Sites Grátis no Comunidades.net
Translate to English Translate to Spanish Translate to French Translate to German Translate to Italian Translate to Russian Translate to Chinese Translate to Japanese

  

 

Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


O LADO OCULTO / Heloísa Hilário Köhler
O LADO OCULTO / Heloísa Hilário Köhler

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

O LADO OCULTO

 

         - Renato!

         Regina põe a cabeça no vão da porta. É a segunda vez que chama. Será que ele não está ouvindo?

         - Acorde. O café está na mesa...

         Responde com um muxoxo, abrindo os olhos.

         Espreguiça-se.

         Absorto em um ponto qualquer no teto, pensa em achar um motivo, um único, além das obrigações, que lhe possa dar ânimo para iniciar o dia. Sequer levanta da cama e já sabe exatamente como será: igual à ontem, repetir-se-á amanhã. O mesmo trânsito abarrotado, o mesmo clima instável de cidade que nunca deixa decidir a roupa. No escritório, muito papel e os imutáveis problemas de controle e faturamento. As mesmas pessoas, as mesmas idéias, caras, manias.

         Vira-se na cama. E se hoje fosse diferente? E se tentasse uma experiência inusitada, qualquer maluquice? Promete a si mesmo algo excitante e fora do normal. Mas o quê? Faltar ao serviço? Fez isso na semana anterior, foi à sauna em pleno horário de expediente. O resultado mais visível: acúmulo de trabalho...

         Passa um bom filme no cinema. Lembra sua última saída com Regina, para ver um filme pornô num motel. "Bem reflete à que espécie de obrigações reduzi minha vida", pensa com uma careta. Primeiro, o sofrimento para achar quem cuidasse das crianças. Nem quando adolescente precisava se explicar tanto sobre suas atitudes e inventar histórias justificando aonde ia! E o pior... Durante todo o trajeto, ficou ouvindo as censuras da mulher por deixarem as crianças com outros.

       Quem entende as mulheres? No motel, mostrou-se toda eufórica com as luzes coloridas, fazendo uma verdadeira vistoria, comentando consigo mesma sobre a qualidade dos lençóis, a marca das louças do banheiro...

       Ligando o vídeo, Renato reparou a aproximação de Regina, que sentou na beirinha da cama e ficou expiando aquele filme tão falado e tão proibido.

       Ele imaginava uma noite maravilhosa.

       Ela perguntava o que faziam ali.

       Ele servia dois copos de bebida.

       Ela falava dos filhos, da extravagância...

       Ele tinha tantas fantasias...

       Ela...

       Excitado, atirou-se sobre os botões da sua roupa.

       Ela ofendida - imagine!- quis saber o que era aquilo.

       Oras, o que era aquilo? Sexo, lógico!

       Pediu que desfilasse nua. Queria que participasse da novidade, que exultasse de estar ali, com ele. Afinal, poderia ser com qualquer outra.

       Ao contrário, estava assustada, sem conseguir relaxar. Na grande cama redonda, aos poucos foi-se deixando vencer e depois, nua, escondeu-se sob os lençóis. O sorriso era triste, nenhum brilho nos olhos.

     De certa forma, tudo acabou mais ou menos como acontecia em casa. E, nas contas de Renato, o furo no saldo bancário não compensou a fuga da rotina, a bebida em excesso, a reprovação tácita nos olhos de Regina.

     E se tivesse um caso? E se abrisse um negócio próprio? Que outras loucuras existem para fazer?

     Regina chama de novo. Sem livrar-se do mal-humor, Renato corre para o banheiro.

 

     Regina, em frente ao espelho, procura a beleza fascinante da qual tanto falam e pessoalmente jamais consegue encontrar. Os olhos azuis, de longas pestanas, parecem sem vida. Observa cuidadosa se os seus vinte e oito anos não começam a se refletir em mil pequenas rugas. Examina o cabelo, de um loiro de muitas tonalidades, longos e sedosos, preocupada com possíveis defeitos, pontas ressecadas ou bipartidas.

     "Mãe, você e o pai ainda namoram?" Cristina é a filha mais velha. Tem só nove anos, no entanto às vezes faz perguntas tão de gente grande! Chega a assustar. Se bem que pode ter sido só coincidência... Coisa de televisão...

     Ou não? Regina já havia notado. Renato sempre irritado, distante. Menos disposto para tudo, é verdade... Até para sexo! Será que Cristina poderia perceber algo que só acontece entre quatro paredes? Volta a olhar para o espelho, procurando qualquer coisa que justifique o comportamento arredio de Renato. E aquela história do Motel? Ele nunca tinha precisado de estímulos externos. Agora vêm falar de mudanças, novos ambientes. Olha o corpo inteiro. Terá engordado? Apressada, vai se pesar na balança do banheiro.

 

     O carro freou quase em cima da mulher que atravessava a rua. O ruído dos pneus no asfalto se misturou ao grito de Renato:

     - Não olha por onde anda?

     Num instante, parece que mil olhos se fixam somente nele, inclusive os da madame. Meio apalermada pelo susto, apontava o sinal verde para ela. Alguém, na calçada, grita em protesto.

     Ele subiu o vidro do carro, ligou o aparelho de som, tentou voltar a coordenar os pensamentos. Vai surgindo, no seu íntimo, novamente, aquela vontade de abandonar tudo, tudo mesmo, e sumir. Deve dirigir ainda um bom trecho até chegar ao trabalho.

 

     Metade da manhã. As meninas estão na escola e Regina, acompanhada de Rogério, o caçula, de três anos, faz as compras para o almoço. No balcão, verduras e frutas já pesadas, encontra o filho, feliz, caixa de doces nas mãos, brincando. "Bem coisa de garoto! - pensa. Incrível! Tive quatro filhos, todos saídos da minha barriga, feitos pelo mesmo homem, e cada um tão diferente dos outros".

     Na fila do caixa, divagando, lembra comentários da melhor amiga, Rosa: “Como Renato trata diferentemente as crianças! Isso não deve acontecer e coisa e tal”.Será? Não se pode negar que Cristina dá-se melhor com o pai. Ela é um poço de perguntas. Às vezes até passa dos limites! E Renato acha, nem se sabe onde, paciência para todas as respostas. Ficam tempo conversando, é o jeito deles! Impossível colocar Sandra e Rosana, mais novas e brincalhonas, quietas, sentadas, dialogando. Para ambas, o quintal é mais divertido, e parecem tão independentes do resto da família! Freqüentemente ninguém as vê por tardes inteiras! Se querem ser notadas, não é do seu feitio fazer perguntas. Disputam, chantageiam, tentando competir entre si para ver quem ganha mais atenção. Sempre foi assim. Uma vem no colo, a outra quer também. Uma chora, o berreiro é geral! Quando Rogério nasceu, nem sentiram muito ciúmes. Uma pediu de presente uma casa de bonecas. A outra, uma balança. Lá foram elas pro seu mundinho, brincar, enquanto Cristina debruçava-se sobre o seu novo irmãozinho, curiosa em saber os porquês.

     Rogério, desde pequeno, brinca sozinho. Talvez por ser o único menino. "Vou convencer Renato a colocá-lo num jardim de infância no próximo ano... assim faz amigos e..." pensa, enquanto empurra lentamente o carrinho de compras. Ainda está sorrindo com seus devaneios quando chega a sua vez no caixa. Um a um, vai empilhando os pacotes.

 

     "Quase uma hora de trânsito complicado. Terá a cidade virado um engarrafamento só?" Renato consulta o relógio. "Estou atrasado”.

     Hamilton, colega de trabalho, vem chegando.

     - Oi! Sabe quem está aí com cara de quem não dormiu direito? - Fala procurando sondar a cara amarrada do amigo. - O Dr. Valter! Rapaz... Ele está tão bravo que nem me disse bom dia! Passou por mim igual a um foguete.

     - Bom dia? É com isso que você está preocupado? - responde Renato. Antes o trânsito pesado e agora Hamilton, cheio de amenidadezinhas! É o que falta! - Quem está tendo um bom dia? Estamos todos nessa merda de barco afundando e você ainda deseja um "bom dia?” Não seja ingênuo! Isso aqui virou um inferno, ninguém deseja nada para ninguém, nem mesmo um "bom dia"!

     - Renato, pelo amor de Deus, você também? O que houve? Vocês dormiram juntos?

     - Hamilton, não me amole, está bem? - e se afasta.

     O amigo, sem entender nada, vai ter com a telefonista. Pode ser que ela saiba de algo, capaz de justificar tanta gente de mau humor, assim, logo pela manhã.

     Renato sobe as escadas até a sua sala. No corredor, Dona Laura, segurando a bandeja, pergunta:

     - Aceita um cafezinho, seu Renato?

     Ele sente um desprezo por aquela aparência maltratada pela vida, quase cinqüenta anos, todos sofridos, gorda e desajeitada, os cabelos sempre amarrados na nuca. Por que não colocam meninas bonitas para servir o café? É um suplício, já de manhã cedo, conviver com a fealdade e a pobreza.

     - Não, obrigado. Não agüento mais esse cafezinho frio e fraco de todos os dias. E pode ir embora. Tenho muita coisa pra fazer, não tenho tempo para conversar.

     - Nossa, seu Renato! - responde dona Laura, daquele jeito submisso que lhe é peculiar. - O senhor não está bem hoje. O pessoal do escritório também têm notado que o senhor anda tenso. A gente pode fazer alguma coisa?

     Renato pára, meio surpreso. Quem essa mulher imagina ser? Como pode uma simples servente ajudar alguém? Principalmente ele? - Irônico, responde:

     - Não, dona Laura. As pessoas me inventam problemas para depois bancarem as boazinhas e oferecer ajuda. Só preciso mesmo é de paz.

     Dona Laura, magoada com o tom de voz, de modo discreto responde quase num sussurro:

         - Desculpe. Existem pessoas que gostam de ter amigos. Mas, parece, não é este o seu caso.

 

     Regina, na cozinha, mal percebe ter deixado cair à bacia, espalhando, no chão, água e as batatas acabadas de cortar. Claro! Uma idéia temida, mas provável surge em sua cabeça: "E se Renato tem outra?" Automaticamente, abaixa-se e começa a recolher as batatas.

 

     Renato olha os documentos na mesa. São os mesmos, a mesma vida, sem novidades em cinco anos... Cinco!... A única mudança é o número de filhos. Quando Regina vai perceber que é hora de parar de ter filhos? As coisas não estão fáceis. Ela não sabe o que eu me obrigo a engolir para criá-los.

     A melancolia ameaça ingressar em seus pensamentos, mas o devaneio é interrompido pelo toque estridente do telefone.

     - Ramal 324, Renato falando.

     - Renato, é Valter. Venha à minha sala imediatamente!

     Cumprindo a ordem, levanta, coça a cabeça, pensando "é hoje". Lembra do comentário de Hamilton. "Diabos, só me faltava isso! Só não venha encarnar em mim!"

     Entra na sala de Valter, com seu eterno mau humor. Observa com expressão de pouco caso, a decoração que além de simples, era também de muito mau gosto. O chefe sempre preocupado em evitar gasto mantinha aquele lugar ainda mais sombrio. Uma mesa antiga, com alguns arranhões nos cantos, duas poltronas puída pelo tempo e um tapete bastante gasto. Mas a ordem era economizar. “Na verdade ele era um grande mesquinho, isso sim”.Fecha a porta atrás de si, aguardando sem muita surpresa o motivo de sua estada ali.

     - Bom dia, doutor, - disse colocando a mão no bolso do paletó.

     - Sente-se Renato, e me responda: há quanto tempo trabalha em nossa empresa? - Foi falando assim de supetão.

     - Cinco anos... - respondeu, mantendo a cabeça inclinada para o chão.

     Valter levanta, vai até a janela, com uma preocupação quase teatral nos movimentos.

     - Meu rapaz, seu cargo é de confiança. Pretendia não ser necessário chamar a atenção, por uma irresponsabilidade descabida em seu departamento. Entretanto...

     Renato sentia o sangue subir-lhe à cabeça. Permaneceu quieto, ouvindo, contendo-se.

     - Explique-me! Por que não foram despachados os documentos para a Central? Estamos prestes a perder uma das maiores concorrências em virtude desta desastrosa falha. - A voz de Valter sobe na altura, os gestos são dramáticos. Há exagero nas atitudes. - Isso deveria ter chegado hoje no malote! É uma irresponsabilidade de sua parte!

     - Ah!, não! - Renato não tem como justificar o erro, porém não pode aceitar ser chamado de irresponsável. - Não esqueço minhas obrigações! Sempre, nestes cinco malditos anos, cumpri com zelo minhas funções. Mas existe um limite humano: eu também dependo do trabalho de um bando de incompetentes, os quais não posso mandar embora por causa de uma negligência ocasional.

     - Você está subestimando a empresa como entidade financeira, que visa o lucro, que existe em função disto, que contrata funcionários para este fim. E não é uma negligência ocasional. Há tempo venho notando o seu desinteresse. O que está havendo? Se precisar de dinheiro ou férias, abra a boca, fale!! Sejamos objetivos: Não posso admitir liberdades que se tornam extravagâncias. Do contrário, serei obrigado a substituí-lo.

     Tomado de admiração e revolta, Renato de súbito responde:

     - Pois pode começar a procurar. Estou me demitindo.

     Valter se surpreende. Conhece a fama de Renato, de explodir por qualquer motivo. Talvez tenha passado da conta. No fundo, gosta dele. E alguém precisava dar um basta no seu comportamento instável. Será que é reflexo de algum problema particular sério? Resolve tentar acalmar a situação:

     - Está bem. Eu sei que posso contar com você. Desculpe se exagerei um pouco, mas procure me entender, não sou o único dono da empresa, devo satisfações aos acionistas, e... - pensa um pouco procurando as palavras de maneira mais amena. - Sei que esse incidente não vai tornar a acontecer, estou certo?

     - Não. - olha bem nos olhos pequenos do chefe e fala irritado - Estou me demitindo, Doutro, não ouviu?

     - Renato, não seja criança. Sabe muito bem: bons empregos são difíceis. Ainda mais no seu cargo e com o seu salário. Pode perceber a dimensão de suas responsabilidades? Não tem consciência de que é pai de quatro filhos? Estou preocupado por você, não por mim. Afinal, se você sair, contratarei outra pessoa no mesmo dia. Mas, e quanto a você?

     Renato, decisão tomada, ego machucado, sai, deixando o chefe a falar sozinho. Não volta para sua sala. Quer fugir dali, do prédio, de toda a rotina asfixiante.

     Lá fora, sufocado pelo calor, o primeiro gesto de liberdade é simbólico. Adeus gravata e paletó. Tem consciência de suas qualificações profissionais. Tem contatos, muitos amigos e conhecidos que freqüentam formal e informalmente sua casa. Não vai ser difícil arranjar nova colocação. Se fosse outro, vai lá. Mas Renato, não!. Sem perder o ar soberbo, entra no carro olhando em volta e sentindo uma espécie de vitória.

 

     Regina chega com as crianças, para o almoço. O marido, vestido de camiseta e bermuda, recebe-a com beijos e sorrisos.

         - Estou livre! Livre!

         - Saiu do emprego? - Regina fala preocupada.

         No fundo imagina que ele poderia ter pegado umas férias, mas um mau pressentimento não deixava dúvida.

     - Querida, não agüentava mais. Vou arranjar coisa muito melhor. Você vai ver.

     - Mas, meu bem...

     - Não confia mais em mim? - fala abraçando - a

 

     - Regina! Há tanto tempo não vinha me ver! Nossa, mas que cara! - diz abrindo os braços para cumprimentar a amiga, e convidá-la a entrar.

     Regina está no meio da sala. Não era uma sala muito grande, mas muito bem decorada. Havia um jogo de estofado estampado em bordô e cinza, um tapete creme, e várias plantas pelos cantos penduradas, dando ao ambiente um ar aconchegante. Há quase seis meses não há visitava. A casa, praticamente igual à última vez, traz-lhe recordações do tempo alegre, onde tudo era simples e previsível. Ainda não disse palavra e já sente que vai cair num pranto convulsivo. A segurança e amizade de Rosa permitem-na, silenciosamente, verter a primeira lágrima, a segunda, a terceira...

     - Santo Deus, pelo jeito é pior do que imaginava! Venha, sente aqui no sofá! Isso chore. E conte tudo para a sua velha amiga.

     - Ah, Rosa! Lembra quando Renato pediu demissão? - fala passando as costas da mão no rosto tentando se livrar das lágrimas.

     - Claro...

     - Eu previa dificuldades, mas não pensava que poderia ficar assim tão ruim...

     - Ele ainda não conseguiu nada?

     - A cada dia fica pior. Renato está arrasado. A única alternativa é voltar.

     - Voltar, para onde?

     - Voltar a trabalhar com o Dr. Valter...

     - Ué!? Essa eu não entendi! Conta-me do começo. Há quase seis meses, você veio aqui, meio alegre meio preocupada, contando a novidade e convidando para uma "festa de comemoração". Eu não fui à festa, e não nos vimos mais. E daí? O que aconteceu depois?

     - O primeiro mês passou tão rápido... Eu nem senti. Renato me convenceu que, se quiséssemos subir na vida, precisaríamos convidar pessoas certas. Ele tinha acertado com o Dr. Valter para usufruir todos os direitos, como se a empresa tivesse mandado embora. Ele ganhou um dinheirão, parecia tanto, a gente nunca tinha tido tanto dinheiro assim de uma vez só! Aí, começamos a receber. Gente almoçava e jantava lá em casa. Íamos a clubes, toda a semana comemorávamos alguma coisa. Renato não queria economia. Tudo do bom e do melhor. Foi um mês, dois. No final, fizemos muitos amigos, mas nada de emprego... Renato começou a ter crises de mau-humor e eu não entendia o porquê. Todos saíam da nossa casa elogiando a comida, prometendo mil coisas. Mas ele ficava mais e mais nervoso. Lá pelo terceiro mês, começaram as entrevistas nas empresas. Ele não esperava por isso. Disse sentir-se um qualquer, fazendo fichinha, respondendo a perguntas. Todas aquelas pessoas podiam recomendar o Renato, porém não contratá-lo. E, certa vez, ouvi um comentário de que a demissão dele havia repercutido muito mal, além dos gastos que havíamos feito. Gastos, imagine! O cara estava comendo a minha comida, e dizia que o dinheiro que gastávamos com isso é que prejudicava a fama do meu marido. Sabe, Rosa, eu queria sentir raiva do cara, mas não conseguia. Quando Renato se demitiu, dava para abrir uma lojinha com o dinheiro. Ele achou minha sugestão humilhante: de gerente de grande empresa para dono de balcão! Na verdade, três meses depois, o dinheiro mal dava para as contas. De uma hora para a outra, acabaram-se as festas, as comidas requintadas, e a ordem passou a ser: economia!

     Não fui mesquinha, Rosa. Aliás, gosto mais, sinceramente, de uma vida calma a uma cheia de sociedade. Só que não foi bem assim. No mês passado, a Cristina teve de operar as amígdalas às pressas. Ela entrava em convulsão com as febres. Renato estava tão nervoso! Exigiu que a gente a internasse. Ficamos dois dias no hospital mais médico e anestesista. Se você visse a conta! E, com isso, acabou o dinheiro. Já venceu o aluguel, a escola das crianças! Morro de vergonha, as pessoas telefonam cobrando! O que eu digo?

     - Mas ninguém ofereceu lugar ao Renato? - pergunta a amiga indignada.

     - Na verdade, nos primeiros meses houve boas propostas. Eram para a mesma função e com o salário anterior. Só que ele queria mais: dinheiro, aventura, sei lá Rosa! A verdade é que com o passar do tempo às ofertas começaram a piorar. O salário oferecido diminuía. As colocações também.

     - E aí?

     - Renato voltou a falar com Valter.

     - E ele ofereceu de novo o cargo?

     - Não... Manteve o salário... Mas Renato voltaria na condição de vendedor...

     - E ele não aceitou?

     - Tenho vergonha da minha falta de confiança em Renato. Agora, não agüento ficar com medo até de telefone, nunca sabendo se é alguém cobrando dívidas! Hoje eu pedi à ele para considerar. Ele me olhou como se eu fosse uma criminosa! Eu sei que o ofendi!

     - Ora, isso é um absurdo?

     - Ah, Rosa! Nem sexo ele faz mais comigo! Não há beijos nem carinho... Tudo o ofende, sempre de mau-humor. Fora Cristina, nenhuma das crianças sequer fala com ele...

     - Ele e Cristina sempre se deram tão bem... - diz Rosa, tentando achar novos caminhos no assunto.

     - É... Mesmo assim, estou com medo.

     - Calma Regina. Vou preparar um chá! Dê um tempo! Vai ver, tudo vai se ajeitar.

 

     Quarta-feira falta pouco para as três horas. A casa está completamente vazia. As crianças na escola. Regina saiu para visitar uma amiga. Renato está - e se sente - sozinho.

     Voltar ao velho emprego. Será? O Dr. Valter deixou bem claro: as portas estão abertas. "Ele sabia. Por isso fez o convite. Mas voltar com que cara? Cada vez fica mais difícil, o dinheiro acabando. Abandonei um emprego estável porque tinha cansado da rotina. Não dá pra explicar tanto azar: tinha certeza ser a minha função muito bem aceita em qualquer empresa...”.

     Vender o carro? Como trabalhar sem carro? Afinal, agora sabe, a única profissão possível é como gerente de vendas. Não pode ficar sem o carro. Mas vai comê-lo?

     Vender o telefone? Regina iria ficar muito magoada. Sempre fora contra vender coisas que tinham conseguido com dificuldade, e o telefone era uma mistura de contato com o mundo e símbolo de status. Toda essa angústia lhe toma o coração.

     Começa a chover. Nas vidraças embaçadas, Renato tenta escrever alguma coisa. Contempla a chuva. Não consegue ter uma idéia nítida de como será o dia seguinte. Sente saudades da rotina que antes odiava.

     Lembra a cena da manhã. Regina tinha chegado, dito mansinho: "meu bem, acho melhor a gente vender alguma coisa. Não podemos continuar assim. Um dia compramos novamente, eu confio em você. Só não agüento mais é ver você deste jeito. Por que não procura novamente o Dr. Valter? Ele deixou as portas abertas e...”.

     Ela não completou a frase. Renato, sim. Repetidas vezes, durante o dia todo. Estava deixando os filhos e a mulher passarem necessidade, por mero orgulho. Há três semanas, encontrou, ocasionalmente, o Dr. Valter, que se comprometeu a readmiti-lo, mantendo o salário de gerente. Devia estar ciente da situação.

     Em voz alta, ensaia como vai falar com Regina, escolhendo palavras:

     - Querida, vou voltar para o meu antigo emprego, se me aceitarem! O Dr. Valter disse que eu poderia procurá-lo quando desejasse. Este é o momento! (Não, ficou muito dramático. Ela vai pensar que estou fazendo teatro. Vamos diferente.) Regina, não será fácil e talvez eu não venha a ser mais ou menos feliz. Pelo menos vocês não sofrerão por irresponsabilidade minha! (ótimo! Carregado de emoção! Regina dirá: não, meu amor, não faça isso! Venderemos tudo para não vê-lo de cabeça baixa! E eu responderei: Farei tudo isso porque é o melhor. Não se preocupe. Aprendi a lição. Irei humilde e com sinceridade. Vai dar tudo certo.)

     Pega o paletó e sai. Na sua imaginação, Regina assiste pela janela enquanto ele enfrenta, na garoa, uma tempestade, de encontro a um inimigo pior, o temível Dr. Valter. A família está salva.

     O orgulho também!

 

     Quando chega ao prédio, sente um frio no estômago. Despreza todos ali. Agora, tem que voltar...

     Vai entrando meio débil, meio perdido em desilusões. Alguns ex-colegas percebem, cumprimentam-no secamente e ficam comentando às suas costas.

     Entra cabisbaixo na ala da diretoria, vai falar com a secretária.

     - O Dr. Valter está?

     Arlete, absorta nos papéis, levanta os olhos quase sem acreditar e pergunta:

     - Seu Renato, é o senhor mesmo? - E, com um sorriso meio contido: - como nos tem feito falta. O novo gerente é um chato! - fala com uma careta que lhe enfeita o rosto.

     Esta primeira receptividade positiva lhe dá um pouco de segurança.

     - Pois é, Arlete, - disse colocando a pasta sobre a mesa, sentindo-se estúpido. - Sou eu mesmo! Se for possível, gostaria de falar com o chefão. Ele Está? - Havia humildade em sua voz, não era mais tão arrogante como antes.

     - Ah! Sim. Mas está bastante ocupado. Vou informá-lo que o senhor está aqui. Aguarde um pouco, já volto.

         A moça se afasta deixando um aroma agradável de perfume. Renato fica à observá-la. Muito bem vestida, meiga e sempre gentil. “Engraçado, nunca havia percebido o quanto ela era bonita.” Ri balançando a cabeça.

         Quase duas horas se passam até Renato ser atendido. Neste meio tempo, serve de alvo para comentários, uns admirados, outros debochados. Afinal, alguns dos seus ex-colegas sabem que não havia conseguido outro emprego. Nas salas próximas, as histórias de Renato são passadas de boca em boca. Dava pena supor que, depois de tanta arrogância, iria pedir, por favor, para voltar! Ele olha para as paredes do escritório, recorda quantas vezes esteve ali na condição de gerente, dando ordens, ou até indo pessoalmente buscar algum cliente especial. Agora estava ali, não como alguém importante, mas como um pai de família desesperado e desiludido, contudo, procura manter-se firme.

        Arlete, na ânsia de deixá-lo à vontade, já não sabe mais como entretê-lo. Sentia-se também incomodada com aquela situação. Finalmente, avisa:

     - Seu Renato, pode entrar - e tentando consertar o constrangimento da espera: o Dr. Valter está mesmo muito ocupado hoje, por isso a demora.

     Renato compreende e agradece, entrando para o esperado e temido encontro.

         A sala estava mudada, mais bem decorada, um espaço quase obsoleto, deu lugar a uma sala requintada, aconchegante e soberana, tal qual a cara redonda do Dr. Valter, que sentia naquela conversa, a oportunidade de vingança. “Renato fora duro com ele, agora à revanche”.

         - Renato, prazer em vê-lo! Como vai, meu rapaz? Você me parece tão abatido... Não se intimide, está entre amigos e sabe disso. Desculpe a demora. As coisas aqui andam cada vez piores! Todos os dias os mesmos problemas, um diretor daqui, outro dali... Mas vamos ao que interessa... - A voz era debochada, cínica.      

     Renato anda de um lado para outro, olhando em volta e pensando em um motivo qualquer para sumir daquela presença incômoda, sente um nó na garganta e uma forte tontura começa a beirar suas têmporas. Com a voz entrecortada, diz:

     - A minha visita não é bem aquilo que qualquer um gostaria de fazer, mas, face às circunstâncias, vi-me obrigado a baixar os olhos para tudo e pedir, se possível, a minha vaga novamente. O senhor sabe, as vezes a gente deve mesmo quebrar a cara... Tenho conseguido outras ofertas, em empresas pequenas, com salários menores ou condições inadequadas... Minha família é grande e meu trabalho é bom... Afinal, estudei durante anos e dou valor a este esforço e à minha profissão. Não me importo de que voltar atrás. Sei que não será fácil enfrentar a todos novamente, mas farei o que estiver ao meu alcance...

     Nesse instante, D. Laura entra com o cafezinho e, surpresa, investe sem piedade:

     - Seu Renato? Que bom vê-lo novamente. - fala segurando a bandeja cheia de xícaras sujas e um sorriso irônico. - Aceita meu cafezinho frio e fraco?

     Diante da ironia, Renato faz-se de desentendido, não estava em condições emocionais de contestar. E tentando ser gentil:

     - Aceito, sim. Como vão as crianças? - diz meio sem pensar.

     - Ora, seu Renato. Eu não tenho crianças e... o senhor bem sabe. - fala colocando a bandeja sobre a mesa e abrindo a garrafa com ar debochado. “Agora ele vai realmente tomar um cafezinho frio”.- pensa. Abaixa a cabeça olhando sobrolho, tentando conter uma certa satisfação, ao recordar o quanto já fora humilhada por aquele homem, e por isso não sentia remorso em estar lhe provocando no seu momento de dor. Após servir o café, recolhe as xícaras e sai, satisfeita, como se o mundo sempre se pronunciasse em seu favor. Valter espera que ela se retire, e então argumenta:

           - Renato, você sabe, tenho um carinho muito grande por você, apesar de não aprovar algumas das suas atitudes. Sempre as relevei por não serem tão freqüentes. Agora, vejo-o amadurecido. Mesmo assim, há outra pessoa em seu lugar. E essa pessoa está se saindo melhor do que imaginávamos. Isso me deixa sem opção, porque não se mexe em time que está ganhando. Esteja certo de uma coisa: o que faço é pensando no seu próprio bem. Tenho uma proposta e é só você dizer se concorda. Você pode ser readmitido como vendedor. Pode até ganhar mais do que um gerente! Só tem um cargo abaixo, é verdade, mas quem sabe o dia de amanhã? Não descarte a possibilidade de recuperar a sua vaga, talvez até nem como gerente, mas como diretor comercial, cargo que já poderia estar ocupando se não tivesse agido como um menino mimado... Bem, isso não vem ao caso. O fato de voltar como vendedor não será fácil, concordo. Também entendo o quanto dói o orgulho ferido.

     Valter faz uma pausa, tentando observar a reação do ouvinte. Depois continua, apaziguador:

     - E quem sabe não está passando por uma prova, para novamente atingir o seu teto máximo? Pense nisso. Não precisa decidir agora, estarei aqui esperando sua resposta.

         Sentia-se dono da situação. Recorda quando Renato o esnobou pedindo demissão, e logo depois mais cauteloso, foi solicitar um acordo, porque precisava do dinheiro. Ri entre os dentes. “O mundo dá muitas voltas meu caro!” - pensou.

         Renato está prestes a perder o autocontrole, suas veias incham, parecendo querer saltar fora do corpo. Embora soubesse com antecedência qual seria a proposta, pensa nela com desolação. Por outro lado, nada há para fazer senão aceitar ou começar a se desfazer de seus bens. No seu imaginário, para ganhar forças, contempla o dia em que dará a volta por cima. Ao mesmo tempo, terá que se envolver, em pés de igualdade, com seus antigos subordinados. Precisa vencer o fantasma do orgulho e retomar seu status profissional, custe o que custar.

     - Vou aceitar. Volto a trabalhar como vendedor. Só uma coisa... - fala dando um volta em torno de si mesmo.

     - Sim? - pergunta Valter, com sua calma estudada.

     - Tão logo arrume coisa melhor... - não chegou a completar.

     - Ora, Renato! Sei o quanto custa a você aceitar esse trabalho. A julgar pela sua reação e conhecendo-o como o conheço, eu me surpreenderia se fosse diferente. As coisas não devem estar nada animadoras para o seu lado. Acredite, tudo vai melhorar. Vamos lá, homem, coragem! Quero apresentá-lo ao novo gerente e espero que se entendam bem, pois terão muito trabalho juntos daqui para frente.

         Renato anda pela fábrica, recordando o tempo em que era gerente, e sua impaciência com seus subordinados, agora reza para que o seu novo chefe se acautelasse, pois estava a ponto de explodir.

         Sua sala agora toda mudada, móveis novos, um tapete macio, alguns armários, que recorda ter solicitado tantas vezes e nunca conseguiu. O gerente em seu terno impecável, sorriso estampado de satisfação, tudo ia se misturando na cabeça de Renato em forma de provação. Sentia, contudo que mais cedo ou mais tarde, daria a volta por cima e mandaria aquela gente toda para o inferno novamente.

         Tudo acertado, apresentações feitas, horários combinados, Renato volta para casa, sem dar muita importância ao trânsito, às pessoas, a nada.

 

     Regina recebe a notícia como um comunicado, secamente. Jantam e deitam-se cedo. A rotina recomeçará na manhã seguinte, e ele já está cansado.

     Os dias se seguem, quase sem novidades. No início, histórias e intrigas alimentam mil versões sobre sua volta. Dona Laura comentava as escondidas. “Tão orgulhoso, tão prepotente, e agora está pobre, será que a mulher dele vai parar de ter filhos?” Mas as pessoas acabam se acostumando a vê-lo, com sua pasta de vendedor, de um lado para o outro, sempre calado, sem deixar transparecer seus sentimentos. Às vezes, a mudança de comportamento preocupa Dr. Valter, como quando veio, a saber, do aumento do seguro de vida de Renato, em benefício da família. Ao ser procurado para assinar a apólice, solicitou uma cota muito maior do que a de direito. Propôs-se a pagar a diferença e ninguém comentou mais até o assunto cair no esquecimento.

         - Não importa os motivos, - disse para o agente da seguradora. - Pago a diferença e gostaria que isso ficasse entre nós.

         Mas a notícia se espalhou, Renato sentiu-se exposto, mas mesmo assim, manteve-se em sua postura, não ligava para os comentários, um homem toma uma atitude de acordo com a sua consciência, ninguém tem nada com isso.

         Com o passar dos dias, a expressão de Renato ia se tornando mais abatida. Os cabelos começavam a embranquecer visivelmente, Regina se preocupa com a maneira frenética de trabalho e o envelhecimento precoce do marido, mas prefere não falar nada, sempre cautelosa.

         A empresa prospera em ritmo acelerado. Renato trabalha incansavelmente, numa forma desesperada de ganhar dinheiro. Ou talvez seu esforço seja para assumir novamente o cargo anterior. Certeza há apenas a de que ninguém sabe qual é realmente o seu objetivo. Enquanto isso, em termos financeiros, todos ganham, inclusive o gerente, seu Jerônimo. Em contrapartida, Renato pouco fala além do exigido e parece, a cada dia, mais calado. Sem Brilho, o olhar é cada vez mais distante como perdido no nada. As respostas são mecânicas. O homem forte e saudável torna-se uma coisa meio morta, meio sem esperança.

     Três meses depois, o descontentamento e a angústia tornam-se transparentes. Seu semblante adquire tons nebulosos e seu silêncio recrudesce, induzindo a pensar que tem algo em mente. Ninguém se atreve a perguntar.

     Numa tarde, antes de entregar o relatório, pega o carro e sai sem destino. Seus pensamentos estão confusos. No esforço imenso de dar conforto à família, superando a humilhação e a sensação de fracasso, havia mergulhado em um clima de trabalho frenético que apagou até o gosto de pensar. Fez tudo de modo automático, sem vida. E agora numa típica atitude dos "tempos idos", não sabe onde termina a razão e onde começa a emoção.

     Percorre praças onde antes gostava de andar. Tudo lhe soa borrascoso. Sequer a família, motivo de sua retomada ao trabalho, causa-lhe alegria. A mulher, a quem sempre admirou, é um registro fantasma, um ponto de interrogação. Nada corre como o planejado e a promoção estão muito, muito longe. A antiga vidinha está de volta, aparentemente pior. O carro vai seguindo, entra numa rua e noutra, sem direção certa. Quando pensa que é hora de retornar, de enfrentar o serviço, visitar clientes, já não sente disposição para tanto.

