Paulo era condescendente e pôs-se a "quatro pés". Yégor saltou para cima dele e ordenou-lhe que andasse depressa, cada vez mais depressa. Paulo fez o que pôde.

- Mais depressa! Mais depressa - gritava Yégor. - E, dirigindo-se aos irmãos, ordenou:

- Nikalai, Mitineka, Pavlouska, chicoteiem o meu cavalo para ele andar mais depressa.

Os três pequenos pegaram, cada um, na sua varinha e começaram a bater em Paulo. O pobre pequeno quis levantar-se, mas lançaram-se todos sobre ele e obrigaram-no a ficar de gatas. Paulo gritava por Tiago, para que lhe acudisse, mas, por desgraça, o irmão estava longe e não podia ouvi-lo.

- A galope! - gritava Yégor, sempre montado nas costas do pequenito - Ah! Tu és um mau cavalo! não passas de uma pileca! Dêem-lhe com o chicote! Força!

Paulo gritou tanto que a Sra Derigny acabou por ouvir os seus gritos. Correu, aflita, para o quarto das crianças, pôs Yégor no chão, afastou os outros e tirou-lhes das mãos o pobre Paulo, que estava verdadeiramente aterrorizado.

- Que crianças terríveis - exclamou ela, indignada. - O Paulo não tornará a brincar com os meninos!

- A senhora é que é impertinente! - disse Sonushka. - Hei-de dizer ao tio que a mande chicotear.

A Sra Derigny soltou uma gargalhada, que irritou mais ainda os pequenos mais velhos, e saiu com Paulo, sem Lhes responder. Nesse mo mento, chegava Tiago com a corda; admirado de ver o irmão a chorar, julgou que Helena o levava para o castigar.

- Perdoe-lhe, mamã! - exclamou ele. O Paulo ainda é muito pequeno, não sabe o que faz! Deixe-o brincar com os sobrinhos do general.

Quando soube, porém, o motivo pelo qual a Sra Derigny levava Paulo, indignou-se e quis ir queixar-se a Dourakine. Helena, porém, não lho permitiu, e disse:

- Não devemos incomodar o nosso bom amigo. Vocês não brincarão mais com esses endiabrados pequenos e estará tudo acabado.

- Não lhes darei a corda! - disse Tiago, beijando o irmãozinho e seguindo a mãe adoptiva. - Fizeram- te mal, meu querido Paulo? - perguntava ele, cheio de carinho.

A Sra Derigny dirigiu-se aos seus aposentos, que estavam em grande desordem, pois tinham levado os móveis para os quartos da sobrinha do general e dos filhos. Mandou então os pequenos procurar o pai.

TIAGO - Vi agora mesmo o papá atravessar o pátio com uns embrulhos enormes. Vamos ter com ele.

Assim fizeram. Foram os três ao encontro de Derigny. Logo que o avistaram, Tiago perguntou:

- Que traz aí, papá?

DERIGNY - Almofadas e cobertores. Os nossos foram para a Sra Papofski e para os filhos.

PAULO - Devemos tirar-lhos; eles são muito maus; bateram-me e fizeram-me andar a galope! já nem podia respirar! Yégor é tão pesado que me ia matando.

DERIGNY - O quê? Já começaram? Não quero que tornem a brincar com eles.

TIAGO - Foi o que a mamã disse. Se eu lá estivesse não os deixaria bater no Paulo, porque me atiraria a eles com toda a força!

DERIGNY (sorrindo) - Estavas servido! Bater nos sobrinhos do general seria uma coisa grave. O próprio general ficaria contrariado, e com razão.

TIAGO - Mas eu não posso consentir que maltratem o Paulo.

DERIGNY - Com certeza, meu rapaz! O que tinhas a fazer era vires-te embora, com ele, antes que lhe fizessem mal. E como és forte e valente, não terias dificuldade em te desembaraçares deles sem lhes bater.

TIAGO - Está bem, papá; já sei como hei-de fazer para outra vez.

PAULO - Eu não quero brincar mais com aqueles malcriados!

SR" DERIGNY (beijando-o) - É o melhor que tens a fazer, meu amor! Mas, com a conversa, esquecemo-nos de que o papá está carregado de coisas enquanto nós temos as mãos vazias.

DERIGNY - Obrigado! Isto é pesado de mais para vocês.

Helena fez sinal a Tiago e a Paulo, e os dois pequenos lá conseguiram, depois de alguns esforços, tirar uns embrulhos ao pai.

Seguiram depois, conversando alegremente, para os seus quartos, procurando todos trabalhar o mais possível, para lhes dar novamente um aspecto bonito e confortável.

Quando tudo já estava quase pronto, entrou o general. Vinha de má catadura: congestionado, de olhos brilhantes, testa enrugada, mãos atrás das costas.

- Derigny! - disse ele, com voz rouca.

DERIGNY - Meu General!

GENERAL - A sua mulher, e os seus filhos. Por que demónio procuras tu esconder-te, Tiago? Deixa-te ficar! Porque tens medo? TIAGO - Tenho medo porque adivinho o que o senhor General vai dizer. Vejo que está zangado e não sei como hei-de justificar-me.

GENERAL - E que julgas tu que eu vou dizer?

TIAGO - Vai acusar-me, à mamã e ao Paulo, de ter faltado ao respeito aos filhos da sua sobrinha.

GENERAL - Ah, Nesse caso é verdade! Por isso adivinhaste logo.

TIAGO - Não, meu General; é falso.

GENERAL - É falso? Nesse caso sou um mentiroso, um caluniador?

TIAGO - De maneira nenhuma, meu querido e bom General. Mas. Eu não quero dizer nada. O papá disse-me que não o devíamos incomodar, contando-lhe as maldades dos seus sobrinhos.

O general voltou-se para Derigny. A sua expressão tornou-se mais doce e o seu olhar afectuoso.

GENERAL-Obrigado, meu bravo Derigny. E tu, Tiago, obrigado também pelo que me disseste e pelo que não me disseste. Mas peço-te que me contes francamente o que se passou, explicando-me, assim, a razão pela qual a minha sobrinha está tão furiosa.

TIAGO (com hesitação) - Perdão, meu General. eu preferia não dizer nada. Talvez se vá zangar. ou talvez não acredite. Nesse caso, eu sou capaz de me zangar, e não devo.

GENERAL (sorridente) - Ah! És capaz de te zangar? E que farás tu! Ralhas-me? Bates-me?

TIAGO - Não, Senhor General. Não faria semelhante coisa; mas, no meu íntimo, zangar-me-ia consigo e não continuaria tão seu amigo. Ora, isto é muito mal feito, porque o Sr. General tem sido tão bom para o papá e a mamã, para o Paulo e para mim, que eu teria vergonha de me zangar consigo, mesmo que fosse só durante alguns minutos.

GENERAL (comovido e afagando-Lhe as faces) - Está bem, meu mau rapazinho. Gostas, então, realmente de mim, apesar do meu génio, das minhas cóleras e das minhas injustiças?

TIAGO (beijando-lhe a mão) - Oh! Meu General, gosto muito! Todos nós gostamos muito de si.

GENERAL - Meus bons amigos! E eu também os estimo muito! Vós sois os meus verdadeiros e únicos amigos, sem lisonjas nem sentido interesseiro! Acredito em tudo quanto me disserem e quero que sejam felizes!

O general, cada vez mais comovido, enxugava as lágrimas com uma das mãos e continuava a acariciar as faces de Tiago com a outra. A porta abriu-se, devagar, e apareceu a cabeça de Yégor, que disse, em tom autoritário:

- Meu tio, a mamã pede-lhe que lhe mande imediatamente o garoto francês e a mãe, para os mandar chicotear na frente dela.

O general voltou-se; o rosto tomou-lhe uma expressão terrível.

- Entra! - ordenou ele, com voz de trovão. Yégor entrou.

GENERAL - Dize à tua mãe que, se ela se atreve a tocar em qualquer dos "meus" franceses, que são meus amigos, meus filhos - ouves bem? meus. filhos - mandá-la-ei chicotear diante de mim, até lhe arrancarem a pele das costas. Vai, meu patife, mentiroso, vai ter com os teus irmãos, que são tão bons como tu. E tenham cuidado! Se eu sei que fizeram mal aos meus amiguinhos Tiago e Paulo, comigo se hão-de haver.

Yégor retirou-se, trémulo e assustado. Correu para junto da mãe e dos irmãos, e contou-lhes o que o tio acabara de dizer.

A Sra Papofski chorou de raiva; as crianças estremeceram de pasmo. Depois de alguns instantes, a Sr á Papofski conseguiu dominar a sua cólera, pensando nos seiscentos mil rublos de rendimento do general. Reflectiu e acalmou-se. Depois, dirigindo-se aos filhos, disse-lhes:

-Escutem-me: quero que sejam agradáveis, condescendentes e até meigos para os pequenos franceses. Se um de vocês lhes disser ou fizer a mais pequena injúria, ou lhes causar a menor contrariedade, será castigado sem piedade. E bem sabem como eu sou capaz de os castigar, quando estou zangada.

As crianças tremeram e prometeram não aborrecer nunca os dois irmãos franceses.

- E quando os encontrarem, hão-de pedir-lhes desculpa, ouviram?

- Sim, mamã! - responderam as crianças

em coro.

 

         As habilidades da Sr á Papofski

Enquanto a Sr á Papofski aconselhava os filhos a serem dissimulados e aparentemente condescendentes, conselhos que eles não seguiram, como veremos mais adiante, o general acalmava Derigny, que estava fora de si, com a ideia dos maus tratos que sua mulher e seus filhos teriam sofrido, sem a intervenção do bom general, a quem Tiago contou, por sua vez, tudo quanto se passara.

GENERAL - Não se aflija, meu amigo. Conheço a minha sobrinha! Sei muito bem a razão por que ela veio a Gromiline com os filhos. Sei perfeitamente que não foi por mim, mas sim pelo meu dinheiro. Já fiz o meu testamento. Não lhes deixo nem um rublo. Não sou tão

parvo como pareço. Conheço os amigos e os inimigos; os bons e os maus. Até logo, minha boa Srá Derigny. Venha, Derigny; o jantar deve estar servido; como você é o mordomo, não podemos dispensá-lo. Virá depois jantar e conversar com a sua mulher e os seus filhos.

O general saiu, seguido de Derigny, e dirigiu-se ao salão, onde encontrou a sobrinha com os quatro filhos mais velhos, que o esperavam. Os outros pequenos, que tinham apenas seis, cinco, quatro e três anos, ainda comiam nos aposentos.

O general entrou, de testa franzida. Apesar disso, ofereceu o braço à sobrinha e conduziu-a à sala de jantar. A Sr á Papofski sentia-se embaraçada; não sabia que atitude devia tomar, e olhava disfarçadamente para o tio. Depois da sopa, encheu-se de coragem e começou a falar:

- Oh, meu tio! Achei imensa graça quando o Yégor me contou o que o tio dissera. Que original que o tio é! Diz coisas tão engraçadas!

GENERAL - Creio que o que disse era verdadeiro de mais para te divertir, Maria Pétrovna. Depende de ti que eu faça, ou não, o que Yégor te comunicou.

- Oh meu tio - continuou a Sr á Papofski, muito risonha, apesar de estar quase a rebentar de raiva. - Como pôde acreditar o que lhe dissera o pateta do Yégor! É estúpido e não compreendeu o que eu Lhe expliquei.

GENERAL - Mas eu compreendi perfeitamente e repito agora o que lhe disse a ele: desgraçado daquele que tocar num cabelo dos meus franceses!

SRa PAPOFSKI - Mas, meu tio, o Yégor trocou tudo! Eu tinha-Lhe dito que me mandasse os seus amigos franceses para verem chicotear uma das minhas criadas, que foi atrevida. O tio, como é muito bom, raramente manda castigar os criados. E eu pensei que este espectáculo devia diverti-los.

O general olhou para ela com surpresa e desprezo. Aquela mentira era tão grosseira, que ele chegava a sentir-se ferido com o juízo que a sobrinha fazia da sua inteligência. Fitou-a durante um instante com os olhos brilhantes de cólera, mas depois, vendo Derigny com uma expressão aflita e suplicante, conseguiu acalmar-se.

GENERAL - Falemos de outra coisa. Como está a tua irmã Natália Pétrovna?

SRa PAPOFSKI - Muito bem, meu tio; sempre bem.

GENERAL - Julguei que estava doente desde a morte do marido.

SRa PAPOFSKI - Pelo contrário, está alegre, diverte-se, dança! Não pensa noutra coisa.

GENERAL - Mas o seu vizinho Nassofkine escreveu-me, há dias, e diz-me que ela chora constantemente e não vai a parte alguma.

SRa PAPOFSKI - Não acredite, meu tio. Esse Nassofkine é um mentiroso, bem sabe.

GENERAL - E os filhos?

SRa PAPOFSKI - São insuportáveis, detestáveis.

GENERAL - Nassofkine disse- me que Natasha, a filha mais velha, que tem quinze anos, é encantadora, e os dois rapazes, Alexandre e Miguel, são também muito simpáticos.

SRa PAPOFSKI - Como esse homem mente! São os três feios e terríveis!

GENERAL - É singular! Vou escrever a Natália Pétrovna, para que venha visitar-me com os filhos. Quero vê-los.

SRa PAPOFSKI - Não vale a pena escrever, meu tio. Ela não virá.

GENERAL - Porquê? Quando era nova, gostava muito de mim.

SRa PAPOFSKI - Está convencido disso? Bem digo eu que o tio é muito bom. Ela não virá, porque sabe que o tio vive muito isolado, e tem medo de se aborrecer. Além disso, quer casar a filha, e como não tem absolutamente nada, anda a ver se arranja algum ricaço, velho e feio.

GENERAL - Exactamente. É o meu caso: rico, velho e feio! Natália Pétrovna far-me-á a corte e eu darei um dote à filha.

A Sra Papofski empalideceu e sentiu um arrepio. Pensou na herança e não foi capaz de esconder a sua preocupação. O general observava-a disfarçadamente. Estava radiante com a ideia do susto que acabava de causar àquela sobrinha, de quem não gostava, e com o projecto da visita da outra, de quem conservava a melhor recordação. Por fim, como a Sra Papofski continuasse a querer dissuadi-lo de convidar a irmã para vir a Gromiline, o general resolveu mostrar-se convencido, e chegaram à sobremesa na melhor disposição.

No seu íntimo, o general estava contentíssimo com a "partida" que preparava à sobrinha, que, por seu lado, procurava, com os seus exageros, tornar-se agradável a Derigny.

- Como sabe trinchar bem! - dizia ela. É um chefe de mesa perfeito! Como o Derigny serve bem! É um tesouro que o tio aqui tem! Vê tudo, atende a todos, sem uma falha! Que feliz eu seria, se o tivesse ao meu serviço!

GENERAL - É natural que não tenhas nunca essa felicidade.

SRa PAPOFSKI - Porquê, meu tio? Ele é tão novo, tão forte!

GENERAL (com ironia) - E eu sou tão velho! Estou tão acabado.

SRa PAPOFSKI - O tio agora foi mau! Como pôde supor?

GENERAL - Naturalmente, dizes que ainda podes vir a ter Derigny ao teu serviço, porque ele é novo e forte. Nesse caso é porque esperas que isso suceda depois da minha morte. Não, não, minha amiga; o meu bravo Derigny não te servirá a ti, nem a mais ninguém. Estará ao meu serviço até à minha morte; depois ficará ao serviço de si próprio e viverá com a sua excelente mulher e os seus filhos.

A Sra Papofski mordeu os lábios e não falou mais. Depois do jantar, o general foi passear, e todo o grupo o seguiu. Sonushka, a um sinal da mãe, colocou-se ao lado do tio, procurando animar a conversa. Depois de várias tentativas inúteis, lembrou-se de dizer:

- Ah, meu tio, gosto muito dos franceses! O general continuou calado.

SONUSHKA - Meu tio, gosto muito dos dois irmãos franceses. Queria poder brincar com eles.

GENERAL - Mas eles é que não quererão brincar com vocês, porque sois implicativos, maus e mentirosos.

SONUSHKA - O Yégor é que foi mau, mas nós não o deixaremos tornar a ser.

GENERAL - Basta, basta, minha pobre Sonushka. Aprendeste bem a lição. Falemos noutra coisa. Gostas da tua tia Natália Pétrovna?

SONUSHKA - Nem por isso. meu tio.

GENERAL - Porquê?

SONUSHKA - Porque ela está sempre triste; depois que o tio foi morto em Sebastopol, ela não faz outra coisa senão chorar; como não recebe visitas, a casa dela é muito aborrecida.

GENERAL - E os filhos?

SONUSHKA - Também são aborrecidos, porque estão sempre ao pé da mãe.

GENERAL - Porque estão eles sempre ao pé da mãe? É ela que os obriga?

SONUSHKA - Oh! não, meu tio, pelo contrário, ela quer que eles saiam e se divirtam. Mas eles preferem ficar.

GENERAL - São feios?

SONUSHKA - Não. Natasha é muito bonita, mas anda sempre tão mal vestida! A tia Natália é tão pobre! E os outros também são bonitos.

- Ah Ah - exclamou o general. E continuou o seu passeio.

À noite, quando se reuniram, o general perguntou à sobrinha se o cheiro do tabaco lhe era desagradável.

SRa PAPOFSKI - Absolutamente nada, meu tio! Até gosto imenso! Lembro-me perfeitamente de que o tio fumava muito, quando eu era pequenita. E eu, só por sua causa, habituei-me também a gostar.

O general olhou para ela com ar trocista e principiou a fumar até que, por fim, adormeceu, comodamente recostado na sua poltrona.

As crianças foram-se deitar. A Sr á Papofski foi bater à porta de Derigny, que estava ainda à mesa, com a mulher e os filhos.

O general ordenara que as refeições lhes fossem servidas nos seus aposentos.

- Pode entrar! - disse Helena.

Ao ver que era a Sra Papofski, a mulher de Derigny fez-se muito corada. Derigny teve um momento de surpresa. Tiago e Paulo exclamaram:

- Oh! - tal foi o espanto. Levantaram-se todos e receberam-na com a maior cortesia.

- Não se incomodem - exclamou a Sra Papofski - Venho apenas para lhes dizer que os meus filhos estão muito apoquentados por terem feito chorar, sem quererem, o vosso pequenito. Já ralhei com eles; o caso não se repetirá. Como os vossos filhos são encantadores Quero beijá-los.

