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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


O HIPNOTISTA / Heinz Konsalik
O HIPNOTISTA / Heinz Konsalik

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

O HIPNOTISTA

 

Foi com Dagmar lá para a frente, exactamente para trás do padre com os dois acólitos e do homem que segurava a bandeira da associação da mina. Já ninguém usava aquela bandeira, a não ser em enterros e nas manifestações do sindicato dos mineiros. Já ninguém precisava dela. Há doze anos que a Mina Albert II se encontrava encerrada.

Dagmar caminhava com alguma dificuldade. Calçara uns sapatos de salto alto e tropeçava constantemente, embora se tivesse agarrado ao braço direito de Stefan. Mal avistou a sepultura cravou-lhe os dedos com tanta força na carne que lhe provocou uma dor intensa.

- Steffen, não consigo... - soluçava. - Simplesmente não consigo. Steffen, sinto-me tão mal...

Stefan colocou-lhe um braço à volta dos ombros.

Começara a chover. A chuva batia de frente e Stefan sentiu-a molhar-lhe a mão. Dagmar trazia um chapéu preto de abas largas cujo véu lhe tapava a cara e não parecia dar pelos pingos da chuva. Stefan afastou-lhe o véu da cara.

- Vá lá, rapariga, respira fundo, muito fundo.

Ela fitou-o. Nunca lhe vira os olhos tão grandes, nem a cara tão branca, uma cara por onde escorriam lágrimas, uma cara banhada em lágrimas e água da chuva.

- Não aguento mais, Stefan. Acho que vou vomitar...

- Tenta controlar-te, por amor de Deus.

Sabia que há uma semana o médico lhe dissera que estava grávida. Também sabia que o pai da criança era o chefe dela, um imbecil qualquer, director da sucursal de uma dessas cadeias de drogarias. Sabia que ela se sentia mal - ele também - e lá à frente seis mineiros sem trabalho carregavam o caixão, seis desempregados de longa data, antigos colegas de outros tempos. Dentro do caixão jazia Rosi, conhecida também no bairro por «tia Rã», e que os tratara na juventude com tanto amor e carinho, tanto a Stefan como a Dagmar.

Dagmar voltou a tropeçar. Teve de parar para a amparar, pois não cessava de tremer. Sentia a chuva fria escorrer-lhe pelo pescoço abaixo. Sentia também as mãos molhadas. Os outros tinham aberto os chapéus e fitavam-nos, tudo gente do bairro do Ribeiro, o bairro mais antigo e mais pobre, o bairro esquecido da cidade.

A velha Makuleit, uma das amigas de Rosi agarrou-se ao cotovelo de Dagmar.

- Minha querida, lembra-te de que ela agora está no céu... Já não sofre...

Stefan olhou para o ar de confrangimento da irmã, cujas lágrimas lhe tinham transfigurado a cara numa horrível máscara de palhaço, cheia de desespero e de revolta. O rímel diluíra-se, descrevendo caminhos aguados até ao queixo. Tinha a boca e os olhos desfigurados, parecendo suplicar-lhe algo que ele não lhe podia dar.

- Porquê, Steffen, porquê?

Tens razão - porquê? Era isso mesmo: porquê, meu Deus, porque não fizeste tudo o que estava ao teu alcance? Em que é que falhaste?

Na Primavera o Reno voltara a comportar-se como um animal selvagem, inundando os campos, alagando a via férrea, arrastando passadiços e postos telegráficos atrás de si. Viram-no na televisão, à hora do pequeno-almoço, o nível das águas a subir, com uma cor castanha e a espumar de raiva, a encharcar os sacos de areia empilhados à pressa em frente das casas, e os repórteres com a água suja pelos joelhos a falarem para o microfone enquanto as bombas cuspiam das caves jactos de água suja da largura de um braço. Era o Reno a exibir-se.

Relativamente a Oberhausen, Stefan não precisava de se preocupar. Ficava bastante longe da zona inundada, e quando a irmã por fim lhe ligou, fê-lo, como sempre, no momento errado: onze horas, hora de grande movimento! Lutava no consultório contra uma vaga de gripe e, caso raro, Christa, a mulher de Stefan estava muito enervada. Havia gente com toda a espécie de infecções secundárias, pneumonias, problemas de circulação, e ele encontrava-se nesse momento com uma doente na sala de observações, com um problema entre mãos.

Marga, a assistente, passou-lhe o telefone. Ao princípio Stefan não conseguiu entender uma única palavra, mas a seguir ouviu Dagmar dizer:

- É melhor vires, Steffen.

- O quê?

- Tens de vir, Steffen.

- O que é que se passa? Não podes falar mais alto? Por favor, Marga, precisamos de fazer uma transferência. Comece já a prepará-la. Escreva apenas: suspeita de gravidez extra-uterina.

Não devia ter dito aquilo. Tinha-lhe escapado e como era de esperar a doente reagiu imediatamente, ergueu-se, gemeu, e na sua cara reluzente de febre dois olhos brilhantes e esbugalhados reflectiam todo o medo do mundo. Mas já estava dito. De qualquer forma acabaria por saber. E Stefan prosseguiu:

- Chame uma ambulância, Marga. Sim, é uma urgência.

- Senhor doutor... - começou a doente por dizer.

- Só um momento, senhora Schúrmann.

- Steffen... :

- Dagmar! Não podes telefonar mais tarde?

- Não, não posso. Tem de ser do escritório. Tapou o auscultador com a mão.

- Vai correr tudo bem, senhora Schúrmann, não esteja preocupada. Mas tem de se sujeitar a um tratamento especial. É preferível, acredite em mim.

Tinha-lhe dado um analgésico, mas sabia que não lhe ia tirar as dores. A mulher voltou a tactear a barriga e Stefan cravou os olhos naquela mão vermelha deformada sobre a carne reluzente, inchada e dura que nem uma tábua. Tinha de a transferir para a maternidade onde teria de seguir imediatamente para a sala de operações. Ia ligar a Reuther. Reuther era uma pessoa competente. 39,6° de febre? Não era apenas o instinto que lhe dizia que o feto começava a fixar-se na trompa, eram também os sintomas. Ouviu um crepitar no auscultador.

- Steffen... - Dagmar ainda estava ao telefone. É por causa da Rosi - ouviu-a dizer. - A tia Rã não está bem.

- Está doente?

- Doente? E de que maneira!

- O que queres dizer com «e de que maneira»? Foi ao doutor Kríiger?

- Foi. O Kruger também diz que é grave, muito grave. Tens de vir.

- E vou - respondeu. - Vou assim que puder, acredita em mim. E manda um beijo à Rosi.

Mas porque não ligara logo para Hermann Kruger? Aquela pergunta iria moer-lhe a cabeça durante os meses seguintes como uma perfuradora pneumática. Era inútil tentar arranjar explicações e subterfúgios.

Naquela altura trabalhavam que nem uns loucos pela noite dentro e, quando o movimento do consultório finalmente acalmava, ele e Christa iam a correr para a cozinha comer qualquer coisa, arrastando-se de seguida para a cama. O que nem sempre resultava. Os seus corpos pareciam de chumbo, e tinham os nervos à flor da pele. Stefan possuía os seus métodos para acalmar e adormecer, mas a maior parte das vezes Christa apoiava a cabeça no seu braço e ele esperava que a sua respiração acalmasse e os seus olhos finalmente se fechassem. Desculpava-se com o excesso de trabalho, com o stresse - mas não passavam de desculpas frouxas.

Porque não ligara logo a Kruger?

Por ignorância egoísta, comodidade... ou por cobardia?

Tinha várias hipóteses de escolha. Durante um ano inteiro mal se preocupara com Rosi. Além disso aceitara o facto de ela não dizer nada. E depois do grito de socorro de Dagmar esperou ainda mais três dias. Cobardia, portanto? A sensação de mal-estar, o receio da reacção de Christa, da sua pergunta: «Queres mesmo deixar-me aqui com todos os doentes e levar a tua tia para Ruhrpott?»

Ruhrpott tinha também a ver com a aversão de Christa a tudo o que estivesse relacionado com a sua juventude. Nunca falava nisso, mas aquele silêncio era como uma parede fina de vidro.

Finalmente, ao terceiro dia Stefan fez a mala.

- Parto amanhã para Oberhausen, Christa. Logo pela manhã.

- Por causa da tia Rã.

- Sim. Está doente.

- O que é que ela tem?

- Não faço ideia. A Dagmar não me pôde dizer.

- A Dagmar não te pôde dizer? Por amor de Deus, como é que não tentaste saber? Pergunta ao teu amigo médico se é grave.

- É grave - respondeu. - Eu sei que é.

Olhou apenas para ele. Nem sequer telefonara para o Dr. Kruger. Mas Stefan sabia que a doença de Rosi era grave.

Um mastim corria ao longo da cerca enferrujada, atrás da qual Kronacher guardava a sua sucata – Mercedes 1900, Golf, Polo, Ford Fiesta, Opel Corsa. OPORTUNIDADE ÚNICA, muito barato - lia-se no quadro preto ao lado da entrada. Mas o cadeado estava pendurado na porta, trancado.

Vinte e cinco anos antes não havia ali nada a não ser pneus amontoados onde os rapazes da Rua do Ribeiro se envolviam frequentemente em lutas com os da Rua Albert, ou se entretinham com as raparigas. Existia ainda o buraco na cerca, por onde se esgueiravam lá para dentro. Haveria melhor esconderijo para as primeiras tentativas receosas, para os beijos na boca mal conseguidos, do que o interior de quatro pneus de camião empilhados? O único inconveniente era o cheiro intenso a borracha no Verão.

Stefan Bergmann arrumou o carro ao lado da tabuleta com a inscrição Erich Kronacher - o amigo do seu carro em Oberhausen, e deitou uma olhadela às três bandeiras de fibra azul. Eram dez horas e trinta minutos. Às sete tinha ele partido em direcção a Burgach, levara três horas, uma vergonha, mas havia muito trânsito e nevoeiro na auto-estrada. Para compensar, as bandeiras esfarrapadas de Kronacher adejavam alegremente à luz do dia, e o bocadinho de sol que brilhava reluzia como uma safira azul-clara. Stefan trancou o carro.

Na estreita Rua do Ribeiro só havia lugares para estacionar do lado direito. A maior parte das pessoas estava desempregada ou reformada, e portanto as campanas eram polidas todos os dias e a seguir colocadas na berma do passeio com o depósito vazio e a brilhar, juntamente com um segundo carro para o filho ou para a filha, à venda também a conselho de Kronacher. Mas, claro, com um ailerão especial e pneus mais largos.

Stefan pensou ser preferível fazer aquela dúzia de metros a pé.

E foi o que fez.

A tia Rã morava no número 24, na última vivenda do lado direito da rua. E a maior. A casa estava virada para o canal. Fora construída pelo avô de Stefan: cinco quartos, duas casas de banho, tudo repartido por três andares, se se considerasse um andar a divisão por baixo do telhado, ocupada pelo pombal. A data do ano da construção estava inscrita numa das duas colunas de betão que ladeavam a escada que dava para a porta de entrada: 1923.

Há milhares de anos, num dia de Março, a tia Rã levara Stefan e Dagmar à Rua do Ribeiro. Tinham ido no táxi do velho Kronacher. Os livros de estudo e a roupa haviam ficado no porta-bagagem. Nunca mais se esqueceu da maneira como Kronacher pegara na mochila, a pusera energicamente às suas costas e lhe agarrara na mão com a sua pata. De resto, desse dia pouco mais reteve na memória, a não ser um redemoinho de imagens difusas: a tia Rã a aparecer na casa nova dos seus pais na Rua Danziger, acabada de pintar. Havia uma meia dúzia de adultos desconhecidos a conversar por ali em voz baixa. A tia Rã foi buscar a mala que tinha preparado, olhou para a casa abanando pensativamente a cabeça e quase não trocou uma palavra com as outras pessoas.

- Tenho muita pena, Steffen - disse ela apoiando ambas as mãos nos seus ombros. - Mas agora vens comigo. Não podemos alterar nada.

O papá e a mamã tinham morrido - era isso que não podia ser alterado. Iam os dois no Mercedes novo do papá e chocaram contra o pilar da ponte, no cruzamento da auto-estrada de Duisburgo.

Foi assim que Stefan e Dagmar se mudaram para o número 24. Aquele homem de faces vermelhas, sempre a gritar e a tremer de raiva, um homem irascível, a quem chamavam «papá», e a mulher, que mal levantava os olhos da máquina de escrever quando Dagmar e Stefan, impelidos pela fome, irrompiam pelo seu escritório. Foram rapidamente votados ao esquecimento sem deixarem boas recordações ou qualquer tipo de sentimentos.

- O Otto sempre lamentou ter casado com uma rapariga da Rua do Ribeiro. A melhor era a minha irmã. Mas não era nada corajosa, a Anni. Estava sempre com medo... disse a tia Rã.

Era a primeira vez que tocava naquele assunto. Acrescentara ainda uma frase:

- Não foi só por causa do negócio dos parafusos. A vivenda chique também não era suficiente, tinha de ter um Mercedes. O Otto acabaria por o comprar. Um caixão, o seu caixão de luxo...

Bergmann ouvia o som dos seus passos sobre o passeio gasto. Há já alguns anos que a maioria das casas tinha levado um reboco novo, amarelo-canário, azul, verde, cor-de-rosa. Mas para ele nada era amarelo, nada era azul, nada era verde ou cor-de-rosa. Visualizava os tijolos de outrora e a fuligem nas juntas. Por detrás da vidraça da janela da loja de vídeos, onde havia agora prateleiras com filmes de suspense e cassetes porno, via os pequenos maçaricos e os fornos de coque do Sr. Muller à sua espera. Também há muito que vendera a loja. Em frente, mais para o lado, existia um supermercado, a Papelaria Granitzky, e mesmo no fim da rua ficava o número 24.

Stefan caminhava devagar, passo a passo. Parecia mover-se numa outra esfera, num outro mundo, com as imagens de outrora a sobreporem-se às do presente.

Todas aquelas janelas com cortinas de catálogo, todos aqueles carros com a pintura polida, nada daquilo existia. Só a roda lá em cima na rampa é que era real: a roda enferrujada, que costumava puxar as gaiolas lá para cima. Não se mexeu. Ficou parado.

Stefan costumava correr até casa ao longo daquela rua. Era ali que jogava futebol com os joelhos a sangrar. Era ali também que havia um pequeno portão, o portão do jardim com o número 24, e por trás o globo de vidro azul e os dez metros quadrados de relva. Claro que o globo de vidro não reluzia nem brilhava como dantes. O que era mau sinal. A poeira acumulada no globo foi o sinal de alarme que o fez regressar ao presente à velocidade de um raio.

Quando ia visitar Rosi levava sempre duas caixinhas vermelhas com chocolates. Sempre as mesmas. Uma com bombons recheados de noz, a outra com bombons recheados de cereja. Levava-as na mão. Voltou a enfiá-las nos bolsos da gabardina.

Os últimos passos deu-os muito lentamente. Teve de utilizar toda a sua força para erguer o braço e tocar à campainha. Stefan deu dois toques curtos e outro prolongado.

Nada.

Tentou novamente e no último toque deixou o dedo apoiado no botão.

Ninguém respondeu. Casa, jardim, rua, estava tudo envolto em silêncio.

«Ela está doente. E de que maneira», dissera Dagmar.

Isso podia querer dizer que Rosi estava deitada lá em cima no quarto, no primeiro andar. Se fosse o caso, não sentiria forças para se levantar e ir à janela? Teria tomado comprimidos e estava a dormir? Era uma hipótese... Havia muitas hipóteses. Raios me partam, se não acontecer nada entretanto vais de volta, à varanda da cozinha. Se estiver também fechada, arrombas a portada.

A inquietação de Stefan transformou-se em pânico.

Não tocou de novo à campainha, bateu com os punhos contra a porta de madeira. Demorou algum tempo até sentir a chave dar uma volta na fechadura.

A porta entreabriu-se primeiro um bocadinho, manteve-se assim durante um par de batidas de coração e a seguir abriu-se de repente. Ali estava ela, com um roupão acolchoado azul-escuro, mas a cara enfiada naquela gola puxada para cima não era a dela. A cara de Rosi era redonda, redonda como uma maçã, como uma maçã um pouco engelhada, talvez... Mas aquilo? Stefan sentiu um calafrio na nuca. Os olhos? Eram os olhos de Rosi, embora encovados em olheiras azuis. A pele que cobria aquele crânio nu tinha um brilho de madrepérola pardacento.

- Steffen! Que barulheira é esta?

- Ninguém respondia, Rosi...

Não deixar transparecer nada, manter a calma, sorrir amigavelmente, pois claro, afinal de contas, és médico! Mas como é que vais conseguir? Onde estava o cabelo que ela sempre retorcera em caracóis pequenos, tão divertidos e apreciados, e que costumava colorir de um tom azulado? Os lábios tremiam, mas naquele esgar pungente continuava a entrever-se um sorriso, o sorriso da velha tia Rã.

- Não olhes assim para mim, Steffen!

Não conseguiu emitir nenhum som. A subida de adrenalina secara-lhe a boca. Ficou parado à frente de Rosi com as duas caixas de bombons novamente na mão, e ofereceu-lhas. Ela olhou para ele, abanou a cabeça e esboçou um sorriso que devia querer demonstrar contentamento.

- Oh, Steffen! Esconde isso. Já não posso comer dessas coisas... Oferece-os à Daggy. Levei algum tempo, não foi? Mas, sabes, até poder deixar a cama e chegar à porta...

O sorriso de Stefan dissipara-se de repente.

Rosi voltou-se. Ali estava o corredor com as duas portas, uma que dava para a sala de estar, a outra para a cozinha. Rosi foi à frente, caminhando com passos pequenos e cautelosos e infinitamente devagar, como se o chão estivesse coberto de cascas de ovo. Bergmann foi atrás dela. Rosi abriu a porta da cozinha.

Na cómoda estava um despertador com o mesmo tiquetaque: alto, forte e implacável.

Sobre a toalha de oleado da mesa havia três bananas dentro de uma taça. E vários postais enfiados na parte detrás do vidro do armário da cozinha, entre os quais os que Stefan lhe enviara de Veneza no ano anterior: casas brancas, céu azul, mar azul e falésias vermelhas em volta.

Reparou ainda noutra coisa.

Acabara de se sentar na velha cadeira de vime que puxara para perto da mesa, mas voltou a levantar-se e aproximou-se da cómoda.

A embalagem azul e branca ao lado do despertador?

Nem precisava de ler o nome, reconheceu imediatamente o medicamento pela cor da embalagem: Dipidolor, um opiáceo, um dos analgésicos mais fortes do mercado, um remédio para as dores; não, uma bomba!

- Onde é que arranjaste isto, Rosi?

A sua cara mudou de expressão, como se tivesse sido apanhada a fazer uma asneira.

- Pois é, onde foi?

Stefan sentou-se na cadeira de vime e agarrou-lhe nas mãos. Estavam frias, húmidas e particularmente frias. Ela fitou-o. Os seus olhos pareciam cobertos por um véu aguado acinzentado.

- O que se passa? - perguntou Stefan.

O seu lábio inferior começou a tremer. Ela não respondeu.

- Por favor, Rosi.

- As dores, Steffen. São as dores.

- Foi o doutor Kriiger quem te deu os comprimidos? Ela assentiu com a cabeça.

- Onde é que tens dores? De que te queixas? Tinha de falar com cuidado, com calma e suavidade.

- Tenho dores nas costas. A maior parte das vezes. Falava em voz muito baixa, como se estivesse a contar um segredo.

- O que queres dizer com isso: a maior parte das vezes?

- Aqui também.

Apontou para a barriga ou para aquilo que restava dela, por baixo do roupão.

- Rosi, diz-me uma coisa. Porque é que nunca me ligaste a contar que estavas a passar mal?

- Tens tanto que fazer, Steffen. E a Christa também. Sobretudo a Christa... Não posso estar a sobrecarregar-vos com as minhas maleitas.

Ele engoliu em seco. Não conseguia falar. Ouvia a sua própria respiração, fraca, superficial e muito rápida.

- Rosi, devias ir para a cama. Vem, eu ajudo-te. Continuava apenas a fitá-lo, e Stefan teve a sensação de que ela não o via tal como ele era actualmente. Via o rapazinho, «o seu Steffen», de cabelos suados e joelhos permanentemente esfolados. O rapazinho para quem cozinhava as trouxas de couve que ele tanto apreciava, a quem arranjava um canto no barracão para trabalhar, para poder «estudar» sem ser incomodado, a quem tratava das feridas, a quem tirava a febre, ao lado de quem se sentava na borda da cama quando ele não conseguia adormecer e a quem contava histórias. O rapazinho a quem dava uma palmada quando roubava os últimos quinze marcos de dentro da chávena de café azul que continuava em cima do aparador, para comprar um par de botas de futebol na loja de artigos de desporto, a Schomberg.

- Já não preciso da escada - ouviu Rosi dizer. - Já não durmo no quarto, lá em cima. A Berta fez-me uma cama cá em baixo no canapé.

- Devias deitar-te.

Ajudou-a a levantar-se, acompanhou-a à sala de estar, deitou-a tão bem quanto pôde no canapé e olhou-a de cima.

- Rosi... - Pigarreou. - Volto já. Tenho de ir urgentemente ao correio enviar uma coisa. Uma carta. Trouxe-a de casa por engano e esqueci-me de a enviar.

Ela não respondeu, e ele não aguentou mais aquele olhar...

Em Oberhausen tinha-se juntado uma série de consultórios, a que chamavam Centro Médico ou Oficina de Saúde. Relativamente a Oskar Kriiger nada mudara. Continuava a viver na velha casa castanha, cor de turfa, onde o pai tinha uma fábrica de cestos, e continuava a trabalhar com uma assistente velha e rabugenta que passava a maior parte do tempo a resmungar. As pessoas continuavam a entrar pelo portão por onde outrora os cestos eram levados da fábrica para a rua, só que agora a tinta verde estava completamente solta e a tabuleta do consultório com a inscrição Dr. Oskar Kriiger, aceita-se todo o tipo de acordos, estava ainda mais manchada.

Kriiger foi de imediato buscar Stefan Bergmann à sala de espera que estava completamente cheia e levou-o para o seu gabinete. Fitavam-no dois olhos embaciados, de onde pendiam pesados sacos de lágrimas.

- Vens por causa dela, não é?

- Venho.

- Há muito tempo que não nos víamos, não é verdade, Steffen?

Bergmann anuiu com a cabeça.

- Fico contente por te ver.

Stefan voltou a assentir com a cabeça.

- Aquilo da Rosi é muito triste. Gosto dela. É uma das minhas doentes mais antigas. Já não tem gosto por nada, Stefan.

- Mas afinal porque é que não me ligaste? Kruger olhou apenas para ele, e por detrás daquele olhar

Bergmann viu-o corar.

Baixou as pálpebras. Sentia-se mal.

- Já tinha falado com a tua irmã -: disse Kruger. Calculei que fosse suficiente.

Stefan assentiu.

E foi então que Kruger disse:

- Ela tem um carcinoma.

- Onde?

- No pâncreas. - Inclinou-se ligeiramente para a frente e colocou as suas mãos pesadas em cima da mesa. - Caramba, Stefan! Tu sabes como são as pessoas como a tia Rã. Dói-lhes a barriga, mas não lhes dói muito. Quem é que vai logo a correr ao médico? Umas dorezitas, não é? Andou para ali durante meses com aquelas «dorezitas», enquanto o cancro se espalhava pelo pâncreas. E quando por fim veio ter comigo...

Calou-se, esfregou o nariz gordo e fitou Bergmann com um olhar amargurado.

- E o carcinoma é no pâncreas?

- É. E já tem metástases. Nem imaginas quanto me custou ter de mandar a Rosi para o exame. Foi muito corajosa. A tomografia computorizada continua a ser o processo mais eficaz.

- Em que estado está?

- Inoperável, Steffen. Lamento. Não lhe dou mais de três semanas.

Bergmann fechou os olhos. Já não era um peso, mas uma montanha rochosa que o pregava à cadeira.

- Já tem metástases espalhadas por toda a cavidade abdominal, mas recusa-se a ir para o hospital, e começo a achar que tem razão. Não vale a pena. A irmã da paróquia é sua amiga. A Berta é uma pessoa fantástica. Está constantemente a seu lado. Mas aquelas dores terríveis... Já só o remédio mais forte a pode ajudar. E tu sabes qual é o efeito destes produtos na circulação, na sua idade. E na respiração.

Bergmann continuava calado.

- Já falei com o Winterfeld - prosseguiu Kruger. O Winterfeld do hospital dos mineiros. Um cirurgião de primeira qualidade. Pensei fazer uma adenectomia para acabar com as dores. Mas o Winterfeld é de opinião que no estado em que está não sobreviveria à intervenção cirúrgica.

Bergmann pousou as mãos sobre o vidro preto da secretária de Kriíger. Sentiu os dedos humedecerem e colarem-se ao vidro.

- E o fígado?

- Também já foi atacado. Lamento muito, Stefan, sinceramente. A Berta costuma contar-me como a Rosi tem suportado tudo. Ataques de dores até perder os sentidos. E quando vem a si ainda consegue dizer uma piada. A Rosi é uma verdadeira heroína, incrivelmente corajosa, incrivelmente...

- E então? - perguntou Bergmann. - De que lhe serve?

O manto cinzento-acastanhado que cobria as fachadas das casas e as ruas tornava as cores mais pálidas. Os gerânios eram os únicos pontos coloridos, os gerânios e os automóveis estacionados na berma do passeio. Por baixo da rua asfaltada ainda havia carvão; a milhares de metros de profundidade, e em excesso, mas o «ouro preto» já não rendia, nem sequer o pouco dinheiro necessário para reduzir a miséria lá em cima, para construir meia dúzia de casas e devolver um pouco de vida ao bairro. O bairro do Ribeiro fora votado ao abandono.

Bergmann estacionou na ponte sobre o canal e saiu do carro. Tinha as mãos apoiadas no resguardo de ferro e olhava para baixo, para a água. Sempre lhe parecera tão preta como o asfalto ou o carvão... e tão sem vida. Mas agora? O ribeiro estava bravo. Espumava contra os apoios da ponte, abanava o tabuleiro e lançava água para cima da faixa de rodagem.

Stefan olhou para o lado.

As alegres bandeiras de Kronacher também se tinham transformado em farrapos molhados, enrolados nas suas hastes compridas.

Tarde de mais, voltou ele a pensar. Detestava aquelas duas palavras. Pareciam martelos a baterem-lhe na nuca, e que continuavam a bater enquanto ele cravava os olhos no ribeiro que se lançava a seus pés, olhava para o monstro em que se transformara, para as suas ondas impetuosas e curtas, para os galhos arrancados a redemoinhar em círculos, para a corrente de espuma esbranquiçada. Tarde de mais!

Sim, ao princípio, quando o maldito carcinoma começou a desenvolver-se - e nas pessoas com mais idade, como Rosi, leva algum tempo a desenvolver-se -, ao princípio podia ter-se feito qualquer coisa. Talvez por hipnose. Talvez mesmo por hipnose...

Timmendorf, lembrou-se Stefan de repente. A palavra passou como uma sombra pela sua consciência.

Quinze anos antes, na clínica de Hamburgo, Stefan Bergmann assistira a um parto sem dores de uma mulher sob hipnose, uma doente com graves problemas de circulação. Fora o seu primeiro contacto com as possibilidades da terapia por hipnose.

O caso era clinicamente problemático, mas o parto decorreu sem dificuldade, a mulher não teve dores, não sentiu nada. O médico hipnotista pusera-a sob um estado de hipnose profundo, induzira-lhe uma amnésia, um bloqueio de memória. Sugerira-lhe que estava a viver uma estadia maravilhosa na praia de Timmendorf e, quando tudo passou, a parturiente tinha o aspecto de uma mulher feliz e radiante que regressava de férias... com o seu bebé.

Impressionante! O que mais fascinava Stefan relativamente às possibilidades de aplicação das terapias por hipnose era o facto de permitirem activar as defesas físicas, o sistema imunitário.

Leu livros especializados sobre o assunto e começou a fazer experiências. Após ter sido bem-sucedido com uma doente que sofria de eczema, e uns tempos depois de ter quase conseguido tratar por hipnose uma outra doente com uma perna ulcerada que não parava de evoluir e além disso com um quisto - um foco virai enquistado -, não teve dúvidas.

- Vou assistir a um seminário. Um seminário sobre terapia por hipnose - anunciou Stefan à sua mulher, atónita.

- Em Salzburgo - acrescentou, orgulhoso.

- Em Salzburgo? Não estás no teu perfeito juízo! Foi exactamente como ter anunciado a Christa que tencionava frequentar um bordel. Hipnose! Stefan não só era alvo da sua troça, como de todos os outros médicos do clã dos Ríittger, donde ela provinha, que achavam que ele estava em vias de cometer um pecado mortal obsceno.

- Pode ser que não regule bem. Depois se vê... Para Christa o supra-sumo da ciência consistia em algo de que Stefan suspeitava há muito tempo: a crença de que o homem não era mais do que um mecanismo bioquímico extremamente complicado mas estudado ao mais ínfimo pormenor, e comandado por um computador principal, o sistema nervoso central. Lamentavelmente, era-se apanhado de surpresa por este computador, pois o seu programa por vezes avariava quando a pessoa estava ansiosa ou em stresse. Para que a máquina voltasse a funcionar, estas avarias eram consideradas «fenómenos psicossomáticos», um conceito que se começou a difundir cada vez mais nos anos setenta. O «psicossomatismo» tornou-se uma especialidade com a limitação de não conseguirem começar nada de concreto com isso na escola de medicina, mas em contrapartida ficavam satisfeitos, pois tudo o que não conseguiam explicar era reciclado naquele saco sem fundo.

No contacto quase diário com o sofrimento e a doença e, mais recentemente, através de todas as experiências que fizera, Stefan apercebera-se de que a condição psicológica de uma pessoa, a sua constituição psíquica é que determinava as hipóteses de cura e a evolução da doença. Mais ainda: segundo Stefan, na maioria dos casos eram precisamente os factores psicológicos que provocavam o sofrimento ao doente.

Era esta a situação. Parecia ser um beco sem saída, e Stefan Bergmann procurava uma saída. Esperava encontrar a possibilidade de desenvolver aquilo onde já os médicos antigos viam a origem de todos os males - o nó górdio como dizia Demócrito, a psique. Foi nesta busca que Stefan esbarrou com o nome de Paul Liebherr.

O professor doutor Liebherr era austríaco, tido como um dos mais notáveis crânios no âmbito da terapia por hipnose, um homem alto, forte, de cabelos pelos ombros, encaracolados e desgrenhados, olhos escuros, castanhos e meigos, com uma voz grave e igualmente meiga, e que falava sempre tão baixo que mal se ouvia.

Liebherr tinha consultório em Viena, a cidade de Sigmund Freud, onde realizava regularmente seminários na Universidade de Salzburgo. E foi aí que, um dia à tarde, prendeu uma série de radiografias no ecrã fluorescente. Eram registos do antes e do depois. Entre a primeira e a segunda imagem havia sempre três meses de intervalo. Os registos mostravam a evolução dos tumores em quatro doentes, três homens e uma mulher. Tratava-se sempre de carcinomas do pulmão.

Stefan encontrava-se com os outros participantes do seminário atrás de Liebherr. Debruçara-se para a frente e observava em silêncio, como os outros. Tinham falado previamente com os doentes e só agora é que examinava as provas. Acontecera efectivamente como Liebherr dissera: através da terapia por hipnose, os focos de sombra tinham regredido para metade em ambos os doentes cancerosos e, nos outros dois, haviam desaparecido por completo. A única coisa que restava era a mancha da cicatrização, muito ténue, praticamente irreconhecível.

Liebherr aperfeiçoara e completara o método da terapia por hipnose do americano Beard. O método consistia em provocar um verdadeiro combate tumultuoso nos doentes sujeitos a hipnose. Eram levados, depois de terem sido induzidos num transe profundo, a concentrarem-se com toda a intensidade de que fossem capazes, com toda a raiva e desespero no instinto de sobrevivência contra o «inimigo», o intruso e, simultaneamente, a imaginarem como é que os seus sistemas imunitários ultrapassavam os ataques, como os despachavam para os «imunossoldados, os glóbulos brancos, para que estes devorassem os assassinos traiçoeiros.

E os soldados faziam-no com eficácia: devoravam-nos. Por mais disparatado que pudesse parecer, a verdade é que funcionava. Stefan tinha a prova à sua frente - e a sua experiência Saulo-Paulo1.

E apesar de tudo, durante os anos que se seguiram, através de todas as experiências fascinantes que Stefan Bergmann obteve com a terapia através de hipnose que teve ocasião de praticar, e que ele próprio considerava estranhas, nunca ousara aproximar-se da luta contra o cancro. Provavelmente pelo facto de o pensamento da escola de medicina que lhe tinha sido incutido durante uma década ainda estar muito presente, provavelmente por causa daquela outra sua faceta de cientista a exigir uma argumentação rigorosa e sempre pronto a apontar um dedo acusador. Provavelmente também por receio do desespero, da queda no desespero provocada por um sentimento de fracasso em relação aos seus doentes. Provavelmente por ser demasiado temeroso, demasiado cobarde.

Durante a terapia tem de seguir o seu objectivo com todo o empenho e toda a persistência de que for capaz. As experiências e os poderes da medicina não passam de pressupostos artesanais. Decisivo é e será sempre a sua personalidade, o seu carisma. Pense nisto: você entra no mundo de outra pessoa, na sua personalidade. Mais ainda: invade a sua fantasia. O que é que isto quer dizer? Apenas que tem de assumir ser outra pessoa, assumir a reacção ao doente, o seu destino. E nesse caso, só uma coisa o pode ajudar: a sua capacidade de compreender os outros, a sua intuição.

 

1 O jovem Saulo, filho de pais judeus, era tecelão como o pai. Teve uma boa formação e tornou-se um homem extremamente culto. Lutou energicamente contra a fé cristã e participou na lapidação de Santo Estêvão, de Jerusalém. Foi então incumbido de levar a cabo uma perseguição aos cristãos. Partiu armado, mas no caminho viu uma aparição e converteu-se. Profundamente impressionado por esta aparição mudou de nome e de ocupação e, em vez de Saulo, passou a chamar-se Paulo. A partir daí tornou-se apóstolo de Jesus. Teve tanto sucesso que lhe chamavam o apóstolo do povo. (N. da T.)

 

Era a base da terapia por hipnose que Liebherr apresentara na altura.

Chamava-lhe «a graça divina do talento».

A espuma voltara a rebentar com toda a força sob a ponte. Bergmann enfiou as mãos nos bolsos, vasculhou-os como no tempo em que fumava, mas só encontrou a chave do carro. Deu mais uns passos em frente e olhou na direcção da Rua do Ribeiro. Não conseguia ver a casa, só o barracão, mais à frente, mesmo perto da água. Stefan acenou com a cabeça na sua direcção e correu até ao automóvel.

Voltou a atravessar a ponte de carro e passou devagar pelo parque infantil. Mas não havia crianças; apenas os dois velhos escorregas de chapa metálica, como de costume molhados e pacificamente a criar ferrugem. E duas velhas de gabardina escura sentadas num banco molhado, a olhar para os seus cães esfomeados que andavam por ali a farejar os ulmeiros. Durante estes anos todos os ulmeiros ainda não tinham atingido a altura de um metro, e as velhas pareciam estar ali sentadas desde a Segunda Guerra Mundial, sob um céu cinzento, sujeitas à chuva e ao vento, a todas as intempéries.

Stefan descreveu uma curva apertada para a direita, perto da estação dos correios.

O velho edifício já não era uma estação de correios. A porta fora emparedada. E lá estava ele na Rua do Ribeiro a estacionar em frente ao número 24.

- Olá - disse uma voz.

Saiu do carro. Dois olhos azuis examinavam-no por baixo do distintivo de um chapéu de polícia.

- Ainda pode reconsiderar - disse a mulher-polícia, bem-disposta. - E a seguir reconsidero eu, se lhe passo uma multa ou não.

- Não vê a placa no pára-brisas? Sou médico.

- Ali também há uma placa! - Apontou com o lápis por cima da cabeça. - Proibido estacionar! - Deixou de sorrir de repente, mas os olhos adquiriram uma expressão amável. - É por causa da tia Rã?

-É.

- Ah, então o caso muda de figura. - Guardou o livrinho preto pequeno com os formulários. - Faça favor, doutor. Apresente os meus cumprimentos à tia Rã, sim? Da parte da Use. Ela sabe quem é.

Empurrou a cancela do jardim. A porta de casa estava aberta e Stefan pensou que talvez a irmã da paróquia tivesse chegado entretanto, mas o bengaleiro estava vazio.

O corredor comprido encontrava-se mergulhado numa penumbra sombria e cor de sépia. Ao fundo, através da frincha da porta da cozinha que estava meio aberta, entrevia-se um bocadinho de luz.

Stefan ficou parado. Não se mexia. O silêncio dentro de casa era como um tecto pesado e escuro que descia sobre si, que quase lhe bloqueava o pensamento e a respiração. Os seus desígnios pareciam-lhe tão irreais e sem vida como uma prece antiga. Tentava reprimir com esforço o desejo de passar pela segunda porta à sua frente e sair para o jardim. Era ali que se encontrava o barracão. E mesmo ao lado o largo com o poço de pedra construído pelo seu avô. Fora Stefan quem encontrara um dia a rã no meio do entulho de uma demolição: uma rã de cimento. Colocara a rã na borda do poço e pintara-a com tinta de óleo verde. Era uma rã de cimento, é verdade que o poço também não era um poço a sério, mas um muro circular onde cresciam urtigas no Outono. Mas que importância tinha isso? Nenhuma. Para Stefan, para Dagmar, inclusivamente para a tia Rã, não passava de um poço infinitamente fundo e cheio de água escura...

Abriu a porta da sala de estar. Não era grande, devia ter uns três por quatro metros. A única janela que havia era virada a norte, no entanto a vista para a casa da frente estava tapada pelas folhas de uma ameixeira plantada exactamente entre as duas casas, o que dera origem a inúmeras discussões e aborrecimentos entre o avô de Stefan e os vizinhos.

À direita ficava a grande vitrina, um bastião de contemplação castanho-escuro, em vidro e madeira folheada, e no centro uma mesa redonda sobre a qual pendia há dezenas de anos uma toalha de croché verde e vermelha, feita por Rosi. No outro canto situavam-se os sofás e a televisão e em frente a cama, que na realidade era um sofá velho forrado com um tecido castanho puído. O padrão de rosas estava praticamente irreconhecível. Os pés e a cabeceira tinham umas dobradiças de metal, de forma a poderem ser rebaixados e ficar-se com espaço suficiente para dormir.

A porta aberta tapava-lhe a vista para o sofá.

Stefan parou à porta, absorvido na decoração da sala de estar.

Não havia quadros pendurados, apenas uma única fotografia, uma ampliação encaixilhada numa moldura de plástico cor-de-rosa, medonha, de muito de mau gosto, pendurada por cima da televisão. Era uma foto a cores de Stefan Bergmann com quinze anos de idade, vestido com um fato de treino azul amarrotado, todo suado e sorridente. Steffen tinha o braço direito levantado e segurava uma bola de futebol com o braço esquerdo.

Voltou a sentir um aperto no peito. Respirou fundo, entrou e fechou a porta atrás de si.

Rosi estava deitada, com o tronco meio erguido, os braços sobre a colcha acabada de mudar e olhava na sua direcção.

Tinha duas almofadas por detrás das costas. Berta, a irmã da paróquia devia ali ter estado entretanto. Alguém que lhe penteara os cabelos finos que lhe restavam, e que fora responsável por aquelas tranças cómicas, simetricamente dispostas de cada um dos lados da cabeça.

Stefan olhou-a de cima e sentiu novamente dificuldade em fitar aquela cara com sacos lacrimais cor de tabaco, a pele que lhe cobria as faces pendendo mais abaixo em lóbulos bem desenhados, a boca e os maxilares que mal conseguiam aguentar a dentadura. No entanto, a íris de Rosi era clara e o seu olhar desperto e directo.

- Steffen...

- Sim?

- Steffen, estiveste com o Kruger? Como... como é que foste capaz de me mentir?

- Eu menti-te?

- De certeza. Disseste-me qualquer coisa acerca de uma carta.

Sentou-se a seu lado. Rosi não tirava os olhos de cima dele. Stefan observou o seu rosto cavado, reparou nos movimentos fracos e espasmódicos dos seus lábios azulados que se esforçavam por esboçar um sorriso sem o conseguir.

- Já fui enviar a carta. Agora estava mesmo a mentir.

O olhar de Rosi manteve-se atento, a sua voz adquirira alguma energia, as pupilas pareciam-lhe bastante grandes, quase normais. O efeito do Dipidolor já devia ter passado há muito tempo; porém Rosi parecia não estar com dores naquele momento. Pelo menos das fortes.

- Quantas vezes por dia tomas os comprimidos?

- Três. Sempre dois de cada vez. E sempre a seguir às refeições.

Falava com uma voz fraca, pausadamente e com algum esforço.

- Uma vez, tomei três antes de adormecer. A seguir a Berta ralhou comigo.

- E hoje? Já comeste?

Rosi abanou ligeiramente a cabeça.

- Comer? A Berta esteve aqui com a sua papa. Como se eu fosse um bebé. Estou farta, se queres saber. Só de pensar nisso, fico maldisposta...

O Dipidolor já não faria efeito? No entanto, Rosi parecia estar relativamente bem. Com um bocado de sorte os bloqueadores hormonais das dores tinham cumprido o seu papel e Rosi encontrava-se num intervalo entre as dores.

- Então os últimos comprimidos...

- Porque é que me estás sempre a fazer perguntas? inquiriu numa voz cansada. - Tomo-os a seguir à refeição. Mas para isso tenho de ser capaz de comer.

Conseguiu pôr o seu olhar de médico, debruçando-se para a frente, num gesto conspirador.

- Posso dizer-te uma coisa, Rosi? Lembras-te, há três anos, quando tinhas aquelas dores de cabeça tremendas?

- Lembro-me, também foi horrível, Steffen, mas...

- Mas passaram...

- Conseguiste tirar-me as enxaquecas, Steffen, é ver’ dade!

- Não fui eu, Rosi, fomos nós. É o que vamos voltar a fazer...

- Steffen, isso... isso não era... - Falava agora com dificuldade, algumas palavras percebiam-se mal. - Estas dores são impossíveis de descrever. É como se... como se te enchessem a barriga com chumbo, com chumbo quente, como vem descrito nalguns livros religiosos, quando falam no inferno. É como um mar a querer engolir-te, um mar de chumbo quente... E quando dói, Steffen, dói a valer... Nem os comprimidos ajudam, não há nada que ajude...

Bergmann continuava a sorrir.

- Vamos acabar com elas. Vais ver.

- Steffen, posso dizer-te uma coisa? Tenho lá em cima uma meia velha, uma meia de lã, que estou constantemente a morder. Não posso estar sempre a gritar, não é verdade? Por isso mordo-a e fico com a boca cheia de fios... É assim.

Aproximou os olhos ainda mais dos dela.

- Vamos acabar com isso.

- Vamos? Quem?

Debruçara-se tanto para a frente que as suas testas quase tocavam uma na outra. Olhou fixamente para Rosi.

- Tu e eu, Rosi... como dantes. Acredita em mim. Acredita em mim, ouviu a sua voz dizer, e pensou: é

exactamente isso.

Não tinha a ver com fé, como vinha nos velhos livros religiosos.

- Achas, Steffen? Realmente, se me olhas com esses olhos... Estou tão cansada... Naquela altura também deixei de ter dores.

Pegou-lhe nas mãos, sentiu com o polegar aquela pele fria e húmida que lhe cobria os ossos, tão fina como papel, semelhante a uma membrana.

Levantou a voz, para evitar que Rosi adormecesse.

- Ouve bem, Rosi. Recordas-te como foi quando te operaram no hospital dos mineiros? Quando te operaram à tiróide?

- Recordo-me, Steffen. Foi o doutor Schurner...

- Não sentiste nada, Rosi. Lembras-te? Absolutamente nada. Estiveram três horas inteiras entretidos contigo.

- Para dizer a verdade, correu tudo muito bem nesse hospital... na sala de operações. Muito bem. Puseram inclusivamente música a tocar.

- Pois foi, tu contaste-me.

Voltou a baixar a voz, conferindo-lhe um tom meigo, monocórdico e muito convincente.

- Rosi, conta-me como foi. Vê se te recordas, Rosi, vê se te recordas de todos os pormenores... Tu consegues.

- Música... - As palavras saíam em voz baixa, sonolentas. - Estava lá o Schurner. Mas não estava sozinho. Havia uma quantidade de gente, todos com uns lenços muito cómicos à volta da cabeça...

A sua voz interrompeu-se, mas a respiração acalmara.

- Continua, Rosi!

- Reconheci imediatamente o Schurner. Podemos reconhecer as pessoas pelos olhos... bem como o seu carácter... E o Schurner era uma pessoa muito simpática.

- E um bom médico - disse ele.

Não deixou de a fitar. As suas mãos pousavam agora na almofada, e os ombros tinham descaído ligeiramente para a frente. A voz e o esforço que fizera para se concentrar tinham reduzido a sua faculdade de percepção. Felizmente, era muito sugestionável. A sua presença, o fixar de olhos tinham sido suficientes para a induzir num leve estado de transe. Rosi começava a afastar-se da realidade, só a voz de Stefan permanecia real. Os cantos da boca tinham descaído e os milhares de rugas da sua pobre cara começavam a distender-se. Stefan estava pronto a penetrar no universo das suas sessões, e ia começar imediatamente.

- Passa-se alguma coisa com os teus olhos, tia Rosi?

- A pergunta saiu meiga e comovida. - Não estão a ficar pesados? Não sentes um ligeiro ardor por dentro?

- Sinto.

- E não são só as pálpebras, as pupilas também estão pesadas.

- Estão, Steffen.

- E o teu corpo também... Pesado, cada vez mais pesado, agradavelmente pesado.

Tocou-lhe ao de leve com a ponta do dedo na mão direita. Ela não reagiu.

- Os teus olhos, Rosi... Tenta abri-los. Não consegues! Mesmo que quisesses, não conseguirias...

As suas pálpebras tremiam. Ele sabia, o seu consciente libertara-se. Algo ocupara o seu lugar, uma atenção hipersensível, a consciência de Rosi concentrava-se apenas numa coisa, na sua voz. Dera início à sua sessão.

- Vou agarrar agora na tua mão, Rosi, sentes? Pronto, estou a agarrá-la com muito cuidado. E agora, Rosi, agora estou a beliscar a pele... com muita força. Mas tu não sentes, pois não? Não sentes absolutamente nada... Agora vou pegar numa agulha...

Stefan agarrou na agulha de acupunctura que preparara previamente, com o polegar e o indicador traçou-lhe um risco na vertical no centro da mão e perfurou-lhe ligeiramente a pele, da direita para a esquerda.

Rosi nem pestanejou.

- Não sentiste nada, Rosi, absolutamente nada. Mas ouves o despertador, tique, tique, tique... Sim, Rosi, ouve-o com atenção. Bate como um coração grande e generoso.

Mantinha os olhos bem fechados... Como se uma onda de serenidade lhe tivesse atravessado o rosto e conseguido apagar a devastação do sofrimento.

Até ali Rosi encontrava-se num transe médio.

Stefan tinha de a pôr num transe mais profundo, até que cada um dos seus pensamentos, até ao último, se libertasse e o seu consciente se comparasse a uma tela branca e vazia, onde se projectavam novas representações e imagens. No entanto, era ele que as tinha de provocar.

- Está tudo tão calmo e agradável à tua volta. Sentes-te cansada, estás a ficar com sono, Rosi. Cada vez que respiras vais ficando mais pesada... Cada vez que respiras, o teu corpo descontrai-se cada vez mais, tudo se descontrai e relaxa, cada músculo do corpo, cada tendão, cada célula... É tão maravilhoso sentir como tudo se descontrai. A tua cara que se descontrai, a testa que se descontrai e arrefece, os olhos, o nariz, as faces, o pescoço, a boca... Agora o maxilar... Está tudo totalmente descontraído, tranquilo e pesado... Agora a língua... Sente-la? Dorme, Rosi, dorme... E ela dormia.

Induziu-a num transe ainda mais profundo. :- Nada mais te atormenta, Rosi, nada mais existe, nada mais existe para além da tua respiração... Segue-a, concentra-te toda nela, sente como ela flui regularmente, como ela vai e vem, sim, a tua respiração é como uma onda... Vai e vem. O teu corpo é todo um ir e vir, o tórax, o tronco, as ancas... Tudo se abre, as artérias, os feixes de nervos abrem-se... Sentes as almofadas da cama. São tão confortáveis, tão macias, sente-las suportarem todo o teu peso. O teu coração, Rosi, o teu coração bate calma e compassadamente, e a cada batida tu afundas-te cada vez mais, e já nada te pode perturbar. Só o peso e o calor existem dentro de ti, e cada vez que respiras afundas-te mais e mais e sentes-te cada vez melhor...

O transe foi provocado com suavidade e determinação, certo de que a sua mão conduziria os pensamentos de Rosi e de que a sua voz serviria de ponte para a sua alma.

«Indução encoberta» era o termo, bastante impreciso como tantos outros termos técnicos.

Referia-se à capacidade de hipnotizar uma pessoa sem que esta se apercebesse de nada. Era portanto um truque exibido também pelos hipnotizadores de feira que apareciam pelos mercados anuais. Consistia essencialmente em distrair o hipnotizado de tal forma que ele se esquecia de tudo, inclusivamente da sua identidade.

Stefan trabalhou cerca de trinta minutos com Rosi.

Adormecera, profunda e tranquilamente, sem sinais de dores. Bateu-lhe ao de leve na face, ajeitou-lhe as almofadas e pousou-lhe novamente a mão na testa húmida e fresca.

A seguir fechou a porta sem fazer barulho.

Ia começar a subir a escada para o primeiro andar, quando ouviu meterem a chave à porta. Stefan foi abri-la.

A mulher que estava à sua frente trazia uma gabardina cinzento-escura. O capuz puxado para cima enquadrava uma cara magra e cheia de vida, donde sobressaíam dois olhos que o observavam atentamente. Devia ter cerca de cinquenta anos. Trazia um recipiente de plástico verde na mão direita, com a inscrição «Caritas de Oberhausen» em letras brancas.

- Presumo que seja a Irmã Berta.

Acenou apenas com a cabeça, entrou, despiu o casaco e pendurou-o cuidadosamente num cabide. Era razoavelmente alta e quando se libertou da capa Stefan reparou que em vez do hábito de freira usava calças de ganga, pulôver e uma espécie de sapatos cardados com solas grossas. Voltou-se e esboçou um sorriso.

- Você deve ser o Steffen. Devo tratá-lo por doutor?

- Trate-me por Steffen, por favor.

- O que é que ela está a fazer?

- Está a dormir.

Os olhos de Berta esbugalharam-se de repente.

- A dormir? Mas como? Sem ter comido nada?

- Exactamente.

- Não pode ser. Quer dizer, ela não pode tomar aquela coisa com o estômago vazio...

- Ela não tomou o Dipidolor, Irmã Berta.

- Pois... E as dores?

- Não tem.

- Não tem? Como é possível?

Ele aproximou-se, pegou no recipiente verde com a comida e levou-o para a cozinha. Colocou-o em cima da mesa, puxou uma cadeira e ajudou Berta a sentar-se.

Instalou-se na esquina da mesa da cozinha e preparava-se para começar a sua apresentação padrão acerca da hipnose na luta contra as dores mas verificou imediatamente, para seu grande espanto, que não precisava de o fazer. A Irmã Berta estava ao corrente. No hospital da Caritas já se efectuavam partos sem dor, por hipnose.

- Mas são partos, Steffen. É diferente. Isto não se pode evitar.

- Já se pode... - replicou ele. - Não necessariamente, mas pode. Se as dores se agravarem, pode sempre dar-lhe o Dipidolor. Mas essa coisa dá cabo dela. Agora vamos experimentar isto.

- Durante quanto tempo?

Era exactamente essa a pergunta.

- Durante o tempo que ela precisar.

- O que quer dizer com isso?

Ele ficou calado. Olharam um para o outro. Ambos sabiam o que aquilo queria dizer. Duas a três semanas, afirmara Kríiger. Stefan achava-o um prognóstico bastante optimista.

Desviou o olhar para o recipiente de plástico verde.

- Fricassé de galinha - disse Berta. - Muito levezinho. E arroz. Pode ser que consiga comer.

O que podia ele responder? Ela já dera a resposta: pode ser...

- Sabe, senhor doutor...

- Deixe lá o doutor, Berta.

Era a segunda vez que ela sorria, e aquele sorriso era diferente do que esboçara à porta de casa. Caloroso, terno e muito, muito melancólico.

- Ela fala tanto em si.

Ele ficou calado e sentiu uma pressão por detrás das pálpebras.

- Para dizer a verdade, já o conheço há muito tempo, Steffen. Nunca fomos apresentados, mas costumo pensar muito no rapazinho da fotografia que está na sala de estar, aquele com a bola de futebol.

- Esse já não existe, Berta.

- Apesar disso... - Deixou a frase em suspenso, sem qualquer explicação. - Já comeu alguma coisa? - perguntou a seguir.

- Não tenho muita vontade.

- Imagino. Mas mesmo assim, tente... Vou fazer uma pequena limpeza à casa, e a seguir ler qualquer coisa... Há por aí um montão de livros. Foi o senhor que lhos enviou, disse-mo ela.

Stefan assentiu com a cabeça, colocou a mão sobre o ombro de Berta, agradeceu e saiu.

O postigo da tasca que dava para a rua continuava no * mesmo sítio. Estava aberto, embora tivesse recomeçado novamente a cair uma chuva miúda. Por detrás da fachada de vidro viam-se alguns vultos sentados ao balcão, meio deitados, em posturas impróprias e desleixadas. Lá fora no largo, por detrás do véu cinzento de água, viam-se outros vultos a correr atrás de uma bola e a fazer um barulho tremendo: uma equipa qualquer juvenil, ou sénior. Nem que chovesse torrencialmente. Os tipos duros nunca desistem...

Stefan apoiou os cotovelos no rebordo do postigo, acomodou-se por baixo da caleira e pediu ao magricela sardento com cerca de dezasseis anos que se encontrava ao fundo encostado a olhar para uma minitelevisão uma salsicha de caril e uma cerveja. A seguir pôs-se a pensar. Se tivermos sorte, dissera ele à freira da paróquia... InI diferente e impassível, o Dr. Stefan Bergmann, o homem arrojado e muito conhecido de Burgach, em Nordhessen.

Uma coisa era certa: o que o Dr. Bergmann pudesse fazer, fá-lo-ia. A situação era grave, mas ao mesmo tempo estava mais optimista do que pensara poder estar: conseguira induzir Rosi num transe profundo e trabalhar com ela durante mais de vinte minutos. A sugestão que lhe dera, de acordar sem dores e revigorada, iria com certeza ser bem-sucedida. Mas, depois, de que lhe serviria isso? O importante agora era consolidar as ordens pós-hipnose, de forma a que mais tarde pudessem resultar em qualquer circunstância. Se tudo corresse bem podia-se não só retomar como reforçar o efeito hipnótico para a libertar das dores na sua ausência.

Reviu passo a passo a sessão que tivera com Rosi, e recordou as situações que despertara nela: A janela com vista para o jardim.

O despertador. O poço. A operação.

- Quando abrires os olhos, Rosi, e olhares lá para fora para a ameixeira, vai ser sempre como agora, sempre como agora! As dores dissipar-se-ão como fumo, e quando tacteares os sítios que te doem, não sentirás nada, absolutamente nada. Permanecerá tudo insensível e entorpecido. O mesmo sucederá quando ouvires o despertador na cozinha... Seguiu-se a história do poço. Stefan teve de fazer um certo esforço. À semelhança do que acontece quando se olha para um quadro, as sessões libertavam sentimentos: tinham de corresponder às capacidades intelectuais da pessoa, para se desenvolverem e fixarem. Sobretudo deviam desencadear sentimentos profundos. Não muito fortes, nem muito desagradáveis. Para os analisar correctamente, tinha de se conhecer a pessoa. Foi assim que Stefan pôde invocar novamente a experiência agradável que Rosi vivera no hospital dos mineiros. Portanto escolheu um caminho que lhe era familiar.

- Vai correr tudo bem, Rosi, mesmo muito bem. Estás a olhar lá para bem fundo do poço, do nosso poço, muito lá no fundo, onde se encontra um quarto. Onde só se ouve uma música muito baixinho, agradável e muito bonita... E está lá o Schíirner... Está a rir-se por detrás do lenço que lhe tapa a boca. Estás a ver como ele te sorri? Tu própria trazes um lenço igual ao dele, um bonito lenço de seda verde, agradavelmente leve, tão leve como uma flor... É o lenço que tu já conheces, o lenço de seda que a Christa te ofereceu uma vez... Lembras-te? Estás a vê-lo?

- Estou. - Assentiu com a cabeça e sorriu.

- Repara como é confortável... Tapa-te o nariz, como a máscara do hospital... Aqui, o nariz... Cheira tão bem, cheira a rosas e vagamente ao outro cheiro que tu já conheces, o cheiro da máscara, que te tirou as dores... E vai voltar a ser assim, sempre. O lenço verde é o teu lenço mágico, Rosi. Ficará sempre perto da tua cama. Quando pegares nele, é como dantes, deixas de ter dores. Desaparece tudo, menos os olhos do Schúmer. O lenço e a música maravilhosa...

Desta vez não havia uma mulher-polícia a puxar do lápis. Em compensação a chuva aumentara. Mal Stefan acabou de abrir a porta do carro, apanhou com uma bátega de água na cara. Empurrou a cancela do jardim e correu para a porta de casa. Já estava aberta. A irmã da paróquia encontrava-se lá.

- Vim vê-la, senhor doutor.

- Muito bem - disse ele, ofegante, afastando a água e o cabelo molhado da testa. - Não me trate por doutor, trate-me por Steffen. Já tínhamos combinado, não tínhamos? Então, o que se passa? Diga-me já para ficar descansado. Como é que ela está?

- Steffen, meu Deus, Steffen...

Sentiu as suas mãos pousarem-lhe nos ombros e puxarem-no contra o seu peito avantajado. Reconhecia agora os olhos de Berta. Estavam a rir-se.

- Steffen! Não consigo entender, homem! Chega aqui à cozinha. - Ficou parada a olhar para ele. - Steffen, ela comeu! E de que maneira! Como nunca... O arroz todo... bom, digamos que metade. Mas não interessa. Comeu com verdadeiro apetite... Vamos lá ver se continua assim. Ele assentiu.

- E que mais?

- Que mais? Estava feliz. Disse: «O bom Deus vai olhar para o Steffen e abanar a cabeça. Conseguiu melhores resultados que Ele. Não, o Steffen é que é o bom Deus. Fez desaparecer as dores, por artes mágicas. Berta, nem imaginas...» E a seguir acrescentou, comovida: «Já não sinto nada. Nem uma dorzinha.»

- E o que disse mais?

- «E quanto voltarem, basta pôr o lenço verde.» Berta continuava a fitá-lo. Era um olhar distante, um olhar muito experiente e amargurado.

- Foi a hipnose, Steffen?

Ele deixou-se cair na cadeira. Fora a hipnose... e mais qualquer coisa... Sorte, talvez?

- Tens uma cerveja? - perguntou ele. Ela foi buscar uma garrafa ao frigorífico.

- E já agora um copo. - E ficaram ali sentados sob a luz fria do candeeiro da cozinha a olhar um para o outro.

Por fim Berta disse mais uma coisa:

- Ligaram para ti.

- Quem?

- A tua mulher. Disse que precisava de ti em casa. Perguntou quando é que voltavas... Tem muito trabalho no consultório.

Ele ficou calado. Sabia que aquele mal-estar crescente e repentino era despropositado. Mas havia mais pessoas para tratar, além da velhota acolá no sofá.

Berta esvaziou o copo.

- Acho que devias ir. Não te preocupes. Se acontecer alguma coisa à Rosi, ligo-te imediatamente.

- Não é se acontecer alguma coisa, é assim que voltar a ter as dores.

- Prometido - disse Berta.

Mas não houve qualquer telefonema nos dias que se seguiram. Steffen ligou algumas vezes e a resposta era sempre a mesma: a tia Rã estava bem. Atendendo à situação... Desse ponto de vista, estava até muito bem. Ainda não se queixara das dores. Um milagre!

Pois bem, era o «seu milagre»... talvez.

Passados dez dias recebeu um telegrama de Dagmar.

O texto dizia: A Rosi adormeceu muito suavemente ontem à noite.

Uma única frase.

O que podia fazer com uma notícia daquelas? Podia ficar a olhar para aquelas letras o tempo que quisesse, que não ia mudar nada. Como é que aquelas palavras lhe pareciam tão improváveis? Não estava já à espera? Podia haver melhor notícia do que aquela? «Adormeceu muito suavemente.» Quereria dizer... sem dores?

Mas aquele raciocínio também não o ajudou.

Stefan sentou-se no escritório. Do consultório chegava-lhe aos ouvidos o murmurinho habitual.

- Há coisas que não se podem alterar - disse Christa pousando a mão no ombro de Stefan. - Porque são naturais. Como, por exemplo, a morte de uma velha senhora de setenta e seis anos.

A razão dizia-lhe a mesma coisa. A maldita razão também lhe colocava perguntas. E eram sempre as mesmas: porquê?

E... setenta e seis anos?

As pessoas a quem Liebherr conseguira estacionar o cancro também eram pessoas idosas... Está bem, não tens experiência na luta contra o cancro, mas viste como o Liebherr trabalhava. Leste os relatórios, conhecias também a técnica; basicamente, era a mesma que tu usas.

E então? Responde a ti próprio: porquê, meu Deus, porque é que falhaste desta maneira?

 

 

O amuleto da Santa Madalena começou a tremer, oscilou e converteu-se num brilho escuro à frente dos olhos de Stefan.

Chegara às obras da auto-estrada perto de Siegburgo.

Os pneus do automóvel deram saltos quando passou nas bandas sonoras que já conhecia da viagem para lá. Stefan levantou com a mão esquerda o pára-sol onde pendurara o amuleto, tirou-o e sentiu o contacto da corrente fina contra a palma da mão. Fechou a mão à sua volta. A corrente era de prata, o amuleto de uma liga de metal barata; o tempo gastara-o de tal forma que a cabeça da Maria Madalena com a auréola estava praticamente irreconhecível.

Há muito tempo que Rosi lhe queria oferecer o amuleto.

- Fica com ele, Steffen - dissera-lhe quando ele fora para Hamburgo, por causa do seu primeiro emprego. - Podes precisar dele, uma vez que já és médico. A Madalena ajuda.

Ele abanara a cabeça.

- Isto é a tua Madalena. E se ela te ajuda, tens de conservá-la.

Ela não ajudara...

Stefan conduzia agora mais devagar. Era difícil manter-se na auto-estrada e concentrar-se no trânsito. O carro também estava a sofrer. Guinchava em segunda. Os olhos de Stefan ardiam e o coração voltara a doer-lhe. O céu tornara-se cinzento.

A seguir começaram a cair os primeiros pingos de chuva no pára-brisas. Como ontem, pensou. E provavelmente a chuva está relacionado com enterros - tal como os chorões e os ciprestes...

Viu surgir à sua frente uma coisa azul, vacilante, inclinar-se para a esquerda e ficar do tamanho de um cartaz de cinema: um camião holandês. O camião vinha de Utrecht. As enormes letras amarelas sujas ressaltavam à sua frente.

Carregou no travão. Quase te espetavas nessa porcaria! Desaparece, sai da frente! Vira no cruzamento que vai dar ao parque de estacionamento...

Stefan respirou fundo, conduziu o carro cautelosamente como se não estivesse a conduzir sobre uma estrada de areia mas sobre gelo, parou, desligou o carro e abriu a porta: chuva, chuva cinzenta de luto...

Saiu do carro, tirou o casaco do banco de trás e vestiu-o.

A seguir atravessou para o outro lado em direcção aos três bancos panorâmicos que estavam completamente molhados e sentou-se no primeiro. À sua frente tinha uma ribanceira, e a seguir um campo de colzas. Havia também um cenário de fundo: umas sombras montanhosas quaisquer, ligeiramente pontiagudas por detrás de uma cortina de chuva prateada. E uma luz que piscava. Cintilava. Não fazia sentido, parecia não haver ritmo naquela tremulação. Era apenas um reflexo ocular nervoso a querer enviar uma mensagem a Stefan. Só que... a mensagem não lhe interessava.