     Recorda-se do seguro milionário. Tinha sido um ato inconsciente - como esse passeio de carro tão sem sentido. Tudo ligado pelo mesmo fio invisível: o fracasso de seus ideais de fama e fortuna; a volta humilhante por amor aos seus; o seguro, os meses entediantes, sem motivação, sem vontade de viver.

     "Não quero voltar para casa. Não quero esperar promoção, nem outro emprego. Se alguém pretendia me testar, já teve bastante tempo para se divertir. É hora de inverter as coisas”.

     Não se dá conta do que está fazendo. Apenas segue uma voz interior, uma determinação ou uma fantasia. Estaciona o carro e entra num prédio. Na recepção ninguém o questiona. Os corredores possuem rampas. Avança inconscientemente, meio fascinado pela sua tristeza. As pessoas o vêem circulando. Sequer imaginam a angústia que experimenta.

     "Vou para longe, muito longe. Não volto mais para casa nem para aquele escritório. Vou procurar a paz onde ninguém possa me encontrar..." Está aturdido pelo cansaço e pela liberdade de chegar a algum lugar. O outro lado, um lado ainda oculto em sua mente, mas fascinante em sua imaginação.

     Alcança o topo do prédio. Da pequena sacada, vê seu carro e as pessoas passando sob as árvores, usando roupas coloridas.

     Não lhe acode a razão contemplar a distância.

     Respira fundo, fecha os olhos e se atira para o nada.

     Uma mulher grita. O tumulto é grande nos prédios vizinhos e na rua.

 

     Renato abre os olhos, sem distinguir outra coisa senão uma névoa branca, e silhuetas cinzentas, algo irreal.

     Tenta lembrar o que aconteceu. A memória volta súbito, nítida, o prédio, o salto... A sensação da queda, e então mais nenhuma lembrança.

     "Um hospital!" - pensa. "Mas que droga! Nem morrer eu consigo! Como alguém sobrevive a uma altura daquela?”

   Indignado com a própria sorte, começa a se debater, não percebendo a chegada de uma pessoa alta, ombros largos, dona de voz grave e pausada:

     - Renato... Renato olhe para mim. Está se sentindo melhor?

     - Melhor!?! Eu tentei morrer! Eu quero morrer! Nem que seja um pouquinho... Sair de cena entende? Não agüento mais esta vida? Mas que droga! a voz era afônica. Da próxima vez vou pular de um prédio bem mais alto! Quero ver só que anjo vai conseguir me salvar? Ri novamente sentindo-se leve como uma pluma. Procura sentir dor, mas nada, apenas a leveza do corpo. - Por todos os diabos, o que está acontecendo?

     - Filho, você não precisa mais pular de prédio algum. Conseguiu seu intento: você está realmente morto.

         Ah, sim! - fala debochado procurando sentir alguma coisa.

         Num instante parece flutuar e olha com severidade em direção à voz oculta que vem de algum lugar.

         E quem é você, então? São Pedro?

         Eles se estudam, Renato estampando ódio, que aos poucos vai cedendo ante a presença inquietante do estranho, cujos olhos azuis sugerem calma, talvez compreensão.

     Subitamente, como numa imensa tela de cristal líquido suspensa no ar, Renato vê sua vida reprisada, enquanto uma voz em off o vai orientando.

     - Preste bem atenção. Você cometeu um erro e precisa corrigi-lo. Para isso, primeiro necessita entender a si próprio e à sua missão.

     Na tela, um menino brinca de desmontar o relógio do pai, tentando desvendar a origem do tique-taque.

     Renato, diante da cena, começa a chorar. A recordação, embora bastante antiga, é precisa. O pai adorado, bêbado, entrando no quarto e se deparando com as pecinhas espalhadas, começa a bater no filho e logo depois na mãe, que o veio defender. Móveis sendo quebrados, ofensas atiradas em vão. Na cabeça da criança, um Deus raivoso assume a forma do pai.

     Anos vão-se sucedendo, cenas carinhosas alternando com outras brutais. A mãe cozinhando, a suave intimidade a dois, nas ausências prolongadas do marido. As chegadas tempestuosas, com barulho, festas, vizinhos e amigos.

     A primeira namorada, tão apaixonadamente desejada, que o trocou por outro mais rico. "É assim mesmo - disse a mãe -, o dinheiro é que move o mundo!"

     A morte do pai, sentida pela família, e a inevitável pobreza que se seguiu - paradoxalmente o início de uma excelente fase de vida. Trabalhando de dia, estudando a noite, Renato entrando finalmente no "mundo dos homens". O garoto novo, lutando para sustentar a família, impressionava as pessoas. As amizades surgindo e o caminho de vendas se delineando. Imagens de gente conhecida que há muitos, muitos anos, não via mais.

     Depois, o emprego como viajante trouxe de mãos dadas aventura e estabilidade financeira. As pensões, os bares e bordéis que freqüentava. O falecimento da mãe e a solidão. Regina, a meiguice que supria a ausência da mãe. O tempo escoando com rapidez, o casamento.

     No início, uma interminável lua-de-mel. Lençóis limpos, uma casa para voltar nos finais de semana e uma pessoa a quem recorrer. No trabalho, as viagens proporcionando situações inesperadas, oportunidades, surpresas. A primeira filha, Cristina, bebê gordinho e rosado coroando essa época de pura felicidade. Mas veio Rosana. E quando Regina ficou grávida de Sandra, começaram as preocupações. Uma mulher não pode ficar com três crianças, sozinha numa casa, durante até quinze dias, por vezes.

     Então, surgiu o Dr. Valter, sua oferta tentadora. O salário, digno; a empresa, confiável; o cargo, de chefia. Tudo perfeito, não fosse a síndrome da rotina...

     Segue-se um período de marasmo. A cidade, a casa e o trabalho fixo assemelham-se a uma grande prisão, impedindo a aventura das viagens que antes o faziam feliz.

     Tenso Renato vê na tela a demissão, as festas, a falta de dinheiro, o retorno humilhante. Revive o último dia, o salto para o nada.

 

     No fim, as imagens somem tão misteriosamente quanto apareceram e Renato vê-se a sós com o estranho de olhos azuis. Em lágrimas, não mais consegue duvidar do que lhe é dito.

     - Você cometeu suicídio. Veio sem ser chamado, interrompeu sua vida antes da hora, deixando responsabilidades não cumpridas.

     - E agora? Eu não agüentava mais ser um vendedor, ser humilhado.

     - Você era um homem feliz, com uma esposa bonita, honesta e carinhosa, quatro lindos filhos e um bom emprego. Foi a vida que escolheu como ideal e, quando a obteve, não lhe deu valor. Carente de aventuras correu atrás de equívocos, sem questionar se era o melhor para todos. O mais grave foi ter optado por uma mulher emocionalmente imatura - você assim o quis -, trazendo ao mundo quatro filhos, que abandonou.

     - Eu deixei um seguro... - Recorda o dia em que assinou o seguro, e as perguntas indiscretas dos amigos.

     - A sua responsabilidade era guiá-los, orientá-los. E o dinheiro não supre essa lacuna. Sem esquecer que, pela natureza do seu ato, o dinheiro do seguro não chegará tão cedo às mãos de sua esposa.

     - Como? Mas...

     - Regina somente poderá receber o prêmio do seguro provando que você não cometeu o suicídio. E o pior, pode ser indiciada como suspeita de assassinato. É muito dinheiro em jogo, meu filho! Ela pode ser preza até conseguir provar ao contrário, e isso poderá levar anos.

     - Mas...

     - Nossos atos pesam conforme suas conseqüências. Na Terra, devemos completar nossa missão. Por isso, você deve retornar entre os vivos.

     - Como? - fala angustiado. - Preciso salvar Regina, ela é muito frágil, nunca vai conseguir se defender. Quando posso voltar?

     - Calma. Você tinha mais dezoito anos para viver, e terá que cumpri-los. Não podemos alterar o ritmo dos acontecimentos. Sua mulher, agora sozinha, vai se casar novamente. Desta união nascerá um filho, e esta criança será você.

         Renato está arrasado, sentia pena da mulher, e agora essa... “Vai se casar? Ele ainda nem morreu direito e ela já o estava traindo? Quem será o sujeito? Esse cara quer me deixar louco, primeiro diz que ela pode ser preza, depois que vai se casar. Onde está querendo chegar afinal?” Os pensamentos são confusos, queria sair dali e ter com Regina uma boa conversa, mas não encontrava forças! O cara disse que ele estava morto. Mas que estupidez? Morto, traído, inútil, o fim.

         - Espere aí! Posso estar morto, mas não sou burro. Você pode ser Deus, São Pedro, ou o que quiser, mas não vai me fazer de palhaço. Levante-me daqui e vamos acabar logo com isso.

         Não adianta deferir-me palavras amargas, está morto sim, e foi você de livre e espontânea vontade que assim o desejou. Agora preste bastante atenção. - A voz era áspera e determinada.

       - Você vai voltar como já foi explicado, e é bom se acalmar. 

       - O quê? Quer dizer que nascerei da minha própria mulher? Serei irmão dos meus próprios filhos? E morrerei aos dezoito anos? O que vou fazer em dezoito anos? Renato não contém as lágrimas.

     - Parte da sua experiência retornará consigo, para que, mesmo jovem, a sua palavra possa ser sábia. A vivência dos problemas, que não terá na prática, será recebida da sua experiência passada, de forma intuitiva. Você saberá avaliar as dificuldades de sua mãe e seus irmãos e deverá orientá-los, superando a sua ansiedade de interferir nos fatos.

     - Ansiedade?

     - Sim. Como pai e marido, poderia corrigir certas atitudes Como irmão mais novo, não terá o mesmo poder. E assim, com as mãos atadas para impedir, apenas aprenderá a sofrer junto com sua família.

     - Mas o que eu devo impedir?

     - Que os seus erros encontrem ressonância em seus filhos, como os de seu pai em você. Agora irá dormir, e quando acordar não irá recordar de nada... Ou quase nada.

     Renato tenta contestar, saber mais, sem ter forças para tanto. É como se a sua energia estivesse sendo sugada. A princípio, luta para não adormecer. Onde, afinal, está? As suas forças vão-se esvaindo. Finalmente, beirando o sono, quase no grande inconsciente, murmura.

     - Nascer novamente, e morrer com 18 anos!

     E adormece.

 

     "Dr. Arthur... Advogado criminalista".

     - É esse. Venha, Regina, não fique aí apalermada. Este advogado é ótimo, ele vai conseguir o seguro para você. Vem!

      Rosa empurra Regina em direção à casa com a placa de letras douradas. Está tonta entre as dificuldades criadas pela seguradora e a falta de dinheiro que lhe roubava a tranqüilidade. Agora esta iniciativa de Rosa, insistindo sobre a necessidade de consultar um advogado.

     Todo mundo fala que advogados são caros. Será que ele vai recebê-la de graça? Será que Rosa o pagou e não disse nada? Será que vale a pena? Quem sabe, esperando mais um pouquinho, o pessoal da seguradora libera o dinheiro...

     Na recepção, Rosa apresenta-se e aponta para Regina, informando ter hora marcada.

     À primeira vista, Regina achou o local simples. Poltronas de qualidade, o grosso tapete, quadros e revistas proporcionando um ambiente aconchegante. Minutos depois, uma bonita jovem, com vestido de seda azul claro e sapatos da mesma cor, de salto altíssimo, vem chamá-las. Regina se acanha de sua simplicidade, em comparação com a moça. Esta não seria a primeira surpresa da tarde. Nada em sua vida de dona de casa a havia preparado para a entrevista que se seguiu. Pensa em algo como "falar com o gerente do banco", o cara simpático do outro lado da mesa, mas não.

     A sala do Dr. Arthur lembra a de alguma pequena mansão. Quatro poltronas brancas sobre um tapete persa dominam o espaço central. Próximas à janela, muitas plantas criam um ambiente vivo e acolhedor. A porta de vidro, antiga e pesada, permite antever, no escritório contíguo, a tradicional mesa, de mogno escuro, entre imensas estantes de livros. Alguns detalhes passam pela vista de Regina: a geladeira compacta, o aquário colorido, quadros e estatuetas.

     Não é possível ver mais. No centro, sobressai-se a figura de um homem alto, de pele bronzeada. No momento em que Regina o depara, é como se os olhos deste homem estranho hipnotizassem os seus. E quando ele se aproxima, indicando as poltronas, tentando deixá-la à vontade, ela sente um frio no estômago, um nervosismo sem sentido.

     Rosa parece imune ao estranho. Fala, expõe o caso. Dr. Arthur ouve com atenção, sem tirar os olhos de Regina, que, inquieta, se sente exposta, quase nua. Ele escuta toda a história e depois pergunta:

     - Esta é realmente toda a verdade?

     - Como assim? - diz Rosa.

     - O senhor acha que estamos mentindo? - interpõe-se, indignada, Regina.

     - Primeiramente, senhoras, vamos ter calma. A situação é clara. A seguradora, provando suicídio ou assassinato por parte da Sra. Regina, isenta-se de pagar o seguro.

     - Eles não fariam isso!

     - E por que não? Faz quase dois meses que seu marido faleceu - Arthur inquire Regina tão intensamente, que ela tem a impressão de estar sendo invadida. Porém, a postura dele é séria, muito séria:

     - Pelo que entendi, a Sra. ainda não constituiu advogado, está aqui por iniciativa de uma amiga, desconhece ou omite todo e qualquer detalhe relativo ao acidente, parecendo ter como único interesse receber o dinheiro.

     Regina se levanta, rápida. Como pode deixar a imaginação correr por um homem tão grosseiro, tão sem sentimento, tão... Tão...

     - O senhor está me humilhando! Seus olhos enchem-se de lágrimas - como pode dizer isso? O que pensa que sou?

     As emoções à flor da pele ameaçam explodir. Arthur prende-a novamente pelo olhar, e pede a Rosa que se retire por um instante, atestando ser preciso conversar a sós com Regina.

     Arthur aguarda a porta ser fechada. Com esforço, repete a si mesmo que é um advogado, que esta mulher, esta bonequinha de porcelana, é uma cliente, e que precisa agir com todo o profissionalismo. Reconhece, entretanto, a dificuldade. Visivelmente, ela está tendo problemas com a seguradora. Seu desejo é estreitá-la nos braços, enchê-la de beijos e de carinhos, fazendo-a esquecer sua dura realidade.

     Mantendo a custo o autocontrole, serve uma bebida. Calmamente, vai usando toda a argumentação que conhece para, expondo o problema, ganhar-lhe a confiança. A bebida surte o efeito desejado; a argumentação, idem.

     Terminada a explanação, resta a Regina assinar as procurações, autorizando-o a agir. Discutindo os termos, buscando e anotando dados, estão fisicamente muito próximos e é como se uma corrente elétrica fluísse continuamente entre um e outro.

     À saída, Arthur sente o desejo quase como uma dor física. O sol de final, refletido no cabelo dourado de Regina, cria tons de ouro líquido. Ah, ela parece tão frágil! Ele não resiste, e quando suas palavras recomendam calma e tranqüilidade, toca o rosto e os cabelos da mulher, num gesto tão leve como o roçar de uma brisa.

 

     Na TV, outro capítulo da novela. Regina vê, enquanto as crianças brincam em volta. Os ruídos familiares vão-na inebriando, embalando sua fantasia. A imagem na TV some. Arthur toca seus cabelos. Eles se olham, o beijo ardente faz Regina soltar um suspiro, e...

     - Mãe! Manhêêêê olha o que a Rosana fez! Foi ela! Olha mãe, olha!

     - Hein!?

     Regina volta, assustada, à realidade.

     - Não fui eu. Sandra é uma desastrada.

     - Você...

     As duas brigam de rolar no tapete. A mãe, automaticamente, as separa, pondo cada uma num canto. Castigo.

     - Fiquem aí, e quietas. Vou preparar um lanche.

     Liqüidificador, leite, frutas, açúcar, será que Arthur gosta de vitaminas? Pressente as mãos fortes segurando o copo, a língua passando nos lábios... A perspectiva lhe dá um frio na espinha.”Preciso parar de pensar neste homem". - diz, quase em voz alta.

     - Que homem, mãe? Pergunta Cristina, chegando na cozinha.

     - Homem?

     - É. Você não falou "este homem?”

     - Eu? Não!... Falei comigo mesma. Pensava: "Será que eles comem?”

     - Comem o quê?

     - A vitamina, oras.

     - Ah, mãe. Vitamina não se come!

     - Deixa pra lá, vai! A mãe não está muito bem da cabeça. Você também quer um pouco?

     Regina repassa o apartamento para a noite. Os eletrodomésticos desligados, janelas fechadas, portas trancadas, luzes apagadas, as crianças dormindo. Amanhã voltará na seguradora e no advogado. Está completamente sem sono, nervosa, e resolve tomar um comprimido para dormir. Tinha passado um dia de cão, as imagens de Arthur e Renato se misturando.

     Na cama, abre os olhos. Arthur está ao seu lado. "Como entrou aqui?" - pergunta, silenciada com um beijo. Doces sensações a percorrem, acompanhando as carícias. Ele sorri com ar maroto e juntos pulam a janela do apartamento. Pegam o trem, um luxuoso expresso, sem rota definida. A fuga ao paraíso. Arthur, na cabine, retira peça por peça a roupa de Regina, que surge linda e nua, feminina e doce. Ele a beija, corpo inteiro, cada detalhe, cada seio, descendo os lábios...

     Descendo os lábios...

     Descendo...

     Des...

     - Mãe, acorde! Você perdeu a hora! As meninas já levantaram!

     - Hum? Cadê...

     - Pô, mãe. Isso é que dá ficar tomando remédio pra dormir! Vamos, hora de levantar. Tem hora marcada com o Dr. Arthur. Tia Rosa já tá aí esqueceu?

     -...Não...

 

     Arthur termina seu banho, joga a toalha sobre o Box, vai tomar café. Mais três horas, e a boneca de porcelana irá encontrá-lo no escritório. Na verdade, nada havia a tratar com a cliente, era apenas um pretexto para almoçarem juntos. Como?... Descobriria na hora!

     Ela sendo sozinha...

     Ele também...

     Iriam ao seu apartamento, pediriam uma pizza e...

     "Não, não ia dar. Primeiro, pelo caráter de conquista. Depois, o apartamento está uma bagunça! Ah seria tão bom chegar em casa, tudo arrumadinho, e a boneca de porcelana pronta para o amor!" Mas Regina não parecia mulher de ser amante de quem quer que fosse.

     "Casar!". E por que não? O solteirão mais cobiçado da cidade, um dia, teria que casar... Repassou mentalmente as últimas pretendentes. Com nenhuma delas seria mais que uma prisão. Mas Regina... Tão doce e calma... É, seria o colo macio de que precisava quando chegasse cansado do trabalho. E aquele corpinho?... Com certeza saberia cuidar de um homem e de uma casa. Seria ótimo não ter que ficar na dependência dessas malditas empregadas, que nunca se sabe quando vão aparecer. Pela primeira vez na vida... Arthur está cansado de fazer tudo sozinho.

     Horas depois, encontram-se lado a lado, almoçando. Ela, mais incomodada com as sensações do seu corpo, mantém os olhos semi-abaixados. Ele orgulhoso de sua estratégia. Tudo deu certinho. Primeiro, alegando precisar conhecer o local do acidente, conseguiu dispensar Rosa. Daí ao almoço, foi um pulo. Sentiu-se o próprio lobo. Ia pedir do bom e do melhor... Regado a muita bebida, claro!

     É um almoço cheio de reticências, de toques, ao início furtivo. Regina, confusa, mistura com a realidade às cenas dos sonhos que teve.

     "Não é possível que esteja interessado em mim, uma viúva pobre. Ah, meu Deus, o que devo falar agora? Não, eu não quero me envolver. Não faz nem dois meses que meu marido morreu e eu não posso estar sentindo tudo isso... sou uma mulher séria... ai, que olhos lindos, que corpo ele tem!... Será que vai me beijar?... Regina, você não pode! Eu não posso! Ah vamos, controle-se! Deus me ajude!"

     "O vinho faz efeito. Está corada, nervosa. Será que é hora de dar um beijo? E se ela se ofender? Impossível... do jeito que me olha, que me aceita! Ela também quer. Mais um pouco de vinho... o truque é velho, mas sempre funciona. Preciso tocá-la! Como fazer para que passemos a tarde juntos? Tenho uma audiência às quatro ... Merda, por que já não passei este compromisso pro Fábio? Tudo bem, dou um jeito. Ele que se vire. É agora. Seguro as mãos dela e espero...

     Duas horas depois, no quarto de hotel, Regina diria a si mesma o quanto aquilo tudo era uma arrematada loucura. Porém, tinha o direito de fazê-lo, nem que fosse uma única vez.

 

     Existem épocas na vida das pessoas em que anos sucedem anos sem que nada se modifique, cada coisa em seu lugar, fixa em raízes e tradições aparentemente imovíveis. De repente, os fatos vão se atropelando, uns após outros e de maneira tão vertiginosa, que antes que se possa pensar na atitude a tomar frente ao acontecimento, outros e outros se sucedem, até que se passa a viver cada dia com a mesma intensidade de um longo período de existência.

     É nisso, embora talvez não com essas palavras, que Regina pensa, rosto colado à janela, enquanto olha a chuva mansa. Renato cometeu suicídio. Um ano? Parece brincadeira... Vê o passado, marcado por acontecimentos importantes... Nesse ano, Regina casou. Naquele, nasceu sua primeira filha. Noutro mudou de emprego... E o que dizer deste? Renato suicidou-se, o seguro não foi pago, procurou um advogado. Apaixonaram-se e ela conheceu o segundo homem de sua vida. Uma caixa de anticoncepcionais vencida e... Oh, vergonha! A gravidez! Um casamento às pressas, a mudança de casa, a perspectiva de ganhar o dinheiro do seguro em pouco tempo. Adeus falta de grana, e seja bem-vindo um novo filho!

     Chamam a isso de "um ano?”

 

     A chuva é fina. O silêncio, total. As crianças estão na escola. Adquiriram rápida e facilmente novos hábitos. Arthur, ao contrário do que se poderia esperar de um solteirão convicto, dá-se otimamente com a criançada. O novo lar, espaçoso, num bairro elegante, com jardins e quintais. Tudo perfeito! Arthur separou um escritório, transformou-o em biblioteca, onde se esconde quando quer ficar só. As crianças respeitam como sendo sagrado, pois logo que sai de seu isolamento, Arthur vira menino entre eles.

     Regina acaricia de leve a barriga protuberante, não sabendo definir sua inquietação ante a nova gravidez. De todos os filhos, é o único que não desejara conceber. Entretanto, verdade é que sente como se amasse mais esta criança do que as outras. A felicidade deseja-a por igual a todas, mas, de alguma forma, este bebê lhe traz emoções profundas. "Será tratar-se de um sentimento de culpa por ter engravidado tão pouco tempo depois de viúva? Os amigos se afastaram, nem os parentes aceitam o que aconteceu. Só as crianças, estas se deram tão bem com Arthur!"

     Cogita a possibilidade de uma ligação kármica com o bebê. "Oras, isso é coisa da imaginação" - conclui, com enfado. Na realidade, considera um sentimento de gratidão. Depois da insegurança emocional e financeira pela qual passou com Renato, agora tudo é tão mais simples! A casa é enorme, linda! Todo o tipo de eletrodomésticos! As crianças em escolas particulares... E o quarto do bebê? Que coisa mais mimosa! Piscina no quintal, churrasqueira coberta... Roupas, cremes, empregados...

     Gratidão ou culpa?

     Regina decide dar o nome de Renato ao bebê, caso seja menino. Com jeitinho, fará Arthur entender que isto a deixa mais tranqüila em seus sentimentos.

 

                 PASSAM-SE 13 ANOS

     Cristina consulta o relógio, meio entediada. Final de tarde, está atrasada, perderá a primeira aula na faculdade.

     - Droga de cidade! - reclama em voz alta, ainda que apenas para si. É necessário andar prevenida... Às vezes, há quatro estações num mesmo dia... E fora de ordem!     Em casa, tem que se preocupar com a vigilância da mãe:

     - Cristina!? Vai faltar à aula!?... De novo?

     - Ah, mãe! Não amola! Essa droga de tempo esfriou, e olha a minha roupa! Como vou enfrentar quatro aulas com isso? - diz, apontando a camisa fina e bordada.

     - Então vá lá, troque de roupa. Mas rápido! O que não pode é ficar faltando deste jeito! Você não é mais uma criança, Cris! Já podia ter terminado essa faculdade! O que espera da vida, afinal?

     Acostumada às críticas, nem fica para o resto. Sobe para o quarto, escolhe uma blusa mais quente e se troca, enquanto Regina continua o sermão.

     - Responda: o que espera da vida? Suas irmãs são tão esforçadas, Rosana vai tão bem nos estudos, Sandra já está de casamento marcado... E você?... Vai ficar reprovando ano após ano?

     Cris já está de volta e procura a pasta para sair. Pela janela, avista um vulto no jardim.

     - Mamãe, tem alguém na porta.

     - Como? Quem é?

     - Não sei...

     Arthur, que estava tentando ler um livro na poltrona, adianta-se para atender.

     - Podem deixar - Abre a porta, perscrutando o rapaz à sua frente.

     - Pois não?

     - Gostaria de falar com o Dr. Arthur.

     - Sou eu mesmo.

     - Pediram-me que lhe entregasse esta correspondência. Poderia assinar o protocolo?

     Arthur assina o recibo e agradece. Quando fecha a porta, Cris e Regina olham para ele, curiosas.

     Dentro do envelope, apenas uma solicitação de comparecimento, marcando hora para o dia seguinte no quartel em que Rogério cumpre o serviço militar. Mais nada, nem um motivo, uma justificativa.

     - Por que a pressa? - pergunta Regina, assustada com o inusitado da entrega, e com o carimbo "urgente" no envelope.

     - Não se preocupe, querida. Rogério está revoltado. Talvez tenha aprontado alguma. Não deve ser nada grave.

 

     Arthur dirige-se ao seu escritório particular, quando passa em frente à biblioteca. A porta, aberta, revela Renato, absorto em um livro. Observa, orgulhoso, seu único filho. O garoto é diferente, esperto e bonito. Uma mistura do que há de melhor nele e Regina. Nunca dá motivos para queixas, ao contrário de seus irmãos, é sempre atencioso com a família. Renato... Só não havia gostado da idéia de pôr, na criança, o nome de um morto. Mas era compreensível: Regina sentia-se terrivelmente culpada por engravidar apenas alguns meses após a morte do marido. Foi como um gesto de respeito, uma homenagem... Ou, pelo menos, era o que havia entendido, e aceitou.

     Curioso com a concentração do menino, Arthur acerca-se, perguntando:

     - O que você está lendo? Parece muito interessante...

     - É um livro sobre significado dos nomes!

     - Significado dos nomes? Não é melhor ler histórias e aventuras?

     - Ora papai é muito mais interessante descobrir o significado dos nomes. Sabe o que quer dizer "Renato"? O renascido. Não é bonito? Sou o "renascido". - E olha para o pai, com uma expressão estranha.

 

     Arthur sente um gelo descer pela espinha, mas antes que possa responder, Regina aparece, chamando-os para o jantar.   O clima se quebra.

     Senta-se perto da esposa, ainda meio aturdido. Por um breve momento, Renato se mostrou tão... Tão adulto... Será que foi isso mesmo que viu? - sente um arrepio e olha para o filho meio desconfiado.

 

     O dia seguinte amanhece claro, o céu tingido por um único e contínuo tom de azul.

     Arthur chega cedo ao quartel, que encontra em plena atividade. Procura diretamente pelo capitão, conforme as indicações da correspondência. Depois de salas, informações e apresentações, está diante do comandante geral, e começa a ficar realmente preocupado.

     - Bom, Dr. Arthur, espero que o senhor compreenda as medidas tomadas em relação ao seu enteado.

     A voz seria capaz de intimidar qualquer pessoa, menos Arthur, já habituado a isso e mais curioso do que nervoso. Encara o interlocutor, que continua:

     - As medidas a que me refiro foram tomadas em observância ao regulamento interno. Por isso, independentemente da nossa certeza quanto ao cumprimento das providências legais, Rogério foi recolhido ao setor penitenciário do quartel.

     - Preso!?! Mas por quê? Que providências legais?

     - Creio ser tudo muito simples - recomeça o comandante, com ar dogmático. Rogério sempre esperou que o senhor o tirasse do quartel antes do prazo. Chegou-se a comentar o assunto. Quando teve certeza de que não conseguiria sair, procurou um jeito de se livrar, ou de nos agredir, não sei bem ao certo.

     O comandante faz uma pausa, e depois continua:

     - Mesmo para nós a atitude de Rogério foi uma surpresa. Ele parecia acostumado à rotina de caserna e, de repente, mete-se nessa encrenca. Sinto muito pelo senhor, sei de sua preocupação pelo futuro do rapaz...

     As várias voltas que o comandante faz na conversa deixam Arthur nervoso.

     - Comandante, seja lá o que for, pode me dizer logo! Sinto-me preparado para qualquer notícia!

     - Então iremos direto ao centro da questão...

     - Ótimo!

     - Rogério está preso por ter participado de uma arruaça e... - pára, dá uma volta nos calcanhares, sempre com as mãos cruzadas nas costas.    

     - E...

     - E também porque engravidou uma moça, e parece não querer assumir a responsabilidade do seu erro - sentencia, muito sério.

     - Foi prezo só porque engravidou uma moça? - Pergunta indignado. - Santo Deus! Era só me chamar. Não acha que está exagerando um pouco? Desculpe, mas...

         - Na realidade, fiquei sabendo desta gravidez, após uma briga do Rogério com um soldado. E essa briga se originou, porque um amigo parece que criticou o comportamento do seu enteado.

         Pára novamente um tanto irritado com a postura do advogado, afinal estava em terreno desconhecido, e ali quem mandava era ele. “Cretino”. Vai até a geladeira pega um copo de água procurando se acalmar.

         - Aceita? - Fala oferecendo o copo.

           - Obrigado, - responde Arthur também tentando conter o ar de arrogância do Comandante.

         - Obviamente, a moça também tem lá sua parcela de culpa - Continua o Comandante mais comedido. - Ela ainda é de menor, mas estamos no final do século vinte, e com certeza ele não será obrigado a casar-se, mas terá que assumir a criança. Se preferir, o senhor como advogado, poderá solicitar um exame de paternidade, caso haja dúvidas. Mas conheço a moça e tenho certeza que não está mentindo. Quanto o rapaz, terá que ficar detido mais três dias. Ele agrediu fisicamente um soldado, e respondeu brutamente a um oficial.

         Arthur não responde. Na verdade, estava preparado apenas para arcar com as despesas de algum abuso. Mas isso? Santo Deus, será filha de quem? A julgar pelos volteios da conversa, deve ser de algum oficial. Sim. Isso explica as medidas tomadas contra o garoto, a gravidade e a delicadeza da situação em que Rogério se meteu. É, só haveria uma solução: o casamento. Mas o rapaz tem apenas dezoito anos!

     O comandante, preocupado, observa as mudanças na expressão de Arthur, que nervosamente e a esmo dirige-se à janela. Dá um tempo ao advogado para pensar, aguardando as perguntas que certamente virão.

     Enquanto isso, Arthur remói: se for a filha de alguém de carreira, não fará nada para impedir o casamento. No seu devaneio, vê Rogério de farda oficial, braços dados com a noiva, desfilando sob espadas cruzadas, numa grande festa coberta pela imprensa. Nem tudo está perdido, afinal.

     O silêncio aborrece o comandante. Será que o homem vai ficar ali, na janela, a manhã inteira? Certo de já haver concedido tempo suficiente, investe:

         -Doutor, tente compreender. Rogério é um soldado e precisa de disciplina, não fico feliz com isso mas como já havia falado, só o senhor poderá resolver. Ele ainda é responsabilidade sua.

         - O senhor não se preocupe, comandante. Ele irá casar, sim. Vou providenciar para que tudo corra da melhor forma. Mas quero pedir-lhe um favor.

     - Pois não?

     - Gostaria de conhecer a moça... Agora - diz, já mal contendo a curiosidade.

     - Não deseja falar com seu enteado antes? - pergunta o comandante, estranhando.

     - Não, primeiro gostaria de me inteirar de todos os aspectos deste casamento, conhecer a moça, a que família pertence... O senhor sabe...

     O comandante entende. Prevê, inclusive, que a realidade será, para o advogado, bem mais difícil do que imagina. Enfim, para cada pessoa existe o seu problema, e não quer ele sozinho resolvê-los. Sem maiores comentários, indica a porta.

     - Acompanhe-me, por favor.

     Arthur o segue, divagando sobre quem será a moça, lembrando dos militares que fazem ou fizeram parte de seu círculo de amizades. Rogério é um menino de berço, um garoto inteligente. Não envergonhará nenhum oficial, e será bem recebido na família da noiva, apesar do incidente precipitando o enlace...

     Numa sala de reuniões, o comandante solicita que aguarde um momento.

         Ele volta a divagar. “Será que a tal moça está aqui? Não! Ele deve ter ido telefonar para comunicar a família sobre a minha visita. Onde será que moram? Aqui perto talvez? Um bairro bom”. Suspira, aguardando a volta do Comandante.

         Minutos depois, entra uma jovem de uniforme azul-claro, cabelos escuros, presos numa touca de renda branca, não muito alta. Conserva a cabeça baixa, olhos pregados no chão. Arthur não lhe dá importância, espera apenas que lhe sirva o café, que provavelmente está na garrafa térmica ao lado do filtro. Ela, entretanto, não se mexe, ali quieta, encolhida. Antes que o advogado se manifeste para modificar aquela presença incômoda, o comandante irrompe novamente pela sala.

     - Ah, você já está aí! - diz, dirigindo-se à menina. Pegando-a pelo braço, aproxima-a do atônito visitante, dizendo:

     - Hei-la!

     Arthur sabe estar sendo traído pelos seus pensamentos. Não se trata de ninguém importante, é uma servente!

     Analisando-a, repara no corpo bem feito, olhos claros e expressivos, rosto alvo e corado. Por alguns minutos, os olhares se cruzam.

     "Meu Deus, por que Rogério fez isso? Deve ter sido uma aventura, uma farra com os amigos. Só pode ser! Como vamos aceitar essa infeliz em nossa família? Que dirão os amigos? E Regina? Como vou contar isso a Regina? Não! Definitivamente não! Jamais consentirei neste casamento. Estamos no final do século vinte, não foi isso que o Comandante falou? Agora entendia claramente o porque de tantas voltas. E que só ele poderia resolver a questão. Já estava resolvido, nada de casamento. Que tal uma proposta de aborto? Não! Não! Isso seria estúpido demais. Eu mato aquele moleque”.

     Enquanto isso, ela encolhe-se ainda mais dentro do uniforme. Se Arthur pudesse - ou estivesse preocupado com os pensamentos dela, saberia de um medo imenso que a faz querer sumir dali. Suas pernas tremem, não obedecem. Este homem terrivelmente sério é só o pai, como será então enfrentar o resto da família? Ele é tão diferente do seu querido Rogério.

