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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


O JOGO DA NAVALHA / Sergio Pavan
O JOGO DA NAVALHA / Sergio Pavan

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

O JOGO DA NAVALHA

 

Sentado na poltrona favorita, Augusto lia as últimas páginas do livro que, de tão bom, já tinha pena de estar chegando ao fim.

Apesar da tormenta, a noite estava muito quente e abafada, mas ele havia ligado o ar condicionado ao máximo e o ambiente estava muito gostoso.

Virou a próxima página, descansou o livro sobre a mesinha e apanhou o copo com o uísque preferido. Tomou um gole e saboreou a bebida, meditativo.

- Como pequenos prazeres podem ser tão gostosos - pensou.

Acabara de separar-se da mulher e os seus sentimentos ainda mesclavam uma certa melancolia, com a sensação de liberdade total.

Foram 30 anos... Casaram-se muito cedo: ele, aos vinte e dois; ela, aos dezoito. Como todo mundo, viveram dias felizes e infelizes. Tiveram três filhos, dois homens e uma mulher, que cresceram, casaram e mudaram.

Acabaram sozinhos.

Augusto, sem os filhos em casa, afundou-se no trabalho, deixando a mulher cada vez mais solitária. Inúmeras vezes tocaram no assunto, sempre por iniciativa dela, mas, apesar das constantes reclamações, ele não ligou e continuou trabalhando além do normal, chegando tarde quase todas as noites. Não tinha mais motivação em casa, apesar de gostar da mulher. Mas, como ele sempre pensava, era um sentimento mais de amizade, do que de amor.

Um dia, indisposto, largou o processo que estava estudando - era advogado - e voltou mais cedo para casa.

Morava numa bela mansão do Alto da Tijuca, no meio de um terreno de mais de cinco mil metros quadrados, cercados pela Mata Atlântica.

Por comodidade e segurança, o portão de sua casa era acionado eletronicamente. Ao chegar em frente, apertou o botão do aparelhinho que o abria automaticamente. Entrou com o carro, percorreu uns cem metros e estacionou na garagem, cuja porta já estava aberta. Desligou o motor, saltou, fechou a garagem. Olhou para o relógio, eram apenas oito e meia da noite. -Alice vai ficar surpresa - pensou. Tinha telefonado do escritório, para ela não se preocupar, pois pretendia trabalhar até a meia noite, pelo menos.

Abriu a porta que dava acesso ao interior da casa. Chegou ao salão principal, acendeu as luzes e chamou pela mulher. Como não obteve resposta foi até a cozinha e bebeu um copo d’água. Satisfeito, subiu os degraus da escada que dava para o segundo pavimento onde ficavam os quartos. O seu era o último do corredor, bem em frente. Viu que as luzes estavam acesas pela claridade que saía da fresta por baixo da porta.

Ao colocar a mão na maçaneta, ouviu gemidos. Parou e encostou o ouvido na porta. Aguçando a atenção reconheceu o barulho. O sangue quase gelou, enquanto o coração disparava. Com raiva, abriu a porta, com toda a força, e pegou sua mulher na cama, com o jardineiro. Estavam tão entretidos que levaram algum tempo para se darem conta da situação.

Augusto ficou alguns segundos olhando a cena. A primeira vontade que deu foi a de matar os dois. Mas aos poucos a raiva diminuiu e se transformou em nojo. Um imenso nojo.

O divórcio foi rápido e amigável. A mulher, cheia de remorsos e com grande complexo de culpa, não fez nenhuma pressão. Augusto ficou com a maior parte dos bens, inclusive a casa e, de comum acordo, acertaram uma pensão razoável que dava para ela viver, sem maiores preocupações financeiras.

Repassava as cenas, de memória, enquanto saboreava o gole de uísque. E sacudiu a cabeça, como se pudesse eliminar todas aquelas lembranças. Levantou-se, foi até o som e colocou um CD de Straus, O filho. E, no volume máximo, a música equalizou com a tempestade... Pegou, então, o livro, sentou-se e, recompondo-se na poltrona, voltou a ler.

O trinco soltou-se com um pequeno estalido. A janela foi aberta bem devagar, enquanto o vento, procurando passagem enfunou as cortinas. O vulto rapidamente passou pela abertura e a trancou de novo. Augusto sentiu a corrente de ar. Parou de ler e ficou atento. Como nada acontecesse, deu de ombros e voltou à leitura.

O vulto, pé- ante- pé, aproximou-se por traz da poltrona e num gesto rápido, mas certeiro, passou a navalha na carótida do advogado. A vítima sentiu uma dor aguda e ardente no pescoço.

Instintivamente, passou a mão, enquanto o sangue começava a jorrar, seguindo o pulsar do coração, como se estivesse saindo de uma mangueira. Quis gritar mas não conseguiu. Era como se estivesse afogando-se no próprio sangue. Nem mais conseguia respirar. Perdeu as forças e caiu para frente, sobre a enorme poça de sangue que já se formara no tapete. Segundos depois, estava morto.

O vulto, todo de negro, ficou uns instantes olhando e depois jogou a navalha em cima do corpo inerte. Voltou para a janela de onde surgira e sumiu no meio da escuridão.

 

- Já verifiquei tudo - disse o detetive - Não encontramos nenhuma impressão digital na casa, somente da vitima.

- E o que disse o legista? - perguntou o delegado.

- Nada, além do que já sabemos. A jugular foi cortada pela navalha que estava em cima do corpo. Deve ter sido um final horrível, mas bem rápido. Não havia sinais de luta e nada foi roubado, pelo menos aparentemente.

- Já avisou à família?

- Já. Estão vindo para cá; três filhos e a ex-mulher. Eles haviam se separado a pouco menos de seis meses.

- Investigue bem a mulher. Veja se o divórcio foi amigável, a razão da separação e, principalmente, se os dois estavam brigando por questões de partilha.

- Está certo, chefe.

- Ele tinha muito dinheiro, não? Veja se ela tem algum álibi.

- Ele era rico sim. O seu escritório de advocacia é um dos mais importantes da cidade.

- E a navalha?

- É de um tipo antigo que não se fabrica mais.

- E que mais?

- No momento só. O único detalhe é que tinha o número 21, num auto-adesivo, colado no cabo.

- Verifique o fabricante e procure saber se o número tem alguma relação com a fabricação, tipo, modelo, número de serie, ou o que quer que seja.

- Tudo bem; vou verificar.

O detetive cumprimentou o chefe, com um pequeno gesto de mão, saiu da sala e foi direto para a mesa onde ficava a sua recém-assistente.

- Laura, esse assassinato vai ser uma boa escola para você. Verá que o que aprendeu na Academia foi muito pouco, frente à realidade. Já conseguiu o endereço do fabricante?

- Já. Eles nos esperam.

- Então vamos. Pega a chave do carro. Você dirige. Onde fica?

- No Méier.

- Puxa, vamos ter de enfrentar o calor. Porque não dão à polícia carros com ar refrigerado?

- Acho que é pra gente ficar “quente” – disse, brincando, a policial.

No meio da tarde os dois voltaram para a Delegacia de Homicídios. Entraram sem bater, na sala do delegado.

- Eu já disse para vocês baterem antes de entrar. Ou será que  

pensam que aqui é a casa da sogra? - reclamou o delegado.

- Desculpe chefe. É que voltamos da fábrica de navalhas.

- E o que isso tem que ver com educação? E se eu estivesse nu?

- Eu diria que você teria de perder uns quilinhos de sua barriga, brincou Laura.

- Vá se catar, menina. - disse rindo. - O que vocês acharam de importante?

- Nada.

- Nada como? Invadem a minha sala desse jeito, para dizerem que não acharam nada?

- Isto é, o número não tem nada com a navalha. Alias esse tipo não é fabricada há mais de dez anos.

Desde que surgiu a AIDS, eles descontinuaram esse modelo e passaram a fabricar um outro tipo que tem como refil descartável a metade de uma gilete comum. São os que os barbeiros usam atualmente.

- E os parentes?

- Os filhos estão limpos, aparentemente. Adoravam o pai e não  

tinham nenhum motivo para o assassinato. Mas a mulher pode ser considerada suspeita, pelo menos até novas investigações.

- Por quê?

- O divórcio foi amigável, mas o motivo foi bem forte: ele a pegou trepando com o jardineiro em sua própria cama. .Que, aliás, continua como seu amante, apesar de morar em outro lugar.

- Ela tem um álibi?

- Tem, e é muito bom. Estava jantando com um dos filhos.

- Isso não quer dizer nada - disse o delegado. - Pode ser coisa armada por ela e executada pelo amante. Quero que vocês o tragam aqui para interrogatório.

O detetive Alberto pegou Laura pelo braço e ambos saíram à cata do jardineiro.

Horas depois os dois voltaram com o suspeito.

Antes de entrar na sala do delegado, porém, bateram à porta.

- Podem entrar - resmungou o delegado.

- Chefe? Já estamos com o tal do jardineiro. Você quer interrogar ou prefere que nós o façamos? - perguntou Alberto.

- Interroguem vocês mesmos. Hoje é dia do meu aniversário de casamento e se eu me atrasar, a mulher me come vivo.

Alberto riu, cumprimentou-o, pela data e saiu da sala indo direto para a cela onde Laura conversava com o jardineiro.

- E então? - perguntou o policial, ao entrar.

- Podemos soltá-lo. Ele passou a noite com o novo patrão. Eu já conferi e é verdade.

- Fazendo o quê? - perguntou o detetive.

Laura riu.

- Advinha?

- Diga logo Laura. Estou cansado...

- O patrão dele chama-se Pedrinho da Escola.

- O carnavalesco?

- Esse mesmo. Sabe, agora, o que eles estavam fazendo?

- Posso imaginar. Solta logo esse puto, mas não o deixes sair da cidade. Apesar do álibi, continua como suspeito. Eles podem estar mentindo. Vamos averiguar isso direitinho.

Laura liberou o jardineiro e voltou-se para Alberto:

- Quer me dar uma carona até em casa?

- Claro que dou. Onde você mora?

- Leblon. Na Ataulfo de Paiva.

A viagem foi rápida. Já eram nove horas da noite e o trânsito estava livre. Alberto parou na portaria do prédio de Laura. Ela saltou e despediu-se:

- Obrigada e até amanhã.

Alberto reagiu imediatamente:

- Não vai me convidar para um cafezinho?

- Tudo bem. Então vamos. Encoste o carro direito.

Alberto rapidamente estacionou o seu carro. Laura ficou esperando na portaria enquanto ele manobrava.

Alberto estava cheio de más intenções. Desde que Laura tinha sido designada para trabalhar com ele que esperava um momento assim.

Era uma morena muito bonita, com um corpo escultural. Solteira, independente, morava sozinha. Até aquele momento, ele se perguntava o que uma mulher como ela fazia na polícia.

Laura tinha vinte e cinco anos e era formada em Direito. Ficara em terceiro lugar na Academia de Policia, na frente da maioria dos marmanjos, mesmo em matérias como tiro e luta corporal.

Alberto já estava na polícia há dez anos. Tinha trinta e um, e também era formado em Direito, único caminho para chegar a delegado de policia. Foi condecorado várias vezes, por atos de bravura. Solteiro, bonitão, tinha como hobby conquistar mulheres, o que para ele era fácil. E desde que viu Laura, colocou-se em sua mira. Mas ela, pelo menos até o momento, não lhe tinha dado a menor chance, apesar de várias e discretas investidas. Tinha que tomar cuidado pois ela era a sua parceira. Mas, agora, sua hora tinha chegado, pensou.

Laura abriu a porta, afastou-se e, com um gesto, convidou-o a entrar:

- Pode entrar, a casa é sua. - disse gentilmente.

Alberto não esperou segunda ordem. O apartamento era pequeno, mas acolhedor. Diferente do seu, que era totalmente bagunçado, estava arrumado e com os toques característicos de mulher: plantas, jarrinha com flores e bibelôs em cantos estratégicos. Tudo muito feminino.

- Você está com fome? - perguntou Laura.

Alberto quase soltou uma piada, mas achou melhor se controlar.

- Morrendo - disse ele.

- Sabe fazer macarrão?

- Sei. É só botar na água fervendo.

- Isso mesmo. Só que antes, ponha um pouco de sal e umas gotas de azeite para ele ficar soltinho. Ferva no máximo uns oito minutos, senão ele fica mole e grudento. O molho deixa que eu faço.

- Hei! espere aí - reclamou Alberto - Você está insinuando que eu é que vou fazer?

- Claro que sim. Ou você acha que só a mulher é que tem de cozinhar?

- Mas eu nunca fiz comida.

- Deixe de ser filhinho da mamãe e vá para a cozinha.

No armário você encontra o pacote de macarrão. Debaixo da pia está a panela. Antes, porém, ponha a mesa. Na cristaleira você encontrará os pratos e talheres. A toalha fica na primeira gaveta. Enquanto você adianta, eu vou tomar um banho e trocar de roupa.

Alberto ia reclamar de novo. Mas quando ela disse que ia tomar um banho, mudou de atitude. Era um bom sinal e ficou excitado. - Esta noite vai ser muito boa e longa - pensou.

Quando Laura voltou para a sala, de banho tomado e roupa trocada, encontrou a mesa posta, mas faltavam os copos. Ela riu, balançou a cabeça, completou a mesa e foi para a cozinha.

Alberto tinha acabado de fazer o macarrão.

- O que é isso? - perguntou Laura espantada.

- Isso o quê?

- Houve alguma luta por aqui?

A cozinha estava a maior bagunça. Fogão todo sujo de macarrão, água derramada pelo chão, o pote de sal virado e várias panelas empilhadas na pia.

- É que eu me queimei - respondeu, desculpando-se, ao mesmo tempo em que mostrava as costas da mão esquerda vermelha.

- Xo! - enxotou - vá lavar as mãos e sente-se à mesa. Você não presta para nada mesmo - disse rindo e brincando. - Deixa que eu cuide do resto.

Alberto, obedientemente, foi para a sala, mas antes reparou em Laura. Estava linda, vestindo um robe azul-claro que contrastava com a pele morena. Como era um pouco curto, deu para ver as suas pernas. Eram maravilhosas.

Mal tinha sentado, Laura apareceu carregando a travessa de macarrão. Os dois se serviram e comeram tudo. O molho feito por Laura estava delicioso.

- Puxa, não sabia que fazia um macarrão tão gostoso - vangloriou-se Alberto.

- Deixa de ser bobo. Você só cozinhou a massa. O importante é o molho e esse quem fez fui eu. – respondeu, rindo, Laura. - Agora, vamos tirar a mesa e lavar os pratos.

- Peraí, Laura. Lavar os pratos também?

- Claro, machão. Ou foi só eu que comi?

- Mas isso é trabalho de mulher!

- Nada disso. Sem essa de chauvinismo. Eu lavo e você enxuga. É o máximo que posso fazer por você.

Sem alternativa, Alberto ajudou Laura. Toda a vez que se cruzavam na tarefa de lavar e enxugar, ele metia os olhos nos seios dela. O roupão estava ligeiramente aberto e ela não estava usando sutiã. Assim, os contornos dos seios apareciam um pouco. Acabadas as tarefas, foram para a sala e sentaram no mesmo sofá. Alberto então começou a sedução:

- Você tem os mais belos olhos verdes que eu já vi.

- Obrigada. Já me disseram isso antes.

Alberto não esperava pela resposta. Perdeu um pouco a confiança. Mas como era escolado, continuou:

- Alguém já lhe disse o mesmo, da boca e do sorriso?

- Também já.

Alberto então, num impulso, pegou a mão de Laura e tentou puxar a garota para si. Laura resistiu:

- Calma, Alberto. Já é tarde e é melhor a gente ir dormir.

Alberto ia aproveitar a deixa, mas ela rapidamente completou:

- Separados!

- Laura - recrutou - ainda é muito cedo. Não são nem onze horas ainda.

- Para mim é muito tarde. Acordo cedo para fazer ginástica e preciso descansar.

Alberto entendeu o recado. Se fosse qualquer outra mulher, forçaria um pouco mais. Mas aquela era sua companheira de trabalho e ele não podia vacilar.

Tá bom, Laura – disse, levantando-se - Obrigado pelo jantar e boa-noite.

Já no carro, enquanto metia a chave na ignição, falou para si:

- Tá bom! Você ganhou o primeiro round. Mas ainda vai me implorar.

No dia seguinte, Alberto chegou tarde à delegacia. (seu carro era velho e não conseguia pegar. Teve que comprar uma nova bateria.). Passando pela mesa de Laura, meio sem jeito, cumprimentou-a

- Bom dia!

- Bom dia! - respondeu Laura bem humorada.

O bom humor e o grande sorriso de Laura o tranqüilizaram. Pelo menos ela não estava aborrecida com ele.

- Acho bom você ir falar com o chefe. Ele está feito um louco à sua procura.

- Você tem idéia do que seja?

- Não tenho a mínima. Não deve ser nada bom, pois ele parecia muito zangado.

Alberto foi ao encontro do delegado, pensando que ele ia reclamar do seu atraso.

- Bom dia, chefe. - Saudou com um sorriso, tentando minimizar a situação.

- Bom dia coisa nenhuma! - respondeu rudemente. - Onde você estava?

- O meu carro...

- Deixa pra lá - atalhou - Temos um outro assassinato nas mesmas condições do de ontem.

- Como assim?

- Você conhece o ator de teatro Frederico de Lauris?

- Conheço.

- Pois conhecia. Ele foi encontrado morto em seu apartamento com a jugular cortada, deitado no chão, e junto ao corpo outra navalha do mesmo tipo. Só que de número 04.

- Borboleta.

- O que foi que disse?

- Borboleta - repetiu.

- É isso aí! - berrou o delegado. - O advogado tinha o número 21. O que quer dizer o 21, no jogo do bicho?

- Touro.

- Acho que matamos a charada dos números. Touro é chifrudo, como o traído. O cara pegou a mulher na cama com outro, não foi?

- Mas e a borboleta? - perguntou o Alberto.

- O ator não era homossexual? Eis a relação.

- Mas não deveria ser o 24, viado?

- Não sei... deve ter alguma relação. Veja que peça teatral ele estava fazendo.

Alberto saiu da sala do delegado e foi direto ao salão onde ficavam os detetives.

- Alguém tem o jornal de hoje?

O jornal lhe foi passado. Consultou a seção de teatro e soltou um palavrão. Chamou Laura e voltou à sala do chefe.

- Na mosca, chefe! A peça em que estava atuando chama-se “O Vôo das Borboletas”.

- Só me faltava essa! - berrou o delegado, levantando-se de sua cadeira - Um “serial killer” maluco, no Rio de Janeiro. E o pior é que toda a mídia está na delegacia. O advogado não tinha expressão nacional, mas o Frederico tem. Além do mais, trabalhou na campanha do Governador que, por sinal, já me ligou duas vezes.

- Puxa, chefe, não queria estar na sua pele - disse Alberto.

- Nem eu na de vocês! - retrucou gritando o delegado. De agora em diante, os dois vão trabalhar exclusivamente nesses casos, e eu quero uma solução rápida. Senão, acabo com vocês.

Alberto e Laura saíram da sala do delegado quase correndo.

- Estamos fritos, Laura. A pressão em cima da gente vai ser terrível.

- Veja o lado positivo, Alberto. Podemos até ser promovidos.

Alberto deu um sorriso e pensou: - essa menina ainda vai ter muito que aprender. Se fosse realmente um “serial killer”, outros assassinatos, nas mesmas condições, iriam suceder-se. A coisa ia ficar muito feia para todos.

 

Janete estava muito feliz. Aquela noite foi muito produtiva para ela. Tivera dois fregueses japoneses que lhe deram quinhentos dólares pelo programa. É verdade que lhe deram muito trabalho, pois, quando um acabava, o outro pulava para cima dela. Puxa - pensava - como esse pessoal de olhinhos puxados gostava de trepar. Não era à toa, como já lhe haviam dito, que existiam mais japoneses que brasileiros, no mundo. Pelo jeito eles passavam todas as noites fazendo sexo. Mas tinha valido a pena. Além da grana, eles foram muito gentis e educados. Não era toda a hora que ela era tratada assim.

Janete, com a noite ganha, resolveu ir embora para casa. Dali a pouco, o dia amanheceria e ela tinha que dormir. Pegou o primeiro táxi que passou e deu o endereço de casa.

Morava na Lapa e fazia os programas em Copacabana. Não queria que os seus vizinhos soubessem da sua profissão. Dizia a todos que era a principal estrela de um show de mulatas de uma importante boate daquele bairro.

Já dentro do carro, reparou no chofer. Era um português de meia idade, bastante forte e com um vasto bigode. Não era bonito, mas fazia o seu tipo. Sempre gostara de homens fortes e bem mais velhos.

Foi assim que perdeu a virgindade: tinha treze anos, mas já com um corpo de mulher. O português da quitanda a olhava com os olhos compridos toda a vez que ia comprar alguma coisa para a sua mãe. Sentia prazer ao reparar que o comerciante não tirava os olhos do seu corpo. Parecia que a despia. Ela gostava.

Um dia, a sua tia morreu.

Teresa - esse era o seu verdadeiro nome - ficou em casa sozinha por cinco dias. Foi o tempo que a mãe levou para ir e voltar do enterro da irmã, que morava em Garanhuns, interior de Pernambuco.

Antes de sair, como morava só com a filha, deu dinheiro para ela subsistir aqueles dias. O dinheiro era contado: condução para a escola pública, comida e um troco para alguma necessidade. Preocupada, pediu que os vizinhos tomassem conta da garota e a proibiu de sair à noite, até que voltasse.

Logo que a mãe viajou, Teresa foi correndo para a quitanda do seu Manoel. O seu coração batia depressa e ela sentia uma pequena e fina dor no peito, causada pela ansiedade e excitação. Era sempre assim quando ia lá, mas aquele dia foi maior, talvez pela sensação de liberdade, por saber que a mãe estava longe e ela, sozinha. Não conseguia entender porque tinha tão grande atração pelo português, visto que não sentia nada disso com os rapazes de sua idade.

Talvez fosse porque sentia medo e sabia que se tivesse uma oportunidade o seu Manoel a pegaria. Era como uma atração suicida, quanto mais medo sentia, mais atraída ficava.

Propositadamente tinha vestido a roupa mais curta e justa que possuía. Era um vestido branco que lhe foi dado pela vizinha, que era meretriz e tinha engravidado. Sua mãe nunca a tinha deixado usar, pois achava imoral.

- Esse vestido é de puta, não para uma garota de 13 anos, dizia.

Teresa teve que obedecer, mas depois de muito choro conseguiu que a mãe a deixasse guardar. Não poderia usar, mas pelo menos ficaria com o presente. Um dos poucos que recebera em toda a sua vida. Mas, no íntimo, sabia que um dia ainda o usaria.

Ao entrar na quitanda, usando o vestido branco, o português quase teve um desmaio. Teresa fez o seu pedido mas ele não conseguia ouvir. Ela teve de repetir tudo. Ao fazer as contas, o valor passou da quantia que ela tinha.

- Então eu levo só o feijão...

O português não a deixou terminar.

- Deixa disso, ó menina. Amanhã você me paga.

- Não dá, seu Manoel. A minha mãe viajou por uma semana.

- A menina está sozinha em casa?

- Estou.

- E não tem medo?

- De que, seu Manoel?

- De nada. Bobagem minha. Leva o que você precisar e quando sua mãe chegar você me paga.

- Precisa não, seu Manoel. Muito obrigado. Eu acho que pedi mais do que precisava. Não vou ter nem forças para levar tudo isso para a minha casa.

O português então viu que estava tendo uma grande oportunidade. Resolveu não desperdiçá-la:

- Pode deixar, menina. Eu ajudo você.

Teresa então se deu conta do que estava para acontecer. Se ela deixasse o Manoel levar as compras, ficaria sozinha com ele em casa. Ficou com muito medo, mas como sempre acontecia, o medo se transformava em atração. Quase que gaguejando e tremendo de emoção, respondeu impulsivamente:

- Então está bem, seu Manoel.

O quitandeiro não acreditou na resposta, era bom demais. Rapidamente chamou o seu empregado, mandou ele ficar no balcão e dizer para a Maria, sua mulher, que tinha saído para comprar umas mercadorias que estavam faltando na quitanda.

A subida até o barraco onde Teresa morava foi angustiante para os dois. Parecia que não chegava nunca. Teresa ia à frente, indicando o caminho e o português, atrás, não tirava os olhos das ancas da menina. Estavam tão tensos que não conseguiam dizer uma única palavra e a subida parecia que não acabava mais. Enfim chegaram.

O barraco, como a maioria naquele lugar, era muito pequeno, de um cômodo só. Num dos lados, o banheiro e a cozinha. Do outro, separados por uma cortina de bambu, tipo japonesa, o quarto, onde dormiam a garota e a mãe.

- Pode deixar aqui.- disse Teresa.

O Manoel colocou as sacolas das compras no chão da cozinha.

- Sua casa é muito bonita - mentiu, elogiando. - Você não quer me mostrar?

O coração de Teresa parecia que ia sair pela boca. Tinha certeza do que aconteceria se o levasse para o outro lado da cortina. Mas, novamente, o medo a atraiu. Sem pestanejar, respondeu:

- Mostro sim, seu Manoel.

Teresa afastou a cortina com as mãos e Manoel a seguiu e, quando do outro lado, a agarrou por trás. Teresa não resistiu, muito pelo contrário, virou-se de frente e o beijou na boca. Manoel a levou para a cama e tirou a sua virgindade.

Nos dias seguintes, enquanto a mãe estava fora, o português a visitou. Teresa tinha perdido todo o medo e a vergonha. Gozava feito louca e quase não deixava o quitandeiro ir embora.