Enterrou a cabeça nos ombros e abandonou a cara à chuva. Escorria-lhe pela nuca abaixo, era fria e causava-lhe um certo bem-estar. Mas mais confortável ainda era o grande vazio em que a tristeza de Stefan se afundava lentamente.

Quanto tempo permaneceu assim sentado - não sabia. Apesar disso o seu impermeável parecia não querer resistir mais à água da chuva. Stefan sentiu um frio húmido nas coxas, levantou-se, despiu o casaco e atirou-o para dentro do carro. Quando se sentou e ao inclinar-se para a frente para dar a volta à chave de ignição, assaltou-o uma sensação precisa, muito próxima da realidade, de não estar sozinho.

Stefan não se mexeu, observou os pingos da chuva no pára-brisas e sentiu-se sem forças perante a certeza: Rosi! Ela está sentada ao teu lado. Mesmo ao teu lado. Claro, ela está ali...

Fora numa daquelas conferenciazinhas acerca da vida depois da morte que Stefan ouvira dizer que as almas dos mortos só são capazes de se desligar dos sítios que conhecem e das pessoas de quem gostam com alguma dificuldade. Seria o caso?

Stefan ligou o limpa-pára-brisas, pôs o motor a trabalhar, conduziu o carro em direcção à saída da estrada e ouviu a voz de Rosi: Steffen.

Conduziu muito devagar.

Steffen, isto não é mau... Steffen, ajudaste-me tanto...

Seria verdade? Estaria a imaginar? Estaria alguém a sussurrar?

Steffen, tens de comer qualquer coisa... Ontem não comeste nada. Steffen, estás muito fraquinho... A seguir o silêncio.

Tens de comer qualquer coisa, Steffen... Cinco quilómetros depois, por entre o cinzento sujo da luz do dia cintilavam os reclamos de néon e a luz intensa dos candeeiros de uma estação de serviço e de um motel. Stefan curvou e estacionou o carro. Parara de chover. Apoiou as mãos no tejadilho e passou-as sobre a chapa molhada, como se estivesse a acariciar a pele de uma pessoa. Entrou no restaurante, mandou vir qualquer coisa para comer, e a seguir dirigiu-se ao pequeno posto de vendas junto à porta de entrada e pediu uma garrafa de aguardente de cereais e um pacote de rebuçados de hortelã-pimenta. Ao abrir a porta do carro reparou que Rosi ainda lá estava. Provavelmente a sua presença já não era tão forte, tão próxima como uns momentos atrás, mas estava lá. Só que... já não falava...

- Rosi? - perguntou ele em voz baixa. Ninguém respondeu.

Stefan bebeu um gole de aguardente e seguiu viagem. A próxima estação de serviço ficava a catorze quilómetros a norte de Siegburgo. Se fosse por Wetzlar, tinha ainda cem quilómetros à sua frente. Não tencionava conduzir depressa.

Chegaria a Burgach por volta das oito. Pobre Christa...

Oxalá estivesse a aguentar o movimento do consultório... O crepúsculo caiu pouco depois das sete horas. Stefan

saiu da auto-estrada e conduziu em direcção a Ortenberg.

Quando chegou à Estrada Nacional 275, teve de ligar os faróis. Não era só por causa da escuridão. A nebulosidade que pairava sobre a estrada condensava-se, desaparecia, mas levantavam-se constantemente à sua frente bancos de nevoeiro, voláteis e imprevisíveis. Pareciam espíritos que cobriam a estrada para se dissolver a qualquer altura. Stefan conduziu ainda mais devagar. Pegou na garrafa que colocara no porta-luvas. Quando por fim surgiu a placa com a indicação Burgach - 15 km à luz dos faróis, a garrafa encontrava-se meio vazia...

O cano da arma estava apoiado ao tronco de uma árvore.

Em frente a encosta coberta de ervas descia, continuava pela berma oposta da estrada, tornava-se mais inclinada e terminava num bosque. O tronco era um bom apoio. Era o tronco de um velho pinheiro ressequido, com vinte metros de altura. O temporal arrancara-o da terra. Por entre as raízes grotescas e retorcidas em forma de cobra havia lodo e grandes pedras. O volume das raízes e os tufos que se estendiam por ali abaixo proporcionavam um abrigo com boa visibilidade.

O homem gostava de sentir a curva da coronha da espingarda ajustada ao ombro, como naquele momento, e a seguir a cena repetia-se: apoderava-se dele uma calma fora do vulgar, verdadeiramente excitante e quase sobrenatural, que o percorria dos ombros à ponta dos cabelos e descia novamente pelas costas, até às pontas dos pés. Era sempre assim, tal e qual como naquele momento. Uma sensação diabólica...

O homem virou o cano devagar, muito devagar para a esquerda, para onde começava a curva e, restabelecido, surpreendeu-se com o pouco trânsito. Ainda cinco minutos antes ouvira o ruído de uma série de carros a passar. Provavelmente era por causa do sinal de proibição de ultrapassagem na curva. A seguir surgiram duas furgonetas, muito devagar, e o homem tentou decifrar o slôgane publicitário inscrito nas carroçarias, mas os seus conhecimentos de alemão não eram suficientes.

E de repente não passou mais nada.

Um Jaguar, voltou a pensar o homem. Um Jaguar de grande cilindrada...

Verde-escuro, dissera o gordo mostrando-lhe uma fotografia e repetindo o gesto, como se tivesse um idiota à sua frente incapaz de distinguir um Jaguar inglês de um Wolga. Verde-escuro, muito bem. Mas onde é que ele estava?

Como sempre, o Jaguar descreveria a curva apertada com muita perícia. Se viesse a uma grande velocidade podia passar a linha separadora, mas, se viesse a uma velocidade moderada, não havia problema. O homem encostou o olho à mira. A mira telescópica tinha capacidade para uma distância de vinte a trinta metros de alcance. Desviou o cano um bocadinho para a direita. Com aquela ampliação os rebites dos separadores que protegiam a curva pareciam quase tão grandes como unhas de dedos polegares. Ainda há pouco tempo o homem conseguira vê-los com muito mais nitidez. Agora pareciam-lhe muito pouco nítidos e escuros, embora a visibilidade ainda fosse suficiente.

Activou o mecanismo dos infravermelhos e andou com o pequeno ponto vermelho de um lado para o outro. Minúsculo, vermelho-rubi, tinha de ser certeiro, mas o vermelho perdia a cor, os separadores pareciam desfocados, as suas margens desapareceram da mira como se tivessem caído num líquido cinzento corrosivo. Não foi apenas o aço que se diluiu e desapareceu, as pontas dos pinheiros na encosta do outro lado da estrada transformaram-se também em sombras. Uma língua esbranquiçada lambia-os, envolvia-os, erguendo-se na estrada...

Nevoeiro! Meu Deus, nevoeiro... O homem já há muito que se habituara a praguejar em situações daquelas. Praguejar não adianta nada.

Nevoeiro!

E como dissera o gordo: «Só o motorista, ouviste? Só disparas contra o motorista. O do banco de trás não pode sofrer nem um arranhão.»

O do banco de trás?

A estrada desaparecera, desaparecera no nevoeiro. Portanto deixava também de existir «o do banco de trás». Com a visibilidade que tinha, nem na carripana acertaria. Se o Jaguar viesse agora, provavelmente poderia ouvir o motor.

Deixou a espingarda pousada no tronco e levantou-se.

O nevoeiro chegara à encosta, fluía em direcção aos pinheiros altos, fez um bailado com o seu espectro branco leitoso, encenou uma dança de véus louca e fantasmagórica com voltas lentas, cobrindo as plantas, a terra e a estrada com asas de gaze branco-acinzentadas. Ali havia mão do diabo. Fora ele que enviara aquele nevoeiro absurdo. Podiam passar uma dúzia de Jaguares tranquilamente por ele, com uma dúzia de motoristas ao volante, que não acertaria em nenhum, nem num único!

Tirou o telemóvel do cinto, para ligar ao gordo. Porém, como se este tivesse adivinhado, o aparelho começou a tocar na sua mão. Duas vezes...

O sinal. Vem aí...

Então? Será que... O gordo, lá atrás na montanha, não devia ver um palmo à frente do nariz, mas também era possível que o maldito nevoeiro só tivesse rastejado para aquele lado da montanha. O homem não parava de praguejar, mas a segunda surpresa, não, uma espécie de milagre, impediu-o de soltar a praga. Os véus de nevoeiro voaram tão repentinamente para cima, como se um ventilador potente os tivesse apanhado; davam voltas, evaporavam-se, outros andavam à deriva em espirais lentas e ascendentes no indefinível cinzento-escuro à sua frente.

Olhem só para isto! Meu Deus, olhem só para isto...

Estava tudo tão silencioso como antes. Um silêncio pesado, insuportável, como se estivesse tudo envolvido em algodão. Só que... era um silêncio diferente do anterior.

O homem susteve a respiração.

E de repente, no meio de todo aquele silêncio, ouviu-se um zunido suave. Vinha lá de cima da montanha, parecia acentuar ainda mais aquele silêncio sepulcral que, aliás, costuma pairar no campo. O condutor abrandou na curva, ouviu-se nitidamente. Devia ter acabado de descer o cume. Já se via novamente a estrada. O asfalto reluzia, o separador aparecia novamente ao longo da estrada, polido e nítido. O homem ajoelhou-se atrás do tronco da árvore. Tinha a espingarda encostada ao ombro. E lá em cima na curva surgiu um clarão difuso, cor de gema de ovo: faróis! Devagar, aproximava-se muito devagar.

Leva o tempo que for preciso, rapaz, agora não há pressa... Já te consigo ver...

O automóvel que descia a encosta tomava gradualmente contornos. Mas não era o zunido de um motor potente, era uma pequena carripana. Passou ao lado do bosque, um carro minúsculo de duas portas. Já se avistava a parte de trás e as luzes dos travões a acender. Desengatar.

Ia levantar-se quando voltou a ouvir o barulho de um motor. Algumas árvores estavam ainda parcialmente ocultas pelo nevoeiro, mas a curva distinguia-se clara e perfeitamente. O ruído transformou-se num zunido de um motor potente.

Podia ser ele... Vem aí! E vinha.

O carro era baixo e comprido, quase preto. O guarda-lamas e o capo alongado eram típicos de um Jaguar.

O coração do homem batia calmamente. Agora era tudo automático. Tinha o olho na mira.

Devagar, com elegância, os faróis de nevoeiro ligados, riscas cromadas reluzentes, nítido e evidente, como se rolasse sobre uma bandeja, lá vinha o automóvel.

O ponto vermelho da mira deslocou-se do capo para o pára-brisas.

O motorista? Aqui o tens! Podia distinguir a sua cabeça por detrás do volante: uma sombra oval, escura, de contornos nítidos.

O ponto vermelho parou.

Susteve a respiração e accionou o gatilho. O tiro empurrou a coronha da espingarda contra o seu ombro. O Jaguar seguiu em frente, como se não tivesse acontecido nada.

Mas acertara-lhe!

Tinha a certeza absoluta. Tinha acertado no condutor...

Mas o que é que o maldito carro está a fazer? Continua a ir a direito. Não há nada que indique que o homem, num derradeiro reflexo, tenha largado o volante. Não, o carro continuava a rodar... ou não?

Repara: As rodas da frente estão a roçar a linha divisória da estrada, estão a atravessá-la, já passou para a faixa oposta da estrada... e finalmente vai acontecer o que é suposto acontecer: o guarda-lama da esquerda embate no separador, a chapa metálica chia e estoira mal o carro, que pesa toneladas, entortar o separador e o amolgar. Viu o chassi em forma de caixa quando o par de rodas do lado direito se ergueu no ar... e a seguir a parte de baixo da suspensão, o amortecedor. Foi esta a última imagem que teve do automóvel.

O carro desapareceu de vista.

Havia ramos partidos, ouviu-se um embate abafado, e a seguir um ruído longo e irritante do automóvel a derrapar na curva.

O homem pôs-se de pé e ficou à escuta.

O silêncio voltava a reinar. O nevoeiro descera de novo sobre a estrada, tornando-se cada vez mais cerrado.

O homem acenou com a cabeça, satisfeito.

Procurou no bolso um rebuçado de eucalipto. Em situações daquelas chupava sempre um rebuçado de eucalipto, embora o médico lhos tivesse proibido por causa da gastrite. Mas tinha de ser. O homem meteu-o na boca. O seu estômago estava a comportar-se pacificamente. O coração também. Estava despachado. Já não tinha mais nada a ver com aquilo.

Retirou a mira da espingarda, desmontou a arma e voltou a enfiar as peças na respectiva mala. Não levava mais de quinze minutos a fazê-lo.

Pôs-se novamente à escuta. Não se ouvia nenhum zunido de motor à distância. Nem sequer o pio de um pássaro.

O homem caminhou ao longo da encosta para, protegido pelas árvores, trepar para o sítio combinado na berma da estrada, onde o gordo voltaria a apanhá-lo no seu carro.

A Dra. Christa Bergmann retirou apressadamente das prateleiras aquilo de que precisava. Não era muita coisa: fruta, pão, detergentes, cigarros para Stefan, uma caixa grande de creme hidratante, um frasco de compota de morangos e a embalagem de trouxas de couve congeladas. Os caixotes de fruta expostos na rua já tinham sido levados para dentro pela rapariga do supermercado e havia filas em ambas as caixas. Valha-me Deus, como é que consegues deixar sempre tudo para o último momento? Porque não és capaz de fazer uma porcaria duma compra como as pessoas normais?

- Boa tarde, senhora doutora!

Caras que lhe sorriam, não era só uma, eram muitas caras, e ela devolvia-lhes o sorriso, um sorriso radiante e optimista, como se esperava da sua parte: vinte doentes da parte da tarde, que importância tinha? O importante era estar bem-disposta, sempre bem-disposta.

No carrinho de compras à frente de Christa acumulara-se uma verdadeira montanha de produtos. Alguém o empurrara apressadamente para o lado deixando livre o caminho para a caixa. O homem do monte de produtos, pequeno, atarracado, gordo, calvo e enfiado num fato de treino verde e violeta fez também um sorriso radiante para Christa. Chamava-se Grassnitz. Dois enfartes ligeiros no ano anterior... Fazia parte dos doentes assíduos do consultório.

- Mas, senhor Grassnitz... - O protesto de Christa Bergmann saiu-lhe bastante fraco.

- Venha para aqui, senhora doutora. A senhora só tem meia dúzia de artigos no cesto! Faça o favor de passar à minha frente.

Também na caixa umas mãos solícitas se estenderam na sua direcção.

- Eu ajudo-a a meter as coisas no saco, senhora doutora. As pessoas sorriram.

Uma sensação calorosa de reconhecimento apoderou-se de Christa, uma sensação que há muito lhe era familiar.

«Desapareceu num enorme buraco negro», costumava dizer o pai. «Em Burgach, a penúltima aldeola de Hesse...» Burgach podia ser a «penúltima aldeola» da região de Hesse, mas um buraco negro, de modo algum; talvez tivesse qualquer coisa de ninho protector.

- Tenha cuidado! - gritou a mulher da caixa para Christa. - O nevoeiro lá fora está muito rasteiro.

A terra desaparecera, afundara-se num cinzento aquoso. | Todos os ruídos pareciam abafados por algodão, os faróis dos automóveis, a iluminação das estradas, os candeeiros por detrás das janelas - eram apenas pontos luminosos enfraquecidos por filtros de água. Soltou o ar dos pulmões. Sinceramente, achara demasiado complicado tirar o carro da garagem para andar uma centena de metros até ao supermercado... E agora? Como era possível aquele nevoeiro? Tão súbito. Tão rápido...

Casa e consultório ficavam no fim da Rua Heinrich-Heine, no cimo da encosta. Quando Christa partira meia hora atrás, ainda admirara o céu da tarde, mas depois... depois, decididamente um maluco qualquer tinha carregado num botão e alterado tudo.

Atrás de Christa chiaram uns pneus. Do nevoeiro surgiu uma carrinha preta. A janela do lado do condutor vibrou quando a abriram.

- Se fosse a ti, pensava duas vezes - gritou alguém. Christa voltou-se para trás. A cara larga, iluminada de verde pelo reflexo da carroçaria, e com um bigode cuidadosamente aparado pertencia a Walter Kunze. Walter era chefe de produção na fábrica de cartonagem de Burgach ealém disso casado com Hella, uma amiga de Christa.

Mug

- Credo, Christa, como é que se pode andar de bicicleta com um nevoeiro destes? Podes explicar-me?

- Não preciso. Quando saí, não havia nevoeiro. Saiu da carrinha e dirigiu-se a ela. Típico de Walter.

Walter, o atencioso, cuja solicitude protectora não só bulia com os nervos da sua mulher, como também com os de Christa, pois nunca sabia até onde podia ir. Mas, naquela altura, sem dúvida que ficou satisfeita.

- Vamos, dá cá isso! - disse ele com um ar prestável.

- Não compliques - defendeu-se Christa numa voz sumida.

- Complicar? Mais complicado... Como médica devias perceber alguma coisa de prevenção. - Abriu a porta da carrinha. - Vamos, sobe. A bicicleta entra pela porta de trás. E o teu monte de compras vai ao teu colo.

Christa não se opôs. Subiu para a carrinha e ouviu Walter enfiar a bicicleta lá atrás. A seguir ele deixou-se cair pesadamente no banco, fechou a porta, verificou se Christa apertara o cinto de segurança e soltou o travão de mão. Luzes rastejavam na sua direcção. Não se distinguiam os carros. Rolavam a passo de caracol. Algures mais à frente havia qualquer coisa vermelha a brilhar. Tinham chegado ao cruzamento da estrada de desvio. Walter parou.

- São uns ignorantes. Anunciam mudança de tempo e sol, e eu quase convidei a Hella para vir comer um gelado ao italiano. E agora isto. O que é que o Stefan anda a fazer com um nevoeiro destes?

- Ele não está cá.

- Está a olhar para o fundo dos olhos de alguém? Está a fazer hipnose?

Acertar tão perto, com uma observação tão superficial que fazia sentir mal qualquer um... também era típico de Walter Kunze.

- Ele não está a «fazer» hipnose nenhuma, Walter. E quando ele tem uma sessão, também não olha no fundo dos olhos de uma pessoa qualquer. Eu disse que ele não estava cá. Foi sepultar a tia em Òberhausen e está a caminho de casa.

-Sepultar?

- Sim. - Christa não queria falar sobre o tema «Rosi». Não com Walter. - Era uma tia muito especial. Mas mudemos de assunto.

- Eu só queria...

- Tu devias era ter mais atenção. O semáforo está verde. Passou o cruzamento, virou na Rua Heinrich-Heine e conduziu o carro com cautela pela encosta acima. A seguir disse:

- Lamento, Christa.

- Como? O quê?

- Isso do enterro... E caso não tenhas percebido bem... Provavelmente exprimi-me mal... Quero dizer, se existe alguém que pode estar reconhecido ao Stefan por tudo o que ele fez nesta região, esse alguém sou eu, definitivamente. Ninguém imagina como foi quando cheguei a casa da Martha, a encontrei estendida no chão, com a tesoura na mão, um corte na face direita, e o chão todo manchado de sangue... Portanto, posso garantir-te...

Não precisava de o dizer. Hella descrevera a Christa com pormenores suficientes o choque que ela e o marido tinham tido quando encontraram a grávida Martha numa poça de sangue. Martha sofria há muitos anos de uma nevralgia do trigémeo do lado esquerdo, arrastava-se com dores terríveis de um médico para outro, de clínica para clínica, submetera-se a uma operação ao maxilar, e a mais três operações até que, na unidade de dor de uma clínica, tiveram a ideia de lhe bloquear o nervo da cara.

A partir daí Martha passou a andar com uma cara de marioneta pasmada, tinha medo das pessoas e cada vez se afundava mais num abismo infernal de depressões e de dores, até ao dia em que ultrapassou os limites do suportável, pegou na tesoura e cortou a cara.

Foi então que Stefan, após uma longa série de sessões, conseguiu levar a cabo um dos seus «milagres». Martha parara de ter dores. No entanto as sequelas deixadas por aquele pesadelo já não podiam ser apagadas.

- Por amor de Deus, Christa, eu só não quero que fiques com a sensação...

Colocou uma mão sobre o braço de Walter.

- Está tudo bem. Agora, pára com isso.

Tinham chegado a meio da Rua Heinrich-Heine. O nevoeiro dissipara-se. Já se conseguiam distinguir as árvores, os telhados das casas e as luzes através das janelas.

Walter parou e descarregou a bicicleta, agarrou Christa com ambas as mãos, como sempre fazia, e seguiu-se o inevitável beijo nas faces.

- Manda-lhe cumprimentos meus.

- Claro, Walter, assim que ele regresse. E obrigada. Empurrou a bicicleta até à garagem e subiu pelo caminho empedrado.

A luz que vinha do consultório atravessava o nevoeiro e caía obliquamente sobre as roseiras. Christa abriu a porta de casa, poisou as compras sobre a cómoda da entrada, acendeu a luz e olhou, sem saber porquê, para o espelho. A seguir levou as mãos à cabeça. O seu cabelo escuro estava molhado... E a cara? Meu Deus, estás com um ar bastante abalado.

E Stefan?

Havia luz no consultório. Christa não vira o carro de Stefan: o que significaria? Com certeza arrumara-o na garagem.

Pegou nas compras e levou-as para a cozinha. Olhou para o relógio. Eram precisamente dezanove horas e cinquenta e cinco minutos quando o telefone tocou na sala de entrada. Christa voltou a correr para trás e levantou o auscultador.

- Consultório do doutor Bergmann.

Ouviu uma respiração ofegante, e a seguir uma voz de homem.

- Senhora doutora?

- Sim.

- Daqui fala Konietzka. Erich Konietzka... Conhece-me, não conhece? Sou daqui da freguesia. Trabalho nos serviços florestais... No ano passado tive um menisco...

- Claro que o conheço, senhor Konietzka. O que se passa?

- É grave, senhora doutora... muito grave.

- O que é que é grave?

- Houve um acidente. Lá em cima, no miradouro, mesmo ao pé de Rotkranz. Conhece o sítio, não fica muito longe de sua casa. Donde partem sempre as corridas de bicicleta dos bombeiros.

- Com certeza, senhor Konietzka.

- A seguir há aquela curva na encosta. Houve alguém que bateu contra o separador, senhora doutora. Uma campana grande, um Jaguar. O condutor morreu, mas o outro está vivo, o que ainda lá está dentro. Está inconsciente. Estou sentado a seu lado a telefonar-lhe.

- Reparou nalguma coisa, senhor Konietzka... hemorragias ou outra coisa?

- Não, mas com este nevoeiro está bastante escuro. Abri a camisa do homem e examinei-o com o auxílio de uma lanterna. Não conseguia ver nada, absolutamente nada. A bomba ainda bate. Nós levantámos-lhe ligeiramente o tronco e desapertámos-lhe o cinto, como nos ensinaram no curso.

- Vocês? - perguntou Christa.

- O meu colega e eu.

- Fizeram muito bem, senhor Konietzka. E a polícia? Já foi informada?

- Claro, senhora doutora, foi a primeira coisa que fiz. Mas com este miserável nevoeiro, há acidentes por todo o lado. Uma colisão em série na auto-estrada, e tudo e mais alguma coisa. De qualquer forma não vão chegar cá depressa. Disseram que vinham assim que pudessem. Mas estão a demorar. Já se sabe como é.

- Vou mandar o meu marido - disse Christa. - Vai já para aí. Eu também sou responsável pelo serviço de acidentes. E outra coisa, senhor Konietzka: se o estado do sobrevivente se agravar, ligue para o número que lhe vou dar. Tem alguma coisa que escreva?

- Tenho.

Deu-lhe o número do telemóvel de Stefan e atravessou o pequeno corredor que ligava a casa ao consultório e onde estavam penduradas as aguarelas que Stefan pintara durante as últimas férias na Grécia.

A porta estava entreaberta.

- Stefan!

- Sim?

A resposta veio do gabinete. Stefan estava à secretária, ligeiramente debruçado para a frente, com as mãos sobre o tampo da mesa. Virou a cabeça devagar, olhou para a mulher, e ela não percebeu muito bem se aquilo que se desenhava ao canto dos seus lábios era um sorriso. Stefan estava pálido, tinha as pálpebras inchadas e vermelhas. A cara parecia mais magra que nunca, e as sombras projectadas pelo candeeiro de mesa nas maçãs do rosto faziam-no parecer mais velho.

Christa susteve a respiração... O estado em que fica um homem que acaba de enterrar a mulher que era como uma mãe para ele!

Abraçou-o.

- Stefan - murmurou ela. - Oh, Stefan. - E a seguir: - Pobre Stefan.

Olhou por cima do ombro e reparou que colocara uma fotografia de Rosi numa moldura, ao lado das que tinha em cima da secretária. Conhecia a fotografia. Estava deteriorada nos cantos. Stefan trouxera-a durante anos na carteira. Sobre a estreita moldura de madeira pendia uma corrente com um amuleto.

Stefan desprendeu-se da mulher e olhou para ela. Estava com um ar tão cansado. E devia ter bebido muito. Cheirou-lhe a aguardente e lembrou-se do telefonema.

- Não tens fome? Fiz trouxas de couve. Ele abanou a cabeça.

- Stefan, lamento. Mas acabou de haver um telefonema.

- Devem gostar muito de mim...

- Pois, mas ouve. Há um morto e um ferido grave. O Konietzka, dos serviços florestais, ligou. Já tentou as urgências.

Mas está um nevoeiro danado. A ambulância pode demorar a chegar. O acidente foi lá em cima no miradouro.

- Pois - disse ele, parecendo tentar raciocinar. E então? O que achas que devo fazer?

- O que deve ser feito, Stefan.

- Muito bem... Também não tenho fome nenhuma. O cérebro de Christa tocou a rebate. Estaria Stefan em condições de conduzir e de tratar do ferido? O seu coração hesitava entre a compaixão pelo marido e a autocensura: como é que nunca te especializaste em primeiros socorros? Como é que continuas a mesma banana de sempre, relativamente a casos graves de primeiros socorros a acidentes? Demasiado sensível? Não te podes dar a esse luxo.

- Eu acompanho-te, Stefan.

Ele abanou categoricamente a cabeça.

- Eu faço isto sozinho. E tenho o Konietzka para me ajudar.

- Está lá outro colega dele.

- Melhor. Fica tu aqui. - Esboçou um sorriso e fez-lhe uma festa na ponta do nariz com o indicador. - Fica a tomar conta das trouxas de couve... e traz-me a mala de primeiros socorros.

Stefan Bergmann estacionou o carro na berma da estrada um pouco abaixo da curva e saiu do carro. Também ali o nevoeiro se tinha dissipado. A tarde que caía absorvia todas as cores. Porém, ainda se distinguia a estrada, a encosta, as árvores... Só o vale é que se cobrira de escuridão.

Konietzka, dissera Christa, o trabalhador florestal que tivera uma lesão no menisco no ano anterior, estava no local do acidente.

Stefan voltou a abrir o porta-luvas, tirou a garrafa de aguardente de cereais para fora e bebeu um grande gole. Sentiu-se logo melhor. Agarrou na mala, saiu do carro e ainda não tinha andado dez metros quando descobriu o local onde se devia ter dado o acidente. Ali... Grotescamente deformado, um monte de chapa de aço de um separador elevava-se em direcção ao azul do céu. Stefan acelerou o passo.

- Senhor Koniet/ka? - gritou ele.

Um dos dois homens levantou-se, começou a correr e foi ter com ele. Konietzka vestia um blusão largo amarelo, tinha uma grande cabeça e o cabelo desgrenhado.

- Finalmente, doutor! Caramba, uma espera destas faz desesperar qualquer um. Venha, ali mais à frente podemos descer a ribanceira. Tem uma lanterna?

- Tenho.

- Eu também. Vamos!

Desceram a encosta, Konietzka à frente. Stefan Bergmann tentava encontrar pormenores, via o matagal escuro onde ainda pairavam novelos soltos cinzentos de nevoeiro, via as formas escuras das árvores... nada mais.

Um Jaguar, dissera Christa?

- Ouça, senhor Konietzka... A polícia... disse-lhe que vinha um médico socorrista a caminho?

- Afirmaram que estava tudo encaminhado. É o que afirmam sempre... a sua mulher também disse que ia tratar do assunto.

Algures lá ao fundo, na escuridão do abismo, distinguia-se um brilho baço. Provavelmente uma peça cromada sobre a qual incidia o feixe de luz da lanterna de Konietzka.

Stefan escorregou, quase caiu, endireitou-se novamente, reconheceu um guarda-lama e mais à direita o tampão de uma roda.

E a seguir viu o carro.

Uma amálgama de chapa, uma forma escura e maciça.

O ferido estava deitado entre dois troncos de ciprestes estreitos, a cerca de quarenta metros da ribanceira abaixo da curva e a quinze metros de distância do caos de chapa amolgada e riscada, que já fora um carro de luxo.

Os dois trabalhadores florestais tinham transportado correctamente o homem para um sítio estável, o cinto fora desapertado, as calças rasgadas nos joelhos estavam sujas e com folhas coladas ao tecido azul-escuro. O pé direito continuava enfiado num sapato elegante e leve, mas tinha perdido o sapato esquerdo. A lanterna de Konietzka iluminou-lhe a cara: a pele era branca como a cal e tinha os olhos fechados e ligeiramente azulados por baixo.

Bergmann ajoelhou-se no chão do bosque e apalpou a carótida do homem inconsciente. Ali... Sentia o coração bater, não com demasiada força, mas sentia-se nitidamente. A caixa torácica também se elevava e baixava. Não havia sinais de lesões graves ou de paragens respiratórias. Só as pupilas é que se contraíam ligeiramente sob a claridade ténue do feixe de luz da lanterna. As pálpebras começaram a tremer, o cérebro parecia ainda ter oxigénio.

Stefan abanou cuidadosamente o homem pelos ombros.

- Está a ouvir-me? Não reagiu.

- Consegue ouvir-me? - A voz de Stefan subiu de tom. Nada.

- E agora? - perguntou Konietzka ao seu lado.

Sim, e agora? As vias respiratórias pareciam estar desimpedidas. Tentar uma reanimação numa situação daquelas? O homem podia ter sofrido ferimentos internos. Stefan começou por lhe examinar a cabeça. Tinha alguns inchaços do lado direito, mas a abóbada craniana parecia estar bem. Não havia vestígios de sangue, nem nos ouvidos, nem no nariz...

Na parte da frente. O esterno... estava bem. As costelas, igualmente. Encontrava-se provavelmente em estado de choque devido ao acidente, mas, para se poder determinar exactamente se havia lesões na coluna, tinha de chegar a ambulância. Em todo o caso, se não tivesse nada, não estava tão mal como isso...

E o outro?

Morto, dissera Konietzka.

Stefan Bergmann lançou um olhar rápido aos destroços do automóvel. A seguir as suas mãos recomeçaram a tactear

o corpo do homem inconsciente. Os cintos de segurança podiam provocar contusões ou fracturas graves de ossos. Parecia estar tudo no lugar. Stefan abriu-lhe ainda mais as calças e palpou-lhe a barriga. Uma nódoa negra no lado direito da bacia, era tudo. A barriga estava descontraída e sem tensões interiores.

Bergmann tirou o estojo da seringa da mala e injectou-lhe um estimulante de circulação, que lhe evitaria uma posterior queda de tensão. Teve alguma dificuldade em encontrar uma veia boa, mas lá conseguiu. Não havia muito mais a fazer até a ambulância chegar. Konietzka ajoelhou-se a seu lado.

- E então?

- Nada de muito grave... Pelo menos aparentemente. Amenos que tenha partido uma vértebra. Mas parece-me mais um traumatismo craniano e um colapso circulatório. , -Apesar de tudo, doutor, é grave.

Bergmann mal o ouvia.

- Refiro-me ao outro. Aquele que está dentro do carro. Se ao menos percebesse o que aquilo é. Refiro-me ao buraco...

- Que buraco?

- O buraco na cara. Levou um tiro... no olho. É o que parece.

- Que absurdo, senhor Konietzka. É um ferimento causado pelos destroços.

O outro trabalhador florestal aproximara-se. Stefan Bergmann voltou a apontar o feixe de luz da sua lanterna na direcção da cara do homem inconsciente, e só então reparou. O forte cabelo ruivo colado pelo suor que lhe pendia sobre a testa, as riscas de sujidade que iam da fronte esquerda até à maçã de rosto direita, a boca ligeiramente aberta... Apesar disso, nem o susto nem as dores nem o colapso de circulação pareciam ter alterado o seu aspecto. Mantinha uma cara distinta e bem talhada de um homem com cerca de quarenta anos de idade.

- Fique aqui - disse Bergmann ao colega de Konietzka. - Sente-se ao lado dele no chão e controle-lhe a respiração. Na melhor das hipóteses coloque-lhe levemente a sua mão na caixa torácica, e veja se percebe como é que ele respira. Caso note alguma anomalia, chame-me, sim?

Um ligeiro cheiro, mas penetrante, a gasolina pairava sobre a chapa amolgada verde-escura, estilhaços de vidro, estruturas de ferro torcidas e borracha rasgada.

- Tiveram sorte por o carro não ter explodido logo. Mas não se consegue abrir a porta, doutor.

Konietzka puxava inutilmente a porta do condutor.

Do pára-brisas que se tinha quebrado com o impacte do choque restavam apenas milhares de fragmentos brancos, cor de leite. A luz da lanterna iluminava o interior do carro. A primeira coisa em que Stefan reparou foi no papel, muito papel, papel de máquina A-4 impresso, espalhado pelo banco de trás. Havia também uma pasta aberta. O tronco do condutor estava inclinado sobre o banco do lado, e a perna direita entalada na alavanca de velocidades.

Bergmann enfiou-se o máximo que conseguiu através da abertura da janela. Konietzka parecia ter razão: o homem estava aparentemente morto. Stefan esticou a mão e tentou voltar-lhe a cabeça.

- A lâmpada, Konietzka!

O feixe de luz da lanterna de Konietzka recaiu sobre uma cara coberta de sangue.

- Meu Deus, doutor - ouviu-o Bergmann dizer. No olho! Estou a dizer-lhe, no meio do olho...

Naquele dia longínquo e quase esquecido, quando Stefan Bergmann ainda andava pelas ruas de Hamburgo com o serviço de assistência da Ordem de Malta, para aumentar o seu miserável ordenado de assistente do hospital do porto, fora chamado uma manhã à Rua Amundsen, em Altona. Fora lá, num sórdido quarto-cozinha de uma água-furtada, que um reformado se suicidara. Quando entraram na cozinha, o homem estava deitado sobre a mesa com os braços abertos, e das fotografias com a imagem da neta, espalhadas à sua frente na mesa com a toalha de oleado, caíam gotas de sangue e massa encefálica.

«Tiro mortal no crânio», escreve-se nestes casos na certidão de óbito... E este era o segundo caso.

Mas desta vez não se tratava de um reformado. Stefan Bergmann viu um homem jovem e robusto naquela terrível cara desfigurada pela morte. Tinha o maxilar inferior descaído. O olho esquerdo parecia fitá-lo. O direito transformara-se numa cratera escura.

Stefan voltou-lhe novamente a cara. Nenhuma ripa de aço, nenhum estilhaço de vidro, nada que pudesse causar um ferimento daqueles. Puxou-lhe a mão para trás e a cabeça do morto descaiu para o peito. Tinha cabelo castanho-escuro muito curto, e à luz da lâmpada de Konietzka distinguia-se nitidamente o orifício por onde saíra o projéctil. Abaixo da nuca, pequeno, talvez tão grande como uma moeda de um marco, perfurada.

Não foi uma pistola, pensou Bergmann, foi uma espingarda. E um tiro com grande força de perfuração...

O homem vestia um casaco de popelina cor de caramelo, muito elegante. Stefan afastou o casaco para os lados e abriu-lhe a camisa. Não viu nem sangue nem mais marcas de tiros, ou quaisquer outros ferimentos.

Bergmann reprimiu a sua relutância em voltar a tocar naquela cara fria e manchada de sangue, e colocou-lhe a mão debaixo do queixo para lhe levantar a cabeça, mas deixou cair novamente a mão.

- Olhe, doutor! - ouviu ele gritar lá fora.

- O que foi?

- Olhe só - respondeu Konietzka numa voz sumida.

- Ele vem aí.

Bergmann arrastou-se para fora do carro e virou-se para trás.

Pois é, ele vinha lá. Aproximava-se por entre aquelas colunas escuras e medonhas que a última réstia da luz da tarde transformara em árvores, aproximava-se vacilante, com os joelhos dobrados, os braços afastados do corpo, como os de um bêbedo que se tenta manter em equilíbrio. Caminhava com cautela, passo a passo, a seguir mais depressa... E o mais espantoso era que a luz da lanterna parecia não o incomodar. Tinha os olhos esbugalhados e a cara retorcida, desfigurada numa espécie de careta deformada.

- Olhe para aquilo, doutor... - balbuciava Konietzka.

- Vá lá! Ajude-o.

Konietzka correu, estava quase perto daquele fantasma de roupa esfarrapada, mas o fantasma abanou muito determinado a cabeça. Aparentemente não queria que o ajudassem. Bergmann correu também na sua direcção, e quando chegou perto do ferido viu o seu rosto tremer e a seguir Q isso foi o mais incrível - conseguiu esboçar uma espécie de sorriso de pedido de desculpa, sim, um sorriso quase amável.

- Oiça... - Falava num tom claro e inteligível. - Estou a causar-lhes problemas, não estou?

Bergmann aproveitou a ocasião para o amparar.

- Venha comigo. Então? Sente-se aqui.

- Eu... eu preciso de saber... o que aconteceu ao Rudi...

- O condutor?

- Sim, o meu motorista...

- Está morto.

Quando Konietzka acabou de dizer aquilo, Bergmann lançou-lhe um olhar reprovador. Tarde de mais. Sentiu o corpo do outro sob as suas mãos ficar pesado, e deixou-o escorregar devagarinho para o chão. A seguir voltou a ajoelhar-se a seu lado e agarrou-lhe no braço, enquanto Konietzka lhe iluminava a cara manchada de sangue e de sujidade. Os olhos do outro estavam muito próximos dos de Stefan, eram uns olhos verde-acinzentados com as pupilas excessivamente dilatadas, e muito abertos, com as pálpebras a tremer.

- Morto? - No entanto continuava a esforçar-se por esboçar qualquer coisa parecida com um sorriso. E a seguir disse: - Já me sinto melhor...

Bergmann queria mantê-lo no chão apesar de lhe sentir o corpo mais distendido. A injecção de adrenalina para a circulação ou a vontade do homem - qualquer coisa estava a fazer efeito, pois a respiração ofegante tornara-se mais compassada, o olhar mais lúcido e as pupilas contraíam-se.

- Quem são...

- Eu sou médico. Ouça, a ambulância deve estar a chegar. A única coisa que tem agora a fazer é sossegar até ela chegar.

- Sossegar? Claro, sossegar... Mas como?... Eu... eu tenho um problema...

- O seu único problema é sair daqui e ir a um hospital. O homem respirava com mais energia, mas sentia os

olhos a fecharem-se. O seu corpo parecia estar a relaxar.

Recomeçou a falar, mas falava tão baixinho que Bergmann teve de aproximar o ouvido da sua cara.

- É importante... importante... Compreende?

- Não.

- A minha pasta - conseguiu Stefan perceber. - Estão lá dentro papéis, papéis muito importantes. No carro.

- Eu vi-os. Os papéis voaram.

- Só me faltava isso...

- Oiça, a brigada de acidentes trata-lhe do assunto.

- Não! - Desta vez falou numa voz muito nítida e com uma potência verdadeiramente impressionante.

- Vamos lá a sossegar - insistiu Bergmann. - Não se excite. - Disse-o com toda a energia que conseguiu reunir. Sentia uma náusea e uma fraqueza treparem por si acima.

- Faça o que lhe digo. Por favor...

Mal conseguia perceber o que o homem dizia.

- Por favor!

- Muito bem - disse Bergmann, rendido -, vou tentar...

Ao longe, no fundo do vale ouviu-se a sirene de uma ambulância.

- Por favor - voltou a murmurar o ferido. - Por favor... Vai fazer isso por mim, não vai? Você... Você tem ar de ser uma pessoa honesta.

A seguir a cabeça descaiu-lhe para o lado...

Estava pronto.

Ficou parado, agarrado ao separador. Teve a sensação de estar a andar numa montanha-russa, na altura em que o carro descai do ponto mais alto e o estômago vai para cima e nos tira o ar.

Tinha suores frios na testa, mas continuava a segurar a pasta na mão, aquela pasta amassada tão importante, cujo dono mal se interessara pelo cadáver do motorista caído sobre o volante do seu Jaguar destruído,

Stefan segurou-se, inclinou a cabeça para trás, olhou para cima, na direcção das estrelas novamente visíveis, e sentiu os joelhos cederem. Sim, sentia-se pronto, firme e pronto...

Faltava-lhe ainda subir os últimos degraus até à porta de casa... Não precisava de procurar a chave, a luz de fora estava acesa, a porta abriu-se e ali estava ela.

- Meu Deus, pobre Stefan!

Era a segunda vez naquela noite que dizia aquilo e Christa não era uma pessoa normalmente predisposta à compaixão.

Stefan não conseguia distinguir-lhe a cara. Estava em contraluz, uma silhueta bem delineada, como se tivesse sido recortada em papel preto.

Pegou na pasta que ele tinha na mão e puxou-o para cima.

- O que é isto?

- Explico-te mais tarde...

- Está com um aspecto bastante danificado. E a folhagem que traz agarrada... Onde está a tua mala de médico?

- No carro.

- Mas porquê?

Ele respirou fundo, mas Christa abanou a cabeça. - Já me contas tudo. As trouxas já estão na mesa. E se já estiverem meio secas, não tenho culpa. Nenhuma. Vem... Deixou que ela lhe despisse o casaco, deparou com uma Christa que lhe abriu a porta, o conduziu para a mesa da sala de jantar e o ajudou a sentar na cadeira, como se estivesse a prestar assistência médica a alguém. E era o caso. Serviu-o de um monte de puré de batata, cobriu-o de molho, colocou a trouxa ao lado, e tudo isto sem desviar o olhar do marido.

Stefan bebeu a primeira cerveja e sentiu-se melhor. Bebeu ainda mais um copo, esvaziou-o de uma só vez e comeu. Precisava daquela descontracção. Por fim recordou-se de como a falecida Rosi lhe falara, de como examinara um segundo morto nos destroços de um Jaguar, do maluco que encontrara que, tal como Lázaro, se erguera de um semicoma... e, de certa forma como sobremesa, de como um agente da polícia o martirizara durante três quartos de hora.

Era um polícia paciente e compreensível, aquele comissário Schmidt - com «dt» - tão paciente e compreensível como um professor de canto que decide pôr um aluno sem talento a cantar. Não gostara muito de Stefan. Afinal, o que é que ele podia ter contado ao comissário de polícia? Em todo o caso Bergmann ficara a saber alguma coisa: o homem do Jaguar era de Frankfurt e era banqueiro.

Muito bem. Stefan empurrou o copo vazio para o lado. Já bebera o suficiente. Limpou a boca com o guardanapo e o seu olhar recaiu sobre o objecto ao pé da porta.

À luz do candeeiro da sala de jantar a pasta parecia-lhe agora estranha. Apesar da lama e das esfoladelas, aparentava ser inacreditavelmente luxuosa. O couro castanho-avermelhado brilhava, e o dourado da fechadura reflectia a luz.

Christa, que seguia o seu olhar, fitou Stefan... de uma forma que só ela conseguia fazer.

- Então, agora conta-me tudo. Se possível, por ordem de acontecimentos...

Stefan traçou sulcos com o garfo no puré de batata. Fez a vontade à mulher e contou-lhe tudo, por ordem de acontecimentos, como lhe pedira. Foi muito lacónico. Quando acabou, ela perguntou:

- E para onde levaram o homem?

- Não faço ideia. Para uma clínica qualquer, presumo. Tinha de ser transportado para qualquer lado.

- O que é que ele tinha?

- Como posso saber exactamente? Um traumatismo craniano ligeiro, algumas contusões, de certeza nas costas também, talvez qualquer coisa no abdómen...

- E a pasta? Que pasta é essa?

Meu Deus, era uma pergunta simples e muito normal! E a maldita pasta continuava no seu campo de visão. Olhavam ambos para ela. Stefan sentiu novamente o cansaço invadi-lo, mais rapidamente que momentos atrás.

- A pasta... Pois é, isso é outro assunto... Trazes-me uma aguardente?

Ela lançou-lhe um daqueles olhares à Christa, que nunca davam a entender se estava realmente a olhar para a pessoa ou se contava estreptococos ao microscópio. O cansaço de Stefan era cada vez maior. Mas a seguir veio a aguardente que lhe devolveu qualquer coisa parecida com lucidez.

- Tive um dia cheio de acontecimentos, Christa. Estou completamente exausto.

- Eu sei, Stefan. Mas que pasta é aquela?

Bebeu o resto da aguardente, respirou fundo e acabou por fazer também um resumo acerca do tema da pasta. Entretanto reparou que as mãos de Christa apertavam com tanta força o tampo da mesa à direita e à esquerda do prato que as suas veias sobressaíam.

- Enlouqueceste? Diz lá, não regulas bem...

- O que queres dizer com isso?

- O que quero dizer com isso? Ainda perguntas? Dizes que no automóvel destruído não só se encontrava um motorista morto, como também uma quantidade de documentos espalhados, e que o dono do carro, apesar do estado em que se encontrava, não pensava em mais nada a não ser em que juntasses aqueles documentos todos e os guardasses!

- O que queres dizer com «guardasse»? O facto de ter ficado com os papéis...

- E onde está a diferença? Vai dar ao mesmo. Não entendes? Não percebes que isso tudo cheira a esturro e que te tornaste cúmplice de uma vigarice qualquer?

- Vigarice? Cúmplice?

Tentou levantar-se, mas não foi muito bem-sucedido, as suas pernas pareciam estar cheias de chumbo derretido. Portanto manteve-se sentado e tentou alcançar o sentido das palavras de Christa. Mas não conseguiu.

- Pensa na situação... - A sua voz soou muito sumida. - Eu já te expliquei. Eu... eu não pensei muito nisso. Como é que podia? Tinha outras coisas para tratar. E também estava impressionado.

- Vê-se - disse ela, voltando a lançar uma olhadela para a pasta.

Ele não se irritou.

- Só queria ajudar o homem.

- Ajudar? - repetiu ela. - Muito bem. E a polícia? Já lhes falaste da pasta?

- Como assim? Como é que querias que lhes tivesse contado?

- Estás a falar a sério?

- Estou. O que é que isto tem a ver com a polícia? As suas pernas voltavam a funcionar. Stefan aproveitou

a oportunidade para se levantar. Teve de se agarrar à mesa. Christa também se levantou e estendeu o braço para lhe dar a mão. O seu rosto adquirira novamente uma expressão meiga e doce.

Stefan caminhou em direcção à porta, em câmara lenta. Estava a sair da sala quando se lembrou de qualquer coisa. Abaixou-se, apanhou a pasta e virou-se novamente para Christa, que voltara para a mesa com os pratos com as trouxas de couve por terminar e o fitava.

- Tenho de ir imediatamente para a cama - disse Stefan. - Há uma altura, algures, em que se atinge o limite. Vou para o meu cubículo. Acho que é preferível. Posso dormir lá sossegadamente...

O «cubículo» era o seu escritório, onde havia também um sofá-cama para situações daquelas...

Stefan dormiu até muito tarde, e acordou com a sensação de leveza de uma borboleta, e que Rosi o observava e vigiava o seu sono.

Naquela manhã de quarta-feira apareceram poucos doentes, portanto reinava a calma no consultório. Passavam poucos minutos das onze horas quando Stefan desceu de carro até Burgach para ir buscar as remessas do laboratório à caixa postal e comprar jornais. Estava curioso... O que se passara durante a noite também devia interessar à imprensa. Decididamente não fora um acidente qualquer, mas um atentado - um verdadeiro atentado!

Folheou os jornais do quiosque na praça do mercado. Não encontrou nada. Já retirara o FAZ da caixa do correio, para levar para casa. Também não trazia uma única linha sobre o assunto. Provavelmente a notícia só chegara às redacções depois do fecho dos jornais.

No telejornal das dezasseis horas, a mesma coisa. Nem uma palavra acerca dos acontecimentos da noite.

Ao fim da tarde, quando o consultório começava a ter mais movimento, assomou à porta a juba ruiva de Marga, a sua assistente.

- Senhor doutor! Está a passar qualquer coisa na televisão!

Era o magazine regional de Hesse, e Stefan chegou mesmo a tempo de ouvir a locutora dizer: «... o misterioso acidente está a dar que fazer à polícia. Os serviços criminais federais também se estão a ocupar do caso. Pelo que conseguimos apurar, Thomas Lindner, o patrão do motorista morto e proprietário do Jaguar, é conhecido no circuito da bolsa de Frankfurt como um hábil banqueiro de investimentos, com relações a nível internacional. Lindner, que vive e trabalha na África do Sul, dirige uma sucursal bancária na cidade de Frankfurt. A única informação que nos chegou antes do fecho da redacção foi que o famoso banqueiro se encontra numa clínica privada em Frankfurt, para se restabelecer dos ferimentos e do estado de choque em que ficou após o acidente.»

Stefan tentou lembrar-se da cara manchada de sangue, sujidade e terra, no bosque. Mas só o conseguiu vagamente. Além disso precisavam dele nas radiografias...

Afinal, o que se teria passado?

Saiu da sala do consultório onde se encontrava a televisão, atravessou o corredor, acenou com a cabeça a dois doentes que, por respeito, pararam com os seus mexericos nervosos e entrou no seu cubículo.

A pasta estava lá, no mesmo sítio onde Stefan a deixara à noite, mesmo aos pés da cama para emergências. Colocou-a em cima da secretária vacilante onde por vezes passava as noites a trabalhar, acendeu o candeeiro e olhou para a pasta.

- Ainda ganhas um carrinho pelo que estás a fazer. No mínimo um cavalo de corridas - dissera Christa na noite anterior. - As ferragens... ouro puro. Eu sei quanto custa uma coisa destas.

Pois bem, ele não sabia. Nem o valor de um cavalo de corrida. Christa sempre fora mais entendida naqueles assuntos. Além disso, da primeira vez que vira a pasta, não ficara especialmente impressionado. Estava esfolada no lado direito, como se lhe tivesse passado um arado por cima, e na parte da frente o mesmo quadro: sulcos transversais e profundos, o material era resistente. E nos sítios onde não estava suja, exibia ainda o brilho elegante da sua cor grená. No entanto a sensação que causava devia-se às ferragens e à fechadura. Tratava-se de uma fechadura maciça com combinação numérica. Não exibia um único arranhão. O mesmo se passava com a placa de metal presa à pega. Tinha à vontade uns doze centímetros de comprimento, cerca de quatro centímetros de largura e parecia ser de ouro puro. Não havia dúvida de que a chapa brilhava como se estivesse exposta numa montra de joalharia. E irradiava mais qualquer coisa: a informação: «Nunca conseguirás ter nada igual!»

- Quem é que anda por aí com uma coisa destas na mão? - perguntara Christa, abanando a cabeça. - Só um novo-rico.

Ou um banqueiro. Não era uma questão de arrogância, mas de imagem.

Stefan examinou as fechaduras.

Os fechos electrónicos eram o último grito. Já tivera ocasião de admirar pastas daquelas nos congressos, nas mãos dos seus colegas. Aquela conseguia ter um ar conservador. Além disso não tinha cinco, mas exactamente sete rodas dentadas na fechadura. O proprietário devia possuir boa memória ou então tinha os números assentes.

- Isto não me cheira nada bem! - dissera Christa na noite anterior. - Os papéis estavam espalhados pelo carro? Mas mesmo estando escuro tinhas a tua lanterna, deves ter lido ou visto alguma coisa. Deves ter ficado com uma ideia acerca do que os papéis continham!

Teria ficado? Tivera mais que fazer do que ler uns papéis quaisquer. Além disso estava tudo escrito numa língua estrangeira. Deveria também ter traduzido, com uma lanterna de bolso na mão, enquanto lá fora a polícia se aproximava?

E qual era a língua estrangeira? A fechadura de ouro não permitia desvendar o mistério. E fora o próprio Stefan que a fechara. Lá em cima, na encosta, juntara obedientemente os documentos, como se estivesse sob hipnose. Vendo bem, não soubera o que estava a fazer. Aquele Lindner, que levaram para a ambulância, é que o comovera: «Ajude-me! Você tem ar de ser uma pessoa honesta!»

Se tivesse que ver com o facto de ser uma pessoa honesta, Stefan Bergmann teria de juntar a tralha toda que encontrasse. Com prazer.

Afinal que língua era aquela? Era-lhe tão estranha como o chinês. Falava inglês, exprimia-se ainda melhor em francês, o seu velho passatempo, que aprendera a dominar nos últimos vinte anos até ao calão. Inglês, italiano, espanhol, francês - teria reconhecido imediatamente qualquer língua europeia.

Eslavo, pensou Stefan. Claro, russo talvez, ou checo, búlgaro, polaco. Deve ter cabimento numa área dessas.

Levantou a pasta e balançou-a na mão.

Só agora reparara nas duas iniciais na parte da frente. Uma camada de lama ocultara-as.

T e L, com uns arabescos desenhados artisticamente.

T e L?

Thomas Lindner...

Stefan guardou a pasta de luxo do banqueiro no armário discreto onde guardava os seus documentos e pastas arquivadoras, e fechou a porta à chave. Meteu a chave no bolso.

A seguir voltou para o consultório. Um homem que se permite ter fechaduras em ouro maciço, não é de forma alguma o teu caso. Nesse aspecto Christa tem razão. E tu tens que fazer. Olha para a sala de espera. Qualquer pensamento Riais acerca do senhor T. L. é pura perda de tempo!

E foi assim nos dias seguintes. Marga e Elke, suas assistentes no consultório, voltavam a andar atarefadas dum lado para o outro. Christa e Stefan faziam também todos os esforços para trabalhar o mais possível. A certa altura ela colocou-lhe um recorte de jornal em cima da mesa sem dizer nada e voltou a desaparecer. Tinha um doente sentado à sua frente.

- Desculpe-me, só por um segundo - pediu Stefan. O doente assentiu com a cabeça. «O caso Lindner ainda não foi esclarecido» era o título. A seguir o texto: «Relativamente ao esclarecimento dos motivos que estão por detrás do acidente mortal do motorista do banqueiro de investimentos Thomas Lindner, conhecido no círculo de banqueiros de Hamburgo, os departamentos de polícia que estão a tratar do assunto ainda não fizeram progressos. Desde o princípio que a polícia suspeita que o atentado se destinava ao banqueiro e que o autor do crime falhou o alvo, devido à pouca visibilidade, dificultada pelo nevoeiro que se fazia sentir na altura.

Daquilo que conseguimos averiguar, Lindner é conhecido a nível internacional sobretudo pelos negócios bancários em que está envolvido. Desde 1996 que financia volumosos projectos de construção no Sul de França.

Continua por esclarecer se por detrás do atentado estarão razões comerciais.

O secretariado do banqueiro guarda silêncio. Também na clínica, onde está a ser tratado dos ferimentos provocados pelo acidente, a vigilância é apertada.»

Stefan sentiu qualquer coisa parecida com pânico disparar dentro de si. Vigilância apertada? Ainda bem para Lindner... Mas, afinal, onde estaria guardado o segredo do negócio? Além, no cubículo? Espantoso!

- Senhor doutor, o que é que eu faço se voltar a ter problemas de digestão?

Bergmann sobressaltou-se. Tinha-se esquecido do doente por causa daquele crime.

- Nesse caso mudamos a medicação, senhor Meyerfeld. Vai ver que vai ficar bom. O seu caso não é grave. Era exactamente isso que Stefan desejava para si.

Foi na mesma quarta-feira, pouco depois das oito horas, que veio o telefonema. Bergmann estava no consultório sentado à secretária a pôr uns apontamentos em ordem para um artigo que prometera entregar na televisão regional, acerca das terapias por hipnose.

- Doutor Bergmann? - perguntou uma voz de mulher.

- Sim - resmungou ele. - Já que insiste!

- Como?

- Nada, nada.

Um breve pigarrear. ;

- Um momento, doutor Bergmann.

Houve um estalido na linha, e a seguir Stefan ouviu uma segunda voz de mulher que não se deixou intimidar com tanta facilidade como a primeira. Tinha uma voz fria, bastante grave e cheia das habituais amabilidades de uma senhora que quer impressionar.

- Senhor doutor Bergmann, queira desculpar por lhe estar a ligar a esta hora. Espero não incomodar.

- Sim, diga... - respondeu ele cautelosamente.

- Senhor doutor Bergmann, eu trabalho para o senhor

- Thomas Lindner. - Disse-o num tom de quem anuncia que trabalha para o presidente dos Estados Unidos.

- Sim - disse Stefan. - Como está ele?

- Muito bem... Atendendo às circunstâncias, claro.

- Claro. - Bergmann olhava para a ponta da esferográfica.

- E portanto, senhor doutor, é esse o motivo que me leva a ligar-lhe a esta hora.

- Ah, sim. E qual é o motivo? Começava a ficar verdadeiramente curioso.

- O seu estado. O senhor Lindner esteve algum tempo sob o efeito de medicamentos muito fortes, que não lhe permitiam agradecer-lhe. Está... digamos... um pouco abatido.

- Sim? E agradecer-me o quê?

- A ajuda que o senhor lhe prestou naquela noite terrível, claro.

Tinha também um segundo «claro» debaixo da língua, mas engoliu-o. A pasta! Era por causa disso. E abatido? Lindner estava era com medo por causa da pasta. Daí aquele palavreado todo.

Stefan piscou involuntariamente os olhos na direcção do armário de parede, como se aquela porcaria com as fechaduras de ouro estivesse ali entre os seus instrumentos. Mas permanecia ainda no cubículo.

- É por causa dos documentos, não é verdade? - perguntou Stefan.

- Desculpe, senhor doutor, não estou a compreender...

- Não? Então, diga por favor ao senhor Lindner que lhe devolvo com prazer aquilo que é a razão do seu agradecimento.

- Naturalmente, senhor doutor. No entanto, a minha missão é perguntar-lhe se tem disponibilidade para receber o senhor Lindner este sábado.

Bergmann estava atónito.

- Aqui? - perguntou ele.

- Exactamente. Em Burgach, se não estou enganada. O senhor Lindner manda perguntar se por volta das cinco da tarde tem uma hora livre para ele.

- Claro - respondeu Stefan.

Era o terceiro «claro» no espaço de três minutos.

- Então posso confirmar o dia. Vou transmitir ao senhor Lindner. Tenho a certeza de que vai ficar muito satisfeito. Boa tarde, senhor doutor Bergmann.

Stefan não respondeu. Ouviu um estalido na ligação e continuou a olhar para o auscultador.

Sexta-feira, oito horas da manhã.

Dentro de menos de uma hora começava o movimento no consultório.

Bergmann estava sentado à secretária a escrever. Escrevia com a caneta de ponta fina, pois chegara à conclusão de que avançava mais depressa se escrevesse com uma letra mais pequena, e tinha de escrever depressa. Rudi Becker, redactor do programa de ciência da televisão regional e velho amigo dos tempos do bairro do Ribeiro, aguardava o artigo de Stefan sobre o tema «fronteiras do raio de acção da medicina».

«O cérebro humano», escreveu Bergmann, «é uma máquina pensadora com uma potência inimaginável. É composta por milhares de neurónios, potentes células nervosas, que se relacionam umas com as outras de milhares de maneiras, em ”todas as situações possíveis”. Nenhum grande computador dos mais evoluídos, equipado com chips de última geração, é capaz de igualar esta construção da natureza. Se bem que o cérebro humano continue a ser investigado, permanece um grande enigma.»

Stefan esfregou o nariz, olhou para as linhas que escrevera e recomeçou de novo:

«Como qualquer computador, o cérebro trabalha basicamente com o mesmo princípio de programa. Esse programa baseia-se não só nas experiências da história da evolução, como também nas experiências biográficas realizadas pelo homem ao longo da sua vida. O único instrumento com capacidade para intervir neste programa com uma velocidade relativa é a hipnose. Esta capacidade tem a ver com uma técnica conhecida há dois mil anos no nosso círculo cultural e utilizada na civilização oriental e pelos povos primitivos, no seu quotidiano...»

Stefan levantou os olhos do papel, irritado. Poisou a esferográfica. Alguém batera e abrira a porta. Marga espreitou para dentro.

- Senhor doutor, está ali o senhor Warnke. Eu tentei...

- Tentou... - disse uma voz grave de homem. - Posso confirmar. Mas não foi muito bem-sucedida...

Marga desapareceu e no seu lugar surgiu um homem perto dos sessenta anos, um indivíduo com cerca de noventa quilos, de cabelos curtos encanecidos e olhos de um azul glacial e a piscar, ligeiramente avermelhados.

Bergmann levantou-se.

- Senhor Warnke?

- Sim, e bem cedo - declarou Warnke entrando. Não só era gordo, como também era grande. As suas calças desportivas beges estavam lassas nos joelhos, e os sapatos tinham uma sola grossa. Vestia um casaco de golfe amarrotado e uma camisa azul com o colarinho desabotoado. Warnke era comissário de polícia. Chefiava a esquadra de Burgach e tinha aspecto de ter saído de uma daquelas séries de televisão em que os comissários se assemelham a mestres padeiros, reformados e cansados. Warnke também estava reformado.

- Oiça... - Bergmann esforçou-se por mostrar um sorriso. - Estimo muito que aqui esteja, mas se não for urgente... Está disponível à hora de almoço?

- Em princípio, não tenho nada contra - sorriu Warnke. - Só que... hoje não estou livre a essa hora, senhor doutor. Todos temos a nossa pressão. A minha vem de Frankfurt. Estão constantemente a pressionar-me. Andam a pôr-me maluco.

Bergmann não estava a perceber nada, mas assentiu com a cabeça.

- A história na curva? - perguntou cautelosamente.

- O que havia de ser?

- E então? Os polícias interrogaram-me imediatamente a seguir, ainda lá em cima. Durante uma hora. Disse-lhes o que sabia. Como está o senhor Lindner?

- Lindner? Sabe o seu nome?

- Sei, porque não havia de saber? Vem em todos os jornais, cos diabos!

Warnke puxou uma cadeira, abanou a cabeça, aproximou-se da janela, olhou durante uns segundos lá para fora e voltou-se.

- A questão, doutor, é que o senhor referiu no depoimento que o homem estava inconsciente. E de repente diz que trocaram meia dúzia de palavras. Não bate certo.

- Como assim? O acidente deixou o Lindner numa espécie de estado de inconsciência. Levou uma injecção, recuperou um pouco as forças, o suficiente para se dirigir a nós e conversar um bocadinho. A seguir foi-se novamente abaixo. O que há de estranho nisto?

Warnke deixou a pergunta sem resposta.

-- E que mais aconteceu?

-- Como? - perguntou Stefan.

- Apenas um reparo. Qualquer coisa que nos possa fornecer uma pista.

- Acerca de quê?

Warnke puxou de um lápis e sentou-se. Suspirou.

- Repare, o homem é um tipo original. É um banqueiro ligado a investimentos, percebe? Alguém que faz negócios ilícitos com o dinheiro de outros, quanto mais sujo for o dinheiro, melhor! Pelo menos é o que parece. Os que entram com o dinheiro, o que torna a coisa um bocadinho mais complicada, são sobretudo russos.

- E então? Estou totalmente a leste desses assuntos.

- Eu também, doutor. Ou não muito...

Bergmann apontou para os livros e para os apontamentos sobre a secretária.

- É tudo? Tenho mesmo de trabalhar, antes que a rotina comece.

O sorriso de Warnke deu lugar a uma expressão mal-humorada. Permaneceu sentado, em silêncio.

- Banqueiro de investimentos - disse Bergmann para si próprio. - Capital russo? Se me imaginar no mundo em que o senhor se movimenta, senhor Warnke, quer dizer que

esse Lindner terá cometido um erro e que, supostamente,

devia ter sido assassinado. É isso? Muito bem. Mas então como se explica a morte do motorista? - Esse é que é o problema. - Warnke massajou a barba de três dias com os nós dos dedos. - Mas há uma quantidade de fala-baratos, doutor. E os fala-baratos têm sempre teorias. Uma é a seguinte: os autores do atentado confundiram o homem. Estava nevoeiro... Portanto pensaram que o homem ao volante era o Lindner.

- E os outros?

- Os outros? Bem, os atentados têm variantes. Uma delas consiste em que não se deve matar uma pessoa, mas sim dar-lhe uma lição de forma a apanhar um susto valente.