 

     Sandra sai do quarto, se espreguiçando numa careta.

     - Cristina, empresta seu carro? Preciso ver meu vestido de noiva. A costureira telefonou, ele está pronto para a prova.

     - Pegue, a chave está na mesa do telefone. E olhe lá, hein! Não deixe que o Heitor a veja provando o vestido, você precisa de muita sorte, porque casar com artista da TV, por si só, já é um grande azar!

     - Pô, Cris!

     Renato, atraído pelas vozes, aparece, não se importando muito com a discussão: era sempre a mesma.

     - Sandra, posso ir com você?

     - Você já fez suas lições de casa?

     - Ora, Sandra - interfere Cristina, com ar jocoso. Você já viu o Renato deixar algo para depois? Este menino é um exemplo de responsabilidade. Não é isto que mamãe sempre diz?

     Renato, indiferente ao comentário da irmã, sabe, melhor do que ninguém, que o prazer de Cristina é irritar a família.

     - Vamos, garoto, não ligue. Cris não gosta nem dela própria. A propósito, queria falar com você sobre aquele livro que tem os significados dos nomes. Gostaria de ver se fala algo a respeito de Heitor.

     - Ah, eu já vi, - fala com seu jeito calmo. - Só que os nomes não determinam o que a pessoa é exatamente.

     - Como assim? - Pergunta franzindo a testa.

     - À não sei bem, - junta os ombros, - Fico pensando se dá para acreditar no que os nomes representam, não parecem muito sério pelo que pude ler.

     - Seja lá o que for, não pode ser pior do que tudo aquilo que eu já estou ouvindo. Parece que todos têm reservas quanto ao meu casamento. Só que já me decidi, não me preocupo com mais nada!

     - Ora, Sandra, se é assim, por que quer saber?

         - Você é muito criança para...

         - Eu já sabia desta resposta, - diz brincalhão. - Acham que não entendo vocês.

         - O que quer entender a respeito do meu casamento com Heitor?

     - O porquê do seu casamento justo com ele. Você não confia nele e morre de ciúmes das pessoas com quem ele trabalha. Para mim, o fato de Heitor ser um artista num bom momento de popularidade é que influiu na sua decisão.

     - Ora, isso é besteira!

     - Você vai se casar sabendo exatamente como e por que sofrerá com isso, por causa do seu ciúme e da sua insegurança.

     - O que é isso? Sermão, agora?

     - Você está tentando provar para a Rosana, para a Cristina, para o pai e a mãe, que é superior a todo mundo.

     Sandra começa a se impacientar ao volante. Aquele pedaço de gente, tão novo, está indo bem dentro dos seus problemas. Rosana, sempre linda, é um sucesso nos estudos de jornalismo no exterior. Cris, embora não se destaque profissionalmente - sequer terminou a faculdade -, é, com seus problemas, o centro das atenções e preocupações. E ela? Nem grandes problemas nem grandes destaques. Fadada a ser o ponto neutro da casa, a tia calma e pacata. Então surgiu Heitor, o brilho, centro de convergência dos interesses. Por que não deveria casar? Estava incomodando porque, mesmo no papel da "boa moça comportada" começava a aparecer tanto quanto os outros na família?

     - Olhe, Renato, você ainda é muito novo para se meter nos assuntos dos adultos. Se quiser saber, vou me casar com o Heitor e está acabado. Pode tirar suas bobagens da cabeça. Tudo vai dar certo. Já conversamos e eu serei a esposa dele. Nosso amor será maior do que tudo. Ele vai dedicar um tempo da sua rotina só para nós e, juntos, vamos ser diferentes, uma nova vida. Continuará trabalhando como ator, claro, mas será o meu marido, somente meu, entende?

 

     - É, acho que...

     - Cresça primeiro tá?

     - Sandra...

     - Renato, eu gosto muito de você, muito mesmo. Essa mania de ficar questionando tudo é que atrapalha. Tem tempo! Quando você crescer, poderá fazer suas próprias escolhas. Agora, chega deste assunto!

     Renato estreita-se ao banco, contemplando pela janela. Na costureira, prefere ficar no carro, divagando. Seu coração se aperta quando pensa na Irmã. Costuma ser assim, quando pressente, como agora, as pessoas queridas próximas ao sofrimento. Começa a imaginar o desespero da situação, até que a angústia seja demais e ceda em presença da dor, propósito inquestionável para se pôr fim à própria vida.

     As sensações, não as pode evitar. De repente, a cidade, as coisas ficam mais familiares, como se vivesse ali há muito tempo. Lembra de ruas, lugares, gente que jamais conheceu ou visitou. Quando pensa em suicídio, a cena se apresenta tão real que parece ter acabado de acontecer. Regina se suicida, Rosana se suicida, Sandra, Cristina, Rogério, Arthur. No momento definitivo, quando o corpo se precipita, Renato se vê lançado na queda, experimentando a emoção viva, real, que sempre se repete. Não consegue falar disso com ninguém, nunca o menciona, sem poder definir se é um sonho mau, um devaneio renitente ou um presságio. De qualquer forma, já é considerado meio estranho. Ah, como sente a falta de um amigo!

     Sandra chega de surpresa, dando-lhe um susto. Entra animada, contando da roupa, falando dos preparativos da festa.

     - E vê se faz um pensamento positivo para Rosana vir ao meu casamento, você que é o garoto precoce da família. Afinal, faz dois anos que ela está no exterior. É bem hora de voltar.

     Renato expressa um quê de melancolia. Sem entender como, sabe que a irmã virá. E, pior, de uma forma não muito condizente para com os planos de Sandra. No momento, prefere calar. Precisa descobrir um meio de colocar em palavras as sensações que tem, para fazer-se ouvir, prevenindo a irmã, sem que pareça estar interferindo ou delirando.

     - Renato, você está quieto demais!... Está sentindo alguma coisa?

     - Não, nada...

 

     No quartel, o comandante aguarda, com dissimulada paciência, uma reação entre os opositores que se estudam.

     Arthur avalia de alto a baixo a moça, pensando: "Esta infeliz deve ter armado tudo para pegar Rogério, porque de longe se sabe que o menino vem de boa família. Será que pensa que vou sustentá-la? Ah, não caio nesta armadilha. Conheço esse tipo de mulher".

     - Como é o seu nome?

     - Ana - responde, cabisbaixa, num fio de voz.

     - Como? Não ouvi direito...

     - Ana, Dr. Meu nome é Ana.

     - Você não tem sobrenome? - pergunta, com desdém.

     - Tenho, sou Ana Maria de Jesus - diz rapidamente, querendo apressar o fim da tortura.

     - Que horror...

     - O que foi que o senhor disse?

     - Nada... Pode se retirar.

     Busca, no comandante, a aprovação que virá tácita e se volta para deixar a sala, quando...

     - Você trabalha?

     - Sim, senhor, na lanchonete Bom Apetite, no outro lado da rua.

     - É só.

     Ana sai, transtornada. Arthur é o contrário do que imaginava. Rogério, sempre tão alegre e atencioso, falava do padrasto de uma forma carinhosa, contrastando totalmente com o ódio e a revolta descobertos naquele homem - que parece querer destruí-la. Isto, provavelmente porque a descobre uma pessoa humilde. O que pensaria se soubesse de tudo sobre suas origens? Ela própria, com uma relação tão grande de parentes, saberia tudo sobre sua vida e a de seus pais?

     Arthur enfrenta Rogério, que obtém permissão para deixar o presídio do quartel, desde que sob a responsabilidade do pai, sem formular qualquer censura. Se disser uma única palavra, acabará precipitando uma discussão. O melhor é permanecer quieto, deixando o assunto para ser resolvido em casa, onde Regina saberá dosar os ânimos e encontrar os meios para contornar o problema.

 

     Sandra freia o carro diante do sinal fechado. Renato, como sempre, permanece calado. Ela se vê forçada a puxar assunto.

     - E o Rogério, hein, o que será que aprontou?

     - Não faço idéia. Sei apenas que não é nada muito sério.

     - Como sabe? É mais uma de suas espetaculares intuições? Por que não aprende a ler cartas de tarô, mano?

     - Por isso que não dá para conversar com vocês. Já vem brincadeira de novo.

     - Calma, calma. Paz, irmão.

     - O.k. E respondendo a sua pergunta, é intuição, sim. Quando penso a respeito, sinto Rogério com um problema simples, entende?

     - De qualquer forma, espero que não seja nada sério, mesmo. O pobre do Arthur perde a paciência com as coisas que o magoam. Ele nem é o nosso pai, mas posso garantir que é melhor do que se fosse o verdadeiro.

     Renato sente-se constrangido. Ele e as Irmãs procuram evitar o assunto "pai". Elas, por seus próprios motivos. Ele, pela estranheza que experimenta em relação ao fato, como se, se tratasse de algo recente, muito próximo e pessoal. Por isso, o assunto é contornado. Melhor deixar os mortos descansarem... Se é que, evadindo-se de tantos problemas e responsabilidades, ele conseguiria.

 

     Rogério entra em casa, seguido de Arthur. Regina, nervosa e preocupada, vai ao encontro do filho e o abraça.

     - Não sei se vai continuar se mostrando tão amorosa com seu garoto depois de saber o que ele arrumou.

     Regina percebe a raiva do marido, marcada com rugas expressivas entre as sobrancelhas. Percebe, também, a tensão entre pai e filho, compreendendo que a discussão ainda nem teve início. Tateando palavras, pergunta:

     - O que foi agora, meu filho?

     - Bom, mãe, eu falei com o comandante e pedi para fazer um curso no quartel. Quero seguir carreira.

     Arthur vai controlando o ódio. O garoto está indo aos pouquinhos e assim, ele sabe, Regina acabará facilmente conformada, sobretudo julgando Arthur muito severo. É necessário Regina entender que a menina é uma aproveitadora. Sem saber como interferir aguarda e observa o jeito de Rogério.

     Sem ponderar, Regina pergunta:

     - Mas, filho, foi por isso que o prenderam?

     - Não, mamãe - ele ri, abraça-a e responde: - É que terei que me casar, e meio logo...

     - Ainda não entendi, Rogério. Para seguir carreira não é preciso casar. Ou é? - Franze o cenho.

     Arthur, não mais suportando a simulação, irrompe, gritando:

     - Regina, o moleque engravidou uma caipira e...

         Rogério já sabia dessa reação, sabia desde quando se apaixonou por Ana, deveria estar preparado. Entretanto...

         Encostado na janela procurando uma resposta para aquele insulto do padrasto recorda como e onde conheceu Ana.

 

         Fora à lanchonete aquela tarde pela primeira vez desde que entrara no quartel. Sabia que eles serviam uns salgadinhos maravilhosos, e apesar do lugar ser um tanto simples, era também muito limpo e aconchegante. Tinha algumas características bem às avessas dos bares dos clubes que freqüentava, e isso de certa forma lhe chamou atenção. Estava ainda bastante magoado com o fato de ter perdido um ano de estudos, para se trancar atrás daquelas paredes frias. Sabia também que o padrasto se quisesse, poderia ter conseguido sua liberação do comprimento do dever cívico, mas não foi o que aconteceu. Com a desculpa que isso serviria para amadurecê-lo, como uma forma de castigo, deixou que as coisas seguissem seu curso normal. Não entendia o porquê. Afinal, era um rapaz um tanto opaco, sem grandes problemas, sem grandes resultados, além dos corriqueiros de adolescentes e a reprovação da sétima série. Mas agora já estava conformado.

         Ana se aproxima da mesa, com seu uniforme, e pergunta o que deseja.

         A voz era tão tímida, que mais parecia um sussurro. Mantinha o olhar sempre para o chão, como uma criança assustada.

         Rogério observa sem dar muita importância ao seu jeito encabulado, e diz:

         - Vim provar seus salgadinhos, disseram-me que são deliciosos.

         - Qual deles o senhor vai querer?

         - Estou aceitando sugestão, e também um refrigerante.

         A moça ri entre os dentes, e se retira de maneira apressada.

         Dois amigos se acercam da mesa, e começam a conversar banalidades, mas vez por outra, Rogério olhou para a moça simples, que de tão tímida, nem veio lhe trazer o pedido. Quem aparece é Reinaldo com ar um tanto sério:

         - Não quero intimidade com minha funcionária, conheço a fama de vocês.

         - Por favor! Eu se quer olhei pra ela? Poupe-me!...

         - Não ligue amigo, contemporizou um soldado. - Esse cara cuida mais dessa menina que a própria mãe dela. Qualquer gracinha e seu chefe vai ficar sabendo. Por tanto muito cuidado.

         - Nossa! O que esse cara é dela? Um amante ciumento? O pai? Porque a marcação serrada. Se ela ainda fosse uma beldade, mas trata-se de uma simplória, será que ele sabe quem eu sou?

         - Se acalme, filhinho de papai, aqui ninguém sabe quem é quem, por isso baixe esse seu ar imponente, não passa de um milico. Não importa se é pobre ou rico, está no serviço militar e pronto. E se for chamado para defender a Pátria, irá ser um herói, ou morrer como qualquer um.

         Rogério percebe o tamanho da asneira que acabou de falar, mas não há mas tempo para corrigir, de certa forma acabava se escondendo atrás da fama do “pai” o mesmo que as vezes odiava. Sente-se ridículo. Talvez por isso, aquela cena da moça pobre ficou martelando em sua mente, e no dia seguinte, lá estava ele novamente. Desta vez procurando ser amável e Cortez. Até que um final de tarde, ao sair do quartel, encontra-se por acaso com Ana, que apressada, dirigia-se para casa.

         Os cabelos soltos, sem aquela touca, calça jeans e uma camiseta comum revelava um corpo bonito, sempre escondido pelo uniforme barato.

         Ela o cumprimenta com seu jeito acanhado, e se apressa como quem não deseja conversa. Mas Rogério, sem se livrar do bom conquistador que era, a alcança.

         - Como é seu nome?

         - Ana, - falou com a voz sumida.

         - Você tem medo de mim? Fiz-te alguma coisa? Sei lá, me sinto péssimo com esse seu jeito de me evitar.

         - É que o senhor me olha de um modo estranho, fico sem graça. - Desculpe.

         - Não se desculpe, eu é que lhe devo desculpas, mas se lhe olho de modo diferente, é porque você me intriga. Sabia que é muito bonita, Ana!

        - Obrigada moço, mas eu preciso me apressar, se não chegar em casa as sete horas, minha mãe me tira o coro. Até amanhã.

         Rogério se detém até que ela ganhe uma certa distância “Até amanhã?” - pensa.

         No dia seguinte está abatido, uma discussão com Cristina lhe tira do sério. E para aumentar sua revolta, Arthur, lhe chama a atenção. Novamente sem motivo, ele não tinha nada que se meter nas brigas entres os irmãos, já eram bem grandinhos para resolverem suas diferencias.

         - Vou dormir no quartel essa noite, - fala e sai batendo a porta.

         Aquela tarde fica a espreita aguardando a saída de Ana. Ela era tão meiga, tão desinteressada. Será que se Ela soubesse que ele era rico, agiria diferente?

         Ela não precisava saber, afinal, a farda do Exército serve pelo menos para uma finalidade. Todos de cabeças raspadas, a mesma roupa, se ninguém contar quem é quem, todos parecem iguais. Jogaria com Ana, já estava cansado das meninas dos clubes e sociedades, que bastavam saber que ele era “filho” do Dr. Arthur, para caírem em seu pelo. Como seria flertar com uma moça pobre se passando por pobre também?

         Ana sai com a mesma calça e a mesma camiseta, era a figura da simplicidade. “Mas como era bonita!” Quantos anos será que tinha, onde morava, quem eram seus pais, será que estudava? Falava tão pouco que não dava para perceber seu nível escolar “.

         - Olá, Ana.

         Ele chegou de repente, fazendo-a se assustar, e dá um salto para trás.

         - Preciso falar com você, é cinco minutos só, eu estou me sentindo péssimo, e acho que só esse seu sorriso já bastaria para me aliviar a tenção.

         - Cantou bem, mas ainda está desafinado, moço.

             Ele riu, não era pra menos, fora pego de surpresa, ela não era estúpida, muito pelo contrário.

         - Isso não é uma cantada, acredite, é apenas um desabafo.

         Com algum tato, conseguiu sentar-se no bando de uma praça, e pensa. “O que Arthut diria se o visse naquela praça conversando com uma servente?” Ri:

         - Se meu pai fosse vivo, acho que as coisas seriam diferentes, - falou meio sem pensar, saiu apenas, - Gostaria tanto de tê-lo conhecido...

         Uma melancolia tomou conta do rapaz, fazendo-o baixar os olhos para o chão.

         - Você não tem pai? - perguntou compreensiva.

         - Não ele morreu quando eu ainda era criança, nem cheguei a conhecê-lo. Daí minha mãe casou-se novamente, e às vezes eu odeio meu padrasto.

         Ana via naquela revelação quase uma extensão de sua realidade, e sentia-se mais à vontade.

         Os encontros foram se seguindo cada vez mais freqüentes, Ana pensava que ele era pobre, e certa tarde o convidou para conhecer sua mãe.

         Rogério não queria iludi-la, sabia, que aquela moça simples, jamais seria aceita em sua família, mas não poderia negar que estava deixando-se envolver pela delicadeza dela. Sem hesitar aceitou o convite.

         A casa era simples, a mãe, uma figura comum, uns quarenta e cinco anos, meio maltratada talvez pela vida difícil. Mantinha o sustento da casa com o trabalho da filha e alguns salgadinhos que fornecia para as lanchonetes vizinhas.

         Recebeu o rapaz com tanta simplicidade, que ele sentiu-se à vontade. Gostou sinceramente da casa que apesar de humilde e sem muito requinte, mantinha o aconchego de um lar feliz.

         De volta ao quartel, não conseguia tirar Ana da cabeça. Resolveu desabafar com um amigo. E ficou sabendo o passado doloroso da dona Dolores. As recomendações são claras, que se mantivesse afastado, mas sua mente estava em conflito, seu coração dizia que não deveria dar ouvido a ninguém. Não conseguia falar com os familiares. “Talvez Renato, mas ele é uma criança?” - Não, estava e se sentia sozinho.

         Um pensamento lhe ocorreu. Tinha dinheiro, o dinheiro que o pai deixou, ficaria no exército, seguiria carreira, no fundo já estava se habituando a rotina, e, além disso, não precisava mais viver sobre as ordens de Arthur, escolheria a mulher que desejasse, sem necessitar a aprovação de ninguém. Contudo, era muito novo ainda para pensar em coisa séria, iria levar aquela paquera em banho frio, e se com o passar do tempo, aquele sentimento persistisse, assumiria Ana para sempre, ela no momento era a única coisa boa de sua vida. Adeus filha de empresários famosos, moças da sociedade, se ficasse com Ana, daria oportunidade para ela se tornar uma mulher tão maravilhosa e tão elegante quanto as outras que o cercavam, mas com uma diferença: ela não seria hipócrita, nem dissimulada, manteria sua simplicidade interior, pelos menos era com isso que contava.

         Mas numa tarde na casa de Ana, sozinhos, tomados de fortes atrações, acabam fazendo amor.

         E para sua maior surpresa, a moça era virgem. Sentiu-se um monstro, mas por outro lado, agora tinha certeza, Ana seria só dele, de mais ninguém.

         Quando ela descobriu que estava grávida, entrou em desespero, mas ele a acalmou:

         - Amo você demais Ana, ficaremos juntos, vamos nos casar, e seja lá o que Deus quiser. Sabia, entretanto as barras que iria enfrentar, e para deixá-la preparada, acabou revelando o seu verdadeiro mundo, o mundo dos ricos e poderosos, mas tentou acalmá-la, prometendo que a amaria acima de tudo e de todos. Apesar de saber que problemas viriam.

         Por esse motivo, quando um soldado, veio com brincadeira de que ele engravidou uma pobre coitada, filha de uma... Foi quase sem perceber que ele avançou contra o amigo, lhe deferindo um soco certeiro. O rapaz rolou pelo chão, e quando o oficial veio lhe chamar atenção, ele não hesitou em mandá-lo para o inferno.

         Foi prezo por isso, e agora teria que enfrentar um novo inimigo, mas daria um basta para que Arthur, jamais se metesse em sua vida.

 

         - Não fale assim dela, Arthur. Vai ser minha mulher. - retruca Rogério num tom tão áspero quanto inusitado. O rosto fica vermelho pela ira, - Não há conhece, por tanto me poupe de sua ironia.

     - Oras, eu a conheci! É uma pobre coitada! Precisa ver a cara da infeliz. Morta de fome, não sabe nem falar, um desastre!

     Rogério, com um ar dissimulado responde:

     - Pai, você tem razão em estar desconcertado assim, bem como à senhora, mãe. Mas aquela "morta de fome", como você disse, só é pobre. E eu bem sei o quanto você os despreza.

     Arthur silencia. Espera uma reação qualquer da esposa, que não vem. E, feita a pausa, Rogério continua:

     - Não quero ofender ninguém, mas sei que se a Ana fosse filha de um oficial você não estaria transtornado assim.

     O padrasto não responde. Não o poderia.

     - Vocês me prometeram que, se ficasse no quartel até o final do ano, me dariam um carro de presente, porque esta era a minha prova de maturidade, lembram?

     - O que eu quis dizer naquela época foi...

     - Calma, pai, não me interrompa, por favor. Não agora. Eu sei que me precipitei. Vocês podem acreditar, o que aconteceu entre mim e a Ana não foi proposital, para magoar. Nem para apressar a saída do quartel. Eu gosto dela, sinceramente. E se o senhor não fosse o todo poderoso Dr. Arthur, perceberia que a Ana é uma boa moça, bonita, meiga, inteligente, que só precisa de alguns cuidados para se transformar numa mulher tão digna de freqüentar nossa casa quanto qualquer outra.

     - Ora, muito bem, engraçado mesmo! Faço você conviver com a nata da sociedade, freqüentar os melhores clubes e as casas das mulheres mais bem nascidas, e você quer comparar uma balconistazinha de lanchonete de bairro com gente do nosso nível.

     - Arthur, aceite o fato, eu não quero casar com um sobrenome importante, mas sim com uma mulher que escolhi porque amo! O que estou tentando pedir é só que, ao invés do carro do ano, você me dê o dinheiro ou parte dele para eu usar na compra de um apartamento. Pode ser alguma coisa pequena, eu não estou atrás de luxo.

     Arthur afunda a cabeça entre as mãos. Regina assiste, muda, sem saber que atitude tomar, ou o que falar. Sentindo que o pior parece ter passado, Rogério continua:

     - Meus amigos do quartel estão dando uma ajuda para reformarmos e adquirirmos o básico da mobília. Até termos um lugar para morar, continuo no quartel.

         - E por isso você bateu num soldado? Só porque queria lhe ajudar? Como explica sua prisão? Vamos quero ver o que vai inventar desta vez.

     

         - Bati em um soldado, pai, porque ele ousou chamar a Ana de “pobre coitada”. O Comandante sabia disso, não sei porque não lhe falou. Ao invés disso, ficou tentando lhe jogar contra mim e toda a nossa família. E parece que conseguiu. Se tiver alguma dúvida, vá verificar com seus próprios olhos, mas desta vez, entre no meio dos soldados, não fique protegido no gabinete do Comando. Precisa se misturar mais com pessoas humildes antes de criticá-las.

         Arthur está nervoso, não sabe se sente ódio, ou orgulho pela nova atitude do rapaz. Procura um lugar no canto do sofá e escora o queixo com a palma dá mão.

         Regina, timidamente, arrisca sua primeira pergunta, tão baixo, que até duvida poderem ouvir:

     - Vocês pretendem casar quando?

     - No próximo mês. Vocês não precisam ir, não quero fazê-los passar vergonha - diz, suspirando. Estou ciente do que fiz, e não me arrependo. Vou continuar estudando e seguir carreira militar.

     Rogério encara Arthur, com enfado, e completa:

     - Dentro de algum tempo, Ana será esposa de um oficial, já que não conseguiu ser filha.

     E abandona a discussão, contrariado, indo-se recolher no seu quarto.

 

     Cristina, alertada pelo tom das vozes, havia-se aproximado, presenciando toda a briga sem ser notada. Depois, silenciosamente atravessou a cozinha e dali, pela porta dos fundos, ganhou a rua.

     Caminhando lentamente em direção ao seu barzinho preferido - um boteco de esquina, duas quadras adiante de casa, onde pode ficar horas fazendo coisa nenhuma, jogando papo fora com o pessoal jovem do bairro -, Ela sorri, ironicamente, encontrando no tratamento dispensado à noiva de Rogério marginalização idêntica à que a persegue; a exigência velada de que abra mão de sua maneira de ser e omita seus problemas em favor da aparência de uma vida feliz e estável. Como se fosse fácil esquecer problemas! E eles nem imaginam quais a oprimem! Apenas pelo seu jeito, desconhecendo sua verdadeira personalidade, estavam sempre tão preocupados. Imagine se...

     No bar, pede uma cerveja, bate os cabelos jogando longe os pensamentos negativos. Concentra-se na história de Rogério. Conhece o irmão. Desde os quinze anos é notório paquerador e tem excelente gosto para mulheres. Assim, duvida que a tal Ana seja horrorosa como o padrasto faz crer. Adora ver o centro dos problemas deslocando-se para outra pessoa. E uma idéia muito interessante começa a se formar na sua cabeça.

     Novamente em casa, vai ao encontro do irmão:

     - Rogério - chama, diante da porta entreaberta do quarto.

     Ele, momentaneamente absorto num livro, levanta a cabeça e, embora estranhando, convida a irmã a entrar.

     - Algum problema? - Pergunta desconfiado.

     - Sim e não. Uma idéia.

     - Não entendi nada...

     - Bom... Eu estava na cozinha, querendo assaltar a geladeira, quando você e Arthur chegaram.

     - Ah...

     - Não era minha intenção, mas vocês não foram nem um pouco discretos se queriam guardar segredos!

     - Ninguém está fazendo segredo. Apenas, como você já observou, meu casamento não está sendo muito bem aceito.

     - A moça é pobre, não é?

     - Isto o Arthur não consegue engolir. Mas é justo a simplicidade dela uma das coisas que eu mais gosto.

     - Quem sabe eu possa ajudar um pouco. Ensinar a se vestir, a se comportar, o que falar, enfim, o essencial que dá aquela primeira impressão de educação.

     Rogério silencia, matutando a idéia. Cristina continua.

     - Quem sabe, posso ajudar comprando o vestido de noiva... Já que o casamento é inevitável...

     - Ah, Cris, obrigado. Estou surpreso que seja você, a durona, a solitária, quem me trás a primeira palavra de apoio. Vou apresentá-la a Ana, para conversarem. Mas esqueça o casamento e o vestido de noiva. A cerimônia será no quartel, entre amigos, e só trarei Ana para cá quando ela estiver mais segura e preparada.

     Rogério encara a irmã, para que entenda seus sentimentos e também como aviso, caso ela esteja planejando alguma brincadeira.

     - Gosto muito dela. Não quero que seja deixada de lado. Um dia a trarei a esta casa e em hipótese alguma, quando isto acontecer, poderá ser humilhada.

     - Pois conte comigo!

     Trocam um aperto de mão cúmplice. Cristina, que detesta jogar conversa fora em família, considera o assunto pactuado e sai.

 

     Na manhã seguinte, Rogério deve voltar para o quartel. Regina acorda cedo, disposta a conversar com o filho. Arthur e Cristina acabam tendo a mesma idéia e, contrariando o hábito, a mesa do café está cheia. Renato, aprontando-se para a aula, estranha tanta companhia.

     - Quando vai nos apresentar sua noiva? - pergunta Regina, inconformada por não ter uma oportunidade a sós com Rogério.

     Cristina antecipa-se ao irmão:

     - Que tal no casamento de Sandra?

     - Que noiva? - interfere Renato, desconhecendo a história.

     - Não acredito na possibilidade, mas agradeço o convite.

     - Por que não? - retruca Cristina, sorrindo. Por causa da lua de mel?

     Renato pressente o clima de hostilidade, sem conseguir entender nada pelos fragmentos da conversa leve, em contraste com a expressão sisuda de Arthur. Tenta questionar:

     - Mas quando é que...

     - Ah, Renato, não incomode! - proíbe Cristina. Depois te contam o que aconteceu!

     - Mas se Rogério vai casar, por que não estamos comemorando e planejando a festa, junto com a de Sandra?

     O silêncio é geral. Com a observação de Renato, apenas Rogério sorri. Aproveitando o momento, engole a última torrada e levanta-se.

     - Bem, gente, agora tenho que ir. E não se esqueça, pai, - diz, dando uma palmadinha no ombro de Arthur - aquele apartamentinho, bem pequeno, hein?

     Ao se retirar, o silêncio ainda incomoda. Só Cristina solta uma gargalhada, dizendo:

     - Vocês estavam prontos para almoçar o Rogério e ele papou todos. Desculpem - conserta, ante a recriminação unânime, porém não se importando realmente com isto, - é que tudo é muito engraçado!

     Arthur fita Cristina com severidade, tentando faze-la calar o que considera uma maneira grosseira de tratá-los. Mas ela aproveita para provocá-lo mais uma vez.

     - E daí, doutor? Vai dar o apartamento pro rapaz ou vai bancar o pão-duro?

     Visivelmente irritado, o padrasto tem ganas de dizer umas verdades. Mas consegue se controlar. Não é o momento de responder tais coisas. Apenas completa:

     - Cris, nem que eu quisesse castigar Rogério, poderia. Ele tem direito à parte da herança. Só o estava aguardando concluir o serviço militar para entregar o que administro. O que me entristece é que seja feito desta maneira, para ajudá-lo a casar-se com uma morta de fome.

     - Arthur, controle-se, por favor - pede Regina, indicando Renato.

     - Rogério ainda é muito novo - continua, medindo as palavras. Quando eu me casei com a mãe de vocês, ele só tinha quatro anos... Lembra, Regina? Era o menino mais chorão que já conheci... Como poderia imaginar que aos dezoito anos, vejam bem, ele só tem dezoito anos...

     Renato tem um sobressalto. Absorto em seus próprios pensamentos havia perdido em parte o rumo da conversa. No entanto, ante a referência aos dezoito anos do irmão, dá um grito e pergunta, bastante assustado:

     - Dezoito anos? Ele vai morrer? Hein?

     Arthur, impaciente, responde irritadiço a mais essa bobagem do filho. Para ele, a mania de Renato de inventar complementos a observações não formuladas é uma falta de circunspecção. Que fique mais atento às conversas!

     - Quem vai morrer? Estou falando do seu irmão.

     Porém, a fixação com a morte obceca Renato.

     - Papai, não o deixe morrer. Faça alguma coisa!

     - Quer largar de besteira? Quem diabos falou em morte?

     Confuso, misturando fatos e pensamentos, Renato vê a hostilidade da casa voltando-se agora contra ele, no que resolve ir para a escola, deixando rapidamente a mesa.

     - Precisamos levar este menino a um psicanalista. Não agüento mais!

     - É o jeito dele, amor. Renato sempre foi uma criança diferente...

   "Lá vem mamãe pondo panos quentes em tudo" - reflete Cristina. "Será que ela sabe que Renato vê fantasmas? Falam tanto de mim, mas na verdade esta é uma família de doidos!”

 

     A manhã é clara, radiante. No quintal, os passarinhos brigam, disputando o arroz jogado nos pratos sob as árvores. Cristina respira fundo, o ar fresco a renova por inteiro.

     Volta a pensar em Rogério e Ana. Está certa de que, se a moça conquistou seu irmão, é porque tem potencial suficiente para ser uma "dama", como diria Arthur, com o peito inchado. A grande dúvida é se aceitará participar de uma aventura dessas. Mas, por Deus, quem não gostaria de ser uma "Cinderela"?

     Não tem dúvidas quanto a conseguí-lo. Talvez por ser a mais velha, talvez por ter sentido tanta revolta com o casamento da mãe, ela percebe, passo a passo, todas as diferenças entre ser filha do vendedor e enteada do grande advogado. Sofre as exigências impostas ao seu vestuário, as restrições no vocabulário, as ingerências da etiqueta, os limites da dita boa educação. Percebe, com clareza, que mesmo para ela é surpreendente como as pessoas fazem questão de mostrar o seu lugar no mundo, olhos altos no horizonte, empertigadas, sensualidade edificada sobre saltos altos.

     Pessoalmente, detesta o que classifica como esnobe, embora não consiga precisar o limite em que isso a afeta, pois se há momentos em que odeia tudo, em outros o dinheiro permite acessar prazeres muito bem vindos. E como intrusa vive meio abandonada, à margem da sociedade que freqüenta.

     De qualquer forma, ninguém melhor credenciado para coordenar a transformação em Ana. Primeiro, é necessário baixar dinheiro das aplicações bancárias. Roupas, acessórios e freqüentar determinados lugares é fundamental e custa caro. Depois, saber exatamente o que Ana possui de bom, bonito e elegante, e o que tem de ser feito, corrigido ou escondido.

     Pega o casaco, puído pelo uso. Mil vezes Regina pediu que o trocasse por um mais novo. Novo? Não. Este já tem identidade, história, não é coisa de se jogar fora. E por que deveria vestir-se como "todo mundo de bem?” Sempre foi a ovelha negra, a irresponsável, sem qualquer juízo!

     "Não, isso é mentira" - reflete, com uma ponta de saudades, enquanto se contempla no espelho. "Quando papai vivia, eu era a sua predileta. Ele me ouvia, achava graça no que dizia, aprovava minhas opiniões". O espelho devolve a imagem de uma mulher alta, rosto corado, dentes perfeitos, enfim uma mulher que não passava despercebida e, por outro lado, alguém que, mesmo em silêncio, parece gritar sua angústia, e cujas atitudes mais freqüentemente agridem do que agradam àqueles a quem ama.

     Acostumado a essa aura agressiva, até o gerente do banco estranha quando, algumas horas mais tarde, Cristina entra sorridente na agência. Rafael, que atende pessoalmente a conta, não resiste à tentação do comentário:

     - Parece muito feliz hoje! No que posso ajudar para manter este belo sorriso?

     Cristina procura disfarçadamente em volta, enquanto responde ao cumprimento. Certa de que nenhum conhecido está no banco neste momento, diz:

     - Vim buscar dinheiro. Vou precisar de uma razoável quantia em minha conta.

     - Quanto?

     - O suficiente para transformar uma caipira numa dama - ajunta, brincalhona.

     Rafael inquire, perplexo, aquela jovem demasiado bonita, de cabelos dourados e olhos castanho-claro, quase verdes. Seu sorriso, tão raro quanto encantador, faz titilar sinos ao redor de quem o recebe. Enfeitiçado, o gerente atende seus pedidos, com o propósito único de agradá-la, sem questionar motivos. Inteirando-a do resultado dos investimentos, orienta no saque dos valores disponíveis e faz os respectivos depósitos. Entregando os recibos da operação, conclui:

     - Aqui está, disponível, a quantia de que necessita. Boa sorte. E não esqueça este sorriso por aí, OK?

     - OK. Obrigada.

