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O HOMEM QUE SABIA / Edgar Wallace
O HOMEM QUE SABIA / Edgar Wallace

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

O HOMEM QUE SABIA

 

       O homem do laboratório

A sala era pequena e fora escolhida pelo seu isolamento dos aposentos habitados. Constituíra o salão de bilhar, que o antigo proprietário de Weald Lodge acrescentara ao edifício, mas John Minute, que não tinha tempo nem paciência para semelhante distracção, apressara-se a ceder o húmido anexo ao seu secretário científico.

Ao longo de um dos lados, havia uma mesa comprida, cheia de destiladores de vidro e tubos de ensaio. No meio, via-se outra mesa, com meia dúzia de livros, um microscópio numa redoma, um pequeno estojo de madeira aberto que continha uma série de delicados instrumentos científicos e um bico de Bunsen, que emitia uma chama azulada sob um recipiente de vidro meio cheio de uma mescla escura e espessa.

O rosto do homem sentado que observava o pouco atraente caldo achava-se oculto atrás de uma máscara de mica e borracha, porque os vapores exalados pelo fluido não eram agradáveis nem saudáveis. À parte o reflexo atenuado do candeeiro que estava em cima da mesa e o darão azulado do bico de Bunsen, a sala podia considerar-se às escuras. De vez em quando, ele pegava numa vareta de vidro, mergulhava-a um instante no líquido a ferver e em seguida retirava-a, para que as gotas que se desprendiam dela caíssem numa tira de papel de tornassol. O que via era evidentemente satisfatório e, por fim, apagou o bico de Bunsen, aproximou-se da janela, abriu-a e ligou uma ventoinha para acelerar a renovação do ar.

Depois, retirou a máscara, para expor o rosto de um jovem bem-parecido, um pouco pálido, de bigode preto e cabelo abundante e ondulado da mesma cor. A seguir, fechou a janela, encheu o cachimbo com tabaco da bolsa assaz desgastada que tirara da algibeira e começou a escrever num livro de apontamentos, interrompendo-se uma vez por outra para consultar alguma autoridade dos volumes na sua frente.

Completou o trabalho em meia hora, fechou o livro e, impelindo a cadeira para trás, embrenhou-se em reflexões. A avaliar pela expressão do semblante, não deviam ser agradáveis. A seguir, extraiu a carteira de um bolso interior e abriu-a, a fim de pegar numa fotografia de uma rapariga de dezasseis anos. O rosto era bonito, um pouco triste, porém atraente, mau grado o ar de debilidade. Contemplou-a por algum tempo, enquanto meneava a cabeça, como que assolado por um pensamento desagradável.

Soou uma leve pancada na porta e ele apressou-se a guardar a fotografia na carteira, e esta no bolso, ao mesmo tempo que se levantava para ir abrir.

Deparou-se-lhe John Minute, que entrou e começou a fungar com desconfiança.

- Que cheiros nauseabundos tens aqui, Jasper! resmungou. - Por que demónio não inventarão produtos químicos mais agradáveis ao olfacto?

Jasper Cole soltou uma risada discreta e replicou:

- Receio que a Natureza tenha determinado o contrário.

- Acabaste? - inquiriu o patrão, fixando o olhar no recipiente que continha o fluido ainda fumegante.

- Não se preocupe. Só é perigoso quando está a ferver. Fecho a porta à chave precisamente por isso.

- Que é? - quis saber, debruçando-se sobre o líquido de aspecto inofensivo.

- Contém muitas coisas - explicou Jasper, um pouco hesitante. - Na verdade, trata-se de uma experiência. Um ou dois dos elementos utilizados só se misturam com os outros a uma determinada temperatura, e creio poder considerá-la um êxito porque mantive os não miscíveis em suspensão, embora o líquido tenha arrefecido.

- Espero que o jantar te saiba bem, apesar de também ter arrefecido - articulou John Minute secamente.

- Não ouvi a sineta. Lamento muito se o fiz esperar. Só estavam presentes os dois na enorme e fria sala,

e o jantar foi, como sempre, uma refeição quase totalmente silenciosa. John Minute, que lia o jornal, em particular a secção consagrada às flutuações da Bolsa, acabou por anunciar:

- Alguém anda a comprar a Gwelo Deeps.

- A Gwelo Deeps? - Jasper ergueu os olhos do prato. - Mas são as acções...

- Sim, sim - cortou o outro, algo irritado. - Eu sei. Estavam cotadas a um xelim, a semana passada, e agora subiram para dois xelins e três pence. Eu possuo quinhentas mil. Para ser mais exacto - apressou-se a acrescentar -, possuo um milhão delas, embora metade não esteja em meu poder. Sinto-me quase tentado a vendê-las.

- Talvez tenham encontrado ouro - aventurou Jasper.

John Minute fungou com uma expressão de desdém.

- Se há ouro na Gwelo Deeps, há diamantes na Uowns. A propósito, as outras quinhentas mil estão nas mãos da May.

Jasper Cole arqueou as sobrancelhas, num misto de interrogação e surpresa.

Por seu turno, John Minute reclinou-se na cadeira e manipulou o seu palito de ouro.

- O pai da May Nuttall foi o meu melhor amigo

declarou, quase com brusquidão. - Conseguiu convencer-me a tentar a sorte na Gwelo Deeps, mas depois de abrirmos um furo de mil metros encontrámos tudo menos ouro. - Emitiu uma gargalhada sarcástica.

- Lamento que a mina não produzisse nada que se aproveitasse. Coitado do Bill Nuttall! Ajudou-me em muitos momentos de aperto.

- Tenho a certeza de que o senhor fez o que pôde pela filha dele.

- É uma boa moça, adorável mesmo. Não tenho predilecção especial pelas jovens, mas não conheço nenhuma tão sincera e terna como a May. É daquelas pessoas que nos fitam nos olhos quando falam connosco. - Vendo o interlocutor esboçar um sorriso, perguntou: - De que diabo te estás a rir?

- Concordo com o que acaba de dizer. Olhou-o com intensidade e volveu:

- Escuta, Jasper. É com uma rapariga como ela que gostava de te ver casado. Na verdade, é com ela que me agradaria que casasses.

- Creio que o Frank teria algo a dizer a esse respeito - murmurou o outro, movendo a colher no café.

- O Frank? - rugiu John Minute. - Quero lá saber desse fulano! Tem de fazer o que lhe ordenarem. É um felizardo, assim como um pouco saído da casca. Considero-o capaz de casar com qualquer palmo de cara atraente. Olha, se eu não tivesse interferido...

- Sim? - inquiriu Jasper, vendo que o patrão se calava.

- Não interessa.

Como era seu hábito, John Minute manteve-se sentado por um período prolongado, após o jantar, num estado intermédio entre o sono e a lucidez. Entretanto, Jasper pegou no jornal e começou a ler. Desenrolava-se a rotina que caracterizava todos os serões da sua vida, excepto nas ocasiões em que efectuava uma visita a Londres. Achava-se a meio de um artigo sobre as emanações do rádio da autoria de um famoso cientista, quando John Minute reatou a conversa que interrompera uma hora antes:

- Às vezes, preocupo-me com a May.

- Porquê? - Jasper pousou o jornal, com uma ponta de perplexidade.

- Preocupo-me. Não achas isso suficiente? - grunhiu John Minute. - Preferia que não me fizesses tantas perguntas, Jasper. Garanto-te que não consegues irritar-me sobremaneira.

- Bem, depreendo que está preocupado por uma razão de peso - declarou o secretário confidencial, pacientemente.

- Sinto-me responsável por ela, e detesto as responsabilidades de todas as espécies. As que se referem aos filhos... - John Minute estremeceu e mudou de assunto, não voltando a abordá-lo por vários dias. Ao invés, enveredou por um tema muito diferente. - Sei que o sargento Smith esteve cá, na minha ausência.

- com efeito, apareceu esta tarde.

- Falaste com ele ? - Vendo o interpelado assentir com um movimento de cabeça, perguntou: - Que queria?

- Avistar-se consigo, segundo depreendi. Não disse, o outro dia, que ele bebia?

- Se bebe! Na realidade, absorve a bebida como uma esponja gigantesca. Que pensas dele?

Acho-o um indivíduo muito curioso, e confesso que não compreendo porque se dá ao trabalho de o proteger ou enviar-lhe dinheiro todas as semanas.

- Um destes dias compreenderás - asseverou, e a Profecia viria a concretizar-se. - Para já, basta dizer que há duas maneiras de superar uma dificuldade, uma desagradável e a outra não tanto, e escolhi a menos desagradável.

Não é tão penoso pagar ao sargento Smith um estipêndio semanal como sofrer dissabores... o que aconteceria se não o pagasse.

Ergueu-se da cadeira com lentidão e espreguiçou-se.

- O Smith é um osso muito duro de roer. Tenho a certeza disso, pois conheço-o desde longa data. Na minha actividade, tenho de me cruzar com algumas pessoas estranhas e fazer coisas que o não são menos. Duvido que resultassem agradáveis se a imprensa as reproduzisse, embora eu não seja sensível ao que os jornais dizem de mim, de contrário estaria na sepultura há muito tempo. No entanto, o sargento Smith e os seus conhecimentos atingem-me num ponto melindroso. Tu, que andas sempre a manipular narcóticos e porcarias de todos os gêneros, compreenderás se te disser que o dinheiro que entrego ao sargento todas as semanas serve uma dupla finalidade. É um opiáceo e um profi... profi...

- Profiláctico - sugeriu Jasper.

- É esse o termo. Nunca fui um barra em palavras complicadas. Aos doze anos, ainda não sabia escrever o meu nome correctamente e aos dezanove fazia-o com dois tt - John Minute tornou a soltar uma risada seca.

- Opiáceo e profiláctico - repetiu, inclinando a cabeça.

- O sargento Smith é isso mesmo. Um demônio perigoso, porque é um patife.

- O guarda Wiseman. ..

- O guarda Wiseman - volveu, passando os dedos pelo cabelo - é um demônio perigoso porque é um imbecil. Que queria ele?

- Não esteve cá - explicou Jasper com um sorriso.

- Encontrei-o na rua e tivemos uma breve conversa.

- Podias gastar o tempo com coisas mais úteis. O idiota já me convocou três vezes. Qualquer dia, mando-o expulsar da Polícia.

- No fundo, não é má pessoa. Talvez um pouco estúpido, mas honesto, com a noção exacta do dever.

- Disse alguma coisa que mereça a pena repetir.

- Insistiu em que o sargento Smith era um disciplinador.

- Não conheço ninguém mais disciplinador do que ele - admitiu John Minute, não sem certo sarcasmo -, em particular quando está tocado. A mais profunda noção do dever é a do homem que infringiu a lei e não foi descoberto. Bem, acho que vou para a cama - acrescentou, olhando o relógio na prateleira da lareira.

- Amanhã, tenho de me levantar cedo, para ir falar com a May.

- Apoquenta-o alguma coisa?

- O banco.

- Que se passa de anormal? - quis saber Jasper.

- Não se passa nada, e o facto de o meu prezado sobrinho, Frank Merril, ser contabilista numa das dependências dissipa qualquer possível dúvida no meu espírito quanto à sua estabilidade. Sentir-me-ia muito grato aos Céus se perdesses o hábito de me fazer tantas perguntas.

Acendeu um charuto calmamente, antes de replicar:

- A única maneira de saber as coisas neste mundo é perguntando.

- Então, pergunta a outro! - vociferou John Minute, encaminhando-se para a porta.

Jasper voltou a debruçar-se sobre o jornal, mas não pôde prosseguir a leitura por muito tempo. Transcorridos cinco minutos, John Minute reaparecia, agora sem casaco nem gravata, pois enquanto se despia acudira-lhe uma ideia que exigia acção imediata.

-De manhã, envia um telegrama ao gerente da jwelo Deeps, para saber se há alguma novidade. A propósito, és o secretário da companhia, como decerto não ignoras.

- Sou? - articulou o perplexo Jasper.

- Era o Frank, mas duvido que ainda se dedique a vera actividade. Trata de o averiguar, para não me envolver em aborrecimentos com o arquivista. Temos de convocar uma reunião da administração.

- Também os directores?

- É muito provável. Pelo menos, sei que sou o presidente, mas nunca houve necessidade de convocar uma reunião. Pergunta ao Frank quando se realizou a última.

John Minute desapareceu, para voltar a surgir uma hora mais tarde, agora de pijama.

- A missão a que a May pertence talvez esteja com dificuldades financeiras. Indaga junto da secretária. Suponho que existe uma! Fornece-lhes o que pedirem.

- Dirigiu-se ao bar e preparou um uísque com soda.

- Tenho estado ausente nas últimas três ou quatro vezes que o Smith me procurou. Se vier amanhã, diz-lhe que o recebo quando voltar. Tranca as portas e não confies a tarefa ao asno do Wilkins. - Fez uma pausa, enquanto Jasper aquiescia com uma inclinação de cabeça.

- Aposto que me julgas um pouco louco, hem? - perguntou, de costas para o bar, com o copo na mão.

- A possibilidade nunca me ocorreu. Julgo apenas que às vezes é excêntrico e propenso para exagerar os perigos que o rodeiam.

Meneou a cabeça com veemência.

- Sei que hei-de sucumbir a morte violenta. Quando visitei a Zululândia, um velho feiticeiro «lançou os ossos». Nunca tiveste essa experiência?

- Receio bem que não - reconheceu Jasper, com um leve sorriso.

- Ri-te, se quiseres, mas garanto-te que acredito piamente nisso. Aconteceu uma vez no kraal1 do rei e outra em Echowe, e os dois feiticeiros disseram-me a mesma coisa. Hei-de sucumbir a morte violenta. Dantes, não me preocupava muito com isso, mas estou a envelhecer, e o facto de viver circundado pela lei, por assim dizer, levou-me a respeitá-la. O cidadão respeitador da lei teme aqueles que a ignoram, e cheguei a essa fase. Tu admiras-te da minha apreensão sempre que vejo um desconhecido

 

1 Pequena aldeia sul-africana rodeada por uma vedação. (N. do T.)

 

a rondar a casa, mas tenho mais inimigos por metro quadrado que a maioria das pessoas em todo o país. Provavelmente, julgas-me dominado pela mania da perseguição, merecedor de ser internado numa clínica de doentes mentais. Um homem rico não tem uma vida muito tranqüila - prosseguiu John Minute em voz mais baixa, como se falasse para os seus botões. - Conheci gente de toda a espécie e apresentaram-me como sendo o milionário John Minute, mas sabes o que dizem, mal volto as costas?

Fez uma pausa, todavia Jasper não ofereceu qualquer sugestão.

- Dizem o seguinte, quer sejam novos ou velhos, bons, maus ou indiferentes: «Oxalá morresse e me deixasse parte do seu dinheiro.»

- Não tem uma opinião muito lisonjeira da humanidade.

- Não tenho opinião nenhuma - corrigiu John Minute. - E agora é que vou mesmo para a cama.

Jasper ouviu os passos pesados na escada e depois sobre a sua cabeça. Aguardou alguns minutos e detectou o ranger das molas da cama. Em seguida, fechou as janelas, inspeccionou o ferrolho da porta e dirigiu-se para o seu pequeno gabinete-estúdio, situado no primeiro andar.

Fechou a porta atrás dele, puxou da carteira para nova olhadela ao retrato e, por fim, pegou numa carta fechada que chegara na distribuição da tarde e, graças a maneira eficiente como se ocupava da correspondência conseguira fazê-la desaparecer na algibeira sem que John Minute se apercebesse.

abriu o sobrescrito extraiu a folha de papel dobrada

«Prezado Senhor: Temos presente a sua atenta missiva. Agradecemos o

cheque e congratulamo-nos por termos executado um trabalho satisfatório. As pesquisas foram longas e receamos que muito dispendiosas, mas agora que efectuámos a descoberta pensamos que se sentirá compensado.»

Não continha qualquer epígrafe identificativa e era assinada por um certo J. B. Fleming.

Após a leitura meticulosa, Jasper acendeu um fósforo, aproximou a chama da carta e observou-a enquanto ardia na lareira.

 

       A rapariga que chorava

O expresso do norte acabava de depositar os passageiros pontualmente na estação de King's Cross, cujos acessos estavam repletos de viajantes apressados. Táxis e pessoas ruidosas mesclavam-se em confusão aparentemente inextricável. Havia rugidos caóticos de ordens e contra-ordens de polícias, motoristas de táxi e bagageiros excitados. Alguns passageiros cruzavam o largo espaço alcatroado e desapareciam nas escadas em direcção à estação do metropolitano, enquanto outros aguardavam amigos pouco pontuais, com irritadas e freqüentes consultas ao relógio.

Havia uma pessoa, sozinha, que se mostrava particularmente impressionada com o pandemônio. Era uma jovem com pouco mais de dezoito anos, que segurava com dificuldade três embrulhos de papel pardo, uma caixa de chapéus e uma volumosa mala de mão. Figurava entre as que contavam ter alguém à espera, pois olhava o relógio com uma expressão de desespero e movia-se com nervosismo de um lado para o outro do edifício, até que acabou por se imobilizar no centro, para pousar os embrulhos cautelosamente e puxar de uma carta da mala, que decerto conhecera melhores dias.

Ao lê-la, pareceu aperceber-se de algo que lhe passara despercebido na leitura anterior, pois apressou-se a guardá-la, recolher os volumes e encaminhar-se apressadamente para a saída da estação. Depois de a transpor, tornou a imobilizar-se e olhou em volta no pátio.

- Estou aqui! - bradou uma voz, irritavelmente. A rapariga viu a porta de um táxi abrir-se e acercou-se com visível timidez. - Sobe, sobe, por amor de Deus!

Ela fez-se preceder dos volumes e em seguida subiu por sua vez. O dono da voz fechou a porta com um som seco e o veículo pôs-se em movimento.

- Estava à espera há dez minutos - informou ele.

- Desculpa, querido, mas não tinha lido...

- É claro que não tinhas lido - cortou com brusquidão.

Era a voz de um jovem não particularmente bem-humorado, e a rapariga, unindo as mãos sobre o regaço, preparou-se para a tirada que sabia ser inevitável após o lapso que cometera.

- Não há maneira de fazeres uma coisa acertada acusou ele. - O facto deve-se, sem dúvida, à tua natural estupidez.

- Porque não me foste esperar dentro da estação? perguntou ela com um assomo de coragem.

- Já te expliquei uma dúzia de vezes que não quero que me vejam contigo - foi a réplica brutal. - Bastam os aborrecimentos que me tens provocado. Oh, porque te conheci?

A rapariga poderia ter ecoado a pergunta, mas dezoito meses de agressividade haviam-na acobardado e privado da faculdade de reagir.

- És um pedregulho suspenso do meu pescoço continuou o companheiro amargamente. - Tenho de te esconder e estou sempre com medo que me denuncies. Doravante, hei-de manter-te debaixo de olho. Sabes demasiado a meu respeito.

- Seria incapaz de dizer uma palavra contra ti protestou ela.

- Assim espero, no teu próprio interesse.

O diálogo interrompeu-se naquele momento, até que a rapariga reuniu coragem suficiente para perguntar aonde se dirigiam.

- Espera e verás. - No entanto, passados uns instantes, ele houve por bem esclarecer: - Vais para uma casa muito mais confortável do que jamais conheceste, e devias estar muito grata por isso.

- Claro que estou, querido - afirmou ela com veemência.

- Não me chames querido - advertiu o marido rispidamente.

O táxi conduziu-os a Camden Town, onde se apearam diante de uma casa de aspecto respeitável, numa rua longa e vulgar. Era muito escuro para a rapariga poder abarcar o que a rodeava, e mal dispusera de tempo para pegar nos volumes quando o homem abriu a porta e a impeliu para dentro.

O táxi afastou-se, e um motociclista, que seguia o veículo desde a estação, começou a abandonar lentamente a esquina onde estivera à espera, até encontrar-se diante da casa. Aí, equilibrou a máquina nos suportes, transpôs os degraus de acesso à entrada e apontou uma lanterna eléctrica ao número da placa que encimava a porta. Em seguida, anotou-o na agenda de bolso, desceu os degraus, levou a motocicleta pela mão até certa distância e montou-a.

Meia hora mais tarde, outro táxi parava à porta e um homem apeava-se, o qual indicou ao motorista que aguardasse. Depois, subiu os degraus, tocou à campainha e foi admitido.

- Olá, Crawley - saudou o indivíduo que abriu.

- Como vai isso?

- Mal - anunciou o recém-chegado. - Que pretende de mim? - A voz era de uma pessoa de pouca cultura, mas exprimia-se sem o menor indício de subserviência.

- Que havia de ser? - retorquiu o outro, agastado. Precedeu-o em direcção à sala, acendeu um fósforo e aproximou a chama do bico de gás na parede. Pegou na mala que se encontrava no chão, abriu-a e extraiu uma pequena garrafa de uísque, que ofereceu ao outro.

- Parece que precisa - comentou com uma inflexão sarcástica.

Crawley aceitou-a, verteu uma dose generosa num copo e ingeriu-a de um trago. Aparentava uns cinqüenta anos, de pele bronzeada e expressão agressiva, dando a impressão de que vivera muito tempo num clima tropical, o que correspondia à verdade, pois passara dez anos da sua vida na Polícia Montada de Matabeleland.

- Quero apresentar-lhe uma proposta - informou o outro, puxando uma cadeira para a mesa.

- Dá dinheiro?

- Acha-me capaz de propor alguma coisa que não desse dinheiro? - retorquiu com uma risada de desdém.

Após um momento de hesitação, Crawley tornou a recorrer ao uísque, que, mais uma vez, fez desaparecer com prontidão.

- Ainda não tinha bebido nada hoje - explicou à guisa de justificação.

- É uma mentira maior do que esta casa, mas vamos ao que interessa. Não sei a que se dedica em Inglaterra, mas não vejo inconveniente em lhe revelar as minhas intenções. Preciso de plena liberdade de movimentos, o que só conseguirei se levar a sua filha para fora do país.

- Quer livrar-se dela? - inquiriu, olhando o interlocutor com uma expressão hostil.

- Exacto. - O interpelado aquiesceu com uma inclinação de cabeça. - É um pedregulho suspenso do meu pescoço - declarou pela segunda vez naquela tarde -, e a sua presença mete-me medo. É capaz de cometer uma imprudência e pregar comigo na sarjeta.

- «Para o melhor e para o pior...» - recordou Crawley, comum sorriso irônico. Apercebendo-se do ar hostil do outro, apressou-se a acrescentar: - Não tente assustar-me, Mister Brown, Jones ou lá como se chama, porque não tenho medo de ninguém. Enfrentei homens muito mais perigosos e ainda aqui estou. Posso dizer-lhe desde já que não pretendo abandonar o país. Tenho uma coisa muito importante entre mãos. Quanto pensava oferecer-me?

- Mil libras.

- Mais ou menos o que eu calculava - proferiu friamente. - Para mim, é uma ninharia. Se quer um conselho, arranje outra maneira de a manter calada. Um rapaz esperto como você, com mais experiência do mundo da droga do que qualquer outro que jamais conheci, tem obrigação de se desenrascar de um aperto desses sem a minha ajuda. Não disse uma vez que conhecia um produto capaz de destruir a força de vontade de uma pessoa e torná-la obediente? É o ideal para ela. Experimente e verá.

- Isso significa que rejeita a proposta? Moveu a cabeça repetidamente antes de explicar:

- Tenho uma fortuna ao meu alcance, se jogar os trunfos da forma conveniente. Consegui arranjar um lugar mesmo debaixo do nariz do velho demônio. Vejo-o todos os dias e acabei por assustá-lo. Que são mil libras para mim? Em Lewes, perdi mais do que isso numa corrida. Não, meu rapaz, empregue os recursos da ciência - aconselhou em tom petulante. - Que adianta ser mercador de drogas se não consegue obter uma para aplicar ao caso que lhe interessa?

- Quanto menos falar das minhas actividades melhor - advertiu o outro. - Fui parvo ao confiar em si.

- Não se exalte - redarguiu Crawley, erguendo a mão numa atitude de alarme simulado. - Valha-nos Deus, Mister Vright, Robinson ou lá como se chama! Quem diria que o pacato e amável mancebo frequentador habitual da igreja de Eastbourne era uma criatura tão tenebrosa em Londres? Deu-me vontade de rir várias vezes ao vê-lo cruzar-se comigo na rua, com uma expressão angelical, ao lembrar-me da boa peça que é e...

- Cale-se! - rugiu o dono da casa. - Está a tornar-se tão perigoso como aquela rapariga infernal.

- Leva as coisas muito a peito - volveu Crawley.

- Vou explicar-lhe o que farei. Em vez de abandonar o país, conservarei o meu subserviente emprego. Não se trata apenas de uma questão de dinheiro, pois tenho a vaga ideia de que o seu velho tem alguma coisa escondida na manga, e a única maneira de evitar acontecimentos desagradáveis é continuar perto dele.

- Já lhe disse uma dúzia de vezes que não tem nada contra você - declarou o outro com ênfase. - Conheço este negócio e vi a maior parte dos documentos pessoais dele. Se tivesse possibilidade de o apanhar, há muito que você estava arrumado. Garanti-lho na última visita que fez lá a casa. Supõe que John Minute se sujeitava a chantagem se dispusesse de um meio de o evitar? É mesmo parvo!

- Talvez seja - filosofou Crawley -, mas não tanto como pensa.

- Julgo conveniente falar com ela. Voltou a mover a cabeça com veemência.

- Os sentimentos paternais não mo permitem. Tenha um pouco de decência, Reginald, Horace ou Hector. Esqueço-me sempre do seu nome em Londres. Não aceito a sua sugestão, mas quero apresentar-lhe uma proposta que diz respeito a um certo familiar de John Minute: um rapaz respeitável, que um dia receberá a fortuna do velho.

- Parece-lhe? - grunhiu o outro entre dentes. Discutiram a proposta ao longo de duas horas, até

Que Crawley se levantou para sair.

- Deixei a revelação mais importante para o fim. Esvaziara a garrafa e achava-se particularmente bem-disposto. - Corre um certo perigo, meu amigo, e eu, o seu anjo-da-guarda, inteirei-me. Tem um lacaio num dos seus numerosos endereços...

- Um motorista. - corrigiu o outro. - Um sueco chamado Jonsen.

- Sim, pareceu-me de facto sueco.

- Falou com ele? - perguntou, semicerrando as pálpebras.

- Apareceu em Eastbourne para indagar umas coisas e interceptei-o por mera casualidade. É um daqueles fulanos faladores que esvaziam o saco diante de uma farda. Impedi-o de entrar, pelo que lhe evitei um abalo, meu amigo... se John Minute estivesse presente, claro.

Mordeu os lábios e o rosto deixou transparecer apreensão.

- Isso é mau. Tem estado muito agitado e impertinente ultimamente e procura outra ocupação. Que lhe disse você?

- Que passasse por cá na próxima quarta-feira. Calculei que entretanto você gostaria de proceder a certos preparativos. - Crawley estendeu a mão, e o outro, que interpretou o gesto correctamente, introduziu a mão na algibeira, ao mesmo tempo que enrugava a fronte, e depositou quatro notas de cinco libras na mão do outro.

- Dá à justa para pagar o táxi - comentou com desprendimento.

O dono da casa dirigiu-se ao primeiro andar e foi encontrar a rapariga sentada no quarto, como a deixara.

- Põe-te a andar - ordenou com a habitual brusquidão. - Preciso do quarto.

Ela obedeceu docilmente. Por seu turno, ele fechou a porta à chave, levou uma mala para cima da cama, abriu-a e pegou numa pequena caixa japonesa, da qual extraiu um minúsculo almofariz com o respectivo pilão, seis pequenos frascos de vidro, uma seringa hipodérmica e uma lamparina de álcool. Em seguida, puxou da cigarreira do bolso, de que retirou dois cigarros, para os pousar cautelosamente na mesinha de toucador, e manteve-se ocupado durante cerca de uma

hora.

Quanto à rapariga, passou esse lapso de tempo na fria sala de jantar, encolhida numa cadeira e chorando discretamente.

 

       Quatro personagens importantes

O autor faz uma pausa neste ponto para revelar que a intriga do Homem Que Sabia é fora do comum. Está, em parte, reconstituída das transcrições de determinado julgamento e, por outro lado, dos elementos confidenciais que chegaram às mãos do autor através de Saul Arthur Mann e o seu extraordinário departamento, além do diário íntimo que May Nuttall colocou à sua disposição.

Os leitores experientes que mergulham na presente narrativa com a estóica convicção de que se limitarão a assistir aos meandros de um caso convencional de crime, amor e mistério talvez acabem por sentir o impulso de prosseguir até ao fim. A verdade é mais estranha do que a ficção, o que não surpreende, pois a maior parte da segunda baseia-se na primeira. Há uma singularidade na história do Homem Que Sabia que a inclui na categoria dos relatos verdadeiros. Não se pode afirmar com exactidão que todas as histórias começam no início do primeiro capítulo, pois principiaram com a criação do mundo, mas pode dizer-se que esta abre, quando nos imiscuímos na vida de algumas das personagens envolvidas, no décimo sétimo dia de Julho de 19...

Havia um pequeno grupo de pessoas em torno do corpo prostrado de um homem no passeio de Gray Square, Bloomsbury.

Eram oito horas de uma tarde quente de Verão, e o facto de o invulgar espectáculo atrair tão pouca gente pode explicar-se pela circunstância de Gray Square ser um bairro profissional consagrado a escritórios de advogados e diversas empresas que, naquele período de um dia estival, estão desocupados. As classes de não profissionais que vivem nas artérias pouco atraentes que desembocam na Euston Road não incluem Gray Square no seu itinerário habitual quando efectuam os passeios reconstituintes após o jantar, e as próprias crianças ruidosas e irrequietas procuram um ambiente menos deprimente para as suas brincadeiras.

O rapaz de rosto cinzento estendido no passeio estava trajado decentemente e parecia pertencer ao tipo do servidor superior.

E não subsistiam dúvidas de que estava morto.

A morte, que embeleza e suaviza os semblantes mais desagradáveis, não conseguira dissipar inteiramente a impressão de vileza no do extinto. Os lábios achavam-se contraídos num pequeno esgar; os olhos, semicerrados, eram pequenos; o queixo, escanhoado e prógnato; e as orelhas, grandes e grotescamente proeminentes.

Escolhi essa tarde e esse deplorável evento para ponto de partida da minha narrativa, porque se deu o caso de a aparição do infortunado rapaz ter atraído a Gray Square àquela hora três das personagens mais importantes desta história. Pode mesmo dizer-se quatro.

Um polícia encontrava-se junto do corpo, à espera da chegada da ambulância, e respondia com monossílabos às perguntas dos curiosos. Dez minutos antes de surgir a ambulância, incorporou-se no grupo um homem de meia-idade.

Vestia o fato sal-e-pimenta que distingue o excursionista provinciano de visita a Londres num dia de lazer, usava patilhas abundantes, sem exagero, e espesso bigode castanho. O boné de jogador de golfe era novo e equilibrado na cabeça num ângulo algo caprichoso. Cruzava-lhe o colete uma pesada corrente, com pequenas medalhas de prata a intervalos regulares. No entanto, apesar do aspecto provinciano, os movimentos eram decididos e sugeriam autoridade. Abriu caminho com o cotovelo e enfrentou o olhar de desaprovação do polícia sem vacilar.

- Posso ser-lhe útil, amigo? - perguntou, e apresentou-se como sendo o guarda Wiseman, da Polícia de Sussex.

A atitude do outro alterou-se imediatamente.

- Obrigado. Pode ajudar-me a metê-lo na ambulância, quando ela chegar.

- Um ataque? - quis saber o recém-chegado.

- Viram-no cambalear e cair, e quando cheguei já se tinha apagado. Suponho que tenha sido colapso cardíaco.

- Ah! - exclamou, contemplando o corpo com ar profissional, e aproveitou a oportunidade para aludir à sua experiência de tragédias similares, não sem orgulho, como se tivesse, em certa medida, a responsabilidade da sua ocorrência.

No lado oposto da praça, um rapaz e uma rapariga caminhavam lentamente. Um jovem alto, louro, bem-parecido, capaz de despertar a atenção mesmo no meio de uma multidão. Mas essa atenção teria sido atraída, inevitavelmente, se o acompanhasse a moça a seu lado, que se podia considerar linda. Alcançaram a esquina de Tabor Street, e foi o olhar fixo e inquieto de um homenzinho que se encontrava ali que lhes orientou a curiosidade para a tragédia ocorrida no lado contrário da praça.

O homenzinho vestia uma sobrecasaca demasiado larga, calças excessivamente compridas, pois faziam fole sobre os sapatos, e usava um chapéu alto e brilhante impelido para a nuca.

- Que coisa tão esquisita! - proferiu Frank Merril a meia voz, e a rapariga sorriu.

O alvo do seu divertimento voltou-se subitamente quando passaram junto dele. O rosto sardento escanhoado parecia singularmente velho, e os óculos de aros de ouro, equilibrados a meio do nariz, contribuíam para acentuar o ridículo do seu aspecto geral. Arqueou as sobrancelhas, observou os dois jovens por um momento e, secamente, sem qualquer preâmbulo, informou:

- Houve um acidente acolá.

- Ah, sim? - articulou o rapaz polidamente.

- Tem havido vários em Gray Square - acrescentou o outro pensativamente. - O primeiro foi em mil oitocentos e setenta e cinco, quando o prédio da esquina (vê-se parte dele daqui) ruiu e soterrou catorze pessoas, sete das quais morreram, quatro ficaram incapacitadas para toda a vida e três escaparam com ferimentos superficiais.

Fazia a revelação com serenidade e, aparentemente, sem a menor noção de que procedia de forma inconveniente ao fornecer a informação.

- Houve outro a quinze de Outubro de mil oitocentos e oitenta e um: uma colisão de dois cabriolés, de que resultou a morte de um dos condutores, chamado Samuel Green, o qual morava em Portington Mews, catorze, e deixou mulher e nove filhos.

A rapariga olhou-o com certa apreensão e Frank Merril soltou uma gargalhada.

- Tem uma memória excelente para essas coisas. Mora aqui?

- Oh, não! - O homenzinho sacudiu a cabeça vigorosamente e, após uma pausa, declarou com certa gravidade: - É melhor irmos ver o que aconteceu.

A sua assunção de chefia era um pouco desconcertante, e Frank voltou-se para a companheira.

- Não te importas?

Ela meneou a cabeça e o trio aproximou-se do pequeno grupo no momento em que a ambulância desembocava na praça. Ante a admiração de Merril, o polícia saudou o homenzinho respeitosamente, levando a mão ao boné.

- Lamento que não haja nada a fazer, senhor. Está morto.

- Sim - proferiu o outro calmamente. - Está morto.

Agachou-se, desabotoou o casaco da vítima e introduziu a mão na algibeira interior, mas não encontrou nada. com uma rapidez de movimentos extraordinária, continuou a procurar, sem que o polícia lhe negasse o direito de o fazer, o que intensificou a estranheza de Merril. Por fim, o homenzinho extraiu do bolso superior esquerdo do colete um pedaço de papel amarfanhado, que se revelou ser um recorte de jornal.

- Ah, um anúncio a pedir um empregado doméstico recortado do Daily Telegraph desta manhã! Recordo-me de o ter visto. Trata-se, evidentemente, de um candidato ao lugar que se preparava para comparecer à entrevista com o possível novo patrão. Diz aqui: «Dirigir-se ao Hotel Holbom Viaduct, às oito e meia.» Ele meteu-se por aqui para atalhar caminho e foi surpreendido pelo ataque fatal. Sei quem publicou o anúncio: Mister T. Burton, negociante de artigos de borracha de Penang, casado com a filha do reverendo George Smith, de Scarborough, em 1889, que lhe deu quatro filhos, um dos quais se encontra em Winchester... hum! - Franziu os lábios, tornou a baixar os olhos para o corpo e, de súbito, virou-se para Frank Merril: - Conhece este homem?

- Não! - O interpelado fitou-o com estupefacção. Porque pergunta?

- Estava a olhar para ele como se o conhecesse disse o homenzinho. - Ou melhor, não olhava para a cara. Ora, as pessoas que não olham para a cara de outras nestas circunstâncias conhecem-nas.

- Em todo o caso - volveu Frank, com um leve sorriso -, há aqui alguém que conheço. - E voltou-se para o guarda Wiseman.

Este último tornou a levar a mão ao boné e admitiu:

- De facto, também me pareceu reconhecê-lo. Vi-o várias vezes em Weald Lodge.