Quando sua mãe chegou da viagem, a vizinha, que tinha presenteado o vestido, foi logo correndo contar o que estava acontecendo. Teresa foi chamada pela mãe e não agüentando a pressão, contou tudo. Levou uma surra tão grande que ficou dois dias sem poder sair de casa.

Quando melhorou, logo que sua mãe saiu para trabalhar, foi a quitanda. Contou tudo o que havia acontecido ao Manoel. Não poderiam se encontrar mais em casa, pois a vizinha, que tinha acabado de ter o filho e por isso não saia mais de casa, vigiava-a, a pedido da mãe.

Mas Manoel estava louco pela garota. Intempestivamente e morrendo de saudades, levou-a para os fundos da quitanda, onde era o depósito das mercadorias e a possuiu. Fizeram tanto barulho, que a Maria, que estava fazendo comida no andar de cima, desceu estranhando. Pegou os dois em flagrante. Com o cabo da vassoura avançou no marido e na Teresa.

Os dois, fugindo da surra, correram para a rua, sendo perseguidos pela portuguesa que distribuía vassourada a torto e a direito, enquanto xingava com todos os nomes que conhecia. Toda a favela assistiu. Em vez de apartar, riam sem parar, dando a maior força a Maria.

Teresa, na confusão, conseguiu fugir para casa. Estava num estado lastimável: cheia de sangue e empolada pelas vassouradas.

O português, depois de muito apanhar, resolveu reagir: deu um soco na boca da mulher, que caiu chorando. Quando viu o que havia feito, correu para socorrer a esposa. Os dois ficaram juntos um tempo, se olhando, e depois repentinamente, se beijaram e voltaram para dentro de casa abraçados. A multidão, na gozação, dava vivas aos dois.

Assim que chegou em casa, a mãe de Teresa soube do acontecido. Morrendo de vergonha, expulsou a menina. A vizinha a acudiu imediatamente. No dia seguinte a levou para a sua cafetina. Assim começou, Teresa, a sua vida de prostituição.

 

Olhou de novo para o chofer. Lembrava o Manoel. Logo ficou cheia de tesão e mandou o motorista parar o carro. Saiu do banco de trás e se sentou na frente.

-Pode continuar, ordenou ao taxista.

Antes que o homem entendesse o que estava acontecendo, ela colocou a mão primeiramente na sua coxa e depois, devagarzinho, foi ao encontro do seu sexo.

O susto do taxista foi tão grande que ele quase perdeu a direção. Estavam passando pelos jardins do bairro da Glória. O motorista parou o carro e, ali mesmo, com todo o risco, fizeram amor.

Quando chegaram na porta do prédio de Teresa, ela perguntou sobre o preço da corrida.

- Não foi nada, respondeu o taxista.

- Nada disso, falou Teresa - O que aconteceu foi porque eu quis e não tem nada que ver com a corrida. Fiz porque tive vontade.

O motorista, meio encabulado e muito vaidoso, por se sentir um garanhão, deu o preço. Teresa pagou dando uma boa gorjeta.

Teresa abriu a porta do prédio e tomou o elevador. Desceu no quinto andar e entrou no seu apartamento. Era uma pequena quitinete. Jogou a bolsa na cama e foi direto para o banheiro. Sentiu a navalha em seu pescoço. Tentou se desvencilhar, mas não conseguiu. Pouco minutos depois estava morta.

 

O delegado estava alegre. A primeira coisa que fez - tinha virado um hábito depois dos dois assassinatos com a navalha - foi ver o livro de ocorrências. Nada demais. Duas tentativas de homicídios. Uma por briga no trânsito, outra entre quadrilhas de traficantes. Ainda bem - pensou, respirando aliviado.

Depois do almoço, chamou Alberto e Laura em sua sala. Queria saber sobre o prosseguimento das diligências em relação aos crimes da navalha.

- Alguma novidade? - perguntou aos dois.

- Nada chefe. O safado não deixou pista alguma. Já reviramos de pernas pro ar toda a casa do advogado e o apartamento do ator. Nada. Conversamos com os parentes, amigos e vizinhos. Também foi negativo. Pesquisamos alguma ligação entre os dois. Também foi infrutífero.

- O Frederico tinha muitos garotos. Já identificaram quem eram? Falaram com eles?

- Falamos com mais de uma dúzia. Tudo negativo. O pior é que ele era freqüentado por dezenas de rapazes.

Ele era o que poderíamos chamar de promíscuo. Vamos acabar ficando velhos, sem chegar ao final da lista.

- Bem, pelo menos o padrão acabou. Nesta semana não tivemos nada parecido.

- Ainda bem.

O telefone do delegado toca. Ele faz um sinal para os dois esperarem e atende.

- Como? – perguntou, gritando.

Após uns segundos de silêncio, ouvindo, explodiu:

- Porra - exclamou - Não é possível! Onde foi? Espera um instante.

Tapando o telefone com a mão, voltou-se para os dois e falou:

- Aconteceu de novo. Desta vez foi uma mulher.

- Qual foi o número? - perguntou Alberto.

- Qual foi o número? - repetiu automaticamente o delegado. - vinte e cinco? - confirmou em voz alta.

- É vaca! – disse Alberto. - O que ela fazia?

- O que ela fazia? - repetiu, novamente o delegado. Era puta - respondeu ao Alberto.

- Bingo! - Gritou o detetive. - vinte e cinco é vaca.

O delegado desligou o telefone desconsolado.

- Agora não tem jeito. A mídia vai fazer a ligação e descobrir que estamos com um caso de “serial killer” nas mãos. Vai ser um escândalo. Vamos virar sensação, da noite para o dia. Só que, em vez de heróis, seremos execrados. Vamos lá - disse levantando e pegando o paletó - Quero ver a cena do crime pessoalmente. Tenho certeza de que ainda hoje receberei uma nova ligação, muito pouca amistosa, do governador.

Quando os policiais da homicídio chegaram à casa de Teresa, havia um tumulto generalizado. Toda a imprensa estava presente. Como o delegado previra, foi fácil chegar à conclusão de que os crimes não eram isolados, mas sim um “serial” criado pela cabeça doentia de um assassino. Repórteres, cinegrafistas, enfim todos estavam feito loucos.

Andavam de um lado para o outro, gritavam, tentavam subornar os guardas para conseguirem filmar ou fotografar a cena do crime. Entrevistavam moradores do prédio e até vizinhos e transeuntes que passavam, não escapavam do assédio deles. Foi nessa situação caótica que o carro, onde estavam o delegado e os detetives, chegou.

Assim que a mídia reconheceu o delegado, correu ao seu encontro. Os repórteres queriam saber se haviam novidades e o que significavam os números colados nas navalhas, entre outras coisas.

O delegado, com muita dificuldade, e protegido pelos guardas, conseguiu entrar no prédio com os dois detetives, direto para o apartamento da vítima.

O pessoal da polícia técnica já havia terminado o serviço e os homens do rabecão ensacavam o cadáver para levá-lo ao Instituto Médico Legal.

O delegado se dirigiu, imediatamente, ao chefe do grupo da polícia técnica:

- O que vocês conseguiram encontrar? - perguntou.

- Nada importante, delegado. Sem impressões digitais, sem sinais de luta. Sem nada, como das outras vezes.

- Nem um fio de cabelo ou alguma outra coisa que pudesse nos auxiliar nas investigações?

- Nada, nada. O cara é um profissional. Não temos a menor pista. Ninguém viu, ou ouviu, nada estranho. O método dele matar é perfeito. Não precisa usar a força física. Por isso não sabemos se é homem ou mulher, se é forte ou fraco, enfim, nada. Estaca zero, delegado, como das outras vezes.

- Assim não dá - lamentou o delegado. - Como vou começar uma investigação do nada?

- É, respondeu o policial, o assassino parece que vem do nada, mata, e volta para o nada.

O delegado chamou os seus dois auxiliares e ordenou:

- Alberto e Laura, investiguem toda a vida da morta. Quero saber onde nasceu, quem são os pais, se tinha namorados, inimigos, enfim tudo. Vejam se existem ligações, por menores que sejam, com os outros dois assassinatos. Qualquer coisa: freqüentavam-se os mesmos lugares, se conheciam, se tinham amigos comuns; vasculhem tudo.

- Mas delegado – reclamou Alberto. - Só somos dois.

-Já pensei nisso. Vou criar um grupo especial, dentro do departamento, para cuidar somente desses casos. E você, Alberto, será o líder do grupo. Escolha os homens e os equipamentos que precisar e forme a sua equipe. Temos que dar uma solução rápida. Já temos três assassinatos, um por semana, e os bichos do jogo são vinte e cinco.

Não quero mais vinte e duas mortes em cima dos meus ombros. Além do mais, se isso continuar, serei transferido para uma pequena e escondida delegacia do subúrbio. Foi o que o governador insinuou no último telefonema.

O delegado deu as costas e saiu bufando do apartamento, deixando Alberto e Laura na cena do crime.

- Laura, perguntou Alberto, que tal sairmos daqui? Não temos mais nada para ver e estou ficando com sede. Vamos procurar um bar e tomar um refrigerante?

- Acho ótimo - concordou imediatamente Laura. - Já estou começando a ficar deprimida com tanto sangue. Mas vamos sair pelos fundos para fugir da imprensa.

- Precisa não, Laura. A esta altura, eles estão devorando o delegado. Não vão nem notar a nossa presença.

Os dois saíram então pela frente. Como Alberto previra, o delegado estava cercado de uma multidão, no meio de dezenas de fios, câmeras e microfones.

O barzinho que eles encontraram ficava na esquina da rua do prédio da vítima.

Àquela hora do dia, mais ou menos, três da tarde, estava totalmente vazio. Escolheram uma mesa do canto, embaixo de um ventilador.

Alberto puxou o assunto:

- Vamos pedir um computador só para nós. Enchemo-lo com todos os dados que temos e cruzamos todas as informações...

Laura atalhou, brincando:

- O mais provável é que ele fique vazio - disse rindo. - Que dados nós temos, Alberto? Três cadáveres, três navalhas e três números. Mais nada.

- Ora, Laura, deixe de ser pessimista. Vamos pedir seis investigadores. Colocamos dois em cada caso, reunindo informações de cada um dos assassinatos.

Depois cruzamos tudo. Quem sabe não teremos uma surpresa agradável?

- Acho melhor pedir mais dois para ficarem de prontidão na próxima semana.

- Laura, deixe de gozação. Aposto com você que no máximo, em dez dias, teremos todas as respostas e prenderemos o criminoso. Quer apostar?

- Quero. O que vai ser?      

- Tudo!

- Tudo o quê?

- Quem ganhar pede o que quiser.

- Que é isso, Alberto? Sei muito bem o que está querendo. Mas isso, você não vai ter, não.

- Isso o quê? - disfarçou o detetive - Você não pode advinhar o que quero.

- Nesse caso, posso sim. Você poderá até conseguir. O que duvido. Mas nunca através de uma aposta.

- Por que não? Sou tão ruim assim? - falou sorrindo e fazendo cara de carente.

- Não se trata disso. Já tive vários homens, mas todos foram por amor e, saiba você, nenhum colega de trabalho.

- Então apostamos um beijo?

- Também não. Que tal um jantar?

- Tá bom. Mas tem de ser na sua casa. Quem perder faz toda a comida, enquanto o outro fica de papo pro ar. E, antes que me esqueça, lava toda a louça também.

- Então está bom. Fechado - disse Laura estendendo a mão para um aperto.

 

A bola veio pelo alto. Encobrindo o quarto zagueiro, caiu nos pés de Zulu, na entrada da meia-lua da grande área. À sua frente, cinco zagueiros adversários formavam um muro. O jogo já estava nos descontos e empatado por dois a dois. O Botafogo precisava da vitória para ser bicampeão nacional. O empate dava o título ao adversário que jogava em seu campo.

Zulu matou a bola com todo carinho. O zagueiro mais próximo entrou de carrinho, tentando matar a jogada. O atacante, com um leve toque para cima, ao mesmo tempo em que dava um pulo, deixou o zagueiro passar feito uma locomotiva. O estádio, pressentindo o que ia acontecer, emudeceu. A pequena torcida Botafoguense, que tinha vindo numa caravana de ônibus e colocada de propósito num dos cantos do estádio, levantou-se. Ainda sobravam quatro zagueiros e mais o goleiro. Zulu levantou a cabeça numa fração de segundos e, vendo o goleiro adversário adiantado de sua meta, deu um toque de peito-de-pé, jogando a bola por cobertura.

Ela subiu e foi caindo devagar. A sensação de todos era de que tudo aquilo se passava num “slow motion”.

O goleiro, desesperado, corria de costas, tentando alcançar a bola, mas em vão. Ela, mansamente, como se tivesse sido colocada com a mão, entrou no ângulo esquerdo e, escorregando pelas malhas da rede, acabou no chão, atrás da linha fatal.

- Goool !!! Berrou a torcida botafoguense como se fosse uma só voz.

Em seguida, o juiz apitou o final do jogo. Foi uma loucura. Dentro do campo, os jogadores faziam a maior festa.

A torcida adversária, num silêncio de enterro, saía do estádio. O Botafogo, graças ao gol de Zulu, nos descontos, acabava de ser bicampeão nacional.

No Rio de Janeiro, a sede do Botafogo estava toda iluminada e cercada por centenas de milhares de torcedores. O hino do clube era cantado seguidamente por velhos, adultos e crianças. Homens e mulheres choravam de alegria. Todos estavam à espera do time que já tinha chegado à cidade de avião. O ônibus que o tinha ido buscar estava para chegar a qualquer momento. Quando finalmente chegou, foi uma alucinação.

Fogos estouravam, carros buzinavam e os fãs pulavam e gritavam pelo nome de seus ídolos, sem parar, a cada vez que um saltava do coletivo. Quando Zulu apareceu na porta do veículo, dava a impressão de que o mundo que ia acabar.

A histeria tomou conta dos torcedores. A polícia, com a maior dificuldade, acabou fazendo um corredor, para que os jogadores conseguissem entrar na sede.

Zulu era o mais solicitado de todos. Com apenas vinte anos, no auge de sua juventude, foi cercado por homens, mulheres e crianças. No final da festa, com o dia clareando, Zulu saiu pelos fundos, em seu carro esporte, com uma linda loura ao seu lado. Sabendo que sua casa estaria cercada pelos fãs, o craque entrou no primeiro motel que encontrou no caminho. Tinha todo o direito de “saborear” o seu prêmio.

Zulu era um negro de estatura média, talvez um metro e setenta e cinco, mas muito forte. O Botafogo tinha comprado o seu passe do Madureira que, surpreendentemente, fora vice-campeão estadual, graças ao craque. No último jogo do estadual, para cada gol que o Botafogo fazia, vinha o Zulu e empatava.

A torcida estava desesperada quando o Botafogo desempatou e acabou ganhando o jogo, e o título.

Logo depois da partida, enquanto o time comemorava com a sua torcida, o presidente do Botafogo foi imediatamente para o vestiário do Madureira e comprou o passe do jogador. Custou uma fortuna, levando-se em consideração o mercado brasileiro: quatro milhões de reais. Não foi precipitação, ao contrário, mais dois times brasileiros, além do Juventus da Itália e o Barcelona da Espanha, já estavam de olho nele.

Zulu estreou no campeonato brasileiro pelo seu novo time fazendo logo dois gols. Dali para frente, a média por partida foi maior que 1,5 gol. Era o maior ídolo da torcida botafoguense e a grande esperança para o Brasil conquistar o seu penta campeonato mundial.

 

- Não acredito! Não acredito! - berrava o delegado ao telefone, girando em volta de sua mesa.

Depois, desligou, abriu a porta do seu escritório e gritou para o salão onde ficavam os detetives:

- Alberto, venha cá!

O grupo designado pelo delegado e chefiado por Alberto já trabalhava há uma semana no caso do “serial killer”. Todas as informações, dados e denúncias, mesmo as mais descabidas, foram colocadas no computador. Nada cruzava. As vítimas, pelo menos até aquele momento, não tinham nenhuma ligação ou alguma coisa em comum.

Alberto levou um susto quando o delegado gritou seu nome. Todos na sala deixaram o que estavam fazendo e, levantando a cabeça, procuravam saber o que estava acontecendo.

- O que será que houve? - perguntou baixinho para a Laura.

- Pra mim, ele esta tendo um enfarte. – respondeu Laura, irônica.

Alberto foi em direção ao seu chefe.

- O que está havendo, delegado?

- Zulu foi morto! - gritou.

Espanto geral. Todos na sala de detetives se levantaram e cercaram os dois.

Antes que alguém perguntasse algo, ele completou a frase:

- Foi morto pelo maluco que vocês não conseguem descobrir. O Governador, em pessoa, esta vindo para cá.

- Mas como foi? - perguntou Alberto.

- Foi num motel em Botafogo. Ele e uma mulher. O garçom encontrou os dois, mortos, cheios de sangue e com a garganta cortada.

- Nossa - disse o Alberto - e agora?

- Agora? Você é que me pergunta? - respondeu o delegado - Vá logo para lá e vê se consegue alguma coisa. Impossível que num motel ninguém tenha visto nada. Ele deve ter cometido algum erro desta vez. Ligue-me do local e me ponha a par de tudo, antes que o governador chegue.

- Pode deixar - disse Alberto, fazendo sinal para Laura o seguir.

- E, por favor, quero sigilo absoluto. Não sei nem o que vai acontecer quando os torcedores souberem da morte do ídolo. Proíba todo o mundo de comentar qualquer coisa, principalmente os funcionários do motel.

Alberto mais Laura e um outro detetive foram a toda velocidade para o local do crime, com as sirenes ligadas.

- Bom dia, detetive - saudou o guarda na porta do motel.

- Bom dia? - retrucou o detetive - você está maluco? Quero todos os funcionários e hóspedes do motel reunidos em um único lugar. Quero falar com todos. Primeiro em conjunto, depois separadamente, um a um.

- Mas detetive, temos cinco casais com problemas.

- Que tipo de problema?

- Amantes e casados.

- Que se danem! Se eles não quiserem colaborar, diga que vou ligar para os maridos e mulheres para virem buscá-los. Vai ver como vão colaborar logo, logo.

Virando as costas, Alberto e Laura se dirigiram para a suíte onde o crime tinha ocorrido. O outro detetive seguiu com o guarda para juntar os funcionários e hóspedes.

- Nossa! Quanto sangue! - exclamou Laura.

- Vocês mexeram em alguma coisa? - perguntou Alberto aos guardas que estavam tomando conta do quarto.

- Não, detetive. A suíte está da mesma forma de quando o garçom entrou com a chave mestra.

Alberto se aproximou da cama onde estavam os dois cadáveres. O jogador estava de bruços na cama, enquanto que sua companheira estava perto da porta, como que tivesse tentado fugir. Juntos aos seus corpos, as indefectíveis navalhas. A de Zulu tinha o número 9, enquanto que a da garota era o número 26.

- Vinte e seis? - espantou-se o Alberto - Não tem esse número no jogo do bicho.

- Não tem? - perguntou Laura.

- Não na unidade. O jogo do bicho vai de um a vinte e cinco. Os outros números são combinações destes. Por exemplo: borboleta é quatro. Multiplicando 4 por 4, dá 16. Aí vem descendo, 15, 14 e 13. Todos são borboleta.

Depois vêm as centenas e os milhares com essas dezenas, como 116, 316, etc. ou 1116, 1216, todos, também borboleta. O 26 só existe na dezena pra cima e, é carneiro. Isso foge totalmente ao padrão ou quer dizer alguma coisa que não entendemos.

- Nossa, Alberto, você é bom mesmo no jogo do bicho. Ou será que já foi bicheiro? - brincou Laura.

- Pare de brincadeiras. Nós estamos ferrados e você fica me gozando. Nessa hora o governador deve estar apertando o saco do delegado e o que temos é uma complicação maior, pois o assassino fugiu de seu padrão. Ou será que é outro maluco que, lendo nos jornais, resolveu também entrar no jogo?

- Nossa, nem pensar. Vamos ver se descobrimos alguma coisa.

Virando-se para o guarda, Laura perguntou:

- Cadê a polícia técnica?

- Já devem estar chegando. Assim que ligamos para a Homicídios, chamamô-los também.

Os dois detetives saíram do quarto e foram ao encontro do restante do pessoal.

- Quem viu alguma coisa? - foi logo perguntando Alberto.

Ninguém respondeu.

- Quem viu os corpos, primeiro?

- Um rapaz moreno e magro, de bigodinho, vestido de garçom, se adiantou.

- Fui eu.

- Conte tudo para mim, desde o começo. Tente se lembrar bem de todos os detalhes.

- Bem, eles pediram dois sanduíches de filé, com batatas fritas e duas latas de cerveja.

- Que horas eram?

- Mais ou menos oito e meia da manhã.

- E depois?

- Vinte minutos depois, eu fui levar o pedido. Toquei a campainha várias vezes e não atenderam. Pensando que estivessem dormindo ou fazendo outra coisa, voltei para a cozinha. Dei um tempo e liguei de lá mesmo. Ninguém também atendeu. Insisti por mais de cinco minutos e nada. Fui falar com o gerente e ele mandou abrir a porta com a chave mestra. Foi o que fiz. Aí, encontrei os dois conforme o senhor viu.

- Quem recebeu os dois?

- Fui eu. - respondeu uma moça de uniforme, bastante amedrontada.

- A que horas eles chegaram?

- Quinze para as sete.

- Só havia os dois no carro?

- Só, sim senhor.

- Tem certeza?

- Bem, a gerência sempre pede para verificar se tem mais gente.

- Por quê? Só pode entrar casal?

- Não senhor. Podem entrar quantos quiserem, mas tem que pagar.

- Alguém viu alguma coisa? Ou algum barulho?

Todos ficaram quietos.

- Tudo bem. Laura, pegue o nome, carteira de identidade, endereço e telefone de todos aqui. Depois, libere-os. Aviso que este caso está sendo tratado com o maior sigilo. Peço que não falem nada com ninguém. Obrigado.

Alberto saiu da sala enquanto Laura tomava nota dos dados das pessoas. Foi ao telefone e ligou para o chefe.

- Chefe?

- Até que enfim. Descobriu alguma coisa?

- Nada chefe. Só um fato novo que está fugindo aos parâmetros do assassino.

- O que foi?

- O jogador tem o número 9. Faz sentido, é cobra.

- E que tem cobra a ver com futebol?

- É por isso que você é torcedor do São Cristóvão, né chefe? Não entende nada de futebol.

- Deixe de gracinhas e explique. O governador, por sorte, ainda não chegou e tenho que dar alguma coisa para ele.

- Cobra em futebol é sinônimo de craque. O que o Zulu era. Além do mais, nove era o número da camisa dele. Agora, a moça tem o número 26, que não existe na unidade do jogo do bicho.

- Claro que tem, seu sabichão. - respondeu o delegado.

- Como assim?

- É zebra, seu burro. O assassino sempre matou as vítimas sozinhas. No caso de Zulu, ele não estava só. A moça não era para morrer, mas como estava com o jogador, não teve outra alternativa, senão matá-la também. Ela foi a Zebra da história.

- Puxa chefe, você é um gênio. Tem toda a razão. Eu fui um burro em não ter visto isso logo. Estava na cara. Ela, coitada, foi a Zebra.

- Cuidado, Alberto. Se o nosso “amigo” ouvir você falando que é um burro, vai matá-lo e deixar o número 3 em cima de você. - respondeu o delegado, rindo muito da sua forra em cima do detetive.

- Tá bom, chefe. O nosso jogo está empatado. Você fez um belo gol. Tchau!

- Tchau, nada. Assim que terminar, venha logo para cá, que eu quero que você leve, junto comigo, a bronca do governador. Pelo menos divido com você.

 

Luiz, o delegado, tinha 54 anos e estava para se aposentar. Contava nos dedos os onze meses que faltavam. Já tinha tudo planejado: entregaria o seu apartamento, que era alugado, e iria morar em Conceição do Jacareí, pequena cidade à beira mar do município de Mangaratiba, sul do estado.

Durante dez anos, tijolo por tijolo, tinha construído uma pequena, mas confortável casa de praia, que tinha uma linda vista para uma tranqüila enseada protegida do vento sudoeste.

Adorava pescar. Comprara uma traineira em Maricá, onde se fabricam os melhores e mais resistentes barcos de madeira, e a levou para Conceição de Jacareí. Com um carpinteiro local, passava todos os fins-de-semana trabalhando no barco. Trocou o pequeno motor diesel por um outro mais potente e pôs um toldo para se proteger do sol e da chuva.

Quando ficou pronta, dizia, todo orgulhoso, para todo mundo, que a sua embarcação era a melhor e mais bonita de todo o estado.

Fizesse o tempo que fosse, todos os fins-de-semana entrava em seu barco e, junto com amigos, passava o dia inteiro pescando. Era o que pretendia fazer, todos os dias, quando se aposentasse. Na polícia era o delegado mais respeitado e querido. Fora nomeado para a Homicídios pelo próprio governador.

Competente, tinha resolvido praticamente todos os casos que passaram por sua delegacia. Inclusive dois de repercussão nacional, em que o seu antecessor tinha falhado.

Agora, apareceu o assassino da navalha. Era uma questão de honra, para ele, prender o assassino, antes de se aposentar. Seria o fecho de ouro de trinta e cinco anos de profissão. Mas, estava mais complicado do que a princípio parecia. O assassino era muito esperto e não deixava nenhuma pista, até porque não tinha nenhuma ligação com as vítimas. Matava a esmo, de acordo com a sua mente doentia.

O caso estava tendo repercussão nacional e aumentava à medida que as mortes aconteciam. Pela primeira vez Luiz estava com medo. Não queria se aposentar com a pecha de incompetente.