 

     - Bom dia, comandante. Meu nome é Cristina Bertine. Gostaria de ser apresentada a...

     Antes que completar a frase, o comandante interrompe.

     - Você é irmã do soldado Bertine, certo?

     - Sim.

     - Ele me avisou da sua visita. Queira me acompanhar, por favor.

 

     Arthur, aborrecido com as notícias do quartel e de Rogério, que mudaram sua rotina, encontra refúgio em seu escritório. O quarto em mogno escuro, decorado com sobriedade, reflete o advogado sério e bem sucedido que o idealizou. De frente a uma parede inteira de livros, foi instalada a poltrona de braços, confortável e convidativa, e a mesinha de luz com mil apetrechos. E ali ele deita, olhos semicerrados para o pôr do sol, no local e horário prediletos em que o homem encontra a si mesmo.

     Assim, Regina, Rogério e sua própria família se misturam, novas e velhas lembranças mesclando-se. Talvez seja a crise de meia-idade. Segundo muita gente, trocam-se sonhos do futuro pelas divagações do passado.

     Vê claramente o rosto de dona Valdete, e procura acalmar a mente conturbada nos fatos de sua vida. Retorna no tempo até os seus 26 anos, recebendo a notícia da gravidez de sua mãe. Para quê mais este filho? Tinha, já, outros dois irmãos, Osmar, com 21, e Valdir, de 17. Dona Valdete dizia-se sozinha, queria uma criança para companhia, porém era de idade avançada e constituição delicada. Arthur sabia dos perigos da gestação, dos riscos do parto e da possibilidade de nascer uma criança excepcional. Mesmo assim, ela engravidou, começando a agir como recém-casada.

     Arthur não conseguiu aceitar o que considerou uma irresponsabilidade. As brigas tornaram-se freqüentes e, naquela época, também dona Valdete começou a ter problemas de saúde.

     Como não fazia sentido continuar interferindo na vida e nas decisões dos pais, embora lhe revoltasse ver a mãe naquele estado, grávida e adoentada, resolveu sair de casa. No ano anterior, havia terminado o curso de direito e estava mesmo com muita vontade de "meter a cara", sem ajuda do pai. Dona Valdete ressentiu-se com o desfecho da situação, mas houve como resolver o dilema. Arthur foi para o interior do estado, a convite de uma empresa fundada por ex-colegas da universidade, para abrir seu primeiro escritório, rumo à independência total.

     Meses depois, o nascimento, trazendo complicações no parto. Angustiado, seu João procurou apoio nos filhos. Osmar e Valdir foram para o hospital, mas Arthur aproveitou a distância, a falta de tempo e o trabalho para opor-se à dura tarefa de, para ele, ver a mãe.

     Lembra, ainda, com remorso, ter pensado, na época: "Que Deus ajude minha mãe e me perdoe, mas não posso ser conivente com uma situação que sempre reprovei".

     Com o tempo, compreendeu haver tentando sufocar seus sentimentos, no que defendeu sua posição como a uma questão profissional, coisa, para ele, até não muito difícil, dado o caráter estudado e meticuloso com que costumava se empenhar no trabalho. E, com dona Valdete, agiu da mesma forma. Para seu maior desespero, intimamente sentindo-se culpado pela própria indiferença, veio a informação da morte de sua mãe. Apenas a criança, um menino, sobreviveu. Perturbado e profundamente atingido, entendeu ser aquela a primeira grande tragédia da sua vida. De uma só vez, ruiu todo o autocontrole que imaginava solidamente plantado. E sai como louco estrada afora, em rumo à cidade e ao enterro.

     Ao chegar, estava descontrolado. Longe de respeitar a dor dos irmãos, avançou sobre o pai, responsabilizando-o pela fatalidade. Osmar e Valdir acudiram a situação, separando os dois. Arthur, sem falar coisa com coisa, acabou tendo que ser medicado para se acalmar.

     Depois, sentado à entrada da capela, anteviu o caixão de madeira preta, sem coragem de entrar. Revezando pensamentos bons e ruins, foi embora, tomando o caminho de seu escritório, de sua nova cidade. No carro, muito cansado, lembrou que sequer viu ou perguntou do recém-nascido.

     Seu João tentou, sem sucesso, entender o filho. Sempre teve um comportamento irreprovável, meio turrão às vezes, porém nunca perdeu o controle. As acusações, um amontoado de asneiras, e só. Mas as demais pessoas, inclusive Osmar e Valdir, questionavam apaixonadamente as reações de Arthur. Seria uma forma de sentir a morte da mãe? Culparia a criança? Ninguém conseguiu entender realmente.

     Tantos anos passados e ainda hoje, ao relembrar os fatos, seus olhos se enchem de lágrimas. Nunca retornou à casa paterna. Quando a saudade apertava, visitava seu João no escritório, levando como pretexto uma dúvida numa causa judicial. Seu João, também era advogado. Arthur ficava algumas horas conversando, pesquisando. Nesse meio tempo, de forma discreta, pai e filho informavam-se como ia a vida de cada um. Este foi o único meio de se pôr ao par com a família. Os irmãos o haviam procurado. Arthur os tratou com tamanha frieza que não mais voltaram.

     As coisas se complicaram quando seu João informou que iria casar novamente. A noiva era ex-cliente do escritório, de nome Carolina, no máximo uns trinta anos, solteira. Passava-se apenas um ano do falecimento da mãe!

       Por mais que seu João explicasse que nutria somente um grande carinho por Carolina, e precisava de alguém para cuidar da casa e do bebê, a idéia o repugnava. O pequeno Cláudio, tão carinhosamente referido pelo seu João... Por causa dele sua mãe morrera! Por causa dele seu pai casaria novamente!

     Em vão, Arthur procurou Valdir e Osmar, para impedir o casamento. Ambos apoiavam o pai. A briga, inevitável, resultou no rompimento com a família.

     Se, por um lado agora entende os motivos do pai, por outro jamais conseguiu controlar a aversão pelo garoto e a madrasta. Sabe, sempre soube, que Cláudio e, por extensão, Carolina, só lhe trariam problemas.

     Cláudio, ninguém lhe explicou os motivos, mas, com sua viva sensibilidade, sentiu a rejeição e distanciou-se também. Longe de apagar, os anos acentuaram, em ambos, uma poderosa antipatia.

       Por ocasião da morte de seu João, a família voltou a se reunir. Cláudio, com l5 anos, observou as mudanças em Arthur após o seu casamento. Durante a longa noite de vigília, os dois conversaram frente a frente e descobriram aquilo que já sabiam: o entendimento era impossível. Além da antipatia, alimentavam maneiras diferentes de encarar a vida. Cláudio defendia um conceito liberal e individualista que conflitava com os preceitos tradicionalistas de Arthur.

       Aos pés de seu João, a seu modo, Regina e Carolina criavam esperanças em contrário, acreditando ser possível, um dia, o convívio entre os dois.

       Muito tempo foi preciso para que, afinal, voltassem a conversar. Arthur não esquece o diálogo travado, cada palavra proferida.

     - Cláudio, sei tudo sobre você. Eu só estou tentando ajudar.

     - Não preciso da sua ajuda! Aliás, nunca precisei. Sei o que vai dizer. Por que isso agora? Nunca tivemos nada para falar. Eu sou a ovelha negra da família e me orgulho disso, sabia? Sempre me senti um intruso e isso graças a você. Não quero seus conselhos. Vá para o inferno.

     Arthur, descontrolado, agrediu Cláudio, que evitou enfrentá-lo, limitando-se a fitá-lo, semblante carregado de ódio e uma nítida promessa de vingança.

     Apesar de serem lembranças, sente os fatos como reais. O rosto de Cláudio é extremamente vivo em sua mente. Sentado na biblioteca pára, reflete sobre Rogério... Os pensamentos voam em sentido muito diverso!

     Pela janela, vê Renato, no jardim, brincando com pedrinhas. Sente-se feliz pela criança. É um menino especial.

   De repente, se afasta, pegando outra pedra mais longe. Arthur olha curioso, procurando entender a brincadeira. À distância, percebe que Renato está escrevendo algo. Com esforço, consegue ler: "Cláudio voltou". Tem um choque. Antes que consiga emitir um som, Renato, num movimento rápido, desfaz o jogo.

     Tudo acontece rapidamente e, por um momento, Arthur acredita ter sido ilusão.

 

     Cristina revê a cunhada no casamento, uma cerimônia simples e íntima. A decoração na capela do quartel é parcimoniosa e a música vem de um disco. A família, Cris sabe que Rogério nem a notificou. Ela própria só estava presente por insistir. O motivo da ausência dos parentes da noiva desconhece-o. Os convidados se limitam a alguns amigos de farda, animados com a idéia de, mais tarde, tomar uma cerveja em comemoração.

     Começa a marcha nupcial. Entra a noiva. Cris observa-a detalhe por detalhe, do cabelo ao jeito de andar. É inegável a felicidade que irradia do rosto de Ana e se reflete no de Rogério. De comum acordo com o noivo, Ana preferiu manter-se, até o dia do casamento, sem nenhuma mudança. Queria esquecer a cara de Arthur até término da lua-de-mel. Só daí, enfrentaria as dificuldades impostas pela sua realidade.

     Cristina avalia a noiva, nitidamente satisfeita. Estava certa quanto a Ana: só precisava de cuidados. Em silêncio, rezou para que um dia também ela tenha essa felicidade. Sem que o percebam, sai no meio da cerimônia, indo encontrar-se com sua uma amiga, Vera.

 

     - Mãe, cheguei!

     - É você, Sandra? E então? Conseguiu terminar os convites?

     - Até que enfim! Puxa, a gente só percebe quanta gente conhece, tendo que passar dias e dias engolindo cafezinhos para distribuir convites.

     - E o buffet? Tudo certo?

     - Não.

     - Por quê?

     - Ah, mãe, vou precisar de sua ajuda - diz, esparramando-se na poltrona. Aquela bruxa que organiza os cardápios não aceita nenhuma das minhas sugestões. Se é só ela quem sabe o que é bom, então por que pedem pra gente escolher?

     - Ainda dá tempo de escolher outro buffet, - fala sem dar muita importância, sabia o quanto a filha era insegura.

     - Nossa, lembrei de uma coisa!

     - O que foi, agora?

     - As flores!

     - Quais?

     - Quero um arranjo de flores naturais para o meu buquê.

     - Mas você não tinha escolhido aquele com flores brancas e rosas? - pergunta a mãe, lembrando desapontada as quase duas horas que Sandra levou para se decidir pelo tal arranjo. Até a organizadora da festa já estava ficando irritada.

     - Mudei de idéia.

     - Então vai ter que se virar sozinha, pra mim chega.

       "Parece que esta casa fica cada vez mais vazia. - pensa Regina com um logo suspiro. - Rosana, na América, sem mandar notícias”. Bem próprio dela, balança a cabeça.” Rogério faz visitas rápidas, nem dando tempo para matar a saudade E a tal moça, como é o nome? Ana... O que houve? Será que se casaram... sem avisar? - novamente o sentimento de culpa que sempre a seguia tenta invadir sua mente. Encosta-se ao lado da geladeira com olhar tristonho prostrado ao chão. - Se não tivesse casado-se com Arthur, como seria sua vida hoje? Procura uma refratária no armário num gesto meio automático, enquanto divagar.- Depois da discussão com Arthur... Não, meu filho não faria isso! Sandra também está casando. Vai embora, ganhar o mundo. Ficamos nós. Arthur, eu, Cristina, mais ausente que presente, e Renato, meu tesouro. É, dona Regina, você está envelhecendo. Vão-se os filhos... virão os netos. Como será ser avó?"

     O barulho do carro indica a chegada de Arthur.

     Sandra e Renato também entram, comentando detalhes da festa.

     Final de noite, todos se entretêm com os presentes de Sandra e preparam a lista de agradecimentos.

     Renato mantém-se à parte, com um daqueles inexplicáveis pressentimentos. Ao invés de alegria, nota uma certa tristeza na irmã. Para quem está às vésperas de um casamento por amor, pode jurar que a vê infeliz.

     Além disso, sente o ar carregado, tenso, como se, de repente, os sons diminuíssem de volume e a atmosfera ficasse mais densa, num prenúncio de tempestade, ou a voz das pessoas se tornasse mais estridente...

     Todos o criticam nestes momentos. Dizem ser portador de maus fluídos dado que, sempre que seu lado premonitivo se manifesta, inevitavelmente acontece alguma coisa, provocada pelos seus agouros. Mas não se trata disto. Como explicar? É apenas o receptor e não o agente das fatalidades.

     De súbito, o telefone inicia seu chamado irritante. Arthur atende e, aos poucos, vai levantando o tom raivoso das palavras prende a atenção de todos.

     - Esta festa é da minha filha. Não admito pessoas que não foram convidadas.

     - Arthur? - diz Regina em voz baixa, adivinhando o que se passa.

     Pausa no telefone, e ele grita:

         Pelo amor de Deus, não apareça! Você vai estragar a festa. Eu já avisei, não vou permitir a sua entrada entendeu? - e bate o fone contra o gancho, saindo irritado, remoendo um ódio incutido.

         Sandra não se contém e pergunta para a mãe:

         - Nossa! Não conheço ninguém capaz de tirar Arthur do sério. Quem será que ligou?

     Renato, vendo confirmados seus pressentimentos, comenta:

     - Ele ficou pálido. Vocês notaram? Deve ser alguém que ele odeia!

     - Quem poderia ser? Um cliente do escritório? - Questiona Sandra.

     Imersa em pensamentos, querendo acalmar os filhos, mas cheia de vontade de conversar com o marido, Regina diz, saindo:

     - Um cliente não iria querer ir ao seu casamento. Temo que seja mesmo algo pessoal.

     Renato e Sandra se entreolham. Ambos tem cara de ponto de interrogação.

     Depois, no quarto de casal e à porta fechada, Regina confirma suas piores impressões. Arthur, chutando uma cadeira, desabafa:

     - É o Cláudio, não quero que ele vá a festa, não tem nada a fazer lá. Nunca veio à nossa casa, agora de uma hora para outra, resolve se aproximar! Não acha que só está querendo me afrontar? - Fala Arthur irritado.

     - Gostaria tanto que vocês se entendessem... - diz Regina buscando o roupão. - deixe que ele vá, que mal poderia nos fazer? Precisa ser menos intransigente. O fato de você não aceitar o modo de vida do seu irmão, não é motivo para odiá-lo tanto.

     - Não quero pensar, não quero falar mais sobre isso, e, não quero que ele compareça na festa. Tenho meus motivos, acho melhor você ficar fora disso, não quero que se aborreça.

         Regina deslocada fica sem saber o que dizer...

 

         Ao amanhecer do "grande dia", a vida pulsa na residência de Arthur. Os preparativos da festa tinham adentrado a noite anterior, e agora, apesar de cedo, a casa desperta para os cuidados pessoais dos familiares.

     O alvoroço tem seus motivos. Afinal, a enteada do mais eminente advogado da cidade contrai núpcias com Heitor, um requisitado artista de TV. Há dias, repórteres telefonam, perguntando sobre tudo: roupas, presentes, fofocas...

     Embora imaginasse o rebuliço, Sandra não está preparada para enfrentá-lo. Assim, ao acordar, é uma noiva extenuada, irritada e presa de um nervosismo que beira o mau-humor. Na metade da manhã, ninguém consegue segurá-la quieta. Cristina, na terceira vez que a irmã entra em seu quarto para verificar as roupas da festa, explode:

         - Quer fazer o favor de se acalmar? Você só vai casar e não ser condenada à morte!

         - Ah, Cris, estou tão nervosa. Parece que não dá nada certo. A cabeleireira está atrasada. Eu queria arranjar um tempo vago para ir até a igreja e verificar se a floricultura preparou os arranjos do jeito que eu pedi, e...

         - Pelo amor de Deus!   Explode a irmã irritada. - A mãe tem razão, como você pode ser tão insegura? A troco de quê, contratou uma empresa para fazer tudo, se não confia em ninguém? Como imagina manter esse casamento?

     O alvoroço continua. As visitas e os repórteres se misturam no vaivém de esteticistas, manicuras e cabeleireiras. A perspectiva é de uma festa sem precedentes na sociedade local.

     À noite, a igreja está toda iluminada e decorada com rosas e mosquitinhos misturados a camadas e camadas de tule, em laços. Ao fundo, um quarteto de cordas executa temas de Bach. A medida em que se aproxima a hora da cerimônia, a imprensa, as fãs de Heitor e alguns curiosos acorrem ao local. Não é difícil reconhecê-los. Grupinhos de meninas recém-saídas da adolescência, com mini-saias risadinhas nervosas, misturam-se a marmanjos enfiados em jeans velhos e camisetas com dizeres. Eles, em sua maioria, não entram na igreja, ficando por ali, apenas.

   A chegada de Heitor causa um pequeno tumulto, abafado pelos seguranças contratados, que, enérgicos, porém contidos, impõem ordem e escoltam a entrada do noivo. Há quem procura furar o cerco, na esperança de um último beijo e um autógrafo nos derradeiros momentos de Heitor solteiro. Em vão. Arthur havia dado ordens expressas, que foram seguidas à risca: ninguém se aproxima.

     Minutos depois, é a vez de Sandra enfrentar a multidão.

         Sempre imaginou a sensação de fama algo delicioso. Mas não é. Agora tem certeza disso. Estranhos metem a cara nos vidros do carro e são empurrados pelos guardas. A salvo nas escadarias, ela dá uma última olhada para aquele mundo de gente do outro lado. Parecem aguardar que tropece ou algo parecido. Há uma expectativa no ar, uma falta de privacidade, um precisar sem fim corresponder a uma imagem. Trata-se da noiva de Heitor! Vai-se transformar na mulher de um ídolo da TV. Em todo lugar será a mesma coisa, as pessoas curiosas sobre seus assuntos mais íntimos. E se fugisse, fosse embora, esquecesse o casamento? A idéia é tentadora.

     Arthur acerca-se de Sandra, pega-a pelo braço e passa a conduzi-la, sem perceber a hesitação que a tortura. Ela, confusa, deixa-se levar. A medida em que avançam identificando rostos conhecidos, amigos, vai também se controlando. Diz a si mesma: "Hoje é o dia mais importante da minha vida! Não posso me esquecer disso. Hoje eu começo uma nova vida, diferente, ao lado do homem que amo... Hoje!"

     E sustenta seu sorriso mais bonito a Heitor, que a espera no altar.

 

         Na saída, mais um tumulto criado pelas fãs desesperadas na tentativa do último adeus. Os seguranças se espreitavam para conter o assédio, mas parecia que aquilo não ia ter fim.

         Sandra sentia-se exposta, enquanto o marido ria, transbordando felicidade. Parecia ser o único dono da festa. Um ar entristecido cobria sua face. Não era a ela que aquele bando de gente queria, e sim ao seu amado. Apressa-se para o carro, na tentativa de livrar-se de tudo aquilo e ter o marido só para si.   Mas as surpresas mal começaram.      

         No salão de festas do clube, o movimento é grande antes mesmo da chegada dos noivos. Como é habitual, os grupinhos de amigos vão-se formando aqui e ali e Regina, excelente anfitriã, passeia ao lado do marido, cumprimentando e vistoriando tudo.

       Neste instante, chama-lhe a atenção à presença de uma das convidadas. Porte sério, dignidade expressa no olhar e elegância nos trajes deixam evidente tratar-se de pessoa da sociedade. "Que moça bonita..." - pensa. Antes que consiga indagar a respeito, Rogério surge, sorridente, enlaça a desconhecida pelos ombros e caminha em direção aos pais. Eles ainda precisam atravessar o salão e Regina tem o tempo justo para, discretamente, dirigir-se a Arthur:

       - É aquela jovem que você disse ser era uma caipira?

       Ele procura, com os olhos, o casal, sem ter dificuldades em encontrá-lo. Estão bastante próximos. A custo, reconhece Ana. "Não é possível! Até anda direito de salto alto!” Tem o orgulho ferido demais para concordar com a esposa, especialmente depois da ironia. De qualquer forma, não há tempo para retrucar.

       Enquanto Rogério faz as apresentações de praxe, Cris, atenta, procura por Sandra. A expressão pasma de Arthur frente à elegância e a meiguice de Ana compensam todo o esforço. Horas de treino de postura, entonação de voz, etiqueta e os cuidados do cabeleireiro num bom corte, estudar a maquiagem mais adequada, roupas e uma infinidade de etecéteras. Agora, orgulha-se do que é, para ela, uma criação própria. Assim, Sandra precisa ficar sabendo da presença de Ana.

       - Olá! - diz, Cristina, chegando por trás dos noivos - Tenho uma surpresa.

       - Já conhecem a mulher de Rogério?

       - A caipira? - fala Sandra debochada.

       - Isso mesmo, está aqui. Venham!

       Puxa a irmã pelo braço, tentando transpor o amontoado de gente, que pareciam não ter fim, mantinha um sorriso estampado no rosto, o estereótipo da Cristina normal. Cumprimentava os convidados de maneira estilizada, e debochada. Agia de maneira tão sinistra que até Heitor estava inseguro. Mas ela continuava com o seu sorriso dissimulado. Parecia divertir-se com toda a situação que ela mesma criou. Evidentemente, a cunhada ficaria lhe devendo um favor. “Cobraria na ocasião certa”. - pensou.

       Sandra toma Heitor pela mão e segue Cris. Quando Ana vira-se para cumprimentá-la, sente um choque. A moça é linda! Ela, Sandra, a noiva feliz, tinha que ser a pessoa mais bonita da festa. Tinham lhe dito que Ana era uma caipira feia. E aí está!

       A raiva é ainda maior quando Heitor, apresentado, troca um sorriso cúmplice com a cunhada, como se já se conhecessem.

       Para Cris, é visível a dificuldade da irmã em manter o sorriso. Também Ana parece mais relaxada depois de encontrar Heitor, mas o fato é aparentemente natural, posto ele ser muito simpático, sem dúvida.

       O que importa, na verdade, não é o cunhado e sim a vitória, a surpresa de Arthur, a raiva mal contida de Sandra... Ana, seguindo à risca as instruções recebidas, transforma-se na sensação da noite.

       Uma festa é uma festa. E Sandra sabe disso. Com esforço, tenta superar o choque e cumprir seu papel de anfitriã. Diz ao casal:

       - Que bom que vocês vieram. - segura o braço de Heitor. E você, Ana, como está? Venha, quero ter a honra de apresentá-la a nossos amigos.

       Saem os quatro. Ana, sempre de mãos dadas com Rogério, mostra-se inteiramente à vontade.

       Garçons servem aperitivos, uma pequena orquestra anima os convidados, alguns casais começam a dançar. O clima se descontrai.

       Pouco mais tarde, Sandra pede um instante aos músicos, a fim de conduzir os convidados ao buffet. Neste exato momento, entra Rosana, deslumbrante, num vestido preto, justíssimo, cujo corte ousado é disfarçado por um blazer de linhas amplas em amarelo vivo. No mesmo tom dos sapatos altos. Os cabelos, longos e soltos. Distribuindo sorrisos aos conhecidos, dirige-se à irmã, a quem abraça efusivamente.

       - Sandra, parabéns, desejo-lhe muitas felicidades. O vôo atrasou e não consegui vê-la na igreja, desculpe... Ah, você está linda!

       A última observação de Rosana serve para acalmar Sandra. Definitivamente, esta é a noite das surpresas.

       O cumprimento a Heitor, é um tanto reservado.

       - Cuide dela, meu caro, e muitas felicidades para os dois.

       - Rosana! Graças a Deus você chegou, já estava preocupada, - fala abraçando a filha. - Você me prometeu que chegaria para o casamento, aconteceu alguma coisa?

       - Não, mãe, apenas rotinas normais, estou aqui, não estou? - responde com seu jeito dissimulado, sem perder o ar de arrogância.

         A pesar da felicidade pelo retorno da filha, Regina sentia-se aflita, criara todos os filhos com o mesmo carinho e amor, entretanto, nem todos seguiram os mesmo princípios. E quando pensa no gênio de Rosana, se questiona sobre onde teria errado, para que afilha se revelasse tão egoísta, ingrata, e de personalidade tão forte. A volta de Rosana seria problema na certa. Recorda o quanto ela e Cristina brigavam e se desentendiam o tempo todo. De repente com uma pontada no peito e um grande sentimento de culpa chegou a desejar que Rosana não ficasse no Brasil. Já se sentia cansada pelos dias tumultuados que com certeza viriam. Não podia estar pensando isso da própria filha, mas sabia também o quanto Rosana não tinha limites.

       Rosana vira-se para Arthur, com um ar enfadonho:

       - Boa noite, doutor!

       - Como foi de viagem, menina?

       - Bem. Tudo em ordem. Você parece abatido. Muitos problemas com a festa?

       - É, isso cansa um pouco. Mas a felicidade de Sandra compensa o esforço.

       - Hum! - ela fala juntando os ombros - será mesmo? Pega no braço da irmã - Vamos dar uma volta, quero que conheça uma pessoa.

       - Alguém especial?

       - Ah, sim, um gato que conheci na entrada. Ainda não sei quem é, não quis entrar, disse que não foi convidado.

       - Se não foi convidado, o que faz aqui?

       - Acho que adivinhou que eu viria.

       - Que estranho! Bom, vamos conhecer o "gato" e convidá-lo a entrar.

       Arthur, atento ao bate-papo, nitidamente preocupado, interfere:

       - Como é esse rapaz em que você está tão interessada?

       A cobrança não é habitual no padrasto e Rosana se surpreende.

       - É um rapaz moreno-claro, alto, corpo atlético, cabelo curto... Um "gato” entende? Uma raridade...

       Arthur nem a deixa completar a descrição.

       - É ele! Ah, eu sabia. O desgraçado quer me afrontar!

       Rosana olha para Cristina meio estupefata, sem entender. A simples curiosidade pela atitude tão bizarra e agressiva quanto gratuita de Arthur mistura-se na cabeça das duas.

     A complicação aumenta quando Cristina acrescenta, banalmente:

       - Mas que mistério explosivo.

     Arthur está a beira de uma exaustão, o suor começa a verter na testa e deslizar sobre o rosto. Regina se aproxima tentando evitar o escândalo que seria quase inevitável. Ainda não entendia direito o porque Cláudio resolveu aparecer justamente naquele dia. Se desejava se aproximar, porque não foi procurar o irmão no escritório. Estaria mesmo fazendo aquilo com o único objetivo de afrontá-lo? Não queria que os convidados percebessem o clima tenso, nem tão pouco preocupar Sandra, já tão insegura. Com um sinal um tanto discreto, chama atenção de Rogério que se aproxima assustado pela fisionomia do padrasto.

 

       Mãe e filho esforçam-se para acalmar Arthur, que, sem dar-lhes ouvidos, anda de um lado a outro, respirando com dificuldade. Somente aos poucos o semblante se desarma. É hora de voltar à festa.

       Rosana, a pretexto de cumprimentar Rogério, se aproxima de Ana. Haviam comentado deste casamento maluco nas cartas. Falavam de uma moça pobre, caipira, e aqui está no mínimo o oposto.

       Rogério se afasta para buscar uma bebida, e Rosana se apressa em, sem piedade, ferir a cunhada.

       - Então você é Ana, a famosa Ana. Pois olhe, minha querida, agora que já fomos apresentadas, vou esclarecer uma coisa: eu não confio em você. Como acabo de conhecê-la, posso estar errada. E Deus ajude que sim, pela felicidade do meu irmão. Ou você não vai gostar nada de ter-me conhecido!

       Vira as costas e deixa Ana sozinha, aturdida.

       Regina tem tempo de observar o final da cena. Sem dúvida, Rosana não podia deixar ninguém em paz.

       Passada a agitação do jantar, Rosana resolve espairecer um pouco nos jardins, que reforçam inúmeras recordações da infância. Após o casamento da mãe, um mundo novo se abriu. De um lado, a casa grande, para onde haviam mudado, cheia de quartos e tapetes. Do outro, o clube, trazendo amigos, colegas, depois confidentes e muitos namorados.

       Caminha entre os canteiros de flores, perdida em devaneios, comparando as diferenças dos lugares por onde andou.

       Está absorta nisso quando o encontra.

       Ele está logo adiante, perto das piscinas.

       Ela atem-se ao porte altivo, à maneira orgulhosa de olhar para os demais.

       Ele, muito bem vestido.

       Ela repara no terno claro, de um tecido rústico, desses linhos grossos que parecem feitos sob encomenda.

       Ele é alto, talvez um dos homens mais altos da festa.

       Não está sozinho. Dialoga, com interesse frio, como quem tenta interessar-se pelo assunto, por educação.

       Só então Rosana percebe Cristina. Será que Arthur tem razão? Foi realmente ela quem o trouxe? E quem afinal era ele?

       Um dos traços de sua profissão de jornalista - a curiosidade - é determinante. Nem por um único segundo hesita em se fazer apresentar.

       Cristina recebe-a sorrindo. Rosana compreende ter chegado tarde. É uma convicção íntima, intuitiva, de que a conversa tinha sua importância, descontadas as aparências, e, agora que está ali, enveredam por assuntos triviais.

       Mesmo assim, não é mulher de retroceder.

       - É você o pivô daquele tumulto que Arthur fez a pouco, não é?

       Cláudio e Cris trocam sorrisos dissimulados e cúmplices. Hesitante, ele resolve arriscar:

       - Estávamos pensando em um plano que permitisse me aproximar do meu irmão. Gostaria de saber se posso contar com a sua ajuda ou, em último caso, com o seu silêncio.

       - Irmão?...

       Relembrando, ouviu falar dele tão poucas vezes que chegou a duvidar de sua existência. E heis que, de repente, surge assim imponente. Pensa rápido: ajudá-lo, além de soar altruísta, tem a vantagem de poder aproximá-los. Arde-lhe a curiosidade de investigar acerca deste sujeito diferente e insinuante.

       Rosana ensaia uns passos em torno do casal, depois fita Cláudio com um ar malicioso:

       - Gostaria de ajudar, mas não sei o motivo da briga.

       - Sem perguntas - ajunta, sorrindo ironicamente.

       Intimida, Rosana dá de ombros, comentando apenas:

       - Ok. Vou descobrir de qualquer jeito. Você não me conhece...

       Vera, amiga de longa data, surge à procura de Cristina, com uma possessividade que a irrita. As duas discutem baixinho e voltam para o salão.

       Rosana, perdida no olhar enigmático de Cláudio, tateia em busca de um assunto comum. Deste modo, envolvidos um pelo outro, não percebem Renato, em uma de suas crises de angústia, passando pelas sombras em direção à saída do clube e, de lá, ganhando a rua.

 

       Contrastando com o clima pesado da festa, a noite parece incomparavelmente fresca. O céu, limpo de nuvens, revela mil pontos brilhantes. A rua, e mais adiante a pracinha estão vazias. Renato caminha escutando o som dos próprios passos.

       Súbito, tem a impressão de que alguém o chama, como uma voz partindo de dentro de sua cabeça. Aconteceu outras vezes, toda vez que...

       Olha em volta e, finalmente, o vê. O vulto já conhecido, velho, barbudo, cabeludo, roupas muito largas, apoiado ao tronco de um ipê.

       Já se viram outras vezes. Sempre assim, o pressentimento, e então ele está ali, perto e longe ao mesmo tempo. Não tem nada a ver com o mundo de Renato, que agora se decide a conhecê-lo. Existe uma forte atração entre ambos, algo que reflete no menino um misto de medo e fascinação, como se estivesse em presença de um sonho.

       - Por que a tristeza? - pergunta, conciliador.

       O menino desabafa tudo que o oprime, suas tentativas frustradas de ajudar as Irmãs; de ser tratado sempre como criança, em especial quando quer conversar sobre o que sabe do sofrimento dos outros, da certeza de poder evitar tantas coisas se fosse ouvido...

       O velho ouve em silêncio, desenhando arabescos no pó da calçada, às vezes, faz curtas observações e deixa Renato falar, abrir o coração, vazar as tensões e angústias causadas pelo seu dom incompreendido pela família.

       Mais tarde - quanto tempo teria se passado? Alguns minutos? Horas? - Renato termina de falar, reconfortado. Sentindo-se estranhamente leve, pergunta ao velho:

       - O senhor também me acha louco? É por isso que me segue?

       - Não, meu filho. Entendo perfeitamente o que sente. Este é meu motivo.

       - Por quê?

       - Não importa. Gosto de você. Sei que está sofrendo porque... Porque é uma pessoa diferente. E também por isso é difícil encontrar alguém com quem conversar, não é?

       - Tem razão... Quem é o senhor?

       - Sou um amigo. E você sabe como me achar sempre que for preciso - diz, tocando a cabeça de Renato no ponto exato em que "pulsa" o pressentimento, a voz interior que costuma ouvir.

       - Agora vá, alguém já deve ter sentido a sua falta.

       - Ainda quero conversar com você sobre Cristina. E também sobre Rosana, ela trouxe confusão. Vou descobrir mais, depois aviso!

       E corre em direção ao clube.

 

       Tarde da noite, grande parte dos convidados se despede. Arthur, preocupado com o sumiço de Renato e Rosana, procura um ponto estratégico de onde possa vigiar o salão e ao mesmo tempo os jardins do clube. Para sua surpresa, descobre Rosana e Cláudio, entretidos em longo bate-papo. Fora de si, lança-se rumo ao casal. Regina percebe, porém sem tempo de impedi-lo.

       Pouco depois, Rogério vem encontrar-se com a mãe.

       - Já vai, meu filho?

       - Ana não costuma ficar acordada até tão tarde. - diz, abraçando-a carinhosamente.

       - A festa foi muito agradável, dona Regina. Obrigada pela acolhida tão gentil.

       - Ora você é parte da família... - fala, meio constrangida, ao recordar a maledicência que cercou aquela união.      

       - Mãe, onde foi Arthur? Não o vi em lugar nenhum.

       - Ele... Bem... Ele saiu...

       - Foi embora?

       - Não... Não sei.

       - Como assim?

       Regina hesita um momento. Depois, prefere confiar ao filho as suas preocupações.

       - Bem... É que Arthur suspeita que Cláudio, aquele irmão com quem não se dá muito bem, tenha vindo à festa. Durante toda à noite ele andou preocupado com isto. Ao que parece, Rosana o descreveu como alguém que lhe chamou a atenção lá fora. Uma paquera dela, você entende...

       - E daí? O rapaz apareceu?

       - Não... Bom, eu não o vi, mas Arthur acaba de sair apressado depois de ter visto algo pela janela.

       - Então era esse o motivo daquela confusão?

       - Não sei... Temo que Arthur apronte um escândalo.

       Em vista das circunstâncias, Rogério resolve investigar, junto com a mãe, delegando a Ana a tarefa de fazer as honras da casa.

       - Primeiro, negam a minha existência. Na hora do sufoco, acabo eu respondendo em nome da família! - diz Ana, entredentes, acreditando não estar sendo ouvida.

       - Pois é... - ajunta Cris, que se aproximava. A situação está mudando.

       Duas horas mais tarde, finda a recepção, nem Arthur nem Renato haviam voltado.

       Regina cobra satisfações de Rosana.

       - Mas você não o viu mesmo?