- E mata-se o motorista?

- Por exemplo. - O comissário de polícia levantou-se. - Pode ser que volte a precisar de si, doutor. Para a próxima não venho sem avisar. Prometo.

- Não precisa. De qualquer modo vou ter de ir mais vezes a Burgach. Posso passar pelo seu gabinete. Preferia.

- Como queira.

Bergmann acompanhou o comissário à porta e seguiu-o com o olhar. Um homem grande, cansado logo de manhã. Stefan Bergmann não estava a sentir-se bem. Mesmo nada bem.

A ferida tinha cerca de doze centímetros de comprimento e muito mau aspecto. A luz da cozinha era demasiado fraca e a mesa demasiado pequena. Portanto puseram o rapaz lá fora ao ar livre sobre uma porta que estava solta e apoiada em duas traves de madeira. Não era o sítio ideal mas servia. Bergmann conseguiu estancar a hemorragia, deu-lhe uma anestesia local, a seguir limpou a ferida com uma esguichadela de seringa, e aparou os rebordos enquanto um dos membros da família enxotava energicamente e com elegância as moscas de cima do ferido.

Bergmann não precisava de se preocupar com a camada inferior da ferida. O corte feito na coxa do rapaz pela grade de lavoura tinha apenas três centímetros de profundidade. Stefan suturou a pele e tapou a ferida com um adesivo.

O rapazito de dezasseis anos de idade esteve o tempo todo deitado a olhar para as andorinhas no céu azul, como se não houvesse nada mais importante ao cimo da terra.

- Muito corajoso - elogiou Stefan, arrumando a mala de médico.

- Somos de Zagreb - explicou o pai.

Muito bem, eram de Zagreb. Deviam... Ele, Stefan, tinha de se ir embora. Olhou com simpatia para a família reunida: seis pessoas. Duas mulheres, uma rapariga, três homens. E havia ainda o lavrador Rister que, sem os seus croatas, já há muito teria desistido da sua quinta na parte elevada de Burgach.

Uma mão estendeu uma garrafa a Stefan. O conteúdo era tão claro como água.

- Sliwowitz, doutor.

- Obrigado. Para a próxima trago uma comigo, assim podemos beber primeiro um copo.

Passou a receita, deu ainda alguns conselhos e a seguir entrou para o carro.

Espantoso! É então assim que passas a tua tarde livre de sábado? E vais ter um encontro ainda melhor no programa...

Stefan pôs o motor a trabalhar e deu uma olhadela para o relógio do tabliê: dezasseis horas e trinta minutos. Ainda tinha tempo. As dezassete, dissera ele. Um tipo como Lindner conseguia tornar as coisas verdadeiramente excitantes até ao último segundo. Desta vez fora um homem que falara ao telefone.

- O senhor Lindner diz que está às dezassete horas em sua casa, em Burgach. Espera encontrá-lo...

Por um triz que esperaria em vão...

Desta vez Stefan não foi pelo bosque, pela estrada sinuosa, meteu pela fazenda de Rister, até à estrada nacional. O percurso através do bosque era realmente mais curto, mas a estrada estava cheia de buracos. Pela estrada nacional chegava mais depressa.

Passou por Buchland, uma aldeola que já pertencia a Burgach, contornou o cume da montanha e viu a curva à sua frente. O céu estava de um azul radioso, as nuvens brancas pareciam pinceladas feitas por um pintor sobre o azul, lá ao fundo, a ocidente, a luz de fim de tarde estava listrada de rosa-avermelhado. O quadro era muito diferente do da outra noite... e não havia nevoeiro.

Sempre que passava por ali, e na semana anterior passara duas ou três vezes, Stefan tirava o pé do acelerador, deixava o carro continuar a rolar devagar e olhava para a encosta. O rasto na curva, os arbustos arrancados com as raízes castanhas, os pinheiros quebrados, ainda lá estava tudo, e no meio estilhaços de vidro e peças de chapa. O resto desaparecera. O separador fora substituído. No cimento notava-se um cinzento-claro colocado recentemente...

Só que desta vez o quadro não era aquele que Stefan estava à espera de ver. Pelo menos não totalmente...

Carregou no travão. Ali, exactamente ao pé do separador, exactamente no local onde o Jaguar sofrera o acidente, ali estava... o homem...

Um homem muito alto com um casaco preto comprido. Ao princípio não foi o vulto solitário que chamou a atenção de Stefan, foi o brilho avermelhado que irradiava da cabeça do homem. Não era Lindner? Podia ser... Naquele dia à noite Bergmann mal reparara qye Lindner tinha os cabelos tão ruivos e tão claros. Mas como? Provavelmente porque a luz da lanterna não era suficiente. Ou então não reparara mesmo. Mas agora?

O homem estava parado, muito quieto. O casaco comprido dava-lhe pelos tornozelos, uma espécie de capa, como o casaco de um cocheiro. A altura do homem - devia ter quase um metro e noventa -, aquela concentração silenciosa e muda e aquele céu de tarde azul a desvanecer-se em cor-de-rosa... bastante intrigante, não podia negar, caso se tratasse de Lindner.

A seguir Stefan viu o carro. E ficou admirado pela segunda vez. Admirou-se com o facto de o homem ter dado nas vistas antes da limusina de luxo. Desta vez Lindner não viera num Jaguar, desta vez o carro também não era verde-escuro, mas tinha uma cor metálica, grená. Lindner devia ter uma predilecção por aqueles tons avermelhados. E provavelmente, pensou Stefan, Lindner enchera o carro por precaução com uns guarda-costas quaisquer, e os vidros eram de tal forma blindados que nem um míssil o conseguiria atravessar.

Bergmann continuou a viagem, subiu a ribanceira e estacionou mesmo à frente do carro grená. Não havia guarda-costas.

Havia apenas uma pessoa sentada atrás do volante. Uma mulher.

Descera o vidro do lado do condutor e a luz desenhava debilmente os contornos da cara. Tinha a nuca encostada à almofada do banco, os olhos fechados, parecia estar a dormir ou a sonhar. O mais espantoso nela era o pescoço inclinado para trás, uma única linha branca reluzente. Bastava um olhar para se perceber que não se tratava de uma mulher qualquer - era uma mulher especial, muito especial.

O Dr. Stefan Bergmann registou-o numa fracção de segundos. O Dr. Stefan Bergmann pensou que podia ser uma amiga ou a mulher do homem de casaco preto. E o que é que o Dr. Bergmann resolveu fazer? Passou simplesmente por eles, conduziu mais três metros e sentiu-se um perfeito idiota, sem conseguir esboçar um sorriso nem acenar com a mão nem nada semelhante que pudesse ser entendido como um gesto de cortesia. Os complexos do bairro do Ribeiro perseguiam-no novamente.

Mas o homem era Lindner! Efectivamente.

Voltara-se naquele instante e olhava para Stefan. Estavam talvez a oito metros de distância um do outro. Lindner com uma expressão de curiosidade no rosto, os olhos arregalados, uns olhos verde-acinzentados, como os que Bergmann se lembrava de ter visto à luz da lanterna, com umas pupilas descomunalmente dilatadas.

Os seus olhos sorriam. A boca também sorria. Lindner levantou os braços, abriu-os e começou a andar.

- Doutor! Doutor Bergmann, não é?

A plataforma do miradouro, a curva, a seguir a encosta e por fim aquela figura vestida de preto sob um céu de tarde magnífico! Bergmann nunca esqueceria aquele quadro. Logo no primeiro segundo teve a sensação de estar a lidar não com um, mas com dois Thomas Lindners.

Foi uma visão nítida, incrivelmente rápida e difícil de avaliar... E logo depois, o outro Lindner, cuja cara adquiriu um novo vigor, a coxear na sua direcção e que lhe estendeu os braços abertos, que pegou na mão de Stefan e, como se não bastasse, lhe colocou a outra mão por cima, uma mão onde só se entreviam os dedos, pois a palma, o pulso e o antebraço estavam enfiados numa ligadura branca.

- Meu Deus, doutor... - Saiu-lhe apenas um murmurar enrouquecido da boca.

Bergmann sorriu, ligeiramente embaraçado.

- Meu Deus, doutor, o senhor? - Lindner abanava a cabeça. - Não é possível. Não pode ser...

- Como?

- Estava neste preciso momento a pensar em si - disse Lindner. - E o que é que acontece? Pára um carro, e o senhor surge à minha frente...

- Fui ver um doente aqui perto e passei aqui por mero acaso. - Parecia que Stefan sentia obrigação de se desculpar.

Lindner mal o ouvia. Continuava a segurar as mãos de Bergmann, o seu olhar era bastante incómodo, de certo modo transfigurado, como se tivesse encontrado o Salvador. Lindner tinha um adesivo no lado esquerdo da cara. Bergmann reparou que o nariz estava inchado. Além disso tinha dois ou três pontos no lado direito do maxilar inferior. A ferida já estava tão cicatrizada que bastava um penso pequeno. Exactamente como na noite do acidente: nem os ferimentos nem a sujidade nem as folhas que se tinham colado à sua pele podiam esconder que se tratava da cara de um homem bem-parecido.

E o sorriso! Thomas Lindner desencantara-o como que por artes mágicas naquela noite, meio inconsciente e cheio de sangue. E ali estava ele novamente.

- Não é incrível, não é fantástico, doutor Bergmann?

- Pois...

- Pois? Não se ria, doutor! Oiça, eu tinha dito a mim próprio: antes de ires a casa do doutor Bergmann vais voltar àquela curva maldita. De qualquer modo não a consegues esquecer. Portanto, vais mostrá-la à Maria... Maria é a minha mulher.

Bergmann acenou com a cabeça e olhou involuntariamente na direcção do automóvel de luxo. A mulher sentada no banco do condutor retribuiu o olhar. Estava muito quieta. Tinha as mãos no volante; olhou para ele e sorriu. Provavelmente queria deixar Lindner sozinho naquela situação, queria talvez que a deixassem sozinha - não fazia diferença. Finalmente Lindner largou a mão do Dr. Bergmann. Voltou-se e aproximou-se do separador colocado de novo passou a mão que não estava ferida sobre o metal e olhou para a encosta.

Bergmann pôs-se a seu lado.

- Aqui estamos os dois juntos novamente - ouviu ele Lindner dizer. - Acha normal?

Bergmann não encontrou resposta, e Lindner olhava para ele.

- Nada é normal, doutor Bergmann. Nada do que se passou naquela noite de sexta-feira. Foi... foi algo... foi algo muito estranho, para mim.

- Imagino.

- Não imagina, doutor. Só se imagina uma coisa destas quando se passa por ela... Uma situação inacreditável, o condutor de repente a mudar de direcção e o carro a perder o governo, a espatifar-se, a arrancar o separador e a começar às cambalhotas, às cambalhotas... Pois é, e a seguir o embate, o estrondo. E depois...

Baloiçava a cabeça de um lado para o outro e olhava para baixo, em direcção às árvores quebradas.

- E depois - prosseguiu Lindner -, aquele silêncio medonho, o pivete a gasolina, a espera...

Bergmann pigarreou.

1 - E depois apareceu o senhor. - Lindner pronunciou aquelas palavras muito devagar, acentuando cada sílaba com uma gravidade solene. - A espera é o pior... É terrível esperar-se assim...

- Imagino, senhor Lindner.

Stefan falava suavemente e com complacência, como se fala a um doente perturbado. Tudo aquilo lhe parecia estranho, a maneira de falar de Lindner, a sua ênfase, o seu olhar. E além disso aquela cordialidade avassaladora. Bergttiann mantinha-se distante. O que se passava com o homem? Além das esfoladelas e das contusões teria ficado também psiquicamente afectado?

Lindner voltou-se para ele muito devagar. O seu olhar Procurou novamente os olhos de Bergmann.

- E depois - murmurou -, depois apareceu aquela hz no nevoeiro. Vi a sua cara e tive a certeza: estás salvo...

- Ponche de Maio? Como assim? Agora que estamos quase em Julho? E ainda por cima com costeletas de carneiro? Perdeste a cabeça, Walter?

Cheirava a alecrim e a carne grelhada. Do grande terraço da vivenda dos Kunze, com as suas cadeiras de vime e de baloiço, podia admirar-se um céu de fim de tarde absolutamente deslumbrante, assim como as linhas suaves e vibrantes da colina lá em cima, na plataforma o miradouro.

Walter Kunze remexia as brasas do assador com um garfo.

- O Stefan ia gostar do ponche - disse ele. - Ele gosta destas coisas.

Christa Bergmann inclinou-se ligeiramente para a frente e tirou outra azeitona com a ponta dos dedos da taça azul colocada no centro da mesa. Empurrou-a para dentro da boca, bebeu um gole de martini e abanou a cabeça, ao mesmo tempo que olhava na direcção de Walter Kunze, que estava completamente transpirado.

- Ai sim? Como é que sabes?

- Como? Porque o Stefan é um romântico, como eu.

- Ah.

- Uma vez, numa daquelas festas de empresa completamente idiotas... - Hella Kunze apontava para o marido. Imagina, há dez anos. Ficou suja de ponche numa festa da empresa.

- Como assim? - perguntou Christa.

- Como assim? Quis atestar-me com aquilo. Havia tinas cheias com aquela coisa horrorosa. Esteve quase a conseguir... mas depois desistiu. E mordeu-me.

- Mordeu-te?

- Sim, mordeu-me! Nunca te contei? No ombro.

- Assim, terna e suavemente. Uma dentada de amor!

- gritou Walter Kunze. - Mas a Hella não quis saber mais de mim. Um homem que morde! A propósito, acho que comprei costeletas a mais. E ainda por cima falta o Stefan... Mas porquê?

Stefan não só fora chamado a um acidente; como se não bastasse para um sábado à tarde, explicou Christa, tivera de aturar uma vítima de um acidente.

- Aquele homem da sexta-feira passada. O homem do Jaguar, cujo motorista foi morto a tiro. E eu estou-vos muito grata por me terem poupado à sua visita com estas costeletas de carneiro. Sinceramente!

- O Lindner? - Walter retirou o garfo da grelha e olhou para Christa através do fumo.

- É verdade, o Lindner. - Decidiu omitir a história da pasta.

- Acabei de ler uma notícia. O Stefan não faz ideia de quem possa estar envolvido? Espera um minuto...

Walter Kunze pousou o garfo, atravessou a porta do terraço a correr em direcção ao seu gabinete, voltou logo a seguir e abanou a cabeça.

- Lamento. Deixei o artigo no escritório... De qualquer modo vinha no Euro Hoje... É um folheto da bolsa que o Schurmann me dá sempre... Tu sabes, Hella, aquele do marketing, o nosso acrobata das acções.

Hella assentiu.

- O título era: «O homem do arco-íris». Um título bastante disparatado. É público que o Lindner tem negócios de todos os cambiantes: do preto ao cor-de-rosa, passando pelo vermelho-escuro... Nesse artigo acusam-no de especulador, especialista em exportação ilegal de capital para o Oriente. Os Russos parecem ser efectivamente os seus grandes camaradas, negoceiam desde remessas de madeira a gás natural e armas. E depois os negócios do Lindner com bens imobiliários. Passam-se sobretudo em França... Mas sempre com capital russo por trás. O tipo tem as melhores relações com Moscovo. Pelo menos é o que afirmam os jornalistas.

- Chega - disse Hella. - Deus do céu, não sentes o cheiro? As tuas costeletas estão a queimar-se!

Walter afastou-se para trás. Uma chama ergueu-se do fumo, a água assobiou, no entanto não se deixou embaraçar e continuou a contar.

- É decididamente um homem para todo o serviço, esse Lindner. Não há nada em que não se meta. Há dez anos quase o apanharam, diz o Euro Hoje. Instauraram-lhe um processo. Mas safou-se.

- Tenho fome, Walter - queixou-se Hella.

- Dessa vez teve a ver com máquinas centrifugadoras. Um carregamento enorme que ia para Teerão.

- Centrifugadoras. Meu Deus...

- Centrifugadoras especiais, Hella! Para extrair urânio, para ser aplicado em armas. Armas atómicas, compreendes?

Christa observava Walter a empilhar as costeletas chamuscadas num prato. Tentou encontrar alguma poesia na sua história, mas a única coisa que sentiu foi um cansaço apático.

- Pois bem, quando chegar a casa espero que já lá não esteja.

- Posso emprestar-te o meu pulverizador para afugentar mosquitos, Christazinha - disse Hella. - Acabei de comprar um frasco dos grandes.

O carro de Stefan Bergmann rolava pela encosta acima.

As sombras estavam mais compridas, o céu mais escuro, e a seu lado ia Lindner. A estrada nacional descia a encosta em acentuadas sinuosidades através dos primeiros prados que se afastavam do bosque, pelos pequenos jardins, pelo desfiladeiro de Burgach, pelo clube de tiro. Já se avistavam os telhados escuros do lar de idosos - e por fim, Burgach, ali no vale...

- Bonita região, sinceramente, um lugar muito bonito - afirmou Lindner.

- Pois é.

- É mesmo. Verdadeiramente bonito. A Alemanha no geral é um país bonito. Só tem um grande defeito: o clima.

Bergmann ligou os faróis e voltou a desligá-los. Era demasiado cedo.

- Com esta chuva permanente, doutor, não é de admirar que as pessoas estejam loucas por ir para onde haja sol. Itália, Maiorca... Maiorca principalmente... A seguir o Sul de França. Não, para nós, ultimamente, o Sul de França deixou de estar na moda. Eu tento contrariar isso um pouco.

Sul de França? O comissário Warnke também falara acerca dos compromissos de Lindner.

- E onde, precisamente? - perguntou Stefan.

- Em Saint-Michel. Perto de Cavalaire-sur-Mer. As ilhas de Hyères, com certeza já ouviu falar? - Lindner virou-se para ele. - Doutor, tem de me ir lá visitar sem falta.

Tinham chegado.

Uma conversa muito normal, pensou Bergmann, uma conversa entre dois conhecidos, se é que se podia utilizar a expressão «normal». O facto de Lindner, por exemplo, lá em cima na curva ter entrado para o velho carro de classe média de Stefan em vez de ter entrado no carro superluxuoso da mulher...

- Podemos conversar ainda um bocadinho em sua casa, não podemos? A minha mulher tem de tratar de um assunto urgente. A seguir volta e vai buscar-me. Mas ela tem a sua morada...

E porque não havia de ir? Não havia nada de extraordinário nisso. O mesmo não se podia dizer do olhar que Maria Lindner lhe lançara à despedida: um olhar sob umas sobrancelhas repuxadas para cima, espessas e escuras, que ele não quis aprofundar, mas que lhe causara um arrepio no corpo todo. Desta vez a mulher também não saiu do carro, acenou apenas vagamente e sorriu a Bergmann.

- J’espere de vous revoir...

Oh!, pensou ele. Talvez no Sul de França?

E faltava ainda a pasta!

Mais precisamente: perguntava-se como é que Lindner ainda não perguntara uma única vez pelos documentos! Por que razão a palavra «papéis» ainda não fora pronunciada? Um pouco absurdo!

Apesar disso Bergmann decidira não ser o primeiro a tocar no assunto. O que estará por detrás disto tudo? Sentia-se bastante curioso, verdadeiramente ansioso por saber como as coisas se iriam desenrolar... e calou-se.

- Posso dizer-lhe uma coisa, doutor...

Tinham chegado a um semáforo. Estava vermelho. Bergmann deixou o motor roncar um pouco para não ir abaixo. O que é que ainda estaria para vir?

Entretanto Stefan já sabia uma série de coisas acerca de Lindner, que ele lhe contara. Sabia, por exemplo, que a mulher pintava e que, como pintora, gostava da «vastidão». Que Maria não suportava as cidades e que no topo da sua lista de cidades detestáveis se encontrava Frankfurt, de forma que Lindner se vira obrigado a comprar um antigo pavilhão de caça nas proximidades de Schotten.

- Verdadeiramente bonita. Uma vista única. Para o rio, E o terreno também tem classe... - E o facto de Lindner ter sofrido um atentado justamente no regresso de uma estadia naquele pavilhão de caça... - Por favor, não falemos mais nisso...

- Será que a polícia... - começou Stefan.

- Ah, a polícia. - Lindner abanou a mão com um ar enjoado, como se estivesse a enxotar uma mosca.

O semáforo mudou de vermelho para verde. Bergmann engatou a mudança, atravessou o cruzamento e virou quatrocentos metros à frente, para a Rua Heinrich-Heine. Naquele curto trajecto ficou a saber que a compra do pavilhão de caça fora um autêntico falhanço.

- Só a nível pessoal, obviamente. O negócio não, esse fá-lo-ia novamente de boa vontade. Mas a Maria tem qualquer coisa contra esta chuva maldita. Está habituada ao Mediterrâneo. Ela é, digamos, uma mulher muito especial.

Muito bem, gosta da vastidão e não gosta nem de cidades nem de humidade... Muito original... Stefan Bergmann conduziu ao longo da rua. Tinha tempo suficiente.

- Também faz terapia por hipnose, não é verdade, doutor? - perguntou Lindner de repente.

- Como é que sabe?

- Pertenço àquele tipo de pessoas que se informam. Lindner voltou-se para Bergmann e debruçou-se sobre ele.

- O que vem a ser isso precisamente, a hipnose?

- Hipnose? Olhamos a pessoa bem nos olhos, deitamo-la sobre as costas de duas cadeiras e sentamo-nos em cima.

- Bergmann começava a ficar farto. - E a seguir oferecemos-lhe um copo de água, olhamo-la novamente nos olhos, dizemos «saúde» e informamo-la de que aquilo não é água, mas sim um excelente vinho da Borgonha.

--E a pessoa acredita?

- Claro. E bebe o vinho...

- As minhas perguntas aborrecem-no? Finalmente, no cruzamento, Stefan ligou os faróis. Com

aquela luz a cara de Lindner parecia estranhamente séria, quase infantil.

- E o que é um banqueiro?

- Oh, há-os das mais variadas categorias.

- Não duvido. Tomemos o exemplo de um banqueiro cujo motorista é morto a tiro e que, meio inconsciente devido ao acidente, não tem outra preocupação a não ser implorar ao médico que o quer ajudar que recolha os papéis espalhados pelo carro e os guarde em segurança.

Lindner recostou a cabeça no encosto da nuca.

- Gostaria de o convidar e à sua mulher para jantar, doutor Bergmann. Conheço um restaurante simpático onde se come maravilhosamente bem e onde se pode conversar à vontade. Muito sossegado.

- A minha mulher está em casa de uns amigos, e eu ainda tenho de escrever um artigo.

- Ah!

- Pois é. Estou à espera de uma resposta.

- Tem a pasta?

- Claro que tenho. Vai buscá-la agora, ou não vai?

- Talvez me convide para tomar um copo. Mas aviso-o de que a resposta de que está à espera é um pouco complicada.

- Ainda tenho umas garrafas de cerveja no frigorífico

- disse Bergmann. - Já que é assim tão complicada...

Lindner estava à janela com o copo de cerveja na mão, exactamente no sítio onde o comissário Warnke obrigara o Dr. Bergmann a recordar-se da noite do acidente com uma informação qualquer elucidativa acerca de Lindner. Não tinham falado de nenhuma pasta com documentos. A que propósito? Warnke não fazia a mínima ideia de que a pasta existia.

Lindner franziu o sobrolho mexendo de uma forma invulgar as sobrancelhas sobre os olhos verdes esfumados. Fitou Bergmann.

- Já pensou, doutor Bergmann, naquilo que o estimula?

- Estimula?

- Sim. Motiva.

- Relativamente a quê?

- Ao seu trabalho. O que o leva, por exemplo, a escolher métodos terapêuticos tão peculiares, como a hipnose.

Bergmann ficou inicialmente um pouco espantado, e a seguir tentou responder-lhe, mas Lindner não lhe deu hipótese.

- Sabe, enquanto estive deitado naquela cama na clínica, tive muito tempo para pensar nesse tipo de questões. E encontrei uma resposta. O prazer de viver, pensei. A estranha satisfação que sentimos, não só pelo facto de pormos as coisas a mexer, como também de as desenvolvermos. Naturalmente que o ego também entra no jogo. Êxito... nesta sociedade significa qualquer coisa semelhante a identidade e afirmação.

- E então?

Bergmann olhava para as unhas dos dedos. Regressámos novamente ao seu tema preferido, pensou, ao tema do único e inconfundível Thomas Lindner.

- O que me estimula, doutor, parece-se por vezes com uma espécie de febre. Então, mal me apercebo daquilo que me rodeia, não há nada que me consiga ocupar ou impressionar; nessas alturas, tenho apenas um objectivo.

- Um verdadeiro banqueiro! Lindner não fez caso da ironia.

- Na clínica tornou-se-me óbvio: enganas-te. É outra coisa, no fundo, é exactamente o oposto.

- E é o quê?

- A morte, doutor.

Lindner voltara a afundar a voz num murmúrio teatral.

- Sim, a morte. O conhecimento. Apenas existe um agora mesquinho, e o lapso de tempo que nos é dado, aquele par de anos irrisórios não passa de uma mentira. A mentira que a vida nos prega, doutor Bergmann, pois a única hipótese que nos é dada consiste numa ridícula mão-cheia de tempo. É isso! Persegue-nos a todos. E é isso que nos impele a ultrapassar todos os obstáculos. Basta-me pensar no pobre Rudi.

- Rudi?

- Rudi Steinmann, o meu motorista. Um rapaz simpático. Esteve nas forças armadas, queria estudar... e depois...

Bergmann ergueu a garrafa, Lindner aproximou-se da mesa e tornou a encher o copo. Bergmann bebeu também um gole. Esfregou a cara acima da boca e olhou para Lindner.

- É a primeira vez que falamos nele. Já reparou?

- A sério? - Lindner encolheu os ombros com um ar aborrecido. - Rudi Steinmann - repetiu ele. - Pois é...

Pois é, pensou Bergmann, já cá não está.

Levantou-se, saiu da sala, dirigiu-se ao consultório, entrou no cubículo, abriu o armário com a chave e tirou de lá a pasta.

A porta da sala de estar continuava aberta. Stefan levou a pasta para o escritório. Lindner olhava na sua direcção. Mexia uma das sobrancelhas em movimentos quase imperceptíveis.

Quando Stefan colocou a pasta sobre a mesa, Lindner bateu levemente com os nós dos dedos da mão direita no couro e lançou uma olhadela à fechadura de ouro trancada.

A seguir olhou novamente para Bergmann.

- Quer saber o que está lá dentro? Se eu estava preocupado com o conteúdo? É isso?

- E estava?

Lindner abanou a cabeça.

- Preocupado, eu? Percebi logo que não precisava de me preocupar consigo. Eu conheço as pessoas.

- Conhece as pessoas? Mas estava meio inconsciente.

- Meio, doutor. Não tive nenhum traumatismo craniano. Chegaram a essa conclusão na clínica. Nos momentos de lucidez compreendi tudo.

Lindner rodou o copo de cerveja entre o polegar e o indicador e olhou para Bergmann.

- O senhor ajudou-me, doutor Bergmann. Ajudou-me mesmo muito. E eu estou-lhe grato por isso. - Soava tão formal, superficial e pragmático, como se estivesse sentado por detrás de uma secretária, a fixar percentagens. - Prestar-me-ia um grande favor se me dissesse como é que lhe posso retribuir o trabalho que teve comigo.

- Pare com isso... - Stefan estava furioso.

Os olhos de Lindner tinham adquirido o brilho inicial.

- É exactamente a resposta que esperava de si, doutor Bergmann. O senhor faz-me feliz. Estou a ver que não me enganei. - Apontou para a pasta. - O que está ali dentro são apenas contratos. Papel...

- O habitual? - Bergmann esboçou um sorriso irónico.

- Talvez não totalmente. Mas quer que lhe faça um relato dos meus negócios? Só o iria aborrecer. Só me interessa uma coisa neste momento: gostaria muito que tivesse em conta o reconhecimento e a simpatia que sinto por si.

Stefan não encontrou resposta para lhe dar. Também não precisava. Lá fora alguém tocava à campainha.

- A minha mulher - disse Lindner.

Stefan foi à porta e levantou o auscultador do intercomunicador.

- Monsieur! - perguntou Maria Lindner.

- Vamos já - respondeu prontamente. Atravessou com Lindner o jardim às escuras, até à rua.

Desta vez Maria Lindner saiu e ficou encostada ao carro. Nada de casaco, nada de jóias, apenas umas calças pretas justas e uma camisola preta. Os sapatos de salto alto luziam com a luz do candeeiro.

Stefan recordava-se de Lindner ter dito que ela era filha de um diplomata. O sorriso e o modo como estendeu a mão a Bergmann... decidido e amável, e também elegante, mas insípido, um cumprimento diplomático. Era bonita, tinha cabelos lisos e apanhados atrás, as maçãs do rosto salientes e uns olhos fantásticos. Perversamente bonita.

 

Momentos depois Stefan Bergmann estava na borda do passeio com a mão erguida, enquanto o carro rolava pela rua abaixo.

Quando Stefan regressou à sala de estar, havia qualquer coisa que lhe parecia diferente. Não sabia exactamente o quê. Os copos continuavam onde os tinham deixado, mas acabou por descobrir: um pequeno cubo preto no centro da mesa. Um pequeno embrulho.

Stefan aproximou-se e pegou nele.

Estava envolto em papel de seda preto. E era razoavelmente pesado...

Rasgou o papel.

Tinha agora na mão uma caixinha achatada. Pelo peso e pelo aspecto, devia ser de liga de prata. Não só a tampa como as partes laterais e a parte de trás estavam ricamente ornamentadas. Quem quer que a tivesse construído, devia ter sido um grande artista. Bergmann conseguiu distinguir umas trepadeiras minúsculas, folhas, grinaldas de flores. Cada um dos quatro cantos era decorado com pequenas corças e um medalhão engastado com uma coroa de louros.

No centro tinha duas iniciais gravadas.

Stefan pegou na caixa e sentiu qualquer coisa parecida com calor trepar por si acima: Lindner. Devia ter colocado o objecto em cima da mesa num momento de distracção, antes de terem ido à porta, como um prestidigitador hábil.

Abriu a tampa. Lá dentro havia um bocado de cartão branco, estreito e rectangular. Um cartão-de-visita.

Tirou-o para fora. Thomas C. Lindner. Por baixo um número de telefone. Era composto por quatro números, um número especial de telemóvel, portanto.

Stefan virou o cartão.

A letra era pequena, bastante legível e, à primeira vista, extremamente disciplinada. A letra de um guarda-livros.

Cher ami,

Só nove pessoas possuem este número. O senhor é agora a décima. Caso precise de alguma coisa ou tenha qualquer problema - marque este número. Peço-lhe por favor que o faça.

Por baixo: Voltaremos a ver-nos,

Bergmann virou o cartão ao contrário e examinou nova mente o oval na parte da frente da caixa.

Julgava que iria encontrar as iniciais da pasta com os documentos, e que se tinha enganado. Não era T e L., não um pomposo S, seguido de um B igualmente elegante.

Stefan Bergmann.

Respirou fundo. Tu lá sabes o que fazes. Mas que tipo mais louco, este Thomas Lindner!

 

 

Para Pascal Lombard as últimas semanas passaram-se como de costume: subiu na sua velha motorizada através do bosque na direcção do Col Les Caches, parou antes da última curva e encostou a motorizada à grande rocha castanha que ali havia. As árvores eram carvalhos. Havia catorze, Pascal contara-as todas. Dantes parecia-lhe um sonho crescerem carvalhos ali em cima, entre aqueles pinheiros, as giestas e as mimosas.

Agora os carvalhos estavam sozinhos.

O alemão acabara com os pinheiros na encosta. Já só restavam os cepos, cepos até lá abaixo à costa. Cepos e terra seca, castanho-avermelhada. E cascalho a perder de vista.

Pascal Lombard tirou a cigarrilha meio fumada e apagada do bolso e enfiou-a entre os dentes. O tabaco era diabolicamente amargo, mas ainda mais amargos eram os seus Pensamentos.

Há muito que desistira de praguejar. Agora distribuía Panfletos, juntamente com o seu velho companheiro Paul Giscard. Lutem pela vossa pátria!, diziam os panfletos. Acabem com a segunda ocupação alemã! Soava a guerra... e era mesmo guerra.

Pascal e Paul tinham distribuído os panfletos por todas as tascas, todas as lojas de Saint-Michel, inclusivamente pelos três hotéis e pelas duas pensões. No início as pessoas Mostraram uma certa compreensão e acenavam com um ar cúmplice. Mas depois, e Pascal sabia-o bem, a maior parte dos panfletos voara directamente para o cesto dos papéis. Não havia nada a fazer contra o maldito dinheiro dos alemães.

Pascal encostou as costas contra a pedra quente e seguiu com o olhar a montanha profanada, até lá abaixo, à costa À frente da Plage du Brouis erguia-se uma enorme obra em cimento. Tinham rebentado com a falésia, contra a qual se enfurecia a rebentação das ondas. E a velha e bonita estradinha tortuosa que ia dar ao cabo fora transformada numa espécie de via rápida, as bermas cimentadas eram agora suficientemente largas para comportar todas as escavadoras, camiões e cilindros compressores que esperavam pelo dia seguinte à sombra da encosta. E por vezes o dia não lhes chegava, precisavam também da noite, e nessas alturas a encosta ficava iluminada com as luzes dos faróis e aquele barulho infernal chegava lá acima, à casa de Pascal, e tirava-lhe o sono.

Pascal estava com sessenta e dois anos. Mudara-se para ali a seguir à morte da mulher, para transformar o velho curral das ovelhas que o pai lhe deixara numa casa. E conseguira. Era uma bela casa, com chaminé, poço, um anexo para os animais, as duas cabras, as galinhas, o gato e uma vista magnífica. A sul Pascal conseguia ver as vinhas, deixava o olhar vaguear, e a costa abria-se-lhe à sua frente até Cavalaire-sur-Mer.

Pascal tratara de Fabienne durante anos, até por fim a morte a libertar de uma esclerose múltipla. Fabien, o filho, estudava em Narbona. Pascal esperava voltar a ser feliz ali em cima - com as árvores do terreno que ele conhecia desde garoto e que já tinha pertencido ao avô.

A seguir veio o alemão.

O alemão com o seu projecto e o seu dinheiro.

E em Saint-Michel trataram de vender rapidamente a terra. Os testas-de-ferro dos alemães também foram ter com Pascal e acenaram-lhe com o livro de cheques.

Correra com eles e desafiara os outros a fazerem o mesmo. Organizara reuniões. Muitos foram, pois ele era conhecido em Saint-Michel. Fora presidente da cooperativa durante dez anos.

Ainda vos passa a perna. Tira-vos a terra e faz o

grande negócio da sua vida.

E eles acenavam com a cabeça.

Mas as coisas tinham mudado. É certo que metade dos viticultores estava do lado de Pascal e de Paul, mas os pescadores, que fretavam grandes barcos em Toulon e iam para o mar, todos os que tinham qualquer coisa a ver com o mar abanavam a cabeça. Para a maioria a vida corria-lhes miseravelmente. Aqueles tipos teriam inclusive vendido a sua própria filha ou a avó.

Paul cuspia-lhes para os pés, mas Pascal dizia:

- Bem, se calhar não têm carácter. Mas hoje em dia, quem é que o tem? Tornas-te impotente face ao capital.

Era precisamente aquela frase que Pascal não queria aceitar. Portanto decidira continuar a lutar. Pela terra, pelo Col, por Fabien, o seu filho.

Cuspiu a cigarrilha e voltou a atravessar o caminho em direcção à motorizada. Arrastava o pé esquerdo. Naquele dia doía-lhe particularmente a anca. Tinha de ser operado.

As sombras tornaram-se maiores. Estava tudo tão silencioso que se ouvia o marulhar da rebentação das ondas a baterem contra a falésia de Point du Brouis.

Pascal já estava com as mãos no volante da motorizada quando se voltou novamente para trás.

O que se passava com a rocha? Meu Deus, o que era aquilo?

Aproximou-se e viu um círculo vermelho pintado na falésia. Para a direita e para a esquerda do círculo partiam duas linhas. «24», lia-se na da esquerda, «38», na da direita.

Pascal não fazia ideia do que os números queriam dizer.

Mas conhecia o símbolo.

Era uma marca de cadastro.

E isso só podia significar que o terreno até lá acima, a cinquenta metros de sua casa, pertencia agora aos alemães.

Pascal Lombard encontrava-se na praça de chão de saibro à frente da velha escola primária, com o pescoço enterrado nos ombros. As janelas do primeiro andar estavam abertas e iluminadas. O crepúsculo caíra. Pascal ouvia muitas pessoas a falarem umas com as outras. O coro da igreja ensaiava.

O seu estômago contraiu-se. Como odiava aquela obra! Ainda há três semanas, no dia 26 de Junho, estivera lá em cima no salão, com meia aldeia à sua frente. Pascal amaldiçoara os alemães mais o seu projecto diabólico e eles tinham-no apupado. A seguir veio Foulier, o presidente da Câmara, que alguns fanáticos não conseguiram calar. Falou de progresso, referiu-se à riqueza de Saint-Tropez e, como se não bastasse, no final veio ao púlpito aquele gangster, o tubarão imobiliário de Cavalaire, falar das centenas de postos de trabalho garantidos pelo projecto. Tal como Jean Amoros, o presidente da Câmara também constava da lista de mérito dos alemães. Percebia-se porquê.

Pascal cuspiu no saibro. A anca começava a doer-lhe. Já era demasiado tarde, mas tinha de ir à loja de Picot, que ficava precisamente à frente da escola primária. Pascal precisava de arame para remendar o buraco da cerca da sua horta. Não ligara ao buraco, e os malditos coelhos bravos tinham entrado lá e devorado toda a verdura: alface, aipo, tomateiros ainda jovens e até a salsa.

Empurrou a porta da loja. Uma baforada de tabaco acertou-lhe em cheio na cara. Picot tinha as ferragens no lado direito da enorme loja, à esquerda ficava a taberna. À volta de uma mesa alta e em pé praguejavam cinco vultos. Picot vendia vinho da pipa a retalho; era vinho da cooperativa, e não era nada mau. Calaram-se de repente. Seguravam nos copos ao mesmo tempo que cravavam os olhos em Pascal. Este passou sem sequer olhar para eles.

- Sim, sim, os coelhos - disse Picot. - Eu conheço. Mas não pode ser, pois não? O que tu precisas, Pascal, é de uma cerca plastificada, e não desse material galvanizado. Enferruja com o ar salgado e húmido do mar. E onde há ferrugem há buracos.

Pascal assentiu com a cabeça. Estava cansado.

- Um rolo - disse ele -, mais nada, Picot. Um rolo desse material plastificado. Com um metro de altura.

Vieste na motorizada?

Vim. Ponho lá o rolo.

picot acendeu a luz. Lá fora começava a escurecer.

Não bebes um copo de tinto, Lombard?

Pascal lançou uma olhadela à mesa da frente.

Eram três pescadores e dois empregados da Junta de Freguesia. O que o cumprimentara primeiro pertencia aos serviços florestais. Segredavam entre eles, por vezes lançavam-lhe um olhar. O pescador que estava ao lado do trabalhador florestal sorria com um ar trocista. Chamava-se Landet, um monte de carne de cem quilos enfiado numa camisola esburacada. Ergueu o copo.

- Ouve, Lombard! Eu sei o que se passa contigo. Também queres vender a tua cabana no Col? Ou será que o alemão já te enfiou uns milhões debaixo do colchão?

Pascal respirou fundo. Encolheu os ombros. Passaram-lhe uma série de coisas pela cabeça naquele segundo, todas de uma vez. Se tivesse menos trinta anos, pensou. E a seguir pensou como seria, se rebentasse com a loja toda. O material que tinha na mão chegava para o fazer. E não pensou em mais nada, apenas gritou:

- Tu, Landet, há muito tempo que deste cabo do teu miserável barco. Mas não tem importância. Podes brincar aos empregados, ou pôr a tua mulher a render.

O copo de Landet estilhaçou-se no chão. Os outros tentaram agarrá-lo, mas como? Lá ia ele de mãos estendidas, os olhos semicerrados, um sorriso irónico na cara por barbear.

Pascal viu as veias grossas que sobressaíam das patorras de Landet. Não sentia medo, era mais raiva, raiva contra si Próprio. Uma ideia genial, meteres-te com estes arruaceiros. Verdadeiramente genial! Os olhos de Landet cintilavam. O hálito a vinho e o fedor a peixe espalhado pela camisola chegou ao nariz de Pascal.

- O que é que disseste, velhote?

Pascal calara-se, mas não desviava os olhos dele. Contiluava a fitá-lo.

- Um velho que não consegue evitar estar calado. Um velho que tem sempre de escancarar a boca, porque se acha muito inteligente.

- Coisa que tu infelizmente não és, Landet.

- Como é que preferes, Lombard? De uma só vez... ou por partes? Por onde queres que comece? Pela cabeça, pelo focinho... Escolhe.

Fez-se um silêncio sepulcral.

Landet abanou a cabeça. A seguir deixou pender os braços.

- Se não fosses um velho porco aleijado, Lombard disse, voltando-lhe as costas.

Picot debruçou-se sobre o balcão.

- Pagas depois, Pascal - segredou ele. - Não precisas de pagar agora. - Passou-lhe o rolo. Pascal anuiu com a cabeça e foi a manquejar até à porta. Lá fora escurecera completamente. Os coros cantavam na escola primária.

Pascal arrumou o rolo no porta-bagagem, sentou-se na motorizada e lançou ainda uma olhadela para trás, para a loja de Picot.

Cometeste um erro. Comportaste-te como um bêbedo, a culpa foi tua. Mas o que significa «culpa» para eles, pensou. Estavam todos loucos, e só havia uma coisa a fazer: lançar a bomba. Tens o que precisavas - tudo. Já não podes esperar mais.

Pascal Lombard levava trinta e cinco minutos a chegar ao Col. A maior parte das vezes fazia o percurso em vinte e cinco minutos, mas a motorizada já tinha dezoito anos e com aquele motor asmático a única coisa de que o dínamo era capaz durante o longo caminho através do bosque era emitir uma mancha de luz turva e vacilante.

Na falésia, quando dava a última curva, Pascal abrandou. Fora ele e o filho, Fabien, que tinham asfaltado o troço que ia do carreiro até à sua casa, dois anos atrás, e portanto podia deixar a motorizada rolar em ponto morto. Passou pela gruta onde guardava os trastes de que não precisava, mas entre os quais talvez existisse alguma coisa aproveitável.

Pascal reparou imediatamente que havia qualquer coisa que não estava bem.

Carregou no travão.

Parecia estar tudo como de costume. O velho frigorífico a gás que pusera de parte há dois anos brilhava à luz da Lua. O CV de Fabien estava ali a enferrujar com os seus pneus vazios. Mas faltava o gato.

- Néro - chamou Pascal em voz baixa.

Nada. Apenas se ouvia o rumorejar do vento nos pinheiros.

- Néro, vem cá...

Néro tinha oito anos e mudara-se juntamente com Pascal da casa de Saint-Michel para o Col. Quando Pascal regressava, o gato estava à sua espera na gruta. O seu lugar preferido era junto do frigorífico.

Nada.

Pascal empurrou ligeiramente a motorizada. À sua frente ficava a horta e a clareira. Devido à sombra preta do telhado a casa parecia imponente e do tamanho de uma fortaleza.

Pascal pensou sentar-se novamente na motorizada, mas não o fez.

Lá à frente... mesmo ao lado da entrada. Havia uma luz a piscar. A seguir voltou a ficar escuro.

Ladrões, pensou Pascal, uma corja miserável, malta da droga, tipos que regressam dos parques de campismo e que tornam a zona insegura, só para arranjarem rapidamente uns francos para o próximo «chuto».

Voltou a sentar-se, fez o resto do caminho e apeou-se. Não tinha medo, nem nunca tivera ali em cima, mas de repente sentiu-se estranhamente despido e desprotegido.

Encostou a motorizada contra o pilar de betão da entrada e abriu devagar a cancela da horta.

A pá estava no canteiro dos alhos-franceses. O cabo Projectava uma sombra oblíqua comprida.

Pascal andou uns cinco ou seis passos sobre terra mole até chegar à pá, abaixou-se para a puxar da terra e já a tinha nas mãos quando sentiu uma pancada na nuca. Pascal Lombard caiu de joelhos e rolou para o lado. Um som alto e agudo saiu-lhe da boca. Não foi um grito de dor, mas um reflexo da respiração, que ficou comprimido entre as cordas vocais. Estava inconsciente.

Dois homens debruçaram-se sobre ele.

O mais alto, que saíra da sombra do pilar de betão da entrada, trazia umas calças de ganga pretas e um casaco de cabedal também preto. O mais baixo vestia um fato de treino preto e até os ténis eram pretos. A seus pés estava deitado Pascal.

O mais baixo estendeu a pistola com que batera em Pascal ao homem do casaco de cabedal, abaixou-se e apertou-lhe a carótida com as pontas dos dedos.

- Então?

- Está vivo.

- Bom trabalho, Rossi. Vai buscar o carro...

O outro desapareceu. O Renault Express estava estacionado atrás da casa, para que não pudesse ser avistado do caminho de acesso ao terreno de Lombard. Vinha agora em marcha atrás. Os pneus chiavam, os faróis estavam apagados. O mais baixo carregava, ofegante, uma garrafa cor de laranja de gás butano para a horta.

- Por favor, Sérgio, ajuda aqui!

- Desenrasca-te sozinho. - O do casaco de cabedal deu um pontapé no ombro de Pascal. - Eu levo-o.

O mais baixo voltou a içar a garrafa e levou-a para casa, abriu a porta com um empurrão e deixou-a aberta.

O homem do casaco de cabedal agarrou nas pernas de Pascal pelos tornozelos e arrastou-o como se fosse um saco de batatas pelas escadas acima, para a grande sala de estar com a lareira de pedra.

Rossi olhava pensativamente para baixo. Voltou a encostar o pé ao ombro de Pascal, desta vez com muito cuidado. Empurrou-lhe o tronco uns dez centímetros para a esquerda. Pascal tinha a boca aberta. Estava tudo tão silencioso que o ruído rouco e abafado que saía da sua garganta mais se assemelhava ao barulho do vento lá fora.

- Parece um bêbedo.

- E então?

- Velho e bêbedo.

-- Velho? E então? Ficas paralisado à frente de velhos?

É só porque me faz lembrar alguém - disse Rossi.

- Já há bocado pensei nisso. Quem será?

- Não digas disparates. Anda. Rossi foi à cozinha. Voltou para trás.

- Está ali uma garrafa de gás.

Indicou a garrafa de gás butano que continuava ao lado do homem inconsciente. À luz fraca do candeeiro de vime pendurado no tecto a sua cor laranja parecia absurdamente viva.

- Esta não era necessária.

- Não? - perguntou o do casaco de cabedal. - Sabes se a da cozinha ainda tem bastante pressão? Se calhar está quase vazia. Vai buscar o bidão ao carro.

Levantou sozinho a pesada garrafa e levou-a para a cozinha. A seguir tirou um dos fechos de segurança de gás do casaco e colocou-o na garrafa. Ouviu-se um estalido metálico. Escutou passos lá fora. E a seguir viu Rossi entrar com o recipiente com a gasolina.

- Dá cá. E põe-te a andar, leva o carro até lá acima à estrada.

- E acabas o resto outra vez sozinho, não é?

- Podes voltar para trás. - Aquele a quem Rossi chamava Sérgio trincou o lábio superior. Esboçou um sorriso... o sorriso de um bloco de gelo.

O mais baixo lançou um último olhar ao homem inconsciente, abanou a cabeça e saiu.

Tudo o que Sérgio fazia, fazia-o com movimentos suaves, fluentes, quase de bailarino. Arrastou Pascal cerca de três metros pela sala até à mesa, deitou uma cadeira ao chão e voltou a endireitá-la, embora lhe parecesse um gesto completamente absurdo, pois a cadeira acabaria por arder. A seguir foi a correr para a cozinha, abriu o fecho de segurança da garrafa, a torneira do gás, abriu também o fecho de segurança da segunda garrafa que tinham trazido com etes. Também se podia perceber pelo dispositivo se estava na posição de «ligado» ou de «desligado».

Agora a gasolina.

Sergio desenroscou o tampão. O líquido amarelado e translúcido saiu rapidamente para fora e espalhou-se no chão... demasiado! Ergueu ligeiramente o bidão, controlou a saída da gasolina e, com a concentração de um artista que ama o seu trabalho, espalhou cuidadosamente dois círculos do líquido à volta do homem deitado no chão. O sofá também recebeu uma porção, a seguir o canto da televisão, uma poça na entrada e o resto na cozinha...

Estava tudo.

A sua respiração era rápida e superficial. A mistura dos vapores do gás e da gasolina cheirava tão mal que teve de tossir. Chegou-lhe aos pulmões, ao estômago, aquilo podia fazer mal!

Sérgio tapou o nariz e correu lá para fora, pelo caminho que ia dar aos pilares de betão. Parou e voltou-se.

Estava a cerca de vinte metros de distância da porta que ficara aberta.

Voltou a procurar no bolso e tirou para fora a garrafa pequena de cerveja que transformara num cocktail molottov.

Sérgio acendeu a mecha, lançou-a habilmente em arco rasante contra a porta e atirou-se para o chão, para detrás de um pilar; rolou imediatamente para o lado e ficou deitado, voltado de costas para a casa.

A onda de pressão da explosão da gasolina misturada com o gás parecia uma pata a bater-lhe na nuca e nas costas. Doía-lhe a cabeça e agarrou-se instintivamente à nuca com ambas as mãos, para proteger o cabelo.

A horta, a clareira, a cerca, estava tudo iluminado como se fosse dia, como se estivesse iluminado por faróis!

Sérgio levantou-se com cautela, protegeu a cara com a mão esquerda. E a seguir sentiu a pancada, logo a seguir, uma segunda. As garrafas tinham detonado...

Era como se o céu se tivesse transformado numa imensa girândola de chamas, fragmentos de madeira a arder, fumo amarelo.

Sérgio fechou os olhos.

Não era fogo-de-artifício, era autêntico. E o que provocara a explosão das garrafas de gás, a maldita casa, vinha agora abaixo...

Fragmentos de destroços estalavam no jardim, disparavam através dos ramos do bosque, uma saraivada de pedra e de utensílios queimados e partidos. E agora? A missão estava cumprida, Pascal Lombard já não existia.

Sérgio levantou-se. Do esqueleto chamejante que já fora uma casa, saíam ruídos crepitantes, semelhantes a uivos.

Sérgio correu para a estrada, abriu a porta do Express e atirou-se para cima do banco.

- Embora, imbecil!

Rossi estava sentado muito quieto a olhar para o fogo. A seguir voltou a cara.

- Já sei quem é que ele me lembrava. O irmão da minha mãe, o tio Albert. Era o meu tio preferido.

- Barroco tardio - disse Christa. - Barroco ou rococó. Tinha uma lupa na mão e examinava os ornamentos da caixinha de Lindner.

- Um trabalho fantástico, provavelmente feito por um mestre francês. A caixinha pode ter pertencido à corte de um príncipe alemão. Com a expulsão dos huguenotes houve uma grande afluência de ourives ao país. - De qualquer forma nunca conseguira identificar as obras-primas dos ourives.

A mesa do pequeno-almoço posta no terraço, o céu radioso, no jardim, as túlipas cor-de-rosa, vermelho-escuras e amarelas de Christa, o barulho dos pardais nos ramos... e aquele objecto de prata ali a cintilar.

Christa ergueu a cabeça. Conservava a lupa presa no olho direito, e a pupila, por detrás da lupa, era grande e negra como o orifício de uma espingarda.

- A que propósito é que te oferece uma coisa destas? Afinal o que se passa aqui? Vocês são namorados? Que o Lindner seja homossexual, até posso compreender... Mas tu?

Stefan acabara de levar um pedaço de pão com uma fatia de queijo à boca. Engasgou-se. Sentiu-se sufocar. Não conseguia cuspir o maldito pão, bebeu apressadamente café e Christa riu-se, como só ela sabia rir, alto e com um som Satural, como um homem.

- Como é que podes dizer uma coisa dessas? - conseguiu Stefan por fim articular.

- Como? Durante meia hora ainda não disseste mais nada, a não ser que não compreendes o Lindner, mas que ele te impressiona. E depois o cartão-de-visita! - Franziu os lábios. - «Se alguma vez tiver um problema ou se precisar de alguma coisa...» E além disso, o único número de telemóvel, que só nove pessoas no mundo possuem. E o doutor Stefan Bergmann é agora o décimo? Arrebatador, não achas?

- Exactamente. Não estás então com ciúmes...

- Não achas estranho? - Ela abanou a cabeça, puxou para si o ovo do pequeno-almoço e cortou-o com a rapidez e a precisão de um cirurgião a manejar o bisturi.

Stefan deu razão à mulher.

Era estranho. De um momento para o outro podia pedir o que quisesse a um banqueiro podre de rico? Se calhar Lindner precisava de um terapeuta. Não parecia ser assim tão improvável.

Mas naquele momento Stefan tinha outras preocupações.

- Christa! Amanhã é quinta-feira. Deve haver pouco movimento no consultório. E eu tenho de tratar de um assunto muito urgente. Tenho uma doente que não tem tempo à tarde, tem de ir visitar a mãe que está doente. Lembrei-me de que posso trocar a consulta para de manhã. À tarde estou ocupado.

Comia o ovo com a colher e não se apressou a responder. Passou o dedo indicador esquerdo sobre o rebordo do pires.

- Stefan, é uma questão de princípio, sabes bem.

- Que eu comece a terapia por hipnose só depois de terminar as consultas no consultório?

- Sim.

- Até agora sempre fui obrigado a fazê-lo e, afinal de contas, o que vem a ser isso de «princípio»? O que é que consegues começar com princípios quando alguém precisa de ajuda? Ouve uma coisa: na nossa profissão isso não resulta.

É a única hipótese de as coisas funcionarem.

Não, não é - protestou ele. - A mulher precisa urgentemente de mim. Caso contrário não consegue ajudar a mãe, que está a morrer. Com cancro.

- E quem é ela?

- Tu conhece-la. Trabalha numa filial do Dresdner Bank. Costumava estar ao balcão, mas neste momento já não consegue. É um bocadinho roliça, não te recordas? Extremamente inteligente e muito sensível. Com o seu QI, esteve quase para fazer carreira...

- A Markwart?

- Sim, a Annemie Markwart.

- E o que é que ela tem?

Stefan empurrou o prato para o lado.

- O quê? O costume. Medo, medo, medo... os últimos tempos não tenho lidado com outra coisa. Um medo infinito.

- E vamos dar novamente ao psicossomatismo. Christa abanou a cabeça.

Ele inclinou a cadeira para trás.

- Sabes, quando te ouço falar assim, Christa, penso sempre no Matthias Slozek. Ainda te lembras do Matte, aquele tipo alto, de Barmbeck? Irradiava tanta felicidade quando concluiu a especialidade de ortopedia... e hoje em dia? Hoje em dia diz-me, ou seja, chora-se: «Só me meti nesta coisa dos ossos, pois estava convencido de que os ossos, as articulações e os músculos não eram afectados pelo psicossomatismo. E o que é que acontece? Chego à conclusão de que setenta por cento dos meus casos são de origem Psíquica.»

- Pois bem, e porque é que a Markwart tem «medo, medo, medo»? Ela já nos ajudou muito. O que se passa com ela?

- Está inválida a setenta por cento e vai perder o emPrego.

- Porquê?

- Assim que vê um cliente começa a transpirar, tem distúrbios motores, não consegue controlar as mãos, e o corpo começa todo a tremer. Com os clientes masculinos bem entendido. Com as mulheres não lhe acontece isso. Uma autêntica fobia a homens. Christa torceu a boca.

- Andam por aí muitos à solta capazes de provocar fobias desse tipo. E como é que estás a pensar resolver o problema?

- A sua reacção deve ter um motivo, Christa. O trauma deve vir da infância.

- E ao contrário do psiquiatra, que analisa o doente durante anos, o profissional de hipnotismo consegue resolver a questão com um par de sessões.

- Muito espirituoso!

- Cheguei a esta conclusão através do teu último artigo. Mas volto a perguntar: como vais fazer?

- Vou provocar uma regressão. Não me restam muitas alternativas, a não ser reconduzi-la à infância.

- Onde se acaba por encontrar sempre qualquer coisa. :- Exactamente. Em qualquer pessoa. Em ti também.

O complexo de professor de Medicina da família Ríittger, por exemplo.

Christa fez um sorriso trocista.

- Nesse caso, desejo-te muita sorte.

Annemie Markwart estava sentada na penumbra do quarto. Faltavam vinte minutos para as nove.

Bergmann descera as persianas.

Ela sentara-se no sofá preto macio, com os braços sobre os apoios. Tal como da última vez, nesse dia trazia também um vestido azul-escuro abotoado até acima, com uma gola bordada com pintas vermelhas. Era uma mulher roliça, muito feminina e vistosa, de trinta e três anos, mas naquele momento, com aquela expressão de ansiedade no rosto e os olhos muito abertos, parecia uma criança assustada.

O facto de não ter dificuldade em colocá-la sob o efeito de hipnose e a sua capacidade de sugestão não surpreenderam Bergmann, para quem, pelo contrário, era mais fácil hipnotizar pessoas inteligentes e com imaginação do que pessoas menos inteligentes. No entanto, por vezes, havia resistência ao transe.

Stefan decidiu utilizar uma indução dissimulada, de que ela não se aperceberia, uma indução de transe, segundo os métodos de Erikson. Este método transportava as pessoas quase sem elas se aperceberem para outro mundo, era mais profundo, mais real e durava mais tempo.

Stefan sorriu para Annemie Markwart, a seguir moveu o bloco-notas de um lado para o outro, para perceber se ela seguia os seus movimentos. Não mexia os olhos.

Acenou-lhe com a cabeça. Estava provavelmente à espera das primeiras sugestões, como da última vez, quando a colocara em transe em contagem decrescente, mas Bergmann levantou-se devagar da cadeira e apontou para a parede.

- Já alguma vez olhou para o quadro atrás de mim, senhora Markwart? Para esta ponte e para os campos em flor?

- O quadro? Sim, é muito bonito.

- Não é? É bonito para qualquer observador. As pessoas acham-no bonito. E porquê? Penso que seja por causa da ponte. As pontes fazem ligações, não é? Também acha isso?

Ela assentiu com a cabeça.

- Acho. Conheço uma ponte de que gosto muito.

- Onde?

- Na minha terra. Em Remstal. Eu... eu gostava muito dela.

Ele fez-lhe um sinal com a cabeça.

- Annemie, onde é que deixou os óculos?

- Os meus óculos? - Pareceu ficar embaraçada. - Só preciso deles para ler. Da última vez deu-me aquele artigo...

A sua habilidade para confundir as pessoas mudando rapidamente de assunto era a sua primeira estratégia. Bergniann prosseguiu com a táctica.

- Quando era pequena, como era? Quero dizer, já usava óculos, nessa altura? Por exemplo, no jardim-infantil, conseguia distinguir as letras todas do alfabeto?

Era uma digressão deliberada que permitia a Stefan esgotá-la.

Era o que ele pretendia. Subitamente começou a falar da relação entre o consciente e o inconsciente, um assunto que abordara na sua última sessão.

- Passa-se o mesmo com toda gente - concluiu ele

- Sem que nos apercebamos disso. Entre os nossos sentimentos, entre o mundo todo que temos dentro de nós e que é o resultado das nossas experiências anteriores, e entre aquilo que defendemos, subsiste um diálogo permanente, um compromisso insolúvel. Já se tinha apercebido disso? Ou está cansada? Estou a reparar que as suas pálpebras estão a tremer ligeiramente.

A sua voz tornara-se mais suave, mais baixa, mais profunda e agradável.

- O jardim-infantil, por exemplo, está novamente lá, lembra-se dele? Mostram-lhe um quadro. Naquela altura era-lhe difícil diferenciar o A do B. A professora diz-lhe: «Tu, Annemie, olha bem para aqui. Que letra é esta?»

Falava mais pausadamente e olhava-a com fixidez.

- As crianças só conseguem ler com alguma dificuldade o que ali está escrito, incluindo tu, Annemie. É muito difícil. Mas tu transformas as letras numa imagem especial. Numa imagem espiritual. E as imagens espirituais são importantes. Trazemo-las connosco. Annemie, nós vamos intensificá-las. O que se passa com as tuas pálpebras, Annemie? Estão pesadas?

Ela começou a respirar mais devagar. Stefan reparou, pela expressão da cara, que estava mais descontraída. Não reagiu à pergunta.

- Estão realmente pesadas? - voltou Stefan a perguntar.

Continuou calada.

- E depois, Annemie? Como era? Estás agora na escola primária, lembra-te! Sim, tu consegues lembrar-te. Tudo o que lá viste e viveste... está dentro de ti. Não está esquecido, Annemie. No fundo não nos conseguimos esquecer de nada... Todas as vivências permanecem em nós, e aquilo a que chamamos esquecimento não passa de um desvio, compreendes? Compreendes, Annemie?

Desta vez houve um aceno de cabeça. Muito fraco.

Bergmann continuou a falar em voz baixa, mas, para Annemie, a sua voz não só enchia a sala, como também o seu âmago. Já lá estava, ele sabia. Nem precisava de olhar para ela, sentia-o.

-- Aquilo que vivemos, Annemie, faz tudo parte de nós. A ponte, por exemplo, a ponte da tua infância, de que tanto gostavas.

Havia agora um sorriso na cara dela.

- É tão bom nadar no ribeiro no Verão. Annemie, é Verão. Agora... sentes? Estás a nadar na água. Ela banha-te... Tão simples, é tudo tão simples. Não precisas de te cansar, quase não precisas de respirar, estás dentro da água, que te aguenta. O teu coração bate muito baixinho, a tua respiração é muito calma, flui como a água, suave e calmamente. Ouves a minha voz? Ouves? Agora vais sair da água... A água não te aguenta mais, és tu que te aguentas, o teu corpo está cada vez mais pesado. Tens de ir passo a passo. Vais para casa, Annemie. Tens sete anos e vais para casa. Está ali a porta...

Ela foi.

Foi com passos curtos, caminhou ao longo daquele corredor interminável em cujas paredes se abriam nichos, nichos de sombras. Era como se estivesse num sonho, mas a seguir entrou um bocadinho de luz e ela pôde reconhecer pormenores.

Aquilo ali era o tapete que ia da entrada ao quarto da mamã. Tinha uma tira verde-azulada, já bastante gasta, mas conseguia reconhecer as tiras com as rosas, rosas verde-azuladas.

E ali ficava a porta - uma mancha em forma de paralelogramo, onde incidia uma luz azulada, uma luz de luar azul. Annemie viu o verniz que estalava a um canto, os três riscos claros sobre o castanho baço coberto de pó que a madeira punha a descoberto, como se tivesse sido riscada por um animal feroz com uma pata de três garras. E a velha Maçaneta estragada.

Por detrás da porta havia luz e música.

A música tocava baixinho. De repente ouviu um ruído alto e agudo que a sobressaltou, como o grito do coelho ao qual o pai cortara a cabeça com um machado, no pátio, no dia dos seus anos... e a seguir um gemido...

Estava parada, soluçava, tinha medo.

Continua, Annemie... continua, continua. Tens sete anos. Tens de continuar.

A luz brotava por baixo da porta. Annemie pousara a mão esquerda na maçaneta, tinha a mão completamente húmida. Tremia. Apesar disso rodou a maçaneta, abriu ligeiramente a porta... e viu...

A luz vinha das duas velas colocadas no chão ao lado da cama. As velas estavam enfiadas em garrafas de cerveja. Annemie quis fechar novamente a porta e desatar a fugir. Mas não conseguia, estava como que paralisada. Aquela cara, uma cara de mulher com uns olhos muito abertos. Os cabelos escuros e molhados da transpiração colavam-se ao pescoço, que se inclinava para trás. E a boca era um buraco redondo, escuro e lustroso, donde saiu um grito.

Annemie viu, se viu, viu aquele quadro medonho através da frincha estreita, entre a porta e a ombreira. O seu coração palpitava. À frente daquela cabeça via-se um ombro. Tinha os músculos contraídos, músculos de homem, grossos e pesados. Tinha uma coroa de cabelos curtos à volta da cabeça. A parte de cima era calva. E as orelhas eram tão redondas e vermelhas como as asas da caneca que Annemie usava no jardim-infantil.

No chão, ao lado da cama baixinha havia uns óculos pequenos com aros pretos. E quando Annemie viu as orelhas, a careca e os óculos, teve consciência da situação, primeiro de modo vago, mas a seguir intensa e violentamente, como uma letra luminosa: Oskar! É o Oskar!

