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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


O JUIZO FINAL / Sidney Sheldon
O JUIZO FINAL / Sidney Sheldon

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

O JUIZO FINAL

 

Uetendorf, Suíça

Domingo, 14 de outubro, 15:00

Testemunhas à beira do campo olhavam num silêncio horrorizado, atordoadas demais para falarem. A cena à sua frente era grotesca, um pesadelo primevo, arrancado das profundezas tenebrosas do inconsciente coletivo do homem primitivo. Cada testemunha teve uma reação diferente. Uma desmaiou. Outra vomitou. Uma mulher tremia de forma incontrolável. Alguém pensou: Vou ter um infarto! O idoso sacerdote apertou as contas do rosário e fez o sinal-da-cruz. Ajude-me, Pai. Ajude a todos nós. Proteja-nos contra esse mal encarnado. Finalmente vimos a face de Satã. É o fim do mundo. O Dia do Juízo Final chegou.

Armagedon está aqui... Armagedon... Armagedon...

 

Domingo, 14 de outubro, 21:00

MENSAGEM URGENTE

ULTRA-SECRETA

ASN PARA VICE-DIRETOR COMSEC

SEUS OLHOS APENAS

ASSUNTO: OPERAÇÃO JUÍZO FINAL

MENSAGEM: ATIVAR

NOTIFICAR NORAD, CIRVIS, GEPAN, DIS, GHG, VSAF, INS.

FIM DA MENSAGEM

Domingo, 14 de outubro, 21:15

MENSAGEM URGENTE

ULTRA-SECRETA

ASN PARA VICE-DIRETOR

SERVIÇO SECRETO NAVAL 17? DISTRITO

SEUS OLHOS APENAS

ASSUNTO: COMANDANTE ROBERT BELLAMY PROVIDENCIAR TRANSFERÊNCIA TEMPORÁRIA ESTA AGÊNCIA,

EM VIGOR IMEDIATAMENTE.

PRESUME-SE SUA CONCORDÂNCIA COM O ACIMA

FIM DA MENSAGEM

 

Dia Um

Segunda-feira, 15 de outubro

le voltara à enfermaria apinhada na base de Cu Chi, no Vietnam, e Susan se inclinou sobre sua cama, adorável no uniforme branco de enfermeira, sussurrando:

— Acorde, marujo. Você não quer morrer.

E quando ouviu a magia de sua voz, ele pôde quase esquecer a dor. Ela murmurava alguma coisa em seu ouvido, mas uma campainha alta ressoava, não conseguia entender direito as palavras. Estendeu as mãos, a fim de puxá-la para mais perto, mas agarrou apenas o ar.

Foi o som do telefone que despertou Robert Bellamy por completo. Ele abriu os olhos, relutante, sem querer renunciar ao sonho. O telefone na mesinha-de-cabeceira era insistente. Ele olhou para o relógio. Quatro horas da madrugada. Tirou o fone do gancho, irritado pela interrupção do sonho.

—- Sabe que horas são?

— Comandante Bellamy? Uma voz de homem, profunda.

— Isso mesmo!

— Tenho uma mensagem para lhe transmitir, comandante. Deve se apresentar ao General Hilliard, na Agência de Segurança Nacional, em Fort Meade, às seis horas desta manhã. Mensagem entendida, comandante?

— Sim.

E não. Principalmente não.

O Comandante Robert Bellamy repôs o fone no gancho, lentamente, perplexo. O que a ASN podia querer com ele? Servia no ONI, o serviço secreto naval. E o que podia ser bastante urgente para se convocar uma reunião às seis horas da manhã? Ele tornou a recostar a cabeça no travesseiro, fechou os olhos, tentando retornar ao sonho. Fora tão real... Claro que sabia o que o desencadeara. Susan telefonara na noite anterior.

— Robert...

O som de sua voz causou-lhe o que sempre causava. Ele respirou fundo, tremendo.

— Olá, Susan.

— Você está bem, Robert?

— Muito bem. Fantástico. Como vai Monte de Grana?

— Não comece, por favor.

— Está bem. Como vai Monte Banks?

Robert não era capaz de dizer ”seu marido”. Ele era seu

marido.

— Muito bem. Só queria avisá-lo que vamos nos ausentar por algum tempo. Não queria que você se preocupasse.

O que era típico de Susan. Ele fez um esforço para manter

a voz firme.

— Para onde vão desta vez?

— Voaremos para o Brasil. No 727 particular do ricaço.

— Monte tem alguns negócios lá — acrescentou Susan.

— É mesmo? Pensei que ele era o dono do país.

— Pare com isso, Robert. Por favor.

— Desculpe. Houve uma pausa.

— Eu gostaria que você estivesse com um ânimo melhor.

— Estaria se você voltasse para mim.

— Quero que encontre uma mulher maravilhosa e seja feliz.

— Já encontrei uma mulher maravilhosa, Susan. — O aperto na garganta tornava difícil falar. — E sabe o que aconteceu? Eu a perdi.

— Se insistir nisso, nunca mais ligarei para você. Ele foi dominado por um súbito pânico.

— Não diga isso, por favor. — Susan era sua salvação. Não podia suportar a perspectiva de nunca mais falar com ela. Tentou parecer jovial. — Vou sair e encontrar alguma loura sensual, trepar até a morte.

— Quero que encontre alguém.

— Prometo.

— Estou preocupada com você, querido.

— Não precisa ficar. Estou muito bem.

Ele quase engasgou com a mentira. Se ao menos Susan soubesse a verdade... Mas não podia discutir o problema com ninguém. Muito menos com Susan. Não suportaria a compaixão que ela lhe ofereceria.

— Telefonarei do Brasil.

Houve um silêncio prolongado. Não podiam se despedir um do outro, porque havia muita coisa a dizer, coisas demais que era melhor não dizer, que não podiam ser ditas.

— Tenho de desligar agora, Robert.

— Susan...

— O que é?

— Eu amo você, meu bem. Sempre amarei.

— Sei disso. E eu também o amo, Robert.

E essa era a ironia amarga e doce do que acontecera. Ainda se amavam muito.

Vocês dois têm o casamento perfeito, todos os amigos costumavam dizer. O que saíra errado?

O Comandante Robert Bellamy saiu da cama e atravessou descalço a sala de estar silenciosa. A sala toda apregoava a ausência de Susan. Havia dezenas de fotografias de Susan e dele em toda parte, momentos congelados no tempo. Os dois pescando nas terras altas da Escócia, parados na frente de um Buda, à margem de um klong tailandês, passeando numa charrete pelos  jardins Borgueses, sob a chuva, em Roma. E em cada fotografia estavam sorrindo e se abraçando, duas pessoas perdidamente apaixonadas.

Ele foi para a cozinha e fez um café. O relógio ali marcava

4:15. Robert hesitou por um momento, depois discou um número. A campainha tocou seis vezes antes que ele ouvisse a voz do Almirante Whittaker, no outro lado da linha.

— Alô?

— Almirante...

— Quem está falando?

— Sou eu, Robert. Lamento profundamente acordá-lo, senhor. Acabei de receber um estranho telefonema da Agência de

Segurança Nacional.

— A ASN? O que eles queriam?

— Não sei. Recebi a ordem de me apresentar ao General Hilliard, às seis horas da manhã.

Houve um momento de silêncio.

— Talvez esteja sendo transferido para lá.

— Não é possível, senhor. Não faz sentido. Por que haveriam...?

— É óbvio que se trata de algo urgente, Robert. Por que

não me liga depois da reunião?

— Farei isso, senhor. Obrigado.

A ligação foi cortada. Eu não deveria ter incomodado o velho, pensou Robert. O almirante se afastara do cargo de diretor do serviço secreto naval dois anos antes. Foraforçado a se afastar, era a expressão mais apropriada. O rumor era de que a Marinha, como um osso jogado para um cachorro, instalara-o numa. pequena sala em algum lugar, com a incumbência de contar as cracas nos navios retirados do serviço ativo e mantidos em reserva, ou qualquer merda parecida. O almirante não teria a menor noção das atividades atuais do serviço secreto. Mas ele era o mentor de Robert. Era mais íntimo de Robert do que qualquer outra pessoa no mundo, à exceção, é claro, de Susan. E Robert precisava falar com alguém. Com Susan ausente, ele tinha a impressão de que vivia num desvio de tempo. Fantasiava que em algum lugar, em outra dimensão de tempo e espaço, ele e Susan ainda formavam um casal feliz, sempre rindo, despreocupados, apaixonados. Ou talvez não, pensou Robert, cansado. Talvez eu apenas não saiba quando devo renunciar.

O café estava pronto. Tinha um gosto amargo. Ele especulou se não seria café do Brasil.

Levou a xícara para o banheiro e estudou sua imagem no espelho. Contemplava um homem de quarenta e poucos anos, alto e esguio, em boas condições físicas, um rosto rude, queixo saliente, olhos escuros, inteligentes e penetrantes. Havia uma cicatriz longa e profunda no peito, lembrança do desastre de avião. Mas isso era o ontem. Era Susan. E agora era hoje. Sem Susan. Ele fez a barba, tomou um banho de chuveiro, deu uma olhada nas roupas no armário. O que devo usar, especulou Robert, o uniforme da marinha ou um terno civil? E, por outro lado, quem se importa com isso? Ele acabou escolhendo um terno cinza escuro, uma camisa branca, e uma gravata cinza de seda. Sabia muito pouco sobre a Agência de Segurança Nacional, exceto que o Palácio dos Enigmas, como era apelidado, suplantava todas as outras agências de informações americanas, e era a mais secreta de todas. O que querem comigo? Descobrirei em breve.

 

A Agência de Segurança Nacional fica discretamente escondida em oitenta e dois acres de terreno irregular, em Fort Meade, Maryland, ocupando dois prédios que, juntos, têm o dobro do tamanho do complexo da CIA em Langley, Virgínia. A agência, criada para oferecer apoio técnico na proteção das comunicações dos Estados Unidos, e obter dados de informações eletrônicas no mundo inteiro, emprega milhares de pessoas. Suas operações geram tantas informações que mais de quarenta toneladas de documentos são destruídas todos

os dias.

Ainda estava escuro quando o Comandante Robert Bellamy chegou ao primeiro portão. Ele parou junto da cerca Cyclone, encimada por arame farpado. Havia uma guarita de sentinela ali, com dois guardas armados. Um deles permaneceu na guarita, vigiando, enquanto o outro se aproximava do carro.

— O que deseja?

— Sou o Comandante Bellamy. Vim falar com o General

Hilliard.

— Posso ver sua identificação, comandante?

Robert Bellamy tirou a carteira do bolso e extraiu o cartão de identificação do 17? Distrito do Serviço Secreto Naval. O guarda examinou-o com toda atenção, antes de devolvê-lo.

— Obrigado, comandante.

Ele acenou com a cabeça para o guarda na guarita, e o portão foi aberto. O guarda na guarita pegou um telefone e avisou:

— O Comandante Bellamy está a caminho.

Um minuto depois, Robert Bellamy parou diante de um portão eletrificado, fechado. Um guarda armado aproximou-se do carro.

— Comandante Bellamy?

— Isso mesmo.

— Posso ver sua identificação, por favor?

Robert já ia protestar, mas pensou: Ora, que se dane. O espetáculo é deles. Ele tornou a tirar a carteira do bolso, mostrou a identificação ao guarda.

— Obrigado, comandante.

O guarda fez algum sinal invisível, e o portão foi aberto. Ao seguir em frente, Robert Bellamy avistou uma terceira cerca Cyclone à sua frente. Santo Deus, pensou ele, estou na Terra de Oz!

Outro guarda uniformizado aproximou-se do carro. Quando Robert Bellamy já estendia a mão para a carteira, o guarda olhou para a placa do carro e disse:

— Por favor, comandante, siga direto para o prédio da administração, em frente. Haverá alguém ali para recebê-lo.

— Obrigado.

O portão foi aberto, Robert seguiu pelo caminho, na direção de um enorme prédio branco. Um homem à paisana esperava do lado de fora, tremendo ao ar frio de outubro.

— Pode deixar seu carro aqui mesmo, comandante — disse ele. — Cuidaremos dele.

Robert Bellamy deixou as chaves no carro e saltou. O homem que o cumprimentou parecia estar na casa dos trinta anos, alto, magro e pálido. Dava a impressão de que há anos não via a luz do sol.

— Sou Harrison Keller. Vou levá-lo ao General Hilliard. Entraram num saguão enorme, de teto alto. Outro homem

à paisana sentava por trás de uma mesa.

— Comandante Bellamy...

Robert Bellamy virou-se. Ouviu o estalido de uma câmera.

— Obrigado, senhor.

Robert Bellamy virou-se para Keller.

— Mas o que...?

— Só vai demorar um minuto — assegurou Harrison Keller. Sessenta segundos depois, Robert Bellamy recebeu um crachá azul e branco, com sua fotografia.

— Por favor, comandante, use isso durante todo o tempo em que permanecer no prédio.

— Certo.

Começaram a avançar por um corredor comprido e branco. Robert Bellamy notou que havia câmeras de segurança instaladas a intervalos de seis metros, nos dois lados do corredor.

— Qual é o tamanho deste prédio?

— Quase duzentos mil metros quadrados.

— O quê?

— É isso mesmo. Este corredor é o mais longo do mundo... Tem trezentos metros. Somos completamente auto-suficientes aqui. Temos um shopping center, restaurante, agência dos correios, oito lanchonetes, um hospital completo, inclusive com sala de operações, consultório dentário, uma agência do banco estadual Laurel, uma lavanderia, uma sapataria, uma barbearia, e mais algumas coisas.

É um lar longe do lar, pensou Robert, achando estranhamente depressivo.

Passaram por uma enorme área aberta, ocupada por um vasto mar de computadores. Robert parou, espantado.

— Não é impressionante? E esta é apenas uma de nossas salas de computadores. O complexo contém máquinas descodificadoras e computadores no valor de três bilhões de dólares.

— Quantas pessoas trabalham aqui?

— Cerca de dezesseis mil.

Então para que precisam de mim?, especulou Robert

Bellamy.

Ele foi conduzido a um elevador particular, que Keller acionou com uma chave. Subiram um andar, percorreram outro longo corredor, até alcançarem um conjunto de salas, na extremidade.

— É aqui, comandante.

Entraram numa sala de recepção grande, com quatro mesas de secretárias. Duas das secretárias já haviam chegado para o trabalho. Harrison Keller acenou com a cabeça para uma delas, que apertou um botão, abrindo uma porta interna, com um estalido.

— Entrem, por favor, senhores. O general está esperando.

— Vamos — disse Harrison Keller.

Robert Bellamy seguiu-o para a sala interna. Era ampla, o teto e as paredes à prova de som, mobiliada com conforto, com muitas fotografias e mementos pessoais. Era evidente que o homem por trás da mesa passava muito tempo ali.

O General Mark Hilliard, vice-diretor da ASN, parecia ter cinqüenta e poucos anos, muito alto, o rosto firme, olhos frios, uma postura empertigada. Vestia um terno cinza, camisa branca, gravata cinza. Calculei certo, pensou Robert. Harrison Keller fez a apresentação:

— General Hilliard, este é o Comandante Bellamy.

— Obrigado por ter vindo, comandante.

Como se fosse um convite para algum chá da tarde. Os dois homens trocaram um aperto de mão.

— Sente-se. Aposto que gostaria de tomar um café. O homem lê pensamentos.

— Sim, senhor.

— Harrison?

— Não, obrigado.

Ele foi sentar numa cadeira no canto. Uma campainha foi apertada, a porta se abriu, e um oriental com o jaleco do rancho entrou na sala, trazendo uma bandeja com café e biscoitos. Robert notou que ele não usava um crachá de identificação. Lamentável. O café foi servido. O aroma era maravilhoso.

— Como prefere o seu? — perguntou o General Hilliard.

— Puro, por favor.

O café estava mesmo delicioso. Os dois homens estavam sentados de frente um para o outro, em cadeiras macias de couro.

— O diretor pediu que eu conversasse com você.

O diretor. Uma figura lendária nos círculos da espionagem. Um manipulador brilhante e implacável, a quem se creditava dezenas de golpes audaciosos, no mundo inteiro. Um homem raramente visto em público, sobre o qual se sussurrava em particular.

— Há quanto tempo está no serviço secreto do 17? Distrito Naval, comandante? — perguntou o General Hilliard.

Robert foi franco na resposta:

— Quinze anos

Seria capaz de apostar um mês de soldo como o general era capaz de informá-lo sobre o dia exato em que ingressara no ONI.

— Antes disso, creio que comandou uma esquadrilha aeronaval no Vietnam.

— Isso mesmo, senhor.

— Foi derrubado. Não esperavam que pudesse sobreviver.

O médico estava dizendo: ”Esqueça-o. Ele não vai se recuperar. ” E ele quisera morrer. A dor era insuportável. Até que de repente Susan se inclinava sobre sua cama. ”Abra os olhos, marujo. Você não quer morrer.” Ele forçara os olhos a se abrirem e, através do nevoeiro de dor, descobrira-se a contemplar a mulher mais linda que já vira. Ela tinha um rosto oval meigo, cabelos pretos abundantes, olhos castanhos faiscantes, e um sorriso que parecia uma bênção. Ele tentara falar, mas o esforço

era demais.

O General Hilliard estava dizendo alguma coisa. Robert Bel

lamy trouxe a mente de volta ao presente.

— Como, general?

— Temos um problema, comandante. Precisamos de sua

ajuda.

— Pois não, senhor.

O general levantou-se, começou a andar de um lado para

outro.

— O que vou lhe contar é extremamente delicado. Acima

de ultra-secreto.

— Sim, senhor.

— Ontem, um balão meteorológico da OTAN caiu nos Alpes suíços. Havia alguns artefatos militares experimentais no balão que são altamente secretos.

Robert descobriu-se a especular para onde aquela conversa

o levaria.

— O governo suíço removeu esses artefatos do balão, mas parece que houve, infelizmente, algumas testemunhas do acidente. É de importância vital que nenhuma delas fale com quem quer que seja sobre o que viu. Qualquer comentário poderia proporcionar informações valiosas a determinados outros países. Está me entendendo?

— Acho que sim, senhor. Quer que eu fale com as testemunhas, advertindo-as a não comentarem o que viram.

— Não exatamente, comandante.

— Então não com...

— O que eu quero que faça agora é simplesmente localizar essas testemunhas. Outros conversarão com elas sobre a necessidade de silêncio.

— Entendo. Todas as testemunhas estão na Suíça? O General Hilliard parou na frente de Robert.

— É esse o nosso problema, comandante. Não temos a menor idéia do lugar em que se encontram. Ou de quem são.

Robert pensou que perdera alguma coisa.

— Como assim?

— A única informação de que dispomos é que as testemunhas se encontravam num ônibus de turismo. Por acaso passavam pelo local quando o balão meteorológico caiu, perto de uma aldeia chamada...

Ele virou-se para Harrison Keller.

— Uetendorf.

O general tornou a se virar para Robert.

— Os passageiros saltaram do ônibus por alguns minutos para olhar os destroços, depois seguiram viagem. Concluída a excursão, os passageiros dispersaram-se.

Robert indagou, falando bem devagar:

— General Hilliard, está querendo dizer que não há registro de quem são essas pessoas ou para onde foram?

— Correto.

— E quer que eu as descubra?

— Exatamente. Foi muito bem recomendado. Estou informado de que fala meia dúzia de línguas com fluência, e tem os melhores antecedentes como agente de campo. O diretor providenciou a sua transferência temporária para a ASN.

Incrível!

— Posso presumir que trabalharei em cooperação com o

governo suíço?

— Não. Terá de trabalhar sozinho.

— Sozinho? Mas,.

— Não devemos envolver ninguém nesta missão. Não tenho palavras suficientes para ressaltar a importância do que havia no balão, comandante. O tempo é essencial. Quero que me apresente um relatório de progresso todos os dias.

O general escreveu um número num cartão e entregou-o a

Robert.

— Posso ser alcançado através desse número, de dia ou de noite. Há um avião esperando para levá-lo a Zurique. Será escoltado a seu apartamento, a fim de pegar o que precisar para a viagem, e depois conduzido ao aeroporto.

Era o fim do ”Obrigado por ter vindo”. Robert sentiu-se tentado a perguntar ”Alguém vai alimentar meu peixinho dourado enquanto estou ausente?”, mas teve o pressentimento de que a resposta seria ”Você não tem nenhum peixinho dourado”.

— Em seu trabalho com o ONI, comandante, por acaso adquiriu contatos com a comunidade de informações no exterior?

— Sim, senhor. Tenho alguns amigos que poderiam ser

úteis...

— Não está autorizado a entrar em contato com nenhum deles. As testemunhas que vai procurar com certeza são de várias nacionalidades. — O general virou-se para Keller. —

Harrison...

Keller foi até um arquivo no canto e abriu-o. Tirou um envelope pardo grande, entregou-o a Robert.

— Há cinqüenta mil dólares aqui, em diferentes moedas européias, e mais vinte mil em dólares americanos. Também encontrará vários jogos de documentos de identidade forjados, que

poderão ser úteis.

O General Hilliard estendeu um cartão de plástico grosso, de um preto lustroso, com uma faixa branca.

— Aqui está um cartão de crédito que...

— Duvido que eu vá precisar, general. O dinheiro será suficiente, e ainda tenho o cartão de crédito do ONI.

— Pegue-o.

— Está bem. — Robert examinou o cartão. Era de um banco de que nunca ouvira falar. No fundo do cartão, havia um número de telefone. — Não tem nenhum nome aqui.

— É o equivalente a um cheque em branco. Não exige identificação. Basta pedir que liguem para o telefone no cartão quando efetuar um pagamento. É muito importante que o tenha com você em todas as ocasiões.

— Certo.

— E mais uma coisa, comandante...

— Pois não, senhor?

— Precisa encontrar as testemunhas. Todas, sem exceção. Comunicarei ao diretor que já iniciou a missão.

A reunião estava encerrada.

Harrison Keller acompanhou Robert à sala externa. Um fuzileiro uniformizado estava sentado ali. Levantou-se quando os dois homens entraram.

— Este é o Capitão Dougherty. Ele o levará ao aeroporto. Boa sorte.

— Obrigado.

Os dois homens trocaram um aperto de mão. Keller virou-se e voltou à sala do General Hilliard.

— Está pronto, comandante? — perguntou o Capitão Dougherty.

— Estou, sim.

Mas pronto para o quê? Ele já cuidara de missões difíceis no passado, mas nunca de algo tão absurdo assim. Esperavam que localizasse uma quantidade desconhecida de testemunhas desconhecidas de países desconhecidos. Quais são as chances contra isso?, especulou Robert. Estou me sentindo como a Rainha Branca no País das Maravilhas. ”Por que às vezes acredito em ateseis coisas impossíveis antes do desjejum?” Pois o que aconteceu aqui equivaleu a todas as seis.

— Tenho ordens de levá-lo direto a seu apartamento, e depois à base Andrews, da força aérea — informou o Capitão Dougherty. — Há um avião esperando para...

Robert sacudiu a cabeça.

— Tenho de passar primeiro no meu escritório.

Dougherty hesitou.

— Está certo. Vou acompanhá-lo e ficarei à sua espera. Era como se não confiassem nele, como se não quisessem

perdê-lo de vista. Só porque sabia que um balão meteorológico caíra? Não fazia sentido. Robert entregou seu crachá na recepção, deixou o prédio, para o frio do dia que raiava. Seu carro desaparecera. Em vez dele, uma limusine aguardava.

— Cuidaremos de seu carro, comandante — informou o Capitão Dougherty. — Usaremos esta limusine agora.

Havia uma arbitrariedade em tudo aquilo que Robert achava vagamente desconcertante.

— Está certo.

Partiram para o escritório do serviço secreto naval. O sol pálido do amanhecer logo desapareceu por trás de nuvens de chuva. Seria um dia horrível. Sob mais de um aspecto, pensou Robert.

 

Ottawa, Canadá

24:00

Seu codinome era Janus. Falava para doze homens, numa sala fortemente guardada de um complexo militar.

— Como todos já foram informados, a Operação Juízo Final foi acionada. Há diversas testemunhas que devem ser encontradas o mais depressa possível, com absoluta discrição. Não podemos tentar localizá-las através dos canais regulares de segurança por causa do perigo de um vazamento.

— Quem estamos usando?

O russo. Enorme. Estourado.

— Seu nome é Comandante Robert Bellamy.

— Como foi selecionado?

O alemão. Aristocrata Implacável.

— O comandante foi escolhido depois de meticulosa busca de computador nos arquivos da CIA, FBI e meia dúzia de outras agências de segurança.

— Posso perguntar, por favor, quais são as suas qualificações?

O japonês. Polido. Astucioso.

— O Comandante Bellamy é um experiente agente de campo, fala seis línguas fluentemente e possui uma ficha exemplar. Já demonstrou muitas vezes que é um homem bastante engenhoso.

— Ele está a par da urgência da missão? O inglês. Esnobe. Perigoso.

— Está, sim. Tudo indica que ele será capaz de localizar todas as testemunhas bem depressa.

— Ele sabe qual é o propósito da missão?

O francês. Propenso a discussões. Obstinado.

— Não.

— E o que acontecerá depois que ele encontrar as testemunhas?

O chinês. Esperto. Paciente.

— Será devidamente recompensado.

 

O quartel-general do ONI, o serviço secreto naval, ocupa todo o quinto andar do vasto Pentágono, um enclave no meio do maior prédio de escritórios do mundo, com vinte e oito quilômetros de corredores e vinte e nove mil funcionários, entre civis e militares.

O interior do ONI reflete as tradições navais. As escrivaninhas e arquivos são pintadas de verde-oliva, da era da Segunda Guerra Mundial, ou de cinza-couraçado, da era do Vietnam. As paredes e os tetos são pintados de amarelo claro ou bege. No começo, Robert ficara desolado com a decoração espartana, mas há muito que já se acostumara.

Agora, ao entrar no prédio e aproximar-se da mesa da recepção, o guarda familiar lhe disse:

— Bom dia, comandante. Posso ver seu passe? Robert trabalhava ali há sete anos, mas o ritual nunca mudava. Obediente, ele mostrou o passe.

— Obrigado, comandante.

A caminho de sua sala, Robert pensou no Capitão Dougherty, esperando-o no estacionamento, na entrada à beira do rio. Esperando para escoltá-lo ao avião que o levaria à Suíça, onde iniciaria uma caçada impossível.

Quando chegou à sua sala, Robert já encontrou ali sua secretária, Barbara.

— Bom dia, comandante. O vice-diretor pediu que fosse à

sala dele.

— Ele pode esperar. Ligue-me para o Almirante Whitta

ker, por favor

— Pois não, senhor.

Um minuto depois, Robert estava falando com o almirante.

— Devo presumir que sua reunião já acabou, Robert?

— Há poucos minutos.

— Como foi?

— Foi... interessante. Está livre para me fazer companhia

no desjejum, almirante?

Robert tentou manter a voz casual. Não houve qualquer hesitação.

— Claro. Vamos nos encontrar aí?

— Isso mesmo. Deixarei um passe de visitante à sua espera

na entrada.

— Combinado. Estarei aí dentro de uma hora. Robert repôs o fone no gancho e pensou: É irônico que eu

tenha de deixar um passe de visitante para o almirante. Há poucos anos ele mandava em tudo aqui, o chefe do serviço secreto naval. Como ele deve se sentir?

Robert tocou a campainha do interfone para falar com a

secretária.

— Pois não, comandante?

— Estou esperando o Almirante Whittaker. Providencie um

passe para ele.

— Cuidarei disso imediatamente.

Estava na hora de se apresentar ao vice-diretor. Dustin escroto Thornton.

 

Fustin ”Dusty Thornton, vice-diretor do serviço secreto naval, conquistara sua fama como um dos maiores atletas que já saíra de Annapolis  hornton devia sua atual posição elevada a uma partida de futebol americano. Uma partida entre o exército e a marinha, para ser mais preciso. Thornton, um homem enorme, monolítico, atuara como zagueiro, em seu último ano em Annapolis, na partida mais importante da marinha naquele ano. No início do quarto tempo, com o exército vencendo por 13 áX), dois touchdowns e uma conversão à frente, o destino interferira e mudara a vida de Dustin Thornton. Ele interceptara um passe do exército, girara, e arremetera pela falange do exército, a fim de marcar um touchdown, o lance em que a bola é jogada ao solo através da linha do gol adversário. A marinha perdera o ponto extra, mas logo em seguida marcara um ponto de campo. Reiniciado o jogo, o ataque                        e do exército fora detido. A contagem era exército 13, marinha

9, o tempo se aproximava do fim.

A partida recomeçara, a bola fora passada para Thornton, que caiu sob uma pilha de uniformes do exército. Levara muito tempo para se levantar. Um médico entrara correndo no campo. Thornton acenara para que ele se retirasse, irritado.

Faltando apenas alguns segundos para o jogo terminar, foram dados os sinais para um passe lateral. Thornton pegou a bola em sua própria linha de dez jardas. Não houvera como detê-lo. Avançara pela oposição como um tanque, derrubando todos os que foram bastante desafortunados para se interporem em seu caminho. A dois segundos do final da partida, Thornton cruzara a linha do gol para o touchdown vitorioso. Era a primeira vitória da marinha contra o exército em quatro anos. Isso, por si só, teria pouco efeito na vida de Thornton. O que tornara o evento significativo fora o fato de que, no camarote reservado às autoridades, estavam sentados Willard Stone e sua filha, Eleanor. Enquanto os espectadores se punham de pé, aclamando freneticamente o herói da marinha, Eleanor virou-se para o pai e

disse:

— Quero conhecê-lo.

Eleanor Stone era uma mulher de grandes apetites. Tinha o rosto feio, mas um corpo sensual e uma libido insaciável. Observando Dustin Thornton arremeter selvagemente pelo campo, ela fantasiara como ele seria na cama. Se sua virilidade fosse tão grande quanto o resto do corpo... Eleanor não se desapontara.

Seis meses depois, Eleanor e Dustin Thornton casaram. Esse fora o começo. Dustin Thornton passara a trabalhar com o sogro, ingressando num mundo arcano, que jamais sonhara que

existia.

Willard Stone, o novo sogro de Thornton, era um homem misterioso. Um bilionário com poderosas ligações políticas e um passado envolto em segredo, era um personagem furtivo que mandava e desmandava em capitais no mundo inteiro. Tinha sessenta e tantos anos, um homem meticuloso, cada movimento seu preciso e metódico. Tinha feições marcantes e olhos velados, que não deixavam transparecer coisa alguma. Willard Stone achava que não se devia desperdiçar palavras nem emoções, e era implacável no empenho em conseguir o que queria.

Os rumores a seu respeito eram fascinantes. Dizia-se que assassinara um concorrente na Malásia, e que tivera um tórrido caso de amor com a esposa favorita de um emir. Dizia-se também que apoiara uma revolução vitoriosa na Nigéria. O governo já o indiciara meia dúzia de vezes, mas as ações judiciais sempre eram misteriosamente arquivadas. Havia histórias de  subornos, senadores comprados, segredos industriais roubados, e testemunhas que desapareciam. Stone era conselheiro de presidentes e reis. Era o poder nu e cru. Entre suas muitas propriedades, havia um sítio grande e isolado, nas montanhas do Colorado, onde cientistas, capitães da indústria e líderes mundiais se reuniam todos os anos, em seminários. Guardas armados mantinham a distância os visitantes indesejáveis.

Willard Stone não apenas aprovara o casamento da filha, mas também o encorajara. Seu novo genro era inteligente, ambicioso e, o mais importante, maleável.

Doze anos depois do casamento, Stone providenciara para que Dustin fosse nomeado embaixador na Coréia do Sul. Vários anos mais tarde, o Presidente dos Estados Unidos designara-o para embaixador na ONU. Quando o Almirante Ralph Whittaker fora subitamente afastado do cargo de diretor em exercício do ONI, Thornton ficara no seu lugar.

E nesse dia Willard Stone chamara o genro para uma conversa.

— Isto é apenas o começo — prometera Stone. — Tenho planos maiores para você, Dustin. Grandes planos.

E ele passara a descrever seus planos.

Dois anos antes, Robert tivera seu primeiro encontro com o novo diretor em exercício.

— Sente-se, comandante. — Não havia qualquer cordialidade na voz de Dustin Thornton. — Vejo na sua ficha que é uma espécie de operador independente.

O que ele está querendo insinuar com isso?, especulara Robert. E decidira permanecer de boca fechada. Thornton fitara-o nos olhos, antes de acrescentar:

— Não sei como o Almirante Whitakker dirigia este serviço quando estava no comando, mas daqui por diante faremos tudo de acordo com as normas. Espero que minhas ordens sejam cumpridas ao pé da letra. Estou sendo bem claro?

Santo Deus, pensara Robert, o que vamos ter aqui?

— Estou sendo bem claro, comandante?

— Está, sim. Espera que suas ordens sejam cumpridas ao pé da letra.

E ele se perguntara se Thornton esperava que batesse continência.

— Isso é tudo.

Mas não era tudo.

Um mês depois, Robert fora enviado à Alemanha Oriental para buscar um cientista que queria desertar. Era uma missão perigosa, porque a Stasi, a polícia secreta alemã oriental, tomara conhecimento da possível deserção e vigiava atentamente o cientista. Apesar disso, Robert conseguira levar o homem são e salvo pela fronteira, até uma casa segura. Providenciava a ida do cientista para Washington quando recebera um telefonema de Dustin Thornton, informando que a situação mudara e que deveria suspender a missão.

— Não podemos largá-lo aqui — protestara Robert. — Eles

o matariam.

— É problema dele — respondera Thornton. — Suas ordens são para voltar imediatamente.

Vá-se foder!, pensara Robert. Não vou abandonar o pobre coitado. Ele ligara para um amigo no MI6, o serviço secreto britânico, e explicara a situação.

— Se ele voltar para a Alemanha Oriental, será liquidado. Não quer tomar conta dele?

— Verei o que se pode fazer, companheiro. Traga-o para

mim.

E o cientista recebera asilo na Inglaterra.

Dustin Thornton jamais perdoara Robert por desobedecer às suas instruções. Daquele momento em diante, houvera uma hostilidade manifesta entre os dois. Thornton discutira o incidente com o sogro.

— Operadores independentes como Bellamy são perigosos — advertira Willard Stone. — Constituem um risco de segurança. Homens assim são dispensáveis. Lembre-se disso.

E Thornton se lembrara.

Agora, seguindo pelo corredor a caminho da sala de Dustin Thornton, Robert não podia deixar de pensar na diferença entre Thornton e Whittaker. Num trabalho como o seu, a confiança era indispensável. E ele não confiava em Dustin Thornton.

Thornton estava sentado atrás de sua mesa quando Robert entrou na sala.

— Queria falar comigo?

— Queria, sim. Sente-se, comandante.

O relacionamento nunca alcançara a fase de ”Robert”.

— Fui informado de sua transferência temporária para a Agência de Segurança Nacional. Quando voltar, tenho uma...

— Não voltarei. Esta é minha última missão.

— O quê?

— Estou largando o serviço.

Mais tarde, pensando a respeito, Robert não teve certeza de que reação exatamente esperava..Talvez alguma cena. Dustin Thornton poderia demonstrar surpresa, argumentar, ficar irritado ou aliviado. Em vez disso, limitou-se a acenar com a cabeça e murmurar:

— Então é isso, hem?

Ao voltar à sua sala, Robert disse à secretária

— Vou me ausentar por algum tempo. Partirei dentro de uma hora.

— Há algum lugar em que poderei encontrá-lo? Robert lembrou as ordens do General Hilliard.

— Não.

— Há algumas reuniões que...

— Cancele-as.

Ele olhou para o relógio. Estava na hora de receber o Almirante Whittaker.

Foram tomar o café no pátio central do Pentágono, no Café Ponto Zero, assim chamado porque se pensava que o Pentágono seria o primeiro alvo de um ataque com bombas nucleares desfechado contra os Estados Unidos. Robert reservara uma mesa num canto, onde teriam alguma privacidade. O Almirante Whittaker foi pontual. Ao observá-lo se aproximar da mesa, Robert teve a impressão de que o almirante parecia mais velho e menor, como se a semi-reforma o tivesse de alguma forma envelhecido e encolhido. Ainda era um homem de aparência impressionante, com as feições fortes, nariz aquilino, malares salientes, cabelos prateados. Robert servira sob o comando do almirante no Vietnam, e mais tarde no ONI, sentia a maior consideração por ele. Mais do que uma consideração pessoal, Robert admitiu para si mesmo. O Almirante Whittaker era seu pai substituto. O

almirante sentou.

— Bom dia, Robert. Foi mesmo transferido para a ASN?

Robert acenou com a cabeça.

— Temporariamente.

A garçonete chegou e os dois estudaram o cardápio.

— Eu tinha até esquecido como a comida aqui é horrível — comentou o almirante, sorrindo.

Ele correu os olhos ao redor, o rosto refletindo uma nostalgia silenciosa. Ele gostaria de voltar para cá, pensou Robert. Amém. Fizeram o pedido. Depois que a garçonete se afastou,

Robert disse:

— Almirante, o General Hilliard está me enviando numa missão urgente, uma viagem de cinco mil quilômetros, a fim de localizar algumas testemunhas da queda de um balão meteorológico. Acho isso muito estranho. E há algo que parece ainda mais estranho. ”O tempo é essencial”, disse o general, mas recebi a ordem de não recorrer, em busca de ajuda, a qualquer dos meus contatos na comunidade de informações no exterior.

O Almirante Whittaker ficou perplexo.

— Imagino que o general deve ter seus motivos.

— Não posso imaginar quais sejam.

O almirante estudou Robert. O Comandante Bellamy servira sob seu comando no Vietnam, fora o melhor piloto do esquadrão. O filho do almirante, Edward, era o bombardeiro de Robert. Naquele dia terrível, em que o avião fora derrubado, Edward morrera. Robert escapara por um triz. O almirante fora visitá-lo no hospital.

— Ele não vai sobreviver — asseguraram os médicos. Robert, estendido no leito, dominado por uma dor agonizante, balbuciara:

— Sinto muito por Edward... sinto muito...

O Almirante Whitakker apertara a mão de Robert.

— Sei que você fez tudo o que podia. E agora tem de se recuperar. Vai ficar bom.

Ele queria desesperadamente que Robert vivesse. Na mente do almirante, Robert era seu filho, o filho que tomaria o lugar de Edward.

E Robert sobrevivera.

— Robert...

— Pois não, almirante?

— Espero que sua missão na Suíça seja bem-sucedida.

— Eu também. Será minha última.

— Ainda está decidido a sair?

O almirante era o único a quem Robert podia confidenciar.

— Já agüentei demais.

— Thornton?

— Não é apenas ele. Sou eu também. Estou cansado de interferir nas vidas de outras pessoas.

Estou cansado das mentiras e trapaças, das promessas violadas, que foram feitos sem a menor intenção de serem cumpridas. Estou cansado de manipular pessoas e ser manipulado. Estou cansado dos jogos, perigos e traições. Custa-me tudo a que já dei importância na vida.

— Tem alguma idéia do que vai fazer depois?

— Tentarei encontrar algo útil para fazer com minha vida, algo positivo.

— E se não quiserem deixá-lo?

— Eles não têm opção, não é?

 

A limusine aguardava no estacionamento junto à entrada pelo rio. _

— Está pronto, comandante? — perguntou o Capitão

Dougherty.

Tão pronto quanto jamais estarei, pensou Robert.

— Estou, sim.

O Capitão Dougherty acompanhou Robert a seu apartamento para que ele pudesse fazer as malas. Robert não tinha a meno’r idéia de quantos dias passaria na viagem. Quanto tempo demora uma missão impossível? Ele pegou roupas suficientes para uma semana e, no último instante, pôs uma fotografia emoldurada de Susan na mala. Contemplou-a por um longo momento, especulando se ela estaria se divertindo no Brasil. E pensou: Espero que não. Torço para que ela esteja passando pelas piores coisas. E no instante seguinte sentiu-se envergonhado de tal pensamento.

O avião aguardava quando a limusine chegou a base Andrews da força aérea Era um jato C20A da força aérea. O Capitão Dougherty estendeu a mão.

— Boa sorte, comandante.

— Obrigado.

Vou mesmo precisar. Robert subiu os degraus para a cabine.

A tripulação se encontrava em seus postos, concluindo a verificação que antecedia a decolagem. Havia um piloto, um co-piloto, um navegador e um comissário de bordo, todos em uniformes da força aérea. Robert conhecia o avião. Era carregado de equipamentos eletrônicos. No lado de fora, perto da cauda, havia uma antena de alta freqüência, que parecia uma enorme vara de pescar. Dentro da cabine, havia nas paredes doze telefones vermelhos e um branco, a linha que não era segura. As transmissões de rádio eram em código, e o radar se achava sintonizado numa freqüência militar. A cor primária no interior era o azul da força aérea, e a cabine estava equipada com poltronas confortáveis. Robert descobriu que era o único passageiro. O piloto cumprimentou-o.

— Bem-vindo a bordo, comandante. Gostaria que afivelasse o cinto de segurança, pois já temos autorização para a decolagem.

Robert prendeu o cinto de segurança e recostou-se na poltrona, enquanto o avião taxiava pela pista. Um minuto depois, sentiu a pressão familiar da gravidade, enquanto o jato alçava vôo. Não pilotava um avião desde o desastre, quando o informaram que nunca mais poderia pilotar. Muito mais do que pilotar!, pensou Robert. Disseram que eu não sobreviveria. Foi um milagre... não, foi Susan...

Vietnam. Ele fora enviado para lá com o posto de capitão-de-corveta, estacionado no porta-aviões Ranger como oficial tático, responsável pelo treinamento de pilotos de caça e o planejamento da estratégia de ataque. Comandara uma esquadrilha de bombardeiros Intruder A-6A, e quase não havia tempo de folga das pressões da batalha. Uma de suas poucas licenças fora em Bangkok, durante uma semana, e nunca perdera tempo em dormir. A cidade era uma Disneylândia projetada para o prazer do animal macho. Conhecera uma refinada jovem tailandesa em sua primeira hora na cidade, ela permanecera ao seu lado durante todo o tempo, e lhe ensinara algumas frases em tai. Ele achara a língua suave e doce.

Bom dia. Arun sawasdi,

De onde você é? Khun na chak nai?

Para onde vai agora? Khun kamrant chain pai?

Ela ensinara outras frases também, mas sem explicar o que significavam; e ria quando ele as dizia.

Quando Robert voltara ao Ranger, Bangkok parecia um sonho distante. A guerra era a realidade, e era um horror. Alguém lhe mostrara um dos folhetos que os fuzileiros lançavam sobre o Vietnam do Norte. Dizia:

Caros Cidadãos:

Os fuzileiros dos Estados Unidos estão lutando ao lado das forças sul-vietnamitas em Duc Pho, a fim de proporcionarem ao povo vietnamita uma oportunidade de levar uma vida livre e feliz, sem medo da fome e sofrimento. Mas muitos vietnamitas pagaram com suas vidas, e suas casas foram destruídas, porque ajudaram os vietcongues.

Os povoados de Hai Mon, Hai Tan, Sá Bih, ,Ja Binh, e vários outros foram destruídos por causa disso. Não hesitaremos em destruir todo e qualquer povoado que ajudar os vietcongues, que são impotentes para conter o poderio combinado dos aliados. A escolha é de vocês. Se recusarem permissão para que os vietcongues usem suas aldeias e povoados como campo de batalha, suas casas e suas vidas estarão salvas.

Estamos salvando os pobres coitados, sem dúvida, pensava Robert, deprimido. E ao mesmo tempo estamos destruindo seu país.

O porta-aviões Ranger era equipado com a tecnologia mais moderna. Era a base de dezesseis aviões, quarenta oficiais e trezentos e cinqüenta praças. Os planos de vôo eram distribuídos três ou quatro horas antes do primeiro lançamento do dia.

Na seção de planejamento de vôo do centro de informações do navio, as últimas informações e fotos de reconhecimento eram entregues aos bombardeiros, que planejavam então os padrões de vôo.

— Mas que beleza nos deram esta manhã! — comentara Edward Whittaker, o bombardeiro de Robert.

Edward Whittaker parecia uma versão mais jovem do pai, mas tinha uma personalidade completamente diferente. Enquanto o almirante era uma figura formidável, distinto e austero, Edward era simples, efusivo e afável. Conquistara o seu lugar como ”apenas um dos homens”. Os companheiros perdoavam-no por ser o filho do comandante. Era o melhor bombardeiro da «esquadrilha, havia se tornado grande amigo de Robert.

— Para onde vamos? — indagara Robert.

— Por nossos pecados, vamos para Pacote Seis.

Era a mais perigosa de todas as missões. Significava voar para o norte, até Hanói, Haiphong e o delta do rio Vermelho, onde o fogo antiaéreo era o mais intenso. Havia um ardil-22 na situação. Não tinham permissão para bombardear alvos estratégicos se houvesse civis nas proximidades; e os norte-vietnamitas, que não eram estúpidos, imediatamente postaram civis em torno de todas as suas instalações militares. Houvera muitos protestos entre os militares aliados, mas o Presidente Lyndon Johnson, são e salvo em Washington, dava as ordens.

Os doze anos em que soldados dos Estados Unidos lutavam no Vietnam constituíam o período mais longo em que o país ficara em guerra. Robert Bellamy entrara na guerra ao final de 1972, quando a marinha enfrentava grandes problemas. Suas esquadrilhas de F-4 estavam sendo destruídas. Apesar de seus aviões serem superiores aos MiGs russos, a marinha americana estava perdendo um F-4 para cada dois MiGs derrubados. Era uma proporção inadmissível.

Robert fora chamado ao quartel-general do Almirante Ralph Whittaker.

— Mandou me chamar, almirante?

— Tem a reputação de ser um piloto competente, comandante. Preciso de sua ajuda.

— Pois não, senhor.

— Estamos sendo assassinados pelo inimigo. Mandei fazer uma análise meticulosa. Não há nada de errado com nossos aviões... o problema é o treinamento dos homens que os tripulam. Está me entendendo?

— Sim, senhor.

— Quero que pegue um grupo e o submeta a um novo treinamento de manobras e emprego de armamentos...

O novo grupo foi chamado de Top Gun, e não demorou muito para que a proporção deixasse de ser dois para um e se tornasse de doze para um. Ou seja, a cada dois F-4 perdidos, vinte e quatro MiGs eram derrubados. A missão consumira oito semanas de treinamento intensivo. O Comandante Bellamy finalmente retornara a seu navio. O Almirante Whittaker ali estava para cumprimentá-lo.

— Fez um excelente trabalho, comandante.

— Obrigado, almirante.

— Agora, vamos voltar ao trabalho.

— Estou pronto, senhor.

Robert voara trinta e quatro missões do Ranger sem incidentes. Sua trigésima-quinta missão era o Pacote Seis.

Passaram por Hanói e seguiam para noroeste, na direção de Phu Tho e Yen Bai. O fogo antiaéreo era cada vez mais intenso. Edward Whittaker sentava à direita de Robert, olhando para a tela do radar, escutando os tons sinistros dos radares de busca inimigos varrendo o céu.

Diretamente à frente, o céu parecia o espetáculo de fogos de artifício do Quatro de Julho, com a fumaça branca dos canhões leves lá embaixo, as explosões em cinza escuro das granadas de cem milímetros, e as balas rastreadoras coloridas das metralhadoras pesadas.

— Estamos nos aproximando do alvo — informara Robert. Sua voz, através dos fones, parecia estranhamente distante.

— OK.

O Intruder A-6A voava a 450 nós, e nessa velocidade, mesmo com o arrasto e o peso da carga de bombas, tinha um desempenho extraordinário, deslocando-se depressa demais para ser rastreado pelo inimigo.

Robert estendera a mão e acionara o controle mestre de armamento. As doze bombas de 250 quilos estavam agora prontas para serem lançadas. Ele seguia direto para o alvo. Uma voz surgira no rádio:

— Romeu... você tem um espantalho às quatro horas. Robert virara-se para olhar. Um MiG se aproximava, da direção do sol. Robert efetuara uma manobra de inclinação lateral e iniciara um mergulho íngreme. O MiG permanecera em seu encalço. Lançara um míssil. Robert verificara o painel de instrumentos. O míssil se aproximava rapidamente. Trezentos metros de distância... duzentos... cento e cinqüenta...

— Mas que merda! — berrara Edward. — O que estamos esperando?

Robert aguardara até o último segundo, depois lançara uma chuva de aparas de metal, ao mesmo tempo em que iniciava uma subida íngreme; o míssil seguiria as aparas, explodindo inofensivamente no solo.

— Obrigado, Deus — murmurara Edward. — E a você também, companheiro.

Robert continuara a subir, indo se postar por trás do MiG. O piloto inimigo ainda tentara manobras evasivas, mas já era tarde demais. Robert lançara um míssil Sidewinder, observarao alcançar a cauda do MiG e explodir. Um instante depois, o céu estava coalhado de fragmentos de metal. Uma voz dissera pelo interfone:

— Bom trabalho, Romeu.

O avião se encontrava sobre o alvo agora.

— Lá vamos nós! — gritara Edward.

Ele apertara o botão vermelho que lançava as bombas, observara-as caindo para o alvo. Missão cumprida. Robert iniciara a viagem de volta ao porta-aviões.

E fora nesse instante que eles haviam sentido o impacto. O bombardeiro veloz e ágil se tornara subitamente lerdo.

— Fomos atingidos! — anunciara Edward.

As luzes vermelhas de alerta de incêndio estavam piscando. O avião sacudia-se de maneira irregular, fora de controle. Uma voz soara pelo rádio:

— Romeu, aqui é Tigre. Quer que lhe demos cobertura? Robert tomara uma decisão de fração de segundo.

— Não precisa. Prossigam para seus alvos. Tentarei voltar à base.

O avião perdera velocidade num grau considerável, era cada vez mais difícil comandá-lo.

— Mais depressa — murmurara Edward, muito nervoso, —, ou vamos chegar atrasados para o almoço.

Robert olhara para o altímetro. A agulha baixava rapidamente. Ele ativara seu microfone do rádio.

— Romeu para a base. Fomos atingidos.

— Base para Romeu. Qual a extensão dos danos?

— Não tenho certeza. Acho que posso levá-lo para casa.

— Espere um instante. — A voz retornara um momento depois. — Seu sinal é ”Charlie chegando”.

Isso significava que estavam autorizados a pousar no portaaviões imediatamente.

— Entendido.

— Boa sorte.

O avião começara a entrar em rolamento. Robert esforçara-se para corrigi-lo, ao mesmo tempo em que tentava ganhar altitude.

— Vamos, meu bem, você pode conseguir. — O rosto de Robert estava tenso. Perdiam altitude muito depressa. — Qual é nosso ETA?

Edward verificara em seu painel.

— Sete minutos.

— Vou oferecer aquele almoço quente.

Robert conduzia o avião com toda a habilidade de que dispunha, usando o manete e o leme para tentar mantê-lo num curso reto. A altitude ainda baixava de maneira alarmante. Até que finalmente Robert avistara, à sua frente, as águas azuis faiscantes do golfo de Tonkin.

— Estamos em casa, companheiro — murmurara Robert. — Só mais uns poucos quilômetros.

— Maravilhoso! Nunca duvidei...

E fora nesse instante que dois MiGs, surgindo do nada, atacaram o avião, com um barulho ensurdecedor. As balas começaram a acertar a fuselagem.

— Eddie! Salte!

Robert se virara para olhar. Edward arriara contra o cinto de segurança, o lado direito do corpo dilacerado, o sangue espalhando-se pela carlinga.

— Não!

Era um grito. Um segundo depois, Robert sentira um golpe súbito e torturante no peito. O uniforme de vôo ficara prontamente encharcado de sangue. O avião começara a descer em espiral. Ele sentira que estava perdendo a consciência. Com o último pingo de força que lhe restava, soltara o cinto de segurança. Ainda se virará para um último olhar a Edward, balbuciando:

— Sinto muito.

Apagara então, e mais tarde não se lembrara como fora ejetado do avião, e caíra de pára-quedas no mar lá embaixo. Um chamado de Mayday fora transmitido, e um helicóptero Sikorsky SH-3A Sea King, do Yorktown, circulava pela área, esperando para recolhê-lo. A distância, a tripulação avistara juncos chineses se aproximando depressa, para o golpe de misericórdia; só que chegaram tarde demais.

Ao levarem Robert para o helicóptero, um paramédico olhara para seu corpo dilacerado e comentara:

— Santo Deus, ele nem conseguirá chegar ao hospital! Aplicaram-lhe uma injeção de morfina, puseram bandagens

de pressão em seu peito, e transportaram-no para o 12? Hospital de Evacuação, na base de Cu Chi.

O 12 Evac”, que servia às bases de Cu Chi, Tay Ninh e Dau Tieng, tinha quatrocentos leitos, em doze enfermarias, instaladas em galpões de metal, dispostos no formato de U, ligados por passagens cobertas. O hospital dispunha de duas unidades de tratamento intensivo, uma para casos de cirurgia, a outra de queimaduras, e cada unidade estava com excesso de lotação. Ao entrar, Robert deixara uma trilha de sangue no chão do hospital.

Um cirurgião assoberbado de trabalho removera as bandagens do peito de Robert, efetuara um exame rápido e dissera, cansado:

— Ele não vai sobreviver. Podem levá-lo para a enfermaria. E o médico se afastara.

Robert, perdendo e recuperando os sentidos a todo instante, ouvira a voz do médico de uma enorme distância. Então é isso, pensara ele. Que maneira horrível de morrer.

— Não quer morrer, não é mesmo, marujo? Abra os olhos. Vamos.

Ele abrira os olhos e vira uma imagem borrada de um uniforme branco e um rosto de mulher. Ela dissera mais alguma coisa, mas Robert não conseguira entender as palavras. Havia muito barulho na enfermaria, povoada por uma cacofonia de gritos e gemidos dos pacientes, médicos berrando ordens, enfermeiras correndo frenéticas de um lado para outro, cuidando dos corpos dilacerados.

A lembrança de Robert das quarenta e oito horas seguintes era a de um nevoeiro de dor e delírio. Só mais tarde é que ele soubera que a enfermeira, Susan Ward, persuadira um médico a operá-lo, e doara seu próprio sangue para uma transfusão. Lutando para mantê-lo vivo, colocaram três tubos intravenosos no corpo devastado de Robert, bombeando sangue por todos ao mesmo tempo. Concluída a operação, o cirurgião no comando deixara escapar um suspiro.

— Desperdiçamos o nosso tempo. Ele não tem mais do que dez por cento de chance de sobreviver.