O diálogo foi interrompido neste ponto, pois transferiram o corpo para uma maca e esta para o interior da ambulância. Os curiosos viram a viatura desaparecer ao fundo da praça e o pequeno grupo de pessoas, sem nada que fazer, começou a dispersar.

O guarda Wiseman despediu-se formalmente do colega londrino e aproximou-se de Frank com certa timidez.

- É o sobrinho de Mister Minute, salvo erro?

- Exacto.

- Lembro-me de o ver em casa do seu tio.

- O nome do tio?

A pergunta, algo impertinente, mas no fundo inofensiva, partiu dos lábios do homenzinho. No entanto, dava a impressão de que a fazia com naturalidade e tinha o direito de obter a resposta sem hesitação.

Frank Merril soltou uma gargalhada.

- O meu tio é John Minute. - com uma ponta de sarcasmo, acrescentou: - Provavelmente, conhece-o.

- com certeza - replicou o outro sem vacilar.

- Foi um dos primeiros pioneiros rodesianos a receber uma concessão de Lo Bengula e acumulou uma fortuna enorme com a venda de propriedades que continham minas de ouro destituídas de valor, como se comprovou mais tarde. Levado a julgamento em Salisbúria, em mil oitocentos e noventa e sete, pelo assassínio de dois chefes mashona, foi absolvido. Juntou nova fortuna em Joanesburgo no boom daquele ano e veio para a Inglaterra em mil novecentos e um, a fim de se instalar numa pequena propriedade entre Polegate e Eastbourne. Tem um sobrinho e herdeiro, Frank Merrill, filho do falecido doutor Henry Merril, que é contabilista no London and Western Counties Bank...

- Conhece o meu tio? - Frank olhou-o, cada vez mais surpreendido.

- Nunca o vi - redarguiu o homenzinho bruscamente. Tirando o chapéu alto com um gesto largo, despediu-se: - Desejo-lhes muito boa tarde. - E afastou-se com passos rápidos.

O polícia uniformizado voltou o rosto solene para o grupo e Frank perguntou-lhe:

- Conhece aquele cavalheiro?

- Decerto - assentiu o interpelado, com um sorriso.

- É Mister Mann. Na Yard, chamam-lhe «o Homem Que Sabe».

- É detective?

Abanou a cabeça e esclareceu:

- Tanto quanto sei, costuma trabalhar para o comissário e para o Governo. Temos ordens para não interferir nas suas actividades nem recusar qualquer informação que nos peça.

- O Homem Que Sabe? - repetiu Frank, intrigado.

- Que pessoa extraordinária! Mas que sabe ele? - perguntou subitamente.

- Tudo - foi a lacónica porém firme resposta que obteve.

Minutos depois, o rapaz caminhava lentamente em direcção a Holbom, e a companheira, com um sorriso, observou:

- Pareces deprimido.

- Diabos levem aquele sujeito! Como se teria inteirado de tudo aquilo acerca do meu tio? - Frank encolheu os ombros. - Não tem sido uma tarde muito alegre para ti, querida. Não te convidei para sair para assistires a acidentes.

- Sabes?... - Ela olhou em volta e hesitou. - Pareceu-me reconhecer o homem estendido no passeio - Interrompeu-se com um estremecimento.

- Também me pareceu vagamente familiar - admitiu ele pensativamente.

- Não se tinha cruzado connosco há uns vinte minutos?

- É possível, mas confesso que não me lembro. A minha impressão dele remonta a um passado mais distante do que esta tarde. Onde seria?...

- Falemos de outra coisa - apressou-se ela a sugerir. - Não disponho de muito tempo. Como devo proceder em relação ao teu tio?

- Confesso que não sei o que aconselhar-te - reconheceu Frank com uma risada seca. - Estimo muito o tio John e custa-me contrariá-lo, mas não posso permitir que interfira na minha vida sentimental. Oxalá nunca o tivesses conhecido.

- Não adianta falares assim. Conheci-o primeiro do que a ti. Se não fosse ele, os nossos destinos talvez nunca se cruzassem.

- Conta-me o que aconteceu - solicitou, consultando o relógio. - Vem comigo até à Estação de Victoria, de contrário perco o comboio.

Chamou um táxi e, no percurso para a estação, ela revelou tudo o que sucedera.

- Foi muito amável, como sempre, e não disse nada de horrível a teu respeito. Limitou-se a referir que não queria que casasse contigo, por estar convencido de que não serias um bom marido. Afirmou que o Jasper tinha todas as qualidades e a maioria das virtudes.

- O Jasper é um espertalhão de falas mansas - grunhiu Frank entre dentes.

- Sê paciente, por favor. - Ela pousou-lhe a mão no braço. - Ele nunca me disse nada sobre o assunto e trata-me sempre com a maior amabilidade.

- Conheço bem esse tipo de amabilidade. É daqueles oportunistas que procuram tirar o maior partido de todas as situações. Desenvolve esforços árduos para conquistar a inteira confiança do meu tio. Parece mais o filho do que o secretário.

- Tornou-se indispensável, o que representa meio caminho andado para se tornar rico.

As rugas de apreensão que tinham surgido na fronte de Frank dissiparam-se.

- Isso é quase um epigrama. Que disseste ao meu tio?

- Que não considerava a sua sugestão possível e não amava Jasper Cole, nem ele a mim. Devo tanto ao teu tio, Frank... Sou filha de um dos seus melhores amigos e, desde que o meu pai morreu, cuidou sempre de mim. Proporcionou-me uma educação esmerada, um rendimento, tudo. Tem sido um segundo pai.

- Reconheço todas as dificuldades - aquiesceu ele com uma inclinação de cabeça. - Chegámos a Victoria.

Ela permaneceu na plataforma e assistiu à partida do comboio, para em seguida regressar ao confortável apartamento em que John Minute a instalara. Como referira, vivia uma existência desprovida de preocupações, graças à generosidade do tio de Frank. Não necessitava de se preocupar com o dinheiro, pelo que podia dedicar os dias à actividade que mais lhe agradava. A Sociedade de Previdência do East End, na qual ela exercia as funções de presidente, era totalmente financiada pelo milionário rodesiano.

May tinha uma inclinação natural para as obras de caridade. Era uma trabalhadora infatigável, e não havia figura mais conhecida nas ruas humildes da área de West índia Docks do que a assistente social Nuttall. Quanto a Frank, interessava-se por isso, sem todavia se revelar um entusiasta. Possuía a apreensão de todos os homens pelas doenças infecciosas e da imprudência de uma jovem atraente a percorrer um ambiente pouco seguro sem protecção. Porém a única visita que efectuara ao East End convencera-o de que a segurança pessoal dela não corria perigo.

Queixava-se com frequência de que parecia mais interessada na sua acção social do que nele, o que provavelmente correspondia à verdade, porquanto o seu desenvolvimento se caracterizara pela lentidão e não se podia afirmar que estivesse profundamente enamorada de nada deste mundo, à excepção da missão que se impusera.

Consumiu o frugal jantar e seguiu para a sede da Sociedade, nas proximidades da Albert Dock Road. Três noites por semana eram consagradas às visitas. Muitas mulheres e raparigas daquela área passavam o dia em fábricas das cercanias e dispunham apenas do serão para tratamento de padecimentos que, em meios menos carentes, exigiriam a presença de especialistas. No trabalho nocturno, as enfermeiras eram acompanhadas por um voluntário. As obrigações de May Nuttall conduziram-na naquela noite a Silvertown e a uma teia de ruas escusas a leste da via férrea. As suas actividades principiavam ao escurecer e não terminavam antes que a noite caísse e as estrelas brilhassem no céu estival.

O calor era sufocante e, quando abandonou a última casa daquele dia, acolheu com satisfação o ar livre, apesar de pesado. Quando passava junto de um candeeiro público, fez uma pausa para inscrever a derradeira entrada do dia na agenda de que sempre se fazia acompanhar.

- com esta, são oito, Thompson - observou ao companheiro. - Há mais alguém na lista?

- Foi a última - informou o rapaz, dominando um bocejo.

- Receio que esta ocupação não seja muito interessante para si - volveu ela com um sorriso. - Nem sequer tem a excitação do trabalho propriamente dito. Deve achar muito aborrecido ficar à porta à minha espera.

- Garanto-lhe que não me aborreço. Se não hesita em percorrer estas ruas, eu também não vejo inconveniente em acompanhá-la.

Encontravam-se num pequeno pátio, um beco sem saída tendo num dos lados um muro, e quando May guardava a agenda na bolsa um homem surgiu, apressado, da entrada da rua e passou junto dela. Ao mesmo tempo, a luz pálida do candeeiro incidiu-lhe no rosto por um segundo, e a boca da rapariga formou um O de espanto. Acompanhou-o com a vista até que desapareceu numa das portas imersas na sombra ao fundo do pátio e conservou os olhos cravados na casa, como se não conseguisse acreditar no que via.

Não subsistia a menor dúvida de que se tratava do rosto pálido e corpo esguio de Jasper Cole, secretário de John Minute.

 

       O contabilista do banco

«Frank querido:

Aconteceu uma coisa extraordinária ontem à noite. Encontrava-me em Silvers Rents, por volta das onze, e acabava de visitar o último dos meus pacientes, quando um homem se cruzou comigo e entrou numa das casas. Pareceu-me ser a última ou penúltima do lado esquerdo, mas depois de pensar melhor concluí que se tratava da penúltima. Não tenho a menor dúvida de que era Jasper Cole, pois não só lhe vi o rosto como empunhava a bengala de pau-serpente que sempre o acompanha.

Devo confessar que fiquei suficientemente curiosa para aprofundar o assunto e apurei que é visitante habitual do local, mas ninguém me soube informar do motivo. A última casa é ocupada por duas famílias, gente sem interesse especial, e a penúltima está vaga, à excepção de um quarto, que é aparentemente o que ele utiliza.

Ninguém de Silvers Rents o conhece ou viu. Segundo parece, o quarto do rés-do-chão da casa desocupada é mantido fechado à chave, e uma mulher que mora em frente revelou ao meu informador, Thompson, meu acompanhante habitual nas visitas àquele bairro, que o próprio Jasper Cole se encarrega da limpeza. Não deve estar muito bem abastecido e tudo indica que ele nunca passa lá a noite.

Não achas tudo isto extraordinário? Diz-me o que te parece...»

Frank Merril pousou a carta e encheu o cachimbo lentamente. Estava intrigado e não encontrava uma explicação plausível para o facto de que acabava de se inteirar.

Era contabilista da dependência de Piccadilly do London and Western Counties Bank, o que lhe deixava pouco tempo livre para se debruçar sobre problemas do exterior. No entanto, a ideia da presença de Cole num bairro humilde de Londres em circunstâncias misteriosas interferiu no seu trabalho mais do que uma vez ao longo do dia.

Registava umas transacções importantes, quando o gerente o mandou chamar. Embora não exercesse um cargo particularmente notável, Frank Merril ocupava uma posição de certo relevo, que lhe granjeava mais consideração do que a dispensada aos funcionários comuns pelos superiores. O tio achava-se financeiramente interessado no estabelecimento, e havia a convicção geral de que Frank fora enviado tanto para zelar pelos interesses de John Minute como para se preparar para administrar a avultada fortuna de que um dia seria o herdeiro.

O gerente saudou-o com cordialidade e Frank fechou a porta atrás dele.

- Queria falar-lhe da conta de Mister Holland informou o primeiro. - Você disse-me que ele esteve cá o outro dia.

- Sim, apareceu à hora do almoço.

- Lamento não ter estado presente – murmurou com uma expressão pensativa. - Interessava-me conversar com ele.

- Há algum problema com a conta?

Não, de modo algum - asseverou, sorrindo.

- Tem mesmo um saldo importante. Gostava que o procurasse e convencesse a transferir parte para uma conta a prazo. A nossa central não simpatiza com os depósitos à ordem muito avultados, susceptíveis de serem levantados a qualquer momento, o que obriga a manter aqui reservas muito superiores às que a nossa dependência está preparada para conter.

Fez uma breve pausa e acrescentou:

- Confesso que a nossa maneira de actuar não me agrada absolutamente nada. Como a central se situa em Plymouth, as normas peculiares do banco exigem que os saldos à ordem sejam cobertos, e, nesse aspecto, o seu tio figura entre os grandes pecadores. Veja isto! - Impeliu um cheque para diante de Frank. - E de sessenta mil libras e ao portador, destinado ao resto do pagamento da aquisição da Consolidated Mines. Só Deus sabe porque não pode aceitar o vulgar cheque cruzado!

Frank olhou a assinatura, em letra irregular, e esboçou um sorriso.

- O meu tio tem uma reputação a manter. Não é injustificadamente que lhe chamam «Dinheiro a Contado Minute».

O gerente contraiu as faces num esgar de contrariedade.

- Essas coisas talvez sejam necessárias na África do Sul, mas aqui, no coração do mundo da finança, os pagamentos em dinheiro não passam de uma forma de demência! Não lhe repita isto, claro.

- Decerto que não, embora me pareça que devia tomar em consideração as singulares experiências que ele conheceu nos primeiros tempos da sua carreira.

- Não me esqueço disso, creia. No entanto, é inconveniente. .. Mas não foi para discutir as singularidades do seu tio que o mandei chamar. - Pegou numa caderneta bancária de um maço na sua frente. - Rex Holland - leu. - Se se recorda, abriu conta quando eu estava de férias.

- Lembro-me perfeitamente - assentiu Frank. Foi por meu intermédio.

- Que gênero de pessoa é?

- Não sou uma autoridade em descrições, mas deu-me a impressão de um negociante citadino típico, não muito inteligente, possuidor de poucas idéias fora do seu mundo imediato... que principia em Hyde Park Comer...

- E termina no hipódromo - cortou o gerente.

- É possível. Pareceu-me um homem honesto e competente, apesar de uma certa assunção plácida de ignorância a respeito de assuntos financeiros, e veio muito bem recomendado. Que pretende que eu faça?

Reclinou-se na cadeira rotativa, afundou as mãos nas algibeiras das calças e fixou o olhar no tecto, em busca de inspiração.

- E se o visitasse esta tarde para tentar convencê-lo a fazer-nos o inapreciável favor de transferir parte do seu dinheiro para uma conta a prazo? Pagaremos os juros habituais, sem dúvida. Garanta-lhe que o poderá levantar quando quiser, se nos avisar com trinta dias de antecedência. Quer encarregar-se disso?

- com certeza - aquiesceu Frank calorosamente.

- Visitá-lo-ei esta tarde. Qual é o endereço? Confesso que já não me lembro.

- Albemarle Chambers, Knigtsbridge.

- De quanto é o saldo?

- Trinta e sete mil libras, e como não vai comprar títulos da Consolidated Mines não estou a ver para que precisa do dinheio, sobretudo porque lhe podemos fornecer um saque a descoberto com a garantia do seu depósito, se for caso disso. Sugira-lhe que coloque trinta mil na conta a prazo e deixe sete mil na outra. Antes que me esqueça: o seu tio vai mandar cá o secretário para se debruçar sobre a questão da sua conta.

- O Cole vem cá? - Frank arqueou as sobrancelhas. - Essa agora! - Acudiu-lhe uma expressão divertida ao rosto. - Preciso perguntar-lhe uma coisa. A que horas o espera?

- Cerca das quatro.

- Depois de fecharmos? - Vendo o gerente assentir com um movimento da cabeça, comentou: - O meu tio tem uma maneira curiosa de tratar de negócios. Suponho que isso significa que vou ter de ficar...

- Não há necessidade. Mister Cole é um dos nossos directores.

- Desde quando? - perguntou, dominando uma exclamação de assombro.

- Desde a última segunda-feira. Julgava que lhe tinha dito. - O gerente apressou-se a advertir: - Mas se o seu tio não lhe falou no assunto, é melhor fingir que não sabe de nada.

- Prometo observar a maior discrição - declarou Frank, algo perplexo com a ansiedade do interlocutor.

- Tem sido muito atencioso para comigo, Mister Brandon, e estou-lhe grato por tudo.

- Mister Cole foi designado para o cargo pelo seu tio, evidentemente - prosseguiu o gerente, depois de inclinar levemente a cabeça devido à manifestação de gratidão. - Mister Minute assiste às reuniões da administração apenas se não o pode evitar e só tem sido representado pelo seu solicitador desde que adquiriu uma posição tão elevada no banco. Aqui para nós, penso que Mister Cole vem tanto para examinar os assuntos da dependência como para se debruçar sobre a conta de Mister Minute. É um óptimo homem de negócios, não acha?

- Excelente - corcordou Frank secamente. - Enxertou na sua mente científica uma extraordinária capacidade para os negócios.

- Não simpatiza com ele? - perguntou Brandon, enrugando a fronte.

- Não tenho qualquer motivo para lhe consagrar antipatia. Possivelmente estou a ser pouco caridoso. Não é do gênero de homens que me merecem admiração especial. Possui todas as virtudes, segundo o meu tio. Passa os dias e as noites a trabalhar quase como um escravo para o patrão... Sei o que vai dizer: que é uma excelente qualidade num jovem, e concordo consigo, mas... o seu zelo parece-me pouco natural. Ninguém se esforça mais do que eu por produzir o máximo rendimento durante as horas de serviço, mas isso não me impele a trabalhar pela noite dentro.

- Se continuar sempre assim, pode considerar-se satisfeito - disse o gerente, levantando-se. - Vai, então, procurar Mister Holland?

- Decerto. - E Frank regressou à sua secretária, imerso em cogitações.

Eram quatro horas exactas no momento em que Jasper Cole transpôs a porta do banco, que o porteiro se preparava para fechar. Trajava sobriamente e segurava uma bengala de pau-serpente na mão direita.

Ao avistar Frank do outro lado do balcão, sorriu-lhe, para expor duas fiadas de dentes brancos regulares.

- Olá, Jasper! - saudou este último. - Como está o tio?

- Óptimo. Sempre preocupado com uma coisa ou outra, claro, mas isso é quase um hábito nele.

- Algum assunto em particular? Cole encolheu os ombros.

- Você conhece-o muito melhor do que eu... pois viveu com ele mais tempo. Desconfia de toda a gente e vê um espião ou inimigo em cada desconhecido. Isso costuma ser um sinal preocupante, embora me pareça que ultimamente se tem esforçado demasiado.

Exprimia-se com perfeito à-vontade, em voz baixa e bem modulada, apenas com uma leve sugestão do sotaque de Oxford, que Frank detestava solenemente, conquanto admitisse para consigo - uma vez que se considerava uma pessoa ponderada e compreensiva - que a aversão carecia de fundamento.

Ouvi dizer que vem inspeccionar as contas - proferiu, após breve pausa, pousando o cotovelo no balcão e abrindo a cigarreira de ouro.

- De modo algum - replicou Jasper, estendendo a mão para pegar num cigarro. - Pretendo apenas esclarecer umas dúvidas. É verdade: o seu tio recebeu uma carta de um amigo seu, Frank.

- Meu?

- Rex Holland.

- Eu não lhe chamaria meu amigo. Na verdade, é mais um motivo de preocupações. Fui procurá-lo a Knigtsbridge, esta tarde, e não o encontrei. Que diz ele na carta?

- Está interessado numa obra de caridade e iniciou uma colecta de guinéus. Esqueci-me do nome da obra.

- Porque lhe chamou meu amigo? - quis saber Frank, olhando o outro com intensidade.

Jasper Cole, que já se dirigia para o gabinete do gerente, voltou-se.

- Era a brincar. Tinha ouvido você mencioná-lo, e não me baseei em qualquer outro facto.

- Já me esquecia. - Frank deu uma palmada na fronte. - Onde esteve ontem à noite?

- Porquê? - inquiriu Cole com uma mirada incisiva.

- Foi, por acaso, para os lados de Victoria Docks?

- Que pergunta tão estapafúrdia! - E, rodando nos calcanhares, desapareceu no gabinete de Brandon.

Frank concluiu o trabalho às 17 e 30 e delegou em Cole e num escriturário a pouco divertida tarefa de insPeccionar os títulos de crédito. Às 21, o escriturário seguiu para casa e deixou Jasper sozinho no banco. Brandon, o gerente, era solteiro e ocupava um apartamento no mesmo prédio. De vez em quando, aparecia, com o cachimbo ao canto da boca. A última visita ocorreu no momento em que Jasper Cole acabava de guardar o último livro no cofre particular de John Minute.

- São onze e meia e ainda não jantou - lembrou, em tom de censura.

- Posso prescindir de uma refeição sem morrer de fome - replicou o outro com uma risada.

- Felizardo...

Por fim, abandonou o banco e chamou um táxi.

- Estação de Charing Cross - indicou ao motorista. Uma vez no destino mencionado, pagou ao homem

e, transcorridos alguns minutos, retrocedeu para a Strand e chamou outro táxi.

- Victoria Dock Road - instruiu em voz baixa.

 

       O legado de John Minute

Foi Rochefoucauld quem afirmou que a prudência e o amor são incompatíveis. May Nuttall, embora nunca tivesse explorado os conceitos filosóficos do escritor seiscentista, lera aquela citação na dedicatória de um livro oferecido a uma amiga e ficara devidamente impressionada. Aliás, tinha vinte e um anos, idade em que as jovens mais se impressionam e são menos influenciadas pelo raciocínio prosaico. Dispõem-se a aceitar as suas filosofias feitas à medida e não se mostram totalmente relutantes em admitir determinados princípios rígidos dos outros, pelos quais medem os seus próprios temperamentos elásticos.

Frank Merril constituía simultaneamente um conforto e a causa de um certo e semienvergonhado ressentimento, pois ela tinha a idade que encara a dependência com relutância. A mulher que gasta tempo considerável a discutir consigo própria se ama ou não um homem só pode dissipar as dúvidas com a descoberta de alguém que estime ainda mais. Gostava de Frank o suficiente para aceitar a aliança que assinalava o início de um novo relacionamento que não era exactamente um compromisso, mas conferia às suas relações um encanto que até então estivera ausente. Gostava dele ao ponto de desejar o seu amor, conquanto isso não a impedisse de lhe parecer alarmante a perspectiva de um casamento precoce. O facto de não se compreender a si própria não apresentava nada de notável. Os vinte e um anos de idade não possuem a experiência pela qual as suas complexidades podem ser aplanadas e tornadas visíveis.

Sentada diante do pequeno-almoço, ponderava o problema, e sentia-se um pouco perturbada e até apreensiva ao descobrir, através de uma comparação minuciosa, que, dos dois homens, experimentava um sentimento mais terno e profundo por Jasper Cole. A apreensão devia-se à recordação de uma das advertências de Frank, quase profética, como agora reconhecia:

«Aquele homem tem uma fascinação que eu seria o último a contestar. Reconheço que simpatizo com ele, apesar de o instinto me indicar que é o meu maior inimigo.»

Se a atitude dela para com Frank era difícil de definir, mais singular devia considerar o seu estado de espírito em relação a Jasper Cole. Havia algo de sinistro... não, não era esse o termo... algo de «assustador» nele. Possuía um magnetismo, uma aura de poder pessoal que Parecia paralisar a vontade de quem quer que entrasse em conflito com ele. May lembrava-se das numerosas vezes que visitara a enorme biblioteca de Weald Lodge animada da firme intenção de «pôr os pontos nos ii com ele». Em certas ocasiões, tratava-se de uma questão de Bonomia doméstica, na qual Jasper inserira a sua opinião - aos dezasseis anos, ela era praticamente a governanta do tio adoptivo. Numa das vezes, porém, a situação revestira-se de gravidade, porque, depois de ela combinar com um grupo de amigos um alegre piquenique nas Downs, Jasper, na ausência de John Minute, opusera-se terminantemente. Seria mera casualidade o facto de Frank Merril fazer parte desse grupo e ter decidido desanuviar o espírito naquela tarde, depois de uma semana de trabalho em Londres?

Naquele caso, como em todos os outros, o ponto de vista de Jasper triunfara. com efeito, ele lograra convencê-la de que se achava dentro da razão e ela não. E aproveitara o ensejo para repudiar com veemência a sugestão de que a presença de Frank Merril influíra na atitude. Segundo a sua versão, assumira-a em virtude da inclusão no grupo de duas mulheres cujos nomes eram famosos no mundo do teatro.

May evocava o incidente, enquanto consumia o pequeno-almoço, e foi com uma sensação de desespero que reconheceu que as razões por ele invocadas se revestiam sempre de sensatez.

Existia, porém, um elemento que o favorecia. Nunca se referira a Frank em termos depreciativos.

Em seguida perguntou a si própria que assuntos o teriam levado a um ambiente tão pouco atraente como aquele em que o vira na véspera. Dominava-a toda a curiosidade feminina, sem as suspeitas inerentes ao seu sexo, e, por estranho que parecesse, não associava aquela presença no assaz tenebroso bairro a qualquer actividade inconfessável. Admitia que o facto continha algo de excêntrico e perguntou-se se também se dedicaria ele a uma missão humanitária, mas apressou-se a repelir a hipótese, porquanto não recebera a menor confirmação da teoria da parte de pessoas com as quais contactava regularmente.

Achava-se mais ou menos a meio da refeição, quando o telefone tocou, e ela levantou-se para atender. A primeira palavra que soou no outro extremo do fio bastou para saber de quem se tratava.

- Tio! - exclamou, surpreendida. - Que faz na cidade?

- Tenho um encontro importante. - A voz de JohnMinute era quase estentórica. - Podes estar no Savoy, à uma e meia, para almoçarmos juntos?

E cortou a ligação quase sem lhe dar tempo para responder.

O comissário da Polícia pousou o livro que retirara da prateleira ao lado da secretária, rodou na cadeira e dirigiu um sorriso zombeteiro ao perturbado e irascível visitante.

O homem que se sentava do outro lado da secretária aparentava cinqüenta anos, era de estatura mediana e vestia um fato de xadrez de um corte tão irrepreensível que enaltecia a perícia do alfaiate para obter uma criação tão admirável de um tecido tão pouco apropriado.

A gola era baixa, e serviria para realçar o volumoso pescoço se a vistosa gravata roxa e o diamante do respectivo alfinete, do tamanho de uma moeda de cinqüenta cêntimos, não monopolizassem a atenção de qualquer observador. O rosto podia considerar-se invulgar. Agressivo ao ponto da impertinência, os lábios grossos irregulares, o nariz bolboso e o queixo maciço espelhavam com veemência a dura existência que John Minute conhecera. Os olhos eram azuis e frios e o cabelo, grisalho, abundante e crespo. À distância, permitia uma curiosa ilusão de distinção, mas de perto o semblante rosado provocava repulsa pela sua crueza. Lembrava ao comissário uma secção de pintura de cenário, que agradava vista da galeria e desapontava dos camarotes.

- Sabe, Mister Minute - disse Sir George com suavidade -, as nossas oportunidades e poderes são muito limitados. Pessoalmente, eu teria o maior prazer em o ajudar, não só por constituir meu dever acudir a toda a gente, mas também porque foi muito útil ao meu rapaz na África do Sul. Sim, as cartas de apresentação que lhe deu revelaram-se vitais para as suas pretensões.

O filho do comissário efectuava uma digressão de caça pela Rodésia e Barotzelândia, e o encontro ocasional com o milionário rodesiano num jantar oficial originara as epístolas em causa.

- Mas a Scotland Yard tem as suas limitações continuou Sir George. - Não podemos investigar a causa de temores intangíveis. Embora o possamos proteger se for ameaçado, a simples circunstância de supor a existência de um perigo indefinido não justifica a nossa intervenção.

John Minute moveu-se na cadeira com desconforto.

- Então, para que servem vocês? - perguntou, impaciente. - Tenho inimigos, Sir George. Comprei uma pequena propriedade no campo, perto de Eastbourne, para me afastar de Londres e de toda a espécie de gente nova que nos rodeia. O outro dia, procurou-me um pároco que angariava fundos para um movimento escutista qualquer. Há um mês que me ronda a casa e vive num chalé perto de Polegate. Que foi fazer a Eastbourne?

- Talvez decidisse dar um passeio.

- Qual história! - bradou com uma expressão de desdém. - Há outro motivo. Mandei-o vigiar e sei que todos os dias visita uma mulher num hotel... uma cúmplice, com a qual nunca é visto em público. Depois, há um bufarinheiro, daqueles fulanos que vendem vidros e reparam janelas, de quem ninguém sabe nada. Não faz negócio que dê para sustentar uma mosca. Nunca se afasta muito de Weald Lodge. Além disso, temos uma tal Miss Paines, que se intitula jardineira artística e queria modificar o aspecto do meu jardim. Mandei-a bugiar, mas não se afasta das imediações da minha propriedade.

- Participou o assunto à polícia local? - O comissário fez uma pausa, enquanto o interlocutor assentia com uma inclinação de cabeça. - E não descobriu nada de suspeito a respeito deles?

- Absolutamente nada!

- Nesse caso - volveu, com um sorriso -, deve tratar-se de pessoas inocentes que se limitam a tentar ganhar a vida. De resto, Mister Minute, um homem rico como o senhor tem de contar com as tentativas de gente empenhada em obter um quinhão da sua fortuna por meios mais ou menos legítimos. Palpita-me que não acontece nada de mais perigoso do que isso. - Reclinou-se na cadeira e uniu as mãos, ao mesmo tempo que assumia uma expressão pensativa. - Custa-me a crer que se passe algo de grave, mas já que está preocupado vou pô-lo em contacto com alguém que decerto o aliviará da ansiedade.

- Um polícia?

- Não, refiro-me a um detective particular, capaz de efectuar diligências fora das nossas possibilidades. Nunca ouviu falar de Saul Arthur Mann? Estou a ver que não. Saul Arthur Mann é um nosso bom amigo e, ao recomendar-lho, eu talvez faça um favor a ambos. Trata-se do Homem Que Sabe.

- O Homem que Sabe? - repetiu John Minute com uma expressão de dúvida. - Que sabe ele?

- vou mostrar-lhe. - O comissário pegou no telefone, indicou um número e, enquanto aguardava a ligação, perguntou: - Como se chama esse pároco que angaria fundos para os escuteiros?

- Reverendo Vincent Lock.

- Suponho que não sabe o nome do bufarinheiro?

- Sei apenas que na aldeia lhe chamam «Macilento».

- E o nome da jardineira é Miss Paines? - Sir George ia anotando os nomes à medida que os pronunciava. - Bem, veremos... Está? É Saul Aríhur Mann? oaqui, Sir George Fuller. Sim, queria falar com ele.

- Uma pausa de alguns segundos. - Mister Mann? Preciso perguntar-lhe uma coisa. Importa-se de tomar nota dos três nomes que lhe vou dizer? Reverendo Vincent Lock, um bufarinheiro conhecido por «Macilento», e uma Miss Paines. Já escreveu? Gostava que averiguasse as verdadeiras actividades deles. Obrigado. - Pousou o auscultador.

John Minute levantou-se.

- Quando souber alguma coisa... - começou, estendendo a mão.

- Deixe-se estar - interrompeu o comissário, apontando para a cadeira. - Obterá a informação que pretende dentro de poucos minutos.

- Mas ele deve necessitar de indagar - argumentou o milionário, surpreendido.

Sir George meneou a cabeça com veemência.

- Um dos pormenores curiosos acerca de Saul Arthur Mann é que nunca precisa de indagar nada. Por isso lhe chamam «o Homem Que Sabe». Considero-o, sem favor, uma das pessoas mais notáveis do mundo da investigação criminal. Tentámos convencê-lo a ingressar na Scotland Yard, embora me custe a crer que o Governo lhe pagasse o salário que merece, mas ele evitou-nos o embaraço recusando terminantemente.

Naquele momento, o telefone tocou e ele levantou o auscultador. Em seguida, pegou num lápis e escreveu apressadamente no bloco de apontamentos, após o que proferiu um caloroso «Muito obrigado» e desligou.

- Aqui tem a sua informação, Mister Minute. O reverendo Vincent Lock é pároco num bairro muito humilde dos arrabaldes de Manchester e interessa-se pelo movimento escutista. O irmão, George Henry Lock, teve problemas domésticos. A mulher abandonou o lar e instalou-se no Grand Hotel de Eastbourne, onde é visitada diariamente pelo cunhado, que procura convencê-la a regressar ao lar. Fica assim arrumada a questão do reverendo e da sua suposta cúmplice. Miss Paines é na realidade uma decoradora de jardins e apresentou queixa de quebra de promessa por duas vezes, uma das quais transitou aos tribunais. Não subsistem dúvidas - prosseguiu o comissário, continuando a ler os apontamentos - de que o seu modus operandi consiste em persuadir homens de meia-idade a propor-lhe casamento, para depois os levar a juízo. Temos deste modo também arrumada Miss Paines, e o senhor agora já sabe porque o procurou. O nome do «Macilento» é Thomas Cobbler e cumpriu penas de prisão por três vezes por roubo. - Ergueu os olhos, com um sorriso. - Hei-de trocar umas palavrinhas com os funcionários do nosso Arquivo, por não disporem de elementos sobre o bufarinheiro. De qualquer modo, tomarei as providências necessárias para que ele não o volte a importunar.

- Mas como demônio conseguiu esse fulano apurar tantos elementos em meia dúzia de minutos?

- Ele sabe, é a única coisa que lhe posso dizer. Acompanhou o visitante à porta. - Se tornarem a incomodá-lo, sugiro que procure Saul Arthur Mann. Desconheço a verdadeira natureza dos seus problemas e não me explicou porque espera um ataque de qualquer espécie, mas ele prescindirá desses pormenores para investigar.

- Porquê?

- Porque sabe tudo.

- Custa-me a crer - grunhiu John Minute, que desceu a escada em direcção ao Embankment, altamente perplexo.

Apetecia-lhe avistar-se com o estranho indivíduo imediatamente, pois sentia a curiosidade estimulada e, ao mesmo tempo, uma ponta de apreensão, mas recordou-se de que convidara May para almoçar e já estava atrasado cinco minutos.

Foi encontrá-la no átrio à sua espera e saudou-a com afecto.

Independentemente do que se pudesse dizer de menos abonatório a respeito do milionário, ninguém se atreveria a acusá-lo de falta de sinceridade. Havia pessoas na Rodésia que se lhe referiam sem afecto especial. Na realidade, descreviam-no como sendo o maior ladrão de propriedades que jamais percorrera a região de Port Charter e Salisbúria, registando terras que obtivera por métodos inconfessáveis. Aludiam às carruagens em que se deslocava, com mudas de cavalos de quinze em quinze quilómetros. Também teciam comentários à sua propensão para o jogo e às propriedades que mudavam de mãos pelo simples voltar de uma carta, além de histórias tenebrosas que não interessa reproduzir aqui. Quando o chefe mashona, M'Lupi, encontrou ouro, em 1892, e recusou indicar o local, foi John Minute quem o aprisionou e lhe acendeu uma fogueira de palha sobre o peito para o obrigar a falar.

Embora a maioria das histórias talvez pecasse pelo exagero, toda a Rodésia estava de acordo em que ele roubava imparcialmente os amigos e os inimigos. Merecedor da confiança de Lo' Ben e da Companhia indistintamente, traiu ambos, e naquele terrível dia em que tudo indicava que os interessados em concessões seriam chacinados John Minute conseguiu fugir com a única parelha de mulas disponível, deixando os camaradas entregues ao seu destino.

Não obstante, possuía traços de generosidade e, em certas ocasiões, sabia ser um amigo terno e prestimoso. Casara jovem e levara a mulher para o inóspito território. Circulavam rumores de que ela conhecera um mercador, com o qual fugira de casa, e John Minute perseguira-os ao longo de quinhentos quilómetros de uma área hostil, de Victoria Falis a Charter, de Charter a Marandalas e de Marandalas a Massikassi, para chegar à Beira, tão perto dos fugitivos que ainda avistara o navio em que acabavam de partir, rumo à Cidade do Cabo. Não voltara a casar, e constava que a mulher viera pouco depois a morrer de malária. Existia, porém, uma versão mais prosaica dos factos, segundo a qual John Minute seguira a pista da esposa até Pieter Maritzburg, onde a matara a tiro, para depois cumprir uma pena de sete anos de trabalhos forçados.

No caso de um homem rico, poderoso, indiscutivelmente impopular, odiado pela maioria e temido por todos, as lendas a seu respeito desenvolviam-se tão rapidamente como cogumelos venenosos numa área pantanosa. Umas eram em parte verdadeiras, porém outras totalmente apócrifas, invenções deliberadas e maliciosas. De qualquer modo, verdadeiras ou falsas, John Minute ignorava-as, não refutando nem explicando nada e negando-se mesmo a processar um semanário da Cidade do Cabo, que publicou a sua biografia com uma franqueza imperdoável.

Havia apenas uma pessoa no mundo que ele estimava mais do que a jovem em cuja mão pegava enquanto entravam no restaurante mais animado de Londres.