E como não tem os óculos postos, os seus olhos horríveis, cinzentos, brilham como os de um louco. A pele também brilha e o lábio inferior, grosso e carnudo.

E aquele brilho nos olhos! Cheios de ódio. olhos como os dos assassinos.

- Vai-te embora - gritou a voz de Oskar. Annemie respirou fundo, precisava de ar. Queria sair.

Queria ir para longe, mas não conseguia. Tinha os sapatos bem colados ao chão e os joelhos tremiam-lhe.

- Vai-te embora, porca! Fecha a porta! Annemie não se mexia.

- Vai-te embora, se não, mato-te!

Oskar erguera a cabeça; estava apoiado nos braços, agachado sobre a mulher, não tinha nada a tapar-lhe o corpo, absolutamente nada, só músculos, cabelos pretos e aquela enorme barriga. E mais qualquer coisa, Annemie viu, quando ele se levantou. Tinha aquela coisa horrorosa lá em baixo entre as pernas, aquela coisa que balouçava como um bocado de mangueira grossa, lustrosa e vermelha.

E a mulher, a mulher no colchão, a mulher que ele acabara de querer matar, que se virara para o lado, que mostrara a cara a Annemie, a mulher que gritara...

A mulher é a mamai

Oskar estendia as mãos na direcção de Annemie. Está de pé, ameaça-a com os punhos, a criança consegue voltar a mexer-se. A vida e a força regressam ao seu corpo como um raio quente.

- Não! - soluça ela. - Não, não.

- Vai-te embora, vai-te embora daqui, Deus do céu diz a mamã.

Annemie desatou a correr.

Mesmo ao lado da mesa havia um aparador Chippendale pequeno e muito vistoso, com umas pernas elegantemente arqueadas.

O «Tiffany», como Stefan lhe chamava. Fora a mãe de Christa que o enviara para Burgach quando se casaram, e não vinha vazio. Trazia o enxoval básico, pois aquela «história de Burgach», como lhe chamava a mãe Inge, tinha de subir um «bocadinho de nível», e portanto os membros do clã de médicos da família Ruttger haviam-se reunido em Hanôver. O senhor professor mandara pequenos frascos de cristal e copos de licor de cristal da Boémia, cor de rubi, um conjunto inteiro de garfos e espátulas para bolos em prata, chávenas de café douradas e pratos ornamentados que tinham sido dos seus filhos Jochen e Júrgen, ambos médicos. No meio de todo aquele esplendor havia uma cruz de ferro preta da Primeira Guerra Mundial. O avô de Stefan recebera-a em tempos e Stefan tinha sempre um vago acesso de má consciência cada vez que o seu olhar recaía nela. Por mais ridículo que pudesse parecer e por muito que a maldissesse... queria substituí-la no «Tiffany», desse por onde desse.

Tinha agora uma segunda hipótese: o presente de Lindner, a jóia barroca, a caixinha de prata.

Mas Christa opunha-se.

- Então, porquê? - perguntou Stefan, espantado.

- Porque não quero essa porcaria aí dentro.

- Foste tu que disseste que era mais valiosa do que todos aqueles trastes juntos.

- Não é isso que está em causa.

- Então, o que é?

- Não fica lá bem. Não quero ver aqui um Lindner representado. Por favor, não me perguntes porquê. Simplesmente não suporto o tipo, tu sabes disso. Quando penso nele, fico com comichão no estômago. Portanto, não falemos mais nisso, Stefan, por favor.

Tinha uma maneira de proferir aquele «por favor» que não havia resistência que se lhe opusesse.

E foi assim que a caixinha foi parar à secretária de Stefan. Pelo menos era um sítio digno, onde costumava ter a sua lapiseira, igualmente de prata, um presente de Natal de Christa.

Abriu a tampa da secretária e tirou a lapiseira para fora.

O cartão-de-visita estava lá dentro, por baixo de uma pilha de lamelas de comprimidos e de agrafos.

Stefan olhou de relance para o relógio que tinha em cima da secretária: quase oito horas. Também não avançara com o manuscrito para a televisão regional e dissera a Annemie Markwart para vir às oito.

Stefan aproximou-se do leitor de cassetes, pôs a cassete onde registara a última e decisiva sessão com Annemie, e carregou na tecla do play.

Primeiro ouviu-se um soluço reprimido e abafado, e a seguir: «Mamã, mamã!» E outra vez muito baixinho: «Mamã, o que é que ele te fez? Mamã... eu, eu tenho medo...»

Mal conseguia reconhecer a voz de Annemie Markwart. Parecia alterada, alta, infantil e distorcida por um terror indescritível.

Só se ouvia agora um sussurrar no gravador, a seguir uma respiração ofegante.

E de novo a voz de Annemie: «Não me faças mal! Não, não me faças mal... por favor.»

Stefan deixou a cassete a andar e recordou novamente a situação: a cara de Annemie Markwart que adquirira uma cor azulada, a falta de ar a seguir, uma espécie de apneia. Estava no inferno. Bergmann não tinha conseguido chegar até ela, fora essa a sua única falha, não chegara portanto a aprofundar o relatório. Devia ter intervindo mais cedo. Quando o tentou fazer, Annemie mal reagiu, e podia ter sido muito difícil trazê-la de volta.

E mesmo assim, pensou ele, tivemos os dois uma sorte incrível. Os retornos no tempo, as regressões à infância são quase sempre dolorosas, e muitas vezes é necessário uma meia dúzia de sessões para se chegar onde se pretende.

Annemie Markwart tinha lá chegado à primeira tentativa.

Oskar. O Oskar nu. E aquela mãe por quem a criança tremia, pois pensava que Oskar a queria matar.

Stefan olhou para o relógio. A porta abriu-se.

Eram oito horas em ponto.

Desta vez estava muito pálida. E parecia cansada, tinha as pálpebras inchadas e umas olheiras que tapara com pó-de-arroz. Mas parecia tranquila. Sim, Annemie Markwart conseguiu inclusivamente esboçar um sorriso vago quando Stefan lhe perguntou, depois de a ter cumprimentado, como correra a visita à mãe.

- Como é que ela está? - Acompanhou-a à cadeira.

Ela sentou-se.

- Como é que ela está, senhor doutor? - repetiu ela.

Já não está consciente. E tinha péssimo aspecto! Mal a reconheci. Por causa do cancro que tem nos intestinos, as dores são tantas, contou-me a irmã, que têm de estar constantemente a dar-lhe morfina.

Stefan assentiu com a cabeça. Via novamente a cara de Rosi à sua frente, na sala de estar da Rua do Ribeiro.

- Eu sei o que isso é. Acredite em mim, eu sei o que isso é.

- Conseguiu fazer o mesmo com ela - disse Annemie.

- Como?

- Primeiro eu... a seguir ela.

- O Oskar?

- Esse homem. Para mim não tem nome. Não passa de um porco. Mas porcos como ele, há-os por toda a parte. Andam por aí aos milhares, não concorda?

Colocou-lhe a mão no ombro.

- Annemie, não se aflija. O que precisa agora é de um pouco de calma.

- E onde é que a vou buscar?

Puxou a cadeira e sentou-se à sua frente.

- Isso é o que vamos ver.

- Ele não matou só a minha mãe, tive a certeza disso ontem no hospital. Eu ainda não lhe contei tudo por que ela passou depois de o meu pai ter morrido e de ter chegado o Oskar.

- Não precisa de o fazer. É muito mais importante que se descontraia, que se acalme.

- Primeiro eu - repetiu. - O senhor disse que sabe o que isso é. Eu ando para aí, mas por dentro estou morta, há muito tempo.

Sentia o corpo mole sobre a cadeira de couro preto. Tinha as pálpebras inchadas e ligeiramente a tremer. Estava a menos de um metro de distância de Stefan. Olhava para cima, para o quadro com a ponte, mas ele sabia que o fazia para evitar o seu olhar.

- Annemie - disse ele numa voz muito suave -, a senhora está vivíssima.

Ela abanou a cabeça.

- Isso é o que parece, senhor doutor. Estou morta. Sabe tão bem como eu... Sabe o que me aconteceu...

A situação era crítica. Annemie estava a ponto de cair num novo estado depressivo. A visita à mãe intensificara a depressão, além disso havia a crise de identidade em que se encontrava. A sua orientação, todo o seu sentimento de auto-estima estavam ligados ao seu êxito profissional. E tinham-lhe tirado isso.

- Ouça, Annemie, por favor. Eu vejo algo totalmente diferente. Posso dizer-lhe o que vejo? Uma mulher nova e zangada, que não só nos ajudou a nós, como a muitas outras pessoas. Neste momento está com alguns problemas psíquicos. E então?

- Problemas? Eu estou inválida. Tremo e suo como uma alcoólica; tenho pesadelos, depressões.

- Tem depressões, pois tem. Os outros também as têm, e ultrapassam-nas. A senhora não sofre de uma depressão endógena, nada que o seu corpo tenha provocado, Annemie. Isso é importante. É por isso que vamos conseguir. Vai ver.

A cara que tinha à sua frente era uma cara inanimada, frouxa, tão impassível como antes. Stefan proferia as palavras necessárias em situações como aquela. Chegavam-lhe vazias e, ao mesmo tempo que se ouvia, o seu cérebro seleccionava alternativas terapêuticas. Avançar com cuidado? Com a hipnose podia libertar com prudência experiências traumatizantes, passo a passo, mas em vez dessas experiências apostava agora noutras, novas e positivas, mas seria que as conseguiria apagar? O tratamento mesmo assim prolongar-se-ia por um grande período de tempo. Tratava-se simplesmente de intensificar os estímulos novos e positivos... Mas no caso de Annemie Markwart?

Estava à beira de um colapso, Stefan tinha a certeza. Conseguia prevê-lo. Podia arriscar uma espécie de «tratamento de choque». Podia? Tinha de o fazer!

- Estou no fim, senhor doutor. É verdade, estou no fim. Acredite no que lhe digo...

O que tens de fazer, decidiu Bergmann, é tirar-lhe o medo... e de vez.

- Não consigo continuar a viver assim. Nem quero.

Não dizia aquilo num tom lamecha, mas lúcido e determinado, como se lhe estivesse a anunciar o resultado de um balanço.

- Claro que consegue. E vai fazê-lo ainda hoje. Vamos conseguir.

Olhou para ele com uma expressão de incredulidade no rosto.

- Com a hipnose?

Stefan Bergmann anuiu com a cabeça.

No fundo era sempre a mesma coisa: montava um teatro. As peças representadas nesse teatro eram normalmente não só colossais, como também absurdas e irreais, e a sua tarefa não era apenas a de director. Cabia-lhe também a parte do guionista, do dramaturgo e inclusivamente do cenógrafo, que tinha de tornar mágico o ambiente, a atmosfera, tão determinante para o sucesso da peça.

Annemie Markwart encontrava-se num transe profundo.

Stefan estava nos bastidores. Ia dar-se início a um circo grandioso onde havia a possibilidade de assistir às coisas mais incríveis, mas onde as pessoas iriam sentir-se bem.

- Todas estas luzes e projectores, Annemie! Os estofos vermelhos, não são maravilhosos? E tão confortáveis. Podes esticar as pernas... Vieste com uma amiga? Como é que ela se chama?

- Liesel.

A sua voz era clara e inteligível, as suas mãos estavam quietas.

- Exactamente, Liesel! Já me tinha esquecido. Abanou a cabeça, indignada.

Muito bem, pensou ele.

- As cadeiras com os estofos vermelhos - prosseguiu ele -, essas são só para pessoas com convite... Normalmente sentam-se mesmo à frente, perto da pista. As pessoas sentem-se lá bem, não sentem? E divertem-se... Sobretudo

porque, quando se está próximo da pista, vê-se tudo muito melhor. Os auxiliares nas suas belas fardas, os animais, os artistas... enfim, tudo...

Ela assentiu com a cabeça e sorriu com um ar feliz.

- E os palhaços ainda lá estão.

- Eram cómicos - disse ela a sorrir. - Os palhaços.

- E ainda são. Escangalhamo-nos a rir com eles, não é? Como aqueles pequeninos a quem rebentava qualquer coisa atrás, nas calças, e de repente começava a sair fumo e fogo...

Ela ria-se baixinho.

- Não era fogo, era só fumo.

A sua voz parecia a de uma criança. Tinha agora nove anos.

- E todas aquelas pessoas, Annemie. Só crianças. Para onde quer que olhes, crianças. Atrás de ti, à tua direita, à tua esquerda e à tua frente, até mesmo lá em cima. Pois é, e os mastros. Que grandes que são! Os mastros que seguram a tenda, de que cor são, afinal? Não os consigo ver.

- Azuis...

Stefan encostou-se ligeiramente para trás. Estava a funcionar.

Não se sentia muito seguro de si quando começou com os preliminares. Que circo haveria de escolher? Tinha vindo a apalpar terreno. Sim, ela conhecia um circo, mas não conseguia perceber se era apenas um pequeno circo ambulante ou um dos grandes. Bergmann apostou no circo grande... e porque não? Podia transformar o local do circo, na fantasia de Annemie, numa tenda gigantesca, magnífica, impressionante e fabulosamente montada.

- Olha, Annemie, estão a levar umas peças de ferro muito altas lá para dentro. A barulheira que fazem quando chocam umas nas outras!

Ela bateu palmas.

- São para as jaulas, sabias? E agora estão a içar as grades. Vai ser uma jaula circular, à volta da pista. E o cheiro, Annemie! Sente-lo? Vem do leão. Ali, estão já a entrar Pelo túnel. Que animais! São enormes!

Ela mantinha os olhos fechados, e as pupilas moviam-se por baixo da pele das pálpebras. Respirava mais depressa. Via os leões...

Stefan fez uma voz mais grave, conferiu-lhe toda a persuasão de que foi capaz e continuou a desenhar o seu quadro. Sabia que não iria agradar-lhe.

Seria mais perto do fim. Ela tinha de gostar do final.

- Os leões estão excitados, Annemie. Não estão sentados no estrado, andam às voltas, arreganham os dentes, rugem, levantam o focinho, farejam. Os leões conseguem farejar melhor do que nós. Sabes o que é que eles farejam? Queres que te diga? Farejam o inimigo.

Tinha os ombros tensos. A cara denunciava uma expectativa receosa.

- O inimigo que sempre a maltratou, aquele homem horroroso com uma grande barriga, aquele homem nu que fez tanto mal à tua mãe. Annemie, estás a ouvir-me? Sentes o cheiro dos leões? Então... estás a vê-los?

- Os leões... os leões... - Balbuciava apenas. As pálpebras de Annemie tremiam mais do que antes.

- Oskar - disse de repente.

Disse o nome numa voz alta e perceptível: Oskar.

- Esse mesmo. Vem pelo mesmo túnel por onde os leões entraram. Não consegue andar, repara, tem de rastejar. E não traz os óculos, pô-los de parte, como costumava fazer, não precisa deles. Sente-se tão forte, Annemie. Ele é tão mau. Repara nos seus dentes, na cara. Quer entrar pelo leão adentro, Annemie. Mas é tão mau como ele. E de que maneira! Repara: estão a levantar o ferrolho, o Oskar julga que é um leão, levanta-se e berra. Mas o leão...

- Não - murmurou ela. Começa a tremer. O suor brilha-lhe na testa à luz da lâmpada.

Medo, pensa Bergmann. Oxalá não tenha um colapso. Tem de revelar o trauma, tem de o ultrapassar. Continua.

- Sente-se tão grande, o Oskar - disse ele.

- O porco - sussurrou Annemie Markwart. - O porco.

- Pois. Mas vai deixar de ser. Ouves o barulho? Este barulho horrível e aterrador, que enche o circo? É o leão zangado, a rugir. Repara nas pessoas. No seu ar atónito. Levantam-se agora de um salto. Gritam... Também têm medo, Annemie, mas tu não precisas de ter. Tu tens os leões. O primeiro, aquele enorme, já está a abanar a cabeça, repara na juba a esvoaçar. E agora, Annemie, repara, está a agachar-se... e a seguir, o salto! Sim, salta para cima do Oskar, lança-se sobre ele. O leão é tão grande, tão colossal, que já nem consegues ver o Oskar. Não vês nada, só sangue, Annemie. Tu vês sangue.

- Sim - gritou ela. - Tanto sangue...

- O leão, Annemie, o leão ferrou os dentes na cabeça do Oskar! E os outros leões estão agora todos em cima dele. Cada um a rasgar-lhe um pedaço de carne, a dilacerá-lo e a devorá-lo, estão todos a devorá-lo. Acabou-se o Oskar, Annemie! Eles devoraram-no, já não há nada, absolutamente nada. Já não existe, Annemie, acabou-se, desapareceu... desapareceu para sempre...

Uma simpática joaninha preta com pintas vermelhas passeava-se pela caixinha de prata de Lindner. Stefan Bergmann agarrou nela, levou-a na palma da mão até à janela aberta e pô-la em liberdade. Do último troço da Rua Heinrich-Heine aproximava-se lentamente um carro cinzento. Tinha uma luz azul no tejadilho.

Okay, ali estavam eles. O comissário Warnke telefonara a dizer que ia.

- Hoje trago um colega, doutor. Da Polícia Federal. Chama-se Oster e é conselheiro criminal.

Stefan fechou a janela. Há sempre uma primeira ocasião Para tudo. Alguma vez pensaste que ias ter um conselheiro criminal experiente da Polícia Federal no consultório?

Ouviu tocar a campainha. Stefan sentia-se extremamente cansado embora de manhã não tivesse havido quase movimento no consultório. Engolira o almoço de pé, directamente do frigorífico e agora tinha um interrogatório para a sobremesa... Era razão para se ficar satisfeito com uma coisa daquelas?

Ouviram-se passos no corredor. Bergmann foi à porta e abriu-a. Warnke entrou, vacilante, com um sorriso menos alegre do que da última visita.

- Desta vez tem algum tempo?

- Claro - respondeu Stefan, anuindo com a cabeça

- Há dias, senhor Warnke, que os doentes parecem ter-se todos escondido.

A outra visita, uma cabeça mais baixo do que Warnke, era um tipo musculado e robusto. Tinha olhos azul-claros, e as pestanas compridas e escuras davam-lhe um ar arrapazado. O cabelo era preto e desgrenhado. O tipo é uma mistura de professor de ginástica e disc jockey, pensou Bergmann, não obstante o seu fabuloso casaco ocre e o elegante colete de cabedal. Além disso veste calças de ganga e abdicou da gravata.

- Este é o Oster, o conselheiro criminal - apresentou Warnke, e Stefan disse ser a primeira vez que era apresentado a um conselheiro criminal.

Sentaram-se calmamente à secretária, Warnke um pouco inclinado para a frente, as mãos sobre os joelhos, uma vaga expressão de mau humor na cara. O outro, o conselheiro criminal, cruzara indolentemente as pernas. A pele polida dos sapatos reluzia.

- Então, doutor - começou Warnke por dizer -, aqui o senhor Oster tem umas perguntinhas para lhe fazer.

- Acerca de quê?

- Acerca de quê? Connosco é sempre acerca da mesma coisa: acerca da noite do acidente junto do miradouro panorâmico.

Stefan sentiu um formigueiro no pescoço.

- Mas eu já contei o que sabia, com todos os pormenores. Duas vezes até. Está tudo nos vossos relatórios.

Oster alisou a ganga nos joelhos e fitou-o demorada e directamente com aqueles olhos azuis de pestanas grossas e semicerradas.

- Pois é. Mas eu não estaria aqui, doutor, se não fosse o depoimento de um condutor da Cruz Vermelha, uma das pessoas que transportou o Lindner para a ambulância.

Deixara de sentir o formigueiro no pescoço, agora era a pinça de uma tenaz. Stefan transmitia serenidade. Fazia-o com os doentes, tinha aprendido a fazê-lo. Lembrou-se do aue o avô diria em situações como aquela: «Um único passo em falso, rapaz, e vai tudo por água abaixo.»

- E então? - perguntou Stefan.

Senhor doutor, esse homem afirma que voltou à ribanceira à procura da lanterna antes de ter partido com o ferido. Parece que não sabia dela. Foi nessa altura que o viu subir a encosta. Eu sei que o senhor tinha uma pasta... mas o homem diz que não era uma pasta de médico. Diz que tem a certeza absoluta. Que conhece muito bem as malas dos médicos.

- E que mais?

- Exacto. E que mais? É precisamente isso que lhe queremos perguntar - disse Warnke.

Stefan sorria. Sorria tranquilamente. O seu coração também estava tranquilo. Mas de repente voltou a ver aquelas imagens: os restos de nevoeiro, o orvalho, a luz azul, as vozes lá em cima... e ele, que regressara para junto dos destroços do automóvel, apanhara aqueles malditos papéis e voltara a subir a encosta a arquejar, com a pasta de Lindner na mão...

- E então? Esse condutor tem a certeza daquilo que afirma? E o que quer ele dizer com isso?

- Não quer dizer nada. - Oster sorriu. - Eu... eu é que não sei muito bem o que pensar.

- Senhor Oster, naquela noite havia nevoeiro. Está escrito no seu relatório. E sítios onde mal se via um palmo à frente do nariz. Esse homem perdera a lanterna. O senhor acaba de o afirmar... Muito bem, estava escuro, não tinha luz... mas conseguiu destinguir claramente que espécie de Pasta eu levava na mão? O que vem a ser isto?

- O que vem a ser isto? E nosso dever seguir todas as pistas e ter em conta todas as possibilidades. Conhece essa teoria, com certeza.

Stefan sentiu o seu autodomínio começar a ruir. Abanou energicamente a cabeça.

- Não, não conheço. Nunca tive nada a ver com a polícia.

E ainda não tens. Talvez venhas a... Provavelmente andaste um quilómetro na direcção errada.

Bergmann recostou-se na cadeira e cruzou os braços

- Qual era a pergunta, senhor conselheiro criminal? Tem uma pergunta a fazer, não tem?

- É muito simples: o que levava na mão nessa noite? A sua mala de médico?

- O que havia de ser? Quer vê-la? Quer que a vá buscar? Tenho três. - Stefan elevara a voz. - Vai-me dizer que veio cá só por causa dessa história absurda? Perdeu muito tempo, não acha?

- Oh... - Oster sorria. - Às vezes tem de ser.

E o meu tempo? Stefan não o disse, olhou para a caixa de Lindner e uma aragem fria percorreu-lhe a testa. Sabia o que era: medo. E porque não? Não era só por causa da maldita pasta...

Provavelmente o teu vizinho estava atrás do cortinado e viu o Lindner fazer-te uma visita. Ou outra pessoa qualquer? Um supercarro daqueles dá nas vistas. Tens de te livrar dessa.

- Não tenho outra pasta para lhes dar...

- Acha mesmo que não?

Raios me partam. Estás a mentir, pensava Stefan, ao mesmo tempo que respondia:

- Não.

Mudança de tema, pensou, para os distrair.

- Mas queria dizer-lhe uma coisa, senhor Warnke: o senhor Lindner veio cá a casa. Veio visitar-me.

A atitude de Warnke mudou de repente.

- Como é possível que não me tenha dito nada, doutor? Porque não me ligou?

- Como assim? Porque não havia motivo para o fazer. O que é queria que lhe contasse? - Stefan voltou a olhar para a caixinha. - O homem veio cá para me agradecer. A mulher nem sequer saiu do carro, e ele não ficou mais de cinco minutos. Um puro gesto de cortesia. Totalmente normal.

Ficaram ambos calados.

- Agora gostaria de fazer eu uma pergunta - retorquiu Stefan.

Faça favor, senhor Bergmann. - Houve uma longa pausa antes de Oster o ter exortado a fazer a pergunta.

- O que é que faz de Lindner uma pessoa tão interessante, ao ponto de um conselheiro criminal da Polícia Federal se dar ao trabalho de vir em pessoa a minha casa?

- Bom, os criminosos profissionais não estão sempre no activo.

- O senhor Warnke já mo tinha dito. Os atentados são mais interessantes do que os homicídios. Mas o que se passa com o senhor Lindner?

- É exactamente isso que gostaríamos de saber.

- A minha mulher contou-me qualquer coisa acerca de um artigo que apareceu num suplemento qualquer de economia. «O homem do arco-íris», era o cabeçalho. E lá dentro vinha o artigo. Que Lindner fazia malabarismos com negócios duvidosos há muito tempo. Parece que estava relacionado com enriquecimento de urânio...

- Isso são águas passadas, senhor doutor.

- E como são as de hoje?

- É difícil dizer. Dinheiro. Muito dinheiro...

- Proveniente da Rússia? Oster assentiu com a cabeça.

- De fontes muito obscuras.

- E o que se passa com aquela imobiliária em França?

- É isso... O Lindner iniciou aí um projecto de grande envergadura. E ao que parece, os seus sócios não são dos mais honestos. Pelo menos há muitos que lavam lá o seu dinheiro...

E foi assim. Os funcionários da polícia despediram-se e foram-se embora.

Era uma dermatite, e uma das más, segundo Christa. Os focos de infecção iam da região inguinal ao osso direito da bacia, a pele estava coberta de buracos vermelhos minúsculos, pústulas, crostas e de um líquido linfático seco. Tinham-se desencadeado estirpes inteiras de bactérias, e Eddy Hufnagel não só se dera ao trabalho de as apanhar a todas, como fazia questão de as alimentar.

- Prepara a água oxigenada, Marga, vamos precisar dela. E uma pinça, por favor...

Christa lançou um olhar de repreensão a Eddy. Ali estava ele deitado na marquesa, franzino e a tremer, com um nariz de quarto crescente sobre a barba rala e de um branco-amarelado. Até na careca, circundada por uma coroa de cabelos igualmente branco-amarelados, se podiam detectar pústulas.

Para não falar no cheiro...

- Eddy, tu fedes. Não sei mesmo como é que te hei-de tratar neste estado. Devia ter-te posto primeiro debaixo do duche.

- Também acho, senhora doutora.

- O quê?

- Estava à espera que o fizesse. Fê-lo da última vez.

- Da última vez? - Christa suspirou.

Eddy era um cliente habitual no consultório, e quando ele vinha, havia sempre que fazer: uma gastrite que tinha de ser tratada, uma infecção pulmonar que tinha de ser curada, ou a cirrose que evoluíra... Christa cumpria a sua obrigação. Fazia-o a pensar em Elsbeth, a mulher de Eddy, a melhor mulher-a-dias que alguma vez tivera. «Elsi» era uma verdadeira pérola. A seguir à sua morte, Eddy foi-se rapidamente abaixo. A pique. Mesmo muito a pique...

Christa pegou na pinça, retirou a crosta, espalhou água oxigenada e fez ouvidos de mercador perante os seus terríveis gemidos.

- És o único culpado desta situação, Eddy.

- Eu sei, senhora doutora.

Continuava a colocar-lhe corajosamente água oxigenada em silêncio. A seu lado havia uma tigela com uma espátula e algodão usado. A roupa de Eddy estava dentro de um saco de plástico azul, à espera que o viessem buscar para a lavandaria. Serviço rápido. Entretanto tinham-lhe dado roupas de doente e uma sopa.

Mais alguma coisa? Não, não podes fazer mais nada. Eddy vivia numa barraca de chapa de zinco feita por ele ao lado de um ferro-velho, perto de Fulda, auto-intitulava-se «guarda-nocrumo», pois o proprietário do ferro-velho decidira deixá-lo ficar, se tomasse conta da sucata. Mas tornara_se um «berbere», um vagabundo, pois o termo não era conhecido em Burgach. Chamavam-lhe «vagabundo Eddy» e evitavam-no discretamente.

- Andas ao menos a tomar as tuas vitaminas, Eddy? Ainda tens algumas na caixa que te dei da última vez?

- Não. Tomei-as todas - afirmou Eddy. Na realidade, trocara-as por uma garrafa de aguardente de cereais.

- Nesse caso vou dar-te mais.

- Senhora doutora, a sério... A senhora é uma santa! Eu não mereço tanto!

Christa voltou a abanar a cabeça. E arrancou outra crosta. Estava mesmo feio. Era melhor ligar a Júrgen, o seu irmão querido. No seu distinto consultório de dermatologia em Hanôver não havia casos daqueles, mas provavelmente chegara ao mercado um antibiótico novo polivalente, que podia ser utilizado em casos como aquele.

Christa levantara-se para ir telefonar quando Stefan entrou.

- Oh, Eddy! Como estás?

- Veja bem, senhor doutor. - No sítio onde era suposto estar a boca, debaixo daquele matagal amarelado, mexia-se qualquer coisa. - Eu... eu faço tudo ao contrário.

Stefan aproximou-se da marquesa, colocou a mão na testa de Eddy, deitou uma olhadela à zona ulcerada e fez menção de sair. Christa deteve-o.

- Espera, Stefan! Aquilo era mesmo um conselheiro criminal? A Marga contou-me.

- Era mesmo um conselheiro criminal.

- Por causa do Lindner?

Acenou com a cabeça e o seu olhar cruzou-se com o dela. Olhava para ele com uma expressão meio desconfiada, meio ofendida.

- Vais mesmo fazer carreira na polícia... Primeiro um comissário de polícia, agora um conselheiro criminal!

Fechou suavemente a porta atrás de si. Christa estava ofendida, portanto. E então? Assim que ouvia o nome de Lindner...

- É uma boa pessoa, o senhor doutor - disse Eddy.

- Claro, Eddy.

Há um ano mandara Eddy para a luta, para o libertar do maldito alcoolismo, por hipnose. Fizera três sessões, mas Eddy opusera resistência.

- Simplesmente não quer - dissera Stefan. - Tem fantasia a menos.

Relativamente a Lindner, Christa não condescendia. Talvez por ter fantasia a mais...

Christa entrou no bonito edifício Biedermeier com os caixilhos brancos nas janelas, situado na Praça Heumarkt.

O balcão da recepção do Dresdner Bank estava quase vazio. Pohlmann, o director da filial, cumprimentou Christa do seu canto, a mulher atrás do balcão estava ocupada com uns papéis quaisquer. Levantou a cabeça, viu-a e também a cumprimentou, ou seja, ficou verdadeiramente radiante.

Christa estugou o passo.

A mulher de vestido verde-claro, a que estava a rir-se para ela, era a... Aproximou-se rapidamente.

- Bom dia, senhora doutora!

- Senhora Markwart? É a senhora?

Annemie não podia estender a mão a Christa; por baixo daquela maldita vidraça só passava, no máximo, uma folha de papel ou talvez um pente, mas sorrir, isso podia ela fazer.

- Meu Deus - disse Christa -, fico tão contente por a ver!

- Também eu.

- Mas já está boa?

- O seu marido achou que era melhor recomeçar por aqui. Atirar-me de cabeça. Foi o que fiz, senhora doutora.

- Fantástico.

- Fantástico é o seu marido. É indescritível as coisas de que é capaz.

- Pois é - disse Christa em voz baixa. E a seguir: Eu sei.

Quando saiu sentou-se na praça, no Italiano, a comer mu gelado à colher e a olhar para as lojas, os guarda-sóis, as mulheres do mercado, os lavradores, os fregueses.

Mas não via nada.

«Pois é», acabara de dizer Christa no balcão para uma Annemie Markwart profundamente subjugada pelo reconhecimento.

Sabes que tens em casa um génio que cura através de hipnose, quereria ela dizer? Que mais poderia ser? E é o que ele é. Stefan é um génio. A mulher estava inválida e agora, depois de um tratamento curto, está ali a atender clientes. Portanto, deixa-te de ironias, que não te servem de nada... Bom, com alguém como o Eddy, o Stefan não podia fazer nada contra o alcoolismo, mas, por exemplo, contra aquela dermatite horrorosa... se calhar podia ajudar? A hipnose também vence bactérias. Fora o que Christa pudera verificar com a Sra. Wellersloh, que Stefan curara de um eczema crónico, em três semanas. «Imunoestimulação», chamava-se... Quando contar isto ao meu pai, vai ter um ataque de histeria. Imunoestimulação por hipnose! Mas a mulher livrou-se dos achaques, a sua pele está intacta, e tudo isso conta.

Christa olhou para cima, para o céu, e tentou combater um sentimento que lhe era tão familiar como um velho conhecido: aquela mistura de respeito, de alguma dúvida e de admiração pelos resultados de Stefan... e uma revolta surda.

«Todos temos um palco cheio de actores dentro de nós.» Era uma das frases preferidas de Stefan quando acometido por um ataque psicológico-filosófico. «Umas vezes está um dos actores na ribalta, outras vezes, está outro...»

Passava-se qualquer coisa com ela. Há muito que uma espécie de respeito infantil abalara as certezas de uma Christa orientada para os métodos puramente racionais e científicos. Simplesmente não estava ainda preparada para o admitir.

Acenou à empregada.

- Não gostou? - A empregada apontava para o copo com o gelado praticamente por tocar.

- Gostei, claro - disse Christa -, mas o meu estômago hoje não está muito famoso.

De facto não estava. Reduz-te à tua insignificância, pensou ela de repente. Era uma máxima masculina, e o comentário mais frequente de Jochen. O seu segundo irmão Jochen, era médico radiografísta e, portanto, estava convencido de que via as coisas como elas eram. Faz mas é o teu trabalho, tal como o aprendeste! Mesmo assim...

Mesmo assim Christa sentia uma nostalgia secreta pelo universo em que Stefan se movia. Gosto dele, gosto daquele tipo... E se calhar, pensava ela, acontece connosco o que acontece com a maior parte das pessoas: as coisas funcionam, porque somos muito diferentes...

Sim, pensou, é um médico fantástico, esse Stefan Bergmann!

A patrulha de polícia e o corpo de bombeiros local já tinham chegado ao Col na noite do incêndio. No entanto, os responsáveis de casos como aquele não eram os serviços públicos de Cavalaire-sur-Mer, mas sim o comissariado de Lavandou. O inspector Benoit de Cavalaire levou o comissário de Lavandou até à área cinzento-esbranquiçada do incêndio com as ruínas que tinham sido a casa de Pascal Lombard, e os agentes dos dois carros-patrulha tiveram dificuldade em fazer recuar aquelas pessoas todas que tinham subido a encosta para ver o local do acidente. Fitas de plástico vermelhas e brancas isolavam a zona. O caixão já fora levado dali durante a noite.

Morte por descuido, fora a informação que o comissário Malbert enviara para a Prefeitura de Toulon no dia a seguir à catástrofe do incêndio no Col. O resultado da investigação era inequívoco. E porque não? Tinham encontrado os restos das garrafas que haviam explodido. Aquelas malditas garrafas de gás butano eram utilizadas em tudo e mais alguma coisa, para cozinhar, para aquecer, inclusivamente para pôr frigoríficos a trabalhar. As junções e os tubos de borracha muitas vezes tinham defeito, e por isso estava sempre a haver explosões daquelas, onde normalmente não morria só um velhote. Restaurantes incendiados, quarteirões de casas desmoronadas cujos habitantes ficavam sepultados debaixo dos escombros. Os restos dos corpos carbonizados eram enterrados. Pascal Lombard fora sepultado ao lado da sua mulher no pequeno cemitério de Saint-Michel. Era uma sepultura de família, que Pascal comprara há trinta anos, logo após a morte da mulher. Por cima da cruz avistava-se o mar até às ilhas. No entanto, de que servia isso agora a Pascal?

Para o rapaz que se encontrava mesmo à frente, ao lado da sepultura, parecia só existir o mar e as ilhas de Hyères. Tinha uma cara magra e acinzentada por barbear e o cabelo colado à nuca. Fabien Lombard, o filho de Pascal, dormira o dia todo lá em cima, ao lado das ruínas enegrecidas. As suas roupas exalavam ainda um cheiro intenso a carvão e cinzas.

À esquerda de Fabien estava a sua amiga Régine, à sua direita colocara-se um homem gordo e grande de fato preto e boina basca preta: Paul Giscard, viticultor de Gigalo, amigo de Pascal Lombard e companheiro de armas na luta contra Lê Projet, o «Projecto».

Giscard estava apreensivo... mas não era só isso. No seu interior cozinhava-se uma raiva surda e indizível, bem como uma suspeita monstruosa. O pobre Pascal não era definitivamente o primeiro homem morto. Outros dois, que tinham estado envolvidos no «Projecto», também haviam morrido. Sempre a mesma coisa: um acidente...

No entanto Paul não falou acerca disso a Fabien. Não queria. Ainda era muito cedo.

- Olha para eles...

Giscard dizia aquilo mais para si próprio. Os coveiros tapavam a cova com terra, o padre começara com as preces.

- Sim, olha para estes tipos!

Na noite do incêndio qualquer idiota que tivesse pernas Para correr tinha lá estado em cima no Col, e agora?

A um enterro costumava acorrer normalmente a aldeia mteira. Mas naquele dia não se via no cemitério mais de três dúzias de pessoas. E mesmo entre esses, um terço era constituído por hipócritas. Pascal Lombard irritara-os muitas vezes com os seus panfletos e discursos combativos, porque é que se tinha de meter nos assuntos dos outros?

Régine segurava o lenço contra os olhos, para aparar as lágrimas. Apertava a mão de Fabien, que não dizia nada.

Não lhe ouvira mais do que vinte frases, desde o sucedido. E mesmo essas eram praticamente ininteligíveis e acompanhadas de espasmos faciais convulsivos. Só com esforço é que Régine conseguia perceber o que ele dizia.

Pobre Fabien...

Encostou a cabeça ao seu ombro.

- Fabien? Fabien, o que se passa contigo? - soluçava ela. - Fabien! Oh, meu Deus!

Christa estava na recepção com uma factura do laboratório na mão para passar ao computador quando entrou o carteiro.

- Senhor Weiniger! - saudou ela amavelmente.

- Um telegrama, senhora doutora.

- Um telegrama?

A palavra tinha algo de dramático e de alarmante: quando é que se recebem telegramas? Com efeito, não fora há muito tempo que Dagmar enviara um telegrama a comunicar a morte de Rosi. De resto todos os assuntos urgentes, para além de um monte de tralha inútil, chegavam ao consultório por faxe.

- Muito obrigada, senhor Weiniger.

Christa abriu o sobrescrito. Vinha de França. De um sítio chamado Saint-Michel. Olhou para as três letras: Var. Var? O nome não lhe era estranho, ficava na Cote d’Azur, ou na Provença... ou nas duas?

«Caro senhor doutor Bergmann», leu ela, «presumo que para si também haja qualquer coisa parecida com férias. Como é costume, chegou a altura das vacances, o Sol brilha, o mar cintila, e a nossa casa está à sua espera. A minha mulher e eu ficaríamos infinitamente felizes, se pudéssemos dar-vos as boas-vindas aos dois. Por favor responda na volta do correio, informando-me do período de tempo que têm disponível.»

O Sol brilha, o mar cintila.

A nossa casa está à sua espera?

SÓ me faltava esta! E precisamente o Lindner! Christa amarrotou o telegrama, deitou-o para o cesto dos papéis, acabou de beber o café e voltou a pegar no papel. Cambada de aldrabões...

Quando Christa se sentou à frente de Stefan para almoçar, meia hora depois, não mencionou o telegrama. Não foi com intenção, tinha-se literalmente esquecido.

Em compensação falou em tom caloroso da factura do laboratório. Usurários!

No dia seguinte, passavam poucos minutos das oito, o telefone zuniu na secretária de Stefan. Ele atendeu.

- Espero não incomodar, doutor.

Uma voz de mulher... uma voz que reconheceu imediatamente. Como é que se podia esquecer uma delicadeza tão artificial e uma voz nasal como aquela?

- Daqui fala Laura Faber, senhor doutor, Laura Faber, secretária do senhor Lindner.

- Estou a ouvir.

- Recebeu com certeza o telegrama do senhor Lindnen Seria muito simpático da sua parte se me pudesse dizer qual a sua disponibilidade.

- Disponibilidade? Telegrama? ’

- Como?

- Não recebi telegrama nenhum. Está a referir-se a um telegrama do senhor Lindner?

- Naturalmente, senhor doutor. Não recebeu nenhum telegrama? É muito estranho. Vou mandar ver o que se passa. Regra geral os correios são de confiança... Mas, caso receba o telegrama, peço-lhe por favor que me ligue. Não se inporta de assentar o número?

Apontou o número que ela lhe deu e desligou. Estranho? A mulher devia ter razão... Saiu do seu gabinete e entrou no gabinete contíguo. Christa estava a ligar o pulso a um rapaz.

- Ouve lá, o que é que se passa com a Marga? Agora desmazela-se com os telegramas?

Ela voltou-se e lançou-lhe um olhar meio culpado, meio furioso.

- Não foi a Marga. Fui eu... Atirei esse telegrama do Lindner para o cesto dos papéis e depois esqueci-me completamente.

- Tu fizeste o quê?

- Ouviste bem. Deitei-o fora. O mar cintila... ou uma porcaria do género! E a seguir meteu-se a confusão da factura do laboratório... O que foi? Não estás a pensar ir lá, pois não?

O rapaz olhava para ela da cadeira, as suas pupilas moviam-se tão depressa como se estivessem a seguir uma bola de pingue-pongue.

- Já que me perguntas, Christa, acho inacreditável que deites fora telegramas. Decididamente...

- Decididamente trata-se do Lindner, não é? Do teu Lindner! Não me aborreças com ele. Tenho de trabalhar.

Stefan voltou-se e saiu furioso.

Discutiram a tarde toda. E como de costume, foi impossível fazê-la mudar de posição, impossível, pois, apesar de estar convencido de possuir excelentes argumentos, Christa não o ouvia.

O consultório fechava sempre na primeira quinzena de Julho. Tinham sem dúvida passado uma Primavera difícil, cheia de trabalho; portanto, porque é que ela se opunha a um convite para passarem férias na casa de um milionário, na Cote d’Azur? Mais: o que é que tinha Stefan a ver com os negócios do Sr. Lindner?

Mas Christa não queria ouvir.

Desejava sempre a mesma coisa: passar o Verão com a grande família Riittger, um Verão no velho moinho na Baixa Saxónia... que o papá poria naturalmente à disposição, de borla. E além disso, Doris, a sua cunhada, acabara de ter o seu terceiro filho, e pedira efusivamente que a fossem visitar.

O clã dos Rúttger!

Não falaram do tema das férias até não poderem continuar a adiá-lo.

Três dias antes da grande limpeza geral que precedia normalmente o encerramento de qualquer laboratório, uma hora depois de uma violenta discussão com Christa, Stefan Bergmann tomou uma decisão.

Saint-Michel. A Cote d’Azur...

Eu vou.

Pelo menos por uma semana. A seguir o moinho, se não houver mais nada...

Estudou tudo no mapa. A cidade de Toulon, as ilhas de Hyères, a grande praia que se estendia em forma de arco desde Lavandou até uma outra península mais distante... Havia localidades mais pequenas, a costa estava menos povoada do que a de Saint-Tropez ou de Sainte-Maxime a leste, onde as urbanizações tinham dado cabo de grande parte da paisagem costeira.

Também havia montanhas. Stefan leu as indicações de altitude: duzentos e cinquenta, trezentos metros... Eram falésias, pareciam estar arborizadas, e à frente da grande baía ficava o Mediterrâneo!

Meu Deus, porque é que Christa era tão teimosa?

Stefan pensou: mais cedo ou mais tarde isto tem de ser resolvido. Ela vai ter de perceber que não é muito divertido estar sempre a levar com o eterno olhar calculista do pai e com o sorriso arrogante do irmão.

Sobretudo durante as férias!

Stefan levantou o auscultador e marcou o número do escritório de Lindner. Informou a secretária acerca do dia em que ia chegar.

- Provavelmente irei sem a minha mulher... - disse Por fim.

- Que pena! - comentou Laura Faber com a sua voz nasalada. - Bom, de qualquer modo o senhor Lindner vai ficar muito satisfeito com a sua vinda. Posso assegurar-lhe. Incumbiu-me de lhe transmitir os mais afectuosos cumprimentos, caso aceitasse a sua proposta...

- Sabe qual é a melhor maneira de se chegar aí?

- Não há problema. Não para si, senhor doutor. Caso voe directamente para Toulon, que fica mais próximo, vai ter de fazer escala em Paris. O que significa duas horas de espera. Já verifiquei tudo. Portanto, proponho que apanhe voo directo Frankfurt-Marselha.

- E como é que vou de Marselha...

- Oh, não há problema. O helicóptero do senhor Lind ner estará à sua espera em Marselha. O piloto chama-se Paço Ferret. Mas eu vou enviar-lhe o nome, o bilhete e todos os pormenores. Mais uma vez, muito obrigada, senhor doutor.

Stefan não conseguiu sequer devolver-lhe um «obrigado».

Estava demasiado perplexo.

O airbus inclinou a ponta da asa esquerda. Lá em baixo, à frente do azul-claro do mar, surgia novamente a cidade branca. Estava consideravelmente mais próxima. As teias de aranha transformaram-se em estradas, os pontos claros em barcos.

Stefan aterrou em Toulon.

- Oiça - dissera ele a Laura Faber --, o que são duas horas de espera em Paris? Pense bem, enviar um helicóptero para Marselha só por causa de duas horas... Não, vou até Paris...

- Como queira, senhor doutor. Parecia estar tudo a correr bem.

As duas pessoas mais velhas sentadas ao lado de Stefan eram muito simpáticas, um francês gordo e calvo, com uma camisa desportiva francamente exótica, e a mulher, ambos muito excitados.

- E lá à frente, do outro lado, fica Saint-Tropez. Lembras-te? Sabes, chérie, Saint-Tropez?

- O là-là - respondeu a chérie, radiante.

Stefan ia à janela. Encostou o nariz ao vidro de plástico, viu mais embarcações, uma série de barcos, e lembrou-se de que lera num dos seus guias que o Aeroporto Internacional de Toulon ficava em Hyères.

Pela primeira vez sentiu algo parecido com o ambiente de férias.

- Vai estar alguém à sua espera no aeroporto, senhor doutor... - explicara-lhe Laura Faber no seu tom inconfundível de governanta.

Muito bem, no aeroporto. Mas onde?

O avião aterrou, rolou na pista e finalmente parou. Os cintos deram um estalido, as pessoas levantaram-se e abriram as portinholas dos depósitos das malas de bordo.

Stefan permaneceu sentado.

Lá à frente já estavam a abrir a porta. Foi o último a levantar-se e a pôr-se na fila. A seguir viu e sentiu o que esperava.

Um céu transparente e azul e o ar do Mediterrâneo. Pelo menos Stefan julgava estar a cheirá-lo por entre o pivete a querosene, o cheiro a mar e a sargaço. E calor, tanto calor...

Foi andando sobre as lajes quentes de cimento atrás dos outros passageiros. Como é que as coisas se iriam desenrolar? Paço?, pensou. Onde estaria metido o tal Paço Ferret? E como era possível que Laura Faber não lhe tivesse feito uma descrição do homem?

Stefan empurrou o carro da bagagem em direcção à saída, deu exactamente quatro passos quando sentiu uma mão pousar-lhe no ombro.

Voltou-se devagar e teve uma certa dificuldade em tornar a fechar a boca.

- O senhor!

- Quem havia de ser?

- Disseram-me... Quero dizer, disseram-me que era um piloto que me vinha buscar.

Stefan sentiu-se completamente idiota, à procura de palavras, mas era Lindner! Lindner em pessoa. E que Lindner! Um tipo alto e muito bronzeado, que se aproximava a sorrir.

- Quase não o reconhecia... - balbuciou Stefan.

- Por causa da corzinha na cara?

Não era só a cara. O sol parecia ter-lhe aclarado os cabelos, conferindo-lhe um tom louro-acinzentado, e, sob os cabelos compridos, a cara escura e umas sobrancelhas claras. Em vez de um fato elegante, vestia uma T-shirt bastante desleixada, descosida no ombro esquerdo e uns calções desbotados pelo sol que contrastavam com umas pernas compridas e bronzeadas, e nos pés umas chinelas japonesas baratas, de borracha.

- Cá estamos nós outra vez, Stefan! Pelo menos conseguiu. Deixemos a comemoração para mais tarde. Venha daí.

Lindner dirigiu-se para uma das portas.

- Por aqui, por favor.

A porta dava para a zona de descolagem e encontrava-se fechada. Um dos dois funcionários que estavam de serviço ao tapete rolante das malas aproximou-se, bateu a pala, acenou a Stefan a sorrir e abriu a porta.

- Está tudo a funcionar muito bem. - Bergmann parecia impressionado.

- Está, não está?

Um transporte motorizado com três rodas para as malas esperava por eles. Lindner colocou a mala lá em cima, fez um gesto com o dedo que devia querer dizer que Stefan se podia sentar ao lado da mala, e subiu para o único lugar existente atrás do volante.

Na primeira parte da zona delimitada, reservada a aviões privados, Stefan conseguiu distinguir o helicóptero ao longe. A elegante máquina em forma de libelinha era de um verde muito escuro. Stefan lembrou-se do Jaguar destruído no bosque. Era da mesma cor.

Lindner parou, saltou do assento e pegou na mala de Bergmann.

- Isto é serviço a mais, senhor Lindner - disse Stefan, impedindo-o.

- Aqui, trate-me por Thomas, okay?

- Okay. Mas eu consigo levar isto sozinho. Meu Deus... - Stefan olhava espantado para o helicóptero. Parece um brinquedo!

- É um instrumento de trabalho, caro senhor. E um instrumento extremamente útil. Sobretudo durante o Verão. De Hyères até Sainte-Maxime as estradas estão todas entupidas com turistas. Já vai ter ocasião de ver... Até Saint-Michel, onde moro, são cinquenta quilómetros. De carro, podíamos demorar duas horas... mas, assim, é um pulo.

- Fantástico.

Lindner encolheu os ombros. A sensação de estar a viver algo totalmente irreal invadiu Stefan, sobretudo quando se sentou no helicóptero ao lado de Lindner, que carregou nuns botões quaisquer e accionou uma pequena alavanca. A seguir o helicóptero começou a tremer e a uivar e descolou da pista, em direcção ao céu.

Voaram sobre o mar, por vezes num voo tão baixo que o vento descendente dos rotores do helicóptero transformava o padrão regular das ondas num círculo.

Thomas Lindner movia ininterruptamente o braço esquerdo, apontava de um lado para o outro, mas Bergmann não percebia quase nada do que ele dizia. O cantar sibilante da turbina arrastava as palavras consigo.

- Cavalaire-sur-Mer.

Stefan conhecia aquele lugar através do mapa. Viu uma praia enorme, viu hotéis e a mancha colorida de pessoas na praia, viu filas de carros que se debatiam com esforço por avançar ao longo da costa, barcos à vela, barcos a motor que puxavam esquiadores aquáticos e curvas brancas de espuma recortadas no azul do mar.

À esquerda estendia-se uma cordilheira cinzenta envolta em neblina.

- Lê Massif dês Maures! - Lindner berrava agora com regularidade. - E ali à frente, aquela língua de terra, é Port Lês Fleurs.

- O quê?

- Port Lês Fleurs! O meu porto! Ali na colina vai ser construída uma cidade inteira. Aquela meia ilha pertence-me. Comprei-a!

Lindner voltou-se para Bergmann. Os seus dentes brancos reluziam.

O helicóptero descreveu uma curva.

A língua de terra transformou-se numa sombra cinzento-escura onde surgiram casas, e a seguir duas colinas. Avistavam-se vivendas. As piscinas reflectiam uma luz azul-clara.

-- Veja, a casa que está mesmo por baixo de nós, Stefan, é agora a sua casa: a Villa Wilkinson.

Viam-se árvores, telhados, uma piscina, a seguir uma segunda, uma terceira. O terreno no cume da colina era gigantesco.

Aterraram.

Stefan Bergmann parecia ter aberto uma daquelas revistas elegantes com impressão lustrosa que existem em qualquer hotel ou sala de espera e onde os ricos deste mundo exibem as suas residências: luxo em formato grande...

Uma ala de ciprestes, estátuas brancas de deuses, colunas gregas ainda mais imponentes a suportarem o terraço da casa principal. E flores para onde quer que se olhasse: hibiscos, aloendros, buganvílias, canteiros de rosas e relvados muito bem aparados. Bergmann viu os repuxos, os edifícios anexos tapados pelas latadas e, claro, o mosaico do chão das piscinas, como se aquela baía resplandecente e enorme não fosse suficiente.

Sentia o estômago ligeiramente comprimido devido ao voo picado repentino com que Lindner aterrara o aparelho na pista ao lado da casa.

À sua frente estava um homem esplêndido, magro, muito bronzeado, com umas calças e uma camisa de caqui, e a seu lado um segundo homem, vestido com um fato-macaco de mecânico. No entanto, foi o próprio Lindner quem descarregou a mala de Stefan.

- Este aqui é o Fernand, o responsável pelo meu gafanhoto - disse Lindner apresentando o mecânico. - E aqui temos o Paço, Paço Ferret. De um modo geral, é ele quem sobrevoa a costa. Repare na cara dele, Stefan. Sempre que conduzo o pássaro, ri-se com este ar trocista. No entanto, guio muito melhor que ele.

O homem piscou o olho direito.

- Infelizmente não fala alemão. Mas fala inglês, espanhol e francês.

- Bonjour. - Bergmann estendeu a mão a Paço e acrescentou: - Buenas tardes. Não me faço entender tão bem com o meu inglês...

Que não tinha importância, disse Paço, desejando a monsieur le docteur uma boa estadia. Que o Sr. Lindner não falara noutra coisa durante o dia, a não ser naquele momento.

Stefan não conseguia articular uma palavra. Estava impressionado.

- Cala o bico, Paço - disse Lindner a rir.

O mecânico levou a mala e entregou-a ao empregado seguinte que, além de umas calças pretas, vestia um colete às riscas. Mais à frente estavam umas raparigas de avental branco. Pessoal em série, pensou Bergmann.

A sua perplexidade aumentava.

Deitou uma olhadela ao casarão e, como se Lindner lhe tivesse lido os pensamentos, este disse imediatamente:

- Caso estivesse à espera que a Maria se encontrasse entre o comité de recepção, Stefan, lamento ter de o desiludir. A minha mulher não está em casa. Vemo-la mais tarde.

O que é que lhe poderia responder? Bergmann assentiu com a cabeça.

Lindner deu-lhe o braço e conduziu-o à balaustrada, de onde se via a encosta até lá abaixo ao mar. O empregado com o colete às riscas trouxe uma bandeja com duas taças e uma garrafa de champanhe. Abriu a garrafa e serviu o champanhe.

Lindner olhava para Bergmann.

- É bom tê-lo cá. Ergueu a taça.

Stefan teve subitamente a sensação de estar dentro de um filme. Aquele sorriso tão caloroso, o som das taças a tocarem uma na outra... tudo aquilo com um cenário incrível por trás. Talvez não seja um filme especialmente bom, pensou Bergmann. Demasiado kitsch, mas avassalador.

- Não vou repetir o que já lhe disse em Burgach. Só lhe quero dizer que estou verdadeiramente contente por ter vindo, Stefan.

Bergmann assentiu.

Se isto estiver a ser representado, pensou, o Lindner representa mesmo bem. Não admira que estejas comovido com todo este espectáculo! Para evitar o olhar de Lindner voltou-se e olhou novamente na direcção da língua de terra. Do mar até ao topo da colina estendia-se um enorme terreno já arroteado. Stefan detectou uma grande mancha preta na orla superior.

- Houve ali um incêndio? - Fez a pergunta apenas para não ficar calado.

Lindner anuiu com a cabeça. O sorriso desaparecera.

- Há oito dias. Havia ali uma casa. O pobre diabo, o proprietário, andou a brincar com garrafas de gás butano. Ou, então, estavam estragadas. De qualquer forma, as garrafas foram pelos ares, e ele também.

Ergueu a taça e bebeu o resto do champanhe.

Stefan levara o telefone sem fios para o terraço. O céu estava de um azul francamente triunfante e a paisagem era encantadora. Todos aqueles telhados provençais, os muros de pedra castanha que circundavam os jardins, as piscinas, as flores...

Tinha deixado o relógio de pulso no balneário. Imaginou que horas seriam. Às catorze a aterragem em Toulon, às catorze e vinte a segunda aterragem, no relvado por detrás da Villa Wilkinson... Como um ministro, pensou. Quem é que vai acreditar em mim?

A seguir o mordomo, ou o criado de Lindner, um jovem francês, a quem Lindner tratava por Ronny, serviu o almoço no terraço. Lindner devorou metade do seu peixe, deixou a outra metade no prato e levantou-se.

- Está em sua casa, Stefan. Uma casa um pouco desgovernada, infelizmente. Tenho de sair outra vez. O Ronny mostra-lhe tudo...

E a seguir partiu apressadamente, mas não foi no helicóptero que pousava ainda imóvel no relvado, foi num Land Rover verde-escuro... em direcção às obras de Port Lês Fleurs.

A Villa Wilkinson tinha três casas para os hóspedes. Estavam repartidas entre os oleandros, os hibiscos, a alfazetta, os arbustos de alecrim e terraços em três níveis. Ronny foi à frente com a mala de Stefan, empurrou uma das portas e indicou o caminho lá para fora.

- Esta é a sua piscina privativa, monsieur. Um bocadinho mais pequena do que a da casa principal, mas tem um dispositivo de contracorrente, de modo a permitir que se consiga nadar lá dentro!

- Muito bem...

- E o bar-garrafeira está cheio. O frigorífico da cozinha não, mas o senhor vai tomar as refeições com monsieur.

Quando contar isto à Christa!, pensou Stefan. Estendeu uma nota de duzentos francos a Ronny, que continuou a sorrir, erguendo a sobrancelha direita.

- Não, monsieur. De maneira nenhuma. O senhor é nosso convidado...

Embaraçante... Pelos vistos Lindner pagava bem aos empregados.

Stefan verificava a altura do sol tentando controlar as horas, desde que chegara. Deviam ser cerca de três horas e meia da tarde, calculou ele.

Marcou o indicativo da Alemanha, que encontrara num cartãozinho de plástico ao lado do telefone, e a seguir marcou o número de Burgach.

Ouviu o sinal de chamar. A seguir um estalido. Alguém atendera.

- Christa? - gritou Stefan.

- Senhor doutor? - Era Marga. - Chegou bem? O avião abanou muito? Como é que está o tempo?

- Muito sol. Pode chamar a minha mulher...

- Credo! Sol! E aqui a chover a potes. Eu já há muito tempo que era para sair, mas não me atrevi. Se não, já tinha fechado tudo. Mas já encerrei a casa.

- A casa? E a minha mulher?

- Ela saiu há duas horas. O senhor Kunze levou-a a Fulda, ao comboio que vai para Hanôver. Ela disse que a iam lá buscar e que a levavam para o moinho.

- Para o moinho? Então, foi-se embora?

Stefan sentara-se no muro de pedra e olhava na direcção 140 jnar. Dois barcos a motor descreviam arcos vincados na água. Okay, muito bem. Era precisamente a reacção que esperava de Christa. Mas porque não teria levado o carro? porque está estacionado no parque do aeroporto de Frankfurt, idiota. É óbvio que aquilo irritara ainda mais Christa. portanto, fizera a mala e fora-se embora... dois dias mais cedo do que planeara.

- Senhor doutor?

- Sim, Marga, está bem. Feche tudo e vá ver outra vez as rosas.

- As rosas? Não precisam de ser regadas. Com esta chuva! Boas férias, senhor doutor. As melhoras...

Voltou a olhar para a longa praia em curva. Os pontos coloridos eram guarda-sóis, os escuros, pessoas. Banhistas, turistas a gozar férias.

As melhoras, senhor doutor...

Christa esperara pelo seu telefonema, Stefan tinha a certeza. Estava a querer transmitir uma mensagem com aquele desaparecimento repentino: Não preciso de ti, meu querido, era a mensagem. Vai em paz para a Cote d’Azur, para o teu Lindner, que eu também me vou divertir sem ti.

Sorriu. Teimosa como sempre, a rapariga! E tu também. Pois claro, quando chegar ao moinho vai-me amaldiçoar... e em família vai ser ainda melhor.

Levantou-se, entrou em casa e atravessou o salão, o seu salão! «Estás como se estivesses em casa, Stefan...» O «tu» também fazia parte do estilo de Lindner, como um brilho efusivo permanente. Okay, Thomas, disse Stefan para si Próprio. Cheguei...

Vestiu o calção de banho e um roupão leve com as iniciais SB, feito especialmente para si. Um bocadinho exagerado. Mas porque não?

Bergmann dirigiu-se ao bar-garrafeira, tirou uma garrafa de Bacardi, pegou num copo, encheu-o até meio com gelo e serviu-se de rum. A seguir foi para o terraço e ergueu o copo diante do céu azul. Santé... Salud...

Que sensação!

O rés-do-chão da Villa Wilkinson ficava sob uma penumbra agradável. O grande terraço estava protegido do sol por uma pérgula. Era quase do tamanho de um campo de futebol, embora, devido à encosta, metade do terreno fosse composto por enormes rochedos. Já fora utilizado para fíns comerciais por Louis Wilkinson, o proprietário anterior, um neto do magnata do aço. Wilkinson instalara um telex Grande parte dos documentos relativos aos bens avultados que possuía na Inglaterra, Canadá e França tinham sido guardados ali, e eram geridos por uma secretária. Mas um dia Wilkinson apaixonou-se pelos vinhos franceses, mudou a cave para um depósito num dos sítios mais caros de França, e a secretária e os documentos desapareceram.

Três anos depois Wilkinson morreu com uma cirrose. Os quartos foram remodelados, operários e especialistas em electrónica estabeleceram-se na colina de La Croix, colocaram uma série de cabos e trabalharam durante meses. Foram instalados computadores e emissores de ondas curtas, e lá em cima na encosta uma enorme antena parabólica, que ligava a Villa Wilkinson ao resto do mundo.

Num pequeno compartimento no rés-do-chão estava sentado um homem magro de pele escura. Vestia uma T-shirt branca e umas calças brancas largas, apertadas nos tornozelos, de um tecido fino de algodão. Tinha um tom de pele castanho-claro e baço, os cabelos escuros penteados para trás com gel estavam presos num carrapito na nuca. Parecia um artista, um músico, talvez... No entanto, Jamini Sher nascera em Calcutá, mas estudara electrónica em Aix-La-Chapelle, tirara o curso de Engenharia e era considerado um génio na sua área, o que era verdade.

Nessa altura andava ocupado com uma missão bastante estúpida.

Um dos gravadores que estavam ligados à vivenda com múltiplos microfones começou a trabalhar. A luz vermelha acendera-se. Jamini esperou que se apagasse, carregou na tecla de rebobinar e a seguir, para verificar a qualidade da gravação, reproduziu o som.

O que saiu do altifalante foi uma conversa extremamente fútil: o novo hóspede da casa número um a falar com uma empregada. - Contava-lhe que o tempo na Alemanha estava mau e que a mulher partira em viagem.

Jamini voltou a ligar o automático. Disparates para desgravar, mas ele conhecia o patrão. Na sua terra chamavam Xiva aos patrões - na mitologia hindu, a grande divindade, aquele que tudo destrói, para voltar a dar vida. Podia gostar-se muito de Xiva, por muito terrível que ele fosse, tal como Lindner quando se enfurecia. E o patrão exigia que ele registasse todas as palavras que os convidados trocassem com o mundo exterior. Sim, Xiva era terrível quando se irritava, pensava Jamini com muito respeito.

Saiu do quarto e atravessou a sala com as grandes filas de monitores da instalação de controlo. Os ecrãs eram cinzento-escuros e já não funcionavam. Desde aquela fantochada na Primavera que não eram necessários, quando os manifestantes queimaram pneus de automóvel lá em cima na montanha e nuvens pretas de fumo passaram a rasar a vivenda. A calma regressara...

Ia subir outra vez até à cantina dos empregados e comer qualquer coisa, decidiu Jamini. O seu trabalho no iate só começava à tarde.

Charlie estava sentado no escadote. Tinha colocado um barquinho feito com papel de jornal na cabeça redonda e escanhoada. O barquinho, as mãos de Charlie, a camisa rasgada e as velhas calças do uniforme estavam cobertos com salpicos brancos de cal.

O ar estava insuportavelmente pesado. Tudo cheirava a cal. Do alto do seu escadote, Charlie podia ver através da Janela o monte de trastes que tinham carregado durante toda a manhã para o jardim coberto de urtigas da velha casa: cómodas sem pernas, jarros espatifados, cadeiras partidas, um sofá com a crina de cavalo a sair por fora, malas velhas...

O melhor teria sido queimar os tarecos todos no jardim, mas Fabien não consentiria. Fora de questão! Ao mínimo riscar de fósforo desataria a correr dali para fora.

Charlie Benoít desceu do escadote e olhou em volta. O quarto estava vazio. As latas de tinta também.

- Fabien!

Não obteve resposta. Tentou outra vez, mais alto. Tam bem não resultou.