Mas o médico não conhecia Robert Bellamy. E não conhecia Susan Ward. Robert tinha a impressão de que sempre que abria os olhos Susan se encontrava ali, segurando sua mão, afagando sua testa, cuidando dele, querendo que ele vivesse. Durante a maior parte do tempo, Robert permanecera em delírio. Susan sentava a seu lado na enfermaria escura, ao longo das noites solitárias, escutando suas divagações.

— ... O DOD está errado, não se pode seguir em perpendicular para o alvo, ou a gente acaba caindo no rio.... Diga a eles para calcularem os mergulhos alguns graus além do curso do alvo. ... Diga a eles...

E Susan murmurava, suavemente:

— Eu direi.

O corpo de Robert ficava encharcado de suor. Ela o limpava com uma esponja.

— ... Você tem de remover todos os cinco pinos de segurança, caso contrário o assento não será ejetado... Verifique-os...

— Está certo. Volte a dormir agora.

— ... As argolas do ejetor múltiplo estão com defeito... Só Deus sabe onde as bombas caíram...

Durante a metade do tempo, Susan Ward não conseguia entender o que seu paciente dizia.

Susan Ward era chefe das enfermeiras da sala de operações de emergência. Nascera numa pequena cidade de Idaho, crescera junto com o menino da casa ao lado, Frank Prescott, o filho do prefeito. Todos na cidade presumiam que os dois acabariam casando.

Susan tinha um irmão mais moço, Michael, a quem ela adorava. Ao completar dezoito anos, ele ingressara no exército, e fora mandado para o Vietnam. Susan escrevia-lhe todos os dias. Três meses depois, a família de Susan recebera um telegrama; ela sabia o que continha antes mesmo que fosse aberto. Ao saber da notícia, Frank Prescott viera correndo.

— Lamento profundamente, Susan. Eu gostava muito de Michael. — E depois ele cometera o erro de dizer: — Vamos casar logo.

Susan fitara-o nos olhos e tomara uma decisão.

— Não. Tenho de fazer algo importante com minha vida.

— Pelo amor de Deus! O que pode ser mais importante do que casar comigo?

A resposta era o Vietnam.

Susan Ward entrara na escola de enfermagem.

Estava no Vietnam há onze meses, trabalhando sem parar, quando o Comandante Robert Bellamy chegara ao hospital numa maça, condenado a morrer. A triagem era uma prática comum nos hospitais de evacuação de emergência. Os médicos examinavam dois ou três pacientes, e faziam julgamentos sumarios sobre qual tentariam salvar. Por razões que nunca ficaram muito claras para ela, Susan dera uma olhada no corpo dilacerado de Robert Bellamy, e concluíra que não podia deixá-lo morrer. Era seu irmão que ela tentava salvar? Ou seria outra coisa? Ela andava exausta, com excesso de trabalho, mas em vez de descansar nos momentos de folga, passava todo o tempo cuidando de Bellamy.

Susan dera uma olhada na ficha do paciente. Piloto e instrutor, um ás da marinha, ganhara a Cruz Naval. Nascera em Harvey, Illinois, uma pequena cidade industrial, ao sul de Chicago. Ingressara na marinha depois de concluir os dois anos do colegial, fizera o curso em Pensacola. Era solteiro.

Todos os dias, enquanto Robert Bellamy se recuperava, caminhando na frágil linha entre a vida e a morte, Susan lhe sussurrava:

— Vamos, marujo. Estou à sua espera.

Uma noite, seis dias depois de entrar no hospital, quando divagava em delírio, Robert sentara na cama subitamente, contemplara Susan e dissera, a voz firme e clara:

— Não é um sonho. Você é real. Susan sentira seu coração disparar.

— Isso mesmo, sou real.

— Pensei que estava sonhando. Pensei que fora para o paraíso, e Deus me entregara a seus cuidados.

Ela fitara Robert nos olhos, muito séria.

— Eu seria capaz de matá-lo, se morresse. Ele correra os olhos pela enfermaria apinhada.

— Onde... onde estou?

— No 12, Hospital de Evacuação, em Cu Chi.

— Há quanto tempo estou aqui?

— Seis dias.

— Eddie... ele...

— Sinto muito.

— Tenho de dizer ao almirante.

Susan pegara a mão de Robert e dissera, gentilmente:

— Ele sabe. Já esteve aqui para visitá-lo. Os olhos de Robert encheram-se de lágrimas.

— Odeio esta maldita guerra. Não tenho palavras para expressar o quanto a odeio.

Daquele momento em diante, a recuperação de Robert espantara os médicos. Todos os sinais vitais estabilizaram.

— Vamos tirá-lo daqui muito em breve — comunicaram a Susan.

E ela sentira uma pontada de angústia.

Robert jamais tivera certeza de quando exatamente se apaixonara por Susan Ward. Talvez fosse no momento em que ela lhe fazia curativos, ouviram bombas caindo, e Susan murmurara:

— Estão tocando a nossa canção.

Ou talvez tenha sido no momento em que comunicaram a Robert que já se encontrava em condições de ser transferido para o Hospital Walter Reed, em Washington, a fim de concluir sua convalescença, e Susan declarara:

— Acha mesmo que ficarei aqui, deixando que outra enfermeira cuide desse corpo maravilhoso? De jeito nenhum! Falarei com todo mundo para poder acompanhá-lo!

Casaram duas semanas depois. Robert levara um ano para se recuperar por completo. Susan atendia a todas as suas necessidades, dia e noite. Ele jamais conhecera alguém assim, nem sonhara que pudesse amar uma mulher com tanta intensidade. Amava sua compaixão e sensibilidade, sua paixão e vitalidade. Amava sua beleza e seu senso de humor. No primeiro aniversário de casamento, ele dissera:

— Você é a pessoa mais linda, mais maravilhosa e mais desprendida do mundo. Não há ninguém neste mundo com seu amor, espírito e inteligência.

E Susan o abraçara com força, sussurrando, em sua voz anasalada de corista:

— Você também é assim, tenho certeza. Partilhavam mais do que amor. Apreciavam sinceramente

e respeitavam um ao outro. Todos os amigos os invejavam, e com bons motivos. Sempre que se falava de um casamento perfeito, o exemplo invariável apresentado era o de Robert e Susan. Eram compatíveis sob todos os aspectos, almas irmãs que se completavam. Susan era a mulher mais sensual que Robert já conhecera, e eram capazes de inflamar um ao outro com um toque, uma palavra. Uma noite, quando tinham o compromisso de ir a um jantar formal, Robert se atrasara. Estava no chuveiro quando Susan entrara no banheiro, já maquilada, usando um adorável vestido longo, sem alças.

— Puxa, como você está atraente! — exclamara Robert. — É uma pena que não tenhamos mais tempo.

— Ora, não se preocupe com isso — murmurara Susan. E no instante seguinte ela tirara as roupas, entrara debaixo

do chuveiro, com Robert. Nunca foram ao jantar.

Susan sentia as necessidades de Robert quase antes mesmo de conhecê-las, e providenciava para que fossem satisfeitas. E Robert se mostrava igualmente atencioso com ela. Susan encontrava bilhetinhos de amor na penteadeira, ou em seus sapatos, quando ia calçá-los. Flores e pequenos presentes lhe eram entregues por qualquer pretexto, no Dia da Marmota, no aniversário de nascimento do Presidente Polk, no dia em que se comemorava a expedição de Lewis e Clark.

E o riso que partilhavam, o riso maravilhoso...

A voz do piloto soou pelo interfone:

— Estaremos pousando em Zurique dentro de dez minutos, comandante.

Os pensamentos de Robert Bellamy voltaram ao presente, à sua missão. Em quinze anos com o serviço secreto naval, ele estivera envolvido em dezenas de operações desafiadoras, mas aquela prometia ser a mais bizarra de todas. Viajava para a Suíça com a incumbência de descobrir os passageiros de um ônibus lotado, testemunhas anónimas que haviam desaparecido em pleno ar. É como procurar uma agulha num palheiro. E nem mesmo sei onde fica o palheiro. Onde se encontra Sherlock Holmes quando preciso dele?

— Pode prender o cinto de segurança, por favor?

O C20A voava sobre florestas escuras, e um momento depois deslizou sobre a pista delimitada pelas luzes de pouso do aeroporto internacional de Zurique. O avião taxiou para o lado leste do aeroporto, encaminhou-se para o pequeno prédio da General Aviation, longe do terminal principal. Ainda havia poças na pista de uma tempestade anterior, mas agora o céu noturno estava claro.

— Um tempo maluco — comentou o piloto. — Fez sol aqui no domingo, choveu durante todo o dia de hoje, e agora o céu limpou. Não se precisa de um relógio aqui, mas apenas de um barómetro. Quer que eu lhe providencie um carro, comandante?

— Não, obrigado.

Daquele momento em diante, ele estava sozinho, só devia contar consigo mesmo. Robert ficou observando até que o avião taxiou para longe, depois embarcou num mini-ônibus para o hotel do aeroporto, onde arriou num sono sem sonhos.

 

Dia Dois

08:00

Na manhã seguinte, Robert aproximou-se do recepcionista por trás do balcão da Europcar.

— Guten Tag.

Era um lembrete de que ele se encontrava na parte da Suíça que falava alemão.

— Guten Tag. Tem um carro disponível?

— Temos, sim, senhor. Por quanto tempo vai precisar? Boa pergunta. Uma hora? Um mês? Talvez um ou dois anos?

— Não tenho certeza.

— Pretende devolver o carro neste aeroporto?

— Possivelmente.

O recepcionista lançou-lhe um olhar estranho.

— Muito bem. Pode preencher estes formulários, por favor? Robert pagou o aluguel do carro com o cartão de crédito

preto especial que o General Hilliard lhe dera. O recepcionista examinou-o, perplexo, depois murmurou:

— Com licença.

Ele desapareceu numa sala por trás do balcão. Ao voltar, Robert perguntou:

— Algum problema?

— Não, senhor. Absolutamente nenhum.

O carro era um Opel Omega cinza. Robert pegou a estrada do aeroporto e seguiu para o centro de Zurique. Gostava da Suíça. Era um dos países mais bonitos do mundo. Esquiara ali anos antes. Em épocas mais recentes, efetuara missões no país, como oficial de ligação com a Abteilung Espionagem, o serviço de segurança suíço. Durante a Segunda Guerra Mundial, a agência fora organizada em três departamentos, D, P e I, cobrindo respectivamente a Alemanha, França e Itália. Agora, seu propósito principal relacionava-se com a descoberta de operações conduzidas dentro dos vários organismos da ONU instalados em Genebra. Robert tinha vários amigos na Abteilung, mas lembrou as palavras do General Hilliard: ”Não deve entrar em contato com nenhum deles.”

A viagem para a cidade demorou vinte e cinco minutos. Robert entrou na rampa de saída para o centro chamada Dübendorf, e seguiu para o Dolder Grand Hotel. Era exatamente como o recordava: um enorme chateou suíço com torrinhas, imponente e impressivo, cercado por jardins, com uma vista para o lago Zurique. Ele estacionou o carro e entrou no saguão. A recepção ficava à esquerda.

— Guíen Tag.

— Guten Tag. Haben Sie ein Zimmerfür eine Nacht?

— Já. Wie mõchten Sie bezahlen?

— Mit Kreditkarte.

O cartão de crédito preto e branco entregue pelo General Hilliard. Robert pediu um mapa da Suíça, e foi conduzido a um quarto confortável, na ala nova do hotel. Tinha uma pequena varanda, dando para o lago. Robert saiu para a varanda, respirando o ar frio do outono, pensando na missão que tinha pela frente.

Não tinha coisa alguma em que se basear. Absolutamente nada. Todos os fatores da equação daquela missão eram completamente desconhecidos. O número de passageiros. Seus nomes e paradeiros. ”Todas as testemunhas estão na Suíça?” ”Esse é o nosso problema. Não temos a menor idéia de onde estão, ou quem são.” A única informação de que ele dispunha era o lugar e a data: Uetendorf, domingo, 14 de outubro.

Precisava de uma alça, algo em que pudesse se segurar.

Se bem lembrava, os ônibus turísticos partiam apenas de duas grandes cidades: Zurique e Genebra. Robert abriu uma gaveta na mesa e retirou o volumoso Telefonbuch. Eu deveria procurar em M, para milagre, pensou ele. Havia mais de meia dúzia de companhias de excursões turísticas relacionadas: Sunshine Tours, Swisstour, Tour Service, Touralpino, Tourisma Reisen... Teria de verificar todas. Ele anotou os endereços das empresas, seguiu de carro para o escritório da mais próxima.

Havia dois funcionários por trás do balcão, atendendo aos turistas. Assim que um deles ficou livre, Robert disse:

— Com licença. Minha esposa participou de uma de suas excursões no domingo passado, e esqueceu a bolsa no ônibus. Acho que ficou excitada por ter visto o balão meteorológico que caiu perto de Uetendorf.

o funcionário franziu o rosto.

— Est tut mir viel leid. Deve estar enganado. Nossas excursões nem chegam perto de Uetendorf.

— Desculpe. Primeiro ponto.

A escala seguinte prometia ser mais proveitosa.

— Suas excursões passam por Uetendorf?

— Claro. — O homem sorriu. — Nossas excursões vão a todos os cantos da Suíça. São as mais espetaculares. Temos uma excursão para Zermalt, muito especial. Há também a Excursão das Geleiras. A Grande Excursão Circular parte dentro de quinze minutos...

— Teve uma excursão no domingo que parou para observar aquele balão meteorológico que caiu? Sei que minha esposa se atrasou na volta ao hotel e...

O funcionário por trás do balcão protestou, indignado:

— Temos o maior orgulho do fato de que nossas excursões nunca atrasam. Não fazemos paradas imprevistas.

— Quer dizer que um de seus ônibus não parou para observar aquele balão meteorológico?

— Claro que não!

— Obrigado. Segundo ponto.

O terceiro escritório visitado por Robert ficava na Bahnhofplatz, a placa na porta indicava Sunshine Tours. Robert aproximou-se do balcão.

— Boa tarde. Eu queria perguntar sobre um de seus ônibus de excursão. Soube que um balão meteorológico caiu perto de Uetendorf, e seu motorista parou durante meia hora, a fim de que os passageiros pudessem dar uma olhada.

— Não, não! Ele só parou por quinze minutos. Temos regras rigorosas.

Bingo!

— Posso lhe perguntar qual é o seu interesse nisso? Robert tirou do bolso um dos documentos de identificação

que recebera.

— Sou repórter e estou preparando uma reportagem para a revista Travei and Leisure sobre a eficiência dos ônibus na Suíça, em comparação com outros países. Será que eu poderia entrevistar o motorista?

— Seria de fato uma matéria muito interessante. Nós, suíços, nos orgulhamos de nossa eficiência.

— E esse orgulho é bem merecido — garantiu Robert.

— O nome de nossa empresa seria mencionado?

— Com destaque.

O recepcionista sorriu.

— Então não vejo mal algum.

— Eu poderia falar com ele agora?

— Hoje é seu dia de folga.

Ele escreveu um nome num pedaço de papel. Robert Bellamy leu-o de cabeça para baixo. Hans Beckerman. O recepcionista acrescentou um endereço.

— Ele mora em Kappel. É uma pequena aldeia a cerca de quarenta quilômetros de Zurique. Deve encontrá-lo em casa agora.

Robert Bellamy pegou o papel.

— Muito obrigado. Por falar nisso, só para termos todos os fatos da história, tem um registro de quantas passagens vendeu para essa excursão em particular?

— Claro. Mantemos registros de todas as nossas excursões. Espere um instante. — Ele pegou um livro embaixo do balcão e virou algumas páginas. — Ah, aqui está, domingo, Hans Beckerman. Havia sete passageiros. Ele guiou o Iveco naquele dia, o ônibus pequeno.

Sete passageiros desconhecidos e o motorista. Robert resolveu disparar um tiro no escuro.

— Por acaso tem os nomes desses passageiros?

— Senhor, as pessoas vêm da rua, compram a passagem, entram na excursão. Não pedimos uma identificação.

Maravilhoso.

— Obrigado, mais uma vez.

Robert encaminhou-se para a porta. O recepcionista acrescentou:

— Espero que nos mande uma cópia da reportagem.

— Claro.

A primeira peça do quebra-cabeças era o ônibus da excursão. Robert foi à Talstrasse, de onde os ônibus partiam, como se pensasse que poderia encontrar ali alguma pista oculta. O ônibus Iveco era marrom e prateado, bastante pequeno para percorrer as íngremes estradas alpinas, com assentos para quatorze passageiros. Quem são os sete, e para onde desapareceram? Robert voltou a seu carro. Estudou o mapa, fez as marcações. Saiu da cidade pela Lavesneralle, entrou na Albis, no começo dos Alpes, a caminho da aldeia de Kappel. Seguiu para o sul, passando pelas colinas baixas que cercavam Zurique, começou a subir para a magnífica cordilheira que eram os Alpes. Passou por Adliswil, Langnau e Hausen, por povoados anônimos, com chalés e paisagens de cartão-postal. Chegou a Kappel quase uma hora depois. A pequena aldeia consistia em um restaurante, uma igreja, uma agência dos correios, e uma dúzia ou pouco mais de casas, espalhadas pelas colinas. Robert estacionou o carro e entrou no restaurante. Uma garçonete limpava uma mesa, perto da porta.

— Entschuldigen Sie bitte, Frãulein. Welche Richtung ist das Haus von Herr Beckerman?

— Já. — Ela apontou pela estrada. — An derKirche rechts.

— Danke.

Robert virou à direita ao chegar à igreja, seguiu até uma modesta casa de pedra, com dois andares, e telhado de cerâmica.

Saiu do carro e foi até a porta. Não viu nenhuma campainha e bateu. Uma mulher corpulenta, com a insinuação de um bigode, abriu a porta.

— Já?

— Desculpe incomodá-la. O sr. Beckerman está? Ela fitou-o com uma expressão desconfiada.

— O que quer com ele?

Robert ofereceu-lhe um sorriso cativante.

— Deve ser a sra. Beckerman. — Ele tirou do bolso a carteira de identificação de repórter. — Estou fazendo uma reportagem para uma revista sobre os motoristas de ônibus suíços. Seu marido foi recomendado à minha revista como um dos que possuem os melhores registros de segurança no país.

A mulher se animou no mesmo instante e declarou, orgulhosa:

— Meu Hans é um excelente motorista.

— É o que todos me disseram, sra. Beckerman. Eu gostaria de entrevistá-lo.

— Uma entrevista com meu Hans para uma revista? — Ela estava atordoada. — Mas isso é emocionante! Entre, por favor!

Ela levou Robert a uma sala de estar pequena, mas impecável.

— Espere aqui, bitte. Vou chamar Hans.

A casa tinha um teto baixo, as vigas à mostra, chão de madeira escura, móveis simples de madeira. Havia uma pequena lareira de pedra, cortinas de rendas nas janelas.

Robert ficou parado ali, pensando. Aquela era não apenas a sua melhor pista, mas também a única. ”As pessoas vêm da rua, compram a passagem, entram na excursão. Não pedimos identificação... ”Não há lugar para ir daqui, pensou Robert, sombriamente. Se isso não der certo, sempre posso publicar um anúncio: Os sete passageiros do ônibus de excursão que viram um balão meteorológico cair no domingo devem se reunir em meu quarto de hotel, ao meio-dia de amanhã. Será servido um lanche.

Um homem magro e calvo apareceu. A pele era pálida, e ostentava um enorme bigode preto que constituía uma enorme discordância do resto de sua aparência.

— Boa tarde, Herr...

— Smith. Boa tarde. — A voz de Robert era animada. — Não imagina como eu estava ansioso em conhecê-lo, sr. Beckerman.

— Minha esposa me disse que está escrevendo uma matéria sobre os motoristas.

Ele falava com um carregado sotaque alemão. Robert sorriu, insinuante.

— Isso mesmo. Minha revista está interessada em sua maravilhosa folha corrida...

— Scheissdreck! — interrompeu Beckerman, bruscamente, — Está interessado mesmo é na coisa que caiu na tarde de ontem, não é?

Robert conseguiu parecer desconcertado.

— Para ser franco, estou muito interessado em conversar sobre isso também.

— Então por que não disse logo? Sente-se.

— Obrigado.

Robert sentou no sofá. Beckerman disse:

— Lamento não poder lhe oferecer um drinque, mas não temos mais schnapps em casa. — Ele bateu com a mão na barriga. — Úlcera. Os médicos não podem sequer me dar remédios para aliviar a dor. Sou alérgico a todos.

Ele sentou na frente de Robert, acrescentando:

— Mas não veio até aqui para falar sobre a minha saúde, não é? O que deseja saber?

— Quero falar sobre os passageiros que estavam em seu ônibus no domingo, quando parou perto de Uetendorf, no local da queda do balão meteorológico.

Hans Beckerman fitou-o espantado.

— Balão meteorológico? Que balão meteorológico? Mas do que está falando?

— O balão que...

— Está se referindo à espaçonave. Foi a vez de Robert ficar espantado.

— A... espaçonavel

— Já, o disco voador.

Robert levou um momento para absorver as palavras. Sentiu um calafrio.

— Está me dizendo que viu um disco voador?

— Já. Com corpos mortos lá dentro.

”Ontem, um balão meteorológico da OTAN caiu nos Alpes suíços. Havia alguns artefatos militares experimentais no balão que são altamente secretos.” Robert tentou parecer calmo.

— Si. Beckerman, tem certeza de que o que viu era mesmo um disco voador?

— Claro. O que eles chamam de OVNI.

— E havia pessoas mortas lá dentro?

— Pessoas, não. Criaturas. É difícil descrevê-las. — Ele estremeceu ligeiramente. — Eram muito pequenas, com olhos enormes e esquisitos. Vestiam trajes de uma cor prateada metálica. Foi bastante assustador.

A mente de Robert era um turbilhão.

— Seus passageiros também viram isso?

— Oh, já. Todos viram. Fiquei parado ali durante cerca de quinze minutos. Eles queriam que eu ficasse por mais tempo, mas a companhia é muito rigorosa com os horários.

Robert sabia que a pergunta era inútil, antes mesmo de formulá-la:

— Sr. Beckerman, por acaso sabe os nomes de seus passageiros?

— Mister, apenas dirijo um ônibus. Os passageiros compram uma passagem em Zurique, e iniciamos uma excursão para sudoeste, até Interlaken, e depois para noroeste, até Berna. Eles podem desembarcar em Berna, ou voltar a Zurique. Ninguém me dá seu nome.

Robert insistiu, desesperado:

— Não há a menor possibilidade de poder identificar nenhum deles?

O motorista do ônibus pensou por um momento.

— Bom, posso lhe dizer que não havia crianças naquela excursão. Apenas homens.

— Só homens?

Beckerman pensou mais um pouco.

— Não. Isso não é o certo. Havia uma mulher também Sensacional. Isso reduz bastante as possibilidades, pensou

Robert. Próxima pergunta: Por que aceitei essa missão?

— O que está dizendo, sr. Beckerman, é que um grupo de turistas embarcou em seu ônibus, em Zurique, e depois, quando a excursão terminou, simplesmente se dispersou?

— Isso mesmo, sr. Smith.

Então não havia sequer um palheiro.

— Lembra de qualquer coisa sobre os passageiros? Algo que eles disseram ou fizeram?

Beckerman sacudiu a cabeça.

— Mister, ficamos tão acostumados que nem prestamos mais qualquer atenção aos passageiros. A menos que eles causem algum problema. Como aquele alemão.

Robert ficou imóvel, e perguntou baixinho:

— Que alemão?

— Affenarsch! Todos os outros passageiros ficaram excitados ao verem o OVNI e aquelas criaturas mortas no interior, mas o velho se queixou que tínhamos de nos apressar para chegar a Berna, porque precisava preparar uma palestra que faria na universidade pela manhã.

Um começo.

— Lembra mais alguma coisa a respeito dele?

— Não.

— Absolutamente nada?

— Ele usava um sobretudo preto. Ótimo.

— Sr. Beckerman, quero lhe pedir um favor. Importa-se de ir comigo até Uetendorf?

— É meu dia de folga. Estou ocupado...

— Terei o maior prazer em lhe pagar pelo serviço.

— Já?

— Duzentos marcos.

— Eu não...

— Aumentarei para quatrocentos marcos. Beckerman pensou por um momento.

— Por que não? É um belo dia para um passeio, nichtl Seguiram para o sul, passando por Luzern e as pitorescas

aldeias de Immensee e Meggen. A paisagem era de uma beleza deslumbrante, mas Robert tinha outras coisas na cabeça. Passaram por Engelberg, com seu antigo mosteiro beneditino, e Brünig, o passo que levava a Interlaken. Passaram por Leissigen e Faulensee, com seu adorável lago azul, pontilhado por barcos de velas brancas.

— Ainda está muito longe? — perguntou Robert.

— Já estamos chegando — assegurou Hans Beckerman. Viajavam há quase uma hora quando chegaram a Spiez.

Hans Beckerman informou:

— Não está longe agora. Fica logo depois de Thun.

Robert sentiu o coração começar a bater mais depressa. Estava prestes a testemunhar algo muito além da imaginação, visitantes alienígenas das estrelas. Passaram pela pequena aldeia de Thun, e poucos minutos depois, ao se aproximarem de um agrupamento de árvores, no outro lado da estrada, Hans Beckerman apontou e disse:

— Ali!

Robert experimentava um crescente excitamento.

— Certo. Vamos dar uma olhada.

Um caminhão se aproximava em grande velocidade. Depois que passou, Robert e Hans Beckerman atravessaram a estrada. Robert seguiu o motorista de ônibus por um pequeno aclive para o meio das árvores.

A estrada se encontrava agora completamente fora de vista. Ao entrarem numa clareira, Beckerman anunciou:

— É bem ali.

No chão, à frente deles, havia os restos dilacerados de um balão meteorológico.

 

 Estou ficando velho demais para essas coisas, pensou Robert, cansado. Já começava realmente a acreditar no conto de fadas do disco voador.

Hans Beckerman olhava aturdido para o objeto no chão, com uma expressão confusa.

— Verfalschen! Não é isso o que vimos! Robert suspirou.

— Não é?

Beckerman sacudiu a cabeça.

— Estava aqui ontem.

— Seus homenzinhos verdes provavelmente saíram voando nele.

Beckerman era teimoso.

— Não, não. Ambos estavam tot... mortos.

Tot... mortos. É um bom sumário para minha missão. Minha única pista é um velho maluco que vê espaçonaves.

Robert aproximou-se do balão para examiná-lo mais atentamente. Era um envelope de alumínio enorme, com cerca de quatro metros de diâmetro, as beiras serreadas, onde rasgara ao bater no solo. Todos os instrumentos haviam sido removidos, como o General Hilliard lhe dissera. ”Não tenho palavras suficientes para ressaltar a importância do que havia no balão.”

Robert circulou o balão murcho, os sapatos guinchando na relva molhada, procurando por qualquer coisa que pudesse constituir uma pista, por menor que fosse. Nada. Era idêntico a dezenas de outros balões meteorológicos que ele já vira ao longo dos anos. O velho ainda não desistira, com uma típica obstinação germânica.

— Essas coisas alienígenas... Fizeram com que parecesse assim. Podem fazer isso, já deve saber.

Não há mais nada a se fazer aqui, concluiu Robert. Suas meias haviam ficado encharcadas, da passagem pela relva molhada. Ele começou a se afastar, depois hesitou, um pensamento lhe ocorrendo. Voltou ao balão.

— Levante um canto disso, está bem? Beckerman fitou-o, surpreso.

— Deseja que eu levante?

— Bitte.

Beckerman deu de ombros. Pegou um canto do material muito leve e levantou, enquanto Robert suspendia outro canto. Robert ergueu o pedaço de alumínio por cima da cabeça, avançou por baixo, na direção do centro do balão. Os pés afundavam na relva.

— Está molhado aqui embaixo! — gritou ele.

— Claro. — O Dummkopf ficou por dizer. — Choveu durante todo o dia de ontem. O solo inteiro ficou molhado.

Robert saiu debaixo do balão.

— Deveria estar seco.

”Um tempo maluco”, comentara o piloto. ”Fez sol aqui no domingo.” O dia em que o balão caíra. ”Choveu durante todo o dia de hoje, e agora o céu limpou. Não se precisa de um relógio aqui, mas apenas de um barómetro.”

— E daí?

— Como estava o tempo quando vocês viram o OVNI? Beckerman pensou por um momento.

— Era uma tarde de sol.

— De sol?

— Já. De sol.

— Mas choveu durante todo o dia de ontem’’ Beckerman estava perplexo.

— E daí?

— Se o balão estivesse aqui durante toda a noite, o solo por baixo ficaria seco... ou úmido, no máximo, através da osmose. Mas se encontra encharcado, como o resto desta área.

Beckerman fitava-o fixamente.

— Não entendo. O que isso significa?

— Pode significar que alguém pôs este balão aqui ontem, depois que a chuva começou, e levou o que você viu.

Ou haveria alguma outra explicação mais racional, em que ele não pensara?

— Quem poderia fazer uma coisa tão absurda?

Não é tão absurda assim, pensou Robert. O governo suíço pode ter feito isso, para enganar visitantes curiosos. O primeiro estratagema de uma operação para encobrir algo é a desinformação. Robert circulou pela relva molhada, examinando o terreno, censurando a si mesmo por ser um idiota tão crédulo. Hans Beckerman observava-o com crescente desconfiança.

— Qual é mesmo a revista para a qual trabalha?

— Travei and Leisure. Hans Beckerman se animou.

— Ah, então creio que vai querer uma fotografia minha, como o outro cara.

Robert sentiu um calafrio.

— Que outro cara?

— O fotógrafo que tirou fotos de todos nós junto aos destroços. Ele disse que nos mandaria cópias. E alguns passageiros também estavam com câmeras.

— Espere um instante — disse Robert, lentamente. — Está querendo dizer que alguém tirou uma fotografia dos passageiros bem aqui, na frente do OVNI?

— Exatamente.

— E ele prometeu mandar uma cópia para cada um?

— Isso mesmo.

— Então ele deve ter anotado os nomes e endereços.

— Claro. De outra maneira, como poderia saber para onde mandar as fotos?

Robert estava imóvel, dominado por um sentimento de euforia. Um golpe de sorte, Robert, seu filho da puta afortunado!

Uma missão impossível tornava-se de repente muito fácil. Ele não mais procurava por sete passageiros desconhecidos. Só precisava descobrir o fotógrafo.

— Por que não o mencionou antes, sr. Beckerman?

— Perguntou sobre os passageiros.

— E ele não era um passageiro? Hans Beckerman sacudiu a cabeça.

— Nein. — Ele apontou. — Seu carro estava enguiçado no outro lado da estrada. Um caminhão-reboque começava a suspendê-lo. Houve o estrondo, ele atravessou correndo a estrada para ver o que estava acontecendo. Ao descobrir o que era, o cara voltou correndo para seu carro, a fim de buscar suas câmeras. E depois pediu a todos nós para posarmos na frente do disco voador.

— Esse fotógrafo disse o nome?

— Não.

— Lembra alguma coisa sobre ele? Hans Beckerman concentrou-se.

— Ele era estrangeiro. Americano ou inglês.

— Disse que um caminhão-reboque se preparava para levar o carro dele?

— Isso mesmo.

— Lembra em que direção o caminhão seguiu?

— Foi para o norte, Calculei que rebocaria o carro até Berna. Thun fica mais perto, mas todas as suas oficinas estão fechadas aos domingos.

Robert sorriu.

— Obrigado. Ajudou-me muito.

— Não vai esquecer de me mandar a reportagem quando

sair?

— Claro que não. Aqui está seu dinheiro, e mais cem marcos por ter sido tão útil. E agora vou levá-lo de volta para casa.

Encaminharam-se para o carro. Beckerman abriu a porta, parou, virou-se para Robert.

— Foi muito generoso.

Ele tirou do bolso um pequeno pedaço de metal, retangular, do tamanho de um isqueiro, contendo um pequeno cristal branco.

— O que é isto?

— Encontrei no chão, no domingo, antes de voltarmos ao ônibus.

Robert examinou o estranho objeto. Era tão leve quanto papel, da cor de areia. Uma beirada áspera num lado indicava que podia ter sido parte de outra peça. Parte do equipamento que estava num balão meteorológico. Ou parte de um OVNI?

— Talvez lhe dê sorte — acrescentou Beckerman, enquanto guardava na carteira as notas que Robert lhe entregara. — Sem dúvida trouxe para mim.

Ele sorriu satisfeito, e entrou no carro.

Estava na hora de fazer a si mesmo a pergunta objetiva: Acredito realmente em OVNIs? Já lera muitas histórias delirantes nos jornais sobre pessoas que alegavam ter entrado em espaçonaves, passando pelas experiências mais esquisitas, e sempre atribuíra tais relatos a gente que queria publicidade, ou devia ser entregue aos cuidados de um bom psiquiatra. Nos últimos anos, porém, houvera relatos que não podiam ser descartados com tanta facilidade. Relatos de OVNIs avistados por astronautas, pilotos da força aérea e policiais, pessoas com credibilidade, que detestavam a publicidade. Além disso, houvera o relato perturbador do acidente com um OVNI em Roswell, Novo México, quando se teria encontrado corpos de alienígenas. O governo, ao que se dizia, abafara o caso, removendo todas as provas. Durante a Segunda Guerra Mundial, pilotos haviam informado terem avistado estranhos objetos, a que chamavam de caças Foo, objetos não-identificados que passavam zunindo, para desaparecerem em seguida. Havia histórias de cidades visitadas por objetos inexplicáveis, que haviam chegado a toda velocidade pelo céu. E se houver de fato alienígenas em OVNIs, procedentes de outra galáxia?, especulou Robert. Como isso afetaria nosso mundo? Traria a paz? A guerra? O fim da civilização como a conhecemos? Ele se descobriu quase a torcer para que Hans Beckerman fosse um lunático desvairado, e para que a coisa que caíra ali fosse mesmo um balão meteorológico. Teria de encontrar outra testemunha, para confirmar a história de Becker ou refutá-la. À primeira vista, a história parecia inacreditável; mas havia algo que incomodava Robert. Se fosse apenas um balão meteorológico que caiu aqui, mesmo que contivesse equipamentos especiais, por que fui convocado a uma reunião na Agência de Segurança Nacional às seis horas da manhã, e informado de que era urgente que todas as testemunhas fossem encontradas, o mais depressa possível? Seria uma cobertura? E se fosse... por quê?

 

Mais tarde, naquele mesmo dia, houve um encontro com a imprensa em Genebra, nas austeras dependências do ministério do interior suíço. Havia mais de cinqüenta repórteres na sala, e muitos outros que transbordavam para o corredor. Havia representantes de televisão, rádio e imprensa de mais de uma dúzia de países, muitos munidos de microfones e câmeras. Todos pareciam falar ao mesmo tempo.

— Recebemos informações de que não foi um balão meteorológico...

— É verdade que foi um disco voador?

— Há rumores de que foram encontrados corpos de alienígenas na nave...

— Algum dos alienígenas estava vivo?

— O governo está tentando esconder a verdade do povo? O secretário de imprensa alteou a voz para recuperar o

controle.

— Senhoras e senhores, houve um simples mal-entendido. Estamos sempre recebendo avisos. As pessoas vêem satélites, estrelas cadentes... Não é sintomático que todos os relatos sobre OVNIs sejam feitos de forma anónima? Talvez essa pessoa acreditasse sinceramente que era um OVNI, mas na verdade foi mesmo um balão meteorológico que caiu. Já providenciamos o transporte de todos até o local. Se quiserem me acompanhar, por favor...

Quinze minutos depois, dois ônibus cheios de repórteres e câmeras de televisão estavam a caminho de Uetendorf, a fim de observar o que restava da queda de um balão meteorológico. Quando chegaram, pararam na relva molhada, contemplando o envelope metálico todo arrebentado. O secretário de imprensa disse:

— Este é o misterioso disco voador. Foi lançado ao céu de nossa base aérea em Vevey. Ao nosso conhecimento, senhoras e senhores, não existem objetos voadores não-identificados que nosso governo não possa explicar de modo satisfatório. Também ao nosso conhecimento, não existem extraterrestres visitando o nosso planeta. A política inabalável de nosso governo é comunicar imediatamente ao público se encontrarmos alguma prova em contrário. Se não há mais perguntas...

 

O hangar 17, na base da força aérea em Langley, Virgínia, estava envolto pela mais rígida e absoluta segurança. No lado de fora, quatro fuzileiros armados guardavam o perímetro do prédio; lá dentro, oficiais superiores do exército mantinham turnos de vigia alternados, de oito horas para cada um, vigiando uma sala lacrada, no interior do hangar. Nenhum dos oficiais sabia o que estava guardando. Além dos cientistas e médicos que trabalhavam ali, apenas três visitantes tiveram permissão para entrar na câmara.

O quarto visitante acabara de chegar. Foi recebido pelo General Paxton, o oficial no comando da segurança.

— Seja bem-vindo a nosso zoológico.

— Há muito tempo que eu aguardava por essa oportunidade.

— Não ficará desapontado. Por aqui, por favor.

Do lado de fora da câmara lacrada havia uma prateleira com quatro trajes brancos, esterilizados, que cobriam inteiramente o corpo.

— Pode vestir um desses trajes, por favor? — pediu o general.

— Pois não.

Janus vestiu o traje por cima do terno. Apenas o rosto era visível, através da máscara de vidro. Ele calçou as chinelas brancas enormes por cima dos sapatos, e o general conduziu-o até a entrada da câmara secreta. O fuzileiro de guarda ali deu um passo para o lado, e o general abriu a porta.

— Pode entrar.

Janus entrou na câmara e olhou ao redor. No centro da sala estava a espaçonave. Sobre as mesas brancas de autópsia, no outro, estavam os corpos dos dois alienígenas. Um patologista efetuava uma autópsia num deles.

O General Paxton orientou a atenção do visitante para a espaçonave.

— Temos aqui o que acreditamos ser uma nave de reconhecimento — explicou o General Paxton. — Temos certeza de que possui alguma forma de comunicação com a nave-mãe.

Os dois homens se adiantaram para examinar a espaçonave. Tinha cerca de dez metros de diâmetro. O interior tinha o formato de uma pérola, com um teto expansível, e continha três divãs, que pareciam poltronas reclináveis. As paredes eram cobertas por painéis, com discos de metal que vibravam.

— Há muita coisa aqui que ainda não conseguimos entender — admitiu o General Paxton. — Mas o que já descobrimos é espantoso. — Ele apontou para um conjunto de equipamentos, em pequenos painéis. — Há um sistema ótico integrado de campo de visão amplo, o que parece ser um sistema de exame de funções vitais, um sistema de comunicação com capacidade de sintetizar a voz, e um sistema de navegação que, para ser franco, está nos deixando perplexos. Achamos que funciona na base de alguma pulsação eletromagnética.

— Alguma arma a bordo? — perguntou Janus.

O General Paxton abriu os braços, num gesto de derrota.

— Não temos certeza. Há muitas coisas que ainda nem começamos a entender

— Qual é a fonte de energia?

— Nosso melhor palpite é de que usa hidrogénio monoatômico num circuito fechado, a fim de que o seu refugo, água, possa ser continuamente reciclado em hidrogénio para energia. Com toda essa energia perpétua, pode percorrer o espaço interplanetário. Talvez se passem anos antes que decifremos todos os segredos aqui. E há mais uma coisa que é desconcertante. Os corpos dos dois alienígenas estavam presos nos divãs. Mas as depressões no terceiro divã indicam que também se achava ocupado.

— Está querendo dizer que um deles pode ter desaparecido?

— É o que parece.

Janus ficou imóvel por um instante, o rosto franzido.

— Vamos dar uma olhada em nossos invasores.

Os dois homens se encaminharam para as mesas em que se encontravam os alienígenas. Janus parou, contemplando as es tranhas figuras. Era incrível que coisas tão diferentes da humanidade pudessem existir como seres conscientes. A testa dos alienígenas era maior do que ele esperava. As criaturas eram completamente calvas, sem pestanas nem pálpebras. Os olhos pareciam bolas de pingue-pongue. O médico que efetuava a autópsia levantou os olhos à aproximação dos dois homens, comentando:

— É fascinante. A mão de um dos alienígenas foi cortada. Não há sinal de sangue, mas encontramos o que parecem ser veias, contendo um líquido verde. A maior parte foi drenada.

— Um líquido verde? — murmurou Janus.

— Isso mesmo. — O médico hesitou. — Acreditamos que essas criaturas são uma forma de vida vegetal.

— Um vegetal pensante? Fala sério?

— Observe isto.

O médico pegou um regador, e despejou um pouco de água no braço do alienígena sem a mão. E-dcrepente, na extremidade do braço, uma matéria verde escorreu, e lentamente começou a se transformar numa mão. Os dois homens ficaram chocados.

— Santo Deus! Essas coisas estão mortas ou não?

— É uma pergunta interessante. Essas duas figuras não estão vivas, no sentido humano, mas também não se ajustam à nossa definição de morte. Eu diria que se encontram em hibernação.

Janus ainda olhava fixamente para a mão recém-formada.

— Muitas plantas demonstram várias formas de inteligência.

— Inteligência?

— Isso mesmo. Há plantas que se disfarçam, se protegem. Neste momento, estamos realizando algumas experiências espantosas com a vida vegetal.

— Eu gostaria de assistir a essas experiências — disse Janus.

— Claro. Terei o maior prazer em providenciar.

O enorme laboratório-estufa ficava num complexo de prédios do governo, a cerca de cinqüenta quilômetros de Washington, D.C. Na parede estava pendurada uma inscrição que dizia:

Os bordos e samambaias ainda não foram corrompidos, mas quando adquirirem a consciência, sem a menor dúvida, também vão maldizer e blasfemar.

— Ralph Waldo Emerson Nature, 1836

O Professor Rachman, que estava no comando do complexo, era um autêntico gnomo sábio, transbordando de entusiasmo por sua profissão.

— Charles Darwin foi o primeiro a perceber a capacidade de pensar das plantas. Luther Burbank seguiu-o, conseguindo se comunicar com as plantas.

— Acha mesmo que isso é possível?

— Sabemos que é. George Washington Carver comunicavase com as plantas, que lhe deram centenas de novos produtos. Carver disse: ”Quando toco numa flor, estou tocando no Infinito. As flores já existiam muito antes de haver seres humanos neste mundo, e continuarão a existir por milhões de anos depois. Através da flor, falo com o Infinito...”

Janus correu os olhos pela vasta estufa em que se encontravam. Estava cheia de plantas e flores exóticas, com as cores do arco-íris. A mistura de perfumes era inebriante.

— Tudo aqui está vivo — acrescentou o Professor Rachman. — Estas plantas podem sentir amor, ódio, dor, excitamento... exatamente como os animais. Sir Jagadis Chandra Bose provou que reagem a um tom de voz.

— Como se pode provar algo assim? — indagou Janus.

— Terei o maior prazer em demonstrar.

Rachman foi até uma mesa coberta por plantas. Ao lado da mesa havia um polígrafo. Ele pegou um dos eletrodos, prendeu-o numa planta. A agulha no mostrador do polígrafo estava imóvel.

— Observe agora — disse Rachman. Ele inclinou-se para a planta e sussurrou:

— Acho você muito bonita. É mais bonita do que todas as outras plantas aqui...

Janus viu a agulha se deslocar ligeiramente. E, de repente, o Professor Rachman gritou para a planta:

— Você é horrível! E vai morrer! Está me entendendo? Vai morrer!

A agulha começou a tremer, depois subiu abruptamente.

— Santo Deus! — murmurou Janus. — Não posso acreditar!

— O que está vendo aqui — explicou Rachman — é o equivalente aos gritos de um ser humano. Diversas revistas nacionais já publicaram artigos sobre estas experiências. Uma das mais interessantes foi conduzida por seis estudantes. Um deles, sem que os outros soubessem, foi escolhido para entrar numa sala em que havia duas plantas, uma das quais ligada a um polígrafo. Ele destruiu completamente a outra planta. Mais tarde, um a um, os estudantes entraram na sala. À entrada dos inocentes, o polígrafo nada registrou. Mas no momento em que o culpado apareceu, a agulha do polígrafo disparou.

— É inacreditável!

— Mas verdadeiro. Também descobrimos que as plantas reagem a tipos diferentes de música.

— Tipos diferentes!

— Isso mesmo. Realizaram uma experiência no Temple Buell College, em Denver, em que flores saudáveis foram colocadas em três caixas de vidro separadas. O chamado rock da pesada foi tocado numa caixa, uma suave música indiana de citara na segunda, e na terceira não houve qualquer música. Uma equipe da CBS registrou a experiência, usando a fotografia automática a intervalos. Ao final de duas semanas, as flores expostas ao rock haviam morrido, o grupo sem música se desenvolvia normalmente, e as que tinham ouvido a música de citara se tornaram lindas, as flores e caules se projetando para a fonte do som. Walter Cronkite mostrou a experiência em seu programa. Se quiser conferir, foi no dia 26 de outubro de 1970.

— Está querendo dizer que as plantas possuem inteligência?

— Elas respiram, comem, se reproduzem. Podem sentir dor, e podem utilizar defesas contra seus inimigos. Por exemplo, certas plantas usam terpeno para envenenar o solo ao seu redor, e desestimular as concorrentes. Outras plantas exsudam alcalóides para torná-las intragáveis aos insetos. Provamos que as plantas se comunicam entre si através de feromônios.

— Já ouvi falar disso — comentou Janus.

— Algumas plantas são carnívoras. A dionéia, por exemplo. Certas orquídeas parecem e cheiram como as abelhas fêmeas, a fim de enganar os machos. Outras se assemelham às vespas fêmeas, a fim de atrair os machos a visitá-las e recolher o pólen. Outro tipo de orquídea possui um aroma como o de carne podre, a fim de atrair as moscas varejeiras nas proximidades.

Janus escutava tudo atentamente.

— Há uma espécie de orquídea que tem um lábio superior móvel, o qual se fecha quando uma abelha pousa, aprisionando-a. A única saída é através de uma passagem estreita no fundo. Ao voar por ali, em busca da liberdade, a abelha fica coberta por uma camada de pólen. Há cinco mil plantas florescentes no nordeste, e cada espécie possui características próprias. Não pode haver a menor dúvida a respeito. Já se provou incontáveis vezes que as plantas vivas possuem uma inteligência.

Janus estava pensando: E o alienígena desaparecido se encontra à solta em algum lugar.

 

Dia Três

Berna, Suíça

Quarta-feira, 17 de outubro

”erna era uma das cidades prediletas de Robert. Era uma cidade elegante, com fascinantes monumentos e lindos prédios antigos de pedra, datando do século XVIII. Era a capital da Suíça, uma de suas cidades mais prósperas, e Robert especulou se o fato dos bondes serem verdes tinha alguma relação com a cor do dinheiro. Ele descobrira que os bernenses eram mais descontraídos do que os cidadãos de outras partes da Suíça. Deslocavam-se com mais determinação, falavam mais devagar, e eram em geral mais tranqüilos. Ele trabalhara em Berna em diversas ocasiões, no passado, com o serviço secreto suíço, cujo quartel-general ficava na Waisenhausplatz. Tinha amigos ali que poderiam ser úteis, mas suas instruções eram claras. Desconcertantes, mas claras.

Ele precisou dar quinze telefonemas para localizar a oficina que rebocara o carro do fotógrafo. Era pequena, na Fribourgstrasse, e o mecânico, Fritz Mandei, era também o proprietário. Mandei parecia ter quarenta e tantos anos, um rosto chupado, com buracos de acne, um corpo magro, e uma enorme barriga de cerveja. Trabalhava no poço de lubrificação quando Robert entrou.

— Boa tarde — disse Robert. Mandei levantou os olhos.

— Guten Tag. Em que posso ajudá-lo?

— Estou interessado no carro que você rebocou no domingo.

— Espere um minuto até eu terminar aqui.

Dez minutos depois, Mandei saiu do poço, limpou as mãos sujas de óleo numa estopa.

— Foi você quem telefonou esta manhã. Houve alguma queixa por aquele trabalho de reboque? Não sou responsável por...

— Não há nenhuma queixa — Robert apressou-se em tranqüilizá-lo. — Absolutamente nenhuma. Estou realizando uma pesquisa, e estou interessado no motorista do carro.

— Vamos ao escritório.

Os dois entraram no pequeno escritório, e Mandei abriu um arquivo.

— Domingo passado, não é?

— Isso mesmo. Mandei tirou um cartão.

— Já, Este foi o Arschficker que tirou nossa fotografia na frente daquele OVNI.

Robert sentiu as palmas das mãos subitamente suadas.

— Você viu o OVNI?

— Já. E quase brachte aus.

— Pode descrevê-lo? Mandei estremeceu.

— A coisa... parecia viva.

— Como assim?

— Havia... uma certa luz ao redor. E não parava de mudar de cor. Parecia azul... depois verde... não sei direito. É difícil descrever. E havia aquelas pequenas criaturas lá dentro. Não eram humanas, mas...

Ele parou de falar.

— Quantas?

— Duas.

— Estavam vivas?

— Pareciam mortas para mim. — Ele enxugou o suor da testa. — Fico contente por você acreditar em mim. Tentei contar a meus amigos, mas riram de mim. Até minha mulher pensou que eu andara bebendo. Mas sei o que vi.

— Sobre o carro que rebocou...

— Já. O Renault. Tinha um vazamento de óleo, e os mancais queimaram. O reboque custou cento e vinte e cinco francos. Cobro o dobro aos domingos.

— O motorista pagou em cheque ou cartão de crédito?

— Não aceito cheques, nem cartões de crédito. Ele pagou em dinheiro.

— Francos suíços?

— Libras.

— Tem certeza?

— Absoluta. Lembro que tive de consultar a tabela de câmbio.

— Sr. Mandei, por acaso tem um registro da placa do carro?

— Claro. — Mandei olhou para o cartão. — Era um carro alugado. Da Avis. Ele alugou em Genebra.

— Importa-se de me dar o número da placa?

— Por que não? — Ele anotou o número num pedaço de papel, e entregou-o a Robert. — Mas, afinal, o que está acontecendo? É aquele negócio do OVNI?

— Não — respondeu Robert, em sua voz mais sincera. Ele tirou a carteira do bolso, pegou um cartão de identificação. — Sou do IAC, o International Auto Club. Minha companhia está realizando uma pesquisa sobre caminhões de reboque.

— Ahn...

Robert saiu da oficina, pensando, atordoado: Tudo indica que temos uma porra de um OVNI, com dois alienígenas mortos em nossas mãos. Então por que o General Hilliard lhe mentira, quando sabia que Robert acabaria descobrindo que fora um disco voador que caíra?

Só podia haver uma explicação, e Robert sentiu um súbito calafrio.

 

A enorme nave-mãe flutuava sem fazer qualquer barulho pelo espaço escuro, aparentemente imóvel, deslocando-se a uma velocidade de trinta e cinco mil quilónetros horários, em sincronia exata com a órbita da Terra. Os seis alienígenas a bordo estudavam a teia ótica do campo de visão tridimensional, que cobria toda uma parede da espaçonave. No monitor, enquanto o planeta Terra girava, eles observavam as projeções holográficas do que se estendia lá embaixo, ao mesmo tempo era que um espectógrafo eletrônico analisava os componentes das mensagens que apareciam. A atmosfera das massas terrestres que sobrevoavam estavam bastante poluídas. Imensas fábricas sujavam  com gases densos, negros e venenosos, enquanto os refugos nãlo-biodegradáveis eram despejados em aterros e nos mares.

Os alienígenas contemplaram os oceanos, outrora puros e azuis, agora pretos de óleo e marrons de sujeira. O coral da Grande^Barreira se tornava esbranquiçado, os peixes morriam aos bilhões. Onde as árvores haviam sido derrubadas, na floresta tropical amazônica, havia uma cratera, vasta e árida. Os instrumentos na espaçonave indicavam que a temperatura da Terra se elevara desde sua última exploração ali, três anos antes. Podiam observar guerras sendo travadas no planeta lá embaixo, lançando» novos venenos na atmosfera.

Os alienígenas comunicavam-se por telepatia.

Nada mudou entre os terráqueos.

Eles não aprenderam nada.

Teremos de ensiná-los.

Já tentou entrar em contato com os outros?

Já, sim. Alguma coisa está errada. Não há resposta.

Deve continuar a tentar. Temos de encontrar a nave.

Na Terra, milhares de metros abaixo da órbita da espaçonave, Robert deu um telefonema seguro para o General Hilliard. Ele atendeu quase que no mesmo instante.

— Boa tarde, comandante. Tem alguma coisa a comunicar? Tenho, sim. Eu gostaria de comunicar que você é um filho

da puta mentiroso.

— Sobre aquele balão meteorológico, general... parece que se transformou num OVNI.

Robert esperou.

— Sei disso. Havia importantes razões de segurança para que eu não lhe contasse tudo antes.

Conversa de burocrata. Houve um breve silêncio, rompido pelo General Hilliard:

— Vou lhe revelar algo absolutamente confidencial, comandante. Nosso governo teve um encontro com os extraterrestres há três anos. Eles pousaram em uma de nossas bases aéreas da OTAN. E conseguimos nos comunicar.

Robert sentiu que seu coração disparava.

— E o que eles disseram?

— Que tencionavam nos destruir. O choque foi terrível.

— Nos destruir?

— Exatamente. Disseram que voltariam para dominar o planeta e nos converter em escravos, e que não havia nada que pudéssemos fazer para impedi-los. Ainda não. Mas estamos desenvolvendo meios para detê-los. Por isso é indispensável que evitemos um pânico público, a fim de ganharmos tempo. Creio que pode compreender agora por que é tão importante que as testemunhas sejam advertidas a não discutir o que viram. Se vazar a notícia sobre os Identes, como nos referimos a eles, seria um desastre mundial.

— Não acha que seria melhor preparar as pessoas e...

— Comandante, em 1938, um jovem ator chamado Orson Welles irradiou uma peça radiofônica intitulada ”Guerra dos Mundos”, sobre alienígenas invadindo a Terra. Em poucos minutos, houve pânico em cidades por todos os Estados Unidos. Uma população histérica tentou fugir de invasores imaginários. As linhas telefônicas ficaram congestionadas, as estradas obstruídas. Pessoas foram mortas. Houve um caos total. Não, precisamos nos preparar para os alienígenas, antes de divulgarmos a notícia para o público. Queremos que você descubra essas testemunhas, para proteção delas, a fim de podermos manter a situação sob controle.

Robert descobriu que estava suando.

— Eu... eu compreendo.

— Ótimo. Pelo que estou percebendo, já conversou com uma das testemunhas, não é?

— Encontrei duas.

— Seus nomes?