       - Não, mãe, eu e o Cláudio ficamos conversando no...

       - Já sei! Não estou perguntando do Cláudio! Estou preocupada com o seu pai. Aliás, se não fosse o Cláudio, nada disso estaria acontecendo. - Você minha filha, mal chegou e...

       - Já sei o final da história, não sei porque tanta cisma! Ele é uma ótima pessoa. Ele...

       - Gente! - contemporiza Rogério - calma! Vamos raciocinar.

             - Calma mãe. Renato também não voltou. Quem sabe estão juntos.

       - Juntos, como?

       - Oras, talvez tenham ido para casa, conversar. Esqueceu que não é longe? Vamos para lá, se eles não estiverem, telefonamos para a polícia, hospitais... Todo lugar...

       - Acho a idéia ótima. - concorda Rosana - Está resolvido.

         - Graças a Deus, Sandra havia saído antes - fala Regina enquanto segue para o carro em companhia das filhas.

         Rogério e a esposa vão logo atrás, precisavam ter certeza que estava tudo bem antes de seguirem para seu canto.

         A casa ficava a uns quinhentos metros do clube, mas aquela distância nunca pareceu tão longe para Regina, que cansada e aborrecida pelos últimos acontecimentos, se mantinha calada.

         Apenas Rosana arisca um comentário infeliz, de o quanto Cláudio era gentil, até ser interrompida por Cristina, que de maneira nada cordial, a manda calar a boca.

         As luzes da garagem, bem como da sala, estavam acesas, mas isso não significava nada, foi assim que havia ficado quando todos saíram. Precisavam entrar para saber se existia ou não alguém em casa.

         Ao entrarem, encontram os dois sentados, meio alheios, como que se despertassem de um sonho. Não conseguiam explicar direito porque saíram da festa. Entretanto não há, em lugar algum qualquer indício de farsa ou brincadeira. Há, sim, uma certa vibração, aquele tipo de exaustão que costuma ficar materializada no ar, nas coisas, depois de uma revelação profunda.    

       Entreolhando-se, entendem que não é hora de perguntas. As despedidas são frias, desajeitadas, apressadas. Rogério e Ana saem pela madrugada, de mãos dadas. Os demais sobem para os seus quartos.

 

       O sol vai alto, quando Arthur se levantou. Apesar de todas as horas de sono, sente-se cansado, abatido.

       Por um instante, aquieta-se, escutando os barulhos suaves e costumeiros que vem do banheiro da suíte: Regina em sua toalete matinal. São ruídos familiares, pontinhos que abrem e fecham, roupas agitadas com gestos enérgicos, água escorrendo das torneiras.

       As impressões o ajudam a repor os fatos recentes: "Santo Deus, que festa conturbada!" - pensa, num esforço.

       A porta do banheiro abre. Regina veste um roupão de cetim e rendas, longo, champanhe, que realça sua beleza meiga e madura.

       "Sempre bonita e, pensa, os anos parecem não passar para ela".

       Ele pode sentir que Regina está preocupada, pelos seus gestos precisos, presos de uma delicadeza forçada, característicos dela quando quer abordar um assunto e tem dúvidas sobre como fazê-lo. Aguarda as perguntas que vêm, embora possa adivinhá-las.

       - Acho que precisamos conversar...

       - Sobre ontem?

       - Sim... Acho que deve uma explicação.

       - Querida, eu mesmo não sei explicar direito o que aconteceu. Durante a festa, tive, antes um pressentimento, e depois da chegada de Rosana, quase certeza, de que aquele verme do Cláudio cumpriria a promessa, aparecendo para estragar a recepção.

       - E, então você o viu?

       - É... Não.

       - Sim ou não?

       Arthur suspira, profundo...

       - Não sei. No final da festa... Rosana conversava com alguém. Não dava para ver direito, sei lá!

       - Então você saiu sem pensar em nada.

       - Queria apanhá-lo. Você sabe, se eu pedir para ele não comparecer é porque a presença dele me incomoda.

       Regina aguarda o restante da história:

     - Bem, - continua, - mais tarde Rosana voltou para o salão, sozinha. Encontrei Renato em pé próximo ao portão com os olhos fechados, e ao sentir minha presença, abriu os olhos e...

       - Por alguns segundos tive a impressão que não era ele.

       - Como?

       - Não sei explicar direito, é difícil... Foi como se Renato tivesse influência sobre mim. Ele começou a falar, tinha a voz tão calma, pausada. Esqueci Cláudio, a festa, fomos caminhando para casa. Não, minto - disse, passando a mão na testa -, na verdade, conversamos a respeito disto e ainda outras coisas. Ele me ouvia como a um amigo e sua presença me acalmava. E também me falava, parecia alguém da minha idade... Eu só tenho certeza de uma coisa: não era Renato. Ou melhor, a fisionomia dele era diferente. Eu o reconheci... Era alguém que eu já tinha visto... Não sei bem aonde. Na cidade, talvez em uma foto, revista. Mas a cara dele não era a do nosso Renatinho.

       Regina não faz nenhum comentário, sem saber se acreditava na história ou se Arthur havia tido alguma alucinação. Afinal, ele estava estranho na noite anterior...

       - Só depois que vocês chegaram é que fui me dar conta do tempo... E antes que você diga que estou ficando louco, quero lembrar uma coisa: Eu não sou de beber. Mas ontem...

       - Eu sei.

       - É, eu me descontrolei.

       - Tudo isso se explica. - Responde Regina, compreensiva -. Não se preocupe, Diremos que você se sentiu mal e ninguém vai perguntar mais nada.

       - Sim, é melhor... Regina?

       - O que?

       - Você acredita em mim?

       Ela sorri, dá-lhe um beijo na testa:

       - Eu acredito em você. Renato é uma criança incomum e você é um homem admirável, sensível. Tudo é possível.

       - Regina...

       - Sim?

       - Eu te amo...

 

       É quase meio dia e Rosana continua pensando em Cláudio.

       Nunca tinha conhecido um homem assim: alto, culto, belo. Simpático, mas reticente. Falaram-se horas, e nem assim Rosana conheceu-o melhor. Nada soube de sua vida pessoal ou dos problemas que envolviam Arthur. Quando as perguntas esbarravam nestes assuntos, ele sorria, fazia-lhe elogios e mudava o rumo da conversa.

       Consulta o relógio, pega o telefone. Precisa pensar em outra coisa. Liga para um velho amigo, André. A conversa é rápida, amena e alegre. Marcam horário para o final da tarde.

       Desliga satisfeita. André tem uma posição de destaque na direção de uma importante revista de variedades. É o contato ideal para um emprego lucrativo.

       Joga-se na cama, com estardalhaço.

       "Como reagiria Arthur se soubesse de todo o seu interesse em Cláudio?"

       - Com quem você está falando, Heitor?

       Ambos se olham, irritados. Heitor, displicente, num roupão atoalhado, conversa ao telefone quando a pergunta inesperada de Sandra ressoa no quarto. Chega a perder o fio da conversa. Pudera! Ela não tinha saído para fazer compras?

       Sandra amofina-se consigo e com o marido. Há cerca de vinte minutos, tinha saído. Oh, distração! Esqueceu o dinheiro. E, voltando, encara sua primeira decepção: Heitor telefonando para uma de suas inúmeras "amigas de profissão", como as costuma chamar. Ele ainda estava deitado quando ela saiu! Será que precisa falar de trabalho antes mesmo de ir ao banheiro?

       Enquanto com nervosismo teatral, Sandra vai pegar a carteira, Heitor desliga o telefone. Ela repete a pergunta:

       - Com quem você está falando?

       Ele suspira, desanimado:

       - Você não disse que ia demorar um pouco? Faz só alguns minutos!... O que foi? Está desconfiada?

       - Estamos em lua-de-mel...

     - Vai ser difícil vivermos juntos se você não confiar em mim. Você conhece meu ritmo de vida.

       - Mas hoje? Nem hoje pode deixar seus compromissos? Não dá para cuidar deles quando voltarmos? Por Deus, estamos em lua-de-mel, que diabo!

       E ela sai novamente, batendo a porta, tempestuosa, deixando Heitor sobremaneira irritado.

       Tudo está saindo diferente do que imaginou. Heitor, que idealizou um homem apaixonado, está distante. Nos primeiros dias, ficava horas falando do seu trabalho, demonstrando mais interesse por ele do que pelo futuro do casal. Acabaram assim os longos papos, surgindo um silêncio incômodo. E desde ontem, cada minuto em que ela não está olhando, ele está ligando para alguém. Diz que precisa se manter informado sobre as gravações.

       Nas entrelinhas, Sandra entende que a lua-de-mel, uma exigência exclusivamente sua, poderia atrapalhar-lhe a carreira.

       "Ele não está apaixonado. Sua carreira é mais importante do que eu”.- Pensa, quase chorando.

       As palavras de Renato sobre a loucura de ciumenta como é, casar-se com um homem famoso, ecoam em seus ouvidos.

       Na porta do hotel, indecisa do caminho a tomar, quer fugir para qualquer lugar onde tenha a certeza de ser amada. Ah, se esse lugar existisse!

     Olhando de um lado e de outro, nota um senhor de idade, cabelos e barbas compridos, roupas surradas, mas limpas, que atravessava a rua, olhando-a fixamente.

     Um carro em velocidade. "Cuidado!" - grita, e o velho se esquiva no tempo exato, vindo cambaleante para a calçada. Sandra pergunta se está bem. Mais algumas pessoas preocupam-se com ele, que tenta se recompor.

     - O senhor está melhor?

     - Sim, senhora. Obrigado.

     Ela o observa, curiosa. Existe algo estranho nele, que não consegue especificar. Vai olhando, indagando e, de repente, os dois estão conversando como grandes amigos. Caminham juntos e, em dado momento, ele pergunta:

     - Sua expressão é tão triste... Não deveria estar feliz?

     - Porque o senhor acha que eu deveria estar feliz? - Responde, meio sem jeito, pois poderia jurar que aquele homem sabia mais do que ela imagina.

     Ele ri, dizendo:

     - Não é difícil adivinhar quando uma pessoa sofre dos males do coração. Você acabou de se casar...

     Sandra queda, aturdida. Como pode saber?

     - Acredito que ama o seu marido, só não confia nele, e vai sofrer por isso. Não podemos ser inflexíveis com as pessoas que amamos. Precisamos deixar espaço para respirarem, dar a liberdade necessária, mesmo quando a pessoa em questão é seu marido.

     Sandra procura alguma coisa para dizer, sem encontrar. Como é que ele pode saber dos problemas que ocorrem dentro do seu quarto de hotel? Incomodada com isto, e com o silêncio que se formou entre eles, ela baixa a cabeça. O que dizer depois dessa? Que hoje faz calor? Que ele teve uma impressão errada?   De onde vem este homem? Com a pergunta nos lábios, ergue a cabeça e... Ele desapareceu...

     Aborda uma senhora que passa:

     - A senhora viu um senhor de idade, de cabelos e barba longos, que estava aqui?

     - Senhor? Não, não.

     Sandra fica ali, parada, no meio da calçada, sem entender nada. Terá sido um sonho, uma alucinação? Ninguém pode sumir assim.

     Pensativa, volta ao hotel. No quarto, Heitor está ao telefone.

     As palavras do velho voltam-lhe à cabeça. Sandra não diz nada, e vai ao banheiro.

     "Um banho" - pensa. "Pra acordar..."

 

     Terça-feira à tarde. Apesar do calor excessivo, Arthur caminha apressadamente até o prédio do tribunal. Está comprometido com uma audiência, um processo criminal importante. A situação é delicada, pois se trata de um caso complicado e ele não teve oportunidade de inquirir a testemunha, ainda. Acaba encontrando-a no corredor, acompanhada de seu cliente.

     Ao aproximar-se, sente um calafrio, uma tontura, quase cai.

     "Meu Deus! Este homem!... É parecido... Com Renato... No dia do casamento de Sandra. O Renato adulto que falou comigo! A fisionomia que agora me acompanha nos sonhos! Será isto possível?"

     - Doutor, o senhor está bem?

     - Não... Digo, sim. Estou melhor.

     - Mesmo? - disse alguém a seu lado - Parece que viu um fantasma!

     Arthur tenta se recompor. Olha seu cliente. Levanta-se.

     - Por favor, me desculpem.

     - Acontece, doutor Arthur. Permita-me apresentar-lhe nossa testemunha: Felipe.

     Cumprimentam-se. Agora, de perto, a semelhança vai-se esfumando. O cabelo é mais grisalho. O rosto, mais redondo...  

 

     Uma última olhada no espelho. Os cabelos ressaltam o rosto quase sem maquiagem, deixando expostos longos brincos de cores contrastantes. Uma blusa escura, gola alta, determina o tom de seriedade. Em compensação, a saia de retalhos, com estampas neutras, propicia o efeito sensual do jogo de panos e pernas... Caso seja necessário.

     Um encontro num barzinho, à noite, para acertar detalhes da contratação do seu trabalho na revista. Coisas do André. Por que não podiam conversar no escritório, como todo mundo faz?

     "André. Taí um tipo que faz qualquer mulher ficar caidinha. - pensa. Bonito, bem colocado, educado". Mas não estava acontecendo com ela, que só tinha pensamentos para Cláudio. Comparando-os, o primeiro perdia na profundidade, carisma, no mistério, que fazia de Cláudio um homem envolvente e sedutor.

     O encontro é num bar da moda, freqüentado por grupos e namorados, decorado sobriamente, com luzes indiretas e suaves nas mesas.

     André escolhe um lugar discreto e acolhedor. Sentam-se e pedem bebidas. Ele passa a contar do seu dia de trabalho, das viagens que fez, das pessoas que conhece. Rosana não consegue deixar de comparar a conversa narcisista do amigo com os olhos interessados e as opiniões sempre apaixonantes de Cláudio. O irmão de Arthur tem um jeito diferente de enfocar os assuntos, de expor suas idéias, para ela algo inusitado. Não se perde tempo com Cláudio, sempre ensinando um pouco de uma vida que não é a dela, mas que...

     - Rosana!

     André chama-lhe, questionando se ouviu algo que falou.

     - Desculpe. Não sei onde ando com a cabeça.

     Ele, bastante irritado, repete.

     - Eu a estava convidando para jantarmos juntos esta noite e tratarmos dos detalhes do seu contrato.

     - Mas o que viemos fazer aqui, então? - responde, arredia. Nós não viemos para tratarmos exatamente disto?

     - Aqui não me parece um bom lugar. Conheço um restaurante muito gostoso, onde servem...

     - Onde é que você quer chegar?

     - Como?

     - A quantos "jantares" terei que ir para conseguir o meu contrato?

     André fica meio aturdido.

     - Bom Rosana. É comum um certo, digamos, bem... Entendimento, para termos certeza de que teremos facilidade em nos comunicarmos, você entende, um... Um... Entrosamento maior, você compreende, não?

     - Compreendo que sou uma profissional e que mereço respeito. Se você acha que não estou qualificada, avise que vou procurar outra revista. Com o currículo que tenho, isso não vai ser difícil. Afinal, estudei no exterior, isso já é um bom começo. Não estou pedindo nada, estou vendendo o meu trabalho, que considero de primeira qualidade.

     André enrubesce, pois jamais imaginou que Rosana o enfrentaria dessa maneira. Todas as moças com quem falava o tratavam como um semideus. E essa aí, só porque estudou no exterior, se acha mais importante.

     - Olha aqui, mocinha americanizada, não me importa onde você estudou. Naquela revista sou eu quem dá a palavra final. E, pensando bem, você não preenche os requisitos necessários para ocupar o cargo. Pode pegar o seu currículo e procurar trabalho em outro lugar. Isto é, se está mesmo decidida a ficar neste país. Achava que eu não estava resistindo ao seu charme? Pois eu também sou profissional. E você me subestimou.

     Rosana percebe que jogou uma cartada muito arriscada, exagerou, mas é tarde. Pega suas coisas e sai.

     Estaciona em frente ao prédio alto e majestoso. Respira fundo e segura firme a pasta onde estão o currículo e o portifólio.

     Depois de algumas negativas nas agências e revistas que visitou, não se mostra animada nem desanimada. A história vem-se repetindo: bom trabalho, bom currículo, interesse pelas novidades que ela traz de fora... O pessoal está completo, só tem vaga para estágio... Quem sabe mais tarde...

     Na recepção, um guardião substitui a secretária - que provavelmente está num cafezinho qualquer. Fazendo-se notar, pede para ser anunciada ao senhor Achille, do setor comercial.

     Achille, velho amigo, pai de um colega de escola, é sua grande esperança.

     Recebe-a educadamente, batem papo sobre a família, comentam sobre a vida. Quando descem à redação, está descontraída e otimista.

     Apresentada ao redator-chefe, é deixada a sós e basta pouco para Rosana identificar na fisionomia do editor aquele conhecido sarcasmo de quem vê num colega de profissão um competidor em potencial. Sem querer mostrar-se derrotista, senta-se, porém desanimada.

     A conversação do editor é repugnante, assoberbada e repleta de pedantismos. Seu enfado, cumulado de inúmeras recusas, transparece nos seus modos grosseiros. A falsa naturalidade com

que se deita na poltrona giratória, com o enorme corpo disforme, é a manifestação viva de uma caricatura.

     Seu objetivo é intimidar Rosana, que, agitada pelo ódio, controla uma série de imprecações, retidas na ponta da língua. "Merda de profissão: salário baixo, status duvidoso e ainda assim, ao invés de me dispensar profissionalmente, não! Vem posando de grande patrão entediado".

     Ao escutar outra vez as mesmas desculpas, irrita-se e sai, deixando o velho gordo falando sozinho, currículo aberto, exposto sobre a mesa.

     Desce a escada repetindo para si tudo o que não falou ao gorducho. Queria tê-lo decomposto. Alcança a rua, louca para desabafar, gritar, quebrar alguma coisa.

     Tantas tentativas sem resultados. Nada!

     "O que está errado? Não se valoriza uma jornalista com curso no exterior?"

     Chegando em casa, embarafusta para o quarto. Furiosa, arranca a colcha da cama e começa a rasgá-la, extravasando toda a frustração e o ódio contidos. Somente na medida em que transforma a colcha num amontoado de trapos, vai se acalmando.

     Regina assusta-se com a cena.

     - Minha filha, o que é isso? O que está acontecendo?

     - Fui recusada, de novo. Mãe será que não existe um único lugar para mim nesta cidade?

     - Calma, meu bem, calma. Esta ainda é a sua casa! Você aqui tem onde morar, comer, vestir... E ninguém, que eu saiba, a está mandando embora. Cristina é bem mais velha que você e sempre morou conosco. Por que esta pressa?

         Recorda a chegada intepestuosa de Rosana, e os seus pressentimentos. Naquele dia desejou que a filha não ficasse. Agora achava que o tal pensamento a estava realmente atrapalhando, sente-se terrivelmente culpada. Que mãe poderia desejar o mal a própria filha.

   - Cristina! - Ora mãe somos diferentes. E ela tem a faculdade. Eu não tenho nada. Odeio ficar assim, nesta inércia.

     Faz uma pausa e continua:

     - Pelo menos nos Estados Unidos sempre havia o que fazer: trabalhos pequenos, free. Aqui não. Parece que estou numa geladeira!

         - O que quer dizer? Pretende voltar?

        Novamente se flagra com aquele sentimento. Todavia não estava de todo errada. Cristina era uma pessoa complicada. Mas apesar de tudo, não prejudicava ninguém além de si mesma em sua eterna amargura. Mas Rosana!... Ela tinha um prazer especial em espezinhar qualquer pessoa que se opusesse em seu caminho. Sempre foi assim, desde que entrou na adolescência era um problema atrás do outro. Tudo bem que adolescentes são rebeldes, mas ela ultrapassava todos os limites. Por isso, talvez, ninguém sentiu, quando ao completar o segundo grau, resolveu ir estudar fora. Recorda num balançar de cabeça como Rosana enfrentou a família. “Tenho dinheiro, dinheiro esse que meu pai me deixou, não preciso de ninguém, apenas a merda de uma assinatura autorizando a minha partida”. Neste dia Regina chegou a imaginar que longe da família, ela mudaria, mas... Resolve quebrar o clima com uma pergunta casual.

     - Deixou alguém lá?

     - Não. - E acrescenta, sonhadora: vou deixar aqui.

     Preocupada, Regina se adianta:

     - Por acaso não está falando de Cláudio, não é? Por favor, diga que não.

     - Sinto muito, mas é dele mesmo. Até agora, conhecê-lo foi o melhor que me aconteceu. Quero saber qual é o problema, droga! O que ele tem de errado? Como posso não me apaixonar por alguém tão lindo, doce e gentil? Se Arthur o detesta, problema dele! E você deveria deixar de ser tão submissa às opiniões do velho. O que Cláudio fez contra você para que apoie as rabugices de

Arthur?

     A princípio, desorientada com a violência nas palavras de Rosana, depois refeita, Regina responde, baixinho:

     - Espero que eu jamais precise dizê-lo. Se há qualquer coisa a ser explicada, é melhor que você descubra por si mesma. Agora arrume esta bagunça e venha jantar.

     Rosana segura as lágrimas até que Regina feche a porta. Depois, elas rolam. A mãe tocou o ponto fraco. Durante toda a semana deixou recados na secretária eletrônica de Cláudio. Ele não respondeu a nenhum.

     "Parece um complô. Será possível que quando é para dar errado, dá tudo errado!” Seca o rosto, e tenta refazer a maquiagem.

     No corredor, escuta um barulho estranho no quarto de Cris.

     - Escuta, mãe, e esta Vera? Não vai embora nunca? Todo dia é a mesma coisa! Ela vem para cá e acaba ficando. Isso quando não saem juntas, altas horas da madrugada. - fala ainda com o rosto vermelho mal disfarçado por uma base. - Parecem um grude, isso não é saudável sabia? Você reclama da Cristina não ter namorado, mas com essa marcação serrada, fica meio difícil não acha? Depois eu é que estou errada, pelo menos o Cláudio...

           Sem querer dar na vista o quanto isto a incomoda, Regina apenas diz:

         - Se fosse você, não estaria assim tão certa de sua escolha, deixe sua irmã em paz.

 

     É uma típica manhã de inverno. O vento cortante faz aumentar a sensação de frio, trazendo os casacos pesados, luvas e cachecóis para as ruas da cidade.

     "O primeiro frio do ano" - ajuíza Sandra, parada em frente à casa dos pais. O fim da lua-de-mel e o tempo nebuloso exibem a perspectiva de um mau presságio.

     Acompanhada de Heitor, entra na casa, no momento em que está sendo servido o café da manhã. Quase toda família presente: o casal, Regina, Arthur, Cris, Rosana e Renato, observando tudo.

     Contam-se as novidades, fofocas. Sandra menciona as cidades que visitou, monumentos, museus, hotéis. Tudo a contento, não fosse Heitor fazer menção de sair.

     - Bom, gente, eu já vou. Sandra fica aí, batendo papo até o almoço, não é?

     - O que é o seu compromisso? - indaga Regina. Você parece tão ansioso...

     - Ah, dona Regina, - fala colocando as mãos no ombro da sogra. - Vou discutir e, se Deus quiser, assinar um contrato para a próxima novela. Papel principal!

     - E graças a isso, durante toda a nossa lua-de-mel, não fez outra coisa senão ligar para esse diretor... Até parece que casou com ele e não comigo. - A voz de Sandra é cheia de amargura.

     Ele, no limite da paciência, acha melhor não responder. Apenas dar-lhe um beijo e sai.

     Rosana observa o desenrolar da discussão. Está inquieta com seus próprios problemas e sente, com isso, uma certa raiva da irmã. Sandra não casou com quem quis? Não tem tudo? Casa, marido, dinheiro e, de certa forma, até fama? Então, por que tanto barulho?

     "Tudo muito fútil - pensa. Quando não se tem um problema para resolver, acaba-se inventando um. Quem foi mesmo que disse que felicidade não constrói histórias?" “Um dia ainda vou escrever sobre isso”.- pensa.

     Após a saída de Heitor, Sandra enceta uma conversa sobre os mais belos pontos turísticos que visitou. Rosana, em absoluto agüentando aquele bate-papo, que lhe soa tão sem conteúdo, aproveita uma desculpa qualquer para se retirar.

     "Ah, o ar puro!"

     O sol dissipou a neblina e agora há um indício de calor, num céu azul sem nuvens. As cores das plantas e das casas tornam-se opacas com a luminosidade.

     "Um dia para fotografar. Ah, como eu gostaria de encontrar uma revista que pagasse” free “. Faria um trabalho bonito, descobrindo a cidade, seus cantinhos, suas belezas... e alguma coisa sórdida para contrastar. Hum... Uma praça florida, um monumento e um pobre qualquer pedindo esmolas, para dar aquele gosto de terceiro mundo".

     "Mas de que adianta? Este país é tão pobre... Não valoriza nada... não tem emprego, não tem ”free"... A gente volta... Sei lá, sentimento de patriotismo, saudades da família... Pra quê? Chega aqui, portas fechadas, sem chances de trabalhar... Emprego... O que vou fazer?"

     Cruza um rapaz que lhe dirige um gracejo. Rosana olha feio, levanta o nariz e segue em frente. Entra por ruas onde nunca entrou. Senta em bancos de madeira, olha crianças, enquanto seus pensamentos vagueiam ansiosamente, sem rumo.

     A sensação é angustiante para quem está habituado a concentrar-se nos seus objetivos e conseguí-los.

     Súbito:

     "Não, não é possível. Estou vendo coisas... Mas é ele... Tenho certeza... Esse... esse... cafajeste! Acabou de chegar! Será possível que a maluca tenha alguma razão? Não, meus olhos não mentem. E a mulher? Não tivesse aquele sujeito na frente..." De longe, busca um ângulo melhor. "Agora dá pra ver... Jesus Cristo!. será que é quem eu penso? Não, Rosana, você está vendo demais... Ah, mas vou entrar! Seja lá o que Deus quiser, e, se forem mesmo os dois... Eu bem que desconfiava! Ah, essa eu vou aprontar , nem que me torne ainda mais desprazível do que já sou.” Mas se é realmente quem estou pensando? Isso não faz sentido? “Acorde? Volte à realidade? Pense no Cláudio? Recorda melancólica a figura do amado. Oh! Cláudio porque não me ligou? O que há de errado com você? Não tenho nada a ver com seu desentendimento com Arthur. Nem sabia que era irmão dele? Sequer que ele tinha irmão? ”Que mistério!”... Onde foi parar o casal? Seu espírito de jornalista é mais forte, seus olhos atentos e ouvidos afiados, lhe chamam a realidade. De volta a investigação, “penso no Cláudio mais tarde”.

 

     Arthur chega ao escritório, na esperança de ter pela frente apenas um dia normal de trabalho. Depois dos incidentes com Renato, e de ficar vendo fantasmas, começa a desejar um pouco de rotina.

     Antes de passar os recados, a secretária avisa que Rogério o aguarda na sala privada. Intrigado com o inesperado da visita fá-lo entrar.

     - Rogério! - fala meio apalermado pelo inusitado da visita. - que surpresa!

     - Vim saber se é possível conversarmos como pessoas adultas...

Acende-se em sua memória algo que Regina havia comentado sobre ambos. Volta à cena, o casal no quarto... Regina escovando os cabelos... Ah sim, ela disse que Ana não estava bem. A notícia havia sido dada de forma tão breve que ele agora questionava acerca da veracidade. Depois daquilo, não houve outro comentário. Mas alguma coisa séria estava acontecendo, podia ler nos olhos de Rogério. Por isso, meio receoso procura palavras para responder.

         - É alguma coisa com a sua mulher?

         Tenta sondar a reação do filho, que parece mais maduro, e ao mesmo tempo abatido.

     Rogério responde com uma expressão que trai a dor, num fio de voz.

   - Ela... Ana está melhor, agora. Ela perdeu o neném.

     - Como?

     - Não sabemos. Na semana passada começaram as cólicas. Fomos ao hospital, acabou sendo internada, em repouso. Aconteceu durante a madrugada, na sexta. Eu a levei para casa na tarde de sábado...

     - Sinto muito, filho - Arthur dá-se conta do quanto Rogério ainda é uma criança, apesar de homem casado.

     - Os últimos dias têm sido muito difíceis. Ana sempre calada, quieta. Não sei direito como agir. Ela está fazendo uma série de exames...

     - Sei...

     - Pai, eu gostaria de ir jantar com vocês. Acho que este é um momento para se estar com a família... Você entende, não é? Queria saber, antes, se está tudo bem... Eu não gosto de ver a mãe tentando consertar situações, por ressentimentos e...

     - Rogério, meu menino! Ficaremos felizes em recebê-lo. Vou avisar Regina. Aproveitaremos que Sandra voltou e faremos uma reunião de família sem precisar pisar nos motivos.

     - Obrigado pai.

 

     Na porta do bar, Rosana esforça-se em reconhecer o casal recém-descoberto. Porque não lhe é possível ver além dos cabelos da mulher, a dúvida permanece.

     No momento seguinte, o rapaz inclina-se para a jovem, diz qualquer coisa, levanta-se e sai. Rosana tropeça, ao evitar ser flagrada, e acaba pisando no pé de uma criança que se põe a chorar. Desconcertada, sobretudo dando com a revolta da mãe, abaixa-se, pergunta se dói muito, desculpando-se várias vezes.

     Quando consegue se livrar, nem sinal da dupla.

     "Droga, droga, droga!"

     Olha a mesa, olha em volta. Nada.

     "Aquela infeliz daquela criança! Tinha que por o pé embaixo do meu?"

     "Hei de pegá-los juntos. Da próxima vez venho com a máquina fotográfica e documento tudo. Hoje não estou mesmo disposta a desvendar nenhum mistério".

         De volta a olhar a esmo, pensa se não está passando dos limites, sempre fora dada a desvendar mistérios, por isso a carreira de jornalismo, mas o que pretendia descobrir agora, não lhe renderia como profissão e sim com mais intriga na família, que sentia desmoronar a cada dia.

 

     Regina consulta suas receitas, disposta a preparar um cardápio à altura. Com saudades de ver a família reunida, secretamente pouco lhe importa o motivo pelo qual Rogério está retornando ao convívio. O importante é que estarão todos juntos novamente. E apesar de alimentar uma certa insegurança, não esconde também a discreta afeição pela nora, que lhe parece muito corajosa.

         Recorda seu casamento com Arthur, e o quanto sofreu pela discriminação da própria família. Nada de apoio, todos sabiam quantas dificuldades ela enfrentou durante o tempo em que Renato jogava dinheiro pelas janelas, o quanto sofrera com o fim menos doloroso para ele, mas tumultuado para ela. Quase foi preza, se não fosse a ajuda de uma amiga, e o profissionalismo de Arthur, talvez estivesse preza. Não sentia remorso pelo seu casamento, Renato tão inteligente, deveria saber o tamanho do problema que deixava em suas mãos. Quatro filhos e um seguro duvidoso. Agüentava tudo isso em silêncio, mas o casamento repentino seguido de uma gravidez, a colocou em um lugar nada cobiçado pelo falso moralismo. “Mas essa mulher não para de ter filhos?” - foi o que disse a cunhada ao saber da gravidez. Nunca mais a viu felizmente. “Mas, Ana! Teria família?”

         Balança a cabeça, tentando jogar tudo pro alto. Precisava esmera-se para que tudo saísse a contento.

         A reunião mais parece uma festa. A casa toda iluminada, o vídeo pronto para ser acionado. Comida no forno enchendo o ar com um perfume de dar água na boca. As sobremesas aguardando enfileiradas na geladeira e a garrafa de licor, em cristal da Boêmia, cheia da batida de sonho de valsa que sempre fez a delícia das meninas. Sandra e Rosana, à parte, ouvem os últimos sucessos no aparelho de som, dançando sozinhas, descalças sobre o grosso tapete de peles do piso rebaixado, que forma um recanto quase privado no estar social.

     As duas percebem o barulho da moto de Heitor entrando ruidosamente na garagem. Em pouco, também ele reúne-se às jovens.

     - Ué?! Vai ficar ai parado? Vamos dançar!

     - Não, - responde com um olhar perdido, como se procurando alguém.

     As duas se entreolham, curiosas. Diminuindo o volume do som, sentam-se ao seu lado, bombardeando-o com perguntas.

     - Ah, qual é, o que houve? Aconteceu alguma coisa grave?

     - Não sei, parece que fui seguido e não era nenhuma fã, - fala olhando para Sandra. - Muito estranho, um velho, - franze cenho. - ainda estou meio confuso, isso nunca havia acontecido, sempre que alguém me segue, pede um autógrafo, uma foto, mas... Quando saí, hoje de manhã, notei aquele homem do outro lado da rua. Chamou-me a atenção: ele olhava muito para cá. Além disso, suas roupas, difícil explicar. Era um tipo curioso, nem bem vestido, nem maltrapilho.

         A medida em que fala, Renato se aproxima, sem que o percebam, atentos que estão ao episódio. O ambiente muda, tornando-se sério. Os seqüestros e assaltos são realidades próximas demais para serem ignorados.

     Heitor prossegue na descrição e Sandra crê reconhecer... As feições, o maneira de olhar, alguns detalhes coincidem com o velho que encontrou na lua-de-mel.

     "Será a mesma pessoa? Não, não é possível”.

     -...Então dei ré na moto e saí. Resolvi dar uma última olhada e o velho havia sumido. Assim, no ar, como se jamais tivesse existido. Durante o dia, ainda me pareceu vê-lo umas duas vezes, mas sempre que firmava a vista, pronto! O velho já não estava mais lá.

     Renato esboça um sorriso. Sandra repara que ele está próximo o bastante para ter ouvido a história, não encontrando, porém, nenhum sinal de medo ou preocupações. Só uma expressão que, de início, não consegue decifrar. Inebriado como... Quem delira de satisfação... Será real?

     Rosana quer mais detalhes:

     - Afinal, você viu este velho mais alguma vez ou não?

     - Concretamente, não. Mas tive a sensação que...

     - Sensações! Vocês parecem que vivem de ilusões. Tem estado em novelas demais!

     - Dispenso suas ironias.

     - Tá bom! Preferem um assunto sério? Proponho um: hoje vamos receber um novo membro da família. Por um acaso alguém se preocupou em saber alguma coisa dessa mulher? Será que alguém a conhece? - Pergunta, dirigindo-se a Heitor.

     - Rosana - fala Heitor solene, tentando disfarçar o constrangimento - será possível que você retornou de tão longe só para investigar sua família? Não acha que está na profissão errada? Por que não vira detetive? Com todo esse seu empenho, acredito que seria até bem mais fácil arranjar emprego.

     O tom de conversa torna-se agressivo. Rosana retruca:

     - Acho que só eu é que me preocupo com o tipo de pessoa que entra nesta casa.

     - Preocupação? Tipos de pessoas? E que tal começar por você mesma e seus romances?

     - Por que vocês estão se agredindo, assim gratuitamente? - interfere Sandra. Será que não percebem que é por um motivo besta?

     - Ah, agora não importa mais quem é filho de quem. Mas isso importava quando a beldade da minha irmã queria aparecer na coluna social, não? - continua Rosana sem perder a maneira estilizada.