Finalmente a cabeça da sua amiga Régine assomou à porta.

- Porque estás a gritar? Andava lá fora no jardim

- Não me interessa saber onde estavas.

- O que queres? - Fincou as mãos na cintura.

- Preciso de um bocadinho de tinta. - Deu um pontapé na lata. - Isto é de mais para o Fabien. Parece que anda na lua.

- E anda, Charlie... - Quando Régine o olhava daquela maneira ficava mais brando. Qualquer um ficaria só de olhar para aqueles caracóis selvagens castanhos, para aqueles olhos... para toda a sua figura.

Foi buscar um Gauloise ao parapeito da janela. Régine deu-lhe lume ainda com uma expressão suplicante no rosto. Inalou o fumo.

- Régine, isto assim não faz sentido. Temos de fazer qualquer coisa, temos de tirar o Fabien do buraco onde se enfiou.

- E como?

- Pergunta-me qualquer coisa mais simples! Só sei que não vamos conseguir se estivermos sempre a poupá-lo, se estivermos sempre a dizer: coitado do Fabien! - Charlie deu outro pontapé na lata... - Coitado, coitado do Fabien... E então? O pai morreu, e ninguém pode fazer nada.

- Mas ele nem sequer consegue falar no assunto.

- Chama-se a isso trauma. Um choque emocional, etc., etc... Mas agora temos o catorze de Julho à porta e daqui a seis semanas começa o próximo semestre. O Fabien não fala desde que o pai morreu, balbucia... Muito bem. Mas consegue ouvir e ler.

Colocou-lhe a mão no ombro, mas não se apercebeu de que ela tinha os olhos húmidos.

- Por favor, Régine, o Fabien tem de reagir. É a única coisa que o pode ajudar. E o que é que ele faz? Anda por aí, enquanto eu me esfolo a trabalhar. Isto vai passar a ser a sua casa! Com um ambiente novo, uma actividade nova, pode começar tudo de novo. E o que é isso de andar perturbado? Pode mexer as cores enquanto eu ando em cima do escadote...

Régine fez um gesto brusco.

Charlie olhou para a porta. Lá estava Fabien, com os braços descaídos ao longo do corpo e os olhos esbugalhados.

- Eu... eu... ah...

Charlie não aguentou o seu olhar. Aproximou-se do velho lavatório enferrujado ao canto, abriu a torneira, esfregou a cal das mãos e molhou a cara com água.

Quando se virou novamente para limpar as mãos a um trapo, Régine abraçou-se aos ombros de Fabien e falou-lhe em voz baixa, tentando convencê-lo.

Fabien acenou com a cabeça. A sua cara voltara a adquirir uma expressão mais calma. Ela consegue, pensou Charlie. Repara, ele já fala.

- Não posso ficar aqui - disse Fabien. Falou calmamente, sem gaguejar uma única vez. - Não posso, nem vou. Lamento, mas... tens de compreender, Charlie. As pessoas daqui, esta corja, não consigo olhar para elas.

- Para onde queres ir? Queres ir embora? Fabien abanou energicamente a cabeça.

- Então?

- Quer ir para o Col - disse Régine, apertando-o contra si.

- Para o bosque?

- Sim, para o bosque.

Charlie olhava para os cigarros. Dois anos antes tinham construído lá uma cabana, Fabien e o pai. Pascal tencionava fotografar toda aquela passarada que pairava por ali. ComPrara até uma máquina cara com teleobjectiva e tudo. Custara uma fortuna, o dobro do preço de uma motorizada.

- E então? - perguntou Charlie.

- E então, nada - respondeu Fabien com uma rapidez inesperada.

- Então nada, não. Narbona... a universidade?

- Eu... eu... - A sua cara recomeçou a tremer. Charlie aproximou-se e ofereceu-lhe um cigarro. Fabien inalou uma vez. As suas mãos tremiam, mas estava mais tranquilo. E já sorria - um sorriso superficial estranho, que Charlie não lhe conhecia.

- Ortiz - disse Fabien de repente.

Charlie olhou para ele. Max Ortiz fora professor na escola de Saint-Michel, professor de Ginástica e de Biologia, e tanto Fabien como Charlie gostavam dele, embora Ortiz fosse tido na aldeia, ou antes, em toda a região, como um tipo esquisito. Ortiz fora o primeiro a fazer uma campanha contra o «Projecto», não só por fazer parte dos protectores da natureza do distrito de Cavalaire, mas por estarem os seus próprios interesses em jogo. A casa situada na parte mais baixa do Col, uma bonita casinha antiga com uma vista fantástica para a praia e para as ilhas, fora uma das primeiras a ser vendida aos alemães. No entanto, Ortiz recusara-se a mudar. Quando a polícia voltou finalmente com o oficial de justiça as portas estavam todas barricadas. Mas Ortiz fora com a espingarda para uma janela no primeiro andar...

Mais tarde constava do relatório que Ortiz disparara primeiro contra o oficial de justiça e a seguir contra um dos agentes que tinham querido proteger o oficial. E que o inspecteur Donnet, que respondera ao disparo e matara Max Ortiz com um tiro na cabeça, tinha agido em legítima defesa.

- Uma maldita mentira! - atirara Pascal Lombard à cara das pessoas nos seus comícios. - Uma mentira maldita e infame...

Nunca foi acusado.

O pai de Fabien nunca dissera a ninguém porque estava tão certo daquela acusação: foram as fotografias que tirara de um esconderijo, fotografias onde se via Max Ortiz a entregar-se, e depois a tentar libertar-se das garras do polícia, e o inspecteur a sacar de repente da pistola e a disparar o tiro mortal. As fotografias tinham ardido no incêndio no Col juntamente com a máquina de Pascal e a teleobjectiva.

Fabien voltou a falar.

As palavras saíam-lhe novamente claras, fluentes e sem gaguejar. Era o velho Fabien que falava, devagar, cautelosamente e sem deixar de olhar para o amigo durante um segundo.

- O que foi, Charlie? Tu sabes. Tu sabes tudo. E o teu velho também sabe. Tu contaste-me, Charlie. O teu velho deixou escapar uma observação a esse respeito.

Charlie respirou fundo.

- Uma observação pouco clara!

- Apesar disso, Charlie, foi assim! O Max Ortiz foi morto pelos colegas do teu pai.

Fabien dirigiu-se ao pequeno vestíbulo onde tinha deixado a mochila. Régine e Charlie seguiam-no com os olhos, em silêncio. Baixou-se e prendeu as correias da mochila ao ombro esquerdo.

- Vou-me embora...

- Para o Col?

Fabien olhou de relance para Charlie, voltou-se e saiu de casa.

Stefan sentiu a vibração silenciosa do pesado motor a diesel atrás de si. Ali estava ele no tombadilho, com as pernas estendidas, a pele quente do sol, nada em cima do corpo a não ser um calção de banho, procurando convencer-se de que tudo aquilo não só era maravilhoso, como completamente normal. Tal como ele havia milhares de pessoas naquela tarde a andar de barco no Mediterrâneo.

Lá ao fundo as casas no sopé da encosta e todos os barcos de recreio no porto... Devia ser Saint-Tropez. E mais a leste? Era com certeza Sainte-Maxime...

Uma sombra encobriu o sol.

Stefan abriu os olhos: Lindner. Não tinha dito que ia buscar a mulher e uns colegas de negócios a Saint-Tropez? Lindner parecia não ligar muito a grandes formalidades. A T-shirt continuava descosida e além disso vestia as mestas calças de ganga rasgadas nos joelhos. Só faltavam as chinelas. Estava descalço... descalço e bem-disposto.

Agachou-se ao lado de Stefan e sorriu-lhe com um ar trocista.

- Como vai isso, sócio?

- Muito bem. Estou a tentar convencer-me de que isto não é um filme. Mas não estou a ser muito bem-sucedido

- Não te canses, Stefan. - Lindner pousou-lhe a mão no ombro. - E fíquemo-nos pelo «tu». O eterno «você» é-me adverso relativamente às pessoas de quem gosto e além disso, somos da mesma cepa. Estás a beber alguma coisa?

Stefan olhou para o copo de gim-tónico que lhe trouxera o rapaz a quem chamavam «mozo».

Lindner tinha um copo na mão. Ergueu-o.

- Ao bem-estar, Stefan! Este sorriu.

- Limonada? Por causa dos colegas?

- Mais um programa. Dois russos. A Maria, coitada, teve de lhes ir mostrar Saint-Tropez. Vai-me rogar pragas e elogiá-lo a si. A economia é como a política: a arte de representar é fundamental. Não! - Riu-se baixinho. - Fundamental é quem representa.

Stefan calara-se. O que havia a acrescentar? O seu novo amigo Thomas deixava os comentários à sua própria consideração. Estava naquele momento com o telemóvel na mão a falar com alguém. Olhava em direcção à ponte de comando do iate. Pelos vistos falava com o capitão, pois o ribombar silencioso do motor aumentou de repente de volume, e o Maria II deu um verdadeiro salto para a frente.

Stefan Bergmann tentou levantar-se, mas o tombadilho tinha-se transformado numa pista inclinada e perigosa, e teria caído se Lindner não o tivesse segurado. Stefan agarrou-se ao escaler.

- Combinámos estar às quatro da tarde no porto, Stefan. - Lindner puxou a fita de cabelo mais para baixo, para que os cabelos não esvoaçassem tanto. - E quero mostrar a esses russos o que significa a pontualidade alemã. Stefan pensou no comissário Warnke e na sua segunda visita, em companhia do conselheiro criminal: «Muito dinheiro proveniente de fontes totalmente obscuras.» Tinha de puxar aquele assunto. Naquele momento! Ainda não tivera oportunidade...

- Thomas, neste iate que começou de repente a navegar desenfreadamente, não existirá um canto sossegado? Gostaria de lhe...

- De te, meu caro.

- Muito bem, gostaria de te falar acerca de um assunto.

- Importante?

- É precisamente isso: se eu soubesse... Tenho o pressentimento de que é importante.

Entraram no salão do iate. O grande quadro iluminado por uma luz indirecta azul na parede da frente chamou imediatamente a atenção de Stefan. Era um quadro de uma mulher meio nua, pintado não só com espontaneidade e ousadia, como também com uma qualidade impressionante. O mais interessante era que a mulher com os seios descobertos era Maria, a mulher de Lindner. Todo aquele mobiliário luxuoso de madeira boa, latão e couro parecia apenas estar a servir de moldura ao quadro.

Lindner puxou a porta e foi para o bar.

- E então?

- Tive visitas - respondeu Bergmann. - Em Burgach. E não foram umas visitas especialmente agradáveis.

Lindner olhava para ele, enquanto Stefan falava. Os seus olhos sorriam, e foi precisamente isso que começou a irritar Bergmann: aquela calma permanente.

- Geriste isso muito bem, Stefan.

- Como assim? O que queres dizer com isso? A verdade é que menti à polícia.

- E estás preocupado?

- Fazes cada pergunta!

Lindner tirou um copo do bar, fez girá-lo pelo pé e olhou absorto para a luz que se reflectia no cálice.

- Há muito que me afastei desse tipo de situações.

- Ah, sim? Então serve-me uma pinga de gim, e explica-me o que queres dizer com isso.

Lindner deixou cair cubos de gelo do congelador automático no copo e agitou-os.

- Vou explicar-te. Habituei-me a analisar as coisas. Por exemplo, a polícia. O que é a polícia? Um grupo de pessoas que não querem bater com a cabeça uns nos outros, que precisam de determinadas regras, de uma constituição, de leis... e, claro, de pessoas que mudem tudo e que controlem a mudança. Isto é uma coisa...

Stefan sentia a testa quente. Bebera demasiado naquela tarde.

- E a outra?

- Um grupo no entanto é composto por vários indivíduos, Stefan. E não são todos iguais, como os cubos de gelo que saem deste congelador automático, por exemplo. Podia estabelecer-se assim uma espécie de fórmula: quanto mais diferentes, mais inteligentes. Mais diferença em contrapartida significa, no caso de um indivíduo, reclamar uma grande quantidade de liberdade. Podia dizer-se também que por trás se esconde uma pergunta pessoal.

- Ah... - disse Bergmann. - Um polícia criminal também pode...

- Isso é uma visão muito simplista, Stefan. - Lindner fez um gesto de desprezo. - Não pensemos nesses termos. Vejamos a situação em geral: a economia superou a política. Nós, os da economia, somos os únicos que organizamos um mundo novo. A economia em si tem qualquer coisa de anárquico. O dinheiro dificilmente se deixa dominar, procura sempre os seus próprios caminhos; pode até vir da selva... por vezes. No entanto, mantém-se a força que promove os valores e o trabalho...

Stefan engoliu o gim. O calor subiu-lhe do estômago à testa.

- Se calhar é uma nova filosofia, Thomas. Mas, neste contexto, não me interessa. Eu vejo as coisas de uma forma mais simples. Estou aqui sentado no teu iate, acabei de chegar, sou teu convidado, isto é um sítio único, sinto-me maravilhosamente bem, e continuarei aqui de bom grado. Mas também tenho consciência de que este tema não será o tema do dia. No entanto...

- No entanto... o quê? Fala! Comigo podes falar acerca de tudo. E quanto mais abertamente, melhor. É também o teu estilo.

Chama-se a isso bom senso, Thomas. E ele diz-me e porventura menti à polícia para encobrir uma história que, segundo a tua teoria dos cubos de gelo, está totalmente certa, mas que pode interessar aos tribunais. E o que quer isso dizer? Quer dizer: o Stefan Bergmann também está metido nisto.

-- Contaste à tua mulher a conversa que tiveste com os polícias?

- Não. Naturalmente que não.

- Natural é que não é. - Lindner sorria. - Eu conto tudo à Maria... Mas está bem, relativamente à tua pergunta: já uma vez te disse em Burgach que era complicado explicar tudo, e não era um subterfúgio. Esta é a pura verdade.

Olhou de relance através de uma das janelas do salão. Acosta estava próxima.

- É assim, e como médico não podes perceber que projectos como o de Port Lês Fleurs pressupõem métodos financeiros muito volumosos, complicados e morosos. O investimento é enorme. Os fundos que pus à disposição não chegam. Além disso o projecto de urbanização está constantemente a sofrer alterações. A maior parte dos projectos que nos enviam podia ir imediatamente para a fogueira, nunca estão certos. Existem sempre situações imprevisíveis. Acontece o mesmo com os projectos de construção. Ninguém pode financiar uma coisa destas do seu próprio bolso. E os bancos são aquilo que sempre foram: uns agiotas. Conheço-os muito bem: afinal de contas, também sou banqueiro. E então, o que é que se faz? Procura-se um sócio. E agora chegámos à grande questão: a única coisa que havia naquela pasta eram as actas das reuniões dos sócios.

- Sócios russos? Lindner riu-se.

- Em parte, sim. E vais conhecer o mais importante. Chama-se Borodin e bebe muito. Portanto, tem cuidado com o gim...

Saiu do bar e colocou o braço direito no ombro de Stefan.

- Acredita em mim, Stefan, não te meti em maus lençóis: eu gosto de ti. E estou-te reconhecido. Mas basta, deixemo-nos disso agora... De qualquer modo juro-te que não existem mistérios obscuros. Vou mostrar-te tudo o que te possa interessar, a obra, os projectos, vais conhecer os meus sócios. Ou queres que te faça um relatório? És demasiado inteligente para te estar a aborrecer com isso. Imagina tu está bem?

- Tudo bem.

- Quanto tempo vais cá ficar?

- Tinha pensado numa semana.

- Só? Queria fazer-te uma proposta. Fica mais tempo, A proa do iate aproximou-se da margem. Um molhe castanho-acinzentado sobressaía da água e mais à esquerda ficava a marina. Os barcos deviam estar colados uns aos outros, pois formavam uma floresta de mastros sobre o elevado muro que protegia o porto do mar. A estrada do porto era orlada por casas antigas, cujos toldos formavam manchas coloridas. Fervilhava de gente por toda a parte. Saint-Tropez. Lindner deu um encontrão a Stefan.

- Vais ficar mais tempo, aviso-te. O que vais fazer para Burgach? Pensa nisso, Stefan!

E o outro Stefan que havia em Bergmann, o observador racional, o psicólogo, devolveu-lhe o sorriso. O teu novo amigo Thomas não te acabou de explicar que a arte de representar é fundamental? O que tens contra um actor tão dotado como ele? Caso o seja... Pelo menos os seus sentimentos parecem bater certo. Mais do que isso, são autênticos e... admite... avassaladores.

Ocorreu ainda outra coisa a Stefan.

- Já não pensas no que te aconteceu?

- No meu acidente no bosque?

- Com o teu condutor.

O sorriso de Lindner desapareceu.

- A vida é perigosa a partir do momento em que nascemos. Para todos, Stefan, para todos...

Numa quinta-feira à hora do almoço, Régine levou no Colno do tio tudo o que Fabien precisava para sobreviver: garrafas de água, vinho, pão, queijo, tomate e massa, e ainda um cacho de bananas e umas tabletes de chocolate-

Régine descarregou tudo na vereda do bosque e desceu com os víveres através dos arbustos de amoras silvestres e das alfazemas, até à cabana. A palavra «cabana» era uma hipérbole, pois no fundo tratava-se de uma gruta funda de arenito. Pascal, o pai de Fabien descobrira-a há alguns anos e escolhera aquele local para observar os seus animais. Há dois anos, com a ajuda do filho, acrescentara-lhe uma espécie de alpendre fechado, feito com blocos de cimento, suficientemente alto para colocar um tripé e conseguir fotografar. O alpendre fora coberto com um telhado de chapa ondulada, e tinham-lhe aberto uma janela e uma porta. A mobília era constituída por duas cadeiras periclitantes, uma secretária e um candeeiro a petróleo. A cama, um colchão assente numa armação em ferro, ficava dentro da gruta.

Fabien dormiu pela primeira vez na gruta na quinta-feira. Régine quis aguentar-se corajosamente com ele, mas Fabien mandou-a para casa. A gruta era muito apertada.

Na manhã seguinte começou o trabalho. Com o machado reduziu ramos a paus de cinquenta centímetros de comprimento, com os quais parcelou o terreno incendiado, a ruína, o último muro, o que restava da mobília e o barrote carbonizado, numa espécie de padrão geométrico de tabuleiro de xadrez. Cada quadrado media cinco metros por cinco.

As ferramentas de trabalho de Fabien eram um ancinho e uma pá. Tinha de proceder metodicamente, examinar cada quadrado de terreno, revolver as cinzas, analisar cada pedaÇo de madeira queimada.

A meta de Fabien era uma caixa de metal.

A caixa fora fabricada em Inglaterra, um presente de uma prima para a sua mãe. Tinha um torneio medieval estampado e, quando chegara há muitos anos a Saint-Michel, estava cheia de chá de Ceilão.

Fabien calculou que iria precisar de quatro ou cinco dias, provavelmente de uma semana. Mesmo havendo poucas hipóteses de o conteúdo da caixa ter escapado àquele incêndio infernal, o que ele achava pouco provável, tinha de tentar.

O vento que se fizera sentir na quinta-feira abrandara. Quando Fabien começou o seu trabalho, já estava mais calmo. Trabalhava quase nu, apenas tendo vestido um calção de banho coberto de fuligem. Quase não havia água no Col. A pequena fonte que abastecera a casa no Verão e na Primavera anteriores ficara coberta de escombros e secara com o calor, o cano de cobre estava fundido e irreconhecível, e, quando Fabien regressou ao fim da tarde à gruta, a sua pele emanava o cheiro amargo e penetrante do incêndio.

Sexta-feira de manhãzinha não aguentou mais. Os trabalhadores na encosta, todos aqueles betoneiros, pedreiros, especialistas em escavações e condutores de camiões de Port Lês Fleurs arregalaram os olhos e pousaram as ferramentas quando viram surgir das moitas um jovem quase nu, com a cara e o corpo cobertos de fuligem, um lenço vermelho atado à cabeça, passar precipitadamente à frente deles, descer a colina até à costa com um olhar feroz e atirar-se ao mar. Na tarde do terceiro dia Fabien já tinha inspeccionado quinze quadrados de terreno.

No dia seguinte o vento abrandou completamente e veio o sol. E com o sol, o calor. Limpou o suor dos poros tapados e traçou riscos profundos e claros sobre a camada de fuligem e cinzas que tinha em cima da pele.

Desde manhã que lhe doíam os ossos e os músculos; sentia a boca tão seca que quis desistir... No entanto, fez uma descoberta na ponta a noroeste do terreno. Fabien colocou imediatamente o ancinho de parte, ajoelhou-se, e as suas mãos começaram a remexer a camada de terra fragmentada e manchada de branco. Aqui? Sim!

As pontas dos seus dedos reconheceram um pedaço de metal pelo tacto.

Uma forma rectangular.

Sentiu nitidamente os seus cantos: devia ser a tampa de uma caixa de metal. Com as costas da mão limpou o suor dos olhos a arder.

Escavou mais fundo, removeu a terra... e pegou numa caixa rectangular escurecida pelo fogo com cerca de trinta centímetros de comprimento. Fabien olhou à sua volta. Costumava estar no canto da casa onde se encontrava outrora a estante de Pascal.

Fabien removeu a camada espessa de sujidade com cuidado, com muito cuidado. O metal parecia estranhamente liso ao toque, mas provavelmente o fogo destruíra a gravura.

Viu restos de cor. Eram verde-escuros. A caixa que procurava era castanho-dourada.

Fabien não a abriu. Já sabia o que o pai lá guardava: o material de costura e os novelos de lã com que remendava os pulôveres nas longas noites de Inverno.

Fabien deixou cair a caixa.

Curvou os ombros, um tremor percorreu-lhe o corpo; ficou sentado, com os joelhos puxados para si no meio do cheiro a cinzas, isolado na sua solidão, de olhos fechados. As lágrimas escorriam-lhe por baixo das pálpebras traçando sulcos claros na sua cara suja.

E da encosta vinha o ribombar das máquinas.

Pousou a mão direita nas cinzas quentes, afundou-a, e os seus dedos fecharam-se à volta de uma forma oval dura. Fabien levantou-se. Era um osso de caveira pequeno e branco. Os buracos, que já tinham sido olhos, fitavam-no.

O crânio de um gato.

- Néro - murmurou Fabien. - Oh, meu Deus! Não pode ser.

O barulho lá em baixo aumentava de volume.

Não iam conseguir chegar senão às quatro e meia, e no porto de Saint-Tropez não havia ancoradouros, por isso o escaler tinha de ser lançado à água.

Stefan reparou como o barco azul a motor se lançava a toda a pressa na direcção do pequeno grupo de pessoas que se tinham juntado no molhe: uma mulher e quatro homens. A mulher era Maria Lindner. Vestia umas calças azul-escuras e uma camisa branca. As caras não se distinguiam à distância: Bergmann só viu que Maria Lindner segurava um grande chapéu de palha com a mão esquerda e que entre os homens se encontrava um que sobressaía dos outros. Por fim, o grupo subiu para o escaler.

Stefan aproximou-se de Lindner, que descia a pequena escada de alumínio, por onde os recém-chegados entrariam a bordo.

O barco aproximou-se, descreveu uma curva, a água salpicou, reluzente, uma corda estalou no convés, o motor abrandou e o som extinguiu-se.

Stefan debruçou-se para a frente e estendeu o braço Maria Lindner agarrou-lhe na mão e o seu olhar encontrou o dele por debaixo da aba do chapéu.

- Ah, aqui está, doutor!

- Sim, aqui estou.

Um sorriso breve e indiferente, não fosse aquele olhar... Stefan puxou-a para bordo.

De repente ficou contente com a presença dos outros convidados.

- Stefan! Este é o Jean Amoros - apresentou Lindner. O homem magro e elegante à sua frente vestia um fato

de linho branco impecavelmente engomado e usava uns óculos com umas lentes pretas apoiados a um nariz fino e adunco que lhe conferia um certo olhar de coruja.

- E este aqui é o meu novo médico de bordo, o doutor Stefan Bergmann, importado directamente da Alemanha. Tens de ter cuidado com cada palavra que dizes ao Jean. Vira-as imediatamente contra ti... E não é só isso: é garantido que as reproduz falsamente de frente para trás. O Jean é o acrobata de frases mais perigoso de toda a Cote d’Azur.

Falou em francês, e Amoros esboçou um grande sorriso. Parecia ter gostado dele.

- E agora, Stefan, com um calibre ainda maior... os russos. Este é o meu amigo Borodin, Boris Borodin! E o outro, que parece um estudante, Oleg Iljinsky, seu assistente. Mais um advogado. Podiam fundar uma liga.

O russo descorado e louro-claro que Lindner apresentara como Oleg acenou com a cabeça. Tinha uma daquelas caras que se esquecem imediatamente. Mas Borodin...

O abraço daqueles dois homens tinha qualquer coisa àssaz exótico: Borodin agarrou-se a Lindner com uns braços musculados e peludos; da cintura para cima vestia apenas um casaco tártaro bordado a dourado. As suas pernas curtas e robustas estavam enfiadas nuns calções largos brancos, até aos joelhos. Um sapato, o esquerdo, uma peça pecaminosamente cara, de pele de antílope bordada à mão, perdera-o com o abraço caloroso. Em compensação, Lindner teve de se debruçar todo para a frente, para receber o beijo repenicado do sócio.

- Este é pela tua mulher! - gritou Borodin. Um matagal de barba envolvia-lhe o pescoço. - A Maria é incrível! Não a mereces. Se não fosses meu amigo, roubava-ta. E este pelo restaurante. O tipo era impecável. Sem ti ter-me-ia perdido nesta maldita aldeiazeca.

Borodin endireitou-se novamente, lambeu o lábio inferior, e o terceiro russo surgiu atrás dele como uma imponente fachada cinzenta, enorme, de cabeça completamente rapada, mudo como um rochedo. O fato do casaco bastante largo abaulava-se, e não largava o molhe de vista: era provavelmente o guarda-costas.

- O famoso doutor? - Borodin passara o seu olhar rápido de doninha por Stefan, e a pergunta surgiu num alemão quase sem sotaque. - Aqui o meu amigo cowboy... Sabe porque é que o trato por cowboy! Porque só tem uma ideia fixa: levar os sócios à morte. Ó Lindner já nos falou tanto de si, que receio que tenha dado para o outro lado!

- Chega! - protestou Lindner.

- Nunca chega, Thomas. Tu não entendes. Tinhas de ser russo, não concordas, Micha?

O gigante com o pescoço de pedra nem pestanejou. Borodin apertou a mão de Stefan.

- Os amigos dos meus amigos, meus amigos são. Como vai o salva-vidas?

- Salva-vidas porquê? Por favor.

- Também é modesto? O primeiro homem modesto nas imediações do Thomas Lindner!

Borodin deu o braço a Stefan.

- Venha daí. Nós aqui somos convidados, temos de nos manter unidos. Deve haver qualquer coisa para beber nesta barca reles, não?

Tinham chegado à popa, um Stefan bastante confuso e um Boris Borodin que continuava a falar ininterruptamente como se tivesse de entreter uma plateia.

Stefan observava pelo canto do olho a cara resignada de Maria Lindner.

- Maria! Não olhes assim! O teu café no porto, minha Nossa Senhora, como estou contente de ter conseguido sair de lá. Só água mineral. Imagine, doutor, água mineral! Depois de uma refeição!

- Já tinhas bebido bastante.

- Bastante? - Borodin lançou um olhar lânguido a Maria. - Por mais que me lance a teus pés, por mais que te adore, essa palavra não consta do meu dicionário. Não me serviu uma taça de champanhe, uma única. Queria oferecer-te uma coisa totalmente diferente: eu próprio. Mas acompanhado de duas raparigas irresistíveis...

- Tu chegas-me...

Que estava a ver mal, assegurou Boris Borodin. Abriu os braços e com as mãos desenhava curvas no ar.

- Mulheres de sonho... Uma delas negra, com umas ancas e uma cintura... A outra ruiva. Estavam sentadas numa mesa ao lado, faziam-me olhinhos. Portanto mandei o Micha. Mas assim que se levantou e se aproximou delas, começaram a gritar: «Leve daqui o seu King Kong!» E a seguir...

- E a seguir - terminou Maria Lindner -, decidi tirar o nosso Boris da confusão. A coisa estava a tornar-se perigosa.

- Maria! Digo-te...

Borodin esbracejava. Fê-lo com tanta energia que o iate se inclinou ligeiramente, e o pé direito, o que tinha o sapato calçado, começou a escorregar. Boris Borodin estatelou-se no chão.

Primeiro ficou deitado muito quieto. A seguir saiu um gemido da sua boca. Tentou pôr-se de gatas, manteve a cabeça inclinada, com uma cara que se retorcia com dores. Arranhou as costas com a mão direita, queixou-se em russo.

- Por favor, Boris, o que se passa? - perguntou Lindner, assustado.

Mas não conseguiu perceber, pois Borodin continuava a berrar, mas berrava em russo. Stefan reparou que Maria dizia qualquer coisa ao marido, e que este se voltara para ele.

- A Maria acha que é da ciática.

Stefan assentiu com a cabeça; fora o que pensara. Micha, o guarda-costas, ajoelhou-se ao lado do chefe, mas Borodin repeliu-o, zangado.

Stefan afastou o homem para o lado.

- Maldita ciática! - saiu-lhe em alemão.

- E então? Já lhe tinha acontecido?

Borodin anuiu com a cabeça ao mesmo tempo que mordia os lábios, a gemer.

Bergmann olhou para o guarda-costas.

- Venha, temos de o levar para o salão. - Não sabia sequer se ele o compreendia.

- E agora? - perguntou Lindner. - Trouxeste as tuas seringas? Ou vais-lhe tirar as dores com uma sessão de hipnose?

Devia ser uma piada. Bergmann olhou apenas para ele, e assentiu.

-Achas que consegues?

- Talvez... - respondeu Stefan.

Stefan descobriu através de palpação que os discos vertebrais de Borodin não tinham nada a ver com o ataque. Uma distensão muscular ou do tendão, que lhe comprimia o nervo. O que, em contrapartida, significava que podia funcionar.

Mas que situação! Não se ouvia um único som. Estavam todos instalados como figuras quiméricas nos sofás do salão. À sua frente encontrava-se Borodin que o fitava com olhos esbugalhados e a boca torcida num esgar.

Como no palco!

Só falta o smoking... Bergmann pensou naquilo com uma mistura de fúria e divertimento. Se ao menos tivesses um cravo vermelho enfiado na lapela, acendíamos os projectores e... fanfarra!

Mas o homem à sua frente estava cheio de dores...

- Então? - Stefan sorria. - E agora? Como está?

- Mal.

- Já vai passar...

Alguém despira o disparatado casaco tártaro a Borodin Parecia uma trouxa dourada caída no chão. Esticara completamente a perna esquerda, a que lhe doía. Sentia a barriga vermelha a arder, arqueando-a, acima do cós das calças brancas. Borodin estava todo dobrado em arco em cima do sofá, mas mantinha o olhar preso à cara de Bergmann.

- O que vai fazer agora? - sussurrou, respirando com dificuldade. - O Rasputine também sabia hipnotizar... mas eu não sou a czarina...

- Não precisamos de nenhum Rasputine nem de nenhuma czarina.

- Então?

- De nada, absolutamente nada... Ou seja, preciso dos seus olhos...

- Dos meus olhos? Como assim? Estás sempre a olhar para mim de uma forma tão estranha. Oh, oh, maldito... As pragas em alemão passaram para russo e diminuíram de intensidade, tal como os gemidos. A voz de Borodin era agora uma voz velada.

- Já se sente melhor, não sente? Já não dói nada... Era o que eu lhe dizia, preciso dos seus olhos, Boris... Tem de fazer um esforço. Olhe...

Bergmann verificou que Boris Borodin já sentia dificuldade em fixar a vista num ponto. levantou o polegar direito.

- Está a ver o meu polegar? Olhe para ele.

- Porquê?

- É um bonito polegar. Não custa nada, olhe só para ele...

Borodin fez um esforço.

- E agora, Boris, está a sentir as pálpebras um bocadinho pesadas, não está?

Borodin gemeu baixinho.

- Estamos quase...

Não havia dúvida de que começava a entrar em transe. A primeira pálpebra começou a tremer, agora era a vez da segunda.

- O polegar, Boris!

A voz de Bergmann tornara-se mais potente, a sua tonalidade também se tinha alterado, não havia nada de autoritário naquela voz, parecia a voz de uma pessoa a guiar uma criança na noite.

- As tuas dores não são graves... E como podiam ser? Tu já não estás aqui, Boris, onde tens tantas dores. Foste-te embora, para longe, muito longe... Estás deitado na praia, não na praia de Saint-Tropez, numa praia no mar Negro... Já lá estiveste?

- Não.

Bergmann não se deixou impressionar com a resistência; accionara o primeiro elo da cadeia da imaginação, e iria continuar a conduzi-la sem perigo.

- Estás a sair neste momento do hotel - continuou Stefan a sugerir. - Ainda bem que é de manhã e as pessoas ainda não estenderam todas as toalhas e se refastelaram nas espreguiçadeiras. Não está lá ninguém. Só tu. Não é bom, Boris? Não é tão bom? Agora vais para a água...

Boris Borodin parecia estar verdadeiramente relaxado... e não era só isso. Um sorriso abriu-se-lhe na cara: começou, hesitante, nos cantos da boca, a seguir a sua testa ficou lisa, os músculos relaxaram, e a descontracção apropriou-se de toda a sua cara.

- Estás a ver o mar, Boris? Um vago aceno de cabeça.

- Muito bem. Sentes-te muito bem. E daqui a pouco ainda te vais sentir melhor, daqui a pouco, quando estiveres a nadar... Mas agora vamos sentar-nos. Tu agora estás sentado, Boris, sim, estica-te na areia.

E com efeito Boris Borodin esticou as pernas, sorriu, e a sorrir deixou descair os braços.

Stefan Bergmann pegou-lhe na mão direita e levantou-a.

- Boris, agora vou contar. Estás a ouvir-me? Vou contar de cinco a um... E quando eu chegar ao um, levantas-te de um salto, quando chegar ao um vais sentir-te um jovem Deus... Cinco... quatro... três... dois... um!

Borodin abriu bruscamente os olhos.

- Vamos! Levantar. Tu consegues! Anda, Boris, levanta-te!

Ouviu-se um murmurinho no salão. Mas Borodin continuava a olhar para Bergmann como se estivesse a olhar para um santo, como se estivesse a ver Rasputine, e manteve-se sentado.

Bergmann levantou-se, fincou as mãos na cintura e gritou:

- Eu disse que conseguias, e consegues! Portanto, vamos, levanta-te.

Finalmente o russo deu balanço com as pernas, empurrou o tronco para a frente, estendeu o braço direito, como se estivesse à espera de ajuda, e Bergmann apenas abanou a cabeça. Borodin levantou-se: tinha uma expressão de espanto no rosto e uns olhos grandes e incrédulos. Levantou-se, deu um passo em frente, primeiro com o pé esquerdo, a seguir o segundo passo, abanou a cabeça, começou a rir, levantou os braços, deu uma volta, uma segunda volta, bateu repetidamente com os calcanhares nus no tapete, ainda incrédulo, e a seguir com ambos os pés.

- Não é verdade, não é verdade... - berrou.

- Devagar, devagar, Boris. - Bergmann tentava detê-lo.

- O que é isso de devagar, Rasputine? Eu consigo. Eu consigo.

Lindner entrou com uma taça de champanhe na mão esquerda. Sorria para Borodin.

- Ele consegue... Incrível, Stefan. Verdadeiramente extraordinário.

Estendeu a taça a Stefan, mas este recusou com um aceno de cabeça.

- Então, dá-mo a mim! - gritou Borodin. - A minha cabeça já funciona. Só de pensar no que me espera! Preciso mesmo dela.

Bebeu o champanhe de um gole.

Efectivamente só faltava a fanfarra... Bergmann olhou para o canto onde estava sentada Maria Lindner. Ela fitava-o. Como que encantada.

O tio Fernand levantara-se. era um pouco alto e portanto podiam olhar-se directamente nos olhos.

- Rapariga, tu sabes que eu tenho coração. E também sabes que era amigo do velho Pascal, tão amigo como só se pode ser de alguém como ele. Nunca te disse nada, até começares a andar com o rapaz. Mas tudo tem os seus limites. O rapaz foi-se abaixo e...

- Ele precisa de um tecto.

- De um tecto? Com este calor?

- Também lhe arranjei um saco com fruta e chocolate, e além disso...

Régine ficou a pensar se havia de voltar a pendurar a chave do R4 no cabide, de onde acabara de a tirar. Não se podia queixar; o tio Fernand sempre pusera o carro à sua disposição. Afinal tinha estado o dia inteiro sentada à caixa do supermercado, e assim podia ir à hora de almoço lá acima ao Col. Mas naquele dia era um bocadinho diferente.

-... além disso, quero ajudá-lo.

Régine deu meia volta e foi-se embora. Sentou-se no carro, arrancou e atravessou a torrente de luz de um dourado-avermelhado em que mergulhava o mar, a costa e a terra onde o Sol se punha. No bosque porém o crepúsculo dissipara todas as sombras, e reinava um entardecer cinzento.

Régine parou o R4 no caminho, tirou a lanterna para fora e desatou a correr por entre os pinheiros, em direcção à cabana.

- Fabien!

Não obteve resposta.

A porta estava fechada à chave.

- Fabien!

Das obras chegava-lhe o ressoar dos motores dos camiões que se afastavam. Régine pensou em correr pela encosta abaixo até ao local do incêndio, mas era impossível que Fabien ainda lá estivesse a trabalhar.

Estava a tentar abrir a pequena janela quando ouviu um restolhar atrás de si. Voltou-se assustada e tapou a boca com a mão.

- Fabien!

A sua frente estava uma espécie de fantasma, coberto com uma escura camada de cinzas, poeira e sujidade. Só os olhos, mesmo àquela luz, pareciam brilhar. Os olhos eram os de Fabien.

- Fabien - sussurrou Régine, o mais baixo que conseguiu. - Fabien, por amor de Deus... - Acariciou os seus ombros magros. - Fabien, o que é que se passa? Diz qualquer coisa.

Os seus lábios mexeram-se, no entanto permaneceu calado.

Voltou a subir a encosta em direcção ao carro, tirou os dez pesados bidões de plástico cheios de água e carregou-os até à cabana. Fabien sentara-se no banquinho por baixo da janela, com os braços entre os joelhos e o tronco inclinado para a frente.

- A chave? Está debaixo da pedra? - perguntou Régine.

Fabien fez apenas um gesto com a cabeça. Ela foi buscar a chave, abriu a porta da cabana e pegou numa das toalhas que lhe trouxera no dia anterior.

- Fabien, agora acorda. Estou a ver que estás completamente exausto... Queres comer qualquer coisa?

Ele abanou a cabeça.

- Tenho chocolate, Fabien. Também tenho fiambre. E uma baguete fresca.

Nada...

- Muito bem... - Régine teve de fazer um enorme esforço para dissimular o seu pânico. - Fabien, caso não tenhas reparado, vim pela primeira vez hoje à tarde cá acima. E sabes porquê? Porque queria comer qualquer coisa com o meu amigo e fazê-lo pensar noutras coisas. E o que é que aconteceu? O que é que eu vejo, o que é que eu tenho à minha frente? Uma figura miserável... Não pode ser. Portanto, se fores capaz de pensar noutras coisas... mon Dieu... pensa pelo menos numa coisa: não se recebe assim as visitas. Nem mesmo a própria companheira.

Ele inclinou a cabeça para a frente, fez uma careta, e Régine conseguiu distinguir uma espécie de sorriso debaixo de toda aquela sujidade que lhe cobria a cara.

- Estás a ver! E já está calor suficiente, agora vamos começar.

- A fazer o quê?

A lavar - disse ela. - À semelhança de qualquer

família burguesa que se preze, primeiro toma-se um banho, ou não?

- Estás louca.

- Não, tu é que estás.

Abriu a tampa dos bidões de plástico e regou os ombros de Fabien com um primeiro jorro breve de água. Fabien estremeceu, mas permaneceu sentado.

- Agora um bocadinho na cabeça, assim... Meu Deus, Fabien, parece que acabaram de te tirar do fogo.

- Pára com isso!

- Estás a brincar comigo? Vá lá, está quieto, a mamã trata de ti, bebé.

Fez-lhe uma festa nos cabelos, e ele abanou energicamente a cabeça. Gaguejava outra vez tanto que ela não conseguia perceber o que ele dizia.

Mostrou-lhe o bidão.

- Já gastámos três litros. Enquanto barafustavas, idiota... E também precisamos de alguma para beber e cozinhar... Assim, como é que achas que vou conseguir?

A sua cabeça descaía novamente para a frente, mas Régine amparou-a, levantou-lhe o queixo com o indicador e olhou-o nos olhos.

- Fabien Lombard, sê razoável! Regressa à terra. Já vais encontrar aquilo que procuras... Eu sei que vais. Estás a ouvir-me?

Ele assentiu com a cabeça. A expressão de desespero no seu rosto comoveu-a.

- Anda, anda - sussurrou-lhe ela. - Anda, agora és o meu bebé. Primeiro vamos lavar essa cara suja. Está horrível... E a seguir vamos beber e comer... Está quieto! Não digas nada agora. Pega numa toalha e deixa-te estar sentado. Prometes?

Tinha os olhos meio fechados, mas acenou com a cabeça, e Régine ficou contente com aquele acenar.

Correu para a cabana, tirou uma toalha do armário, voltou; não parava de falar.

- Não há muita água, Fabien. Mas as toalhas chegam. Cuidado, está quieto. Isso... isso mesmo...

Trouxe também um alguidar, mergulhou a toalha na água e começou a lavá-lo.

- Agora os ombros, agora o peito. Levanta o braço Isso, meu pequenino, muito bem! E as calças? Tens de as tirar. Meu Deus, o teu calção de banho! Ninguém vai conseguir lavá-lo. Não tem importância...

Puxou-lhe o calção de banho pelas ancas, a seguir pelas pernas, e limpou-lhe o corpo que conhecia tão bem, que lhe era tão familiar. Era o Fabien, finalmente...

Pousou-lhe a cabeça no seu colo. Colocou-lhe as mãos na anca. A sua boca procurou...

Ouvia a sua respiração. Rápida e agitada. A sua boca queria separar-se da dele, mas Fabien encostou-lhe a cabeça contra a sua.

- Mais tarde, meu pequenino - segredou ela. - Tens de comer qualquer coisa. Estás meio morto... Agora não...

Não estava nada meio morto. As suas mãos apertaram-lhe ainda mais a cabeça, sentiu os seus dedos abrirem o fecho de correr do vestido. Quis falar, mas como? Era bom, era bom de mais.

De repente Régine estava nos braços de Fabien, sentiu-se ser levantada e levada para a cama da cabana... e a seguir foi só prazer...

Levantara-se um vento suave. O Maria II puxava pela amarra, na margem acendiam-se as primeiras luzes e através da fresta da porta ligeiramente aberta saíam vozes; há duas horas o mesmo murmurinho monocórdico, interrompido por vezes pelas gargalhadas de Borodin. Não era um riso feliz.

Bergmann olhou para o relógio: sete e meia.

Stefan atravessou o salão para ir buscar o casaco que estava em cima de um banco. Encontravam-se sentados a um canto, à volta da grande mesa de mogno, Maria de lado, os dois advogados em sofás e Lindner no banco. Não interromperam a conversa quando Bergmann entrou. Nem sequer levantaram os olhos. O aparelho de ar condicionado mantinha o ambiente arejado, mas as beatas acumulavam-se no cinzeiro. Só Borodin, que estava aparentemente bem-disposto, é que acenou a Stefan.

- Vem cá, milagreiro! Repara como a minha cabeça voltou a funcionar.

Stefan servira-se de uma água mineral e de um copo e perguntava-se qual seria o papel de Maria no meio daquela conversa acalorada acerca de dinheiro. Houve algumas frases que lhe ficaram a martelar na cabeça:

- Eram sessenta e um milhões de dólares, Boris! Todos provenientes dos nossos fundos de investimento. E tu, pura e simplesmente, saca-los da conta?

- Sacar? Sê mais preciso com aquilo que dizes... Apliquei-os naquela história da Tailândia. E com lucros. Também rende.

- Mas nós estávamos sem recursos e podíamos ter sofrido as consequências.

- Como assim? Achas que o pessoal do Amoros seria capaz de uma coisa dessas? Ou estarão a fazer pouco de ti? E além disso, se me permites que te recorde, o investimento principal dos fundos vem, de qualquer forma...

Mas afinal, pensou Stefan, o que é que isto te interessa?

Voltou para a sua espreguiçadeira no convés. O vento refrescava-lhe a pele ligeiramente bronzeada. Fechou os olhos. Que interessa saber como é que os milionários russos obtêm os seus milhões ou porque é que, por exemplo, em vez de vestirem camisa e gravata usam casacos tártaros e andam de calções...

Voltou-se e seguiu com o olhar o rumo de outro iate.

As lanternas brilhavam, dispostas em longas filas. Era enorme, e esforçava-se para ir exactamente em direcção ao Sul, um iate monstruoso. Stefan conseguia inclusive avistar a pista de aterragem do helicóptero na popa. Não se via ninguém. Provavelmente estavam também a conferenciar. A avaliar pelo tamanho, o barco devia pertencer a um xelue árabe. Provavelmente Saint-Tropez ou Carmes estavam Aquele momento a ser negociados.

Tenho de ligar à Christa! Stefan treinou-se mentalmente Quis formular palavras, frases... e desistiu.

- Três, dois, um - ouviu uma voz dizer, a seguir um estalar de dedos. - Então!

Stefan abriu os olhos.

Maria Lindner! Estava à sua frente e sorria-lhe de cima. A camisa branca de homem tapava-lhe metade do tronco nu. Olhou para a sua cara, para os olhos e para o céu da tarde. Desviou o olhar.

- Lá dentro ainda estão a discutir dólares? - perguntou por fim.

- A mim só me interessa uma coisa: como é que conseguiu fazer aquilo com a ciática do Borodin? Tem de me explicar, Stefan.

Stefan?, pensou ele. Já não sou «senhor doutor» e com o Lindner já estamos no «Thomas» e no «tu». Muito bem, isto é um iate no Mediterrâneo, e no Mediterrâneo está-se à vontade...

- Por favor, não - esquivou-se ele.

- Por favor, sim. É... é importante para mim.

- Ah, sim? Porquê?

- Eu explico-lhe. Não acha que esses truques, que não só influenciam as pessoas como as doenças, são incrivelmente interessantes? Donde é que lhe vem... pois bem, tal poder?

Stefan levantou-se. Apontou com o queixo para a porta do salão.

- Aquelas conversas; você esteve o tempo todo ali sentada com eles. Tem a ver com poder, poder sobre o dinheiro. E sobre pessoas.

- E a hipnose?

- A hipnose... depende da perspectiva. Poder? O que é o poder? Maria, devia perguntar a outra pessoa. Eu sou medico. O poder não me interessa.

- Está bem, então pergunto-lhe como médico, StefanO episódio não me deixa em paz. O que é que o Boris tinha? Ele estava a enganar-nos com as suas dores? Se pensarmos bem...

Foi um verdadeiro ataque de ciática.

- E você pô-lo em transe e a dor foi-se embora. Lamento, mas isso não me convence, quero perceber melhor.

- Está a pedir de mais. Tudo isto é já muito antigo. A hipnose é praticada há dois mil anos, os povos primitivos nunca deixaram de a praticar. Como funciona exactamente... - Encolheu os ombros. - Não existe nada mais complicado do que o cérebro humano. Milhões de células nervosas. E cada um dos neurónios pode estar ligado a dez mil outros neurónios. Hoje em dia a investigação é feita com computadores, descobre-se tudo o que é possível, e anuncia-se sempre que se fizeram progressos grandiosos, mas na verdade estamos ainda no princípio. Está certo, existem teorias. Existem sempre...

- E quais são? Pode explicar-me?

Puxou uma cadeira para perto dele e sentou-se com a sua camisa branca, ligeiramente inclinada para a frente. Um dos caracóis caíra-lhe para a testa, e o vento brincava com ele. E os olhos, aqueles olhos interrogadores!

- Quer mesmo ouvir? - perguntou Bergmann.

- E que tal, Stefan, se me levasse um bocadinho a sério? Tente...

- Eu levo toda a gente a sério... e a si especialmente.

- Ah, sim? Ele assentiu.

- Está muito bonita neste momento, Maria.

- Você ia...

- Você é muito bonita - insistiu ele. - A sua silhueta, com o mar como cenário nocturno.

- Talvez... para si, Stefan.

- É exactamente isso. Para mim, neste segundo. E onde é que tudo isto se passa? A magia deste Mediterrâneo que lhe estou a descrever, você, os movimentos do barco, a linha da costa, os candeeiros que se acendem neste momento, o cheiro do mar, tudo aquilo de que tenho consciência... onde é que se passa? Onde é que toda a nossa vida se Passa? E os nossos medos, as nossas dores, as nossas aleergias, amores, tristezas, desesperos? Aqui, só aqui.

Levantou o dedo para o levar à cabeça, mas mudou a direcção: o dedo deslocou-se na direcção de Maria e pousou na sua testa.

- Aqui na cabeça, no cérebro, no sistema nervoso central. E isso, claro, é tão monstruosamente complicado que qualquer cientista rigoroso diz: a investigação está ainda no princípio.

Ela sorriu-lhe. Era verdadeiramente maravilhosa.

- Ainda hoje se discute quantos neurónios, quantas células nervosas é que se acumularam ao longo de milénios aqui em cima. Vinte milhões? Há quem fale em vinte e cinco milhões. E estão todos ligados aos sistemas, possibilitando-nos a visão ou a audição, a fala, a leitura, a compreensão, o pensamento. Uma coisa é certa, acerca da qual estamos de acordo, graças a Deus: se o cérebro dos mamíferos é um prodígio, então o do homem encontra-se no topo da história da evolução biológica.

Stefan tirou uma azeitona da taça a seu lado, mas não a meteu na boca, virou-a entre o polegar e o indicador à frente dos seus olhos.

- Pronto, esta foi a rubrica «palavrões». Foi você que quis.

- Pois fui. Mas ainda não chegámos ao Boris e à sua ciática.

- Vou ser franco consigo, Maria... Tem tudo a ver com o seguinte: tudo aquilo que eu aprendo é provocado primeiro pelos estímulos dos sentidos mas, antes disso, é recebido no cérebro como impressão. Aquilo que percebemos numa fracção de segundos, como a cor ou o contorno, cada sombra ou luminosidade, é na verdade o resultado de um processo gradual. - Ergueu o dedo indicador. - Como pintora, isto tem algum interesse para si?

- Claro.

- Uma cor, um contorno de encosta, a rebentação das ondas, fisicamente, não são mais do que ondas electromagnéticas. Essas ondas chegam até nós primeiro aqui - tocou no olho direito -, à parte superior do corpo vítreo, o cristalino, onde a luz se une para ser a seguir convertida bioelectricamente em impulsos de corrente. A parede interior do globo ocular está revestida com células nervosas sensíveis à luz, estruturas em forma de triângulo, cada uma delas por sua vez ligada a feixes de condutas nervosas que estão ligados ao centro de visão do nosso cérebro. Pelo caminho os impulsos eléctricos incidentes são reforçados, e são depois analisadas no mínimo vinte tipos diferentes de células que, ou compõem um quadro, ou são armazenadas, ou então seguem para outro sistema... o sistema motor, que conduz as nossas reacções para a impressão óptica e lhe permite reagir... E tudo isto passa-se numa fracção de segundos.

- Que loucura... Ainda tenho a voz do meu professor de Biologia no ouvido. Era terrível.

- Lamento. - Ele sorria.

- Mas esqueceu-se de um pormenor: a hipnose.

- Está tudo ligado. - Observou novamente a azeitona na palma da mão. - Imaginemos que isto é um cérebro. Tudo o que entra como estímulo no trajecto dos nervos não só é analisado, testado e transformado numa impressão dos sentidos ou da memória, como é filtrado: a memória e o seu gigantesco armazém de experiências e recordações de situações vividas. Você vê uma maçã, mas só a reconhece devido a uma experiência de aprendizagem que remonta à sua infância. Essa aprendizagem é decisiva, pois está relacionada com tudo o que nos sucede... de bom, ou de mau. É nisso que assenta toda a psicologia...

- E a hipnose?

- Também. Entre outras coisas. Nós gritamos ou gememos de desespero ou de dor, rimos e sentimo-nos felizes, alegres. A alegria e a dor existem na nossa cabeça, no sistema nervoso central. É como a imagem de há bocado: não são os feixes sensoriais, por exemplo, que sentem as dores, não é o dedo queimado, a dor é produzida no cérebro. Apenas aí. E é também o cérebro que intervém noutros sistemas, através da sua glândula suplementar, por exemplo,

o sistema hormonal que conduz as reacções através da circulação do sangue: dores, dores agudas, dores insuportáveis, desmaio... Os músculos contraem-se primeiro como defesa, tocam no nervo, a situação evolui para o ataque, para a intolerância. O desmaio provoca descontracção.

Maria tinha a boca aberta, o lábio inferior entalado nos dentes brancos, os olhos semicerrados, e estava extremamente atenta.

- E depois diz: «Três, dois, um... voilà... já está.» Não é preciso desmaiar?

A porta do salão abriu-se. Lindner apareceu.

- Então, vocês os dois, o que se passa? Já acabámos.

- Nós também, Thomas. O Stefan estava a contar-me histórias muito interessantes.

- Sobre quê?

- Sobre o que se passa na nossa cabeça.

- Não acredito. - Lindner virou-se para o homem de cabelos escuros e ordenou-lhe: - Vai ver a âncora! E diz ao Raoul que voltamos para trás!

Maria tinha deslizado para a frente, estava sentada na borda da cadeira, o vento soprava-lhe o cabelo da cara.

- Voilà... Já está! íamos aí.

- Pois é. Mas para lhe provar que não é assim tão difícil, a verdade é que até na televisão existem hipnotistas que trabalham assim. Para aliviar um nervo comprimido, só preciso de uma coisa, e tão rápida e profunda quanto possível: de descontracção. Mas a descontracção também é uma questão de prática, uma questão de sensibilidade: um bebé que mama, uma criança que ri e se espreguiça...

- Mas essa descontracção não pode ser comandada?

- Na hipnose, pode. Bem como quase todas as emoções.

- E como...

Levou finalmente a azeitona à boca, levantou-se, foi ate à borda do barco e cuspiu o caroço para a água. Maria continuou sentada na cadeira a olhar impacientemente para Bergmann quando ele se voltou.

- Como, Stefan?

- Oh, é relativamente simples. Basta ter um bocadinho de experiência e ao mesmo tempo tentar que a pessoa não distinga nem controle o agora, aquilo que a rodeia, as percepções sensoriais.

- E como?

- É muito simples. Tem de se aprender a distrair a pessoa de tal forma que ela se sinta a afastar-se.

- A afastar-se como?

- A afastar-se de si própria. Ou seja, todos os que estão presos à situação em que o ser humano se encontra. Fala-se de consciência, quando aquilo que nos sucede é convertido em fala e experiências. Quando eu consigo esse afastamento com uma pessoa, tenho acesso a uma zona crucial da sua psique, o inconsciente, que é qualquer coisa como o disco rígido do computador. Tudo o que sucede na vida, todas as recordações, tudo o que nos faz agir, a vivência e aprendizagem, mas também as sensações que as acompanham, estão aqui armazenadas.

- E tem acesso a elas? Incrível! E isso significa?

- Isso significa que se pode intervir, apagar, restruturar... e também comandar.

Olhou demoradamente para ele, calada.

- Mas isso é...

- Isso é o fardo de todos os casos que nos vêm parar às mãos. Podemos ajudar... mas também podemos causar confusão e desgraça.

- E acha isso fácil e natural? - Não havia ironia na sua voz.

- Já que insiste, acho.

- Só isso? - Abanou a cabeça, incrédula. O barco seguia viagem, os motores bramavam. Stefan não conseguia ouvir o que Maria dizia, leu-lhe nos lábios. - Incrível! E percebeu as palavras seguintes: - Afastar-se de si próPrio? E afirma que não tem poder sobre as pessoas? Sabe o que você é, Stefan? É uma pessoa sinistra, verdadeiramente sinistra...

No cais de Saint-Michel estavam três carros à espera: o Land Rover verde-escuro de Lindner, um Jaguar, igualmente da sua cor preferida, verde-escuro, e atrás um Lancia Cabriolet branco, de forma muito aerodinâmica.

Ao lado da porta aberta do Land Rover encontrava-se um homem alto, de ombros largos. Stefan também já o conhecia. Chamava-se Karl Benthoff, o novo motorista de Lindner, ou guarda-costas, provavelmente as duas coisas Benthoff observava de braços cruzados a cena da despedida que estava a ser representada. Stefan fazia o mesmo, enquanto Borodin assumia novamente o papel principal.

- O que significa isso, Thomas? Ela não vem connosco? O que é que a Maria quer dizer com isso?

Acabara de dar um beija-mão enfático a Maria Lindner e agora estendia um braço acusador.

- Não faças perguntas estúpidas. Toma mas é conta da tua ciática, Boris.

- Já a esqueci. O teu Stefan conseguiu um milagre. Habituamo-nos depressa aos milagres, não é verdade?

Falou em alemão. Borodin mudava de língua como quem muda de camisa.

- É claro que lhe devia estar agradecido. Mas o que sou eu para vocês? O que sou eu aqui, afinal de contas? Nada, para além de um pobre russo, perdido no estrangeiro. O meu povo morre de fome e de frio, e eu estou aqui e ninguém leva os meus desejos a sério. E tu, Maria, continuas com esse tipo, esse cowboy, que me voltou a enganar toda a noite com as suas percentagens e mentiras.

- Vêm-me as lágrimas aos olhos, Boris. - Maria acariciou-lhe levemente a cara. - Além disso, dá-te muito prazer.

Passou por Boris, por Lindner e pelo seu apêndice. A luz do candeeiro batia-lhe na cara, o vento brincava outra vez com o seu cabelo.

- Muito obrigada pela lição. Despedimo-nos, até amanhã? O que pensa acerca de me vir visitar amanhã, Stefan? Às quatro? Pode ser?

Não conseguiu responder. Fora apanhado de surpresa.

- O Thomas explica-lhe como me encontrar. A u revoir, Stefan!

A seguir entrou no Lancia e foi-se embora...

Os planadores pairavam sobre a coutada naquele dia. [a aldeia tinham pendurado a roupa lá fora, e no jardim do moinho havia uma tenda mesmo por baixo das árvores de guto. Era impossível saber se ia chover. Mas não choveu, o céu manteve-se todo o dia de um azul radioso.

- Um verdadeiro céu Niveal - gritou Tina Rúttger cheia de entusiasmo. Mas aquilo era apenas o começo das festas. Tina estava deslumbrante. Afinal de contas era a aniversariante, e como andava para ali a pavonear-se com o boné novo de basebol posto de lado na cabeça, com umas calças de ganga elástica novas, uma sweatshirt nova, sandálias novas de saltos médios, tudo parecia super.

- E onde está o teu pai? - Era Inge quem fazia a pergunta. Inge, a amiga de Tina, era a única da sua idade entre os convidados da festa de aniversário.

Tina fez beicinho.

- Onde é que havia de estar? Onde está sempre, idiota. No trabalho.

Inge achou injusto. Tinha catorze anos, tal como Tina, e estava um bocadinho embeiçada por aquele tipo tão cool, que era o pai de Tina, o Dr. Júrgen Rúttger. É que era vagamente parecido com o Robert Redford e, afinal de contas, era quem pagava tudo: a tenda, os gelados, os bolos, os pratos frios.

Mas a festa já tinha começado. Joan, a ama irlandesa dos Rúttger punha a música, que ressoava nos altifalantes no jardim e que incomodava as pessoas que passavam na ma. Não era techno, nem rock, era uma música mais infantil. Apesar do monte de embrulhos e de presentes, não viera nenhum amigo do grupo de Tina. Ou estavam de férias, ou a distância de Hanôver até ao campo era demasiado grande Para eles, e portanto a Sra. Rúttger só convidara os garotos da aldeia. Gaiatos entre os sete e os doze anos que pulavam, berravam, gritavam. A mais pequena, a bebé, a nova irmã de Tina, estava ao colo da Sra. Rúttger, que se sentara numa cadeira. Mas Tina continuava a fazer beicinho.

Christa Bergmann fazia festas ao bebé que a cunhada tinha ao colo, e pousou-lhe a mão na sua cabecinha quente e macia.

- O que se passa com a Tina?

- O que é que achas?

- Está com ciúmes do bebé?

- Não! - Doris Ríittger ergueu as sobrancelhas. Era alta, loura e de olhos azuis, uma mãe de revista, que

irradiava qualquer coisa de invulgarmente rural, sim, bucólico, e tinha mesmo vindo do campo: de uma fazenda de duzentos hectares a norte de Celle. Era esse também o motivo que a levava a passar as férias no moinho com as crianças. Doris detestava Hanôver e sempre que surgia uma oportunidade escapava-se da cidade.

- Que disparate - continuou Doris. - A Tina está amuada por causa dos amigos. Está a dar um típico espectáculo ao estilo da Tina.

- E o amigo?

- O Tommi é um dos poucos que não foi para fora nas férias. E o que é que ele fez? Organizou uma corrida de bicicletas no seu aniversário. Sabes como são os homens, Christa... E já que falamos nisso: o Stefan telefonou?

Christa abanou a cabeça.

- Já pensei nisso. Não pode. Não tem o número de telefone do moinho. Provavelmente telefonou para casa, para Burgach, mas também não está lá ninguém. E sabes qual é a relação dele com os Rúttger. Depois daquelas discussões todas, é difícil para ele.

- Se calhar...

- Se calhar o quê?

- Se calhar até compreendo. - Doris falava tão baixinho que mal se ouvia. Ô bebé perdera a chupeta e choramingava; entretanto as crianças berravam e faziam rodas, e a música tocava. Tina sentara-se no baloiço hollywoodesco. Doris apanhou a chupeta da relva e enfiou-a com determinação na boca do recém-nascido.

- Não te entendo, Doris.

- Sabes, Christa, por vezes sinto-me tão estranha no meio da vossa família como o Stefan. E por vezes penso que não quero ter mais filhos.

- Depois de teres decidido teres mais um, catorze anos depois?

Provavelmente é exactamente por causa disso. Tu conheces o teu irmão.

Christa calou-se. Sim, ela conhecia Júrgen. Júrgen, o talentoso, o brilhante, o homem de sucesso... Aquele egoísta tinha então outro caso...

Provavelmente não conseguia olhar para mais nenhuma pele, talvez fosse uma doença profissional, típica dos dermatologistas. Provavelmente via peles de mais, ou pelo menos de pessoas na casa dos quarenta.

Se pudesse, o Dr. Júrgen Rúttger teria fugido daquela cama. Seria mesmo uma cama? Parecia mais um trampolim no meio de um conjunto de azuis, formato kingsize, requintadamente iluminado por projectores de halogéneo incrustados, que revelavam a Júrgen um espectáculo ostensivo: o corpo branco de mulher com as coxas abertas, de linhas e curvas atraentes. O silicone favorecia-lhe um pouco o peito, e o resultado era fenomenal. Os mamilos não precisavam de ser corrigidos, espetavam-se excitados na direcção de Júrgen Rúttger, enquanto que ele...

- O que se passa contigo, Júrgen?

- O quê? - O olhar de Júrgen estava ainda colado ao ambiente que o rodeava, como se este lhe pudesse oferecer alguma ajuda: o chão era igualmente azul-escuro, um chão revestido com um material esponjoso, tão macio, fundo e espesso que se tinha a sensação de estar a afundar em veludo até aos tornozelos... ou num lodaçal. Móveis de design cromado que fulgiam, espelhos igualmente cromados e colocados estrategicamente. Até no tecto, sobre a cama, havia uma coisa daquelas. Júrgen vivera intimamente todo aquele esplendor e reflexos durante cinco semanas, até à exaustão.

Na realidade só se tornara verdadeiramente insuportável a partir da última semana, quando as férias começaram.

- Vem-te, Júrgen - sussurrava ela. - Vem-te agora... O Dr. Júrgen Rúttger sentiu-se subitamente impotente sob as cuecas que mantinha ainda vestidas. Afinal... todo aquele deslumbramento de pelúcia, juntamente com os crottados e os projectores de halogéneo, espelhos, vivenda e parque... O que tinha tudo aquilo a ver com ele? Oh, não Tão-pouco aquela mulher maravilhosa de pele branca em cima da cama, quase satisfeita e cheia de uma luxúria voluptuosa. Tudo aquilo era propriedade de uma pessoa chamada Henry Salowitz, que se intitulava «cônsul», um multimilionário e grande empresário, que debitava máximas do estilo: «No meu império, caro Júrgen, o Sol nunca se põe. Eu sou como o Carlos Quinto; portanto, tenho de me mexer. E de que maneira! No fundo, tenho de estar em toda a parte.»