— Hans Beckerman... era o motorista do ônibus de excursão. Mora em Kappel...

— E a segunda testemunha?

— Fritz Mandei. Possui uma oficina em Berna. Foi o mecânico que rebocou o carro de uma terceira testemunha.

— O nome dessa terceira testemunha?

— Ainda não sei. Estou trabalhando nisso agora. Gostaria que eu conversasse com as testemunhas para não falarem com ninguém sobre essa história do OVNI?

— Negativo. Sua missão é apenas localizar as testemunhas. Depois disso, deixaremos que seus respectivos governos resolvam o problema com elas. Já descobriu quantas testemunhas houve?

— Já, sim. Sete passageiros, mais o motorista do ônibus, o mecânico e um motorista de passagem.

— Deve localizar todas, as dez testemunhas que viram o acidente. Entendido?

— Entendido, general.

Robert desligou, a mente em turbilhão. Os OVNIs eram reais. Os alienígenas eram inimigos. Um pensamento assustador.

E, de repente, a sensação inquietante que Robert já experimentara antes voltou com toda força. O General Hilliard incumbira-o daquela missão, mas eles não lhe haviam contado tudo. O que mais estariam escondendo?

A companhia de aluguel de carros Avis fica na Rue de Lausanne, 44, no centro de Genebra. Robert entrou no escritório e aproximou-se de uma mulher, sentada atrás de uma mesa.

— Em que posso servi-lo?

Robert pôs na mesa o pedaço de papel em que estava anotada a placa do Renault.

— Alugaram este carro na semana passada. Quero saber o nome da pessoa que o alugou.

Seu tom de voz era irado. A recepcionista se encolheu.

— Lamento, mas não estamos autorizados a dar esse tipo de informação.

— O que é uma pena, porque neste caso terei de processar sua companhia, pedindo uma grande indenização.

— Não estou entendendo. Qual é o problema?

— Vou lhe explicar qual é o problema, madame. No domingo passado, esse carro bateu no meu na estrada, e causou muitos danos. Consegui anotar a placa, mas o homem fugiu antes que eu conseguisse detê-lo.

— Ahn... — A mulher estudou o rosto de Robert por um momento. — Com licença, por favor.

Ela desapareceu numa sala nos fundos. Ao voltar, alguns minutos depois, trazia uma ficha na mão.

— Segundo os nossos registros, houve um problema com o motor do carro, mas não temos informação de qualquer acidente.

— Pois estou informando agora. E considero sua companhia responsável pelo que aconteceu. Terão de pagar o conserto de meu carro. É um Porsche novinho, e vai custar uma fortuna...

— Lamento muito, senhor, mas não podemos assumir qualquer responsabilidade, já que o acidente não foi comunicado.

— Quero ser justo — disse Robert, num tom mais comedido. — Não quero atribuir a responsabilidade à sua companhia. Tudo o que quero é que o homem pague os danos que causou a meu carro. E ele fugiu do local do acidente. Posso até chamar a polícia. Se me der o nome e endereço, posso falar direto com ele, resolveremos a questão, deixando sua companhia de fora. Não acha que é bastante justo?

A recepcionista ficou imóvel, pensando na decisão que tinha de tomar.

— Está certo. Preferimos assim. — Ela olhou para a ficha. — O nome do homem que alugou o carro é Leslie Mothershed.

— E o endereço?

— Grove Road, 213, Whitechapel, Londres. — Ela levantou os olhos. — Tem certeza que nossa companhia não será envolvida em qualquer litígio judicial?

— Tem a minha palavra — assegurou Robert. — É uma questão particular entre mim e Leslie Mothershed.

O Comandante Robert Bellamy partiu no vôo seguinte da Swissair para Londres.

Ele estava sentado no escuro, sozinho, concentrado, repassando meticulosamente cada fase do plano, certificando-se de que não havia falhas, que nada poderia sair errado. Seus pensamentos foram interrompidos pelo zumbido suave do telefone.

— Janus falando.

— Aqui é o General Hilliard, Janus.

— Pode falar.

— O Comandante Bellamy localizou as duas primeiras testemunhas.

— Ótimo. Cuide disso imediatamente,

— Certo, senhor.

— Onde se encontra o comandante agora?

— A caminho de Londres. Deve ter a terceira testemunha confirmada muito em breve.

— Comunicarei os progressos dele ao comitê. Continue a me manter informado. A condição desta operação deve permanecer Nova Vermelha.

— Compreendo, senhor. Gostaria de sugerir... O telefone estava mudo.

 

MENSAGEM URGENTE

ULTRA-SECRETA ASN PARA VICE-DIRETOR BUNDESANWALTSCHAFT

SEUS OLHOS APENAS

CÓPIA UM DE (UMA) CÓPIAS

ASSUNTO: OPERAÇÃO JUÍZO FINAL

1. HANS BECKERMAN - KAPPEL

2. FRITZ MANOEL - BERNA

FIM DA MENSAGEM

 

À meia-noite, numa pequena casa de fazenda, a vinte e cinco quilómetros de Uetendorf, a família Lagenfeld foi perturbada por uma sucessão de estranhos acontecimentos. O filho mais velho foi despertado por uma luz amarela tremeluzente, brilhando através da janela de seu quarto. Quando se levantou para investigar, a luz já desaparecera.

No quintal, Tozzi, o pastor-alemão, começou a latir furiosamente, acordando o velho Lagenfeld. Com a maior relutância, ele saiu da cama, a fim de aquietar o animal. Ao deixar a casa, ouviu o barulho de uma ovelha apavorada, chocando-se contra seu cercado, na tentativa de fugir. Ao passar pelo cocho, que a chuva recente deixara cheio até a borda, Lagenfeld notou que estava completamente seco.

Tozzi veio correndo para o seu lado, ganindo. Lagenfeld afagou a cabeça do cachorro, distraído.

— Está tudo bem, Tozzi, está tudo bem...

E nesse momento todas as luzes da casa apagaram. Lagenfeld tornou a entrar, a fim de ligar para a companhia de eletricidade, e descobriu que o telefone ficara mudo.

Se as luzes ficassem acesas por mais um momento, ele poderia ver uma mulher de estranha beleza sair de seu quintal e se afastar pelo campo além.

 

O Bundesanwaltschaft — Genebra

13:00

o ministro, sentado no quartel-general do serviço secreto suíço, observou o vice-diretor terminar de ler a mensagem. Ele pôs a mensagem numa pasta com o carimbo de Ultra-Secreto, guardou a pasta na gaveta da escrivaninha, trancou a gaveta.

— Hans Beckerman una Fritz Mandei.

— Já.

— Não tem problema, Herr Ministro. Pode deixar que cuidarei de tudo.

— Gut.

— Wann?

— Sofort. Imediatamente.

Na manhã seguinte, a caminho do trabalho, Hans Beckerman sentia a úlcera incomodando-o de novo. Eu deveria ter exigido que aquele repórter me pagasse pela coisa que encontrei no chão. Todas essas revistas são muito ricas. Provavelmente poderia ter conseguido algumas centenas de marcos. E poderia então procurar um médico decente, para dar um jeito na minha úlcera. Ele passava pelo lago Turler quando avistou, à sua frente, à beira da estrada, uma mulher acenando, tentando pegar uma carona. Beckerman diminuiu a velocidade para observá-la melhor. Era jovem e atraente. Hans parou no acostamento. A mulher aproximou-se do carro.

— Guten Tag — disse Beckerman. — Posso ajudá-la? De perto, ela era ainda mais bonita.

— Danke. — Ela tinha um sotaque suíço. — Briguei com meu namorado, e ele me largou aqui, no meio do nada.

— É uma coisa horrível para se fazer.

— Importa-se de me dar uma carona até Zurique?

— Claro que não. Entre.

A mulher abriu a porta e sentou ao seu lado.

— É muita gentileza sua. Meu nome é Karen.

— Hans.

Ele deu a partida no carro.

— Não sei o que faria se você não tivesse aparecido, Hans.

— Ora, tenho certeza que qualquer um daria carona a uma mulher bonita como você.

Ela chegou mais perto de Beckerman.

— Mas aposto que não seria tão bonito quanto você. Ele lançou um olhar para a mulher.

— Já?

— Acho que você é muito bonito. Hans sorriu.

— Deve dizer isso à minha esposa.

— Ah, você è casado... — Ela parecia desapontada. — Por que todos os homens maravilhosos são casados? E você parece inteligente também.

Ele se empertigou todo.

— Para ser sincera, lamento ter me envolvido com meu namorado. — Karen mudou de posição no banco, a saia subiu pelas coxas. Ele fez um esforço para não olhar. — Gosto de homens mais velhos, já maduros, Hans. Acho que são mais sensuais do que os jovens.

Ela aconchegou-se contra Beckerman, antes de sussurrar:

— Gosta de sexo, Hans?

Ele limpou a garganta.

— Se eu gosto? Ora, deve compreender... sou um homem...

— Claro que compreendo. — Ela acariciou a coxa de Beckerman. — Posso lhe dizer uma coisa? A briga com meu namorado me deixou cheia de tesão. Gostaria que eu fizesse amor com você?

Ele não podia acreditar em sua sorte. A mulher era linda e, pelo que podia ver, possuía um corpo sensacional. Beckerman engoliu em seco.

— Eu gostaria muito, mas estou a caminho do trabalho e...

— Só levaria alguns minutos. — Ela sorriu. — Há uma estrada secundária à frente que passa por um bosque. Por que não vamos até lá?

Beckerman sentia um excitamento crescente. Sicher. Espere até eu contar a história ao pessoal do escritório! Não vão querer acreditar!

— Claro. Por que não?

Hans entrou na estradinha de terra que entrava por um bosque, onde não poderiam ser vistos dos carros que passavam pela auto-estrada. A mulher passou a mão pela coxa de Beckerman, lentamente.

— Mein Gott, como você tem pernas fortes!

— Era corredor quando era mais jovem — gabou-se Beckerman.

— Vamos tirar sua calça.

Ela abriu o cinto, ajudou-o a baixar a calça. Hans já estava intumescido.

— Ach! Ein grosser!

Ela começou a acariciá-lo. Hans balbuciou:

— Leck mich doch am Schwanz.

— Gosta de ser beijado aí?

— Já.

A esposa nunca fizera isso para ele.

— Gut. Basta relaxar agora.

Beckerman suspirou e fechou os olhos. As mãos macias da mulher acariciavam seus colhões. Ele sentiu a súbita picada de uma agulha em sua coxa, e arregalou os olhos.

— Wie...?

O corpo se contraiu, os olhos ficaram esbugalhados. Estava sufocando, incapaz de respirar. A mulher observava, enquanto Hans caía sobre o volante. Ela saiu do carro, deu a volta, empurrou o corpo de Beckerman para o outro banco, depois sentou ao volante, voltou pela estradinha de terra para a auto-estrada. Foi parar o carro à beira de um precipício, esperou até que não houvesse qualquer outro veículo à vista, depois abriu a porta, pisou no acelerador e saltou fora. Observou o carro rolar pela encosta. Cinco minutos depois, uma limusine preta parou ao seu lado.

— Irgendwelche Problem?

— Keins.

Fritz Mandei estava em seu escritório, preparando-se para fechar a oficina, quando dois homens apareceram.

— Desculpem, mas estou fechando — disse ele. — Não posso...

Um dos homens interrompeu-o:

— Nosso carro enguiçou na estrada. Kaputt! Precisamos de um reboque.

— Minha mulher está me esperando. Vamos receber visitas esta noite. Posso lhe dar o nome de outro...

— Pagaremos duzentos dólares. Estamos com pressa.

— Duzentos dólares?

— Isso mesmo. E nosso carro não está bom. Gostaríamos que fizesse uma revisão nele. O que provavelmente custaria mais duzentos ou trezentos dólares.

Mandei começou a se interessar.

— Já?

— É um Rolls — explicou um dos homens. — Vamos ver o tipo de equipamento que tem aqui.

Eles entraram na oficina, pararam à beira do poço de lubrificação.

— Seu equipamento é muito bom.

— É mesmo — declarou Mandei, orgulhoso. — O melhor. O estranho tirou uma carteira do bolso.

— Posso lhe dar algum dinheiro adiantado.

Ele removeu algumas notas, entregou-as a Mandei. Foi nesse instante que a carteira escapuliu de suas mãos, caiu no poço.

— Verflucht!

— Não se preocupe — disse Mandei. — Vou pegá-la. Ele desceu para o poço. Um dos homens foi até o botão de

controle que acionava o elevador hidráulico e apertou-o. O elevador começou a descer. Mandei levantou os olhos.

— Tomem cuidado! O que estão fazendo?

Ele tentou subir pelo lado do poço. No momento em que seus dedos alcançaram a beira, o segundo homem pisou-os com toda força. Mandei caiu de volta no poço, gritando. O pesado elevador hidráulico descia, inexorável.

— Deixem-me sair daqui! — gritou ele. — Hilfe!

O elevador acertou-o no ombro, passou a empurrá-lo para o chão de cimento. Alguns minutos mais tarde, depois que os gritos terríveis cessaram, um dos homens apertou o botão que levantava o elevador. Seu companheiro desceu para o poço, pegou a carteira, tomando todo cuidado para não manchar as roupas de sangue. Os dois voltaram a seu carro e partiram pela noite sossegada.

 

MENSAGEM URGENTE

ULTRA-SECRETA

ABTEILUNG ESPIONAGEM PARA VICE-DIRETOR ASN

SEUS OLHOS APENAS

CÓPIA UM DE (UMA) CÓPIAS

ASSUNTO: OPERAÇÃO JUÍZO FINAL

1. HANS BECKERMAN - ARQUIVADO

2. FRITZ MANOEL - ARQUIVADO

FIM DA MENSAGEM

 

Ottawa, Canadá

24:00

Janus falava ao grupo dos doze.

— O progresso realizado é satisfatório. Duas das testemunhas já foram silenciadas. O Comandante Bellamy está na pista de uma terceira.

— Já houve alguma abertura com a SDI? O italiano. Impetuoso. Volátil.

— Ainda não, mas estamos confiantes de que a tecnologia de Guerra nas Estrelas será lançada e estará em operação muito em breve.

— Devemos fazer tudo o que for possível para apressá-la. Se for uma questão de dinheiro...

O saudita. Enigmático. Retraído.

— Não. Só precisamos fazer mais alguns testes.

— Quando será o próximo teste? O australiano. Exuberante. Esperto.

— Dentro de uma semana. Voltaremos a nos reunir aqui em quarenta e oito horas.

 

Dia Quatro — Londres Quinta-feira, 18 de outubro

O modelo de Leslie Mothershed era Robin Leach. Um espectador ávido de ”Estilos de Vida dos Ricos e Famosos”, Mothershed estudava com toda atenção a maneira como os convidados de Robin Leach andavam, falavam e se vestiam, porque sabia que um dia apareceria no programa. Desde que era garotinho, sentia que estava destinado a ser alguém, a se tornar rico e famoso.

— Você é muito especial — costumava lhe dizer a mãe. — Meu filho será conhecido no mundo inteiro.

O menino dormia com essa afirmação ressoando em seus ouvidos, até que passou a acreditar. À medida que foi crescendo, Mothershed tornou-se consciente de que tinha um problema: não tinha a menor idéia de como se tornaria rico e famoso. Durante algum tempo, ele aventou a possibilidade de se tornar artista de cinema, mas era extremamente tímido. Também pensou em se tornar um astro do futebol, mas não era um atleta. Pensou ainda em virar um cientista famoso, um grande advogado, cobrando honorários espetaculares. Suas notas na escola,  infelizmente, eram medíocres, e ele acabou deixando os estudos sem estar mais próximo da fama. A vida não era justa. Fisicamente, ele era pouco atraente, magro, a pele pálida, com uma aparência doentia, e baixo, tendo apenas um metro e sessenta e cinco centímetros e meio. Mothershed sempre fazia questão de ressaltar o meio. Consolava-se com o fato de que muitos homens famosos eram baixos: Dudley Moore, Dustin Hoffman, Peter Falk...

A única profissão que realmente interessava Leslie Mothershed era a fotografia. Tirar fotografias era incrivelmente simples. Qualquer pessoa podia fazê-lo. Bastava apertar um botão. A mãe lhe comprara uma câmera ao completar seis anos, e sempre fora muito exagerada no louvor das fotografias que ele tirava. Ao entrar na adolescência, Mothershed estava absolutamente convencido de que era um fotógrafo brilhante. Dizia a si mesmo que era tão bom quanto Ansel Adams, Richard Avedon ou Margaret Bourke-White. Com um empréstimo da mãe, Leslie Mothershed abrira seu próprio estúdio, em seu apartamento em Whitechapel.

— Comece pequeno — a mãe lhe dissera — mas pense grande.

Era exatamente o que Leslie Mothershed fizera. Começara bem pequeno e pensara muito grande, mas infelizmente não possuía o menor talento para a fotografia. Fotografava desfiles, animais e flores, mandava as fotos, confiante, para jornais e revistas, mas eram sempre devolvidas. Mothershed consolava-se com o pensamento de todos os génios que haviam sido rejeitados antes que sua competência fosse reconhecida. Considerava-se um mártir do filistinismo.

E de repente, da maneira mais inesperada possível, sua grande oportunidade surgira. O primo da mãe, que trabalhava para a editora britânica HarperCollins, confidenciara a Mothershed que estavam pensando em fazer um livro de paisagens da Suíça.

— Ainda não escolheram o fotógrafo, Leslie. Assim, se você partir agora para a Suíça, e voltar com algumas fotos sensacionais, o livro pode ser seu.

Leslie Mothershed apressou-se em arrumar seu equipamento, e partiu para a Suíça. Sabia — tinha certeza absoluta — de que essa era a oportunidade pela qual tanto esperava. Finalmente os idiotas teriam de reconhecer seu talento. Ele alugou um carro em Genebra e saiu a percorrer o país, tirando fotografias de chalés suíços, quedas-d’água, picos nevados. Fotografou o nascer e o pôr-do-sol, camponeses trabalhando nos campos. E de repente, no meio de tudo isso, o destino interferira, e mudara sua vida. Ele seguia para Berna quando o carro enguiçara. Parara no acostamento, furioso. Por que eu?, lamentara Mothershed. Porque essas coisas sempre acontecem comigo? Ele ficara sentado ali, na maior raiva, pensando no precioso tempo perdido, e como seria caro o reboque do carro. Quinze quilómetros atrás ficava a aldeia de Thun. Chamarei um reboque de lá, pensara Mothershed. Não deve custar tanto. Ele fizera sinal para um caminhão de gasolina que passava.

— Preciso de um reboque — explicara Mothershed. — Pode parar em alguma oficina em Thun, e pedir que venham me buscar?

O motorista do caminhão sacudira a cabeça.

— É domingo, mister. A oficina aberta mais próxima só em Berna.

— Berna? Fica a cinqüenta quilômetros daqui. Vai me custar uma fortuna.

O motorista sorrira.

— Já. Ali eles cobram pelo trabalho no domingo. Ele engrenara o caminhão.

— Espere! — Fora difícil dizer as palavras. — Eu... eu pagarei por um reboque de Berna.

— Gut. Pedirei que mandem alguém.

Leslie Mothershed sentara no carro enguiçado, praguejando. Isto era tudo o que eu precisava, pensara, amargurado. Já gastara dinheiro demais com filmes, e agora teria de pagar a algum ladrão miserável para rebocá-lo até uma oficina. O reboque demorara quase duas horas intermináveis para chegar. Enquanto o mecânico prendia o cabo em seu carro, houvera um clarão intenso no outro da estrada, seguido por uma tremenda explosão. Mothershed virara a cabeça para ver o que parecia ser um objeto brilhante, caindo do céu. o único outro veículo na estrada, naquele momento, era um ônibus de excursão, que  parara num refúgio um pouco atrás de seu carro. Os passageiros do ônibus se encaminhavam apressados para o local do desastre. Mothershed hesitara, dividido entre a curiosidade e o desejo de sair logo dali. Acabara seguindo os passageiros do ônibus através da estrada. E ficara paralisado ao alcançar o local do acidente. Santo Deus!, pensara ele. É irreal! Ele olhava para um disco voador. Leslie Mothershed já ouvira falar em discos voadores, lera muito a respeito, mas jamais acreditara que existiam de fato. Mas era o que contemplava agora, assustado com o espetáculo fantástico. A fuselagem fora dilacerada, e ele avistara dois corpos lá dentro, pequenos, com crânios enormes, olhos fundos, sem orelhas, quase sem queixo. Pareciam usar alguma espécie de traje metálico prateado.

O grupo do ônibus de excursão estava parado ao seu redor, num silêncio horrorizado. O homem a seu lado desmaiara. Outro homem se virara e vomitara. Um idoso sacerdote segurava as contas do rosário e murmurava palavras incoerentes.

— Santo Deus! — exclamara alguém. — É um disco voador!

E fora nesse instante que Mothershed tivera sua inspiração. Um milagre caíra em seu colo. Ele, Leslie Mothershed, encontrava-se no local, com suas câmeras, para fotografar a história do século! Não haveria uma única revista ou jornal do mundo que rejeitaria as fotografias que ele estava prestes a tirar. Um livro sobre paisagens da Suíça? Ele quase rira da idéia. Estava prestes a espantar o mundo inteiro. Todos os programas de entrevistas da televisão suplicariam sua presença, mas ele compareceria primeiro ao programa de Robin Leach. Venderia suas fotografias ao London Times, Sun, Ma/7, Mirror — a todos os jornais ingleses, assim como a jornais e revistas estrangeiros, como Lê Figaro, Paris-Match, Oggi e Der Tag. Sem falar em Time e USA Today. A imprensa de toda parte suplicaria por suas fotografias. Japão, América do Sul, Rússia, China... não haveria fim. O coração de Mothershed palpitara de excitamento. Cada um terá de me pagar individualmente. Começarei a cem mil libras por fotografia, talvez duzentos mil. E as venderei muitas e muitas vezes. Ele se pusera a somar febrilmente o dinheiro que ganharia.

E Leslie Mothershed ficara tão ocupado em calcular sua fortuna que quase esquecera de tirar as fotografias.

— Oh, Deus! Com licença!

Ele falara sem se dirigir a ninguém em particular, voltara correndo pela estrada para buscar o equipamento fotográfico. O mecânico terminara de içar a frente do carro enguiçado, pronto para rebocá-lo.

— O que está acontecendo por lá? — perguntara ele. Mothershed estava ocupado em arrumar o equipamento.

— Vá verificar pessoalmente.

Os dois homens atravessaram a estrada. Mothershed abrira caminho pelo círculo de turistas.

— Com licença, com licença...

Ele ajustara o foco da câmera e começara a bater chapas do OVNI e seus estranhos passageiros. Tirara fotos em preto-ebranco e em cores. A cada estalido do obturador, Mothershed pensava: Um milhão de libras... outro milhão de libras... outro milhão de libras.

O sacerdote fizera o sinal-da-cruz, murmurando:

— É a face de Satã.

Satã coisa nenhuma!, pensara Mothershed, exultante. É a face do dinheiro. Estas serão as primeiras fotografias aprovarem que os discos voadores realmente existem. E de repente lhe ocorrera um terrível pensamento: E se as revistas pensarem que estas fotografias são falsas? Já houve muitas fotografias forjadas de OVNIs. Sua euforia desaparecera. E se não acreditarem em mim? Fora nesse momento que Leslie Mothershed tivera sua segunda inspiração.

Havia nove testemunhas ao seu redor. Sem o saberem, aquelas pessoas proporcionariam autenticidade à sua descoberta. Mothershed virara-se para o grupo, dizendo:

— Senhoras e senhores, se quiserem tirar uma fotografia, todos alinhados, terei o maior prazer em enviar depois uma cópia para cada um, de graça.

Houvera exclamações excitadas. Em poucos momentos, os passageiros do ônibus de excursão, à exceção do padre, postaram-se ao lado dos destroços do OVNI. Ele relutara, alegando:

— Não posso. Isso é coisa de Satã.

Mothershed precisava do padre. Ele seria a mais convincente de todas as testemunhas.

— É justamente essa a questão — insistira Mothershed, persuasivo. — Será que não percebe? Este será seu testemunho sobre a existência de espíritos do mal.

Ao final, o padre se deixara convencer.

— Espalhem-se um pouco — ordenara Mothershed —, a fim de podermos ver o disco voador.

As testemunhas mudaram de posição.

— Assim está bom. Excelente. E agora fiquem quietos. Ele tirara mais meia dúzia de chapas, depois pegara um lápis e um papel.

— Se escreverem seus nomes e endereços, providenciarei para que cada um receba uma cópia.

Ele não tinha a menor intenção de mandar qualquer cópia. Queria apenas testemunhas que confirmassem a história. Deixarei que os jornais e revistas os procurem!

E de repente ele notara que várias pessoas no grupo estavam com câmeras. Não podia permitir mais nenhuma fotografia além das suas! Só podia haver fotos que tivessem o crédito de ”Foto de Leslie Mothershed”.

— Com licença — ele dissera ao grupo. — Se aqueles que estão com câmeras quiserem entregá-las a mim, baterei algumas chapas, a fim de que tenham fotos tiradas com seu próprio equipamento.

As câmeras foram logo entregues a Leslie Mothershed. Quando ele se ajoelhara para bater a primeira foto, ninguém notara que abrira o compartimento do filme com o polegar, deixando-o assim por um momento. Pronto, um pouquinho da claridade intensa deste sol fará bem às suas fotografias. É uma pena, meus amigos, mas só os profissionais têm permissão para registrar momentos históricos.

Dez minutos depois, Mothershed já tinha todos os nomes e endereços. Lançara um último olhar para o disco voador e pensara, exultante: Mamãe tinha razão. Serei mesmo rico e famoso.

Ele mal podia esperar o momento de voltar à Inglaterra para revelar suas preciosas fotografias.

— Mas o que está acontecendo, afinal?

As delegacias de polícia na área de Uetendorf foram inundadas de telefonemas durante toda a noite.

— Alguém está rondando minha casa...

— Há luzes estranhas lá fora...

— Meus animais estão enlouquecendo. Deve haver lobos por perto...

— Alguém esvaziou meu cocho...

E o mais inexplicável de todos os telefonemas:

— Chefe, é melhor mandar uma porção de reboques para a estrada principal imediatamente. É um pesadelo. Todo o tráfego parou.

— Como? Por quê?

—- Ninguém sabe. Os motores dos carros simplesmente pararam de repente.

 

qqqquanto tempo esta missão vai demorar? especulou Robert, enquanto afivelava o cinto de segurança, no avião da Swissair. Enquanto o avião corria pela pista, os enormes motores Rolls-Royce absorvendo sôfregos o ar noturno, Robert relaxou e fechou os olhos. Terá sido mesmo há apenas uns poucos anos que embarquei neste mesmo vôo para Londres, em companhia de Susan? Não. Foi há mais de uma vida atrás.

O avião pousou em Heathrow às 6:29 da noite, no horário previsto. Robert saiu do labirinto do aeroporto, e pegou um táxi para a vasta cidade. Passou por uma centena de pontos de referência familiares, podia ouvir a voz de Susan a comentá-los, excitada. Naqueles dias áureos, não tinha a menor importância o lugar em que se encontravam. Bastava que estivessem juntos. Levavam sua própria felicidade, seu excitamento especial um pelo outro. Aquele era o casamento que teria um final feliz.

Quase.

Seus problemas haviam começado de uma maneira bastante inocente, com um telefonema internacional do Almirante Whittaker, quando Robert e Susan se encontravam na Tailândia. Há seis meses que Robert dera baixa da marinha, e não falara com

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o almirante durante todo esse tempo. A ligação, alcançando-os no Hotel Oriental, em Bangkok, fora uma surpresa.

— Robert? Almirante Whittaker.

— Almirante! Que prazer ouvir sua voz!

— Não foi fácil localizá-lo. O que anda fazendo?

— Nada demais. Apenas levando uma vida tranqüila. Tendo uma longa lua-de-mel.

— E como vai Susan? É Susan, não é?

— É, sim. Ela vai bem, obrigado.

— Quando voltará a Washington?

— Como disse?

— Ainda não foi anunciado, mas fui designado para o novo cargo de diretor executivo do serviço secreto do 17? Distrito Naval. Gostaria que embarcasse comigo.

Robert ficara confuso.

— Serviço secreto naval? Ora, almirante, não sei nada a respeito...

— Pode aprender. Estaria prestando um importante serviço a seu país, Robert. Virá discutir o assunto comigo?

— Bem...

— Ótimo. Espero-o em meu gabinete na segunda-feira, às nove horas da manhã. E dê minhas lembranças a Susan.

Robert relatara a conversa a Susan.

— Serviço secreto naval? Parece emocionante.

— Talvez — respondera Robert, ainda desconfiado. — Não tenho a menor idéia do que pode envolver.

— Então deve descobrir.

Ele a estudara por um momento.

— Quer que eu aceite, não é? Susan o abraçara.

— Quero que faça o que quiser fazer. Acho que está pronto para voltar ao trabalho. Notei que nas últimas semanas tem se mostrado bastante irrequieto.

— Pois eu acho que você está tentando se livrar de mim — zombara Robert. — A lua-de-mel acabou.

Susan encostara os lábios nos dele.

— Nunca. Já lhe disse alguma vez como sou louca por você, marujo? Deixe-me mostrar...

 

Pensando a respeito mais tarde — tarde demais —, Robert concluíra que esse fora o início do fim do casamento. O convite parecia maravilhoso na ocasião, e ele voltara a Washington para conversar com o Almirante Whittaker.

— Este trabalho exige inteligência, coragem e iniciativa, Robert. Você tem todas as três. Nosso país tornou-se o alvo de cada pequeno ditador que pode financiar um grupo terrorista ou construir uma fábrica de armas químicas. Alguns desses países já estão neste momento trabalhando no desenvolvimento de bombas atômicas, a fim de poderem nos chantagear. Meu trabalho é criar uma rede de informações para descobrir o que exatamente eles andam fazendo, e tentar contê-los. Quero que você me ajude.

Ao final, Robert aceitara o trabalho no serviço secreto naval. Para sua surpresa, descobrira que gostava e até possuía alguma aptidão para as funções. Susan encontrara um lindo apartamento em Rosslyn, Virgínia, não muito longe do lugar em que Robert trabalhava, e se ocupara em decorá-lo. Robert fora enviado para a Fazenda, o centro de treinamento da CIA para os agentes secretos.

Localizada numa área fortemente guardada na região rural da Virgínia, a Fazenda ocupa uma área de cinqüenta quilômetros quadrados, a maior parte coberta por uma floresta de pinheiros, com os prédios centrais numa clareira de três acres, a três quilómetros do portão principal. Estradas de terra atravessam a floresta, com barricadas móveis e cartazes de ”Proibida a Entrada”. Num pequeno aeroporto, aviões não identificados decolam e pousam várias vezes por dia. A Fazenda apresenta um cenário enganadoramente bucólico, com árvores frondosas, cervos correndo pelos campos, e pequenos prédios dispersos de forma inocente pela extensa área. Dentro do perímetro, no entanto, existe um mundo diferente.

Robert esperara fazer o treinamento junto com outros oficiais da marinha, mas para sua surpresa o grupo era formado por uma mistura de recrutas da CIA, fuzileiros e pessoal do exército, marinha e força aérea. Cada estudante recebia um número, e era alojado num quarto típico de dormitório, em um dos vários prédios espartanos de alvenaria, com dois andares. No alojamento dos oficiais solteiros, em que Robert ficara, cada homem tinha seu próprio quarto, e partilhava um banheiro com outro. O refeitório era no outro lado do caminho, quase em frente a seu alojamento.

No dia em que se apresentara ali, Robert fora escoltado a um auditório, com trinta outros recém-chegados. Um coronel negro, alto e forte, com o uniforme da força aérea, falara ao grupo. Parecia ter cinqüenta e poucos anos, e dava a impressão de uma inteligência ágil e fria. Falava de forma clara e incisiva, sem desperdiçar palavras.

— Sou o Coronel Frank Johnson. Quero lhes dar as boasvindas. Durante sua permanência aqui, usarão apenas seus primeiros nomes. Deste momento em diante, suas vidas serão um livro fechado. Todos já juraram sigilo. Aconselho a levarem esse juramento a sério, muito a sério. Nunca devem discutir seu trabalho com ninguém... nem esposa, família ou amigos. Foram selecionados porque possuem qualificações especiais. Terão um longo e árduo trabalho pela frente para desenvolver essas qualificações, e nem todos conseguirão chegar ao fim. Serão envolvidos em coisas de que nunca ouviram falar antes. Não tenho palavras para ressaltar o suficiente a importância do trabalho que realizarão quando saírem daqui. Tornou-se moda em certos círculos liberais atacar nossos serviços secretos, quer seja a CIA, exército, marinha ou aeronáutica. Mas posso lhes assegurar, senhores, que sem pessoas dedicadas como vocês, este país estaria metido num inferno de problemas. Caberá a vocês ajudar para impedir isso. Aqueles que conseguirem concluir o treinamento vão se tornar oficiais controladores. Em termos mais simples, um controlador é um espião. Ele trabalha em segredo.

O coronel fizera uma pausa, correndo os olhos pela audiência.

— Enquanto estiverem aqui, receberão o melhor treinamento do mundo. Serão treinados em vigilância e contravigilância. Terão cursos de comunicação por rádio, codificação, armamentos e leitura de mapas. Farão um curso de relações pessoais. Aprenderão como desenvolver um relacionamento, como descobrir as motivações de um indivíduo, como fazer com que seu alvo fique à vontade.

 

Os recrutas absorviam atentamente cada palavra.

— Aprenderão a localizar e recrutar um agente. Serão treinados nas providências para tornar seguro um ponto de encontro. Aprenderão tudo sobre os pontos de entrega de correspondência, como se comunicar discretamente com seus contatos Se forem bem-sucedidos, cumprirão suas missões sem serem notados nem descobertos.

Robert pudera sentir o excitamento que impregnava a atmosfera.

— Alguns de vocês atuarão sob cobertura oficial. Pode ser diplomática ou militar. Outros atuarão sob cobertura extraoficial, como cidadãos particulares... executivos, arqueólogos ou escritores... qualquer profissão que lhes proporcione acesso a lugares e tipos de pessoas que podem ter as informações que procuramos. E agora vou entregá-los aos cuidados dos instrutores. Boa sorte.

Robert sentira-se fascinado pelo treinamento. Os instrutores eram homens que haviam trabalhado no campo, profissionais experientes. Robert absorvera com a maior facilidade as informações técnicas. Além dos cursos mencionados pelo Coronel Johnson, houvera um curso intensivo de línguas, e outro de códigos secretos.

O Coronel Johnson era um enigma para Robert. Os rumores a seu respeito eram de que tinha fortes ligações na Casa Branca, e se encontrava envolvido em atividades secretas de alto nível. Ele desaparecia da Fazenda por dias a fio, e retornava tão abruptamente quanto partira.

Um agente chamado Ron estava dando uma aula.

— Há seis fases no processo operacional clandestino. A primeira fase é o reconhecimento. Quando você sabe qual é a informação de que precisa, seu primeiro desafio é identificar e localizar os indivíduos que têm acesso a essa informação A segunda fase é a avaliação. Depois de reconhecer o alvo, é preciso decidir se ele possui realmente a informação de que você precisa, e se pode ser suscetível ao recrutamento. O que o motiva? Ele é feliz em seu trabalho? Tem algum ressentimento contra o chefe? Está assoberbado por problemas financeiros? Se o alvo é acessível, e há uma motivação que pode ser explorada, passa-se para a fase três.

”A fase três é o desenvolvimento. Cria-se um relacionamento com o alvo. Dá-se um jeito de se esbarrar nele como se fosse por acaso, tantas vezes quanto possível, aprofunda-se o contato. A fase seguinte é o recrutamento. Quando se acha que ele está pronto, passa-se a trabalhá-lo psicologicamente. Usa-se todas as armas psicológicas que se puder obter... vingança contra o chefe, dinheiro, a emoção da aventura. Se um controlador trabalhou bem, o alvo geralmente diz sim.

”Tudo bem até aqui. Conta com um espião trabalhando para você. A etapa seguinte é como manipulá-lo. É preciso proteger não apenas você mesmo, mas também o agente. Deve-se marcar reuniões secretas, treiná-lo no uso do microfilme e também, quando for o caso, da comunicação por rádio. Deve-se ensinar ainda ao agente como perceber qualquer vigilância, o que responder se for interrogado, e assim por diante.

”A última fase é o desligamento. Depois de algum tempo, talvez o seu agente seja transferido para um trabalho diferente, não tenha mais acesso às informações, ou talvez não precisemos mais das informações a que ele tem acesso. Seja como for, o relacionamento está encerrado, mas é importante concluí-lo de tal maneira que o recrutado não sinta que foi usado, e passe a querer vingança...

O Coronel Johnson estava certo. Nem todos conseguiram chegar ao final do treinamento. Rostos familiares desapareciam constantemente. Ninguém sabia por quê. E ninguém perguntava. Um dia, quando o grupo se preparava para ir a Richmond, num exercício de vigilância, o instrutor de Robert dissera:

— Vamos descobrir se você é mesmo bom, Robert. Vou mandar alguém segui-lo. Quero que o despiste. Acha que pode conseguir?

— Creio que sim, senhor.

— Boa sorte.

Robert pegara o ônibus para Richmond, e começara a circular pelas ruas. Cinco minutos depois, já identificara os homens que o seguiam. Eram dois. Um deles estava a pé, o outro de carro. Robert tentara se esquivar em restaurantes e lojas, saindo apressado pelas portas dos fundos, mas não conseguira despistá-los. Também eram bem treinados. Finalmente, estava quase na hora de retornar à Fazenda, e Robert ainda não fora capaz de se desvencilhar de seus seguidores. Vigiavam-no com a maior atenção Robert entrara numa loja de departamentos, os dois homens ocuparam posições em que podiam vigiar as entradas e saídas. Robert subira na escada rolante para o departamento de roupas masculinas. Trinta minutos depois, ao descer, usava um terno diferente, sobretudo e chapéu, conversava com uma mulher e carregava um bebê no colo. Passara pelos vigilantes sem ser reconhecido.

Fora o único naquele dia que conseguira se esquivar à vigilância.

O jargão ensinado na Fazenda era uma língua por si mesma.

— Provavelmente não usarão todos esses termos — dissera o instrutor —, mas é melhor conhecê-los. Há dois tipos diferentes de agentes: um ”agente de influência” e um ”agente provocador”. O agente de influência tenta mudar a opinião no país em que opera. Um agente provocador é enviado para atiçar problemas e criar o caos. ”Alavanca biográfica” é o código da CIA para chantagem. Há também os ”trabalhos da bolsa negra”, que podem variar de suborno a arrombamento. Watergate foi um trabalho de bolsa negra.

Ele olhara ao redor, para se certificar de que toda a turma prestava atenção. Eles estavam fascinados.

— De vez em quando, alguns de vocês podem precisar de um ”sapateiro”... é um homem que falsifica passaportes.

Robert se perguntara se algum dia teria de recorrer aos serviços de um sapateiro.

— A expressão rebaixamento máximo é das mais terríveis. Significa expurgar pelo assassinato. É a mesma coisa da palavra arquivar. Se ouvirem alguém falar sobre a Firma, é o apelido que usamos para nos referirmos ao serviço secreto britânico. Se pedirem a vocês para ”fumigar” um escritório, não devem procurar por cupins, mas sim por artefatos de escuta.

As expressões misteriosas fascinavam Robert.

— ”Damas” é um eufemismo para as mulheres enviadas para comprometer a oposição. Um ”mito” é a biografia forjada de um espião, para lhe proporcionar cobertura. ”Virar particular” significar deixar o serviço.

O instrutor tornara a correr os olhos pela turma.

— Algum de vocês sabe o que é um ”domador de leão”? Ele esperara por uma resposta. Silêncio.

— Quando um agente é dispensado, às vezes fica transtornado e ameaça revelar o que sabe. Um domador de leão é despachado para aquietá-lo. Tenho certeza que nenhum de vocês jamais precisará enfrentar algum.

Isso provocara risos nervosos.

— Há também o termo sarampo. Se um alvo morre de sarampo, isso significa que foi assassinado com tanta eficiência que a morte pareceu ser acidental ou decorrente de causas naturais. Um método de induzir o sarampo é usar o ”Tabun”. Trata-se de um composto líquido incolor ou num tom marrom, que causa a paralisia nervosa, quando absorvido através da pele. Se alguém lhe oferece uma ”caixa de música”, trata-se de um radiotransmissor. O operador do transmissor é chamado de músico. No futuro, alguns de vocês estarão operando ”nus”. Não se apressem em tirar as roupas; significa simplesmente que estarão sozinhos, sem qualquer ajuda.

O instrutor fizera uma pausa.

— Há mais uma coisa sobre a qual eu gostaria de falar hoje. A coincidência. Em nosso trabalho, não existe esse animal. Geralmente representa perigo. Se deparar várias vezes com a mesma pessoa, ou se a todo instante avistar o mesmo automóvel, quando estiver em ação, trate de se proteger. Provavelmente se encontra metido numa encrenca. Creio que é o suficiente por hoje, senhores. Recomeçaremos amanhã, do ponto em que paramos.

De vez em quando o Coronel Johnson chamava Robert a seu gabinete para ”uma conversa amigável”, como ele dizia. Eram conversas enganadoramente informais e descontraídas, mas Robert podia sentir que havia uma sondagem por trás.

— Soube que é feliz no casamento, Robert.

— Isso mesmo.

Passaram a meia hora seguinte falando sobre casamento, fidelidade e confiança. Em outra ocasião:

— O Almirante Whittaker o considera como um filho, Robert. Sabia disso?

— Sabia.

A dor pela morte de Edward era algo que jamais desapareceria. E conversaram sobre lealdade, dever e morte.

— Já enfrentou a morte mais de uma vez, Robert. Tem medo de morrer?

— Não.

Mas morrer por um bom motivo, pensara Robert. Não uma morte sem sentido.

As reuniões eram frustrantes para Robert, porque eram como olhar para um espelho de fundo falso. O Coronel Johnson podia vê-lo claramente, mas permanecia invisível, um enigma envolto pelo sigilo.

O curso durara dezesseis semanas, e durante esse tempo nenhum dos homens tivera permissão para se comunicar com o mundo exterior. Robert sentira uma saudade desesperadora de Susan. Fora o período mais longo em que haviam ficado separados. Ao final dos quatro meses, o Coronel Johnson chamara Robert a seu gabinete.

— Esta é a nossa despedida. Fez um excelente trabalho aqui, comandante. Creio que vai descobrir que seu futuro será muito interessante.

— Obrigado, senhor. Espero que sim.

— Boa sorte.

O Coronel Johnson ficara observando Robert se retirar. Continuara sentado ali por cinco minutos, imóvel, depois tomara uma decisão. Fora até a porta e a trancara. Depois, pegara o telefone e fizera uma ligação.

Susan o aguardava. Abrira a porta do apartamento num negligê transparente, que nada ocultava. Jogara-se nos braços de Robert, apertando-o com toda força.

— Oi, marujo. Quer se divertir um pouco?

— Já estou me divertindo só de abraçá-la — respondera Robert, na maior felicidade.

— Santo Deus, como senti saudade! — Susan recuara e acrescentara, com toda veemência: — Se algum dia acontecesse alguma coisa com você, acho que eu morreria.

— Nada jamais vai acontecer comigo.

— Promete?

— Prometo.

Ela o estudara por um momento, preocupada.

— Você parece cansado.

— Foi um curso dos mais intensivos — admitira Robert.

Era muito aquém da realidade. Com todos os textos e manuais para estudar, além das aulas práticas, nenhum dos recrutas jamais conseguira dormir por mais que umas poucas horas por noite. Não houvera muitos protestos por um motivo bem simples: todos estavam conscientes de que aprendiam ali como poderiam um dia salvar suas vidas.

— Sei exatamente o que você precisa — anunciara Susan. Robert sorrira.

— Posso lhe dizer.

Ele estendera as mãos para a Susan.

— Espere um pouco. Dê-me cinco minutos. E pode se despir.

Robert observara-a se retirar e pensara: Como um homem pode ser tão afortunado? Ele começara a se despir. Susan voltara alguns minutos depois, murmurando:

— Hum... Gosto de você nu.

Robert ouvira a voz do instrutor: ”Alguns de vocês vão operar nus. Significa simplesmente que estarão sozinhos, sem qualquer ajuda.” Em que me meti? Em que meti Susan?

Ela o levara para o banheiro. A banheira estava cheia, a água quente e perfumada, as luzes apagadas, havia quatro velas acesas na pia.

— Bem-vindo ao lar, querido.

Ela tirara o negligê e entrara na banheira. Robert a acompanhara.

— Susan...

— Não fale. Recoste-se em mim.

Ele sentira as mãos de Susan acariciando suas costas e ombros, sentira as curvas suaves do corpo da mulher se comprimindo contra o dele, e esquecera como se sentia cansado. Fizeram amor na água quente. Depois de se enxugarem, Susan dissera:

— Já chega de brincadeiras. Agora, vamos ao que é sério.

E fizeram amor outra vez. Mais tarde, um momento antes de adormecer, com Susan em seus braços, Robert pensara: Será sempre assim. Por toda a eternidade.

 

Na manhã da segunda-feira seguinte, Robert se apresentara no Pentágono, para seu primeiro dia de trabalho no serviço secreto naval. O Almirante Whittaker recebera-o calorosamente:

— Seja bem-vindo, Robert. Ao que parece, você deixou o Coronel Johnson bastante impressionado.

Robert sorrira.

— Ele também impressiona qualquer um. Enquanto tomavam café, o almirante perguntara:

— Está pronto para começar a trabalhar?

— Ansioso.

— Ótimo. Temos um problema na Rodésia...

Trabalhar no serviço secreto naval era ainda mais emocionante do que Robert imaginara. Cada missão era diferente, e incumbiam Robert das que eram consideradas as mais delicadas. Ele trouxera um desertor que revelara uma operação de tráfico de drogas de Noriega no Panamá, denunciara um agente trabalhando para Marcos no consulado americano em Manila, e ajudara a instalar um posto de escuta secreto no Marrocos. Só uma coisa o perturbava: os longos períodos em que ficava longe de Susan. Detestava se ausentar, sentia uma tremenda saudade de Susan.

Tinha o excitamento de seu trabalho para ocimoc,  mas Susan

não dispunha de nada. A carga de trabalho de Robert era cada

vez maior. Ele passava menos e menos tempo com ela.

Foi então que o problema com Susan se tornara cada vez maior. •

Sempre que Robert voltava para casa, ele e  Susan corriam famintos para os braços um do outro, faziam  amor ardente Mas essas ocasiões passaram a ser mais e maisdistanciadas Parecia a Susan que tão logo Robert voltava de  -Aparecer,

Logo seria enviado em outra.

Para agravar a situação, Robert não podia ir para o trabalho com ela. Susan não tinha a menor ideia dos lugares para onde ele ia, ou o que fazia. Sabia apenas que Robert estava envolvido em algo perigoso, e sentia pavor de  um dia ele partir e nunca mais voltar. Não ousava lhe fazer perguntas.  Experimentava a sensação de ser uma estranha, completamente excluída de uma parte importante da vida do marido. Não posso continuar assim, decidira Susan.

Quando Robert retornara de uma missão de quatro semanas na América Central, Susan lhe dissera:

— Robert, acho melhor termos uma conversa.

 

— Qual é o problema? — indagara Robert sabendo   qual era o problema. ’

- Estou apavorada. Estamos nos afastando  cada vez mais um do outro, e não quero perdê-lo. Não foi..

— Susan...

Espere um pouco Deixe-me acabar. 

O tempo que passamos juntos nos últimos quatro meses é mínimo, semanas e semanas  ausente. Sempre que você volta para casa, tenho a sensação de que e um visitante, não meu marido.

Ele abraçara Susan, apertara-a com força.

— Sabe o quanto a amo, Susan.

Ela encostara a cabeça em seu ombro.

— Por favor, não deixe que nada aconteça. «

— Não deixarei — prometera Robert.

Ligou para a secretária do almirante: - preciso urgentemente de ter uma conversa com o Almirante Wmttaker.

— Quando?

— Imediatamente.

— O almirante vai recebê-lo agora, comandante.

— Obrigado.

O Almirante Whittaker estava sentado atrás de sua escrivaninha, assinando alguns documentos. Levantara os olhos quando Robert entrara, sorrindo.

— Seja bem-vindo de volta ao lar, Robert, e meus parabéns. Fez um excelente trabalho em El Salvador.

— Obrigado, senhor.

— Sente-se. Aceita um café?

— Não, obrigado, almirante.

— Queria falar comigo? Minha secretária disse que era urgente. Em que posso ajudá-lo?

Era difícil começar.

— É um assunto pessoal, senhor. Estou casado há menos de dois anos e...

— Fez uma excelente escolha, Robert. Susan é uma moça maravilhosa.

— Concordo plenamente, senhor. O problema é que estou ausente durante a maior parte do tempo, e ela se sente infeliz com isso. — Uma pausa e Robert se apressara em acrescentar:

— E tem todo o direito de se sentir assim. Não é uma situação normal.

O Almirante Whittaker recostara-se em sua cadeira e comentara, pensativo:

— Claro que o seu trabalho não é uma situação normal. Às vezes exige sacrifícios.

— Sei disso — murmurara Robert, obstinado. — Acontece que não estou disposto a sacrificar meu casamento. Significa demais para mim.

O almirante estudara-o, pensativo.

— Entendo. O que você deseja?

— Esperava que pudesse me arrumar algumas missões em que não ficasse longe de casa por tanto tempo. Afinal, esta é uma operação grande, deve haver uma centena de coisas que eu poderia fazer mais perto de casa.

— Mais perto de casa...

— Isso mesmo.

— Não resta a menor dúvida de que você merece isso  respondera o almirante, falando bem devagar. — Não vejo por que não se pode providenciar algo assim. Robert sorrira, aliviado.

— É muita gentileza sua, almirante. Eu ficaria profundamente grato.

— Creio que podemos dar um jeito. Diga a Susan, por mim, que o problema está resolvido.

Robert se levantara, radiante.

— Não sei nem como agradecer.

O almirante acenara com a mão, dispensando-o.

— É uma peça muito valiosa para eu deixar que algo lhe aconteça, Robert. E agora volte para sua esposa.

Susan ficara feliz quando Robert lhe dera a notícia. Abraçara-o, exclamando:

— Oh, querido, isso é maravilhoso!

— Pedirei a ele duas semanas de licença, a fim de podermos viajar para algum lugar. Será uma segunda lua-de-mel.

— Até já esqueci como é uma lua-de-mel — murmurara Susan. — Mostre-me.

E Robert mostrara.

O Almirante Whittaker mandara chamar Robert na manhã seguinte.

— Queria apenas informá-lo que já estou tomando algumas providências sobre o assunto que discutimos ontem.

— Obrigado, almirante. — Agora era o momento para pedir a licença. — Senhor...

O almirante não o deixara continuar.

— Aconteceu algo, Robert.

O Almirante Whittaker pusera-se a andar de um lado para outro. Havia um tom de profunda preocupação em sua voz quando continuou a falar:

— Acabo de ser informado que a CIA foi infiltrada. Parece que tem ocorrido um vazamento incessante de informações ultra-secretas. Tudo o que sabem é que seu codinome é Raposa. Ele se encontra na Argentina neste momento. Precisam de alguém de fora da agência para cuidar da operação. O diretor da CIA pediu você. Gostariam que localizasse o homem e o trouxesse de volta. Respondi que a decisão é sua. Quer aceitar a missão? Robert hesitara.

— Receio que terei de passá-la adiante, senhor.

— Respeito sua decisão, Robert. Esteve viajando constantemente, e nunca rejeitou uma missão. Sei que não tem sido fácil para seu casamento.

— Gostaria de aceitar o trabalho, senhor. Mas acontece...

— Não precisa dizer nada, Robert. Minha opinião sobre seu trabalho e dedicação sempre permanecerá a mesma. Apenas gostaria de lhe pedir um favor.

— Pode pedir, almirante.

— O vice-diretor da CIA pediu para se reunir com você, independente de sua decisão. Como uma cortesia. Não se importa, não é?

— Claro que não, senhor.

No dia seguinte, Robert fora a Langley para a reunião com o vice-diretor.

— Sente-se, comandante — dissera o vice-diretor, quando Robert entrara na sala enorme. — Já ouvi falar muito a seu respeito. E só coisas boas, é claro.

— Obrigado, senhor.

O vice-diretor era um homem de sessenta e poucos anos, magro, cabelos brancos lisos e um pequeno bigode, que subia e descia enquanto ele sugava o cachimbo. Um graduado de Yale, ingressara no OSS durante a Segunda Guerra Mundial, e depois se transferira para a CIA, por ocasião de sua criação, logo depois do conflito. Subira pela hierarquia até sua atual posição, numa das maiores e mais poderosas agências de informações do mundo.

— Quero que saiba, comandante, que respeito sua decisão. Bellamy acenara com a cabeça.

— Há um fato, no entanto, que precisa ser levado ao seu conhecimento.

— Qual, senhor?

— O Presidente está pessoalmente envolvido na operação para desmascarar Raposa.

— Não sabia disso, senhor.

— Ele considera... como eu também... que é uma das missões mais importantes que esta agência já teve desde sua criação. Conheço sua situação doméstica, e tenho certeza de que o Presidente também compreende as dificuldades. Afinal, ele é um homem devotado à família. Mas o fato de você não aceitar esta missão poderia lançar... como posso dizer?... uma nuvem sobre o ONI e o Almirante Whittaker.

— O almirante nada teve a ver com a minha decisão, senhor.

— Eu compreendo, comandante, mas será que o Presidente também vai compreender?

A lua-de-mel terá de ser adiada, pensara Robert.

Ao dar a notícia a Susan, Robert dissera, gentilmente:

— Esta é a minha última missão no exterior. Depois disso, passarei tanto tempo em casa que vai acabar enjoando de mim.

Ela sorrira.

— Não há todo esse tempo no mundo. Ficaremos juntos para sempre.

A perseguição a Raposa fora a missão mais frustrante que Robert já realizara. Encontrara sua pista na Argentina, mas perdera a presa por um dia. A trilha o levara a Tóquio, China e Malásia. Quem quer que fosse Raposa, deixava pistas suficientes para levar ao lugar em que estivera, mas nunca ao ponto em que se encontrava no momento.

Os dias se transformaram em semanas, as semanas em meses, e Robert estava sempre no encalço de Raposa. Ligava para Susan quase todos os dias. No começo, dizia:

— Estarei em casa dentro de poucos dias, querida. Depois:

— Talvez eu esteja aí na próxima semana. E finalmente:

— Não sei quando poderei voltar.