 

Quando Alberto e Laura chegaram à delegacia, foram informados de que o chefe estava na sala de reuniões com o governador e seu secretário de segurança, há mais de uma hora. Tinha deixado uma ordem para o Alberto comparecer, assim que chegasse.

- Com licença? – falou Alberto na porta da sala.

- Entra Alberto - respondeu o delegado. - Quero lhe apresentar o governador e o secretário de segurança.

Feitas às apresentações, o delegado indicou-lhe uma cadeira, ao lado da sua, para se sentar.

- Quais são as novidades? - perguntou o governador.

- Nenhuma – respondeu. – O assassino é muito esperto e não deixa pistas.

- Ainda estamos na estaca zero?

- Estamos, senhor.

- Luiz - disse o governador - politicamente essa situação é desastrosa para mim. Confio plenamente em você. Sei que é o melhor delegado do Rio de Janeiro e você já me provou isso diversas vezes. Mas acontece que estou sofrendo uma grande pressão da imprensa e não posso agüentar isso por muito tempo, sem fazer mudanças. Assim, dou-lhe um prazo máximo de um mês para resolver essa situação, caso contrário serei obrigado, politicamente, a substitui-lo.

Para não ser ingrato, darei todos os recursos que você necessitar e pedir, imediatamente. O secretário de segurança tem ordens expressas minhas de, pessoalmente, fazer cumprir o que estou prometendo.

- Puxa delegado, a situação está mesmo ruim - falou Alberto.

- Eu entendo o governador. As eleições estão chegando e a oposição esta deitando e rolando em cima desse caso.

É um prato feito para eles. Batem na tecla que o Rio está sem segurança e a policia é incompetente.

O povo, por sua vez, está com muito medo e o índice de aprovação do governador, nas últimas eleições, caíram dez pontos. Se não descobrirmos o assassino logo, ele vai ter que me substituir sob pena de perder as eleições.

- Peraí, delegado. Se o seu substituto também não resolver, ele perderá de qualquer maneira.

- Concordo. Mas ele precisa de tempo. Substituindo-me ganhará pelo menos mais dois meses. É um jogo, Alberto, em que o tempo pode ser o maior aliado ou o maior inimigo, dependendo de como as peças são mexidas.

Vamos fazer uma reunião com toda a equipe. Repassar todos os dados que temos. Quem sabe se alguma coisa importante passou despercebida? Reuna o pessoal dentro de meia hora. Quero todos presentes.

 

- Muito bem - disse o delegado - repassamos tudo e ainda temos um nada. Alguma sugestão?

- Eu tenho, delegado.

- Pode falar, Laura.

- Já que não temos nenhuma pista, que tal darmos a ele uma isca?

- Explique melhor.

- Delegado, o nosso homem segue um padrão definido que é o jogo do bicho. Até hoje ele já usou o touro, a borboleta, a cobra, a vaca e a infeliz da zebra que não tinha nada a ver com a história. Vamos analisar os bichos que faltam, criar o personagem daquele que seria mais fácil para nós e implantar na imprensa.

- Como assim? Não entendi direito.

- Os bichos são interpretados por ele por suas expressões populares: Touro, porque é chifrudo, traído; Cobra, porque é um craque, bom de bola; e, daí por diante...

- Vá em frente - disse interessado o delegado.

- A minha idéia é de criarmos o galo para ele.

- Continue.

- Galo, na expressão popular é o cara que conquista muitas mulheres. O Don Juan. Ora, um dos nossos homens representa o galo. Ficamos todos de tocaia e quando ele atacar, o pegamos.

- Acho uma excelente idéia, mas como ele vai saber que existe o galo?

- Fácil. Criamos várias situações falsas, dentro do tema, e damos para a imprensa. Assim teremos um galo, por assim dizer, oficial e de domínio público.

- Acho que pode dar certo - disse o delegado. - Vamos precisar escolher bem o nosso galo, além de termos o apoio de várias pessoas fora da polícia e, principalmente, conseguirmos a cooperação da imprensa. E tudo tem que ser bem feito, pois o nosso psicopata é muito inteligente e, se perceber que é uma armadilha vai cair fora.

- É, mas quem vai querer servir de isca para um maluco desses? - perguntou o Alberto.

- Você. - respondeu Laura.

- Muito bonito. Você me adora, não é menina?- reclamou Alberto. - está com raiva de mim?

- Claro que não, Alberto. Você é bonitão, forte, luta bem, tem muita experiência e é solteiro.

Dentre nós é o mais habilitado para a função.

- E levo a navalha na garganta por ser burro?

- Está com medo? - provocou o delegado.

- Claro que não, delegado. - mentiu Alberto.

- Então aceita ser a isca? - perguntou a Laura.

- Aceito. Mas vou começar por você.

- Começar comigo o quê? - perguntou Laura.

- O meu papel de galo.

Todos riram com a resposta do detetive.

- Vamos parar - ordenou o delegado. - Assim vocês acabam casando.

- Nem que fosse o último homem da terra - respondeu a Laura.

Todos riram de novo. Estava evidente que começava a existir um clima entre os dois.

- Silêncio! - gritou o delegado. - Vamos então montar o nosso teatro. O Alberto vai ser o nosso galo. Para isso ele precisa de outra profissão, pois como policial vai ficar na cara e o criminoso não é trouxa. O que você sabe fazer além de ser policial?

- Uma bosta de macarrão - falou gozando e rindo muito a Laura.

- Epa - disse o delegado, sorrindo. - Já estão assim? Um jantando na casa do outro?

- Foi só um jantar - explicou o Alberto - Depois ela me expulsou de sua casa.

- Pois fez muito bem - riu o delegado. - Aliás, estou começando a achar que o papel de galo está caindo muito bem em você. Mas vamos ao que interessa: O que mais você sabe fazer?

- Entendo um pouco de computador.

- Pois muito bem. Vamos lhe implantar em uma empresa como especialista em computação gráfica. Concorda?

- Concordo.

- Você será acusado de assédio sexual. Agora temos que achar as suas vítimas.

- Isso é fácil. Basta agir normalmente. - disse Laura.

- Ora Laura, sai do meu pé. Em momento algum agi com você ou com qualquer outra mulher dessa forma. Não estou entendendo. Onde você quer chegar?

- Chega - berrou o delegado. - Ela está com ciúmes, você não vê?

Laura ia responder mas o delegado a fez calar.

- Vamos acabar com as brincadeiras daqui por diante. O caso é muito sério e não temos tempo a perder.

- Eu tenho duas primas solteiras...

- Não, é muito perigoso! - interrompeu o delegado. -

Vamos recrutar na polícia mesmo. As mulheres serão policiais.

Temos ainda de conversar com o juiz, com o promotor público e com os advogados que vão lhe fazer a acusação. Tudo tem que ser arranjado de uma forma tal que não dê problemas.

Conversarei do nosso plano com o governador. Se ele aprovar, vamos em frente.

 

O Senador estava eufórico. A última pesquisa de intenção de votos dava-lhe a maioria absoluta dos leitores do Rio de Janeiro. Tinha cinqüenta e três por cento, contra vinte e dois, dos seus concorrentes mais próximos e a tendência era essa diferença aumentar. Se continuasse assim, estaria eleito no primeiro turno.

Presunçoso, filho de pais ricos, adorava aparecer na mídia, principalmente em programas de debates. Inteligente, raciocínio rápido, muito charmoso, nos seus sessenta anos e extremamente elegante, praticamente liquidava com os seus opositores. As mulheres o adoravam. Era um ídolo e tinha consciência disto.

Os seus grandes defeitos eram a vaidade e o modo como vilipendiava seus adversários. O pronome que mais usava era “EU”. Eu fiz isso, eu fiz aquilo... Não importava se tinha trabalhado com outras pessoas. Para o senador, egocêntrico, elas não existiam. Não havia trabalho de equipe. Só ele importava.

- Vamos embora, Almeida. - disse o senador para o seu chofer.

Naquela noite, iria para uma grande festa, em casa do governador, que era do seu partido. Era o aniversário da primeira dama; recepção de gala.

Foram convidadas apenas duzentas pessoas. A própria aniversariante fez a seleção, a dedo. O Palácio da Guanabara, residência oficial, estava todo iluminado e cercado de policiais. O trânsito foi desviado, para dar lugar somente aos convidados.

O senador foi recebido pessoalmente pelo governador e sua mulher.

- Que prazer em recebê-lo, Mascarenhas.

- Está linda, Sara. - cumprimentou o senador. - Pelo visto está fazendo vinte e um anos. - gracejou.

- Você é muito galante, Mascarenhas. Mas não vou dizer a minha idade. - brincou a primeira dama. - Já falei para os meus netos me chamarem de tia.

- Deviam chamá-la de “irmã mais velha”.

Os três entraram no salão, animado por um conjunto que tocava sucessos dos anos sessenta.

- Isso é que é música - comentou o senador. – que não se compara aos “lixos” atuais... Os homens vestiam smoking preto, com a indefectível gravata borboleta. Menos o senador. Pela habitual necessidade de aparecer, vestia azul marinho e a gravata, também borboleta, da mesma cor, mas com bolinhas brancas.

Viúvo, considerado pelas mulheres como, talvez, o melhor partido do Rio, vivia cercado por elas. Mas nenhuma sabia que ele era impotente. Assim, não se atrevia a sair com nenhuma delas, o que lhes aguçava, ainda mais, o fascínio que tinham por ele. Os inimigos aproveitavam para espalhar que o senador era homossexual, mas nunca conseguiam provar nada.

Na realidade, tinha sido um grande mulherengo, mas sua impotência não tinha solução, a não ser que implantasse uma prótese. Resolveu, então, fazer a operação com um grande cirurgião, especialista, em Nova Iorque, aproveitando uma viagem que teria de fazer no final do mês. Depois – pensava – escolheria uma mulher e se casaria. Seria muito útil, politicamente.

Cantados os parabéns, a maioria das pessoas retirou-se da festa. Ficaram apenas os mais íntimos do governador e, também, os mais importantes, politicamente falando.

O senador estava conversando com uma linda mulher, quarentona, pertencente à alta sociedade carioca. Ela era louca pelo político e tinha metido na cabeça que se casaria com ele. Parece que tinha chances. Dentre as pretendentes, era a que mais o impressionava.

- Vamos dar um passeio pelo jardim? - convidou Patrícia.

O senador titubeou. Enquanto não fizesse a operação, teria que fugir de contatos mais íntimos. A sua vaidade era muito grande, e o seu machismo também, para falar do assunto com quem quer que fosse. Principalmente com uma mulher que poderia vir a ser sua esposa. Mas, naquele momento, ele não teve escolha. O que iria dizer? Ficaria muito esquisito.

- Vamos. - concordou meio desanimado.

Os dois desceram as escadarias que davam para os jardins, de braços dados. Embora houvesse iluminação, alguns cantos, devido a enormes árvores centenárias, estavam escuros. Patrícia, propositadamente, levou-o para um, onde existia um banquinho. Mal sentaram, passou –lhe os braços pelos ombros e o beijou na boca. Ao que ele retribuiu fervorosamente. Era a única mulher que conseguia dele algum sinal de excitação. Não era o suficiente para concretizar uma relação, mas, pelo menos, fazia-o sentir-se vivo.

- Gosto muito de você, Patrícia - confidenciou o senador.

- Não parece. Chamei-o diversas vezes para ir a minha casa, mas você sempre arranja uma desculpa – queixou-se.

- Se eu fosse, acabaríamos na cama.

- Seria muito bom - sorriu a Patrícia.

- Mas é contra os meus princípios. - mentiu.

- Quer dizer que você nunca teve outra mulher que não fosse a falecida?

- Isso mesmo - afirmou, mentindo de novo.

- Então tenho de perder as minhas esperanças?

- Claro que não.

Mascarenhas, na festa, tinha resolvido que Patrícia seria a escolhida. Teve a certeza de que gostava muito dela, quando um juiz, que há muito, queria se casar com ela, rodeou-a a festa inteira. Mascarenhas ficou com tanto ciúmes que, por pouco, não se atracou com ele. Aquele episódio foi o agente catalisador de seus sentimentos. Naquele instante, teve a certeza de que realmente amava aquela mulher.

- Claro que não - repetiu - porque eu quero me casar com você.

Patrícia levou um susto. Era o que ela desejava, mas jamais pensou que o senador a pediria em casamento.

- Você está, realmente, me pedindo em casamento? – perguntou, cheia de emoção e quase chorando.

- Estou sim. Quero me casar com você.

Patrícia, chorando de emoção e felicidade, pulou no colo do senador e o cobriu de beijos.

- Devo estar terrível - disse Patrícia, levando as mãos aos olhos, para enxugar as lágrimas.

- Está linda. Só borrou um pouco a maquiagem.

- Espera um pouquinho. Vou retocar e volto logo. Não fuja, hem? - Disse brincando.

Mascarenhas ficou sozinho no banco. Tinha tomado a atitude certa.

Além de bonita, culta e lhe dar tesão, era uma mulher muito rica. As duas fortunas, juntas, dar-lhes-iam tanto poder que era possível até pensar em se candidatar a presidente de república, seu maior sonho.

Mascarenhas escutou passos. Era Patrícia voltando - pensou.

Nisso, sentiu uma dor fina e ardente na garganta. Com muita força, levantou-se de um pulo, jogando o agressor de encontro a uma árvore. Mas nada mais podia fazer. O próprio sangue o sufocava. As duas mãos na garganta, caiu no chão para morrer.

O assassino, todo de preto, passou a mão pela cabeça. Cheia de sangue, também. A pancada na árvore o tinha ferido. Instintivamente, limpou o sangue da mão, em um arbusto, e fugiu. Mas não sem antes deixar, junto ao corpo, uma navalha com o número 19. Pavão: símbolo da vaidade masculina.

Patrícia vinha, toda feliz. Não existe mulher mais feliz, do que quando ama e é amada - pensou.

De longe, viu o banco vazio. Será que ele se foi? – pensou, quase em pânico.

Apertou o passo e ao deparar com o corpo do senador, caído, na poça de sangue, gritou o mais alto que podia e desmaiou.

 

Na mesinha de cabeceira, toca o telefone. O delegado custa a atender. Olha, antes, para o relógio: três e meia da madrugada.

- Dentro da minha própria casa! - berrava o governador. - E logo o senador Mascarenhas... O que será agora da minha reeleição? Estou perdido! Venha logo para cá - ordenou. - O mundo vai cair em minha cabeça.

- Quem era? - perguntou a mulher, esfregando os olhos.

- O governador. O senador Mascarenhas foi assassinado pelo “serial killer” nos jardins do Palácio da Guanabara, na festa de aniversário da primeira dama.

- Nossa, Luiz, Que tragédia!

- Tragédia vai ser a nossa, mulher. Provavelmente vou ser aposentado, antes do tempo.

- Mas que culpa tem você desse maluco agir assim?

- Culpa? Esqueceu quem sou? Sou o delegado-chefe da Homicídios. Não basta?

Ele levantou-se e foi vestir-se. Antes, telefonou para Alberto, relatando o que tinha ocorrido e pedindo que convocasse todo o grupo especial para a casa do governador.

- Desta vez temos algo concreto - falou o especialista da polícia técnica, todo sorridente.

- Desembucha, homem! - gritou o delegado, irritado.

- É esse sangue nos arbustos. Pela distância, não deve ser do senador. Provavelmente, do criminoso.

- Mande logo para exame. Quero uma análise imediata. Acorde quem você quiser. Se preciso for, o mundo inteiro. Mas quero esse resultado o mais rápido possível!

Virando-se, o delegado, deu de cara com o governador, carrancudo e com olheiras profundas.

O policial pensou que ia levar uma descompostura.

Preparou-se, psicologicamente, mas, ao contrário do que pensara, o governador, muito abatido, falou baixo e cortesmente:

- O que temos agora, Luiz?

- Uma pista, governador. Pelo menos, desta vez, temos algo concreto para investigar.

- E qual é ela?

- Sangue e uns fios de cabelo do assassino.

- Estive falando com o desembargador. Vamos pôr o seu plano de isca em ação. Agora temos um motivo suficientemente forte para todos colaborarem.

- Obrigado, governador. Agiremos imediatamente.

- Até logo, Luiz - despediu-se o governador - Mantenha-me informado. Peça ao chefe de gabinete o meu telefone privativo. Falarei diretamente com você.

- Até logo, governador. - respondeu o delegado.

 

Na delegacia, a impaciência, na espera pelo exame do sangue e fios de cabelo, era geral. O delegado andava de um lado para outro, em sua sala, sendo observado por Alberto e Laura, sentados na pequena poltrona do gabinete do chefe.

- Esses caras não ligam! – disse, impaciente, o delegado. - Telefone novamente, Laura. Veja se já têm o resultado.

- Mas, não faz cinco minutos que ligamos.

- Não importa. Encha o saco deles!

Laura levantou-se, mas o telefone começou a tocar, antes que ela o pegasse. O delegado deu um pulo e atendeu na frente.

- Alô? - disse ele.

- Temos os exames prontos, delegado. Demorou um pouco mais, pois surgiu uma novidade.

- Fala logo, cara!

- O sangue é “B” positivo. Até aí, nada demais. Só no Rio, deveremos ter mais de um milhão de pessoas com esse tipo de sangue. A novidade é que um dos nossos resolveu, sei lá por que, fazer um exame de AIDS e deu positivo. O homem, além de maluco, é aidético.

E daí?

- Daí, delegado, desde que a doença surgiu, tivemos registrado trinta mil casos de soropositivos. Como vinte e cinco mil já morreram, sobram cinco mil.

- Puxa, mas cinco mil é muita coisa. Se toda a delegacia trabalhar nisto, levaríamos meses para investigar e identificar todos.

- Engano seu, delegado. Em primeiro lugar podemos excluir as crianças. Depois os presos e os que estão em estágio terminal nos hospitais. Por fim, as mulheres.

- Porque as mulheres?

- Ele deixou pegadas no chão, perto da árvore em que bateu.

- Ele bateu em alguma árvore?

- Bateu, delegado. Encontramos sangue dele no tronco da árvore, perto do banco. O senador, provavelmente, deve ter reagido antes de morrer.

- Muito bem. Mas como conseguiram as pegadas dele, se o jardim é todo gramado?

- Simples, delegado. Onde não entra a luz do sol, não cresce grama. Uma pequena área em volta da árvore é de terra.

- Muito bem. E daí?

- Daí, que ele calça 45. Dificilmente uma mulher teria um pé desse tamanho.

- Muito bem, Júlio. E o que mais?

- Daí, aquele universo, de cinco mil, diminui para uns mil.

- Ainda é muito.

- Concordo. Mas temos uma outra arma.

- Qual?

- O teste de DNA. Podemos ir direto ao assassino. Só que este teste é complicado e, atualmente, somente dois laboratórios no Brasil têm condições de fazê-lo.

- Então vamos mandar fazer. Vou acionar o meu pessoal para colher os exames de sangue de todos os aidéticos, em hospitais públicos, particulares e clínicas especializadas.

- Mas se o assassino não souber, delegado?

- Não souber o quê?

- Que é aidético? Essa doença tem um período longo de incubação. Às vezes leva dez anos. Ou mais.

- Aí voltamos à estaca zero. Mas tenho a impressão de que ele sabe. Creio que o fato de ser aidético, deve ser o motivo para ele agir dessa maneira. Foi a forma que encontrou de se vingar, por haver sido contaminado.

- Concordo com essa idéia.

- Muito bem, Júlio. Vou conversar com o governador e conseguir os mandatos judiciais necessários para conseguir as amostras de sangue. Sem elas, os hospitais e clinicas vão negar-nos qualquer coisa.

O delegado despediu-se de Júlio, chamou o casal de detetives e contou toda a conversa com o técnico da polícia.

- Bem, não vou desviar vocês para essa busca. Além de muito demorada, ainda tem a possibilidade de ele ter vindo de outro estado. Vamos formar um grupo especial para investigar os aidéticos, enquanto pomos em ação o plano Isca. Já tenho tudo esquematizado.

- Como vai ser? - perguntou o Alberto.

- A empresa de computação gráfica, Computer Bites, já nos deu permissão de utilizarmos os escritórios para a farsa.

- Amanhã, Alberto começa a trabalhar lá. Para evitar desconfianças, ficará com um dos diretores. Assim, os funcionários nem vão perceber que ele não entende nada de computação gráfica. Mas como conhece um pouco de computador, entenderá a linguagem do pessoal que trabalha lá. Cinco policiais femininas serão também admitidas, em diversos setores. Uma delas será Luiza. Como a empresa está em franca expansão, não haverá desconfiança. Alberto vai iniciar um assédio, dois dias depois, o que resultará numa reação de indignação, por parte das mulheres e os devidos processos. A mídia, ao tomar conhecimento, entrará de sola. Será sopa no mel. Logo, logo, Alberto será uma figura nacional, aparecendo em todos os jornais e televisões. Vai ficar famoso.

- Bem, chefe, não vai ser fácil agüentar essa barra. – disse, preocupado. Alberto.

- Que nada - disse Laura - vão aparecer logo umas taradas, que farão de você o alvo principal de seus sonhos eróticos.

- Lá vem ela de novo - queixou-se Alberto.

- Laura, pára com esses ciúmes! - gritou o delegado.

- Não é ciúme não, chefe. Só estou dizendo o que, inevitavelmente, vai acontecer.

- Olha aqui - falou zangado o delegado - se continuarem assim, vou obrigá-los a se casarem, para me ver livre de vocês.

- Deus me livre... - ia dizendo Laura, quando foi interrompida pelo delegado.

- Estão dispensados! Vê se somem da minha frente. Os dois! Amanhã começaremos com o plano.

Do lado de fora, Alberto aproximou-se de Laura e falou baixinho no seu ouvido:

- Vamos jantar?

- Desde que você faça o macarrão e lave os pratos.

- Não pode ser uma torta de camarão, congelada, comprada em supermercado?

- Pode. Mas depois vai embora.

- Pelo menos posso tomar um café?

- Sim.

 

O psicopata, como fazia todos os dias, levantou-se as seis da manhã para ir à padaria, comprar pão e leite. Na volta, parou na banca e comprou o jornal favorito. Em casa, enquanto fazia o desjejum, procurava nas manchetes alguma notícia que lhe interessasse. O jornal era a grande fonte para a escolha das vítimas. Uma notícia chamou-lhe a atenção: o ator de telenovelas, Antônio Rodolfo, foi escolhido, numa pesquisa realizada, entre os leitores do principal jornal da cidade, como o “gato” do ano.

Com um lápis vermelho, fez um círculo no nome do galã. Levantou-se e foi para o quarto. Abriu o armário onde guardava as roupas e puxou a última gaveta. Nela, remexeu nas navalhas até achar a de número 14. Pegou-a com cuidado e foi diante de um oratório onde, em vez da figura de um santo, tinha a estatueta do diabo, com duas velas vermelhas, de trinta dias, acesas. Depositou a navalha ao pé da figura, ajoelhou-se e começou a rezar, por mais de uma hora. Por fim, levantou-se e, com os olhos vermelhos de chorar, dirigiu-se ao banheiro, vomitou o quanto podia, até quase perder as forças. Depois, entrou no chuveiro e tomou um longo banho frio. Estava mais calmo e voltou ao quarto. Vestiu-se e saiu para a rua.

 

Antônio Rodolfo saiu dos estúdios da emissora. Estava cansado, pois as gravações tinham começado às dez e meia da manhã e já eram duas da madrugada. Foi um dia bastante difícil, tiveram que repetir, várias vezes, algumas cenas. O diretor era bastante exigente e não aprovava nenhuma que, para ele, não parecesse perfeita.

Como sempre fazia, Antônio era o último a sair do estúdio. Adepto da Yoga, ficava relaxando, por meia hora, após as gravações.

Despediu-se do segurança e encaminhou-se para o estacionamento, à direita do estúdio. Começara a chover e ele apressou o passo; o pátio era muito grande e o carro estava em um dos extremos. Além do seu, só dois outros carros permaneciam; provavelmente dos seguranças que tomavam conta da emissora.

O ator não só ouviu, como sentiu passos às suas costas. Olhou para trás e não viu nada. Medroso, na vida real, ficou arrepiado e começou a correr. Chegando, enfim, ao carro, rapidamente, meteu a chave na porta. Foi a última coisa que fez na vida.

 

Alberto tinha começado a encenação na Computer Bites.

No primeiro dia ficou quieto, mas, no segundo, começou a soltar gracinhas, na frente dos colegas, para as policias travestidas de funcionárias. O seu alvo principal, de propósito, era a Laura. Era a forma que ele encontrou de se vingar da companheira.

No terceiro dia, passou a mão na bunda de Laura. Ela ficou tão furiosa que Alberto perguntou-se se era teatro, ou de verdade mesmo. Foi um escândalo dentro da firma. As outras policiais, que participavam da trama, vieram imediatamente em defesa da amiga. Conforme haviam combinado, as cinco moças, policiais, entraram com um processo contra ele por assédio sexual. A mídia foi informada e, no dia seguinte, a história estava na primeira página de todos os jornais. Imediatamente, a televisão entrou no assunto e Laura foi convidada para vários programas de entrevistas. As feministas aproveitaram e fizeram “festa” em cima do acontecido. Da noite para o dia, como fora previsto, Alberto virou assunto nacional.

 

- Assim não dá! - esbravejou o delegado. - Enquanto montamos uma armadilha, o desgraçado pega outro.

A reunião fazia-se na casa do delegado. Dela participavam todos do grupo especial, inclusive Laura e Alberto.

- Convoquei vocês para discutirmos o que fazer. Devemos, ou não, abandonar a armadilha?