- Tive uma conversa curiosa - informou no tom habitualmente brusco. - Estive na Polícia.

- Não me diga, tio! - proferiu ela em tom de censura.

- Tinha de ser, minha filha - volveu ele, movendo os ombros com impaciência. - Há gente capaz de tudo que... - interrompeu-se como se tivesse falado de mais.

- Que houve de especial na conversa? - perguntou May, depois de o tio escolher o almoço.

- Alguma vez ouviste falar de Saul Arthur Mann?

- Saul Arthur Mann? - repetiu, enrugando a fronte. - O nome não me é estranho. Mann, Mann... onde foi que o ouvi?

- Pois se não sabes quem é - redarguiu John Minute, com um dos seus raros sorrisos -, ele conhece-te. Conhece toda a gente, de resto.

- Acabo de me recordar! É o Homem Que Sabe.

- Como te inteiraste? - inquiriu, surpreendido. Ela descreveu rapidamente a sua experiência e,

Quando mencionou o omnisciente Mr. Mann, John Minute resmungou:

- É um impostor. Estava esperançado em que houvesse algo de verdade no que dizem acerca dele.

- Claro que deve haver, tio. Um homem com a posição do comissário da Scotland Yard não falaria assim dele sem uma razão de peso.

- Refere-me mais pormenores do que viste. Creio recordar-me de ler o relatório do inquérito. Salvo erro, ninguém conseguiu identificar o morto.

Ela descreveu, com o rigor que a memória lhe permitia, o encontro com o notável Mr. Mann. Necessitava de proceder com tacto, pois desejava evitar que transparecesse que se achava na companhia de Frank. No entanto, os esforços resultaram baldados, porque ainda não chegara a meio da narrativa quando ele a interrompeu:

- Depreendo que não estavas só. O «menino» Frank encontrava-se nas proximidades, hem?

May não pôde evitar uma risada.

- Cruzámo-nos por mera casualidade.

- Calculo...

- Mas estava presente um homem que ele conhece. O chefe da Polícia, Wiseman.

John Minute desdobrou o guardanapo, pousou-o nas pernas, moveu a colher na sopa e emitiu um grunhido antes de declarar:

- Wiseman é um estúpido casmurro. O simples facto de estar envolvido no assunto constitui explicação suficiente da razão pela qual o morto continua por identificar. Conheço perfeitamente o nosso chefe da Polícia. Convocou-me três vezes. Uma durante a guerra, por ter a luz acesa no período do black-out, outra por experimentar uma pistola no jardim para intimidar uns vagabundos que rondavam a casa e a terceira (imagina!) porque a chaminé expelia mais fumo que o normal. Sim, conheço-o muito bem.

Aparentemente, a imagem de Wiseman dominou-lhe os pensamentos durante os dois pratos da refeição, pois não voltou a falar até que pousou o talher e articulou entre dentes algo como «asno intrometido!».

Na verdade, as suas cogitações abarcavam dois tópicos. Em primeiro lugar, embora menos importante, figurava a personalidade de Saul Arthur Mann, que ele encarava com desconfiança e apreensão. Irritava-o a simples sugestão de que podia haver compartimentos secretos na sua vida íntima susceptíveis de serem profanados pela luz do conhecimento daquele homem, e decidiu procurá-lo nessa tarde, a fim de o desafiar a revelar toda a informação que possuía sobre o seu passado.

Havia uma larga percentagem que era do domínio público. John Minute gostava de se vangloriar de que a sua vida constituía um livro aberto que qualquer pessoa podia ler, embora admitisse para consigo a existência de uma faceta obscura que escapava ao mundo exterior. Por último, relegou para segundo plano o ensaio mental da entrevista com Mann e concentrou-se no que representava o assunto mais premente e importante.

- Voltaste a pensar no que sugeri, May? - perguntou subitamente.

Ela não esboçou a menor tentativa para se esquivar.

- Refere-se ao Jasper Cole?

Ele assentiu com um movimento de cabeça, mas a rapariga não respondeu imediatamente, conservando o olhar fixo na toalha, ao mesmo tempo que seguia um sulco imaginário com a ponta do dedo.

- A verdade é que não sinto desejos de casar por enquanto, e o tio tem suficiente experiência da natureza humana para saber que tudo o que cheirar a coerção não me predisporá favoravelmente em relação ao Cole.

- Porque, na realidade, amas o Frank? - aventurou John Minute em voz rouca.

- De modo algum, embora goste muito dele. É um rapaz inteligente, terno... - May interrompeu-se ao ouvi-lo emitir um grunhido de discordância. - Tenho a certeza disso. Mas não o amo.

- Suponho que o facto de ser o meu herdeiro não pesa na tua atitude... - volveu ele, olhando-a com intensidade.

- Se não o considerasse o homem mais atencioso que conheço, ofendia-me - retrucou ela, sustentando a mirada sem pestanejar. - Não me preocupa o facto de ele ser rico ou pobre. De resto, o tio providenciou demasiado pelo meu futuro para que me prenda com considerações mercenárias.

John Minute tornou a grunhir e insistiu:

- Estou muito empenhado no que te disse a respeito do Jasper.

- Porquê?

- Conheço-o bem - declarou, após breve hesitação.

- Provou-me numerosas vezes que é um moço decente, merecedor de toda a confiança. Tornou-se-me quase indispensável - prosseguiu com uma risada seca -, coisa que o Frank nunca foi. Não nego que este tem as suas qualidades, mas manifesta entusiasmo por coisas que não me merecem a aprovação. Adora o desporto e a ociosidade.

Fez uma pausa, enquanto May sorria.

- Posso fornecer-te uma pequena informação, e foi por isso que insisti em almoçar contigo. Sou muito rico, como sabes. Ganhei milhões e perdi-os, mas ainda disponho do suficiente para satisfazer os meus herdeiros. Tenciono deixar-te duzentas mil libras.

- Por Deus, tio! - exclamou ela, abismada.

- É menos da quarta parte da minha fortuna apressou-se ele a acrescentar -, mas servirá para que tenhas um certo conforto após a minha morte. - Pousou os cotovelos na mesa e olhou a rapariga com intensidade. - És uma herdeira, porque, faças o que fizeres, nunca mudarei de ideias. Bem sei que não praticarás qualquer acto merecedor da minha desaprovação, mas o facto persiste. Receberás as duzentas mil libras, mesmo que cases com o Frank, embora eu deplorasse essa união.

peço-te apenas uma coisa. Não tomes uma decisão antes do final da próxima quinzena. - E, com um movimento de cabeça, chamou o empregado e pagou a conta.

Não voltou a pronunciar palavra até que ajudou a rapariga a subir para um táxi.

- Passo a próxima semana na cidade - disse ele.

Acompanhou o veículo com a vista ao longo do tráfego na Strand e em seguida meteu-se noutro táxi, para se dirigir ao endereço que o comissário lhe fornecera.

 

       O Homem Que Sabia

Blackwell Street, na City de Londres, continha um edifício palaciano onde outrora funcionara a sede da South American Stock Exchange, que, na sua falência, arrastara cinqüenta mil vítimas para o abismo da ruína. As letras douradas por cima da entrada há muito tinham sido retiradas e substituídas por uma modesta placa oxidada com a simples indicação:

SAUL ARTHUR MANN

A verdadeira natureza das actividades de Mr. Mann era desconhecida da maioria das pessoas. Ele dispunha de um exército de funcionários e da maior colecção de ficheiros metálicos de todas as empresas da City e exigia o cumprimento de um rigoroso horário de trabalho. No entanto, os seus primórdios eram do conhecimento geral.

Fora escriturário de um corretor da Bolsa com marcada paixão para coleccionar recortes de jornais e outras Publicações, sobretudo os que se referiam a situações Políticas, geográficas e meteorológicas dos locais em que as grandes firmas de corretagem de todo o globo efectuavam as suas operações. Conseguira assim organizar gradualmente um serviço de correspondência à escala mundial.

Se lhe chegavam aos ouvidos rumores de problemas laborais numa mina de ouro, os seus corretores indicavam o que pensavam da situação na área em causa depois de «auscultarem» as acções da companhia afectada.

Se os seus agentes de Liverpul começavam de repente a comprar acções de algodão May em grandes quantidades, os iniciados sabiam que Saul Arthur Mann fora acordado da sua modorra por um telegrama que descrevia abalos catastróficos na cintura algodoeira dos Estados Unidos da América. Quando uma praga inesperada flagelava as plantações de chá do Ceilão, um telegrama de seiscentas palavras com a descrição dos hábitos e características do minúsculo insecto causador do desastre chegava às mãos de Saul Arthur Mann às duas horas da tarde e, às três, o preço do chá sofria uma subida em flecha.

Quando, noutra ocasião, o Senor Almarez, presidente de Cacura, atirou um copo de vinho ao rosto do cunhado, capitão Vassalaro, Saul Arthur Mann acorreu ao mercado e fez baixar o preço de todas as acções de Cacura, que era elevado em resultado de colheitas excelentes e um governo estável. «Aguentou-o», porque sabia que Vassalaro não tinha a mínima experiência de armas de fogo e o duelo inevitável privaria o país do seu melhor presidente nos últimos vinte anos e ficaria o caminho aberto para a eleição de Sebastian Romelez, o qual tinha a apoiá-lo um grupo de financeiros alemães que desejavam explorar o território no seu peculiar estilo tradicional.

É natural que reunisse uma fortuna considerável e não subsistiam dúvidas de que tornou o âmbito dos seus inquéritos extensivos a muitos outros campos, até que ganhar dinheiro através do seu curioso departamento de informação se converteu num objectivo secundário.

Possuía uma memória maravilhosa, robustecida pelo seu sistema de arquivamento. Era capaz de trabalhar pacientemente ao longo de meses e despender quantias elevadas e desproporcionadas ao valor da informação em causa, para descobrir, por exemplo, a razão pela qual o administrador de determinado distrito de um lugar isolado da índia fora obrigado a recolher à Inglaterra antes de terminado o prazo da sua comissão.

A sua sede de factos era insaciável; os seus conhecimentos da política de todos os países do mundo e a informação extraordinária acerca da personalidade daqueles que os dirigiam constituíam a base sobre a qual ele construía teorias de rigor surpreendente.

Era um homem de gostos simples, que vivia numa velha casa em Streatham e cujo trabalho, passatempo e a própria vida se concentravam no seu gabinete. Colaborara com a Polícia vezes sem conta e ficara tão fascinado com o êxito daquela faceta das suas investigações que iniciara um novo registo de eventos criminais particularmente útil para as autoridades e responsável pela emulação com a Scotland Yard.

John Minute desceu do táxi e contemplou a imponente fachada com curiosidade. Em seguida, transpôs a entrada, entregou o bilhete de visita ao empregado que acudiu e sentou-se na bem decorada sala de espera. Transcorridos cinco minutos, era conduzido à presença do Homem Que Sabia. Mr. Mann, um indivíduo de aspecto cômico, sentado atrás de uma larga secretária, levantou-se quase de um salto e atravessou metade do espaçoso gabinete ao encontro do visitante, ao qual sorriu por detrás dos óculos enormes e indicou uma confortável poltrona.

- Foi o comissário que o enviou, hem? - articulou, aPontando um dedo acusador ao recém-chegado. - Calculo que sim, porque telefonou esta manhã para se elucidar acerca de três pessoas que o têm importunado ultimamente. Ora bem, Mister Minute, em que lhe posso ser útil?

O interpelado estendeu as pernas à sua frente e enfiou as mãos nas algibeiras, quase numa atitude de desafio.

- Pode começar por me dizer tudo o que sabe a meu respeito.

Saul Arthur Mann retrocedeu para a secretária e voltou a sentar-se, antes de replicar com desprendimento:

- Não disponho de tempo para mencionar tudo, mas vou revelar-lhe alguns tópicos importantes. - Premiu um botão a um lado da secretária, abriu um dossier volumoso e fez deslizar o indicador ao longo da página.

- Traz-me o processo oito mil oitocentos e setenta e quatro - ordenou ao paquete que acabava de aparecer.

Ante a admiração de John Minute, o rapaz reapareceu com um pequeno livro de encadernação cinzenta, em vez da pasta que esperava.

- Muito bem - volveu Mann, reclinando-se confortavelmente na cadeira rotativa. - vou ler-lhe algumas passagens. - Fez uma pausa para pegar no livro. - Não há aqui um único nome. Só eu sei quem é o oito mil oitocentos e setenta e quatro - esclareceu, pousando a mão no dossier quase com ternura. - A identidade encontra-se aqui e, quando abandono o gabinete, os elementos ficam encerrados atrás de uma chapa de aço com cinco centímetros de espessura. No dia da minha morte, serão incinerados comigo.

Abriu o livro e principiou a ler sem interrupção durante um quarto de hora em inflexão monótona, enquanto John Minute, empertigado na poltrona, escutava com atenção e perplexidade crescentes. Conservou-se silencioso até ao fim, para em seguida proferir com aspereza:

- Muitos dos seus factos são falsos, outros não passam de mexericos vulgares e os restantes constituem o produto de uma imaginação fértil.

No entanto, Saul Arthur Mann fechou o livro e meneou a cabeça.

- Tudo o que se encontra aqui corresponde à verdade, embora talvez não seja a que lhe agradaria ouvir. Se eu pensasse que havia um único facto menos exacto, a minha raison d'être perder-se-ia. - Pousou a mão no pequeno volume. - Isto é a verdade, toda a verdade e nada senão a verdade, Mister Minute.

- Bem, admitamo-lo. Que preço pediria por esse registo e os documentos que possa possuir para provarem a autenticidade?

Tornou a reclinar-se na cadeira e uniu as mãos numa atitude meditativa.

- Quanto lhe parece que valem?

- Você é que sabe - retrucou o milionário, com um esgar de sarcasmo.

Saul Arthur Mann inclinou a cabeça.

- Ao preço actual do material do gênero, eu diria um milhão duzentas mil e setecentas libras.

- Não anda muito longe da realidade - concedeu John Minute, com certa relutância.

- Bem - prosseguiu o homenzinho -, se multiplicasse essa quantia por cinquenta e trouxesse todo esse dinheiro ao meu gabinete, para o depositar em cima desta secretária em notas de dez mil libras, nem assim conseguiria comprar o livro e os documentos em que se baseia.

- Levantou-se numa atitude inequívoca. - Não lhe quero fazer perder mais tempo, Mister Minute.

- Não se preocupe com o meu tempo. Antes de me retirar, desejo saber o que tenciona fazer com o seu material.

- O que tenciono fazer? - Saul Arthur Mann estendeu as mãos para os lados num gesto depreciativo.

- Creio que já o elucidei a esse respeito. Como referi, os elementos são apenas do meu conhecimento.

- Como sabe que sou John Minute?

- A sua ficha contém vinte e sete fotografias suas 7 informou o investigador calmamente. - Como decerto não ignora, é uma personagem proeminente: um dos duzentos e quatro homens verdadeiramente ricos da Inglaterra. Não há o perigo de o confundir com outra pessoa, além de que a sua história reveste-se de tanto interesse que me elucidei naturalmente muito mais sobre a sua pessoa e actividades do que se tivesse levado a existência plácida e sensaborona de um vulgar homem de negócios da City.

- Diga-me uma coisa, antes de eu sair. Onde se encontra a pessoa a que se refere por X?

Sorriu e inclinou a cabeça quase imperceptivelmente.

- Trata-se de uma pergunta que não tem o direito de fazer. É uma informação somente disponível para a Polícia ou qualquer pessoa autorizada que pretenda entrar em contacto com X. Devo acrescentar que lhe poderia dizer muito mais se isso não envolvesse pessoas das minhas relações.

John Minute retirou-se, parecendo um pouco mais velho e pálido do que quando entrara. Seguiu para o seu clube com uma idéia fixa em mente, a qual girava em torno da identidade e paradeiro da pessoa mencionada no livro por um simples X.

 

       Entra em cena Mr. Rex Holland

Mr. Rex Holland apeou-se do seu novo carro e, retrocedendo um passo, contemplou-o sem entusiasmo.

- Acho que serve, Feltham - acabou por decidir. O motorista levou dois dedos à pala do boné e, sorrindo, observou:

- Cobriu o percurso em trinta e oito minutos. Nada mau para uma tirada de trinta e cinco quilômetros, metade dos quais através de Londres.

- Sim, nada mau - concordou o outro, enquanto descalçava as luvas com lentidão.

56 - :--"

O veículo foi conduzido até à entrada da residência de Verão, que um dispêndio de dinheiro liberal convertera em pouco menos que um palácio.

Rex Holland parecia relutante em entrar, e o motorista, decidindo que devia dizer alguma coisa, aventurou a opinião de que, pelas oitocentas libras que custara, o carro tinha obrigação de se comportar satisfatoriamente.

- Tudo o que é bom custa dinheiro - sentenciou o patrão. - Corrige-me se estiver errado, mas não te vi acenar ao condutor de outro carro, quando atravessávamos Putney?

- É verdade.

- Quando te contratei - prosseguiu em voz átona -, disseste que acabavas de chegar da Austrália e não conhecias ninguém em Inglaterra. Se a memória não me atraiçoa, o anúncio que mandei publicar no jornal indicava claramente a exigência dessa condição.

- Sem dúvida, e fiquei tão surpreendido como o senhor. Tratava-se de um companheiro na viagem para aqui, e é curioso que arranjasse um emprego da mesma natureza do meu.

- Espero que o patrão não seja tão excêntrico como eu e lhe pague ao meu nível.

com estas palavras, abriu a porta e entrou na residência.

Por seu turno, Feltham levou o carro para a garagem nas traseiras e, uma vez a coberto de observação, acendeu o cachimbo e, sentando-se num caixote, puxou da algibeira de um pequeno rectângulo de cartolina, que leu atentamente.

«Um: exercer as funções de motorista e mordomo. Dois: receber dez libras por semana e o dinheiro das despesas. Três: não fazer amizades nem conviver demasiado com desconhecidos. Quatro: em nenhuma circunstância trocar impressões sobre o meu patrão, seus hábitos e negócios. Cinco: em nenhuma circunstância freqüentar a cidade para além de uma linha imaginária entre Marble Arch e a Estação de Victoria. Seis: não reconhecer o patrão se o vir na rua em companhia de qualquer outra pessoa.» Dobrou o rectângulo e passou os dedos pelo queixo pensativamente - excentricidades.

Era um termo apropriado de várias sílabas, e o seu emprego agradou ao confuso australiano. Por fim, lavou o rosto e as mãos e dirigiu-se para a cozinha, disposto a tratar do jantar para o patrão.

A residência de Rex Holland podia considerar-se notável. Achava-se cheia dos dispositivos para tornar as tarefas domésticas menos complicadas e trabalhosas que o engenho humano podia conceber. O mobiliário, apesar de luxuoso, não se caracterizava pela quantidade. Havia aspiradores em todas as dependências, e bastava aplicar-lhes a peça adequada e accionar um interruptor para as limpar em poucos minutos. Da cozinha, nas traseiras, até à sala de jantar estendiam-se duas correias do sistema sem-fim, comandadas electricamente, que transportavam para a mesa as frugais refeições confeccionadas pelo motorista.

Naquele dia, os restos da refeição foram recolhidos, Feltham retirou-se para as suas instalações - um pequeno anexo de uma única assoalhada - e Holland ligou o filtro de café em cima do aparador.

Em seguida, sentou-se para ler e pousou os pés num escabelo. A leitura só foi interrompida o tempo necessário e suficiente para encher uma chávena e desligar a corrente.

Continuou sentado até que o pequeno relógio de prata na prateleira da lareira deu a meia-noite, altura em que colocou uma marca entre as folhas do livro, fechou-o e levantou-se com movimentos indolentes.

Fez deslizar um painel na parede, para revelar a porta de aço de um cofre, que abriu com a chave que escolheu de um molho, a fim de pegar numa caixa de madeira de cedro, também fechada à chave. Depois, levantou a tampa e retirou, um a um, três livros de cheques e um par de luvas de um material transparente, obviamente para evitar impressões digitais.

Calçou-as cuidadosamente e abotoou-as, após o que arrancou três cheques, um de cada livro, que tratou de preencher. Escrevia com lentidão, quase laboriosamente, e sem recorrer a qualquer cópia. Há poucos falsários nos registos criminais que consigam reproduzir a assinatura de outra pessoa sem a presença da original. No entanto, Rex Holland constituía uma excepção nesse particular, porquanto, desde a data ao nome, aqueles cheques dir-se-ia provirem das mãos de John Minute.

Viam-se os mesmos fantásticos ee, os mesmos yy alongados, e o próprio John Minute não duvidaria de ter inscrito as oitocentas e cinquentas libras que figuravam num deles.

Por último, Rex Holland contemplou a sua obra sem emoção.

Aguardou que a tinta secasse, antes de dobrar os cheques e fazê-los desaparecer na algibeira. Era a maneira de proceder de John Minute, que nunca usava mata-borrão, por alguma razão que decerto se achava relacionada com qualquer evento do seu passado. Guardados na algibeira, ele descalçou as luvas, colocou-as, juntamente com os livros de cheques, na caixa e esta no cofre, fechou a porta de aço, restituiu o painel da parede à posição primitiva e foi-se deitar.

Na manhã seguinte, mandou chamar o motorista-rnordomo.

- Leva o carro para a cidade, porque regresso de comboio. Espera-me na estação do metro de Holland Park às duas da tarde, para efectuarmos um pequeno trabalho, que te renderá quinhentas libras.

- Mas trabalhar faz parte das minhas obrigações! exclamou o abismado Feltham quando se recompôs.

Às vezes, Frank acompanhava May ao East End e, no dia em que Rex Holland regressou a Londres, foi buscá-la ao seu apartamento, a fim de a conduzir a Canning Town.

- Entra para tomares chá - convidou ela.

- Estás muito bem instalada - reconheceu ele, olhando em volta com aprovação. - Não me atrevo a comparar este palácio com a minha cabana em Bayswater.

- Não conheço a tua cabana em Bayswater - retrucou ela, rindo -, mas só Deus sabe porque escolheste esse bairro para morar.

- Sabes a quanto monta o rendimento do herdeiro dos milhões de John Minute? - perguntou Frank, depois de levar a chávena aos lábios. - vou poupar-te o trabalho de moer o cérebro com conjecturas. Resume-se às sete libras semanais que ganho no banco.

- Mas então o tio não?... - comentou May, surpreendida.

- Nem mais um chavo.

- Mas...

- Calculo o que pretendias dizer: «Ele trata-te generosamente.» Quanto a mim, trata-me justamente, e entre a generosidade e a justiça prefiro a primeira. Já agora, vou fazer-te outra confidência. Mister John Minute paga mil libras anuais a Jasper Cole! Curioso, não te parece?

- Pobrezinho. - Inclinou-se para a frente e pousou a mão no braço do rapaz. - Isso não contribui para que simpatizes com o Jasper.

- A propósito: vi o nosso misterioso amigo, esta manhã, quando saía da Estação de Waterloo, mais enigmático que nunca. Que actividades o atrairão ao campo?

Abanou a cabeça e levantou-se.

- Não estou mais elucidada do que tu a respeito dele. - Olhando-o com ar pensativo, continuou: Começo a preocupar-me com vocês, sobretudo porque o tio não parece partilhar da tua opinião acerca do Jasper. Não acho que seja uma posição muito heróica para qualquer dos dois, além de que me coloca numa situação pouco airosa.

- Pouco airosa porquê? - quis saber Frank, enrugando a fronte.

Ela abanou a cabeça com firmeza.

- Gostava de te dizer tudo, mas não seria justo.

- Para quem? - apressou-se ele a inquirir.

- Para ti, para o tio ou para o Jasper.

- Tens um interesse assim tão terno pelo Jasper? murmurou, aproximando-se.

- Não tenho interesse terno por ninguém - asseverou May com uma expressão de candura. - Não faças essa cara de enterro, por favor. Talvez eu seja lenta no meu desenvolvimento, mas não deves esperar que forme já um ponto de vista definido.

- É esse o meu grande e único problema, querida articulou Frank a meia voz. - Maior do que qualquer outra coisa no mundo.

Ela deteve-se com a mão no puxador da porta, hesitante, exibindo uma expressão de perplexidade. Era possível que alguém a considerasse fria e um pouco reservada, mas a verdade consistia em que ainda não fora atingida pelas chamas da paixão, e, apesar dos seus vinte e um anos, tinha algo da colegial saudável, com a impaciência de sentimentos inerente.

- Nunca gostei de me lamentar, mas a vida não me proporcionou o melhor de tudo - acrescentou ele.

- Entrei com o pé esquerdo no caso do tio, que nunca gostou do meu pai nem de ninguém da sua família. Tratava a esposa de uma maneira infame. O meu velhote era daqueles homens descontraídos sempre em apuros, e competia a John Minute acudir-lhe. No entanto, não gosto de falar dele.

- Compreendo - disse May com uma expressão de simpatia.

- O meu pai não era o inútil que o tio John supunha. Pelo contrário, tinha os seus pontos positivos, apesar de viver com desprendimento e beber em excesso. E os problemas em que se envolveu deveram-se precisamente a esse vício.

A rapariga conhecia a história do Dr. Merril, pois John Minute descrevera-lha sucinta mas vividamente. E também estava ao corrente dos problemas responsáveis pela sua derrocada, material e moral.

- Se te puder valer de algum modo, sabes que estou ao teu dispor, Frank.

- Podes valer-me radicalmente casando comigo declarou ele em voz átona.

- Quando? - balbuciou May, surpreendida.

- Já, para a semana, o mais depressa possível. Frank sorriu e, acercando-se, pegou-lhe na mão. - Bem sabes que te amo. Não há nada no mundo que não fizesse por ti, nenhum sacrifício perante o qual hesitasse.

- Tens de me conceder algum tempo para reflectir.

- Não vás ainda, por favor. Gostava que fizesses uma idéia, ainda que pálida, de como necessito de ti. O tio falou-te muito de mim, mas revelou-te que a minha única esperança de independência (independência dos seus milhões e da sua influência) reside em casar antes de completar vinte e quatro anos?

- Frank!

- É verdade. Não posso ser mais explícito, mas ele está ao corrente. Se eu casar dentro dos próximos dez dias, estou-me nas tintas para os seus milhões. Fico independente dos seus legados e protecções.

- Nunca me tinhas falado disso - murmurou ela de olhos arregalados.

- Há umas coisas que nunca te poderei revelar e outras que só poderás saber depois de casarmos. Peço-te apenas que confies em mim.

- Mas supõe... - fez uma pausa, hesitante. - Que acontece, se não casares dentro de dez dias?

Ele encolheu os ombros.

- Serei vassalo de John Minute até ao fim da minha vida - admitiu, com uma ponta de petulância. - Aguardarei com resignação a única libertação possível, proporcionada pela sua morte. Custa-me dizer isto, porque existe algo nele que me agrada profundamente. Detesto pensar assim acerca de quem sempre me tratou com generosidade e gostava de o poder enfrentar sem a menor noção de dependência. Não quero estar a procurar constantemente indícios de decrepitude e acolher com entusiasmo todas as doenças de que sofrer. Reconheço que é reprovável falar assim, mas se estivesses no meu lugar e soubesses tudo o que sei, compreenderias.

A mente dela achava-se em ebulição. O encontro banal desenrolava-se tão tumultuosamente que perdera o domínio da situação. Cruzavam-lhe o espírito dezenas de pensamentos. Afigurava-se-lhe que era um árbitro e devia tomar uma decisão entre dois homens que estimava de igual modo e, de súbito, introduziu-se na sua visão mental a imagem de Jasper Cole, com o rosto pálido de intelectual e olhos negros de expressão grave.

- Tenho de ponderar o assunto. Julgo preferível não me acompanhares à missão.

- Talvez seja melhor - concordou Frank.

Para May, o dia foi de suprema perturbação mental. Qual seria o motivo extraordinário que o impelia a contrair matrimônio antes de completar vinte e quatro anos? Acudiu-lhe ao pensamento a insistência de John Minute em que as suas idéias sobre o casamento fossem proteladas para o final da próxima quinzena. Que razão o teria levado a falar-lhe subitamente no legado? Pela primeira vez na vida, ela começou a encarar o tio com desconfiança.

Para Frank, o dia não decorreu destituído de sensações. A dependência de Piccadilly do London and Western Counties Bank ocupava instalações espaçosas, todavia ele nunca tivera direito a um gabinete privado. A sua ampla secretária encontrava-se a um canto distante do balcão, rodeada em três lados por uma divisória de teca até à altura da cintura e o resto de vidro. Do ponto em que se achava, podia observar o balcão, pormenor indispensável, pois chamavam-no com freqüência para identificar portadores de cheques.

Quando regressou ao trabalho eram quase três horas da tarde, e o gerente, Brandon, emergiu apressadamente dos seus domínios ao fundo da sala e fez-lhe sinal para que se aproximasse.

- Foi um almoço prolongadíssimo - advertiu.

- Lamento, mas encontrei Miss Nuttall, e o tempo voou sem que me apercebesse.

- Procurou Holland o outro dia?

- Não o vi quando me indicou, mas avistámo-nos no dia seguinte.

- Ele é amigo do seu tio?

- Não creio. Porque pergunta?

Brandon pegou em três cheques de cima da secretária e Frank examinou-os. Um era de 850 libras e 6 xelins e provinha do Liverpool Cotton Bank; o segundo, de 41.140 libras, do Banco de Inglaterra; o terceiro era de 7999 libras e 14 xelins. Exibiam todos a assinatura de John Minute, pagáveis a Rex Holland, e estavam cruzados.

Ora, John Minute cultivava o curioso hábito de dividir os pagamentos de modo que abarcasse os três estabelecimentos bancários em que tinha o dinheiro depositado. O cheque de 7999 libras e 14 xelins procedia do London and Western Counties Bank, o que proporcionaria um indício elucidativo ao gerente, mesmo que não conhecesse a excentricidade do milionário.

- As sete mil novecentas e noventa e nove libras e catorze xelins do saldo do seu tio fazem com que restem exactamente cinquenta mil - esclareceu o gerente, meneando a cabeça num gesto de reprovação dos métodos do cliente. - Ele conhece Mister Minute?

- Quem?

- Rex Holland.

Frank enrugou a fronte, enquanto procurava recordar-se.

- Não me lembro de o meu tio o mencionar, embora um dos primeiros cheques que enviou ao banco pertencesse à conta dele... Já sei! Holland abriu conta munido de uma carta de apresentação do meu tio. Pensei na altura que talvez tivessem feito negócios juntos, e, como ele não encoraja a discussão de questões bancárias fora do banco, nunca toquei no assunto

- Devo confessar que não tenho simpatia especial por estes depositantes misteriosos. Como é ele?

- Alto, novo, trajado com elegância.

- De rosto escanhoado?

- Não, usa barba pontiaguda, embora não aparente mais de vinte e oito anos. Na verdade, a primeira vez que o vi, a cara pareceu-me familiar. Creio que trazia um monóculo com aro de ouro. Mas nunca nos cruzámos na rua e não freqüentámos os mesmos círculos.

- É natural que não haja novidade - admitiu Brandon com uma expressão de dúvida. - Em todo o caso, falarei com ele amanhã. Como medida de precaução, podíamos contactar com o seu tio, embora seja capaz de pintar o diabo se o incomodarmos por causa da sua conta.

- Pinta de certeza, se tentar falar-lhe hoje, pois parte para Paris às duas e vinte da tarde.

Faltavam cinco minutos para o encerramento do banco, quando um mensageiro transpôs a porta de vaivém e pousou uma carta no balcão, a qual foi levada a Brandon, que surgiu na sala quase imediatamente e se aproximou da secretária de Frank.

- Veja isto.

O rapaz pegou na carta, que era dirigida ao gerente, e leu:

«Prezado Senhor:

Parto esta noite para Paris, a fim de me reunir ao meu sócio, Mister Minute. Ficar-lhe-ia, por conseguinte, extremamente grato se providenciasse para descontar o cheque junto.

Atentamente,

REX A. HOLLAND»

O «cheque junto» era de 55 000 libras, menos 5000 do que o saldo existente na conta de Holland. Havia, porém, um PS:

«Queira aceitar este recibo correspondente à quantia e entregá-lo ao meu mensageiro, sargento George Graylin, do Corpo de Aposentados, documento que servirá para indemnizar o banco na eventualidade de um extravio.»

Em seguida, Brandon dirigiu-se ao balcão e perguntou:

- Quem lhe entregou a carta?

- Mister Holland - informou o homem.

- Onde está ele? - interpôs Frank. O interpelado meneou a cabeça.

- No seu apartamento. Segundo as instruções que recebi, devia trazer a carta ao banco e levar-lhe o dinheiro.

O gerente encontrava-se perante um dilema. No fundo, tratava-se de uma transacção regular e não se podia considerar de modo algum invulgar pagar dinheiro daquela forma. Contudo, a avultada soma envolvida obrigava-o a hesitar. Por fim, desapareceu no seu gabinete, regressando depois com dois maços de notas que retirara do cofre. Contou-as, colocou-as num sobrescrito, que fechou, e recebeu o recibo do sargento.

Quando este se retirou, Brandon limpou a transpiração da fronte.

- Safa! Gosto pouco desta maneira de trabalhar, e cada vez anseio mais por que me transfiram para a sede.

Acabava de proferir estas palavras, quando uma campainha retiniu com intensidade. A porta do banco fora fechada após a saída do mensageiro, e um dos escriturários pousou a caneta e, a um sinal do gerente, foi abrir para admitir... John Minute.

Frank olhou-o com incredulidade.

- Olá, tio. Foi pena não ter chegado uns minutos antes. Julgava-o em Paris.

- O telegrama que me chamava à França era falso grunhiu o recém-chegado. - Telegrafei para obter confirmação e inteirei-me de que os meus associados de Paris não tinham enviado qualquer mensagem. Recebi a comunicação pouco antes da partida do comboio e passei a tarde a tentar desfazer o engano. Mas porque querias que tivesse chegado mais cedo?

- Porque acabamos de pagar cinquenta e cinco mil libras ao seu amigo Rex Holland.

- Meu amigo? - John Minute olhou alternadamente os dois homens, como se tentasse determinar se estavam loucos. - Que história é essa de «meu amigo»? - insistiu. - Oiço o nome pela primeira vez.

- Não lhe entregou cheques num total de cinqüenta e cinco mil libras, esta manhã? - balbuciou o gerente, empalidecendo.

- Decerto que não! - rugiu o milionário. - Por que carga de água havia de o fazer? Repito que não conheço o homem.

Brandon pousou as mãos no balcão para manter o equilíbrio e, depois de explicar a situação em frases entrecortadas, conduziu John Minute ao seu gabinete, seguidos de Frank.

- É a minha letra - admitiu John Minute, após examinar os cheques. - Mas garanto que não os preenchi nem assinei. Por acaso, reparou no número do mensageiro?

- De facto, anotei-o - assentiu Frank. Entretanto, Brandon pegara no telefone e entrava em

contacto com a Polícia. O mensageiro foi localizado às sete horas da tarde. Declarou que fora chamado por um certo Mr. Holland, que descreveu como sendo um homem de aspecto insignificante e rosto escanhoado, o que de modo algum correspondia aos sinais referidos por Frank.

- Vivi muito tempo na Austrália - acrescentou o sargento - e posso afirmar que se exprimia como um australiano. com efeito, quando mencionei alguns lugares em que tinha estado, ele declarou conhecê-los bem.

A Polícia descobriu que o apartamento de Knigtsbridge fora alugado mobilado, três meses antes, por Rex Holland, tendo-se as negociações desenrolado por correspondência. O agente do inquilino assumira a responsabilidade do aluguer, e o homem foi localizado com facilidade na pessoa de um funcionário de uma agência predial, que também recebera a incumbência pelo correio.

Quando inspeccionou o apartamento, a Polícia encontrou apenas uma coisa susceptível de a auxiliar nas investigações. O porteiro informou que a casa se achava na maior parte do tempo desocupada e Holland só aparecia esporadicamente, na sua ausência, facto de que se inteirara através de conversas ouvidas a outros locatários.

- Tudo parece indicar que foste a única pessoa que viu o homem, Frank - comentou John Minute com uma expressão sombria. Vendo o sobrinho estremecer, apressou-se a esclarecer: - Não estou a sugerir que participaste no roubo. Palpita-me que o homem que viste não era Holland e foi obra de um bando, mas hei-de descobrir a verdadeira identidade do fulano, ainda que tenha de gastar o dobro do que me extorquiram.