Robert acabara desistindo. Passara dois meses e meio na pista de Raposa, sem o menor sucesso.

Susan parecia mudada quando ele chegara em casa. Um pouco mais fria.

— Desculpe, querida — dissera Robert. — Não podia imaginar que levaria tanto tempo. Acontece apenas...

— Eles nunca o deixarão sair, não é, Robert?

— Como? Ah, sim, claro que deixarão. Ela sacudira a cabeça.

— Não creio. Aceitei um emprego no Memorial Hospital, em Washington.

Ele ficara desolado.

— Você o quê?

— Voltarei a ser enfermeira. Não posso passar o tempo todo sentada aqui, esperando que você volte para casa, especulando onde se encontra, o que anda fazendo, se está vivo ou morto.

— Susan, eu...

— Está tudo bem, meu amor. Pelo menos farei algo útil enquanto você viaja. Tornará a espera mais fácil.

E Robert não tivera o que responder. Comunicara seu fracasso ao Almirante Whittaker, que se mostrara compreensivo.

— Foi culpa minha ter deixado que você aceitasse a missão. Daqui por diante, deixaremos que a CIA resolva seus próprios problemas. Desculpe, Robert.

Robert contara que Susan aceitara um emprego como enfermeira.

— Provavelmente é uma boa idéia — comentara o almirante, pensativo. — Vai aliviar a pressão sobre seu casamento. Se aceitar algumas missões no exterior de vez em quando, tenho certeza que não terá tanta importância.

De vez em quando se tornara quase constantemente. Fora então que o casamento começara a se desintegrar realmente.

Susan trabalhava no Memorial Hospital, em Washington, como enfermeira de sala de operações. Sempre que Robert se encontrava em casa, ela tentava tirar folga para passar mais tempo em sua companhia, mas se descobria mais e mais absorvida em seu trabalho.

— Estou adorando, querido. Sinto que faço algo útil. Ela falava sobre seus pacientes, e Robert lembrava todo o

desvelo que demonstrara com ele, como o cuidara na volta à saúde, na volta à vida. Sentia-se satisfeito por ela estar realizando um trabalho importante e que amava, mas a verdade é que cada vez se viam menos. A distância emocional entre os dois se alargava. Havia agora um constrangimento que não existia antes Eram como dois estranhos tentando desesperadamente manter uma conversa.

Ao voltar a Washington, depois de uma missão de seis semanas na Turquia, Robert levara Susan para jantar no Sans Souci. Ela comentara:

— Temos um novo paciente no hospital. Ele estava num grave desastre de avião, e os médicos acharam que não poderia resistir, mas darei um jeito para que sobreviva.

Seus olhos brilhavam enquanto falava. Ela foi assim comigo, pensara Robert. E especulara se Susan se inclinara sobre o novo paciente e dissera: ”Fique bom. Estou à sua espera.” Mas rejeitara o pensamento.

— Ele é muito simpático, Robert. Todas as enfermeiras são loucas por ele.

Todas as enfermeiras?, especulara Robert outra vez. Havia uma pequena dúvida angustiante no fundo de sua mente, mas ele conseguira reprimi-la. E pediram o jantar.

No sábado seguinte, Robert partira para Portugal. Ao retornar, três semanas depois, Susan recebera-o no maior excitamento.

— Monte andou hoje pela primeira vez!

O beijo que ela dera em Robert fora superficial.

— Monte?

— Monte Banks. É o nome dele. Vai ficar bom. Os médicos não podiam acreditar, mas nós não desistimos.

Nós.

— Fale-me sobre ele.

— É um homem maravilhoso. Está sempre nos dando presentes. É muito rico. Pilota seu próprio avião, sofreu um desastre terrível, e...

— Que espécie de presentes?

— Ora, sabe como é, pequenas coisas... bombons, flores, livros e discos. Tentou dar a todas nós relógios caros, mas é claro que tivemos de recusar.

— Claro...

— Ele tem um iate, cavalos de pólo...

Fora nesse dia que Robert começara a chamá-lo de Monte de Grana.

Susan falava a seu respeito cada vez que voltava do hospital.

— Ele é realmente um amor, Robert. Um amor é perigoso.

— E é muito atencioso. Sabe o que ele fez hoje? Mandou trazer almoço do Jóquei Clube para todas as enfermeiras do andar.

O homem é nojento. Ridiculamente, Robert se descobrira irritado.

— Esse seu maravilhoso paciente é casado?

— Não, querido. Por quê?

— Eu apenas queria saber. Susan rira.

— Pelo amor de Deus, não está com ciúme, não é?

— De algum velho que está aprendendo a andar? Claro que não.

Uma ova que não estou! Mas ele não daria a Susan a satisfação de dizer que estava.

Quando Robert estava em casa, Susan procurava não falar do paciente; mas se ela não levantava o assunto, Robert o fazia.

— Como está o velho Monte de Grana?

— O nome dele não é Monte de Grana — protestava Susan. — É Monte Banks.

— Dá na mesma.

Era uma pena que o filho da puta não tivesse morrido no desastre de avião.

 O dia seguinte era aniversário de Susan.

— Vamos comemorar — propusera Robert, no maior entusiasmo. — Sairemos para jantar em algum lugar, e depois...

— Tenho de trabalhar no hospital até oito horas.

— Não tem problema. Irei buscá-la no hospital.

— Ótimo. Monte está ansioso em conhecê-lo. Falei tudo a seu respeito.

— Também estou ansioso em conhecer o velho. Quando Robert chegara no hospital, a recepcionista dissera:

— Boa noite, comandante. Susan está de plantão na enfermaria ortopédica, no terceiro andar, à sua espera.

Quando Robert saltara do elevador, Susan o aguardava ali, em seu melhor uniforme branco engomado. Ele sentira o coração disparar. Susan estava tão linda...

— Olá, beleza.

Susan sorrira, estranhamente constrangida.

— Olá, Robert. Deixarei o serviço em poucos minutos. Venha comigo. Vou apresentá-lo a Monte.

Mal posso esperar.

Ela o conduzira a um quarto particular enorme, cheio de livros, flores e cestos com frutas, fizera a apresentação:

— Monte, este é meu marido, Robert.

Robert ficara imóvel, olhando aturdido para o homem no leito. Era apenas três ou quatro anos mais velho do que Robert, parecia com Paul Newman. Robert desprezara-o à primeira vista.

— Tenho o maior prazer em conhecê-lo, comandante. Susan andou me contando tudo a seu respeito.

É sobre isso que conversam quando ela está ao lado de sua cama, durante a noite?

— Ela se orgulha muito de você.

É isso aí, companheiro, pode me jogar algumas migalhas. Susan olhava para Robert, torcendo para que ele fosse polido. Ele bem que se esforçou.

— Soube que vai sair daqui em breve

— Isso mesmo, graças principalmente à sua esposa. Ela fez um milagre.

”Ora, marujo, acha mesmo que eu ficaria aqui, deixando que outra enfermeira cuide desse corpo maravilhoso?”

— Posso imaginar. Essa é a sua especialidade.

Robert não fora capaz de disfarçar o tom de amargura em sua voz.

O jantar de aniversário fora um fiasco. Susan só queria falar sobre seu paciente.

— Ele não lhe lembrou alguém, querido?

— Boris Karloff.

— Por que tinha de ser tão grosseiro com ele? Robert respondera friamente:

— Achei que fui muito cortês. Acontece apenas que não gosto do homem.

Susan ficara aturdida.

— Nem mesmo o conhece direito. O que não gosta nele? Não gosto da maneira como ele olha para você. Não gosto

da maneira como o nosso casamento está desmoronando. Não quero perdê-la.

— Desculpe. Acho que estou muito cansado. Terminaram o jantar em silêncio.

Na manhã seguinte, quando Robert se preparava para ir ao escritório, Susan anunciara:

— Robert, tenho uma coisa a lhe dizer...

E fora como se ele tivesse levado um soco no estômago. Não podia suportar que ela convertesse em palavras o que estava acontecendo.

— Susan...

— Você sabe que o amo. E sempre o amarei. É o homem mais querido e mais maravilhoso que já conheci.

— Por favor...

— Deixe-me acabar. Isto é muito difícil para mim. Durante o último ano, passamos apenas alguns minutos juntos. Não temos mais um casamento. Estamos cada vez mais apartados.

Cada palavra era como uma faca cravada em seu coração.

— Tem toda razão — dissera Robert, desesperado. — Mas vou mudar isso. Deixarei o serviço. Agora mesmo. Hoje. Iremos para algum outro lugar e...

Ela sacudira a cabeça.

— Não, Robert. Ambos sabemos que não daria certo. Você está fazendo o que quer fazer. Se parasse de fazer por minha causa, sempre guardaria um ressentimento. Não é culpa de ninguém. Apenas... aconteceu. Quero o divórcio.

Fora como se o mundo tivesse desmoronado em cima de Robert. Ele sentira de repente uma náusea terrível.

— Não pode estar falando sério, Susan. Encontraremos um jeito de...

— É tarde demais. Há muito tempo que venho pensando nisso. Enquanto você viajava, eu ficava sentada em casa sozinha, esperando a sua volta, pensando a respeito. Temos levado vidas separadas. Preciso mais do que isso. Preciso de algo que você não pode mais me dar.

Robert ainda tentara controlar suas emoções.

— Isso... isso tem algo a ver com Monte de Grana? Susan hesitara.

— Monte pediu-me em casamento.

Ele sentira suas entranhas se transformando em água.

— E vai aceitar?

— Vou.

Era alguma espécie de pesadelo absurdo. Isso não está acontecendo, pensara Robert. Não pode estar. Seus olhos encheram-se de lágrimas. Susan o abraçara e apertara com força.

— Nunca mais sentirei por qualquer outro homem o que sinto por você. Amei você com todo meu coração e alma. Sempre o amarei. É o meu amigo mais querido. — Ela recuara, fitando-o nos olhos. — Mas isso não é suficiente. Pode me entender?

Robert só podia compreender que ela o deixava arrasado.

— Podemos tentar outra vez. Começaremos tudo de novo e..

— Sinto muito, Robert. — A voz de Susan era trémula. — Sinto muito, mas está acabado.

Susan voara para um divórcio em Reno, enquanto o Comandante Robert Bellamy tomava um porre que se prolongara por duas semanas.

Os velhos hábitos não morrem fácil. Robert telefonara para um amigo no FBI. Al Traynor cruzara o seu caminho no passado por meia dúzia de vezes, e Robert confiava nele.

— Tray, preciso de um favor.

— Um favor? Precisa é de um psiquiatra. Como pôde deixar Susan escapar?

A notícia provavelmente já se espalhara por toda a cidade.

— É uma longa e triste história.

— Lamento sinceramente, Robert. Ela era sensacional. Eu... ora, não importa. Em que posso ajudá-lo?

— Gostaria que verificasse alguém nos computadores para mim.

— Claro. Basta me dar o nome.

— Monte Banks. É apenas uma verificação de rotina.

— Certo. O que você quer saber?

— É bem provável que ele nem esteja em seus arquivos, Tray, mas se estiver... alguma vez ele foi multado por estacionamento em local proibido, bateu no cachorro, avançou um sinal de trânsito vermelho? O de sempre.

— Certo.

— E estou curioso em saber de onde ele tirou seu dinheiro. Gostaria de conhecer seus antecedentes.

— Apenas rotina, hem?

— E isso deve ficar entre nós, Tray. É uma questão pessoal, entende?

— Não tem problema. Ligarei para você pela manhã.

— Obrigado. Eu lhe devo um almoço.

— Jantar.

— Combinado.

Robert desligara, pensando: O retrato de um homem se agarrando à última palha. O que estou esperando, que ele seja Jack o Estripador, e Susan volte correndo para meus braços?

Dustin Thornton chamara Robert no início da manhã seguinte.

— Em que está trabalhando, comandante?

Ele sabe muito bem em que estou trabalhando, pensara Robert.

— Estou concluindo o levantamento da ficha daquele diplomata de Cingapura e...

— O que parece não ocupar todo o seu tempo.

— Como assim?

— Caso tenha esquecido, comandante, o ONI não tem jurisdição para investigar cidadãos americanos.

A perplexidade de Robert era total.

— Mas o que...?

— Fui informado pelo FBI que você está tentando obter informações que não têm nada a ver com o trabalho desta agência.

Robert sentira um súbito ímpeto de raiva. Fora traído pelo filho da puta do Traynor. Era o que se podia esperar da amizade.

— Era uma questão pessoal. Eu...

— Os computadores do FBI não podem ser usados para sua conveniência pessoal, nem para ajudá-lo a incomodar cidadãos particulares. Estou sendo claro?

— Muito.

— Isso é tudo.

Robert voltara correndo à sua sala. Seus dedos tremiam ao discar 202-324-3000. A ligação fora atendida no mesmo instante:

— FBI.

— Al Traynor.

— Um momento, por favor.

Um minuto depois, uma voz de homem entrara na linha.

— Em que posso ajudá-lo?

— Quero falar com Al Traynor.

— Lamento, mas o agente Traynor não trabalha mais aqui. Robert sentira um terrível choque.

— Como?

— O agente Traynor foi transferido.

— Transferido?

— Isso mesmo.

— Para onde?

— Boise. Mas não estará lá por algum tempo. Um longo tempo, infelizmente.

— Como assim?

— Ele foi atropelado por um motorista que fugiu, ontem à noite, quando fazia sua corrida no Rock Creek Park. Dá para acreditar? Algum idiota deve ter tomado um tremendo porre. Passou com o carro na pista de corrida. O corpo de Traynor foi jogado a mais de dez metros de distância. Talvez ele não sobreviva.

Robert desligara, a mente em turbilhão. O que estava acontecendo? Monte Banks, o típico americano de olhos azuis, estava sendo protegido. Do quê? Por quem? Santo Deus, pensara Robert, em que Susan está se metendo?

Ele fora visitá-la naquela mesma tarde.

Ela estava em seu novo apartamento, um lindo dúplex na M Street. Robert especulara se era Monte de Grana quem pagava o apartamento. Há semanas que não se encontrava com Susan, e a simples visão dela o deixara atordoado.

— Peço perdão por me intrometer desse jeito, Susan. Sei que prometi não me envolver.

— Disse que era algo sério.

— E é mesmo.

Agora que estava ali, ele não sabia como começar. Susan, vim aqui para salvá-la? Ela riria na sua cara.

— O que aconteceu?

— É sobre Monte. Ela franzira o rosto.

— O que há com Monte?

Essa era a parte mais difícil. Como podia contar a Susan o que ele próprio não sabia? Sabia apenas que havia algo terrivelmente errado. Monte Banks estava mesmo nos computadores do FBI, só que com um aviso: Nenhuma informação pode ser fornecida sem a devida autorização. E sua indagação fora comunicada ao ONI. Por quê?

— Acho que ele... ele não é o que parece ser.

— Não estou entendendo.

— Susan... de onde ele tira seu dinheiro? Ela ficara surpresa com a pergunta.

— Monte tem uma empresa de importação e exportação muito bem-sucedida.

A cobertura mais antiga do mundo.

Ele deveria ter imaginado que não poderia lançar sua carga com uma teoria meio indefinida. Fora um idiota. Susan esperava por uma resposta, e ele não tinha nenhuma.

— Por que está perguntando?

— Eu... apenas queria me certificar de que ele é o homem certo para você — balbuciara Robert, confuso.

— Ora, Robert...

A voz de Susan estava impregnada de desapontamento.

— Acho que eu não deveria ter vindo. — Tinha esse direito, companheiro. — Desculpe.

Susan se adiantara para abraçá-lo, murmurando:

— Eu compreendo.

Mas ela não compreendia. Não compreendia que uma  indagação inocente sobre Monte Banks fora interceptada, comunicada ao ONI, e que o homem que tentara obter a informação fora transferido para um posto remoto.

Havia outros meios de obter informações, e Robert os tentara, discretamente. Telefonara para um amigo que trabalhava na revista Forbes.

— Robert! Há quanto tempo que não o vejo! Em que posso ajudá-lo?

Robert explicara.

— Monte Banks? É curioso que você o mencione. Achamos que ele deve ser incluído na lista dos quatrocentos mais ricos da Forbes, mas não conseguimos obter informações concretas a seu respeito. Pode nos dizer alguma coisa?

Um zero.

Robert fora à biblioteca pública e procurara Monte Banks no Who’s Who. Ele não estava relacionado.

Fora à seção de microfilmes, e procurara em números atrasados do Washington Post na ocasião em que Monte Banks sofrera o desastre de avião. Havia uma notícia pequena sobre o acidente. Referia-se a Banks como empresário.

Tudo parecia bastante inocente. Talvez eu esteja enganado, pensara Robert. Talvez Monte Banks seja um homem inocente. Nosso governo não o protegeria,se ele fosse um espião, um criminoso, estivesse envolvido com o tráfico de drogas... A verdade é que ainda estou tentando reconquistar Susan.

Ser solteiro outra vez significava a solidão, o vazio, uma sucessão de dias movimentados e noites insones. Uma maré de desespero o envolvia de repente, e ele desatava a chorar. Chorava por si mesmo e por Susan, chorava por tudo o que haviam perdido. A presença de Susan estava em toda parte. O apartamento fervilhava de lembranças suas. Robert era amaldiçoado pela recordação total, e cada cômodo o atormentava, com memórias da voz de Susan, seu riso, seu amor. Lembrava as colinas e vales suaves de seu corpo, quando se estendia nua na cama, à sua espera, e a angústia que o dominava se tornava insuportável. Seus amigos se mostravam preocupados.

— Não deve ficar sozinho, Robert. E passaram a ter um grito de guerra:

— Quero apresentá-lo a uma garota sensacional!

Elas eram altas e bonitas, ou baixas e sensuais. Eram modelos e secretárias, executivas de publicidade, divorciadas e advogadas. Mas nenhuma delas era Susan. Robert nada tinha em comum com qualquer delas, e tentar manter uma conversa com estranhas, pelas quais não sentia o menor interesse, só servia para torná-lo ainda mais solitário. Robert não tinha o menor desejo de ir para a cama com qualquer delas. Preferia ficar sozinho. Preferia rebobinar o filme até o início, reescrever o roteiro. Com a visão posterior, era fácil perceber seus erros, compreender como deveria ter representado a cena com o Almirante Whittaker.

A CIA foi infiltrada por um homem conhecido como Raposa. O vice-diretor pediu para você descobri-lo.

Não, almirante. Sinto muito, mas estou levando minha esposa para uma segunda lua-de-mel.

Ele queria reeditar sua vida, dar-lhe um final feliz. Tarde demais. A vida não oferecia uma segunda oportunidade. Estava sozinho.

Fazia suas próprias compras, cozinhava as refeições, e ia à lavanderia automática ali perto uma vez por semana, quando estava em casa.

Fora um período solitário e angustiado na vida de Robert. Mas o pior ainda estava para acontecer. Uma linda designer que ele conhecera em Washington telefonara várias vezes, convidando-o para jantar. Robert relutara, mas acabara aceitando. Ela preparara um delicioso jantar à luz de velas para os dois.

— Você é uma excelente cozinheira — comentara Robert.

— Sou muito boa em tudo. — E não havia como se equivocar com a insinuação. Ela chegara mais perto, acrescentando: — Deixe-me provar.

Ela pusera as mãos nas coxas de Robert, passara a língua por seus lábios. Já faz muito tempo, pensara Robert. Talvez tempo demais.

Foram para a cama. Um desastre, para consternação de Robert. Pela primeira vez em sua vida, Robert se descobrira impotente. E sentira-se humilhado.

— Não se preocupe, querido — dissera a mulher. — Tudo vai acabar dando certo.

Só que ela se enganara.

Robert voltara para casa embaraçado, com a sensação de que estava entrevado. Sabia que, de alguma forma absurda e distorcida, sentira que fazer amor com outra mulher era uma traição a Susan. Quão estúpido posso me tornar?

Ele tentara fazer amor de novo, algumas semanas depois, com uma atraente secretária do ONI. Ela se mostrara ardente na cama, acariciando seu corpo, tomando-o em sua boca quente. Mas não adiantara. Ele queria apenas Susan. Depois disso, deixara de tentar. Pensara em consultar um médico, mas sentira-se constrangido demais. Conhecia a resposta para seu problema, nada tinha a ver com conselhos médicos. Despejara toda a sua energia no trabalho. Susan telefonava pelo menos uma vez por semana.

— Não esqueça de pegar suas camisas na lavanderia — dizia ela.

Ou então:

— Mandarei uma faxineira para arrumar o apartamento. Deve estar uma bagunça.

Cada telefonema fazia com que a solidão de Robert se tornasse ainda mais intolerável.

Ela ligara na noite anterior a seu casamento.

— Robert, quero que saiba que vou casar amanhã. Ele sentira dificuldade para respirar.

— Susan...

— Amo Monte... mas também amo você. E continuarei a amá-lo até o dia em que morrer. Quero que você nunca se esqueça disso.

O que havia para dizer?

— Você está bem, Robert?

Claro. Estou muito bem. Só que sou umafoda de um eunuco. Risque a qualificação.

— Robert?

Ele não suportaria punir Susan com seus problemas.

— Estou ótimo. Mas poderia me fazer um favor, meu bem?

— Qualquer coisa que eu puder.

— Não... não deixe que ele a leve na lua-de-mel a qualquer dos lugares a que nós fomos.

Ele desligara e saíra para tomar outro porre.

Isso acontecera um ano antes. Era o passado. Ele fora forçado a enfrentar a realidade de que Susan pertencia agora a outro homem. Precisava viver o presente. Tinha um trabalho a realizar. Estava na hora de ter uma conversa com Leslie Mothershed, o fotógrafo que batera uma chapa e anotara os nomes das testemunhas que Robert fora incumbido de descobrir, no que seria a sua última missão.

 

Leslie Mothershed se encontrava num estado além da euforia. No momento em que voltara a Londres, levando seu precioso filme, entrara apressado na pequena despensa que convertera em câmara escura, verificara se tinha ali tudo o que precisaria: tanque de processamento do filme, termómetro, pregadores de mola, quatro béqueres grandes, um cronometro, revelador, as soluções químicas, o fixador. Apagou a luz, e acendeu uma pequena lâmpada vermelha por cima de sua cabeça. As mãos tremiam quando abriu os cartuchos e removeu o filme. Respirou fundo várias vezes, a fim de se controlar. Nada devia sair errado desta vez, pensou ele. Absolutamente nada. Isto é por você, mãe.

Com todo cuidado, ele enrolou o filme nos carretéis. Pôs no tanque, enchendo com o revelador, o primeiro dos líquidos que usaria. Seria preciso uma temperatura constante de 20°C, assim como uma agitação periódica. Depois de onze minutos, ele esvaziou o conteúdo e despejou o fixador.

Estava ficando nervoso outra vez, com pavor de cometer um erro. Despejou o fixador para a primeira lavagem, e depois deixou o filme descansar numa bacia com água por dez minutos. Em seguida houve dois minutos de constante agitação num agente de limpeza, e mais doze minutos na água. Trinta segundos numa solução especial garantiram que não haveria riscos ou falhas nos negativos. Ao final, com todo cuidado, ele removeu o filme, pendurou-o com os pregadores, usou um rolo de borracha para tirar as últimas gotas. Esperou impaciente que os negativos secassem.

Estava na hora de dar uma olhada. Prendendo a respiração, o coração disparado, Mothershed pegou a primeira tira de negativos, suspendendo contra a luz. Perfeito! Absolutamente perfeito!

Cada chapa era uma gema incomparável, uma foto que qualquer fotógrafo do mundo teria se orgulhado de tirar. Cada detalhe da estranha espaçonave estava bem delineado, inclusive os corpos das duas formas.alienígenas lá dentro,

Duas coisas que não notara antes atraíram a atenção de Mothershed, que as examinou cuidadosamente. Onde a espaçonave se abrira, ele podia ver três divãs estreitos no interior... e, no entanto, havia apenas dois alienígenas. A outra coisa estranha era o fato de que uma das mãos dos alienígenas fora cortada. Não se via em parte alguma da fotografia. Talvez a criatura tivesse apenas uma mão, pensou Mothershed. Por Deus, estas fotografias são obras-primas! Mamãe tinha razão. Sou mesmo um génio. Ele correu os olhos pelo pequeno cômodo e refletiu: Na próxima vez em que revelar um filme, será num laboratório grande e bonito, em minha mansão em Eaton Square.

Ele ficou parado ali, acariciando seu tesouro, como um avarento com seu ouro. Não haveria uma única revista ou jornal no mundo que não fosse capaz de matar para obter aquelas fotografias. Durante todos aqueles anos os filhos da puta haviam rejeitado suas fotografias com bilhetinhos insultuosos: ”Obrigado por apresentar as fotos, que estamos agora devolvendo. Não atendem às nossas atuais necessidades.” Ou então: ”Obrigado por nos submeter as fotos. São muito parecidas com outras que já publicamos.” Ou apenas: ”Estamos devolvendo as fotografias que nos enviou.”

Durante anos ele suplicara emprego aos idiotas, e agora teriam de rastejar à sua procura, pagariam caro pela rejeição anterior.

Mothershed não podia esperar. Tinha de começar imediatamente. Como a desgraçada da British Telecom cortara seu telefone, apenas porque se atrasara algumas semanas no último pagamento, ele saiu à procura de um telefone. Num súbito impulso, decidiu ir ao Langan’s, o ponto de encontro de celebridades, e presentear-se com um almoço bem merecido. O Langan’s estava muito além de seus recursos, mas não poderia haver uma ocasião melhor para comemorar. Afinal, não estava prestes a se tornar rico e famoso?

Um maítre sentou Mothershed a uma mesa num canto do restaurante. Num reservado a não mais que três metros de distância, ele avistou dois rostos familiares. Compreendeu de repente quem eram, e experimentou alguma emoção. Michael Caine e Roger Moore, em pessoa! Ele desejou que a mãe ainda estivesse viva para poder lhe contar. Ela adorava ler sobre artistas de cinema. Os dois riam e se divertiam, sem a menor preocupação no mundo, e Mothershed não podia deixar de observá-los. Seus olhares passavam além deles. Filhos da puta presunçosos!, pensou Leslie Mothershed, irritado. Talvez esperem que eu me aproxime e peça seus autógrafos. Pois dentro de alguns dias eles é que pedirão o meu. Todos estarão ansiosos em me apresentar a seus amigos. ”Leslie, quero que conheça Charlie e Di, e estes são Fergie eAndrew. Leslie, vocês sabem, é o cara que tirou aquelas fotos famosas do OVNI.” Ao terminar o almoço, Mothershed passou pelos dois artistas e subiu para a cabine telefônica. Informações lhe daria o número do Sun.

— Eu gostaria de falar com o editor de fotos. Uma voz de homem atendeu um momento depois:

— Chapman.

— Quanto valeria para vocês ter fotos de um OVNI com os corpos de dois alienígenas no interior?

A voz no outro lado da linha respondeu:

— Se as fotos foram bastante boas, poderemos publicá-las como exemplo de um embuste hábil, e...

Mothershed interrompeu-o, irritado:

— Acontece que não é nenhum embuste. Tenho os nomes de nove testemunhas respeitáveis que poderão confirmar que é algo autêntico, inclusive um padre.

O tom do homem mudou.

— É mesmo? E onde essas fotos foram tiradas?

— Não importa. — Mothershed era esperto, não se deixaria persuadir a revelar qualquer informação. — Estão interessados?

— Se pode provar que as fotos são autênticas — respondeu o homem, cauteloso —, claro que estamos interessados... e muito.

Nem poderia ser de outro modo, pensou Mothershed, alegremente.

— Voltarei a procurá-lo.

Ele desligou. Os outros dois telefonemas foram igualmente satisfatórios. Mothershed teve de admitir para si mesmo que registrar os nomes e endereços das testemunhas fora um golpe de puro gênio. Não havia agora a menor possibilidade de que alguém pudesse acusá-lo de tentar cometer uma fraude. Aquelas fotos apareceriam nas primeiras páginas de todos os jornais e revistas importantes do mundo. Com meu crédito: Fotos de Leslie Mothershed.

Ao deixar o restaurante, Mothershed não foi capaz de resistir ao impulso de se aproximar do reservado em que os dois artistas de cinema sentavam.

— Com licença. Desculpe incomodá-los, mas poderiam me dar seus autógrafos?

Roger Moore e Michael Caine sorriram-lhe amavelmente. Escreveram seus nomes em pedaços de papel e entregaram ao fotógrafo.

— Obrigado.

Saindo do restaurante, Leslie Mothershed rasgou furioso os autógrafos, espalhou os pedacinhos de papel.

Eles que sefodam!, pensou Mothershed. SOU muito mais importante!

 

Pegou um táxi para Whitechapel. Passaram pela City, o distrito financeiro de Londres, seguindo para leste, até alcançarem a Whitechapel Road, a área que Jack o Estripador tornara infame um século antes. Ao longo da Whitechapel Road havia dezenas de barracas, vendendo de tudo, de roupas a legumes frescos e tapetes.

Enquanto o táxi se aproximava do endereço de Mothershed, o bairro foi se tornando mais e mais dilapidado. Os pichadores haviam rabiscado todos os prédios velhos, com a tinta descascando. Passaram pelo Weaver’s Arms Pub. Este deve ser o bar que Mothershed freqüenta, pensou Robert. Outra placa informava: Walter Bookmaker... Mothershed provavelmente faz suas apostas nos cavalos aí.

Finalmente chegou à Grover Road, 213A. Robert dispensou o táxi, e estudou o prédio à sua frente. Era um prédio feio, de dois andares, que fora dividido em pequenos apartamentos. Lá dentro estava o homem que tinha a lista completa das testemunhas que Robert fora incumbido de descobrir.

Leslie Mothershed estava na sala, pensando em sua sorte inesperada, quando a campainha da porta tocou. Ele levantou os olhos, surpreso, dominado por um medo súbito e inexplicável.

A campainha tocou de novo. Mothershed recolheu suas preciosas fotografias, levando-as às pressas para a câmara escura adaptada. Meteu-as por baixo de uma pilha de fotografias antigas, depois voltou à sala e foi abrir a porta do apartamento. Olhou para o estranho parado ali.

— O que deseja?

— Leslie Mothershed?

— Isso mesmo. Em que posso ajudá-lo?

— Posso entrar?

— Não sei. O que deseja?

Robert tirou do bolso uma identificação do Ministério da Defesa e mostrou-a.

— Estou aqui em caráter oficial, sr. Mothershed. Podemos conversar em seu apartamento ou no ministério.

Era um blefe, mas ele percebeu o medo repentino no rosto do fotógrafo. Leslie Mothershed engoliu em seco.

— Não sei o que pode querer comigo, mas... entre. Robert entrou na sala miserável. Era insípida, sombria, jamais um lugar em que alguém viveria por opção.

— Pode me fazer a gentileza de explicar o que o trouxe aqui? — indagou Mothershed, com o tom apropriado de exasperação inocente.

— Estou aqui para interrogá-lo sobre algumas fotografias

que você tirou.

Ele sabia! Soubera desde o momento em que ouvira a campainha. Os filhos da puta vão tentar me tirar essa fortuna! Mas não deixarei!

— De que fotografias está falando?

— Das que tirou no local do acidente do OVNI — respondeu Robert, paciente.

Mothershed olhou fixamente para Robert por um momento, como se estivesse surpreso, depois forçou uma risada.

— Ah, isso! Eu bem que gostaria de poder entregá-las a você.

— Não tirou as fotos?

— Tentei.

— Como assim?

— Não saiu nada. — Mothershed teve uma tosse nervosa. — O filme velou. É a segunda vez que isso me acontece. — Ele balbuciava agora. — Até joguei fora os negativos. Não prestavam para nada. Foi um total desperdício de filme. E sabe como os filmes estão caros hoje em dia.

Ele é um péssimo mentiroso, pensou Robert. E está à beira do pânico. Robert disse, suavemente:

— É uma pena. Aquelas fotos seriam bastante úteis. Ele nada disse sobre a lista de passageiros. Se Mothershed

mentira sobre as fotos, também mentiria sobre a lista. Robert olhou ao redor. As fotografias e a lista deviam estar escondidas em algum lugar por ali. Não deveria ser difícil encontrá-las. O apartamento consistia em uma pequena sala, um quarto, um banheiro, e o que parecia ser um closet. Ele não tinha como obrigar o homem a entregar o material. Não possuía uma autoridade real. Mas queria as fotografias e a lista de testemunhas antes que o SIS aparecesse e as levasse. Precisava daquela lista.

— Tem razão. — Mothershed suspirou. — Aquelas fotografias valeriam uma fortuna.

— Fale-me sobre a espaçonave — pediu Robert. Mothershed teve um tremor involuntário. A cena fantástica ficaria gravada em sua mente para sempre.

— Jamais esquecerei... A nave parecia... pulsar, como se estivesse viva. Havia algo maligno nela. E lá dentro estavam dois alienígenas mortos.

— Pode me dizer alguma coisa sobre os passageiros do ônibus?

Claro que posso, pensou Mothershed, exultante. Tenho os nomes e endereços de todos.

— Não, infelizmente não. — Mothershed continuou a falar, a fim de esconder seu nervosismo. — E não posso ajudá-lo com os passageiros porque eu não estava no ônibus. Eram todos estranhos.

— Entendo. Bom, obrigado por sua cooperação, sr. Mothershed. Lamento que tenha perdido as fotos.

— Eu também.

Mothershed observou a porta fechar por trás do estranho e pensou, feliz: Eu consegui! Fui mais esperto do que os filhos da puta!

Lá fora, no corredor, Robert examinava a fechadura da porta. Uma Chubb. E modelo antigo ainda por cima. Só precisaria de uns poucos segundos para abri-la. Iniciaria a vigilância no meio da noite, e esperaria que o fotógrafo deixasse o apartamento pela manhã. Depois que eu me apoderar da lista de passageiros, o resto da missão será simples.

Robert registrou-se num pequeno hotel, perto do apartamento de Mothershed. Telefonou para o General Hilliard.

— Tenho o nome da testemunha inglesa, general.

— Só um instante. Muito bem, pode falar, comandante.

— Leslie Mothershed. Ele mora em Whitechapel, na Grove Road, 213A.

— Excelente. Providenciarei para que as autoridades britânicas falem com ele.

Robert não mencionou a lista de passageiros nem as fotografias. Eram o seu trunfo.

O Reggie’s, um restaurante especializado em peixe e batata frita, ficava num pequeno beco sem saída, junto da Brompton Road. Era pequeno, a freguesia constituída principalmente por escriturários e secretárias que trabalhavam nos arredores. As paredes eram cobertas por cartazes de futebol, e as partes à mostra não viam uma mão de tinta desde o conflito de Suez.

O telefone por trás do balcão tocou duas vezes, antes de ser atendido por um homem enorme, vestindo uma suéter de lã ensebada. O homem parecia um típico habitante do East End de Londres, exceto pelo monóculo de aro de ouro, fixado sobre o olho esquerdo. O motivo para o monóculo era evidente para qualquer um que examinasse o homem mais atentamente: seu outro olho era feito de vidro, e de uma cor azul que geralmente se encontrava nos cartazes de viagens.

— Reggie falando.

— Aqui é o Bispo.

— Pois não, senhor — disse Reggie, baixando a voz para

um sussurro.

— O nome de nosso cliente é Mothershed. Nome de batismo, Leslie. Reside na Grove Road, 213A. Precisamos que a encomenda seja despachada rapidamente. Entendido?

— Já está feito, senhor.

 

Leslie Mothershed estava perdido num devaneio feliz. Era entrevistado por representantes da imprensa internacional. Interrogavam-no sobre o enorme castelo que acabara de comprar na Escócia, o chateou no sul da França, seu enorme iate. ”E é verdade que a Rainha o convidou para ser o fotógrafo real oficial?” ”É, sim. Eu disse a ela que daria a resposta mais tarde. E agora, senhoras e senhores, se me dão licença, já estou atrasado para o meu programa na BBC...” O devaneio foi interrompido pela campainha da porta. Ele olhou para o relógio. Onze horas. Será que aquele homem voltou? Mothershed foi até a porta e abriu-a, cauteloso. Ali estava um homem mais baixo (foi a primeira coisa que ele notou), óculos de lentes grossas, rosto magro e pálido.

— Com licença — disse o homem, timidamente. — Peço desculpas por incomodá-lo a esta hora. Moro no final do quarteirão. A placa lá fora diz que é um fotógrafo

— E daí?

— Tira fotos para passaportes?

Leslie Mothershed tira fotos para passaportes? O homem que está prestes a possuir o mundo? É como pedir a Michelangalo para pintar o banheiro.

— Não — respondeu ele, bruscamente, começando a fechar a porta.

— Juro que detesto incomodá-lo, mas estou numa situação terrível. Meu avião decola para Tóquio às oito horas da manhã. Há poucos minutos, quando peguei o passaporte, descobri que a fotografia desprendera. Já a procurei por toda parte. Desapareceu mesmo. Não vão me deixar embarcar sem uma foto no passaporte.

O homenzinho estava quase em lágrimas.

— Sinto muito, mas não posso ajudá-lo — declarou Mothershed.

— Eu estaria disposto a lhe pagar cem libras.

Cem libras? Para um homem com um castelo, um château e um iate? É um insulto. O homenzinho patético acrescentou:

— Posso até pagar mais. Duzentas ou trezentas libras. Precisa compreender que tenho de embarcar naquele avião, ou perderei meu emprego.

Trezentas libras para tirar um retrato de passaporte? Sem incluir a revelação, levaria cerca de dez segundos. Mothershed começou a fazer cálculos. Isso representaria  .800 libras por minuto. Ou seja, 10.800 libras por hora. Se trabalhasse oito horas por dia, seriam 94.000 libras por dia. Em uma semana, daria...

— Vai aceitar?

O ego de Mothershed entrou em conflito com a ganância, e a ganância venceu. Sempre posso aproveitar uns trocados.

— Entre — disse Mothershed. — Fique de pé junto daquela parede.

— Obrigado. Não sabe o que isso significa para mim. Mothershed desejou ter uma câmera Polaroid. Tornaria tudo

muito simples. Ele pegou a Vivitar e disse:

— Não se mexa.

Dez segundos depois estava acabado.

— Vai demorar um pouco para revelar — informou Mothershed. — Se quiser voltar...

— Se não se importa, esperarei aqui.

— Como quiser.

Mothershed levou a câmera para a câmara escura, desligou a luz por cima, acendeu a lâmpada vermelha, removeu o filme da máquina. Teria de trabalhar depressa. De qualquer forma, os retratos de passaporte eram sempre horríveis. Quinze minutos depois, quando o filme se encontrava na bacia de revelação, Mothershed começou a sentir um cheiro de queimado. Ficou imóvel. Seria sua imaginação? Não. O cheiro era cada vez mais forte. Ele virou-se para abrir a porta. Parecia emperrada. Mothershed empurrou a porta com toda força. Não conseguiu abri-la.

— Ei! — gritou ele. — O que está acontecendo aí? Não houve resposta.

— Olá? — Ele empurrou a porta com o ombro, mas parecia haver alguma coisa pesada no outro lado, mantendo-a fechada. — Ei, mister”

Não houve resposta. O único som que ele podia ouvir era um crepitar alto. O cheiro se tornava cada vez mais sufocante. O apartamento estava em chamas. Provavelmente foi por isso que ele saiu. Foi buscar ajuda. Leslie Mothershed bateu com o ombro na porta, mas não conseguiu tirá-la do lugar.

— Socorro! — gritou ele. — Tirem-me daqui!

A fumaça começava a entrar por baixo da porta, e Mothershed podia sentir o calor das chamas que a lambiam. A respiração se tornava mais e mais difícil. Ele estava sufocando. Abriu o colarinho, ofegando. Os pulmões ardiam. Começava a perder os sentidos. Caiu de joelhos.

— Oh, Deus, por favor, não me deixe morrer agora, quando ia me tornar rico e famoso...

— Reggie falando.

— A encomenda foi despachada?

— Foi, sim, senhor. Um pouco cozida demais, mas entregue no prazo.

— Excelente!

Ao chegar à Grove Road, às duas horas da madrugada, a fim de iniciar a vigilância, Robert deparou com um enorme engarrafamento. A rua estava cheia de veículos oficiais, caminhões dos bombeiros, ambulâncias, e três carros da polícia. Robert abriu caminho pela multidão de espectadores, encaminhando-se para o centro das atividades. O prédio inteiro fora engolfado pelo fogo. Ek pôde ver que o apartamento ocupado pelo fotógrafo, no primeiro andar, fora completamente destruído.

— Como isso aconteceu? — perguntou Robert a um bombeiro.

— Ainda não sabemos. Recue, por favor.

— Meu primo mora naquele apartamento. Ele está bem?

— Receio que não. — O tom era de compaixão. — Estão tirando-o do prédio neste momento.

Robert observou dois atendentes empurrarem uma maça com um corpo para uma ambulância.

— Eu estava hospedado com ele — disse Robert. — Deixei todas as minhas roupas lá dentro. Gostaria de entrar e...

O bombeiro sacudiu a cabeça.

— Não adiantaria, senhor. Nada sobrou do apartamento além de cinzas.

Nada sobrou além de cinzas. Nem as fotografias, nem a preciosa lista de passageiros, com seus nomes e endereços.

É o que se pode esperar da sorte inesperada, pensou Robert, amargurado.

Em Washington, três dias depois, Dustin Thornton almoçava com o sogro, na suntuosa sala de almoço particular do escritório de Willard Stone. Dustin Thornton estava nervoso. Sempre se sentia nervoso na presença do poderoso sogro. Willard Stone demonstava bastante satisfação.

— Jantei com o Presidente ontem. Ele me disse que está muito satisfeito com o seu trabalho, Dustin.

— Fico feliz em saber disso.

— Vem realizando um excelente trabalho. Tem ajudado a nos proteger contra as hordas.

— As hordas?

— Aqueles que tentam pôr este grande país de joelhos. Mas não é apenas contra o inimigo além das muralhas que devemos nos precaver. Temos de nos preocupar também com aqueles que fingem servir nosso país, que deixam de cumprir seu dever. Aqueles que não executam as ordens.

— Os independentes.

— Isso mesmo, Dustin. Os independentes. Eles devem ser punidos. Se...

Um homem entrou na sala.

— Com licença, sr. Stone. Os cavalheiros chegaram. Estão à sua espera.

— Certo. — Stone virou-se para o genro. — Termine seu almoço, Dustin. Tenho de cuidar de um problema importante. Um dia talvez eu possa lhe contar tudo.

 

As ruas de Zurique estavam cheias de criaturas de aparência fantástica, com contornos estranhos, gigantes disformes, com corpos grotescos e olhos pequenos, a pele da cor de peixe cozido. Eram carnívoras, e ela detestava os cheiros fétidos que exalavam de seus corpos. Algumas das fêmeas usavam peles de animais, os restos de criaturas que haviam assassinado. Ela ainda se sentia atordoada pelo terrível acidente que tirara a essência vital de seus companheiros.

Encontrava-se na Terra há quatro ciclos do que aqueles seres de aparência estranha chamavam de luna, e ainda não comera durante todo esse tempo. Só conseguira tomar a água fresca de chuva no cocho do fazendeiro, e não tornara a chover desde a noite em que chegara. O resto da água na Terra era insuportável. Bem que entrara num centro de alimentação alienígena, mas não fora capaz de suportar o fedor. Tentara comer seus legumes e frutas crus, mas eram sem gosto, muito diferentes dos alimentos suculentos em seu planeta.

Era chamada a Graciosa, alta, imponente e bela, com olhos verdes luminosos. Adotara a aparência de uma terráquea depois que deixara o local do acidente, e caminhara entre as multidões despercebida.

Estava sentada agora a uma mesa, numa cadeira desconfortável, construída para o corpo humano, e lia as mentes das criaturas ao seu redor. Dois seres sentavam a uma mesa ao lado. Um deles falou em voz alta:

— É a oportunidade de uma vida, Franz! Por cinqüenta mil francos, você pode entrar no início. Tem cinqüenta mil francos, não é?

Ela leu os pensamentos na cabeça do homem. Vamos, seu idiota, preciso da comissão.

— Claro, mas não sei...

Terei de tomar emprestado de minha mulher.

— Alguma vez já lhe dei um mau conselho sobre investimentos?

Tome logo essa decisão!

— É muito dinheiro.

Ela nunca vai me dar tudo isso.

— Mas o que me diz do potencial? Há uma possibilidade de ganhar milhões.

Diga sim!

— Está certo. Eu entro.

Talvez eu possa vender algumas jóias dela. Ele está na minha mão!

— Garanto que nunca vai se arrepender, Franz. Ele sempre pode arcar com o prejuízo.

A Graciosa não tinha a menor idéia do que significava a conversa.

No outro lado do restaurante, um homem e uma mulher estavam sentados a uma mesa. Conversavam em voz baixa. Ela projetou a mente para ouvi-los.

— Santo Deus! — disse o homem. — Como pôde engravidar?

Sua sacana estúpida!

— Como acha que engravidei? Seu pau é o culpado!

Aqueles seres se reproduziam pela gravidez, procriando de foi ma desajeitada com os órgãos genitais, como seus animais nos campos.

— O que pretende fazer, Tina?

Tem de fazer um aborto! Hoje!

— O que espera que eu faça? Disse que ia contar tudo à sua esposa.

Seu filho da puta mentiroso!

— E vou mesmo contar, meu bem, mas esta é a pior ocasião. Fui um louco ao me envolver com você. Deveria saber que

só me causaria problemas.

— É uma péssima ocasião para mim também, Paul. Acho até que você não me ama.

Por favor, diga que me ama.

— Claro que eu a amo. Acontece apenas que minha esposa está passando por um período difícil neste momento.

Não tenho a menor intenção de perdê-la.

— Também estou passando por um período difícil. Será que não compreende? Vou ter um filho seu.

E é melhor casar comigo. A água escorria dos olhos da mulher.

— Fique calma, meu bem. Tudo vai dar certo. Quero essa criança tanto quanto você.

Terei de persuadi-la a fazer um aborto.

Um macho sentava sozinho a uma mesa perto deles.

Eles me prometeram. Gqrantiram que a corrida estava combinada, que eu não poderia perder. Como um idiota, entregueilhes todo o meu dinheiro. Tenho de encontrar um meio de repôlo antes que os auditores cheguem. Não poderia suportar se me metessem na cadeia. Eu me mataria antes. Juro por Deus que me mataria.

Em outra mesa, um macho e uma fêmea estavam no meio de uma discussão.

— ...não é nada disso. Acontece apenas que tenho um lindo chalé nas montanhas, e achei que seria ótimo para você passar o fim de semana ali e relaxar.

Passaremos muito tempo relaxando na minha cama, querida.

— Não sei, Claude... Nunca antes viajei com um homem. Será que ele vai acreditar nisso?

— Oui, mas isso nada tem a ver com sexo. Apenas pensei no chalé porque você disse que precisava de um descanso. Pode pensar em mim como seu irmão.

E vamos experimentar um gostoso e antiquado incesto.

A Graciosa não sabia que as várias pessoas falavam em línguas diferentes, pois era capaz de filtrar a todas através de sua percepção e compreender o que diziam.

Preciso encontrar uma maneira de entrar em contato com a nave-mãe, pensou ela. Tirou da bolsa o pequeno transmissor prateado de controle manual. Era um sistema neurônico misto, a metade formada por material orgânico vivo, a outra metade constituída por um composto metálico de outra galáxia. O material orgânico era formado por milhares de células individuais, o que permitia que à medida que algumas morressem outras se multiplicassem, mantendo constantes as conexões. Infelizmente, o cristal de dilítio que ativava o transmissor se soltara e sumira. Ela já tentara se comunicar com a nave, mas o transmissor era inútil sem o cristal.

Ela tentou comer outra folha de alface, mas não conseguiu mais suportar o mau cheiro. Levantou e se encaminhou para a porta. A caixa chamou-a:

— Ei, dona, espere um instante! Não pagou a refeição!

— Desculpe. Não disponho do instrumento de troca de vocês.

— Pode dizer isso à polícia.

A Graciosa fitou a caixa nos olhos e observou-a murchar. Virou-se e deixou o ponto de alimentação.

Preciso encontrar o cristal. Eles estão esperando por notícias minhas. Precisava se concentrar em focalizar os sentidos. Mas tudo parecia borrado e distorcido. Sem água, ela sabia, morreria em breve.

 

Dia Cinco Berna, Suíça

Robert chegara a um beco sem saída. Não percebera o quanto contava com a obtenção da lista de nomes de Mothershed. Tudo se desmanchou em fumaça, pensou ele Literalmente. A trilha desaparecera agora. Eu deveria ter apanhado a lista quando estive no apartamento de Mothershed. Isso vai me ensinar... ensinar... Mas é claro! Um pensamento que aflorara no fundo de sua mente entrou em foco de repente. Hans Beckerman dissera: ”Affernasch! Todos os outros passageiros ificaram excitados ao verem o OVNI e aquelas criaturas mortas no interior, mas o velho se queixou que tínhamos de nos apressar para chegar a Berna, porque precisava preparar uma palestra que faria na universidade pela manhã.” Era um tiro no escuro, mas era tudo o que Robert tinha.

Ele alugou um carro no aeroporto de Berna, e seguiu para a universidade. Deixou a Rathausgasse, a rua principal de Berna, e entrou na Lánggassestrasse, onde ficava a Universidade de Berna. A universidade é formada por vários prédios, o principal um enorme prédio de quatro andares, com duas alas e enormes gárgulas de pedra adornando o telhado. Em cada lado do pátio, na frente da entrada, há clarabóias de vidro sobre salas de aula, e nos fundos da universidade existe um vasto estacionamento, à beira do rio Are.

Robert subiu os degraus na frente do prédio da administração e entrou no saguão. A única informação obtida de Beckerman fora a de que o passageiro era alemão e preparava uma palestra que faria na segunda-feira.

Um estudante indicou-lhe onde ficava a secretaria. A mulher sentada por trás da escrivaninha era uma figura formidável. Usava um costume austero, óculos de aros pretos, os cabelos presos num coque. Levantou os olhos quando Robert entrou em sua sala.

— Bitte?

Robert tirou do bolso seu cartão de identificação.

— Interpol. Estou realizando uma investigação, e agradeceria sua cooperação, srta...

— Frau. Frau Schreiber. Que tipo de investigação?

— Procuro um professor. Ela franziu o rosto.

— O nome?

— Não sei.

— Não sabe o nome?

— não. É um professor visitante. Fez uma palestra aqui há poucos dias. Montag.

— Muitos professores visitantes vêm aqui todos os dias para fazerem palestras. Qual é a disciplina dele? O que ele ensina? — O tom da mulher era de crescente impaciência. — Sobre que assunto ele fez a palestra?

— Não sei.

Ela deixou transparecer sua irritação.

— Tut mir leid. Não posso ajudá-lo. E estou ocupada demais para perguntas frívolas como essas...

A mulher começou a se virar.

— Não têm nada de frívolas. Es ist sehr dringend. — Robert inclinou-se para a frente, e acrescentou em voz baixa: — Vou lhe revelar algo confidencial. O professor que estamos procurando se encontra envolvido numa rede de prostituição.

A boca de Frau Schreiber se contraiu num pequeno ”o” de surpresa.

— A Interpol está em sua pista há meses. A única informação a seu respeito de que dispomos é de que se trata de um alemão e fez uma palestra aqui no dia 15. — Robert se empertigou. — Se não quer ajudar, podemos conduzir uma investigação oficial na universidade. É claro que a publicidade...

— Nein, nein! A universidade não deve ser envolvida em qualquer coisa assim. — Ela parecia preocupada. — Diz que ele fez uma palestra aqui... em que dia?

— No dia 15, segunda-feira.

Frau Schreiber levantou-se e foi até um arquivo. Abriu-o e examinou alguns papéis. Tirou umas folhas de uma pasta.

— Aqui está. Três professores convidados fizeram palestras aqui no dia 15.

— O homem que eu procuro é alemão.

— Todos são alemães. — Frau Schreiber sacudiu os papéis em sua mão. — Uma palestra foi sobre economia, outra sobre química e a terceira sobre psicologia.

— Posso dar uma olhada?

Relutante, ela entregou os papéis a Robert. Ele estudou-os. Cada um tinha um nome escrito, o endereço residencial e um telefone.

— Posso tirar uma cópia, se quiser.

— Não, obrigado. — Robert já memorizara os nomes e números. — Nenhum desses é o homem que procuro.

Frau Schreiber deixou escapar um suspiro de alívio.

— Graças a Deus! Prostituição! Nunca poderíamos nos envolver em algo assim!

— Desculpe incomodá-la por nada.

Robert saiu e procurou uma cabine telefônica na rua. A primeira ligação foi para Berlim.

— Professor Streubel?

— Já.

— Aqui é da companhia de ônibus de excursão Sunshine. Esqueceu seus óculos em nosso ônibus no último domingo, quando excursionava conosco pela Suíça e...

— Não sei do que está falando.


O homem parecia irritado.

— Não estava na Suíça no dia 14, professor?

— Não. Só cheguei no dia 15, para fazer uma palestra na universidade de Berna.

— E não andou em um de nossos ônibus de excursão?

— Não tenho tempo para essas bobagens. Sou um homem ocupado.

O professor desligou. A segunda ligação foi para Hamburgo.

— Professor Heinrich?

— Aqui é o Professor Heinrich.

— Estou falando da companhia de ônibus de excursão Sunshine. Esteve na Suíça no dia 14 deste mês?

— Por que deseja saber?

— Porque encontramos uma pasta sua em um de nossos ônibus, professor, e...

— Está falando com a pessoa errada. Não andei em nenhum ônibus de excursão.

— Não fez uma excursão nossa para o Jungfrau?

— Acabei de dizer que não.

— Desculpe tê-lo incomodado.

A terceira ligação foi para Munique.

— Professor Otto Schmidt?

— Sou eu mesmo.

— Professor Schmidt, aqui é da companhia de ônibus de excursão Sunshine. Temos uns óculos que deixou em nosso ônibus há poucos dias e...

— Deve haver algum engano.

Robert sentiu um frio no coração. Errara o alvo. Nada lhe restava para continuar. A voz acrescentou:

— Estou com meus óculos aqui. Não os perdi. Robert se reanimou.

— Tem certeza, professor? Esteve naquela viagem para Jungfrau no dia 14, ou não esteve?

— Estive, sim, já lhe disse, mas não perdi coisa alguma.

— Muito obrigado, professor. Robert desligou. Bingo!

Robert discou outro número, e dois minutos depois estava falando com o General Hilliard.

— Tenho duas coisas a comunicar — disse Robert. — A primeira, sobre a testemunha em Londres de que falei.

— O que houve com ela?