- Claro que não - respondeu Alberto. - Agora que minha imagem foi para o lixo - virei um tarado sexual - só sairei desta com a prisão do criminoso.

- Isso mesmo. - apoiou Laura. Se pararmos agora, vamos ser a piada nacional. Vão divertir-se às nossas custas, e com razão. Temos que continuar e prender o criminoso. Não há outra saída.

- Está certo, concordo com vocês. - aquiesceu o delegado. O nosso plano tem que dar certo.

- De hoje em diante, quero duas duplas de policiais seguindo Alberto, vinte e quatro horas por dia. Não quero arriscar-lhe a vida - disse o delegado olhando para o detetive.

- Precisa não, chefe. Sei muito bem cuidar de mim.

- Deixa de ser idiota! Por melhor que você seja, o assassino tem duas grandes vantagens: a surpresa e o fato de não o conhecermos.

- Tem toda a razão, chefe. - concordou a Laura.

- Epa! - disse o delegado - defendendo o namorado?

- Nada disso. É o meu parceiro. Também não quero que nada lhe aconteça.

Todos na sala começaram a rir. Laura ficou vermelha, enquanto Alberto sorriu, satisfeito. Na saída da reunião, Alberto dirigiu-se à sua parceira:

- Quer uma carona para casa?

- Sim!

- Com direito a jantar?

- Todos os direitos.

- Todos, mesmo? – perguntou Alberto com ar de sacana.

- Você perguntou sobre o jantar.

- E a sobremesa?

- Tenho um pudim.

- E o cafezinho?

- Também tem.

- E a que mais, tenho direito?

- A mais nada. Ou melhor, tem mais um, sim.

- E qual é?

- O de ir embora! - respondeu a Laura, caindo numa gargalhada.

Os dois chegaram à casa da Laura. Ela propôs a Alberto não ajudar em nada. Teria, somente, de lavar os pratos.

- Já é um grande avanço - brincou o detetive. - Da última vez eu tive que fazer tudo.

- Deixa disso! Nós dividimos as tarefas, o que foi muito justo.

O jantar delicioso. Laura preparou um peixe, com molho de camarão e serviu um vinho branco.

- Nossa, Laura, este jantar é digno de uma comemoração especial. O que estamos comemorando?

- Nada em especial. - respondeu, corando, Laura.

Acabada a refeição os dois tiraram a mesa e foram para a cozinha. Laura tinha comprado uma máquina de lavar louça.

- Vou estreá-la hoje. - explicou.

Os pratos e talheres foram colocados na máquina, os dois voltaram para a sala e sentaram no sofá. Alberto encheu dois copos, com o que restou do vinho.

- Depois do vinho você vai embora. - disse a Laura.

- Pronto. Você estragou o clima. - reclamou Alberto - tava tudo bom demais.

- Está reclamando do quê?

- Da sua indelicadeza. Desde quando uma visita tem hora marcada para ir embora?

- E desde quando você é uma visita?

- Não? O que sou então?

- Você é o meu parceiro.

- Ainda bem. Só faltava dizer que sou apenas seu amigo.

- Ué, e não é?

- Claro que não. Pra começar, eu não acredito em amizade simples e pura entre homem e mulher.

- Por que não?

Alberto, num movimento rápido abraçou-a e beijou-a na boca. Por alguns segundos, ela tentou reagir, mas depois retribuiu, com ardor.

- Por isso. - Respondeu Alberto.

- É melhor ir embora! - disse Laura, levantando-se.

Alberto também se levantou.

- Tudo bem... Mas, com uma condição.

- Qual?

- Outro beijo.

Laura aproximou-se e os dois beijaram-se apaixonadamente. Quando Alberto desceu a mão, na menção de levantar-lhe o vestido, Laura recuou.

- Você já teve o outro beijo. Agora vai embora.

Sentiu tanta firmeza na voz dela, que achou por bem nada mais tentar.

Antes que ele saísse, Laura deu-lhe mais um beijo. Batendo a porta, logo a seguir.

Ligou o carro pensativo. Ele realmente estava gostando de Laura. E estava certo de que era correspondido. Só não entendia porque ela sempre retrocedia, quando as coisas começavam a esquentar. Não via motivo algum. Eram livres, independentes e poderiam fazer o que quisessem. Virgem ela não era, já tinha lhe dito que tivera alguns homens. Então, o que estaria faltando? Será que estava enganado? E se, na realidade, ela só gostava dele, mesmo, como amigo? Se era isso, por que, então, aquele último beijo? Efeito do vinho, talvez?

 

O psicopata olhava atentamente para o jornal. Acabara de fazer um círculo no nome de Alberto, o funcionário da Computer Bites que tinha sido acusado de assédio sexual. Repetiu todo o ritual, com o diabo, depois de retirar da gaveta a navalha com o número 13. Galo.

Folheou a lista telefônica até encontrar o telefone da Computer Bites. Ligou para lá e informou-se do horário de funcionamento da firma. Eles fechavam as seis da tarde. O escritório era na Senador Dantas, centro do Rio de Janeiro.

Voltou ao jornal e ficou olhando para a foto de Alberto, até memorizá-lo completamente. Mesmo assim, recortou e colocou no bolso, antes de sair para o seu trabalho.

Faltando quinze para as seis encostou o seu carro bem em frente ao prédio da Computer Bites. Tivera muita sorte, pois era difícil encontrar uma vaga naquela rua.

Acendeu um cigarro e aguardou. Às seis e dez, Alberto saiu e dirigiu-se ao ponto do ônibus. O psicopata ligou o carro. Alberto entrou no ônibus e foi seguido. Na esquina de Barata Ribeiro com a Duvivier, o detetive soltou. O psicopata estacionou o carro e o seguiu a pé. Quando o Alberto entrou em seu prédio, o assassino voltou para o carro e dirigiu-se para a casa de Alberto, parando a uns dois edifícios antes, mas de forma que pudesse ver quem saia do prédio.

Com toda a calma, desembrulhou um sanduíche que tinha preparado e rasgou a caixa de leite. Fez a refeição e colocou no toca-fitas um disco com as obras de Beethoven. Ajeitou-se na cadeira e ficou à espreita.

Um dos dois carros da polícia, que faziam a cobertura de Alberto, percebeu toda a manobra do assassino. Pelo rádio, comunicou-se com o da frente e com a delegacia.

O delegado, alvoroçado, imediatamente ligou para Alberto, ao mesmo tempo em que dava o alarme ao grupo especial.

- Alberto?

- Oi, chefe. O que houve?

- O assassino mordeu a isca. Nesse momento está estacionado quase em frente ao seu prédio. Vamos pegá-lo.

- Calma, chefe. Ele pode estar armado e reagir. O melhor será que eu saia e vá em direção à barra. Em São Conrado a gente o pega. O lugar é mais calmo e, se houver tiroteio, a gente não corre o risco de ferir algum inocente.

- Você está certo. Vou já para aí. Quando chegar, eu ligo e você, então, pega o carro e sai.

- Combinado. Espero a sua ligação.

Alberto desligou o telefone e pegou a arma. Conferiu se estava carregada e colocou-a no coldre. Vestiu o colete à prova de balas e colocou o paletó. Como sempre, ficou excitado e com um pouco de medo.

Sentou-se na sua poltrona favorita e ficou esperando o telefonema do chefe, que ligou vinte minutos depois, avisando que já estava em posição.

O detetive pegou o elevador e foi direto para a garagem. Ligou o carro e saiu. Tomou o rumo da Av. Niemayer. Pelo espelho retrovisor percebeu o carro que o seguia, era um Santana modelo antigo. Dirigia devagar para facilitar o perseguidor.

Não tirava os olhos do retrovisor.

Na subida da Niemayer, que estava congestionada, o assassino, num golpe rápido, entrou à esquerda a toda a velocidade e voltou pela Delfin Moreira. Alberto e mais dois carros da polícia, que vinham à frente do criminoso ficaram presos no trânsito, mas os outros dois que vinham atrás, conseguiram manobrar e começaram a perseguição

O assassino desceu a Vieira Souto a toda velocidade, ultrapassando todos os sinais fechados. Os carros de polícia vinham atrás com as sirenes ligadas. O psicopata entrou na Francisco Otaviano, em direção a Copacabana, pegou a Av. Atlântica e retornou na Rainha Elizabeth, ultrapassou a Barata Ribeiro com o sinal fechado e bateu de lado em dois carros que pararam no meio da rua. O acidente atrasou os carros de polícia, que tiveram que diminuir a velocidade para contornar os carros acidentados. Ganhando vantagem de uns cem metros, o assassino entrou na rua Canning e, na esquina com a Visconde de Pirajá, parou e soltou do carro. Correu e pegou um ônibus que estava saindo do ponto, a tempo de ouvir as sirenes e freadas bruscas de seus perseguidores.

- Chefe, pegamos o carro. Falou o policial pelo rádio.

- E o assassino?

- Ele fugiu.

- Verifique a placa do carro. Vamos pegar o filho da puta.

Os policiais entraram no computador do carro com a placa do assassino. A resposta foi imediata. O carro tinha sido roubado a menos de um mês. A proprietária, uma velhinha, tinha dado parte do roubo.

O delegado ficou uma fera.

- Alguém viu a cara dele, pelo menos?

- Não deu para ver não, doutor.

- Muito bem, levem o carro para a delegacia. Avisem à polícia técnica. Quero que vasculhem centímetro por centímetro dele. Vamos ver se encontramos alguma pista.

Na delegacia o grupo que investigava o “serial killer” estava desolado. Quase tinham posto a mão no criminoso. O relatório da polícia técnica encontrou várias impressões digitais, todas do criminoso e alguns fios de cabelo. Mais nada. No teste do DNA veio a confirmação, era a mesma pessoa que tinha assassinado o senador.

- “Puta que o pariu!”, berrava o delegado. Era ele mesmo. É o nosso homem. E o deixamos fugir.

 

Serafim era o subdelegado da Homicídios. Com quarenta e cinco anos, dos quais, vinte e cinco de polícia, solteiro. Discreto, ninguém sabia da vida dele. Com uma folha exemplar era muito querido pelos colegas. Muito amável e prestativo, sempre ajudava e aconselhava os novos policiais. Os mais novos, de brincadeira, chamavam-no de tio Serafim. Culto e bem falante era o porta-voz da delegacia junto aos repórteres. O seu turno era o da noite, pegava o trabalho as oito da noite e deixava a delegacia as oito da manhã, quando chegava o delegado chefe. Naquele dia, por ser o seu aniversário, não foi trabalhar. Ganhara a folga para comemorar com a sua namorada, conforme pedira.

Mas, o que ninguém sabia, era homossexual. Não tinha nenhuma namorada. Vestiu uma roupa nova, que acabara de comprar e, como sempre fazia, colocou uma peruca para esconder a sua careca, ao mesmo tempo em que se disfarçava. Colocou o perfume favorito e à meia noite pegou o carro e foi para a boate Le Boy, a mais famosa boate gay do Rio de Janeiro.

Conhecido do dono, freqüentava a casa em todas as suas folgas, sentou na sua mesinha habitual que ficava meio escondida da pista, mas de onde tinha uma visão quase geral do lugar. Como de costume, pediu um uísque com gelo e ficou observando o movimento. Reparou num homem de seus trinta anos, alto e forte, que de vez em quando lhe lançava uns olhares. Deu um sorriso e foi correspondido. Convidou-o a sentar-se em sua mesa. Meia hora depois saia da boate com ele.

Levou-o para casa. Entrou pela garagem e subiu para o apartamento pelo elevador de serviço. Tomava todo o cuidado para ninguém o ver. Afinal, era um policial.

Sugeriu ao companheiro que tomasse um banho.

Enquanto ouvia o chuveiro, vestiu uma camisola preta, usou mais perfume, ligou o som e colocando o seu CD preferido, deitou de bruços e ficou esperando. Como sempre fazia, por precaução, colocou a sua arma debaixo do travesseiro.

O homem saiu do banho e deitou-se na cama ao lado do Serafim. Beijaram-se, sofregamente, na boca, enquanto seguravam os seus sexos. Excitados aos extremos, Serafim rapidamente ficou de costas de forma que pudesse ser penetrado. O companheiro o colocou de quatro e, com movimentos ritmados e fortes, o possuía. Serafim gemia de prazer e acompanhava os movimentos do parceiro. Até que, num clímax, os dois gozaram juntos. Serafim, misturado ao prazer, sentiu uma dor fina e ardente no pescoço. Instintivamente, passou a mão e sentiu-a toda molhada do próprio sangue. Em fração de segundos percebeu toda a situação. Era o assassino. Desesperado, já perdendo as forças e afogado no sangue, tentou pegar a sua arma debaixo do travesseiro. Mas o homem, como adivinhando o seu gesto, segurou os seus braços com toda a força. Impotente, o homem sentiu que estava morrendo. Nada mais pôde fazer...

O assassino segurou o policial até sentir-lhe o último suspiro. Levantou-se e, calmamente, tomou um outro banho. Vestiu-se e antes de deixar junto ao cadáver a navalha com o número 3, procurou um papel e, cortando-se, escreveu com o próprio sangue: PARA VOCÊS.

 

- Não acredito!- Berrou o delegado. Isto não pode estar acontecendo comigo!

Feito louco, deu um murro no arquivo de aço da sala. O barulho foi tão grande que todos da sala dos detetives correram para o escritório do chefe.

- O que houve, chefe? O que está acontecendo? Perguntou Alberto, ao entrar.

O detetive estava sentado em sua mesa, com os braços apoiados nos cotovelos e as mãos segurando a cabeça. Chorava feito criança.

Os detetives ficaram assombrados com a cena. Era a primeira vez que viam o chefe, um durão, chorando. A sala logo se encheu de policiais.

- O filho da puta pegou o Serafim.

Os detetives ficaram espantados.

- Como assim, chefe? Perguntou Laura.

- Encontraram Serafim degolado em sua casa. Com uma navalha de número 3. Três de burro. E ainda deixou um bilhete, escrito com o próprio sangue, que dizia “para vocês”, ou seja, para nós. Matou Serafim, por vingança, pela perseguição de ontem.

- Dentro da própria casa dele? Como ele deixou o bandido entrar?

- Aí vem o pior.

- Pior que isso? Perguntou Alberto. O que pode ser pior?

- Serafim estava em sua cama, de camisola preta e de peruca. E tinha acabado de fazer sexo. Sexo anal. Encontraram esperma em seu ânus. E está confirmado pelos exames. O esperma era do assassino.

Houve um silêncio constrangedor na sala. Ninguém sabia o que dizer ou perguntar. Até que Laura, timidamente, perguntou:

- Mas chefe, ele era homossexual?

- Escondeu isso esses anos todos. Ninguém daqui sabia.

- E agora, chefe? Temos que esconder esse fato.

- Tentei, mas não consegui. A imprensa toda já sabe. Amanhã vai ser um escândalo geral. Imagine o que vai sair nos jornais. Vamos ser todos desmoralizados. Vou pedir a minha demissão e me esconder em Conceição de Jacareí. Não quero saber mais de nada. Vou pescar. Desabafou o delegado.

- Peraí, chefe. Essa não! Não importam as preferências sexuais de Serafim. Ele era um grande amigo nosso e, mais do que nunca, temos o dever de pegar esse filho da puta, assassino.

- Isso mesmo, apoiaram, em uníssono, os companheiros. Agora é uma questão de honra para nós.

 

Segundos finais do Campeonato Estadual de basquetebol, Ginásio do Flamengo. O Vasco vencia por 98 a 97. Acabara de fazer a cesta que lhe dava a vantagem. A saída era do Flamengo e faltavam 13 segundos. O ala rubro-negro passou para o armador e se posicionou para receber de volta. O time do Vasco marcava, homem a homem, com o intuito de impedir o arremesso do Flamengo. As torcidas, em pé, estavam caladas, aflitas, olhando para o grande cronômetro. O ala recebeu a bola de volta, e olhou para o pivô. Ele estava posicionado junto ao garrafão. A bola lhe foi passada, faltavam apenas três segundos para o término. Jacaré, esse era seu apelido, por ter a arcada dentária distorcida, que fazia com que alguns dentes ficassem para fora, de gancho, fez a cesta da vitória. Flamengo era o campeão. A torcida invadiu a quadra e, dando a volta olímpica, carregava todo o time e o técnico nas costas. Era uma grande festa. O grito “campeão!” ecoava por todo o ginásio. Na frente de todos, o herói Jacaré, já no chão, dava muitos de autógrafos.

No alto das arquibancadas, sentado e quieto, o assassino olhava a grande festa. Seus olhos perseguiam o Jacaré. Dentro do bolso estava a navalha com o número 15.

 

Três horas depois, o jogador, em seu BMW vermelho, entrou na rua onde morava. Cansado, mas feliz, só pensava em se encontrar, e celebrar o campeonato, com a mulher e o filho. Parou no último sinal, que havia fechado, antes de chegar a seu prédio. Um Gol, modelo antigo, não parou e bateu na traseira do seu carro. O campeão saltou para ver o estrago. O motorista do gol apontou-lhe um revólver e mandou-o entrar no seu BMW, enquanto entrava pela porta traseira.

- Calma, cara. Eu não quero confusão. Disse Jacaré.

- Tudo bem, respondeu o assassino. Pare ali, na porta do cemitério, para a gente conversar.

- Mas logo no cemitério?

- O que tem? É um lugar como outro qualquer. Ou você tem medo de cemitério?

- Eu não tenho. Mas, com um revólver nas costas, este não é o melhor lugar para se parar.

- Faça o que mando, ou você vai para lá, mais rápido do que pensa!

Sem alternativas, Jacaré encostou o BMW, rezando para que passasse algum carro da polícia e estranhasse aquela situação, parando para investigar.

- Desligue o carro! - gritou o assassino.

Quando Jacaré desligou, sentiu aquela dor fina no pescoço. Atônito, sem perceber o que acontecia, passou a mão no local e sentiu o sangue esguichar. Ainda tentou virar-se para pegar o bandido, sem conseguir. E, num derradeiro esforço, tentou respirar, mas logo morreu.  

O assassino saltou do carro, fechando os trincos das portas e fugiu, a pé, do local.

 

O delegado estava em seu gabinete fazendo a sua carta de demissão. Após a morte de Serafim, sentiu-se sem moral para continuar no cargo.

O telefone toca.

- Alô? - atendeu.

- Delegado, o nosso homem atacou outra vez.

- De novo? Como?

- Matou um jogador de basquetebol, que acabara de ser campeão estadual pelo Flamengo.

- Um jogador de basquete? Mas por quê? Qual foi o número?

- Quinze, delegado. O número do Jacaré. Esse era o seu apelido, por causa dos dentes para fora.

- Cretino, filho da puta! Que mente maluca tem esse cara!

- E tem mais: ele está gozando a gente. Matou o homem na porta do cemitério e ainda deixou um bilhete: “Para vocês não terem muito trabalho”.

- E a imprensa?

- Toda a mídia está lá: jornais, televisão e as emissoras de rádio.

- Puta que o pariu! - gritou o delegado.

Assim que desligou, o delegado esparramou-se na cadeira, olhando para o teto. Não tinha mais saída. Estava frito, pensou. Era a nona vítima. A cidade, apavorada. A mídia explorava a situação. Era um “prato-cheio”. Nunca tantos jornais foram vendidos.

Toca o telefone e o delegado atende. Era o governador:

- Luiz, sinto muito, mas quero a sua carta de demissão, ainda hoje, na minha mesa.

- Pode deixar, governador, era o que eu fazia, exatamente, quando tocou o telefone.

- Não é nada pessoal, entende? Eu, por mim, deixaria você, até o final do caso. Mas, a pressão política é muito grande. Tenho que fazer alguma coisa, e com urgência. Desde que os assassinatos começaram, caí mais de 25 pontos nas pesquisas. Do jeito que vai, se não tomo alguma providência, não conseguirei eleger-me, nem para síndico do prédio. Espero que entenda.

- Entendo sim, governador. Tanto é, que já me adiantei. Acabo de assinar a minha carta de demissão.

- Espero que não leve para o lado pessoal.

- Levo não, governador. Bom dia.

O governador desligou.

O delegado, calmamente, apanhou a carta e colocou no envelope. Pegou o seu paletó e, no meio da porta, chamou os detetives.

- Amigos, acabo de falar com o governador e estou de demitido.

- Peraí, delegado. Que culpa o senhor tem? Falou Alberto. Os outros entraram no mesmo coro.

- Toda a culpa do mundo. Afinal eu sou o responsável pela segurança da população, em relação a esses tipos de crimes e até agora, depois de nove mortes, ainda não descobri o assassino.

- Mas, por esse raciocínio, nós também somos, respondeu Laura.

- Em parte sim, concordou o delegado. Mas eu sou o responsável, repetiu.

Com a voz já meio embargada, o delegado atravessou a sala e, sem esperar o elevador, desceu os dois lances de escadas para o pátio onde se encontrava o carro.

O delegado entrou no palácio do governo, identificou-se e disse que queria falar com o governador. Para a sua surpresa foi conduzido imediatamente ao gabinete. Na ante sala havia uma multidão. O delegado imediatamente percebeu, pelos equipamentos, que eram repórteres. A secretária, rapidamente, introduziu-o na sala.

Quando entrou, o governador estava com o secretário de segurança e com uma outra pessoa.

Cumprimentando os três, entregou a carta, rapidamente lida pelo secretário, que fez um sinal positivo ao seu chefe.

O governador então apresentou ao delegado o seu substituto:

- Luiz, quero apresentar-lhe Marcelo, delegado da polícia federal, com curso de especialização em homicídios na Cet and Yard, inglesa. Será o novo delegado da Homicídio.

- Muito prazer, Marcelo. Espero que tenha mais sorte do que eu.- disse Luiz, com um ar de tristeza.

- Lamento, Luiz. - pronunciou-se o novo delegado.

- Luiz, tomei a liberdade de chamar a imprensa para que documentassem a passagem de cargo. Algum problema para você? - perguntou o governador.

- Não senhor.

O governador então, chamou a secretária pelo interfone e pediu que ela introduzisse a imprensa em seu gabinete. Quando todos estavam na sala, ele falou:

- Senhores, o atual delegado da Homicídios, senhor Luiz, está se aposentando com a medalha de honra do estado.

O governador então entregou ao delegado a medalha correspondente.

- Quero agora apresentar o novo delegado. O senhor Marcelo, que tem curso...

Luiz, aproveitando a confusão, quando todas as atenções eram dirigidas para o novo delegado, saiu do gabinete em direção a sua casa. O coração estava apertado, mas, enfim, como falava para si mesmo, podia pescar sossegado em sua casa de praia. Agora ele teria os dias livres para fazer o que mais gostava: pescar.

No dia seguinte, quando acordou, pegou o jornal para ler e, lá estava a manchete: “novo delegado na Homicídios”. Na matéria vinham as qualificações do novo delegado e, terminava com a afirmação que ele era um “águia” na questão.

- Águia... - pensou em voz alta Luiz. Com essa qualificação, é bom ele se precaver. Sentenciou.

 

O novo delegado foi apresentado aos seus subordinados pelo próprio secretário de segurança.

- Eu sei que vocês gostavam muito do seu antigo chefe. O que não é de admirar, por ser ele um grande profissional e uma excelente pessoa. Só que eu tenho meus métodos próprios que são, obviamente, diferentes dos dele. Não me importa, se agrado, ou não. Para ser mais claro, acho que vão me odiar, em muito pouco tempo. Faço questão de disciplina e eficiência. Não abro mão desses dois fatores, em hipótese alguma. Portanto, vão se acostumando. - Falou o novo delegado.

Já estou a par de todo o processo desse maníaco. Acho que vocês cometeram algumas falhas graves. A maior delas foi quando bolaram uma armadilha e, em vez de o pegarem na rua, deram chance de que ele fugisse.

- Mas, delegado, argumentou Alberto, ficamos com medo de um tiroteio em plena rua de Copacabana.

- Medo. Esse foi o erro principal. Por causa desse medo, mais duas pessoas foram mortas; o assassino solto por aí e, talvez, neste momento, matando mais, ou arquitetando o próximo crime. Não quero mais ninguém com medo aqui. Quem tiver essa emoção que fale comigo agora, para ser transferido imediatamente para outra delegacia!

A reunião demorou mais meia hora. No final, somente o delegado falava.

- Puxa! - disse Laura para o Alberto depois da reunião - Que cara grosso e metido.

- É, não vai ser mole não. O pior é que vamos ter de agüentar esse cara como chefe.

- Não fica bravo, não. Que tal jantar lá em casa hoje à noite?

- Ótima idéia. Você faz a comida e eu lavo os pratos, está bem?

- Está.

- O que você vai fazer?

- Como assim?

- Estou falando do jantar.

- Não vou lhe dizer. É surpresa.

- É só para eu comprar o vinho.

- Compre o tinto então.

- Tá certo. Vou comprar duas garrafas.

- Para que tanto? Quer me embebedar?

- Não. Só ficar tontinha.

- E o que você ganha com isso? - Falou a Laura, com um ar sacana.

- Não sei. De repente, posso ganhar algo mais que um beijo.

- Você é muito abusado. Mas como estou boazinha hoje, quem sabe? Respondeu rindo.

Alberto não retrucou.

- A que horas devo chegar?

- Oito e meia, tá bom?

- Ótimo!

Despediram-se.

No horário combinado, chega Alberto, com uma sacola. Laura recebe-o com um sorriso:

- Puxa, você é mesmo pontual.

- Claro. Não quero perder um segundo sequer da sua companhia.

- Nossa - exclamou Laura - sou tão importante assim?

- Pra mim, é a pessoa mais importante da minha vida.

- Deixa de mentiras, Alberto. Eu posso acreditar.