     Renato, sentido o ambiente por demais tenso, resolve falar para interromper com aquela baixaria. E o faz de uma maneira tão determinada, que, ao ouvi-lo, ninguém se dá conta de que é uma criança.

     - Santo Deus, o que pensam estar fazendo? Isto é para ser uma reunião de família. Papai e mamãe estão na maior expectativa. Pelo menos em respeito aos sentimentos deles poderiam deixar para lavar a roupa suja outra hora!

     Faz uma pausa e recomeça a falar, olho no olho como interlocutor: mas nesse meio tempo, é Arthur quem entra, pegando a conversa do meio para o fim. Embora entre em companhia de Ana e Rogério, sua primeira reação é de choque.

     Arthur contempla Renato, e novamente enxerga o homem mais velho. É uma sensação angustiante, como se duas pessoas diferentes estivessem no mesmo lugar. O físico de menino, e ao mesmo tempo os olhos, a boca, os gestos são de homem adulto. Sem perceber, adianta-se e fala:

     - Você outra vez?

     Todos se voltam, sem entender nada. Renato, que retorna à realidade, pergunta:

     - Papai, o que houve? O senhor está pálido.

     Ele olha em torno, o susto estampado até no rosto de Regina.

     "Ah, não! Aconteceu de novo! Devo estar ficando louco! Acho que estou vendo fantasmas!"

     Forma-se o impasse e, depois de tanta confusão, reina um silêncio aterrador, que, afinal, dura pouco, interrompido pela chegada de Cristina. Seu primeiro comentário já é irônico.

     - Esta é realmente uma "grande família". Já pensaram se fôssemos todos certinhos-como-se-deve-ser? Não teria a menor graça?

     Todos anuem, sorrisos amarelos e gestos vagos, descontraindo o ambiente. Regina aproveita para servir os aperitivos.

     Rosana, amuada, observa a comunicação silenciosa entre o casal recém-chegado. Ana aparenta estar nervosa, insegura, tentando dar significado aos menores gestos. Aos poucos, os diálogos, geralmente frívolos, vão relaxando o grupo, que se dispersa em conversas paralelas. É o momento ideal para convidar a cunhada para uma conversa particular.

     Pretextando motivos banais, convida Ana para uma conversa a sós, sequer iniciada, dado que...   O telefone toca, criando uma espécie de suspense.

     - Pode deixar, eu atendo - antecipa-se Rosana.

     Ana suspira, aliviada.

     Coração aos pulos, Rosana felicita-se. Ainda bem, porque se fosse Arthur... E se for Cláudio...

     - Alô!

     - Oi.

     - Que surpresa boa! Onde anda? Não tenho conseguido encontrá-lo e você não responde os meus recados.

     - Tenho tido muito trabalho mesmo. Mas liguei porque gostaria de me encontrar com você, hoje.

     - Hoje?

     - Algum problema?

   - Acho que vai ser impossível.

     - O que aconteceu?

     - Estou em uma reunião de família. Mamãe preparou um jantar e estamos todos aqui, no maior clima-de-união.

     Cláudio percebe a ironia e resolve insistir.

     - Rosana, eu preciso falar com você, agora. Imagino como devem estar as coisas por aí. Vamos lá: você não tem parte na hipocrisia.

     - (...)

     - Por favor, venha me encontrar. Eu... Garanto momentos bem melhores.

     O tom de voz, baixo e levemente rouco, faz subir um calor no corpo de Rosana. Qualquer coisa ao lado deste homem é infinitamente melhor do que curtir aqueles dois cunhados tentando fazer todo mundo de bobo. E é tão difícil encontrar Cláudio! Não pode deixar passar uma oportunidade dessas.

     - Está bem. Diga-me onde você está e daqui à uma hora, mais ou menos, estarei com você.

     Rosana fica com o telefone na mão, olhos perdidos, sorriso vago. Sabe o quanto vai ser complicado falar sobre a sua saída.

     - Mãe...

     - Diga, filha. Diga logo, que quero sua ajuda. Já vou servir o jantar.

     - É... Bem... O Cláudio sabe... Ele ligou e...

     - Tudo bem, já entendi.

     - A senhora sabe que, se não fosse o Arthur, eu não iria sair, mas sim o traria para jantar conosco. Além disso, eu... Eu não me sinto à vontade com essa moça...

     - Sei, sim.

         E já imaginando o quanto Rosana hostilizava a cunhada, resolve colaborar, apesar de não entender o porque de tanta implicância.

       Façamos o seguinte: você fica um pouco, come alguma coisa, depois sai. Eu dou um jeito.

       - Feito mãe. Obrigada.

     Longe de casa, num discreto barzinho, estilo pub, Rosana e Cláudio se encontram.

     A mesa é ladeada por dois pequenos bancos, em ângulo junto à parede.

     Cláudio pede vinho suave e gaseificado, quase champanhe, queijos e uma calabresa picante, especialidades da casa. O ambiente calmo e requintado, mais a solicitude do acompanhante, descontraem Rosana.

     - Você não sabe o quanto me faz bem. Queria nunca estar em outro lugar que não fosse ao seu lado.

     - Você mudaria de idéia no dia seguinte - responde, rindo. Além disso, não sabe o quanto está próxima de experimentar algo parecido.

     - Como assim?

     - Bem, da última vez que saímos juntos, quase chorei com as suas desventuras na novela "arranjando emprego".

     - Seu chato! Eu abro meu coração e é assim que considera!

     Riem. Perto dele, nenhum problema existe.

     - Aí eu pensei: se não fizer nada, algum dia irei passando por uma rua qualquer, numa cidade qualquer, e depararei, nas escadarias de uma igreja qualquer, com a minha amiga, chapéu na mão, dizendo:” um empreguinho, pelo amor de Deus".

     - Credo! Que dramalhão mexicano!

     Toma o vinho, molhando os lábios, que limpa com a língua, provocadoramente. Viu isso num filme. Mas Cláudio sorri como se nada notasse, e continua.

     - Voltando à novela...

     - Ai!

     - Costumo fazer um trabalho de fotojornalismo para um amigo meu, da "Viva".

     - A revista de cultura! Meu sonho é trabalhar nela!

     - E falei com ele sobre você.

     - Meu Deus, Cláudio, eu te amo! O que ele respondeu?

     - Calma. Carlos gosta muito de trabalhar com "free". Eu mesmo só trabalho assim com ele. Não é o método ideal, como emprego, não dá muitas garantias, e editar uma revista de cultura e ecologia, neste país, não é também o que se chama um bom negócio...

     - Cláudio, não me mate de curiosidade, homem! Desembucha!

     - Mostrei a ele aquele seu texto que saiu na revista da faculdade, da sua pós-graduação no exterior.

     - E...

     - Ele ficou bastante impressionado. Gostou das fotos...

     - Oh, meu Deus. Não fui eu quem fez as fotos!

     -...E também do texto, que achou simples e objetivo, qualidade que anda faltando nas pessoas que trabalham com ele. Pediu para que você levasse alguma coisa sua para a revista.

     - Tem alguma idéia?

     - Claro. Eu sempre tenho idéias.

     - Convencido!

     - Não. Lembra que você me contou que gostaria de escrever sobre os contrastes das grandes cidades, descobrindo a individualidade delas, como se a cidade fosse uma grande casa, o recanto mais íntimo.

     - E os contrastes... O pobre e o rico, trabalho, prazer...

     - Eu me interesso por fazer as fotos. Parece bom demais.

     - Sério?

     Ele segura um quadradinho de queijo na ponta do palito e põe na sua boca, num gesto sensual.

     - Sério.

     Essas pequenas atitudes surpreendentes sempre a desconcertam. Ela treme por dentro, seu corpo inteiro reage com uma intensidade que não pode explicar, voltando ao normal um segundo depois, sem poder explicar o que um simples gesto dele provoca nela, agindo novamente como se entre eles não houvesse mais do que uma amizade.

     A idéia inebriante de que farão um trabalho, que passarão horas juntos e sabe-se lá mais o que, a perturba.

     Então lembra do que gostaria de falar com Cláudio.

     - Mudando de assunto...

     - Diga.

     - Tem uma coisa que eu gostaria de saber de você.

     - (...)

     - É... Eu não sei o que você vai pensar sobre o que eu vou te falar, porém tenho meus motivos.

     - O que é agora? - responde, passando a mão nos cabelos dela.

     - É sobre Ana, minha cunhada. Eu gostaria de saber alguma coisa sobre ela. De onde veio, de que família... Eu sinto que tem alguma coisa mal explicada nesse casamento, não sei bem o quê.

     Cláudio, sorrindo, responde.

     - Isso é muito importante para você?

     - Oh, Cláudio, claro que é. Você me ajuda?

     - Estava mesmo pensando em levar você para vermos umas praças de colônias de imigrantes no subúrbio, Amanhã, para iniciarmos um roteiro para o nosso trabalho. Se tiver o dia livre, depois...

     - Depois?

     -... Depois vamos a um certo lugar.

     - Aonde?

     - Amanhã eu digo. Prometo que ali você vai saber quem é a sua cunhada.

     Ela o observa, intrigada.

     - O que é que você sabe que eu não sei?

     - Nada... Espere até Amanhã.

 

     Fora o mal-estar causado por Rosana, que praticamente engole a comida, depõe os talheres e desaparece, o jantar transcorre sem incidentes. Cristina parece perdida em seu mundo. Renato, apenas observa. A conversa flui tranqüila e os temas variam acerca de amenidades. Heitor faz rir muito com casos engraçados das filmagens.

     Apesar do entendimento, a reunião termina com o repasto. Regina, feliz, repete-se que graças a Deus o gelo havia sido quebrado e que, de agora em diante, as reuniões serão freqüentes.

     Cristina vai ao telefone e disca para Vera, marcando um encontro. Arthur ouve e, não suportando a dúvida, apressa-se em discutir a questão.

     - Não acha que está na hora de arrumar um namorado? Afinal, o que você e esta Vera tem tanto para falar às onze horas da noite? Não desconfia que está passando dos limites?

     - Arthur, eu não sei o que você está insinuando, e se quer mesmo saber, nós vamos sair Amanhã bem cedo. Eu não quero passar na casa da Vera e acordar todo mundo. Ela, vindo aqui, facilita para sairmos sem incomodar ninguém. E quanto ao que eu vou ou não fazer, isso é problema meu, certo? - E retira-se para o quarto.

     Renato segue-a, entrando e fechando a porta. O lugar parece com a dona. Reina a desordem. Livros, revistas, roupas, móveis antigos e escuros e fotos de quando ainda era criança convivem com bibelôs delicados e femininos. São estas incoerências da decoração quase um espelho dos seus conflitos.

     - Posso entrar?

     - Você já entrou...

     Renato é tomado por uma sensação indefinida. Não é bem um pressentimento, e sim...

     - Renato, pare de me olhar desse jeito...

     - Como?...

     - Você tá me olhando igual ao papai.

     - (...) isso incomoda?

     - Sei lá, incomoda. Não gosto.

     - Você gostava muito dele, certo?

     Ela silencia e uma lágrima começa a correr em sua face. Sentam lado a lado na cama e ele a recosta em seu ombro.

     - De todas as minhas Irmãs, apesar de tudo, você é a que me parece mais próxima.

     - Me sinto tão sozinha, Renato!... Às vezes parece que você adivinha o que eu estou passando.

     - A gente tem muita afinidade, é isso. Sinto quase como um dever protegê-la, ajudar. É como se eu fosse seu irmão mais velho. Eu sempre sei quando você está feliz, ou triste, ou quando magoam os seus sentimentos.

     Fala e acaricia os cabelos de Cris. E uma calma imensa apodera-se dela.

     - Cris, me fala do seu pai. Como ele era? Aqui ninguém fala quase nada do que aconteceu.

     - Eu o amava... Eu o amava muito e jamais consegui aceitar o que ele fez.

     - Mas por quê?

     - Não sei. Ninguém sabe por que ele se jogou. Só sei que, desde aquela época, minha vida é uma merda. Sinto falta dele. Às vezes...

     - O quê?

     - É que você se parece tanto com ele! Às vezes me olha do mesmo jeito dele, fala comigo com o mesmo carinho.

     - Você quase não fala comigo...

     - Você não entenderia.

     - Como sabe? Pois digo que sei qual é o seu maior problema e o quanto isso a perturba. Mas não adianta falar, porque não confiaria em mim. Para você eu ainda sou criança para criticar certas coisas. Por isso, espero o dia em que virá, por conta própria, conversar comigo.

     - Tem razão, mano. Não quero conversar com ninguém. Sei que não conseguiria expressar o que passa pela minha cabeça. Mas agora vamos dormir. Preciso estar descansada Amanhã cedo.

     Ele dá um beijo de boa noite e sai.

     "Outra vez igual a papai, que sempre me beijou assim" - pensa. "Renato. Até o nome é o mesmo. Eles não poderiam ser mais parecidos!"

     Em seu quarto, Renato queda em frente ao espelho, meditativo. Fica assim durante algum tempo.

     Depois, como quem desperta, ouve os barulhos da casa. Rosana ainda não voltou, os demais já foram dormir.

     Sem fazer qualquer ruído, pula a janela, deixando-a entreaberta.

     Do outro lado da rua, o misterioso ancião recebe-o com um sorriso amigo.

     - Que bom que você veio - diz Renato. Preciso de um favor.

 

     Na manhã seguinte, mal o sol nasce, as duas terminam os preparativos para o passeio. Sacos de viagem acomodam roupas, máquina fotográfica, coberta e uma infinidade de miudezas.

     Cris abre a garagem onde Vera manobra o jipe, quando...

     - A senhorita está bem?

     - O quê? - fala assustada com aquela aparência repentina do velho.

     - A senhorita está bem? - Credo!!!

     Cris olha o velho de alto a baixo.- “Quem está ficando louco: ele ou ela? “

         Passa a mão nos olhos tentando enxergar melhor a figura que se desnuda a sua frente.

     - Não é possível!- responde. O dia mal começou e já tem gente me questionando? Que diabo, será que estou com alguma coisa escrita na testa? Olha, meu senhor, eu estou bem, obrigada e agora o senhor pode ir embora.

     - Não tem nada escrito na sua testa, exceto que não é feliz. Já que não consegue conversar com a pessoa certa, o que acha de procurar um psicanalista?

     - A pessoa certa, essa é boa! E quem é a pessoa certa? E você o que é? Um bruxo, um vidente? Ora, vê se dá o fora.

     - Não, moça, não sou eu a pessoa certa. Ela deve estar tão próxima de você que fica difícil perceber. Consulte seu coração. E não ligue para a aparência das coisas ou das pessoas, porque é o interior delas que realmente conta.

     Nesse instante, Vera buzina o Jipe e grita:

     - Ei Cris, o que houve? Emperrou o portão? Algum problema?

     - Não, tá tudo bem. Peraí, eu estou abrindo. Pronto.

       Vera tira o carro.

     - Pôxa, tá com tanto sono que dormiu abrindo o portão?

     - É que eu estava conversando com aquele homem...

     - Que homem?

     Nem sinal. Havia desaparecido.

     - Onde foi parar aquele velho maluco?

     - F Cris... Você tá legal?

     - Ah, não. Você também? Não! E subindo no carro: vamos embora.

     - Mas...

     - Nem uma pergunta!

     -...Credo! Eu é?

     Várias quadras dali, Cris ainda pensa, mirando o perfil da amiga: e se eu procurasse um psicanalista?

 

     Rosana imaginava que a redação de uma revista fosse um lugar sofisticado, exótico, bonito. Mas aquele escritório apinhado de papéis, com telefone tocando, gente entrando e saindo e o barulhinho incessante das máquinas de datilografia, parece igualzinha à redação de um jornal. E isso aliado ao sorriso simpático do amigo de Cláudio, o tal de Carlos, a faz sentir-se perfeitamente à vontade.

     Carlos é um tipo charmoso, na casa dos quarenta, e os cabelos, um pouco longos, têm toques prateados. Os ombros largos e o corpo enxuto denotam atividade física regular. Se ela não estivesse interessada em Cláudio, com certeza se flertaria com ele, mas comparados ao misterioso irmão de Arthur, parece que todos os homens perdem um pouco do brilho.

     Combinam preço, tamanho da matéria e a dimensão das fotos, além dos prazos. Cafezinho, enfim.

     Na rua, Cláudio e Rosana trocam informações e idéias sobre como trabalharão naquele texto. A proximidade a excita. Seriam dias delirantes! Nem quer pensar como fará quando o trabalho terminar. Ou ela já o terá conquistado ou surgirão novos trabalhos.

     O gelo se romperá, mais cedo ou mais tarde.

     Cláudio está de moto. Rosana adora esse pretexto para segurá-lo pela cintura, deitar-se nas costas dele. Perdida no contato de seus corpos e no gosto do vento que bate em seu cabelo, acaba esquecendo de perguntar para onde estão indo.

     Cláudio segue, decidido, em direção ao subúrbio. Aproveitando um sinal vermelho, Rosana pergunta:

     - Ei, aonde vamos?

     - Buscar informações sobre Ana!

     Andam um bom tempo, até que chegam a um conjunto habitacional. Fileiras de casas, todas iguais, compõem a paisagem. Crianças brincam pela rua, soltas, sujas, com o nariz escorrendo. Há roupa apanhando sol nos jardins e as mulheres conversam pelos muros, com vestidos surrados.

     Adiante, acaba o antipó! Rosana examina sem graça seus sapatos brancos de salto alto. Ela é o próprio contraste e todos se detêm para observá-la.

     Cláudio pára a moto defronte a uma casa. Rosana não contém uma careta ante o mau-gosto: a casa inteira pintada, por fora, de um rosa forte. Da janela, uma mulher com blusa vermelha, justíssima sobre os fartos seios, sorri, surpresa.

     Ele vai conversar com a mulher, que responde falando alto e gesticulando muito. A criançada aproveita para admirar a moto.

     Quando volta, Rosana explode:

     - Agora me explique. O que viemos fazer aqui?

   - Ana morou nesta casa.

     - Como?

     - Ana e a mãe moraram...

     - Aqui?

     Ele ri.

     - Mas mudaram-se e, ao que parece, ninguém sabe pra onde.

     - Acho que sabem e não querem nos contar. Vamos embora.

     Saem. No centro, ela pede para tomar um refrigerante.

     - Como é que você sabia daquele endereço?

     Cláudio cala por alguns instantes. Depois, responde:

     - Conheço a mãe dela.

     - Meu Deus! Isso está ficando cada vez mais emocionante. Como?

     - Simples. Eu servi o exército no mesmo quartel em que Rogério. Naquela época, a mãe de Ana trabalhava na lanchonete em frente.

     - Trabalhava. Não trabalha mais?

     - Não. Depois que eu dei baixa, nunca mais voltei ali. Só fui aparecer depois que fiquei sabendo do casamento do seu irmão, e que vi Ana com Rogério na recepção de Sandra. Voltei. Queria reconstituir os fatos. Porém, tarde demais.

     - Não trabalha mais na lanchonete e não mora mais naquela casa horrível. Somando dois mais dois, meu irmão, com certeza, deve estar sustentando a família.

     - Rosana, acho melhor você ficar preparada. Ana não é filha única, como disse para vocês. Na verdade, ela tem dois irmãos mais velhos!

     - O quê? Mas aquela...

     - Calma. Deixa-me falar. Estes irmãos não moram com ela... Quer dizer, já não moravam quando ela era solteira. Aliás, ninguém sabe quem são, só que existem. Acho que se escondem.

     Rosana vai se interessando pela história e, por isso, Cláudio dosa suas revelações.

     - Quando Reinaldo, o dono da lanchonete, soube que Rogério era o noivo da sua balconista, resolveu adiantar alguns dados.

     - Você nunca me falou nada sobre isso. Se eu não tivesse resolvido perguntar, talvez nunca falasse. Cláudio, como você pode me esconder isso?

     - Minha situação na sua casa é neutra: eu simplesmente inexisto para vocês.

     - Existe para mim.

     - O que não justifica que seja eu a levantar esse tipo de problema na casa de Arthur. E não se esqueça que mesmo a nossa amizade é algo escondido, proibido. Concorda?

     - Nossa amizade não é fato notório em casa porque você mesmo não quis mudar de idéia. Hoje mesmo...

     Cláudio põe o dedo nos lábios de Rosana. Este é um assunto que já tinha discutido e estava esgotado. Ele dá um daqueles sorrisos que fazem Rosana se derreter nas próprias pernas, enquanto pergunta.

     - Se você me disser o motivo desse interesse, prometo contar o que sei da vida de Ana.

     - Mas eu já disse! Eu...

     - Rosana... Quero o motivo verdadeiro. Nada desse tro-lo-ló, que foge ao seu gênero.

     - E por quê?

     - Porque o que vou dizer implica fazer com que Ana arque com as conseqüências de erros cuja culpa cabe à mãe. Detesto injustiças, e não vou te encher de informações só pela curiosidade jornalística.

     Rosana conhece-o o suficiente para saber que, se ele resolvesse não contar, chegaria a comprometer a amizade para manter a palavra.

     - OK! Jogo limpo. É que sou capaz de jurar que Ana e Heitor andam se encontrando.

   - O que? Heitor? Você tem certeza? O que um cara famoso como ele iria querer com ela?

     - Não sei. Tem gente que nasce virada pra lua... Rogério, ela não fisgou? O garoto tinha o maior bom gosto pra namoradas. E olha que Rogério já tinha as suas gatinhas desde os treze anos. E, justo com essa, ele casou. No dia do casamento da Sandra, eu os encontrei de conversa, às escondidas.

     - Difícil de engolir.

     - Ora, Cláudio. Ela pode ser pobre, mas é bonita. E com a produção que a Cris fez nela, deixa pouco a desejar. E agora não é mais uma coitada. É esposa do meu irmão, e ele passa a maior parte do tempo no quartel ou na faculdade, enquanto ela se encontra com Heitor, nos barzinhos, à tarde.

     Cláudio, sério e pensativo, pondera que as informações não coincidem com a Ana que ele conhece. Mas um casamento com este desnível social também é incomum.

     - Rosana, você não está exagerando, não?

     - Cláudio, eu vi os dois. Tenho certeza. Eles estavam juntos.

     - E quando foi isso?

     - No dia em que o cretino chegou da lua-de-mel. Ele deixou a Sandra lá em casa, e, algumas horas depois, foi ver a outra.

     - Não pode ser mera coincidência? Eles podem ter se encontrado por acaso...

     - Então por que, quando insinuei o assunto lá em casa, na famosa reunião de família, ele ficou branco e começou a me agredir?

     Cláudio coça a cabeça, preocupado. Ana, às vezes, é revoltada e impulsiva. Ele pensa, mede palavras, organiza os pensamentos, antes de resolver.

     - Neste caso, vou fazer um relatório.

     Rosana exulta, tem vontade de beijá-lo, embora se controle. A seriedade é fundamental para que ele continue a falar.

     - Segundo Reinaldo, a mãe de Ana, quando jovem, era uma garota de programa de razoável sucesso. Mas, mesmo nessa e sabe-se lá por que, ela teve dois filhos. Ao nascerem, foram entregues para a avó, que os criou. Ninguém sabe nada desta mulher. Talvez também tenha sido da mesma profissão, mas essa informação pode ser boato. Depois, na época de escola, foram mandados para um colégio interno. Reinaldo acredita que, hoje, um deles manda dinheiro para a mãe, é uma coisa meio truncada.

     Pára um pouco. Toma um gole de refrigerante e continua:

     - É... A história da família eu só começo a conhecer direito a partir do nascimento de Ana. A mãe dela estava em final-de-carreira e conheceu um cara boa pinta que se ligou nela. Acredito que fosse um homem de princípios, pois a mulher engravidou e usou isso para chantageá-lo, conseguindo se casar com ele.

     - E como as duas foram parar naquele subúrbio? O cara não era bem de vida?

     - Era. As coisas que começam mal terminam mal. O pai de Ana, ou quem se supõe que seja, era alcoólatra. Com o casamento, piorou e destruiu sua vida. Você sabe como é: perdeu o emprego, fez inimigos, disse besteiras e foi cada vez mais para o buraco, carregando as duas junto.

     - O que era bem-feito...

     Cláudio riu com a observação, típica de Rosana.

   - Pensei que poderia apresentá-la. Como vê, foi impossível. Posso continuar tentando, isto é, se você ainda tiver interesse nisto.

     - Acho que não. Pelo menos agora. Prefiro ir a tal lanchonete do Reinaldo. Aquela onde os dois se conheceram. - Será que Rogério sabe sesta história sórdida? - pergunta franzindo a testa.

         - Eu acho que sim, muita gente no quartel sabe, e duvido que não o tenha contado. Por isso você pode estar perdendo tempo nesta investigação.

     No caminho, Rosana reflete no absurdo de Arthur desentender-se com o irmão. O que terá havido entre eles? Poderia tentar descobrir...

     Este homem significa demais para ela. Impossível acreditar que Arthur tenha razão. Tem certeza tratar-se de uma grande injustiça, e esta certeza dá-lhe segurança. E é melhor viver ao lado de Cláudio sem tentar descobrir coisas as quais (quem sabe?) a machuquem.

     Quando se dá conta, estão em frente à lanchonete. E, para sua surpresa, encontra Rogério.

     - Rosana, Cláudio! O que fazem vocês aqui?

   Meio sem jeito, é ela quem responde:

     - Nós é que perguntamos.

     - Eu estou em horário de almoço. Mas, e vocês... Procuram alguma coisa?

     Há uma pausa, e Zana morde os lábios. Decide-se.

     - Estou sim, mano. Acho que enquanto não falar isso com você, não vou sossegar.

     Cláudio pensa em impedi-la. Decididamente, ela nunca deixava de surpreendê-lo. Considera temerário abrir o jogo com suposições, por enquanto, sem base.

     Determinada, diz:

     - Você sabe tudo sobre sua esposa?

     Rogério vai responder, quando um freguês, inopinadamente, esbarra na mesa, entornando bebida em Rosana, que se levanta, indignada e desafiante.

     É um homem velho, com cabelos um tanto longos e aparência provocadora.

     Mirando-o com firmeza, ela julga crer que a interrupção é proposital, muito embora não possa entender o porquê.

     - Está desculpado. O senhor ouviu? Está desculpado.

     O velho continua a fitá-la. Cláudio e Rogério se prontificam a intervir.

     - Mas que droga, o que o senhor deseja? Por que está me olhando desse jeito?

     - (...) Meu olhar a incomoda?

     - Não. O senhor me incomoda. Se quiser alguma coisa, fale de uma vez e vá dando o fora.

     - Gostaria apenas que pensasse na minha pergunta: Você tem certeza do que pretende fazer?

     - O quê? Mas quem é o senhor?

     - Ninguém...

     E sai, deixando-a atônita. Ela consulta Cláudio e percebe que ele também não está entendendo nada. Sentindo-se exposta, sem razão, volta-se para a entrada e grita:

     - O senhor não é minha consc...

     Os três, na mesa, perguntam, quase em uníssono:

     - Cadê o velho?

     A entrada, as proximidades, tudo absolutamente vazio. O homem desapareceu.

     Ansiosa e perturbada, Rosana resolve ir embora. Rogério, entretanto, quer saber:

     - Zana, você não ia me falar alguma coisa?

     - Nada, Rogério, nada. Perdi a vontade.

 

     Regina destaca uma folha do calendário. Início de novo mês. Um gesto rotineiro, revestido de especial significado. É o tempo que passa e jamais retorna, cobrando atitudes, posturas, decisões.

     Faz dois anos que Sandra casou e o silêncio da casa contrasta com a época imediatamente anterior.

     Arthur. Se nos meios jurídicos seu nome se impõe quase que como uma instituição, na vida particular é sinônimo de apreensões. Distante, arredio, fala sozinho e afirma ter alucinações. Regina tenta convencê-lo a ir a um psicanalista.

     Rogério, de estudo em estudo, em pouco se forma oficial. Por outro lado, seguidos abortos fizeram de Ana uma mulher triste. No final, o sonho de ter um filho vai ficando cada vez mais longe. Depois da última perda, os médicos aconselharam evitarem nova gestação.

   Rosana e Cristina, por sua vez, continuam na casa. Sempre ausentes. A primeira trabalha como "free" para diversas revistas e suas matérias repercutem de tal maneira que sempre há trabalho novo. Ela e Cláudio constituem excelente parceria.    

     Cristina só aparece para dormir, quando aparece. Inseparável de Vera, num relacionamento cujos problemas jamais Expõe, transformou sua vida em um mistério.

     Nômades Sandra e Heitor viajam divulgando e apresentando uma peça de teatro. Lotaram platéias em diversas capitais. Agora, retomando o pique das novelas, ele grava de dia, atua à noite. Sandra acompanha-o da melhor forma possível, embora sofrendo com a solidão que a carreira do marido impõe, e nem cursos nem compras a suprem.

     Verdadeiramente inquietante é a convivência paralela do "velho". Tipo estranho surge nos momentos em que alguém precisa de ajuda, formula uma mensagem de efeito e some, sem outro registro de sua estada senão a certeza de que muitos o viram, exceto Arthur.

     "Como somos diferentes" - pensa Regina - e como a vida nos leva para longe. Conservamos os laços de família, mas o certo é que cada um de nós luta por uma verdade muito pessoal, que nos distancia".

     Rosana abre a geladeira e tira um suco natural. Volta à sala, onde se acomoda na poltrona, frente a um amontoado de fotos.

     Ouve sons no banheiro. Cláudio está lá. Estão no apartamento dele, um minúsculo quarto-e-sala decorado com sobriedade. Ela o visita com freqüência, sente-se à vontade neste lugar onde sempre há um detalhe novo, um livro importado que ainda não viu, uma revista francesa de decoração, uma delicada escultura, uma guloseima que nunca havia provado.

     Dois anos de amizade e entendimento, apaixonados, numa relação que Rosana não consegue definir bem. Ele ama de uma forma distante, fazendo-a sentir-se uma boneca, uma coisa sem vida. Além disso, as raras cenas de sensualidade são iniciativa dela. Na última, ela teve um acesso de choro.

     Como pôde rastejar assim?

     Enfim, a cena havia passado. Ele a abraçou, deixou-a chorar e... Fim. Mais nada.

     De tempos em tempos, retorna ao apartamento. É só uma bonita amizade.

     A porta do banheiro se abre. Zana espalha o cabelo no espaldar da poltrona e, com eles, os pensamentos negativos. Um dia, ele se apaixonará por ela, não poderá viver sem sua presença. Basta esperar.

     - Cláudio!

     - Sim.

     - Estou em dúvida com uma coisa...

     - O quê?

     - Por que você faz tanta questão de fechar contrato com aquela revista?

     - A do André? - pergunta com um sorriso irônico.

     - É, a do André - responde, amuada - Não sabe que não suporto aquele sujeito? O que está pretendendo?

     Ele senta à sua frente.

     - Não foi isso que senti na noite do jantar.

     - Vai começar de novo?

     Limita-se a fitá-la, interrogativo.

     - Pois é besteira sua.

     - Você estava nervosa, agitada.

     - Sempre fico nervosa quando vou contratar um novo serviço.

     - Mas aquele foi um outro tipo de nervosismo...

     - Você está imaginando coisas.

     - Rosana, sabe o que acontece? Você gosta dele e o sentimento é recíproco. Ela reclina-se para ele e diz:

     - Gosto de você, será que não entende? Sua desculpa de que Arthur não vai aceitar não me convence. Depois, ele não entende nem a própria cabeça, por que iria se importar com a gente?

     A menção acerca de Arthur constrange-o.

     - Por que você vive me empurrando para cima do André? Será que não gosta de mim nem um pouquinho?

     Estão de tal próximos que se poderiam beijar. Cláudio, diante de um suspiro apaixonado, toma seu rosto, que acarinha com as mãos quentes. Os olhos suplicantes dela o comovem. Beija-a na testa, como a uma irmã. E diz:

     - Amo você, Rosana. Sua presença e sua língua ferina me fazem falta, você me instiga a viver e a lutar.

     Faz uma pausa, reflete, continua:

     - Só que não daria certo. O que sinto está muito próximo de um amor de irmão. Juro que já tentei ver você diferente, mas compreenda, eu não consigo. Gosto de ficar com você... Pôxa, Rosana, devia saber que tenho dificuldades para me relacionar, para fazer amor com você. Quando vamos para a cama, é como se me deitasse com uma irmã...

     - Eu não sou sua irmã!

     - Mas para mim é como se fosse! Será que não percebe que pode ter muito mais com outra pessoa? Eu não a amo como o André, entende?

     - Mas Cláudio...

     - Tente uma relação com ele, e me deixe ser apenas seu amigo...

     - Existe outra, não é? Fale a verdade, por favor.

     - Em absoluto há outra mulher. Ora, Zana seja, razoável. Estamos o tempo todo juntos, o dia todo e quase todas as noites. Como posso ter alguém? Eu gosto muito de você e não quero magoá-la. Gostaria que você e André se entendessem, sim, porque se continuarmos desse jeito vamos acabar nos machucando. E, por favor, considere com mais calma a possibilidade de Arthur ter razão. Num ponto ele está certo, eu sou uma pessoa diferente de vocês.

     - Por isso que o amo.

     - Você se jogou de cabeça nesta relação e reconheço que tive minha parcela de culpa. Só que o tempo todo venho tentando mostrar que não vai dar certo.

     - Cláudio, mas o que foi que eu fiz?

     - Nada, Rosana - "e você não está mesmo me entendendo" - pensa.

     Cria-se um silêncio incômodo, que deteriora o clima entre ambos. - Zana... Por favor,... Eu quero ficar sozinho.

     - Tudo bem, está na minha hora de ir. Tchau.

     No hall do prédio, sente os olhos cheios d'água. Está com raiva. Mil vezes disse que não tornaria ao assunto, e retornou. Prometeu que daria tempo ao tempo e, ao contrário, tentou encostar Cláudio na parede. Heis o resultado. Sem ser uma briga... Mas quase. E a vida sem ele perde a graça.

     Ao entrar em casa, Rosana vai direto para o quarto. Renato, preocupado, segue-a.

     - Algum problema? Você está pálida!

     Ela o encara com raiva. Renato! Era só o que faltava para terminar sua tarde!

     - Não, nenhum problema. E que mania essa de querer resolver a vida dos outros! Por que não pensa na sua vida? Cadê seus amigos? Suas garotas? Não acha que está na hora de arrumar uma namorada? De pensar no seu futuro e de parar de me aporrinhar? Vá crescer! Vá para o inferno!

     Por alguns instantes, Rosana tem a impressão de que ele mudou de fisionomia. E calmo, como se nada o afetasse, volta-se, fecha a porta, senta-se na beirada da cama.

     Ela aceita deitar a cabeça no seu colo, relutante. Ficam assim um tempo, ele acariciando os cabelos dela e, pouco a pouco, as lágrimas inundam os olhos, com os sentimentos transbordando. Chora o amor desprezado, a solidão da casa cheia de limites, o trabalho reconhecido, mas sempre incerto, o medo do futuro, a falta de amigos, os objetivos nunca atingidos. Por isso e por muito mais, chora em silêncio, enquanto Renato penteia os cabelos loiros com os dedos, em gestos longos e suaves.