— Morreu num incêndio ontem à noite.

— É mesmo? Lamentável!

— Também acho, senhor. Mas creio que localizei outra testemunha. Eu o avisarei assim que confirmar.

— Ficarei esperando, comandante.

O General Hilliard entrou em contato com Janus.

— O Comandante Bellamy localizou outra testemunha.

— Ótimo. O grupo está cada vez mais irrequieto. Todos se preocupam com a possibilidade da história aflorar antes que o SDI se torne operacional.

— Terei mais informações em breve.

— Não quero informações. Quero resultados.

— Certo, Janus.

A Plattenstrasse, em Munique, é uma rua residencial tranqüila, com prédios antigos e dilapidados, todos agrupados, como se em busca de proteção mútua. O número 5 era igual aos vizinhos. Dentro do saguão, havia uma fileira de caixas de correspondência. Um pequeno cartão por baixo de uma delas dizia: ”Professor Otto Schmidt.” Robert apertou a campainha.

A porta do apartamento foi aberta por um homem alto e magro, com os cabelos brancos desgrenhados. Usava uma suéter desfiada e fumava um cachimbo. Robert especulou se ele criara a imagem de um arquétipo de professor universitário, ou se a imagem o criara.

— Professor Schmidt?

— Sou eu mesmo.

— Gostaria de lhe falar por um momento. Sou da...

— Já nos falamos. É o homem que me telefonou esta manhã. Sou um perito em reconhecer vozes. Entre.

— Obrigado.

Robert entrou numa sala apinhada de livros. Havia estantes nas paredes, do chão ao teto, com centenas de volumes. Também havia livros empilhados por toda parte: em mesas, no chão, em cadeiras. Os poucos móveis na sala pareciam ser secundários.

— Não é da companhia suíça de ônibus de excursão, não é mesmo?

— Bem, eu...

— É americano.

— É isso mesmo.

— E esta visita nada tem a ver com meus óculos perdidos que não foram perdidos.

— Ahn... não, senhor.

— Está interessado no OVNI que eu vi. Foi uma experiência muito desconcertante. Sempre acreditei que podiam existir, mas nunca pensei que veria um.

— Deve ter sido um choque terrível.

— Foi mesmo.

— Pode me dizer alguma coisa a respeito?

— Parecia... quase vivo. Havia uma espécie de luz tremeluzente ao redor. Azul. Não, talvez mais cinza. Não tenho certeza.

Robert lembrou a descrição de Mandei: ”Mudava de cor a todo instante. Parecia azul... depois verde.”

— Rompera-se e pude avistar dois corpos lá dentro. Pequenos... olhos enormes. Usavam um traje prateado.

— Pode me dizer alguma coisa sobre os outros passageiros?

— Os passageiros do ônibus?

— Isso mesmo.

O professor deu de ombros.

— Nada sei sobre eles. Eram todos estranhos. Eu me concentrava numa palestra que faria na manhã seguinte, e não prestava muita atenção aos outros passageiros.

Robert esperou, observando-o.

— Se ajudar em alguma coisa, posso lhe dizer de que países eram alguns. Sou professor de química, mas meu passatempo é o estudo da fonética.

— Agradeceria qualquer coisa que possa lembrar.

— Havia um padre italiano, um húngaro, um americano com sotaque do Texas, um inglês, uma jovem russa...

- Russa?

— Exatamente. Mas ela não era de Moscou. Pelo sotaque, dpiahqu era de Kiev, ou algum lugar nas proximidades. Robert tornou a esperar, mas houve apenas silêncio.

Não ouviu nenhum deles mencionar seu nome, ou falar de sua profissão?

— Lamento, mas não sei mais nada. Já expliquei que me concentrava na palestra que faria no dia seguinte. O texano e o padre sentavam juntos. O texano não parava de falar. Era muito aborrecido. Não sei Se o padre entendeu alguma coisa.

— O padre...

— Tinha um sotaque romano.

Podç me dizer mais alguma coisa sobre qualquer deles? O professor deu de ombros.

— Infelizmente, não. — Ele tirou outra baforada do cachimbo. — Lamento não poder ajudá-lo.

Robert teve uma idéia súbita.

— Disse» que é químico?

— Isso mesmo.

Gostaria que desse uma olhada numa coisa, professor. Robert enfiou a ruão no bolso e tirou o pedaço de metal que Beckerman lhe dera. — Pode me dizer o que é isto?

O Professor Schmidt pegou o objeto, sua expressão mudou enquanto o examinava.

— Onde... onde encontrou isto?

— Lamento, mas não posso dizer. Sabe o que é?

— Parece ser parte de um artefato de transmissão.

— Tem certeza?

O professor revistou o objeto na mão.

— O cristal é diltio, muito raro. Está vendo estes entalhes aqui? Sugerem que Se encaixa numa unidade maior. O metal é... Por Deus, nunca vi nada parecido! — A voz estava impregnada de excitamento. _ pode me emprestar isto por alguns dias? Gostaria de efetuar alguns estudos espectográficos.

— Lamento, mas não é possível.

— Mas..,

— Sinto muito.

Robert recuperou o pedaço de metal. O professor tentou disfarçar seu desapontamento.

— Talvez possa traze-lo de volta mais tarde. Por que não me dá seu cartão? Posso lhe telefonar se me lembrar de mais alguma coisa.

Robert tateou nos bolsos.

— Acho que não trouxe nenhum cartão. O Professor Schmidt murmurou:

— Era o que eu imaginava...

— O Comandante Bellamy está na linha. O General Hilliard atendeu.

— Pois não, comandante?

— O nome da última testemunha é o Professor Schmidt. Mora na Plattenstrasse, 5, em Munique.

— Obrigado, comandante. Comunicarei imediatamente às autoridades alemãs.

Robert já ia dizer ”E receio que será a última testemunha que conseguirei descobrir”, mas algo o conteve. Detestava admitir o fracasso. E, no entanto, a trilha sumira por completo. Um texano e um padre. O padre era de Roma. Ponto final. Assim como um milhão de outros padres. E não havia como identificá-lo. Tenho uma opção, pensou Robert. Posso desistir e voltar a Washington, ou posso ir a Roma e fazer uma última tentativa...

O Bundesverfassungsschutzamt, o quartel-general do Serviço de Proteção da Constituição, fica no centro de Berlim, na Neumarkterstrasse. É um prédio grande e cinzento, sem qualquer característica marcante, sem nada para distingui-lo dos prédios ao redor. Lá dentro, no segundo andar, na sala de reuniões, o chefe do departamento, Inspetor Otto Joachim, estudava uma mensagem. Leu-a duas vezes, depois estendeu a mão e pegou o telefone vermelho em cima da mesa.

Dia Seis

Munique, Alemanha

Na manhã seguinte, ao se encaminhar para seu laboratório de química, Otto Schmidt pensava na conversa que tivera com o americano na noite anterior. De onde teria vindo aquele pedaço de metal? Era espantoso, além de qualquer coisa em sua experiência. E o americano o deixara perplexo. Dissera que estava interessado nos passageiros do ônibus. Por quê? Porque todos foram testemunhas do disco voador? Serão advertidos a não falarem coisa alguma? Se era esse o caso, por que o americano não o advertira? Havia alguma coisa estranha acontecendo, concluiu o professor. Ele entrou no laboratório, tirou o paletó, pendurouo. Pôs o avental para evitar que as roupas ficassem sujas, foi até a bancada em que vinha trabalhando há muitos meses, numa experiência química. Se isto der certo, pensou ele, pode me valer um prêmio Nobel. Ele levantou o béquer de água esterilizada e começou a derramar num recipiente com um líquido amarelo. É estranho. Não me lembro de ser um amarelo tão brilhante. O estrondo da explosão foi tremendo. O laboratório se transformou numa fornalha gigantesca, fragmentos de vidro e carne humana salpicaram as paredes.

 

MENSAGEM URGENTE

ULTRA-SECRETA

BFV PARA VICE-DIRETOR ASN

SEUS OLHOS APENAS

CÓPIA UM DE (UMA) CÓPIAS

ASSUNTO: OPERAÇÃO JUÍZO FINAL

4. OTTO SCHMIDT - ARQUIVADO

FIM DA MENSAGEM

 

Robert perdeu a notícia da morte do professor. Estava a bordo de um avião da italia, a caminho de Roma.

 

Dustin Thornton estava se tornando irrequieto. Tinha o poder agora, e era como uma droga. Queria mais. O sogro, Willard Stone, sempre prometia que o introduziria num misterioso círculo interior, mas até agora não cumprira a promessa.

Foi por puro acaso que Thornton descobriu que o sogro desaparecia todas as sextas-feiras. Thornton ligou para almoçar com ele

— Lamento — disse a secretária particular de Willard Stone —, mas o sr. Stone estará ausente durante o dia inteiro

— É uma pena. Pode marcar um almoço então na próxima sexta-feira?

— Sinto muito, sr. Thornton, mas o sr. Stone também estará ausente na próxima sexta-feira.

Estranho. E se tornou ainda mais estranho quando Thornton telefonou duas semanas depois, e obteve a mesma resposta Para onde o velho desaparece toda sexta-feira? Ele não era um golfista, ou homem que se dedicasse a qualquer hobby.

A resposta óbvia era uma mulher. A esposa de Willard Stone era uma socialite e muito rica. Era uma mulher autoritária, quase tão forte, à sua maneira, quanto o marido. Não era o tipo de mulher que toleraria uma ligação extraconjugal do marido.

Se ele está tendo um caso, pensou Thornton, ficará sob meu controle. Thornton sabia que precisava descobrir.

Com todos os recursos à sua disposição, Dustin Thornton poderia ter descoberto muito depressa o que o sogro andava fazendo. Só que Thornton não era nenhum tolo. Estava bem consciente que teria os maiores problemas se desse um único passo em falso. Willard Stone não era o tipo de homem que admitisse qualquer interferência em sua vida. Thornton decidiu investigar o mistério pessoalmente.

Às cinco horas da manhã, na sexta-feira seguinte, Dustin Thornton estava arriado por trás do volante de um Ford Taurus anónimo, a meio quarteirão da mansão de Willard Stone. Era uma manhã fria e horrível, Thornton se perguntava a todo instante o que fazia ali. Era mais do que provável que houvesse alguma explicação perfeitamente razoável para o estranho comportamento de Stone. Estou desperdiçando meu tempo, pensou Thornton. Mas alguma coisa o mantinha ali.

Às sete horas os portões foram abertos, e um carro saiu. Willard Stone sentava ao volante. Em vez da limusine habitual, ele estava num pequeno furgão preto, geralmente usado pelos criados. Thornton foi dominado por um sentimento de exultação. Sabia que se encontrava na pista de algo importante. As pessoas viviam de acordo com seu padrão, e Stone naquele momento quebrava seu padrão. Só podia ser outra mulher.

Guiando com todo cuidado, permanecendo bem atrás do furgão, Thornton seguiu o sogro pelas ruas de Washington, até a estrada que levava para Arlington.

Terei de cuidar do assunto com o maior cuidado, pensou Thornton. Não quero pressioná-lo demais. Obterei todas as informações que puder sobre sua amante, e depois o confrontarei. Direi que meu único interesse é o de protegê-lo. Ele vai compreender. A última coisa que ele quer é um escândalo público.

Dustin Thornton se achava tão absorvido em seus pensamentos que quase perdeu a curva que Willard Stone fizera. Estavam num bairro residencial exclusivo. O furgão preto desapareceu abruptamente por um caminho entre árvores.

Thornton parou o carro, tentando decidir o que era melhor

Deveria confrontar Willard Stone com sua infidelidade agora? Ou deveria esperar até que Stone se retirasse, e falar com a mulher primeiro? Ou seria melhor obter discretamente todas as informações de que precisava, e só depois conversar com o sogro? Ele resolveu fazer um reconhecimento.

Deixou o carro numa rua transversal, deu a volta para a viela nos fundos da casa de dois andares. Uma cerca de madeira bloqueava a passagem para o quintal dos fundos, mas isso não era problema. Thornton abriu o pequeno portão na cerca e entrou. Deparou com um jardim, enorme, bonito, muito bem-cuidado.

Avançou sem fazer barulho para a sombra das árvores à beira do gramado, ficou parado ali, olhando para a porta dos fundos, tentando decidir qual deveria ser seu próximo movimento. Precisava de provas do que estava acontecendo. Sem isso, o velho riria em sua cara. E o que quer que estivesse acontecendo lá dentro, naquele momento, poderia ser a chave para seu futuro. Ele tinha de descobrir.

Com todo cuidado, Thornton foi até a porta dos fundos, e experimentou a maçaneta. A porta não estava trancada. Ele entrou, descobrindo-se numa cozinha grande e antiquada. Não havia ninguém por ali. Thornton encaminhou-se para a porta de serviço, entreabriu-a. Avistou um enorme vestíbulo. Na outra extremidade, havia uma porta fechada, que podia levar a uma biblioteca. Thornton foi andando para lá, em silêncio. Parou por um momento, escutando. Não havia sinal de vida na casa. O velho provavelmente está lá em cima, no quarto.

Thornton alcançou a porta fechada, abriu-a. E ficou imóvel, aturdido. Havia uma dúzia de homens sentados na sala, em torno de uma mesa grande.

— Entre, Dustin — disse Willard Stone. — Estávamos à sua espera.

 

Roma provou ser muito difícil para Robert, uma provação emocional que o deixou esgotado. Passara a lua-de-mel ali com Susan, as recordações eram angustiantes. Roma era Roberto, que dirigia o Hotel Hassler para a mãe, e era parcialmente surdo, mas podia ler lábios em cinco línguas. Roma era os jardins de Villa d’Este, em Tivoli, o Restaurante Sibilla, e a alegria de Susan com os cem chafarizes criados pelo filho de Lucrécia Bórgia. Roma era Otello, ao pé da Escadaria Espanhola, o Vaticano, o Coliseu, o Fórum, o Moisés de Michelangelo. Roma era partilhar um tartufo no Tre Scalini, o som do riso de Susan, e sua voz murmurando:

— Por favor, Robert, prometa que seremos sempre felizes assim.

O que estou fazendo aqui?, especulou Robert. Não tenho a menor idéia de quem é o padre, nem mesmo se ele está em Roma. Está na hora de cair fora, voltar para casa, esquecer tudo isso.

Mas alguma coisa em seu íntimo, algum veio de obstinação herdado de um ancestral há muito morto, não o deixava partir. Tentarei por um dia, decidiu Robert. Só mais um dia.

O aeroporto Leonardo da Vinci estava apinhado, e Robert tinha a impressão de que uma em cada duas pessoas era um padre. Procurava por um padre numa cidade que tinha... quantos? Cinqüenta mil padres? Cem mil? No táxi, a caminho do Hotel Hassler, ele notou multidões de padres de batina nas ruas. É impossível, pensou Robert. Devo ter perdido o juízo.

Ele foi recebido no saguão do Hotel Hassler pelo gerenteassistente.

— Comandante Bellamy! Que prazer tornar a vê-lo!

— Obrigado, Pietro. Tem um quarto para mim por uma noite?

— Para o senhor... claro! Sempre!

Robert foi conduzido a um quarto que já ocupara antes.

— Se precisar de alguma coisa, comandante, por favor... Preciso de um milagre, pensou Robert. Ele sentou na cama, recostou-se nos travesseiros, tentando clarear a mente.

Por que um padre de Roma viajaria até a Suíça? Havia diversas possibilidades. Podia ter ido de férias, ou talvez houvesse ali uma reunião de padres. Ele era o único padre no ônibus de excursão. O que isso significava? Nada. Exceto, talvez, que não viajava com um grupo. Portanto, podia ter sido uma viagem para visitar amigos ou a família. Ou talvez ele integrasse um grupo, só que os outros preferiram fazer coisas diferentes naquele dia. Os pensamentos de Robert davam voltas num círculo inútil.

De volta ao início. Como o padre chegou à Suíça? As possibilidades maiores são de que ele não tenha um carro. Alguém pode ter lhe dado uma carona, mas é mais provável que ele tenha viajado de avião, trem ou ônibus. Se estava deferias, não disporia de muito tempo. Portanto, vamos presumir que viajou de avião. Essa linha de raciocínio não levava a parte alguma. As empresas aéreas não registravam as ocupações de seus passageiros. O padre seria apenas mais um nome na lista de passageiros. Mas se fosse parte de um grupo...

O Vaticano, a residência oficial do Papa, ergue-se imponente na colina Vaticano, na margem oeste do Tibre, na extremidade noroeste de Roma. O domo da basílica de São Pedro, projetada por Michelangelo, paira acima da vasta piazza, lotada dia e noite por turistas ansiosos de todas as fés.

A piazza é cercada por duas colunatas semicirculares, comcluídas em 1667 por Bernini, com 284 colunas de mármore tra vertino, dispostas em quatro fileiras, encimadas por uma balaus trada em que se encontram 140 estátuas. Robert já visitara o lugar uma dúzia de vezes, mas a vista sempre o deixava emocionado

O interior do Vaticano, é claro, era ainda mais espetacular. A Capela Sistina, o museu e a Sala Rotonda eram de uma beleza indescritível.

Mas naquele dia Robert não se encontrava ali para admirar o lugar.

Ele localizou o departamento de relações públicas do Vaticano na ala do prédio devotada aos assuntos seculares. O jovem por trás da escrivaninha foi polido.

— Em que posso ajudá-lo?

Robert mostrou um documento de identidade.

— Trabalho na revista Time. Estou escrevendo uma reportagem sobre alguns padres que compareceram a uma reunião na Suíça, há uma ou duas semanas. Gostaria de obter informações a respeito.

O jovem estudou-o em silêncio por um momento, depois franziu o rosto.

— Tivemos alguns padres numa reunião em Veneza no mês passado. Nenhum de nossos padres esteve na Suíça recentemente. Lamento, mas não posso ajudá-lo.

— É realmente muito importante — insistiu Robert, com uma expressão aflita. — Onde eu poderia obter essa informação?

— O grupo que está procurando... que ramo da Igreja eles representam?

— Como?

— Há muitas ordens católicas romanas. Há franciscanos, maristas, beneditinos, trapistas, jesuítas, dominicanos, e várias outras ordens. Sugiro que procure a ordem a que eles pertencem e pergunte ali.

Mas onde poderá ser ”ali”?, especulou Robert.

— Tem alguma outra sugestão?

— Infelizmente, não.

Nem eu, pensou Robert. Descobri o palheiro. Não posso encontrar a agulha.

Ele deixou o Vaticano e vagueou pelas ruas de Roma, indiferente às pessoas ao redor, absorvido em seu problema. Na Piazza dei Popolo, sentou num café ao ar livre e pediu um Cinzano. Ficou na sua frente, intacto.

Por tudo o que sabia, o padre podia estar ainda na Suíça. A que ordem ele pertence? Não sei. E só tenho a palavra do professor de que ele era romano.

Robert tomou um gole do Cinzano.

Havia um avião que decolava para Washington no final da tarde. Embarcarei nele, decidiu Robert. Desisto. O pensamento deixou-o mortificado. Fora, não com uma vitória, mas com um fracasso. Mas estava na hora de ir embora.

— // conto, perfavore.

— Si, signore.

Robert correu os olhos pelapiazza. No outro lado do café, passageiros embarcavam num ônibus. Havia dois padres na fila. Robert observou os passageiros pagarem, e se deslocarem para o fundo do ônibus. Quando chegou a vez dos padres, eles sorriram para o trocador e foram ocupar seus lugares sem pagar a passagem.

— Sua conta, signore — disse o garçom.

Robert nem mesmo ouviu. Sua mente estava em disparada. Ali, no coração da Igreja Católica, os padres tinham certos privilégios. Era possível, apenas possível...

O escritório da Swissair fica na Via Pó, 10, a cinco minutos da Via Veneto. Robert foi cumprimentado pelo homem por trás do balcão.

— Posso falar com o gerente, por favor?

— Sou o gerente. Em que posso servi-lo? Robert exibiu um cartão de identificação.

— Michael Hudson, da Interpol.

— Em que posso ajudá-lo, sr. Hudson?

— Algumas transportadoras internacionais estão se queixando de descontos ilegais na Europa... principalmente em Roma. De acordo com as convenções internacionais...

— Desculpe, sr. Hudson, mas a Swissair não concede descontos. Todos pagam as tarifas integrais.

— Todos?

— Com exceção dos funcionários da companhia, é claro.

— Não há um desconto para padres?

— Não. Em nossa companhia, eles pagam a tarifa integral. Em nossa companhia.

— Obrigado por seu tempo.

Robert se retirou. A próxima parada — e sua última esperança — foi na Alitalia.

— Descontos ilegais? — O gerente olhou perplexo para Robert. — Só concedemos descontos a nossos funcionários.

— Não dão descontos a padres? O rosto do gerente se iluminou.

— Ah, isso... claro que sim. Mas não é ilegal. Temos um convênio com a Igreja Católica.

Robert sentiu-se animado.

— Quer dizer que se um padre quisesse voar de Roma para a Suíça, por exemplo, escolheria esta companhia?

— Claro. Seria mais barato para ele.

— A fim de atualizar nossos computadores, seria muito útil se pudesse me informar quantos padres voaram para a Suíça nas duas últimas semanas. Teria um registro disso, não é?

— Claro. Somos obrigados a mantê-los, por questões fiscais.

— Eu agradeceria se me prestasse essa informação.

— Deseja saber quantos padres voaram para a Suíça nas duas últimas semanas?

— Isso mesmo. Zurique ou Genebra.

— Espere um instante. Vou verificar em nosso computador. O gerente voltou cinco minutos depois com um impresso de

computador.

— Houve apenas um padre que voou pela Alitalia para a Suíça nas duas últimas semanas. — Ele consultou o impresso. — Ele partiu de Roma no dia 7, voando para Zurique. Pegou um vôo de volta há dois dias.

Robert respirou fundo.

— E qual é seu nome?

— Padre Romero Patrini.

— E o endereço?

O gerente tornou a consultar o papel.

— Ele mora em Orvieto. Se precisar de mais alguma coisa... O homem levantou os olhos. Robert não estava mais ali.

 

Dia Sete Orvieto, Itália

fie parou o carro numa curva na rota S-71. Ah, podia ter uma vista espetacular da cidade, no outro lado do vale, no alto de um afloramento de rocha vulcânica. Era um antigo centro etrusco, com uma catedral famosa no mundo inteiro, meia dúzia de igrejas, e um padre que testemunhara um acidente com um OVNI.

A cidade não fora afetada pelo tempo, as ruas calçadas com pedras, prédios antigos e adoráveis, e um mercado ao ar livre, onde os camponeses podiam vender seus legumes frescos e galinhas

Robert encontrou um lugar para estacionar na Piazza dei Duomo. Atravessou a praça até a catedral e entrou. O enorme interior estava deserto, exceto por um idoso padre, que naquele instante deixava o altar.

— Com licença, padre — disse Robert. — Estou procurando um padre desta cidade que esteve na Suíça na semana passada. Talvez possa.

O padre recuou, com uma expressão hostil

— Não posso falar sobre isso. Robert ficou surpreso.

— Não compreendo. Quero apenas descobrir..

— Ele não é desta igreja, mas sim da igreja de San Giovenale.

E o padre passou apressado por Robert. Porque ele se mostra tão hostil?

A igreja de San Giovenale ficava no Quartiere Vecchio, uma área pitoresca, com igrejas e torres medievais. Um jovem padre cuidava do jardim ao lado. Levantou os olhos quando Robert se aproximou.

— Buon giorno, signore.

— Bom dia. Estou procurando um padre que esteve na Suíça na semana passada. Ele..

— Já sei, já sei. O pobre Padre Patrini. Foi uma coisa terrível o que lhe aconteceu.

— Não compreendo. Que coisa terrível?

— Ver a carruagem do demónio. Foi mais do que ele pôde suportar. O pobre coitado sofreu um colapso nervoso.

— Lamento saber disso. Onde ele está agora? Eu gostaria de conversar com ele.

— Está no hospital, perto da Piazza di San Patrizio, mas duvido que os médicos permitam que alguém o visite.

Robert ficou imóvel, preocupado. Um homem que sofrera um colapso nervoso não seria de muita ajuda.

— Entendo. Muito obrigado.

O hospital era um prédio simples, de um só andar, nos arredores da cidade. Robert parou o carro na frente e entrou no pequeno saguão. Havia uma enfermeira por trás de uma mesa de recepção.

— Bom dia — disse Robert. — Eu gostaria de falar com o Padre Patrini.

— Miscusi, ma.,, isso é impossível. Ele não pode falar com ninguém.

Robert estava determinado a não ser detido agora. Tinha de seguir a pista que o Professor Schmidt lhe dera.

— Você não compreende — insistiu ele, suavemente. — O Padre Patrini pediu para falar comigo. Vim a Orvieto a seu pedido.

— Ele pediu para lhe falar?

— Isso mesmo. Escreveu para mim na América. E viajei até aqui só para vê-lo.

A enfermeira hesitou.

— Não sei o que dizer. Ele está muito doente. Molto.

— Tenho certeza que melhoraria se me visse.

— O doutor não está aqui... — Ela tomou uma decisão. — Muito bem. Pode entrar no quarto dele, signore, pias só pode ficar por alguns minutos.

— Isso é tudo de que preciso

— Por aqui, per placere.

Eles seguiram por um corredor curto, com pequenos quartos nos lados. A enfermeira conduziu Robert a uma das portas.

— Só alguns minutos, signore.

— Grazie.

Robert entrou no quarto. O homem no leito parecia uma sombra pálida, estendido sobre lençóis brancos. Robert aproximou-se e murmurou:

— Padre...

O sacerdote virou-se para fitá-lo. Robert nunca vira tanta agonia nos olhos de um homem.

— Padre, meu nome é...

Ele segurou o braço de Robert, balbuciando:

— Ajude-me! Tem de me ajudar! Minha fé desapareceu. Passei a vida inteira pregando sobre Deus e o Espírito Santo, e agora sei que Deus não existe. Só há o demônio, e ele veio nos buscar...

— Padre, se quiser...

— Vi com meus próprios olhos. Eram dois, na carruagem do demônio, mas haverá mais, muito mais! Espere só para ver! Estamos todos condenados ao inferno!

— Padre... escute-me. Não era o demônio o que viu. Era um veículo espacial que...

O padre largou o braço de Robert e fitou-o, com súbita lucidez.

— Quem é você? O que deseja?

— Sou um amigo. Vim aqui para saber algumas coisas sobre a viagem de ônibus que fez na Suíça.

— O ônibus... Eu gostaria de nunca ter chegado nem perto dele.

O padre se mostrava agitado de novo. Robert detestava a idéia de pressioná-lo, mas não tinha opção.

— Sentou ao lado de um homem naquele ônibus. Um texano. Teve uma longa conversa com ele, lembra?

— Uma conversa. O texano. Lembro, sim.

— Ele mencionou onde morava no Texas?

— Lembro dele. Era da América.

— Isso mesmo. Do Texas. Ele lhe contou onde morava?

— Contou, sim.

— Onde, padre? Onde ele morava?

— Texas. Ele falou do Texas.

Robert acenou com a cabeça, encorajador.

— É isso mesmo.

— Eu os vi com meus próprios olhos. Gostaria que Deus me tivesse cegado. Eu...

— Padre... o homem do Texas. Ele disse de onde era? Mencionou um nome?

— Texas, isso mesmo. Ponderosa. Robert tentou de novo.

— Isso é na televisão. Aquele era um homem real. Sentou ao seu lado no...

O padre recomeçava a delirar.

— Eles estão chegando! Armagedon está aqui! A Bíblia mente! É o demônio que invadirá a Terra! — Ele berrava agora. — Olhem! Olhem! Posso vê-los!

A enfermeira entrou correndo no quarto. Olhou para Robert com uma expressão de desaprovação.

— Terá de se retirar, signore.

, — Só preciso de mais um minuto...

— No, signore. Adesso!

Robert lançou um último olhar para o padre. Ele balbuciava incoerente. Robert virou-se para sair. Não havia mais nada que pudesse fazer ali. Apostara que o padre lhe daria uma pista para o texano, e perdera.

Robert voltou ao carro e seguiu para Roma. Finalmente acabara As únicas pistas que lhe restavam — se é que podiam ser chamadas de pistas — eram as referências a uma jovem russa, um texano e um húngaro. Mas não havia como investigá-las. Xeque exeque-mate. Era frustrante chegar até aquele ponto, e ter de parar. Se ao menos o padre tivesse permanecido coerente pelo tempo suficiente para prestar a informação de que precisava... Estivera tão perto! O que fora mesmo que o padre dissera? Ponderosa. O velho padre andara assistindo televisão demais e, em seu delírio, obviamente associara o Texas ao outrora popular seriado de televisão ”Bonanza”. Ponderosa, onde vivia a mítica família Cartwright. Ponderosa. Robert diminuiu a velocidade, levou o carro numa curva em U na estrada, acelerou para voltar a Orvieto.

Meia hora depois, Robert conversava com o bartender, numa pequena trattoria na Piazza delia Repubblica

— Esta é uma linda cidade — comentou Robert. — Bastante tranqüila.

— Si, signore. Estamos muito contentes aqui. Já tinha visitado a Itália antes?

— Passei parte de minha lua-de-mel em Roma.

”Você faz com que todos os meus sonhos se transformem em realidade, Robert. Eu queria conhecer Roma desde que era pequena.”

— Ah, Roma. Muito grande. Muito barulhenta.

— Concordo.

— Levamos vidas simples aqui, mas somos felizes. Robert comentou, casual:

— Notei antenas de televisão em muitos telhados por aqui.

— É verdade. Estamos bastante atualizados, sob esse aspecto.

— Dá para perceber. Quantos canais de televisão a cidade pode captar?

— Apenas um.

— E exibe muitos programas americanos?

— Não. É um canal do governo. Aqui só recebemos programas feitos na Itália.

Bingo!

— Obrigado.

Robert telefonou para o Almirante Whittaker. Uma secretária atendeu:

— Gabinete do Almirante Whittaker.

Robert podia visualizar o gabinete. Só podia ser o tipo de cubículo anônimo que o governo mantinha para não-pessoas que não tinham mais qualquer utilidade.

— Eu poderia falar com o almirante, por favor? Aqui é o Comandante Robert Bellamy.

— Um momento, comandante.

Robert se perguntou se alguém se daria ao trabalho de manter contato com o almirante, agora que a figura outrora poderosa pertencia à esquadra de reserva. Provavelmente não.

— Robert, é um prazer ouvi-lo. — A voz do velho parecia cansada. — Onde você está?

— Não posso dizer, senhor. Houve uma pausa.

— Eu compreendo. Há alguma coisa em que eu posso ajudá-lo?

— Há, sim, senhor. É uma situação um pouco constrangedora, porque recebi a ordem de não me comunicar com ninguém. Mas preciso de alguma ajuda externa. Será que poderia verificar uma coisa para mim?

— Posso tentar. O que gostaria de saber?

— Preciso saber se em algum lugar do Texas existe um rancho chamado Ponderosa.

— Como em Bonanza!

— Isso mesmo, senhor.

— Posso descobrir. Como voltarei a entrar em contato com você?

— Acho que será melhor eu lhe telefonar de novo, almirante.

— Está certo. Dê-me uma ou duas horas. E pode deixar que isto ficará entre nós dois.

— Obrigado.

Robert tinha a impressão de que o cansaço desaparecera da voz do velho. Finalmente haviam lhe pedido para fazer alguma coisa, mesmo sendo algo tão trivial quanto localizar um rancho.

Duas horas depois, Robert tornou a ligar para o Almirante Whittaker.

— Eu estava esperando sua ligação, Robert. — Havia uma evidente satisfação na voz do almirante. — Tenho a informação que queria.

— E qual é?

Robert prendeu a respiração.

— Há mesmo um rancho Ponderosa no Texas. Fica nos arredores de Waco, e pertence a Dan Wayne.

Robert deixou escapar um profundo suspiro de alívio.

— Muito obrigado, almirante. Eu lhe devo um jantar quando voltar.

— Estarei aguardando ansioso, Robert.

A ligação seguinte de Robert foi para o General Hilliard.

— Localizei outra testemunha, na Itália. Padre Patrini.

— Um padre?

— Isso mesmo. Em Orvieto. Ele está no hospital, muito doente. Receio que as autoridades italianas não poderão se comunicar com ele.

— Passarei a informação. Obrigado, comandante.

Dois minutos depois, o General Hilliard falava ao telefone com Janus.

— Recebi mais informações do Comandante Bellamy. A última testemunha é um padre. Padre Patrini, de Orvieto.

— Cuidarei disso.

 

MENSAGEM URGENTE

ULTRA-SECRETA

ASN PARA DIRETOR SIFAR

SEUS OLHOS APENAS

CÓPIA UM DE (UMA) CÓPIAS

ASSUNTO: OPERAÇÃO JUlZO FINAL

5. PADRE PATRINI - ORVIETO

FIM DA MENSAGEM

 

O quartel-general do SIFAR é na Via delia Pineta, nos arredores meridionais de Roma, numa área cercada por propriedades rurais. Alguém de passagem só lançaria um segundo olhar para os prédios inocentes, de aparência industrial, ocupando dois quarteirões, por causa do muro alto que cercava o complexo, encimado com arame farpado, com cabines de segurança em cada canto. Oculta no conjunto militar, está uma das mais secretas agências de segurança do mundo, e uma das menos conhecidas. Há placas além do conjunto dizendo: Vietate passare Oltre i Limiti.

Dentro de uma sala espartana, no primeiro andar do prédio principal, o Coronel Francesco César estudava a mensagem urgente que acabara de receber. O coronel era um homem de cinqüenta e poucos anos, um corpo musculoso, um rosto de buldogue, bexiguento. Leu a mensagem pela terceira vez.

Então a Operação Juízo Final está finalmente acontecendo. E una bella fregatura. Ainda bem que nos preparamos para isso, pensou César. Ele tornou a olhar para a mensagem. Um padre.

Já era mais de meia-noite quando a freira passou pelo posto das enfermeiras do plantão noturno no pequeno hospital de Orvieto.

— Acho que ela vai ver a Signora Fillipi — comentou a enfermeira Tomasino.

— Ou então o velho Rigano. Os dois estão nas últimas.

A freira dobrou silenciosamente o canto do corredor e seguiu direto para o quarto do padre. Ele dormia, sereno, as mãos unidas sobre o peito, quase como se estivesse em oração. Uma £aixa de luar entrava pelas venezianas, projetando um brilho dourado no rosto do padre.

A freira removeu uma pequena caixa de baixo do hábito. Com todo cuidado, pegou um rosário de contas de vidro, ajeitouo nas mãos do padre. Ajustando as contas, ela passou a ponta de uma conta no polegar do padre. Um filete de sangue apareceu no mesmo instante. A freira tirou um pequeno vidro da caixa, usou um conta-gotas para pingar três gotas no talho.

Levou apenas alguns minutos para que o veneno mortífero e de ação rápida surtisse efeito. A freira suspirou ao fazer o sinal da-cruz sobre o morto. E depois se retirou, tão silenciosamente quanto chegara.

 

MENSAGEM URGENTE

ULTRA-SECRETA SIFAR PARA VICE-DIRETOR ASN

SEUS OLHOS APENAS

CÓPIA UM DE (UMA) CÓPIAS

ASSUNTO: OPERAÇÃO JUÍZO FINAL

5. PADRE PATRINI - ORVIETO - ARQUIVADO

FIM DA MENSAGEM

 

Frank Johnson foi recrutado porque fora um Boina-Verde no Vietnam, e era conhecido entre seus companheiros como Máquina Assassina. Ele gostava de matar. Era motivado, e possuía uma inteligência excepcional.

— Ele é perfeito para nós — assegurou Janus. — Abordemno com todo cuidado. Não quero perdê-lo.

A primeira reunião ocorreu num quartel do exército. Um capitão conversava com Frank Johnson.

— Não se preocupa com o nosso governo? — indagou o capitão. — É dirigido por um bando de maricas, que estão nos entregando aos estrangeiros. Este país precisa da energia nuclear, mas os filhos da puta dos políticos têm nos impedido de construir novas usinas. Dependemos da porra dos árabes para o petróleo, mas o governo permite que façamos novas perfurações no mar? De jeito nenhum. Estão mais preocupados com os peixes do que com a gente. Isso faz sentido para você?

— Entendo seu argumento — disse Frank Johnson.

— Eu sabia que entenderia, porque é inteligente. — Ele observou atentamente o rosto de Johnson, enquanto acrescentava: — Se o Congresso não faz porra nenhuma para salvar nosso país, então cabe a alguns de nós fazer o que é necessário.

Frank Johnson ficou perplexo.

— Alguns de nós!

— Isso mesmo. — Já chega, por enquanto, pensou o capitão. — Conversaremos a respeito mais tarde.

A conversa seguinte foi mais específica.

— Há um grupo de patriotas, Frank, que está interessado em proteger nosso mundo. São homens de muita influência. Criaram um comitê. O comitê pode ser obrigado a violar algumas regras para realizar seu trabalho, mas ao final valerá a pena. Está interessado?

Frank Johnson sorriu.

— Estou muito interessado.

Esse foi o início. A reunião seguinte ocorreu em Ottawa, Canadá, e Frank Johnson conheceu alguns dos membros do comitê. Representavam interesses poderosos de uma dúzia de países.

— Somos bem organizados — explicou um membro a Frank Johnson. — Temos uma cadeia de comando rigorosa. Há divisões de propaganda, recrutamento, tática, ligação... e um esquadrão da morte. — Uma pausa e ele acrescentou: — Quase todos os serviços secretos do mundo participam.

— Está querendo dizer que os diretores...

— Não, não os diretores. Os vices. As pessoas que controlam os serviços, sabem o que está acontecendo, conhecem o perigo que nossos países correm.

As reuniões eram realizadas pelo mundo inteiro — Suíça, Marrocos, China — e Johnson comparecia a todas.

Seis meses transcorreram antes que o Coronel Johnson se encontrasse com Janus, que mandara chamá-lo.

— Tenho recebido excelentes informações a seu respeito, coronel.

Frank Johnson sorriu.

— Gosto do meu trabalho.

— Foi o que ouvi dizer. Encontra-se numa posição vantajosa para nos ajudar.

Frank Johnson ficou ainda mais empertigado na cadeira.

— Farei tudo o que puder.

— Ótimo. Na Fazenda, está encarregado de supervisionar o treinamento dos agentes secretos de vários serviços.

— Isso mesmo.

— E passa a conhecê-los e a suas capacidades muito bem.

— A fundo.

— Eu gostaria que recrutasse aqueles que considerar mais úteis à nossa organização. Só nos interessamos pelos melhores.

— É bem fácil. Não tem o menor problema. — O Coronel Johnson hesitou. — Mas eu gostaria...

— O quê?

— Posso fazer isso com a mão esquerda. Na verdade, eu gostaria de algo mais, algo maior. — Ele inclinou-se para a frente. — Ouvi falar da Operação Juízo Final. É o meu caminho. Gostaria de participar, senhor.

Janus ficou em silêncio por um momento, estudando-o. Depois, acenou com a cabeça e disse:

— Muito bem, você está dentro. Johnson sorriu.

— Obrigado. Não vai se arrepender.

O Coronel Frank Johnson saiu muito feliz da reunião. Agora teria uma oportunidade de mostrar a eles o que era capaz de fazer.

 

Dia Oito Waco, Texas

D. Wayne não estava tendo um bom dia. Na verdade, tinha um péssimo dia. Acabara de voltar do tribunal do condado de Waco, onde enfrentava um processo de falência. A esposa, que mantivera uma ligação amorosa com seu jovem médico, estava se divorciando, empenhada em arrancar a metade de tudo o que ele possuía (e que podia ser a metade de nada, informara o advogado dela). E um de seus touros premiados teve de ser sacrificado. Dan Wayne sentia que o destino o chutava nos colhões. Nada fizera para merecer tudo aquilo. Sempre fora um bom marido e um bom rancheiro. Sentado em seu escritório, ele pensava no futuro sombrio.

Era um homem orgulhoso. Conhecia todas as piadas sobre os texanos arrogantes e fanfarrões, mas acreditava sinceramente que tinha do que se gabar. Nascera em Waco, na rica região agrícola do vale do rio Brazos. Waco era uma cidade moderna, mas ainda conservava um certo clima do passado, quando vivia do gado, algodão, milho, estudantes e cultura. Wayne amava Waco com toda a força de seu coração e alma. Ao conhecer o padre italiano, na excursão de ônibus na Suíça, passara quase cinco horas falando de sua cidade natal. O padre lhe dissera que queria praticar seu inglês, mas na verdade, como podia perceber agora, ao recordar, Dan falara durante quase todo o tempo.

— Waco tem tudo — ele garantira ao padre. — Nosso clima é maravilhoso. Não deixamos que fique quente demais ou frio demais. Temos vinte e três escolas no distrito, e mais a Universidade Baylor. Temos quatro jornais, dez emissoras de rádio, e cinco emissoras de televisão. Temos uma Galeria da Fama dos Rangers do Texas que o deixaria impressionado. Falo sério, é a própria história que está ali. Se gosta de pescar, padre, o rio Brazos será uma experiência que nunca mais esquecerá. Temos também um rancho safári e um grande centro de arte. Waco é uma das cidades mais extraordinárias do mundo. Deve nos visitar um dia.

E o velho padre sorria e acenava com a cabeça, levando Wayne a especular o quanto ele de fato entendia o inglês.

O pai de Dan Wayne lhe deixara mil acres de pastagens, e o filho aumentara seu rebanho de duas mil para dez mil cabeças de gado. Havia também um touro premiado que valia uma fortuna. Mas agora os desgraçados estavam tentando lhe arrancar tudo. Não era culpa sua que o mercado de gado tivesse despencado, ou que tivesse se atrasado nos pagamentos da hipoteca. Os bancos se preparavam para o golpe de misericórdia, e sua única oportunidade de se salvar era encontrar alguém que comprasse o rancho, pagasse os credores e o deixasse com um pequeno lucro.

Wayne ouvira falar sobre um rico suíço que procurava um rancho no Texas, e voara para Zurique a fim de encontrá-lo. Ao final, descobrira que fora um esforço inútil. A idéia que o idiota fazia de um rancho era um ou dois acres, com uma pequena horta. Merda!

Fora assim que Dan Wayne se encontrava por acaso no ônibus de excursão, quando aquela coisa extraordinária acontecera. Ele já lera sobre discos voadores, mas jamais acreditara que existissem de fato. Agora, por Deus, claro que acreditava. Assim que voltara para casa, ele ligara para o editor do jornal local.

— Johnny, vi um disco voador de verdade, com algumas pessoas de aparência esquisita mortas lá dentro.

— É mesmo? Tem alguma foto, Dan?

— Não. Tirei algumas, mas o filme velou.

— Não importa. Mandaremos um fotógrafo. É no seu rancho?

— Não. Para dizer a verdade, aconteceu na Suíça. Houvera um momento de silêncio.

— Certo. Se encontrar algum em seu rancho, Dan, ligue-me de novo.

— Espere um instante! Vou receber uma cópia de um sujeito que tirou algumas fotos.

Mas John já desligara.

E isso fora tudo.

Wayne quase desejava que houvesse mesmo uma invasão de alienígenas. Talvez matassem os seus malditos credores. Ele ouviu o barulho de um carro subindo pelo caminho, levantou-se, foi até a janela. Parecia alguém do Leste. Provavelmente outro credor. Hoje em dia eles apareciam aos montões.

Dan Wayne abriu a porta da frente.

— Olá.

— Daniel Wayne?

— Meus amigos me chamam de Dan. O que deseja? Dan Wayne não era absolutamente o que Robert esperava.

Imaginara um estereótipo do texano corpulento. Dan Wayne era franzino, com uma aparência aristocrática, um comportamento quase tímido. A única coisa que denunciava sua herança era o sotaque.

— Poderia me dispensar alguns minutos de seu tempo?

— Isso é praticamente tudo o que me resta — disse Wayne. — Por falar nisso, você não é um credor, não é mesmo?

— Um credor? Não, não sou.

— Ótimo. Entre.

Os dois foram para a sala de estar. Era grande, confortavelmente mobiliada, ao estilo do oeste americano.

— Tem uma bela casa — comentou Robert.

— É, sim. Nasci nesta casa. Posso lhe oferecer alguma coisa? Talvez um drinque gelado?

— Não, obrigado.

— Sente-se

Robert sentou num sofá de couro macio.

— Por que veio me procurar?

— Não esteve num ônibus de excursão na Suíça, na semana passada?

— Estive, sim. Minha ex-esposa mandou me seguir? Não trabalha para ela, não é?

— Não, senhor.

— Ahn... — Ele compreendeu subitamente. — Está interessado naquele OVNI. A coisa mais esquisita que já vi. Não parava de mudar de cor. E aqueles alienígenas! — Dan Wayne estremeceu. — Sempre sonho com isso.

— Sr. Wayne, pode me falar alguma coisa sobre os outros passageiros que estavam no ônibus?

— Desculpe, mas não posso ajudá-lo neste ponto. Eu viajava sozinho.

— Sei disso, mas não conversou com outros passageiros?

— Para dizer a verdade, eu tinha muita coisa na cabeça. Não prestei muita atenção aos outros.

— Lembra alguma coisa sobre qualquer deles? Dan Wayne ficou em silêncio por um momento.

— Havia um padre italiano. Conversei bastante com ele. Parecia muito simpático. Mas aquele disco voador deixou o homem abalado. Ele não parou mais de falar sobre o demônio.

— Falou com mais alguém? Dan Wayne deu de ombros.

— Não... Ei, espere um instante! Conversei um pouco com um sujeito que possui um banco no Canadá. — Ele passou a língua pelos lábios. — Para ser franco, estou tendo um problema financeiro aqui no rancho. Parece que posso perdê-lo. Odeio os banqueiros. São todos uns sanguessugas. Seja como for, achei que aquele camarada poderia ser diferente. Quando descobri que era um banqueiro, conversei com ele sobre a possibilidade de obter um empréstimo para o rancho. Mas ele era igualzinho aos outros. Não podia se mostrar menos interessado.

— Disse que ele era do Canadá?

— Isso mesmo. Dort Smith, nos Territórios do Noroeste. Infelizmente, isso é tudo o que posso lhe dizer.

Robert fez um esforço para esconder seu excitamento.

— Obrigado, sr. Wayne. Foi de grande valia. Robert se levantou.

— Isso é tudo?

— É, sim.

— Não gostaria de ficar para o jantar?

— Não, obrigado. Tenho de seguir viagem. Boa sorte com o rancho.

— Obrigado.

Fort Smith, Canadá Territórios do Noroeste

Robert esperou até que o General Hilliard entrasse na linha.

— Pois não, comandante?

— Encontrei outra testemunha. Dan Wayne. Ele possui o rancho Ponderosa, nos arredores de Waco, Texas.

— Ótimo. Mandarei o pessoal do nosso escritório no Texas conversar com ele.

 

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6. DANIEL WAYNE - WACO

FIM DA MENSAGEM

 

Em Langley, Virgínia, o vice-diretor da CIA estudou a mensagem, pensativo. Número seis. As coisas estavam indo muito bem. O Comandante Bellamy realizava um trabalho extraordinário.

A decisão de escolhê-lo fora das mais sensatas. Janus acertara em cheio. O homem sempre acertava. E tinha o poder para que seus desejos fossem executados. Tanto poder... O vice-diretor tornou a olhar para a mensagem. Fazer com que pareça um acidente, pensou ele. Não deve ser difícil. Ele apertou uma campainha.

Os dois homens chegaram ao rancho num furgão azul escuro. Pararam no pátio e saltaram, olhando ao redor com todo cuidado. O primeiro pensamento de Dan Wayne foi o de que se encontravam ali para tomar posse do rancho. Abriu a porta para eles.

— Dan Wayne?

— Sou eu mesmo. Em que posso...? Foi o máximo que ele conseguiu dizer.

O segundo homem postara-se por trás dele, e acertou-o no crânio com toda força, usando um pequeno cassetete.

O maior dos dois homens pendurou o rancheiro inconsciente no ombro, carregou-o para o estábulo. Havia oito cavalos no estábulo. Os homens ignoraram-nos, seguiram até a última baia, onde estava um lindo garanhão preto. O homem maior disse:

— É este.

Ele largou o corpo de Wayne no chão. O outro homem pegou um aguilhão elétrico pendurado na parede, foi até a porta da baia, encostou o aguilhão no cavalo. O animal relinchou e empinou. O homem tornou a atingi-lo, no focinho. O garanhão corcoveava frenético agora, confinado no pequeno espaço, chocando-se contra as paredes da baia, os dentes à mostra, o branco dos olhos faiscando.

— Agora — disse o homem menor.

Seu companheiro levantou o corpo de Dan Wayne, jogouo por cima da meia porta da baia. Ficaram assistindo a cena sangrenta por vários momentos, e depois, satisfeitos, viraram as costas e foram embora.

 

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6. DANIEL WAYNE - WACO - ARQUIVADO

FIM DA MENSAGEM

 

Dia Nove

Fort Smith, Canadá

Fort Smith, nos Territórios do Noroeste, é uma próspera cidadezinha de dois mil habitantes, quase todos agricultores e criadores de gado, com um punhado de comerciantes. O clima é terrível, com invernos longos e rigorosos, e a cidade é a prova viva da teoria de Darwin sobre a sobrevivência dos mais aptos.

William Mann era um dos mais aptos, um sobrevivente. Nascera em Michigan, mas com trinta e poucos anos passara por Fort Smith, uma viagem de pescaria, e concluíra que a comunidade precisava de outro bom banco. Ele aproveitara a oportunidade. Havia apenas um outro banco ali, e William Mann precisou de menos de dois anos para afastar o concorrente. Mann dirigia seu banco como um banco deve ser dirigido. Seu deus era a matemática, e sempre dava um jeito para que os números o beneficiassem. Sua história predileta era a piada do homem que procurou um banqueiro, suplicando um empréstimo para que o filho pudesse fazer uma operação imediata, que lhe salvaria a vida. Como o candidato ao empréstimo não pudesse oferecer qualquer garantia, o banqueiro mandou que ele fosse embora.

— Eu irei — disse o homem —, mas quero que saiba que em toda a minha vida jamais conheci alguém de coração tão frio quanto você.

— Espere um instante — respondeu o banqueiro. — Vamos fazer uma aposta. Um dos meus olhos é de vidro. Se for capaz de descobrir qual deles, eu lhe darei o empréstimo.

O homem respondeu sem a menor hesitação:

— É o esquerdo.

O banqueiro ficou espantado.

— Ninguém sabia disso. Como descobriu?

— Foi muito fácil. Por um momento, tive a impressão de que havia um brilho de compaixão em seu olho esquerdo. Assim, eu sabia que só podia ser um olho de vidro.

Para William Mann, essa era a história de um bom homem de negócios. Não se conduzia um negócio na base da compaixão. Era preciso sempre verificar os lucros. Enquanto outros bancos no Canadá e Estados Unidos caíam como pinos de boliche, o banco de William Mann estava mais forte do que nunca. Sua filosofia era simples: Nada de empréstimos para iniciar um negócio. Nada de investimentos em títulos arriscados. Nada de empréstimos a vizinhos cujos filhos estivessem precisando desesperadamente de uma operação.

Mann sentia um respeito que beirava a reverência pelo sistema bancário suíço. Os homens de Zurique eram os banqueiros dos banqueiros. Por isso, William Mann decidira um dia ir à Suíça para conversar com alguns banqueiros ali, a fim de descobrir se havia alguma coisa que estava perdendo, alguma maneira de espremer mais alguns centavos do dólar canadense. Fora recebido com toda gentileza, mas no final não aprendera nada de novo. Seus próprios métodos de administração bancária eram admiráveis, e os banqueiros suíços não hesitaram em lhe dizer isso.

No dia em que deveria retornar ao Canadá, Mann decidira se presentear com uma excursão pelos Alpes. Achara a excursão muito chata. As paisagens eram interessantes, mas não mais bonitas do que as que se podia ver nos arredores de Fort Smith. Um dos passageiros, um texano, se atrevera a tentar persuadi-lo a conceder um empréstimo a um rancho à beira da falência. Ele rira na cara do homem. A única coisa de algum interesse na excursão fora o acidente do suposto disco voador. Mann não acreditara na realidade daquilo por um instante sequer. Tinha certeza de que fora um espetáculo encenado pelo governo suíço para impressionar os turistas. Já estivera em Disneyworld, e vira coisas similares, que pareciam reais, mas eram falsas. É o olho de vidro da Suíça, pensara ele, sardónico.

William Mann sentira-se feliz ao voltar para casa.

Todos os minutos do dia do banqueiro eram meticulosamente programados. Por isso, quando sua secretária informou que um estranho desejava lhe falar, o primeiro instinto de Mann foi o de descartá-lo.

— O que ele quer?

— Diz que quer fazer uma entrevista. Está escrevendo uma reportagem sobre banqueiros.

O que tornava a questão muito diferente. A publicidade do tipo certo era sempre boa para os negócios. William Mann endireitou o paletó, alisou os cabelos, e disse:

— Mande-o entrar.

O visitante era um americano. Vestia-se bem, o que indicava que trabalhava para uma das melhores revistas ou jornais.

— Sr. Mann?

— Isso mesmo.

— Meu nome é Robert Bellamy.

— Minha secretária disse que quer escrever uma matéria a meu respeito.

— Não exclusivamente a seu respeito, mas pode estar certo de que terá um lugar de destaque. Meu jornal..

— Que jornal?

— O Wall Street Journal. Mas isso será maravilhoso!

— O Journal acha que a maioria dos banqueiros se mantém isolada do que acontece no resto do mundo. Raramente viajam, não vão a outros países. Mas a sua reputação é de ser um homem viajado, sr. Mann.

— Acho que sou mesmo — respondeu Mann. — Para dizer a verdade, voltei de uma viagem à Suíça na semana passada.

— É mesmo? E gostou?

— Gostei muito. Reuni-me com diversos banqueiros. Discutimos a economia internacional.

Robert tirara um caderninho do bolso, estava tomando anotações.

— Encontrou tempo para se divertir?

— Não muito. Fiz apenas uma pequena excursão num desses ônibus de turismo. Nunca tinha visto os Alpes antes.

Robert escreveu outra anotação.

— Uma excursão. É justamente o tipo de coisa que estamos procurando — disse Robert, encorajador. — Imagino que conheceu uma porção de pessoas interessantes no ônibus.

— Interessantes? — Mann pensou no texano que tentara lhe arrancar um empréstimo. — Nem tanto.

— Nenhuma?

Mann fitou-o. Era evidente que o repórter esperava que ele falasse mais alguma coisa. ”Pode estar certo de que terá um lugar de destaque.”