- Pois acredite. Estou lhe dizendo a pura verdade.

- Tá nada, Alberto. Você está é sendo sedutor.

- Não estou não, Laura. Desde que a vi, eu não penso em outra coisa, que não seja você.

- Você pode até estar pensando em mim o tempo todo, mas o seu objetivo é outro. Eu seu bem o que você quer.

- O que eu quero, então?

- Você quer é me levar para a cama.

- Se eu negar, vou estar mentindo. Mas não é do jeito que você pensa não. Eu realmente gosto muito de você.

- Jura? Até quanto você gosta de mim?

- Muito. Eu gostaria que você fosse a minha namorada.

Laura não disse nada. Deu passagem para que ele entrasse e fechou a porta. Ele entregou as garrafas e sentou-se no sofá da sala.

Ela vestia uma mini-saia justa, preta e uma blusa branca. Alberto reparou nas lindas coxas da companheira. Eram perfeitas e a sua pele morena, contrastava de uma forma admirável com a cor preta da saia.

Laura foi para a cozinha e colocou as garrafas na geladeira. A pequena mesa de jantar já estava posta e Alberto, curioso, perguntou:

- O que vamos jantar, afinal?

- Você gosta de bacalhau?

- Adoro!

- Que bom, pois eu preparei um bacalhau a Gomes de Sá, com uma receita especial da minha mãe, que é portuguesa.

- É o meu prato favorito. Como você adivinhou?

- Sensibilidade, meu caro. A mulher tem esse dom, que o homem não tem.

- Deixa disso, Laura. O homem é muito mais inteligente. Você não sabe que temos mais dois milhões de neurônios que vocês?

- Claro que sei. São os dois milhões de besteiras que vocês fazem.

- Epa, Laura. Não vamos brigar por isso.

- Foi você que começou.

- Tudo bem. Desculpe. Não quero estragar a nossa noite, por bobagens.

- Então está bem. Posso servir o nosso jantar?

- Claro que pode. Já estou morrendo de fome e com água na boca por causa do bacalhau.

 

O delegado Marcelo saiu tarde da delegacia de homicídios. Já passava da meia noite. Dispensou os seguranças, como sempre fazia. Era perito, faixa preta, em luta livre e campeão de tiro. Aos quarenta anos, no auge de seu vigor físico e mental, não tinha medo de nada. Solteiro, era uma pessoa difícil de se relacionar, só pensava na profissão. Vivia como um eremita. Há dez anos atrás, tinha resolvido morar em Petrópolis, cidade serrana a menos de uma hora do Rio de Janeiro. Comprara um sítio onde podia curtir duas das três paixões de sua vida: plantas e cachorros. Tinha um canil, com cinco pastores belga e um orquidário que fazia inveja aos melhores criadores. A terceira paixão era o futebol. Botafoguense doente, estava todo feliz, pois o seu time acabara de conquistar o torneio Rio-São Paulo pela quarta vez, no Maracanã.

Entrou no carro, um Vectra azul - marinho do ano, e seguiu em direção à linha vermelha. Via, recentemente inaugurada, que diminuíra a sua viagem em pelo menos quinze minutos.

Como estava com muito sono, parou num bar e tomou uma Coca-Cola com um cafezinho. Mais desperto, acelerou para a casa. Pelo adiantar da noite, sem nenhum tráfego, chegou em seu sítio quarenta minutos depois. Parou na entrada para abrir o portão. Estranhou que nenhum dos cães veio recebê-lo, como de costume. Olhou para a casa do caseiro e viu todas as luzes apagadas. Precavido, tirou a sua pistola do coldre e a armou. Entrou novamente no carro e, com todo o cuidado se dirigiu para a garagem. No meio do caminho as luzes do farol do carro bateram no corpo de um de seus cachorros. Parou e saltou imediatamente. O cachorro estava morto. Procurou por algum ferimento e não encontrou. Voltou ao Vectra e pegou a lanterna que sempre trazia no porta-luvas. Iluminando o caminho, varreu com a luz o resto do terreno. Encontrou o corpo dos outros animais. Foi junto de cada um, para verificar. Estavam mortos, sem nenhum ferimento. Ficou possesso, com as lágrimas rolando de seus olhos e dirigiu-se para a casa do caseiro. Bateu e ninguém atendeu. Meteu a mão no trinco e a porta cedeu. Entrou e não encontrou o homem dentro da casa. Reparou que todos os móveis estavam lá, inclusive à televisão. Abriu a porta do armário e as roupas estavam no lugar.

- Bem, pensou, o que terá acontecido?

Com a pistola na mão, voltou para o jardim em direção à sua casa. Abriu a porta e, com toda precaução, investigou todos os cômodos. Não tinha ninguém e nada estava fora do lugar. Voltou então para o seu quarto.

- Ora, roubo não foi - falou consigo mesmo. Onde se metera o caseiro e o que houve com os cachorros?

Jogou o paletó na cama, tirou a gravata, arregaçou as mangas da camisa e dirigiu-se à despensa que ficava nos fundos da casa Pegou uma pá, encaminhou-se para os animais, que tanto amava e arrastou-os para o final do terreno.

Cavou uma sepultura para cada um e os enterrou. Com lágrimas nos olhos, ajoelhado, fez uma oração. Voltou com a pá suja de terra, lavou-a no tanque que ficava do lado de fora da casa e entrou, direto para a cozinha. Cansado e com sede, guardou a arma no coldre, preso ao lado esquerdo das costas e abriu a geladeira.

Abstêmio, pegou um suco de maracujá e bebeu dois copos. Subiu para o quarto, tirou a roupa e entrou no banheiro, tendo o cuidado de colocar a sua arma no parapeito da janela de ventilação. Por segurança, trancou a porta. Abriu a água fria e entrou no banho. Ao ensaboar-se, sentiu-se tonto. Ligando o acontecido aos cachorros, desligou a água e, mesmo molhado, saiu do banho, em direção ao telefone do quarto, para pedir socorro.

Não agüentou. No meio do caminho, caiu, a dois metros da sua cama, sem sentidos.

Do lado de fora, em cima de uma árvore, olhando por um binóculo, o assassino acompanhava toda a cena. Quando viu o delegado cair, desceu rapidamente e entrou na casa. Foi diretamente ao quarto e parou ao lado do corpo. Calmamente retirou a navalha do bolso, ajoelhou-se no chão e rezou. Depois, deu um corte profundo na jugular do delegado. O corpo estrebuchou. O assassino continuou de joelhos, olhando o sangue esvair-se em jorros, que ritmava com o bater do coração da vítima. O delegado abriu os olhos com uma expressão de agonia, tentou levantar-se, mas não conseguiu.

O assassino, impávido, esperou que ele desse o último suspiro. Depois, como sempre fazia, depositou a navalha em cima do cadáver, com o número 2. Águia.

 

Fim do jantar.

Alberto comeu tanto que estava passando mal.

- Ai! Laura. Estou enjoado de tanto comer.

- Vou dar-lhe um antiácido, vai melhorar... Parece até criança.

- Mas, Laura, estava muito bom. Nunca comi um bacalhau tão gostoso.

- Pois é. Mas agora veja só no que deu a sua gula. Venha se deitar em minha cama, para ver se melhora.

- Com você?

- Nem passando mal, né, Alberto? Vê se sossega. Você não se agüenta nas próprias pernas.

Alberto deitou e afrouxou o cinto. Sentiu que estava cheio de gases e ficou preocupado. Não poderia liberá-los na frente de Laura. Seria uma vergonha e ele não estava disposto a isso. Resolveu então ir embora. Levantou-se da cama e falou para a garota:

- Olha, Laura. Eu vou para casa. Lá vou me sentir melhor.

- Tudo bem. Mas se piorar, ligue para mim, tá?

Os dois se despediram rapidamente. Já no elevador, Alberto soltou os primeiros gases o que deu uma certa aliviada, mas o cheiro foi terrível.

- Ainda bem, pensou. Imagina se faço isso na frente dela.

Já no carro, indo para casa, lamentou-se:

Puxa vida. Como sou um imbecil. Justo na hora em que tive uma chance, fui comer feito um cavalo... Sou realmente um imbecil - repetiu - falando em voz alta, para si mesmo.

 

No dia seguinte, Alberto chegou tarde à delegacia. Estava preocupado com o novo chefe, linha dura, que fazia questão da pontualidade, mas ele tinha passado muito mal durante a noite, até vomitou, quando melhorou e pode, então, dormir.

- Olá, disse Laura quando o viu chegar. Já estava preocupada com você. Ia até telefonar para a sua casa.

- Nossa, Laura, passei muito mal. Só consegui dormir, depois das duas da manhã. E o novo chefe, como está? Já me procurou?

- Fique tranqüilo. Ele ainda não chegou.

- Que bom. Ia ficar chato para mim se, logo no dia seguinte, às recomendações dele, eu chegasse atrasado.

- Pois é, você deu muita sorte. Até porque, ele marcou uma reunião para às nove horas.

- É. Nessa, ele perdeu um pouco da moral. Por falar nisso, o que você vai fazer esta noite?

- Nada. Por quê? Não vai me dizer que quer jantar de novo? Se quiser, eu ainda tenho um pouco daquele bacalhau – falou – gozando.

- Sou mesmo um imbecil, né?

- Não, você é um grande guloso, isso sim.

- Que tal irmos a um cinema? Depois eu pago um jantar.

- Só se me prometer que não vai comer demais.

- Isso... Nunca mais. Vamos comer num restaurante vegetariano. Assim não há perigo.

- O que você quer dizer com isso? Que eu sou perigosa na cozinha?

- Não! De jeito nenhum. Ao contrário, quis dizer que num restaurante, eu não vou encontrar nada tão gostoso quanto a sua comida.

- Ah, bom. Já estava me preparando para lhe dar uma boa resposta.

Já eram duas horas da tarde e nada de o delegado chegar. Ele tinha marcado três reuniões e não tinha comparecido. O telefone da casa dele tocava, mas ninguém atendia, da mesma forma que o celular.

A secretária, uma jovem policial, não sabia mais o que fazer. Já tinha recebido cinco telefonemas do secretário de segurança e duas do governador. Na terceira ligação, o governador foi malcriado.

- Mas governador, eu não sei mais o que fazer. Falou a garota.

- Minha filha - respondeu - o que você vai fazer também não me interessa. Eu quero que ele ligue para o meu gabinete, no máximo, em meia hora. O problema é seu!

Dizendo isso desligou.

Preocupada, a moça foi falar com Alberto, contando-lhe toda a   situação.

- Ele tem parentes próximos?

- Só a mãe. Mas ela mora em Miami. Ligo para ela?

- Claro que não. Ela vai ficar preocupada e não vai resolver nada. Onde ele mora?

- Em Petrópolis.

- Não tem nenhuma empregada?

- Só o caseiro. Mas ninguém atende lá.

- E o celular?

- Também não atende.

- Então dê o endereço que eu vou lá. Isso está muito estranho.

A secretária deu o endereço. Alberto chamou Laura:

- Laura, vamos à casa do delegado.

- Fazer o quê?

Em poucas palavras, Alberto resumiu a situação.

Entraram no carro e dirigiram-se para Petrópolis, atrás do delegado.

 

O carro da polícia fez uma curva para a esquerda e entrou na estrada onde ficava o sítio do delegado. O terreno era todo fechado por cercas bem cuidadas, pintadas de branco. O carro chegou ao portão e parou. Alberto desceu e procurou por alguma campainha. Não encontrou. Olhando com mais cuidado, viu, no canto direito superior, um sino. Tocou-o diversas vezes. Nada. Forçou o portão, estava fechado. Voltou ao carro:

- Laura, vamos ter que pular a cerca e invadir a propriedade.

- Então vamos, disse Laura, encostando melhor o carro e saltando.

Pularam a cerca e entraram no sítio. E, precavidos, foram com as armas na mão.

A porta da casa estava aberta. Entraram, com todo o cuidado, olhando para todos os cantos. Começava a anoitecer e lá dentro estava escuro. Alberto e Laura acenderam as luzes. Tudo estava nos devidos lugares. Visitaram a parte de baixo e nada. Subiram então para o segundo andar, onde ficavam os quartos. Um deles, parecia à suíte, estava com a porta semi-aberta. Pé ante pé, colados na parede, avançaram. Chegando à porta, Alberto, com o cano do revólver, empurrou-a, escancarando-a.

A visão da cena deixou-os atônitos: o delegado, nu, estava deitado no chão, envolvido por uma poça de sangue.

Alberto, instintivamente, esquecendo toda precaução, correu em direção ao corpo. Laura, atrás, deu-lhe cobertura.

- Puta que o pariu! - exclamou, tentando encontrar algum sinal vital do delegado - Em vão. O homem estava morto. Em cima do corpo, a navalha com o número dois.

- E agora? - perguntou Laura.

- Nem sei o que dizer - respondeu Alberto - Isso vai ter o mesmo efeito de uma bomba atômica. Ligue para a delegacia e avise ao pessoal. Não se esqueça de pedir sigilo absoluto, avisar ao governador e ao secretário de segurança. A imprensa não pode saber de nada. Vamos deixar a decisão, de informar, para as autoridades.

Dizendo isto Alberto deixou-se cair na poltrona que ficava em diagonal, aos pés da cama.

Laura voltou ao quarto, cinco minutos depois.

- Já avisei ao pessoal. Eles pediram para ficarmos, até a polícia técnica chegar.

Uma hora depois, um helicóptero do Governo Estadual pousou no terreno do sítio. Os dois foram na direção da aeronave. Era o próprio governador, com o secretário de segurança.

De cara amarrada, sem cumprimentos, o governador foi logo perguntando:

- O que aconteceu aqui?

Alberto e Laura explicaram o que acontecera, nos mínimos detalhes.

- To ferrado! - desabafou o governador - Os familiares dele já foram avisados?

- Ele só tem a mãe, que mora em Miami.

- Não tem mais familiares?

- Que eu saiba, não.

- Verifique isso, imediatamente. Veja também se tem alguma namorada ou alguma pessoa mais chegada.

- Tudo bem, governador. Amanhã...

- Amanhã nada! - atalhou o governador - Quero isso agora.

- Agora? Como vou conseguir?

Você não é polícia? Verifique imediatamente.

Outra coisa: não quero que ninguém saiba do que ocorreu. Inclusive, na delegacia. Quantas pessoas sabem que ele morreu?

- Bem, tirando eu e a Laura, só o subdelegado Miranda.

- Liguem-me com ele, agora.

Alberto, pelo celular, ligou para a delegacia:

- Miranda? O governador quer falar.

O governador, nervoso, tirou o telefone das mãos do policial.

- Delegado Miranda? Aqui é o governador. Quando você recebeu a notícia do delegado Marcelo, falou sobre o episódio com mais alguém?

- Não governador. Eu achei a morte...

- Morte, não, delegado! Episódio.

- Tudo bem. Quando soube do episódio, achei o fato tão importante que liguei imediatamente para o secretário de segurança e não disse nada para mais ninguém, a não ser para a polícia técnica, para pedir que fossem ao local, digamos, do episódio.

- Ótimo! Fez muito bem. Merece até uma promoção. De hoje em diante, você será o titular da delegacia. Não diga nada a ninguém sobre o episódio. Verifique imediatamente se ele tem parentes, além da mãe e se tem amigos próximos, ou alguma namorada. Quero sigilo absoluto. Encontre-se comigo no gabinete, dentro de duas horas. Se possível com as informações que lhe pedi. Antes, porém, ligue agora para a polícia técnica e diga que não venham, pois foi rebate falso. Dizendo isto, o delegado desligou e entregou o telefone a Alberto.

O governador virou-se para o secretário de segurança e falou:

- Tito. Vamos enterrar o corpo dele agora.

- Mas governador...

- Tito, sem outras perguntas. Vamos enterrar o corpo aqui no terreno do sítio mesmo. Seria uma desgraça para todos nós, se o público soubesse do ocorrido. Uma grande desmoralização para a polícia e para nós. Chame o piloto do helicóptero. Vamos para dentro da casa.

O grupo se reuniu na sala do falecido.

- Bem, o que tenho de falar é rápido - disse o delegado - Seremos todos desmoralizados, se alguém souber do que aconteceu. Desta forma, vamos enterrar o corpo agora, no quintal e, para todos os fins, o delegado Marcelo viajou para fazer um curso no exterior.

- Mas ocultar cadáver é crime, falou Alberto.

- Nós não estamos ocultando nada, respondeu o governador.

Ninguém aqui viu cadáver algum. Ou isso, ou muita encrenca. O que vocês preferem?

- Mas governador - ia retrucando o Alberto.

Detetive Alberto, a partir de hoje você é o subdelegado e

a detetive Laura, sua assistente.

Alberto olhou para a Laura que parecia muda. Alberto ainda procurou nos olhos dela alguma indicação, mas não encontrou nada.

- Detetive Laura. Procure uma pá. Qualquer sítio tem, pelo menos, uma.

Laura, ainda muda, obedeceu. O governador sentou-se na poltrona, mãos no rosto e os olhos fixos no chão. Os outros sentaram-se também.

Minutos depois, Laura apareceu com duas pás, que entregou ao governador. Este entregou as pás ao piloto e a Alberto:

- Por favor, cavem.

Os dois começaram o serviço.

 

O carro da polícia descia a serra. Alberto e Laura não tinham dito uma palavra, durante e depois do enterro. Alberto sentiu que Laura chorava.

- Vamos delatar esse filho da puta! - disse o Alberto.

- Você está maluco? Agora somos cúmplices.

- Ainda não. Seremos, se ficarmos calados.

- Alberto, eu estou horrível. Nunca pensei que participaria de uma coisa dessas. Aliás, entrei para a polícia para evitar que crimes pudessem ser cometidos e agora acabo de praticar um. Mas, acima de tudo, temos que sobreviver. Se delatarmos o governador, vamos nos dar muito mal.

- Como mal, Laura? Vamos à corregedoria, à imprensa, falamos tudo e metemos o filho da puta na cadeia.

- Você é muito ingênuo. Acha, então, que o governador vai   deixar o corpo onde está? Aposto com você que dentro de pouco tempo não vai mais existir nenhum corpo naquela cova.

- Você acha?

- Com certeza. Ele não vai deixar rastro algum. Além do mais, com o poder que ele tem, nós é que vamos ficar na pior. E, provavelmente, seremos presos. Isso tudo me revolta, mas nada temos a fazer, senão ficarmos quietos. Você não sabe, mas eu tenho os meus pais que são velhinhos, doentes e sustentados por mim. Se alguma coisa me acontecer, eles vão ficar desamparados. Não podemos medir forças com quem está no poder. Este vai ser um dia negro em minha vida, mas vou tentar esquecê-lo, o mais rápido possível.

- Acredita mesmo que o governador vai “limpar” a área?

- Alberto, querido. Você é realmente muito ingênuo. Vamos fazer uma coisa: vire o carro e vamos voltar. Será testemunha do que estou dizendo.

Alberto retornou e voltou em direção ao sítio. Pararam e esconderam o carro a cem metros depois. Voltaram a pé e, no mato, atrás de uma árvore, num local em que tinham total visão de onde ficava a cova, esperaram. Duas horas depois, chegou uma ambulância com a inscrição, em vermelho, de uma Clínica N.S. das Virtudes. Saltaram dois homens que, depois de uma rápida procura, foram em direção à cova. Desenterraram o cadáver e o colocaram num saco preto. Voltaram à ambulância, depositaram o saco na parte de trás do veículo e foram embora.

- Se eu tivesse uma máquina fotográfica, aqui - lamentou-se Alberto.

- Não ia adiantar nada - respondeu a Laura. Não poderíamos provar coisa alguma, a não ser que dois homens levaram um saco preto para a ambulância. Isso não prova nada. Esqueça o assunto.

- Que tal seguirmos a ambulância?

- Você quer que nós dois sejamos mortos?

- Claro que não.

- Então esquece - disse Laura, quase histérica. Vamos embora.

E voltaram para a delegacia.

 

Conforme as ordens que tinha recebido, o delegado Tito apresentou-se no gabinete do governador.

- E aí, delegado? Perguntou o governador.

- O homem era meio ermitão. Não tinha amigos próximos ou namorada. E, estava confirmado, de parente vivo, só tinha a mãe. O pai morreu há dez anos e ele era filho único.

- Muito bom, disse o governador. Se alguém perguntar, ele pediu demissão e sumiu.

- Ué, riu o novo delegado. Ele não tinha ido fazer um curso no exterior?

- Mudei de idéia. Teríamos que dar muitas explicações e estaríamos frágeis. Aqui está a carta de demissão dele. Arquive no seu Departamento de Pessoal. Dizendo isso o governador entregou ao delegado a carta de demissão com a assinatura do defunto.

- Mas a assinatura é igualzinha a dele.

- É a dele - afirmou o governador.

 

Alberto assim que chegou à delegacia começou a investigar a Clínica N.S. das Virtudes. Meia hora depois foi para a mesa de Laura.

- Laura, disse baixinho, não existe nenhuma clínica N.S. das Virtudes.

- E você esperava encontrar alguma?

- É, a barra é pesada mesmo. E logo com esse nome, N.S. das Virtudes.

- Quer mais? - perguntou a Laura.

- Quero - respondeu.

- Então senta aqui ao meu lado que quero lhe mostrar algo no computador.

Alberto puxou uma cadeira e sentou-se ao lado da parceira. Ela pegou o mouse e abriu a primeira tela: Secretaria de segurança. Abriu a segunda: Departamento do Pessoal. Clicou no ícone “funcionários”. Veio uma lista de funções. Clicou no ícone de “segurança do governador”. Apareceu uma nova lista, menor. Ela clicou então no quarto nome. Apareceu uma foto.

- Lembra-se dele? Perguntou Laura.

Alberto deu um grito:

- É um dos caras.

- Shiii! - disse Laura, colocando o indicador no nariz, na posição de silêncio - fala baixo. Agora olha este aqui! Mostrou outra foto que se abriu depois de clicar em outro nome.

- É o outro. Falou o Alberto, desta vez bem baixinho.

- Pois é. Agora você sabe porque não encontrou a Clínica N.S. das Virtudes.

- É. Eu sou um babaca mesmo.

- Não, Alberto. Você é apenas um ingênuo.

Laura, então desligou o computador e, colocando o maior sorriso nos lábios, fez o convite.

- Quer jantar comigo hoje?

- Quero - respondeu de pronto o detetive - A que horas e onde?

- Lá em casa mesmo. Que tal às oito?

- Está certo. Estarei lá, pontualmente.

Conforme prometido, às oito horas em ponto, Alberto chegou na porta do apartamento da Laura. Encontrou a porta encostada. Preocupado, bateu com força. A porta se abriu mais um pouco e ninguém respondeu.

Quase em pânico, Alberto tirou o revólver do coldre e com ele na mão entrou cautelosamente na sala. Escutou o barulho de água. Dirigiu-se rapidamente ao banheiro. A porta estava aberta e Laura tomava banho no boxe. A sua silhueta, nua, desenhava a sombra na cortina de correr.

- Você deixou a porta aberta? Perguntou, quase gritando Alberto.

Laura afastou a cortina, o suficiente para pôr a cabeça para fora e respondeu:

- Deixei. Fiquei com medo de não ouvir a campainha quando você chegasse.

- Você está maluca? Com um assassino, psicopata, à solta, matando gente, você faz uma coisa dessas?

Laura perguntou:

- Que número ele me daria?

- Deixa de brincadeira, Laura - disse Alberto guardando o revólver. - Espere um momento que vou fechar a porta.

Trancou a porta e voltou ao banheiro.

- Você não devia fazer isso. O cara é maluco e pode estar atrás de um de nós.

- Fica calmo, Alberto. Ele nem sabe de nossa existência.

- Como não? Pode ser qualquer um. Inclusive um policial da nossa delegacia.

- Você está é com mania de perseguição... Fica frio. Que tal me ajudar no banho?

Só então Alberto percebeu toda a situação. Tirou rapidamente as roupas e entrou no boxe.

 

Alberto dormiu com Laura. Foi uma noite perfeita. Além de linda, Laura era um furacão na cama. Só foram dormir depois das quatro da manhã.

Alberto acordou primeiro, Laura estava enroscada em seu corpo, abraçada e com o rosto apoiado no ombro dele. Ressonava suavemente. Alberto, delicadamente, passava os dedos em seus longos cabelos, ao mesmo tempo em que contemplava a beleza da garota. Ela deu um pequeno suspiro e abriu os grandes olhos verdes. Ao olhá-la, Alberto abriu um enorme sorriso.

- Bom dia, meu amor. Saudou

- Bom dia. Respondeu Alberto, dando-lhe um suave beijo na boca.

Laura agarrou-o com força e o beijou ardorosamente. Imediatamente excitado, ele se posicionou em cima do corpo dela. Estavam nus. Sem dizer mais nada, posicionaram-se, de forma que ele pudesse penetrar nela. Novamente fizer amor. A princípio, lentamente, cada um procurando sentir ao máximo o corpo do outro, depois, freneticamente, até chegarem a um delirante orgasmo. Terminando, suados, relaxaram na mesma posição. Dormiram novamente até o despertador tocar. Laura, tateando, desligou o relógio.

- Temos de levantar - disse ela - ou chegaremos atrasados ao trabalho.

- Que se dane o trabalho - respondeu Alberto - Quero ficar a vida inteira aqui.

- Seria ótimo, mas não dá. Hoje vai ser uma loucura lá na delegacia e não podemos chegar atrasados.

Laura levantou-se primeiro e foi ao banheiro. Alberto ficou espreguiçando até ela voltar, quando então se levantou.

- Deixei uma escova de dente nova, para você, ao lado do creme dental.

- Obrigado - respondeu Alberto, dirigindo-se ao banheiro.