As autoridades não se mostraram animadoras. O inspector-detective Nash, da Scotland Yard, que investigara e deslindara os casos mais importantes de burlas a bancos, não deixava transparecer esperanças de o dinheiro ser recuperado.

- Teoricamente, é possível reaver as notas, se se conhecem os números, mas na prática torna-se quase impensável voltar a ver-lhes a cor, porque há a maior facilidade em trocar as unitárias por outras de quinhentas libras, e não nos surpreenderia que aparecessem a circular dentro de uma ou duas semanas.

As conjecturas revelaram-se acertadas, porquanto, três dias mais tarde, três das notas entregues pelo banco ao mensageiro do mítico Holland efectuavam uma curiosa aparição.

John Minute tinha o hábito de equilibrar as suas contas nos vários bancos através de pagamentos a dinheiro. Adquirira a prática de exigir os seus dividendos pagos em metal sonante, que seguiam para a dependência de Piccadilly do London and Western Counties Bank. Na sequência do pagamento de uma quantia elevada por conta de determinados dividendos resultantes de investimentos sul-africanos, foram descobertas três das notas procuradas no próprio banco.

O milionário, advertido do facto por telegrama, não se pronunciou. O dinheiro fora pago pelo seu secretário particular, Jasper Cole, e havia uma razão excelente para que não desejasse ventilar o facto.

 

       A visita do sargento Smith

A espaçosa biblioteca de Weald Lodge estava brilhantemente iluminada e ninguém se preocupara em baixar os estores. Por conseguinte, quem se desse ao trabalho de saltar o baixo muro de alvenaria que se estendia paralelamente à estrada e abrisse caminho por entre os arbustos húmidos podia observar o que se passava dentro.

Weald Lodge situava-se entre Eastbourne e Wilmington e, nos meses de Inverno, os curiosos, representados Por jovens excursionistas, eram raros e largamente intervalados. O guarda Wiseman, da Polícia de Eastbourne, não se podia considerar um homem curioso. Efectuava a ronda de serviço habitual e limitou-se a notar, ao passar no local, que a luz se projectava no relvado junto da casa.

Eram nove horas de uma tarde de Junho e, oficialmente, devia decorrer o período do longo crepúsculo nórdico, mas as nuvens baixas e espessas haviam de tal modo obscurecido a atmosfera que anoitecera prematuramente, mergulhando na penumbra as bonitas aldeias e prados verdejantes.

Wiseman prosseguiu até o final da sua área de patrulha e cruzou-se com o seu impaciente superior.

- Não há novidade, sargento - comunicou. - Apenas o velho Minute tem todas as luzes acesas e as janelas abertas.

- É melhor ir preveni-lo. - Smith preparou-se para montar a bicicleta, mas, já com o pé no pedal, hesitou. - Eu fazia-o se não receasse que ficasse pouco contente de me ver. - Esboçou um sorriso e acrescentou: - Há qualquer coisa de estranho no homem, hem?

- De certeza absoluta - concordou Wiseman calorosamente.

A ronda costumava ser monótona e solitária e ele sentia-se profundamente aborrecido. Assim, se, de comum acordo com o superior, conseguisse induzi-lo a trocar algumas palavras durante nem que fosse um quarto de hora, o tempo escoar-se-ia mais rapidamente. Por outro lado, a circunstância de o sargento se revelar comunicativo deixava transparecer que estivera a beber e encontrava-se, pois, predisposto para discutir com qualquer pessoa.

- Vamos para ali - indicou Smith, e impeliu a máquina para a protecção de um muro. Era possível que se achasse ansioso por expor ao subordinado um ponto de vista que um dia lhe poderia ser útil. - Minute é um velho perigoso - afirmou a meia voz.

- A quem o diz! - volveu o guarda, recordando numerosas «queixas» e diligências.

- Convém não se esquecer disso, e, ao chamar-lhe perigoso, quero dizer que é daqueles que convidam um polícia para tomar um copo e depois participam dele.

- Santo Deus! - bradou, chocado, ante a revelação da mais traiçoeira das denúncias.

- Sim, é desses - asseverou o sargento, inclinando a cabeça com uma expressão solene. - Conheci-o, há uns anos... ou melhor, vi-o. Encontrava-me em Matabeleland com ele, e pode crer que não existe uma proeza suficientemente hedionda para o homem... diabos o levem!

- Aposto que passou um mau bocado, sargento sugeriu Wiseman.

- Se passei... - confirmou o outro com uma risada de amargura.

A presença de Smith em Eastbourne era de data relativamente recente. Havia apenas quatro anos que chegara à cidade e, segundo rumores insistentes, devia a promoção a influências, embora ninguém conseguisse definir concretamente a natureza destas últimas. Não faltava quem aventasse a possibilidade de o próprio John Minute ser o responsável das divisas de Smith. Todavia, a teoria era refutada com veemência pelas pessoas que sabiam que o sargento tinha pouco ou nada de bom para dizer acerca do seu suposto protector.

O guarda, pensador profundo e leitor secreto de romances policiais de sensação, apresentara outrora um relatório contra o milionário em virtude de qualquer transgressão de natureza técnica, e fizera-o com receio de que o sargento se apressasse a esmagar a tentativa para autuar John Minute, mas verificara com admiração que Smith lhe encorajara os esforços e ajudara-o a garantir a condenação, que envolvia a multa de vinte xelins.

- Vá completar a sua ronda, guarda - ordenou o sargento repentinamente -, enquanto passo pela residência do nosso indesejável amigo, para averiguar se há alguma novidade.

Subiu para a bicicleta, trepou à colina, desmontou diante de Weald Lodge e apoiou a máquina ao muro. Contemplou as janelas durante alguns instantes, até que saltou o pequeno obstáculo e atravessou o relvado com lentidão, evitando o caminho de pedras soltas que lhe denunciaria a presença. Por fim, alcançou um ponto defronte de uma porta envidraçada que lhe permitia observar o aposento.

Apesar de a porta estar aberta, a lareira achava-se acesa e, ante a satisfação de Smith, John Minute encontrava-se só, sentado numa confortável poltrona na sua atitude preferida - mãos afundadas nas algibeiras e cabeça inclinada para o peito. No entanto, apercebeu-se dos passos do recém-chegado e levantou-se no momento em que o vulto encharcado pela chuva se acercou da porta.

- Ah, é você? - resmungou. - Que pretende?

- Está só? - perguntou o sargento, como se se dirigisse a uma pessoa do seu nível.

- Entre!

A biblioteca fora decorada pela Companhia de Mobiliário Artístico de Eastbourne, que possuía filiais em Hastings, Bexhill, Brighton e (havia quem o garantisse) Londres. Os móveis eram de carvalho escuro esculpido e a estante cobria uma das paredes. Tratava-se da «biblioteca» e estava cheia de volumes ricamente encadernados, fornecidos por um importante livreiro londrino, que incluíam (por sugestão do próprio Minute) Os Cem Melhores Livros, Livros Que Me Auxiliaram, a Enciclopédia Britânica e as encadernações de determinado semanário, cujo nome não vem para o caso. Na realidade, o mobiliário não sentia qualquer inclinação para a literatura.

O sargento hesitou, limpou as pesadas botas enlameadas no capacho junto da porta envidraçada e entrou.

- Está muito confortável, John.

- Que pretende? - repetiu Minute, sem a menor cordialidade.

- Lembrei-me de o visitar. O meu funcionário informou-me de que tinha as janelas abertas e o dever impeliu-me a vir preveni-lo da imprudência de semelhante situação. Anda por aí muito ladrão, John.

- Sim, e eu conheço um - retrucou, olhando xa mante. - O seu funcionário, como lhe chama, eve ser o cabeça de burro do Wiseman.

- Não costumo incomodá-lo, John - volveu Smith, tirando o gorro do impermeável -, mas acudiu-me a sen" sação de que gostaria de o ver esta noite. O meu funcionário fez-me reviver factos antigos.

- Desagradáveis para si, espero.

- Há uma pequena herdade de ouro, seiscentos quilómetros a norte de Gwelo - proferiu, com uma expressão meditativa.

- E um pequeno quebra-mar um quilómetro a sul da Cidade do Cabo - retrucou John Minute - onde o Governo mantém de conserva os marginais que assaltam a diligência de Salisbúria e se apoderam da mala do correio.

- Aceito o seu comentário cáustico - tornou Smith com um leve sorriso -, mas devo recordar-lhe Que há muito espaço vago no quebra-mar. Até instalar as pessoas que se apoderam de propriedades e assassinam nativos.

- Que pretende? - inquiriu, mais uma vez, o milionário.

- Apenas fazer-lhe uma visitinha cordial - Havia doze meses que não o procurava. A vida é dura, sobretudo esta actividade policial, mesmo quando se recebem duas ou três libras semanais de origem particular Para juntar ao modesto salário. Não se compara ao trabalho Que tínhamos na Polícia Montada de Matabele, hem? No entanto, cada vez que me lembro de quando, no gabinete do procurador público em Salisbúria, jurei solenemente que o velho John Gedding tinha transferido as suas concessões de terrenos auríferos para si, John, no seu leito de morte, e do meu descarado perjúrio (isto da parte de um servidor uniformizado da Companhia Sul-Africana Britânica e, por assim dizer, um agente da lei), coro de vergonha.

- Nunca cora quando pensa em como você e os seus comparsas assaltaram a loja do Hoffman, que mataram, para se apoderarem dos seus lucros? Eu dava de boa vontade uma quantia importante para o ver mudar de cor, Crawley. E agora, mais uma vez, que pretende? Se é dinheiro, desiluda-se. Se procura uma nova promoção, não a merece. Se se trata de um conselho...

John Minute interrompeu-se ao ver o interlocutor levantar a mão.

- Não quero arriscar-me a escutar-lhe os conselhos. A única coisa que sei é que me prometeu uma parte razoável das concessões de Saibuch. Agora, tornou-se numa mina lucrativa. Segundo as minhas informações, o seu capital ascende a dois milhões.

- Você foi bem pago - afirmou secamente.

- Quinhentas libras não são uma soma avultada para salvação da sua alma - lembrou o sargento, que voltou a colocar o gorro na cabeça e começou a dirigir-se para a porta. - Preste atenção, John Minute - prosseguiu em tom áspero, próprio do defensor da lei Henry Crawley -, não me satisfarei muito mais tempo com três libras semanais. Ou procede como deve para comigo ou começo a falar.

- Quando principiar a falar, avise, para lhe mandar uma grade de cervejas para mitigar a sede.

- É muito engraçado, mas as suas palavras não me divertem.

De novo sob a chuva, evitou o caminho que conduzia à saída da propriedade e preferiu saltar o muro, não tardando a congratular-se com isso, pois acabava de alcançar o local onde deixara a bicicleta quando um carro avançou em direcção à residência e se imobilizou à entrada. Tornou a transpor o muro num instante e, aproximando-se silenciosamente do veículo, apurou os ouvidos.

Reconheceu duas das vozes. Porém a terceira, de um homem, era-lhe estranha. Ouviu chamarem-lhe inspector e perguntou a si próprio que pretenderia ele dali. No entanto, não veria a curiosidade satisfeita, porque, quando se encontrou no lugar do relvado de onde podia observar a biblioteca, John Minute já fechara a porta e janelas e baixara os estores.

Na realidade, os visitantes eram três: Jasper Cole, May Nuttall e um homem de meia-idade, atarracado, de voz baixa, porém autoritária: o inspector Nash, da Scotland Yard, chefe do departamento de investigações sobre falsificações e burlas.

Jasper fizera-se acompanhar de May, em obediência às instruções telegrafadas que o milionário lhe enviara.

- Que há de novo? - perguntou este último.

- Creio que localizei Rex Holland - anunciou o inspector.

Extraiu um sobrescrito volumoso de uma algibeira interior, abriu-o e puxou de uma fotografia que representava um automóvel alongado e, junto do capot, um homem baixo, com uniforme de motorista.

- Este é o fulano que se intitulou Rex Holland e incumbiu o mensageiro de ir levantar o dinheiro. A foto veio parar-me às mãos acidentalmente. Foi descoberta no apartamento e tudo indica que caiu do bolso dele. Procedi a diligências e apurei que foi tirada por um fotógrafo de Putney e o homem foi buscá-la por volta das dez da manhã do dia em que recorreu ao mensageiro. Provavelmente esteve a examinar as várias cópias no apartamento e caiu-lhe uma do bolso. De qualquer modo, o mensageiro não tem a menor dúvida de que foi ele.

- Sugere que é Rex Holland?

- De modo algum. Penso que se trata de um mero elemento do bando. Não acredito que venhamos a descobrir Rex Holland, porque várias pessoas assumiram essa identidade em diferentes ocasiões, consoante as circunstâncias em que se encontravam. A única coisa que consegui averiguar a respeito do que figura na fotografia é que se chama Feltham, um australiano. Pelo menos, deu esse nome ao fotógrafo. Apurámos ainda que o viram diversas vezes na estrada de Portsmouth ao volante de um de dois carros em que seguia um homem, que é sem dúvida a maior aproximação de Rex Holland que jamais obteremos. A Polícia de Haslemere revelou aos meus agentes que crê que o carro em causa pertencia a um indivíduo residente numa vivenda dos arrabaldes, na qual foram introduzidos certos requintes que decerto importaram numa quantia avultada. Amanhã, espero poder fornecer informações mais pormenorizadas.

Passaram o resto do serão a trocar impressões sobre os últimos acontecimentos, enquanto May escutava em silêncio, e só mais tarde John Minute conseguiu dar-lhe atenção.

- Pedi-te que viesses, porque começo a preocupar-me contigo.

- Comigo, tio? - balbuciou a rapariga admirada.

- Sim. - Os outros dois homens tinham-se dirigido ao estúdio de Jasper e o milionário encontrava-se só com a rapariga. - Quando almocei contigo no Savoy, o outro dia, abordei o assunto do teu casamento e recomendei-te que protelasses a decisão para daqui a uma quinzena.

- Fez uma pausa, enquanto ela assentia com uma inclinação de cabeça. - Não me limitei a obedecer a um capricho.

- Tencionava procurá-lo por causa disso mesmo. Não me pode revelar porque quer que adie o casamento por duas semanas e pensa que prentendo casar já?

Ele não respondeu imediatamente, passeando pela sala em cadenciado vaivém. Por fim, declarou:

- Tomaste conhecimento de muitas coisas a meu respeito que não se podem considerar lisonjeiras. Tive uma vida duríssima na África do Sul e só contava com um amigo merecedor de confiança: o teu pai, que se conservou a meu lado nos momentos difíceis. Nunca me pediu dinheiro quando eu navegava na abundância nem mo negou nas fases de carência. Quando me ajudava contentava-se com a recompensa que eu lhe oferecia. com Bill Nuttall, não havia a tradicional «repartição equitativa». Era um homem sem ambições nem avareza, o mais leal que conheci. Há um pormenor acerca dele que nunca te revelei. Fomos sócios numa mina: a Gwelo Deeps. O teu pai tinha uma fé enorme nela e eu nenhuma, pois sabia que era uma daquelas propriedades da Rodésia que proporcionam lucros escassos. Não obstante, fundámos uma companhia. - Calou-se por um momento e exibiu um sorriso reminiscente. - As acções de uma libra valiam menos de seis pence, até há uma semana.

Fitou May com intensidade, como se estivesse interessado em ler-lhe o pensamento.

- Há quinze dias, inteirei-me através do meu agente em Bulawayo de que tinha sido descoberto um filão numa mina contígua, o qual se prolonga pela nossa propriedade. Se isso corresponder à verdade, serás uma mulher rica, independentemente do dinheiro que eu te deixar. Só terei a certeza depois de receber notícias dos engenheiros que estão neste momento a examinar a propriedade, o que acontecerá dentro de uma quinzena. - Pousou a mão no braço da rapariga. - Mereces-me a maior estima e providenciei pelo teu futuro como se fosses minha filha. Alegra-me saber que desfrutarás de uma fortuna considerável, porque as acções do teu pai são os únicos bens que herdaste dele. Há, porém, um pormenor curioso acerca disso que não consigo compreender.

Aproximou-se da secretária, abriu uma gaveta que se encontrava fechada à chave e extraiu uma carta.

- O meu agente diz que me informou da existência do filão há dois anos e estranha que eu nunca o autorizasse a explorá-lo. Ora, não me recordo de ter recebido qualquer comunicação do género. Ficaste, pois, inteirada da situação - acrescentou, voltando a guardar a carta e fechando a gaveta com um som seco.

- Quer que aguarde um melhor partido - aventurou May.

John Minute aquiesceu com uma inclinação de cabeça.

- Gostava que não casasses nos quinze dias mais próximos.

Naquela noite, ela foi-se deitar cheia de dúvidas e pouco satisfeita com o que ocorria. Seria verídica a história que o tio lhe contara acerca do pai? Tê-la-ia inventado apenas para contrariar os projectos de Frank? Pensou no rapaz e no seu pedido quase solene. Não podia subsistir a menor dúvida quanto à sua sinceridade. Se, ao menos, confiasse nela... No entanto, reconhecia intimamente, não sem certa surpresa, que preferia não ser repositório das confidências dele. Achava-se empenhada em o ajudar, mas não era a faceta romântica da situação que a atraía. Havia uma profunda noção do dever, algo do instinto maternal que todas as mulheres possuem, que a estimulava para o sacrifício. Contudo, tratar-se-ia mesmo de um sacrifício?

Analisou o assunto durante grande parte da noite, dando voltas na cama. Não conseguia adormecer e, por fim, levantou-se antes de amanhecer, enfiou o roupão e acercou-se da janela. Parara de chover, o céu apresentava largas abertas e as nuvens formavam um contraste negro com a palidez da alvorada. Apercebeu-se de súbito de que lhe apetecia comer e, após alguma hesitação, abriu a porta e desceu a escadaria em direcção ao vestíbulo.

Para alcançar a cozinha tinha de passar diante da porta do tio, e notou que se encontrava entreaberta. Admitiu a possibilidade de ele se ter deitado e deixado a luz acesa, e estendia a mão para o puxador para averiguar o que se passava quando ouviu uma voz, recolhendo-a com prontidão. Era a voz de Jasper Cole.

- Examinei os livros com Mackensen, o contabilista, minuciosamente, e parece não restarem dúvidas.

- Pensas que?... - começou John Minute.

- Tenho a certeza absoluta - cortou Jasper, no habitual tom desapaixonado. - A fraude foi perpetrada pelo Frank, que tinha acesso aos livros. Só ele viu Rex Holland e mais ninguém do banco podia falsificar as entradas e, ao mesmo tempo, encobrir o seu rasto.

May experimentou um estremecimento e, por segundos, vacilou, como que na iminência de desmaiar, apoiando-se à ombreira da porta para não cair.

- Vejo-me forçado a partilhar da tua opinião admitiu o milionário pausadamente. - É terrível ter de acreditar que o Frank não passa de um burlão como o pai... Horrível!

- De acordo, mas não podemos ignorar a verdade. De súbito, a rapariga impeliu a porta e imobilizou-se à entrada.

- É falso! - exclamou, indignada. - Trata-se de uma mentira terrível, como você sabe perfeitamente, Jasper!

E, sem mais uma palavra, deu meia volta e afastou-se, depois de fechar a porta ruidosamente atrás dela.

 

       Frank Merril no altar

Frank Merril transpôs a porta de vaivém do London and Western Counties Bank bem-disposto, com um sorriso nos lábios, e seguiu directamente para o gabinete do gerente.

- Precisava que me dispensasse durante uma hora, esta tarde.

Brandon ergueu a cabeça, com uma expressão de cansaço. Passara a noite quase em claro, e a tensão resultante da burla e auditoria subsequente acabrunhava-o profundamente. Assim, assentiu com um movimento de cabeça e Frank afastou-se, cantarolando em surdina.

Tinha todos os motivos para se sentir feliz, pois repousava numa das suas algibeiras a licença especial que, por consideração pessoal, lhe fora concedida e o autorizava a desposar a jovem cujo surpreendente telegrama recebera naquela manhã enquanto tomava o pequeno-almoço. O texto compunha-se apenas de quatro palavras:

«Caso contigo hoje. MAY.»

Não fazia a menor ideia de que circunstâncias extraordinárias a tinham induzido a tomar a súbita e inesperada resolução, mas experimentava de facto uma alegria que se espraiava sem dificuldade nos domínios da euforia.

May chegaria a Londres pouco depois do meio-dia, e Frank tomara as providências necessárias para a ir esperar à estação e levá-la a almoçar. Era natural que então ela explicasse o motivo da sua atitude. Ele contava entre as suas relações o prior de uma igreja suburbana, que acedera a presidir à cerimónia e fornecer as necessárias testemunhas.

Foi, pois, um jovem sorridente que acolheu a rapariga. Todavia, a alegria dissipou-se no instante em que lhe viu a expressão lívida e apreensiva.

- Leva-me a qualquer lado - solicitou ela apressadamente.

- Estás doente? - perguntou Frank com ansiedade. No entanto, May limitou-se a abanar a cabeça.

A sala do Restaurante Pall Mall estava praticamente deserta, pois era muito cedo para os comensais habituais.

- Agora, elucida-me, querida - proferiu ele, pegando-lhe nas mãos por cima da mesa. - A que se deve a maravilhosa decisão?

- Não te posso dizer - articulou a rapariga, ofegante. - Prefiro nem pensar nisso. Só posso adiantar que houve quem se comportasse de forma hedionda para contigo, e envidarei todos os esforços para te compensar de qualquer dissabor.

Mostrava-se particularmente enervada e fatigada, pelo que ele decidiu não insistir, conquanto o que acabava de ouvir o intrigasse.

- Onde pensas ficar?

- No Savoy. Que devo fazer?

O mais sucintamente possível, Frank explicou onde se realizaria a cerimônia e a hora a que devia sair do hotel, para concluir:

- Partiremos no comboio da noite para o continente.

- E o teu emprego?

- Quero lá saber disso! - exclamou com uma risada. - Hoje não tenho cabeça para pensar no trabalho.

Às 14 e 15, aguardava-a na sacristia e entretinha-se a conversar com o prior seu amigo. Efectuara os preparativos para que a cerimônia se realizasse às 14 e 30, e as testemunhas - um sacristão de expressão melancólica e a empregada da limpeza - sentavam-se em bancos do templo deserto, à espera que se apresentasse a oportunidade de ganharem o guinéu que lhes fora prometido.

A conversa não abordava nada de importante, resumindo-se ao banal vaivém de palavras inócuas características dessas ocasiões.

Às 14 e 30, Frank consultou o relógio e transpôs a saída, para esquadrinhar as imediações, mas não havia sinais da rapariga. Quinze minutos mais tarde, dirigiu-se a uma tabacaria próxima e ligou para o Savoy, cujo recepcionista o informou de que a senhora em causa havia uma hora que saíra.

- Deve estar a chegar - comunicou Frank ao sacerdote, que começava a deixar transparecer certa impaciência.

Quando o relógio do campanário fez soar as três badaladas, o prior anunciou:

- Receio não me ser possível casá-los hoje.

- Porquê? - Frank ficou quase lívido. - É natural que Miss Nuttall tenha sido retida pelo trânsito. Tenho a certeza de que não tarda.

Contudo, o outro abanou a cabeça e pendurou a sobrepeliz branca no armário.

- As leis terrenas não permitem que se celebrem casamentos depois das três horas da tarde. Pode voltar amanhã, com a noiva, a partir das oito da manhã.

Bateram à porta e Frank voltou-se com prontidão. Em vez de May, porém, era um boletineiro dos Correios. Ele apressou-se a arrancar da mão do rapaz o telegrama que segurava e abriu-o com ansiedade. A mensagem era simples:

«O casamento não se pode efectuar.»

E não havia qualquer assinatura.

Às 14 e 15 daquele dia, acabava May de atravessar o átrio do hotel, preparando-se para subir para um táxi, quando sentiu uma mão pousar no braço e, ao voltar-se alarmada, deparou-se-lhe Jasper Cole.

- Aonde vai com tanta pressa, May?

- Não tenho satisfações a dar-lhe - replicou ela friamente, desprendendo-se. - Depois da sua acusação ignóbil ao Frank, não quero voltar a dirigir-lhe a palavra.

Ele estremeceu e acabou por sorrir.

- Ao menos seja correcta para com um velho amigo e diga-me aonde vai tão apressada - sugeriu, bem-humorado.

Deveria elucidá-lo? Registou-se um momento de indecisão e, por fim, a revelação: - vou casar com o Frank Merril.

- É o que eu calculava. Nesse caso, acompanho-a à igreja, para fazer uma cena.

Jasper proferiu estas palavras com um sorriso, mas não subsistiam dúvidas quanto à resolução desenhada no queixo quadrangular.

- Que quer dizer? - balbuciou May. - Deixe-se de disparates. Tomei uma decisão inabalável.

- Quero dizer que tenho procuração de Mister Minute para actuar em nome dele, que, como sabe, é o seu tutor legal. Por outras palavras, minha boa menina, não pode casar antes dos vinte e um anos de idade sem o seu consentimento.

- Faço-os para a semana - declarou, com uma expressão de desafio.

- Nesse caso, aguarde oito dias. Suponho que não tem assim tanta pressa...

- Foi você que me forçou a tomar esta resolução, e deixe-me dizer-lhe que considero a sua atitude repugnante. Portanto, vou casar com o Frank hoje mesmo!

- Nesse caso, tenho de a acompanhar e, quando o padre perguntar se existe alguma oposição justa, avançarei exibindo o documento que me concede a procuração. Trata-se de um mandamus, um caveat e outros palavrões horríveis.

- Porque faz isto?

- Porque não quero que case com um homem que é, sem dúvida, um burlão e, possivelmente, um assassino - explicou Jasper Cole, calmamente.

- Não estou disposta a dar-lhe ouvidos! - bradou ela, e subiu para o táxi.

No entanto, ele imitou-a sem hesitar.

- Não pode livrar-se de mim e, de qualquer modo, conheço o seu destino, porque a ouvi indicá-lo ao motorista, antes de a abordar. Por conseguinte, afigura-se-me mais prático não se opor à minha companhia. Sempre senti predilecção especial pelos subúrbios.

- E por Silvers Rents? - inquiriu ela, subitamente.

- Que sabe a esse respeito? - redarguiu Jasper, com uma ligeira perturbação, que se apressou a dominar.

Todavia, May não respondeu, o táxi percorrera mais de metade do caminho quando ela voltou a falar.

- É mesmo a sério que tenciona impedir o casamento?

- Decerto. E de tal modo que chamarei um polícia para que testemunhe a minha intervenção.

- É uma monstruosidade - murmurou, contendo as lágrimas com dificuldade. - O meu tio não...

- Talvez fosse conveniente consultá-lo.

Ao mesmo tempo, algo lhe segredava que ele cumpriria a ameaça. Ela sentia verdadeiro horror pelas cenas em público, além de que temia, sobretudo, a confrontação dos dois homens naquelas circunstâncias. De repente, inclinou-se para a frente, bateu com os dedos na divisória de vidro e o motorista abrandou a velocidade.

- Diga-lhe que volte para trás e pare na estação de telégrafos mais próxima - solicitou a Jasper.

- Se é para enviar um telegrama ao Frank Merril replicou ele com desprendimento -, escusa de estar com esse trabalho. Eu já o fiz.

Frank Merril regressou a Londres assolado por uma fúria compreensível e inteirou-se no Savoy de que May partira com o tio. Consultou o relógio e lembrou-se de que ainda não terminara o seu trabalho no banco, embora sentisse escassa inclinação para uma actividade intelectual.

Não obstante, foi para lá que se dirigiu. Ao entrar, lançou por cima do balcão uma olhadela à secretária e à cadeira que ocupara durante muito tempo e aonde jamais regressaria, pois no momento em que se aproximava foi interceptado pelo gerente.

- O seu tio deseja falar-lhe, Mister Merril - anunciou gravemente.

Frank hesitou, entrou no gabinete e quando fechava a porta atrás dele verificou que Brandon não tentara segui-lo.

John Minute, instalado numa poltrona, olhou-o com intensidade e indicou:

- Senta-te, Frank. Quero fazer-te algumas perguntas.

- E eu ao senhor - retrucou o rapaz calmamente.

- Se se trata da May, não precisas de te preocupar. Se, por outro lado, a tua curiosidade se refere a Rex Holland, posso elucidar-te.

- Não compreendo aonde pretende chegar, embora pressinta intuitos ofensivos por detrás das suas palavras.

- vou ser franco contigo. - O milionário mudou de posição e pousou uma das pernas no braço da poltrona. Fez uma pausa, todavia o rapaz conservou-se silencioso. - Chamaram-me a atenção para determinados factos que não permitem a menor dúvida quanto à verdadeira identidade do suposto Rex Holland. Custa-me dizer isto, porque te estimava, apesar de algumas divergências pontuais. Quero que compareças amanhã em Eastbourne para termos uma conversa a sério.

- Que espera que lhe diga?

- A verdade - articulou com um suspiro. - Embora me custe a crer que o faças.

- Pelo menos o senhor é sincero comigo - observou Frank com um ligeiro sorriso. - Desconheço o que tem em mente, mas pressinto que se trata de algo de desagradável, e algures, por detrás da sua atitude, existe uma acusação contra mim. E o facto de aludir a Rex Holland, ou ao bando que usa esse nome, leva-me a supor que me julga cúmplice desses cavalheiros.

- Julgo-te mais do que isso. Estou convencido de que és Rex Holland. - Vendo o sobrinho soltar uma gargalhada, advertiu: - Não é caso para rir.

- Do seu ponto de vista, talvez não seja, mas do meu contém certos aspectos humorísticos e, infelizmente, fui dotado com o sentido de humor. Mas concordo consigo. Aceito o convite e comparecerei em Weald Lodge amanhã à noite, porque este ambiente não é o mais conveniente para uma discussão como a nossa. Não viajarei consigo, porque suponho que não deseja a companhia de um mestre do crime, capaz de lhe roubar o relógio e a respectiva corrente de ouro a todo o momento.

- Gostaria que encarasses a situação com a gravidade que merece. Quero apurar a verdade e, se ela te ilibar, podes crer que só terei motivos para me sentir satisfeito.

- Acredito. Pode, pois, contar com a minha presença amanhã. Aproveito a oportunidade para lhe pedir o especial favor de não discutir comigo na presença do seu admirável secretário. Tenho a vaga impressão de que ele se encontra por detrás de tudo isto. Não esqueça que deve estar tão elucidado acerca de Rex Holland como eu.

«Houve uma auditoria no banco, e não sou tão estúpido que não compreenda o seu significado. Além disso, registou-se um certo esfriamento na atitude de Brandon para comigo e interceptei olhares de desconfiança da parte dos meus colegas. Por conseguinte, não ficarei surpreendido se o tio me anunciar que os meus livros não estão em ordem. Quero, no entanto, salientar igualmente que o Jasper, com acesso ao banco a qualquer hora do dia ou da noite, os pode ter alterado.

«Apresso-me a acrescentar que não o acuso de nada. Não consigo imaginar uma máquina daquelas a tomar a iniciativa de falsificar cheques e alterar as entradas nos livros sistematicamente. Refiro-me a ele apenas para realçar a injustiça de colocar um homem em situação suspeita, a menos que existam provas fortes e convincentes da sua culpabilidade. Embora considere desnecessário, do meu ponto de vista e, provavelmente, também do seu, declarar a minha inocência, afirmo que sei tanto do assunto como o senhor.

Olhou John Minute com intensidade, e este, apesar da sua experiência dos homens e suspeitas que o assolavam, sentiu uma réstia de remorso. Em todo o caso, esta não se prolongou.

- Espero-te amanhã em Weald Lodge - limitou-se a replicar.

Frank assentiu com uma inclinação de cabeça e abandonou lentamente o gabinete e o banco, seguido de vinte e quatro pares de olhos dominados por expressões de dúvida.

Poucas horas mais tarde, desenrolava-se outra cena curiosa nas proximidades da vila de East Grinstead. Havia um caminho solitário através de uma charneca, denominado, por razões desconhecidas, Ashdown Forest, onde se encontrava um carro estacionado junto de um grupo de árvores. O dono estava sentado numa pequena clareira fora do campo visual de quem passasse, entretido a ingerir o chá que o seu motorista preparara. Quando esvaziou a chávena, este último guardou-a numa cesta e começou a afastar-se.

- Depois volta - indicou o patrão. Aguardou pacientemente que o homem reaparecesse e mandou-o sentar-se na sua frente. - Deve ter-te parecido estranho pedir-te que fizesses aquele recado o outro dia.

- De facto... - aventurou Feltham com um sorriso de embaraço.

- Ficaste satisfeito com o que te dei? - perguntou Rex Holland.

- Muito - aquiesceu o interpelado, cada vez menos à vontade.

- Pareces um pouco distrait, preocupado, com alguma coisa. De que se trata?

- Bem... - interrompeu-se para aclarar a voz. A verdade é que não me agrada.

- Que é que não te agrada? As quinhentas libras que te dei?

- Não é isso. Achei inexplicável o que me ordenou: fingir que era o senhor e enviar um mensageiro ao banco para levantar o seu dinheiro e abandonar Londres a caminho de um buraco insignificante como Bilstead.

- Achas, pois, inexplicável?

- Sim, senhor. Sobretudo depois de ler o jornal.

- Que encontraste nele susceptível de te desagradar? - quis saber Rex Holland.

Puxou da cigarreira de ouro, abriu-a com lentidão e escolheu um cigarro. Preparava-se para a fechar, quando notou a expressão de Feltham e ofereceu-lhe um.

- Obrigado.

- Que foi que não te agradou? - insistiu Holland, acendendo um fósforo, que lhe passou depois de o utilizar.

- Bem, já me vi em numerosas situações difíceis, mas consegui sempre evitar os... embaraços. Não sei se me explico convenientemente.

- Suponho que por embaraços queres dizer actividades desonestas? - sugeriu jovialmente.

- Decerto, senhor, e não me restam dúvidas de que participei numa burla... para não lhe chamar outra coisa. Imagine que li a descrição dos meus sinais no jornal!

Gotas de transpiração começavam a perlar a fronte do motorista, cuja boca exibia uma contracção patética.'

- É uma distinção de que poucas pessoas se podem vangloriar - declarou o patrão com brandura. - Devias sentir-te altamente enaltecido. Que pensas fazer?

O interpelado olhou para a direita e para a esquerda, como se procurasse uma alma caridosa capaz de lhe fornecer um conselho sensato.

- A única coisa possível é entregar-me às autoridades.

- E, de caminho, denunciar-me? - acudiu Rex Holland com uma risada seca. - Nem penses, meu caro Feltham. vou revelar-te um segredo. Há umas semanas, tive ao serviço um prometedor motorista-mordomo parecido contigo, um homem admirável, igualmente estrangeiro, Creio que era sueco. Apresentou-se-me exactamente nas mesmas circunstâncias e recebeu instruções similares às tuas, que, infelizmente, não cumpriu à risca. Surpreendi-o a aliviar-me de uns objectos de valor elevado e, em vez de se mostrar arrependido do deplorável acto, aludiu à única ocorrência que não me interessava que soubesse e, muito menos, divulgasse ao mundo.

«Conhecia a minha verdadeira identidade. Vira-me no East End e conseguira descobri-la. Tentou mesmo avistar-se com alguém susceptível de me prejudicar, se se inteirasse do meu... carácter. Prometi arranjar-lhe outra colocação, mas ele já decidira despedir-se e recortara um anúncio de um jornal. Separamo-nos em termos cordiais, desejei-lhe felicidades e preparou-se para comparecer à entrevista com o potencial futuro patrão, fumando um dos meus cigarros, como fazes neste momento, que decerto deitou fora, como também farás assim que notares um sabor esquisito.

- Não me amedronta com ameaças! - exclamou o motorista, levantando-se de um salto, enquanto Holland o contemplava com curiosidade. - Se se atreve...

Caiu de bruços e ficou imóvel.

O outro aguardou uns momentos antes de lhe revistar as algibeiras e, por fim, dirigiu-se para o carro, pôs o boné e os óculos do motorista e ligou o motor.

 

       Um homicídio

O guarda Wiseman vivia no seio da sua admirável família, num pequeno chalé da estrada de Bexhill. «O meu pai é polícia» constituía a afirmação orgulhosa de dois garotos - Joffre Haig e Loos Somme -, que lhes granjeava um respeito geral apreciável, porquanto o guarda Wiseman merecia a consideração não só do seu próprio círculo, mas também de toda a área em que prestava serviço.