— Havia uma jovem russa. Robert fez uma anotação.

— Fale-me sobre ela.

— Começamos a conversar, expliquei a ela como a Rússia era atrasada, os problemas para os quais se encaminhavam, a menos que mudassem.

— Ela deve ter ficado muito impressionada — comentou Robert.

— E ficou mesmo. Parecia uma garota inteligente. Isto é, para uma russa. Afinal, eles vivem isolados demais.

— Ela mencionou seu nome?

— Não... espere! Era Olga alguma coisa.

— Por acaso ela disse de onde era?

— Disse, sim. Ela trabalha na principal biblioteca de Kiev. Era sua primeira viagem ao exterior, creio que por causa da glasnost. Se quer saber minha opinião... — Ele fez uma pausa, para se certificar de que Robert anotava tudo. — Gorbatchov mandou a Rússia para o inferno num cesto. A Alemanha Oriental foi entregue a Bonn numa bandeja. Na frente política, Gorbatchov avançou depressa demais, e na econômica foi muito lento.

— Isso é fascinante! — murmurou Robert.

Ele passou mais meia hora com o banqueiro, escutando seus comentários sobre tudo, do Mercado Comum ao controle de armamentos. Não conseguiu obter mais informações sobre os outros passageiros.

Voltando ao hotel, Robert telefonou para o General Hilliard.

— Um momento, por favor, Comandante Bellamy.

Ele ouviu uma série de estalidos, e depois o General Hilliard entrou na linha.

— Pois não, comandante?

— Descobri outro passageiro, general.

— O nome?

— William Mann. Ele possui um banco em Fort Smith, Canadá.

— Pedirei as autoridades canadenses que falem com ele imediatamente.

— Por falar nisso, ele me deu outra pista. Voarei para a Rússia esta noite. Preciso de um visto da Intourist.

— De onde está ligando?

— De Fort Smith.

— Passe pelo Visigoth Hotel, em Estocolmo. Haverá um envelope à sua espera na recepção.

— Obrigado.

 

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ASSUNTO: OPERAÇÃO JUÍZO FINAL

7. WILLIAM MANN - FORT SMITH

FIM DA MENSAGEM


Naquela noite, às*onze horas, a campainha da porta de William Mann tocou. Ele não esperava ninguém, e detestava visitas inesperadas. Sua empregada já fora embora, e a esposa dormia no quarto lá em cima. Irritado, Mann foi abrir a porta da frente. Dois homens vestindo ternos pretos estavam ali.

— William Mann?

— Isso mesmo.

Um dos homens exibiu um cartão de identificação.

— Somos do Banco do Canadá. Podemos entrar? Mann franziu o rosto.

— Qual é o problema?

— Preferimos discutir lá dentro, se não se importa.

— Está bem.

Ele levou os homens para a sala de estar.

— Não esteve recentemente na Suíça? A pergunta pegou-o de surpresa.

— Como? Estive, sim, mas o que isso...

— Enquanto viajava, foi feita uma auditoria em seus livros, sr. Mann. Sabia que há um déficit em seu banco de um milhão de dólares?

William Mann olhou consternado para os dois homens.

— Mas do que estão falando? Verifico os livros pessoalmente todas as semanas. Nunca houve um único centavo faltando!

— Um milhão de dólares, sr. Mann. Achamos que é o responsável pelo desvio.

O rosto de Mann estava ficando vermelho. Ele se descobriu a balbuciar.

— Como... como se atrevem? Saiam daqui antes que eu chame a polícia!

— De nada lhe adiantaria. O que queremos é que se arrependa.

Ele estava agora totalmente confuso.

— Arrepender-me? Arrepender-me do quê? Vocês estão doidos!

— Não, senhor.

Um dos homens sacou um revólver.

— Sente-se, sr. Mann.

Oh, Deus, estou sendo assaltado!

— Podem levar o que quiserem — balbuciou Mann. — Não há necessidade de violência e...

— Sente-se, por favor.

O segundo homem foi até o armário de bebidas. Estava trancado. Ele quebrou o vidro para abri-lo. Pegou um copo de água grande, encheu-o de scotch, levou para o lugar em que Mann sentava.

— Beba isto. Vai servir para relaxá-lo.

— Eu... nunca bebo depois do jantar. Meu médico...

O outro homem encostou o revólver na têmpora de William Mann.

— Beba logo, ou o copo ficará cheio dos seus miolos. Mann compreendeu agora que se encontrava em poder de

dois maníacos. Pegou o copo com a mão trêmula e tomou um gole.

— Tome tudo.

Ele tomou um gole maior.

— O que... o que vocês querem?

Mann alteou a voz, na esperança de que a esposa o ouvisse e descesse, mas era inútil. Sabia como ela tinha um sono pesado. Era evidente que aqueles homens se encontravam ali para assaltar a casa. Por que então eles não pegam logo tudo e vão embora?

— Levem tudo o que quiserem — disse ele. — Não vou impedi-los.

— Termine de tomar o que está no copo.

— Isso não é necessário. Eu...

O homem desferiu-lhe um soco violento, por cima do ouvido. Mann ofegou com a dor.

— Beba tudo.

Ele engoliu o resto do uísque de um só gole, sentiu-o arder enquanto descia. Já começava a se sentir tonto.

— Meu cofre está lá em cima. — As palavras saíam engroladas. — Vou abri-lo para vocês.

Talvez isso Acordasse a esposa, que chamaria a polícia.

— Não há pressa — disse o homem com o revólver. — Você tem bastante tempo para outro drinque.

O segundo homem voltou ao bar e tornou a encher o copo até a borda.

— Tome aqui.

— Não dá — protestou William Mann. — Não quero beber mais nada.

O copo foi empurrado em sua mão.

— Beba logo.

— Eu não...

Um punho acertou no mesmo lugar, por cima do ouvido. Mann quase desmaiou com a dor.

— Beba.

Se é isso o que vocês querem, por que não? Quanto mais depressa este pesadelo acabar, melhor. Ele tomou um gole grande, engasgou.

— Se eu beber mais, acabarei vomitando. O homem disse calmamente:

— Se vomitar, eu vou matá-lo.

Mann olhou para ele, e depois para seu parceiro. Parecia haver dois de cada um.

— O que vocês querem, afinal?

— Já lhe dissemos, sr. Mann. Queremos que se arrependa. William Mann balançou a cabeça, embriagado.

— Está bem, eu me arrependo. O homem sorriu.

— Está vendo? Isso é tudo o que pedimos. Agora... — Ele pôs um papel na mão de Mann. — Só precisa escrever ”Sinto muito. Perdoem-me”.

William Mann levantou os olhos injetados.

— Isso é tudo?

— É, sim. E depois iremos embora.

Ele experimentou um súbito senso de exultação. Então é esse o problema. Eles são fanáticos religiosos. Assim que saíssem, ele telefonaria para a polícia e mandaria prendê-los. E cuidarei para que os filhos da puta sejam enforcados.

— Escreva, sr. Mann.

Ele tinha dificuldade para focalizar.

— O que foi mesmo que disse que quer que eu escreva?

— Basta escrever ”Sinto muito. Perdoem-me.”

— Certo.

Não foi fácil segurar a caneta. Ele concentrou-se ao máximo, começou a escrever. ”Sinto muito. Perdoem-me.” O homem tirou o papel de sua mão, segurando-o pela beira.

— Está ótimo, sr. Mann. Viu como foi fácil? A sala começava a girar rapidamente.

— Tem razão. Obrigado. Já me arrependi. Agora vocês vão embora?

— Vejo que é canhoto.

— Como?

— É canhoto.

— Sou, sim.

— Tem havido muitos crimes por aqui ultimamente, sr. Mann. Vamos lhe deixar esta arma para se defender.

Ele sentiu o revólver sendo posto em sua mão esquerda.

— Sabe usar um revólver?

— Não.

— É muito simples. Basta fazer isto...

Ele levantou o revólver para a têmpora de William Mann, puxou o dedo do banqueiro no gatilho. Houve um estampido abafado. O bilhete manchado de sangue caiu no chão.

— Isso é tudo — disse um dos homens. — Boa noite, sr. Mann.

 

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ASSUNTO: OPERAÇÃO JUÍZO FINAL

7. WILLIAM MANN - FORT SMITH - ARQUIVADO

FIM DA MENSAGEM


Dia Dez

Fort Smith, Canadá

Na manhã seguinte, os auditores constataram o desaparecimento de um milhão de dólares do banco de Mann. A polícia registrou a morte de Mann como suicídio.

O dinheiro desaparecido nunca foi encontrado.

 

Dia Onze Bruxelas, 03:00

O General Shipley, o comandante do quartel-general da OTAN, foi despertado por seu ajudante-de-ordens.

— Desculpe acordá-lo, general, mas parece que temos uma situação crítica nas mãos.

O General Shipley sentou na cama, esfregando os olhos para afugentar o sono. Fora dormir tarde, recebendo um grupo de senadores visitantes dos Estados Unidos.

— Qual é o problema, Billy?

— Acabo de receber um aviso da torre de radar, senhor. Ou todo o nosso equipamento enlouqueceu, ou estamos recebendo estranhos visitantes.

O General Shipley saiu da cama.

— Diga-lhes que estarei lá em cinco minutos.

A sala de radar às escuras estava cheia de praças e oficiais, reunidos em torno das telas iluminadas no centro. Todos se viraram e assumiram posição de sentido quando o general entrou.

— À vontade. — Ele se encaminhou para o oficial no comando, Capitão Miller. — O que está acontecendo, Lewis? O Capitão Miller coçou a cabeça.

— Não consigo entender. Conhece algum avião que seja capaz de voar a trinta e cinco mil quilómetros horários, parar numa fração de segundo, e inverter o curso?

O General Shipley ficou aturdido.

— Mas do que está falando?

— Segundo nossas telas de radar, é isso o que vem acontecendo há meia hora. A princípio, pensamos que fosse alguma espécie de artefato eletrônico sendo testado, mas conferimos com os russos, os britânicos e os franceses, e todos estão captando a mesma coisa em suas telas de radar.

— Portanto, não pode ser alguma falha no equipamento — comentou o General Shipley, sombrio.

— Não, senhor, a menos que se queira presumir que todos os radares do mundo enlouqueceram ao mesmo tempo.

— Quantos sinais desses apareceram na tela?

— Mais de uma dúzia. Deslocam-se tão depressa que é difícil até acompanhá-los. Nós os captamos, mas eles tornam a desaparecer em seguida. Já eliminamos a possibilidade de condições atmosféricas, meteoros, balões meteorológicos, e qualquer tipo de máquinas voadoras conhecidas do homem. Pensei em despachar alguns aviões, mas esses objetos... o que quer que sejam... voam tão alto que nunca conseguiríamos chegar nem perto.

O General Shipley foi até uma das telas de radar

— Há alguma coisa nas telas neste momento?

— Não, senhor. Desapareceram. — O técnico hesitou por um instante, mas acabou acrescentando: — Mas tenho o terrível pressentimento, general, de que voltarão em breve.

 

Ottawa, 05:00

Quando Janus terminou deler em voz alta o relatório do GenerafShipley, o italiano levantou-se e disse, muito excitado:

— Eles estão se preparando para nos invadir!

— Já nos invadiram — comentou o francês.

— Chegamos tarde demais! — exclamou o russo. — É uma catástrofe! Não há a menor possibilidade...

Janus interveio:

— Senhores, é uma catástrofe que podemos evitar.

— Como? — O inglês. — Conhece as exigências deles.

— E essas exigências são inadmissíveis. — O brasileiro. — Não é da conta deles o que fazemos com as nossas árvores. O suposto efeito estufa não passa de lixo científico, totalmente sem provas.

— E o que nós vamos fazer? — O alemão. — Se nos obrigarem a purificar o ar por cima de nossas cidades, teríamos de fechar as fábricas. Não sobraria nenhuma indústria.

— E nós teríamos de interromper a produção de carros, — O japonês. — E o que aconteceria então com o mundo civilizado?

— Estamos todos na mesma situação. — O russo. — Se tivéssemos de parar com toda a poluição, como eles exigem, isso destruiria a economia internacional. Devemos ganhar mais tempo, até que Guerra na Estrelas esteja pronto para entrar em ação. Janus disse, incisivo:

— Todos concordamos com isso. Nosso problema imediato é manter o povo calmo, evitar que o pânico se espalhe.

— Como está indo o Comandante Bellamy? — indagou o canadense.

— Vem fazendo um excelente progresso. Deve terminar em um ou dois dias.

 

Kiev, União Soviética

ccomo a maioria de suas compatriotas, Olga Romanchanko se desencantara com aperestroika. No início, todas as mudanças prometidas que iriam ocorrer na Mãe Rússia pareciam emocionantes. Os ventos da liberdade sopravam pelas ruas, o ar estava impregnado de esperança. Havia promessas de carne e legumes frescos nas lojas, lindos vestidos e sapatos de couro genuíno, e uma centena de outras coisas maravilhosas. Mas agora, seis anos depois que tudo começara, a desilusão amarga assentara. Os bens de consumo se tornavam mais escassos do que nunca. Era impossível sobreviver sem o mercado negro. Havia uma escassez de tudo praticamente, os preços haviam disparado. As ruas principais ainda tinham incontáveis rytvina — enormes crateras. Havia manifestações de protesto nas ruas, o crime aumentava. A perestroika e a glasnost começavam a parecer tão vazias quanto as promessas dos políticos que as promoviam.

Olga trabalhara na biblioteca na praça Lenkomsomol, no centro de Kiev, durante sete anos. Tinha trinta e dois e nunca viajara para fora da União Soviética. Era razoavelmente atraente, com algum excesso de peso, mas isso não era considerado uma desvantagem na Rússia. Já estivera noiva duas vezes, de homens que foram embora, abandonando-a: Dmitri, que partira para Leningrado; e Ivan, que se mudara para Moscou. Olga bem que tentara se transferir para Moscou com Ivan, mas sem umapropiska, uma permissão de residência em Moscou, isso não era possível.

Ao se aproximar o seu trigésimo terceiro aniversário, Olga decidira que conheceria alguma coisa do mundo exterior, antes que a Cortina de Ferro tornasse a se fechar ao seu redor. Procurara a chefe das bibliotecárias, que por acaso era sua tia.

— Eu gostaria de tirar minhas férias agora — dissera Olga.

— Quando quer partir?

— Na próxima semana.

— Divirta-se.

Fora simples assim. Nos tempos anteriores à perestroika, tirar férias significaria ir para o Mar Negro, Samarkand ou Tiblis, ou qualquer de uma dúzia de outros lugares dentro da União Soviética. Mas agora, se ela fosse bastante rápida, o mundo inteiro se abria à sua frente. Olga pegara um atlas e o examinara. O mundo lá fora era tão vasto! Havia a África e a Ásia, a América do Norte e a do Sul... Ela sentira medo de se arriscar tão longe. E se concentrara no mapa da Europa. Suíça, pensara Olga. É para lá que eu irei.

Jamais admitiria para nenhuma pessoa no mundo, mas o principal motivo para que a Suíça a atraísse era o fato de ter provado uma ocasião um chocolate suíço, e nunca mais o esquecera. Adorava chocolate. O chocolate russo — quando se conseguia obtê-lo — era sem açúcar e tinha um gosto horrível.

O gosto por chocolate haveria de lhe custar a vida.

A viagem pela Aeroflot para Zurique fora um começo emocionante. Olga nunca voara antes. Pousara no aeroporto internacional de Zurique na maior expectativa. Havia algo no ar que era diferente. Talvez fosse o cheiro da verdadeira liberdade, pensara Olga. Seus recursos eram bastante limitados, e ela fizera uma reserva num hotel pequeno e barato, o Leonhare, em Limmatquai, 136. Olga fora se registrar na recepção.

— Esta é a primeira vez que visito a Suíça — dissera ela, num inglês precário. — Poderia me sugerir algumas coisas para fazer?

— Claro — respondera o recepcionista. — Há muita coisa para se fazer aqui. Talvez queira começar por uma excursão pela cidade. Providenciarei tudo.

— Obrigada.

Olga achara Zurique extraordinária. Ficara impressionada com as vistas e sons da cidade. As pessoas nas ruas vestiam roupas de luxo e andavam em automóveis suntuosos. Parecia a Olga que todos em Zurique deviam ser milionários. E as lojas! Ela percorrera a Bahnhofstrasse, a principal rua comercial de Zurique, e ficara maravilhada com a incrível cornucópia de mercadorias nas vitrines. Havia vestidos, casacos, sapatos, lingerie, jóias, louças, móveis, carros, livros, aparelhos de televisão e rádio, brinquedos e até pianos. Parecia não haver fim para as mercadorias à venda. E depois Olga descobrira a Sprüngli’s, famosa por seus confeitos e chocolates. E que chocolates! Quatro enormes vitrines estavam repletas com uma exposição deslumbrante de chocolates. Havia caixas grandes de chocolates mistos, coelhinhos de chocolate, pães de chocolate, nozes com cobertura de chocolate. Havia bananas cobertas de chocolate, e pequenos bombons com licor. Era um banquete só olhar para as vitrines. Olga queria comprar tudo, mas ao saber dos preços se contentara com uma pequena caixa de bombons sortidos e uma barra grande de chocolate.

Durante a semana seguinte, Olga visitara os jardins Zurichhorn, o museu Rietberg, o Grossmünster, a igreja construída no século XI, e uma dúzia de outras atrações turísticas maravilhosas. Finalmente, a viagem se aproximava do fim. O recepcionista do Leonhare lhe dissera:

— A companhia de ônibus de turismo Sunshine oferece uma excelente excursão pelos Alpes. Creio que gostaria de realizá-la, antes de ir embora.

— Obrigada — respondera Olga. — Farei isso.

Ao deixar o hotel, Olga passara primeiro pela Sprüngli’s, mais uma vez, depois fora ao escritório da Sunshine, onde se inscrevera numa excursão. E fora de fato emocionante. As paisagens eram deslumbrantes, e no meio da excursão avistaram a explosão do que ela pensara ser um disco voador, mas o banqueiro canadense sentado ao seu lado explicara que era apenas um espetáculo encenado pelo governo suíço para os turistas, que não existia nenhum disco voador. Olga não ficara totalmente convencida. Ao voltar a Kiev, discutira o assunto com a tia.

— Claro que existem discos voadores — garantira a tia. — Voam sobre a Rússia durante todo o tempo. Deveria vender sua história a um jornal.

Olga pensara nessa possibilidade, mas ficara com medo de que rissem dela. O Partido Comunista não gostava que seus membros atraíssem publicidade, ainda mais do tipo que poderia sujeitá-los ao ridículo. Em tudo e por tudo, Olga chegara à conclusão de que, pondo de lado Dmitri e Ivan, aquelas férias haviam sido o ponto alto de sua vida. Seria difícil assentar no trabalho de novo.

A viagem pela estrada recém-construída, do aeroporto ao centro de Kiev, levou uma hora, no ônibus da Intourist. Era a primeira vez que Robert visitava Kiev, e ficou impressionado com as incontáveis construções ao longo da estrada, os enormes prédios de apartamentos que pareciam aflorar por toda parte. O ônibus parou na frente do Hotel Dnieper, e as duas dúzias de passageiros desembarcaram. Robert olhou para o relógio. Oito horas da noite. A biblioteca já devia ter fechado. Teria de esperar até a manhã seguinte. Registou-se no imenso hotel, onde fora feita uma reserva em seu nome, tomou um drinque no bar, foi para o restaurante austero, todo pintado de branco, para um jantar de caviar, pepino e tomate, acompanhado por um ensopado de batatas com pequenos pedaços de carne, coberto por uma massa saborosa, tudo acompanhado por vodca e água mineral.

O visto o esperava no hotel em Estocolmo, como o General Hilliard prometera. Foi uma pequena amostra de cooperação internacional, pensou Robert. Mas para mim não haverá cooperação. ”Nu” é o termo operacional.

Depois do jantar, Robert fez algumas indagações na recepção, caminhou até a praça Lenkomsomol. Kiev era uma surpresa para ele. Uma das cidades mais antigas da Rússia, era bastante aprazível, com uma aparência européia, à margem do rio Dnieper, com parques de muita vegetação e ruas arborizadas. Havia igrejas por toda parte, e eram exemplos espetaculares da arquitetura religiosa. Havia as igrejas de São Vladimir, Santo André e Santa Sofia, a última concluída em 1037, toda branca, com um campanário azul, e o mosteiro Pechersk, a estrutura mais alta da cidade. Susan adoraria tudo isso, pensou Robert. Ela nunca estivera na Rússia. Ele especulou se Susan já teria voltado do Brasil. Num súbito impulso, ao retornar a seu quarto no hotel, telefonou para ela. Para sua surpresa, a ligação foi efetuada quase que no mesmo instante.

— Alô?

Aquela voz gutural, tão sensual...

— Oi. Como foi o Brasil?

— Robert! Liguei para você várias vezes. Ninguém atendia.

— Não estou em casa.

— Ahn... — Ela era bastante bem treinada para não perguntar onde ele se encontrava. — Está passando bem?

Para um eunuco, estou numa forma maravilhosa.

— Claro. Muito bem. Como está... Monte?

— Ótimo. Partiremos para Gibraltar amanhã, Robert. Na porra do iate de Monte de Grana, é claro. Como era mesmo o nome? Ah, sim, Halcyon.

— No iate?

— Isso mesmo. Pode ligar para mim ali. Lembra do número?

Robert lembrava. WS 337. O que representavam as letras WS? Wonderful Susan, a maravilhosa Susan?... Whyseparate? Por que separar?... Wife stealer? Ladrão de esposa?

— Robert?

— Claro que lembro. Whiskey Sugar 337.

— Vai me ligar? Apenas para me dizer que está bem.

— Certo. Sinto muita saudade de você, meu bem.

Um silêncio longo e angustiante. Robert esperou. O que imaginava que ela poderia dizer? Venha me salvar desse homem encantador que parece com Paul Newman e me obriga a passear em seu iate de 250 pés, a viver em nossos miseráveis palácios em Monte Cario, Marrocos, Paris, Londres, e só Deus sabia onde mais. Como um idiota, ele se descobriu a sentir alguma esperança pelo que Susan poderia dizer.

— Também sinto saudade de você, Robert. Cuide-se. E a ligação foi desfeita. Ele estava na Rússia, sozinho.

Dia Doze

Kiev, União Soviética

No início da manhã seguinte, dez minutos depois da biblioteca abrir, Robert entrou no prédio enorme e escuro, aproximou-se da mesa da recepção.

— Bom dia — disse ele.

A mulher por trás da mesa levantou os olhos.

— Bom dia. Em que posso ajudá-lo?

— Estou procurando uma mulher que creio que trabalha aqui, Olga...

— Olga? Claro. — A mulher apontou para outra sala. — Vai encontrá-la ali.

— Obrigado.

Fora muito fácil. Robert entrou na outra sala, passando por grupos de estudantes, sentados solenemente em mesas compridas, estudando. Preparando-se para que tipo de futuro? especulou Robert. Ele chegou a uma sala de leitura menor e entrou. Uma mulher estava ocupada a arrumar livros.

— Com licença — disse Robert. Ela virou-se.

— Pois não?

— Olga?

— Isso mesmo. O que deseja comigo? Robert sorriu, insinuante.

— Estou escrevendo uma reportagem sobre a perestroika, e como afeta a vida do russo comum. Fez muita diferença em sua vida?

A mulher deu de ombros.

— Antes de Gorbatchov, tínhamos medo de abrir a boca. Agora podemos abrir a boca, mas não temos nada para meter dentro dela.

Robert tentou outra tática.

— Mas deve haver algumas coisas que mudaram para melhor. Por exemplo, agora você pode viajar.

— Deve estar brincando. Com um marido e seis filhos, quem tem condições de viajar?

— Mesmo assim, foi à Suíça e...

— Suíça? Nunca estive na Suíça, em toda a minha vida.

— Nunca esteve na Suíça?

— É o que acabei de dizer. — Ela acenou com a cabeça para uma mulher de cabelos escuros, que recolhia livros em outra mesa. — Ela é a sortuda que foi à Suíça.

Robert lançou um olhar rápido.

— Como ela se chama?

— Olga, como eu, Ele suspirou.

— Obrigado.

Um minuto depois, Robert estava falando com a segunda Olga.

— Com licença. Estou escrevendo uma reportagem de jornal sobre a perestroika, e o efeito que causou nas vidas dos russos.

Ela fitou-o, cautelosa.

— E o que deseja?

— Qual é o seu nome?

— Olga... Olga Romanchanko.

— Diga-me, Olga, a perestroika fez alguma diferença para você?

Seis anos antes, Olga Romanchanko teria medo de falar com um estrangeiro, mas agora era permitido.

— Não muito — respondeu ela, ainda cautelosa. — Tudo continua quase igual.

O estrangeiro era persistente.

— Não mudou absolutamente nada em sua vida? Ela sacudiu a cabeça.

— Absolutamente nada. — E depois acrescentou, num rasgo de patriotismo: — É verdade que agora podemos viajar para o exterior.

Ele parecia interessado.

— E você viajou para fora do país?

— Viajei — respondeu Olga, orgulhosa. — Acabo de voltar da Suíça. É um lindo país.

— Concordo. Teve a oportunidade de conhecer alguém no

país?

— Muitas pessoas. Andei de ônibus, excursionamos pelas

montanhas mais altas, os Alpes.

Olga compreendeu subitamente que não deveria ter dito isso, porque o estrangeiro poderia querer interrogá-la sobre a espaçonave, e ela não queria falar a respeito. Só podia metê-la em

encrenca.

— É mesmo? Fale-me sobre as pessoas no ônibus. Aliviada, Olga disse:

— Eram muito cordiais. E se vestiam... — Ela gesticulou. — Muito ricas. Até conheci um homem da capital de seu país, Washington, D.C.

— No ônibus?

— Isso mesmo. Muito simpático. Ele até me deu seu cartão. Robert sentiu o coração parar por uma fração de segundo.

— Ainda tem esse cartão?

— Não. Joguei fora. — Ela olhou ao redor. — É melhor não guardar essas coisas.

Droga! E depois Olga acrescentou:

— Lembro do seu nome. Parker, como a sua caneta americana. Kevin Parker. Muito importante na política. Ele diz aos senadores como devem votar.

Robert ficou aturdido.

— Foi isso o que ele lhe disse?

— Foi, sim. Leva os senadores em viagens e dá presentes, depois eles votam pelas coisas que seus clientes precisam. É assim que a democracia funciona na América.

Um lobista. Robert deixou Olga falar por mais quinze minutos, mas não conseguiu obter informações úteis sobre os outros passageiros.

Robert telefonou para o General Hilliard de seu quarto no hotel.

— Descobri a testemunha russa. Seu nome é Olga Romanchanko. Trabalha na principal biblioteca de Kiev.

— Pedirei às autoridades russas para conversarem com ela.

 

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8. OLGA ROMANCHANKO - KIEV

FIM DA MENSAGEM

 

Naquela tarde, Robert estava no jato Tupolev Tu-154, da Aeroflot, a caminho de Paris. Ao chegar à capital francesa, três horas e vinte e cinco minutos depois, transferiu-se para um vôo da Air France, de partida para Washington, D.C.

Às duas horas da madrugada, Olga Romanchanko ouviu o ranger de freios, quando um carro parou na frente do prédio de apartamentos em que morava, na rua Vertryk. As paredes eram tão finas que ela podia ouvir as vozes lá fora, na rua. Saiu da cama e foi olhar pela janela. Dois homens à paisana estavam saltando de um Chaika preto, do modelo usado pelas autoridades do governo. Encaminharam-se para a entrada de seu prédio. A visão dos homens provocou-lhe um calafrio. Ao longo dos anos, alguns de seus vizinhos haviam desaparecido, para nunca mais serem vistos. Alguns tinham sido mandados para os Gulags na Sibéria. Olga se perguntou a quem a polícia secreta estaria procurando desta vez. No momento mesmo em que pensava isso, houve uma batida na porta, deixando-a aturdida. O que querem comigo? especulou ela. Deve ser um engano.

Quando ela abriu a porta, os dois homens estavam parados ali.

— Olga Romanchanko?

— Sou eu.

— Glavnoye Razvedyvatemoye Upravleniye. O temido GRU.

Os homens passaram por ela, entrando no apartamento.

— O que... o que vocês querem?

— Nós faremos as perguntas. Sou o Sargento Yuri Gromkov. Este é o Sargento Vladimir Zemsky.

Ela experimentou uma súbita sensação de terror.

— O que... qual é o problema? O que eu fiz? Zemsky aproveitou a deixa:

— Ah, então você sabe que fez alguma coisa errada!

— Não, claro que não — balbuciou Olga. — Não sei por que estão aqui.

— Sente-se! — gritou Gromkov. Olga sentou.

— Acaba de voltar de uma viagem à Suíça, nyet?

— Eu... sim... mas... obtive permissão da...

— Espionagem não é legal, Olga Romanchanko.

— Espionagem? — Ela estava horrorizada. — Não sei do que estão falando!

O homem maior olhava para seu corpo, e Olga compreendeu subitamente que usava apenas uma camisola fina.

— Vamos embora. Você irá conosco.

— Mas há um terrível engano! Sou apenas uma bibliotecária! Pergunte a qualquer um aqui...

Ele obrigou-a a se levantar.

— Vamos.

— Para onde estão me levando?

— Para o quartel-general. Querem interrogá-la.

Permitiram que ela vestisse um casaco por cima da camisola. Desceram a escada e entraram no Chaika. Olga pensou em todas as pessoas que já haviam viajado antes em carros como aquele e nunca mais voltaram, ficou atordoada de tanto medo.

O homem maior, Gromkov, estava ao volante. Olga sentava no banco traseiro, com Zemsky. Por algum motivo, ele lhe parecia menos assustador, mas ainda assim sentia-se apavorada pelo que eram aqueles homens, pelo que podia lhe acontecer.

— Por favor, acreditem em mim! — balbuciou Olga, frenética. — Nunca trairia meu...

— Cale-se! — ordenou Gromkov.

— Não há motivo para tratá-la com grosseria — protestou Vladimir Zemsky. — Para dizer a verdade, acredito nela.

Olga sentiu o coração disparar de esperança.

— Os tempos mudaram — continuou o camarada Zemsky. — O camarada Gorbatchov não gosta que pressionemos pessoas inocentes. Esses dias pertencem ao passado.

— E quem disse que ela é inocente? — resmungou Gromkov. — Talvez seja, talvez não. Eles descobrirão muito em breve, quando chegarmos ao quartel-general.

Olga ficou escutando os dois homens discutirem a seu respeito, como se ela não estivesse ali.

— Ora, Yuri, você sabe que no quartel-general ela vai confessar, quer seja culpada ou não — disse Zemsky. — Não gosto disso.

— O que é uma pena. Não há nada que possamos fazer.

— Há, sim.

— O quê?

O homem sentado ao lado de Olga ficou em silêncio por um longo momento, antes de explicar:

— Por que simplesmente não a deixamos ir embora? Podemos dizer que ela não estava em casa. Vamos cozinhá-los por um ou dois dias, e eles acabarão esquecendo-a, porque têm muitas outras pessoas para interrogarem.

Olga tentou dizer alguma coisa, mas a garganta estava ressequida demais. Desejou desesperadamente que o homem ao seu lado ganhasse a discussão. Gromkov resmungou:

— Por que deveríamos arriscar nossos pescoços por ela? O que ganharíamos com isso? O que ela faria por nós?

Zemsky virou a cabeça e olhou para Olga, inquisitivo. Ela recuperou o uso da voz, balbuciando:

— Não tenho dinheiro.

— Quem precisa do seu dinheiro? Temos bastante dinheiro.

— Ela tem algo mais — sugeriu Gromkov.

Antes que Olga pudesse responder, Zemski declarou:

— Ora, Yuri Ivanovitch, não pode esperar que ela faça isso.

— A decisão é dela. Pode ser boazinha para nós, ou ir para o quartel-general e ser espancada por uma ou duas semanas. Talvez até a ponham numa linda shizo.

Olga já ouvira falar sobre as shizos. Eram celas de um metro e meio por dois metros e meio, sem aquecimento, a cama de tábuas, sem cobertas. ”Ser boazinha para nós.” O que isso significava?

— Depende da ideia.

Zemsky tornou a se virar para Olga.

— O que você prefere?

— Eu... eu não compreendo.

— O que meu parceiro está dizendo é que se for boazinha para nós, podemos ignorar as ordens. Dentro de pouco tempo, é bem provável que eles até se esqueçam de você.

— O que... o que eu teria de fazer? Gromkov sorriu para ela, pelo espelho retrovisor.

— Basta nos dar alguns minutos de seu tempo. — Ele recordou algo que lera uma ocasião. — Basta deixar e pensar no czar.

O homem soltou uma risadinha. Olga compreendeu de repente o que eles queriam. Sacudiu a cabeça.

— Não. Eu não poderia fazer isso.

— Tudo bem. — Gromkov acelerou. — Eles vão se divertir com você no quartel-general.

— Espere!

Ela estava em pânico, sem saber o que fazer. Ouvira histórias de horror sobre o que acontecia com as pessoas que eram presas, e se tornavam zeks. Pensara que tudo isso acabara, mas podia perceber agora que se enganara. Aperestroika ainda era apenas uma fantasia. Não lhe permitiriam ter um advogado ou falar com alguém. No passado, amigas suas haviam sido estupradas e assassinadas pelo GRU. Ela estava acuada. Se fosse para a prisão, poderiam mantê-la ali por semanas, espancando-a e violentando-a, talvez pior. Com aqueles dois homens, pelo menos acabaria em poucos minutos, e depois eles a deixariam ir embora. Olga tomou uma decisão.

— Está bem — murmurou ela, angustiada. — Querem voltar a meu apartamento?

— Conheço um lugar melhor — disse Gromkov. Ele fez a volta com o carro. Zemsky sussurrou:

— Lamento essa situação, mas ele está no comando. Não posso impedi-lo.

Olga não disse nada.

Passaram pelo teatro lírico Shevchenko, todo pintado de vermelho, seguiram para um parque enorme, cercado por árvores. Estava deserto àquela hora. Gromkov levou o carro entre as árvores, apagou os faróis, desligou o motor.

— Vamos sair — disse ele.

Os três saltaram do carro. Gromkov olhou para Olga.

— Você tem muita sorte. Vamos deixá-la escapar. Espero que saiba demonstrar seu reconhecimento.

Olga balançou a cabeça, apavorada demais para falar. Gromkov seguiu na frente para uma pequena clareira.

— Tire a roupa.

— Está frio — murmurou Olga. — Não podemos...? Gromkov esbofeteou-a.

— Faça o que estou mandando, antes que eu mude de idéia. Olga hesitou por mais um instante, mas quando Gromkov

levantou o braço, para agredi-la de novo, começou a desabotoar o casaco.

— Tire logo.

Ela deixou o casaco cair no chão.

— Agora, a camisola.

Lentamente, Olga levantou a camisola por cima da cabeça e tirou-a, estremecendo no ar frio da noite, nua ao luar.

— Belo corpo — murmurou Gromkov, apertando seu. mamilos.

— Por favor...

— Se fizer qualquer barulho, vamos levá-la para o quartel general.

Ele empurrou-a para o chão.

Não vou pensar nisso. Fingirei que estou na Suíça, na excursão de ônibus, contemplando todas aquelas lindas paisagens.

Gromkov arriara a calça, estava abrindo as pernas de Olga.

Posso ver os Alpes cobertos de neve. Lá está um trenó descendo, com um rapaz e uma moça.

Ela sentiu-o pôr as mãos em seus quadris, penetrá-la com violência, machucando-a.

Há carros bonitos na estrada. Mais carros do que jamais vi em toda a minha vida. Na Suíça, todos têm um carro.

Ele arremetia com mais força agora, beliscava-a, soltava grunhidos animais.

Terei uma casinha nas montanhas. Como é mesmo que os suíços as chamam? Chalés. E comerei chocolate todos os dias. Caixas e mais caixas.

 

Gromkov estava se retirando agora, a respiração ofegante. Levantou e virou-se para Zemslçy.

— É a sua vez.

Casarei e terei filhos, e vamos todos esquiar nos Alpes durante o inverno.

Zemsky abrira a calça e a estava montando.

Será uma vida maravilhosa, nnunca mais voltarei à Rússia. Nunca. Nunca. Nunca.

Ele estava dentro dela agora) machucando-a mais do que o outro homem, apertando suas nádegas, comprimindo seu corpo contra o chão frio, até que a dor era quase insuportável.

Vamos morar numa fazenda onde haverá paz e sossego durante todo o tempo, e teremos um’ jardim com lindas flores.

Zemsky terminou, olhou para seu companheiro, sorriu e disse:

— Aposto que ela gostou,

E depois estendeu as mãos e torceu o pescoço de Olga.

No dia seguinte saiu uma pequena notícia no jornal local, sobre uma bibliotecária que fora violada e estrangulada no parque. As autoridades alertavam que e^ perigoso para as mulheres irem ao parque sozinhas à noite.

 

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8. OLGA ROMANCHANK- KIEV - ARQUIVADA

FIM DA MENSAGEM

 

Willard Stone e Monte Banks eram inimigos naturais. Ambos eram predadores implacáveis, e a selva em que rondavam eram os desfiladeiros de concreto de Wall Street, com suas operações de tomada do controle acionário, vendas sob pressão e negociações com ações.

O primeiro conflito entre os dois ocorrera durante uma tentativa de tomada do controle acionário de uma enorme companhia de serviços públicos. Willard Stone dera o primeiro lance, sem prever qualquer dificuldade. Era tão poderoso e sua reputação tão assustadora que bem poucas pessoas ousavam desafiálo. Por isso, fora uma grande surpresa quando soubera que um jovem arrivista, chamado Monte Banks, estava contestando seu lance. Stone fora obrigado a aumentar sua oferta, e a disputa continuara. Ao final, Willard Stone adquirira o controle da companhia, mas por um preço muito maior do que esperava pagar.

Seis meses depois, ao tentar assumir o controle de uma grande firma eletrônica, Stone fora confrontado outra vez por Monte Banks. As ofertas foram aumentando, e desta vez Banks acabara vencendo.

Ao saber que Monte Banks tencionava competir com ele pelo controle de uma companhia de computadores, Willard Stone concluíra que estava na hora de conhecer seu concorrente. Os dois se encontraram em território neutro, a Paradise Island, nas Bahamas. Willard Stone mandara efetuar uma investigação completa dos antecedentes de seu concorrente, descobrindo que Monte Banks vinha de uma rica família do petróleo, e conseguira de forma brilhante expandir sua herança para um vasto conglomerado internacional.

Os dois sentaram para almoçar: Willard Stone, velho e sábio; Monte Banks, jovem e ansioso. Willard Stone iniciou a conversa:

— Você está se tornando um pé no saco. Monte Banks sorriu.

— Partindo de você, é um grande elogio.

— O que você quer? — perguntou Stone.

— O mesmo que você, possuir o mundo. Willard Stone comentou, pensativo:

— É um mundo bastante grande.

— E o que isso significa?

— Há espaço suficiente para nós dois.

Foi nesse dia que se tornaram sócios. Cada um dirigia seus negócios separadamente, mas quando se tratava de novos projetos — madeira, petróleo, imóveis — entravam juntos nas transações, em vez de competirem um com o outro. Em diversas ocasiões, a Divisão Anti-Truste do Departamento de Justiça tentou impedir suas operações, mas as ligações de Willard Stone sempre prevaleciam. Monte Banks possuía companhias químicas responsáveis por uma poluição maciça de lagos e rios, mas, sempre que era indiciado, os processos acabavam sendo misteriosamente arquivados.

Os dois tinham um relacionamento simbiótico perfeito.

A Operação Juízo Final era algo natural para eles, e ambos se achavam totalmente envolvidos. Estavam prestes a fechar um contrato de compra de dez milhões de acres na exuberante floresta tropical amazônica. Seria um dos negócios mais lucrativos de todos os tempos.

Não podiam permitir que nada interferisse com a transação.

 

Dia Treze Washington, D.C.

O Senado dos Estados Unidos estava reunido em sessão plenária. O senador mais novo de Utah ocupava a tribuna.

— ...e o que está acontecendo com a nossa ecologia é uma desgraça nacional. Chegou o momento do Senado compreender que tem o dever de preservar a preciosa herança que nossos antepassados nos confiaram. Não apenas é nosso dever, mas também o privilégio, proteger a terra, o ar e os mares dos interesses escusos que os destroem, com um egoísmo inadmissível. E é o que estamos fazendo? Em sã consciência, podemos proclamar que fazemos o melhor possível? Ou permitimos que a voz da ganância nos influencie?

Kevin Parker, sentado na galeria dos visitantes, olhou para seu relógio, pela terceira vez em cinco minutos. E se perguntou por quanto tempo mais o discurso se prolongaria. Só se encontrava sentado ali porque ia almoçar com o senador, e precisava de um favor dele. Kevin Parker gostava de circular pelos corredores do poder, confraternizando com deputados e senadores, dispensando benefícios, em troca de favores políticos.

Fora criado na pobreza em Eugene, Oregon. O pai era um alcoólatra que possuía uma pequena serraria. Como um empresário inepto, ele transformara o que poderia ser um próspero negócio num desastre. Kevin tivera de trabalhar desde os quatorze anos de idade; e como sua mãe fugira com outro homem, anos antes, ele não tinha qualquer vida familiar. Poderia facilmente se tornar um vagabundo e terminar como o pai, mas sua graça salvadora fora o fato de ser excepcionalmente bonito e simpático. Era louro, com feições aristocráticas, que devia ter herdado de algum ancestral há muito esquecido. Uns poucos moradores prósperos da cidade se compadeceram do garoto, dando-lhe empregos e estímulo, empenhando-se em ajudá-lo. O homem mais rico da cidade, Jeb Goodspell, mostrava-se particularmente ansioso em ajudar Kevin, oferecendo-lhe um emprego em meio expediente numa de suas companhias. Solteirão, Goodspell convidava com freqüência o jovem Parker a jantar em sua casa.

— Você pode ser alguém na vida — dizia Goodspell —, mas não conseguirá nada sem amigos.

— Sei disso, senhor. E sou profundamente grato por sua amizade. Trabalhar para o senhor está me salvando a vida.

— Eu poderia fazer muito mais por você.

Nessa ocasião, estavam sentados no sofá da sala de estar, depois do jantar. Goodspell passara a mão pelos ombros do rapaz, acrescentando:

— Mas muito mais mesmo. — Ele apertara o ombro de Kevin — Sabia que tem um lindo corpo?

— Obrigado, senhor.

— Nunca se sente solitário?

Kevin sentia-se solitário durante todo o tempo.

— Claro que me sinto, senhor.

— Pois não precisa mais se sentir solitário. — Ele acariciara o braço do rapaz. — Eu também me sinto solitário. Você precisa de alguém para abraçá-lo e confortá-lo.

— Sim, senhor.

— Já andou com garotas?

— Namorei Sue Ellen por algum tempo.

— Foi para a cama com ela? Kevin ficara vermelho.

— Não, senhor.

— Quantos anos você tem, Kevin?

— Dezesseis, senhor.

— É uma idade maravilhosa, a idade em que deve iniciar uma carreira. — Ele estudara o rapaz por um momento. — Aposto que você se daria muito bem na política.

— Política? Não sei nada a respeito, senhor.

— É por isso que você vai para a escola, para aprender as coisas. E eu vou ajudá-lo.

— Obrigado.

— Há muitas maneiras de agradecer às pessoas. — Goodspell passara a mão pela coxa do rapaz. — Muitas maneiras. — Ele fitara Kevin nos olhos. — Sabe o que estou querendo dizer?

— Sei, sim, Jeb.

E esse fora o começo.

Depois que Kevin Parker se formara na escola secundária Churchül, Goodspell mandara-o para a universidade do Oregon. O rapaz estudara ciência política, e Goodspell providenciara para que seu protegido conhecesse muitas pessoas. E todas ficaram impressionadas com o atraente jovem. Com suas ligações, Parker descobrira que era capaz de prestar favores a pessoas importantes e reunir interesses comuns. Tornar-se um lobista em Washington era um passo natural, e Parker era competente nesse trabalho.

Goodspell morrera dois anos antes, mas àquela altura Parker já adquirira um talento e um gosto pelo que seu mentor lhe ensinara. Gostava de pegar rapazes, e levá-los para hotéis remotos, onde não seria reconhecido. O senador de Utah finalmente concluía seu discurso:

— ...e lhes digo agora que devemos aprovar este projeto, se queremos salvar o que resta de nossa ecologia. Neste momento, eu gostaria de pedir uma votação nominal.

Graças a Deus, a sessão interminável estava quase acabando. Kevin Parker pensou na noite à sua frente, e começou a ter uma ereção. Na noite anterior, conhecera um rapaz no Danny’s, na P Street Station, um conhecido bar de gays. Infelizmente, o rapaz estava com um companheiro. Mas haviam passado a noite inteira trocando olhares. Antes de ir embora, Parker escrevera um bilhete e deixara na mão do rapaz, discretamente. Dizia simplesmente: ”Amanhã de noite!’ O jovem sorrira e acenara com a cabeça.

Kevin Parker estava se vestindo apressado para sair. Queria estar no bar quando o rapaz chegasse. Era um jovem muito atraente, e Parker não queria que fosse apanhado por outro. A campainha da porta da frente tocou. Droga! Parker foi abrir a porta. Era um estranho.

— Kevin Parker?

— Isso mesmo.

— Meu nome é Bellamy. Gostaria de conversar com você por um momento.

Parker disse, impaciente:

— Terá de marcar uma reunião com minha secretária. Não falo de negócios depois do expediente.

— Não se trata exatamente de negócios, sr. Parker. Diz respeito à sua viagem à Suíça, há duas semanas.

— Minha viagem à Suíça? Qual é o problema?

— Minha agência está interessada em algumas das pessoas

que pode ter conhecido lá.

Kevin Parker estudou o homem com mais atenção. O que a CIA podia querer com ele? Eram bisbilhoteiros demais. Será que deixei meu rabo de fora? Não havia sentido em hostilizar o homem. Parker sorriu.

— Entre. Estou atrasado para um encontro, mas não disse que vai demorar sóum momento?

— Isso mesmo, senhor. Pegou um ônibus de excursão em Zurique?

Então é esse o problema. Aquela história do disco voador. Fora a coisa mais estranha que ele já vira.

— Quer saber Sobre o OVNI, não é? Pois devo lhe dizer que foi uma experiência das mais fantásticas.

— Imagino que sim. Mas, para ser franco, nós na agência não acreditamos em discos voadores. Estou aqui para descobrir o que pode me dizer sobre os outros passageiros do ônibus.

Parker ficou surpreso.

— Infelizmente, não posso ajudá-lo muito nesse ponto. Eram todos estrangeiros.

— Sei disso, sr. Parcker — murmurou Robert, paciente —, mas deve lembrar alguma coisa sobre eles.

Parker deu de ombros.

- Algumas coisas... Lembro que troquei algumas palavras com um inglês que tirou uma fotografia nossa. Lestie Mothershed.

— Quem mais?

— Também conversei um pouco com uma jovem russa. Muito simpática. Acho que ela disse que era bibliotecária em algum lugar.

Olga Romanchanko.

— Excelente. Pode se lembrar de mais alguém?

— Não, acho que isso é tudo... havia mais dois homens com quem falei. Um deles era americano, um texano.

Dan Wayne.

— E o outro?

— Era um húngaro. Possuía um parque de diversões, ou circo, ou algo parecido, na Hungria. — Parker pensou por um instante. — Era um parque de diversões.

— Tem certeza, sr. Parker?

— Absoluta. Ele me contou algumas histórias sobre o negócio de parque de diversões. E ficou na maior excitação ao ver o OVNI. Se pudesse, acho que ele o apresentaria em seu parque de diversões, como um espetáculo secundário. Devo admitir que foi uma visão impressionante. Eu gostaria de comunicar o incidente, mas não posso me misturar com todos os malucos que alegam terem visto discos voadores.

— Por acaso ele mencionou seu nome?

— Mencionou, sim, mas era um desses nomes estrangeiros impronunciáveis. Não há jeito de recordar.

— Lembra mais alguma coisa sobre ele?

— Só que tinha pressa em voltar a seu parque de diversões. — Parker olhou para o relógio. — Há mais alguma em que eu possa ajudá-lo? Estou um pouco atrasado.

— Não, não há mais nada. Muito obrigado, sr. Parker. Foi bastante útil.

— O prazer foi meu. —Ele ofereceu um sorriso jovial a Robert. — Apareça em meu escritório. Teremos uma boa conversa.

— Farei isso.

Está quase acabando,  pensou Robert. Eles poderão agora pegar meu mempro e enfiar no rabo. Chegou o momento de juntar os fragmentos de minha vida e recomeçar tudo.

Robert telefonou para o general Hilliard.

— Estou quase terminando, general. Descobri Kevin Parker. Ele é um lobista em Washington, D.C. Partirei agora para identificado último passageiro.

— Não imagina como estou satisfeito — disse o General Hilliard. — Tem feito um trabalho excelente, comandante. Torne a me procurar o mais depressa que puder.

— Pois não, senhor.

 

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PARKER - WASHINGTON, D.C.

FIM DA MENSAGEM

 

Ao chegar ao Banny’s, Kevin Parker descobriu que estava mais apinhado do que na noite anterior. Os homens mais velhos vestiam ternos conservadores, enquanto a maioria dos jovens usava calças Levis, blazers e botinas. Havia uns poucos que pareciam deslocados, em trajes de couro preto, e Kevin achou que tais elementos eram  jovens cujo contato bruto era perigoso, e ele jamais aceitara esse tipo de  comportamento bizarro. Discrição, esse sempre fora o Seu lema_ Discrição. O rapaz bonito ainda não chegara, mas ele também não esperava encontrá-lo tão cedo. Ele só entraria em cena mais tarde, lindo e viçoso, quando os outros no bar ja estariam cansados e suados. Kevin Parker foi até o balcão, pediu um drinque, correu os olhos, Havia aparelhos de televisão nas paredes, sintonizados na MTV. O Danny’s era um bar de a e p,  — Apareça. e poses. Os mais jovens assumiam poses para parecerem tão atraentes quanto possível, enquanto os mais velhos — os compradores _ examinavam-nos várias vezes, até fazerem suas escolhas. os bares de A e P eram os de mais classe. Nunca havia brigas neles, pois a maioria dos clientes tinha dentes encapados, e não podia correr o risco de perdê-los.

Kevin Parker notou que muitos dos freqüentadores já haviam escolhido seus parceiros. Escutou as conversas familiares ao redor. Fascinava-o que as conversas fossem sempre as mesmas, quer ocorressem nos bares do couro, bares de dança, bares de vídeo, ou clubes clandestinos, que mudavam de localização todas as semanas. Havia um jargão próprio que ele podia ouvir agora.

— Aquela bicha não é ninguém, mas se julga Miss Coisa. .

— Ele explodiu comigo sem nenhum motivo. Fica completamente transtornado. É tão sensível...

— Você é de cima ou de baixo?

— De cima, garota — estalando os dedos. — Gosto de dar as ordens.

— Ótimo. Gosto de obedecê-las...

— Ele me leu sujeira... Ficou parado ali me criticando... meu peso, minha pele, minha atitude. Eu disse então: ”Mary, está tudo acabado entre nós.” Mas doeu. É por isso que estou aqui esta noite .. para tentar esquecê-lo. Posso tomar outro drinque?

O rapaz entrou no bar à uma hora da madrugada. Olhou ao redor, avistou Parker, aproximou-se. Era mais lindo do que Parker se lembrava.

— Boa noite.

— Boa noite. Desculpe o atraso.

— Não tem problema. Não me importei de esperar.

O jovem tirou um cigarro, esperou que o homem mais velho acendesse para ele.

— Estive pensando em você — disse Parker.

— É mesmo?

As pestanas do garoto eram incríveis.

— É, sim. Posso lhe pagar um drinque?

— Se isso o deixar feliz. Parker sorriu.

— Está interessado em me fazer feliz? O garoto fitou-o nos olhos e murmurou:

— Acho que sim.

— Vi o homem com quem você estava aqui na noite passada. Ele é errado para você.

— E você é certo para mim?

— Posso ser. Por que não descobrimos? Não gostaria de dar um passeio?

, — Parece uma boa idéia.

Parker experimentou um arrepio de excitamento.

— Conheço um lugar aconchegante em que poderemos ficar a sós.

— Ótimo. Deixarei o drinque para depois.

Quando chegavam à saída, a porta foi aberta abruptamente, e dois jovens enormes entraram no bar. Pararam na frente do rapaz, bloqueando sua passagem.

— Ah, encontrei-o finalmente, seu filho da puta! Onde está o dinheiro que me deve?

O rapaz ficou aturdido.

— Não sei do que está falando. Nunca o vi...

— Não me venha com essa merda.

O homem agarrou-o pelo ombro, começou a arrastá-lo para a rua. Parker não saiu do lugar, furioso. Sentiu-se tentado a interferir, mas não podia se envolver em qualquer coisa que pudesse terminar em escândalo. Permaneceu onde estava, observando o rapaz desaparecer na noite. O segundo homem sorriu para Kevin Parker, com uma expressão de simpatia.

— Deveria escolher suas companhias com mais cuidado. Ele

é uma bomba.

Parker olhou com mais atenção para seu interlocutor. Era louro e atraente, com feições quase perfeitas. Parker teve o pressentimento de que a noite podia não ser uma perda total, no final das contas.

— Talvez você tenha razão — murmurou ele.

— Nunca sabemos o que o destino nos reserva, não é mesmo?

O homem fitava Parker nos olhos.

— Não, não sabemos. Meu nome é Tom. Como se chama?

— Paul.

— Por que não me deixa lhe pagar um drinque, Paul?

— Obrigado.

— Tem algum plano especial para esta noite?

— Vai depender de você.

— Não gostaria de passar a noite comigo?

— Parece divertido.

— De quanto dinheiro estamos falando?

— Gostei de você. Por isso, duzentos.

— Parece razoável.

— E é mesmo. Garanto que não vai se arrepender. Meia hora depois, Paul levava Kevin Parker para um velho

prédio de apartamentos, na Jefferson Street. Subiram pela escada para o terceiro andar, entraram num pequeno aposento. Parker olhou ao redor.

— Não é grande coisa, hem? Um hotel teria sido melhor. Paul sorriu.

— Podemos ter mais intimidade aqui. Além do mais, só precisamos da cama.

— Tem razão. Por que não se despe? Quero ver o que estou comprando.

— Claro.

Paul começou a se despir. Tinha um corpo espetacular. Parker observava-o, sentindo o velho ímpeto familiar se tornar cada vez mais intenso.