     - Está bem, mano. O que é que eu faço? Estou morrendo de ódio do Cláudio... Estou morrendo de amor por aquele maldito homem!

     - Esqueça-o.

     - Ah, Renato! Eu gosto tanto dele!

     - Se você insistisse um pouco, talvez descobrisse o motivo pelo qual não é correspondida. É como se estivesse cega!

     - Eu tenho medo.

     Ele sorri.

     - Você tanto gostava de mexer com a vida dos outros, mas na hora de bisbilhotar um pouco na de quem realmente interessa, tem medo. Porque você o purificou com sua paixão e sabe que, quando investigar vai descobrir que ele é apenas um homem comum.

     - Não, pelo menos comigo ele não parece um homem comum. Ele me chama de irmã. Parece feito de gelo aos meus carinhos. Ele não gosta de mim.

     Renato fica muito quieto, pensativo. Depois, baixinho, como que para Rosana não ouvir, murmura:

     - Você acaba de dizê-lo...

     Rosana, ensimesmada, deixa de ouvir o comentário.

 

     - Cristina!

     - Que é, mãe?

     - Carta pra você. Da França!

     - To indo!

     Disparando pelo corredor, percebe a porta do quarto de Zana ainda fechada.”Faz horas que Renato entrou" - registra, quase inconscientemente.

     - Cadê, mãe?

     - Aqui. De quem é?...

     - Formidável!... - diz, identificando o timbre no canto do envelope.

     - (...) Cris, estou falando com você.

     - Hein?

     - De quem é a carta?

     - Depois conto.

     E dispara de volta para o quarto.

 

     Durante o jantar, Regina está curiosíssima. Cristina, visivelmente está feliz. Entretanto, somente no final ela menciona a correspondência.

     - Ah, sim. Eu queria avisar pra vocês: vou passar uns dias fora. Vou viajar.

     - Para onde, filha?

         - Para Toulon.

     - O quê?

     - Tou-lon. França. Europa. Satisfeita?

     - Estou surpreso - atalha Arthur. Você não havia antecipado nada a esse respeito, e...

     - Preferi guardar segredo. Agora, com licença, por favor.

     Sem maiores explicações, retira-se, deixando a todos confusos. Rosana, sem se incomodar muito - afinal, tem problemas suficientes - também resolve sair. Marido e mulher iniciam um inquérito hipotético sobre a inusitada viagem. Como, onde, por quê? Renato, que não participa, recebe uma pergunta direta do pai.

     - E você, meu filho. Sabe com quem Cris vai?

     - Ela vai sozinha.

     - Sozinha? Mas é muito arriscado...

     - Não se preocupe, papai. Ela vai para se encontrar.

     -...Pode se tornar perigoso...

     Toca o telefone, o advogado atende e passa o gancho para Regina. É Sandra que chegou na cidade e quer marcar um passeio com a mãe. Renato aproveita para escapar da mesa, não há mais nada a responder.

 

     No dia seguinte, a família se reúne para um almoço (menos Cris, que ninguém sabe onde se meteu).

     Depois da sobremesa, Sandra e a mãe vão ao cinema.

     Heitor, pretextando uma gravação, despede-se. Rosana, seguindo-o de carro, reconhece que trajeto é para o seu apartamento.

     Todos seus instintos de detetive se aguçam. Mesmo de longe, havia continuado a seguir os cunhados. Fez amizade com Reinaldo e, através dele, foi brindada com inúmeras revelações. Boa parte constituindo bobagens, inúteis em qualquer caso. Somente há cerca de um mês foi saber que Ana costumava receber cartas de Heitor.

     Aliás, a descoberta teve tudo de insólito. Numa TV, ligada no balcão da lanchonete, Reinaldo, em dado momento, comentou, vendo Heitor num comercial:

     - Ah, esse cara escreveu outra carta pra Ana. Tinha esquecido de avisá-la.

     Rosana reagiu mecanicamente. Naquele momento, perdida em divagações, nem o percebeu. Somente no finalzinho do comercial constatou que se tratava de Heitor. Uma propaganda nova, que ainda não tinha visto.

     - Que carta? - informou-se com cuidado.

     - Para Ana. Ele sempre manda.

     - Mas, de onde eles se conhecem?

     - Ah, isso eu não sei. Só sei que faz anos que volta e meia ele escreve.

     - Isso... Isso antes de casarem?

     - Sem dúvida! Antes de conhecer Rogério, ela já recebia cartas. Eu queria que ela o convidasse pra vir aqui. Já imaginou que propaganda? Respondia que ia pedir fotos autografadas.

     - E o senhor viu as fotos?

     - Nunca. Ela era muito ciumenta com essas cartas, não mostrava pra ninguém.

     Rosana ainda tentou ver a última carta, mas Reinaldo se impressionou e intuiu que tinha falado demais. Daí, negando o que tinha dito, despistou.

 

     Estacionando num local seguro, sem poder ser vista, observa Heitor entrando no prédio onde mantém apartamento para quando está na cidade.

     "Bem - pensa -, Heitor não teria a ousadia de vir namorar, dentro da sua própria casa com a mulher do Rogério. De qualquer jeito, mentiu dizendo que tinha gravação. O mais provável é que a tal gravação seja mais tarde. Isso significa que tenho uma ótima oportunidade para falar com ele. Ou ele abre o jogo ou eu abro a boca".

     Sobe de elevador, decidida. A porta do apartamento tem um trinco todo trabalhado. A companhia ressoa dentro mais absoluto silêncio. Ninguém atende.

     "Ué, será que foi antes ao apartamento de algum vizinho? Não, deve estar no banheiro. Vou tentar de novo".

     Num olho mágico estrategicamente dissimulado numa porta lateral, Heitor surpreende-se com a presença de Rosana e depois volta para a cozinha, preocupado.

     Ali, esperando, torcendo as mãos, Ana.

     - Você não vai atender? Quem é?

     - Rosana...

     - O que... O que ela faz aqui?

     - Tem seguido meus passos há meses. Acho que desde o casamento. Nunca foi com a minha cara. Porque não cuida só da vida dela?!?

     Fitam-se, confusos e ansiosos. A campainha soa pela terceira vez.

     - Que vamos fazer?

     - Seja lá o que Deus quiser. É melhor ela saber de tudo, antes que imagine coisas.

     - Heitor!

     - Não agüento! É só chegar nesta maldita cidade e esta intrometida começa a me perseguir!

     Heitor atende. Ela se mostra sociável, embora vá entrando sem esperar o convite. Ao se deparar com Ana, perde a compostura.

     - O quê!?! Ana! O que esta va-ga-bun-da faz aqui?

     Fecha a porta com estrondo, num gesto teatral. Se algo o irrita, são cenas de improviso.

     - É o que você queria ver, não é?

     - Ah, eu não posso suportar isso! - diz, retrocedendo.

     Heitor segura-a pelo braço, com força, sem se impressionar com os protestos.

     - Essa sua curiosidade um dia vai acabar mal. Mas já que deseja tanto esmiuçar a vida alheia, vou lhe dar um prato cheio. Vou contar tudo a meu respeito e de Ana.

     Ana se apavora.

     - Não, Heitor, não faça isso! É melhor que eu saia dessa família... Eles jamais vão compreender. Ela - diz, apontando Rosana - nunca vai entender. É melhor pedir o divórcio.

     Rosana recosta-se na poltrona. Passado o susto, as coisas começam a sair como deviam. O medo nos olhos da outra a satisfaz. Heitor, ao contrário, mantém-se estranhamente calmo. "Cínico" - pensa.

     - Talvez você tenha que pedir o divórcio... Quem sabe eu também. Só que ela não sai daqui hoje sem uma explicação. Conheço a fera, não vai contar nada para ninguém. Não lucrará nada com isso.

     Rosana empertiga-se, sentindo-se superior. Suas suspeitas estão confirmadas. Mas ele continua.

     - Se estivesse investigando a vida de outra pessoa, talvez tivesse uma manchete maior do que a do nosso caso.

     - Que pessoa?- retruca.

     - Não. Ao contrário de você, não gosto de me meter na vida dos outros, mesmo quando penso ter todas as evidências. Não quer saber, o problema é seu.

     Sem deixá-la interromper, continua. Ana, por sua vez, encolhe-se de medo, observando.

     - Vamos às respostas que você tanto quer. O malfadado caso entre os cunhados. Tudo em detalhes, sobre o nosso relacionamento, desde quando começamos a nos encontrar.

       Rosana ouve atentamente, vexada pela ironia com que ele ilustra a narrativa.

     - Deixe de fazer teatro. Fale direito, senão não acredito no que você diz.

     Da parte dele, é uma forma de sustentar o autocontrole, de um lado, e de comemorar, em seu íntimo, a decepção que vai marcando a expressão de Rosana. Os fatos amontoam uns sobre os outros, caprichosamente, até estar seguro de que o segredo continuará segredo, pelo menos daquela parte.

     Ana, por seu turno, está insegura. Espera tudo... Um escândalo, intrigas, fofocas...

     No fim, Zana, entre surpresa e decepcionada, conclui:

     - Está bem. Por enquanto mantenho silêncio sobre vocês. Quanto a Ana, ainda vamos conversar. Rogério precisa saber disso. E agora, já que não há mais nada, vou embora.

     Dá as costas, sem se despedir.

     Quando o barulho do elevador indica que Rosana já chegou ao térreo, ele rompe o silêncio.

     - Preferia que tivesse falado alguma coisa, feito barulho. O silêncio dela me preocupa.

     - Ah, Heitor, eu lhe trago tantos problemas!

     - Ana, Ana... Você sabe que gosto de ajudar. Sem culpas, tá?

 

     Renato vem chegando da escola e entra pelos fundos da casa, pensando em pegar alguma coisa gostosa na geladeira, um pudim de chocolate, talvez uma torta gelada...

     Sem querer, depara-se com Rosana, sentada na calçada. Para qualquer outro, ela deve estar aproveitando o sol morno do fim de tarde. Para Renato, que lê o coração das irmãs, ela está amarga, triste. Aproximando-se, cauteloso, senta-se ao seu lado. Há um pouco de espera, até que:

     - Ah Renato, esta vida nos dá cada surpresa!!

     - Pois é, mana. A gente pensa que pode prever tudo, saber antes, e, na hora, não é bem assim.

     - É...No fundo, a gente tem algo em comum: estamos tentando adivinhar o futuro, pra... Pra...

     - Ajudar os outros?

     - É. De certa forma.

     Renato esboça um sorriso.

     - Mesmo?

     - É isso que não entendo. Você vive revolvendo os problemas dos outros. Mas ninguém joga na sua cara que está sendo abelhudo. Comigo é justo o contrário.

     Ele não responde, voltam a prestar atenção ao final de tarde. Uma revoada de passarinhos passa pelo quintal, disputando sobras de arroz.

     - E você?

     - Eu o quê?

     - O que você espera da vida? Não tem amigos, nunca fala do futuro...

     - (...) Não tenho vontade de pensar no futuro. Para mim é como se ele não existisse.

     - Isto é um absurdo!

     - Eu só gostaria que vocês fossem felizes... Parece tão difícil...

     - Oh! O pródigo! Falando sério, estou preocupada com você. Quanto mais cresce, mais estranho fica!

     Ele ri.

     - Ah, eu to bem. Não se preocupe. Venha, o sol tá fraco, acho melhor entrarmos.

     - Legal. A mãe fez arroz doce...

     - Oba!

 

     A noite chega com uma lua cheia, imensa e brilhante.

     Já é tarde quando Arthur finalmente abandona os livros do escritório e vai para o quarto, dormir. Ainda assim, encontra Regina divagando diante da janela, envolta num robe azul claro que desce até os pés descalços.

     - Sem sono?

     - Fiquei aqui pensando... Não vi as horas passarem.

     Toca o rosto dela, carinhoso.

     - E que tantos problemas preocupam a minha princesa?

     - Ora, Arthur...Após tantos anos... Não sou uma princesa.

     - Para mim, é.

     - Gosto quando fala assim. Você me transmite segurança.

     - Parece realmente preocupada. Alguma coisa que ainda não sei?

     - É nada e tudo ao mesmo tempo. Fiquei pensando nas crianças. Parece que a vida deles virou de pernas para o ar e ficou assim, indefinidamente!

     - Você está exagerando. Veja Renato: é a própria paz em pessoa!

     - Tem razão, talvez seja paranóia minha... Como vão as aulas de direção que você ia dar para ele?

     -...Calma. Ele está aprendendo apenas para me agradar. De modo algum se interessou em ganhar um carro nos seus 18 anos.

     - Acha isso normal?

     - Pra falar a verdade, não. Todo garoto é "maluco" para ter um carro.

     - Menos Renato. Aliás, ele não é "maluco" por nada. Que Deus me perdoe, mas às vezes me preocupa. Como ele é apático! Nada mexe com ele. Nada. Tudo está eternamente bem.

     - Em compensação, as outras crianças... - Cristina hoje estava insuportável, nervosa, batendo portas.

     - E por quê?

     - Parece que a tal viagem para a França está sai-não-sai.

     - Se ela explicasse, talvez pudéssemos ajudar.

     - Eu sei, amor. Seria tão simples para você mandá-la à Europa, não? Aí entra a questão da auto-afirmação dela.

     - Sei, sei. Sem interferências. Aquela tal de Vera não vai junto nessa viagem, vai?

     - Pelo que sei, não.

     - Graças a Deus!

     Ficam em silêncio, enquanto Arthur troca de roupa e deita. Ela se recosta a seu lado, querendo continuar a conversa. Gosta de falar assim na intimidade. Sente-se segura, e é mais fácil dividir preocupações. No momento, é Rosana que está em seu coração, tratando-se de um assunto que acredita ser melhor não discutir. Por Rosana, perde o sono. Não é normal que passe tanto tempo perseguindo alguém que não a ama. E quantas oportunidades perdeu de namorar rapazes de boa família, que poderiam fazê-la tão mais feliz! Às vezes, sente vontade de explicar o verdadeiro motivo dos desentendimentos entre Arthur e Cláudio. Outras acha que a filha já sabe.

     Com estes pensamentos, nem nota Arthur adormecer. Para ela, porém, o sono demorará a vir.

 

     - Heitor e Sandra chegam à casa da família, com uma novidade que sabem vai agradar a todos, principalmente Regina.

         - Temos uma boa notícia para dar a vocês.

         - Depois do almoço completo Sandra, com um sorriso contagiante.

        O almoço é servido em clima de bastante algazarra, com o suspense acerca da novidade. Na mesa, Heitor finge discursar, até que faz a revelação: Sandra está grávida.

     O champanhe é bem-vindo. A alegria de ter novamente uma criança em casa é consenso geral.

     -...E quem sabe assim a Sandra desgruda um pouco de você e diminui o ciúme não é, Heitor? - comenta Rosana.

     Desta vez, Sandra não deixa por menos, derramando "descuidadamente" o champanhe na roupa da irmã, que se ergue, agressiva, mas ao ver a cara da outra, acabam caindo na risada. Tudo é festa.

     Terminado a refeição, resolvem combinar um passeio no shopping, para ver roupinhas de bebê. Arthur, entretanto, prefere um barzinho, para encontrar amigos. Apesar da boa notícia, continua um tanto deprimido, coisa que tem por hábito manter só para si, procurando disfarçar, temendo não corresponder à confiança que Regina deposita nele. Além disso, arroga-se a culpa pelos problemas dos filhos, o que faz piorar seu estado de ânimo.

     Nos momentos em que este peso se mostra excessivo, torna-se amargo, distante. Diz então que são os problemas do-escritório, sabe como é.

 

     No bar, do clube em que Sandra casou, o movimento é pequeno, bem menor do que o de costume. Pede o seu drink habitual, ocupa a mesa de sempre e começa a flanar em pensamentos, coisas amenas, sem traumas, para espairecer.

     "O que houve? - pensa. São quase sete horas? O que aconteceu com o tempo?"

     Apressa-se em ir para casa. Na saída do clube, alguém lhe toca os ombros.

     - Dr. Arthur, acho que chegou a hora de termos uma conversa.

     - O que!?

     - Apenas lhe dizer algumas coisas.

     Perplexo, analisa o sujeito, sua estatura, a maneira como se veste. Dá um passo para trás, sobressaltado.

     - Espera aí. Você é quem anda incomodando os meus, aparecendo e desaparecendo feito fantasma!

     - Não... Pelo menos eu não sou um fantasma, com certeza. Conheço Renato. Travamos amizade por acaso, ele me pareceu um garoto... Muito especial.

     "Se não é o misterioso fantasma, é ao menos idêntico à descrição".

     O velho indica uma praça. Automaticamente, Arthur o segue, escutando, ressabiado.

     - Foi Renato quem conversou comigo sobre os problemas da família. Tornamo-nos amigos e, de certa forma, a sua família passou a ser minha também. Só bem mais tarde é que me pediu para olhasse pelos irmãos.

     - Espera que eu acredite?

     - Ele estava preocupado. Por ser muito novo, não conseguia ganhar a confiança necessária para poder ajudar. Daí me pediu que interferisse.

     - Fala de forma vaga. Que problemas? Que soluções? E conseguiu resolver algum?

     - Em parte. Existem responsabilidades que pesam sobre Renato, que somente ele poderá resolver. Cresceu, é um rapazinho. Não será difícil, agora, uma aproximação mais efetiva à alma e ao coração de cada um.

     A segurança com que o velho fala faz Arthur relaxar, e acreditar. Seja como for, o homem parece ter respostas. Por isso, pergunta:

     - Por que Renato?

     - Porque ele tem uma missão. De certa forma, a provação dele é parecida com a de todos nós: amar o próximo e compreender os problemas de nossos irmãos. Para Renato, em particular, a coisa é mais séria e a ligação dele com a família é por demais intensa. Ele sente as coisas e as pessoas por intuição, e sabe prever o futuro imediato. Falando com seu filho, sem os preconceitos da idade, saberá que ele compreende muito além do que o senhor supõe.

     Arthur recorda-se das vezes em que conversou com Renato e lhe pareceu ser outra pessoa. Chegou a evitar o menino, temeroso de enfrentá-lo, acreditando estar ficando maluco.

     No momento, procura manter o velho sob sua mira. Afinal, se ele desaparece no ar, quer poder ver.

     - Há uma tarefa em que nem Renato nem eu obtivemos sucesso.

     Arthur fita-o, assustado. O que virá agora?

     - E diz respeito à sua nora. O coração dela pesa com um segredo e isso a faz infeliz, porque teme o senhor. Procure compreendê-la. Fale com ela.

     - Minha nora? Já não bastam todos os problemas de casa? Sou incompetente para resolver os conflitos da minha família, por que deveria interferir na de meu filho?

     - O senhor conduz muito bem sua família. Só é um pouco duro, severo demais. Não se esqueça que eles têm o trauma da morte do pai. Precisam muito de compreensão. Cristina por exemplo...

     - O que tem ela?

     -...Doutor, ela sofre por não confiar em ninguém o suficiente para desabafar. Sem esquecer Rosana, que lhe traz aborrecimentos por causa de Cláudio. Está sendo vítima do que plantou na vida, com seu orgulho.

     - O senhor é uma espécie de sortista? De adivinho? Como sabe tanto sobre nossa família?

     - Nem um nem outro. Sei o que lhe digo, graças a Renato, à sua preocupação com o bem-estar dos outros.     - Não acredito em nada disso!

     - É um direito seu... Para mim, hora de ir embora. Boa noite...

     E foi-se retirando devagar, como se sentisse a idade lhe cansando os passos.

         Arthur volta para casa ainda mais calado, nesta noite. Procura se recolher mais cedo precisava dirimir todo aquele enigma e não pretendia dividir sua angustia com ninguém. No dia seguinte, resolveria o que fazer. O coração está apertado, e a presença marcante do velho, não lhe sai da mente.

 

     Ana surpreende-se com a presença repentina do sogro logo cedo. "Que será que aconteceu?" É a primeira vez que vem a casa deles.     No pequeno espaço de tempo entre desligar a TV e ir abrir a porta, as piores coisas lhe passam pela cabeça. Será que Rogério sofreu um acidente? Morto? Será que dona Regina?... Falecimento? Assalto?

     Abre a porta. O sol inunda a sala, recortando a silhueta do visitante.

     - Bom dia, Ana.

     - Bom... Bom dia, doutor Arthur. Entre, por favor.

     Sentam-se. Ana, nervosa, torce a ponta da blusa.

     - Eu vim até aqui porque precisamos conversar.

     - O que houve? Alguma coisa com Rogério?

     - Rogério!?

     - Sim! Aconteceu alguma coisa com ele?

     Compreendendo o raciocínio de Ana, trata de corrigi-lo.

     - Quanto a isto, fique tranqüila. Que eu saiba, Rogério está no quartel, trabalhando. Esta conversa não envolve Rogério e sim você.

     Para ela, a aflição simplesmente muda de tons. Ele, por sua vez, está entre inseguro e arrependido. “O que vim fazer aqui?" - pensa. "E se aquele velho biruta inventou toda essa história de segredo? Essa menina vai pensar que o maluco sou eu".

     - Bem... Hum... Eu... Eu reconheço que no princípio fui contra o seu casamento. Tente entender minhas razões. Vocês vieram viver aqui... - faz um gesto tímido, traduzindo que a simplicidade da casa não está entre os ideais que escolheu para o filho - um modo de vida diferente daquele a que Rogério estava acostumado.

     - Rogério se queixou para o senhor da vida que leva ao meu lado? - ironiza.

     - Não! Claro que não... Aliás, eu nem sei direito por que estou comentando isso, pois nada tem a ver com o que realmente quero conversar... Ou melhor, eu estou... Queria... Queria tentar explicar porque de repente resolvo lhe fazer uma visita e pedir a sua confiança...

     - Con... fiança?

     E agora, como explicar que está seguindo a opinião de um velho cuja origem desconhece e que juram ser um fantasma? Como não sabe direito o que fazer, e se sente pressionado pela situação, resolve despejar tudo de uma só vez.

     - Gostaria que confiasse em mim, porque sei que tem um segredo, e suponho que prefere não falar sobre isso na frente de meu filho. Eu gostaria de ver vocês felizes. Fico tão contente nas nossas reuniões... A vida é tão curta... Sabe? Ser uma família transparente...

     Encontrando, finalmente, o fio da meada, nem percebe as mudanças de expressão no rosto de Ana.

     "Demorou, mas a megera falou". Contrariada com apologia da "família feliz", que lhe soa falsa, ela interrompe.

     - Até que demorou!

     Intrigado, Arthur se cala. "Demorou o quê?" - pensa.

     - Então ela lhe contou, não é? De certa forma, foi bom que aconteceu. Faz tempo que estou esperando alguém entrar por esta porta, pedindo satisfações. Sabia que iam me cobrar isso. Só não entendo por que ela contou justo para o senhor, ao invés da mãe.

     "Enfim, o velho tem razão. Existe um segredo".

     - Ela quem? De quem você está falando? Quem mais sabe da sua história?

     - Doutor... O senhor quer me enlouquecer? Quem, afinal, lhe disse que tenho um segredo?

     - Bem... Um velho.

     - Um o quê? A tal assombração?

     - Ana, quem mais sabe a respeito? - coloca, disposto a romper com as interrogativas.

     - Rosana... Ela sabe... E me admiro que não seja quem lhe tenha contado.

     "Rosana... faz sentido. Mas isso não importa agora".

     - Muito bem. Agora me conte qual é esse terrível problema.

     Algo relutante, porque afinal ele ainda desconhece o teor do seu mistério, ela baixa os olhos e vai falando de pouquinho, voz baixa, tremida. A história toda vai saindo, aqui e ali umedecida por uma lágrima rebelde. Em síntese, um relato de medo e de humilhação, de sentimentos feridos e de mágoas acumuladas, diferente daqueles mares de lama que inundam diariamente o escritório do advogado.

   Feita a revelação, abraçam-se, estreitando um entendimento que vem tardio. Da parte de Arthur, este promete que só falará se houver um momento oportuno, acreditando, no entanto, que a família deva saber ao menos parte da verdade, o que refletirá numa união maior entre eles.

     Ana querendo voltar à realidade, oferece um chá. Dirigindo-se à cozinha, conversando, a dado momento, ela pede:

     - Dr. Arthur...

     -...

     - Gostaria de lhe dizer mais uma coisa.

     - E o que é?

     - É... Bom... O senhor promete não contar a mais ninguém? Nem mesmo a Rogério? Preciso dividir isso com alguém... Mas o senhor promete? Promete?

     “Santo Deus, o que ainda virá?”.

     - Prometo, com certeza. Pode falar.

     Amparada pela sinceridade de Arthur, desta vez a emoção flui normalmente. Trata-se de fatos que se sucedem, sérios, comprometedores, reveladores.

     Conversam quase toda manhã. Ao se despedirem, Arthur encontra-se ainda mais atordoado do que antes, convencido de que estava despreparado para tantas descobertas.

     - Arthur!

     Regina, atenta à chegada do marido, vem logo assediá-lo. “Onde se meteu? Será que me enganou?"

     - Arthur!

     - Mãe, é urgente?

     - Oi, Renato. Não tinha visto você, aí. Tive a impressão de ter ouvido o carro de seu pai.

     - Realmente, ele chegou.

     - Mas... Onde está?

     - Subiu. Foi direto pro quarto da Cris.

     Entreolham-se, ela sem entender. Renato, sim, intuiu o que está acontecendo.

     - Acho melhor não interrompermos.

     - O que será que seu pai tem de tão importante para conversar com ela?

     - Não faço idéia.

     Regina questiona, com carinho:

     - Não mesmo?

     -...Talvez. Acho que as coisas vão começar a se ajeitar por aqui.

     - Sabe de alguma coisa?

    - Nada de concreto.

     - Hum... Mudando de assunto, quando é que você vai com seu pai escolher seu presente de aniversário?

     - Não sei, - responde, com desânimo.

     - Você me impressiona. Ganha um carro de presente, o sonho de todo jovem, e está triste! Quer outra coisa? Além disso, mais uns dias e você poderá dirigi-lo!

     - Desculpe, mãe. Eu... Sei lá. Não consigo me entusiasmar. Prefiro que o pai escolha por mim. Ele sempre sabe o que combina conosco... Nunca fui ligado em carros, não vou nem saber o que fazer, qual escolher.

     - O que Arthur quer é ver você feliz.

     - Tá bom. Eu vou com ele.

     - Renato... Tenho me preocupado muito com você!

     - Por quê?

     - Pelas coisas que existem dentro da sua cabeça e que não divide com ninguém. Às vezes, você parece tão distante! Gostaria de poder fazer alguma coisa para ver você mais presente.

     - Sabe, mãe, é que eu não sei explicar. Tenho... Medo de crescer. Como se eu quisesse parar o tempo. Ah, se eu pudesse fazê-lo!

     - Entendo. É difícil, para todos nós, chegar à vida adulta. Tem um bocado de momentos dolorosos e outros, de grande prazer. É bom vivê-los. A dor e o medo são uma dimensão da vida.

     Deixa de concluir o raciocínio, alertada pela campainha do telefone.

     - Alô.

     - De onde fala?

     - Residência do Dr. Arthur.

     - Oi Regina, tudo bem? Aqui é Cláudio.

     Ela morde os lábios, preocupada, verificando se ninguém está por perto. Somente Renato, absorto num livro.

     - Olá... Rosana não está... Escute... Aproveitando... Eu queria trocar umas palavras com você.

     - Parece sério...

     - E é. Preciso de um favor. Não me leve a mal, você sabe que o quero muito bem, inclusive sempre fiz de tudo que estava ao meu alcance para que você e Arthur se entendessem.

     - Eu sei, e agradeço.

     - E em consideração a isso lhe peço, por favor: afaste-se de Rosana. Não preciso explicar os motivos...

     - Não, claro que não. Mas queria que soubesse que também penso assim, e não é só por minha culpa que as coisas estão como estão. Já fiz de tudo para Rosana se afastar, mas não consigo.

     Faz uma pausa, e continua:

     - Inclusive, hoje eu não liguei para falar com ela, e sim com Arthur. Cheguei há pouco em casa, e tem um recado dele na secretária eletrônica.

     - Recado... Do Arthur? Faz idéia do que se trata?

     - Também estou surpreso...

     - É verdade que está diferente. Acredita que chegou, foi direto para o quarto de Cris e está até agora lá, conversando a portas fechadas?

     - Bom... De qualquer modo, é melhor não interromper.

     - Faça o seguinte: Amanhã é sábado, e de manhã ele nunca sai. Ligue novamente.

     - Combinado. Mas avise que liguei. Pode ser alguma coisa urgente, e não devo sair hoje.

     - Claro.

     - Muito obrigado Regina. Tenha um bom dia.

     - Bom dia, Cláudio.

     Ela desliga, com comichões de curiosidades percorrendo o corpo. O que teria Arthur a tratar com o irmão?

     Mal tem tempo de se questionar, quando ouve batidas de portas. Primeiro a da entrada dos fundos, depois a da cozinha. Finalmente, atropelando pela sala, entra Rosana.

     - Aonde vai desse jeito, menina?

         - Ah, mãe, estou um caco, me poupe.

         Quase uma hora da tarde, Arthur sai do quarto se desculpando por ter atrasado o almoço de todos e informando que Cris, não iria almoçar. Talvez mais tarde saísse para fazer um lanche.

         Regina se aproxima, mal consegue conter a curiosidade.

         - O que vocês falavam tanto? Qual a novidade? Por favor, fale alguma coisa.

         Regina preciso ficar sozinho um pouco, vou para o escritório. Tenho que descobrir umas coisas, fazer algumas ligações, logo mais à noite, conversaremos. - E segurando nos ombros da mulher de maneira carinhosa, conclui. - Acho que fiquei dormindo no meu orgulho tempo demais, por isso só preciso de umas horas para rever coisas que terei a fazer. Mas fique tranqüila tudo vai dar certo, confie em mim. E a propósito: gostaria que não fizesse nem uma pergunta para Cristina, acho que ela também precisa de um tempo.

.        - Santo Deus, homem, como vou agüentar até a noite essa curiosidade? Não quer mesmo dividir comigo? Nunca tivemos segredos...

         - Você é uma mulher admirável minha cara, vai agüentar assim como sempre o fez, discreta, carinhosa e paciente, e não imagina como preciso desse seu apoio.

         Percebendo que seria inútil continuar questionando, resolve mudar de assunto:

         - Você ligou para o Cláudio? Ele...

         - Liguei sim, acho que está na hora de passar a vida a limpo, por isso preciso de você. - Beija-lhe a testa, e sai sem almoçar.

         Enquanto isso, Cristina aproveitando a distração dos dois, ganha a rua e só retornando no início da noite.

         A casa está quase vazia a tarde toda, Regina se perde em pensamentos. “Será que Rosana sabia de alguma coisa sobre todo aquele mistério? Será que só ela tinha que aguardar até a noite?” Caso isso fosse verdade, então a coisa era mais séria do que imaginava.

         Sem conter a ansiedade, procura a filha, tentando desabafar, ou sondar alguma informação.

         - Ah, não, por favor, mãe, me deixe quietinha só um pouquinho.

         - Hoje é o dia... Resmunga entredentes. Primeiro seu pai se tranca com Cris no quarto. Agora você nesse mau humor!

         - Arthur e Cris? Logo eles, que não se topam! Sabe do que se trata?

         Regina sente-se feliz, não era a única alheia na casa, e o fato da filha não saber, já lhe deixava mais aliviada.

         Final de tarde, passos pesados, denunciam a presença de Arthur, ares carrancudos, semblante pesado, um que de mistério o envolvia. Já não resistia mais a tanta ansiedade, entretanto, nota que o marido está sério, distante. Tenta quebrar o gelo.

         - Quando quiser jantar... Não almoçou hoje e...

         - Vou ao bar tomar alguma coisa primeiro, prometo não demorar. Estou péssimo, mais tarde falaremos.

         Ao descer, Renato procura Arthur.

     - Seu pai saiu, Ele está tão estranho, disse que teria uma coisa para falar essa noite, falou sobre orgulho, algo meio vago, não entendi direito, mas o certo é que continua agindo de uma maneira...Não sei mais o que fazer.

         - Vou procurá-lo, fique calma, - diz Renato com seu ar adulto.

         Renato no bar, pela primeira vez na vida, senta ao lado do pai, e com seu jeito meigo:

         - Posso tomar um gole dessa cerveja?

         - Mas que novidade é essa? Vou pedir mais um copo.

         Os dois se estudam, quanto Renato prova a bebida numa careta engraçada, depois limpa a boca passando a língua no ralo bigode.

         - A mamãe está preocupada, - fala sem tirar os olhos do pai, - Você falou com a Cris, depois saiu, não disse nada. Acha que a Velha Regina merece isso?

         - Renato meu filho, preciso falar com sua mãe, mas estou tentando buscar uma maneira mais a Mena. Hoje foi um dia muito difícil, de uma hora para outra, parece que tudo que reneguei durante toda a minha vida se reverteu contra mim como uma maldição. -

         Toma mais um gole de cerveja, procurando manter um raciocínio lógico, afinal está na frente de Renato, e ele parecia ler pensamentos. Felizmente o filho mantinha o ar jovial, não a expressão séria que às vezes o assustava, isso de certa forma, deixava Arthur mais à vontade. Todavia, as palavras se perdiam na garganta, sufocando-o como um castigo doloroso.

         - Você sabe dos segredos de Ana?

         Arriscou com cautela, afinal o filho poderia também estar sabendo e isso facilitaria as coisas.

         - Não exatamente, - fala descontraído, - sei que ela tem problemas sérios, mas não tenho a menor idéia do que seja. - Por quê?

         - Porque eu sei, descobri tudo, encontrei o tal velho, o seu amigo. Ele me induziu com meias palavras a procurar Ana e falar sobre seu segredo, ganhar-lhe a confiança, enfim.

         - E...

         - Fui até lá essa manhã, falei com ela, fiquei sabendo de coisas absurdas. Depois, seguindo a orientação do velho, fui ter com a sua irmã, e então ela me confirmou o que eu mais ou menos temia.

         Renato para o copo no ar, meio apalermado, - E então? - Pergunta.

         - Ela está tendo um caso com a tal Vera, e o pior, não tem forças suficiente para se livrar da amiga, que com muita autoridade, intimida a Cris. Vou ajudá-la a embarcar para a França. E esse caso pode está resolvido, mas ainda tenho: Rosana, Cláudio, Ana, Rogério.

         Enche os copos, Renato aturdido pela narrativa, nem percebe que está bebendo em pé de igualdade com o pai.

         Arthur fica em silêncio por alguns momentos e Renato o observa. No fundo estava feliz, finalmente o pai estava se dando conta dos problemas da família e se preocupava em resolvê-los.

         - Vou falar com sua mãe e marcar uma reunião amanhã à noite com toda a família, espero em Deus ter forças para me fazer entender da melhor maneira possível. O que acha? Será véspera do seu aniversário, nada melhor que colocar a casa em ordem.