Era, acima de tudo, um polícia de vila, muito diferente de polícia de condado, embora usasse a insígnia e uniforme da unidade de Sussex. Circulava a convicção geral de que um polícia de vila tinha mais de comum com o crime, possuía uma experiência mais vasta e era, por conseguinte, um conselheiro mais útil do que um homem cujos deveres principiavam e terminavam nas rondas pelas azinhagas provincianas e aldeias pacatas, onde nunca aconteciam factos mais excitantes do que uma luta de cães ou a autuação de algum caçador furtivo.

O guarda Wiseman era considerado um homem arguto, ao qual podiam ser apresentados os problemas delicados que intrigavam e confundiam esporadicamente as mentes bucólicas. Ponderara a delicada questão de se um polícia podia ou não penetrar numa casa onde um indivíduo espancava a mulher e decidira que semelhante intrusão só se justificava se a vítima soltasse gritos lancinantes de «Crime!» ou outro vocábulo conducente a conclusões de idêntica natureza.

Juntou ao seu parecer o comentário de que o representante da lei envolvido na ocorrência devia estar de serviço em vez de ser meramente um ornamento da corporação domiciliado por casualidade na área do insólito evento. Como o guarda de serviço só efectuava uma visita à povoação durante cada turno, e isto à hora prosaica da uma da madrugada, é pouco provável que a sua posição tranqüilizasse particularmente as potenciais vítimas de maus tratos, conquanto houvesse quem afirmasse que, a partir de então, alguns não menos potenciais autores dos citados maus tratos passaram a exibir semblantes mais carregados.

O problema da galinha perdida e o ovo por ela posto em propriedade estranha, a questão legal sobre a antecedência com que uma serviçal se devia despedir e o período de validade da comunicação eram assuntos, entre outros de índole similar, que o guarda Wiseman solucionava ante a satisfação daqueles que lhos apresentavamNo entanto, era no seu próprio círculo doméstico que ele brilhava com um esplendor quase ofuscante, que constituía fonte de irritação dos familiares do sexo masculino da parte da esposa, um dos quais caíra, lamentavelmente, nas malhas da lei por causa de um coelho caçado por meio de armadilha e estava predisposto para a anarquia no tocante à abolição do preceito legal.

Numa tarde de Verão, o guarda Wiseman tomava tranquilamente o chá e, em torno da imaculada toalha branca que cobria a mesa, encontravam-se todos aqueles aos quais ele podia chamar legalmente seus. O chá constituía uma função e, para os membros mais jovens da família, significava apenas chá, pão e manteiga. Para o guarda Wiseman, porém, representava luxos de uma natureza variada e dispendiosa. Os seus gostos iam dos bifes da alcatra aos arenques defumados de l&rmouth e, certa ocasião, introduzira na ementa a delícia estrangeira - estrangeira para a aldeia, que nunca abarcara o motivo da sua existência - dos pães-de-leite.

A conversa, bem orientada pelo dono da casa, abordava, em geral, a sua própria pessoa e actividades inerentes, enquanto a esposa se limitava a sublinhar a autobiografia com expressões encorajadoras como «Quem diria?» e «De que se lembrarão a seguir?», ao passo que as crianças se contentavam em pedir mais comida, o que faziam a intervalos regulares e frequentes, pretensões de um modo geral ignoradas pelos mais velhos, sob o pretexto de que as proferiam em murmúrios.

E o guarda Wiseman falava invariavelmente de si, Porque desconhecia algo de mais interessante para abordar. A conversa da tarde costumava assumir a forma de uma recapitulação extensiva das suas actividades da vêspera.

O que dissera ao vagabundo e o que este respondera; como Baggin, o padeiro, se desfizera em desculpas por deixar a carroça e respectiva mula sem ninguém a guardá-las; a expulsão de indivíduos etilizados de um bar, aconselhados por ele e recolherem a casa antes que lhes sucedesse algo de mais grave; etc. Em resultado disso, infundia à esposa a impressão - e ela congratulava-se por isso - de que Eastbourne era uma vila tranqüila, em particular devido aos incessantes e incansáveis esforços do marido. Havia ocasiões em que ela - alma cândida - perguntava a si própria o que teria acontecido quando um carro, lançado em velocidade excessiva, avançara na direcção do polícia desprevenido, se este, dando provas de uma presença de espírito extraordinária, não tivesse saltado prontamente para o lado. A perspectiva de Eastbourne convertida numa comunidade sem lei fora a responsável pelo sabor menos apetitoso de alguns dos seus, em geral, inexcedíveis cozinhados.

- E eu disse-lhe então - descrevia Wiseman -: «Vai para casa, rapaz, enquanto o podes fazer pelo teu pé.» E ele respondeu: «Está bem, senhor guarda.» E lá foi.

- Meu Deus! - exclamou a esposa perguntando-se, sem dúvida, se «ele» teria recolhido a casa sem a oportuna recomendação do marido.

Registara-se um homicídio importante, cometido a poucos quilómetros da vila, e tinham sido chamados detectives do CID1 da Scotland Yard. E o guarda Wiseman queixava-se de que o assunto fora arrancado das «nossas mãos». E exprimia-se de uma maneira que não permitia dúvidas de que queria dizer «minhas mãos».

- Que vêm esses fulanos cá fazer? - perguntava.

- Não conhecem o meio. Têm de nos procurar, se pretendem obter informações fidedignas. Se me confiassem o assunto, dirigia-me imediatamente a Polegate e perguntava

 

1 Criminal Investigation Department - Departamento de Investigação Criminal. (N. do T.)

 

ao dono do Red Cow se viu gente suspeita na aldeia. «Sim», responderia ele. «Um homem de nariz vermelho e um coxo.» «Para que lado foram?», insistiria eu. «Para a vila», havia ele de informar. A seguir, eu procurava-lhes o rasto, e posso garantir que os apanhava! Ora, em vez disso, que fazem esses indivíduos do CID? Passam o tempo metidos nos bares e gastam o dinheiro dos contribuintes em longas estadas no hotel. Se descobrem uma pista, perdem-na quase imediatamente, enquanto eu a exploro até ao fim. Quando assaltaram o pomar do Raggett, quem foi que descobriu os culpados?

- Tu, claro. Pelo menos, acho que foste tu. - Mrs. Wiseman sentou o filho mais novo nos joelhos, pois este ainda não atingira a idade em que reconheceria a necessidade de exprimir os desejos por murmúrios.

- Quem capturou os três batoteiros, a seguir às corridas de Lewes do ano passado? - prosseguiu o marido, cada vez mais acalorado. - Quem tem sido chamado mais vezes por causa de princípios de incêndio em chaminés? Alguns colegas cujos nomes podia mencionar acrescentou, levantando-se pesadamente para pegar no casaco do bengaleiro, pois costumava tomar o chá em mangas de camisa, mesmo com tempo frio - exigiriam a promoção, mas eu estou perfeitamente satisfeito. Não sou ambicioso. Se me nomeassem sargento, não saberia o que fazer!

- Mesmo assim, merecias a promoção - asseverou a esposa.

- Não mereço nada que não quero - retrucou ele com desprendimento. - Sei certas coisas de determinadas pessoas, mas nunca as utilizei para trepar na hierarquia. Ouvirás algo de curioso dentro de dias - prometeu em tom misterioso -, e na alta roda, por assim dizer, se se pode dar esse nome ao ambiente que rodeia o velho Minute.

- Não me digas! - proferiu ela, notoriamente abismada.

- Há problemas para aqueles lados - continuou o marido, inclinando a cabeça com ar solene. - Segundo as minhas informações, Mister Merril e o velho travaram-se de razões, e o pessoal do CID compareceu para lhe pôr termo. Se eu quisesse, o assunto ficava resolvido num ápice, pois vi o rapaz olhar o tio como se o quisesse matar, e ainda não há muito tempo. John Minute não parava de lhe enxofrar a paciência, quando ele era seu secretário, e chamou-lhe praticamente estúpido na minha frente, no dia em que fui lá entregar a autuação por deixarem as luzes acesas. Mas hás-de ouvir falar disso em breve.

O guarda Wiseman era um excelente profeta, se bem que as suas profecias costumassem revelar-se mais ou menos vagas.

Por fim, abandonou o chalé para cumprir as suas obrigações profissionais, dominado por um estado de espírito complacente, pois sentia-se satisfeito com o seu destino. A complacência - circunscrita pelas exigências oficiais, porquanto a lei não escrita da Polícia exige uma certa posição mental que não admite pontos de vista pessoais nas horas de serviço - prolongou-se até um pouco depois das sete horas daquela tarde.

Aconteceu que o guarda Wiseman, à semelhança de todos os outros membros da corporação de serviço naquela noite, tinha muito em que pensar, simultaneamente excitante e absorvente. Pouco antes da formatura da tarde, começara a circular o rumor de que o sargento Smith abandonaria a actividade. Havia mesmo quem afirmasse que se tratava de uma exoneração, mas era óbvio que lhe haviam concedido a oportunidade de apresentar a demissão, pois continuava ao serviço, o que não aconteceria se tivesse sido afastado compulsivamente.

A expressão e atitude do visado confirmavam os rumores, e ninguém estava surpreendido, porque conhecera vários momentos difíceis no passado. Comparecera duas vezes perante o chefe da polícia da área por se apresentar ao serviço em estado de embriaguez. No entanto, conseguira escapar às consequências, e não faltava quem aludisse a interferências influentes, mas era mais provável que as suas actividades passadas tivessem intervindo a seu favor, pois tratava-se de um polícia competente, com faro especial para o crime, absolutamente destemido, além de que colaborara na captura de dois perigosos delinquentes refugiados naquela vila da costa sul.

A sua última falta era, porém, demasiado grave para poder passar em claro. O inspector que fiscalizava as rondas não o encontrara na área que devia patrulhar e, após algumas pesquisas, descobrira-o à entrada de um bar. Em regra, não constituía um delito grave ser visto à entrada de um bar, em particular quando havia um espaço considerável para proteger de eventuais perturbadores da ordem. Infelizmente para o sargento, a razão da sua presença no local devia-se ao facto de ter desafiado um companheiro de libação para uma sessão de pugilato ao ar livre e, no momento em que fora localizado pelo diligente inspector, achava-se de tronco nu e procedia à demonstração da sua perícia na matéria com rara eficiência.

Além disso, estava bêbado.

Conservá-lo ao serviço depois daquilo representaria pouco menos do que um clamoroso escândalo. Não subsistiam, todavia, dúvidas de que o sargento Smith efectuara uma tentativa desesperada para recorrer à influência com que costumava contar, até às últimas consequências.

Assim, teve uma tempestuosa entrevista com John Minute e havia planeado outra. O guarda Wiseman, que patrulhava a estrada de Londres, o espírito dominado pela excitante notícia, viu-se repentinamente perante a personagem fulcral das suas cogitações. O sargento pedalou até onde ele se encontrava em atitude profissional, numa encruzilhada, e saltou para o chão.

- Onde pensa estar às dez da noite, Wiseman? perguntou numa inflexão que sugeria nova e generosa absorção de uísque.

O interpelado arqueou as sobrancelhas, imerso em cogitações por um momento, e replicou:

- Às dez, estarei junto do portão do cemitério.

O outro inclinou a cabeça em aprovação e olhou em volta antes de advertir:

- vou procurar Mister Minute por causa de um assunto oficial, mas não convém que se saiba.

- Sei ser mudo como um túmulo - proclamou Wiseman. - O que vejo com um olho sai pelo outro, por assim dizer.

O sargento voltou a inclinar a cabeça, subiu de novo para a bicicleta, fê-la descrever meia volta e enveredou velozmente pelo declive suave em direcção a Weald Lodge. Sem incutir o menor aspecto de sigilo à visita, transpôs o amplo portão, pedalou até à entrada da residência, desmontou, tocou à campainha e indicou peremptoriamente ao empregado que abriu o desejo de se avistar com John Minute.

O milionário recebeu-o na biblioteca, onde se tinham desenrolado os encontros anteriores entre os dois homens, aguardou que o empregado se retirasse e fechasse a porta e concentrou-se no visitante.

- É inútil procurar-me, Crawley. Não posso fazer nada por si.

O sargento pousou o boné na mesa, dirigiu-se ao aparador, onde se viam uma garrafa e copos, e serviu-se uma dose liberal de uísque sem pedir autorização, enquanto John Minute o observava com mal contida irritação. Não se encontravam na civilizada Eastbourne. Haviam regressado aos velhos e agitados dias da Gwelo, quando toda a gente bebia sem perder tempo à espera de convite.

Smith, ou Crawley, para empregar o seu nome verdadeiro, ingeriu metade do conteúdo do copo de um trago e voltou-se, limpando o espesso bigode com os dedos.

- com que então não pode fazer nada, hem? Pois vou mostrar-lhe que pode e há-de fazer! - Ergueu a mão para conter as palavras que o interlocutor se preparava para proferir. - Não adianta ameaçar-me com a prisão, porque sei que não se atreve a tanto. Os seus interesses pessoais impedem-no de comparecer no tribunal para depor contra mim. Poderiam surgir revelações com[ prometedoras... para si. Além disso, a Rodésia está muito longe.

- Conheço um lugar que não se encontra tão distante - replicou o milionário. - Felixstowe, por exemplo. Mas há outro chamado Cromer. Troquei impressões com alguém de quem você talvez tenha ouvido falar: Saul l Arthur Mann.

- Saul Arthur Mann? - repetiu Crawley, enrugando : a fronte. - Não conheço.

- Acredito, mas ele sabe quem você é. Tem um passado pouco abonatório das suas qualidades, Crawley, entre os crimes graves praticados na Rodésia e a actual chantagem. Reuni alguns factos a seu respeito que lhe devem interessar. Sei a data em que chegou a este país, pormenor que até agora ignorava, e como ganhava a vida antes de me descobrir. Estou ao corrente das acções de uma mina rodesiana inexistente que ven'deu a um indivíduo crédulo de Cromer e a uma não menos crédula senhora de Felixstowe. Não só possuo esses papéis, que contêm a sua assinatura como director da firma fictícia, como me vieram parar às mãos cartas e recibos também assinados por si. Despendi uma pequena fortuna na sua obtenção, mas mereceu a pena.

Entretanto, o rosto do sargento empalidecera. Após um momento de hesitação, avançou um passo, porém John Minute apressou-se a puxar do revólver que sempre o acompanhava.

- Deixe-se estar quietinho - advertiu.

- Inteirou-se, pois, das minhas actividades! - vociferou Crawley com uma imprecação. - Aposto que guarda todos esses documentos juntamente com a licença de casamento e as certidões de nascimento das duas crianças que deixou famintas em companhia da mãe.

- Ponha-se na rua! - ordenou John Minute com uma calma pouco tranquilizadora. - Saia enquanto pode.

O seu olhar continha uma expressão que impressionou o semiembriagado sargento, o qual, voltando-se com uma risada, pegou no boné e abandonou a sala.

Eram 19 e 35 no relógio do guarda Wiseman, que, na sua ronda pelo local, viu o superior hierárquico afastar-se apressadamente da residência montado na bicicleta em direcção à vila. Mais tarde, Wiseman explicaria que vira as horas, porque tinha um lugar de rotina para se encontrar com o sargento às 19 e 45 e perguntava-se se este chegaria lá a tempo.

A cronologia das três horas imediatas foi mencionada tantas vezes nas várias descrições dos acontecimentos que assinalaram aquela noite que decerto me perdoarão se o faço aqui em pormenor.

Um carro coberto por uma camada de pó branco entrou no parque do Hotel Star de Maidstone. O motorista, de guarda-pó e boné, apeou-se e confiou o veículo a um empregado da garagem, com instruções para o lavar e atestar o depósito, pois necessitaria dele na manhã seguinte. Transmitiu-lhe indicações explícitas quanto ao número de latas de gasolina que necessitava levar e gratificou o homem generosamente.

Descreveram-no como sendo um jovem com um pequeno bigode preto, e usava os largos óculos escuros próprios para conduzir quando se apresentou na recepção do hotel para pedir uma pequena suite com quarto e saleta. Por conseguinte, não houve possibilidade de lhe ver o rosto e, quando lhe foi servido o jantar, o empregado notou que o hóspede continuava com os óculos postos. Este último indicou que desejava toda a refeição servida ao mesmo tempo e deixada em cima do aparador, e não queria que o incomodassem até que chamasse.

Quando finalmente ouviu tocar a campainha, o empregado foi encontrar a saleta deserta, mas recebeu instruções do quarto contíguo no sentido de servir o pequeno-almoço às sete da manhã.

Precisamente às sete horas, o condutor do carro pagou a conta, de novo com os largos óculos postos, tornou a gratificar o mecânico da garagem e partiu. Cortou à direita e pareceu seguir em direcção a Londres, mas ficou estabelecido, sem margem para dúvidas, que o carro foi visto mais tarde a caminho de Paddock Wood e posteriormente em Tonbridge. O condutor encostou à berma junto de um pequeno salão de chá, a oitocentos metros da vila, pediu sanduíches e chá e ingeriu-os no carro.

Mais tarde ainda, foi avistado em Uckfield, e formou-se a teoria generalizada de que o condutor se limitava a «queimar tempo». No chalé à beira da estrada onde se deteve para tomar chá - tratava-se de uma daquelas pequenas casas que convidam os ciclistas, através de uma tabuleta de caracteres irregulares, a efectuarem uma pausa para se dessedentarem -, trocou algumas palavras com a proprietária, uma viúva, a qual parecia ser uma alma cândida e cordial, sempre disposta a ventilar os seus problemas e os mexericos da região.

- Há muito tempo que não leio jornais - declarou Rex Holland, polidamente. - Por estranho que pareça, nem me lembro disso.

- Posso arranjar-lhe um - disse a mulher prontamente. - Não deve perder este caso.

- Do motorista morto? - perguntou ele com interesse, pois era o tópico que predominava na conversa da interlocutora.

- Exacto, e foi assassinado em Ashdown Forest. Não têm conta as vezes que passei por lá.

- Como sabe que foi assassinado?

Ela sabia por várias razões. Um colega do cunhado, que era guarda-florestal e velava pela coutada de Lord Ferring, encontrara o corpo e, segundo parecia, tratava-se do mesmo motorista que a Polícia procurava por causa do roubo a um banco que figurara nas primeiras páginas dos jornais do dia anterior.

- Imagine! - exclamou Holland quando a viúva lhe forneceu o periódico.

Leu a descrição com o maior interesse e inteirou-se de que as autoridades dispunham de indícios importantes e estavam na pista do homem que acompanhava o motorista. Além disso, segundo um repórter particularmente indiscreto, tinham em seu poder uma fotografia da vítima ao lado do carro, da qual haviam mandado tirar cópias para fazer circular pelos lugares mais apropriados.

- Imagine! - repetiu Holland, intimamente satisfeito, pois, ao revistar o corpo, descobrira cópias da fotografia em causa e verificara que o carro reproduzido não era o mesmo que agora utilizava. A partir daquele ponto, dois quilómetros e meio para além de Uckfield, todos os vestígios do veículo e respectivo ocupante tinham-se dissipado.

O repórter tivera o cuidado de anotar as horas exactas e confirmar aquelas que podiam suscitar alguma dúvida. Às 9 e 20 da noite em que o guarda Wiseman patrulhava a estrada nas imediações de Weald Lodge e vira o sargento Smith afastar-se velozmente na sua bicicleta e na noite do mesmo dia em que Rex Holland fora visto em Uckfield, Frank Merril chegava no comboio de Londres, que passava por Eastbourne às 21 e 20. Na realidade, estava atrasado três minutos, e ele, que viajava numa das carruagens do final da composição, fora dos últimos passageiros a transpor a barreira da estação.

No entanto, ao aproximar-se, descobriu que perdera o bilhete, uma experiência frequente e vexatória, que outros passageiros antes dele haviam conhecido. As pesquisas em todas as algibeiras, incluindo as do impermeável, resultaram infrutíferas. Não obstante, apesar de embaraçado, sorriu, porque possuía uma forte dose de sentido do humor.

- Eu podia pagar a multa - declarou com desprendimento -, mas demônios me levem se o faço! Deixe-me procurar de novo, senhor revisor.

Este comprazeu-o enquanto Frank procedia a mais uma inspecção aos bolsos. Por fim, a pedido do funcionário, acompanhou-o a um gabinete, em cuja secretária depositou o conteúdo de todos os bolsos, incluindo o dinheiro e uma agenda.

- O senhor, que tem mais experiência destas situações, veja se o descobre, porque eu não sou capaz.

O revisor assentiu sem protestar e, de súbito, Frank soltou um grito de triunfo.

- Que estupidez a minha! Está no chapéu! Tirou-o da cabeça e, com efeito, dentro da fita, encontrava-se um bilhete de primeira classe de Londres para Eastbourne.

Convém prestar atenção especial a este incidente, pois representou um papel importante nos eventos subsequentes. Frank chamou um táxi para se dirigir a Weald Lodge e apeou-se ainda na estrada, chegando à residência cerca das 21 e 40, segundo declarações do próprio condutor do táxi e do guarda Wiseman, com o qual o veículo se cruzou.

Na altura, John Minute encontrava-se só, pois a sua desconfiada natureza não permitia a presença de pessoal doméstico em casa durante a conversa que se preparava para manter com o sobrinho. Considerava os serviçais espiões e bisbilhoteiros, e a pouco lisonjeira opinião talvez não fosse totalmente destituída de fundamento.

Às 21 e 50, dez minutos depois de Frank transpor a entrada de Weald Lodge, um carro com os «máximos» acesos surgiu do sentido oposto e imobilizou-se diante do portão, e o guarda Wiseman, naquele momento a menos de cinquenta metros do local, viu um homem descer e encaminhar-se apressadamente para a casa.

Às 21 e 52 ou 21 e 53, o mesmo Wiseman, que caminhava lentamente em direcção à casa, alcançou o muro e, erguendo os olhos, avistou um clarão momentâneo numa das janelas do primeiro piso. No instante imediato, ouviu duas detonações sucessivas e um grito.

Hesitou apenas por um momento e saltou o muro, para avançar, por entre a vegetação do jardim, em direcção ao lado da casa, onde um clarão intenso brotava através da porta envidraçada aberta da biblioteca. Entrou e estacou, pois a cena que se lhe deparou bastaria para refrear a marcha ao mais afoito.

- John Minute jazia de costas no chão, e não se tornava necessária a opinião de um médico para compreender que estava morto. Ao lado, e quase ao alcance da mão, via-se um revólver de calibre elevado. Wiseman pegou nele com um gesto quase automático e volveu o semblante carregado para o outro ocupante da sala.

- O caso está feio, Mister Merril - reuniu coragem para dizer.

Frank, que se ajoelhava junto do tio quando o outro entrara, conservava-se agora de pé, pálido, porém absolutamente sereno.

- Ouvi o tiro e acudi a correr - informou.

- Não saia daqui. - Wiseman assomou ao jardim, soprou o apito com insistência e voltou para dentro.

- O caso está feio - repetiu.

- Está, de facto - admitiu o outro, a meia voz.

- O revólver é seu?

- Vejo-o pela primeira vez - replicou, meneando a cabeça.

Entretanto, o polícia raciocinava tão rapidamente quanto as circunstâncias lhe permitiam. Não tinha a menor dúvida de que o infortunado jovem disparara os dois tiros responsáveis pelo termo prematuro da existência do homem que jazia no chão.

- Não saia daqui - voltou a recomendar, e assomou mais uma vez para utilizar o apito.

Preparava-se para repetir a operação, agora em pleno jardim, quando viu o vulto de um homem mover-se sub-repticiamente na sua frente, ao longo da sombra da vegetação. Em poucos segundos, correu para ele, segurou-lhe um braço, obrigou-o a voltar-se e apontou-lhe a lanterna ao rosto. Acto contínuo, porém, soltou-o perturbado.

- Desculpe, sargento.

- Que se passa? - inquiriu Smith, de cenho carregado. - Que mosca lhe mordeu, guarda?

- Não... não sabia que era o senhor - balbuciou cada vez mais comprometido Wiseman, em particular porque o semblante do superior exibia uma expressão que nunca lhe observara.

- Aconteceu alguma coisa? - insistiu o outro, em voz alterada.

- Houve um homicídio. Assassinaram o velho Minute.

- Santo Deus! - bradou. - O Minute assassinado! Tem a certeza?

- Venha ver - convidou Wiseman, recobrando parte da presença de espírito. - Deixei lá o sobrinho.

- Não, não o quero ver morto! Volte para lá você, enquanto vou chamar outro guarda e um médico.

O sargento afastou-se para a estrada com passos incertos e Wiseman regressou à biblioteca. Frank afundara-se numa poltrona e fitava o corpo do tio com uma expressão de incredulidade, mas levantou a cabeça quando o guarda entrou.

- Que medidas tomou?

- O sargento foi chamar um médico e um colega meu - explicou o interpelado com gravidade.

- Receio que não sirva de nada. Ele está... Que foi aquilo?

Ouviam-se sons abafados ao longe, como de pancadas numa parede ou porta, e uma voz débil a pedir socorro.

Wiseman precipitou-se para o vestíbulo e, junto da escadaria, deteve-se para escutar. Os sons provinham do primeiro piso, sem margem para dúvidas. Tratou de subir apressadamente e não tardou a localizar o ruído. Procedia de um quarto ao fumdo do corredor, em cuja porta alguém batia com insistência. Encontrava-se fechada. Todavia, a chave fora deixada na fechadura, e ele não hesitou em a fazer girar, -após o que apontou a lanterna ao interior imerso na escuridão.

- Saia - ordenou, e Jasper Cole transpôs a porta, perturbado e trêmulo.

- Atingiram-me na cabeça com um bastão - articulou em voz rouca. - Ouvi tiros. Que aconteceu?

- Mister Minute foi assassinado - anunciou o guarda.

- Assassinado? - Jasper retrocedeu e apoiou-se à parede. - Não é possível!

Wiseman inclinou a cabeça. Localizara o interruptor e o corredor encontrava-se agora iluminado.

Por fim, o outro conseguiu dominar a emoção e perguntou:

- Onde está?

Desceram a escada juntos e Jasper Cole entrou na biblioteca sem olhar para Frank, para se debruçar sobre o corpo de Minute, que contemplou por um longo momento em silêncio, para finalmente se voltar para Frank.

- Foi obra sua! - acusou. - Ouvi-lhe a voz, juntamente com os tiros! Ouvi-o ameaçá-lo!

O visado não replicou. Limitava-se a fitá-lo, e no olhar perpassava uma expressão de profundo desdém.

 

       As provas contra Frank Merríl

Saul Arthur Mann encontrava-se junto da janela do seu gabinete e observava o tráfego na concorrida artéria, no período mais movimentado do dia. Permaneceu lá durante tanto tempo que a rapariga que recorrera aos seus préstimos supôs que se esquecera da sua presença.

May estava pálida, facto acentuado pelo vestido preto que usava. O terrível evento de oito dias atrás deixara nela marcas bem vincadas. Na verdade, fora uma semana de noites em claro, de uma angústia inexprimível. Todos se tinham mostrado muito atenciosos, e Jasper, em particular, parecia tão solícito como uma mulher. Exercia uma tal influência nela que a impossibilitava de lhe guardar ressentimento, conquanto May soubesse que era a principal testemunha da Coroa. com efeito, achava-o inexcedivelmente sincero e honesto nas atenções de que a cumulava.

Jasper revelava-se tão desprovido de rancor contra o homem que, no seu entender, matara o seu melhor amigo e generoso patrão que ela não conseguiu manter a primeira sensação de animosidade que experimentara. Talvez fosse porque a mágoa avassaladora se sobrepunha a todas as outras emoções. Todavia, tinha plena liberdade para analisar a sua amizade com o homem que trabalhava dia e noite para enviar o ente amado para o cadafalso. Não lograva compreender a si própria, mas ainda entendia menos a atitude de Jasper.

Tornou a fixar os olhos em Saul Mann, postado junto da janela, com as mãos unidas atrás das costas, até que ele se voltou lentamente e se aproximou dela, o rosto em regra jucundo dominado por uma expressão mista de amargura e apreensão.

- Consagrei mais tempo ao estudo deste assunto do que a qualquer dos numerosos problemas que se me depararam até hoje. Penso que Frank Merril é acusado injustamente, e tenho um ou dois pontos a discutir com o seu defensor, os quais, quando apresentados no tribunal, demonstrarão a inocência, sem possibilidade de qualquer dúvida. Não partilho dos seus temores quanto à natureza da posição dele, Miss Nuttall. A acusação decerto abordará a questão da burla e dos livros viciados para justificar a existência de um móbil para homicídio. De qualquer modo, o inspector Nash, que é o responsável pelas investigações, prometeu passar por cá às quatro. - O Homem Que Sabia consultou o relógio.

- Faltam três minutos. Tem alguma sugestão a apresentar?

Fez uma pausa, enquanto ela abanava a cabeça.

- Posso pulverizar os argumentos da acusação, mas não estou certo de conseguir descobrir o assassino. No entanto, é obviamente um de três homens. O sargento Crawley, aliás Smith, cujos antecedentes Mister Minute mandara investigar, o secretário, Jasper Cole, ou...

- Encolheu os ombros, considerando desnecessário mencionar a identidade do terceiro suspeito.

Bateram à porta e um empregado anunciou o inspector Nash, o qual saudou Mann com uma breve inclinação de cabeça e dirigiu um sorriso de reconhecimento a May.

- Bem, sabe em que pé se encontram as coisas, inspector - disse Mann. - Pedi-lhe que viesse para trocarmos impressões sobre uns pormenores.

- É uma coisa um pouco irregular - observou Nash. - Mas como ninguém da Scotland Yard objectou, não vejo inconveniente em lhe divulgar, dentro de certos limites, tudo o que me chegou ao conhecimento, embora duvide de que seja algo de que ainda não se tenha inteirado.

- Pensa realmente que Frank Merril cometeu o crime? - perguntou a rapariga.

O interpelado arqueou as sobrancelhas e humedeceu os lábios.

- Tudo parece indicá-lo. Possuímos provas de que o banco foi burlado e provou-se na prática que ele tinha acesso aos livros e era o único funcionário da casa em condições de forjar os números e transferir o dinheiro de uma conta para outra sem incorrer em suspeitas. Embora ainda haja um ou dois pontos obscuros por esclarecer, existe o motivo, e, uma vez na posse deste, está mais de meio caminho andado para a descoberta do criminoso. Não quero dizer com isto que se trata de um caso simples e claro - apressou-se a acrescentar -, e quanto mais aprofundo as investigações maior é a minha perplexidade. Interroguei o guarda Wiseman, o qual jura que, no momento dos disparos viu um clarão na janela do primeiro andar. Por outro lado, temos as declarações de Jasper Cole no sentido de que estava no seu quarto, pois Mister Minute pedira-lhe que se afastasse quando o sobrinho chegasse, e alguém abriu a porta e apontou-lhe uma lanterna à cara.

- Que fazia Cole às escuras? - inquiriu Mann, semicerrando as pálpebras.

- Doía-lhe a cabeça e deitara-se sem acender a luz, para ver se lhe passava - explicou o inspector. - Quando viu a luz, levantou-se de um salto, sendo imediatamente agredido. Em seguida, a porta foi fechada à chave por fora. No breve lapso de tempo que mediou entre o momento em que abandonou a cama e o ataque, ouviu a voz de Frank Merril, que ameaçava o tio, e os tiros. Reduziram-no à inconsciência no instante seguinte.

- Uma história curiosa! - volveu Mann secamente. - Muito curiosa!

May sentiu-se assolada pelo desejo inexplicável e a todos os títulos surpreendente de defender Jasper contra a insinuação no tom de voz do outro, e foi com extrema dificuldade que se conteve.

- Não a acho muito convincente - admitiu Nash -, mas isto fica entre nós, claro. Há depois o estranho comportamento do sargento Smith.

- A propósito, onde está ele?

- Desapareceu - declarou com um encolher de ombros -, embora eu esteja convencido de que não tardaremos a localizá-lo. O elemento mais intrigante de todos é o quarto homem, que se apresentou no carro e era evidentemente Rex Holland, do qual possuímos uma descrição pormenorizada.

- Eu também - informou Mann -, mas não consegui identificá-lo com qualquer das pessoas que figuram nos meus ficheiros.

- Em todo o caso, era o carro dele. Não existe a menor dúvida a esse respeito.

- E é o assassino. Tio-pouco tenho dúvidas quanto a isso.

- Pois eu tenho-as acerca de quase tudo - redarguiu diplomaticamente o inspector.

- Que havia no carro? - quis saber o homenzinho, cujo bom humor reaparecia rapidamente.

- Lamento, mas não lhe posso dizer - declarou Nash com um leve sorriso.

- Nesse caso, digo-lhe eu. - Mann dirigiu-se à secretária e tirou um bloco de apontamentos de uma gaveta. - Dois tapetes de sobrado, dois guarda-pós de linho, um branco e outro castanho, dois pares de óculos escuros largos, próprios para conduzir, uma caixa de munições para revólver, da qual tinham sido retiradas seis, um coldre de cabedal para revólver, uma pequena colher de jardineiro e mais um ou dois objectos sem importância.

O inspector emitiu uma imprecação entre dentes.

- Macacos me mordam se faço a menor idéia de como averiguou tudo isso - articulou com uma ponta de aspereza. - Ninguém revistou ou tocou no carro até que comparecemos no local e, além do sargento Mannering e eu próprio, ninguém se inteirou do que continha.

Saul Arthur Mann exibiu um sorriso, mais uma vez misto, agora de alegria e triunfo.

- O que interessa é que eu sei! Trata-se de um ponto a favor de Merril.

- Tem razão - concedeu Nash, sorrindo por seu turno.

- De que se ri? - quis saber o homenzinho, desconfiado.

- Lembrei-me de um polícia de aldeia possuidor de algumas teorias extraordinárias sobre o assunto.

- Refere-se, sem dúvida, a Wiseman. Conversei com ele e penso que se perdeu aí um grande detective.

- Sim, não restam dúvidas de que se perdeu. O homem está convencidíssimo de que Merril cometeu o crime e, quanto a mim, Mister Mann, terá grande dificuldade em persuadir um júri do contrário. Segundo a sua própria versão, Merril procurou o tio, conversaram durante alguns minutos, John Minute teve um desfalecimento repentino e ele dirigiu-se à sala de jantar para se munir de um copo de água. Na sua ausência, ouviu os disparos e acudiu a correr, com o copo na mão, deparando-se-lhe o tio estendido no chão. Eu vi o copo, que estava meio cheio, e, ao inspeccionar a sala de jantar, verifiquei que Merril tinha entornado um pouco de água, quando a vertia de um jarro. Toda essa parte da história é circunstancialmente irrefutável. O que não posso compreender, e os jurados também não entenderão, é como, no breve lapso de tempo, pôde o assassino introduzir-se na biblioteca e pôr-se em fuga.

- A porta envidraçada estava aberta - lembrou o Homem Que Sabia. - Todos os elementos apurados apontam nesse sentido, incluindo as declarações do guarda Wiseman.

- Nesse caso, como se explica que ele, que, ao ouvir os tiros, correu directamente para a biblioteca, não se cruzasse com o criminoso? Não viu ninguém nas imediações.

- À parte o sargento Smith, ou Crawley - apressou-se a salientar. - Tenho motivos para concluir que ele dispunha de uma razão para se encontrar na casa. Forneci a John Minute, que era meu cliente, determinados documentos, que ele guardava no cofre existente no seu quarto. Não vislumbro nada de extraordinário no facto de Crawley, ou Smith, pretender apoderar-se deles. Não vejo inconveniente em revelar que se relacionavam com uma fraude de autoria do sargento e bastariam para o enviar para a prisão. Tenho a certeza de que foi ele quem agrediu Jasper Cole e cuja luz o guarda viu na janela do primeiro andar.

- Então, Crawley não pode ser o assassino apressou-se Nash a asseverar -, porque os tiros ouviram-se quando ainda se encontrava no quarto de Cole. Foram quase simultâneos com o aparecimento do clarão na janela.

- Hum... - limitou-se Mann a replicar, momentaneamente suplantado pela lógica do interlocutor.

- Quanto mais uma pessoa se embrenha no assunto mais complicado este se torna e, a meu ver, mais se reforçam as provas contra Merril.

- com a reserva de que há necessidade de explicar os movimentos de Rex Holland, o qual entrou em cena dez rninutos depois de Merril chegar e abandonou o carro. E abandonou-o por uma excelente razão. O sargento Smith, que corria à procura de auxílio, cruzou-se com dois guardas de Sussex, que acudiam à chamada do apite» de Wiseman. Ora, um ficou junto do carro e o outro entrou na casa. Por conseguinte, o assassino não podia utilizar o seu transporte. Mais um ponto que gostava que me explicasse, inspector.

Sentou-se na borda da secretária e as pernas deixaram de contactar com o chão, o que acentuou o seu grotesco».