A Sra Papofski aproximou-se de Tiago e Paulo, que recuaram, evitando o contacto da sobrinha do general, mas Derigny fez-lhes sinal para que se deixassem beijar.

- Encantadores! - repetiu ela, ao sair. Depois, voltando-se para Derigny e Helena, acrescentou: - Até amanhã. Não se esqueçam de dizer ao meu tio que eu acho os vossos filhos encantadores!

Retirou-se, sorrindo, deixando o casal Derigny espantado e indignado.

HELENA DERIGNY - Que hipócrita! É incrível!

DERIGNY - Chega a ser estupidez. Como vê que o general é nosso amigo, resolveu "fazer-nos a corte", em vez de nos maltratar.

PAULO - Eu não gosto desta senhora. Tem cara de má. Quando me beijou, há bocadinho, julguei que ia morder-me.

Derigny sorriu, olhou para a mulher, que ria com vontade, e beijou Paulo.

DERIGNY - Descansa. Não te morderá enquanto o general aqui estiver.

PAULO - E se ele se fosse embora?

DERIGNY - Nesse caso, far-nos-ia todo o

mal que pudesse. Mas, se o general partir, levar-nos-á também.

TIAGO - E se o general morrer?

DERIGNY - Que Deus nos defenda dessa

desgraça! Nesse caso, vamo-nos embora imediatamente.

HELENA DERIGNY - Esperemos que tal não aconteça tão cedo. Tenhamos confiança em Deus!

- Toc toc Podemos entrar? – disseram várias vozes infantis.

-Eis uma nova invasão do inimigo

- murmurou Derigny, a sorrir. Depois, disse

em voz alta - Podem entrar!

Os oito pequenos Papofski precipitaram-se

no quarto, rodearam Tiago e Paulo, beijando-os com a maior ternura.

- Vimos pedir-lhes perdão! - gritaram os quatro mais velhos, ao mesmo tempo.

Os mais novos gritaram também, numa grande confusão, sem que se percebesse o que diziam.

Tiago e Paulo, empurrados, meio sufocados com tantos abraços, e aborrecidos com toda aquela comédia, não responderam. O que eles queriam era desembaraçar-se daqueles falsos amigos.

- Peço-lhes que nos perdoem, senão a mamã castiga-nos! - insistiu Sonushka, com voz suplicante.

TIAGO - Por mim, perdoo-lhes de todo o coração. Paulo fará o mesmo, com certeza.

PAULO - Não! Eu não lhes perdoarei nunca. MITINEKA - Peço-te que nos perdoes, francesinho.

PAULO - Não, não quero.

TIAGO - Isso é mal feito, Paulo. Devemos perdoar aos nossos inimigos. Bem vês que eu já perdoei.

PAULO - Está bem; perdoo-lhes o que eles me fizeram a mim. Mas estes marotos quiseram que a mamã fosse chicoteada, e isso é que eu não posso perdoar.

TIAGO - Mas como eles estão arrependidos...

PAULO – Estão, mas é a fingir.

Ouviu-se, então, um concerto de soluços e gemidos. As oito crianças choravam e lamentavam-se, exclamando:

- Vão chicotear-nos! Perdoa-nos, francesinho! Dar-te-emos o que quiseres!

PAULO - Peçam perdão à mamã. Se ela perdoar, eu também perdoarei.

O grupo voltou-se para Helena Derigny, pedindo perdão de mãos postas.

HELENA DERIGNY - Que Deus vos perdoe, como eu já vos perdoei! E tu, Paulo, não sejas rancoroso.

- Visto que a mamã perdoa, eu farei o mesmo - declarou Paulo, em tom majestoso.

- Obrigado! Obrigado! Seremos muito vossos amigos! Foi a mamã quem assim ordenou. Adeus, franceses, até amanhã.

Os oito filhos da Sr á Papofski fizeram uma reverência e saíram tão precipitadamente como tinham entrado.

Derigny, que presenciara tudo sem falar, encolheu os ombros e suspirou:

- Como estas pobres crianças são educadas! Não é por sua culpa que são maus, mentirosos, cobardes e hipócritas! É a sua mãe que os aterroriza.

TIAGO - Devemos brincar com eles quando nos pedirem?

DERIGNY - Não há outro remédio, meu filho, mas façam-no o mais raramente possível. E tu, Paulo, nunca vás sem o Tiago.

PAULO - Pode estar descansado, papá. Tenho muito medo.

Como já era tarde foram deitar-se.

 

             A conspiração

Uma noite, estava Derigny junto do general. Tinham passado já vários dias desde a chegada da Sr á Papofski e dos filhos, e tudo decorria o mais tranquilamente possível.

O general esfregava as mãos de contente, e sorria. Com certeza pensava em qualquer "partida" que tencionava fazer.

- Derigny, meu bom amigo - disse ele, de repente - preparei-Lhe um bom trabalho.

DERIGNY - Estou às suas ordens, meu General!

GENERAL - Obrigado É que. espero visitas. Preciso de leitos à moda francesa, e um mobiliário completo. Só você é capaz de me arranjar isto.

DERIGNY - Farei o que for preciso. Para quantas pessoas?

GENERAL - Uma senhora, uma menina e dois rapazes de doze anos.

DERIGNY - Quantos dias me dá para eu preparar tudo?

GENERAL - Quinze dias e todo o pessoal de que você precisar.

DERIGNY - Está muito bem. Pode contar com o que deseja.

GENERAL - Bravo! Admirável! Não faça economias. Quero que fique ainda melhor do que os aposentos de Papofski.

DERIGNY - Posso ir à cidade comprar aquilo de que necessitar?

GENERAL - Vá onde quiser e compre o que quiser! Dou-lhe carta-branca.

DERIGNY - Quais são os quartos que é preciso mobilar?

GENERAL - Os melhores. Aqueles que es tavam arruinados e que mandei arranjar sob a sua direcção. Não me pergunta para que é todo este trabalho que lhe vou dar?

DERIGNY - Não seria capaz de tal indiscri ção, meu General.

GENERAL - É para a minha sobrinha.

- A Sr á Papofski? - exclamou Derigny, dando um salto para trás.

GENERAL (rindo a bom rir) - Aí está! Era isso mesmo que eu esperava! Ah ah ah! Admira-se? Não, meu amigo, não o obrigarei a trabalhar para essa sobrinha má, hipócrita e manhosa. Não vá, agora, dizer-lhe isso.

DERIGNY (rindo) - Não há perigo, meu General.

GENERAL - Bom! É para outra sobrinha que eu tenho, Natália Pétrovna, que era boa e carinhosa quando a deixei, e que é, ainda hoje, o verdadeiro tipo da mulher russa, cada vez mais raro. Tem três filhos que devem ser adoráveis. Convidei-os para virem todos passar um tempo comigo. É a maneira de eu estabelecer a comparação entre as duas irmãs. Papofski vai ficar furiosa! Ela não sabe deste convite. Arranje-se de maneira que ela não possa perceber absolutamente nada. Que bela ideia que eu tive! Ah ah ah! Que boa "partida" eu vou pregar a Papofski!

Derigny e a mulher principiaram a trabalhar logo na manhã seguinte. Derigny foi a Smolensko comprar tudo o que era preciso, e contratou marceneiros, serralheiros, enfim, os operários de que necessitava para realizar a sua tarefa. Trabalhavam na aldeia e só depois de prontos os móveis seriam transportados para o palácio. O general aparecia de vez em quando, distribuindo gratificações e aguardente. Os operários e camponeses trabalhavam assim com melhor vontade, e abençoavam o francês que lhes proporcionava trabalho e dispunha bem o patrão a favor deles. O próprio Vassili estava reconhecidíssimo a Derigny, por ele ter conseguido livrá-lo das cem chicotadas a que o general o tinha condenado, e procurava ajudar o melhor que podia, com a inteligência que caracteriza o povo russo.

Derigny e a mulher fizeram de decoradores, encarregando-se dos reposteiros e cortinados.

Antes dos quinze dias tudo estava pronto e posto nos seus lugares. Quando o general foi ver os aposentos destinados à Sra Dabrovine, parecia uma criança, tal a sua alegria e entusiasmo.

Admirou a beleza do conjunto, sentou-se em cadafauteuil, examinou todos os objectos, deu mãos-cheias de moedas a Vassili e aos operários. Depois, voltando-se para Derigny e Helena, disse:

- Quanto a vós, meus amigos, não é com ouro que eu posso mostrar o meu reconhecimento pelo vosso zelo, actividade e talento; seria fazer-vos uma injustiça. É com o meu coração que eu vos recompenso, dando-vos a minha estima e o meu reconhecimento. Mil vezes obrigado, meus bons amigos (Ao dizer isto o general apertou as mãos de Derigny e sua mulher) Ah! Maria Pétrovna, vais ser punida pela tua maldade! Quando chegará a minha querida Natália com a sua Natasha e os seus dois rapazes? Daria dez mil, vinte mil rublos para que chegassem ainda hoje!

O general saiu, quase a correr, dos aposentos destinados à Sra Dabrovine, para ir ver se descobria alguém ao longe, no caminho. Derigny e sua mulher sentiam-se felizes com a alegria do general. Tiago e Paulo, que haviam presenciado esta cena, riam e pulavam de contentamento. Tinham conseguido não brincar mais com os pequenos Papofski, e estavam radiantes com a ideia da surpresa que o general lhes preparava.

Quando queriam estudar ou ocupar-se em qualquer coisa tranquilamente, fechavam-se no quarto com Helena, e se, por acaso, os outros vinham bater-lhes à porta, riam baixinho e não respondiam.

Por seu lado, a Sra Papofski aproveitava todas as ocasiões para testemunhar a "sua amizade" e admiração aos "excelentes franceses" que seu tio tanto estimava. Mas, embora Derigny a tratasse com a mais respeitosa delicadeza, ela sentia-se desmascarada... A atitude do tio inquietava-a: evitava-a, nunca a procurava, dizia-lhe palavras irónicas, meio a brincar, meio a sério. Duas ou três vezes tentou comovê-lo com lamentações e choros. Como isso não desse resultado, resolveu tomar por brincadeira tudo quanto o tio lhe dizia, mesmo quando ele a tratava bruscamente.

Entretanto, o general tinha, por vezes, verdadeiros ataques de alegria, como se tivesse enlouquecido: lamentava a sobrinha pela vida aborrecida que lhe proporcionava; prometia-lhe visitas e distracções, e ria, ria, a "bandeiras despregadas", passeando de um lado para o outro, como se tivesse absoluta necessidade de movimento.

 

           A chegada da outra sobrinha

No mesmo dia em que o general manifestara o seu desejo de ver chegar a Sra Dabrovine indo pela estrada fora, para ver se, realmente, avistava alguém, pareceu-Lhe descobrir, ao longe, uma nuvem de poeira. Parou, ansioso e contente; a nuvem aproximava-se cada vez mais; não tardou a distinguir uma carruagem puxada por quatro cavalos, que avançavam a trote largo.

Logo que a carruagem chegou tão perto que os seus gestos podiam ser distinguidos, começou a agitar o lenço, a bengala e o chapéu, para que o cocheiro parasse. Assim aconteceu. Então, o general aproximou-se da portinhola, viu uma mulher ainda nova e encantadora, vestida de luto; junto dela, uma jovem de notável beleza em frente, dois rapazes. Ao lado do cocheiro vinha uma mulher com aparência de criada de quarto.

- Natália Minha sobrinha - exclamou o general, abrindo a portinhola.

- Meu tio! - respondeu a Sr á Dabrovine

(porque era ela), descendo imediatamente da carruagem e abraçando o general. - Oh! Meu tio! Meu bom tio! Como eu tenho sido infeliz! depois que estivemos juntos pela última vez!

0meu pobre marido, o meu querido Dmitri foi morto em Sebastopol!

A Sra Dabrovine encostou a cabeça ao ombro do general, sem poder conter as lágrimas.

O general, comovido com a dor tão sincera da sobrinha, apertou-a de encontro ao coração.

GENERAL - Minha filha! Minha Natália!

Chora à tua vontade, como se estivesses junto de teu pai, do teu melhor amigo! Deves ter sofrido muito!

SRa DABROVINE - E sofrerei sempre!

Como poderei eu esquecer um marido tão bom e carinhoso? E os meus filhos Perderam o melhor dos pais!

GENERAL - Deixa-me beijar os teus filhos. Eles, decerto, já se esqueceram de mim,

mas eu tenho pensado muito neles.

SRa DABROVINE - Desce, Natasha; e vocês também, Alexandre e Miguel. Venham cumprimentar o tio.

Natasha saltou da carruagem e veio beijar o velho tio que ela não tinha esquecido, apesar da sua longa ausência.

-Deixa-me ver-te bem, minha filha! disse o general, depois de a ter beijado repetidas vezes. - És o retrato de tua mãe! Parece-me que a estou a ver com a tua idade. Dize-me, ainda gostas deste tio velho e doente? Em pequenina eras muito minha amiga.

-Gosto muito e gostarei cada vez mais! - respondeu Natasha, com um sorriso encantador. E, baixando a voz, acrescentou: Principalmente se o tio puder consolar um pouco a mamã. Ela tem sido tão infeliz.

- Farei o que puder, minha filha! E os outros

Alexandre e Miguel receberam, por sua vez, um beijo do general.

GENERAL - Há lugar para mim na vossa carruagem, meus filhos?

NATASHA - Certamente, meu tio; sentar-me-ei no banco da frente, com o Alexandre e o Miguel, e o tio irá ao lado da mamã.

Subiram todos para a carruagem. Pela primeira vez, em dois anos, o rosto triste da Sr á Dabrovine animou-se um pouco. Natasha ficou cheia de contentamento e, apertando nas suas mãos as do general, disse-lhe baixinho:

- Ela sorriu!

O tio sorriu também e olhou enternecidamente para as duas, mãe e filha. Debruçou-se na portinhola e ordenou ao cocheiro que fosse o mais depressa possível.

Entretanto o general fez inúmeras perguntas à sobrinha e aos filhos, compreendendo, apesar da delicadeza das respostas, que viviam com as maiores dificuldades.

- Chegámos! - disse o general. - Aqui está Gromiline, onde nos vimos a última vez.

SRa DABROVINE - Que tempo tão feliz eu passei aqui, junto do tio e do meu pobre Dmitri.

GENERAL - Espero que fiques aqui vivendo comigo. Esta casa será tua e todos te obedecerão como a mim próprio.

SRa DABROVINE - Não abusarei da sua bondade, meu tio.

GENERAL - Bem sei, e é por isso mesmo que quero que fiques. Não admito réplicas!

 

             O triunfo do General

A carruagem aproximava-se do portão.

Apareceram logo criados, e a Sra Papofski, a quem os filhos haviam prevenido de que estavam a chegar visitas, veio também, para dar as boas-vindas aos convidados do tio.

"Até que enfim, aparece alguém! – pensava ela. - Ao menos não estarei sozinha com esse velho detestável, que já não posso suportar."

Ao ver o general descer da carruagem, a Srá Papofski não pôde conter uma exclamação de surpresa:

- O tio? Também vem na carruagem?

- Sim, Maria Pétrovna, sou eu – respondeu o general, parando com o pé no estribo e encobrindo com a sua avantajada figura os outros viajantes. E continuou: - Trago-te visitas. Adivinha quem.

SRa PAPOFSKI - Como posso eu adivinhar, meu tio? Não conheço nenhum dos seus vizinhos.

GENERAL - Não são vizinhos, são amigos, velhos amigos. Porque tu também já não és uma rapariga, Maria Pétrovna...

A Sr á Papofski corou violentamente e quis responder, mas mordeu os lábios, calou-se e esperou.

- Ei-los! - disse o general, depois de olhar um momento para ela com ar de triunfo. Aqui estão os teus amigos!

Desceu, voltou-se para a portinhola e ajudou a descer Natasha (a Sr á Papofski abafou um grito de raiva)... depois Natália Pétrovna...

(a Sr. a Papofsky soltou um longo gemido tornou-se pálida como um cadáver, cambaleou e apoiou-se ao ombro do tio).

GENERAL - Como tu estás contente! Eu tinha razão em dizer velhos amigos! Gosto de te ver assim comovida com a chegada da tua irmã. Está muito bem. Era mesmo isto que eu esperava. O general estava radiante; o seu triunfo era completo. A Sr á Papofski fazia o possível para não desmaiar; queria falar, mas da boca entreaberta não Lhe saiu nenhum som; no entanto, percebeu, embora confusamente, que a sua perturbação podia ser interpretada favoravelmente. Esta esperança reanimou-a; voltaram-lhe as forças; aproximou-se da irmã, toda trémula, e disse:

- Perdão, querida, fiquei tão surpreendida! GENERAL (com malícia) - E tão feliz! SRa PAPOFSKI (com hesitação) - Sim, meu tio, é tal qual como diz; tão feliz por ver esta pobre Natália!

GENERAL (sempre irónico) - E em minha casa, ainda para mais. Esta circunstância deve ter aumentado a tua felicidade.

SRa PAPOFSKI (com voz sumida) - Certamente, meu tio. Eu estou. eu sinto. a alegria.

GENERAL (rindo) - Abracem-se Beija a tua irmã e os teus sobrinhos, Maria Pétrovna, acalma-te.

A Sr. a Papofski, excitadíssima, beijou a irmã e os sobrinhos.

- Vem, minha filha - disse o general, oferecendo o braço à Sra Dabrovine. - Vou conduzir-te aos teus aposentos. Vem connosco, Maria Pétrovna.

As palavras afectuosas que o general dirigia a Natália irritaram ainda mais a Sra Papofski, que afastou Natasha e os irmãos, deixando-os para trás, seguindo maquinalmente o tio e a irmã. O general apressou o passo. Ao chegar em frente do quarto destinado a Natália, a porta abriu-se; Derigny, sua mulher e filhos esperavam-nos logo à entrada.

GENERAL - Eis-te em tua casa, minha querida filha, e tenho a certeza de que te sentirás bem aqui, graças ao meu bom Derigny e à sua excelente mulher, que te apresento, e mesmo aos seus filhos, os meus amiguinhos Tiago e Paulo, que trabalharam como dois homens. Recomendo-os todos à tua amizade.

SRa DABROVINE - Depois desta recomendação do meu tio podem estar certos de que os estimarei muito sinceramente, porque, para ele falar como falou, é porque tem sobejas provas da vossa dedicação.

A Sra Dabrovine fez um gracioso cumprimento a Derigny e Helena, e aproximou-se de Tiago e Paulo, a quem beijou na testa, dizendo-lhes:

- Espero, meus meninos, que sereis bons amigos dos meus filhos, que têm, pouco mais ou menos, a vossa idade. Ensinar-Lhes-eis o francês e eles ensinar-vos-ão o russo. Será um serviço que prestarão uns aos outros.