Já no carro, indo para a delegacia, Alberto virou-se para Laura e disse:

- “Eu te amo”.

- Eu te amo muito, também - respondeu a moça.

O detetive apertou a mão da Laura e foi dirigindo, com uma das mãos. Não largou, de forma alguma, a mão da amada, até chegarem à delegacia.

Ao chegarem lá, todos os detetives foram convocados para uma reunião. O secretário de segurança estava junto. Foi ele quem abriu a reunião.

Amigos, temos algumas novidades.

Em primeiro lugar, quero comunicar que o delegado Marcelo pediu demissão.

Acho que foi para Miami viver com a mãe dele, que está muito doente. Assim, comunico que o titular da delegacia passa a ser o delegado Tito. Espero de todos vocês o apoio ao novo chefe. Ele tem um forte currículo para preencher esta vaga. Informo também que, dentro da nossa política de premiar os funcionários que tenham se destacado, promovo o detetive Alberto para subdelegado da Homicídios, tendo como assistente pessoal a detetive Laura. Estas são as modificações.

Palmas e parabéns ecoaram pela sala. Os três eram muitos queridos pelos detetives.

- Peço aos que não estão envolvidos nos crimes do “serial killer” que saiam da sala.

O secretário esperou que a sala esvaziasse. Quando ficou só o grupo que trabalhava no caso, continuou:

Agora, disse o secretário, vamos manter o grupo de trabalho que investiga o nosso “serial killer”. A chefia do grupo fica com o subdelegado Alberto. Temos que achar o assassino de qualquer maneira e o mais rápido possível. A cidade está assustada, com toda a razão, e a mídia não sai do nosso pé. As eleições estão próximas e, se não resolvermos logo esta situação, o nosso governador vai ser prejudicado em sua reeleição. Conforme já reiteramos, este grupo vai ter todo o apoio de que precisar.

Terá prioridade absoluta em minha secretaria. Este projeto vai ter um nome. Daqui para frente, vai chamar-se Operação Zero. O nome é óbvio. É onde estamos neste caso, na estaca zero. Esta operação será classificada como confidencial. Só as pessoas envolvidas, eu e o Governador, teremos acesso ao desenvolvimento dos trabalhos.

Por ser altamente sigilosa, o grupo de trabalho vai se mudar daqui e ocupará cinco salas no próprio palácio do governo. Essa mudança será imediata. O escritório já está totalmente equipado, com computadores de última geração e programas específicos comprados da polícia de Nova Iorque e Londres, além de rádios com canais exclusivos e outras traquitanas tais como carros civis, escuta de telefones, laboratórios especiais e os técnicos mais especializados para operar. Agora é com vocês. Era o que tinha a dizer. Felicidades, a todos.

- Vamos juntar os fatos, falava Alberto para os participantes da Operação Zero. Sabemos que o assassino, além de um psicopata, é homem, aidético, sangue B negativo, moreno, alto e forte, aparentando uns quarenta anos, segundo testemunhas que conseguimos na boate Le Boy e temos o código genético dele através dos testes do DNA. Sabemos também que é muito inteligente. O que mais temos?

- Temos a lista de todos os aidéticos do Rio de Janeiro que se tratam em hospitais públicos e particulares. Tirando as mulheres, crianças e os que estão acamados, sobram 1.500 doentes - falou um dos detetives.

- Nossa... Quanta gente! - disse a Laura.

- Conforme você pediu, disse outro detetive, temos também uma lista de todos os psicopatas tratados em hospitais e clínicas particulares e do governo. Somam trezentos.

- Essas listas já estão nos computadores? Perguntou Alberto.

- Já.

- Fizeram o cruzamento?

- Sim.

- Temos algum resultado positivo?

- Temos: sobram onze suspeitos.

- Já é um bom sinal.

- Melhor. Morenos altos e fortes, têm apenas dois.

- Muito bom. Quem são?

- O primeiro é um professor de matemática. Homossexual assumido, solteiro, aposentado pelas doenças, vive atualmente no Méier, onde tem uma barraca de camelô.

- E o segundo?

- O segundo é a grande surpresa.

- Qual é a surpresa?

- É o filho do bicheiro, Capitão Bigode.

- Capitão Bigode? O “Capo” dos bicheiros?

- Ele mesmo. O filho se chama Juvenal. Há dois anos foi deserdado pelo pai, quando descobriu que o filho era bicha. Imagine só, o Capitão Bigode, chefe de todos os bicheiros, linha dura, descobrir que o seu filho único era bicha. Ainda mais, pegou-o “dando” para um de seus seguranças. O velho ficou louco, queria matar todo mundo e, obviamente, o segurança sumiu. Deve ter sido morto.

- É isso aí. Tudo bate. O cara, psicopata, foi deserdado pelo pai e, por ódio, resolveu matar todo mundo, colocando o número dos bichos do jogo. Vamos atrás dele. Onde mora?

- O pai, depois de muito choro da mãe, resolveu perdoá-lo, em parte, e deixá-lo morando em sua casa. Mora na Vieira Souto.

- Então vamos lá. Não vai ser fácil entrarmos na casa dele. Antes, temos de pedir à promotoria que consiga, com o juiz, um mandato de busca. Precisamos fazer tudo legalmente, pois o bicheiro mandará dez advogados em cima da gente.

Duas horas depois, com o mandato nas mãos, os policiais em três carros seguiram para o apartamento do bicheiro.

- É aqui, disse a Laura. Vieira Souto 3.250. Nossa... Que prédio bonito.

- Imagine o apartamento dele.

- Como o bicho dá dinheiro. E o pior é que os maiores jogadores são gente simples e humilde, que gastam o pouco do dinheiro que têm, na esperança de ter um pouco mais.

- Pois é, e o governo não faz nada. Quando a mídia os aperta, prendem uma meia dúzia de peixes pequenos, que são os anotadores. Aí sai em tudo que é jornal, televisão e o povo tem a sensação de que a polícia está agindo. Tudo encenação. No dia seguinte, lá estão eles de novo tirando o pouco dinheiro que o povo tem. É uma patifaria.

Dizendo isto, Alberto encosta o carro na frente do prédio. Os policiais saltam do carro e se dirigem à portaria. O porteiro, vendo o movimento, num ato instintivo, avisa aos seguranças do prédio.

- Boa tarde. Cumprimenta Alberto. - Somos da polícia. Mostra as insígnias.

- O que os senhores querem? - Pergunta o porteiro.

- Queremos falar com o Sr. Juvenal. Ele está?

- Não sei lhe dizer não senhor. Dizendo isto, dirigiu-se para a mesa onde estava a central do interfone.

Alberto segurou pelo braço, antes que ele avisasse.

- Saia de perto dessa mesa, senão vou prendê-lo.

Chamou Laura e ordenou:

- Tome conta dele. Não o deixe avisar a ninguém.

Nesse momento, dois seguranças chegaram à portaria.

- O que está havendo? - perguntou um deles.

- Temos um mandato para falar com um dos moradores.

- Deixe-me ver, pediu o segurança.

Alberto quase que perdeu a paciência. Mas, refletindo melhor, mostrou o documento. O segurança leu com atenção.

- Pode deixar, vou chamar o Sr. Juvenal.

Alberto se irritou.

- Chamar, coisa alguma! Nós viemos aqui para pegar esse cidadão e é o que vamos fazer.

- O senhor não pode invadir uma propriedade particular assim.

- Invadir coisa nenhuma, eu tenho o mandato de um juiz.

- Eu sou sargento da Polícia Militar, falou o segurança.

- Você pode ser sargento da puta que o pariu, mas se disser mais alguma coisa, vou prendê-lo, agora mesmo!

O sargento fez o gesto de pegar a arma, mas Laura foi mais rápida e encostou o seu revolver na cabeça dele.

- Algeme esse filho da puta! - gritou o Alberto.

Laura, sem pestanejar e com gesto rápido, algemou um dos punhos do homem. Depois, colocou-lhe os dois braços para trás e algemou o outro punho. Impotente, o segurança gritou:

- Você vai se dar muito mal. Eu sou uma autoridade!

- Uma autoridade que está indo contra a ordem de um juiz, dificultando uma prisão. Você é que vai se dar muito mal. Disse Alberto.

Laura chamou o outro segurança e o algemou ao primeiro. Mandou os dois sentarem no chão. Colocou o porteiro junto deles e sentou-se em uma das poltronas que estava por perto.

- Pode ir Alberto. Eu tomo conta desses três.

Alberto lhe deu um sorriso e, junto com os outros quatro policiais, entrou no elevador. Apertou o número 12.

- Elefante... - falou para os companheiros.

Quando o elevador parou no andar, Alberto mandou que dois dos policiais fossem para a porta de serviço.

- Não deixem ninguém entrar ou sair.

Esperou um pouco, até ter a certeza de que os dois tinham tomado a posição e, só então, apertou a campainha.

Atendeu uma empregada, bem jovem, num impecável uniforme azul marinho.

- Pois não?

Alberto mostrou as suas insígnias e perguntou:

- O Sr. Juvenal está? Precisamos falar com ele.

A empregada ficou branca feita uma cera e, abobalhada, ficou olhando sem dizer nada. Nisso, uma voz forte e rouca, perguntou lá de dentro:

- Quem é Romilda?

- É a polícia, Dr. Capitão - respondeu assustada e quase gritando.

A porta se abriu totalmente e um homem forte, totalmente careca e com um bigodão, apareceu junto com outros dois que, de tão grandes, pareciam dois armários.

- O que o senhor quer? - Perguntou de cara fechada, quase que como uma ameaça, o Capitão Bigode.

- Viemos buscar o Sr. Juvenal, para averiguações.

O policial sentiu que o homem relaxou.

- Averiguar o quê?

- O Sr, Juvenal é suspeito de vários assassinatos.

- O senhor tem um mandato?

- Temos sim.

Alberto então mostrou ao Capitão o mandato do Juiz. Ele leu com atenção e os mandou entrar.

- Façam o favor de entrar. Vou mandar chamar o meu filho imediatamente.

Os policiais entraram no salão da residência do bicheiro. Sentaram num dos vários conjuntos de sofás.

O Capitão mandou servir um cafezinho, enquanto eles esperavam, e sentou-se junto. Ninguém falava nada. Era um constrangimento só. Alberto pensara que haveria uma reação muito grande, por isso, conscientemente, deixara Laura embaixo. Não queria que ela se envolvesse num tiroteio. Mas nada disso acontecera. Ao contrário, o bicheiro tinha sido muito gentil. Meia hora depois, quando os policiais já estavam ficando impacientes, a campainha tocou. A empregada entrou no salão, acompanhada de um senhor.

O bicheiro levantou-se, cumprimentou e apresentou:

- Este é o doutor Ernani, nosso advogado. Quero que vocês entendam que, como pai, não poderia deixar o meu filho sem a assistência de um advogado.

O advogado cumprimentou os policiais, pediu o mandato, verificou a autenticidade do documento e fez um sinal positivo ao bicheiro. O bicheiro saiu da sala e voltou com o filho ao lado.

Era um homem de seus trinta anos, alto, forte e moreno. Alberto sentiu um frio percorrer-lhe a espinha.

- Muito bem, disse o bicheiro, eis aqui o Juvenal.

O homem estendeu a mão para Alberto, que não retribuiu, deixando o acusado com a mão estendida.

- Vamos então para a delegacia - falou Alberto tirando as algemas do bolso.

- Por favor, intercedeu o bicheiro. Sem as algemas. Eu dou a minha palavra de que ele não tentará fugir.

Alberto ficou indeciso por alguns segundos, depois aceitou. Desceram todos para a portaria.

Delegado - falou o bicheiro - vou pedir-lhe mais um favor:

Como o meu filho é apenas um suspeito, pediria que ele fosse no nosso carro.

- Tudo bem. Desde que dois policiais fiquem junto.

- Concordo, disse o bicheiro.

O carro do bicheiro parou na portaria. Era um Mercedes do ano, guiado por um motorista negro, uniformizado com quepe e luvas brancas. O bicheiro entrou na frente e o filho ficou no banco de trás, no meio de dois policiais. O cortejo foi então para o palácio do governo, onde ficavam os escritórios da Operação Zero, com um carro da polícia na frente e os outros dois atrás. O advogado foi em seu próprio automóvel.

Lá, o acusado foi identificado. Tirou as impressões digitais e foi fotografado. Depois foi encaminhado para a sala de Alberto, onde, além do subdelegado, estavam Laura, o bicheiro e o advogado.

- Chamem o escrivão, ordenou Alberto a um dos policiais.

Assim que o técnico chegou, Alberto começou o interrogatório:

- Muito bem, seu Juvenal. O senhor poderia me dizer onde estava e o que fez entre anteontem depois das seis horas da tarde e ontem até as duas da tarde?

- Claro, disse Juvenal. Nesses dois dias, eu não saí de casa.

- Tem testemunhas?

- Tenho o meu pai, minha mãe...

- Sem ser parente, pediu o Alberto.

- O João, o Mário, o Beto, a Romilda e a Antonieta.

- Quem são eles?

Foi o bicheiro quem respondeu:

- Os dois primeiros são meus seguranças, o terceiro o chofer, a primeira mulher a arrumadeira, que vocês já conhecem e a outra, a cozinheira.

Alberto pensou: - essas testemunhas não valem nada, são empregados do bicheiro, mas tecnicamente são testemunhas válidas. Mas nós teremos as provas finais com as impressões digitais e o sangue.

Nisso, um policial bate na porta e entrega dois papéis a Alberto. O subdelegado lê, coloca-os na mesa e fala:

- Só preciso agora de um pouco do seu sangue.

O bicheiro olha para o advogado, que faz com a cabeça o sinal de sim.

- Posso chamar o enfermeiro? - Perguntou o policial.

- Pode - respondeu o bicheiro.

Alberto, pelo telefone interno, chama o enfermeiro que tira o sangue do suspeito. Depois, fala:

- Bem, senhor Juvenal, só mais um minuto e nós o liberaremos. Dizendo isto Alberto sai da sala, chamando Laura.

- Que merda! Que merda!

- O que foi Alberto?

- As impressões digitais não conferem com as do criminoso. Não é ele o assassino. Estamos na estaca zero de novo.

- E o sangue?

- Vamos lá no laboratório. Mande alguém ficar de vigia na sala. Não deixe ninguém sair.

Alberto dirigiu-se, quase que correndo para o pequeno laboratório, montado para o seu grupo.

- E aí? - perguntou à técnica que estava analisando o sangue.

- Nada delegado. O sangue dele é A negativo. O do criminoso é B positivo.

- Mandou uma amostra para confirmamos o DNA?

- Mandei. Mas não vai dar em nada. Este sangue não é o do assassino.

Alberto saiu bufando da sala e quase que deu um encontrão em Laura, que estava chegando.

- Como foi? - Perguntou Laura.

- Negativo, Laura. Ele não é o criminoso que procuramos.

- Zeramos de novo?

- Zeramos, disse Alberto.

 

Alberto deitou-se no sofá com a cabeça no colo da Laura. Fechou os olhos enquanto a garota lhe fazia cafuné.

- Não fique assim, Alberto. Nós ainda vamos pegar esse assassino.

- Puxa, Laura, eu tinha quase a certeza de que o filho do bicheiro era o “serial”. Apostaria tudo. Mesmo assim, ainda tínhamos o professor. Mas nada. Também não era. Depois a descompostura do governador por termos incomodado o bicheiro. Veja só, fui chamado à atenção por ter incomodado um contraventor. Onde nós estamos.

- Mas é assim no mundo todo. Quem tem dinheiro, não importa de onde venha a grana, é sempre poderoso.

- Mas Laura, isso é um absurdo. E o cara- de- pau do governador ainda veio dizer, na minha cara, que o bicheiro era aliado dele. Que o contraventor representava pelo menos quinhentos mil votos. Assim não dá.

- Meu querido, você é uma pessoa íntegra e procura fazer as coisas da melhor forma possível, mas tem que entender que a política é assim mesmo. Depois você não gosta quando diga que é ingênuo.

- É você tem razão. Eu sou mesmo muito ingênuo. Mas tem uma coisa que me preocupa.

- O que é?

- É que nós estamos participando desse jogo sujo. Imagino como o governador deve estar de olho na gente, por termos participado e sermos testemunhas da ocultação do cadáver do delegado.

- Você tem razão. Se por um lado isso nos garantiu uma posição melhor, por outro, se jogarmos por algum momento contra, seremos sumariamente executados. E sem piedade.

- Eu também não tenho a mínima dúvida disso. Mas o que podemos fazer?

- No momento, nada. Mas se eu tiver, algum dia, a chance de botar esse canalha na prisão, não vou pensar duas vezes.

- Lá vem você com a sua ingenuidade novamente. Desde quando você viu um governador ir preso? Nem pense nisso. Se você, em algum dia, como disse, tiver essa chance, estará, com certeza, cavando nossa sepultura. É isso que você quer?

- Claro que não Laura.

- Então, eu peço, por favor, que esqueça o que aconteceu. Afinal, o governador não foi o assassino, ele apenas escondeu um fato que poderia prejudicar sua carreira. Foi um ato de defesa, não de agressão.

- É assim que você pensa?

- E não foi isso que aconteceu?

- E a lei?

- A lei, meu querido ingênuo, foi feita para o povo. Não para os poderosos. Além do mais, o corpo sumiu, definitivamente.

Ninguém poderá provar mais nada, e o nosso testemunho, sem provas, não vale nada. Será a nossa palavra contra a dele. Vamos mudar de assunto?

- Vamos.

- Então, que tal irmos para a cama?

- Acho uma ótima idéia.

 

Copacabana Palace Hotel, o mais bonito e chique do Rio de Janeiro. Construído no início do século, é um dos monumentos da cidade maravilhosa. Preferido pela maioria dos políticos, empresários e artistas famosos que visitam a cidade, era palco de uma convenção sobre economia global, presidida pelo Ministro da Economia e tendo como convidado especial, o magnata da indústria de telecomunicações, Cilon Sing, presidente da multinacional Intecom Sovy, de Hong Kong.

Cilon Sing tinha sido empregado da AT&T, nos Estados Unidos, como engenheiro chefe da divisão de eletrodomésticos. Na década de 70, pediu demissão e abriu uma pequena indústria na sua terra natal, fabricando rádios e televisões. Depois, pegando a onda dos telefones celulares, passou a fabricar os melhores aparelhos desta nova tecnologia. Em poucos anos tornou-se o maior fabricante mundial desses aparelhos. Exportava para o mundo inteiro a um preço que, devido ao baixo custo da mão de obra daquela ilha, não tinha concorrência em todo o planeta. Era um dos mais legítimos representantes dos Tigres asiáticos.

A sua palestra foi classificada por todos os jornais como sensacional, um exemplo de otimismo e competência. A sua foto saiu com a legenda: O tigre Sing.

 

O assassino recortou a foto do Cilon Sing e fez um circulo com tinta vermelha na palavra ‘tigre “. Como sempre fazia, acendeu duas velas, ajoelhou-se e começou a sua reza. Enquanto rezava, começou a chorar e a suar em bica”.

Depois, correu para o banheiro e vomitou. Tomou um banho, vestiu-se e foi na sua mezinha de cabeceira, abriu a gaveta e escolheu uma navalha, a com o número 24, veado.

Embrulhou-a, com todo o cuidado, em um lenço de seda e guardou no bolso.

Desceu para a rua e pegou um táxi. Pediu ao motorista para o levar para a praia de Copacabana. Soltou perto do Copacabana Palace. Atravessou a Av. Atlântica e sentou-se no banco que ficava na calçada, em frente ao hotel e ficou a observar o movimento. A seu lado, ficava um quiosque, famoso por ser freqüentado por homossexuais.

 

Alberto, no final do expediente, pegou o jornal e ao ver a foto do Cilon Sing, com o título de Tigre Sing, Pulou da cadeira. Saiu correndo de sua sala e chamou os detetives:

- Vocês leram o jornal hoje? Perguntou com o jornal nas mãos.

- Lemos chefe, respondeu um dos detetives.

- E não repararam em nada?

- A foto do Tigre! - berrou Laura - como sou burra.

- Vamos rápido! - gritou Alberto.

A equipe saiu em disparada para os carros. Com as sirenes ligadas, em quinze minutos, chegaram no Copacabana Palace.

O Hotel tem três entradas. A principal, em frente à Av. Atlântica; pelo restaurante, entrando depois para a pérgula da piscina; e, pela Av. Nossa Senhora de Copacabana.

Alberto deixou uma dupla de detetive em cada entrada e, junto com Laura e mais quatro detetives, certificou-se de que o magnata estava em seus aposentos e que nada acontecera. Mandou dois deles para o andar em que estava o Cilon Sing e ficou na portaria principal com Laura e os outros.

 

O assassino viu quando os carros chegaram com as sirenes ligadas, e ficou observando todo o movimento. Deu um sorriso como se estivesse se divertindo.

A seu lado, no quiosque, por ser sexta feira, o movimento aumentava. Como sempre acontecia, começou um show de travestis num palco, armado na areia. A platéia era uma multidão, composta por homossexuais, famílias e turistas, atraídos pelo “bizarro” do espetáculo.

O assassino levantou-se do banco e, empurrando rudemente as pessoas, colocou-se na frente da multidão, bem perto do palco. Um travesti jovem, não teria mais que dezoito anos, com o cabelo comprido e oxigenado, com uns seios enormes, de silicone e vestido de odalisca, apresentava a dança do ventre, embalado por uma música árabe.

O assassino, como que hipnotizado, não tirava os olhos do dançarino, até que se fez notar. O travesti ao ver aquele moreno, alto e forte, que parecia comê-lo com os olhos, ficou empolgado e passou os últimos minutos do show como se o dedicasse ao assassino.

Quando o show acabou, o psicopata foi para trás do palco e se posicionou de forma tal, que pudesse ter contato com o travesti.

- Oi, cumprimentou, sorrindo, o psicopata.

- Oi, querido, respondeu, todo assanhado, o travesti.

- Você foi maravilhosa, disse.

- Obrigado, amor, respondeu, afetado, afinando a voz o mais que podia.

- Podemos conversar?

- Claro que sim

O assassino pegou-o pela mão e, pela areia, se afastou da multidão, indo para bem perto do mar. Os dois sentaram no chão e começaram a agarrar-se. O travesti, avidamente, segurou o membro do assassino e, sentindo-o duro, colocou-o para fora e começou a chupar. Ficaram uns cinco minutos neste ato. Até que o homossexual, não agüentando mais, tirou da cintura uma camisinha e, em fração de segundos, vestiu o pênis do assassino. Deitando de bruços, gemeu:

- Vem, meu bofe, come a sua bichinha.

O assassino penetrou o travesti e, em seguida, apanhou a navalha. Num golpe rápido, cortou a jugular do homossexual. Este tentou levantar-se, mas o psicopata, com a mão esquerda, enfiou o rosto do travesti na areia, segurando-o firme com o braço direito, ao mesmo tempo em que empregou todo o peso de seu corpo para o deixar imobilizado. Continuou com os movimentos da penetração, esperando que o rapaz sucumbisse. Quando o sentiu totalmente sem vida, aumentou os movimentos, até gozar. Depois, levantou-se, deixou a navalha com o número 24 em cima do cadáver, bateu com as mãos no corpo para se limpar da areia e, calmamente, voltou ao calçadão. Assistiu a mais um show, comeu dois cachorros - quentes e bebeu água de coco, no quiosque. Pegou um táxi e foi pra casa.

Eram seis da manhã, quando o telefone do Alberto tocou. Tonto de sono, levou alguns minutos para atender.

- Alô, atendeu o subdelegado com mau humor.

- Delegado, falou o detetive de plantão da Operação Zero, mais um corpo foi encontrado.

- Onde? Perguntou, acordando de vez.

- Nas areias de Copacabana, bem em frente ao Hotel.

O subdelegado apavorou-se:

- Foi o tigre asiático?

- Não, Alberto, foi um travesti vestido de odalisca. A navalha tinha o número 24, veado. Foi morto a alguns passos de nós.

O subdelegado se acalmou.

- Ainda bem.

- Ainda bem? - Respondeu surpreso o detetive.

- Claro, imagine se fosse o magnata de Hong Kong. Estaríamos ferrados.

- É, mas a coisa não será tão simples assim não. O corpo foi achado pela turma da Conlurb, enquanto limpava a praia e eles, além de nos avisarem, ligaram também para a imprensa. Tá o maior tumulto aqui. A cobertura é total. Todos os jornais e emissoras de televisão estão no local, filmando e fotografando tudo. Se você ligar a televisão assistirá a reportagem ao vivo.

- Está certo. Vou tomar um banho rápido e daqui a pouco estarei aí. Ligue para Laura e peça para ir também.

Alberto desligou o telefone e ligou a televisão. Todos os canais mostravam a mesma coisa. O locutor, da mais importante cadeia de televisão, vociferava:

“Isto é um absurdo. A cidade não pode conviver mais com esta situação. A incompetência da polícia em resolver esse caso é revoltante. Ninguém, em lugar algum, está mais seguro. E não importa a raça, classe econômica ou profissão”.

Todos nós somos alvo desse maníaco. Eu ou você poderemos ser o próximo e, até onde saibamos, a polícia não tem a menor pista. A situação é calamitosa...

Alberto, num rompante, desligou a televisão e foi tomar o seu banho.

Quando chegou ao local, a imprensa já tinha ido embora. O corpo estava sendo estudado pela polícia técnica e o local cercado pelos policiais. Várias pessoas, curiosas, olhavam o corpo, atrás da fita colocada pelos policiais para isolar o lugar.

- Como foi? Perguntou assim que chegou.

- O de sempre, delegado. A jugular cortada, a navalha com o respectivo número, no caso 24, de veado.