- O revólver utilizado foi um Webley, difícil de ocultar devido às suas dimensões, levado sem dúvida ao teatro do crime pelo homem do carro. Haverá quem alegue que Merril o podia ter dissimulado numa algibeira do impermeável, mas o episódio desenrolado na estação, quando não encontrava o bilhete, anula semelhante possibilidade. Merril despejou todos os bolsos na presença do revisor.

- Sim, estamos perante um caso complicado admitiu Nash. - E confesso que a culpabilidade do sobrinho da vítima não me convence. Por conseguinte, desenvolverei todos os esforços ao meu alcance para o deslindar sem que subsista a menor dúvida.

- Estou certo de que o conseguirá - afirmou Mann calorosamente.

- O Frank tem mesmo de ser levado a tribunal? perguntou May.

- Não há qualquer alternativa - esclareceu o inspector. - Como o prendemos, e a menos que surja algum dado imprevisto, o magistrado tem de o submeter a julgamento com base nos elementos que apurámos.

- Pobre Frank... - murmurou ela, meneando a cabeça com lentidão.

- De facto, é duro para ele, se está inocente, mas pode considerar-se afortunado em caso contrário. Segundo a minha experiência do mundo do crime e criminosos, o culpado costuma ser a pessoa óbvia, e apenas uma vez em cada cinqüenta anos está inocente, quer seja absolvido ou condenado. - O inspector estendeu a mão a Mann. - Tenho de ir andando. O comissário recomendou-me que lhe prestasse toda a assistência e julgo tê-lo feito.

- Quais são os seus planos a respeito de Jasper Cole?

- O senhor deve conhecê-los - retrucou, com um sorriso.

- Ora bem, prezada jovem. - Mann voltou-se para May quando Nash se retirou. - Julgo que ficou a par da situação. O inspector suspeita de Cole.

- De Jasper? - exclamou ela, estupefacta.

- De Jasper - assentiu ele.

- Mas é impossível. Estava trancado no quarto.

- Esse pormenor não me parece totalmente impeditivo. Conheço catorze casos de homens que cometeram homicídios e conseguiram fechar-se nos seus quartos, deixando a chave do lado de fora da porta. Henry Burton, fabricante de moeda falsa, William Francis Rector, que assassinou um guarda da prisão em que cumpria pena e fechou a cela por fora, e... Mas não a importunarei com exemplos. Sim, trata-se de uma habilidade muito comum. É o móbil que necessitamos de descobrir. Continua empenhada em que a acompanhe amanhã?

- Ficava-lhe muito grata - declarou a rapariga com veemência. - Coitado do tio! Não sei se reunirei coragem suficiente para voltar a entrar naquela casa.

- Posso aliviar-lhe o espírito nesse aspecto, pois o testamento não será lido aí. Os advogados de Mister Minute decidiram fazê-lo nos seus escritórios em Lincoln's Inn Fields, cujo endereço tenho por aqui algures.

- Mann procurou nas algibeiras e puxou de um bilhete de visita, que leu: - «Power, Commons and Co. - Lincoln's Inn Fields, 194.» Espero-a lá às três horas. - Passou os dedos pelos cabelos desgrenhados e soltou uma risada de embaraço. - Parece que me converti em seu guarda pessoal. Não posso dizer que se trata de uma tarefa desagradável, embora constitua uma grande responsabilidade.

- Tem sido admirável - assentiu ela com entusiasmo - e nunca esquecerei tudo o que fez por mim. Por estranho que pareça, sinto a vaga esperança de que o Frank será ilibado, e desejo veementemente que isso não aconteça à custa do Jasper.

- Mas eu supunha... - começou ele, com uma expressão mista, mais uma, de admiração e desapontamento.

- Que estava comprometida com o Frank, e é verdade - confirmou May, corando. - Mas considero o Jasper... não sei como dizê-lo.

- Estou a ver - proferiu Mann, embora na realidade não visse nada de elucidativo.

Na tarde seguinte, às três horas em ponto, subiam a escada de acesso aos escritórios da firma de advogados, onde Jasper Cole já se encontrava, assim como, ante a surpresa de Mann, o inspector Nash, o qual explicou a sua presença em poucas palavras.

- O testamento pode conter alguma cláusula susceptível de permitir uma nova óptica do caso.

O solicitador, Mr. Power, um homem de meia-idade com propensão para a obesidade, foi apresentado e, postando-se diante da lareira, iniciou a sessão com uma introdução de pesar pelas circunstâncias que originaram aquela reunião.

- O testamento do meu extinto cliente não foi redigido por mim - explicou a seguir. - Encontra-se escrito pelo próprio punho de Mister Minute e revoga o documento anterior, preparado cerca de quatro anos antes, cujas provisões eram diferentes das actuais. Este testamento - prosseguiu, retirando uma folha de papel de um sobrescrito - foi elaborado o ano passado e testemunhado por Thomas Wellington Crawley - ajustou a posição do pince-nez e examinou a assinatura -, antigo membro da Polícia Montada de Matabeleland, e George Warrell, na altura mordomo de Mister Minute, falecido no hospital de Eastbourne na última Primavera.

Seguiu-se um pesado silêncio. O rosto de Saul Arthur Mann achava-se inclinado para a frente, com a cabeça voltada levemente para o lado, enquanto o inspector Nash deixava transparecer um interesse invulgar. Os dois homens tinham o mesmo pensamento: um novo testamento testemunhado por duas pessoas, uma das quais morrera e a outra com contas a prestar à justiça. Que cláusulas conteria?

Na realidade, o texto podia quase considerar-se lacónico, em comparação com os habituais dos documentos congêneres. O milionário legava a May Nuttall a quantia de duzentas mil libras, «provisão que já figurava no documento anterior», esclareceu o advogado, às quais se deviam juntar todas as suas acções da Gwelo Deeps.

Ao sobrinho, Francis Merril, deixava vinte mil.

Mr. Power fez uma pausa, varreu o pequeno círculo à sua volta com um olhar perscrutador e prosseguiu:

- «O remanescente da minha propriedade móvel e imóvel, todo o mobiliário, arrendamentos, títulos, dinheiro depositado em bancos e quaisquer outros interesses destinam-se a Jasper Cole, meu actual secretário e agente confidencial.»

O inspector e Saul Arthur Mann entreolharam-se e os lábios do primeiro moveram-se para murmurar:

- Que lhe parece isto como motivo?

CAPÍTULO XII

 

       O julgamento de Frank Merril

O julgamento de Frank Merril, acusado de, «na noite de vinte e oito de Junho do ano do Criador de mil novecentos e..., ter, maliciosa e intencionalmente, assassinado John Minute a tiros de revólver», constituiu a sensação de uma época particularmente fértil em crimes de morte. As audiências realizaram-se no tribunal de Lewes, numa sala superlotada, e prolongaram-se, como é de domínio público, por dezasseis dias, cinco dos quais consagrados aos interrogatórios dos peritos que tinham examinado os livros do banco.

A acusação procurou estabelecer o facto de que ninguém senão Frank Merril podia ter acesso aos livros e, por conseguinte, nenhuma outra pessoa dispusera de oportunidade de os falsificar ou manipular a transferência do dinheiro envolvido. Não se pode dizer que lograsse inteiramente os seus intentos, pois quando Brandon, gerente do banco em causa, foi chamado a depor, viu-se forçado a admitir que, além do réu, ele próprio e Jasper Cole se achavam em posições similares.

O discurso de abertura do representante da Coroa constituíra uma obra-prima do género. No entanto, resultava evidente para qualquer pessoa que havia muitos pontos fracos nos elementos apresentados e nas conclusões que a acusação traçava.

O procurador-geral, Sir George Murphy Jackson, que acusava, tentou dissipar sumariamente alguns pormenores em conflito, e o espectador imparcial via-se compelido a reconhecer que as suas explicações eram muito plausíveis.

- A defesa alegará - declarou no tom agudo de clarim que reduzira a geleia os corações de muitas testemunhas hostis - que não explicámos a presença do quarto homem, que apareceu ao volante do seu carro, dez minutos depois de Merril entrar na residência, mas vou expor a minha teoria sobre o incidente.

«O réu tem um cúmplice que não foi preso e se chama Rex Holland. Merril planeou e preparou o crime, porque, em resultado de qualquer frase proferida pelo tio, adquiriu a convicção de que não só todo o seu futuro dependia da destruição do benfeitor e, simultaneamente, do silêncio, para sempre, da única pessoa ao corrente dos seus hediondos instintos, mas também por antever as consequências exactas de semelhante acto. Foi uma ideia só possível na mente de um criminoso excepcionalmente cruel e arguto. Previu este julgamento e, senhoras e senhores membros do júri, a sua absolvição encontra-se nas vossas mãos. Calculou uma reacção que não só lhe proporcionaria a mulher que pretende amar, mas também uma fortuna considerável. Perguntar-se-á: porque matou John Minute? E eu respondo com outra pergunta: Que aconteceria se o não fizesse? Estaria arruinado.

As portas da casa do tio fechar-se-lhe-iam. O legado seria revogado, e o sonho que planeara uma fantasia irrealizável. Estava ao corrente da extensão da fortuna que Miss Nutall receberia. O extinto redigiu dois testamentos e deixava em ambos a mesma quantia à sua protegida. O primeiro, revogado pelo segundo e contendo a mesma provisão, foi testemunhado pelo réu. Também sabia que a mina de ouro na Rodésia, cujas acções se encontravam em poder de John Minute mas pertenciam à rapariga, constituía uma segunda fortuna, e afirmo que a informação, chegada ao conhecimento de Frank Merril devido à sua qualidade de secretário, foi deliberadamente escamoteada para ulterior proveito próprio. Que lucraria com isso? Peço que acrediteis que, se for absolvido, terá alcançado tudo o que pretendia.

Registou-se um breve murmúrio na assistência. Frank Merril volveu o olhar para May, que acabava de se voltar para ele. Ao notar-lhe a expressão de indignação, inclinou a cabeça com um leve sorriso e tornou a concentrar-se nas palavras do procurador-geral.

- Não duvido de que, no decurso do julgamento, se explorará até à exaustão a presença de outro homem, e a defesa tentará obter capital do facto de Crawley, que, como foi referido, se achava então na residência da vítima animado de intenções inconfessáveis, continuar por localizar. Quanto ao quarto homem, o condutor do carro, parece não subsistirem dúvidas de que se tratava de um cúmplice do réu. O misterioso Rex Holland, identificado por Mistress Totney, de Uckfíeld, passou o dia a deambular por Sussex, obviamente com um plano em mente, que consistia em chegar a casa de John Minute ao mesmo tempo que o cúmplice.

«Ouviremos as declarações do motorista de táxi, segundo as quais Merril, quando se apeou depois de transportado da estação, olhou para a direita e para a esquerda, como se procurasse alguém. O plano abortou parcialmente, pois o cúmplice chegou dez minutos atrasado.

Valendo-se de um pretexto qualquer, Merril ausentou-se da biblioteca, e penso que não se dirigiu à sala de jantar, mas ao jardim, onde já se encontrava o cúmplice, que lhe entregou a arma com que o crime foi perpetrado.

«A defesa poderá perguntar por que razão esse cúmplice, que era presumivelmente Rex Holland, não o perpetrou ele próprio. Eu podia apresentar duas ou três sugestões alternativas, todas elas possíveis. A vítima foi abatida à queima-roupa e encontrada numa Dosição que deixava transparecer não esperar o ataque. Sabemos que vivia sob certo medo e costumava andar armado, apesar do que não efectuou a menor tentativa para puxar do revólver, como Decerto faria se se visse subitamente perante um desconhecido que lhe apontava a sua.

«Não pretenderei que tento explicar a estranha relação entre Merril e o misterioso burlão. O réu é a única pessoa que o viu, e forneceu uma descrição vaga e algo confusa do homem. "Era baixo, de barba pontiaguda", são os únicos elementos concretos que consegue apresentar. Ora, a mulher que serviu o chá a Holland, nas proximidades de Uckfield, refere-o Como sendo "um jovem de bigode preto", sem aludir a qualquer barba. Evidentemente que nada o impediria de se desembaraçar dela, mas contra essa possibilidade existe a certeza de Que o indivíduo visto no carro conduzido pelo motorista assassinado usava bigode, sem barba, pelo que o saldo das probabilidades se inclina para a suposição de que (Merril não fala verdade. Um cliente desconhecido, possvidor de uma conta elevada no banco, dificilmente alteraria o seu aspecto a cada momento. Se fosse um criminoso, como sabemos que é, existiria outro motivo para não suscitar suspeitas desse modo.

A alocução ocupou a maior parte do dia, poréin ele voltou a abordar a cena desenrolada no jardim, o SUfosto encontro dos dois homens e o crime.

Saul Arthur Mann, sentado ao lado do solicitador de Frank, coçou o nariz e sorriu.

- Nunca tinha ouvido uma reconstituição tão engenhosa, embora seja tudo palpavelmente absurdo, claro.

Como teoria, era, sem dúvida, excelente, mas os homens não são condenados à morte com base em teorias, por muito engenhosas que se apresentem. Provavelmente, ninguém no tribunal admirava o engenho de uma forma tão absoluta como o homem visado. Durante o intervalo para o almoço do dia em que a teoria foi exposta, reuniu-se com o solicitador e Saul Arthur Mann na sala deserta em que semelhantes encontros eram permitidos.

- Foi na verdade fascinante escutá-lo - admitiu Frank, levando aos lábios a chávena de chá que pedira.

- Quase me convenceu de que tinha cometido o crime! Mas a situação afigura-se-me alarmante. E se os jurados reagirem do mesmo modo? - perguntou, algo perturbado.

O solicitador abanou a cabeça.

- As teorias sem bases dessa natureza não costumam ser bem aceites por eles. De resto, a versão é tão frágil e improvável que a considerarão meramente um exemplo de raciocínio hábil.

- Alguém o viu na estação? - perguntou Mann.

- Centenas de pessoas, provavelmente, mas duvido que alguma se recorde de mim.

- Havia alguém conhecido no comboio?

- Não - declarou Frank, depois de reflectir por um momento. - Tive seis companheiros de viagem no compartimento até Lewes, mas, como creio ter-lhes já referido, não consegui localizar nenhum.

- É muito difícil entrar em contacto com essas pessoas - disse o advogado. - Pensemos no número elevado daquelas com que costumamos viajar, sem depois nos recordarmos do seu aspecto ou de como estavam vestidas. Se você fosse uma mulher e viajasse só com mulherés, todas se lembrariam da cor do seu vestido, por exemplo!

- O facto de se ser homem tem as suas desvantagens - concordou Frank com um sorriso. - Como lhe parece que as coisas estão a correr?

- Até agora, a acusação não apresentou qualquer prova sólida. Suponho que é da minha opinião, Mister Mann? - proferiu o causídico respeitosamente, pois o Homem Que Sabia era considerado pouco menos do que uma potência nos círculos legais.

- Absolutamente nenhuma.

Frank recordou-se do primeiro dia em que o vira, com o chapéu inclinado para a nuca e o traje exótico.

- com a breca! - exclamou de súbito. - São capazes de me atribuir a responsabilidade daquele homem que vimos morto em Gray Square!

- Duvido - replicou Mann. - Não o incluíram na acusação, e a morte do motorista tão-pouco. A sua condenação dependerá inteiramente do assassínio de John Minute, ao passo que os outros dois assuntos são subsidiários.

Frank levantou-se e começou a percorrer a sala em persistente vaivém, com as mãos atrás das costas.

- Quem será realmente Rex Holland? - articulou a meia voz.

- Continua agarrado à sua teoria? - perguntou o advogado, enrugando a fronte. Vendo-o aquiescer com um movimento de cabeça, acrescentou: - E ainda não a quer divulgar?

- Prefiro não o fazer, de facto - foi a resposta, com uma expressão grave.

Quando regressaram à sala de audiências, o rapaz olhou em volta à procura de May, mas não a viu. Os trabalhos da sessão da tarde, preenchidos com os preliminares do processo, acabaram por enfastiá-lo.

Foi no décimo segundo dia do julgamento que JasPer Cole se apresentou para depor. Trajava de preto e parecia mais pálido do que habitualmente, mas prestou juramento em voz firme e respondeu sem hesitar às perguntas que lhe dirigiram.

A história da discussão de Frank com o tio, dos cheques falsificados e das ocorrências que presenciara na noite do crime ocupou a maior parte da manhã, pelo que somente à tarde Bryan Bennett, um dos advogados mais brilhantes da época, se levantou para interrogar a testemunha.

- Tinha alguma suspeita de que o seu patrão estava a ser roubado?

- Sim, mas não passava de uma suspeita.

- Comunicou-lha?

Jasper não respondeu imediatamente.

- Não - acabou por declarar.

- Porque hesitou? - inquiriu Benett, em tom incisivo.

- Porque, embora não comunicasse directamente as minhas impressões, sugeri a Mister Minute que mandasse proceder a uma auditoria independente.

- Pensava, nesse caso, que os livros estavam adulterados?

- Exacto.

- Nessas circunstâncias - perguntou pausadamente -, não acha que cometeu uma imprudência ao tocar o senhor mesmo neles?

- Quando lhes toquei? - redarguiu Jasper com prontidão.

- Segundo as minhas informações, visitou o banco em determinada noite, a fim de os examinar em nome do seu patrão, e, durante a sua permanência, consultou pelo menos três dos que continham dados falsificados.

- É verdade - confirmou após uns segundos de reflexão -, mas as minhas suspeitas eram gerais e não se aplicavam a nenhum dos livros em particular.

- Mas não lhe pareceu perigoso? Nova hesitação.

- Talvez fosse uma imprudência, e, se soubesse como as coisas se estavam a desenrolar, evidentemente que não lhes teria tocado.

- Reconhece, portanto, que, das sete horas da tarde às nove e das nove e meia às onze e um quarto, houve vários períodos em que se encontrou sozinho no banco?

- Decerto.

- Considera-se amigo de Frank Merril?

- Talvez, embora não íntimo.

- Merece-lhe estima?

- Não posso dizer que goste dele.

- É seu rival?

- Em que aspecto? ri O advogado encolheu os ombros antes de se explicar

melhor.

- Ele sente particular afecto por Miss Nutall?

- Sim.

- E ela por ele?

- Sim.

- O senhor não aspirava porventura a fazer a corte à senhora em causa?

Jasper Cole volveu o olhar para May, que todavia desviou o seu. Tinha as faces ruborizadas e sentia um desejo quase irresistível de abandonar a sala.

- Se pretende saber se a amo - respondeu ele finalmente -, devo dizer que sim.

- Conseguiu obter o apoio de Mister Minute?

- Nunca discuti o assunto com ele.

- Nesse caso, se intercedeu a seu favor, fê-lo sem Que disso se inteirasse, Mister Cole?

- Sem o meu conhecimento prévio - corrigiu o interpelado -, revelou-me mais tarde que falara com Miss Nutall nesse sentido, o que me deixou consideraVelrnente embaraçado.

- Consta-me que é um homem de hábitos curiosos, Mister Cole.

- Todos temos hábitos curiosos - respondeu a testemunha com um leve sorriso.

- Mas o senhor, em particular. Não é um orientalista?

- Estudei línguas e costumes orientais - concedeu secamente.

- Alguma vez estendeu o seu estudo ao campo do hipnotismo?

- Sim.

- E efectuou experiências?

- com animais.

- E com seres humanos?

- Não, nunca efectuei experiências com seres humanos.

- Também se debruçou sobre o tópico dos narcóticos?

Ao formular a pergunta, o advogado inclinou-se para a frente, sobre a mesa, e contemplou a testemunha com as pálpebras semicerradas.

- Utilizei narcóticos em experiências com plantas explicou Jasper, na sequência de nova hesitação. - Devo esclarecer que tencionava seguir a carreira de medicina, pelo que o efeito dos narcóticos sempre me interessou particularmente.

- Conhece uma droga denominada Cannabis Indicai - inquiriu Bryan Bennett.

- Conheço, é o cânhamo-da-índia.

- Pode obter-se uma infusão de Cannabis indicai

- Não creio. Talvez o possa elucidar, agora que me apercebi da finalidade das suas perguntas. Referi, certa ocasião, a Frank Merril, há muitos anos, quando me sentia muito entusiasmado com o assunto, que uma infusão de Cannabis indica combinada com extracto de ópio e hiocina produzia determinados efeitos.

- Destrói a força de vontade de quem ingere esse veneno em pequenas doses? - sugeriu.

- Precisamente.

Mudou subitamente de rumo.

- Conhece a parte leste de Londres?

- Superficialmente.

- A área de Silvers Rents, por exemplo?

- Sim...- Costuma visitá-la?

- Sim, faço-o com regularidade.

A prontidão da resposta surpreendeu Fraak e May. Esta sentia o desconforto aumentar à medida que o interrogatório de Jasper prosseguia e assolava-a a impressão de que traíra a sua confiança, conquanto não conseguisse determinar como. Por outro lado, inteirara-se dos conhecimentos científicos dele com uma sensação que quase se podia classificar de assombro. Embora conhecesse a existência do laboratório, associara-o às experiências vulgares próprias de um químico amador, sem nada de espectacular.

Por um momento, May sentiu-se percorrida por dúvidas, e procurou nas rememorações uma ocasião em que Jasper tivesse praticado os seus conhecimentos de medicina. Acudiu-lhe vagamente ao espírito que essa ocasião existira na verdade e a seguir lembrou-se de que fora sempre ele quem preparara as estranhas poções que lhe aliviavam as dores de cabeça de que sofria, alguns anos atrás. Ter-se-ia dado o caso?... Estremeceu e esforçou-se por repelir a hipótese, considerando-a indigna da sua mente, mas agora que o objectivo das visitas a Silvers Rents estava em discussão descobria-se possuída de uma curiosidade indomável.

- Que foi fazer a Silvers Rents? - Não houve resposta. - vou repetir a pergunta. O que o levou a visitar Silvers Rents?

- Recuso responder - anunciou Jasper em tom glacial. - Limito-me a admitir que vou lá com alguma frequência.

- E nega-se a revelar o motivo?

- Nego-me a revelar o motivo.

O juiz anotou algo, enquanto o advogado proferia em tom dramático:

- Sugiro que vai lá para assumir outra identidade.

- É provavelmente verdade - admitiu Jasper. Ao mesmo tempo, May abafou uma exclamação de

assombro e admiração, ao vê-lo tão calmo e seguro de si.

- Sugiro - prosseguiu Bryan Bennett - que nessas ocasiões Jasper Cole assume a identidade de Rex Holland.

A sala foi percorrida por um murmúrio de excitação, um repentino clamor de vozes, que o vigoroso pedido de silêncio do magistrado cortou como uma faca.

- A sua sugestão é absurda - replicou Jasper sem se alterar -, e presumo que tenciona apresentar provas de uma tão infame acusação.

- As provas a produzir sou eu que as decido - tornou o advogado com aspereza.

- Mas também interessam à testemunha - interveio o juiz com brandura. - Como sugeriu que Holland participou no assassínio e agora propõe que Rex Holland é Jasper Cole, o tribunal imagina que apresentará provas de uma tão grave acusação.

- Não tenciono apresentar provas, excelência, e se considera a pergunta inconveniente, estou disposto a retirá-la.

O magistrado inclinou a cabeça e voltou-se para os jurados.

- Devem fazer de conta que a pergunta não existiu, meus senhores. Tudo indica que a defesa pretende estabelecer o facto de que qualquer pessoa podia ter assumido a identidade de Rex Holland. Não há qualquer indicação de que Mister Cole visitava Silvers Rents (que, suponho, é um bairro extremamente humilde) animado da mínima intenção ilegal ou de que cometia qualquer delito ou se comportava de forma imprópria ao efectuar as freqüentes visitas. Pode haver algo na vida da testemunha associado ao local sem a menor relação com o caso que julgamos e que Mister Cole não deseja ver ventilado. - Não sem uma ponta de amargura, concluiu:

- Acontece a muitos de nós, termos associações cuja revelação nos embaraçaria.

O pequeno incidente encerrou aquela faceta do interrogatório, e o advogado passou a concentrar-se na noite do crime.

- Quando chegou à residência?

- Pouco depois de anoitecer.

- Tinha estado em Londres?

- Sim, fui a pé desde Bexhill. :

- Anoitecera por completo quando chegou?

- Quase.

- O pessoal doméstico tinha saído?

- Sim.

- Mister Minute ficou satisfeito de o ver?

- Muito, e esperava-me mais cedo.

- Disse-lhe que o sobrinho o procuraria?

- Eu já tinha sido informado.

- Segundo as suas declarações prestadas à Polícia, ele pediu-lhe que se afastasse.

- É verdade.

- E como lhe doía a cabeça, o senhor subiu ao seu quarto e deitou-se?

- Exacto.

- Que foi fazer a Bexhill?

- Vinha da vila e subi para a carruagem errada do comboio.

Um colaborador inclinou-se para o advogado e comunicou-lhe algo num murmúrio.

- Bem sei, bem sei - articulou Bryan Benett em tom petulante. - O seu bilhete foi encontrado em Bexhill. Alguma vez viu Rex Holland?

- Nunca.

- Alguma vez conheceu alguém com esse nome?

- Nunca.

E o interrogatório terminou neste ponto.

Após a alocução final do representante da defesa e do resumo pormenorizado do juiz, poucas pessoas presentes na sala acalentavam a menor dúvida quanto à natureza da decisão final. Os jurados estiveram ausentes cerca de vinte minutos e regressaram com o veredicto:

- Não culpado!

O magistrado mandou Frank Merril em paz sem qualquer comentário, e este abandonou a sala livre, porém acabrunhado.

 

       O homem que visitou Montreux

Dois meses após o sensacional julgamento, numa tarde cálida de Outubro, Frank Merril saiu do barco que lhe proporcionara a travessia do lago Leman, procedente de Lausana, e, confiando a mala a um bagageiro, encaminhou-se para o autocarro do hotel. Consultou o relógio. Eram 15 e 45, e May só chegaria dentro de três quartos de hora. Subiu ao quarto, lavou-se, mudou de roupa e desceu à recepção, a fim de averiguar se as instruções que telegrafara tinham sido executadas.

May viria acompanhada de Saul Arthur Mann, que se permitia um dos seus raros períodos de férias no estrangeiro. Frank estivera com a rapariga apenas uma vez desde o julgamento. Comparecera para tomar o pequeno-almoço, na manhã seguinte, e tinham trocado poucas palavras. Naquela tarde, partiria para o continente. Possuía algum dinheiro, suficiente para as suas necessidades, e Jasper Cole não deixara transparecer a intenção de contestar o testamento na parte que se referia a Frank. Por conseguinte, este último deslocara-se ao estrangeiro e vagueara durante dois meses pela França, Espanha e Itália, para depois visitar a Suíça, com escala pelo lago Maior.

Apesar de se ter tornado um pouco mais grave e comedido nos gestos, o rosto não denunciava a agonia mental que o assolara durante o longo e esgotante julgamento. Era esta, aliás, a opinião de May quando se lhe reuniu no espaçoso átrio do hotel.

Por seu turno, Frank observava nela uma alteração subtil, que considerava maravilhosa. com efeito, a rapariga encontrava-se na idade em que a mulher irrompe da bela crisálida da juventude. Naqueles dois meses, operara-se nela uma mudança notável, que ele não conseguia de momento definir, porquanto esse fenómeno de desenvolvimento fora negado à sua experiência.

- Estás mais velha! - exclamou espontaneamente. Ela soltou uma risada, e Frank voltou a aperceber-se da modificação. O riso era mais franco, agradável e puro do que o que lhe conhecia do passado.

- Obrigado pelo piropo - ironizou May. Trajava com elegância e exibia o aprumo que se vê em poucas inglesas. Possuía o dom de incutir um realce especial a tudo o que vestia e, do topo do minúsculo chapéu até às biqueiras dos elegantes sapatos, existiam todos os pormenores susceptíveis de satisfazer o crítico mais exigente. Há mulheres bem vestidas que não passam de manequins. Algumas, cuja elevada posição social não oferece a mínima dúvida, trajam de forma abominável e manifestam um gosto execrável.

Ora, May Nuttall constituía a honrosa excepção a semelhante regra, que se repetia com uma frequência indesejável.

- Quando acabares de me admirar, explica-nos o que tens feito - sugeriu ela. - Mas primeiro tomemos chá. Suponho que já conheces Mister Mann...

O pequeno investigador, que exibia um sorriso bonacheirão, estendeu a mão com cordialidade. Envergava o traje que se lhe afigurara apropriado para um país montanhoso: botas pesadas, peúgas grossas de lã, que lhe cobriam parte das pernas esqueléticas, e fato de xadrez coçado, que sem dúvida não estaria deslocado num campo de golfe. No entanto, desta vez substituíra o chapéu alto por um boné conservador. Foi com alívio que Frank viu que não se fizera acompanhar do pau ferrado dos alpinistas.

A rapariga despiu o casaco de peles e descalçou as luvas, enquanto o empregado pousava a grande salva de prata na mesa à sua frente, e Frank declarou:

- Receio não ter muito para contar. Limitei-me a deambular por aí. E tu, que notícias me trazes?

- Eu? Nenhuma de interesse, à parte o facto de tudo se desenrolar normalmente em Inglaterra e eu ter-me tornado podre de rica.

- Talvez esperasses ouvir-me dizer que eu me tornei podre de pobre - retrucou, com um sorriso de amargura. - Mas a verdade é muito diferente. Estive em Aix, onde ganhei muito dinheiro.

- Ganhaste?

- Não me julgavas jogador, hem? Na realidade, não sou, mas precisava de qualquer ocupação para me distrair.

- Compreendo perfeitamente.

Registou-se uma pausa, enquanto May servia o chá, que Saul Arthur Mann aproveitou para aludir a cinqüenta factos sobre Genebra em virtualmente outras tantas frases.

- Que foi feito de Jasper? - perguntou Frank, passados uns momentos.

- Bem, vejo-o com regularidade - disse ela, corando levemente. - Está mais misterioso que nunca, como aquelas personagens hediondas dos romances de sensação. Tem um laboratório algures no campo e farta-se de andar de carro. Vi-o várias vezes em Brighton, por exemplo.

- Sempre o julguei um bom volante - murmurou Frank com uma inclinação de cabeça.

Saul Arthur Mann olhou-o com curiosidade e esboçou um sorriso que passou despercebido à rapariga.

- Tem sido muito atencioso comigo - aventurou May, hesitante.

- Nunca te fala de?...

- Nem sequer quero pensar nisso - interrompeu, meneando a cabeça. - Mudemos de assunto, se não te importas...

Frank compreendeu que a rapariga se referia a morte de John Minute e apressou-se a compraze-la.

Alguns minutos mais tarde, teve oportunidade de conversar a sós com Mann.

- Que há de novo?

- Creio que nos aproximamos da verdade - informou o outro, baixando a voz. - Um dos meus homens não o perde de vista desde o julgamento. Não restam dúvidas de que se trata de um químico brilhante.

- Formou alguma teoria?

- Várias. Tenho a certeza de que o pobre rapaz que vimos por ocasião do nosso primeiro encontro era o serviçal de Rex Holland. Não me resta a menor dúvida de que foi envenenado por meio de um produto poderoso. Por altura do julgamento, os peritos exumaram e examinaram o corpo e descobriram a presença dessa droga. Trata-se da mesma que foi utilizada no caso do motorista Tudo leva a crer que Rex Holland é um químico experiente. Aliás, queria falar consigo a esse respeito. Ele declarou no tribunal que vocês tinham trocado impressões sobre o assunto.

- Sim, costumávamos ter longas conversas acerca de Pffodutos químicos. Evoquei muitas depois daquele dia do julgamento. Até me contagiou com o seu entusiasmo e eu ajudava-o nas experiências, adquirindo conhecimento* interessantes. Infelizmente, já não me recordo da maior parte do que era, ptfis a minha curiosidade não tardou a extinguir-se e apenas tenho a vaga ideia de que empregava hiocina e cânhamo-da-índia.

Saul Arthur inclinou a cabeça com veemência.

- É possível que em breve tenha mais alguma coisa para lhe dizer, mas entretanto as minhas diligências prosseguem de modo satisfatório. O nosso homem vai ser difícil de apanhar, porque, se o que apurei corresponde à verdade, trata-se de um dos indivíduos mais cruéis e calculistas que jamais me surgiu no caminho... e garanto-lhe que me cruzei com vários dessa estirpe.

Frank não teve dificuldade em compreender que o interlocutor se limitara a empregar um eufemismo ao dizer «indivíduos» em vez de «criminosos».

- Provavelmente, somos injustos para com ele observou com um sorriso. - Coitado do Jasper!

- Você não nasceu para se dedicar a investigações policiais. Deixa-se enternecer com demasiada facilidade.

- Não me enterneço, mas tenho certa pena dele, de algum modo.

O Homem Que Sabia olhou em volta e tornou a baixar a voz.

- Há uma coisa em especial de que lhe queria falar. É um assunto algo delicado.

- Não se preocupe. Adiante.

- Refere-se a Miss Nuttall. Encontra-se frequentemente com Jasper Cole e cada vez parece confiar mais nele. Em duas ou três ocasiões que aludi ao facto, apressou-se a abordar outro assunto.

Frank franziu os lábios pensativamente, e a expressão que lhe assomou ao olhar não pressagiava nada de confortável para Jasper.

- Que se há-de fazer? - articulou filosoficamente.

- Se gosta dele, não tenho nada a ver com isso.

- Pois eu penso que tem - retorquiu o outro em tom incisivo. - Ela gostava o suficiente de si para aprovar a sua proposta de casamento.

A conversa foi interrompida neste ponto pela chegada da rapariga. O encontro em Genebra fora, até certo ponto, casual. Ela dirigia-se a Chamonix, para passar o Inverno, e Saul Arthur Mann aproveitara a oportunidade para tirar umas breves mas agradáveis férias. E ao inteirar-se de que Frank se encontrava na Suíça, May telegrafara-lhe para se encontrarem.

- Vais continuar aqui muito tempo? - perguntou ela, enquanto percorriam o movimentado cais.

- Regresso a Londres esta noite.

- Esta noite? - ecoou, surpreendida. - Mas eu demoro-me aqui dois ou três dias - protestou.

- Também gostava de ficar, mas os meus negócios não o permitem - replicou Frank com um sorriso.

Não obstante, a rapariga conseguiu convencê-lo a protelar a partida por vinte e quatro horas.

Tomavam o pequeno-almoço, quando chegou o correio, e ele apercebeu-se de que ela examinou rapidamente os sobrescritos das cerca de doze cartas que recebeu e separou uma para leitura imediata. Notou, por outro lado, que o sobrescrito ostentava uma estampilha inglesa, e as numerosas vezes que vira a curiosa caligrafia de Jasper Cole suprimiu-lhe todas as dúvidas quanto à identidade do signatário. Verificou a ansiedade com que May procedia à leitura e o desapontamento que se lhe desenhou no rosto quando se concentrou na derradeira página. Dominando com dificuldade um suspiro de resignação, ele abriu e leu a única carta que lhe fora entregue.

- A tua correspondência não parece tão agradável como a minha - comentou a rapariga, sorrindo.

- Não é agradável - grunhiu Frank. - A única coisa que eu desejava e, para ser franco, a razão que me levou...

- A ficar mais um dia? Qual foi?

- Pretendia comprar uma casa nas margens do lago, e o raio do agente de Lausana prometeu escrever-me para comunicar se o seu cliente concordava com as minhas condições.

Baixou os olhos para a mesa e enrugou a fronte. Saul Arthur Mann, profundo conhecedor da natureza humana, dera-se conta do desapontamento no semblante do rapaz e também identificara o correspondente cuja carta monopolizara as atenções de May. Assim, pressentiu que a irritação de Frank, aparentemente dirigida ao agente incumbido de vender a casa, se destinava na realidade a um alvo muito diferente.

- Queres que te envie a carta? - sugeriu a rapariga.

- Não adiantava nada - retrucou Frank com um trejeito de contrariedade. - Eu queria resolver o assunto esta semana.

- Já sei! Abro-a e envio-te um telegrama para Paris, a fim de te comunicar se as condições foram ou não aceites.

- Se queres estar com esse trabalho, fico-te muito grato.

Entretanto, Saul Arthur estava persuadido de que era indiferente a Frank se o agente aceitava ou não as condições e ele valera-se do pretexto para encobrir a verdadeira causa da irritação.

- Recebeu correspondência volumosa, Miss Nuttall observou o Homem Que Sabia.

- Só abri uma carta. É do Jasper - apressou-se ela a informar.

Os dois homens aperceberam-se da ponta de embaraço com que fazia a revelação.