E estava... em toda a parte. Mas nunca em casa, em Hanôver. Deixava essa tarefa ao cuidado de Evi, a sua mulher, e era precisamente essa a raiz de todos os males.

- Ouve, o que se passa afinal contigo? - A voz de Evi Salowitz tornara-se mais grave e simultaneamente bastante mais determinada. - Estás com um ar espantado. Então, continua...

O brilho dos seus olhos intensifícou-se, o corpo falava por si. Evi começou a mexer-se. As mãos, com unhas pintadas de verniz dourado, deslizavam entre as coxas e as nádegas. Balançava-se de cima para baixo e de baixo para cima e da sua pequena boca entreaberta, de lábios pintados de vermelho-cereja, saiu uma língua hábil. A consulesa era só carne e pele, e aquele brilho rosa e húmido entre as pernas depiladas arqueava-se para diante.

- Vá! Despacha-te. Vem-te, meu garanhão louro... Mas Júrgen Riittger não se vinha. E ao mesmo tempo

que se ouvia a respiração arquejante de Evi Salowitz escutou-se um outro barulho: uma espécie de zumbido penetrante. Vinha do telemóvel, que estava enfiado nas calças em monte que Júrgen despira com demasiada pressa e ansiedade e que atirara para cima do sofá.

- Tu não penses que vais... - berrou Evi.

Claro que ia! O Dr. Júrgen Rúttger nunca se sentira tão feliz por receber uma chamada como naquele momento. Deu cinco passos, baixou-se e levou o telemóvel ao ouvido.

- Rúttger.

- Júrgen, Júrgen, és tu?

A voz soava fraca, distante, e além disso abafada por um ligeiro crepitar.

- Sou.

- É o Stefan.

- Já tinha reparado - disse Júrgen Rúttger de mau humor. - O que se passa? E já agora, onde é que te meteste?

- Bastante longe. Na costa mediterrânica francesa. Perto de Saint-Tropez.

- Oh!

- Fui convidado, só por uns dias. Tenho tentado desesperadamente apanhar a Christa. Eu sei que ela está convosco no moinho. Mas na confusão da partida esqueceu-se de me dar o número de telefone. Está com certeza à espera de um telefonema meu.

- Ah, sim? Achas?

- Espero que sim - respondeu numa voz insegura.

- A Christa hoje foi ao aniversário de uma criança, Stefan. Não te preocupes. Está a divertir-se. E o moinho... Eu sei o número de cor.

Rúttger deu-lhe o número, ouviu os agradecimentos de Stefan e pensou: Vejam só, Saint-Tropez! Justamente o Stefan! Pela primeira vez na vida sentiu verdadeiro prazer em falar com o cunhado. Queria ter continuado a falar sobre terapias por hipnose, por exemplo, sobre um outro disparate qualquer, mas Stefan, o idiota, já tinha desligado, e o Dr. Júrgen Rúttger sentiu-se sozinho e desamparado.

Voltou-se. A consulesa continuava com o seu joguinho. Os dedos também já estavam envolvidos.

Naquele momento, da parte de Júrgen Rúttger, ouviu-se apenas um suspiro. O que é que podia fazer? A quantidade de doentes que Evi lhe arranjara nas últimas semanas, dúzias, não tinha fim... E aquilo também não...

Muito bem! Júrgen pôs um sorriso radioso, debruçou-se sobre a consulesa, acariciou-lhe um ombro, os bicos excitados do peito, afundou a boca num bocado de pele perfumada, mordiscou-a com os dentes incisivos, de forma a que Evi pudesse finalmente gemer alto e com fogosidade mas continuava com as malditas cuecas. Todas as suas preces eram inúteis: aquilo lá em baixo não dava sinais de vida...

 

 

Charlie ouvia Hendrix no walkman. A guitarra de Jimmy, o seu Flying to the Moon eram «o máximo»; como é que Charlie podia ser vulnerável ao barulho ensurdecedor do camião de saibro?

Era uma quinta-feira, por volta das dez e meia, o sol estava razoavelmente quente e Charlie Benoit guiava a grande velocidade pela estrada de acesso à obra de Port Lês Fleurs: um buraco atrás de outro, poeira entre os dedos, mais os tipos com os capacetes protectores na cabeça, formas castanhas bronzeadas, marroquinos, argelinos, espanhóis, franceses; a maioria eram mafiosos. Mas ainda havia o mar. Mais à frente, a ocidente, estava a lancha ancorada, onde o grupo de mergulhadores procedia à betonagem na água; as pesadas estruturas de ferro elevavam-se em bicos pontiagudos muito para fora do mar, silos de cimento projectavam as suas sombras, cada uma delas mais alta do que a torre da igreja de Saint-Michel.

Tudo aquilo era um disparate, loucura pura, claro! E Charlie no fundo não sabia muito bem como é que se metera numa coisa daquelas. Mas por detrás de todo aquele caos de pó e ruído, como o pobre Pascal sempre dissera, que cheirava a guerra e a ocupação, lá atrás havia ainda um pedaço de praia, o último pedaço. Era isso que Charlie queria ver, como uma espécie de vício maldito do qual uma pessoa não se consegue livrar, a praia de Brouis, onde tinham lançado o arpão aos seus primeiros peixes, empurrado a prancha de surf para o mar, seduzido as raparigas. As falésias, a areia... eram um bocadinho de ti, um bocadinho de Gigalo e de Saint-Michel, um bocadinho daquela juventude, raios os partam...

- Eh, cuidado!

Novamente um maldito camião de dez toneladas. O condutor gesticulava com as mãos.

- Idiota! - berrou Charlie, retirando os auscultadores da cabeça. Ultrapassou-o com a Kawasaki e virou à esquerda no grande parque de estacionamento com as quatro barracas das obras, para deixar passar a coluna de camiões que alimentavam os silos.

Desceu da mota, apoiou-a no suporte lateral e acendeu um cigarro. Não valia a pena sacudir o pó.

Olhou na direcção dos três edifícios. Eram edifícios de um andar, bastante sólidos, feitos para durar muitos anos. E muitos anos era o que aquela porcaria ia durar. Os aparelhos de ar condicionado estavam instalados sobre as amplas janelas de metal. Por trás dos vidros distinguiam-se pessoas nos estiradores e ao telefone.

À esquerda, à frente da primeira barraca, a que ficava mais próxima do Col, formara-se um grupo de operários. Não se mexiam. Esperavam resignadamente que lhes pagassem, quase a arriscarem uma insolação! As outras barracas eram mais requintadas. Tinham inclusivamente gerânios nos peitoris das janelas.

E a seguir Charlie viu outra coisa.

No grande parque de estacionamento asfaltado em frente dos três edifícios de escritórios, havia cerca de duas dúzias de automóveis estacionados em filas de três. Peugeots pequenos, Volkswagens, Renaults - carros vulgares, que transportavam os trabalhadores aos saltos pelas estradas, vindos de Cavalaire, de Lavandou, Hvères e inclusivamente de Toulon.

Mas... e o Land Rover verde e, mesmo atrás, o elegante Sportcoupé baixinho?

Charlie deitou fora o Gauloise e arrancou. Conhecia ambos os carros. O Land Rover pertencia ao alemão: Lindner, o chefe dos chefes, o czar dos czares, a peste de Saint.Michel, o causador de tudo aquilo...

E o carro desportivo?

Charlie aproximou-se devagar, com as mãos nos bolsos. Não, não conhecia a matrícula. Cupês daquela categoria eram raros por ali. Charlie só conhecia um.

Estava agora no lado do lugar do condutor; debruçou-se, esticou a cabeça e espreitou lá para dentro.

No assento ao lado havia uma pasta azul: Departamento da Polícia VR, 26 o Arrondissement... O vigésimo sexto arrondissement era o de Cavalaire-sur-Mer. O chefe, o inspecteur Paul Donnet, e o seu substituto, o inspecteur Benoit, o pai de Charlie.

O olhar de Charlie recaiu sobre o banco de trás onde estavam um cachecol aos quadrados azuis e verdes, um colete de caça com uma quantidade de bolsos pespontados, e por baixo, meio tapada pelo cachecol e pelo colete, uma espingarda. Era uma arma de caça, uma espingarda de três canos - mas uma espingarda de três canos muito especial.

Charlie examinou os desenhos gravados. Até o trinco de segurança era ornamentado e, como se não bastasse, os pequenos parafusos reluziam como ouro. Charlie conhecia a arma. Mas, é claro, o pai mostrara-lha um dia numa montra de uma loja de armas em Toulon. Uma Dasson-Schneider, a mais cara do mercado. «Uma coisa daquelas, Charlie, era o meu sonho.»

O velho nunca o iria realizar.

Pelo preço de uma espingarda de três canos daquelas, pensou Charlie, compras duas Kawasakis. Mas a questão é: como é que um tipo como o Donnet, que recebe meia dúzia de francos como ordenado, pois não recebe muito mais do que nós, pode comprar uma espingarda de três canos de luxo?

Ouviu passos atrás de si.

Charlie voltou-se.

O indivíduo gordo e bronzeado vestia uma roupa cor de caqui e trazia uma espécie de cinturão militar à volta da cintura, onde enfiara um telemóvel. Trazia qualquer coisa na cabeça parecida com um bivaque. Dois olhos claros . com a parte branca raiada do vermelho dos vasos sanguíneos e ensombrados pela pala enviesada, examinavam Charlie. A pele do nariz grosso e vermelho estava a pelar.

- O que procuras? Charlie respirou fundo.

- E tu?

- Esta máquina é tua? - O gordo apontou com a cabeça pesada para a Kawasaki. Como se não fosse suficiente, deu ainda uma valente cuspidela na direcção da mota.

- A máquina é minha. Cuspir não serve de nada.

- Bico calado! Documentos.

Charlie tinha uma bela canção no ouvido; não era alta, mas era mais forte do que todo aquele ruído das obras. Cuidado, disse para si, ao mesmo tempo que ouvia o som de uma mão pesada sobre o ombro e um polegar duro a empurrar-lhe a carótida esquerda.

- Um bocadinho lento, não? Então, não tem documentos? Muito bem, vamos...

Fora a sua última palavra. Charlie libertou-se da pata com uma volta rápida para a esquerda, ao mesmo tempo que dava com cautela um passo para trás, quando veio o primeiro balanço. Charlie agachou-se, o punho do outro passou a rasar pela sua cabeça, agarrou o braço respectivo, levantou a perna esquerda e deu uma joelhada ao gordo entre as pernas, com toda a força de que foi capaz.

O homem nem gritou. Caiu redondo no chão, e ali ficou, com as pernas dobradas, sobre o cimento sujo de óleo. Perdera o seu ridículo boné. A cara tornara-se branca como a neve.

Inconsciente, pensou Charlie. E a seguir: Embora! Desaparece!

Deu balanço em cima da mota, pôs a máquina a trabalhar e acelerou.

O caminho até ao velho porto de Saint-Michel não demorava mais de doze minutos a percorrer. Encostou a mota à sombra do grande muro, na parte norte. A seguir olhou em volta. Nas riscas cinzentas de cimento da doca as redes emanavam a humidade da última pescaria da manhã. Não se via ninguém, nada a não ser os gatos de serviço... ou não? Lá ao fundo estava o velho Gautier acocorado, a remendar uma rede.

Charlie pensou se uma cerveja ali do outro lado da rua, no Lê Pêcheur, não lhe faria bem. Também tinha fome. As cadeiras na esplanada do Lê Pêcheur estavam vazias, provavelmente até o café estaria vazio, pois àquela hora toda a gente tinha que fazer. Mas precisava de encontrar o pai. Só recomeçava a trabalhar às duas horas.

Portanto Charlie começou a andar, sempre ao longo da rede. O velho Gautier só ergueu a cabeça quando ouviu o seu nome.

- Viste o meu pai?

Gautier puxava pela rede. Charlie não percebeu se ele o tinha ouvido.

- Tinha a manhã livre. Disse que ia à pesca. - Gautier voltou a pegar na agulha.

- Não esteve aqui? - Charlie sentiu-se ridículo.

- Esteve.

- E quando, por amor de Deus?

- Há dez minutos. Ou talvez há meia hora. Charlie mordeu o lábio inferior. Tentava acalmar-se, ao mesmo tempo que dizia para si próprio: Paciência, é assim mesmo ao fim de cinquenta anos sentado neste cais de merda com a porcaria do sol a queimar-te a pinha.

- Viste para onde é que ele foi?

- Para o molhe velho. Para onde havia de ser? Gautier tinha outra vez razão. O molhe velho era o lugar preferido do pai:

Charlie afastou-se do pescador e foi-se embora a correr. Tinha pouco tempo, o suor irrompia-lhe dos poros e escorria-lhe pelas costas abaixo, mas a seguir o vento bateu-lhe e sentiu-se melhor. Um bando de gaivotas executava voos rasantes sobre a sua cabeça.

O molhe velho não era um verdadeiro molhe, era mais uma espécie de paredão, para protecção do porto. Fora construído por pioneiros no início da guerra, e as tempestades na baía tinham-no desgastado consideravelmente. os blocos enormes de pedra ainda existiam, mas a camada de cimento fora destruída pela rebentação das ondas.

Charlie saltou de uma placa de cimento para outra, de pedra em pedra.

Mesmo no fim elevava-se uma estrutura em ferro meio enferrujada que suportava a luz de sinalização. Mais para o lado, um vulto. Céu e mar eram do mesmo azul-claro, de tal forma que a linha do horizonte mal se percebia. O homem que ali estava, alto e escuro, ligeiramente curvado para a frente, parecia um dedo indicador arqueado.

Era o seu pai.

Quando Charlie se aproximou, reparou que enfiara a cana de pesca no suporte de fixação de alumínio que levava consigo para toda a parte. Assemelhava-se a um traço pincelado, a seu lado. O fio de pesca estava mergulhado na água; parecia não lhe interessar.

Estava apenas ali a fitar o mar, com um olhar que fazia aflição.

Charlie esticou a mão e tocou-lhe ao de leve no ombro direito. Maurice Benoít não se assustou, também não se voltou, murmurou apenas qualquer coisa:

- Tu, Charlie?

- Sim, eu.

Charlie foi pôr-se à frente do pai.

Tinha uma cara magra e escura, e o cabelo às manchas pretas e brancas. Completamente branco era o Gauloise por fumar, preso no canto da boca de Benoít.

- Preciso de falar contigo.

Maurice Benoit olhou para o filho como se este não existisse, como se fosse cinzento e transparente como o mar. Charlie conhecia aquele olhar. Não levou a mal. Lidava bem com o velho, gostava dele... mas, nos últimos tempos, o pai tinha permanentemente aquele olhar, e Charlis conhecia bem o seu significado e a causa daquela maldita infelicidade.

- Acerca de quê, então?

- Se calhar já fiz asneira.

A expressão ausente do rosto do pai exprimia agora algum interesse.

- Outra vez?

- Outra vez.

- E onde?

- Nas obras, no parque de estacionamento à frente das três barracas. Ia a caminho da praia, mas, como não se consegue passar pelas oficinas, arrumei a mota no parque. Entretanto chegou um gorila convencido de que era polícia e quis-me baralhar.

- E depois?

- E depois? Fui-me a ele. Só estou a contar isto para o caso de haver uma participação. Mas não é tudo...

- Que mais?

As gaivotas tinham voltado para trás e desenhavam uma curva. Gritavam tão alto que Charlie não conseguia perceber o que Maurice Benoit dizia.

Charlie aproximou-se da cana de pesca, retirou-a do anel do suporte, que também recolheu, e puxou a linha.

- Preciso de comer qualquer coisa. Anda, vamos ao Lê Pêcheur. Convido-te para uma sopa de feijão.

- O que é que aconteceu mais?

- Anda...

O pai pôs-se a caminho. Caminhava devagar e com cuidado, sempre a ver onde punha os pés. Charlie decidiu que seria melhor começar a contar-lhe, pois não sabia se no Lê Pêcheur alguém os podia ouvir.

- No parque de estacionamento estava o Land Rover do alemão... É normal. Mas mesmo atrás, bem à vista, um supercarro. Que tu conheces.

Estavam novamente à entrada do molhe, ao pé do muro largo de cimento onde costumavam ficar os canhões antiaéreos.

Charlie estugou o passo.

- Um supercupê branco. O supercupê branco mais volumoso dos arredores. E tu és um dos poucos que o conhece.

Normalmente o teu companheiro Donnet esconde-o no celeiro do padrasto, não é? Quando lá vai, costuma meter pelo bosque. É tão agradável. Também gostas, não gostas? Não obteve resposta.

- Provavelmente o Donnet veio do bosque - disse Charlie. - E se calhar precisava urgentemente de falar com o seu amigo, o alemão. Mas parece que ultimamente não se importa de estacionar o seu carro de desporto ao lado daquele carro de luxo. Se calhar já não precisa de ter cuidado Ou se calhar enlouqueceu, simplesmente.

Estavam parados à sombra do muro e olhavam um para o outro.

A calma de Benoit parecia ter-lhe passado. A boca tremia-lhe, empurrou o filho contra o cimento duro e fitou-o nos olhos.

- Pára com isso de uma vez por todas. Quantas vezes tenho de to repetir?

- Não, não paro. Quero saber o que se passa. Tu sabes. A respiração de Benoit tornara-se pesada e ofegante.

- Não passaram de umas palavras... imbecis, ainda por cima.

- Foi essa a razão.

- Ouve, Charlie, Eu era amigo do Pascal. É verdade. Mas também é verdade que eu e tu... sim, nós os dois, Charlie, podemos levar uma tareia se continuas a apregoar coisas por aí.

- O Ortiz foi meu professor. E também era meu amigo. E o Fabien também é. Na tua opinião, o que achas que devo fazer?

- Charlie... - Maurice Benoit cerrou de tal modo as pálpebras que se formaram uma série de rugas nos cantos dos olhos e na testa. - Tenta perceber!

- Tenho ainda uma coisa para te contar, pai. Mais uma história do parque de estacionamento. Espreitei para dentro do cupê. E sabes o que estava no banco de trás? Uma espingarda de três canos novinha em folha. Não era uma arma qualquer, não, era precisamente aquela que me mostraste uma vez... uma espingarda de caça, uma daquelas com que gabaste toda a vida e que nunca pudeste ter. Mas o teu colega mineiro Donnet, o querido Paul, realiza os seus sonhos. Sonhos? Nem sequer pensa nisso, basta-lhe entrar numa loja e comprar a bomba. Esse tem massa. O alemão passa a vida a dar-lha, pela frente e por trás. O que significa uns vinténs para o Paul Donnet?

Maurice Benoit afastou-se do muro, deixou cair os braços e ficou parado, com as mãos pendentes e de cabeça baixa.

Anda - disse o filho. - Vamos ao Lê Pêcheur. Vamos comer qualquer coisa.

Sentaram-se na esplanada do restaurante. O pai tinha os olhos fechados; o estômago de Charlie, não, o coração doía-lhe.

Maurice Benoit bebeu o pastis em silêncio, não falou enquanto comia a sopa, deixou metade no prato e acendeu um cigarro. A seguir pegou novamente na colher, comeu o resto da sopa, recostou-se na cadeira e olhou para o sol.

As mesas em volta estavam todas vazias. Fazia demasiado calor lá fora. E só Marcel, o filho do proprietário, é que estava lá dentro a praguejar, atrás do balcão. Alguns carros de turistas que não tinham reparado na placa de desvio por causa das obras passaram ao lado e voltaram para trás.

Charlie olhava para o pai. O seu rosto espelhava solidão.

- Como é que o Donnet estaciona o carro à frente das barracas das obras? Como é que se atreve a fazê-lo?

Maurice Benoit acenou vagamente com a cabeça. Era Preciso ver para acreditar.

- Talvez estivesse de serviço... - começou Charlie Por dizer.

Benoit abanou a cabeça.

- Port Lês Fleurs está dependente de mim... oficialmente.

- Muito bem; ele podia ter uma informação urgente...

- Passa tudo por cima da minha secretária - disse o Pai. - Mesmo não estando no escritório, teria sabido disso.

- Quer dizer que o Donnet julga que pode fazer o que lhe apetece?

Charlie observava as mãos do pai. Pousara-as sobre um guardanapo, tinha os dedos contraídos e amarrotava o pano com tanta força que as veias pareciam cordas.

- Vou dar-lhe uma ensaboadela - disse ele. - isto tem de acabar. Vou resolver este assunto ainda hoje...

A conversa foi curta e em italiano, através de um telemóvel que não podia ser intersectado.

- Sérgio, estás a reconhecer a minha voz?

- Si, signore.

- Sérgio, tenho outra missão para ti. Relativamente à parte financeira, está a evoluir como de costume.

- É uma grande honra para mim, signore.

- Ouve, Sérgio: conheces os dois tipos da polícia de Cavalaire?

- Se conheço? Conheço de nome e sei como são fisicamente, mas conhecer? Seria demasiado complicado.

- Óptimo. Estou a falar do mais velho, do substituto.

- O Benoit?

- Exactamente. Ele está pelos cabelos. Deu uma ensaboadela ao colega... Não sei como, mas deve ter descoberto...

- Aquilo com o Ortiz? É isso?

- Deixemos os nomes de parte. Sérgio, o Benoit precisa de um traço vermelho.

- Um tipo da polícia?

- Os honorários podem duplicar, Sérgio. Fez-se um silêncio na ligação.

- Sérgio, ainda me estás a ouvir?

- Está bem. É uma honra - soou finalmente. -~ Mas...

- Sergio, a coisa vai ser encoberta. Não te preocupes, Não vai acontecer nada, absolutamente nada.

- E o que é que eu tenho de fazer?

- A tua tarefa. Mas tenho uma ideia. O Benoit vai estar lá em cima em La Vallée hoje por volta das sete da tarde

Com aquele carro de serviço. Percorre aquele trajecto todos os dias. A partir daí dá as suas voltas. Há lá uma casinha castanha com portadas azuis, do lado direito. O Bejiolt tem assuntos a tratar com o proprietário dessa casa. A seguir desce por aquele caminho tortuoso, é o único caminho razoável que temos nas redondezas. Para tratar dos seus assuntos em La Vallée, leva cerca de um quarto de hora, o tempo suficiente para preparares o carro, de forma a que não consiga dar as curvas. Percebeste?

- Si, signore.

- Vê lá se resolves isso. Caso contrário, temos de pensar noutra coisa.

- Si, signore.

A ligação voltou a ficar silenciosa.

Já tivera aquela sensação, doze anos atrás, quando a meio do golfo a tempestade o apanhou de surpresa, o afastou para longe e por fim caiu ao mar por causa do balde ferrugento do barco que lhe acertara no traseiro; e no último, no derradeiro segundo fora descoberto por uma traineira de arrastão espanhola que o tirou da água.

Naquele dia passara por algo semelhante: estava tudo mudado à sua volta, tinham-se afastado para longe, e sentia pairar qualquer coisa estranha no ar desde que dissera a Paul Donnet umas verdades na cara.

Tinha conseguido! Outra vez, pensava Maurice, enquanto conduzia o carro em direcção a La Vallée. Tinha conseguido! O silêncio estava a dar cabo de ti. Mas, e agora? O Donnet já sabe, de certeza. E o Donnet também sabe que o vais denunciar e que vais insistir para que se proceda a uma investigação, se começar a incomodar-te. Desde que deixámos a academia, a palavra «colega» deixou de ter significado. Não te rias, pensava Maurice Benoit, nunca foste tão enganado com a palavra «colega»!

O carro de polícia rodava atrás de um tractor que subia calmamente a encosta no meio da estrada com o seu carregamento de estrume. Benoit ligou a luz azul, accionou a sirene, e o lavrador, assustado, afastou o tractor para o lado.

Avistou as primeiras curvas. Benoit conhecia a casa para onde se dirigia mas não conhecia o proprietário. Chamava-se Lizarzu ou qualquer coisa do género, devia vir de uma família basca, como a avó de Benoit, e o motivo pelo qual apresentara queixa era tão mesquinho como a casa lá em baixo perto da estrada: três cabras tinham-lhe danificado a cerca do jardim e comido a alface. O homem conhecia o dono das cabras. Portanto, queria uma indemnização.

Maurice Benoit passou de carro pela casa e estacionou-o à sombra de uma árvore. Agarrou na pasta, caminhou em direcção à casa e desceu a escadinha que ia dar à porta...

Três minutos depois a motorizada parou à frente do carro de polícia. O condutor vestia um fato-macaco azul e trazia um capacete na cabeça. Tirou o capacete, agarrou na mala que prendera à mota e retirou uma caixa de ferramentas. Abriu-a e agarrou numa pequena pua para accionar baterias, ajoelhou-se e desapareceu por detrás do carro de polícia.

Não demorou mais de três minutos até se tornar novamente visível, arrumar a ferramenta, dar balanço na mota e arrancar encosta acima.

Um quarto de hora depois Maurice Benoit partia também no seu carro seguindo na mesma direcção, encosta acima. Sentia-se relaxado, quase feliz. Aquela gritaria toda em basco que fora obrigado a ouvir tivera o efeito de um calmante. Agora ia dar a sua volta, às seis horas chegaria a casa, onde já estaria sentado o rapaz com o seu olhar repreensivo, mas seria a primeira vez que Maurice não iria ligar importância... Não, nenhuma mesmo.

Os cálculos estavam a bater certo.

À sua frente surgiam os restos do muro da fábrica de barro. Estavam cobertos de giestas. À frente havia alguns pinheiros. A seguir vinha uma curva apertada para a direita, junto a um ribeiro.

Benoit deixou o carro rolar encosta abaixo, olhou para a esquerda, para os blocos de rocha no vale a não mais de duzentos ou trezentos metros de profundidade. O solo do barranco estava coberto de seixos castanhos, não se via água em parte nenhuma, o sol secara o caudal do ribeiro no Verão.

Maurice viu o sinal de aviso e carregou no travão, carregou a fundo até ao embate. Era como se os seus pés não sentissem nenhuma resistência.

Ao princípio Maurice Benoit ficou apenas incrivelmente espantado; não durou mais de três, quatro batidas de coração. A sua mão direita agarrou no travão de mão, puxou-o para cima: a mesma coisa, não havia resistência. O travão recusava-se.

Não pode ser, foi a primeira coisa que Maurice pensou.

E a seguir: não acredito, não acredito...

Donnet, o porco, Donnet e os outros porcos todos com quem se dava...

Maurice pensava naquilo enquanto o carro ganhava cada vez mais velocidade, tentando encontrar alternativas: o rochedo escarpado, aguenta-te à direita, roça nele que o carro abranda. Não, não serve de nada, não vai travar. Já vais demasiado depressa, e ali mesmo à frente, depois da curva, vais-te despenhar lá em baixo. Pensamentos que eram como sinais, e que só tinham um eco: Donnet, porco, Donnet, assassino, tu e o teu bando de assassinos...

Depois, foi o fim.

Ouviu-se uma chiadeira aguda e inquietante: a borracha das rodas da frente entortadas na transversal derrapou sobre a camada de asfalto. O carro azul com a inscrição branca, Police, caiu no vazio, ouviu-se um estrondo, tombou a pique, levantou uma nuvem de poeira castanha na montanha, levou madeira de árvores atrás de si, continuou a voar e desapareceu...

A mulher gorda de vestido azul, avental branco e espanador tentava afastar da enorme mesa no meio da sala qualquer coisa que ninguém via a não ser ela.

- Já está bom, Lucette. - Lindner pousou-lhe uma mão no braço. - Deixe-nos um bocadinho a sós. - Pronunciava aquelas palavras com a mesma simpatia com que tratava os seus empregados e que lhe era retribuída com um reconhecimento deslumbrado, sem o qual não conseguia viver.

- Com certeza, Monsieur Lindner. É para já, monsieur A mulher desapareceu e fechou a porta com tanto cuidado atrás de si que não se ouviu sequer o sopro de um ruído. Thomas Lindner carregou num dos botões do comando à distância que tinha na mão: a persiana desceu sem um som e protegeu a sala da luz do dia. Lindner carregou noutro botão: acendeu-se uma fila de projectores de halogéneo que iluminaram a maqueta em cima da mesa. Os raios de luz fízeram-no subtilmente, de forma a que o efeito de realidade fosse avassalador: uma paisagem com colinas, vales, pequenas aldeias e, como pano de fundo, pintado em papel de cenário, o Massif dês Maures, à frente a costa, a língua de terra, o cabo, a praia de Brouis, o mar.

Da língua de terra surgia um sol-nascente. As árvores e as piscinas da zona dos jardins, a quantidade de terraços, os inúmeros pavilhões estendiam-se do mar ao Col. Havia a zona dos hotéis na costa, a zona de comércio, bares, restaurantes, clubes. À frente, uma espécie de pequena Veneza com uma série de casas geminadas e vias fluviais sinuosas, com terraços, varandas e barquinhos.

Por detrás do muro que circundava tudo aquilo havia um porto, e toda aquela povoação com água à volta mais parecia uma antiga praça-forte de piratas... banhada por uma luz cor-de-rosa que cobria de sombras ténues as últimas escadas, o último barco de brincar e o mais pequeno modelo de automóvel.

Lindner estava calado. Os seus olhos brilhavam. Ou seria apenas a luz do halogéneo? Não, pensou Stefan, é mesmo verdade. O que seria de Lindner se não se entusiasmasse?

- E então? - perguntou Thomas.

- Estou sem fala.

- Consegues imaginar o que isto significa para mim? O olhar de Lindner pairava sobre os telhados das casas

e árvores de plástico dispostas pela encosta acima, e por urn friso de pinheiros espalhados ao longo da encosta. Havia inclusivamente um céu a condizer - feito com o papel de cenário.

- E tudo isto vai ser construído?

Lindner voltou-se para Bergmann.

- Sou eu que o vou construir. E não me perguntes quanto vai custar: só os custos da obra da primeira fase, cinquenta e quatro milhões de dólares. Volume de investimento, quase setecentos milhões, crédito, previsão de lucros, e mais o número de investidores. E o tipo de pessoas que são e o tipo de interesses que defendem, a pressão que exercem sobre uma pessoa! Para além dos atrasos com os acabamentos, as aldrabices, as discussões, os problemas... Sabes que na parte oeste, no local da povoação, o arenito é muito frágil, apesar de os geólogos me terem assegurado de que a pedra estava assente em terreno sólido? Consegues imaginar o que isto significa em custos? - O seu olhar tornara-se duro. - Não consegues! Também não estás interessado. A ti interessa-te a parte do «porque estás a fazer isto?». Apenas o motivo. Aquilo que se passa nas nossas cabeças, como diz a Maria...

Parecia irritado. Melindrou-se, pensou Bergmann.

- Se fosse... - começou ele. Lindner não o deixou acabar.

- Na porta de tua casa devias ter uma tabuleta com a inscrição de «psicólogo», em vez de «médico». «Especialista em hipnose. Para todos os bolsos.» É o teu campo. Demonstraste-o ontem com o Boris... O efeito que produzes nas pessoas é o que te interessa.

- Cada um com a sua vocação.

- Comigo não precisas de te esforçar. É muito simples. Lindner pronunciava as frases voltado novamente para a sua maqueta; saíam-lhe pausadamente e em voz baixa. Sempre fui um sonhador. Já o era em criança. E os meus sonhos giravam sempre à volta do mesmo: desafios. Assim que descobria um que me agradasse, agarrava-me obstinadamente a ele. Isto aqui era um pedaço de terra, uma colina feia com um monte de pedras e um bocadinho de madeira podre. Lá em baixo havia uma praia pequenina... e era tudo’ Afastou-se da borda da mesa e sentou-se num banquinho.

- Costumava ir a Saint-Tropez, bastantes vezes, para dizer a verdade. Provavelmente era o movimento que me agradava, talvez a culpa seja da Maria, que passou aqui as férias na infância. - Riu-se. - Ou das mulheres do Clube Cinquenta e Cinco... ou das do Tahiti. Mulheres de sonho, poder-se-ia dizer, não fossem metade delas prostitutas que levávamos para a cama a troco de um jantar ou de um passeiozinho de barco à vela. Mas não interessa.

Apontou para a maqueta.

- Em todo o caso, passávamos muitas vezes por cá. Nessa altura não tinha um barco a motor, mas sim um iate à vela, o Maria I, um barco fantástico, íamos até Toulon, víamos estas colinas ao longe e aquelas aldeolas ali, Gigalo, Saint-Michel e não pensávamos em mais nada. O vento era ruim, tínhamos de velejar junto à costa, e ali estava eu. Já passara muitas vezes pelo cabo Lardier, mas parecia estar a olhar para tudo aquilo pela primeira vez: o Col, a praia, a baía, as falésias, principalmente aquelas ali, que se parecem com a cara de uma mulher.

Voltou a apontar para a maqueta.

- Uma cara de mulher com uns olhos enormes, com uns olhos que poderiam hipnotizar. - Deu uma gargalhada.

- E hipnotizam mesmo. Vi de repente. Vi tudo. Vi casas, vi o porto, vi uma nova estrada, vi a encosta, vi a cidade toda à beira-mar.

Lindner falava... não, murmurava para si próprio:

- Como quando nos sentamos num quarto escuro e nos é projectado um diapositivo deslumbrante na parede. Foi como uma inspiração, não, um raio. Não pensamos em nada e de repente está ali, assim sem mais nem menos... vindo do nada.

Stefan calara-se. Lindner sentia-se no seu mundo, num mundo que não era acessível a ninguém, a não ser para ele

- E sabes o que fiz? Estava ao leme, tínhamos um timooneiro, um rapaz de Cavalaire, chamava-se Marcel. Grifei: «Marcel, lança a âncora.» Ou seja, não me recordo se dei a ordem, de qualquer modo saltei para dentro de água e comecei a nadar. A distância não era muita, talvez uns duzentos metros. Subi para terra, olhei para aquela cara de mulher em pedra lá em cima, cuspi água, respirei fundo, pois a rebentação estava brava, enrolava-me constantemente, mas consegui chegar. Não a terra, não, segurei-me a uma daquelas falésias, acariciei-a, agarrei-me a ela, encostei a cara e disse: tu pertences-me. E vais fazer parte de uma cidade. Uma cidade inteira.

As persianas voltaram a zunir. Lindner carregara no botão. Os seus olhos brilhavam sob a incidência da luz, A sua cara tinha uma expressão vazia.

- É assim, psicólogo.

- Pode ser que seja.

Lindner abanou a cabeça, sorridente.

- A tua resposta mostra-me que não me compreendes, Stefan. Mas não te preocupes. Vem, vamos beber um copo. Não, primeiro quero mostrar-te ainda outra coisa. Vem cá.

Aproximaram-se pela segunda vez da grande mesa. Lindner tirou um bastão cromado fininho de um suporte e apontou para a encosta. Vês aquela pequena porção de terreno ali em cima, quase ao pé do cume, aquele lugar vazio? O terreno tem cinco mil metros quadrados. É o único que não está urbanizado. Sabes porquê?

- Não.

- Está reservado para um projecto especial. É o terreno com a melhor vista. É... é simplesmente avassalador estar lá em cima. Os projectos estão prontos.

- Que tipo de projectos?

- Projectos para uma clínica, com um edifício principal e vários anexos.

- Uma clínica?

-- Exactamente. Uma clínica. Não te soa bem? E quando te mostrar os projectos, prometo-te que nem vais acreditar. --Ah, sim?

- Até agora só não tenho ainda a certeza de uma coisa. ainda não decidi muito bem o tipo de doentes ou de hóspedes que para lá irão. Nas conversas que já tive com os meus sócios foi apresentado todo o tipo de propostas. Clínica de reabilitação, clínica de beleza, clínica anti-stresse, de tratamento dietético... e sabe-se lá mais o quê. Mas eu tenho uma ideia. Tenho-a... desde que te conheço.

- E então?

Lindner agarrou no braço de Bergmann.

- Uma clínica para melhorar a condição física e espiritual, combinada com terapia por hipnose, para empresários exigentes e pessoas afins. A tua clínica, Stefan!

A tua clínica? Foi demasiado inesperado. Até ali Bergmann tinha estado a ouvir um monólogo habilmente construído, e agora era-lhe pedida uma resposta. Empresários exigentes e pessoas afins? Era despropositado. O que é que Stefan Bergmann tinha a ver com aquilo?

- Então, Stefan, queres embrutecer em Burgach? Pensa no que isto significa. - Lá estava novamente o rasgo de Thomas Lindner. - Como era a frase? Ofereço-te todos os esplendores...

- Sim - disse Stefan Bergmann. - Ofereço-te todos os esplendores do mundo, ou qualquer coisa do estilo. A frase seguinte conheço-a bem: Vade-retro, Satanás.

Lindner parecia não ter ficado chocado.

- Nada mal. Era no mínimo uma pessoa notável, esse homem de Nazaré. - A seguir pôs uma cara séria. - Não é o que toda a gente pretende ser, Stefan, uma pessoa notável? Não é verdade que toda a gente quer o mesmo: fazer qualquer coisa importante, melhor que tudo o resto, algo de único?

- Hymos - disse Stefan Bergmann.

- Como?

- É grego.

- Ah, sim - suspirou Lindner. - Vamos um bocadinho para o sol?

Fechou a porta atrás de si. Atravessaram o corredor. Nas divisões da frente encontravam-se uns homens de bata branca. Faziam desenhos no computador. Nem sequer olhavam para eles.

- Então, diz lá: hymos.

- A palavra já era utilizada por Platão. Não diz respeito só a ti, diz-me também a mim, embora na realidade não seja o homem que te convém.

- Veremos. Não empolgues tanto as coisas.

- Hymos significa a aspiração do indivíduo em se distinguir dos outros, das massas. Platão via nisso uma espécie de instinto de sobrevivência.

- Muito bem.

- No entanto, há ainda um pequeno pormenor que o velho Platão descobriu. Hymos, diz ele, é a força que habilita os homens a fazerem coisas incríveis, obras de arte, edifícios, conquistar tronos, construir cidades inteiras.

- Então, estás a ver?

- Um momento! Esse é o lado bom da questão. Mas essa força também é utilizada na morte, em homicídios, em falta de escrúpulos. Infelizmente existem mais pessoas vítimas desse impulso do que da peste bubónica.

- Oh... - Lindner sorriu com um ar trocista. - E o Platão diz isso?

- Diz - assentiu Stefan. - Mais ou menos. O sol encandeava. Fazia calor.

Lindner olhou para o relógio.

- Ainda queres ir a Lê Castelet, não é?

- Fui convidado. Para as quatro horas.

- Então vai-te embora. Se não, chegas atrasado. Stefan vacilou.

- Não conheço o caminho.

- O Benthoff leva-te.

- Prefiro ir sozinho, ou seja, caso ponhas à minha Disposição um carro dos teus. Ouvi dizer que o caminho se faz bem.

O sorriso de Lindner não desaparecia. Pertencia à sua cara, tal como os cabelos louros, as sobrancelhas claras e espessas, a covinha no queixo.

- Se queres dizer com isso: porque é que a Maria não vive aqui na vivenda, então pergunta a ti próprio. Entre as pessoas que frequentam esta casa, a quem eu por vezes me refiro como «meus amigos», ainda nenhum conseguiu ser convidado pela Maria a ir a Lê Castelet. O Borodin ficou verdadeiramente ofendido. Mas não podemos levá-lo a sério

- Onde é que ele está?

- Partiu hoje de manhã. Para Paris. Mas qualquer dia está cá em casa outra vez.

Stefan Bergmann estava sentado numa grande sala quase vazia. O tecto era suportado por vigas de madeira escura e tosca, o chão revestido de lajes de argila castanho-avermelhadas e irregulares, e as três portas estreitas que davam para o terraço estavam abertas. A paisagem que dali se avistava era uma espécie de pintura com sombras e luz, de uma beleza melancólica. Colinas castanhas cobertas de videira verde, à direita uma aldeia de camponeses escalonada como uma aldeia à volta de um castelo, as cores das casas mal se distinguindo da terra, ciprestes separados uns dos outros como dedos pequenos, um céu azul-acinzentado.

A sala estava vazia vista dos dois sofás e do banco corrido coberto de almofadões e, no entanto, parecia invulgarmente viva devido aos quadros pendurados nas paredes claras. Quadros de flores, paisagens campestres, crias de gatos e uma espécie de retrato de um gato colocado em cima de um cavalete, que Stefan contemplava.

Em frente das portas que davam para o terraço havia uma outra porta. Conduzia a uma enorme cozinha rústica com uma chaminé gigantesca de pedra, onde Maria recebeu o seu hóspede. Tudo aquilo, a pedra castanha, os ladrilhos castanhos, a loiça da cozinha, o silêncio da grande casa na encosta, provocou-lhe desde o início uma sensação de bem-estar e segurança. Meu Deus... Levantou-se, para se aproximar do terraço. Meu Deus, como isto é bonito!

Ouviu a porta bater e voltou-se.

Maria entrou com um tabuleiro nas mãos, descalça, com uma túnica que lhe dava quase pelos joelhos, semelhante a um roupão oriental, e cujas pregas acompanhavam cada um dos seus movimentos. Pousou o tabuleiro na mesinha de madeira de oliveira ao lado das cadeiras de vime e olhou para Stefan.

- Aqui tem o seu copo. Trouxe dois e um jarro com água. E umas amêndoas... Aliás, são do meu jardim. Sequei-as eu no ano passado.

Ele assentiu com a cabeça. Os quadros, a mulher, a sua voz, o ambiente - era tudo diferente do que imaginara acerca de Lê Castelet.

Ela apontou para o sofá.

- Acho que devíamos ficar aqui. No terraço faz muito calor. Aliás, podemos beber um pouco de vinho, ou uísque.

- Nos últimos três dias bebi muito.

- Acontece facilmente, na vivenda. Spiritus loci, chama-se a isso... O proprietário anterior bebeu até morrer.

- Conheço a história.

- Mas a água é boa, não acha? O terreno tem uma fonte. E preciso de estar lúcida para a nossa conversa.

Ali estava ela sentada, e ali estava tudo o que impressionara Stefan desde o primeiro segundo: as sombras sob as maçãs do rosto, a incrível elevação das sobrancelhas, o cabelo preto e brilhante atado atrás numa trança, a boca grande, robusta, com uma expressão serena, e os olhos, encaixados numas cavidades fundas, límpidos e atentos. Olhos observadores, pensou ele. E se observares melhor, existe naquela escuridão um minúsculo vislumbre de pontos dourados. Olhos como os que os pintores gostam, mas também os caçadores... ou os médicos. Sim, tinha uma cabeça lúcida... Mesmo sem a sua fonte de água.

Stefan pegou no copo.

Tinha quarenta minutos de viagem atrás de si num jipe aberto, atravessara estradas poeirentas, passara por árvores bizarras e duas aldeias adormecidas. Enganou-se duas vezes e teve de perguntar pelo caminho a três pessoas, até chegar a Lê Castelet.

Era um grande copo. Stefan bebeu até meio.

- Ele não ficou espantado? - ouviu Maria perguntar.

- O Thomas?

- Claro, o Thomas. Não ficou espantado por o ter convidado a vir cá?

- Eu é que fiquei espantado.

- Ah, sim?

- Por ter de fazer uma viagem tão grande.

Ela olhou para um dos seus quadros, e falou, sem desviar o olhar.

- Espantado... ou achou estranho?

- Nem uma coisa nem outra. Perguntei ao Thomas porque haveria de fazer uma viagem tão longa.

- E ele... o que é que respondeu? - Pelo tom de voz, parecia estar divertida.

- Oh, que era melhor perguntar-lhe a si.

- E agora, Stefan? - Não era mesmo nada fácil resistir ao seu olhar. - De que está à espera? De explicações?

- Não fiz nenhuma pergunta.

- Pois não. - Ela sorriu e cruzou as pernas por baixo daquela névoa de tecido azul. - Não fez. - Riu-se baixinho, para dentro. - Típico do Thomas! Que jogo engraçado. Devo expor-lhe a minha vida? Interessa-lhe? Quer saber porque vivo aqui e ele lá? Precisa da minha biografia?

- Eu não preciso de nada, Maria. - Debruçou-se para a frente. Sorrir e olhar em frente: definitivamente, fazia-o tão bem como ela.

- Tem razão. Até agora, não...

- Só faço perguntas aos meus doentes. E a maior parte das vezes contam-me primeiro a história das suas vidas.

- Isso não pode ser. - Sorria novamente. - Referia-me a ser sua doente.

O calor que sentia no pescoço era cada vez mais intenso.

- Não, graças a Deus. Mas há uma coisa que me interessa: que conversa era essa acerca de precisarmos de água e de ter a cabeça lúcida?

- Estou com um problema - disse ela. - E se calhar você pode ajudar-me...

Falava com frases concisas e claras, numa voz serena, muito normal, e provavelmente o que ia contar também era muito normal. Quantos relatos daqueles não ouvira já Stefan, quantas histórias de casamentos, no fundo parecidos com relatórios de doenças. Tinha de se conter e ficar calmo, muito calmo.

A casa onde se encontravam sentados, aquela construção maravilhosa, não a habitava sozinha. Partilhava-a com uma amiga, mais, a amiga era a proprietária. Chamava-se Bella, era de Carmes, trabalhava em produção de cinema e de televisão, como figurinista.

-... mostrou-me o caminho certo desde o início, não só relativamente à pintura. Além disso, Stefan, para ser mais directa: não somos apenas amigas, somos um casal.

Levantou-se e olhou para ele de cima, com uma expressão impassível no rosto, como se tivesse acabado de fazer a revelação mais natural do mundo. Aproximou-se do cavalete com o retrato do gato e apontou para uma série de desenhos.

- Está a ver estas figuras? Foram feitas pela Bella. Esta aqui sou eu, uma espécie de retrato e simultaneamente um «psicograma»... também feito por ela.

O quadro exibia uma mulher à frente de um espelho. Tinha o longo pescoço inclinado para a frente, a mão esquerda segurava o cabelo escuro, três dedos tapavam o olho direito. O traço preciso e firme, as cores, o olhar...

- Então, o quadro que está no salão do Maria também foi feito pela sua amiga?

- Foi. O Thomas quis colocá-lo lá incondicionalmente. Eu não achei a ideia extraordinária... mas tudo bem, ele quis, e eu dei-lhe esse prazer.

Não conseguia interpretar o seu tom de voz. Ironia carinhosa... ou algo parecido com desinteresse? Continuava com a cabeça baixa, como no retrato. Bergmann observava o seu perfil e tentava livrar-se do embaraço que o dominava: não te esforces. Mas como? Não havia nada mais difícil do que uma relação a três. E ainda por cima parecia ser bem-sucedida... Mas o que quererá ela de ti? Espera. Ela vai falar...

E falou.

- A Bella é muito dotada intelectualmente. Mesmo como pintora, podia ser famosa. Não digo isto por ser minha amiga, é mesmo verdade. Fez duas exposições, uma em Paris, outra em Carmes. Desde então, os donos de galerias batem-lhe à porta. E ela, ela ri-se e corre com eles. Não suporta agitação...

- Mas, repare, trabalhar em produção para a televisão e trabalhar na ópera e no teatro é...

- Claro, também é agitação. E é precisamente isso que a Bella odeia. E portanto teve de arranjar alternativas, como fazem as outras pessoas. A Bella tem uma casinha em Cannes, por vezes vai também a um café qualquer e discute os seus projectos com as pessoas que lhe interessam, com realizadores, directores de produção, cenógrafos, que levam os desenhos da Bella e as suas propostas... e pronto. A Bella só quer uma coisa...

- Que é?

Maria olhou novamente para ele, olhou-o directa e longamente nos olhos.

- Aquilo que todos nós queremos, Stefan: trabalhar... e sermos amados ou, no mínimo, não estarmos sozinhos. E sermos saudáveis.

Passava as suas mãos compridas pelo corpo, aquelas mãos que a amiga pintara no quadro. Alisou uma prega da túnica no peito. Stefan não conseguia deixar de seguir os seus movimentos.

- Não sei se lhe devo contar tudo isto... mas porque não? Se calhar tem mesmo de saber, para compreender melhor. Quando me casei há sete anos, levei a Bella para o meu casamento, como dote, por assim dizer. Pode dizer-se que sou bissexual, se é que essa palavra idiota pode descrever uma relação deste tipo.

Ele assentiu outra vez com a cabeça. Resumindo: era tudo muito normal, pelo menos a acreditar no seu tom de voz; Maria também poderia ter dito que a moldura do retrato de Bella podia ser mais larga.

Stefan Bergmann olhou para o seu copo de água.

- Então, não faz perguntas? - inquiriu Maria.

- Que perguntas?

- Porque não diz: e o Thomas? O que pensa ele disso?

- Quer que pergunte?

- Ou também podia perguntar porque lhe conto isto com tantos pormenores.

- Sim, é mais isso.

- A razão é muito simples: a Bella é uma pessoa doente. É asmática... Tem ataques terríveis, tão violentos que por vezes corre o risco de asfixiar e julga que vai morrer. E eu a seguir sento-me à beira da cama, pego-lhe na mão e fico à espera que um daqueles malditos medicamentos que tem sempre nos bolsos comece finalmente a produzir efeito. Foi também esse o motivo que a levou a comprar Lê Castelet. Já tinha uma casa no campo mas era muito pequena para ela, principalmente depois de um dos seus médicos lhe ter dito que era o nevoeiro de Carmes que lhe provocava a asma. Mas não é verdade. Também tem ataques aqui.

- E fez testes de alergia?

- Fez. Já fez testes a tudo o que está relacionado com produtos químicos, pólenes, etc. A tudo e mais alguma coisa. O resultado foi negativo. Tentaram tudo por tudo para descobrir a causa. Qualificaram a sua asma com uma única palavra: psicossomática. A psique, o protesto da alma, madame... e por aí fora. A velha canção. Mas o senhor é especialista nestes assuntos, não é verdade?

- Não sei. Especialista? Quem é que se pode intitular especialista?

- Vou dizer-lhe uma coisa, Stefan... - Examinava as unhas dos dedos sem olhar para ele. - Nada disso tem a ver comigo. Há anos que ela já sofria desta doença, antes de nos conhecermos.

Ela?

Uma mulher chamada Bella...

Mas o que tinha ele a ver com isso, se uma mulher representava o papel principal na vida de Maria? Estava à espera de tudo, menos daquilo...

Bissexual, rapaz... Stefan sentiu uma espécie de revolta solitária. Que situação!

Mas a situação não durou muito tempo. Rapidamente impôs-se o outro Stefan, o racional, que conduzia as coisas de uma forma pragmática: O que tens a ver com isto? Afinal de contas, o que se passa aqui? Ela apenas quer um conselho...

- E está a contar-me isso... - As palavras saíam-lhe com alguma dificuldade, falava em voz baixa. - Está a contar-me isso, porque julga que posso ajudar a sua amiga?

- Por que razão haveria de ser? - Uma pausa. E a seguir: - E pode?

- Talvez. Há sempre alguma coisa que se pode fazer pelos asmáticos, com uma terapia por hipnose. Precisava de a ver. Quando é que ela cá vem?

- Pois, o problema é esse; teve de ir a Nova Iorque. O que quer dizer que só regressa no final do mês... - O entrançado do vime do velho cadeirão estalou quando Maria se levantou. Os seus pés pisavam silenciosamente os velhos e pesados ladrilhos de argila. Andava de um lado para o outro da sala, tirou um maço de cigarros de uma prateleira, parou, acendeu um cigarro e inalou profundamente o fumo.

- E agora vai dizer-me que, quando ela regressar, você já há muito tempo que se foi embora...

- Infelizmente.

- Fique, Stefan.

Quando olho para ti, só me apetece... O pensamento apoderou-se dele e sobrepôs-se a tudo. E quando olhas para mim, como estás a olhar neste momento, através da cortina de fumo do cigarro...

- É tão importante.

- Para a sua amiga, talvez. Estou convencido de que a poderia ajudar. Mas há tanta gente que precisa de mim. E estão à espera...

Disse-o baixinho, mais para si próprio, mas não pôde evitar que as suas palavras ganhassem forma. Durante o tempo que ali estivera, reprimira o pensamento.

As caras na sala de espera, o silêncio durante as sessões, onde o mundo era todo excluído e não existia mais nada a não ser a pessoa sentada na cadeira preta à sua frente uma Annemie Markwart, por exemplo... E ela vai precisar de ti. Brevemente! O «efeito circo» e todos os progressos relacionados com isso acabariam por ir por água abaixo se não continuasse a insistir e a aprofundar as sugestões que a tinham ajudado. O que é que já fora conseguido? Uma primeira batalha, nada mais. Só o processo de aprendizagem que estava a ser construído podia estabilizá-la.

Annemie? E os outros? E Christa?

Estranho: naquele momento a sua mulher não passava de uma sombra... Vais ligar-lhe, decidiu Bergmann. Ainda hoje...

- Você é casado, não é, Stefan?

Parecia que Maria conseguia ler-lhe os pensamentos. Ele anuiu com a cabeça. Estava demasiado espantado.

- Não conseguiria imaginar a sua mulher a viver aqui?

- Claro que sim. Mas seria necessário muita imaginação. Ela gosta da casa onde vive. E é médica de corpo e alma.

Maria apagou o cigarro no cinzeiro, e quando a viu aproximar-se de si teve pela primeira vez consciência da força que ela emanava.

Não se sentou. Ficou de pé à sua frente e olhou para ele de cima.

- O Thomas falou consigo acerca da clínica?

- Falou. :

- E então?

- Eu estava a tentar explicar porque é que...

- Porque é que recusou?

- Não o fiz... O Thomas é que estava muito entusiasmado. Eu não o quero magoar, compreende?

- Se compreendo...

Olhava para ele com uma intensidade como ele raramente sentira. Era um olhar cheio de força... mas também de desilusão.

- Não devia recusar, Stefan. Está bem, eu tenho sido muito egoísta, só pensei na Bella e na ajuda que você lhe poderia dar... mas agora penso em si. O Thomas gosta de si, gosta até muito de si. E gosta de si de uma forma cujos motivos ainda não me são muito claros. Se calhar tem a ver com aquele acidente, se calhar é outra coisa: chamemos-lhe força de atracção. Ele tem poucos amigos, talvez só veja em si um amigo. E como sucede sempre... quer tê-lo como sócio. Seja como for, quer dizer que está a tentar inseri-lo na nossa vida.

Stefan pegou no copo. Estava vazio. Segurou-o na mão. Como iria reagir, o que deveria responder?

Maria Lindner debruçou-se sobre ele.

- Uma coisa é certa: quando o Thomas quer uma coisa, normalmente consegue-a. Se calhar consigo também vai conseguir...

Estava tão próxima que podia sentir o cheiro dos seus cabelos e do seu perfume. Colocou a mão direita nas costas da sua mão.

- Stefan, eu também teria muito prazer. Muito até, mesmo muito. Por favor, pense nisso.

Pensar, claro, mas como? Olhou para aquela mão, para os seus dedos esguios sem anéis, de unhas envernizadas e com dois ou três restos de tinta azul que se tinham entranhado nas rugas ténues e minúsculas, sentiu o calor que ela emanava e que chegava até si, sentiu-o com tanta força que parecia não conseguir resistir-lhe, como se não existisse o mínimo obstáculo a transpor, como se não houvesse pele, nenhum músculo, como se os nervos se tocassem...

- Prometido? - perguntou Maria. Stefan assentiu.

Foi a última vez!, jurava Fabien Lombard a si próprio, enquanto passeava com Régine ao longo do local do incêndio. Ainda lá estavam as duas garrafas de água, o ancinho e o pequeno tridente com o qual vasculhara cada centímetro de cinzas daquele maldito terreno.

Inutilmente...

Fabien meteu tudo dentro da mochila que Régine segurava. Depois de se ter esfolado a trabalhar e gemido de desespero, quase não suportou vê-la aparecer no campo de cinzas; agora estava feliz por Régine... No entanto não conseguira encontrar a caixa com as fotografias. Tinha de pensar noutra coisa. Tinha de falar com Charlie.

-- O que havia dentro da caixa de metal, Fabien? Não me dizes?

Ele olhava apenas para Régine.

- Tudo.

- Tudo o quê?

- Não te posso explicar e aliás... - Interrompeu a frase, calou-se.

Fabien vira a caixa quando o pai a guardara um dia à tarde no guarda-roupa, para o voltar a fechar com cuidado. Fabien nessa altura fizera a mesma pergunta que Régine lhe fazia naquele momento.

- Fabien - respondera o pai -, ali dentro há munições, não, dinamite. Tanta dinamite, rapaz, que basta chegar-lhe uma chama para ir tudo pelos ares. E o estrondo, acredita em mim, ouvir-se-ia em Paris.

- O que é que vai pelos ares? O porco alemão?

- Não é só o Lindner. Ele não é o único criminoso. Se pensarmos bem, os outros ainda são piores. Eles é que abrem a porta a esses porcos dos alemães.

- Que outros?

O pai olhou apenas para ele e abanou a cabeça. E então, uma noite, aconteceu mesmo. Fabien tinha chegado tarde a casa, o pai cozinhara borrego guisado com feijão, como sempre.

- A comida está em cima do fogão. Aquece-a, Fabien. O velho tinha uma garrafa de vinho Merlot-Spãtlese à

frente, o melhor vinho que se podia arranjar na região, mas, como ex-chefe da cooperativa, os seus antigos colegas arranjavam-lhe sempre uma garrafa. Estava portanto ali sentado, a dar voltas ao copo, quando Fabien percebeu: o velho já tinha bebido metade da garrafa. Provavelmente era a oportunidade de Fabien. No entanto, desde quando é que uma garrafa de vinho produzia efeito no pai?

Fabien começou por abordá-lo gradualmente e falou de todo o que lhe vinha à cabeça, antes de chegar ao assunto.

- O que há naquele armário?

- Material.

- Dinamite? - Fabien esboçou um sorriso.

- Não te atormentes por causa disso, rapaz.

- Essa é boa! Pegas-te com as pessoas daqui por causa de Port Lês Fleurs, mas sempre que eu apareço não levo nada em troca, e sinto-me um perfeito idiota. Tu não tens a mínima confiança em mim?

- Não se trata de confiança, Fabien.

- Então, trata-se de quê?

- De quê? É demasiado perigoso. Tão simples quanto isso.

- Demasiado perigoso para ti... ou para mim? Pascal encostou-se para trás. Fê-lo tão energicamente

que o encosto da cadeira rangeu. Lá fora, à volta de casa, no Col, o vento soprava. O velho olhava para o filho com olhos cansados e orlados de vermelho.

- Para eles - disse. Abanava a cabeça de um lado para o outro, muito devagar, como se estivesse à procura de uma solução. - E também para nós!

E de repente levantou-se.

- Muito perigoso... Mas também podemos ver a coisa de uma perspectiva totalmente diferente. Quando penso nisso, quando pondero isso... - A sua voz não passava de um sopro, mais fraco do que o vento no Col. - Suponhamos que eles ouvem falar das fotografias. Embora seja praticamente impossível pois fui eu que as revelei. Para dizer a verdade, devia levá-las para fora de casa, escondê-las algures no bosque. Todos os dias penso nisso... mas se calhar a humidade estraga-as.

- Então a caixa contém fotografias?

- Sim. São fotografias. Mas não são fotografias comuns... São provas.

- De quê?

O pai calou-se. Entrelaçara as mãos, e Fabien observava os dedos com as bordas das unhas negras enterrarem-se nas costas das suas mãos.

- Quem é que consta dessas fotografias?

- Todos. Todos os que urdiram aquela porcaria.

- O alemão?

- Claro. Mas os outros ainda são mais importantes.

Pascal ergueu-se um pouco da cadeira e voltou a sentar-se, olhou para a garrafa e deixou cair as mãos. Por fim levantou-se e começou a andar de um lado para o outro, de tal forma que Fabien ouvia as tábuas do soalho rangerem.

Pascal deteve-se junto à chaminé e voltou-se.

- Talvez seja bom saberes, rapaz. Talvez seja importante. Se calhar até... Pode ser que aprendas qualquer coisa. Não só que os criminosos se sentam sempre nos melhores lugares, sempre foi assim. É disso que vivem os livros de história, é o que te ensinam na tua fantástica universidade. Podes aprender ainda outra coisa...

- O quê?

- A importância de fechar a boca até chegar a altura certa. E não vai demorar muito tempo, garanto-te eu...

Pascal Lombard voltou para junto da mesa, puxou a cadeira, sentou-se e aproximou a cara da do filho. E depois começou a falar...

O pai não desviou os olhos de Fabien enquanto falava. Fazia-o num tom de voz baixo e contido, como se pudesse estar lá fora alguém a escutar, mas não havia nada lá fora para além do vento, o primeiro mistral, como Fabien se recordaria mais tarde.

Fabien ouviu atentamente e sentiu-se impotente. Era impossível de acreditar, e até de compreender. Como é que o velho conseguira fazer uma coisa daquelas com a articulação coxofemoral fracturada? A teleobjectiva e a Nikon eram as suas armas, bastavam-lhe. O velhote escondera-se simplesmente atrás dos arbustos durante horas, com a câmara no tripé, esperara, olhara através do visor, continuara a esperar, aproximara a imagem com o zoom até ficar nítida... e disparara.

Na primeira vez fora ainda mais simples. A baía era a casa de Pascal. Fotografara aí vezes sem conta os açores no War. E mais abaixo, a menos de trinta metros de distância da costa, estava ancorado o iate do alemão.

- Eu podia vê-lo através da teleobjectiva, Fabien. Não precisava de binóculos. A sua mulher estava com ele... uma mulher extravagante. Mas eram os outros que me interessavam, os que andavam por ali, que chapinhavam na água e que depois voltavam para falar de negócios, com um ar muito importante.

Os outros?

Nesse aspecto Fabien também tinha de ser ajudado. Pascal Lombard tornara-se nos últimos meses um verdadeiro especialista de política suja. Os «outros» eram três: uma besta alta de Toulon, um tal George Pallardin, engenheiro e responsável pelos projectos do departamento de Var no gabinete do prefeito. O homem dos carimbos, mais importante ainda do que o prefeito relativamente aos projectos de construção. E onde é que ele estava? No Maria II, a embriagar-se com champanhe...

O seguinte: Maitre Amoros.

Pois bem, Amoros era advogado de Lindner, isso já Fabien sabia... mas não só. De modo nenhum. Aquele cão gordo ainda...

- O Amoros é o advogado do Lindner, é o presidente do conselho fiscal da sociedade comercial de fundos de investimento de Port Lês Fleurs, meu filho. Mas na realidade, e percebi isto naquele dia vinte e seis de Outubro... e não só percebi, como também tenho registado no rolo...

Pascal Lombard elevara a voz.

- Na realidade, ele é o intermediário do Dominique Benedetto, Le Coq, como lhe chamam.

- De quem?

- Le Coq é um corso. O que significa corso? O corso número um da Cote d’Azur. Raios... Esse não desiste de se meter em negócios escuros. Os estragos que já fez, já devem ir nas centenas de milhões. Isso foi quando o Benedetto ainda explorava bordéis em Marselha e organizava o negócio das drogas. Mas agora calça luvas brancas. Tornou-se uma pessoa fina.

Le Coq, o corso, ficou Fabien a saber pelo pai, tinha-se transformado há três anos num dos maiores tubarões da especulação imobiliária francesa. Quer se tratasse de empreendimentos turísticos, hotéis, complexos desportivos ou campos de golfe - as suas empresas proliferavam por toda a parte. E os seus subornos contribuíam para que as encomendas feitas à concorrência ficassem em águas de bacalhau.

- Le Coq é o verdadeiro sócio do Lindner. Le Coq... e não o Amoros. Esse é apenas um empregado. É Le Coq que trata dos grandes negócios. Em Toulon, por toda a parte.

Fabien queimou os dedos com o cigarro. Era demasiado incrível. Um balde de água fria.

- Mas Le Coq não é o único sócio - disse o pai. Esse Lindner ainda tem um segundo, um russo, que é quem trata do dinheiro. Não sei como se chama. Mas soube através da Lucette que era russo. A Lucette Demory, tu conhece-la, a sobrinha da Pauline. Trabalha na Villa Wilkinson.

Fabien anuiu.

- Ora aí está: um russo. Podre de rico, naturalmente. São capazes de tirar a camisa à própria família, e depois vendê-la. É um caçador de mulheres como não há igual. Também há fotografias que o provam... Também tenho no rolo o russo e três dessas jovens prostitutas de Saint-Tropez. Todos nus na piscina...

- Qual?

- Qual havia de ser? Na piscina da Villa Wilkinson.

- Estás a brincar?

- Há muito tempo que não faço uma coisa dessas.