- Entrem, entrem todos - exclamou o general - e vejam o que Derigny fez em quinze dias, deste aposento sujo e sem móveis.

A Sr á Papofski foi a primeira a entrar no bonito salão, que podia servir também de sala de estudo. Coisa alguma tinha sido esquecida; móveis simples mas confortáveis, uma grande mesa de trabalho, um piano, lindos cortinados floridos davam ao aposento um aspecto elegante e acolhedor.

A Sr á Papofski ficou imóvel, olhando para tudo, tão pálida como um cadáver.

A Sra Dabrovine contemplou com olhar triste e doce todas aquelas coisas tão agradáveis e depois, aproximando-se do tio com os olhos cheios de lágrimas, beijou-lhe a mão, dizendo:

- Como o tio é bom! E como os meus amigos são gentis!

Natasha corria de um lado para o outro, tocando em tudo, examinando tudo. Quando acabou a sua inspecção, veio lançar-se ao pescoço do general, beijando-o e exclamando:

- Que lindo! Nunca vi nada mais bonito! Passarei aqui os dias com a mamã, e o tio há-de vir ver-nos muitas vezes, sim? Fumará sentado naquela poltrona junto da janela, que tem uma vista tão bonita. Eu sei que o tio gosta de fumar! O Alexandre, o Miguel e eu trabalharemos em volta desta mesa; tocaremos piano, e a mamã estará ao pé do tio.

SRa PAPOFSKI (com um sorriso forçado)

- E eu, Natasha? Onde é o meu lugar? NATASHA (embaraçada) - Perdão, minha tia, eu não sabia. se lhe seria agradável.

-. o cheiro do tabaco - exclamou o general, beijando a pequena e rindo a bom rir.

- Obrigada, meu tio! - murmurou Natasha ao ouvido do general. - Eu tinha-me esquecido.

GENERAL - Vamos ver os quartos de dormir. Aqui tens o teu, minha filha.

Nova surpresa, novas exclamações e uma fúria ainda maior da Sra Papofski, que comparava os seus aposentos com os da irmã, que ela detestava. Natasha e os irmãos corriam de um quarto para o outro, admiravam, agradeciam. Quando souberam que tudo aquilo era obra da família Derigny, Natasha lançou-se ao pescoço de Helena, enquanto os dois pequenos, doidos de alegria, abraçavam Tiago e Paulo.

A satisfação do general não pode descrever-se. Ria, passeava de um lado para outro, esfregava as mãos e olhava, com enternecimento, para a Sra Dabrovine, que sorria também ao ver os filhos tão contentes.

Natasha, com os olhos brilhantes, beijava a mão do tio e repetia:

- Meu tio! Meu tio! Como eu sou feliz! Como o tio é bom!

GENERAL - Também eu estou feliz por vos ver contentes. Há muito tempo que não sentia uma satisfação tão grande à minha volta. Só uma vez, em França, é que tornei, assim, pessoas felizes: os meus bons Derigny, Elfy e Moutier (*).

NATASHA - Oh! meu tio, conte-nos como foi! Eu gostava de saber o que o tio fez!

- Mais tarde, minha filha - respondeu o general, sorrindo. - Agora vão descansar um pouco. Derigny vai mandar-lhes a criada. Jantaremos dentro de uma hora. Ficas com a tua irmã, Maria Pétrovna?

SRa PAPOFSKI - Sim. Não. Quer dizer. eu gostaria de apresentar os meus filhos a Natália.

GENERAL - Tens razão. Vai, vai. Eu e Derigny vamos ocupar-nos das coisas necessárias.

 

(*) Referência a Pousada do Anjo da Guarda.

 

A Sra Papofski dirigiu-se para o seu quarto, olhou, com cólera, o modesto mobiliário e, não podendo conter-se mais, caiu sobre o leito, a soluçar.

"A herança! - pensava ela. - Seiscentos mil rublos de rendimento. Não será para mim! Ele vai deixar tudo a Natália, que eu odeio, e que se finge desolada e pobre, para o comover. E a estúpida da filha? Pula como se tivesse dez anos, a abraçá- lo, a beijá-lo! E ele, aquele imbecil, julga que é adorado e acha toda esta comédia encantadora. Arranjou-lhes aposentos como se fossem uns príncipes - para eles, que estão na miséria, que comem pão negro e leite coalhado, que dormem em enxergas e só têm o fato que trazem vestido! E a mim, que sou rica e estou habituada à elegância, trata-me como se eu fosse igual a esses antipáticos Derigny! Sei muito bem, pelas criadas, que me deram a cama e os móveis que estavam no quarto deles "

Estes pensamentos absorveram- na de tal forma, que ainda não estava arranjada quando vieram chamá-la para o jantar. Saltou do leito, lavou o rosto com água fria para não se perceber que tinha chorado, alisou os cabelos, escovou o vestido e dirigiu-se ao salão, onde encontrou o general com Natália e os filhos, que brincavam com os primos.

- Esperávamos por ti, Maria Pétrovnadisse o general, avançando para ela e oferecendo-lhe o braço. Dirigindo-se a Natália, disse-lhe: - Embora sejas tu a recém-chegada, ofereço o braço a tua irmã porque é mais velha. Deve ter, pelo menos, mais dez ou doze anos do que tu.

SRa DABROVINE (embaraÇada) - Oh! Não, meu tio, não fazemos tanta diferença.

SRa PAPOFSKI (irritada) - Deixa falar o tio. Ele acha graça em envelhecer-me e em rejuvenescer-te.

GENERAL (encantado) - Mesmo que eu me tenha enganado em dois ou três anos, Natália tem trinta e dois, e tu deves ter quarenta e dois.

SRa PAPOFSKI - Cinquenta, meu tio Ou sessenta, se prefere!

GENERAL (com malícia) - Lá chegaremos. Ah Ah Lá chegaremos. Nasceste em mil oitocentos e.

SRa DABROVINE - Estamos na sala de jantar meu tio. Confesso-lhe que tenho um certo apetite.

GENERAL - E eu também tenho fome e sede de verdade. Mas, ia dizendo: foi em mil oitocentos.

SRa DABROVINE - A verdade é que o tio continua a ser arreliador, como era dantes. Gosta de atormentar a pobre Maria. Veja como a Natasha olha para si, surpreendida.

O general voltou-se, vivamente, deixou o braço da Sr á Papofski e mandou que se sentassem todos.

- É verdade que estás espantada com a minha brincadeira, Natasha? - perguntou ele. Achas que sou mau?

NATASHA - Meu tio.

Ao dizer isto, a pequena fez-se muito corada e calou-se.

GENERAL (sorridente) - Fala sem receio, minha filha. Já declarei que tenho fome e sede de verdade.

NATASHA - Parece-me que o tio não está a ser bom para a tia Maria Pétrovna. É isso que me espanta, porque sempre o conheci bondoso, e a mamã, quando nos falava de si, afirmava que tinha muito bom coração.

GENERAL - E agora, que pensas tu? NATASHA - Gosto muito do tio, e queria que todos gostassem como eu.

GENERAL - Voltaremos, mais tarde, a falar neste assunto. E enquanto esperamos que me corrija do meu feitio arreliador, jantemos com alegria. Prometo-te não tornar a irritar a

tia.

NATASHA - Obrigada, meu tio. Perdoa-me o ter sido franca, não é verdade? GENERAL (rindo) - Não só te perdoo, como te agradeço; nomeio-te minha conselheira privada.

O general, cada vez mais seduzido pelos seus novos convivas, foi encantador, durante o jantar, conseguindo distrair Natália que sorriu, mais de uma vez, dos seus ditos joviais. Ao serão, as crianças brincaram na grande galeria contígua ao salão. Natasha dirigia os jogos, fazendo sorrir a mãe e rir francamente o general, que a achava adorável.

Passaram alguns dias; o general dedicava-se cada vez mais à Sra Dabrovine, e detestava também cada vez mais os Papofski. Uma noite, Natasha entrou no salão e disse:

- Meu tio, dá-me licença de ir chamar o Tiago e o Paulo para virem brincar connosco? Já devem ter acabado de jantar.

GENERAL - Vai, minha filha; faze o que quiseres.

Natasha beijou o tio e saiu, a correr, não tardando a regressar, seguida por Tiago e Paulo. Tiago aproximou-se do general e disse:

- A menina Natasha informou-nos que o senhor General nos autorizara a vir brincar com os seus sobrinhos.

GENERAL - Com certeza! Natasha é o meu procurador; façam o que ela lhes disser.

Os pequenos foram imediatamente com Natasha, para a galeria. No salão ouviam-se todos rir e brincar. O general estava radiante; a Sra Dabrovine olhava para ele com afectuosa satisfação; a Sr á Papofski irritava-se com o barulho que as crianças faziam, achando que tanto ruído devia fazer mal ao "seu bom tio", como ela dizia.

GENERAL (impaciente) - Deixa-os lá, Maria Pétrovna! Ouvi mais barulho na Circassia e na Crimeia. Que demónio. Os meus ouvidos não são tão delicados que me façam ter convulsões lá porque oiço rir e gritar um bando de crianças!

SRA PAPOFSKI - Mas assim nem sequer podemos conversar!

GENERAL - Olhem a grande desgraça! Não é indispensável conversar durante todo o serão. Assim, tenho a ilusão de ser chefe de família, e gozo com a felicidade que proporciono aos pequenos e a tranquilidade da minha pobre Natália.

A Sr á Papofski mordeu os lábios, pegou no bordado e não disse nem mais uma palavra, enquanto o general conversava com a Sr á Dabrovine.

De repente, ouviu-se uma discussão violenta e gritos de furor.

GENERAL - Que aconteceu?

SRa DABROVINE - Eu vou ver, meu tio.

não se incomode.

A Sra Dabrovine entrou na galeria e encontrou Alexandre a lutar com Mitineka e Yégor; Miguel segurava Sonushka com toda a força; Tiago, com os olhos brilhantes e os punhos fechados, estava em atitude de boxista. Natasha procurava, em vão, separar os contendores. Os outros gritavam, cada qual com mais força.

A entrada da Sr á Dabrovine restabeleceu a calma como por encanto. Ela aproximou-se de Alexandre e disse-lhe, severamente:

- Não tens vergonha de brigar assim com o teu primo? E tu, Miguel, que quer dizer essa violência para com a tua prima?

As crianças começaram a falar todas ao mesmo tempo; Natasha conservava-se calada. A Sra Dabrovine, que não conseguia compreender as explicações das crianças, disse a Natasha que lhe contasse tudo o que se passara.

A pequena corou e continuou calada.

- Porque não me respondes, Natasha?

- É porque terei de acusar. e eu não queria.

- Mas eu preciso de saber a verdade, minha filha, e ordeno-te que me expliques sinceramente o que aconteceu.

- Nesse caso, mamã, eu conto: Alexandre e Miguel quiseram defender o pobre Paulo, tão pequenito, que Mitineka, Sonushka e Yégor atormentavam já há imenso tempo. Tiago e eu fizemos o que pudemos para o defender, mas eles juntaram-se todos contra nós e começaram a bater-nos. Veja como o Miguel está arranhado, e como o Alexandre tem os cabelos arrancados. Quanto a Tiago, não deu nem um único soco, apesar de ter recebido bastantes.

- Venham para o salão, Alexandre e Miguel, e tragam Tiago e Paulo. Deixem os primos questionar uns com os outros.

O general ouvira tudo quanto a Sra Dabrovine e Natasha tinham dito. Levantou-se, sempre calado, deixou a sobrinha e os pequenos entrar no salão, foi ele próprio à galeria, puxou, com força, as orelhas dos três filhos mais velhos da Sr á Papofski, distribuiu alguns sopapos pelos outros, voltou para o salão e sentou-se novamente na sua poltrona. Depois chamou Natasha e perguntou-lhe:

- Dize, minha filha, que fizeram eles ao meu amiguinho Paulo?

NATASHA - Estávamos a brincar aos hospitais. Paulo era um doente; Mitineka, Sonushka e Yégor, que eram os médicos, quiseram obrigá-lo a engolir uma bola de teias de aranha; o pobre pequeno não quis, e Tiago correu a defendê-lo. Eles, então, bateram no Tiago, que não lhes deu um único soco. Atiraram com ele ao chão e iam novamente agarrar o Paulo, apesar das súplicas de Tiago, quando Alexandre e Miguel, indignados, correram em socorro de Tiago e Paulo, vendo-se obrigados a lutar com Mitineka, Sonushka e Yégor, que nem ao menos quiseram ouvir-nos. Foi então que a mamã entrou e libertou o Paulo.

Enquanto Natasha contava animadamente a cena cujo final a Sra Dabrovine presenciara, o general dava sinais, cada vez mais fortes, de cólera. Levantando-se bruscamente e dirigindo-se à Sra Papofski, disse:

- Minha senhora, os seus filhos são detestavelmente mal educados! São maus, cruéis e hipócritas. Não quero gente assim em minha casa, percebe? A senhora e os seus filhos perturbam a paz da minha casa. Se não mudam de hábitos, teremos que nos separar. A senhora veio sem que eu a chamasse - sei perfeitamente porquê. Mas as contas sair-Lhe-ão erradas...

A Sra Papofski estava quase a ter um ataque de fúria, mas conseguiu dominar-se e respondeu ao general num tom de vítima:

- Estou desolada, meu tio! Vou chicotear os meus filhos. Pode, mesmo, chicoteá-los o tio, se preferir. Eles não voltarão a fazer o que fizeram agora, prometo-lhe. Não nos afaste de si, meu querido tio; eu não suportaria essa desgraça...

O general cruzou os braços e olhou para ela fixamente. O seu rosto exprimia desprezo e cólera. Só disse uma palavra: - Miserável! Ofereceu o braço a Natália, deu a mão a Natasha, e chamando Alexandre, Miguel, Tiago e Paulo, dirigiu-se para os aposentos da Sr á Dabrovine.

Entrou no salão, onde costumava passar uma parte dos dias, passeou para trás e para diante durante alguns momentos, parou, pegou nas mãos da sobrinha, contemplou-a em silên- cio e depois disse:

- És tu, só, quem é e será minha filha! Doce, boa, carinhosa e sincera, tu educaste os teus filhos à tua semelhança. A outra não receberá nada, nada!

SRa DABROVINE - Ó meu tio! Peço-lhe!

GENERAL (apertando-lhe as mãos) - Cala-te! Vais fazer-me enfurecer de novo! Deixa-me esquecer esta cena e a baixeza revoltante da tua irmã. Junto de ti e dos teus filhos sinto-me estimado, eu próprio vos estimo muito e sou feliz. Junto da outra sinto revolta e desprezo. Brinquem, meus filhos - acrescentou ele, voltando-se para Tiago, Paulo e para os seus dois sobrinhos. - Eu não tenho medo do barulho. Divirtam-se.

TIAGO - Poderemos brincar às escondidas e correr no corredor?

GENERAL - Às escondidas, às guerras, ao assalto, a tudo quanto quiserem. A minha única contrariedade é não poder correr com vocês. Mas, primeiro, vão chamar Derigny. E agora, Natália, vou instalar-me para o serão, como de costume. Posso fumar?

SRa DABROVINE - Precisa, por acaso, de fazer essa pergunta, meu tio? Já se esqueceu de como eu gosto do cheiro do tabaco?

GENERAL - Não. mas receava. SR DABROVINE - Fazer-me pensar no meu pobre Dmitri, que costumava fumar consigo? Eu nunca o esqueço em circunstância alguma, e gosto de tudo o que me aviva a lembrança dele.

O general não respondeu; aproximou a sua poltrona daquela em que a sobrinha estava sentada, pegou-lhe na mão e ficou pensativo.

 

           Conversas íntimas

As reflexões do general foram interrompidas pela entrada dos pequenos, acompanhados por Derigny, que se mostrava tão contente como eles. Porém, ao chegar em frente do general, apresentou-se com toda a seriedade:

- Mandou-me chamar, meu General! Aqui estou!

- Sim, meu amigo; traga-me a minha caixa de tabaco, o meu cachimbo e os nossos livros de contas. De futuro, trabalharemos aqui, à noite, visto que a minha sobrinha mo permite e acha que não a incomodo.

- Obrigada, meu tio! como o tio é bom!

- exclamou Natasha, lançando-se-lhe ao pescoço. - Veja, veja como a fisionomia da mamã se transformou! Chega, quase, a parecer feliz.

A Sra Dabrovine sorriu, acarinhou a filha e beijou a mão do general, que estava verdadeiramente radiante. Derigny parecia tão contente como o general e foi, sem demora, cumprir as ordens que recebera. Logo que viu, na sua frente, a mesa coberta de papéis e cadernos, onde costumava trabalhar, o general exclamou:

- Bravo, meu amigo! Não quis falar na mesa para o não fatigar, mas você adivinhou o meu pensamento. Vamos, pois, ao nosso trabalho!

A certa altura, Derigny apresentou-lhe um papel, pedindo-lhe para o ler.

GENERAL (depois de o ter lido) - Quem escreveu isto?

DERIGNY - A Sr á Papofski, meu General. GENERAL - E porque quis você que eu o lesse?

DERIGNY - Porque a Sr á Papofski quer que tudo quanto aí está mencionado seja comprado por conta do meu General, e eu entendi que não o devia fazer sem o consultar.

GENERAL - Fez muito bem. Calcula tu, Natália, que a tua irmã resolveu vestir de novo o cocheiro, o postilhão, os lacaios, os criados (seis, creio eu), obrigando-me a pagar tudo.

Mais ainda: ordenou que trocassem os doz péssimos cavalos que ela trouxe, pelos melhores das minhas cavalariças. Acho forte! Não terá muito trabalho a cumprir as suas ordens. Aqui tem a minha decisão.

Dizendo isto, o general rasgou em pedaços a folha de papel escrita pela Sr á Papofski; depois levantou-se, a rir, esfregou as mãos, despediu-se de Natália e dos filhos e retirou-se para o seu quarto, acompanhado por Derigny.

Os pequenos, que só excepcionalmente tinham ficado levantados até tão tarde, foram

também deitar-se.

Enquanto ajudava a mãe a arrumar os livros e cadernos espalhados, como costumava fazer todas as noites, Natasha foi dizendo:

- Derigny e a mulher arranjaram-nos todos estes armários, quando, afinal, só um chegava, à vontade.

SRa DABROVINE - É porque supõem que somos ricos.