— Agora você é que tem de se despir — sussurrou Paul. — E depressa, pois quero você.

— Eu também quero você, Mary. Parker começou a tirar as roupas.

— O que você gosta? — indagou Paul. — Lábios ou quadris?

— Vamos fazer um coquetel. Temos a noite inteira.

— Claro — respondeu Paul. — Vou até o banheiro. Volto já.

Parker deitou nu na cama, antecipando os prazeres requintados que estavam prestes a acontecer. Ouviu seu companheiro sair do banheiro e aproximar-se da cama. Estendeu os braços.

— Venha para mim, Paul.

— Estou indo.

E Parker sentiu uma pontada de agonia quando uma faca foi cravada em seu peito. Arregalou os olhos no mesmo instante, balbuciando:

— Mas o que...? Paul estava se vestindo.

— Não se preocupe com o dinheiro — disse ele. — É por

conta da casa.

 

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9. KEVIN PARKER - WASHINGTON, D.C. - ARQUIVADO

FIM DA MENSAGEM

 

Robert Bellamy perdeu o noticiário porque se encontrava num avião, a caminho da Hungria, em busca de um homem que possuía um parque de diversões.

 

Dia Quatorze Budapeste

O vôo de Paris para Budapeste, pela empresa aérea Malév, levava duas horas e cinco minutos. Robert sabia muito pouco sobre a Hungria, exceto que durante a Segunda Guerra Mundial fora aliada do Eixo, e mais tarde se tornara satélite da União Soviética. Ele pegou o ônibus do aeroporto para o centro de Budapeste, e ficou impressionado com o que viu. Os prédios eram antigos, na melhor arquitetura clássica. O prédio do Parlamento era uma vasta estrutura neogótica, dominando a cidade. Muito acima da cidade propriamente dita, na colina do Castelo, situava-se o Palácio Real. As ruas estavam repletas de carros e pessoas fazendo compras.

O ônibus parou na frente do Hotel Duna Intercontinental. Robert entrou no saguão, foi até a recepção.

— Com licença — disse ele ao recepcionista. — Você fala inglês?

— Igan. Sim. Em que posso ajudá-lo?

— Um amigo meu esteve em Budapeste há poucos dias, e me contou que visitou um maravilhoso parque de diversões. Já que tive de vir à cidade, pensei em dar uma olhada, Pode me informar onde fica?

O recepcionista franziu o rosto.

— Parque de diversões? — Ele pegou um papel e pôs-se a estudá-lo. — Vamos ver... No momento, em Budapeste, temos ópera, várias produções teatrais, bale, excursões dia e noite pela cidade, excursões pelos campos... — Ele levantou os olhos. — Desculpe, mas não tem nenhum parque de diversões.

— Tem certeza?

O recepcionista estendeu a lista para Robert.

— Pode verificar pessoalmente.

Estava escrita em húngaro. Robert devolveu-a.

— Certo. Há mais alguém com quem eu possa conversar a respeito?

— O Ministério da Cultura talvez possa ajudá-lo. Trinta minutos depois, Robert falava com um funcionário

do Ministério da Cultura.

— Não há nenhum parque de diversões em Budapeste. Tem certeza que seu amigo viu um na Hungria?

— Tenho, sim.

— Mas ele não disse onde?

— Não, não disse.

— Sinto muito, mas não posso ajudá-lo. — O funcionário estava impaciente. — Se não há mais nada...

— Não. Obrigado. — Robert levantou-se. Hesitou por um instante. — Se eu quisesse trazer um circo ou um parque de diversões para a Hungria, teria de obter uma autorização?

— Claro.

— Onde?

— Na Administração de Licenças de Budapeste.

O prédio era localizado em Buda, perto da muralha medieval da cidade. Robert esperou meia hora, antes de ser introduzido na sala de um funcionário formal e pomposo.

— Posso ajudá-lo? Robert sorriu.

— Espero que possa. Detesto ocupar seu tempo com algo tão trivial, mas estou aqui com meu filho pequeno, e ele ouviu falar de um parque de diversões instalado em algum lugar da Hungria. Prometi que o levaria. E sabe como são as crianças quando metem uma idéia na cabeça. O homem estava perplexo.

— E sobre o que queria me falar?

— Para ser franco, parece que ninguém sabe onde se pode encontrar um parque de diversões, e a Hungria é um país tão

grande e bonito... Fui informado de que se alguém sabe tudo o que acontece na Hungria, é justamente o senhor. O homem balançou a cabeça.

— É isso mesmo. Nada assim pode funcionar por aqui sem que este departamento emita uma licença.

Ele apertou uma campainha. A secretária entrou, houve um diálogo rápido, em húngaro. Ela saiu, e voltou dez minutos depois com alguns papéis. Entregou-os ao chefe. Ele examinou, e disse a Robert:

— Nos últimos três meses, concedemos duas licenças para parques de diversões. Um fechou no mês passado.

— E o outro?

— O outro se encontra no momento em Sopron, uma cidadezinha perto da fronteira alemã.

— Tem o nome do proprietário?

O funcionário tornou a consultar o papel.

— Bushfekete... Laslo Bushfekete.

Laslo Bushfekete estava tendo um dos melhores dias de sua vida. Poucas pessoas são bastante afortunadas para passarem a vida fazendo exatamente o que querem, e Laslo Bushfekete era uma delas. Com mais de um metro e noventa de altura e pesando cento e trinta quilos, Bushfekete era um homem enorme. Usava um relógio de pulso cravejado de diamantes, anéis de diamantes, e uma imensa pulseira de ouro. Seu pai possuíra um pequeno parque de diversões. Ao morrer, o filho assumira o controle. Era a única vida que ele já conhecera.

Laslo Bushfekete tinha sonhos grandiosos. Tencionava expandir seu pequeno parque de diversões, transformando-o no maior e melhor da Europa. Queria ser conhecido como o P.T. Barnum dos parques de diversões. No momento, porém, só  podia oferecer as atrações habituais: a Mulher Gorda e o Homem Tatuado, os Gêmeos Siameses e a Múmia de Mil Anos, ”desenterrada das entranhas de túmulos do antigo Egito”. Havia também o Engolidor de Espada e o Comedor de Fogo, além da pequena e atraente Encantadora de Serpentes, Marika. No final, porém, tudo isso se somava para fazer apenas mais um parque de diversões itinerante.

Agora, da noite para o dia, tudo isso mudaria. O sonho de Laslo Bushfekete estava prestes a se converter em realidade.

Ele fora à Suíça para assistir à audição de um artista de fuga de que muito ouvira falar. Apièce de résistance do número era uma rotina em que se vendava o artista, algemava, trancava num pequeno baú, que por sua vez era trancado num baú maior, que era baixado para um tanque cheio de água. Parecia fantástico pelo telefone, mas ao voar para a Suíça, a fim de assisti-lo, Bushfekete descobrira que havia um problema insuperável: o artista demorava trinta minutos para escapar. Nenhuma audiência do mundo passaria meia hora olhando para um baú dentro de um tanque cheio de água.

Parecia que a viagem fora um desperdício de tempo. Laslo Bushfekete resolvera fazer uma excursão para ocupar o dia até o momento de pegar seu avião. E aquela excursão mudara sua vida.

Como os demais passageiros do ônibus, Bushfekete vira a explosão e correra pelo campo para ajudar possíveis sobreviventes, no que todos pensavam ser um desastre de avião. Mas a visão com que ele se defrontara ali fora incrível. Não podia haver a menor dúvida de que se tratava de um disco voador, e em seu interior estavam dois corpos pequenos, de estranha aparência. Os outros passageiros ficaram parados ali, boquiabertos. Laslo Bushfekete dera a volta para descobrir como parecia a traseira do OVNI. E também ficara imóvel, aturdido. A cerca de três metros dos destroços, caída no chão, fora das vistas dos outros turistas, havia uma pequena mão, decepada, com seis dedos e dois polegares se opondo. Sem nem mesmo pensar, Bushfekete tirara o lenço do bolso, recolhera a mão, e a guardara em sua bolsa. O coração estava disparado. Tinha em seu poder a mão de um genuíno extraterrestre! Daqui por diante, você pode  esquecer todas as suas mulheres gordas, homens tatuados, engolidores de espada e comedores de fogo, pensara ele. Aproximem-se, senhoras e senhores, para a maior emoção de suas vidas. O que verão agora é algo que nenhum mortal jamais contemplou antes. É um dos objetos mais incríveis do universo. Não é um animal. Não é um vegetal. Não é um mineral. O que é então? É parte dos restos mortais de um extraterrestre... uma criatura do espaço exterior... Não é ficção científica, senhoras e senhores, é a coisa real... Por quinhentos florins, podem tirar uma fotografia junto...”

E isso lembrou-o de uma coisa. Esperava que o fotógrafo que aparecera no local do acidente não esquecesse de mandar a fotografia que prometera. Seria ampliada e exibida ao lado da barraca. O toque de mestre. A vida é um espetáculo, nada mais do que isso,

Ele mal pudera aguardar o momento de retornar à Hungria, e começar a realizar seus sonhos grandiosos.

Ao chegar em casa e abrir o lenço, descobrira que a mão murchara. Mas depois que Bushfekete a limpara, a mão, espantosamente, recuperara a firmeza original.

Bushfekete escondera a mão com toda segurança, e encomendara uma redoma de vidro imponente, com um umidificador especial adaptado. Depois de exibi-la em seu parque de diversões, planejava viajar com a mão por toda a Europa. Pelo mundo inteiro. Faria exposições em museus. Haveria apresentações particulares para cientistas; talvez até para chefes de estado. E ele cobraria de todos. Não haveria fim para a fabulosa fortuna que o aguardava.

Não contara a ninguém sobre sua boa sorte, nem mesmo à namorada, Marika, a pequena e sensual dançarina que trabalhava com najas e víboras africanas, que figuravam entre os ofícios mais perigosos. É verdade que as bolsas venenosas haviam sido removidas, mas a audiência não sabia disso, porque Bushfekete também mantinha uma naja com o saco de veneno intacto. Ele exibia a cobra de graça para o público, que a observava matar ratos. Não era de surpreender que as pessoas se sentissem excitadas ao observarem a linda Marika deixar que suas serpentes de estimação deslizassem por seu corpo sensual, seminu. Duas ou três noites por semana, Marika ia à tenda de Laslo Bushfekete e rastejava por cima de seu corpo, usava a língua como se fosse uma das serpentes. Haviam feito amor na noite anterior, e Bushfekete ainda se sentia exausto da incrível ginástica de Marika. Suas reminiscências foram interrompidas por um visitante.

— Sr. Bushfekete?

— Falando com ele. Em que posso servi-lo?

— Soube que esteve na Suíça na semana passada. Bushfekete tornou-se cauteloso no mesmo instante. Será que

alguém me viu pegar a mão?

— O que... qual é o problema?

— Viajou num ônibus de excursão no último domingo? Bushfekete ficou ainda mais cauteloso.

— Viajei.

Robert Bellamy relaxou. Finalmente acabara. Aquele homem era a última testemunha. Ele fora incumbido de uma missão impossível, e realizara um excelente trabalho. Um trabalho bom demais, se me permito o elogio. ”Não temos a menor idéia de onde estão. Ou quem são.” E ele encontrara todos. Experimentava a sensação de que um tremendo fardo fora removido de seus ombros. Estava livre agora. Livre para voltar para casa e iniciar vida nova.

— O que há com a minha viagem, senhor?

— Não é importante — assegurou Robert Bellamy; e não era mesmo, não mais. — Estava interessado em seus companheiros de excursão, sr. Bushfekete, mas creio que já disponho agora de todas as informações de que preciso. Por isso...

— Pois posso lhe falar tudo sobre eles — declarou Laslo Bushfekete. — Havia um padre italiano de Orvieto, Itália; um alemão... acho que era um professor de química de Munique; uma garota russa que trabalhava numa biblioteca em Kiev; um rancheiro de Waco, Texas; um banqueiro canadense dos Territórios; e um lobista chamado Parker, de Washington, D.C.

Essa não!, pensou Robert. Se eu o encontrasse em primeiro lugar, poderia ganhar muito tempo. O homem é espantoso. Recordou todos eles.

— Tem uma excelente memória — comentou Robert.

— É verdade. — Bushfekete sorriu. — Ah, sim, havia também aquela outra mulher.

— A russa.

— Não, não, a outra mulher. A alta e magra, vestida de branco.

Robert pensou por um momento. Nenhum dos outros mencionara uma segunda mulher.

— Acho que está enganado.

— Não estou, não. — Bushfekete era insistente. — Havia duas mulheres lá.

Robert efetuou uma contagem mental. Não era possível.

— Não podia haver.

Bushfekete reagiu como se tivesse sido insultado.

— Quando aquele fotógrafo bateu as fotos de todos nós na frente do OVNI, ela estava parada bem ao meu lado. Era muito bonita. — Ele fez uma pausa. — O mais curioso é que não me recordo de tê-la visto no ônibus. Provavelmente ela sentava lá atrás. Lembro que parecia bastante pálida. Fiquei um pouco preocupado com ela.

Robert franziu o rosto.

— Quando voltaram ao ônibus, ela os acompanhou?

— Agora que penso nisso, não me lembro de ver a mulher depois. Mas a verdade é que fiquei tão excitado com aquele OVNI, que não prestei muita atenção.

Havia algo ali que não se ajustava. Seria possível que houvesse onze testemunhas, em vez de dez? Terei de verificar, pensou Robert.

— Obrigado, sr. Bushfekete.

— De nada.

— Boa sorte. Bushfekete sorriu.

— Obrigado.

Ele não precisava de sorte. Não mais. Não com a mão de um genuíno alienígena em seu poder.

Naquela noite, Robert Bellamy apresentou seu relatório final ao General Hilliard.

— Tenho o nome dele. É Laslo Bushfekete. Possui um parque de diversões nos arredores de Sopron, Hungria.

— É a última testemunha?

Robert hesitou por um instante.

— É, sim, senhor.

Ele ia mencionar a oitava passageira, mas decidiu esperar até conseguir confirmar a sua existência. Parecia improvável demais.

— Obrigado, comandante. Fez um ótimo trabalho.

 

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10. LASLO BUSHFEKETE - SOPRON

FIM DA MENSAGEM

 

Eles chegaram de madrugada, quando o parque de diversões estava fechado. Partiram quinze minutos depois, tão silenciosamente quanto chegaram.

Laslo Bushfekete sonhou que se encontrava de pé na entrada de uma enorme tenda branca, observando a vasta multidão entrar em fila na bilheteria, a fim de comprar os ingressos de quinhentos florins.

”É por aqui, senhoras e senhores, vejam a parte genuína do corpo de um alienígena do espaço exterior. Não é um desenho, não é uma fotografia, é de fato a parte do corpo de um ET. Apenas quinhentos florins pela emoção de uma vida inteira, uma visão que jamais esquecerão.”

E depois ele estava na cama com Marika, ambos nus, podia sentir os mamilos dela se comprimindo contra seu peito, a língua deslizando por seu corpo, ela se contorcia por cima dele, e teve uma ereção. Bushfekete estendeu os braços para agarrá-la, mas suas mãos se fecharam sobre outra coisa, fria e escorregadia, e ele despertou e abriu os olhos, soltando um grito... e foi nesse instante que a naja deu o bote.

Encontraram seu corpo pela manhã. A caixa da cobra venenosa estava vazia.

 

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10. LASLO BUSHFEKETE - SOPRON - ARQUIVADO

FIM DA MENSAGEM

 

O General Hilliard fez uma ligação pelo telefone vermelho.

— Janus, acabei de receber o relatório final do Comandante Bellamy. Ele descobriu a última das testemunhas. Já cuidamos de todas.

— Excelente. Informarei aos outros. Quero que prossiga imediatamente com o resto de nosso plano.

— Certo.

 

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ASN PARA VICE-DIRETORES:

SIFAR, MI6, GRU. CIA, COMSEC, DCI, CGHQ, BFV

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ASSUNTO: OPERAÇÃO JUÍZO FINAL

11. COMANDANTE ROBERT BELLAMY - ARQUIVAR

FIM DA MENSAGEM

 

O CAÇADO

Dia Quinze

Robert Bellamy estava num dilema. Poderia haver uma décima primeira testemunha? E se houvesse, por que nenhum dos outros a mencionara antes? O funcionário que vendera as passagens do ônibus lhe dissera que eram apenas sete passageiros. Robert estava convencido de que o proprietário do parque de diversões húngaro se enganara. E seria fácil ignorar sua declaração, presumir que era inverídica, só que o treinamento de Robert não o permitia. Fora bem disciplinado demais. Era preciso conferir a história de Bushfekete. Como? Robert pensou a respeito por um momento. Hans Bec kerman. O motorista do ônibus deve saber.

Ele fez uma ligação para a Sunshine. O escritório estava fechado. Não havia ninguém na lista telefónica em Kappel com o nome de Hans Beckerman. Tenho de voltar à Suíça e esclarecer a questão, decidiu Robert. Não posso deixar nenhum fio solto.

Já era tarde da noite quando Robert chegou a Zurique. O ar estava frio, havia lua cheia. Ele alugou um carro, seguiu pelo caminho agora familiar para a pequena aldeia de Kappel. Passou pela igreja e parou na frente da casa de Hans Beckerman, convencido de que se empenhava em uma busca sem sentido. A casa estava às escuras. Robert bateu na porta e esperou. Bateu de novo, tremendo ao ar frio da noite.

A sra. Beckerman finalmente abriu a porta, usando um robe desbotado de flanela.

— Bitte?

— Sra. Beckerman, por acaso se lembra de mim? Sou o repórter que está escrevendo o artigo sobre Hans. Lamento incomodar a esta hora, mas é importante que eu fale com seu marido.

As palavras foram recebidas com silêncio.

— Sra. Beckerman?

— Hans está morto. Robert sentiu um choque.

— O quê?

— Meu marido morreu.

— Eu... sinto muito. Como?

— Seu carro rolou pela encosta da montanha. — A voz estava impregnada de amargura. — A Dummkopf Polizei disse que aconteceu porque ele havia tomado drogas.

— Drogas?

”Úlcera. Os médicos não podem nem me dar remédios para aliviar a dor. Sou alérgico a todos.”

— A polícia disse que foi um acidente?

— Já.

— Efetuaram uma autópsia?

— Fizeram e encontraram drogas. Não faz sentido. Robert não tinha qualquer resposta.

— Lamento profundamente, sra. Beckerman. Eu...

A porta foi fechada, Robert ficou sozinho na noite escura.

Uma testemunha desaparecera. Não... duas. LeslieMothershed morrera num incêndio. Robert ficou parado ali, pensando, por um longo tempo. Duas testemunhas mortas. Ele podia ouvir a voz de seu instrutor na Fazenda: ”Há mais uma coisa sobre a qual eu gostaria de falar hoje. A coincidência. Em nosso trabalho, não existe esse animal. Geralmente representa perigo. Se deparar várias vezes com a mesma pessoa, ou se a todo instante avistar o mesmo automóvel, quando estiver em ação, trate de se proteger. ”Provavelmente se encontra metido numa encrenca.”

”Provavelmente se encontra metido numa encrenca.” Robert foi dominado por uma série de emoções conflitantes. O que acontecera tinha de ser coincidência, mas... Preciso conferir a passageira misteriosa.

Sua primeira ligação foi para Fort Smith, Canadá. Uma mulher com a voz transtornada atendeu.

— Alô?

— William Mann, por favor. A voz disse, chorosa:

— Lamento, mas meu marido... não está mais conosco.

— Não estou entendendo.

— Ele cometeu suicídio.

Suicídio? Aquele banqueiro intransigente? Mas o que será que está acontecendo?, perguntou-se Robert. Era inconcebível o que ele estava pensando, e, no entanto... Ele passou a fazer uma ligação depois de outra.

— Professor Schmidt, por favor.

— Ach! O professor morreu numa explosão em seu laboratório...

— Eu gostaria de falar com Dan Wayne.

— Pobre coitado... Seu garanhão escoiceou-o até a morte...

— Laslo Bushfekete, por favor.

— O parque de diversões está fechado. Laslo morreu...

— Fritz Mandei, por favor.

— Fritz morreu num estranho acidente... Os alarmes soavam a todo volume agora.

— Olga Romanchanko.

— Pobre coitada. E era tão jovem...

Patrini.

Estou ligando para saber como está o Padre

— O pobre coitado morreu enquanto dormia.

— Gostaria de falar com Kevin Parker.

— Kevin foi assassinado...

Mortas. Todas as testemunhas estavam mortas. E fora ele quem as descobrira e identificara. Por que não percebera o que acontecia? Porque os filhos da puta haviam esperado que deixasse cada país antes de executar suas vítimas. Ele só se reportara ao General Hilliard. ”Não devemos envolver mais ninguém nesta missão... Quero que me apresente relatórios de progresso todos os dias.”

Haviam-no usado para chegar às testemunhas. O que há por trás de tudo isso? Otto Schmidt fora morto na Alemanha, Hans Beckerman e Fritz Mandei na Suíça, Olga Romanchanko na Rússia, Dan Wayne e Kevin Parker nos Estados Unidos, William Mann no Canadá, Leslie Mothershed na Inglaterra, Padre Patrini na Itália, e Laslo Bushfekete na Hungria. Isso significava que as agências de segurança em mais de meia dúzia de países se encontravam empenhadas na maior operação de encobrimento da história. Alguém, num nível muito alto, decidira que todas as testemunhas do acidente do OVNI deviam morrer. Mas quem? E por quê?

É uma conspiração internacional, e eu estou no meio dela.

Prioridade: Cair na clandestinidade. Era difícil para Robert acreditar que tencionavam matá-lo também. Era um deles. Mas até ter certeza, não podia correr nenhum risco. A primeira providência a tomar era obter um passaporte falso. O que significava Ricco, em Roma.

Robert embarcou no primeiro vôo disponível, e descobriu-se a lutar para permanecer acordado. Não percebera antes como estava exausto. A pressão dos últimos quinze dias, sem falar em todo o cansaço das viagens, deixara-o esgotado.

Pousou no aeroporto Leonardo da Vinci. Ao entrar no terminal, Susan foi a primeira pessoa com quem deparou. Robert parou, chocado. Ela estava de costas, e por um momento Robert ainda pensou que podia estar enganado. Mas, depois, ouviu sua voz:

— Obrigada, mas um carro virá me buscar.

Ele se adiantou.

— Susan...

Ela virou-se, aturdida.

— Robert! Mas... que coincidência! E que surpresa agradável!

— Pensei que estivesse em Gibraltar. Susan sorriu, contrafeita.

— Seguíamos para lá, mas Monte tinha de resolver alguns problemas aqui primeiro. Partiremos esta noite. O que está fazendo em Roma?

Fugindo para salvar minha vida.

— Estou concluindo um trabalho.

É minha última missão, querida. Vou largar tudo. Poderemos ficar juntos daqui por diante, e nunca mais nada será capaz de nos separar. Deixe Monte e volte para mim. Mas Robert não podia dizer as palavras. Já fizera demais a Susan. Ela sentia-se feliz em sua nova vida. Deixe-a em paz, pensou ele. Susan observava-o.

— Você parece cansado. Ele sorriu.

— Andei correndo um pouco.

Fitaram-se nos olhos, e a magia ainda persistia. O desejo ardente, as recordações, o riso, o afeto. Ela pegou a mão de Robert, murmurando:

— Oh, Robert, como eu gostaria que nós...

— Susan...

E nesse momento um homem corpulento, metido num uniforme de motorista, aproximou-se de Susan.

— O carro está pronto, sra. Banks. O encantamento foi rompido.

— Obrigada. — Ela virou-se para Robert. — Desculpe, mas tenho de ir agora. Por favor, trate de se cuidar.

— Claro.

Robert observou-a se afastar. Havia muitas coisas que queria dizer a Susan. A vida tem um péssimo senso de oportunidade. Fora maravilhoso rever Susan, mas o que o perturbava? Claro! Coincidência. Outra coincidência.

Ele pegou um táxi para o Hotel Hassler.

- Seja bem-vindo, comandante.

— Obrigado.

— Mandarei alguém levar sua bagagem.

— Espere um instante.

Robert olhou para o relógio. Dez horas da noite. Sentiu-se tentado a subir e dormir um pouco, mas devia primeiro providenciar o passaporte.

— Não vou subir agora — acrescentou Robert. — Agradeceria se mandasse minha bagagem para o quarto.

— Pois não, comandante.

No instante em que Robert se virou para sair, a porta do elevador se abriu e alguns americanos saíram, rindo e conversando. Era evidente que haviam tomado alguns drinques. Um deles, corpulento, de cara vermelha, acenou para Robert.

— Oi, companheiro... está se divertindo?

— Maravilhosamente — respondeu Robert.

Ele atravessou o saguão, saiu e foi até o ponto de táxi. Quando se preparava para embarcar, notou um Opel cinza indefinível estacionado no outro lado da rua. Era indefinível demais. Ressaltava entre os carros enormes e luxuosos ao redor.

— Via Monte Grappa — disse Robert ao motorista do táxi. Durante o percurso, ele olhou pela janela traseira. Nada do Opel cinza. Estou ficando nervoso demais, pensou Robert. Ao chegarem à Via Monte Grappa, ele saltou na esquina. Ia pagar ao motorista quando avistou, pelo canto dos olhos, o Opel cinza, a meio quarteirão de distância, embora pudesse jurar que não fora seguido. Pagou a corrida e pôs-se a andar, afastando-se do carro, em passos lentos, parando a todo instante para olhar as vitrines. No reflexo de  uma vitrine, percebeu o Opel, andando devagar em sua esteira. Ao  chegar à rua seguinte, Robert constatou que era de mão única. Entrou nela, seguindo no sentido contrário ao tráfego intenso. O Opel  hesitou na esquina, depois acelerou para alcançar Robert na outra  extremidade da rua. Robert inverteu seu curso, retornou à Via Monte Grappa. O Opel sumira. Ele fez sinal para um táxi. — Via Monticelli.

O prédio era velho e negligenciado, uma relíquia de tempos melhores. Robert já o visitara muitas vezes antes, em diversas missões. Ele desceu três degraus para o porão e bateu na porta. Alguém espiou pelo olho mágico, e um momento depois a porta foi escancarada.

— Roberto! — exclamou um homem, abraçando Robert. — Como tem passado, mi amicol

Ele era gordo, na casa dos sessenta anos, barba branca por fazer, sobrancelhas espessas, dentes amarelados, várias papadas. Depois que Robert entrou, o homem fechou e trancou a porta

— Estou ótimo, Ricco.

Ricco não tinha um segundo nome. ”Para um homem como eu,” ele gostava de se gabar, ”um único nome é suficiente. Como Garbo.”

— Em que posso ajudá-lo hoje, meu amigo?

— Estou trabalhando num caso, e tenho pressa. Pode me arrumar um passaporte?

Ricco sorriu.

— O Papa é católico? — Ele foi até um armário no canto e abriu-o. — De que país gostaria de ser?

Ele tirou do armário um punhado de passaportes, com capas em cores diferentes, começou a examiná-los.

— Temos um passaporte grego, turco, iugoslavo, inglês...

— Americano — disse Robert.

Ricco separou um passaporte de capa azul.

— Aqui está. O nome Arthur Butterfield lhe agrada?

— É perfeito.

— Se ficar de pé naquela parede, tirarei seu retrato num instante.

Robert foi até a parede. Ricco abriu uma gaveta e tirou uma câmera Polaroid. Um minuto depois, Robert olhava para seu

retrato.

— Eu não estava sorrindo — comentou Robert Ricco fitou-o, perplexo.

— Como?

— Eu não estava sorrindo. Tire outro. Ricco deu de ombros.

— Claro. Como quiser.

Robert sorriu enquanto o segundo retrato para o passaporte era tirado. Olhou-o e disse:

— Assim está melhor.

Casualmente, ele guardou a primeira fotografia no bolso.

— Agora vem a parte de alta tecnologia — anunciou Ricco.

Robert ficou observando Ricco se encaminhar para uma bancada de trabalho em que havia uma máquina de corte. Ele ajeitou a fotografia no passaporte.

Robert foi até uma mesa em que havia um amplo sortimento de canetas, tintas e outras parafernálias, meteu no bolso do paletó uma lâmina e um pequeno vidro de cola. Ricco estudava seu trabalho.

- Nada mal. — Ele entregou o passaporte a Robert. — Vai custar cinco mil dólares.

— E bem que vale — comentou Robert, contando dez notas de quinhentos dólares.

— É sempre um prazer fazer negócios com seu pessoal. Sabe como me sinto em relação a você.

Robert sabia exatamente como ele se sentia. Ricco era um competente sapateiro, que trabalhava para meia dúzia de governos diferentes... e não era leal a nenhum. Ele guardou o passaporte no bolso do paletó.

— Boa sorte, sr. Butterfield — disse Ricco, sorrindo.

— Obrigado.

No momento em que a porta se fechou por trás de Robert, Ricco estendeu a mão para o telefone. Uma informação sempre valia algum dinheiro para alguém.

Lá fora, a vinte metros do prédio, Robert tirou o novo passaporte do bolso e largou-o numa lata de lixo. A barragem de aparas de metal. A técnica que ele usara como piloto para lançar trilhas falsas a serem perseguidas pelos mísseis inimigos. Deixe que eles procurem por Arthur Butterfield.

O Opel cinza estava estacionado a meio quarteirão de distância. Esperando. Impossível. Robert tinha certeza que o carro era o único em seu encalço. E tinha certeza também que conseguira despistá-lo. Apesar disso, continuava a encontrá-lo. Só podiam ter alguma maneira de determinar constantemente a sua localização. E só havia uma resposta neste caso: estavam usando um transmissor de sinais. Preso em suas roupas Não. Não haviam tido essa oportunidade. O Capitão Dougherty permanecera com ele enquanto arrumava as malas, mas não poderia saber que roupas Robert levaria. Robert fez um inventário mental do que estava carregando — dinheiro, chaves, uma carteira, lenço, cartão de crédito. O cartão de crédito! ”Aqui está um cartão de crédito.” ”Duvido que eu vá precisar, general” ”Pegue-o. É muito importante que o tenha com você em todas as ocasiões.”

O filho da puta traiçoeiro! Não era de admirar que tivessem conseguido encontrá-lo com tanta facilidade.

O Opel cinza não se encontrava mais à vista. Robert tirou o cartão do bolso e examinou-o. Era um pouco mais grosso que um cartão de crédito comum. Apertando-o, ele pôde sentir uma camada interna. Teriam um controle remoto para ativar o cartão. Ótimo, pensou Robert. Vamos manter os desgraçados bem ocupados.

Havia diversos caminhões estacionados ao longo da rua, carregando e descarregando mercadorias. Robert passou a verificar as placas. Ao alcançar um caminhão vermelho, com placas da França, ele olhou ao redor, para se certificar de que não era observado, e jogou o cartão na traseira do veículo. Fez sinal para um táxi.

— Hassler, perfavore.

No saguão, Robert foi falar com o gerente.

— Por favor, verifique se há algum vôo que parte esta noite para Paris.

— Pois não, comandante. Tem preferência por alguma empresa aérea?

— Nenhuma. Só quero o primeiro vôo.

— Terei o maior prazer em providenciar.

— Obrigado.

Robert encaminhou-se para a recepção.

— Minha chave, por favor. Quarto 314. Devo ir embora dentro de poucos minutos.

— Não tem problema, Comandante Bellamy. — O recepcionista estendeu a mão para um escaninho, tirou a chave e um envelope. — Entregaram uma carta para o senhor.

Robert se empertigou. O envelope estava lacrado e endereçado apenas ao ”Comandante Robert Bellamy”. Ele tateou-o, procurando sentir qualquer plástico ou metal dentro. Abriu-o com o maior Cuidado. O conteúdo era um cartão impresso de propaganda de um restaurante italiano. Bastante inocente... exceto, é claro, por seu nome no envelope.

— Por acaso lembra quem lhe deu isto?

— Desculpe, senhor — respondeu o recepcionista —, mas estivemos tão ocupados hoje...

Não era importante. Seria um homem sem rosto. Pegara o cartão em algum lugar, metera no envelope, permanecera junto da recepção, ^ fim de descobrir em que escaninho o envelope era guardado. Estaria esperando lá em cima agora, no quarto de Robert. Chegara o momento de ver a face do inimigo.

Robert ouviu vozes alteadas, e virou-se para avistar os mesmos convencionais americanos que já vira antes, entrando no saguão, rindo e cantando. Era evidente que haviam tomado ainda mais drinques, o homem corpulento disse:

— Ei, companheiro, perdeu uma grande festa! A mente de Robert estava em disparada.

— Você gosta de festas?

— E conio!

— Pois há uma festa sensacional lá em cima... com muita bebida, mulheres, qualquer coisa que quiser. Basta me seguirem, todos vocês!

— Esse é o espírito americano, companheiro. — O homem deu um tapa ^as costas de Robert. — Ouviram isso, rapazes? Nosso amigo aqui está oferecendo uma festa!

Espremeram-se todos no elevador e subiram para o terceiro andar. O Convencional comentou:

— Esses italianos sem dúvida sabem como viver. Acho que eles inventaram as orgias, hem?

— Pois  vou lhes mostrar uma orgia de verdade — prometeu Robert.

Todos seguiram-no pelo corredor até seu quarto. Robert enfiou a chave ha fechadura e virou-se para o grupo.

— Estão todos prontos para se divertirem um pouco? Houve um coro de ”sins”...

Robert girou a chave, empurrou a porta, e deu um passo para o lado. O quarto estava escuro. Ele acendeu a luz. Um homem alto e magro se encontrava parado no meio do quarto,  começando a sacar uma Mauser equipada com silenciador. Olhou para o grupo com uma expressão espantada e rapidamente tornou a enfiar a arma no bolso.

— Ei, onde estão as bebidas? — indagou um dos americanos.

Robert apontou para o homem.

— Estão com ele. Podem pedir à vontade. O grupo arremeteu para o homem.

— Onde estão as bebidas?

— Onde estão as mulheres?

— Vamos começar logo essa festa!

O homem magro ainda tentou alcançar Robert, mas o bando bloqueava sua passagem. Ele se limitou a observar, impotente, enquanto Robert se retirava, para descer pela escada, de dois em dois degraus. Lá embaixo, no saguão, ele se encaminhava apressado para a saída quando o gerente chamou-o.

— Já fiz a sua reserva, Comandante Bellamy. Está no voo 312 da Air France para Paris. Parte à uma hora da madrugada.

— Obrigado.

Robert deixou o hotel, saindo para a pequena praça que levava à Escadaria Espanhola. Um táxi desembarcava um passageiro. Ele embarcou, e disse ao motorista:

— Via Monte Grappa.

Já tinha sua resposta agora. Eles tencionavam mesmo matálo. Mas vão descobrir que não será fácil. Era a caça agora, em vez do caçador, mas contava com uma grande vantagem. Fora bem treinado. Conhecia todas as técnicas que eles usavam, suas forças e fraquezas, pretendia usar esse conhecimento para impedilos. Primeiro, precisava encontrar uma maneira de despistá-los. Os homens em seu encalço haviam ouvido alguma história. Provavelmente lhes disseram que ele era procurado por tráfico de drogas, assassinato ou espionagem. E teriam sido advertidos: Ele é perigoso. Não corram riscos. Atirem para  matar. Robert disse ao motorista:

— Roma Termini.

Estava sendo caçado, mas ainda não houvera tempo para distribuir sua fotografia. Até agora, era um homem sem rosto, O táxi parou na Via Giovanm Giolitti, 36, e o motorista anunciou:

— Stazione Termini, signore.

— Vamos esperar aqui por um minuto.

Robert ficou sentado no táxi, observando a entrada da estação ferroviária. Parecia haver apenas a atividade usual. Tudo dava a impressão de estar normal. Táxis e limusines chegavam e partiam, desembarcando e recolhendo passageiros. Os carregadores levavam bagagens de um lado para outro. Um guarda se ocupava em ordenar que os carros deixassem a área de estacionamento restrito. Mas havia alguma coisa que perturbava Robert. E de repente ele compreendeu o que havia de errado na cena à sua frente. Bem na frente da estação, na área de estacionamento proibido, havia três sedas parados, sem ninguém lá dentro. O guarda ignorava-os.

— Mudei de idéia — disse Robert ao motorista. — Vamos para a Via Veneto, 110-A.

Era o último lugar do mundo em que iriam procurá-lo.

A embaixada e o consulado americanos ficavam num prédio de estuque rosa, na Via Veneto, com um portão preto de ferro batido. A embaixada se encontrava fechada àquela hora, mas a divisão de passaportes do consulado funcionava vinte e quatro horas por dia, a fim de atender a emergências. No saguão, no primeiro andar, havia um fuzileiro sentado por trás de uma mesa. Ele levantou os olhos quando Robert se aproximou.

— O que deseja, senhor?

— Quero saber como posso conseguir um novo passaporte. Perdi o meu.

— É cidadão americano?

— Sou, sim.

O fuzileiro indicou uma sala na outra extremidade.

— Cuidarão de tudo ali, senhor. Última porta.

— Obrigado.

Havia meia dúzia de pessoas na sala, solicitando passaportes, comunicando a perda, obtendo renovações e vistos.

— Preciso de um visto para visitar a Albânia. Tenho parentes ali...

— Preciso que meu passaporte seja renovado esta noite. Tenho de pegar um avião...

— Não sei o que aconteceu. Devo ter esquecido em Milão...

— Tiraram o passaporte de minha bolsa...

Robert ficou parado num canto, escutando. Roubar passaportes era uma próspera indústria na Itália. Alguém ali deveria estar recebendo um novo passaporte. Na frente da fila, um homem bem-vestido, de meia-idade, estava recebendo um passaporte americano.

— Aqui está seu novo passaporte, sr. Cowan. Lamento que tenha passado por uma experiência tão terrível. Infelizmente, há muitos punguistas em Roma.

— Cuidarei para que não me levem este também — declarou Cowan.

— É o melhor, senhor.

Robert observou Cowan guardar o passaporte no bolso do paletó e virar-se para ir embora. Avançou em sua direção. Ao passar por uma mulher, Robert esbarrou em Cowan, como se tivesse sido empurrado, quase derrubando-o.

— Lamento profundamente — desculpou-se Robert, inclinando-se para endireitar o paletó do homem.

— Não foi nada — respondeu Cowan.

Robert foi para o banheiro, com o passaporte do estranho em seu bolso. Certificou-se de que se achava sozinho lá dentro, entrou num dos reservados. Pegou a lâmina e o vidro de cola que roubara de Ricco. Com todo cuidado, levantou a cobertura de plástico e removeu a fotografia de Cowan. Inseriu o seu retrato que Ricco tirara. Passou cola na cobertura de plástico, fechou-a, examinou o trabalho. Perfeito. Era agora Henry Cowan. Cinco minutos depois estava na Via Veneto, embarcando num táxi.

— Leonardo da Vinci.

Era meia-noite e meia quando Robert chegou ao aeroporto. Passou algum tempo parado do lado de fora, atento a qualquer coisa fora do usual. Aparentemente, tudo estava normal. Não havia carros da polícia, nem homens de aparência suspeita. Robert entrou no terminal e tornou a parar, junto da porta. Havia diversos balcões de empresas aéreas espalhados pelo vasto terminal. Parecia não haver ninguém à espreita, ou escondido por trás de colunas. Mesmo assim, ele permaneceu onde estava. Não podia explicar, nem para si mesmo, mas o fato é que as coisas pareciam normais demais.

Havia um balcão da Air France no outro lado do terminal. ”Está no vôo 312 da Air France para Paris. Parte à uma hora da madrugada.” Robert passou pelo balcão, aproximou-se de uma mulher de uniforme por trás do balcão da Alitalia.

— Boa noite.

— Boa noite. Posso ajudá-lo, signore?

— Pode, sim. Poderia fazer o favor de pedir ao Comandante Robert Bellamy para ir ao telefone de cortesia?

— Pois não.

Ela pegou o microfone. A poucos passos de distância, uma mulher gorda, de meia-idade, conferia algumas malas, numa discussão acalorada com um dos atendentes da empresa pela taxa de excesso de peso.

— Sinto muito, madame, mas se deseja que todas estas malas sejam embarcadas, terá de pagar pelo excesso.

Robert chegou mais perto. Ouviu a voz da mulher no balcão da Alitalia pelo sistema de alto-falantes:

— Comandante Robert Bellamy, compareça por favor ao telefone branco de cortesia. Comandante Robert Bellamy, compareça por favor ao telefone branco de cortesia.

O comunicado ressoou pelo terminal. Um homem com uma mochila estava passando por Robert.

— Com licença — disse Robert. O homem virou-se.

— Pois não?

— Minha esposa está me procurando no telefone, mas... — Ele indicou as malas da mulher de meia-idade. — Não posso deixar a bagagem aqui.

Robert tirou uma nota de dez dólares do bolso, estendeu-a para o homem e acrescentou:

— Poderia fazer o favor de ir até aquele telefone branco, e avisar a ela que irei buscá-la no hotel dentro de uma hora? Eu ficaria profundamente agradecido.

O homem pegou a nota de dez dólares.

— Claro.

Robert observou-o se encaminhar para o telefone de cortesia e atender.

— Alô? Alô?

No instante seguinte, quatro homens enormes, todos vestindo um terno preto, surgiram do nada e cercaram o infeliz, espremendo-o contra a parede.

— Ei, mas o que é isso?

— Não vamos criar confusão — disse um dos homens.

— O que pensam que estão fazendo? Tirem as mãos de mim!

— Não reaja, comandante. Não vai adiantar...

— Comandante? Vocês pegaram o homem errado! Meu nome é Melvyn Davis, e sou de Omaha!

— Não tente nos enganar...

— Esperem um pouco! Caí numa armadilha! O homem que vocês procuram está ali!

Ele apontou para o lugar em que Robert o abordara. Não havia ninguém ali.

Na frente do terminal, um ônibus do aeroporto estava prestes a partir. Robert embarcou, misturando-se com os outros passageiros. Sentou no fundo, pensando no que faria em seguida.

Sentia-se ansioso em falar com o Almirante Whittaker, a fim de tentar obter respostas para o que estava acontecendo, descobrir quem era o responsável pelo assassinato de pessoas inocentes que haviam testemunhado algo que não deveriam ter visto. Seria o General Hilliard? Dustin Thornton? Ou o sogro de Thornton, Willard Stone, o homem misterioso? Será que ele estava envolvido, de alguma forma? E Edward Sanderson, o diretor da ASN? Todos estariam trabalhando juntos? E a conspiração envolveria os mais altos escalões, incluindo até o Presidente dos Estados Unidos? Robert precisava de respostas.

A viagem de ônibus para Roma levou uma hora. Quando o ônibus parou, na frente do Hotel Éden, Robert desembarcou.

Preciso sair do país, pensou ele. Só havia um homem em Roma em quem podia confiar. O Coronel Francesco César, diretor do SIFAR, o serviço secreto italiano. Ele ajudaria Robert a escapar da Itália.

O Coronel César estava trabalhando até tarde. Havia mensagens urgentes sendo transmitidas entre as agências de segurança estrangeiras, e todas envolviam o Comandante Robert Bellamy. O Coronel César já trabalhara com Robert no passado, e gostava muito dele. César suspirou ao olhar para a última mensagem na sua frente. Arquivar. Ele a lia quando a secretária entrou na sala.

— O Comandante Bellamy está na linha, querendo lhe falar. O Coronel César levantou os olhos, surpreso.

— Bellamy? Em pessoa? Não importa.

Ele esperou que a secretária se retirasse, antes de pegar o telefone.

— Robert?

— Chao, Francesco. O que está acontecendo?

— Diga-me você, amigo. Tenho recebido os mais diversos comunicados urgentes a seu respeito. O que você fez?

— É uma história comprida, e não tenho tempo para contála agora. O que você ouviu?

— Que você caiu fora, e está cantando como um canário.

— O quê?

— Fui informado que fez um acordo com os chineses e...

— Mas isso é ridículo!

— É mesmo? Por quê?

— Porque uma hora depois eles estariam ansiosos por mais informações.

— Pelo amor de Deus, Robert, isso não é motivo para piadas!

— Sei disso, Francesco. Mandei dez pessoas inocentes para a morte. E fui marcado para ser a décima primeira vítima.

— Onde você está?

— Em Roma. E parece que não consigo sair da porra da sua cidade.

— Cacatura! — Houve um momento de silêncio. — O que posso fazer para ajudá-lo?

— Providencie uma casa segura em que possamos conversar, e encontrarei uma maneira de escapar. Pode dar um jeito?

— Posso, sim, mas você tem de tomar muito cuidado. Irei buscá-lo pessoalmente.

Robert deixou escapar um profundo suspiro de alívio.

— Obrigado, Francesco. Não pode imaginar como fico agradecido.

— Como dizem os americanos, fica me devendo uma. Onde vou encontrá-lo?

— No bar do Lido, em Trastevere.

— Espere aí mesmo. Irei buscá-lo dentro de uma hora exatamente.

— Obrigado, amigo,

Robert desligou. Seria uma longa hora de espera.

Trinta minutos depois, dois carros pararam a dez metros do bar do Lido. Havia quatro homens em cada carro, e todos carregavam armas automáticas. O Coronel César saltou do primeiro carro.

— Vamos agir depressa. Não queremos que mais ninguém saia machucado. Andate ai dietro, súbito.

Metade dos homens deu a volta, sem fazer qualquer barulho, para cobrir os fundos do bar.

Robert Bellamy observava do telhado do prédio no outro lado da rua, enquanto César e seus homens levantavam as armas, e investiam contra o bar.

Muito bem, seus filhos da puta, pensou Robert, sombriamente, vamos jogar como vocês querem.

 

Dia Dezesseis Roma, Itália

Robert ligou para o Coronel César de uma cabine telefónica na Piazza dei Duomo.

— O que aconteceu com a amizade? — perguntou ele.

— Não seja ingénuo, meu amigo. Estou sob ordens, assim como você. Posso lhe assegurar que não adianta fugir. Está em primeiro lugar nas listas dos mais procurados de todos os serviços secretos. Metade dos governos do mundo está à sua procura.

— Mas acredita que sou um traidor? César suspirou.

— Não importa o que eu acredito, Robert. Não é nada pessoal. Tenho minhas ordens.

— Para me liquidar.

— Poderia tornar tudo mais fácil se quisesse se entregar.

— Obrigado, paesano. Se precisar de mais conselhos, ligarei para um consultório sentimental.

Robert bateu o telefone. Sabia que maior seria o perigo que corria, quanto mais tempo permanecesse à solta. Haveria agentes de segurança de meia dúzia de países em sua perseguição.

Tem de Haver uma árvore, pensou Robert. A frase vinha da história de um caçador que relatava sua experiência num safári.

— Aquele leão enorme corria em minha direção, todos os meus carregadores de armas haviam fugido. Eu me encontrava desarmado, não tinha onde me esconder. Nem uma moita ou árvore à vista. E o leão vinha correndo, cada vez mais perto.

— Como escapou? — indagou um ouvinte.

— Corri para a árvore mais próxima e subi.

— Mas disse que não havia árvores.

— Você não entende. Tem de haver uma árvore!

E eu tenho de encontrá-la, pensou Robert. Ele correu os olhos pela praça. Estava quase deserta àquela hora. Decidiu que chegara o momento de conversar com o homem que desencadeara aquele pesadelo, o General Hilliard. Mas precisaria tomar muito cuidado. O moderno rastreamento eletrônico de telefone era quase instantâneo. Robert verificou que as duas cabines telefónicas ao lado se encontravam vazias. Perfeito. Ignorando o número particular que o General Hilliard lhe dera, discou para a mesa telefónica da ASN. Quando uma telefonista atendeu, Robert disse:

— General Hilliard, por favor.

Um momento depois, ouviu a voz de uma secretária:

— Gabinete do General Hilliard.

— Por favor, aguarde uma chamada do exterior. Robert largou o fone, e correu para a cabine ao lado. Discou rapidamente. Outra secretária atendeu:

— Gabinete do General Hilliard.

— Por favor, aguarde uma chamada do exterior — disse Robert.

Deixou o fone pendurado, entrou na terceira cabine, tornou a discar. Quando uma terceira secretária atendeu, Robert disse:

— Aqui é o Comandante Bellamy. Quero falar com o General Hilliard.

Houve um ofego de surpresa.

— Espere um momento, comandante. — A secretária tocou o interfone. — General, o Comandante Belíamy está na linha três.

O General Hilliard virou-se para Harrison Keller.

— Bellamy está na linha três. Comece o rastreamento, depressa.

Harrison Kellèr foi até um telefone numa mesa no lado da sala, ligou para o centro de operações telefônicas, guarnecido vinte e quatro horas por dia. O oficial de plantão atendeu.

— COT. Adams.

— Quanto tempo leva para fazer o rastreamento de emergência de uma chamada recebida? — sussurrou Kellèr.

— Entre um e dois minutos.

— Comece. Gabinete do General Hilliard, linha três. Ficarei esperando.

Ele olhou para o general e acenou com a cabeça. O General

Hilliard pegou o telefone.

— Comandante... é mesmo você?

No centro de operações, Adams apertou um número num computador.

— Lá vamos nós! — murmurou ele.

— Achei que estava na hora de termos uma conversa,

general.

— Fico contente que tenha ligado, comandante. Por que não vem até aqui para discutirmos a situação? Providenciarei um avião, e poderá estar aqui...

— Não, obrigado. Acidentes demais acontecem em aviões,

general.

Na sala de comunicações, o sistema de rastreamento eletrônico fora ativado. A tela de computador se iluminou. AX121-B... AX122-C... AX123-C...

— O que está acontecendo? — sussurrou Kellèr ao telefone.

— O centro de operações em New Jersey está verificando os troncos da área de Washington, D.C., senhor. Aguarde um instante.

A tela ficou vazia. Um momento depois surgiram as palavras Linha Um Tronco Internacional.

— A chamada vem de algum lugar da Europa. Estamos rastreando o país...

O General Hilliard dizia ao telefone:

— Creio que houve um mal-entendido, Comandante Bellamy. Tenho uma sugestão...

Robert desligou. O General Hilliard olhou para Keller.

— Descobriu?

Harrison Keller perguntou a Adams pelo telefone:

— O que aconteceu?

— Nós o perdemos.

Robert entrou na segunda cabine e pegou o fone pendurado. A secretária do General Hilliard informou:

— O Comandante Bellamy está chamando na linha dois. Os dois homens se entreolharam. O General Hilliard apertou o botão da linha dois.

— Comandante?

— Eu farei uma sugestão — disse Robert. O General Hilliard pôs a mão sobre o bocal.

— Recomece o rastreamento. — Harrison Keller levantou o fone e disse a Adams:

— Ele está ligando de novo. Linha dois. Ande depressa.

— Certo.

— Minha sugestão, general, é que chame de volta todos os seus homens. Agora.

— Creio que não está entendendo a situação, comandante. Podemos resolver esse problema se...

— Eu lhe direi como podemos resolvê-lo. Há uma ordem para me arquivar. Quero que a cancele.

No centro de operações, a tela do computador transmitia uma nova mensagem: AX155-C Subtronco A21 confirmado. Circuito 301 para Roma. Tronco Atlântico 1.

— Já o pegamos — anunciou Adams pelo telefone. — Rastreamos o tronco até Roma.

— Obtenha o número e a localização — ordenou Keller. Em Roma, Robert olhou para o relógio.

— Encarregou-me de uma missão. Eu a cumpri.

— E cumpriu muito bem, comandante. Aqui está... A linha ficou muda. O general virou-se para Keller.

— Ele desligou de novo. Keller perguntou ao telefone:

— Conseguiu?

— Não deu tempo, senhor.

Robert foi para a terceira cabine telefônica e pegou o fone. A secretária do General Hilliard avisou pelo interfone:

— O Comandante Bellamy está na linha um, general. O general berrou:

— Descubram o filho da puta! — Ele atendeu a ligação. — Comandante?

— Quero que me escute, general, e com toda atenção. Assassinou pessoas inocentes. Se não chamar de volta seus homens, procurarei os meios de comunicação e contarei o que está acontecendo.

— Eu o aconselharia a não fazer isso, a menos que queira provocar um pânico mundial. Os alienígenas são genuínos, e somos indefesos contra eles. Estão se preparando para entrar em ação. Você não tem idéia do que aconteceria se a notícia vazasse.

— Nem você — respondeu Robert. — Não vou lhe dar alternativa. Suspenda o contrato contra mim. Se houver mais um atentado contra a minha vida, sairei em público.

— Certo — disse o General Hilliard. — Você ganhou. Suspenderei o contrato. Tenho uma idéia. Por que não podemos...

— Seu rastreamento deve estar quase completo agora — interrompeu-o Robert. — Tenha um bom dia, general.

A ligação foi desfeita.

— Conseguiu? — berrou Keller pelo telefone.

— Quase, senhor — disse Adams. — Ele estava ligando de uma área no centro de Roma. Trocou de telefone para nos atrasar.

O general olhou para Keller.

— E então?

— Sinto muito, general. Tudo o que sabemos é que ele se encontra em algum lugar de Roma. Acredita em sua ameaça? Vamos cancelar o contrato?

— Não. Vamos eliminá-lo.

Robert repassou suas opções mais uma vez. Eram deploravelmente mínimas. Estariam vigiando os aeroportos, estações ferroviárias, terminais rodoviários e agências de aluguel de automóveis. Não podia se registrar em nenhum hotel porque o SIFAR já deveria ter transmitido um alerta vermelho. Mas tinha de sair de Roma. Precisava de uma cobertura. Uma companheira. Não procurariam por um homem e uma mulher juntos. Era um começo.

Havia um táxi parado na esquina. Robert desmanchou os cabelos, afrouxou a gravata, cambaleou como se estivesse bêbado na direção do táxi.

— Ei, você aí!

O motorista fitou-o com uma expressão de repulsa. Robert tirou do bolso uma nota de vinte dólares e pôs na mão do homem.

— Ei, cara, estou a fim de uma trepada! Sabe o que isso significa? Entende alguma porra de inglês?

O motorista olhou para a nota.

— Quer uma mulher?

— É isso aí, cara. Quero uma mulher.

— Andiamo — disse o motorista.

Robert embarcou e o táxi partiu. Ele olhou para trás. Não estava sendo seguido. A adrenalina era bombeada com a maior intensidade. ”Metade dos governos do mundo está à sua procura. ” E não haveria apelação. As ordens eram para assassiná-lo.

Vinte minutos depois chegaram a Tor di Ounto, a zona do meretrício de Roma, habitada por prostitutas e cafetões. Passaram pela Passeggiata Archeologica, e logo depois o motorista parou numa esquina, avisando:

— Encontrará uma mulher aqui.

— Obrigado, cara.