Fabien tentou imaginar, incrédulo, o pai a apontar a câmara para a propriedade da Villa Wilkinson. De onde? Da encosta, lá de cima, naturalmente... Devia ter encontrado um sítio de onde se podia ver o terraço dos Lindner. De resto a propriedade estava cercada por todos os lados e defendida das câmaras de filmar. Mas o pai... conseguira!

Fabien engoliu em seco. Já só sentia uma coisa: admiração.

- Podes ver nitidamente nas fotografias o gordo a deitar a mão ao traseiro e ao peito da rapariga. Mas não é só ele...

- O alemão?

- Não, não, o Lindner, não. Ele não faz isso. Há ainda um outro. Que não é lá muito fino...

- Quem é?

O pai olhou para ele. O vento lá fora soprava com mais força. Abanava as portadas das janelas. O pai levantou-se e durante um momento Fabien julgou que fosse controlar as portadas. Porém Pascal ficou parado em pé, tirou uma das suas cigarrilhas da borda da chaminé e voltou.

- Tens lume?

Fabien acendeu-lhe a cigarrilha e, através das nuvens de fumo, olhou para os olhos cansados e singularmente apáticos de Pascal Lombard.

- O Donnet - disse ele.

- O Donnet? Não é o...

- É. O inspector de Cavalaire. O colega do Maurice Benoit, o pai do Charlie.

- E o Donnet aparece na Villa Wilkinson com umas prostitutas quaisquer?

- E não é só isso.

- Então, que mais?

Fabien não obteve resposta. O pai voltara-se e olhava para o armário que acabara de fechar.

- Uma coisa... uma coisa que não vais acreditar. Mas eu tenho as fotografias. Ainda tenho mais fotografias. Ali dentro...

- Diz-me! Ao menos mostra-mas.

Mas o pai abanou a cabeça, ficou ali com os braços descaídos, a olhar na direcção do armário.

Como é que Fabien iria esquecer-se alguma vez daquela imagem?

Fabien sentiu um arrepio. Olhou para Régine e perguntou a si próprio se ela teria compreendido o que lhe contara resumidamente.

- E tu achas... - Fitava-o de olhos arregalados. - Tu achas que isso são provas autênticas?

- Então, Régine...

O Sol desaparecera atrás da linha do horizonte, o vermelho das falésias extinguira-se, e as árvores de repente pareciam escuras e ameaçadoras.

- Responde.

- Se eu soubesse! - conseguiu Fabien articular. - Se eu ao menos soubesse, raios os partam! Mas de que adianta? Agora, é indiferente...

Ela assentiu com a cabeça.

Continuaram a caminhar. Não andaram muito; não tinham passado três nem quatro minutos desde que Fabien proferira a última frase... e foi então que aconteceu: o trilho de caça estreito que subia do bosque até à estrada descrevia uma curva apertada e Régine tropeçou na raiz de uma árvore quando se aproximava da falésia. Esbracejou para manter o equilíbrio e estatelou-se no chão. Quis levantar-se, Fabien tentou ajudá-la, mas Régine abanou a cabeça e começou a rastejar.

- Magoaste-te?

Fabien não obteve resposta.

Régine continuou a rastejar em direcção a um arbusto, esticou o braço, enfiou a mão por baixo das folhas, tacteou e tirou qualquer coisa para fora, que Fabien não reconheceu. As suas costas tapavam-lhe a vista. A seguir voltou-se muito devagar, ainda deitada no chão, com as mãos agarradas a uma coisa qualquer que irradiava um brilho fraco.

- O que é? Diz lá o que é! Ela olhou apenas para ele.

- Eu acho - murmurou ela -, eu acho que encontrei...

- O quê?

Ela sentou-se, estendeu a descoberta a Fabien, e ele pôde ver. Muito devagar, com cuidado, quase como um cego, aproximou-se dela.

- Fabien, meu Deus, é ela, é ela, não é?

Era a caixa. À excepção de um canto metido para dentro, parecia estar intacta. Uma guita forte segurava a tampa. O pai ainda a atara, e a explosão devia tê-la lançado para fora de casa, até ali acima à falésia...

A parte esquerda metida para dentro, o tejadilho amolgado até ao volante devido ao embate, o carro de polícia destruído caíra no barranco: um quadro terrífico. Mas ninguém vira nada, pois o perfil do rochedo impedia a vista a partir da estrada. A hora da catástrofe era legível através do vidro do relógio do carro salpicado de sangue: dezasseis horas marcara ainda o ponteiro, e depois parara.

Um Maurice Benoit estropiado e gravemente ferido estava entre os bancos soltos, mas ainda vivia.

Ouviu-se por duas ou três vezes um ligeiro crepitar na rádio, cada vez que no comissariado de Cavalaire tentavam estabelecer ligação com a viatura número 7.

Mas o aparelho estava danificado.

Cerca de um quilómetro a sudeste do local onde se encontrava o carro destruído, o vale abria-se em direcção a um parque de campismo. Passavam poucos minutos das cinco da tarde quando um jovem casal se preparava para dar um passeio: Francois Duval e Louise Massot. Ambos de Nimes. Tinham dezassete anos e estavam apaixonados.

- Ainda está tanto calor - protestava Louise.

- Não faz mal. No vale há sombras, Lou. E talvez haja rosmaninho.

Francois prometera à mãe levar-lhe umas plantas de rosmaninho da viagem. Pelo menos era o que ele dizia. Na verdade tratava-se de outra coisa, ou seja, aquilo que desejam todos os jovens que partem de férias em companhia da namorada. Mas no parque de campismo não funcionava; no parque era desagradável, toda a gente ouvia. Se tivessem uma caravana... Mas na tenda?

Tens de fazer qualquer coisa, decidiu Francois enquanto caminhava sobre o cascalho e admirava o traseiro bem torneado de Louise.

Mas estava enganado.

Louise parou e voltou atrás. As suas belas ’pernas nuas reluziam com a transpiração. Empinou ligeiramente o nariz.

- Não te cheira a nada?

- A que querias que me cheirasse?

- Não é a rosmaninho... É a borracha queimada.

Francois saltou da pedra para a pequena plataforma da falésia onde se encontrava Louise, deu mais três saltos sobre outras pedras... e não só lhe cheirou, como viu...

Um pneu que se soltara na queda!

Ali, no arbusto seco, o brilho de um friso de metal. E à esquerda, na sombra da falésia... Meu Deus!

Francois desatou a correr.

Em poucos minutos chegou ao monte de destroços que fora outrora um carro-patrulha, decifrou as letras brancas e deformadas da palavra POLICE, e debruçou-se sobre a janela com os vidros estilhaçados. Bastou-lhe olhar uma única vez para o vulto ensanguentado para perceber: aqui não podes fazer nada.

- Mas está vivo - soluçava Louise. - Ouve... Sim, o homem estava vivo. Aquilo que se ouvia era um estertor abafado, e o que se via era sangue, muito sangue. Louise estava lívida de terror. Apontava com a mão para cima, não emitia nenhum som e tremia. Francois olhou para onde ela indicava. Sim, o automóvel tinha-se despenhado lá de cima. Eram à vontade uns cento e vinte metros de encosta, de grandes falésias. E depois... Nem se atrevia a imaginar.

- E agora? - murmurou Louise. - O que fazemos? Francois também fazia a mesma pergunta. Só o diabo sabia há quanto tempo é que o homem estava entalado nos bancos partidos. O parque de campismo ficava demasiado longe. Deviam ter levado quinze, talvez vinte minutos até ali. No entanto, a estrada passava mesmo por cima deles. Ouviu-se o barulho de uma mota que acabava de passar. Não se conseguia ver, só ouvir, era por essa razão que o carro-patrulha ainda não tinha sido descoberto.

- Anda. Vamos trepar até lá acima.

Não era muito longe, e tiveram sorte: Francois acabara de puxar Louise quando passou uma furgoneta na parte oposta da estrada. Pertencia a um lavrador que ia vender um carregamento de palha a um aviário em Cavalaire.

Parou. Quando Francois lhe explicou o que se passara, ele desceu uns metros de encosta e voltou imediatamente para trás, precipitou-se para o volante e apontou para dentro da cabina.

- Querem vir?

Francois e Louise olharam um para o outro. Nem tiveram tempo de responder pois o homem já acelerava, e o escape já lhes cuspia uma baforada de fumo para a cara. Eram dezassete horas e quarenta e dois minutos. Maurice Benoit continuava deitado, banhado em sangue. Perdera a consciência logo no embate, mas o seu corpo forte lutava contra a morte, os pulmões tentavam inspirar ar através das vias respiratórias meio bloqueadas e fornecer o oxigénio necessário ao coração, que batia cada vez com menos força.

Vinte minutos depois a ambulância estava no local do acidente, acompanhada por dois carros-patrulha do comissariado. O médico socorrista começou o seu trabalho. Não só levara o seu pessoal, como também praticamente toda a equipa de apoio de Cavalaire que estava de turno. Só não se via o inspector Donnet. Tivera de ir a uma conferência importante, pelo menos fora o que dissera a Dubois, a única pessoa que se encontrava de serviço no comissariado. Donnet ainda fizera uma coisa: levantara o auscultador e ligara para casa de Maurice Benoit. Charlie ouviu o telefone tocar.

Estava sentado na sua pequena secretária, debruçado sobre o capítulo denominado «Seres vivos que se alimentam de substâncias orgânicas». Charlie examinava o livro Novas Investigações na Área da Biologia, para o ir a seguir levar ao seu amigo Fabien. Havia de conseguir que Fabien se ocupasse com outras coisas sem ser com cinzas queimadas. E o telefone tocava precisamente naquela altura! Por que raio é que o telefone não parava de tocar? Se calhar era o velho.

Charlie levantou-se de um pulo, derrubou a cadeira e foi a correr para a sala de estar. Não era o pai, era aquele filho da mãe do Donnet em pessoa. E ainda por cima estava muito nervoso.

- Charlie, fala o Paul Donnet.

- Já percebi - respondeu Charlie de mau humor.

- Charlie, aconteceu uma coisa. Ao teu pai. Teve um acidente. Com o carro-patrulha.

- Está vivo? - perguntou Charlie a custo.

- Está. Mas está ferido, gravemente ferido. Também não está consciente.

- E onde é que ele está agora?

- No hospital distrital de Hyères.

Charlie Benoit nunca percorrera a distância entre Cavalaire e Hyères em tão pouco tempo como naquela tarde.

Passou meia dúzia de semáforos com o sinal vermelho, galgou por três vezes os passeios, pois o trânsito bloqueava-lhe de tal forma a passagem que os transeuntes só não morreram porque saltaram para se afastar, e, assim que se precipitou pelo hospital dentro, o porteiro infelizmente já estava informado.

- O polícia de Cavalaire? E o senhor é o filho, monsieur! Lamento, mas o seu pai ainda vai ser operado. Parece estar mesmo mal. Não pode entrar na sala de operações... mas espere um bocadinho... Vou tentar pô-lo em contacto com o doutor Bourrier. É o médico socorrista que trouxe o seu pai. Tanto quanto sei, ainda cá está.

O Dr. Bourrier era um homem novo, pálido, de óculos, com ar de estudante.

- Pois... - O médico ergueu as mãos, impotente. Infelizmente o seu pai ficou muito tempo lá em baixo preso no carro. Provavelmente tempo de mais. Devia ver...

- Eu não quero ver o carro, quero saber o que aconteceu ao meu pai.

- Compreendo... Vamo-nos sentar.

Sentaram-se lado a lado, em duas cadeiras articuladas encostadas à parede. Bourrier colocou uma mão sobre o joelho de Charlie.

- Só vamos saber o estado em que se encontra o seu pai depois da operação. A equipa já está toda a trabalhar na sala de operações. Por enquanto, por aquilo que verifiquei, posso dizer-lhe que o seu pai teve um traumatismo craniano, fracturou a bacia, quatro costelas e o esterno, o que significa que pode ter um pulmão perfurado. O baço parece estar bem, isso ainda pude verificar. O que ainda não sei. e que infelizmente sucede neste tipo de acidentes, é se a coluna vertebral sofreu alguma lesão. Olhou para Charlie.

- Pode parecer-lhe muito duro o que lhe estou a dizer mas é preferível que saiba a verdade.

Charlie acenou com a cabeça.

- Obrigado. E... acha que sobrevive?

O médico não lhe respondeu, abanando apenas a cabeça de um lado para o outro.

A jante da roda dianteira direita do jipe arrancou um marco divisório do chão, lançou-o no ar, fez com que o carro começasse a dançar, de tal maneira que Stefan Bergmann teve de se agarrar com unhas e dentes ao volante e fazer um esforço para conseguir endireitar novamente o carro. O que se passa contigo? Meu Deus, guias como um louco, não vês o caminho... e porquê? Não há-de ser por teres estado sentado à frente de uma mulher de olhos escuros e teres ficado perturbado com as suas histórias...

Fique, Stefan... Teria sido por causa daquelas súplicas e promessas e de todos os argumentos que acabavam por ir dar ao mesmo?

Encostou o carro à berma, recostou-se no banco, fitou o céu azul enevoado e fechou os olhos. Desde quando é que te deixas perturbar desta maneira?

Stefan tentou recordar-se novamente da hora e meia que passara na casa de campo de Maria Lindner, de forma a chegar a uma conclusão razoável. Mas não conseguiu. A imagem de Maria sobrepunha-se a tudo, e tinha a sensação de que ela ainda olhava para ele com aqueles olhos que o queimavam. Para além daquela voz que pronunciava as coisas mais inesperadas de uma forma tão serena e resignada como se não passasse de uma conversa sem importância. E o embaraço e a inabilidade que sentiu, com receio da impressão que causaria a Maria quando pensou em lhe fazer uma pergunta, entre outras do género: como é que o seu marido suporta isso? O que é que o Thomas acha de você gostar de uma mulher e de viver com ela? E tu, pensou Stefan, o que é que achas? E outra ainda: afinal, o que tens a ver com isso? Porque te preocupas tanto com as suas palavras: Fique, Stefan. Pense nisso. O Thomas também iria gostar. Pense novamente na proposta da clínica.

Stefan não conseguia tirar aquelas palavras da cabeça. Mas, para ser sincero consigo próprio, era Maria que não lhe saía da cabeça...

E o cunhado tinha de lhe vir à mente, justamente naquele momento, Júrgen Ruttger, o famoso dermatologista e herói de todos os leitos: «Erotismo, atracção física, amor, as velhas partidas que as hormonas te pregam. Caem-te uns miligramas de testosterona no sangue e o instinto sobe-te logo à cabeça! Acontece a todos, não é só aos reclusos que se encontram na prisão, acontece também aos frades nas suas celas... a mim, a ti.»

Júrgen, o filósofo a evitar! Provavelmente estava naquele preciso momento no moinho, a falar de coisas do género a Christa.

Erotismo, atracção física? Estaria apaixonado? Ele, Stefan Bergmann? Afastou aqueles pensamentos que só o afligiam. Se calhar era outra coisa. Se calhar era aquela terra, a distância a que ficava de Burgach, a viagem de avião que cada vez encarava mais como uma espécie de fuga, uma fuga para outro mundo, quase para um paraíso, no mínimo um paraíso de sonhos.

Stefan Bergmann ligou novamente o motor, conduziu o carro com cuidado até à estrada nacional que ia de Ramatuelle a Saint-Michel, conduziu devagarinho, para deixar passar os carros com turistas que andavam a passear ao longo da costa.

Avistou uma aldeia.

Na viagem para lá Stefan Bergmann não reparara nos nomes das localidades. Por isso conduzia por intuição: saiu da auto-estrada e foi até ao centro da aldeia, passando com o jipe por ruas estreitas angulosas e cheias de curvas.

As rodas martelavam no asfalto e ele sentiu cada uma das pedras até à coluna; desembocou finalmente na praça do mercado, deparando com uma paisagem provinciana de livro de ilustrações: três cafés com toldos vermelhos, duas filas de plátanos sob cujas sombras as pessoas se tinham sentado em cadeiras metalizadas de jardim. Ao fundo havia uma zona reservado ao jogo da péla, onde homens com camisas brancas e boinas bascas pretas lançavam as suas bolas de ferro. Devia ter sido sempre assim. Há centenas de anos...

Stefan estacionou à sombra, saiu do carro e sentou-se numa das cadeiras do café.

O Bar Chez Marcel ficava no prédio com a fachada castanha de grés. Uma rapariga com tranças saiu para a rua. Não tinha mais de catorze anos. Trazia as mãos nas faces, e os olhos pareciam duas cerejas escuras. Stefan pediu um rouge e procurou os cigarros nos bolsos das calças de ganga. Não encontrou nenhum. E agora?

O céu voltara a iluminar-se e o sol incidia intensamente sobre os telhados inclinados, surgindo na praça e acariciando a cara de Bergmann. Bebeu um gole de vinho tinto e sentiu as tensões e inquietações libertarem-se.

Fique, Stefan, aceite a oferta do Thomas. Ajude-o com a clínica...

Permaneceu ali menos de vinte minutos; a seguir Stefan Bergmann trocou a sua cadeira na praça por uma falésia no Col.

A ocidente o Sol punha-se no horizonte e o céu reflectia no mar uma cor dourada incandescente. Cavalaire, a baía, a praia a perder de vista, todas aquelas casas e vivendas na encosta e sobretudo, lla mer, o mar de um amarelo resplandecente, em toda a sua extensão...

Stefan voltou a olhar na direcção da encosta, para a falésia.

De repente alguém salta de um barco para dentro de água, luta contra a rebentação das ondas, agarra-se a uma falésia e diz: Vais fazer parte de uma cidade... da minha cidade!

E tu, pensou Bergmann, nunca tiveste sonhos desses?

O que seria de nós se não tivéssemos visões? Já alguma vez sonhaste com uma clínica, um sítio onde fosses suficientemente livre para poderes mudar tudo o que quisesses, tudo o que te viesse à cabeça?

Olhava para a costa e tentava imaginar como seria se começassem a crescer casas, ruas e jardins com árvores, se construíssem lá em baixo uma cidade inteira com um porto, se a maqueta que Thomas lhe mostrara se tornasse realidade e se ali, exactamente no terreno que ia do sopé da falésia até à zona cinzenta do incêndio lá mais ao longe, fosse construída uma clínica...

A tua clínica, Stefan!

Uma clínica com a melhor vista do mundo, muito longe da confusão, no meio do silêncio... E relativamente aos doentes... Iria dissuadir Lindner da ideia dos empresários stressados. Ele próprio escolheria os doentes, pessoas que precisassem verdadeiramente da sua ajuda.

Stefan Bergmann sorria.

Quando se levantou para ir para o carro, voltou a lançar uma olhadela ao local das obras e viu à sua frente a grande casa branca com um jardim em volta, muitas varandas voltadas para o mar...

Ergueu a mão e acenou para as duas pessoas lá em baixo na orla da zona incendiada: um parzinho, um rapaz e uma rapariga.

A noite estava quente, o luar espalhava fios de prata sobre o mar, as estrelas cintilavam. Do terraço da sua casa de hóspedes, Stefan Bergmann escutava o canto das cigarras e não queria saber de mais nada. O seu entusiasmo acalmara, a sua racionalidade regressara. Tivera um sonho, porém a realidade sobrepusera-se-lhe.

Stefan apontou o relógio de pulso na direcção da luz do candeeiro: dez horas e meia. A seguir marcou os números que Júrgen lhe dera. Estava bastante nervoso, Jurgen... Será que não se encontrava no moinho? Provavelmente estava enterrado em trabalho até ao pescoço.

Ouviu-se um estalido. A seguir o sinal de chamar. Stefan aguardou: nada, apenas a repetição dos estalidos.

Desligou.

Com certeza foram sair, a Doris, a Christa e quem mais pudesse estar a divertir-se no aniversário no moinho dos Rúttger. E as crianças deviam estar a dormir. Amanhã tentas novamente, decidiu Stefan, mas o que havia de dizer a Christa? O tempo está magnífico, as noites estão tão quentes que se pode tomar banho no mar. O nosso amigo Lindner está a construir uma cidade turística inteira. E também vai haver uma clínica. Vai ser construída especialmente para mim. E tu, Christa, tens de vir para cá...

Empresários a precisarem de repouso? Nem pensar, reflectiu Stefan. Uma mulher como Christa mais depressa trabalharia para os Serviços Sociais. Portanto... qual clínica de luxo para milionários stressados! Encara a realidade. Tudo o resto são sonhos. É inútil desperdiçares tempo a pensar nisso.

Levantou-se, olhou em direcção ao mar, bebeu mais um gole do vinho rose que estava à sua disposição e, como tinha uma piscina privativa, atirou a roupa para cima de uma cadeira e saltou para dentro de água. Deitou-se de barriga para cima e olhou para a cara da Lua, impassível e trocista.

Toda aquela viagem na Cote d’Azur, afinal o que significava? Uma fuga. Uma miserável fuga na ilusão. Stefan sabia-o desde o início. Mas sabia outra coisa: o sonho que tivera no Col, nunca mais o iria largar...

Stefan Bergmann teve um segundo sonho nessa noite: a clínica tornara-se realidade. Estava à sua frente, com janelas espelhadas, uma rampa orlada de rosas, portas que se abriam automaticamente, pessoas que saíam, médicos de bata, freiras com uniformes brancos como a neve.

- Bonjour, monsieur! Bienvenue! - gritavam elas.

Mas ele estava parado. Aquelas pessoas não tinham cara, estavam ocultas debaixo de máscaras, sempre a mesma máscara sorridente...

Naquela manhã Stefan acordou alagado em suor. No rélógio já passava das nove. Levantou-se, ainda perturbado pelo pesadelo e com sono. Uma coisa porém era certa: tomara uma decisão. Não ia, não podia pôr o casamento em risco. Nem o trabalho dos últimos anos.

Ouviu passos no terraço e loiça a tinir. Stefan entrou no balneário, tomou um duche, secou-se e pôs o roupão pelos ombros. Abriu a porta do terraço.

- Está uma manhã estupenda, não acha, monsieur! Trouxe-lhe morangos frescos. Gosta?

A porcelana luzia, o café estava à sua espera, o sumo de laranja já estava pronto e Ronny encandeava Stefan com o seu colete branco. Não usava máscara.

- Deseja mais alguma coisa, monsieur!

Não desejava mais nada... Claro que sim, desejava uma coisa: nunca ter ido para ali, nunca ter viajado para Lê Castelet, nunca ter conhecido uma mulher chamada Maria.

Stefan foi passear para o jardim a seguir ao pequeno-almoço. Subiu uma escada coberta de buganvílias em flor, que dava para o edifício principal. Deteve-se num dos degraus. Chegou-lhe uma música agradável do aeródromo que rapidamente se transformou num bramido lúgubre. Uns minutos depois, Stefan ouviu um crepitar conhecido: o helicóptero tinha levantado voo, pairou por uns segundos como uma silhueta sobre os cumes das árvores e desapareceu.

Seria Lindner? Ou seria Paço que ia a pilotar? Se calhar Thomas incumbira o piloto de uma missão...

Stefan continuou a subir as escadinhas, passou por mimosas e alegretes, e ficou espantado com a rapidez com que se habituara ao nome de Thomas: Thomas, o bom velho Thomas... Como se fosse realmente um amigo... E a seguir voltou a pensar em Maria, no seu casamento e, pela décima segunda vez naquela manhã, perguntou-se o que significaria tudo aquilo.

Saiu para o terraço. Um jardineiro, um provinciano de pele escura, estava encostado ao seu ancinho e acenava a Stefan.

- Bonjour - disse Stefan. - Foi Monsieur Lindner que acabou de levantar voo?

- Lamento, monsieur, mas não lhe sei dizer.

Stefan disfarçou a sua decepção. A presença de Lindner em casa era tão imprevisível como o seu horário de trabalho. Uma vez foi de Land Rover para a obra e a seguir voou de helicóptero algures pela região para tratar de uns negócios quaisquer. Ou seja, disseram-lhe que o Sr. Lindner estava numa conferência, mas ninguém fazia ideia onde. Se calhar era normal. Um magnata da construção e banqueiro de investimentos de sucesso... Como é que queres saber os negócios que tem esse tipo de pessoas?

Stefan atravessou o terraço e parou novamente...

- O que se passa hoje? É feriado? - gritou para o homem do ancinho.

O jardineiro acenou com a cabeça.

Os escritórios ensombrados pelos pilares estavam vazios, os estiradores arrumados... e Lindner tinha-se ido embora. Também não fazia diferença. Uma emergência, pensou Stefan, escreves-lhe uma carta de despedida. Tomara uma decisão e tinha a certeza de uma coisa: estava a preparar-se para a sua segunda fuga, uma fuga de regresso ao mundo a que pertencia, uma fuga do mundo dos sonhos. Estava simultaneamente a virar as costas à magnífica visão que tivera lá em cima no Col, no dia anterior à tarde, a seguir à visita que fizera a Maria Lindner. Ia partir... o mais depressa possível.

Escreve-lhe uma carta, deves-lhe essa justificação. Ele incluiu-te nos seus planos como a estrela da festa, e pessoas como ele gostam de saber com que cartas podem jogar.

A colina. A cidade branca lá em cima. O mar...

Exactamente por cima do terreno vazio, onde ainda não havia edifícios...

Stefan Bergmann olhou para a maqueta através da janela. Estava iluminada. Alguém se esquecera de desligar a luz.

Os passos seguintes ocorreram quase instintivamente. A grande porta que dava para a ala de escritórios estava aberta. Entrou, voltou-se para a esquerda, caminhou ao longo da parede divisória de vidro até à porta da sala da maqueta e girou a maçaneta.

A porta estava fechada à chave.

Stefan encolheu os ombros e ficou parado. Encostou o nariz à vidraça, como uma criança que espreita a montra de uma loja de brinquedos. Lá dentro encontrava-se o comboio eléctrico à sua espera: o porto de brincar de Port Lês Fleurs com os seus hotéis e iates, as casas brancas na encosta, as piscinas, as arvorezinhas. Mas lá em cima...

Stefan voltou-se e deu mais uns passos em frente, pois reparou que havia uma porta à sua frente que estava apenas encostada.

Bastante improvável que Lindner estivesse por ali...

- Thomas! - gritou Stefan.

Não obteve resposta.

Empurrou a porta com o joelho. Entrou numa grande sala rectangular sem janelas. A única fonte de luz razoável vinha da lâmpada da secretária que iluminava a estante mesmo ao lado da porta. As paredes estavam completamente revestidas de aparelhos electrónicos até meio: material de metal com inúmeros comutadores e pontos luminosos, monitores abaulados de um cinzento baço, minúsculas janelas de mostradores que emitiam uma luz esverdeada e tremeluzente...

A informática era uma das grandes lacunas de Stefan. Os seus conhecimentos chegavam para utilizar as poucas teclas do seu computador de Burgach, de forma a poder consultar os historiais clínicos.

Mas aquela sala com todos aqueles aparelhos parecia o posto de comando da polícia de trânsito. Ou uma central de serviços secretos. O que seria aquilo? Lindner não lhe contara uma vez que controlava toda a região a partir de câmaras de vídeo desde que um bando de selvagens de Port-Les-Fleurs lhe tentara pôr fogo à casa?

Muito bem, mas uma despesa daquelas?

Stefan voltou-se para trás, preparando-se para ir embora, quando o seu olhar recaiu sobre um sobrescrito castanho volumoso em formato A5, na borda da secretária. Guesthouse-Report estava escrito a caneta de feltro. Do sobrescrito saía o canto de um papel.

Não foi bem um pensamento, foi mais um reflexo instintivo que levou Stefan a tirar o papel do envelope. Um relatório de uma pousada? Tinha três folhas na mão, e uma primeira olhadela bastou-lhe para lhe mobilizar todos os nervos do corpo. Que raio de coisa seria aquela? Três formulários impressos cujo conteúdo lhe pareceu ser a acta de uma reunião.

Stefan olhou de relance para o remetente em cima no canto esquerdo: Maison N.o 3.

A Maison N.o 3 era a maior pousada e a mais luxuosa da região. Boris Borodin e o seu advogado estavam ou tinham estado lá hospedados. Até ao dia anterior...

Stefan empurrou os papéis para a luz do candeeiro da escrivaninha, puxou uma cadeira e sentou-se. O que seria aquilo? Uma espécie de diálogo, os nomes dos participantes não eram referidos, eram simbolizados através de duas iniciais: A e B. Em cima, do lado direito, a seguir à palavra «observações» leu: «Para ser apresentado novamente.» Segundo parecia, tratava-se de uma tradução do russo, pois bastava olhar uma vez para perceber a quem se referia o A e a quem se referia o B.

A: Muito bem, Oleg, eu alinho. Havemos de ultrapassar isso. Não nos resta outra alternativa... B: Vai ser difícil.

A: O cowboy enganou-me, é o que tu queres dizer. Pois bem, veremos. Com o campo de minas há três anos, para aquele ENP1 do Uganda, foi ao contrário. E a venda das condutas também nos correu bem. E depois... como é que foi com a Operação Tumaco? Stolypin, ainda te lembras, o major-general Sergei Stolypin, mas que tipo! Nessa altura tinha ido a Genebra. Foi lá que tratámos do negócio: um carregamento cheio de ferramentas para a Frente de Libertação Colombiana. A loja chamava-se FARC. Arranjam cada abreviatura. Vá, prepara-me um uísque. B: Com certeza, Boris Ivanovitch. A: Bom, de qualquer forma o nosso Stolypin encarregava-se da entrega. Não só das munições e das minas, como

 

1 ENP, Eldery Nutrition Program, «Programa de Alimentação de Pessoas Idosas». (N. da T.)

 

também dos foguetes antitanque. Saqueou metade do arsenal do Quarto Regimento. E também organizou o transporte com a carga para Tumaco ou como se chamava a aldeola. Mas o que tinha graça era os guerrilheiros pagarem em cocaína. E o cowboy queria meter-se na cocaína, mas eu não permiti. Nessa altura andava tão mal-humorado que queria dar o salto. Queria... mas não podia. E ele sabia disso.

B: Claro, Boris Ivanovitch, só que...

A: Só que agora quer ganhar alguma coisa com isso. Oleg, eu investi capital suficiente nesse maldito Port Lês Fleurs. Mais até do que tens conhecimento. E ainda não lhe chega. Consegues aperceber-te disso pela distribuição dos lucros. E ainda havemos de saber se foi boa ideia termos metido no barco aqueles mafiosos do Lê Coq mais o seu bando.

B: E relativamente ao Jean Amoros, você quer que eu agora...

A: Tu agora não vais fazer nada. Vais ouvir. Numa primeira fase eu não apareço. Mas não tem a ver com o Amoros, vais directamente ao Lê Coq. O Lindner apresenta-te.

B: E que espécie de homem é esse Lê Coq?

A: É essa a questão. Imagina um daqueles chechenos que andam sempre bêbedos. Quando lhes dá para isso, tornam-se requintados e trabalham com muitos truques. Mas, em princípio, não oferecem resistência. O tipo tem a mania das grandezas. Quando alguém se refere ao Lê Coq... Um galaró, sim, mas feito de que estrume? A sua estrumeira infelizmente não passa de um pequeno pátio de camponês. E isso já ele esqueceu.

B: Acha que o conseguíamos apanhar?

A: Exactamente. É apenas uma questão de capital investido. No caso dele talvez seja necessário outra coisa: ele já fez a primeira jogada e já o provou.

B: O quê?

A: Achas que o Lindner o iria manter de livre vontade? O Lê Coq tem as suas relações com a política, mas não larga capital. Tipos como ele só facturam. Com as suas empresas de construção e com as pessoas que contrata. Acha-se muito inteligente por causa das pessoas com quem se relaciona. Mas os outros, ou seja, neste caso nós, é que somos os idiotas. Eles é que deviam pagar. Há umas semanas atrás o Lindner fartou-se. Queria expulsar o Lê Coq. E o que é que aconteceu? Dispararam... Se calhar foi melhor assim. Finalmente o cowboy percebeu com quem estava a lidar.

B: Essa história passou-se na Alemanha? Quando dispararam contra o carro dele?

A: Como assim? Assassinaram o motorista. É como se lhe tivessem dado um cartão-de-visita, exactamente a forma como os mafiosos daqui põem as pessoas na ordem. Batem com o indicador na parede, mandam o motorista para o inferno e providenciam um pequeno acidente. No nosso país, em Moscovo, é mais directo. O Lindner não vai ser assassinado, enquanto funcionar ainda é muito útil para o Lê Coq. É esse o preço a pagar.

B: E agora?

A: Agora, Oleg, vou para a cama. E tu também. E amanhã continuamos a conversa...

O resto da folha estava em branco. Dizia apenas: Fim da conversa: 1 hora 45 minutos.

Fim da conversa? Stefan ficou sentado durante uns segundos sem se mexer. A seguir tomou consciência da situação, estremeceu, voltou a enfiar as folhas à pressa no sobrescrito, apagou a luz e saiu dali.

Deixou a porta encostada, tal como a tinha encontrado.

Da cabina telefónica Stefan conseguia avistar metade da sala de entrada do aeroporto. Estava contente com aquela porta de vidro; precisava dela. Perdera vinte minutos à procura de uma cabina telefónica livre. As pessoas apinhavam-se à porta. O aeroporto de Nice já não era um aeroporto, transformara-se num inferno caótico, tanto para turistas como para funcionários. O único aparelho disponível que voava parecia estar destinado a transportar pessoas até à Cote d’Azur.

Stefan olhava da cabina para o carrinho de transportar bagagem. No último instante arrancara um raminho de alfazema do jardim da Villa Wilkinson, que enfiara num saco de plástico. O saco espreitava da sua mala e Bergmann perguntava-se se a alfazema se daria bem em Burgach. Esperava que Christa ficasse contente com aquele bocadinho de vida mediterrânica... De resto, o que lhe podia contar?

E ainda tinha de ter aquela conversa.

Stefan voltou a marcar o número de telefone de Lê Castelet.

Os seus nervos foram-se abaixo pela primeira vez, não estava a conseguir fazer a ligação. Finalmente alguém atendeu. O seu coração começou a bater mais depressa.

- Sim?

- Maria? Fala Bergmann.

- Stefan? A sério? Stefan! - Aquela reacção de felicidade surpreendeu-o. Tivera muito tempo para preparar aquela conversa enquanto Benthoff, o motorista, o conduzia através das ruas cheias de turistas, e no entanto Bergmann falou num tom de voz triste. Só tinha a certeza de uma coisa: não falaria sobre a verdadeira razão, sobre a acta da escuta que encontrara de manhã naquela estranha central no escritório da vivenda.

- Stefan, onde é que está?

- No aeroporto. Em Nice.

- Onde? - A sua voz soava incrédula, quase assustada.

- Não quis deixar de lhe ligar, Maria. O meu avião parte daqui a meia hora. Vou regressar a casa... Não consegui falar com o Thomas. Tinha que fazer não sei onde. é-me completamente impossível ficar, por isso escrevi uma carta ao Thomas a apresentar as minhas desculpas. Apesar disso, provavelmente, não vai compreender a minha partida.

Falava cada vez mais depressa, como se tivesse de lutar contra o silêncio no outro lado da linha. Enquanto respirava fundo, o silêncio continuava. Stefan julgou ouvir a respiração de Maria e proferiu a custo:

- Teve de ser, Maria. Infelizmente... Acredite em mim. Sinto-me bastante mesquinho face à generosidade com que fui recebido. Mas... tem de ser. Ainda aí está?

- Estou.

- Maria... Entretanto estive a pensar na sua amiga..

- Ah, sim? Não tem importância.

- Compreendo que esteja desiludida.

- Não tem a ver com isso. - Falava baixo e pausadamente. - Tem a ver consigo.

- A clínica também vai poder funcionar sem...

- Devolva o bilhete, Stefan - interrompeu ela. .

E fique onde está. Vá ter ao restaurante. Vou meter-me no carro... Não, a viagem é demasiado longa. Oiça, Stefan! As palavras saíam-lhe com uma insistência óbvia, tão certo como se não fosse possível protestar. - Conheço um hotel muito bonito. Fica perto do aeroporto. Espere lá por mim. Afinal, pode apanhar outro voo mais tarde. Mas porque há-de querer ir para casa agora?

- Já ontem tentei explicar.

- Não tentou, não. E o seu consultório está fechado. Você está de férias.

- Sim, Maria... - Respirou fundo e sentiu o coração bater. - Você não compreende, mas por vezes é difícil tomar uma decisão.

- Decisão? A meu ver, é antes uma capitulação. E eu já lhe disse quanto preciso de si.

- É exactamente isso que me aborrece. E a razão de lhe estar a ligar novamente. Em relação à Bella, eu...

- Stefan, não tem a ver com a Bella. Ou não apenas com a Bella. Tem a ver connosco.

- Connosco?

- Sim. Consigo, comigo... e também com o Thomas. Não seja tão lento.

Começou a sentir calor nas fontes, o suor a escorrer-lhe pelas costas e a camisa a colar-se à pele. Tornou a interrogar-se sobre o que Maria quereria dizer. Voltara-se, pois não suportava mais o espectáculo da multidão lá fora. Olhava para todos os números de telefone, corações e desenhos obscenos rabiscados nas paredes da cabina. Fechou os olhos e amaldiçoou-se por não conseguir reencontrar a sua paz.

Mas como?

- Maria - disse Stefan. - Eu não vou sair do planeta. E vou ajudar a tua amiga. Vou curá-la. - Cedera ao «tu», sem querer. Mas apressou-se a corrigir: - Vai com certeza voltar a Frankfurt. Para a próxima, leve a sua amiga... por favor.

- Não tem a ver com a Bella - ouviu-a dizer novamente. A sua voz perdera toda a força; soava fraca, fraca e indefesa como a de uma criança. - Fique, Stefan...

- Maria, não posso. Repito-lhe: leve a Bella ao meu consultório...

A seguir desligou.

O mês de Outubro estava fantástico.

A encosta que se via da janela do consultório da Rua Heinrich-Heine parecia um único raio outonal amarelo e vermelho aos olhos de Stefan Bergmann. Sentiu-o quase com pesar quando desceu as persianas para receber a doente seguinte.

Passavam poucos minutos das oito. Ao contrário do que fizera no Verão, Stefan Bergmann reduzira a terapia através de hipnose não uma hora, mas duas. Podia fazê-lo, pois a afluência de doentes diminuíra manifestamente em Setembro.

Tinha de falar com Christa acerca dos motivos por que o fizera.

Havia tanta coisa que tinha de falar com Christa...

Stefan acendeu o candeeiro da secretária. O presente de Lindner, a caixinha barroca, reflectia a luz do candeeiro. Bergmann já várias vezes tencionara pô-la de lado, no sítio onde devia estar, num armário qualquer, juntamente com a tralha que se acumula e de que não nos conseguimos desfazer por um motivo qualquer. Mas havia sempre alguma coisa que o impedia. Uma sensação de traição...

Nos dois meses anteriores Bergmann não tivera notícias de Lindner. Houve com efeito um dia em que o carteiro trouxe uma encomenda de Saint-Michel. Um tubo de cartão com cerca de trinta centímetros de comprimento. A morada estava escrita à máquina, não tinha remetente, apenas selo.

O coração de Stefan acelerou à medida que abria o rolo de cartão. Tinha lá dentro três folhas de desenho enroladas. Tirou-as para fora e espalhou-as em cima da secretária Eram cópias de impressionantes projectos de arquitectura: as plantas e os alçados de um complexo de edifícios, incluindo o estudo do terreno à volta. A seguir a entrada, os edifícios laterais, primeiro andar, segundo andar... e as fachadas.

Stefan debruçou-se sobre as folhas e sentiu a boca seca.

Ali estava tudo à sua frente: um alpendre suportado por quatro colunas, grandes janelas no rés-do-chão viradas para o mar, no andar seguinte, varanda com varanda, os quartos dos doentes.

Em cada uma das folhas podia ler-se: Clinique de Port Lês Fleurs. Architects: Walter Mousson.

Era isso.

Christa, que trouxera os rolos de cartão com os projectos, estava calada ao lado do marido.

- E agora? - perguntou ela.

- E agora, o quê? .

- O que vais fazer? Ele calou-se.

- Só há uma coisa a fazer - disse ela. - E eu vou ajudar-te. - Baixou-se e puxou o cesto dos papéis para si.

- Aqui... é o único sítio possível...

Havia qualquer coisa na sua voz que Stefan não conhecia. Não era a sua ironia habitual, não era raiva, era mais uma decisão provocada por uma vontade óbvia e firme.

Stefan olhou para Christa e abanou a cabeça.

- Estás a cometer um erro, Stefan - disse ela -, um erro muito grande...

E a seguir saiu da sala de cabeça erguida, com um ar decidido, e fechou a porta com força atrás de si.

Não, Bergmann não deitou os projectos para o cesto dos papéis. Arrumou-os de maneira que não ficassem à vista, na estante do escritório, por detrás dos dossiês com o historial dos doentes. Não ganhava nada com isso, pois estava senpre a ver à sua frente os desenhos do portão com as colunas e as varandas, no Col. Via a língua de terra, a baía... Não se conseguia ver livre da imagem. Achava aquilo ridículo, para dizer a verdade, incrível! Não passava a vida a tentar apagar e a transformar as marcas do passado e as recordações que agiam sobre a psique dos seus doentes e que lhes causavam perturbações físicas?

E tu? Sentes-te um miserável. Ainda tens aquela maldita caixinha na secretária, os projectos da clínica no armário, estás permanentemente a ver o Col à tua frente...

E mais grave ainda: Stefan sentia-se constantemente à mercê dos olhos escuros de Maria Lindner, que o perseguiam pela noite dentro...

- A senhora Lebuda está aqui - informou Marga pelo intercomunicador. - Posso mandá-la entrar?

- Pode.

Bergmann baixara as persianas, o candeeiro estava aceso, a cadeira à espera, e a porta abriu-se.

Era uma mulher atraente, com quarenta e um anos de idade, segundo a ficha de doente efectuada por Marga. Era bastante alta, e com aquela saia cor de caramelo que lhe dava quase pelos joelhos e o casaco castanho-escuro parecia saída de uma fotografia de moda. Tudo em Michaela Lebuda irradiava elegância.

Stefan conhecia o nome. As lojas Lebuda eram as lojas de decoração mais chiques da região. Michaela Lebuda também dirigia uma galeria de arte que ela própria abrira.

Sentou-se, e fez aquilo que uma mulher com a sua classe faz questão de fazer: cruzou as pernas, entrelaçou as mãos sobre o joelho e pôs um sorriso distante de cortesia.

- É estranho estarmos os dois aqui juntos, não é, senhor doutor? - observou ela.

Bergmann já se tinha informado acerca da razão de tanta estranheza.

- Bem, é uma espécie de relação bancária... - Michaela Lebuda sorria. O seu nervosismo inicial estava a dar sinal e ficou verdadeiramente agitada quando lhe descreveu o entusiasmo com que Annemie Markwart lhe contara o sucesso da sua terapia.

- A senhora Markwart não precisava de explicar nada Basta olhar para ela. Meu Deus, quem a conheceu e vê a evolução que teve em poucas semanas...

Ele assentiu com a cabeça.

- E posso perguntar-lhe o que a trouxe cá? Tentou manter o sorriso, mas não conseguiu. Stefan aguardava.

- Não é fácil de explicar, senhor doutor. Quando falo acerca disso com os meus amigos, quero dizer, com os meus verdadeiros amigos, uns dizem que sou louca, e outros disparatam acerca de uma neurose ou qualquer coisa parecida... Mas vai tudo dar ao mesmo.

Não a interrompeu com perguntas. E quando Michaela Lebuda ao fim de dez minutos chegou ao fim, continuou a olhar para ela, em silêncio.

- Serei mesmo louca? - Perguntou aquilo com a expressão de uma criança indefesa. - Bom, acha que os ciúmes infundados são uma doença?

Fitava-o com um ar suplicante.

- Tudo tem uma razão de ser, senhora Lebuda. Nada é infundado. Louca? Analise a palavra. Aquilo a que chamamos ciúme, é um sentimento que uma pessoa tenta afastar da sua vida, afastar, a-fastar1.

Olhou para as notas sucintas que tirara acerca da história que ela lhe contara. Um casamento perfeito, pelo menos quase tão perfeito como tantos outros, um homem que gostava dela, uma filha num colégio interno, o que podiam fazer, se tinham ambos tanto trabalho? Em todo o caso, não havia problema. Os Lebuda continuavam juntos...

E depois, o dia em que encontrara as fotografias.

O marido acabara de regressar de uma viagem de negócios à Malásia, já tinha desfeito a mala, ficara apenas o necessaire em cima da mesinha-de-cabeceira.

- E então fiz uma coisa que não costumo fazer. Abri-a, e encontrei a maldita fotografia.

 

1 Em alemão, trocadilho com a palavra wegrticken, que significa «afastar», e verrucken que significa «enlouquecer». (N. da T.)

 

Era a fotografia de uma mulher, uma mulher muito nova. Exibia um corpo bem feito, em biquini. A cara tinha feições de uma euro-asiática.

- Incrivelmente bonita, na verdade, mesmo muito bonita - comentava Michaela Lebuda.

Estava na casa de banho, com a fotografia na mão, sentiu uma onda de calor, e a seguir um enjoo tão grande que se fartou de vomitar no lavatório...

Quando conseguiu arranjar forças, entrou no escritório do marido e colocou-lhe a fotografia em cima da secretária, sem proferir uma palavra. Ele olhou para ela e não disse nada. Não fez o mínimo esforço para negar ou desculpar-se. Era Helene, conhecera-a no hotel em Kuala Lumpur. Tinha a fotografia porque lha pedira. Caso contrário, não teria acontecido nada. Uma aventura, isso sim, bastante impetuosa talvez, mas na viagem de volta já tinha esquecido completamente a história.

Contara a verdade. Michaela sabia desde o início. Não conhecia nenhum homem mais inábil a mentir do que ele, e portanto nem lhe passou pela cabeça não acreditar no marido. Também não chegou nenhuma carta, nenhum telefonema, ele cancelou as reservas das viagens à Ásia Oriental numa agência local e continuou a ser o que sempre fora: um marido afectuoso, atencioso e admiravelmente correcto.

A fotografia no entanto transformara-se numa espécie de fuga. Era assim que Michaela se referia a ela e acrescentava:

- Pode parecer completamente ridículo, eu sei, mas é assim... É uma espécie de fuga! Estou constantemente a ver a fotografia à minha frente, os olhos, o corpo, não por a rapariga ser muito mais nova e bonita que eu, não é isso. É só porque ela existe... na minha, na nossa vida. Vejo-a constantemente nos braços do Richard. Vejo-a na cama com ele, sempre, de dia e de noite...

A sua história evoluiu normalmente: um corpo constantemente a revoltar-se, os enjoos que não passavam, problemas de circulação, enxaquecas, por vezes tão fortes que não se sentia capaz de ir para a galeria durante semanas, além das auto-incriminações, o costume: faz um esforço! Acaba com essa loucura. Tens um marido que está contigo. E afinal, o que é que ele te fez? Para quê tudo isto?

E portanto tentou continuar a representar o seu velho papel... Só que não resultava. Os calmantes que lhe receitavam para os espasmos no estômago e para as dores de cabeça e os comprimidos que a ajudavam a dormir mantiveram-na de pé durante um ano, e depois deixaram de fazer efeito.

- Não aguento mais - desabafou. - Mesmo quando tento... já não me sinto. Por vezes é como se não tivesse corpo. Falo com as pessoas, vou à galeria, faço o que tenho a fazer... mas é como se fosse uma máquina. Ainda funciona, olho para ela e fico espantada com as coisas que consegue fazer. E depois vou para casa, e o Richard diz: «Estás um bocadinho pálida. Sentes-te bem?» E eu digo: «Tive um dia cansativo...» Vejo-o como se estivesse a olhar através de nevoeiro cerrado...

Stefan mal conseguiu perceber o que ela disse a seguir. Tirou um lenço de papel da carteira e pressionou o papel branco contra o canto dos olhos com o polegar e o indicador. O lenço não serviu de nada, as lágrimas escorreram-lhe pela cara abaixo; traçaram caminhos cintilantes à direita e à esquerda dos cantos dos olhos.

E a seguir disse ainda uma frase que tocou no mais íntimo de Stefan, mas com tanta força, que ele a viu como uma letra luminosa à sua frente.

- Nada é como antes. E eu não sei como pôde acontecer...

Nada é como antes.

As palavras iam exactamente ao encontro da sua situação...

Tudo mudara. Nada era como antes. Começara logo após o seu regresso de França.

Christa só chegara uma semana depois de Hanôver, o que deixou Stefan muito contente. Sentara-se à secretária naquela casa vazia a acabar finalmente o manuscrito para a televisão regional que há muito devia estar terminado, pelo meio atendeu algum dos seus clientes crónicos, entre eles Annemie Markwart, que tivera uma evolução fantástica, e depois Christa chegou.

O anúncio telefónico da sua chegada fora assinalável.

- Não precisas de me ir buscar. Eu tenho carro.

O carro era um cupê, um carro desportivo aerodinâmico muito elegante, com estofos de couro azul. Christa estacionou-o, com determinação, à frente do portão do jardim.

Stefan arregalou os olhos. Percebia pouco de carros, mas aquele brinquedo? Setenta mil marcos, avaliou ele. No mínimo.

- Podes ajudar-me? Passou-lhe a mala para a mão.

- Com muito prazer. E o que me dizes a um beijo?

- Vá lá... - Esboçou apenas um sorriso. - Não te entusiasmes...

- E o carro? Talvez me possas explicar...

- Já lá vamos. Não, digo-te já: ofereceu-mo o meu pai. Conduziu-o durante seis meses, mas tu conhece-lo. O carro era demasiado simples para ele. Agora tem outra vez um Ferrari, ou outro do estilo. Nunca consigo fixar esses nomes esquisitos.

- E ofereceu-te esse?

- O que achas? Pediu-me inclusivamente para pagar ele o imposto e o seguro... só para teres uma ideia de como ele aprecia a nossa ascensão social e profissional.

Passara a boa disposição a Stefan, e ainda mais quando Christa lhe anunciou que um carro de desporto era muito prático, pois passaria a ir com mais frequência a Hanôver.

- Porque o teu pai quer?

- Não digas disparates! Por causa da Doris. A minha cunhada precisa de mim. Teve uma grande discussão com aquele idiota do Júrgen. Pura e simplesmente não consegue deixar de andar por aí a fornicar. Ela quer pedir o divórcio.

Uma conversa bastante normal entre marido e mulher. Que mais? Christa não fez uma única pergunta. E quando Stefan começou a falar de Port Lês Fleurs e referiu os planos de Lindner para a clínica, atirou com o molho de chaves para cima da mesa.

As palavras seguintes foram firmes, rápidas e ofensivas

- Poupa-me, Stefan. E poupa-me também daqui para a frente.

- Poupar-te de quê?

- Do Lindner. E de tudo o que tenha a ver com o seu nome. Sabes qual é a minha opinião...

- Acabei de tentar explicar-te que eu...

- Apesar disso, Stefan. A sério. - Tinha um olhar glacial. - Por favor!

Alguma coisa mudara. Ele tinha a certeza... Ele? Não ela é que mudara.

 

 

- E agora diz-me lá: o que se passa com o teu mastim, Paillard?

O cão ladrava cada vez mais alto, tão alto que se sobrepunha ao ruído contínuo da marginal de Lavandou.

Paillard nem olhou para cima. Continuava a tamborilar com o polegar no pacote de tabaco.

- O César às vezes irrita-se.

- Como assim?

- Tu também te irritarias. Se tivesses sempre coelhos a correrem à tua volta, e estivesses preso à coleira.

- Coelhos? - Laudet passou o pacote de mortalhas a Paillard. - No meio da tua sucata? Ratazanas talvez, coelhos não...

Laudet bebeu um gole de cerveja, recostou-se na cadeira e fechou os olhos. Já eram quatro horas? Tinha de ir trabalhar... Cos diabos, não lhe apetecia nada. Estava-se bem naquela barraca de tábuas, a que chamavam «café».

- Mas são coelhos. E três deles, já os...

Paillard não continuou. Já não se ouvia ladrar, o cão preso pela coleira no meio das carcaças de automóveis começara a soltar ganidos estridentes.

- Merda! - Paillard levantou-se. - Se está assim, é porque há qualquer coisa que não está bem. Eu vou... Podes servir-me um café, Charles?

- A ti, sempre.

Paillard não estava com pressa. Provavelmente era um cliente qualquer ou um daqueles tipos que andavam à prócura de uma peça sobressalente.

Dirigiu-se calmamente pela faixa de cimento que ia do café para camionistas de grandes distâncias até à entrada de saibro do cemitério de automóveis. À porta encontrava-se estacionado um enorme camião de doze toneladas. Mais à esquerda, por detrás da velha cerejeira sob cuja sombra ficava a casota do cão, estava sentado o bóxer, de cabeça erguida, a ganir.

Paillard deu uns passos em frente e observou os cinco carreiros que passavam por entre as carcaças dos automóveis. Nada.

- O que foi, César!

O bóxer levantou-se de um salto e olhou para a esquerda. O olhar de Paillard seguiu-o. Lá à frente, atrás do atrelado enferrujado... não se tinha mexido qualquer coisa? E se tivesse, não era um coelho...

Apressou o passo, começou a correr... e a seguir parou.

Da sombra do monte de sucata adivinhava-se um vulto. Paillard aproximou-se e, enquanto o fazia, enfiou os dedos da mão direita nos orifícios da sua soqueira. O contacto com o metal pesado e anguloso tinha qualquer coisa de tranquilizador.

- Ei! Passa-se alguma coisa?

O rapaz não dizia nada, olhava para ele fixamente. Que tipo! Era magro, alto, seco, não, mais esfomeado que outra coisa, com umas calças de ganga cortadas pelos joelhos e cheias de buracos, uma camisola rasgada e cheia de nódoas e nos pés umas sandálias desapertadas.

O rapaz devia ter vinte e três ou vinte e quatro anos. Tinha mais ar de ser um tipo excêntrico do que um tolo. Toda a sua cara começou a mexer, tremia, e os seus olhos cinzento-claros estavam muito abertos, mas não parecia ter medo.

Paillard ficou parado.

Cos diabos, o que se passaria ali? Teria algum defeito? Abriu a boca retorcida mas não saiu nenhuma palavra, apenas sons desarticulados.

- Está a ouvir-me? - Paillard lembrou-se das frases que costumava usar com os clientes. - Posso ajudá-lo? Está com problemas?

Estava com problemas. Mas não conseguia exprimi-los. A seguir passou-se algo insólito...

- Um momento... - percebeu Paillard, olhando para o rapaz, que tirou um bloco-notas do bolso das calças. Para que quereria ele aquilo? Tinha efectivamente um lápis na mão e começou a rabiscar no bloco, arrancou a folha e deu-a a Paillard.

Ando à procura de um carro, leu Paillard. Um carro da polícia, um Renault 12.

Preto no branco. Paillard mal conseguia acreditar, não podia ser verdade... O rapaz só se podia estar a referir a um carro: o carro-patrulha de Cavalaire que caíra no barranco há umas semanas perto de Saint-Michel.

- E porquê?

Um encolher de ombros, e um esgar; estava com um ar mais calmo.

- Sou uma pessoa muito paciente - disse Paillard -, mas vamos com calma. Portanto, o que pretendes do carro da polícia? Tenho aqui um monte de chapa, mas não tenho nenhum carro desses. Porque estás tão interessado?

O rapaz continuava a sorrir. Mesmo que o rapaz lhe tivesse dado uma resposta sensata, Paillard não teria sossegado. Mas assim? O cão já pusera o tipo maluco e agora ainda queria um carro de polícia?

- Vai-te embora! - disse Paillard. - Depressa! Ouviste? Desaparece!

O rapaz não o entendeu.

Só quando Paillard apontou com o indicador da mão esquerda para a porta e tirou a soqueira com a mão direita, é que o outro se começou a mexer. Paillard seguiu-o, e quando fez menção de parar novamente deu-lhe um empurrão tão forte que ele tropeçou e quase caiu de joelhos.

- Eh! O que é isso?

Paillard voltou a cabeça na direcção da voz, uma voz de mulher. Não, não era de mulher, era de rapariga. Ali estava ela. Não reparara no R4 no qual teriam porventura vindo os dois, ficara tapado pelo camião de Laudet. Não era nada má, a pequena! Não trazia nada por cima do corpo, a não ser uma minissaia vermelha e a parte de cima de um biquini, muito bonita, de cabelos compridos, mas carrancuda. Chegou a correr, agarrou no amigo pelo braço e ameaçou Paillard com o punho.

- Fabien, ele fez-te mal?

Paillard começava a ficar farto. Como é que um homem meio louco podia estar com uma mulher daquelas? Mas também era indiferente. Caminhou em direcção aos portões, prendeu-os com a corrente e colocou o cadeado.

O velho R4 com os jovens desapareceu no meio de uma nuvem de poeira. O que se passaria com aqueles dois? Deveria telefonar para Cavalaire e informar o comissariado da polícia?

Paillard decidiu desistir. Talvez ganhasse uns pontos aos olhos dos chuis, mas era melhor ficar quieto: com a polícia nunca se sabe...

Um casamento tem muita coisa em comum com um edifício. Ambos são construídos por pessoas. Era esta uma das imagens que Bergmann tentava transmitir aos seus doentes na terapia.

- Não terá tanto a ver com os projectos ou com os fins que se tem em vista, mas a seriedade com que se encara a estrutura é essencial. Quando uma das pessoas não respeita a parte da construção que lhe cabe, não lhe liga importância, quando se começa a deteriorar ou a abrir fissuras, pode prejudicar os outros. O que significa que existe uma responsabilidade em comum. Inclusivamente em relação aos defeitos. A fachada pode ser muito bonita, mas, se a estrutura não for bem construída, não serve de nada...

Era o caso.

Stefan teve a sensação de que ele e Christa andavam a representar uma peça. Os papéis estavam distribuídos, e a peça chamava-se: «O consultório no campo». Representavam-na inclusivamente com êxito. Ninguém, nem a mulher da limpeza nem Marga se aperceberam de que estavam com problemas; afinal de contas já há muito tempo que formavam uma equipa. E quando Christa abandonou uma noite o quarto onde dormiam os dois, fê-lo sem cenas, quase despercebidamente.

- Sabes, no Verão o quarto dos hóspedes é mais fresco... Tu estás sempre nas tuas eternas conferências, e eu também tenho que fazer.

Tinham começado ambos a trabalhar à noite. Provavelmente Christa queria ser como Stefan. No painel de anúncios da universidade vinha o seu nome: a Dra. Christa Bergmann fala sobre puericultura e pediatria.

Tudo parecia natural... E cada um do seu lado do vidro invisível que os dividia agia como se nada, mas absolutamente nada se estivesse a passar.

No entanto, começaram a abrir-se as primeiras fissuras. Por vezes Stefan tinha a sensação de o chão começar a estremecer debaixo de si, como se houvesse uma ameaça iminente.

No dia três de Setembro recebeu uma carta. Christa colocou-a em cima da sua secretária juntamente com as outras. Stefan retirou primeiro um sobrescrito, cujo remetente lhe despertou a curiosidade: Associação de Psicólogos Alemães.

O que quereriam? Um tal Sr. Walter Wollberger, psicólogo, solicitava um parecer por escrito à seguinte pergunta: como é que Stefan, como médico de clínica geral, podia praticar e achar legítimo exercer psicoterapia no seu consultório?

Deu a carta a ler a Christa.

- É incrível.

- O que é que é incrível?

- Lê. Mas que arrogância. Nenhum profissional, nenhum médico se pode ocupar de um doente sem ter em consideração o lado psicológico ou psicossomático do problema. Nem um médico com formação tradicional qualificado, como o teu pai, o faz.

- Nem sequer esses? Que idiotas, não achas? Mas não tem a ver com isso.

Não?

- Tem a ver com os teus métodos.

- Tem a ver com a terapia por hipnose, que é uma escola reconhecida da psicologia. Simplesmente não existem leis relativamente a isso. Além disso, eu faço-o como médico particular.

Desta vez Christa não lhe respondeu. Fitou-o apenas. Sentiu-a cada vez mais irritada, ouvia-a respirar cada vez mais depressa.

- Afinal o que queres? Sabes perfeitamente que frequentei um seminário, que vou a todos os congressos importantes. Além disso ocupei-me com certeza mais com a psicologia e li mais livros do que todos aqueles... aqueles...

- Atirou a carta para cima da mesa. - Este arrogante presumido.

Christa puxou a cadeira onde se sentavam os doentes, sentou-se, apoiou os cotovelos na mesa, apoiou o queixo nas mãos e continuou a fitá-lo.

- Não se trata de presunção nem de arrogância, Stefan.

- Então, trata-se de quê?

- De clareza. Linhas nítidas, separações nítidas.

- E és tu quem me diz uma coisa dessas? Meu Deus, há anos que assistes aos meus êxitos com a terapia por hipnose. Estão à vista. Conheces os casos. Viste como é que a Annemie Markwart estava e como é que ficou, e ela é uma entre centenas. Queres pôr tudo isso em questão?

Foi-se abaixo. Não pela expressão de espanto na cara dela, mas pelo espanto que sentiu consigo próprio. Gritou.

- Porque não continuas a gritar? Grita, vamos, grita! Não há ninguém na sala de espera. Nas últimas semanas têm vindo cada vez menos.

Ela tinha razão, no entanto o que o calou foi outra coisa. Não se fartava de dizer como era importante para a pessoa distanciar-se dos problemas? E agora berrava.

- Desculpa.

Christa manteve-se implacável.

- Por acaso já te perguntaste o que se está a passar. Porque temos tão pouco movimento no consultório?

- E então porque é?

- É muito simples. E tem também a ver com nitidez. Apontou para a carta. - O homem tem razão. Tu confundes as coisas. E como o fazes, confundes os doentes. Já não sabem onde vão, se ao médico que lhes diz o que se passa com as válvulas do coração ou lhes extrai um furúnculo da perna, ou ao outro, que os coloca num transe hipnótico, num estado que não conseguem controlar, que lhes é estranho.

Voltara a calar-se.

- Christa - murmurou ele -, tu conheces o meu trabalho. Conhece-lo melhor que ninguém...

Ela assentiu com a cabeça e saiu da sala.

Na mesma semana, três dias depois, Stefan recebeu uma chamada de Colónia. O seu velho amigo Rudi Becker, o jornalista responsável pela série Fronteiras da Medicina, estava ao telefone.

- Incomodo?

- Claro que não, Rudi. Passa-se alguma coisa com o manuscrito?

Era a penúltima colaboração de Stefan. Tinha de ser enviada dentro de dez dias. O intervalo entre as emissões daquela série era de duas semanas. Havia ainda tempo suficiente para possíveis correcções.

Mas Rudi Becker estava a ligar por razões totalmente diferentes.

- Já te disse que na quarta-feira vamos trazer um ouvinte para fazer perguntas?

- Não tenho nada a ver com isso.

- Não, nós tratamos disso. Mas entretanto chegou-nos uma carta bastante desagradável, ou antes, maldosa. O remetente é um tal professor Rúttger, de Hanôver. E eu gostaria de ouvir a tua opinião.

- Envia-me a carta por faxe - disse Stefan.

O faxe chegou uns minutos depois. O conteúdo ia exactamente ao encontro das suas expectativas, repleto dos argumentos e máximas mordazes com que o chefe do clã dos Rúttger lhe enchia a cabeça há anos.

Acusava-o sempre da mesma coisa: de ser um charlatão sem princípios, de enganar doentes que alimentavam inutilmente a esperança de se curarem, e ainda: «Relativamente a cancros, essa pretensa terapia por hipnose começa a tornar-se uma coisa criminosa, dando por conseguinte lugar a uma espécie de delito, nomeadamente quando se atreve a afirmar que consegue obter resultados positivos na cura do cancro...»

Nada daquilo afectou Stefan. Já conhecia o discurso. Mas não estava à espera que o sogro se sentasse à secretária para o difamar na rádio.

- Como é que achas que ele vai reagir? - O olhar que Christa lhe lançou era igual à irritação que lhe provocara a carta da Associação de Psicólogos Alemães.

- Cá estamos nós outra vez! - Suspirou, resignado.

- Como é que vocês não sabem...

- Vocês?

- Sim, vocês. O teu pai e tu.

- E o que é que temos de saber?

- Deus do céu, que também sou médico com formação tradicional. Só que essa empresa de reparações limitada não me consegue satisfazer. Eu só pretendo alargar as minhas possibilidades de terapia.

- E então? Onde é que estão os bons resultados dos teus cancros? Como é que pudeste cometer a loucura de difundir um absurdo desses na rádio, e esperar que o meu pai ficasse calado?