NATASHA - O tio é tão bom para nós! SR.a DABROVINE - Sempre o conheci assim bom, para mim e para o teu pobre pai.

NATASHA - Porque será que ele não é bom para a tia Maria Pétrovna?

SRa DABROVINE - Não sei, minha filha! talvez tenha razões de queixa dela. Como tu sabes, a tia nem sempre é amável.

NATASHA - Pelo menos para nós nunca o foi. Porque não gosta ela da mamã, que é tão boa?

SRa DABROVINE - Talvez eu a tenha ofendido sem querer.

NATASHA - Isso não é possível! Tenho a certeza!

SRa DABROVINE - És ainda muito nova para compreender certas coisas. Quem nos diz se, na realidade, a tia não estará convencida de que nós também não gostamos dela?

NATASHA - Como pode ela imaginar semelhante coisa, sendo a mamã tão boa, tão franca, tão prestável e carinhosa?

- Pensas tudo isso porque gostas muito de mim e julgas-me mais perfeita do que sou, minha filha! - disse a Sra Dabrovine, a sorrir, beijando Natasha e apertando-a de encontro ao coração.

Vendo a mãe sorridente, Natasha ficou cheia de alegria e parecia querer sufocá-la com beijos e abraços, ao mesmo tempo que dizia:

- Até que enfim a vejo sorrir! É ao tio que devemos tal milagre. Por isso gosto tanto dele!

Como nós vamos ser felizes aqui, sempre com o tio! Nunca mais nos separaremos.

SRa DABROVINE - A morte separa as mais ternas afeições, minha filha.

NATASHA - Ó mamã!

SRa DABROVINE - Entristeço-te, filha?

Desculpa. Vamos dormir, sim?

Mãe e filha abraçaram-se e beijaram-se ainda mais uma vez; fizeram, em conjunto, a oração da noite e deitaram-se. Natasha, porém, estava tão contente, que saltou do leito e veio beijar novamente a mãe, exclamando:

- Como nós estamos bem aqui, mamã! O meu quarto é tão bonito! Vivo aqui como uma rainha!

- Também eu me sinto feliz por isso, minha filha. Mas volta depressa para a cama;

podes constipar-te. Boa noite.

Enquanto isso se passava nos aposentos da

Sra Dabrovine e de Natasha, o general, por seu lado, conversava com Derigny, que se tornava de dia para dia, mais seu amigo e verdadeiro confidente.

- É uma pérola, uma verdadeira pérola!

- dizia ele. - É hoje tal qual como quando a deixei, a minha querida Natália, menos na felicidade. Mas havemos de tratar de a fazer feliz. Tenho um plano. Hei-de deixar-lhe toda a minha fortuna, com excepção de um milhão, que reservo para o dote de Natasha. Por que sorri você, Derigny? Julga que não tenho um milhão para lhe dar?. Ou então pensa que mudarei de ideia, como sucedeu com o Torchonet? (*) Por acaso Natasha não é como minha neta?

DERIGNY - Eu sorrio, meu General, porque gosto de o ver contente e porque pressinto, para si, uma nova vida de ternura e felicidade. E também porque vejo que há uma boa obra a fazer, e que será, ao mesmo tempo, proveitosa para o meu General.

GENERAL - Que boa obra vem a ser essa? DERIGNY - Meu General: eu tive conheci mento, pela criada de quarto da Sr á Dabrovine, de que ela é muito bondosa para os servos e que, tanto ela como os filhos, são adorados pelos camponeses da vizinhança. Mas a Sra Dabrovine é quase pobre; o marido gastou muito dinheiro e contraiu dívidas com a campanha da Crimeia. Ela pagou tudo e ficou apenas com mil e trezentos rublos de rendimento, dedicando-se

 

(*) Ver a Pousada do Anjo da Guarda

 

à educação dos filhos. Para a menina, está bem; mas os rapazes vão crescendo e necessitam de aprender outras coisas, que uma senhora, por muito instruída que seja, não lhes pode ensinar. Por isso.

GENERAL - Diga tudo. Quer ser você o preceptor dos pequenos? Por mim, acho óptimo.

DERIGNY (rindo) - Eu, meu General? Mas eu ignoro o que devem saber os jovens de família tão ilustre como os filhos da Sr á Dabrovine. Não, não era isso que eu queria dizer. A minha ideia era outra. Pensei que o meu General poderia conservar a Sra Dabrovine e os filhos junto de si, e mandar vir um preceptor para eles. Teria assim a família que lhe falta, e eles encontrariam o pai e o protector que perderam.

GENERAL - Muito bem pensado e muito bem dito! Descubra-me um preceptor o mais

depressa possível.

DERIGNY (espantado) - Eu, meu General? Como poderei?

GENERAL - Está claro que pode, meu amigo. Você pode tudo quanto quer. Procure, procure. Boa noite. Vou deitar-me e adormeço hoje muito satisfeito!

Derigny dirigiu-se ao seu quarto. As crianças dormiam, mas Helena esperava por ele.

- O general incumbiu-me de uma delicada missão! - disse rindo. - Tenho de descobrir um preceptor para os pequenos Dabrovine.

HELENA DERIGNY - E como vais tu arranjar um preceptor?

DERIGNY - De maneira nenhuma, porque certamente o general nunca mais pensa no caso. Tenho pena, porque gostava de ser útil à Sra Dabrovine, que me parece boa pessoa e é tão diferente da irmã.

HELENA DERIGNY - Os filhos também não se parecem nada com os antipáticos Papofski. São bons e bem educados.

O casal Derigny conversou ainda durante algum tempo, recordando a França, as pessoas queridas que lá tinha deixado. Depois, marido e mulher adormeceram tranquilamente como sucede às pessoas que têm a consciência em paz.

 

             O preceptor

Passaram-se mais alguns dias sem que se desse qualquer acontecimento notável. A Sr. a Papofski lá ia dominando a sua cólera conforme podia, sempre que se encontrava na presença do tio, a quem procurava lisonjear cada vez mais. Evitava a irmã, assim como os filhos fugiam dos primos, que faziam grupo à parte com Tiago e Paulo.

Quando soube, por Derigny, que o general rasgara a sua lista de compras, a Sr. a Papofski perguntou:

- Mostrou essa lista ao meu tio?

DERIGNY - Era o meu dever. Não faço despesa alguma que não seja autorizada pelo meu amo.

SRa PAPOFSKI - Mas não era necessário ele ter conhecimento disso. O meu tio gasta à toa e o senhor podia, perfeitamente, incluir essa despesa numa outra conta qualquer.

DERIGNY - Se fizesse isso tornava-me indigno da confiança do general, e eu sou incapaz de tal desonestidade.

SRa PAPOFSKI - Bem sei que o Derigny é uma pessoa honestíssima. Fiz isto de propósito para ter a prova de que o senhor é digno da estima que o meu tio tem por si. Também eu o estimo muito, creia. Sinto-me desamparada no mundo. Se o senhor soubesse como eu me preocupo com o futuro dos meus filhos! Somos tão pobres!

Derigny não respondeu; mesmo sem querer, sorriu ironicamente, cumprimentou a Sr. a Papofski e saiu, pensando, de si para si, que aquela sobrinha do general era, realmente, uma intrigante, interesseira e hipócrita.

Por seu lado, a Sr. a Papofski, no seu íntimo, prometeu a si própria fazer tudo quanto pudesse para comprometer Derigny e fazer-lhe perder a confiança do general. De tal forma se exaltou que, sem dar por isso, começou a falar em voz alta:

"Eu te arranjarei! Finges-te honesto porque sabes que não gosto de ti! E como vês o estúpido carinho do meu tio por Natália e os filhos, procuras agradar-lhe, a ela! Querem expulsar-me daqui, mas ficarei! Hei- de vigiá-los e inventar seja o que for para os comprometer. Denunciá- los-ei como conspiradores polacos. católicos. Farei com que sejam todos presos, condenados. Mas preciso de tempo. Talvez um ano. Dentro de um ano serei senhora de Gromiline, e hei-de chicoteá-los, a todos! "

Enquanto ela falava, Tiago passou no corredor. Ouvindo-lhe a voz, julgou que a Sr. a Papofski estava a falar com o pai, e parou, esperando vê-lo sair. Espantado com o que ouvia, o pequeno não pôde dominar-se e, aproximando-se da porta entreaberta, espreitou para dentro do quarto. Ao ver que a Sr. a Papofski estava só, o seu pavor aumentou ainda mais e, trémulo, com o coração a querer saltar-lhe do peito, retirou-se sem fazer ruído e foi ter com os pais.

TIAGO - Papá! Mamã! É preciso prevenir o general! A Sr. a Papofski quer tirar-lhe tudo! mandá-lo prender e a nós também. Temos de fugir com o general e voltar para casa da tia Elfy.

DERIGNY - Tu estás doido, Tiago! Quem te meteu isso na cabeça? Não vês que a Sr. a Papofski, apesar de ser muito má, não pode fazer mal algum ao general nem mesmo a nós?

TIAGO - Tenho a certeza, papá! Eu ouvi perfeitamente: "Querem expulsar-me daqui, mas ficarei"

E o pequeno repetiu aos pais tudo quanto ouvira à Sr. a Papofski.

Derigny e Helena já não riam. Sem perder a serenidade, Derigny pediu à mulher que não tivesse receio e recomendou ao filho que não repetisse a ninguém uma única palavra do que tinha ouvido, explicando-lhe:

- Se a Sr. a Papofski descobre que alguém a escutou, vingar-se-á, e talvez não tivéssemos tempo para nos defendermos.

TIAGO - Está bem, papá; não direi nada a ninguém. Mas onde está Paulo?

DERIGNY - Anda a brincar lá fora. TIAGO - Vou ter com ele. Tenho sempre medo de que esteja sozinho com os terríveis Papofski.

Tiago foi encontrar o irmão junto de uma pequena floresta, imóvel, falando com alguém que ele não via. Correu para ele e chamou-o. Paulo voltou-se e fez-lhe sinal para que se aproximasse. Tiago assim fez e ouviu o irmãozito dizer: - "Não tenha medo, é o Tiago. Ele é bom e não dirá nada."

TIAGO - Com quem falas tu?

PAULO - Com um pobre homem, tão pálido e tão fraco, que nem pode andar.

Tiago olhou para a floresta e viu, por entre os troncos, um homem meio deitado, com o aspecto de quem está quase a morrer.

TIAGO - Quem é o senhor? Porque está aí? Por onde entrou?

DESCONHECIDO - Perdi-me na floresta.

Morro de fome e de frio. Não comi nem bebi nada desde anteontem à noite.

TIAGO - Coitado! Vou buscar qualquer coisa para lhe dar e prevenir o papá.

DESCONHECIDO - Não, não; não lhe diga que eu estou aqui. Se me denunciar, estou perdido.

TIAGO - O papá não o denunciará. Não tenha medo. Espere um bocadinho. Vem comigo Paulo; vamos buscar de comer para este pobre homem.

Antes que o desconhecido tivesse tempo de repetir as suas súplicas, os dois irmãos desapareceram, correndo.

O desgraçado deixou-se cair por terra, fazendo um gesto de desespero.

"Estou perdido! - murmurou ele. - Meu Deus, tende piedade de mim! "

Ao dizer isto, apertou contra o peito uma pequena cruz de madeira, depois levou-a aos lábios, e ficou a orar.

Minutos depois, os dois pequenos voltavam, correndo, acompanhados pelo pai.

Ainda antes de lhe fazer qualquer pergunta, Derigny fez-lhe tomar uma chávena de caldo quente, com um bocado de pão e um copo de vinho. O desgraçado comia e bebia com avidez, mas Derigny recomendou-lhe:

- Agora não coma mais. Como está muito fraco, pode fazer-Lhe mal. Daqui a uma hora tornará a comer. Experimente, a ver se é capaz de se levantar, e vamos para o palácio.

- Que palácio é este? Quem vive aqui? perguntou o desconhecido em voz sumida.

DERIGNY - O general Conde Dourakine. DESCONHECIDO - Dourakine! Dourakine! Será possível? E ainda é o mesmo homem valente e bom que eu conheci?

DERIGNY - É sempre o melhor dos homens. Um pouco arrebatado, por vezes, mas bondoso como nunca conheci outro.

DESCONHECIDO - Previna-o... Vá dizer-lhe... Mas não. vou ver se posso andar. Sinto-me melhor.

O pobre homem quis levantar-se, mas não o conseguiu.

- Não posso! - murmurou ele, abatido.

DERIGNY - Quer que eu vá prevenir o general?

DESCONHECIDO - É preferível. Diga-Lhe que venha aqui, por amor de Deus e de Romane.

Derigny, embora intrigado com as palavras enigmáticas do desconhecido, afastou-se sem fazer qualquer pergunta. Recomendou aos pequenos que voltassem para o palácio, mas que, a não ser à mãe, nada dissessem do sucedido.

Em seguida foi contar o estranho caso ao general.

GENERAL - Que demónio quer você que eu faça? Se ele se perdeu, que se encontre...

DERIGNY - Mas, meu general, ele está quase morto de fome, frio e fadiga.

GENERAL - Que lhe dêem roupas, que o aqueçam e lhe dêem de comer. Leve os meus próprios agasalhos, se quiser. Mas quem é esse homem? Um camponês? Um negociante?

DERIGNY - Não sei, meu general. Mas esqueci-me de lhe dizer que ele lhe mandou pedir que fosse até junto dele - "por amor de Deus e de Romane".

GENERAL (dando um salto na poltrona) Romane! Romane! Não é possível! Ele disse Romane? Tem a certeza disso?

DERIGNY - Absoluta certeza.

GENERAL - Meu pobre Romane! Não posso compreender. Quase morto de fome e de fadiga! Ele, príncipe, rico! Ele, que eu julgava morto!

O general dirigiu-se imediatamente para o local indicado por Derigny. Ia tão depressa, que dir-se-ia ter recuperado a agilidade que os anos e os ferimentos lhe haviam feito perder. Mal avistou o desconhecido, correu para ele, levantou-o, amparou-o e contemplou-o com uma profunda piedade em que havia também tristeza.

- Meu pobre amigo! Que mudança! Que aconteceu? - murmurou ele.

Romane não respondeu e designou Derigny com o olhar.

O general compreendeu e apressou-se a dizer:

- Fala sem receio. Derigny tem a minha inteira confiança e ser-nos-á muito útil, se precisarmos dele:

ROMANE - Venho da Sibéria, onde estava condenado a trabalhos forçados e donde consegui fugir quase milagrosamente.

A surpresa do general foi tão grande que, por pouco, deixava cair o pobre Romane e caía ele próprio.

- Tu? Na Sibéria? Tu, forçado? É impossível! Vem descansar um pouco em minha casa e depois talvez consigas pôr as ideias em ordem. Deves estar um pouco desvairado com a fome e a fadiga.

ROMANE - Se alguém me vê entrar serei denunciado, preso e conduzido novamente àquele inferno.

O general viu, pela maneira calma e triste como Romane falava, que estava perfeitamente lúcido. Reflectiu um instante e, voltando-se para Derigny, perguntou:

- Que lhe parece, amigo?

Derigny havia compreendido tudo e concebeu imediatamente um plano, que expôs ao general:

- Eis o que me parece melhor. Vou dar o meu capote a este senhor e vou buscar calçado e qualquer coisa bem quente para ele tomar. Entretanto, o meu general volta para o palácio, como se tivesse vindo dar um passeio. Depois dá ordem para atrelarem um cavalo à carruagem mais pequena, dizendo que é para eu ir a Smolensko buscar um preceptor para os seus sobrinhos. Em vez de ir à cidade, farei algumas léguas na estrada, para fatigar o cavalo, a fim de não levantar suspeitas, e virei depois aqui buscar este senhor.

Os olhos do general brilhavam. Apertou a mão de Derigny e disse-lhe:

- Você é muito mais inteligente do que eu!

Vês, meu pobre Romane, como fizemos bem em falar diante dele? Embrulha-te no capote, depressa, que estás a morrer de frio. Darei um dos meus casacos a Derigny.

ROMANE - Mas, meu caro conde, o meu vestuário esfarrapado revela perfeitamente que eu sou um evadido da Siberia.

GENERAL - Derigny resolverá o problema.

Não te preocupes com coisa alguma.

Puseram imediatamente em prática o plano de Derigny. No caminho o general e ele combinaram dizer que Romane era um perceptor inglês, visto falar perfeitamente aquela língua e ter um tipo loiro. Chamar-se-ia Mister Jackson.

Preparada a refeição quente e as roupas que devia levar a Romane, Derigny foi prevenir a mulher de tudo o que se passava e partiu.

O general foi para junto da Sr. a Dabrovine e de Natasha.

GENERAL - Vais ter uma pessoa para te ajudar a instruir os teus filhos.

SRa DABROVINE - Não é necessário, meu tio. Eu e Natasha damos-lhes lição, não precisamos de mais ninguém.

GENERAL (sorrindo) - Também lhes ensinam latim e grego?

SRA DABROVINE (hesitante) - Não, meu tio. Sabemos apenas russo e francês.

GENERAL - Mas é preciso que eles aprendam aquelas línguas.

NATASHA (rindo) - O tio sabe grego e latim?

GENERAL - Não sei. E é por isso mesmo que eu sou e serei sempre um burro.

NATASHA - Oh! meu tio, não deve dizer isso. Como é que o imperador o podia nomear general se o tio fosse um burro? Como é que lhe daria um exército para comandar?

GENERAL (sorrindo) - Não sabes o que dizes. Um burro de dois pés pode ser general e ficar burro da mesma maneira. Repito: é preciso um preceptor para os teus irmãos, e esse preceptor não tarda a chegar.

SRa DABROVINE - Mas, meu tio. eu não tenho. não posso. Um preceptor é muito caro. e eu não sei.

GENERAL -. Não sabes onde irás buscar dinheiro para lhe pagar? Não é isso que queres dizer? À minha algibeira! Para que quero eu o dinheiro? Toma esta carteira, Natasha, entrega-a à tua mãe. E quando estiver vazia tornarás a dar-ma, para eu a encher novamente.

SRa DABROVINE - Não, meu tio. O tio é muito bom mas não quero abusar da sua generosidade. Natasha, não aceites a carteira.

GENERAL - Ah! Ensinas a tua filha a ser desobediente! Tratas-me como se eu fosse um avarento? Dizes que és minha amiga e magoas-me, humilhas-me. Pobre de mim Sentir-me-ei sempre só, sempre repelido! Ninguém me quer.