- Mais alguma coisa?

- Ele deixou um bilhete.

- O que diz?

- Apenas “o tigre mata o veado”. O que quer dizer?

- É simples. Ele presenciou toda a nossa operação de proteção ao Cilon Sing e, não tendo alternativa, matou o homossexual. O filho da puta está nos gozando de novo.

Um detetive, portando um celular, se aproximou do Alberto:

- Chefe, é o governador querendo falar com você.

Alberto pegou o celular e atendeu.

- Pois não?

- Ligou a televisão? Perguntou o governador.

- Sim, governador.

- O que vocês fazem, que não conseguem descobrir o criminoso? Eu perdi mais dois pontos na última pesquisa do Ibope. Estou em segundo lugar, quando, há três meses, estava liderando fácil. Só faltam dois meses para as eleições, se não descobrirmos logo esse miserável, vou acabar perdendo esta eleição.

- Estamos fazendo todo o possível, governador. Mas o desgraçado tem a vantagem de poder matar qualquer um, sem nenhuma ligação. Mas, devagar, estamos fazendo progresso.

- Que tipo de progresso? Eu não estou vendo nada.

- Posso lhe dar um exemplo do que aconteceu ontem. Ele ia matar o Cilon Sing, mas graças à nossa ação, mudou o alvo.

- Deus me livre se isso tivesse acontecido. Ia ser manchete em todos os jornais do mundo. Aí mesmo é que eu teria acabado. Mas como você sabe disso?

- Ele deixou um bilhete dizendo que o tigre matou o veado.

- Não entendi.

- É simples, governador. Ele tinha o propósito de matar o tigre, mas, como o protegemos, o criminoso teve que partir para outra pessoa, que no caso foi o veado.

- Ok. Vocês agiram certo. Mas o que precisamos mesmo é dar uma solução a este caso. Se conseguirmos pegar o criminoso, estarei reeleito. Caso contrário, vou ter que amargar um fracasso. Assim, como incentivo, lhe prometo que, se você o prender antes das eleições, será o meu novo secretário de segurança.

- Pode deixar governador. Faremos o possível.

- O possível, dentro das circunstâncias, Alberto, é pouco. Eu espero de você o impossível.

Dizendo isso, o desligou o telefone.

Alberto contou a Laura o que acontecera com a ligação do governador.

- Pois é, querido. Não lhe disse? Essa é uma chance que não podemos perder. Você será o mais novo secretário de segurança que o estado já teve. E, por mérito.

- Sei não, Laura. O que político diz, não se escreve.

- Mas, neste caso, acho que vai acontecer. Você será um herói, uma figura nacional, estará em todas as mídias, e será importante para ele, ter você como cabo eleitoral. Afinal, para o povo, você será uma cria dele.

- Pode ser. Mudando de assunto, Laura, já tivemos o teste do DNA do Juvenal?

- Já. Está confirmado, não foi ele.

- Eu ainda tinha esperanças.

- Besteira sua. As impressões não batiam e o sangue era diferente.

 

                     Vinte anos antes, em Petrópolis.

O garoto tinha apenas 15 anos. O pai era coronel do exército e a mãe, jovem e bonita, recebia, pelo menos uma vez por semana, a visita de homens em casa, normalmente, à tarde, quando ele ia para a escola jogar futebol.

Algumas vezes, ele ainda estava saindo quando um deles chegava. A mãe, rapidamente os apresentava, como amigos da família. O garoto, na ingenuidade da idade, não levava para a maldade. Como o jogo durava duas horas e ele gastava mais uma hora de condução entre o ir e vir, voltava para casa a visita já tinha ido. Não se importava muito, pois ouvia a mãe dizer ao pai que fulano ou beltrano, tinha ido visitá-la.

Um dia, logo no início do jogo, fez uma falta não muito violenta num adversário, mas o juiz o expulsou de campo. Revoltado com a injustiça, juntou as suas coisas e foi direto para casa. Ao chegar, a casa aparentemente estava vazia. Pensando que a mãe não estivesse, foi direto para o quarto. Porém, ao passar pelo quarto dos pais, ouviu uns gemidos. Pensando que a mãe estivesse passando mal e entrou no quarto, sem bater. O que viu chocou-o: a mãe estava trepando com um outro homem, na cama do casal. Sem dizer uma palavra correu para o seu quarto.

Ligou o rádio nas alturas e deitou-se no chão, com os olhos fechados. Amargurado, começou a chorar. Dez minutos depois, a mãe entrou, nua, e deitou-se ao seu lado.

- Meu filho, não fique assim.

- Como não, mãe. A senhora está traindo o meu pai - Gritou o garoto.

- Não estou não, filho.

- A senhora estava trepando com o cara.

- Sim, filho. Mas o seu pai sabe de tudo.

- Sabe que a senhora trepa com outros, enquanto ele está fora, trabalhando?

- Claro que sabe. Eu não faço nada que ele não saiba.

- E ele não se importa?

- Não, meu filho. Ele ainda gosta e até incentiva.

- Não dá pra entender, mãe.

- Você ainda é muito novo para entender determinadas coisas. Principalmente de sexo. Você já fez sexo com alguma garota?

O rapaz ficou vermelho e não respondeu. A mãe abraçou-se a ele, juntando o seu corpo e perguntou de novo:

- Diga pra sua mãe, já fez?

- Não, mãe, respondeu finalmente.

A mãe então lhe deu um beijo na boca. O rapaz ficou completamente confuso, mas o instinto foi maior.

Fizeram sexo várias vezes.

Daquele dia em diante, os dois fizeram sexo diariamente. O rapaz ficou apaixonado pela mãe. Era um sentimento totalmente conflitante para ele. Ao mesmo tempo em que o tesão e a paixão pela mãe aumentavam, o remorso o consumia.

Começou a crescer também, dentro dele, um ciúme imenso do pai, que em pouco tempo transformou-se em ódio. Quando a mãe lhe contou que o pai sabia que eles transavam, o ódio aumentou de uma forma tal, que ele só tinha um pensamento: matar o próprio pai. O rapaz deixou de ir à escola, de sair com os amigos. Ficava recluso, o tempo todo em seu quarto e não deixava ninguém entrar, a não ser a própria mãe. Consumia-se em dois sentimentos, a paixão pela mãe e o ódio pelo pai.

Um dia, o pai resolveu tomar uma atitude e chamou-o:

- O que está acontecendo com você, que parece mais um bicho?

- Não tenho nada - respondeu.

- Como nada? Não sai mais do seu quarto, não vai ao colégio, que aliás sou eu quem paga, não tem mais amigos. Só fala com a sua mãe.

- Tira a minha mãe dessa discussão.

- Como tirar? Ela é minha mulher...

- Ela não é sua mulher. É minha, gritou fora de si.

- Engano seu. Ela é minha e se trepa com você é porque eu deixo.

- Você é um filho da puta, respondeu o garoto.

O pai, transtornado, deu um tapa no rosto do filho. O rapaz se jogou em cima do pai, tentando lhe dar um soco. Muito mais forte, o pai deu um soco no peito do garoto, que caiu sentado no chão, com dificuldades de respirar.

A mãe que assistia a tudo, correu para socorrer o filho e gritou com o marido:

- Para com isso Afonso, ele é seu filho.

- Esse garoto precisa de uma lição. Tem que aprender que eu sou o seu pai e tenho que ser respeitado e, daqui por diante, não quero mais nenhum envolvimento entre vocês dois.

- Você não é meu pai, mais. E eu não lhe devo respeito, porque você não tem nenhuma moral para proibir mais nada, principalmente no que diz respeito a minha mãe. Você é um porco.

Dizendo isso, o pai foi para cima do rapaz e lhe deu uma surra. A mãe foi defender e levou um soco no rosto, caindo desacordada. O garoto ficou desesperado e correu para o banheiro. Abriu o armário de espelho, tirou a navalha que o pai usava para fazer a barba e voltou para a sala.

O pai estava de cócoras, tentando acordar a mãe. O garoto veio por trás e cortou-lhe a jugular.

O julgamento foi rápido. O filho foi absolvido por unanimidade. Porém o juiz tirou da mãe a guarda do filho, que foi viver com a avó. A mãe caiu numa depressão profunda e acabou morrendo de desgosto, louca, num hospital psiquiátrico, seis meses depois.

 

- Eu estou achando tudo isso muito esquisito, Laura.

- Isso o quê?

- Tem coisas que não batem...

- O quê, por exemplo?

- Em primeiro lugar, a morte do subdelegado Serafim, junto com o bilhete que dizia “para vocês”.

- Sim, mas o que tem isso?

- Ninguém sabia que ele era homossexual.

- E daí?

- Sozinho não quer dizer nada. Mas vamos aos outros fatos. A morte do delegado Marcelo, por exemplo. Como o assassino sabia onde ele morava?

- Ora, podia tê-lo seguido.

- Concordo, mas tem o terceiro fato.

- Qual?

- Quando fomos dar segurança ao Cilon Sing, ele estava bem em frente, vendo toda a operação.

- É, isso foi mesmo estranho. Mas aonde você quer chegar?

- Eu acho que o assassino é um policial. Pior, deve fazer parte da Operação Zero.

- Que é isso, Alberto? São oito detetives, fora nós dois. Você acha que pode ser um deles?

- Claro que não. Conheço todos como a palma da minha mão.

Mas não se esqueça de que temos mais quinze, entre técnicos, ajudantes etc.

- Tem também o governador.

- Laura, você acredita nisso?

- Brincadeirinha. Estava vendo até onde ia a sua perseguição.

- É, mas eu tenho que me precaver. Já tomei uma decisão.

- Qual?

- Vamos verificar, na ficha de cada um, as impressões digitais e comparar com as do assassino.

- Acho uma boa idéia. Assim ficamos todos tranqüilos, de uma vez por todas.

Os exames foram feitos e os resultados negativos. O grupo estava limpo.

- Viu? Falou Laura. - Eu não lhe disse? Você está ficando paranóico com essa história.

- Não sei não, Laura. O meu “feeling” me diz que eu estou no caminho certo.

- Mas como, Alberto? Só falta agora você querer examinar o governador e o secretário de segurança.

- Pois você me deu uma excelente idéia.

- Qual é a sua nova maluquice? Acho que vou acabar pedindo a sua internação num hospício.

- Pode me chamar do que quiser, mas vou investigar o Tito.

- Já que você deu uma de maluco, por que não, também, o governador?

- Porque, quando da morte do Senador, ele estava no salão com mais de duzentas pessoas.

- E o secretário não estava?

- Não. Por motivo de doença, não compareceu. Ficou em casa, de cama, a semana inteira.

- Então não pode ter sido ele.

- Pode sim. Ele é solteiro e não mora com ninguém. Assim, só ele pode dizer se ficou em casa ou não.

- Mas ele tem seguranças dia e noite. Se saísse, os seguranças saberiam.

- Mas ele pode estar mancomunado com um deles.

- Alberto, um serial killer com um assistente? Amor, acho que você está é com febre.

- Acho que você tem razão. De qualquer forma, vou verificar. Enquanto não tiver certeza não sossego. Entre no computador e veja a ficha dele. Compare as impressões digitais.

Laura foi para o seu computador e tirou a ficha do secretário de segurança. As impressões não batiam com as do assassino.

- Viu, meu maluquinho? Disse Laura para Alberto. Vou te botar numa camisa de força.

- Tem toda a razão, estou ficando paranóico. Mas, o que mais dói é que estamos, novamente, na estaca zero.

- Novamente, não. Nunca saímos!

- Tem que haver um elo nisso tudo. Mas não consigo a “ligação”. Pense, Laura. Ajude-me a pensar.

- Eu tento, Alberto. Mas, também, não consigo.

 

O governador estava reunido com o presidente de seu partido, um deputado federal, dois estaduais, seus secretários de segurança e comunicação e dois vereadores que eram os seus principais cabos eleitorais. Estavam analisando os últimos resultados da pesquisa do IBOPE sobre as eleições. Ele tinha caído para o terceiro lugar, com uns míseros 15% de intenção de votos. A razão principal da queda se referia ao item segurança. Como o seu grande reduto eleitoral era a cidade do Rio de Janeiro, que representava a metade dos votos de todo o estado, a ação do assassino tinha feito um grande estrago eleitoral. A cidade estava em pânico e os seus principais concorrentes não se cansavam em bater no fato da incapacidade do governo em solucionar o caso.

- Faltam apenas quinze dias para as eleições - falava o presidente do partido. - Se até a próxima semana não descobrirmos o assassino, teremos, com certeza, uma derrota humilhante.

- E o pior - reclamava um deputado estadual - é que todos nós iremos juntos. O partido, como um todo, vai ser minoria no estado. Em vez de quinze deputados, que era a nossa previsão inicial, não deveremos fazer mais do que cinco deputados estaduais.

Um dos dois vereadores, ligado aos bicheiros, pediu a palavra:

- Tenho uma idéia, que pode ser a nossa salvação.

- Qual é? - perguntou ansioso o governador.

- Se não conseguirmos pegar o criminoso, vamos criar um.

- Como assim?

- Ora, pegamos um maluco, com as mesmas características do assassino, fabricamos provas que o incriminem, e o apresentamos à imprensa, como sendo o tal.

Foi um tumulto geral. A maioria apoiava a idéia, enquanto um pequeno grupo era radicalmente contra.

- Não podemos nos dividir, gritava o governador, querendo acalmar a situação.

- Vamos votar, disse o presidente do partido. Estamos, neste momento, igual ao Titanic, afundando. O nosso partido tem que sobreviver a esta situação.

- Vamos votar, repetia o governador.

- Mas governador, e se a oposição descobrir? Vai ser o caos. Podemos perder os nossos cargos e ir para a cadeia. Além de perdermos as eleições.

- Vamos por parte - disse o governador - Em primeiro lugar temos de nos fechar, se a idéia for vencedora. Cada um de nós vai ter de guardar o segredo para o resto da vida. Seremos todos cúmplices. Em segundo, se a oposição, ou alguém mais descobrir, a eleição já terá passado e estaremos todos vencedores. Em terceiro, a polícia é que vai realizar o trabalho. Se ficarmos todos calados, poremos a culpa na polícia. Vamos dizer que eles é que falharam pegando o homem errado. Isso acontece todos os dias.

- Isso mesmo, falou o vereador que tinha dado a idéia. Vamos votar.

- Quem é contra levante os braços, pediu o presidente do partido.

Dos oito participantes, três levantaram os braços.

- Muito bem, a idéia do vereador Castro foi à vencedora.

- Pois eu não concordo e não vou participar desta fraude, berrou o deputado estadual, representante de uma igreja Evangélica. Os meus princípios e o meu posicionamento perante Deus, não me permitem este conluio com o diabo.

 

- E quanto a vocês dois? - perguntou o governador, dirigindo-se aos restantes, que levantaram os braços.

- O partido, para mim, está acima de tudo. Mesmo sendo contra, junto-me a vocês, por uma questão de fidelidade.

- Eu faço minha as palavras do ilustre deputado.

- Então, Benjamim, você vai continuar contra? - Perguntou o presidente do partido.

- Não só vou continuar contra, como vou derrubar essa patifaria! Vou sair daqui direto para mídia. Vou contar tudo. Vocês estão acabados.

- Bem... - falou o presidente do partido. - Como não conseguimos a unanimidade, jogaremos a idéia fora.

Um novo tumulto aconteceu na sala, mas o presidente abafou:

- Companheiros, a idéia está definitivamente descartada. Mas peço a vocês uma nova reunião aqui, amanhã, às dezoito horas. Pensem bastante numa solução. Quem sabe não acharemos uma saída? Peço a todos, encarecidamente, que não faltem.

Dizendo isso, o presidente do partido encerrou a reunião, pediu para o governador ficar com ele e se dirigiu rapidamente ao deputado Evangélico:

- Deputado – falou - o senhor foi realmente uma luz para nós, hoje. Estávamos cometendo um absurdo, na ânsia de salvar uma situação desastrosa. Mas cometeríamos um erro fatal. Quero lhe agradecer muito pelo seu aparte vigoroso.

- Presidente, estou muito feliz pelo senhor acatar a minha posição.

- Então vamos comemorar jantando juntos. Eu, o senhor e o governador.

- Está certo. Muito me honra o convite.

O jantar transcorreu na maior calma e só teve um assunto: a eleição. No final, quando o presidente do partido pediu as contas, o deputado pediu licença par ir ao banheiro.

O governador se levantou para ir junto, mas o presidente segurou o seu braço e fez um sinal para ficar. Quando o deputado se afastou o suficiente para não escutar, o presidente falou:

- Governador, continuo achando que a idéia do vereador é a nossa única saída para evitarmos um desastre nessa eleição.

- Eu concordo inteiramente com você. Temos de fazer algo.

- É justamente sobre isso, que quero falar. Temos que anular o deputado.

- Sem dúvida. Mas ele está absolutamente radical. Não vai ser com conversa que vamos conseguir.

- Você está chegando aonde eu quero. Nós dois somos amigos de infância. Crescemos juntos, em todos os sentidos. Considero-o um irmão.

- Eu também.

- Justamente por isso, sinto-me à vontade para falar o que quiser com você. Tenho certeza de que vai me entender e compreender.

- Você está completamente certo.

- Eu tenho planos de, daqui a dois anos, candidatar-me a Presidente da República. E, para isso, vou precisar de todo o seu apoio, principalmente se você se reeleger governador.

- E terá, presidente.

- Portanto a sua reeleição é fundamental para nós dois. Não acha?

- Com toda a certeza.

- Então temos que eliminar essa peça podre do nosso tabuleiro de xadrez.

- Estou totalmente com você.

- O que você diria, se eu lhe dissesse que vou mandar matá-lo, hoje à noite?

- Eu daria os parabéns.

- Ótimo. Eu precisava da sua concordância.

- Está dada.

Nisso, o deputado volta do banheiro e senta-se à mesa.

- Deputado, você está de carro?

- Não. Mas não se preocupe. Eu pego um táxi.

- De jeito nenhum. Vou mandar o meu motorista, junto com o meu segurança levá-lo em casa.

- Não precisa se incomodar, presidente. O senhor também tem que ir para casa, não?

- Mas eu moro perto do governador e ele me dará uma carona.

- Bem, sendo assim, eu aceito.

Os três se levantaram da mesa e após se cumprimentarem, o presidente chamou o seu segurança e segredou-lhe umas palavras. Depois, falando alto, ordenou:

- Leve, por favor, o deputado em casa.

 

- Você já soube de ontem à noite? Perguntou Laura a Alberto.

- O que houve? - Respondeu Alberto, preocupado - Mais uma vítima?

- Não. Estou falando do deputado Benjamim, um dos principais correligionários do governador.

- O deputado pastor?

- Ele mesmo.

- O que aconteceu?

- Foi morto a metralhadora, no carro do presidente do partido do governador.

- Porra. E morreu?

- Morreu. Estava tão furado que parecia um chuveiro.

- E o presidente do partido?

- Ele não estava no carro. Tinha pegado uma carona com o governador.

- Mas como foi?

- Parece que os três tinham jantado juntos, depois de uma reunião do partido. Aí o presidente cedeu o carro para o deputado ir para casa e pegou uma carona com o governador.

- Que sorte a dele.

- Foi mesmo.

- Mas, qual o motivo?

- Ninguém sabe ao certo, mas tudo indica que foi um crime político.

- Isto parece mais Chicago na época da lei seca.

- Eu só não entendi o porquê do crime político.

- É que o pastor era um dos principais cabos eleitorais do governador.

- Mas se o objetivo era o presidente do partido...

- É que o presidente é o mais forte nome do partido para se lançar como candidato a Presidente da República.

- E daí?

- É que ele tem chances reais de ser o novo Presidente.

- Mas isso, só daqui a dois anos.

- Como você soube?

- Estava em todos os jornais da manhã, nas emissoras de televisão.

O presidente do partido e o governador estavam emocionados. O carro foi atacado em Cordovil, por outros três e os bandidos estavam mascarados. Por sorte o segurança e o motorista não sofreram um arranhão.

Mas também não puderam dizer nada. A ação foi tão rápida que eles não tiveram tempo nem de reagir. O governador falou quase que meia hora e meteu a culpa na oposição. Eles acham que, na realidade, mataram o homem errado. O alvo deveria ser o presidente do partido.

- Mas que confusão.

- Pois é. Esta eleição está pegando fogo.

Enquanto falavam, o telefone do Alberto começou a tocar.

- Alô! - atendeu a Laura.

Do outro lado da linha, uma voz feminina, aveludada, falou:

- Eu queria falar com o delegado Alberto.

- Quem deseja falar? Perguntou com uma ponta de ciúme a garota.

- O governador.

- Um momento por favor.

- Alberto, o governador.

- Pois não?

- Alberto, venha ao meu gabinete. Preciso falar urgente com você.

Alberto desligou e falou para Laura:

- O homem quer falar comigo. Se houver alguma emergência você sabe onde estou.

Dizendo isso Alberto se levantou e foi em direção ao gabinete do chefe de estado. Foi introduzido imediatamente na sala do governador, pela secretária.

- Bom dia, saudou o governador, com um inesperado bom humor.

- Bom dia, respondeu, meio sem jeito, Alberto.

Na sala estava um senhor, muito bem vestido, com os cabelos grisalhos.

- Quero lhe apresentar o Amadeu Campos de Paiva, nosso futuro presidente.

Os dois apertaram as mãos e o governador indicou uma poltrona para Alberto sentar-se. Ele próprio se sentou ao lado. Alberto ficou no meio dos dois.

- Alberto, nós temos uma missão para você.

- Estou às ordens.

- Mas, antes, é importante que você entenda, que o que vamos lhe pedir, além de extremamente confidencial, é fundamental para o futuro do nosso país.

- Farei tudo que estiver ao meu alcance, respondeu solícito.

Que bom. Nós precisamos realmente de sua total colaboração. Como você sabe, estamos a menos de quinze dias das eleições. De acordo com as últimas pesquisas de opinião, caí para o terceiro lugar, com apenas quinze por cento de intenção de votos. Tudo por causa desses assassinatos.

Antes de isso tudo começar, eu tinha cinqüenta e dois por cento, ou seja, não haveria nem segundo turno. Agora eu estou prestes a nem ficar nos dois primeiros. A não ser que nesta semana achemos o criminoso. Como andam as investigações?

- Estamos trabalhando duro, mas, na realidade, não temos nada de novo que nos indique se vamos resolver esse caso em uma semana.

- Foi o que pensei. Por isso é que precisamos de sua total colaboração.

Alberto sentiu que estava se metendo em uma enrascada.

- Para quê? Perguntou.

- Temos que resolver esse caso, de qualquer maneira, nos próximos três dias.

- Mas como, governador?

- Se não conseguimos achar o criminoso, temos então que fabricá-lo.

- Como assim?

- Essa é a sua missão: vamos pegar um maluco, com as mesmas características do nosso criminoso, e apresentá-lo à imprensa, como tal.

Alberto ia retrucar, dizendo que era uma farsa, que ele não ia se meter nisso etc. Mas desistiu. Ainda tinha três dias pela frente. Falaria com Laura e decidiriam juntos. Só tinha tomado uma decisão: deixaria a garota fora da trapaça.

Pensava até em transferi-la para uma delegacia, como meio de afastá-la, totalmente, do caso.

- Mas isso é muito complicado, governador. Além de acharmos um psicopata com as características do criminoso, ele não pode ter laços com ninguém. Terá que ser aidético, não ter álibi nenhum, fora outros pequenos detalhes importantes. Caso contrário, a imprensa logo descobrirá a mentira e, aí sim, estaríamos perdidos.

- Eu sei que não será fácil. Por isso é que lhe dei a missão. Na realidade, o esquema tem que ser perfeito o suficiente para agüentar as investigações da imprensa e da oposição até depois das eleições. Depois...

- Depois, governador, eles vão cair de pau em cima de mim.

- Depende de como você faça. Se fizer bem feito, o máximo que poderão dizer é que seguimos uma pista falsa. O que eles não poderão saber, de forma alguma, é que tudo foi tramado. Aí sim é que estaremos perdidos. Mas eu confio em você e sei que vai fazer as coisas direito.

- O senhor me dá carta branca?

- Totalmente. Mas eu quero ficar a par de tudo. Quando estiver armado, somente eu poderei dar o start no projeto. É como se fôssemos lançar uma bomba atômica. Só eu terei a chave para detonar.

- Fez a comparação exata, governador. Estamos realmente fabricando uma bomba atômica que poderá, inclusive, estourar em nossas cabeças.

- Mas eu confio em você. Na realidade este é um ato patriótico. Estamos decidindo aqui o futuro das eleições para presidente. O futuro do país.

Alberto cumprimentou os dois e foi embora.

- O que você acha? - Perguntou o governador a Amadeu.

- Sei não, Accioly. Mas não temos alternativas, não é? Preferia que ele fosse mais velho, pois assim estaria cansado e sem muitas ilusões. Veria a situação como uma oportunidade de se dar bem. Agora, esses garotos não têm muita experiência da vida, ainda estão cheios de ideais e outras bobagens.

- Ele é esperto e tem ambição. O que vem a nosso favor. Além disso, já está comprometido comigo.

Accioly então contou ao Amadeu o episódio da morte do delegado em seu sítio.

- Bem, então estou um pouco mais tranqüilo.

- Alberto entrou em sua sala lívido. Laura foi atrás dele.

- O que aconteceu para você ficar branco que nem um fantasma?

Alberto contou tudo o que se passou.

- Mas que filhos da puta. É impressionante como eles passam por cima de tudo e de todos, para conseguirem seus objetivos. E pior, corremos o risco de tê-los como os nossos principais mandatários. Coitado de nós. Do povo. E agora? O que você vai fazer?