- Loucura, dizes tu? Como assim loucura? Em primeiro lugar, nem sequer ouviste a emissão, portanto não sabes do que estás a falar. Em segundo lugar, não se trata de cura de cancro por hipnose. Eu até digo claramente que relativamente à terapia do cancro os métodos tradicionais estão na linha da frente, mas que a hipnose teve muito bons resultados na estimulação do sistema imunitário. Isto já foi demonstrado clinicamente inúmeras vezes. Além disso, tu conheces os meus casos...

Falava calmamente. Nunca mais iria deixar-se arrebatar pela excitação, como da última vez. O que se estava a formar entre ele e Christa era a clássica trincheira. O que doía era que se estivesse a passar entre eles os dois.

- Ora, Christa... - Agarrou na mão poisada à sua frente em cima da secretária. Ela não a retirou. - Christa, quantas vezes já discutimos isto? E quantas vezes me deste razão? O potencial imunitário é fundamental, não apenas relativamente ao cancro, como a todos os processos de cura... Mas é precisamente em relação aos tumores que o caso se torna dramático. Tu sabes, eu sei, e os cirurgiões como o teu pai também sabem. Basta-lhes por vezes um único olhar ou uma breve conversa para terem a certeza: este aqui, vou conseguir curá-lo, pois acredita em si próprio. O outro já perdeu a esperança. É assim que as coisas se passam. Tudo passa pela psique. Com a hipnose pode estimular-se a força, posso ensinar as pessoas a defenderem-se... até aos glóbulos brancos, até aos macrófagos... Já foste testemunha disso... E agora agimos como dois adversários? É ridículo, Christa!

Mas ela já estava à porta.

O que se estaria a passar?

Sentia-se magoado...

Tudo azar, pensava Julien Mainardi, nada mais que azar o facto de Abu Amar ter tido de levar o camião de dezasseis toneladas com os barris de mercadoria nesse sábado de manhã ao molhe de Port Lês Fleurs. Era um bom condutor, fora sempre de confiança, mas tinha um passaporte marroquino e a sua cara magra e escura com o bigodinho preto não era exactamente o tipo de cara que tanto apreciavam ali. Mas Abu não era marroquino. Fazia parte dos palestinianos que tinham expulsado os israelitas de Beirute durante a Guerra do Líbano e os haviam metido em barcos...

E ele tinha justamente de se sentar ao volante do camião, além disso antes das nove horas, com o nevoeiro a sujar toda a região: exactamente, a sujar! Quando o interrogaram, Abu Amar dissera: «Não ver nada. Nem mão à frente de nariz...»

Às oito e quarenta Abu Amar tinha descarregado, às oito e quarenta e quatro estava de volta. Já se encontrava quase a sair da zona da obra, a passar pela barraca das refeições que tinham construído para os operários... quando aquilo aconteceu.

- não Vi nada, chefe... mesmo nada.

Também não havia nada para ver. Não só havia nevoeiro, como lixo, areia e poeira. Abu ainda viu as luzes dos camiões que vinham em sentido contrário e, de repente, a mulher com a criança.

- Que olhavam para mim... muito próximo...

Abu punha as mãos à frente da cara enquanto contava. Tremia e gania como um cão.

A mulher chamava-se Jeannette Bernard. Tinha vinte e seis anos, estava casada há um ano, trabalhava para uma distribuidora de jornais em Saint-Michel e naquele momento não estava sozinha. Trazia nos braços a sua filha Nicole de nove meses.

Abu pôs o pé no travão, travou a fundo, tanto quanto conseguiu, e os travões hidráulicos do seu camião de dezasseis toneladas eram dos mais eficazes que havia na obra. Além disso, tinham-no ido buscar há exactamente uma semana, mas nada disso teve influência...

Jeannette Bernard foi projectada no ar. O pára-choques acertou-lhe na anca e lançou-a no meio da porcaria: sorte a sua! Sorte foi também o condutor do veículo que vinha em sentido contrário ter visto o acidente a uma distância suficiente e ter travado a tempo.

Mas Nicole, a criança de peito...

Nunca irás esquecer, dizia Julien Mainardi a si próprio. Nunca! E quando tiveres noventa anos... Vais sentir um aperto no coração e o estômago às voltas...

Agarrou novamente na garrafa de conhaque. Estava guardada no porta-luvas do carro. Fez um esforço para puxar a tampa para baixo, de tanto que lhe tremiam os dedos. A criança, a criança...

Levaram o monte de carne e ossos esmagados que restava dela. Mas a poça de sangue ficou e infiltrou-se lentamente na terra castanha e poeirenta.

No carro de polícia interrogavam as testemunhas e escreviam relatórios. Já há muito tempo que tinham levado Abu Amar.

- O homem teria carta de pesados, senhor Mainardi? Papéis de trabalho? Leve-os ao comissariado, sim? Os documentos do seguro também, e a autorização de trabalho, entendido? O carro estava em ordem? Quando foi à inspecção pela última vez?

O que é que Julien podia fazer relativamente à porcaria e ao nevoeiro que havia nas obras? Estava tudo em ordem. Os papéis, por aí ninguém lhe podia pegar.

Mas e o resto? Quando soubessem...

O «focinho de porco» vinha lá outra vez a balançar, gordo, ruivo, e com um blusão de seda muito chique.

Leo, o «focinho de porco», fazia o papel de patrão. Vinha de Retines, era bretão e relativamente à obra de Port Lês Fleurs era o homem no local de Lê Coq.

Na obra, onde trabalhavam quarenta empresas diferentes, mais de metade pertencia a Lê Coq, ou estava de certa forma relacionada com ele. Como acontecia com Julien Mainardi, por exemplo... Há meio ano que Julien ia ao mercado de Saint-Raphaèl com os seus dois camiões. Agora tinha oito. Quatro camiões Volvo e quatro Renaults registados em seu nome. Podia fazer o papel de chefe, isso podia, só que infelizmente havia uma conta devedora gigantesca no Credit Lyonnais e ainda mais os quinze por cento, que desembocavam nas receitas de Lê Coq. E havia Leo, o bretão que trabalhava para aquele mafioso corso, que abriu de rompante a porta do carro de Julien e berrou:

- Tenho de o informar, Mainardi. Estou a ficar irritado. É tão certo como a morte. E isso paga-se...

- Estou na fila para o seguro, Leo.

- O que significa isso de seguro? O que pensas que significa uma vigarice dessas para nós? Sim, o que achas que vai sair nos jornais?

-Não posso fazer nada...

- Tu não, o condutor não, ninguém pode. Mas vai sair-te caro. Estás metido nisso.

Vai mas é bugiar..., pensou Mainardi, mas faltou-lhe coragem para o dizer: Foi num daqueles fíns-de-semana que Christa costumava passar com a família. Não no moinho, não; Doris tinha-se retirado para Hanôver para a Rua Waldhausen, morava sozinha na grande vivenda, enquanto o marido Jiirgen alugara um apartamento no centro. No entanto, Christa estava confiante.

- Da forma como as coisas estão a correr, ainda os consigo juntar novamente...

Para Stefan significava um sábado tranquilo, enriquecido talvez com uma ou duas consultas. Na pior das hipóteses haveria um acidente pelo meio. No sábado à noite, às oito em ponto, chegou o telefonema forçado de Christa: Se estava tudo bem?

Nada estava bem.

Apesar disso as horas passadas à secretária numa casa vazia não eram tão más como isso.

As notas para o final da sua série de programas estavam prontas, o gravador preparado; Stefan tirou um cigarro, o quinto da manhã e, por conseguinte, uma vergonha, sobretudo quando pensava na quantidade de pessoas a quem já libertara do vício de fumar através de hipnose.

Stefan apagou o cigarro acabado de acender e pegou no microfone.

- Um médico encontra-se com uma pessoa doente, em sofrimento. O que é que ele faz? O que achar mais conveniente, de acordo com a sua experiência e conhecimentos, de forma a livrar a pessoa do sofrimento em que se encontra.

«No meu consultório, como médico de província, há muitos anos que utilizo os medicamentos tradicionais, sigo rigorosamente os métodos científicos e comprovados da medicina tradicional, mas também uso, quando se me afigura oportuno, os recursos da terapia por hipnose. Em nome de quem me podem impedir de o fazer? Além disso, existe uma mentalidade extremamente tacanha que me pretende denegrir como médico de formação tradicional, por ter sucesso com métodos que apelidam de ”fenómenos” ou de ”casos isolados não comprovados”.

«Deviam consultar os meus ficheiros. Coloco-os à disposição. Nos anos em que me virei para a terapia por hipnose obtive resultados que me surpreenderam a mim próprio. Não me refiro apenas à libertação de dores, algo inclusivamente difícil de obter com intervenções cirúrgicas complicadas; refiro-me também a processos de inflamações crónicas e a lesões musculares com as causas mais diversas, e que puderam ser eliminadas. Além disso, existe uma infinidade de doenças de origem neurótica ou psicológica. São precisamente as doenças mais dolorosas, pois prejudicam muita gente, não só a nível profissional, como a nível social...

Levantou-se da secretária, foi até à janela e fechou-a. Serviu-se de uma chávena de chá e voltou a pegar no microfone.

- Sigmund Freud, cuja inteligência mudou o mundo, foi um dos primeiros a trabalhar com a terapia por hipnose. Os êxitos que obteve foram determinantes para continuar o seu caminho e fundar a psicanálise e a psicologia moderna. Embora Freud e o seu companheiro de caminhada Breuel tivessem conseguido libertar os seus doentes de neuroses graves, qual foi a resposta que obtiveram? A fama de charlatães sem rigor científico.

«A fama manteve-se... embora se tenha tornado mais discreta, mas as evidências são demasiado concludentes. Os ataques vão dar sempre à palavra ”sem rigor científico”, o que também não é verdade. As investigações actuais acerca do cérebro não foram, em última análise, sugeridas pelos resultados obtidos com a terapia por hipnose, mas demonstram o que médicos competentes que praticam hipnose há muito tempo defendem, ou seja, que na estrutura e no modo de funcionamento do nosso cérebro existem dois antagonistas, a metade direita... e a metade esquerda do cérebro. Por isso, deixem-me hoje...

Stefan não continuou. A culpa foi do telefone. Não, pensou Stefan quando tocou no auscultador, espero que não seja uma mãezinha qualquer a ligar porque o filho está com diarreia.

Atendeu.

Ao princípio ouviu apenas os estalidos da ligação, a seguir palavras, palavras em francês. Sentiu um punho a comprimir-lhe o coração, fazendo-o vibrar num galope desenfreado.

Reconheceu imediatamente a voz.

- Maria? - perguntou num tom incrédulo.

- Sim, sou eu. Incomodo?

- Incomodar? Se soubesse quanto tenho pensado em si nos últimos tempos! Não é só...

- Eu sei o que é, Stefan... Ou penso que sei. Ele calara-se. O que havia de dizer?

Ouviu a sua respiração.

- Onde está, Maria? Em Lê Castelet?

- Não, aqui.

- A sério? - O coração deu outro salto. - Aonde? Em Frankfurt?

- Aqui... O Thomas trouxe-me com ele para Frankfurt. Tinha uns assuntos para tratar. E depois surgiu algo mais importante que lhe transtornou os planos, é sempre a mesma coisa. De qualquer forma, teve de ir ontem para Londres. A seguir vai para Vancôver.

Thomas e os seus negócios, a voz de Maria... Stefan sentiu as mãos humedecerem. Era demasiado, sentiu um turbilhão na cabeça bloquear-lhe os pensamentos, de tal forma que só conseguia proferir frases ridículas.

- Ainda bem que ligou.

- Podemos encontrar-nos, Stefan? - Foi lacónica e directa, precisamente o que ele queria.

- Onde está?

- Já lhe disse: aqui.

- E o que quer dizer com isso? Novamente a respiração, e a seguir:

- Stefan, eu não sabia o que fazer. Quero dizer, não faço ideia como é que a sua mulher vai reagir se aparecer de repente em sua casa.

- Porquê? Além disso, não há problema. A Christa está em Hanôver. Mas o que significa «aqui»? - insistiu ele.

- Estou no sítio que conheço melhor. Para dizer a verdade, o único em Burgach.

- Onde?

- Cá em cima, na curva.

- Na curva? Refere-se ao sítio onde...

- Exactamente, onde dispararam contra o carro do Thomas.

- Vou já para aí - disse Stefan Bergmann.

No caminho, quando virou para a estrada nacional depois da estação de serviço, atormentou-o a pergunta que fazia a si próprio desde que conhecia Maria Lindner: o que se passa com esta mulher? O que é que ela quer? E o que te leva a enfiares-te no carro como um louco e acelerares por aí acima? Podias muito bem tê-la convidado para ir lá a casa.

E porque é que ela evita vir cá a casa?

Provavelmente porque não quer estacionar o seu carro de luxo à frente da porta. Seria por isso?

Stefan passou o lar de idosos e iniciou o último troço, a recta por meio do bosque. Mais à frente voltava a ficar mais claro: a curva.

Era a sensação de déjà-vu que tivera quando Maria veio com Thomas Lindner a Burgach: o grande carro sozinho na berma da estrada, a cintilar na sua esplendorosa cor grená. O sol tinha vencido as nuvens, espalhara os seus raios sobre a encosta, a folhagem de Outono brilhava em todos os matizes, desde o amarelo-vivo, ao vermelho e ao ocre mais carregado.

Desta vez Maria tinha saído do carro.

Estava encostada ao automóvel a olhar em direcção ao vale. Stefan estacionou na faixa oposta e saiu do carro. Ela atravessou a estrada na sua direcção, com a luz do Sol a reflectir-se-lhe no cabelo, a cara resplandecente. Até o casaco de algodão amarelo-claro que trazia vestido parecia ter sido escolhido de propósito para aquele dia, para aquele momento... Os últimos passos... já não os deu, parecia que corria para Stefan. Estendeu-lhe as mãos e ele abriu também espontaneamente os braços. Ali estava ela. Sentiu-lhe o perfume dos cabelos e da pele, sentiu a pressão leve e suave dos seus lábios nas faces, os seus olhos muito próximo dos seus, aqueles olhos escuros e misteriosos com os pontinhos dourados minúsculos, nos quais pensara tantas vezes.

Beijo na cara: em França é apenas uma forma de cumprimentar. Mas aquilo era mais do que isso.

Maria ria-se.

- Stefan, Stefan, não estava à espera de uma coisa destas, pois não?

- Claro - disse ele. Ela ainda não o largara.

- O que quer dizer com «claro»?

- Sonhei com este momento. E agora acho tão natural como... como o sol.

Ela largou-o.

Era mentira. Ou talvez não. Como é que podia sentir tanta intimidade? Como se tivesse encontrado uma pessoa que já conhecia há muito tempo.

- O que é que é natural? - insistiu ela. Voltou a tocar-lhe no ombro com a mão.

- Ora, Maria, eu trabalho um bocadinho como o pintor. No meu trabalho preciso de imagens.

- Sensações, não?

- Não, conteúdos, conceitos, que eu gostaria que os outros aceitassem. Neste momento sou a minha própria projecção na tela. E ultimamente tem havido apenas uma imagem.

- Qual?

- Esta - disse ele. - Exactamente esta. Estou sempre a vê-la à minha frente...

Meteram pelo caminho estreito em direcção à encosta. Foi Maria quem teve a ideia. Estavam mesmo no topo a olhar para o mar de fogo do bosque outonal. O calor do sol batia-lhes de lado e acariciava-lhes a cara. À direita do vidro cintilante acumulavam-se nuvens escuras em tom violeta.

Os Lindner estavam em Frankfurt há uma semana. Negócios urgentes, o que havia de ser?

- O Thomas trouxe-a para cá por causa de negócios urgentes?

O dourado dos seus olhos dançava.

- Não sei. Talvez.

- E então?

Não desviava os olhos dele.

- Porque é que veio também?

- Porque não fazes essa pergunta a ti próprio? «Stefan» e «tu»... e com uma serenidade que lhe cortava

a respiração. E aquele olhar... Sentiu a boca seca. O seu braço direito levantou-se e não conseguiu fazer mais nada a não ser tocar no cabelo de Maria.

- Aconteceu-me a mim, como te aconteceu a ti. Desde aquela tarde em que foste a Lê Castelet. Queria ver-te outra vez, tinha de...

Ele olhou para ela.

- E a Bella?

- A Bella? A Bella já não existe. Pelo menos em Lê Castelet, e também para mim... actualmente, também para mim. Quem sabe, um dia... Mas ela vai ficar em Nova Iorque. Precisamente em Nova Iorque! - Abanou a cabeça.

- A cidade curou-a, Stefan. Imagina. Como vês, é assim. Ele assentiu com a cabeça.

Continuava a olhar para ele.

- Sabes o que é que a Bella diz acerca de ti? Diz que deves ser uma espécie de xamã. Diz que uma pessoa que manipula os sentimentos dos outros tem de ser um xamã. Tu és um xamã, Stefan?

- Provavelmente já sou mais qualquer coisa. - Sorriu.

- Talvez por vezes tenha de manipular sentimentos. Mas não para meu proveito. Nunca faria uma coisa dessas. Nunca.

- Naturalmente, como médico és uma espécie de santo, não és? Apesar disso, fizeste-o. Hipnotizaste-me... uma vez. O que fizeste comigo, Stefan?

Não aguentava aquele olhar por muito mais tempo; baixou os olhos e sentiu as mãos dela nas suas costas, o calor do seu corpo, tudo aquilo por que ansiara, que não parara de desejar...

O que tem de acontecer, acontece; não há pensamento nem raciocínio que o possam evitar. O facto de se amarem não tinha nada de racional... E como se amavam! Razão e paixão, água e fogo... não combinam.

Uma vez, quando naquele êxtase a consciência lhes voltou por uns segundos, e depois, quando se soltaram um do outro para tomarem fôlego, Stefan distinguiu lá em baixo na encosta a raiz seca e coberta de musgo de um velho pinheiro. Era onde há poucos meses, uma eternidade, o atirador mortal esperara por Thomas. Lê Coq - O nome passou de relance, flamejante, pela cabeça de Stefan, como uma frase explosiva, e voltou a desaparecer. O homem que Lê Coq enviara?

O que significaria isso?

Estava tão longe da realidade de Stefan, e aquela cara, aquele corpo, tão próximos. Quando é que passara por uma coisa semelhante, vivera uma coisa semelhante? Nunca soubera ou inclusivamente suspeitara o que é que um corpo poderia sentir, até que ponto podia ir a sua sensibilidade, e aquilo, aparentemente sem fim, um balançar de ponto culminante em ponto culminante, a relampejar como a explosão de um fogo-de-artifício... até tudo ficar escuro e frio à sua volta, uma espécie de descida às trevas. O vento bateu-lhe na pele nua e aquecida, lançou-lhe poeira para cima até se separarem e olharem para o céu.

- Mon Dieu - gritou Maria.

As primeiras gotas soltaram-se da tinta azul-escura em que se transformara o céu, a chuva batia-lhes em cheio. Maria estava sentada, sem a mínima reacção, deixando que a chuva a molhasse, que o aguaceiro inesperado caísse sobre ela. Abriu os braços. Voltou o corpo bronzeado contra a água enquanto os cabelos se colavam à cara como cobras pretas.

- E agora? - Os seus dentes brilhavam. - E agora, doutor?

E agora? Ou morriam de frio ou, no mínimo, apanhavam uma constipação dos diabos. Aparecia um dos trabalhadores florestais, Konietzka, o homem que ajudara naquela noite a tirar Lindner do carro, e o que é que ia encontrar? A mulher de Lindner, nua, e o doutor, ambos ensopados em chuva...

Stefan riu-se, mas o frio devolveu-lhe uma espécie de pensamento lúcido. Maria levantara-se, tinha os ombros encolhidos, os braços apertados contra o corpo, a roupa que retirara estava espalhada à volta do casaco. A sua roupa, as calças de ganga de Stefan, o blusão, tudo sujo e molhado.

- É isto que vamos vestir? - Maria olhava para Stefan como uma criança acabada de ser pescada do rio.

- Vou vestir o casaco. E as calças. E a seguir vou para o carro e ligo o aquecimento.

Stefan também tremia de frio.

Talvez fosse por causa do vinho que o guarda do Castelo de Saint-Louis lhe servira enquanto ele tirava os calhamaços religiosos da estante, in-fólios grossos, cobertos de pó, a cheirar a mofo, cada um deles com um quilo no mínimo: Charlie apoiou nos braços o primeiro carregamento de vinte quilos, saiu aos tropeções da igreja pela ala lateral, e a seguir, mesmo ao lado dos «Salmos de David» que estavam todos juntos, o que é que ele viu? Dois olhos negros brilhantes que o olhavam de lado e uma boca cor de cereja: uma chinesa!

- Olá! - conseguiu ainda dizer. - De onde é que saíste?

- I am Chinese... Charlie engoliu em seco.

Ali estava ele sobre aquele pavimento de pedra irregular, com os calhamaços que devia levar a Chevalier, na ala lateral de Saint-Louis. Era Outubro. Os hotéis e as pensões tinham as janelas trancadas, os turistas, levara-os o diabo, o vento já soprava fresco nas vielas... e ali estava uma chinesa.

- Eh - disse Charlie -, fica... Anda, vou descarregar a minha carripana, e a seguir vamos beber um café. É mesmo ali à frente, estás a ver? - Não era a «sua carripana». O automóvel pertencia a Chevalier, e a chinesa foi-se embora, com passos pequenos. Charlie correu no seu encalço. Não deu mais do que três, quatro passos, quando aconteceu.

Primeiro as sapatilhas escorregaram, a seguir os «Salmos de David»... e por fim o resto.

Charlie praguejava.

A chinesa já ia na esquina, com o seu cachecol vermelho brilhante. Desapareceu... Charlie pôs-se de cócoras, friccionou os ossos doridos e contemplou o lindo serviço que acabara de fazer. Algumas folhas dos in-fólios tinham-se soltado, o vento levava-as e ele tentava apanhá-las. E a seguir, de repente, viu mais duas mãos a agarrá-las, a juntá-las, e a empilhar os livros em cima uns dos outros.

Eram umas mãos muito pequenas...

Charlie voltou-se e viu uma cara que lhe dava sempre prazer ver.

- O que estás aqui a fazer, Régine? Ainda agora estava aqui uma chinesa, e agora...

- Vê lá mas é por onde andas. Se não o vento leva-te a papelada toda.

- Papelada - disse Charlie. - Tens razão...

Levaram os livros para o carro. A bagageira estava aberta, ao menos isso. Arrumaram a carga, Charlie fechou a porta com estrondo e voltou-se para trás.

- Aquele também? - perguntou admirado quando viu Fabien aproximar-se. - O que é isso, Fabien? Porque não deixas a Régine vir sozinha? Vocês são gémeos?

- Qualquer coisa parecida - disse ela a rir.

- Se isso é verdade - prosseguiu Charlie com um ar aborrecido -, como é que o deixas andar por aí? Parece um indigente.

- O que queres que faça? Arranjei-lhe um quarto na casa da Rue Bernanos. Afinal, é a sua barraca, podia lá viver... E o que é que ele faz? Há seis semanas que se esconde lá em cima na gruta. No Col.

Charlie olhou para Fabien que caminhava lentamente na sua direcção com as mãos nos bolsos das calças de ganga, a cara mais magra que nunca, por barbear, uma barba clara crescida sobre uma pele bronzeada, o velho casaco de ganga cheio de manchas de sujidade, as calças rasgadas nos joelhos... mas os olhos muito abertos, um sorriso de felicidade.

- Fabien, vais continuar a andar por aí assim? Quando é que começas a ser sensato e...

Fabien continuava a sorrir. Charlie remoía a sua fúria. Muito bem: estão os dois metidos no mesmo barco, é mais do que uma relação... Charlie tinha de aproveitar o semestre. O pai ia ficar pelo menos mais quatro meses na clínica. Já estava completamente curado dos ossos, mas da cabeça, da memória, ainda não. Ao princípio o pai lembrava-se, mas nos últimos meses... Só se lembrava por fragmentos. «Como rochas na rebentação das ondas», dissera o médico...

Fabien voltara entretanto a interromper a conversa. Parecia entender-se com Régine, mas fora isso agia como um surdo-mudo, tal como naquele momento. A unha suja do dedo apontava para o lábio, e tinha a cabeça inclinada, numa atitude suplicante.

- Queres um cigarro?

Charlie tirou o maço de Gauloises das calças, acendeu dois cigarros e ofereceu um a Fabien.

Fumaram em silêncio e de pé. A seguir Fabien sentou-se na base do pedestal de Saint-Louis, e Régine instalou-se a seu lado. Fabien meteu a mão no bolso da camisa e Charlie percebeu o que é que ele ia tirar: o bloco de apontamentos. Temos de falar, escreveu.

- Há piadas mais engraçadas.

Fabien continuou a escrever: Urgentemente]

- E onde?

Fabien apontou com o queixo na outra direcção. Para o R4 do tio de Régine. Pelos vistos tinha-o cedido para sempre.

- Muito bem. Vou levar os calhamaços para o Chevalier. E não trabalho mais hoje. De qualquer forma o sovina ainda me deve o salário de uma semana.

Fabien sorria...

- É muito simples...

Charlie sentiu falta de ar. A frase proferida por Fabien fora concisa, clara e precisa.

- Tem só a ver com... com a imprensa... E eu a-acho, que tenho uma so-so...

Fabien calou-se. Ouviu-se apenas o som abafado que interrompera a tentativa de articular a palavra «solução».

Charlie sorria, mas por dentro gemia. Desgraçado! Recomeçava a mexer desajeitadamente no lápis e no papel. Régine estava encostada à persiana da janela e pôs-se em bicos de pés.

Ricard, escreveu Fabien.

- Claro - disse Charlie. - O gordo Oli...

O «gordo Oli» fora um colega de Narbona, exactamente, fora. Oli desistira no último ano e mudara-se para Paris. Espera! Teve a ver com o pai. Pierre Ricard era um dos craques do jornalismo, um repórter que aparecia frequentemente na televisão. Era correspondente do Figaro em Marselha, mas depois, e foram as últimas notícias que Charlie tivera suas, fora promovido a chefe de redacção em Paris.

Caramba, já devias ter percebido há mais tempo, pensou Charlie. Tinham feito todos os possíveis, corrido todos os ferros-velhos da região à procura do carro-patrulha de Cavalaire feito em destroços; haviam falado com toda a gente que sabia alguma coisa acerca do acidente. Charlie tentara apanhar os colegas do pai, tinha perguntado em Vertier aos polícias que lá estavam juntamente com o inspecteur Donnet, quando Ortiz fora morto a tiro.

Custara muito uísque a Charlie, e uma grande destreza psicológica para interrogar os funcionários de Cavalaire e, no entanto, não servira de nada. A mais pequena alusão ao acidente só tinha tido um efeito: um encolher de ombros de espanto. O caso Ortiz? Está definitivamente arquivado... Nós, oh, não, nós não sabemos de nada.

Restavam as fotografias que Pascal Lombard tirara.

Charlie vira-as uma dúzia de vezes juntamente com Fabien e Régine. Tinham ido buscar uma lupa, na esperança de que a ampliação ajudasse. Amoros, Lê Coq, e aquele cacique gerente de Toulon, no iate de Lindner... Donnet com os russos... Os gatinhes na piscina da Villa Wilkinson. Novamente Donnet, mas no helicóptero de Lindner... Porquê? Porque é que um inspector da polícia sobrevoava a região no helicóptero do alemão?

Além disso havia mais quatro fotografias. Eram as piores, tão deprimentes, que os mais novos sentiram falta de ar. Na primeira fotografia via-se Donnet e o sargento Vertier de pistolas na mão a esconderem-se atrás do muro da propriedade de Ortiz. Na segunda corriam em direcção à casa, na terceira fotografia Ortiz continuava à porta de casa, com a sua espingarda Vogel na mão, mas a maneira como a segurava só podia significar que estava pronto a render-se e que queria entregar a arma. Numa outra fotografia via-se em primeiro plano um enorme hibisco em flor. Na sua sombra porém estava um homem deitado com as mãos apoiadas no chão. Se se tratava do cadáver do professor ou se ele estava naquela situação forçado pelos dois touros ajoelhados a seu lado, não tinha importância.

Mas numa coisa estavam todos de acordo: reconheceram nas imagens um acto premeditado e nitidamente criminoso.

O que diria um advogado a quem colocassem as fotografias em cima da mesa? E que advogado?

Havia um único que se poderia interessar pelo caso: Dumont, em Saint-Tropez. Há umas dezenas de anos que Maítre Dumont comprava vinho a Pascal. E participara desde a primeira campanha na luta contra Port Lês Fleurs. Mas Dumont era conhecido pelas suas agressivas máximas de esquerda; uma espécie de dinossauro comunista, de setenta e seis anos de idade, e por conseguinte não seria o contacto ideal.

Fabien teve outra ideia.

A imprensa.

- Coitado! - Maria ria-se.

- O que queres dizer com «coitado»? Coitado de quem?

- O velho de ontem à tarde... Os olhos que ele fez, coitado. Ia tendo uma síncope.

O «velho coitado» era o porteiro da Estalagem Schõneich. E o velho coitado de fato preto ficara petrificado quando na tarde do dia anterior vira caminhar na sua direcção dois vultos bastante estranhos. De qualquer forma, acabavam de sair de um enorme carro de luxo, o que produzia um efeito bastante estranho. Molhados até aos ossos, a mulher a tremer de frio e ainda por cima descalça, pois Maria perdera o sapato direito no bosque, quando fugia da chuva. Mas agora era de dia. E Maria ria-se. Sentara-se em frente da porta da grande varanda, embrulhada num enorme roupão como se estivesse dentro de um casulo demasiado grande. O pano turco escorregava-lhe do corpo e punha a descoberto tudo o que inspirara Stefan durante a noite: os ombros delicados, a curva do colo, o braço delgado, o seio direito, firme e pequeno apontando ousadamente para cima e um mamilo castanho minúsculo. A luz que incidia nos bosques, nos prados e nos pastos iluminava os pêlos da sua pele nua e contornava o seu perfil com uma risca dourada. E atrás havia aquele quarto quente e bonito com a grande cama, os móveis biedermeier e o tapete às riscas castanhas e amarelas.

Um oásis, pensou Stefan. Não, um verdadeiro milagre... como tudo o que acontecera naquela noite. O resto do mundo desapareceu. Só nós existimos...

Colocara a mesa do pequeno-almoço junto à porta do terraço, fumava um cigarro e olhava para Maria. Ainda não tinha bebido nenhum gole de chá, bastava-lhe olhar para ela.

- O que foi, Stefan? Em que pensas?

- Numa mulher.

- O quê? - Levantou-se e tapou o seio descoberto com o roupão. - A sério? É bonita? É interessante? Ou estás a pensar na tua mulher?

- Se calhar era o que devia fazer. Mas não estou. Ainda não. Estou a evitar.

- Não vai resultar durante muito tempo, chéri... Tinha razão.

- E que espécie de mulher é essa?

- Uma doente.

- Conhece-la bem?

- Não. Esteve ontem em minha casa, mesmo antes de ligares.

- E então?

- Disse uma frase que se pode aplicar a mim.

- Que frase?

- Que para ela tudo mudara.

- E mudou... para ti?

Ele calou-se. Mas enquanto Maria o fitava com os seus olhos negros, ele respondeu, hesitante:

- Não sei. Ainda não...

- E porque é que foi a tua casa?

- Porque tinha prometido ajudá-la. Chamou à sua doença «ciúme doentio», doentio, porque o marido teve uma aventura sem importância e ela está sempre a imaginá-lo nos braços de outra mulher. - E isso também se aplica a ti...

- Não. - Sorriu. - Ela tem imaginação a mais. Como pintora, tens experiência disso.

- Tens razão, experiência em imaginação, mas não em | ciúmes.

- Os ciúmes estão relacionados com o medo da perda, mais nada. - Tornou a encher-lhe a chávena de chá e ficou a observar o líquido castanho-dourado a cair na porcelana branca. - Medo de uma separação... Mas normalmente não tem a ver com a pessoa com quem estamos. A maior parte das vezes está relacionado com uma experiência anterior, que ficou muito para trás.

- E disseste-lhe isso?

- Disse.

- E que tipo de experiência?

- Um trauma de infância que se quer esquecer, que se tem de esquecer para se poder continuar a viver. Mas esse recalcamento alimenta um medo perpétuo e ainda uma outra força: a imaginação. E então vê-se de facto como é que a fantasia pode destruir uma pessoa.

- Pois é - disse Maria. - Sei o que isso é. E o que fizeste à mulher?

Virou a cara para a janela e olhou na direcção dos dois póneis que galopavam selvaticamente ao fundo, em círculos. O seu pêlo brilhava, a sua crina esvoaçava...

- A questão é essa. Foi a primeira vez que recusei ajudar uma pessoa nessa situação. Podia tê-la ajudado, mas ontem por qualquer motivo não me senti capaz de o fazer. Mandei-a a um amigo meu, especialista em terapia de casais. Provavelmente pode ajudá-la melhor que eu...

Maria ficou calada. A seguir entrelaçou as mãos debaixo do queixo e olhou para Stefan.

- E quem é que nos vai fazer terapia a nós? És ciumento? Tens ciúmes do Thomas?

- Penso que não. Não, não é isso...

- Mas queres saber o que se passa connosco? Ele assentiu.

- Isso sim, Maria.

- Tudo?

- Tudo - respondeu Stefan.

- Tínhamos uma relação de irmãos. - A expressão não era de Maria, era de Thomas. E estava cem por cento certa.

Maria nascera em Itália, crescera na Suíça e tivera a educação que se esperava de uma filha de um diplomata das Nações Unidas: mudar constantemente de casa, excelentes conhecimentos de línguas, boas maneiras. Fosse em Roma, Genebra, Amesterdão ou Londres...

- Dizia sempre as mesmas coisas, para onde quer que fosse, sentia-me sempre nas minhas sete quintas, não havia campo de ténis ou de golfe que não conhecesse, e sentia-me tão só como um cão preso à corrente.

A certa altura o carrossel parou. O pai de Maria foi viver para uma vivenda junto do lago de Genebra, onde ela tinha de continuar a aceitar os beija-mãos e manter conversas triviais. Pelo menos aprendeu a fazer os melhores petits fours da cidade... E a seguir aprendeu a odiar o pai por causa da sua permanente antipatia trocista.

- Foi de facto uma espécie de crise em relação ao pai.

Não olhava para Stefan enquanto falava, observava os póneis, girava nas mãos o copo com o sumo de laranja. Tinha um perfil muito bonito, bonito e simultaneamente pensativo.

- E foi então que ele apareceu... Ele: Thomas Lindner.

- Foi numa recepção relacionada com a fome no mundo ou qualquer coisa parecida. Ele estava lá: Thomas, o irresistível. Não estou a exagerar. Naquela tarde dirigiu a todas as mulheres aquele seu célebre olhar húmido, enquanto se passeava entre elas. Tu conhece-lo...

Stefan anuiu com a cabeça. Podia imaginar. No entanto, os olhos de Maria naquele dia permaneceram secos. Há muito que se habituara a conhecer homens elegantes e bem-sucedidos. Voltara-se para as suas pinturas e só tinha um desejo: pintar quadros. Além disso naquele dia tivera uma discussão com o pai, que lhe proibira ir ver uma exposição de Chagall em Lugano, para a qual fora convidada.

- E ali estava aquele Lindner à minha frente. Beijou-me a mão e olhou-me de relance.

Mas alguém lhe devia ter falado dos planos falhados de Maria. «Quer ir a Lugano? Não há problema. Vai com o meu piloto particular, mademoiselle... Às sete horas está em Lugano a deleitar-se com o seu Chagall. Voilà, tão simples como isto.»

- E voilà, foi assim. Fui de helicóptero, tinha um quarto reservado no melhor hotel e na manhã seguinte estava de regresso a Genebra.

As coisas mantiveram-se assim. Lindner não incomodava, não enviava rosas nem cartas de amor, mas, cada vez que Maria tinha um problema, ele resolvia-o. Para as grandes vernissages, fossem de Kandinsky, Warhol ou Pollok

- vinha sempre um convite com um cartão anexo. E se o local da exposição ficasse muito longe, o telefone tocava e aparecia uma voz simpática de secretária a perguntar se a mademoiselle queria ir de carro.

A mademoiselle não queria. Devolvia muitos dos bilhetes. Para as vernissages especialmente interessantes ia de comboio.

Mas não eram só exposições; recebia também bilhetes para as estreias de óperas ou concertos mais interessantes. Para as ocasiões musicais havia sempre dois bilhetes dentro do envelope.

Ao princípio Maria ficava perturbada com tantas atenções, mas rapidamente se habituou. Sempre que perguntava se Monsieur Lindner estava em Genebra, para lhe poder agradecer, davam-lhe sempre a resposta estereotipada: «O senhor Lindner pensou que talvez tivesse interesse neste acontecimento. Lamento, mas ele não se encontra. O senhor Lindner partiu em negócios...»

Foi assim durante dois anos. O homem de poupa ruiva e de olhos brilhantes que Maria vira apenas uma única vez, que lhe beijara uma única vez a mão e a quem ela uma vez servira um canapé de caviar tornara-se uma espécie de criatura invisível, dotada de forças sobrenaturais, que projectava programas interessantes e que se preocupava em alargar o seu horizonte cultural.

Maria tinha então vinte e quatro anos. O seu ar arrebatador e a enorme atracção que exercia sobre os homens só lhe haviam trazido desvantagens até ali. Tinha tido desde homens de cara ruborizada e olhar lânguido a fazerem-lhe ofertas inequivocamente atrevidas, a todo o tipo de aproximações e propostas de casamento de que um homem é capaz.

Mas o que queria Lindner, o invisível?

- Este Inverno não o vou passar no mar - comunicou Maria ao pai em Novembro daquele ano. - Vou para Megève. Não vou andar de esqui. Vou pintar.

O pai reagiu como reagia sempre ultimamente. Para ele uma mulher, sobretudo uma filha, tinha de cumprir ordens sem as contestar. As suas ordens eram sempre acompanhadas de um sorriso obsequioso de conselheiro de embaixada. Ultimamente demonstrara também alguns sinais de senilidade, por vezes nem sequer sabia porque é que sorria daquela maneira, baralhava tudo, esquecia-se do motivo por que mandara pôr o smoking de parte. Cada vez que se opunha a alguma coisa seguia-se logo um acesso de fúria, como naquela vez. E quando o conselheiro da embaixada percebeu que não servia de nada enfurecer-se, afundou-se numa poltrona a resmungar.

Maria foi para Megève. Mas não foi sozinha. Entretanto conhecera Bella e apaixonara-se por ela. Megève ficava apenas a quarenta minutos de viagem de Genebra, na Alta Sabóia. Quando avistaram a enorme casa de campo, um pouco desviada da estrada, cuja ala de hóspedes Lindner colocara à sua disposição, perceberam imediatamente: é aqui que vamos ficar! E vamos ficar o tempo que pudermos...

A primeira vez ficaram seis semanas.

No dia três de Janeiro, três dias depois de terem sido lançados os foguetes de fim de ano pelas pessoas que povoavam Megève no Inverno, e que só por isso se sentem ricas e bonitas, eram nove e meia da manhã, Maria tinha acabado de lavar os dentes e estava na cozinha a fazer café quando a porta se abriu: Thomas Lindner entrou. Bastante cansado, com os cabelos curtos e o sorriso radiante do costume.

- Espero não incomodar.

- Como? O quê?

A cafeteira de vidro com café que Maria tinha na mão caiu ao chão e estilhaçou-se, o líquido castanho-escuro tombou em cima da ponta dos seus sapatos incrustados de neve.

Lindner puxou de uma cadeira e sentou-se com os braços apoiados nos joelhos, os ombros curvados, a cabeça voltada para Maria, pálido e com os olhos raiados de vermelho. O sorriso ainda lá estava, mas perdera o efeito.

- Três semanas na Colômbia... - murmurou ele. O inferno. E mais três dias de avião... - Também devia ter fome. Se lhe preparasse uma sanduíche...

Maria fez mais café, tirou o pão, a manteiga e o queijo com gestos automáticos; pensava em Bella... Bella dormia normalmente até ao meio-dia, graças a Deus...

E Lindner estava sentado à sua frente, um Lindner de carne e osso, não era uma abstracção, ou uma autoridade anónima qualquer, obstinada em a satisfazer, era um homem cansado, que entornava o café por cima de si e que devorava pão com queijo.

- Eu amava-o... Por mim, tinha-me sentado ao seu colo e acariciado a sua cabeça... Mas ele queria comer. E além disso, havia a Bella...

Por vezes Maria imaginava que Lindner contratara um detective privado para a seguir. Podia ser. Ou talvez tivesse poderes telepáticos ou possuísse uma capacidade de intuição sobrenatural. De qualquer forma, sabia da sua relação com Bella.

- Gostaria de ficar aqui convosco no anexo dos hóspedes. Mas... se calhar incomodo.

Ela não conseguira responder-lhe. Dois anos e meio de presentes, dois anos e meio de generosidade pura... e agora toda aquela compreensão?

- Era tão nova, pensava eu, que ele podia exigir tudo o que quisesse de mim. Inclusivamente que me separasse da Bella...

Mas Thomas Lindner não exigira uma coisa dessas. Em vez disso, dois dias mais tarde fez uma proposta.

- Podíamos casar, Maria... Em Megève, Genebra ou nas Baamas, mas brevemente...

Estavam numa das pistas de esqui quando fez a proposta. Bella tinha ficado em casa. Thomas não levara esquis, mas Maria trouxera-os no teleférico. Tinha um copo de chá quente na mão, quando Thomas perguntou:

- D’accord!

Queimara os lábios com a surpresa. Tal como lhe acontecera na cozinha com a cafeteira de café, o copo com o chá caiu-lhe da mão.

- Para ti não vai ser muito diferente, Maria, acredita em mim. Se existe alguém que percebe de relações livres, esse alguém sou eu. Nesta fase, é uma felicidade existir uma pessoa como a Bella...

Era o pedido de casamento mais estranho de que tinha conhecimento.

A neve reluzia, o Sol brilhava, umas figuras vestidas com anoraques de cores berrantes falavam num tom estridente... Maria estava ali parada e fitava-o.

- Uma relação de irmãos - disse Lindner -, com liberdade garantida por contrato.

Relação de irmãos? Ela olhava para ele. Afinal de contas, quem é que tinha à sua frente? Um marciano, um extraterrestre que compreendia tudo, que tinha solução para tudo?

- Tu precisas dessa liberdade, e eu preciso de ti. Sei-o desde o primeiro segundo em que te vi. Porque é que não nos juntamos?

E fizeram-no...

- É uma história bonita, não achas? - Maria soprou o fumo do cigarro contra o vidro da janela. Não olhava para Stefan. - Aqui tens as tuas informações... Como psicólogo, ou xamã, o que pensas disto?

A nebulosidade luminosa sobre o prado tornara-se cinzenta, o sol retirara-se. Os póneis andavam a trote. A sala escurecera também. Ambos fumavam.

Bergmann ficou calado durante muito tempo.

Maria agarrou-lhe na mão e apertou-a.

- Então, estou à espera de uma resposta.

- Ele quer apenas uma coisa: ganhar - disse Stefan devagar. - E vai fazer tudo o que estiver ao seu alcance para o conseguir. Perder ser-lhe-ia fatal.

- É isso mesmo - anuiu ela. - Está tudo certo... Baixou a cabeça, mas a entoação com que o disse despertou a curiosidade de Stefan.

- Também há coisas más, Maria?

- Há, mas não para o Thomas. Pelo menos quando tem um objectivo em mente. Ele sabe bem que não tem escrúpulos. Chama-lhes o compartimento onde não existe moral. «Eu ajo num espaço onde não há moral», diz ele por vezes, «eu permito-me ter a minha própria moral.» Mas há ainda outra coisa nesta história...

- Ah, sim?

- Ele é impotente... Há cinco anos, antes de me fazer a proposta, teve um acidente de esqui na pista onde estivemos. Foi contra uma cerca e o arame feriu-o nos testículos. Exteriormente a lesão deixou-lhe apenas umas cicatrizes brancas, mas ficou com outra coisa pior. Pior ainda do que a impotência...

Outro domingo. O de catorze de Outubro.

A costa estava livre de turistas, mas no sopé do Col havia ainda bastante movimento. Existiam doze estabelecimentos em Saint-Michel, bares e restaurantes, e estavam todos abertos.

Passava-se o mesmo com os hotéis. Havia cinco em Saint-Michel; os três que dispunham de aquecimento central estavam completamente cheios. A Societé Port Lês Fleurs acomodara lá a administração, clientes importantes para a evolução das obras. No Hotel de Apartamentos Cote de Soleil estavam hospedados os directores e respectivos familiares que, por uma questão de distância, não podiam ir passar o fim-de-semana a casa. O resto do pessoal ficara hospedado no Lês Pinets, que era um pouco mais barato, e nas pensões.

Saint-Michel vivia o auge do crescimento da história da cidade, que remontava ao século XIV! As caixas tilintavam, os negócios floresciam. Todo aquele tumulto se devia aos prospectos coloridos concluídos pela societé, e iria durar ainda mais dois anos. E então? E então havia Port Lês Fleurs que começava a arrancar. Juntamente com Port Lês Fleurs, também Saint-Michel se preparava para se tornar um verdadeiro manancial de riqueza.

- Ainda me vou rir - gritou Raoul Farnet, olhando para aquela gente toda. Para cada um deles. - O velho Pascal tinha razão. O que é que nos resta de todo aquele carvão? Nada. Quem é que está a trabalhar na obra? Não só metade da população de África, como também tipos de Marselha, Toulon e por aí fora. O pobre Pascal sabia. «E quem é que fica com a massa? Lê Coq e o alemão! Ainda se vão lembrar de mim», tinha dito Pascal. «Ainda vão ter saudades dos velhos tempos.» E tinha razão...

Desde que Pascal Lombard morrera, ninguém arriscara nada do género. Raoul Farnet bateu de tal forma com o punho na mesa que os copos saltaram.

Incrível!

Era a mesa de canto do Grand Nice. Em domingos como aquele o Nice era o verdadeiro centro de Saint-Michel, pois ficava à frente da Câmara e da igreja, e era onde se encontrava a maior sala de reuniões, onde se faziam as campanhas eleitorais ou as festas do clube desportivo.

Na mesa de canto da sala do restaurante do Grand Nice cabiam doze pessoas. As cadeiras estavam todas ocupadas. Os homens, nos seus fatos domingueiros, acenavam com a cabeça animados, enquanto Farnet continuava a gritar sem receio:

- Nós devíamos estar cegos! Não lhes chega estripar-nos, como fazem aos perus na ceia de Natal. Também querem os nossos cadáveres! É o que vos digo! A pequena Nicole não há-de ser a última!

Valier, o dono do Nice, estava debruçado para a frente atrás do balcão e espalhava cuidadosamente detergente nos copos com uma esponja. Fazia-o com a mão direita, enquanto carregava discretamente num botão por baixo do |balcão com o polegar da mão direita. Ligava o gravador. Valier era de Marselha. Os avós eram imigrantes corsos. Valier era alto, magro, com uma cara escura e seca e um nariz afilado que parecia ter sido talhado com uma faca. Tinha ainda umas orelhas grandes e feias, sobre as quais lhe caíam uns caracóis vulgares preto-acinzentados e oleosos. Era um sistema prático. Ninguém via o auricular que Valier colocara no pavilhão do ouvido e ninguém naquela sala a abarrotar podia saber que o botão de escuta estava ligado aos microfones ocultos espalhados sob o tecto de madeira, para captar as conversas que os clientes tinham ao balcão e nas mesas.

Dois anos atrás, em Março, quando haviam começado as obras, chegara Leo, o bretão.

- Precisas de um novo tecto falso de madeira. Ficava melhor, velhote. Eu vou-to montar...

Não fora nem uma sugestão nem um pedido, mas sim uma ordem proferida diplomaticamente.

E agora tinha aquele tecto novo.

E no que dizia respeito à mesa do canto, Valier não tinha de se preocupar, pois Farnet continuava a berrar tão alto que Valier teve de se afastar para o som diminuir.

Meu caro, quando o Leo ouvir!, pensou Valier. Mas o que vem a ser isto? E que raio de dia é este? O que se passa com o Farnet?

Valier pensou ainda noutra coisa: tinha de dar tudo por tudo. O Leo não vai dar o braço a torcer. E sobretudo o alemão... E quando penso no Lê Coq... minha Nossa Senhora!

Ninguém se atrevia a emitir um som na sala. Olhavam todos na direcção de Farnet que se levantara, com as mãos apoiadas na mesa, a cara redonda corada, os olhos cheios de revolta e ódio.

- São uns assassinos. - Não gritou. Disse-o muito calmamente. - Há muito tempo que sabíamos. Só a minha pequena Nicole é que não sabia. Quem é que pensa nas nossas crianças?

Já chegava, Valier desligou. Serviu-se de um conhaque e não olhou na direcção da mesa do canto, mas sim para a mesinha de quatro lugares, à direita, perto da entrada. Fora ali que eles tinham comido: Fabien Lombard, Charlie Benoit e Régine, a amiga de Fabien.

Ela também o dissera:

- São todos uns assassinos. E nós recebemo-los aqui!

Sim, tinham-no dito muito, muito baixinho, mas o microfone captara as suas vozes. Inclusivamente o que haviam dito acerca daquelas fotografias estranhas...

Tomaram uma refeição ligeira no quarto, com vista para os póneis. No palacete havia uma sala de jantar, mas eles queriam estar sozinhos..

O Sol voltara a brilhar e reflectia-se no prado coberto de humidade. Tinham usufruído copiosamente do banho; Maria fartou-se de rir com o vestido que amarrotara e sujara no bosque, friccionou a barba crescida de Stefan com os nós dos dedos e conseguiu que lhe mandassem ao quarto, com uma boa disposição notável e contagiante, um par de sapatilhas de senhora, número 37. Eram brancas, debruadas a vermelho.

- De quem eram? - perguntou ao empregado.

- São novas; a chefe mandou-lhas entregar. Com os melhores cumprimentos.

- Que excitante. E eu mando-lhe um beijo. Que você lhe vai entregar imediatamente.

Enfiou no bolso do colete do rapaz, que ficara corado de repente, uma nota de cinquenta francos, entregou-lhe o cartão de crédito para pagar a conta e abriu-lhe a porta. Passados cinco minutos, estava de volta... com uma rosa na mão

- Para a despedida, madame...

Eram catorze horas e trinta minutos. Daqui a uma hora estará na sua casa em Frankfurt, pensou Stefan.

Como é que ela consegue, continuou ele a pensar. Como é que consegue ser tão arrebatadora, enquanto eu me sinto tão mal? O carro rodava sobre a estrada em direcção a oeste. Bad Ems, lia-se nas tabuletas. Dali até Burgach não eram mais de vinte minutos.

E depois? Bergmann olhava de esguelha para Maria. Conduzia depressa e com concentração. Porque estaria com tanta pressa? Regressaria Thomas mais cedo?

Fechou os olhos. Como é que era? O ciúme não passa de um trauma recalcado... Estaria a cair na armadilha que costumava descrever de uma forma tão exacta? Não havia uma situação muito mais perigosa... a mentira da ilusão?

Durante o tempo todo, inclusivamente durante a noite, Stefan tentara falar com Maria, contar-lhe o que acontecera no último dia da sua estadia em Saint-Michel. Podia ser a sua última oportunidade.

- Maria? A palavra Tumaco diz-te alguma coisa?

- Como? - Lançou-lhe um olhar meio desinteressado. -- Que palavra?

-Tumaco.

: - O que é?

-É uma cidade na Colômbia...

- E porque haveria de conhecer?

- Era apenas uma pergunta.

Ela abanou a cabeça a sorrir.

- Queres lá ir?

- O Thomas esteve lá, não esteve? E mais um nome, Maria: Stolypin? O homem é major-general ou qualquer coisa parecida...

Voltara a cara completamente para o lado.

- Onde queres chegar? Meu Deus, mas que perguntas mais esquisitas.

- Depois explico-te, Maria. Esse Stolypin parece ser um dos amigos muito especiais que o Boris Borodin tem no exército. O Boris paga dinheiro, luvas, e o Stolypin entrega-lhe armas.

- Não! - O tom era desinteressado. - Como é que sabes? E o que é que eu tenho a ver com isso?

- Pois bem, as armas vão para a Colômbia. Para as maiores organizações de guerrilha que lá existem. Informei-me um pouco acerca disso. A organização chama-se FARC. Aquelas pessoas da frente de libertação ou como é que se autodenominam, há vinte anos que estão em guerra com o governo. Já fizeram trezentos mil mortos.

- A sério? Mas...

- O Boris entregou-lhes duas mil toneladas de armas. Duas mil toneladas, Maria! Não só munições e kalachnikovs, como também outro material, bazucas de defesa antitanque, ou qualquer coisa no estilo. Não percebo nada do assunto.

Ela conduzia devagar, parou o carro na berma da estrada, desligou o motor, voltou-se e fitou Bergmann.

- As armas foram pagas com droga. Sabias disso? Fiz-te uma pergunta, Stefan.

- E eu a ti... Conheces um homem chamado Lê Coql Ela calou-se.

Passavam carros na estrada, mais à frente no campo um lavrador puxava a sua grade de lavoura com o tractor... e Maria apenas fitava Bergmann abanando a cabeça de um lado para o outro, devagar, decepcionada, apenas com um olhar de repreensão, zangada.

- O que é isto? Uma espécie de interrogatório?

- Não. Mas é importante para mim. Lê Coql - repetiu ele.

- Muito bem. Visto ser tão importante para ti, sim, conheço.

- Há quanto tempo?

- Há dois anos, talvez. Naquele iate a motor que o Thomas vendeu na Primavera. Também o vi na Villa Wilkinson, duas ou três vezes.

- Um homem de negócios?

- Que queres dizer com isso? Um dos sócios do Thomas no projecto de Port Lês Fleurs. Um tipo horroroso. Um assassino.

- Mas sentas-te a seu lado quando estão a tratar de negócios, não é verdade?

- O Thomas exige muito pouco de mim. Já te contei isso. E quando me pede um favor, eu faço-lho.

- E em que consiste o favor? Posso perguntar?

- Podes. Mas não sei se te vou responder. E sobretudo não sei por que razão hei-de estar a ouvir tudo isto!

- Já lá vamos, Maria. Em que consiste o favor?

- O Thomas quer que eu observe as reacções das pessoas. E também que tente perceber o que se passa entre elas. Quer saber onde é que formam frentes contra ele e onde é que existe para ele uma possibilidade.

- E por vezes os teus conhecimentos de línguas são-lhe úteis, não é?

A sua cara ainda estava bronzeada pelo sol da Cote d’Azur... Mas tinham-se formado umas manchas claras na pele, em forma de ilha. E a boca tornara-se fina.

- O que foi agora, Deus do céu!

- Podia ser prático, principalmente com pessoas que têm a certeza de que ninguém percebe a sua língua... mas que estão enganados, quando uma Maria Lindner se senta à

sua mesa.

Ela fechou os olhos. Os dedos da sua mão direita crisparam-se e voltaram a esticar-se muito devagar. Stefan pegou-lhe na mão; estava fria e hirta.

- Não me é agradável fazer estas perguntas, Maria.

É-me penoso. Mas tinha de to dizer. Provavelmente não foi a melhor maneira, mas...

- Dizer? Não percebo nada do que me queres dizer...

- Não querias saber porque é que parti à pressa de Saint-Michel?

- Queria.

Contou-lhe a manhã em que procurara Thomas e entrara por acaso na sala de controlo e na cabina de som da Villa Wilkinson. Maria calara-se, e Stefan não suportou mais a sua cara silenciosa e taciturna, virada para o lado. Colocou-lhe o braço à volta dos ombros e tentou puxá-la para si, mas apenas sentiu resistência da sua parte.

- Maria!

- Tudo isso pertence ao mundo do Thomas! - disse voltada para o pára-brisas. - E tu sabes disso. É o mundo dos negócios, o mundo do dinheiro ou como lhe queiram chamar. Seja como for, é o mundo dos homens. Se as mulheres mandassem, nada disto existia. Nem armas, nem drogas, nada.

Desabafava. O lábio inferior tremia.

- Tu sabes. Uma pessoa como tu sabe que tenho razão.

- Sim - assentiu. - Eu sei.

- Então...

Ficaram calados. Stefan tirou os cigarros para fora e ofereceu-lhe um. Ela abanou a cabeça. Acendeu o seu e inalou o fumo.

- Foi por isso que nunca mais telefonaste, Stefan? E foi por isso que nunca mais foste a Saint-Michel?

- Talvez. Provavelmente. Mas já passou...

- O que é que já passou?

- Para mim não existe Saint-Michel, só Lê Castelet disse ele pausadamente. - Depois da noite de hoje.

Ela encostou a cabeça no seu ombro.

- Este sítio também é bom, e eu estou feliz. Quero voltar a ver-te... Mas relativamente ao Thomas... tudo o que acabaste de contar, todos esses negócios estranhos...

- Se fossem só negócios!

- Tudo isso é apenas uma faceta do Thomas. Chama-lhe o seu lado negro... por mim... E eu sei que não é só negro, também é perigoso...

- Já tinhas dito isso uma vez. Perigoso?

- Não me perguntes. Mas também existe o outro Thomas. O homem criativo e entusiasta... e fiel. Consegue ser leal como mais ninguém. Fica sempre do lado daqueles de quem gosta. Ele ainda fala da clínica, da «clínica do Stefan». A obra está avançada, ficarias espantado se a visses. E quando fala da clínica, fala de ti. Está à espera que o aconselhes, lhe digas como a há-de organizar. E além disso continua à espera que a vás dirigir. Sabes que ele nunca desiste. Podias ao menos dar-lhe alguns conselhos.

Ele calara-se. Não sabia o que havia de responder.

-Vens, Stefan?

-Para Lê Castelet? - Passou o dedo indicador pela testa. . .

- Para a Cote d’Azur...

- Sim, acho que sim.

- Não me pareces muito convencido.

- Vou - disse ele; e sabia: tudo mudara...

 

 

Ainda tinham a situação sob controlo, claro! Farnet não constituía perigo, andava só a berrar pelos bares, e o facto de a pequena ter sido atropelada por aquele maldito camião no domingo, precisamente a sua sobrinha... azar! Quem podia prever uma coisa daquelas?

Mas lá conseguiram acalmar um Farnet completamente exausto, que passava agora a vida em Port Lês Fleurs. Uma pergunta a troco de algum dinheiro, nada mais.

Com os três jovens era diferente. O maldito trio, os dois estudantes e a rapariga representavam um risco maior do que o colega de Donnet, aquele Benoit que estava todo partido no hospital de Hyères. A coisa não tinha corrido bem. Mas pelo menos o tipo ficara mal da cabeça, e o filho conseguira que lhe colocassem o quarto de sentinela, um homem que pertencia ao piquete da Police Nationale de Toulon.

Mas havia outro assunto urgente!

O trio.

Leo tirou o mapa para fora.

Estavam os três dentro da furgoneta azul de Leo. Os vidros eram igualmente azulados, de modo que ninguém podia ver nada lá para dentro. Estavam confortavelmente sentados. Sérgio tinha uma garrafa de cerveja à frente, o pequeno e magro Rossi olhava com um ar absorto como sempre para o tecto, Leo mascava novamente o seu charuto apagado.

Passava devagar com a unha arranjada do dedo indicador pelas linhas do mapa. Era um mapa do estado-maior à escala de 1:25 000 onde estavam reproduzidos os caminhos mais pequenos, as últimas ruínas. Ainda lá se encontrava assinalada a casa de Pascal Lombard... Se fosse só no papel...

- Aqui! - disse Leo. - Esta formação nas rochas. ,Seria o local...

Marcou um ponto com a unha. Devia ficar a cerca de quinhentos metros de distância do local onde estavam a começar as obras da clínica.

- Para quê? O que queres dizer com isso?

- Tem a ver com o gago, Sérgio. Só com ele. Vamos deixar de fora o jovem Benoit. O Donnet ainda acredita que se pode entender com ele ou com o pai. Mas o filho do Lombard... é outro problema.

- Como assim? - Rossi fez um sorriso trocista. - Esse não vai bufar nada. Calámo-lo com o fogo-de-artifício. Esse está mudo.

- Mas a cabeça ainda funciona. E a memória...

- Ora, ora - gritou Rossi. Sergio suspirou.

- Chefe, não lhe ligue. O Rossi continua a ser o idiota que sempre foi; fora isso, não é assim tão mau. Só tem um pequeno defeito: onde as outras pessoas têm miolos, ele têm desperdício de algodão.

- Achas? - sorriu Rossi ironicamente.

- E como é que vai ser com o gago, chefe?

- Com a matraca. Não pode parecer um assassínio, isso não. Caso contrário, temos sarilhos!

- Mas porquê ele? Por causa das fotografias?

- O que achas?

- E a amiga?

Leo encolheu os ombros e calou-se.

- A miúda anda por aí pela região com um carro que é um chaço. Não é difícil...

- Nada de acidentes de automóvel. Outra vez, não.

- Então, o que há-de ser?

Leo, o bretão, voltou a pressionar o local no mapa com a unha.

- Passa um carreiro por aqui. A falésia no lado da encosta é bastante alta. Estão a construir nesta zona toda. Agora trata-se da clínica. É o seguinte: os dois sentam-se quase todas as tardes lá em baixo na falésia. A cerca de vinte metros. As árvores já foram cortadas.

- E o que fazem lá?

- Sentam-se a ver os outros trabalhar. Vá-se lá saber porquê, também não nos interessa. O importante é sabermos que é o seu lugar preferido.

- Se calhar já não fala, mas ainda fornica. - Rossi tinha o polegar entre os dentes. - E nós podemos espreitar. Um espanto, a miúda. Vale a pena... - Riu-se baixinho.

- Idiota! - A voz de Leo tornara-se aguda. - É o seguinte: vocês os dois vão buscar as vossas ferramentas. Escavam a falésia e metem explosivos lá dentro...

- Donaritl

- Pode ser. Ponham capacetes e óculos de protecção. E se alguém passar por lá, dizem que pertencem ao grupo de detonadores. Caso façam perguntas, eu trato disso. Percebes de detonações, Sérgio?

O homem com os olhos azul-claros penetrantes e com a cara muito bronzeada olhou apenas para o bretão.

- Então, está decidido! - disse Leo.

- E quando?

- É-me indiferente. A altura em que os dois andam para ali a fazer cera, é sempre entre as três e as quatro da tarde. Caso não estejam lá, esperam pelo dia seguinte. Podem escolher.

- Muito bem. - Rossi fez uma careta. - Eu controlo os dois, e o Sérgio carrega no botão. As pedras caem todas lá em baixo... e acabou-se.

- Meu Deus! - Sérgio abanava a cabeça. - Para que é que te fomos buscar à ilha?

- Para biscates como este - sorriu Rossi, trocista. -- Os melhores biscates do mundo.

- Claro, idiota. Não arranjas nada melhor. - Sérgio voltou-se para ele. - Portanto, a partir de hoje?

- A partir de hoje - confirmou o bretão.

Do quarto de lavar roupa ouvia-se o zunir da máquina. Eram quase seis horas, a noite caíra. Os dias começavam a ficar mais pequenos.

Christa costumava regressar da sua viagem a Hanôver só depois de a noite se pôr. De tempos a tempos o complexo de cozinheiro que acompanhara Stefan durante toda a vida vencia-o, folheava o livro de Receitas para Dois e inventava qualquer coisa mais ou menos aceitável para quando ela chegasse à mesa. Christa sorria, acenava ou abanava a cabeça e pouco tempo depois caía morta de cansaço em cima da cama.

E naquele dia?

A máquina de lavar roupa estava ligada na centrifugação: água quente, detergente e um tambor frenético faziam todos os esforços para retirar a sujidade e a terra do bosque das calças de ganga e da sua camisa.

Sim, tudo mudara! Dezasseis anos de fidelidade conjugal... E agora? Agora o adúltero desembaraçava-se dos vestígios da traição...

Stefan foi buscar o cesto de plástico azul e entrou no quarto da roupa. A máquina parara. Atirou as calças e a camisa para o cesto, olhou através da janelinha e viu a cara de Maria no céu enevoado, atravessado por nuvens esponjosas e escuras, viu os seus olhos, e todas as considerações lhe pareceram estranhamente desnecessárias: Traição? Engano? Face à realidade que queimava Stefan Bergmann, as palavras faziam pouco sentido.

Existia apenas uma única pergunta: E agora?

Tinha acabado de pendurar as calças de ganga, a camisa e as meias no estendal quando ouviu o carro de Christa subir a estrada. O motor bramiu ainda mais uma vez e depois desligou-se. Ouviu a porta do jardim bater e a chave a girar na fechadura.

E agora?

Ia falar com