O general sentou-se e apoiou tristemente a cabeça nas mãos. Natasha olhou para a mãe com uma expressão de censura, aproximou-se do tio, ajoelhou, pegou-lhe nas mãos e beijou-as muitas vezes. O general sentiu uma lágrima cair-lhe nas mãos, levantou Natasha, apertou-a nos braços e, sem falar, estendeu-lhe a carteira. Natasha pegou-lhe e foi levá-la à mãe.

- Aqui tem, mamã - disse ela. - Para que serve encobrirmos ao tio que somos pobres? Para que havemos de ferir o seu bondoso coração, que nos oferece uma ternura verdadeiramente paternal? De um pai aceita-se tudo!

A Sr. a Dabrovine pegou na carteira e foi abraçar o tio, murmurando:

- Obrigada! Natasha tem razão! Aceitarei tudo o que queira dar-me. Sou sua filha pelo coração e confesso, sem me envergonhar; que, sem o seu auxílio, nunca poderia educar convenientemente os meus filhos.

GENERAL -. Que serão, de hoje em diante, também meus, como tu és igualmente a minha filha bem-amada!

Ao dizer isto, o general apertou as duas nos braços e beijou-as ternamente.

- A tua boa acção não será inútil, minha querida Natasha! E a ti, Natália, só te peço uma coisa: que me trates por pai sempre que estivermos sós.

SRa DABROVINE - Entrego-me inteiramente nas suas mãos, meu pai. Farei tudo o que desejar.

Demoraram-se ainda os três, a conversar. Algum tempo depois bateram à porta. Era Derigny. Ao entrar, disse:

- Meu general: Mr. Jackson, o preceptor que me encarregou de ir buscar, veio comigo. Está no seu gabinete e espera as suas ordens.

O general sorriu da surpresa de Natália e Natasha e saiu com Derigny.

Quando chegou a hora de jantar, a Sr. a Dabrovine e a Sr. a Papofski entraram na sala acompanhadas pelos filhos. O general já ali se encontrava com Mr. Jackson, que apresentou às sobrinhas.

GENERAL - Sr. a Dabrovine, contratei Mr. Jackson por cinco anos, para completar a educação de Alexandre e Miguel. Estás de acordo em confiar-lhe os teus filhos? Respondo por ele como por mim próprio.

- Tudo o que o tio fizer será bem feito respondeu ela, sorrindo graciosamente; e, pegando na mão dos filhos, apresentou-os a Mr. Jackson.

A Sr. a Papofski examinava o recém-chegado com ar altivo. As palavras do general haviam aumentado a sua irritação, mas notando que Mr. Jackson tinha maneiras distintas, resolveu logo captar-lhe as simpatias, com o fim de o afastar da Sr. a Dabrovine.

Vendo que o tio não se referia aos filhos dela, dirigiu-se ela própria ao preceptor e apresentou-lhe Mitineka, Sonushka, Yégor, Pavlouska e Nicolai, dizendo:

- Aqui estão os meus filhos, que lhe confio, Mr. Jackson. Os outros são ainda muito novos; conhecê-los-á mais tarde. Estou muito reconhecida ao meu tio por ter pensado na educação dos seus "netos", como ele diz.

- Não tens nada que agradecer-me, Maria Pétrovna - respondeu o general, surpreendido. - Eu não pensei nos teus filhos, que tu sabes educar tão bem, e que têm pai. Contratei Mr. Jackson para educar os filhos da tua irmã, e isso bastar-lhe-á, sem ter de aturar os cinco demónios que o fariam de fel e vinagre de manhã à noite.

SRA PAPOFSKI - Espero, Mr. Jackson, que se ocupará também dos meus filhos, fazendo por gentileza o que meu tio quis impor-lhe como obrigação.

  1. JACKSON - Farei quanto puder para lhe ser agradável, minha senhora. A pronúncia inglesa do preceptor não era desagradável e a Sr. a Papofski sentiu-se lisonjeada, olhando para a irmã com ar de triunfo.

O general coçava a cabeça; estava embaraçado e descontente. Por fim, disse:

- É impossível! Jackson não pode disciplinar e educar um bando de crianças terríveis. Não quero! Proíbo-lhe que o faça, ouviu, Jackson? E tu, Maria Pétrovna, ouviste bem?

Jackson inclinou-se; a Sr. a Papofski disse, num tom irónico, que estava habituada a ser tratada como uma estranha, assim como os filhos, mas que se submetia às ordens do tio.

O jantar decorreu serenamente; ao serão, as crianças brincavam na galeria, como de costume. Tiago e Paulo também foram convidados. Natasha e o preceptor tiveram de intervir várias vezes. Mr. Jackson observava e fazia o seu juízo.

Quando as crianças se retiraram, o general acompanhou a Sr. a Dabrovine aos seus aposentos; Mr. Jackson pediu licença para ir repousar, como tanto necessitava. A Sr á Papofski recolheu também ao seu quarto.

Como habitualmente, o general demorou-se no salão da sobrinha, a conversar.

NATASHA - O pobre Mr. Jackson é muito infeliz.

GENERAL (sobressaltado) - Como podes saber isso? Ele contou-te alguma coisa? NATASHA - Não, meu tio, não me contou nada, mas eu compreendi que era assim, pelo seu ar triste, pensativo e amargurado. Reparou no abatimento dele?

GENERAL - Foi porque enjoou na viagem de Inglaterra para cá. E depois, sempre custa separar-se da família e dos amigos.

NATASHA - Farei tudo quanto puder para que ele se sinta feliz entre nós.

GENERAL (sorrindo) - És um anjo! Conversaram ainda durante algum tempo. Por fim, Natasha chamou Derigny para acompanhar o tio e cada um recolheu ao seu quarto. Quando ficou só com Derigny, o general contou-lhe que, alguns anos antes, durante uma campanha na Circassia, tivera como ajudante de campo um jovem polaco, o príncipe Pajarski, um dos nomes mais ilustres da Polónia, a que se dedicara muito, prestando um ao outro grandes serviços.

- Estimava-o como se fosse meu filho! exclamou ele, comovido.

E continuou a contar:

- Romane foi passar uma licença à Polónia e nunca mais ouvi falar nele. Soube apenas que tinha desaparecido.

Por fim, explicou:

- Antes de jantar, Romane disse-me que o acusaram de ter conspirado para libertar a Polónia. Foi por isso que o mandaram para a

Sibéria, onde sofreu horrivelmente. Conseguiu escapar através de mil perigos. O que o salvou foi ter encontrado os seus filhos e a si, meu bravo Derigny.

DERIGNY - Meu general: antes de lhe perguntar qual o destino que tenciona dar ao príncipe Pajarski, que não pode ficar eternamente preceptor dos seus sobrinhos, devo dar-lhe conta de uma descoberta feita pelo Tiago.

Então, Derigny contou tudo o que o pequenito ouvira à Sr. a Papofski.

O general tornou-se quase roxo. Os olhos pareciam querer saltar-lhe das órbitas. Só depois de alguns minutos conseguiu dominar a sua indignação. Por fim exclamou:

- A miserável! A infame! E o pior é que podia conseguir o que desejava. E agora, com o nosso pobre Romane aqui, ainda pior! Se ela descobre qualquer coisa, estamos perdidos! Que havemos de fazer? Ajude-me, Derigny!

DERIGNY - Contra semelhante perigo, só vejo um meio: sairmos daqui.

GENERAL - E como havemos de viver, sem dinheiro, num país estranho? Somos seis pessoas.

DERIGNY - Porque não vende algumas das suas propriedades?

GENERAL - Sim, senhor! Bela ideia. Venderei a minha casa de Sampetersburgo, a de Moscovo, as minhas terras da Crimeia, as de Kiev, as de Orel. Tudo isto vale seis a sete milhões, pelo menos. Vou tratar disso já amanhã. Mandarei o dinheiro para Londres e não para França, porque poderia levantar suspeitas. Mas Gromiline terá de ficar para ela, a malvada! Demónio! Como hei-de fazer para impedir isto? E como havemos de partir sem que ela dê por isso?

DERIGNY - Convém que ela saiba. GENERAL - Você está doido! Se ela sabe,

é capaz de nos denunciar a todos.

DERIGNY - Não, meu general. É preciso, pelo contrário, interessá-la pela nossa partida. Dirá que necessita de um clima mais suave e que a Sr. a Dabrovine precisa de fazer um tratamento de águas na Alemanha. O meu general pedirá à Sr. a Papofski para dirigir os seus negócios durante a sua ausência, que será apenas de alguns meses.

GENERAL - Mas assim ela ficará senhora de Gromiline, que é exactamente o que eu não quero. DERIGNY - Não ficará senhora de coisa alguma, porque este projecto só será realizado depois de o meu general ter vendido Gromiline, combinando com o comprador só tomar posse da propriedade alguns dias depois da nossa partida.

- Muito bem! Muito bem! - exclamou o general, esfregando as mãos. - Bela vingança! Irei morrer a França como sempre desejei. Levo-o de novo para a sua Pátria, meu caro Derigny, asseguro o futuro da minha filha e deixo-os todos contentes, felizes!

DERIGNY - O meu general esquece o pobre príncipe.

GENERAL - Quem lhe diz que o esqueço? Se até tenho projecto de o casar! Mas não é ainda. Daqui a um ou dois anos. Você não me compreende, mas compreendo-me eu.

Derigny não pôde deixar de sorrir. O general ria a bom rir, e recomendou a Derigny que o acordasse cedo na manhã seguinte.

 

             A esperteza do general

Os dias seguintes decorreram sem incidentes. Mr. Jackson revelava conhecimentos muito vastos e era delicadíssimo para todos. A Sr. a Da brovine e o general estavam encantados, bem como Natasha. Tiago fora convidado, com grande alegria sua, a assistir às lições.

Entretanto o general ia pondo em prática o seu plano, vendendo propriedades e colocando o dinheiro em Inglaterra. Finalmente, um dia recebeu uma proposta para a compra de Gromiline, feita por um ajudante de campo do imperador. Oferecia cinco milhões, pagos imediatamente. O general aceitou, com a condição de a venda não ser revelada a ninguém até ao dia 10 de Maio, data em que o novo proprietário viria tomar posse da propriedade. As condições foram aceites. A Sr. a Papofski continuava a ignorar tudo o que se passava.

Nessa altura já a Sr. a Dabrovine conhecia a verdadeira identidade de Mr. Jackson. Fora ele próprio quem pedira ao general para dizer a verdade à sobrinha. O príncipe Pajarski quis assim provar a grande confiança que tinha nos nobres sentimentos da mãe dos seus discípulos.

No fim do Inverno, o general, estando presente a Sr. a Papofski, propôs a Natália uma viagem à Alemanha, para fazer uma cura de águas. A Sr. a Dabrovine fez algumas observações sobre as maçadas que essa viagem lhe traria, principalmente por serem muitas pessoas.

GENERAL - E podes juntar ainda ao grupo a família Derigny.

SRa PAPOFSKI - Que ideia, meu tio, levar toda a gente!

GENERAL - É verdade, Maria Pétrovna!

Como tenciono deixar-te em Gromiline e encarregar-te de olhar pelos meus negócios durante a minha ausência, acho preferível desembaraçar-te de pessoas de que não gostas. Além disso, eles desejam regressar a França, onde têm família e bens.

A Sr. a Papofski abriu muito os olhos como se não pudesse acreditar no que ouvia.

SRa PAPOFSKI - Vai deixar-me. aqui. no palácio. encarregada de dirigir tudo?

GENERAL - Exactamente. Farás o que quiseres e gastarás o que quiseres, enquanto aqui te conservares.

SRa PAPOFSKI - E quanto tempo durará a sua ausência, meu bom tio?

GENERAL - Um ano, ou talvez dois, minha querida sobrinha.

A Sr. a Papofski não podia ocultar a sua alegria. Lançou-se nos braços do general, que a repeliu, alegando não querer desmanchar-lhe o penteado.

SRa PAPOFSKI - Meu bom tio! Como eu gosto de si!

GENERAL - Eu sei, minha sobrinha, eu sei! E acredita que eu também gosto de ti, tanto como tu gostas de mim!

A Sr. a Papofski mordeu os lábios. Percebeu a ironia mas pareceu-lhe que aquele momento não era oportuno para se mostrar zangada. Não queria perder Gromiline. Também tinha a sua ideia. Logo que o tio e os "outros" partissem, denunciá-los-ia como conspiradores. Desde que Mr. Jackson ali chegara, ela observara muita coisa suspeita: a familiaridade do tio com o preceptor, conversas em voz baixa, sobressaltos.

A família francesa devia ter sido enviada para ali pelos revolucionários. Também colhera informações sobre Mr. Jackson. Ninguém, na aldeia, o vira chegar; ninguém o conhecia. Natália e Natasha também deviam estar no segredo. Tudo se juntava para tornar mais fácil a denúncia.

Enquanto ela revia, em pensamento, todo aquele plano, o seu olhar fixo e mau, o seu sorriso de triunfo e o seu prolongado silêncio chamaram a atenção do general, da Sr. a Dabrovine e de Romane. Olharam uns para os outros sem falar e, a certa altura, o preceptor levantou-se e saiu com o pretexto de vigiar as crianças.

O general fez o mesmo, anunciou que ia trabalhar, e disse:

- Estou a pôr as minhas coisas em ordem, para te tornar mais fácil a administração dos meus bens, Maria Pétrovna. Creio que gostarás de saber a quanto monta a minha fortuna.

A Sr. a Papofski corou e não se atreveu a falar, com receio de deixar transparecer o seu contentamento.

- Não és curiosa, Maria Pétrovna - disse o general, depois de uns minutos de silêncio. Deves saber que, se fores minha herdeira, receberás doze ou treze milhões.

SRa PAPOFSKI - Oh, meu tio! Bem sabe que não espero ser sua herdeira.

GENERAL - Quem sabe? Julgas que te deserdei, pelo facto de questionarmos algumas vezes? Ninguém sabe o que pode suceder.

A Sr. a Papofski transfigurou-se; de tão corada que se fez, parecia que ia ter uma congestão. O general adivinhou tudo o que se passava na sua alma.

Enquanto ela procurava dominar a excitação em que se encontrava, o general ofereceu o braço à Sr. a Dabrovine e saiu discretamente do salão. Logo que chegou aos aposentos de Natália, deu, então, largas à sua alegria.

Pouco depois, entrou Romane. Vendo-os rir, ficou surpreendido. Mas o general recomendou-lhe, por entre gargalhadas:

- Fecha a porta, fecha a porta!

ROMANE - Perdoem-me a indiscrição, mas porque riem assim?

GENERAL - Rimo-nos de Maria Pétrovna, das suas esperanças, da sua satisfação.

ROMANE - Perdão, meu caro conde, mas eu não partilho da vossa alegria. Confesso que os olhares triunfantes e maus da Sr. a Papofski me assustaram.

A Sr. Dabrovine contou, então, a Romane, a breve conversa do general com a Sr. a Papofski, e ele acabou por achar imensa graça, dizendo:

- A verdade é que o meu caro General nos salvou a todos de um plano infernal, que poderia ter os mais terríveis resultados, principalmente para mim.

GENERAL - E para mim também, tenho a certeza!

SRa DABROVINE - Pela minha parte o perigo seria o mesmo, visto ter- me convertido ao catolicismo, graças a um bom padre que vivia perto de mim.

Romane escutou a Sr. a Dabrovine com simpatia e respeito. Depois de uma breve hesitação, perguntou:

- E os seus filhos?

SRa DABROVINE - São católicos como eu, e desejam vivamente praticar a sua religião. Mas, como sabe, na Rússia, os católicos são quase tão perseguidos como os polacos.

Romane beijou-lhe respeitosamente a mão, e, dirigindo-se ao general, disse:

- Creio que faríamos bem em apressar a nossa partida.

GENERAL - Tem razão. Vou tratar disso. Partiremos no dia 1 de Maio. Négrinski, o novo proprietário de Gromiline, chegará a 10. Nessa data já nós teremos passado a fronteira. Ela terá assim dez dias de glória e triunfo!

SRa DABROVINE - Mas, meu pai, não receia que, durante esses dez dias, ela seja cruel para os criados e para os pobres camponeses?

GENERAL - Não, minha filha, por que antes de partir, darei a liberdade a todos os meus servos e farei, por escrito, uma declaração, determinando que, se ela mandar chicotear ou maltratar uma única pessoa que seja, perderá todos os seus direitos e será obrigada a deixar as minhas terras dentro de vinte e quatro horas.

SRa DABROVINE - Abençoado seja, meu tio!

Nesse mesmo dia, o general procurou uma maneira de conversar novamente com a Sr. a Papofski, que não se cansava de dizer amabilidades ao tio, elogiando a irmã e os sobrinhos e concordando com a ideia de partirem mais cedo, para abreviarem o tratamento das águas. Quando chegou a altura de se referir ao preceptor, a Sr. a Papofski exclamou:

- E Mr. Jackson! Que homem admirável! Como ele fala bem francês! Ninguém dirá que é inglês.

Ao dizer isto, olhou fixamente para o tio, que corou um pouco. Então ela atreveu-se a continuar:

- Parece um francês. (O general não se moveu. ) Ou. mesmo. um polaco. (O general deu um pulo. )

GENERAL - Polaco! Um polaco em minha casa? Que ideia! Mr. Jackson parece-se tanto com um polaco como eu me pareço com um chinês.

A animação do general era forçada. A Sr. a Papofski compreendeu-o perfeitamente, dizendo de si para si:

"É um polaco, tenho a certeza. E o tio sabe-o. Se ele não me tivesse deixado a direcção dos seus negócios, iria a Smolensko e denunciaria o polaco, e todos, antes de uma semana. Era só o tempo de descobrir o fio da meada. Mas assim é inútil: ficarei senhora da sua fortuna, venderei o que me apetecer e guardarei o dinheiro para mim. "

O general, ao deixar a Sr. a Papofski, dirigiu-se logo aos aposentos de Natália, contou-lhe tudo o que se passara e resolveram chamar imediatamente Derigny, para o porem ao corrente do sucedido.

Derigny concordou que a situação se ia tornando grave e que deviam partir o mais depressa possível, avisando a Sr. a Papofski somente na véspera.

SRa DABROVINE - Faltam-nos os passaportes.

GENERAL (sorrindo) - Estão no meu escritório há oito dias. Vá chamar Romane, meu caro Derigny.

Derigny encontrou Romane na galeria. Parecia agitado. Natasha acompanhava-o, falando-lhe GUR com vivacidade. Estranhando a atitude do preceptor, Derigny perguntou-Lhe o que sucedera.