         Conversaram igual gente grande durante uma duas horas, Renato ouvia e discutia os detalhes da reunião, sentindo-se mais aliviado. Tudo que precisavam era informar Regina que a essa altura deveria estar aflita.

         - Cris!

         Regina aborda a filha, já não agüentando mais tanta suspense.

         - O que você e Arthur conversaram tanto? Ele pediu para que eu não tocasse no assunto com você, mais ainda sou sua mãe, e acho que...

         Ela senta-se no canto do sofá com uma das pernas sobre o braço da poltrona, e sem muitas voltas fala:

         - Contei pra ele sobre o meu caso com a Vera, e a dificuldade que sinto em romper com isso.

         Regina sente que o chão foge dos seus pés, está tonta com a frieza com que a filha aborda o assunto.

         - Porque não desabafou comigo? Santo Deus! Logo com Arthur. Como ele reagiu? Então é por isso que está tão calado. Minha nossa!...

         Cristina dissimulada:

         - Você nunca me perguntou, só me dava indiretas, sentia medo da verdade, eu sabia que não iria me apoiar. E depois, nunca me importei com essa situação, só há alguns dias atrás é que senti vontade de falar sobre o assunto, mas resolvi viajar para fugir de tudo, inclusive da Vera, porque ela já me encheu. Daí Arthur chegou querendo falar sério mostrou-se menos hipócrita, aproveitei o gancho e despejei. Pensei que ele já havia lhe contado.

         Regina sentindo-se traída e magoada deixa as lágrimas rolarem.

         - Olha aí mãe! - diz levantando-se para acudi-la. - foi por isso que não lhe contei, não queria que sofresse, se eu fosse embora, ninguém precisava ficar sabendo. Mas Arthur foi tão incisivo, agia como se já soubesse. Não pude evitar. Agora para de chorar, não faça eu me sentir ainda mais culpada.

         Arthur retorna com Renato, e Regina limpando os olhos, nota que o filho havia bebido.

         - Então não agüentou a curiosidade, - fala o marido se aproximando carinhoso, - vamos nos deitar, precisamos ter uma conversa.

         Enquanto os dois se afastam, Renato e Cristina se envolvem num bate papo descontraído. Falando sobre a reunião.

 

         A noite todos reunidos, o clima é tenso, havia sem dúvida um mistério no ar.

     - Esta não é, ou pelo menos penso que não, uma família nos moldes mais convencionais. Só para citar uns exemplos, temos um amigo... Um velho amigo que tudo indica ser um fantasma.

     Em meio a risadas, continua:

     - Um caçula que interpreta sentimentos... E por aí em frente. Por isso, tomei a decisão de, nesta noite, na véspera do aniversário, em homenagem à devoção que tem por todos nós, promover um bate-papo aberto, franco, colocando juntos os problemas que estamos enfrentando e as soluções que podemos encontrar para cada um...

     -...Talvez por ser o mais velho, talvez pela posição de pai, fui o último a tomar conhecimento de muitas coisas.

     Disse isso olhando para Rosana. Depois, numa pausa, relanceou a vista para Heitor e Ana.

     - Nas outras vezes - e fixou carinhosamente sua atenção em Cristina - fui praticamente um dos primeiros. Isto é, se o fantasma e Renato não contaram, claro.

     - Cris, e Deus sabe que a amo como filha, tem um conflito enorme em seu coração. Mas nós conseguimos conversar, e é com muita alegria que anuncio a todos que, em mais ou menos l0 dias, estará em Toulon, estudando Fotografia e repensando sua vida.

     - Vai consertar a carreira e a cabeça duma vez garota?

     - Calma Rosana! A sua vez já chega - adianta-se Cris.

     Ela olha para Arthur, intrigada. O que a irmã quer dizer com aquilo?

     - Bem, já que este é problema velho e resolvido, vamos continuar. Temos outro assunto rolando, que precisa ser esclarecido, antes que gere um problema ainda maior. O Sr. Heitor e dona Ana.

     Ele não dá tempo para interrupções.

     - Eu não consigo entender direito sobre o porquê terem escondido isso. Afinal, nós podemos não só entender como ajudar.

     - Dr. Arthur. Por favor - diz Ana.

     - Quanto mais você esconder mais corre o risco de que através de uma fofoca, aí sim, torne-se um problema.

     - Afinal de contas, o que está acontecendo? - fala Rogério, nervoso. O que Ana tem a ver com Heitor?

     - Ana e Heitor são amigos de longuíssima data.

     - Você nunca me falou isso - disse Rogério.

     - Vamos expor os fatos e verá que Ana teve suas razões. E se alguém deve ter culpa neste silêncio, a culpa é mais minha, pela intransigência com que agi no início do casamento de vocês. Dona Dolores, mãe de Ana, optou por viver como bailarina. Nós não a conhecemos nem sabemos que motivos a levaram a isso, portanto não nos cabe julgá-la. Teve dois filhos, que obviamente não pôde criar. Ana só foi nascer muitos anos depois, é, lógico, não conheceu seus irmãos...

     ...Ocorre o fato de Ana ter descoberto que um deles faria uma ponta num filme. Onde Heitor seria o protagonista, e com várias idas no sete de gravação, na expectativa de ancontrá-lo, Ana ficou sabendo que foi Heitor que o descobriu em uma agência, e o convidou para fazer um teste. O rapaz não compareceu no dia da gravação, mas Ana estava lá, e de indicação e indicação, conseguiu falar com Heitor, contou sua história e pediu ajuda. - Agora é com você. - fala olhando para o genro.

         - Bem, - começa meio sem jeito, - O rapaz cujo nome é Hélio, vivia realmente nas agências a procura de trabalho, por isso não era difícil localizá-lo. Entretanto era bastante arredio no que dizia respeito à família. Nunca perdoou a mãe e jamais quis conhecer a irmã. ‘E um moço bem afeiçoado, boa aparência, teria facilidade em arrumar um bom trabalho, não fosse o vício. Por isso eu aconselhei a Ana a se manter afastada. Eu lhe informaria sobre seus passos, assim ela e a mãe poderiam ficar sabendo das suas andanças. Não me custava nada, senti pena das duas, já tive um problema parecido na minha família, e sei que não é fácil. Então resolvi ajudá-las. Até um emprego de telefonista na Tv. Eu consegui para Ana, só que a mãe não deixou. Enfim, jamais imaginei que um dia nos tornaríamos parentes. “Que mundo pequeno”.  

         Arthur continua:

         - Ana guardou segredo porque nós fizemos tanto escândalo por ela ser pobre, que imaginava como reagiríamos se conhecêssemos a história toda. Inteirando do assunto, resolvi conferir, já que há alguns meses Heitor não tem notícias do rapaz. Mas eu o localizei. Ontem após falar com Ana e Cristina, resolvi investigar o paradeiro do rapaz, para isso bastou apenas algumas ligações.

         Para um momento tentando achar uma maneira de colocar as coisas de forma clara, e retoma a narrativa:

         Bem, as notícias não são as melhores. O Hélio foi prezo à um ano atrás, porque portava um papelote de cocaína e não soube explicar a origem. Mas como não foi autuado em flagrante vendendo a droga, poderia sair sobre fiança. Que já providenciei, ele será colocado em liberdade amanhã, com a condição de procurar a família, nem que seja apenas para dar uma satisfação. Depois é com vocês.

         Arthur vai até o meio da sala, com andar lento, segurando o queixo pensativo, pigarreia e volta a falar:

         Quanto ao seu outro irmão, as notícias não são nada agradáveis. Espero que esteja preparada para o pior.

         - Ah! Não! - Morto?

         - Infelizmente. Numa briga de Ganges, sinto muito,

         Ana começa a chorar, mas é acudida pelo marido que a abraça dizendo:

         - Nem tudo está perdido, vai conseguir ver pelo menos um dos seus irmãos, e agora precisa ser forte, terá que dar a notícia a sua mãe.

     Arthur pára um instante, depois completa, falando mais para si próprio do que para os outros:

     - Não era necessário envergonhar-se. Todos temos problemas e... Não podemos nos responsabilizar pelas decisões alheias. Também eu tenho coisas que não aprovo entre os meus... Não adianta esconder... Bem. Eu convidei o meu problema para vir hoje, mas ele não veio.

     Rosana fita com ódio o rosto de Arthur. Ele não percebe, pois neste momento Ana se levanta para agradecer ao sogro. Ele a estreita nos braços e depois pergunta?

     - Você tinha me falado sobre outra coisa. Que tal aproveitar a oportunidade?

     Ela limpa o rosto tentando se recompor.

         - Bem... Eu queria falar com o Rogério primeiro, mas as coisas tomaram outro rumo. Não vejo por que não. - olha para Rogério e, num sorriso, diz, - é que... Bem... Estou grávida.

     Rogério a abraça e recebem cumprimentos. Apesar das últimas revelações, Ana tenta manter um sorriso discreto. Rosana, entretanto, que desde a indireta do pai está incomodada com a perspectiva do que pode ser revelado, resolve sair de fininho. Arthur percebe e a chama.

     - Rosana, não saia ainda. A próxima é você.

       Instintivamente, todos sabem ser a próxima a pior parte.

     Renato observa o desenrolar da reunião, sem uma única palavra. Mantém uma expressão séria, como a de um rosto talhado em pedra.

     - Convidei Cláudio para esta reunião - sentencia Arthur. Entretanto, ele não veio, o que combina perfeitamente com o jeito dele: a covardia. Então, só me resta revelar...

     - Não, Arthur, obrigada - suplicia Rosana.

     E sai correndo. Ele faz um gesto no sentido de impedi-la, de ainda chamá-la. Regina o detém.

     - Deixe-a ir. Talvez seja melhor assim. Ela não teve coragem para descobrir a verdade sozinha, e prefiro ser eu dizer, quando ela voltar. Sei que não será fácil, mas...

     Sandra, confusa, pergunta:

     - Mas, afinal de contas, o que acontece com esse tal Cláudio?

     - É uma longa história. Vou contar...

 

         Rosana dirige velozmente, noite afora.

     "O que será que existe de tão grave em Cláudio? Ele é um homem especial, eu sei, eu sinto. Arthur o odeia, não quer vê-lo feliz.

     Amo Cláudio. E daí se ele não me ama? Ninguém tem a nada a ver com isso. É um problema meu, só meu. Cláudio vai me amar um dia. Vejo o carinho no fundo dos olhos dele. Somos amigos. Tão unidos que até parecemos irmãos.

     Trabalhamos juntos. Quantos casais casados de papel e tudo possuem a intimidade das noites que já passamos trocando idéias sobre nosso trabalho? Ninguém faz uma parceria como a nossa sem colocar amor nisso. Falta um pouco de paixão nas nossas relações, é verdade. Isso virá. Ele vai me dar uma chance, algum dia, de descobrir suas loucuras, e eu vou fazê-lo lamber o chão para me amar. Todo mundo tem seu ponto fraco. Cláudio também. E eu vou descobrir".

     O prédio surge, iluminado. Há tempos, Rosana tem a chave da garagem. Abre, entra, fecha. Evita pensar por que está ali.

     "Ninguém me compreende como ele. E talvez essa história de paixão seja bobagem. Aliás, será que não estou pressionando demais? É... talvez... Quem sabe esse não é o ritmo dele de amar? E eu só o inibo com as minhas dúvidas. Sou uma boba. Cláudio gosta de mim. Ele mesmo já me disse tantas vezes".

     Pega o elevador, marca o andar.

     "Ele sempre repete que sou a única mulher para ele. Que gosta de mim, que não há nenhuma outra. Arthur quer envenená-lo, impedir nossa amizade, castrar nosso amor. Na verdade, Arthur é possessivo. Não viu que ele mesmo reconheceu a intransigência que teve com Ana? Pois um dia ele vai reconhecer que foi severo demais para com Cláudio. Tenho certeza".

     Por discrição, vai tocar a companhia quando ouve uma risada no apartamento. Instintivamente, usa sua chave.

     Entra devagar. Os ruídos, as risadas se repetem. Identifica a voz de Cláudio e de um outro homem.

   Coração aos pulos, as pernas quase se negando a andar, olhos secos de expectativa, dirige-se ao quarto.

     Flagra-os. Cláudio abraçado com um rapaz ainda mais jovem que ele, aos beijos lascivos e pernas entrelaçadas. E no rosto dele, cravado em cada sorriso, nos olhos fechados, o prazer, o rosto do prazer que ele jamais mostrou para ela.

     Rosana grita de ódio, como um animal acuado, e corre para fora, para o elevador aberto, para o carro, para a rua.

 

     Renato sobressalta-se, derrubando uma porcelana que se espatifa no chão.

     - Filho, o que houve?

     - Ei, Você está pálido. Tá se sentindo bem?

     Ele procura em torno, com os olhos esgazeados. Sente uma forte tontura.

     - Eu... Não...

     - Filho!

     - Eu acho que vou me deitar um pouco. Com licença.

     Sai, tropeçando nas próprias pernas. Arthur e Regina se entreolharam, preocupados.

     É madrugada, quando Rosana retorna. Todos dormem, menos Renato, que com maus pressentimentos acompanha o barulho dos passos.

     Renato salta da cama, acordado por gritos de mulher. Enquanto enfia o roupão e abre a porta, vai distinguindo a voz da mãe, de Cristina e... Vera.

     - Vá embora! Você já criou problemas demais!

     - Eu não admito isso! Nunca fui tratada com tamanho desrespeito. Cris, eu exijo que você...

     - Não exige nada, não, chega de chantagens!

     - Chantagens? - diz Vera - mas quem...

     - Fora... - diz Regina, apontando a porta.

     - Vá embora, Vera, por favor. Agora todos sabem sobre nós, não há mais nada para você contar. Eu viajo na próxima semana. E vou sozinha. Acabou. Adeus.

     Com marcada atitude cênica, Vera levanta a cabeça e sai. No último momento, ainda sibila entre os dentes para Cris um "Você vai se arrepender disso".

     Regina fecha a porta. Mãe e filha suspiram fundo. Renato desce assustado e elas o tranqüilizam.

     - Calma, só pusemos o problema porta afora.

     - Por Deus, mãe! Não pensei que a Vera fosse fazer tamanho escândalo. Sabe que foi mais difícil romper com ela do que conseguir a aceitação dessa situação de merda da família inteira?

     Riram.

     - Bem, agora vamos tomar nosso café.

         - Ah, antes que eu me esqueça, feliz aniversário, mano. Enfim, dezoito anos!

     Sem saber explicar o porquê, Renato treme e tem o corpo gelado. De alguma forma, este é o grande dia.

     Arthur, quando chega na mesa do café, cantarola os parabéns a você, com a chave na mão.

     - Parabéns, filho! Aqui está a chave do seu carro. Ao contrário de muitos dos meus colegas, eu lhe dou este presente com o coração tranqüilo, pois sei que você é um rapaz responsável, e que vai saber usá-lo.

     - Obrigado pai.

     - Gostou?

     - Claro. - Renato esboça um sorriso, que de meio forçado não agrada muito. Mas todos descontam: o presente havia sido tão anunciado que, afinal, não se poderia esperar reação de surpresa.

     A casa retoma seu ritmo. Para o almoço, uma churrascada, Arthur sai com Cris para buscar a carne e o carvão. Regina, na cozinha, resmunga por estar novamente entre panelas, pensando se não é hora de começar a fazer reuniões de família em restaurantes.

     Renato questiona a depressão que está sentindo. Simplesmente não consegue ficar alegre. Tudo está saindo conforme tanto se esforçou para conseguir e, entretanto, esse peso no peito é muito mais opressor. E, para piorar, nunca mais encontrou seu velho amigo, que parece ter desaparecido de vez e, assim, os maus pressentimentos pioram, não havendo com quem dividi-los. A isso tudo, Renato acresce uma sensação de culpa, pois, de certa forma, é sua obrigação estar feliz hoje... E ele não consegue.

     Resolve dar uma volta na casa, olhando, nostálgico, o lugar onde vive. Daí percebe que Rosana ainda não saiu do quarto. Tenta entrar, mas a porta está trancada e, lá de dentro, numa voz rouca, a irmã pede que vá embora, quer ficar sozinha.

     Não há o que fazer. Desce à garagem, para olhar o carro. Seu peito está apertado e a cabeça lateja de dor. Abre a porta, entra, liga o som, pensa. O que fazer? O que vai acontecer?

     Arthur volta, estaciona barulhentamente, feliz de ver o garoto no carro:

     - Está feliz?

     - É um carro muito bonito, pai.

     - Imaginei que você ficaria mais feliz, hoje. Afinal, foram-se os períodos de constrangimento. E você, que mais esperou e lutou por isso, é o único que não parece estar participando da alegria de todos...

    Renato bate amigavelmente nas costas do pai, dizendo:

     - Pai, você é um grande sujeito. Gosto muito de ter você como meu pai. Quanto a mim, não se preocupe. Sabe, nunca fiz dezoito anos. Acho que é isso - ele pára, olha para Arthur, e quase diz: “Será que nunca, mesmo?”.

     - Está bem. Agora, me dê licença, vou levar a carne para sua mãe.

     Aos poucos, chegam os comensais, cada um com seu assunto. Rosana, entretanto, continua trancada no quarto. Num momento em que Regina e Renato se encontram, ela comenta rápido.

     - Acho que não vai ser necessário falar com Rosana. Pelo jeito...

   -...Ela mesma descobriu.

     - É... Foi melhor assim. Vamos deixá-la sozinha.

     O cheiro de carne invade a casa e as primeiras lingüiças rodam nos pratos de aperitivos, preparando o apetite para o almoço. Renato tem um ouvido na conversa e outro no quarto da irmã. Por isso, em meio ao calor da festa, é o único a ouvir o barulho suave das portas abrindo e fechando.

     Ele sai despercebido, a tempo de alcançar Rosana, com a chave de seu carro nas mãos.

     - Vai sair?

     - Desculpe, irmão. Eu não tenho cabeça nem para lhe desejar nada. Está tudo muito escuro na minha frente. Peça a eles que me perdoem. E você também. Não tenho estrutura para agüentar tanto.

     Renato sente piorar a dor de cabeça. Agindo automaticamente, sobe ao quarto da irmã, questionando se ao contrário não será melhor segui-la.

     Encontra a porta semi-aberta. Seu peito se aperta, naquele desespero de quem se vê perdendo uma luta. Sobre a cama sequer desfeita estão algumas folhas de papel. Segura a carta e lê as linhas feitas nervosamente, aqui e ali manchadas de lágrimas. As letras se juntam numa despedida, na situação de quem já perdeu a razão de viver.

     Apavorado, sai correndo, se chocando com a mãe.

     - Filho, o que houve?

     - Rosana... - e amassa a carta nas mãos de Regina - Ela só pode ter ido a um lugar. Ela está com Cláudio.

     - Hein? Do que você está falando? Filho, aonde você vai?

     - Ela pretende acabar com a própria vida, e não perderia a chance de fazer isso na frente de quem lhe tirou o prazer de viver!

     Pega o carro como um alucinado e sai a toda a velocidade. Nem Regina nem Arthur, que chegava atraído pelo movimento, conseguem impedi-lo.

         Regina desamassa o papel e se desespera. Aos prantos entrega o bilhete ao marido, que mal pode acreditar. Num ímpeto pega o carro e vai atrás de Renato. O clima de festa se torna nublado e a tristeza se apodera novamente do seio da família.

 

     - Rosana, vamos conversar, sim?

     - Conversar? Não há nada a ser dito, senhor Cláudio.

     - Seja razoável...

     - Ra-zo-á-vel? Todos sabiam, Cláudio, todos! Minha família... Arthur... Seus amigos...Ha-ha-ha! Amigos! E eu caí nessa! Tola, idiota que sou!

     Ela chega perto da janela. Vira-se para ele, contaminada de ódio.

     - Você matou minha alma. Você jogou lama em tudo de melhor que já senti por alguém na vida. Você me destruiu!

     - Rosana, não seja infantil! Você é a primeira, a saber, que eu sempre quis falar sobre isso, você é que não queria me ouvir.

     O semáforo fecha. Renato vê, simultaneamente, o sinal vermelho e o corpo caindo. Ele sabe que não pode demorar, que cada minuto é precioso.

     "Pode ser tarde demais. Tarde demais".

     Ultrapassa o primeiro sinal vermelho. E, adiante, outro. Não pode chegar tarde demais.

     Rosana senta no parapeito. Diz com a voz sonhadora:

     - Dez andares...

     Seus olhos estão rasos d'água.

     - Chega, Cláudio, chega! Quero que você veja bem esta cena. É para nunca mais esquecer...

     - Rosana, não faça isso! Não! ROSANA!

     Renato fura o último sinal vermelho. "Tarde demais, tarde demais". Sua mente martela a imagem do corpo caindo.

     No final da rua, vira em sentido contrário, em razoável velocidade, um caminhão de mudanças. O carro é apanhado em cheio e capota seguidamente até parar de encontro a um muro. Renato tomba, a cabeça ensangüentada, inconsciente.

 

     - Boa tarde, dona Regina! Chegou cedo, hoje.

     - É, Haroldo. Vim mais cedo para falar antes com o Dr. Mário. Poderia verificar se ele já chegou?

     - Sim, senhora. Queira aguardar apenas um minuto.

     Regina atravessa o hall, sentando-se no banco acolchoado da recepção, aguardando que Haroldo consiga contato com o médico. O silêncio é quase total, e a brancura das paredes deixa opressivo o ambiente de entrada.

     "O que esperar de um hospital senão a cumplicidade das paredes que vêem diariamente a angústia e o medo da doença e da morte?"

     Aos poucos, distingue o ruído de passos. A figura do médico, em seu uniforme, aponta na interseção dos corredores, vindo na direção dela.

     - Dr. Mário!

     - Dona Regina! Aqui há esta hora?

     - Preciso lhe falar...

     - Sobre...

     - Sim... Sobre o que mais seria? Não consigo me acalmar... é tão difícil! Eu gostaria que o senhor fosse sincero, não quero mais me enganar. Afinal, já se vão trinta dias... e... nada!

     - Bom, Dona Regina, eu mais do que ninguém gostaria de lhe tranqüilizar o coração. Infelizmente...

     - O que houve? Por favor,...

     - Não me entenda mal. O que quero dizer é que não houve melhoras no quadro clínico. Que continuamos exatamente na mesma, como no início. Fizemos tudo que está ao alcance da medicina. Agora, está nas mãos de Deus. Só nos resta esperar. A senhora entende? Procure rezar e acalmar-se, que a sua ansiedade, nestas circunstâncias, em nada ajudará.

     Ela o interrompe, abruptamente.

     - Obrigada Dr. Mário. Eu agradeço a sua preocupação. Eu... Prefiro ir ver o nosso paciente.

     - Fique à vontade, dona Regina.

     Ela cumprimenta com a cabeça e sai pensativa para o quarto, num trajeto percorrido incontáveis vezes. Gostaria de ter conseguido passar ao médico sua ansiedade. Rezar, nunca o fez tanto quanto nos últimos dias, e esperar é algo que tem feito a vida toda. Desde ontem, está presa a um pressentimento que lhe agita os nervos. Uma esperança tão grande que chega a oprimir o peito. Alguma coisa incomum irá acontecer.

     Abre a porta do quarto, devagarinho, se aproxima e, ao se deparar com o corpo pálido e inerte, chora. É uma reação espontânea. Às vezes, sem vê-lo, só de lembrá-lo. Não pode se conformar, o corpo largado na cama, um vegetal!

     Fita primeiro os olhos fechados e as máquinas que indicam que há vida, ainda.

     Não resiste ao impulso de tocar-lhe as mãos. É quase um gesto simbólico, uma prece muda e solitária. Ao fazê-lo, percebe os dedos dele mexerem, mostrando reação.

     Ela grita. Felicidade, esperança, tudo se mistura. E sai corredor afora, chamando o médico.

     - Dr. Mário. Dr. Mário!

     Ele ainda está na recepção, conferindo fichas de pacientes.

     - Calma, Dona Regina. O que aconteceu?

     - Doutor. Está se mexendo, está se mexendo!

     O médico, meio incrédulo, acompanha Regina até o quarto. Ele examina Renato, e confirma com um sorriso: o paciente apresenta reação.

     Dali, o corre-corre é geral. Dr. Mário convoca médicos e enfermeiros. Regina é convidada a se retirar, o que faz muito contrafeita.

     Expectante, no corredor, acompanha com interesse redobrado, a movimentação do corpo clínico. A cada vez que indaga, ouve a mesma resposta: "aguarde mais um momento".

     Quase uma hora se passa. Finalmente, o Dr. Mário reaparece.

     - E então?

     - Calma, Dona Regina. Trago boas notícias.

     - Ele reagiu? Reagiu?

     - Sim.

     - Oh! Graças a Deus!

     - A senhora vai poder entrar e vê-lo. E por favor, ele recobrou a consciência, mas não totalmente. Além disso, está muito fraco.

   - Claro... claro. Oh! Obrigada, meu Deus! Obrigada!

     - Dona Regina...

     Ela espera, temerosa do que o médico possa dizer.

     - ...É que ele também não está falando coisa com coisa.

     - Como assim?

     - A mente dele dever estar confusa. É normal, compreenda. Afinal, foram trinta dias em coma.

     - Eu entendo. O importante é que ele reagiu. O pior já passou. O resto vem com o tempo.

     Regina entra no quarto, com o coração acelerado. Esperou tanto esse momento! Agora sente-se insegura, mãos trêmulas, nervosa. Chega perto de mansinho, falando suave.

     - Renato?... Renato, meu querido... Que bom que você está vivo. Graças a Deus. Quase nem posso acreditar.

     - Vivo?

     - Vivo, sim!

     Parece não distingui-la direito.

     - Quem é você?

     - Calma, Renato. É que...

     Ele a interrompe, agitando-se.

     - É tudo estranho...

     - Renato, escute...

     - Quem é você? Minha mãe. Você também morreu? O que faz aqui?

     - Renato, calma, me escute. Você sofreu um acidente horrível e ficou em coma trinta dias. Está tudo confuso, eu sei, mais isso é natural. Procure descansar, não pense em nada. Você logo vai estar bem. Vai voltar para casa, estamos todos ansiosos, esperamos tanto por isso.

     Incrédulo, ele pergunta:

     - Então quer dizer... eu não morri?

     - Não, meu querido. Graças a Deus você está vivo.

     - Céus... mas então.. Meu Deus! E Rosana, mamãe? Rosana! O que houve com ela? Cheguei muito tarde, não foi? O que aconteceu com ela?

     Dr. Mário chega por trás de Regina e, vendo a agitação do paciente, interrompe a conversa.

     - Bem, agora chega. Vamos descansar, que o nosso paciente está muito fraco.

     - Rosana... Diz numa voz débil.

     - Descanse, Renato. Está tudo bem, responde o médico. Não pode se esforçar tanto, por favor.

     Pega Regina pelo braço, obrigando-a a sair. Já na porta, ela arrisca um último olhar. Renato, vencido pelo esforço, já dorme novamente.

     - Posso voltar à tarde?

     - Será melhor se vier Amanhã. Renato está fraco, precisa dormir.

     - Ele está tão confuso... sei lá!

     - Está bem, dona Regina. Volte à tarde, se lhe deixa mais calma. Mas provavelmente ela dormirá todo o tempo.

     - Não faz mal. Voltarei.

     Regina resolve apressadamente uma outra pendência daquela manhã e, ainda antes do almoço, está de volta ao hospital. Apreensiva com o estado de Renato e eufórica com a recuperação, permanece horas em estado de agitação interior, apenas vendo-o dormir. Já pelo meio da tarde, ele retoma a consciência.

     Ela coloca-se no seu campo visual. Sensação estranha esta, de não ser vista.

     - Renato? Como está você? Está me reconhecendo?

     De forma vaga e distante, pergunta:

     - O papai onde está? Porque não veio?

     - Ele virá logo...

     - O que aconteceu?

     - Você teve um acidente. Um acidente horrível. Lembra-se?

     - Não sei... Acho que sim.

     - Renato... eu sei que você fez aquilo para evitar uma tragédia maior. Eu... conheço você. Conheço-o a ponto de saber tudo o que fez ou faria. É o seu jeito, sempre teve uma personalidade diferente, procurou o melhor.

     Alisando os cabelos dele e falando com a voz pausada, procura acalmá-lo.

     - Eu não sei se foi pela minha própria insegurança que não consegui demonstrar o valor que eu dava às suas atitudes, mas reconhecia entretanto a importância do que quis fazer.

     A voz embarga pelas lágrimas. Ela espera um instante, sem saber como continuar. Dr. Mário abre surge de repente e só então Regina percebe que Renato está dormindo novamente.

     - Doutor, ele... ele...

     - Calma, ele adormeceu. Não se preocupe, a fase crítica já passou. Só está fraco, e precisa dar-lhe tempo para voltar ao normal.

     O médico faz um exame. Ao final, saem juntos.

     - Vou para casa, agora. Preciso explicar para os outros que aconteceu. Devem estar aflitos.

     - Não há necessidade de passar a noite aqui, a senhora sabe.

     - Mas eu quero, doutor. Fico mais tranqüila.

     - Como preferir.

 

     O sol alaranjado de final de tarde empresta cores ao quarto do hospital. Renato acorda, desta feita sozinho.

     Sua memória repete, incessantemente as palavras de Regina: "Eu sei que tudo que você fez foi para evitar uma tragédia maior. Evitar... tragédia maior... você fez para evitar".

     Terá mesmo conseguido evitar a tragédia?

     Intenções! De que valem as intenções, por si só? Ele lutou e correu para evitar que Rosana... Será que Rosana tinha morrido? Alguma coisa está errada. Como um quebra-cabeça com peças falsas.

     Tenta coordenar o raciocínio, encaixando os últimos acontecimentos de que lembra. Vem-lhe à cabeça a imagem do carro, a toda velocidade, correndo para encontrar Rosana e indo direto em direção à morte.

     A morte...

     Novamente a morte.

     Trinta dias de coma, disse Regina. Ele sente o corpo amortecido, tenta mover-se. Automaticamente, num esforço penoso, passa a mão pelo rosto e desliza sobre a barba cerrada.

     "Barba!" - pensa, assustado. "Acho que fiquei mais tempo desmaiado do que imaginava. Eu praticamente não tinha barba".

     Investiga em redor e percebe, pela porta entreaberta do banheiro, um espelho, que reflete ao longe o gradil da sua cama.

     - Regina! Mãe! Onde está você.

     Sua voz também está mais grossa. Ninguém o atende, Regina não está.

     Um esforço maior e pode sentar-se, recostado nos travesseiros.

     Uma leve tontura obriga-o a parar e descansar. Aquilo tudo parece uma completa loucura. O espelho está mais visível.

     Finalmente, mira-se. É Renato. É ele mesmo. Os ombros largos, as primeiras rugas, um e outro cabelo branco nas têmporas, barba cerrada por fazer.

     “Meu Deus! É tudo que consegue pensar em voz alta, antes do pranto soltar as amarras da emoção”.

     Poucos minutos depois, Regina dá, assustada, com Renato sentado na cama, o corpo sacudido em prantos.

     - Renato, meu amor, o que houve? Por que você levantou?

     - Regina, é você mesma, a minha mulher querida. Eu estou vivo. Eu não morri! Como pode? Como aconteceu tudo isso? E as meninas, como estão? Pelo amor de Deus, me conte tudo.

     Ela não consegue falar, as lágrimas, os braços e os beijos apagando as angústias desses dias atrozes.

     - Me conte, Regina. Como tudo aconteceu?

     - Você se lembra de... ter tentado suicídio?

     - Sim. Foi há dezoito anos...

     Tenta desfazer o dito.

     - Quis dizer que parece ter sido há muito tempo.

     - Sim... Acho que ainda mais para mim. Você ficou em coma durante trinta dias.

     - Mas como não estou morto?

     - Bom, o prédio só tinha cinco andares e, além disso, você acabou caindo sobre árvores, tendo a queda amortecida. Foram várias escoriações e algumas fraturas, mas nada sério. Na verdade, o que os médicos não entendiam era a coma profunda e prolongada.

     - Então... Você não se casou?

     - Claro que não!!

     - As crianças... elas ainda são crianças?

     - Renato... o que está havendo?

     - Escute: eu preciso contar. Eu não sei se foi um sonho ou talvez um aviso... Mas vou contar. Talvez eu só viva mais dezoito anos.

     - Renato, acalme-se. Por favor, fique quieto. Daqui a poucos dias você vai receber alta, nós vamos para casa e você me conta seu sonho.

     - Eu quero contar agora.

     Regina sente que a conversa já se prolongou demais e a agitação dele não adianta senão para piorar o estado de fraqueza. Pacientemente, o faz desviar a atenção, contando casos de conhecidos, da família, até que, exausto, Renato adormece.

 

     Dez dias depois, recuperado, Renato recebe alta. São quase duas horas da manhã e ele está vestido para sair, aguardando ansioso a chegada da esposa.

     Para sua surpresa Regina chega acompanhada do Dr. Valter, seu antigo chefe.

     - Dr. Valter, que bom vê-lo.

     - Eu que o diga. Não faz idéia do quanto estou feliz com sua recuperação. Vim pessoalmente convidá-lo para reassumir o seu posto de gerência da empresa.

     - Fala sério, doutor? Mas como?

     - Ah, o Gerônimo foi transferido há cerca de uma semana. Estou segurando a vaga para você. Alguma coisa me dizia que não era para mais ninguém. Ontem me deu o estalo e resolvi ligar para dona Regina e perguntar do seu estado. E confirmei meus pressentimentos, é sua aquela vaga. E então, quer reassumir seu posto ?

     - Ainda pergunta? Mas é claro!

     Saem abraçados, felizes. Valter, que sempre se sentiu meio responsável pela tentativa de suicídio do seu agora gerente, está com o coração leve.

     Já na porta do hospital, enquanto Valter termina de acertar as contas, o casal observa a chegada de uma ambulância.

     Dois médicos retiram um ferido da ambulância, enquanto uma enfermeira corre, providenciando manter as portas abertas até a unidade de terapia intensiva.

     Irresistivelmente atraído Renato ouve a conversa dos médicos.

     - Cuidado. Desce devagar. Mais para direita. Isso!

     - Coitado do garoto. Azar, sofrer um acidente bem no dia do seu aniversário. Pronto. Agora é só descer o soro.

     - Vai ver que nem sabia dirigir. Essa criançada acha que só porque fez dezoito anos pode sair à toda...

     - E o carro! Você viu o estrago?

     Renato se apressa em pedir para ver de perto.

     - É parente do menino?

     Olha o cabelo castanho claro, os traços do rosto bem feito, a roupa esporte...

     - Santo Deus! Murmura. É o meu rosto... no sonho...

     - É seu parente? Repete o médico.

     - Não... Mas acho que o conhecia. Ele... Doutor, ele vai morrer?

     O médico fita Renato, sem entender sua preocupação. Mas há urgência em atender o ferido, e este começa a ser levado pelos plantonistas. Antes de seguir, apenas responde num gesto vago:

     - Não sabemos.

 

                                                                                Heloísa Hilário Köhler  

 

                      

O melhor da literatura para todos os gostos e idades

 

 

              Biblio"SEBO"