- Eu ainda tenho três dias e um plano. Vou tentar pegar o criminoso nesse ínterim.

- E se não conseguir?

- Não vou lutar contra eles. Peço a minha demissão e vou embora.

     - Puxa, que bom. Esse é o homem que amo. Não esperava outra coisa de você. Ficaria    

completamente desapontada se você agisse diferente. Mas estou com muito medo.

- Medo de quê?

- Você acha que eles vão deixar você sair assim, sem mais nem menos?

- O que eles podem fazer?

- Tudo Alberto... Tudo.

- Mas que alternativa tenho eu?

- Nenhuma. Só achar o criminoso em três dias. Qual é o seu plano?

- Consultei um psicólogo sobre a personalidade de um psicopata.

- E...?

- Bem, ele me disse que o cara deve ter tido um problema muito grande, quando criança. O que ele faz, na realidade, é ir às forras do que fizeram com ele.

- E daí?

- E daí, que tudo que faz é extremamente pessoal. É por vingança. Vou jogar o jogo dele.

- Como?

- Vou a mídia dizer que ele não é de nada. Que é um medíocre miserável. Que só ataca as pessoas covardemente. Que, se ele se acha realmente bom, que venha me pegar.

- Você está maluco? O cara vai ficar uma fera e virá com tudo em cima de você.

- Viu como vai dar certo? É essa reação que eu quero. Quando ele vier, a gente o pega.

- Mas você vai ter que tomar todo o cuidado. Ele é muito inteligente e eu não quero ficar viúva antes de me casar.

- Como você adivinhou?

- Adivinhei o quê?

- Que ia pedir você em casamento?

- Está falando sério?

- Ué... Se você estava tão certa, por que a pergunta?

- Eu apenas joguei verde...

- Pois colheu bem maduro. Você quer?

- Claro que sim. Eu te amo muito.

Os dois então se beijaram longamente.

 

Alberto marcou uma coletiva com a imprensa. Conforme tinha dito a Laura, desacatou o assassino. Por fim, terminou dizendo que o criminoso era uma avestruz, que vivia se escondendo e que por isso devia passar a navalha, com o número um, em seu próprio pescoço. Ou então provar que ele estava errado, ligando para o número que aparecia na tela, no dia seguinte.

Antes da entrevista Alberto tinha armado um esquema de escuta de telefone, com um scanner que localizava, em 35 segundos, a origem da ligação. Todos os carros de polícia que patrulhavam a cidade foram postos em emergência. O policial esperava pegar o assassino desse jeito.

No dia seguinte, quando chegou no seu escritório, a Operação Zero estava em polvorosa. Desde as seis horas da manhã começaram as ligações.

- Como vamos saber se é ele? Uma multidão de malucos, desde a madrugada, vem passando trotes afirmando que é o assassino. Como vamos identificar o verdadeiro assassino, isto é, se ele ligar? - Perguntou a Laura.

- Muito fácil, querida. Somente seis pessoas sabem o que aconteceu em Petrópolis. Fala para os atendentes perguntarem qual é o bicho de Petrópolis. Só o criminoso vai responder. Aí, eu atendo e começamos a rastrear a ligação.

- Gênio, Alberto. Tinha esquecido desse detalhe.

Choveram ligações o dia inteiro, todas falsas.

 

O assassino estava vendo o jornal de uma das emissoras de televisão, sentado em sua poltrona favorito. Comia um cachorro quente, que tinha enchido de ketchup. Ao seu lado, em cima de uma mesinha, um copo de refrigerante. O âncora estava falando da queda do governador na última pesquisa do IBOPE. Explicava que a razão da queda era a série de assassinatos cometidos pelo assassino da navalha, que a polícia não conseguia esclarecer. O povo estava com medo e, por isso, tinha escolhido os dois candidatos que tinham como principal plataforma eleitoral, a segurança.

O assassino prestava a maior atenção, dando boas gargalhadas, principalmente quando o locutor falava da falência da polícia.

- Agora, vamos à entrevista do subdelegado Alberto Pereira da Silva, responsável pelo grupo especialmente formado para a captura do assassino. Anunciou o âncora.

O criminoso engoliu, por inteiro, o pedaço do cachorro quente que comia e, pegando o controle remoto, aumentou o som da televisão.

Enquanto o delegado falava, o criminoso começou a xingar. Na última frase do delegado, o assassino pegou uma caneta e escreveu o telefone. Depois desligou a televisão e foi para o quarto onde ficava a figura do diabo. Acendeu quatro velas e começou a sua reza. Como sempre fazia, vomitou. Só que desta vez não foi ao banheiro. Foi no chão mesmo. Como em transe, deitou-se em cima do vômito, defecou e mijou no lugar. Ficou mais de uma hora, todo sujo e fedorento, rezando.

Depois foi ao banheiro e tomou um banho. Deitou-se limpo e nu em sua cama e só acordou no dia seguinte, depois do meio dia. Voltou a rezar. Chorou muito. Dormiu de novo só acordando às seis horas da tarde. Trocou de roupa e foi para a rua. Pegou o metrô e soltou na estação do Largo da Carioca. Dirigiu-se a um dos muitos telefones públicos do local, e discou.

- Grupo de Operação Especial, atendeu o policial.

- Quero falar com o delegado Alberto.

- Quem está falando?

- A morte dele.

- Como? Perguntou o policial.

- A morte dele, repetiu.

O policial, cansado de atender os trotes, perguntou meio sem paciência:

- Qual o bicho de Petrópolis?

- Águia. Respondeu o assassino.

O policial que sabia da resposta certa, quase caiu da cadeira. Nervoso, berrou:

- Um momento, por favor.

Levantou-se e foi correndo direto para a sala de Alberto.

- Chefe, chefe! - gritou, entrando na sala, sem ao menos bater.

- O que houve? Perguntou Alberto, assustado.

- O assassino! Ele está no telefone. Respondeu gritando.

- O que ele respondeu? Perguntou Alberto, para confirmar.

- Águia.

Foi à vez do delegado ficar nervoso. Antes de atender ao telefone, pediu ao seu subalterno para avisar os técnicos para gravarem e localizarem a ligação.

- Alô?

- Eu sou a sua morte. Repetiu o assassino. E o seu número é o 5, de cachorro. Espere que vou ligar de novo. Disse desligando o telefone.

Alberto ficou frustrado. Laura e todos os policiais do grupo entraram em sua sala.

- Ele desligou. – disse Alberto, desapontado. - Mas disse que ligaria de novo. Vamos para a sala de controle, assim monitoramos juntos, se ligar de novo.

O assassino assim que desligou o telefone foi para a Av. Rio Branco e tomou um táxi. Pediu para o levar para a Praia Vermelha, na Urca. Soltou e pegou o bondinho para o Pão de Açúcar. Chegando em cima, procurou outro telefone público e ligou.

- Alô? Atendeu o policial.

- Diga ao delegado que é a sua morte.

O policial imediatamente fez o sinal para o delegado, que num pulo pegou o telefone que estava ao seu lado.

- Alô?

Eu sei que vocês precisam de, pelo menos, trinta segundos para me localizarem. Bobagem, eu já estou no lugar que queria. Estou em cima do Pão de Açúcar. Você tem meia hora para chegar aqui. E venha só, pois estou armado com uma metralhadora e se você vier com mais alguém, eu mato todo mundo que está aqui em cima. Ouça bem o que vou lhe dizer: venha sozinho num bondinho. Estou com um binóculo e na posição em que me encontro, você será o primeiro a morrer, metralhado. Você não terá alternativa. Se vier sozinho, seremos só nós dois e eu lhe prometo que o matarei com a navalha. Dizendo isso desligou.

- Pegou? Perguntou gritando o delegado.

- Pegamos, chefe. Ele está mesmo no Pão de Açúcar.

- Ligue imediatamente para a companhia dos bondinhos. Pergunte quantos pessoas devem estar lá em cima. Liga depressa para o governador, peça a ele para mandar cercar o Pão de Açúcar. Vamos logo para os carros e me informem pelo rádio.

O grupo todo saiu em disparada para os carros. Seguiram a toda velocidade para a praça da Praia Vermelha. Já no carro recebeu a ligação do governador.

- Meus parabéns, delegado. O seu plano deu certo. Espero que até o final da noite tudo esteja resolvido e que você seja o novo herói da cidade.

- Ou o mais novo defunto - respondeu.

- Isso faz parte de sua profissão. Respondeu, malcriado, o governador. Já contatei com o comando militar do exército. Eles têm um batalhão lá. Neste momento estão cercando o morro. Boa sorte. Avise-me logo que isso tudo acabar.

- Pode deixar, governador. Espero ter o prazer de lhe comunicar.

- Chefe? Berrou um policial no rádio. A Companhia dos bondinhos nos avisou que tem mais de duzentas pessoas lá em cima.

- Que merda! Explodiu o delegado.

Os carros da polícia entraram na praça e pararam em frente à estação dos bondinhos. Instintivamente o delegado olhou para cima, em direção ao Pão de Açúcar. Ele estava todo iluminado. Nisso, todas as luzes em cima do morro se apagaram.

- Maldito! Gritou o delegado.

O assassino, assim que desligou o telefone, foi direto para a estação que abastecia de luz o lugar. Com um alicate, que trazia na cintura, cortou a pequena corrente que se ligava ao cadeado. Entrou na casinha e desligou as chaves da luz. O local ficou completamente às escuras. Dirigiu-se então para a pequena casa que servia de controle de tráfego. Matou o funcionário com uma barra de ferro. Abriu a porta que protegia as engrenagens que movimentavam os cabos que guiavam o bondinho. Com a mesma barra de ferro, parou as engrenagens do cabo de descida. Desta forma, evitou a decida do bondinho. Só deixou livres os cabos de subida. De onde estava, teria uma perfeita visão do interior do bondinho, quando ele, na subida, se aproximasse do local de desembarque. Pois o bondinho, propositadamente para os turistas apreciarem a linda vista, tinha as paredes de vidro.

Saiu da casa no momento em que chegava o primeiro segurança para verificar o que tinha acontecido. Apanhou uma pesada pedra que encontrou no chão e, esperando que o segurança lhe desse as costas para entrar, golpeou-o na cabeça, com tanta força que o matou na hora. Arrastou o corpo para a beira do precipício e jogou o cadáver lá de cima. Esperou um pouco mais e logo chegou um segundo segurança. Usou a mesma tática para matá-lo. Também o jogou da mesma forma.

Esperou de novo e como não apareceu mais ninguém, voltou para a casa das engrenagens.

 

O delegado entrou na sala de controle dos bondinhos que ficava na sede da companhia. O condutor apertava furiosamente um botão.

- O que está acontecendo? Perguntou, identificando-se, ao funcionário.

- O bondinho que está lá em cima não desce.

- E o que está aqui em baixo, pode subir?

- Poder pode, mas nós fazemos a operação simultaneamente. Quando um desce, outro sobe.

O delegado olhou pelo vidro e viu o bondinho parado, cheio de turistas que começavam a reclamar.

- Chame o delegado! Falou uma voz pelo alto falante da sala de controle em que estavam.

O delegado reconheceu a voz.

- De onde vem isso? Perguntou.

- Do rádio do segurança, lá de cima.

- Como você fala com ele?

- Desse microfone aqui. Apontou. Basta apertar este botão.

O delegado mandou o funcionário se afastar e pediu para os policiais esvaziarem o bondinho. Apertou o botão:

- O que você quer?

- Você já está dez minutos atrasado. Estou começando a perder a paciência - Falou o assassino.

- Já estou subindo.

Dizendo isso, foi em direção ao bondinho que estava sendo evacuado. Esperou todo mundo sair e entrou. Laura entrou junto.

- Onde pensa que vai?

- Só quero lhe dar um beijo. Por favor, tome todo o cuidado. Quero ter muitos filhos com você.

- Pode deixar que vamos encher nossa casa de crianças.

Laura desceu do bondinho e o delegado fez o sinal para a partida. O bondinho subiu suavemente.

 

O Pão de Açúcar estava um caos: mais de duzentos turistas desorientados, sem saber o que fazer, sem luz... E o bondinho, que descia, parado. O Pânico já se fazia presente. Os dois seguranças, que sobraram, com suas lanternas, procuravam acalmar e orientar a multidão para a plataforma de embarque.

O assassino tirou, das engrenagens, a barra de ferro que impedia o bonde funcionar. Meteu-se no meio da multidão e, empurrando as pessoas, entrou no bondinho. Imediatamente foi seguido pelos turistas, apavorados. O segurança, quando o bondinho encheu, fechou a porta. Automaticamente o veículo começou a descer, preso pelos cabos de aço, com o psicopata dentro.

Enquanto isso, o delegado Alberto subia no outro. Quando os dois emparelharam, o assassino deu um leve sorriso, ao ver o policial.

O bondinho, em que estava o assassino, chegou à estação da Praia Vermelha e todos os passageiros, assustados, procuraram sair o mais rápido possível. O bandido, aproveitando o tumulto, saiu junto.

A praça estava cheia de policiais e soldados do exército. O assassino escondeu-se atrás de um carro no estacionamento, em frente à estação.

Laura, na rua, com a cabeça dentro de um carro de polícia, falando pelo rádio com Alberto.

- Querido, tome cuidado - Suplicava.

- Pode deixar, Laura, vou me preservar, por nós dois. -Respondeu o Alberto.

- Por nós três.

- Como assim? - Perguntou o detetive.

- Estou grávida. Este não é o melhor momento para contar. Mas estou falando para que tome mais cuidado ainda.

Alberto ficou emocionado.

- Laura, meu amor, como te amo! Assim que tudo termine, vamos comemorar.

Enquanto Laura falava, o assassino viu-a, de costas, deu uma corrida em sua direção, pegou-a, por trás, e encostou-lhe a navalha na garganta. Não teve como se defender.

O policial, que a acompanhava, vendo a situação, tentou tirar o revólver do coldre.

- Nada disso, disse o criminoso, tire a mão dessa arma, senão mato-a, aqui mesmo.

O policial recuou.

- Chame agora o seu queridinho e conte-lhe a situação.- disse debochando.

- Alberto? - Chamou a Laura.

- Sim, querida?

- O assassino está aqui.

- Aí, como?

- Ele me pegou.

O detetive entrou em desespero.

- Como, Laura?

- Agarrou-me por trás e pôs a navalha no meu pescoço.

Houve um profundo silêncio no rádio. Depois de alguns segundos o detetive perguntou:

- Pergunte o que ele quer.

- Diz que eu o quero – disse o psicopata

- Ele mandou dizer que quer você.

- Pois diga a ele que estarei descendo, no próximo bonde.

Alberto ficou desesperado. Cada minuto, parecia uma eternidade. A mulher de sua vida, carregando o seu filho no ventre, nas mãos de um maníaco que não hesitaria, um segundo sequer, para matá-los. Um pânico, um ódio imenso apoderou-se dele.

Alberto identificou-se aos seguranças que ordenavam o embarque e, furando a fila, entrou.

Longos e cruciantes minutos se passaram enquanto o bondinho fazia a viagem de volta. Quando chegou, Alberto foi o primeiro a saltar. Perguntando aos policiais, onde estavam, foi em direção aos dois.

A cena deixou-o angustiado: Quase no meio da praça, cercado por policiais e soldados do exército, estava o assassino, encostado num dos carros da polícia, tendo Laura como refém. Segurava-a por trás, com a reluzente navalha no pescoço.

Teve vontade de correr, em direção aos dois, mas a razão falou mais alto. Qualquer ação precipitada poderia provocar a morte de Laura. Controlando-se o mais que pôde, foi andando devagar. Quando chegou ao alcance da voz, o bandido falou, gritando:

- Tire a arma e jogue no chão!

Imediatamente, Alberto obedeceu. Jogou a arma fora e foi aproximando-se. A uns cinco passos, o bandido falou de novo:

- Muito bem. Pára aí, agora.

O detetive acatou.

Ainda escondendo o rosto, atrás da cabeça de Laura, o criminoso deu outra ordem:

- Mande todos os policiais e soldados para a estação do bondinho.

Alberto titubeou.

O assassino deu um pequeno corte no pescoço da garota. Laura, com a dor, deu uma leve tremida. Um filete de sangue começou a escorrer, manchando a gola da blusa branca.

Alberto gritou:   

- Não faça isso! Vou mandar que eles se afastem.

- Então manda logo, que estou impaciente e o cheiro de sangue me excita.

Alberto gritou para os policiais e os soldados dirigirem-se para o local indicado pelo bandido. O major que comandava os soldados reagiu, gritando:

- Os meus soldados não recuam!

- Manda logo esse imbecil obedecer, senão você vai ficar sem a sua cabrita - gritou o assassino. Aliás, para você saber, o número dela é seis. Seis, de cabra.

- Major - berrou o policial - faça o que pedi, senão ele vai matar a policial.

O major repetiu:

- Os meus comandados não recuam. Jamais!

O detetive, apopléctico, berrou:

- Se ela morrer, você será o responsável e por isso vou caçá-lo para o resto de minha vida.

O major cedeu:

- Está certo, mas vou responsabilizá-lo por essa decisão.

- Tudo bem, Major. Mas, por favor, retire os seus homens. Esse cara é um psicopata e já matou mais de dez pessoas

Os policiais e os soldados recuaram para a estação do bondinho. Alberto virou-se para o bandido:

- Pois bem. Fiz tudo o que você pediu. Agora largue a policial. Eu me troco por ela.

- Você acha que eu sou um imbecil, para lhe dar uma chance destas?

- Mas não é a mim que você queria?

- Claro que sim! Mas agora sabendo que ela é a sua mulher? De jeito nenhum.

- E por que não? O caso não é só entre nós dois? Solta ela então.

Realmente o caso é entre nós dois. Mas, me responda: o quanto você gosta dela?

Ela é a minha mulher.

Disso eu já sei. Responda à minha pergunta.

Eu gosto muito.

Mais do que a sua própria vida?

Mais do que a minha vida.

- Que bom. Você ia ficar muito infeliz, se ela morresse, não?

Ao ouvir as últimas palavras do criminoso, Alberto sentiu um frio na espinha. Neste momento descobriu o jogo do criminoso.

- Por favor, não faça isso.

- Na televisão você me chamou de covarde, não foi? Agora vem me suplicar? Você tem idéia do que já sofri em minha vida?

- Não, não tenho idéia.

- Pois eu já sofri muito. Mas você vai sofrer muito mais, vendo a mulher, que ama, morrer na sua frente, sem poder fazer nada.

- Não faça isso, repetiu. Eu faço o que você quiser, mas solta ela.

- E perder a enorme satisfação de ver tamanho sofrimento em seus olhos?

- Se fizer isso, eu juro que o mato.

- Pode ser. Mas isso não será o bastante para diminuir a sua dor. Até o fim da sua vida você vai lembrar. Vai acordar de noite tendo pesadelos, lembrando da morte dela, em seus braços.

- E por que motivo você faria isso? Eu nunca lhe fiz mal.

- Eu também nunca tinha feito nenhum mal a ninguém. No entanto, só fiz sofrer a vida inteira.

- Então, mate a mim e deixe-a em paz. Eu imploro.

- Aí eu perderia o imenso sofrimento em seus olhos, ao ver a sua mulher morrer engasgada com próprio sangue.

- Mas você poderia ver esse mesmo sofrimento nos olhos dela, se me matasse.

- O caso não é entre nós dois?

- Mas, por que eu?

- Porque você me desafiou e eu aceitei o desafio.

Alberto entrou em desespero:

- Mas aí eu o matarei aos pedacinhos. Juro que vou matá-lo, retalhando cada pedaço de seu corpo.

- Nenhuma dor física será maior que a dor que já senti.

Olhe, bem, nos olhos dela. Adivinhe-lhe o desespero. Sinta o terror da morte...

- Não faça isso. Eu lhe prometo que o deixarei sair vivo, e livre, daqui.

- Para quê? Eu já estou farto dessa vida. Eu quero morrer.

Dizendo isso, o assassino passou a navalha na jugular de Laura. Em seguida, passou na sua também.

Alberto deu um pulo para frente, a tempo de segurá-la, antes que ela caísse. Imediatamente, colocou a sua mão no corte, tentando parar o sangue, que jorrava.

- Por favor, me ajudem! - berrou o detetive.

Os paramédicos do Corpo de Bombeiros, que estavam a poucos metros, correram em socorro da policial. Pegaram a garota, colocaram-na dentro da ambulância e saíram em disparada, com as sirenes ligadas, em direção ao hospital. Outro grupo de médicos se aproximou do assassino que se esvaía em sangue. Mas Alberto interferiu:

- Não toquem nele! Deixem-no morrer!

- Mas, somos médicos; salvamos vidas.

- Pois eu mato o primeiro que tentar socorrê-lo! - berrou Alberto.

Os médicos ficaram sem ação. O detetive se ajoelhou junto ao corpo do assassino e, olhando bem dentro de seus olhos, gritou:

- Morra seu filho da puta! Morra bem devagar. Mas, antes, saiba que ela vai se salvar.

O bandido deu um sorriso, que mais parecia uma careta e fechou os olhos.

Alberto, arrependido, levantou-se e, dirigindo-se aos médicos, falou:

- Cuidem dele.

Virou-se e entrou no primeiro carro de policia que encontrou.

Pelo rádio, teve a confirmação de que a ambulância tinha ido para o Hospital Miguel Couto. Virou-se para o policial que dirigia a viatura e ordenou:

- Ligue a sirene é vá bem rápido para o Miguel Couto.

Alberto nem deixou o carro parar. Abriu a porta, com o carro ainda em movimento e, correndo, entrou na recepção. Identificou-se e perguntou pela paciente, policial, que havia chegado na ambulância.

- Está na emergência. É a primeira porta à direita, daquele corredor - apontou a recepcionista.

Alberto dirigiu-se ao local, com o coração batendo tanto, que parecia estar saindo do peito. A porta era dupla, do tipo vaivém, com a palavra “emergência” em letras garrafais vermelhas. Sem o menor cuidado, entrou feito um furacão. O segurança barrou-lhe a entrada:

- O Senhor é médico?

- Não.

- Sinto muito, mas...

Alberto não o deixou terminar. Mostrou-lhe a identificação e perguntou pela policial. Nisto, um médico, vendo a confusão, aproximou-se:

- O que o Senhor deseja?

Alberto explicou o que tinha acontecido e perguntou por Laura.

- Calma, amigo, falou o médico. Ela está bem. No momento, recebe uma transfusão, pois perdeu muito sangue.

- Não corre risco de vida?

- Não. Está fora de perigo. Fique tranqüilo.

Alberto, menos tenso agora, não se conteve e começou a chorar baixinho. O médico colocou carinhosamente o braço em volta dos ombros do policial, levando-o para uma ante-sala cheia de poltronas.

- Sente um pouco e descanse. Assim que puder, levo-o para junto dela.

Nesse momento, um grupo de médicos passou pelo corredor, levando um paciente na maca. Alberto levantou-se correndo e chegou no corredor, ainda, a tempo de ver que o paciente era o assassino.

- Oi! – disse Laura, com um grande sorriso, ao ver Alberto entrar em seu quarto - Pensou que iria ficar livre de mim, não foi? Mas enganou-se. Vai ter que me aturar para o resto da vida, mocinho.

- É o que mais quero, querida - falou Alberto, dando-lhe um

beijo no rosto.

- E o assassino, você o pegou?

- Descanse querida. Depois falamos de trabalho.

- Que trabalho que nada, ponderou a garota. Nós estamos há meses atrás dele, ele quase me mata e você quer que eu esqueça o assunto?

- Pegamos. Ou melhor, ele passou a navalha em seu próprio pescoço.

- E morreu?

- Segundo o médico de plantão, ele também sobreviveu.

- Médico de plantão? - perguntou a moça, com muito medo e tentando levantar-se - Ele então está aqui?

- Calma, querida. Ele está aqui, sim. Mas, em outra ala e cercado de policiais. Dentro e fora do quarto. Além do mais, não está em condições de fazer nada.

- Mas eu estou com muito medo, querido. Quero ir embora.

- Fique calma, ficarei do seu lado o tempo todo.

- Jura?

- Juro, pelo amor que tenho a você a ao nosso filho.

Laura ficou mais calma e, virando para o lado, dormiu.

Alberto, assustado, tocou a campainha que chamava os enfermeiros.

- O senhor me chamou? - perguntou a enfermeira, assim que entrou no quarto.

- Chamei sim. Ela estava falando comigo, virou-se e dormiu. O que está acontecendo? - perguntou aflito.

- Nada. Pode ficar sossegado. Apenas, demos-lhe um sedativo, pois ela estava muito nervosa. Ela está bem e, amanhã mesmo, poderá ir para casa.

- Vou ficar aqui e só sairei com ela.

- Tudo bem. Pode ficar - disse a enfermeira.

 

Alberto, em seu escritório, abre o jornal. Duas enormes manchetes. A primeira dizia: "O Governador é reeleito com apenas 0,5% de vantagem nos votos". A Segunda informava: "Serial Killer mata guarda na prisão".

Alberto, como que enfastiado, dobra o jornal e o joga na lixeira. Toca o telefone:

- Detetive Alberto – atendeu ele, com voz preguiçosa.

- Como vai, Alberto? Aqui é o Governador.

- O Governador? – perguntou, levantando-se.

Quero confirmar-lhe o que prometi. Você será o meu Secretário de Segurança. Pode vir ao meu Gabinete agora?

- Posso, sim, Governador. Disse Alberto, sorrindo para a Laura, que estava na sua frente, ouvindo a conversa. O detetive, quando percebeu que era a voz do Governador, ligou o viva-voz.

 

                                                                                Sergio Pavan  

 

                      

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