Foi Natasha quem lhe respondeu:

-Mr. Jackson está irritado e zangou-se com os meus primos Mitineka e Yégor, porque eles principiaram a chamar-lhe polaco.

Mr. Jackson tomou isso como uma injúria e eu tenho estado a dizer-lhe que não tem razão, porque os polacos são muito bons e muito infelizes. Mas, em vez de me escutar, ele mostra-se cada vez mais contrariado e parece que vai chorar; apertou-me a mão de tal maneira, que por pouco me não fez estalar os dedos. Nem parece o mesmo!

Derigny não respondeu. Romane também se conservou calado. Natasha afastou-se um pouco, a ralhar com os primos. Entretanto, Derigny e Romane saíram.

De repente, apareceu a Sr. a Papofski e perguntou:

- Mr. Jackson não está aqui?

MITINEKA - Não, mamã. Foi- se embora furioso porque lhe chamámos polaco, como a mamã mandou.

NATASHA - Por mais que eu lhe dissesse que não devia tomar como ofensa chamarem- lhe polaco, ele encolerizou- se e saiu.

- Ah! - exclamou a Sr. a Papofski.

E saiu também, desapontada, pensando:

"Se ele não é polaco, quem será ele afinal? "

Romane foi encontrar o general nos aposentos da Sr. a Dabrovine. Depois de trocarem impressões, ficou resolvido que ele voltasse para junto das crianças, aparentando a maior calma possível.

Quando chegou à galeria estavam os pequenos todos agrupados em volta de Natasha, que exclamou, ao vê-lo:

- Ah! sempre voltou, Mr. Jackson? Peço-lhe que desculpe os meus primos. E, já agora, sempre lhe quero pedir a si, também, que não deteste os pobres polacos. Pense que não têm pátria nem lhes deixam, ao menos, praticar a sua santa religião! Devemos admirá-los e querer-lhes bem.

Romane olhava para ela sem lhe responder, mas a sua alma de polaco vibrava de alegria.

NATASHA - Mas diga qualquer coisa! É assim tão difícil ter piedade dos que sofrem, daqueles a quem separam das suas famílias e a quem mandam para a Sibéria?

- Basta, basta! - murmurou Romane. Também eu tenho piedade desses infelizes, mas não falemos mais em tal assunto.

NATASHA - Está bem! Ficará para mais tarde. Mas fique sabendo que converso muitas vezes sobre isto com a mamã.

E Natasha, risonha e ligeira, escapou-se a correr, para contar à mamã e ao tio aquele incidente.

GENERAL - Sabes que partimos dentro de oito ou dez dias?

NATASHA - Ainda bem!

GENERAL - Não gostas de aqui estar? Natasha corou e não respondeu. GENERAL - Diz o que pensas.

NATASHA - Meu tio. será mal eu sentir-me encantada com a ideia de me afastar da tia e dos primos?

GENERAL - E porque estás tu encantada com a ideia de os deixar?

NATASHA - Pois bem, visto que o tio quer saber, vou ser franca: é porque a tia é má para os meus irmãos, a quem chama burros e pelintras; e também é má para Tiago e Paulo, a quem ralha constantemente, chamando-lhes lacaios e ameaçando-os de os mandar chicotear; nem Mr. Jackson ela poupa, fazendo troça dele e obrigando-o a levar-lhe os abafos e o chapéu, como se fosse um criado. Tudo isto faz-me muita pena, porque compreendo muito bem que Mr. Jackson não está habituado a ser tratado assim. Os pobres Derigny choram muitas vezes, principalmente o Tiago. Quanto aos primos, implicam constantemente com os meus irmãos, atormentam o Tiago e o Paulo e dizem disparates a Mr. Jackson, quando ele protege os pobres pequenos. O tio deve calcular que tudo isto é muito desagradável.

GENERAL (rindo) - É mesmo muito desagradável. vem dar-me um beijo... São apenas mais oito dias de paciência... e ficaremos todos livres desses demónios. Mas sempre te vou dizendo que estamos todos tão encantados como tu.

NATASHA - Deveras? O tio também está contente? Que bom!

Natasha quis ir dar a boa nova aos pequenos Derigny. O general concordou, mas recomendou-lhe que guardassem segredo, todos, até ao dia seguinte.

 

           A caminho da liberdade

No dia seguinte, um pouco antes do almoço, o general mandou chamar a Sr. a Papofski. Ela chegou, um pouco inquieta, e encontrou o tio instalado numa poltrona. Depois de lhe fazer uma saudação majestosa com a mão, o general disse-lhe:

- Senta-te Maria Pétrovna, e escuta-me: Vieste a Gromiline com a intenção de receber parte da minha fortuna. Finges-te pobre, sabendo eu que és rica. Silêncio! Não me interrompas. Não ligo importância alguma à minha fortuna e entrego-te, voluntariamente, o domínio de Gromiline e outros bens que tu cobiças, e que possuo na Rússia. Em vez de te dar a gerência da minha fortuna enquanto estou ausente, resolvi fazer-te doação de tudo, guardando apenas os capitais que me permitam viver desafogadamente com tua irmã e os filhos, que tu detestas e de quem eu gosto muito. Eles não pensam no que lhes hei-de deixar. Como sabes, a saúde de tua irmã exige que façamos uma viagem. Fixei a partida para o dia 1 de Maio, daqui a uma semana. Levo comigo as pessoas que estimo. Deixo-te todos os meus servos. Proíbo-te que os maltrates, e farei uma declaração que os defenderá da tua maldade e das tuas cóleras. Não te contraries. não dissimules mais. conheço-te muito bem; adivinho tudo quanto tu pensas e que tu julgas poder esconder-me. Não disfarces a tua alegria e, principalmente, nada de hipocrisias.

A Sr. a Papofski tentara, por várias vezes interromper o tio, mas ele não lho consentira. Na sua alma havia, ao mesmo tempo, satisfação e cólera. A expressão do seu rosto era horrível. Quando acabou de falar, o general olhou-a com um desprezo misturado de cólera. Vendo que ela continuava calada, dispôs-se a sair.

- Meu tio. - disse ela, com voz sufocada. O general parou e voltou-se.

- Meu tio. não sei. como agradecer-lhe.

O general abriu a porta, saiu e tornou a fechá-la violentamente, dirigindo-se à sala de jantar, onde o esperavam, por ordem sua, a Sr. a Dabrovine, os filhos, Romane e os pequenos Papofski.

- Almocemos! - disse ele, com grande calma, sentando-se à mesa. - Tu, Natasha, senta-te à minha esquerda.

NATASHA - Mas, meu tio. é o lugar da tia...

GENERAL (sorrindo) - A tua tia está no salão, a dirigir a sua nova fortuna, temperada com algumas verdades duras de engolir.

Natasha não compreendia e olhava, com ar interrogador, para o tio, a mãe e Romane, que riam, todos três.

- Saberás tudo dentro de quinze dias, minha filha. Come o teu almoço e não te preocupes com os ausentes.

Natasha seguiu o conselho do tio e ouviu-o, com prazer, anunciar a todos a sua próxima partida.

Durante os últimos dias passados em Gromiline houve grande agitação, por causa dos preparativos de partida. A Sr. a Papofski aparecia somente às refeições, não fazendo a mais leve alusão à conversa que tivera com o tio.

Os filhos, porém, continuavam a fazer toda a espécie de "partidas" aos primos e aos pequenos Derigny, forçando o general a castigá-los severamente. Sonushka foi chicoteada por ter atirado um frasco de tinta sobre Natasha que ficou num estado lastimoso, com o vestido completamente estragado.

Na véspera da partida, o general entregou à Sr. a Papofski uma pasta cheia de papéis, que ela recebeu e guardou apressadamente, sem dizer uma palavra.

Para evitar despedidas, o general anunciou que partiriam ao meio- dia, depois do almoço, mas a partida efectuou-se às nove horas da manhã.

Antes de subir para a carruagem, o general reuniu todos os servos, anunciando-lhes que lhes concedera, a todos, a liberdade, dando a cada um quinhentos rublos. A alegria daquela pobre gente foi tal, que o general sentiu-se largamente recompensado.

Partiram, finalmente: o general foi numa carruagem com a Sr. a Dabrovine, Natasha e Romane; Helena Derigny seguiu noutra, com os filhos e Alexandre e Miguel, que tinham pedido, com insistência, para viajar com os pequenos Derigny.

Junto do cocheiro da primeira carruagem ia um agente da polícia e um criado; na segunda ia Derigny. Levavam abundantes provisões e tudo quanto poderia ser-lhes necessário durante a viagem.

A partida foi triste. O próprio general não ocultava o desgosto que sentia ao deixar, para sempre, as suas terras e o seu país. A Sr. a Dabrovine também sofria. Romane temia ser reconhecido antes de passar a fronteira.

- Em que pensas? - perguntou-lhe o general adivinhando as graves preocupações do seu amigo.

ROMANE - Penso no agente que nos acompanha e na vantagem de ter um homem da polícia às nossas ordens durante a viagem.

GENERAL - E tens razão, meu amigo; é uma protecção, sob todos os aspectos, principalmente porque sabe que será largamente recompensado.

O general acentuou muito as palavras, olhando fixamente para Romane, a fim de o tranquilizar. Ele compreendeu a intenção do general e recuperou a habitual serenidade.

A viagem decorreu sem incidentes. As crianças sentiam-se felicíssimas; riam e cantavam de tal forma, que se ouvia na outra carruagem, o que divertia Natasha e o próprio general.

Pararam duas vezes para comer e passaram a noite numa aldeia. A Sr. a Dabrovine, Natasha e Helena Derigny ocuparam-se da distribuição dos quartos, tendo especial cuidado no arranjo daquele que foi destinado ao general.

A noite foi triste para todos. Cada um tinha as suas preocupações e as suas saudades. Só as crianças dormiram profundamente, fatigadas com o dia de jornada e contentes com a ideia da longa viagem que iam fazer.

 

           A passagem da fronteira

Na manhã seguinte prepararam-se para con tinuar a viagem. O general estava apreensivo. Beijou a sobrinha e os filhos, apertou a mão a Romane, mas não pronunciou uma única palavra.

- Avô. - disse Natasha, sorrindo. O general pareceu ficar surpreendido e, ao mesmo tempo, comovido.

- Avô. - repetia ela -, quer vir comigo para a outra carruagem? Trocará o lugar com a Sr. a Derigny.

GENERAL - Não cabemos lá todos; somos seis.

NATASHA - Eu arranjarei tudo. O avô vai comigo no banco de trás.

GENERAL - E os quatro pequenos?

NATASHA - Vão na nossa frente. Será muito divertido! Cantaremos todos e o avô cantará também connosco, sim?

O general mudou logo de disposição. Soltou uma gargalhada e declarou-se encantado com a ideia de Natasha. Terminado o pequeno almoço, cada um dispôs-se a tomar o seu lugar na carruagem que lhe era destinada. Romane tinha ficado um pouco para trás. De repente, sentiu que lhe tocavam no braço. Voltou-se e viu uma

mulher com um pão na mão, que lhe disse em polaco:

- Quando aqui passaste há três anos, a caminho da Sibéria, dei-te um pão igual a este. Que Deus te proteja e te faça passar a fronteira sem perigo. Admiras-te do que te digo? É por que te reconheci. Lembro-me perfeitamente de ti, quando aqui passaste com os teus companheiros de infortúnio. Mas não tenhas receio. Não te trairei. Também sou polaca.

ROMANE - Como te chamas tu?

MULHER - Chamo-me Maria Fenizka. E tu?

ROMANE - Príncipe Romane Pajarski.

MULHER - Deus te abençoe. Já ouvi o teu

nome. Deixa-me beijar a tua mão por teres lutado pela libertação da Pátria.

Romane levantou a pobre mulher, que ajoelhara diante dele, e abraçou-a, dizendo:

- Adeus, Maria Fenizka. Não me esquecerei de ti. Silêncio. Vem gente.

A mulher afastou-se rapidamente. Entretanto ultimavam-se os preparativos da partida. A ideia de Natasha, embora graciosa, não foi posta em prática, e o general subiu novamente para a carruagem da Sr. a Dabrovine. Natasha, porém, foi obrigada a ir para junto dos irmãos, porque o general achava que, para ela, seria muito mais divertida a companhia dos pequenos.

Natasha acedeu, mas quis despedir-se da mãe, do general e de Jackson. Ao olhar para ele ficou espantada e perguntou.

- Tem alguma coisa, senhor Jackson? Repare, avô veja como está pálido!

- Cale-se, por amor de Deus! - murmurou Romane, apertando-lhe a mão a ponto de a magoar.

Natasha afastou-se, admirada e pensativa, enquanto Romane se instalava no seu lugar.

Depois de a carruagem partir, aproveitando os gritos do cocheiro, que animava os cavalos, e o ruído das rodas, o príncipe Pajarski contou, por meias palavras, o que se passara. O general ficou inquieto pelo facto de a mulher ter reconhecido Romane, e resolveu não pernoitar em mais parte alguma, andando noite e dia, até alcançar a fronteira. Era, porém, necessário arranjar qualquer justificação para isso, por causa do agente que os acompanhava. Combi naram, então, que a Sr. a Dabrovine se queixaria de ter passado uma noite horrível na estalagem, dizendo também sentir-se cada vez pior de saúde. Romane protestaria contra a precipitação da viagem, mas o general diria que a saúde da sobrinha estava acima de tudo e resolveria viajar mesmo de noite, mudando os cavalos tantas vezes quantas fossem necessárias.

Efectivamente tudo se passou assim. Ao chegar a noite, Romane passou para a carruagem dos discípulos, a fim de dar o seu lugar à Sr. a Derigny; Natasha voltou para junto da mãe e do tio, procurando todos instalar-se o melhor possível para dormir. Houve ainda uma pequena discussão entre Natasha e o general, que não queria aceitar uma almofada que ela colocou para ele encostar, confortavelmente, a cabeça.

- Se não aceita - disse ela -, nunca mais lhe chamo avô. Ficará sendo sempre meu tio.

Esta ameaça convenceu o general e tudo serenou.

Quando o Sol despontou, na manhã seguinte, Natasha baixou a vidraça e viu que estavam à porta de uma pensão. O agente encontrava-se junto da portinhola, esperando ordens.

-Onde estamos nós? O que deseja o senhor?

AGENTE - Desejo saber se paramos aqui para tomar café e repousar um instante.

NATASHA - Por mim, acho óptimo. Tenho fome e sinto as pernas dormentes. Mas todos dormem ainda. Ah! Ali vem Mr. Jackson.

  1. JACKSON -É preferível acordar o general.

Assim fizeram. O general, ao saber que Natasha declarara estar com fome, concordou logo em descerem e confessou que ele próprio comeria alguma coisa com prazer.

Reuniram-se todos na sala da pensão, tomaram bebidas quentes e trocaram impressões, e a viagem continuou com a maior felicidade até à fronteira, onde todas as formalidades foram rápidas. Nessa altura, o general gratificou o agente com tal generosidade, que o deixou admirado. E o passaporte inglês de Jackson foi visado, apesar de certas deficiências.

Nos primeiros momentos, depois de transposta a fronteira, ninguém, na carruagem do general, se atreveu a pronunciar uma só palavra. Mas quando se certificou de que já não havia o menor perigo, o general exclamou, cheio de comoção:

- Estás salvo, meu filho!

Romane, comovidíssimo, abraçou aquele amigo incomparável, sem poder conter as lágrimas.

A Sr. a Dabrovine apertou também a mão de Romane, a chorar.

Natasha, espantada, olhava, ouvia e não compreendia nada.

- Mamã, que aconteceu a Mr. Jackson? perguntou ela.

- Estou livre! Livre - respondeu ele. Acabou-se a comédia de Mr. Jackson e da Inglaterra. Só me interessa a Polónia, a minha santa Pátria! Compreende agora a minha alegria?

A surpresa de Natasha aumentava. Os seus grandes olhos azuis, muito abertos, fixavam-se ora em Romane, ora em sua mãe, ora no general.

- Polaco! - disse ela, por fim. - O senhor é polaco! E zangava-se quando lho chamavam!

O general, então, explicou tudo a Natasha, que não podia despregar os olhos de Romane, impressionadíssima. Por fim, escondeu o rosto entre as mãos e chorou convulsivamente. A mãe procurou acalmá-la, e o general disse-lhe:

- Não chores mais, minha Natasha. Ele agora é feliz; e nós também. Somos todos felizes e livres!

 

             As primeiras surpresas

Depois da partida do general, a Sr. a Papofski sentia-se enlouquecer de alegria, e resolveu logo "meter toda aquela gente na ordem", como ela dizia.

Mandou chamar Vassili e, entretanto, ia pensando que os filhos aprenderiam a chicotear, para castigar os servos sempre que fosse preciso. "O meu tio estragava esta gente com mimo. Meu marido é que sabe chicotear! Tenho que pôr isto na ordem. "

Como lhe vieram dizer que Vassili havia saído, ficou furiosa e gritou.

- Saiu sem minha autorização? É impossível! Veio, porém, o criado de mesa, Nikita, e confirmou a saída de Vassili.

SRa PAPOFSKI - Aonde foi ele? NIKITA - Foi à cidade procurar colocação. A Sr. a Papofski ficou muda de surpresa e cólera.

O criado continuou, olhando para ela com maliciosa alegria:

- Como o senhor Conde nos deu a liberdade

a todos, fazemos tenção de nos irmos embora. Alguns vão para Smolensko. Eu prefiro ir para Moscovo, e os cocheiros e lacaios também; ficamos ao serviço do senhor general Négrinski.

SRa PAPOFSKI - A liberdade! Meu tio Sem dizer nada! Mas tu estás doido. É impossível! Quem manda em Gromiline sou eu; tenho todo o poder sobre vós, posso mandar-vos chicotear até vos fazer cair mortos.

NIKITA - O senhor Conde deu-nos a liberdade! Ninguém tem direitos sobre nós, a não ser o imperador, o governador e o capitão ispravnik (*).

A cólera da Sr. a Papofski redobrou. Não via maneira de se fazer obedecer. Nikita saiu.

 

(*) Espécie de juiz de paz, ou comissário de polícia, que tinha poderes muito vastos.