Robert pagou a quantia indicada no taxímetro, saiu cambaleando do carro, que partiu no instante seguinte, rangendo pneus.

Robert olhou ao redor, avaliando o ambiente. Não havia polícia. Uns poucos carros e um punhado de pedestres. Havia mais de uma dúzia de prostitutas circulando pela rua. No espírito de ”vamos recolher os suspeitos”, a polícia efetuara sua limpeza bimensal, para satisfazer as vozes da moral, retirando as prostitutas da cidade da Via Veneto, onde tinham uma alta visibilidade, e transferindo para aquela área, onde não ofenderiam as matronas que tomavam chá no Doney’s. Por esse motivo, a maioria das mulheres era atraente e bem-vestida. Havia uma em particular que atraiu a atenção de Robert.

Ela parecia ter vinte e poucos anos. Tinha cabelos compridos, escuros, usava uma elegante saia preta e blusa branca, sobre a qual vestia um casaco de pele de camelo. Robert calculou que ela devia trabalhar também como atriz ou modelo. A mulher o observava. Robert cambaleou em sua direção e balbuciou:

— Oi, meu bem. Você fala inglês?

— Falo.

— Ótimo. Então vamos ter uma festa.

Ela sorriu, indecisa. Os bêbados podiam criar problemas.

— Talvez seja melhor você ficar sóbrio primeiro. A mulher tinha um suave sotaque italiano.

— Já estou bastante sóbrio.

— Vai lhe custar cem dólares.

— Tudo bem, boneca.

Ela tomou uma súbita decisão.

— Vá bene. Venha comigo. Há um hotel logo depois da esquina.

— Maravilhoso! Qual é o seu nome, meu bem?

— Pier.

— O meu é Henry. — Um carro da polícia apareceu a distância, aproximando-se. — Vamos sair daqui.

As outras mulheres lançaram olhares invejosos, enquanto Pier e seu freguês americano se afastavam.

O hotel não era nenhum Hassler, mas o garoto cheio de espinhas na recepção não pediu um passaporte. Na verdade, mal levantou os olhos ao entregar uma chave a Pier.

— Cinqüenta mil liras.

Pier olhou para Robert. Ele tirou o dinheiro do bolso e entregou ao garoto.

O quarto tinha uma cama grande no canto, uma mesa pequena, duas cadeiras de madeira, e um espelho por cima da pia. Havia ganchos para pendurar as roupas atrás da porta.

— Deve me pagar adiantado.

— Não tem problema. Robert contou cem dólares.

— Grazie.

Pier começou a se despir. Robert foi até a janela. Puxou a beira da cortina e espiou. Tudo parecia normal. Esperava que àquela altura a polícia estivesse seguindo o caminhão vermelho de volta à França. Robert largou a cortina e virou-se. Pier estava nua. Possuía um corpo surpreendentemente adorável. Seios firmes, quadris arredondados, cintura fina, pernas compridas e bem torneadas. Olhava para Robert.

— Não vai se despir, Henry? Aquela era a parte difícil.

— Para dizer a verdade, acho que bebi demais. Não posso lhe oferecer qualquer ação.

Ela assumiu uma expressão cautelosa.

— Então por que...?

— Se eu ficar aqui e dormir para passar o porre, podemos fazer amor pela manhã.

Ela deu de ombros.

— Preciso trabalhar. Ficar aqui a noite toda me custaria muito dinheiro.

— Não se preocupe. Cuidarei disso. — Robert pegou várias notas de cem dólares e entregou-as à mulher. — Dá para cobrir?

Pier olhou o dinheiro, tomando uma decisão. Era tentador. Fazia frio lá fora, o movimento era pequeno. Por outro lado, havia algo estranho naquele homem. Em primeiro lugar, não parecia estar realmente de porre. Vestia-se bem e, com tanto dinheiro, teriam ido para um bom hotel. E daí?, pensou Pier. Questo cazzo se nefrega?

— Está bem, mas só tem uma cama para nós dois.

— É suficiente.

Pier ficou observando, enquanto Robert voltava à janela, e tornava a puxar a cortina para espiar a rua lá fora.

— Está procurando alguma coisa?

— O hotel tem alguma saída pelos fundos?

Em que estou me metendo?, especulou Pier. Sua melhor amiga fora assassinada por se envolver com criminosos. Pier considerava-se sábia em relação aos homens, mas aquele a desconcertava. Não parecia um criminoso, mas ainda assim...

— Tem, sim.

Houve um súbito grito, e Robert virou-se rapidamente.

— Dio! Dio! Sono venuta tre volte! Era uma voz de mulher, vindo do quarto ao lado, através da parede fina como papel.

— O que foi isso? — indagou ele, o coração disparado. Pier sorriu.

— Ela está se divertindo. Disse que acaba de gozar pela terceira vez.

Robert ouviu o rangido das molas da cama.

— Não vem para a cama?

Pier estava parada ali, nua, sem o menor constrangimento, observando-o.

— Claro.

Robert sentou na cama.

— Não vai se despir?

— Não.

— Como preferir. — Pier subiu na cama, deitou ao lado de Robert. — Espero que você não ronque.

— Poderá me dizer pela manhã.

Robert não tinha a menor intenção de dormir. Queria vigiar a rua durante a noite, para ter certeza de que eles não viriam ao hotel. Acabariam investigando aqueles pequenos hotéis de terceira classe, mas levaria algum tempo para chegarem a esse ponto. Tinham muitos outros lugares em que procurar antes. Ele deitou, exausto, e fechou os olhos para descansar por um momento. E dormiu. Voltou para casa, à sua própria cama, sentiu o corpo quente de Susan ao lado do seu. Ela está de volta, pensou ele, feliz. Veio para mim. Ah, meu amor, tenho sentido tanta saudade...

Dia Dezessete Roma, Itália

Robert foi despertado pelo sol batendo em seu rosto. Sentou abruptamente, olhando ao redor por um instante em alarme, desorientado. Ao ver Pier, a memória retornou. Ele relaxou. Pier se encontrava na frente do espelho, escovando os cabelos.

— Buon giorno — disse ela. — Você não ronca. Robert olhou para o relógio. Nove horas. Desperdiçara horas preciosas.

— Quer fazer amor agora? Já está pago.

— Não precisa.

Pier, nua e provocante, aproximou-se da cama.

— Tem certeza?

Eu não poderia, mesmo que quisesse, menina.

— Tenho, sim.

— Vá bene. — Ela começou a se vestir. — Quem é Susan? A indagação pegou-o desprevenido.

— Susan? Por que pergunta?

— Você fala no sono.

Robert recordou o sonho. Susan voltara para ele. Talvez fosse um sinal.

— É uma amiga.

É minha esposa. Vai acabar se cansando de Monte de Grana e algum dia voltará para mim. Isto é, se eu ainda estiver vivo até lá.

Robert foi até a janela. Puxou a cortina e espiou. A rua estava agora apinhada de pessoas a pé, comerciantes abriam suas lojas. Não havia qualquer sinal de perigo. Estava na hora de acionar seu plano. Ele virou-se para a mulher.

— Pier, gostaria de fazer uma pequena viagem comigo? Ela fitou-o desconfiada.

— Uma viagem... para onde?

— Preciso ir a Veneza, a negócios, e detesto viajar sozinho. Gosta de Veneza?

— Gosto...

— Ótimo. Pagarei pelo seu tempo, e tiraremos umas pequenas férias juntos. — Ele olhou outra vez pela janela. — Conheço um hotel maravilhoso em Veneza. O Cipriani.

Anos antes, ele e Susan haviam se hospedado no Royal Danieli, mas Robert estivera lá depois, e descobrira que o hotel entrara em decadência, as camas eram insuportáveis. A única coisa que restava da antiga classe era Luciano, na recepção.

— Vai lhe custar mil dólares por dia.

Pier estava disposta a se contentar com quinhentos.

— Negócio fechado. — Robert contou dois mil dólares. — Começaremos com isto.

Pier hesitou. Tinha a premonição de que havia algo errado. Mas o início do filme em que lhe haviam prometido um pequeno papel fora adiado, e ela precisava do dinheiro.

— Está certo.

— Vamos embora.

Lá embaixo, Pier observou-o esquadrinhar a rua com toda atenção, antes de sair para chamar um táxi. Ele é um alvo para alguém, pensou Pier. É melhor eu cair fora.

— Escute... não tenho certeza se quero ir para Veneza com você. Eu...

— Vamos nos divertir um bocado.

Havia uma joalheria no outro lado da rua. Robert pegou a mão de Pier.

— Vamos até lá. Comprarei uma coisa bem bonita para você.

— Mas...

Ele levou-a até a joalheria. O vendedor por trás do balcão

disse:

— Buon giorno, signore. Posso ajudá-lo?

— Pode, sim. Estamos procurando algo adorável para a dama. — Ele virou-se para Pier. — Gosta de esmeraldas?

— Eu... gosto.

Robert perguntou ao vendedor:

— Tem uma pulseira de esmeraldas?

— Si, signore. Tenho uma linda pulseira de esmeraldas. — Ele foi até um mostruário e voltou com uma pulseira. — Esta é a nossa melhor. Quinze mil dólares.

Robert olhou para Pier.

— Gosta?

Ela estava incapaz de falar. Acenou com a cabeça.

— Vamos levá-la.

Robert entregou seu cartão de crédito do ONI.

— Um momento, por favor. — O vendedor desapareceu na sala no fundo. Ao voltar, perguntou: — Quer que eu embrulhe, ou...?

— Não precisa. Minha amiga vai usá-la.

Robert pôs a pulseira no pulso de Pier. Ela ficou olhando, atordoada. Ele acrescentou:

— Não acha que ficará linda em Veneza? Pier sorriu.

— E muito!

Quando saíram para a rua, Pier murmurou:

— Não sei como agradecer.

— Só quero que você se divirta — disse Robert. — Tem carro?

— Não. Tinha um carro velho, mas foi roubado.

— Mas ainda tem a carteira de motorista? Ela ficou perplexa.

— Tenho, sim, mas de que adianta sem um carro?

— Já vai ver. Vamos sair daqui.

Robert fez sinal para um táxi.

— Via Po, por favor.

Sentada no táxi, Pier estudou-o. Por que ele se mostrava tão ansioso por sua companhia? E nem mesmo a tocara. Seria possível que...?

— Qui! — gritou Robert para o motorista.

Estavam a cem metros da agência de aluguel de carros Maggiore.

— Vamos saltar aqui — ele acrescentou para Pier. Pagou ao motorista, e esperou que o táxi desaparecesse. Entregou um maço de notas a Pier.

— Quero que alugue um carro para nós. Peça um Fiat ou um Alfa Romeo. Diga que ficaremos com o carro por quatro ou cinco dias. Este dinheiro cobrirá o depósito. Alugue o carro em seu nome. Esperarei por você naquele bar no outro lado da rua.

A menos de oito quarteirões dali, dois detetives interrogavam o desventurado motorista de um caminhão vermelho com placas da França.

— Vous mefaites chier. Não tenho a menor idéia de como essa porra desse cartão foi parar na traseira do meu caminhão. Deve ter sido algum italiano maluco que o jogou ali.

Os dois detetives trocaram um olhar, e um deles murmurou:

— Vou telefonar para avisar.

Francesco César estava sentado à sua mesa, pensando no último desenvolvimento. Antes, a missão parecia muito simples. ”Não haverá qualquer dificuldade para encontrá-lo. Quando chegar o momento, vamos ativar o transmissor de sinais, que o levará direto a ele.” Era óbvio que alguém subestimara o Comandante Bellamy.

O Coronel Frank Johnson estava sentado no gabinete do General Hilliard, o corpo enorme ocupando toda a cadeira.

— Temos metade dos agentes na Europa à sua procura — disse o General Hilliard. — Até agora, não tiveram sorte.

— Será preciso mais do que sorte -— comentou o Coronel Johnson. — Bellamy é muito bom.

— Sabemos que ele está em Roma. O filho da puta acaba de nos debitar o custo de uma pulseira de quinze mil dólares. Mas ele se acha acuado. Não tem a menor possibilidade de deixar a Itália. Sabemos o nome que ele usa em seu passaporte... Arthur Butterfield.

O Coronel Johnson sacudiu a cabeça.

— Se bem conheço Bellamy, vocês não têm a menor indicação do nome que ele está usando. A única coisa com que pode contar é que Bellamy não fará o que espera que ele faça. Estamos atrás de um homem que é tão bom quanto o meíhor no ofício. Talvez até ainda melhor. Se houver algum lugar para fugir, Bellamy aproveitará. Se houver algum lugar para se esconder, ele se esconderá ali. Acho que nossa melhor possibilidade é atraí-lo para campo aberto, usar a fumaça para obrigá-lo a sair da toca. Neste momento, ele controla todos os movimentos. Precisamos lhe tirar a iniciativa.

— Ou seja, sair em público? Entregar à imprensa?

— Exatamente.

O General Hilliard contraiu os lábios.

— Seria muito arriscado. Não podemos nos expor.

— Nem será necessário. Divulgaremos um comunicado de que ele é procurado por tráfico de drogas. Assim, podemos atrair a Interpol e todos os departamentos de polícia da Europa sem nos expormos.

O General Hilliard pensou a respeito por um momento.

— Gosto da idéia.

— Ótimo. Vou para Roma — anunciou o Coronel Johnson. — Assumirei pessoalmente o comando da caçada.

Ao voltar para sua sala, o Coronel Frank Johnson estava pensativo. Empenhava-se num jogo perigoso, não restava a menor dúvida quanto a isso. Tinha de descobrir o Comandante Bellamy.

 

Robert ficou escutando a campainha do telefone tocar várias vezes. Eram seis horas da manhã em Washington. Estou sempre acordando o velho, pensou ele. O almirante atendeu ao sexto toque da campainha.

— Alô?

— Almirante, eu...

— Robert! O que...?

— Não diga nada. Seu telefone provavelmente está grampeado. Falarei depressa. Queria apenas lhe dizer para não acreditar em qualquer coisa que estão dizendo a meu respeito. Gostaria que tentasse descobrir o que está acontecendo. Posso precisar de sua ajuda mais tarde.

— Claro. Qualquer coisa que eu puder fazer, Robert.

— Sei disso.

— Ligarei depois para você.

Robert desligou. Não houvera tempo para um rastreamento. Ele viu um Fiat azul parar na frente do bar. Pier se achava ao volante.

— Chegue para o lado — disse Robert. — Eu guio Pier se afastou para que ele sentasse ao volante.

— Vamos seguir logo para Veneza? — perguntou ela.

— Tenho de ir a dois lugares primeiro.

Estava na hora de lançar mais uma barragem de despistamento. Ele entrou na Viale Rossini. Mais à frente, ficava a agência de viagens Rossini. Robert encostou no meio-fio.

— Voltarei num minuto.

Píer observou-o entrar na agência. Eu poderia simplesmente ir embora, pensou ela. Ficaria com o dinheiro, e ele nunca me encontraria. Mas a porcaria do carro está alugado em meu nome. Cacchio!

Dentro da agência, Robert aproximou-se da mulher por trás

do balcão.

— Bom dia. Em que posso ajudá-lo?

— Sou o Comandante Robert Bellamy. Preciso viajar, e gostaria de fazer algumas reservas.

Ela sorriu.

— É para isso que estamos aqui, signore. Para onde planeja viajar?

— Gostaria de fazer uma reserva de passagem de avião para Pequim, primeira classe, só de ida.

A mulher anotou o pedido.

— E quando gostaria de partir?

— Nesta sexta-feira.

— Certo. — Ela bateu nas teclas de um computador. — Há um vôo da Air China que sai de Roma às sete e quarenta da noite de sexta-feira.

— Está ótimo.

A mulher bateu em mais algumas teclas.

— Pronto. Sua reserva está confirmada. Vai pagar em dinheiro ou...?

— Ainda não acabei. Quero também reservar uma passagem de trem para Budapeste.

— Para quando, comandante?

— A próxima segunda-feira.

— Em que nome?

— O mesmo.

Ela fitou-o, estranhando.

— Vai voar para Pequim na sexta-feira e...

— Ainda não acabei — disse Robert, jovialmente. — Quero também uma passagem de avião só de ida para Miami, Flórida, no domingo.

A perplexidade da mulher era total agora.

— Signore, se isso é alguma espécie de...

Robert tirou do bolso o cartão de crédito do ONI e entregou à mulher.

— Debite as passagens neste cartão. Ela estudou-o por um momento.

— Com licença.

A mulher foi para uma sala nos fundos. Voltou alguns minutos depois.

— Está tudo certo. Teremos o maior prazer em providenciar tudo o que nos pediu. Deseja que todas as reservas sejam feitas no mesmo nome?

— Isso mesmo. Comandante Robert Bellamy.

— Muito bem.

Robert observou, enquanto ela apertava mais teclas no computador. Um minuto depois, três passagens apareceram. Ela tirou-as da impressora.

— Ponha as passagens em envelopes separados — pediu Robert.

— Pois não. Gostaria que eu as mandasse para...?

— Levarei agora.

— Si signore.

Robert assinou a fatura do cartão de crédito, a mulher entregou-lhe sua cópia.

— Aí está. Tenha uma boa viagem... viagens... Robert sorriu.

— Obrigado.

Um minuto depois, ele sentava outra vez ao volante do carro.

— Para onde vamos agora? — indagou Pier.

— Ainda temos mais algumas paradas.

Pier observou-o esquadrinhar a rua com toda atenção, antes de partir.

— Quero que faça uma coisa por mim — disse Robert. O momento chegou, pensou Pier. Ele vai me pedir para fazer algo terrível.

— O que é

Haviam parado na frente do Hotel Victoria. Robert entregou um dos envelopes a Pier.

— Quero que vá até a recepção e reserve uma suíte, em nome do Comandante Robert Bellamy. Diga que é sua secretária e que ele chegará dentro de uma hora, mas quer subir até a suíte para aprová-la. Quando estiver lá, deixe este envelope na mesa da sala.

Ela fitou-o, surpresa.

— Isso é tudo?

— É, sim.

O homem não fazia o menor sentido.

— Bene.

Ela desejou saber o que o americano maluco andava fazendo. E quem é o Comandante Robert Bellamy? Pier saltou do carro e entrou no saguão do hotel. Sentia-se um pouco nervosa. No exercício de sua profissão, já fora expulsa de alguns hotéis de primeira classe. Mas o recepcionista cumprimentou-a polidamente.

— Em que posso ajudá-la, signora?

— Sou a secretária do Comandante Robert Bellamy. Gostaria de reservar uma suíte para ele. Deverá estar aqui dentro de uma hora.

O recepcionista consultou o quadro de reservas.

— Por acaso temos uma excelente suíte disponível.

— Posso vê-la, por favor?

— Claro. Mandarei alguém acompanhá-la.

Um assistente da gerência escoltou Pier até lá em cima. Entraram na sala de estar da suíte, e ela correu os olhos ao redor.

— É uma suíte satisfatória, signora? Pier não tinha a menor idéia.

— Esta serve. — Ela tirou o envelope da bolsa, pôs numa mesinha de café. — Deixarei isto aqui para o comandante.

— Bene.

A curiosidade prevaleceu. Pier abriu o envelope. Lá dentro, havia uma passagem de avião para Pequim, só de ida, em nome de Robert Bellamy. Ela tornou a guardar a passagem no envelope, deixou-o em cima da mesa e desceu.

O Fiat azul estava estacionado na frente do hotel.

— Algum problema? — perguntou Robert.

— Nenhum.

— Temos apenas mais duas paradas, e depois pegaremos a estrada — informou Robert, jovialmente.

A parada seguinte foi no Hotel Valadier. Robert entregou outro envelope a Pier.

— Quero que reserve uma suíte aqui, em nome do Comandante Robert Bellamy. Diga a eles que chegarei dentro de uma hora. E depois...

— Deixo o envelope lá em cima.

— Isso mesmo.

Desta vez Pier entrou no hotel com mais confiança. Basta agir como uma dama, pensou ela. Você tem dignidade. Essa é a porra do segredo.

Havia uma suíte disponível no hotel.

— Eu gostaria de dar uma olhada — declarou Pier.

— Pois não, signora.

Um assistente da gerência acompanhou-a.

— Esta é uma de nossas melhores suítes. Era mesmo muito bonita. Pier disse, altiva:

— Acho que serve. O comandante é muito exigente. Ela tirou o segundo envelope da bolsa, abriu-o, deu uma

olhada. Continha uma passagem de trem para Budapeste, em nome do Comandante Robert Bellamy. Pier ficou confusa. Mas que jogo será esse? Ela deixou o envelope na mesinha-decabeceira. Quando ela voltou ao carro, Robert perguntou:

— Como foi?

— Tudo bem.

— Vamos à última parada.

Agora foi o Hotel Leonardo da Vinci. Robert entregou o terceiro envelope a Pier.

— Eu gostaria...

— Já sei.

Dentro do hotel, um recepcionista disse:

— Temos de fato uma excelente suíte, signora. Quando foi mesmo que disse que o comandante vai chegar?

— Daqui a uma hora. Eu gostaria de examinar a suíte, para verificar se é satisfatória.

— Pois não, signora.

A suíte era mais suntuosa do que as outras duas em que Pier estivera. O assistente da gerência mostrou-lhe o quarto enorme, com a cama de baldaquino no centro. Que desperdício!, pensou Píer. Em uma noite, eu poderia ganhar uma fortuna aqui. Ela tirou da bolsa o terceiro envelope e deu uma olhada. Continha uma passagem de avião para Miami, Flórida. Pier deixou o envelope na cama. O assistente da gerência conduziu-a de volta à sala de estar.

— Temos TV em cores — anunciou ele.

O homem foi ligar o aparelho. Uma fotografia de Robert apareceu na tela. O locutor estava dizendo:

— .. .e a Interpol acredita que ele se encontra no momento em Roma. É procurado para interrogatório numa operação internacional de tráfico de drogas. Aqui é Bernard Shaw, da CNN News.

O assistente da gerência desligou a televisão.

— Achou tudo satisfatório?

— Achei — murmurou Pier. Um traficante de drogas!

— Aguardaremos ansiosos a chegada do comandante. Ao se encontrar com Robert no carro lá embaixo, Pier fitou

o com olhos diferentes.

— Agora podemos ir — declarou Robert, sorrindo.

No Hotel Victoria, um homem de terno escuro estudava o registro de hóspedes. Levantou os olhos para o recepcionista.

— A que horas o Comandante Bellamy se registrou?

— Ele ainda não chegou. A secretária reservou a suíte. Disse que ele estaria aqui em uma hora.

O homem virou-se para seu companheiro.

— Mande vigiar o hotel. Peça reforços. Vou subir até a suíte. — Ele virou-se para o recepcionista. — Mande alguém abrir a porta para mim.

Três minutos depois, um assistente da gerência abria a porta da suíte. O homem de terno escuro entrou, cauteloso, o revólver na mão. A suíte estava vazia. Ele avistou o envelope na mesa e pegou-o. Estava escrito na frente: ”Comandante Robert Bellamy”. Ele abriu o envelope. Um momento depois, ligou para o quartel-general do SIFAR.

Francesco César se achava reunido com o Coronel Frank Johnson. O Coronel Johnson desembarcara no aeroporto Leonardo da Vinci duas horas antes, mas não demonstrava qualquer sinal de fadiga.

— Pelo que sabemos até agora — César dizia —, Bellamy ainda se encontra em Roma. Recebemos mais de trinta informes sobre seu paradeiro.

— Algum foi confirmado?

— Nenhum.

O telefone tocou.

— É Luigi, coronel — disse a voz ao telefone. — Nós o encontramos. Estou em sua suíte no Hotel Victoria. E tenho sua passagem de avião para Pequim. Ele planeja partir na sexta-feira.

A voz de César ficou impregnada de excitamento.

— Excelente! Fique aí. Chegaremos num instante. — Ele desligou e virou-se para o Coronel Johnson. — Receio que tenha feito uma viagem por nada, coronel. Já o pegamos. Ele se registrou no Hotel Victoria. Encontraram uma passagem de avião para Pequim, em seu nome, para sexta-feira.

O Coronel Johnson indagou, suavemente:

— Bellamy se registrou no hotel com seu próprio nome?

— Isso mesmo.

— E a passagem de avião também é em seu nome?

— É, sim. — O Coronel César levantou-se. — Vamos até lá. O Coronel Johnson sacudiu a cabeça.

— Não perca seu tempo.

— Como assim?

— Bellamy nunca...

O telefone tocou de novo. César atendeu.

— Alô?

— Coronel? Aqui é Mário. Localizamos Bellamy. Ele está no Hotel Valadier. Pegará um trem na segunda-feira para Budapeste. O que deseja que a gente faça?

— Voltarei a ligar para você. — César olhou para o Coronel Johnson. — Encontraram uma passagem de trem para Budapeste, no nome de Bellamy. Não compreendo o que...

O telefone tocou mais uma vez.

— Alô?

A voz de César se tornara um pouco mais estridente.

— Bruno falando, coronel. Localizamos Bellamy. Ele se registrou no Hotel Leonardo da Vinci. Planeja viajar no domingo para Miami. O que devo...?

— Volte para cá! — berrou César. Ele bateu o telefone. — Mas qual é o jogo dele?

— Ele está dando um jeito para que você desperdice bastante mão-de-obra, não é mesmo? — comentou o Coronel Johnson, num tom sombrio.

— O que faremos agora?

— Vamos encurralar o filho da puta.

Eles seguiam pela Via Cássia, perto de Olgiata, para o norte, na direção de Veneza. A polícia cobriria todas as principais saídas da Itália, mas esperariam que ele fosse para oeste, na direção da França ou Suíça. De Veneza, pensou Robert, posso pegar o hidrofólio para Trieste, e seguir para a Áustria. E depois . A voz de Pier interrompeu seus pensamentos:

— Estou com fome.

— Como?

— Não tomamos o café da manhã nem almoçamos.

— Desculpe. — Ele estava preocupado demais para pensar em comer. — Pararemos no primeiro restaurante.

Pier observou-o, enquanto ele guiava. Sentia-se mais espantada do que nunca. Vivia num mundo de cafetões e ladrões... e traficantes de drogas. Aquele homem não era um criminoso.

Pararam na cidadezinha seguinte, na frente de uma pequena trattoria. Robert e Pier saltaram.

O restaurante estava lotado, barulhento com as conversas e o chocalhar da louça. Robert encontrou uma mesa encostada na parede, e sentou de frente para a porta. Um garçom aproximou-se e entregou os cardápios.

Robert pensava: Susan deve estar no iate a esta altura. Talvez esta seja a minha última chance de falar com ela.

— Dê uma olhada no cardápio. — Robert levantou-se. — Voltarei num instante.

Pier observou-o se encaminhar para o telefone público perto da mesa. Ele pôs uma moeda na fenda.

— Eu gostaria de falar com a telefonista marítima em Gibraltar. Obrigado.

Para quem ele está ligando em Gibraltar?, especulou Pier. Pretende fugir por lá?

— Telefonista, quero fazer uma chamada a cobrar para o iate americano Halcyon, ao largo de Gibraltar. WS 337. Obrigado.

Uns poucos minutos passaram, enquanto as telefonistas falavam entre si, e sua ligação era aceita.

Robert ouviu a voz de Susan ao telefone.

— Susan...

— Robert! Você está bem?

— Estou, sim. Eu só queria lhe dizer...

— Sei o que quer me dizer. Já saiu em todas as emissoras de rádio e televisão. Por que a Interpol está à sua procura?

— É uma longa história.

— Não tenho pressa. Quero saber. Ele hesitou.

— É um problema político, Susan. Tenho provas de algo que alguns governos estão querendo suprimir. É por isso que a Interpol me procura.

Pier escutava atentamente o lado da conversa de Robert.

— Como posso ajudar? — perguntou Susan.

— Não pode fazer nada, meu bem. Só liguei para ouvir sua voz mais uma vez, no caso de... se eu não conseguir escapar.

— Não diga isso. — Havia pânico na voz de Susan. — Pode me falar em que país se encontra?

— Itália.

Houve um breve silêncio

— Muito bem. Não estamos muito longe de você. Navegamos ao largo da costa de Gibraltar. Podemos apanhá-lo em qualquer lugar que indicar.

— Não, eu...

— Tem de aceitar, Robert. Provavelmente é a sua única chance de escapar.

— Não posso deixá-la fazer isso, Susan. Você correria perigo. Monte entrara no salão a tempo de ouvir a última parte da

conversa.

— Deixe-me falar com ele, Susan.

— Espere um instante, Robert. Monte quer falar com você.

— Susan, eu não...

A voz de Monte entrou na linha:

— Robert, sei que se encontra numa tremenda encrenca. A grande descoberta do ano.

— Pode-se dizer assim.

— Gostaríamos de ajudá-lo. Eles não o procurariam num iate. Por que não nos deixa buscá-lo?

— Obrigado, Monte, mas a resposta é não.

— Acho que está cometendo um erro. Ficaria mais seguro aqui.

Por que ele se mostra tão ansioso em me ajudar?

— De qualquer forma, fico muito agradecido. Assumirei os riscos. Eu gostaria de falar de novo com Susan.

— Certo. — Monte entregou o telefone a Susan. — Fale com ele.

Ela voltou à linha.

— Por favor, Robert, deixe-nos ajudá-lo.

— Já me ajudou, Susan. — Ele teve de fazer uma pausa. — Você é a melhor parte de minha vida. Só queria que soubesse que sempre a amarei. — Robert soltou uma risada. — Embora o sempre talvez não represente mais muito tempo

— Vai me ligar de novo?

— Se eu puder.

— Prometa.

— Está bem, eu prometo.

Robert repôs o fone no gancho, lentamente. Por que fiz isso com ela? Por que fiz isso comigo mesmo? Você é um idiota sentimental, Bellamy. Ele voltou à mesa.

— Vamos comer, Píer. Pediram a comida.

— Ouvi sua conversa. A polícia está à sua procura, não é? Robert ficou tenso. Descuidado. Ela podia criar problemas.

— É apenas um mal-entendido. Eu...

— Não me trate como uma imbecil. Quero ajudá-lo. Ele a observou, cauteloso.

— Por que haveria de me ajudar? Pier inclinou-se para a frente.

— Porque tem sido generoso comigo. E eu odeio a polícia. Não sabe o que é ficar pelas ruas, perseguida pela polícia, tratada como lixo. Prendem-me por prostituição, mas me levam para os quartos dos fundos das delegacias, sou passada de mão em mão. São verdadeiros animais. Eu faria qualquer coisa para me vingar. Qualquer coisa mesmo. Posso ajudá-lo.

— Pier, não há nada que você...

— A polícia o pegaria com a maior facilidade em Veneza. Se ficar num hotel, eles o encontrarão. Se tentar embarcar num barco, eles o prenderão. Mas conheço um lugar em que você estaria seguro. Minha mãe e meu irmão vivem em Nápoles. Poderíamos ficar na casa deles. A polícia nunca o procuraria ali.

Robert permaneceu em silêncio por um momento, pensando a respeito. Fazia sentido o que Pier dissera. Uma casa particular seria mais segura do que qualquer outro lugar, e Nápoles era um porto grande. Seria mais fácil pegar um navio para sair de lá. Mas ele hesitou antes de responder. Não queria expor Pier a qualquer perigo.

— Se a polícia me descobrir, Pier, as ordens são para me matar. E você seria considerada cúmplice. Pode estar se metendo numa encrenca.

— É muito simples. — Pier sorriu. — Não deixaremos que a polícia o descubra.

Robert retribuiu o sorriso; e tomou sua decisão.

— Está certo. E agora vamos almoçar. Depois, seguiremos para Nápoles.

O Coronel Frank Johnson indagou:

— Seus homens não têm a menor idéia da direção que ele seguiu?

Francesco César suspirou.

— Não no momento. Mas é apenas uma questão de tempo antes que...

— Não temos tempo. Já verificou o paradeiro da ex-esposa?

— Da ex-esposa? Não. E não vejo o que isso...

— Pois então não fez o seu trabalho direito — disse rispidamente o Coronel Johnson. — Ela está casada com um homem chamado Monte Banks. Sugiro que os localize. E depressa.

 

Ela foi andando pelo largo bulevar, mal consciente do rumo que seguia. Quantos dias já haviam transcorrido desde o terrível acidente? Perdera a conta. Sentia-se tão cansada que era difícil se concentrar. Precisava desesperadamente de água; não a água poluída que os terráqueos bebiam, mas água de chuva, pura e fresca. Precisava de água para recuperar sua essência vital, adquirindo forças para encontrar o cristal. Estava morrendo.

Cambaleou e esbarrou num homem.

— Ei, tome mais cuidado! — O vendedor americano examinou mais atentamente a mulher e sorriu. — Oi. Imagine só esbarrar numa coisinha como você.

Que boneca!

— Posso imaginar.

— De onde você é, meu bem?

— Do sétimo sol das Plêiades. Ele riu.

— Gosto de uma garota com senso de humor. Para onde ia? Ela sacudiu a cabeça.

— Não sei. Sou estranha aqui.

Puxa, acho que tem alguma coisa para mim aqui!

— Já jantou?

— Não. Não posso comer os seus alimentos. É daquele tipo esquisito. Mas uma beleza.

— Onde está hospedada?

— Em lugar nenhum.

— Não tem um hotel?

— Um hotel? — Ela lembrou: Caixas para estranhos viajantes. — Não. Preciso encontrar um lugar para dormir. Estou muito cansada.

O sorriso do homem se alargou.

— O papai aqui pode cuidar disso. Por que não vamos para o meu quarto no hotel? Tenho uma cama grande e confortável ali. Não gostaria?

— Gostaria muito.

Ele não podia acreditar em sua sorte.

— Maravilhoso!

Aposto que ela é sensacional no mato! Ela fitou-o, perplexa.

— Sua cama é feita de mato? Ele ficou surpreso.

— Como? Não, não... Gosta de piadinhas, hem? Ela mal conseguia manter os olhos abertos.

— Podemos ir para a cama agora? Ele esfregou as mãos.

— Pode apostar que sim! Meu hotel fica logo depois da esquina.

O homem pegou a chave na recepção, subiram no elevador para seu andar. Ao entrarem na sala da suíte, ele perguntou:

— Não gostaria de tomar um drinque?

Vamos relaxá-la um pouco. Ela queria beber, desesperadamente, mas não os líquidos que os terráqueos tinham a oferecer.

— Não. Onde está a cama? Ei, que garota quente!

— É por aqui, meu bem. — Ele levou-a para o quarto. — Tem certeza que não gostaria de tomar um drinque?

— Tenho certeza. Ele lambeu os lábios.

— Então por que você não... ahn... tira as roupas?

Ela acenou com a cabeça. Era um costume terráqueo. Tirou o vestido que usava. Não tinha nada por baixo. Seu corpo era deslumbrante. O homem fitou-a, aturdido e feliz, murmurou:

— Esta é a minha noite de sorte, meu bem. A sua também. Voufoder você como nunca foi fodida antes. Ele tirou as

roupas tão depressa quanto podia, pulou na cama, ao lado dela.

— E agora vou lhe mostrar o que é ação, meu bem! — Ele olhou. — Oh, droga, esqueci a luz acesa!

Ele começou a se levantar.

— Não se preocupe — disse ela, sonolenta. — Eu apago para você.

E enquanto o americano observava, ela estendeu o braço, que foi se esticando e esticando, os dedos se transformaram em gavinhas verdes cheias de folhas, ao roçarem no interruptor de luz.

Ele estava sozinho no escuro com ela. E gritou.

 

Viajavam em alta velocidade pela Autostrada dei Sole, que leva a Nápoles. Há meia hora que se mantinham em silêncio, cada um absorvido em seus pensamentos. Foi Píer quem rompeu o silêncio:

— Quanto tempo gostaria de ficar na casa de minha mãe?

— Três ou quatro dias, se não for problema.

— Não será.

Robert não tinha intenção de permanecer por mais de uma noite, duas no máximo. Mas não revelou seus planos. Assim que encontrasse um navio que fosse seguro, ele sairia da Itália.

— Estou ansiosa em rever minha família — comentou Pier.

— Tem só um irmão?

— Isso mesmo. Cario. É mais moço do que eu.

— Fale-me de sua família, Pier. Ela deu de ombros.

— Não há muito para contar. Meu pai trabalhou no cais do porto durante toda a sua vida. Um guindaste caiu em cima dele e matou-o quando eu tinha quinze anos. Minha mãe era doente, tive de sustentá-la e a Cario. Tinha um amigo nos estúdios de Cinecittà, e ele me arrumava pequenos papéis. Pagavam muito pouco, eu era obrigada a ir para a cama com o assistente do diretor. Concluí que poderia ganhar mais dinheiro nas ruas. Agora, faço um pouco das duas coisas.

Não havia autocompaixão em sua voz.

— Tem certeza que sua mãe não vai protestar por você levar um estranho para casa, Pier?

— Tenho, sim. Somos muito ligadas. Mamãe ficará feliz em me ver. Você a ama muito?

Robert lançou um olhar para ela, aturdido.

— Sua mãe?

— A mulher com quem falou pelo telefone no restaurante... Susan.

— O que a faz pensar que eu a amo?

— O tom de sua voz. Quem é ela?

— Uma amiga.

— Ela tem muita sorte. Eu gostaria que alguém se importasse comigo assim. Robert Bellamy é o seu nome verdadeiro?

— É, sim.

— E é mesmo um comandante? Isso era mais difícil de responder.

— Não tenho certeza, Pier. Já fui.

— Pode me contar por que a Interpol está atrás de você? Robert respondeu com o maior cuidado:

— É melhor que eu não lhe diga coisa alguma. Já pode ter problemas suficientes só de estar comigo. Quanto menos souber, melhor.

— Está bem, Robert.

Ele pensou nas estranhas circunstâncias que haviam reunido os dois.

— Quero lhe fazer uma pergunta. Se soubesse que alienígenas estavam descendo para a Terra, em espaçonaves, você entraria em pânico?

Pier estudou-o por um momento.

— Fala sério?

— E muito.

Ela sacudiu a cabeça.

— Não. Acho que seria emocionante. Acredita que essas coisas existem?

— Há uma possibilidade — disse Robert, cauteloso. O rosto de Pier se iluminou.

— É mesmo? E eles têm... são iguais aos homens?

Robert riu.

— Não sei.

— Isso tem alguma coisa a ver com o motivo pelo qual a polícia está atrás de você?

— Não. Nada a ver.

— Se eu lhe disser uma coisa, promete que não ficará zangado comigo?

— Prometo.

Quando ela voltou a falar, sua voz era tão baixa que Robert mal conseguiu ouvir:

— Acho que estou me apaixonando por você.

— Pier...

— Já sei. Estou sendo uma tola. Mas nunca disse isso a ninguém antes. Queria que soubesse.

— E me sinto lisonjeado, Pier.

— Não está rindo de mim?

— Não, não estou. — Robert olhou para o mostrador de gasolina. — É melhor pararmos num posto.

Alcançaram um posto quinze minutos depois.

— Vamos encher o tanque aqui — disse Robert.

— Certo. — Pier sorriu. — Posso ligar para casa e avisar a mamãe que estou levando um lindo estranho.

Robert parou ao lado da bomba e disse ao atendente:

— II pieno, perfavore.

— Si, signore.

Pier inclinou-se e deu um beijo no rosto de Robert.

— Voltarei num instante.

Robert observou-a entrar no escritório e trocar uma nota por moedas para o telefone. Ela é sem dúvida muito bonita, pensou Robert. E inteligente. Devo tomar cuidado para não magoá-la.

Dentro do escritório, Pier estava discando. Virou-se, sorrindo e acenando para Robert. Quando a telefonista atendeu. Pier pediu:

— Ligue-me com a Interpol. Súbito.

 

Desde o momento em que vira a notícia sobre Robert Bellamy, Pier compreendera que ia ficar rica. Se a Interpol, a força de polícia criminal internacional, estava à procura de Robert, deveria haver uma vultosa recompensa para quem o entregasse. E ela era a única que sabia onde ele se encontrava! A recompensa seria toda sua. Persuadi-lo a ir para Nápoles, onde poderia vigiá-lo, fora um golpe de génio. Uma voz de homem disse ao telefone:

— Interpol. Em que posso ajudar?

O coração de Pier batia forte. Olhou pela janela para se certificar de que Robert continuava ao lado da bomba.

— Não estão procurando por um homem chamado Comandante Robert Bellamy?

Houve um momento de silêncio.

— Quem está falando, por favor?

— O nome não importa. Estão procurando por ele ou não?

— Vou transferir sua ligação para outra pessoa. Quer esperar um momento na linha, por favor? — Ele virou-se para seu assistente. — Acione o rastreamento desta ligação. Pronto.

Trinta segundos depois, Pier estava falando com um superior.

— Pois não, signora. Posso ajudá-la?

Não, seu idiota, eu é que estou tentando ajudá-lo!

— Sei onde está o Comandante Robert Bellamy. Vocês o procuram ou não?

— Claro que procuramos, signora. E sabe onde ele se encontra?

— Isso mesmo. Ele está comigo agora. Quanto vale para vocês?

— Está falando de uma recompensa?

— Claro que estou falando de uma recompensa!

Pier tornou a olhar pela janela. Como eles podem ser tão burros? O homem fez sinal para que seu assistente trabalhasse mais depressa.

— Ainda não fixamos um preço para ele, signora. Por isso...

— Pois fixem um preço agora. Estou com pressa.

— Espera uma recompensa de quanto?

— Não sei. — Pier pensou por um momento. — Cinqüenta mil dólares não seria um preço justo?

— Cinqüenta mil dólares é muito dinheiro. Se me disser onde está, poderemos ir ao seu encontro e negociar um acordo que...

Ele deve pensar que sou uma imbecil.

— Não. Ou você concorda em pagar o que eu quero agora, ou... — Pier olhou pela janela, e viu Robert se aproximando do escritório. — Depressa! Sim ou não?

— Está bem, signora. Sim. Concordamos em pagar... Robert passou pela porta. Pier disse ao telefone:

— Devemos chegar aí a tempo para o jantar, mamãe. Vai gostar dele. É muito simpático. Ótimo. Voltaremos a conversar quando eu chegar. Chao.

Ela repôs o fone no gancho e virou-se para Robert.

— Mamãe está ansiosa em conhecê-lo.

No quartel-general da Interpol, o alto funcionário perguntou:

— Conseguiram rastrear a ligação?

— Conseguimos. Foi feita de um posto de gasolina na Autostrada dei Sole. Parece que eles estão seguindo para Nápoles.

O Coronel Francesco César e o Coronel Frank Johnson estudavam um mapa na parede, no gabinete de César.

— Nápoles é uma cidade grande — comentou o Coronel

César. — Há lugares ali em que ele poderia se esconder.

— E a mulher?

— Não temos a menor idéia de quem seja.

— Por que não descobrimos? César fitou-o, perplexo.

— Como?

— Se Bellamy precisava da companhia de uma mulher às pressas, como uma cobertura, o que faria?

— Provavelmente pegaria uma prostituta.

— Isso mesmo. Por onde começamos?

— Tor di Ounto.

Eles passaram pela Passeggiata Archeologica, observando as mulheres que ofereciam suas mercadorias nas calçadas. No carro, junto com o Coronel César e o Coronel Johnson, seguia o Capitão Bellini, o supervisor policial do distrito.

— Não vai ser fácil — garantiu Bellini. — Há uma grande concorrência entre elas, mas se tornam irmãs de sangue na hora de enfrentar a polícia. Não vão falar.

— Veremos — murmurou o Coronel Johnson.

Bellini ordenou que o motorista encostasse no meio-fio. Os três homens saltaram do carro. As prostitutas observaram-nos, cautelosas. Bellini aproximou-se de uma mulher.

— Boa tarde, Maria. Como estão os negócios?

— Ficarão melhores depois que vocês forem embora.

— Não planejamos ficar. Procuramos um americano que pegou uma das garotas ontem à noite. Achamos que estão viajando juntos. Queremos saber quem ela é. Pode nos ajudar?

Ele mostrou uma fotografia de Robert. Várias outras prostitutas haviam se aproximado para escutar a conversa.

— Não posso ajudar — respondeu Maria —, mas conheço alguém que pode.

Bellini balançou a cabeça, com uma expressão de aprovação.

— Ótimo. Quem?

Maria apontou para uma loja no outro lado da rua. Um cartaz na vitrine dizia: Adivinha — Quiromante. ”Madame Lúcia pode ajudar você.”

As mulheres desataram a rir. O Capitão Bellini fitou-as.

— Gostam de brincadeiras, nem? Pois vamos fazer uma brincadeira que acho que vocês vão adorar. Estes dois cavalheiros estão ansiosos para descobrir o nome da garota que foi com o americano. Se não souberem quem ela é, sugiro que falem com suas amigas, descubram quem a conhece, e me telefonem quando souberem a resposta.

— Por que deveríamos? — indagou uma mulher, em tom de desafio.

— Vão descobrir.

Uma hora depois, as prostitutas de Roma descobriram-se sitiadas. Camburões percorreram a cidade, recolhendo todas as prostitutas que trabalhavam nas ruas e seus cafetões. Houve gritos de protesto.

— Não podem fazer isso... Pago proteção à polícia...

— Este é o meu ponto há cinco anos...

— Tenho dado a você e seus amigos de graça. Onde está sua gratidão?

— Para que eu lhe pago proteção?

No dia seguinte, as ruas se achavam virtualmente vazias de prostitutas, e as cadeias lotadas. César e o Coronel Johnson estavam sentados no gabinete do Capitão Bellini.

— Vai ser difícil mantê-las na cadeia — advertiu Bellini. — E posso também acrescentar que isso é péssimo para o turismo.

— Não se preocupe — disse o Coronel Johnson. — Alguém vai falar. Basta manter a pressão.

O resultado veio ao final da tarde. A secretária do Capitão Bellini informou:

— Há um certo sr. Lorenzo aqui que deseja lhe falar.

— Mande-o entrar.

O sr. Lorenzo vestia um terno caro e usava anéis de diamantes em três dedos. O sr. Lorenzo era um cafetão.

— O que posso fazer por você? — perguntou Bellini. Lorenzo sorriu.

— O importante é o que eu posso fazer por vocês, cavalheiros. Alguns de meus associados me informaram que estão procurando por uma jovem trabalhadora específica, que deixou a cidade com um americano. Como estamos sempre ansiosos em cooperar com as autoridades, achei que poderia lhes dar o nome da moça.

— Quem é ela? — indagou o Coronel Johnson. Lorenzo ignorou a pergunta.

— Naturalmente, tenho certeza que gostariam de demonstrar seu reconhecimento com a libertação de meus associados e suas amigas.

— Não estamos interessados em nenhuma de suas putas — declarou o Coronel César. — Tudo o que queremos é o nome da garota.

— É uma notícia que me enche de satisfação, senhor. É sempre um prazer lidar com homens compreensivos. Sei que...

— O nome, Lorenzo.

— Claro, claro. O nome é Pier. Píer Valli. O americano passou a noite com ela no Hotel L’Incrocio, e partiram na manhã seguinte. Ela não é uma das minhas garotas. Se me permitem dizer...

Bellini já estava ao telefone.

— Traga-me a ficha de Pier Valli. Súbito.

— Espero que os cavalheiros demonstrem sua gratidão com...

Bellini fitou-o, e acrescentou ao telefone:

— E pode cancelar a Operação Puttana. Lorenzo ficou radiante.

— Grazie.

A ficha de Pier Valli estava na mesa de Bellini cinco minutos depois.

— Ela caiu na vida quando tinha quinze anos. Foi presa uma dúzia de vezes desde então e...

— De onde ela vem? — perguntou o Coronel Johnson.

— Nápoles. — Os dois homens trocaram um olhar. — Tem mãe e irmão vivendo lá.

— Pode descobrir onde?

— Vou verificar.

— Pois então faça isso. Agora.

 

Estavam passando pelos subúrbios de Nápoles. Velhos prédios de apartamentos margeavam as ruas estreitas, com roupa lavada pendurada em quase todas as janelas, fazendo com que parecessem montanhas de concreto em que tremulavam bandeiras coloridas.

— Já esteve alguma vez em Nápoles? — perguntou Pier.

— Uma vez.

A voz de Robert era tensa. Susan sentava ao seu lado, rindo. Ouvi dizer que Nápoles é uma cidade depravada. Podemos fazer coisas depravadas aqui, querido?

Vamos inventar algumas coisas novas, prometeu Robert.

Pier observava-o.

— Você está bem?

Robert trouxe a mente de volta ao presente.

— Estou, sim.

Passavam agora pela beira da enseada, onde ficava o Castel delTOvo, o velho castelo abandonado, perto da água. Ao chegarem à Via Toledo, Pier disse, excitada:

— Vire aqui.

Aproximavam-se de Spaccanapoli, a parte antiga da cidade. Pier informou:

— É logo à frente. Vire à esquerda, na Via Benedetto Croce.

Robert virou. O tráfego ali era mais intenso, o barulho das buzinas ensurdecedor. Ele esquecera como Nápoles podia ser barulhenta. Teve de diminuir a velocidade para não atropelar os pedestres e cachorros que corriam pela frente do carro, como se fossem abençoados por alguma espécie de imortalidade.

— Vire à direita aqui — orientou Píer —, para a Piazza dei Plebiscito.

O tráfego era ainda pior ali, a área mais decadente.

— Pare! — gritou Píer.

Robert encostou no meio-fío. Estavam na frente de uma série de lojas miseráveis. Robert olhou ao redor.

— É aqui que sua mãe mora?

— Não — respondeu Pier. — Claro que não.

Ela inclinou-se e apertou a buzina. Um momento depois, uma moça saiu de uma das lojas. Pier saltou do carro e correu para cumprimentá-la. Abraçaram-se.

— Você está maravilhosa! — exclamou a mulher. — Deve andar muito bem de vida!

— É verdade. — Pier estendeu o pulso. — Olhe só a minha pulseira nova!

— São esmeraldas verdadeiras?

— Claro!

A mulher gritou para alguém dentro da loja:

— Anna! Venha ver quem está aqui! Robert observava a cena, incrédulo.

— Pier...

— Só um minuto, querido. Tenho de dar um alô para minhas amigas.

Em poucos minutos, meia dúzia de mulheres se agrupavam em torno de Pier, admirando sua pulseira, enquanto Robert permanecia sentado no carro, impotente, rangendo os dentes.

— Ele é louco por mim — anunciou Pier. Ela virou-se para Robert. — Não é, carol

Robert sentia vontade de estrangulá-la, mas não havia nada que pudesse fazer.

— É, sim. Podemos ir agora, Pier?

— Só mais um minuto.

— Agora!

— Oh, está bem. — Pier virou-se para as mulheres. — Devemos ir agora. Temos um encontro muito importante. Ciao!

— Ciao!

Pier tornou a sentar no carro, as mulheres ficaram paradas na calçada, observando-os se afastarem. Pier comentou, feliz:

— São todas velhas amigas.

— Isso é ótimo. Onde fica a casa de sua mãe?

— Ela não mora na cidade.

— O quê?

— Ela mora fora da cidade, num pequeno sítio, a meia hora daqui.

Era ao sul de Nápoles, uma velha casa de pedra, afastada da estrada.

— Aí está! — exclamou Pier. — Não é linda?

— É, sim.

Robert gostou do fato da casa ser longe do centro da cidade. Não haveria motivos para que alguém viesse procurá-lo ali. Pier tinha razão. É uma casa absolutamente segura.

Subiram para a porta da frente. Antes que pudessem alcançála, a porta foi aberta e a mãe de Pier apareceu, sorrindo. Era uma versão mais velha da filha, magra e grisalha, com o rosto vincado pela preocupação.

— Pier, cara! Mi sei mancata!

— Também senti saudade, mamãe. Este é o amigo que avisei pelo telefone que traria para casa.

A mãe não perdeu a pose.

— Ahn? Si, seja bem-vindo, sr.

— Jones — respondeu Robert.

— Entre, entre.

Entraram na sala de estar. Era grande, confortável, aconchegante, atulhada de móveis.

Um rapaz de vinte e poucos anos entrou na sala. Era baixo e moreno, o rosto fino e mal-humorado, os olhos castanhos soturnos. Usava jeans e um blusão com o nome Diavoli Rossi costurado. O rosto se iluminou ao ver a irmã.

— Pier!

— Olá, Cario.

Abraçaram-se.

— O que está fazendo aqui?

— Viemos passar alguns dias. — Ela virou-se para Robert. — Este é meu irmão, Cario. Cario, este é o sr. Jones.

— Olá, Cario.

Cario estava avaliando Robert.

— Olá.

A mãe interveio:

— Arrumarei um lindo quarto para os pombinhos lá nos fundos.

— Se não se importa... isto é, se tiver um quarto extra, eu preferia ficar sozinho — disse Robert.

Houve uma pausa constrangida. Os três olhavam espantados para Robert. Mama virou-se para Pier.

— Omosessuale?

Pier deu de ombros. Não sei. Mas ela tinha certeza que ele não era um homossexual. Mama olhou para Robert.

— Como quiser. — Ela tornou a abraçar Pier. — Não imagina como estou feliz em ver você. Vamos para a cozinha. Farei um café.

Na cozinha, Mama exclamou:

— Benissimo! Como o conheceu? Ele parece muito rico. E essa pulseira que você está usando... Deve ter custado uma fortuna. Esta noite farei um grande jantar. Convidarei todos os vizinhos, para que possam conhecer seu...

— Não, Mama, não deve fazer isso.

— Mas por que não espalhar a notícia de sua boa sorte, cara! Todos os nossos amigos ficarão tão satisfeitos...

— Mama, o sr. Jones quer apenas descansar por alguns dias. Sem festa. Sem vizinhos.

Mama suspirou.

— Está bem. Como quiser.

Darei um jeito para que ele seja preso longe de casa, afim de não perturbar mamãe.

Cario também notara a pulseira.

— Aquela pulseira... são esmeraldas verdadeiras, não é? Comprou-a para minha irmã?

Havia alguma coisa na atitude do rapaz que não agradava a Robert.

— Pergunte a ela.

Pier e Mama vieram da cozinha. Mama olhou para Robert.

— Tem certeza que não quer dormir com Pier? Robert ficou embaraçado.

— Não, obrigado.

— Vou mostrar seu quarto — disse Pier.

Ela levou-o para um quarto grande e confortável, com uma cama de casal, nos fundos da casa.

— Tem medo do que Mama pode pensar se dormirmos juntos, Robert? Ela sabe o que eu faço.

— Não é isso. É que eu... — Não havia como ele pudesse explicar. — Sinto muito, mas...

A voz de Pier soou fria:

— Não importa.

Ela sentia-se irracionalmente ofendida. Era a segunda vez que ele a rejeitava. Ser&aacut