- De onde te escreve? - quis saber Frank, procurando exprimir-se com voz neutra.

- De Inglaterra, mas partia nesse dia para a Holanda. É curioso pensar que também se encontra aqui!

- Na Suíça? - perguntou, admirado.

- Não, tonto. - Ela soltou uma risada. - No continente. Refiro-me ao facto de não haver o mar a separar-nos. - E desta vez corou com intensidade. - Não deves encará-lo desse modo. Garanto-te que ele fala sempre de ti com deferência.

- Não vejo motivo para o fazer de outro modo. Mas ponhamos ponto final num assunto que é...

- Que é?... - inquiriu, com uma expressão de desafio. »

- Controverso - redarguiu ele diplomaticamente. May acompanhou-o à estação e, enquanto assomava à janela da carruagem que se afastava, Frank reflectia que nunca vira uma criatura mais encantadora e desejável.

Foi na tarde do dia em que ele viajava no comboio em direcção à fronteira suíça e Paris que Rex Holland entrou no Palace Hotel de Montreux e se instalou a uma mesa do restaurante, àquela hora quase deserto. O chefe dos empregados, Giovanni, reconheceu-o imediatamente e acudiu ao seu encontro.

- Ah!, monsieur, vejo que regressou de Inglaterra! Não o esperava antes do início dos desportos de Inverno. Paris está muito aborrecida?

- Não venho de Paris - foi a resposta seca. - Há muitos outros caminhos de acesso à Suíça.

- Mas poucos agradáveis, monsieur. Tenho vindo para Montreux por praticamente todos, passando por Pontarlier, por Ostende, por Bruxelas e até por Amesterdão, mas Paris é o ponto de escala mais aceitável para quem se dirige a esta maravilhosa terra.

Rex Holland não replicou e passou a concentrar-se na lista. Tinha ar fatigado, como se acabasse de efectuar uma longa viagem.

- Para sua informação - declarou, depois de indicar o que pretendia comer -, vim pelo caminho mais moroso. Diga-me uma coisa, Giovanni, está hospedado no hotel alguém chamado Merril?

- Não, monsieur! É seu amigo?

- De um ponto de vista é e de outro não - explicou com uma ponta de petulância.

Mais tarde, quando acabou de almoçar, dirigiu-se à rua principal da vila e regressou à sala de escrita do hotel com vários jornais, que incluíam a relação dos visitantes, publicações em língua inglesa que desfrutavam de larga circulação, pois referiam as chegadas e partidas não só em Lausana, Montreux e Territet, mas também em Evian e Genebra. Sentou-se a uma mesa e, pegando numa folha de papel timbrado, endereçou um sobrescrito a Frank Merril, Hotel Lê France, Genebra, introduziu-o no marco do postal do estabelecimento e foi-se deitar.

- Há uma carta para o Frank - anunciou May. Talvez seja do tal agente - acrescentou, examinando o sobrescrito com carimbo de Montreux.

- É muito possível - admitiu Saul Arthur Mann.

- De qualquer modo, vou abri-la. O pobre rapaz deve estar ansioso pela resposta.

Ela abriu o sobrescrito e extraiu a carta. Mann viu-a empalidecer e os dedos começarem a tremer. Por fim, sem uma palavra, passou-lha.

«Caro Frank Merril:

Conceda-me mais um mês de tréguas e depois poderá revelar tudo.

Sinceramente,

REX HOLLAND»

- Que significa isto? - murmurou a rapariga.

- Que Merril está a encobrir alguém... - O interpelado interrompeu-se, excitado. - A letra! - balbuciou. Fez uma pausa e ela arrancou-lhe a carta da mão e reduziu-a a uma bola. - É a de Jasper Cole!

May olhou-o com firmeza, embora a palidez se mantivesse.

- Creio que está equivocado, Mister Mann - proferiu a meia voz.

 

       O homem parecido com Frank

Saul Arthur Mann regressou a Inglaterra, impressionado com as novidades apuradas, e foi encontrar Frank num modesto hotel de Jermyn Street. Depois de lhe descrever o episódio da carta, esclareceu:

- Desloquei-me imediatamente a Montreux, claro. O chefe dos empregados de mesa do Palace conhecia Rex Holland, cliente habitual do hotel, que costumava gratificar o pessoal com generosidade e parecia viver com notável desafogo. Descreveu-o como sendo um jovem de maneiras indolentes, que chegara na manhã anterior da Holanda e perguntara por Frank Merril.

- Da Holanda? Tem a certeza de que foi de manhã? Pergunto por uma razão especial.

- Na realidade, agora me lembro de que não foi, mas ao fim da tarde. Partiu na manhã seguinte no comboio do norte.

- Como descobriu o meu endereço?

- Sem dúvida através da lista de visitantes. O empregado de serviço na sala de escrita recordava-se de o ver consultá-la. Tem de se abrir completamente comigo, meu rapaz. Que sabe acerca de Rex Holland?

Frank puxou da cigarreira, pegou num cigarro e acendeu-o antes de replicar.

- O que é do conhecimento geral - explicou, com uma ponta de amargura - e mais alguma coisa que só eu sei.

- Mas decerto se apercebe da conveniência de me revelar tudo - volveu o investigador, pousando-lhe a mão no ombro.

- Ainda não chegou o momento oportuno - asseverou o outro. No entanto, mostrou-se menos lacónico noutro ponto. -Não assistirei passivamente à destruíção da vida de May. A influência que Jasper exerce sobre ela tem algo de sinistro. O senhor mesmo pode observá-lo.

- Não consigo determinar de que se trata - reconheceu Mann. - Evidentemente, ele não é mal parecido, possui maneiras cativantes e pode considerar-se um companheiro impecável. Será que?...

- Que joga com os seus méritos para a conquistar? Não acredito. Não gosto, nem costumo, como decerto teve ensejo de verificar, discutir os meus assuntos pessoais, mas aposto que também não lhe passou despercebido o que sinto por ela. Acalentava a esperança de reatarmos as nossas relações onde se haviam interrompido, pelo que descobri com desalento que, embora me trate com amabilidade e amizade, permanece fria quanto ao resto. - Frank, que percorria o quarto em excitado vaivém, deteve-se de súbito e estendeu as mãos para os lados, num gesto de desespero. - Que devo fazer? Não a posso perder... não posso!

Havia uma intensidade na voz que revelava a veemência dos seus sentimentos, e Saul Arthur Mann compreendia perfeitamente o que lhe ia na alma.

- Creio que ainda é cedo para concluir que a perdeu. - Nutria simpatia crescente pelo rapaz, e o período de atribulação por que passara aumentara o respeito que lhe merecia. - Não tardaremos a ver fazer-se luz em lugares até aqui obscuros. Existe algo por detrás de tudo isto que ainda não compreendi, mas, estou certo, não constitui mistério para si. Penso que procura encobrir alguém e tenciono apurar de quem se trata.

Nenhum evento na vida agitada daquele homenzinho, que consagrara os seus anos à compilação de factos, lhe aguçara tanto a curiosidade como o assassínio de John Minute. E o caso terminara onde o julgamento o deixara. Crawley, capaz de revelar um aspecto novo da tragédia, desaparecera tão completamente como se a terra o tivesse tragado. Os esforços mais aprofundados deseenvolvidos pela Polícia, juntamente com as investigações conduzidas por Saul Arthur Mann, haviam-se manifestado infrutíferos para descobrir o paradeiro do sargento. Tudo indicava que não se devia confundir com Rex Holland, pois constituía uma personagem diversa, que, quanto muito, actuava em conivência com este último.

Acudira ao espírito do investigador que Crawley podia tê-lo acompanhado na sua fuga, porém as minuciosas diligências a que procedera em Montreux tinham-se revelado estéreis nesse capítulo, como em todos os outros. Para aumentar a confusão, as investigações a que se dedicava em Inglaterra levavam-no a cruzar constantemente o caminho de Frank Merril. Dir-se-ia que o destino conspirava para lhe apresentar o rapaz sob o aspecto mais tenebroso. Frank exercera as funções de secretário do tio, até que Jasper Cole surgira repentinamente em cena, sem que se conhecesse a sua proveniência exacta. Sugerira-se, de um modo mais ou menos vago, que chegara «do estrangeiro», e não subsistiam dúvidas de que aparecera em resultado de longas negociações entre ele e John Minute, as quais tinham envolvido meses de correspondência, embora Frank nunca visse uma única dessas cartas.

Enquanto se desenrolava o julgamento, o homenzinho recolhera uma quantidade apreciável de informação de Frank e de May, mas nada se revelara tão inexplicável como a intrusão de Jasper Cole no fulcro do aparentemente insondável mistério.

John Minute encarregara-se pessoalmente de expedir toda a correspondência destinada ao jovem químico e decerto recebera a resposta, que queimara, noutro endereço que Frank desconhecia.

Jasper aparecera e, um dia, registara-se forte discussão, não entre ele e Frank, mas entre este e o tio. Fora uma troca de palavras violenta, a que Merril se negava aludir, o que proporcionava a Saul Arthur a impressão de que fora, de certo modo, o responsável. E, como se isto ainda não fosse suficiente, existia outro facto que intrigava o Homem Que Sabia. O sargento então sob a identidade de Smith, fora o responsável. Frank introduzira-o em Eastbourne e apresentara-o ao tio. Todavia, este era apenas um aspecto do mistério, pois havia outros não menos obscuros.

Saul Arthur Mann regressou ao escritório e, pela vigésima vez, consultou minuciosamente os volumosos dossiers que reunira sobre o caso e suas personagens.

Abandonou o gabinete por volta da meia-noite e, às nove da manhã, seguia para Eastbourne. Por sorte, era dia de folga do guarda Wiseman, que se achava ocupado no jardim, quando o carro do investigador se imobilizou diante do chalé. O homem recebeu-o com ares importantes, pois, embora o prestígio do polícia tivesse sofrido um abalo apreciável nos círculos oficiais em resultado do julgamento, os habitantes da aldeia consideravam que, se ele não esclarecera o mistério da morte de John Minute, contribuíra decisivamente para a sua solução.

Na dependência imaculada que acumulava, em partes mais ou menos iguais, as funções de cozinha e sala de estar, com o solo de mosaicos coberto por uma carpete de cores vivas, Mrs. Wiseman aproximou uma irrepreensível cadeira de baloiço, que colocou à disposição de Saul Arthur Mann antes de se retirar discretamente. Este último expôs em poucas palavras o objectivo da visita, enquanto o dono da casa escutava em polido silêncio. No final, abanou a cabeça e disse:

- A única coisa que sei sobre o sargento já a comuniquei ao meu chefe, sentado precisamente nessa cadeira. Era, aliás, uma pessoa misteriosa... refiro-me ao sargento, claro. Quando estava «tocado», não parava de contar histórias, algumas das quais incríveis, mas uma vez sóbrio ninguém lhe arrancava uma palavra. A filha só viveu com ele duas semanas.

- A filha? - repetiu Mann, surpreendido.

- Sim, tinha uma, como expliquei aos meus superiores - prosseguiu Wiseman gravemente. - Muito bonita, diga-se de passagem. Eu vi-a poucas vezes, mas sei que viveu em Eastbourne durante cerca de quinze dias após a vinda do sargento. Um pormenor curioso: lembro-me do dia em que ele chegou, porque se lhe soltou a roda da bicicleta no período da minha ronda e registei as circunstâncias, em obediência ao que a lei determina, para depois informar o chefe. Nem sequer sei ao certo se vivia com ele, que tinha uma espécie de chalé perto de Birlham Gap, onde a vi. Sim, era uma moça bem jeitosa, de cabelo preto e pele branca como o leite. No entanto, nunca a encontraram.

- Refere-se à Polícia?

- Não. Eles procuravam-na muito antes da morte de Mister Minute.

- Mas eles, quem?

- Várias pessoas. Eu soube por casualidade que Mister Cole estava interessado em conhecer o seu paradeiro, mas só iniciou as pesquisas muitas semanas depois de ela desaparecer. A atitude dele foi muito curiosa. Em vez de vir ter connosco para que investigássemos, mandou uma autêntica legião de detectives particulares vasculhar a área de Eastbourne. Por sinal, um deles é primo da minha mulher. Foi assim que nos inteirámos. Jasper Cole fartou-se de gastar dinheiro para localizar a rapariga e Mister Minute também.

- Mister Minute? - Mann julgou vislumbrar um tênue clarão ao fundo do túnel. - Agia em ligação com Cole?

- Tanto quanto me pude aperceber, actuavam independentemente - esclareceu o polícia. - Era aquilo a que gosto de chamar um mistério dentro de outro que nunca foi devidamente deslindado. Pensei que o esclareceriam durante o julgamento, mas sabemos a confusão que os advogados levantaram, e ficou tudo ainda mais baralhado.

Era sua firme convicção que Frank Merril se livrara da condenação graças à incompetência das autoridades da Coroa, e havia momentos no seu círculo doméstico em que se revelava indignado com o facto.

- Pensa que Mister Merril era culpado? - perguntou Mann quando se preparava para sair.

- Estou tão certo disso como da luz do dia. Eu não entrei na biblioteca na altura? Ele não estava lá com a vítima? Não encontraram o seu revólver? Não tinha havido uma alteração qualquer nos livros do banco à sua responsabilidade?

- Há quem pense doutra maneira - lembrou estendendo a mão e com um leve sorriso.

Regressou a Londres acompanhado de vários elementos para inscrever na ficha respeitante ao sargento Crawley, aliás Smith, aos quais consagrou algumas horas de conjecturas.

Como já foi referido, Saul Arthur Mann mantinha relações particularmente úteis com a Scotland Yard, intensificadas nos últimos tempos, em virtude da colaboração que prestara àquela instituição policial na descoberta e captura dos membros de uma poderosa quadrilha de chantagistas.

Assim, avistou-se com o comissário e, na mesma noite, acompanhado de um pequeno exército de detectives, procedeu a uma inspecção sistemática a Silvers Rents. A casa em que Jasper Cole fora visto entrar recebeu nova visita, com o resultado nulo das precedentes. Na verdade, encontrava-se vazia, à excepção de uma sala espaçosa, em que se viam uma cama dobrável, uma mesa, uma cadeira com um candeeiro e uma tira de carpete. Havia quatro divisões - duas no primeiro andar, que nunca eram utilizadas, e as restantes no piso térreo.

Ao fundo de um estreito corredor, encontrava-se a cozinha, igualmente vazia, apenas com uma escada de bambu a um canto. Daí, uma porta trancada conduzia a um pequeno pátio, separado por três paredes de outros de dimensões similares, à esquerda, à direita e nas traseiras da casa, onde se situava Royston Court, um beco sem saída paralelo a Silvers Rents.

Mann voltou para dentro e tornou a revistar as dependências do primeiro andar, procurando em particular a entrada de um alçapão, pois a escada de bambu sugeria a existência de uma saída daquela natureza. Os esforços resultaram, contudo, baldados. Segundo apurou, Jasper Cole só visitara o local uma vez desde a morte de John Minute. Era curioso que os habitantes de Silvers Rents ignoravam o que acontecera praticamente à sua porta e, conquanto conservassem na ponta da língua todos os mexericos das docas e da Thames Iron Works, desconheciam por completo o que era de domínio público em Royston Court. E parecia ainda mais singular que Saul Arthur Mann e o seu regimento de detectives limitassem as investigações a Silvers Rents.

O investigador achava-se perplexo e desapontado, mas, graças a uma mera casualidade, descobrira mais um fio da meada do assassínio de Minute, o qual, todavia, o conduziria a um labirinto ainda mais intrincado do que aquele em que tentara infrutiferamente penetrar.

Três dias após a visita a Silvers Rents, uma missão de serviço levou-o a Camden Town. Mais exactamente, deslocara-se lá a pedido da Polícia, a fim de se avistar com um recluso da prisão de Holloway, que se prontificara a fornecer elementos importantes sobre um assunto em que Mann e as autoridades se encontravam igualmente interessadas. Cometera a imprudência de dispensar o táxi e, ao retirar-se, verificou que não havia qualquer meio de transporte visível. Por fim, em vez de utilizar o carro eléctrico, que o conduziria a King's Cross, resolveu ir a pé e, como detestava as artérias muito concorridas, enveredou por um atalho, que, como sabia perfeitamente, lhe permitiria desembocar na Hampstead Road.

Achou-se, portanto, na Flowerton Road, uma rua de casas de aspecto respeitável ocupadas pelas classes industriais superiores. Caminhava em andamento moderado, movendo o guarda-chuva na mão e cantarolando em surdina, como era seu hábito, uma versão altamente desafinada de uma melodia popular, quando viu a atenção atraída para uma cena que lhe cortou o alento e obrigou a estacar.

Apesar de serem cinco e meia da tarde e começar a escurecer, a sua vista era excelente, pelo que não havia possibilidade de qualquer equívoco. As casas da Flowerton Road erguiam-se a alguns metros do passeio e achavam-se separadas deste por pequenos jardins. As entradas eram precedidas de meia dúzia de degraus e no topo de um desses pequenos lanços, diante de uma porta aberta, desenrolava-se a cena responsável pela estupefacção de Mann.

As personagens eram um rapaz e uma jovem particularmente bonita e assaz pálida; ele, que podia considerar-se o sósia exacto de Frank Merril, vestia um fato de tweed de modesta qualidade e trazia um chapéu de feltro de cinta apreciavelmente larga. Não fora, contudo, o aspecto da singular aparição que intrigara o investigador, mas a atitude de ambos. Era óbvio que a rapariga implorava algo ao interlocultor, e, embora estivesse demasiado longe para ouvir o que ela dizia, Mann viu o rapaz gesticular, como se discordasse do que quer que fosse. No instante imediato, ela segurou-lhe o braço e fitou-o com uma expressão patética.

O Homem Que Sabia abafou uma exclamação de revolta ao ver o rapaz erguer a mão e impeli-la para dentro de casa. Em seguida, puxou a porta, fechando-a ruidosamente, desceu os degraus, voltou-se para trás e afastou-se em passos largos.

Mann ficou como que pregado ao chão e, antes que pudesse recompor-se, o rapaz desaparecera na esquina. O investigador tirou o chapéu e limpou a fronte com o lenço. Toda a sua iniciativa estava momentaneamente paralisada. Por fim, aproximou-se lentamente dos degraus e hesitou. Que desculpa apresentaria para a visita? Se se tratava realmente de Frank, as suas conjecturas achavam-se erradas e o mistério era muito mais complexo do que parecia.

As energias começaram a reaparecer gradualmente e, com elas, a rapidez de raciocínio. Apressou-se a anotar o número da porta e dobrou a esquina em perseguição do rapaz, mas verificou que já não se encontrava visível. Por sorte, nesse momento, passou um táxi livre e chamou-o.

- Hotel Grimm, Jermyn Street - indicou ao motorista.

Podia, ao menos, certificar-se de um pormenor.

 

       A carta encontrada na lareira

O Hotel Grimm consistia na realidade num quarteirão de apartamentos, com restaurante anexo, o qual era pouco mais do que uma cozinha de onde as refeições seguiam para os residentes nos seus aposentos. A suite de Frank situava-se no terceiro andar, e Mann, depois de pagar ao motorista, atravessou o átrio, entrou no elevador automático, premiu o botão e não tardou a achar-se diante da porta do rapaz, à qual bateu, com a penosa e angustiosa sensação de que não obteria resposta. No entanto, ante a sua satisfação e perplexidade, ouviu os passos dele no pequeno vestíbulo, e segundos depois encontrava-se na sua frente, aparentemente interrompido quando se vestia para o jantar.

- Entre, S. A. M. - convidou jovialmente - e conte-me as novidades. Precedeu o recém-chegado em direcção ao quarto e reatou a operação delicada de fazer o nó do laço.

- Há quanto tempo está aqui? - perguntou o investigador.

- Quanto tempo? - Frank olhou-o com estranheza.

- Não lhe posso responder com exactidão, mas vim para cima pouco depois do almoço.

- Que fato vestia? - persistiu Mann, ainda não totalmente convencido.

- Que fato? Que espécie de interrogatório é este?, meu caro amigo?

- Que fato vestia durante a tarde?

Frank desapareceu no quarto de vestir contíguo e regressou segurando o fato azul que costumava usar e pousou-o numa cadeira.

- E agora, quer explicar as regras deste novo jogo?

- Não é um jogo. Teria jurado que o vi, há menos de meia hora, em Camden Town.

- Não fingirei que não sei onde fica Camden Town, mas há muitos anos que não visito essa interessante localidade.

Saul Arthur Mann conservou-se silencioso. Não lhe restava já a menor dúvida de que o ocupante da Floweirton Road, 69 não era Frank Merril, o qual escutou a sua narrativa com interesse crescente.

- Deve ter feito confusão - acabou por sugerir. A escassa claridade não lhe permitiu certificar-se.

- Não hesitaria em jurar no tribunal que era você.

- É curioso! - O rapaz voltou-se para a janela, com uma expressão pensativa. - Não posso levar um homem aos tribunais por se parecer comigo. Pobre rapariga.. .

- Em que está a pensar? - quis saber o investigador.

- Na mulher que ele brutalizava. Há cada mentalidade, neste mundo...

- Pregou-me um valente susto, meu amigo.

- Aposto que já me estava a ver julgado por agreisão a um membro do chamado sexo fraco - observou Frank com um sorriso.

- Vi mais do que isso - articulou o outro gravemente - e agora ainda mais. Suponha que tem um sósia cúmplice dos seus inimigos...

- Estou farto de suposições. Venha jantar comigo. Mann tinha, porém, um compromisso, além de que desejava reflectir sossegadamente.

Contudo, desta vez as reflexões não lhe proporcionaram resultados animadores, e acabou por se deitar vexado e mais intrigado que nunca. Tomava invariavelmente o pequeno-almoço às dez da manhã, pois atingira a idade de hábitos, e estabelecera aquela hora porque permitia que os seus funcionários lhe levassem a correspondência pessoal à residência.

Na realidade, a daquele dia revelou-se interessante e excitante e continha um elemento altamente prometedor, sob a forma de uma carta do guarda Wiseman.

«Prezado Senhor:

Em referência à nossa conversa, acabo de encontrar uma das fotografias da jovem (a filha do sargento Smith), cedida ao detective particular que a procurava. Foi dada a minha mulher pelo primo que mencionei e decidi enviar-lha, na esperança de que sirva algum fim útil. Respeitosamente,

PETER JOHN WISEMAN»

A foto estava envolvida num pedaço de papel de seda, e Saul Arthur Mann examinou-a com avidez. No momento seguinte, soltava uma exclamação de assombro, pois tratava-se da rapariga que vira à entrada do número 69 da Flowerton Road.

Um telefonema preparou Frank para a novidade e, uma hora mais tarde, os dois homens reuniam-se no gabinete do investigador.

- vou procurar a moça - anunciou este último. Acompanha-me?

- com o maior prazer. Curiosamente, estou tão ansioso por vê-la como o senhor. Recordo-me muito bem dela, e uma das discussões que tive com o meu tio foi a seu respeito. Apareceu na residência em nome do pai, e considerei que ele a tratou brutalmente.

«Primeiro ponto esclarecido», ponderou Saul Arthur Mann.

- Depois, ela desapareceu e o Jasper entrou em cena - prosseguiu Frank. - Havia qualquer associação entre os dois que nunca consegui determinar. Só sei que ele mostrou grande interesse em encontrá-la e, até onde me foi possível saber nunca o conseguiu.

O carro do investigador encontrava-se à porta, e bastaram alguns minutos para alcançarem o número 69 da Flowerton Road.

A porta foi aberta por uma empregada, que encarou os dois homens com uma expressão interrogativa.

- Mora aqui uma senhora... - começou Mann, puxando da fotografia. - É esta. - Fez uma pausa, enquanto ela assentia com um movimento de cabeça, sem desviar os olhos de Frank. - Desejo falar com ela.

- Partiu.

- Porque me olha assim? - perguntou Frank. Conhece-me?

- Sim, senhor - respondeu a rapariga. - Costuma vir cá, ou uma pessoa muito parecida. É Mister Merril.

- É esse, de facto, o meu nome, mas não me recordo de a ter visto antes.

- Aonde foi a senhora? - interpôs Saul Arthur.

- Não sei. Partiu ontem à noite. Pegou em toda a sua bagagem e meteu-se num táxi.

- Não ficou ninguém?

- Não, senhor.

- Quanto tempo havia que trabalhava para ela?

- Cerca de uma semana.

- Somos amigos dela - declarou sem pestanejar -, e pediram-nos que viéssemos ver se não havia novidade.

Ela hesitou, porém Mann, com o ar autoritário que costumava assumir com facilidade, afastou-a e iniciou a inspecção à casa, que estava decorada com simplicidade, embora o mobiliário fosse de qualidade.

- Ao que parece, o enigmático Mister Merril não luta com falta de dinheiro - comentou com um leve sorriso.

Não havia fotografias ou documentos à vista até que entraram no quarto, em cuja lareira se viam os fragmentos de uma folha de papel com algumas linhas de uma caligrafia regular, que ele recolheu com prontidão. Antes de se retirarem, Frank tornou a interrogar a rapariga.

- O homem que vivia aqui era realmente parecido comigo?

- Sim, senhor.

- Observe-me bem - indicou, bem-humorado, e ela voltou a fitá-lo com intensidade.

- Mais ou menos.

- Também falava como eu?

- Nunca o ouvi dizer nada.

- Tratava bem a esposa? - quis saber Mann. A rapariga exibiu um sorriso de amargura.

- Estavam sempre a discutir. Ele implicava constantemente com ela, que lhe tinha medo. São da Polícia? perguntou com interesse repentino.

Frank abanou a cabeça com veemência e, depois de lhe dar cinco xelins, precedeu o companheiro em direcção à saída.

- Não me alegra saber que tenho um sósia que maltrata a esposa e mora em Camden Town - resmungou, enquanto o carro se punha em movimento.

Saul Arthur Mann manteve-se silencioso durante o trajecto, limitando-se articular monossílabos a uma ou outra observação do rapaz.

No isolamento do seu gabinete, colocou os fragmentos da carta em cima da secretária e tentou reconstituir a missiva. A mensagem não continha qualquer endereço nem preliminares afectuosos.

«Tem de abandonar Londres. Saul Arthur Mann viu-o hoje. Vá para o antigo esconderijo e aguarde novas instruções.»

Não estava assinada, mas os dois homens entreolharam-se com expressões de inteligência, pois a letra era indiscutivelmente de Jasper Cole.

 

       O sargento Smith reaparece

Naquele momento, Jasper Cole avançava através da neve em direcção ao pequeno chalé que May Nuttall alugara na encosta da montanha sobranceira a Chamonix. O trenó que o trouxera da estação encontrava-se ao fundo da elevação. A rapariga viu-o da janela e proferiu palavras de boas-vindas. Ele sacudiu a neve das botas e transpôs apressadamente os degraus do terraço ao seu encontro.

- Que agradável surpresa! - exclamou ela, estendendo-lhe as mãos e olhando-o com ar de aprovação

- Foi uma loucura, hem? - replicou Jasper, que perdera quase toda a palidez e apresentava umas cores saudáveis, embora a expressão fosse algo carregada.

- É um solteirão tão inveterado que desconfio de que detesta fazer alguma coisa fora da rotina. Porque se deslocou da Holanda até à Alta Sabóia?

Ele seguira-a até à sala e aproximou-se da larga lareira acesa.

- Precisa de perguntar? Vim para a ver.

- Como correm as experiências? - perguntou May, apressando-se a mudar de assunto.

- Estão suspensas desde o mês passado... pelo menos, aquelas a que se refere. A que me interessa sobremaneira desenrola-se o melhor possível.

- De que se trata?

- Explicar-lhe-ei dentro de poucos dias.

Ele instalara-se no Hotel dês Alpes e contava permanecer uma semana em Chamonix. Trocaram impressões sobre o tempo a neve prematura, que cobria o vale com um manto alvo, e o irritante comportamento do monte Branco, que se mantinha invisível desde que May chegara, as primeiras alavancas, que a acordaram com o seu ribombar durante a noite, a estrada agradável até Argentières, as aldeias na área do Col de Balme, agora sepultado na neve, o clarão verdejante do grande glaciar em suma, sobre tudo, excepto aquilo que se achava mais próximo dos seus pensamentos e corações.

Jasper acabou por quebrar o gelo ao referir-se à visita de Frank a Genebra.

- Como soube? - estranhou a rapariga.

- Disseram-me - replicou ele com desprendimento.

- Alguma vez esteve em Montreux? - inquiriu ela, olhando-o com curiosidade.

- Estive, ou antes, em Caux, que é a aldeia da montanha sobranceira e se alcança através de Montreux. Porquê?

A rapariga não respondeu e sentiu-se invadida por uma sensação de frio, que não a abandonou durante esse dia e o seguinte.

Efectuaram as habituais excursões juntos, escalaram as encostas arborizadas do Butte e, na terceira manhã, reuniram-se ao alvorecer para contemplar os primeiros raios rosados do Sol no topo do monte Branco.

- É deslumbrante! - murmurou May.

Jasper aquiesceu com uma inclinação de cabeça.

A beleza de tudo o que a rodeava, a pureza do aspecto majestoso das montanhas, deprimiam-na e excitavam-na simultaneamente, aproximavam-na da sublimidade de verdades antigas, isolavam-na de temores. De repente, virou-se para ele e perguntou:

- Quem matou John Minute?

Jasper não respondeu. Fixava os olhos nos efeitos gloriosos de luz e sombra, de espaço, de inacessibilidade, de pureza, de cor, de tudo o que aquela alvorada no monte Branco compreendia.

- Sei que o homem que o fez continua vivo e em liberdade - acabou por declarar.

- De quem se trata?

- Se ainda não sabe, talvez nunca venha a saber. Seguiu-se um silêncio que se prolongou durante cerca

de cinco minutos, enquanto o clarão rosado no topo da montanha assumia uma tonalidade amarelo-limão. Por fim, May insistiu:

- Você é, directamente ou indirectamente, culpado? Ele meneou a cabeça com veemência.

- Nem directa nem indirectamente - articulou e, no instante imediato, ela encontrava-se nos seus braços.

Não houvera qualquer palavra de amor entre eles, nenhuma passagem terna ou carta que o mundo não pudesse ler. Era um afecto mútuo que principiara onde os outros terminavam: na conquista e rendição. Foi desse estranho modo, para além de toda a compreensão, que May Nutall ficou noiva e anunciou o facto em epístolas lacônicas aos amigos.

Duas semanas mais tarde, ela regressou a Inglaterra e Saul Arthur Mann encontrava-se à sua espera em Charing Cross. A rapariga exultava de felicidade e constituía a imagem pura da saúde e beleza.

O investigador contemplou-a com um pesar que se esforçou por dissimular. Tinha uma missão a cumprir e nem o mais optimista se atreveria a considerá-la agradável. Sabia que seria inútil tentar fazer-lhe escutar a voz da razão. Ele apenas lhe podia apresentar teorias e suspeitas parcialmente solidificadas, mas dispunha pelo menos de um trunfo e ponderou se o deveria jogar, pois nesse aspecto as suas informações também pecavam pela escassez. Mais tarde, referiu o estado de espírito de May a Frank.

- Ela está simplesmente embeiçada - proferiu o Homem Que Sabia, exasperado. - Se ao menos eu tivesse o relatório concluído, com todos os pormenores! Nunca me envolvi numa investigação tão decepcionante como esta.

- Não se pode fazer nada? - perguntou o rapaz.

- Custa-me a crer que isso venha a acontecer. Casar com o Jasper, depois de tudo o que!... - Interrompeu-se, indignado.

- E se você falasse com ela? - sugeriu Mann, movendo os dedos sobre o queixo pensativamente. - Ao mesmo tempo, eu avistava-me com Jasper Cole. - Vendo Frank hesitar, acrescentou: - Compreendo a sua relutância, mas há demasiados factores em jogo para perdermos tempo com concepções mais profundas. Isso tem de se evitar a todo o custo. Lutamos contra o tempo. Dentro de um mês, possivelmente menos, talvez disponhamos de todos os elementos irrefutáveis.

- Apurou mais alguma coisa sobre a rapariga de Camden Town?

- Desapareceu por completo. Todas as pistas que explorámos conduziram a becos sem saída.

Naquela tarde, Frank vestiu-se com particular cuidado e, depois de telefonar e obter autorização de May para a visitar, apresentou-se com rigorosa pontualidade.

- Estava contristada por não me teres procurado antes - disse ela, cordial como sempre. - Vens para me desejar felicidades?

- Não podes esperar que o faça - replicou ele com brandura. - Sabes perfeitamente o que significas para mim e como ansiava por casar contigo. Confesso que não compreendo o que te aconteceu, e a única explicação que me ocorre é que partilhas da suspeita que me envolve como um gás maligno.

- Se fosse assim, achas que te receberia? Não, Frank, eu não passava de uma criança, quando... sabes ao que me refiro. Embora fosse há poucos meses, tenho a certeza absoluta de que cometeria o maior erro de toda a minha vida. Seria extremamente infeliz, porque sempre amei o Jasper.

Ela pronunciou estas palavras em inflexão átona, sem o menor indício de emoção ou embaraço. Mais tarde, quando descreveu a entrevista a Saul Arthur Mann, Frank classificou a natureza do discurso de «quase automática».

- Espero que aceites a situação com naturalidade e possamos continuar a ser bons amigos - prosseguiu May. - Tenho a certeza de que nem a recordação da morte do teu infortunado tio ou o hediondo julgamento que se seguiu e o papel representado pelo Jasper alterarão a nossa amizade.

- Mas não compreendes o que isso representa para mim? - Olharam-se com intensidade por um momento, e ele adivinhou os pensamentos da interlocutora e estremeceu. - Sei o que pensas - continuou em voz rouca.

- Recordas as coisas abomináveis que foram ditas no tribunal, que, se te conquistasse, obteria tudo o que ambicionava.

- Por muito que me custe confessá-lo, a idéia acudiu-me de facto. Uma pessoa não pode dominar os seus pensamentos, e deves acreditar que tenho a certeza da tua inocência. Há certas suspeitas que se desenvolvem no espírito como ervas daninhas e recusam ser arrancadas. Não me censures por evocar as palavras do advogado. Foi uma idéia involuntária, inadmissível. - Fez uma pausa. - Mas há outra que não é involuntária. Quero conservar a tua amizade e, precisamente por esse motivo, tenho de te fazer uma pergunta. Já completaste vinte e quatro anos de idade e disseste-me um dia que o teu tio pretendia que te mantivesses solteiro até essa data, como na realidade sucede. Que aconteceu?

- Aconteceram muitas coisas - declarou ele a meia voz. - O tio morreu. Enriqueci, à parte o acidente do seu legado. Assim, podia casar contigo em pé de igualdade.

- Não sabia de nada disso - apressou-se ela a asseverar.

- O Jasper não te disse?

- Não me disse absolutamente nada. Frank exalou um suspiro prolongado.

- Nesse caso, receio que não te possas inteirar até que o mistério da morte do meu tio seja desvendado. Apenas posso repetir o que já te revelei.

- Acredito - ela estendeu a mão - e fiz mal em duvidar de ti, ainda que em grau reduzido.

- Que estranha fascinação exerce o Jasper em ti? Corou e retirou com prontidão a mão que ele conservava entre as suas.

- Não há nada de invulgar na fascinação do Jasper. - Exibiu um sorriso algo contrafeito. - Trata-se da influência que todas as mulheres sentem, e a que não te furtarás um dia.

- Não existe, portanto, nada que te faça mudar de opinião?

- Absolutamente nada.

Por um momento, compadeceu-se dele ao vê-lo contristado e, obedecendo a um impulso, aproximou-se e enfiou o braço no dele.

- Não fiques tão abalado, por favor. Reconheço que sou uma mulher caprichosa e insensata e não mereço um segundo do teu sofrimento.

No entanto, Frank desprendeu-se, pegou no chapéu e na bengala e estendeu a mão.

- Adeus e felicidades!

Entretanto, desenrolava-se outra entrevista a uma personagem muito diferente, na casa que Jasper Cole ocupava na Portsmouth Road. Os dois homens já se conheciam, mas era a primeira visita de Saul Arthur Mann à residência do herdeiro de John Minute.

Jasper aguardava à entrada para saudar o investigador, a quem conduziu à sala decorada quase com luxo, onde também funcionava o laboratório, que ele montara após a morte de John Minute.

- vou entrar directamente no assunto sem rodeios

- anunciou o homenzinho, pousando a pasta ao lado da cadeira e abrindo-a com um movimento brusco. - Devo revelar-lhe francamente que represento os interesses de Mister Merril e, segundo creio, da justiça.