 

Mashka, a criada de quarto, retirou-se também. A Sr. a Papofski ficou sozinha, a ruminar o seu desapontamento. Acabou por se consolar, pensando nas contribuições que faria pagar aos camponeses de Gromiline e de todas as suas novas propriedades. Serviram-lhe o almoço como de costume. Apesar de estar furiosa não ralhou a ninguém, receando que os cozinheiros e demais criados a abandonassem imediatamente. No dia seguinte, deu um grande passeio através dos domínios de Gromiline e percorreu aldeias, fazendo cálculos sobre as árvores que mandaria cortar para vender, e falando aos aldeões com uma dureza, que os deixou apavorados. A notícia da doação de Gromiline à Sr. a Papofski espalhou-se depressa, e toda aquela pobre gente lamentava a partida do antigo senhor, que sempre fora tão bom.

Como alguns camponeses ousassem fazer-lhe pedidos, irritou-se e mandou-os chicotear, preparando-se ela própria, com os três filhos mais velhos, para assistir ao suplício daqueles desgraçados. Mas quando chegou a hora marcada, os camponeses apareceram acompanhados por um staroste(*), que lhe apresentou um documento

 

(*) Homem respeitável, nomeado pelos camponeses para defender os seus interesses.

 

proibindo absolutamente a Sr. a Papofski de aplicar qualquer castigo corporal aos habitantes de Gromiline: nem chicote, nem vara, nem privação de comida ou bebida, sob pena de anular a doação que o general lhe fizera.

Raivosa, a Sr. a Papofski quis rasgar o papel, mas não o conseguiu porque os camponeses fizeram-no passar de mão em mão, acabando por desaparecer, sem se saber onde.

Além disso, o staroste declarou, com um sorriso irónico, que o documento assinado pelo Sr. Conde estava em poder do capitão ispravnik; o que ela vira era apenas a cópia.

Saíram todos e a Sr. a Papofski ficou só com os filhos. Sentia-se enlouquecer. Tudo aquilo lhe parecia um pesadelo. Resolveu ir a Smolensko, falar com o capitão ispravnik e convencê-lo a tomar o seu partido, ainda que fosse necessário dar-lhe uma quantia elevada. Regressou ao palácio um pouco mais calma.

Efectivamente, uma hora depois partia para Smolensko, ordenando ao cocheiro que levasse os cavalos a galope.

 

             Visita que acaba mal

O capitão ispravnik não se mostrou surpreendido com a visita da Sr. a Papofski. Era um homem de aspecto severo, em quem o governador depositava a maior confiança. O seu próprio aspecto - alto, muito forte e ruivoaumentava a impressão de terror que ele causava. A Sr. a Papofski nunca o tinha visto e, ao entrar, perguntou-lhe com ar altivo:

- Yéfime Vassiliévitche, foi a ti que o meu tio entregou o documento que concede a liberdade a todos os seus servos e aos camponeses dos seus domínios?

CAPITÃO - Sim, Maria Pétrovna, esse documento está em meu poder.

SRa PAPOFSKI - E não pode passar para as minhas mãos?

CAPITÃO - É impossível.

SRa PAPOFSKI - É muito aborrecido para mim, porque essa gente é tão má e impertinente, que não há maneira de os fazer obedecer quando se sentem livres.

CAPITÃO - Não digo o contrário, mas que hei-de fazer, se o seu tio resolveu assim?

SR A PAPOFSKI - Mas. sabes que o meu tio me fez doação das suas terras?

CAPITÃO - É possível, mas isso não impede que tenha dado a liberdade aos camponeses.

SRa PAPOFSKI - Essas terras valem milhões. Vivem nelas seis mil camponeses.

O capitão inclinou-se e ficou silencioso, olhando para a Sr. a Papofski com um sorriso mau.

SRa PAPOFSKI - Não preciso de tudo para mim. Daria de boa vontade algumas dezenas de milhar de rublos para possuir esse documento e também um outro em que o meu tio me proíbe de chicotear os camponeses.

O capitão conservou-se calado.

SRa PAPOFSKI - Darei cinquenta mil rublos por esses documentos.

CAPITÃO - É muito fácil. Vou chamar o meu escrivão para que faça uma cópia. Isso custar-lhe-á apenas vinte e cinco rublos.

A Sr. a Papofski mordeu os lábios e, depois de uns momentos de hesitação, declarou:

- Não é uma cópia que eu desejo. mas o próprio documento.

CAPITÃO - É impossível, Maria Pétrovna. SRa PAPOFSKI - Darei sessenta mil. oitenta mil. cem mil rublos. Compreendes-me, Yéfime Vassiliévitche? Cem mil rublos!

CAPITÃO - Compreendo muito bem! Oferece-me cem mil rublos para destruir os documentos que o seu tio me confiou. Não é isto?

A Sr. a Papofski respondeu com uma inclinação de cabeça.

CAPITÃO - De que me servirão esses cem mil rublos se me mandarem para a Sibéria?

SRa PAPOFSKI - Como poderiam mandar-te para a Sibéria, se os documentos seriam queimados?

CAPITÃO - E as cópias que eu mandei ao staroste e aos próprios camponeses?

A Sr. a Papofski ficou petrificada.

CAPITÃO - Está provado que deseja anular esses documentos, e se eu me prestar a isso dar-me-á cem mil rublos, não é assim?

SRa PAPOFSKI - Cem mil rublos. ou mais ainda, se for necessário.

CAPITÃO - Nesse caso, resta- me cumprir o meu dever: comunicar ao governador a sua desonesta proposta. Creio que afinal será a senhora quem irá para a Sibéria.

SRa PAPOFSKI (horrorizada) - Por amor de Deus não faças uma coisa dessas meu caro Yéfime Vassiliévitche. Estás a brincar?

CAPITÃO - Falo muito a sério E se quer que eu me cale, tem de dar-me uma quantia maior.

SRa PAPOFSKI - Mais de cem mil rublos É horrível! Exigir-me tanto dinheiro só para não apresentar queixa contra mim!

CAPITÃO - Mas, ainda há pouco, a senhora queria dar-me a mesma soma só para ter o prazer de chicotear os seus criados e camponeses. Não é de mais que pague o dobro para não ser a senhora própria chicoteada todos os dias, durante dois ou três meses, pelo menos.

SRa PAPOFSKI - Isso é infame! Abominável!

CAPITÃO - Abominável e infame era o que a senhora queria fazer. Não sairá daqui antes de assinar uma declaração, comprometendo-se a pagar-me duzentos mil rublos, em dois anos, metade em cada ano. senão vou imediatamente apresentar a minha queixa ao príncipe governador.

- Não, não Por amor de Deus Tem piedade de mim! - gritou a Sr.a Papofski, lançando-se de joelhos aos pés do capitão. - Só te peço que diminuas um pouco a quantia. Dar-te-ei cem mil rublos. cento e vinte mil. cento e cinquenta mil!

O capitão levantou-se e disse:

- Adeus, Maria Pétrovna; até daqui a algumas horas. Voltarei acompanhado por dois soldados, que a conduzirão à prisão.

- Piedade! Piedade! - gritou a Sr. a Papofski. - Dar-te-ei os duzentos mil rublos.

- Sente-se, Maria Pétrovna! - disse o capitão indicando-lhe uma cadeira. - Assine o documento que eu vou escrever.

A Sr. a Papofski assinou com a mão trémula. CAPITÃO - Agora, pode partir. E se disser uma palavra acerca destes duzentos mil rublos, faço- a desaparecer sem que pessoa alguma consiga saber o que foi feito de si. Travará, então, relações com o chicote e com a Sibéria.

O capitão abriu a porta; no momento de sair, a Sr. a Papofski voltou-se e olhou-o com ódio, dizendo:

- Miserável!

- A senhora ultrajou a autoridade! - exclamou o capitão, e, chamando dois homens que estavam perfilados ao fundo da sala, sem que a Sr. a Papofski os tivesse visto, ordenou:

- Levem esta mulher e conduzam-na ao salão privado.

Apesar da sua resistência, a Sr. a Papofski foi levada por aqueles homens robustos, que a chicotearam sem piedade. O suplício foi curto, mas terrível. Por fim, o capitão disse, oferecendo-lhe o braço com um sorriso irónico:

- Pode sair, Maria Pétrovna!

O desejo dela era esbofeteá-lo, estrangulá- lo, insultá-lo, mas dominou-se e saiu, sem lhe aceitar o braço.

Quando se encontrou novamente dentro da carruagem, as forças faltaram-lhe e desmaiou. Só perto de Gromiline recuperou os sentidos, mas estava tão magoada, que ficou vários dias de cama. Passado esse tempo, ao levantar-se, sentiu um movimento extraordinário em toda a casa. Que se estaria passando?

 

                 Castigo dos maus

A Sr. a Papofski chamou os criados, que não lhe responderam. Os filhos também não apareceram, e ela, então, resolveu-se a ir ver o que significava tudo aquilo. Encontrou, numa das salas, uma quantidade enorme de malas e caixotes; no antigo escritório do tio estavam muitos homens, entre os quais reconheceu o capitão ispravnik. Conversavam todos animadamente. Ao reconhecer o capitão, a Sr. a Papofski não pôde conter um grito de pavor. Todos se voltaram, e um desses homens, aproximando-se e saudando-a, perguntou-lhe se era Maria Pétrovna Papofski.

- Sim - respondeu ela com voz sumida -, sou a sobrinha do general Dourakine.

- E eu sou o general príncipe Négrinski; venho tomar posse das terras de Gromiline, hoje, 10 de Maio, conforme o desejo de seu tio.

SRa PAPOFSKI (apavorada) - As terras de Gromilin! Mas. eu sou.

GENERAL NÉGRINSKI - Adquiri todo o domínio de Gromiline. Esta notícia parece surpreendê-la, mas a verdade é que o comprei, há já dois meses, e dei por ele cinco milhões. A escritura de venda está nas mãos do capitão ispravnik, que se comprometeu a guardar segredo até à minha chegada.

A Sr. a Papofski quis falar mas não pôde. Fez-se pálida como um cadáver e depois vermelha como um pimentão; os olhos pareciam querer saltar-lhe das órbitas. Por fim, soltou um grito e caiu em convulsões, sobre o tapete.

O general Négrinski ordenou que a levassem para o quarto e lhe dispensassem os cuidados necessários, continuando, em seguida, a tratar da sua instalação e dos seus negócios com o capitão ispravnik.

No estado em que a Sr. a Papofski se encontrava, era impossível fazê-la partir de Gromiline. O príncipe deu ordem para que não lhe faltasse coisa alguma, nem aos filhos. O estado da Sr. a Papofski agravava-se de dia para dia, até que se tornou desesperado.

Antes de morrer, a sobrinha do general Dourakine pediu para falar ao príncipe Négrinski e confessou-lhe tudo quanto projectava fazer, e contou-lhe a sua ida a casa do capitão ispravnik e o que ali se passara, pedindo-lhe que a vingasse.

O general Négrinski dirigiu-se imediatamente ao palácio do governador, que se mostrou indignado e o acompanhou a Gromiline, aonde chegou ainda a tempo de ouvir, da boca da moribunda, a confirmação de tudo.

O capitão ispravnik foi preso; encontraram entre os seus papéis a declaração de dívida de duzentos mil rublos, e ele foi condenado em dez anos de degredo na Sibéria.

Assim acabou a Sr. a Papofski. Um acto de vingança foi o seu último sinal de vida.

Os filhos foram levados para junto do pai. Ninguém lamentou a morte de Maria Pétrovna Papofski, e até para os próprios filhos foi de algum modo uma libertação.

 

         A revelação

Enquanto estes trágicos acontecimentos se passavam em Gromiline, o general Dourakine e os seus companheiros continuavam, tranquilamente, a sua agradável viagem.

O príncipe Romane contou a Natasha tudo quanto sofrera, descrevendo-lhe os tormentos por que havia passado nas prisões e nas minas da Sibéria, onde estivera dois anos. Contou-Lhe também como conseguira fugir daquele inferno, os perigos que passara - fome, sede, frio e, principalmente, o pavor de ser descoberto, até ao momento em que a Providência o levou à floresta de Gromiline.

O seu único crime era desejar a libertação da Polónia, sua Pátria querida!

Natasha escutava profundamente comovida, e mais de uma vez os olhos se lhe encheram de lágrimas. Por fim exclamou:

- Felizmente que tudo isso passou! Mas, agora, certamente, vai deixar-nos. O príncipe Pajarski não pode continuar a ser preceptor de meus irmãos.

GENERAL - Certamente! Serias capaz de continuar a tratá-lo como a um Mr. Jackson qualquer?

PRÍNCIPE - Todo o meu desejo é que ela continue a ver em mim um amigo dedicado, pronto a servi-la em todas as ocasiões. E espero que nenhum de vós se esqueça de mim.

GENERAL - Quem fala aqui em esquecer? Agora o mais importante é irmos comer qualquer coisa, porque estou cheio de fome.

Sorriram todos, contentes, com a despreocupação de quem sabe que o perigo passou. Romane era quem mais alegre se mostrava.

GENERAL - Bem se vê que passaste a fronteira, meu rapaz. Até que enfim te vejo rir.

A refeição foi abundante para o general, e agradável para todos. No fim do jantar resolveram revelar a Alexandre e Miguel a verdadeira identidade de Mr. Jackson, que apertou afectuosamente contra o coração os seus discípulos.

ALEXANDRE - Tenho muita pena. quero dizer, gosto muito que seja o príncipe Pajarski, meu bom Mr. Jackson. O que me custa é não o tornar a ver. Gosto tanto de si!

E o pobre Alexandre rompeu em soluços. PRÍNCIPE - Sereis sempre os meus queridos discípulos, se vossa mãe e vosso tio quiserem conservar-me junto de vós.

ALEXANDRE - Não se importaria. É verdade?

PRÍNCIPE - E porque havia de importar-me? De que me serve ser príncipe se não tenho com que viver? Todo o meu desejo é continuar entre os meus queridos amigos, se mo permitem.

A Sr. a Dabrovine apertou-lhe a mão afectuosamente. O general abraçou-o a tal ponto, que quase o sufocou. Natasha agradeceu-lhe, também, a alegria que dava aos irmãos. Quanto a Tiago e Paulo, conservavam-se afastados, mas o príncipe disse- lhes, abraçando-os:

- E vocês, meus bons pequenos, continuarão também a ser meus discípulos e meus amigos. Foste tu, Paulo, quem me descobriu na floresta.

PAULO - Lembro-me muito bem! O senhor parecia tão infeliz! Fez-me tanta pena!

TIAGO - Eu pensei logo que tinha fugido de qualquer prisão. Mostrava tanto receio de que o denunciassem.

PRÍNCIPE - E tu disseste a alguém? TIAGO - A ninguém! Nunca! Eu bem sabia que era perigoso para o senhor.

GENERAL - És um belo rapaz! Hei-de recompensar-te.

TIAGO - Só quero a vossa amizade. O general calculou, então, que, no dia seguinte, era a data marcada para o general príncipe Négrinski tomar posse do domínio de Gromiline; divertiu-se a pensar na raiva que a Sr. a Papofski devia sentir ao saber a verdade.

Natasha, porém, lamentava a tia e achava o castigo muito severo.

GENERAL - Esqueces-te, minha filha, de que ela nos queria denunciar a todos e fazer com que nos mandassem para a Sibéria? O seu castigo será, afinal, voltar para as suas propriedades, donde não devia ter saído, e ficar sem a minha fortuna, que não devia pertencer-lhe.

NATASHA - É verdade, meu tio, mas nós somos tão felizes, que me faz pena pensar no desgosto dela.

GENERAL - Desgosto Deves dizer antes raiva, furor! Ela tem a sorte que merece. Oxalá que Deus não lhe envie um castigo maior do que aquele que eu lhe preparei.

 

               A excursão à montanha

A viagem prosseguia alegremente. Passaram alguns dias numa cidade importante e chegaram, em fins de Junho a Ems, onde a Sr. a Dabrovine devia fazer um tratamento de águas. Os mais novos faziam belas excursões às montanhas e aos arredores de Ems. Um dia, o general quis acompanhá-los, para escalar as montanhas que dominavam a cidade.

DERIGNY - O meu general permite-me que o acompanhe?

GENERAL - Porquê? Julga que não posso andar sozinho?

DERIGNY - Não é isso, meu general; mas se precisar de alguém para o ajudar a saltar de um rochedo para o outro, estarei eu lá, para lhe oferecer o meu préstimo.

GENERAL - Espera, então, que eu fique encarrapitado nalgum rochedo, sem poder sair de lá?

DERIGNY - Não, meu general, mas é sempre preferível sermos muitos, em passeios deste género.

GENERAL - Acha que ainda somos poucos? DERIGNY - Tem razão, meu general, mas. eu ficaria mais tranquilo se me autorizasse a ir também.

GENERAL - Vejo perfeitamente aonde você quer chegar. Preferia que eu ficasse em casa? Pois não Lhe faço a vontade. Aborreço-me na cidade e quero respirar o ar puro das montanhas. Está decidido que também vou! O ar inquieto de Derigny fez rir o general e comoveu-o, ao mesmo tempo.

- Venha, venha connosco, meu amigo; subiremos juntos; vai ver como eu sou mais ligeiro do que pareço.

O general fez uma pirueta, desequilibrou-se e veio cair nos braços de Derigny, que não pôde deixar de sorrir.

GENERAL - Você triunfou porque o meu pé se prendeu a uma pedra Mas. há-de ver-me na montanha!

Os quatro pequenos partiram, correndo. Natasha gostaria de fazer o mesmo, mas os seus dezasseis anos obrigavam-na a ser mais comedida. Suspirou e pôs-se ao lado do tio. O príncipe Romane e Derigny caminhavam também junto dele. Quando chegaram ao caminho estreito e pedregoso que subia pela montanha, o general obrigou Natasha a passar-lhe à frente, dizendo:

- Vai juntar-te a teus irmãos, minha filha. Corre à tua vontade! Eu irei mais devagar, com Romane e Derigny.

O general começou então a subir a montanha, lentamente e com uma certa dificuldade. Ainda não tinham feito metade do caminho e já ele perguntava se estavam perto do cimo. Natasha ia e vinha, subia e descia, para saber se o tio se sentia fatigado. Romane ia à frente do general, dando-lhe a mão nas passagens mais difíceis. Derigny seguia-o de perto, amparando-o de vez em quando, com o pretexto de se segurar, ele próprio.

- É isso mesmo que eu desejo! - dizia o general. - Apoie-se em mim, meu caro Derigny, e segure-se bem, para não rolar de rochedo em rochedo. Afinal ainda sou eu quem tem de o ajudar a si. Depois diga que eu sou velho.

Os pequenos tinham já chegado ao píncaro mais alto e soltavam gritos de alegria, chamando os retardatários. O pobre general, ofegante, mal podia mexer-se. Fazia pena vê-lo.