- Os seus motivos, pelo menos, são admiráveis admitiu o outro, afastando a papelada que cobria parcialmente a secretária e sentando-se na borda desta.

- Decerto não lhe passou despercebido que é, de certo modo, suspeito.

- Da parte do senhor ou das autoridades? - retrucou friamente.

- De minha parte - esclareceu Mann com veemência. - Quanto às autoridades, desconheço a sua posição no assunto.

- Posso saber a natureza das suspeitas?

- A primeira consiste em que sabe quem matou John Minute.

- Sem dúvida. Sei, sem margem para dúvidas, que foi assassinado pelo seu amigo Frank Merril.

- Penso que conhece a identidade do criminoso, que não é Frank Merril - afirmou calmamente.

Jasper manteve-se silencioso por um momento, enquanto lhe assomava um sorriso ao canto dos lábios.

- Que outro ponto deseja abordar? - acabou por inquirir.

- É mais delicado, pois envolve uma senhora. Sei que vai casar com Miss Nuttall.

- É verdade.

- Nos últimos meses, conseguiu criar forte ascendente sobre ela.

- Assim espero!

- Essa influência pode resultar de métodos normais, mas também há a possibilidade... - O investigador inclinou-se para a frente e bateu com o indicador no tampo da secretária, como que para sublinhar as palavras - ... de se dever à acção de um químico particularmente inteligente que descobriu uma maneira de dominar a vontade da sua vítima.

- Através da administração de drogas?

- Através da administração de drogas.

- Gostava de conhecer o nome do produto em causa, pois poderia proporcionar-me uma fortuna, para não falar do benefício para a humanidade por meio do seu emprego. Por exemplo, administrava-lhe uma dose e o senhor revelava-me tudo o que sabe. Consta-me, aliás, que os seus conhecimentos são excepcionalmente abundantes. - Jasper exibiu um sorriso condescendente.

- Aqui para nós, Mister Mann, acredita mesmo na existência de uma droga dessa natureza?

- Sem dúvida. É conhecida e empregada com regularidade. Já a conheciam na época dos Bórgias, assim como em França, na de Luís XVI. Mais tarde, foi de certo modo redescoberta e utilizada em clínicas de doentes mentais, para dominar os mais perigosos.

- Confesso que não sabia. Do meu conhecimento, a única droga empregada para esse fim é o brometo de potássio.

Mann puxou de uma folha de papel e leu uma relação de nomes, na sua maioria de instituições de doentes mentais dos Estados Unidos e da Alemanha.

- Ah, essa! - exclamou Jasper, com um trejeito de desdém. - Conheço a maneira como a empregam. O British Medical Journal há três meses publicou um artigo sobre o assunto. Trata-se de uma espécie modificada do «sono do crepúsculo»: hiocina e morfina. Receio que tenha perdido o seu tempo numa diligência infrutífera, Mister Mann. Exprimindo-me como um humilde estudioso da ciência, considero, sem ofensa, que as suas teorias são a todos os títulos fantasiosas.

- Nesse caso, vou apresentar-lhe outra sugestão redarguiu o investigador sem ressentimento. - Para mim, constitui a principal razão pela qual não deve casar com a senhora de cuja confiança desfruto e, penso, deixará influenciar-se pelo meu parecer.

- Em que consiste?

- Diz respeito ao seu carácter, Mister Cole, pelo que é um assunto muito embaraçoso para eu abordar.

- Depreendo que o meu carácter moral está agora na mira das suas baterias - comentou Jasper, imperturbável. - Continue, por favor. As suas revelações prometem ser interessantes.

- Visitou a Holanda recentemente. Miss Nuttall está ao corrente do facto?

- Decerto.

- Visitou aquele país com uma senhora. Ela também se inteirou desse pormenor?

Abandonou o assento precário na borda da secretária e empertigou-se, para encarar o acusador com uma expressão sombria.

- Resume-se a isso o que sabe? - articulou entre dentes.

- É apenas uma das coisas. Foi visto na companhia dela, que se hospedou no mesmo hotel como sendo «Mistress Cole».

- Desculpar-me-á, mas recuso discutir o assunto- E se eu pedir a Miss Nuttall que o discuta?

- É senhor dos seus actos, mas devo esclarecer que, de qualquer modo, casarei com ela.

com estas palavras, acompanhou Mann à porta e aguardou que o carro se afastasse para fechar a porta com um gesto de impaciência.

Mais tarde, os dois amigos reuniram-se para trocar impressões sobre as suas experiências recentes.

- Tenho a certeza de que existe algo de errado asseverou Frank. - Ela perdeu o domínio da sua vontade. Exprimia-se mecanicamente, como se recitasse uma lição. Dava a impressão de que mantinha contacto, através de uma linha invisível, com alguém que lhe ditava cada palavra e acto. A situação assumiu um aspecto horrível, Mann. Que podemos fazer?

- Temos de impedir o casamento, recorrendo a todos os meios que a oportunidade sugere. Não se iluda. Cole não se deterá perante nenhum obstáculo. A sua atitude é a de um impostor perfeitamente senhor de si. Sabe que o venci. Foi por mero acaso que me inteirei da sua presença na Holanda com uma mulher. Incumbi o meu agente de inspeccionar o registo do hotel e o que se lhe deparou não permite quaisquer dúvidas: «Mister e Mistress Cole, de Londres.»

- Convém procurar May imediatamente e expor-lhe todos os factos, embora a ideia me repugne. Dá a impressão de que me intrometo na vida alheia.

- Que disparate, homem! - explodiu o investigador. - Exagera os seus escrúpulos. Eu próprio a procurarei, amanhã.

- Irei consigo - decidiu Frank após um momento de reflexão. - Não quero fugir às minhas responsabilidades no assunto. Receio que ela me deteste pela intromissão, mas o que me interessa, acima de tudo, é salvá-la.

Por fim, combinaram encontrar-se no mesmo local na manhã seguinte e dirigirem-se em seguida para casa de May.

- Não nos esqueçamos de uma coisa - advertiu Mann antes de se separarem. - Se o Cole vir que está perdido, não recurará perante nada.

- Acha que devíamos tomar precauções?

- Parece-me o mais prudente. Duvido que possamos contar com a Yard, mas existe uma agência excelente que por vezes colabora comigo e fornecerá um homem para guardar a rapariga.

- Então, trate disso - recomendou Frank com uma ponta de ansiedade. - Cada vez estou mais preocupado. Não a devíamos ter deixado só. Procurarei contactar com a empregada dela, para nos informar sempre que May tencionar sair. Convinha que houvesse um motociclista de vigilância permanente perto do Savoy, para a seguir a toda a parte.

Despediram-se à porta do gabinete e Saul Arthur Mann pegou no telefone para transmitir as necessárias instruções, e a sua necessidade ficou comprovada naquela noite.

Às nove horas, May viu o jantar que comia solitariamente interrompido pela chegada de um telegrama. Provinha da chefe de missão para a qual trabalhava e era do seguinte teor:

«Urgentíssimo. Tenho assunto da maior importância para lhe revelar.»

Continha a assinatura da mulher que orientava as operações da instituição de caridade, e, sem se preocupar com o resto da refeição, a rapariga apenas perdeu uns minutos para mudar de vestido, antes de se meter num táxi.

Quando chegou à casa onde funcionava a sede da missão, encontrou-a imersa na escuridão. No entanto, um homem, que era sem dúvida um novo funcionário do estabelecimento e a aguardava à entrada, apressou-se a dirigir-se-lhe.

- É Miss Nuttall? A chefe deslocou-se a Silvers Rents e pediu-me que a acompanhasse.

May dispensou o táxi depois de pagar a corrida e, na companhia do guia, enveredou pelo labirinto de artérias entre a missão e Silvers Rents. Encontravam-se a meio de uma das mais mal iluminadas, quando se apercebeu da presença de um carro de linhas harmoniosas encostado ao passeio e perguntou-se vagamente o que teria conduzido aquele símbolo de luxo às ruas humildes de Camden Town. As dúvidas não a dominaram por muito tempo, pois os faróis acenderam-se subitamente, encandeando-a, e alguém lhe cobriu a cabeça com um xaile, enquanto uma mão possante a segurava pelo braço e a arrastava para dentro do automóvel, ao mesmo tempo que outra lhe rodeava a garganta.

- Ao menor grito, estrangulo-a - sussurrou uma voz junto do seu ouvido.

No momento imediato, o veículo pôs-se em marcha e ela, com uma exclamação prontamente abafada, reclinou-se no banco e acabou por perder o conhecimento.

Quando recobrou os sentidos, o carro continuava a deslocar-se velozmente e a mão do captor persistia pousada na garganta.

- Se for uma menina sensata e acatar as instruções, não lhe acontecerá mal nenhum - esclareceu uma voz abafada.

Estava demasiado escuro para descortinar o rosto de quem falara e, de qualquer modo, achava-se tão bem encoberto que mesmo que houvesse luz intensa ela não o conseguiria reconhecer. Em seguida, recordou-se de que o indivíduo que lhe servira de guia tomara a precaução de se manter na sombra, enquanto a conduzia, como alegara, à presença da chefe da missão.

- Para onde me levam? - acabou por perguntar.

- Sabê-lo-á oportunamente - foi a lacónica resposta.

Fazia uma noite execrável: a chuva alagava as janelas do carro e May ouvia o vento soprar com intensidade. Tudo indicava que se internavam no campo, pois ela divisava árvores que deslizavam a intervalos regulares. De repente, o captor afastou a divisória de vidro, a fim de transmitir instruções ao condutor, e os faróis foram desligados, enquanto a viagem prosseguia através da escuridão.

Entretanto, a rapariga sentia-se assolada por um pânico crescente, apesar do esforço que fazia para o dissimular. Sabia que aquele homem desesperado não temia as consequências dos seus actos, e, se a morte dela conviesse aos interesses dele e respectivos acólitos, a sua vida corria perigo iminente. Mas quais seriam esses interesses? Porventura os mesmos dos responsáveis do assassínio de John Minute.

- Quem é você? - decidiu aventurar-se a perguntar. Soou uma risada mordaz.

- Em breve o saberá.

Acabava ele de pronunciar estas palavras, quando se deu um embate terrível. O carro imobilizou-se subitamente e oscilou para o lado, enquanto May era impelida para a frente e caía de joelhos. Todos os vidros do veículo ficaram estilhaçados, e tornava-se óbvio, em virtude da inclinação em que ficara, que o carro sofrera estragos irreparáveis. O homem endireitou-se, abriu a porta com um pontapé e saltou para fora.

- A passagem de nível estava fechada - anunciou o condutor. - Fracturei o pulso.

com a desaparição do captor, a rapariga estendeu a mão para o puxador da outra porta e rodou-o. Verificou com satisfação que cedia sem dificuldade, por não ter sido afectado pelo acidente. Acto contínuo saiu para a estrada, esforçando-se por ignorar o tremor que lhe dominava os membros.

Pressentiu, mais do que viu, a passagem de nível e vislumbrou ao lado uma cancela para os passageiros, que acabava de alcançar, quando o captor se deu conta da sua fuga.

- Volte! - bradou em voz rouca.

May ouviu uma espécie de rugido crescente e, ao avistar luzes em movimento, cruzou a via férrea rapidamente à aproximação do comboio que seguia para o norte. Escapou de ser colhida por poucos centímetros, porém a deslocação de ar atirou-a ao chão. Levantou-se com prontidão e afastou-se por uma estrada, imersa na escuridão, enquanto a composição rolava velozmente. Pouco depois, distinguiu os passos do perseguidor, que chapinhava na lama.

O vento agitava-lhe o cabelo e a chuva fustigava-lhe o rosto, mas ela continuou em frente. De repente, tropeçou e caiu, e quanto tentava levantar-se a mão pesada do captor segurou-a pelo ombro, obrigando-a a soltar um grito de desespero.

- Caladinha - ordenou ele, e cobriu-lhe a boca com a mão. Naquele instante, um clarão intenso envolveu ambos, tão repentino, deslumbrante e inesperado que a atingiu como um impacte físico. Provinha de um ponto a menos de dois metros dela, e o homem soltou-a para se concentrar no perigo inesperado.

- Que se passa? - quis saber uma voz na escuridão. May encontrava-se atrás do homem, pelo que não lhe

podia ver o rosto. De resto, a única coisa que lhe interessava era que chegara auxílio, imprevisto, enviado pelo Céu, e tentou recobrar o alento e o uso da fala.

- Não há novidade - replicou o homem. - É uma louca que conduzo ao manicômio e tentou escapar-se.

De súbito, o clarão incidiu directamente no rosto dele e uma mão não menos pesada do que a sua pousou-lhe no ombro.

- Ah, sim? - retorquiu o desconhecido. - Eu é que o vou levar para o manicômio, sargento Smith, Crawley, ou como quer que se chame. Suponho que se recorda de mim. Sou o guarda Wiseman.

Por um momento, o homem pareceu petrificado, até que, com uma sacudidela, soltou-se e rolaram ambos na lama, envoltos em feroz corpo-a-corpo. Embora não fosse uma criança, o guarda Wiseman já não possuía a agilidade da juventude, e quando logrou desembaraçar-se do antagonista e recuperar a lanterna já Crawley não se achava visível.

 

       O homem chamado «Merril»

- Se Wiseman não julgasse que você era um assassino - disse Saul Arthur Mann -, eu considerava-o um homem inteligente.

- O Crawley foi apanhado? - perguntou Frank.

- Não, conseguiu fugir. O carro e respectivo condutor tinham sido alugados numa garagem do West End, sob o pretexto de que havia necessidade de transportar uma pessoa demente para o manicômio, e tudo indica que foi o próprio Crawley, ou Smith, que se ocupou disso. Até acrescentou um suplemento para compensar possíveis estragos produzidos pelo suposto turbulento passageiro. O condutor diz que suspeitou da legalidade da operação e tencionava informar as autoridades à chegada. A propósito, encontravam-se nas proximidades de Eastbourne, quando ocorreu o acidente. Sabe pra onde devia levar a «doente mental»?

- Segundo o condutor, seguiriam até Eastbourne, onde receberia instruções pormenorizadas. A Polícia confirmou a sua versão e libertou-o. Acabo de estar com a May, mas não parece muito abalada com a aventura. Espero que tenha providenciado para que não a percam de vista.

O investigador aquiesceu com uma inclinação de cabeça.

- Foi a última investida do género a que o nosso amigo se dedicou.

- Em todo o caso, o episódio serviu para ampliar as nossas informações. Sabemos que Rex Holland tem um cúmplice, o sargento Smith, pelo que podemos concluir que ambos participaram no crime. - Frank fez uma pausa e acrescentou calorosamente: - O guarda Wiseman foi recompensado, como merecia.

- Você não guarda rancor - comentou Mann, sorrindo.

O rapaz soltou uma gargalhada e abanou a cabeça.

- Para quê?

Entretanto, May recebia outra visita. Jasper Cole acudiu a Londres ao inteirar-se da ocorrência, mas tranquilizou-se ao vê-la.

- Foi uma aventura emocionante - admitiu a rapariga -, mas não fiquei muito abalada. Na verdade, acho que pareço menos cansada do que tu.

- É muito possível. Deitei-me tardíssimo. Estava tão concentrado nas minhas pesquisas que só me apercebi de que tinha amanhecido quando me levaram o chá.

- Então, praticamente não dormiste nada! meneou a cabeça com ar de desaprovação. - É um dos teus hábitos que vamos ter de modificar - advertiu.

No entanto, Jasper não se mostrava tão propenso como ela para descurar a importância do incidente.

- Gostava de saber qual seria a intenção e porque te levaram para Eastbourne. Palpita-me que acabará por se descobrir que o quartel-general desta infernal situação se encontra algures em Sussex.

- Mister Mann não é dessa opinião. Pensa que havia outro carro à espera em Eastbourne, para o qual me transfeririam. Afirma que o único objectivo de me conduzir para lá era despistar a Polícia. - May estremeceu involuntariamente. - No fundo, não foi uma experiência agradável.

O encontro ocorreu à tarde, cerca de duas horas depois de Frank a ter procurado, pois Saul Aríhur Mann deslocara-se a Eastbourne para a acompanhar no regresso a Londres. Jasper tomara as providências necessárias para passar a noite na cidade e adquirira duas entradas para o hipódromo. May revelara tudo isto ao investigador, de acordo com a promessa de o informar dos movimentos dele, pelo que ficou surpreendida quando, meia hora depois, Mann se lhe apresentou.

Recebeu-o na presença do noivo, para o qual as intenções de Saul Arthur se tornaram óbvias.

- Sem pretender aborrecê-la, Miss Nuttall, devo começar por informá-la de determinados factos. Tenho motivos para crer que conheço a identidade do responsável do episódio de ontem à noite, e não quero correr o risco de se verificar uma repetição.

- E quem lhe parece que é? - perguntou ela a meia voz.

- Creio sinceramente que se encontra nesta sala foi a surpreendente resposta.

- Refere-se à minha pessoa? - quis saber Jasper Cole, irritado.

- Exactamente. Creio que foi o senhor que planeou a operação e é o único autor.

May fitou Mann com incredulidade, ao mesmo tempo que balbuciava:

- Não acredito que fale a sério.

- Mister Cole tem todos os motivos para desejar casar consigo, Miss Nuttall. Ainda não os conheço totalmente, mas acabarei por descobri-los. Devo, porém, acrescentar que já é casado.

Ela olhou os dois homens alternadamente, com estupefacção crescente, enquanto Jasper articulava:

- Já sou casado?

- Se não é, fui indiscreto - admitiu o investigador sem se desconcertar. - Posso, porém, garantir-lhe que o seu noivo tem viajado no continente com uma senhora que se intitula Mistress Cole.

O visado conservou-se silencioso por um momento, olhando o acusador com uma expressão pensativa.

- Consta-me que colecciona factos como outros coleccionam selos, Mister Mann - acabou por observar.

- Tente provar que minto...

- Deixe-me falar! - persistiu, levantando a voz. Quero fazer-lhe uma pergunta. Tem um relatório completo da vida de John Minute?

- Conheço a história tão bem que a podia repetir de cor.

- Queres sentar-te, por favor? - Conduziu a rapariga para junto de uma cadeira, que a fez ocupar com brandura. - Vamor pôr à prova a memória de Mister Mann.

- Pretende mesmo que eu repita a história? - inquiriu o investigador com desconfiança.

- Nem mais. - Jasper indicou-lhe outra cadeira. Os factos importantes sobre a vida de John Minute

começaram a brotar dos lábios do Homem Que Sabia, o qual conhecia todos os pormenores da estranha e agitada carreira.

- Em mil oitocentos e noventa e dois - prosseguiu -, casou na Igreja de Saint Bride, em Port Elizabeth, com Agnes Gertrude Cole.

- Cole - ecoou Jasper.

O homenzinho olhou-o, estupefacto.

- Cole! Meu Deus, você é... era...

- Filho dele - confirmou Jasper. - Ou melhor, um dos dois. Segundo as suas informações, só houve um, mas não foi assim. A minha mãe trocou o meu pai por um dos maiores patifes que jamais existiram, o qual a levou para a Austrália, onde a minha irmã nasceu seis meses depois de ela abandonar John Minute. Aí, o companheiro deixou-a, o que a obrigou a trabalhar como ajudante de cozinheira durante sete anos, em Melburne, a fim de juntar dinheiro suficiente para nos levar para a Cidade do Cabo. Abriu um salão de chá em Adderley Street e obteve os lucros necessários para nos educar. Foi aí que conheceu Crawley, o qual prometeu recorrer à sua influência junto do meu pai para conseguir a reconciliação, no interesse dos filhos. Ignoro o resultado da tentativa, mas suponho que foi infrutífera, pois as coisas continuaram mais ou menos como dantes.

«Até que um dia, quando eu ainda frequentava o Colégio da África do Sul, a minha mãe regressou a Inglaterra com a filha. Tenho motivos para supor que Crawley foi o responsável da viagem e se encontraram no cais. Só sei de certeza que, a partir de então, ela desapareceu. Deixou-me uma quantia para prosseguir os estudos, mas depois de passarem oito meses sem receber notícias resolvi partir igualmente para a Inglaterra. Mais tarde, inteirei-me do que tinha acontecido. A minha mãe fora acometida de um ataque cardíaco e internada na enfermaria de um albergue por Crawley, o qual a deixou lá e partiu com a minha irmã, a quem fazia passar por sua filha.

«Na altura, eu desconhecia isto, mas como estava ao corrente da identidade do meu pai, escrevi-lhe para que me ajudasse a encontrar a minha mãe. Na resposta, revelou que ela morrera, conforme Crawley lhe garantira, e não havia vestígios da minha irmã, Marguerite. Trocámos correspondência com certa regularidade, até que me convidou para as funções de seu secretário, e reunimos os esforços para localizar a Marguerite. No entanto, não sabia que a suposta filha de Crawley, que nunca vira, era a rapariga que procurávamos. Enveredei pela nova vida e deparou-se-me um John Minute (custa-me chamar-lhe «pai») mais tolerável do que esperava, até que um dia encontrei a minha mãe.

- Encontrou a sua mãe? - repetiu Saul Arthur Mann, que começava a entrever a verdade.

- A sua persistente inspecção à casa de Silvers Rents não lhe revelou qualquer elemento de interesse. Se pegasse na escada de bambu, cruzasse o pátio das traseiras, entrasse noutro pátio e transpusesse uma porta, desembocaria no número dezasseis de Royston Court, onde se lhe depararia um interior muito mais luxuoso do que seria de esperar naquele bairro. Os habitantes das cercanias referiam-se-lhe como sendo «a casa das enfermeiras», porque havia sempre três enfermeiras de serviço. Se entrassem, encontrariam a minha mãe retida na cama, tão enferma que os médicos que a observaram não permitiram que fosse transferida.

«Eu próprio mobilei aquele refúgio, peça a peça, em geral durante a noite, porque não queria despertar a curiosidade da vizinhança ou que o assunto chegasse aos ouvidos de John Minute. Afigurava-se-me que enquanto mantivesse a sua amizade e confiança subsistia uma possibilidade de se reconciliar com a minha mãe, que era o que ela mais desejava. Mas o destino não o permitiu. John Minute foi assassinado no momento em que tudo indicava que os meus planos se concretizariam. Curiosamente, após a sua morte, a minha mãe recuperou de forma quase espectacular, e tive então oportunidade de a levar para o continente. Ela sempre desejara conhecer a Holanda e a França, e neste momento - concluiu com um sorriso, voltando-se para May - reside no chalé que ocupaste durante as férias.

Saul Arthur Mann estava positivamente abismado. Todas as suas teorias se desmoronavam como um castelo de cartas.

- E a sua irmã? - acabou por perguntar.

- Conheço finalmente o seu paradeiro - declarou Jasper com uma expressão grave. - Viveu durante algum tempo no número sessenta e nove da Flowerton Road, em Camden Town. De momento, encontra-se mais perto e vigiada dia e noite, quase tão atentamente como os homens de Mister Mann que velam por ti - explicou dirigindo-se de novo à rapariga.

- Velam por mim? - estranhou ela.

- A idéia foi minha - admitiu o investigador, corando de embaraço.

- E excelente - assentiu Jasper -, embora pecasse por demasiado tardia.

Mann regressou ao seu gabinete, com o cérebro agitado por um turbilhão de idéias. Contudo, em obediência a um hábito bem enraizado, não se permitiu especular sobre a nova e surpreendente situação até que anotou meticulosamente todos os novos factos de que se inteirara.

Era incrível que a ligação entre Jasper Cole e a esposa de John Minute lhe tivesse passado despercebida. O trabalho prolongou-se até às onze da noite, e preparava-se para seguir para casa quando o paquete que exercia igualmente as funções de guarda lhe anunciou que uma senhora desejava falar-lhe.

- Uma senhora? - repetiu, intrigado. - A esta hora da noite? Diz-lhe que volte amanhã.

- Já o fiz, mas ela insiste em vê-lo já.

- Como se chama?

- Mistress Merril. Empertigou-se na cadeira.

- Manda-a entrar imediatamente!

Não teve dificuldade em reconhecer na rapariga que apareceu com ar tímido o original da fotografia enviada pelo guarda Wiseman. Trajava com simplicidade e era indiscutivelmente atraente, mas deixava transparecer um nervosismo elucidativo da apreensão que a dominava.

- Queira sentar-se - indicou Mann com amabilidade. - Que pretende de mim?

- Sou Mistress Merril - proferiu ela em tom quase inaudível.

- Foi o que o paquete me disse. Preocupa-a alguma coisa?

- Tenho um medo terrível - volveu com um estremecimento. - Se ele sabe que vim...

- Não precisa de se assustar. Deixe-se estar aí sentada por um momento.

O investigador dirigiu-se à sala contígua, onde havia uma extensão telefónica, e ligou a May. No entanto, ela saíra, pelo que deixou recado para que se apresentasse no seu gabinete com urgência, acompanhada de Jasper. Em seguida, cortou a ligação e foi encontrar a rapariga na posição em que a deixara, apertando o lenço na mão com nervosismo.

- Ouvi falar do senhor - murmurou. - Ele mencionou-o, uma vez... antes de irmos para aquele chalé em Sussex, com Mister Crawley. Tencionavam levar para lá outra mulher, de quem eu devia cuidar, mas ele...

- Quem é «ele»?

- O meu marido.

- Há quanto tempo estão casados?

- Fugi com ele há anos. Tem sido uma vida horrível. A idéia foi de Mister Crawley. Disse que se eu casasse com Mister Merril me levaria a ver a minha mãe e Jasper. Mas ele é tão cruel... - Voltou a estremecer.

- Temos vivido em casas mobiladas por todo o país. Fico sozinha a maior parte do tempo e não me deixa sair senão acompanhada nem fazer nada.

Exprimia-se numa voz monótona, que denunciava a iminência de um colapso nervoso.

- Como diz o seu marido que se chama?

- Frank Merril - informou, intrigada. - É o nome dele. Mister Crawley disse-me que se chamava Merril. Não corresponde à verdade?

O investigador abanou a cabeça com lentidão.

- Receio que tenha sido grosseiramente ludibriada, minha filha - afirmou, com simpatia. - O homem com quem casou é um impostor.

- Um impostor?

- Exacto. Assumiu a identidade de uma pessoa honesta e cometeu crimes abomináveis em seu nome. No entanto, estamos esperançados em a livrar a si e ao mundo de semelhante flagelo.

- Foi sempre um mentiroso - murmurou ela pausadamente. - Mente com tanta naturalidade e procede de uma forma tão convincente que se é obrigado a acreditar. Disse-me coisas que sei não passarem de falsidades, como, por exemplo, que o meu irmão não tinha morrido. No entanto, vi o nome dele no jornal, o outro dia, e foi por isso que o procurei, Mister Mann. Conhece o Jasper?

- Não tardará a encontrar-se com ele - prometeu o investigador.

- Fugi do Frank - anunciou ela subitamente. Não o podia suportar mais. Ontem, voltou a bater-me, apesar de se intitular cavalheiro. A minha mãe costumava dizer que um cavalheiro nunca maltrata uma mulher, mas ele fá-lo.

- Ninguém tornará a maltratá-la.

- Odeio-o - volveu com veemência. - Ri-se de mim e diz que vai arranjar outra esposa...

Interrompeu-se ao ouvir a porta abrir-se e, voltando-se, assumiu uma expressão de terror quando viu quem entrava.

Frank Merril olhou-a sem deixar transparecer que a conhecia.

- Desculpe, não sabia que estava com alguém.

- Entre, entre - convidou Mann. - Ainda bem que apareceu. - Indicando com um movimento de cabeça a rapariga que se levantara e recuara lentamente para a parede, perguntou: - Conhece esta senhora?

O recém-chegado observou-a mais demoradamente e acabou por declarar:

- Creio que sim. É a filha do sargento Smith. com um sorriso, inquiriu: - Onde esteve metida?

- Não me toques - balbuciou ela, estendendo as mãos à sua frente, num gesto instintivo de protecção.

Frank Merril contemplou-a, surpreendido, desviou os olhos para Mann e acabou por fixá-los de novo na rapariga.

- Ela diz que é sua mulher - informou o investigador.

- Minha mulher? - Frank exibiu uma expressão de incredulidade. - Trata-se de alguma brincadeira de mau gosto! Pensa mesmo que sou seu marido?

Ela não proferiu palavra, mas assentiu com um gesto. Ele afundou-se numa cadeira e emitiu um silvo de admiração.

- Isto vem complicar a situação - observou em voz átona. - Mas talvez o senhor possa explicar o que sucede.

- Só sei o que ela me revelou - disse Mann, abanando a cabeça. - Trata-se de um terrível equívoco, sem dúvida.

- Mas o seu marido parece-se comigo? - perguntou Frank, dirigindo-se de novo à rapariga, que aquiesceu. - E chama-se Frank Merril? - Novo movimento de cabeça de confirmação. - Onde está neste momento?

- Ela indicou-o com um gesto. - Santo Deus! Sugere que sou eul

- És, sim.

Frank virou-se mais uma vez para Mann, como que em busca de auxílio, e encolheu os ombros numa atitude de desespero.

- Não sei o que devo dizer. Se me deixar só com ela por um momento, talvez...

- Não, por favor! - exclamou a rapariga. - Não quero ficar sozinha com ele!

- De onde veio? - quis saber Frank.

- Da casa para onde me levaste. Ontem bateste-me acusou ela repentinamente.

- Isto está cada vez melhor! - Ele soltou uma gargalhada sem alegria. - Além de casado, sou espancador de mulheres, ao que parece. A única solução é revelar-nos onde mora e levá-la lá para uma acareação com o verdadeiro marido.

- Não vou contigo para parte nenhuma! Não podes obrigar-me! O senhor prometeu proteger-me, Mister Mann!

Este reconheceu que ela se achava imersa em profunda aflição, de que poderia resultar um colapso a todo o momento.

- Este senhor cuidará de si - asseverou encorajadoramente. - Está mais ansioso do que ninguém por protegê-la do seu marido.

- Não vou! - persistia a rapariga. - Se ele me toca, desato aos gritos!

Naquele instante bateram à porta e Frank voltou-se.

- Mais visitas?

- Não há novidade - assegurou-lhe o investigador. - Trata-se de uma senhora e um cavalheiro, não é verdade? - perguntou ao paquete. - Manda-os entrar,

May, que foi a primeira a surgir, observou a cena e estacou, apercebendo-se instintivamente do seu significado. Seguia-a Jasper, que se imobilizou a seu lado.

A rapariga desviou os olhos de Frank para os recém-chegados e, ao avistar Jasper, correu para ele. No momento imediato, o irmão abraçava-a e ela soluçava com a cabeça pousada no seu peito.

- Creio que me assiste o direito de conhecer o significado disto - proferiu Frank com serenidade. - Peço que perdoem a minha irritação, mas sofri tanto e tenho sido vítima de tantas surpresas desagradáveis, que não me resta disposição para aceitar com resignação estóica todos os abalos que o destino me reserva. Alguém quer ter a gentileza de esclarecer este novo mistério? Enlouqueceram todos ou quem perdeu o uso da razão fui apenas eu?

- Não há mistério nenhum - replicou Jasper. Creio que conhece esta senhora.

- Vejo-a pela primeira vez, mas ela persiste em me considerar seu marido, por motivos que me escapam. Trata-se de mais alguma das suas maquinações, prezado Jasper?

- Estou convencido de que a conhece bem - persistiu o outro.

- Repito que nunca a tinha visto.

- Nesse caso, vou elucidá-lo. - Jasper pronunciou algumas palavras ao ouvido de May, que se retirou com a outra rapariga, e concentrou-se de novo em Frank.

- Você foi secretário confidencial de John Minute durante algum tempo, cargo que lhe permitiu descobrir várias coisas interessantes. A mais notável ocorreu quando o sargento Smith decidiu fazer chantagem com o meu pai... Não finja que ignorava que sou filho de John Minute - referiu ao notar a expressão de perplexidade do outro. - Smith confiou em si e você casou com a suposta filha dele. John Minute inteirou-se disso embora não soubesse que se tratava da sua própria filha nem suspeitasse de que a sua associação com a minha irmã constituía uma intriga abaixo da dignidade do seu sobrinho. Você considerou o momento inoportuno para se lhe apresentar como genro, pelo que aguardou até tomar conhecimento das cláusulas do seu testamento, no qual ele não mencionava a filha, porque esta nascera depois de a esposa o abandonar, e negava-se a reconhecer a paternidade.

«Mais tarde, admitindo que cometia uma injustiça para com quem podia ser a sua própria filha, empreendeu diligências para a localizar. Se você estivesse ao corrente disso, poderia ter colaborado decisivamente, mas tal não acontecia. Casou com ela por supor que receberia parte dos milhões de John Minute, e ao descobrir que o plano abortara enveredou pela tentativa de bigamia para se assegurar de uma porção dessa fortuna, que, como sabe, era considerável. - Voltou-se para Saul Arthur Mann. - Julgava que eu não manifestava grande interesse na descoberta do assassino de John Minute? Decerto compreende agora a minha tolerância. - Apontou para Frank. - Este homem é o marido de minha irmã. Se o desmascarasse, ela seria arrastada pelas consequências. Durante algum tempo, supus que viviam felizes e só recentemente descobri a triste verdade.

- Não sei se ria ou chore - articulou o visado, meneando a cabeça. - Confesso que nunca tinha ouvido...

- Ainda vai ouvir mais - cortou Jasper Cole. Deixe-me explicar como foi perpetrado o crime e a identidade do misterioso Rex Holland. O seu pai era burlão, Frank. Trata-se de um facto conhecido. De resto, você tem falsificado assinaturas desde a adolescência. Além disso, assumiu a identidade de Rex Holland nos momentos convenientes para confundir a situação. Deslocou-se a Eastbourne na noite do crime e, graças a um estratagema, muniu-se de provas a seu favor. Fingindo que perdera o bilhete de comboio, esvaziou os bolsos diante de funcionários da estação, os quais puderam mais tarde declarar que não era portador de qualquer arma. O táxi deixou-o à entrada da residência do meu pai e, assim que se afastou, você encaminhou-se para o local onde tinha deixado oculto o seu carro.

«Estivera lá algumas horas antes e dirigiu-se a pé para o entroncamento de Polegate, onde tomou o comboio. Como tivera o cuidado de fazer perfurar o bilhete de volta em Londres, o ardil não foi descoberto. Subiu para o seu carro e seguiu para a residência dez minutos depois de ser visto transpor o portão da propriedade. Muniu-se do revólver que deixara no porta-luvas e utilizou-o para assassinar o meu pai. Depois, para se proteger, lançou as culpas sobre mim e estabeleceu relações cordiais com um dos homens mais argutos do país - inclinou a cabeça na direcção de Mann -, por intermédio do qual fez essas suspeitas chegar ao conhecimento das autoridades. Foi você quem, após despedir-se de May Nuttall em Genebra, reapareceu na mesma noite em Montreux e forjou a mensagem com a minha assinatura. Era igualmente de sua autoria a carta rasgada encontrada na casa da Flowerton Road. Não deu um passo de que eu não tivesse conhecimento. Os meus agentes têm-no vigiado dia e noite desde o homicídio. Aguardei a minha oportunidade pacientemente e agora ela apresentou-se-me.

Frank emitiu um longo suspiro e pegou no chapéu.

- Amanhã, terei uma história para contar - declarou com inflexão átona.

- É um actor excelente e um mentiroso não menos emérito, mas nunca me iludiu - replicou Jasper. Abrindo a porta, acrescentou: - Tem o caminho aberto à sua frente. Dispõe das vinte mil libras que o meu pai lhe deixou ... além das cinqüenta mil que enterrou na noite do crime. Lembra-se da colher de jardineiro encontrada no carro? - perguntou a Mann. - Dou-lhe vinte e quatro horas para abandonar o país, Frank. Se não o podem julgar segunda vez pela morte de John Minute, nada se opõe a que responda pelo assassínio dos seus infortunados empregados.

Frank Merril não efectuou o menor movimento em direcção à porta. Ao invés, dirigiu-se para o lado oposto da sala e manteve-se de costas para os outros. Por fim, voltou-se e declarou:

- Creio que não merece a pena continuar. Tudo isto foi arrasador para os nervos.

Jasper precipitou-se para ele e segurou-o, quando principiava a cair. Depositou-o no chão cuidadosamente, e Saul Arthur Mann telefonou a um médico para que comparecesse com urgência, mas Frank Merril estava morto.

- Eu já sabia - foi o comentário do guarda Wiseman quando lhe comunicaram o desenlace do mistério.

 

                                                                                 Edgar Wallace  

 

                      

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