- Não é para admirar! - dizia ele. - Estou cansado porque venho a puxar pelo Derigny.

Depois de várias paragens, chegaram, enfim, ao alto da montanha, donde se desfrutava uma vista deslumbrante, que todos admiraram, encantados.

Sentado no chão, o general disse a Derigny que fizesse o mesmo. Depois lamentou-se:

- Que pena não ter trazido cigarros. Não há nada que me reconforte mais.

- Aqui tem os seus cigarros, meu generaldisse Derigny, apresentando- lhe a cigarreira e a caixa de fósforos.

- Você é admirável! Pensa em tudo - exclamou o general.

Natasha, gentil como sempre, foi apanhar amoras, que havia por ali com abundância, e veio oferecê-las ao general, que as saboreou,

deliciado.

Os pequenos imitaram-na e trouxeram amoras para Romane e Derigny.

TIAGO - Vamos levar também amoras à mamã.

DERIGNY - É uma bela ideia.

GENERAL - Derigny! Derigny! Temos de regressar ao vale. Tome cuidado Não vá cair! Segure-se bem a mim!

DERIGNY - Está muito bem, meu general. Agradeço-Lhe imenso o auxílio.

Natasha olhava para eles, surpreendida. DERIGNY (reprimindo o riso) - Eu lhe explico, menina Natasha: foi o senhor general quem me ajudou a subir a montanha.

NATASHA (cada vez mais surpreendida)O meu tio ajudou-o a subir? Tem a certeza disso?

DERIGNY (rindo) - É melhor perguntar-lho, a ele.

GENERAL (esfregando as mãos) - Evidentemente, Natasha; sem mim, Derigny não teria chegado cá acima. Vais ver: quando descermos, será a mesma coisa.

Natasha continuava a olhar para Derigny como a pedir-lhe uma explicação. Ele fez-Lhe sinal de que lhe explicaria mais tarde. Natasha começou a adivinhar e sorriu.

- Vamos - ordenou o general. - As crianças à frente, e tu também, Natasha. Romane vai adiante de mim, Derigny seguirá atrás, para eu o poder segurar, se ele escorregar.

A caravana seguiu. A descida era muito íngreme e escorregadia; de um lado e de outro do caminho havia precipícios enormes. Cada um apoiava-se a uma forte bengala e lá iam descendo cautelosamente.

O general cairia a cada passo, se Derigny o não segurasse fortemente, mas, apesar disso, tropeçava e gemia, amaldiçoando as montanhas e os rochedos.

Ao meio da descida, a situação do general tornou-se de tal forma difícil, e Derigny foi obrigado a segurá-lo com tanta força, que lhe arrancou os botões e as próprias mangas do casaco, não podendo, apesar de todos os seus es forços, impedir que ele rolasse até ao fundo de uma cova, toda cheia de silvas.

Para cúmulo do infortúnio, dentro da cova estava uma raposa, que mostrou logo os dentes ao general. O pobre homem, não percebendo, nos primeiros momentos, de que animal se tratava, ficou apavorado, e enterrou-se ainda mais nas silvas, que o feriram todo.

Derigny, que se lançara imediatamente em socorro do general, a primeira coisa que fez, ao chegar junto dele, foi agarrar fortemente a raposa e atirá-la para fora da cova. Para o conseguir, porém, teve de enfiar os braços por entre as silvas, pois o animal também estava enredado nelas. Ficou, portanto, muito arranhado. Sem se preocupar com isso, levantou o general, dispensou-lhe todos os cuidados, tentando trazê-lo para fora do enorme buraco. Todos os esforços foram inúteis: o general trepava um pouco, tornava a deixar-se cair, sem poder agarrar a mão que Romane lhe estendia de cima. Vendo que não conseguia coisa alguma, Derigny tentou pôr o general às costas e colocá-lo na altura da cova. Tudo foi em vão. Só o facto de Derigny ser muito vigoroso lhe permitiu fazer todas aquelas tentativas e resistir ao peso enorme do general.

Convencendo-se de que não havia nada a fazer, o general disse, em tom calmo:

- Romane, meu filho, não posso mais. Fico aqui. A raposa também cá estava, porque não hei-de eu ficar também? Somente, como sou menos sóbrio que a raposa, peço-te que vás num instante ao hotel e dês ordem para trazerem um bom jantar, vinho, um colchão, almofadas, cobertores, tanto para mim como para Derigny, que foi o causador da minha mudança de domicílio.

DERIGNY - Se o meu general mo permite, irei ao hotel buscar uma pequena refeição e tratar dos meios de o tirar daqui. Entretanto, o príncipe Romane terá a bondade de lhe fazer companhia.

GENERAL - Você está doido, meu prezado camarada de prisão. Como poderá você sair daqui?

DERIGNY - Não é difícil. Dentro de uma hora estarei de regresso.

Ao dizer isto, Derigny, de rochedo em rochedo, de arbusto em arbusto, saiu da cova antes que o general tivesse tempo de manifestar o seu espanto.

Voando mais que correndo, Derigny chegou ao sopé da montanha, onde encontrou Natasha e os rapazes, a quem explicou, em breves palavras, a posição crítica do general. Depois continuou a corrida até ao hotel onde arranjou prontamente cordas, escadas e homens de boa vontade para fazerem sair o general do seu buraco. Pediu uma empada de carne, uma garrafa de vinho e voltou para a montanha seguido por numerosa escolta e uma multidão de curiosos que se ofereceram para prestar qualquer ajuda. Quando chegaram ao sítio onde se encontrava o infeliz turista, já lá estavam Natasha e os quatro pequenos.

Enquanto preparavam as escadas e tudo o mais que era necessário, Derigny fez descer, por meio de uma corda, as provisões que trouxera e que o general recebeu com visível satisfação, comendo-as avidamente.

Romane dirigiu os trabalhos de salvamento, ao passo que Derigny descia novamente à cova para auxiliar o general a subir as escadas, amarrado pela cintura com uma corda. Custou bastante, mas, enfim, lá conseguiram fazer sair o general do enorme buraco.

Derigny, previdente como sempre, mandara vir também uma cadeira com varas, onde colocaram o general que, desta vez, não ofereceu a menor resistência.

Os dentes da raposa tinham-lhe feito brechas consideráveis no vestuário e estava realmente muito arranhado e magoado.

Ao ver a agilidade com que Derigny saiu da cova e a facilidade com que fora e regressara ao hotel, o general compreendeu a verdade, quanto ao auxílio que julgava ter-lhe prestado, tanto ao subir como ao descer a montanha, e não falou mais em tal.

A partir desse dia nunca mais quis acompanhar a gente nova em excursões à montanha. Helena Derigny continuou a acompanhar Natasha, como fazia anteriormente, e o general acompanhava a Sr. a Dabrovine nos seus tranquilos passeios de carruagem.

 

             Terminam as viagens. Cada um em sua casa

A época do tratamento das termas passou sem qualquer outro incidente digno de menção. No fim de Agosto dirigiram-se todos a França, cuja recordação fazia bater com mais força o coração da família Derigny e um pouco, também, o do general. Natasha e os irmãos sentiam a mais viva curiosidade em conhecer essa terra de que tanto ouviam falar. Quanto a Romane, estava absolutamente calmo. Considerava-se feliz na situação em que se encontrava, e a sua única preocupação era descobrir a maneira de ganhar a vida quando terminasse a educação de Alexandre e Miguel.

O general quis demorar-se algum tempo em Paris, mas permitiu aos Derigny que partissem para Loumigny, para junto de Elfy e Moutier, encarregando-os, ao mesmo tempo, de lhe prepararem alojamentos.

Generoso, como sempre, o general comprou numerosos presentes para Derigny e Helena levarem aos irmãos.

É escusado dizer que os Derigny partiram, imediatamente, cheios de alegria. Quando chegaram à entrada da aldeia, mandaram parar o carro em que viajavam e seguiram, a pé, até à Pousada do Anjo da Guarda. A porta estava aberta e eles entraram sem ninguém dar por isso.

Elfy e Moutier estavam sentados no jardim. Elfy chorava e dizia:

- Há tanto tempo que não tenho notícias deles! Receio que lhes tenha sucedido alguma desgraça!

- Tem confiança em Deus - respondeu Moutier.

- Estamos aqui! - exclamou Helena sem poder dominar mais a sua comoção.

Não é fácil descrever a alegria daquelas excelentes criaturas, que tão sinceramente se estimavam. Os beijos e abraços parecia não terem fim. Foram depois a casa do pároco, cuja satisfação foi enorme. A notícia de que o general resolvera fixar residência em França, foi um contentamento para todos.

Tiago e Paulo quiseram visitar também os antigos condiscípulos e amigos. Por fim dirigiram-se à estalagem O General Agradecido, onde tudo se encontrava na mais perfeita ordem e asseio.

Elfy manifestou o desejo de que, até à chegada do general, ficassem todos juntos no Anjo da Guarda. Assim fizeram, levando, durante um mês, uma vida verdadeiramente deliciosa.

Derigny e Moutier, conforme as instruções do general, procuraram, nos arredores, uma boa propriedade que estivesse para vender. Depois de muito procurarem, encontraram uma nas condições desejadas, com um magnífico palácio luxuosamente mobilado.

Elfy escreveu então ao general a comunicar-lhe isto mesmo e, simultaneamente, a manifestar-lhe o desejo de que ele viesse depressa para junto deles.

Efectivamente, a resposta não se fez esperar. O general anunciou que chegaria na quinta-feira seguinte e recomendava que não se esquecessem do jantar. Três dias depois, uma grande carruagem, puxada por oito cavalos e seguida de uma outra mais pequena, parava em frente da Pousada do Anjo da Guarda. Natasha foi a primeira a saltar para o chão, abraçando logo Elfy, como se a conhecesse há muito tempo. Todos estavam comovidos. O próprio general tinha lágrimas nos olhos.

Apresentando a Sr. a Dabrovine e os filhos disse:

- Minha querida Elfy, aqui tens a filha que o meu coração adoptou, e os netos que alegram os meus velhos anos.

Romane foi também apresentado com palavras de grande apreço, estabelecendo-se imediatamente, entre todos, um ambiente de verdadeira simpatia.

O general, porém, não esquecia o jantar, que decorreu com animação. Os pratos estavam optimamente cozinhados, o vinho era bom, o café esplêndido e a aguardente velhíssima. O general não ocultava a sua satisfação nem regateava elogios.

Depois do jantar dirigiram- se ao General Agradecido, que passaria a ser a habitação da família Derigny. A casa era grande e todos ficaram esplendidamente instalados. No dia seguinte, o general teve uma surpresa: Derigny mandara vir de Paris um óptimo cozinheiro e o respectivo ajudante. Estavam, pois, asseguradas as refeições saborosas e variadas.

Alguns dias depois, uma carta do príncipe Négrinski anunciava ao general a morte da Sr. a Papofski. Esta notícia impressionou o general, a sua família e os seus amigos. Mas a felicidade de que gozavam fez-lhes esquecer depressa o triste acontecimento. Natasha afeiçoou-se a Elfy; visitava-a muitas vezes, aprendendo com ela a cozinhar, a coser a roupa, e a tratar dos arranjos domésticos.

No dia seguinte ao da sua chegada, o general, acompanhado pela Sr. a Dabrovine, foi até ao palácio que estava à venda.

Ficaram encantados. Não só o palácio era magnífico, como as terras e as florestas que o cercavam eram soberbas.

O general efectuou logo o negócio, comprando tudo por dois milhões.

Duas semanas mais tarde instalou-se na sua nova propriedade, com todos os seus. Derigny ficou sendo o seu administrador. Helena encarregou-se das roupas e da direcção das criadas.

 

           Todos felizes. Conclusão

No ano seguinte, no princípio do Verão, Moutier foi anunciar, ao palácio, que Elfy dera à luz uma linda menina. O general ficou contentíssimo e declarou logo que seria o padrinho.

- E eu a madrinha - disse a Sr. a Dabrovine.

Moutier, radiante, correu a comunicar o gentil oferecimento a Elfy. O nome escolhido para a menina foi Maria, e os padrinhos ofereceram-lhe um riquíssimo enxoval, além de vinte mil francos, presente particular do general. No dia do baptizado, o general chamou Natasha e disse-lhe:

- Estou velho, minha filha!

NATASHA - Bem sei, avô; mas a sua saúde é magnífica e, se Deus quiser, viverá ainda muito tempo.

GENERAL - Sabes, minha filha, gostaria muito que Romane nunca nos deixasse.

NATASHA - E eu também, avôzinho! GENERAL - Se ele nos deixar será uma tristeza.

NATASHA - É verdade! Será uma grande tristeza. É ele quem anima e dirige tudo aqui. Os meus irmãos, e eu própria não fazemos nada sem o consultar.

GENERAL - Gostas dele?

NATASHA - Gosto muito. Creio que gosto quase tanto dele como de si, avô.

O general sorriu e beijou Natasha. Depois continuou:

- Pois bem, minha filha, depende de ti que Romane fique sempre connosco.

NATASHA - De mim? Diga depressa, avô: que é preciso fazer?

GENERAL - Uma coisa muito simples: casar com ele.

NATASHA (rindo) - Eu? Casar com ele? Oh avô, está a brincar Ele com certeza não quer casar comigo. Sou tão nova!

GENERAL - Terás dezoito anos dentro de seis meses, Natasha. Ele tem vinte e oito. A diferença não é tão grande.

NATASHA - Mas sofreu tanto, avô! É como se tivesse quarenta. Não, com certeza não quer casar comigo.

GENERAL - Parece-te que ele não gosta de ti?

NATASHA-Pelo contrário, avô, gosta muito. Compreendo-o e sinto-o perfeitamente. Faz tudo quanto pode para me ser agradável, acha bem tudo o que eu faço. Sim. tenho a certeza de que gosta de mim.

GENERAL - Mas, então, porque não queres casar com ele?

NATASHA (vivamente) - Por mim, não desejo outra coisa. Ele é que não deve querer.

- É isso que nós vamos ver - disse o general, rindo e esfregando as mãos.

Mandou imediatamente chamar Romane.

NATASHA - Eu fujo.

GENERAL - Não; ficas aqui, ao pé de mim.

NATASHA - Se ele recusar, a minha presença deve contrariá-lo ainda mais.

GENERAL - Será o seu castigo, se recusar. NATASHA - Avô. é que.

GENERAL - Fala, minha filha.

NATASHA - Meu avôzinho. eu nunca tinha pensado nisso, mas agora, se ele recusar, eu terei muita pena, e não quero que ele perceba.

Natasha encostou a cabeça ao ombro do general e chorou. Nesse momento entrou o príncipe.

GENERAL - Vem cá, meu amigo, meu bom Romane. Vem ajudar-me a consolar a minha pobre Natasha. É por tua causa que ela está a chorar.

ROMANE - Por minha causa?

Ao dizer isto, o príncipe pegou na mão de Natasha, apertando-a suavemente, e continuou:

- Como posso eu fazê-la chorar, Natasha, se daria a minha vida para a fazer feliz!

Natasha ergueu o rosto, e sorriu apesar de ter os olhos cheios de lágrimas.

- A culpa foi do avô - disse ela. GENERAL (rindo) - Ora, não querem lá ver! Vou dizer-te tudo, Romane. Sei que ela gosta de ti e tu gostas dela. Ela tem quase dezoito anos; tu tens vinte e oito. Propus-lhe casar contigo.

- E ela não quer? - perguntou Romane, empalidecendo e deixando cair a mão de Natasha.

GENERAL - Ela está encantada com essa ideia.

- Mas então. porque?. - exclamou Romane, radiante de felicidade.

GENERAL - Porque diz que é muito nova, muito criança e, decerto, tu não quererás.

Romane pegou novamente na mão de Natasha, ajoelhou junto do general e disse, em voz comovida:

- Meu querido amigo, peço- lhe, de joelhos, a mão de Natasha, que fará a minha felicidade! A não ser que o facto de eu ser pobre e proscrito.

NATASHA - Diga que sim, avô! GENERAL - Que Deus vos abençoe, meus filhos!

Ao dizer isto, o velho general tinha os olhos marejados de lágrimas. Natasha e Romane beijaram-no ternamente e foram dar a boa nova à Sr. a Dabrovine, que os abençoou, comovidíssima.

A notícia do casamento de Natasha e Romane espalhou-se rapidamente entre os seus amigos. Para o bom cura não foi novidade. Há muito tempo que ele sabia o que se passava naqueles corações.

O general apressou a cerimónia.

- Não gosto de esperar - dizia ele. Combinaram, pois, que a demora seria a indispensável para tratar dos respectivos documentos.

- E o enxoval de Natasha? - observou a Sr. a Dabrovine.

GENERAL - Romane dispensa o enxoval, não é verdade?

Romane concordou imediatamente com o general.

Derigny foi encarregado de anunciar a toda a gente da aldeia que o casamento da sobrinha do general se realizaria dali a quinze dias, e que estavam todos convidados para a boda.

Prepararam uma festa, conforme as tradições populares. Os camponeses andavam entusiasmados.

O general mandou vir o tabelião e dotou os noivos em quatro milhões.

- O restante da minha fortuna será para Natália e os filhos, à parte alguns legados aos meus amigos - declarou ele.

No dia do casamento o Sol brilhava em todo o seu esplendor. Espalharam mesas pelo prado, em frente do palácio, e serviram uma refeição magnífica a toda a gente da aldeia e arredores.

Por lembrança de Natasha e Romane, cinquenta famílias, das mais pobres, receberam uma quantia que os livrou da miséria. Depois do jantar dançaram até de madrugada, como nas bodas de Elfy e Moutier, mas o general, cada vez mais velho e pesado, não dançou.

Ficaram vivendo sempre juntos, ternamente, unidos pelo mais profundo afecto.

O general entretinha-se a projectar futuros casamentos.

- Tiago casará com a filha mais velha de Elfy; Paulo casará com a segunda.

NATASHA - Mas Elfy só tem uma, avôzinho.

GENERAL - Isso não quer dizer nada. Há-de ter outra. Tiago passará a ser também meu administrador, para ajudar o pai. Paulo ficará com Moutier. Derigny e Helena ficarão comigo até ao fim. Deixarei a todos com que viver desafogadamente. E quando, um dia, eu morrer, quero ficar no cemitério da aldeia, para onde hão-de ir todos quando chegar a sua vez.

Assim acabou a história do general Dourakine, que terminou os seus dias rodeado pelo respeito e carinho dos seus, espalhando o Bem e contribuindo para a felicidade daqueles que o estimavam.

 

                                                                                Condessa de Ségur  

 

                      

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